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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..d7b82bc --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,4 @@ +*.txt text eol=lf +*.htm text eol=lf +*.html text eol=lf +*.md text eol=lf diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..ca2901c --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #62954 (https://www.gutenberg.org/ebooks/62954) diff --git a/old/62954-0.txt b/old/62954-0.txt deleted file mode 100644 index 0404a1d..0000000 --- a/old/62954-0.txt +++ /dev/null @@ -1,4674 +0,0 @@ -The Project Gutenberg EBook of Novos contos, by -Francisco Teixeira de Queirós and Bento Moreno - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most -other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Novos contos - 4º volume da Comedia do Campo - -Author: Francisco Teixeira de Queirós - Bento Moreno - -Release Date: August 17, 2020 [EBook #62954] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVOS CONTOS *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - - - - - -COMEDIA DO CAMPO - - LISBOA - TYPOGRAPHIA DE ADOLPHO, MODESTO & C.ª - _Rua Nova do Loureiro, 25 a 43_ - 1887 - - - - - _4.º vol. da_ COMEDIA DO CAMPO - - NOVOS CONTOS - - DE - - BENTO MORENO - - La plupart des drames sont dans - les idées que nous formons - des choses. Les événements qui - nous paraissent dramatiques ne - sont que les sujets que notre - âme convertit en tragédie ou en - comédie, au gré de notre caractère. - - H. DE BALZAC—_Modeste Mignon_. - - [Illustration] - - EDITORES - TAVARES CARDOSO & IRMÃO - _5, Largo do Camões, 6_ - 1887 - - - - -OBRAS DO MESMO AUCTOR - -PUBLICADAS PELOS EDITORES DAVID CORAZZI E TAVARES CARDOSO & IRMÃO - - -COLLECÇÃO DA COMEDIA DO CAMPO: - - Contos—1 vol. 500 - - Amor divino—1 vol. 500 - - Antonio Fogueira—1 vol. 500 - - Novos contos—1 vol 600 - -COLLECÇÃO DA COMEDIA BURGUEZA: - - Noivos (quasi esgotada)—1 vol. de 500 pag. 1$000 - - O Sallustio Nogueira—1 vol. de 500 pag. 1$000 - - O Grande Homem (Comedia)—1 vol. 700 - -[Illustration] - - - - -[Illustration] - - - - -A MINHA MORTE - - -Estava na convalescença d’um typho. Não teria doze annos, mas na minha -imaginação representa-se ainda nitidamente esse longo periodo de -febre e de terriveis visões. Apesar de debil e quasi enfesado resisti -heroicamente ao soffrimento e á molestia. Sempre de costas na cama, -passava o tempo a contar e recontar as tabuas do tecto e a fileira de -cachos dependurados ao longo da parede branca. Sentia-me embebido em -estupidez; as perguntas que me faziam, ácerca do meu estado, do sabor -dos remedios e do apetite, ficavam sem resposta. Olhava para todos sem -comprehender o que diziam, ou, pelo menos, sem ter os meios de exprimir -tudo quanto de violento e de extraordinario se passava em todo o meu -corpo. Era como um empastamento geral da minha carne, uma liquifação -do meu cerebro, a ausencia de mim mesmo para sentir. Até as dores que -soffria, tendo um resto de consciencia para saber que se passavam em -mim, attribuia-as mais facilmente a outro corpo. O meu interior era o de -uma enorme fornalha; o proprio halito parecia-me de labaredas brancas, -formadas de ar incandescente. As minhas sensações reduziam-se a uma sede -permanente, que se não podia mitigar. Por mais que me humedecessem a -lingua, nem por um instante m’a podiam tornar molle e flexivel: era uma -lingua de papagaio, que seria facil quebrar como se fôra um caco. Ainda -me recordo de quanto me custava a supportal-a na bocca e de ter, por -vezes, desejos de a arrancar. - -Mas depois fui melhorando. A volta das sensações ordinarias fazia-se -uma a uma, como pombos escorraçados d’um pombal. Era um renascimento -gradual, e noto que appareceram primeiro as sensações mais elementares, -aquellas em que o homem tem menos imperio. Todos os dias a febre -decrescia, reconquistava um pouco do viver antigo, como se eu tivesse -feito uma viagem ao chimerico paiz das sombras, e de lá voltasse por um -comprido corredor de muitas legoas, approximando-me instante a instante -da benefica luz do sol, que se visse brilhar ao fundo, cá n’este -mundo vulgar que todos habitamos. Entrei por fim em convalescença. O -facultativo consentiu que me levantasse todos os dias um nadita. Já podia -ir fazendo tentativas de chupar a minha aza de frango. O enjôo da comida -ainda era grande, por isso o meu desgosto era enorme. Reconhecendo-me -melhorado não estava nas condicções das outras pessoas... - -No emtanto a minha alegria e satisfação voltaram com o franco apetite. -Tudo era pouco para mim, não havia coisa que me satisfizesse e era -preciso que me ralhassem para não ser tão guloso, que me podia fazer mal. -Até não queria que os outros comessem ao pé de mim; porque isso me dava -inveja, e até raiva, ficando a reparar com olhos avaros e insaciaveis. -O medico argumentava que o meu estomago devia estar fraco, que não -supportaria sem damno grandes quantidades; mas eu sentia-me como uma -grande planta, que lançasse por toda a parte as suas ambiciosas raizes, -para se sustentar á custa da seiva que pertencia ás outras e roubar-lh’a -com o poder absorvente de uma enorme bomba. A comida de predilecção -n’essa minha convalescença eram as boas sardinhas de Vigo, cabeçudas e -grandes, que os gallegos iam vender á minha terra. Á distancia de 26 -annos, ainda hoje sinto no paladar o sabor d’essa incomparavel comida. - -A chuva d’esse aspero mez de dezembro era frigidissima, o vento -assobiava pelas frinchas das portas. Como já podia andar por toda a -casa ia de vez em quando ao mirante, olhar para os montes que estão ao -norte, e contemplava-os todos cobertos de neve, como se fossem pyramides -collossaes, formadas d’assucar. - -Mas a chuva e o vento que soprava d’aquelle lado obrigavam-me a descer; -pois que a janella não era guarnecida de vidraça. N’uma d’essas occasiões -até, a saraiva me veio bater na cara e eu, com medo de recahir, -fui-me logo sentar ao lume, que estava vivo, imponente, abrangendo -grandiosamente em labaredas, os potes de ferro que estavam ao redor. - -A nossa cozinha era comprida, terrea e de telha vã. A lareira, grande, -coberta pelo enorme e phantastico chapeu da chaminé, muito farta de -lenha—podia aquecer uma duzia de pessoas á vontade. Na vespera do -sarrabulho ou na noite da consoada, essa cozinha tomava o aspecto -glorioso d’um templo em festa. Havia maior numero de potes; as labaredas -melhor sustentadas enroscavam-se umas nas outras sempre na mesma altura, -como parafusos sem fim. Era manifesta e patente a alegria, a satisfação, -o contentamento que este bom fogo produzia em todos, principalmente -quando as castanhas estoiravam debaixo das brazas e sabendo-se que estava -perto a enfusa de vinho. - -Mas quando desci apressadamente do mirante, batido no rosto pela saraiva -e com o tetrico medo de recahir, a cosinha estava solitaria e lugubre. -Era dia ordinario, o lume bem acceso, o pote da ceia gorgolhava com a -fervura, os gatos e os cães, fraternalmente misturados, enroscavam-se -do lado do forno. Fui-me sentar ao meu canto, contando estar ali até á -reza. Lá fóra das portas era quasi escuro, a chuva e o vento passavam -ruidosamente sobre o telhado, produzindo ressonancia dentro da chaminé. -Todo este barulho exterior e material tornava mais sensivel a minha -solidão. Sabia que minha avó, estava á janella na dupla occupação de -rezar as suas contas e de vigiar se os visinhos traziam sardinhas da -praça, que era para tambem as mandar comprar. Porém o rom-rom dos gatos, -o arfar do lume, o ralho da fervura e o sussurro do vento formavam -um ambiente caracteristico de solidão ao qual se veio juntar a nota -sentimental e lugubre do toque das trindades. A torre da egreja era -sobranceira á cosinha e as nove badaladas cahiram-me espaçadamente no -cerebro imprimindo uma sensação gemebunda e prolongada. Apezar da viva -chamma do lume ser propria para desfazer tristezas, sentia sobre mim o -lendario pezo da noite, com todo o seu imprevisto de sombras. E a enorme -chaminé, negra de ferrugem, abria sobre mim um espaço indefinido, d’uma -amplitude amedrontadora. Diante dos meus olhos, em correnteza, estavam -pendurados os salpicões e eu contava-os machinalmente até á minha -chouricinha e á de meu irmão, que estavam juntas, á esquerda. Fui pouco -a pouco cahindo n’um longo esquecimento, fui perdendo a consciencia, a -ponto de quasi se extinguir o meu ser. - - * * * * * - -Provavelmente o calor benefico do lume concorria para o entorpecimento. -Já quando o sino acabou de tocar as «ave marias» eu voejava n’uma -atmosphera de sensações vagas, como suspenso no meio do espaço. A -cadencia das badaladas deu-me o impulso ondulatorio que me atirou por -desconhecidas regiões, fóra de toda a contingencia. Um pingo d’agua cahia -a compasso da torneira da cosinha e o som tristonho parecido com o gemer -d’ave, feria-me levemente o ouvido como se fôra o desfallecer d’uma -d’essas musicas ideaes, que só existem na região do azul. O estrepito do -vento tambem se distanciára de mim, ouvia-o dilatado e longinquo, com a -doçura e encanto do som d’um pinheiral. Estava envolvido, tapetado d’uma -substancia isoladora que me fazia perceber attenuadas todas as sensações. -O meu pensar vago e indeciso, traduzia esta especie de anniquilamento das -minhas forças physicas e a perda das minhas idéas pessoaes. Reconhecia-me -consubstanciado n’este mundo novo e abstracto, balouçando-me n’uma -amplitude infinita como a da morte. Cá na minha, eu já não pertencia -ao numero dos vivos apesar da memoria me reproduzir claramente toda -a realidade material que eu gosára e soffrera, durante os annos da -convivencia terrestre. Confesso que tive saudades do que fôra. Gostava da -vida, mesmo simples e humilde como sempre a passára. Viver por viver e -para viver, é que me enthusiasmava e não as altas posições da fortuna e -da gloria. Todo o homem tem dentro em si tantos meios de ser feliz, que -não saber aproveital-os é signal de desequilibrio e doença. Por isso, a -idéa de ser um morto não me alegrava e, bem pelo contrario, principiei a -apavorar-me á maneira que percebia que isto era sério. Deixar assim de -repente, sem uma despedida, a vida terrena, na qual eu ia sonhadoramente -gosando a minha obscuridade, lá me parecia duro. E sem enterro, sem chôro -de parentes, sem nenhuma pompa funebre... como é que eu tinha morrido? -Depois, independente da questão do céu e do inferno, aquillo lá pelo -outro mundo não é satisfatorio. Antes de entrar nas regiões da perpetua -ventura ou do infinito castigo eu não via senão caras tremendas, que nada -tinham de commum com as expressões minhas conhecidas. Os que riam era -com esgares terrificantes, boccas arrepanhadas e olhos de fogo que me -faziam medo; os que choravam abriam taes guelas, e figuravam-se-me tão -pavorosas as suas cabelleiras formadas de florestas, que me senti gelado, -não podendo sequer encaral-os. - -Não me faziam mal, não se approximavam de mim; mas eram desagradáveis -companheiros na sua impavidez sinistra. Tambem, lá por esses espaços, -que levianamente se chamam sideraes, eu não encontrava senão -precipicios, abysmos sem fim, montanhas cujos pincaros a minha vista -não podia alcançar. Por cima da cabeça tudo eram nuvens encastelladas -e carrancudas, que deviam conter fogo e tempestades para myriades de -seculos. Um raio de sol palpitante rompeu n’um momento esta espessura; -mas isso, maiores saudades me fez, por me lembrar com entranhado amor -tudo quanto tinha perdido de carinhoso e bom. Nunca senti como n’esse -instante o preço da vida. A epopeia grandiosa da eternidade, attrahia-me -muito pouco, não seduzia, com as suas magnificencias, a imaginação -simples da creança. Por isso a minha anciedade, a minha tortura cresceu -progressivamente. Nunca mais voltaria a gosar a tranquilla convivencia do -rio, dos montes, das campinas e dos penhascos?!... O canto dos passaros, -as paizagens floridas, o melancholico luar do outono, a exhuberancia da -primavera, os gosos familiares, as festas, as vindimas, as amizades... -tudo teria acabado para mim?! - -Que tristesa, que amargura, que saudades me torturavam! As lagrimas -cahiam-me em fio, sentia-me soluçar, a minha admiração pelos sublimes -coros celestiaes, diminuia d’um modo consideravel. E tamanha era esta -saudade e esta dôr que nem o aspecto patente do fogo da querida lareira, -dos potes a ferver, dos salpicões pendurados diante dos meus olhos, me -dava a precisa tranquilidade e resignação. Não me lembro mesmo se cheguei -a considerar estas visões enganosas, como perfidos meios de transacção, -para eu me habituar á outra vida. O meu desespero só fazia augmentar, -sentia pungentissimamente quanto perdi. A minha chouricinha, que estava -ali em frente de mim, já eu não a poderia saborear, em quanto que meu -irmão, que era um vivo, havia de comer as duas e talvez muito regalado. - -Principiava a reconhecer-me fatigado, exhausto de forças e ambicionava um -momento de repouso. Visto estar morto, a tormentosa viagem atravez dos -espaços infinitos havia de acabar. Decerto era este o pavoroso caminho da -eternidade, que teria no fim o ceu ou o inferno. Bem sei que logo para -começo podia ser o purgatorio, como logar de purificação; mas declaro -francamente que esta transigencia nos soffrimentos não me foi muito -consoladora. Talvez pelo receio de ter a vida cheia de peccados, julguei -mais provavel não vir a ser um dos eternos habitantes do paraizo!... -Estaria mais satisfeito, se o meu destino estivesse no ceu—atmosphera -ideal, mais pura que o diamante, de cor mais serena que a perola, logar -onde não ha noite, nem sombra, onde os cantos são perpetuos, como é -perpetua e renovada de instante a instante a floração d’aquella primavera -sem fim. No entretanto, se me fora licito ter uma opinião, haveria -declarado preferir a todas as sublimidades ideaes, o continuar na terra -contingente, com todos os seus males, desgostos e contratempos. Porem já -que me achava no outro mundo desejava antes o paraizo do que o inferno, -ou mesmo o purgatorio. Infelizmente este horrendo caminho que seguia, com -a velocidade d’um cyclone, não me dava esperanças de me levar á patria -eternamente luminosa e bella. O ultimo precipicio em que estava era d’um -horrendo incomparavel. Por todos os lados a treva sem limites, e para o -fundo um inconcebivel funil por onde ia resvalando! - -Como no terrivel naufragio do conto de Poe, no qual todos os destroços -eram engulidos pelo redemoinho infernal do Maelstrom, assim o meu corpo, -o meu cerebro, o meu pensamento soffriam as torturas d’um movimento -concentrico. Sentia que de instante a instante me apertavam mais e -mais as paredes d’esta nova prisão. Descendo sempre estava cruelmente -atormentado e os meus olhos cheios de pavor não percebiam a menor restea -de luz. A minha existencia conhecia-a sómente pela dor d’uma perna onde -cravára com desespero as proprias unhas. A superficie interna do funil -era lisa a ponto de lhe não perceber o contacto. - -Os circulos que eu descrevia eram cada vez menores, a ponto de para o -fim redemoinhar em volta de mim mesmo, como se houvera um eixo material, -servindo de ponto fixo. Evidentemente estava a chegar ao meu pavoroso e -tetrico fim! Uma sensação de frio penetrava-me até á medula dos ossos, -apesar de que, por uma inexplicavel contradicção, conservava no meu -corpo viva reminiscencia do meu calor natural e procurava concentrar-me, -aconchegar-me, metter-me por assim dizer, para dentro de mim mesmo. - -Veio uma onda de calor que me lambeu a cara... Talvez o desmoronamento -da pilha d’achas que formavam a fogueira. Esta sensação, de certo -agradavel em outras circumstancias, poz-me em grande terror; pois que -mais me confirmou na ideia da proximidade do inferno. Lá ia eu cahir -n’esse fogo perpetuo, que tão horrendo antevira nas descripções dos -missionarios! E apesar do pavor, irritava-me esta evidente injustiça -d’um poder sobrenatural. Que peccados teriam commettido os meus doze -annos, para merecerem tão severa punição? Já não tinha lagrimas, -sentia-me anniquillado e sem força para me oppor. O meu incomparavel -infortunio, não se limitava a perder o gozo da vida terrena, que tanto -amava. E transigia covardemente: Se, ao menos, fosse trocar o mundo, -a familia, os brinquedos, a caça aos pardaes, a pesca aos barbos, a -minha chouricinha... pelo reino do ceu, vá lá. Não teria ganho, mas vá -lá. Porem abandonar todas estas coisas sympathicas e ter para todo o -sempre de gritar entre chammas, com o diabo a espicaçar-me e monstros -horrendos a deitarem-me perpetuamente pelas guelas chumbo derretido, breu -e azeite a ferver!... era o que eu não podia levar á paciencia. A grande -afflicção em que me vi deu-me ainda um momento de revolta, que resultou -d’uma onda de sangue novo que se me espalhou no cerebro. Por mais que -esquadrinhasse na consciencia, por mais que posesse aberto e claro o -meu passado insignificante, não me sentia merecedor de tão formidavel -pena! Resolvi interpor recurso. Deus é infinitamente misericordioso e de -certo me ouvirá—pensei. Alem de que eu tinha sobejos motivos para assim -proceder, attendendo ao modo excessivamente escuro como correra o meu -processo. Não me lembrava de ter apparecido na sua divina presença; não -vira aquellas venerandas e compridas barbas, brancas como espuma do mar; -não me recordava dos coros dos anjos e das virgens, nem das incomparaveis -bellezas da celestial habitação... Quem sabe se eu ia para o inferno -por engano! Quem me dizia não ser eu victima de manobras d’algum -verdadeiro condemnado que tivesse tido artes de se trocar por mim?! A -minha perturbada intelligencia comprehendia esta possibilidade. Por -tanto—resolvi—levantemos um clamor bem alto, uma supplica formidavel, que -alargando-se por este funil em que me acho, suba aos ouvidos justiceiros -do bom Deus, grande e omnipotente. A convicção da minha innocencia, -dava-me força para tamanha ousadia. E tomei enorme folego, enchi o peito -d’ar, concentrei em mim todas as energias da terra. Da minha garganta -sahiu um estridente brado que se dilatou pelos espaços! Ao mesmo tempo -fugi pela cozinha fóra e fui-me agarrar a minha avó, que resava as suas -contas encostada á janella. Contei-lhe toda a minha afflicção e os -tormentos mentaes em que me vira. Ella reconheceu logo, bem como depois o -confirmou um sacerdote nosso amigo, que este facto devia ser tomado como -um aviso do ceu. Apesar da minha pouca edade, este toque divino, mostrava -claramente que eu andava em peccado mortal. Uma confissão geral de todo -o meu negro passado era urgente. Os esconjuros deviam completar esta -obra de limpeza espiritual. Procedeu-se por esta forma e os exorcismos -foram resados por um padre gallego, que era homem eminente em escorraçar -demonios. - - Janeiro de 86. - -[Illustration] - - - - -[Illustration] - - - - -NOSSO SENHOR JESUS CHRISTO - - - (_A Valentina de Lucena_) - -Entardecia. Como o brilho do sol desaparecera, uma illuminação egual -ameigava a paisagem. Os ultimos soutos de castanheiros transmontanos, -pareciam nodoas de relva nas encostas dos montes. A escuridade cahia -lentamente sobre os povoados, como um tenue orvalho. A physionomia das -terras, em especial dos arvoredos, principiava a ser minhota. Havia mais -d’uma hora que a carruagem rodava por uma estrada em declive. Disse-me -o cocheiro, que algumas casas e uma egreja agglomeradas n’um valle, -na margem direita do Tamega, formavam a povoação de Ribeira de Pena. -Montanhas severas e apocalypticas emmolduravam este bocadinho de campo, -no qual eu principiava a reconhecer a paisagem querida dos meus primeiros -annos. - -Vinha só e sentia-me triste sem motivo. O continuado e monotono barulho -da carruagem, o assobio dolente e vago do cocheiro, a amortecedora luz -do crepusculo infiltrando-se por entre as penedias das encostas, os -renques d’arvores do valle tinham-me lançado n’um estado de inconsciente -melancolia. Já cançado da jornada, ainda me faltavam muitas horas para -chegar ao Arco, logar onde ficaria essa noite. N’um estado intermedio -ao somno e á vigilia, as ideias perpassavam-me no cerebro, umas vezes, -como nuvens transparentes e macias recordando momentos d’agradavel -convivencia; outras vezes, encastelladas e escuras, como são as ideias -proprias d’aquelles que vão perdendo o contente palpitar da mocidade!... -Oh! minha encantadora e modesta infancia, eu que sou um dos homens que -mais tem rido, dize-me tu se já algum dia fui alegre, despreocupadamente -alegre!... - - * * * * * - -Á ponta da noite, no momento em que á luz indecisa, os objectos tem -adquirido um esfumado que os avoluma, a carruagem parou á porta d’uma -taberna para se desaguarem os cavallos. Os meus nervos foram chamados -á realidade com energia. N’um banco de pedra, d’esses toscos e muito -usuaes que se encontram juncto das habitações dos camponeses minhotos, -estava sentado um velhinho magro, tendo ao lado um saquito enfiado n’um -páu e uma pequena almotolia d’azeite presa á cintura por uma correia. O -seu rosto sumido era gracioso e terno como o d’uma creança; o sorriso -natural, que lhe resaltava da expressão, parecia sahir d’um berço. - -Havia o quer que fosse de inconsciente e ethereo, de amoravel e bondoso, -no rosto d’esse pobresinho. Ali ninguem o conhecia; mas elle olhava para -todos com uma attenção familiar e intima. Um porco atrevido roçava-se-lhe -pelas calças, roncava-lhe junto á cara e elle afastava-o com humildade -e carinho, dizendo-lhe até palavras de conselho. De certo os seus -nervos delicados se encommodavam com aquelle grunhir insolente; mas -nem por isso se mostrava menos attencioso, para com o bruto. Fallava a -todos tão suave e brandamente que a sua voz semelhava um murmurio e uma -consolação á cabeceira d’um enfermo. O seu olhar, d’uma tranquillidade de -justo, prolongava-se pelo espaço infinito, quando olhava para o ceu. Os -cabellos brancos, enquadrando-lhe o rosto pacifico, eram limpos, finos -e fluctuantes como floccos de neve, tinham a transparencia do nimbo -dos sanctos. Tocou-me aquella bondade, aquelle ar compadecido e altivo. -Pareceu-me um pedinte e olhei-o com attenção antes de o interrogar. Elle -sorria-se para mim, com a expressão d’uma pessoa que conversa junto d’uma -lareira aldeã, quando a fogueira crepita e o vento uiva victoriosamente -sobre o telhado. Sentia-me attrahido para elle e então perguntei-lhe -mesmo de dentro da carruagem: - -—Vocemecê vem de longe? - -Parecera-me que sim. Os pés tinha-os doridos, talvez d’uma longa -caminhada. Estava alli a descançar. A dona da taberna disse que o não -conhecia e que não era das redondezas. O velhito, como eu lhe fallei, -levantou-se sorrindo e approximou-se. E n’um tom de mysterio, para que -mais ninguem o ouvisse, segredou-me: - -—Se venho de longe? De muito longe. Nem eu mesmo o sei. - -Tomei estas palavras como de soffrimento resignado e tive piedade. - -Não sabia d’onde vinha, estava alquebrado pelo cansaço e não encarecia -as suas dores para me pedir esmola! Conheci-lhe pela expressão dolorida -do semblante, quando pôz os pés no chão para me vir fallar, que andára -muitas leguas a pé. Talvez para ir ver uma filha enferma! talvez para -exprimir outro grande affecto que lhe restasse no coração! Tantas terras -percorrera, que até a sua memoria enfraquecida pela edade não retivera os -nomes! Ter-se-hia perdido no caminho?... - -Insisti com modos de incredulo: - -—Essa é boa! Então não sabe d’onde vem? - -Olhou-me com ar sereno e firme como de quem tinha dicto uma coisa -perfeitamente exacta. - -—Não senhor. Ninguem sabe!...—segredou-me com extrema reserva. - -E acrescentou sorrindo intelligentemente: - -—A mim ninguem me conhece; mas eu conheço todo o mundo. Bem sei quem o -senhor é... É o senhor conde. Ah! cuidava que não sabia?... - -No rosto do pobresito appareceu uma aurora de triumpho. Para lh’a -sustentar perguntei muito baixo: - -—Mas como advinhou? Quem foi que lh’o disse? - -A enormidade do seu poder reconheci-a no desdem superior com que me -olhou. Continha lá dentro infinitos thesouros de sabedoria e perspicacia, -á qual não resistiam os insondaveis mysterios do amplo ceu. Quem era eu, -um misero conde, diante d’aquella omnipotencia que considerava o globo -terraqueo como uma insignificante bolinha de pão?! Na minha tristesa e -confusão devia-se reconhecer que o comprehendi; pois que o velhinho, para -me consolar acrescentou: - -—Eu sei tudo, advinho tudo. Se não digo d’onde venho é porque ando por -todo o mundo. Agora ahi vou eu para Hespanha ver se componho _aquillo_ -e se acabo com todas essas questões que por lá vejo. Levo aqui—designou -o saquito—os papeis e livros necessarios para dar luz e felicidade _a -todos_—sublinhou. - - * * * * * - -Entristeceu-me ver tamanho valor e convicção reunidos n’um corpo assim -fragil. Pedi-lhe com interesse e bons modos que me deixasse examinar -os seus thesouros. Accedeu da melhor vontade abrindo primeiro o sacco -d’estopa, dentro do qual estava um de panno preto, contendo ainda outro -de chita de ramagens. O cocheiro e a dona da taberna aproximaram-se -ironicamente para disfrutarem o pobre; mas elle, com um verdadeiro olhar -altivo e nobre, afastou-os significando, que taes segredos não eram -para espiritos grosseiros e motejadores. A meu pedido os indiscretos -retiraram-se e por fim o pobresito mostrou-me envolvidos em farrapos e -bem ligados com fitas de cores e cordeis, tres velhos alfarrabios em -lingua hespanhola e algumas folhas manuscriptas, d’uma lettra amarella -e inintelligivel. Pelo meio havia folhas seccas de castanheiro, algumas -flores mirradas e pequeninos ramos d’alecrim. Examinei com escrupulosa -attenção estas preciosidades, dando-lhes grande valor! Elle seguiu todos -os meus gestos e movimentos faciaes com olho sagaz e aspecto orgulhoso. -Quando lhe entreguei as suas preciosas reliquias, encarecendo-lhas elle -concluiu: - -—Já o senhor conde vê que não é ninguem ao pé de mim. - -—Oh! de certo!... - -E depois que já tinha guardado os seus livros e papeis inestimaveis -perguntei-lhe: - -—Mas como vem de muito longe deve trazer fome. Quer que lhe dê alguma -coisa? - -Sem altivez respondeu: - -—É da lei acceitar sempre a esmola. Fome não tenho. Ando por aqui ha um -rôr de seculos e nunca senti fome. - -E com um sorriso delicioso, como quem faz uma revelação: - -—Isso é para vocês que são d’este mundo. Para mim não, que não sou de cá. - -—Ah! vocemecê não é de cá? - -—Eu sim!... - -E sorriu-se da minha estupidez, da minha falta de comprehensão, -abrangendo n’um infinito olhar toda a amplitude da terra ao ceu! -Habitava essas regiões ideaes e interminaveis do azul, suspenso na -serena ondulação do ar, e bafejado da poeira brilhante da luz. A -expressão humilde e conformada do seu rosto, a grandesa e compaixão -que lhe resaltava da voz fraca e singela, o seu triumphante sorriso de -tranquillidade... convenceram-me de que este velhinho resumia em si uma -entidade poderosa. Quem julgará elle representar n’este mundo?—perguntei -a mim mesmo. Talvez algum sancto milagroso, algum lobis-homem das lendas, -algum bruxo afamado entre o povo!... A convicção da sua immaterialidade -e do seu immenso poder reconhecia-se que a tinha, pelo tom desdenhoso e -superior com que se referia a tudo que o cercava. D’elle só veriam sahir -protecção e bondade:—os beneficios que um acto rudimentar do seu querer -podia espalhar sobre a terra eram incalculaveis. Um simples designio da -sua vontade tornaria os homens eternamente felizes ou desgraçados. Não -comia, não se cançava, não havia ponto na terra d’onde tivesse partido -ou que devesse occupar...—o mundo, o ceu, os espaços inconcebiveis eram -a séde da sua ubiquidade. Nem a dôr, nem o falivel o tocava. A misera -fraquesa humana não a sentia, a contingencia do globo merecia-lhe um -pensamento compadecido. Sereno e grande vivia no seu reino especial!... - -Qual seria pois, o personagem imaginario que este velho magro, de rosto -sumido, alegre, bondoso, expressão de soberba e de compadecido, julgava -representar? Perguntei-lh’o com a premeditada cautela que elle empregava -nas suas palavras: - -—Então quem é vocemecê? - -—Pois ainda não advinhou?! Olha bem para mim creatura!... Nosso Senhor -Jesus Christo! - -E fixando-me com tremenda piedade concluiu: - -—Ando aqui para os salvar a todos. - -Dei-lhe uma esmola. O pobresito retirou-se serenamente, depois de me -recommendar: - -—Agora caluda, por causa d’esta gente. São hereges, não acreditam. - - Janeiro de 85. - -[Illustration] - - - - -[Illustration] - - - - -O CEGO DE GUARDIAM - - -Logo que expirou o cunhado, José Domingues cahiu n’um scismar -atormentado. Só elle comprehendia a grande desgraça que n’esse dia -entrára na casa de sua irmã, pobre mãe de cinco filhos, que tinha para os -sustentar, unicamente uma roca. Lembrou-se de os trazer todos para onde -a si; mas como poderiam viver tantas pessoas com duas pipas de vinho e -um carro de pão? A pensar n’isto se consumia o pobre José Domingues, e -aquelles olhos cegos desde tenra infancia, estavam grossos como punhos -de tanto que tinham chorado. Até perdera o gosto á rebeca, prenda que -seu tio frade lhe deixára, juntamente com as territas de que vivia. A -comida entrava-lhe na bocca só á força, depois de muito o apoquentarem. -Como toda a gente o estimava em Guardiam, iam alli pela eira pessoas -conversar com elle, dando-lhe consolações e conselhos, coisas de pouca -valia, pois não produsiam alimento para os sobrinhos. O seu amigo Miguel -Tinta, trouxe o violão uma noite, para lhe acompanhar a rebeca; porem o -cego é que não estava para tocar. - -—Que queres, não posso. Tenho aqui um peso de seiscentas arrobas—rematou -arrepanhando o coração. - -Mas como algumas raparigas, com o fim caridoso de o tirarem d’aquelle -malucar, lhe pediram insistentemente, José Domingues tocou umas musicas -tristes, muito populares e queridas d’aquella gente. Foi n’esta occasião, -que o Miguel, sentindo o cerebro illuminado por uma ideia, disse com -enthusiasmo: - -—Ouve lá. E se nós fossemos por ahi abaixo ambos! Não se ganharia alguma -coisa? - -Todas as pessoas presentes acreditaram que sim e applaudiram com -estrepito a lembrança. Só o rabequista não tinha grande fé, pois disse: - -—O que, a tocar? Uh!... - -—Hade haver muito quem vos queira ouvir. Tentar fortuna é sempre bom -prophetisou emphaticamente Zé Maximo, o barbeiro. - -Resolveram-no logo alli. Os dois mais interessados planearam a coisa -detalhadamente, mencionando as terras que percorreriam e as musicas que -haviam de escolher. Uma manhã de primavera, partiram com o sol rubro -no horisonte. Andaram por fóra alguns mezes e quando voltaram vinham -satisfeitos, porque traziam um bom par de moedas na algibeira. Foi uma -alegria para aquella gente, mormente para José Domingues, que ao entregar -o dinheiro á irmã pulava de contente, com os sobrinhos todos em volta a -agarrarem-se-lhe ás pernas. No forte das suas expansões, o cego, planeava -uma vida d’abundancia: queria que se comprasse um porco para matar n’esse -anno e mais um bácoro, para o seguinte. - -—N’esta casa!—com seiscentos diabos!—hade tornar a haver salgadeira e -fumeiro, como antigamente—affirmou. - -Foi este o começo da vida de tocador de rebeca, que tão popular fez o -cego de Guardiam, em toda a provincia do Minho. - - * * * * * - -O seu nome chegou mesmo á cidade do Porto. Quem fallasse no _ceguinho_ -designava logo José Domingues. A expressão persuasiva e bondosa do seu -rosto tornava-o attrahente e querido. Ou tocando a chorosa rebeca, ou -a cantar modas alegres, ou a gracejar com as raparigas, era sempre -comedido e delicado; por forma a ser cubiçada a sua presença. De todos -os cegos pedintes e trovadores, só elle gosava de verdadeira sympathia. -Chamavam-no a muitas casas para o ouvir e, alem da paga, offereciam-lhe -vinho e marmelada. Tambem elle não se parecia com nenhum d’esses -tocadores de sanfona, lamorientos e porcos. Sempre limpinho:—vestido de -briche; camisa lavada; botas de cano, toscas e fortes; a mão apoiada -no hombro do companheiro; o extincto olhar voltado para o sol; assim -percorria a provincia. Tinha o seu orgulho d’artista e de pequeno -proprietario—nunca exaltou ou fingiu miserias e necessidades para -provocar compaixão. Acceitava o que lhe dessem, fosse muito fosse pouco, -agradecendo tudo com um sorriso. O que ambiccionava principalmente era -que o escutassem com religião e amor. Se havia pelas janellas senhoras -formosas, em quem presumisse melhor comprehensão da musica, o Miguel -advertia-o; pois que n’essas circumstancias, o arco de José Domingues, -tinha movimentos expressivos, alma enthusiasta, e coração de poeta. - - * * * * * - -Que ideia faria elle da formosura!... - -Fora tão cedo, logo no começo da infancia, que perdera a vista!... As -suas recordações não podiam deixar de ser pedaços de mundo dispersos, mal -definidos, impressões fugitivas, como as da luz no pôr do sol. Comtudo -na viva e larga imaginação, era certo que lhe esvoaçavam encantadoras -imagens. A meiguice do sorriso, a bravura da expressão em certos -momentos, fazem-no presumir. Quando acreditava que a sua alma, a sua -rebeca, estava fazendo palpitar algum coração de mulher, o rosto bexigoso -e feio, animava-se-lhe triumphantemente, como uma aurora. Parecia que -tinha um resplendor, que respirava n’um circulo de luz propria. - -É porque elle instinctivamente calculava que áquella expanção de -sensibilidade que lhe vibrava nos proprios nervos, corresponderiam outros -efluvios em nervos mais delicados. E a potente voz da arte embravecia-lhe -a natureza cheia de candura, transformando o humilde cego, n’um ente -dominador e altivo. A proximidade da mulher, a sua inflexão meiga e -dolente, amansava d’um modo absoluto, qualquer aspereza d’este homem, -que nunca lhe pudera calcular a pureza das linhas. Talvez isto fosse por -conhecer a dolorosa historia de seu tio frade, que morto aos septenta -annos, conservára até á ultima, o amor d’uma imagem extincta, evocando-a -aos sons da mesma rebeca, que José Domingues tocava! - -Esse tio egresso fôra o seu educador e o seu amigo. Homem de viver em si, -conhecendo a musica e as lettras, ensinara-o a tocar, e transmittira-lhe -a alma que possuia. A doce affabilidade de convivencia com esse bom -velho, introduzira-lhe no coração sentimentos preciosos de humildade. -Despresar os bens terrenos, para se confortar nos gozos interiores, fôra -o que esse obscuro evangelista sempre lhe aconselhára, como meio de se -oppor á desgraça e soffrer com valor as agruras do mundo. Por isso, elle -acceitou em toda a conformidade, esta vida de tocador ambulante, por -mais que ella fosse contraria, ao seu quietismo aldeão. Ainda assim -tinha a impellil-o n’este vagabundear de terra em terra, o seu caracter -impressionavel d’artista. O fanatismo com que todos o ouviam em Guardiam, -em Refuinho e n’outros logares, por vezes lhe levantára as ambições e -sonhára com publico mais numeroso e selecto. Porem nunca pensára em sahir -da sua aldeia, e do adro da egreja, onde nos domingos, depois da missa -conventual, até o abbade parava a ouvil-o. _A donzella abandonada_, -o _Marinheiro_ e o _Cão fiel_ eram algumas das poucas cantigas que -n’esse tempo conhecia. Exprimia-as com tal sentimento e candura, que -era frequente perceber-se o chôro d’algum coração de rapariga enamorada -e sensivel, que encontrava nas palavras da canção qualquer lembrança -pungente. Então o José Domingues, que era galhofeiro dizia: - -—Quem diabo está ahi a fungar, a rir-se da minha rabeca? Anda cá menina -que elles não te entendem!... - -E beijava-a repetidas vezes, balouçando-a contra o seio, acariciando-a -como terna mãe acaricia um filho. Isto dava sempre bom effeito, alegrava -os ouvintes, tornava-os communicativos e contentes. Para que todos -bailassem, o cego, tocava-lhes a _Canninha verde_, a _Maria Cachucha_, -o _Afasta janota, arreda_, e os rapazes acercavam-se das raparigas, -formando logo a roda. - -Se o Carvalhosa presenciava, nunca deixou de dizer com sorriso de -consentimento e um dedo no ar: - -—Moços! juizo, ouviram? Muito juizinho. - - * * * * * - -Agora que andava de terra em terra, a força de sympathia e attracção do -José Domingues dilatou-se por muita gente. A sua pequena estatura, a -magresa do corpo, a expressão terna, o olhar fixo e indefinido sempre -voltado para a luz, a delicadesa natural e a suavidade das suas fallas, a -inspiração muitas vezes caudalosa e atormentada da sua rabeca... tudo se -fixou na imaginação collectiva, com traços vigorosos e duradoiros. Elle é -que levava pelo mundo a sua fama. Todas as terras o estimavam e queriam -a ponto de se fallar com antecedencia da vinda do cego de Guardiam, que -tinha epocas determinadas e fixas, para os diversos pontos da provincia. -Se tardava uma semana, isso era logo motivo de reparo. Preoccupavam-se -com a ideia de que estivesse doente e nem queriam suppor que tivesse -morrido. O seu apparecimento era considerado como o das aves cantoras -na primavera, que preannunciam os bons dias e as flores. Por isso era -recebido com verdadeira satisfação este portador de novas canções e, -principalmente as raparigas do povo, saudavam-no com alegria expontanea e -sincera. Parava a conversar com pessoas de diversas cathegorias, e sempre -lhes narrava coisas novas em que os interessava pela simplicidade da sua -palavra. - -Estas jornadas, pelos ensombrados caminhos da provincia, começava-as -no principio d’abril, quando os pampanos rebentam e parecem olhos de -satyros a rir de todo o mundo. O inverno passava-o em casa, junto do -lar crepitante, no meio dos sobrinhos, que lhe enchiam a alma de gosos -paternaes. Havia magustos com estoiros de castanhas e o bom rascante, -colhido nas videiras que lhe legara o tio frade. Havia a matança do porco -e a consoada, que eram festas salutares e bulhentas. A neve embranquecia -os montes sobranceiros, a rispida nortada esfuziava, ás lufadas, pelo -valle. Era preciso cada qual acercar-se da fogueira para assim ludibriar -a furia dos elementos, que zombeteavam cá fora. José Domingues com a sua -modestia bem provida do necessario, dizia aos sobrinhos, quando tinham -medo do trovão: - -—Deixa lá, é a musica do pae do ceu. - -—Gosto mais da rabeca do tio Zé. A musica do pae do ceu, não -presta—observou um de oito annos. - -—É zabumba—considerou philosophicamente outro de menos edade. - - * * * * * - -A primavera fazia-o sahir de Guardiam acompanhado do Miguel. Tinham um -jumento para levar o vestuario e o presigo dos primeiros dias. Durante -as chuvas, como os pintasilgos, tinha a voz amortecida. Só a fragancia -do ar tepido e balsamico o fazia cantor. Sentia, como os que tem bons -olhos, que a natureza se subtilisava para a festa grande da creação. No -fermentar estrondoso das sementes que rebentam, estava a sua paisagem -florida. As canções d’esta epoca, o _Regadinho_, o _Pintalhão_ eram -vivas, travessas e maliciosas. As do outono eram melancolicas, arrastadas -e dolentes, sentindo-se no arco da sua rabeca certa preguiça, e o -sentimento das vozes ternas, que vem de longe pelas corgas dos montes. -Havia n’esses cantos, notas flutuantes que pareciam folhas amarellentas -vagueando no ar, impellidas pelo rigido nordeste. Se na volta d’um -caminho percebia alguma cantiga sahida de pinheiral rumuroso, parava -escutando e, ás vezes, rebentavam-lhe lagrimas. Aproximava-se o tempo -de recolher a casa, ás consolações da familia. Lá voltava a Guardiam -com a imaginação cheia de lembranças alegres. No logar era festivamente -celebrada a sua volta e, rindo e chorando, José Domingues abraçava com -effusão e verdadeiro prazer todos que se lhe approximavam. Dançava, -pulava, atirava o chapeu ao ar, como uma creança! - -É que se sentia entre corações d’amigos. - - * * * * * - -N’um d’esses periodos d’inverno, que passára junto dos seus, ouviu ler na -gazeta que o padre Carvalhosa emprestava ao mestre-eschola de Guardiam, -que estava em Lisboa e talvez viesse ao Porto e a Braga um rabequista -celebre a quem chamavam pomposamente o «primeiro violinista do mundo». - -—Olhem que não tocará melhor que o nosso José Domingues—affirmou -enthusiasta e patrioticamente o professor. - -—Ora, senhor José Fortunato, nem diga isso. Eu, um pobre estupido, posso -lá!...—respondeu com modo agradecido. - -—Deixa-te de tolices, homem. Olha que eu com os sessenta e cinco que já -conto, nunca ouvi como Frei Gonsalo. E já fui uma vez a Lisboa, com o -fidalgo de Refuinho, quando elle era vivo. - -—Lá isso, maior que meu tio, não acredito que haja. Devo-lhe a alma que -tenho—confessou commovido. - -José Fortunato ainda acrescentou: - -—Olha que lá as meninas (as de Refuinho) estiveram no Porto com o tio -general. Presencearam por lá grandes coisas e disseram-me que antes -queriam ouvir o José Domingues. - -—Isso são umas santinhas. Eu sou um pobre cego, não sei nada, senhor José -Fortunato. - -—Não sabes nada? Sabes tudo, tens d’isto—rematou o mestre-eschola, -batendo uma punhada sobre o coração. - -O mais velho dos sobrinhos do cego, comprehendendo tudo pelo instincto, -atirou a carapuça ao telhado, gritando: - -—Viva o tio Zé Domingues e a sua rabeca! - -—Viva! viva!—acompanharam os outros. - -Mas o rabequista, ficou a scismar no que seria, essa maravilha tão -apregoada pela gazeta. Que poder, que attracção teria no seu arco, esse -homem que era superior a todos os que havia no mundo! Na sua mente -ingenua, apresentou-se logo uma figura aureolada de sol, dominando a -multidão dos admiradores que o applaudiam. Um publico de fidalgos e -mulheres ricas é bem differente do seu, que era rude e casual. Haveria -fragor de enthusiasmo, comprehensão vasta n’esse theatro em que as luzes -faziam sobresahir a opulencia. A apotheose alargava-se até aos confins -da terra e o artista victoriado levantava-se até ás nuvens... A alma -calorosa do cego de Guardiam, sentia-se enebriada com esse imaginado -triumpho, a commoção manifestava-se nas lagrimas que lhe apontavam. E -batendo uma palmada no joelho disse com resolução: - -—Pois ainda não hei de morrer sem ouvir uma coisa d’estas! - -N’esse momento chegou o Miguel Tinta a quem perguntou: - -—Queres tu ir comigo a Braga ouvir o tal home?! Talvez se lhe possa tirar -alguma coisa. - - * * * * * - -Sempre fora este o seu processo d’aprender e progredir. Musica que -ouvisse logo lhe ficava. Tinha no Porto e em Braga, quem lhe arranjasse -versos apropriados. Ás vezes mesmo, lhe ministravam musica e lettra, -o que valia oiro sobre azul. Entrava em todas as egrejas onde ouvisse -tocar o orgão e era assiduo perto das bandas militares, quando soubesse -que tocavam em publico. Se qualquer musica lhe calhava, elle e o Miguel -tractavam logo de lhe applicar versos dos que sabiam e assim chegaram a -popularisar canções, como aconteceu áquella que principiava: - - Veja lá menina - Se levanta a saia - ................. - -a qual toda a provincia decorou. Algumas vezes aconteceu -aristocratisarem-se as suas modas até chegarem ás salas de provincia, e -então José Domingues ouvindo-as celebradas em piano dizia com orgulho: - -—Vê lá Miguel. Aquella trouxemol-a nós. - -A noticia que ouvira ler na gazeta do padre Carvalhosa, sobresaltou-lhe -o coração, cheio de enthusiasmo pela musica. Era rigoroso dezembro; o -frio enregelava as carnes; as neves cobriam os montes; o ceu, estucado de -nuvens côr de lama, tinha uma immobilidade sombria. Os caminhos estavam -intransitaveis, muita gente lhe aconselhou a não fazer a jornada; mas -elle, logo que soube que o afamado rabequista chegára a Braga, resolveu -o Miguel e partiram. Era como uma peregrinação religiosa. De tempos -a tempos, José Domingues soltava seus ais admirativos e dizia para o -companheiro: - -—Mas como será este home, que é o primeiro rabequista do mundo? - -Miguel observou scepticamente: - -—Quem sabe lá! Isto de gazetas, consentem o que lhe põem. - -—Não, não. Deve ser coisa de respeito!