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-Project Gutenberg's As donatarias d'Alemquer, by João Pereira Franco Monteiro
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
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-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
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-
-Title: As donatarias d'Alemquer
- Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado
-
-Author: João Pereira Franco Monteiro
-
-Contributor: Joaquim Pedro de Oliveira Martins
-
-Release Date: July 26, 2020 [EBook #62766]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS DONATARIAS D'ALEMQUER ***
-
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-
-Produced by Pedro Saborano, Illustration from The Internet
-Archive (TIA) and the Online Distributed Proofreading Team
-at https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned
-images of public domain material from the Google Books
-project.)
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-AS DONATARIAS DE ALEMQUER
-
-Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado
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- J. P. FRANCO MONTEIRO
-
- AS
- DONATARIAS D’ALEMQUER
-
- _Historia das Rainhas de Portugal
- e da sua casa e estado_
-
- com uma carta-prefacio
-
- POR
- OLIVEIRA MARTINS
-
- [Illustration]
-
- LISBOA
- M. GOMES—EDITOR
- LIVREIRO DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS
- _Rua Garrett (Chiado) 70-72_
- 1893
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- Typ. Castro Irmão
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-A MEU PAE
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-Ill.ᵐᵒ e Ex.ᵐᵒ Sr.
-
-A sua muito obsequiosa deferencia reclama de mim umas palavras para
-acompanhar perante o publico o livrinho com que V. Ex.ᵃ vem sentar praça
-n’este batalhão das letras patrias, desmantelado como quasi tudo que é
-portuguez. Ahi vae satisfeito o seu desejo. Não carecia d’este adminiculo
-a sua obra, para ser acolhida por todos com a benevolencia devida aos
-bons intuitos; e que o necessitasse, não era decerto eu o competente para
-lhe assignar o passaporte da viagem. Estas linhas não são portanto mais
-do que o agradecimento da sua nimia deferencia para commigo.
-
-Algures diz V. Ex.ᵃ no seu livro que a parte local d’elle está só no
-titulo. É o que eu sinto. _As donatarias de Alemquer_ são as rainhas de
-Portugal a que V. Ex.ᵃ, ampliando por vezes os trabalhos de Figanière
-e do sr. Benevides, escreveu uma serie de biographias summarias. É
-excellente para provar a mão; e a maneira como deu conta do trabalho
-prova serem estas paginas as primicias de um escriptor.
-
-Não desanime, portanto. É moço, e tem em si o que vale mais do que tudo:
-a vocação, a quéda irresistivel para o estudo, e o dom de imprimir
-fórma communicavel ao seu pensamento. Trabalhe pois; moireje e rumine.
-Folheie e decifre muito papel velho. Deixe-se arrastar pela curiosidade.
-Desconfie dos planos geraes e syntheticos, atraz dos quaes muito boa
-gente se deixa affogar pelo palavriado, julgando descobrir maravilhas.
-O trabalho mais meritorio é nas letras o do cabouqueiro, por isso mesmo
-que não dá que fallar. É sómente, porém, esgaravatando rijo no chão, que
-se encontram diamantes.
-
-Como vê, não o lisongeio. É o triste condão de quem chega á minha edade
-poder fallar aos moços em nome da experiencia propria. Não me leve, pois,
-a mal estas curtas observações, que eu não faria decerto se julgasse
-serem tempo perdido.
-
-Dando-lhe cordiaes parabens pela sua estreia que o publico ha de
-apreciar, como é dever, consinta V. Ex.ᵃ que me assigne
-
-
- Seu
- M.ᵗᵒ Obr.ᵒ V.ᵒʳ
- _Oliveira Martins_
-
-
-Casa de V. Ex.ᵃ
-
-25 de março
-
-
-
-
-ADVERTENCIA
-
-
-No seu principio, as _Donatarias_ foram uns simples artigos de
-_dilletantismo_ litterario, não se concebendo ainda o plano d’um volume.
-
-Destinadas á publicação em periodico, accommodei-as ao pequeno espaço que
-me dispensava um dos mais honrosos jornaes da capital; porém, estimulado
-pelo favor e cortezia dos collegas, foi-se desenvolvendo o pensamento,
-chegando emfim ao projecto de as colleccionar em separado.
-
-É o que faço hoje, não lhe alterando a fórma primitiva; corrigindo-as
-em parte, mas não lhe transtornando o molde, por lealdade, talvez
-exaggerada, ao meu primeiro pensamento.
-
-Tambem não quiz mudar de titulo, que parece de uma obra local—feição esta
-que se encontra um tanto accentuada na primeira dynastia.
-
-Como vi a luz n’uma aldeia do concelho d’Alemquer, entendi que bem
-proprio era o meu primeiro livro ser dedicado á terra que me foi berço.
-Começa-se a amar a Patria amando os campos e as flores do nosso lar; é
-ahi que desabrocha o sentimento civico, é ahi que se enraiza a adoração
-por todo o conjuncto ligado n’uma homogeneidade de sentimentos, de
-linguagem, d’aspirações e de crenças, que fórma o Paiz.
-
-Além d’isso, Alemquer desempenhou na Historia portugueza um papel
-importante, embora hoje esteja reduzida ás suas tradições e ao movimento
-industrial das fabricas, que actualmente lhe tornam conhecido o nome,
-que, sem essa circumstancia, estaria de todo olvidado.
-
-Outr’ora capital da Casa das Rainhas, villa predilecta das soberanas, que
-nas suas muralhas encontravam defeza leal, que nos seus montes e nos seus
-vergeis buscavam o desenfado da vida cortezã, é justo que essas memorias
-hoje sejam invocadas[1] por quem nasceu no seu termo, por quem viu ao
-despontar da vida, as ruinas do velho castello que Affonso Henriques
-tomou aos mussulmanos e que D. João I destruiu como padrão d’ingloriosas,
-ainda que valentes recordações!
-
-Aconselharam-me que ampliasse o livro e o intitulasse—_A Casa das
-Rainhas_; era mais genérico, mais vasto e exigia ligeiro trabalho...
-Reagi, conhecendo a justiça do conselho, pelos motivos que acima expuz,
-despretenciosamente, sem outros calculos que não sejam os da lealdade do
-sentimento.
-
-Procurei julgar os diversos personagens que menciono, conforme o meu
-sentir os define. Na philosophia da Historia, o leitor me julgará,
-porque quem escreve é um reu que tem de sujeitar-se ás impressões que
-suggeriu aos cultos e até aos incultos. Ahi é que o historiador sobrepuja
-o erudicto na manifestação da sua intellectualidade. Isto não é julgar-me
-a mim proprio. Digo-o em geral, como regra assente. O erudicto busca,
-trabalha, cansa-se a procurar nos escaninhos dos archivos o pergaminho
-desejado. Não o impelle a sua philosophia, mas sim as suas aspirações;
-porém, ao resolver do problema, nos mostra na critica do documento
-achado, os dotes da sua intuição, revela-nos bem qual é a grandeza da
-sua alma, qual a força do seu raciocinio. Entretanto, sem erudictos
-não poderia haver philosophos; uns completam os outros, no ideal dos
-que escrevem a Historia:—mostrar aos presentes, para sua licção e dos
-futuros, o que foram os passados, o rigor dos seus defeitos e a suavidade
-de suas virtudes.
-
-Alicerce da minha vida litteraria, as _Donatarias_ vêem a luz sem
-pretenções, mas com o apoio favoravel d’um dos nossos primeiros
-escriptores, que obsequiosamente, se promptificou a prefacial-as.
-Agradeço-lh’o com legitimo orgulho; bem como servir-me-hei das suas
-palavras, como incentivo tenaz para o trabalho que mesmo que não traga
-gloria, sempre traz proveito.
-
-Egualmente me confesso reconhecido aos srs. dr. Xavier da Cunha,
-conservador da Bibliotheca Publica de Lisboa, e José Manuel da Costa
-Basto, director do Archivo da Torre do Tombo, pelos bons serviços com que
-me brindaram no decurso das minhas buscas investigadoras.
-
- _Franco Monteiro_
-
-Cortegana, março de 1893.
-
-
-
-
-A CASA DAS RAINHAS
-
-(NOTICIA SUMMARIA)
-
-
-Para sustento de suas consortes costumavam os antigos reis doar-lhes o
-rendimento de algumas villas, juncto a varias attribuições civis que
-variavam conforme a confiança que o soberano depositava na esposa.
-
-Em 1188 Sancho I tencionou visitar a Palestina; na duvida de succumbir na
-empreza, doára a sua mulher a rainha D. Dulce os rendimentos de Alemquer,
-Terras do Vouga, do Porto e de Santa Maria; mas, retirada a idéa da
-jornada, não se sabe se D. Dulce continuou a usufruir os bens testados,
-ou se elles voltaram para a corôa.
-
-O sr. visconde de Figanière no seu explendido livro _Memorias das Rainhas
-de Portugal_, pag. 63 e 64, quasi que affirma que esta senhora foi
-donataria de Alemquer; Francisco da Fonseca Benevides nas _Rainhas de
-Portugal_ (1.ᵒ vol. pag. 36 e 104) segue o mesmo caminho. Entretanto, são
-simples conjecturas as opiniões dos dois illustres e sabios escriptores.
-Que D. Dulce possuiu propriedades no termo de Alemquer, é innegavel;[2]
-assim como possuiu na Beira varias fazendas ao sul do Mondego;[3] mas que
-tivesse o senhorio d’esta villa, não é certo, embora com probabilidades.
-
-A D. Dulce succedeu D. Urraca, esposa de seu filho Affonso II; esta
-princeza teve os senhorios de Torres Vedras, Obidos e Lafões, existindo
-na Torre do Tombo um documento em que o herdeiro de D. Sancho regula a
-applicação dos rendimentos de D. Urraca. Notamos que Torres Vedras e
-Obidos são vinculadas na casa das Rainhas, e como da mulher de D. Affonso
-II existem provas de haver casa propria, não nos parece fóra de razão
-enumeral-a como a primeira _senhora_ (não _proprietaria_) de terras.
-
-De D. Mecia Lopes de Haro não ha noticia que viesse a possuir quaesquer
-villas em Portugal; porém D. Beatriz de Gusmão teve Torres Novas,
-Alemquer e Torres Vedras, que lhe foram doadas por seu esposo, D. Affonso
-III, sendo-lhe mais tarde concedido o padroado d’estas villas. Santa
-Izabel, mulher del-rei D. Diniz, recebeu em dote Abrantes, Obidos e Porto
-de Moz, por carta d’arrhas dada em 24 d’abril de 1281.[4] Mais tarde
-teve os castellos de Villa Viçosa, Monforte, Cintra, Ourem, Feira, Gaia,
-Lamoso, Nobrega, Santo Estevão de Chaves, Monforte de Rio Livre, Portel e
-Monte Alegre; sendo esta concessão ampliada com varias rendas em dinheiro
-e com as villas de Leiria e Arruda (1300), Torres Novas (24 de junho de
-1304)[5] e Athouguia (19 de outubro de 1307). Possuiu além d’isso os
-reguengos de Rebordãos, de Gondomar, de Çodões; a Quinta de Fandega da
-Fé, em Torres Vedras e a leziria d’Atalaya.
-
-Não ha documentos que affiancem que Izabel d’Aragão possuisse Torres
-Vedras e Alemquer; no que diz respeito a esta segunda villa, o amor que
-a rainha sempre lhe consagrou, leva-nos a suppor que de facto fosse sua
-proprietaria.
-
-Depois de Santa Izabel apparece-nos D. Brites, esposa d’el-rei D. Affonso
-IV. Esta soberana nasceu no Toro (1293), sendo filha de Sancho IV de
-Castella e da rainha D. Maria de Leão. Casou a 12 de septembro de 1309
-com o infante D. Affonso, que mais tarde, por morte de seu pae (7 de
-janeiro de 1325), succedeu na corôa portugueza.
-
-Em 23 d’outubro de 1321 D. Diniz confirmou-lhe a doação que o marido lhe
-havia feito (20 de outubro do mesmo anno) da villa de Vianna do Alemtejo,
-com todos os poderes civis e criminaes. O mesmo seu sogro deu-lhe em
-arrhas Evora, Villa Viçosa, Villa Real, Gaia e Villa Nova, sendo estas
-duas ultimas trocadas por Cintra (26 de maio de 1334) com todos os seus
-pertences.
-
-Teve varias herdades em Santarem, que pertenceram a Fernão Sanches; e
-a leziria d’Atalaya (5 de novembro de 1337).[6] Em 7 de junho de 1357
-el-rei D. Pedro I, para lhe mostrar o seu amor filial, fez-lhe mercê
-de Torres Novas. D. Beatriz de Castella procurou imitar Santa Izabel
-no exercicio da caridade; legou muitas rendas a estabelecimentos pios,
-influiu por destruir o antagonismo entre Affonso XI de Castella e Affonso
-IV de Portugal, e o resentimento de seu filho D. Pedro para com o pae, o
-infame assassino de Ignez de Castro. Falleceu esta rainha em Lisboa, e
-jaz sepultada na sé da mesma cidade.
-
-D. Constança Manuel, primeira mulher de D. Pedro I, teve em arrhas as
-villas de Montemór-o-Novo, Alemquer e Vizeu. D. Leonor Telles, esposa de
-D. Fernando, foi presenteada por seu marido com Villa Viçosa, Almada,
-Cintra, Alemquer, Abrantes, Sacavem, Torres Vedras, Obidos, Athouguia,
-Aveiro, reguengos de Sacavem, Frielas, Unhos, e Terras de Meréles.
-Esta carta de arrhas foi dada em Eixo, aos 5 de janeiro de 1372.[7]
-Passados dois annos fez-se a troca de Villa Viçosa por Villa Real de
-Traz-os-Montes, onde D. Leonor exerceu toda a jurisdicção. A 20 de março
-de 1376 a seductora do mallogrado soberano de Portugal ainda teve artes
-de adquirir Pinhel.
-
-D. Filippa de Lencastre, mulher de D. João I, dotou-se com as rendas da
-Alfandega de Lisboa, da portagem e do paço da Madeira e com as villas de
-Alemquer, Cintra, Obidos, Alvayazere, Torres Novas e Torres Vedras.
-
-D. Leonor d’Aragão recebeu em arrhas de seu marido trinta mil florins de
-ouro de Aragão, e por hypotheca Santarem com todos os seus rendimentos.
-Em 1453 D. Duarte doou a sua esposa Alvayazere, Cintra e Torres Vedras,
-vindo mais tarde a possuir outras terras da rainha sua sogra. D. Isabel
-de Lencastre, filha do grande infante D. Pedro, o das _Sete Partidas_,
-foi donataria de todas as villas da sua predecessora. D. Leonor de
-Lencastre, além d’estas mesmas villas, teve por doação de seu marido
-D. João II as cidades de Silves e Faro e as villas de Aldeiagallega e
-Aldeiagavinha, tendo tambem Caldas, de que foi fundadora. Desde esta
-epocha ficou constituida a _Casa e Estado das Senhoras Rainhas de
-Portugal_.[8]
-
-Tinham as augustas esposas dos nossos soberanos a faculdade da nomeação
-dos empregados do fisco, os recebedores das rendas, das patentes
-d’officiaes, etc., ficando o senhorio eminente na posse da corôa.
-
-D. Luiza de Gusmão instituiu (16 de julho de 1643) um _Tribunal da
-Fazenda da Casa e Estado das Senhoras Rainhas_, que a administrou até que
-o alvará de 25 de janeiro de 1770 transmittiu o seu governo para o Erario.
-
-Foi este o primeiro golpe na Casa das Rainhas, de todo extincta por
-decreto de 9 d’agosto de 1833.
-
-
-
-
-AS DONATARIAS DE ALEMQUER
-
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-
-D. Dulce
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-
-Morto Affonso Henriques, em 1185, succedeu-lhe no throno seu filho Sancho
-I, que ao tempo contava trinta e um annos de edade.
-
-Achára traçadas as linhas da monarchia portugueza pela espada e pela
-politica do pae, continuando a sua obra com a tomada de Silves, a
-primeira tentativa da conquista do Algarve, mais tarde gloriosamente
-seguida por seu neto Sancho II e só ultimada por Affonso III, graças ao
-valor incomparavel de D. Paio Peres Correia.
-
-Sancho I foi digno predecessor de D. Diniz e de D. Pedro, o _cru_, na
-administração interna do paiz. Tendo outros horizontes que não só os da
-guerra, tomou a hombros o povoar as praças e logares conquistados, em
-proteger a agricultura, tanto quanto lh’o permittia essa edade média
-bulhenta, que vivia da conquista e tinha por unico objectivo a gloria da
-cruz e o engrandecimento do territorio.
-
-Ainda na vida do pae (1175), ligára-se o principe a D. Dulce de Aragão,
-filha de D. Ramon Berenguer, decimo quinto conde de Barcelona e de D.
-Petronilha, rainha do Aragão, filha de Ramiro, o _monge_. Longos e
-abençoados foram os fructos d’este consorcio; D. Dulce deu á luz onze
-filhos, entre os quaes trez filhas se elevaram aos altares.
-
-Depois de vinte e tres annos de casada, a rainha succumbiu em Coimbra
-(primeiro de septembro de 1198), sendo sepultada em Santa Cruz.
-
-Apesar de não haver documentos que provem que esta princeza foi senhora
-de Alemquer, auctores ha que a têem como tal, parecendo corroborar esta
-opinião o facto de seus bens serem repartidos pelas filhas (D. Constança,
-D. Thereza, D. Sancha, D. Mafalda, D. Branca e D. Berenguella) e ser D.
-Sancha possuidora da villa.
-
-Não nos embrenharemos na discussão d’este assumpto embora estejamos
-convencidos do contrario (permitta-se-nos dizel-o), apesar do senhorio
-de D. Sancho e da rainha possuir terras n’este concelho, segundo
-julgamos, proximas á quinta da Condessa.
-
-No emtanto, como temos por nullo o nosso sentir, curvaremos a cabeça
-ás baseadas affirmações dos mestres, mencionando-a como a primeira
-donataria.
-
-
-
-
-D. Sancha
-
-
-Deve-se escrever com animo grato a biographia d’esta princeza. Sympathica
-e boa, religiosa e casta, foi sem duvida um dos grandes premios que a
-Providencia destinou ás virtudes da mãe. Possuia a piedade caracteristica
-das epochas medievaes, procurando com o cilicio a expiação da carne, que
-nunca abandonára o pudor!
-
-Virgem, formosa como sua irmã D. Thereza, a sacrificada esposa d’Affonso
-IX, de Leão, predilecta filha do rei _povoador_, a ella o paiz deve
-relevantes serviços, porque foi ella a introductora dos franciscanos em
-Portugal, que tantos sabios nos deram e tantos beneficios nos prestaram.
-
-D. Sancha tinha por Alemquer uma predilecção especial; fôra-lhe doada
-pelo pae, que a enriquecêra com um paço, em que a santa senhora recebeu
-os cinco martyres de Marrocos, e onde buscou, muitas vezes, a retirada
-residencia, no alto monte, em que á vontade contemplava a maravilhosa
-obra do Creador!
-
-D’este paço só resta a chamada _capella de Santa Sancha_, unica reliquia
-d’uma das maiores bemfeitoras que tem tido Alemquer.
-
-Lendo a historia, examinando a guerra um tanto justa que Affonso II
-moveu ao feudalismo, e em especial ás irmãs, com quem o pae, no seu
-testamento, se houve d’um modo liberal de mais, vemos na resistencia de
-D. Sancha, não a ambição do poder, nem da fortuna, que sempre desprezou,
-mas, talvez, _visionariamente_, o amor á terra de quem ella se teria de
-apartar, uma vez expulsa do seu senhorio.
-
-Estas guerras civis tomaram proporções que o rei, se unicamente
-fosse dominado pelo desejo da concentração do poder, poderia evitar.
-Excommungado pelo pontifice e perseguido pelo soberano de Leão, o
-monarcha portuguez encaminhou a contenda para uma via diplomatica.
-Enviado a Roma um embaixador, foi o pleito julgado por dois abbades de
-Cistér, que condemnaram D. Affonso a uma multa extraordinaria, para
-satisfazer as custas da peleja encetada por elle.
-
-Não se conformando com a sorte, foram os castellos entregues aos
-templarios, como depositarios e administradores dos bens. O papa morreu;
-rixas intestinas entre o clero e a corôa portugueza interromperam a
-demanda, que ficou por decidir no reinado d’Affonso II, fallecido a 25
-de março de 1223. Succedeu-lhe seu filho D. Sancho II, rei illustrado e
-valente, mas de todo infeliz. Este monarcha acabou o litigio com as irmãs
-de seu pae, não só por conveniencias, mas por decencia.
-
-_Era uma vergonha_ a desharmonia da familia real; e o chefe, reprovando
-no seu intimo a generosidade do avô, cedeu ás imposições do mundo... nem
-parecia da edade média.
-
-Combinou-se que as donatarias prestassem homenagem ao soberano e
-contribuissem com gente para a hoste real, obrigando-se o rei a
-defender-lhes a propriedade.
-
-Como dissemos, D. Sancha residiu algumas vezes em Alemquer, até que,
-movida do seu instincto religioso, professou no mosteiro de Cellas, onde
-falleceu em 13 de março de 1229. Jaz em Lorvão.
-
-O senhorio da villa passou á irmã, _D. Thereza_, esposa do rei de Leão,
-D. Affonso IX, de quem se separou por motivos de parentesco. Recolhida
-a Portugal, fez-se monja em Lorvão, fallecendo n’este mosteiro a 17 de
-junho de 1250.
-
-No reinado de D. João V foram estas senhoras beatificadas pelo Papa
-Clemente XI; os seus corpos trasladaram-se, com pompa digna do Salomão
-portuguez, para o altar mór da egreja onde ambas jaziam.
-
-Depois d’estas princezas, passou Alemquer para o dominio das rainhas.
-Só mais tarde D. Izabel de Lencastre, filha d’el-rei D. João I, teve o
-senhorio da villa por successão a sua mãe, D. Filippa, até que D. Leonor
-d’Aragão, esposa de D. Duarte, tomou posse da terra que estava destinada
-para joia preciosa do diadema brilhante das Soberanas de Portugal.
-
-
-
-
-D. Beatriz de Gusmão
-
-
-Como fica dito, Affonso II falleceu em 25 de março de 1223. Subira ao
-throno pela morte de seu pae, o rei D. Sancho (27 de março de 1211), de
-quem foi herdeiro, conforme o direito de primogenitura.
-
-Ainda infante, casou com D. Urraca, filha de Affonso VIII, de Castella, e
-de D. Leonor, filha de Henrique II, rei d’Inglaterra.[9]
-
-D’este consorcio nasceram quatro filhos: Sancho, que herdou a corôa e foi
-o segundo no nome; Affonso, que casou em França com Mathilde, Condessa de
-Bolonha; Leonor, esposa de Valdemaro III, de Dinamarca; e D. Fernando, o
-_infante de Serpa_, desposado de D. Sancha de Lara, filha do Alferes-mór
-de Castella.
-
-O Conde de Bolonha foi o primeiro principe que deu exemplo de perfidia
-na corôa portugueza. Instrumento e ao mesmo tempo alma dos magnates que
-depozeram D. Sancho (1245), por não lhe servir as ambições, negando
-a politica do avô, investira o poder depois de exilado o irmão,
-conquistador valeroso, a quem a patria, mesmo depois de seiscentos annos,
-só tem dispensado palavras vãs, recusando-lhe quatro palmos de terra no
-pantheon dos monarchas![10]
-
-Póde ser que nos ultimos tempos do seu governo D. Sancho cedesse á
-amante a vontade de rei; póde ser—e foi—que o soberano, inebriado pelos
-fascinadores olhares de Mecia, olvidasse a justiça e o bem do seu povo;
-mas Juromenha, Serpa, Aljezur e Ayamonte, praças que tomou ao islamismo,
-mereciam melhor recompensa que a proscripção e o exilio em Castella.
-
-Que tempos os medievaes! No castello de Coimbra, depois do osculo de
-mais intenso amor; depois de mutuas juras de fidelidade, passadas as
-scenas que tornam celestial o remanso do lár, um vulto de guerreiro
-assoma á camara real. Approxima-se D. Mecia, contempla o marido, que
-dorme, e, tão bella como perfida, lança-se nos braços de Raymundo Viegas
-de Portocarrero, cavalga o fogoso corcel do raptor, e amparada no corpo
-do cavalleiro, que a roubára pela politica do infante bolonhez, penetra
-os muros d’Ourem, onde esforços do apaixonado D. Sancho não conseguem
-escalar!
-
-Abandonado pela mulher a quem confiára o seu coração, perseguido
-pelo clero que o intrigava na Curia, deposto pelo proprio Pontifice,
-refugiou-se em Toledo, onde falleceu aos 4 de janeiro de 1248. Conhecida
-a sua morte, o conde de Bolonha tomou o titulo de rei. Este soberano
-para quem a historia só encontrou o cognome de _bolonhez_, apezar de
-ter conseguido a libertação do Algarve, foi tão perfido com a condessa
-Mathilde, como traidor ao irmão.
-
-Desprezada a esposa, Affonso III, em 1253, contrahiu segundas nupcias com
-D. Beatriz de Gusmão, filha bastarda d’Affonso X, de Castella, e de D.
-Maria Guillen de Gusmão.
-
-Embora fosse o primeiro coito damnado que se sentou no throno, D. Brites
-foi um anjo de paz como a sua successora, Santa Izabel. Ella serviu de
-medianeira quando a guerra rebentou entre Castella e Portugal, e mais
-tarde Affonso X, desthronado pelo herdeiro ambicioso, encontrou na filha
-um thesouro de virtudes, unico lenitivo no meio da desgraça.
-
-O marido, que a idolatrava, fez-lhe doação d’Alemquer, em 1267.[11] A
-estima de Affonso III demonstra a importancia que a villa então possuia,
-pois é licito acreditar que a generosidade do rei condissesse com o amor
-consagrado á esposa. Dezesete annos estivera Alemquer annexa á corôa,
-encontrando na mercê do monarcha uma donataria virtuosa, digna herdeira
-de D. Dulce e de suas filhas, D. Sancha e D. Thereza. Mas para a terra
-em si, embora as suas virtudes lhe servissem d’ornamento, materialmente
-nada lucraria, se a rainha só cuidasse de receber as rendas, deixando no
-olvido os beneficios com que a poderia dotar. Não foi assim; D. Brites
-alcançára do esposo (28 de junho de 1277)[12] o padroado das egrejas e
-capellas do seu senhorio, e, conscia do cumprimento dos deveres, deu
-principio á construcção da egreja de S. Francisco, onde outr’ora foram os
-paços reaes, em que Santa Sancha recebeu os cinco martyres de Marrocos.
-
-Acanhado e pequeno o primitivo templo, começou-se a obra da nova egreja,
-em 1280. Não a poude vêr concluida a rainha, que falleceu em 7 d’agosto
-de 1300, e a egreja só foi sagrada cinco annos depois. No emtanto, seu
-filho, el-rei D. Diniz, continuou, dignamente, o empenho da mãe, como o
-attesta a seguinte inscripção:
-
- _Esta igreja fundou
- A muy nobre rai(nh)a Dona
- Beatr(ix) e acabou a o muy jostiçoso
- seu filho nobre
- Rey de Port(ugal) comprido de vertude
- Do(m) Denis_[13]
-
-
-
-
-Santa Izabel
-
-
-Tres annos após o fallecimento de Affonso III (16 de fevereiro de 1279),
-seu filho, o rei D. Diniz, tomou por esposa a D. Izabel de Aragão, filha
-de D. Pedro, o _grande_, e de D. Constança de Napoles. O consorcio
-realisou-se em 24 de julho de 1282, nascendo, passados oito annos, a
-infanta D. Constança, desposada de Fernando IV, rei de Castella, e logo
-depois (8 de fevereiro de 1291) viu a luz o herdeiro, Affonso IV, cuja
-ambição tanto alanceou a rainha sua mãe.
-
-Exactamente como de D. Dulce, não existem documentos que provem o dominio
-d’esta senhora na villa d’Alemquer; mas a sua residencia aqui, os seus
-beneficios á terra que foi apanagio das rainhas, leva-nos a contal-a
-entre as donatarias, enchendo-nos de orgulho por possuirmos uma senhora
-tão grande.
