summaryrefslogtreecommitdiff
diff options
context:
space:
mode:
-rw-r--r--.gitattributes4
-rw-r--r--LICENSE.txt11
-rw-r--r--README.md2
-rw-r--r--old/62954-0.txt4674
-rw-r--r--old/62954-0.zipbin91920 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h.zipbin449885 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/62954-h.htm6304
-rw-r--r--old/62954-h/images/cover.jpgbin40906 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/deco.jpgbin4092 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/deco1.jpgbin1034 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/deco2.jpgbin1094 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/dropcap-a.jpgbin3607 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/dropcap-d.jpgbin4032 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/dropcap-e.jpgbin4176 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/dropcap-i.jpgbin3974 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/dropcap-l.jpgbin3803 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/dropcap-n.jpgbin3910 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/dropcap-s.jpgbin4087 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/footer1.jpgbin3701 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/footer10.jpgbin5105 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/footer11.jpgbin5205 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/footer12.jpgbin5464 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/footer2.jpgbin5306 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/footer3.jpgbin3229 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/footer4.jpgbin5790 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/footer5.jpgbin5448 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/footer6.jpgbin5763 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/footer7.jpgbin5756 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/footer8.jpgbin4927 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/footer9.jpgbin5879 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/header1.jpgbin23724 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/header10.jpgbin20336 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/header11.jpgbin16316 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/header2.jpgbin25906 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/header3.jpgbin19198 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/header4.jpgbin18559 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/header5.jpgbin17554 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/header6.jpgbin17670 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/header7.jpgbin16385 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/header8.jpgbin18728 -> 0 bytes
-rw-r--r--old/62954-h/images/header9.jpgbin18587 -> 0 bytes
41 files changed, 17 insertions, 10978 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes
new file mode 100644
index 0000000..d7b82bc
--- /dev/null
+++ b/.gitattributes
@@ -0,0 +1,4 @@
+*.txt text eol=lf
+*.htm text eol=lf
+*.html text eol=lf
+*.md text eol=lf
diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt
new file mode 100644
index 0000000..6312041
--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
@@ -0,0 +1,11 @@
+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..ca2901c
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #62954 (https://www.gutenberg.org/ebooks/62954)
diff --git a/old/62954-0.txt b/old/62954-0.txt
deleted file mode 100644
index 0404a1d..0000000
--- a/old/62954-0.txt
+++ /dev/null
@@ -1,4674 +0,0 @@
-The Project Gutenberg EBook of Novos contos, by
-Francisco Teixeira de Queirós and Bento Moreno
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Novos contos
- 4º volume da Comedia do Campo
-
-Author: Francisco Teixeira de Queirós
- Bento Moreno
-
-Release Date: August 17, 2020 [EBook #62954]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVOS CONTOS ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-COMEDIA DO CAMPO
-
- LISBOA
- TYPOGRAPHIA DE ADOLPHO, MODESTO & C.ª
- _Rua Nova do Loureiro, 25 a 43_
- 1887
-
-
-
-
- _4.º vol. da_ COMEDIA DO CAMPO
-
- NOVOS CONTOS
-
- DE
-
- BENTO MORENO
-
- La plupart des drames sont dans
- les idées que nous formons
- des choses. Les événements qui
- nous paraissent dramatiques ne
- sont que les sujets que notre
- âme convertit en tragédie ou en
- comédie, au gré de notre caractère.
-
- H. DE BALZAC—_Modeste Mignon_.
-
- [Illustration]
-
- EDITORES
- TAVARES CARDOSO & IRMÃO
- _5, Largo do Camões, 6_
- 1887
-
-
-
-
-OBRAS DO MESMO AUCTOR
-
-PUBLICADAS PELOS EDITORES DAVID CORAZZI E TAVARES CARDOSO & IRMÃO
-
-
-COLLECÇÃO DA COMEDIA DO CAMPO:
-
- Contos—1 vol. 500
-
- Amor divino—1 vol. 500
-
- Antonio Fogueira—1 vol. 500
-
- Novos contos—1 vol 600
-
-COLLECÇÃO DA COMEDIA BURGUEZA:
-
- Noivos (quasi esgotada)—1 vol. de 500 pag. 1$000
-
- O Sallustio Nogueira—1 vol. de 500 pag. 1$000
-
- O Grande Homem (Comedia)—1 vol. 700
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-A MINHA MORTE
-
-
-Estava na convalescença d’um typho. Não teria doze annos, mas na minha
-imaginação representa-se ainda nitidamente esse longo periodo de
-febre e de terriveis visões. Apesar de debil e quasi enfesado resisti
-heroicamente ao soffrimento e á molestia. Sempre de costas na cama,
-passava o tempo a contar e recontar as tabuas do tecto e a fileira de
-cachos dependurados ao longo da parede branca. Sentia-me embebido em
-estupidez; as perguntas que me faziam, ácerca do meu estado, do sabor
-dos remedios e do apetite, ficavam sem resposta. Olhava para todos sem
-comprehender o que diziam, ou, pelo menos, sem ter os meios de exprimir
-tudo quanto de violento e de extraordinario se passava em todo o meu
-corpo. Era como um empastamento geral da minha carne, uma liquifação
-do meu cerebro, a ausencia de mim mesmo para sentir. Até as dores que
-soffria, tendo um resto de consciencia para saber que se passavam em
-mim, attribuia-as mais facilmente a outro corpo. O meu interior era o de
-uma enorme fornalha; o proprio halito parecia-me de labaredas brancas,
-formadas de ar incandescente. As minhas sensações reduziam-se a uma sede
-permanente, que se não podia mitigar. Por mais que me humedecessem a
-lingua, nem por um instante m’a podiam tornar molle e flexivel: era uma
-lingua de papagaio, que seria facil quebrar como se fôra um caco. Ainda
-me recordo de quanto me custava a supportal-a na bocca e de ter, por
-vezes, desejos de a arrancar.
-
-Mas depois fui melhorando. A volta das sensações ordinarias fazia-se
-uma a uma, como pombos escorraçados d’um pombal. Era um renascimento
-gradual, e noto que appareceram primeiro as sensações mais elementares,
-aquellas em que o homem tem menos imperio. Todos os dias a febre
-decrescia, reconquistava um pouco do viver antigo, como se eu tivesse
-feito uma viagem ao chimerico paiz das sombras, e de lá voltasse por um
-comprido corredor de muitas legoas, approximando-me instante a instante
-da benefica luz do sol, que se visse brilhar ao fundo, cá n’este
-mundo vulgar que todos habitamos. Entrei por fim em convalescença. O
-facultativo consentiu que me levantasse todos os dias um nadita. Já podia
-ir fazendo tentativas de chupar a minha aza de frango. O enjôo da comida
-ainda era grande, por isso o meu desgosto era enorme. Reconhecendo-me
-melhorado não estava nas condicções das outras pessoas...
-
-No emtanto a minha alegria e satisfação voltaram com o franco apetite.
-Tudo era pouco para mim, não havia coisa que me satisfizesse e era
-preciso que me ralhassem para não ser tão guloso, que me podia fazer mal.
-Até não queria que os outros comessem ao pé de mim; porque isso me dava
-inveja, e até raiva, ficando a reparar com olhos avaros e insaciaveis.
-O medico argumentava que o meu estomago devia estar fraco, que não
-supportaria sem damno grandes quantidades; mas eu sentia-me como uma
-grande planta, que lançasse por toda a parte as suas ambiciosas raizes,
-para se sustentar á custa da seiva que pertencia ás outras e roubar-lh’a
-com o poder absorvente de uma enorme bomba. A comida de predilecção
-n’essa minha convalescença eram as boas sardinhas de Vigo, cabeçudas e
-grandes, que os gallegos iam vender á minha terra. Á distancia de 26
-annos, ainda hoje sinto no paladar o sabor d’essa incomparavel comida.
-
-A chuva d’esse aspero mez de dezembro era frigidissima, o vento
-assobiava pelas frinchas das portas. Como já podia andar por toda a
-casa ia de vez em quando ao mirante, olhar para os montes que estão ao
-norte, e contemplava-os todos cobertos de neve, como se fossem pyramides
-collossaes, formadas d’assucar.
-
-Mas a chuva e o vento que soprava d’aquelle lado obrigavam-me a descer;
-pois que a janella não era guarnecida de vidraça. N’uma d’essas occasiões
-até, a saraiva me veio bater na cara e eu, com medo de recahir,
-fui-me logo sentar ao lume, que estava vivo, imponente, abrangendo
-grandiosamente em labaredas, os potes de ferro que estavam ao redor.
-
-A nossa cozinha era comprida, terrea e de telha vã. A lareira, grande,
-coberta pelo enorme e phantastico chapeu da chaminé, muito farta de
-lenha—podia aquecer uma duzia de pessoas á vontade. Na vespera do
-sarrabulho ou na noite da consoada, essa cozinha tomava o aspecto
-glorioso d’um templo em festa. Havia maior numero de potes; as labaredas
-melhor sustentadas enroscavam-se umas nas outras sempre na mesma altura,
-como parafusos sem fim. Era manifesta e patente a alegria, a satisfação,
-o contentamento que este bom fogo produzia em todos, principalmente
-quando as castanhas estoiravam debaixo das brazas e sabendo-se que estava
-perto a enfusa de vinho.
-
-Mas quando desci apressadamente do mirante, batido no rosto pela saraiva
-e com o tetrico medo de recahir, a cosinha estava solitaria e lugubre.
-Era dia ordinario, o lume bem acceso, o pote da ceia gorgolhava com a
-fervura, os gatos e os cães, fraternalmente misturados, enroscavam-se
-do lado do forno. Fui-me sentar ao meu canto, contando estar ali até á
-reza. Lá fóra das portas era quasi escuro, a chuva e o vento passavam
-ruidosamente sobre o telhado, produzindo ressonancia dentro da chaminé.
-Todo este barulho exterior e material tornava mais sensivel a minha
-solidão. Sabia que minha avó, estava á janella na dupla occupação de
-rezar as suas contas e de vigiar se os visinhos traziam sardinhas da
-praça, que era para tambem as mandar comprar. Porém o rom-rom dos gatos,
-o arfar do lume, o ralho da fervura e o sussurro do vento formavam
-um ambiente caracteristico de solidão ao qual se veio juntar a nota
-sentimental e lugubre do toque das trindades. A torre da egreja era
-sobranceira á cosinha e as nove badaladas cahiram-me espaçadamente no
-cerebro imprimindo uma sensação gemebunda e prolongada. Apezar da viva
-chamma do lume ser propria para desfazer tristezas, sentia sobre mim o
-lendario pezo da noite, com todo o seu imprevisto de sombras. E a enorme
-chaminé, negra de ferrugem, abria sobre mim um espaço indefinido, d’uma
-amplitude amedrontadora. Diante dos meus olhos, em correnteza, estavam
-pendurados os salpicões e eu contava-os machinalmente até á minha
-chouricinha e á de meu irmão, que estavam juntas, á esquerda. Fui pouco
-a pouco cahindo n’um longo esquecimento, fui perdendo a consciencia, a
-ponto de quasi se extinguir o meu ser.
-
- * * * * *
-
-Provavelmente o calor benefico do lume concorria para o entorpecimento.
-Já quando o sino acabou de tocar as «ave marias» eu voejava n’uma
-atmosphera de sensações vagas, como suspenso no meio do espaço. A
-cadencia das badaladas deu-me o impulso ondulatorio que me atirou por
-desconhecidas regiões, fóra de toda a contingencia. Um pingo d’agua cahia
-a compasso da torneira da cosinha e o som tristonho parecido com o gemer
-d’ave, feria-me levemente o ouvido como se fôra o desfallecer d’uma
-d’essas musicas ideaes, que só existem na região do azul. O estrepito do
-vento tambem se distanciára de mim, ouvia-o dilatado e longinquo, com a
-doçura e encanto do som d’um pinheiral. Estava envolvido, tapetado d’uma
-substancia isoladora que me fazia perceber attenuadas todas as sensações.
-O meu pensar vago e indeciso, traduzia esta especie de anniquilamento das
-minhas forças physicas e a perda das minhas idéas pessoaes. Reconhecia-me
-consubstanciado n’este mundo novo e abstracto, balouçando-me n’uma
-amplitude infinita como a da morte. Cá na minha, eu já não pertencia
-ao numero dos vivos apesar da memoria me reproduzir claramente toda
-a realidade material que eu gosára e soffrera, durante os annos da
-convivencia terrestre. Confesso que tive saudades do que fôra. Gostava da
-vida, mesmo simples e humilde como sempre a passára. Viver por viver e
-para viver, é que me enthusiasmava e não as altas posições da fortuna e
-da gloria. Todo o homem tem dentro em si tantos meios de ser feliz, que
-não saber aproveital-os é signal de desequilibrio e doença. Por isso, a
-idéa de ser um morto não me alegrava e, bem pelo contrario, principiei a
-apavorar-me á maneira que percebia que isto era sério. Deixar assim de
-repente, sem uma despedida, a vida terrena, na qual eu ia sonhadoramente
-gosando a minha obscuridade, lá me parecia duro. E sem enterro, sem chôro
-de parentes, sem nenhuma pompa funebre... como é que eu tinha morrido?
-Depois, independente da questão do céu e do inferno, aquillo lá pelo
-outro mundo não é satisfatorio. Antes de entrar nas regiões da perpetua
-ventura ou do infinito castigo eu não via senão caras tremendas, que nada
-tinham de commum com as expressões minhas conhecidas. Os que riam era
-com esgares terrificantes, boccas arrepanhadas e olhos de fogo que me
-faziam medo; os que choravam abriam taes guelas, e figuravam-se-me tão
-pavorosas as suas cabelleiras formadas de florestas, que me senti gelado,
-não podendo sequer encaral-os.
-
-Não me faziam mal, não se approximavam de mim; mas eram desagradáveis
-companheiros na sua impavidez sinistra. Tambem, lá por esses espaços,
-que levianamente se chamam sideraes, eu não encontrava senão
-precipicios, abysmos sem fim, montanhas cujos pincaros a minha vista
-não podia alcançar. Por cima da cabeça tudo eram nuvens encastelladas
-e carrancudas, que deviam conter fogo e tempestades para myriades de
-seculos. Um raio de sol palpitante rompeu n’um momento esta espessura;
-mas isso, maiores saudades me fez, por me lembrar com entranhado amor
-tudo quanto tinha perdido de carinhoso e bom. Nunca senti como n’esse
-instante o preço da vida. A epopeia grandiosa da eternidade, attrahia-me
-muito pouco, não seduzia, com as suas magnificencias, a imaginação
-simples da creança. Por isso a minha anciedade, a minha tortura cresceu
-progressivamente. Nunca mais voltaria a gosar a tranquilla convivencia do
-rio, dos montes, das campinas e dos penhascos?!... O canto dos passaros,
-as paizagens floridas, o melancholico luar do outono, a exhuberancia da
-primavera, os gosos familiares, as festas, as vindimas, as amizades...
-tudo teria acabado para mim?!
-
-Que tristesa, que amargura, que saudades me torturavam! As lagrimas
-cahiam-me em fio, sentia-me soluçar, a minha admiração pelos sublimes
-coros celestiaes, diminuia d’um modo consideravel. E tamanha era esta
-saudade e esta dôr que nem o aspecto patente do fogo da querida lareira,
-dos potes a ferver, dos salpicões pendurados diante dos meus olhos, me
-dava a precisa tranquilidade e resignação. Não me lembro mesmo se cheguei
-a considerar estas visões enganosas, como perfidos meios de transacção,
-para eu me habituar á outra vida. O meu desespero só fazia augmentar,
-sentia pungentissimamente quanto perdi. A minha chouricinha, que estava
-ali em frente de mim, já eu não a poderia saborear, em quanto que meu
-irmão, que era um vivo, havia de comer as duas e talvez muito regalado.
-
-Principiava a reconhecer-me fatigado, exhausto de forças e ambicionava um
-momento de repouso. Visto estar morto, a tormentosa viagem atravez dos
-espaços infinitos havia de acabar. Decerto era este o pavoroso caminho da
-eternidade, que teria no fim o ceu ou o inferno. Bem sei que logo para
-começo podia ser o purgatorio, como logar de purificação; mas declaro
-francamente que esta transigencia nos soffrimentos não me foi muito
-consoladora. Talvez pelo receio de ter a vida cheia de peccados, julguei
-mais provavel não vir a ser um dos eternos habitantes do paraizo!...
-Estaria mais satisfeito, se o meu destino estivesse no ceu—atmosphera
-ideal, mais pura que o diamante, de cor mais serena que a perola, logar
-onde não ha noite, nem sombra, onde os cantos são perpetuos, como é
-perpetua e renovada de instante a instante a floração d’aquella primavera
-sem fim. No entretanto, se me fora licito ter uma opinião, haveria
-declarado preferir a todas as sublimidades ideaes, o continuar na terra
-contingente, com todos os seus males, desgostos e contratempos. Porem já
-que me achava no outro mundo desejava antes o paraizo do que o inferno,
-ou mesmo o purgatorio. Infelizmente este horrendo caminho que seguia, com
-a velocidade d’um cyclone, não me dava esperanças de me levar á patria
-eternamente luminosa e bella. O ultimo precipicio em que estava era d’um
-horrendo incomparavel. Por todos os lados a treva sem limites, e para o
-fundo um inconcebivel funil por onde ia resvalando!
-
-Como no terrivel naufragio do conto de Poe, no qual todos os destroços
-eram engulidos pelo redemoinho infernal do Maelstrom, assim o meu corpo,
-o meu cerebro, o meu pensamento soffriam as torturas d’um movimento
-concentrico. Sentia que de instante a instante me apertavam mais e
-mais as paredes d’esta nova prisão. Descendo sempre estava cruelmente
-atormentado e os meus olhos cheios de pavor não percebiam a menor restea
-de luz. A minha existencia conhecia-a sómente pela dor d’uma perna onde
-cravára com desespero as proprias unhas. A superficie interna do funil
-era lisa a ponto de lhe não perceber o contacto.
-
-Os circulos que eu descrevia eram cada vez menores, a ponto de para o
-fim redemoinhar em volta de mim mesmo, como se houvera um eixo material,
-servindo de ponto fixo. Evidentemente estava a chegar ao meu pavoroso e
-tetrico fim! Uma sensação de frio penetrava-me até á medula dos ossos,
-apesar de que, por uma inexplicavel contradicção, conservava no meu
-corpo viva reminiscencia do meu calor natural e procurava concentrar-me,
-aconchegar-me, metter-me por assim dizer, para dentro de mim mesmo.
-
-Veio uma onda de calor que me lambeu a cara... Talvez o desmoronamento
-da pilha d’achas que formavam a fogueira. Esta sensação, de certo
-agradavel em outras circumstancias, poz-me em grande terror; pois que
-mais me confirmou na ideia da proximidade do inferno. Lá ia eu cahir
-n’esse fogo perpetuo, que tão horrendo antevira nas descripções dos
-missionarios! E apesar do pavor, irritava-me esta evidente injustiça
-d’um poder sobrenatural. Que peccados teriam commettido os meus doze
-annos, para merecerem tão severa punição? Já não tinha lagrimas,
-sentia-me anniquillado e sem força para me oppor. O meu incomparavel
-infortunio, não se limitava a perder o gozo da vida terrena, que tanto
-amava. E transigia covardemente: Se, ao menos, fosse trocar o mundo,
-a familia, os brinquedos, a caça aos pardaes, a pesca aos barbos, a
-minha chouricinha... pelo reino do ceu, vá lá. Não teria ganho, mas vá
-lá. Porem abandonar todas estas coisas sympathicas e ter para todo o
-sempre de gritar entre chammas, com o diabo a espicaçar-me e monstros
-horrendos a deitarem-me perpetuamente pelas guelas chumbo derretido, breu
-e azeite a ferver!... era o que eu não podia levar á paciencia. A grande
-afflicção em que me vi deu-me ainda um momento de revolta, que resultou
-d’uma onda de sangue novo que se me espalhou no cerebro. Por mais que
-esquadrinhasse na consciencia, por mais que posesse aberto e claro o
-meu passado insignificante, não me sentia merecedor de tão formidavel
-pena! Resolvi interpor recurso. Deus é infinitamente misericordioso e de
-certo me ouvirá—pensei. Alem de que eu tinha sobejos motivos para assim
-proceder, attendendo ao modo excessivamente escuro como correra o meu
-processo. Não me lembrava de ter apparecido na sua divina presença; não
-vira aquellas venerandas e compridas barbas, brancas como espuma do mar;
-não me recordava dos coros dos anjos e das virgens, nem das incomparaveis
-bellezas da celestial habitação... Quem sabe se eu ia para o inferno
-por engano! Quem me dizia não ser eu victima de manobras d’algum
-verdadeiro condemnado que tivesse tido artes de se trocar por mim?! A
-minha perturbada intelligencia comprehendia esta possibilidade. Por
-tanto—resolvi—levantemos um clamor bem alto, uma supplica formidavel, que
-alargando-se por este funil em que me acho, suba aos ouvidos justiceiros
-do bom Deus, grande e omnipotente. A convicção da minha innocencia,
-dava-me força para tamanha ousadia. E tomei enorme folego, enchi o peito
-d’ar, concentrei em mim todas as energias da terra. Da minha garganta
-sahiu um estridente brado que se dilatou pelos espaços! Ao mesmo tempo
-fugi pela cozinha fóra e fui-me agarrar a minha avó, que resava as suas
-contas encostada á janella. Contei-lhe toda a minha afflicção e os
-tormentos mentaes em que me vira. Ella reconheceu logo, bem como depois o
-confirmou um sacerdote nosso amigo, que este facto devia ser tomado como
-um aviso do ceu. Apesar da minha pouca edade, este toque divino, mostrava
-claramente que eu andava em peccado mortal. Uma confissão geral de todo
-o meu negro passado era urgente. Os esconjuros deviam completar esta
-obra de limpeza espiritual. Procedeu-se por esta forma e os exorcismos
-foram resados por um padre gallego, que era homem eminente em escorraçar
-demonios.
-
- Janeiro de 86.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-NOSSO SENHOR JESUS CHRISTO
-
-
- (_A Valentina de Lucena_)
-
-Entardecia. Como o brilho do sol desaparecera, uma illuminação egual
-ameigava a paisagem. Os ultimos soutos de castanheiros transmontanos,
-pareciam nodoas de relva nas encostas dos montes. A escuridade cahia
-lentamente sobre os povoados, como um tenue orvalho. A physionomia das
-terras, em especial dos arvoredos, principiava a ser minhota. Havia mais
-d’uma hora que a carruagem rodava por uma estrada em declive. Disse-me
-o cocheiro, que algumas casas e uma egreja agglomeradas n’um valle,
-na margem direita do Tamega, formavam a povoação de Ribeira de Pena.
-Montanhas severas e apocalypticas emmolduravam este bocadinho de campo,
-no qual eu principiava a reconhecer a paisagem querida dos meus primeiros
-annos.
-
-Vinha só e sentia-me triste sem motivo. O continuado e monotono barulho
-da carruagem, o assobio dolente e vago do cocheiro, a amortecedora luz
-do crepusculo infiltrando-se por entre as penedias das encostas, os
-renques d’arvores do valle tinham-me lançado n’um estado de inconsciente
-melancolia. Já cançado da jornada, ainda me faltavam muitas horas para
-chegar ao Arco, logar onde ficaria essa noite. N’um estado intermedio
-ao somno e á vigilia, as ideias perpassavam-me no cerebro, umas vezes,
-como nuvens transparentes e macias recordando momentos d’agradavel
-convivencia; outras vezes, encastelladas e escuras, como são as ideias
-proprias d’aquelles que vão perdendo o contente palpitar da mocidade!...
-Oh! minha encantadora e modesta infancia, eu que sou um dos homens que
-mais tem rido, dize-me tu se já algum dia fui alegre, despreocupadamente
-alegre!...
-
- * * * * *
-
-Á ponta da noite, no momento em que á luz indecisa, os objectos tem
-adquirido um esfumado que os avoluma, a carruagem parou á porta d’uma
-taberna para se desaguarem os cavallos. Os meus nervos foram chamados
-á realidade com energia. N’um banco de pedra, d’esses toscos e muito
-usuaes que se encontram juncto das habitações dos camponeses minhotos,
-estava sentado um velhinho magro, tendo ao lado um saquito enfiado n’um
-páu e uma pequena almotolia d’azeite presa á cintura por uma correia. O
-seu rosto sumido era gracioso e terno como o d’uma creança; o sorriso
-natural, que lhe resaltava da expressão, parecia sahir d’um berço.
-
-Havia o quer que fosse de inconsciente e ethereo, de amoravel e bondoso,
-no rosto d’esse pobresinho. Ali ninguem o conhecia; mas elle olhava para
-todos com uma attenção familiar e intima. Um porco atrevido roçava-se-lhe
-pelas calças, roncava-lhe junto á cara e elle afastava-o com humildade
-e carinho, dizendo-lhe até palavras de conselho. De certo os seus
-nervos delicados se encommodavam com aquelle grunhir insolente; mas
-nem por isso se mostrava menos attencioso, para com o bruto. Fallava a
-todos tão suave e brandamente que a sua voz semelhava um murmurio e uma
-consolação á cabeceira d’um enfermo. O seu olhar, d’uma tranquillidade de
-justo, prolongava-se pelo espaço infinito, quando olhava para o ceu. Os
-cabellos brancos, enquadrando-lhe o rosto pacifico, eram limpos, finos
-e fluctuantes como floccos de neve, tinham a transparencia do nimbo
-dos sanctos. Tocou-me aquella bondade, aquelle ar compadecido e altivo.
-Pareceu-me um pedinte e olhei-o com attenção antes de o interrogar. Elle
-sorria-se para mim, com a expressão d’uma pessoa que conversa junto d’uma
-lareira aldeã, quando a fogueira crepita e o vento uiva victoriosamente
-sobre o telhado. Sentia-me attrahido para elle e então perguntei-lhe
-mesmo de dentro da carruagem:
-
-—Vocemecê vem de longe?
-
-Parecera-me que sim. Os pés tinha-os doridos, talvez d’uma longa
-caminhada. Estava alli a descançar. A dona da taberna disse que o não
-conhecia e que não era das redondezas. O velhito, como eu lhe fallei,
-levantou-se sorrindo e approximou-se. E n’um tom de mysterio, para que
-mais ninguem o ouvisse, segredou-me:
-
-—Se venho de longe? De muito longe. Nem eu mesmo o sei.
-
-Tomei estas palavras como de soffrimento resignado e tive piedade.
-
-Não sabia d’onde vinha, estava alquebrado pelo cansaço e não encarecia
-as suas dores para me pedir esmola! Conheci-lhe pela expressão dolorida
-do semblante, quando pôz os pés no chão para me vir fallar, que andára
-muitas leguas a pé. Talvez para ir ver uma filha enferma! talvez para
-exprimir outro grande affecto que lhe restasse no coração! Tantas terras
-percorrera, que até a sua memoria enfraquecida pela edade não retivera os
-nomes! Ter-se-hia perdido no caminho?...
-
-Insisti com modos de incredulo:
-
-—Essa é boa! Então não sabe d’onde vem?
-
-Olhou-me com ar sereno e firme como de quem tinha dicto uma coisa
-perfeitamente exacta.
-
-—Não senhor. Ninguem sabe!...—segredou-me com extrema reserva.
-
-E acrescentou sorrindo intelligentemente:
-
-—A mim ninguem me conhece; mas eu conheço todo o mundo. Bem sei quem o
-senhor é... É o senhor conde. Ah! cuidava que não sabia?...
-
-No rosto do pobresito appareceu uma aurora de triumpho. Para lh’a
-sustentar perguntei muito baixo:
-
-—Mas como advinhou? Quem foi que lh’o disse?
-
-A enormidade do seu poder reconheci-a no desdem superior com que me
-olhou. Continha lá dentro infinitos thesouros de sabedoria e perspicacia,
-á qual não resistiam os insondaveis mysterios do amplo ceu. Quem era eu,
-um misero conde, diante d’aquella omnipotencia que considerava o globo
-terraqueo como uma insignificante bolinha de pão?! Na minha tristesa e
-confusão devia-se reconhecer que o comprehendi; pois que o velhinho, para
-me consolar acrescentou:
-
-—Eu sei tudo, advinho tudo. Se não digo d’onde venho é porque ando por
-todo o mundo. Agora ahi vou eu para Hespanha ver se componho _aquillo_
-e se acabo com todas essas questões que por lá vejo. Levo aqui—designou
-o saquito—os papeis e livros necessarios para dar luz e felicidade _a
-todos_—sublinhou.
-
- * * * * *
-
-Entristeceu-me ver tamanho valor e convicção reunidos n’um corpo assim
-fragil. Pedi-lhe com interesse e bons modos que me deixasse examinar
-os seus thesouros. Accedeu da melhor vontade abrindo primeiro o sacco
-d’estopa, dentro do qual estava um de panno preto, contendo ainda outro
-de chita de ramagens. O cocheiro e a dona da taberna aproximaram-se
-ironicamente para disfrutarem o pobre; mas elle, com um verdadeiro olhar
-altivo e nobre, afastou-os significando, que taes segredos não eram
-para espiritos grosseiros e motejadores. A meu pedido os indiscretos
-retiraram-se e por fim o pobresito mostrou-me envolvidos em farrapos e
-bem ligados com fitas de cores e cordeis, tres velhos alfarrabios em
-lingua hespanhola e algumas folhas manuscriptas, d’uma lettra amarella
-e inintelligivel. Pelo meio havia folhas seccas de castanheiro, algumas
-flores mirradas e pequeninos ramos d’alecrim. Examinei com escrupulosa
-attenção estas preciosidades, dando-lhes grande valor! Elle seguiu todos
-os meus gestos e movimentos faciaes com olho sagaz e aspecto orgulhoso.
-Quando lhe entreguei as suas preciosas reliquias, encarecendo-lhas elle
-concluiu:
-
-—Já o senhor conde vê que não é ninguem ao pé de mim.
-
-—Oh! de certo!...
-
-E depois que já tinha guardado os seus livros e papeis inestimaveis
-perguntei-lhe:
-
-—Mas como vem de muito longe deve trazer fome. Quer que lhe dê alguma
-coisa?
-
-Sem altivez respondeu:
-
-—É da lei acceitar sempre a esmola. Fome não tenho. Ando por aqui ha um
-rôr de seculos e nunca senti fome.
-
-E com um sorriso delicioso, como quem faz uma revelação:
-
-—Isso é para vocês que são d’este mundo. Para mim não, que não sou de cá.
-
-—Ah! vocemecê não é de cá?
-
-—Eu sim!...
-
-E sorriu-se da minha estupidez, da minha falta de comprehensão,
-abrangendo n’um infinito olhar toda a amplitude da terra ao ceu!
-Habitava essas regiões ideaes e interminaveis do azul, suspenso na
-serena ondulação do ar, e bafejado da poeira brilhante da luz. A
-expressão humilde e conformada do seu rosto, a grandesa e compaixão
-que lhe resaltava da voz fraca e singela, o seu triumphante sorriso de
-tranquillidade... convenceram-me de que este velhinho resumia em si uma
-entidade poderosa. Quem julgará elle representar n’este mundo?—perguntei
-a mim mesmo. Talvez algum sancto milagroso, algum lobis-homem das lendas,
-algum bruxo afamado entre o povo!... A convicção da sua immaterialidade
-e do seu immenso poder reconhecia-se que a tinha, pelo tom desdenhoso e
-superior com que se referia a tudo que o cercava. D’elle só veriam sahir
-protecção e bondade:—os beneficios que um acto rudimentar do seu querer
-podia espalhar sobre a terra eram incalculaveis. Um simples designio da
-sua vontade tornaria os homens eternamente felizes ou desgraçados. Não
-comia, não se cançava, não havia ponto na terra d’onde tivesse partido
-ou que devesse occupar...—o mundo, o ceu, os espaços inconcebiveis eram
-a séde da sua ubiquidade. Nem a dôr, nem o falivel o tocava. A misera
-fraquesa humana não a sentia, a contingencia do globo merecia-lhe um
-pensamento compadecido. Sereno e grande vivia no seu reino especial!...
-
-Qual seria pois, o personagem imaginario que este velho magro, de rosto
-sumido, alegre, bondoso, expressão de soberba e de compadecido, julgava
-representar? Perguntei-lh’o com a premeditada cautela que elle empregava
-nas suas palavras:
-
-—Então quem é vocemecê?
-
-—Pois ainda não advinhou?! Olha bem para mim creatura!... Nosso Senhor
-Jesus Christo!
-
-E fixando-me com tremenda piedade concluiu:
-
-—Ando aqui para os salvar a todos.
-
-Dei-lhe uma esmola. O pobresito retirou-se serenamente, depois de me
-recommendar:
-
-—Agora caluda, por causa d’esta gente. São hereges, não acreditam.
-
- Janeiro de 85.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-O CEGO DE GUARDIAM
-
-
-Logo que expirou o cunhado, José Domingues cahiu n’um scismar
-atormentado. Só elle comprehendia a grande desgraça que n’esse dia
-entrára na casa de sua irmã, pobre mãe de cinco filhos, que tinha para os
-sustentar, unicamente uma roca. Lembrou-se de os trazer todos para onde
-a si; mas como poderiam viver tantas pessoas com duas pipas de vinho e
-um carro de pão? A pensar n’isto se consumia o pobre José Domingues, e
-aquelles olhos cegos desde tenra infancia, estavam grossos como punhos
-de tanto que tinham chorado. Até perdera o gosto á rebeca, prenda que
-seu tio frade lhe deixára, juntamente com as territas de que vivia. A
-comida entrava-lhe na bocca só á força, depois de muito o apoquentarem.
-Como toda a gente o estimava em Guardiam, iam alli pela eira pessoas
-conversar com elle, dando-lhe consolações e conselhos, coisas de pouca
-valia, pois não produsiam alimento para os sobrinhos. O seu amigo Miguel
-Tinta, trouxe o violão uma noite, para lhe acompanhar a rebeca; porem o
-cego é que não estava para tocar.
-
-—Que queres, não posso. Tenho aqui um peso de seiscentas arrobas—rematou
-arrepanhando o coração.
-
-Mas como algumas raparigas, com o fim caridoso de o tirarem d’aquelle
-malucar, lhe pediram insistentemente, José Domingues tocou umas musicas
-tristes, muito populares e queridas d’aquella gente. Foi n’esta occasião,
-que o Miguel, sentindo o cerebro illuminado por uma ideia, disse com
-enthusiasmo:
-
-—Ouve lá. E se nós fossemos por ahi abaixo ambos! Não se ganharia alguma
-coisa?
-
-Todas as pessoas presentes acreditaram que sim e applaudiram com
-estrepito a lembrança. Só o rabequista não tinha grande fé, pois disse:
-
-—O que, a tocar? Uh!...
-
-—Hade haver muito quem vos queira ouvir. Tentar fortuna é sempre bom
-prophetisou emphaticamente Zé Maximo, o barbeiro.
-
-Resolveram-no logo alli. Os dois mais interessados planearam a coisa
-detalhadamente, mencionando as terras que percorreriam e as musicas que
-haviam de escolher. Uma manhã de primavera, partiram com o sol rubro
-no horisonte. Andaram por fóra alguns mezes e quando voltaram vinham
-satisfeitos, porque traziam um bom par de moedas na algibeira. Foi uma
-alegria para aquella gente, mormente para José Domingues, que ao entregar
-o dinheiro á irmã pulava de contente, com os sobrinhos todos em volta a
-agarrarem-se-lhe ás pernas. No forte das suas expansões, o cego, planeava
-uma vida d’abundancia: queria que se comprasse um porco para matar n’esse
-anno e mais um bácoro, para o seguinte.
-
-—N’esta casa!—com seiscentos diabos!—hade tornar a haver salgadeira e
-fumeiro, como antigamente—affirmou.
-
-Foi este o começo da vida de tocador de rebeca, que tão popular fez o
-cego de Guardiam, em toda a provincia do Minho.
-
- * * * * *
-
-O seu nome chegou mesmo á cidade do Porto. Quem fallasse no _ceguinho_
-designava logo José Domingues. A expressão persuasiva e bondosa do seu
-rosto tornava-o attrahente e querido. Ou tocando a chorosa rebeca, ou
-a cantar modas alegres, ou a gracejar com as raparigas, era sempre
-comedido e delicado; por forma a ser cubiçada a sua presença. De todos
-os cegos pedintes e trovadores, só elle gosava de verdadeira sympathia.
-Chamavam-no a muitas casas para o ouvir e, alem da paga, offereciam-lhe
-vinho e marmelada. Tambem elle não se parecia com nenhum d’esses
-tocadores de sanfona, lamorientos e porcos. Sempre limpinho:—vestido de
-briche; camisa lavada; botas de cano, toscas e fortes; a mão apoiada
-no hombro do companheiro; o extincto olhar voltado para o sol; assim
-percorria a provincia. Tinha o seu orgulho d’artista e de pequeno
-proprietario—nunca exaltou ou fingiu miserias e necessidades para
-provocar compaixão. Acceitava o que lhe dessem, fosse muito fosse pouco,
-agradecendo tudo com um sorriso. O que ambiccionava principalmente era
-que o escutassem com religião e amor. Se havia pelas janellas senhoras
-formosas, em quem presumisse melhor comprehensão da musica, o Miguel
-advertia-o; pois que n’essas circumstancias, o arco de José Domingues,
-tinha movimentos expressivos, alma enthusiasta, e coração de poeta.
-
- * * * * *
-
-Que ideia faria elle da formosura!...
-
-Fora tão cedo, logo no começo da infancia, que perdera a vista!... As
-suas recordações não podiam deixar de ser pedaços de mundo dispersos, mal
-definidos, impressões fugitivas, como as da luz no pôr do sol. Comtudo
-na viva e larga imaginação, era certo que lhe esvoaçavam encantadoras
-imagens. A meiguice do sorriso, a bravura da expressão em certos
-momentos, fazem-no presumir. Quando acreditava que a sua alma, a sua
-rebeca, estava fazendo palpitar algum coração de mulher, o rosto bexigoso
-e feio, animava-se-lhe triumphantemente, como uma aurora. Parecia que
-tinha um resplendor, que respirava n’um circulo de luz propria.
-
-É porque elle instinctivamente calculava que áquella expanção de
-sensibilidade que lhe vibrava nos proprios nervos, corresponderiam outros
-efluvios em nervos mais delicados. E a potente voz da arte embravecia-lhe
-a natureza cheia de candura, transformando o humilde cego, n’um ente
-dominador e altivo. A proximidade da mulher, a sua inflexão meiga e
-dolente, amansava d’um modo absoluto, qualquer aspereza d’este homem,
-que nunca lhe pudera calcular a pureza das linhas. Talvez isto fosse por
-conhecer a dolorosa historia de seu tio frade, que morto aos septenta
-annos, conservára até á ultima, o amor d’uma imagem extincta, evocando-a
-aos sons da mesma rebeca, que José Domingues tocava!
-
-Esse tio egresso fôra o seu educador e o seu amigo. Homem de viver em si,
-conhecendo a musica e as lettras, ensinara-o a tocar, e transmittira-lhe
-a alma que possuia. A doce affabilidade de convivencia com esse bom
-velho, introduzira-lhe no coração sentimentos preciosos de humildade.
-Despresar os bens terrenos, para se confortar nos gozos interiores, fôra
-o que esse obscuro evangelista sempre lhe aconselhára, como meio de se
-oppor á desgraça e soffrer com valor as agruras do mundo. Por isso, elle
-acceitou em toda a conformidade, esta vida de tocador ambulante, por
-mais que ella fosse contraria, ao seu quietismo aldeão. Ainda assim
-tinha a impellil-o n’este vagabundear de terra em terra, o seu caracter
-impressionavel d’artista. O fanatismo com que todos o ouviam em Guardiam,
-em Refuinho e n’outros logares, por vezes lhe levantára as ambições e
-sonhára com publico mais numeroso e selecto. Porem nunca pensára em sahir
-da sua aldeia, e do adro da egreja, onde nos domingos, depois da missa
-conventual, até o abbade parava a ouvil-o. _A donzella abandonada_,
-o _Marinheiro_ e o _Cão fiel_ eram algumas das poucas cantigas que
-n’esse tempo conhecia. Exprimia-as com tal sentimento e candura, que
-era frequente perceber-se o chôro d’algum coração de rapariga enamorada
-e sensivel, que encontrava nas palavras da canção qualquer lembrança
-pungente. Então o José Domingues, que era galhofeiro dizia:
-
-—Quem diabo está ahi a fungar, a rir-se da minha rabeca? Anda cá menina
-que elles não te entendem!...
-
-E beijava-a repetidas vezes, balouçando-a contra o seio, acariciando-a
-como terna mãe acaricia um filho. Isto dava sempre bom effeito, alegrava
-os ouvintes, tornava-os communicativos e contentes. Para que todos
-bailassem, o cego, tocava-lhes a _Canninha verde_, a _Maria Cachucha_,
-o _Afasta janota, arreda_, e os rapazes acercavam-se das raparigas,
-formando logo a roda.
-
-Se o Carvalhosa presenciava, nunca deixou de dizer com sorriso de
-consentimento e um dedo no ar:
-
-—Moços! juizo, ouviram? Muito juizinho.
-
- * * * * *
-
-Agora que andava de terra em terra, a força de sympathia e attracção do
-José Domingues dilatou-se por muita gente. A sua pequena estatura, a
-magresa do corpo, a expressão terna, o olhar fixo e indefinido sempre
-voltado para a luz, a delicadesa natural e a suavidade das suas fallas, a
-inspiração muitas vezes caudalosa e atormentada da sua rabeca... tudo se
-fixou na imaginação collectiva, com traços vigorosos e duradoiros. Elle é
-que levava pelo mundo a sua fama. Todas as terras o estimavam e queriam
-a ponto de se fallar com antecedencia da vinda do cego de Guardiam, que
-tinha epocas determinadas e fixas, para os diversos pontos da provincia.
-Se tardava uma semana, isso era logo motivo de reparo. Preoccupavam-se
-com a ideia de que estivesse doente e nem queriam suppor que tivesse
-morrido. O seu apparecimento era considerado como o das aves cantoras
-na primavera, que preannunciam os bons dias e as flores. Por isso era
-recebido com verdadeira satisfação este portador de novas canções e,
-principalmente as raparigas do povo, saudavam-no com alegria expontanea e
-sincera. Parava a conversar com pessoas de diversas cathegorias, e sempre
-lhes narrava coisas novas em que os interessava pela simplicidade da sua
-palavra.
-
-Estas jornadas, pelos ensombrados caminhos da provincia, começava-as
-no principio d’abril, quando os pampanos rebentam e parecem olhos de
-satyros a rir de todo o mundo. O inverno passava-o em casa, junto do
-lar crepitante, no meio dos sobrinhos, que lhe enchiam a alma de gosos
-paternaes. Havia magustos com estoiros de castanhas e o bom rascante,
-colhido nas videiras que lhe legara o tio frade. Havia a matança do porco
-e a consoada, que eram festas salutares e bulhentas. A neve embranquecia
-os montes sobranceiros, a rispida nortada esfuziava, ás lufadas, pelo
-valle. Era preciso cada qual acercar-se da fogueira para assim ludibriar
-a furia dos elementos, que zombeteavam cá fora. José Domingues com a sua
-modestia bem provida do necessario, dizia aos sobrinhos, quando tinham
-medo do trovão:
-
-—Deixa lá, é a musica do pae do ceu.
-
-—Gosto mais da rabeca do tio Zé. A musica do pae do ceu, não
-presta—observou um de oito annos.
-
-—É zabumba—considerou philosophicamente outro de menos edade.
-
- * * * * *
-
-A primavera fazia-o sahir de Guardiam acompanhado do Miguel. Tinham um
-jumento para levar o vestuario e o presigo dos primeiros dias. Durante
-as chuvas, como os pintasilgos, tinha a voz amortecida. Só a fragancia
-do ar tepido e balsamico o fazia cantor. Sentia, como os que tem bons
-olhos, que a natureza se subtilisava para a festa grande da creação. No
-fermentar estrondoso das sementes que rebentam, estava a sua paisagem
-florida. As canções d’esta epoca, o _Regadinho_, o _Pintalhão_ eram
-vivas, travessas e maliciosas. As do outono eram melancolicas, arrastadas
-e dolentes, sentindo-se no arco da sua rabeca certa preguiça, e o
-sentimento das vozes ternas, que vem de longe pelas corgas dos montes.
-Havia n’esses cantos, notas flutuantes que pareciam folhas amarellentas
-vagueando no ar, impellidas pelo rigido nordeste. Se na volta d’um
-caminho percebia alguma cantiga sahida de pinheiral rumuroso, parava
-escutando e, ás vezes, rebentavam-lhe lagrimas. Aproximava-se o tempo
-de recolher a casa, ás consolações da familia. Lá voltava a Guardiam
-com a imaginação cheia de lembranças alegres. No logar era festivamente
-celebrada a sua volta e, rindo e chorando, José Domingues abraçava com
-effusão e verdadeiro prazer todos que se lhe approximavam. Dançava,
-pulava, atirava o chapeu ao ar, como uma creança!
-
-É que se sentia entre corações d’amigos.
-
- * * * * *
-
-N’um d’esses periodos d’inverno, que passára junto dos seus, ouviu ler na
-gazeta que o padre Carvalhosa emprestava ao mestre-eschola de Guardiam,
-que estava em Lisboa e talvez viesse ao Porto e a Braga um rabequista
-celebre a quem chamavam pomposamente o «primeiro violinista do mundo».
-
-—Olhem que não tocará melhor que o nosso José Domingues—affirmou
-enthusiasta e patrioticamente o professor.
-
-—Ora, senhor José Fortunato, nem diga isso. Eu, um pobre estupido, posso
-lá!...—respondeu com modo agradecido.
-
-—Deixa-te de tolices, homem. Olha que eu com os sessenta e cinco que já
-conto, nunca ouvi como Frei Gonsalo. E já fui uma vez a Lisboa, com o
-fidalgo de Refuinho, quando elle era vivo.
-
-—Lá isso, maior que meu tio, não acredito que haja. Devo-lhe a alma que
-tenho—confessou commovido.
-
-José Fortunato ainda acrescentou:
-
-—Olha que lá as meninas (as de Refuinho) estiveram no Porto com o tio
-general. Presencearam por lá grandes coisas e disseram-me que antes
-queriam ouvir o José Domingues.
-
-—Isso são umas santinhas. Eu sou um pobre cego, não sei nada, senhor José
-Fortunato.
-
-—Não sabes nada? Sabes tudo, tens d’isto—rematou o mestre-eschola,
-batendo uma punhada sobre o coração.
-
-O mais velho dos sobrinhos do cego, comprehendendo tudo pelo instincto,
-atirou a carapuça ao telhado, gritando:
-
-—Viva o tio Zé Domingues e a sua rabeca!
-
-—Viva! viva!—acompanharam os outros.
-
-Mas o rabequista, ficou a scismar no que seria, essa maravilha tão
-apregoada pela gazeta. Que poder, que attracção teria no seu arco, esse
-homem que era superior a todos os que havia no mundo! Na sua mente
-ingenua, apresentou-se logo uma figura aureolada de sol, dominando a
-multidão dos admiradores que o applaudiam. Um publico de fidalgos e
-mulheres ricas é bem differente do seu, que era rude e casual. Haveria
-fragor de enthusiasmo, comprehensão vasta n’esse theatro em que as luzes
-faziam sobresahir a opulencia. A apotheose alargava-se até aos confins
-da terra e o artista victoriado levantava-se até ás nuvens... A alma
-calorosa do cego de Guardiam, sentia-se enebriada com esse imaginado
-triumpho, a commoção manifestava-se nas lagrimas que lhe apontavam. E
-batendo uma palmada no joelho disse com resolução:
-
-—Pois ainda não hei de morrer sem ouvir uma coisa d’estas!
-
-N’esse momento chegou o Miguel Tinta a quem perguntou:
-
-—Queres tu ir comigo a Braga ouvir o tal home?! Talvez se lhe possa tirar
-alguma coisa.
-
- * * * * *
-
-Sempre fora este o seu processo d’aprender e progredir. Musica que
-ouvisse logo lhe ficava. Tinha no Porto e em Braga, quem lhe arranjasse
-versos apropriados. Ás vezes mesmo, lhe ministravam musica e lettra,
-o que valia oiro sobre azul. Entrava em todas as egrejas onde ouvisse
-tocar o orgão e era assiduo perto das bandas militares, quando soubesse
-que tocavam em publico. Se qualquer musica lhe calhava, elle e o Miguel
-tractavam logo de lhe applicar versos dos que sabiam e assim chegaram a
-popularisar canções, como aconteceu áquella que principiava:
-
- Veja lá menina
- Se levanta a saia
- .................
-
-a qual toda a provincia decorou. Algumas vezes aconteceu
-aristocratisarem-se as suas modas até chegarem ás salas de provincia, e
-então José Domingues ouvindo-as celebradas em piano dizia com orgulho:
-
-—Vê lá Miguel. Aquella trouxemol-a nós.
-
-A noticia que ouvira ler na gazeta do padre Carvalhosa, sobresaltou-lhe
-o coração, cheio de enthusiasmo pela musica. Era rigoroso dezembro; o
-frio enregelava as carnes; as neves cobriam os montes; o ceu, estucado de
-nuvens côr de lama, tinha uma immobilidade sombria. Os caminhos estavam
-intransitaveis, muita gente lhe aconselhou a não fazer a jornada; mas
-elle, logo que soube que o afamado rabequista chegára a Braga, resolveu
-o Miguel e partiram. Era como uma peregrinação religiosa. De tempos
-a tempos, José Domingues soltava seus ais admirativos e dizia para o
-companheiro:
-
-—Mas como será este home, que é o primeiro rabequista do mundo?
-
-Miguel observou scepticamente:
-
-—Quem sabe lá! Isto de gazetas, consentem o que lhe põem.
-
-—Não, não. Deve ser coisa de respeito!—considerou absorvido na sua ideia.
-
-Logo á entrada da cidade, perto da egreja de S. Vicente, procuraram um
-estudante de Guardiam, com o fim de lhe pedirem esclarecimentos. Souberam
-que tudo quanto se dizia era verdade, que o senhor arcebispo, tendo
-escrupulos de ir ao theatro, convidára o famoso artista para tocar n’essa
-noite no Paço. O estrangeiro accedera, para conquistar as sympathias do
-prelado e do publico.
-
-—Ó senhor Joãosinho—supplicou José Domingues—eu queria ouvil-o. Não me
-poderá arranjar um buraco no palacio do senhor arcebispo? Eu arrumo-me em
-qualquer parte. Um buraco que seja, menino.
-
- * * * * *
-
-Não foi difficil obter esta infima posição. O estudante era amigo d’um
-famulo de sua excellencia, o qual pôde esconder o cego n’um vão de
-escada, proximo do logar onde se realisaria o concerto. José Domingues
-levou comsigo a rabeca, pois desejava apertal-a sobre o peito para melhor
-comprehender a musica. Tiveram de o introduzir de dia, n’um momento
-conveniente para não ser presentido. Durante umas seis horas, esperou que
-chegasse o instante. Encolhido, quieto, respirando brandamente para não
-dar rumor de si, alli se conservou. Perto da noite, accometteu-o uma sede
-furiosa, que supportou heroicamente, sem o menor arrependimento.
-
-O famulo que alli o introduzira, veio n’uma furtadela perguntar-lhe se
-estava bem e o cego respondeu agradecido:
-
-—Ricamente, meu senhor. Só tenho uma sêde!...
-
-Satisfeita esta necessidade ficou n’um paraizo. Momentos depois entrava
-tudo quanto havia de selecto na sociedade bracarense. A alta clerezia
-appresentou as suas familias respeitaveis. O general, o governador
-civil, o commandante do 8, o juiz de direito, administrador do concelho,
-delegado, professores do lyceu, trouxeram suas esposas e filhas. Ondulava
-um murmurio de vozes e de sedas, e José Domingues ouvia pronunciar nomes
-consagrados, que toda a vida respeitára humildemente. Isto augmentou
-no seu espirito o valor d’aquella festa, tornando-a imponente. Era
-um deslumbramento e um ceu aberto o que principiava a despontar na
-sua imaginação. Agarrado a sua rabeca, apertando-a contra o seio,
-estremecendo-a como se fora um ente animado, estava commovido. Ia-se
-verificar a apotheose d’um seu irmão, e elle identificava-se com a gloria
-do artista que não conhecia. Entrou o prelado. O cego deu conta d’esse
-facto pelo recuar de cadeiras e pelos comprimentos. Pouco depois chega o
-rabequista e a curiosidade da parte dos assistentes produziu um sussurro
-maior, que immediatamente se acalmou, seguindo-se um silencio de mar que
-se esbate sobre a areia.
-
- * * * * *
-
-Logo que os primeiros sons da rabeca encheram a sala, a alma de José
-Domingues sentiu-se arrebatada para um horisonte largo. Dos seus olhos
-sem vista, irradiaram fulgurações d’uma belleza sideral. Erguendo-se no
-amplo espaço com a pujança d’um crente, a sua imaginação livre, vagueou
-na larguesa sem fim, n’um redemoinho d’harmonias, que o impelliam como
-ligeiro farrapo de nuvem. Toda a miseria terrena desaparecera para elle.
-Não estava n’um buraco, como cão despresivel, socio e companheiro de
-ratos: aos seus olhos apparecia um amplo salão, ornamentado de riquezas
-e de mulheres formosas. Esquecera-lhe o rouco uivar do vento sobre a
-telha vãa da sua pobre casa, os caminhos enlameados e cheios de poças, os
-encontros por vezes desagradaveis da sua vida de tocador.
-
-Quando a rabeca tinha momentos alegres, extravagantes, buliçosos, José
-Domingues ia indo n’aquella toada e vinham-lhe á mente coisas loucas
-e pueris: dançava em volta d’uma fogueira, abraçava as raparigas
-que lhe fugiam aos gritos, ouvia repiques de sinos, e ao longe, a
-multidão festival passava para a romaria. Se era a dolencia das musicas
-hespanholas, entranhadas de sentimento arabe, expraiando-se brandamente,
-como as mansas aguas do Mediterraneo, os seus nervos sentiam uma paz
-infinita, quasi um torpor. A visão paradisiaca d’uma primavera só formada
-de cantos de passaros e de perfumes d’hervas e de flores, como elle
-a contemplava n’esses momentos, era mais intensamente bella do que a
-paisagem das amendoeiras e dos campos cheios de trevo e de malmequeres
-brancos.
-
-Mas o seu pendor, a tendencia da sua alma, era para todos os trechos
-lacrimosos, d’uma plangencia terna que se abrissem largamente em
-espaços constellados. Não valiam tanto os rouxinoes e os melros no
-meio silencioso das mattas, e o rio murmuroso ladeado de choupos.
-Corriam-lhe em fio as lagrimas e apesar dos applausos dos ouvintes, José
-Domingues sentia que elles não comprehendiam bem aquella musica. Se
-elle podesse, entraria de joelhos na sala, para beijar os pés do grande
-artista mostrando-lhe a sua admiração, n’um chôro copioso e enthusiasta!
-Rastejar pela terra como humilde verme, era o modo que a sua rudeza
-achava bastante expressivo, para glorificar aquelle seu irmão. Porque não
-procediam assim esses homens que o ouviam? Vinham-lhe suffucações de
-colera contra os que se não levantavam em extasis d’um enthusiasmo viril
-e ardente como o seu. É que não tinham alma para sentir. Elle humilde,
-obscuro, rude, apertado entre as paredes d’aquelle buraco, era-lhes
-superior, comprehendia o que elles não podiam comprehender, tinha em
-si um thesouro, que nem todos os thesouros da terra podiam egualar.
-Vibravam-lhe no cerebro os echos d’aquella musica, a sua commoção era
-grande, os soluços que não podia evitar apanhava-os nas mãos para não
-serem percebidos, com medo de perturbar aquella musica celestial!
-
- * * * * *
-
-Todos estes sentimentos augmentaram de intensidade, e no coração
-repercutiram-lhe os fremitos magestosos d’uma epopeia, quando os
-primeiros accordes da «Ave Maria» de Gounod se fizeram ouvir. Na sua
-imperfeita comprehensão, não se destrinçavam claramente as bellezas
-accumuladas no famoso trecho. Vinha-lhe tudo em globo, tumultuariamente,
-como se a lendaria figura da morte o arrebatasse n’um instante, levando-o
-por ermos desconhecidos, onde a sensibilidade fosse outra. N’aquella
-ondulação luminosa d’harmonias, sentia-se crescer, vencia espaços
-incommensuraveis, passava gloriosamente sobre altos montes, ia em
-rapido vôo sobre o mar tormentoso, para no fim parar em regiões serenas
-formadas de luz e melodia. Arrepanhava as carnes procurando a realidade
-na manifestação da dôr; mordia os punhos a ponto de fazer sangue; queria
-gritar e não podia; agarrava-se energicamente á sua querida rabeca, n’uma
-effusão de ternura e o seu coração não se apasiguava nunca! O canto
-angelico e suave crescia em profundeza, augmentava em area—era como uma
-palpitação infinita. O cerebro de José Domingues enchia-se de carinho,
-o enthusiasmo suffocava-o, anniquilava-lhe as forças. E lá era levado
-de novo, subindo até ficar sobranceiro ás nuvens, conhecendo instantes
-de paz e de tortura, chorando, sorrindo, estorcendo-se no chão como uma
-cobra ferida.
-
- * * * * *
-
-Os bravos e as palmas d’esta vez foram mais estrondosos. Prolongaram-se
-porque era o agradecimento final. Porem, todo esse ruido não pôde dominar
-um doloroso grito, forte como se sahisse do peito d’Othelo n’um arranque
-de ciume, meigo como se fora o ultimo queixume da rola Ophelia.
-
-Ficaram rapidamente silenciosos e perplexos os espectadores. Um soluçar
-ancioso continuou e para o logar d’onde elle vinha se dirigiram as
-pessoas interessadas em tamanha dôr. N’aquelle buraco escuro, de bruços
-sobre a rabeca que esmigalhára, estava o cego de Guardiam, que não
-poderam mais chamar á vida!
-
- Janeiro de 86.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-A VELHICE D’UM REI
-
-
-Sentado na larga poltrona de seda azul, o monarcha conversava em voz
-pausada e lenta. Uma graciosa imagem da Virgem, talhada em marfim, por
-desconhecido artista da Renascença, dava-lhe ensejo de explicar a velhos
-amigos, como conjecturava, que teriam trabalhado aquelles talentos
-singulares, creadores de tantas maravilhas. Tenuissima nuvem de paz,
-de conforto, de luxo estudado, pairava sobre este ambiente, tornando-o
-em região intermedia á riqueza mundana e á severidade do gabinete d’um
-sabio obscuro. No rosto sereno do rei, havia o orgulho do nascimento
-e a tristeza propria dos annos. A sua longa barba branca, objecto de
-veneração em todo o paiz, era até commentada entre a gente rude dos
-campos. Quasi a tinham como symbolo de orgulho nacional, pois com
-jactancia affirmavam não haver outro rei com barba tão longa, tão linda e
-tão branca.
-
-A vaidade das coisas realengas—orgulho natural nos paços doirados,
-sentimento peculiar dos que soltam os primeiros vagidos sentados n’um
-throno—diziam que a não tinha. A abnegação e o desprendimento de
-todas essas pompas eram-lhe attribuidos com meiga sympathia entre as
-classes populares, que são as que melhor comprehendem as inclinações
-democraticas. Elle abdicára em seu herdeiro o poder de que disposera
-durante muitos annos e havia praticado esse bello acto sem ostentação e
-logo que o principe chegára á maioridade. Adquiriu a liberdade de homem,
-entregando-se ás suas collecções artisticas, aos prazeres da caça e á
-conversação intelligente. Perdia-se dias inteiros na espessura das mattas
-reaes, sempre poeta, contemplando a luz e vivendo intimamente na absoluta
-natureza silenciosa. Para ser um bom rei, querido e estimado, até muitos
-o diziam generoso e esmoler.
-
-Porém, nem todas as pessoas tinham esta opinião benevolente. Alguns
-revelavam que fazia sentir as suas dadivas, fallando d’ellas. Censurava
-os gastos de muitos que os não podiam fazer, tinha a opinião de que
-a sua bolsa não era inexhaurivel. Egoista e reparador—chamavam-lhe.
-Desfazia com palavras, alguma generosidade que praticava. Apontavam como
-impropria, a ponta d’avareza que esboracava o manto real. Um soberano
-amesquinha-se fallando de coisas tão vulgares. Era o que faltava que
-procedesse d’outra fórma. Não fazia o povo muito mais pelo rei, do que
-o rei pelo povo? Qual era o azeite e o vinho que produsiam as extensas
-coutadas que a nação lhe dispensava para os seus divertimentos?!...
-
- * * * * *
-
-Depois a velhice tornara-o rabujento. Os camaristas para lhe entreterem
-as insomnias, tinham de colher ou inventar episodios escandalosos. Era
-fatigante a sua exigencia nos detalhes e torturava-os com repetições. A
-surdez obrigava-os a servirem-se da corneta acustica para lhe fallarem.
-Havia perguntas e respostas disparatadas, situações grotescas que depois
-se desfaziam em motejos nas ante-camaras. A consciencia d’estes factos
-entristecera-o e só a muito custo lhe tiravam um sorriso, um ar de
-approvação. A sensibilidade embotára-se-lhe com a velhice e só historias
-picantes, difficeis de inventar, conseguiam distrahil-o.
-
-A rainha,(tratavam-na assim por deferencia, só dentro do palacio) esposa
-morganatica do rei, senhora ainda forte, saudavel, com vida para gastar,
-abandonára-o n’este periodo de doença, sob pretexto de que elle estava
-mais satisfeito entre os seus amigos. A falta d’um contacto feminino,
-que lhe enternecesse a organisação, fizera variar aquella sensibilidade
-que fôra delicada e exigente. Só episodios burlescos, onde apparecessem
-mulheres adulteras, maridos comicamente trahidos, creadas servindo
-intrigas amorosas, homens escapando-se de gatas por telhados... é que lhe
-enchiam o vasio das longas insomnias. Alguns dos seus camaristas eram
-rapazes de sangue ardente, creados n’uma vida ociosa e delicada. Passavam
-um aborrecimento n’aquelle palacio de grossas muralhas. O que lhes valia
-era a conversação das companheiras da rainha, senhoras formosas, muitas
-gentis, todas de uma educação esmerada. Desanuviavam-se reciprocamente
-d’aquella vida pautada e monotona, fazendo má lingua, fallando da
-sociedade com a liberdade de parentes e camaradas. Um ou outro de
-apetites mais grosseiros, preferia abraçar nos corredores sombrios as
-simples creadas, mulheres de carnes saudaveis, sangue plebeu e revolto,
-que enchem a existencia d’alegrias. As provas de tão insignificantes
-delictos estavam nos beijos a cantar na escuridade, nos vultos a fugir
-cautelosos, nas palavras de carinho apanhadas avulsamente n’um perpassar
-rapido.