—considerou absorvido na sua ideia. - -Logo á entrada da cidade, perto da egreja de S. Vicente, procuraram um -estudante de Guardiam, com o fim de lhe pedirem esclarecimentos. Souberam -que tudo quanto se dizia era verdade, que o senhor arcebispo, tendo -escrupulos de ir ao theatro, convidára o famoso artista para tocar n’essa -noite no Paço. O estrangeiro accedera, para conquistar as sympathias do -prelado e do publico. - -—Ó senhor Joãosinho—supplicou José Domingues—eu queria ouvil-o. Não me -poderá arranjar um buraco no palacio do senhor arcebispo? Eu arrumo-me em -qualquer parte. Um buraco que seja, menino. - - * * * * * - -Não foi difficil obter esta infima posição. O estudante era amigo d’um -famulo de sua excellencia, o qual pôde esconder o cego n’um vão de -escada, proximo do logar onde se realisaria o concerto. José Domingues -levou comsigo a rabeca, pois desejava apertal-a sobre o peito para melhor -comprehender a musica. Tiveram de o introduzir de dia, n’um momento -conveniente para não ser presentido. Durante umas seis horas, esperou que -chegasse o instante. Encolhido, quieto, respirando brandamente para não -dar rumor de si, alli se conservou. Perto da noite, accometteu-o uma sede -furiosa, que supportou heroicamente, sem o menor arrependimento. - -O famulo que alli o introduzira, veio n’uma furtadela perguntar-lhe se -estava bem e o cego respondeu agradecido: - -—Ricamente, meu senhor. Só tenho uma sêde!... - -Satisfeita esta necessidade ficou n’um paraizo. Momentos depois entrava -tudo quanto havia de selecto na sociedade bracarense. A alta clerezia -appresentou as suas familias respeitaveis. O general, o governador -civil, o commandante do 8, o juiz de direito, administrador do concelho, -delegado, professores do lyceu, trouxeram suas esposas e filhas. Ondulava -um murmurio de vozes e de sedas, e José Domingues ouvia pronunciar nomes -consagrados, que toda a vida respeitára humildemente. Isto augmentou -no seu espirito o valor d’aquella festa, tornando-a imponente. Era -um deslumbramento e um ceu aberto o que principiava a despontar na -sua imaginação. Agarrado a sua rabeca, apertando-a contra o seio, -estremecendo-a como se fora um ente animado, estava commovido. Ia-se -verificar a apotheose d’um seu irmão, e elle identificava-se com a gloria -do artista que não conhecia. Entrou o prelado. O cego deu conta d’esse -facto pelo recuar de cadeiras e pelos comprimentos. Pouco depois chega o -rabequista e a curiosidade da parte dos assistentes produziu um sussurro -maior, que immediatamente se acalmou, seguindo-se um silencio de mar que -se esbate sobre a areia. - - * * * * * - -Logo que os primeiros sons da rabeca encheram a sala, a alma de José -Domingues sentiu-se arrebatada para um horisonte largo. Dos seus olhos -sem vista, irradiaram fulgurações d’uma belleza sideral. Erguendo-se no -amplo espaço com a pujança d’um crente, a sua imaginação livre, vagueou -na larguesa sem fim, n’um redemoinho d’harmonias, que o impelliam como -ligeiro farrapo de nuvem. Toda a miseria terrena desaparecera para elle. -Não estava n’um buraco, como cão despresivel, socio e companheiro de -ratos: aos seus olhos apparecia um amplo salão, ornamentado de riquezas -e de mulheres formosas. Esquecera-lhe o rouco uivar do vento sobre a -telha vãa da sua pobre casa, os caminhos enlameados e cheios de poças, os -encontros por vezes desagradaveis da sua vida de tocador. - -Quando a rabeca tinha momentos alegres, extravagantes, buliçosos, José -Domingues ia indo n’aquella toada e vinham-lhe á mente coisas loucas -e pueris: dançava em volta d’uma fogueira, abraçava as raparigas -que lhe fugiam aos gritos, ouvia repiques de sinos, e ao longe, a -multidão festival passava para a romaria. Se era a dolencia das musicas -hespanholas, entranhadas de sentimento arabe, expraiando-se brandamente, -como as mansas aguas do Mediterraneo, os seus nervos sentiam uma paz -infinita, quasi um torpor. A visão paradisiaca d’uma primavera só formada -de cantos de passaros e de perfumes d’hervas e de flores, como elle -a contemplava n’esses momentos, era mais intensamente bella do que a -paisagem das amendoeiras e dos campos cheios de trevo e de malmequeres -brancos. - -Mas o seu pendor, a tendencia da sua alma, era para todos os trechos -lacrimosos, d’uma plangencia terna que se abrissem largamente em -espaços constellados. Não valiam tanto os rouxinoes e os melros no -meio silencioso das mattas, e o rio murmuroso ladeado de choupos. -Corriam-lhe em fio as lagrimas e apesar dos applausos dos ouvintes, José -Domingues sentia que elles não comprehendiam bem aquella musica. Se -elle podesse, entraria de joelhos na sala, para beijar os pés do grande -artista mostrando-lhe a sua admiração, n’um chôro copioso e enthusiasta! -Rastejar pela terra como humilde verme, era o modo que a sua rudeza -achava bastante expressivo, para glorificar aquelle seu irmão. Porque não -procediam assim esses homens que o ouviam? Vinham-lhe suffucações de -colera contra os que se não levantavam em extasis d’um enthusiasmo viril -e ardente como o seu. É que não tinham alma para sentir. Elle humilde, -obscuro, rude, apertado entre as paredes d’aquelle buraco, era-lhes -superior, comprehendia o que elles não podiam comprehender, tinha em -si um thesouro, que nem todos os thesouros da terra podiam egualar. -Vibravam-lhe no cerebro os echos d’aquella musica, a sua commoção era -grande, os soluços que não podia evitar apanhava-os nas mãos para não -serem percebidos, com medo de perturbar aquella musica celestial! - - * * * * * - -Todos estes sentimentos augmentaram de intensidade, e no coração -repercutiram-lhe os fremitos magestosos d’uma epopeia, quando os -primeiros accordes da «Ave Maria» de Gounod se fizeram ouvir. Na sua -imperfeita comprehensão, não se destrinçavam claramente as bellezas -accumuladas no famoso trecho. Vinha-lhe tudo em globo, tumultuariamente, -como se a lendaria figura da morte o arrebatasse n’um instante, levando-o -por ermos desconhecidos, onde a sensibilidade fosse outra. N’aquella -ondulação luminosa d’harmonias, sentia-se crescer, vencia espaços -incommensuraveis, passava gloriosamente sobre altos montes, ia em -rapido vôo sobre o mar tormentoso, para no fim parar em regiões serenas -formadas de luz e melodia. Arrepanhava as carnes procurando a realidade -na manifestação da dôr; mordia os punhos a ponto de fazer sangue; queria -gritar e não podia; agarrava-se energicamente á sua querida rabeca, n’uma -effusão de ternura e o seu coração não se apasiguava nunca! O canto -angelico e suave crescia em profundeza, augmentava em area—era como uma -palpitação infinita. O cerebro de José Domingues enchia-se de carinho, -o enthusiasmo suffocava-o, anniquilava-lhe as forças. E lá era levado -de novo, subindo até ficar sobranceiro ás nuvens, conhecendo instantes -de paz e de tortura, chorando, sorrindo, estorcendo-se no chão como uma -cobra ferida. - - * * * * * - -Os bravos e as palmas d’esta vez foram mais estrondosos. Prolongaram-se -porque era o agradecimento final. Porem, todo esse ruido não pôde dominar -um doloroso grito, forte como se sahisse do peito d’Othelo n’um arranque -de ciume, meigo como se fora o ultimo queixume da rola Ophelia. - -Ficaram rapidamente silenciosos e perplexos os espectadores. Um soluçar -ancioso continuou e para o logar d’onde elle vinha se dirigiram as -pessoas interessadas em tamanha dôr. N’aquelle buraco escuro, de bruços -sobre a rabeca que esmigalhára, estava o cego de Guardiam, que não -poderam mais chamar á vida! - - Janeiro de 86. - -[Illustration] - - - - -[Illustration] - - - - -A VELHICE D’UM REI - - -Sentado na larga poltrona de seda azul, o monarcha conversava em voz -pausada e lenta. Uma graciosa imagem da Virgem, talhada em marfim, por -desconhecido artista da Renascença, dava-lhe ensejo de explicar a velhos -amigos, como conjecturava, que teriam trabalhado aquelles talentos -singulares, creadores de tantas maravilhas. Tenuissima nuvem de paz, -de conforto, de luxo estudado, pairava sobre este ambiente, tornando-o -em região intermedia á riqueza mundana e á severidade do gabinete d’um -sabio obscuro. No rosto sereno do rei, havia o orgulho do nascimento -e a tristeza propria dos annos. A sua longa barba branca, objecto de -veneração em todo o paiz, era até commentada entre a gente rude dos -campos. Quasi a tinham como symbolo de orgulho nacional, pois com -jactancia affirmavam não haver outro rei com barba tão longa, tão linda e -tão branca. - -A vaidade das coisas realengas—orgulho natural nos paços doirados, -sentimento peculiar dos que soltam os primeiros vagidos sentados n’um -throno—diziam que a não tinha. A abnegação e o desprendimento de -todas essas pompas eram-lhe attribuidos com meiga sympathia entre as -classes populares, que são as que melhor comprehendem as inclinações -democraticas. Elle abdicára em seu herdeiro o poder de que disposera -durante muitos annos e havia praticado esse bello acto sem ostentação e -logo que o principe chegára á maioridade. Adquiriu a liberdade de homem, -entregando-se ás suas collecções artisticas, aos prazeres da caça e á -conversação intelligente. Perdia-se dias inteiros na espessura das mattas -reaes, sempre poeta, contemplando a luz e vivendo intimamente na absoluta -natureza silenciosa. Para ser um bom rei, querido e estimado, até muitos -o diziam generoso e esmoler. - -Porém, nem todas as pessoas tinham esta opinião benevolente. Alguns -revelavam que fazia sentir as suas dadivas, fallando d’ellas. Censurava -os gastos de muitos que os não podiam fazer, tinha a opinião de que -a sua bolsa não era inexhaurivel. Egoista e reparador—chamavam-lhe. -Desfazia com palavras, alguma generosidade que praticava. Apontavam como -impropria, a ponta d’avareza que esboracava o manto real. Um soberano -amesquinha-se fallando de coisas tão vulgares. Era o que faltava que -procedesse d’outra fórma. Não fazia o povo muito mais pelo rei, do que -o rei pelo povo? Qual era o azeite e o vinho que produsiam as extensas -coutadas que a nação lhe dispensava para os seus divertimentos?!... - - * * * * * - -Depois a velhice tornara-o rabujento. Os camaristas para lhe entreterem -as insomnias, tinham de colher ou inventar episodios escandalosos. Era -fatigante a sua exigencia nos detalhes e torturava-os com repetições. A -surdez obrigava-os a servirem-se da corneta acustica para lhe fallarem. -Havia perguntas e respostas disparatadas, situações grotescas que depois -se desfaziam em motejos nas ante-camaras. A consciencia d’estes factos -entristecera-o e só a muito custo lhe tiravam um sorriso, um ar de -approvação. A sensibilidade embotára-se-lhe com a velhice e só historias -picantes, difficeis de inventar, conseguiam distrahil-o. - -A rainha,(tratavam-na assim por deferencia, só dentro do palacio) esposa -morganatica do rei, senhora ainda forte, saudavel, com vida para gastar, -abandonára-o n’este periodo de doença, sob pretexto de que elle estava -mais satisfeito entre os seus amigos. A falta d’um contacto feminino, -que lhe enternecesse a organisação, fizera variar aquella sensibilidade -que fôra delicada e exigente. Só episodios burlescos, onde apparecessem -mulheres adulteras, maridos comicamente trahidos, creadas servindo -intrigas amorosas, homens escapando-se de gatas por telhados... é que lhe -enchiam o vasio das longas insomnias. Alguns dos seus camaristas eram -rapazes de sangue ardente, creados n’uma vida ociosa e delicada. Passavam -um aborrecimento n’aquelle palacio de grossas muralhas. O que lhes valia -era a conversação das companheiras da rainha, senhoras formosas, muitas -gentis, todas de uma educação esmerada. Desanuviavam-se reciprocamente -d’aquella vida pautada e monotona, fazendo má lingua, fallando da -sociedade com a liberdade de parentes e camaradas. Um ou outro de -apetites mais grosseiros, preferia abraçar nos corredores sombrios as -simples creadas, mulheres de carnes saudaveis, sangue plebeu e revolto, -que enchem a existencia d’alegrias. As provas de tão insignificantes -delictos estavam nos beijos a cantar na escuridade, nos vultos a fugir -cautelosos, nas palavras de carinho apanhadas avulsamente n’um perpassar -rapido. - - * * * * * - -Um dia, o medico de serviço approximou-se do rei para lhe tomar o pulso. -A um contrahir facial de suspeita do facultativo acrescentou o monarcha: - -—Não passei muito bem a noite, não. - -Tivera soffucações, maus sonhos, um dormir inquieto. O doutor -applicou-lhe demoradamente o ouvido á região cardiaca, concentrou-se n’um -raciocinio e quietou o doente com o sorriso profissional. Nervoso, talvez -a maldita dyspepsia—esclareceu. - -Porém logo se dirigiu aos aposentos da rainha a informal-a da gravidade -e adiantado da molestia. Poucos minutos levou, para o mais humilde -serventuario do palacio saber que o soberano padecia d’uma lesão. Era -coisa já antiga e sómente os ultimos gelos a tinham aggravado. Congestões -abdominaes e no figado haviam obrigado aquelle velho coração a empregar, -nos ultimos tempos, um grande esforço para impellir o sangue até aos -confins do corpo. Um coração delicado de rei, batendo sempre moderamente -debaixo de lendarios arminhos, logo que sentiu resistencia ao seu poder, -entristeceu; principiou a condescender, a sobrecarregar-se; dilatou-se; -adelgaçou... e a terrivel aneurisma estava proxima a romper-se. - -—É como se o monarcha, sentisse contra o seu poder providencial a revolta -dos seus vassalos—comparou o medico, com delicadeza de phrase. - -Tal acontecimento impressionou diversamente. Não havia unanimidade de -sentir, nem de crença. Todos viam que o rei continuava a conversar na sua -voz pausada e fidalga. O doutor era homem sabio e respeitado, mas podia -enganar-se. - -—A sciencia humana—disse um velho de sorriso sceptico—é fallivel. «A mais -aguda, segundo o poeta, é ignorancia cega ante a divina». O aspecto de -sua magestade não é para sobresaltos. - -—E a edade?—argumentou outro. - -—Sim, a edade é condição desfavoravel—rematou o primeiro. - -Alguem notára, que nos ultimos tempos, o rei, outr’ora tão expansivo, -se callava frequentemente, levando a mão ao peito quando desejava -respirar mais fundo. Porém acreditavam ser o cansaço de estar sentado, -o aborrecimento de viver no quarto e a tristeza da maldita surdez, que -parecia não ter cura. Que se levantasse algumas vezes, que fosse até á -larga varanda admirar a primavera que principiava a romper nos campos e -veriam, como logo adquiriria vigor, como os olhos se lhe alegrariam. - - * * * * * - -Os do pessoal menor do palacio, que tanto como outros viviam da -munificencia regia, preoccupavam-se, para o caso da morte, com o theor do -testamento. Alguns esperavam d’alli uma especie de liquidação vantajosa -da propria fortuna; outros, mais reservados e scepticos, temiam não ser -contemplados e perderem aquelle bom agasalho e santa ociosidade. - -—Não nos fiemos em sapatos de defunto. Poderemos obter d’esta fórma o -equivalente do que gosamos?—resumiam. - -—Ah! não póde deixar de ser! Até seria uma vergonha se o não fizesse!... - -Esse rico papel escripto pelo proprio punho do rei, diziam estar dentro -d’um cofre de malachite, guardado n’um armario de ferro. Ninguem o tinha -lido, a não ser talvez o primogenito e a rainha; mas para todos era um -motivo de palavras humildes e risos captivantes, em face do doente. -Este homem, fabulosamente rico, podia deixar a independencia social aos -que eram pobres e accrescentamento de fortuna aos opulentos. E tinha de -o fazer, se queria engrandecida e celebrada a sua memoria. Isto de reis -são orgulhosos, mesmo quando o não parecem; teem a vaidade de que os -lamentem depois da morte, para se conservar a velha ideia biblica de que -o monarcha é o pae, é o senhor, é o ungido de Deus! - -—N’esse caso que o pague—concluiam. - - * * * * * - -Poucos dias depois do ultimo alvoroço ácerca da saude do rei, houve um -acontecimento que impressionou. O doente não tivera, durante a noite, uma -hora de somno tranquillo. Sonhara uma vida agitada de batalhas, sentira o -sangue tumultuar-lhe nas arterias. - -—Vejam lá, n’estes tempos modernos, eu a imaginar torneios e golpes de -lança!—criticou elle mesmo. - -O doutor foi de opinião, que lhe devia ter feito mal a visita d’um -antiquario estrangeiro. A surdez obrigava o monarcha a grandes esforços -na conversa. Durante perto d’uma hora os dois tinham discreteado ácerca -de tempos passados, da belleza e encanto da vida d’outr’ora, artistica e -batalhadora, despreoccupada e cheia d’aventuras—bons tempos em que houve -homens que foram simultaneamente guerreiros, poetas e artistas, como -Cellini. - -—Evite-me vossa magestade essas commoções. Ponha-me esses sabios na -rua—recommendou o medico. - -A mulher do rei foi claramente informada da extrema gravidade da -molestia de seu marido. Senhora de ascendentes fidalgos, muito temente -a Deus, conseguira enfileirar na familia do rei, por um abuso da força -poderosa da sua belleza e da sua carne, sobre a organisação já caduca do -soberano. Tambem se fallava de influencias clericaes, que miravam a obter -para certo instituto, parte da fortuna particular do monarcha. Todos -entendiam que ella se prestára a aquecer os membros frios d’um velho, por -simples vaidade de ser chamada rainha. - -Amava a riqueza, a consideração publica, o fausto da corte e a supremacia -entre as mulheres. A importancia da doença do marido, cuja morte -para ella significava a perda de todas estas garantias e vantagens, -assustou-a. O seu rosto de vivo que era, tornou-se tão composto e triste, -que abrandou, no começo, a malevolencia de muitos que na corte lhe -eram hostis. Ella que tanto amava os theatros, os bailes, as corridas, -os passeios de carruagem ao ar livre, em face das bellas paisagens -illuminadas pelo sol, deixou de sahir logo que o mal tomou o caracter -assignaladamente grave, e installou-se ao lado da poltrona onde o marido -dormitava, ouvia os seus amigos, e arfava os cansaços da molestia. - -Ella, ás vezes sob pretextos futeis pedia que a deixassem só com o rei. -Condescendiam os camaristas, formando conjecturas, que nem sempre eram -benevolas. Diziam que depois d’essas intimidades lhe notavam no rosto -uma agitação febril, mal dissimulada. Accrescentavam que no semblante -do rei, apesar da compostura calculada, apesar da respeitavel barba -branca que lhe diminuia a expressão, apesar de reclinado na poltrona -com as palpebras docemente cahidas... descobriam restos de fadiga e o -aspecto d’um homem contrariado. Parece que se percebera n’um dia barulho -d’altercação, parece que se ouvira depois um soluçar de mulher. A -creadagem affirmava ter sentido beijos de esposos, palavras de colera, -expressões de reconhecimento. Tudo isto não podia deixar de ser obra de -testamento—entendiam. Os velhos amigos do soberano, sempre lhe tinham -tractado respeitosamente a mulher, indicando, ainda assim, na friesa e -polidez dos cumprimentos, que a não estimavam. Na ausencia chamavam-lhe -intrusa, ambiciosa, desnaturada, pois abreviava os dias do doente com -mortificações, e até a sua notoria religiosidade, tomavam como impostura. - - * * * * * - -A molestia progredia a olhos vistos, e já a ninguem era licito -desconhecer o proximo termo d’aquella vida d’opulencia. O proprio -doente disso estava convencido e quando lhe diziam palavras d’esperança -sorria com amargura. As ancias, as suffocações, agora mais frequentes -e incommodas eram um desmentido claro. A oppressão no peito dava-lhe -um sentimento de homem replecto. Os beiços engrossavam todos os dias, -as olheiras eram fundas como a sombra da noite, as palpebras pesadas e -adormecia facilmente como um bebedo. Este homem nascido em berço d’oiro, -esta imaginação educada e aberta sempre n’uma atmosphera de delicadezas, -repugnando-lhe as miserias asquerosas d’uma doença prolongada, começou a -ter pelo corpo de que fôra tão vaidoso, um desprezo invencivel. As suas -pernas estavam grossas como rudes troncos de carvalho, o ventre volumoso -chocalhava como um barril mal cheio, e, segundo lhe segredava a memoria, -devia conter um liquido viscoso, semelhante a baba d’animaes. Preferia -ter uma doença de cruciantes dôres. Devia haver molestias para reis, -molestias limpas, que fossem o logico terminar da vida das grandezas. -A cabeça recostada no espaldar alto da cadeira, o roupão de seda a -arfar-lhe sobre o peito, fechava voluntariamente os olhos para fugir á -vil realidade e entrar n’um mundo ideal de lembranças dignas. E parecia -conseguil-o, pois havia momentos em que o seu rosto era d’uma paz e duma -tranquillidade de stoico. - - * * * * * - -Viveria em imaginação no seu passado? - -Fôra criança e logo na edade em que o cerebro começa a perceber viu-se -rodeado da consideração, que pode gerar o orgulho—velhos fidalgos iam-lhe -submissamente confiar as suas barbas, para que o principe as tomasse -como brinquedo. Tinha sido entregue depois a professores, que sobre -elle exerciam uma auctoridade parecida antes com a obediencia. Quando -cavalleiro, gentil e vaidoso, o fanatismo de todas as mulheres, gosára -amores defezos, que tanto o divertiam pela posição do homem enganado. -Subiu ao throno, e viu curvadas diante de si, as illustrações do sangue -e da sciencia, homens de renome que só d’elle, do seu tradicional poder, -deviam receber a consagração. Aborrecido do mando, com o egoismo proprio -da velhice, abdicou, creara novos prazeres recolhidos, encontrára ainda -uma formosura que o amára, sentira-se remoçado e contente durante certo -periodo... - -Porém n’outros momentos vinham-lhe subitas crispações faciaes -significativas de desgosto. É que sentia o desabar de todo esse mundo, -como desabam as montanhas n’um rancoroso terremoto. Tinha, ás vezes, a -sensação de que um largo alçapão se abria na terra e o engulia para uma -escuridade absoluta e eterna! Era homem como os outros. Diante da miseria -da carne estava nivelado com a plebe mais infima. A corôa, o sceptro, a -auctoridade real, os gosos da intelligencia, nada faziam para que tivesse -um fim grandioso. - -Felizes só os reis antigos, mortos heroicamente nas batalhas medievaes, -atravessando inimigos com lanças relusentes e acabando entre maldições e -hymnos de gloria! A sua imaginação dolorida apresentava-lh’o ainda mais -repellente do que estava, o rosto espapaçado—palpebras entumescidas e -cyanoticas, beiços grossos e olhar sem brilho. Vira-se uma vez ao espelho -e ficara horrorisado de si mesmo. Despresava-se com nojo. - - * * * * * - -Sobre todas as ironias da carne, vinha ainda a preversidade dos vivos -cubiçando-lhe os haveres. A mulher queria um testamento que lhe fosse -absolutamente favoravel. Era o legitimo preço da sua belleza e da sua -fresca mocidade, que elle estragára com beijos senís. Ao calor emprestado -pelo sangue da donzella, devia o rei o prolongamento d’uma vida -arruinada. Os filhos questionavam os seus direitos, com razões de casta, -ligando-as a interesses d’Estado. Fallavam das tradições de familia; da -abundante riqueza que era preciso ostentar, para se imporem pelo fausto, -como já se impunham pelo nascimento. Porém elle tinha amigos fieis, -companheiros dos enthusiasmos juvenis; creados cujos aturados serviços -mereciam uma recompensa, uma lembrança no supremo instante da despedida. -A exigente consorte queria tudo para si. Cá regularia todos esses deveres -como entendesse. Só assim poderia sustentar o respeito e consideração -publica, continuando na sua mão as dependencias que até alli tinham sido -do rei. Exhorava-o com beijos, com palavras acrimoniosas, com ameaças -sobre a sua memoria. - -Como meio de sahir de taes amarguras, o monarcha lembrou-se do suicidio. -A razão aconselhava-lhe a findar o mais depressa uma existencia -assim despresivel. Seria um acto cobarde?!... Entre o soffrimento e -o gozo passa-se toda a vida humana. Quem não póde luctar desapparece -d’arena—pensou resolutamente. Ia furtar-se a muito desgosto, a sentir o -difinitivo escorrer do seu corpo, que já era massa inerte, alastrando-se -pelo chão. Ia poupar-se a afflicções, não queria supportar o peso -d’aquellas pernas inchadas, não queria ouvir por mais tempo o chocalhar -dos liquidos no ventre, o que lhe dava a ideia de que elle era um -despresivel odre, caminhando no dorso d’um macho. - - * * * * * - -Que bella noite, serena e calma! Uma lampada de Sèvres, espalhava no -amplo quarto uma bruxuleante claridade. A rainha recolhera-se aos seus -aposentos. Alguns camaristas, medico e serventuarios, vigiavam os restos -d’aquella vida. Quando a apparencia d’um somno tranquillo se espalhou -no rosto do doente, todos se retiraram para as salas proximas. O rei -sentiu-se bem, só. Calculou que todos estariam despreoccupados da sua -pessoa. Convencido d’isto, teve um sorriso de triumpho! Logo tentou -erguer-se, fincando as mãos nos braços da cadeira. Mal se pôde mover! -Estava entorpecido, o corpo pesado, a sensibilidade ausente. Terrivel e -severo desgosto foi o seu, quando se viu nas condições de semelhança com -um sapo hydropico! Reagiu corajosamente contra a inercia dos musculos -e, n’este esforço de dignidade suprema, conseguiu levantar-se. Mas logo -se sentou, para não cahir. A colera do seu espirito tomou proporções -formidaveis, como o vento que arrasa florestas. Concentrou no combalido -coração o antigo vigor da juventude, toda a coragem da mocidade. Queria -supplantar este phantasma da impotencia, que se levantava deante dos seus -olhos. Passando da cadeira a apoiar-se no rebordo d’uma meza, depois -na hombreira da janella, apanhou a bengala de castão d’oiro e pedras -preciosas, que lhe mandára de presente um papa, e conseguiu firmar-se em -pé. Deu alguns passos cambaleantes; mas parecendo-lhe ouvir um rumor, -parou de subito. Não era ninguem. A sombra do seu corpo projectada pela -tenue luz estendia-se no pavimento, tremula de susto. - -Oh! fraqueza, oh! implacavel miseria humana! Este senhor poderoso, esse -phantasma movendo-se tropego e cauto no silencio da noite, é o proprio -Luiz XI aterrado diante das visões do seu cerebro! Foi-se abeirando, -timido e com passo incerto, d’uma pequena estante entre duas janellas. -Lançou mão d’um objecto que metteu no bolso do _robe-de-chambre_, -furtivamente, como homem que andasse a roubar. N’esse momento a estante -oscilou, o barulho attrahiu um creado. - -—Não preciso... não chamei... - -Tremia de medo, como creança encontrada n’uma travessura. Veio o -medico e o camarista. Approximaram-se, ampararam-no até á cadeira, e -reprehenderam-no amoravelmente. - -Desculpou-se com palavras de humildade e sujeição. - -Tentára esta experiencia para vêr se podia andar, sem o auxilio de -ninguem. Querendo inferir, por si mesmo, da força e vigor de que -dispunha, era necessario mexer-se no quarto só, sem que o vigiassem. -Ainda estava vigoroso e forte—affirmou. Sentia-se com vida para muito -tempo. - -Fortificaram-no n’esta ideia; porém retorquiam que fôra temeridade o que -acabava de fazer. Podia ter cahido, dar com a fronte na esquina de uma -cadeira e isto ser-lhe fatal, no estado de fraqueza em que ainda estava. -Assim se interromperia uma boa convalescença, assim adquiriria novos -padecimentos que podiam ser mais graves, muito mais graves do que os -actuaes. - -Concordava em tudo, sorrindo. Porém, a tentativa, visto não ter dado -mal nenhum, estava contente por têl-a feito. Atravessára o quarto sem -auxilio, e era isso que até alli suppunha impossivel. Talvez no dia -seguinte fosse ao gabinete contiguo, depois á varanda e finalmente ao -jardim. - -—Poderei experimentar doutor? - -—Com precauções, meu senhor, com precauções. - -Discorreu ainda, com serenidade, alguns minutos. Estava evidentemente -melhor, mais desafogado. Aquella experiencia tornára-o communicativo e -alegre. Conseguira ter vontade de dormir. Parecia-lhe que ia gozar um -somno regalado e sereno. Os olhos estavam com tendencia para se fecharem. -Que o deixassem só é que desejava. - -—Mas vossa magestade... - -—Não me levanto mais—atalhou. Palavra de rei. - - * * * * * - -Sahiram. Tudo ficou em paz e tranquillidade. O rei conservou-se largo -periodo immovel, os olhos fitos n’uma armadura que estava de sentinella -a uma porta. Concentrou toda a força dos sentidos, para reconhecer que -o não vigiavam. A manhã surgia do infinito dos tempos. Os passaros -começaram a chilrear nas acacias do parque. Ouviu-se o cantar lento e -monotono do velho jardineiro, que por entre as flores regougava melopeias -do seu paiz. Levantava-se, subindo e alargando-se como um nevoeiro que -emerge d’um rio, o sussurro que fórma o dia—mistura de muitos sons. A -creação universal ia engrandecer-se com um novo impulso do sol, n’este -formoso dia de primavera. - -O rei tinha uma expressão firme de tenebrosa coragem. Tacteava com -perspicacia, para encontrar no braço esquerdo o signal d’uma sangria, que -em moço lhe haviam feito, pela queda d’um cavallo. Na mão brilhava-lhe -uma pequena lamina de Toledo, obra de esmerado artista, com multiplicadas -linhas d’oiro encrustadas em ferro. Abandonava riqueza e fausto, -sentia-se podridão e lama! Com a indomita coragem dos altivos e dos -desventurados abriu a cicatriz quasi apagada. E emquanto esse sangue -de rei escorria, gottejando no chão, o moribundo encostou a cabeça no -espaldar alto da poltrona e com um sorriso de amargura, disse suspirando: - -—Acabou-se. - -Penderam-lhe os braços, a cabeça rolou para um lado, todo o seu corpo foi -entregue ao supremo desleixo da morte! - -O segredo d’este acontecimento conservou-se nos intimos do palacio. O -medico, ao contemplar o cadaver inerme, com a ideia nos soffrimentos que -ainda estavam reservados ao monarcha se continuasse a padecer, concluiu: - -—Foi melhor assim! - - Lisboa, janeiro 85. - -[Illustration] - - - - -[Illustration] - - - - -A MULHER DE LUCAS - - -Diga-nos, então, como foi essa historia do seu casamento; como é que a -sua mulher fugiu de casa. - -—Ora... não fallemos de coisas tristes. Eu já lh’o contei e o senhor bem -o sabe. Compram-me uma cautella? - -—Mas desejo—insisti—que este meu amigo oiça tudo da sua propria bocca... - -Sorriu, olhou interrogativo para nós ambos e perguntou: - -—Porque? Este senhor conhece-a?—E mudando para um tom energico e quasi -enfurecido:—Sabe onde ella mora? - -Fizemos-lhe signal negativo, e Lucas retomando a sua expressão habitual -de paciencia e doçura disse: - -—São coisas de que me não quero lembrar. Lá vae, acabou, leve o diabo -paixões e mais quem com ellas engorda. Aquella mulher andou muito -mal comigo... Eu fazia-lhe tudo quanto ella queria, dava-lhe muita -libardade... Foi talvez por isso que recebi o pago que tive... - -—Alguem que a desencaminhou... alguma companheira...—insinuou o meu amigo. - -—Ná... ná... sempre teve aquella queda. Era muito chibante e espirituosa, -não era senhora para mim. Foi uma asneira... Passou—resumiu tristemente. - -—Tambem não é tanto como diz. O Lucas estimava-a, e não se póde dizer um -velho—consolei-o. - -—Ainda assim tenho mais vinte annos do que ella. Mas não fallo n’esse -particular. Não era senhora para mim, que sou um bruto. Uma raparigona -alta, bonita, bem feita, creada n’um collegio aqui de Lisboa, sabendo -francez e grammatica, toda perluxa e bem fallante... não era casamento -para o Lucas. A minha primeira, que Deus tem, é que estava na conta. - -—Você tambem foi cahir em se casar duas vezes!—disse o meu amigo. Lá -n’uma, tenho ouvido dizer, quem quer cae. - -—Nem sei como isso aconteceu, meu senhor—confessou melancolico. Uma -bebedeira que me passou na cabeça. Ha dias que melhor fora a gente -apparecer morto na cama. Luisa, a minha outra, era uma dona de casa. -Quando morreu fez-me falta para o negociosito, que eu tinha lá na terra. -O contracto dos gados trazia-me sempre por fora; chegava a ir á Galiza -comprar bois. Uma pessoa para me ficar no estabelecimento, era-me bem -necessaria. Depois o achar-me só, em casa, principiou a dar-me para -o figuedo, e sem uma companheira vivia triste como uma lesma. Até me -lembrei de me afogar. Teria sido melhor—rematou olhando para o chão, a -cofiar a barba reles. - - * * * * * - -—Pelo que vejo gostava muito da sua primeira mulher... - -—Assim... Era muito doente, mas boa creatura. Quando morreu fiz-lhe um -enterro de truz. Nunca lhe pude arrancar um filho, por mais dinheiro -que com ella gastei em medicinas e promessas. Aquillo era molestia das -entranhas. Morreu esmaleitada como a cera e magra como um guiço. Passei -uma ralação, sempre a por-lhe cataplasmas e a dar-lhe chás de noite, -por causa dos ataques. Dava gritos que acordavam a visinhança. Arrotos -que pareciam tiros de espingarda. O ultimo mez, não preguei olho e -já não podia... Veio então a Joanna, a irmã d’ella, que me ajudou a -levar aquillo até ao fim. Essa é que era boa mulher para mim: geitosa, -perfeitaça, trabalhadeira e rija como o ferro. Mas tinha tido uma falta, -com um rapaz que depois embarcou para o Brazil, e eu n’essas coisas -sempre fui muito dos diabos. - -—Pois, attendendo ao futuro, tinha sido melhor ter-se casado com essa sua -cunhada—disse o meu amigo, presumindo já, que ao bom do Lucas, lhe haviam -succedido coisas da breca. - -—Oh! que se a gente advinhasse, quantas vezes melhor!...—exclamou como -quem se sentia applaudido n’um pensamento secreto. E a coisa vinha a -fazer-se, mais tarde ou mais cedo; porque eu bebia os ares pela moça. -Mas logo a má sorte, me levou lá para a casa fronteira, o major com a -sobrinha... - -—Talvez filha—insinuei. - -—Não—respondeu vivamente offendido—era de gente casada. Até creio que -de familia muito nobre, cá de Lisboa. Pelo menos ella assim o dizia e -acreditem os senhores que tinha geitos d’isso. Morreu-lhe o pae, a mãe e -não lhe deixaram uma de X. Foi então que o major de quem eram parentes e -quando ainda era capitão metteu, á sua custa, a pequena n’um collegio. -Isso lá de educação e sabença, não acredito que haja outra que se lhe -ponha adeante. O major depois adoptou-a como filha e trazia-a sempre -comsigo. - -—Nada ahi anda historia, ella era filha do major—insistiu o meu amigo. - -—Não era—certificou com rosto circumspecto—não era, sério. Eu vi-lhe a -certidão d’edade, quando se tirou a licença. Era de gente casada e até -fidalga, diziam-no todos. Mas faltava-lhe dinheiro; porque o major para a -educar, teve de pedir ajuda aos outros parentes. Mas deu-lhe um saber de -truz. Eu nunca vi senhora mais distincta!—repetiu com ostentação. - -—E depois o tal major, sabendo que o Lucas tinha o seu pataco, -impingiu-lha. - - * * * * * - -Conservou-se alguns momentos silencioso e ar dubidativo. Em seguida -esclareceu: - -—São sortes. Elles vieram morar em frente da minha casa. As filhas d’um -visconde que havia na terra, iam pra lá aprender o francez, o piano e -a grammatica. Porque aquillo é uma senhora que sabe tudo—repetiu com -vaidade. E bem fallante? nunca vi outra! Aquelles janotas iam conversal-a -da rua para a janella e ella sota e az a todos. Que regalo de mulher! O -delegado que lá estava ao tempo, disse deante de mim que em philosophias, -não encontrára senhora como aquella. Vi muitos homens embasbacados a -ouvil-a. E que homens! O desembargador João Xavier que era conhecido em -toda a parte. Caramba! que mulher tão esperta!—pronunciou batendo uma -palmada na coixa. Pena é que tenha a cabeça leve como uma folha secca. - -—E vae, todo cheio de enthusiasmo, namorou-se da lisboeta...—presumi. - -—Não senhor—esclareceu—nem tal me passava pela lembrança, se não fosse -ella. Eu bem via que não era homem para aquillo. Ella é que principiou -comigo de volta, a rir-se para mim, a espreitar pela frincha da janella, -a fazer-me tagatés... Não sabia o que tudo isto queria dizer, palavra -d’honra! Olhava para mim e via que não podia ser. Principiei a andar -assim a modo de esquisito, a não saber o que tinha. Um dia diz-me ella, -sem _tirte_ nem _guarte_, que eu era um viuvo ainda muito geitoso. Fazem -lá ideia! Logo que ouvi tal, d’aquella bocca linda como a maçan camoesa, -e com a graça e esprito que ella tinha em todas as coisas, senti cá por -dentro taes esfregações, que não fazem uma ideia! Caramba! até perdi o -comer! Andava assim a modo de tonto, pesava as coisas tão mal na loja, -que era uma risota. E então securas? Todo eu era um forno. De noite -principalmente passava o tempo a beber agua e em vez de dormir vinha-me -prantar á janella, com os olhos pregados na casa onde morava aquelle -demonio tentador, que foi a minha desgraça. - -—Era uma paixão—conclui. - -—E uma paixão furiosa—acrescentou o meu amigo. - -—Sei lá que diabo era! Foi uma grande bebedeira. Parece que me tinham -dado alguma bruxaria a comer. D’ahi por diante nunca mais dei conta de -mim. Não era Lucas Baptista que fallava, era outro homem. Tinha-a sempre -diante dos olhos, quer de dia, quer de noite. As santas da egreja, -inclusiva Nossa Senhora—Deus me perdoe!—pareciam-me feias em comparação -d’ella. Um dia tirei-me dos meus cuidados e pilhando-a a geito na janella -disse-lhe: «Uma casa sem uma dona é triste como um campo de milho sem -sacho!» - - * * * * * - -—E ella entendeu-o? - -—Sei lá! Deu uma gargalhada e sahiu da janella. Fiquei assim a modo de -parvo. Se se tivesse rido de mim, se andasse a fazer chacota, é porque -me ia deitar na levada da azenha e nunca mais appareceria. Mas voltou -logo depois e com um sério muito sério, pôz o dedo no nariz a dizer-me -que lhe não fallasse assim da rua, que lhe podia arranjar alguma fama. -Eu então tive um baque no coração e disse de só para só: «Ella quer!» -Logo que encontrei modo perguntei-lhe em segredo: «Deseja a menina ser -a dona d’esta casa?» Mas quando estas palavras me sahiram da bocca, vi -abrirem-se-me debaixo dos pés as chammas do inferno. - -—Porque! Ella disse que não?—perguntou o meu amigo. - -—Qual! Pois isso é que foi. O demonio da serpente tentadora, com uns -olhos d’uma maganice que os senhores não fazem ideia, responde assim, -para só eu ouvir: «Isso é com meu tio!» E sae da janella, indo tocar no -piano uma modinha de que eu gostava tanto que até me fazia arrepios. -Caramba! Aquillo fez-me cá por dentro tal arrepanho, deu-me tanta alma -e coração, que desejava ter de meu o mundo inteiro, só para lh’o dar e -fazel-a princeza. Podia lá ser! Um velho, um estupido, que só sabia pesar -arroz e bacalhau e contractar em gados, casado com aquella senhora, tão -bem fallante e tão linda!... Eu só queria que os senhores conversassem -com ella! Desembaraçada e litterata como aquillo não ha. Vá lá o mais -poeta dar-lhe mote, sem vir com a cara a um lado! Os paes d’ella eram -gente grauda cá de Lisboa e o tal tio, honra lhe seja, deu-lhe educação -de espavento. Ainda hoje lhe quero bem só por isso! A tal viscondessa -de quem a D. Rozita do major, (era assim que lhe chamavam lá na terra) -ensinava as filhas, era uma creada ao pé d’ella. Uma senhora de mão -cheia, lá isso valha a verdade. - - * * * * * - -—O amigo Lucas sabe a historia da nossa mãe Eva e a da maçan que Adão -comeu?—perguntei. - -—Ouvi bastas vezes explicar isso lá ao abbade. Pois a gente não é de pau, -é de carne e osso, caramba! Logo n’esse dia o major entrou-me na loja a -comprar charutos. Era assim um home todo arroganças, sempre a retorcer os -bigodes e a dar com o chicote nas calças. Ainda bem conservado, talvez -uns dez annos mais velho do que eu. Chamei-o para traz d’umas saccas -d’assucar, que lhe queria dar duas palavras, em particular. A minha loja -era grande como um armazem! Fazia muito negocio e todos os mezes tinha -pagamentos de duzentos, quatrocentos e mesmo seiscentos mil réis aos -caixeiros do Porto, que iam ás cobranças. Ás vezes havia mais que um -pagamento. Bah! nem me quero lembrar! Tudo perdi, por causa d’aquella -má mulher, que foi a minha perdição. Nunca mais a tornei a ver, não sei -onde diabo se metteu; mas se um dia a encontro, ainda perco a cabeça e -chacino-a, como se faz aos porcos. Para mim hoje tanto se me dá da costa -d’Africa, de morrer no Limoeiro, ou d’um tiro, como se me dá da primeira -camisa que vesti—terminou com desespero. - -—Mas o major. O que disse o famoso major?—perguntou interessado o meu -amigo. - -—Ora... uma lenga, lenga. Principiou macambusio, a retorcer os bigodes... -Eu que nunca fui medroso, nem peco, pois muitas vezes venci a tiro os -guardas de alfandega na raia, por causa do contrabando, tremia como -varas verdes. Se elle me diz que não, espetava uma faca na minha propria -barriga. Porém, não disse. Mastigou em secco... mastigou... que era o -diabo; grande differença de edades; ella sempre tinha vivido com muita -decencia, mas não tinha nada de seu; que eu precisava de outra mulher... -E dava com o chicote pelas saccas do assucar, e encolhia os hombros e -passeiava d’um lado para o outro, sem atar nem desatar. Este aranzel -puchou por mim e disse: «Ó senhor major, eu bem sei que a não mereço; mas -se ella, assim mesmo como eu sou, me quizer e se eu tiver meios com que -lhe conservar todo o luxo que tem, o senhor não diz que não?» - -—Ora, agarrou-lhe com as duas mãos—entendeu o meu companheiro. - -—Não é tanto assim! Que não tinha nada com isso. Tinha-a creado; mas -não era sua filha. Demais já tinha passado a edade, podia fazer o que -quizesse. O que lhe custava era separar-se d’ella. - - * * * * * - -—Ainda é vivo o major? perguntei. - -—Não senhor, morreu d’um ataque, era um grande borrachão. Só o vinho do -Porto que elle me bebeu lá da loja?! Ficou-me a dever mais de cem mil -réis! Adiante. Por ultimo disse que sim; mas pediu-me quasi a chorar que -a tractasse bem, que elle sempre a educára muito mimosa. - -—Estava tudo resolvido. - -—É verdade, uma infelicidade. A gente não sabe onde as tem armadas. -Fomos casar ao Bom-Jesus de Braga e gastei mais de vinte moedas em tudo -isso. Foi ella que assim o quiz. O tio major pilhou uma borracheira que -chegou a estar de cama! Ao fim de tres dias voltamos para a terra n’um -carro fretado ao Franqueira. Pareciamos uns fidalgos. Foi talvez o luxo -que a perdeu, coitada, e a mim tambem—considerou com tristeza. Porque -ella não era má, os senhores podem acreditar; mas o janotismo deu-lhe -volta ao miolo, como acontece a quasi todas as mulheres, para mal dos -maridos—concluiu philosophicamente. - -—Não foi só isso, talvez—repliquei. Ora confesse, amigo Lucas. O outro -era ahi algum rapaz novo e janota... - -—Que!... Não senhores—interveio com vivacidade—um gebo como eu! Não me -troco! Assim um gordo, de cara espapada e barbicha de cabrito. Não me -troco. Essa é que é toda a minha matacão. Se Rosa fosse para onde algum -rapaz novo e bem parecido... vá. Sou velho e não me tenho por home que -a mereça. Mas para esse bruto com quem ella está! Ainda que eu viva cem -annos, não me posso consolar! Que posição tem elle?... (interrogou-se). -Uma logita alli para os lados de S. Paulo. Ora abobora!... O bicho mulher -não ha ninguem que o entenda! - -—Realmente não se percebe bem, a loucura de sua mulher—reflectiu o meu -amigo. O senhor tractava-a mal, batia-lhe? - -—Eu!? Eu bater-lhe?! O senhor está a caçoar comigo! Só o que queria saber -é onde ella desejaria passar, para ir beijar o chão onde pozesse os seus -pés. Fazem lá ideia! Aquillo para mim não era uma mulher, era uma santa. - -E as lagrimas cahindo-lhe a quatro, Lucas acrescentou: - -—Até é uma vergonha, o chorar ainda por aquella ingrata! Não está mais na -minha mão. - - * * * * * - -—Então não comprehendo—insistiu o meu amigo—como depois de o querer para -marido, o regeitou. - -—Pois eu comprehendo muito bem, com sua licença. A questão é que ella -casou comigo, para vir para Lisboa. Depois da bôda não nos demoramos -quatro mezes lá na terra. Principiou aquelle demonio a atanazar-me, que -não podia viver alli, que o negocio não prestava e como o tal tio já -tinha morrido, metteu-me na cabeça, que aqui em Lisboa, eu podia ganhar -mais dinheiro. Isto lá me custou, porque eu bem via ser uma asneira. -Mas ella tanto fez e eu com este meu fraco por aquella sereia, não tive -remedio. Viemos e os primeiros quatro mezes foi uma pandiga. Enguliu-se -um conto de reis, em carros, em theatros e com amigos que logo arranjei -no hotel da rua da Prata, onde estavamos. Muitos d’esses, hoje, nem -me compram uma cautela, só para me não fallarem. No fim d’isto eu que -via sumir-se o dinheiro disse-lhe: «Mulher, as libras acabam-se, é -preciso arranjar algumas.» Ella então teve a ideia de pôrmos uma loja de -capellista, onde ella estivesse a vender, para chamar freguesia. Para -chamar freguesia!—exclamou indignado e ironico.—O que eu merecia era com -uma moca no toutiço! A freguesia de que ella precisava sei eu! Era com um -marmeleiro! - - * * * * * - -—Então foi ahi que ella... - -—Não senhor. O tal gebo conhecemol-o á mesa do hotel e no theatro da rua -dos Condes. Á mesa estava o machacaz em frente de nós, sempre a offerecer -genebra ou vinho do Porto. Por isso, quando a gente arranjou a loja, -que foi alli para a Sé, o janota lampana, não me sahia de lá e era dos -melhores freguezes de charutos que a gente tinha. Fazia-se muito amigo e -eu que sempre fui um simples, contei-lhe a minha vida e confessei que o -negocio não dava para os gastos. No fim d’um anno pouco havia dos cinco -contos que trouxera da terra! Pois elle, com um estadão como eu tinha, -sempre de grande e á franceza, passeios aos domingos, carros, bailes de -mascaras!... E querem os senhores saber?... Foi a desavergonhada (eu a -este tempo, sou capaz de jurar sobre umas _Horas_, como ella ainda não -era má mulher!) que me lembrou fallar com o Gonsalves (era o tal!) para -elle me aconselhar alguma coisa, em que se ganhasse dinheiro. Fallei -n’isso ao cara de demonio e logo muito prompto me disse que mettesse o -que me restava em negocio de vinhos de Torres, que dava muito. Foi até -elle que me arranjou conhecimentos. Por este motivo principiei a andar -dias e dias por fóra de casa, por um lado e pelo outro, sempre n’uma fona. - -—Ahi é que bate o ponto. O que elle quiz foi afastal-o para longe. - -—Pois!... Eu nunca pequei por esperto. Penso que toda a gente é de boa -fé, como eu!... N’esta coisa de cauteleiro em que ando, tenho aprendido -muito. Hoje nem o mais pintado. - -—O negocio de vinho fel-o perder a mulher e o dinheiro—raciocinou o meu -amigo. - -—Como diz; porque logo que, por uma carta anonyma, vim a desconfiar -d’aquella ingrata peguei de vigial-a e para melhor o fazer vendi todo -o vinho de repente e com perca grossa. Um dia disse-lhe: «Mulher, tem -juizo, porta-te bem, olha que a honra não ha dinheiro que a pague!» -Respondeu-me que não fosse tolo e voltou-me as costas. Com o fim de -estar perto d’ella, arranjei coisa para ficar em Lisboa. Uns amigos -afiançaram-me em algumas casas de commercio, para eu andar a receber -dinheiro. Ella ralhou-me por isso e disse que havia de ser grande o meu -ganho. Eu respondi: «Para o que tu precisares nunca te hade faltar. -Ainda que eu venda o meu corpo ao diabo, terás sempre para os teus -alfinetes.» Sabem com o que me veio?: «Eu quero continuar a ir aos -theatros e dar os meus passeios. Não hei de estar toda a minha vida -mettida n’um buraco.» - -—Tinha aspirações, vê-se. - -—Tinha o diabo no corpo, é o que ella tinha. Eu não lhe merecia o pago -que me deu. Trabalhava como um mouro, só para que ella tivesse tudo. Não -havia chuva, não havia vento, não havia calor para mim. Sempre a correr -por essas ruas e então que estáfas! Ás duas por tres, cahia-lhe na loja -como quem vinha de passagem e sabe Deus se não tinha dado uma carreira -de Alcantara até á Sé, só para ver se havia alguma novidade. Os senhores -riem-se? É porque não sabem o que isto é. Chegava todo esbaforido, o -coração aos pulos no peito, e sempre com aquella mulher deante dos olhos -a enganar-me. Não comia, não dormia descançado, um verdadeiro inferno! - - * * * * * - -—Afinal vê-se que gostava muito d’ella—insinuei. - -Respondeu com vivacidade: - -—Isso, mesmo cá de dentro. Tinha-me por força dado alguma bruxaria. E -que mal me pagou! Já não lhe pedia que me tivesse amor. Bem sei que não -podia ser, que sou um velho e um ninguem; mas não devia fazer o que fez. -Na noite em que, morto de fome e de frio, entrei em casa depois de ter -andado todo o dia n’uma roda viva, e não a encontrei, cahi no chão como -uma pedra. Tornei a mim, quando a vela do castiçal estava gasta. A casa -em desordem, os bahus e gavetas abertas, como se tivessem andado ladrões! -Aquella mulher perdida não se contentou em me deixar, levou tudo quanto -havia de bom, e fiquei com a triste camisa do corpo. Chorei mais do que -quando morreu minha mãe! Durante tres dias, quasi sem comer, nem beber, -corri toda a cidade pelos botequins, pelas casas de pasto e restaurantes, -pelos theatros com um revolve carregado a ver se os encontrava. Haviamos -de morrer todos tres. A ella tinha vontade de lhe beber o sangue por uma -tigela e a elle de lhe fazer a cabeça n’um bolo. Se os encontro havia de -me vingar até ao fundo d’alma! - -—E ainda gosta d’ella? - -—Gosto sim senhor, gosto. Para que hei de dizer que não? É o meu peccado. - -Teve novas lagrimas nos olhos, que desejou esconder de nós, voltando-se -para a parede. - -—Se ella o tornasse a procurar? - -—Não me falle n’isso! Ferve-me o sangue! Se um dia a vejo... - -—Ah! nunca mais a encontrou?—pergunta o meu amigo. - -—Já disse que não senhor. Sei onde mora, porque conheço a casa d’esse -excommungado que m’a furtou; mas a ella nunca mais lhe puz os olhos -em cima. Pois é admiração! Com este meu modo de vida das cautelas e -dos jornaes, corro toda a cidade. Nem nos theatros, nem nos dias de -procissão, nem no Passeio. Aquillo é que só vae á missa cedo e não torna -a sahir—considerou melancolico. - -—E se um dia a encontra? - -—Mato-a! mato-a, com toda a certeza!—disse exaltado. - -Depois mudando rapidamente de tom concluiu: - -—Não mato, não mato... Adeus meus senhores, não me apoquentem. - -E distanciou-se quasi suffocado pela dôr. - - Março de 85. - -[Illustration] - - - - -[Illustration] - - - - -DOIS CATURRAS - - -Nas serenas tardes de verão, dormida a sésta regulamentar, o dr. Leandro -e frei Antonio, costumavam ir dar juntos um passeio. Sempre methodicos e -taciturnos sahiam de casa á hora conveniente, para se encontrarem junto -da igreja, sem esperarem um pelo outro. A menor falta n’este ponto, um -simples minuto de tardança, era caso para recriminações da parte do que -chegasse primeiro, recriminações manifestadas em monosyllabos de desgosto -e n’uma ou n’outra phrase curta e rapida, atirada para o silencio com -pronuncia desdenhosa: «Pegou-lhe bem na somneca», «Ficou abarrotado com o -jantar», «Isto foi pinga de mais...» Mas depois seguiam cabisbaixos pela -encosta acima, as mãos cruzadas sobre os rins, as bengalas pendentes, -e paravam de vez em quando, para tomar um pouco d’ar. Junto da ermida -da Senhora do Amparo, d’onde se disfructa uma paizagem restricta e -pacificadora, cada um ia-se sentar no seu banco de pedra, á distancia -d’alguns metros, como se fossem desconhecidos. E o frei Antonio, homem -d’um fundo de bondade mais rancoroso, depois de saborear a primeira -pitada, costumava dizer avulsamente, referindo-se a uma collina fronteira: - -—Como é bello aquelle monte lá em cima! E é-o por ser unico!... - -Leandro, fingindo que não ouvira, monologava: - -—Pena é não haver outro monte igual, do lado d’acolá, por causa da -symetria!... Seria incomparavelmente mais bello! - -Estas palavras, já significavam uma tregua e uma reconciliação. Eram -ironias mansas ao fim de muitos annos de argumentos, em viva polemica, -esmorraçando mesas, quebrando cadeiras que atiravam ás paredes juntas -com apostrophes. Porém nunca cederam, nem uma pollegada, n’este valioso -ponto de esthetica que os separava. Frei Antonio sempre partidario da -_unidade_, da simplicidade absoluta, e por extensão de principio do -pernão, detestava o _par_. Tinha orgulho em ser padre, só por causa do -celibato. No seu casaco sacerdotal e na ampla batina usava um unico -bolso, para n’elle incluir todas as coisas do seu uso—a caixa, as -chaves, o lenço vermelho, um pequeno breviario... - -E justificava-se: - -—Em quanto usei muitos, nunca encontrava o que queria. Agora é só metter -a mão e prompto. A caixa?... Aqui. (mostrava-a). O breviario?... Eil-o. -As chaves? o lenço?... Tudo, n’um ai. - -Exhibia os objectos com o semblante glorioso d’um prestimano. Era -agressivo e até insolente para todos que lhe não acceitavam a invenção. -Mostrava-se propagandista, loquaz, capcioso, argumentado pelo seu lado. - - * * * * * - -O dr. Leandro deleitava-se com a opinião diametralmente opposta. Pela -unidade e por tudo quanto era impar tinha mais do que desdem, tinha -desprezo. Dizia, como phrase de sentença, que a natureza nunca podia ser -manca. Para irritar o seu amigo, na presença de muita gente, extasiou-se -diante da insignificante igreja de S. Francisco, só porque tinha duas -torres iguaes. Fingiu-se enthusiasmado, mostrando um pasmo acintoso e -offensivo, e exclamou com os braços abertos: - -—Que bello! Olhem como são perfeitamente iguaes! Como é sublime a -symetria! - -Frei Antonio sorriu amargamente, encolhendo os hombros, e respondeu com -mal desvanecido azedume: - -—Deus, a suprema perfeição, é _Um! Um só!_ - -E espetando o dedo no ar demorou-se com elle, vingadoramente, diante do -nariz do doutor, que objectou: - -—Mas Jesus Christo, a encarnação do pae, tinha duas naturezas, divina e -humana. - -O sacerdote enchendo-se de cordura disse-lhe: - -—Não gosto de metter n’isto o divino; mas podia responder que sendo -tres,—_tres!_—sublinhou com emphase—as pessoas da Santissima Trindade, -essas mesmas se reduzem a _uma_. - -—É tolo—ainda acrescentou o outro.—Não sabe que pela conta do marinheiro, -as pessoas da Santissima Trindade são dez. - -—Que diz você seu hereje!—cresceu o sacerdote indignado. - -O doutor explicou tranquillamente: - -—Pois não sabe? Olhe. As pessoas da Santissima Trindade são tres; Padre, -Filho, Espirito santo—seis; tres pessoas distinctas—nove; um só Deus -verdadeiro —dez. - -Os circumstantes riram-se; o frade afastou-se trombudo; e, por agora, o -advogado ficou victorioso, mostrando-o d’um modo saliente. - -Como andavam sempre juntos, de momento a momento se levantavam novas -birras. O dr. Leandro, que era magro, pertinaz e acintoso estava -sempre a espicaçar o egresso. Nunca o convidava para jantar, sem que o -numero de convivas fosse par. Levava-os ao jardim para verem as flores -e notava-lhes, sempre com insistencia, que as disposera pelo systema -de parelhas (_de coices_—acrescentava o frade). Se tinha de abrir uma -janella procurava logo estabelecer uma corrente d’ar, escancarando outra, -o que endiabrava o clerigo, que vivia no terror das constipações. Em -tudo se mostrava o rancor d’estes dois irreconciliaveis amigos. Indo -no seu habitual passeio, se encontravam alguem a cavallo, o sacerdote -aproveitava logo o momento para dizer: - -—Bonita egua! Não haverá outra como ella, para a emparelhar? - -O dono, se era vaidoso, respondia indubitavelmente: - -—Nunca a encontrei. Pois tenho corrido um rôr de feiras! - -O sacerdote insuflava n’um sarcasmo mordente: - -—É porque não procurou bem. Aqui este senhor era capaz de lh’a arranjar. - -—Pois não arranjaste!