-
-Perseguida e intrigada, como todas as almas virtuosas e nobres, soube
-impôr o seu vulto á calumnia, incutindo uma veneração no espirito do
-marido, que a perfidia não conseguiu debellar.
-
-Convencido o rei de que sua mulher subsidiava o filho nas revoltas que
-o ciume e ambição lhe movera, ordenou a D. Izabel que se recolhesse em
-Alemquer, onde esteve algum tempo.
-
-Durante este desterro, a princeza mostrou-se digna da terra que lhe dera
-hospitalidade. Fixou residencia nos novos paços que Santa Sancha erigira
-depois de transformar os antigos em recolhimento da ordem seraphica. Ali
-surgiu-lhe á memoria as virtudes e os feitos da bemaventurada fundadora,
-e, ardendo-lhe o peito em caridade, transformou o palacio em albergaria,
-onde poisavam os forasteiros e se acoitavam os doentes.
-
-Não contente com isso, levantou a egreja do Espirito Santo, junto aos
-paços, creando-lhe duas festas annuaes e doando-a aos alemquerenses; mas,
-como o fogo da caridade a obrigava a ir mais além, instituiu na egreja de
-Santo Estevão umas mercieiras para subsidiar doze viuvas de boa nota,
-com obrigação de ouvirem missa diaria pela alma da fundadora.
-
-Abalados os restos da antiga piedade, em 1834, acabou esta pia
-instituição, e a incuria, ligada ao vandalismo, destruiu o templo mais
-antigo de Alemquer, edificando no seu logar uma escola primaria. Vamos
-com Deus...
-
-Temos por desnecessario descrever as virtudes domesticas da esposa do
-illustrado e sabio rei D. Diniz; são ellas bem conhecidas e apreciadas
-por todos, que não regateiam a Santa Izabel o logar proeminente entre as
-rainhas de Portugal.[14]
-
-
-
-
-D. Constança
-
-
-Santa Izabel falleceu aos 4 de julho de 1336, e, quatro annos depois, foi
-Alemquer doada a D. Constança, malograda esposa de D. Pedro, _o cru_.
-
-Era filha, a Infanta, do Principe de Vilhena, D. João Manoel e de sua
-primeira esposa, D. Constança; bisneta de D. Fernando; _o santo_, rei de
-Castella, e neta materna de D. Jayme II d’Aragão.
-
-O monarcha castelhano, comprehendendo a politica do astuto visinho,
-oppoz-se á sahida da princeza, tolhendo-lhe a passagem pelo seu
-territorio. O portuguez declarou-lhe guerra, e, se não fossem Roma e
-França, esta contenda seria prolongada e inutil, porque o capricho do
-castelhano e as forças de Affonso IV eram indomaveis.
-
-Acabada a pendencia, graças á intervenção estrangeira, entrou D.
-Constança no paiz de seu marido.
-
-Foi pouco duradouro o consorcio; a princeza, poucos annos depois, exhalou
-o ultimo suspiro, sendo sepultada em Santarem.[15]
-
-Viera acompanhada de brilhante sequito de damas, resplandecendo entre
-todas a peregrina Ignez de Castro, a quem D. Pedro immolou o coração.
-Talvez que na morte da desgraçada senhora os olhos do esposo brilhassem,
-ao encontrarem-se com os da formosa Ignez! Talvez que a esposa, no leito
-de dôr, não sentisse ao seu lado o palpitar ancioso do coração do marido,
-que suspirava de jubilo por ver surgir no horisonte o momento feliz de
-poder, mais á vontade, chamar sua áquella que _só_ amava!...
-
-Tudo póde ser! mas, se assim foi, a hora da justiça soou tremenda e
-lugubre, quando a felicidade deslizava tranquilla por entre aquelle amor
-louco, immenso, incomparavel!
-
-Não se póde fixar quando começaram as relações de D. Pedro com a dama
-de sua mulher; o supposto casamento é datado de 1354, tendo o principe
-quatro filhos. Um anno depois, a politica regia desfazia criminosamente
-este amoroso idyllio.
-
-A tragica morte de Ignez é de sobejo conhecida. Camões a cantou em
-estrophes immortaes, traduzidas em todas as linguas. O vulto da
-desventurada apparece-nos como visão, na adolescencia, quando o nosso
-pensamento começa a divisar um novo ideal, quando o peito anhela um novo
-sentir, e o espirito, sahido da infancia, ao levantar-se para o céo
-é acompanhado de uma ideia vaga e forte, poetica e doce, pura como a
-castidade d’um seraphim. Tal é o amor ao principio!
-
-Entrado no mundo, o homem, corrupto pela força das circumstancias,
-folheia o livro do passado, detem a vista sobre o começo da sua
-existencia viril e analysa esses ideaes crystallinos, sente no peito
-uma commoção triste, mas risonha, doce, mas dolorosa, que só nós, os
-portuguezes, sabemos bem definir—é a saudade!
-
-Não que a carne ainda retenha o mesmo prisma; a mulher desapparece como
-o meteóro, mas o que fica arreigado ao coração, é a innocencia bonançosa
-que torna o espirito, amante sim, mas ao abrigo de Deus...
-
-D. Affonso IV escolheu epocha propicia (7 de janeiro de 1355) para a sua
-fatidica empresa. Estavam desfolhadas as arvores: caudaloso o Mondego,
-espelho d’aquella ternura sem egual; brancos os cumes dos montes; o sol,
-defendido pelos negros torreões de nuvens, não quiz, condoido e triste,
-presenciar o espectaculo.
-
-Dentro de seus paços, nos aposentos de uma fraca mulher, dois assassinos
-a apunhalavam com barbaridade sem parceiro na historia. Animava-os a
-politica do rei e o espirito da defunta Constança. Estava vingado o seu
-ciume.
-
-
-
-
-D. Leonor Telles
-
-
-Duzentos e vinte cinco annos eram decorridos desde que Affonso I se
-ligára á virtuosa Mafalda de Saboya (1146-1371), e n’este longo periodo
-não houve uma unica soberana que manchasse a purpura com o labéo da
-devassidão.
-
-Só D. Mecia destoára um pouco das suas predecessoras; no entanto o papel
-impudico só o representou como comedia.
-
-Foi preciso que no throno se sentasse o filho d’um monarcha justiceiro,
-respeitador do lar e da honra de seus vassallos, para que esse brazão de
-perto de trez seculos fosse eclypsado pelo desbragamento mais devasso.
-
-Pedro I espumava de raiva quando o thalamo era profanado. Constante na
-sua louca paixão, o vulto d’Ignez nunca lhe abandonou a existencia.
-
-Via-a quando açoutava o salteador e quando queimava o adultero; a imagem
-d’ella fortalecia-lhe o pulso e animava-lhe a fogueira.
-
-D. Fernando, esse tinha um pensar inteiramente opposto. Tratára o
-consorcio com D. Leonor d’Aragão, na esperança de dominar Castella,
-guerreando a posse d’aquella monarchia a Henrique II.
-
-Mais tarde esqueceu-se do contracto e escolheu por esposa a outra
-Leonor, filha do seu rival. Tambem faltou a esta promessa. O caracter
-rijo do pae, herdára-o unicamente o bastardo; os outros bandearam-se em
-Castella, e o herdeiro, embora possuisse boas qualidades administrativas,
-não passou de um ambicioso, covarde, sacrificador do paiz ao seu amor
-adultero.
-
-Ainda mulher alguma soubera impressionar verdadeiramente aquelle homem.
-
-Fôra frascario, mas amor propriamente dito jámais o perseguira. Era bello
-e era rei, e a lascivia, na edade media, não tinha os fóros de vicio—era
-um costume.
-
-Vira Leonor Telles quando o marido, cançado da monotona vida de
-provincia, partiu para Lisboa, cioso de ver os ouropeis da realeza e
-o faustoso brilho da côrte. No peito do rei o coração ardia-lhe e no
-cerebro forjavam-se-lhe mil idéas pouco lisonjeiras para elle e pouco
-honrosas para o senhor de Pombeiro; mas não passou, ao principio, de
-idyllios imaginarios.
-
-D. Leonor percebeu-o. Os olhos são uns espias preversos em casos d’amor,
-e por mais que fizesse, o rei não deixava de a contemplar.
-
-Ella retrahia-se. Na sua alma damnada brotou o pensamento que a
-honestidade poderia servir de degrau para o throno. Talvez até se
-recostasse na fronte do esposo, para mais exasperar a paixão do pobre
-soberano!
-
-Afinal, D. Fernando abandonou a timidez—sempre a ha quando o coração
-sente.—Receava magoar a _honra_ d’aquella mulher. Poz de parte o receio;
-mas, como ainda lhe ficassem restos, não se lhe dirigiu, fallou com a
-irmã, chorou aos pés de Maria Telles, supplicou-lhe que advogasse aquelle
-amor louco, que o faria abandonar a corôa se preciso fosse. Movida D.
-Maria de tão instantes rogos, procurou convencer a irmã. Convencida
-estava ella ha muito, desde que farejára os olhares do rei. Não o amava,
-mas endoudecera-a a perspectiva da realeza—d’um modo legitimo, bem
-entendido. Barregan d’el-rei... nunca; esposa, isso sim.
-
-Lisboa alvoraçou-se com a nova.
-
-Todos, á uma, estranharam o procedimento do filho do saudoso D. Pedro.
-A cidade resolveu representar n’este sentido nomeando seu interprete o
-alfaiate Fernão Vasques, a quem D. Fernando assegurou ser falso o boato.
-Socegaram os animos.
-
-Entretanto a côrte partiu para o norte do reino, e ao chegar a Leça do
-Bailio (1371), el-rei apresentou Leonor Telles, em publico, como sua
-mulher.
-
-Desligára-a de João Lourenço da Cunha, pretextando motivos de parentesco,
-e no logar do Eixo (5 de janeiro de 1372) lhe doou Alemquer e seus
-pertences.
-
-Principia aqui a mais nojenta tragedia da historia de Portugal. Leonor
-Telles foi o Alcacerquibir da dynastia de Borgonha. Começára esta em
-Affonso Henriques, o valente fundador da nossa nacionalidade, acabára em
-D. Fernando, o fraco apaixonado de uma Messalina! Succedeu-lhe o Mestre
-d’Aviz, o reorganisador da nação, equiparando Aljubarrota a Ourique.
-
-Germen da nova dynastia, teve fructos dignos de si e de seus passados:
-D. Duarte, sabio como D. Diniz; D. Affonso V, patriota como Sancho
-II; D. João II, politico e justiceiro como D. Pedro I; e D. Sebastião
-(coincidencia notavel) amante da gloria, como D. Fernando o fôra de uma
-mulher, arrastou o paiz aos areaes da Africa, como este o arrastára á
-perdição infallivel, nas graças seductoras da sua amada!
-
-O decorrer dos seculos ainda não poude absolver os crimes d’esta soberana.
-
-O seu reinado é uma scena continua d’adulterios e de assassinios.
-Invejosa por natureza, convenceu seu cunhado, o Infante D. João, de que
-a mulher d’este (a D. Maria Telles que lhe approximára a corôa) lhe
-commettia infidelidade. Cioso, o principe matou-a. D. Leonor respirou;
-assim desfez o seu receio, porque temia a morte do marido e via com
-inveja que o throno seria occupado pela irmã e pelo infante, querido do
-povo, como filho d’esse rei de que elle conservava saudosa memoria.
-
-O susto que a movêra a mais uma infamia, realisou-se no dia 22 d’outubro
-de 1383, epocha em que falleceu D. Fernando, aos trinta e oito annos
-d’existencia, talvez a mais amargurada e com certeza a mais vergonhosa de
-todos os nossos monarchas.
-
-Depois da sua morte, a viuva assumiu a regencia, fazendo logo acclamar
-sua filha D. Beatriz, casada com D. João de Castella. Reinava emfim!
-Podia livremente fazer o que lhe aprouvesse, sem falsificar as firmas de
-ninguem; escusava de se valer dos seus dotes para obter uma vingança ou
-uma desforra. Ella era o poder supremo, grande, inegualavel!
-
-Odiava Lisboa, e a cidade pagava-lhe na mesma moeda. Toda a gente sabia
-da _privança_ do Conde Andeiro; revoltaram-se e convidaram o bastardo de
-D. Pedro, o Mestre d’Aviz, para assassinar o _valido_. Consumado este
-acto, D. Leonor recolheu-se em Alemquer, fiada na lealdade do povo e na
-fortaleza das muralhas. Foi a primeira vez que se lembrou do seu senhorio!
-
-D. João mandou á villa dois embaixadores, a ver se negociava o casamento
-com a rainha. Recusada a proposta, o principe cercou-a; mas depois de
-varias refregas, veiu a noticia de que o rei de Castella já estava em
-Santarem, onde D. Leonor, temerosa, se refugiára. A maior parte dos
-sitiantes tinha abandonado o seu posto. Todos temiam o estrangeiro,
-quando os habitantes, lealissimos portuguezes, declaram, ao saber-se da
-entrega do reino, que punham as suas vidas ao serviço da independencia.
-No emtanto, a força subjugou-lhes a vontade, e o castelhano penetrou
-nas muralhas, arvorando a sua bandeira. Sciente o Mestre do occorrido,
-embarca no Tejo com varias forças e vem-lhe pôr novo cerco.
-
-Houveram então valentes combates!
-
-Aquellas encostas foram um vasto campo de batalha; ali pereceram muitas
-esperanças, ali se fortaleceu muita valentia, ali se deu um grande passo
-para a causa de Portugal.
-
-Como a guarnição era valorosa, tiveram os do Mestre de recorrer ao
-prolongado sitio, vendo se assim se rendia.
-
-Foi o que aconteceu a 10 de dezembro de 1384. Mais tarde (janeiro de
-1385), a traição de Vasco Pires de Camões obrigou o _Defensor do Reino_ a
-faltar aos compromissos tractados na capitulação.
-
-Este, acclamado rei nas côrtes de Coimbra (1385), mandou demolir parte
-dos muros d’Alemquer, terra que, pela infamia da viuva de D. Fernando e
-pela fatal inclinação do Alcaide, tão pouco sympathica se lhe tornára.
-
-Leonor Telles falleceu encarcerada nas Tordesillas aos 27 d’abril de
-1386,[16] talvez arrependida das suas culpas e seguramente convencida de
-que o echo da maldade é aborrecido por todos e em toda a parte.
-
-
-
-
-SEGUNDA DYNASTIA
-
-
-
-
-D. Filippa
-
-
-Como dissemos, D. João de Castella transpozera a fronteira, preparando-se
-para cingir a corôa de Affonso Henriques. O paiz achava-se desunido e
-fraco, abatido pelo contagio da maldade que de tão alto o enervava; a
-nobreza, na maior parte, seguia o castelhano; só o povo se mostrava
-contrario ao usurpador e á rainha, que sempre odiára altivamente, apesar
-dos laços da forca apertados pelas bellas mas ferozes mãos de D. Leonor.
-No entanto, n’este cahos em que Portugal se encontrava, quatro homens
-appareceram destinados pela Providencia para a restauração da patria—o
-Mestre d’Aviz, João das Regras, Alvaro Paes e Nuno Alvares—quatro vultos
-cujos nomes a historia gravou em letras de ouro e a arte na sua linguagem
-sublime esculpiu homericamente no mosteiro da Batalha, echo perpetuo
-dos vencedores d’Aljubarrota, padrão eterno de uma das maravilhas do
-universo, portal da gloria que Camões immortalisou nos _Lusiadas_; que
-é e será sempre o santuario do portuguez, romeiro patriota que, como
-o mahometano, pelo menos uma vez na vida, se prostra ante o tumulo do
-propheta.
-
-O Mestre d’Aviz foi o instrumento da independencia; João das Regras, o
-defensor da sua causa; Alvaro Paes, o instigador tenaz e prepotente; o
-Condestavel, o general habilissimo que soube vencer os exercitos, como o
-advogado soubéra dominar a legislação.
-
-Esta foi a gente que capitaneou a hoste popular, exaltada e patriotica,
-symbolo vivo de toda a nobreza de caracter. Juntos, alliando o direito
-com a melicia e a diplomacia, venceram o estrangeiro, conservaram a
-autonomia e encetaram o progresso no nosso torrão. A posteridade não lhes
-foi injusta—honra lhe seja—mas nos tempos de hoje, em que os chatins têem
-estatuas, elles dormem tranquillos nos seus tumulos, sem que nas praças
-publicas o povo, outrora soldado das suas fileiras, os venere no bronze,
-como em vida lhes votou todo o seu amor!
-
-Apezar da nossa decidida abnegação e de termos vencido o inimigo (14
-d’agosto de 1385), entendeu D. João I ser conveniente uma alliança
-politica; fôra ella tractada com o Duque de Lencastre, João de Gant,
-pretendente de Castella e consumado pelo casamento do rei com D. Filippa,
-filha do principe inglez, a qual recebeu em dote o senhorio de Alemquer,
-Cintra, Obidos, Torres Vedras e outras villas.
-
-O consorcio realisou-se na cidade do Porto (2 de fevereiro de 1387),
-debaixo das bençãos dos prelados e dos applausos dos populares, que
-adivinhavam uma nova éra para a corôa e para o paiz.
-
-Fóra de duvida, foi mais que vergonhosa a scena do reinado anterior;
-mas se a mancha da impudicicia póde ser apagada na historia d’um povo,
-certamente a virtude que se lhe seguiu, que rivalisava em fortaleza com
-o desbragamento de Leonor Telles, compensou o interregno infame em que o
-pudor não só foi olvidado mas tambem escarnecido.
-
-D. Filippa de Lencastre reatou os laços de honestidade que sempre
-existiram no throno. Mãe de heroes, que soube crear, esposa d’um soberano
-illustre, que sempre allumiou com o facho da virtude; rainha, mas dona
-de casa, sem se intrometter na politica, como desastradamente depois fez
-sua nora Leonor d’Aragão, ella é o symbolo do que ha de mais grandioso na
-nossa historia e do que ha de mais nobre n’uma mulher.
-
-Como tudo tem fim, esse brilhante ornamento da nossa monarchia succumbiu
-em Odivellas (19 de julho de 1415) d’um ataque de peste que assolava
-Lisboa; depois de vinte e oito annos ter sido a fiel companheira do rei
-de _boa memoria_, e de ter gerado em seu ventre
-
- ...........quem governasse,
- Quem augmentasse a terra mais que d’antes,
- Inclyta geração, altos Infantes.
-
- (LUSIADAS—canto IV, est. 50.)
-
-
-
-
-D. Izabel de Lencastre
-
-(Duqueza de Borgonha)
-
-
-Não ha ninguem por menos lido na historia, que desconheça as virtudes e o
-valor dos filhos de D. João I. Cada um de per si constitue uma epopeia de
-honra e de dignidade, desde D. Duarte, o primogenito, até D. Fernando, o
-martyr benjamim da familia.
-
-Foram oito os legitimos: D. Branca e D. Affonso, fallecidos na meninice;
-D. Duarte, successor; D. Pedro, duque de Coimbra, regente do reino, homem
-de sciencia, e homem politico; D. Henrique, duque de Vizeu, iniciador
-das descobertas, perante o que tudo sacrificou; D. Izabel, duqueza de
-Borgonha; D. João, o condestavel, modelo de impoluta dignidade; e D.
-Fernando, que morreu sacrificado pela Patria e pela sorte da guerra nas
-masmorras de Fez.
-
-Havia mais um bastardo, filho não do rei circumspecto, mas do rapaz
-folgazão, que cevava a mocidade nas camponezas dos seus feudos. Foi
-o producto da perfeita carnalidade animal, livre de todo o sentimento
-generoso que Jesus Christo abençoou nas bodas de Canaan. Filho de coito
-damnado, sempre se lhe resentiu os effeitos da baixa origem; por isso
-se refugiou nas suas terras, lá no norte, que obtivera por consorcio
-com a filha unigenita do Santo Condestavel. Evitava assim a presença
-da madrasta, cujos olhares, d’um sereno azul celeste, parecia que
-chicoteavam o crime da sua existencia. Mais tarde, em varios de seus
-successores, brotou a semente generosa do Mestre d’Aviz e de Nun’alvares:
-em D. Jayme e nos dois Theodozios, mui accentuadamente.
-
-Os outros filhos d’el-rei, _altos infantes_ que Camões cantou, foram
-modelo de principes e modelo d’irmãos.[17]
-
-Nunca a fraternidade foi seguida com mais fervor, nunca os laços
-familiares predominaram mais, dentro do lar, do que n’esta geração
-abençoada, dignissimo producto de dois esposos redemptores, abençoados
-tambem pelas jaculatorias d’um povo.
-
-Devia ser commovente o passamento de D. Filippa, rodeada do marido,
-dos filhos, da filha, do enteado e da criadagem que fraternisava com a
-familia as lagrimas e os soluços.
-
-Tendo armado cavalleiros D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique; pedindo
-ao primogenito que a sua espada fosse a espada da justiça, a D.
-Pedro a defeza das donas e donzellas, e a D. Henrique o zelo por
-todos os escudeiros, cavalleiros e fidalgos do reino; feitas outras
-recommendações, dados conselhos tendentes á união e á obediencia dos mais
-novos aos mais velhos, se chegou Brites Gonçalves de Moura a lembrar á
-rainha a infanta sua filha.
-
-D. Izabel chorava a um canto o desenlace proximo; a mãe olhou-a
-com meiguice, e, voltando-se para a dama, mostrou-lhe que se tinha
-recommendado ao herdeiro a felicidade de seus vassallos, escusava de
-fallar n’ella, a quem a tinha em tanta estimação.
-
-N’este momento, no peito de D. Pedro pulsou mais uma vez a generosidade
-que sempre foi seu apanagio; e dirigindo-se para D. Filippa, disse-lhe
-que seria bom chamarem el-rei para a esposa lhe pedir que as terras de
-que era possuidora se dessem á filha, emquanto não tomasse estado.
-
-Approvada a proposta, sahiu D. Henrique a procurar o pae.
-
-Não tardou D. João I, e ali, perante o leito de dôr da virtuosa
-companheira, confirmou a sympathica doação, que mesmo sem essa
-formalidade seria sagrada por todos os titulos.
-
-Foi assim que a Princeza possuiu Alemquer.
-
-No emtanto, cumpria cazal-a como D. Filippa deixava recommendado; e
-apezar do atrazo material da epocha, a fama dos infantes portuguezes soou
-por toda a terra. D. Pedro, de todos os filhos de D. João I com certeza
-um dos mais preclaros, deixava espalhado pelas _Sete Partidas_ quão
-fructifera tinha sido a influencia de D. Filippa na côrte de Lisboa. O
-brutalismo da Edade-Media desapparecera em Aljubarrota e o espirito claro
-da Renascença, (que teve a sua aurora na esposa do rei de _boa memoria_,
-e em Nun’alvares, o candido guerreiro; e o seu occaso na infanta D.
-Maria, a sympathica filha do _rei venturoso_, e em Camões, a expressão
-mais pura da nossa nacionalidade) expandia-se illuminado pela figura
-angelica da rainha que soubera calcar, sepultando-o de vez, o impudor de
-Leonor Telles. Entreabria-se uma nova era, tendo por promotores a gente
-mais valorosa que nasceu n’esta terra. Ceuta, a Madeira e os Açores foram
-os alicerces das emprezas de além-mar; Ceuta, o ultimo golpe do vencedor
-de Castella, e o baptismo dos seus tres primogenitos; Açores e Madeira,
-os primeiros padrões da vassallagem do oceano á _gente ousada_ que lhe
-rasgava o corpo virginal.
-
-Com todo este conjuncto de sublimes predicados, não escasseavam os
-pretendentes; assim D. Izabel desposou em Bruges (10 de janeiro de 1430)
-o duque de Borgonha, Filippe, o _bom_, conde de Flandres.[18]
-
-Digna herdeira das virtudes da mãe, enalteceu o lar domestico com aquella
-dignidade perante a qual o decorrer dos seculos se curva respeitoso; e
-mais tarde soube desempenhar com abnegação sublime os deveres do amor
-fraternal, requerendo a seu sobrinho D. Affonso V o corpo e os filhos do
-desventurado infante D. Pedro, morto em Alfarrobeira.
-
-Bella aureola a da honra e a da gratidão!
-
-D. Izabel de Lencastre nasceu a 21 de fevereiro de 1397 e falleceu em 17
-de dezembro, de 1471.
-
-Sepultaram-n’a na Cartuja de Dijon.
-
-
-
-
-D. Leonor d’Aragão
-
-
-Cinco annos antes da morte de seu pae (14 d’agosto de 1433—22 de
-septembro de 1428), desposou el-rei D. Duarte a D. Leonor, filha de
-Fernando I d’Aragão. Esta princeza succedeu á rainha sua sogra na posse
-d’Alemquer e d’outras terras que formavam a chamada _casa das rainhas_,
-verdadeiramente constituida no tempo da sympathica Leonor de Lencastre,
-mulher de D. João II.
-
-Começavam a desapparecer os soldados da independencia. A morte ceifava
-uns e outros; a acção do tempo curvava-lhes a fronte varonil, como
-presagio do descanço eterno.
-
-O rei já não era o mesmo homem d’antes: o mocetão galhardo e forte, mas
-o velho experimentado e prudente, o companheiro de vinte e oito annos da
-virtuosa D. Filippa, que lhe reformára o espirito e o paiz.
-
-As illusões e o amor fugiam-lhe impellidos pelo vento rijo dos annos;
-esse campo deixava-o elle aos rapazes, aos filhos, sabios como elle,
-vivos reflexos do espirito purissimo da mãe.
-
-Em D. Duarte talvez esse sentimento influisse com primazia. Almas ternas
-como a d’elle, exigem uma outra que lhes sirva de alento. Sem a candura
-da mulher a alma do poeta é um jardim sem flores, um sol radiante toldado
-por uma nuvem negra.
-
-Tinha trinta e sete annos quando o casaram; estava na força da
-virilidade, retida pelo celibato. O espirito queria expandir-se, e quando
-os olhos viram pela primeira vez a gentil aragoneza, formosa e meiga, o
-amor, satisfeito no seu ideal, algemou-lhe o coração.
-
-Leonor desde o dia das nupcias dominou de facto o marido. Bastava uma
-caricia para lhe subjugar a vontade.
-
-Desgraçado do homem que encontra uma mulher d’estas, se em vez de ser o
-anjo que faça da familia a ante camara celestial, se converte em demonio
-que lhe transforme o lar em inferno intoleravel.
-
-Era ella a segunda Leonor que se sentava no throno, notando-se que
-embora fosse o symbolo vivo da honra e do pudor, tem um ponto de
-contacto com a sua pouco illustre predecessora. Ambas escravisaram os
-maridos, e escravos os arrastaram ao tumulo; ambas, devido á loucura
-inteiramente opposta uma á outra, vieram depois de desagradaveis
-peripecias a fallecer no exilio!
-
-Senhora do animo do esposo, tomou sobre si as redeas do governo. Não se
-limitou a ser terna e fiel como D. Filippa. Foi mais além; affastou-se
-do trilho que a natureza impoz á mulher, trazendo com o seu procedimento
-desastrosas desgraças que offuscam um tanto os brilhantes feitos da
-dynastia d’Aviz.
-
-A Renascença abrira novos horisontes, e os filhos de D. João I apoiaram
-com todas as suas forças o objectivo da nova edade.
-
-Ceuta fôra o alicerce que D. Henrique lançára para o imperio ultramarino.
-Desejava proseguir na sua ideia, continuar a ultima façanha emprehendida
-pelo pae; vendo ao seu lado o irmão, D. Fernando, cioso dos primogenitos
-amestrados já no valor da arte da guerra.
-
-Queriam a conquista de Tanger. Houve debates n’este ponto. O rei
-e D. Pedro oppozeram-se, em vista do pessimo estado economico do
-paiz. Demais, não havia gente com que guarnecer as praças tomadas. D.
-Henrique, vendo a clara luz da razão, voltou-se para D. Leonor, certo da
-influencia d’esta perante o marido, que, movido pelas ternuras da formosa
-companheira, teve a fraqueza de ceder.
-
-Partiram, levando seis mil homens, lançando-se mão, para guarnecer a
-armada, dos mais pesados tributos. Dada a batalha, a sorte voltou-se para
-o musulmano. O Alcorão sobrepujava o Evangelho, devido á imprudencia de
-dois principes que talvez mais attendessem á dilatação da fé do que ao
-accrescimo do imperio.