-
- * * * * *
-
-Um dia, o medico de serviço approximou-se do rei para lhe tomar o pulso.
-A um contrahir facial de suspeita do facultativo acrescentou o monarcha:
-
-—Não passei muito bem a noite, não.
-
-Tivera soffucações, maus sonhos, um dormir inquieto. O doutor
-applicou-lhe demoradamente o ouvido á região cardiaca, concentrou-se n’um
-raciocinio e quietou o doente com o sorriso profissional. Nervoso, talvez
-a maldita dyspepsia—esclareceu.
-
-Porém logo se dirigiu aos aposentos da rainha a informal-a da gravidade
-e adiantado da molestia. Poucos minutos levou, para o mais humilde
-serventuario do palacio saber que o soberano padecia d’uma lesão. Era
-coisa já antiga e sómente os ultimos gelos a tinham aggravado. Congestões
-abdominaes e no figado haviam obrigado aquelle velho coração a empregar,
-nos ultimos tempos, um grande esforço para impellir o sangue até aos
-confins do corpo. Um coração delicado de rei, batendo sempre moderamente
-debaixo de lendarios arminhos, logo que sentiu resistencia ao seu poder,
-entristeceu; principiou a condescender, a sobrecarregar-se; dilatou-se;
-adelgaçou... e a terrivel aneurisma estava proxima a romper-se.
-
-—É como se o monarcha, sentisse contra o seu poder providencial a revolta
-dos seus vassalos—comparou o medico, com delicadeza de phrase.
-
-Tal acontecimento impressionou diversamente. Não havia unanimidade de
-sentir, nem de crença. Todos viam que o rei continuava a conversar na sua
-voz pausada e fidalga. O doutor era homem sabio e respeitado, mas podia
-enganar-se.
-
-—A sciencia humana—disse um velho de sorriso sceptico—é fallivel. «A mais
-aguda, segundo o poeta, é ignorancia cega ante a divina». O aspecto de
-sua magestade não é para sobresaltos.
-
-—E a edade?—argumentou outro.
-
-—Sim, a edade é condição desfavoravel—rematou o primeiro.
-
-Alguem notára, que nos ultimos tempos, o rei, outr’ora tão expansivo,
-se callava frequentemente, levando a mão ao peito quando desejava
-respirar mais fundo. Porém acreditavam ser o cansaço de estar sentado,
-o aborrecimento de viver no quarto e a tristeza da maldita surdez, que
-parecia não ter cura. Que se levantasse algumas vezes, que fosse até á
-larga varanda admirar a primavera que principiava a romper nos campos e
-veriam, como logo adquiriria vigor, como os olhos se lhe alegrariam.
-
- * * * * *
-
-Os do pessoal menor do palacio, que tanto como outros viviam da
-munificencia regia, preoccupavam-se, para o caso da morte, com o theor do
-testamento. Alguns esperavam d’alli uma especie de liquidação vantajosa
-da propria fortuna; outros, mais reservados e scepticos, temiam não ser
-contemplados e perderem aquelle bom agasalho e santa ociosidade.
-
-—Não nos fiemos em sapatos de defunto. Poderemos obter d’esta fórma o
-equivalente do que gosamos?—resumiam.
-
-—Ah! não póde deixar de ser! Até seria uma vergonha se o não fizesse!...
-
-Esse rico papel escripto pelo proprio punho do rei, diziam estar dentro
-d’um cofre de malachite, guardado n’um armario de ferro. Ninguem o tinha
-lido, a não ser talvez o primogenito e a rainha; mas para todos era um
-motivo de palavras humildes e risos captivantes, em face do doente.
-Este homem, fabulosamente rico, podia deixar a independencia social aos
-que eram pobres e accrescentamento de fortuna aos opulentos. E tinha de
-o fazer, se queria engrandecida e celebrada a sua memoria. Isto de reis
-são orgulhosos, mesmo quando o não parecem; teem a vaidade de que os
-lamentem depois da morte, para se conservar a velha ideia biblica de que
-o monarcha é o pae, é o senhor, é o ungido de Deus!
-
-—N’esse caso que o pague—concluiam.
-
- * * * * *
-
-Poucos dias depois do ultimo alvoroço ácerca da saude do rei, houve um
-acontecimento que impressionou. O doente não tivera, durante a noite, uma
-hora de somno tranquillo. Sonhara uma vida agitada de batalhas, sentira o
-sangue tumultuar-lhe nas arterias.
-
-—Vejam lá, n’estes tempos modernos, eu a imaginar torneios e golpes de
-lança!—criticou elle mesmo.
-
-O doutor foi de opinião, que lhe devia ter feito mal a visita d’um
-antiquario estrangeiro. A surdez obrigava o monarcha a grandes esforços
-na conversa. Durante perto d’uma hora os dois tinham discreteado ácerca
-de tempos passados, da belleza e encanto da vida d’outr’ora, artistica e
-batalhadora, despreoccupada e cheia d’aventuras—bons tempos em que houve
-homens que foram simultaneamente guerreiros, poetas e artistas, como
-Cellini.
-
-—Evite-me vossa magestade essas commoções. Ponha-me esses sabios na
-rua—recommendou o medico.
-
-A mulher do rei foi claramente informada da extrema gravidade da
-molestia de seu marido. Senhora de ascendentes fidalgos, muito temente
-a Deus, conseguira enfileirar na familia do rei, por um abuso da força
-poderosa da sua belleza e da sua carne, sobre a organisação já caduca do
-soberano. Tambem se fallava de influencias clericaes, que miravam a obter
-para certo instituto, parte da fortuna particular do monarcha. Todos
-entendiam que ella se prestára a aquecer os membros frios d’um velho, por
-simples vaidade de ser chamada rainha.
-
-Amava a riqueza, a consideração publica, o fausto da corte e a supremacia
-entre as mulheres. A importancia da doença do marido, cuja morte
-para ella significava a perda de todas estas garantias e vantagens,
-assustou-a. O seu rosto de vivo que era, tornou-se tão composto e triste,
-que abrandou, no começo, a malevolencia de muitos que na corte lhe
-eram hostis. Ella que tanto amava os theatros, os bailes, as corridas,
-os passeios de carruagem ao ar livre, em face das bellas paisagens
-illuminadas pelo sol, deixou de sahir logo que o mal tomou o caracter
-assignaladamente grave, e installou-se ao lado da poltrona onde o marido
-dormitava, ouvia os seus amigos, e arfava os cansaços da molestia.
-
-Ella, ás vezes sob pretextos futeis pedia que a deixassem só com o rei.
-Condescendiam os camaristas, formando conjecturas, que nem sempre eram
-benevolas. Diziam que depois d’essas intimidades lhe notavam no rosto
-uma agitação febril, mal dissimulada. Accrescentavam que no semblante
-do rei, apesar da compostura calculada, apesar da respeitavel barba
-branca que lhe diminuia a expressão, apesar de reclinado na poltrona
-com as palpebras docemente cahidas... descobriam restos de fadiga e o
-aspecto d’um homem contrariado. Parece que se percebera n’um dia barulho
-d’altercação, parece que se ouvira depois um soluçar de mulher. A
-creadagem affirmava ter sentido beijos de esposos, palavras de colera,
-expressões de reconhecimento. Tudo isto não podia deixar de ser obra de
-testamento—entendiam. Os velhos amigos do soberano, sempre lhe tinham
-tractado respeitosamente a mulher, indicando, ainda assim, na friesa e
-polidez dos cumprimentos, que a não estimavam. Na ausencia chamavam-lhe
-intrusa, ambiciosa, desnaturada, pois abreviava os dias do doente com
-mortificações, e até a sua notoria religiosidade, tomavam como impostura.
-
- * * * * *
-
-A molestia progredia a olhos vistos, e já a ninguem era licito
-desconhecer o proximo termo d’aquella vida d’opulencia. O proprio
-doente disso estava convencido e quando lhe diziam palavras d’esperança
-sorria com amargura. As ancias, as suffocações, agora mais frequentes
-e incommodas eram um desmentido claro. A oppressão no peito dava-lhe
-um sentimento de homem replecto. Os beiços engrossavam todos os dias,
-as olheiras eram fundas como a sombra da noite, as palpebras pesadas e
-adormecia facilmente como um bebedo. Este homem nascido em berço d’oiro,
-esta imaginação educada e aberta sempre n’uma atmosphera de delicadezas,
-repugnando-lhe as miserias asquerosas d’uma doença prolongada, começou a
-ter pelo corpo de que fôra tão vaidoso, um desprezo invencivel. As suas
-pernas estavam grossas como rudes troncos de carvalho, o ventre volumoso
-chocalhava como um barril mal cheio, e, segundo lhe segredava a memoria,
-devia conter um liquido viscoso, semelhante a baba d’animaes. Preferia
-ter uma doença de cruciantes dôres. Devia haver molestias para reis,
-molestias limpas, que fossem o logico terminar da vida das grandezas.
-A cabeça recostada no espaldar alto da cadeira, o roupão de seda a
-arfar-lhe sobre o peito, fechava voluntariamente os olhos para fugir á
-vil realidade e entrar n’um mundo ideal de lembranças dignas. E parecia
-conseguil-o, pois havia momentos em que o seu rosto era d’uma paz e duma
-tranquillidade de stoico.
-
- * * * * *
-
-Viveria em imaginação no seu passado?
-
-Fôra criança e logo na edade em que o cerebro começa a perceber viu-se
-rodeado da consideração, que pode gerar o orgulho—velhos fidalgos iam-lhe
-submissamente confiar as suas barbas, para que o principe as tomasse
-como brinquedo. Tinha sido entregue depois a professores, que sobre
-elle exerciam uma auctoridade parecida antes com a obediencia. Quando
-cavalleiro, gentil e vaidoso, o fanatismo de todas as mulheres, gosára
-amores defezos, que tanto o divertiam pela posição do homem enganado.
-Subiu ao throno, e viu curvadas diante de si, as illustrações do sangue
-e da sciencia, homens de renome que só d’elle, do seu tradicional poder,
-deviam receber a consagração. Aborrecido do mando, com o egoismo proprio
-da velhice, abdicou, creara novos prazeres recolhidos, encontrára ainda
-uma formosura que o amára, sentira-se remoçado e contente durante certo
-periodo...
-
-Porém n’outros momentos vinham-lhe subitas crispações faciaes
-significativas de desgosto. É que sentia o desabar de todo esse mundo,
-como desabam as montanhas n’um rancoroso terremoto. Tinha, ás vezes, a
-sensação de que um largo alçapão se abria na terra e o engulia para uma
-escuridade absoluta e eterna! Era homem como os outros. Diante da miseria
-da carne estava nivelado com a plebe mais infima. A corôa, o sceptro, a
-auctoridade real, os gosos da intelligencia, nada faziam para que tivesse
-um fim grandioso.
-
-Felizes só os reis antigos, mortos heroicamente nas batalhas medievaes,
-atravessando inimigos com lanças relusentes e acabando entre maldições e
-hymnos de gloria! A sua imaginação dolorida apresentava-lh’o ainda mais
-repellente do que estava, o rosto espapaçado—palpebras entumescidas e
-cyanoticas, beiços grossos e olhar sem brilho. Vira-se uma vez ao espelho
-e ficara horrorisado de si mesmo. Despresava-se com nojo.
-
- * * * * *
-
-Sobre todas as ironias da carne, vinha ainda a preversidade dos vivos
-cubiçando-lhe os haveres. A mulher queria um testamento que lhe fosse
-absolutamente favoravel. Era o legitimo preço da sua belleza e da sua
-fresca mocidade, que elle estragára com beijos senís. Ao calor emprestado
-pelo sangue da donzella, devia o rei o prolongamento d’uma vida
-arruinada. Os filhos questionavam os seus direitos, com razões de casta,
-ligando-as a interesses d’Estado. Fallavam das tradições de familia; da
-abundante riqueza que era preciso ostentar, para se imporem pelo fausto,
-como já se impunham pelo nascimento. Porém elle tinha amigos fieis,
-companheiros dos enthusiasmos juvenis; creados cujos aturados serviços
-mereciam uma recompensa, uma lembrança no supremo instante da despedida.
-A exigente consorte queria tudo para si. Cá regularia todos esses deveres
-como entendesse. Só assim poderia sustentar o respeito e consideração
-publica, continuando na sua mão as dependencias que até alli tinham sido
-do rei. Exhorava-o com beijos, com palavras acrimoniosas, com ameaças
-sobre a sua memoria.
-
-Como meio de sahir de taes amarguras, o monarcha lembrou-se do suicidio.
-A razão aconselhava-lhe a findar o mais depressa uma existencia
-assim despresivel. Seria um acto cobarde?!... Entre o soffrimento e
-o gozo passa-se toda a vida humana. Quem não póde luctar desapparece
-d’arena—pensou resolutamente. Ia furtar-se a muito desgosto, a sentir o
-difinitivo escorrer do seu corpo, que já era massa inerte, alastrando-se
-pelo chão. Ia poupar-se a afflicções, não queria supportar o peso
-d’aquellas pernas inchadas, não queria ouvir por mais tempo o chocalhar
-dos liquidos no ventre, o que lhe dava a ideia de que elle era um
-despresivel odre, caminhando no dorso d’um macho.
-
- * * * * *
-
-Que bella noite, serena e calma! Uma lampada de Sèvres, espalhava no
-amplo quarto uma bruxuleante claridade. A rainha recolhera-se aos seus
-aposentos. Alguns camaristas, medico e serventuarios, vigiavam os restos
-d’aquella vida. Quando a apparencia d’um somno tranquillo se espalhou
-no rosto do doente, todos se retiraram para as salas proximas. O rei
-sentiu-se bem, só. Calculou que todos estariam despreoccupados da sua
-pessoa. Convencido d’isto, teve um sorriso de triumpho! Logo tentou
-erguer-se, fincando as mãos nos braços da cadeira. Mal se pôde mover!
-Estava entorpecido, o corpo pesado, a sensibilidade ausente. Terrivel e
-severo desgosto foi o seu, quando se viu nas condições de semelhança com
-um sapo hydropico! Reagiu corajosamente contra a inercia dos musculos
-e, n’este esforço de dignidade suprema, conseguiu levantar-se. Mas logo
-se sentou, para não cahir. A colera do seu espirito tomou proporções
-formidaveis, como o vento que arrasa florestas. Concentrou no combalido
-coração o antigo vigor da juventude, toda a coragem da mocidade. Queria
-supplantar este phantasma da impotencia, que se levantava deante dos seus
-olhos. Passando da cadeira a apoiar-se no rebordo d’uma meza, depois
-na hombreira da janella, apanhou a bengala de castão d’oiro e pedras
-preciosas, que lhe mandára de presente um papa, e conseguiu firmar-se em
-pé. Deu alguns passos cambaleantes; mas parecendo-lhe ouvir um rumor,
-parou de subito. Não era ninguem. A sombra do seu corpo projectada pela
-tenue luz estendia-se no pavimento, tremula de susto.
-
-Oh! fraqueza, oh! implacavel miseria humana! Este senhor poderoso, esse
-phantasma movendo-se tropego e cauto no silencio da noite, é o proprio
-Luiz XI aterrado diante das visões do seu cerebro! Foi-se abeirando,
-timido e com passo incerto, d’uma pequena estante entre duas janellas.
-Lançou mão d’um objecto que metteu no bolso do _robe-de-chambre_,
-furtivamente, como homem que andasse a roubar. N’esse momento a estante
-oscilou, o barulho attrahiu um creado.
-
-—Não preciso... não chamei...
-
-Tremia de medo, como creança encontrada n’uma travessura. Veio o
-medico e o camarista. Approximaram-se, ampararam-no até á cadeira, e
-reprehenderam-no amoravelmente.
-
-Desculpou-se com palavras de humildade e sujeição.
-
-Tentára esta experiencia para vêr se podia andar, sem o auxilio de
-ninguem. Querendo inferir, por si mesmo, da força e vigor de que
-dispunha, era necessario mexer-se no quarto só, sem que o vigiassem.
-Ainda estava vigoroso e forte—affirmou. Sentia-se com vida para muito
-tempo.
-
-Fortificaram-no n’esta ideia; porém retorquiam que fôra temeridade o que
-acabava de fazer. Podia ter cahido, dar com a fronte na esquina de uma
-cadeira e isto ser-lhe fatal, no estado de fraqueza em que ainda estava.
-Assim se interromperia uma boa convalescença, assim adquiriria novos
-padecimentos que podiam ser mais graves, muito mais graves do que os
-actuaes.
-
-Concordava em tudo, sorrindo. Porém, a tentativa, visto não ter dado
-mal nenhum, estava contente por têl-a feito. Atravessára o quarto sem
-auxilio, e era isso que até alli suppunha impossivel. Talvez no dia
-seguinte fosse ao gabinete contiguo, depois á varanda e finalmente ao
-jardim.
-
-—Poderei experimentar doutor?
-
-—Com precauções, meu senhor, com precauções.
-
-Discorreu ainda, com serenidade, alguns minutos. Estava evidentemente
-melhor, mais desafogado. Aquella experiencia tornára-o communicativo e
-alegre. Conseguira ter vontade de dormir. Parecia-lhe que ia gozar um
-somno regalado e sereno. Os olhos estavam com tendencia para se fecharem.
-Que o deixassem só é que desejava.
-
-—Mas vossa magestade...
-
-—Não me levanto mais—atalhou. Palavra de rei.
-
- * * * * *
-
-Sahiram. Tudo ficou em paz e tranquillidade. O rei conservou-se largo
-periodo immovel, os olhos fitos n’uma armadura que estava de sentinella
-a uma porta. Concentrou toda a força dos sentidos, para reconhecer que
-o não vigiavam. A manhã surgia do infinito dos tempos. Os passaros
-começaram a chilrear nas acacias do parque. Ouviu-se o cantar lento e
-monotono do velho jardineiro, que por entre as flores regougava melopeias
-do seu paiz. Levantava-se, subindo e alargando-se como um nevoeiro que
-emerge d’um rio, o sussurro que fórma o dia—mistura de muitos sons. A
-creação universal ia engrandecer-se com um novo impulso do sol, n’este
-formoso dia de primavera.
-
-O rei tinha uma expressão firme de tenebrosa coragem. Tacteava com
-perspicacia, para encontrar no braço esquerdo o signal d’uma sangria, que
-em moço lhe haviam feito, pela queda d’um cavallo. Na mão brilhava-lhe
-uma pequena lamina de Toledo, obra de esmerado artista, com multiplicadas
-linhas d’oiro encrustadas em ferro. Abandonava riqueza e fausto,
-sentia-se podridão e lama! Com a indomita coragem dos altivos e dos
-desventurados abriu a cicatriz quasi apagada. E emquanto esse sangue
-de rei escorria, gottejando no chão, o moribundo encostou a cabeça no
-espaldar alto da poltrona e com um sorriso de amargura, disse suspirando:
-
-—Acabou-se.
-
-Penderam-lhe os braços, a cabeça rolou para um lado, todo o seu corpo foi
-entregue ao supremo desleixo da morte!
-
-O segredo d’este acontecimento conservou-se nos intimos do palacio. O
-medico, ao contemplar o cadaver inerme, com a ideia nos soffrimentos que
-ainda estavam reservados ao monarcha se continuasse a padecer, concluiu:
-
-—Foi melhor assim!
-
- Lisboa, janeiro 85.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-A MULHER DE LUCAS
-
-
-Diga-nos, então, como foi essa historia do seu casamento; como é que a
-sua mulher fugiu de casa.
-
-—Ora... não fallemos de coisas tristes. Eu já lh’o contei e o senhor bem
-o sabe. Compram-me uma cautella?
-
-—Mas desejo—insisti—que este meu amigo oiça tudo da sua propria bocca...
-
-Sorriu, olhou interrogativo para nós ambos e perguntou:
-
-—Porque? Este senhor conhece-a?—E mudando para um tom energico e quasi
-enfurecido:—Sabe onde ella mora?
-
-Fizemos-lhe signal negativo, e Lucas retomando a sua expressão habitual
-de paciencia e doçura disse:
-
-—São coisas de que me não quero lembrar. Lá vae, acabou, leve o diabo
-paixões e mais quem com ellas engorda. Aquella mulher andou muito
-mal comigo... Eu fazia-lhe tudo quanto ella queria, dava-lhe muita
-libardade... Foi talvez por isso que recebi o pago que tive...
-
-—Alguem que a desencaminhou... alguma companheira...—insinuou o meu amigo.
-
-—Ná... ná... sempre teve aquella queda. Era muito chibante e espirituosa,
-não era senhora para mim. Foi uma asneira... Passou—resumiu tristemente.
-
-—Tambem não é tanto como diz. O Lucas estimava-a, e não se póde dizer um
-velho—consolei-o.
-
-—Ainda assim tenho mais vinte annos do que ella. Mas não fallo n’esse
-particular. Não era senhora para mim, que sou um bruto. Uma raparigona
-alta, bonita, bem feita, creada n’um collegio aqui de Lisboa, sabendo
-francez e grammatica, toda perluxa e bem fallante... não era casamento
-para o Lucas. A minha primeira, que Deus tem, é que estava na conta.
-
-—Você tambem foi cahir em se casar duas vezes!—disse o meu amigo. Lá
-n’uma, tenho ouvido dizer, quem quer cae.
-
-—Nem sei como isso aconteceu, meu senhor—confessou melancolico. Uma
-bebedeira que me passou na cabeça. Ha dias que melhor fora a gente
-apparecer morto na cama. Luisa, a minha outra, era uma dona de casa.
-Quando morreu fez-me falta para o negociosito, que eu tinha lá na terra.
-O contracto dos gados trazia-me sempre por fora; chegava a ir á Galiza
-comprar bois. Uma pessoa para me ficar no estabelecimento, era-me bem
-necessaria. Depois o achar-me só, em casa, principiou a dar-me para
-o figuedo, e sem uma companheira vivia triste como uma lesma. Até me
-lembrei de me afogar. Teria sido melhor—rematou olhando para o chão, a
-cofiar a barba reles.
-
- * * * * *
-
-—Pelo que vejo gostava muito da sua primeira mulher...
-
-—Assim... Era muito doente, mas boa creatura. Quando morreu fiz-lhe um
-enterro de truz. Nunca lhe pude arrancar um filho, por mais dinheiro
-que com ella gastei em medicinas e promessas. Aquillo era molestia das
-entranhas. Morreu esmaleitada como a cera e magra como um guiço. Passei
-uma ralação, sempre a por-lhe cataplasmas e a dar-lhe chás de noite,
-por causa dos ataques. Dava gritos que acordavam a visinhança. Arrotos
-que pareciam tiros de espingarda. O ultimo mez, não preguei olho e
-já não podia... Veio então a Joanna, a irmã d’ella, que me ajudou a
-levar aquillo até ao fim. Essa é que era boa mulher para mim: geitosa,
-perfeitaça, trabalhadeira e rija como o ferro. Mas tinha tido uma falta,
-com um rapaz que depois embarcou para o Brazil, e eu n’essas coisas
-sempre fui muito dos diabos.
-
-—Pois, attendendo ao futuro, tinha sido melhor ter-se casado com essa sua
-cunhada—disse o meu amigo, presumindo já, que ao bom do Lucas, lhe haviam
-succedido coisas da breca.
-
-—Oh! que se a gente advinhasse, quantas vezes melhor!...—exclamou como
-quem se sentia applaudido n’um pensamento secreto. E a coisa vinha a
-fazer-se, mais tarde ou mais cedo; porque eu bebia os ares pela moça.
-Mas logo a má sorte, me levou lá para a casa fronteira, o major com a
-sobrinha...
-
-—Talvez filha—insinuei.
-
-—Não—respondeu vivamente offendido—era de gente casada. Até creio que
-de familia muito nobre, cá de Lisboa. Pelo menos ella assim o dizia e
-acreditem os senhores que tinha geitos d’isso. Morreu-lhe o pae, a mãe e
-não lhe deixaram uma de X. Foi então que o major de quem eram parentes e
-quando ainda era capitão metteu, á sua custa, a pequena n’um collegio.
-Isso lá de educação e sabença, não acredito que haja outra que se lhe
-ponha adeante. O major depois adoptou-a como filha e trazia-a sempre
-comsigo.
-
-—Nada ahi anda historia, ella era filha do major—insistiu o meu amigo.
-
-—Não era—certificou com rosto circumspecto—não era, sério. Eu vi-lhe a
-certidão d’edade, quando se tirou a licença. Era de gente casada e até
-fidalga, diziam-no todos. Mas faltava-lhe dinheiro; porque o major para a
-educar, teve de pedir ajuda aos outros parentes. Mas deu-lhe um saber de
-truz. Eu nunca vi senhora mais distincta!—repetiu com ostentação.
-
-—E depois o tal major, sabendo que o Lucas tinha o seu pataco,
-impingiu-lha.
-
- * * * * *
-
-Conservou-se alguns momentos silencioso e ar dubidativo. Em seguida
-esclareceu:
-
-—São sortes. Elles vieram morar em frente da minha casa. As filhas d’um
-visconde que havia na terra, iam pra lá aprender o francez, o piano e
-a grammatica. Porque aquillo é uma senhora que sabe tudo—repetiu com
-vaidade. E bem fallante? nunca vi outra! Aquelles janotas iam conversal-a
-da rua para a janella e ella sota e az a todos. Que regalo de mulher! O
-delegado que lá estava ao tempo, disse deante de mim que em philosophias,
-não encontrára senhora como aquella. Vi muitos homens embasbacados a
-ouvil-a. E que homens! O desembargador João Xavier que era conhecido em
-toda a parte. Caramba! que mulher tão esperta!—pronunciou batendo uma
-palmada na coixa. Pena é que tenha a cabeça leve como uma folha secca.
-
-—E vae, todo cheio de enthusiasmo, namorou-se da lisboeta...—presumi.
-
-—Não senhor—esclareceu—nem tal me passava pela lembrança, se não fosse
-ella. Eu bem via que não era homem para aquillo. Ella é que principiou
-comigo de volta, a rir-se para mim, a espreitar pela frincha da janella,
-a fazer-me tagatés... Não sabia o que tudo isto queria dizer, palavra
-d’honra! Olhava para mim e via que não podia ser. Principiei a andar
-assim a modo de esquisito, a não saber o que tinha. Um dia diz-me ella,
-sem _tirte_ nem _guarte_, que eu era um viuvo ainda muito geitoso. Fazem
-lá ideia! Logo que ouvi tal, d’aquella bocca linda como a maçan camoesa,
-e com a graça e esprito que ella tinha em todas as coisas, senti cá por
-dentro taes esfregações, que não fazem uma ideia! Caramba! até perdi o
-comer! Andava assim a modo de tonto, pesava as coisas tão mal na loja,
-que era uma risota. E então securas? Todo eu era um forno. De noite
-principalmente passava o tempo a beber agua e em vez de dormir vinha-me
-prantar á janella, com os olhos pregados na casa onde morava aquelle
-demonio tentador, que foi a minha desgraça.
-
-—Era uma paixão—conclui.
-
-—E uma paixão furiosa—acrescentou o meu amigo.
-
-—Sei lá que diabo era! Foi uma grande bebedeira. Parece que me tinham
-dado alguma bruxaria a comer. D’ahi por diante nunca mais dei conta de
-mim. Não era Lucas Baptista que fallava, era outro homem. Tinha-a sempre
-diante dos olhos, quer de dia, quer de noite. As santas da egreja,
-inclusiva Nossa Senhora—Deus me perdoe!—pareciam-me feias em comparação
-d’ella. Um dia tirei-me dos meus cuidados e pilhando-a a geito na janella
-disse-lhe: «Uma casa sem uma dona é triste como um campo de milho sem
-sacho!»
-
- * * * * *
-
-—E ella entendeu-o?
-
-—Sei lá! Deu uma gargalhada e sahiu da janella. Fiquei assim a modo de
-parvo. Se se tivesse rido de mim, se andasse a fazer chacota, é porque
-me ia deitar na levada da azenha e nunca mais appareceria. Mas voltou
-logo depois e com um sério muito sério, pôz o dedo no nariz a dizer-me
-que lhe não fallasse assim da rua, que lhe podia arranjar alguma fama.
-Eu então tive um baque no coração e disse de só para só: «Ella quer!»
-Logo que encontrei modo perguntei-lhe em segredo: «Deseja a menina ser
-a dona d’esta casa?» Mas quando estas palavras me sahiram da bocca, vi
-abrirem-se-me debaixo dos pés as chammas do inferno.
-
-—Porque! Ella disse que não?—perguntou o meu amigo.
-
-—Qual! Pois isso é que foi. O demonio da serpente tentadora, com uns
-olhos d’uma maganice que os senhores não fazem ideia, responde assim,
-para só eu ouvir: «Isso é com meu tio!» E sae da janella, indo tocar no
-piano uma modinha de que eu gostava tanto que até me fazia arrepios.
-Caramba! Aquillo fez-me cá por dentro tal arrepanho, deu-me tanta alma
-e coração, que desejava ter de meu o mundo inteiro, só para lh’o dar e
-fazel-a princeza. Podia lá ser! Um velho, um estupido, que só sabia pesar
-arroz e bacalhau e contractar em gados, casado com aquella senhora, tão
-bem fallante e tão linda!... Eu só queria que os senhores conversassem
-com ella! Desembaraçada e litterata como aquillo não ha. Vá lá o mais
-poeta dar-lhe mote, sem vir com a cara a um lado! Os paes d’ella eram
-gente grauda cá de Lisboa e o tal tio, honra lhe seja, deu-lhe educação
-de espavento. Ainda hoje lhe quero bem só por isso! A tal viscondessa
-de quem a D. Rozita do major, (era assim que lhe chamavam lá na terra)
-ensinava as filhas, era uma creada ao pé d’ella. Uma senhora de mão
-cheia, lá isso valha a verdade.
-
- * * * * *
-
-—O amigo Lucas sabe a historia da nossa mãe Eva e a da maçan que Adão
-comeu?—perguntei.
-
-—Ouvi bastas vezes explicar isso lá ao abbade. Pois a gente não é de pau,
-é de carne e osso, caramba! Logo n’esse dia o major entrou-me na loja a
-comprar charutos. Era assim um home todo arroganças, sempre a retorcer os
-bigodes e a dar com o chicote nas calças. Ainda bem conservado, talvez
-uns dez annos mais velho do que eu. Chamei-o para traz d’umas saccas
-d’assucar, que lhe queria dar duas palavras, em particular. A minha loja
-era grande como um armazem! Fazia muito negocio e todos os mezes tinha
-pagamentos de duzentos, quatrocentos e mesmo seiscentos mil réis aos
-caixeiros do Porto, que iam ás cobranças. Ás vezes havia mais que um
-pagamento. Bah! nem me quero lembrar! Tudo perdi, por causa d’aquella
-má mulher, que foi a minha perdição. Nunca mais a tornei a ver, não sei
-onde diabo se metteu; mas se um dia a encontro, ainda perco a cabeça e
-chacino-a, como se faz aos porcos. Para mim hoje tanto se me dá da costa
-d’Africa, de morrer no Limoeiro, ou d’um tiro, como se me dá da primeira
-camisa que vesti—terminou com desespero.
-
-—Mas o major. O que disse o famoso major?—perguntou interessado o meu
-amigo.
-
-—Ora... uma lenga, lenga. Principiou macambusio, a retorcer os bigodes...
-Eu que nunca fui medroso, nem peco, pois muitas vezes venci a tiro os
-guardas de alfandega na raia, por causa do contrabando, tremia como
-varas verdes. Se elle me diz que não, espetava uma faca na minha propria
-barriga. Porém, não disse. Mastigou em secco... mastigou... que era o
-diabo; grande differença de edades; ella sempre tinha vivido com muita
-decencia, mas não tinha nada de seu; que eu precisava de outra mulher...
-E dava com o chicote pelas saccas do assucar, e encolhia os hombros e
-passeiava d’um lado para o outro, sem atar nem desatar. Este aranzel
-puchou por mim e disse: «Ó senhor major, eu bem sei que a não mereço; mas
-se ella, assim mesmo como eu sou, me quizer e se eu tiver meios com que
-lhe conservar todo o luxo que tem, o senhor não diz que não?»
-
-—Ora, agarrou-lhe com as duas mãos—entendeu o meu companheiro.
-
-—Não é tanto assim! Que não tinha nada com isso. Tinha-a creado; mas
-não era sua filha. Demais já tinha passado a edade, podia fazer o que
-quizesse. O que lhe custava era separar-se d’ella.
-
- * * * * *
-
-—Ainda é vivo o major? perguntei.
-
-—Não senhor, morreu d’um ataque, era um grande borrachão. Só o vinho do
-Porto que elle me bebeu lá da loja?! Ficou-me a dever mais de cem mil
-réis! Adiante. Por ultimo disse que sim; mas pediu-me quasi a chorar que
-a tractasse bem, que elle sempre a educára muito mimosa.
-
-—Estava tudo resolvido.
-
-—É verdade, uma infelicidade. A gente não sabe onde as tem armadas.
-Fomos casar ao Bom-Jesus de Braga e gastei mais de vinte moedas em tudo
-isso. Foi ella que assim o quiz. O tio major pilhou uma borracheira que
-chegou a estar de cama! Ao fim de tres dias voltamos para a terra n’um
-carro fretado ao Franqueira. Pareciamos uns fidalgos. Foi talvez o luxo
-que a perdeu, coitada, e a mim tambem—considerou com tristeza. Porque
-ella não era má, os senhores podem acreditar; mas o janotismo deu-lhe
-volta ao miolo, como acontece a quasi todas as mulheres, para mal dos
-maridos—concluiu philosophicamente.
-
-—Não foi só isso, talvez—repliquei. Ora confesse, amigo Lucas. O outro
-era ahi algum rapaz novo e janota...
-
-—Que!... Não senhores—interveio com vivacidade—um gebo como eu! Não me
-troco! Assim um gordo, de cara espapada e barbicha de cabrito. Não me
-troco. Essa é que é toda a minha matacão. Se Rosa fosse para onde algum
-rapaz novo e bem parecido... vá. Sou velho e não me tenho por home que
-a mereça. Mas para esse bruto com quem ella está! Ainda que eu viva cem
-annos, não me posso consolar! Que posição tem elle?... (interrogou-se).
-Uma logita alli para os lados de S. Paulo. Ora abobora!... O bicho mulher
-não ha ninguem que o entenda!
-
-—Realmente não se percebe bem, a loucura de sua mulher—reflectiu o meu
-amigo. O senhor tractava-a mal, batia-lhe?
-
-—Eu!? Eu bater-lhe?! O senhor está a caçoar comigo! Só o que queria saber
-é onde ella desejaria passar, para ir beijar o chão onde pozesse os seus
-pés. Fazem lá ideia! Aquillo para mim não era uma mulher, era uma santa.
-
-E as lagrimas cahindo-lhe a quatro, Lucas acrescentou:
-
-—Até é uma vergonha, o chorar ainda por aquella ingrata! Não está mais na
-minha mão.
-
- * * * * *
-
-—Então não comprehendo—insistiu o meu amigo—como depois de o querer para
-marido, o regeitou.
-
-—Pois eu comprehendo muito bem, com sua licença. A questão é que ella
-casou comigo, para vir para Lisboa. Depois da bôda não nos demoramos
-quatro mezes lá na terra. Principiou aquelle demonio a atanazar-me, que
-não podia viver alli, que o negocio não prestava e como o tal tio já
-tinha morrido, metteu-me na cabeça, que aqui em Lisboa, eu podia ganhar
-mais dinheiro. Isto lá me custou, porque eu bem via ser uma asneira.
-Mas ella tanto fez e eu com este meu fraco por aquella sereia, não tive
-remedio. Viemos e os primeiros quatro mezes foi uma pandiga. Enguliu-se
-um conto de reis, em carros, em theatros e com amigos que logo arranjei
-no hotel da rua da Prata, onde estavamos. Muitos d’esses, hoje, nem
-me compram uma cautela, só para me não fallarem. No fim d’isto eu que
-via sumir-se o dinheiro disse-lhe: «Mulher, as libras acabam-se, é
-preciso arranjar algumas.» Ella então teve a ideia de pôrmos uma loja de
-capellista, onde ella estivesse a vender, para chamar freguesia. Para
-chamar freguesia!—exclamou indignado e ironico.—O que eu merecia era com
-uma moca no toutiço! A freguesia de que ella precisava sei eu! Era com um
-marmeleiro!
-
- * * * * *
-
-—Então foi ahi que ella...
-
-—Não senhor. O tal gebo conhecemol-o á mesa do hotel e no theatro da rua
-dos Condes. Á mesa estava o machacaz em frente de nós, sempre a offerecer
-genebra ou vinho do Porto. Por isso, quando a gente arranjou a loja,
-que foi alli para a Sé, o janota lampana, não me sahia de lá e era dos
-melhores freguezes de charutos que a gente tinha. Fazia-se muito amigo e
-eu que sempre fui um simples, contei-lhe a minha vida e confessei que o
-negocio não dava para os gastos. No fim d’um anno pouco havia dos cinco
-contos que trouxera da terra! Pois elle, com um estadão como eu tinha,
-sempre de grande e á franceza, passeios aos domingos, carros, bailes de
-mascaras!... E querem os senhores saber?... Foi a desavergonhada (eu a
-este tempo, sou capaz de jurar sobre umas _Horas_, como ella ainda não
-era má mulher!) que me lembrou fallar com o Gonsalves (era o tal!) para
-elle me aconselhar alguma coisa, em que se ganhasse dinheiro. Fallei
-n’isso ao cara de demonio e logo muito prompto me disse que mettesse o
-que me restava em negocio de vinhos de Torres, que dava muito. Foi até
-elle que me arranjou conhecimentos. Por este motivo principiei a andar
-dias e dias por fóra de casa, por um lado e pelo outro, sempre n’uma fona.
-
-—Ahi é que bate o ponto. O que elle quiz foi afastal-o para longe.
-
-—Pois!... Eu nunca pequei por esperto. Penso que toda a gente é de boa
-fé, como eu!... N’esta coisa de cauteleiro em que ando, tenho aprendido
-muito. Hoje nem o mais pintado.
-
-—O negocio de vinho fel-o perder a mulher e o dinheiro—raciocinou o meu
-amigo.
-
-—Como diz; porque logo que, por uma carta anonyma, vim a desconfiar
-d’aquella ingrata peguei de vigial-a e para melhor o fazer vendi todo
-o vinho de repente e com perca grossa. Um dia disse-lhe: «Mulher, tem
-juizo, porta-te bem, olha que a honra não ha dinheiro que a pague!»
-Respondeu-me que não fosse tolo e voltou-me as costas. Com o fim de
-estar perto d’ella, arranjei coisa para ficar em Lisboa. Uns amigos
-afiançaram-me em algumas casas de commercio, para eu andar a receber
-dinheiro. Ella ralhou-me por isso e disse que havia de ser grande o meu
-ganho. Eu respondi: «Para o que tu precisares nunca te hade faltar.
-Ainda que eu venda o meu corpo ao diabo, terás sempre para os teus
-alfinetes.» Sabem com o que me veio?: «Eu quero continuar a ir aos
-theatros e dar os meus passeios. Não hei de estar toda a minha vida
-mettida n’um buraco.»
-
-—Tinha aspirações, vê-se.
-
-—Tinha o diabo no corpo, é o que ella tinha. Eu não lhe merecia o pago
-que me deu. Trabalhava como um mouro, só para que ella tivesse tudo. Não
-havia chuva, não havia vento, não havia calor para mim. Sempre a correr
-por essas ruas e então que estáfas! Ás duas por tres, cahia-lhe na loja
-como quem vinha de passagem e sabe Deus se não tinha dado uma carreira
-de Alcantara até á Sé, só para ver se havia alguma novidade. Os senhores
-riem-se? É porque não sabem o que isto é. Chegava todo esbaforido, o
-coração aos pulos no peito, e sempre com aquella mulher deante dos olhos
-a enganar-me. Não comia, não dormia descançado, um verdadeiro inferno!
-
- * * * * *
-
-—Afinal vê-se que gostava muito d’ella—insinuei.
-
-Respondeu com vivacidade:
-
-—Isso, mesmo cá de dentro. Tinha-me por força dado alguma bruxaria. E
-que mal me pagou! Já não lhe pedia que me tivesse amor. Bem sei que não
-podia ser, que sou um velho e um ninguem; mas não devia fazer o que fez.
-Na noite em que, morto de fome e de frio, entrei em casa depois de ter
-andado todo o dia n’uma roda viva, e não a encontrei, cahi no chão como
-uma pedra. Tornei a mim, quando a vela do castiçal estava gasta. A casa
-em desordem, os bahus e gavetas abertas, como se tivessem andado ladrões!
-Aquella mulher perdida não se contentou em me deixar, levou tudo quanto
-havia de bom, e fiquei com a triste camisa do corpo. Chorei mais do que
-quando morreu minha mãe! Durante tres dias, quasi sem comer, nem beber,
-corri toda a cidade pelos botequins, pelas casas de pasto e restaurantes,
-pelos theatros com um revolve carregado a ver se os encontrava. Haviamos
-de morrer todos tres. A ella tinha vontade de lhe beber o sangue por uma
-tigela e a elle de lhe fazer a cabeça n’um bolo. Se os encontro havia de
-me vingar até ao fundo d’alma!
-
-—E ainda gosta d’ella?
-
-—Gosto sim senhor, gosto. Para que hei de dizer que não? É o meu peccado.
-
-Teve novas lagrimas nos olhos, que desejou esconder de nós, voltando-se
-para a parede.
-
-—Se ella o tornasse a procurar?
-
-—Não me falle n’isso! Ferve-me o sangue! Se um dia a vejo...
-
-—Ah! nunca mais a encontrou?—pergunta o meu amigo.
-
-—Já disse que não senhor. Sei onde mora, porque conheço a casa d’esse
-excommungado que m’a furtou; mas a ella nunca mais lhe puz os olhos
-em cima. Pois é admiração! Com este meu modo de vida das cautelas e
-dos jornaes, corro toda a cidade. Nem nos theatros, nem nos dias de
-procissão, nem no Passeio. Aquillo é que só vae á missa cedo e não torna
-a sahir—considerou melancolico.
-
-—E se um dia a encontra?
-
-—Mato-a! mato-a, com toda a certeza!—disse exaltado.
-
-Depois mudando rapidamente de tom concluiu:
-
-—Não mato, não mato... Adeus meus senhores, não me apoquentem.
-
-E distanciou-se quasi suffocado pela dôr.
-
- Março de 85.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-DOIS CATURRAS
-
-
-Nas serenas tardes de verão, dormida a sésta regulamentar, o dr. Leandro
-e frei Antonio, costumavam ir dar juntos um passeio. Sempre methodicos e
-taciturnos sahiam de casa á hora conveniente, para se encontrarem junto
-da igreja, sem esperarem um pelo outro. A menor falta n’este ponto, um
-simples minuto de tardança, era caso para recriminações da parte do que
-chegasse primeiro, recriminações manifestadas em monosyllabos de desgosto
-e n’uma ou n’outra phrase curta e rapida, atirada para o silencio com
-pronuncia desdenhosa: «Pegou-lhe bem na somneca», «Ficou abarrotado com o
-jantar», «Isto foi pinga de mais...» Mas depois seguiam cabisbaixos pela
-encosta acima, as mãos cruzadas sobre os rins, as bengalas pendentes,
-e paravam de vez em quando, para tomar um pouco d’ar. Junto da ermida
-da Senhora do Amparo, d’onde se disfructa uma paizagem restricta e
-pacificadora, cada um ia-se sentar no seu banco de pedra, á distancia
-d’alguns metros, como se fossem desconhecidos. E o frei Antonio, homem
-d’um fundo de bondade mais rancoroso, depois de saborear a primeira
-pitada, costumava dizer avulsamente, referindo-se a uma collina fronteira:
-
-—Como é bello aquelle monte lá em cima! E é-o por ser unico!...
-
-Leandro, fingindo que não ouvira, monologava:
-
-—Pena é não haver outro monte igual, do lado d’acolá, por causa da
-symetria!... Seria incomparavelmente mais bello!
-
-Estas palavras, já significavam uma tregua e uma reconciliação. Eram
-ironias mansas ao fim de muitos annos de argumentos, em viva polemica,
-esmorraçando mesas, quebrando cadeiras que atiravam ás paredes juntas
-com apostrophes. Porém nunca cederam, nem uma pollegada, n’este valioso
-ponto de esthetica que os separava. Frei Antonio sempre partidario da
-_unidade_, da simplicidade absoluta, e por extensão de principio do
-pernão, detestava o _par_. Tinha orgulho em ser padre, só por causa do
-celibato. No seu casaco sacerdotal e na ampla batina usava um unico
-bolso, para n’elle incluir todas as coisas do seu uso—a caixa, as
-chaves, o lenço vermelho, um pequeno breviario...
-
-E justificava-se:
-
-—Em quanto usei muitos, nunca encontrava o que queria. Agora é só metter
-a mão e prompto. A caixa?... Aqui. (mostrava-a). O breviario?... Eil-o.
-As chaves? o lenço?... Tudo, n’um ai.
-
-Exhibia os objectos com o semblante glorioso d’um prestimano. Era
-agressivo e até insolente para todos que lhe não acceitavam a invenção.
-Mostrava-se propagandista, loquaz, capcioso, argumentado pelo seu lado.
-
- * * * * *
-
-O dr. Leandro deleitava-se com a opinião diametralmente opposta. Pela
-unidade e por tudo quanto era impar tinha mais do que desdem, tinha
-desprezo. Dizia, como phrase de sentença, que a natureza nunca podia ser
-manca. Para irritar o seu amigo, na presença de muita gente, extasiou-se
-diante da insignificante igreja de S. Francisco, só porque tinha duas
-torres iguaes. Fingiu-se enthusiasmado, mostrando um pasmo acintoso e
-offensivo, e exclamou com os braços abertos:
-
-—Que bello! Olhem como são perfeitamente iguaes! Como é sublime a
-symetria!
-
-Frei Antonio sorriu amargamente, encolhendo os hombros, e respondeu com
-mal desvanecido azedume:
-
-—Deus, a suprema perfeição, é _Um! Um só!_
-
-E espetando o dedo no ar demorou-se com elle, vingadoramente, diante do
-nariz do doutor, que objectou:
-
-—Mas Jesus Christo, a encarnação do pae, tinha duas naturezas, divina e
-humana.
-
-O sacerdote enchendo-se de cordura disse-lhe:
-
-—Não gosto de metter n’isto o divino; mas podia responder que sendo
-tres,—_tres!_—sublinhou com emphase—as pessoas da Santissima Trindade,
-essas mesmas se reduzem a _uma_.
-
-—É tolo—ainda acrescentou o outro.—Não sabe que pela conta do marinheiro,
-as pessoas da Santissima Trindade são dez.
-
-—Que diz você seu hereje!—cresceu o sacerdote indignado.
-
-O doutor explicou tranquillamente:
-
-—Pois não sabe? Olhe. As pessoas da Santissima Trindade são tres; Padre,
-Filho, Espirito santo—seis; tres pessoas distinctas—nove; um só Deus
-verdadeiro —dez.
-
-Os circumstantes riram-se; o frade afastou-se trombudo; e, por agora, o
-advogado ficou victorioso, mostrando-o d’um modo saliente.
-
-Como andavam sempre juntos, de momento a momento se levantavam novas
-birras. O dr. Leandro, que era magro, pertinaz e acintoso estava
-sempre a espicaçar o egresso. Nunca o convidava para jantar, sem que o
-numero de convivas fosse par. Levava-os ao jardim para verem as flores
-e notava-lhes, sempre com insistencia, que as disposera pelo systema
-de parelhas (_de coices_—acrescentava o frade). Se tinha de abrir uma
-janella procurava logo estabelecer uma corrente d’ar, escancarando outra,
-o que endiabrava o clerigo, que vivia no terror das constipações. Em
-tudo se mostrava o rancor d’estes dois irreconciliaveis amigos. Indo
-no seu habitual passeio, se encontravam alguem a cavallo, o sacerdote
-aproveitava logo o momento para dizer:
-
-—Bonita egua! Não haverá outra como ella, para a emparelhar?
-
-O dono, se era vaidoso, respondia indubitavelmente:
-
-—Nunca a encontrei. Pois tenho corrido um rôr de feiras!
-
-O sacerdote insuflava n’um sarcasmo mordente:
-
-—É porque não procurou bem. Aqui este senhor era capaz de lh’a arranjar.
-
-—Pois não arranjaste!—duvidava o dono da egua.
-
- * * * * *
-
-O doutor procurou immediatamente a sua desforra. Logo que viu _O das
-perdizes_, na sua carruagem puchada pela ostentosa parelha de baios,
-disse-lhe:
-
-—Ó Pessanha! Se esses teus cavallos fossem differentes era muito melhor,
-diz aqui o frei Antonio.
-
-—Pelo amor de Deus! não valiam dois patacos! Uma parelha assim, é muito
-mais cára.
-
-O frade resmungou.
-
-—_Variatio deletact_, meu fidalgo. D’essa maneira até fazem mal á vista.
-
-E quando se distanciou a carruagem, disse o sacerdote avulsamente:
-
-—O universo é um.
-
-—Os mandamentos da lei de Deus são dez e reduzem-se a dois.
-
-—Já lhe fiz saber que não gosto de metter n’isto o divino, e lembro-lhe
-que a gente faz cada coisa por sua vez.
-
-O doutor apostrophou-o:
-
-—Quantos olhos tem o senhor na sua cara?!...
-
-—E não via as coisas muito melhor se tivesse um só, na testa por exemplo,
-como os Cyclopes? Até não havia o perigo de se entortarem.
-
-Leandro insistiu:
-
-—Quantas pernas tem o senhor? quantos braços?
-
-—E por quantas boccas come e diz asneiras o meu amigo! Por quantas
-gargantas engole?—arremetteu o frade. O que o senhor tem decerto, é dois
-juizos e nenhum d’elles vale tanto, como o casco d’uma cebola podre.
-
- * * * * *
-
-Estava-se nas vindimas. O advogado ía todos os annos para a Feitosa e
-acompanhava-o alli durante algum tempo frei Antonio. Era um costume já
-antigo. Leandro quiz d’esta vez apertar com _argumentos materiaes_ a
-paciencia do sacerdote. «É preciso provar ao latinista—pensou—que vale
-mais do que um simples casco de cebola podre, o meu juizo.» Logo que
-frei Antonio chegou á Feitosa, onde o doutor já o esperava, feriu-o
-uma novidade nos antigos e sustentados habitos d’aquella casa:—era a
-existencia de duas mezas de jantar, uma para cada um. O doutor só deu
-esta explicação:
-
-—O senhor tem o seu systema, eu cá tenho o meu.
-
-E na meza de Leandro havia dois talheres, dois pedaços de pão e duas
-canecas de vinho. Em frente d’um dos pratos estava uma cadeira, com um
-travesseiro a fingir de pessoa e esse travesseiro tinha um chapeu na
-cabeça, um bigode de sedas de cavallo e conservava-se impertigado, n’um
-sentido de troça.
-
-O sacerdote, teve um riso amarello, fingiu que chasqueava e observou com
-grandeza de animo:
-
-—Tambem é a unica companhia que merece.
-
-E foi-se sentar á sua meza, que tinha tudo estrictamente para um; mas
-em quantidade muito resumida, tanto de vinho, como de pão. Depois de se
-ter sugeitado heroicamente a esta prova durante alguns dias, tomou a
-resolução de assentar junto de si dois bonecos de palha, pedindo que lhe
-servissem os seus companheiros.
-
- * * * * *
-
-O doutor, que se não quiz mostrar vencido, levou ainda mais longe a
-premeditada vingança, ordenando que no quarto onde sempre ambos dormiam,
-houvesse uma só cama. Frei Antonio, um tanto perturbado, quando á noite
-viu isto, perguntou á velha Joanna:
-
-—Quem diabo vem a ficar aqui?
-
-—Os senhores ambos. Ora o demo da brincadeira dos homes!
-
-E o advogado accrescentou:
-
-—Em coisa de cama sou pela unidade. As ultimas chuvas tem arrefecido o
-tempo.
-
-Ora, se havia coisa no mundo á qual o sacerdote preferisse a morte, era
-a dormir com outro. Homem gordo, d’um suar facil, impaciente no sonho,
-gostava de roncar á vontade, de alargar as pernas e deitar os braços
-de fóra, quando lhe approuvesse. Antes passar a noite no chão, n’uma
-mangedoura, ou sobre tôjo!... Desde que outro padre, n’uma estalagem de
-Tras-os-Montes, o atirára da cama ao chão, estando elle a dormir e tendo
-por essa occasião ferido a testa e o nariz nos cacos d’um objecto que se
-quebrou, nunca mais acceitou companheiro de dormida.
-
-Leandro sabia que o atacava no ponto mais fraco. O frade disse
-simplesmente, em tom resoluto:
-
-—P’ra graçola é de mais! Bem sabe que não durmo com outro. Então monto a
-cavallo e vou-me _já, mesmo de noite_, embora.
-
-—Pelo que vejo, a respeito de cama... para dois... duas?!—disse com
-ironia o doutor, mostrando-lhe a outra que estava n’um quarto proximo.
-
-E como não concluira ainda a sua argumentação pelos _materiaes_, quando
-no dia seguinte, frei Antonio procurava os butes, para ir dizer a missa
-conventual, a que se compromettera, encontrou sómente um. Sem ainda
-calcular a significação do acontecimento, veio á porta em palmilhas de
-meias, e gritou pela frincha que abriu:
-
-—Ó Joanna! O outro bute?
-
-—Pergunte por elle ao senhor doutor.
-
-O ecclesiastico comprehendeu e disse zangado:
-
-—Mau! mau! mau que m’arrenego!
-
-Então Leandro, com ingenuidade fingida, respondeu-lhe do quarto:
-
-—Passou ahi hontem um pobre, descalço d’um pé e dei-lho. O amigo tem na
-realidade dois pés?
-
-Frei Antonio, com ar apopletico, em mangas de camisa e em palmilhas,
-o grosso tronco batido pela luz da janella do corredor, retorquiu
-energicamente:
-
-—Tenho sim senhor e você tem quatro. Ponha cá o bute e deixemo-nos de
-chalaças. Já tocou ha um pedaço. Se essa gente fica sem missa por causa
-das suas brincadeiras... quero ver.
-
- * * * * *
-
-Isto passava das marcas. O sacerdote procurou um meio de tirar a
-desforra. Havia de ir ter-lhe ao bolso, que era aonde doia mais ao
-sovina do Leandro. No _Bracarense_ da vespera annunciava-se a proxima
-chegada, á cidade dos Arcebispos, da actriz Emilia das Neves, tão
-celebre e tão gabada, que alli ia representar no theatro de S. Geraldo.
-O padre, encobrindo ruins intentos, convidou o doutor para irem a Braga.
-O advogado chasqueou-o por esta manifestação de mundanidade, porém o
-ecclesiastico explicou-se com modo circumspecto:
-
-—Não que ella só representa dramas sacros. Nem o senhor Arcebispo,
-consentia outra coisa, na sua cidade.
-
-Combinaram-se n’uma apparente harmonia, acceitando ambos este periodo
-de tregua. O frei Antonio fazia de bolsa. Como era expedito, sagaz e
-conhecia Braga, o seu amigo facilmente lhe entregou a administração das
-finanças communs. Porém, mal conhecia o advogado o que podia dar o
-rancor d’um frade, que é espicaçado no que elle tem de mais precioso,
-o appetite. As humilhações, as zangas, a quasi fome d’alguns dias na
-Feitosa, haviam dado ao rotundo ecclesiastico um faro agudissimo de
-vingança. Logo na diligencia principiou por comprar tres bilhetes,
-entregando dois a Leandro que observou seccamente:
-
-—Na verdade eram bem precisos tres logares, attendendo a que o senhor não
-é um homem, é uma pipa.
-
-Em Braga, no Transmontano, o doutor notou que o dono da hospedaria, um
-velho coxo e rabugento, que estava sempre a praguejar deante do forno, se
-ria descompostamente a tudo quanto lhe segredava o seu velho amigo frei
-Antonio e que dissera depois d’um d’esses colloquios:
-
-—Então afinfa-lhe? Trinca-lhe bem e entorna-lhe melhor? Vae valido.
-
-E tambem percebeu que o sacerdote accrescentára:
-
-—Tudo á farta e contas separadas.
-
-Porém Leandro não se deu por achado. Alongou os beiços, sorriu com
-esforço e á mesa onde estavam tres talheres, mostrou uma apparencia calma
-e de coragem.
-
-Por certo que identicas advertencias haviam sido feitas ao Miguel, um
-creado bebedo e feio, que jogava a batota com os hospedes, pois que esse
-Miguel, ao segredo do frade retroquiu olhando de soslaio para Leandro:
-
-—S’tá dito! Que pandigos!
-
-E apesar da resolução em que o doutor estava de se mostrar digno e
-conveniente até ao fim, não pôde deixar de se sentir estrangulado pela
-indignação, quando viu que o seu amigo lhe comprára dois bilhetes para o
-theatro. Isto não tinha geito nenhum, era atirar dinheiro pela janella
-sem necessidade! Na hospedaria, fechado dentro do seu quarto, que estava
-preparado para duas pessoas, quando elle era só um, exclamou voltado para
-o tecto:
-
-—Este padre é o demonio! Mau raio, se lhe não espeto uma faca n’aquelle
-bandulho!
-
-Minutos depois veio pelo corredor frei Antonio que disse, fallando pelo
-buraco da fechadura:
-
-—Adeus Leandros, boas noites.
-
-E logo em seguida, o Miguel acrescentou com a sua voz avinhada:
-
-—Com bem passem, senhores _doutores_.
-
-O advogado que já estava na cama e com a luz apagada, ressonou forte,
-para não responder. No dia seguinte levantou-se cedo, com o fim de ir
-sósinho almoçar debaixo da Arcada. Mas frei Antonio, que o espiava,
-seguiu-o de perto, entrando logo depois d’elle e mandando vir para tres.
-Leandro ao sair a porta do botequim, pronunciou de si para si:
-
-—Isto acaba hoje! Deixa estar que hoje acaba!
-
- * * * * *
-
-Tinha, porém, urgente necessidade de mandar fazer uma roupa de panno
-preto—sobrecasaca, calça direita, collete de ceremonia com uma só ordem
-de botões; fazenda boa que lhe durasse o resto de vida, que servisse
-para visitas e festas. Frei Antonio conhecia na rua do Souto um mercador
-de confiança; o doutor era menos pratico na cidade e por isso não teve
-remedio senão entregar-se-lhe. Pareceu-lhe que n’este particular não
-podia haver novidade. Foram ambos, ao lado um do outro, silenciosos e
-escandalisados.
-
-Em quanto um mestre de _atraz da Sé_ tomava as medidas, fallou-se de
-politica... em deputados... e o negociante, homem discreto, de barba em
-serrilha opinou:
-
-—Boa asneira! Esfalfa-se a gente para os mandar p’ra essa Lisboa e lá não
-fazem mais do que andar na pandiga, com moçoilas e em treatos. Tributos
-são de cada vez maiores! No tempo do senhor D. Miguel...
-
-O alfaiate, absolutista sanguineo, parou subitamente e disse n’uma
-arremetida, olhando por cima dos oculos, com a medida suspensa da mão:
-
-—E acraditam, que o rei legitimo, não ha de vir pôr fóra do seu reino
-esta cambada?!
-
-Todos concordaram em que havia de vir, menos o doutor que já lhe tinha
-perdido as esperanças e se fizera liberal.
-
-Quando voltaram á terra, Leandro teve uma viva polemica com frei
-Antonio, por causa d’aquellas asneiras fóra de casa. Não era por gastar
-mais ou menos uma moeda, porém embirrava com tanta tolice deante de
-desconhecidos. O frade respondeu-lhe que bom gado era porcos, levou-o de
-troça e continuaram nos seus passeios e nas suas caturrices habituaes.
-
- * * * * *
-
-Quinze dias depois, o advogado recebeu pela diligencia de Braga duas
-encommendas. Abriu a primeira e n’ella encontrou a roupa que mandára
-fazer. Vinha tudo nos termos e a seu contento. Vestiu-a para ver se lhe
-estava bem e a velha Joanna que elle chamou para dar parecer, disse que
-estava mesmo um cravo, e recordou-lhe os seus tempos de rapaz, quando
-elle vinha de Coimbra e era de todos o mais janota. Fôra n’esse tempo
-que... Ella era creada da mãe de Leandro, uma boa senhora, temente a
-Deus, confessando-se a miudo e reprehendendo sempre os atrevimentos e
-brincadeiras do filho com as moças!... Havia 40 annos que Joanna alli
-estava e ainda na memoria se lhe avivavam facilmente todos os quadros
-ridentes da mocidade!...
-
-—Mas a outra encommenda?—lembrou.
-
-—É verdade—disse o doutor—isto não é para mim. Ha de haver engano.
-
-Mas pegou n’ella, remirou-a por todos os lados, apalpou-a, cheirou-a
-para advinhar o que seria... e nada! Pela terceira ou quarta vez releu
-o subscripto, que era do mesmo talho de lettra da do negociante que lhe
-remettia a sua roupa e com os mesmos dizeres.
-
-—Só se frei Antonio tambem encommendou alguma coisa e que m’a mandassem
-para eu lhe entregar—considerou com o embrulho suspenso nas duas mãos.
-
-Para satisfazer a curiosidade de Joanna, sempre foi desatando os
-barbantes, com precauções e cautelas, na convicção de que era coisa que
-lhe não pertencia. Encontrou outra roupa, perfeitamente egual á sua. Não
-podia presumir brincadeira tão pesada do seu amigo, e, como elle morava
-perto, mandou-o chamar.
-
-—Sabe para quem é esta coisa?—perguntou serenamente.
-
-—Eu! Como posso advinhar?!
-
-—Nada de brincadeiras—avisou. Será para si?