—duvidava o dono da egua. - - * * * * * - -O doutor procurou immediatamente a sua desforra. Logo que viu _O das -perdizes_, na sua carruagem puchada pela ostentosa parelha de baios, -disse-lhe: - -—Ó Pessanha! Se esses teus cavallos fossem differentes era muito melhor, -diz aqui o frei Antonio. - -—Pelo amor de Deus! não valiam dois patacos! Uma parelha assim, é muito -mais cára. - -O frade resmungou. - -—_Variatio deletact_, meu fidalgo. D’essa maneira até fazem mal á vista. - -E quando se distanciou a carruagem, disse o sacerdote avulsamente: - -—O universo é um. - -—Os mandamentos da lei de Deus são dez e reduzem-se a dois. - -—Já lhe fiz saber que não gosto de metter n’isto o divino, e lembro-lhe -que a gente faz cada coisa por sua vez. - -O doutor apostrophou-o: - -—Quantos olhos tem o senhor na sua cara?!... - -—E não via as coisas muito melhor se tivesse um só, na testa por exemplo, -como os Cyclopes? Até não havia o perigo de se entortarem. - -Leandro insistiu: - -—Quantas pernas tem o senhor? quantos braços? - -—E por quantas boccas come e diz asneiras o meu amigo! Por quantas -gargantas engole?—arremetteu o frade. O que o senhor tem decerto, é dois -juizos e nenhum d’elles vale tanto, como o casco d’uma cebola podre. - - * * * * * - -Estava-se nas vindimas. O advogado ía todos os annos para a Feitosa e -acompanhava-o alli durante algum tempo frei Antonio. Era um costume já -antigo. Leandro quiz d’esta vez apertar com _argumentos materiaes_ a -paciencia do sacerdote. «É preciso provar ao latinista—pensou—que vale -mais do que um simples casco de cebola podre, o meu juizo.» Logo que -frei Antonio chegou á Feitosa, onde o doutor já o esperava, feriu-o -uma novidade nos antigos e sustentados habitos d’aquella casa:—era a -existencia de duas mezas de jantar, uma para cada um. O doutor só deu -esta explicação: - -—O senhor tem o seu systema, eu cá tenho o meu. - -E na meza de Leandro havia dois talheres, dois pedaços de pão e duas -canecas de vinho. Em frente d’um dos pratos estava uma cadeira, com um -travesseiro a fingir de pessoa e esse travesseiro tinha um chapeu na -cabeça, um bigode de sedas de cavallo e conservava-se impertigado, n’um -sentido de troça. - -O sacerdote, teve um riso amarello, fingiu que chasqueava e observou com -grandeza de animo: - -—Tambem é a unica companhia que merece. - -E foi-se sentar á sua meza, que tinha tudo estrictamente para um; mas -em quantidade muito resumida, tanto de vinho, como de pão. Depois de se -ter sugeitado heroicamente a esta prova durante alguns dias, tomou a -resolução de assentar junto de si dois bonecos de palha, pedindo que lhe -servissem os seus companheiros. - - * * * * * - -O doutor, que se não quiz mostrar vencido, levou ainda mais longe a -premeditada vingança, ordenando que no quarto onde sempre ambos dormiam, -houvesse uma só cama. Frei Antonio, um tanto perturbado, quando á noite -viu isto, perguntou á velha Joanna: - -—Quem diabo vem a ficar aqui? - -—Os senhores ambos. Ora o demo da brincadeira dos homes! - -E o advogado accrescentou: - -—Em coisa de cama sou pela unidade. As ultimas chuvas tem arrefecido o -tempo. - -Ora, se havia coisa no mundo á qual o sacerdote preferisse a morte, era -a dormir com outro. Homem gordo, d’um suar facil, impaciente no sonho, -gostava de roncar á vontade, de alargar as pernas e deitar os braços -de fóra, quando lhe approuvesse. Antes passar a noite no chão, n’uma -mangedoura, ou sobre tôjo!... Desde que outro padre, n’uma estalagem de -Tras-os-Montes, o atirára da cama ao chão, estando elle a dormir e tendo -por essa occasião ferido a testa e o nariz nos cacos d’um objecto que se -quebrou, nunca mais acceitou companheiro de dormida. - -Leandro sabia que o atacava no ponto mais fraco. O frade disse -simplesmente, em tom resoluto: - -—P’ra graçola é de mais! Bem sabe que não durmo com outro. Então monto a -cavallo e vou-me _já, mesmo de noite_, embora. - -—Pelo que vejo, a respeito de cama... para dois... duas?!—disse com -ironia o doutor, mostrando-lhe a outra que estava n’um quarto proximo. - -E como não concluira ainda a sua argumentação pelos _materiaes_, quando -no dia seguinte, frei Antonio procurava os butes, para ir dizer a missa -conventual, a que se compromettera, encontrou sómente um. Sem ainda -calcular a significação do acontecimento, veio á porta em palmilhas de -meias, e gritou pela frincha que abriu: - -—Ó Joanna! O outro bute? - -—Pergunte por elle ao senhor doutor. - -O ecclesiastico comprehendeu e disse zangado: - -—Mau! mau! mau que m’arrenego! - -Então Leandro, com ingenuidade fingida, respondeu-lhe do quarto: - -—Passou ahi hontem um pobre, descalço d’um pé e dei-lho. O amigo tem na -realidade dois pés? - -Frei Antonio, com ar apopletico, em mangas de camisa e em palmilhas, -o grosso tronco batido pela luz da janella do corredor, retorquiu -energicamente: - -—Tenho sim senhor e você tem quatro. Ponha cá o bute e deixemo-nos de -chalaças. Já tocou ha um pedaço. Se essa gente fica sem missa por causa -das suas brincadeiras... quero ver. - - * * * * * - -Isto passava das marcas. O sacerdote procurou um meio de tirar a -desforra. Havia de ir ter-lhe ao bolso, que era aonde doia mais ao -sovina do Leandro. No _Bracarense_ da vespera annunciava-se a proxima -chegada, á cidade dos Arcebispos, da actriz Emilia das Neves, tão -celebre e tão gabada, que alli ia representar no theatro de S. Geraldo. -O padre, encobrindo ruins intentos, convidou o doutor para irem a Braga. -O advogado chasqueou-o por esta manifestação de mundanidade, porém o -ecclesiastico explicou-se com modo circumspecto: - -—Não que ella só representa dramas sacros. Nem o senhor Arcebispo, -consentia outra coisa, na sua cidade. - -Combinaram-se n’uma apparente harmonia, acceitando ambos este periodo -de tregua. O frei Antonio fazia de bolsa. Como era expedito, sagaz e -conhecia Braga, o seu amigo facilmente lhe entregou a administração das -finanças communs. Porém, mal conhecia o advogado o que podia dar o -rancor d’um frade, que é espicaçado no que elle tem de mais precioso, -o appetite. As humilhações, as zangas, a quasi fome d’alguns dias na -Feitosa, haviam dado ao rotundo ecclesiastico um faro agudissimo de -vingança. Logo na diligencia principiou por comprar tres bilhetes, -entregando dois a Leandro que observou seccamente: - -—Na verdade eram bem precisos tres logares, attendendo a que o senhor não -é um homem, é uma pipa. - -Em Braga, no Transmontano, o doutor notou que o dono da hospedaria, um -velho coxo e rabugento, que estava sempre a praguejar deante do forno, se -ria descompostamente a tudo quanto lhe segredava o seu velho amigo frei -Antonio e que dissera depois d’um d’esses colloquios: - -—Então afinfa-lhe? Trinca-lhe bem e entorna-lhe melhor? Vae valido. - -E tambem percebeu que o sacerdote accrescentára: - -—Tudo á farta e contas separadas. - -Porém Leandro não se deu por achado. Alongou os beiços, sorriu com -esforço e á mesa onde estavam tres talheres, mostrou uma apparencia calma -e de coragem. - -Por certo que identicas advertencias haviam sido feitas ao Miguel, um -creado bebedo e feio, que jogava a batota com os hospedes, pois que esse -Miguel, ao segredo do frade retroquiu olhando de soslaio para Leandro: - -—S’tá dito! Que pandigos! - -E apesar da resolução em que o doutor estava de se mostrar digno e -conveniente até ao fim, não pôde deixar de se sentir estrangulado pela -indignação, quando viu que o seu amigo lhe comprára dois bilhetes para o -theatro. Isto não tinha geito nenhum, era atirar dinheiro pela janella -sem necessidade! Na hospedaria, fechado dentro do seu quarto, que estava -preparado para duas pessoas, quando elle era só um, exclamou voltado para -o tecto: - -—Este padre é o demonio! Mau raio, se lhe não espeto uma faca n’aquelle -bandulho! - -Minutos depois veio pelo corredor frei Antonio que disse, fallando pelo -buraco da fechadura: - -—Adeus Leandros, boas noites. - -E logo em seguida, o Miguel acrescentou com a sua voz avinhada: - -—Com bem passem, senhores _doutores_. - -O advogado que já estava na cama e com a luz apagada, ressonou forte, -para não responder. No dia seguinte levantou-se cedo, com o fim de ir -sósinho almoçar debaixo da Arcada. Mas frei Antonio, que o espiava, -seguiu-o de perto, entrando logo depois d’elle e mandando vir para tres. -Leandro ao sair a porta do botequim, pronunciou de si para si: - -—Isto acaba hoje! Deixa estar que hoje acaba! - - * * * * * - -Tinha, porém, urgente necessidade de mandar fazer uma roupa de panno -preto—sobrecasaca, calça direita, collete de ceremonia com uma só ordem -de botões; fazenda boa que lhe durasse o resto de vida, que servisse -para visitas e festas. Frei Antonio conhecia na rua do Souto um mercador -de confiança; o doutor era menos pratico na cidade e por isso não teve -remedio senão entregar-se-lhe. Pareceu-lhe que n’este particular não -podia haver novidade. Foram ambos, ao lado um do outro, silenciosos e -escandalisados. - -Em quanto um mestre de _atraz da Sé_ tomava as medidas, fallou-se de -politica... em deputados... e o negociante, homem discreto, de barba em -serrilha opinou: - -—Boa asneira! Esfalfa-se a gente para os mandar p’ra essa Lisboa e lá não -fazem mais do que andar na pandiga, com moçoilas e em treatos. Tributos -são de cada vez maiores! No tempo do senhor D. Miguel... - -O alfaiate, absolutista sanguineo, parou subitamente e disse n’uma -arremetida, olhando por cima dos oculos, com a medida suspensa da mão: - -—E acraditam, que o rei legitimo, não ha de vir pôr fóra do seu reino -esta cambada?! - -Todos concordaram em que havia de vir, menos o doutor que já lhe tinha -perdido as esperanças e se fizera liberal. - -Quando voltaram á terra, Leandro teve uma viva polemica com frei -Antonio, por causa d’aquellas asneiras fóra de casa. Não era por gastar -mais ou menos uma moeda, porém embirrava com tanta tolice deante de -desconhecidos. O frade respondeu-lhe que bom gado era porcos, levou-o de -troça e continuaram nos seus passeios e nas suas caturrices habituaes. - - * * * * * - -Quinze dias depois, o advogado recebeu pela diligencia de Braga duas -encommendas. Abriu a primeira e n’ella encontrou a roupa que mandára -fazer. Vinha tudo nos termos e a seu contento. Vestiu-a para ver se lhe -estava bem e a velha Joanna que elle chamou para dar parecer, disse que -estava mesmo um cravo, e recordou-lhe os seus tempos de rapaz, quando -elle vinha de Coimbra e era de todos o mais janota. Fôra n’esse tempo -que... Ella era creada da mãe de Leandro, uma boa senhora, temente a -Deus, confessando-se a miudo e reprehendendo sempre os atrevimentos e -brincadeiras do filho com as moças!... Havia 40 annos que Joanna alli -estava e ainda na memoria se lhe avivavam facilmente todos os quadros -ridentes da mocidade!... - -—Mas a outra encommenda?—lembrou. - -—É verdade—disse o doutor—isto não é para mim. Ha de haver engano. - -Mas pegou n’ella, remirou-a por todos os lados, apalpou-a, cheirou-a -para advinhar o que seria... e nada! Pela terceira ou quarta vez releu -o subscripto, que era do mesmo talho de lettra da do negociante que lhe -remettia a sua roupa e com os mesmos dizeres. - -—Só se frei Antonio tambem encommendou alguma coisa e que m’a mandassem -para eu lhe entregar—considerou com o embrulho suspenso nas duas mãos. - -Para satisfazer a curiosidade de Joanna, sempre foi desatando os -barbantes, com precauções e cautelas, na convicção de que era coisa que -lhe não pertencia. Encontrou outra roupa, perfeitamente egual á sua. Não -podia presumir brincadeira tão pesada do seu amigo, e, como elle morava -perto, mandou-o chamar. - -—Sabe para quem é esta coisa?—perguntou serenamente. - -—Eu! Como posso advinhar?! - -—Nada de brincadeiras—avisou. Será para si? - -—Não gasto d’esses luxos. Nem eu cabia dentro d’este pé de meia—retorquiu -ironicamente o frade, suspendendo as calças no ar. - -—Mas com mil demonios!—interroga colericamente o doutor. Sabe ou não -sabe?! Responda. - -O frade respondeu com todo o socego: - -—É provavel que seja para si. Em Braga, ninguem ignora que o senhor é -dois! - -O doutor adiantando-se, poz-lhe diante dos olhos um punho cerrado. - -—Sabe o que eu ignorava?—gritou. É que o senhor fosse um pedaço d’asno -como é!... Que o arrebento, seu odre! - -O frade escandalisado, escachou as pernas e apresentando-lhe de frente o -seu valente tronco, oppoz-se-lhe com vehemencia: - -—Ameaçar-me! olhe que o leva um milhão de demonios, seu cabrito esfolado! - -E saiu nobremente da sala. Durante boa meia duzia d’annos, conservaram-se -inimigos e sem se fallarem. Porém depois reconciliaram-se n’um jantar de -boda, onde ambos se emborracharam até á ternura das recordações, e d’alli -ao fim da vida, continuaram a sustentar as suas theorias e a dar os seus -passeios habituaes. - -[Illustration] - - - - -[Illustration] - - - - -A POSTURA DOS OVOS - - -As de Refuinho foram as ultimas a chegar. Por causa do ar da noite, -traziam as cabeças envolvidas em muitos chailes e só deixavam um -buraquinho para espreitar o creado, que ia adeante com o lampião. D. -Michaela, ao recebel-as no cimo da escada, logo ralhou com as meninas -por causa do agasalho excessivo. Nem pareciam raparigas novas, tantas -eram as cautelas que tomavam. D. Maria justificou as sobrinhas. Fora ella -quem aconselhara taes cuidados, por causa das possiveis dôres de dentes. -Só quem nunca soffreu d’ellas é que pode fallar! Quanto a si, explicou, -tossindo muito, com o seu modo resignado e soffredor: - -—Oh! filha! Sempre te ando com uma gosma!... - -Logo que entraram na sala, todos vieram comprimental-as. As da Torre -Velha conduziram as primas junto do candieiro, para lhes mostrarem o -retrato do irmão, que era militar e estudava em Lisboa. Tinham recebido -pelo ultimo correio, essa bella photographia d’um rapagão em pé, apoiado -negligentemente na espada e a barretina sobre uma _console_. Assentára -praça em cavallaria por inclinação: todos os presentes se lembravam, -de como era um demonio em pequeno, percorrendo o quinteiro em todos -os sentidos, montado n’uma canna! A carta escripta ás irmãs, era-o -n’um luxuoso papel cor de tremoço cosido e perfumada d’almiscar. Dizia -maravilhas das opulencias da capital, dos seus palacios, dos theatros e -das formosas mulheres que passeavam em carruagens descobertas, para serem -admiradas. - -—Isso já por lá tem uma duzia de namoros—disse frei Ignacio, espreitando -por entre as cabeças das meninas. - -Mas uma das da Torre Velha, confidente do militar nos seus primeiros -amôres, defendeu-o: - -—Quem, o Zésinho?! Não é d’esses! - -E encarou Clotilde de Refuinho, que baixou timidamente os olhos, -conservando-se muito tempo triste, encostada á mesa. - -Os parceiros do rancoroso voltarete, enremissados da semana precedente, -estavam soffregos sobre o jogo. O desembargador João Xavier, para os -desculpar por se não levantarem, disse de longe, com a auctoridade d’um -marido, que esteve para ser de D. Maria, quarenta annos antes: - -—Ó minha prima. Deus lh’as dê muito boas. Dispenso cumprimentos. Esta -remissa de quinze entradas tenho-a atravessada aqui. - - * * * * * - -Mas quem se aproveitou do reboliço foi o dr. Leandro, que a esse tempo -levava uma reverendissima tunda, ás damas, do seu amigo frei Antonio, -que as jogava na perfeição. O advogado aproveitou o ensejo de atirar -com o taboleiro para o inferno, e fez na sala tal barulho, que parecia -a derrocada d’uma torre. Até ia trilhando o medico Pestana, homem de -grande saber e azedume, que lá estava com o seu esqueleto arrumado a -um canto, a chupar cigarros, todo concentrado no odio ao recebedor da -comarca, por causa da morgada, D. Michaela—mulher soberba, que os dois -ambicionavam furiosamente. O recebedor, o famoso Silveira, n’essa noite -em maré de fortuna amorosa, parecia um redemoinho pela sala, sempre com o -chaile-manta cinzento pendurado dos hombros. Foi elle que ao vêr muita -gente, propôz logo um quino, fallando com o seu ar estarola. Era quem -costumava tirar as bolas e salpicava o jogo de larachas muito apreciadas, -que por vezes lhe deram assignaladas victorias, quando a morgada ria até -ao engasgamento nervoso. Porém, n’essa noite, D. Michaela preferiu antes -ouvir a musica «Ao Luar», tocada no piano, com muito coração e esmero -pela Clotildinha. Ella que era romantica e sentimental, adorava esse -famoso trecho, que já uma vez a fizera suspirar em Barcellos. Era um -idyllio cheio de meiguices dolentes e das suaves fragancias das campinas. -Remurejavam brandamente arvoredos, um regato serpeava pela encosta e o -poetico rouxinol queixava-se no interior d’um loureiro. Frei Ignacio é -quem fazia de rouxinol, munido d’uma gaitinha; mas o famoso Silveira, -que tambem conhecia a musica, aproveitou cruelmente mais esta occasião -de triumphar sobre o medico. Propôz-se a tomar para si a parte do -rouxinol, sem nenhum auxilio de gaita. Os applausos á magnifica lembrança -foram calorosos. Todos sabiam, quanto o recebedor da comarca era eximio -imitador de vozes d’animaes e especialmente das aves. Em certos casos -o engano era completo. Um dia mugiu tão admiravelmente de vacca no -quinteiro de Refuinho, que a velha fidalga veio á janella toda afflicta, -ralhar com o moço, julgando que andava o gado solto. Ao dar com os olhos -no Silveira, que n’esse instante estava mugindo com desolação para o céu, -suppondo uma cria distante, reprehendeu-o: - -—Fazer de vacca! Isso é peccado. Não teme um castigo do céu? As vaccas -não tem alma—concluiu agastada. - -O medico Pestana, concordando em que o recebedor não tinha alma, -chasqueou o caso dizendo que o _homem_, fazendo de vacca ou de boi que -era o mesmo, mostrava grande geito para marido. - - * * * * * - -Porém a novidade de imitar um rouxinol, foi muito celebrada; porque -ninguem lhe conhecia a prenda. O medico emmagrecia a olhos vistos, quando -a morgada dava palmas ao Silveira. Este para melhor o aguilhoar exhibiu -outras habilidades já conhecidas: fingiu o trote d’um cavallo que se -approxima e relinchou com as ventas altas no momento da chegada; o canto -do gallo ao amanhecer, batendo fortemente as azas, foi produzido com -rara perfeição; o coachar das rans em noites primaveraes, a chegada do -cuco em maio, os patos arrebanhados, o pardal, o melro, o perú... tudo -foi representado. Já não havia, nem volturete, nem bisca, nem ideias -de quino. Tinham para duas horas. O medico passeava ao fundo da sala, -sorumbatico e abatido. Frei Ignacio, sempre brincalhão, disse-lhe de -longe: - -—Deixe-se d’isso, doutor. Quel-o vêr fazer de porco? - -Todos o desejaram e elle não se fez rogado. - -Sahiu da sala, para logo voltar silencioso e embrutecido. Vinha -sorumbatico e sorna, como um porco ao recolher. Uma creada chamou para -a comida: «_coxi, coxi, coxi_» e logo o Silveira principiou a correr, -como cevado cheio de fome, dando fortes grunhidos, gritos atroadores, -até que foi para um canto sugar a sua lavagem, com um _xou-xou_ -embrulhado e caracteristico. Por fim suppondo-se um porco perseguido -por um cão, correu veloz, ladrando e grunhindo ao mesmo tempo, e sahiu -precipitadamente pela porta, dando um encontrão no medico. - -Todos riram com boccas escancaradas. Frei Ignacio agachado a um canto, -já não podia mais, e por fim encostou a barriga á parede, com medo d’uma -colica. As meninas de Refuinho e da Torre Velha gargalhavam no regaço -umas das outras. O desembargador Xavier sorria de longe com dignidade, -olhando firme, com os seus occulos d’oiro. - -Um joven poeta, estudante em Coimbra, foi da opinião e disse-o -claramente, que se aquelle phenomeno se exhibisse no _Palacio de -Cristal_, haveria grande concorrencia, porque era, em verdade, admiravel! -D. Michaela, que applaudira até as lagrimas, perguntou ao academico: - -—O senhor Penaguião nunca o viu fazer de gallinha e pôr ovos?!... - -—Nunca vi, senhora morgada... - -—Então!...—concluiu com um entono que significava preço—nunca viu nada! - -Todos se levantaram a pedir ao Silveira que exhibisse esta habilidade; -porém elle sentado n’uma cadeira, a limpar o suor do cachaço, não estava -para isso. Sentia-se cançado, ficaria para outro dia, não podia ser tudo -d’uma vez. A morgada, conhecendo o empenho dos seus convivas, disse mesmo -sem se levantar: - -—Ande, vá pôr. Quero que o sr. Penaguião veja. - -Não hesitou um momento. Um raio de vingança triumphante despediu-se do -seu fulvo olhar contra o medico, que ao vel-o prestar-se, sahiu da sala. -Porém isto, que todos julgaram um signal de covardia não o era de certo; -porque momentos depois o doutor tornou a entrar, com semblante conformado. - -Como era uma exhibição mais complexa, tomou cada pessoa o seu logar. -As senhoras em cadeiras, em volta da sala, deixaram o canto livre para -a postura, que devia ser junto do piano. Os homens que se não puderam -sentar, encostaram-se ás entradas e nos vãos das janellas. O medico, -talvez para se mostrar generoso e soffrer deante de todos a propria -humilhação, occupou a cadeira mais perto do logar da postura. - -Pareceu um acto publico de conformidade. O proprio Silveira assim o -entendeu. No meio d’um silencio valioso, depois de apenados dois -banquinhos para servirem de poleiros casuaes, o recebedor da comarca com -o chaile-manta pendente dos hombros, collocou-se no meio da sala, olhando -solemnemente em redor. - -Mostrava-se grave, simples e ao mesmo tempo imponente! - - * * * * * - -A principio houve um cacarejar avulso e sem grande significação. Andava -em volta dando pulinhos, erguendo a cabeça para ouvir facilmente, e -espanejava-se ao sol. Depois continuou em passo solemne, entoando um -_cá... cá... cá..._ reflectido e de concentração. Passados momentos, a -voz levantou-se gradualmente mais sonora, tinha gritos estridentes e -estendia o pescoço. Andava com vivacidade, os pulinhos eram sacudidos e o -corpo avolumava-se-lhe debaixo do chaile, quando afastava os cotovellos. -Subiu a um dos poleiros e lá do alto produziu um _ca-ca-ra-có_, rapido -e vibrante, como se fora uma sentinella gritando ás armas, para afastar -um inimigo possivel. Mas logo desceu para continuar n’um tom manso e -natural, andando em passo grave, seguro de que ninguem o viria perturbar. -De repente deu-lhe uma especie de furia, uma raiva e começou a correr -e a gritar desesperadamente, muito arrastado pelo chão, significando a -gallinha apertada por uma dôr e com a necessidade urgente de expellir de -si qualquer coisa. Os gritos eram fortes e expressivos, as arremetidas -para o lado do ninho insistentes, sempre com as azas de rasto, -afastando-se um momento para voltar depois mais precisado. - -A situação ia-se tornando claramente dramatica. - -O interesse dos circumstantes era cada vez maior. Exprimiam o sentimento -de admiração que os possuia, em frouxos de riso apanhados na mão e -muitos, boquiabertos, pronunciavam: «Ora!... Ora!...» - -A morgada, que estava mais á vontade e não temia perturbar a -representação observou: - -—É tal e qual a minha amarella. Uma coisa assim!... - - * * * * * - -Vendo-se applaudido pela mulher a quem amava o Silveira foi sublime! -Aproximou-se sornamente do canto da postura. Reconhecia-se-lhe na -lentidão dos movimentos de parturiente, que se approximava o momento -supremo. Já ia arrastando o corpo, d’aza cahida, e um _có-có_... -guttural. Foi enfraquecendo a voz e os movimentos, andando em volta de -si mesmo a procurar o geito. Depois acamou-se acocorado, todo mettido -debaixo do chaile cinzento, n’uma attitude de objecto bruto e informe -que para alli estivesse arrumado. Houve um gemer soturno, como o regougar -d’um gato. - -Foi n’este momento que o medico se abaixou fingindo que apanhava alguma -cousa. O Silveira não o percebeu, tão compenetrado estava das suas -altas funções de maternidade. Os assistentes, interessados no final -da comedia, tambem não repararam. Durante o minuto que o recebedor se -conservou agachado, trocaram-se apenas algumas observações em voz baixa. -Mas por fim, mestre Silveira, sahiu do ninho mostrando-se patentemente e -engulindo em secco, como se viesse d’um sonho. Começou a cacarejar com -alegria e orgulho em voz sonora e espantada. Saracoteava-se vistosamente, -espanejando-se, refrescando o corpo, na satisfação de quem cumprira um -dever e se livrára d’uma difficuldade. Esperto, vivaz, altivo, tudo -era _Ca-cá-rá-cá, ca-cá-rá-ki_... para um lado e para outro. E n’uma -reviravolta, quando fazia a ultima visita saudosa ao ninho, o soberbo -Silveira estacou de repente, empallideceu deixando de cantar, os braços -cahiram-lhe n’um assombro! - -—Mas eu não fui!—pronunciou inconsciente. - -O apparecimento imprevisto de dois ovos authenticos no logar da postura, -produziu uma gargalhada atterradora! Frei Ignacio, sempre larachista, -agarrou no recebedor pelos hombros, perguntando-lhe: - -—Então hoje isto foi a sério, caro amigo?! - -Porém o medico, cheio da sua vingança, disia ao mesmo tempo a D. -Michaela, em voz alta, de modo que todos ouvissem: - -—Compre esta gallinha, senhora morgada, que lhe põe aos dois. Olhe que -sempre é melhor que a sua amarella! - -[Illustration] - - - - -[Illustration] - - - - -RENDE-TE CENTURIÃO - - -Esperava-se que d’essa vez os _Passos_ fossem grandiosos. Tinha chegado -no verão um brazileiro, que para engrandecer a terra, concorria com -cincoenta libras. O abbade, depois da offerta, affirmou cathegoricamente, -que ía fazer reviver a memoria dos _Passos_ do fidalgo do Outeiro, que -sessenta annos antes, fizera _uns_ de que fallavam ainda com espanto, -os velhos das redondezas! Não havia de faltar nada: teriam muitos -anjos, musica da melhor e pregador de fama. Se viessem ainda esmolas, -mandar-se-hia armar a egreja, podiam-se reformar os andores que estavam -velhos; pois seria bonito que apparecessem differentes imagens do -Redemptor, significando as diversas partes da notabilissima _Paixão_. - -—Quando foram os do fidalgo do Outeiro—acrescentou o abbade—houve a -guarda romana com o Centurião á frente, levando o seu distinctivo de -videira como emblema do direito de punição corporea, sobre os soldados. -Não sou d’esse tempo, mas ha ahi muitos homens que se lembram—concluiu, -dando grande preço ás suas palavras. - -Era n’um domingo, depois da missa conventual. O abbade fallava na -sachristia, deante d’alguns freguezes, que o escutavam respeitosamente. -O benemerito senhor Guimarães, que abrira a subscripção com cincoenta -libras, era dos ouvintes. Reconhecendo, como todos, que a somma já -apontada era diminuta para se arranjar uma procissão a valer, poz -serenamente a luneta, pegou no papel onde estavam lançadas as differentes -verbas e leu: - -—Tresentos e cinco mil e sete centos e cincoenta reis. É pouco!—disse. -Quanto entende o senhor abbade, que será preciso para se fazer coisa de -truz?! - -O sacerdote olhou fixamente o tecto da sachristia, suspendendo-se do -labio inferior por dois dedos. Pronunciou, para si algumas palavras de -calculo, resumindo em voz alta: - -—Quinhentos mil reis. Com quinhentos mil reis faz-se tudo. - -—Pois feche lá essa conta e trate do negocio, meu reverendo—concluiu o -Guimarães, atirando generosamente com a meia folha d’almaço, sobre o -gavetão. - -O abbade agarrou-o entre os seus rudes braços de camponez, affirmando-lhe: - -—Com isso, temos tudo! Bom sermão; boa musica; bom côro; anjos; egreja -rica; um centurião com a sua guarda, que se lhe mandam ahi na villa fazer -vestimentas; e andores de espavento, que eu arranjo a virem de Braga, com -imagens e mais pertences. Creia o meu amigo, ponho-lhe ahi uns _Passos_, -que nem na cidade do Porto. Uma riqueza, verá. - -—Então é dar ordens, está arrumado—acrescentou o Guimarães, fazendo um -gesto largo com a ponteira da bengala. Dinheiro não faltará, ainda que -seja preciso mais. Na minha vida de trabalho levei muito chimbalau, e -bastas vezes perdi contos e contos. Dê ordens, meu abbade, e ponha a -coisa na rua. Percebeu? - -Esta grandeza do Guimarães foi muito gabada em toda a parte, bem como a -sua devoção. Felizmente não era como o traste do Cerqueira, um herege -que embirrava com missionarios. Esse era raro verem-no pela egreja, e -até quiz bater no afamado padre Antonio, porque lhe fez uma santa da -sobrinha, a Rosaria do Thomaz do Monte, pobre homem, agora maluco, por -causa das heresias que lhe mettera na cabeça o cunhado. Ainda bem que -o senhor Guimarães não era assim e gastava dinheiro em fazer coisas -boas, como ajudar uns _Passos_ de que todos se orgulhavam. Por isso -Deus o tinha protegido; por isso, sendo filho d’um pobre artista, era -hoje um fidalgo, tinha palacio e suas filhas usavam sedas. Não tardariam -em ver-lhe um titulo e era muito bem applicado, a um cavalheiro de tão -larga generosidade e que tão amigo se mostrava da terra. Podia ser como -outros, despresar do nascimento obscuro, viver n’esse Porto ou Lisboa, e -não fazer caso nem da sua aldeia, nem dos parentes pobres. «Viva o senhor -Guimarães, que ainda hade ser o nosso deputado»—affirmavam com emphase -pessoas de consideração. - - * * * * * - -Desde aquelle momento o abbade não pensou n’outra coisa. Logo no dia -seguinte montou na sua egua e foi encontrar-se com a diligencia, que o -levaria a Braga. Como era homem de imaginação e muita fé, logo que alli -chegou entendeu-se com as pessoas que melhores conselhos lhe podiam dar. -Depois de varias conferencias resolveu encommendar tudo a um homem da -rua do Souto, o que era melhor arranjo. Combinou a armação da egreja; -os fardamentos do centurião, guardas, figuras e vestidos d’anjos; os -cantores para o coro, os andores e até as imagens. Quanto a imagens -foi mais difficil; pois que as confrarias entenderam que as não deviam -emprestar, sem o parecer favoravel do senhor Arcebispo. - -Depois de trabalho insano só pôde conseguir, um _S. João_ e um _Senhor -prezo á columna_. Porém não ficou contente; porque as estatuas, antigas e -feias, não eram de causar grande devoção. - -—Paciencia—disse resignado. Levam-se os seis andores. Tenho lá _Cruz ás -costas_ e _Senhora do encontro_. Levo d’aqui _Preso á columna_ e _S. -João_. _Canna verde_ e _Pretorio_ arranjo de Valença. Quem tem amigos... - -Procurou, depois, saber onde morava actualmente o padre Silvestre, -capellão de infanteria 8 e seu antigo condiscipulo. Era um dos pregadores -mais afamados do alto Minho e o abbade, pela terceira vez, o escolhia -para lhe abrilhantar uma festa da sua egreja. - - * * * * * - -Tendo conhecimento de que mudára para a Conega, cahiu-lhe em casa -d’um pulo. Havia annos que se não encontravam. Por isso houve effusão -d’alegria, muitos abraços e expansões n’este momento. - -O pregador, escarranchado n’uma cadeira, disse para o seu amigo que se -lhe sentára na cama: - -—Tu, magnifico, gordo, sempre abbade! Que diabo te trouxe n’este tempo de -trabalhos quaresmaes cá por Braga? - -—O diabo não, creatura, foi Deus! Deus, o Senhor dos Passos é que me -trouxe hoje por cá. Mas deixa-me perguntar-te, antes que me esqueça. -Estás de mal c’o as... - -—Estou sim—atalhou—não as podia aturar. Eram umas porcas. Nem roupa, -nem comida... uma immundicie. Depois tinha por companheiro o Antunes da -Cuspinheira, lembras-te? Um cevado com quem se não pode estar á mesa. -Deixei-as... - -O abbade conformou-se, accrescentando: - -—Pois custou-me a dar co’esta casa. Perguntei ao Sampaio, o famulo. E -venho cá por um motivo muito grave. - -—Oh! com seis centos!—exclamou o capellão. Talvez algum caso de -consciencia. O homem é fraco, bem sei. Eu absolvo-te, diz da tua vida, -bezerro. - -—Não, não é isso. Tenho uma festa de Passos, coisa rica. Paga lá um meu -parochiano, um brazileiro. Quero que tu pregues. - -—Quando é? Na quarta dominga? Tenho que fazer, vou aos de Bouro. - -—Não principies já com lonas. É na terceira dominga, homem. - -—Então posso. - -—Mas Souséca! eu quero um sermão novo em folha. Posso-te dar quinze -moedas. - -O padre Silvestre reflectiu e disse: - -—Valeu. Escrevo hoje mesmo ao Germano, o Germano das bochechas grandes. -Conhecel-o? Quero que elle me empreste um que lhe enviaram do Porto e -que fez grande barulho em Guimarães quando lá o pregou, ha dois annos. - -—Mas, porque é que tu não o escreves? Com o teu talento... - -—Escrevo sim; mas é para me inspirar. Tu bem sabes que estas coisas são -sempre as mesmas. Está tudo sabido, já se não póde inventar. A questão é -de _modo_. Percebes abbade? - - * * * * * - -No sabbado, vespera da terceira dominga chegou a Refuinho o pregador. -Foi-se hospedar na _Residencia_. A sua entrada na aldeia foi celebrada -com alegria pelo ajuntamento de povo, que estava no adro da egreja e até -haveria repiques e foguetorio, se não fôra tempo santo de quaresma. - -O Agrella, que ajudava o armador de Braga, veio dar ao padre Silvestre, -um aperto de mão, affectuoso e familiar. - -—Cá andas tu como o peixe n’agua—disse-lhe o pregador. - -—Não ha remedio senão dar um gaudio á raparigada—respondeu o alfaiate. -Muito estimei vel-o por cá, meu senhor. Ha que tempos!... Temos ahi uns -_Passos_ d’arromba. Não haverá outros, cinco leguas em redor. - -O padre Silvestre saudava a todos de cima da burra. Os semblantes dos -camponezes eram risonhos, como se tractassem d’um noivado. Este rumor -attrahiu o abbade que se chegou á janella. Ao avistar o seu antigo -condiscipulo, gritou-lhe: - -—Eh! Souséca! Sobe para cá diabo. - -Mas foi elle que veio abaixo, de tamancos e meias de lã, envolvido no -amplo capote. Tomou o hospede entre os braços, apertou-o com amisade. - -—Já me tardavas, maroto!—disse. Vou-te mandar pôr a ceia. Ó -rapariga!—gritou para cima—Elle cá está. - -No alto da escada, appareceu a Joanna, de lenço vermelho cruzado sobre os -seios magnificos, e expondo, á vista de todos, a optima carne dos seus -braços. - -—Então uma fornada, ein?—perguntou o pregador. - -—Não ha remedio senhor reverendo capellão. A gente hade comer. Estou a -mettel-a no forno. Desculpe recebel-o assim. - -Mas o padre Silvestre não era de ceremonias. Estava acostumado. Em casa -de sua mãe, nos tempos felizes em que vivera na aldeia, era a mesma -coisa. O trabalho primeiro que tudo. Faz a gente forte. Deu-lhe um -abraço de satisfação, fazendo muito gosto em sujar o capote, sobre o -lenço enfarinhado e os braços roliços, cheios de massa. A rapariga riu -estrondosamente, entregando-se-lhe com facilidade. O abbade, fingindo-se -suspeitoso, observou: - -—Cautelinha, cautelinha, sôr Souséca!... - -Tudo era levado á boa parte e sem malicia. O padre Silvestre pediu -tamancos e meias de lã, que tinha os pés gelados. Oito horas de -diligencia e a cavallo era de morrer. Se viesse alguma chuva não faria -mal nenhum, pois amaciava. - -—Não imaginas abbade, como elle corta lá em cima, ao dobrar o monte. - -—Imagino, imagino. Bastas vezes o tenho levado pela fucinheira. Mas toma -lá uns soccos e as meias e vem pr’o lume. Ceia-se alli mesmo. - - * * * * * - -Pouco depois, pozeram diante do pregador a sua gallinha, salpicão e -a tigella de bom caldo, fumegante e appetitoso. Nos tempos em que ha -muito serviço divino, não se usam jejuns para quem prega ou canta. Tem -dispensa, bem merecida; pois que alguns, como o padre Silvestre, andam de -terra em terra, levando a palavra sancta, para converter peccadores. É -uma lida de seis centos demonios. Ganha-se dinheiro; mas não vale muito -a pena. Se os obrigassem a comer sardinhas, morriam no fim da quaresma. -Era Christo a subir ao ceu e elles a descerem á cova. Jejuns são para os -brutos, para os fortes, que não tem de puchar pela cachimonia. - -—Cá na minha—affirmou Joanna atiçando o lume—se nós somos tão tapados é -por causa da brôa e do bacalhau. - -O abbade, que estava estorcegando a sua posta sobre o prato, levantou a -cabeça para dizer: - -—Olá, princeza. Vou-te mandar vir carne da villa, para tu comeres. - -—E olhe que me havia de fazer bem, ao meu rico peitinho—confessou pondo a -mão sobre os proeminentes seios. Ao trabalho que lhe tenho. - -O abbade continuou troçando: - -—Ora sempre a gente vé coisas! Não te me faças lesma. Dá p’ra cá a infusa -e deixemo-nos de contos. - -Mas o padre capellão fallou sério, explicando. O seu trabalho n’essa -quaresma era extraordinario. Em seguida a esse sermão, tinha outros. -_Passos_ em Bouro e toda a semana sancta em Amares, onde tinha de pregar -o do _lava-pés_, o do _enterro_, o de _lagrimas_ e o da _ressurreição_, -que é sempre uma predica demorada e cheia de conceitos. - -—Pois sim—considerou o abbade—mas este d’amanhã é que mais te custa. - -—Podéra! Tambem é o de mais pucho. Levou-me oito dias a compôr e oito a -decorar. É todo novo, acredita. - -Tinham-no prevenido que, para o ouvir, viria gente de longe. Só em casa -do Guimarães, uns trinta hospedes—pessoas do Porto, de Braga... o diabo. -Mostrava-se preoccupado com o exito. Tinha medo que lhe esquecesse algum -d’esses trechos flamejantes, em que firmava orgulho litterario. Peça -meditada, feita com reflexão e calculo. Havia a bem conhecida passagem do -centurião, convertido por um toque de divina graça. O padre Silvestre não -julgava isto muito moderno; mas foi o abbade que lh’a exigiu, por saber -que era do gosto dos ouvintes e principalmente do bemfeitor. No emtanto, -entendia o pregador, que essa passagem produziria bom effeito, se fosse -convenientemente ensaiada. - -—Quem tens tu ahi para centurião?—perguntou ao abbade. - -—Um rapazote da freguezia. Boa figura, alto!... - -—Pois hei-de-lhe querer fallar. Que venha cá amanhã de manha. Bem sabes -que isto tem o seu boccado de theatro. - - * * * * * - -No dia seguinte o pregador estava a repetir o sermão na horta da -_Residencia_, passeando n’um carreiro, por cima do muro. O sol aquecia-o -agradavelmente por um lado, a sombra do seu corpo estendia-se na relva, -sobre a qual os gestos se lhe reproduziam mais amplos e magestosos! -Uma pobre cerdeira, despida de folhas, é que lhe servia de referencia. -D’aquelle lado era o Calvario, com a dolorosa imagem de Christo, vergado -sob a cruz. O povo estava em baixo, oppresso e contricto. A Virgem mãe, á -direita, banhada no pranto redemptor. Os verdugos, os da guarda romana, -os discipulos e todos os amigos de Jesus, lá os significava na vertente -do monte ignominioso, que no caso presente era um alcouve de cor alegre. - -No meio d’uma apostrophe clamorosa, quando de braços abertos e solemne -chamava o divino soccorro, foi interrompido por uma voz: - -—Senhor reverendo pregador?—chamaram. - -O sacerdote, voltou a cabeça, conservando suspenso o gesto e perguntou -impaciente: - -—Que diabo queres? - -—Vossa Senhoria não me mandou chamar? - -—Eu! - -—Cá o nosso abbade é que disse. - -—Ah!—exclamou, deixando cahir os braços. És o centurião? - -—Entendo que sim—confessou o filho do Cancella. - - * * * * * - -Disse-lhe que se approximasse. Explicou-lhe o caso. Em certa altura do -sermão, tinha de quebrar a lança, e prostrar-se de bruços, soluçando, -como peccador arrependido. Jesus Christo alli estava, coberto -d’opprobrio. Todos o tinham insultado no caminho do Calvario; porque -estava nas escripturas que assim devia ser. Elle, centurião, tambem -maltractára o sublime prisioneiro, dando-lhe com a lança e chasqueando-o. -Depois é que lhe veio um toque de luz divina e arrependeu-se. - -—Tu entendes—explicava. Toque de luz divina é assim como uma pontuada -sobre o coração. Entendes? Diz lá. - -—Entendo muito bellamente, senhor reverendo pregador. Eu já figurei -n’outros _Passos_, lá p’ra Monção—acrescentou com sorriso experimentado. -Mas senhor reverendo pregador, Vossa Senhoria, quer que eu me arrependa, -logo á primeira que mandar? - -—Porque? - -—Eu á primeira... á primeira... não queria—explicou, coçando a nuca. É cá -por causa da rapaziada, que depois chama podrico á gente. - -—Ah! isso não tem nada. Lembra-te que estás deante do rei dos reis e -do senhor dos senhores. Mas não te rendas logo... logo... Olha bem -para mim—detalhou com bondade. Ao primeiro _rende-te_ eu pego no -lenço que está do lado da porta, levo-o á bocca, e torno a collocal-o -no mesmo sitio. Tu reparas em mim, dás uma sacudidella aos hombros, -assim, e continuas lá no teu posto. Eu fallo muito ainda. Ao segundo -_rende-te_, repito o caso do lenço _mudando-o então_—sublinhou—para o -meio do pulpito, d’esta maneira (Pegou no seu lenço de paninho vermelho, -conservou-o segundos pendente da mão e depois collocou-o sobre um triste -ramo de vide). Tornas a atinar comigo, um pouco mais sério do que da -primeira vez; nova sacudidella de hombros, e continuas lá na tua vida. -Sim, porque tu és um grande peccador e a divina graça não te póde tocar -assim do pé p’ra mão. Entendes isto? - -—Muito bem, senhor reverendo pregador—affirmou o filho do Cancella, com o -queixo agarrado na mão direita. - -—Mas ao terceiro _rende-te_—accentuou significativamente o padre -Silvestre, espaçando as syllabas—quando eu mudar o lenço para o lado do -altar mór, tu reparas em mim, com olhos muito arregalados, como quem -sentiu que lhe entrou alguma coisa no corpo; se quizeres dás um grande -berro, quebras a lança no joelho, atiras-te ao chão de bruços, finges -que choras (se te dér p’ra isso, choras realmente) e dizes alto: «Perdão -Senhor! Perdão! Perdão! Perdão!» - -O rapaz pronunciou: - -—Perdão Senhor! Perdão! Perdão! Perdão! - -—Isso mesmo. É para o povo repetir: «Perdão senhor, perdão, perdão» e -chorar muito, como é costume. - -—Entendi muito bellamente. O peior é se depois me chamam, cagarola e -podrico, que me levo de mil demonios. - -—E que chamem?—observou o pregador. Então queriam que tu te não -arrependesses, depois de tocado pela divina graça? São uns brutos. - - * * * * * - -Logo de manhã principiára a affluir gente que vinha de longe. A egreja, -os andores e o que se dizia dos anjos era um pasmo! A musica, logo que -chegou, foi tocar um hymno e duas polkas á porta do senhor Guimarães, -que veio á janella, com toda a sua respeitavel familia e hospedes, -palitando-se soberbamente. Zé Maximo, o homem das occasiões, levantou um -viva ao seu compadre e amigo, que foi correspondido atirando-se chapeus -ao ar. De tarde, antes de sahir a procissão, a musica voltou para o -beberete, que lhe foi servido no quinteiro. Houve vinho do Porto em -calices, quatro broas de pão de ló partidas á mão. Para os figurantes, -que estavam todos vestidos na vasta salla da tulha, á espera do momento, -foram enviados dois cabaços de vinho, meia duzia de brôas de pão de ló, -outra de garrafas de Porto e um cesto de cavacas. Houve por este motivo -grande barulho e algazarra dentro do casarão da tulha. - -Foi a propria esposa do senhor Guimarães, que teve a delicadeza de -lhes ir encher os primeiros copos, como signal de apreço e um rasgo -democratico na sua vida faustosa. Os rapazes d’aldeia sentiam-se -engrandecidos dentro dos seus fatos galileus e romanos. As tres Marias e -a Veronica, apenas levaram aos beiços os copos de vinho, com medo de se -descomporem nos vestuarios. Os anjos, sentados em duas bancadas, comiam -gulosamente rebuçados, babando-se pelos cantos da bocca. Os irmãos do -Santissimo, encarregados de os acompanhar, vieram buscal-os para os -conduzir á presença do senhor Guimarães e dos seus hospedes, antes da -procissão. O destroço nas cavacas, no pão de ló e no vinho era feito, -pelo Velho Simeão, por José d’Arimathéa, por Caiphás e Pilatos, que se -mostravam altivos; pelo Evangelista e especialmente pelo Centurião e os -seus doze romanos, que promettiam não sahir d’alli, em quanto houvesse -uma gotta nos cantaros e nas garrafas. O filho do Cancella, estava -arrogante, animando os seus com manifesto prejuizo dos superiores, -Caiphás e Pilatos, não obedecendo ás palavras judiciosas do piedoso -Simeão, que bebia menos por causa da barba, e recommendava aos outros -compostura: - -—Olhem que tomam por ahi alguma carraspana! É melhor voltarmos cá, outra -vez, no fim de tudo. - -—Isso é o que tu querias—retorquiu o Centurião. É dar-lhe, rapazes, até -lhe chegar com o dedo. - -E de tal modo comprehenderam estas palavras, que ao sahirem da tulha, -Cancella e os seus homens, levavam todo o seu animo e arrogancia natural, -fortalecida pelo vinho. - -—Grandissimo odre—disse-lhe com inveja o Simeão da barba, perdendo a -suavidade, que era da indole do seu papel. - - * * * * * - -Os _Passos_ começaram pelas duas horas. O itinerario foi combinado de -modo que primeiro que tudo passassem á porta do senhor Guimarães, que -seguia o andôr principal, como festeiro. A todas as senhoras que estavam -á janella da sua casa d’azulejo, em especial a sua esposa, fez uma larga -reverencia, passando ao mesmo tempo a mão na barba. Uma das coisas que -mais impressionou a gente postada nos valados, foi o terem os anjos -azas! Isso que concordava perfeitamente com o painel do altar mór, que -representava a Annunciação, nunca elles tinham visto! E iam todos muito -ricos, de setim branco e lentejoilas. Os melhores eram evidentemente os -vestidos em casa de D. Maria de Refuinho, apezar de que os da mulher -do sachristão e os da Lindoria, tambem não havia que lhes dizer:—ambas -tinham sido creadas de conventos em Vianna. Cada anjo distinguia-se pela -sua especialidade nas insignias de martyrio, em recordações da celebre -_paixão_; era a coroa de espinhos, o martello, as tenazes e os pregos -para crucificarem o Christo. - -Havia dois que conduziam simulacros das escadas pelas quaes os verdugos -tinham subido aos braços da cruz. Um rapasote, com altivez para que -todos reparassem, sustentava na ponta d’uma canna a esponja que servira -ao fel e ao vinagre; outro era portador da lança com que se abrira o -sacratissimo lado. As chagas, em lacre vermelho, iam em salva de prata. A -Veronica, rapariga esbelta, mostrava com ar piedoso, no santo sudario, a -face penitente e ensanguentada do divino mestre. Quasi no fim iam as tres -Marias, todas a par, cobertas de gaze preto e logo a seguil-as, S. João, -o discipulo amado, com o queixo apoiado na mão esquerda. A Magdalena, -uma rapariga casadoira, de longas madeixas encaracolladas cahindo-lhe -nas espaduas nuas, caminhava em passo theatral, adeante do apostolo, e -significava limpar abundantes lagrimas, deitando de vez em quando um riso -de soslaio, ás pessoas conhecidas. - -Entre os dois andores, o de Jesus vergando ao peso do madeiro, e o da -Virgem lacrimosa que implorava do ceu piedade, ia o Cyreneu resignado e -humilde logo em frente do Centurião, que commandava com arrogancia os -seus doze companheiros. Eram rapazes escolhidos entre os mais espadaudos -da visinhança. Orgulhosos dos capacetes prateados, das botas de montar, -dos mantos vermelhos e das terriveis barbas, sustentavam intemeratamente -as suas lanças, olhando em redor com provocação. O José Cancella -levando a insignia da videira, atiçava-os com olhares tremebundos e -modos arrogantes de capitão. O povo manifestava-lhes a sua antipathia, -principalmente ao José. Chamava-lhe ladrão, carrasco, ameaçava-o com o -inferno. A Lindoria, não se teve que lhe não dissesse, quando elle passou: - -—Barbas de chibo! Um tição por esses olhos é que tu querias! - -Porém o Cancella, apesar de carrancudo, não respondia. Pelos modos, -parecia ter cabellos no coração, aquelle diabo—diziam todos. Os seus -olhares furibundos sobre o Christo, não podiam constituir um peccado? -Era realmente de mais. O Centurião do tempo dos judeus tinha a sua -desculpa, porque não conhecia Jesus; mas este já ouvira muitas vezes os -missionarios. Era fingido, bem se sabia, mas escusava de estar a fazer -arremessos de lança, sobre a imagem que ia no andor; porque a isso é que -ninguem o obrigava. - -O atrevimento provocou da parte d’um visinho, um sarcasmo reprehensivo: - -—Vaes-te ahi a fazer de chibante e logo rendes-te como um sendeiro! - -—Não me puches—retorquiu o Cancella—porque se vamos a isso, arraso tudo a -pau. - -N’este momento o _trombeteiro_ deu signal para continuarem. Ao longe -ouvia-se o alarido dos rapazes, que admiravam os prodigios de força, -tanto do que levava o guião como do que sustentava o estandarte, pois -eram bandeiras que pesavam muitas arrobas. A procissão seguia por uma -encosta, no cimo da qual haveria o sermão do encontro. - - * * * * * - -Um limpido ceu de março cobria os campos, que principiavam a reviver -para a alegria primaveral das cores e da luz. O sol glorioso batia de -frente nos anjos, obrigando-os a piscar os olhos. As lentejoilas, os -galões e os adereços faiscavam com ostentação. Todas essas innocentes -crianças iam pomposamente levadas para o Calvario, pelos seus parentes, -que lhes forneciam rebuçados em abundancia. A multidão commentava com -amor a riqueza dos vestidos e as lembranças do martyrio. O som plangente -e dolorido da musica, alastrava-se pelas campinas. O sermão do encontro, -só commoveu algumas antigas beatas, que lagrimejaram encostadas aos -carvalhos do largo. O pregador era um velho de voz pigarrada e bochecha -cahida. Todos o conheciam e não lhe davam valor. N’esse dia memoravel, -quem absorvia as attenções, era o padre Silvestre, que viera de Braga. -Para o ouvir corriam os mais ageis pelo monte abaixo e atulharam a egreja -com enthusiasmo. Para os andores entrarem pediram auxilio ao Cancella -e aos da guarda romana. Á força de muito encontrão é que puderam abrir -caminho. Houve gritos, exclamações injuriosas; mas as confrarias, os -anjos e mais figuras, tiveram os seus logares. Tambem, o Centurião e os -seus, foram logo, alli mesmo, pagos d’esse esforço, bebendo um cantaro -de vinho que veio para a sachristia. Depois que tudo se acommodou como -pôde, a egreja ficou silenciosa. A imagem do Redemptor e da Virgem -destacavam-se com energia, no horisonte do calvario, formado de nuvens -caliginosas. Havia anciedade pelo apparecimento do pregador. - - * * * * * - -A figura grave do padre Silvestre mostrou-se no pulpito. Circumvagou -a vista, desde o guarda-vento até a repousar na imagem do Christo, -ajoelhado debaixo da cruz. O exordio foi longo, mas habilmente preparado -n’um crescendo de dôr. Seguiu a vida simples do filho do carpinteiro -de Nazareth, levando-o desde a malvadez de Herodes até ao baptismo no -Jordão. Mostrou-o predestinado pelas prophecias, para a sua divina -missão de soffrer o martyrio degradante que soffreu, por amor dos -homens. Anteriormente á vinda de Jesus, a humanidade vivia numa escura -masmorra, com porta, só para o inferno! As palavras da escriptura haviam -de cumprir-se e era preciso o sacrificio d’um Deus, para salvar o mundo. -_Elle_ encarnou, soffreu, demorou-se trinta annos distante da patria -celestial, para nos remir e dar exemplo. Nem que todos os homens vivessem -eternamente em penas afflictivas, poderiam pagar tão infinita bondade! -Por isso, na apaixonada peroração, o pregador, começou por considerar que -estando dentro d’aquella egreja, só miseros peccadores condemnados aos -rigores do inferno, convidava-os a que se prostrassem de bruços, para -pedirem perdão a Deus dos enormes peccados, que todos haviam de ter, no -logar mais intimo da alma. - -Os gritos e soluços do povo sommavam-se, como elementos d’uma calamitosa -tempestade. A gritaria das mulheres, que davam bofetadas nos seus filhos -para os obrigar a carpir e conservarem memoria d’este sermão, esfusiavam -no ar como uivos de vento. O pregador, para tomar mais pathetico o -discurso, quil-o ornamentar com a conversão _d’um infiel_. O infiel -era o Centurião, o filho do Cancella, no qual ia experimentar o poder -extraordinario da divina palavra. - - * * * * * - -Desde o principio se reconhecera, que o José estava casmurro; pois que, a -despeito de todo o povo chorar, elle sempre se mostrára atrevido, olhando -o pregador com altivez. Os seus soldados tambem o acompanhavam no ar -insolente. Algumas pessoas que estavam no segredo do que se passava, -attribuiam aquella chibancia ao ultimo cantaro de vinho. O pregador, -ignorante do facto, antes o julgou muito bem compenetrado do papel. Por -isso começou por pedir aos fieis, que o acompanhassem na exhortação que -ia fazer. Como as toupeiras que não tem olhos para a luz do sol, aquelle -desgraçado não tinha meio de presenciar o encanto da luz da divina graça. -Vivia em trevas infinitas, d’onde só podia sahir pelo enorme poder do -Senhor. E estendendo-lhe os braços paternaes, pediu suavemente: - -—Rende-te Centurião! - -—Rende-te Centurião!