-
-D. Fernando ficou captivo (1437) e captivo morreu em Fez aos cinco de
-junho de 1443.
-
-Descorçoado, D. Henrique regressou a Portugal; mas não foi á côrte fallar
-ao rei. Temia vel-o. O espectro do prisioneiro parece que o segurava
-no seu ninho de Sagres. Por seu lado, D. Duarte sentia o remorso a
-pungir-lhe a existencia. A esposa consolava-o, mas o pobre homem, em
-cada caricia d’ella via a causa da sua ruina e da ruina do paiz. Tinha
-um só refugio: era D. Pedro. Esse sim; esse fôra o leal conselheiro, o
-homem de senso, justo e prudente, que previra a derrota e condemnára a
-expedição. Era o que lhe valia.
-
-Tal preferencia azedou ainda mais o animo de D. Leonor para com o
-cunhado, esposo de uma princeza da casa d’Urgel, rival da de Aragão.[19]
-Mais tarde esse antagonismo teve os seus effeitos quando aos 9 de
-septembro de 1438 falleceu el-rei em Thomar, tendo declarado em
-testamento que, na menoridade do filho (Affonso V) entregava a regencia
-do reino a sua mulher.
-
-A nova sublevou Lisboa como outrora acontecêra com Leonor Telles. Todos
-indicavam D. Pedro como regente. Principiava a desharmonia, quasi a
-guerra civil.
-
-Alemquer desempenhou um papel importante n’esta questão, como na da
-esposa de D. Fernando. A rainha fôra para Sacavem, onde o duque de
-Coimbra a procurou para se entender com ella. D. Leonor veiu para
-Alemquer, onde já na vida do marido residira algumas vezes. A resolução
-das côrtes de Lisboa (1439) obrigára D. Pedro a tomar parte no leme do
-estado; mas este voto do paiz não foi acceite pela viuva de D. Duarte,
-que preferiu abandonar a familia a humilhar-se ao cunhado. A soberba,
-alimentada pela fraqueza do defuncto rei, possuia de todo aquella alma
-aliás casta e boa. Se ella não fosse formosa, se o marido tivesse o
-pratico conhecimento do mundo como D. João I, D. Leonor seria em tudo um
-fiel setellite da veneravel D. Filippa, sabio modelo de rainha, de mãe e
-de esposa.
-
-Mas dos encantos de que a natureza a dotou tinha ella todo o
-conhecimento, e a influencia da vaidade de si mesma, juncta á desastrada
-submissão do rei, converteram-n’a em promotora de lamentaveis desgraças,
-em logar de anjo de paz.
-
-A historia, julgando-a, tem tambem de julgar D. Duarte, que sem ella
-seria um grande rei. Estas duas almas perverteram-se uma á outra, para
-fatalidade da Patria.
-
-De Alemquer, D. Leonor foi para o exilio onde falleceu a 18 de fevereiro
-de 1445. O seu corpo não ficou em terra estranha, como o da adultera
-Leonor Telles; actualmente jaz no mosteiro da Batalha, ao pé do de seu
-apaixonado esposo.
-
-Que a critica lhe seja leve.
-
-
-
-
-D. Isabel de Lencastre
-
-(MULHER DE D. AFFONSO V)
-
-
-A intriga campeava outra vez na côrte portugueza; tinha-se volvido aos
-tempos passados, á epocha fatal, marcada na Historia com a nodoa negra do
-desbragamento de Leonor Telles.
-
-D. João I fôra então o eleito do povo para a defeza dos legitimos
-interesses do paiz; agora n’esta scena, pallida sombra dos acontecimentos
-posteriores, a vontade popular elegeu tambem um dos seus mais illustres
-filhos, o qual, estadista como era, conhecedor do mundo pelas suas
-grandes viagens e pela sua vasta erudição, soube guiar proveitosamente o
-leme do Estado, não obstante os obstaculos suggeridos pelos contrarios.
-
-Sabio como D. Duarte, apesar de lhe não carecer o animo, tambem teve um
-defeito que lhe foi fatal: o desprezo do mundo.
-
-Chegado á maioridade de Affonso V, D. Pedro entregou-lhe o reino; o
-monarcha não o acceitou; pois, apesar de moço, teve em conta os serviços
-prestados por seu tio, que lhe serviu de pae e que o era verdadeiramente
-da terna companheira que as côrtes de Torres Vedras (1440) lhe tinham
-destinado.
-
-Este procedimento generoso, que bem agourava a prosperidade do novo
-reinado, accendeu a labareda amortecida na alma damnada dos parciaes do
-infante. Perdel-o, acabar-lhe com a raça generosa,[20] era o fito do
-movimento, que teve por chefes o duque de Bragança, D. Affonso; seu filho
-o conde d’Ourem; o devasso arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha; e o
-protonotario apostolico Vasco Pereira de Berredo.
-
-Combinado o trama, trataram de conquistar o fraco espirito do rei, então
-de dezeseis annos. Baldados foram os esforços de D. Pedro para desfazer a
-calumnia; retirou-se da côrte a ver se o fogo se extinguia, mas com a sua
-ausencia as chammas fortaleceram-se.
-
-De Ceuta viera o conde d’Avranches D. Alvaro Vaz de Almada, no proposito
-de á ponta da lança tomar a sua defeza. O infante e o conde, confrades
-da santa ordem da Garrotêa,[21] tinham a Cavallaria como uma religião,
-santificada por D. Filippa, no leito da morte, quando recommendava ao
-filho a honra das donas e donzellas.
-
-Era a Cavallaria o unico tribunal admittido por Alvaro Vaz, para julgar
-os actos da regencia. Viessem a campo os detractores, montados em seus
-corceis e batessem-se com elle...
-
-Os outros preferiam as devassas tiradas por ordem régia; tinham a mentira
-na mão, achavam quem jurasse ter o regente envenenado seu irmão D. Duarte
-e sua cunhada D. Leonor, mas não encontravam quem se medisse com o
-Avranches...
-
-Como homem prudente, D. Pedro quiz valer-se da filha que soluçava aos
-pés do esposo, supplicando-lhe clemencia. D. Affonso redarguia-lhe que
-seu tio lhe pedisse perdão. Perdão de quê? Isso seria humilhar-se não
-ao soberano, mas aos inimigos; seria declarar-se reu de crimes que não
-commettêra.
-
-A Cavallaria aconselhava-lhe a morte honrada e não a vida humilhante; a
-sciencia ensinava-lhe o desprezo do mundo; e o espirito purissimo da mãe,
-nos conselhos finaes, apontava ao cavalleiro e ao philosopho a honra de
-tres damas que a elle deviam o sêr.[22]
-
-Desgraçado do homem que vem ao mundo como pensador; para esse a scentelha
-divina do talento é chamma que illumina sim, mas como o tocheiro que
-allumia um cadaver.
-
-Alvaro Vaz, durante estas hesitações, fôra para Coimbra acompanhar o
-amigo. Decidiram partir e, á força d’armas, pedir aos detractores o rol
-das culpas. D. Pedro esse o que queria era desabafar com o sobrinho, com
-a meiga creança que outrora lhe sorria nos joelhos, como se fosse um
-filho. Tinha a consciencia tranquilla, porque não defender sua justiça?
-
-Foram em bellico apparato. Logo na côrte roncaram os primeiros rumores
-da expedição. O rei partiu tambem ao som de guerra e junto ao ribeiro de
-Alfarrobeira acharam-se frente a frente.
-
-Muitos—os leaes—desejavam uma entrevista diplomatica; mas aos parciaes do
-Infante o que convinha era um combate; cousa mais simples e talvez mais
-segura.
-
-Começaram varias refregas, méras expansões da soldadesca; uma setta
-arremessada ao acaso foi bater na tenda real. Já não havia duvidas sobre
-as tenções do Infante... Podia, sem escrupulos, dar-se a carnificina.
-
-Os pelouros das bombardas cruzavam-se nos ares com as flechas e com os
-golpes de montante; craneos esmigalhados pelos projectis juncavam o chão,
-havia heroes que abriam caminho com a espada ensanguentada, e entre esses
-D. Pedro.
-
-Que queria elle? A Historia não o diz. Talvez fallar ao rei.
-
-De repente um pelouro prostra-o por terra; Alvaro Vaz avisado d’isto
-redobrou de energia. Ao chegar junto do corpo do infante ajoelhou, e
-quando depunha o osculo na fronte do amigo, conheceram-n’o os contrarios.
-
-D. Alvaro olhou-os de frente; de braço estendido para a morte, disse
-estas palavras: _Fartar rapazes! vingar agora villanagem_.
-
-Uma turba de settas choveu sobre elle; a alma sentiu o corpo fraco e
-despediu-se do mundo. Era o ultimo cavalleiro.
-
-Destruidos os dois baluartes da honra, findou a batalha, começando logo
-depois o saque, não dos despojos dos vencidos, mas dos bens do Grande
-Morto, que esteve tres dias insepulto.
-
-Principia aqui a agonia da existencia de D. Izabel, joven de dezesete
-annos, com um coração bondoso, mas dilacerado de desgostos.
-
-Seu pae, julgando amparal-a dignamente, casou-a com o sobrinho; enlace
-que as côrtes de Torres Vedras approvaram com enthusiasmo.
-
-O consorcio realisou-se em 1447, ou em 6 de maio de 1448,[23] tendo a
-rainha sido dotada com todas as villas que pertenceram a sua sogra D.
-Leonor e a sua avó D. Filippa.
-
-Entre as nossas soberanas, D. Izabel de Lencastre é uma das mais
-sympathicas; basta para lhe dar jus a este titulo a sua qualidade de fiel
-esposa do homem que assassinára seu pae e que era o pae de seus filhos.
-
-N’estes, porém, a excelsa princeza depôz todas as suas esperanças que não
-foram infundadas.
-
-Tendo tido um filho varão (3 de maio de 1455), a rainha conseguiu que se
-rehabilitasse a memoria de D. Pedro e que o seu corpo, então depositado
-na egreja de Santo Eloy, em Lisboa, fosse recolhido no Mosteiro da
-Batalha, junto dos de D. João I e de D. Filippa.[24]
-
-Essa creancinha que ella, mãe extremosa, acalentava, era D. João II, o
-futuro Grande Rei que, com barbara, mas bem merecida justiça, vingaria a
-morte de seu avô.
-
-No emtanto, os odios ainda não estavam extinctos e os promotores da
-catastrophe da Alfarrobeira estimulados pela rehabilitação do antigo
-regente, decidiram pôr termo á vida da filha, causadora de tal desgosto.
-
-Apezar de não ser ponto averiguado, é tradição seguida, que a causa da
-morte d’esta rainha (2 de dezembro de 1455) foi a peçonha ministrada
-pelos inimigos de seu pae, terriveis feras que depararam mais tarde com
-um terrivel vingador.
-
-Hoje D. Izabel jaz na Batalha, a grande epopeia de pedra da nossa
-nacionalidade. A Historia presta-lhe o culto da santificação pelo
-martyrio que enaltece as almas na perpetuidade dos seculos.
-
-
-
-
-D. Leonor de Lencastre
-
-
-A Historia retrata-nos Affonso V como um dos soberanos mais voluveis e
-ambiciosos que se tem sentado no throno portuguez. Filho de D. Duarte o
-fraco mas sabio rei, e de D. Leonor, casta mas censuravel rainha, Affonso
-V mostrou que não degenerára dos seus progenitores.
-
-Amou as lettras e protegeu-as, proseguiu no augmento da bibliotheca de
-seu pae, e continuou as emprezas africanas conforme os desejos de D.
-Henrique.
-
-Alcacer Ceguer (1458) Tanger e Arzilla (1463) são monumentos que attestam
-o patriotismo que lhe adornava a alma, áparte a volubilidade e a ambição.
-
-Talvez fosse esta que o levasse a consentir na morte do regente D.
-Pedro; póde ser que mesmo afastado da côrte, o rei visse em seu tio um
-estorvo para dar largas á sua absoluta vontade. De facto, aquelle homem
-fleugmatico, methodico, grande em tudo, que o tinha creado como um pae,
-impunha-se-lhe involuntariamente. Não obstante a sua pouca edade, a
-Historia não o póde absolver da sanguinolenta tragedia d’Alfarrobeira e
-do condemnavel procedimento de ter durante tres dias insepulto o cadaver
-do mallogrado infante e de o privar, por espaço de annos, da sepultura
-que D. João I lhe destinára no Mosteiro da Batalha.
-
-Uma guerra injusta alvoreceu com o seu reinado; outra lhe terminou
-a existencia, crivando de desgostos o desgraçado monarcha, cheio de
-desenganos e de crueis penas do triste passado.
-
-Velho aos quarenta e nove annos, desanimado de todo pela sorte das armas,
-que lhe refreavam os vôos, abatido no Toro (1476), Affonso V falleceu em
-Cintra aos 28 de agosto de 1481.
-
-Logo depois subiu ao throno seu filho D. João II, que já nos ultimos
-tempos da vida do pae governava de facto o reino.
-
-N’este principe depozera as suas esperanças, nas horas amargosas do
-infortunio, a pobre e desgraçada mãe; a elle, por consequencia cabia
-vingar a memoria do avô, memoria de todo rehabilitada quando o neto
-lavasse as mãos no sangue dos assassinos.
-
-A morte do duque de Bragança (21 de junho de 1483) e a do duque de Vizeu
-(23 d’agosto de 1484) foram golpes crueis vibrados por braço herculeo
-contra o poder descommunal que assassinára D. Pedro.
-
-Consummada a vingança e consolidado o cesarismo, o rei converteu-se em
-senhor, apoiado no poder absoluto, uma das más feições da Renascença.
-
-N’este empenho, D. João II sacrificou os proprios membros da familia,
-alanceando o coração da esposa que vira aos pés do marido morto ás
-punhaladas, o cadaver do louco e desgraçado irmão.
-
-Tendo apenas dezeseis annos (22 de janeiro de 1471), o pae casára-o com
-D. Leonor de Lencastre, filha do infante D. Fernando e D. Izabel de
-Bragança.[25]
-
-Toda a generosidade da raça d’Aviz actuou n’esta princeza, digna
-successora de D. Filippa; todas as virtudes domesticas, todo o zelo pelo
-bem da patria e pelos progressos das sciencias tiveram o seu culto no
-animo generoso de D. Leonor, que, para não desmentir o destino fatal das
-suas predecessoras, tambem teve o martyrio a crucificar-lhe a existencia.
-
-No cerebro do marido desenrolava-se o imperio do mundo; as descobertas
-continuavam-se e o nome portuguez dilatava-se triumphante por toda a
-terra; Diogo Cão descobrira o Zaire (1484-1485), João Affonso d’Aveiro
-chegára á Guiné (1486) e Bartholomeu Dias dobrou o _Tormentoso cabo_,
-primeiro indicio da derrota da India.
-
-O commercio desenvolvia-se activamente, tornando Lisboa quasi rival
-de Veneza. Um futuro brilhante como o fulgor de uma joia naturalmente
-parecia sorrir ao principe D. Affonso, esposo da herdeira de Castella e
-filho de D. João II e de D. Leonor; n’elle se haviam de reunir todos os
-potentados da peninsula e dos Dois Mundos, todas as riquezas do Oriente e
-do Occidente!
-
-Havia de ser o primeiro monarcha do universo! na sua fronte repousaria
-a corôa que mais tarde foi cingida pela casa d’Austria. O sonho d’esta
-felicidade plausivel florescia perante os espinhos que o espirito
-vingador do rei semeára no lar domestico.
-
-Apezar de mortificada, D. Leonor via no marido o soberano illustrado e
-audaz, que preparava para o filho um futuro inegualavel.
-
-Essa creança era o espirito de conciliação que existia entre os dois;
-era o élo que os ligava ao commum interesse do povo. Mas como a nuvem
-altaneira trepa a grimpa dos montes e esconde o sol radioso, a morte
-surgiu a derribar o arbusto que alargava as suas raizes por todo o sólo
-conhecido.
-
-Morto D. Affonso (13 de julho de 1491), o sonho idealista desappareceu e
-com elle a existencia do rei (25 de outubro de 1495).
-
-Depois de viuva, D. Leonor dedicou-se á caridade e ao desenvolvimento das
-lettras e artes; introduziu a imprensa em Portugal;[26] fundou a Egreja
-da Merceana, no termo de Alemquer, o hospital das Caldas da Rainha, as
-Misericordias, e deu principio á construcção das capellas imperfeitas da
-Batalha, mais tarde mandada suspender por seu irmão el-rei D. Manuel.
-
-No reinado d’este soberano, a rainha recebeu o lenitivo de todos os seus
-passados desgostos; viu o auge da prosperidade da patria, deixando-a
-grande e feliz quando falleceu em Lisboa aos 17 de novembro de 1525.
-
-Jaz no convento da Madre Deus.
-
-Quem fôr ao mais eloquente monumento da nossa nacionalidade, quem visitar
-os athaudes de D. João I, de D. Filippa e de seus illustres filhos,
-sentirá que na crypta murtuaria da Batalha estão vagos dois logares.
-
-Nuno Alvares e Leonor de Lencastre ausentaram-se d’aquelle épico
-conjuncto de tumulos, onde dormem o somno eterno os mais brilhantes
-vultos da unica épocha de verdadeiro progresso que existiu n’esta terra.
-
-
-
-
-D. Leonor d’Austria
-
-
-D. João II, apezar do grande amor que consagrava a seu filho D. Jorge,
-mais tarde duque de Coimbra, cedeu á luz da razão, indicando como
-herdeiro da corôa o duque de Beja D. Manuel, irmão do desgraçado duque de
-Vizeu e da rainha D. Leonor, de quem já nos occupámos.
-
-Como grande rei, o neto do infante D. Pedro continuou as descobertas
-maritimas; no entanto é licito ao historiador notar a hesitação d’este
-monarcha em acolher os serviços de Christovão Colombo, serviços que foram
-acceites por Fernando e Izabel de Castella, graças ao lucido espirito da
-rainha, predisposto pelo immortal Pedro Gonzalez de Mendóça, arcebispo de
-Toledo.
-
-É esta a unica mancha do reinado de D. João II.
-
-Nem a morte do duque de Bragança nem o assassinato do duque de Vizeu
-maculam a memoria do rei, que se viu obrigado a recorrer ao cutello e
-ao punhal para extinguir as desintelligencias do feudalismo perturbador
-constante da paz interna dos povos. Seu primo, el-rei D. Manuel,
-continuou-lhe a obra grandiosa, porém com politica e astucia e não com
-sangue e cadaveres, attitude esta que os golpes fundos e radicaes do seu
-illustre predecessôr lhe permettiam tomar.
-
-Um tanto injusta a Historia, designa D. Manuel simplesmente como soberano
-_venturoso_. D. Manuel foi feliz pelo acaso de successão, pelos homens
-que encontrou e por essa serie d’epopeias grandiosas, obliteradas depois
-pela voracidade do ganho; mas _foi grande_ pela sua politica de ferro,
-pelo seu espirito conciliador e pela attenção que, não obstante a
-influencia das preciosidades da India, sempre dispensou ao bem estar do
-continente: bastando para lhe dar jus á gloria de estadista a diplomacia
-com que soube tratar a visinha Hespanha.
-
-Perdidas as esperanças de cingir a corôa de toda a peninsula, em vista
-do fallecimento da rainha D. Izabel, viuva do principe D. Affonso e
-herdeiro dos reis catholicos (24 d’agosto de 1498),[27] com quem se havia
-desposado, e do unico fructo do seu matrimonio, o principe D. Miguel da
-Paz (20 de junho de 1500),[28] o rei portuguez entendeu que a continuação
-de allianças com a nossa rival no poderio ultramarino era materia do mais
-alto alcance para a estabilidade das pacificas relações entre os dois
-paizes.
-
-Tratára elle o casamento do sobrinho predilecto, o duque de Bragança D.
-Jayme com Leonor de Mendóça, filha do duque de Medina Sidonia no intuito
-de procrear amizade com o poderoso hespanhol, senhor de quasi toda a
-Andaluzia, de que era Fronteiro Mór.
-
-Não pensava o rei, nos seus planos de diplomata, que o coração não se
-molda ao capricho dos politicos e que a desgraçada creança, inteiramente
-extranha aos tramas das conveniencias sociaes, seria, volvidos poucos
-annos, victima da justa vingança do marido, offendido na sua honra e no
-pundonor.
-
-A deploravel catastrophe de 2 de novembro de 1512, em que o treçado do
-primeiro senhor do reino assassinava a esposa adultera, e as mallogradas
-pretenções á successão do throno de Castella, pretenções que já tinham
-sido alimentadas por seu tio D. Affonso V e por seu primo D. João II,
-foram os unicos desgostos que D. Manuel experimentou nos vinte e seis
-annos do seu reinado.
-
-De resto a fortuna bafejava o pavilhão das Quinas; Vasco da Gama saiu do
-Tejo (sabbado 8 de julho de 1497)[29] no intuito de achar o caminho das
-Indias, dobrando o cabo da Boa Esperança. Na sua viagem descobriu a Terra
-do Natal, Moçambique, Mombaça e Melinde, cujo rei foi um fiel alliado dos
-portuguezes. Surgiu finalmente defronte do Calecut, onde a principio o
-receberam com enthusiasmo, que mais tarde esfriou em vista das intrigas
-dos mercadores musulmanos, os quaes adivinhavam no altivo estrangeiro a
-quéda da sua influencia commercial. Abriam-se de par em par as portas da
-riqueza; D. Manuel podia julgar-se o monarcha mais poderoso e mais rico
-d’então. Não tardariam as perolas, os rubis, as esmeraldas, a canella, o
-gengibre e a pimenta, monopolio da corôa.
-
-Não tardariam as victorias de D. Francisco d’Almeida e de Affonso
-d’Albuquerque. E coberto de louros, incensado em fumo, precedido da força
-brutal das armas e do genio épico dos grandes capitães, o nome do rei
-subjugou o oceano e avassallou o Oriente.
-
-Malaca, Ormuz e Gôa, renderam-se ao pulso rijo de Albuquerque. Gôa foi
-convertida em capital do projectado imperio que o grande capitão, nos
-seus planos de estadista, pretendeu fundar. Era necessario um cruzamento
-de raças: casassem os portuguezes com as mulheres da India; alijassem
-essas ideias puritanas, lembrando-se que toda a humanidade vinha de
-Adão...
-
-João das Regras, Nun’Alvares e Albuquerque são as figuras mais valiosas
-do reinado d’Aviz. Um pela sua eloquencia que produziu uma autonomia;
-outro pela sua candura; e o ultimo pela rijeza do seu pulso de guerreiro
-e pela fortaleza do seu cerebro de politico.
-
-Os dois primeiros morreram honrados no seu catre de louros. Nun’Alvares,
-mystico asceta, na solidão de um mosteiro. João das Regras, pae
-extremoso, no seio da familia. Albuquerque esse viu ao desprender-se do
-mundo a ingratidão real, remedeada já tarde,[30] e o seu corpo affeito ás
-luctas em prol da patria, levado aos hombros dos companheiros das suas
-glorias, com a barba branca, comprida e magestosa como a do Condestavel,
-é o retrato prophetico do futuro do emporio portuguez, cujas raizes
-tentára consolidar e que a desenfreada ambição do lucro, a sensualidade
-do Oriente, em que os soldados eram sultões e as casernas harens,
-deitaram por terra, como o vento do deserto abate a palmeira verdejante.
-
-Albuquerque foi a personificação da lealdade, e a India nas nossas mãos
-foi um campo d’aleivosias.[31]
-
-Mancha negra que ennodôa a Historia, o dominio portuguez no Oriente
-assemelha-se á impudica figura de Leonor Telles. Corrompeu côrte,
-costumes, homens e crenças. Com o pensamento na riqueza, o sentimento
-cavalheiresco afastava-se do soldado convertido em mercador. Já não
-havia essa simplicidade de outras eras. Sedas, joias e alfaias jorravam
-a olhos vistos, sem que ninguem sentisse que entre a descommunal riqueza
-se ia lavrando a sentença de morte de uma nação. O sensualismo entorpecia
-os espiritos, aconselhando os estofos perfumados dos salões com portas
-de ebano, paredes de damasco e pregaria de ouro á rudeza do marinheiro
-ou á espada do militar. Riqueza e gozo era o ideal de todos, n’aquelles
-tempos, cuja apparencia é tão risonha e cujo fundo é tão funebre.
-
-Na metropole, D. Manuel, como feitor n’esta immensa fazenda, via-se
-assaltado pela multidão de operarios que não pediam trabalho, mas
-solicitavam mercês. A inveja mordia os feitos dos benemeritos e o
-rei deixava-se vencer por falsos conselheiros que vindos da India
-pintavam-lhe com negras côres as obras dos grandes homens. Feliz no
-poderio e na familia, casado em segundas nupcias com D. Maria de
-Castella,[32] irmã de sua primeira esposa, pae de numerosa descendencia,
-um tanto illustre, é certo, mas bem longe de ser um arremedo da de D.
-João I, o poderoso rajah da Europa, cego por tanto brilho, deu ouvido aos
-embustes aventureiros, maculando o seu nome na ingratidão para com os
-servidores leaes.
-
-De novo casára em Alcacer do Sal (30 d’outubro de 1500) e passados dois
-annos a successão do throno estava assegurada pelo nascimento do principe
-D. João. Além d’este, oito filhos lhe garantiam a independencia da corôa:
-D. Izabel, esposa do imperador Carlos V; D. Brites, duqueza de Saboya; D.
-Luiz, duque de Beja, poeta distincto e discipulo do grande mathematico
-Pedro Nunes; D. Fernando, duque da Guarda, que casou com D. Guiomar
-Coutinho, herdeira do conde de Marialva; D. Affonso, que foi cardeal,
-bispo de varias dioceses e arcebispo de Lisboa; D. Henrique, cardeal,
-arcebispo e mais tarde rei; D. Duarte, duque de Guimarães, casado com
-D. Izabel de Bragança, filha do duque D. Jayme e pae de D. Catharina,
-esposa de seu primo o duque D. João I, d’onde proveio á casa de Bragança
-o direito de successão por morte do cardeal rei.
-
-Extremoso chefe de familia, sem ter amante nem bastardo, doido pela
-mulher que foi um anjo do lar, a morte arrebatou-lh’a (7 de março de
-1517), volvidos dezesete annos de íntima convivencia.
-
-Estava vago o logar que assegurava a Portugal a amizade de Castella.
-Cumpria prehenchel-o novamente, e D. Manuel, como homem pratico e
-politico habilissimo, incumbiu-se d’esta missão. Viuvo e saudoso da
-esposa que perdêra, o filho do infante D. Fernando, o obscuro duque de
-Beja, chamado á corôa por um acaso feliz, raro na Historia, o monarcha
-senhor de meio mundo, o rei de vassallos tão illustres quão sabios e
-leaes, determina um bello dia abdicar no primogenito e ir-se ao Algarve,
-como Fronteiro Mór, guerrear os sectarios de Islam.
-
-Porém, o piedoso intento só se realisaria consummado o matrimonio do
-principe com D. Leonor d’Austria, filha de Joanna _a louca_ e de Filippe
-I de Castella.
-
-Recusada a proposta de D. João, que se achava embeiçado em amores
-desiguaes,[33] D. Manuel cumpriu a palavra dada desposando a princeza que
-destinára ao filho. O consorcio realisou-se no Crato (24 de novembro de
-1518).
-
-No contracto lavrado a 16 de julho do mesmo anno ficou tratada a dotação
-da nova soberana, que entraria na posse da Caza das Rainhas logo que
-fallecesse D. Leonor de Lencastre, viuva de D. João II e irmã d’el-rei D.
-Manuel.
-
-Leonor d’Austria tambem tem a fronte aureolada pelos louros do martyrio.
-
-Foi um joguete nas mãos do irmão. Casaram-n’a com um homem edoso, pae de
-numerosa descendencia; e mais tarde, depois da morte d’esse rei (13 de
-dezembro de 1521) que a não amava, nem por ella era amado, obrigam-n’a
-a abandonar a filha idolatrada, a gloriosa infanta D. Maria, a futura
-protectora das lettras, o penultimo lampejo da Renascença.
-
-A politica endurece o coração dos soberanos. Carlos V queria fisgar
-Francisco I, mas precisava d’um laço que o prendesse á sua obediencia.
-Esse laço foi a viuva do rei de Portugal.