-
-—Não gasto d’esses luxos. Nem eu cabia dentro d’este pé de meia—retorquiu
-ironicamente o frade, suspendendo as calças no ar.
-
-—Mas com mil demonios!—interroga colericamente o doutor. Sabe ou não
-sabe?! Responda.
-
-O frade respondeu com todo o socego:
-
-—É provavel que seja para si. Em Braga, ninguem ignora que o senhor é
-dois!
-
-O doutor adiantando-se, poz-lhe diante dos olhos um punho cerrado.
-
-—Sabe o que eu ignorava?—gritou. É que o senhor fosse um pedaço d’asno
-como é!... Que o arrebento, seu odre!
-
-O frade escandalisado, escachou as pernas e apresentando-lhe de frente o
-seu valente tronco, oppoz-se-lhe com vehemencia:
-
-—Ameaçar-me! olhe que o leva um milhão de demonios, seu cabrito esfolado!
-
-E saiu nobremente da sala. Durante boa meia duzia d’annos, conservaram-se
-inimigos e sem se fallarem. Porém depois reconciliaram-se n’um jantar de
-boda, onde ambos se emborracharam até á ternura das recordações, e d’alli
-ao fim da vida, continuaram a sustentar as suas theorias e a dar os seus
-passeios habituaes.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-A POSTURA DOS OVOS
-
-
-As de Refuinho foram as ultimas a chegar. Por causa do ar da noite,
-traziam as cabeças envolvidas em muitos chailes e só deixavam um
-buraquinho para espreitar o creado, que ia adeante com o lampião. D.
-Michaela, ao recebel-as no cimo da escada, logo ralhou com as meninas
-por causa do agasalho excessivo. Nem pareciam raparigas novas, tantas
-eram as cautelas que tomavam. D. Maria justificou as sobrinhas. Fora ella
-quem aconselhara taes cuidados, por causa das possiveis dôres de dentes.
-Só quem nunca soffreu d’ellas é que pode fallar! Quanto a si, explicou,
-tossindo muito, com o seu modo resignado e soffredor:
-
-—Oh! filha! Sempre te ando com uma gosma!...
-
-Logo que entraram na sala, todos vieram comprimental-as. As da Torre
-Velha conduziram as primas junto do candieiro, para lhes mostrarem o
-retrato do irmão, que era militar e estudava em Lisboa. Tinham recebido
-pelo ultimo correio, essa bella photographia d’um rapagão em pé, apoiado
-negligentemente na espada e a barretina sobre uma _console_. Assentára
-praça em cavallaria por inclinação: todos os presentes se lembravam,
-de como era um demonio em pequeno, percorrendo o quinteiro em todos
-os sentidos, montado n’uma canna! A carta escripta ás irmãs, era-o
-n’um luxuoso papel cor de tremoço cosido e perfumada d’almiscar. Dizia
-maravilhas das opulencias da capital, dos seus palacios, dos theatros e
-das formosas mulheres que passeavam em carruagens descobertas, para serem
-admiradas.
-
-—Isso já por lá tem uma duzia de namoros—disse frei Ignacio, espreitando
-por entre as cabeças das meninas.
-
-Mas uma das da Torre Velha, confidente do militar nos seus primeiros
-amôres, defendeu-o:
-
-—Quem, o Zésinho?! Não é d’esses!
-
-E encarou Clotilde de Refuinho, que baixou timidamente os olhos,
-conservando-se muito tempo triste, encostada á mesa.
-
-Os parceiros do rancoroso voltarete, enremissados da semana precedente,
-estavam soffregos sobre o jogo. O desembargador João Xavier, para os
-desculpar por se não levantarem, disse de longe, com a auctoridade d’um
-marido, que esteve para ser de D. Maria, quarenta annos antes:
-
-—Ó minha prima. Deus lh’as dê muito boas. Dispenso cumprimentos. Esta
-remissa de quinze entradas tenho-a atravessada aqui.
-
- * * * * *
-
-Mas quem se aproveitou do reboliço foi o dr. Leandro, que a esse tempo
-levava uma reverendissima tunda, ás damas, do seu amigo frei Antonio,
-que as jogava na perfeição. O advogado aproveitou o ensejo de atirar
-com o taboleiro para o inferno, e fez na sala tal barulho, que parecia
-a derrocada d’uma torre. Até ia trilhando o medico Pestana, homem de
-grande saber e azedume, que lá estava com o seu esqueleto arrumado a
-um canto, a chupar cigarros, todo concentrado no odio ao recebedor da
-comarca, por causa da morgada, D. Michaela—mulher soberba, que os dois
-ambicionavam furiosamente. O recebedor, o famoso Silveira, n’essa noite
-em maré de fortuna amorosa, parecia um redemoinho pela sala, sempre com o
-chaile-manta cinzento pendurado dos hombros. Foi elle que ao vêr muita
-gente, propôz logo um quino, fallando com o seu ar estarola. Era quem
-costumava tirar as bolas e salpicava o jogo de larachas muito apreciadas,
-que por vezes lhe deram assignaladas victorias, quando a morgada ria até
-ao engasgamento nervoso. Porém, n’essa noite, D. Michaela preferiu antes
-ouvir a musica «Ao Luar», tocada no piano, com muito coração e esmero
-pela Clotildinha. Ella que era romantica e sentimental, adorava esse
-famoso trecho, que já uma vez a fizera suspirar em Barcellos. Era um
-idyllio cheio de meiguices dolentes e das suaves fragancias das campinas.
-Remurejavam brandamente arvoredos, um regato serpeava pela encosta e o
-poetico rouxinol queixava-se no interior d’um loureiro. Frei Ignacio é
-quem fazia de rouxinol, munido d’uma gaitinha; mas o famoso Silveira,
-que tambem conhecia a musica, aproveitou cruelmente mais esta occasião
-de triumphar sobre o medico. Propôz-se a tomar para si a parte do
-rouxinol, sem nenhum auxilio de gaita. Os applausos á magnifica lembrança
-foram calorosos. Todos sabiam, quanto o recebedor da comarca era eximio
-imitador de vozes d’animaes e especialmente das aves. Em certos casos
-o engano era completo. Um dia mugiu tão admiravelmente de vacca no
-quinteiro de Refuinho, que a velha fidalga veio á janella toda afflicta,
-ralhar com o moço, julgando que andava o gado solto. Ao dar com os olhos
-no Silveira, que n’esse instante estava mugindo com desolação para o céu,
-suppondo uma cria distante, reprehendeu-o:
-
-—Fazer de vacca! Isso é peccado. Não teme um castigo do céu? As vaccas
-não tem alma—concluiu agastada.
-
-O medico Pestana, concordando em que o recebedor não tinha alma,
-chasqueou o caso dizendo que o _homem_, fazendo de vacca ou de boi que
-era o mesmo, mostrava grande geito para marido.
-
- * * * * *
-
-Porém a novidade de imitar um rouxinol, foi muito celebrada; porque
-ninguem lhe conhecia a prenda. O medico emmagrecia a olhos vistos, quando
-a morgada dava palmas ao Silveira. Este para melhor o aguilhoar exhibiu
-outras habilidades já conhecidas: fingiu o trote d’um cavallo que se
-approxima e relinchou com as ventas altas no momento da chegada; o canto
-do gallo ao amanhecer, batendo fortemente as azas, foi produzido com
-rara perfeição; o coachar das rans em noites primaveraes, a chegada do
-cuco em maio, os patos arrebanhados, o pardal, o melro, o perú... tudo
-foi representado. Já não havia, nem volturete, nem bisca, nem ideias
-de quino. Tinham para duas horas. O medico passeava ao fundo da sala,
-sorumbatico e abatido. Frei Ignacio, sempre brincalhão, disse-lhe de
-longe:
-
-—Deixe-se d’isso, doutor. Quel-o vêr fazer de porco?
-
-Todos o desejaram e elle não se fez rogado.
-
-Sahiu da sala, para logo voltar silencioso e embrutecido. Vinha
-sorumbatico e sorna, como um porco ao recolher. Uma creada chamou para
-a comida: «_coxi, coxi, coxi_» e logo o Silveira principiou a correr,
-como cevado cheio de fome, dando fortes grunhidos, gritos atroadores,
-até que foi para um canto sugar a sua lavagem, com um _xou-xou_
-embrulhado e caracteristico. Por fim suppondo-se um porco perseguido
-por um cão, correu veloz, ladrando e grunhindo ao mesmo tempo, e sahiu
-precipitadamente pela porta, dando um encontrão no medico.
-
-Todos riram com boccas escancaradas. Frei Ignacio agachado a um canto,
-já não podia mais, e por fim encostou a barriga á parede, com medo d’uma
-colica. As meninas de Refuinho e da Torre Velha gargalhavam no regaço
-umas das outras. O desembargador Xavier sorria de longe com dignidade,
-olhando firme, com os seus occulos d’oiro.
-
-Um joven poeta, estudante em Coimbra, foi da opinião e disse-o
-claramente, que se aquelle phenomeno se exhibisse no _Palacio de
-Cristal_, haveria grande concorrencia, porque era, em verdade, admiravel!
-D. Michaela, que applaudira até as lagrimas, perguntou ao academico:
-
-—O senhor Penaguião nunca o viu fazer de gallinha e pôr ovos?!...
-
-—Nunca vi, senhora morgada...
-
-—Então!...—concluiu com um entono que significava preço—nunca viu nada!
-
-Todos se levantaram a pedir ao Silveira que exhibisse esta habilidade;
-porém elle sentado n’uma cadeira, a limpar o suor do cachaço, não estava
-para isso. Sentia-se cançado, ficaria para outro dia, não podia ser tudo
-d’uma vez. A morgada, conhecendo o empenho dos seus convivas, disse mesmo
-sem se levantar:
-
-—Ande, vá pôr. Quero que o sr. Penaguião veja.
-
-Não hesitou um momento. Um raio de vingança triumphante despediu-se do
-seu fulvo olhar contra o medico, que ao vel-o prestar-se, sahiu da sala.
-Porém isto, que todos julgaram um signal de covardia não o era de certo;
-porque momentos depois o doutor tornou a entrar, com semblante conformado.
-
-Como era uma exhibição mais complexa, tomou cada pessoa o seu logar.
-As senhoras em cadeiras, em volta da sala, deixaram o canto livre para
-a postura, que devia ser junto do piano. Os homens que se não puderam
-sentar, encostaram-se ás entradas e nos vãos das janellas. O medico,
-talvez para se mostrar generoso e soffrer deante de todos a propria
-humilhação, occupou a cadeira mais perto do logar da postura.
-
-Pareceu um acto publico de conformidade. O proprio Silveira assim o
-entendeu. No meio d’um silencio valioso, depois de apenados dois
-banquinhos para servirem de poleiros casuaes, o recebedor da comarca com
-o chaile-manta pendente dos hombros, collocou-se no meio da sala, olhando
-solemnemente em redor.
-
-Mostrava-se grave, simples e ao mesmo tempo imponente!
-
- * * * * *
-
-A principio houve um cacarejar avulso e sem grande significação. Andava
-em volta dando pulinhos, erguendo a cabeça para ouvir facilmente, e
-espanejava-se ao sol. Depois continuou em passo solemne, entoando um
-_cá... cá... cá..._ reflectido e de concentração. Passados momentos, a
-voz levantou-se gradualmente mais sonora, tinha gritos estridentes e
-estendia o pescoço. Andava com vivacidade, os pulinhos eram sacudidos e o
-corpo avolumava-se-lhe debaixo do chaile, quando afastava os cotovellos.
-Subiu a um dos poleiros e lá do alto produziu um _ca-ca-ra-có_, rapido
-e vibrante, como se fora uma sentinella gritando ás armas, para afastar
-um inimigo possivel. Mas logo desceu para continuar n’um tom manso e
-natural, andando em passo grave, seguro de que ninguem o viria perturbar.
-De repente deu-lhe uma especie de furia, uma raiva e começou a correr
-e a gritar desesperadamente, muito arrastado pelo chão, significando a
-gallinha apertada por uma dôr e com a necessidade urgente de expellir de
-si qualquer coisa. Os gritos eram fortes e expressivos, as arremetidas
-para o lado do ninho insistentes, sempre com as azas de rasto,
-afastando-se um momento para voltar depois mais precisado.
-
-A situação ia-se tornando claramente dramatica.
-
-O interesse dos circumstantes era cada vez maior. Exprimiam o sentimento
-de admiração que os possuia, em frouxos de riso apanhados na mão e
-muitos, boquiabertos, pronunciavam: «Ora!... Ora!...»
-
-A morgada, que estava mais á vontade e não temia perturbar a
-representação observou:
-
-—É tal e qual a minha amarella. Uma coisa assim!...
-
- * * * * *
-
-Vendo-se applaudido pela mulher a quem amava o Silveira foi sublime!
-Aproximou-se sornamente do canto da postura. Reconhecia-se-lhe na
-lentidão dos movimentos de parturiente, que se approximava o momento
-supremo. Já ia arrastando o corpo, d’aza cahida, e um _có-có_...
-guttural. Foi enfraquecendo a voz e os movimentos, andando em volta de
-si mesmo a procurar o geito. Depois acamou-se acocorado, todo mettido
-debaixo do chaile cinzento, n’uma attitude de objecto bruto e informe
-que para alli estivesse arrumado. Houve um gemer soturno, como o regougar
-d’um gato.
-
-Foi n’este momento que o medico se abaixou fingindo que apanhava alguma
-cousa. O Silveira não o percebeu, tão compenetrado estava das suas
-altas funções de maternidade. Os assistentes, interessados no final
-da comedia, tambem não repararam. Durante o minuto que o recebedor se
-conservou agachado, trocaram-se apenas algumas observações em voz baixa.
-Mas por fim, mestre Silveira, sahiu do ninho mostrando-se patentemente e
-engulindo em secco, como se viesse d’um sonho. Começou a cacarejar com
-alegria e orgulho em voz sonora e espantada. Saracoteava-se vistosamente,
-espanejando-se, refrescando o corpo, na satisfação de quem cumprira um
-dever e se livrára d’uma difficuldade. Esperto, vivaz, altivo, tudo
-era _Ca-cá-rá-cá, ca-cá-rá-ki_... para um lado e para outro. E n’uma
-reviravolta, quando fazia a ultima visita saudosa ao ninho, o soberbo
-Silveira estacou de repente, empallideceu deixando de cantar, os braços
-cahiram-lhe n’um assombro!
-
-—Mas eu não fui!—pronunciou inconsciente.
-
-O apparecimento imprevisto de dois ovos authenticos no logar da postura,
-produziu uma gargalhada atterradora! Frei Ignacio, sempre larachista,
-agarrou no recebedor pelos hombros, perguntando-lhe:
-
-—Então hoje isto foi a sério, caro amigo?!
-
-Porém o medico, cheio da sua vingança, disia ao mesmo tempo a D.
-Michaela, em voz alta, de modo que todos ouvissem:
-
-—Compre esta gallinha, senhora morgada, que lhe põe aos dois. Olhe que
-sempre é melhor que a sua amarella!
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-RENDE-TE CENTURIÃO
-
-
-Esperava-se que d’essa vez os _Passos_ fossem grandiosos. Tinha chegado
-no verão um brazileiro, que para engrandecer a terra, concorria com
-cincoenta libras. O abbade, depois da offerta, affirmou cathegoricamente,
-que ía fazer reviver a memoria dos _Passos_ do fidalgo do Outeiro, que
-sessenta annos antes, fizera _uns_ de que fallavam ainda com espanto,
-os velhos das redondezas! Não havia de faltar nada: teriam muitos
-anjos, musica da melhor e pregador de fama. Se viessem ainda esmolas,
-mandar-se-hia armar a egreja, podiam-se reformar os andores que estavam
-velhos; pois seria bonito que apparecessem differentes imagens do
-Redemptor, significando as diversas partes da notabilissima _Paixão_.
-
-—Quando foram os do fidalgo do Outeiro—acrescentou o abbade—houve a
-guarda romana com o Centurião á frente, levando o seu distinctivo de
-videira como emblema do direito de punição corporea, sobre os soldados.
-Não sou d’esse tempo, mas ha ahi muitos homens que se lembram—concluiu,
-dando grande preço ás suas palavras.
-
-Era n’um domingo, depois da missa conventual. O abbade fallava na
-sachristia, deante d’alguns freguezes, que o escutavam respeitosamente.
-O benemerito senhor Guimarães, que abrira a subscripção com cincoenta
-libras, era dos ouvintes. Reconhecendo, como todos, que a somma já
-apontada era diminuta para se arranjar uma procissão a valer, poz
-serenamente a luneta, pegou no papel onde estavam lançadas as differentes
-verbas e leu:
-
-—Tresentos e cinco mil e sete centos e cincoenta reis. É pouco!—disse.
-Quanto entende o senhor abbade, que será preciso para se fazer coisa de
-truz?!
-
-O sacerdote olhou fixamente o tecto da sachristia, suspendendo-se do
-labio inferior por dois dedos. Pronunciou, para si algumas palavras de
-calculo, resumindo em voz alta:
-
-—Quinhentos mil reis. Com quinhentos mil reis faz-se tudo.
-
-—Pois feche lá essa conta e trate do negocio, meu reverendo—concluiu o
-Guimarães, atirando generosamente com a meia folha d’almaço, sobre o
-gavetão.
-
-O abbade agarrou-o entre os seus rudes braços de camponez, affirmando-lhe:
-
-—Com isso, temos tudo! Bom sermão; boa musica; bom côro; anjos; egreja
-rica; um centurião com a sua guarda, que se lhe mandam ahi na villa fazer
-vestimentas; e andores de espavento, que eu arranjo a virem de Braga, com
-imagens e mais pertences. Creia o meu amigo, ponho-lhe ahi uns _Passos_,
-que nem na cidade do Porto. Uma riqueza, verá.
-
-—Então é dar ordens, está arrumado—acrescentou o Guimarães, fazendo um
-gesto largo com a ponteira da bengala. Dinheiro não faltará, ainda que
-seja preciso mais. Na minha vida de trabalho levei muito chimbalau, e
-bastas vezes perdi contos e contos. Dê ordens, meu abbade, e ponha a
-coisa na rua. Percebeu?
-
-Esta grandeza do Guimarães foi muito gabada em toda a parte, bem como a
-sua devoção. Felizmente não era como o traste do Cerqueira, um herege
-que embirrava com missionarios. Esse era raro verem-no pela egreja, e
-até quiz bater no afamado padre Antonio, porque lhe fez uma santa da
-sobrinha, a Rosaria do Thomaz do Monte, pobre homem, agora maluco, por
-causa das heresias que lhe mettera na cabeça o cunhado. Ainda bem que
-o senhor Guimarães não era assim e gastava dinheiro em fazer coisas
-boas, como ajudar uns _Passos_ de que todos se orgulhavam. Por isso
-Deus o tinha protegido; por isso, sendo filho d’um pobre artista, era
-hoje um fidalgo, tinha palacio e suas filhas usavam sedas. Não tardariam
-em ver-lhe um titulo e era muito bem applicado, a um cavalheiro de tão
-larga generosidade e que tão amigo se mostrava da terra. Podia ser como
-outros, despresar do nascimento obscuro, viver n’esse Porto ou Lisboa, e
-não fazer caso nem da sua aldeia, nem dos parentes pobres. «Viva o senhor
-Guimarães, que ainda hade ser o nosso deputado»—affirmavam com emphase
-pessoas de consideração.
-
- * * * * *
-
-Desde aquelle momento o abbade não pensou n’outra coisa. Logo no dia
-seguinte montou na sua egua e foi encontrar-se com a diligencia, que o
-levaria a Braga. Como era homem de imaginação e muita fé, logo que alli
-chegou entendeu-se com as pessoas que melhores conselhos lhe podiam dar.
-Depois de varias conferencias resolveu encommendar tudo a um homem da
-rua do Souto, o que era melhor arranjo. Combinou a armação da egreja;
-os fardamentos do centurião, guardas, figuras e vestidos d’anjos; os
-cantores para o coro, os andores e até as imagens. Quanto a imagens
-foi mais difficil; pois que as confrarias entenderam que as não deviam
-emprestar, sem o parecer favoravel do senhor Arcebispo.
-
-Depois de trabalho insano só pôde conseguir, um _S. João_ e um _Senhor
-prezo á columna_. Porém não ficou contente; porque as estatuas, antigas e
-feias, não eram de causar grande devoção.
-
-—Paciencia—disse resignado. Levam-se os seis andores. Tenho lá _Cruz ás
-costas_ e _Senhora do encontro_. Levo d’aqui _Preso á columna_ e _S.
-João_. _Canna verde_ e _Pretorio_ arranjo de Valença. Quem tem amigos...
-
-Procurou, depois, saber onde morava actualmente o padre Silvestre,
-capellão de infanteria 8 e seu antigo condiscipulo. Era um dos pregadores
-mais afamados do alto Minho e o abbade, pela terceira vez, o escolhia
-para lhe abrilhantar uma festa da sua egreja.
-
- * * * * *
-
-Tendo conhecimento de que mudára para a Conega, cahiu-lhe em casa
-d’um pulo. Havia annos que se não encontravam. Por isso houve effusão
-d’alegria, muitos abraços e expansões n’este momento.
-
-O pregador, escarranchado n’uma cadeira, disse para o seu amigo que se
-lhe sentára na cama:
-
-—Tu, magnifico, gordo, sempre abbade! Que diabo te trouxe n’este tempo de
-trabalhos quaresmaes cá por Braga?
-
-—O diabo não, creatura, foi Deus! Deus, o Senhor dos Passos é que me
-trouxe hoje por cá. Mas deixa-me perguntar-te, antes que me esqueça.
-Estás de mal c’o as...
-
-—Estou sim—atalhou—não as podia aturar. Eram umas porcas. Nem roupa,
-nem comida... uma immundicie. Depois tinha por companheiro o Antunes da
-Cuspinheira, lembras-te? Um cevado com quem se não pode estar á mesa.
-Deixei-as...
-
-O abbade conformou-se, accrescentando:
-
-—Pois custou-me a dar co’esta casa. Perguntei ao Sampaio, o famulo. E
-venho cá por um motivo muito grave.
-
-—Oh! com seis centos!—exclamou o capellão. Talvez algum caso de
-consciencia. O homem é fraco, bem sei. Eu absolvo-te, diz da tua vida,
-bezerro.
-
-—Não, não é isso. Tenho uma festa de Passos, coisa rica. Paga lá um meu
-parochiano, um brazileiro. Quero que tu pregues.
-
-—Quando é? Na quarta dominga? Tenho que fazer, vou aos de Bouro.
-
-—Não principies já com lonas. É na terceira dominga, homem.
-
-—Então posso.
-
-—Mas Souséca! eu quero um sermão novo em folha. Posso-te dar quinze
-moedas.
-
-O padre Silvestre reflectiu e disse:
-
-—Valeu. Escrevo hoje mesmo ao Germano, o Germano das bochechas grandes.
-Conhecel-o? Quero que elle me empreste um que lhe enviaram do Porto e
-que fez grande barulho em Guimarães quando lá o pregou, ha dois annos.
-
-—Mas, porque é que tu não o escreves? Com o teu talento...
-
-—Escrevo sim; mas é para me inspirar. Tu bem sabes que estas coisas são
-sempre as mesmas. Está tudo sabido, já se não póde inventar. A questão é
-de _modo_. Percebes abbade?
-
- * * * * *
-
-No sabbado, vespera da terceira dominga chegou a Refuinho o pregador.
-Foi-se hospedar na _Residencia_. A sua entrada na aldeia foi celebrada
-com alegria pelo ajuntamento de povo, que estava no adro da egreja e até
-haveria repiques e foguetorio, se não fôra tempo santo de quaresma.
-
-O Agrella, que ajudava o armador de Braga, veio dar ao padre Silvestre,
-um aperto de mão, affectuoso e familiar.
-
-—Cá andas tu como o peixe n’agua—disse-lhe o pregador.
-
-—Não ha remedio senão dar um gaudio á raparigada—respondeu o alfaiate.
-Muito estimei vel-o por cá, meu senhor. Ha que tempos!... Temos ahi uns
-_Passos_ d’arromba. Não haverá outros, cinco leguas em redor.
-
-O padre Silvestre saudava a todos de cima da burra. Os semblantes dos
-camponezes eram risonhos, como se tractassem d’um noivado. Este rumor
-attrahiu o abbade que se chegou á janella. Ao avistar o seu antigo
-condiscipulo, gritou-lhe:
-
-—Eh! Souséca! Sobe para cá diabo.
-
-Mas foi elle que veio abaixo, de tamancos e meias de lã, envolvido no
-amplo capote. Tomou o hospede entre os braços, apertou-o com amisade.
-
-—Já me tardavas, maroto!—disse. Vou-te mandar pôr a ceia. Ó
-rapariga!—gritou para cima—Elle cá está.
-
-No alto da escada, appareceu a Joanna, de lenço vermelho cruzado sobre os
-seios magnificos, e expondo, á vista de todos, a optima carne dos seus
-braços.
-
-—Então uma fornada, ein?—perguntou o pregador.
-
-—Não ha remedio senhor reverendo capellão. A gente hade comer. Estou a
-mettel-a no forno. Desculpe recebel-o assim.
-
-Mas o padre Silvestre não era de ceremonias. Estava acostumado. Em casa
-de sua mãe, nos tempos felizes em que vivera na aldeia, era a mesma
-coisa. O trabalho primeiro que tudo. Faz a gente forte. Deu-lhe um
-abraço de satisfação, fazendo muito gosto em sujar o capote, sobre o
-lenço enfarinhado e os braços roliços, cheios de massa. A rapariga riu
-estrondosamente, entregando-se-lhe com facilidade. O abbade, fingindo-se
-suspeitoso, observou:
-
-—Cautelinha, cautelinha, sôr Souséca!...
-
-Tudo era levado á boa parte e sem malicia. O padre Silvestre pediu
-tamancos e meias de lã, que tinha os pés gelados. Oito horas de
-diligencia e a cavallo era de morrer. Se viesse alguma chuva não faria
-mal nenhum, pois amaciava.
-
-—Não imaginas abbade, como elle corta lá em cima, ao dobrar o monte.
-
-—Imagino, imagino. Bastas vezes o tenho levado pela fucinheira. Mas toma
-lá uns soccos e as meias e vem pr’o lume. Ceia-se alli mesmo.
-
- * * * * *
-
-Pouco depois, pozeram diante do pregador a sua gallinha, salpicão e
-a tigella de bom caldo, fumegante e appetitoso. Nos tempos em que ha
-muito serviço divino, não se usam jejuns para quem prega ou canta. Tem
-dispensa, bem merecida; pois que alguns, como o padre Silvestre, andam de
-terra em terra, levando a palavra sancta, para converter peccadores. É
-uma lida de seis centos demonios. Ganha-se dinheiro; mas não vale muito
-a pena. Se os obrigassem a comer sardinhas, morriam no fim da quaresma.
-Era Christo a subir ao ceu e elles a descerem á cova. Jejuns são para os
-brutos, para os fortes, que não tem de puchar pela cachimonia.
-
-—Cá na minha—affirmou Joanna atiçando o lume—se nós somos tão tapados é
-por causa da brôa e do bacalhau.
-
-O abbade, que estava estorcegando a sua posta sobre o prato, levantou a
-cabeça para dizer:
-
-—Olá, princeza. Vou-te mandar vir carne da villa, para tu comeres.
-
-—E olhe que me havia de fazer bem, ao meu rico peitinho—confessou pondo a
-mão sobre os proeminentes seios. Ao trabalho que lhe tenho.
-
-O abbade continuou troçando:
-
-—Ora sempre a gente vé coisas! Não te me faças lesma. Dá p’ra cá a infusa
-e deixemo-nos de contos.
-
-Mas o padre capellão fallou sério, explicando. O seu trabalho n’essa
-quaresma era extraordinario. Em seguida a esse sermão, tinha outros.
-_Passos_ em Bouro e toda a semana sancta em Amares, onde tinha de pregar
-o do _lava-pés_, o do _enterro_, o de _lagrimas_ e o da _ressurreição_,
-que é sempre uma predica demorada e cheia de conceitos.
-
-—Pois sim—considerou o abbade—mas este d’amanhã é que mais te custa.
-
-—Podéra! Tambem é o de mais pucho. Levou-me oito dias a compôr e oito a
-decorar. É todo novo, acredita.
-
-Tinham-no prevenido que, para o ouvir, viria gente de longe. Só em casa
-do Guimarães, uns trinta hospedes—pessoas do Porto, de Braga... o diabo.
-Mostrava-se preoccupado com o exito. Tinha medo que lhe esquecesse algum
-d’esses trechos flamejantes, em que firmava orgulho litterario. Peça
-meditada, feita com reflexão e calculo. Havia a bem conhecida passagem do
-centurião, convertido por um toque de divina graça. O padre Silvestre não
-julgava isto muito moderno; mas foi o abbade que lh’a exigiu, por saber
-que era do gosto dos ouvintes e principalmente do bemfeitor. No emtanto,
-entendia o pregador, que essa passagem produziria bom effeito, se fosse
-convenientemente ensaiada.
-
-—Quem tens tu ahi para centurião?—perguntou ao abbade.
-
-—Um rapazote da freguezia. Boa figura, alto!...
-
-—Pois hei-de-lhe querer fallar. Que venha cá amanhã de manha. Bem sabes
-que isto tem o seu boccado de theatro.
-
- * * * * *
-
-No dia seguinte o pregador estava a repetir o sermão na horta da
-_Residencia_, passeando n’um carreiro, por cima do muro. O sol aquecia-o
-agradavelmente por um lado, a sombra do seu corpo estendia-se na relva,
-sobre a qual os gestos se lhe reproduziam mais amplos e magestosos!
-Uma pobre cerdeira, despida de folhas, é que lhe servia de referencia.
-D’aquelle lado era o Calvario, com a dolorosa imagem de Christo, vergado
-sob a cruz. O povo estava em baixo, oppresso e contricto. A Virgem mãe, á
-direita, banhada no pranto redemptor. Os verdugos, os da guarda romana,
-os discipulos e todos os amigos de Jesus, lá os significava na vertente
-do monte ignominioso, que no caso presente era um alcouve de cor alegre.
-
-No meio d’uma apostrophe clamorosa, quando de braços abertos e solemne
-chamava o divino soccorro, foi interrompido por uma voz:
-
-—Senhor reverendo pregador?—chamaram.
-
-O sacerdote, voltou a cabeça, conservando suspenso o gesto e perguntou
-impaciente:
-
-—Que diabo queres?
-
-—Vossa Senhoria não me mandou chamar?
-
-—Eu!
-
-—Cá o nosso abbade é que disse.
-
-—Ah!—exclamou, deixando cahir os braços. És o centurião?
-
-—Entendo que sim—confessou o filho do Cancella.
-
- * * * * *
-
-Disse-lhe que se approximasse. Explicou-lhe o caso. Em certa altura do
-sermão, tinha de quebrar a lança, e prostrar-se de bruços, soluçando,
-como peccador arrependido. Jesus Christo alli estava, coberto
-d’opprobrio. Todos o tinham insultado no caminho do Calvario; porque
-estava nas escripturas que assim devia ser. Elle, centurião, tambem
-maltractára o sublime prisioneiro, dando-lhe com a lança e chasqueando-o.
-Depois é que lhe veio um toque de luz divina e arrependeu-se.
-
-—Tu entendes—explicava. Toque de luz divina é assim como uma pontuada
-sobre o coração. Entendes? Diz lá.
-
-—Entendo muito bellamente, senhor reverendo pregador. Eu já figurei
-n’outros _Passos_, lá p’ra Monção—acrescentou com sorriso experimentado.
-Mas senhor reverendo pregador, Vossa Senhoria, quer que eu me arrependa,
-logo á primeira que mandar?
-
-—Porque?
-
-—Eu á primeira... á primeira... não queria—explicou, coçando a nuca. É cá
-por causa da rapaziada, que depois chama podrico á gente.
-
-—Ah! isso não tem nada. Lembra-te que estás deante do rei dos reis e
-do senhor dos senhores. Mas não te rendas logo... logo... Olha bem
-para mim—detalhou com bondade. Ao primeiro _rende-te_ eu pego no
-lenço que está do lado da porta, levo-o á bocca, e torno a collocal-o
-no mesmo sitio. Tu reparas em mim, dás uma sacudidella aos hombros,
-assim, e continuas lá no teu posto. Eu fallo muito ainda. Ao segundo
-_rende-te_, repito o caso do lenço _mudando-o então_—sublinhou—para o
-meio do pulpito, d’esta maneira (Pegou no seu lenço de paninho vermelho,
-conservou-o segundos pendente da mão e depois collocou-o sobre um triste
-ramo de vide). Tornas a atinar comigo, um pouco mais sério do que da
-primeira vez; nova sacudidella de hombros, e continuas lá na tua vida.
-Sim, porque tu és um grande peccador e a divina graça não te póde tocar
-assim do pé p’ra mão. Entendes isto?
-
-—Muito bem, senhor reverendo pregador—affirmou o filho do Cancella, com o
-queixo agarrado na mão direita.
-
-—Mas ao terceiro _rende-te_—accentuou significativamente o padre
-Silvestre, espaçando as syllabas—quando eu mudar o lenço para o lado do
-altar mór, tu reparas em mim, com olhos muito arregalados, como quem
-sentiu que lhe entrou alguma coisa no corpo; se quizeres dás um grande
-berro, quebras a lança no joelho, atiras-te ao chão de bruços, finges
-que choras (se te dér p’ra isso, choras realmente) e dizes alto: «Perdão
-Senhor! Perdão! Perdão! Perdão!»
-
-O rapaz pronunciou:
-
-—Perdão Senhor! Perdão! Perdão! Perdão!
-
-—Isso mesmo. É para o povo repetir: «Perdão senhor, perdão, perdão» e
-chorar muito, como é costume.
-
-—Entendi muito bellamente. O peior é se depois me chamam, cagarola e
-podrico, que me levo de mil demonios.
-
-—E que chamem?—observou o pregador. Então queriam que tu te não
-arrependesses, depois de tocado pela divina graça? São uns brutos.
-
- * * * * *
-
-Logo de manhã principiára a affluir gente que vinha de longe. A egreja,
-os andores e o que se dizia dos anjos era um pasmo! A musica, logo que
-chegou, foi tocar um hymno e duas polkas á porta do senhor Guimarães,
-que veio á janella, com toda a sua respeitavel familia e hospedes,
-palitando-se soberbamente. Zé Maximo, o homem das occasiões, levantou um
-viva ao seu compadre e amigo, que foi correspondido atirando-se chapeus
-ao ar. De tarde, antes de sahir a procissão, a musica voltou para o
-beberete, que lhe foi servido no quinteiro. Houve vinho do Porto em
-calices, quatro broas de pão de ló partidas á mão. Para os figurantes,
-que estavam todos vestidos na vasta salla da tulha, á espera do momento,
-foram enviados dois cabaços de vinho, meia duzia de brôas de pão de ló,
-outra de garrafas de Porto e um cesto de cavacas. Houve por este motivo
-grande barulho e algazarra dentro do casarão da tulha.
-
-Foi a propria esposa do senhor Guimarães, que teve a delicadeza de
-lhes ir encher os primeiros copos, como signal de apreço e um rasgo
-democratico na sua vida faustosa. Os rapazes d’aldeia sentiam-se
-engrandecidos dentro dos seus fatos galileus e romanos. As tres Marias e
-a Veronica, apenas levaram aos beiços os copos de vinho, com medo de se
-descomporem nos vestuarios. Os anjos, sentados em duas bancadas, comiam
-gulosamente rebuçados, babando-se pelos cantos da bocca. Os irmãos do
-Santissimo, encarregados de os acompanhar, vieram buscal-os para os
-conduzir á presença do senhor Guimarães e dos seus hospedes, antes da
-procissão. O destroço nas cavacas, no pão de ló e no vinho era feito,
-pelo Velho Simeão, por José d’Arimathéa, por Caiphás e Pilatos, que se
-mostravam altivos; pelo Evangelista e especialmente pelo Centurião e os
-seus doze romanos, que promettiam não sahir d’alli, em quanto houvesse
-uma gotta nos cantaros e nas garrafas. O filho do Cancella, estava
-arrogante, animando os seus com manifesto prejuizo dos superiores,
-Caiphás e Pilatos, não obedecendo ás palavras judiciosas do piedoso
-Simeão, que bebia menos por causa da barba, e recommendava aos outros
-compostura:
-
-—Olhem que tomam por ahi alguma carraspana! É melhor voltarmos cá, outra
-vez, no fim de tudo.
-
-—Isso é o que tu querias—retorquiu o Centurião. É dar-lhe, rapazes, até
-lhe chegar com o dedo.
-
-E de tal modo comprehenderam estas palavras, que ao sahirem da tulha,
-Cancella e os seus homens, levavam todo o seu animo e arrogancia natural,
-fortalecida pelo vinho.
-
-—Grandissimo odre—disse-lhe com inveja o Simeão da barba, perdendo a
-suavidade, que era da indole do seu papel.
-
- * * * * *
-
-Os _Passos_ começaram pelas duas horas. O itinerario foi combinado de
-modo que primeiro que tudo passassem á porta do senhor Guimarães, que
-seguia o andôr principal, como festeiro. A todas as senhoras que estavam
-á janella da sua casa d’azulejo, em especial a sua esposa, fez uma larga
-reverencia, passando ao mesmo tempo a mão na barba. Uma das coisas que
-mais impressionou a gente postada nos valados, foi o terem os anjos
-azas! Isso que concordava perfeitamente com o painel do altar mór, que
-representava a Annunciação, nunca elles tinham visto! E iam todos muito
-ricos, de setim branco e lentejoilas. Os melhores eram evidentemente os
-vestidos em casa de D. Maria de Refuinho, apezar de que os da mulher
-do sachristão e os da Lindoria, tambem não havia que lhes dizer:—ambas
-tinham sido creadas de conventos em Vianna. Cada anjo distinguia-se pela
-sua especialidade nas insignias de martyrio, em recordações da celebre
-_paixão_; era a coroa de espinhos, o martello, as tenazes e os pregos
-para crucificarem o Christo.
-
-Havia dois que conduziam simulacros das escadas pelas quaes os verdugos
-tinham subido aos braços da cruz. Um rapasote, com altivez para que
-todos reparassem, sustentava na ponta d’uma canna a esponja que servira
-ao fel e ao vinagre; outro era portador da lança com que se abrira o
-sacratissimo lado. As chagas, em lacre vermelho, iam em salva de prata. A
-Veronica, rapariga esbelta, mostrava com ar piedoso, no santo sudario, a
-face penitente e ensanguentada do divino mestre. Quasi no fim iam as tres
-Marias, todas a par, cobertas de gaze preto e logo a seguil-as, S. João,
-o discipulo amado, com o queixo apoiado na mão esquerda. A Magdalena,
-uma rapariga casadoira, de longas madeixas encaracolladas cahindo-lhe
-nas espaduas nuas, caminhava em passo theatral, adeante do apostolo, e
-significava limpar abundantes lagrimas, deitando de vez em quando um riso
-de soslaio, ás pessoas conhecidas.
-
-Entre os dois andores, o de Jesus vergando ao peso do madeiro, e o da
-Virgem lacrimosa que implorava do ceu piedade, ia o Cyreneu resignado e
-humilde logo em frente do Centurião, que commandava com arrogancia os
-seus doze companheiros. Eram rapazes escolhidos entre os mais espadaudos
-da visinhança. Orgulhosos dos capacetes prateados, das botas de montar,
-dos mantos vermelhos e das terriveis barbas, sustentavam intemeratamente
-as suas lanças, olhando em redor com provocação. O José Cancella
-levando a insignia da videira, atiçava-os com olhares tremebundos e
-modos arrogantes de capitão. O povo manifestava-lhes a sua antipathia,
-principalmente ao José. Chamava-lhe ladrão, carrasco, ameaçava-o com o
-inferno. A Lindoria, não se teve que lhe não dissesse, quando elle passou:
-
-—Barbas de chibo! Um tição por esses olhos é que tu querias!
-
-Porém o Cancella, apesar de carrancudo, não respondia. Pelos modos,
-parecia ter cabellos no coração, aquelle diabo—diziam todos. Os seus
-olhares furibundos sobre o Christo, não podiam constituir um peccado?
-Era realmente de mais. O Centurião do tempo dos judeus tinha a sua
-desculpa, porque não conhecia Jesus; mas este já ouvira muitas vezes os
-missionarios. Era fingido, bem se sabia, mas escusava de estar a fazer
-arremessos de lança, sobre a imagem que ia no andor; porque a isso é que
-ninguem o obrigava.
-
-O atrevimento provocou da parte d’um visinho, um sarcasmo reprehensivo:
-
-—Vaes-te ahi a fazer de chibante e logo rendes-te como um sendeiro!
-
-—Não me puches—retorquiu o Cancella—porque se vamos a isso, arraso tudo a
-pau.
-
-N’este momento o _trombeteiro_ deu signal para continuarem. Ao longe
-ouvia-se o alarido dos rapazes, que admiravam os prodigios de força,
-tanto do que levava o guião como do que sustentava o estandarte, pois
-eram bandeiras que pesavam muitas arrobas. A procissão seguia por uma
-encosta, no cimo da qual haveria o sermão do encontro.
-
- * * * * *
-
-Um limpido ceu de março cobria os campos, que principiavam a reviver
-para a alegria primaveral das cores e da luz. O sol glorioso batia de
-frente nos anjos, obrigando-os a piscar os olhos. As lentejoilas, os
-galões e os adereços faiscavam com ostentação. Todas essas innocentes
-crianças iam pomposamente levadas para o Calvario, pelos seus parentes,
-que lhes forneciam rebuçados em abundancia. A multidão commentava com
-amor a riqueza dos vestidos e as lembranças do martyrio. O som plangente
-e dolorido da musica, alastrava-se pelas campinas. O sermão do encontro,
-só commoveu algumas antigas beatas, que lagrimejaram encostadas aos
-carvalhos do largo. O pregador era um velho de voz pigarrada e bochecha
-cahida. Todos o conheciam e não lhe davam valor. N’esse dia memoravel,
-quem absorvia as attenções, era o padre Silvestre, que viera de Braga.
-Para o ouvir corriam os mais ageis pelo monte abaixo e atulharam a egreja
-com enthusiasmo. Para os andores entrarem pediram auxilio ao Cancella
-e aos da guarda romana. Á força de muito encontrão é que puderam abrir
-caminho. Houve gritos, exclamações injuriosas; mas as confrarias, os
-anjos e mais figuras, tiveram os seus logares. Tambem, o Centurião e os
-seus, foram logo, alli mesmo, pagos d’esse esforço, bebendo um cantaro
-de vinho que veio para a sachristia. Depois que tudo se acommodou como
-pôde, a egreja ficou silenciosa. A imagem do Redemptor e da Virgem
-destacavam-se com energia, no horisonte do calvario, formado de nuvens
-caliginosas. Havia anciedade pelo apparecimento do pregador.
-
- * * * * *
-
-A figura grave do padre Silvestre mostrou-se no pulpito. Circumvagou
-a vista, desde o guarda-vento até a repousar na imagem do Christo,
-ajoelhado debaixo da cruz. O exordio foi longo, mas habilmente preparado
-n’um crescendo de dôr. Seguiu a vida simples do filho do carpinteiro
-de Nazareth, levando-o desde a malvadez de Herodes até ao baptismo no
-Jordão. Mostrou-o predestinado pelas prophecias, para a sua divina
-missão de soffrer o martyrio degradante que soffreu, por amor dos
-homens. Anteriormente á vinda de Jesus, a humanidade vivia numa escura
-masmorra, com porta, só para o inferno! As palavras da escriptura haviam
-de cumprir-se e era preciso o sacrificio d’um Deus, para salvar o mundo.
-_Elle_ encarnou, soffreu, demorou-se trinta annos distante da patria
-celestial, para nos remir e dar exemplo. Nem que todos os homens vivessem
-eternamente em penas afflictivas, poderiam pagar tão infinita bondade!
-Por isso, na apaixonada peroração, o pregador, começou por considerar que
-estando dentro d’aquella egreja, só miseros peccadores condemnados aos
-rigores do inferno, convidava-os a que se prostrassem de bruços, para
-pedirem perdão a Deus dos enormes peccados, que todos haviam de ter, no
-logar mais intimo da alma.
-
-Os gritos e soluços do povo sommavam-se, como elementos d’uma calamitosa
-tempestade. A gritaria das mulheres, que davam bofetadas nos seus filhos
-para os obrigar a carpir e conservarem memoria d’este sermão, esfusiavam
-no ar como uivos de vento. O pregador, para tomar mais pathetico o
-discurso, quil-o ornamentar com a conversão _d’um infiel_. O infiel
-era o Centurião, o filho do Cancella, no qual ia experimentar o poder
-extraordinario da divina palavra.
-
- * * * * *
-
-Desde o principio se reconhecera, que o José estava casmurro; pois que, a
-despeito de todo o povo chorar, elle sempre se mostrára atrevido, olhando
-o pregador com altivez. Os seus soldados tambem o acompanhavam no ar
-insolente. Algumas pessoas que estavam no segredo do que se passava,
-attribuiam aquella chibancia ao ultimo cantaro de vinho. O pregador,
-ignorante do facto, antes o julgou muito bem compenetrado do papel. Por
-isso começou por pedir aos fieis, que o acompanhassem na exhortação que
-ia fazer. Como as toupeiras que não tem olhos para a luz do sol, aquelle
-desgraçado não tinha meio de presenciar o encanto da luz da divina graça.
-Vivia em trevas infinitas, d’onde só podia sahir pelo enorme poder do
-Senhor. E estendendo-lhe os braços paternaes, pediu suavemente:
-
-—Rende-te Centurião!
-
-—Rende-te Centurião!—acompanharam os circumstantes, n’uma voz chorosa e
-precatoria.
-
-O filho do Cancella, que passeava soberbamente no calvario, parou
-cofiando a barba com magestade e affirmou resolucto:
-
-—Não me rendo!
-
-O Agrella, que estava alli perto, disse-lhe de modo que elle ouvisse:
-
-—Não te rendes! Isso logo se verá meu pedaço d’asno.
-
-Evidentemente, esta ameaça do alfaiate perturbou a vista do esforçado
-Centurião. Por entre a longa barba, sahiu-lhe um bafo enfurecido de
-colera, e se não fora a especial situação, era capaz de lhe quebrar a
-cabeça com a lança.
-
-O pregador, tendo limpo os beiços ao lenço, segundo a convenção,
-continuou exhortando o infiel e pediu-lhe com mais instancia. Pintou,
-deante do povo absorvido na sua palavra santa, o triste estado d’aquella
-alma obcecada, recusando receber em si a divina luz! Empregou maior
-energia de phrase, foi mais caloroso e persuasivo. O povo seguia-o,
-supplicando com elle, levantando clamor cheio de lagrimas. Ao segundo
-_rende-te_, quando o pregador mudou o lenço para o meio do pulpito, o
-Centurião respondeu cathegorico:
-
-—Não quero, não rendo!
-
-—Á terceira nós veremos—afirmou de novo o Agrella, que estava certo do
-que se passara entre o José Cancella e o pregador.
-
- * * * * *
-
-O padre Silvestre investiu no ultimo pedido, dando-lhe a forma de
-objurgatoria. Para ser mais solemne, começou em tom simples, subindo
-gradualmente até ao intimativo.
-
-Já via na fronte do Centurião um principio d’arrependimento. O grande
-Deus ia feril-o com um d’esses raios de divina omnipotencia, como ferira
-Paulo na estrada de Damasco, como ferira o impio Agostinho, e o proprio
-Moisés na montanha. Não podia consentir-se que vivesse entre christãos,
-uma alma peccadora e impenitente. A conversão havia de dar-se a preço da
-propria morte, porque o Senhor usa de todos os meios, para chamar a si as
-almas!
-
-O filho do Cancella, perseguido d’ameaças, não se commoveu. Porém, quando
-o pregador o equiparou aos grandes santos, já parecia amollecido no seu
-espirito de resistencia. O povo chorava e clamava em altos gritos, o
-peito enchia-se-lhe de ternura e arrependimento. Talvez fosse melhor
-acabar com aquillo, prostrar-se por terra, como tinha promettido. O
-pregador mudou o lenço para a direita e concluiu com voz energica e grave:
-
-—Abre esses olhos peccador! Rende-te Centurião!
-
-—Agora!—intimou o Agrella.
-
-O chefe da guarda romana fixou no pulpito um olhar atrevido. Julgou-se
-indigno da fama que tinha de valente se obedecesse á voz do Agrella. O
-vinho dava-lhe coragem e audacia. Tomando a lança ás duas mãos, bateu
-uma forte pancada no pavimento e respondeu ao pregador:
-
-—Tenho-os bem abertos. Não me rendo! Não e não! Obrigue-me!
-
- * * * * *
-
-Depois d’isto a situação ficou inteiramente perturbada. O padre Silvestre
-teve uma paragem de surpreza. Não sabia o que aquillo queria dizer. Teria
-havido algum esquecimento ou engano?! Para que o rapaz percebesse melhor,
-tornou a pegar no lenço, suspendeu-o no ar e collocou-o á direita. Á voz
-imprecativa do sacerdote, juntava-se o clamor plangente e formidavel do
-povo. Pois que! O filho do Cancella tinha duvida em reconhecer o enorme
-poder da Omnipotencia! em se rojar diante do Senhor dos Senhores, do Rei
-dos Reis! em reconhecer que o Immaculado Cordeiro veio morrer fragilmente
-na forma humana, só para nos remir e salvar! Estranha e incomprehensivel
-cegueira! Empedernido no peccado, devia estar aquelle coração. E
-pediu-lhe de novo que se rendesse, que attendesse á commovente voz de
-todas aquellas mulheres que o exhortavam e no meio das quaes estaria sua
-propria mãe.
-
-As pessoas gradas pareciam irritadissimas. O brazileiro Guimarães
-lembrou-se de o mandar prender; mas o desembargador João Xavier,
-achou isso improprio do logar. Enviaram o Zé Maximo, que lhe disse com
-moderação:
-
-—Rende-te, diabo! Olha que o homem já está rouco.
-
-—Deixe-o estar!—respondeu succintamente o Centurião.
-
-Todos se mostravam inquietos. Semelhante cabeçudo, merecia boa doze de
-páu—opinavam.
-
-O pregador estava esfalfado. A sua voz, já pouco distincta, era coberta
-pelo alarido que enchia a egreja! Ouviam-se supplicas, ameaças, palavras
-soltas, gritos, creanças a chorar...
-
-O filho do Cancella, de cada vez se inculcava mais firme, no proposito de
-se não render. Foram pedir ao pae que lhe impozesse a obediencia; porém
-o velho, que sempre tivera prosapias, mostrou má vontade de interferir.
-Opinou que o rapaz se renderia quando entendesse, que o deixassem lá,
-elle sabia bem do seu papel. Não era a primeira vez.
-
-Tudo parecia perdido. O padre Silvestre, exhausto de forças, furioso
-contra aquelle maroto, arrancou do peito um grito sublime. Com a colera
-estampada no rosto, dirigiu-se ao povo, e apontou vivamente para o
-Centurião clamando:
-
-—Aqui d’El-rei! contra aquelle maroto! Prendam-no que foi elle que matou
-Nosso Senhor Jesus Christo! Povo! Faz justiça por tuas mãos.
-
-Os das confrarias largaram as tochas e correram em tropel. O chefe dos
-soldados romanos preparava-se, juncto com os seus homens, para levarem
-tudo á bordoada. Só então é que o velho Cancella se adeantou, agarrando o
-filho pelo tronco:
-
-—Eh! Zé. Que diabo é isso! Rende-te que já fizestes a tua figura, home!
-
-Elle então, arrumando a lança para um canto, submetteu-se:
-
-—Como vocemecê pede, vá lá! Se não ia tudo razo!
-
- * * * * *
-
-Depois na sachristia, o Guimarães, furioso, disse-lhe:
-
-—Precisavas que te mettessem um páu, entendes? Culpa tive-a eu em mandar
-o cantaro de vinho. Não eras tu que fallavas, não.
-
-O abbade, esse, mesmo d’estola, quiz-lhe esmurrar as ventas. O pregador é
-que lhe agarrou n’um braço, socegando-o:
-
-—Deixa-o. Quem lhe hade pôr uma farda ás costas, sou eu. Lá é que ellas
-se pagam. Moinante!
-
-O filho do Cancella, ouviu-os com ar sizudo, sem responder. A vista
-toldou-se-lhe quando o ameaçaram. N’um impeto de colera, arrancou as
-barbas postiças e arrumando com ellas ao chão, disse sahindo para fóra:
-
-—Ainda um raio me parta se eu tornar a fazer de Centurião! Macacos me
-mordam, se pozer outra vez isto na cabeça!
-
-E atirou ao meio da herva do adro, o bello capacete prateado, que foi ter
-a distancia.
-
-O abbade, ainda se chegou á porta dizendo-lhe deante dos homens que alli
-estavam:
-
-—Ah! bom marmelleiro! Levem d’ahi esse odre de vinho, antes que eu lhe
-ponha os ossos num feixe.
-
-Em casa do pae, custou muito a socegal-o. Foi preciso deitarem-lhe uma
-chapoeirada d’agua fria para o acalmar. O somno que dormiu, foi de mais
-de doze horas!
-
- Fevereiro de 86.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-A TRUTA GRANDE
-
-
-Lá está o padre João, a dormir na sua cadeira de braços, debaixo da
-fresca lata! Peito ao léo, as abas do amplo casaco de lustrina pendentes,
-breviario para um lado, lenço para outro, caixa do rapé na mão, o ventre
-arfando pausadamente... É todos os dias assim, depois de jantar, no tempo
-dos calores. Para avaliar a tranquilidade de certas almas, é melhor
-sentir-lhe a respiração suave, do que ler, tudo quanto pensadores e
-casuistas, tem escripto acerca de moral. E julga-se um homem accordado,
-o sereno eclesiastico, pois regouga palavras incomprehensiveis! Em
-que bello paiz de sonhos trabalhará a sua ideia?! Sorri-se, o labio
-papeja-lhe de contentamento... É que está á borda do rio, a canna de
-pesca firme, o olho interessado, a respiração silenciosa. Rabea-lhe
-em volta da isca e em breve a morderá, o peixe guloso e estupido. A
-superficie da agua é serena. A transparencia deixa ver o fundo limoso e,
-talvez, a truta grande, com a magestade do seu nadar, passe altiva, a
-distancia.
-
-Ah! magnifico padre João, como estaes evidentemente enganado! Os tremulos
-e repetidos puxões que vos agitam o corpo, ebrio de goso, não são do
-peixe a depennicar na isca, são as gallinhas em cata de moscas. Ellas é
-que vos tiram pelas abas sebentas do casaco de lustrina, querido e obeso,
-padre João!...
-
- * * * * *
-
-O dia era d’agosto e bem quente. Atmosphera tremula e translucida, como
-se fora de crystal fundido. No rio, as lavadeiras entoavam canticos
-religiosos aprendidos com os missionarios e modas profanas colhidas
-dos cegos que passavam. Nos campos em redor, áquella hora, não havia
-murmurios do trabalho, pois já tinham acabado as sachas e as mondas.
-As regas, essas faziam-se de noite. Eram duas da tarde e entram no
-quinteiro os discipulos do latim. Ao verem o respeitado mestre, tão
-docemente adormecido, deixam-no em paz e vão gazear para os lados do
-rio. O porco foi menos condescendente. Tardava-lhe a lavagem e principiou
-a grunhir em volta do quinteiro, parando com o focinho erguido para a
-cosinha. Este barulho espertou o excelente ecclesiastico. Primeiro abriu
-um olho, depois outro, conservando-se alguns minutos em contemplação,
-mãos crusadas sobre o ventre. Parecia contar detalhadamente os doirados
-cachos que formavam um docel sobre a sua cabeça! Por fim ergueu o tronco
-considerando:
-
-—Então não me ia deixando dormir?! Pois não é o meu costume. Ó
-Luiza!—chamou repetindo tres vezes.
-
-Uma voz de dentro da casa respondeu:
-
-—Não posso lá ir. Estou a arranjar a lavagem. Não ouve o pórco?
-
-—Tem piedade de mim, moça—exhorou o padre João. Tenho esta bocca como um
-pau velho.
-
-—Tambem, está sempre com seccuras!
-
- * * * * *
-
-Mas a rapariga compadeceu-se. Primeiro que tractasse do porco foi á
-adega, trouxe uma infusa de vinho, collocou-a desceremoniosamente no
-chão, juncto do amo que disse:
-
-—Deus t’o pague mulher! Deus t’o pague! Se não fosse isto, nem hoje podia
-dar lições.
-
-Com sorriso beatifico, pegou na infusa, repimpou-se na cadeira e começou
-_glou, glou, glou_... até um final de saciedade, que consistiu n’um
-prolongado ahhh!...
-
-A creada, voltando com a lavagem, disse:
-
-—Já ahi vieram os estudantes, mas como vocemecê estava de papo p’r’o ar,
-lá se foram derriçar co’as raparigas p’r’o rio. Não lhe tem respeito
-nenhum—censurou.
-
-—Que respeito queres tu que me tenham?! Deixa-os lá, esta vida são dois
-dias. Gostam das moças? Tambem eu já gostei... e ainda gosto—concluiu
-arregalando olhos bregeiros.
-
-—Um padre velho, sempre falla d’um modo...
-
-—Historias! Velhos são os farrapos. Vae-me chamar esses estudantes. Se
-não aprendem latim, não serão nada. Latim é a base. Vae-os chamar, anda.
-
-E acabou de emborcar o resto da infusa, com um beber sereno de
-satisfação. A creada reprehendeu-o:
-
-—Todo elle é vinho. Quando não está, p’ra lá caminha.
-
-—O que, bebedo? grandissima cachorra. É coisa que nunca me viste,
-mentirosa. Gosto da pinga e de ti; mas não me embebedo com estas coisas.
-
-—De mim! Arreda, que me quero casar.
-
-—Com esse garotaço que te namorisca? Has-de casar sem banhos, nem benção,
-eu t’o affianço. Vae-me alli chamar os estudantes, anda.
-
-—Vá você, que tenho a massa a aziumar. Se hade tornar a adormecer...
-
- * * * * *
-
-Luiza subiu a escada de pedra para a cosinha. O padre João levantou-se
-sem resistencia, sahiu o portal e foi pelo carreiro abaixo, com o lenço
-vermelho a resguardar-lhe a cabeça, do sol. Chegado á margem do rio, lá
-viu os discipulos brincando com as lavadeiras. Muitas d’ellas levavam a
-coisa de galhofa; outras enxotavam-nos com pragas. O professor não se
-encolerisou, apesar de alguns estarem a fumar—o maior de todos os vicios,
-e que elle odiava do fundo d’alma. Toda aquella alegria e mocidade lhe
-arejou os sessenta annos. Enamorado da juventude, quedou-se a contemplar
-o quadro cheio d’animação. Benevolo e risonho, fatiava comsigo mesmo.
-
-—Não querem ver como se arreitam? Ora, ora, já a formiga tem catarrho!...
-
-Levava o lenço ao nariz para enxugar o pingo da distracção. Escondido
-por detraz d’um choupo, interessava-se na contemplação d’este quadro
-virgiliano. Absorvia a fundos haustos o ar impregnado de terriveis
-prazeres, que lhe revolviam os nervos. Recuava quarenta annos, ao tempo
-das rapasiadas, dos bons acasos, quando apalpava contornos e sentia na
-approximaçâo da carne, coisas de mil demonios. Talvez que ainda recuasse
-mais, á famosa edade em que a imaginação trabalha inquieta, creando
-gozos, adivinhando extasis e vive de imperiosos desejos, que entumescem.
-A physionomia graciosa do padre João, expandia-se á vista do quadro
-simples e primitivo—o beiço tremulo revelava o seu interior. A paisagem
-era encantadora, a corrente da agua arrepiava-se nos seixos; na mente do
-mestre de latim só podia haver quadros pittorescos de antigos faunos, a
-rirem juncto de fontes, em florestas edylicas.
-
-—Olha o Esteves—commentava—como repara nas pernas da Clementina!
-Grandissimo tratante! Talvez não saibas o _Sum, és, fui_ e estás ahi
-com esses olhos. Como já tem malicia! Mas que maliciasinha! mas que
-maliciasona!
-
-Limpou precipitadamente outro pingo. Humedecia os beiços com a lingua,
-como o guloso de bellos manjares. Tudo aquillo o interessava. Sentou-se
-na relva por traz da arvore. Tomou uma abundante pitada, fungada em tres
-tempos, com todas as precauções para que o não presentissem.
-
-—Ahh!!!...—respirou.
-
-Queria ver onde aquillo chegava. Não podia ser grande coisa, estava
-muita gente, as mulheres velhas são experientes. Alguma apalpadella,
-um empurrão, talvez cocegas para fazer cahir as raparigas. Lá adeante,
-no meio do salgueiral andava a Victoria a estender a roupa e cantava o
-_Afasta_, _janota_, _arreda_. O padre João via-a pelas costas, o tronco
-inclinado sobre a relva, as ancas largas, as rijas barrigas das pernas, á
-mostra. Rapariga saudavel, muito alegre, amplo seio destinado a fecunda
-maternidade. Disiam que namoriscava o filho do sachristão; mas de quem
-ella parecia gostar verdadeiramente, era do praticante da botica, que
-lhe dava fartura de banha de cheiro, para o cabello. Trabalhava distante
-das outras lavadeiras, no coradouro, e para molhar as teias que lhe
-estavam confiadas, mettia-se no rio até aos joelhos, atirando agua ás
-manadas. O sol faiscando sobre a areia do seixal enlanguescia os corpos,
-estonteava as cabeças. A Victoria desappareceu entre os salgueiros, para
-os lados onde não havia gente. E pouco depois, o discipulo mais graúdo
-do Padre João, o Thomaz do mercador, para lá se dirigiu, assobiando
-disfarçadamente.
-
-—Olhem o moinante! Não querem ver?—rugiu o mestre do latim.
-
-Porem, mais longe, n’uma clareira, a moça, reappareceu. O padre d’alli
-mesmo se pôz a vigiar, que não houvesse qualquer coisa. O estudante
-encontrou-se com a lavadeira, quiz effectivamente agarral-a, mas a
-rapariga esquivou-se-lhe, correndo adeante d’elle, furtando-se por
-entre troncos d’arvores. O ecclesiastico para ver melhor, levantou-se,
-seguia-os com prazer, inclinava-se para um lado e para o outro, punha-se
-nos bicos dos pés.