—acompanharam os circumstantes, n’uma voz chorosa e -precatoria. - -O filho do Cancella, que passeava soberbamente no calvario, parou -cofiando a barba com magestade e affirmou resolucto: - -—Não me rendo! - -O Agrella, que estava alli perto, disse-lhe de modo que elle ouvisse: - -—Não te rendes! Isso logo se verá meu pedaço d’asno. - -Evidentemente, esta ameaça do alfaiate perturbou a vista do esforçado -Centurião. Por entre a longa barba, sahiu-lhe um bafo enfurecido de -colera, e se não fora a especial situação, era capaz de lhe quebrar a -cabeça com a lança. - -O pregador, tendo limpo os beiços ao lenço, segundo a convenção, -continuou exhortando o infiel e pediu-lhe com mais instancia. Pintou, -deante do povo absorvido na sua palavra santa, o triste estado d’aquella -alma obcecada, recusando receber em si a divina luz! Empregou maior -energia de phrase, foi mais caloroso e persuasivo. O povo seguia-o, -supplicando com elle, levantando clamor cheio de lagrimas. Ao segundo -_rende-te_, quando o pregador mudou o lenço para o meio do pulpito, o -Centurião respondeu cathegorico: - -—Não quero, não rendo! - -—Á terceira nós veremos—afirmou de novo o Agrella, que estava certo do -que se passara entre o José Cancella e o pregador. - - * * * * * - -O padre Silvestre investiu no ultimo pedido, dando-lhe a forma de -objurgatoria. Para ser mais solemne, começou em tom simples, subindo -gradualmente até ao intimativo. - -Já via na fronte do Centurião um principio d’arrependimento. O grande -Deus ia feril-o com um d’esses raios de divina omnipotencia, como ferira -Paulo na estrada de Damasco, como ferira o impio Agostinho, e o proprio -Moisés na montanha. Não podia consentir-se que vivesse entre christãos, -uma alma peccadora e impenitente. A conversão havia de dar-se a preço da -propria morte, porque o Senhor usa de todos os meios, para chamar a si as -almas! - -O filho do Cancella, perseguido d’ameaças, não se commoveu. Porém, quando -o pregador o equiparou aos grandes santos, já parecia amollecido no seu -espirito de resistencia. O povo chorava e clamava em altos gritos, o -peito enchia-se-lhe de ternura e arrependimento. Talvez fosse melhor -acabar com aquillo, prostrar-se por terra, como tinha promettido. O -pregador mudou o lenço para a direita e concluiu com voz energica e grave: - -—Abre esses olhos peccador! Rende-te Centurião! - -—Agora!—intimou o Agrella. - -O chefe da guarda romana fixou no pulpito um olhar atrevido. Julgou-se -indigno da fama que tinha de valente se obedecesse á voz do Agrella. O -vinho dava-lhe coragem e audacia. Tomando a lança ás duas mãos, bateu -uma forte pancada no pavimento e respondeu ao pregador: - -—Tenho-os bem abertos. Não me rendo! Não e não! Obrigue-me! - - * * * * * - -Depois d’isto a situação ficou inteiramente perturbada. O padre Silvestre -teve uma paragem de surpreza. Não sabia o que aquillo queria dizer. Teria -havido algum esquecimento ou engano?! Para que o rapaz percebesse melhor, -tornou a pegar no lenço, suspendeu-o no ar e collocou-o á direita. Á voz -imprecativa do sacerdote, juntava-se o clamor plangente e formidavel do -povo. Pois que! O filho do Cancella tinha duvida em reconhecer o enorme -poder da Omnipotencia! em se rojar diante do Senhor dos Senhores, do Rei -dos Reis! em reconhecer que o Immaculado Cordeiro veio morrer fragilmente -na forma humana, só para nos remir e salvar! Estranha e incomprehensivel -cegueira! Empedernido no peccado, devia estar aquelle coração. E -pediu-lhe de novo que se rendesse, que attendesse á commovente voz de -todas aquellas mulheres que o exhortavam e no meio das quaes estaria sua -propria mãe. - -As pessoas gradas pareciam irritadissimas. O brazileiro Guimarães -lembrou-se de o mandar prender; mas o desembargador João Xavier, -achou isso improprio do logar. Enviaram o Zé Maximo, que lhe disse com -moderação: - -—Rende-te, diabo! Olha que o homem já está rouco. - -—Deixe-o estar!—respondeu succintamente o Centurião. - -Todos se mostravam inquietos. Semelhante cabeçudo, merecia boa doze de -páu—opinavam. - -O pregador estava esfalfado. A sua voz, já pouco distincta, era coberta -pelo alarido que enchia a egreja! Ouviam-se supplicas, ameaças, palavras -soltas, gritos, creanças a chorar... - -O filho do Cancella, de cada vez se inculcava mais firme, no proposito de -se não render. Foram pedir ao pae que lhe impozesse a obediencia; porém -o velho, que sempre tivera prosapias, mostrou má vontade de interferir. -Opinou que o rapaz se renderia quando entendesse, que o deixassem lá, -elle sabia bem do seu papel. Não era a primeira vez. - -Tudo parecia perdido. O padre Silvestre, exhausto de forças, furioso -contra aquelle maroto, arrancou do peito um grito sublime. Com a colera -estampada no rosto, dirigiu-se ao povo, e apontou vivamente para o -Centurião clamando: - -—Aqui d’El-rei! contra aquelle maroto! Prendam-no que foi elle que matou -Nosso Senhor Jesus Christo! Povo! Faz justiça por tuas mãos. - -Os das confrarias largaram as tochas e correram em tropel. O chefe dos -soldados romanos preparava-se, juncto com os seus homens, para levarem -tudo á bordoada. Só então é que o velho Cancella se adeantou, agarrando o -filho pelo tronco: - -—Eh! Zé. Que diabo é isso! Rende-te que já fizestes a tua figura, home! - -Elle então, arrumando a lança para um canto, submetteu-se: - -—Como vocemecê pede, vá lá! Se não ia tudo razo! - - * * * * * - -Depois na sachristia, o Guimarães, furioso, disse-lhe: - -—Precisavas que te mettessem um páu, entendes? Culpa tive-a eu em mandar -o cantaro de vinho. Não eras tu que fallavas, não. - -O abbade, esse, mesmo d’estola, quiz-lhe esmurrar as ventas. O pregador é -que lhe agarrou n’um braço, socegando-o: - -—Deixa-o. Quem lhe hade pôr uma farda ás costas, sou eu. Lá é que ellas -se pagam. Moinante! - -O filho do Cancella, ouviu-os com ar sizudo, sem responder. A vista -toldou-se-lhe quando o ameaçaram. N’um impeto de colera, arrancou as -barbas postiças e arrumando com ellas ao chão, disse sahindo para fóra: - -—Ainda um raio me parta se eu tornar a fazer de Centurião! Macacos me -mordam, se pozer outra vez isto na cabeça! - -E atirou ao meio da herva do adro, o bello capacete prateado, que foi ter -a distancia. - -O abbade, ainda se chegou á porta dizendo-lhe deante dos homens que alli -estavam: - -—Ah! bom marmelleiro! Levem d’ahi esse odre de vinho, antes que eu lhe -ponha os ossos num feixe. - -Em casa do pae, custou muito a socegal-o. Foi preciso deitarem-lhe uma -chapoeirada d’agua fria para o acalmar. O somno que dormiu, foi de mais -de doze horas! - - Fevereiro de 86. - -[Illustration] - - - - -[Illustration] - - - - -A TRUTA GRANDE - - -Lá está o padre João, a dormir na sua cadeira de braços, debaixo da -fresca lata! Peito ao léo, as abas do amplo casaco de lustrina pendentes, -breviario para um lado, lenço para outro, caixa do rapé na mão, o ventre -arfando pausadamente... É todos os dias assim, depois de jantar, no tempo -dos calores. Para avaliar a tranquilidade de certas almas, é melhor -sentir-lhe a respiração suave, do que ler, tudo quanto pensadores e -casuistas, tem escripto acerca de moral. E julga-se um homem accordado, -o sereno eclesiastico, pois regouga palavras incomprehensiveis! Em -que bello paiz de sonhos trabalhará a sua ideia?! Sorri-se, o labio -papeja-lhe de contentamento... É que está á borda do rio, a canna de -pesca firme, o olho interessado, a respiração silenciosa. Rabea-lhe -em volta da isca e em breve a morderá, o peixe guloso e estupido. A -superficie da agua é serena. A transparencia deixa ver o fundo limoso e, -talvez, a truta grande, com a magestade do seu nadar, passe altiva, a -distancia. - -Ah! magnifico padre João, como estaes evidentemente enganado! Os tremulos -e repetidos puxões que vos agitam o corpo, ebrio de goso, não são do -peixe a depennicar na isca, são as gallinhas em cata de moscas. Ellas é -que vos tiram pelas abas sebentas do casaco de lustrina, querido e obeso, -padre João!... - - * * * * * - -O dia era d’agosto e bem quente. Atmosphera tremula e translucida, como -se fora de crystal fundido. No rio, as lavadeiras entoavam canticos -religiosos aprendidos com os missionarios e modas profanas colhidas -dos cegos que passavam. Nos campos em redor, áquella hora, não havia -murmurios do trabalho, pois já tinham acabado as sachas e as mondas. -As regas, essas faziam-se de noite. Eram duas da tarde e entram no -quinteiro os discipulos do latim. Ao verem o respeitado mestre, tão -docemente adormecido, deixam-no em paz e vão gazear para os lados do -rio. O porco foi menos condescendente. Tardava-lhe a lavagem e principiou -a grunhir em volta do quinteiro, parando com o focinho erguido para a -cosinha. Este barulho espertou o excelente ecclesiastico. Primeiro abriu -um olho, depois outro, conservando-se alguns minutos em contemplação, -mãos crusadas sobre o ventre. Parecia contar detalhadamente os doirados -cachos que formavam um docel sobre a sua cabeça! Por fim ergueu o tronco -considerando: - -—Então não me ia deixando dormir?! Pois não é o meu costume. Ó -Luiza!—chamou repetindo tres vezes. - -Uma voz de dentro da casa respondeu: - -—Não posso lá ir. Estou a arranjar a lavagem. Não ouve o pórco? - -—Tem piedade de mim, moça—exhorou o padre João. Tenho esta bocca como um -pau velho. - -—Tambem, está sempre com seccuras! - - * * * * * - -Mas a rapariga compadeceu-se. Primeiro que tractasse do porco foi á -adega, trouxe uma infusa de vinho, collocou-a desceremoniosamente no -chão, juncto do amo que disse: - -—Deus t’o pague mulher! Deus t’o pague! Se não fosse isto, nem hoje podia -dar lições. - -Com sorriso beatifico, pegou na infusa, repimpou-se na cadeira e começou -_glou, glou, glou_... até um final de saciedade, que consistiu n’um -prolongado ahhh!... - -A creada, voltando com a lavagem, disse: - -—Já ahi vieram os estudantes, mas como vocemecê estava de papo p’r’o ar, -lá se foram derriçar co’as raparigas p’r’o rio. Não lhe tem respeito -nenhum—censurou. - -—Que respeito queres tu que me tenham?! Deixa-os lá, esta vida são dois -dias. Gostam das moças? Tambem eu já gostei... e ainda gosto—concluiu -arregalando olhos bregeiros. - -—Um padre velho, sempre falla d’um modo... - -—Historias! Velhos são os farrapos. Vae-me chamar esses estudantes. Se -não aprendem latim, não serão nada. Latim é a base. Vae-os chamar, anda. - -E acabou de emborcar o resto da infusa, com um beber sereno de -satisfação. A creada reprehendeu-o: - -—Todo elle é vinho. Quando não está, p’ra lá caminha. - -—O que, bebedo? grandissima cachorra. É coisa que nunca me viste, -mentirosa. Gosto da pinga e de ti; mas não me embebedo com estas coisas. - -—De mim! Arreda, que me quero casar. - -—Com esse garotaço que te namorisca? Has-de casar sem banhos, nem benção, -eu t’o affianço. Vae-me alli chamar os estudantes, anda. - -—Vá você, que tenho a massa a aziumar. Se hade tornar a adormecer... - - * * * * * - -Luiza subiu a escada de pedra para a cosinha. O padre João levantou-se -sem resistencia, sahiu o portal e foi pelo carreiro abaixo, com o lenço -vermelho a resguardar-lhe a cabeça, do sol. Chegado á margem do rio, lá -viu os discipulos brincando com as lavadeiras. Muitas d’ellas levavam a -coisa de galhofa; outras enxotavam-nos com pragas. O professor não se -encolerisou, apesar de alguns estarem a fumar—o maior de todos os vicios, -e que elle odiava do fundo d’alma. Toda aquella alegria e mocidade lhe -arejou os sessenta annos. Enamorado da juventude, quedou-se a contemplar -o quadro cheio d’animação. Benevolo e risonho, fatiava comsigo mesmo. - -—Não querem ver como se arreitam? Ora, ora, já a formiga tem catarrho!... - -Levava o lenço ao nariz para enxugar o pingo da distracção. Escondido -por detraz d’um choupo, interessava-se na contemplação d’este quadro -virgiliano. Absorvia a fundos haustos o ar impregnado de terriveis -prazeres, que lhe revolviam os nervos. Recuava quarenta annos, ao tempo -das rapasiadas, dos bons acasos, quando apalpava contornos e sentia na -approximaçâo da carne, coisas de mil demonios. Talvez que ainda recuasse -mais, á famosa edade em que a imaginação trabalha inquieta, creando -gozos, adivinhando extasis e vive de imperiosos desejos, que entumescem. -A physionomia graciosa do padre João, expandia-se á vista do quadro -simples e primitivo—o beiço tremulo revelava o seu interior. A paisagem -era encantadora, a corrente da agua arrepiava-se nos seixos; na mente do -mestre de latim só podia haver quadros pittorescos de antigos faunos, a -rirem juncto de fontes, em florestas edylicas. - -—Olha o Esteves—commentava—como repara nas pernas da Clementina! -Grandissimo tratante! Talvez não saibas o _Sum, és, fui_ e estás ahi -com esses olhos. Como já tem malicia! Mas que maliciasinha! mas que -maliciasona! - -Limpou precipitadamente outro pingo. Humedecia os beiços com a lingua, -como o guloso de bellos manjares. Tudo aquillo o interessava. Sentou-se -na relva por traz da arvore. Tomou uma abundante pitada, fungada em tres -tempos, com todas as precauções para que o não presentissem. - -—Ahh!!!...—respirou. - -Queria ver onde aquillo chegava. Não podia ser grande coisa, estava -muita gente, as mulheres velhas são experientes. Alguma apalpadella, -um empurrão, talvez cocegas para fazer cahir as raparigas. Lá adeante, -no meio do salgueiral andava a Victoria a estender a roupa e cantava o -_Afasta_, _janota_, _arreda_. O padre João via-a pelas costas, o tronco -inclinado sobre a relva, as ancas largas, as rijas barrigas das pernas, á -mostra. Rapariga saudavel, muito alegre, amplo seio destinado a fecunda -maternidade. Disiam que namoriscava o filho do sachristão; mas de quem -ella parecia gostar verdadeiramente, era do praticante da botica, que -lhe dava fartura de banha de cheiro, para o cabello. Trabalhava distante -das outras lavadeiras, no coradouro, e para molhar as teias que lhe -estavam confiadas, mettia-se no rio até aos joelhos, atirando agua ás -manadas. O sol faiscando sobre a areia do seixal enlanguescia os corpos, -estonteava as cabeças. A Victoria desappareceu entre os salgueiros, para -os lados onde não havia gente. E pouco depois, o discipulo mais graúdo -do Padre João, o Thomaz do mercador, para lá se dirigiu, assobiando -disfarçadamente. - -—Olhem o moinante! Não querem ver?—rugiu o mestre do latim. - -Porem, mais longe, n’uma clareira, a moça, reappareceu. O padre d’alli -mesmo se pôz a vigiar, que não houvesse qualquer coisa. O estudante -encontrou-se com a lavadeira, quiz effectivamente agarral-a, mas a -rapariga esquivou-se-lhe, correndo adeante d’elle, furtando-se por -entre troncos d’arvores. O ecclesiastico para ver melhor, levantou-se, -seguia-os com prazer, inclinava-se para um lado e para o outro, punha-se -nos bicos dos pés. - -A Victoria a dar gargalhadas condescendentes, gritava pelas companheiras, -ameaçava com um gougo o preseguidor. «E pilha-a.» «E agarra-a...» -«Agora... fugiu...» «Lá cahiram ambos...»—ia elle commentando, comforme -os cambiantes da lucta. - -—O diabo é o Thomaz! Não escolheu mal o patifão—considerou, quando os -dois, junto um do outro, conversavam sensatamente. - - * * * * * - -Mas o aspecto de conciliação perturbou-se. O estudante perseguiu de novo -a rapariga que lhe fugia, gritando. A Lindoria ouvindo, correu para o -sitio, cheia de fervor beato. - -Ralhou, esbracejando descompostamente. A sua gritaria era para denunciar -o rapaz, ao longe: «Maroto, metta-se com quem lhe der trela, não -ande a desinquietar as almas». Ameaçou o estudante com o pae, com os -missionarios, com uma queixa ao professor, com o inferno. - -—Ah! tambem não é coisa para tanto—disculpava o sacerdote comsigo. Elle -não fez mal nenhum. - -Mas Lindoria não era d’este modo de pensar. Como Thomaz e outros -companheiros lhe retorquiram com palavras feias, ella enfurecida e -descomposta, subiu pelo carreiro, mesmo direita á casa do padre João. E -berrava pelo caminho: - -—Seus tratantes. Hão de dar grandes padres ou doutores. Padres! -Abrenuncio! Eram capazes de dar cabo do reino dos céus. Ah! Vossa -Senhoria já ahi vem? É que ouviu esta pouca vergonha! - -Tinha dado de frente com o ecclesiastico, que retrocedera no caminho, -para fingir que vinha de casa. A Lindoria, presumindo-lhe a ideia da -procura dos discipulos, indicou-lhos: - -—Estão alli senhor. Tire-lhes a pelle das mãos pelo amor de Deus, pelas -cinco chagas, senhor padre João. Olhe que não sabe os marotos que tem! - -A figura do mestre de latim, quedou-se respeitavel no alto da ladeira. -Com um gesto largo de commando, appontou aos discipulos o caminho da -aula. - -Vieram todos junctos, como um cardume de peixes. O sacerdote caminhou -adeante, sem os esperar, com o lenço vermelho pela cabeça, as abas do -casaco afastadas como dois remos. E susteve-se um momento voltando-se -para traz, com o fim de os increpar: - -—São estas as horas d’aula? Eu ha um rôr de tempo á espera!... - -A beata ainda lhe quiz contar tudo, mas o padre João nem a quiz ouvir: - -—Não me dás novidade. Conheço-os. Deixa-os por minha conta. - -Os estudantes seguiram-no, com semblantes de pouco temor. Já tinham -experimentado mais vezes aquella farronca. Eram, quasi sempre, os dias -mais serenos e benevolos. - - * * * * * - -Debaixo da varanda alpendrada, onde o ecclesiastico dava lições de verão, -que se iria passar? - -O padre João fazia um barulho da breca. Movendo-se com uma presteza -desusada, foi ao quarto buscar a palmatoria, para amedrontar. Não se -queria ver entre os dentes de Lindoria, que era capaz de lhe inventar -a peior fama. Aquellas paredes e aquella figueira, habituadas ás -objurgatorias tytanicas de Tito-Livio, aos versos amplos do melodico -Virgilio, ás palavras conceituosas do velho Horacio e de Esopo, deviam -estar atemorizadas, pela subita colera do professor. - -Chegou a parecer iracundo—o sobr’olho carregado, os beiços estendidos, o -rosto afogueado. Os rapazes curvados sobre os livros, já se não riam. O -padre, abrindo o Virgilio, disse desabridamente: - -—Tradusa as Eclogas, senhor Magalhães. O senhor Thomaz emenda. Por cada -erro uma palmatoada no primeiro e duas no segundo. Vamos a ver se são tão -fortes em analyse, como na bregeirice. - -Os mais pequenos, com as grammaticas abertas sobre os joelhos, estavam -pallidos! Nunca o tinham visto assim! Respirava-se alli uma atmosphera de -terror. O mestre tinha baforadas de colera, batia com a palmatoria sobre -a meza, arrumava os livros com impeto. O seu fim era crear em volta de -si, um ambiente de respeito. - -A consciencia gritava-lhe que não seria bastante punidor; mas estava -resolvido a amedrontar a propria consciencia. - -Para estabelecer uma intransigencia material entre si e aquelles que ia -julgar; para se recolher absolutamente no grave papel de juiz, cobriu -o rosto com o Virgilio. Não desejava ver os reus. Nenhum aspecto de -humildade ou compuncção o tocaria! - - * * * * * - -O Thomaz era o melhor dos seus estudantes. Traduzia Virgilio com -elegancia, penetrando-lhe as subtilidades litterarias. Foi elle quem -principiou a licção e não o Magalhães, como ordenára o professor. O -padre João conheceu a manha. Deixou-se enganar, até lhe achou graça. Um -ligeiro sorriso (o primeiro na tempestade do seu rosto), abriu-se como -uma flor de cacto. As paisagens tepidas e enganosas, d’uma suavidade -extensa, principiaram a desenhar-se-lhe deante dos olhos. Tityro e -Melibeu philosophavam na sua linguagem culta e suave, como o murmurio dos -regatos. A pastora das florestas, idyllicamente á sombra das arvores, -dizia do seu peito coisas ternas ao pegureiro amado, que tangia frauta -rude, juncto d’um ribeiro. O verso sahia claro, levantando-se n’uma -cadencia adormecedora. Havia as messes côr de manteiga, enchendo de -riqueza o valle; na encosta estendiam-se rebanhos de cordeiros, que -balavam por suas mães. Esta completa abstracção de materialidade, foi -gradualmente enternecendo o mestre encolerisado. - -Ao fim de poucos minutos, já respirava uma atmosphera de bondade -natural; havia descoberto o rosto incauto. Não déra pela transição. -Foi acompanhando em voz alta o discipulo que em breve o deixou só, -limitando-se a ouvil-o. Pouco depois, o professor estava de pé, no -meio da varanda, lendo com enthusiasmo, elevando-se nas maravilhas da -comtemplação egoista do poeta! Desapparecera o mestre iracundo, não havia -palmatoria. Boquiaberto, deante dos discipulos, exclamava: - -—Como isto é bello! Como isto é bello! - -Foi-se á caixa do rapé, tomou farta pitada, fungou-a sem rebuço, de -pernas escachadas. Cahiu extenuado de prazer, na sua cadeira magistral. -O Thomaz, que era velhaco, aproveitou o momento para dizer: - -—Não sabe o senhor padre João, o que nós vimos ha boccado? - -—Que foi?—perguntou. - -—A truta grande, a serenar, encostada á pedra branca! - -Tornou-se pallido e extatico! Endireitou-se na cadeira e disse, -esforçando-se por se mostrar tranquillo: - -—A truta grande, que anda ahi no rio!? - -—Vi-a com estes.—insistiu o discipulo. É assim!— designou o comprimento -d’um braço. - - * * * * * - -Estes maliciosos conheciam-lhe o fraco, como toda a gente. Muito mais do -que apaixonado amante dos classicos latinos, era um pescador de canna. -Esta paixão soturna é que lhe enchia a existencia. Por ella esquecia -deveres sacerdotaes, obrigações escholares e a propria comida. Borracha -á cinta, um naco de brôa, azeitonas... e lá andava um dia inteiro, pela -margem do rio, para baixo e para cima, a cocar. Principalmente se o peixe -picava, se enchia o cacifre, o seu gozo era infinito. Só para algum -_Senhor fóra_ é que tinham ordem de o chamar, com tres badaladas no sino -da torre. Esta ideia d’um moribundo se preparar para ir á presença de -Deus, era mais forte. E resmungava ao enrolar a sedela: - -—Como é para coisa d’estas, não ha remedio. - -N’estes termos, habil foi o estratagema dos discipulos, para se lhe -apoderarem do espirito benevolente, e conseguirem o sueto que desejavam. - -O caso, apontado pelo Thomaz, era grave. Havia annos que elle, ao -desafio com o morgado da Torre Velha, procuravam a gloria de pescar a -famosa truta grande! Era um animal matreiro, raramente se mostrava fóra -d’um fundo poço, onde as redes se não arriscavam. - -Juncto da pedra branca, só a tinham visto, duas ou tres vezes. -A revelação do discipulo fez com que o padre João desconhecesse -immediatamente os encantos bucolicos de Virgilio, as pompas litterarias -de Tito-Livio. Deante de si, não tinha o criminoso que minutos antes -lhe arrancára berros de colera; só via o individuo, que possuia um -conhecimento para elle inestimavel. - -—Então era a truta grande! Tu vistel-a bem?! Tu conhecel-a?! - -—Se vi! Se conheço! Estava a serenar muito junctinha á pedra. Quando -vinha á tona algum bichinho a rabear, ella nadava depressa e, zaz, -abocava-o, dando um pulo fóra d’agua. - -—Oh! com mil demonios!—exclamou.—Oh! minha Virgem Santissima, que lhe vou -metter o anzol, mesmo na guela! - -E depois um pouco mais sereno, no abatimento produzido por uma onda de -gozo considerou: - -—Ha quantos annos ando eu atraz d’essa ladra! O dia hoje está quente... -Sol de trovoada, é bom p’ra coisa! Que dirá o D. Luiz, quando souber?... - -Mostrava nas palavras verdadeira energia de luctador; o seu campo de -batalha era aquelle. - - * * * * * - -De entre muitas cannas, suspensas ao longo da parede da varanda, escolheu -a que tinha ponteira mais flexivel e resistente. Da gaveta da sua banca -de professor, tirou uma sedela de côr verde-agua. - -Calculava tudo para ficar victorioso, n’esta peleja que durava annos. -Alli não havia mestre, nem discipulos. Os rapazes davam-lhe conselhos, -offereciam-se para ir ás minhocas, e o Thomaz achou muito grossa a sedela: - -—És tolo—retorquiu o mestre. Não ves que é uma truta do tamanho d’um -savel! Se a apanho, vocês tem feriado tres dias! Como ficará o D. Luiz? -Ai! que regalo. - -O morgado da Torre Velha era o seu competidor na pesca á linha. - -Encontravam-se frequentemente n’este desafio tacito. A cada peixe que um -encacifrasse, o outro fazia um cumprimento espalhafatoso, mas odiento. -Ambos se julgavam com eguaes direitos, á creação de todo o rio. A truta -grande, porém, como um e outro tinham jurado apanhal-a, era motivo de -mais grave conflicto. Por causa d’ella tinham feito pesquizas especiaes. -Iam de noite, de dia, nas occasiões das cheias para juncto da azenha; -porque, de vez emquando, o formoso animal vinha-se alli refrescar, nas -aguas correntes. - - * * * * * - -Estudavam em separado, os estados climatericos, para calcularem o -momento proprio de conseguirem o seu fim. Quando a qualquer d’elles -parecia opportuno, tomava a canna precipitadamente, e ainda que o jantar -estivesse na mesa, abalava para o rio. Muitas foram as desillusões, -fadigas e contrariedades; mas tudo venciam com tenacidade heroica. A -dormir e acordados tinham momentos de subito terror: cada um via o -outro, apparecendo victorioso, com a truta presa do anzol, usando de mil -habilidades para a trazer á margem, sem partir a sedela. Porém n’esta -occasião o mestre de latim (talvez ainda resto do espirito de rigorismo -com que entrára na varanda) entendeu que devia continuar as licções e -disse encostando a canna ao canto: - -—Vamos primeiro acabar as licções. - -Os discipulos entreolharam-se aterrados! Por esta é que elles não -esperavam. A lembrança feliz não sortira effeito. Uma risonha invenção, -reduzida a nada. O plano de irem roubar n’essa tarde certas uvas -doiradas, completamente gorado! Todos os rostos se voltaram para o -Thomaz, que estava cabisbaixo e confuso. Porém, neste apuro, foi o sonso -do Esteves, que fallou: - -—A estas horas, já está por lá o senhor D. Luiz, com a sua canna... - -O padre João, deu um pulo na cadeira e perguntou rapidamente: - -—O senhor viu-o passar!? - -—Não senhor; mas no outro dia pediu ao moleiro que, quando ella por alli -apparecesse, o mandasse chamar. - -Era quasi tão terminante como se o tivessem lá visto. Seria mais acertado -partir immediatamente, antes que o da Torre Velha tivesse denuncia. -Tornava-se indispensavel tomar-lhe a deanteira. - -—Bem, bem... Essas licções na ponta da lingua para amanhã. E não me -vão para o rio, por causa das lavadeiras. Não gosto da lingua da tal -Lindoria, que vae por ahi badalar... badalar... - - * * * * * - -Partiu de canna ao hombro e n’um passo diligente. _Deus nobis heac otia -fecit_—segredava comsigo. Os discipulos fugiam para o outro lado, com -medo que ainda lhe desse a tineta, de voltar para traz. Corriam pelos -caminhos, davam saltos, guinchos... O Thomaz relembrou-lhes o que disse -o padre João, porém elles, não se importaram, continuando a correr e a -gritar sem fazerem caso. - -Na margem do rio, o sacerdote, armou-se de todos os cuidados para não ser -presentido do esperto animal. Ao dirigir-se á pedra branca, os passos -eram miudos, evitando as folhas seccas, que gemem debaixo dos pés. - -Que enorme prazer de vingança! Iria passar á porta do morgado, com -a truta pendente da mão. «Olha lá! rala-te p’ra’hi!»—havia de dizer -mentalmente. Nunca houve bandido que espreitasse com mais sagacidade a -sua victima. - -Já de longe levava a canna prestes, a sedela colhida na mão para a lançar -imprevistamente. Estava a pouca distancia, quando estacou, pallido de -colera! O D. Luiz, surgíra n’esse momento da porta da azenha, seguindo -rio acima com o anzol tambem prompto! - -—Olhem o excommungado do barbaças que teve denuncia!—exclamou o -ecclesiastico. Bem disseram os rapazes! - -O fidalgo, homem edoso, corpulento, tez morena das soalheiras, olhar -emprehendedor, tambem o viu e, provavelmente, faria identicas reflexões. - -Comprimentaram-se com sorriso desdenhoso e n’esse instante abriu-se entre -elles uma lucta colossal. - -Estavam quasi a mesma distancia. Approximarem-se atabalhoados era -inconveniente. Tanto um, como outro comprehenderam a gravidade do -momento. O peixe era um só e decerto não teria a condescendencia de -pegar nos dois anzoes ao mesmo tempo. O padre João humildou-se. Fez ao -inimigo um signal em que pedia uma tregua, com o fim de parlamentarem. -As circumstancias exigíam prudencia e ambos se afastaram da margem, para -virem á falla. - -O padre disse primeiro: - -—Assim não póde ser, morgado. Nem p’ra mim, nem p’ra Vossa Senhoria! - -—Que quer você que lh’eu faça? O rio não é grande? - -—Mas a truta é uma, e se vamos á porfia escapule-se. Vossa Senhoria sabe -que ella está alli. - -—Palavra que não! Porque diabo não está você a dar aula aos seus rapazes?! - -O sacerdote, zangado comsigo por lhe ter denunciado a truta, não pôde -supportar-lhe a censura: - -—E porque diabo não está o senhor a dormir a sua sesta! Ora é muito fina! - -Estavam furiosos um contra o outro; mas a occasião era inopportuna para -se descomporem. N’esse momento, juncto da pedra branca, a superficie do -rio enrugou-se, a agua espadanou e um peixe enguliu um insecto que vinha -nadando. - -—Seria ella?—rugiu o D. Luiz, com vontade de matar o padre. - -—Ná...—opinou este fazendo-se forte—Ella ha de fazer mais mossa. - -No fundo ambos acreditaram que podia ser. «Maldito sotaina!» «Maldito -barbaças!»—insultaram-se mentalmente. - -—Bem—disse o padre. Dois ao mesmo tempo é que não póde ser. Quer Vossa -Senhoria que se tire á sorte quem ha-de ir? - -—Valeu—concordou o fidalgo. - -D. Luiz tirou um pataco do bolso e perguntou: - -—Cruzes ou cunhos? - -—Cruzes que eu sou padre. Agora trapaceie, se lhe parece. - -—Não tenho os seus costumes, seu bebedo!—respondeu o fidalgo, mostrando -na palma da mão as cruzes da moeda. - -E atirando ao ar o pataco com força, viram-no cahir a distancia. Os dois -pescadores correram cheios de commoção. - -—Cunhos!—gritou o morgado ao ver a papuda efigie do rei D. João VI. - - * * * * * - -O padre João acceitou resignado a sentença. Encostou a um valado a canna, -tirou prodiga pitada da caixa de prata e foi-se sentar n’uma pedra -trauteando cantochão, talvez pela mesma razão que tem os condemnados á -morte, para pedirem que rufem os tambores, junto do cadafalso. D. Luiz -augmentava-lhe o supplicio, caminhando vagarosamente para a margem. Dois -annos de pesquizas e cuidados iriam terminar n’aquelle instante, pela -victoria do seu adversario? Desappareceria aquelle tropheu de gloria, que -lhe dera tantos sonhos enthusiastas? Principiou a cantar alto, desvairado -por um sentimento de malevolencia. O da Torre Velha advertiu-o: - -—Isso é para espantar, padre João? - -Callou-se ficando n’um abatimento triste. - -Ia presenciar a sua vergonha. O dia estava magnifico. Com ar de trovoada -o peixe pica, que nem mil diabos! E figurava-se-lhe na imaginação a truta -grande de guela aberta, aboccando a minhoca do barbaças. Era horrivel e -desoladora esta possibilidade! - -Mas porque é que o cubiçado peixe não havia de fugir? A maior parte das -vezes é o que succede—consolou-se. A elle mesmo não lhe tinha acontecido? -Ella a serenar, a serenar, muito quietinha, deante dos seus olhos, -nem parecia coisa viva... Procurava o lado de cima, lançava o anzol a -distancia para vir nadando pela agua a baixo como um bicho inexperto, e -afinal, a truta que para elle era o animal mais intelligente da creação, -escapulia-se por entre os penedos, que era um regalo! Quantas vezes isto -lhe succedera? Uma infinidade. - - * * * * * - -Ainda outra consideração: - -O morgado não era grande pescador de linha. Ignorava muitos segredos -da arte sublime e não possuia todos os petrechos. Teria elle escolhido -uma sedela bastante verde-agua para não ser percebida, e bastante forte -para resistir aos repellões do valentissimo animal?! A truta é o peixe -mais valente do rio, tem uma força que poucos apreciam. Talvez o seu -antagonista não soubesse calcular essa rijeza—considerou. - -Porém a gravidade do caso parecia ter dado ao D. Luiz uma intelligencia -agudissima. Atirou calculadamente o seu anzol e seguia pela margem, com -o olho álerta e prompto a dar a pancada, logo que chegasse o momento. -O padre João teve vontade de fingir uma dôr, só para o perturbar. A -anciedade do seu peito, crescia tumultuariamente, como oceano em furia. -Aquella alma bondosa, teve a ideia repugnante de desejar uma apoplexia -ao fidalgo! Mas reconhecendo-se criminoso, por este mau pensamento, -poz o coração á larga, tornou-se magnanimo e até, mentalmente, pediu a -Deus, que deixasse o morgado pescar a truta grande. Mas o da Torre Velha -relanceou-lhe um olhar triumphante e o padre João, logo mudou de parecer, -rosnando: - -—Ah! ladrão! que se ella te foge muito me hei de rir. - -O instante verdadeiramente supremo ia chegar. O anzol já se podia -calcular perto da pedra branca. - -Que infernal chamma abrazava o peito do ecclesiastico!? Poz-se de pé, -só para seguir nas minudencias toda a peripecia. O fidalgo, attento e -subtil, empregava o maximo da sua intelligencia. - -Afinal, sente a pancada! Curva-se a ponteira! O peixe estava preso! - -—Ah! grande maroto, que m’a roubaste—exclamou o ecclesiastico. - -O instincto obrigou-o a ser generoso. Gritou ao D. Luiz: - -—Agora é não a deixar fugir. - -—Elle é o deixa—respondeu com orgulho, o da Torre Velha. - - * * * * * - -Começou a lucta heroica entre o fidalgo e o peixe. O animal era valente, -podia quebrar a sedela, se o quizesse tirar sofregamente do rio. Tambem -podia acontecer rasgar-se-lhe o beiço ou metter-se debaixo d’alguma -lapa, se não tomasse precauções. Para obstar aos inconvenientes era -indispensavel cançal-o, com paciencia e perspicacia. Por isso D. Luiz -attrahiu-o a um logar conhecido, e alli o deixou rabear, defendendo-lhe o -mysterioso poço, onde a truta se podia enredar n’alguma raiz. Puchava-a -vagaroso e com delicadesa, consentia-lhe prudentes guinadas para o largo, -dava-lhe linha calculadamente. - -Ao fim de cinco minutos, tanto o fidalgo como o padre João, reconheceram -que o peixe estava prompto. Condescendia, deixava-se ir para onde o -levassem, mostrava-se fatigado e manso. - -O sacerdote, já resignado, seguia todas as manobras sem rancor. - -—Ande que apanhou—disse. Puche-a para perto e deite-lhe a mão debaixo -d’agua, se não, ainda a vê por um oculo. - - * * * * * - -O D. Luiz aproveitou o conselho. - -Attrahiu manhosamente o peixe ao sopé do muro, para que lhe ficasse -debaixo d’um terrouço. Depois desceu; deitou-se de barriga, tão baixo -que as barbas lhe tocavam na agua; introduziu um braço, guiando-se -pela sedela; e, quando conheceu que lhe tinha um dedo na guelra, disse -victorioso: - -—Esta já não foge, padre! Que bruta que ella é! - -Retirou o braço da agua, ergueu-se, ficando com o peixe pendente. - -—Olhem o que é! Um barbo!... um peixe reles!—exclamou o sacerdote. - -D. Luiz da Torre Velha, assim ludibriado pelo acaso, teve a ideia de -atirar com o barbo á cara do padre! Porem era uma injustiça—considerou. -Que culpa tinha de tudo isto o mestre de latim?! O seu abatimento, gerado -na fatal desillusão era patente. Pegou na canna, na sedela, no cacifre, -no peixe e... zaz!... atirou tudo ao meio do rio. - -—Nunca mais! Póde ter a certeza de que nunca mais volto a isto—affirmou -retirando-se. - - Abril—85. - -[Illustration] - - - - -[Illustration] - - - - -UM CORVO E UM PAPAGAIO - -(CONTO PARA CREANÇAS, OFFERECIDO AOS MEUS FILHOS) - - -Isto passou-se no tempo dos animaes fallantes: - -Um velho corvo, tendo de edade perto d’um seculo, n’um dia de muita -chuva e vento, veiu, já sem forças, poisar na beira d’um telhado. Este -valente da amplidão dos ares, tinha perdido toda a arrogancia do seu -porte; encolhido e a tremer não se podia já ter nas pernas. A extremidade -amarellada das suas pennas, outr’ora tão negras, mostrava que padecia -de velhice e de fome. Ao habitante eterno dos penhascos sombrios, ao -motejador das tempestades que assustam os homens, coube-lhe o vir dar -o ultimo suspiro da sua longa vida, perto do comedoiro farto e luxuoso -d’um vulgarissimo papagaio real. Este, de papo cheio, e aquecido pelo ar -tepido da cosinha, ao sentir a queda do corpo enfraquecido do corvo, -perguntou d’um modo gracejador: - -—Que é lá!? Quem passa? - -Uma voz quasi soluçante, conservando a meiguice dum peito corajoso, e o -vigor do suspiro d’um general moribundo nos campos de batalha, respondeu: - -—Gente de paz, amigo. Descanço um momento. - -—Olha um corvo!—gritou o papagaio cheio de medo. Aqui d’el-rei que me -come! Antonio, acode! - -Mas o corvo, com uma voz tranquilla e cheia de bondade, serenou-o: - -—Não te assustes... Não tenhas a meu respeito a opinião do povo, que -é errada. Sou meigo e infeliz. Tive filhos, casa, uma companheira de -muitos annos e tudo isto me roubaram os homens. Durante a minha vida d’um -seculo, tenho visto mais barbaridades praticadas pelos corações piedosos, -do que todas as que attribuem á minha raça maldita. - -O papagaio, ainda receioso, mas cheio de curiosidade perguntou: - -—Então não és feroz e cruel como dizem? - -—Não. Tenho affectos; no alto dos meus queridos rochedos, muita vez -escutei com prazer o canto dos passaros nossos irmãos e a alguns quiz -imitar. Amigos meus e meus irmãos viveram entre homens, tornaram-se -familiares, chegando a comprehender a linguagem que se falla. Eu sempre -gostei do ar forte e da liberdade das montanhas. Hoje enfraquecido e -cheio de fome fui arrumado para este telhado, pelo vento que toda a vida -escarneci. Ha muitos dias que não como, dás-me alguma coisa d’isso que -ahi tens? - -—Não posso—respondeu o egoista.—O meu arroz mal chega para mim... Tu -tambem o não comias. Do que mais gostas, segundo dizem, é de carne podre. - -—Que remedio tenho eu, á falta de melhor? É o unico alimento dos -infelizes que vivem nas solidões. Comemos tudo... a fome é negra. O teu -arroz cheira tão bem... Dá-me um bocadinho? Poucos minutos me restam de -vida. Deixa-me ao menos aproveitar da tua comida, isso que tu deitas fóra -e desprezas. - - * * * * * - -Fez um esforço para voar; mas não podia. No entretanto esse mesmo -movimento d’azas atemorisou o papagaio que bradou: - -—Não te chegues, não te chegues! Tu o que desejas é comer o meu arroz e -talvez engulir-me a mim mesmo. Nada de brincadeiras. Essa tua fraqueza -póde muito bem ser fingida, para me enganares. Não te chegues, senão -chamo o Antonio, o meu amigo cosinheiro, que arranja coisinhas boas para -o meu papinho, e se elle vem, olha que dá cabo de ti. - -O corvo, quasi agonisante, soluçava tremendo de frio e de fome: - -—Não me odeies, lá por eu ter má opinião em toda a gente. No tempo em que -era forte, quantas vezes não cobri com o meu corpo, muitos passarinhos -que não podiam resistir á tempestade?! Fiz o bem que pude. Soccorre-me -hoje, que estou para morrer. - -O papagaio, desconfiado e vaidoso, temendo que o rustico habitante dos -pincaros lhe sujasse a plumagem vistosa, ordenou: - -—Então deixa-te estar ahi. Vou pedir ao Antonio que te deite um pedaço -de carne, da que não presta. Talvez a não mereças; mas devemos ser -caridosos—concluiu espanejando-se. - -O velho corvo, já sem altivez, agradeceu com ternura na voz: - -—Obrigado. Nosso Senhor t’o pague. - -No telhado porém, não podia resistir aos impulsos do vento. Confiado, ou -talvez contra vontade, deu um vôo, do beiral onde estava, para o poleiro, -desculpando-se: - -—Tem paciencia. Não posso estar alli. Comerei n’este cantinho a esmola -que me fazes. - -Mas a proximidade d’aquelle corpo sujo, volumoso, d’aspecto selvagem, -assustou o timido papagaio real, que logo gritou fóra de si: - -—Ó Antonio. Traz o pau!... - -E esvoaçava sem querer poisar. Agarrava-se á corrente que o prendia ao -comedoiro. Tremia de verdadeiro medo, elle saudavel e nedio, diante -d’este habitante dos rochedos, que estava a dar o ultimo suspiro. - -O cosinheiro, ao ver o corpo immundo e repellente, perto do seu estimado -papagaio, exclamou irado: - -—Olha o ladrão de um corvo!... - -E dando uma pancada no animal desfallecido, atirou-o sobre o lagedo da -rua, onde o desgraçado morreu logo. Em seguida, o Antonio com o fim de -socegar o seu querido, passava-lhe com brandura a mão na cabeça dizendo: - -—Calla-te loiro, não tenhas medo. Queria-te fazer mal? Levou a sua conta. -Coitadinho do loiro, coitadinho do loiro. - -Assim se cumpre, muitas vezes, a justiça na terra. Meus filhos, não -se deve acreditar facilmente nas culpas d’aquelles que são infelizes, -principalmente quando precisam de que se lhes faça bem. - - Lisboa, Março, 85. - -[Illustration] - - - - -[Illustration] - - - - -A VISTA DO SALGUEIRO - -(CONTO PARA CREANÇAS) - - -Ambrosio era velho e vivia n’uma casa muito pobre, toda esburacada e -de telha vãa. Lá dentro, os ratos eram tantos como as formigas n’um -carreiro; e elle, sentado ao lume, via-os ir e vir, sem mesmo ter medo -d’elles. Por traz da casa havia um pequeno quintal, ao fundo corria o -rio, e pegado estava o moinho, habitado pelo moleiro, homem que elle -odiava mais do que a morte. - -Na tarde serena d’um dia d’agosto, Ambrosio, foi visto na margem, -sentado n’uma pedra, o queixo pousado nos joelhos, a olhar fixamente e -pasmado para uma arvore do outro lado. O ceu era dum azul pallido; as -aguas passavam silenciosamente, até entrarem na guela d’azenha, onde -produziam um sussurro; a roda movia-se de vagar; porque a força do rio -era pouca... O pensamento d’Ambrosio voava, n’um mundo de independencia -e maldade, planeando vinganças contra o moleiro seu inimigo. Era um odio -velho, nascido de conflictos diarios, aggravado por muitos nadas de que, -o do moinho, nem tinha consciencia. No corpo d’Ambrosio, magro como de -feiticeira, passava-se no momento em que o viram a olhar para o triste -salgueiro, uma lucta violenta e feroz. - -N’esse dia, apparecera-lhe em casa, um bacoro de perna quebrada. Sem mais -reflectir attribuiu logo o maleficio ao damnado visinho e foi para alli -ruminar uma vingança, que o deixasse consolado. Tinha um coração de pedra -este demonio de velho! Se não fora assim, como poderia gozar, inventando -martyrios, n’uma tarde serena de verão, toda silencio e bondade! - -Mas não se desprendia do terrivel desejo de matar o moleiro, com os -maiores soffrimentos e castigos, que no mundo tivesse havido! Seria capaz -de se vender ao diabo, só para conseguir o seu fim. - - * * * * * - -Veio-lhe esta ideia audaciosa e encarou-a resolutamente. Tão firme foi -o seu pensar, que logo o diabo em pessoa alli lhe appareceu deante dos -olhos, offerecendo-se-lhe para tudo, em troca da alma se elle realmente -lh’a queria vender. Era figura bem conhecida, a que estava deante de -Ambrosio:—meio homem, meio cabra; um comprido pello cobrindo-lhe o corpo; -um rabo a dar para um lado e para o outro, como o d’um lobo; os cornos -arrebitados na cabeça; e os olhos a coriscarem como dois carvões accesos. -O velho não se atemorisou, e como desejava vingar-se do moleiro, sentiu o -peito cheio de goso, quando o diabo lhe disse: - -—Ouvi a tua voz. Aqui me tens. Acceito o teu contracto. Pede o que -quizeres. - -—Então tu é que és o diabo?—perguntou. - -—Eu mesmo. Sou o que tudo posso depois lá do _Outro_ (apontou -desdenhosamente para o ceu). No meu reino posso mesmo mais do que _Elle_. - -—Fazes-me tudo quanto eu quizer para matar o moleiro? - -—Tudo, com tanto que me entregues a tua alma. - -—E para que queres tu a minha alma? - -—Para a guardar juncta com outras. - -Ambrosio observou escarnecendo: - -—Não acredito que faças bom negocio. Pelo que dizem os padres, a minha -alma não presta. Dou-ta, mas has-de trazer-me aqui o moleiro pelo -cachaço, e depois de bem amarrado e preso, deixares-me fazer o que eu -quizer. Mas quero-o bem amarrado e preso, porque tenho medo, entendes? - -—Se entendo!... E só queres isso? - -—Se perguntas é porque estás em maré de franquesa. Então vá lá: Quero -ser rei; ter muito dinheiro, muitos palacios, muitas cidades, muitos -cavallos, coisas ricas para comer. - -—Só isso? - -—Co’a breca! Muito boa deve ser a minha alma para ti. Olha, já que -offereces, quero uma sanfona, para tocar aos ouvidos de minha mulher, -quando ella estiver a resmungar... Tu sabes; ás vezes leva noites -inteiras ... ron-ron-ron... ron-ron-ron... - -—E por quanto tempo desejas tudo isso? - -—Essa agora é que nem parece sua, seu diabo! Isso por muito tempo. - -—Não posso dar-te tudo por mais de cinco minutos. - -—Cá me parece sovinice. Cinco minutos não é nada. - -—É tempo bastante de gosares todas as coisas que pedes e de te -aborreceres de todas ellas. - -Ambrosio deu uma estrondosa gargalhada, que encheu todo o valle, -repercutindo-se nos reconcavos visinhos. O diabo acrescentou: - -—É como te digo. N’esse ponto te mostrarei o meu grande poder. Um -minuto basta para eu fazer passar na tua vida, todas as grandesas da -terra. Outro minuto para percorreres todas as grandes cidades do mundo. -O terceiro minuto para tocares sanfona a tua mulher e ella morrerá de -desespero. O quarto para matares com toda a pachorra o moleiro. - -—E o quinto?—perguntou Ambrosio. - -—Esse é para te aborreceres. - -—Como tu és grande, diabo!—disse o velho enthusiasmado. Acceito. - -—Deixa tirar uma gotta de sangue das tuas veias. Com esta penna de mocho, -molhada no teu sangue, has-de pôr o teu nome n’este livro. - -O inimigo do moleiro sentiu uma picada no sangradouro e logo o seu nome -appareceu brilhante como o fogo, na pagina onde o escrevera, obrigado por -uma força irresistivel. - - * * * * * - -Depois um vento infernal levou-o pelo espaço. Tudo quanto via e gosava -eram deslumbramentos e delicias. Corria-lhe o corpo um calor de mocidade. -Ricos manjares eram servidos em pratos d’oiro; as festas mais divertidas -e luxuosas, passavam-se em palacios de marfim e cristal. Camas formadas -de fofas nuvens, appareciam dispostas para um momento de cansaço. Levado -milagrosamente, passou sobre os mares onde ruem tempestades, viu a seus -pés cidades cheias de bulicio e riquesa, os reis da terra offereciam-lhe -homenagem! Os montes de perolas, oiro e diamantes já eram para Ambrosio -coisas sem valor. Por causa d’um mosquito que lhe passou no nariz, teve -uma rajada de colera, que fez tremer toda a terra! - -Logo em seguida viu humilde e supplicante o moleiro, que já estava -preparado para o sacrificio. - -—Quero matal-o cá á minha moda—disse para o diabo. Hade ser n’um banco, -escochinado, como um porco. - -No momento seguinte estava junto de sua mulher tocando-lhe sanfona aos -ouvidos. A pobre velha, entrevada na cama, havia muitos annos, supplicava -com olhares, que lhe não atormentassem as ultimas horas de vida. Porém o -marido, homem de coração duro, foi implacavel até ao fim e viu-a morrer -no meio de soffrimentos horriveis. Depois é que deu começo á tarefa mais -importante, que era dar morte afflictiva ao moleiro. - - * * * * * - -Espatifal-o como um porco fôra sempre a sua ideia fixa. Ia realisal-a. -A scena passa-se no quintalito junto do rio. A victima, com a sua -grande estatura sae do moinho. Vem manietado e humilde, ao pé do algoz, -apresentar-se para o sacrificio. Ainda que não ousava levantar os olhos, -o seu porte era digno. - -—Ah!