-
-Casada com o soberano francez, D. Leonor teve de abandonar a filha, que
-só viu trinta e quatro annos depois! Se foi cruel o seu martyrio, em
-compensação, o ente que de longe abençoava, soube exaltar a sua memoria e
-honrar o nome de quem lhe dera o ser, concorrendo para o engrandecimento
-do seu paiz. A sciencia d’estes factos seria um lenitivo para a pobre
-mãe, que, não obstante a distancia, lhe dirigia os passos. No entanto
-a Providencia destinou-lhe n’este mundo um premio digno dos seus
-soffrimentos. Aos cincoenta e nove annos de edade (1498-1558)[34] teve a
-ventura de abraçar, em Badajoz, o enlevo da sua vida, a qual terminou em
-breve.
-
-Conforme o juramento que os habitantes de Lisboa lhe exigiram á
-partida,[35] a infanta D. Maria deixou sua mãe nos territorios de
-Hespanha e regressou á sua patria; porém, Leonor d’Austria tinha os
-seus dias contados, e falleceu pouco depois, em Talaveruela, aos 25 de
-fevereiro de 1558.[36]
-
-Os dois thronos em que se assentou foram para esta princeza dois tumulos
-precoces: um matou-lhe a mocidade algemada á velhice; outro amordaçou-lhe
-o mais bello predicado do coração da mulher—o amor de mãe.
-
-
-
-
-D. Catharina d’Austria
-
-
-Fallecido D. Manoel em 1521, tomou as redeas do governo o principe D.
-João.
-
-Quatro annos depois de subir ao throno, o monarcha portuguez contrahiu
-nupcias com a princeza Catharina, irmã de sua madrasta e do imperador
-Carlos V.
-
-Continuava assim a politica do pae, assegurando o poderoso visinho,
-casado tambem em 1526 com a nossa princeza D. Izabel.
-
-D. João III lidou sinceramente pelo progresso das lettras. É esta uma
-feição caracteristica da dynastia de Aviz. O seu fundador escreveu o
-_Livro das Horas do Espirito Santo_, os _Psalmos certos para os finados_,
-o _Livro da Montaria_ e attribue-se-lhe tambem a _Côrte Imperial_; seus
-filhos, el-rei D. Duarte o auctor do _Leal Conselheiro_ e da _Arte de bem
-cavalgar em toda a sella_; D. Pedro, traductor de Cicero e escriptor das
-_Horas de Confissão_ e do _Livro da virtuosa Bemfeitoria_, seguiram-lhe
-as honradas tradições.
-
-N’este reinado, porém, a litteratura portugueza attingiu o maior
-brilho; n’elle floresceram João de Barros, Fernão Lopes de Cantanhede,
-Damião de Goes, o doutor Antonio Ferreira, Diogo Bernardes e André
-de Rezende; n’elle se levaram a effeito importantes reformas nos
-estudos, importando-se mestres do estrangeiro para ensinarem na nossa
-Universidade, transferida de vez para Coimbra.
-
-As descobertas e as conquistas progrediam tambem; chegou-se ao Japão
-(1542) e entabolaram-se relações com os chinezes, obtendo-se a faculdade
-de podermos estabelecer uma colonia em Macau.
-
-Na India, D. João de Castro, outra figura respeitavel, tomou a hombros
-o continuar a obra grandiosa d’Albuquerque. Interrompia o manancial
-d’iniquidades parecendo animado pelo espirito do grande capitão. Elle e
-D. Luiz d’Athayde fecham o cyclo dos nossos feitos brilhantes no paiz das
-especiarias.
-
-A arte tambem teve o seu culto n’esta nova phase da vida nacional.
-Belem é o monumento que a piedade de D. Manoel levantou em memoria do
-grande feito de Vasco da Gama. Não obstante ser magestosa, a egreja
-dos Jeronymos não possue a solemnidade da Batalha; no entanto falla ao
-coração do patriota como symbolo d’um passado glorioso, que, embora
-maculado mais tarde, tem uns traços semelhantes á autonomia de 1385.
-
-Aberto o novo periodo das conquistas, Belem converteu-se em pantheon
-da Casa d’Aviz; ficava mesmo junto da porta do _Mar Tenebroso_, cujos
-segredos a audacia do infante D. Henrique, a astucia de D. João II e a
-actividade de D. Manoel desvendaram para sempre. Os marmores dos seus
-tumulos são bafejados pela maresia do Tejo, que lhes prende a existencia
-eterna á vida terrestre. Ali, guardados em sarcophagos cinzelados pela
-Arte da Renascença, n’uma crypta impregnada de ares salinos, descançam D.
-Manoel, D. João III, D. Sebastião (?), D. Henrique e todos os principes
-da familia real.
-
-Hoje Belem parece destinado a mausoléu das grandes glorias do paiz.
-
-Bom é que debaixo do mesmo tecto, n’uma fraternidade que a morte
-estreita, durmam o somno eterno, reis e vassallos que nas differentes
-epochas da historia lidaram pelo engrandecimento do torrão que os viu
-nascer.
-
-Bom é que junto dos ultimos descendentes d’Aviz, raça illustre, filha
-da vontade popular, levantada pela eloquencia de João das Regras,
-poetas, cuja musa é o breviario do sacerdocio da Patria; navegadores
-cuja afoiteza é o testemunho da virilidade d’um povo; historiadores cuja
-penna justiceira serve de modelo á critica dos vindoiros, se confundam
-todos em amplo abraço, coroados pelas bençãos do suffragio, iguaes pela
-realeza do talento que levanta os humildes á altura de semi-deuses. E
-hoje, que o pensamento estende as suas raizes pelas regiões do Infinito;
-que a justiça depõe as palmas do martyrio sobre a memoria das victimas do
-genio, bom é que o patriota ajoelhe em Belem sobre as louzas dos heroes
-do throno, do talento e da aventura, e, recolhido em si n’uma meditação
-profunda, contemplando aquella téla sublime, invoque os manes dos que ahi
-descançam, como os fieis do Christianismo levantam as suas preces aos que
-adquiriram a Bemaventurança eterna.
-
-Junto de seus maiores, tambem ahi está o principe D. João, filho de D.
-João III, um desvelado cultor das lettras, vulto illustre em que Camões
-depoz todas as suas esperanças. Começava a faltar a seiva á grande
-arvore plantada em 1385; estava fraca e abatida pela ausencia do calor
-vital, quando os vermes da corrupção lhe tragavam as ultimas raizes. O
-mallogrado infante casára em Elvas (fins de novembro de 1552)[37] com sua
-prima D. Joanna, filha do imperador Carlos V; d’este matrimonio nasceu
-um filho posthumo, D. Sebastião (20 de janeiro de 1554), que subiu ao
-throno logo depois do fallecimento do avô (Lisboa, 11 de julho de 1577).
-A regencia do reino ficou entregue a D. Catharina, avó do joven monarcha,
-que tomou a serio os encargos da realeza. Presidindo ao Conselho
-d’Estado, a rainha não só recommendava a boa venda da pimenta, mas
-tambem o augmento do territorio colonial. Angola mereceu-lhe as maiores
-attenções e as conquistas da India desenvolveram-se com as tomadas de
-Damão e de Jafanapatão.
-
-Não obstante estes progressos, D. Catharina vivia desgostosa, suspirando
-o descanço da vida particular. Reuniu côrtes em Lisboa (23 de dezembro
-de 1562) e ahi entregou o poder a seu cunhado o cardeal D. Henrique.
-Alcançada a almejada tranquillidade, residiu em varias terras de que era
-senhora, e entre ellas em Alemquer, cujos habitantes menciona no seu
-testamento.
-
-Tendo setenta e um annos, terminou a existencia d’esta princeza, que
-falleceu em Lisboa, aos 12 de fevereiro de 1578. Sepultaram-n’a em Belem.
-Mezes depois (22 de agosto), Lisboa soluçava a perda do unico penhor da
-sua independencia. Catharina de Austria succumbiu antes do tragico fim
-de Alcacerquibir; talvez uma duvida da aventura, uma verde esperança de
-poetica illusão lhe recolhesse o ultimo suspiro; talvez que moribunda, no
-seu delirio abençoasse o neto, vendo-o triumphante, implantando a Cruz
-nas mesquitas de Mahomet, realisando o sonho da Edade Média, desviado da
-rotina da Renascença. Catholica extreme, a fé, que fortalece os fracos,
-alental-a-hia na sua duvida sorridente. Deus havia de ajudar o cruzado,
-cujo escudo era o baluarte do Evangelho! havia de erguer o braço do
-heroe que fincava as Quinas no territorio do Islam...
-
-Este sonho mystico de Catharina agonisante é o ultimo traço da nossa
-grandeza épica. Camões tambem o alimentou com a mesma fé e com a mesma
-pureza de uma alma gigantesca illudida na sua candura, que recebeu a mais
-cruel das decepções: o desfolhar das suas esperanças e a perda do seu
-paterno ninho.
-
-
-
-
-(O Interregno dos Filippes)
-
-
-Com a dynastia d’Aviz, filha do sentimento da independencia que animava
-um povo já consciente do seu existir, já apegado ao seu lar, unido desde
-o Minho ao Guadiana por uma palavra divina—PATRIA—o paiz succumbiu em
-Alcacerquibir. Houveram ensaios para um arremedo d’Aljubarrota, mas já
-não circulava aquelle sangue generoso e bom, tão forte na Edade Media,
-como valente e fidalgo no alvorecer da Renascença.
-
-A India inundára-nos de ouro e sugava-nos as forças vitaes. Extenuado por
-essa amante que nos seduzira, procuravamos revestir-nos com a virilidade
-de outras eras.
-
-Tudo estava podre. Até os proprios que tinham exaltado a bandeira das
-Quinas se deixaram arrastar pela corrente da corrupção. Reunidas as
-côrtes em Lisboa (de junho de 1579), ahi se elegeram quinze cidadãos
-para que o cardeal-rei escolhesse d’entre elles cinco governadores
-que indicassem a quem de direito, no futuro, pertencia o throno e que
-administrassem o reino dada a sua morte.
-
-Realisado o funebre acontecimento (Almeirim, 31 de janeiro de 1580),
-o Prior do Crato, D. Antonio, bastardo do infante D. Luiz, pretendeu
-cingir a corôa, allegando um supposto casamento de seu pae com a famosa
-Violante Gomes; Rainuncio, principe de Parma, filho de D. Maria e neto do
-infante D. Duarte; Manuel Felisberto, duque de Saboya, filho da infanta
-D. Brites; Filippe II, filho de D. Isabel; e D. Catharina, duqueza de
-Bragança, filha do infante D. Duarte, concorreram tambem a disputar o
-throno.
-
-Até Catharina de Médicis se lembrou de ser rainha de Portugal, dando como
-rasão uma ideada descendencia d’Affonso III e da condessa Mathilde! No
-meio dos successivos desastres, por entre tantas vilanias tecidas pelo
-ouro de Castella, espalhado largamente por D. Christovam de Moura, não
-faltou esta nota comica. Faltava, porém, o _veridictum_ dos governadores,
-depositarios da realeza, juizes irrevogaveis que haviam de sentencear a
-quem pertencia a corôa.
-
-No desempenho d’esta missão partiram para Badajoz, onde a 7 d’agosto de
-1580 assignaram um alvará, conferindo a dignidade real a Filippe II.
-
-Note-se, no entanto, que a entrega da Patria ao hespanhol foi recusada
-pelo Arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Almeida, e por D. João Tello
-de Menezes. Os outros (D. Francisco de Sá e Menezes, D. João de
-Mascarenhas—o defensor de Diu!—e Diogo Lopes de Sousa) acolheram-se
-debaixo do manto castelhano, cuja sombra fortalecia, sem embargo da
-tranquillidade das delapidadas consciencias.
-
-N’este desabar do edificio, desmantelou-se tambem a Casa das Rainhas;
-Alemquer serviu de titulo aos Silvas, alcaides-móres de Portalegre.
-
-Achava-se, pois, desfeita a grande obra de Affonso Henriques, consolidada
-em 1385; e Portugal era uma nacionalidade morta, abatida pela extincção
-da grande dynastia que levou a sua fama aos confins do mundo. Era uma nau
-grandiosa, equipada brilhantemente, veloz como o vento e segura como a
-rocha, que atravessava o oceano em toda a sua vastidão, que sulcava os
-mares, rasgando-lhe altiva o verde anil.
-
-Uma vez descobriu no horisonte um forte almejado, um cachopo traiçoeiro
-que lhe parecia abrigo fiel, e, com a audacia que a fortalecia, com a
-confiança na sua força, com a lembrança do seu valor, inclina o rumo
-para o precipicio, que julga o digno remate da sua proficua derrota.
-Acompanham-n’a as alegrias, desfraldam-se alegres em seus mastros os
-vistosos pavilhões; sonhos dourados adormecem a tripulação, e, ao cabo de
-longa viagem pela campina maritima, o fado que outrora lhe proporcionou
-os louros, a arrasta agora para o iman da perdição, para a
-
- _.........................vã cubiça_
- _d’esta vaidade a quem chamamos Fama._[38]
-
-Tudo soffria as consequencias do mesmo genio audacioso que presidira a
-todas as nossas emprezas, desde Ourique e Aljubarrota até ás descobertas
-do mar, vasta arena das glorias de Portugal. Alcacerquibir vingou Ceuta,
-calcada aos pés do venerando roble d’Aviz. A Africa assim como foi berço
-da nobre epopeia portugueza, tambem foi seu tumulo, devorando o ultimo
-representante de D. João I. Não lhe satisfez o martyrio do infante D.
-Fernando; foi-lhe preciso aguilhoar um povo que ousára abater o vôo do
-estandarte mussulmano; e esse povo, estrangulado pela raiva da hyena
-africana, legava ao universo, a cujos destinos soubera presidir, uma
-chronica immortal da fenecida grandeza.
-
-Camões e o seu poema foram os elos, que, abatidos os grilhões, haviam de
-reatar o passado ao futuro. Os _Luziadas_ tornaram-se o manual em que
-oravam os crentes e os esperançosos; os que tinham por amante o alvorecer
-da sua independencia.
-
-Nos sessenta annos de captiveiro, quantas lagrimas derramadas pela
-infidelidade dos traidores! Tantas como as que o vate sublime, synthese
-da autonomia portugueza, chorára pelo _ninho seu paterno_, e tambem por
-essa outra amante, a eleita da sua alma, cuja ingratidão lhe dictou estes
-versos:
-
- _Ah Nathercia cruel quem te desvia_
- _Esse cuidado teu do meu cuidado?_
- _Se tanto hei de penar desenganado,_
- _Enganado de ti viver queria._
- ....................................
-
-No coração do patriota reinava uma outra Nathercia, alimentando-se nas
-aras do seu sacerdocio, os ultimos lampejos das gloriosas epochas que se
-tornaram a nossa razão de ser como paiz independente.
-
-
-
-
-QUARTA DYNASTIA
-
-
-
-
-D. Luiza de Gusmão
-
-
-Apesar dos apertados grilhões com que a politica de Castella nos algemou,
-cuidando assim extinguir o sentimento da independencia, a ideia da
-liberdade invadia o coração do povo portuguez.
-
-Formavam-se phantasias, julgava-se vêr nos elementos uma certeza
-prophetica da restauração. A Biblia e o Bandarra eram mananciaes com que
-os embusteiros exploravam a crença popular.
-
-De facto, a grande creança visionaria, a massa rude, com a sua alma leal
-e supersticiosa, impossibilitada de outro meio que aliviasse a pesada
-carga estrangeira, procurava nos dominios da phantasia um ephemero
-lenitivo aos seus pezares.
-
-Para ella o ideal começou em D. Sebastião, uma especie de moura
-encantada, recolhida em paiz encoberto, mysterioso, sobrenatural, d’onde
-em momento opportuno, marcado no ceu com signaes temiveis, como os do fim
-do mundo, viria erguer o escudo lusitano, sobrepôr as Quinas aos Leões da
-usurpadora Hespanha.
-
-E a phantasia, só a phantasia, é que consolava o povo, só a superstição
-é que lhe allumiava o espirito, fortalecendo-lh’o para a grande empreza,
-que recordou n’aquelles tempos de provecta decadencia o genio audacioso,
-valente e guerreiro da nação portugueza.
-
-Ella ainda cortejava o vencedor, quando, arrogante e soberbo, percorria
-as ruas da capital; ainda se curvava quando ouvia nomear o rei o symbolo
-augusto que lhe fundára a nacionalidade e que combatêra a seu lado, na
-infancia da monarchia, pela defeza dos seus interesses, pela consolidação
-da sua existencia e da sua liberdade; mas n’este acto não se deprehende
-hypocrisia, fraqueza ou adulação: o que aqui se vê é quanto impera na
-alma popular o sentimento da realeza, com que foi creada desde tempos
-immemoriaes. Não era uma abdicação perante o hespanhol, era o invocar
-da alma leal para um principio que lhe gerára a Patria e que soubéra
-confundir-se com ella, tornando-se o coração d’um grande corpo, d’onde se
-expande a vida e a força por todo um paiz.
-
-Se o duque de Bragança não quizesse annuir ás repetidas instancias dos
-fidalgos, e se em vista da recusa do principe se levasse a effeito
-aquelle celebre dito de D. João da Costa, _antes uma republica bem
-portugueza que um rei estrangeiro_, a independencia de Portugal, em nossa
-opinião, não ia ávante.
-
-Faltava-lhe o ideal da alma popular, faltava-lhe o objecto d’esse amor,
-que, embora ás vezes fosse cruel como os Filippes, fosse traiçoeiro como
-D. Henrique, fosse efeminado como D. Fernando, fosse bom ou fosse mau,
-era o possuidor do espirito do povo, era o pae da independencia, gerada
-em Ourique e emancipada, feita homem e consciente no campo glorioso
-d’Aljubarrota. Acclamou a monarchia, João das Regras, um filho do povo,
-defenderam-n’a elles em todas as suas crises, abraçaram-n’a como religião
-desde o seu principio e sempre essa ideia innata ao seu existir palpitará
-em seu peito, como orgão que a natureza addicionou á sua alma tão leal
-como cavalheiresca.
-
-E como a realeza era o symbolo da autonomia, por isso Castella vigiava o
-paço de Villa Viçosa temendo-se unicamente do _direito_ como impulsor do
-brado heroico que havia de alijar para sempre o dominio estrangeiro.
-
-E não conhecia a Hespanha o fraco animo do duque de Bragança? Conhecia,
-é certo, mas tambem conhecia o amor do povo a _seu rei natural_, e que
-esse mesmo, egoista e fraco, era quem se poderia atrever a romper os
-laços da usurpação. Para Villa Viçosa convergiam as attenções de Castella
-e as esperanças do paiz, a valente terra portugueza, que alimentava nas
-suas entranhas um vulcão cujas lavas submergiram radicalmente o dominio
-hespanhol.
-
-As supplicas, quasi ameaças, dos fidalgos, decidiram o primeiro principe
-feudal de todas as nações latinas a cingir a corôa d’Affonso Henriques.
-
-Elle era neto de D. Catharina, filho do infante D. Duarte, e por
-consequencia o unico representante portuguez d’el-rei D. Manuel.
-
-D. Catharina, a gloriosa princeza a quem a Hespanha sempre respeitou,
-transmittiu pelo seu casamento á casa de Bragança os direitos ao throno
-de Portugal.[39]
-
-D. Theodosio, seu digno filho, guardou a representação d’esses direitos
-com immaculada fidelidade, hombreando altivamente com Filippe III (II de
-Portugal) e obrigando o monarcha a descobrir-se perante o legitimo senhor
-do paiz a que vinha apossar-se.[40] Se D. Theodosio chegasse a reinar,
-certamente a historia lhe tributaria hoje egual homenagem á de D. João I;
-n’elle actuou toda a grandeza da raça d’Aviz, cujo sangue generoso lhe
-corria nas veias.
-
-Do casamento de D. Theodosio com D. Anna de Velasco, filha do duque de
-Frias, houveram quatro filhos: D. João, duque de Barcellos, D. Duarte, o
-mallogrado infante, D. Catharina e D. Alexandre. Fallecido D. Theodosio
-(Villa Viçosa, 20 de novembro de 1630), entrou o duque de Barcellos na
-posse do vasto e poderoso Estado de Bragança, cuja capital, decorridos
-tres annos (12 de janeiro de 1633), se alegrava com o casamento
-de D. João II com sua prima D. Luiza de Gusmão, filha do duque de
-Medina-Sidonia, D. João Manuel Peres de Gusmão e da duqueza D. Joanna de
-Sandoval.
-
-A velhaca politica d’Olivares fizera este enlace na esperança que a
-princeza, como hespanhola por nascimento, advogasse junto do marido
-a causa da sua terra natal; porém D. Luiza tinha a consciencia plena
-dos seus deveres para não se dominar pela vontade do ministro, que
-descançado na influencia da esposa de D. João e na crueldade de Miguel
-de Vasconcellos, nem sequer suspeitava que alguma vez deixasse de ser
-simples gemido dos afflictos prisioneiros o heroico brado de 1638.
-
-Soou finalmente a hora da independencia (1 de dezembro de 1640). Era o
-sol da nossa epica grandeza que raiava por entre as nuvens da oppressão
-estrangeira. Luiza de Gusmão foi o primeiro satellite do grande astro,
-arrastando na sua orbita esposo e vassallos. _Antes rainha uma hora que
-duqueza toda a vida_, disse ella quando D. João lhe patenteou as suas
-hesitações. Espirito superior, não consentia que ninguem sobrepujasse
-o poderio adquirido logo que ligou os seus destinos aos do duque de
-Bragança. No throno foi a mesma cousa: dominava sempre o marido, era ella
-o rei, o poder que influia em todos os negocios do Estado, o braço que
-impediu a libertação do tão grande como desgraçado infante D. Duarte,
-a unica pessoa que se atrevia a desputar-lhe a confiança do monarcha.
-Tambem a Historia só lhe nota este defeito, porque de resto ella foi tão
-piedosa, como honesta, respeitavel e dedicada mãe de familia.
-
-Depois do dominio castelhano, D. Luiza tomou posse dos bens da casa das
-Rainhas, sendo-lhe esta mercê feita por alvará dado em Lisboa aos 10 de
-janeiro de 1643.[41]
-
-Os negocios do Estado em que o seu espirito ambicioso, a sua larga
-prudencia e sabio conselho a obrigaram a tomar parte, obstou a que se
-interessasse particularmente pelas terras de que era senhora; no emtanto,
-devem ellas vangloriar-se de tão alta princeza, cuja energia, cuja
-hombridade e independencia tanto favoreceu a causa do seu paiz adoptivo.
-
-Morto D. João IV (6 de novembro de 1656), a rainha tomou as redeas do
-governo em nome de seu filho desventurado D. Affonso VI, até 1662, anno
-em que este monarcha se investiu de auctoridade real. D. Luiza desde
-então dedicou-se á piedade, curtindo os amargos desgostos que lhe dava o
-filho, que descia aos ultimos limites a que póde descer um homem.
-
-Quatro annos durou esta turbulenta existencia que teve o seu fim a 27 de
-fevereiro de 1666, epocha em que falleceu, sendo o seu corpo sepultado
-no convento do Grillo, e, pela extincção d’este mosteiro, trasladado ha
-pouco para o pantheon real de S. Vicente de Fóra.
-
-Decorridos mais de dois seculos, as cinzas da esposa de D. João IV,
-profanadas por mão ambiciosa como ella fôra em vida, vieram repousar
-junto do tumulo do marido e dos dois filhos que lhe succederam.
-
-Que a historia lhe seja severa como a morte, proferindo sem lisonja
-e sem odio a sentença que lhe dictarem os bons ou maus actos dos que
-exercerem o poder supremo.
-
-O juizo imparcial da realeza não póde melindrar ninguem, porque o
-magisterio d’um rei não é propriedade d’uma familia, mas é patrimonio
-d’um povo, que tem direito a devassar os tumulos dos que o regerem e
-procurar nas suas cinzas ou o merecimento que exige a exaltação dos
-benemeritos, ou o crime que obriga o esquecimento dos precitos. A
-Historia é o grande tribunal, onde reis e vassallos são julgados com
-a mesma egualdade e com o mesmo rigor. Ella despreza Affonso III para
-acclamar Martim de Freitas; lança o estigma da infamia sobre a memoria de
-Leonor Telles, a rainha impudica, e abençoa a lousa ignorada de Fernão
-Vasques, o artista humilde que em nome do povo soube zelar o decôro do
-throno. Assim, quando o historiador penetra os humbraes da crypta de S.
-Vicente, ajoelha no marmore do pavimento, e toca por sua vez nos ataúdes
-de tantos personagens, esquece as corôas que adornam os seus tumulos e
-julga-os como juiz, que não indaga a qualidade do réu.
-
-E a Historia, para ser Historia, é necessario que não dobre a vara da
-justiça e que guie sempre os seus passos pelo pharol da imparcialidade,
-que rompe a nevoa do servilismo infame.
-
-
-
-
-D. Maria Francisca Izabel de Saboya
-
-
-Fallecido D. João IV, tomou as redeas do governo a rainha D. Luiza, a
-isso obrigada pelo testamento do rei e pela menoridade de seu filho
-Affonso VI. Os negocios do Estado não se alteraram em cousa alguma com a
-administração da rainha viuva; mudou-se simplesmente o nome do imperante,
-porque, como dissémos, D. Luiza foi sempre a vontade do marido; nem o
-padre Vieira, favorito de D. João IV, nem Fr. Domingos do Rozario, seu
-conselheiro privado, a dominaram alguma vez. Altiva e auctoritaria, ella
-attendel-os-hia em certas occasiões, mas nunca se escravisava á sua
-influencia.
-
-Embora nos campos da batalha o valor do nosso exercito levasse, por
-vezes, de vencida o arrogante castelhano, a regente, como astuta
-politica, entendeu que sem allianças que amparassem a corôa aos
-embates da fortuna, difficil seria a sustentação da independencia.
-A França e a Inglaterra eram o alvo dos sonhos dourados de D. Luiza;
-queria ella fisgar a amizade d’esses paizes com enlaces matrimoniaes
-que identificassem os seus interesses aos interesses de Portugal;
-seguia assim o procedimento de D. Manuel para com a visinha Hespanha,
-procedimento este, que, apesar de todas as rivalidades, sustentou o
-equilibrio da nossa tranquilla expansão ultramarina.
-
-N’este empenho, realisou-se em 1662 o casamento da infanta D. Catharina,
-irmã de Affonso VI, com Carlos II d’Inglaterra.
-
-Tanger e Bombaim foram os penhores da amizade portugueza e o dote da
-noiva de tão alto soberano. D. Luiza alienava uma pequena parte das
-colonias para ajudar o bom resultado da causa nacional; effeitos de
-necessidades que se impõem e que, por desconhecimento de razões só
-sabidas dos coévos, a Historia mais tarde aprecia um tanto injustamente.
-Se Luiza de Gusmão comprou, com a entrega d’aquellas duas praças, a
-soberania da casa de Bragança, deve-se notar tambem que com a realeza da
-dynastia estava consubstanciada a independencia do paiz, que junto a
-Castella não era senhor do seu proprio torrão. E se mais tarde se tornou
-perniciosa a alliança de Portugal com a Inglaterra, ninguem tem direito a
-arguir a viuva de D. João IV, exigindo que, embora fosse politica sagaz,
-podesse prever factos tão posteriores e filhos de circumstancias que á
-epocha pessoa alguma saberia divisar no horisonte. A Historia deve ser
-justa e como tal abençoar D. Luiza, que trabalhou varonilmente pela causa
-da sua patria adoptiva; e mesmo que então a alliança ingleza fosse um
-erro, bastava considerar o objectivo que a iniciou, para o historiador
-absolver essa falta venial, praticada inconscientemente, filha da
-imperfeição da fraca humanidade.
-
-Sejamos justos e verdadeiros. Se a Inglaterra nos tem sido traiçoeira,
-tambem a França então nos chamou a si e nos abandonou conforme lhe
-convinha. Luiz XIV favoreceu a guerra com Castella, unicamente para
-abater o poderio da Casa d’Austria; consentiu no enlace da filha do duque
-de Nemours com Affonso VI para avassalar este paiz á sua politica de
-ferro, para dar principio á sua ambição de dominio na peninsula, revelada
-por elle, mais tarde, no celebre dito de despedida a seu neto Filippe V:
-_Meu filho, já não ha Pyreneus_.