-
-A Victoria a dar gargalhadas condescendentes, gritava pelas companheiras,
-ameaçava com um gougo o preseguidor. «E pilha-a.» «E agarra-a...»
-«Agora... fugiu...» «Lá cahiram ambos...»—ia elle commentando, comforme
-os cambiantes da lucta.
-
-—O diabo é o Thomaz! Não escolheu mal o patifão—considerou, quando os
-dois, junto um do outro, conversavam sensatamente.
-
- * * * * *
-
-Mas o aspecto de conciliação perturbou-se. O estudante perseguiu de novo
-a rapariga que lhe fugia, gritando. A Lindoria ouvindo, correu para o
-sitio, cheia de fervor beato.
-
-Ralhou, esbracejando descompostamente. A sua gritaria era para denunciar
-o rapaz, ao longe: «Maroto, metta-se com quem lhe der trela, não
-ande a desinquietar as almas». Ameaçou o estudante com o pae, com os
-missionarios, com uma queixa ao professor, com o inferno.
-
-—Ah! tambem não é coisa para tanto—disculpava o sacerdote comsigo. Elle
-não fez mal nenhum.
-
-Mas Lindoria não era d’este modo de pensar. Como Thomaz e outros
-companheiros lhe retorquiram com palavras feias, ella enfurecida e
-descomposta, subiu pelo carreiro, mesmo direita á casa do padre João. E
-berrava pelo caminho:
-
-—Seus tratantes. Hão de dar grandes padres ou doutores. Padres!
-Abrenuncio! Eram capazes de dar cabo do reino dos céus. Ah! Vossa
-Senhoria já ahi vem? É que ouviu esta pouca vergonha!
-
-Tinha dado de frente com o ecclesiastico, que retrocedera no caminho,
-para fingir que vinha de casa. A Lindoria, presumindo-lhe a ideia da
-procura dos discipulos, indicou-lhos:
-
-—Estão alli senhor. Tire-lhes a pelle das mãos pelo amor de Deus, pelas
-cinco chagas, senhor padre João. Olhe que não sabe os marotos que tem!
-
-A figura do mestre de latim, quedou-se respeitavel no alto da ladeira.
-Com um gesto largo de commando, appontou aos discipulos o caminho da
-aula.
-
-Vieram todos junctos, como um cardume de peixes. O sacerdote caminhou
-adeante, sem os esperar, com o lenço vermelho pela cabeça, as abas do
-casaco afastadas como dois remos. E susteve-se um momento voltando-se
-para traz, com o fim de os increpar:
-
-—São estas as horas d’aula? Eu ha um rôr de tempo á espera!...
-
-A beata ainda lhe quiz contar tudo, mas o padre João nem a quiz ouvir:
-
-—Não me dás novidade. Conheço-os. Deixa-os por minha conta.
-
-Os estudantes seguiram-no, com semblantes de pouco temor. Já tinham
-experimentado mais vezes aquella farronca. Eram, quasi sempre, os dias
-mais serenos e benevolos.
-
- * * * * *
-
-Debaixo da varanda alpendrada, onde o ecclesiastico dava lições de verão,
-que se iria passar?
-
-O padre João fazia um barulho da breca. Movendo-se com uma presteza
-desusada, foi ao quarto buscar a palmatoria, para amedrontar. Não se
-queria ver entre os dentes de Lindoria, que era capaz de lhe inventar
-a peior fama. Aquellas paredes e aquella figueira, habituadas ás
-objurgatorias tytanicas de Tito-Livio, aos versos amplos do melodico
-Virgilio, ás palavras conceituosas do velho Horacio e de Esopo, deviam
-estar atemorizadas, pela subita colera do professor.
-
-Chegou a parecer iracundo—o sobr’olho carregado, os beiços estendidos, o
-rosto afogueado. Os rapazes curvados sobre os livros, já se não riam. O
-padre, abrindo o Virgilio, disse desabridamente:
-
-—Tradusa as Eclogas, senhor Magalhães. O senhor Thomaz emenda. Por cada
-erro uma palmatoada no primeiro e duas no segundo. Vamos a ver se são tão
-fortes em analyse, como na bregeirice.
-
-Os mais pequenos, com as grammaticas abertas sobre os joelhos, estavam
-pallidos! Nunca o tinham visto assim! Respirava-se alli uma atmosphera de
-terror. O mestre tinha baforadas de colera, batia com a palmatoria sobre
-a meza, arrumava os livros com impeto. O seu fim era crear em volta de
-si, um ambiente de respeito.
-
-A consciencia gritava-lhe que não seria bastante punidor; mas estava
-resolvido a amedrontar a propria consciencia.
-
-Para estabelecer uma intransigencia material entre si e aquelles que ia
-julgar; para se recolher absolutamente no grave papel de juiz, cobriu
-o rosto com o Virgilio. Não desejava ver os reus. Nenhum aspecto de
-humildade ou compuncção o tocaria!
-
- * * * * *
-
-O Thomaz era o melhor dos seus estudantes. Traduzia Virgilio com
-elegancia, penetrando-lhe as subtilidades litterarias. Foi elle quem
-principiou a licção e não o Magalhães, como ordenára o professor. O
-padre João conheceu a manha. Deixou-se enganar, até lhe achou graça. Um
-ligeiro sorriso (o primeiro na tempestade do seu rosto), abriu-se como
-uma flor de cacto. As paisagens tepidas e enganosas, d’uma suavidade
-extensa, principiaram a desenhar-se-lhe deante dos olhos. Tityro e
-Melibeu philosophavam na sua linguagem culta e suave, como o murmurio dos
-regatos. A pastora das florestas, idyllicamente á sombra das arvores,
-dizia do seu peito coisas ternas ao pegureiro amado, que tangia frauta
-rude, juncto d’um ribeiro. O verso sahia claro, levantando-se n’uma
-cadencia adormecedora. Havia as messes côr de manteiga, enchendo de
-riqueza o valle; na encosta estendiam-se rebanhos de cordeiros, que
-balavam por suas mães. Esta completa abstracção de materialidade, foi
-gradualmente enternecendo o mestre encolerisado.
-
-Ao fim de poucos minutos, já respirava uma atmosphera de bondade
-natural; havia descoberto o rosto incauto. Não déra pela transição.
-Foi acompanhando em voz alta o discipulo que em breve o deixou só,
-limitando-se a ouvil-o. Pouco depois, o professor estava de pé, no
-meio da varanda, lendo com enthusiasmo, elevando-se nas maravilhas da
-comtemplação egoista do poeta! Desapparecera o mestre iracundo, não havia
-palmatoria. Boquiaberto, deante dos discipulos, exclamava:
-
-—Como isto é bello! Como isto é bello!
-
-Foi-se á caixa do rapé, tomou farta pitada, fungou-a sem rebuço, de
-pernas escachadas. Cahiu extenuado de prazer, na sua cadeira magistral.
-O Thomaz, que era velhaco, aproveitou o momento para dizer:
-
-—Não sabe o senhor padre João, o que nós vimos ha boccado?
-
-—Que foi?—perguntou.
-
-—A truta grande, a serenar, encostada á pedra branca!
-
-Tornou-se pallido e extatico! Endireitou-se na cadeira e disse,
-esforçando-se por se mostrar tranquillo:
-
-—A truta grande, que anda ahi no rio!?
-
-—Vi-a com estes.—insistiu o discipulo. É assim!— designou o comprimento
-d’um braço.
-
- * * * * *
-
-Estes maliciosos conheciam-lhe o fraco, como toda a gente. Muito mais do
-que apaixonado amante dos classicos latinos, era um pescador de canna.
-Esta paixão soturna é que lhe enchia a existencia. Por ella esquecia
-deveres sacerdotaes, obrigações escholares e a propria comida. Borracha
-á cinta, um naco de brôa, azeitonas... e lá andava um dia inteiro, pela
-margem do rio, para baixo e para cima, a cocar. Principalmente se o peixe
-picava, se enchia o cacifre, o seu gozo era infinito. Só para algum
-_Senhor fóra_ é que tinham ordem de o chamar, com tres badaladas no sino
-da torre. Esta ideia d’um moribundo se preparar para ir á presença de
-Deus, era mais forte. E resmungava ao enrolar a sedela:
-
-—Como é para coisa d’estas, não ha remedio.
-
-N’estes termos, habil foi o estratagema dos discipulos, para se lhe
-apoderarem do espirito benevolente, e conseguirem o sueto que desejavam.
-
-O caso, apontado pelo Thomaz, era grave. Havia annos que elle, ao
-desafio com o morgado da Torre Velha, procuravam a gloria de pescar a
-famosa truta grande! Era um animal matreiro, raramente se mostrava fóra
-d’um fundo poço, onde as redes se não arriscavam.
-
-Juncto da pedra branca, só a tinham visto, duas ou tres vezes.
-A revelação do discipulo fez com que o padre João desconhecesse
-immediatamente os encantos bucolicos de Virgilio, as pompas litterarias
-de Tito-Livio. Deante de si, não tinha o criminoso que minutos antes
-lhe arrancára berros de colera; só via o individuo, que possuia um
-conhecimento para elle inestimavel.
-
-—Então era a truta grande! Tu vistel-a bem?! Tu conhecel-a?!
-
-—Se vi! Se conheço! Estava a serenar muito junctinha á pedra. Quando
-vinha á tona algum bichinho a rabear, ella nadava depressa e, zaz,
-abocava-o, dando um pulo fóra d’agua.
-
-—Oh! com mil demonios!—exclamou.—Oh! minha Virgem Santissima, que lhe vou
-metter o anzol, mesmo na guela!
-
-E depois um pouco mais sereno, no abatimento produzido por uma onda de
-gozo considerou:
-
-—Ha quantos annos ando eu atraz d’essa ladra! O dia hoje está quente...
-Sol de trovoada, é bom p’ra coisa! Que dirá o D. Luiz, quando souber?...
-
-Mostrava nas palavras verdadeira energia de luctador; o seu campo de
-batalha era aquelle.
-
- * * * * *
-
-De entre muitas cannas, suspensas ao longo da parede da varanda, escolheu
-a que tinha ponteira mais flexivel e resistente. Da gaveta da sua banca
-de professor, tirou uma sedela de côr verde-agua.
-
-Calculava tudo para ficar victorioso, n’esta peleja que durava annos.
-Alli não havia mestre, nem discipulos. Os rapazes davam-lhe conselhos,
-offereciam-se para ir ás minhocas, e o Thomaz achou muito grossa a sedela:
-
-—És tolo—retorquiu o mestre. Não ves que é uma truta do tamanho d’um
-savel! Se a apanho, vocês tem feriado tres dias! Como ficará o D. Luiz?
-Ai! que regalo.
-
-O morgado da Torre Velha era o seu competidor na pesca á linha.
-
-Encontravam-se frequentemente n’este desafio tacito. A cada peixe que um
-encacifrasse, o outro fazia um cumprimento espalhafatoso, mas odiento.
-Ambos se julgavam com eguaes direitos, á creação de todo o rio. A truta
-grande, porém, como um e outro tinham jurado apanhal-a, era motivo de
-mais grave conflicto. Por causa d’ella tinham feito pesquizas especiaes.
-Iam de noite, de dia, nas occasiões das cheias para juncto da azenha;
-porque, de vez emquando, o formoso animal vinha-se alli refrescar, nas
-aguas correntes.
-
- * * * * *
-
-Estudavam em separado, os estados climatericos, para calcularem o
-momento proprio de conseguirem o seu fim. Quando a qualquer d’elles
-parecia opportuno, tomava a canna precipitadamente, e ainda que o jantar
-estivesse na mesa, abalava para o rio. Muitas foram as desillusões,
-fadigas e contrariedades; mas tudo venciam com tenacidade heroica. A
-dormir e acordados tinham momentos de subito terror: cada um via o
-outro, apparecendo victorioso, com a truta presa do anzol, usando de mil
-habilidades para a trazer á margem, sem partir a sedela. Porém n’esta
-occasião o mestre de latim (talvez ainda resto do espirito de rigorismo
-com que entrára na varanda) entendeu que devia continuar as licções e
-disse encostando a canna ao canto:
-
-—Vamos primeiro acabar as licções.
-
-Os discipulos entreolharam-se aterrados! Por esta é que elles não
-esperavam. A lembrança feliz não sortira effeito. Uma risonha invenção,
-reduzida a nada. O plano de irem roubar n’essa tarde certas uvas
-doiradas, completamente gorado! Todos os rostos se voltaram para o
-Thomaz, que estava cabisbaixo e confuso. Porém, neste apuro, foi o sonso
-do Esteves, que fallou:
-
-—A estas horas, já está por lá o senhor D. Luiz, com a sua canna...
-
-O padre João, deu um pulo na cadeira e perguntou rapidamente:
-
-—O senhor viu-o passar!?
-
-—Não senhor; mas no outro dia pediu ao moleiro que, quando ella por alli
-apparecesse, o mandasse chamar.
-
-Era quasi tão terminante como se o tivessem lá visto. Seria mais acertado
-partir immediatamente, antes que o da Torre Velha tivesse denuncia.
-Tornava-se indispensavel tomar-lhe a deanteira.
-
-—Bem, bem... Essas licções na ponta da lingua para amanhã. E não me
-vão para o rio, por causa das lavadeiras. Não gosto da lingua da tal
-Lindoria, que vae por ahi badalar... badalar...
-
- * * * * *
-
-Partiu de canna ao hombro e n’um passo diligente. _Deus nobis heac otia
-fecit_—segredava comsigo. Os discipulos fugiam para o outro lado, com
-medo que ainda lhe desse a tineta, de voltar para traz. Corriam pelos
-caminhos, davam saltos, guinchos... O Thomaz relembrou-lhes o que disse
-o padre João, porém elles, não se importaram, continuando a correr e a
-gritar sem fazerem caso.
-
-Na margem do rio, o sacerdote, armou-se de todos os cuidados para não ser
-presentido do esperto animal. Ao dirigir-se á pedra branca, os passos
-eram miudos, evitando as folhas seccas, que gemem debaixo dos pés.
-
-Que enorme prazer de vingança! Iria passar á porta do morgado, com
-a truta pendente da mão. «Olha lá! rala-te p’ra’hi!»—havia de dizer
-mentalmente. Nunca houve bandido que espreitasse com mais sagacidade a
-sua victima.
-
-Já de longe levava a canna prestes, a sedela colhida na mão para a lançar
-imprevistamente. Estava a pouca distancia, quando estacou, pallido de
-colera! O D. Luiz, surgíra n’esse momento da porta da azenha, seguindo
-rio acima com o anzol tambem prompto!
-
-—Olhem o excommungado do barbaças que teve denuncia!—exclamou o
-ecclesiastico. Bem disseram os rapazes!
-
-O fidalgo, homem edoso, corpulento, tez morena das soalheiras, olhar
-emprehendedor, tambem o viu e, provavelmente, faria identicas reflexões.
-
-Comprimentaram-se com sorriso desdenhoso e n’esse instante abriu-se entre
-elles uma lucta colossal.
-
-Estavam quasi a mesma distancia. Approximarem-se atabalhoados era
-inconveniente. Tanto um, como outro comprehenderam a gravidade do
-momento. O peixe era um só e decerto não teria a condescendencia de
-pegar nos dois anzoes ao mesmo tempo. O padre João humildou-se. Fez ao
-inimigo um signal em que pedia uma tregua, com o fim de parlamentarem.
-As circumstancias exigíam prudencia e ambos se afastaram da margem, para
-virem á falla.
-
-O padre disse primeiro:
-
-—Assim não póde ser, morgado. Nem p’ra mim, nem p’ra Vossa Senhoria!
-
-—Que quer você que lh’eu faça? O rio não é grande?
-
-—Mas a truta é uma, e se vamos á porfia escapule-se. Vossa Senhoria sabe
-que ella está alli.
-
-—Palavra que não! Porque diabo não está você a dar aula aos seus rapazes?!
-
-O sacerdote, zangado comsigo por lhe ter denunciado a truta, não pôde
-supportar-lhe a censura:
-
-—E porque diabo não está o senhor a dormir a sua sesta! Ora é muito fina!
-
-Estavam furiosos um contra o outro; mas a occasião era inopportuna para
-se descomporem. N’esse momento, juncto da pedra branca, a superficie do
-rio enrugou-se, a agua espadanou e um peixe enguliu um insecto que vinha
-nadando.
-
-—Seria ella?—rugiu o D. Luiz, com vontade de matar o padre.
-
-—Ná...—opinou este fazendo-se forte—Ella ha de fazer mais mossa.
-
-No fundo ambos acreditaram que podia ser. «Maldito sotaina!» «Maldito
-barbaças!»—insultaram-se mentalmente.
-
-—Bem—disse o padre. Dois ao mesmo tempo é que não póde ser. Quer Vossa
-Senhoria que se tire á sorte quem ha-de ir?
-
-—Valeu—concordou o fidalgo.
-
-D. Luiz tirou um pataco do bolso e perguntou:
-
-—Cruzes ou cunhos?
-
-—Cruzes que eu sou padre. Agora trapaceie, se lhe parece.
-
-—Não tenho os seus costumes, seu bebedo!—respondeu o fidalgo, mostrando
-na palma da mão as cruzes da moeda.
-
-E atirando ao ar o pataco com força, viram-no cahir a distancia. Os dois
-pescadores correram cheios de commoção.
-
-—Cunhos!—gritou o morgado ao ver a papuda efigie do rei D. João VI.
-
- * * * * *
-
-O padre João acceitou resignado a sentença. Encostou a um valado a canna,
-tirou prodiga pitada da caixa de prata e foi-se sentar n’uma pedra
-trauteando cantochão, talvez pela mesma razão que tem os condemnados á
-morte, para pedirem que rufem os tambores, junto do cadafalso. D. Luiz
-augmentava-lhe o supplicio, caminhando vagarosamente para a margem. Dois
-annos de pesquizas e cuidados iriam terminar n’aquelle instante, pela
-victoria do seu adversario? Desappareceria aquelle tropheu de gloria, que
-lhe dera tantos sonhos enthusiastas? Principiou a cantar alto, desvairado
-por um sentimento de malevolencia. O da Torre Velha advertiu-o:
-
-—Isso é para espantar, padre João?
-
-Callou-se ficando n’um abatimento triste.
-
-Ia presenciar a sua vergonha. O dia estava magnifico. Com ar de trovoada
-o peixe pica, que nem mil diabos! E figurava-se-lhe na imaginação a truta
-grande de guela aberta, aboccando a minhoca do barbaças. Era horrivel e
-desoladora esta possibilidade!
-
-Mas porque é que o cubiçado peixe não havia de fugir? A maior parte das
-vezes é o que succede—consolou-se. A elle mesmo não lhe tinha acontecido?
-Ella a serenar, a serenar, muito quietinha, deante dos seus olhos,
-nem parecia coisa viva... Procurava o lado de cima, lançava o anzol a
-distancia para vir nadando pela agua a baixo como um bicho inexperto, e
-afinal, a truta que para elle era o animal mais intelligente da creação,
-escapulia-se por entre os penedos, que era um regalo! Quantas vezes isto
-lhe succedera? Uma infinidade.
-
- * * * * *
-
-Ainda outra consideração:
-
-O morgado não era grande pescador de linha. Ignorava muitos segredos
-da arte sublime e não possuia todos os petrechos. Teria elle escolhido
-uma sedela bastante verde-agua para não ser percebida, e bastante forte
-para resistir aos repellões do valentissimo animal?! A truta é o peixe
-mais valente do rio, tem uma força que poucos apreciam. Talvez o seu
-antagonista não soubesse calcular essa rijeza—considerou.
-
-Porém a gravidade do caso parecia ter dado ao D. Luiz uma intelligencia
-agudissima. Atirou calculadamente o seu anzol e seguia pela margem, com
-o olho álerta e prompto a dar a pancada, logo que chegasse o momento.
-O padre João teve vontade de fingir uma dôr, só para o perturbar. A
-anciedade do seu peito, crescia tumultuariamente, como oceano em furia.
-Aquella alma bondosa, teve a ideia repugnante de desejar uma apoplexia
-ao fidalgo! Mas reconhecendo-se criminoso, por este mau pensamento,
-poz o coração á larga, tornou-se magnanimo e até, mentalmente, pediu a
-Deus, que deixasse o morgado pescar a truta grande. Mas o da Torre Velha
-relanceou-lhe um olhar triumphante e o padre João, logo mudou de parecer,
-rosnando:
-
-—Ah! ladrão! que se ella te foge muito me hei de rir.
-
-O instante verdadeiramente supremo ia chegar. O anzol já se podia
-calcular perto da pedra branca.
-
-Que infernal chamma abrazava o peito do ecclesiastico!? Poz-se de pé,
-só para seguir nas minudencias toda a peripecia. O fidalgo, attento e
-subtil, empregava o maximo da sua intelligencia.
-
-Afinal, sente a pancada! Curva-se a ponteira! O peixe estava preso!
-
-—Ah! grande maroto, que m’a roubaste—exclamou o ecclesiastico.
-
-O instincto obrigou-o a ser generoso. Gritou ao D. Luiz:
-
-—Agora é não a deixar fugir.
-
-—Elle é o deixa—respondeu com orgulho, o da Torre Velha.
-
- * * * * *
-
-Começou a lucta heroica entre o fidalgo e o peixe. O animal era valente,
-podia quebrar a sedela, se o quizesse tirar sofregamente do rio. Tambem
-podia acontecer rasgar-se-lhe o beiço ou metter-se debaixo d’alguma
-lapa, se não tomasse precauções. Para obstar aos inconvenientes era
-indispensavel cançal-o, com paciencia e perspicacia. Por isso D. Luiz
-attrahiu-o a um logar conhecido, e alli o deixou rabear, defendendo-lhe o
-mysterioso poço, onde a truta se podia enredar n’alguma raiz. Puchava-a
-vagaroso e com delicadesa, consentia-lhe prudentes guinadas para o largo,
-dava-lhe linha calculadamente.
-
-Ao fim de cinco minutos, tanto o fidalgo como o padre João, reconheceram
-que o peixe estava prompto. Condescendia, deixava-se ir para onde o
-levassem, mostrava-se fatigado e manso.
-
-O sacerdote, já resignado, seguia todas as manobras sem rancor.
-
-—Ande que apanhou—disse. Puche-a para perto e deite-lhe a mão debaixo
-d’agua, se não, ainda a vê por um oculo.
-
- * * * * *
-
-O D. Luiz aproveitou o conselho.
-
-Attrahiu manhosamente o peixe ao sopé do muro, para que lhe ficasse
-debaixo d’um terrouço. Depois desceu; deitou-se de barriga, tão baixo
-que as barbas lhe tocavam na agua; introduziu um braço, guiando-se
-pela sedela; e, quando conheceu que lhe tinha um dedo na guelra, disse
-victorioso:
-
-—Esta já não foge, padre! Que bruta que ella é!
-
-Retirou o braço da agua, ergueu-se, ficando com o peixe pendente.
-
-—Olhem o que é! Um barbo!... um peixe reles!—exclamou o sacerdote.
-
-D. Luiz da Torre Velha, assim ludibriado pelo acaso, teve a ideia de
-atirar com o barbo á cara do padre! Porem era uma injustiça—considerou.
-Que culpa tinha de tudo isto o mestre de latim?! O seu abatimento, gerado
-na fatal desillusão era patente. Pegou na canna, na sedela, no cacifre,
-no peixe e... zaz!... atirou tudo ao meio do rio.
-
-—Nunca mais! Póde ter a certeza de que nunca mais volto a isto—affirmou
-retirando-se.
-
- Abril—85.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-UM CORVO E UM PAPAGAIO
-
-(CONTO PARA CREANÇAS, OFFERECIDO AOS MEUS FILHOS)
-
-
-Isto passou-se no tempo dos animaes fallantes:
-
-Um velho corvo, tendo de edade perto d’um seculo, n’um dia de muita
-chuva e vento, veiu, já sem forças, poisar na beira d’um telhado. Este
-valente da amplidão dos ares, tinha perdido toda a arrogancia do seu
-porte; encolhido e a tremer não se podia já ter nas pernas. A extremidade
-amarellada das suas pennas, outr’ora tão negras, mostrava que padecia
-de velhice e de fome. Ao habitante eterno dos penhascos sombrios, ao
-motejador das tempestades que assustam os homens, coube-lhe o vir dar
-o ultimo suspiro da sua longa vida, perto do comedoiro farto e luxuoso
-d’um vulgarissimo papagaio real. Este, de papo cheio, e aquecido pelo ar
-tepido da cosinha, ao sentir a queda do corpo enfraquecido do corvo,
-perguntou d’um modo gracejador:
-
-—Que é lá!? Quem passa?
-
-Uma voz quasi soluçante, conservando a meiguice dum peito corajoso, e o
-vigor do suspiro d’um general moribundo nos campos de batalha, respondeu:
-
-—Gente de paz, amigo. Descanço um momento.
-
-—Olha um corvo!—gritou o papagaio cheio de medo. Aqui d’el-rei que me
-come! Antonio, acode!
-
-Mas o corvo, com uma voz tranquilla e cheia de bondade, serenou-o:
-
-—Não te assustes... Não tenhas a meu respeito a opinião do povo, que
-é errada. Sou meigo e infeliz. Tive filhos, casa, uma companheira de
-muitos annos e tudo isto me roubaram os homens. Durante a minha vida d’um
-seculo, tenho visto mais barbaridades praticadas pelos corações piedosos,
-do que todas as que attribuem á minha raça maldita.
-
-O papagaio, ainda receioso, mas cheio de curiosidade perguntou:
-
-—Então não és feroz e cruel como dizem?
-
-—Não. Tenho affectos; no alto dos meus queridos rochedos, muita vez
-escutei com prazer o canto dos passaros nossos irmãos e a alguns quiz
-imitar. Amigos meus e meus irmãos viveram entre homens, tornaram-se
-familiares, chegando a comprehender a linguagem que se falla. Eu sempre
-gostei do ar forte e da liberdade das montanhas. Hoje enfraquecido e
-cheio de fome fui arrumado para este telhado, pelo vento que toda a vida
-escarneci. Ha muitos dias que não como, dás-me alguma coisa d’isso que
-ahi tens?
-
-—Não posso—respondeu o egoista.—O meu arroz mal chega para mim... Tu
-tambem o não comias. Do que mais gostas, segundo dizem, é de carne podre.
-
-—Que remedio tenho eu, á falta de melhor? É o unico alimento dos
-infelizes que vivem nas solidões. Comemos tudo... a fome é negra. O teu
-arroz cheira tão bem... Dá-me um bocadinho? Poucos minutos me restam de
-vida. Deixa-me ao menos aproveitar da tua comida, isso que tu deitas fóra
-e desprezas.
-
- * * * * *
-
-Fez um esforço para voar; mas não podia. No entretanto esse mesmo
-movimento d’azas atemorisou o papagaio que bradou:
-
-—Não te chegues, não te chegues! Tu o que desejas é comer o meu arroz e
-talvez engulir-me a mim mesmo. Nada de brincadeiras. Essa tua fraqueza
-póde muito bem ser fingida, para me enganares. Não te chegues, senão
-chamo o Antonio, o meu amigo cosinheiro, que arranja coisinhas boas para
-o meu papinho, e se elle vem, olha que dá cabo de ti.
-
-O corvo, quasi agonisante, soluçava tremendo de frio e de fome:
-
-—Não me odeies, lá por eu ter má opinião em toda a gente. No tempo em que
-era forte, quantas vezes não cobri com o meu corpo, muitos passarinhos
-que não podiam resistir á tempestade?! Fiz o bem que pude. Soccorre-me
-hoje, que estou para morrer.
-
-O papagaio, desconfiado e vaidoso, temendo que o rustico habitante dos
-pincaros lhe sujasse a plumagem vistosa, ordenou:
-
-—Então deixa-te estar ahi. Vou pedir ao Antonio que te deite um pedaço
-de carne, da que não presta. Talvez a não mereças; mas devemos ser
-caridosos—concluiu espanejando-se.
-
-O velho corvo, já sem altivez, agradeceu com ternura na voz:
-
-—Obrigado. Nosso Senhor t’o pague.
-
-No telhado porém, não podia resistir aos impulsos do vento. Confiado, ou
-talvez contra vontade, deu um vôo, do beiral onde estava, para o poleiro,
-desculpando-se:
-
-—Tem paciencia. Não posso estar alli. Comerei n’este cantinho a esmola
-que me fazes.
-
-Mas a proximidade d’aquelle corpo sujo, volumoso, d’aspecto selvagem,
-assustou o timido papagaio real, que logo gritou fóra de si:
-
-—Ó Antonio. Traz o pau!...
-
-E esvoaçava sem querer poisar. Agarrava-se á corrente que o prendia ao
-comedoiro. Tremia de verdadeiro medo, elle saudavel e nedio, diante
-d’este habitante dos rochedos, que estava a dar o ultimo suspiro.
-
-O cosinheiro, ao ver o corpo immundo e repellente, perto do seu estimado
-papagaio, exclamou irado:
-
-—Olha o ladrão de um corvo!...
-
-E dando uma pancada no animal desfallecido, atirou-o sobre o lagedo da
-rua, onde o desgraçado morreu logo. Em seguida, o Antonio com o fim de
-socegar o seu querido, passava-lhe com brandura a mão na cabeça dizendo:
-
-—Calla-te loiro, não tenhas medo. Queria-te fazer mal? Levou a sua conta.
-Coitadinho do loiro, coitadinho do loiro.
-
-Assim se cumpre, muitas vezes, a justiça na terra. Meus filhos, não
-se deve acreditar facilmente nas culpas d’aquelles que são infelizes,
-principalmente quando precisam de que se lhes faça bem.
-
- Lisboa, Março, 85.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-A VISTA DO SALGUEIRO
-
-(CONTO PARA CREANÇAS)
-
-
-Ambrosio era velho e vivia n’uma casa muito pobre, toda esburacada e
-de telha vãa. Lá dentro, os ratos eram tantos como as formigas n’um
-carreiro; e elle, sentado ao lume, via-os ir e vir, sem mesmo ter medo
-d’elles. Por traz da casa havia um pequeno quintal, ao fundo corria o
-rio, e pegado estava o moinho, habitado pelo moleiro, homem que elle
-odiava mais do que a morte.
-
-Na tarde serena d’um dia d’agosto, Ambrosio, foi visto na margem,
-sentado n’uma pedra, o queixo pousado nos joelhos, a olhar fixamente e
-pasmado para uma arvore do outro lado. O ceu era dum azul pallido; as
-aguas passavam silenciosamente, até entrarem na guela d’azenha, onde
-produziam um sussurro; a roda movia-se de vagar; porque a força do rio
-era pouca... O pensamento d’Ambrosio voava, n’um mundo de independencia
-e maldade, planeando vinganças contra o moleiro seu inimigo. Era um odio
-velho, nascido de conflictos diarios, aggravado por muitos nadas de que,
-o do moinho, nem tinha consciencia. No corpo d’Ambrosio, magro como de
-feiticeira, passava-se no momento em que o viram a olhar para o triste
-salgueiro, uma lucta violenta e feroz.
-
-N’esse dia, apparecera-lhe em casa, um bacoro de perna quebrada. Sem mais
-reflectir attribuiu logo o maleficio ao damnado visinho e foi para alli
-ruminar uma vingança, que o deixasse consolado. Tinha um coração de pedra
-este demonio de velho! Se não fora assim, como poderia gozar, inventando
-martyrios, n’uma tarde serena de verão, toda silencio e bondade!
-
-Mas não se desprendia do terrivel desejo de matar o moleiro, com os
-maiores soffrimentos e castigos, que no mundo tivesse havido! Seria capaz
-de se vender ao diabo, só para conseguir o seu fim.
-
- * * * * *
-
-Veio-lhe esta ideia audaciosa e encarou-a resolutamente. Tão firme foi
-o seu pensar, que logo o diabo em pessoa alli lhe appareceu deante dos
-olhos, offerecendo-se-lhe para tudo, em troca da alma se elle realmente
-lh’a queria vender. Era figura bem conhecida, a que estava deante de
-Ambrosio:—meio homem, meio cabra; um comprido pello cobrindo-lhe o corpo;
-um rabo a dar para um lado e para o outro, como o d’um lobo; os cornos
-arrebitados na cabeça; e os olhos a coriscarem como dois carvões accesos.
-O velho não se atemorisou, e como desejava vingar-se do moleiro, sentiu o
-peito cheio de goso, quando o diabo lhe disse:
-
-—Ouvi a tua voz. Aqui me tens. Acceito o teu contracto. Pede o que
-quizeres.
-
-—Então tu é que és o diabo?—perguntou.
-
-—Eu mesmo. Sou o que tudo posso depois lá do _Outro_ (apontou
-desdenhosamente para o ceu). No meu reino posso mesmo mais do que _Elle_.
-
-—Fazes-me tudo quanto eu quizer para matar o moleiro?
-
-—Tudo, com tanto que me entregues a tua alma.
-
-—E para que queres tu a minha alma?
-
-—Para a guardar juncta com outras.
-
-Ambrosio observou escarnecendo:
-
-—Não acredito que faças bom negocio. Pelo que dizem os padres, a minha
-alma não presta. Dou-ta, mas has-de trazer-me aqui o moleiro pelo
-cachaço, e depois de bem amarrado e preso, deixares-me fazer o que eu
-quizer. Mas quero-o bem amarrado e preso, porque tenho medo, entendes?
-
-—Se entendo!... E só queres isso?
-
-—Se perguntas é porque estás em maré de franquesa. Então vá lá: Quero
-ser rei; ter muito dinheiro, muitos palacios, muitas cidades, muitos
-cavallos, coisas ricas para comer.
-
-—Só isso?
-
-—Co’a breca! Muito boa deve ser a minha alma para ti. Olha, já que
-offereces, quero uma sanfona, para tocar aos ouvidos de minha mulher,
-quando ella estiver a resmungar... Tu sabes; ás vezes leva noites
-inteiras ... ron-ron-ron... ron-ron-ron...
-
-—E por quanto tempo desejas tudo isso?
-
-—Essa agora é que nem parece sua, seu diabo! Isso por muito tempo.
-
-—Não posso dar-te tudo por mais de cinco minutos.
-
-—Cá me parece sovinice. Cinco minutos não é nada.
-
-—É tempo bastante de gosares todas as coisas que pedes e de te
-aborreceres de todas ellas.
-
-Ambrosio deu uma estrondosa gargalhada, que encheu todo o valle,
-repercutindo-se nos reconcavos visinhos. O diabo acrescentou:
-
-—É como te digo. N’esse ponto te mostrarei o meu grande poder. Um
-minuto basta para eu fazer passar na tua vida, todas as grandesas da
-terra. Outro minuto para percorreres todas as grandes cidades do mundo.
-O terceiro minuto para tocares sanfona a tua mulher e ella morrerá de
-desespero. O quarto para matares com toda a pachorra o moleiro.
-
-—E o quinto?—perguntou Ambrosio.
-
-—Esse é para te aborreceres.
-
-—Como tu és grande, diabo!—disse o velho enthusiasmado. Acceito.
-
-—Deixa tirar uma gotta de sangue das tuas veias. Com esta penna de mocho,
-molhada no teu sangue, has-de pôr o teu nome n’este livro.
-
-O inimigo do moleiro sentiu uma picada no sangradouro e logo o seu nome
-appareceu brilhante como o fogo, na pagina onde o escrevera, obrigado por
-uma força irresistivel.
-
- * * * * *
-
-Depois um vento infernal levou-o pelo espaço. Tudo quanto via e gosava
-eram deslumbramentos e delicias. Corria-lhe o corpo um calor de mocidade.
-Ricos manjares eram servidos em pratos d’oiro; as festas mais divertidas
-e luxuosas, passavam-se em palacios de marfim e cristal. Camas formadas
-de fofas nuvens, appareciam dispostas para um momento de cansaço. Levado
-milagrosamente, passou sobre os mares onde ruem tempestades, viu a seus
-pés cidades cheias de bulicio e riquesa, os reis da terra offereciam-lhe
-homenagem! Os montes de perolas, oiro e diamantes já eram para Ambrosio
-coisas sem valor. Por causa d’um mosquito que lhe passou no nariz, teve
-uma rajada de colera, que fez tremer toda a terra!
-
-Logo em seguida viu humilde e supplicante o moleiro, que já estava
-preparado para o sacrificio.
-
-—Quero matal-o cá á minha moda—disse para o diabo. Hade ser n’um banco,
-escochinado, como um porco.
-
-No momento seguinte estava junto de sua mulher tocando-lhe sanfona aos
-ouvidos. A pobre velha, entrevada na cama, havia muitos annos, supplicava
-com olhares, que lhe não atormentassem as ultimas horas de vida. Porém o
-marido, homem de coração duro, foi implacavel até ao fim e viu-a morrer
-no meio de soffrimentos horriveis. Depois é que deu começo á tarefa mais
-importante, que era dar morte afflictiva ao moleiro.
-
- * * * * *
-
-Espatifal-o como um porco fôra sempre a sua ideia fixa. Ia realisal-a.
-A scena passa-se no quintalito junto do rio. A victima, com a sua
-grande estatura sae do moinho. Vem manietado e humilde, ao pé do algoz,
-apresentar-se para o sacrificio. Ainda que não ousava levantar os olhos,
-o seu porte era digno.
-
-—Ah!—disse Ambrosio com grande satisfação. Vamos lá a isto?
-
-O proprio carrasco, é que foi buscar um banco. Apontando para elle,
-mostrou-o á victima, com riso de mau:
-
-—Hade ser aqui.
-
-O pobre moleiro conservava-se calado e triste. Não ousava ter olhares
-colericos, talvez, para o suplicio lhe ser menos barbaro. Não pedia;
-pois era um homem valente, digno, bondoso e reconhecia a crueldade do
-inimigo.
-
-Ambrosio continuou:
-
-—Só para chegar a isto dei a minha alma ao diabo. Se mil almas tivéra,
-todas daria, só para te cravar mil vezes uma faca no coração e tirar-te
-mil vidas que tu possuisses. Quem foi que me quebrou a perna do bacoro?
-quem me fez secar a larangeira? quem me roubou a panella velha, com que
-eu tirava agua do rio? quem me estragou o mangericão?
-
-E como a victima dos seus odios, continuava a olhar para a terra, sem
-responder, escarneceu:
-
-—Ah! não foi ninguem!... Estas coisas fazem-se por si. Alem de seres o
-grande ladrão, que me roubou os feijões, és mentiroso. Pois vaes pagal-as
-todas juntas, meu rico amiguinho. Ora deite-se n’esta cama.
-
-E com uma força que não era a do seu braço enfesado e velho, pegou no
-moleiro que era um gigante, e estendeu-o como uma arveola sobre o banco,
-atando-o fortemente com cordas.
-
-—Agora espere que vou aqui buscar uma coisa.
-
-Logo appareceu com um alguidar e uma comprida faca de matador. Mostrando
-estes objectos, acrescentou:
-
-—Isto é um alguidar para receber o teu sangue vermelho e quente. Isto,
-uma coisa a que se chama faca para te fazer cocegas no coração. Talvez
-ainda tenha tempo para arranjar um serrabulho d’esse sangue e coração.
-Vamos á obra que se faz tarde.
-
-Com placidez, gosando á vontade o martyrio do paciente, principiou a
-arregaçar os punhos da camisa de estopa. Mostrou a faca reluzente á
-victima que estava deitada. E voltando-se para o diabo disse:
-
-—Você muito póde, seu amigo. Como eu tenho aqui este fanfarrão, sem se
-mecher? Tenho pena que meu pae me não tivesse feito duas almas, para lhe
-dar a você!
-
-O demonio austero e grave não respondeu á lisonja. Ambrosio entrou de
-novo no seu pardieiro e trouxe um pucaro d’agua quente. Tinha de molhar
-a pelle da victima, para a ponta da faca entrar mais firmemente. E
-chapinhando na garganta com a mão molhada, tinha uma respiração d’homem
-feroz.
-
-Apontou a faca ao logar apropriado, principiou a enterral-a lentamente,
-para a dôr ser mais prolongada, o sangue já sahia em borbotões do peito
-arquejante do moleiro.
-
-—Não berra como os pórcos, este maldito!—considerou Ambrosio.
-
-Ia-lhe remexendo cruelmente com o ferro nas entranhas! Gosava a sua
-victoria, fazendo soffrer a victima.
-
-Foi prolongando este goso até aos ultimos momentos do moleiro. E quando
-reconheceu que alli estava definitivamente um morto respirou:
-
-—Ahhh!... Isto valia bem uma duzia d’almas! Quanto falta senhor diabo?
-
-—Vae acabar o tempo. Já lá te esperam. Olha!
-
-Apontou para a bocca d’um enorme forno, onde entre as labaredas
-infernaes, estavam homens e mulheres dando gritos. Todas as velhas ideias
-de Ambrosio sobre penas eternas, se condensaram n’aquella realidade.
-Affrontou heroicamente um tal espectaculo, deante do qual o seu coração
-deshumano, ainda teve coragem para beber do sangue do inimigo! Porém o
-mundo infernal das chammas e gritos, crescia rapida e formidavelmente.
-O diabo sereno e magestoso estendia-lhe a mão para o agarrar, com as
-suas unhas de macaco! O aspecto do demonio era tão medonho e terrivel,
-que o velho Ambrosio teve subitamente um grande medo, todo o seu corpo
-estremeceu como se oscillasse o mundo, amedrontado e covarde ia a dar um
-passo para fugir...
-
-N’esse instante escorregou e cahiu ao rio. Começou a berrar por soccorro
-como um possesso. O seu choro era mais infeliz do que o de uma creança
-sem mãe.
-
-A agua escaldava-o e sentia-se abrazado como no meio de labaredas
-infernaes! Quem lhe havia de acudir n’aquelle instante de afflicção? Foi
-o visinho, o moleiro, a sua victima que sahindo fóra do seu moinho o viu
-debater-se covardemente, como se estivesse assoberbado, por ondas d’um
-mar tormentoso!
-
-—Eh!... diabo de gato!—disse o collosso mettendo-se ao rio e agarrando-o
-pela gola da vestia. Como diabo te aconteceu isto?
-
-Levou-o para sua propria casa, metteu-o na cama agasalhado, deu-lhe um
-caldo quente para o revigorar. O velho Ambrosio, olhando-o receioso,
-batia o queixo de medo e dizia com a cabeça debaixo da roupa:
-
-—Nada, não quero; elle póde deitar resalgar no caldo!
-
- Arcos, agosto, 86.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- PAG.
-
- A minha morte 1
-
- Nosso Senhor Jesus Christo 17
-
- O cego de Guardiam 27
-
- A velhice d’um rei 51
-
- A mulher de Lucas 73
-
- Dois caturras 95
-
- A postura dos ovos 115
-
- Rende-te Centurião 129
-
- A truta grande 163
-
- Um corvo e um papagaio 197
-
- A vista do salgueiro 203
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Novos contos, by
-Francisco Teixeira de Queirós and Bento Moreno
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVOS CONTOS ***
-
-***** This file should be named 62954-0.txt or 62954-0.zip *****
-This and all associated files of various formats will be found in:
- http://www.gutenberg.org/6/2/9/5/62954/
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-Updated editions will replace the previous one--the old editions will
-be renamed.
-
-Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright
-law means that no one owns a United States copyright in these works,
-so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United
-States without permission and without paying copyright
-royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part
-of this license, apply to copying and distributing Project
-Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm
-concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
-and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive
-specific permission. If you do not charge anything for copies of this
-eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook
-for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports,
-performances and research. They may be modified and printed and given
-away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks
-not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the
-trademark license, especially commercial redistribution.
-
-START: FULL LICENSE
-
-THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
-PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
-
-To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
-distribution of electronic works, by using or distributing this work
-(or any other work associated in any way with the phrase "Project
-Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full
-Project Gutenberg-tm License available with this file or online at
-www.gutenberg.org/license.
-
-Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project
-Gutenberg-tm electronic works
-
-1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
-electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
-and accept all the terms of this license and intellectual property
-(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
-the terms of this agreement, you must cease using and return or
-destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your
-possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a
-Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound
-by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the
-person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph
-1.E.8.
-
-1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
-used on or associated in any way with an electronic work by people who
-agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
-things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
-even without complying with the full terms of this agreement. See
-paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
-Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this
-agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm
-electronic works. See paragraph 1.E below.
-
-1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the
-Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
-of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual
-works in the collection are in the public domain in the United
-States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
-United States and you are located in the United States, we do not
-claim a right to prevent you from copying, distributing, performing,
-displaying or creating derivative works based on the work as long as
-all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope
-that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting
-free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm
-works in compliance with the terms of this agreement for keeping the
-Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily
-comply with the terms of this agreement by keeping this work in the
-same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when
-you share it without charge with others.
-
-1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
-what you can do with this work. Copyright laws in most countries are
-in a constant state of change. If you are outside the United States,
-check the laws of your country in addition to the terms of this
-agreement before downloading, copying, displaying, performing,
-distributing or creating derivative works based on this work or any
-other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no
-representations concerning the copyright status of any work in any
-country outside the United States.
-
-1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
-
-1.E.1. The following sentence, with active links to, or other
-immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear
-prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work
-on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the
-phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed,
-performed, viewed, copied or distributed:
-
- This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
- most other parts of the world at no cost and with almost no
- restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it
- under the terms of the Project Gutenberg License included with this
- eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the
- United States, you'll have to check the laws of the country where you
- are located before using this ebook.
-
-1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is
-derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not
-contain a notice indicating that it is posted with permission of the
-copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in
-the United States without paying any fees or charges. If you are
-redistributing or providing access to a work with the phrase "Project
-Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply
-either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or
-obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm
-trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
-with the permission of the copyright holder, your use and distribution
-must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any
-additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
-will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works
-posted with the permission of the copyright holder found at the
-beginning of this work.
-
-1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
-License terms from this work, or any files containing a part of this
-work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
-
-1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
-electronic work, or any part of this electronic work, without
-prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
-active links or immediate access to the full terms of the Project
-Gutenberg-tm License.
-
-1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
-compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including
-any word processing or hypertext form. However, if you provide access
-to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format
-other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official
-version posted on the official Project Gutenberg-tm web site
-(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense
-to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means
-of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain
-Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the
-full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1.
-
-1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
-performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
-unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
-access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works
-provided that
-
-* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
- the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
- you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed
- to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has
- agreed to donate royalties under this paragraph to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid
- within 60 days following each date on which you prepare (or are
- legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty
- payments should be clearly marked as such and sent to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in
- Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg
- Literary Archive Foundation."
-
-* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
- you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
- does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
- License. You must require such a user to return or destroy all
- copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
- all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm
- works.
-
-* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
- any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
- electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
- receipt of the work.
-
-* You comply with all other terms of this agreement for free
- distribution of Project Gutenberg-tm works.
-
-1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project
-Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than
-are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
-from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The
-Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm
-trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below.
-
-1.F.
-
-1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
-effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
-works not protected by U.S. copyright law in creating the Project
-Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm
-electronic works, and the medium on which they may be stored, may
-contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate
-or corrupt data, transcription errors, a copyright or other
-intellectual property infringement, a defective or damaged disk or
-other medium, a computer virus, or computer codes that damage or
-cannot be read by your equipment.
-
-1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
-of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
-Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
-Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
-liability to you for damages, costs and expenses, including legal
-fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
-LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
-PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
-TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
-LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
-INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
-DAMAGE.
-
-1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
-defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
-receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
-written explanation to the person you received the work from. If you
-received the work on a physical medium, you must return the medium
-with your written explanation. The person or entity that provided you
-with the defective work may elect to provide a replacement copy in
-lieu of a refund. If you received the work electronically, the person
-or entity providing it to you may choose to give you a second
-opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
-the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
-without further opportunities to fix the problem.
-
-1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
-in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
-
-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
-warranties or the exclusion or limitation of certain types of
-damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
-violates the law of the state applicable to this agreement, the
-agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
-limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
-unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
-remaining provisions.
-
-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
-providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in
-accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
-production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm
-electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
-including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
-the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
-or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
-additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
-Defect you cause.
-
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
-
-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-
-Most people start at our Web site which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-
diff --git a/old/62954-0.zip b/old/62954-0.zip
deleted file mode 100644
index ad967e0..0000000
--- a/old/62954-0.zip
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h.zip b/old/62954-h.zip
deleted file mode 100644
index c35c46e..0000000
--- a/old/62954-h.zip
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/62954-h.htm b/old/62954-h/62954-h.htm
deleted file mode 100644
index 82eca4b..0000000
--- a/old/62954-h/62954-h.htm
+++ /dev/null
@@ -1,6304 +0,0 @@
-<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN"
- "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd">
-<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt">
- <head>
- <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html;charset=utf-8" />
- <meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" />
- <title>
- The Project Gutenberg eBook of Novos Contos (Comedio do Campo vol. 4), by Bento Moreno.
- </title>
-
- <link rel="coverpage" href="images/cover.jpg" />
-
-<style type="text/css">
-
-a {
- text-decoration: none;
-}
-
-body {
- margin-left: 10%;
- margin-right: 10%;
-}
-
-h1,h2,h3 {
- text-align: center;
- clear: both;
-}
-
-hr {
- margin-top: 2em;
- margin-bottom: 2em;
- clear: both;
- width: 65%;
- margin-left: 17.5%;
- margin-right: 17.5%;
-}
-
-p {
- margin-top: 0.5em;
- text-align: justify;
- margin-bottom: 0.5em;
- text-indent: 1em;
-}
-
-p.dropcap {
- text-indent: 0em;
-}
-
-p.dropcap:first-letter {
- color: transparent;
- visibility: hidden;
- margin-left: -0.9em;
-}
-
-img.dropcap {
- float: left;
- margin: 0 0.5em 0 0;
-}
-
-table {
- margin: 1em auto 1em auto;
- max-width: 40em;
- border-collapse: collapse;
-}
-
-td {
- padding-left: 2.25em;
- padding-right: 0.25em;
- vertical-align: top;
- text-indent: -2em;
-}
-
-.tdc {
- text-align: center;
- padding-top: 0.75em;
-}
-
-.tdpg {
- vertical-align: bottom;
- text-align: right;
-}
-
-.center {
- text-align: center;
- text-indent: 0em;
-}
-
-.date {
- font-size: 90%;
- margin-top: 2em;
-}
-
-.figcenter {
- margin: auto;
- text-align: center;
-}
-
-.gothic {
- font-family: 'Old English Text MT', 'Old English', serif;
-}
-
-.hanging {
- padding-left: 2em;
- text-indent: -2em;
-}
-
-.larger {
- font-size: 150%;
-}
-
-.noindent {
- text-indent: 0em;
-}
-
-.pagenum {
- position: absolute;
- right: 4%;
- font-size: smaller;
- text-align: right;
- font-style: normal;
-}
-
-.poetry-container {
- text-align: center;
- margin: 1em;
-}
-
-.poetry {
- display: inline-block;
- text-align: left;
-}
-
-.poetry .verse {
- text-indent: -3em;
- padding-left: 3em;
-}
-
-.right {
- text-align: right;
-}
-
-.smaller {
- font-size: 80%;
-}
-
-.smcap {
- font-variant: small-caps;
- font-style: normal;
-}
-
-.smcapuc {
- font-variant: small-caps;
- font-style: normal;
- text-transform: lowercase;
-}
-
-.titlepage {
- text-align: center;
- margin-top: 3em;
- text-indent: 0em;
-}
-
-.tb {
- margin-top: 2em;
-}
-
-.tp {
- margin: auto;
- text-align: right;
- max-width: 30em;
-}
-
-.tp-r {
- margin-top: 3em;
- font-size: 80%;
- display: inline-block;
- max-width: 20em;
-}
-
-.tp-r-n {
- padding-left: 2em;
- text-indent: 0em;
-}
-
-@media handheld {
-
-img {
- max-width: 100%;
- width: auto;
- height: auto;
-}
-
-.poetry {
- display: block;
- margin-left: 1.5em;
-}
-
-img.dropcap {
- display: none;
-}
-
-p.dropcap:first-letter {
- color: inherit;
- visibility: visible;
- margin-left: 0;
-}
-}
-
- </style>
- </head>
-<body>
-
-
-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of Novos contos, by
-Francisco Teixeira de Queirós and Bento Moreno
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Novos contos
- 4º volume da Comedia do Campo
-
-Author: Francisco Teixeira de Queirós
- Bento Moreno
-
-Release Date: August 17, 2020 [EBook #62954]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVOS CONTOS ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<p class="center larger">COMEDIA DO CAMPO</p>
-
-<p class="titlepage smaller">LISBOA<br />
-<span class="smcap">Typographia de Adolpho, Modesto &amp; C.ª</span><br />
-<i>Rua Nova do Loureiro, 25 a 43</i><br />
-1887</p>
-
-<hr />
-
-<p class="titlepage"><i>4.º vol. da</i> COMEDIA DO CAMPO</p>
-
-<p class="titlepage larger">NOVOS CONTOS<br />
-<span class="smaller"><span class="smaller">DE</span><br />
-BENTO MORENO</span></p>
-
-<div class="tp">
-
-<div class="tp-r">
-
-<p class="hanging">La plupart des drames sont dans
-les idées que nous formons
-des choses. Les événements qui
-nous paraissent dramatiques ne
-sont que les sujets que notre
-âme convertit en tragédie ou en
-comédie, au gré de notre caractère.</p>
-
-<p class="tp-r-n"><span class="smcapuc">H. DE BALZAC</span>—<i>Modeste Mignon</i>.</p>
-
-</div>
-
-</div>
-
-<div class="figcenter titlepage" style="width: 100px;">
-<img src="images/deco.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="titlepage">EDITORES<br />
-TAVARES CARDOSO &amp; IRMÃO<br />
-<i>5, Largo do Camões, 6</i><br />
-1887</p>
-
-<hr />
-
-<p class="center">OBRAS DO MESMO AUCTOR<br />
-<span class="smaller">PUBLICADAS PELOS EDITORES DAVID CORAZZI
-E TAVARES CARDOSO &amp; IRMÃO</span></p>
-
-<table summary="Obras do mesmo auctor">
- <tr>
- <td colspan="2" class="tdc">COLLECÇÃO DA COMEDIA DO CAMPO:</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Contos—1 vol.</td>
- <td class="tdpg">500</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Amor divino—1 vol.</td>
- <td class="tdpg">500</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Antonio Fogueira—1 vol.</td>
- <td class="tdpg">500</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Novos contos—1 vol</td>
- <td class="tdpg">600</td>
- </tr>
- <tr>
- <td colspan="2" class="tdc">COLLECÇÃO DA COMEDIA BURGUEZA:</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Noivos (quasi esgotada)—1 vol. de 500 pag.</td>
- <td class="tdpg">1$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>O Sallustio Nogueira—1 vol. de 500 pag.</td>
- <td class="tdpg">1$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>O Grande Homem (Comedia)—1 vol.</td>
- <td class="tdpg">700</td>
- </tr>
-</table>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/footer1.jpg" width="200" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header1.jpg" width="500" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<h2 id="A_MINHA_MORTE">A MINHA MORTE</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-e.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Estava na convalescença d’um typho. Não teria
-doze annos, mas na minha imaginação representa-se
-ainda nitidamente esse longo periodo
-de febre e de terriveis visões. Apesar de debil
-e quasi enfesado resisti heroicamente ao soffrimento e
-á molestia. Sempre de costas na cama, passava o tempo
-a contar e recontar as tabuas do tecto e a fileira de cachos
-dependurados ao longo da parede branca. Sentia-me
-embebido em estupidez; as perguntas que me
-faziam, ácerca do meu estado, do sabor dos remedios
-e do apetite, ficavam sem resposta. Olhava para todos
-sem comprehender o que diziam, ou, pelo menos, sem
-ter os meios de exprimir tudo quanto de violento e de
-extraordinario se passava em todo o meu corpo. Era
-como um empastamento geral da minha carne, uma liquifação<span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span>
-do meu cerebro, a ausencia de mim mesmo
-para sentir. Até as dores que soffria, tendo um resto
-de consciencia para saber que se passavam em mim,
-attribuia-as mais facilmente a outro corpo. O meu interior
-era o de uma enorme fornalha; o proprio halito parecia-me
-de labaredas brancas, formadas de ar incandescente.
-As minhas sensações reduziam-se a uma sede
-permanente, que se não podia mitigar. Por mais que
-me humedecessem a lingua, nem por um instante m’a
-podiam tornar molle e flexivel: era uma lingua de papagaio,
-que seria facil quebrar como se fôra um caco.
-Ainda me recordo de quanto me custava a supportal-a
-na bocca e de ter, por vezes, desejos de a arrancar.</p>
-
-<p>Mas depois fui melhorando. A volta das sensações
-ordinarias fazia-se uma a uma, como pombos escorraçados
-d’um pombal. Era um renascimento gradual, e
-noto que appareceram primeiro as sensações mais elementares,
-aquellas em que o homem tem menos imperio.
-Todos os dias a febre decrescia, reconquistava um
-pouco do viver antigo, como se eu tivesse feito uma viagem
-ao chimerico paiz das sombras, e de lá voltasse por
-um comprido corredor de muitas legoas, approximando-me
-instante a instante da benefica luz do sol, que
-se visse brilhar ao fundo, cá n’este mundo vulgar que
-todos habitamos. Entrei por fim em convalescença. O<span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span>
-facultativo consentiu que me levantasse todos os dias
-um nadita. Já podia ir fazendo tentativas de chupar a
-minha aza de frango. O enjôo da comida ainda era
-grande, por isso o meu desgosto era enorme. Reconhecendo-me
-melhorado não estava nas condicções das outras
-pessoas...</p>
-
-<p>No emtanto a minha alegria e satisfação voltaram
-com o franco apetite. Tudo era pouco para mim, não
-havia coisa que me satisfizesse e era preciso que me ralhassem
-para não ser tão guloso, que me podia fazer
-mal. Até não queria que os outros comessem ao pé de
-mim; porque isso me dava inveja, e até raiva, ficando
-a reparar com olhos avaros e insaciaveis. O medico
-argumentava que o meu estomago devia estar fraco,
-que não supportaria sem damno grandes quantidades;
-mas eu sentia-me como uma grande planta, que lançasse
-por toda a parte as suas ambiciosas raizes, para
-se sustentar á custa da seiva que pertencia ás outras e
-roubar-lh’a com o poder absorvente de uma enorme
-bomba. A comida de predilecção n’essa minha convalescença
-eram as boas sardinhas de Vigo, cabeçudas e
-grandes, que os gallegos iam vender á minha terra. Á
-distancia de 26 annos, ainda hoje sinto no paladar o sabor
-d’essa incomparavel comida.</p>
-
-<p>A chuva d’esse aspero mez de dezembro era frigidissima,<span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span>
-o vento assobiava pelas frinchas das portas.
-Como já podia andar por toda a casa ia de vez em
-quando ao mirante, olhar para os montes que estão ao
-norte, e contemplava-os todos cobertos de neve, como
-se fossem pyramides collossaes, formadas d’assucar.</p>
-
-<p>Mas a chuva e o vento que soprava d’aquelle lado
-obrigavam-me a descer; pois que a janella não era
-guarnecida de vidraça. N’uma d’essas occasiões até, a
-saraiva me veio bater na cara e eu, com medo de recahir,
-fui-me logo sentar ao lume, que estava vivo, imponente,
-abrangendo grandiosamente em labaredas, os
-potes de ferro que estavam ao redor.</p>
-
-<p>A nossa cozinha era comprida, terrea e de telha vã.
-A lareira, grande, coberta pelo enorme e phantastico
-chapeu da chaminé, muito farta de lenha—podia aquecer
-uma duzia de pessoas á vontade. Na vespera do
-sarrabulho ou na noite da consoada, essa cozinha tomava
-o aspecto glorioso d’um templo em festa. Havia
-maior numero de potes; as labaredas melhor sustentadas
-enroscavam-se umas nas outras sempre na mesma
-altura, como parafusos sem fim. Era manifesta e patente
-a alegria, a satisfação, o contentamento que este bom
-fogo produzia em todos, principalmente quando as castanhas
-estoiravam debaixo das brazas e sabendo-se que
-estava perto a enfusa de vinho.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span></p>
-
-<p>Mas quando desci apressadamente do mirante, batido
-no rosto pela saraiva e com o tetrico medo de recahir,
-a cosinha estava solitaria e lugubre. Era dia ordinario,
-o lume bem acceso, o pote da ceia gorgolhava
-com a fervura, os gatos e os cães, fraternalmente
-misturados, enroscavam-se do lado do forno. Fui-me
-sentar ao meu canto, contando estar ali até á reza. Lá
-fóra das portas era quasi escuro, a chuva e o vento
-passavam ruidosamente sobre o telhado, produzindo
-ressonancia dentro da chaminé. Todo este barulho exterior
-e material tornava mais sensivel a minha solidão.
-Sabia que minha avó, estava á janella na dupla occupação
-de rezar as suas contas e de vigiar se os visinhos
-traziam sardinhas da praça, que era para tambem as
-mandar comprar. Porém o rom-rom dos gatos, o arfar
-do lume, o ralho da fervura e o sussurro do vento formavam
-um ambiente caracteristico de solidão ao qual
-se veio juntar a nota sentimental e lugubre do toque
-das trindades. A torre da egreja era sobranceira á cosinha
-e as nove badaladas cahiram-me espaçadamente
-no cerebro imprimindo uma sensação gemebunda e prolongada.
-Apezar da viva chamma do lume ser propria
-para desfazer tristezas, sentia sobre mim o lendario
-pezo da noite, com todo o seu imprevisto de sombras.
-E a enorme chaminé, negra de ferrugem, abria sobre<span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span>
-mim um espaço indefinido, d’uma amplitude amedrontadora.
-Diante dos meus olhos, em correnteza, estavam
-pendurados os salpicões e eu contava-os machinalmente
-até á minha chouricinha e á de meu irmão,
-que estavam juntas, á esquerda. Fui pouco a pouco
-cahindo n’um longo esquecimento, fui perdendo a consciencia,
-a ponto de quasi se extinguir o meu ser.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Provavelmente o calor benefico do lume concorria
-para o entorpecimento. Já quando o sino acabou de tocar
-as «ave marias» eu voejava n’uma atmosphera de
-sensações vagas, como suspenso no meio do espaço.