—disse Ambrosio com grande satisfação. Vamos lá a isto? - -O proprio carrasco, é que foi buscar um banco. Apontando para elle, -mostrou-o á victima, com riso de mau: - -—Hade ser aqui. - -O pobre moleiro conservava-se calado e triste. Não ousava ter olhares -colericos, talvez, para o suplicio lhe ser menos barbaro. Não pedia; -pois era um homem valente, digno, bondoso e reconhecia a crueldade do -inimigo. - -Ambrosio continuou: - -—Só para chegar a isto dei a minha alma ao diabo. Se mil almas tivéra, -todas daria, só para te cravar mil vezes uma faca no coração e tirar-te -mil vidas que tu possuisses. Quem foi que me quebrou a perna do bacoro? -quem me fez secar a larangeira? quem me roubou a panella velha, com que -eu tirava agua do rio? quem me estragou o mangericão? - -E como a victima dos seus odios, continuava a olhar para a terra, sem -responder, escarneceu: - -—Ah! não foi ninguem!... Estas coisas fazem-se por si. Alem de seres o -grande ladrão, que me roubou os feijões, és mentiroso. Pois vaes pagal-as -todas juntas, meu rico amiguinho. Ora deite-se n’esta cama. - -E com uma força que não era a do seu braço enfesado e velho, pegou no -moleiro que era um gigante, e estendeu-o como uma arveola sobre o banco, -atando-o fortemente com cordas. - -—Agora espere que vou aqui buscar uma coisa. - -Logo appareceu com um alguidar e uma comprida faca de matador. Mostrando -estes objectos, acrescentou: - -—Isto é um alguidar para receber o teu sangue vermelho e quente. Isto, -uma coisa a que se chama faca para te fazer cocegas no coração. Talvez -ainda tenha tempo para arranjar um serrabulho d’esse sangue e coração. -Vamos á obra que se faz tarde. - -Com placidez, gosando á vontade o martyrio do paciente, principiou a -arregaçar os punhos da camisa de estopa. Mostrou a faca reluzente á -victima que estava deitada. E voltando-se para o diabo disse: - -—Você muito póde, seu amigo. Como eu tenho aqui este fanfarrão, sem se -mecher? Tenho pena que meu pae me não tivesse feito duas almas, para lhe -dar a você! - -O demonio austero e grave não respondeu á lisonja. Ambrosio entrou de -novo no seu pardieiro e trouxe um pucaro d’agua quente. Tinha de molhar -a pelle da victima, para a ponta da faca entrar mais firmemente. E -chapinhando na garganta com a mão molhada, tinha uma respiração d’homem -feroz. - -Apontou a faca ao logar apropriado, principiou a enterral-a lentamente, -para a dôr ser mais prolongada, o sangue já sahia em borbotões do peito -arquejante do moleiro. - -—Não berra como os pórcos, este maldito!—considerou Ambrosio. - -Ia-lhe remexendo cruelmente com o ferro nas entranhas! Gosava a sua -victoria, fazendo soffrer a victima. - -Foi prolongando este goso até aos ultimos momentos do moleiro. E quando -reconheceu que alli estava definitivamente um morto respirou: - -—Ahhh!... Isto valia bem uma duzia d’almas! Quanto falta senhor diabo? - -—Vae acabar o tempo. Já lá te esperam. Olha! - -Apontou para a bocca d’um enorme forno, onde entre as labaredas -infernaes, estavam homens e mulheres dando gritos. Todas as velhas ideias -de Ambrosio sobre penas eternas, se condensaram n’aquella realidade. -Affrontou heroicamente um tal espectaculo, deante do qual o seu coração -deshumano, ainda teve coragem para beber do sangue do inimigo! Porém o -mundo infernal das chammas e gritos, crescia rapida e formidavelmente. -O diabo sereno e magestoso estendia-lhe a mão para o agarrar, com as -suas unhas de macaco! O aspecto do demonio era tão medonho e terrivel, -que o velho Ambrosio teve subitamente um grande medo, todo o seu corpo -estremeceu como se oscillasse o mundo, amedrontado e covarde ia a dar um -passo para fugir... - -N’esse instante escorregou e cahiu ao rio. Começou a berrar por soccorro -como um possesso. O seu choro era mais infeliz do que o de uma creança -sem mãe. - -A agua escaldava-o e sentia-se abrazado como no meio de labaredas -infernaes! Quem lhe havia de acudir n’aquelle instante de afflicção? Foi -o visinho, o moleiro, a sua victima que sahindo fóra do seu moinho o viu -debater-se covardemente, como se estivesse assoberbado, por ondas d’um -mar tormentoso! - -—Eh!... diabo de gato!—disse o collosso mettendo-se ao rio e agarrando-o -pela gola da vestia. Como diabo te aconteceu isto? - -Levou-o para sua propria casa, metteu-o na cama agasalhado, deu-lhe um -caldo quente para o revigorar. O velho Ambrosio, olhando-o receioso, -batia o queixo de medo e dizia com a cabeça debaixo da roupa: - -—Nada, não quero; elle póde deitar resalgar no caldo! - - Arcos, agosto, 86. - -[Illustration] - - - - -INDICE - - - PAG. - - A minha morte 1 - - Nosso Senhor Jesus Christo 17 - - O cego de Guardiam 27 - - A velhice d’um rei 51 - - A mulher de Lucas 73 - - Dois caturras 95 - - A postura dos ovos 115 - - Rende-te Centurião 129 - - A truta grande 163 - - Um corvo e um papagaio 197 - - A vista do salgueiro 203 - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Novos contos, by -Francisco Teixeira de Queirós and Bento Moreno - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVOS CONTOS *** - -***** This file should be named 62954-0.txt or 62954-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/9/5/62954/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Novos contos - 4º volume da Comedia do Campo - -Author: Francisco Teixeira de Queirós - Bento Moreno - -Release Date: August 17, 2020 [EBook #62954] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVOS CONTOS *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - -</pre> - - -<p class="center larger">COMEDIA DO CAMPO</p> - -<p class="titlepage smaller">LISBOA<br /> -<span class="smcap">Typographia de Adolpho, Modesto & C.ª</span><br /> -<i>Rua Nova do Loureiro, 25 a 43</i><br /> -1887</p> - -<hr /> - -<p class="titlepage"><i>4.º vol. da</i> COMEDIA DO CAMPO</p> - -<p class="titlepage larger">NOVOS CONTOS<br /> -<span class="smaller"><span class="smaller">DE</span><br /> -BENTO MORENO</span></p> - -<div class="tp"> - -<div class="tp-r"> - -<p class="hanging">La plupart des drames sont dans -les idées que nous formons -des choses. Les événements qui -nous paraissent dramatiques ne -sont que les sujets que notre -âme convertit en tragédie ou en -comédie, au gré de notre caractère.</p> - -<p class="tp-r-n"><span class="smcapuc">H. DE BALZAC</span>—<i>Modeste Mignon</i>.</p> - -</div> - -</div> - -<div class="figcenter titlepage" style="width: 100px;"> -<img src="images/deco.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="titlepage">EDITORES<br /> -TAVARES CARDOSO & IRMÃO<br /> -<i>5, Largo do Camões, 6</i><br /> -1887</p> - -<hr /> - -<p class="center">OBRAS DO MESMO AUCTOR<br /> -<span class="smaller">PUBLICADAS PELOS EDITORES DAVID CORAZZI -E TAVARES CARDOSO & IRMÃO</span></p> - -<table summary="Obras do mesmo auctor"> - <tr> - <td colspan="2" class="tdc">COLLECÇÃO DA COMEDIA DO CAMPO:</td> - </tr> - <tr> - <td>Contos—1 vol.</td> - <td class="tdpg">500</td> - </tr> - <tr> - <td>Amor divino—1 vol.</td> - <td class="tdpg">500</td> - </tr> - <tr> - <td>Antonio Fogueira—1 vol.</td> - <td class="tdpg">500</td> - </tr> - <tr> - <td>Novos contos—1 vol</td> - <td class="tdpg">600</td> - </tr> - <tr> - <td colspan="2" class="tdc">COLLECÇÃO DA COMEDIA BURGUEZA:</td> - </tr> - <tr> - <td>Noivos (quasi esgotada)—1 vol. de 500 pag.</td> - <td class="tdpg">1$000</td> - </tr> - <tr> - <td>O Sallustio Nogueira—1 vol. de 500 pag.</td> - <td class="tdpg">1$000</td> - </tr> - <tr> - <td>O Grande Homem (Comedia)—1 vol.</td> - <td class="tdpg">700</td> - </tr> -</table> - -<div class="figcenter" style="width: 200px;"> -<img src="images/footer1.jpg" width="200" height="50" alt="" /> -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header1.jpg" width="500" height="120" alt="" /> -</div> - -<h2 id="A_MINHA_MORTE">A MINHA MORTE</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-e.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Estava na convalescença d’um typho. Não teria -doze annos, mas na minha imaginação representa-se -ainda nitidamente esse longo periodo -de febre e de terriveis visões. Apesar de debil -e quasi enfesado resisti heroicamente ao soffrimento e -á molestia. Sempre de costas na cama, passava o tempo -a contar e recontar as tabuas do tecto e a fileira de cachos -dependurados ao longo da parede branca. Sentia-me -embebido em estupidez; as perguntas que me -faziam, ácerca do meu estado, do sabor dos remedios -e do apetite, ficavam sem resposta. Olhava para todos -sem comprehender o que diziam, ou, pelo menos, sem -ter os meios de exprimir tudo quanto de violento e de -extraordinario se passava em todo o meu corpo. Era -como um empastamento geral da minha carne, uma liquifação<span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span> -do meu cerebro, a ausencia de mim mesmo -para sentir. Até as dores que soffria, tendo um resto -de consciencia para saber que se passavam em mim, -attribuia-as mais facilmente a outro corpo. O meu interior -era o de uma enorme fornalha; o proprio halito parecia-me -de labaredas brancas, formadas de ar incandescente. -As minhas sensações reduziam-se a uma sede -permanente, que se não podia mitigar. Por mais que -me humedecessem a lingua, nem por um instante m’a -podiam tornar molle e flexivel: era uma lingua de papagaio, -que seria facil quebrar como se fôra um caco. -Ainda me recordo de quanto me custava a supportal-a -na bocca e de ter, por vezes, desejos de a arrancar.</p> - -<p>Mas depois fui melhorando. A volta das sensações -ordinarias fazia-se uma a uma, como pombos escorraçados -d’um pombal. Era um renascimento gradual, e -noto que appareceram primeiro as sensações mais elementares, -aquellas em que o homem tem menos imperio. -Todos os dias a febre decrescia, reconquistava um -pouco do viver antigo, como se eu tivesse feito uma viagem -ao chimerico paiz das sombras, e de lá voltasse por -um comprido corredor de muitas legoas, approximando-me -instante a instante da benefica luz do sol, que -se visse brilhar ao fundo, cá n’este mundo vulgar que -todos habitamos. Entrei por fim em convalescença. O<span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span> -facultativo consentiu que me levantasse todos os dias -um nadita. Já podia ir fazendo tentativas de chupar a -minha aza de frango. O enjôo da comida ainda era -grande, por isso o meu desgosto era enorme. Reconhecendo-me -melhorado não estava nas condicções das outras -pessoas...</p> - -<p>No emtanto a minha alegria e satisfação voltaram -com o franco apetite. Tudo era pouco para mim, não -havia coisa que me satisfizesse e era preciso que me ralhassem -para não ser tão guloso, que me podia fazer -mal. Até não queria que os outros comessem ao pé de -mim; porque isso me dava inveja, e até raiva, ficando -a reparar com olhos avaros e insaciaveis. O medico -argumentava que o meu estomago devia estar fraco, -que não supportaria sem damno grandes quantidades; -mas eu sentia-me como uma grande planta, que lançasse -por toda a parte as suas ambiciosas raizes, para -se sustentar á custa da seiva que pertencia ás outras e -roubar-lh’a com o poder absorvente de uma enorme -bomba. A comida de predilecção n’essa minha convalescença -eram as boas sardinhas de Vigo, cabeçudas e -grandes, que os gallegos iam vender á minha terra. Á -distancia de 26 annos, ainda hoje sinto no paladar o sabor -d’essa incomparavel comida.</p> - -<p>A chuva d’esse aspero mez de dezembro era frigidissima,<span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span> -o vento assobiava pelas frinchas das portas. -Como já podia andar por toda a casa ia de vez em -quando ao mirante, olhar para os montes que estão ao -norte, e contemplava-os todos cobertos de neve, como -se fossem pyramides collossaes, formadas d’assucar.</p> - -<p>Mas a chuva e o vento que soprava d’aquelle lado -obrigavam-me a descer; pois que a janella não era -guarnecida de vidraça. N’uma d’essas occasiões até, a -saraiva me veio bater na cara e eu, com medo de recahir, -fui-me logo sentar ao lume, que estava vivo, imponente, -abrangendo grandiosamente em labaredas, os -potes de ferro que estavam ao redor.</p> - -<p>A nossa cozinha era comprida, terrea e de telha vã. -A lareira, grande, coberta pelo enorme e phantastico -chapeu da chaminé, muito farta de lenha—podia aquecer -uma duzia de pessoas á vontade. Na vespera do -sarrabulho ou na noite da consoada, essa cozinha tomava -o aspecto glorioso d’um templo em festa. Havia -maior numero de potes; as labaredas melhor sustentadas -enroscavam-se umas nas outras sempre na mesma -altura, como parafusos sem fim. Era manifesta e patente -a alegria, a satisfação, o contentamento que este bom -fogo produzia em todos, principalmente quando as castanhas -estoiravam debaixo das brazas e sabendo-se que -estava perto a enfusa de vinho.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span></p> - -<p>Mas quando desci apressadamente do mirante, batido -no rosto pela saraiva e com o tetrico medo de recahir, -a cosinha estava solitaria e lugubre. Era dia ordinario, -o lume bem acceso, o pote da ceia gorgolhava -com a fervura, os gatos e os cães, fraternalmente -misturados, enroscavam-se do lado do forno. Fui-me -sentar ao meu canto, contando estar ali até á reza. Lá -fóra das portas era quasi escuro, a chuva e o vento -passavam ruidosamente sobre o telhado, produzindo -ressonancia dentro da chaminé. Todo este barulho exterior -e material tornava mais sensivel a minha solidão. -Sabia que minha avó, estava á janella na dupla occupação -de rezar as suas contas e de vigiar se os visinhos -traziam sardinhas da praça, que era para tambem as -mandar comprar. Porém o rom-rom dos gatos, o arfar -do lume, o ralho da fervura e o sussurro do vento formavam -um ambiente caracteristico de solidão ao qual -se veio juntar a nota sentimental e lugubre do toque -das trindades. A torre da egreja era sobranceira á cosinha -e as nove badaladas cahiram-me espaçadamente -no cerebro imprimindo uma sensação gemebunda e prolongada. -Apezar da viva chamma do lume ser propria -para desfazer tristezas, sentia sobre mim o lendario -pezo da noite, com todo o seu imprevisto de sombras. -E a enorme chaminé, negra de ferrugem, abria sobre<span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span> -mim um espaço indefinido, d’uma amplitude amedrontadora. -Diante dos meus olhos, em correnteza, estavam -pendurados os salpicões e eu contava-os machinalmente -até á minha chouricinha e á de meu irmão, -que estavam juntas, á esquerda. Fui pouco a pouco -cahindo n’um longo esquecimento, fui perdendo a consciencia, -a ponto de quasi se extinguir o meu ser.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Provavelmente o calor benefico do lume concorria -para o entorpecimento. Já quando o sino acabou de tocar -as «ave marias» eu voejava n’uma atmosphera de -sensações vagas, como suspenso no meio do espaço. -A cadencia das badaladas deu-me o impulso ondulatorio -que me atirou por desconhecidas regiões, fóra de -toda a contingencia. Um pingo d’agua cahia a compasso -da torneira da cosinha e o som tristonho parecido com -o gemer d’ave, feria-me levemente o ouvido como se -fôra o desfallecer d’uma d’essas musicas ideaes, que só -existem na região do azul. O estrepito do vento tambem -se distanciára de mim, ouvia-o dilatado e longinquo, -com a doçura e encanto do som d’um pinheiral. -Estava envolvido, tapetado d’uma substancia isoladora -que me fazia perceber attenuadas todas as sensações. -O meu pensar vago e indeciso, traduzia esta especie -de anniquilamento das minhas forças physicas e a perda -das minhas idéas pessoaes. Reconhecia-me consubstanciado -n’este mundo novo e abstracto, balouçando-me<span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span> -n’uma amplitude infinita como a da morte. Cá na minha, -eu já não pertencia ao numero dos vivos apesar da memoria -me reproduzir claramente toda a realidade material -que eu gosára e soffrera, durante os annos da -convivencia terrestre. Confesso que tive saudades do -que fôra. Gostava da vida, mesmo simples e humilde -como sempre a passára. Viver por viver e para viver, -é que me enthusiasmava e não as altas posições da -fortuna e da gloria. Todo o homem tem dentro em si -tantos meios de ser feliz, que não saber aproveital-os é -signal de desequilibrio e doença. Por isso, a idéa de ser -um morto não me alegrava e, bem pelo contrario, -principiei a apavorar-me á maneira que percebia que -isto era sério. Deixar assim de repente, sem uma despedida, -a vida terrena, na qual eu ia sonhadoramente -gosando a minha obscuridade, lá me parecia duro. E -sem enterro, sem chôro de parentes, sem nenhuma -pompa funebre... como é que eu tinha morrido? Depois, -independente da questão do céu e do inferno, -aquillo lá pelo outro mundo não é satisfatorio. Antes -de entrar nas regiões da perpetua ventura ou do infinito -castigo eu não via senão caras tremendas, que nada -tinham de commum com as expressões minhas conhecidas. -Os que riam era com esgares terrificantes, boccas -arrepanhadas e olhos de fogo que me faziam medo;<span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span> -os que choravam abriam taes guelas, e figuravam-se-me -tão pavorosas as suas cabelleiras formadas de -florestas, que me senti gelado, não podendo sequer -encaral-os.</p> - -<p>Não me faziam mal, não se approximavam de mim; -mas eram desagradáveis companheiros na sua impavidez -sinistra. Tambem, lá por esses espaços, que levianamente -se chamam sideraes, eu não encontrava senão -precipicios, abysmos sem fim, montanhas cujos pincaros -a minha vista não podia alcançar. Por cima da cabeça -tudo eram nuvens encastelladas e carrancudas, que -deviam conter fogo e tempestades para myriades de seculos. -Um raio de sol palpitante rompeu n’um momento -esta espessura; mas isso, maiores saudades me fez, por -me lembrar com entranhado amor tudo quanto tinha -perdido de carinhoso e bom. Nunca senti como n’esse -instante o preço da vida. A epopeia grandiosa da eternidade, -attrahia-me muito pouco, não seduzia, com as -suas magnificencias, a imaginação simples da creança. -Por isso a minha anciedade, a minha tortura cresceu -progressivamente. Nunca mais voltaria a gosar a tranquilla -convivencia do rio, dos montes, das campinas e -dos penhascos?!... O canto dos passaros, as paizagens -floridas, o melancholico luar do outono, a exhuberancia -da primavera, os gosos familiares, as festas,<span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span> -as vindimas, as amizades... tudo teria acabado para -mim?!</p> - -<p>Que tristesa, que amargura, que saudades me torturavam! -As lagrimas cahiam-me em fio, sentia-me soluçar, -a minha admiração pelos sublimes coros celestiaes, -diminuia d’um modo consideravel. E tamanha era -esta saudade e esta dôr que nem o aspecto patente do -fogo da querida lareira, dos potes a ferver, dos salpicões -pendurados diante dos meus olhos, me dava a precisa -tranquilidade e resignação. Não me lembro mesmo -se cheguei a considerar estas visões enganosas, como -perfidos meios de transacção, para eu me habituar á outra -vida. O meu desespero só fazia augmentar, sentia -pungentissimamente quanto perdi. A minha chouricinha, -que estava ali em frente de mim, já eu não a poderia -saborear, em quanto que meu irmão, que era um vivo, -havia de comer as duas e talvez muito regalado.</p> - -<p>Principiava a reconhecer-me fatigado, exhausto de -forças e ambicionava um momento de repouso. Visto -estar morto, a tormentosa viagem atravez dos espaços -infinitos havia de acabar. Decerto era este o pavoroso -caminho da eternidade, que teria no fim o ceu ou o inferno. -Bem sei que logo para começo podia ser o purgatorio, -como logar de purificação; mas declaro francamente -que esta transigencia nos soffrimentos não me<span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span> -foi muito consoladora. Talvez pelo receio de ter a vida -cheia de peccados, julguei mais provavel não vir a ser -um dos eternos habitantes do paraizo!... Estaria mais -satisfeito, se o meu destino estivesse no ceu—atmosphera -ideal, mais pura que o diamante, de cor mais -serena que a perola, logar onde não ha noite, nem -sombra, onde os cantos são perpetuos, como é perpetua -e renovada de instante a instante a floração d’aquella -primavera sem fim. No entretanto, se me fora licito ter -uma opinião, haveria declarado preferir a todas as sublimidades -ideaes, o continuar na terra contingente, com -todos os seus males, desgostos e contratempos. Porem -já que me achava no outro mundo desejava antes o paraizo -do que o inferno, ou mesmo o purgatorio. Infelizmente -este horrendo caminho que seguia, com a velocidade -d’um cyclone, não me dava esperanças de me -levar á patria eternamente luminosa e bella. O ultimo -precipicio em que estava era d’um horrendo incomparavel. -Por todos os lados a treva sem limites, e para o -fundo um inconcebivel funil por onde ia resvalando!</p> - -<p>Como no terrivel naufragio do conto de Poe, no qual -todos os destroços eram engulidos pelo redemoinho infernal -do Maelstrom, assim o meu corpo, o meu cerebro, -o meu pensamento soffriam as torturas d’um movimento -concentrico. Sentia que de instante a instante me<span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span> -apertavam mais e mais as paredes d’esta nova prisão. -Descendo sempre estava cruelmente atormentado e os -meus olhos cheios de pavor não percebiam a menor -restea de luz. A minha existencia conhecia-a sómente -pela dor d’uma perna onde cravára com desespero as -proprias unhas. A superficie interna do funil era lisa a -ponto de lhe não perceber o contacto.</p> - -<p>Os circulos que eu descrevia eram cada vez menores, -a ponto de para o fim redemoinhar em volta -de mim mesmo, como se houvera um eixo material, -servindo de ponto fixo. Evidentemente estava a chegar -ao meu pavoroso e tetrico fim! Uma sensação de frio -penetrava-me até á medula dos ossos, apesar de que, -por uma inexplicavel contradicção, conservava no meu -corpo viva reminiscencia do meu calor natural e procurava -concentrar-me, aconchegar-me, metter-me por assim -dizer, para dentro de mim mesmo.</p> - -<p>Veio uma onda de calor que me lambeu a cara... -Talvez o desmoronamento da pilha d’achas que formavam -a fogueira. Esta sensação, de certo agradavel -em outras circumstancias, poz-me em grande terror; -pois que mais me confirmou na ideia da proximidade -do inferno. Lá ia eu cahir n’esse fogo perpetuo, que -tão horrendo antevira nas descripções dos missionarios! -E apesar do pavor, irritava-me esta evidente injustiça<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span> -d’um poder sobrenatural. Que peccados teriam commettido -os meus doze annos, para merecerem tão severa -punição? Já não tinha lagrimas, sentia-me anniquillado -e sem força para me oppor. O meu incomparavel infortunio, -não se limitava a perder o gozo da vida -terrena, que tanto amava. E transigia covardemente: -Se, ao menos, fosse trocar o mundo, a familia, os brinquedos, -a caça aos pardaes, a pesca aos barbos, a minha -chouricinha... pelo reino do ceu, vá lá. Não teria -ganho, mas vá lá. Porem abandonar todas estas -coisas sympathicas e ter para todo o sempre de gritar -entre chammas, com o diabo a espicaçar-me e monstros -horrendos a deitarem-me perpetuamente pelas guelas -chumbo derretido, breu e azeite a ferver!... era o que -eu não podia levar á paciencia. A grande afflicção em -que me vi deu-me ainda um momento de revolta, que -resultou d’uma onda de sangue novo que se me espalhou -no cerebro. Por mais que esquadrinhasse na consciencia, -por mais que posesse aberto e claro o meu -passado insignificante, não me sentia merecedor de tão -formidavel pena! Resolvi interpor recurso. Deus é infinitamente -misericordioso e de certo me ouvirá—pensei. -Alem de que eu tinha sobejos motivos para assim -proceder, attendendo ao modo excessivamente escuro -como correra o meu processo. Não me lembrava<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span> -de ter apparecido na sua divina presença; não vira -aquellas venerandas e compridas barbas, brancas como -espuma do mar; não me recordava dos coros dos anjos -e das virgens, nem das incomparaveis bellezas da -celestial habitação... Quem sabe se eu ia para o inferno -por engano! Quem me dizia não ser eu victima -de manobras d’algum verdadeiro condemnado que tivesse -tido artes de se trocar por mim?! A minha perturbada -intelligencia comprehendia esta possibilidade. Por -tanto—resolvi—levantemos um clamor bem alto, uma -supplica formidavel, que alargando-se por este funil em -que me acho, suba aos ouvidos justiceiros do bom Deus, -grande e omnipotente. A convicção da minha innocencia, -dava-me força para tamanha ousadia. E tomei enorme -folego, enchi o peito d’ar, concentrei em mim todas -as energias da terra. Da minha garganta sahiu um estridente -brado que se dilatou pelos espaços! Ao mesmo -tempo fugi pela cozinha fóra e fui-me agarrar a minha -avó, que resava as suas contas encostada á janella. Contei-lhe -toda a minha afflicção e os tormentos mentaes em -que me vira. Ella reconheceu logo, bem como depois -o confirmou um sacerdote nosso amigo, que este facto -devia ser tomado como um aviso do ceu. Apesar da -minha pouca edade, este toque divino, mostrava claramente -que eu andava em peccado mortal. Uma confissão<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span> -geral de todo o meu negro passado era urgente. -Os esconjuros deviam completar esta obra de limpeza -espiritual. Procedeu-se por esta forma e os exorcismos -foram resados por um padre gallego, que era homem -eminente em escorraçar demonios.</p> - -<p class="date">Janeiro de 86.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 200px;"> -<img src="images/footer2.jpg" width="200" height="100" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header2.jpg" width="500" height="120" alt="" /> -</div> - -<h2 id="NOSSO_SENHOR_JESUS_CHRISTO">NOSSO SENHOR JESUS CHRISTO</h2> - -<p class="right">(<i>A Valentina de Lucena</i>)</p> - -<p>Entardecia. Como o brilho do sol desaparecera, -uma illuminação egual ameigava a paisagem. -Os ultimos soutos de castanheiros transmontanos, -pareciam nodoas de relva nas encostas dos montes. -A escuridade cahia lentamente sobre os povoados, -como um tenue orvalho. A physionomia das terras, em -especial dos arvoredos, principiava a ser minhota. Havia -mais d’uma hora que a carruagem rodava por uma -estrada em declive. Disse-me o cocheiro, que algumas -casas e uma egreja agglomeradas n’um valle, na margem -direita do Tamega, formavam a povoação de Ribeira -de Pena. Montanhas severas e apocalypticas emmolduravam -este bocadinho de campo, no qual eu -principiava a reconhecer a paisagem querida dos meus -primeiros annos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span></p> - -<p>Vinha só e sentia-me triste sem motivo. O continuado -e monotono barulho da carruagem, o assobio dolente -e vago do cocheiro, a amortecedora luz do crepusculo -infiltrando-se por entre as penedias das encostas, -os renques d’arvores do valle tinham-me lançado -n’um estado de inconsciente melancolia. Já cançado da -jornada, ainda me faltavam muitas horas para chegar ao -Arco, logar onde ficaria essa noite. N’um estado intermedio -ao somno e á vigilia, as ideias perpassavam-me -no cerebro, umas vezes, como nuvens transparentes e -macias recordando momentos d’agradavel convivencia; -outras vezes, encastelladas e escuras, como são as ideias -proprias d’aquelles que vão perdendo o contente palpitar -da mocidade!... Oh! minha encantadora e modesta -infancia, eu que sou um dos homens que mais -tem rido, dize-me tu se já algum dia fui alegre, despreocupadamente -alegre!...</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Á ponta da noite, no momento em que á luz indecisa, -os objectos tem adquirido um esfumado que os -avoluma, a carruagem parou á porta d’uma taberna -para se desaguarem os cavallos. Os meus nervos foram<span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span> -chamados á realidade com energia. N’um banco de pedra, -d’esses toscos e muito usuaes que se encontram -juncto das habitações dos camponeses minhotos, estava -sentado um velhinho magro, tendo ao lado um -saquito enfiado n’um páu e uma pequena almotolia -d’azeite presa á cintura por uma correia. O seu rosto -sumido era gracioso e terno como o d’uma creança; o -sorriso natural, que lhe resaltava da expressão, parecia -sahir d’um berço.</p> - -<p>Havia o quer que fosse de inconsciente e ethereo, -de amoravel e bondoso, no rosto d’esse pobresinho. -Ali ninguem o conhecia; mas elle olhava para todos -com uma attenção familiar e intima. Um porco atrevido -roçava-se-lhe pelas calças, roncava-lhe junto á cara -e elle afastava-o com humildade e carinho, dizendo-lhe -até palavras de conselho. De certo os seus nervos delicados -se encommodavam com aquelle grunhir insolente; -mas nem por isso se mostrava menos attencioso, -para com o bruto. Fallava a todos tão suave e brandamente -que a sua voz semelhava um murmurio e uma -consolação á cabeceira d’um enfermo. O seu olhar, -d’uma tranquillidade de justo, prolongava-se pelo espaço -infinito, quando olhava para o ceu. Os cabellos -brancos, enquadrando-lhe o rosto pacifico, eram limpos, -finos e fluctuantes como floccos de neve, tinham a<span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span> -transparencia do nimbo dos sanctos. Tocou-me aquella -bondade, aquelle ar compadecido e altivo. Pareceu-me -um pedinte e olhei-o com attenção antes de o interrogar. -Elle sorria-se para mim, com a expressão d’uma -pessoa que conversa junto d’uma lareira aldeã, quando -a fogueira crepita e o vento uiva victoriosamente sobre -o telhado. Sentia-me attrahido para elle e então perguntei-lhe -mesmo de dentro da carruagem:</p> - -<p>—Vocemecê vem de longe?</p> - -<p>Parecera-me que sim. Os pés tinha-os doridos, talvez -d’uma longa caminhada. Estava alli a descançar. A dona -da taberna disse que o não conhecia e que não era das -redondezas. O velhito, como eu lhe fallei, levantou-se -sorrindo e approximou-se. E n’um tom de mysterio, -para que mais ninguem o ouvisse, segredou-me:</p> - -<p>—Se venho de longe? De muito longe. Nem eu -mesmo o sei.</p> - -<p>Tomei estas palavras como de soffrimento resignado -e tive piedade.</p> - -<p>Não sabia d’onde vinha, estava alquebrado pelo -cansaço e não encarecia as suas dores para me pedir -esmola! Conheci-lhe pela expressão dolorida do semblante, -quando pôz os pés no chão para me vir fallar, -que andára muitas leguas a pé. Talvez para ir ver -uma filha enferma! talvez para exprimir outro grande<span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span> -affecto que lhe restasse no coração! Tantas terras percorrera, -que até a sua memoria enfraquecida pela edade -não retivera os nomes! Ter-se-hia perdido no caminho?...</p> - -<p>Insisti com modos de incredulo:</p> - -<p>—Essa é boa! Então não sabe d’onde vem?</p> - -<p>Olhou-me com ar sereno e firme como de quem tinha -dicto uma coisa perfeitamente exacta.</p> - -<p>—Não senhor. Ninguem sabe!...—segredou-me -com extrema reserva.</p> - -<p>E acrescentou sorrindo intelligentemente:</p> - -<p>—A mim ninguem me conhece; mas eu conheço -todo o mundo. Bem sei quem o senhor é... É o senhor -conde. Ah! cuidava que não sabia?...</p> - -<p>No rosto do pobresito appareceu uma aurora de -triumpho. Para lh’a sustentar perguntei muito baixo:</p> - -<p>—Mas como advinhou? Quem foi que lh’o disse?</p> - -<p>A enormidade do seu poder reconheci-a no desdem -superior com que me olhou. Continha lá dentro infinitos -thesouros de sabedoria e perspicacia, á qual não -resistiam os insondaveis mysterios do amplo ceu. Quem -era eu, um misero conde, diante d’aquella omnipotencia -que considerava o globo terraqueo como uma insignificante -bolinha de pão?! Na minha tristesa e confusão -devia-se reconhecer que o comprehendi; pois que -o velhinho, para me consolar acrescentou:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span></p> - -<p>—Eu sei tudo, advinho tudo. Se não digo d’onde -venho é porque ando por todo o mundo. Agora ahi -vou eu para Hespanha ver se componho <i>aquillo</i> e se -acabo com todas essas questões que por lá vejo. Levo -aqui—designou o saquito—os papeis e livros necessarios -para dar luz e felicidade <i>a todos</i>—sublinhou.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Entristeceu-me ver tamanho valor e convicção reunidos -n’um corpo assim fragil. Pedi-lhe com interesse e -bons modos que me deixasse examinar os seus thesouros. -Accedeu da melhor vontade abrindo primeiro o -sacco d’estopa, dentro do qual estava um de panno -preto, contendo ainda outro de chita de ramagens. O cocheiro -e a dona da taberna aproximaram-se ironicamente -para disfrutarem o pobre; mas elle, com um verdadeiro -olhar altivo e nobre, afastou-os significando, -que taes segredos não eram para espiritos grosseiros e -motejadores. A meu pedido os indiscretos retiraram-se -e por fim o pobresito mostrou-me envolvidos em farrapos -e bem ligados com fitas de cores e cordeis, tres -velhos alfarrabios em lingua hespanhola e algumas folhas -manuscriptas, d’uma lettra amarella e inintelligivel. -Pelo meio havia folhas seccas de castanheiro, algumas -flores mirradas e pequeninos ramos d’alecrim. Examinei -com escrupulosa attenção estas preciosidades, dando-lhes -grande valor! Elle seguiu todos os meus gestos<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span> -e movimentos faciaes com olho sagaz e aspecto orgulhoso. -Quando lhe entreguei as suas preciosas reliquias, -encarecendo-lhas elle concluiu:</p> - -<p>—Já o senhor conde vê que não é ninguem ao pé -de mim.</p> - -<p>—Oh! de certo!...</p> - -<p>E depois que já tinha guardado os seus livros e papeis -inestimaveis perguntei-lhe:</p> - -<p>—Mas como vem de muito longe deve trazer fome. -Quer que lhe dê alguma coisa?</p> - -<p>Sem altivez respondeu:</p> - -<p>—É da lei acceitar sempre a esmola. Fome não -tenho. Ando por aqui ha um rôr de seculos e nunca -senti fome.</p> - -<p>E com um sorriso delicioso, como quem faz uma -revelação:</p> - -<p>—Isso é para vocês que são d’este mundo. Para -mim não, que não sou de cá.</p> - -<p>—Ah! vocemecê não é de cá?</p> - -<p>—Eu sim!...</p> - -<p>E sorriu-se da minha estupidez, da minha falta de -comprehensão, abrangendo n’um infinito olhar toda a -amplitude da terra ao ceu! Habitava essas regiões -ideaes e interminaveis do azul, suspenso na serena ondulação -do ar, e bafejado da poeira brilhante da luz. A<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span> -expressão humilde e conformada do seu rosto, a grandesa -e compaixão que lhe resaltava da voz fraca e singela, -o seu triumphante sorriso de tranquillidade... -convenceram-me de que este velhinho resumia em si -uma entidade poderosa. Quem julgará elle representar -n’este mundo?—perguntei a mim mesmo. Talvez algum -sancto milagroso, algum lobis-homem das lendas, algum -bruxo afamado entre o povo!... A convicção da sua -immaterialidade e do seu immenso poder reconhecia-se -que a tinha, pelo tom desdenhoso e superior com que -se referia a tudo que o cercava. D’elle só veriam sahir -protecção e bondade:—os beneficios que um acto rudimentar -do seu querer podia espalhar sobre a terra -eram incalculaveis. Um simples designio da sua vontade -tornaria os homens eternamente felizes ou desgraçados. -Não comia, não se cançava, não havia ponto -na terra d’onde tivesse partido ou que devesse occupar...—o -mundo, o ceu, os espaços inconcebiveis -eram a séde da sua ubiquidade. Nem a dôr, nem o falivel -o tocava. A misera fraquesa humana não a -sentia, a contingencia do globo merecia-lhe um pensamento -compadecido. Sereno e grande vivia no seu reino -especial!...</p> - -<p>Qual seria pois, o personagem imaginario que este -velho magro, de rosto sumido, alegre, bondoso, expressão<span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span> -de soberba e de compadecido, julgava representar? -Perguntei-lh’o com a premeditada cautela que elle -empregava nas suas palavras:</p> - -<p>—Então quem é vocemecê?</p> - -<p>—Pois ainda não advinhou?! Olha bem para mim -creatura!... Nosso Senhor Jesus Christo!</p> - -<p>E fixando-me com tremenda piedade concluiu:</p> - -<p>—Ando aqui para os salvar a todos.</p> - -<p>Dei-lhe uma esmola. O pobresito retirou-se serenamente, -depois de me recommendar:</p> - -<p>—Agora caluda, por causa d’esta gente. São hereges, -não acreditam.</p> - -<p class="date">Janeiro de 85.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 75px;"> -<img src="images/footer3.jpg" width="75" height="115" alt="" /> -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header3.jpg" width="500" height="120" alt="" /> -</div> - -<h2 id="O_CEGO_DE_GUARDIAM">O CEGO DE GUARDIAM</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-l.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Logo que expirou o cunhado, José Domingues -cahiu n’um scismar atormentado. Só elle comprehendia -a grande desgraça que n’esse dia -entrára na casa de sua irmã, pobre mãe de cinco filhos, -que tinha para os sustentar, unicamente uma roca. Lembrou-se -de os trazer todos para onde a si; mas como -poderiam viver tantas pessoas com duas pipas de vinho -e um carro de pão? A pensar n’isto se consumia o -pobre José Domingues, e aquelles olhos cegos desde -tenra infancia, estavam grossos como punhos de tanto -que tinham chorado. Até perdera o gosto á rebeca, -prenda que seu tio frade lhe deixára, juntamente com -as territas de que vivia. A comida entrava-lhe na bocca -só á força, depois de muito o apoquentarem. Como toda -a gente o estimava em Guardiam, iam alli pela eira pessoas<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span> -conversar com elle, dando-lhe consolações e conselhos, -coisas de pouca valia, pois não produsiam alimento -para os sobrinhos. O seu amigo Miguel Tinta, -trouxe o violão uma noite, para lhe acompanhar a rebeca; -porem o cego é que não estava para tocar.</p> - -<p>—Que queres, não posso. Tenho aqui um peso de -seiscentas arrobas—rematou arrepanhando o coração.</p> - -<p>Mas como algumas raparigas, com o fim caridoso de -o tirarem d’aquelle malucar, lhe pediram insistentemente, -José Domingues tocou umas musicas tristes, muito populares -e queridas d’aquella gente. Foi n’esta occasião, -que o Miguel, sentindo o cerebro illuminado por uma -ideia, disse com enthusiasmo:</p> - -<p>—Ouve lá. E se nós fossemos por ahi abaixo ambos! -Não se ganharia alguma coisa?</p> - -<p>Todas as pessoas presentes acreditaram que sim e -applaudiram com estrepito a lembrança. Só o rabequista -não tinha grande fé, pois disse:</p> - -<p>—O que, a tocar? Uh!...</p> - -<p>—Hade haver muito quem vos queira ouvir. Tentar -fortuna é sempre bom prophetisou emphaticamente Zé -Maximo, o barbeiro.</p> - -<p>Resolveram-no logo alli. Os dois mais interessados -planearam a coisa detalhadamente, mencionando as terras -que percorreriam e as musicas que haviam de escolher.<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span> -Uma manhã de primavera, partiram com o sol -rubro no horisonte. Andaram por fóra alguns mezes e -quando voltaram vinham satisfeitos, porque traziam um -bom par de moedas na algibeira. Foi uma alegria para -aquella gente, mormente para José Domingues, que ao -entregar o dinheiro á irmã pulava de contente, com os -sobrinhos todos em volta a agarrarem-se-lhe ás pernas. -No forte das suas expansões, o cego, planeava uma -vida d’abundancia: queria que se comprasse um porco -para matar n’esse anno e mais um bácoro, para o seguinte.</p> - -<p>—N’esta casa!—com seiscentos diabos!—hade tornar -a haver salgadeira e fumeiro, como antigamente—affirmou.</p> - -<p>Foi este o começo da vida de tocador de rebeca, -que tão popular fez o cego de Guardiam, em toda a -provincia do Minho.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>O seu nome chegou mesmo á cidade do Porto. Quem -fallasse no <i>ceguinho</i> designava logo José Domingues. -A expressão persuasiva e bondosa do seu rosto tornava-o -attrahente e querido. Ou tocando a chorosa rebeca, -ou a cantar modas alegres, ou a gracejar com as -raparigas, era sempre comedido e delicado; por forma -a ser cubiçada a sua presença. De todos os cegos pedintes -e trovadores, só elle gosava de verdadeira sympathia. -Chamavam-no a muitas casas para o ouvir e, -alem da paga, offereciam-lhe vinho e marmelada. Tambem -elle não se parecia com nenhum d’esses tocadores -de sanfona, lamorientos e porcos. Sempre limpinho:—vestido -de briche; camisa lavada; botas de cano, -toscas e fortes; a mão apoiada no hombro do companheiro; -o extincto olhar voltado para o sol; assim percorria -a provincia. Tinha o seu orgulho d’artista e de -pequeno proprietario—nunca exaltou ou fingiu miserias -e necessidades para provocar compaixão. Acceitava o -que lhe dessem, fosse muito fosse pouco, agradecendo<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span> -tudo com um sorriso. O que ambiccionava principalmente -era que o escutassem com religião e amor. Se -havia pelas janellas senhoras formosas, em quem presumisse -melhor comprehensão da musica, o Miguel advertia-o; -pois que n’essas circumstancias, o arco de José -Domingues, tinha movimentos expressivos, alma enthusiasta, -e coração de poeta.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Que ideia faria elle da formosura!...</p> - -<p>Fora tão cedo, logo no começo da infancia, que perdera -a vista!... As suas recordações não podiam deixar -de ser pedaços de mundo dispersos, mal definidos, -impressões fugitivas, como as da luz no pôr do sol. -Comtudo na viva e larga imaginação, era certo que lhe -esvoaçavam encantadoras imagens. A meiguice do sorriso, -a bravura da expressão em certos momentos, fazem-no -presumir. Quando acreditava que a sua alma, -a sua rebeca, estava fazendo palpitar algum coração de -mulher, o rosto bexigoso e feio, animava-se-lhe triumphantemente, -como uma aurora. Parecia que tinha um -resplendor, que respirava n’um circulo de luz propria.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span></p> - -<p>É porque elle instinctivamente calculava que áquella -expanção de sensibilidade que lhe vibrava nos proprios -nervos, corresponderiam outros efluvios em nervos -mais delicados. E a potente voz da arte embravecia-lhe -a natureza cheia de candura, transformando -o humilde cego, n’um ente dominador e altivo. A proximidade -da mulher, a sua inflexão meiga e dolente, -amansava d’um modo absoluto, qualquer aspereza d’este -homem, que nunca lhe pudera calcular a pureza das linhas. -Talvez isto fosse por conhecer a dolorosa historia -de seu tio frade, que morto aos septenta annos, conservára -até á ultima, o amor d’uma imagem extincta, -evocando-a aos sons da mesma rebeca, que José Domingues -tocava!</p> - -<p>Esse tio egresso fôra o seu educador e o seu amigo. -Homem de viver em si, conhecendo a musica e as lettras, -ensinara-o a tocar, e transmittira-lhe a alma que -possuia. A doce affabilidade de convivencia com esse -bom velho, introduzira-lhe no coração sentimentos preciosos -de humildade. Despresar os bens terrenos, para -se confortar nos gozos interiores, fôra o que esse obscuro -evangelista sempre lhe aconselhára, como meio de se -oppor á desgraça e soffrer com valor as agruras do -mundo. Por isso, elle acceitou em toda a conformidade, -esta vida de tocador ambulante, por mais que ella fosse<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span> -contraria, ao seu quietismo aldeão. Ainda assim tinha -a impellil-o n’este vagabundear de terra em terra, o seu -caracter impressionavel d’artista. O fanatismo com que -todos o ouviam em Guardiam, em Refuinho e n’outros -logares, por vezes lhe levantára as ambições e sonhára -com publico mais numeroso e selecto. Porem nunca -pensára em sahir da sua aldeia, e do adro da egreja, -onde nos domingos, depois da missa conventual, até o -abbade parava a ouvil-o. <i>A donzella abandonada</i>, o <i>Marinheiro</i> -e o <i>Cão fiel</i> eram algumas das poucas cantigas -que n’esse tempo conhecia. Exprimia-as com tal -sentimento e candura, que era frequente perceber-se o -chôro d’algum coração de rapariga enamorada e sensivel, -que encontrava nas palavras da canção qualquer -lembrança pungente. Então o José Domingues, que era -galhofeiro dizia:</p> - -<p>—Quem diabo está ahi a fungar, a rir-se da minha -rabeca? Anda cá menina que elles não te entendem!...</p> - -<p>E beijava-a repetidas vezes, balouçando-a contra o -seio, acariciando-a como terna mãe acaricia um filho. -Isto dava sempre bom effeito, alegrava os ouvintes, tornava-os -communicativos e contentes. Para que todos -bailassem, o cego, tocava-lhes a <i>Canninha verde</i>, a -<i>Maria Cachucha</i>, o <i>Afasta janota, arreda</i>, e os rapazes -acercavam-se das raparigas, formando logo a roda.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span></p> - -<p>Se o Carvalhosa presenciava, nunca deixou de dizer -com sorriso de consentimento e um dedo no ar:</p> - -<p>—Moços! juizo, ouviram? Muito juizinho.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Agora que andava de terra em terra, a força de sympathia -e attracção do José Domingues dilatou-se por -muita gente. A sua pequena estatura, a magresa do -corpo, a expressão terna, o olhar fixo e indefinido sempre -voltado para a luz, a delicadesa natural e a suavidade -das suas fallas, a inspiração muitas vezes caudalosa -e atormentada da sua rabeca... tudo se fixou na -imaginação collectiva, com traços vigorosos e duradoiros. -Elle é que levava pelo mundo a sua fama. Todas -as terras o estimavam e queriam a ponto de se fallar -com antecedencia da vinda do cego de Guardiam, que -tinha epocas determinadas e fixas, para os diversos pontos -da provincia. Se tardava uma semana, isso era logo -motivo de reparo. Preoccupavam-se com a ideia de que -estivesse doente e nem queriam suppor que tivesse -morrido. O seu apparecimento era considerado como o -das aves cantoras na primavera, que preannunciam os -bons dias e as flores. Por isso era recebido com verdadeira<span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span> -satisfação este portador de novas canções e, -principalmente as raparigas do povo, saudavam-no com -alegria expontanea e sincera. Parava a conversar com -pessoas de diversas cathegorias, e sempre lhes narrava -coisas novas em que os interessava pela simplicidade -da sua palavra.</p> - -<p>Estas jornadas, pelos ensombrados caminhos da provincia, -começava-as no principio d’abril, quando os -pampanos rebentam e parecem olhos de satyros a rir -de todo o mundo. O inverno passava-o em casa, junto -do lar crepitante, no meio dos sobrinhos, que lhe enchiam -a alma de gosos paternaes. Havia magustos com -estoiros de castanhas e o bom rascante, colhido nas videiras -que lhe legara o tio frade. Havia a matança do -porco e a consoada, que eram festas salutares e bulhentas. -A neve embranquecia os montes sobranceiros, a -rispida nortada esfuziava, ás lufadas, pelo valle. Era -preciso cada qual acercar-se da fogueira para assim ludibriar -a furia dos elementos, que zombeteavam cá fora. -José Domingues com a sua modestia bem provida -do necessario, dizia aos sobrinhos, quando tinham medo -do trovão:</p> - -<p>—Deixa lá, é a musica do pae do ceu.</p> - -<p>—Gosto mais da rabeca do tio Zé. A musica do pae -do ceu, não presta—observou um de oito annos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span></p> - -<p>—É zabumba—considerou philosophicamente outro -de menos edade.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>A primavera fazia-o sahir de Guardiam acompanhado -do Miguel. Tinham um jumento para levar o vestuario -e o presigo dos primeiros dias. Durante as chuvas, -como os pintasilgos, tinha a voz amortecida. Só a -fragancia do ar tepido e balsamico o fazia cantor. Sentia, -como os que tem bons olhos, que a natureza se -subtilisava para a festa grande da creação. No fermentar -estrondoso das sementes que rebentam, estava a sua -paisagem florida. As canções d’esta epoca, o <i>Regadinho</i>, -o <i>Pintalhão</i> eram vivas, travessas e maliciosas. As -do outono eram melancolicas, arrastadas e dolentes, -sentindo-se no arco da sua rabeca certa preguiça, e o -sentimento das vozes ternas, que vem de longe pelas -corgas dos montes. Havia n’esses cantos, notas flutuantes -que pareciam folhas amarellentas vagueando no ar, -impellidas pelo rigido nordeste. Se na volta d’um caminho -percebia alguma cantiga sahida de pinheiral rumuroso, -parava escutando e, ás vezes, rebentavam-lhe -lagrimas. Aproximava-se o tempo de recolher a casa, -ás consolações da familia. Lá voltava a Guardiam com<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span> -a imaginação cheia de lembranças alegres. No logar -era festivamente celebrada a sua volta e, rindo e chorando, -José Domingues abraçava com effusão e verdadeiro -prazer todos que se lhe approximavam. Dançava, -pulava, atirava o chapeu ao ar, como uma creança!</p> - -<p>É que se sentia entre corações d’amigos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>N’um d’esses periodos d’inverno, que passára junto -dos seus, ouviu ler na gazeta que o padre Carvalhosa -emprestava ao mestre-eschola de Guardiam, que estava -em Lisboa e talvez viesse ao Porto e a Braga um rabequista -celebre a quem chamavam pomposamente o -«primeiro violinista do mundo».</p> - -<p>—Olhem que não tocará melhor que o nosso José -Domingues—affirmou enthusiasta e patrioticamente o -professor.</p> - -<p>—Ora, senhor José Fortunato, nem diga isso. Eu, -um pobre estupido, posso lá!...—respondeu com modo -agradecido.</p> - -<p>—Deixa-te de tolices, homem. Olha que eu com os -sessenta e cinco que já conto, nunca ouvi como Frei -Gonsalo. E já fui uma vez a Lisboa, com o fidalgo de -Refuinho, quando elle era vivo.</p> - -<p>—Lá isso, maior que meu tio, não acredito que haja. -Devo-lhe a alma que tenho—confessou commovido.