-
-Não foi o amor da justiça a causa do soccorro da França, mas o mesmo
-ideal de rapina que a Inglaterra levou ávante. E se esta soube vencer,
-não devemos esquecer aquella que da sua parte fez quanto poude para
-alcançar victoria.
-
-Afinal effectuou-se o casamento do rei de Portugal com a princeza Maria
-Francisca Izabel de Saboya, filha do principe Carlos de Saboya, duque
-de Nemours, e da princeza Izabel de Bourbon, neta de Henrique IV, de
-França. O contracto nupcial foi assignado em Paris aos 24 de fevereiro
-de 1666, sendo procurador de Affonso VI o marquez de Sande, Francisco
-de Mello e Torres, tronco da casa dos condes da Ponte, nosso ministro
-junto de Luiz XIV, e representantes da noiva o marechal duque d’Estrées
-e o bispo de Laon. Affonso VI era indifferente a todos os passos dos
-seus ministros para lhe arranjarem esposa. Desequilibrado pela paralysia
-que lhe tolhêra na infancia a alma e o corpo, o monarcha entregava-se á
-pratica dos vicios mais vis, descia aos principios mais condemnaveis,
-desauthorisando-se perante o povo que, apesar d’isso, venerava o rei
-como symbolo do principio augusto a quem devia a livre existencia.
-
-Como contraste, o infante D. Pedro, irmão de Affonso VI, um galhardo
-rapaz, moreno, olhos e cabellos negros, typo peninsular, ardente, seduzia
-as mulheres á primeira vista e esgotava o amor em repetidos galanteios.
-Corpulento e robusto, cavalleiro e namorado, o infante attingia a méta do
-ideal das populações occidentaes; encarnára o amor da plebe e o amor das
-salas, dominava as massas com os golpes certos da sua farpa de toureiro
-e attrahia as damas dos salões aristocraticos com o faiscar dos seus
-olhos bellos e com a contemplação sedenta da sua estatuaria varonil.
-Tinha tudo—formosura, valentia, garbo, gentileza; mas não tinha corôa.
-Era filho d’um rei, cujo sceptro sustentava um impotente, quasi um doido.
-Para o principe subalterno a visão d’esse throno, que a elle, no seu
-entender, só devia competir, foi-lhe inoculada inconscientemente pela
-mãe, ao ver os desvarios do filho primogenito; e d’ahi a semente lançada
-em terreno fertil, desabrochou, cresceu e desprezou obstaculos que lhe
-atrophiassem o desenvolvimento precoce.
-
-Apesar de tudo, Affonso VI conheceu as intenções do irmão, que não
-tinha ainda quem lhe secundasse os esforços, quem tivesse força para
-erguer um throno e derrubar outro. Quando D. Pedro soube do casamento do
-rei, talvez visse n’esse facto o mallogro infallivel de todos os seus
-projectos. D. Affonso, mesmo meio tolhido, poderia continuar a dynastia,
-e então as pretensões do infante ficariam de todo nullas.
-
-Afinal alvoreceu o dia da chegada da rainha (2 d’agosto de 1666). Lisboa
-vestiu galas, quando a artilheria salvou a esquadra franceza. O coração
-de D. Pedro palpitava ancioso, abatido, ao ver desfolharem-se, uma por
-uma, as flores das suas sorridentes chimeras. Mal diria que nas naus de
-França se guardava o seu unico amor, o ente criminoso que o ajudaria
-a realisar o sonho infame. N’essa mesma tarde, rei, infante, côrte e
-auctoridades foram a bordo prestar homenagem á nova soberana. Tinham
-forçado D. Affonso a assim proceder. Não queria ir, entretido com a
-Calcanhares, expandindo as furias do seu genio violento que assassinava
-um desgraçado por entre beijos e caricias na sacrificada amante.
-
-Quando D. Maria Francisca viu pela primeira vez o homem que a politica
-lhe destinára, viu tambem a negação completa das suas aspirações.
-Aquelle homem o que tinha de bom era ser rei... o contrario do infante,
-que desde esse momento, com a sua figura peninsular, conquistou a alma
-da franceza, alma depravada, affeita aos costumes libertinos da côrte
-de Paris. Já possuida d’esta ideia, desembarcou a rainha no caes da
-Junqueira, seguindo d’alli para a egreja de Santa Clara, onde o bispo
-de Targa abençoou o seu consorcio. Pouco depois adoeceu; D. Pedro
-visitava-a amiudadas vezes e n’essas continuas visitas o amor de ambos
-fundiu-se n’um só. Inconscientemente, levado pelo impulso do coração,
-o infante adquirira a grande influencia que carecia para se sentar no
-throno. A amante queria ser rainha, mas não com um rei como D. Affonso
-VI; elle queria ser amado, mas não da esposa do seu proprio irmão... Era
-indispensavel o anullar o matrimonio, para que o monarcha se mostrava
-inhabil, e era necessario tambem que se conservasse aquella mulher no
-seu pedestal, apartada de um marido que a desprezava e junto de um outro
-que a adorava do intimo da alma... Tudo foi uma comedia. Maria Francisca
-recolheu-se ao convento da Esperança (21 de novembro de 1667) e d’ahi
-mandou ás auctoridades ecclesiasticas o seu libello de divorcio (11 de
-janeiro de 1668). Instaurou-se o processo, dando-se então uma das mais
-vergonhosas scenas da Historia de Portugal. A franceza excedeu Leonor
-Telles no desbragamento publico. Teve um Andeiro que foi D. Pedro,
-mas não teve a sinceridade rude de o apresentar como tal. Fallava em
-_consciencia_ e queria o _veridictum_ dos canonistas.
-
-Jesus Christo era invocado por aquella mulher, não para a soccorrer nas
-tribulações do crime, mas para a julgar na justiça da causa; e os que
-representavam o Redemptor—diga-se desassombradamente, escreva-se com a
-imparcialidade que a Historia exige—deram a sua sentença como aprazia
-a dois infames, abençoaram o indigno conluio como causa sacratissima,
-merecedora dos applausos sacrosantos. Em seguida uma revolução de palacio
-desthronou Affonso VI (23 de novembro de 1667), tomando conta do governo
-seu irmão o infante D. Pedro. Reuniram-se as côrtes de Lisboa (1 de
-janeiro de 1668) appoiando o procedimento revolucionario e a regencia do
-ambicioso principe. Poucos mezes depois (2 d’abril do mesmo anno), o
-regente e D. Maria Francisca uniam-se pelos laços do matrimonio, coroando
-com a lithurgia o seu amor maldito. Era uma comedia, dissemos.
-
-Cada um dos seus actos mais significativo e mais comico, mostrava bem
-claramente o estado de adeantada decomposição da sociedade portugueza,
-afogada ainda nos restos do grande naufragio das conquistas da India.
-
-No tempo de D. Fernando, que fez da côrte um harem e do reino um
-brinquedo de Leonor Telles, o povo, depois de 1385, rejuvenesceu,
-mostrou-se forte e viril, epico mesmo; agora, estimulado pelo proceder
-heroico de 1640, não teve força para reagir contra os tramas do paço
-da Ribeira; cortejava, submisso, o regente e lamentava, condoido, o
-rei... Não houve um Fernão Vasques que intercedesse por Affonso VI, pelo
-vencedor das linhas de Elvas, do Ameixial, de Castello Rodrigo e de
-Montes Claros, deposto em nome da Patria que seu irmão mais tarde havia
-de arruinar n’um tratado inqualificavel. Apezar d’isso, o seu nome é hoje
-glorificado á luz da Historia, porque teve a leal amizade de um homem
-da estatura de Castello Melhor. No coração d’esse homem sempre existiu
-a soberania de Affonso VI; sendo mais valioso o seu imperio que o summo
-poder do infante, atordoado pelo remorso e azorragado pela voz da indigna
-consciencia. Recluso em Cintra, sujeito aos limites do seu aposento,
-perseguido da desgraça que purifica as almas, a razão filtrou-se-lhe no
-meio do infortunio. Deu depois provas de innegavel lucidez. E quando
-elle lançasse os olhos sobre os amores da mulher e do irmão e os visse
-meigos, risonhos, estreitando-se em amplo abraço, n’uma felicidade
-mahometana, celestial, havia de sorrir ferozmente, com o riso da vingança
-consoladora, porque veria a imagem d’um pobre, encarcerado, como elle
-era, percorrer as salas da regia vivenda e como punhal brandido pela mão
-do remorso, rasgar a tela d’uma apparente ventura. É que por mais infames
-que sejam as almas, sempre a consciencia como a percursora do castigo
-sem fim, as atormenta com a lembrança horripilante de crimes que se
-desejariam esquecer. Esta convicção e a lealdade de Castello Melhor foram
-os unicos lenitivos que Affonso VI encontrou na desgraça, foram anjos que
-lhe afagavam a vida, segredando-lhe que não era indigno de ser rei de
-um grande vassalo que resurgira um reino, e que a sua memoria servia de
-tufão devastador á felicidade roubada.
-
-Felizes dos opprimidos quando têem a consciencia que são oppressores.
-
-Affonso VI falleceu em Cintra aos 12 de setembro de 1683; a sua adultera
-esposa não tardou em seguil-o na jornada do tumulo.
-
-Quatro mezes depois (27 de dezembro), succumbiu D. Maria Francisca Izabel
-de Saboya, sendo sepultada nas Francezinhas.
-
-
-
-
-D. Maria Sophia de Neuburg
-
-
-Depois da morte de D. Maria Francisca, a tristeza apossou-se do coração
-de D. Pedro II; ao mesmo tempo, o remorso pungia-lhe a consciencia, vendo
-sempre o espectro do irmão apontar-lhe do outro mundo o negro trama de
-que fôra o protagonista. Resava, orava, esmolava os desgraçados de que
-era rei; mas ao depor o obulo na mão do esfarrapado mendigo accudia-lhe
-o vulto de Affonso VI, que elle apeára do throno, transformando-lhe a
-existencia ainda em mais cruel que a do pobre, porque esse ao menos tinha
-liberdade. Entregue, como estava, ás suas dôres, D. Pedro não cuidava de
-outras nupcias.
-
-Foram precisas para o arrancar á dorida memoria da sua fallecida consorte
-as instancias de Innocencio XI e as supplicas dos amigos: todos á uma lhe
-aconselhavam novo casamento, evitando-se assim que a corôa passasse á
-princeza D. Izabel, o que traria sérias complicações politicas.[42]
-
-Resolvido o sensato plano, partiu o conde de Villar Maior (8 de dezembro
-de 1686) para Heidelberg, capital dos estados do Eleitor Palatino do
-Rheno, pae da princeza Maria Sophia de Neuburg, á qual a escolha do
-monarcha designára para nova rainha. A 22 de maio do anno seguinte
-assignou-se o contracto, estipulando-se que a noiva fosse dotada por seu
-pae com cem mil florins e pelo rei de Portugal com a casa e estado das
-soberanas suas predecessoras. Realisado o consorcio (2 de junho) seguiu
-D. Maria Sophia a sua viagem para Lisboa, onde chegou a 11 d’agosto;
-sendo, n’essa mesma tarde, abençoados os conjuges pelo arcebispo, no meio
-das acclamações enthusiasticas d’um povo que, fóra da capella, saudava
-inconscientemente uma mãe carinhosa de todos os seus subditos.
-
-E na verdade, d’esta vez os applausos não foram lançados em vão. D.
-Maria Sophia, como D. Filippa de Lencastre, compensou as leviandades da
-primeira mulher de seu marido. Reinou, mas não governou, conservou-se na
-sua esphera, dedicando-se á educação dos filhos e em adquirir o amor de
-D. Pedro, que, possuido sempre da lembrança da primeira consorte, nunca
-soube apreciar os rarissimos dotes da nova companheira.
-
-Para quem fosse menos beneficiada da conformidade imposta pelo dever, a
-indifferença régia seria pezarosa; porém, a princeza soube mostrar que
-era allemã: o seu temperamento, frio como o norte, não era inclinado
-a paixões; conformou-se com a sorte, limitando-se unicamente ás lides
-domesticas.
-
-O rei, ao que parece, desejava ser um heroe e talvez mesmo se convencesse
-de que o era. Queria a fronte aureolada, como o irmão, o _victorioso_;
-sentia a nostalgia do triumpho, apesar de _pacifico_, como lhe chamava a
-Historia.
-
-Terminada a guerra da independencia, desapparecêra o campo dos louros, e
-a paz firmada com Castella (13 de fevereiro de 1668)[43] ainda na vida
-de D. Affonso veiu cortar quaesquer probabilidades de adquirir glorias
-proprias. Ao tempo, D. Pedro só tinha por si a quéda d’um throno; de mais
-cousa alguma a posteridade fallaria d’elle, ficando sujeito a desigual
-partilha nos fastos da realeza.
-
-Vago o throno de Castella pela morte de Carlos II (1 de novembro de
-1700) foi acclamado rei o duque d’Anjou, neto de Luiz XIV, com o nome de
-Filippe V; D. Pedro reconheceu-lhe a soberania, continuando assim a paz;
-mas a influencia franceza assombrava a Inglaterra, a Hollanda e Allemanha
-que, além d’isso, pretendia a corôa para o archiduque Carlos, filho do
-imperador Leopoldo I. Portugal mudou de rumo e acompanhou a politica
-europeia na sua opposição ao francez; D. Pedro procedeu assim obrigado
-pela Inglaterra, que o amarrára no tractado de Methwen, e pelo desejo
-ardente da fama conquistada pela força das armas.
-
-Dispostas as cousas d’este modo, o archiduque chegou a Lisboa (7 de março
-de 1704) n’uma esquadra ingleza e hollandeza e fez d’aqui o ponto de
-partida para as suas operações.
-
-O nosso exercito, tendo á sua frente o principe e o conde das Galveias,
-Diniz de Mello e Castro, entrou no territorio hespanhol, e tomando
-Salvaterra, Valença e Albuquerque, retirou para Lisboa, d’onde o
-archiduque saiu outra vez (24 de junho de 1705) com destino a Barcelona,
-que depois d’um combate naval se rendeu a 9 de novembro do mesmo anno.
-No seguinte, em 2 de junho, o marquez das Minas penetrava em Madrid,
-onde fez acclamar o austriaco com o nome de Carlos III. Até esta
-epocha o destino parecia secundar, á custa de pesados sacrificios e
-derrotas internas, os marciaes desejos de D. Pedro II; o successo era
-na apparencia prospero e o rei zeloso do seu nome e pouco dos povos,
-contente de si, só tinha que se queixar do nenhum repouso da consciencia
-attribulada, porque no mais tudo lhe corrêra ás mil maravilhas. Esta
-illusão acompanhou-o ao tumulo; D. Pedro, doente, gasto, moribundo,
-succumbiu (9 de dezembro de 1706), cinco mezes após a victoria, que foi
-seguida pela retirada do marquez, batido por Berwick a 25 de abril de
-1707.
-
-Hoje é licito analysar os feitos e acções do homem que ousou possuir
-a estima d’um povo. De facto, foi a personificação do caracter
-portuguez—aventureiro, valente, viril, com uns longes de justiceiro,
-um arremedo do seu homonymo[44]—; e se as suas virtudes não brilharam
-pela quantidade, o seu feitio compensou-lhe a falta perante os coévos
-acostumados a venerarem o rei, sem examinarem o merito do individuo.
-Entretanto, os soffrimentos que a Historia nos aponta e que lhe
-atormentaram os ultimos dias, se não conseguem absolvel-o de todo,
-attenuam-lhe um pouco a gravidade do mal.
-
-Moralmente foi um grande desgraçado, e a compaixão a que têem jus os
-infelizes é uma das faces sympathicas que o pincel do historiador ousa
-desenhar na téla da verdade. Teve o amor d’uma mulher, mas este facto não
-levanta o caracter de nenhum dos dois amantes, porque o amor santifica
-quando é licito e condemna quando é preverso.
-
-Teve a fidelidade de uma resignada martyr que nunca lhe viu sorrisos,
-que foi possuida pela força da politica; e esta virtude se directamente
-o não exalta, reflecte-lhe, comtudo, como sol benefico. D. Pedro ainda
-mereceu a pósse de uma honesta esposa! Compassiva foi a Providencia, se
-no recondito d’aquella alma não existia algum merito que, qual violeta
-escondida por entre as balsas, viveu ignorado da justiça dos criticos.
-
-Maria Sophia não lhe proporcionou dias felizes, porque o remorso lhe
-aniquilava toda a felicidade; não lhe partilhou os dias de gloria,
-porque a morte a veiu colher (4 de agosto de 1699) antes que a guerra
-lhe trouxesse os triumphos militares; mas hoje ajuda-lhe a rehabilitar o
-nome, o nome que era seu e de cuja dignidade foi fiel depositaria.
-
-Triste e só, viveu deixando na Historia não a reputação faustosa de
-heroica soberana, ou de astuta politica, mas a de mulher respeitavel
-que soube purificar o lar extinguindo-lhe as manchas do rasto da sua
-antecessora. O diadema não lhe serviu de cruz, porque no cumprimento dos
-seus deveres encontrava sorrisos. Nem lhe foi motivo de ambições, porque
-a corôa que o seu ideal almejava era a corôa de espinhos do Crucificado.
-
-Que lhe importava o olhar melancholico do verdugo de Affonso VI, amante
-ainda do cadaver da sua cumplice? Que lhe importava isso, se nos filhos
-d’esse homem que a não podia amar, se na prece quotidiana ao esposo das
-almas santificadas pela resignação existia um amor mais bello, mais
-radiante que todo o idyllio de um amor terreno? E as lagrimas, sêccas por
-essa philosophia santa, nunca lhe sulcaram o rosto sympathico. Foi feliz
-no meio do seu infortunio. Abençoada creatura cujas ambições não existiam
-n’este mundo. Bemdita a sua fé que lhe impediu o martyrio, que lhe
-encaminhou os passos para a senda do dever. Por isso a Historia ajoelha
-na lousa do seu sepulchro, esculpindo-lhe na lapide um epitaphio modesto
-como a sua existencia, mas venerando como a sua memoria.[45]
-
-
-
-
-D. Marianna d’Austria
-
-
-Depois do fallecimento de D. Pedro II, subiu ao throno seu filho o
-principe D. João, que ao tempo contava dezesete annos d’edade. A herança
-não era coroada pela paz, e o rei não tinha a experiencia necessaria
-para dirigir o leme do Estado ao ponto que mais influisse ao progresso e
-desenvolvimento nacional.
-
-Continuou, pois, a orientação do pae, envolvendo-se na guerra de
-Hespanha, só concluida a 11 d’abril de 1713, pelo tratado de Ultrecht.
-Ahi, Portugal não recebeu a minima compensação dos seus pesados
-sacrificios; o duque d’Anjou foi reconhecido como rei, e o archiduque, já
-imperador d’Austria, teve na partilha os Paizes Baixos, Napoles e Milão.
-Depois da contenda tivemos de libertar o Rio de Janeiro da occupação do
-almirante francez Duguay Trouin, e mais tarde (1716-1717) a perseguição
-dos turcos, em soccorro do papa Clemente XI, que o havia sollicitado
-por intermedio da rainha D. Marianna d’Austria, com quem D. João V se
-desposára no dia 27 de outubro de 1708.[46]
-
-De resto, um longo periodo de paz envolveu sempre este reinado.
-
-O rei tinha a preoccupação do fausto e da magnificencia; entendia que sem
-a ostentação requintada da realeza, a corôa seria um mytho indigno do
-mais plebeu dos seus vassallos. Esta idéa de D. João V foi coherente com
-a de D. Manuel desde o diluvio do ouro da India, agora substituido pelas
-minas do Brazil.
-
-Acabára a Asia, mas ficára a America para farto manancial do genio
-degenerado e decadente do portuguez. Para cumulo d’estimulo tinha o rei o
-exemplo de Luiz XIV, seu mestre e seu espelho; havia de ser grande, não
-como alguns dos seus pacatos avós, bons homens e bons guerreiros, paes
-dos povos que militavam a seu lado no campo da batalha, e que, saradas as
-feridas da refrega, lhe vinham administrar justiça, de aldeia em aldeia,
-como bons pastores, zelosos do seu rebanho. N’aquella epoca, das virtudes
-antigas só existia a memoria; rei e fidalgos dormiam sobre os louros
-adquiridos pelos antepassados, não cuidando de outros novos; ferindo
-inconscientemente a virilidade da sua existencia, que pouco resistiu aos
-tombos das evoluções sociaes. Começava a pragmatica, acabando-se a antiga
-rudeza nacional; extremavam-se as classes, vedando-se ao povo nobilitação
-pelo proprio merito; e um odio profundo entre a aristocracia cortezã, que
-se alimentava dos bens da corôa, e a nobreza de provincia, que lavrava a
-terra com o proletario, veiu accender o facho da discordia, cujo tragico
-desfecho teve logar no reinado seguinte.
-
-O caminho que o historiador tem a seguir quando vier a lume a época de D.
-João V não é plano e florido, mas accidentado como serra espinhosa; ainda
-ha muitos para quem o filho de D. Pedro II, visto como homem moderno,
-attinge proporções épicas; para nós, aliás interessados naturalmente em
-exaltar o monarcha,[47] não vemos n’elle um unico reflexo de grandeza,
-a não ser na sua intelligencia e no zelo que dispensou ás lettras e
-ás artes, não como sabio ou artista, que nunca foi, mas como Salomão,
-que pretendeu ser. Os seus monumentos são attestados mudos da leviana
-atmosphera em que nasceram; não enthusiasmam como a Batalha e Belem,
-padrões que definem uma consagração historica; são molles de pedra,
-espelhos de provecta decadencia—o crusamento do incenso do altar christão
-e do luxo Cesar romano.
-
-Mafra é um collosso, onde está escripto o diagnostico da enfermidade que
-assolava o paiz: a nevrose da pompa, apoiada no absolutismo de que D.
-João V se fizera prototypo. De resto, a sua causa, ôcca e sem historia,
-não lhe proporciona interesse, nem cunho nacional; é um simples capricho
-de monarcha gastador, convicto que a trombeta da Fama só apregoa os
-grandes feitos quando eccôa em montanhas de ouro.
-
-Esse espalhava-o D. João V ás mãos largas, pouco zeloso do erario e muito
-da bolsa dos subditos. Os livros da sua chancellaria estão cheios de
-tenças, em que o motivo era a vontade regia e não o mérito pessoal do
-agraciado.
-
-Diga-se, no emtanto, que os thesouros espalhados pelo rei, não afogavam
-a ira do povo, que o adorava, porque via n’elle a personificação de
-todos os seus defeitos e de todas as suas virtudes. Poucos reis lograram
-possuir a estima dos subditos como D. João V. Foi um galanteador
-aventuroso e audaz, porque entreviveu n’uma epocha de aventuras
-licenciosas e ninguem tem direito a criticar-lhe as faltas domesticas,
-as traições á esposa, porque esse exemplo tomou-o elle dos vassallos, de
-quem não seria rei, se não os avantajasse. Toda a sua grandeza, toda a
-causa da sua superioridade está em ter comprehendido a sua epocha, em ter
-alcançado o objectivo dos seus contemporaneos.
-
-Incontestavelmente o ultimo Cesar que se sentou no throno, não foi
-tyranno, nem tomou ligeiramente o officio de reinar. Teve erros, porque
-viveu n’uma epocha de decomposição, vendo-se obrigado a seguil-a por
-natural tendencia, como homem do seu tempo, impellido pela voragem
-que o arrastava a um ponto que todos almejavam. Se assim não fosse,
-nunca conseguiria ser amado, porque nunca poderia adquirir o espirito
-portuguez. Ao menos não foi hypocrita; não procurou sequer occultar
-as leviandades das suas aventuras galantes, que passavam, como coisa
-naturalissima, que a ninguem melindrava, porque era commum... N’este
-quadro, que se não póde desenhar com côres estudadas, que sae natural,
-sem atavios que lhe falsifiquem a authenticidade, está bem patente a
-decadencia precoce de uma sociedade perdida. Quando o historiador ama
-a sua terra, as flôres dos seus campos, o sol que allumia e o ceu que
-a domina, as tradições que a exaltam, todo esse conjuncto diverso, mas
-ligado entre si n’uma cadeia cujo elo é a Patria, sente desfallecer
-a penna ao tocar este periodo, todo de ruinas, embora matizadas
-d’abundancia. Mas por entre a hecatombe lenta que devastava o meio
-social, não ha a lamentar a corrupção do paço; D. João V praticou
-sem duvida erros de homem, mas teve o lar purificado pela conducta
-irreprehensivel da esposa, allemã como a sua antecessora, e martyr como
-ella, não pela feia catadura d’um marido apaixonado pelo cadaver da
-eleita da sua alma, mas pelo procedimento do rei, que sem escrupulos de
-christão nem respeito pela dignidade real, escolhia concubinas onde quer
-que as paixões o arrastavam.
-
-Filha do imperador d’Austria, foi escolhida unicamente para inocular no
-sangue de Bragança o sangue aristocratico das mais nobres familias da
-Europa. De facto, desde a filha do Condestavel, as esposas dos duques
-não primavam pela nobreza do seu nascimento. Só D. Izabel de Lencastre,
-esposa de D. Fernando II, filha do infante D. Fernando, irmão de Affonso
-V; e D. Catharina, esposa de D. João I, como filha do infante D. Duarte,
-é que proporcionaram á casa de Bragança allianças mais conformes com
-a sua regia origem e viver realengo. As outras:—D. Beatriz Pereira,
-filha de Nun’Alvares, D. Constança de Noronha, filha do conde Gijon,
-esposas do duque Affonso; D. Joanna de Castro, filha do senhor do
-Cadaval,[48] esposa do duque D. Fernando I; D. Leonor de Mendonça, filha
-do duque de Medina Sidonia, D. Joanna de Mendonça, filha do Alcaide-mór
-d’Alvôr, esposas de D. Jayme I; D. Izabel de Lencastre, filha do conde
-de Lemos, esposa de D. Theodosio I; D. Brites de Lencastre, filha do
-commendador-mór d’Aviz, segunda esposa do mesmo duque; D. Anna de
-Velasco, filha do duque de Frias, esposa de D. Theodosio II; D. Luiza de
-Gusmão, filha do duque de Medina Sidonia, esposa de D. João II, depois
-rei D. João IV; e mesmo D. Maria Sophia de Neubourg, filha do Eleitor
-Palatino do Rheno, segunda esposa d’el-rei D. Pedro II, não foram
-senhoras que aparentassem a casa reinante de Portugal com as familias
-soberanas do universo. N’este ponto, depois dos Bourbons, achava-se
-incontestavelmente os Habsburgs, cuja alliança era provavel, em vista
-dos soccorros prestados pelos nossos reis ao archiduque Carlos, na sua
-pretensão ao throno hespanhol. O movel, pois, d’este consorcio foi a
-nobreza da noiva, que juntava a esse predicado uma notavel cultura
-d’espirito e uma formosura digna de seduzir outro homem que não fosse tão
-voluvel como D. João V.
-
-O contracto assignou-se em Vienna, a 24 de junho de 1708, estipulando-se
-que a rainha seria dotada com cem mil escudos ou corôas de ouro de quatro
-placas de Flandres pelo imperador seu irmão e pelo rei de Portugal com a
-casa e estado das suas antecessoras.[49]
-
-A 13 de setembro do mesmo anno, saiu D. Marianna d’Austria, de Rotterdam,
-chegando a Lisboa a 27 de outubro, sendo os regios esposos abençoados
-n’esse mesmo dia.
-
-Quarenta e dois annos viveu em companhia de D. João V (27 de outubro de
-1708—31 de julho de 1750) não nos apontando a Historia uma unica falta
-que lhe maculasse a honra e o lar, que seu marido de todo abandonára.
-Muito devota, entregava-se á piedade, seguindo como D. Maria Sophia o
-caminho da virtude que converte em flôres os espinhos do viver terreno.
-Pouca ou nenhuma intervenção teve nos negocios publicos, limitando-se á
-vida domestica, até que falleceu em Belem, aos 14 de agosto de 1754,
-tendo nascido em Lintz a 7 de setembro de 1683. Sepultaram-n’a no
-mosteiro de S. João Nepomuceno, por ella fundado, onde se conservou o seu
-corpo até 1855, em que foi trasladado para S. Vicente de Fóra.