-A cadencia das badaladas deu-me o impulso ondulatorio
-que me atirou por desconhecidas regiões, fóra de
-toda a contingencia. Um pingo d’agua cahia a compasso
-da torneira da cosinha e o som tristonho parecido com
-o gemer d’ave, feria-me levemente o ouvido como se
-fôra o desfallecer d’uma d’essas musicas ideaes, que só
-existem na região do azul. O estrepito do vento tambem
-se distanciára de mim, ouvia-o dilatado e longinquo,
-com a doçura e encanto do som d’um pinheiral.
-Estava envolvido, tapetado d’uma substancia isoladora
-que me fazia perceber attenuadas todas as sensações.
-O meu pensar vago e indeciso, traduzia esta especie
-de anniquilamento das minhas forças physicas e a perda
-das minhas idéas pessoaes. Reconhecia-me consubstanciado
-n’este mundo novo e abstracto, balouçando-me<span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span>
-n’uma amplitude infinita como a da morte. Cá na minha,
-eu já não pertencia ao numero dos vivos apesar da memoria
-me reproduzir claramente toda a realidade material
-que eu gosára e soffrera, durante os annos da
-convivencia terrestre. Confesso que tive saudades do
-que fôra. Gostava da vida, mesmo simples e humilde
-como sempre a passára. Viver por viver e para viver,
-é que me enthusiasmava e não as altas posições da
-fortuna e da gloria. Todo o homem tem dentro em si
-tantos meios de ser feliz, que não saber aproveital-os é
-signal de desequilibrio e doença. Por isso, a idéa de ser
-um morto não me alegrava e, bem pelo contrario,
-principiei a apavorar-me á maneira que percebia que
-isto era sério. Deixar assim de repente, sem uma despedida,
-a vida terrena, na qual eu ia sonhadoramente
-gosando a minha obscuridade, lá me parecia duro. E
-sem enterro, sem chôro de parentes, sem nenhuma
-pompa funebre... como é que eu tinha morrido? Depois,
-independente da questão do céu e do inferno,
-aquillo lá pelo outro mundo não é satisfatorio. Antes
-de entrar nas regiões da perpetua ventura ou do infinito
-castigo eu não via senão caras tremendas, que nada
-tinham de commum com as expressões minhas conhecidas.
-Os que riam era com esgares terrificantes, boccas
-arrepanhadas e olhos de fogo que me faziam medo;<span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span>
-os que choravam abriam taes guelas, e figuravam-se-me
-tão pavorosas as suas cabelleiras formadas de
-florestas, que me senti gelado, não podendo sequer
-encaral-os.</p>
-
-<p>Não me faziam mal, não se approximavam de mim;
-mas eram desagradáveis companheiros na sua impavidez
-sinistra. Tambem, lá por esses espaços, que levianamente
-se chamam sideraes, eu não encontrava senão
-precipicios, abysmos sem fim, montanhas cujos pincaros
-a minha vista não podia alcançar. Por cima da cabeça
-tudo eram nuvens encastelladas e carrancudas, que
-deviam conter fogo e tempestades para myriades de seculos.
-Um raio de sol palpitante rompeu n’um momento
-esta espessura; mas isso, maiores saudades me fez, por
-me lembrar com entranhado amor tudo quanto tinha
-perdido de carinhoso e bom. Nunca senti como n’esse
-instante o preço da vida. A epopeia grandiosa da eternidade,
-attrahia-me muito pouco, não seduzia, com as
-suas magnificencias, a imaginação simples da creança.
-Por isso a minha anciedade, a minha tortura cresceu
-progressivamente. Nunca mais voltaria a gosar a tranquilla
-convivencia do rio, dos montes, das campinas e
-dos penhascos?!... O canto dos passaros, as paizagens
-floridas, o melancholico luar do outono, a exhuberancia
-da primavera, os gosos familiares, as festas,<span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span>
-as vindimas, as amizades... tudo teria acabado para
-mim?!</p>
-
-<p>Que tristesa, que amargura, que saudades me torturavam!
-As lagrimas cahiam-me em fio, sentia-me soluçar,
-a minha admiração pelos sublimes coros celestiaes,
-diminuia d’um modo consideravel. E tamanha era
-esta saudade e esta dôr que nem o aspecto patente do
-fogo da querida lareira, dos potes a ferver, dos salpicões
-pendurados diante dos meus olhos, me dava a precisa
-tranquilidade e resignação. Não me lembro mesmo
-se cheguei a considerar estas visões enganosas, como
-perfidos meios de transacção, para eu me habituar á outra
-vida. O meu desespero só fazia augmentar, sentia
-pungentissimamente quanto perdi. A minha chouricinha,
-que estava ali em frente de mim, já eu não a poderia
-saborear, em quanto que meu irmão, que era um vivo,
-havia de comer as duas e talvez muito regalado.</p>
-
-<p>Principiava a reconhecer-me fatigado, exhausto de
-forças e ambicionava um momento de repouso. Visto
-estar morto, a tormentosa viagem atravez dos espaços
-infinitos havia de acabar. Decerto era este o pavoroso
-caminho da eternidade, que teria no fim o ceu ou o inferno.
-Bem sei que logo para começo podia ser o purgatorio,
-como logar de purificação; mas declaro francamente
-que esta transigencia nos soffrimentos não me<span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span>
-foi muito consoladora. Talvez pelo receio de ter a vida
-cheia de peccados, julguei mais provavel não vir a ser
-um dos eternos habitantes do paraizo!... Estaria mais
-satisfeito, se o meu destino estivesse no ceu—atmosphera
-ideal, mais pura que o diamante, de cor mais
-serena que a perola, logar onde não ha noite, nem
-sombra, onde os cantos são perpetuos, como é perpetua
-e renovada de instante a instante a floração d’aquella
-primavera sem fim. No entretanto, se me fora licito ter
-uma opinião, haveria declarado preferir a todas as sublimidades
-ideaes, o continuar na terra contingente, com
-todos os seus males, desgostos e contratempos. Porem
-já que me achava no outro mundo desejava antes o paraizo
-do que o inferno, ou mesmo o purgatorio. Infelizmente
-este horrendo caminho que seguia, com a velocidade
-d’um cyclone, não me dava esperanças de me
-levar á patria eternamente luminosa e bella. O ultimo
-precipicio em que estava era d’um horrendo incomparavel.
-Por todos os lados a treva sem limites, e para o
-fundo um inconcebivel funil por onde ia resvalando!</p>
-
-<p>Como no terrivel naufragio do conto de Poe, no qual
-todos os destroços eram engulidos pelo redemoinho infernal
-do Maelstrom, assim o meu corpo, o meu cerebro,
-o meu pensamento soffriam as torturas d’um movimento
-concentrico. Sentia que de instante a instante me<span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span>
-apertavam mais e mais as paredes d’esta nova prisão.
-Descendo sempre estava cruelmente atormentado e os
-meus olhos cheios de pavor não percebiam a menor
-restea de luz. A minha existencia conhecia-a sómente
-pela dor d’uma perna onde cravára com desespero as
-proprias unhas. A superficie interna do funil era lisa a
-ponto de lhe não perceber o contacto.</p>
-
-<p>Os circulos que eu descrevia eram cada vez menores,
-a ponto de para o fim redemoinhar em volta
-de mim mesmo, como se houvera um eixo material,
-servindo de ponto fixo. Evidentemente estava a chegar
-ao meu pavoroso e tetrico fim! Uma sensação de frio
-penetrava-me até á medula dos ossos, apesar de que,
-por uma inexplicavel contradicção, conservava no meu
-corpo viva reminiscencia do meu calor natural e procurava
-concentrar-me, aconchegar-me, metter-me por assim
-dizer, para dentro de mim mesmo.</p>
-
-<p>Veio uma onda de calor que me lambeu a cara...
-Talvez o desmoronamento da pilha d’achas que formavam
-a fogueira. Esta sensação, de certo agradavel
-em outras circumstancias, poz-me em grande terror;
-pois que mais me confirmou na ideia da proximidade
-do inferno. Lá ia eu cahir n’esse fogo perpetuo, que
-tão horrendo antevira nas descripções dos missionarios!
-E apesar do pavor, irritava-me esta evidente injustiça<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span>
-d’um poder sobrenatural. Que peccados teriam commettido
-os meus doze annos, para merecerem tão severa
-punição? Já não tinha lagrimas, sentia-me anniquillado
-e sem força para me oppor. O meu incomparavel infortunio,
-não se limitava a perder o gozo da vida
-terrena, que tanto amava. E transigia covardemente:
-Se, ao menos, fosse trocar o mundo, a familia, os brinquedos,
-a caça aos pardaes, a pesca aos barbos, a minha
-chouricinha... pelo reino do ceu, vá lá. Não teria
-ganho, mas vá lá. Porem abandonar todas estas
-coisas sympathicas e ter para todo o sempre de gritar
-entre chammas, com o diabo a espicaçar-me e monstros
-horrendos a deitarem-me perpetuamente pelas guelas
-chumbo derretido, breu e azeite a ferver!... era o que
-eu não podia levar á paciencia. A grande afflicção em
-que me vi deu-me ainda um momento de revolta, que
-resultou d’uma onda de sangue novo que se me espalhou
-no cerebro. Por mais que esquadrinhasse na consciencia,
-por mais que posesse aberto e claro o meu
-passado insignificante, não me sentia merecedor de tão
-formidavel pena! Resolvi interpor recurso. Deus é infinitamente
-misericordioso e de certo me ouvirá—pensei.
-Alem de que eu tinha sobejos motivos para assim
-proceder, attendendo ao modo excessivamente escuro
-como correra o meu processo. Não me lembrava<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span>
-de ter apparecido na sua divina presença; não vira
-aquellas venerandas e compridas barbas, brancas como
-espuma do mar; não me recordava dos coros dos anjos
-e das virgens, nem das incomparaveis bellezas da
-celestial habitação... Quem sabe se eu ia para o inferno
-por engano! Quem me dizia não ser eu victima
-de manobras d’algum verdadeiro condemnado que tivesse
-tido artes de se trocar por mim?! A minha perturbada
-intelligencia comprehendia esta possibilidade. Por
-tanto—resolvi—levantemos um clamor bem alto, uma
-supplica formidavel, que alargando-se por este funil em
-que me acho, suba aos ouvidos justiceiros do bom Deus,
-grande e omnipotente. A convicção da minha innocencia,
-dava-me força para tamanha ousadia. E tomei enorme
-folego, enchi o peito d’ar, concentrei em mim todas
-as energias da terra. Da minha garganta sahiu um estridente
-brado que se dilatou pelos espaços! Ao mesmo
-tempo fugi pela cozinha fóra e fui-me agarrar a minha
-avó, que resava as suas contas encostada á janella. Contei-lhe
-toda a minha afflicção e os tormentos mentaes em
-que me vira. Ella reconheceu logo, bem como depois
-o confirmou um sacerdote nosso amigo, que este facto
-devia ser tomado como um aviso do ceu. Apesar da
-minha pouca edade, este toque divino, mostrava claramente
-que eu andava em peccado mortal. Uma confissão<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span>
-geral de todo o meu negro passado era urgente.
-Os esconjuros deviam completar esta obra de limpeza
-espiritual. Procedeu-se por esta forma e os exorcismos
-foram resados por um padre gallego, que era homem
-eminente em escorraçar demonios.</p>
-
-<p class="date">Janeiro de 86.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/footer2.jpg" width="200" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header2.jpg" width="500" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<h2 id="NOSSO_SENHOR_JESUS_CHRISTO">NOSSO SENHOR JESUS CHRISTO</h2>
-
-<p class="right">(<i>A Valentina de Lucena</i>)</p>
-
-<p>Entardecia. Como o brilho do sol desaparecera,
-uma illuminação egual ameigava a paisagem.
-Os ultimos soutos de castanheiros transmontanos,
-pareciam nodoas de relva nas encostas dos montes.
-A escuridade cahia lentamente sobre os povoados,
-como um tenue orvalho. A physionomia das terras, em
-especial dos arvoredos, principiava a ser minhota. Havia
-mais d’uma hora que a carruagem rodava por uma
-estrada em declive. Disse-me o cocheiro, que algumas
-casas e uma egreja agglomeradas n’um valle, na margem
-direita do Tamega, formavam a povoação de Ribeira
-de Pena. Montanhas severas e apocalypticas emmolduravam
-este bocadinho de campo, no qual eu
-principiava a reconhecer a paisagem querida dos meus
-primeiros annos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span></p>
-
-<p>Vinha só e sentia-me triste sem motivo. O continuado
-e monotono barulho da carruagem, o assobio dolente
-e vago do cocheiro, a amortecedora luz do crepusculo
-infiltrando-se por entre as penedias das encostas,
-os renques d’arvores do valle tinham-me lançado
-n’um estado de inconsciente melancolia. Já cançado da
-jornada, ainda me faltavam muitas horas para chegar ao
-Arco, logar onde ficaria essa noite. N’um estado intermedio
-ao somno e á vigilia, as ideias perpassavam-me
-no cerebro, umas vezes, como nuvens transparentes e
-macias recordando momentos d’agradavel convivencia;
-outras vezes, encastelladas e escuras, como são as ideias
-proprias d’aquelles que vão perdendo o contente palpitar
-da mocidade!... Oh! minha encantadora e modesta
-infancia, eu que sou um dos homens que mais
-tem rido, dize-me tu se já algum dia fui alegre, despreocupadamente
-alegre!...</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Á ponta da noite, no momento em que á luz indecisa,
-os objectos tem adquirido um esfumado que os
-avoluma, a carruagem parou á porta d’uma taberna
-para se desaguarem os cavallos. Os meus nervos foram<span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span>
-chamados á realidade com energia. N’um banco de pedra,
-d’esses toscos e muito usuaes que se encontram
-juncto das habitações dos camponeses minhotos, estava
-sentado um velhinho magro, tendo ao lado um
-saquito enfiado n’um páu e uma pequena almotolia
-d’azeite presa á cintura por uma correia. O seu rosto
-sumido era gracioso e terno como o d’uma creança; o
-sorriso natural, que lhe resaltava da expressão, parecia
-sahir d’um berço.</p>
-
-<p>Havia o quer que fosse de inconsciente e ethereo,
-de amoravel e bondoso, no rosto d’esse pobresinho.
-Ali ninguem o conhecia; mas elle olhava para todos
-com uma attenção familiar e intima. Um porco atrevido
-roçava-se-lhe pelas calças, roncava-lhe junto á cara
-e elle afastava-o com humildade e carinho, dizendo-lhe
-até palavras de conselho. De certo os seus nervos delicados
-se encommodavam com aquelle grunhir insolente;
-mas nem por isso se mostrava menos attencioso,
-para com o bruto. Fallava a todos tão suave e brandamente
-que a sua voz semelhava um murmurio e uma
-consolação á cabeceira d’um enfermo. O seu olhar,
-d’uma tranquillidade de justo, prolongava-se pelo espaço
-infinito, quando olhava para o ceu. Os cabellos
-brancos, enquadrando-lhe o rosto pacifico, eram limpos,
-finos e fluctuantes como floccos de neve, tinham a<span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span>
-transparencia do nimbo dos sanctos. Tocou-me aquella
-bondade, aquelle ar compadecido e altivo. Pareceu-me
-um pedinte e olhei-o com attenção antes de o interrogar.
-Elle sorria-se para mim, com a expressão d’uma
-pessoa que conversa junto d’uma lareira aldeã, quando
-a fogueira crepita e o vento uiva victoriosamente sobre
-o telhado. Sentia-me attrahido para elle e então perguntei-lhe
-mesmo de dentro da carruagem:</p>
-
-<p>—Vocemecê vem de longe?</p>
-
-<p>Parecera-me que sim. Os pés tinha-os doridos, talvez
-d’uma longa caminhada. Estava alli a descançar. A dona
-da taberna disse que o não conhecia e que não era das
-redondezas. O velhito, como eu lhe fallei, levantou-se
-sorrindo e approximou-se. E n’um tom de mysterio,
-para que mais ninguem o ouvisse, segredou-me:</p>
-
-<p>—Se venho de longe? De muito longe. Nem eu
-mesmo o sei.</p>
-
-<p>Tomei estas palavras como de soffrimento resignado
-e tive piedade.</p>
-
-<p>Não sabia d’onde vinha, estava alquebrado pelo
-cansaço e não encarecia as suas dores para me pedir
-esmola! Conheci-lhe pela expressão dolorida do semblante,
-quando pôz os pés no chão para me vir fallar,
-que andára muitas leguas a pé. Talvez para ir ver
-uma filha enferma! talvez para exprimir outro grande<span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span>
-affecto que lhe restasse no coração! Tantas terras percorrera,
-que até a sua memoria enfraquecida pela edade
-não retivera os nomes! Ter-se-hia perdido no caminho?...</p>
-
-<p>Insisti com modos de incredulo:</p>
-
-<p>—Essa é boa! Então não sabe d’onde vem?</p>
-
-<p>Olhou-me com ar sereno e firme como de quem tinha
-dicto uma coisa perfeitamente exacta.</p>
-
-<p>—Não senhor. Ninguem sabe!...—segredou-me
-com extrema reserva.</p>
-
-<p>E acrescentou sorrindo intelligentemente:</p>
-
-<p>—A mim ninguem me conhece; mas eu conheço
-todo o mundo. Bem sei quem o senhor é... É o senhor
-conde. Ah! cuidava que não sabia?...</p>
-
-<p>No rosto do pobresito appareceu uma aurora de
-triumpho. Para lh’a sustentar perguntei muito baixo:</p>
-
-<p>—Mas como advinhou? Quem foi que lh’o disse?</p>
-
-<p>A enormidade do seu poder reconheci-a no desdem
-superior com que me olhou. Continha lá dentro infinitos
-thesouros de sabedoria e perspicacia, á qual não
-resistiam os insondaveis mysterios do amplo ceu. Quem
-era eu, um misero conde, diante d’aquella omnipotencia
-que considerava o globo terraqueo como uma insignificante
-bolinha de pão?! Na minha tristesa e confusão
-devia-se reconhecer que o comprehendi; pois que
-o velhinho, para me consolar acrescentou:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span></p>
-
-<p>—Eu sei tudo, advinho tudo. Se não digo d’onde
-venho é porque ando por todo o mundo. Agora ahi
-vou eu para Hespanha ver se componho <i>aquillo</i> e se
-acabo com todas essas questões que por lá vejo. Levo
-aqui—designou o saquito—os papeis e livros necessarios
-para dar luz e felicidade <i>a todos</i>—sublinhou.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Entristeceu-me ver tamanho valor e convicção reunidos
-n’um corpo assim fragil. Pedi-lhe com interesse e
-bons modos que me deixasse examinar os seus thesouros.
-Accedeu da melhor vontade abrindo primeiro o
-sacco d’estopa, dentro do qual estava um de panno
-preto, contendo ainda outro de chita de ramagens. O cocheiro
-e a dona da taberna aproximaram-se ironicamente
-para disfrutarem o pobre; mas elle, com um verdadeiro
-olhar altivo e nobre, afastou-os significando,
-que taes segredos não eram para espiritos grosseiros e
-motejadores. A meu pedido os indiscretos retiraram-se
-e por fim o pobresito mostrou-me envolvidos em farrapos
-e bem ligados com fitas de cores e cordeis, tres
-velhos alfarrabios em lingua hespanhola e algumas folhas
-manuscriptas, d’uma lettra amarella e inintelligivel.
-Pelo meio havia folhas seccas de castanheiro, algumas
-flores mirradas e pequeninos ramos d’alecrim. Examinei
-com escrupulosa attenção estas preciosidades, dando-lhes
-grande valor! Elle seguiu todos os meus gestos<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span>
-e movimentos faciaes com olho sagaz e aspecto orgulhoso.
-Quando lhe entreguei as suas preciosas reliquias,
-encarecendo-lhas elle concluiu:</p>
-
-<p>—Já o senhor conde vê que não é ninguem ao pé
-de mim.</p>
-
-<p>—Oh! de certo!...</p>
-
-<p>E depois que já tinha guardado os seus livros e papeis
-inestimaveis perguntei-lhe:</p>
-
-<p>—Mas como vem de muito longe deve trazer fome.
-Quer que lhe dê alguma coisa?</p>
-
-<p>Sem altivez respondeu:</p>
-
-<p>—É da lei acceitar sempre a esmola. Fome não
-tenho. Ando por aqui ha um rôr de seculos e nunca
-senti fome.</p>
-
-<p>E com um sorriso delicioso, como quem faz uma
-revelação:</p>
-
-<p>—Isso é para vocês que são d’este mundo. Para
-mim não, que não sou de cá.</p>
-
-<p>—Ah! vocemecê não é de cá?</p>
-
-<p>—Eu sim!...</p>
-
-<p>E sorriu-se da minha estupidez, da minha falta de
-comprehensão, abrangendo n’um infinito olhar toda a
-amplitude da terra ao ceu! Habitava essas regiões
-ideaes e interminaveis do azul, suspenso na serena ondulação
-do ar, e bafejado da poeira brilhante da luz. A<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span>
-expressão humilde e conformada do seu rosto, a grandesa
-e compaixão que lhe resaltava da voz fraca e singela,
-o seu triumphante sorriso de tranquillidade...
-convenceram-me de que este velhinho resumia em si
-uma entidade poderosa. Quem julgará elle representar
-n’este mundo?—perguntei a mim mesmo. Talvez algum
-sancto milagroso, algum lobis-homem das lendas, algum
-bruxo afamado entre o povo!... A convicção da sua
-immaterialidade e do seu immenso poder reconhecia-se
-que a tinha, pelo tom desdenhoso e superior com que
-se referia a tudo que o cercava. D’elle só veriam sahir
-protecção e bondade:—os beneficios que um acto rudimentar
-do seu querer podia espalhar sobre a terra
-eram incalculaveis. Um simples designio da sua vontade
-tornaria os homens eternamente felizes ou desgraçados.
-Não comia, não se cançava, não havia ponto
-na terra d’onde tivesse partido ou que devesse occupar...—o
-mundo, o ceu, os espaços inconcebiveis
-eram a séde da sua ubiquidade. Nem a dôr, nem o falivel
-o tocava. A misera fraquesa humana não a
-sentia, a contingencia do globo merecia-lhe um pensamento
-compadecido. Sereno e grande vivia no seu reino
-especial!...</p>
-
-<p>Qual seria pois, o personagem imaginario que este
-velho magro, de rosto sumido, alegre, bondoso, expressão<span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span>
-de soberba e de compadecido, julgava representar?
-Perguntei-lh’o com a premeditada cautela que elle
-empregava nas suas palavras:</p>
-
-<p>—Então quem é vocemecê?</p>
-
-<p>—Pois ainda não advinhou?! Olha bem para mim
-creatura!... Nosso Senhor Jesus Christo!</p>
-
-<p>E fixando-me com tremenda piedade concluiu:</p>
-
-<p>—Ando aqui para os salvar a todos.</p>
-
-<p>Dei-lhe uma esmola. O pobresito retirou-se serenamente,
-depois de me recommendar:</p>
-
-<p>—Agora caluda, por causa d’esta gente. São hereges,
-não acreditam.</p>
-
-<p class="date">Janeiro de 85.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 75px;">
-<img src="images/footer3.jpg" width="75" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header3.jpg" width="500" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<h2 id="O_CEGO_DE_GUARDIAM">O CEGO DE GUARDIAM</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-l.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Logo que expirou o cunhado, José Domingues
-cahiu n’um scismar atormentado. Só elle comprehendia
-a grande desgraça que n’esse dia
-entrára na casa de sua irmã, pobre mãe de cinco filhos,
-que tinha para os sustentar, unicamente uma roca. Lembrou-se
-de os trazer todos para onde a si; mas como
-poderiam viver tantas pessoas com duas pipas de vinho
-e um carro de pão? A pensar n’isto se consumia o
-pobre José Domingues, e aquelles olhos cegos desde
-tenra infancia, estavam grossos como punhos de tanto
-que tinham chorado. Até perdera o gosto á rebeca,
-prenda que seu tio frade lhe deixára, juntamente com
-as territas de que vivia. A comida entrava-lhe na bocca
-só á força, depois de muito o apoquentarem. Como toda
-a gente o estimava em Guardiam, iam alli pela eira pessoas<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span>
-conversar com elle, dando-lhe consolações e conselhos,
-coisas de pouca valia, pois não produsiam alimento
-para os sobrinhos. O seu amigo Miguel Tinta,
-trouxe o violão uma noite, para lhe acompanhar a rebeca;
-porem o cego é que não estava para tocar.</p>
-
-<p>—Que queres, não posso. Tenho aqui um peso de
-seiscentas arrobas—rematou arrepanhando o coração.</p>
-
-<p>Mas como algumas raparigas, com o fim caridoso de
-o tirarem d’aquelle malucar, lhe pediram insistentemente,
-José Domingues tocou umas musicas tristes, muito populares
-e queridas d’aquella gente. Foi n’esta occasião,
-que o Miguel, sentindo o cerebro illuminado por uma
-ideia, disse com enthusiasmo:</p>
-
-<p>—Ouve lá. E se nós fossemos por ahi abaixo ambos!
-Não se ganharia alguma coisa?</p>
-
-<p>Todas as pessoas presentes acreditaram que sim e
-applaudiram com estrepito a lembrança. Só o rabequista
-não tinha grande fé, pois disse:</p>
-
-<p>—O que, a tocar? Uh!...</p>
-
-<p>—Hade haver muito quem vos queira ouvir. Tentar
-fortuna é sempre bom prophetisou emphaticamente Zé
-Maximo, o barbeiro.</p>
-
-<p>Resolveram-no logo alli. Os dois mais interessados
-planearam a coisa detalhadamente, mencionando as terras
-que percorreriam e as musicas que haviam de escolher.<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span>
-Uma manhã de primavera, partiram com o sol
-rubro no horisonte. Andaram por fóra alguns mezes e
-quando voltaram vinham satisfeitos, porque traziam um
-bom par de moedas na algibeira. Foi uma alegria para
-aquella gente, mormente para José Domingues, que ao
-entregar o dinheiro á irmã pulava de contente, com os
-sobrinhos todos em volta a agarrarem-se-lhe ás pernas.
-No forte das suas expansões, o cego, planeava uma
-vida d’abundancia: queria que se comprasse um porco
-para matar n’esse anno e mais um bácoro, para o seguinte.</p>
-
-<p>—N’esta casa!—com seiscentos diabos!—hade tornar
-a haver salgadeira e fumeiro, como antigamente—affirmou.</p>
-
-<p>Foi este o começo da vida de tocador de rebeca,
-que tão popular fez o cego de Guardiam, em toda a
-provincia do Minho.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>O seu nome chegou mesmo á cidade do Porto. Quem
-fallasse no <i>ceguinho</i> designava logo José Domingues.
-A expressão persuasiva e bondosa do seu rosto tornava-o
-attrahente e querido. Ou tocando a chorosa rebeca,
-ou a cantar modas alegres, ou a gracejar com as
-raparigas, era sempre comedido e delicado; por forma
-a ser cubiçada a sua presença. De todos os cegos pedintes
-e trovadores, só elle gosava de verdadeira sympathia.
-Chamavam-no a muitas casas para o ouvir e,
-alem da paga, offereciam-lhe vinho e marmelada. Tambem
-elle não se parecia com nenhum d’esses tocadores
-de sanfona, lamorientos e porcos. Sempre limpinho:—vestido
-de briche; camisa lavada; botas de cano,
-toscas e fortes; a mão apoiada no hombro do companheiro;
-o extincto olhar voltado para o sol; assim percorria
-a provincia. Tinha o seu orgulho d’artista e de
-pequeno proprietario—nunca exaltou ou fingiu miserias
-e necessidades para provocar compaixão. Acceitava o
-que lhe dessem, fosse muito fosse pouco, agradecendo<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span>
-tudo com um sorriso. O que ambiccionava principalmente
-era que o escutassem com religião e amor. Se
-havia pelas janellas senhoras formosas, em quem presumisse
-melhor comprehensão da musica, o Miguel advertia-o;
-pois que n’essas circumstancias, o arco de José
-Domingues, tinha movimentos expressivos, alma enthusiasta,
-e coração de poeta.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Que ideia faria elle da formosura!...</p>
-
-<p>Fora tão cedo, logo no começo da infancia, que perdera
-a vista!... As suas recordações não podiam deixar
-de ser pedaços de mundo dispersos, mal definidos,
-impressões fugitivas, como as da luz no pôr do sol.
-Comtudo na viva e larga imaginação, era certo que lhe
-esvoaçavam encantadoras imagens. A meiguice do sorriso,
-a bravura da expressão em certos momentos, fazem-no
-presumir. Quando acreditava que a sua alma,
-a sua rebeca, estava fazendo palpitar algum coração de
-mulher, o rosto bexigoso e feio, animava-se-lhe triumphantemente,
-como uma aurora. Parecia que tinha um
-resplendor, que respirava n’um circulo de luz propria.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span></p>
-
-<p>É porque elle instinctivamente calculava que áquella
-expanção de sensibilidade que lhe vibrava nos proprios
-nervos, corresponderiam outros efluvios em nervos
-mais delicados. E a potente voz da arte embravecia-lhe
-a natureza cheia de candura, transformando
-o humilde cego, n’um ente dominador e altivo. A proximidade
-da mulher, a sua inflexão meiga e dolente,
-amansava d’um modo absoluto, qualquer aspereza d’este
-homem, que nunca lhe pudera calcular a pureza das linhas.
-Talvez isto fosse por conhecer a dolorosa historia
-de seu tio frade, que morto aos septenta annos, conservára
-até á ultima, o amor d’uma imagem extincta,
-evocando-a aos sons da mesma rebeca, que José Domingues
-tocava!</p>
-
-<p>Esse tio egresso fôra o seu educador e o seu amigo.
-Homem de viver em si, conhecendo a musica e as lettras,
-ensinara-o a tocar, e transmittira-lhe a alma que
-possuia. A doce affabilidade de convivencia com esse
-bom velho, introduzira-lhe no coração sentimentos preciosos
-de humildade. Despresar os bens terrenos, para
-se confortar nos gozos interiores, fôra o que esse obscuro
-evangelista sempre lhe aconselhára, como meio de se
-oppor á desgraça e soffrer com valor as agruras do
-mundo. Por isso, elle acceitou em toda a conformidade,
-esta vida de tocador ambulante, por mais que ella fosse<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span>
-contraria, ao seu quietismo aldeão. Ainda assim tinha
-a impellil-o n’este vagabundear de terra em terra, o seu
-caracter impressionavel d’artista. O fanatismo com que
-todos o ouviam em Guardiam, em Refuinho e n’outros
-logares, por vezes lhe levantára as ambições e sonhára
-com publico mais numeroso e selecto. Porem nunca
-pensára em sahir da sua aldeia, e do adro da egreja,
-onde nos domingos, depois da missa conventual, até o
-abbade parava a ouvil-o. <i>A donzella abandonada</i>, o <i>Marinheiro</i>
-e o <i>Cão fiel</i> eram algumas das poucas cantigas
-que n’esse tempo conhecia. Exprimia-as com tal
-sentimento e candura, que era frequente perceber-se o
-chôro d’algum coração de rapariga enamorada e sensivel,
-que encontrava nas palavras da canção qualquer
-lembrança pungente. Então o José Domingues, que era
-galhofeiro dizia:</p>
-
-<p>—Quem diabo está ahi a fungar, a rir-se da minha
-rabeca? Anda cá menina que elles não te entendem!...</p>
-
-<p>E beijava-a repetidas vezes, balouçando-a contra o
-seio, acariciando-a como terna mãe acaricia um filho.
-Isto dava sempre bom effeito, alegrava os ouvintes, tornava-os
-communicativos e contentes. Para que todos
-bailassem, o cego, tocava-lhes a <i>Canninha verde</i>, a
-<i>Maria Cachucha</i>, o <i>Afasta janota, arreda</i>, e os rapazes
-acercavam-se das raparigas, formando logo a roda.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span></p>
-
-<p>Se o Carvalhosa presenciava, nunca deixou de dizer
-com sorriso de consentimento e um dedo no ar:</p>
-
-<p>—Moços! juizo, ouviram? Muito juizinho.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Agora que andava de terra em terra, a força de sympathia
-e attracção do José Domingues dilatou-se por
-muita gente. A sua pequena estatura, a magresa do
-corpo, a expressão terna, o olhar fixo e indefinido sempre
-voltado para a luz, a delicadesa natural e a suavidade
-das suas fallas, a inspiração muitas vezes caudalosa
-e atormentada da sua rabeca... tudo se fixou na
-imaginação collectiva, com traços vigorosos e duradoiros.
-Elle é que levava pelo mundo a sua fama. Todas
-as terras o estimavam e queriam a ponto de se fallar
-com antecedencia da vinda do cego de Guardiam, que
-tinha epocas determinadas e fixas, para os diversos pontos
-da provincia. Se tardava uma semana, isso era logo
-motivo de reparo. Preoccupavam-se com a ideia de que
-estivesse doente e nem queriam suppor que tivesse
-morrido. O seu apparecimento era considerado como o
-das aves cantoras na primavera, que preannunciam os
-bons dias e as flores. Por isso era recebido com verdadeira<span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span>
-satisfação este portador de novas canções e,
-principalmente as raparigas do povo, saudavam-no com
-alegria expontanea e sincera. Parava a conversar com
-pessoas de diversas cathegorias, e sempre lhes narrava
-coisas novas em que os interessava pela simplicidade
-da sua palavra.</p>
-
-<p>Estas jornadas, pelos ensombrados caminhos da provincia,
-começava-as no principio d’abril, quando os
-pampanos rebentam e parecem olhos de satyros a rir
-de todo o mundo. O inverno passava-o em casa, junto
-do lar crepitante, no meio dos sobrinhos, que lhe enchiam
-a alma de gosos paternaes. Havia magustos com
-estoiros de castanhas e o bom rascante, colhido nas videiras
-que lhe legara o tio frade. Havia a matança do
-porco e a consoada, que eram festas salutares e bulhentas.
-A neve embranquecia os montes sobranceiros, a
-rispida nortada esfuziava, ás lufadas, pelo valle. Era
-preciso cada qual acercar-se da fogueira para assim ludibriar
-a furia dos elementos, que zombeteavam cá fora.
-José Domingues com a sua modestia bem provida
-do necessario, dizia aos sobrinhos, quando tinham medo
-do trovão:</p>
-
-<p>—Deixa lá, é a musica do pae do ceu.</p>
-
-<p>—Gosto mais da rabeca do tio Zé. A musica do pae
-do ceu, não presta—observou um de oito annos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span></p>
-
-<p>—É zabumba—considerou philosophicamente outro
-de menos edade.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>A primavera fazia-o sahir de Guardiam acompanhado
-do Miguel. Tinham um jumento para levar o vestuario
-e o presigo dos primeiros dias. Durante as chuvas,
-como os pintasilgos, tinha a voz amortecida. Só a
-fragancia do ar tepido e balsamico o fazia cantor. Sentia,
-como os que tem bons olhos, que a natureza se
-subtilisava para a festa grande da creação. No fermentar
-estrondoso das sementes que rebentam, estava a sua
-paisagem florida. As canções d’esta epoca, o <i>Regadinho</i>,
-o <i>Pintalhão</i> eram vivas, travessas e maliciosas. As
-do outono eram melancolicas, arrastadas e dolentes,
-sentindo-se no arco da sua rabeca certa preguiça, e o
-sentimento das vozes ternas, que vem de longe pelas
-corgas dos montes. Havia n’esses cantos, notas flutuantes
-que pareciam folhas amarellentas vagueando no ar,
-impellidas pelo rigido nordeste. Se na volta d’um caminho
-percebia alguma cantiga sahida de pinheiral rumuroso,
-parava escutando e, ás vezes, rebentavam-lhe
-lagrimas. Aproximava-se o tempo de recolher a casa,
-ás consolações da familia. Lá voltava a Guardiam com<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span>
-a imaginação cheia de lembranças alegres. No logar
-era festivamente celebrada a sua volta e, rindo e chorando,
-José Domingues abraçava com effusão e verdadeiro
-prazer todos que se lhe approximavam. Dançava,
-pulava, atirava o chapeu ao ar, como uma creança!</p>
-
-<p>É que se sentia entre corações d’amigos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>N’um d’esses periodos d’inverno, que passára junto
-dos seus, ouviu ler na gazeta que o padre Carvalhosa
-emprestava ao mestre-eschola de Guardiam, que estava
-em Lisboa e talvez viesse ao Porto e a Braga um rabequista
-celebre a quem chamavam pomposamente o
-«primeiro violinista do mundo».</p>
-
-<p>—Olhem que não tocará melhor que o nosso José
-Domingues—affirmou enthusiasta e patrioticamente o
-professor.</p>
-
-<p>—Ora, senhor José Fortunato, nem diga isso. Eu,
-um pobre estupido, posso lá!...—respondeu com modo
-agradecido.</p>
-
-<p>—Deixa-te de tolices, homem. Olha que eu com os
-sessenta e cinco que já conto, nunca ouvi como Frei
-Gonsalo. E já fui uma vez a Lisboa, com o fidalgo de
-Refuinho, quando elle era vivo.</p>
-
-<p>—Lá isso, maior que meu tio, não acredito que haja.
-Devo-lhe a alma que tenho—confessou commovido.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span></p>
-
-<p>José Fortunato ainda acrescentou:</p>
-
-<p>—Olha que lá as meninas (as de Refuinho) estiveram
-no Porto com o tio general. Presencearam por lá
-grandes coisas e disseram-me que antes queriam ouvir
-o José Domingues.</p>
-
-<p>—Isso são umas santinhas. Eu sou um pobre cego,
-não sei nada, senhor José Fortunato.</p>
-
-<p>—Não sabes nada? Sabes tudo, tens d’isto—rematou
-o mestre-eschola, batendo uma punhada sobre
-o coração.</p>
-
-<p>O mais velho dos sobrinhos do cego, comprehendendo
-tudo pelo instincto, atirou a carapuça ao telhado,
-gritando:</p>
-
-<p>—Viva o tio Zé Domingues e a sua rabeca!</p>
-
-<p>—Viva! viva!—acompanharam os outros.</p>
-
-<p>Mas o rabequista, ficou a scismar no que seria, essa
-maravilha tão apregoada pela gazeta. Que poder, que
-attracção teria no seu arco, esse homem que era superior
-a todos os que havia no mundo! Na sua mente ingenua,
-apresentou-se logo uma figura aureolada de sol,
-dominando a multidão dos admiradores que o applaudiam.
-Um publico de fidalgos e mulheres ricas é bem
-differente do seu, que era rude e casual. Haveria fragor
-de enthusiasmo, comprehensão vasta n’esse theatro
-em que as luzes faziam sobresahir a opulencia. A apotheose<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span>
-alargava-se até aos confins da terra e o artista
-victoriado levantava-se até ás nuvens... A alma calorosa
-do cego de Guardiam, sentia-se enebriada com
-esse imaginado triumpho, a commoção manifestava-se
-nas lagrimas que lhe apontavam. E batendo uma palmada
-no joelho disse com resolução:</p>
-
-<p>—Pois ainda não hei de morrer sem ouvir uma coisa
-d’estas!</p>
-
-<p>N’esse momento chegou o Miguel Tinta a quem
-perguntou:</p>
-
-<p>—Queres tu ir comigo a Braga ouvir o tal home?!
-Talvez se lhe possa tirar alguma coisa.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Sempre fora este o seu processo d’aprender e progredir.
-Musica que ouvisse logo lhe ficava. Tinha no
-Porto e em Braga, quem lhe arranjasse versos apropriados.
-Ás vezes mesmo, lhe ministravam musica e
-lettra, o que valia oiro sobre azul. Entrava em todas as
-egrejas onde ouvisse tocar o orgão e era assiduo perto
-das bandas militares, quando soubesse que tocavam
-em publico. Se qualquer musica lhe calhava, elle e o
-Miguel tractavam logo de lhe applicar versos dos que<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span>
-sabiam e assim chegaram a popularisar canções, como
-aconteceu áquella que principiava:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Veja lá menina</div>
-<div class="verse">Se levanta a saia</div>
-<div class="verse">.................</div>
-</div>
-</div>
-
-<p class="noindent">a qual toda a provincia decorou. Algumas vezes aconteceu
-aristocratisarem-se as suas modas até chegarem
-ás salas de provincia, e então José Domingues ouvindo-as
-celebradas em piano dizia com orgulho:</p>
-
-<p>—Vê lá Miguel. Aquella trouxemol-a nós.</p>
-
-<p>A noticia que ouvira ler na gazeta do padre Carvalhosa,
-sobresaltou-lhe o coração, cheio de enthusiasmo
-pela musica. Era rigoroso dezembro; o frio enregelava
-as carnes; as neves cobriam os montes; o ceu, estucado
-de nuvens côr de lama, tinha uma immobilidade sombria.
-Os caminhos estavam intransitaveis, muita gente
-lhe aconselhou a não fazer a jornada; mas elle, logo
-que soube que o afamado rabequista chegára a Braga,
-resolveu o Miguel e partiram. Era como uma peregrinação
-religiosa. De tempos a tempos, José Domingues
-soltava seus ais admirativos e dizia para o companheiro:</p>
-
-<p>—Mas como será este home, que é o primeiro rabequista
-do mundo?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span></p>
-
-<p>Miguel observou scepticamente:</p>
-
-<p>—Quem sabe lá! Isto de gazetas, consentem o que
-lhe põem.</p>
-
-<p>—Não, não. Deve ser coisa de respeito!—considerou
-absorvido na sua ideia.</p>
-
-<p>Logo á entrada da cidade, perto da egreja de S. Vicente,
-procuraram um estudante de Guardiam, com o
-fim de lhe pedirem esclarecimentos. Souberam que tudo
-quanto se dizia era verdade, que o senhor arcebispo,
-tendo escrupulos de ir ao theatro, convidára o famoso
-artista para tocar n’essa noite no Paço. O estrangeiro
-accedera, para conquistar as sympathias do prelado e
-do publico.</p>
-
-<p>—Ó senhor Joãosinho—supplicou José Domingues—eu
-queria ouvil-o. Não me poderá arranjar um buraco
-no palacio do senhor arcebispo? Eu arrumo-me
-em qualquer parte. Um buraco que seja, menino.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Não foi difficil obter esta infima posição. O estudante
-era amigo d’um famulo de sua excellencia, o qual
-pôde esconder o cego n’um vão de escada, proximo do
-logar onde se realisaria o concerto. José Domingues<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span>
-levou comsigo a rabeca, pois desejava apertal-a sobre
-o peito para melhor comprehender a musica. Tiveram
-de o introduzir de dia, n’um momento conveniente
-para não ser presentido. Durante umas seis horas, esperou
-que chegasse o instante. Encolhido, quieto, respirando
-brandamente para não dar rumor de si, alli se
-conservou. Perto da noite, accometteu-o uma sede furiosa,
-que supportou heroicamente, sem o menor arrependimento.</p>
-
-<p>O famulo que alli o introduzira, veio n’uma furtadela
-perguntar-lhe se estava bem e o cego respondeu agradecido:</p>
-
-<p>—Ricamente, meu senhor. Só tenho uma sêde!...</p>
-
-<p>Satisfeita esta necessidade ficou n’um paraizo. Momentos
-depois entrava tudo quanto havia de selecto na
-sociedade bracarense. A alta clerezia appresentou as
-suas familias respeitaveis. O general, o governador civil,
-o commandante do 8, o juiz de direito, administrador
-do concelho, delegado, professores do lyceu, trouxeram
-suas esposas e filhas. Ondulava um murmurio de
-vozes e de sedas, e José Domingues ouvia pronunciar
-nomes consagrados, que toda a vida respeitára humildemente.
-Isto augmentou no seu espirito o valor d’aquella
-festa, tornando-a imponente. Era um deslumbramento e
-um ceu aberto o que principiava a despontar na sua<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span>
-imaginação. Agarrado a sua rabeca, apertando-a contra
-o seio, estremecendo-a como se fora um ente animado,
-estava commovido. Ia-se verificar a apotheose d’um
-seu irmão, e elle identificava-se com a gloria do artista
-que não conhecia. Entrou o prelado. O cego deu conta
-d’esse facto pelo recuar de cadeiras e pelos comprimentos.
-Pouco depois chega o rabequista e a curiosidade
-da parte dos assistentes produziu um sussurro
-maior, que immediatamente se acalmou, seguindo-se
-um silencio de mar que se esbate sobre a areia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Logo que os primeiros sons da rabeca encheram a
-sala, a alma de José Domingues sentiu-se arrebatada
-para um horisonte largo. Dos seus olhos sem vista, irradiaram
-fulgurações d’uma belleza sideral. Erguendo-se
-no amplo espaço com a pujança d’um crente, a sua
-imaginação livre, vagueou na larguesa sem fim, n’um
-redemoinho d’harmonias, que o impelliam como ligeiro
-farrapo de nuvem. Toda a miseria terrena desaparecera
-para elle. Não estava n’um buraco, como cão despresivel,
-socio e companheiro de ratos: aos seus olhos apparecia
-um amplo salão, ornamentado de riquezas e de
-mulheres formosas. Esquecera-lhe o rouco uivar do vento
-sobre a telha vãa da sua pobre casa, os caminhos
-enlameados e cheios de poças, os encontros por vezes
-desagradaveis da sua vida de tocador.</p>
-
-<p>Quando a rabeca tinha momentos alegres, extravagantes,
-buliçosos, José Domingues ia indo n’aquella
-toada e vinham-lhe á mente coisas loucas e pueris:
-dançava em volta d’uma fogueira, abraçava as raparigas<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span>
-que lhe fugiam aos gritos, ouvia repiques de sinos,
-e ao longe, a multidão festival passava para a romaria.
-Se era a dolencia das musicas hespanholas, entranhadas
-de sentimento arabe, expraiando-se brandamente, como
-as mansas aguas do Mediterraneo, os seus nervos sentiam
-uma paz infinita, quasi um torpor. A visão paradisiaca
-d’uma primavera só formada de cantos de passaros
-e de perfumes d’hervas e de flores, como elle a
-contemplava n’esses momentos, era mais intensamente
-bella do que a paisagem das amendoeiras e dos campos
-cheios de trevo e de malmequeres brancos.</p>
-
-<p>Mas o seu pendor, a tendencia da sua alma, era para
-todos os trechos lacrimosos, d’uma plangencia terna que
-se abrissem largamente em espaços constellados. Não
-valiam tanto os rouxinoes e os melros no meio silencioso
-das mattas, e o rio murmuroso ladeado de choupos.
-Corriam-lhe em fio as lagrimas e apesar dos applausos
-dos ouvintes, José Domingues sentia que elles
-não comprehendiam bem aquella musica. Se elle podesse,
-entraria de joelhos na sala, para beijar os pés do
-grande artista mostrando-lhe a sua admiração, n’um
-chôro copioso e enthusiasta! Rastejar pela terra como
-humilde verme, era o modo que a sua rudeza achava
-bastante expressivo, para glorificar aquelle seu irmão.
-Porque não procediam assim esses homens que o ouviam?<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span>
-Vinham-lhe suffucações de colera contra os que
-se não levantavam em extasis d’um enthusiasmo viril
-e ardente como o seu. É que não tinham alma para
-sentir. Elle humilde, obscuro, rude, apertado entre as
-paredes d’aquelle buraco, era-lhes superior, comprehendia
-o que elles não podiam comprehender, tinha
-em si um thesouro, que nem todos os thesouros da terra
-podiam egualar. Vibravam-lhe no cerebro os echos
-d’aquella musica, a sua commoção era grande, os soluços
-que não podia evitar apanhava-os nas mãos para
-não serem percebidos, com medo de perturbar aquella
-musica celestial!</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Todos estes sentimentos augmentaram de intensidade,
-e no coração repercutiram-lhe os fremitos magestosos
-d’uma epopeia, quando os primeiros accordes da
-«Ave Maria» de Gounod se fizeram ouvir. Na sua imperfeita
-comprehensão, não se destrinçavam claramente as
-bellezas accumuladas no famoso trecho. Vinha-lhe tudo
-em globo, tumultuariamente, como se a lendaria figura
-da morte o arrebatasse n’um instante, levando-o por ermos
-desconhecidos, onde a sensibilidade fosse outra.<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span>
-N’aquella ondulação luminosa d’harmonias, sentia-se crescer,
-vencia espaços incommensuraveis, passava gloriosamente
-sobre altos montes, ia em rapido vôo sobre o
-mar tormentoso, para no fim parar em regiões serenas
-formadas de luz e melodia. Arrepanhava as carnes procurando
-a realidade na manifestação da dôr; mordia os
-punhos a ponto de fazer sangue; queria gritar e não
-podia; agarrava-se energicamente á sua querida rabeca,
-n’uma effusão de ternura e o seu coração não se apasiguava
-nunca! O canto angelico e suave crescia em profundeza,
-augmentava em area—era como uma palpitação
-infinita. O cerebro de José Domingues enchia-se de
-carinho, o enthusiasmo suffocava-o, anniquilava-lhe as
-forças. E lá era levado de novo, subindo até ficar sobranceiro
-ás nuvens, conhecendo instantes de paz e de
-tortura, chorando, sorrindo, estorcendo-se no chão como
-uma cobra ferida.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Os bravos e as palmas d’esta vez foram mais estrondosos.
-Prolongaram-se porque era o agradecimento final.
-Porem, todo esse ruido não pôde dominar um doloroso
-grito, forte como se sahisse do peito d’Othelo<span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span>
-n’um arranque de ciume, meigo como se fora o ultimo
-queixume da rola Ophelia.</p>
-
-<p>Ficaram rapidamente silenciosos e perplexos os espectadores.
-Um soluçar ancioso continuou e para o logar
-d’onde elle vinha se dirigiram as pessoas interessadas
-em tamanha dôr. N’aquelle buraco escuro, de bruços
-sobre a rabeca que esmigalhára, estava o cego de
-Guardiam, que não poderam mais chamar á vida!</p>
-
-<p class="date">Janeiro de 86.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/footer4.jpg" width="200" height="70" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header4.jpg" width="500" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<h2 id="A_VELHICE_DUM_REI">A VELHICE D’UM REI</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-s.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Sentado na larga poltrona de seda azul, o monarcha
-conversava em voz pausada e lenta.
-Uma graciosa imagem da Virgem, talhada em
-marfim, por desconhecido artista da Renascença, dava-lhe
-ensejo de explicar a velhos amigos, como conjecturava,
-que teriam trabalhado aquelles talentos singulares,
-creadores de tantas maravilhas. Tenuissima
-nuvem de paz, de conforto, de luxo estudado, pairava
-sobre este ambiente, tornando-o em região intermedia
-á riqueza mundana e á severidade do gabinete d’um
-sabio obscuro. No rosto sereno do rei, havia o orgulho
-do nascimento e a tristeza propria dos annos. A sua
-longa barba branca, objecto de veneração em todo o
-paiz, era até commentada entre a gente rude dos campos.<span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span>
-Quasi a tinham como symbolo de orgulho nacional,
-pois com jactancia affirmavam não haver outro rei
-com barba tão longa, tão linda e tão branca.</p>
-
-<p>A vaidade das coisas realengas—orgulho natural nos
-paços doirados, sentimento peculiar dos que soltam os
-primeiros vagidos sentados n’um throno—diziam que a
-não tinha. A abnegação e o desprendimento de todas
-essas pompas eram-lhe attribuidos com meiga sympathia
-entre as classes populares, que são as que melhor
-comprehendem as inclinações democraticas. Elle abdicára
-em seu herdeiro o poder de que disposera durante
-muitos annos e havia praticado esse bello acto sem ostentação
-e logo que o principe chegára á maioridade.
-Adquiriu a liberdade de homem, entregando-se ás suas
-collecções artisticas, aos prazeres da caça e á conversação
-intelligente. Perdia-se dias inteiros na espessura
-das mattas reaes, sempre poeta, contemplando a luz e
-vivendo intimamente na absoluta natureza silenciosa.
-Para ser um bom rei, querido e estimado, até muitos o
-diziam generoso e esmoler.</p>
-
-<p>Porém, nem todas as pessoas tinham esta opinião
-benevolente. Alguns revelavam que fazia sentir as suas
-dadivas, fallando d’ellas. Censurava os gastos de muitos
-que os não podiam fazer, tinha a opinião de que a sua
-bolsa não era inexhaurivel. Egoista e reparador—chamavam-lhe.<span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span>
-Desfazia com palavras, alguma generosidade
-que praticava. Apontavam como impropria, a
-ponta d’avareza que esboracava o manto real. Um soberano
-amesquinha-se fallando de coisas tão vulgares.
-Era o que faltava que procedesse d’outra fórma. Não
-fazia o povo muito mais pelo rei, do que o rei pelo
-povo? Qual era o azeite e o vinho que produsiam as
-extensas coutadas que a nação lhe dispensava para os
-seus divertimentos?!...</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Depois a velhice tornara-o rabujento. Os camaristas
-para lhe entreterem as insomnias, tinham de colher ou
-inventar episodios escandalosos. Era fatigante a sua exigencia
-nos detalhes e torturava-os com repetições. A
-surdez obrigava-os a servirem-se da corneta acustica
-para lhe fallarem. Havia perguntas e respostas disparatadas,
-situações grotescas que depois se desfaziam em
-motejos nas ante-camaras. A consciencia d’estes factos
-entristecera-o e só a muito custo lhe tiravam um sorriso,
-um ar de approvação. A sensibilidade embotára-se-lhe
-com a velhice e só historias picantes, difficeis de
-inventar, conseguiam distrahil-o.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span></p>
-
-<p>A rainha,(tratavam-na assim por deferencia, só dentro
-do palacio) esposa morganatica do rei, senhora ainda
-forte, saudavel, com vida para gastar, abandonára-o
-n’este periodo de doença, sob pretexto de que elle
-estava mais satisfeito entre os seus amigos. A falta
-d’um contacto feminino, que lhe enternecesse a organisação,
-fizera variar aquella sensibilidade que fôra delicada
-e exigente. Só episodios burlescos, onde apparecessem
-mulheres adulteras, maridos comicamente trahidos,
-creadas servindo intrigas amorosas, homens escapando-se
-de gatas por telhados... é que lhe enchiam o
-vasio das longas insomnias. Alguns dos seus camaristas
-eram rapazes de sangue ardente, creados n’uma vida
-ociosa e delicada. Passavam um aborrecimento n’aquelle
-palacio de grossas muralhas. O que lhes valia era a
-conversação das companheiras da rainha, senhoras formosas,
-muitas gentis, todas de uma educação esmerada.
-Desanuviavam-se reciprocamente d’aquella vida pautada
-e monotona, fazendo má lingua, fallando da sociedade
-com a liberdade de parentes e camaradas. Um
-ou outro de apetites mais grosseiros, preferia abraçar
-nos corredores sombrios as simples creadas, mulheres
-de carnes saudaveis, sangue plebeu e revolto, que enchem
-a existencia d’alegrias. As provas de tão insignificantes
-delictos estavam nos beijos a cantar na escuridade,<span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span>
-nos vultos a fugir cautelosos, nas palavras de
-carinho apanhadas avulsamente n’um perpassar rapido.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Um dia, o medico de serviço approximou-se do rei
-para lhe tomar o pulso. A um contrahir facial de suspeita
-do facultativo acrescentou o monarcha:</p>
-
-<p>—Não passei muito bem a noite, não.</p>
-
-<p>Tivera soffucações, maus sonhos, um dormir inquieto.
-O doutor applicou-lhe demoradamente o ouvido á região
-cardiaca, concentrou-se n’um raciocinio e quietou o
-doente com o sorriso profissional. Nervoso, talvez a
-maldita dyspepsia—esclareceu.</p>
-
-<p>Porém logo se dirigiu aos aposentos da rainha a informal-a
-da gravidade e adiantado da molestia. Poucos
-minutos levou, para o mais humilde serventuario do
-palacio saber que o soberano padecia d’uma lesão. Era
-coisa já antiga e sómente os ultimos gelos a tinham aggravado.
-Congestões abdominaes e no figado haviam
-obrigado aquelle velho coração a empregar, nos ultimos
-tempos, um grande esforço para impellir o sangue
-até aos confins do corpo. Um coração delicado de rei,
-batendo sempre moderamente debaixo de lendarios arminhos,<span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span>
-logo que sentiu resistencia ao seu poder, entristeceu;
-principiou a condescender, a sobrecarregar-se;
-dilatou-se; adelgaçou... e a terrivel aneurisma
-estava proxima a romper-se.</p>
-
-<p>—É como se o monarcha, sentisse contra o seu poder
-providencial a revolta dos seus vassalos—comparou
-o medico, com delicadeza de phrase.</p>
-
-<p>Tal acontecimento impressionou diversamente. Não
-havia unanimidade de sentir, nem de crença. Todos
-viam que o rei continuava a conversar na sua voz pausada
-e fidalga. O doutor era homem sabio e respeitado,
-mas podia enganar-se.</p>
-
-<p>—A sciencia humana—disse um velho de sorriso
-sceptico—é fallivel. «A mais aguda, segundo o poeta,
-é ignorancia cega ante a divina». O aspecto de sua magestade
-não é para sobresaltos.</p>
-
-<p>—E a edade?—argumentou outro.</p>
-
-<p>—Sim, a edade é condição desfavoravel—rematou
-o primeiro.</p>
-
-<p>Alguem notára, que nos ultimos tempos, o rei,
-outr’ora tão expansivo, se callava frequentemente, levando
-a mão ao peito quando desejava respirar mais
-fundo. Porém acreditavam ser o cansaço de estar sentado,
-o aborrecimento de viver no quarto e a tristeza
-da maldita surdez, que parecia não ter cura. Que<span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span>
-se levantasse algumas vezes, que fosse até á larga varanda
-admirar a primavera que principiava a romper
-nos campos e veriam, como logo adquiriria vigor, como
-os olhos se lhe alegrariam.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Os do pessoal menor do palacio, que tanto como outros
-viviam da munificencia regia, preoccupavam-se,
-para o caso da morte, com o theor do testamento.
-Alguns esperavam d’alli uma especie de liquidação vantajosa
-da propria fortuna; outros, mais reservados e
-scepticos, temiam não ser contemplados e perderem
-aquelle bom agasalho e santa ociosidade.</p>
-
-<p>—Não nos fiemos em sapatos de defunto. Poderemos
-obter d’esta fórma o equivalente do que gosamos?—resumiam.</p>
-
-<p>—Ah! não póde deixar de ser! Até seria uma vergonha
-se o não fizesse!...</p>
-
-<p>Esse rico papel escripto pelo proprio punho do rei,
-diziam estar dentro d’um cofre de malachite, guardado
-n’um armario de ferro. Ninguem o tinha lido, a não ser
-talvez o primogenito e a rainha; mas para todos era um
-motivo de palavras humildes e risos captivantes, em<span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span>
-face do doente. Este homem, fabulosamente rico, podia
-deixar a independencia social aos que eram pobres
-e accrescentamento de fortuna aos opulentos. E tinha
-de o fazer, se queria engrandecida e celebrada a sua
-memoria. Isto de reis são orgulhosos, mesmo quando o
-não parecem; teem a vaidade de que os lamentem depois
-da morte, para se conservar a velha ideia biblica
-de que o monarcha é o pae, é o senhor, é o ungido de
-Deus!</p>
-
-<p>—N’esse caso que o pague—concluiam.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Poucos dias depois do ultimo alvoroço ácerca da
-saude do rei, houve um acontecimento que impressionou.
-O doente não tivera, durante a noite, uma hora
-de somno tranquillo. Sonhara uma vida agitada de batalhas,
-sentira o sangue tumultuar-lhe nas arterias.</p>
-
-<p>—Vejam lá, n’estes tempos modernos, eu a imaginar
-torneios e golpes de lança!—criticou elle mesmo.</p>
-
-<p>O doutor foi de opinião, que lhe devia ter feito mal
-a visita d’um antiquario estrangeiro. A surdez obrigava
-o monarcha a grandes esforços na conversa. Durante
-perto d’uma hora os dois tinham discreteado ácerca de
-tempos passados, da belleza e encanto da vida d’outr’ora,
-artistica e batalhadora, despreoccupada e cheia
-d’aventuras—bons tempos em que houve homens que
-foram simultaneamente guerreiros, poetas e artistas, como
-Cellini.</p>
-
-<p>—Evite-me vossa magestade essas commoções. Ponha-me
-esses sabios na rua—recommendou o medico.</p>
-
-<p>A mulher do rei foi claramente informada da extrema<span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span>
-gravidade da molestia de seu marido. Senhora de
-ascendentes fidalgos, muito temente a Deus, conseguira
-enfileirar na familia do rei, por um abuso da força poderosa
-da sua belleza e da sua carne, sobre a organisação
-já caduca do soberano. Tambem se fallava de influencias
-clericaes, que miravam a obter para certo
-instituto, parte da fortuna particular do monarcha. Todos
-entendiam que ella se prestára a aquecer os membros
-frios d’um velho, por simples vaidade de ser chamada
-rainha.</p>
-
-<p>Amava a riqueza, a consideração publica, o fausto
-da corte e a supremacia entre as mulheres. A importancia
-da doença do marido, cuja morte para ella significava
-a perda de todas estas garantias e vantagens,
-assustou-a. O seu rosto de vivo que era, tornou-se tão
-composto e triste, que abrandou, no começo, a malevolencia
-de muitos que na corte lhe eram hostis. Ella
-que tanto amava os theatros, os bailes, as corridas, os
-passeios de carruagem ao ar livre, em face das bellas
-paisagens illuminadas pelo sol, deixou de sahir logo
-que o mal tomou o caracter assignaladamente grave, e
-installou-se ao lado da poltrona onde o marido dormitava,
-ouvia os seus amigos, e arfava os cansaços da molestia.</p>
-
-<p>Ella, ás vezes sob pretextos futeis pedia que a deixassem<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span>
-só com o rei. Condescendiam os camaristas,
-formando conjecturas, que nem sempre eram benevolas.
-Diziam que depois d’essas intimidades lhe notavam
-no rosto uma agitação febril, mal dissimulada. Accrescentavam
-que no semblante do rei, apesar da compostura
-calculada, apesar da respeitavel barba branca que
-lhe diminuia a expressão, apesar de reclinado na poltrona
-com as palpebras docemente cahidas... descobriam
-restos de fadiga e o aspecto d’um homem contrariado.
-Parece que se percebera n’um dia barulho
-d’altercação, parece que se ouvira depois um soluçar
-de mulher. A creadagem affirmava ter sentido beijos de
-esposos, palavras de colera, expressões de reconhecimento.