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span></p> - -<p>José Fortunato ainda acrescentou:</p> - -<p>—Olha que lá as meninas (as de Refuinho) estiveram -no Porto com o tio general. Presencearam por lá -grandes coisas e disseram-me que antes queriam ouvir -o José Domingues.</p> - -<p>—Isso são umas santinhas. Eu sou um pobre cego, -não sei nada, senhor José Fortunato.</p> - -<p>—Não sabes nada? Sabes tudo, tens d’isto—rematou -o mestre-eschola, batendo uma punhada sobre -o coração.</p> - -<p>O mais velho dos sobrinhos do cego, comprehendendo -tudo pelo instincto, atirou a carapuça ao telhado, -gritando:</p> - -<p>—Viva o tio Zé Domingues e a sua rabeca!</p> - -<p>—Viva! viva!—acompanharam os outros.</p> - -<p>Mas o rabequista, ficou a scismar no que seria, essa -maravilha tão apregoada pela gazeta. Que poder, que -attracção teria no seu arco, esse homem que era superior -a todos os que havia no mundo! Na sua mente ingenua, -apresentou-se logo uma figura aureolada de sol, -dominando a multidão dos admiradores que o applaudiam. -Um publico de fidalgos e mulheres ricas é bem -differente do seu, que era rude e casual. Haveria fragor -de enthusiasmo, comprehensão vasta n’esse theatro -em que as luzes faziam sobresahir a opulencia. A apotheose<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span> -alargava-se até aos confins da terra e o artista -victoriado levantava-se até ás nuvens... A alma calorosa -do cego de Guardiam, sentia-se enebriada com -esse imaginado triumpho, a commoção manifestava-se -nas lagrimas que lhe apontavam. E batendo uma palmada -no joelho disse com resolução:</p> - -<p>—Pois ainda não hei de morrer sem ouvir uma coisa -d’estas!</p> - -<p>N’esse momento chegou o Miguel Tinta a quem -perguntou:</p> - -<p>—Queres tu ir comigo a Braga ouvir o tal home?! -Talvez se lhe possa tirar alguma coisa.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Sempre fora este o seu processo d’aprender e progredir. -Musica que ouvisse logo lhe ficava. Tinha no -Porto e em Braga, quem lhe arranjasse versos apropriados. -Ás vezes mesmo, lhe ministravam musica e -lettra, o que valia oiro sobre azul. Entrava em todas as -egrejas onde ouvisse tocar o orgão e era assiduo perto -das bandas militares, quando soubesse que tocavam -em publico. Se qualquer musica lhe calhava, elle e o -Miguel tractavam logo de lhe applicar versos dos que<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span> -sabiam e assim chegaram a popularisar canções, como -aconteceu áquella que principiava:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Veja lá menina</div> -<div class="verse">Se levanta a saia</div> -<div class="verse">.................</div> -</div> -</div> - -<p class="noindent">a qual toda a provincia decorou. Algumas vezes aconteceu -aristocratisarem-se as suas modas até chegarem -ás salas de provincia, e então José Domingues ouvindo-as -celebradas em piano dizia com orgulho:</p> - -<p>—Vê lá Miguel. Aquella trouxemol-a nós.</p> - -<p>A noticia que ouvira ler na gazeta do padre Carvalhosa, -sobresaltou-lhe o coração, cheio de enthusiasmo -pela musica. Era rigoroso dezembro; o frio enregelava -as carnes; as neves cobriam os montes; o ceu, estucado -de nuvens côr de lama, tinha uma immobilidade sombria. -Os caminhos estavam intransitaveis, muita gente -lhe aconselhou a não fazer a jornada; mas elle, logo -que soube que o afamado rabequista chegára a Braga, -resolveu o Miguel e partiram. Era como uma peregrinação -religiosa. De tempos a tempos, José Domingues -soltava seus ais admirativos e dizia para o companheiro:</p> - -<p>—Mas como será este home, que é o primeiro rabequista -do mundo?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span></p> - -<p>Miguel observou scepticamente:</p> - -<p>—Quem sabe lá! Isto de gazetas, consentem o que -lhe põem.</p> - -<p>—Não, não. Deve ser coisa de respeito!—considerou -absorvido na sua ideia.</p> - -<p>Logo á entrada da cidade, perto da egreja de S. Vicente, -procuraram um estudante de Guardiam, com o -fim de lhe pedirem esclarecimentos. Souberam que tudo -quanto se dizia era verdade, que o senhor arcebispo, -tendo escrupulos de ir ao theatro, convidára o famoso -artista para tocar n’essa noite no Paço. O estrangeiro -accedera, para conquistar as sympathias do prelado e -do publico.</p> - -<p>—Ó senhor Joãosinho—supplicou José Domingues—eu -queria ouvil-o. Não me poderá arranjar um buraco -no palacio do senhor arcebispo? Eu arrumo-me -em qualquer parte. Um buraco que seja, menino.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Não foi difficil obter esta infima posição. O estudante -era amigo d’um famulo de sua excellencia, o qual -pôde esconder o cego n’um vão de escada, proximo do -logar onde se realisaria o concerto. José Domingues<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span> -levou comsigo a rabeca, pois desejava apertal-a sobre -o peito para melhor comprehender a musica. Tiveram -de o introduzir de dia, n’um momento conveniente -para não ser presentido. Durante umas seis horas, esperou -que chegasse o instante. Encolhido, quieto, respirando -brandamente para não dar rumor de si, alli se -conservou. Perto da noite, accometteu-o uma sede furiosa, -que supportou heroicamente, sem o menor arrependimento.</p> - -<p>O famulo que alli o introduzira, veio n’uma furtadela -perguntar-lhe se estava bem e o cego respondeu agradecido:</p> - -<p>—Ricamente, meu senhor. Só tenho uma sêde!...</p> - -<p>Satisfeita esta necessidade ficou n’um paraizo. Momentos -depois entrava tudo quanto havia de selecto na -sociedade bracarense. A alta clerezia appresentou as -suas familias respeitaveis. O general, o governador civil, -o commandante do 8, o juiz de direito, administrador -do concelho, delegado, professores do lyceu, trouxeram -suas esposas e filhas. Ondulava um murmurio de -vozes e de sedas, e José Domingues ouvia pronunciar -nomes consagrados, que toda a vida respeitára humildemente. -Isto augmentou no seu espirito o valor d’aquella -festa, tornando-a imponente. Era um deslumbramento e -um ceu aberto o que principiava a despontar na sua<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span> -imaginação. Agarrado a sua rabeca, apertando-a contra -o seio, estremecendo-a como se fora um ente animado, -estava commovido. Ia-se verificar a apotheose d’um -seu irmão, e elle identificava-se com a gloria do artista -que não conhecia. Entrou o prelado. O cego deu conta -d’esse facto pelo recuar de cadeiras e pelos comprimentos. -Pouco depois chega o rabequista e a curiosidade -da parte dos assistentes produziu um sussurro -maior, que immediatamente se acalmou, seguindo-se -um silencio de mar que se esbate sobre a areia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Logo que os primeiros sons da rabeca encheram a -sala, a alma de José Domingues sentiu-se arrebatada -para um horisonte largo. Dos seus olhos sem vista, irradiaram -fulgurações d’uma belleza sideral. Erguendo-se -no amplo espaço com a pujança d’um crente, a sua -imaginação livre, vagueou na larguesa sem fim, n’um -redemoinho d’harmonias, que o impelliam como ligeiro -farrapo de nuvem. Toda a miseria terrena desaparecera -para elle. Não estava n’um buraco, como cão despresivel, -socio e companheiro de ratos: aos seus olhos apparecia -um amplo salão, ornamentado de riquezas e de -mulheres formosas. Esquecera-lhe o rouco uivar do vento -sobre a telha vãa da sua pobre casa, os caminhos -enlameados e cheios de poças, os encontros por vezes -desagradaveis da sua vida de tocador.</p> - -<p>Quando a rabeca tinha momentos alegres, extravagantes, -buliçosos, José Domingues ia indo n’aquella -toada e vinham-lhe á mente coisas loucas e pueris: -dançava em volta d’uma fogueira, abraçava as raparigas<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span> -que lhe fugiam aos gritos, ouvia repiques de sinos, -e ao longe, a multidão festival passava para a romaria. -Se era a dolencia das musicas hespanholas, entranhadas -de sentimento arabe, expraiando-se brandamente, como -as mansas aguas do Mediterraneo, os seus nervos sentiam -uma paz infinita, quasi um torpor. A visão paradisiaca -d’uma primavera só formada de cantos de passaros -e de perfumes d’hervas e de flores, como elle a -contemplava n’esses momentos, era mais intensamente -bella do que a paisagem das amendoeiras e dos campos -cheios de trevo e de malmequeres brancos.</p> - -<p>Mas o seu pendor, a tendencia da sua alma, era para -todos os trechos lacrimosos, d’uma plangencia terna que -se abrissem largamente em espaços constellados. Não -valiam tanto os rouxinoes e os melros no meio silencioso -das mattas, e o rio murmuroso ladeado de choupos. -Corriam-lhe em fio as lagrimas e apesar dos applausos -dos ouvintes, José Domingues sentia que elles -não comprehendiam bem aquella musica. Se elle podesse, -entraria de joelhos na sala, para beijar os pés do -grande artista mostrando-lhe a sua admiração, n’um -chôro copioso e enthusiasta! Rastejar pela terra como -humilde verme, era o modo que a sua rudeza achava -bastante expressivo, para glorificar aquelle seu irmão. -Porque não procediam assim esses homens que o ouviam?<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span> -Vinham-lhe suffucações de colera contra os que -se não levantavam em extasis d’um enthusiasmo viril -e ardente como o seu. É que não tinham alma para -sentir. Elle humilde, obscuro, rude, apertado entre as -paredes d’aquelle buraco, era-lhes superior, comprehendia -o que elles não podiam comprehender, tinha -em si um thesouro, que nem todos os thesouros da terra -podiam egualar. Vibravam-lhe no cerebro os echos -d’aquella musica, a sua commoção era grande, os soluços -que não podia evitar apanhava-os nas mãos para -não serem percebidos, com medo de perturbar aquella -musica celestial!</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Todos estes sentimentos augmentaram de intensidade, -e no coração repercutiram-lhe os fremitos magestosos -d’uma epopeia, quando os primeiros accordes da -«Ave Maria» de Gounod se fizeram ouvir. Na sua imperfeita -comprehensão, não se destrinçavam claramente as -bellezas accumuladas no famoso trecho. Vinha-lhe tudo -em globo, tumultuariamente, como se a lendaria figura -da morte o arrebatasse n’um instante, levando-o por ermos -desconhecidos, onde a sensibilidade fosse outra.<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span> -N’aquella ondulação luminosa d’harmonias, sentia-se crescer, -vencia espaços incommensuraveis, passava gloriosamente -sobre altos montes, ia em rapido vôo sobre o -mar tormentoso, para no fim parar em regiões serenas -formadas de luz e melodia. Arrepanhava as carnes procurando -a realidade na manifestação da dôr; mordia os -punhos a ponto de fazer sangue; queria gritar e não -podia; agarrava-se energicamente á sua querida rabeca, -n’uma effusão de ternura e o seu coração não se apasiguava -nunca! O canto angelico e suave crescia em profundeza, -augmentava em area—era como uma palpitação -infinita. O cerebro de José Domingues enchia-se de -carinho, o enthusiasmo suffocava-o, anniquilava-lhe as -forças. E lá era levado de novo, subindo até ficar sobranceiro -ás nuvens, conhecendo instantes de paz e de -tortura, chorando, sorrindo, estorcendo-se no chão como -uma cobra ferida.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Os bravos e as palmas d’esta vez foram mais estrondosos. -Prolongaram-se porque era o agradecimento final. -Porem, todo esse ruido não pôde dominar um doloroso -grito, forte como se sahisse do peito d’Othelo<span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span> -n’um arranque de ciume, meigo como se fora o ultimo -queixume da rola Ophelia.</p> - -<p>Ficaram rapidamente silenciosos e perplexos os espectadores. -Um soluçar ancioso continuou e para o logar -d’onde elle vinha se dirigiram as pessoas interessadas -em tamanha dôr. N’aquelle buraco escuro, de bruços -sobre a rabeca que esmigalhára, estava o cego de -Guardiam, que não poderam mais chamar á vida!</p> - -<p class="date">Janeiro de 86.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 200px;"> -<img src="images/footer4.jpg" width="200" height="70" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header4.jpg" width="500" height="120" alt="" /> -</div> - -<h2 id="A_VELHICE_DUM_REI">A VELHICE D’UM REI</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-s.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Sentado na larga poltrona de seda azul, o monarcha -conversava em voz pausada e lenta. -Uma graciosa imagem da Virgem, talhada em -marfim, por desconhecido artista da Renascença, dava-lhe -ensejo de explicar a velhos amigos, como conjecturava, -que teriam trabalhado aquelles talentos singulares, -creadores de tantas maravilhas. Tenuissima -nuvem de paz, de conforto, de luxo estudado, pairava -sobre este ambiente, tornando-o em região intermedia -á riqueza mundana e á severidade do gabinete d’um -sabio obscuro. No rosto sereno do rei, havia o orgulho -do nascimento e a tristeza propria dos annos. A sua -longa barba branca, objecto de veneração em todo o -paiz, era até commentada entre a gente rude dos campos.<span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span> -Quasi a tinham como symbolo de orgulho nacional, -pois com jactancia affirmavam não haver outro rei -com barba tão longa, tão linda e tão branca.</p> - -<p>A vaidade das coisas realengas—orgulho natural nos -paços doirados, sentimento peculiar dos que soltam os -primeiros vagidos sentados n’um throno—diziam que a -não tinha. A abnegação e o desprendimento de todas -essas pompas eram-lhe attribuidos com meiga sympathia -entre as classes populares, que são as que melhor -comprehendem as inclinações democraticas. Elle abdicára -em seu herdeiro o poder de que disposera durante -muitos annos e havia praticado esse bello acto sem ostentação -e logo que o principe chegára á maioridade. -Adquiriu a liberdade de homem, entregando-se ás suas -collecções artisticas, aos prazeres da caça e á conversação -intelligente. Perdia-se dias inteiros na espessura -das mattas reaes, sempre poeta, contemplando a luz e -vivendo intimamente na absoluta natureza silenciosa. -Para ser um bom rei, querido e estimado, até muitos o -diziam generoso e esmoler.</p> - -<p>Porém, nem todas as pessoas tinham esta opinião -benevolente. Alguns revelavam que fazia sentir as suas -dadivas, fallando d’ellas. Censurava os gastos de muitos -que os não podiam fazer, tinha a opinião de que a sua -bolsa não era inexhaurivel. Egoista e reparador—chamavam-lhe.<span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span> -Desfazia com palavras, alguma generosidade -que praticava. Apontavam como impropria, a -ponta d’avareza que esboracava o manto real. Um soberano -amesquinha-se fallando de coisas tão vulgares. -Era o que faltava que procedesse d’outra fórma. Não -fazia o povo muito mais pelo rei, do que o rei pelo -povo? Qual era o azeite e o vinho que produsiam as -extensas coutadas que a nação lhe dispensava para os -seus divertimentos?!...</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Depois a velhice tornara-o rabujento. Os camaristas -para lhe entreterem as insomnias, tinham de colher ou -inventar episodios escandalosos. Era fatigante a sua exigencia -nos detalhes e torturava-os com repetições. A -surdez obrigava-os a servirem-se da corneta acustica -para lhe fallarem. Havia perguntas e respostas disparatadas, -situações grotescas que depois se desfaziam em -motejos nas ante-camaras. A consciencia d’estes factos -entristecera-o e só a muito custo lhe tiravam um sorriso, -um ar de approvação. A sensibilidade embotára-se-lhe -com a velhice e só historias picantes, difficeis de -inventar, conseguiam distrahil-o.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span></p> - -<p>A rainha,(tratavam-na assim por deferencia, só dentro -do palacio) esposa morganatica do rei, senhora ainda -forte, saudavel, com vida para gastar, abandonára-o -n’este periodo de doença, sob pretexto de que elle -estava mais satisfeito entre os seus amigos. A falta -d’um contacto feminino, que lhe enternecesse a organisação, -fizera variar aquella sensibilidade que fôra delicada -e exigente. Só episodios burlescos, onde apparecessem -mulheres adulteras, maridos comicamente trahidos, -creadas servindo intrigas amorosas, homens escapando-se -de gatas por telhados... é que lhe enchiam o -vasio das longas insomnias. Alguns dos seus camaristas -eram rapazes de sangue ardente, creados n’uma vida -ociosa e delicada. Passavam um aborrecimento n’aquelle -palacio de grossas muralhas. O que lhes valia era a -conversação das companheiras da rainha, senhoras formosas, -muitas gentis, todas de uma educação esmerada. -Desanuviavam-se reciprocamente d’aquella vida pautada -e monotona, fazendo má lingua, fallando da sociedade -com a liberdade de parentes e camaradas. Um -ou outro de apetites mais grosseiros, preferia abraçar -nos corredores sombrios as simples creadas, mulheres -de carnes saudaveis, sangue plebeu e revolto, que enchem -a existencia d’alegrias. As provas de tão insignificantes -delictos estavam nos beijos a cantar na escuridade,<span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span> -nos vultos a fugir cautelosos, nas palavras de -carinho apanhadas avulsamente n’um perpassar rapido.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Um dia, o medico de serviço approximou-se do rei -para lhe tomar o pulso. A um contrahir facial de suspeita -do facultativo acrescentou o monarcha:</p> - -<p>—Não passei muito bem a noite, não.</p> - -<p>Tivera soffucações, maus sonhos, um dormir inquieto. -O doutor applicou-lhe demoradamente o ouvido á região -cardiaca, concentrou-se n’um raciocinio e quietou o -doente com o sorriso profissional. Nervoso, talvez a -maldita dyspepsia—esclareceu.</p> - -<p>Porém logo se dirigiu aos aposentos da rainha a informal-a -da gravidade e adiantado da molestia. Poucos -minutos levou, para o mais humilde serventuario do -palacio saber que o soberano padecia d’uma lesão. Era -coisa já antiga e sómente os ultimos gelos a tinham aggravado. -Congestões abdominaes e no figado haviam -obrigado aquelle velho coração a empregar, nos ultimos -tempos, um grande esforço para impellir o sangue -até aos confins do corpo. Um coração delicado de rei, -batendo sempre moderamente debaixo de lendarios arminhos,<span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span> -logo que sentiu resistencia ao seu poder, entristeceu; -principiou a condescender, a sobrecarregar-se; -dilatou-se; adelgaçou... e a terrivel aneurisma -estava proxima a romper-se.</p> - -<p>—É como se o monarcha, sentisse contra o seu poder -providencial a revolta dos seus vassalos—comparou -o medico, com delicadeza de phrase.</p> - -<p>Tal acontecimento impressionou diversamente. Não -havia unanimidade de sentir, nem de crença. Todos -viam que o rei continuava a conversar na sua voz pausada -e fidalga. O doutor era homem sabio e respeitado, -mas podia enganar-se.</p> - -<p>—A sciencia humana—disse um velho de sorriso -sceptico—é fallivel. «A mais aguda, segundo o poeta, -é ignorancia cega ante a divina». O aspecto de sua magestade -não é para sobresaltos.</p> - -<p>—E a edade?—argumentou outro.</p> - -<p>—Sim, a edade é condição desfavoravel—rematou -o primeiro.</p> - -<p>Alguem notára, que nos ultimos tempos, o rei, -outr’ora tão expansivo, se callava frequentemente, levando -a mão ao peito quando desejava respirar mais -fundo. Porém acreditavam ser o cansaço de estar sentado, -o aborrecimento de viver no quarto e a tristeza -da maldita surdez, que parecia não ter cura. Que<span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span> -se levantasse algumas vezes, que fosse até á larga varanda -admirar a primavera que principiava a romper -nos campos e veriam, como logo adquiriria vigor, como -os olhos se lhe alegrariam.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Os do pessoal menor do palacio, que tanto como outros -viviam da munificencia regia, preoccupavam-se, -para o caso da morte, com o theor do testamento. -Alguns esperavam d’alli uma especie de liquidação vantajosa -da propria fortuna; outros, mais reservados e -scepticos, temiam não ser contemplados e perderem -aquelle bom agasalho e santa ociosidade.</p> - -<p>—Não nos fiemos em sapatos de defunto. Poderemos -obter d’esta fórma o equivalente do que gosamos?—resumiam.</p> - -<p>—Ah! não póde deixar de ser! Até seria uma vergonha -se o não fizesse!...</p> - -<p>Esse rico papel escripto pelo proprio punho do rei, -diziam estar dentro d’um cofre de malachite, guardado -n’um armario de ferro. Ninguem o tinha lido, a não ser -talvez o primogenito e a rainha; mas para todos era um -motivo de palavras humildes e risos captivantes, em<span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span> -face do doente. Este homem, fabulosamente rico, podia -deixar a independencia social aos que eram pobres -e accrescentamento de fortuna aos opulentos. E tinha -de o fazer, se queria engrandecida e celebrada a sua -memoria. Isto de reis são orgulhosos, mesmo quando o -não parecem; teem a vaidade de que os lamentem depois -da morte, para se conservar a velha ideia biblica -de que o monarcha é o pae, é o senhor, é o ungido de -Deus!</p> - -<p>—N’esse caso que o pague—concluiam.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Poucos dias depois do ultimo alvoroço ácerca da -saude do rei, houve um acontecimento que impressionou. -O doente não tivera, durante a noite, uma hora -de somno tranquillo. Sonhara uma vida agitada de batalhas, -sentira o sangue tumultuar-lhe nas arterias.</p> - -<p>—Vejam lá, n’estes tempos modernos, eu a imaginar -torneios e golpes de lança!—criticou elle mesmo.</p> - -<p>O doutor foi de opinião, que lhe devia ter feito mal -a visita d’um antiquario estrangeiro. A surdez obrigava -o monarcha a grandes esforços na conversa. Durante -perto d’uma hora os dois tinham discreteado ácerca de -tempos passados, da belleza e encanto da vida d’outr’ora, -artistica e batalhadora, despreoccupada e cheia -d’aventuras—bons tempos em que houve homens que -foram simultaneamente guerreiros, poetas e artistas, como -Cellini.</p> - -<p>—Evite-me vossa magestade essas commoções. Ponha-me -esses sabios na rua—recommendou o medico.</p> - -<p>A mulher do rei foi claramente informada da extrema<span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span> -gravidade da molestia de seu marido. Senhora de -ascendentes fidalgos, muito temente a Deus, conseguira -enfileirar na familia do rei, por um abuso da força poderosa -da sua belleza e da sua carne, sobre a organisação -já caduca do soberano. Tambem se fallava de influencias -clericaes, que miravam a obter para certo -instituto, parte da fortuna particular do monarcha. Todos -entendiam que ella se prestára a aquecer os membros -frios d’um velho, por simples vaidade de ser chamada -rainha.</p> - -<p>Amava a riqueza, a consideração publica, o fausto -da corte e a supremacia entre as mulheres. A importancia -da doença do marido, cuja morte para ella significava -a perda de todas estas garantias e vantagens, -assustou-a. O seu rosto de vivo que era, tornou-se tão -composto e triste, que abrandou, no começo, a malevolencia -de muitos que na corte lhe eram hostis. Ella -que tanto amava os theatros, os bailes, as corridas, os -passeios de carruagem ao ar livre, em face das bellas -paisagens illuminadas pelo sol, deixou de sahir logo -que o mal tomou o caracter assignaladamente grave, e -installou-se ao lado da poltrona onde o marido dormitava, -ouvia os seus amigos, e arfava os cansaços da molestia.</p> - -<p>Ella, ás vezes sob pretextos futeis pedia que a deixassem<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span> -só com o rei. Condescendiam os camaristas, -formando conjecturas, que nem sempre eram benevolas. -Diziam que depois d’essas intimidades lhe notavam -no rosto uma agitação febril, mal dissimulada. Accrescentavam -que no semblante do rei, apesar da compostura -calculada, apesar da respeitavel barba branca que -lhe diminuia a expressão, apesar de reclinado na poltrona -com as palpebras docemente cahidas... descobriam -restos de fadiga e o aspecto d’um homem contrariado. -Parece que se percebera n’um dia barulho -d’altercação, parece que se ouvira depois um soluçar -de mulher. A creadagem affirmava ter sentido beijos de -esposos, palavras de colera, expressões de reconhecimento. -Tudo isto não podia deixar de ser obra de testamento—entendiam. -Os velhos amigos do soberano, -sempre lhe tinham tractado respeitosamente a mulher, -indicando, ainda assim, na friesa e polidez dos cumprimentos, -que a não estimavam. Na ausencia chamavam-lhe -intrusa, ambiciosa, desnaturada, pois abreviava os -dias do doente com mortificações, e até a sua notoria -religiosidade, tomavam como impostura.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>A molestia progredia a olhos vistos, e já a ninguem -era licito desconhecer o proximo termo d’aquella vida -d’opulencia. O proprio doente disso estava convencido -e quando lhe diziam palavras d’esperança sorria com -amargura. As ancias, as suffocações, agora mais frequentes -e incommodas eram um desmentido claro. A -oppressão no peito dava-lhe um sentimento de homem -replecto. Os beiços engrossavam todos os dias, as -olheiras eram fundas como a sombra da noite, as palpebras -pesadas e adormecia facilmente como um bebedo. -Este homem nascido em berço d’oiro, esta imaginação -educada e aberta sempre n’uma atmosphera de -delicadezas, repugnando-lhe as miserias asquerosas d’uma -doença prolongada, começou a ter pelo corpo de que -fôra tão vaidoso, um desprezo invencivel. As suas pernas -estavam grossas como rudes troncos de carvalho, -o ventre volumoso chocalhava como um barril mal -cheio, e, segundo lhe segredava a memoria, devia conter -um liquido viscoso, semelhante a baba d’animaes.<span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span> -Preferia ter uma doença de cruciantes dôres. Devia haver -molestias para reis, molestias limpas, que fossem o -logico terminar da vida das grandezas. A cabeça recostada -no espaldar alto da cadeira, o roupão de seda a -arfar-lhe sobre o peito, fechava voluntariamente os -olhos para fugir á vil realidade e entrar n’um mundo -ideal de lembranças dignas. E parecia conseguil-o, pois -havia momentos em que o seu rosto era d’uma paz e -duma tranquillidade de stoico.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Viveria em imaginação no seu passado?</p> - -<p>Fôra criança e logo na edade em que o cerebro começa -a perceber viu-se rodeado da consideração, que -pode gerar o orgulho—velhos fidalgos iam-lhe submissamente -confiar as suas barbas, para que o principe as -tomasse como brinquedo. Tinha sido entregue depois a -professores, que sobre elle exerciam uma auctoridade -parecida antes com a obediencia. Quando cavalleiro, -gentil e vaidoso, o fanatismo de todas as mulheres, gosára -amores defezos, que tanto o divertiam pela posição -do homem enganado. Subiu ao throno, e viu curvadas<span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span> -diante de si, as illustrações do sangue e da -sciencia, homens de renome que só d’elle, do seu tradicional -poder, deviam receber a consagração. Aborrecido -do mando, com o egoismo proprio da velhice, -abdicou, creara novos prazeres recolhidos, encontrára -ainda uma formosura que o amára, sentira-se remoçado -e contente durante certo periodo...</p> - -<p>Porém n’outros momentos vinham-lhe subitas crispações -faciaes significativas de desgosto. É que sentia o -desabar de todo esse mundo, como desabam as montanhas -n’um rancoroso terremoto. Tinha, ás vezes, a -sensação de que um largo alçapão se abria na terra e -o engulia para uma escuridade absoluta e eterna! Era -homem como os outros. Diante da miseria da carne -estava nivelado com a plebe mais infima. A corôa, o -sceptro, a auctoridade real, os gosos da intelligencia, -nada faziam para que tivesse um fim grandioso.</p> - -<p>Felizes só os reis antigos, mortos heroicamente nas -batalhas medievaes, atravessando inimigos com lanças -relusentes e acabando entre maldições e hymnos de gloria! -A sua imaginação dolorida apresentava-lh’o ainda -mais repellente do que estava, o rosto espapaçado—palpebras -entumescidas e cyanoticas, beiços grossos e -olhar sem brilho. Vira-se uma vez ao espelho e ficara -horrorisado de si mesmo. Despresava-se com nojo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Sobre todas as ironias da carne, vinha ainda a preversidade -dos vivos cubiçando-lhe os haveres. A mulher -queria um testamento que lhe fosse absolutamente -favoravel. Era o legitimo preço da sua belleza e da sua -fresca mocidade, que elle estragára com beijos senís. -Ao calor emprestado pelo sangue da donzella, devia o -rei o prolongamento d’uma vida arruinada. Os filhos -questionavam os seus direitos, com razões de casta, -ligando-as a interesses d’Estado. Fallavam das tradições -de familia; da abundante riqueza que era preciso ostentar, -para se imporem pelo fausto, como já se impunham -pelo nascimento. Porém elle tinha amigos fieis, companheiros -dos enthusiasmos juvenis; creados cujos aturados -serviços mereciam uma recompensa, uma lembrança -no supremo instante da despedida. A exigente -consorte queria tudo para si. Cá regularia todos esses -deveres como entendesse. Só assim poderia sustentar o -respeito e consideração publica, continuando na sua -mão as dependencias que até alli tinham sido do rei.<span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span> -Exhorava-o com beijos, com palavras acrimoniosas, com -ameaças sobre a sua memoria.</p> - -<p>Como meio de sahir de taes amarguras, o monarcha -lembrou-se do suicidio. A razão aconselhava-lhe a findar -o mais depressa uma existencia assim despresivel. -Seria um acto cobarde?!... Entre o soffrimento e o -gozo passa-se toda a vida humana. Quem não póde -luctar desapparece d’arena—pensou resolutamente. Ia -furtar-se a muito desgosto, a sentir o difinitivo escorrer -do seu corpo, que já era massa inerte, alastrando-se -pelo chão. Ia poupar-se a afflicções, não queria supportar -o peso d’aquellas pernas inchadas, não queria ouvir -por mais tempo o chocalhar dos liquidos no ventre, o -que lhe dava a ideia de que elle era um despresivel -odre, caminhando no dorso d’um macho.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Que bella noite, serena e calma! Uma lampada de -Sèvres, espalhava no amplo quarto uma bruxuleante -claridade. A rainha recolhera-se aos seus aposentos. -Alguns camaristas, medico e serventuarios, vigiavam os -restos d’aquella vida. Quando a apparencia d’um somno -tranquillo se espalhou no rosto do doente, todos se retiraram -para as salas proximas. O rei sentiu-se bem, só. -Calculou que todos estariam despreoccupados da sua -pessoa. Convencido d’isto, teve um sorriso de triumpho! -Logo tentou erguer-se, fincando as mãos nos braços -da cadeira. Mal se pôde mover! Estava entorpecido, -o corpo pesado, a sensibilidade ausente. Terrivel -e severo desgosto foi o seu, quando se viu nas condições -de semelhança com um sapo hydropico! Reagiu -corajosamente contra a inercia dos musculos e, n’este -esforço de dignidade suprema, conseguiu levantar-se. -Mas logo se sentou, para não cahir. A colera do seu -espirito tomou proporções formidaveis, como o vento -que arrasa florestas. Concentrou no combalido coração<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span> -o antigo vigor da juventude, toda a coragem da mocidade. -Queria supplantar este phantasma da impotencia, -que se levantava deante dos seus olhos. Passando da -cadeira a apoiar-se no rebordo d’uma meza, depois na -hombreira da janella, apanhou a bengala de castão -d’oiro e pedras preciosas, que lhe mandára de presente -um papa, e conseguiu firmar-se em pé. Deu alguns passos -cambaleantes; mas parecendo-lhe ouvir um rumor, -parou de subito. Não era ninguem. A sombra do seu -corpo projectada pela tenue luz estendia-se no pavimento, -tremula de susto.</p> - -<p>Oh! fraqueza, oh! implacavel miseria humana! Este -senhor poderoso, esse phantasma movendo-se tropego -e cauto no silencio da noite, é o proprio Luiz XI aterrado -diante das visões do seu cerebro! Foi-se abeirando, -timido e com passo incerto, d’uma pequena estante -entre duas janellas. Lançou mão d’um objecto que metteu -no bolso do <i>robe-de-chambre</i>, furtivamente, como -homem que andasse a roubar. N’esse momento a estante -oscilou, o barulho attrahiu um creado.</p> - -<p>—Não preciso... não chamei...</p> - -<p>Tremia de medo, como creança encontrada n’uma -travessura. Veio o medico e o camarista. Approximaram-se, -ampararam-no até á cadeira, e reprehenderam-no -amoravelmente.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span></p> - -<p>Desculpou-se com palavras de humildade e sujeição.</p> - -<p>Tentára esta experiencia para vêr se podia andar, -sem o auxilio de ninguem. Querendo inferir, por si -mesmo, da força e vigor de que dispunha, era necessario -mexer-se no quarto só, sem que o vigiassem. Ainda -estava vigoroso e forte—affirmou. Sentia-se com vida -para muito tempo.</p> - -<p>Fortificaram-no n’esta ideia; porém retorquiam que -fôra temeridade o que acabava de fazer. Podia ter cahido, -dar com a fronte na esquina de uma cadeira e -isto ser-lhe fatal, no estado de fraqueza em que ainda -estava. Assim se interromperia uma boa convalescença, -assim adquiriria novos padecimentos que podiam ser -mais graves, muito mais graves do que os actuaes.</p> - -<p>Concordava em tudo, sorrindo. Porém, a tentativa, -visto não ter dado mal nenhum, estava contente por -têl-a feito. Atravessára o quarto sem auxilio, e era isso -que até alli suppunha impossivel. Talvez no dia seguinte -fosse ao gabinete contiguo, depois á varanda e -finalmente ao jardim.</p> - -<p>—Poderei experimentar doutor?</p> - -<p>—Com precauções, meu senhor, com precauções.</p> - -<p>Discorreu ainda, com serenidade, alguns minutos. -Estava evidentemente melhor, mais desafogado. Aquella -experiencia tornára-o communicativo e alegre. Conseguira<span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span> -ter vontade de dormir. Parecia-lhe que ia gozar um -somno regalado e sereno. Os olhos estavam com tendencia -para se fecharem. Que o deixassem só é que desejava.</p> - -<p>—Mas vossa magestade...</p> - -<p>—Não me levanto mais—atalhou. Palavra de rei.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Sahiram. Tudo ficou em paz e tranquillidade. O rei -conservou-se largo periodo immovel, os olhos fitos -n’uma armadura que estava de sentinella a uma porta. -Concentrou toda a força dos sentidos, para reconhecer -que o não vigiavam. A manhã surgia do infinito -dos tempos. Os passaros começaram a chilrear nas acacias -do parque. Ouviu-se o cantar lento e monotono do -velho jardineiro, que por entre as flores regougava melopeias -do seu paiz. Levantava-se, subindo e alargando-se -como um nevoeiro que emerge d’um rio, o sussurro -que fórma o dia—mistura de muitos sons. A creação -universal ia engrandecer-se com um novo impulso -do sol, n’este formoso dia de primavera.</p> - -<p>O rei tinha uma expressão firme de tenebrosa coragem. -Tacteava com perspicacia, para encontrar no -braço esquerdo o signal d’uma sangria, que em moço -lhe haviam feito, pela queda d’um cavallo. Na mão brilhava-lhe -uma pequena lamina de Toledo, obra de esmerado -artista, com multiplicadas linhas d’oiro encrustadas<span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span> -em ferro. Abandonava riqueza e fausto, sentia-se -podridão e lama! Com a indomita coragem dos altivos -e dos desventurados abriu a cicatriz quasi apagada. -E emquanto esse sangue de rei escorria, gottejando no -chão, o moribundo encostou a cabeça no espaldar alto -da poltrona e com um sorriso de amargura, disse suspirando:</p> - -<p>—Acabou-se.</p> - -<p>Penderam-lhe os braços, a cabeça rolou para um -lado, todo o seu corpo foi entregue ao supremo desleixo -da morte!</p> - -<p>O segredo d’este acontecimento conservou-se nos -intimos do palacio. O medico, ao contemplar o cadaver -inerme, com a ideia nos soffrimentos que ainda estavam -reservados ao monarcha se continuasse a padecer, -concluiu:</p> - -<p>—Foi melhor assim!</p> - -<p class="date">Lisboa, janeiro 85.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 200px;"> -<img src="images/footer5.jpg" width="200" height="100" alt="" /> -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header5.jpg" width="500" height="120" alt="" /> -</div> - -<h2 id="A_MULHER_DE_LUCAS">A MULHER DE LUCAS</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-d.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Diga-nos, então, como foi essa historia do seu -casamento; como é que a sua mulher fugiu -de casa.</p> - -<p>—Ora... não fallemos de coisas tristes. Eu já lh’o -contei e o senhor bem o sabe. Compram-me uma cautella?</p> - -<p>—Mas desejo—insisti—que este meu amigo oiça -tudo da sua propria bocca...</p> - -<p>Sorriu, olhou interrogativo para nós ambos e perguntou:</p> - -<p>—Porque? Este senhor conhece-a?—E mudando -para um tom energico e quasi enfurecido:—Sabe onde -ella mora?</p> - -<p>Fizemos-lhe signal negativo, e Lucas retomando a -sua expressão habitual de paciencia e doçura disse:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span></p> - -<p>—São coisas de que me não quero lembrar. Lá vae, -acabou, leve o diabo paixões e mais quem com ellas -engorda. Aquella mulher andou muito mal comigo... -Eu fazia-lhe tudo quanto ella queria, dava-lhe muita libardade... -Foi talvez por isso que recebi o pago que -tive...</p> - -<p>—Alguem que a desencaminhou... alguma companheira...—insinuou -o meu amigo.</p> - -<p>—Ná... ná... sempre teve aquella queda. Era -muito chibante e espirituosa, não era senhora para -mim. Foi uma asneira... Passou—resumiu tristemente.</p> - -<p>—Tambem não é tanto como diz. O Lucas estimava-a, -e não se póde dizer um velho—consolei-o.</p> - -<p>—Ainda assim tenho mais vinte annos do que ella. -Mas não fallo n’esse particular. Não era senhora para -mim, que sou um bruto. Uma raparigona alta, bonita, -bem feita, creada n’um collegio aqui de Lisboa, sabendo -francez e grammatica, toda perluxa e bem fallante... -não era casamento para o Lucas. A minha primeira, -que Deus tem, é que estava na conta.</p> - -<p>—Você tambem foi cahir em se casar duas vezes!—disse -o meu amigo. Lá n’uma, tenho ouvido dizer, -quem quer cae.</p> - -<p>—Nem sei como isso aconteceu, meu senhor—confessou -melancolico. Uma bebedeira que me passou na<span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span> -cabeça. Ha dias que melhor fora a gente apparecer -morto na cama. Luisa, a minha outra, era uma dona -de casa. Quando morreu fez-me falta para o negociosito, -que eu tinha lá na terra. O contracto dos gados -trazia-me sempre por fora; chegava a ir á Galiza comprar -bois. Uma pessoa para me ficar no estabelecimento, -era-me bem necessaria. Depois o achar-me só, em casa, -principiou a dar-me para o figuedo, e sem uma companheira -vivia triste como uma lesma. Até me lembrei de -me afogar. Teria sido melhor—rematou olhando para -o chão, a cofiar a barba reles.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>—Pelo que vejo gostava muito da sua primeira mulher...</p> - -<p>—Assim... Era muito doente, mas boa creatura. -Quando morreu fiz-lhe um enterro de truz. Nunca lhe -pude arrancar um filho, por mais dinheiro que com ella -gastei em medicinas e promessas. Aquillo era molestia -das entranhas. Morreu esmaleitada como a cera e magra -como um guiço. Passei uma ralação, sempre a por-lhe -cataplasmas e a dar-lhe chás de noite, por causa dos -ataques. Dava gritos que acordavam a visinhança. Arrotos<span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span> -que pareciam tiros de espingarda. O ultimo mez, -não preguei olho e já não podia... Veio então a -Joanna, a irmã d’ella, que me ajudou a levar aquillo até -ao fim. Essa é que era boa mulher para mim: geitosa, -perfeitaça, trabalhadeira e rija como o ferro. Mas tinha -tido uma falta, com um rapaz que depois embarcou -para o Brazil, e eu n’essas coisas sempre fui muito dos -diabos.</p> - -<p>—Pois, attendendo ao futuro, tinha sido melhor ter-se -casado com essa sua cunhada—disse o meu amigo, -presumindo já, que ao bom do Lucas, lhe haviam succedido -coisas da breca.</p> - -<p>—Oh! que se a gente advinhasse, quantas vezes melhor!...—exclamou -como quem se sentia applaudido -n’um pensamento secreto. E a coisa vinha a fazer-se, -mais tarde ou mais cedo; porque eu bebia os ares pela -moça. Mas logo a má sorte, me levou lá para a casa -fronteira, o major com a sobrinha...</p> - -<p>—Talvez filha—insinuei.</p> - -<p>—Não—respondeu vivamente offendido—era de -gente casada. Até creio que de familia muito nobre, cá -de Lisboa. Pelo menos ella assim o dizia e acreditem -os senhores que tinha geitos d’isso. Morreu-lhe o pae, -a mãe e não lhe deixaram uma de X. Foi então que o -major de quem eram parentes e quando ainda era capitão<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span> -metteu, á sua custa, a pequena n’um collegio. -Isso lá de educação e sabença, não acredito que haja -outra que se lhe ponha adeante. O major depois adoptou-a -como filha e trazia-a sempre comsigo.</p> - -<p>—Nada ahi anda historia, ella era filha do major—insistiu -o meu amigo.</p> - -<p>—Não era—certificou com rosto circumspecto—não -era, sério. Eu vi-lhe a certidão d’edade, quando se -tirou a licença. Era de gente casada e até fidalga, diziam-no -todos. Mas faltava-lhe dinheiro; porque o major -para a educar, teve de pedir ajuda aos outros parentes. -Mas deu-lhe um saber de truz. Eu nunca vi senhora -mais distincta!—repetiu com ostentação.</p> - -<p>—E depois o tal major, sabendo que o Lucas tinha -o seu pataco, impingiu-lha.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Conservou-se alguns momentos silencioso e ar dubidativo. -Em seguida esclareceu:</p> - -<p>—São sortes. Elles vieram morar em frente da minha -casa. As filhas d’um visconde que havia na terra, -iam pra lá aprender o francez, o piano e a grammatica. -Porque aquillo é uma senhora que sabe tudo—repetiu<span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span> -com vaidade. E bem fallante? nunca vi outra! -Aquelles janotas iam conversal-a da rua para a janella -e ella sota e az a todos. Que regalo de mulher! O delegado -que lá estava ao tempo, disse deante de mim -que em philosophias, não encontrára senhora como -aquella. Vi muitos homens embasbacados a ouvil-a. E -que homens! O desembargador João Xavier que era -conhecido em toda a parte. Caramba! que mulher tão -esperta!—pronunciou batendo uma palmada na coixa. -Pena é que tenha a cabeça leve como uma folha secca.</p> - -<p>—E vae, todo cheio de enthusiasmo, namorou-se da -lisboeta...—presumi.</p> - -<p>—Não senhor—esclareceu—nem tal me passava -pela lembrança, se não fosse ella. Eu bem via que não -era homem para aquillo. Ella é que principiou comigo -de volta, a rir-se para mim, a espreitar pela frincha da -janella, a fazer-me tagatés... Não sabia o que tudo -isto queria dizer, palavra d’honra! Olhava para mim e -via que não podia ser. Principiei a andar assim a modo -de esquisito, a não saber o que tinha. Um dia diz-me -ella, sem <i>tirte</i> nem <i>guarte</i>, que eu era um viuvo ainda -muito geitoso. Fazem lá ideia! Logo que ouvi tal, -d’aquella bocca linda como a maçan camoesa, e com a -graça e esprito que ella tinha em todas as coisas, senti -cá por dentro taes esfregações, que não fazem uma<span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span> -ideia! Caramba! até perdi o comer! Andava assim a -modo de tonto, pesava as coisas tão mal na loja, que -era uma risota. E então securas? Todo eu era um forno. -De noite principalmente passava o tempo a beber agua -e em vez de dormir vinha-me prantar á janella, com os -olhos pregados na casa onde morava aquelle demonio -tentador, que foi a minha desgraça.</p> - -<p>—Era uma paixão—conclui.</p> - -<p>—E uma paixão furiosa—acrescentou o meu amigo.</p> - -<p>—Sei lá que diabo era! Foi uma grande bebedeira. -Parece que me tinham dado alguma bruxaria a comer. -D’ahi por diante nunca mais dei conta de mim. Não era -Lucas Baptista que fallava, era outro homem. Tinha-a -sempre diante dos olhos, quer de dia, quer de noite. As -santas da egreja, inclusiva Nossa Senhora—Deus me -perdoe!—pareciam-me feias em comparação d’ella. Um -dia tirei-me dos meus cuidados e pilhando-a a geito na -janella disse-lhe: «Uma casa sem uma dona é triste como -um campo de milho sem sacho!»</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>—E ella entendeu-o?</p> - -<p>—Sei lá! Deu uma gargalhada e sahiu da janella.<span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span> -Fiquei assim a modo de parvo. Se se tivesse rido de -mim, se andasse a fazer chacota, é porque me ia deitar -na levada da azenha e nunca mais appareceria. Mas -voltou logo depois e com um sério muito sério, pôz o -dedo no nariz a dizer-me que lhe não fallasse assim da -rua, que lhe podia arranjar alguma fama. Eu então tive -um baque no coração e disse de só para só: «Ella quer!» -Logo que encontrei modo perguntei-lhe em segredo: -«Deseja a menina ser a dona d’esta casa?» Mas quando -estas palavras me sahiram da bocca, vi abrirem-se-me -debaixo dos pés as chammas do inferno.</p> - -<p>—Porque! Ella disse que não?—perguntou o meu -amigo.</p> - -<p>—Qual! Pois isso é que foi. O demonio da serpente -tentadora, com uns olhos d’uma maganice que os senhores -não fazem ideia, responde assim, para só eu ouvir: -«Isso é com meu tio!» E sae da janella, indo tocar -no piano uma modinha de que eu gostava tanto -que até me fazia arrepios. Caramba! Aquillo fez-me -cá por dentro tal arrepanho, deu-me tanta alma e coração, -que desejava ter de meu o mundo inteiro, só -para lh’o dar e fazel-a princeza. Podia lá ser! Um velho, -um estupido, que só sabia pesar arroz e bacalhau -e contractar em gados, casado com aquella senhora, tão -bem fallante e tão linda!... Eu só queria que os senhores<span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span> -conversassem com ella! Desembaraçada e litterata -como aquillo não ha. Vá lá o mais poeta dar-lhe -mote, sem vir com a cara a um lado! Os paes d’ella -eram gente grauda cá de Lisboa e o tal tio, honra lhe -seja, deu-lhe educação de espavento. Ainda hoje lhe -quero bem só por isso! A tal viscondessa de quem a -D. Rozita do major, (era assim que lhe chamavam lá -na terra) ensinava as filhas, era uma creada ao pé -d’ella. Uma senhora de mão cheia, lá isso valha a verdade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>—O amigo Lucas sabe a historia da nossa mãe Eva -e a da maçan que Adão comeu?—perguntei.</p> - -<p>—Ouvi bastas vezes explicar isso lá ao abbade. -Pois a gente não é de pau, é de carne e osso, caramba! -Logo n’esse dia o major entrou-me na loja a comprar -charutos. Era assim um home todo arroganças, sempre -a retorcer os bigodes e a dar com o chicote nas calças. -Ainda bem conservado, talvez uns dez annos mais velho -do que eu. Chamei-o para traz d’umas saccas d’assucar, -que lhe queria dar duas palavras, em particular. -A minha loja era grande como um armazem! Fazia -muito negocio e todos os mezes tinha pagamentos de -duzentos, quatrocentos e mesmo seiscentos mil réis aos -caixeiros do Porto, que iam ás cobranças. Ás vezes -havia mais que um pagamento. Bah! nem me quero -lembrar! Tudo perdi, por causa d’aquella má mulher, -que foi a minha perdição. Nunca mais a tornei a ver, -não sei onde diabo se metteu; mas se um dia a encontro, -ainda perco a cabeça e chacino-a, como se faz aos<span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span> -porcos. Para mim hoje tanto se me dá da costa d’Africa, -de morrer no Limoeiro, ou d’um tiro, como se me dá -da primeira camisa que vesti—terminou com desespero.</p> - -<p>—Mas o major. O que disse o famoso major?—perguntou -interessado o meu amigo.</p> - -<p>—Ora... uma lenga, lenga. Principiou macambusio, -a retorcer os bigodes... Eu que nunca fui medroso, -nem peco, pois muitas vezes venci a tiro os guardas de -alfandega na raia, por causa do contrabando, tremia -como varas verdes. Se elle me diz que não, espetava -uma faca na minha propria barriga. Porém, não disse. -Mastigou em secco... mastigou... que era o diabo; -grande differença de edades; ella sempre tinha vivido -com muita decencia, mas não tinha nada de seu; que -eu precisava de outra mulher... E dava com o chicote -pelas saccas do assucar, e encolhia os hombros e -passeiava d’um lado para o outro, sem atar nem desatar. -Este aranzel puchou por mim e disse: «Ó senhor -major, eu bem sei que a não mereço; mas se ella, assim -mesmo como eu sou, me quizer e se eu tiver meios -com que lhe conservar todo o luxo que tem, o senhor -não diz que não?»</p> - -<p>—Ora, agarrou-lhe com as duas mãos—entendeu o -meu companheiro.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span></p> - -<p>—Não é tanto assim! Que não tinha nada com isso. -Tinha-a creado; mas não era sua filha. Demais já tinha -passado a edade, podia fazer o que quizesse. O que -lhe custava era separar-se d’ella.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>—Ainda é vivo o major? perguntei.</p> - -<p>—Não senhor, morreu d’um ataque, era um grande -borrachão. Só o vinho do Porto que elle me bebeu lá -da loja?! Ficou-me a dever mais de cem mil réis! Adiante. -Por ultimo disse que sim; mas pediu-me quasi a -chorar que a tractasse bem, que elle sempre a educára -muito mimosa.</p> - -<p>—Estava tudo resolvido.