-
-É um exemplo de virtude austera que ahi descança e que a Historia abençoa
-como mulher que soube conservar-se no posto que lhe marcou o sexo e que
-comprehendeu a digna missão que lhe impoz a sorte nos seus inexplicaveis
-destinos.
-
-Este pouco que ha a dizer d’ella, é muito para o pensador que se não
-limita a admirar os heroes cujo nome gigantesco assombra os humildes,
-cuja vida deslisou na sublime comprehensão da honestidade.
-
-A virtude que a enaltece, torna-a digna dos applausos dos posteros,
-erguendo-a do olvido e coroando-lhe a memoria da mais gloriosa corôa que
-a justiça do historiador póde depôr na fronte das que hoje são invocadas
-como exemplo do bem.
-
-
-
-
-D. Marianna Victoria de Bourbon
-
-
-Seguindo a politica de seus maiores, D. João V entendeu conveniente
-reatar os laços de antiga amizade com a visinha Hespanha; e como as
-allianças de familia se lhe figuravam mais vantajosas do que todos os
-tractados internacionaes, resolveu el-rei acceder aos desejos do monarcha
-castelhano, que manifestára ao nosso embaixador quanto anhelava que
-fossem seguidas, então, as reciprocas tradições dos dois paizes.[50]
-
-Assim se contractou a 7 de outubro de 1725 o casamento do principe D.
-José com a infanta D. Marianna Victoria de Bourbon, filha de Filippe V e
-de Izabel Farnése. A 25 de dezembro de 1727, o marquez d’Abrantes fazia o
-seu pedido em fórma á côrte de Madrid, que foi secundado por outro que a
-6 de janeiro do anno seguinte o ministro hespanhol, marquez de Belvases,
-dirigiu ao rei de Portugal, sollicitando a mão da princeza D. Maria
-Barbara de Bragança para o principe das Asturias, D. Fernando de Bourbon.
-Um anno depois (19 de janeiro de 1729) encontraram-se as duas familias
-nas margens do Caia, onde se procedeu á entrega das noivas dos herdeiros
-das corôas portugueza e castelhana.
-
-Como dote, recebeu D. Marianna Victoria quinhentos mil escudos do Sol,
-por parte d’el-rei seu pae; obrigando-se D. João V a dar-lhe para os seus
-alfinetes o valor correspondente a oitenta mil pesos e um rendimento
-annual que equivalesse a vinte mil escudos do Sol.[51] Foram estes os
-bens da princeza, até ao fallecimento de D. Marianna d’Austria, que teve
-logar depois de seu marido subir ao throno com o titulo de D. José I.
-
-O reinado d’este soberano foi um dos mais notaveis da Historia de
-Portugal. Teve medidas que mostram o talento do ministro que as decretou,
-e teve barbaros sacrificios, que deshonram a memoria do homem que os
-commetteu e do vingador que as iniciou. Os juizos dos historiadores
-são geralmente oppostos quanto ao merito do personagem que foi senhor
-do animo de D. José. De facto, a individualidade do marquez de Pombal,
-Sebastião José de Carvalho e Mello, o grande heroe da situação, é tão
-complexa, abrange phases tão diversas, que do lado dos seus sequazes
-e dos seus inimigos teem surgido louvores demasiados e depreciações
-excessivas. Fidalgo de provincia, o seu valimento assombrava a
-aristocracia, acostumada a dirigir os destinos do paiz; se alguma vez a
-nobreza provinciana se ousava sentar nos conselhos da corôa, o applauso
-aristocratico tinha referendado a concessão regia. Pombal, porém, subiu
-ao maior fastigio do poder, elevou-se á grandeza, sem que o _veredictum_
-dos cortezãos validasse a honraria. D’ahi toda a inveja das altas
-classes, que injustamente lhe chamavam plebeu, e todo o odio do ministro
-aos que se tinham por seus superiores.[52]
-
-Entretanto, Pombal não fundou uma escola democratica, porque saiu da
-craveira de fidalgo de provincia, ambicionando uma corôa de grande; e nos
-seus proprios casamentos, como nos de seus filhos, está bem demonstrado
-que o ministro não desadorava as proeminencias sociaes, e que talvez
-todo o seu odio selvagem não fosse só motivado pela emulação dos nobres,
-mas tambem pelo seu proprio ciume d’esses que se vangloriavam de ser os
-immediatos do soberano, seus companheiros na defeza do throno, de que
-tinham sido creadores e muitas vezes defensores nas suas mais perigosas
-crises. O exterminio dos Tavoras e do duque d’Aveiro, os capatazes da
-aristocracia, o foco d’onde se projectavam todas as iras contra elle,
-calcou-lhe a sepultura da arvore derribada pela sua erronea conducta
-desde o reinado anterior.
-
-Esta face do marquez de Pombal não é sympathica, nem attrahente; revela
-a baixeza e indica a velhacaria que elle possuiu no mais alto grau. O
-seguinte facto é bem significativo:
-
-Era o conde d’Obidos, D. Manuel d’Assis Mascarenhas, meirinho-mór do
-reino, brigadeiro de cavallaria, gentilhomem da real camara, muito
-privado de D. José, com quem se creára e com o qual sempre mantivera
-as melhores relações d’amisade.[53] Uma vez o conde advertiu el-rei
-de que não seria bom dar tanta confiança a Sebastião de Carvalho, que
-então principiava a dominar o animo do monarcha; este communicou-lhe
-em conversa o recado do fidalgo, o que foi sufficiente para o ministro
-se lhe ir ajoelhar aos pés, pedindo-lhe pelo amor de Deus que o não
-desviasse da intimidade do soberano... Depois, seguro o valimento por
-fortes laços, o conde d’Obidos foi preso nos carceres da Junqueira, o
-theatro dos horrores, das vinganças e dos infames despeitos do marquez de
-Pombal.
-
-O terramoto de Lisboa (1 de novembro de 1755) veiu de todo convencer
-D. José do alto valor do seu predilecto. De facto, maior prova se não
-poderia exigir para experiencia da energia de um homem. Derribada a
-cidade, devoradas as ruinas pelo incendio, estimulados os malfeitores
-pela confusão da necropole, no meio da anarchia que se apoderou no animo
-de todos, o espirito do ministro manteve-se sobranceiro e forte, arcando
-com a violencia da natureza. Era na verdade um genio descommunal! não
-admirava que destruisse o passado, que abalasse as velhas tradições, como
-a catastrophe destruira os edificios e abalára a terra, se, perante a
-hecatombe, foi elle o unico que lhe resistiu de frente. E Lisboa ergue-se
-alinhada, symetrica, magestosa e soberba, como rindo-se do que fôra e
-applaudindo o castigo da sua antiga depravação... Depois d’isto, para
-o rei já não existiam duvidas; adormeceu tranquillo, fazendo da corôa
-repouso e do manto agasalho para o vento do remorso, impellido pela voz
-do dever, se é que essa voz se atreveu a fazer-se alguma vez ouvir da
-consciencia d’um homem como foi D. José.
-
-O sceptro entregou-o ao ministro. D’ahi por diante, de rei só teve a sua
-assignatura nos diplomas, alvarás, decretos, cartas regias e despachos de
-mercês. De resto, foi uma creança para quem Pombal fazia Tapadas para seu
-divertimento... Mais nada a Historia póde dizer d’elle.
-
-A reforma da pauta de commercio (1755), a companhia dos vinhos do Alto
-Douro (1756), o Erario e o Collegio dos Nobres (1761), a reforma da
-Universidade (1772), e a abolição da escravatura no continente (1773)
-são as principaes medidas da dictadura pombalina. Quem escrever a
-Historia com a imparcialidade devida, tem de se curvar á sabedoria d’esta
-legislação e applaudir, se não em absoluto, pelo menos em parte, estes
-actos do ministro, embora reprove o seu procedimento cruel, selvagem
-mesmo, para com a nobreza e para com o clero, os dois potentados que lhe
-disputavam a influencia e o poderio. Este era tão grande no animo do
-monarcha, quanto diminuto no espirito da rainha.
-
-D. Marianna de Bourbon odiava-o e quando D. José se viu prostrado pela
-doença e lhe entregou (29 de dezembro de 1776) as redeas do governo, o
-poderio do ministro foi descendo gradualmente. Mandado retirar da camara
-do seu agonisante amo, dispensado das funcções de mordomo-mór, que
-exercia, o marquez politicamente succumbiu tambem quando D. José, cuja
-morte teve logar a 24 de fevereiro de 1777. Subindo ao throno D. Maria
-I, começaram as represalias contra Pombal, para o que a viuva influiu
-bastante perante sua filha. Conhecedor do novo terreno, o ministro
-demittiu-se, recebeu a commenda de S. Thiago de Lanhoso, e ordem de
-desterro para a terra que lhe servia de titulo, onde falleceu aos 8
-de maio de 1782. Este acto de D. Marianna Victoria de Bourbon foi o
-seu unico acto politico que a Historia nos aponta. Durante a sua vida,
-occupou-se unicamente na lide domestica e em conciliar as rixas entre
-Portugal e Hespanha, que deram motivo á guerra de 1762-63. No mais, foi
-alheia aos negocios do Estado, e só a perseguição ao marquez de Pombal é
-que poderá tornar o seu nome pouco sympathico para muitos, cujo idolo é
-o grande estadista do seculo XVIII.
-
-Notaremos que as duas pessoas que mais influiram no banimento do
-ministro, ambas tiveram um fim desgraçado.
-
-D. Marianna de Bourbon, inchada, hydropica, n’uma agonia cruciante,
-falleceu no paço d’Ajuda, em 15 de janeiro de 1781. D. Maria I, essa
-viu-se doida e fugitiva em estranhos hemispherios. Ignorante de que tinha
-vencido o primeiro soldado d’este seculo, a herdeira de D. José falleceu
-no Rio de Janeiro, aos 20 de março de 1816.
-
-Apesar de todas as circumstancias, esta soberana, no que diz respeito a
-Pombal, reconheceu os serviços do estadista, condemnando as demasias do
-vingador.
-
-Aquella mulher, attribulada por tanto crime, junto a tanto beneficio; a
-tanta compaixão pelos desgraçados e a tanto respeito pela memoria do pae,
-viu-se nas trevas da loucura que foram fataes a ella e a Portugal.
-
-Que D. Maria I tomou a serio o seu cargo, ninguem o contesta. As medidas
-uteis dos primeiros tempos do seu governo não mostram unicamente o tino
-dos ministros (conde da Barca e Martinho de Mello e Castro), mas tambem
-o são criterio e boa vontade da rainha, tão desgraçada, quão digna, pelo
-seu caracter, de mais prosperas venturas e de mais explendorosos fins.
-
- * * * * *
-
-Aqui termino o meu trabalho, não me querendo constituir em juiz de
-personagens contemporaneos, aggravar feridas ainda mal saradas,
-remexer muito episodio que já está olvidado. Comtudo, se algum dia,
-amansadas mais as furias partidarias, alguem julgar util o meu concurso,
-procurarei satisfazel-o, seguindo a mesma orientação—a imparcialidade e a
-independencia.
-
-O que está feito obedece a um impulso natural, a uma tendencia
-irresistivel para o estudo da Historia patria; não foi a politica,
-que puz de parte, nem o interesse, que é nullo. Se assim fosse e me
-visse obrigado a sacrificar o proprio sentir a inspirações alheias, a
-consciencia vergar-me-hia hoje sob o peso do remorso de ter prostituido a
-penna. Tal não aconteceu, e embora não conseguisse triumphos litterarios
-que nunca se acastellaram na minha phantasia, sinto-me satisfeito de ter
-exposto o que me domina o espirito, o fructo de longo estudo e de concisa
-meditação.
-
-
-
-
-NOTAS E DOCUMENTOS
-
-
-O fallecimento de D. Beatriz de Gusmão
-
-O Visconde de Figanière na sua obra _Memorias das Rainhas de Portugal_
-(D. Theresa—Santa Izabel) diz que a ultima noticia que existe d’esta
-soberana é a doação de 300 libras, á sua creada Maria Nunes, para lhe
-comprar uma herdade que por morte da dita Maria Nunes devia pertencer ão
-mosteiro d’Almoster. Como esta carta é datada de Torres de Vedras, 30 de
-julho de 1300, e a rainha falleceu oito dias depois, é licito suppor-se,
-como Figanière suppõe, que a morte teve logar na citada villa.
-
-Frei Antonio de Falla, da ordem dos pregadores, escreveu por mandado
-d’el-rei D. Sebastião, uma _Relaçam dos Reys e Raynhas que estam
-sepultados em Alcobaça_; n’ella se lê este notavel depoimento do mesmo
-frade, que diz respeito á segunda mulher d’Affonso III:
-
-«Eu a vi na Era mil e quinhentos e sessenta e nove, o primeiro dia
-d’Agosto, e jaz inteira como aquella hora que ali a sepultáram, jaz
-mirrada segundo parece, a roupa com que foi sepultada esta como aquelle
-dia que ali a puzeram, ao menos o lançol, que a colcha que tem debaixo
-do lançol estava algum tanto damnificada, e ja pode ser que o fosse ao
-tempo que ali a lançaram; como quer que seja, nam esta tão inteira,
-e fresca como o lançol; jaz enfeitada, e a cabeça apertada; tem huns
-cabellos castanhos que parece que foram formosos, mostra que foram
-cortados estando doente, porque estam em huma parte mais compridos
-que na outra, e estam mal cortados; tem hum lenço na cabeça sobre os
-cabellos assaz nouo; tem calçadas humas çapatas pretas apantufadas,
-como naquella hora que lhas calçaram, do pé ainda estam quasi justos ao
-menos do comprimento; finalmente ella parece ser reuerenda mulher em seu
-tempo. Algus dizem que ella tinha hum rabo, e que vinha por parte da may,
-de huma casta que em Castella naciam com rabos. Dizem que S. Bernardo
-lhe tirou este rabo, e mostrão hum manto que ella lhe deu por isso. O
-manto eu o vi, mas se foi dado por isso, ou nam, nam o acho escrito, nem
-menos que ella tivesse rabo mais que affirmaremme pessoas lidas nestas
-historias, que o lêram, que se chamava a Raynha rabuda: ao menos ella
-agora nam tem sinal disto, porque não faltou fazer sobre isso diligencias
-para saber a verdade disto. E desta maneira que tenho escripto jaz
-esperando sêr chamada. Prazerá ao Senhor que seja para gloria sua, porque
-esta Rainha fez n’este Reino muito boas obras, e teue fama de mui santa,
-e deuota, e affeiçoada á Religiam Christã.»
-
-Fr. Francisco Brandão na _Monarchia Lusitana_ e Figanière na obra
-acima citada, concordam que a origem d’esta lenda provêm da rainha ter
-introduzido em Portugal a moda das cotas caudatas, ou de rabo.
-
-Unicamente pelo comico da crença que se não pode chamar popular, pois
-chegou a convencer os proprios reis, trasladamos para aqui o texto do
-padre examinador do cadaver de D. Beatriz, quando D. Sebastião, seu nono
-neto, enthusiasmado e possuido da gloria que o perdeu, andou pelo reino
-contemplando os restos mortaes dos seus antecessores.
-
-
-Arrhas de D. Constança
-
-«Dom Affonso pela graça de Deos Rey de Portugal e do Algarve a quantos
-esta carta virem Faço saber que eu querendo attendêr cumprir, e guardar
-aquello, que ante mim, e Dom Joam filho do Infante Dom Manoel he posto,
-e outorgado, e firmado em rezom do casamento de Infante Dom Pedro meu
-filho, e de Donna Constança filha desse Dom Joam, dó, e assino a essa
-Donna Constança a Cidade de Vizeu e Monte mayor o novo e Alanquer com
-todas sas Aldeas, e termos, rendas, jurdiçõens, direitos, e pertenças
-que as aja e pessua essa Donna Constança por sas arras, e donadio bem,
-e compridamente em toda sa vida asim como as melhor ouveram as Raynhas
-de Portugal e tiro de mim a posse que ei das dittas Cidades, e Villas,
-termos, e couzas sobreditas, e ponhoa na dita Donna Constança, para as
-aver, e possuir livremente no dito tempo como dito he, e demais conhosco
-e affirmo que a posse e tença que ora hei das ditas Cidades e Villas e
-couzas sobreditas que os ei e tenho em nome da ditta Donna Constança e
-por ella como uzofructuario até que ella per si ou per outrem filhe ou
-mande filhar a posse corporal da dita Cidade, Villas, e termos, e couzas
-sobredictas em testimonio desto mandei dar áa dita Donna Constança esta
-minha carta aberta, e sellada do meu sello. Dante em Lisboa sette dias de
-julho ElRey o mandou Pero Esteves a fez era de mil e trezentos e settenta
-e outo annos ElRey o vio.» (Tomo 1.ᵒ das _Provas da Hist. genealogica da
-Casa Real_, pag. 285.)[54]
-
-O tumulo de D. Constança foi profanado, não existindo hoje as suas
-cinzas. O sarcophago encontra-se no Museu Archeologico de Lisboa,
-estabelecido no Convento do Carmo, obra do Condestavel D. Nuno Alvares
-Pereira.
-
-É digna de notar-se a sorte das duas mulheres de D. Pedro I; D.
-Constança, violado o sepulchro, nem lhe escaparam as cinzas á avidez
-dos profanos; Ignez de Castro, coroada depois de morta, repousando
-tranquillamente n’um mausoleu que photographava a grandeza do amor
-do seu principe, tambem padeceu em 1810 as consequencias ferozes dos
-vandalos do seculo XIX. Triste sorte a das mulheres de Pedro I!...
-
-
-Dote de D. Filippa e de D. Leonor d’Aragão
-
-Extrahimos para aqui uma parte do Contracto do casamento d’el-rei D.
-Duarte, que diz respeito á casa e estado de D. Leonor d’Aragão.
-
-«Item porq̃ em hu dos Capitulos de suso ditos ja segundo dito he, antre
-as ditas partes firmadas, se contem q̃ da dita Camera, q̃ tinha a
-Senhora Rainha D. Felipa, q̃ são as Villas de Alamquer, Cintra, Obidos,
-Alvayazere, Torres Novas, Torres Vedras e outras quaesquer Villas e
-Lugares e erdamentos e rendas della, q̃ a dita Senhora Raynha tinha em
-Camera, sejão feitas duas partes pelo dito Senhor Rey de Portugal (D.
-João I), ou por quem elle mandar, e asim feitas, a dita Infante houvesse,
-e escolhese para si, qualquer parte dellas, qual ella mais queira e
-aquella parte q̃ ella escolhera, lhe seja dada em Camera e aquella aja
-e tenha tanto quanto Senhora Infante, e q̃ logo quando a Deus plazera,
-q̃ seja Raynha, q̃ per aquel mesmo feito, sem aver outra doaçom, nem
-provizom algua, ouvese inteiramente a dita Camera, q̃ avia e tinha a
-Senhora Raynha D. Fellipa e leve para si as rendas e molimentos, e
-proveitos della e admenistraçom della, de presente o dito Senhor Rey de
-Portugal faz a dita divisom em duas partes, convem a saber Torres Novas,
-e Torres Vedras e Alvayazere, por uma parte, e a outra parte Alamquer,
-Cintra e Obidos e a dita Senhora Infante toma e escolhe por sua parte as
-ditas Villas de Alamquer, Cintra e Obidos.»
-
- (Tomo II das _Provas da Historia Genealogica da Casa Real_, por
- D. Ant.ᵒ C. de Souza, pag. 523.)
-
-
-Contracto do casamento de D. Affonso V
-
-Dom Affonso etc. a quantos esta carta virem fazemos saber que confiando
-nós como por graça de Deus he celebrado matrimonio por palavras de
-presente segundo hordenaçam e mandamento da nossa madre a santa Igreja de
-Roma antre nos e a muy alta e muy excelente Princeza e muito esclarecida
-e muito virtuosa Senhora Raynha Dona Isabel minha muito amada e muito
-presada Esposa filha do illustre e magnifico Principe Infante Dom Pedro
-Duque de Coimbra e Senhor de monte mor nosso muyto amado e prezado padre
-e tyo curador e Regedor por nos em nossos Reynos e Senhorios, confirmando
-outro si como atee o prezente antre nos ella dita Senhora nunca foi feito
-algũ contracto sobre ou por razão do dito matrimonio porque ella fosse
-dotada de algũ dote que nos por ella ou outrem fosse dado ou promettido
-pera soportamento do carrego do dito matrimonio nem outro si fosse a
-ella dada provisão de alguas Terras ou villas que ouvesse por camera
-em sua vida nem outro si segurança de asentamento de certas rendas de
-dinheiros que ouvese em cada hũ anno em sua vida pera soportamento do
-seu Real estado, como todo esto sempre dantigamente ouverão as Rainhas
-que nos Tempos passados forão em estes Reynos nem porque outro si ajamos
-a ella promettidas alguas arras por honra de sua pessõa, no caso que o
-dito matrimonio aconteça sêr separado por fallecimento nosso, as quaes
-cousas per uzança geral guardada per todas as partes do mundo antre os
-Principes Cristãos de similhante estado specialmente em estes Reynos
-sempre forão costumados em similhante caso de se prometem de hua parte
-a outra, por ende querendo nos este provér como he rezãn considerando
-a cerca dello primeiramente o servisso de Deus y os muitos e grandes e
-extremados serviços que nos tempos passados com grande lealdade avemos
-recebido e ao presente recebemos em cada hũ dia, e ainda esperamos
-receber ao diante do dito Infante D. Pedro nosso Padre e Thio etc por
-conservação de nossa pessoa e exaltamento do nosso Real Estado, e bem a
-sy grande honra de nossos Reynos e Senhorios. Considerando outro si como
-a nosso Senhor Deus por sua santa mercê dotou a dita Senhora Rainha de
-muitas grandes e extremadas virtudes etc. por as quaes com grande rezão a
-devemos sobre todas sempre muy grandemente prezar e amar verdadeiramente
-de nosso proprio motu certa sciencia poder absolucto sem nos ella nem
-outrem em seu nome por sua parte esto requerer, louvamos, approvamos e
-confirmamos o dito matrimonio, asi antre nos e ella feito e celebrado
-por mandamento e dispensação de N. Senhor o Santo Padre Eugenio quarto,
-e este fazemos pelas razõens suso ditas e ainda pelos grandes dividos
-que entre nos e ella a Deus aprove serem, não embargantes de quaesquer
-Leys Imperiaes ou Ordenaçoens de nossos Reynos, ou qualquer uzança asi
-geral como special que a este em parte ou em todo seja contrario porque
-as rezoens suso ditas e cada hũa d’ellas nos constrangem naturalmente
-per o asi fazermos, e querendo outro si prover a ella dita Senhora
-Raynha acerca das terras e villas que as Raynhas d’estes Reynos nos
-tempos passados em ellas costumavam avêr por Cameras, por rezão de
-seus matrimonios e bem asy acerca do assentamento de certas rendas de
-dinheiro que por similhante guiza costumavam daver para soportamento de
-seus Reaes Estados e outorgamos queremos e mandamos que a dita Senhora
-Rainha haja por rezão do dito matrimonio em toda sua vida todolas terras
-e Villas que a Rainha D. Leonor minha muita amada e presada madre Senhora
-de louvada e gloriosa memoria, a que dê Deos o seu santo Paraiso ouve
-e pessuyo por causa do seu matrimonio depois que por a graça de Deos
-foi Rainha destos Reynos e em elles viveo as quaes Villas e terras nos
-queremos e mandamos que a dita Senhora Rainha haja em toda a sua vida
-em toda sua jurdição alta e baixa civel e crime méro mixto Imperio com
-todolos padroados das Igrejas que ha em as ditas terras que a nos de
-direito pertençem e bem asi todolas rendas e direitos Reaes, que as
-ditas Villas e terras renderẽ por qualquer guiza que seja e com todolas
-perogativas privilegios e graças e liberdades que a dita Senhora Raynha
-D. Leonor minha madre forão otrogadas em qualquer tempo do mundo e milhor
-se as ella milhor poder aver, e queremos que ella possa poer de sua mão
-em seu nome Ouvidor que ouça e desembargue todolos feitos das ditas
-Villas asi crimes como civeis, e bem asi tabelliaens os quaes se chamẽ
-seus e por sua auctoridade façam todolas escrituras pruvicas que a seus
-officios pertenção as quaes cousas o dito Ouvidor e tabeliaens faram asi
-e tão compridamente como costumarão de fazer os Ouvidores e tabelliaens
-das outras Raynhas que foram nos tempos passados em estes Reynos,
-specialmente no tempo da dita Senhora Raynha minha madre, depois que
-deles foi Raynha e bem asi queremos que posa hi poer de sua mão todolos
-outros Officiaes que ella entender que são compridouros para requerer
-arecadar todolos direitos que em elas aver posa, asim tão cumpridamente
-como nos o fazemos e fazer podemos nas nossas terras que se por nós e em
-nosso nome correm e quanto he ao asentamento e certas rendas de dinheiro
-que as Rainhas nos tempos passados acostumaram aver em estes Regnos pera
-suportamento de seus Reaes estados otorgamos queremos e mandamos, que a
-dita Senhora Rainha aja de nos, por acentamento em cada hu anno por toda
-sua vida hu milhão cento sesenta e cinco mil reis da moeda que agora
-corre comvem a saber, de trinta e cinco livras o real, por quanto fomos
-certo que o milhão e quinze mil reaes avia em asentamento a dita Senhora
-Rainha minha Madre por causa do seu Cazamento, e o cento e cincoenta mil
-lhe acrecentamos para seus vestidos de pano douro e de seda que a dita
-Senhora Raynha minha madre avia do thesouro do Senhor Rey meu Padre, os
-quaes dinheiros lhe já temos asentados dentro em esta Cidade na ciza
-dos panos, e querendo outro si prover a dita Senhora Raynha acerca das
-arras que similhantes Princezas e Senhoras em tal caso costumam de avêr
-por honra de suas pessoas, no caso de separação de seus matrimonios,
-outorgamos e queremos e mandamos que separado o dito matrimonio, por
-seu falecimento da vida d’este mundo, em tal caso seus herdeiros ajam
-de nos ou de nossos sucessores segundo o caso acontecêr, por arras e
-em nome de arras, vinte mil escudos douro da moeda ora corrente em
-estes nossos Reynos das quaes ela podera despuer a todo o tempo e como
-lhe aprouger e estes vinte mil escudos douro, queremos e mandamos que
-lhe sejam pagos pelas rendas das ditas Villas e acentamento que lhe
-asi ja temos posto, e asentado como dito he, as quaes rendas todas e
-acentamentos por falecimento da dita Senhora Rainha os officiaes que
-por elo foram postos averam asi tão cumpridamente como a dita Senhora
-Rainha em sua vida over e não serão dezapoderados delas por algu caso
-que acontecer posa athe serem cumpridamente pagados os ditos vinte mil
-escudos pera os entregarem a seus testamenteiros, ou a quem ela pera
-elo ordenar, pera os despender segundo a ordenação que ela dita Senhora
-Raynha em sua vida pera elo ordenar e despozer a toda sua vontade, as
-quaes couzas todas e cada hua delas prometemos e juramos por nossa Fee
-Real como Rey Catholico, por nos e por todos nossos successores que ao
-diante em qualquer tempo forem, de lhes guardar cumprir e manter, e de
-feito realmente cumpriremos e guardaremos e faremos conter e guardar, bem
-fiel e verdadeiramente a todo nosso cumprido poder cesante toda a arte,
-e mao engano e não daremos favor ajuda nem conselho a alguma pesoa de
-qualquer estado e condição preeminencia que seja, ainda que a nos seja
-muito conjunta em qualquer grao de devido e parentesco que ser posa, pera
-contra elo vir em parte ou em todo, de feito nem de direito em juizo nem
-fora delle, em puvrico nem escondido daqui em diante pera todo o sempre
-ja mais por algua cousa ou rezom, pasada presente ou futura de qualquer
-natura calidade ou condiçã que seja ou ser posa ainda que tal seja, que
-ao presente pelo entendimento dos homens não posa ser alcançada porque
-nosa tenção e vontade inteiramente he, que todalas ditas cousas lhe sejã
-cumpridas e guardadas em todo o tempo, asi tão cumpridamente como em
-esta nosa Carta he conthéudo, e prometemos ainda e juramos em nosa Fee,
-que nunca empetraremos nem pediremos beneficio de restituição outorgado
-per direito aos meores de vinte e cinco annos, pera desfazer alguns
-promitimentos, porque depois ao diante em algu tempo se achem lezos ou
-damnificados nem outro algu qualquer privilegio ou beneficio geral ou
-especial, outorgado aos menóres de vinte e cinco anos, ou aos Rex como
-pessoas puvricas e em direito priviligiadas porque nós de noso propio
-moto certa ciencia e poder asim ordinario como absolucto renunciamos
-todos os ditos privilegios e beneficio, e queremos e outorgamos e
-mandamos por nos e por todolos nosos sucessores, que ao diante forem,
-que nos nem eles nunca uzaremos de taes beneficios privilegios asi por
-direito outorgados ao menor de vinte e cinco annos, ou ao Rey ou como
-Rey, porque as couzas todas suso ditas e cada hua delas ja mais em algu
-tempo posão ser quebrantadas anuladas ou conronpidas ante as faremos
-sempre, todos manter conprir e guardar asi tão conpridamente como suso
-dito he declarado, e por maior firmeza de todo o suso dito, de noso moto
-proprio e certa ciencia, e poder absolucto asi como Rey suprimos qualquer
-falecimento de solemnidade de feito ou de direito asi geral como especial
-que em esta nosa carta faleça, por cujo falecimento em algu tempo ella
-posa ser retrautada casada e irritada, ou anichilada porque queremos e
-mandamos como dito he que tal falecimento ou falecimentos nem enbargantes
-esta nosa Carta com todalas cousas en ela contheudas, sempre em todo o
-tempo ja mais ser firme rata e valiosa asi como se os ditos falecimentos,
-ou cada hu deles em ela não ouvese e em testemunho deste lhe mandamos dar
-esta nosa Carta firmada de nosso verdadeiro sinal e aselada com noso
-selo de chumbo dante em a mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa seis
-dias de mayo João Gonçalves a fez anno do Senhor Jesu Christo 1447 annos.