-Tudo isto não podia deixar de ser obra de testamento—entendiam.
-Os velhos amigos do soberano,
-sempre lhe tinham tractado respeitosamente a mulher,
-indicando, ainda assim, na friesa e polidez dos cumprimentos,
-que a não estimavam. Na ausencia chamavam-lhe
-intrusa, ambiciosa, desnaturada, pois abreviava os
-dias do doente com mortificações, e até a sua notoria
-religiosidade, tomavam como impostura.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>A molestia progredia a olhos vistos, e já a ninguem
-era licito desconhecer o proximo termo d’aquella vida
-d’opulencia. O proprio doente disso estava convencido
-e quando lhe diziam palavras d’esperança sorria com
-amargura. As ancias, as suffocações, agora mais frequentes
-e incommodas eram um desmentido claro. A
-oppressão no peito dava-lhe um sentimento de homem
-replecto. Os beiços engrossavam todos os dias, as
-olheiras eram fundas como a sombra da noite, as palpebras
-pesadas e adormecia facilmente como um bebedo.
-Este homem nascido em berço d’oiro, esta imaginação
-educada e aberta sempre n’uma atmosphera de
-delicadezas, repugnando-lhe as miserias asquerosas d’uma
-doença prolongada, começou a ter pelo corpo de que
-fôra tão vaidoso, um desprezo invencivel. As suas pernas
-estavam grossas como rudes troncos de carvalho,
-o ventre volumoso chocalhava como um barril mal
-cheio, e, segundo lhe segredava a memoria, devia conter
-um liquido viscoso, semelhante a baba d’animaes.<span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span>
-Preferia ter uma doença de cruciantes dôres. Devia haver
-molestias para reis, molestias limpas, que fossem o
-logico terminar da vida das grandezas. A cabeça recostada
-no espaldar alto da cadeira, o roupão de seda a
-arfar-lhe sobre o peito, fechava voluntariamente os
-olhos para fugir á vil realidade e entrar n’um mundo
-ideal de lembranças dignas. E parecia conseguil-o, pois
-havia momentos em que o seu rosto era d’uma paz e
-duma tranquillidade de stoico.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Viveria em imaginação no seu passado?</p>
-
-<p>Fôra criança e logo na edade em que o cerebro começa
-a perceber viu-se rodeado da consideração, que
-pode gerar o orgulho—velhos fidalgos iam-lhe submissamente
-confiar as suas barbas, para que o principe as
-tomasse como brinquedo. Tinha sido entregue depois a
-professores, que sobre elle exerciam uma auctoridade
-parecida antes com a obediencia. Quando cavalleiro,
-gentil e vaidoso, o fanatismo de todas as mulheres, gosára
-amores defezos, que tanto o divertiam pela posição
-do homem enganado. Subiu ao throno, e viu curvadas<span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span>
-diante de si, as illustrações do sangue e da
-sciencia, homens de renome que só d’elle, do seu tradicional
-poder, deviam receber a consagração. Aborrecido
-do mando, com o egoismo proprio da velhice,
-abdicou, creara novos prazeres recolhidos, encontrára
-ainda uma formosura que o amára, sentira-se remoçado
-e contente durante certo periodo...</p>
-
-<p>Porém n’outros momentos vinham-lhe subitas crispações
-faciaes significativas de desgosto. É que sentia o
-desabar de todo esse mundo, como desabam as montanhas
-n’um rancoroso terremoto. Tinha, ás vezes, a
-sensação de que um largo alçapão se abria na terra e
-o engulia para uma escuridade absoluta e eterna! Era
-homem como os outros. Diante da miseria da carne
-estava nivelado com a plebe mais infima. A corôa, o
-sceptro, a auctoridade real, os gosos da intelligencia,
-nada faziam para que tivesse um fim grandioso.</p>
-
-<p>Felizes só os reis antigos, mortos heroicamente nas
-batalhas medievaes, atravessando inimigos com lanças
-relusentes e acabando entre maldições e hymnos de gloria!
-A sua imaginação dolorida apresentava-lh’o ainda
-mais repellente do que estava, o rosto espapaçado—palpebras
-entumescidas e cyanoticas, beiços grossos e
-olhar sem brilho. Vira-se uma vez ao espelho e ficara
-horrorisado de si mesmo. Despresava-se com nojo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Sobre todas as ironias da carne, vinha ainda a preversidade
-dos vivos cubiçando-lhe os haveres. A mulher
-queria um testamento que lhe fosse absolutamente
-favoravel. Era o legitimo preço da sua belleza e da sua
-fresca mocidade, que elle estragára com beijos senís.
-Ao calor emprestado pelo sangue da donzella, devia o
-rei o prolongamento d’uma vida arruinada. Os filhos
-questionavam os seus direitos, com razões de casta,
-ligando-as a interesses d’Estado. Fallavam das tradições
-de familia; da abundante riqueza que era preciso ostentar,
-para se imporem pelo fausto, como já se impunham
-pelo nascimento. Porém elle tinha amigos fieis, companheiros
-dos enthusiasmos juvenis; creados cujos aturados
-serviços mereciam uma recompensa, uma lembrança
-no supremo instante da despedida. A exigente
-consorte queria tudo para si. Cá regularia todos esses
-deveres como entendesse. Só assim poderia sustentar o
-respeito e consideração publica, continuando na sua
-mão as dependencias que até alli tinham sido do rei.<span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span>
-Exhorava-o com beijos, com palavras acrimoniosas, com
-ameaças sobre a sua memoria.</p>
-
-<p>Como meio de sahir de taes amarguras, o monarcha
-lembrou-se do suicidio. A razão aconselhava-lhe a findar
-o mais depressa uma existencia assim despresivel.
-Seria um acto cobarde?!... Entre o soffrimento e o
-gozo passa-se toda a vida humana. Quem não póde
-luctar desapparece d’arena—pensou resolutamente. Ia
-furtar-se a muito desgosto, a sentir o difinitivo escorrer
-do seu corpo, que já era massa inerte, alastrando-se
-pelo chão. Ia poupar-se a afflicções, não queria supportar
-o peso d’aquellas pernas inchadas, não queria ouvir
-por mais tempo o chocalhar dos liquidos no ventre, o
-que lhe dava a ideia de que elle era um despresivel
-odre, caminhando no dorso d’um macho.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Que bella noite, serena e calma! Uma lampada de
-Sèvres, espalhava no amplo quarto uma bruxuleante
-claridade. A rainha recolhera-se aos seus aposentos.
-Alguns camaristas, medico e serventuarios, vigiavam os
-restos d’aquella vida. Quando a apparencia d’um somno
-tranquillo se espalhou no rosto do doente, todos se retiraram
-para as salas proximas. O rei sentiu-se bem, só.
-Calculou que todos estariam despreoccupados da sua
-pessoa. Convencido d’isto, teve um sorriso de triumpho!
-Logo tentou erguer-se, fincando as mãos nos braços
-da cadeira. Mal se pôde mover! Estava entorpecido,
-o corpo pesado, a sensibilidade ausente. Terrivel
-e severo desgosto foi o seu, quando se viu nas condições
-de semelhança com um sapo hydropico! Reagiu
-corajosamente contra a inercia dos musculos e, n’este
-esforço de dignidade suprema, conseguiu levantar-se.
-Mas logo se sentou, para não cahir. A colera do seu
-espirito tomou proporções formidaveis, como o vento
-que arrasa florestas. Concentrou no combalido coração<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span>
-o antigo vigor da juventude, toda a coragem da mocidade.
-Queria supplantar este phantasma da impotencia,
-que se levantava deante dos seus olhos. Passando da
-cadeira a apoiar-se no rebordo d’uma meza, depois na
-hombreira da janella, apanhou a bengala de castão
-d’oiro e pedras preciosas, que lhe mandára de presente
-um papa, e conseguiu firmar-se em pé. Deu alguns passos
-cambaleantes; mas parecendo-lhe ouvir um rumor,
-parou de subito. Não era ninguem. A sombra do seu
-corpo projectada pela tenue luz estendia-se no pavimento,
-tremula de susto.</p>
-
-<p>Oh! fraqueza, oh! implacavel miseria humana! Este
-senhor poderoso, esse phantasma movendo-se tropego
-e cauto no silencio da noite, é o proprio Luiz XI aterrado
-diante das visões do seu cerebro! Foi-se abeirando,
-timido e com passo incerto, d’uma pequena estante
-entre duas janellas. Lançou mão d’um objecto que metteu
-no bolso do <i>robe-de-chambre</i>, furtivamente, como
-homem que andasse a roubar. N’esse momento a estante
-oscilou, o barulho attrahiu um creado.</p>
-
-<p>—Não preciso... não chamei...</p>
-
-<p>Tremia de medo, como creança encontrada n’uma
-travessura. Veio o medico e o camarista. Approximaram-se,
-ampararam-no até á cadeira, e reprehenderam-no
-amoravelmente.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span></p>
-
-<p>Desculpou-se com palavras de humildade e sujeição.</p>
-
-<p>Tentára esta experiencia para vêr se podia andar,
-sem o auxilio de ninguem. Querendo inferir, por si
-mesmo, da força e vigor de que dispunha, era necessario
-mexer-se no quarto só, sem que o vigiassem. Ainda
-estava vigoroso e forte—affirmou. Sentia-se com vida
-para muito tempo.</p>
-
-<p>Fortificaram-no n’esta ideia; porém retorquiam que
-fôra temeridade o que acabava de fazer. Podia ter cahido,
-dar com a fronte na esquina de uma cadeira e
-isto ser-lhe fatal, no estado de fraqueza em que ainda
-estava. Assim se interromperia uma boa convalescença,
-assim adquiriria novos padecimentos que podiam ser
-mais graves, muito mais graves do que os actuaes.</p>
-
-<p>Concordava em tudo, sorrindo. Porém, a tentativa,
-visto não ter dado mal nenhum, estava contente por
-têl-a feito. Atravessára o quarto sem auxilio, e era isso
-que até alli suppunha impossivel. Talvez no dia seguinte
-fosse ao gabinete contiguo, depois á varanda e
-finalmente ao jardim.</p>
-
-<p>—Poderei experimentar doutor?</p>
-
-<p>—Com precauções, meu senhor, com precauções.</p>
-
-<p>Discorreu ainda, com serenidade, alguns minutos.
-Estava evidentemente melhor, mais desafogado. Aquella
-experiencia tornára-o communicativo e alegre. Conseguira<span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span>
-ter vontade de dormir. Parecia-lhe que ia gozar um
-somno regalado e sereno. Os olhos estavam com tendencia
-para se fecharem. Que o deixassem só é que desejava.</p>
-
-<p>—Mas vossa magestade...</p>
-
-<p>—Não me levanto mais—atalhou. Palavra de rei.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Sahiram. Tudo ficou em paz e tranquillidade. O rei
-conservou-se largo periodo immovel, os olhos fitos
-n’uma armadura que estava de sentinella a uma porta.
-Concentrou toda a força dos sentidos, para reconhecer
-que o não vigiavam. A manhã surgia do infinito
-dos tempos. Os passaros começaram a chilrear nas acacias
-do parque. Ouviu-se o cantar lento e monotono do
-velho jardineiro, que por entre as flores regougava melopeias
-do seu paiz. Levantava-se, subindo e alargando-se
-como um nevoeiro que emerge d’um rio, o sussurro
-que fórma o dia—mistura de muitos sons. A creação
-universal ia engrandecer-se com um novo impulso
-do sol, n’este formoso dia de primavera.</p>
-
-<p>O rei tinha uma expressão firme de tenebrosa coragem.
-Tacteava com perspicacia, para encontrar no
-braço esquerdo o signal d’uma sangria, que em moço
-lhe haviam feito, pela queda d’um cavallo. Na mão brilhava-lhe
-uma pequena lamina de Toledo, obra de esmerado
-artista, com multiplicadas linhas d’oiro encrustadas<span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span>
-em ferro. Abandonava riqueza e fausto, sentia-se
-podridão e lama! Com a indomita coragem dos altivos
-e dos desventurados abriu a cicatriz quasi apagada.
-E emquanto esse sangue de rei escorria, gottejando no
-chão, o moribundo encostou a cabeça no espaldar alto
-da poltrona e com um sorriso de amargura, disse suspirando:</p>
-
-<p>—Acabou-se.</p>
-
-<p>Penderam-lhe os braços, a cabeça rolou para um
-lado, todo o seu corpo foi entregue ao supremo desleixo
-da morte!</p>
-
-<p>O segredo d’este acontecimento conservou-se nos
-intimos do palacio. O medico, ao contemplar o cadaver
-inerme, com a ideia nos soffrimentos que ainda estavam
-reservados ao monarcha se continuasse a padecer,
-concluiu:</p>
-
-<p>—Foi melhor assim!</p>
-
-<p class="date">Lisboa, janeiro 85.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/footer5.jpg" width="200" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header5.jpg" width="500" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<h2 id="A_MULHER_DE_LUCAS">A MULHER DE LUCAS</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Diga-nos, então, como foi essa historia do seu
-casamento; como é que a sua mulher fugiu
-de casa.</p>
-
-<p>—Ora... não fallemos de coisas tristes. Eu já lh’o
-contei e o senhor bem o sabe. Compram-me uma cautella?</p>
-
-<p>—Mas desejo—insisti—que este meu amigo oiça
-tudo da sua propria bocca...</p>
-
-<p>Sorriu, olhou interrogativo para nós ambos e perguntou:</p>
-
-<p>—Porque? Este senhor conhece-a?—E mudando
-para um tom energico e quasi enfurecido:—Sabe onde
-ella mora?</p>
-
-<p>Fizemos-lhe signal negativo, e Lucas retomando a
-sua expressão habitual de paciencia e doçura disse:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span></p>
-
-<p>—São coisas de que me não quero lembrar. Lá vae,
-acabou, leve o diabo paixões e mais quem com ellas
-engorda. Aquella mulher andou muito mal comigo...
-Eu fazia-lhe tudo quanto ella queria, dava-lhe muita libardade...
-Foi talvez por isso que recebi o pago que
-tive...</p>
-
-<p>—Alguem que a desencaminhou... alguma companheira...—insinuou
-o meu amigo.</p>
-
-<p>—Ná... ná... sempre teve aquella queda. Era
-muito chibante e espirituosa, não era senhora para
-mim. Foi uma asneira... Passou—resumiu tristemente.</p>
-
-<p>—Tambem não é tanto como diz. O Lucas estimava-a,
-e não se póde dizer um velho—consolei-o.</p>
-
-<p>—Ainda assim tenho mais vinte annos do que ella.
-Mas não fallo n’esse particular. Não era senhora para
-mim, que sou um bruto. Uma raparigona alta, bonita,
-bem feita, creada n’um collegio aqui de Lisboa, sabendo
-francez e grammatica, toda perluxa e bem fallante...
-não era casamento para o Lucas. A minha primeira,
-que Deus tem, é que estava na conta.</p>
-
-<p>—Você tambem foi cahir em se casar duas vezes!—disse
-o meu amigo. Lá n’uma, tenho ouvido dizer,
-quem quer cae.</p>
-
-<p>—Nem sei como isso aconteceu, meu senhor—confessou
-melancolico. Uma bebedeira que me passou na<span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span>
-cabeça. Ha dias que melhor fora a gente apparecer
-morto na cama. Luisa, a minha outra, era uma dona
-de casa. Quando morreu fez-me falta para o negociosito,
-que eu tinha lá na terra. O contracto dos gados
-trazia-me sempre por fora; chegava a ir á Galiza comprar
-bois. Uma pessoa para me ficar no estabelecimento,
-era-me bem necessaria. Depois o achar-me só, em casa,
-principiou a dar-me para o figuedo, e sem uma companheira
-vivia triste como uma lesma. Até me lembrei de
-me afogar. Teria sido melhor—rematou olhando para
-o chão, a cofiar a barba reles.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>—Pelo que vejo gostava muito da sua primeira mulher...</p>
-
-<p>—Assim... Era muito doente, mas boa creatura.
-Quando morreu fiz-lhe um enterro de truz. Nunca lhe
-pude arrancar um filho, por mais dinheiro que com ella
-gastei em medicinas e promessas. Aquillo era molestia
-das entranhas. Morreu esmaleitada como a cera e magra
-como um guiço. Passei uma ralação, sempre a por-lhe
-cataplasmas e a dar-lhe chás de noite, por causa dos
-ataques. Dava gritos que acordavam a visinhança. Arrotos<span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span>
-que pareciam tiros de espingarda. O ultimo mez,
-não preguei olho e já não podia... Veio então a
-Joanna, a irmã d’ella, que me ajudou a levar aquillo até
-ao fim. Essa é que era boa mulher para mim: geitosa,
-perfeitaça, trabalhadeira e rija como o ferro. Mas tinha
-tido uma falta, com um rapaz que depois embarcou
-para o Brazil, e eu n’essas coisas sempre fui muito dos
-diabos.</p>
-
-<p>—Pois, attendendo ao futuro, tinha sido melhor ter-se
-casado com essa sua cunhada—disse o meu amigo,
-presumindo já, que ao bom do Lucas, lhe haviam succedido
-coisas da breca.</p>
-
-<p>—Oh! que se a gente advinhasse, quantas vezes melhor!...—exclamou
-como quem se sentia applaudido
-n’um pensamento secreto. E a coisa vinha a fazer-se,
-mais tarde ou mais cedo; porque eu bebia os ares pela
-moça. Mas logo a má sorte, me levou lá para a casa
-fronteira, o major com a sobrinha...</p>
-
-<p>—Talvez filha—insinuei.</p>
-
-<p>—Não—respondeu vivamente offendido—era de
-gente casada. Até creio que de familia muito nobre, cá
-de Lisboa. Pelo menos ella assim o dizia e acreditem
-os senhores que tinha geitos d’isso. Morreu-lhe o pae,
-a mãe e não lhe deixaram uma de X. Foi então que o
-major de quem eram parentes e quando ainda era capitão<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span>
-metteu, á sua custa, a pequena n’um collegio.
-Isso lá de educação e sabença, não acredito que haja
-outra que se lhe ponha adeante. O major depois adoptou-a
-como filha e trazia-a sempre comsigo.</p>
-
-<p>—Nada ahi anda historia, ella era filha do major—insistiu
-o meu amigo.</p>
-
-<p>—Não era—certificou com rosto circumspecto—não
-era, sério. Eu vi-lhe a certidão d’edade, quando se
-tirou a licença. Era de gente casada e até fidalga, diziam-no
-todos. Mas faltava-lhe dinheiro; porque o major
-para a educar, teve de pedir ajuda aos outros parentes.
-Mas deu-lhe um saber de truz. Eu nunca vi senhora
-mais distincta!—repetiu com ostentação.</p>
-
-<p>—E depois o tal major, sabendo que o Lucas tinha
-o seu pataco, impingiu-lha.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Conservou-se alguns momentos silencioso e ar dubidativo.
-Em seguida esclareceu:</p>
-
-<p>—São sortes. Elles vieram morar em frente da minha
-casa. As filhas d’um visconde que havia na terra,
-iam pra lá aprender o francez, o piano e a grammatica.
-Porque aquillo é uma senhora que sabe tudo—repetiu<span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span>
-com vaidade. E bem fallante? nunca vi outra!
-Aquelles janotas iam conversal-a da rua para a janella
-e ella sota e az a todos. Que regalo de mulher! O delegado
-que lá estava ao tempo, disse deante de mim
-que em philosophias, não encontrára senhora como
-aquella. Vi muitos homens embasbacados a ouvil-a. E
-que homens! O desembargador João Xavier que era
-conhecido em toda a parte. Caramba! que mulher tão
-esperta!—pronunciou batendo uma palmada na coixa.
-Pena é que tenha a cabeça leve como uma folha secca.</p>
-
-<p>—E vae, todo cheio de enthusiasmo, namorou-se da
-lisboeta...—presumi.</p>
-
-<p>—Não senhor—esclareceu—nem tal me passava
-pela lembrança, se não fosse ella. Eu bem via que não
-era homem para aquillo. Ella é que principiou comigo
-de volta, a rir-se para mim, a espreitar pela frincha da
-janella, a fazer-me tagatés... Não sabia o que tudo
-isto queria dizer, palavra d’honra! Olhava para mim e
-via que não podia ser. Principiei a andar assim a modo
-de esquisito, a não saber o que tinha. Um dia diz-me
-ella, sem <i>tirte</i> nem <i>guarte</i>, que eu era um viuvo ainda
-muito geitoso. Fazem lá ideia! Logo que ouvi tal,
-d’aquella bocca linda como a maçan camoesa, e com a
-graça e esprito que ella tinha em todas as coisas, senti
-cá por dentro taes esfregações, que não fazem uma<span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span>
-ideia! Caramba! até perdi o comer! Andava assim a
-modo de tonto, pesava as coisas tão mal na loja, que
-era uma risota. E então securas? Todo eu era um forno.
-De noite principalmente passava o tempo a beber agua
-e em vez de dormir vinha-me prantar á janella, com os
-olhos pregados na casa onde morava aquelle demonio
-tentador, que foi a minha desgraça.</p>
-
-<p>—Era uma paixão—conclui.</p>
-
-<p>—E uma paixão furiosa—acrescentou o meu amigo.</p>
-
-<p>—Sei lá que diabo era! Foi uma grande bebedeira.
-Parece que me tinham dado alguma bruxaria a comer.
-D’ahi por diante nunca mais dei conta de mim. Não era
-Lucas Baptista que fallava, era outro homem. Tinha-a
-sempre diante dos olhos, quer de dia, quer de noite. As
-santas da egreja, inclusiva Nossa Senhora—Deus me
-perdoe!—pareciam-me feias em comparação d’ella. Um
-dia tirei-me dos meus cuidados e pilhando-a a geito na
-janella disse-lhe: «Uma casa sem uma dona é triste como
-um campo de milho sem sacho!»</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>—E ella entendeu-o?</p>
-
-<p>—Sei lá! Deu uma gargalhada e sahiu da janella.<span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span>
-Fiquei assim a modo de parvo. Se se tivesse rido de
-mim, se andasse a fazer chacota, é porque me ia deitar
-na levada da azenha e nunca mais appareceria. Mas
-voltou logo depois e com um sério muito sério, pôz o
-dedo no nariz a dizer-me que lhe não fallasse assim da
-rua, que lhe podia arranjar alguma fama. Eu então tive
-um baque no coração e disse de só para só: «Ella quer!»
-Logo que encontrei modo perguntei-lhe em segredo:
-«Deseja a menina ser a dona d’esta casa?» Mas quando
-estas palavras me sahiram da bocca, vi abrirem-se-me
-debaixo dos pés as chammas do inferno.</p>
-
-<p>—Porque! Ella disse que não?—perguntou o meu
-amigo.</p>
-
-<p>—Qual! Pois isso é que foi. O demonio da serpente
-tentadora, com uns olhos d’uma maganice que os senhores
-não fazem ideia, responde assim, para só eu ouvir:
-«Isso é com meu tio!» E sae da janella, indo tocar
-no piano uma modinha de que eu gostava tanto
-que até me fazia arrepios. Caramba! Aquillo fez-me
-cá por dentro tal arrepanho, deu-me tanta alma e coração,
-que desejava ter de meu o mundo inteiro, só
-para lh’o dar e fazel-a princeza. Podia lá ser! Um velho,
-um estupido, que só sabia pesar arroz e bacalhau
-e contractar em gados, casado com aquella senhora, tão
-bem fallante e tão linda!... Eu só queria que os senhores<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span>
-conversassem com ella! Desembaraçada e litterata
-como aquillo não ha. Vá lá o mais poeta dar-lhe
-mote, sem vir com a cara a um lado! Os paes d’ella
-eram gente grauda cá de Lisboa e o tal tio, honra lhe
-seja, deu-lhe educação de espavento. Ainda hoje lhe
-quero bem só por isso! A tal viscondessa de quem a
-D. Rozita do major, (era assim que lhe chamavam lá
-na terra) ensinava as filhas, era uma creada ao pé
-d’ella. Uma senhora de mão cheia, lá isso valha a verdade.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>—O amigo Lucas sabe a historia da nossa mãe Eva
-e a da maçan que Adão comeu?—perguntei.</p>
-
-<p>—Ouvi bastas vezes explicar isso lá ao abbade.
-Pois a gente não é de pau, é de carne e osso, caramba!
-Logo n’esse dia o major entrou-me na loja a comprar
-charutos. Era assim um home todo arroganças, sempre
-a retorcer os bigodes e a dar com o chicote nas calças.
-Ainda bem conservado, talvez uns dez annos mais velho
-do que eu. Chamei-o para traz d’umas saccas d’assucar,
-que lhe queria dar duas palavras, em particular.
-A minha loja era grande como um armazem! Fazia
-muito negocio e todos os mezes tinha pagamentos de
-duzentos, quatrocentos e mesmo seiscentos mil réis aos
-caixeiros do Porto, que iam ás cobranças. Ás vezes
-havia mais que um pagamento. Bah! nem me quero
-lembrar! Tudo perdi, por causa d’aquella má mulher,
-que foi a minha perdição. Nunca mais a tornei a ver,
-não sei onde diabo se metteu; mas se um dia a encontro,
-ainda perco a cabeça e chacino-a, como se faz aos<span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span>
-porcos. Para mim hoje tanto se me dá da costa d’Africa,
-de morrer no Limoeiro, ou d’um tiro, como se me dá
-da primeira camisa que vesti—terminou com desespero.</p>
-
-<p>—Mas o major. O que disse o famoso major?—perguntou
-interessado o meu amigo.</p>
-
-<p>—Ora... uma lenga, lenga. Principiou macambusio,
-a retorcer os bigodes... Eu que nunca fui medroso,
-nem peco, pois muitas vezes venci a tiro os guardas de
-alfandega na raia, por causa do contrabando, tremia
-como varas verdes. Se elle me diz que não, espetava
-uma faca na minha propria barriga. Porém, não disse.
-Mastigou em secco... mastigou... que era o diabo;
-grande differença de edades; ella sempre tinha vivido
-com muita decencia, mas não tinha nada de seu; que
-eu precisava de outra mulher... E dava com o chicote
-pelas saccas do assucar, e encolhia os hombros e
-passeiava d’um lado para o outro, sem atar nem desatar.
-Este aranzel puchou por mim e disse: «Ó senhor
-major, eu bem sei que a não mereço; mas se ella, assim
-mesmo como eu sou, me quizer e se eu tiver meios
-com que lhe conservar todo o luxo que tem, o senhor
-não diz que não?»</p>
-
-<p>—Ora, agarrou-lhe com as duas mãos—entendeu o
-meu companheiro.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span></p>
-
-<p>—Não é tanto assim! Que não tinha nada com isso.
-Tinha-a creado; mas não era sua filha. Demais já tinha
-passado a edade, podia fazer o que quizesse. O que
-lhe custava era separar-se d’ella.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>—Ainda é vivo o major? perguntei.</p>
-
-<p>—Não senhor, morreu d’um ataque, era um grande
-borrachão. Só o vinho do Porto que elle me bebeu lá
-da loja?! Ficou-me a dever mais de cem mil réis! Adiante.
-Por ultimo disse que sim; mas pediu-me quasi a
-chorar que a tractasse bem, que elle sempre a educára
-muito mimosa.</p>
-
-<p>—Estava tudo resolvido.</p>
-
-<p>—É verdade, uma infelicidade. A gente não sabe onde
-as tem armadas. Fomos casar ao Bom-Jesus de Braga
-e gastei mais de vinte moedas em tudo isso. Foi
-ella que assim o quiz. O tio major pilhou uma borracheira
-que chegou a estar de cama! Ao fim de tres dias
-voltamos para a terra n’um carro fretado ao Franqueira.
-Pareciamos uns fidalgos. Foi talvez o luxo que a
-perdeu, coitada, e a mim tambem—considerou com
-tristeza. Porque ella não era má, os senhores podem<span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span>
-acreditar; mas o janotismo deu-lhe volta ao miolo, como
-acontece a quasi todas as mulheres, para mal dos
-maridos—concluiu philosophicamente.</p>
-
-<p>—Não foi só isso, talvez—repliquei. Ora confesse,
-amigo Lucas. O outro era ahi algum rapaz novo e janota...</p>
-
-<p>—Que!... Não senhores—interveio com vivacidade—um
-gebo como eu! Não me troco! Assim um
-gordo, de cara espapada e barbicha de cabrito. Não
-me troco. Essa é que é toda a minha matacão. Se Rosa
-fosse para onde algum rapaz novo e bem parecido...
-vá. Sou velho e não me tenho por home que a mereça.
-Mas para esse bruto com quem ella está! Ainda
-que eu viva cem annos, não me posso consolar! Que
-posição tem elle?... (interrogou-se). Uma logita alli
-para os lados de S. Paulo. Ora abobora!... O bicho
-mulher não ha ninguem que o entenda!</p>
-
-<p>—Realmente não se percebe bem, a loucura de sua
-mulher—reflectiu o meu amigo. O senhor tractava-a
-mal, batia-lhe?</p>
-
-<p>—Eu!? Eu bater-lhe?! O senhor está a caçoar comigo!
-Só o que queria saber é onde ella desejaria passar,
-para ir beijar o chão onde pozesse os seus pés.
-Fazem lá ideia! Aquillo para mim não era uma mulher,
-era uma santa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span></p>
-
-<p>E as lagrimas cahindo-lhe a quatro, Lucas acrescentou:</p>
-
-<p>—Até é uma vergonha, o chorar ainda por aquella
-ingrata! Não está mais na minha mão.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>—Então não comprehendo—insistiu o meu amigo—como
-depois de o querer para marido, o regeitou.</p>
-
-<p>—Pois eu comprehendo muito bem, com sua licença.
-A questão é que ella casou comigo, para vir para
-Lisboa. Depois da bôda não nos demoramos quatro
-mezes lá na terra. Principiou aquelle demonio a atanazar-me,
-que não podia viver alli, que o negocio não
-prestava e como o tal tio já tinha morrido, metteu-me
-na cabeça, que aqui em Lisboa, eu podia ganhar mais
-dinheiro. Isto lá me custou, porque eu bem via ser uma
-asneira. Mas ella tanto fez e eu com este meu fraco por
-aquella sereia, não tive remedio. Viemos e os primeiros
-quatro mezes foi uma pandiga. Enguliu-se um conto
-de reis, em carros, em theatros e com amigos que logo
-arranjei no hotel da rua da Prata, onde estavamos.
-Muitos d’esses, hoje, nem me compram uma cautela, só
-para me não fallarem. No fim d’isto eu que via sumir-se<span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span>
-o dinheiro disse-lhe: «Mulher, as libras acabam-se, é
-preciso arranjar algumas.» Ella então teve a ideia de
-pôrmos uma loja de capellista, onde ella estivesse a vender,
-para chamar freguesia. Para chamar freguesia!—exclamou
-indignado e ironico.—O que eu merecia era
-com uma moca no toutiço! A freguesia de que ella
-precisava sei eu! Era com um marmeleiro!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>—Então foi ahi que ella...</p>
-
-<p>—Não senhor. O tal gebo conhecemol-o á mesa do
-hotel e no theatro da rua dos Condes. Á mesa estava
-o machacaz em frente de nós, sempre a offerecer genebra
-ou vinho do Porto. Por isso, quando a gente arranjou
-a loja, que foi alli para a Sé, o janota lampana,
-não me sahia de lá e era dos melhores freguezes de charutos
-que a gente tinha. Fazia-se muito amigo e eu que
-sempre fui um simples, contei-lhe a minha vida e confessei
-que o negocio não dava para os gastos. No fim
-d’um anno pouco havia dos cinco contos que trouxera
-da terra! Pois elle, com um estadão como eu tinha,
-sempre de grande e á franceza, passeios aos domingos,
-carros, bailes de mascaras!... E querem os senhores
-saber?... Foi a desavergonhada (eu a este tempo,
-sou capaz de jurar sobre umas <i>Horas</i>, como ella ainda
-não era má mulher!) que me lembrou fallar com o Gonsalves
-(era o tal!) para elle me aconselhar alguma coisa,
-em que se ganhasse dinheiro. Fallei n’isso ao cara<span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span>
-de demonio e logo muito prompto me disse que mettesse
-o que me restava em negocio de vinhos de Torres,
-que dava muito. Foi até elle que me arranjou conhecimentos.
-Por este motivo principiei a andar dias e
-dias por fóra de casa, por um lado e pelo outro, sempre
-n’uma fona.</p>
-
-<p>—Ahi é que bate o ponto. O que elle quiz foi afastal-o
-para longe.</p>
-
-<p>—Pois!... Eu nunca pequei por esperto. Penso
-que toda a gente é de boa fé, como eu!... N’esta
-coisa de cauteleiro em que ando, tenho aprendido
-muito. Hoje nem o mais pintado.</p>
-
-<p>—O negocio de vinho fel-o perder a mulher e o dinheiro—raciocinou
-o meu amigo.</p>
-
-<p>—Como diz; porque logo que, por uma carta anonyma,
-vim a desconfiar d’aquella ingrata peguei de vigial-a
-e para melhor o fazer vendi todo o vinho de repente
-e com perca grossa. Um dia disse-lhe: «Mulher,
-tem juizo, porta-te bem, olha que a honra não ha dinheiro
-que a pague!» Respondeu-me que não fosse tolo
-e voltou-me as costas. Com o fim de estar perto d’ella,
-arranjei coisa para ficar em Lisboa. Uns amigos afiançaram-me
-em algumas casas de commercio, para eu andar
-a receber dinheiro. Ella ralhou-me por isso e disse
-que havia de ser grande o meu ganho. Eu respondi:<span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span>
-«Para o que tu precisares nunca te hade faltar. Ainda
-que eu venda o meu corpo ao diabo, terás sempre para
-os teus alfinetes.» Sabem com o que me veio?: «Eu
-quero continuar a ir aos theatros e dar os meus passeios.
-Não hei de estar toda a minha vida mettida n’um
-buraco.»</p>
-
-<p>—Tinha aspirações, vê-se.</p>
-
-<p>—Tinha o diabo no corpo, é o que ella tinha. Eu
-não lhe merecia o pago que me deu. Trabalhava como
-um mouro, só para que ella tivesse tudo. Não havia
-chuva, não havia vento, não havia calor para mim.
-Sempre a correr por essas ruas e então que estáfas! Ás
-duas por tres, cahia-lhe na loja como quem vinha de
-passagem e sabe Deus se não tinha dado uma carreira
-de Alcantara até á Sé, só para ver se havia alguma novidade.
-Os senhores riem-se? É porque não sabem o
-que isto é. Chegava todo esbaforido, o coração aos pulos
-no peito, e sempre com aquella mulher deante dos
-olhos a enganar-me. Não comia, não dormia descançado,
-um verdadeiro inferno!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>—Afinal vê-se que gostava muito d’ella—insinuei.</p>
-
-<p>Respondeu com vivacidade:</p>
-
-<p>—Isso, mesmo cá de dentro. Tinha-me por força
-dado alguma bruxaria. E que mal me pagou! Já não
-lhe pedia que me tivesse amor. Bem sei que não podia
-ser, que sou um velho e um ninguem; mas não devia
-fazer o que fez. Na noite em que, morto de fome e de
-frio, entrei em casa depois de ter andado todo o dia
-n’uma roda viva, e não a encontrei, cahi no chão como
-uma pedra. Tornei a mim, quando a vela do castiçal
-estava gasta. A casa em desordem, os bahus e gavetas
-abertas, como se tivessem andado ladrões! Aquella
-mulher perdida não se contentou em me deixar, levou
-tudo quanto havia de bom, e fiquei com a triste camisa
-do corpo. Chorei mais do que quando morreu
-minha mãe! Durante tres dias, quasi sem comer, nem
-beber, corri toda a cidade pelos botequins, pelas casas
-de pasto e restaurantes, pelos theatros com um revolve
-carregado a ver se os encontrava. Haviamos de morrer<span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span>
-todos tres. A ella tinha vontade de lhe beber o sangue
-por uma tigela e a elle de lhe fazer a cabeça n’um
-bolo. Se os encontro havia de me vingar até ao fundo
-d’alma!</p>
-
-<p>—E ainda gosta d’ella?</p>
-
-<p>—Gosto sim senhor, gosto. Para que hei de dizer
-que não? É o meu peccado.</p>
-
-<p>Teve novas lagrimas nos olhos, que desejou esconder
-de nós, voltando-se para a parede.</p>
-
-<p>—Se ella o tornasse a procurar?</p>
-
-<p>—Não me falle n’isso! Ferve-me o sangue! Se um
-dia a vejo...</p>
-
-<p>—Ah! nunca mais a encontrou?—pergunta o meu
-amigo.</p>
-
-<p>—Já disse que não senhor. Sei onde mora, porque
-conheço a casa d’esse excommungado que m’a furtou;
-mas a ella nunca mais lhe puz os olhos em cima. Pois
-é admiração! Com este meu modo de vida das cautelas
-e dos jornaes, corro toda a cidade. Nem nos theatros,
-nem nos dias de procissão, nem no Passeio. Aquillo
-é que só vae á missa cedo e não torna a sahir—considerou
-melancolico.</p>
-
-<p>—E se um dia a encontra?</p>
-
-<p>—Mato-a! mato-a, com toda a certeza!—disse exaltado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span></p>
-
-<p>Depois mudando rapidamente de tom concluiu:</p>
-
-<p>—Não mato, não mato... Adeus meus senhores,
-não me apoquentem.</p>
-
-<p>E distanciou-se quasi suffocado pela dôr.</p>
-
-<p class="date">Março de 85.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/footer6.jpg" width="200" height="125" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header6.jpg" width="500" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<h2 id="DOIS_CATURRAS">DOIS CATURRAS</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-n.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Nas serenas tardes de verão, dormida a sésta
-regulamentar, o dr. Leandro e frei Antonio,
-costumavam ir dar juntos um passeio. Sempre
-methodicos e taciturnos sahiam de casa á hora conveniente,
-para se encontrarem junto da igreja, sem esperarem
-um pelo outro. A menor falta n’este ponto,
-um simples minuto de tardança, era caso para recriminações
-da parte do que chegasse primeiro, recriminações
-manifestadas em monosyllabos de desgosto e n’uma
-ou n’outra phrase curta e rapida, atirada para o silencio
-com pronuncia desdenhosa: «Pegou-lhe bem na somneca»,
-«Ficou abarrotado com o jantar», «Isto foi pinga
-de mais...» Mas depois seguiam cabisbaixos pela encosta
-acima, as mãos cruzadas sobre os rins, as bengalas
-pendentes, e paravam de vez em quando, para tomar<span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span>
-um pouco d’ar. Junto da ermida da Senhora do
-Amparo, d’onde se disfructa uma paizagem restricta e
-pacificadora, cada um ia-se sentar no seu banco de pedra,
-á distancia d’alguns metros, como se fossem desconhecidos.
-E o frei Antonio, homem d’um fundo de
-bondade mais rancoroso, depois de saborear a primeira
-pitada, costumava dizer avulsamente, referindo-se a uma
-collina fronteira:</p>
-
-<p>—Como é bello aquelle monte lá em cima! E é-o
-por ser unico!...</p>
-
-<p>Leandro, fingindo que não ouvira, monologava:</p>
-
-<p>—Pena é não haver outro monte igual, do lado
-d’acolá, por causa da symetria!... Seria incomparavelmente
-mais bello!</p>
-
-<p>Estas palavras, já significavam uma tregua e uma reconciliação.
-Eram ironias mansas ao fim de muitos annos
-de argumentos, em viva polemica, esmorraçando
-mesas, quebrando cadeiras que atiravam ás paredes
-juntas com apostrophes. Porém nunca cederam, nem
-uma pollegada, n’este valioso ponto de esthetica que
-os separava. Frei Antonio sempre partidario da <i>unidade</i>,
-da simplicidade absoluta, e por extensão de principio
-do pernão, detestava o <i>par</i>. Tinha orgulho em ser
-padre, só por causa do celibato. No seu casaco sacerdotal
-e na ampla batina usava um unico bolso, para<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span>
-n’elle incluir todas as coisas do seu uso—a caixa, as
-chaves, o lenço vermelho, um pequeno breviario...</p>
-
-<p>E justificava-se:</p>
-
-<p>—Em quanto usei muitos, nunca encontrava o que
-queria. Agora é só metter a mão e prompto. A caixa?...
-Aqui. (mostrava-a). O breviario?... Eil-o. As
-chaves? o lenço?... Tudo, n’um ai.</p>
-
-<p>Exhibia os objectos com o semblante glorioso d’um
-prestimano. Era agressivo e até insolente para todos
-que lhe não acceitavam a invenção. Mostrava-se propagandista,
-loquaz, capcioso, argumentado pelo seu
-lado.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>O dr. Leandro deleitava-se com a opinião diametralmente
-opposta. Pela unidade e por tudo quanto era
-impar tinha mais do que desdem, tinha desprezo. Dizia,
-como phrase de sentença, que a natureza nunca
-podia ser manca. Para irritar o seu amigo, na presença
-de muita gente, extasiou-se diante da insignificante
-igreja de S. Francisco, só porque tinha duas torres
-iguaes. Fingiu-se enthusiasmado, mostrando um pasmo
-acintoso e offensivo, e exclamou com os braços abertos:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span></p>
-
-<p>—Que bello! Olhem como são perfeitamente iguaes!
-Como é sublime a symetria!</p>
-
-<p>Frei Antonio sorriu amargamente, encolhendo os hombros,
-e respondeu com mal desvanecido azedume:</p>
-
-<p>—Deus, a suprema perfeição, é <i>Um! Um só!</i></p>
-
-<p>E espetando o dedo no ar demorou-se com elle,
-vingadoramente, diante do nariz do doutor, que objectou:</p>
-
-<p>—Mas Jesus Christo, a encarnação do pae, tinha
-duas naturezas, divina e humana.</p>
-
-<p>O sacerdote enchendo-se de cordura disse-lhe:</p>
-
-<p>—Não gosto de metter n’isto o divino; mas podia
-responder que sendo tres,—<i>tres!</i>—sublinhou com emphase—as
-pessoas da Santissima Trindade, essas mesmas
-se reduzem a <i>uma</i>.</p>
-
-<p>—É tolo—ainda acrescentou o outro.—Não sabe
-que pela conta do marinheiro, as pessoas da Santissima
-Trindade são dez.</p>
-
-<p>—Que diz você seu hereje!—cresceu o sacerdote
-indignado.</p>
-
-<p>O doutor explicou tranquillamente:</p>
-
-<p>—Pois não sabe? Olhe. As pessoas da Santissima
-Trindade são tres; Padre, Filho, Espirito santo—seis;
-tres pessoas distinctas—nove; um só Deus verdadeiro
-—dez.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span></p>
-
-<p>Os circumstantes riram-se; o frade afastou-se trombudo;
-e, por agora, o advogado ficou victorioso, mostrando-o
-d’um modo saliente.</p>
-
-<p>Como andavam sempre juntos, de momento a momento
-se levantavam novas birras. O dr. Leandro, que
-era magro, pertinaz e acintoso estava sempre a espicaçar
-o egresso. Nunca o convidava para jantar, sem
-que o numero de convivas fosse par. Levava-os ao jardim
-para verem as flores e notava-lhes, sempre com insistencia,
-que as disposera pelo systema de parelhas
-(<i>de coices</i>—acrescentava o frade). Se tinha de abrir
-uma janella procurava logo estabelecer uma corrente
-d’ar, escancarando outra, o que endiabrava o clerigo,
-que vivia no terror das constipações. Em tudo se mostrava
-o rancor d’estes dois irreconciliaveis amigos. Indo
-no seu habitual passeio, se encontravam alguem a cavallo,
-o sacerdote aproveitava logo o momento para
-dizer:</p>
-
-<p>—Bonita egua! Não haverá outra como ella, para a
-emparelhar?</p>
-
-<p>O dono, se era vaidoso, respondia indubitavelmente:</p>
-
-<p>—Nunca a encontrei. Pois tenho corrido um rôr de
-feiras!</p>
-
-<p>O sacerdote insuflava n’um sarcasmo mordente:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span></p>
-
-<p>—É porque não procurou bem. Aqui este senhor
-era capaz de lh’a arranjar.</p>
-
-<p>—Pois não arranjaste!—duvidava o dono da egua.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>O doutor procurou immediatamente a sua desforra.
-Logo que viu <i>O das perdizes</i>, na sua carruagem puchada
-pela ostentosa parelha de baios, disse-lhe:</p>
-
-<p>—Ó Pessanha! Se esses teus cavallos fossem differentes
-era muito melhor, diz aqui o frei Antonio.</p>
-
-<p>—Pelo amor de Deus! não valiam dois patacos!
-Uma parelha assim, é muito mais cára.</p>
-
-<p>O frade resmungou.</p>
-
-<p>—<i>Variatio deletact</i>, meu fidalgo. D’essa maneira até
-fazem mal á vista.</p>
-
-<p>E quando se distanciou a carruagem, disse o sacerdote
-avulsamente:</p>
-
-<p>—O universo é um.</p>
-
-<p>—Os mandamentos da lei de Deus são dez e reduzem-se
-a dois.</p>
-
-<p>—Já lhe fiz saber que não gosto de metter n’isto o
-divino, e lembro-lhe que a gente faz cada coisa por
-sua vez.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span></p>
-
-<p>O doutor apostrophou-o:</p>
-
-<p>—Quantos olhos tem o senhor na sua cara?!...</p>
-
-<p>—E não via as coisas muito melhor se tivesse um
-só, na testa por exemplo, como os Cyclopes? Até não
-havia o perigo de se entortarem.</p>
-
-<p>Leandro insistiu:</p>
-
-<p>—Quantas pernas tem o senhor? quantos braços?</p>
-
-<p>—E por quantas boccas come e diz asneiras o meu
-amigo! Por quantas gargantas engole?—arremetteu o
-frade. O que o senhor tem decerto, é dois juizos e nenhum
-d’elles vale tanto, como o casco d’uma cebola
-podre.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Estava-se nas vindimas. O advogado ía todos os annos
-para a Feitosa e acompanhava-o alli durante algum
-tempo frei Antonio. Era um costume já antigo. Leandro
-quiz d’esta vez apertar com <i>argumentos materiaes</i>
-a paciencia do sacerdote. «É preciso provar ao latinista—pensou—que
-vale mais do que um simples
-casco de cebola podre, o meu juizo.» Logo que frei
-Antonio chegou á Feitosa, onde o doutor já o esperava,
-feriu-o uma novidade nos antigos e sustentados habitos
-d’aquella casa:—era a existencia de duas mezas
-de jantar, uma para cada um. O doutor só deu esta explicação:</p>
-
-<p>—O senhor tem o seu systema, eu cá tenho o meu.</p>
-
-<p>E na meza de Leandro havia dois talheres, dois pedaços
-de pão e duas canecas de vinho. Em frente d’um
-dos pratos estava uma cadeira, com um travesseiro a
-fingir de pessoa e esse travesseiro tinha um chapeu na
-cabeça, um bigode de sedas de cavallo e conservava-se
-impertigado, n’um sentido de troça.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span></p>
-
-<p>O sacerdote, teve um riso amarello, fingiu que chasqueava
-e observou com grandeza de animo:</p>
-
-<p>—Tambem é a unica companhia que merece.</p>
-
-<p>E foi-se sentar á sua meza, que tinha tudo estrictamente
-para um; mas em quantidade muito resumida,
-tanto de vinho, como de pão. Depois de se ter sugeitado
-heroicamente a esta prova durante alguns dias, tomou
-a resolução de assentar junto de si dois bonecos
-de palha, pedindo que lhe servissem os seus companheiros.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>O doutor, que se não quiz mostrar vencido, levou
-ainda mais longe a premeditada vingança, ordenando
-que no quarto onde sempre ambos dormiam, houvesse
-uma só cama. Frei Antonio, um tanto perturbado,
-quando á noite viu isto, perguntou á velha Joanna:</p>
-
-<p>—Quem diabo vem a ficar aqui?</p>
-
-<p>—Os senhores ambos. Ora o demo da brincadeira
-dos homes!</p>
-
-<p>E o advogado accrescentou:</p>
-
-<p>—Em coisa de cama sou pela unidade. As ultimas
-chuvas tem arrefecido o tempo.</p>
-
-<p>Ora, se havia coisa no mundo á qual o sacerdote<span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span>
-preferisse a morte, era a dormir com outro. Homem
-gordo, d’um suar facil, impaciente no sonho, gostava de
-roncar á vontade, de alargar as pernas e deitar os braços
-de fóra, quando lhe approuvesse. Antes passar a
-noite no chão, n’uma mangedoura, ou sobre tôjo!...
-Desde que outro padre, n’uma estalagem de Tras-os-Montes,
-o atirára da cama ao chão, estando elle a dormir
-e tendo por essa occasião ferido a testa e o nariz
-nos cacos d’um objecto que se quebrou, nunca mais
-acceitou companheiro de dormida.</p>
-
-<p>Leandro sabia que o atacava no ponto mais fraco. O
-frade disse simplesmente, em tom resoluto:</p>
-
-<p>—P’ra graçola é de mais! Bem sabe que não durmo
-com outro. Então monto a cavallo e vou-me <i>já, mesmo
-de noite</i>, embora.</p>
-
-<p>—Pelo que vejo, a respeito de cama... para dois...
-duas?!—disse com ironia o doutor, mostrando-lhe a
-outra que estava n’um quarto proximo.</p>
-
-<p>E como não concluira ainda a sua argumentação pelos
-<i>materiaes</i>, quando no dia seguinte, frei Antonio procurava
-os butes, para ir dizer a missa conventual, a que
-se compromettera, encontrou sómente um. Sem ainda
-calcular a significação do acontecimento, veio á porta
-em palmilhas de meias, e gritou pela frincha que abriu:</p>
-
-<p>—Ó Joanna! O outro bute?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span></p>
-
-<p>—Pergunte por elle ao senhor doutor.</p>
-
-<p>O ecclesiastico comprehendeu e disse zangado:</p>
-
-<p>—Mau! mau! mau que m’arrenego!</p>
-
-<p>Então Leandro, com ingenuidade fingida, respondeu-lhe
-do quarto:</p>
-
-<p>—Passou ahi hontem um pobre, descalço d’um pé e
-dei-lho. O amigo tem na realidade dois pés?</p>
-
-<p>Frei Antonio, com ar apopletico, em mangas de camisa
-e em palmilhas, o grosso tronco batido pela luz
-da janella do corredor, retorquiu energicamente:</p>
-
-<p>—Tenho sim senhor e você tem quatro. Ponha cá
-o bute e deixemo-nos de chalaças. Já tocou ha um pedaço.
-Se essa gente fica sem missa por causa das suas
-brincadeiras... quero ver.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Isto passava das marcas. O sacerdote procurou um
-meio de tirar a desforra. Havia de ir ter-lhe ao bolso,
-que era aonde doia mais ao sovina do Leandro. No
-<i>Bracarense</i> da vespera annunciava-se a proxima chegada,
-á cidade dos Arcebispos, da actriz Emilia das Neves,
-tão celebre e tão gabada, que alli ia representar no
-theatro de S. Geraldo. O padre, encobrindo ruins intentos,
-convidou o doutor para irem a Braga. O advogado
-chasqueou-o por esta manifestação de mundanidade,
-porém o ecclesiastico explicou-se com modo
-circumspecto:</p>
-
-<p>—Não que ella só representa dramas sacros. Nem
-o senhor Arcebispo, consentia outra coisa, na sua cidade.</p>
-
-<p>Combinaram-se n’uma apparente harmonia, acceitando
-ambos este periodo de tregua. O frei Antonio fazia
-de bolsa. Como era expedito, sagaz e conhecia
-Braga, o seu amigo facilmente lhe entregou a administração
-das finanças communs. Porém, mal conhecia o<span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span>
-advogado o que podia dar o rancor d’um frade, que é
-espicaçado no que elle tem de mais precioso, o appetite.
-As humilhações, as zangas, a quasi fome d’alguns
-dias na Feitosa, haviam dado ao rotundo ecclesiastico
-um faro agudissimo de vingança. Logo na diligencia
-principiou por comprar tres bilhetes, entregando dois
-a Leandro que observou seccamente:</p>
-
-<p>—Na verdade eram bem precisos tres logares, attendendo
-a que o senhor não é um homem, é uma
-pipa.</p>
-
-<p>Em Braga, no Transmontano, o doutor notou que
-o dono da hospedaria, um velho coxo e rabugento,
-que estava sempre a praguejar deante do forno, se ria
-descompostamente a tudo quanto lhe segredava o seu
-velho amigo frei Antonio e que dissera depois d’um
-d’esses colloquios:</p>
-
-<p>—Então afinfa-lhe? Trinca-lhe bem e entorna-lhe melhor?
-Vae valido.</p>
-
-<p>E tambem percebeu que o sacerdote accrescentára:</p>
-
-<p>—Tudo á farta e contas separadas.</p>
-
-<p>Porém Leandro não se deu por achado. Alongou os
-beiços, sorriu com esforço e á mesa onde estavam tres
-talheres, mostrou uma apparencia calma e de coragem.</p>
-
-<p>Por certo que identicas advertencias haviam sido feitas
-ao Miguel, um creado bebedo e feio, que jogava a<span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span>
-batota com os hospedes, pois que esse Miguel, ao segredo
-do frade retroquiu olhando de soslaio para Leandro:</p>
-
-<p>—S’tá dito! Que pandigos!</p>
-
-<p>E apesar da resolução em que o doutor estava de
-se mostrar digno e conveniente até ao fim, não pôde
-deixar de se sentir estrangulado pela indignação, quando
-viu que o seu amigo lhe comprára dois bilhetes
-para o theatro. Isto não tinha geito nenhum, era atirar
-dinheiro pela janella sem necessidade! Na hospedaria,
-fechado dentro do seu quarto, que estava preparado para
-duas pessoas, quando elle era só um, exclamou voltado
-para o tecto:</p>
-
-<p>—Este padre é o demonio! Mau raio, se lhe não espeto
-uma faca n’aquelle bandulho!</p>
-
-<p>Minutos depois veio pelo corredor frei Antonio que
-disse, fallando pelo buraco da fechadura:</p>
-
-<p>—Adeus Leandros, boas noites.</p>
-
-<p>E logo em seguida, o Miguel acrescentou com a sua
-voz avinhada:</p>
-
-<p>—Com bem passem, senhores <i>doutores</i>.</p>
-
-<p>O advogado que já estava na cama e com a luz apagada,
-ressonou forte, para não responder. No dia seguinte
-levantou-se cedo, com o fim de ir sósinho almoçar
-debaixo da Arcada. Mas frei Antonio, que o espiava,<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span>
-seguiu-o de perto, entrando logo depois d’elle e
-mandando vir para tres. Leandro ao sair a porta do botequim,
-pronunciou de si para si:</p>
-
-<p>—Isto acaba hoje! Deixa estar que hoje acaba!</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Tinha, porém, urgente necessidade de mandar fazer
-uma roupa de panno preto—sobrecasaca, calça direita,
-collete de ceremonia com uma só ordem de botões;
-fazenda boa que lhe durasse o resto de vida, que servisse
-para visitas e festas. Frei Antonio conhecia na
-rua do Souto um mercador de confiança; o doutor
-era menos pratico na cidade e por isso não teve remedio
-senão entregar-se-lhe. Pareceu-lhe que n’este particular
-não podia haver novidade. Foram ambos, ao lado
-um do outro, silenciosos e escandalisados.</p>
-
-<p>Em quanto um mestre de <i>atraz da Sé</i> tomava as
-medidas, fallou-se de politica... em deputados... e
-o negociante, homem discreto, de barba em serrilha
-opinou:</p>
-
-<p>—Boa asneira! Esfalfa-se a gente para os mandar
-p’ra essa Lisboa e lá não fazem mais do que andar
-na pandiga, com moçoilas e em treatos. Tributos são<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span>
-de cada vez maiores! No tempo do senhor D. Miguel...</p>
-
-<p>O alfaiate, absolutista sanguineo, parou subitamente
-e disse n’uma arremetida, olhando por cima dos oculos,
-com a medida suspensa da mão:</p>
-
-<p>—E acraditam, que o rei legitimo, não ha de vir
-pôr fóra do seu reino esta cambada?!</p>
-
-<p>Todos concordaram em que havia de vir, menos o
-doutor que já lhe tinha perdido as esperanças e se fizera
-liberal.</p>
-
-<p>Quando voltaram á terra, Leandro teve uma viva
-polemica com frei Antonio, por causa d’aquellas asneiras
-fóra de casa. Não era por gastar mais ou menos
-uma moeda, porém embirrava com tanta tolice deante
-de desconhecidos. O frade respondeu-lhe que bom gado
-era porcos, levou-o de troça e continuaram nos seus
-passeios e nas suas caturrices habituaes.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Quinze dias depois, o advogado recebeu pela diligencia
-de Braga duas encommendas. Abriu a primeira
-e n’ella encontrou a roupa que mandára fazer. Vinha
-tudo nos termos e a seu contento. Vestiu-a para ver se<span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span>
-lhe estava bem e a velha Joanna que elle chamou para
-dar parecer, disse que estava mesmo um cravo, e recordou-lhe
-os seus tempos de rapaz, quando elle vinha
-de Coimbra e era de todos o mais janota. Fôra n’esse
-tempo que... Ella era creada da mãe de Leandro,
-uma boa senhora, temente a Deus, confessando-se a
-miudo e reprehendendo sempre os atrevimentos e brincadeiras
-do filho com as moças!... Havia 40 annos que
-Joanna alli estava e ainda na memoria se lhe avivavam
-facilmente todos os quadros ridentes da mocidade!...</p>
-
-<p>—Mas a outra encommenda?—lembrou.</p>
-
-<p>—É verdade—disse o doutor—isto não é para mim.
-Ha de haver engano.</p>
-
-<p>Mas pegou n’ella, remirou-a por todos os lados, apalpou-a,
-cheirou-a para advinhar o que seria... e nada!
-Pela terceira ou quarta vez releu o subscripto, que
-era do mesmo talho de lettra da do negociante que lhe
-remettia a sua roupa e com os mesmos dizeres.</p>
-
-<p>—Só se frei Antonio tambem encommendou alguma
-coisa e que m’a mandassem para eu lhe entregar—considerou
-com o embrulho suspenso nas duas
-mãos.</p>
-
-<p>Para satisfazer a curiosidade de Joanna, sempre foi
-desatando os barbantes, com precauções e cautelas, na
-convicção de que era coisa que lhe não pertencia. Encontrou<span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span>
-outra roupa, perfeitamente egual á sua. Não
-podia presumir brincadeira tão pesada do seu amigo, e,
-como elle morava perto, mandou-o chamar.</p>
-
-<p>—Sabe para quem é esta coisa?—perguntou serenamente.</p>
-
-<p>—Eu! Como posso advinhar?!</p>
-
-<p>—Nada de brincadeiras—avisou. Será para si?</p>
-
-<p>—Não gasto d’esses luxos. Nem eu cabia dentro
-d’este pé de meia—retorquiu ironicamente o frade, suspendendo
-as calças no ar.</p>
-
-<p>—Mas com mil demonios!—interroga colericamente
-o doutor. Sabe ou não sabe?! Responda.</p>
-
-<p>O frade respondeu com todo o socego:</p>
-
-<p>—É provavel que seja para si. Em Braga, ninguem
-ignora que o senhor é dois!</p>
-
-<p>O doutor adiantando-se, poz-lhe diante dos olhos um
-punho cerrado.</p>
-
-<p>—Sabe o que eu ignorava?—gritou. É que o senhor
-fosse um pedaço d’asno como é!... Que o arrebento,
-seu odre!</p>
-
-<p>O frade escandalisado, escachou as pernas e apresentando-lhe
-de frente o seu valente tronco, oppoz-se-lhe
-com vehemencia:</p>
-
-<p>—Ameaçar-me! olhe que o leva um milhão de demonios,
-seu cabrito esfolado!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span></p>
-
-<p>E saiu nobremente da sala. Durante boa meia duzia
-d’annos, conservaram-se inimigos e sem se fallarem. Porém
-depois reconciliaram-se n’um jantar de boda, onde
-ambos se emborracharam até á ternura das recordações,
-e d’alli ao fim da vida, continuaram a sustentar as
-suas theorias e a dar os seus passeios habituaes.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/footer7.jpg" width="200" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header7.jpg" width="500" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<h2 id="A_POSTURA_DOS_OVOS">A POSTURA DOS OVOS</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">As de Refuinho foram as ultimas a chegar. Por
-causa do ar da noite, traziam as cabeças envolvidas
-em muitos chailes e só deixavam um
-buraquinho para espreitar o creado, que ia adeante com
-o lampião. D. Michaela, ao recebel-as no cimo da escada,
-logo ralhou com as meninas por causa do agasalho
-excessivo. Nem pareciam raparigas novas, tantas
-eram as cautelas que tomavam. D. Maria justificou as
-sobrinhas. Fora ella quem aconselhara taes cuidados,
-por causa das possiveis dôres de dentes. Só quem nunca
-soffreu d’ellas é que pode fallar! Quanto a si, explicou,
-tossindo muito, com o seu modo resignado e soffredor:</p>
-
-<p>—Oh! filha! Sempre te ando com uma gosma!...</p>
-
-<p>Logo que entraram na sala, todos vieram comprimental-as.
-As da Torre Velha conduziram as primas<span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span>
-junto do candieiro, para lhes mostrarem o retrato do
-irmão, que era militar e estudava em Lisboa. Tinham
-recebido pelo ultimo correio, essa bella photographia
-d’um rapagão em pé, apoiado negligentemente na espada
-e a barretina sobre uma <i>console</i>. Assentára praça em
-cavallaria por inclinação: todos os presentes se lembravam,
-de como era um demonio em pequeno, percorrendo
-o quinteiro em todos os sentidos, montado n’uma
-canna! A carta escripta ás irmãs, era-o n’um luxuoso
-papel cor de tremoço cosido e perfumada d’almiscar.