</p> - -<p>—É verdade, uma infelicidade. A gente não sabe onde -as tem armadas. Fomos casar ao Bom-Jesus de Braga -e gastei mais de vinte moedas em tudo isso. Foi -ella que assim o quiz. O tio major pilhou uma borracheira -que chegou a estar de cama! Ao fim de tres dias -voltamos para a terra n’um carro fretado ao Franqueira. -Pareciamos uns fidalgos. Foi talvez o luxo que a -perdeu, coitada, e a mim tambem—considerou com -tristeza. Porque ella não era má, os senhores podem<span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span> -acreditar; mas o janotismo deu-lhe volta ao miolo, como -acontece a quasi todas as mulheres, para mal dos -maridos—concluiu philosophicamente.</p> - -<p>—Não foi só isso, talvez—repliquei. Ora confesse, -amigo Lucas. O outro era ahi algum rapaz novo e janota...</p> - -<p>—Que!... Não senhores—interveio com vivacidade—um -gebo como eu! Não me troco! Assim um -gordo, de cara espapada e barbicha de cabrito. Não -me troco. Essa é que é toda a minha matacão. Se Rosa -fosse para onde algum rapaz novo e bem parecido... -vá. Sou velho e não me tenho por home que a mereça. -Mas para esse bruto com quem ella está! Ainda -que eu viva cem annos, não me posso consolar! Que -posição tem elle?... (interrogou-se). Uma logita alli -para os lados de S. Paulo. Ora abobora!... O bicho -mulher não ha ninguem que o entenda!</p> - -<p>—Realmente não se percebe bem, a loucura de sua -mulher—reflectiu o meu amigo. O senhor tractava-a -mal, batia-lhe?</p> - -<p>—Eu!? Eu bater-lhe?! O senhor está a caçoar comigo! -Só o que queria saber é onde ella desejaria passar, -para ir beijar o chão onde pozesse os seus pés. -Fazem lá ideia! Aquillo para mim não era uma mulher, -era uma santa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span></p> - -<p>E as lagrimas cahindo-lhe a quatro, Lucas acrescentou:</p> - -<p>—Até é uma vergonha, o chorar ainda por aquella -ingrata! Não está mais na minha mão.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>—Então não comprehendo—insistiu o meu amigo—como -depois de o querer para marido, o regeitou.</p> - -<p>—Pois eu comprehendo muito bem, com sua licença. -A questão é que ella casou comigo, para vir para -Lisboa. Depois da bôda não nos demoramos quatro -mezes lá na terra. Principiou aquelle demonio a atanazar-me, -que não podia viver alli, que o negocio não -prestava e como o tal tio já tinha morrido, metteu-me -na cabeça, que aqui em Lisboa, eu podia ganhar mais -dinheiro. Isto lá me custou, porque eu bem via ser uma -asneira. Mas ella tanto fez e eu com este meu fraco por -aquella sereia, não tive remedio. Viemos e os primeiros -quatro mezes foi uma pandiga. Enguliu-se um conto -de reis, em carros, em theatros e com amigos que logo -arranjei no hotel da rua da Prata, onde estavamos. -Muitos d’esses, hoje, nem me compram uma cautela, só -para me não fallarem. No fim d’isto eu que via sumir-se<span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span> -o dinheiro disse-lhe: «Mulher, as libras acabam-se, é -preciso arranjar algumas.» Ella então teve a ideia de -pôrmos uma loja de capellista, onde ella estivesse a vender, -para chamar freguesia. Para chamar freguesia!—exclamou -indignado e ironico.—O que eu merecia era -com uma moca no toutiço! A freguesia de que ella -precisava sei eu! Era com um marmeleiro!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>—Então foi ahi que ella...</p> - -<p>—Não senhor. O tal gebo conhecemol-o á mesa do -hotel e no theatro da rua dos Condes. Á mesa estava -o machacaz em frente de nós, sempre a offerecer genebra -ou vinho do Porto. Por isso, quando a gente arranjou -a loja, que foi alli para a Sé, o janota lampana, -não me sahia de lá e era dos melhores freguezes de charutos -que a gente tinha. Fazia-se muito amigo e eu que -sempre fui um simples, contei-lhe a minha vida e confessei -que o negocio não dava para os gastos. No fim -d’um anno pouco havia dos cinco contos que trouxera -da terra! Pois elle, com um estadão como eu tinha, -sempre de grande e á franceza, passeios aos domingos, -carros, bailes de mascaras!... E querem os senhores -saber?... Foi a desavergonhada (eu a este tempo, -sou capaz de jurar sobre umas <i>Horas</i>, como ella ainda -não era má mulher!) que me lembrou fallar com o Gonsalves -(era o tal!) para elle me aconselhar alguma coisa, -em que se ganhasse dinheiro. Fallei n’isso ao cara<span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span> -de demonio e logo muito prompto me disse que mettesse -o que me restava em negocio de vinhos de Torres, -que dava muito. Foi até elle que me arranjou conhecimentos. -Por este motivo principiei a andar dias e -dias por fóra de casa, por um lado e pelo outro, sempre -n’uma fona.</p> - -<p>—Ahi é que bate o ponto. O que elle quiz foi afastal-o -para longe.</p> - -<p>—Pois!... Eu nunca pequei por esperto. Penso -que toda a gente é de boa fé, como eu!... N’esta -coisa de cauteleiro em que ando, tenho aprendido -muito. Hoje nem o mais pintado.</p> - -<p>—O negocio de vinho fel-o perder a mulher e o dinheiro—raciocinou -o meu amigo.</p> - -<p>—Como diz; porque logo que, por uma carta anonyma, -vim a desconfiar d’aquella ingrata peguei de vigial-a -e para melhor o fazer vendi todo o vinho de repente -e com perca grossa. Um dia disse-lhe: «Mulher, -tem juizo, porta-te bem, olha que a honra não ha dinheiro -que a pague!» Respondeu-me que não fosse tolo -e voltou-me as costas. Com o fim de estar perto d’ella, -arranjei coisa para ficar em Lisboa. Uns amigos afiançaram-me -em algumas casas de commercio, para eu andar -a receber dinheiro. Ella ralhou-me por isso e disse -que havia de ser grande o meu ganho. Eu respondi:<span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span> -«Para o que tu precisares nunca te hade faltar. Ainda -que eu venda o meu corpo ao diabo, terás sempre para -os teus alfinetes.» Sabem com o que me veio?: «Eu -quero continuar a ir aos theatros e dar os meus passeios. -Não hei de estar toda a minha vida mettida n’um -buraco.»</p> - -<p>—Tinha aspirações, vê-se.</p> - -<p>—Tinha o diabo no corpo, é o que ella tinha. Eu -não lhe merecia o pago que me deu. Trabalhava como -um mouro, só para que ella tivesse tudo. Não havia -chuva, não havia vento, não havia calor para mim. -Sempre a correr por essas ruas e então que estáfas! Ás -duas por tres, cahia-lhe na loja como quem vinha de -passagem e sabe Deus se não tinha dado uma carreira -de Alcantara até á Sé, só para ver se havia alguma novidade. -Os senhores riem-se? É porque não sabem o -que isto é. Chegava todo esbaforido, o coração aos pulos -no peito, e sempre com aquella mulher deante dos -olhos a enganar-me. Não comia, não dormia descançado, -um verdadeiro inferno!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>—Afinal vê-se que gostava muito d’ella—insinuei.</p> - -<p>Respondeu com vivacidade:</p> - -<p>—Isso, mesmo cá de dentro. Tinha-me por força -dado alguma bruxaria. E que mal me pagou! Já não -lhe pedia que me tivesse amor. Bem sei que não podia -ser, que sou um velho e um ninguem; mas não devia -fazer o que fez. Na noite em que, morto de fome e de -frio, entrei em casa depois de ter andado todo o dia -n’uma roda viva, e não a encontrei, cahi no chão como -uma pedra. Tornei a mim, quando a vela do castiçal -estava gasta. A casa em desordem, os bahus e gavetas -abertas, como se tivessem andado ladrões! Aquella -mulher perdida não se contentou em me deixar, levou -tudo quanto havia de bom, e fiquei com a triste camisa -do corpo. Chorei mais do que quando morreu -minha mãe! Durante tres dias, quasi sem comer, nem -beber, corri toda a cidade pelos botequins, pelas casas -de pasto e restaurantes, pelos theatros com um revolve -carregado a ver se os encontrava. Haviamos de morrer<span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span> -todos tres. A ella tinha vontade de lhe beber o sangue -por uma tigela e a elle de lhe fazer a cabeça n’um -bolo. Se os encontro havia de me vingar até ao fundo -d’alma!</p> - -<p>—E ainda gosta d’ella?</p> - -<p>—Gosto sim senhor, gosto. Para que hei de dizer -que não? É o meu peccado.</p> - -<p>Teve novas lagrimas nos olhos, que desejou esconder -de nós, voltando-se para a parede.</p> - -<p>—Se ella o tornasse a procurar?</p> - -<p>—Não me falle n’isso! Ferve-me o sangue! Se um -dia a vejo...</p> - -<p>—Ah! nunca mais a encontrou?—pergunta o meu -amigo.</p> - -<p>—Já disse que não senhor. Sei onde mora, porque -conheço a casa d’esse excommungado que m’a furtou; -mas a ella nunca mais lhe puz os olhos em cima. Pois -é admiração! Com este meu modo de vida das cautelas -e dos jornaes, corro toda a cidade. Nem nos theatros, -nem nos dias de procissão, nem no Passeio. Aquillo -é que só vae á missa cedo e não torna a sahir—considerou -melancolico.</p> - -<p>—E se um dia a encontra?</p> - -<p>—Mato-a! mato-a, com toda a certeza!—disse exaltado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span></p> - -<p>Depois mudando rapidamente de tom concluiu:</p> - -<p>—Não mato, não mato... Adeus meus senhores, -não me apoquentem.</p> - -<p>E distanciou-se quasi suffocado pela dôr.</p> - -<p class="date">Março de 85.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 200px;"> -<img src="images/footer6.jpg" width="200" height="125" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header6.jpg" width="500" height="120" alt="" /> -</div> - -<h2 id="DOIS_CATURRAS">DOIS CATURRAS</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-n.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Nas serenas tardes de verão, dormida a sésta -regulamentar, o dr. Leandro e frei Antonio, -costumavam ir dar juntos um passeio. Sempre -methodicos e taciturnos sahiam de casa á hora conveniente, -para se encontrarem junto da igreja, sem esperarem -um pelo outro. A menor falta n’este ponto, -um simples minuto de tardança, era caso para recriminações -da parte do que chegasse primeiro, recriminações -manifestadas em monosyllabos de desgosto e n’uma -ou n’outra phrase curta e rapida, atirada para o silencio -com pronuncia desdenhosa: «Pegou-lhe bem na somneca», -«Ficou abarrotado com o jantar», «Isto foi pinga -de mais...» Mas depois seguiam cabisbaixos pela encosta -acima, as mãos cruzadas sobre os rins, as bengalas -pendentes, e paravam de vez em quando, para tomar<span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span> -um pouco d’ar. Junto da ermida da Senhora do -Amparo, d’onde se disfructa uma paizagem restricta e -pacificadora, cada um ia-se sentar no seu banco de pedra, -á distancia d’alguns metros, como se fossem desconhecidos. -E o frei Antonio, homem d’um fundo de -bondade mais rancoroso, depois de saborear a primeira -pitada, costumava dizer avulsamente, referindo-se a uma -collina fronteira:</p> - -<p>—Como é bello aquelle monte lá em cima! E é-o -por ser unico!...</p> - -<p>Leandro, fingindo que não ouvira, monologava:</p> - -<p>—Pena é não haver outro monte igual, do lado -d’acolá, por causa da symetria!... Seria incomparavelmente -mais bello!</p> - -<p>Estas palavras, já significavam uma tregua e uma reconciliação. -Eram ironias mansas ao fim de muitos annos -de argumentos, em viva polemica, esmorraçando -mesas, quebrando cadeiras que atiravam ás paredes -juntas com apostrophes. Porém nunca cederam, nem -uma pollegada, n’este valioso ponto de esthetica que -os separava. Frei Antonio sempre partidario da <i>unidade</i>, -da simplicidade absoluta, e por extensão de principio -do pernão, detestava o <i>par</i>. Tinha orgulho em ser -padre, só por causa do celibato. No seu casaco sacerdotal -e na ampla batina usava um unico bolso, para<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span> -n’elle incluir todas as coisas do seu uso—a caixa, as -chaves, o lenço vermelho, um pequeno breviario...</p> - -<p>E justificava-se:</p> - -<p>—Em quanto usei muitos, nunca encontrava o que -queria. Agora é só metter a mão e prompto. A caixa?... -Aqui. (mostrava-a). O breviario?... Eil-o. As -chaves? o lenço?... Tudo, n’um ai.</p> - -<p>Exhibia os objectos com o semblante glorioso d’um -prestimano. Era agressivo e até insolente para todos -que lhe não acceitavam a invenção. Mostrava-se propagandista, -loquaz, capcioso, argumentado pelo seu -lado.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>O dr. Leandro deleitava-se com a opinião diametralmente -opposta. Pela unidade e por tudo quanto era -impar tinha mais do que desdem, tinha desprezo. Dizia, -como phrase de sentença, que a natureza nunca -podia ser manca. Para irritar o seu amigo, na presença -de muita gente, extasiou-se diante da insignificante -igreja de S. Francisco, só porque tinha duas torres -iguaes. Fingiu-se enthusiasmado, mostrando um pasmo -acintoso e offensivo, e exclamou com os braços abertos:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span></p> - -<p>—Que bello! Olhem como são perfeitamente iguaes! -Como é sublime a symetria!</p> - -<p>Frei Antonio sorriu amargamente, encolhendo os hombros, -e respondeu com mal desvanecido azedume:</p> - -<p>—Deus, a suprema perfeição, é <i>Um! Um só!</i></p> - -<p>E espetando o dedo no ar demorou-se com elle, -vingadoramente, diante do nariz do doutor, que objectou:</p> - -<p>—Mas Jesus Christo, a encarnação do pae, tinha -duas naturezas, divina e humana.</p> - -<p>O sacerdote enchendo-se de cordura disse-lhe:</p> - -<p>—Não gosto de metter n’isto o divino; mas podia -responder que sendo tres,—<i>tres!</i>—sublinhou com emphase—as -pessoas da Santissima Trindade, essas mesmas -se reduzem a <i>uma</i>.</p> - -<p>—É tolo—ainda acrescentou o outro.—Não sabe -que pela conta do marinheiro, as pessoas da Santissima -Trindade são dez.</p> - -<p>—Que diz você seu hereje!—cresceu o sacerdote -indignado.</p> - -<p>O doutor explicou tranquillamente:</p> - -<p>—Pois não sabe? Olhe. As pessoas da Santissima -Trindade são tres; Padre, Filho, Espirito santo—seis; -tres pessoas distinctas—nove; um só Deus verdadeiro -—dez.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span></p> - -<p>Os circumstantes riram-se; o frade afastou-se trombudo; -e, por agora, o advogado ficou victorioso, mostrando-o -d’um modo saliente.</p> - -<p>Como andavam sempre juntos, de momento a momento -se levantavam novas birras. O dr. Leandro, que -era magro, pertinaz e acintoso estava sempre a espicaçar -o egresso. Nunca o convidava para jantar, sem -que o numero de convivas fosse par. Levava-os ao jardim -para verem as flores e notava-lhes, sempre com insistencia, -que as disposera pelo systema de parelhas -(<i>de coices</i>—acrescentava o frade). Se tinha de abrir -uma janella procurava logo estabelecer uma corrente -d’ar, escancarando outra, o que endiabrava o clerigo, -que vivia no terror das constipações. Em tudo se mostrava -o rancor d’estes dois irreconciliaveis amigos. Indo -no seu habitual passeio, se encontravam alguem a cavallo, -o sacerdote aproveitava logo o momento para -dizer:</p> - -<p>—Bonita egua! Não haverá outra como ella, para a -emparelhar?</p> - -<p>O dono, se era vaidoso, respondia indubitavelmente:</p> - -<p>—Nunca a encontrei. Pois tenho corrido um rôr de -feiras!</p> - -<p>O sacerdote insuflava n’um sarcasmo mordente:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span></p> - -<p>—É porque não procurou bem. Aqui este senhor -era capaz de lh’a arranjar.</p> - -<p>—Pois não arranjaste!—duvidava o dono da egua.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>O doutor procurou immediatamente a sua desforra. -Logo que viu <i>O das perdizes</i>, na sua carruagem puchada -pela ostentosa parelha de baios, disse-lhe:</p> - -<p>—Ó Pessanha! Se esses teus cavallos fossem differentes -era muito melhor, diz aqui o frei Antonio.</p> - -<p>—Pelo amor de Deus! não valiam dois patacos! -Uma parelha assim, é muito mais cára.</p> - -<p>O frade resmungou.</p> - -<p>—<i>Variatio deletact</i>, meu fidalgo. D’essa maneira até -fazem mal á vista.</p> - -<p>E quando se distanciou a carruagem, disse o sacerdote -avulsamente:</p> - -<p>—O universo é um.</p> - -<p>—Os mandamentos da lei de Deus são dez e reduzem-se -a dois.</p> - -<p>—Já lhe fiz saber que não gosto de metter n’isto o -divino, e lembro-lhe que a gente faz cada coisa por -sua vez.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span></p> - -<p>O doutor apostrophou-o:</p> - -<p>—Quantos olhos tem o senhor na sua cara?!...</p> - -<p>—E não via as coisas muito melhor se tivesse um -só, na testa por exemplo, como os Cyclopes? Até não -havia o perigo de se entortarem.</p> - -<p>Leandro insistiu:</p> - -<p>—Quantas pernas tem o senhor? quantos braços?</p> - -<p>—E por quantas boccas come e diz asneiras o meu -amigo! Por quantas gargantas engole?—arremetteu o -frade. O que o senhor tem decerto, é dois juizos e nenhum -d’elles vale tanto, como o casco d’uma cebola -podre.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Estava-se nas vindimas. O advogado ía todos os annos -para a Feitosa e acompanhava-o alli durante algum -tempo frei Antonio. Era um costume já antigo. Leandro -quiz d’esta vez apertar com <i>argumentos materiaes</i> -a paciencia do sacerdote. «É preciso provar ao latinista—pensou—que -vale mais do que um simples -casco de cebola podre, o meu juizo.» Logo que frei -Antonio chegou á Feitosa, onde o doutor já o esperava, -feriu-o uma novidade nos antigos e sustentados habitos -d’aquella casa:—era a existencia de duas mezas -de jantar, uma para cada um. O doutor só deu esta explicação:</p> - -<p>—O senhor tem o seu systema, eu cá tenho o meu.</p> - -<p>E na meza de Leandro havia dois talheres, dois pedaços -de pão e duas canecas de vinho. Em frente d’um -dos pratos estava uma cadeira, com um travesseiro a -fingir de pessoa e esse travesseiro tinha um chapeu na -cabeça, um bigode de sedas de cavallo e conservava-se -impertigado, n’um sentido de troça.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span></p> - -<p>O sacerdote, teve um riso amarello, fingiu que chasqueava -e observou com grandeza de animo:</p> - -<p>—Tambem é a unica companhia que merece.</p> - -<p>E foi-se sentar á sua meza, que tinha tudo estrictamente -para um; mas em quantidade muito resumida, -tanto de vinho, como de pão. Depois de se ter sugeitado -heroicamente a esta prova durante alguns dias, tomou -a resolução de assentar junto de si dois bonecos -de palha, pedindo que lhe servissem os seus companheiros.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>O doutor, que se não quiz mostrar vencido, levou -ainda mais longe a premeditada vingança, ordenando -que no quarto onde sempre ambos dormiam, houvesse -uma só cama. Frei Antonio, um tanto perturbado, -quando á noite viu isto, perguntou á velha Joanna:</p> - -<p>—Quem diabo vem a ficar aqui?</p> - -<p>—Os senhores ambos. Ora o demo da brincadeira -dos homes!</p> - -<p>E o advogado accrescentou:</p> - -<p>—Em coisa de cama sou pela unidade. As ultimas -chuvas tem arrefecido o tempo.</p> - -<p>Ora, se havia coisa no mundo á qual o sacerdote<span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span> -preferisse a morte, era a dormir com outro. Homem -gordo, d’um suar facil, impaciente no sonho, gostava de -roncar á vontade, de alargar as pernas e deitar os braços -de fóra, quando lhe approuvesse. Antes passar a -noite no chão, n’uma mangedoura, ou sobre tôjo!... -Desde que outro padre, n’uma estalagem de Tras-os-Montes, -o atirára da cama ao chão, estando elle a dormir -e tendo por essa occasião ferido a testa e o nariz -nos cacos d’um objecto que se quebrou, nunca mais -acceitou companheiro de dormida.</p> - -<p>Leandro sabia que o atacava no ponto mais fraco. O -frade disse simplesmente, em tom resoluto:</p> - -<p>—P’ra graçola é de mais! Bem sabe que não durmo -com outro. Então monto a cavallo e vou-me <i>já, mesmo -de noite</i>, embora.</p> - -<p>—Pelo que vejo, a respeito de cama... para dois... -duas?!—disse com ironia o doutor, mostrando-lhe a -outra que estava n’um quarto proximo.</p> - -<p>E como não concluira ainda a sua argumentação pelos -<i>materiaes</i>, quando no dia seguinte, frei Antonio procurava -os butes, para ir dizer a missa conventual, a que -se compromettera, encontrou sómente um. Sem ainda -calcular a significação do acontecimento, veio á porta -em palmilhas de meias, e gritou pela frincha que abriu:</p> - -<p>—Ó Joanna! O outro bute?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span></p> - -<p>—Pergunte por elle ao senhor doutor.</p> - -<p>O ecclesiastico comprehendeu e disse zangado:</p> - -<p>—Mau! mau! mau que m’arrenego!</p> - -<p>Então Leandro, com ingenuidade fingida, respondeu-lhe -do quarto:</p> - -<p>—Passou ahi hontem um pobre, descalço d’um pé e -dei-lho. O amigo tem na realidade dois pés?</p> - -<p>Frei Antonio, com ar apopletico, em mangas de camisa -e em palmilhas, o grosso tronco batido pela luz -da janella do corredor, retorquiu energicamente:</p> - -<p>—Tenho sim senhor e você tem quatro. Ponha cá -o bute e deixemo-nos de chalaças. Já tocou ha um pedaço. -Se essa gente fica sem missa por causa das suas -brincadeiras... quero ver.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Isto passava das marcas. O sacerdote procurou um -meio de tirar a desforra. Havia de ir ter-lhe ao bolso, -que era aonde doia mais ao sovina do Leandro. No -<i>Bracarense</i> da vespera annunciava-se a proxima chegada, -á cidade dos Arcebispos, da actriz Emilia das Neves, -tão celebre e tão gabada, que alli ia representar no -theatro de S. Geraldo. O padre, encobrindo ruins intentos, -convidou o doutor para irem a Braga. O advogado -chasqueou-o por esta manifestação de mundanidade, -porém o ecclesiastico explicou-se com modo -circumspecto:</p> - -<p>—Não que ella só representa dramas sacros. Nem -o senhor Arcebispo, consentia outra coisa, na sua cidade.</p> - -<p>Combinaram-se n’uma apparente harmonia, acceitando -ambos este periodo de tregua. O frei Antonio fazia -de bolsa. Como era expedito, sagaz e conhecia -Braga, o seu amigo facilmente lhe entregou a administração -das finanças communs. Porém, mal conhecia o<span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span> -advogado o que podia dar o rancor d’um frade, que é -espicaçado no que elle tem de mais precioso, o appetite. -As humilhações, as zangas, a quasi fome d’alguns -dias na Feitosa, haviam dado ao rotundo ecclesiastico -um faro agudissimo de vingança. Logo na diligencia -principiou por comprar tres bilhetes, entregando dois -a Leandro que observou seccamente:</p> - -<p>—Na verdade eram bem precisos tres logares, attendendo -a que o senhor não é um homem, é uma -pipa.</p> - -<p>Em Braga, no Transmontano, o doutor notou que -o dono da hospedaria, um velho coxo e rabugento, -que estava sempre a praguejar deante do forno, se ria -descompostamente a tudo quanto lhe segredava o seu -velho amigo frei Antonio e que dissera depois d’um -d’esses colloquios:</p> - -<p>—Então afinfa-lhe? Trinca-lhe bem e entorna-lhe melhor? -Vae valido.</p> - -<p>E tambem percebeu que o sacerdote accrescentára:</p> - -<p>—Tudo á farta e contas separadas.</p> - -<p>Porém Leandro não se deu por achado. Alongou os -beiços, sorriu com esforço e á mesa onde estavam tres -talheres, mostrou uma apparencia calma e de coragem.</p> - -<p>Por certo que identicas advertencias haviam sido feitas -ao Miguel, um creado bebedo e feio, que jogava a<span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span> -batota com os hospedes, pois que esse Miguel, ao segredo -do frade retroquiu olhando de soslaio para Leandro:</p> - -<p>—S’tá dito! Que pandigos!</p> - -<p>E apesar da resolução em que o doutor estava de -se mostrar digno e conveniente até ao fim, não pôde -deixar de se sentir estrangulado pela indignação, quando -viu que o seu amigo lhe comprára dois bilhetes -para o theatro. Isto não tinha geito nenhum, era atirar -dinheiro pela janella sem necessidade! Na hospedaria, -fechado dentro do seu quarto, que estava preparado para -duas pessoas, quando elle era só um, exclamou voltado -para o tecto:</p> - -<p>—Este padre é o demonio! Mau raio, se lhe não espeto -uma faca n’aquelle bandulho!</p> - -<p>Minutos depois veio pelo corredor frei Antonio que -disse, fallando pelo buraco da fechadura:</p> - -<p>—Adeus Leandros, boas noites.</p> - -<p>E logo em seguida, o Miguel acrescentou com a sua -voz avinhada:</p> - -<p>—Com bem passem, senhores <i>doutores</i>.</p> - -<p>O advogado que já estava na cama e com a luz apagada, -ressonou forte, para não responder. No dia seguinte -levantou-se cedo, com o fim de ir sósinho almoçar -debaixo da Arcada. Mas frei Antonio, que o espiava,<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span> -seguiu-o de perto, entrando logo depois d’elle e -mandando vir para tres. Leandro ao sair a porta do botequim, -pronunciou de si para si:</p> - -<p>—Isto acaba hoje! Deixa estar que hoje acaba!</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Tinha, porém, urgente necessidade de mandar fazer -uma roupa de panno preto—sobrecasaca, calça direita, -collete de ceremonia com uma só ordem de botões; -fazenda boa que lhe durasse o resto de vida, que servisse -para visitas e festas. Frei Antonio conhecia na -rua do Souto um mercador de confiança; o doutor -era menos pratico na cidade e por isso não teve remedio -senão entregar-se-lhe. Pareceu-lhe que n’este particular -não podia haver novidade. Foram ambos, ao lado -um do outro, silenciosos e escandalisados.</p> - -<p>Em quanto um mestre de <i>atraz da Sé</i> tomava as -medidas, fallou-se de politica... em deputados... e -o negociante, homem discreto, de barba em serrilha -opinou:</p> - -<p>—Boa asneira! Esfalfa-se a gente para os mandar -p’ra essa Lisboa e lá não fazem mais do que andar -na pandiga, com moçoilas e em treatos. Tributos são<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span> -de cada vez maiores! No tempo do senhor D. Miguel...</p> - -<p>O alfaiate, absolutista sanguineo, parou subitamente -e disse n’uma arremetida, olhando por cima dos oculos, -com a medida suspensa da mão:</p> - -<p>—E acraditam, que o rei legitimo, não ha de vir -pôr fóra do seu reino esta cambada?!</p> - -<p>Todos concordaram em que havia de vir, menos o -doutor que já lhe tinha perdido as esperanças e se fizera -liberal.</p> - -<p>Quando voltaram á terra, Leandro teve uma viva -polemica com frei Antonio, por causa d’aquellas asneiras -fóra de casa. Não era por gastar mais ou menos -uma moeda, porém embirrava com tanta tolice deante -de desconhecidos. O frade respondeu-lhe que bom gado -era porcos, levou-o de troça e continuaram nos seus -passeios e nas suas caturrices habituaes.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Quinze dias depois, o advogado recebeu pela diligencia -de Braga duas encommendas. Abriu a primeira -e n’ella encontrou a roupa que mandára fazer. Vinha -tudo nos termos e a seu contento. Vestiu-a para ver se<span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span> -lhe estava bem e a velha Joanna que elle chamou para -dar parecer, disse que estava mesmo um cravo, e recordou-lhe -os seus tempos de rapaz, quando elle vinha -de Coimbra e era de todos o mais janota. Fôra n’esse -tempo que... Ella era creada da mãe de Leandro, -uma boa senhora, temente a Deus, confessando-se a -miudo e reprehendendo sempre os atrevimentos e brincadeiras -do filho com as moças!... Havia 40 annos que -Joanna alli estava e ainda na memoria se lhe avivavam -facilmente todos os quadros ridentes da mocidade!...</p> - -<p>—Mas a outra encommenda?—lembrou.</p> - -<p>—É verdade—disse o doutor—isto não é para mim. -Ha de haver engano.</p> - -<p>Mas pegou n’ella, remirou-a por todos os lados, apalpou-a, -cheirou-a para advinhar o que seria... e nada! -Pela terceira ou quarta vez releu o subscripto, que -era do mesmo talho de lettra da do negociante que lhe -remettia a sua roupa e com os mesmos dizeres.</p> - -<p>—Só se frei Antonio tambem encommendou alguma -coisa e que m’a mandassem para eu lhe entregar—considerou -com o embrulho suspenso nas duas -mãos.</p> - -<p>Para satisfazer a curiosidade de Joanna, sempre foi -desatando os barbantes, com precauções e cautelas, na -convicção de que era coisa que lhe não pertencia. Encontrou<span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span> -outra roupa, perfeitamente egual á sua. Não -podia presumir brincadeira tão pesada do seu amigo, e, -como elle morava perto, mandou-o chamar.</p> - -<p>—Sabe para quem é esta coisa?—perguntou serenamente.</p> - -<p>—Eu! Como posso advinhar?!</p> - -<p>—Nada de brincadeiras—avisou. Será para si?</p> - -<p>—Não gasto d’esses luxos. Nem eu cabia dentro -d’este pé de meia—retorquiu ironicamente o frade, suspendendo -as calças no ar.</p> - -<p>—Mas com mil demonios!—interroga colericamente -o doutor. Sabe ou não sabe?! Responda.</p> - -<p>O frade respondeu com todo o socego:</p> - -<p>—É provavel que seja para si. Em Braga, ninguem -ignora que o senhor é dois!</p> - -<p>O doutor adiantando-se, poz-lhe diante dos olhos um -punho cerrado.</p> - -<p>—Sabe o que eu ignorava?—gritou. É que o senhor -fosse um pedaço d’asno como é!... Que o arrebento, -seu odre!</p> - -<p>O frade escandalisado, escachou as pernas e apresentando-lhe -de frente o seu valente tronco, oppoz-se-lhe -com vehemencia:</p> - -<p>—Ameaçar-me! olhe que o leva um milhão de demonios, -seu cabrito esfolado!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span></p> - -<p>E saiu nobremente da sala. Durante boa meia duzia -d’annos, conservaram-se inimigos e sem se fallarem. Porém -depois reconciliaram-se n’um jantar de boda, onde -ambos se emborracharam até á ternura das recordações, -e d’alli ao fim da vida, continuaram a sustentar as -suas theorias e a dar os seus passeios habituaes.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 200px;"> -<img src="images/footer7.jpg" width="200" height="150" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header7.jpg" width="500" height="120" alt="" /> -</div> - -<h2 id="A_POSTURA_DOS_OVOS">A POSTURA DOS OVOS</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">As de Refuinho foram as ultimas a chegar. Por -causa do ar da noite, traziam as cabeças envolvidas -em muitos chailes e só deixavam um -buraquinho para espreitar o creado, que ia adeante com -o lampião. D. Michaela, ao recebel-as no cimo da escada, -logo ralhou com as meninas por causa do agasalho -excessivo. Nem pareciam raparigas novas, tantas -eram as cautelas que tomavam. D. Maria justificou as -sobrinhas. Fora ella quem aconselhara taes cuidados, -por causa das possiveis dôres de dentes. Só quem nunca -soffreu d’ellas é que pode fallar! Quanto a si, explicou, -tossindo muito, com o seu modo resignado e soffredor:</p> - -<p>—Oh! filha! Sempre te ando com uma gosma!...</p> - -<p>Logo que entraram na sala, todos vieram comprimental-as. -As da Torre Velha conduziram as primas<span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span> -junto do candieiro, para lhes mostrarem o retrato do -irmão, que era militar e estudava em Lisboa. Tinham -recebido pelo ultimo correio, essa bella photographia -d’um rapagão em pé, apoiado negligentemente na espada -e a barretina sobre uma <i>console</i>. Assentára praça em -cavallaria por inclinação: todos os presentes se lembravam, -de como era um demonio em pequeno, percorrendo -o quinteiro em todos os sentidos, montado n’uma -canna! A carta escripta ás irmãs, era-o n’um luxuoso -papel cor de tremoço cosido e perfumada d’almiscar. -Dizia maravilhas das opulencias da capital, dos seus -palacios, dos theatros e das formosas mulheres que passeavam -em carruagens descobertas, para serem admiradas.</p> - -<p>—Isso já por lá tem uma duzia de namoros—disse -frei Ignacio, espreitando por entre as cabeças das meninas.</p> - -<p>Mas uma das da Torre Velha, confidente do militar -nos seus primeiros amôres, defendeu-o:</p> - -<p>—Quem, o Zésinho?! Não é d’esses!</p> - -<p>E encarou Clotilde de Refuinho, que baixou timidamente -os olhos, conservando-se muito tempo triste, encostada -á mesa.</p> - -<p>Os parceiros do rancoroso voltarete, enremissados -da semana precedente, estavam soffregos sobre o jogo.<span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span> -O desembargador João Xavier, para os desculpar por -se não levantarem, disse de longe, com a auctoridade -d’um marido, que esteve para ser de D. Maria, quarenta -annos antes:</p> - -<p>—Ó minha prima. Deus lh’as dê muito boas. Dispenso -cumprimentos. Esta remissa de quinze entradas -tenho-a atravessada aqui.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Mas quem se aproveitou do reboliço foi o dr. Leandro, -que a esse tempo levava uma reverendissima tunda, -ás damas, do seu amigo frei Antonio, que as jogava -na perfeição. O advogado aproveitou o ensejo -de atirar com o taboleiro para o inferno, e fez na sala -tal barulho, que parecia a derrocada d’uma torre. Até -ia trilhando o medico Pestana, homem de grande saber -e azedume, que lá estava com o seu esqueleto -arrumado a um canto, a chupar cigarros, todo concentrado -no odio ao recebedor da comarca, por causa da -morgada, D. Michaela—mulher soberba, que os dois -ambicionavam furiosamente. O recebedor, o famoso Silveira, -n’essa noite em maré de fortuna amorosa, parecia -um redemoinho pela sala, sempre com o chaile-manta<span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span> -cinzento pendurado dos hombros. Foi elle que -ao vêr muita gente, propôz logo um quino, fallando -com o seu ar estarola. Era quem costumava tirar as bolas -e salpicava o jogo de larachas muito apreciadas, -que por vezes lhe deram assignaladas victorias, quando -a morgada ria até ao engasgamento nervoso. Porém, -n’essa noite, D. Michaela preferiu antes ouvir a musica -«Ao Luar», tocada no piano, com muito coração e esmero -pela Clotildinha. Ella que era romantica e sentimental, -adorava esse famoso trecho, que já uma vez a -fizera suspirar em Barcellos. Era um idyllio cheio de -meiguices dolentes e das suaves fragancias das campinas. -Remurejavam brandamente arvoredos, um regato -serpeava pela encosta e o poetico rouxinol queixava-se -no interior d’um loureiro. Frei Ignacio é quem fazia de -rouxinol, munido d’uma gaitinha; mas o famoso Silveira, -que tambem conhecia a musica, aproveitou cruelmente -mais esta occasião de triumphar sobre o medico. -Propôz-se a tomar para si a parte do rouxinol, sem nenhum -auxilio de gaita. Os applausos á magnifica lembrança -foram calorosos. Todos sabiam, quanto o recebedor -da comarca era eximio imitador de vozes d’animaes -e especialmente das aves. Em certos casos o -engano era completo. Um dia mugiu tão admiravelmente -de vacca no quinteiro de Refuinho, que a velha<span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span> -fidalga veio á janella toda afflicta, ralhar com o moço, -julgando que andava o gado solto. Ao dar com os olhos -no Silveira, que n’esse instante estava mugindo com desolação -para o céu, suppondo uma cria distante, reprehendeu-o:</p> - -<p>—Fazer de vacca! Isso é peccado. Não teme um -castigo do céu? As vaccas não tem alma—concluiu -agastada.</p> - -<p>O medico Pestana, concordando em que o recebedor -não tinha alma, chasqueou o caso dizendo que o -<i>homem</i>, fazendo de vacca ou de boi que era o mesmo, -mostrava grande geito para marido.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Porém a novidade de imitar um rouxinol, foi muito -celebrada; porque ninguem lhe conhecia a prenda. O -medico emmagrecia a olhos vistos, quando a morgada -dava palmas ao Silveira. Este para melhor o aguilhoar -exhibiu outras habilidades já conhecidas: fingiu o trote -d’um cavallo que se approxima e relinchou com as ventas -altas no momento da chegada; o canto do gallo ao -amanhecer, batendo fortemente as azas, foi produzido -com rara perfeição; o coachar das rans em noites primaveraes, -a chegada do cuco em maio, os patos arrebanhados, -o pardal, o melro, o perú... tudo foi representado. -Já não havia, nem volturete, nem bisca, nem -ideias de quino. Tinham para duas horas. O medico -passeava ao fundo da sala, sorumbatico e abatido. Frei -Ignacio, sempre brincalhão, disse-lhe de longe:</p> - -<p>—Deixe-se d’isso, doutor. Quel-o vêr fazer de porco?</p> - -<p>Todos o desejaram e elle não se fez rogado.</p> - -<p>Sahiu da sala, para logo voltar silencioso e embrutecido. -Vinha sorumbatico e sorna, como um porco<span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span> -ao recolher. Uma creada chamou para a comida: «<i>coxi, -coxi, coxi</i>» e logo o Silveira principiou a correr, -como cevado cheio de fome, dando fortes grunhidos, -gritos atroadores, até que foi para um canto sugar a -sua lavagem, com um <i>xou-xou</i> embrulhado e caracteristico. -Por fim suppondo-se um porco perseguido por -um cão, correu veloz, ladrando e grunhindo ao mesmo -tempo, e sahiu precipitadamente pela porta, dando um -encontrão no medico.</p> - -<p>Todos riram com boccas escancaradas. Frei Ignacio -agachado a um canto, já não podia mais, e por fim encostou -a barriga á parede, com medo d’uma colica. As -meninas de Refuinho e da Torre Velha gargalhavam no -regaço umas das outras. O desembargador Xavier sorria -de longe com dignidade, olhando firme, com os seus -occulos d’oiro.</p> - -<p>Um joven poeta, estudante em Coimbra, foi da opinião -e disse-o claramente, que se aquelle phenomeno -se exhibisse no <i>Palacio de Cristal</i>, haveria grande concorrencia, -porque era, em verdade, admiravel! D. Michaela, -que applaudira até as lagrimas, perguntou ao -academico:</p> - -<p>—O senhor Penaguião nunca o viu fazer de gallinha -e pôr ovos?!...</p> - -<p>—Nunca vi, senhora morgada...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span></p> - -<p>—Então!...—concluiu com um entono que significava -preço—nunca viu nada!</p> - -<p>Todos se levantaram a pedir ao Silveira que exhibisse -esta habilidade; porém elle sentado n’uma cadeira, -a limpar o suor do cachaço, não estava para isso. Sentia-se -cançado, ficaria para outro dia, não podia ser tudo -d’uma vez. A morgada, conhecendo o empenho dos -seus convivas, disse mesmo sem se levantar:</p> - -<p>—Ande, vá pôr. Quero que o sr. Penaguião veja.</p> - -<p>Não hesitou um momento. Um raio de vingança -triumphante despediu-se do seu fulvo olhar contra o -medico, que ao vel-o prestar-se, sahiu da sala. Porém -isto, que todos julgaram um signal de covardia não o -era de certo; porque momentos depois o doutor tornou -a entrar, com semblante conformado.</p> - -<p>Como era uma exhibição mais complexa, tomou cada -pessoa o seu logar. As senhoras em cadeiras, em -volta da sala, deixaram o canto livre para a postura, -que devia ser junto do piano. Os homens que se não -puderam sentar, encostaram-se ás entradas e nos vãos -das janellas. O medico, talvez para se mostrar generoso -e soffrer deante de todos a propria humilhação, occupou -a cadeira mais perto do logar da postura.</p> - -<p>Pareceu um acto publico de conformidade. O proprio -Silveira assim o entendeu. No meio d’um silencio<span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span> -valioso, depois de apenados dois banquinhos para servirem -de poleiros casuaes, o recebedor da comarca com -o chaile-manta pendente dos hombros, collocou-se no -meio da sala, olhando solemnemente em redor.</p> - -<p>Mostrava-se grave, simples e ao mesmo tempo imponente!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>A principio houve um cacarejar avulso e sem grande -significação. Andava em volta dando pulinhos, erguendo -a cabeça para ouvir facilmente, e espanejava-se ao -sol. Depois continuou em passo solemne, entoando um -<i>cá... cá... cá...</i> reflectido e de concentração. Passados -momentos, a voz levantou-se gradualmente mais -sonora, tinha gritos estridentes e estendia o pescoço. -Andava com vivacidade, os pulinhos eram sacudidos e -o corpo avolumava-se-lhe debaixo do chaile, quando -afastava os cotovellos. Subiu a um dos poleiros e lá do -alto produziu um <i>ca-ca-ra-có</i>, rapido e vibrante, como -se fora uma sentinella gritando ás armas, para afastar -um inimigo possivel. Mas logo desceu para continuar -n’um tom manso e natural, andando em passo grave, -seguro de que ninguem o viria perturbar. De repente -deu-lhe uma especie de furia, uma raiva e começou a -correr e a gritar desesperadamente, muito arrastado -pelo chão, significando a gallinha apertada por uma -dôr e com a necessidade urgente de expellir de si qualquer<span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span> -coisa. Os gritos eram fortes e expressivos, as arremetidas -para o lado do ninho insistentes, sempre com -as azas de rasto, afastando-se um momento para voltar -depois mais precisado.</p> - -<p>A situação ia-se tornando claramente dramatica.</p> - -<p>O interesse dos circumstantes era cada vez maior. -Exprimiam o sentimento de admiração que os possuia, -em frouxos de riso apanhados na mão e muitos, boquiabertos, -pronunciavam: «Ora!... Ora!...»</p> - -<p>A morgada, que estava mais á vontade e não temia -perturbar a representação observou:</p> - -<p>—É tal e qual a minha amarella. Uma coisa assim!...</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Vendo-se applaudido pela mulher a quem amava -o Silveira foi sublime! Aproximou-se sornamente do -canto da postura. Reconhecia-se-lhe na lentidão dos -movimentos de parturiente, que se approximava o momento -supremo. Já ia arrastando o corpo, d’aza cahida, -e um <i>có-có</i>... guttural. Foi enfraquecendo a voz e os -movimentos, andando em volta de si mesmo a procurar -o geito. Depois acamou-se acocorado, todo mettido -debaixo do chaile cinzento, n’uma attitude de objecto<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span> -bruto e informe que para alli estivesse arrumado. Houve -um gemer soturno, como o regougar d’um gato.</p> - -<p>Foi n’este momento que o medico se abaixou fingindo -que apanhava alguma cousa. O Silveira não o -percebeu, tão compenetrado estava das suas altas funções -de maternidade. Os assistentes, interessados no final -da comedia, tambem não repararam. Durante o minuto -que o recebedor se conservou agachado, trocaram-se -apenas algumas observações em voz baixa. Mas por -fim, mestre Silveira, sahiu do ninho mostrando-se patentemente -e engulindo em secco, como se viesse d’um -sonho. Começou a cacarejar com alegria e orgulho em -voz sonora e espantada. Saracoteava-se vistosamente, -espanejando-se, refrescando o corpo, na satisfação de -quem cumprira um dever e se livrára d’uma difficuldade. -Esperto, vivaz, altivo, tudo era <i>Ca-cá-rá-cá, ca-cá-rá-ki</i>... -para um lado e para outro. E n’uma reviravolta, -quando fazia a ultima visita saudosa ao ninho, o -soberbo Silveira estacou de repente, empallideceu deixando -de cantar, os braços cahiram-lhe n’um assombro!</p> - -<p>—Mas eu não fui!—pronunciou inconsciente.</p> - -<p>O apparecimento imprevisto de dois ovos authenticos -no logar da postura, produziu uma gargalhada atterradora! -Frei Ignacio, sempre larachista, agarrou no -recebedor pelos hombros, perguntando-lhe:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span></p> - -<p>—Então hoje isto foi a sério, caro amigo?!</p> - -<p>Porém o medico, cheio da sua vingança, disia ao -mesmo tempo a D. Michaela, em voz alta, de modo -que todos ouvissem:</p> - -<p>—Compre esta gallinha, senhora morgada, que lhe -põe aos dois. Olhe que sempre é melhor que a sua -amarella!</p> - -<div class="figcenter" style="width: 200px;"> -<img src="images/footer8.jpg" width="200" height="100" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header8.jpg" width="500" height="120" alt="" /> -</div> - -<h2 id="RENDE-TE_CENTURIAO">RENDE-TE CENTURIÃO</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-e.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Esperava-se que d’essa vez os <i>Passos</i> fossem -grandiosos. Tinha chegado no verão um brazileiro, -que para engrandecer a terra, concorria -com cincoenta libras. O abbade, depois da offerta, -affirmou cathegoricamente, que ía fazer reviver a memoria -dos <i>Passos</i> do fidalgo do Outeiro, que sessenta -annos antes, fizera <i>uns</i> de que fallavam ainda com espanto, -os velhos das redondezas! Não havia de faltar -nada: teriam muitos anjos, musica da melhor e pregador -de fama. Se viessem ainda esmolas, mandar-se-hia -armar a egreja, podiam-se reformar os andores que estavam -velhos; pois seria bonito que apparecessem differentes -imagens do Redemptor, significando as diversas -partes da notabilissima <i>Paixão</i>.</p> - -<p>—Quando foram os do fidalgo do Outeiro—acrescentou -o abbade—houve a guarda romana com o Centurião<span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span> -á frente, levando o seu distinctivo de videira como -emblema do direito de punição corporea, sobre os soldados. -Não sou d’esse tempo, mas ha ahi muitos homens -que se lembram—concluiu, dando grande preço -ás suas palavras.</p> - -<p>Era n’um domingo, depois da missa conventual. O -abbade fallava na sachristia, deante d’alguns freguezes, -que o escutavam respeitosamente. O benemerito senhor -Guimarães, que abrira a subscripção com cincoenta libras, -era dos ouvintes. Reconhecendo, como todos, que -a somma já apontada era diminuta para se arranjar uma -procissão a valer, poz serenamente a luneta, pegou no -papel onde estavam lançadas as differentes verbas e leu:</p> - -<p>—Tresentos e cinco mil e sete centos e cincoenta -reis. É pouco!—disse. Quanto entende o senhor abbade, -que será preciso para se fazer coisa de truz?!</p> - -<p>O sacerdote olhou fixamente o tecto da sachristia, -suspendendo-se do labio inferior por dois dedos. Pronunciou, -para si algumas palavras de calculo, resumindo -em voz alta:</p> - -<p>—Quinhentos mil reis. Com quinhentos mil reis faz-se -tudo.</p> - -<p>—Pois feche lá essa conta e trate do negocio, meu -reverendo—concluiu o Guimarães, atirando generosamente -com a meia folha d’almaço, sobre o gavetão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span></p> - -<p>O abbade agarrou-o entre os seus rudes braços de -camponez, affirmando-lhe:</p> - -<p>—Com isso, temos tudo! Bom sermão; boa musica; -bom côro; anjos; egreja rica; um centurião com a sua -guarda, que se lhe mandam ahi na villa fazer vestimentas; -e andores de espavento, que eu arranjo a virem de -Braga, com imagens e mais pertences. Creia o meu -amigo, ponho-lhe ahi uns <i>Passos</i>, que nem na cidade do -Porto. Uma riqueza, verá.</p> - -<p>—Então é dar ordens, está arrumado—acrescentou -o Guimarães, fazendo um gesto largo com a ponteira -da bengala. Dinheiro não faltará, ainda que seja preciso -mais. Na minha vida de trabalho levei muito chimbalau, -e bastas vezes perdi contos e contos. Dê ordens, meu -abbade, e ponha a coisa na rua. Percebeu?</p> - -<p>Esta grandeza do Guimarães foi muito gabada em -toda a parte, bem como a sua devoção. Felizmente -não era como o traste do Cerqueira, um herege que -embirrava com missionarios. Esse era raro verem-no -pela egreja, e até quiz bater no afamado padre Antonio, -porque lhe fez uma santa da sobrinha, a Rosaria -do Thomaz do Monte, pobre homem, agora maluco, -por causa das heresias que lhe mettera na cabeça o cunhado. -Ainda bem que o senhor Guimarães não era -assim e gastava dinheiro em fazer coisas boas, como<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span> -ajudar uns <i>Passos</i> de que todos se orgulhavam. Por isso -Deus o tinha protegido; por isso, sendo filho d’um pobre -artista, era hoje um fidalgo, tinha palacio e suas -filhas usavam sedas. Não tardariam em ver-lhe um titulo -e era muito bem applicado, a um cavalheiro de tão larga -generosidade e que tão amigo se mostrava da terra. -Podia ser como outros, despresar do nascimento -obscuro, viver n’esse Porto ou Lisboa, e não fazer -caso nem da sua aldeia, nem dos parentes pobres. «Viva -o senhor Guimarães, que ainda hade ser o nosso -deputado»—affirmavam com emphase pessoas de consideração.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Desde aquelle momento o abbade não pensou n’outra -coisa. Logo no dia seguinte montou na sua egua -e foi encontrar-se com a diligencia, que o levaria a -Braga. Como era homem de imaginação e muita fé, logo -que alli chegou entendeu-se com as pessoas que melhores -conselhos lhe podiam dar. Depois de varias conferencias -resolveu encommendar tudo a um homem da -rua do Souto, o que era melhor arranjo. Combinou a armação -da egreja; os fardamentos do centurião, guardas, -figuras e vestidos d’anjos; os cantores para o coro, os andores -e até as imagens. Quanto a imagens foi mais difficil; -pois que as confrarias entenderam que as não deviam -emprestar, sem o parecer favoravel do senhor Arcebispo.</p> - -<p>Depois de trabalho insano só pôde conseguir, um -<i>S. João</i> e um <i>Senhor prezo á columna</i>. Porém não ficou -contente; porque as estatuas, antigas e feias, não -eram de causar grande devoção.</p> - -<p>—Paciencia—disse resignado. Levam-se os seis andores. -Tenho lá <i>Cruz ás costas</i> e <i>Senhora do encontro</i>.<span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span> -Levo d’aqui <i>Preso á columna</i> e <i>S. João</i>. <i>Canna verde</i> -e <i>Pretorio</i> arranjo de Valença. Quem tem amigos...</p> - -<p>Procurou, depois, saber onde morava actualmente o -padre Silvestre, capellão de infanteria 8 e seu antigo -condiscipulo. Era um dos pregadores mais afamados do -alto Minho e o abbade, pela terceira vez, o escolhia -para lhe abrilhantar uma festa da sua egreja.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Tendo conhecimento de que mudára para a Conega, -cahiu-lhe em casa d’um pulo. Havia annos que se não -encontravam. Por isso houve effusão d’alegria, muitos -abraços e expansões n’este momento.</p> - -<p>O pregador, escarranchado n’uma cadeira, disse para -o seu amigo que se lhe sentára na cama:</p> - -<p>—Tu, magnifico, gordo, sempre abbade! Que diabo -te trouxe n’este tempo de trabalhos quaresmaes cá por -Braga?