-
- (Tomo 2.ᵒ das _Provas da Historia Genealogica_, pag 48; o
- original está na Torre do Tombo, gaveta 17, maço 1, n.ᵒ 12.)
-
-
-A descendencia do Infante D. Pedro
-
-Depois do desastre d’Alfarrobeira, a 10 de dezembro de 1449, D. Affonso
-V, dominado pelos infames promotores d’aquella tragedia, declarou
-criminosa a memoria de seu tio. Este acto, suggerido pelos ambiciosos
-que invejavam os bens do duque de Coimbra, explica-se pela necessidade
-de macular a memoria do Infante, para ser licito o confisco de sua casa,
-que, no caso contrario, passaria aos herdeiros, seus legitimos filhos.
-
-D. Antonio Caetano de Souza na _Historia Genealogica_ (tomo II, cap.
-II, pag. 76-77) faz a verdadeira apotheose de D. Pedro, condemnando
-asperamente o procedimento dos seus inimigos, _que não nomeia_.
-
-Quem conhece o escriptor cortezão de D. João V, deve ter em conta este
-facto, em vista do duque de Bragança e seu filho o conde d’Ourem terem
-sido promotores da catastrophe. Para mostrar a vehemencia, embora
-cortezã, do chronista, trasladamos um trecho da sua critica: «_chegando
-a tanto o odio dos mesmos, que lhe erão obrigados,[55] que aconselharão
-El-Rey o privasse da sepultura, que El-Rey seu pay lhe mandára lavrar
-no Mosteiro da Batalha; e assim sem distincção foy sepultado na Igreja
-d’Alverca como se fôra hum dos miseraveis, que perecerão n’aquelle dia,
-parecendo-lhes que d’este modo escurecião a sua memoria, ficando na das
-gentes abominada a de taes Conselheiros._»
-
-Não se pode dizer mais, quando o crime repugna e o decôro servil obriga
-o historiador a ser compassivo e benevolo. Bom seria que D. João V
-recommendasse ao erudito Souza, a verdadeira justiça, de que acolhesse
-a vangloria da mal disfarçada lisonja, que mais tarde, á luz da critica
-sensata e imparcial, desappareceria como o fumo afugentado pelo vento
-rijo da verdade. Esta é sempre a mesma, para conforto dos opprimidos das
-ambições, das invejas e vinganças torpes. Póde, como o sol offuscar-se um
-tanto, mas logo em seguida, desfeita a nuvem, vem brilhar n’um ceo azul
-e tranquillo. Deus, nos seus designios insondaveis, determinou que os
-homens, como D. Pedro, Duarte Pacheco, Affonso d’Albuquerque e Luiz de
-Camões, tivessem durante a vida o rigor da tormenta da escoria social.
-Louvado seja Elle! Quão maior é a tempestade, maior é a força da nau
-que lhe resiste. Os grandes vultos são como as penedias dos litoraes;
-açoutadas pela furia das ondas, afogadas pelo mar buliçoso, ao descer da
-maré, ao serenar dos elementos, apparecem brilhantes á luz do sol, com o
-seu tapete de algas e com os seus lagos salinos, provas evidentes da sua
-resistencia!
-
-Na mesma _Historia Genealogica_ vem enumerados os filhos do Infante, os
-seus feitos e o seu fim; mais accentuadamente, o sr. Oliveira Martins,
-na sua excellente obra _Os Filhos de D. João I_ (cap. XII, pag. 347-358)
-descreve a generosa prole, uma das mais conspicuas da dynastia d’Aviz.
-
-Notarei que de todos os seus filhos, quem teve descendencia foi D.
-Izabel, esposa de D. Affonso V e que logo na segunda geração, a linha
-do Infante só foi continuada pela bastardia. D. João II, seu neto, teve
-da rainha D. Leonor, sua mulher, um filho, D. Affonso, que morreu d’um
-desastre e não deixou successão (veja-se pagina 67); com este infausto
-acontecimento extinguiu-se a prole legitima de D. Pedro, que foi
-continuada por D. Jorge, bastardo de D. João II, que recebeu o titulo de
-duque de Coimbra, em memoria de seu illustre bisavô. Casou o principe D.
-Jorge com D. Brites de Vilhena, filha do senhor D. Alvaro, irmão do duque
-de Bragança D. Fernando II, e progenitor da casa de Cadaval.[56]
-
-D. Brites era bisneta do duque D. Affonso, o protogonista d’Alfarrobeira;
-e D. Jorge, bisneto de D. Pedro, a pobre victima immolada ás ambições do
-irmão!... A grande arvore bragantina começava a dominar com suas raizes,
-não só o proprio throno que depois foi seu; mas tambem a familia e o
-sangue generoso do unico homem que ousára impedir os seus vôos quando se
-alargavam para além dos limites da equidade e da justiça.
-
-
-Affonso d’Albuquerque
-
-Nasceu este grande homem, em 1453, na Quinta do Paraiso, entre Alhandra
-e Villa Franca. Educou-se na côrte de D. Affonso V, que em 1480 o mandou
-na esquadra contra os turcos, em soccorro do Rei de Napoles. Em 1489, D.
-João II, de quem era estribeiro-mór, encarregou-o de defender a fortaleza
-de Graciosa, junto a Larache. Em 1503 foi a primeira vez á India, a bordo
-da nau _S. Thiago_, soffrendo grandes tormentas durante a viagem. A 25 de
-janeiro de 1504 sahiu de Cananor, chegando a Lisboa, nos fins de julho do
-mesmo anno. El-Rei D. Manuel, sciente do seu alto merito encarregou-o em
-1506 de tomar Ormuz; seguiu Albuquerque na armada de Tristão da Cunha,
-levando comsigo a nomeação de successor a D. Francisco d’Almeida.
-
-Grande espirito, possuidor de um talento do mais fino quilate, diplomata
-e guerreiro, soube levantar o nome portuguez nas remotas paragens, onde a
-vontade regia o tinha collocado. Comprehendeu o genio oriental, tratando
-de o domar não só pela força das armas, mas tambem pelas exterioridades
-do fausto; assim em Goa tratava-se como principe, habitando o palacio
-do Sabayo e comendo ao som de musicas, acompanhado pelos fidalgos e
-por córos de bailadeiras, vestidas com luxo asiatico, que no terreiro
-dançavam, durante as refeições.
-
-Para nada lhe faltar na grandeza, teve a sorte commum dos maiores
-vultos de toda a humanidade: a perseguição cruel dos invejosos, dos
-pobres miseraveis que julgam poder desfazer o que a Providencia creou!
-Albuquerque foi calumniado e perseguido, destinguindo-se n’este infame
-empenho Diogo Mendes de Vasconcellos e Lopo Soares d’Albergaria, que D.
-Manuel, na mesma occasião de demittir o heroe, nomeava o primeiro capitão
-de Cochim e o segundo governador da India. Albuquerque soube isto ao
-entrar a barra de Goa, vindo de Ormuz, a bordo da _Flor do Mar_. Estava
-doente e os padecimentos agravaram-se-lhe com a ingrata nova.
-
-Não queremos nós descrever a sua morte, trasladando para aqui o que
-d’ella refere o seu proprio filho, nos _Commentarios_:
-
-«Affonso d’Albuquerque como soube que era chegado outro governador, e
-seus inimigos muito favorecidos d’el-rei, alevantou as mãos e deu graças
-a Nosso Senhor e disse:
-
-«—Mal com os homens por amor d’ElRei e mal com ElRei por amor dos homens,
-bom é acabar.
-
-«Dito isto, mandou tomar aos mouros todas as cartas que levavam para os
-mercadores d’Ormuz, em que se dizia, que se não tinham dado a fortaleza
-a Affonso d’Albuquerque, que lh’a não dessem, porque era vindo outro
-governador, que faria tudo o que elles quizessem.
-
-«E porque estas novas não dessem torvação á fortaleza que se ficava
-acabando, mandou-as Affonso d’Albuquerque queimar todas, e despediu os
-mouros que se fossem e ficou só com o secretario. E tendo já feito seu
-testamento, em que se mandava enterrar na sua capella, que tinha feito em
-Goa, que elle ganhára aos mouros, fez uma cédula, em que mandou que os
-seus ossos, depois da carne gastada, se trouxessem a Portugal e outras
-palavras que houve por escusado escrever. E acabado isto escreveu uma
-carta para D. Manuel, que dizia assim:
-
-«—Senhor, quando esta escrevo a Vossa Alteza estou com um soluço que é
-signal de morte. N’esses Reinos tenho um filho: peço a Vossa Alteza que
-m’o faça grande, como meus serviços merecem, que lhe tenho feito com
-minha serviçal condição; porque a elle mando sobre pena de minha benção,
-que vol-os requeira. E quanto ás cousas da India não digo nada, porque
-ella fallará por si e por mim.»
-
-«E n’este tempo estava já tão fraco, que se nem podia ter em pé, pedindo
-sempre a Nosso Senhor que o levasse a Goa e alli fizesse d’elle o que
-fosse mais seu serviço. E sendo tres ou quatro leguas da barra, mandou
-que lhe fossem chamar Fr. Domingos, vigario geral, e mestre Affonso,
-physico. E porque, com grande fraqueza que tinha, não comia nada, mandou
-que lhe trouxessem um pouco de vinho vermelho, do que viera aquelle anno
-de Portugal. Partido o bergantim para Goa, foi a nau surgir na barra,
-sabbado de noute, quinze dias do mez de dezembro. Quando disseram a
-Affonso d’Albuquerque que estava alli, alevantou as mãos e deu muitas
-graças a Nosso Senhor de lhe fazer aquella mercê, que elle tanto
-desejava. E esteve assim toda aquella noite (com o vigario geral, que
-era já vindo de terra, e Pero Dalpoem, secretario da India, que elle
-deixou por seu testamento) abraçado com o crucifixo; e fallando sempre
-disse ao vigario geral que era seu confessor:—que lhe rezasse a paixão
-de Nosso Senhor, feita por S. João, de que fora sempre muito devoto,
-porque n’ella e n’aquella Cruz, que era similhante da em que Nosso Senhor
-padecera, e nas suas Chagas levava toda a esperança da sua salvação. E
-mandou que lhe vestissem o habito de S. Thiago (de que era commendador)
-para morrer n’elle; e ao domingo, uma hora antes da manhã, deu a alma a
-Deus. E alli acabaram todos os seus trabalhos, sem vêr nenhuma satisfação
-d’elles.»
-
-Esta simples descripção encantou-nos desde a meninice; por essa
-circumstancia demos a palavra ao chronista dos feitos do grande
-portuguez. Foi elle o seu filho, Braz de Albuquerque, a quem D. Manuel,
-querendo recompensar os feitos do heroe, ordenou que lhe tomasse o nome.
-
-Baseado nos documentos que seu pae enviava a El-Rei de Portugal, Affonso
-d’Albuquerque escreveu os _Commentarios_, obra chamada pelo Dr. Antonio
-Ferreira, _uma nua e chã pintura_. Hoje ignora-se a certa paragem dos
-restos do primeiro vulto da nossa epopeia ultramarina. Este facto
-demonstra o vandalismo brutal dos frades do convento da Graça, em Lisboa,
-onde o corpo estava depositado, na capella-mór da igreja, em sepultura
-particular. Como alguem invejava o local e deu mais avultada quantia, os
-frades intentaram uma demanda com os herdeiros d’Albuquerque, sobre a
-posse do tumulo. A estupidez (este é o termo) das justiças do seculo XVII
-validaram a pretenção dos Gracianos e os ossos de Affonso d’Albuquerque
-foram trasladados para o carneiro do Capitulo, não se sabendo se em
-caixão documentado, ou confundidos á solta com as numerosas ossadas ahi
-depositadas. Bom é que se estude este assumpto e que se procurem os
-restos mortaes d’um dos maiores homens não só de Portugal, mas tambem de
-todo o mundo civilisado.
-
- * * * * *
-
-A Affonso d’Albuquerque succedeu, como dissemos, Lopo Soares
-d’Albergaria, que tomou a hombros o aniquilar toda a grandiosa obra
-do seu antecessor. Era antipathico, orgulhoso e cruel. Os povos de
-Goa, emquanto o corpo d’Albuquerque esteve na capella de Nossa Senhora
-da Serra, vinham junto d’elle offerecer-lhe donativos e supplicar-lhe
-protecção para as aleivosias dos portuguezes.
-
-
-A Infanta D. Maria
-
-Nasceu esta princeza, em Lisboa, aos 8 de junho de 1521, sendo filha
-d’El-Rei D. Manuel e de sua terceira esposa D. Leonor d’Austria. Tinha
-apenas dois annos quando sua mãe, já viuva, saiu de Portugal (maio
-de 1523) para junto de seu irmão o imperador Carlos V; estava só e
-desamparada, entregue unicamente aos cuidados de D. Joanna Blasfet,
-camareira-mór, que lhe proporcionou um arremedo dos cuidados maternaes,
-até que D. João III veiu a desposar a princeza D. Catharina, irmã de sua
-madrasta. A nova rainha tomou conta da educação de D. Maria, a qual como
-ia crescendo ia patenteando todo o seu amor pelas lettras, sciencias e
-artes.
-
-Os seus paços sumptuosissimos converteram-se em academia onde se juntavam
-os artistas e litteratos, attrahidos não só pelo culto scientifico mas
-tambem pela belleza imponente e pela figura magestosa da Augusta Senhora
-que sabia conciliar a sua dignidade real e os seus deveres de mulher com
-o tracto affavel para com todos, com a protecção e a estima ao abandonado
-da fortuna, que tivesse talento como apanagio da Divindade. Viveu a
-infanta no auge das nossas glorias litterarias, como sol que a todos
-enthusiasmava; deu vida á mulher, acolhendo as Sigéas (Anna e Luiza),
-Publia Hortensia, Paula Vicente (filha de Gil Vicente), Joanna Vaz, e
-tantas outras que seguiram a derrota sublime do genio portuguez.
-
-Depois de ter sido requestada por varios principes da Europa; casamentos
-estes que a politica e a avareza de seu irmão D. João III lhe veiu a
-tolher, falleceu a Infanta D. Maria, aos 10 d’outubro de 1577, tres annos
-antes da morte do grande Luiz de Camões que lhe consagrou o seguinte
-soneto:
-
- Que levas, cruel morte? Um claro dia;
- A que horas o tomaste? Amanhecendo;
- Entendes o que levas? Não entendo;
- Pois quem t’o fez levar? Quem o entendia.
-
- Seu corpo quem o goza? A terra fria;
- Como ficou sua luz? Anoitecendo;
- Lusitania que diz? Fica dizendo,
- «Emfim não mereci Dona Maria.»
-
- Mataste quem a viu? Ja morto estava;
- Que diz o seu amôr? Fallar não ousa;
- E quem o faz calar? Minha vontade;
-
- Na morte que ficou? Saudade brava;
- Que fica lá que vêr? Nenhuma coisa,
- Mas fica que chorar sua beldade.
-
-
-Concerto entre D. Leonor d’Austria e sua irmã D. Catharina, sobre os bens
-da Casa das Rainhas.
-
-Dom Joam per graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves d’aquem
-e d’alem mar em Africa Senhor de Guiné e da Conquista, navegaçãm,
-commercio da Ethiopia, Arabia, Persia e da India etc. A quantos esta
-minha carta virem Faço saber que entre as cousas que foram capituladas
-e assentadas no contracto do casamento de El-Rey meu Senhor e padre que
-santa gloria haja com a Raynha Leonor sua mulher minha Senhora madre lhe
-foi outorgado que o dito Senhor Rei meu padre lhe desse as Terras que
-tinha a Senhora Raynha Dona Leonor sua irmã, minha tia que santa gloria
-haja se vagassem logo em vagando com todo aquello que ella das ditas
-terras entam possuya como compridamente he contheudo no dito contracto
-de seu casamento e por fallecimento da dita Senhora Raynha minha tia
-vieram á dita Senhora Raynha D. Leonor minha madre a Cidade de Silves,
-Alvôr e Villas de Faram no Reyno do Algarve e as Villas de Obbidos,
-Alamquer, Sintra e Aldea Gallega e Aldeia Gavinha com todos seus termos,
-terras, direitos, rendas, fóros, tributos e pertenças e com todas as
-suas jurdições civis e crimes méro mixto Império e com os Padroados das
-Igrejas e dadas de tabelliaens e de todos os outros officios que eram
-da dada e provimento da dita Senhora Raynha Dona Leonor minha tia e por
-quanto hora com minha autoridade e consentimento a dita Senhora Raynha
-Dona Leonor minha madre se concertou com a Raynha minha sobre todas
-muito amada e presada molher, sua Irmãa para lhe leixar e virem a ella
-a dita Cidade de Silves e Villas e terras, rendas direitos jurdições
-dadas d’officios Padroados das Igrejas e todas as outras cousas que
-ella tinha e de direito por bem do dito seu contracto lhe pertencião
-e como tudo tinha havia e possuia a dita Senhora Raynha Dona Leonor
-minha tia por certa satisfaçam e paga que por isso lhe faz nos quatro
-contos de maravedis que ella tinha em Castella do Emperador seu Irmão
-segundo compridamente he contheudo e declarado no contracto de troca e
-escambo e permudaçam que antre ellas foi feito com meu consentimento e
-do dito Emperador seu Irmão pello que a elle nisso tocava fazer de cujas
-provisões os treslados são postos de verbo a verbo no dito concerto
-e contracto a Raynha minha sobre todas muito amada e presada molher
-me pedio por mercê que lhe mandasse dar minha carta de doaçam e mercê
-da dita Cidade Villas terras rendas e de todas as outras cousas que
-á dita Raynha sua irmãa pertencem e havia davêr e visto por mim seu
-requerimento pello muy grande amor que lhe tenho e desejo de em todas
-suas cousas lhe comprazer, visto o dito contracto e concerto feito antre
-ella e a dita Raynha Dona Leanor sua Irmãa minha Senhora madre tenho
-por bem e lhe Faço pura e inrevogavel doação e graça para em todos os
-dias da sua vida da dita Cidade de Silves, Alvôr, Villas de Faram,
-Obbidos, Alamquer, Sintra, Aldeia Gallega e Aldeia Gavinha com todos
-os seus termos terras direitos, fóros, e tributos e pertenças e com as
-Alcayderias móres dos Castellos d’ellas, rendas e direitos que a ellas
-pertencem e com todas as suas jurisdições civeis e crimes mero mixto
-Império, resalvando para mim correição e alçada e com os Padroados das
-Igrejas e dadas dos tabelliaens e de todos os outros officios que na
-dita Cidade e Villas dava e de que provia a Senhora Raynha Dona Leonor
-minha tia e com todas as outras cousas de qualquer genero e callidade
-que sejam que ella nellas tinha havia e pessuya e melhor se ella com
-direiro o melhor poder ter e haver e dello uzar e como todo de direito
-pertence á dita Raynha Dona Leanôr minha Senhora e madre por bem do dito
-seu contracto de casamento. Porem mando aos meus Corregedores Contadores
-Almoxorifes Recebedores Juizes justiças officiaes e pessoas da dita
-Cidade Villas e terras e aos Fidalgos, Cavalleiros, homens bons e povo
-d’ellas e a quaesquer outros officiaes e pessoas a que esta minha carta
-fôr mostrada e o conhecimento della pertencêr que dêm á dita Raynha minha
-molher e a seu certo recado a posse da dita Cidade de Silves Alvôr e
-Villas de Faram Obbidos Alamquer Sintra e Aldeagallega e Aldea Gavinha
-com todos seus termos terras rendas direitos fóros tributos e pertenças
-Alcayderias mores e com todas suas jurisdições civeis e crimes mero e
-mixto Imperio resalvando para mim somente a correição e Alçada e com os
-Padroados da Igreja dadas de Tabelliaens e de todos os outros officios
-que dava e provia a dita Senhora Raynha Dona Leonor minha tia e de todas
-as outras cousas que ella nellas tinha havia recadava e possuya e lhe
-leixem todo haver recadar e pessuir e dello usar por sy e por seus
-officiaes e pessõas que para ello ordenar e fazer como em cousa sua
-propria porque eu lhe faço assy de tudo doaçam e graça em sua vida como
-dito he sem duvida nem embargo algum que a ello lhe seja posto porque
-assy he minha mercê e mando ãos dittos meus Contadores que esta carta
-registem no livro dos proprios das comarcas para sempre se saber a forma
-desta doação a qual mando assy mesmo aos Juizes da dita Cidade e Villas
-que façam tresladar nos livros das Vereações Dada em a Cidade de Lisboa
-a vinte e nove dias de Outubro Bartholomeu Fernandes a fez Anno de nosso
-Senhor Jesus Christo de mil quinhentos vinte oito annos.
-
- (Tomo 2.ᵒ das _Provas da Historia Genealogica da Casa Real_,
- pagina 425). A doação que D. João III fez a sua mulher, de toda
- a Casa das Rainhas, copiamol-a na Torre do Tombo, collecção de
- S. Vicente, vol. XX, fl.ᵃˢ 204, estando encorporada na doação
- de D. Luiza de Gusmão, que adeante publicamos. Pouca differença
- faz do Concerto, existindo, ainda assim, alguma troca de
- palavras e data posterior.
-
-
-Doação aa sñra Raynha D. Luiza da Jurisdição de suas terras, e da Caza de
-sua fazenda e governo e despacho della.
-
-Dom Joam por graça de Ds̃ Rey de Portugal e dos Algarves daquem e dalem
-mar, em Africa sñor da Guiné e da Conquista navegação comercio da Etiopia
-Arabia Persia e da India etc. Faço saber aos q̃ esta minha carta virem
-que a Raynha D. Luiza minha sobre todas muito amada e prezada molher me
-enviou a prezentar as copias de hũa carta de doação e confirmação q̃
-pello sñor Rey Dom Joam o 3.ᵒ foi outorgada á sñra Raynha D. Caterina
-sua molher das Terras chamada da Raynha com todas suas rendas direitos
-reaes, officios, Padroados, Alcayderias móres, jurisdições Ouvidor e
-Juizes de suas terras e mais faculdades passada no anno de mil quinhentos
-e vinte e nove, e de hũa provisão passada no anno de 1550 da jurisdição
-governo e administração de sua faz.ᵈᵃ Vedor Ouvidor e officiaes da Casa
-e despacho della, e sua Chancelleria, a que vinham as appellações e
-aggravos dos Contadores e Juizes dos direitos reaes, das quaes o theor é
-o seguinte:—Dom João por graça de Ds̃ Rey de Portugal e dos Algarves etc.
-
-[Sidenote: Doação de D. João III, da Caza das Rainhas a sua mulher D.
-Catharina d’Austria.]
-
-A todos quantos esta minha carta virem faço saber que entre as cousas
-que foram capituladas e assentadas no contracto do casamento d’ElRey
-meu sñor e Padre que santa gloria aja e a Raynha D. Leanor sua molher
-minha sñra e madre lhe foi outorgado que o dito sñor Rey meu padre sñor
-d’estas terras que tinha a sñra Raynha D. Leanor sua irmã minha tia q̃
-s.ᵗᵃ gloria aja se vagassem, logo em vagando com todo aquello q̃ ella
-das ditas terras entam possuia, como compridam.ᵗᵉ era conteudo no dito
-cõtrato de casamᵗᵒ que por falecimᵗᵒ da dita sñra Raynha minha tia vierão
-á dita sñra Raynha D. Leanor minha madre, a Cidade de Silves, Alvôr,
-villas de Faram no Reyno do Algarve, e as villas de Obidos Alanquer
-Sintra Aldea Gallega e Aldea Gavinha cõ todos seus termos terras direytos
-rendas foros tributos e pertenças e com todas suas jurisdições crimes e
-civeis mero e mixto imperio e com os Padroados das Igreijas e dadas de
-Tabaliaes e de todos os outros officios que eram da dada e provimᵗᵒ da
-ditta sñra Raynha D. Leanor minha tia e porqᵗᵒ hora com minha autoridade
-e consintimento a ditta sñra Raynha D. Leanor minha madre se consertou
-com a Raynha minha sobre todas mᵗᵒ amada e prezada molher sua irmaa para
-lhe leixar e virem a ella a ditta Cidade de Silves e villas e terras
-rendas direytos jurisdições dadas d’officios padroados das Igrejas e
-rendas e as outras cousas que ella tinha e de direito por bem do dito seu
-contracto lhe pertencião e como todas tinha e avia e possuhia a dita
-sñra Raynha D. Leanor minha tia por certa satisfação que paga que por
-isso lhe faz nos quatro contos de maravedis que ella tinha em Castella
-do emperador seu irmão, segundo compridamente he conteudo e declarado
-no Contracto de troca e escambo e permudação que entre ellas foi feito
-com meu consentimᵗᵒ e do dito emperador seu irmão pello q̃ a elle nisso
-tocava fazer, de cujas provisões os treslados sam postos de verbo no
-dito concerto e contracto, a Raynha minha sobre todas muito amada e
-prezada molher me pedio por mercê que lhe mandasse dar minha carta de
-doação e mercê da ditta cidade e villas e terras e rendas e de todas
-as outras cousas que a dita Raynha sua irmaa pertencem e avia de aver,
-e visto por mim seu requerimento pello mᵗᵒ grande amor que lhe tenho e
-desejo de em todas as suas cousas lhe aprazer visto o dito contrato e
-concerto feito entre ella e a dita Raynha D. Leonor sua irmaa minha sñra
-madre tenho por bem e lhe faço pura e irrevogavel doação e graça para
-em todos os dias de sua vida da dita Cidade de Silves Alvôr Villa de
-Faram Obidos Alamquer Sintra Aldea Gallega Aldea Gavinha com todos os
-seus termos e terras e foros tributos e pertenças e com as Alcayderias
-móres dos castellos dellas rendas e direytos q̃ a ellas pertence, e com
-todas suas jurisdições civeis e crimes mero e mixto imperio, resalvando
-para mim a Correição e alçada e com os Padroados das Igrejas e dadas de
-Tabaliaens e de todos os outros officios por suas cartas que na ditta
-Cidade e ditas villas dava e de que provia a sñra Raynha D. Leanor minha
-tia e quero e me praz que os juizes e tabeliães da ditta Cidade e villas
-e lugares e terras se chamem por ella assy como se chamavam pella ditta
-sñra Raynha D. Leanor minha tia o com todas as outras cousas de qualquer
-genero e qualidade que sejam q̃ ella nellas tinha e avia e possuhia e
-melhor se ella com dyreito o melhor poder ter e aver e dello uzar e como
-de dereyto pertence á ditta Raynha D. Leanor minha sñra madre por bem
-do ditto seu contracto de cazam.ᵗᵒ Porem mando aos meus Corregedores,
-Contadores Almxᵉˢ Recebedores Juizes Justiças officiaes e pessoas da
-dita cidade e Villas e Terras e aos fidalgos, cavalleyros, homês bons e
-Povo dellas e a quaesquer outros officiaes a quem esta minha carta for
-mostrada e o conhecimento della pertencer q̃ deem aa dita Raynha minha
-molher e a seu certo recado a posse da ditta Cidade de Silves, Alvôr,
-Villas de Farão, Obidos e Alemquer Sintra e Aldea Gallega, Aldea Gavinha
-com todos seus termos e terras rendas direytos foros tributos pertenças
-e Alcayderias mores e rendas dellas e com todas suas jurisdições civeis
-crimes mero e mixto imperio resalvando para mim somᵗᵉ a correição e
-Alçada e com os Padroados das Igrejas e dadas de Tabelliaes e de todos
-os outros officios que dava e provia a ditta sñra Raynha D. Leanor minha
-tia e de todas as outras cousas que ella nellas tinha e avia recadava
-e possuhia; e lhe leixem todo aver recadar e pussuhir e dello uzar por
-sy e por seus officiaes e pessoas que pera ello ordenar e fizer como em
-cousa sua propria, porq̃ eu lhe faço assy de tudo doação e graça em sua
-vida como dito he sem duvida nem embargo algum que a ello lhe seja posto,
-porq̃ assy he minha m.ᶜᵉ E mando aos ditos meus Contadores que esta carta
-registem no livro dos proprios das Comarcas pera sempre se saber a forma
-desta doação aqual mando assy mesmo aos juizes da dita Cidade e villas
-q̃ fação tresladar nos livros das Vereações. Dada em a Cidade de Lisboa.