-Dizia maravilhas das opulencias da capital, dos seus
-palacios, dos theatros e das formosas mulheres que passeavam
-em carruagens descobertas, para serem admiradas.</p>
-
-<p>—Isso já por lá tem uma duzia de namoros—disse
-frei Ignacio, espreitando por entre as cabeças das meninas.</p>
-
-<p>Mas uma das da Torre Velha, confidente do militar
-nos seus primeiros amôres, defendeu-o:</p>
-
-<p>—Quem, o Zésinho?! Não é d’esses!</p>
-
-<p>E encarou Clotilde de Refuinho, que baixou timidamente
-os olhos, conservando-se muito tempo triste, encostada
-á mesa.</p>
-
-<p>Os parceiros do rancoroso voltarete, enremissados
-da semana precedente, estavam soffregos sobre o jogo.<span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span>
-O desembargador João Xavier, para os desculpar por
-se não levantarem, disse de longe, com a auctoridade
-d’um marido, que esteve para ser de D. Maria, quarenta
-annos antes:</p>
-
-<p>—Ó minha prima. Deus lh’as dê muito boas. Dispenso
-cumprimentos. Esta remissa de quinze entradas
-tenho-a atravessada aqui.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Mas quem se aproveitou do reboliço foi o dr. Leandro,
-que a esse tempo levava uma reverendissima tunda,
-ás damas, do seu amigo frei Antonio, que as jogava
-na perfeição. O advogado aproveitou o ensejo
-de atirar com o taboleiro para o inferno, e fez na sala
-tal barulho, que parecia a derrocada d’uma torre. Até
-ia trilhando o medico Pestana, homem de grande saber
-e azedume, que lá estava com o seu esqueleto
-arrumado a um canto, a chupar cigarros, todo concentrado
-no odio ao recebedor da comarca, por causa da
-morgada, D. Michaela—mulher soberba, que os dois
-ambicionavam furiosamente. O recebedor, o famoso Silveira,
-n’essa noite em maré de fortuna amorosa, parecia
-um redemoinho pela sala, sempre com o chaile-manta<span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span>
-cinzento pendurado dos hombros. Foi elle que
-ao vêr muita gente, propôz logo um quino, fallando
-com o seu ar estarola. Era quem costumava tirar as bolas
-e salpicava o jogo de larachas muito apreciadas,
-que por vezes lhe deram assignaladas victorias, quando
-a morgada ria até ao engasgamento nervoso. Porém,
-n’essa noite, D. Michaela preferiu antes ouvir a musica
-«Ao Luar», tocada no piano, com muito coração e esmero
-pela Clotildinha. Ella que era romantica e sentimental,
-adorava esse famoso trecho, que já uma vez a
-fizera suspirar em Barcellos. Era um idyllio cheio de
-meiguices dolentes e das suaves fragancias das campinas.
-Remurejavam brandamente arvoredos, um regato
-serpeava pela encosta e o poetico rouxinol queixava-se
-no interior d’um loureiro. Frei Ignacio é quem fazia de
-rouxinol, munido d’uma gaitinha; mas o famoso Silveira,
-que tambem conhecia a musica, aproveitou cruelmente
-mais esta occasião de triumphar sobre o medico.
-Propôz-se a tomar para si a parte do rouxinol, sem nenhum
-auxilio de gaita. Os applausos á magnifica lembrança
-foram calorosos. Todos sabiam, quanto o recebedor
-da comarca era eximio imitador de vozes d’animaes
-e especialmente das aves. Em certos casos o
-engano era completo. Um dia mugiu tão admiravelmente
-de vacca no quinteiro de Refuinho, que a velha<span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span>
-fidalga veio á janella toda afflicta, ralhar com o moço,
-julgando que andava o gado solto. Ao dar com os olhos
-no Silveira, que n’esse instante estava mugindo com desolação
-para o céu, suppondo uma cria distante, reprehendeu-o:</p>
-
-<p>—Fazer de vacca! Isso é peccado. Não teme um
-castigo do céu? As vaccas não tem alma—concluiu
-agastada.</p>
-
-<p>O medico Pestana, concordando em que o recebedor
-não tinha alma, chasqueou o caso dizendo que o
-<i>homem</i>, fazendo de vacca ou de boi que era o mesmo,
-mostrava grande geito para marido.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Porém a novidade de imitar um rouxinol, foi muito
-celebrada; porque ninguem lhe conhecia a prenda. O
-medico emmagrecia a olhos vistos, quando a morgada
-dava palmas ao Silveira. Este para melhor o aguilhoar
-exhibiu outras habilidades já conhecidas: fingiu o trote
-d’um cavallo que se approxima e relinchou com as ventas
-altas no momento da chegada; o canto do gallo ao
-amanhecer, batendo fortemente as azas, foi produzido
-com rara perfeição; o coachar das rans em noites primaveraes,
-a chegada do cuco em maio, os patos arrebanhados,
-o pardal, o melro, o perú... tudo foi representado.
-Já não havia, nem volturete, nem bisca, nem
-ideias de quino. Tinham para duas horas. O medico
-passeava ao fundo da sala, sorumbatico e abatido. Frei
-Ignacio, sempre brincalhão, disse-lhe de longe:</p>
-
-<p>—Deixe-se d’isso, doutor. Quel-o vêr fazer de porco?</p>
-
-<p>Todos o desejaram e elle não se fez rogado.</p>
-
-<p>Sahiu da sala, para logo voltar silencioso e embrutecido.
-Vinha sorumbatico e sorna, como um porco<span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span>
-ao recolher. Uma creada chamou para a comida: «<i>coxi,
-coxi, coxi</i>» e logo o Silveira principiou a correr,
-como cevado cheio de fome, dando fortes grunhidos,
-gritos atroadores, até que foi para um canto sugar a
-sua lavagem, com um <i>xou-xou</i> embrulhado e caracteristico.
-Por fim suppondo-se um porco perseguido por
-um cão, correu veloz, ladrando e grunhindo ao mesmo
-tempo, e sahiu precipitadamente pela porta, dando um
-encontrão no medico.</p>
-
-<p>Todos riram com boccas escancaradas. Frei Ignacio
-agachado a um canto, já não podia mais, e por fim encostou
-a barriga á parede, com medo d’uma colica. As
-meninas de Refuinho e da Torre Velha gargalhavam no
-regaço umas das outras. O desembargador Xavier sorria
-de longe com dignidade, olhando firme, com os seus
-occulos d’oiro.</p>
-
-<p>Um joven poeta, estudante em Coimbra, foi da opinião
-e disse-o claramente, que se aquelle phenomeno
-se exhibisse no <i>Palacio de Cristal</i>, haveria grande concorrencia,
-porque era, em verdade, admiravel! D. Michaela,
-que applaudira até as lagrimas, perguntou ao
-academico:</p>
-
-<p>—O senhor Penaguião nunca o viu fazer de gallinha
-e pôr ovos?!...</p>
-
-<p>—Nunca vi, senhora morgada...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span></p>
-
-<p>—Então!...—concluiu com um entono que significava
-preço—nunca viu nada!</p>
-
-<p>Todos se levantaram a pedir ao Silveira que exhibisse
-esta habilidade; porém elle sentado n’uma cadeira,
-a limpar o suor do cachaço, não estava para isso. Sentia-se
-cançado, ficaria para outro dia, não podia ser tudo
-d’uma vez. A morgada, conhecendo o empenho dos
-seus convivas, disse mesmo sem se levantar:</p>
-
-<p>—Ande, vá pôr. Quero que o sr. Penaguião veja.</p>
-
-<p>Não hesitou um momento. Um raio de vingança
-triumphante despediu-se do seu fulvo olhar contra o
-medico, que ao vel-o prestar-se, sahiu da sala. Porém
-isto, que todos julgaram um signal de covardia não o
-era de certo; porque momentos depois o doutor tornou
-a entrar, com semblante conformado.</p>
-
-<p>Como era uma exhibição mais complexa, tomou cada
-pessoa o seu logar. As senhoras em cadeiras, em
-volta da sala, deixaram o canto livre para a postura,
-que devia ser junto do piano. Os homens que se não
-puderam sentar, encostaram-se ás entradas e nos vãos
-das janellas. O medico, talvez para se mostrar generoso
-e soffrer deante de todos a propria humilhação, occupou
-a cadeira mais perto do logar da postura.</p>
-
-<p>Pareceu um acto publico de conformidade. O proprio
-Silveira assim o entendeu. No meio d’um silencio<span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span>
-valioso, depois de apenados dois banquinhos para servirem
-de poleiros casuaes, o recebedor da comarca com
-o chaile-manta pendente dos hombros, collocou-se no
-meio da sala, olhando solemnemente em redor.</p>
-
-<p>Mostrava-se grave, simples e ao mesmo tempo imponente!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>A principio houve um cacarejar avulso e sem grande
-significação. Andava em volta dando pulinhos, erguendo
-a cabeça para ouvir facilmente, e espanejava-se ao
-sol. Depois continuou em passo solemne, entoando um
-<i>cá... cá... cá...</i> reflectido e de concentração. Passados
-momentos, a voz levantou-se gradualmente mais
-sonora, tinha gritos estridentes e estendia o pescoço.
-Andava com vivacidade, os pulinhos eram sacudidos e
-o corpo avolumava-se-lhe debaixo do chaile, quando
-afastava os cotovellos. Subiu a um dos poleiros e lá do
-alto produziu um <i>ca-ca-ra-có</i>, rapido e vibrante, como
-se fora uma sentinella gritando ás armas, para afastar
-um inimigo possivel. Mas logo desceu para continuar
-n’um tom manso e natural, andando em passo grave,
-seguro de que ninguem o viria perturbar. De repente
-deu-lhe uma especie de furia, uma raiva e começou a
-correr e a gritar desesperadamente, muito arrastado
-pelo chão, significando a gallinha apertada por uma
-dôr e com a necessidade urgente de expellir de si qualquer<span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span>
-coisa. Os gritos eram fortes e expressivos, as arremetidas
-para o lado do ninho insistentes, sempre com
-as azas de rasto, afastando-se um momento para voltar
-depois mais precisado.</p>
-
-<p>A situação ia-se tornando claramente dramatica.</p>
-
-<p>O interesse dos circumstantes era cada vez maior.
-Exprimiam o sentimento de admiração que os possuia,
-em frouxos de riso apanhados na mão e muitos, boquiabertos,
-pronunciavam: «Ora!... Ora!...»</p>
-
-<p>A morgada, que estava mais á vontade e não temia
-perturbar a representação observou:</p>
-
-<p>—É tal e qual a minha amarella. Uma coisa assim!...</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Vendo-se applaudido pela mulher a quem amava
-o Silveira foi sublime! Aproximou-se sornamente do
-canto da postura. Reconhecia-se-lhe na lentidão dos
-movimentos de parturiente, que se approximava o momento
-supremo. Já ia arrastando o corpo, d’aza cahida,
-e um <i>có-có</i>... guttural. Foi enfraquecendo a voz e os
-movimentos, andando em volta de si mesmo a procurar
-o geito. Depois acamou-se acocorado, todo mettido
-debaixo do chaile cinzento, n’uma attitude de objecto<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span>
-bruto e informe que para alli estivesse arrumado. Houve
-um gemer soturno, como o regougar d’um gato.</p>
-
-<p>Foi n’este momento que o medico se abaixou fingindo
-que apanhava alguma cousa. O Silveira não o
-percebeu, tão compenetrado estava das suas altas funções
-de maternidade. Os assistentes, interessados no final
-da comedia, tambem não repararam. Durante o minuto
-que o recebedor se conservou agachado, trocaram-se
-apenas algumas observações em voz baixa. Mas por
-fim, mestre Silveira, sahiu do ninho mostrando-se patentemente
-e engulindo em secco, como se viesse d’um
-sonho. Começou a cacarejar com alegria e orgulho em
-voz sonora e espantada. Saracoteava-se vistosamente,
-espanejando-se, refrescando o corpo, na satisfação de
-quem cumprira um dever e se livrára d’uma difficuldade.
-Esperto, vivaz, altivo, tudo era <i>Ca-cá-rá-cá, ca-cá-rá-ki</i>...
-para um lado e para outro. E n’uma reviravolta,
-quando fazia a ultima visita saudosa ao ninho, o
-soberbo Silveira estacou de repente, empallideceu deixando
-de cantar, os braços cahiram-lhe n’um assombro!</p>
-
-<p>—Mas eu não fui!—pronunciou inconsciente.</p>
-
-<p>O apparecimento imprevisto de dois ovos authenticos
-no logar da postura, produziu uma gargalhada atterradora!
-Frei Ignacio, sempre larachista, agarrou no
-recebedor pelos hombros, perguntando-lhe:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span></p>
-
-<p>—Então hoje isto foi a sério, caro amigo?!</p>
-
-<p>Porém o medico, cheio da sua vingança, disia ao
-mesmo tempo a D. Michaela, em voz alta, de modo
-que todos ouvissem:</p>
-
-<p>—Compre esta gallinha, senhora morgada, que lhe
-põe aos dois. Olhe que sempre é melhor que a sua
-amarella!</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/footer8.jpg" width="200" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header8.jpg" width="500" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<h2 id="RENDE-TE_CENTURIAO">RENDE-TE CENTURIÃO</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-e.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Esperava-se que d’essa vez os <i>Passos</i> fossem
-grandiosos. Tinha chegado no verão um brazileiro,
-que para engrandecer a terra, concorria
-com cincoenta libras. O abbade, depois da offerta,
-affirmou cathegoricamente, que ía fazer reviver a memoria
-dos <i>Passos</i> do fidalgo do Outeiro, que sessenta
-annos antes, fizera <i>uns</i> de que fallavam ainda com espanto,
-os velhos das redondezas! Não havia de faltar
-nada: teriam muitos anjos, musica da melhor e pregador
-de fama. Se viessem ainda esmolas, mandar-se-hia
-armar a egreja, podiam-se reformar os andores que estavam
-velhos; pois seria bonito que apparecessem differentes
-imagens do Redemptor, significando as diversas
-partes da notabilissima <i>Paixão</i>.</p>
-
-<p>—Quando foram os do fidalgo do Outeiro—acrescentou
-o abbade—houve a guarda romana com o Centurião<span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span>
-á frente, levando o seu distinctivo de videira como
-emblema do direito de punição corporea, sobre os soldados.
-Não sou d’esse tempo, mas ha ahi muitos homens
-que se lembram—concluiu, dando grande preço
-ás suas palavras.</p>
-
-<p>Era n’um domingo, depois da missa conventual. O
-abbade fallava na sachristia, deante d’alguns freguezes,
-que o escutavam respeitosamente. O benemerito senhor
-Guimarães, que abrira a subscripção com cincoenta libras,
-era dos ouvintes. Reconhecendo, como todos, que
-a somma já apontada era diminuta para se arranjar uma
-procissão a valer, poz serenamente a luneta, pegou no
-papel onde estavam lançadas as differentes verbas e leu:</p>
-
-<p>—Tresentos e cinco mil e sete centos e cincoenta
-reis. É pouco!—disse. Quanto entende o senhor abbade,
-que será preciso para se fazer coisa de truz?!</p>
-
-<p>O sacerdote olhou fixamente o tecto da sachristia,
-suspendendo-se do labio inferior por dois dedos. Pronunciou,
-para si algumas palavras de calculo, resumindo
-em voz alta:</p>
-
-<p>—Quinhentos mil reis. Com quinhentos mil reis faz-se
-tudo.</p>
-
-<p>—Pois feche lá essa conta e trate do negocio, meu
-reverendo—concluiu o Guimarães, atirando generosamente
-com a meia folha d’almaço, sobre o gavetão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span></p>
-
-<p>O abbade agarrou-o entre os seus rudes braços de
-camponez, affirmando-lhe:</p>
-
-<p>—Com isso, temos tudo! Bom sermão; boa musica;
-bom côro; anjos; egreja rica; um centurião com a sua
-guarda, que se lhe mandam ahi na villa fazer vestimentas;
-e andores de espavento, que eu arranjo a virem de
-Braga, com imagens e mais pertences. Creia o meu
-amigo, ponho-lhe ahi uns <i>Passos</i>, que nem na cidade do
-Porto. Uma riqueza, verá.</p>
-
-<p>—Então é dar ordens, está arrumado—acrescentou
-o Guimarães, fazendo um gesto largo com a ponteira
-da bengala. Dinheiro não faltará, ainda que seja preciso
-mais. Na minha vida de trabalho levei muito chimbalau,
-e bastas vezes perdi contos e contos. Dê ordens, meu
-abbade, e ponha a coisa na rua. Percebeu?</p>
-
-<p>Esta grandeza do Guimarães foi muito gabada em
-toda a parte, bem como a sua devoção. Felizmente
-não era como o traste do Cerqueira, um herege que
-embirrava com missionarios. Esse era raro verem-no
-pela egreja, e até quiz bater no afamado padre Antonio,
-porque lhe fez uma santa da sobrinha, a Rosaria
-do Thomaz do Monte, pobre homem, agora maluco,
-por causa das heresias que lhe mettera na cabeça o cunhado.
-Ainda bem que o senhor Guimarães não era
-assim e gastava dinheiro em fazer coisas boas, como<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span>
-ajudar uns <i>Passos</i> de que todos se orgulhavam. Por isso
-Deus o tinha protegido; por isso, sendo filho d’um pobre
-artista, era hoje um fidalgo, tinha palacio e suas
-filhas usavam sedas. Não tardariam em ver-lhe um titulo
-e era muito bem applicado, a um cavalheiro de tão larga
-generosidade e que tão amigo se mostrava da terra.
-Podia ser como outros, despresar do nascimento
-obscuro, viver n’esse Porto ou Lisboa, e não fazer
-caso nem da sua aldeia, nem dos parentes pobres. «Viva
-o senhor Guimarães, que ainda hade ser o nosso
-deputado»—affirmavam com emphase pessoas de consideração.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Desde aquelle momento o abbade não pensou n’outra
-coisa. Logo no dia seguinte montou na sua egua
-e foi encontrar-se com a diligencia, que o levaria a
-Braga. Como era homem de imaginação e muita fé, logo
-que alli chegou entendeu-se com as pessoas que melhores
-conselhos lhe podiam dar. Depois de varias conferencias
-resolveu encommendar tudo a um homem da
-rua do Souto, o que era melhor arranjo. Combinou a armação
-da egreja; os fardamentos do centurião, guardas,
-figuras e vestidos d’anjos; os cantores para o coro, os andores
-e até as imagens. Quanto a imagens foi mais difficil;
-pois que as confrarias entenderam que as não deviam
-emprestar, sem o parecer favoravel do senhor Arcebispo.</p>
-
-<p>Depois de trabalho insano só pôde conseguir, um
-<i>S. João</i> e um <i>Senhor prezo á columna</i>. Porém não ficou
-contente; porque as estatuas, antigas e feias, não
-eram de causar grande devoção.</p>
-
-<p>—Paciencia—disse resignado. Levam-se os seis andores.
-Tenho lá <i>Cruz ás costas</i> e <i>Senhora do encontro</i>.<span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span>
-Levo d’aqui <i>Preso á columna</i> e <i>S. João</i>. <i>Canna verde</i>
-e <i>Pretorio</i> arranjo de Valença. Quem tem amigos...</p>
-
-<p>Procurou, depois, saber onde morava actualmente o
-padre Silvestre, capellão de infanteria 8 e seu antigo
-condiscipulo. Era um dos pregadores mais afamados do
-alto Minho e o abbade, pela terceira vez, o escolhia
-para lhe abrilhantar uma festa da sua egreja.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Tendo conhecimento de que mudára para a Conega,
-cahiu-lhe em casa d’um pulo. Havia annos que se não
-encontravam. Por isso houve effusão d’alegria, muitos
-abraços e expansões n’este momento.</p>
-
-<p>O pregador, escarranchado n’uma cadeira, disse para
-o seu amigo que se lhe sentára na cama:</p>
-
-<p>—Tu, magnifico, gordo, sempre abbade! Que diabo
-te trouxe n’este tempo de trabalhos quaresmaes cá por
-Braga?</p>
-
-<p>—O diabo não, creatura, foi Deus! Deus, o Senhor
-dos Passos é que me trouxe hoje por cá. Mas deixa-me
-perguntar-te, antes que me esqueça. Estás de mal c’o
-as...</p>
-
-<p>—Estou sim—atalhou—não as podia aturar. Eram<span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span>
-umas porcas. Nem roupa, nem comida... uma immundicie.
-Depois tinha por companheiro o Antunes da Cuspinheira,
-lembras-te? Um cevado com quem se não pode
-estar á mesa. Deixei-as...</p>
-
-<p>O abbade conformou-se, accrescentando:</p>
-
-<p>—Pois custou-me a dar co’esta casa. Perguntei ao
-Sampaio, o famulo. E venho cá por um motivo muito
-grave.</p>
-
-<p>—Oh! com seis centos!—exclamou o capellão. Talvez
-algum caso de consciencia. O homem é fraco, bem
-sei. Eu absolvo-te, diz da tua vida, bezerro.</p>
-
-<p>—Não, não é isso. Tenho uma festa de Passos, coisa
-rica. Paga lá um meu parochiano, um brazileiro. Quero
-que tu pregues.</p>
-
-<p>—Quando é? Na quarta dominga? Tenho que fazer,
-vou aos de Bouro.</p>
-
-<p>—Não principies já com lonas. É na terceira dominga,
-homem.</p>
-
-<p>—Então posso.</p>
-
-<p>—Mas Souséca! eu quero um sermão novo em folha.
-Posso-te dar quinze moedas.</p>
-
-<p>O padre Silvestre reflectiu e disse:</p>
-
-<p>—Valeu. Escrevo hoje mesmo ao Germano, o Germano
-das bochechas grandes. Conhecel-o? Quero que
-elle me empreste um que lhe enviaram do Porto e que<span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span>
-fez grande barulho em Guimarães quando lá o pregou,
-ha dois annos.</p>
-
-<p>—Mas, porque é que tu não o escreves? Com o teu
-talento...</p>
-
-<p>—Escrevo sim; mas é para me inspirar. Tu bem sabes
-que estas coisas são sempre as mesmas. Está tudo
-sabido, já se não póde inventar. A questão é de <i>modo</i>.
-Percebes abbade?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>No sabbado, vespera da terceira dominga chegou a
-Refuinho o pregador. Foi-se hospedar na <i>Residencia</i>.
-A sua entrada na aldeia foi celebrada com alegria pelo
-ajuntamento de povo, que estava no adro da egreja e
-até haveria repiques e foguetorio, se não fôra tempo
-santo de quaresma.</p>
-
-<p>O Agrella, que ajudava o armador de Braga, veio
-dar ao padre Silvestre, um aperto de mão, affectuoso e
-familiar.</p>
-
-<p>—Cá andas tu como o peixe n’agua—disse-lhe o
-pregador.</p>
-
-<p>—Não ha remedio senão dar um gaudio á raparigada—respondeu
-o alfaiate. Muito estimei vel-o por cá,
-meu senhor. Ha que tempos!... Temos ahi uns <i>Passos</i>
-d’arromba. Não haverá outros, cinco leguas em redor.</p>
-
-<p>O padre Silvestre saudava a todos de cima da burra.
-Os semblantes dos camponezes eram risonhos, como se
-tractassem d’um noivado. Este rumor attrahiu o abbade<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span>
-que se chegou á janella. Ao avistar o seu antigo
-condiscipulo, gritou-lhe:</p>
-
-<p>—Eh! Souséca! Sobe para cá diabo.</p>
-
-<p>Mas foi elle que veio abaixo, de tamancos e meias
-de lã, envolvido no amplo capote. Tomou o hospede
-entre os braços, apertou-o com amisade.</p>
-
-<p>—Já me tardavas, maroto!—disse. Vou-te mandar
-pôr a ceia. Ó rapariga!—gritou para cima—Elle
-cá está.</p>
-
-<p>No alto da escada, appareceu a Joanna, de lenço
-vermelho cruzado sobre os seios magnificos, e expondo,
-á vista de todos, a optima carne dos seus braços.</p>
-
-<p>—Então uma fornada, ein?—perguntou o pregador.</p>
-
-<p>—Não ha remedio senhor reverendo capellão. A
-gente hade comer. Estou a mettel-a no forno. Desculpe
-recebel-o assim.</p>
-
-<p>Mas o padre Silvestre não era de ceremonias. Estava
-acostumado. Em casa de sua mãe, nos tempos felizes
-em que vivera na aldeia, era a mesma coisa. O trabalho
-primeiro que tudo. Faz a gente forte. Deu-lhe um abraço
-de satisfação, fazendo muito gosto em sujar o capote,
-sobre o lenço enfarinhado e os braços roliços,
-cheios de massa. A rapariga riu estrondosamente, entregando-se-lhe
-com facilidade. O abbade, fingindo-se
-suspeitoso, observou:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span></p>
-
-<p>—Cautelinha, cautelinha, sôr Souséca!...</p>
-
-<p>Tudo era levado á boa parte e sem malicia. O padre
-Silvestre pediu tamancos e meias de lã, que tinha
-os pés gelados. Oito horas de diligencia e a cavallo era
-de morrer. Se viesse alguma chuva não faria mal nenhum,
-pois amaciava.</p>
-
-<p>—Não imaginas abbade, como elle corta lá em cima,
-ao dobrar o monte.</p>
-
-<p>—Imagino, imagino. Bastas vezes o tenho levado
-pela fucinheira. Mas toma lá uns soccos e as meias e
-vem pr’o lume. Ceia-se alli mesmo.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Pouco depois, pozeram diante do pregador a sua
-gallinha, salpicão e a tigella de bom caldo, fumegante
-e appetitoso. Nos tempos em que ha muito serviço divino,
-não se usam jejuns para quem prega ou canta.
-Tem dispensa, bem merecida; pois que alguns, como
-o padre Silvestre, andam de terra em terra, levando a
-palavra sancta, para converter peccadores. É uma lida
-de seis centos demonios. Ganha-se dinheiro; mas não
-vale muito a pena. Se os obrigassem a comer sardinhas,
-morriam no fim da quaresma. Era Christo a subir ao<span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span>
-ceu e elles a descerem á cova. Jejuns são para os brutos,
-para os fortes, que não tem de puchar pela cachimonia.</p>
-
-<p>—Cá na minha—affirmou Joanna atiçando o lume—se
-nós somos tão tapados é por causa da brôa e
-do bacalhau.</p>
-
-<p>O abbade, que estava estorcegando a sua posta sobre
-o prato, levantou a cabeça para dizer:</p>
-
-<p>—Olá, princeza. Vou-te mandar vir carne da villa,
-para tu comeres.</p>
-
-<p>—E olhe que me havia de fazer bem, ao meu rico
-peitinho—confessou pondo a mão sobre os proeminentes
-seios. Ao trabalho que lhe tenho.</p>
-
-<p>O abbade continuou troçando:</p>
-
-<p>—Ora sempre a gente vé coisas! Não te me faças
-lesma. Dá p’ra cá a infusa e deixemo-nos de contos.</p>
-
-<p>Mas o padre capellão fallou sério, explicando. O seu
-trabalho n’essa quaresma era extraordinario. Em seguida
-a esse sermão, tinha outros. <i>Passos</i> em Bouro e toda
-a semana sancta em Amares, onde tinha de pregar o
-do <i>lava-pés</i>, o do <i>enterro</i>, o de <i>lagrimas</i> e o da <i>ressurreição</i>,
-que é sempre uma predica demorada e cheia
-de conceitos.</p>
-
-<p>—Pois sim—considerou o abbade—mas este d’amanhã
-é que mais te custa.</p>
-
-<p>—Podéra! Tambem é o de mais pucho. Levou-me<span class="pagenum"><a name="Page_141" id="Page_141">[141]</a></span>
-oito dias a compôr e oito a decorar. É todo novo, acredita.</p>
-
-<p>Tinham-no prevenido que, para o ouvir, viria gente
-de longe. Só em casa do Guimarães, uns trinta hospedes—pessoas
-do Porto, de Braga... o diabo. Mostrava-se
-preoccupado com o exito. Tinha medo que lhe
-esquecesse algum d’esses trechos flamejantes, em que
-firmava orgulho litterario. Peça meditada, feita com reflexão
-e calculo. Havia a bem conhecida passagem do
-centurião, convertido por um toque de divina graça. O
-padre Silvestre não julgava isto muito moderno; mas
-foi o abbade que lh’a exigiu, por saber que era do
-gosto dos ouvintes e principalmente do bemfeitor. No
-emtanto, entendia o pregador, que essa passagem produziria
-bom effeito, se fosse convenientemente ensaiada.</p>
-
-<p>—Quem tens tu ahi para centurião?—perguntou ao
-abbade.</p>
-
-<p>—Um rapazote da freguezia. Boa figura, alto!...</p>
-
-<p>—Pois hei-de-lhe querer fallar. Que venha cá amanhã
-de manha. Bem sabes que isto tem o seu boccado
-de theatro.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>No dia seguinte o pregador estava a repetir o sermão
-na horta da <i>Residencia</i>, passeando n’um carreiro,
-por cima do muro. O sol aquecia-o agradavelmente
-por um lado, a sombra do seu corpo estendia-se na
-relva, sobre a qual os gestos se lhe reproduziam mais
-amplos e magestosos! Uma pobre cerdeira, despida de
-folhas, é que lhe servia de referencia. D’aquelle lado
-era o Calvario, com a dolorosa imagem de Christo, vergado
-sob a cruz. O povo estava em baixo, oppresso e
-contricto. A Virgem mãe, á direita, banhada no pranto
-redemptor. Os verdugos, os da guarda romana, os discipulos
-e todos os amigos de Jesus, lá os significava
-na vertente do monte ignominioso, que no caso presente
-era um alcouve de cor alegre.</p>
-
-<p>No meio d’uma apostrophe clamorosa, quando de
-braços abertos e solemne chamava o divino soccorro,
-foi interrompido por uma voz:</p>
-
-<p>—Senhor reverendo pregador?—chamaram.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span></p>
-
-<p>O sacerdote, voltou a cabeça, conservando suspenso
-o gesto e perguntou impaciente:</p>
-
-<p>—Que diabo queres?</p>
-
-<p>—Vossa Senhoria não me mandou chamar?</p>
-
-<p>—Eu!</p>
-
-<p>—Cá o nosso abbade é que disse.</p>
-
-<p>—Ah!—exclamou, deixando cahir os braços. És o
-centurião?</p>
-
-<p>—Entendo que sim—confessou o filho do Cancella.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Disse-lhe que se approximasse. Explicou-lhe o caso.
-Em certa altura do sermão, tinha de quebrar a lança, e
-prostrar-se de bruços, soluçando, como peccador arrependido.
-Jesus Christo alli estava, coberto d’opprobrio.
-Todos o tinham insultado no caminho do Calvario; porque
-estava nas escripturas que assim devia ser. Elle,
-centurião, tambem maltractára o sublime prisioneiro,
-dando-lhe com a lança e chasqueando-o. Depois é que
-lhe veio um toque de luz divina e arrependeu-se.</p>
-
-<p>—Tu entendes—explicava. Toque de luz divina é
-assim como uma pontuada sobre o coração. Entendes?
-Diz lá.</p>
-
-<p>—Entendo muito bellamente, senhor reverendo pregador.<span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span>
-Eu já figurei n’outros <i>Passos</i>, lá p’ra Monção—acrescentou
-com sorriso experimentado. Mas senhor reverendo
-pregador, Vossa Senhoria, quer que eu me arrependa,
-logo á primeira que mandar?</p>
-
-<p>—Porque?</p>
-
-<p>—Eu á primeira... á primeira... não queria—explicou,
-coçando a nuca. É cá por causa da rapaziada,
-que depois chama podrico á gente.</p>
-
-<p>—Ah! isso não tem nada. Lembra-te que estás
-deante do rei dos reis e do senhor dos senhores. Mas
-não te rendas logo... logo... Olha bem para mim—detalhou
-com bondade. Ao primeiro <i>rende-te</i> eu pego
-no lenço que está do lado da porta, levo-o á bocca, e
-torno a collocal-o no mesmo sitio. Tu reparas em mim,
-dás uma sacudidella aos hombros, assim, e continuas lá
-no teu posto. Eu fallo muito ainda. Ao segundo <i>rende-te</i>,
-repito o caso do lenço <i>mudando-o então</i>—sublinhou—para
-o meio do pulpito, d’esta maneira (Pegou
-no seu lenço de paninho vermelho, conservou-o segundos
-pendente da mão e depois collocou-o sobre um
-triste ramo de vide). Tornas a atinar comigo, um pouco
-mais sério do que da primeira vez; nova sacudidella de
-hombros, e continuas lá na tua vida. Sim, porque tu és
-um grande peccador e a divina graça não te póde tocar
-assim do pé p’ra mão. Entendes isto?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span></p>
-
-<p>—Muito bem, senhor reverendo pregador—affirmou
-o filho do Cancella, com o queixo agarrado na mão
-direita.</p>
-
-<p>—Mas ao terceiro <i>rende-te</i>—accentuou significativamente
-o padre Silvestre, espaçando as syllabas—quando
-eu mudar o lenço para o lado do altar mór, tu reparas
-em mim, com olhos muito arregalados, como quem
-sentiu que lhe entrou alguma coisa no corpo; se quizeres
-dás um grande berro, quebras a lança no joelho,
-atiras-te ao chão de bruços, finges que choras (se te
-dér p’ra isso, choras realmente) e dizes alto: «Perdão
-Senhor! Perdão! Perdão! Perdão!»</p>
-
-<p>O rapaz pronunciou:</p>
-
-<p>—Perdão Senhor! Perdão! Perdão! Perdão!</p>
-
-<p>—Isso mesmo. É para o povo repetir: «Perdão senhor,
-perdão, perdão» e chorar muito, como é costume.</p>
-
-<p>—Entendi muito bellamente. O peior é se depois
-me chamam, cagarola e podrico, que me levo de mil demonios.</p>
-
-<p>—E que chamem?—observou o pregador. Então
-queriam que tu te não arrependesses, depois de tocado
-pela divina graça? São uns brutos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Logo de manhã principiára a affluir gente que vinha
-de longe. A egreja, os andores e o que se dizia dos
-anjos era um pasmo! A musica, logo que chegou, foi
-tocar um hymno e duas polkas á porta do senhor Guimarães,
-que veio á janella, com toda a sua respeitavel
-familia e hospedes, palitando-se soberbamente. Zé Maximo,
-o homem das occasiões, levantou um viva ao
-seu compadre e amigo, que foi correspondido atirando-se
-chapeus ao ar. De tarde, antes de sahir a procissão,
-a musica voltou para o beberete, que lhe foi
-servido no quinteiro. Houve vinho do Porto em calices,
-quatro broas de pão de ló partidas á mão. Para os
-figurantes, que estavam todos vestidos na vasta salla
-da tulha, á espera do momento, foram enviados dois
-cabaços de vinho, meia duzia de brôas de pão de ló,
-outra de garrafas de Porto e um cesto de cavacas.
-Houve por este motivo grande barulho e algazarra dentro
-do casarão da tulha.</p>
-
-<p>Foi a propria esposa do senhor Guimarães, que teve<span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span>
-a delicadeza de lhes ir encher os primeiros copos, como
-signal de apreço e um rasgo democratico na sua vida
-faustosa. Os rapazes d’aldeia sentiam-se engrandecidos
-dentro dos seus fatos galileus e romanos. As tres Marias
-e a Veronica, apenas levaram aos beiços os copos
-de vinho, com medo de se descomporem nos vestuarios.
-Os anjos, sentados em duas bancadas, comiam
-gulosamente rebuçados, babando-se pelos cantos da
-bocca. Os irmãos do Santissimo, encarregados de os
-acompanhar, vieram buscal-os para os conduzir á presença
-do senhor Guimarães e dos seus hospedes, antes
-da procissão. O destroço nas cavacas, no pão de ló e
-no vinho era feito, pelo Velho Simeão, por José d’Arimathéa,
-por Caiphás e Pilatos, que se mostravam
-altivos; pelo Evangelista e especialmente pelo Centurião
-e os seus doze romanos, que promettiam não
-sahir d’alli, em quanto houvesse uma gotta nos cantaros
-e nas garrafas. O filho do Cancella, estava arrogante,
-animando os seus com manifesto prejuizo dos superiores,
-Caiphás e Pilatos, não obedecendo ás palavras
-judiciosas do piedoso Simeão, que bebia menos por
-causa da barba, e recommendava aos outros compostura:</p>
-
-<p>—Olhem que tomam por ahi alguma carraspana!
-É melhor voltarmos cá, outra vez, no fim de tudo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span></p>
-
-<p>—Isso é o que tu querias—retorquiu o Centurião.
-É dar-lhe, rapazes, até lhe chegar com o dedo.</p>
-
-<p>E de tal modo comprehenderam estas palavras, que
-ao sahirem da tulha, Cancella e os seus homens, levavam
-todo o seu animo e arrogancia natural, fortalecida
-pelo vinho.</p>
-
-<p>—Grandissimo odre—disse-lhe com inveja o Simeão
-da barba, perdendo a suavidade, que era da
-indole do seu papel.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Os <i>Passos</i> começaram pelas duas horas. O itinerario
-foi combinado de modo que primeiro que tudo passassem
-á porta do senhor Guimarães, que seguia o andôr
-principal, como festeiro. A todas as senhoras que
-estavam á janella da sua casa d’azulejo, em especial a
-sua esposa, fez uma larga reverencia, passando ao mesmo
-tempo a mão na barba. Uma das coisas que mais
-impressionou a gente postada nos valados, foi o terem
-os anjos azas! Isso que concordava perfeitamente
-com o painel do altar mór, que representava a Annunciação,
-nunca elles tinham visto! E iam todos muito ricos,
-de setim branco e lentejoilas. Os melhores eram
-evidentemente os vestidos em casa de D. Maria de Refuinho,
-apezar de que os da mulher do sachristão e
-os da Lindoria, tambem não havia que lhes dizer:—ambas
-tinham sido creadas de conventos em Vianna.<span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span>
-Cada anjo distinguia-se pela sua especialidade nas insignias
-de martyrio, em recordações da celebre <i>paixão</i>;
-era a coroa de espinhos, o martello, as tenazes e os
-pregos para crucificarem o Christo.</p>
-
-<p>Havia dois que conduziam simulacros das escadas
-pelas quaes os verdugos tinham subido aos braços da
-cruz. Um rapasote, com altivez para que todos reparassem,
-sustentava na ponta d’uma canna a esponja que
-servira ao fel e ao vinagre; outro era portador da lança
-com que se abrira o sacratissimo lado. As chagas, em
-lacre vermelho, iam em salva de prata. A Veronica, rapariga
-esbelta, mostrava com ar piedoso, no santo sudario,
-a face penitente e ensanguentada do divino mestre.
-Quasi no fim iam as tres Marias, todas a par, cobertas
-de gaze preto e logo a seguil-as, S. João, o discipulo
-amado, com o queixo apoiado na mão esquerda.
-A Magdalena, uma rapariga casadoira, de longas madeixas
-encaracolladas cahindo-lhe nas espaduas nuas,
-caminhava em passo theatral, adeante do apostolo, e significava
-limpar abundantes lagrimas, deitando de vez
-em quando um riso de soslaio, ás pessoas conhecidas.</p>
-
-<p>Entre os dois andores, o de Jesus vergando ao peso
-do madeiro, e o da Virgem lacrimosa que implorava do
-ceu piedade, ia o Cyreneu resignado e humilde logo
-em frente do Centurião, que commandava com arrogancia<span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span>
-os seus doze companheiros. Eram rapazes escolhidos
-entre os mais espadaudos da visinhança. Orgulhosos dos
-capacetes prateados, das botas de montar, dos mantos
-vermelhos e das terriveis barbas, sustentavam intemeratamente
-as suas lanças, olhando em redor com provocação.
-O José Cancella levando a insignia da videira,
-atiçava-os com olhares tremebundos e modos arrogantes
-de capitão. O povo manifestava-lhes a sua antipathia,
-principalmente ao José. Chamava-lhe ladrão, carrasco,
-ameaçava-o com o inferno. A Lindoria, não se
-teve que lhe não dissesse, quando elle passou:</p>
-
-<p>—Barbas de chibo! Um tição por esses olhos é que
-tu querias!</p>
-
-<p>Porém o Cancella, apesar de carrancudo, não respondia.
-Pelos modos, parecia ter cabellos no coração, aquelle
-diabo—diziam todos. Os seus olhares furibundos sobre
-o Christo, não podiam constituir um peccado? Era realmente
-de mais. O Centurião do tempo dos judeus tinha
-a sua desculpa, porque não conhecia Jesus; mas este já
-ouvira muitas vezes os missionarios. Era fingido, bem
-se sabia, mas escusava de estar a fazer arremessos de
-lança, sobre a imagem que ia no andor; porque a isso
-é que ninguem o obrigava.</p>
-
-<p>O atrevimento provocou da parte d’um visinho, um
-sarcasmo reprehensivo:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span></p>
-
-<p>—Vaes-te ahi a fazer de chibante e logo rendes-te
-como um sendeiro!</p>
-
-<p>—Não me puches—retorquiu o Cancella—porque
-se vamos a isso, arraso tudo a pau.</p>
-
-<p>N’este momento o <i>trombeteiro</i> deu signal para continuarem.
-Ao longe ouvia-se o alarido dos rapazes, que
-admiravam os prodigios de força, tanto do que levava
-o guião como do que sustentava o estandarte, pois
-eram bandeiras que pesavam muitas arrobas. A procissão
-seguia por uma encosta, no cimo da qual haveria
-o sermão do encontro.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Um limpido ceu de março cobria os campos, que
-principiavam a reviver para a alegria primaveral das
-cores e da luz. O sol glorioso batia de frente nos anjos,
-obrigando-os a piscar os olhos. As lentejoilas, os galões
-e os adereços faiscavam com ostentação. Todas essas
-innocentes crianças iam pomposamente levadas para
-o Calvario, pelos seus parentes, que lhes forneciam
-rebuçados em abundancia. A multidão commentava
-com amor a riqueza dos vestidos e as lembranças do
-martyrio. O som plangente e dolorido da musica, alastrava-se<span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span>
-pelas campinas. O sermão do encontro, só
-commoveu algumas antigas beatas, que lagrimejaram
-encostadas aos carvalhos do largo. O pregador era um
-velho de voz pigarrada e bochecha cahida. Todos o conheciam
-e não lhe davam valor. N’esse dia memoravel,
-quem absorvia as attenções, era o padre Silvestre, que
-viera de Braga. Para o ouvir corriam os mais ageis pelo
-monte abaixo e atulharam a egreja com enthusiasmo.
-Para os andores entrarem pediram auxilio ao Cancella e
-aos da guarda romana. Á força de muito encontrão é que
-puderam abrir caminho. Houve gritos, exclamações injuriosas;
-mas as confrarias, os anjos e mais figuras, tiveram
-os seus logares. Tambem, o Centurião e os seus,
-foram logo, alli mesmo, pagos d’esse esforço, bebendo
-um cantaro de vinho que veio para a sachristia. Depois
-que tudo se acommodou como pôde, a egreja ficou silenciosa.
-A imagem do Redemptor e da Virgem destacavam-se
-com energia, no horisonte do calvario, formado
-de nuvens caliginosas. Havia anciedade pelo apparecimento
-do pregador.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>A figura grave do padre Silvestre mostrou-se no pulpito.
-Circumvagou a vista, desde o guarda-vento até
-a repousar na imagem do Christo, ajoelhado debaixo
-da cruz. O exordio foi longo, mas habilmente preparado
-n’um crescendo de dôr. Seguiu a vida simples do
-filho do carpinteiro de Nazareth, levando-o desde a malvadez
-de Herodes até ao baptismo no Jordão. Mostrou-o
-predestinado pelas prophecias, para a sua divina
-missão de soffrer o martyrio degradante que soffreu, por
-amor dos homens. Anteriormente á vinda de Jesus, a
-humanidade vivia numa escura masmorra, com porta,
-só para o inferno! As palavras da escriptura haviam de
-cumprir-se e era preciso o sacrificio d’um Deus, para
-salvar o mundo. <i>Elle</i> encarnou, soffreu, demorou-se
-trinta annos distante da patria celestial, para nos remir
-e dar exemplo. Nem que todos os homens vivessem eternamente<span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span>
-em penas afflictivas, poderiam pagar tão infinita
-bondade! Por isso, na apaixonada peroração, o pregador,
-começou por considerar que estando dentro d’aquella
-egreja, só miseros peccadores condemnados aos
-rigores do inferno, convidava-os a que se prostrassem
-de bruços, para pedirem perdão a Deus dos enormes
-peccados, que todos haviam de ter, no logar mais intimo
-da alma.</p>
-
-<p>Os gritos e soluços do povo sommavam-se, como
-elementos d’uma calamitosa tempestade. A gritaria das
-mulheres, que davam bofetadas nos seus filhos para os
-obrigar a carpir e conservarem memoria d’este sermão,
-esfusiavam no ar como uivos de vento. O pregador,
-para tomar mais pathetico o discurso, quil-o ornamentar
-com a conversão <i>d’um infiel</i>. O infiel era o Centurião,
-o filho do Cancella, no qual ia experimentar o poder
-extraordinario da divina palavra.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Desde o principio se reconhecera, que o José estava
-casmurro; pois que, a despeito de todo o povo chorar,
-elle sempre se mostrára atrevido, olhando o pregador<span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span>
-com altivez. Os seus soldados tambem o acompanhavam
-no ar insolente. Algumas pessoas que estavam no
-segredo do que se passava, attribuiam aquella chibancia
-ao ultimo cantaro de vinho. O pregador, ignorante
-do facto, antes o julgou muito bem compenetrado do
-papel. Por isso começou por pedir aos fieis, que o
-acompanhassem na exhortação que ia fazer. Como as
-toupeiras que não tem olhos para a luz do sol, aquelle
-desgraçado não tinha meio de presenciar o encanto da
-luz da divina graça. Vivia em trevas infinitas, d’onde só
-podia sahir pelo enorme poder do Senhor. E estendendo-lhe
-os braços paternaes, pediu suavemente:</p>
-
-<p>—Rende-te Centurião!</p>
-
-<p>—Rende-te Centurião!—acompanharam os circumstantes,
-n’uma voz chorosa e precatoria.</p>
-
-<p>O filho do Cancella, que passeava soberbamente
-no calvario, parou cofiando a barba com magestade e
-affirmou resolucto:</p>
-
-<p>—Não me rendo!</p>
-
-<p>O Agrella, que estava alli perto, disse-lhe de modo
-que elle ouvisse:</p>
-
-<p>—Não te rendes! Isso logo se verá meu pedaço
-d’asno.</p>
-
-<p>Evidentemente, esta ameaça do alfaiate perturbou a
-vista do esforçado Centurião. Por entre a longa barba,<span class="pagenum"><a name="Page_157" id="Page_157">[157]</a></span>
-sahiu-lhe um bafo enfurecido de colera, e se não fora
-a especial situação, era capaz de lhe quebrar a cabeça
-com a lança.</p>
-
-<p>O pregador, tendo limpo os beiços ao lenço, segundo
-a convenção, continuou exhortando o infiel e pediu-lhe
-com mais instancia. Pintou, deante do povo absorvido
-na sua palavra santa, o triste estado d’aquella
-alma obcecada, recusando receber em si a divina luz!
-Empregou maior energia de phrase, foi mais caloroso
-e persuasivo. O povo seguia-o, supplicando com elle,
-levantando clamor cheio de lagrimas. Ao segundo <i>rende-te</i>,
-quando o pregador mudou o lenço para o meio
-do pulpito, o Centurião respondeu cathegorico:</p>
-
-<p>—Não quero, não rendo!</p>
-
-<p>—Á terceira nós veremos—afirmou de novo o
-Agrella, que estava certo do que se passara entre o
-José Cancella e o pregador.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>O padre Silvestre investiu no ultimo pedido, dando-lhe
-a forma de objurgatoria. Para ser mais solemne, começou<span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span>
-em tom simples, subindo gradualmente até ao
-intimativo.</p>
-
-<p>Já via na fronte do Centurião um principio d’arrependimento.
-O grande Deus ia feril-o com um d’esses raios
-de divina omnipotencia, como ferira Paulo na estrada de
-Damasco, como ferira o impio Agostinho, e o proprio
-Moisés na montanha. Não podia consentir-se que vivesse
-entre christãos, uma alma peccadora e impenitente. A
-conversão havia de dar-se a preço da propria morte,
-porque o Senhor usa de todos os meios, para chamar
-a si as almas!</p>
-
-<p>O filho do Cancella, perseguido d’ameaças, não se
-commoveu. Porém, quando o pregador o equiparou aos
-grandes santos, já parecia amollecido no seu espirito de
-resistencia. O povo chorava e clamava em altos gritos,
-o peito enchia-se-lhe de ternura e arrependimento. Talvez
-fosse melhor acabar com aquillo, prostrar-se por
-terra, como tinha promettido. O pregador mudou o
-lenço para a direita e concluiu com voz energica e
-grave:</p>
-
-<p>—Abre esses olhos peccador! Rende-te Centurião!</p>
-
-<p>—Agora!—intimou o Agrella.</p>
-
-<p>O chefe da guarda romana fixou no pulpito um olhar
-atrevido. Julgou-se indigno da fama que tinha de valente
-se obedecesse á voz do Agrella. O vinho dava-lhe<span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span>
-coragem e audacia. Tomando a lança ás duas
-mãos, bateu uma forte pancada no pavimento e respondeu
-ao pregador:</p>
-
-<p>—Tenho-os bem abertos. Não me rendo! Não e
-não! Obrigue-me!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Depois d’isto a situação ficou inteiramente perturbada.
-O padre Silvestre teve uma paragem de surpreza.
-Não sabia o que aquillo queria dizer. Teria havido
-algum esquecimento ou engano?! Para que o rapaz
-percebesse melhor, tornou a pegar no lenço, suspendeu-o
-no ar e collocou-o á direita. Á voz imprecativa
-do sacerdote, juntava-se o clamor plangente e formidavel
-do povo. Pois que! O filho do Cancella tinha duvida
-em reconhecer o enorme poder da Omnipotencia!
-em se rojar diante do Senhor dos Senhores, do Rei dos
-Reis! em reconhecer que o Immaculado Cordeiro veio
-morrer fragilmente na forma humana, só para nos remir
-e salvar! Estranha e incomprehensivel cegueira!
-Empedernido no peccado, devia estar aquelle coração.
-E pediu-lhe de novo que se rendesse, que attendesse á
-commovente voz de todas aquellas mulheres que o exhortavam
-e no meio das quaes estaria sua propria mãe.</p>
-
-<p>As pessoas gradas pareciam irritadissimas. O brazileiro
-Guimarães lembrou-se de o mandar prender; mas<span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span>
-o desembargador João Xavier, achou isso improprio
-do logar. Enviaram o Zé Maximo, que lhe disse com
-moderação:</p>
-
-<p>—Rende-te, diabo! Olha que o homem já está rouco.</p>
-
-<p>—Deixe-o estar!—respondeu succintamente o Centurião.</p>
-
-<p>Todos se mostravam inquietos. Semelhante cabeçudo,
-merecia boa doze de páu—opinavam.</p>
-
-<p>O pregador estava esfalfado. A sua voz, já pouco
-distincta, era coberta pelo alarido que enchia a egreja!
-Ouviam-se supplicas, ameaças, palavras soltas, gritos,
-creanças a chorar...</p>
-
-<p>O filho do Cancella, de cada vez se inculcava mais
-firme, no proposito de se não render. Foram pedir ao
-pae que lhe impozesse a obediencia; porém o velho,
-que sempre tivera prosapias, mostrou má vontade de
-interferir. Opinou que o rapaz se renderia quando entendesse,
-que o deixassem lá, elle sabia bem do seu
-papel. Não era a primeira vez.</p>
-
-<p>Tudo parecia perdido. O padre Silvestre, exhausto
-de forças, furioso contra aquelle maroto, arrancou do
-peito um grito sublime. Com a colera estampada no
-rosto, dirigiu-se ao povo, e apontou vivamente para o
-Centurião clamando:</p>
-
-<p>—Aqui d’El-rei! contra aquelle maroto! Prendam-no<span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span>
-que foi elle que matou Nosso Senhor Jesus Christo!
-Povo! Faz justiça por tuas mãos.</p>
-
-<p>Os das confrarias largaram as tochas e correram em
-tropel. O chefe dos soldados romanos preparava-se,
-juncto com os seus homens, para levarem tudo á bordoada.
-Só então é que o velho Cancella se adeantou,
-agarrando o filho pelo tronco:</p>
-
-<p>—Eh! Zé. Que diabo é isso! Rende-te que já fizestes
-a tua figura, home!</p>
-
-<p>Elle então, arrumando a lança para um canto, submetteu-se:</p>
-
-<p>—Como vocemecê pede, vá lá! Se não ia tudo razo!</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Depois na sachristia, o Guimarães, furioso, disse-lhe:</p>
-
-<p>—Precisavas que te mettessem um páu, entendes?
-Culpa tive-a eu em mandar o cantaro de vinho. Não
-eras tu que fallavas, não.</p>
-
-<p>O abbade, esse, mesmo d’estola, quiz-lhe esmurrar
-as ventas. O pregador é que lhe agarrou n’um braço,
-socegando-o:</p>
-
-<p>—Deixa-o. Quem lhe hade pôr uma farda ás costas,
-sou eu. Lá é que ellas se pagam. Moinante!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span></p>
-
-<p>O filho do Cancella, ouviu-os com ar sizudo, sem
-responder. A vista toldou-se-lhe quando o ameaçaram.
-N’um impeto de colera, arrancou as barbas postiças e
-arrumando com ellas ao chão, disse sahindo para fóra:</p>
-
-<p>—Ainda um raio me parta se eu tornar a fazer de
-Centurião! Macacos me mordam, se pozer outra vez isto
-na cabeça!</p>
-
-<p>E atirou ao meio da herva do adro, o bello capacete
-prateado, que foi ter a distancia.</p>
-
-<p>O abbade, ainda se chegou á porta dizendo-lhe
-deante dos homens que alli estavam:</p>
-
-<p>—Ah! bom marmelleiro! Levem d’ahi esse odre de
-vinho, antes que eu lhe ponha os ossos num feixe.</p>
-
-<p>Em casa do pae, custou muito a socegal-o. Foi preciso
-deitarem-lhe uma chapoeirada d’agua fria para o
-acalmar. O somno que dormiu, foi de mais de doze
-horas!</p>
-
-<p class="date">Fevereiro de 86.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/footer9.jpg" width="200" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header9.jpg" width="500" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<h2 id="A_TRUTA_GRANDE">A TRUTA GRANDE</h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-l.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Lá está o padre João, a dormir na sua cadeira
-de braços, debaixo da fresca lata! Peito ao
-léo, as abas do amplo casaco de lustrina pendentes,
-breviario para um lado, lenço para outro, caixa
-do rapé na mão, o ventre arfando pausadamente...
-É todos os dias assim, depois de jantar, no tempo dos
-calores. Para avaliar a tranquilidade de certas almas,
-é melhor sentir-lhe a respiração suave, do que ler, tudo
-quanto pensadores e casuistas, tem escripto acerca
-de moral. E julga-se um homem accordado, o sereno
-eclesiastico, pois regouga palavras incomprehensiveis!
-Em que bello paiz de sonhos trabalhará a sua ideia?!
-Sorri-se, o labio papeja-lhe de contentamento... É
-que está á borda do rio, a canna de pesca firme, o
-olho interessado, a respiração silenciosa. Rabea-lhe<span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span>
-em volta da isca e em breve a morderá, o peixe guloso
-e estupido. A superficie da agua é serena. A transparencia
-deixa ver o fundo limoso e, talvez, a truta
-grande, com a magestade do seu nadar, passe altiva, a
-distancia.</p>
-
-<p>Ah! magnifico padre João, como estaes evidentemente
-enganado! Os tremulos e repetidos puxões que
-vos agitam o corpo, ebrio de goso, não são do peixe
-a depennicar na isca, são as gallinhas em cata de moscas.
-Ellas é que vos tiram pelas abas sebentas do casaco
-de lustrina, querido e obeso, padre João!...</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>O dia era d’agosto e bem quente. Atmosphera tremula
-e translucida, como se fora de crystal fundido. No
-rio, as lavadeiras entoavam canticos religiosos aprendidos
-com os missionarios e modas profanas colhidas
-dos cegos que passavam. Nos campos em redor, áquella
-hora, não havia murmurios do trabalho, pois já tinham
-acabado as sachas e as mondas. As regas, essas faziam-se
-de noite. Eram duas da tarde e entram no quinteiro
-os discipulos do latim. Ao verem o respeitado mestre,
-tão docemente adormecido, deixam-no em paz e vão<span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span>
-gazear para os lados do rio. O porco foi menos condescendente.
-Tardava-lhe a lavagem e principiou a grunhir
-em volta do quinteiro, parando com o focinho
-erguido para a cosinha. Este barulho espertou o excelente
-ecclesiastico. Primeiro abriu um olho, depois outro,
-conservando-se alguns minutos em contemplação, mãos
-crusadas sobre o ventre. Parecia contar detalhadamente
-os doirados cachos que formavam um docel sobre a
-sua cabeça! Por fim ergueu o tronco considerando:</p>
-
-<p>—Então não me ia deixando dormir?! Pois não é o
-meu costume. Ó Luiza!—chamou repetindo tres vezes.</p>
-
-<p>Uma voz de dentro da casa respondeu:</p>
-
-<p>—Não posso lá ir. Estou a arranjar a lavagem. Não
-ouve o pórco?</p>
-
-<p>—Tem piedade de mim, moça—exhorou o padre
-João. Tenho esta bocca como um pau velho.</p>
-
-<p>—Tambem, está sempre com seccuras!</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Mas a rapariga compadeceu-se. Primeiro que tractasse
-do porco foi á adega, trouxe uma infusa de vinho,
-collocou-a desceremoniosamente no chão, juncto
-do amo que disse:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span></p>
-
-<p>—Deus t’o pague mulher! Deus t’o pague! Se não
-fosse isto, nem hoje podia dar lições.</p>
-
-<p>Com sorriso beatifico, pegou na infusa, repimpou-se
-na cadeira e começou <i>glou, glou, glou</i>... até um
-final de saciedade, que consistiu n’um prolongado
-ahhh!...</p>
-
-<p>A creada, voltando com a lavagem, disse:</p>
-
-<p>—Já ahi vieram os estudantes, mas como vocemecê
-estava de papo p’r’o ar, lá se foram derriçar co’as raparigas
-p’r’o rio. Não lhe tem respeito nenhum—censurou.</p>
-
-<p>—Que respeito queres tu que me tenham?! Deixa-os
-lá, esta vida são dois dias. Gostam das moças?
-Tambem eu já gostei... e ainda gosto—concluiu
-arregalando olhos bregeiros.</p>
-
-<p>—Um padre velho, sempre falla d’um modo...</p>
-
-<p>—Historias! Velhos são os farrapos. Vae-me chamar
-esses estudantes. Se não aprendem latim, não serão
-nada. Latim é a base. Vae-os chamar, anda.</p>
-
-<p>E acabou de emborcar o resto da infusa, com um
-beber sereno de satisfação. A creada reprehendeu-o:</p>
-
-<p>—Todo elle é vinho. Quando não está, p’ra lá caminha.</p>
-
-<p>—O que, bebedo? grandissima cachorra. É coisa que
-nunca me viste, mentirosa. Gosto da pinga e de ti; mas
-não me embebedo com estas coisas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span></p>
-
-<p>—De mim! Arreda, que me quero casar.</p>
-
-<p>—Com esse garotaço que te namorisca? Has-de casar
-sem banhos, nem benção, eu t’o affianço. Vae-me
-alli chamar os estudantes, anda.</p>
-
-<p>—Vá você, que tenho a massa a aziumar. Se hade
-tornar a adormecer...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Luiza subiu a escada de pedra para a cosinha. O
-padre João levantou-se sem resistencia, sahiu o portal
-e foi pelo carreiro abaixo, com o lenço vermelho a resguardar-lhe
-a cabeça, do sol. Chegado á margem do
-rio, lá viu os discipulos brincando com as lavadeiras.
-Muitas d’ellas levavam a coisa de galhofa; outras
-enxotavam-nos com pragas. O professor não se encolerisou,
-apesar de alguns estarem a fumar—o maior
-de todos os vicios, e que elle odiava do fundo d’alma.
-Toda aquella alegria e mocidade lhe arejou os sessenta
-annos. Enamorado da juventude, quedou-se a contemplar
-o quadro cheio d’animação. Benevolo e risonho,
-fatiava comsigo mesmo.</p>
-
-<p>—Não querem ver como se arreitam? Ora, ora, já
-a formiga tem catarrho!...</p>
-
-<p>Levava o lenço ao nariz para enxugar o pingo da
-distracção. Escondido por detraz d’um choupo, interessava-se
-na contemplação d’este quadro virgiliano. Absorvia
-a fundos haustos o ar impregnado de terriveis prazeres,<span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span>
-que lhe revolviam os nervos. Recuava quarenta
-annos, ao tempo das rapasiadas, dos bons acasos, quando
-apalpava contornos e sentia na approximaçâo da carne,
-coisas de mil demonios. Talvez que ainda recuasse mais,
-á famosa edade em que a imaginação trabalha inquieta,
-creando gozos, adivinhando extasis e vive de imperiosos
-desejos, que entumescem. A physionomia graciosa
-do padre João, expandia-se á vista do quadro simples
-e primitivo—o beiço tremulo revelava o seu interior. A
-paisagem era encantadora, a corrente da agua arrepiava-se
-nos seixos; na mente do mestre de latim só podia
-haver quadros pittorescos de antigos faunos, a rirem
-juncto de fontes, em florestas edylicas.</p>
-
-<p>—Olha o Esteves—commentava—como repara
-nas pernas da Clementina! Grandissimo tratante! Talvez
-não saibas o <i>Sum, és, fui</i> e estás ahi com esses
-olhos. Como já tem malicia! Mas que maliciasinha! mas
-que maliciasona!</p>
-
-<p>Limpou precipitadamente outro pingo. Humedecia
-os beiços com a lingua, como o guloso de bellos manjares.
-Tudo aquillo o interessava. Sentou-se na relva
-por traz da arvore. Tomou uma abundante pitada, fungada
-em tres tempos, com todas as precauções para
-que o não presentissem.</p>
-
-<p>—Ahh!!!...—respirou.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span></p>
-
-<p>Queria ver onde aquillo chegava. Não podia ser
-grande coisa, estava muita gente, as mulheres velhas
-são experientes. Alguma apalpadella, um empurrão, talvez
-cocegas para fazer cahir as raparigas. Lá adeante,
-no meio do salgueiral andava a Victoria a estender a roupa
-e cantava o <i>Afasta</i>, <i>janota</i>, <i>arreda</i>. O padre João via-a
-pelas costas, o tronco inclinado sobre a relva, as ancas
-largas, as rijas barrigas das pernas, á mostra. Rapariga
-saudavel, muito alegre, amplo seio destinado a
-fecunda maternidade. Disiam que namoriscava o filho
-do sachristão; mas de quem ella parecia gostar verdadeiramente,
-era do praticante da botica, que lhe dava fartura
-de banha de cheiro, para o cabello. Trabalhava distante
-das outras lavadeiras, no coradouro, e para molhar
-as teias que lhe estavam confiadas, mettia-se no rio
-até aos joelhos, atirando agua ás manadas. O sol faiscando
-sobre a areia do seixal enlanguescia os corpos,
-estonteava as cabeças. A Victoria desappareceu entre
-os salgueiros, para os lados onde não havia gente. E
-pouco depois, o discipulo mais graúdo do Padre João,
-o Thomaz do mercador, para lá se dirigiu, assobiando
-disfarçadamente.</p>
-
-<p>—Olhem o moinante! Não querem ver?—rugiu o
-mestre do latim.</p>
-
-<p>Porem, mais longe, n’uma clareira, a moça, reappareceu.<span class="pagenum"><a name="Page_173" id="Page_173">[173]</a></span>
-O padre d’alli mesmo se pôz a vigiar, que não
-houvesse qualquer coisa. O estudante encontrou-se com
-a lavadeira, quiz effectivamente agarral-a, mas a rapariga
-esquivou-se-lhe, correndo adeante d’elle, furtando-se por
-entre troncos d’arvores. O ecclesiastico para ver melhor,
-levantou-se, seguia-os com prazer, inclinava-se para um
-lado e para o outro, punha-se nos bicos dos pés.</p>
-
-<p>A Victoria a dar gargalhadas condescendentes, gritava
-pelas companheiras, ameaçava com um gougo o
-preseguidor. «E pilha-a.» «E agarra-a...» «Agora...
-fugiu...» «Lá cahiram ambos...»—ia elle commentando,
-comforme os cambiantes da lucta.</p>
-
-<p>—O diabo é o Thomaz! Não escolheu mal o patifão—considerou,
-quando os dois, junto um do outro,
-conversavam sensatamente.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Mas o aspecto de conciliação perturbou-se. O estudante
-perseguiu de novo a rapariga que lhe fugia, gritando.
-A Lindoria ouvindo, correu para o sitio, cheia
-de fervor beato.</p>
-
-<p>Ralhou, esbracejando descompostamente. A sua gritaria
-era para denunciar o rapaz, ao longe: «Maroto,<span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span>
-metta-se com quem lhe der trela, não ande a desinquietar
-as almas». Ameaçou o estudante com o pae, com
-os missionarios, com uma queixa ao professor, com o
-inferno.</p>
-
-<p>—Ah! tambem não é coisa para tanto—disculpava
-o sacerdote comsigo. Elle não fez mal nenhum.</p>
-
-<p>Mas Lindoria não era d’este modo de pensar. Como
-Thomaz e outros companheiros lhe retorquiram com
-palavras feias, ella enfurecida e descomposta, subiu
-pelo carreiro, mesmo direita á casa do padre João.
-E berrava pelo caminho:</p>
-
-<p>—Seus tratantes. Hão de dar grandes padres ou
-doutores. Padres! Abrenuncio! Eram capazes de dar
-cabo do reino dos céus. Ah! Vossa Senhoria já ahi
-vem? É que ouviu esta pouca vergonha!</p>
-
-<p>Tinha dado de frente com o ecclesiastico, que retrocedera
-no caminho, para fingir que vinha de casa. A
-Lindoria, presumindo-lhe a ideia da procura dos discipulos,
-indicou-lhos:</p>
-
-<p>—Estão alli senhor. Tire-lhes a pelle das mãos pelo
-amor de Deus, pelas cinco chagas, senhor padre João.
-Olhe que não sabe os marotos que tem!</p>
-
-<p>A figura do mestre de latim, quedou-se respeitavel
-no alto da ladeira. Com um gesto largo de commando,
-appontou aos discipulos o caminho da aula.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span></p>
-
-<p>Vieram todos junctos, como um cardume de peixes.
-O sacerdote caminhou adeante, sem os esperar,
-com o lenço vermelho pela cabeça, as abas do casaco
-afastadas como dois remos. E susteve-se um momento
-voltando-se para traz, com o fim de os increpar:</p>
-
-<p>—São estas as horas d’aula? Eu ha um rôr de tempo
-á espera!...</p>
-
-<p>A beata ainda lhe quiz contar tudo, mas o padre
-João nem a quiz ouvir:</p>
-
-<p>—Não me dás novidade. Conheço-os. Deixa-os por
-minha conta.</p>
-
-<p>Os estudantes seguiram-no, com semblantes de
-pouco temor. Já tinham experimentado mais vezes
-aquella farronca. Eram, quasi sempre, os dias mais serenos
-e benevolos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_176" id="Page_176">[176]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Debaixo da varanda alpendrada, onde o ecclesiastico
-dava lições de verão, que se iria passar?</p>
-
-<p>O padre João fazia um barulho da breca. Movendo-se
-com uma presteza desusada, foi ao quarto buscar
-a palmatoria, para amedrontar. Não se queria ver entre
-os dentes de Lindoria, que era capaz de lhe inventar
-a peior fama. Aquellas paredes e aquella figueira, habituadas
-ás objurgatorias tytanicas de Tito-Livio, aos
-versos amplos do melodico Virgilio, ás palavras conceituosas
-do velho Horacio e de Esopo, deviam estar
-atemorizadas, pela subita colera do professor.</p>
-
-<p>Chegou a parecer iracundo—o sobr’olho carregado,
-os beiços estendidos, o rosto afogueado. Os rapazes
-curvados sobre os livros, já se não riam. O padre,
-abrindo o Virgilio, disse desabridamente:</p>
-
-<p>—Tradusa as Eclogas, senhor Magalhães. O senhor
-Thomaz emenda. Por cada erro uma palmatoada no
-primeiro e duas no segundo. Vamos a ver se são tão
-fortes em analyse, como na bregeirice.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_177" id="Page_177">[177]</a></span></p>
-
-<p>Os mais pequenos, com as grammaticas abertas sobre
-os joelhos, estavam pallidos! Nunca o tinham visto assim!
-Respirava-se alli uma atmosphera de terror. O mestre
-tinha baforadas de colera, batia com a palmatoria sobre
-a meza, arrumava os livros com impeto. O seu fim era
-crear em volta de si, um ambiente de respeito.</p>
-
-<p>A consciencia gritava-lhe que não seria bastante punidor;
-mas estava resolvido a amedrontar a propria
-consciencia.</p>
-
-<p>Para estabelecer uma intransigencia material entre si
-e aquelles que ia julgar; para se recolher absolutamente
-no grave papel de juiz, cobriu o rosto com o Virgilio.
-Não desejava ver os reus. Nenhum aspecto de humildade
-ou compuncção o tocaria!</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>O Thomaz era o melhor dos seus estudantes. Traduzia
-Virgilio com elegancia, penetrando-lhe as subtilidades
-litterarias. Foi elle quem principiou a licção e
-não o Magalhães, como ordenára o professor. O padre
-João conheceu a manha. Deixou-se enganar, até lhe
-achou graça. Um ligeiro sorriso (o primeiro na tempestade
-do seu rosto), abriu-se como uma flor de cacto.<span class="pagenum"><a name="Page_178" id="Page_178">[178]</a></span>
-As paisagens tepidas e enganosas, d’uma suavidade
-extensa, principiaram a desenhar-se-lhe deante dos olhos.
-Tityro e Melibeu philosophavam na sua linguagem culta
-e suave, como o murmurio dos regatos. A pastora das
-florestas, idyllicamente á sombra das arvores, dizia do
-seu peito coisas ternas ao pegureiro amado, que tangia
-frauta rude, juncto d’um ribeiro. O verso sahia claro, levantando-se
-n’uma cadencia adormecedora. Havia as
-messes côr de manteiga, enchendo de riqueza o valle;
-na encosta estendiam-se rebanhos de cordeiros, que
-balavam por suas mães. Esta completa abstracção de
-materialidade, foi gradualmente enternecendo o mestre
-encolerisado.</p>
-
-<p>Ao fim de poucos minutos, já respirava uma atmosphera
-de bondade natural; havia descoberto o rosto incauto.
-Não déra pela transição. Foi acompanhando em
-voz alta o discipulo que em breve o deixou só, limitando-se
-a ouvil-o. Pouco depois, o professor estava de pé,
-no meio da varanda, lendo com enthusiasmo, elevando-se
-nas maravilhas da comtemplação egoista do poeta!
-Desapparecera o mestre iracundo, não havia palmatoria.
-Boquiaberto, deante dos discipulos, exclamava:</p>
-
-<p>—Como isto é bello! Como isto é bello!</p>
-
-<p>Foi-se á caixa do rapé, tomou farta pitada, fungou-a
-sem rebuço, de pernas escachadas. Cahiu extenuado de<span class="pagenum"><a name="Page_179" id="Page_179">[179]</a></span>
-prazer, na sua cadeira magistral. O Thomaz, que era
-velhaco, aproveitou o momento para dizer:</p>
-
-<p>—Não sabe o senhor padre João, o que nós vimos
-ha boccado?</p>
-
-<p>—Que foi?—perguntou.</p>
-
-<p>—A truta grande, a serenar, encostada á pedra
-branca!</p>
-
-<p>Tornou-se pallido e extatico! Endireitou-se na cadeira
-e disse, esforçando-se por se mostrar tranquillo:</p>
-
-<p>—A truta grande, que anda ahi no rio!?</p>
-
-<p>—Vi-a com estes.—insistiu o discipulo. É assim!—
-designou o comprimento d’um braço.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_180" id="Page_180">[180]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Estes maliciosos conheciam-lhe o fraco, como toda a
-gente. Muito mais do que apaixonado amante dos classicos
-latinos, era um pescador de canna. Esta paixão
-soturna é que lhe enchia a existencia. Por ella esquecia
-deveres sacerdotaes, obrigações escholares e a propria
-comida. Borracha á cinta, um naco de brôa, azeitonas...
-e lá andava um dia inteiro, pela margem do
-rio, para baixo e para cima, a cocar. Principalmente se
-o peixe picava, se enchia o cacifre, o seu gozo era infinito.
-Só para algum <i>Senhor fóra</i> é que tinham ordem
-de o chamar, com tres badaladas no sino da torre.
-Esta ideia d’um moribundo se preparar para ir á presença
-de Deus, era mais forte. E resmungava ao enrolar
-a sedela:</p>
-
-<p>—Como é para coisa d’estas, não ha remedio.</p>
-
-<p>N’estes termos, habil foi o estratagema dos discipulos,
-para se lhe apoderarem do espirito benevolente, e
-conseguirem o sueto que desejavam.</p>
-
-<p>O caso, apontado pelo Thomaz, era grave. Havia<span class="pagenum"><a name="Page_181" id="Page_181">[181]</a></span>
-annos que elle, ao desafio com o morgado da Torre
-Velha, procuravam a gloria de pescar a famosa truta
-grande! Era um animal matreiro, raramente se mostrava
-fóra d’um fundo poço, onde as redes se não arriscavam.</p>
-
-<p>Juncto da pedra branca, só a tinham visto, duas ou
-tres vezes. A revelação do discipulo fez com que o
-padre João desconhecesse immediatamente os encantos
-bucolicos de Virgilio, as pompas litterarias de Tito-Livio.
-Deante de si, não tinha o criminoso que minutos
-antes lhe arrancára berros de colera; só via o individuo,
-que possuia um conhecimento para elle inestimavel.</p>
-
-<p>—Então era a truta grande! Tu vistel-a bem?! Tu
-conhecel-a?!</p>
-
-<p>—Se vi! Se conheço! Estava a serenar muito junctinha
-á pedra. Quando vinha á tona algum bichinho a
-rabear, ella nadava depressa e, zaz, abocava-o, dando
-um pulo fóra d’agua.</p>
-
-<p>—Oh! com mil demonios!—exclamou.—Oh! minha
-Virgem Santissima, que lhe vou metter o anzol,
-mesmo na guela!</p>
-
-<p>E depois um pouco mais sereno, no abatimento produzido
-por uma onda de gozo considerou:</p>
-
-<p>—Ha quantos annos ando eu atraz d’essa ladra! O<span class="pagenum"><a name="Page_182" id="Page_182">[182]</a></span>
-dia hoje está quente... Sol de trovoada, é bom p’ra
-coisa! Que dirá o D. Luiz, quando souber?...</p>
-
-<p>Mostrava nas palavras verdadeira energia de luctador;
-o seu campo de batalha era aquelle.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>De entre muitas cannas, suspensas ao longo da parede
-da varanda, escolheu a que tinha ponteira mais flexivel
-e resistente. Da gaveta da sua banca de professor,
-tirou uma sedela de côr verde-agua.</p>
-
-<p>Calculava tudo para ficar victorioso, n’esta peleja
-que durava annos. Alli não havia mestre, nem discipulos.
-Os rapazes davam-lhe conselhos, offereciam-se para
-ir ás minhocas, e o Thomaz achou muito grossa a sedela:</p>
-
-<p>—És tolo—retorquiu o mestre. Não ves que é uma
-truta do tamanho d’um savel! Se a apanho, vocês tem
-feriado tres dias! Como ficará o D. Luiz? Ai! que regalo.</p>
-
-<p>O morgado da Torre Velha era o seu competidor
-na pesca á linha.</p>
-
-<p>Encontravam-se frequentemente n’este desafio tacito.
-A cada peixe que um encacifrasse, o outro fazia um<span class="pagenum"><a name="Page_183" id="Page_183">[183]</a></span>
-cumprimento espalhafatoso, mas odiento. Ambos se julgavam
-com eguaes direitos, á creação de todo o rio.
-A truta grande, porém, como um e outro tinham jurado
-apanhal-a, era motivo de mais grave conflicto. Por
-causa d’ella tinham feito pesquizas especiaes. Iam de
-noite, de dia, nas occasiões das cheias para juncto da
-azenha; porque, de vez emquando, o formoso animal
-vinha-se alli refrescar, nas aguas correntes.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Estudavam em separado, os estados climatericos, para
-calcularem o momento proprio de conseguirem o seu fim.
-Quando a qualquer d’elles parecia opportuno, tomava
-a canna precipitadamente, e ainda que o jantar estivesse
-na mesa, abalava para o rio. Muitas foram as desillusões,
-fadigas e contrariedades; mas tudo venciam com
-tenacidade heroica. A dormir e acordados tinham momentos
-de subito terror: cada um via o outro, apparecendo
-victorioso, com a truta presa do anzol, usando
-de mil habilidades para a trazer á margem, sem partir
-a sedela. Porém n’esta occasião o mestre de latim (talvez
-ainda resto do espirito de rigorismo com que entrára
-na varanda) entendeu que devia continuar as licções
-e disse encostando a canna ao canto:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_184" id="Page_184">[184]</a></span></p>
-
-<p>—Vamos primeiro acabar as licções.</p>
-
-<p>Os discipulos entreolharam-se aterrados! Por esta
-é que elles não esperavam. A lembrança feliz não sortira
-effeito. Uma risonha invenção, reduzida a nada.
-O plano de irem roubar n’essa tarde certas uvas doiradas,
-completamente gorado! Todos os rostos se voltaram
-para o Thomaz, que estava cabisbaixo e confuso.
-Porém, neste apuro, foi o sonso do Esteves, que fallou:</p>
-
-<p>—A estas horas, já está por lá o senhor D. Luiz,
-com a sua canna...</p>
-
-<p>O padre João, deu um pulo na cadeira e perguntou
-rapidamente:</p>
-
-<p>—O senhor viu-o passar!?</p>
-
-<p>—Não senhor; mas no outro dia pediu ao moleiro
-que, quando ella por alli apparecesse, o mandasse chamar.</p>
-
-<p>Era quasi tão terminante como se o tivessem lá visto.
-Seria mais acertado partir immediatamente, antes que o
-da Torre Velha tivesse denuncia. Tornava-se indispensavel
-tomar-lhe a deanteira.</p>
-
-<p>—Bem, bem... Essas licções na ponta da lingua
-para amanhã. E não me vão para o rio, por causa das
-lavadeiras. Não gosto da lingua da tal Lindoria, que
-vae por ahi badalar... badalar...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_185" id="Page_185">[185]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Partiu de canna ao hombro e n’um passo diligente.
-<i>Deus nobis heac otia fecit</i>—segredava comsigo. Os discipulos
-fugiam para o outro lado, com medo que ainda
-lhe desse a tineta, de voltar para traz. Corriam pelos
-caminhos, davam saltos, guinchos... O Thomaz relembrou-lhes
-o que disse o padre João, porém elles,
-não se importaram, continuando a correr e a gritar sem
-fazerem caso.</p>
-
-<p>Na margem do rio, o sacerdote, armou-se de todos
-os cuidados para não ser presentido do esperto animal.
-Ao dirigir-se á pedra branca, os passos eram
-miudos, evitando as folhas seccas, que gemem debaixo
-dos pés.</p>
-
-<p>Que enorme prazer de vingança! Iria passar á porta
-do morgado, com a truta pendente da mão. «Olha lá!
-rala-te p’ra’hi!»—havia de dizer mentalmente. Nunca
-houve bandido que espreitasse com mais sagacidade a
-sua victima.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_186" id="Page_186">[186]</a></span></p>
-
-<p>Já de longe levava a canna prestes, a sedela colhida
-na mão para a lançar imprevistamente. Estava a pouca
-distancia, quando estacou, pallido de colera! O D. Luiz,
-surgíra n’esse momento da porta da azenha, seguindo
-rio acima com o anzol tambem prompto!</p>
-
-<p>—Olhem o excommungado do barbaças que teve
-denuncia!—exclamou o ecclesiastico. Bem disseram os
-rapazes!</p>
-
-<p>O fidalgo, homem edoso, corpulento, tez morena das
-soalheiras, olhar emprehendedor, tambem o viu e, provavelmente,
-faria identicas reflexões.</p>
-
-<p>Comprimentaram-se com sorriso desdenhoso e n’esse
-instante abriu-se entre elles uma lucta colossal.</p>
-
-<p>Estavam quasi a mesma distancia. Approximarem-se
-atabalhoados era inconveniente. Tanto um, como
-outro comprehenderam a gravidade do momento. O
-peixe era um só e decerto não teria a condescendencia
-de pegar nos dois anzoes ao mesmo tempo. O padre
-João humildou-se. Fez ao inimigo um signal em que
-pedia uma tregua, com o fim de parlamentarem. As circumstancias
-exigíam prudencia e ambos se afastaram da
-margem, para virem á falla.</p>
-
-<p>O padre disse primeiro:</p>
-
-<p>—Assim não póde ser, morgado. Nem p’ra mim,
-nem p’ra Vossa Senhoria!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_187" id="Page_187">[187]</a></span></p>
-
-<p>—Que quer você que lh’eu faça? O rio não é
-grande?</p>
-
-<p>—Mas a truta é uma, e se vamos á porfia escapule-se.
-Vossa Senhoria sabe que ella está alli.</p>
-
-<p>—Palavra que não! Porque diabo não está você a
-dar aula aos seus rapazes?!</p>
-
-<p>O sacerdote, zangado comsigo por lhe ter denunciado
-a truta, não pôde supportar-lhe a censura:</p>
-
-<p>—E porque diabo não está o senhor a dormir a sua
-sesta! Ora é muito fina!</p>
-
-<p>Estavam furiosos um contra o outro; mas a occasião
-era inopportuna para se descomporem. N’esse momento,
-juncto da pedra branca, a superficie do rio enrugou-se,
-a agua espadanou e um peixe enguliu um insecto
-que vinha nadando.</p>
-
-<p>—Seria ella?—rugiu o D. Luiz, com vontade de
-matar o padre.</p>
-
-<p>—Ná...—opinou este fazendo-se forte—Ella ha de
-fazer mais mossa.</p>
-
-<p>No fundo ambos acreditaram que podia ser. «Maldito
-sotaina!» «Maldito barbaças!»—insultaram-se mentalmente.</p>
-
-<p>—Bem—disse o padre. Dois ao mesmo tempo é
-que não póde ser. Quer Vossa Senhoria que se tire á
-sorte quem ha-de ir?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_188" id="Page_188">[188]</a></span></p>
-
-<p>—Valeu—concordou o fidalgo.</p>
-
-<p>D. Luiz tirou um pataco do bolso e perguntou:</p>
-
-<p>—Cruzes ou cunhos?</p>
-
-<p>—Cruzes que eu sou padre. Agora trapaceie, se lhe
-parece.</p>
-
-<p>—Não tenho os seus costumes, seu bebedo!—respondeu
-o fidalgo, mostrando na palma da mão as cruzes
-da moeda.</p>
-
-<p>E atirando ao ar o pataco com força, viram-no cahir
-a distancia. Os dois pescadores correram cheios de
-commoção.</p>
-
-<p>—Cunhos!—gritou o morgado ao ver a papuda
-efigie do rei D. João VI.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_189" id="Page_189">[189]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>O padre João acceitou resignado a sentença. Encostou
-a um valado a canna, tirou prodiga pitada da caixa
-de prata e foi-se sentar n’uma pedra trauteando cantochão,
-talvez pela mesma razão que tem os condemnados
-á morte, para pedirem que rufem os tambores,
-junto do cadafalso. D. Luiz augmentava-lhe o supplicio,
-caminhando vagarosamente para a margem. Dois annos
-de pesquizas e cuidados iriam terminar n’aquelle instante,
-pela victoria do seu adversario? Desappareceria
-aquelle tropheu de gloria, que lhe dera tantos sonhos
-enthusiastas? Principiou a cantar alto, desvairado por
-um sentimento de malevolencia. O da Torre Velha
-advertiu-o:</p>
-
-<p>—Isso é para espantar, padre João?</p>
-
-<p>Callou-se ficando n’um abatimento triste.</p>
-
-<p>Ia presenciar a sua vergonha. O dia estava magnifico.
-Com ar de trovoada o peixe pica, que nem mil
-diabos! E figurava-se-lhe na imaginação a truta grande<span class="pagenum"><a name="Page_190" id="Page_190">[190]</a></span>
-de guela aberta, aboccando a minhoca do barbaças.
-Era horrivel e desoladora esta possibilidade!</p>
-
-<p>Mas porque é que o cubiçado peixe não havia de
-fugir? A maior parte das vezes é o que succede—consolou-se.
-A elle mesmo não lhe tinha acontecido? Ella
-a serenar, a serenar, muito quietinha, deante dos seus
-olhos, nem parecia coisa viva... Procurava o lado de
-cima, lançava o anzol a distancia para vir nadando
-pela agua a baixo como um bicho inexperto, e afinal,
-a truta que para elle era o animal mais intelligente da
-creação, escapulia-se por entre os penedos, que era um
-regalo! Quantas vezes isto lhe succedera? Uma infinidade.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Ainda outra consideração:</p>
-
-<p>O morgado não era grande pescador de linha. Ignorava
-muitos segredos da arte sublime e não possuia todos
-os petrechos. Teria elle escolhido uma sedela bastante
-verde-agua para não ser percebida, e bastante forte
-para resistir aos repellões do valentissimo animal?! A
-truta é o peixe mais valente do rio, tem uma força que
-poucos apreciam. Talvez o seu antagonista não soubesse
-calcular essa rijeza—considerou.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_191" id="Page_191">[191]</a></span></p>
-
-<p>Porém a gravidade do caso parecia ter dado ao
-D. Luiz uma intelligencia agudissima. Atirou calculadamente
-o seu anzol e seguia pela margem, com o olho
-álerta e prompto a dar a pancada, logo que chegasse
-o momento. O padre João teve vontade de fingir uma
-dôr, só para o perturbar. A anciedade do seu peito,
-crescia tumultuariamente, como oceano em furia. Aquella
-alma bondosa, teve a ideia repugnante de desejar uma
-apoplexia ao fidalgo! Mas reconhecendo-se criminoso,
-por este mau pensamento, poz o coração á larga, tornou-se
-magnanimo e até, mentalmente, pediu a Deus,
-que deixasse o morgado pescar a truta grande. Mas o
-da Torre Velha relanceou-lhe um olhar triumphante e
-o padre João, logo mudou de parecer, rosnando:</p>
-
-<p>—Ah! ladrão! que se ella te foge muito me hei de rir.</p>
-
-<p>O instante verdadeiramente supremo ia chegar. O
-anzol já se podia calcular perto da pedra branca.</p>
-
-<p>Que infernal chamma abrazava o peito do ecclesiastico!?
-Poz-se de pé, só para seguir nas minudencias toda
-a peripecia. O fidalgo, attento e subtil, empregava o
-maximo da sua intelligencia.</p>
-
-<p>Afinal, sente a pancada! Curva-se a ponteira! O
-peixe estava preso!</p>
-
-<p>—Ah! grande maroto, que m’a roubaste—exclamou
-o ecclesiastico.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_192" id="Page_192">[192]</a></span></p>
-
-<p>O instincto obrigou-o a ser generoso. Gritou ao
-D. Luiz:</p>
-
-<p>—Agora é não a deixar fugir.</p>
-
-<p>—Elle é o deixa—respondeu com orgulho, o da
-Torre Velha.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_193" id="Page_193">[193]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Começou a lucta heroica entre o fidalgo e o peixe.
-O animal era valente, podia quebrar a sedela, se o quizesse
-tirar sofregamente do rio. Tambem podia acontecer
-rasgar-se-lhe o beiço ou metter-se debaixo d’alguma
-lapa, se não tomasse precauções. Para obstar aos inconvenientes
-era indispensavel cançal-o, com paciencia
-e perspicacia. Por isso D. Luiz attrahiu-o a um logar
-conhecido, e alli o deixou rabear, defendendo-lhe o
-mysterioso poço, onde a truta se podia enredar n’alguma
-raiz. Puchava-a vagaroso e com delicadesa, consentia-lhe
-prudentes guinadas para o largo, dava-lhe linha
-calculadamente.</p>
-
-<p>Ao fim de cinco minutos, tanto o fidalgo como o
-padre João, reconheceram que o peixe estava prompto.
-Condescendia, deixava-se ir para onde o levassem, mostrava-se
-fatigado e manso.</p>
-
-<p>O sacerdote, já resignado, seguia todas as manobras
-sem rancor.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_194" id="Page_194">[194]</a></span></p>
-
-<p>—Ande que apanhou—disse. Puche-a para perto e
-deite-lhe a mão debaixo d’agua, se não, ainda a vê por
-um oculo.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>O D. Luiz aproveitou o conselho.</p>
-
-<p>Attrahiu manhosamente o peixe ao sopé do muro,
-para que lhe ficasse debaixo d’um terrouço. Depois desceu;
-deitou-se de barriga, tão baixo que as barbas lhe
-tocavam na agua; introduziu um braço, guiando-se pela
-sedela; e, quando conheceu que lhe tinha um dedo na
-guelra, disse victorioso:</p>
-
-<p>—Esta já não foge, padre! Que bruta que ella é!</p>
-
-<p>Retirou o braço da agua, ergueu-se, ficando com o
-peixe pendente.</p>
-
-<p>—Olhem o que é! Um barbo!... um peixe reles!—exclamou
-o sacerdote.</p>
-
-<p>D. Luiz da Torre Velha, assim ludibriado pelo acaso,
-teve a ideia de atirar com o barbo á cara do padre! Porem
-era uma injustiça—considerou. Que culpa tinha
-de tudo isto o mestre de latim?! O seu abatimento, gerado
-na fatal desillusão era patente. Pegou na canna, na<span class="pagenum"><a name="Page_195" id="Page_195">[195]</a></span>
-sedela, no cacifre, no peixe e... zaz!... atirou tudo
-ao meio do rio.</p>
-
-<p>—Nunca mais! Póde ter a certeza de que nunca
-mais volto a isto—affirmou retirando-se.</p>
-
-<p class="date">Abril—85.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/footer10.jpg" width="200" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_196" id="Page_196">[196]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_197" id="Page_197">[197]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header10.jpg" width="500" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<h2 id="UM_CORVO_E_UM_PAPAGAIO">UM CORVO E UM PAPAGAIO<br />
-<span class="smaller">(CONTO PARA CREANÇAS, OFFERECIDO AOS MEUS FILHOS)</span></h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-i.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Isto passou-se no tempo dos animaes fallantes:</p>
-
-<p>Um velho corvo, tendo de edade perto
-d’um seculo, n’um dia de muita chuva e vento,
-veiu, já sem forças, poisar na beira d’um telhado.
-Este valente da amplidão dos ares, tinha perdido toda
-a arrogancia do seu porte; encolhido e a tremer não
-se podia já ter nas pernas. A extremidade amarellada
-das suas pennas, outr’ora tão negras, mostrava que padecia
-de velhice e de fome. Ao habitante eterno dos
-penhascos sombrios, ao motejador das tempestades que
-assustam os homens, coube-lhe o vir dar o ultimo suspiro
-da sua longa vida, perto do comedoiro farto e luxuoso
-d’um vulgarissimo papagaio real. Este, de papo
-cheio, e aquecido pelo ar tepido da cosinha, ao sentir<span class="pagenum"><a name="Page_198" id="Page_198">[198]</a></span>
-a queda do corpo enfraquecido do corvo, perguntou
-d’um modo gracejador:</p>
-
-<p>—Que é lá!? Quem passa?</p>
-
-<p>Uma voz quasi soluçante, conservando a meiguice
-dum peito corajoso, e o vigor do suspiro d’um general
-moribundo nos campos de batalha, respondeu:</p>
-
-<p>—Gente de paz, amigo. Descanço um momento.</p>
-
-<p>—Olha um corvo!—gritou o papagaio cheio de
-medo. Aqui d’el-rei que me come! Antonio, acode!</p>
-
-<p>Mas o corvo, com uma voz tranquilla e cheia de
-bondade, serenou-o:</p>
-
-<p>—Não te assustes... Não tenhas a meu respeito
-a opinião do povo, que é errada. Sou meigo e infeliz.
-Tive filhos, casa, uma companheira de muitos annos e
-tudo isto me roubaram os homens. Durante a minha
-vida d’um seculo, tenho visto mais barbaridades praticadas
-pelos corações piedosos, do que todas as que
-attribuem á minha raça maldita.</p>
-
-<p>O papagaio, ainda receioso, mas cheio de curiosidade
-perguntou:</p>
-
-<p>—Então não és feroz e cruel como dizem?</p>
-
-<p>—Não. Tenho affectos; no alto dos meus queridos
-rochedos, muita vez escutei com prazer o canto dos
-passaros nossos irmãos e a alguns quiz imitar. Amigos
-meus e meus irmãos viveram entre homens, tornaram-se<span class="pagenum"><a name="Page_199" id="Page_199">[199]</a></span>
-familiares, chegando a comprehender a linguagem que
-se falla. Eu sempre gostei do ar forte e da liberdade
-das montanhas. Hoje enfraquecido e cheio de fome fui
-arrumado para este telhado, pelo vento que toda a vida
-escarneci. Ha muitos dias que não como, dás-me alguma
-coisa d’isso que ahi tens?</p>
-
-<p>—Não posso—respondeu o egoista.—O meu arroz
-mal chega para mim... Tu tambem o não comias.
-Do que mais gostas, segundo dizem, é de carne
-podre.</p>
-
-<p>—Que remedio tenho eu, á falta de melhor? É o
-unico alimento dos infelizes que vivem nas solidões.
-Comemos tudo... a fome é negra. O teu arroz cheira
-tão bem... Dá-me um bocadinho? Poucos minutos me
-restam de vida. Deixa-me ao menos aproveitar da tua
-comida, isso que tu deitas fóra e desprezas.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Fez um esforço para voar; mas não podia. No entretanto
-esse mesmo movimento d’azas atemorisou o
-papagaio que bradou:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_200" id="Page_200">[200]</a></span></p>
-
-<p>—Não te chegues, não te chegues! Tu o que desejas
-é comer o meu arroz e talvez engulir-me a mim
-mesmo. Nada de brincadeiras. Essa tua fraqueza póde
-muito bem ser fingida, para me enganares. Não te chegues,
-senão chamo o Antonio, o meu amigo cosinheiro,
-que arranja coisinhas boas para o meu papinho, e
-se elle vem, olha que dá cabo de ti.</p>
-
-<p>O corvo, quasi agonisante, soluçava tremendo de frio
-e de fome:</p>
-
-<p>—Não me odeies, lá por eu ter má opinião em toda
-a gente. No tempo em que era forte, quantas vezes
-não cobri com o meu corpo, muitos passarinhos que
-não podiam resistir á tempestade?! Fiz o bem que
-pude. Soccorre-me hoje, que estou para morrer.</p>
-
-<p>O papagaio, desconfiado e vaidoso, temendo que
-o rustico habitante dos pincaros lhe sujasse a plumagem
-vistosa, ordenou:</p>
-
-<p>—Então deixa-te estar ahi. Vou pedir ao Antonio
-que te deite um pedaço de carne, da que não presta.
-Talvez a não mereças; mas devemos ser caridosos—concluiu
-espanejando-se.</p>
-
-<p>O velho corvo, já sem altivez, agradeceu com ternura
-na voz:</p>
-
-<p>—Obrigado. Nosso Senhor t’o pague.</p>
-
-<p>No telhado porém, não podia resistir aos impulsos<span class="pagenum"><a name="Page_201" id="Page_201">[201]</a></span>
-do vento. Confiado, ou talvez contra vontade, deu um
-vôo, do beiral onde estava, para o poleiro, desculpando-se:</p>
-
-<p>—Tem paciencia. Não posso estar alli. Comerei
-n’este cantinho a esmola que me fazes.</p>
-
-<p>Mas a proximidade d’aquelle corpo sujo, volumoso,
-d’aspecto selvagem, assustou o timido papagaio real,
-que logo gritou fóra de si:</p>
-
-<p>—Ó Antonio. Traz o pau!...</p>
-
-<p>E esvoaçava sem querer poisar. Agarrava-se á corrente
-que o prendia ao comedoiro. Tremia de verdadeiro
-medo, elle saudavel e nedio, diante d’este habitante
-dos rochedos, que estava a dar o ultimo suspiro.</p>
-
-<p>O cosinheiro, ao ver o corpo immundo e repellente,
-perto do seu estimado papagaio, exclamou irado:</p>
-
-<p>—Olha o ladrão de um corvo!...</p>
-
-<p>E dando uma pancada no animal desfallecido, atirou-o
-sobre o lagedo da rua, onde o desgraçado morreu
-logo. Em seguida, o Antonio com o fim de socegar
-o seu querido, passava-lhe com brandura a mão na
-cabeça dizendo:</p>
-
-<p>—Calla-te loiro, não tenhas medo. Queria-te fazer
-mal? Levou a sua conta. Coitadinho do loiro, coitadinho
-do loiro.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_202" id="Page_202">[202]</a></span></p>
-
-<p>Assim se cumpre, muitas vezes, a justiça na terra.
-Meus filhos, não se deve acreditar facilmente nas culpas
-d’aquelles que são infelizes, principalmente quando
-precisam de que se lhes faça bem.</p>
-
-<p class="date">Lisboa, Março, 85.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/footer11.jpg" width="200" height="125" alt="" />
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_203" id="Page_203">[203]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header11.jpg" width="500" height="120" alt="" />
-</div>
-
-<h2 id="A_VISTA_DO_SALGUEIRO">A VISTA DO SALGUEIRO<br />
-<span class="smaller">(CONTO PARA CREANÇAS)</span></h2>
-
-<div>
-<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="100" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="dropcap">Ambrosio era velho e vivia n’uma casa muito
-pobre, toda esburacada e de telha vãa. Lá
-dentro, os ratos eram tantos como as formigas
-n’um carreiro; e elle, sentado ao lume, via-os ir e vir,
-sem mesmo ter medo d’elles. Por traz da casa havia um
-pequeno quintal, ao fundo corria o rio, e pegado estava
-o moinho, habitado pelo moleiro, homem que elle
-odiava mais do que a morte.</p>
-
-<p>Na tarde serena d’um dia d’agosto, Ambrosio, foi
-visto na margem, sentado n’uma pedra, o queixo pousado
-nos joelhos, a olhar fixamente e pasmado para
-uma arvore do outro lado. O ceu era dum azul pallido;
-as aguas passavam silenciosamente, até entrarem
-na guela d’azenha, onde produziam um sussurro; a roda
-movia-se de vagar; porque a força do rio era pouca...<span class="pagenum"><a name="Page_204" id="Page_204">[204]</a></span>
-O pensamento d’Ambrosio voava, n’um mundo de independencia
-e maldade, planeando vinganças contra o
-moleiro seu inimigo. Era um odio velho, nascido de
-conflictos diarios, aggravado por muitos nadas de que,
-o do moinho, nem tinha consciencia. No corpo d’Ambrosio,
-magro como de feiticeira, passava-se no momento
-em que o viram a olhar para o triste salgueiro,
-uma lucta violenta e feroz.</p>
-
-<p>N’esse dia, apparecera-lhe em casa, um bacoro de
-perna quebrada. Sem mais reflectir attribuiu logo o
-maleficio ao damnado visinho e foi para alli ruminar
-uma vingança, que o deixasse consolado. Tinha um coração
-de pedra este demonio de velho! Se não fora assim,
-como poderia gozar, inventando martyrios, n’uma
-tarde serena de verão, toda silencio e bondade!</p>
-
-<p>Mas não se desprendia do terrivel desejo de matar
-o moleiro, com os maiores soffrimentos e castigos, que
-no mundo tivesse havido! Seria capaz de se vender ao
-diabo, só para conseguir o seu fim.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Veio-lhe esta ideia audaciosa e encarou-a resolutamente.
-Tão firme foi o seu pensar, que logo o diabo<span class="pagenum"><a name="Page_205" id="Page_205">[205]</a></span>
-em pessoa alli lhe appareceu deante dos olhos, offerecendo-se-lhe
-para tudo, em troca da alma se elle realmente
-lh’a queria vender. Era figura bem conhecida,
-a que estava deante de Ambrosio:—meio homem, meio
-cabra; um comprido pello cobrindo-lhe o corpo; um
-rabo a dar para um lado e para o outro, como o d’um
-lobo; os cornos arrebitados na cabeça; e os olhos a
-coriscarem como dois carvões accesos. O velho não se
-atemorisou, e como desejava vingar-se do moleiro, sentiu
-o peito cheio de goso, quando o diabo lhe disse:</p>
-
-<p>—Ouvi a tua voz. Aqui me tens. Acceito o teu contracto.
-Pede o que quizeres.</p>
-
-<p>—Então tu é que és o diabo?—perguntou.</p>
-
-<p>—Eu mesmo. Sou o que tudo posso depois lá do
-<i>Outro</i> (apontou desdenhosamente para o ceu). No meu
-reino posso mesmo mais do que <i>Elle</i>.</p>
-
-<p>—Fazes-me tudo quanto eu quizer para matar o moleiro?</p>
-
-<p>—Tudo, com tanto que me entregues a tua alma.</p>
-
-<p>—E para que queres tu a minha alma?</p>
-
-<p>—Para a guardar juncta com outras.</p>
-
-<p>Ambrosio observou escarnecendo:</p>
-
-<p>—Não acredito que faças bom negocio. Pelo que
-dizem os padres, a minha alma não presta. Dou-ta, mas
-has-de trazer-me aqui o moleiro pelo cachaço, e depois<span class="pagenum"><a name="Page_206" id="Page_206">[206]</a></span>
-de bem amarrado e preso, deixares-me fazer o que eu
-quizer. Mas quero-o bem amarrado e preso, porque tenho
-medo, entendes?</p>
-
-<p>—Se entendo!... E só queres isso?</p>
-
-<p>—Se perguntas é porque estás em maré de franquesa.
-Então vá lá: Quero ser rei; ter muito dinheiro,
-muitos palacios, muitas cidades, muitos cavallos, coisas
-ricas para comer.</p>
-
-<p>—Só isso?</p>
-
-<p>—Co’a breca! Muito boa deve ser a minha alma
-para ti. Olha, já que offereces, quero uma sanfona, para
-tocar aos ouvidos de minha mulher, quando ella estiver
-a resmungar... Tu sabes; ás vezes leva noites inteiras
-... ron-ron-ron... ron-ron-ron...</p>
-
-<p>—E por quanto tempo desejas tudo isso?</p>
-
-<p>—Essa agora é que nem parece sua, seu diabo!
-Isso por muito tempo.</p>
-
-<p>—Não posso dar-te tudo por mais de cinco minutos.</p>
-
-<p>—Cá me parece sovinice. Cinco minutos não é nada.</p>
-
-<p>—É tempo bastante de gosares todas as coisas que
-pedes e de te aborreceres de todas ellas.</p>
-
-<p>Ambrosio deu uma estrondosa gargalhada, que encheu
-todo o valle, repercutindo-se nos reconcavos visinhos.
-O diabo acrescentou:</p>
-
-<p>—É como te digo. N’esse ponto te mostrarei o meu<span class="pagenum"><a name="Page_207" id="Page_207">[207]</a></span>
-grande poder. Um minuto basta para eu fazer passar
-na tua vida, todas as grandesas da terra. Outro minuto
-para percorreres todas as grandes cidades do mundo.
-O terceiro minuto para tocares sanfona a tua mulher e
-ella morrerá de desespero. O quarto para matares com
-toda a pachorra o moleiro.</p>
-
-<p>—E o quinto?—perguntou Ambrosio.</p>
-
-<p>—Esse é para te aborreceres.</p>
-
-<p>—Como tu és grande, diabo!—disse o velho enthusiasmado.
-Acceito.</p>
-
-<p>—Deixa tirar uma gotta de sangue das tuas veias.
-Com esta penna de mocho, molhada no teu sangue, has-de
-pôr o teu nome n’este livro.</p>
-
-<p>O inimigo do moleiro sentiu uma picada no sangradouro
-e logo o seu nome appareceu brilhante como o
-fogo, na pagina onde o escrevera, obrigado por uma
-força irresistivel.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_208" id="Page_208">[208]</a></span></p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 50px;">
-<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<p>Depois um vento infernal levou-o pelo espaço. Tudo
-quanto via e gosava eram deslumbramentos e delicias.
-Corria-lhe o corpo um calor de mocidade. Ricos manjares
-eram servidos em pratos d’oiro; as festas mais
-divertidas e luxuosas, passavam-se em palacios de marfim
-e cristal. Camas formadas de fofas nuvens, appareciam
-dispostas para um momento de cansaço. Levado
-milagrosamente, passou sobre os mares onde ruem
-tempestades, viu a seus pés cidades cheias de bulicio
-e riquesa, os reis da terra offereciam-lhe homenagem!
-Os montes de perolas, oiro e diamantes já eram para
-Ambrosio coisas sem valor. Por causa d’um mosquito
-que lhe passou no nariz, teve uma rajada de colera,
-que fez tremer toda a terra!</p>
-
-<p>Logo em seguida viu humilde e supplicante o moleiro,
-que já estava preparado para o sacrificio.</p>
-
-<p>—Quero matal-o cá á minha moda—disse para o
-diabo. Hade ser n’um banco, escochinado, como um
-porco.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_209" id="Page_209">[209]</a></span></p>
-
-<p>No momento seguinte estava junto de sua mulher
-tocando-lhe sanfona aos ouvidos. A pobre velha, entrevada
-na cama, havia muitos annos, supplicava com
-olhares, que lhe não atormentassem as ultimas horas
-de vida. Porém o marido, homem de coração duro, foi
-implacavel até ao fim e viu-a morrer no meio de soffrimentos
-horriveis. Depois é que deu começo á tarefa
-mais importante, que era dar morte afflictiva ao moleiro.</p>
-
-<div class="figcenter tb" style="width: 90px;">
-<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" />
-</div>
-
-<p>Espatifal-o como um porco fôra sempre a sua ideia
-fixa. Ia realisal-a. A scena passa-se no quintalito junto
-do rio. A victima, com a sua grande estatura sae
-do moinho. Vem manietado e humilde, ao pé do algoz,
-apresentar-se para o sacrificio. Ainda que não ousava
-levantar os olhos, o seu porte era digno.</p>
-
-<p>—Ah!—disse Ambrosio com grande satisfação. Vamos
-lá a isto?</p>
-
-<p>O proprio carrasco, é que foi buscar um banco.
-Apontando para elle, mostrou-o á victima, com riso de
-mau:</p>
-
-<p>—Hade ser aqui.</p>
-
-<p>O pobre moleiro conservava-se calado e triste. Não
-ousava ter olhares colericos, talvez, para o suplicio lhe<span class="pagenum"><a name="Page_210" id="Page_210">[210]</a></span>
-ser menos barbaro. Não pedia; pois era um homem
-valente, digno, bondoso e reconhecia a crueldade do
-inimigo.</p>
-
-<p>Ambrosio continuou:</p>
-
-<p>—Só para chegar a isto dei a minha alma ao diabo.
-Se mil almas tivéra, todas daria, só para te cravar
-mil vezes uma faca no coração e tirar-te mil vidas
-que tu possuisses. Quem foi que me quebrou a
-perna do bacoro? quem me fez secar a larangeira?
-quem me roubou a panella velha, com que eu tirava
-agua do rio? quem me estragou o mangericão?</p>
-
-<p>E como a victima dos seus odios, continuava a olhar
-para a terra, sem responder, escarneceu:</p>
-
-<p>—Ah! não foi ninguem!... Estas coisas fazem-se
-por si. Alem de seres o grande ladrão, que me roubou
-os feijões, és mentiroso. Pois vaes pagal-as todas juntas,
-meu rico amiguinho. Ora deite-se n’esta cama.</p>
-
-<p>E com uma força que não era a do seu braço enfesado
-e velho, pegou no moleiro que era um gigante, e
-estendeu-o como uma arveola sobre o banco, atando-o
-fortemente com cordas.</p>
-
-<p>—Agora espere que vou aqui buscar uma coisa.</p>
-
-<p>Logo appareceu com um alguidar e uma comprida
-faca de matador. Mostrando estes objectos, acrescentou:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_211" id="Page_211">[211]</a></span></p>
-
-<p>—Isto é um alguidar para receber o teu sangue vermelho
-e quente. Isto, uma coisa a que se chama faca
-para te fazer cocegas no coração. Talvez ainda tenha
-tempo para arranjar um serrabulho d’esse sangue e
-coração. Vamos á obra que se faz tarde.</p>
-
-<p>Com placidez, gosando á vontade o martyrio do
-paciente, principiou a arregaçar os punhos da camisa
-de estopa. Mostrou a faca reluzente á victima que estava
-deitada. E voltando-se para o diabo disse:</p>
-
-<p>—Você muito póde, seu amigo. Como eu tenho aqui
-este fanfarrão, sem se mecher? Tenho pena que meu
-pae me não tivesse feito duas almas, para lhe dar a
-você!</p>
-
-<p>O demonio austero e grave não respondeu á lisonja.
-Ambrosio entrou de novo no seu pardieiro e trouxe
-um pucaro d’agua quente. Tinha de molhar a pelle da
-victima, para a ponta da faca entrar mais firmemente.
-E chapinhando na garganta com a mão molhada, tinha
-uma respiração d’homem feroz.</p>
-
-<p>Apontou a faca ao logar apropriado, principiou a
-enterral-a lentamente, para a dôr ser mais prolongada,
-o sangue já sahia em borbotões do peito arquejante
-do moleiro.</p>
-
-<p>—Não berra como os pórcos, este maldito!—considerou
-Ambrosio.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_212" id="Page_212">[212]</a></span></p>
-
-<p>Ia-lhe remexendo cruelmente com o ferro nas entranhas!
-Gosava a sua victoria, fazendo soffrer a victima.</p>
-
-<p>Foi prolongando este goso até aos ultimos momentos
-do moleiro. E quando reconheceu que alli estava
-definitivamente um morto respirou:</p>
-
-<p>—Ahhh!... Isto valia bem uma duzia d’almas! Quanto
-falta senhor diabo?</p>
-
-<p>—Vae acabar o tempo. Já lá te esperam. Olha!</p>
-
-<p>Apontou para a bocca d’um enorme forno, onde
-entre as labaredas infernaes, estavam homens e mulheres
-dando gritos. Todas as velhas ideias de Ambrosio
-sobre penas eternas, se condensaram n’aquella realidade.
-Affrontou heroicamente um tal espectaculo, deante
-do qual o seu coração deshumano, ainda teve coragem
-para beber do sangue do inimigo! Porém o mundo infernal
-das chammas e gritos, crescia rapida e formidavelmente.
-O diabo sereno e magestoso estendia-lhe a
-mão para o agarrar, com as suas unhas de macaco! O
-aspecto do demonio era tão medonho e terrivel, que o
-velho Ambrosio teve subitamente um grande medo,
-todo o seu corpo estremeceu como se oscillasse o
-mundo, amedrontado e covarde ia a dar um passo
-para fugir...</p>
-
-<p>N’esse instante escorregou e cahiu ao rio. Começou<span class="pagenum"><a name="Page_213" id="Page_213">[213]</a></span>
-a berrar por soccorro como um possesso. O seu choro
-era mais infeliz do que o de uma creança sem mãe.</p>
-
-<p>A agua escaldava-o e sentia-se abrazado como no
-meio de labaredas infernaes! Quem lhe havia de acudir
-n’aquelle instante de afflicção? Foi o visinho, o moleiro,
-a sua victima que sahindo fóra do seu moinho o viu
-debater-se covardemente, como se estivesse assoberbado,
-por ondas d’um mar tormentoso!</p>
-
-<p>—Eh!... diabo de gato!—disse o collosso mettendo-se
-ao rio e agarrando-o pela gola da vestia. Como
-diabo te aconteceu isto?</p>
-
-<p>Levou-o para sua propria casa, metteu-o na cama
-agasalhado, deu-lhe um caldo quente para o revigorar.
-O velho Ambrosio, olhando-o receioso, batia o queixo
-de medo e dizia com a cabeça debaixo da roupa:</p>
-
-<p>—Nada, não quero; elle póde deitar resalgar no
-caldo!</p>
-
-<p class="date">Arcos, agosto, 86.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/footer12.jpg" width="200" height="125" alt="" />
-</div>
-
-<hr />
-
-<h2>INDICE</h2>
-
-<table summary="Indice">
- <tr>
- <td></td>
- <td class="tdpg smaller">PAG.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>A minha morte</td>
- <td class="tdpg"><a href="#A_MINHA_MORTE">1</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Nosso Senhor Jesus Christo</td>
- <td class="tdpg"><a href="#NOSSO_SENHOR_JESUS_CHRISTO">17</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>O cego de Guardiam</td>
- <td class="tdpg"><a href="#O_CEGO_DE_GUARDIAM">27</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>A velhice d’um rei</td>
- <td class="tdpg"><a href="#A_VELHICE_DUM_REI">51</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>A mulher de Lucas</td>
- <td class="tdpg"><a href="#A_MULHER_DE_LUCAS">73</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Dois caturras</td>
- <td class="tdpg"><a href="#DOIS_CATURRAS">95</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>A postura dos ovos</td>
- <td class="tdpg"><a href="#A_POSTURA_DOS_OVOS">115</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Rende-te Centurião</td>
- <td class="tdpg"><a href="#RENDE-TE_CENTURIAO">129</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>A truta grande</td>
- <td class="tdpg"><a href="#A_TRUTA_GRANDE">163</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Um corvo e um papagaio</td>
- <td class="tdpg"><a href="#UM_CORVO_E_UM_PAPAGAIO">197</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>A vista do salgueiro</td>
- <td class="tdpg"><a href="#A_VISTA_DO_SALGUEIRO">203</a></td>
- </tr>
-</table>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Novos contos, by
-Francisco Teixeira de Queirós and Bento Moreno
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVOS CONTOS ***
-
-***** This file should be named 62954-h.htm or 62954-h.zip *****
-This and all associated files of various formats will be found in:
- http://www.gutenberg.org/6/2/9/5/62954/
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-Updated editions will replace the previous one--the old editions will
-be renamed.
-
-Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright
-law means that no one owns a United States copyright in these works,
-so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United
-States without permission and without paying copyright
-royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part
-of this license, apply to copying and distributing Project
-Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm
-concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
-and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive
-specific permission. If you do not charge anything for copies of this
-eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook
-for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports,
-performances and research. They may be modified and printed and given
-away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks
-not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the
-trademark license, especially commercial redistribution.
-
-START: FULL LICENSE
-
-THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
-PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
-
-To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
-distribution of electronic works, by using or distributing this work
-(or any other work associated in any way with the phrase "Project
-Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full
-Project Gutenberg-tm License available with this file or online at
-www.gutenberg.org/license.
-
-Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project
-Gutenberg-tm electronic works
-
-1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
-electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
-and accept all the terms of this license and intellectual property
-(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
-the terms of this agreement, you must cease using and return or
-destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your
-possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a
-Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound
-by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the
-person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph
-1.E.8.
-
-1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
-used on or associated in any way with an electronic work by people who
-agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
-things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
-even without complying with the full terms of this agreement. See
-paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
-Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this
-agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm
-electronic works. See paragraph 1.E below.
-
-1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the
-Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
-of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual
-works in the collection are in the public domain in the United
-States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
-United States and you are located in the United States, we do not
-claim a right to prevent you from copying, distributing, performing,
-displaying or creating derivative works based on the work as long as
-all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope
-that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting
-free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm
-works in compliance with the terms of this agreement for keeping the
-Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily
-comply with the terms of this agreement by keeping this work in the
-same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when
-you share it without charge with others.
-
-1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
-what you can do with this work. Copyright laws in most countries are
-in a constant state of change. If you are outside the United States,
-check the laws of your country in addition to the terms of this
-agreement before downloading, copying, displaying, performing,
-distributing or creating derivative works based on this work or any
-other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no
-representations concerning the copyright status of any work in any
-country outside the United States.
-
-1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
-
-1.E.1. The following sentence, with active links to, or other
-immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear
-prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work
-on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the
-phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed,
-performed, viewed, copied or distributed:
-
- This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
- most other parts of the world at no cost and with almost no
- restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it
- under the terms of the Project Gutenberg License included with this
- eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the
- United States, you'll have to check the laws of the country where you
- are located before using this ebook.
-
-1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is
-derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not
-contain a notice indicating that it is posted with permission of the
-copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in
-the United States without paying any fees or charges. If you are
-redistributing or providing access to a work with the phrase "Project
-Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply
-either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or
-obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm
-trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
-with the permission of the copyright holder, your use and distribution
-must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any
-additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
-will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works
-posted with the permission of the copyright holder found at the
-beginning of this work.
-
-1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
-License terms from this work, or any files containing a part of this
-work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
-
-1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
-electronic work, or any part of this electronic work, without
-prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
-active links or immediate access to the full terms of the Project
-Gutenberg-tm License.
-
-1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
-compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including
-any word processing or hypertext form. However, if you provide access
-to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format
-other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official
-version posted on the official Project Gutenberg-tm web site
-(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense
-to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means
-of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain
-Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the
-full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1.
-
-1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
-performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
-unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
-access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works
-provided that
-
-* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
- the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
- you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed
- to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has
- agreed to donate royalties under this paragraph to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid
- within 60 days following each date on which you prepare (or are
- legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty
- payments should be clearly marked as such and sent to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in
- Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg
- Literary Archive Foundation."
-
-* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
- you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
- does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
- License. You must require such a user to return or destroy all
- copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
- all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm
- works.
-
-* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
- any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
- electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
- receipt of the work.
-
-* You comply with all other terms of this agreement for free
- distribution of Project Gutenberg-tm works.
-
-1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project
-Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than
-are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
-from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The
-Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm
-trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below.
-
-1.F.
-
-1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
-effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
-works not protected by U.S. copyright law in creating the Project
-Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm
-electronic works, and the medium on which they may be stored, may
-contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate
-or corrupt data, transcription errors, a copyright or other
-intellectual property infringement, a defective or damaged disk or
-other medium, a computer virus, or computer codes that damage or
-cannot be read by your equipment.
-
-1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
-of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
-Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
-Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
-liability to you for damages, costs and expenses, including legal
-fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
-LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
-PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
-TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
-LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
-INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
-DAMAGE.
-
-1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
-defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
-receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
-written explanation to the person you received the work from. If you
-received the work on a physical medium, you must return the medium
-with your written explanation. The person or entity that provided you
-with the defective work may elect to provide a replacement copy in
-lieu of a refund. If you received the work electronically, the person
-or entity providing it to you may choose to give you a second
-opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
-the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
-without further opportunities to fix the problem.
-
-1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
-in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
-
-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
-warranties or the exclusion or limitation of certain types of
-damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
-violates the law of the state applicable to this agreement, the
-agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
-limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
-unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
-remaining provisions.
-
-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
-providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in
-accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
-production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm
-electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
-including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
-the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
-or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
-additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
-Defect you cause.
-
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
-
-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-
-Most people start at our Web site which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-
-
-
-</pre>
-
-</body>
-</html>
diff --git a/old/62954-h/images/cover.jpg b/old/62954-h/images/cover.jpg
deleted file mode 100644
index dd80f1c..0000000
--- a/old/62954-h/images/cover.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/deco.jpg b/old/62954-h/images/deco.jpg
deleted file mode 100644
index 7f6edef..0000000
--- a/old/62954-h/images/deco.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/deco1.jpg b/old/62954-h/images/deco1.jpg
deleted file mode 100644
index 1393639..0000000
--- a/old/62954-h/images/deco1.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/deco2.jpg b/old/62954-h/images/deco2.jpg
deleted file mode 100644
index f36b722..0000000
--- a/old/62954-h/images/deco2.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/dropcap-a.jpg b/old/62954-h/images/dropcap-a.jpg
deleted file mode 100644
index ed93e1f..0000000
--- a/old/62954-h/images/dropcap-a.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/dropcap-d.jpg b/old/62954-h/images/dropcap-d.jpg
deleted file mode 100644
index 1dc5de1..0000000
--- a/old/62954-h/images/dropcap-d.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/dropcap-e.jpg b/old/62954-h/images/dropcap-e.jpg
deleted file mode 100644
index d03f2d8..0000000
--- a/old/62954-h/images/dropcap-e.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/dropcap-i.jpg b/old/62954-h/images/dropcap-i.jpg
deleted file mode 100644
index ea4f98b..0000000
--- a/old/62954-h/images/dropcap-i.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/dropcap-l.jpg b/old/62954-h/images/dropcap-l.jpg
deleted file mode 100644
index 9c07de2..0000000
--- a/old/62954-h/images/dropcap-l.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/dropcap-n.jpg b/old/62954-h/images/dropcap-n.jpg
deleted file mode 100644
index e595ea6..0000000
--- a/old/62954-h/images/dropcap-n.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/dropcap-s.jpg b/old/62954-h/images/dropcap-s.jpg
deleted file mode 100644
index a12dd22..0000000
--- a/old/62954-h/images/dropcap-s.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/footer1.jpg b/old/62954-h/images/footer1.jpg
deleted file mode 100644
index 9c119a2..0000000
--- a/old/62954-h/images/footer1.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/footer10.jpg b/old/62954-h/images/footer10.jpg
deleted file mode 100644
index 20b4333..0000000
--- a/old/62954-h/images/footer10.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/footer11.jpg b/old/62954-h/images/footer11.jpg
deleted file mode 100644
index 3e97470..0000000
--- a/old/62954-h/images/footer11.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/footer12.jpg b/old/62954-h/images/footer12.jpg
deleted file mode 100644
index b4042af..0000000
--- a/old/62954-h/images/footer12.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/footer2.jpg b/old/62954-h/images/footer2.jpg
deleted file mode 100644
index 9cf7938..0000000
--- a/old/62954-h/images/footer2.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/footer3.jpg b/old/62954-h/images/footer3.jpg
deleted file mode 100644
index 410fd49..0000000
--- a/old/62954-h/images/footer3.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/footer4.jpg b/old/62954-h/images/footer4.jpg
deleted file mode 100644
index 8bb7a13..0000000
--- a/old/62954-h/images/footer4.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/footer5.jpg b/old/62954-h/images/footer5.jpg
deleted file mode 100644
index b372983..0000000
--- a/old/62954-h/images/footer5.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/footer6.jpg b/old/62954-h/images/footer6.jpg
deleted file mode 100644
index 7adca23..0000000
--- a/old/62954-h/images/footer6.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/footer7.jpg b/old/62954-h/images/footer7.jpg
deleted file mode 100644
index 44783ed..0000000
--- a/old/62954-h/images/footer7.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/footer8.jpg b/old/62954-h/images/footer8.jpg
deleted file mode 100644
index 03dbbca..0000000
--- a/old/62954-h/images/footer8.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/footer9.jpg b/old/62954-h/images/footer9.jpg
deleted file mode 100644
index 06b3901..0000000
--- a/old/62954-h/images/footer9.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/header1.jpg b/old/62954-h/images/header1.jpg
deleted file mode 100644
index 44174e7..0000000
--- a/old/62954-h/images/header1.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/header10.jpg b/old/62954-h/images/header10.jpg
deleted file mode 100644
index c66708d..0000000
--- a/old/62954-h/images/header10.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/header11.jpg b/old/62954-h/images/header11.jpg
deleted file mode 100644
index e65d799..0000000
--- a/old/62954-h/images/header11.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/header2.jpg b/old/62954-h/images/header2.jpg
deleted file mode 100644
index 8dda9f9..0000000
--- a/old/62954-h/images/header2.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/header3.jpg b/old/62954-h/images/header3.jpg
deleted file mode 100644
index 87f91a9..0000000
--- a/old/62954-h/images/header3.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/header4.jpg b/old/62954-h/images/header4.jpg
deleted file mode 100644
index 7b581ed..0000000
--- a/old/62954-h/images/header4.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/header5.jpg b/old/62954-h/images/header5.jpg
deleted file mode 100644
index ed57bb1..0000000
--- a/old/62954-h/images/header5.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/header6.jpg b/old/62954-h/images/header6.jpg
deleted file mode 100644
index 4d8bc82..0000000
--- a/old/62954-h/images/header6.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/header7.jpg b/old/62954-h/images/header7.jpg
deleted file mode 100644
index 690ce2c..0000000
--- a/old/62954-h/images/header7.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/header8.jpg b/old/62954-h/images/header8.jpg
deleted file mode 100644
index 37e9a4f..0000000
--- a/old/62954-h/images/header8.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/62954-h/images/header9.jpg b/old/62954-h/images/header9.jpg
deleted file mode 100644
index 7bd49f1..0000000
--- a/old/62954-h/images/header9.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