-«Bxᵐᵒⁿ frz a fez» a quatro do mes de Janʳᵒ anno de nosso sñor Jesu xpto
-de mil e quinhentos e vinte e nove annos.
-
-_E a outra carta do anno de mil e quinhentos e sincoenta tocante ao
-regimento e despacho da Caza e officiaes de sua faz.ᵈᵃ he a seguinte._
-Eu ElRey faço saber a vós Juizes e Vereadores e Povo da V.ᵃ de Alenquer
-q̃ por alguns resp.ᵗᵒˢ que moverão a Raynha minha sobre todas m.ᵒ amada
-e prezada molher, e pello assy sentir pera mais seu descanço ella ouve
-por bem e me pedio que eu provesse e mandasse prover de justiça as
-Cidades e Villas que ella ha em meus Reynos e assy provesse nella os
-officios de justiça quando vagarem como tudo me parecesse e he necessario
-pera bem serem regidas e governadas em justiça e ficando a ella as
-Alcayderias mores e padroados das Igrejas e direytos rendas q̃ ella ha
-e lhe pertencem nas ditas suas Cidades e Villas e de que ella esta em
-posse e a jurisdição dos ditos direitos e rendas e dadas dos officios da
-arrecadação da dita faz.ᵈᵃ que hora tem nas ditas Cidades e Villas ou
-ao diante lhe parecer que são necessarios com as appellações e aggravos
-dante os ditos officiaes de sua faz.ᵈᵃ pera ella e o Vedor de sua faz.ᵈᵃ
-e ouvidor dos feitos della sem a serca dello os Juizes Corregedores e
-pessoas dos meus Reynos q̃ eu puzesse, conhecerem das cauzas q̃ tocarem
-á dita sua faz.ᵈᵃ e arrecadação d’ella, nem minhas Relações e justiças
-poderem conhecer das dittas Appellações q̃ dante os dittos officiaes
-vierem, porq̃ delles conhecerá o dito seu Védor da fazenda e ouvidor
-dos feitos della, ou outros Dezembargadores q̃ ella ordenar como hora
-conhecem e assy se cumprão nas dittas Cidades e Villas seus mandados e os
-dos dittos seus officiaes da faz.ᵈᵃ, como hora se cumprem e passarão na
-forma q̃ hora passam, e por folgar de em tudo comprazer á dita sñra, me
-pras e hey por bem de mandar prover de justiça as dittas Cidades e Villas
-e dar os officios dellas emqᵒ o assy a dita sñra ouver por bem e q.ᵗᵒ ás
-jurisdições das cousas de sua fazᵈᵃ e dadas dos officios da recadação
-della q̃ hora ha ou ao diante lhe parecer q̃ sam necessarios ella proverá
-como ouver por bem e seus mandados e do vedor de sua fazenda e ouvidor
-dos feitos della e de todos os outros officiaes de sua fazᵈᵃ passaram da
-forma que ategóra passaram e se cumprirão em tudo como ategóra cumprirão
-e as Appellações que sahirem dante os officiaes de sua fazᵈᵃ sobre couzas
-della e arrecadação de seus direitos e rendas viram ao dito seu Vedor da
-fazᵈᵃ e ouvidor dos feitos della e se despacharam com os Dezʳᵉˢ q̃ ella
-ordenar como se hora faz, sem Cᵒʳ ou jusᵃˢ minhas nem minhas Relações
-conhecerem de cousa algũa que toque a sua fazᵈᵃ e arrecadação de seus
-direitos e rendas nem das appellações nem aggravos q̃ sahirem dos ditos
-officiaes de sua fazᵈᵃ porq̃ de tudo hão de conhecer só seu Vedor da
-fazᵈᵃ e ouvidor dos feitos della com os Dezʳᵉˢ que ella ordenar como
-assima dito he, e como eu hora mando q̃ o Cᵒʳ em essa Comarca va a essa
-Villa e entre nella a fazer Correição como e pela manᵃ que faz nos outros
-meus lugares da dita Comarca, volo notifico asy o mando que lhe obdeçaes,
-em tudo cumpraes seus mandados, este registareis no livro da Camera dessa
-Villa com outra carta que sobre o dito caso vos escreve a dita sñra para
-a todos ser notorio e se cumprirem em tudo.
-
-[Sidenote: Doação de D. João IV á rainha D. Luiza de Gusmão.]
-
-Pantaleão Rebello a fez em Lisboa a seis do mez de mayo de mil quinhentos
-e cincoenta.—Pedindo-me a dita Raynha minha sobre todas mᵗᵒ amada e
-prezada mulher que porqᵗᵒ na Carta patente de Doação das ditas terras da
-Raynha q̃ para sua Camera Caza e estado por mim lhe fora outorgada, se
-continha que averia as dittas terras em sua vida com todas as rendas,
-direitos reaes, tributos, jurisdições, Alcayderias móres, offᵒˢ de
-justiça e sua fazᵈᵃ com os mais privilegios e prerogativas assy e da
-manʳᵃ que a sñra Raynha D. Caterina ultimamente as possuhira e estivera
-em posse e costume de uzar. O que tudo melhor cõstava das ditas cartas e
-provisão assima relatadas, hũa das terras rendas offᵒˢ e jurisdições,
-outra em q̃ se declara a jurisdição uzo e costume e modo do procedimento
-e despacho da Caza de sua fazᵈᵃ e offᵒˢ por ella creados q̃ nella andavam
-e de sua Chrᵃ e Contadores Juizes e Almoxᵉˢ da dita sua fazᵈᵃ, as quaes
-cousas senão achavam assi recopiladas em outra carta de doação, por serem
-mᵗᵒˢ e de diversos pontos particulares e em diversos tempos houvesse por
-bem de lhe conceder e confirmar as ditas cartas e provisão supprindo na
-primeira entre as terras nella declaradas as Villas das Caldas e salir
-do Porto que por as outras Prouvizões constava serem das sr.ᵃˢ Raynhas
-D. Leanor e D. Caterina e p.ᵃ em sua vida as possuirem excepto o que
-nellas ao Hospital das Caldas estava concedido para andarem todas nesta
-carta. E asy a provisão do q̃ toca á jurisdição e poder que por ella
-se declara que lhe compete em sua faz.ᵈᵃ E visto por mim o q̃ me assy
-enviou pedir e as ditas carta e provisão e pello m.ᵗᵒ amor que lhe tenho
-e por m.ᵒ desejar de em tudo o q̃ me requerer e pedir lhe comprazer como
-é razão e por lhe fazer graça e m.ᶜᵉ de minha certa sciencia e poder
-real e absoluto, hey por bem e me praz de lhe conceder e confirmar em
-sua vida as ditas terras cartas doações jurisdições e previlegios com
-tudo o mais nelles conteudo assy e da man.ʳᵃ que as dittas Raynhas, e
-ultimamente a dita Raynha D. Cn.ᵃ as tiveram e melhor, se melhor por
-elles lhe competir, com declaração q̃ onde na sobredita carta reservo
-para mi Correição e Alçada, quanto á Correição, se entende que a farão
-os Corregedores com sua auctoridade assy e na fórma e casos que nos he
-patente e em outras de regim.ᵗᵒ e jurisdição de seu ouvidor e off.ᵉᵐ,
-passada no dia da feitura desta he declarado. Pello que mando ao Regedor
-da Caza da Supplicação e g.ᵒʳ da Caza do Porto e minhas Relações e
-Tribunaes e aos meus Juizes e jus.ᶜᵃˢ que a fação guardar e registar
-nos livros das Relações Camaras e Correições e outro sy mando aos ditos
-Corregedores Contadores Juizes e Just.ᵃˢ Vereadores e da governança das
-ditas Cidad.ᵉˢ e V.ᵃˢ que dem á dita Raynha e a seu certo recado e pessoa
-que lhe aprouver mandar com sua provisão de procuração a posse dellas com
-todos seus termos, e terras rendas direytos foros tributos Alcayderias
-móres, com suas rendas e todas suas jurisdições civeis e crimes mero e
-mixto imperio na forma sobredita e q̃ na dita carta e regim.ᵗᵒ das terras
-e jurisdição mais largam.ᵗᵉ he declarado e nas mais q̃ por mi concedidas
-e confirmadas q̃ a dita snr.ᵃ Raynha D. Cn.ᵃ em sua vida teve e de q̃
-uzou e esteve de posse.
-
-E por firmeza de tudo o que dito he mandei dar esta m.ᵃ carta patente
-por mi assinada e passada pela m.ᵃ Cn.ᵃ Dada na Cidade de Lisboa aos
-dez dias do mez de janeiro Sotto mayor a fez........de mil seiscentos e
-quarenta e trez.
-
- (Archivo da Torre do Tombo—Collecção de S. Vicente, Volume XX,
- fl.ᵃˢ 204.)
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-[1] O sr. commendador Guilherme João Carlos Henriques, publicou ha
-annos um bem elaborado livro: _Alemquer e seu concelho_. É esta uma
-obra puramente _local_, que informa todas as particularidades que dizem
-respeito á villa e suas freguezias, bem como aos outros pontos ruraes.
-
-A Historia _local_ d’Alemquer está bem entregue ao sr. Guilherme
-Henriques e mesmo que haja alguem que se lembre hoje de escrevel-a, não
-fará mais do que ampliar o seu trabalho, ficando assim com a gloria
-incompleta. Não serei eu que sou seu amigo e que além d’isso, me prezo de
-ser leal, que lhe usurparei o logar; antes renovo aqui o pedido, que ha
-tempos fiz a sua ex.ᵃ, de uma segunda edição, augmentada, do seu livro, o
-que traria grande vantagem para os estudiosos e para os que prezam o bom
-nome da velha capital da Casa das Rainhas.
-
-Como sua ex.ᵃ verá pela Advertencia e pelo texto d’esta obra, a parte
-_local_ está só no titulo d’ella. A minha esphera d’acção é outra muito
-differente; sou e serei um cabouqueiro, como me recommenda Oliveira
-Martins, mas no campo da Historia ha numerosas minas de diamantes.
-
-Esta nota não é dirigida ao espirito intelligente e cavalheiresco de
-sua ex.ᵃ, mas uma simples prevenção contra os mal intencionados ou
-ignorantes, que queiram desvirtuar as acções de cada um.
-
-[2] Archivo Nacional da Torre do Tombo, inquirições de D. Diniz; Livro
-10, fl. 22 e 24 verso.
-
-[3] Figanière, obra citada, pag. 62.
-
-[4] Torre do Tombo, chancellaria de D. Diniz, livro 1.ᵒ fl. 41.
-
-[5] O original d’este documento encontrou-o Figanière no cartorio de
-Santa Clara, achando-se registado na chancellaria de D. Diniz, livro 3.ᵒ,
-fl. 33.
-
-[6] Torre do Tombo, gaveta 13, maço 9, n.ᵒ 46.
-
-[7] Torre do Tombo, chancellaria de D. Fernando, Livro 1.ᵒ, fl. 107.
-
-[8] Com o desenvolvimento do commercio nas conquistas, tiveram as Rainhas
-varias rendas sobre diversas mercadorias.
-
-[9] D. José Barbosa diz que o casamento de D. Affonso II se realisou em
-1201; mas Alexandre Herculano affirma que só teve logar nos fins de 1208,
-ou principios de 1209.
-
-[10] De todos os reis de Portugal, exceptuando os Filippes, os unicos que
-estão sepultados no estrangeiro, são dois bem desgraçados: D. Sancho II e
-D. Miguel I.
-
-[11] O diploma é datado de Elvas, 25 de fevereiro de 1267, e acha-se na
-Torre do Tombo, gaveta 13, maço 9, n.ᵒ 19.
-
-[12] Torre do Tombo, chancellaria de D. Affonso III, livro 1.ᵒ fl. 141.
-
-[13] D. José Barbosa, no _Catalogo das Rainhas de Portugal_, diz que a
-rainha D. Beatriz de Gusmão falleceu a 27 de outubro de 1303; porém, o
-sr. João Pedro da Costa Basto encontrou na Torre do Tombo a data acima
-indicada, que Figanière menciona na sua obra _Memorias das Rainhas de
-Portugal_, pag. 121. Vid. _Notas e documentos_.
-
-[14] D. Izabel d’Aragão foi beatificada por Leão X a 15 de abril de 1516
-e canonisada por Urbano VIII a 25 de maio de 1625.
-
-[15] Não são concordes os historiadores quanto ao fallecimento de D.
-Constança. D. José Barbosa affirma que falleceu aos 13 de novembro de
-1345; mas o _Obituario de S. Bartholomeu_ diz que a morte teve logar no
-dia 27 de janeiro de 1349. Vid. _Notas e documentos_.
-
-[16] D. Leonor Telles está sepultada no mosteiro de Nossa Senhora da
-Mercê de Valladolid.
-
-[17] El-rei D. João I teve além do duque de Bragança, D. Affonso, uma
-filha bastarda, que foi D. Beatriz, que casou em 1405 com Thomaz Fitz
-Alan, conde de Arundel, primo da rainha D. Filippa de Lencastre. A mãe
-d’estes filhos foi Ignez Pires, que depois foi commendadeira de Santos.
-
-[18] A 24 de julho de 1429, o senhor de Roubaix, como procurador do duque
-de Borgonha, recebia em Lisboa a infanta D. Isabel.
-
-[19] O infante D. Pedro despozára em 1428 D. Izabel, filha de Jayme II,
-d’Urgel, e da infanta D. Izabel de Aragão.
-
-[20] Veja-se _Notas e documentos_.
-
-[21] _Jarreteira_; assim se dizia no tempo.
-
-[22] Do casamento do infante D. Pedro com D. Izabel d’Urgel, houveram
-os seguintes filhos: D. Pedro, condestavel, poeta e Mestre de Aviz;
-D. Izabel, rainha de Portugal; D. Filippa, recolhida em Odivellas; D.
-Brites, mulher do duque Cléves, senhor de Ravensteyn; D. João, principe
-d’Antiochia; e D. Jayme, cardeal. Vid. _Notas e documentos_.
-
-[23] Assim o affirma D. José Barbosa, no seu _Catalogo_, tantas vezes
-citado, e o P.ᵉ Francisco de Santa Maria na _Chronica dos Conegos
-Seculares de S. João Evangelista_; porém, D. Antonio Caetano de Souza, na
-_Historia Genealogica_, tomo 3.ᵒ, cap. 1.ᵒ, pag. 63, diz que o casamento
-de Affonso V teve logar em 1447, em vista do seu contracto que publicamos
-nas _Notas e documentos_. Por esse tractado se vê que o consorcio se
-realisou um anno antes do que lhe é marcado por Barbosa e pelo P.ᵉ
-Francisco de Santa Maria.
-
-[24] A catastrophe de Alfarrobeira deu-se a 20 de maio de 1449; ficando o
-corpo do infante trez dias insepulto, até que o recolheram para a egreja
-d’Alverca, sendo d’ahi mudado para o castello d’Abrantes, depois para
-o mosteiro de Santo Eloy e ultimamente para a Batalha. Vid. _Historia
-Genealogica da Casa Real_, por D. Antonio Caetano de Souza, tomo 2.ᵒ,
-cap. 2.ᵒ, pag. 77.
-
-[25] D. Leonor de Lencastre foi dotada pelo duque de Vizeu, D. Diogo,
-seu irmão, com a villa de Lagos e seu castello, direitos e rendas; mais
-tarde recebeu de seu marido a doação de Alemquer e d’outras villas, que
-el-rei D. Manuel lhe confirmou em 24 de março de 1496. Vid. as _Notas e
-documentos_.
-
-[26] Em 1495 imprimiu-se a _Vita Christi_; em 1505, os _Autos dos
-Apostolos_; em 1515, o _Boosco deleytoso_; e em 1518, o _Espelho de
-Christiania_.
-
-[27] Jaz sepultada no convento de Santa Izabel de Toledo.
-
-[28] O principe D. Miguel nasceu em Saragoça a 24 de agosto de 1498, e
-jaz sepultado na mesma cidade.
-
-[29] Vasco da Gama regressou da sua viagem em 29 de julho ou de agosto de
-1499.
-
-[30] Depois ordenou-se que seu filho Braz d’Albuquerque tomasse em sua
-honra o nome de Affonso. Foi este o auctor dos _Commentarios d’Affonso
-d’Albuquerque_.
-
-[31] Veja-se _Notas e documentos_.
-
-[32] A rainha D. Maria, segunda esposa de D. Manuel, nasceu em Cordova,
-aos 29 de junho de 1482 e recebeu-se por procuração com o rei de
-Portugal a 24 de agosto de 1500 e por palavra de presente na epocha
-acima mencionada. Como não chegou a sobreviver a sua cunhada D. Leonor
-de Lencastre nunca possuiu a Casa das Rainhas, tendo por mercê especial
-de seu marido a cidade de Vizeu e a villa de Montemór-o-Novo. (vid.
-_Historia Genealogica_, tomo 3.ᵒ, cap. V, pag. 229). Além d’estas terras,
-teve tambem o padroado da egreja de S. Pedro de Lordosa, varias tenças
-e a villa de Torres Vedras, que, como se verá nos _documentos_, não
-pertenceu á esposa de D. João II, como por lapso dissemos a paginas 6.
-
-[33] O sr. Luciano Cordeiro o demonstrou cabalmente no seu livro _A
-Segunda Duqueza_; bem como destroe a lenda dos amores de D. João III com
-a madrasta. Louvores sejam dados ao illustre escriptor.
-
-[34] D. Leonor d’Austria nasceu em Louvain a 15 de novembro de 1498.
-
-[35] Veja-se a excellente obra do conde de Villa Franca, _D. João I e a
-alliança ingleza_, pag. 281.
-
-A infanta D. Maria foi uma das mais sabias e virtuosas princezas do seu
-tempo, e um dos mais brilhantes vultos da Renascença em Portugal. Nas
-_Notas e documentos_ publicamos uns ligeiros traços biographicos d’esta
-senhora; bem como o soneto com que Camões celebrou a sua morte.
-
-[36] Está sepultada no Escurial.
-
-[37] Vid. D. José Barbosa, _Catalogo das rainhas de Portugal_. O
-casamento já se tinha realisado por procuração no Toro, a 11 de janeiro
-do mesmo anno. _Historia Genealogica_, livro 4.ᵒ, cap. 15.ᵒ, pag. 55.
-
-[38] _Lusiadas_, canto IV, est. 95.
-
-[39] El-Rei D. Manuel teve da rainha D. Maria, sua segunda mulher, além
-de outros filhos, o infante D. Duarte que nasceu em Lisboa, aos 7 de
-septembro de 1515 e casou em Villa Viçosa (terça feira, 24 de abril de
-1537) com D. Izabel de Bragança filha do duque D. Jayme e de D. Leonor
-de Mendóça, recebendo n’essa occasião o titulo de duque de Guimarães;
-d’este matrimonio houveram duas filhas: D. Catharina e D. Maria, que
-desposou o principe de Parma, Rainuncio. D. Catharina foi desde tenra
-edade destinada para mulher de seu primo o duque D. João I, realisando-se
-o consorcio aos 8 de dezembro de 1563. O seu filho primogenito foi D.
-Theodosio, mais tarde segundo do nome e pae d’el-rei D. João IV. D.
-Catharina falleceu a 15 de novembro de 1614, respeitada dos soberanos de
-todas as nações, tratada como egual pelas testas coroadas, recebendo o
-tratamento _d’Alteza_ e preparando o futuro poderoso da Casa de Bragança.
-Vid. _Hist. do Inf. D. Duarte_, do sr. José Ramos Coelho, tomo I, _Le
-Portugal et la maison de Bragança_, por A. A. Teixeira de Vasconcellos e
-_Historia Geneal. da Casa Real_, de D. Antonio C. de Souza, tomo 6.ᵒ.
-
-[40] Sr. José Ramos Coelho, pag. 46 da obra citada.
-
-[41] Torre do Tombo, collecção de S. Vicente, volumes XX, fl. 204. Vid.
-_Notas e documentos_.
-
-[42] A princeza D. Izabel, filha de D. Pedro II e de D. Maria Francisca
-Izabel de Saboya, nasceu em Lisboa a 6 de janeiro de 1669; sendo jurada
-herdeira da corôa, nas côrtes de 27 de janeiro de 1674. Esteve justo o
-seu casamento com o duque de Saboya, Victor Amadeu, seu primo; o qual
-recusou este enlace, allegando motivos de doença. Dizem a princeza
-se apaixonara de tal modo que repudiou os dois pretendentes que lhe
-solicitavam a mão: o grão-duque da Toscana e o duque de Parma; vindo a
-fallecer, solteira, aos 21 de outubro de 1690.
-
-[43] Serviram de procuradores de Portugal, o duque de Cadaval, o marquez
-de Niza, o marquez de Marialva, o Marquez de Gouvêa, o conde de Miranda e
-o secretario d’Estado, Pedro Vieira da Silva.
-
-[44] «Foy El-Rey D. Pedro de estatura agigantada, cor trigueira, olhos
-grandes, nariz aquilino, bocca grossa, & cabello preto. Teve forças
-extraordinarias, do que fazia provas admiraveis. Excedeo a todos os do
-seu tempo na sciencia de andar a cavallo & correr touros (sic). Era
-incançavel na frequencia com que ouvia aõs seus Vassallos, para o que não
-havia horas, nem tempo reservado.» (D. José Barbosa, _Elogio dos Reis de
-Portugal_, pag. 200).
-
-[45] D. Maria Sophia de Neuburgo está sepultada em S. Vicente de Fóra.
-
-[46] Na batalha de Matapan a 19 de julho de 1717 se distinguiram os
-nossos almirantes, conde do Rio Grande e conde de S. Vicente.
-
-[47] Tradições de familia que não vem a proposito aqui relatar, nos
-tornam devedores á memoria de D. João V.
-
-[48] Este senhor do Cadaval era D. João de Castro que foi casado com D.
-Leonor da Cunha, depois esposa do grande João das Regras. Do matrimonio
-do duque D. Fernando com D. Joanna de Castro, nasceram nove filhos; dos
-quaes um (D. Antonio) não sobreviveu. Entre os que vingaram, conta-se D.
-Alvaro que teve o tratamento de _Senhor_ e casou com D. Filippa de Mello,
-herdeira da casa dos condes d’Olivença. D. Alvaro é o progenitor dos
-duques de Cadaval.
-
-[49] Acha-se publicado do tomo 5.ᵒ das _Provas da Historia genealogica
-da Casa Real_, pag. 141. No mesmo tomo estão publicados os seguintes
-tractados de casamentos:—d’el-rei D. Affonso VI com a rainha D. Maria
-Francisca (pag. 10); de D. Pedro II com a rainha D. Maria Sophia de
-Neubourg (pag. 73).
-
-[50] Era então embaixador de Portugal em Madrid Antonio Guedes Pereira.
-
-[51] Veja o tractado do casamento de D. José publicado no tomo 5.ᵒ das
-_Provas da Historia genealogica da Casa Real_, pag. 316; e no _Fasto
-de Hymeneo, ou Historia Panegyrica dos desposorios dos Fidellissimos
-Reys de Portugal, nossos Senhores, D. Joseph I e D. Maria Anna Victoria
-de Bourbon_, por Fr. Joseph da Natividade, pregador geral da ordem dos
-Pregadores, na provincia de Portugal; pag. 18.
-
-[52] Sebastião José de Carvalho e Mello nasceu em Lisboa, na casa da rua
-Formosa, a 13 de maio de 1699 e foi filho de Manuel de Carvalho e Atayde,
-commendador na Ordem de Christo, Capitão de Cavallaria da côrte, senhor
-da Quinta da Granja, e de D. Thereza Luisa de Mendonça, filha de João
-d’Almada e Mello, commissario geral de cavallaria na Beira, alcaide-mór
-de Palmella, senhor e administrador do morgado dos Olivaes e do Souto
-d’El-Rei. Foi seu padrinho, seu avô paterno, Sebastião de Carvalho e
-Mello, Capitão de Cavallos, senhor dos morgados de Sernancelhe e da
-Quinta da Granja, padroeiro da egreja de N. Senhora das Mercês, onde jaz
-sepultado, tendo vivido 110 annos. Era, portanto, o marquez de Pombal
-fidalgo pelo lado paterno e materno, pertencendo á fidalguia de provincia
-(a não titular, que não tinha nenhum cargo superior na côrte), a que, ao
-tempo, pertenciam tambem a maior parte das familias que hoje formam a
-aristocracia portugueza. O titulo de conde d’Oeiras foi-lhe conferido em
-15 de julho de 1759 e o de marquez de Pombal a 16 de septembro de 1769.
-
-[53] El-Rei D. José tinha nascido a 6 de junho de 1714, e o conde
-d’Obidos a 20 de julho de 1699, tendo por consequencia mais quinze annos
-que o monarcha. Esta differença explica a phrase do fidalgo, quando
-Sebastião de Carvalho lhe veio pedir a sua protecção: _pois o menino é
-chocalheiro_?!
-
-[54] O original d’este documento encontra-se na torre do Tombo, liv. 5.ᵒ
-de D. Affonso IV, de afforamentos, doações etc., pag. 46 verso.
-
-[55] Diz-se geralmente que foi D. Affonso V quem concedeu o ducado de
-Bragança a seu tio o conde de Barcellos; é falsa, porém, tal affirmativa.
-A doação data de 1442, durante a regencia de D. Pedro, embora a carta só
-fosse requerida mezes depois do desastre d’Alfarrobeira.
-
-[56] O duque de Coimbra, D. Jorge, foi o progenitor da casa d’Aveiro,
-recebendo seu filho, D. João, o titulo de duque d’aquella localidade.
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- PAGINAS
-
- Prefacio e advertencia VII a XV
-
- A Casa das Rainhas 1
-
- D. Dulce 9
-
- D. Sancha 13
-
- D. Beatriz de Gusmão 17
-
- Santa Izabel 23
-
- D. Constança 27
-
- D. Leonor Telles 31
-
- D. Filippa 39
-
- D. Izabel de Lencastre 43
-
- D. Leonor d’Aragão 49
-
- D. Izabel de Lencastre 55
-
- D. Leonor de Lencastre 63
-
- D. Leonor d’Austria 69
-
- D. Catharina d’Austria 81
-
- O interregno dos Filippes 89
-
- D. Luiza de Gusmão 95
-
- D. Maria Francisca Izabel de Saboya 105
-
- D. Maria Sophia de Neuburg 118
-
- D. Marianna d’Austria 124
-
- D. Marianna Victoria de Bourbon 135
-
- Notas e documentos 147 a 175
-
-
-
-
-
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-João Pereira Franco Monteiro
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS DONATARIAS D'ALEMQUER ***
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