</p> - -<p>—O diabo não, creatura, foi Deus! Deus, o Senhor -dos Passos é que me trouxe hoje por cá. Mas deixa-me -perguntar-te, antes que me esqueça. Estás de mal c’o -as...</p> - -<p>—Estou sim—atalhou—não as podia aturar. Eram<span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span> -umas porcas. Nem roupa, nem comida... uma immundicie. -Depois tinha por companheiro o Antunes da Cuspinheira, -lembras-te? Um cevado com quem se não pode -estar á mesa. Deixei-as...</p> - -<p>O abbade conformou-se, accrescentando:</p> - -<p>—Pois custou-me a dar co’esta casa. Perguntei ao -Sampaio, o famulo. E venho cá por um motivo muito -grave.</p> - -<p>—Oh! com seis centos!—exclamou o capellão. Talvez -algum caso de consciencia. O homem é fraco, bem -sei. Eu absolvo-te, diz da tua vida, bezerro.</p> - -<p>—Não, não é isso. Tenho uma festa de Passos, coisa -rica. Paga lá um meu parochiano, um brazileiro. Quero -que tu pregues.</p> - -<p>—Quando é? Na quarta dominga? Tenho que fazer, -vou aos de Bouro.</p> - -<p>—Não principies já com lonas. É na terceira dominga, -homem.</p> - -<p>—Então posso.</p> - -<p>—Mas Souséca! eu quero um sermão novo em folha. -Posso-te dar quinze moedas.</p> - -<p>O padre Silvestre reflectiu e disse:</p> - -<p>—Valeu. Escrevo hoje mesmo ao Germano, o Germano -das bochechas grandes. Conhecel-o? Quero que -elle me empreste um que lhe enviaram do Porto e que<span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span> -fez grande barulho em Guimarães quando lá o pregou, -ha dois annos.</p> - -<p>—Mas, porque é que tu não o escreves? Com o teu -talento...</p> - -<p>—Escrevo sim; mas é para me inspirar. Tu bem sabes -que estas coisas são sempre as mesmas. Está tudo -sabido, já se não póde inventar. A questão é de <i>modo</i>. -Percebes abbade?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>No sabbado, vespera da terceira dominga chegou a -Refuinho o pregador. Foi-se hospedar na <i>Residencia</i>. -A sua entrada na aldeia foi celebrada com alegria pelo -ajuntamento de povo, que estava no adro da egreja e -até haveria repiques e foguetorio, se não fôra tempo -santo de quaresma.</p> - -<p>O Agrella, que ajudava o armador de Braga, veio -dar ao padre Silvestre, um aperto de mão, affectuoso e -familiar.</p> - -<p>—Cá andas tu como o peixe n’agua—disse-lhe o -pregador.</p> - -<p>—Não ha remedio senão dar um gaudio á raparigada—respondeu -o alfaiate. Muito estimei vel-o por cá, -meu senhor. Ha que tempos!... Temos ahi uns <i>Passos</i> -d’arromba. Não haverá outros, cinco leguas em redor.</p> - -<p>O padre Silvestre saudava a todos de cima da burra. -Os semblantes dos camponezes eram risonhos, como se -tractassem d’um noivado. Este rumor attrahiu o abbade<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span> -que se chegou á janella. Ao avistar o seu antigo -condiscipulo, gritou-lhe:</p> - -<p>—Eh! Souséca! Sobe para cá diabo.</p> - -<p>Mas foi elle que veio abaixo, de tamancos e meias -de lã, envolvido no amplo capote. Tomou o hospede -entre os braços, apertou-o com amisade.</p> - -<p>—Já me tardavas, maroto!—disse. Vou-te mandar -pôr a ceia. Ó rapariga!—gritou para cima—Elle -cá está.</p> - -<p>No alto da escada, appareceu a Joanna, de lenço -vermelho cruzado sobre os seios magnificos, e expondo, -á vista de todos, a optima carne dos seus braços.</p> - -<p>—Então uma fornada, ein?—perguntou o pregador.</p> - -<p>—Não ha remedio senhor reverendo capellão. A -gente hade comer. Estou a mettel-a no forno. Desculpe -recebel-o assim.</p> - -<p>Mas o padre Silvestre não era de ceremonias. Estava -acostumado. Em casa de sua mãe, nos tempos felizes -em que vivera na aldeia, era a mesma coisa. O trabalho -primeiro que tudo. Faz a gente forte. Deu-lhe um abraço -de satisfação, fazendo muito gosto em sujar o capote, -sobre o lenço enfarinhado e os braços roliços, -cheios de massa. A rapariga riu estrondosamente, entregando-se-lhe -com facilidade. O abbade, fingindo-se -suspeitoso, observou:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span></p> - -<p>—Cautelinha, cautelinha, sôr Souséca!...</p> - -<p>Tudo era levado á boa parte e sem malicia. O padre -Silvestre pediu tamancos e meias de lã, que tinha -os pés gelados. Oito horas de diligencia e a cavallo era -de morrer. Se viesse alguma chuva não faria mal nenhum, -pois amaciava.</p> - -<p>—Não imaginas abbade, como elle corta lá em cima, -ao dobrar o monte.</p> - -<p>—Imagino, imagino. Bastas vezes o tenho levado -pela fucinheira. Mas toma lá uns soccos e as meias e -vem pr’o lume. Ceia-se alli mesmo.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Pouco depois, pozeram diante do pregador a sua -gallinha, salpicão e a tigella de bom caldo, fumegante -e appetitoso. Nos tempos em que ha muito serviço divino, -não se usam jejuns para quem prega ou canta. -Tem dispensa, bem merecida; pois que alguns, como -o padre Silvestre, andam de terra em terra, levando a -palavra sancta, para converter peccadores. É uma lida -de seis centos demonios. Ganha-se dinheiro; mas não -vale muito a pena. Se os obrigassem a comer sardinhas, -morriam no fim da quaresma. Era Christo a subir ao<span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span> -ceu e elles a descerem á cova. Jejuns são para os brutos, -para os fortes, que não tem de puchar pela cachimonia.</p> - -<p>—Cá na minha—affirmou Joanna atiçando o lume—se -nós somos tão tapados é por causa da brôa e -do bacalhau.</p> - -<p>O abbade, que estava estorcegando a sua posta sobre -o prato, levantou a cabeça para dizer:</p> - -<p>—Olá, princeza. Vou-te mandar vir carne da villa, -para tu comeres.</p> - -<p>—E olhe que me havia de fazer bem, ao meu rico -peitinho—confessou pondo a mão sobre os proeminentes -seios. Ao trabalho que lhe tenho.</p> - -<p>O abbade continuou troçando:</p> - -<p>—Ora sempre a gente vé coisas! Não te me faças -lesma. Dá p’ra cá a infusa e deixemo-nos de contos.</p> - -<p>Mas o padre capellão fallou sério, explicando. O seu -trabalho n’essa quaresma era extraordinario. Em seguida -a esse sermão, tinha outros. <i>Passos</i> em Bouro e toda -a semana sancta em Amares, onde tinha de pregar o -do <i>lava-pés</i>, o do <i>enterro</i>, o de <i>lagrimas</i> e o da <i>ressurreição</i>, -que é sempre uma predica demorada e cheia -de conceitos.</p> - -<p>—Pois sim—considerou o abbade—mas este d’amanhã -é que mais te custa.</p> - -<p>—Podéra! Tambem é o de mais pucho. Levou-me<span class="pagenum"><a name="Page_141" id="Page_141">[141]</a></span> -oito dias a compôr e oito a decorar. É todo novo, acredita.</p> - -<p>Tinham-no prevenido que, para o ouvir, viria gente -de longe. Só em casa do Guimarães, uns trinta hospedes—pessoas -do Porto, de Braga... o diabo. Mostrava-se -preoccupado com o exito. Tinha medo que lhe -esquecesse algum d’esses trechos flamejantes, em que -firmava orgulho litterario. Peça meditada, feita com reflexão -e calculo. Havia a bem conhecida passagem do -centurião, convertido por um toque de divina graça. O -padre Silvestre não julgava isto muito moderno; mas -foi o abbade que lh’a exigiu, por saber que era do -gosto dos ouvintes e principalmente do bemfeitor. No -emtanto, entendia o pregador, que essa passagem produziria -bom effeito, se fosse convenientemente ensaiada.</p> - -<p>—Quem tens tu ahi para centurião?—perguntou ao -abbade.</p> - -<p>—Um rapazote da freguezia. Boa figura, alto!...</p> - -<p>—Pois hei-de-lhe querer fallar. Que venha cá amanhã -de manha. Bem sabes que isto tem o seu boccado -de theatro.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>No dia seguinte o pregador estava a repetir o sermão -na horta da <i>Residencia</i>, passeando n’um carreiro, -por cima do muro. O sol aquecia-o agradavelmente -por um lado, a sombra do seu corpo estendia-se na -relva, sobre a qual os gestos se lhe reproduziam mais -amplos e magestosos! Uma pobre cerdeira, despida de -folhas, é que lhe servia de referencia. D’aquelle lado -era o Calvario, com a dolorosa imagem de Christo, vergado -sob a cruz. O povo estava em baixo, oppresso e -contricto. A Virgem mãe, á direita, banhada no pranto -redemptor. Os verdugos, os da guarda romana, os discipulos -e todos os amigos de Jesus, lá os significava -na vertente do monte ignominioso, que no caso presente -era um alcouve de cor alegre.</p> - -<p>No meio d’uma apostrophe clamorosa, quando de -braços abertos e solemne chamava o divino soccorro, -foi interrompido por uma voz:</p> - -<p>—Senhor reverendo pregador?—chamaram.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span></p> - -<p>O sacerdote, voltou a cabeça, conservando suspenso -o gesto e perguntou impaciente:</p> - -<p>—Que diabo queres?</p> - -<p>—Vossa Senhoria não me mandou chamar?</p> - -<p>—Eu!</p> - -<p>—Cá o nosso abbade é que disse.</p> - -<p>—Ah!—exclamou, deixando cahir os braços. És o -centurião?</p> - -<p>—Entendo que sim—confessou o filho do Cancella.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Disse-lhe que se approximasse. Explicou-lhe o caso. -Em certa altura do sermão, tinha de quebrar a lança, e -prostrar-se de bruços, soluçando, como peccador arrependido. -Jesus Christo alli estava, coberto d’opprobrio. -Todos o tinham insultado no caminho do Calvario; porque -estava nas escripturas que assim devia ser. Elle, -centurião, tambem maltractára o sublime prisioneiro, -dando-lhe com a lança e chasqueando-o. Depois é que -lhe veio um toque de luz divina e arrependeu-se.</p> - -<p>—Tu entendes—explicava. Toque de luz divina é -assim como uma pontuada sobre o coração. Entendes? -Diz lá.</p> - -<p>—Entendo muito bellamente, senhor reverendo pregador.<span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span> -Eu já figurei n’outros <i>Passos</i>, lá p’ra Monção—acrescentou -com sorriso experimentado. Mas senhor reverendo -pregador, Vossa Senhoria, quer que eu me arrependa, -logo á primeira que mandar?</p> - -<p>—Porque?</p> - -<p>—Eu á primeira... á primeira... não queria—explicou, -coçando a nuca. É cá por causa da rapaziada, -que depois chama podrico á gente.</p> - -<p>—Ah! isso não tem nada. Lembra-te que estás -deante do rei dos reis e do senhor dos senhores. Mas -não te rendas logo... logo... Olha bem para mim—detalhou -com bondade. Ao primeiro <i>rende-te</i> eu pego -no lenço que está do lado da porta, levo-o á bocca, e -torno a collocal-o no mesmo sitio. Tu reparas em mim, -dás uma sacudidella aos hombros, assim, e continuas lá -no teu posto. Eu fallo muito ainda. Ao segundo <i>rende-te</i>, -repito o caso do lenço <i>mudando-o então</i>—sublinhou—para -o meio do pulpito, d’esta maneira (Pegou -no seu lenço de paninho vermelho, conservou-o segundos -pendente da mão e depois collocou-o sobre um -triste ramo de vide). Tornas a atinar comigo, um pouco -mais sério do que da primeira vez; nova sacudidella de -hombros, e continuas lá na tua vida. Sim, porque tu és -um grande peccador e a divina graça não te póde tocar -assim do pé p’ra mão. Entendes isto?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span></p> - -<p>—Muito bem, senhor reverendo pregador—affirmou -o filho do Cancella, com o queixo agarrado na mão -direita.</p> - -<p>—Mas ao terceiro <i>rende-te</i>—accentuou significativamente -o padre Silvestre, espaçando as syllabas—quando -eu mudar o lenço para o lado do altar mór, tu reparas -em mim, com olhos muito arregalados, como quem -sentiu que lhe entrou alguma coisa no corpo; se quizeres -dás um grande berro, quebras a lança no joelho, -atiras-te ao chão de bruços, finges que choras (se te -dér p’ra isso, choras realmente) e dizes alto: «Perdão -Senhor! Perdão! Perdão! Perdão!»</p> - -<p>O rapaz pronunciou:</p> - -<p>—Perdão Senhor! Perdão! Perdão! Perdão!</p> - -<p>—Isso mesmo. É para o povo repetir: «Perdão senhor, -perdão, perdão» e chorar muito, como é costume.</p> - -<p>—Entendi muito bellamente. O peior é se depois -me chamam, cagarola e podrico, que me levo de mil demonios.</p> - -<p>—E que chamem?—observou o pregador. Então -queriam que tu te não arrependesses, depois de tocado -pela divina graça? São uns brutos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Logo de manhã principiára a affluir gente que vinha -de longe. A egreja, os andores e o que se dizia dos -anjos era um pasmo! A musica, logo que chegou, foi -tocar um hymno e duas polkas á porta do senhor Guimarães, -que veio á janella, com toda a sua respeitavel -familia e hospedes, palitando-se soberbamente. Zé Maximo, -o homem das occasiões, levantou um viva ao -seu compadre e amigo, que foi correspondido atirando-se -chapeus ao ar. De tarde, antes de sahir a procissão, -a musica voltou para o beberete, que lhe foi -servido no quinteiro. Houve vinho do Porto em calices, -quatro broas de pão de ló partidas á mão. Para os -figurantes, que estavam todos vestidos na vasta salla -da tulha, á espera do momento, foram enviados dois -cabaços de vinho, meia duzia de brôas de pão de ló, -outra de garrafas de Porto e um cesto de cavacas. -Houve por este motivo grande barulho e algazarra dentro -do casarão da tulha.</p> - -<p>Foi a propria esposa do senhor Guimarães, que teve<span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span> -a delicadeza de lhes ir encher os primeiros copos, como -signal de apreço e um rasgo democratico na sua vida -faustosa. Os rapazes d’aldeia sentiam-se engrandecidos -dentro dos seus fatos galileus e romanos. As tres Marias -e a Veronica, apenas levaram aos beiços os copos -de vinho, com medo de se descomporem nos vestuarios. -Os anjos, sentados em duas bancadas, comiam -gulosamente rebuçados, babando-se pelos cantos da -bocca. Os irmãos do Santissimo, encarregados de os -acompanhar, vieram buscal-os para os conduzir á presença -do senhor Guimarães e dos seus hospedes, antes -da procissão. O destroço nas cavacas, no pão de ló e -no vinho era feito, pelo Velho Simeão, por José d’Arimathéa, -por Caiphás e Pilatos, que se mostravam -altivos; pelo Evangelista e especialmente pelo Centurião -e os seus doze romanos, que promettiam não -sahir d’alli, em quanto houvesse uma gotta nos cantaros -e nas garrafas. O filho do Cancella, estava arrogante, -animando os seus com manifesto prejuizo dos superiores, -Caiphás e Pilatos, não obedecendo ás palavras -judiciosas do piedoso Simeão, que bebia menos por -causa da barba, e recommendava aos outros compostura:</p> - -<p>—Olhem que tomam por ahi alguma carraspana! -É melhor voltarmos cá, outra vez, no fim de tudo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span></p> - -<p>—Isso é o que tu querias—retorquiu o Centurião. -É dar-lhe, rapazes, até lhe chegar com o dedo.</p> - -<p>E de tal modo comprehenderam estas palavras, que -ao sahirem da tulha, Cancella e os seus homens, levavam -todo o seu animo e arrogancia natural, fortalecida -pelo vinho.</p> - -<p>—Grandissimo odre—disse-lhe com inveja o Simeão -da barba, perdendo a suavidade, que era da -indole do seu papel.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Os <i>Passos</i> começaram pelas duas horas. O itinerario -foi combinado de modo que primeiro que tudo passassem -á porta do senhor Guimarães, que seguia o andôr -principal, como festeiro. A todas as senhoras que -estavam á janella da sua casa d’azulejo, em especial a -sua esposa, fez uma larga reverencia, passando ao mesmo -tempo a mão na barba. Uma das coisas que mais -impressionou a gente postada nos valados, foi o terem -os anjos azas! Isso que concordava perfeitamente -com o painel do altar mór, que representava a Annunciação, -nunca elles tinham visto! E iam todos muito ricos, -de setim branco e lentejoilas. Os melhores eram -evidentemente os vestidos em casa de D. Maria de Refuinho, -apezar de que os da mulher do sachristão e -os da Lindoria, tambem não havia que lhes dizer:—ambas -tinham sido creadas de conventos em Vianna.<span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span> -Cada anjo distinguia-se pela sua especialidade nas insignias -de martyrio, em recordações da celebre <i>paixão</i>; -era a coroa de espinhos, o martello, as tenazes e os -pregos para crucificarem o Christo.</p> - -<p>Havia dois que conduziam simulacros das escadas -pelas quaes os verdugos tinham subido aos braços da -cruz. Um rapasote, com altivez para que todos reparassem, -sustentava na ponta d’uma canna a esponja que -servira ao fel e ao vinagre; outro era portador da lança -com que se abrira o sacratissimo lado. As chagas, em -lacre vermelho, iam em salva de prata. A Veronica, rapariga -esbelta, mostrava com ar piedoso, no santo sudario, -a face penitente e ensanguentada do divino mestre. -Quasi no fim iam as tres Marias, todas a par, cobertas -de gaze preto e logo a seguil-as, S. João, o discipulo -amado, com o queixo apoiado na mão esquerda. -A Magdalena, uma rapariga casadoira, de longas madeixas -encaracolladas cahindo-lhe nas espaduas nuas, -caminhava em passo theatral, adeante do apostolo, e significava -limpar abundantes lagrimas, deitando de vez -em quando um riso de soslaio, ás pessoas conhecidas.</p> - -<p>Entre os dois andores, o de Jesus vergando ao peso -do madeiro, e o da Virgem lacrimosa que implorava do -ceu piedade, ia o Cyreneu resignado e humilde logo -em frente do Centurião, que commandava com arrogancia<span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span> -os seus doze companheiros. Eram rapazes escolhidos -entre os mais espadaudos da visinhança. Orgulhosos dos -capacetes prateados, das botas de montar, dos mantos -vermelhos e das terriveis barbas, sustentavam intemeratamente -as suas lanças, olhando em redor com provocação. -O José Cancella levando a insignia da videira, -atiçava-os com olhares tremebundos e modos arrogantes -de capitão. O povo manifestava-lhes a sua antipathia, -principalmente ao José. Chamava-lhe ladrão, carrasco, -ameaçava-o com o inferno. A Lindoria, não se -teve que lhe não dissesse, quando elle passou:</p> - -<p>—Barbas de chibo! Um tição por esses olhos é que -tu querias!</p> - -<p>Porém o Cancella, apesar de carrancudo, não respondia. -Pelos modos, parecia ter cabellos no coração, aquelle -diabo—diziam todos. Os seus olhares furibundos sobre -o Christo, não podiam constituir um peccado? Era realmente -de mais. O Centurião do tempo dos judeus tinha -a sua desculpa, porque não conhecia Jesus; mas este já -ouvira muitas vezes os missionarios. Era fingido, bem -se sabia, mas escusava de estar a fazer arremessos de -lança, sobre a imagem que ia no andor; porque a isso -é que ninguem o obrigava.</p> - -<p>O atrevimento provocou da parte d’um visinho, um -sarcasmo reprehensivo:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span></p> - -<p>—Vaes-te ahi a fazer de chibante e logo rendes-te -como um sendeiro!</p> - -<p>—Não me puches—retorquiu o Cancella—porque -se vamos a isso, arraso tudo a pau.</p> - -<p>N’este momento o <i>trombeteiro</i> deu signal para continuarem. -Ao longe ouvia-se o alarido dos rapazes, que -admiravam os prodigios de força, tanto do que levava -o guião como do que sustentava o estandarte, pois -eram bandeiras que pesavam muitas arrobas. A procissão -seguia por uma encosta, no cimo da qual haveria -o sermão do encontro.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Um limpido ceu de março cobria os campos, que -principiavam a reviver para a alegria primaveral das -cores e da luz. O sol glorioso batia de frente nos anjos, -obrigando-os a piscar os olhos. As lentejoilas, os galões -e os adereços faiscavam com ostentação. Todas essas -innocentes crianças iam pomposamente levadas para -o Calvario, pelos seus parentes, que lhes forneciam -rebuçados em abundancia. A multidão commentava -com amor a riqueza dos vestidos e as lembranças do -martyrio. O som plangente e dolorido da musica, alastrava-se<span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span> -pelas campinas. O sermão do encontro, só -commoveu algumas antigas beatas, que lagrimejaram -encostadas aos carvalhos do largo. O pregador era um -velho de voz pigarrada e bochecha cahida. Todos o conheciam -e não lhe davam valor. N’esse dia memoravel, -quem absorvia as attenções, era o padre Silvestre, que -viera de Braga. Para o ouvir corriam os mais ageis pelo -monte abaixo e atulharam a egreja com enthusiasmo. -Para os andores entrarem pediram auxilio ao Cancella e -aos da guarda romana. Á força de muito encontrão é que -puderam abrir caminho. Houve gritos, exclamações injuriosas; -mas as confrarias, os anjos e mais figuras, tiveram -os seus logares. Tambem, o Centurião e os seus, -foram logo, alli mesmo, pagos d’esse esforço, bebendo -um cantaro de vinho que veio para a sachristia. Depois -que tudo se acommodou como pôde, a egreja ficou silenciosa. -A imagem do Redemptor e da Virgem destacavam-se -com energia, no horisonte do calvario, formado -de nuvens caliginosas. Havia anciedade pelo apparecimento -do pregador.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>A figura grave do padre Silvestre mostrou-se no pulpito. -Circumvagou a vista, desde o guarda-vento até -a repousar na imagem do Christo, ajoelhado debaixo -da cruz. O exordio foi longo, mas habilmente preparado -n’um crescendo de dôr. Seguiu a vida simples do -filho do carpinteiro de Nazareth, levando-o desde a malvadez -de Herodes até ao baptismo no Jordão. Mostrou-o -predestinado pelas prophecias, para a sua divina -missão de soffrer o martyrio degradante que soffreu, por -amor dos homens. Anteriormente á vinda de Jesus, a -humanidade vivia numa escura masmorra, com porta, -só para o inferno! As palavras da escriptura haviam de -cumprir-se e era preciso o sacrificio d’um Deus, para -salvar o mundo. <i>Elle</i> encarnou, soffreu, demorou-se -trinta annos distante da patria celestial, para nos remir -e dar exemplo. Nem que todos os homens vivessem eternamente<span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span> -em penas afflictivas, poderiam pagar tão infinita -bondade! Por isso, na apaixonada peroração, o pregador, -começou por considerar que estando dentro d’aquella -egreja, só miseros peccadores condemnados aos -rigores do inferno, convidava-os a que se prostrassem -de bruços, para pedirem perdão a Deus dos enormes -peccados, que todos haviam de ter, no logar mais intimo -da alma.</p> - -<p>Os gritos e soluços do povo sommavam-se, como -elementos d’uma calamitosa tempestade. A gritaria das -mulheres, que davam bofetadas nos seus filhos para os -obrigar a carpir e conservarem memoria d’este sermão, -esfusiavam no ar como uivos de vento. O pregador, -para tomar mais pathetico o discurso, quil-o ornamentar -com a conversão <i>d’um infiel</i>. O infiel era o Centurião, -o filho do Cancella, no qual ia experimentar o poder -extraordinario da divina palavra.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Desde o principio se reconhecera, que o José estava -casmurro; pois que, a despeito de todo o povo chorar, -elle sempre se mostrára atrevido, olhando o pregador<span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span> -com altivez. Os seus soldados tambem o acompanhavam -no ar insolente. Algumas pessoas que estavam no -segredo do que se passava, attribuiam aquella chibancia -ao ultimo cantaro de vinho. O pregador, ignorante -do facto, antes o julgou muito bem compenetrado do -papel. Por isso começou por pedir aos fieis, que o -acompanhassem na exhortação que ia fazer. Como as -toupeiras que não tem olhos para a luz do sol, aquelle -desgraçado não tinha meio de presenciar o encanto da -luz da divina graça. Vivia em trevas infinitas, d’onde só -podia sahir pelo enorme poder do Senhor. E estendendo-lhe -os braços paternaes, pediu suavemente:</p> - -<p>—Rende-te Centurião!</p> - -<p>—Rende-te Centurião!—acompanharam os circumstantes, -n’uma voz chorosa e precatoria.</p> - -<p>O filho do Cancella, que passeava soberbamente -no calvario, parou cofiando a barba com magestade e -affirmou resolucto:</p> - -<p>—Não me rendo!</p> - -<p>O Agrella, que estava alli perto, disse-lhe de modo -que elle ouvisse:</p> - -<p>—Não te rendes! Isso logo se verá meu pedaço -d’asno.</p> - -<p>Evidentemente, esta ameaça do alfaiate perturbou a -vista do esforçado Centurião. Por entre a longa barba,<span class="pagenum"><a name="Page_157" id="Page_157">[157]</a></span> -sahiu-lhe um bafo enfurecido de colera, e se não fora -a especial situação, era capaz de lhe quebrar a cabeça -com a lança.</p> - -<p>O pregador, tendo limpo os beiços ao lenço, segundo -a convenção, continuou exhortando o infiel e pediu-lhe -com mais instancia. Pintou, deante do povo absorvido -na sua palavra santa, o triste estado d’aquella -alma obcecada, recusando receber em si a divina luz! -Empregou maior energia de phrase, foi mais caloroso -e persuasivo. O povo seguia-o, supplicando com elle, -levantando clamor cheio de lagrimas. Ao segundo <i>rende-te</i>, -quando o pregador mudou o lenço para o meio -do pulpito, o Centurião respondeu cathegorico:</p> - -<p>—Não quero, não rendo!</p> - -<p>—Á terceira nós veremos—afirmou de novo o -Agrella, que estava certo do que se passara entre o -José Cancella e o pregador.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>O padre Silvestre investiu no ultimo pedido, dando-lhe -a forma de objurgatoria. Para ser mais solemne, começou<span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span> -em tom simples, subindo gradualmente até ao -intimativo.</p> - -<p>Já via na fronte do Centurião um principio d’arrependimento. -O grande Deus ia feril-o com um d’esses raios -de divina omnipotencia, como ferira Paulo na estrada de -Damasco, como ferira o impio Agostinho, e o proprio -Moisés na montanha. Não podia consentir-se que vivesse -entre christãos, uma alma peccadora e impenitente. A -conversão havia de dar-se a preço da propria morte, -porque o Senhor usa de todos os meios, para chamar -a si as almas!</p> - -<p>O filho do Cancella, perseguido d’ameaças, não se -commoveu. Porém, quando o pregador o equiparou aos -grandes santos, já parecia amollecido no seu espirito de -resistencia. O povo chorava e clamava em altos gritos, -o peito enchia-se-lhe de ternura e arrependimento. Talvez -fosse melhor acabar com aquillo, prostrar-se por -terra, como tinha promettido. O pregador mudou o -lenço para a direita e concluiu com voz energica e -grave:</p> - -<p>—Abre esses olhos peccador! Rende-te Centurião!</p> - -<p>—Agora!—intimou o Agrella.</p> - -<p>O chefe da guarda romana fixou no pulpito um olhar -atrevido. Julgou-se indigno da fama que tinha de valente -se obedecesse á voz do Agrella. O vinho dava-lhe<span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span> -coragem e audacia. Tomando a lança ás duas -mãos, bateu uma forte pancada no pavimento e respondeu -ao pregador:</p> - -<p>—Tenho-os bem abertos. Não me rendo! Não e -não! Obrigue-me!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Depois d’isto a situação ficou inteiramente perturbada. -O padre Silvestre teve uma paragem de surpreza. -Não sabia o que aquillo queria dizer. Teria havido -algum esquecimento ou engano?! Para que o rapaz -percebesse melhor, tornou a pegar no lenço, suspendeu-o -no ar e collocou-o á direita. Á voz imprecativa -do sacerdote, juntava-se o clamor plangente e formidavel -do povo. Pois que! O filho do Cancella tinha duvida -em reconhecer o enorme poder da Omnipotencia! -em se rojar diante do Senhor dos Senhores, do Rei dos -Reis! em reconhecer que o Immaculado Cordeiro veio -morrer fragilmente na forma humana, só para nos remir -e salvar! Estranha e incomprehensivel cegueira! -Empedernido no peccado, devia estar aquelle coração. -E pediu-lhe de novo que se rendesse, que attendesse á -commovente voz de todas aquellas mulheres que o exhortavam -e no meio das quaes estaria sua propria mãe.</p> - -<p>As pessoas gradas pareciam irritadissimas. O brazileiro -Guimarães lembrou-se de o mandar prender; mas<span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span> -o desembargador João Xavier, achou isso improprio -do logar. Enviaram o Zé Maximo, que lhe disse com -moderação:</p> - -<p>—Rende-te, diabo! Olha que o homem já está rouco.</p> - -<p>—Deixe-o estar!—respondeu succintamente o Centurião.</p> - -<p>Todos se mostravam inquietos. Semelhante cabeçudo, -merecia boa doze de páu—opinavam.</p> - -<p>O pregador estava esfalfado. A sua voz, já pouco -distincta, era coberta pelo alarido que enchia a egreja! -Ouviam-se supplicas, ameaças, palavras soltas, gritos, -creanças a chorar...</p> - -<p>O filho do Cancella, de cada vez se inculcava mais -firme, no proposito de se não render. Foram pedir ao -pae que lhe impozesse a obediencia; porém o velho, -que sempre tivera prosapias, mostrou má vontade de -interferir. Opinou que o rapaz se renderia quando entendesse, -que o deixassem lá, elle sabia bem do seu -papel. Não era a primeira vez.</p> - -<p>Tudo parecia perdido. O padre Silvestre, exhausto -de forças, furioso contra aquelle maroto, arrancou do -peito um grito sublime. Com a colera estampada no -rosto, dirigiu-se ao povo, e apontou vivamente para o -Centurião clamando:</p> - -<p>—Aqui d’El-rei! contra aquelle maroto! Prendam-no<span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span> -que foi elle que matou Nosso Senhor Jesus Christo! -Povo! Faz justiça por tuas mãos.</p> - -<p>Os das confrarias largaram as tochas e correram em -tropel. O chefe dos soldados romanos preparava-se, -juncto com os seus homens, para levarem tudo á bordoada. -Só então é que o velho Cancella se adeantou, -agarrando o filho pelo tronco:</p> - -<p>—Eh! Zé. Que diabo é isso! Rende-te que já fizestes -a tua figura, home!</p> - -<p>Elle então, arrumando a lança para um canto, submetteu-se:</p> - -<p>—Como vocemecê pede, vá lá! Se não ia tudo razo!</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Depois na sachristia, o Guimarães, furioso, disse-lhe:</p> - -<p>—Precisavas que te mettessem um páu, entendes? -Culpa tive-a eu em mandar o cantaro de vinho. Não -eras tu que fallavas, não.</p> - -<p>O abbade, esse, mesmo d’estola, quiz-lhe esmurrar -as ventas. O pregador é que lhe agarrou n’um braço, -socegando-o:</p> - -<p>—Deixa-o. Quem lhe hade pôr uma farda ás costas, -sou eu. Lá é que ellas se pagam. Moinante!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span></p> - -<p>O filho do Cancella, ouviu-os com ar sizudo, sem -responder. A vista toldou-se-lhe quando o ameaçaram. -N’um impeto de colera, arrancou as barbas postiças e -arrumando com ellas ao chão, disse sahindo para fóra:</p> - -<p>—Ainda um raio me parta se eu tornar a fazer de -Centurião! Macacos me mordam, se pozer outra vez isto -na cabeça!</p> - -<p>E atirou ao meio da herva do adro, o bello capacete -prateado, que foi ter a distancia.</p> - -<p>O abbade, ainda se chegou á porta dizendo-lhe -deante dos homens que alli estavam:</p> - -<p>—Ah! bom marmelleiro! Levem d’ahi esse odre de -vinho, antes que eu lhe ponha os ossos num feixe.</p> - -<p>Em casa do pae, custou muito a socegal-o. Foi preciso -deitarem-lhe uma chapoeirada d’agua fria para o -acalmar. O somno que dormiu, foi de mais de doze -horas!</p> - -<p class="date">Fevereiro de 86.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 200px;"> -<img src="images/footer9.jpg" width="200" height="150" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header9.jpg" width="500" height="120" alt="" /> -</div> - -<h2 id="A_TRUTA_GRANDE">A TRUTA GRANDE</h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-l.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Lá está o padre João, a dormir na sua cadeira -de braços, debaixo da fresca lata! Peito ao -léo, as abas do amplo casaco de lustrina pendentes, -breviario para um lado, lenço para outro, caixa -do rapé na mão, o ventre arfando pausadamente... -É todos os dias assim, depois de jantar, no tempo dos -calores. Para avaliar a tranquilidade de certas almas, -é melhor sentir-lhe a respiração suave, do que ler, tudo -quanto pensadores e casuistas, tem escripto acerca -de moral. E julga-se um homem accordado, o sereno -eclesiastico, pois regouga palavras incomprehensiveis! -Em que bello paiz de sonhos trabalhará a sua ideia?! -Sorri-se, o labio papeja-lhe de contentamento... É -que está á borda do rio, a canna de pesca firme, o -olho interessado, a respiração silenciosa. Rabea-lhe<span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span> -em volta da isca e em breve a morderá, o peixe guloso -e estupido. A superficie da agua é serena. A transparencia -deixa ver o fundo limoso e, talvez, a truta -grande, com a magestade do seu nadar, passe altiva, a -distancia.</p> - -<p>Ah! magnifico padre João, como estaes evidentemente -enganado! Os tremulos e repetidos puxões que -vos agitam o corpo, ebrio de goso, não são do peixe -a depennicar na isca, são as gallinhas em cata de moscas. -Ellas é que vos tiram pelas abas sebentas do casaco -de lustrina, querido e obeso, padre João!...</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>O dia era d’agosto e bem quente. Atmosphera tremula -e translucida, como se fora de crystal fundido. No -rio, as lavadeiras entoavam canticos religiosos aprendidos -com os missionarios e modas profanas colhidas -dos cegos que passavam. Nos campos em redor, áquella -hora, não havia murmurios do trabalho, pois já tinham -acabado as sachas e as mondas. As regas, essas faziam-se -de noite. Eram duas da tarde e entram no quinteiro -os discipulos do latim. Ao verem o respeitado mestre, -tão docemente adormecido, deixam-no em paz e vão<span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span> -gazear para os lados do rio. O porco foi menos condescendente. -Tardava-lhe a lavagem e principiou a grunhir -em volta do quinteiro, parando com o focinho -erguido para a cosinha. Este barulho espertou o excelente -ecclesiastico. Primeiro abriu um olho, depois outro, -conservando-se alguns minutos em contemplação, mãos -crusadas sobre o ventre. Parecia contar detalhadamente -os doirados cachos que formavam um docel sobre a -sua cabeça! Por fim ergueu o tronco considerando:</p> - -<p>—Então não me ia deixando dormir?! Pois não é o -meu costume. Ó Luiza!—chamou repetindo tres vezes.</p> - -<p>Uma voz de dentro da casa respondeu:</p> - -<p>—Não posso lá ir. Estou a arranjar a lavagem. Não -ouve o pórco?</p> - -<p>—Tem piedade de mim, moça—exhorou o padre -João. Tenho esta bocca como um pau velho.</p> - -<p>—Tambem, está sempre com seccuras!</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Mas a rapariga compadeceu-se. Primeiro que tractasse -do porco foi á adega, trouxe uma infusa de vinho, -collocou-a desceremoniosamente no chão, juncto -do amo que disse:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span></p> - -<p>—Deus t’o pague mulher! Deus t’o pague! Se não -fosse isto, nem hoje podia dar lições.</p> - -<p>Com sorriso beatifico, pegou na infusa, repimpou-se -na cadeira e começou <i>glou, glou, glou</i>... até um -final de saciedade, que consistiu n’um prolongado -ahhh!...</p> - -<p>A creada, voltando com a lavagem, disse:</p> - -<p>—Já ahi vieram os estudantes, mas como vocemecê -estava de papo p’r’o ar, lá se foram derriçar co’as raparigas -p’r’o rio. Não lhe tem respeito nenhum—censurou.</p> - -<p>—Que respeito queres tu que me tenham?! Deixa-os -lá, esta vida são dois dias. Gostam das moças? -Tambem eu já gostei... e ainda gosto—concluiu -arregalando olhos bregeiros.</p> - -<p>—Um padre velho, sempre falla d’um modo...</p> - -<p>—Historias! Velhos são os farrapos. Vae-me chamar -esses estudantes. Se não aprendem latim, não serão -nada. Latim é a base. Vae-os chamar, anda.</p> - -<p>E acabou de emborcar o resto da infusa, com um -beber sereno de satisfação. A creada reprehendeu-o:</p> - -<p>—Todo elle é vinho. Quando não está, p’ra lá caminha.</p> - -<p>—O que, bebedo? grandissima cachorra. É coisa que -nunca me viste, mentirosa. Gosto da pinga e de ti; mas -não me embebedo com estas coisas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span></p> - -<p>—De mim! Arreda, que me quero casar.</p> - -<p>—Com esse garotaço que te namorisca? Has-de casar -sem banhos, nem benção, eu t’o affianço. Vae-me -alli chamar os estudantes, anda.</p> - -<p>—Vá você, que tenho a massa a aziumar. Se hade -tornar a adormecer...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Luiza subiu a escada de pedra para a cosinha. O -padre João levantou-se sem resistencia, sahiu o portal -e foi pelo carreiro abaixo, com o lenço vermelho a resguardar-lhe -a cabeça, do sol. Chegado á margem do -rio, lá viu os discipulos brincando com as lavadeiras. -Muitas d’ellas levavam a coisa de galhofa; outras -enxotavam-nos com pragas. O professor não se encolerisou, -apesar de alguns estarem a fumar—o maior -de todos os vicios, e que elle odiava do fundo d’alma. -Toda aquella alegria e mocidade lhe arejou os sessenta -annos. Enamorado da juventude, quedou-se a contemplar -o quadro cheio d’animação. Benevolo e risonho, -fatiava comsigo mesmo.</p> - -<p>—Não querem ver como se arreitam? Ora, ora, já -a formiga tem catarrho!...</p> - -<p>Levava o lenço ao nariz para enxugar o pingo da -distracção. Escondido por detraz d’um choupo, interessava-se -na contemplação d’este quadro virgiliano. Absorvia -a fundos haustos o ar impregnado de terriveis prazeres,<span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span> -que lhe revolviam os nervos. Recuava quarenta -annos, ao tempo das rapasiadas, dos bons acasos, quando -apalpava contornos e sentia na approximaçâo da carne, -coisas de mil demonios. Talvez que ainda recuasse mais, -á famosa edade em que a imaginação trabalha inquieta, -creando gozos, adivinhando extasis e vive de imperiosos -desejos, que entumescem. A physionomia graciosa -do padre João, expandia-se á vista do quadro simples -e primitivo—o beiço tremulo revelava o seu interior. A -paisagem era encantadora, a corrente da agua arrepiava-se -nos seixos; na mente do mestre de latim só podia -haver quadros pittorescos de antigos faunos, a rirem -juncto de fontes, em florestas edylicas.</p> - -<p>—Olha o Esteves—commentava—como repara -nas pernas da Clementina! Grandissimo tratante! Talvez -não saibas o <i>Sum, és, fui</i> e estás ahi com esses -olhos. Como já tem malicia! Mas que maliciasinha! mas -que maliciasona!</p> - -<p>Limpou precipitadamente outro pingo. Humedecia -os beiços com a lingua, como o guloso de bellos manjares. -Tudo aquillo o interessava. Sentou-se na relva -por traz da arvore. Tomou uma abundante pitada, fungada -em tres tempos, com todas as precauções para -que o não presentissem.</p> - -<p>—Ahh!!!...—respirou.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span></p> - -<p>Queria ver onde aquillo chegava. Não podia ser -grande coisa, estava muita gente, as mulheres velhas -são experientes. Alguma apalpadella, um empurrão, talvez -cocegas para fazer cahir as raparigas. Lá adeante, -no meio do salgueiral andava a Victoria a estender a roupa -e cantava o <i>Afasta</i>, <i>janota</i>, <i>arreda</i>. O padre João via-a -pelas costas, o tronco inclinado sobre a relva, as ancas -largas, as rijas barrigas das pernas, á mostra. Rapariga -saudavel, muito alegre, amplo seio destinado a -fecunda maternidade. Disiam que namoriscava o filho -do sachristão; mas de quem ella parecia gostar verdadeiramente, -era do praticante da botica, que lhe dava fartura -de banha de cheiro, para o cabello. Trabalhava distante -das outras lavadeiras, no coradouro, e para molhar -as teias que lhe estavam confiadas, mettia-se no rio -até aos joelhos, atirando agua ás manadas. O sol faiscando -sobre a areia do seixal enlanguescia os corpos, -estonteava as cabeças. A Victoria desappareceu entre -os salgueiros, para os lados onde não havia gente. E -pouco depois, o discipulo mais graúdo do Padre João, -o Thomaz do mercador, para lá se dirigiu, assobiando -disfarçadamente.</p> - -<p>—Olhem o moinante! Não querem ver?—rugiu o -mestre do latim.</p> - -<p>Porem, mais longe, n’uma clareira, a moça, reappareceu.<span class="pagenum"><a name="Page_173" id="Page_173">[173]</a></span> -O padre d’alli mesmo se pôz a vigiar, que não -houvesse qualquer coisa. O estudante encontrou-se com -a lavadeira, quiz effectivamente agarral-a, mas a rapariga -esquivou-se-lhe, correndo adeante d’elle, furtando-se por -entre troncos d’arvores. O ecclesiastico para ver melhor, -levantou-se, seguia-os com prazer, inclinava-se para um -lado e para o outro, punha-se nos bicos dos pés.</p> - -<p>A Victoria a dar gargalhadas condescendentes, gritava -pelas companheiras, ameaçava com um gougo o -preseguidor. «E pilha-a.» «E agarra-a...» «Agora... -fugiu...» «Lá cahiram ambos...»—ia elle commentando, -comforme os cambiantes da lucta.</p> - -<p>—O diabo é o Thomaz! Não escolheu mal o patifão—considerou, -quando os dois, junto um do outro, -conversavam sensatamente.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Mas o aspecto de conciliação perturbou-se. O estudante -perseguiu de novo a rapariga que lhe fugia, gritando. -A Lindoria ouvindo, correu para o sitio, cheia -de fervor beato.</p> - -<p>Ralhou, esbracejando descompostamente. A sua gritaria -era para denunciar o rapaz, ao longe: «Maroto,<span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span> -metta-se com quem lhe der trela, não ande a desinquietar -as almas». Ameaçou o estudante com o pae, com -os missionarios, com uma queixa ao professor, com o -inferno.</p> - -<p>—Ah! tambem não é coisa para tanto—disculpava -o sacerdote comsigo. Elle não fez mal nenhum.</p> - -<p>Mas Lindoria não era d’este modo de pensar. Como -Thomaz e outros companheiros lhe retorquiram com -palavras feias, ella enfurecida e descomposta, subiu -pelo carreiro, mesmo direita á casa do padre João. -E berrava pelo caminho:</p> - -<p>—Seus tratantes. Hão de dar grandes padres ou -doutores. Padres! Abrenuncio! Eram capazes de dar -cabo do reino dos céus. Ah! Vossa Senhoria já ahi -vem? É que ouviu esta pouca vergonha!</p> - -<p>Tinha dado de frente com o ecclesiastico, que retrocedera -no caminho, para fingir que vinha de casa. A -Lindoria, presumindo-lhe a ideia da procura dos discipulos, -indicou-lhos:</p> - -<p>—Estão alli senhor. Tire-lhes a pelle das mãos pelo -amor de Deus, pelas cinco chagas, senhor padre João. -Olhe que não sabe os marotos que tem!</p> - -<p>A figura do mestre de latim, quedou-se respeitavel -no alto da ladeira. Com um gesto largo de commando, -appontou aos discipulos o caminho da aula.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span></p> - -<p>Vieram todos junctos, como um cardume de peixes. -O sacerdote caminhou adeante, sem os esperar, -com o lenço vermelho pela cabeça, as abas do casaco -afastadas como dois remos. E susteve-se um momento -voltando-se para traz, com o fim de os increpar:</p> - -<p>—São estas as horas d’aula? Eu ha um rôr de tempo -á espera!...</p> - -<p>A beata ainda lhe quiz contar tudo, mas o padre -João nem a quiz ouvir:</p> - -<p>—Não me dás novidade. Conheço-os. Deixa-os por -minha conta.</p> - -<p>Os estudantes seguiram-no, com semblantes de -pouco temor. Já tinham experimentado mais vezes -aquella farronca. Eram, quasi sempre, os dias mais serenos -e benevolos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_176" id="Page_176">[176]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Debaixo da varanda alpendrada, onde o ecclesiastico -dava lições de verão, que se iria passar?</p> - -<p>O padre João fazia um barulho da breca. Movendo-se -com uma presteza desusada, foi ao quarto buscar -a palmatoria, para amedrontar. Não se queria ver entre -os dentes de Lindoria, que era capaz de lhe inventar -a peior fama. Aquellas paredes e aquella figueira, habituadas -ás objurgatorias tytanicas de Tito-Livio, aos -versos amplos do melodico Virgilio, ás palavras conceituosas -do velho Horacio e de Esopo, deviam estar -atemorizadas, pela subita colera do professor.</p> - -<p>Chegou a parecer iracundo—o sobr’olho carregado, -os beiços estendidos, o rosto afogueado. Os rapazes -curvados sobre os livros, já se não riam. O padre, -abrindo o Virgilio, disse desabridamente:</p> - -<p>—Tradusa as Eclogas, senhor Magalhães. O senhor -Thomaz emenda. Por cada erro uma palmatoada no -primeiro e duas no segundo. Vamos a ver se são tão -fortes em analyse, como na bregeirice.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_177" id="Page_177">[177]</a></span></p> - -<p>Os mais pequenos, com as grammaticas abertas sobre -os joelhos, estavam pallidos! Nunca o tinham visto assim! -Respirava-se alli uma atmosphera de terror. O mestre -tinha baforadas de colera, batia com a palmatoria sobre -a meza, arrumava os livros com impeto. O seu fim era -crear em volta de si, um ambiente de respeito.</p> - -<p>A consciencia gritava-lhe que não seria bastante punidor; -mas estava resolvido a amedrontar a propria -consciencia.</p> - -<p>Para estabelecer uma intransigencia material entre si -e aquelles que ia julgar; para se recolher absolutamente -no grave papel de juiz, cobriu o rosto com o Virgilio. -Não desejava ver os reus. Nenhum aspecto de humildade -ou compuncção o tocaria!</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>O Thomaz era o melhor dos seus estudantes. Traduzia -Virgilio com elegancia, penetrando-lhe as subtilidades -litterarias. Foi elle quem principiou a licção e -não o Magalhães, como ordenára o professor. O padre -João conheceu a manha. Deixou-se enganar, até lhe -achou graça. Um ligeiro sorriso (o primeiro na tempestade -do seu rosto), abriu-se como uma flor de cacto.<span class="pagenum"><a name="Page_178" id="Page_178">[178]</a></span> -As paisagens tepidas e enganosas, d’uma suavidade -extensa, principiaram a desenhar-se-lhe deante dos olhos. -Tityro e Melibeu philosophavam na sua linguagem culta -e suave, como o murmurio dos regatos. A pastora das -florestas, idyllicamente á sombra das arvores, dizia do -seu peito coisas ternas ao pegureiro amado, que tangia -frauta rude, juncto d’um ribeiro. O verso sahia claro, levantando-se -n’uma cadencia adormecedora. Havia as -messes côr de manteiga, enchendo de riqueza o valle; -na encosta estendiam-se rebanhos de cordeiros, que -balavam por suas mães. Esta completa abstracção de -materialidade, foi gradualmente enternecendo o mestre -encolerisado.</p> - -<p>Ao fim de poucos minutos, já respirava uma atmosphera -de bondade natural; havia descoberto o rosto incauto. -Não déra pela transição. Foi acompanhando em -voz alta o discipulo que em breve o deixou só, limitando-se -a ouvil-o. Pouco depois, o professor estava de pé, -no meio da varanda, lendo com enthusiasmo, elevando-se -nas maravilhas da comtemplação egoista do poeta! -Desapparecera o mestre iracundo, não havia palmatoria. -Boquiaberto, deante dos discipulos, exclamava:</p> - -<p>—Como isto é bello! Como isto é bello!</p> - -<p>Foi-se á caixa do rapé, tomou farta pitada, fungou-a -sem rebuço, de pernas escachadas. Cahiu extenuado de<span class="pagenum"><a name="Page_179" id="Page_179">[179]</a></span> -prazer, na sua cadeira magistral. O Thomaz, que era -velhaco, aproveitou o momento para dizer:</p> - -<p>—Não sabe o senhor padre João, o que nós vimos -ha boccado?</p> - -<p>—Que foi?—perguntou.</p> - -<p>—A truta grande, a serenar, encostada á pedra -branca!</p> - -<p>Tornou-se pallido e extatico! Endireitou-se na cadeira -e disse, esforçando-se por se mostrar tranquillo:</p> - -<p>—A truta grande, que anda ahi no rio!?</p> - -<p>—Vi-a com estes.—insistiu o discipulo. É assim!— -designou o comprimento d’um braço.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_180" id="Page_180">[180]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Estes maliciosos conheciam-lhe o fraco, como toda a -gente. Muito mais do que apaixonado amante dos classicos -latinos, era um pescador de canna. Esta paixão -soturna é que lhe enchia a existencia. Por ella esquecia -deveres sacerdotaes, obrigações escholares e a propria -comida. Borracha á cinta, um naco de brôa, azeitonas... -e lá andava um dia inteiro, pela margem do -rio, para baixo e para cima, a cocar. Principalmente se -o peixe picava, se enchia o cacifre, o seu gozo era infinito. -Só para algum <i>Senhor fóra</i> é que tinham ordem -de o chamar, com tres badaladas no sino da torre. -Esta ideia d’um moribundo se preparar para ir á presença -de Deus, era mais forte. E resmungava ao enrolar -a sedela:</p> - -<p>—Como é para coisa d’estas, não ha remedio.</p> - -<p>N’estes termos, habil foi o estratagema dos discipulos, -para se lhe apoderarem do espirito benevolente, e -conseguirem o sueto que desejavam.</p> - -<p>O caso, apontado pelo Thomaz, era grave. Havia<span class="pagenum"><a name="Page_181" id="Page_181">[181]</a></span> -annos que elle, ao desafio com o morgado da Torre -Velha, procuravam a gloria de pescar a famosa truta -grande! Era um animal matreiro, raramente se mostrava -fóra d’um fundo poço, onde as redes se não arriscavam.</p> - -<p>Juncto da pedra branca, só a tinham visto, duas ou -tres vezes. A revelação do discipulo fez com que o -padre João desconhecesse immediatamente os encantos -bucolicos de Virgilio, as pompas litterarias de Tito-Livio. -Deante de si, não tinha o criminoso que minutos -antes lhe arrancára berros de colera; só via o individuo, -que possuia um conhecimento para elle inestimavel.</p> - -<p>—Então era a truta grande! Tu vistel-a bem?! Tu -conhecel-a?!</p> - -<p>—Se vi! Se conheço! Estava a serenar muito junctinha -á pedra. Quando vinha á tona algum bichinho a -rabear, ella nadava depressa e, zaz, abocava-o, dando -um pulo fóra d’agua.</p> - -<p>—Oh! com mil demonios!—exclamou.—Oh! minha -Virgem Santissima, que lhe vou metter o anzol, -mesmo na guela!</p> - -<p>E depois um pouco mais sereno, no abatimento produzido -por uma onda de gozo considerou:</p> - -<p>—Ha quantos annos ando eu atraz d’essa ladra! O<span class="pagenum"><a name="Page_182" id="Page_182">[182]</a></span> -dia hoje está quente... Sol de trovoada, é bom p’ra -coisa! Que dirá o D. Luiz, quando souber?...</p> - -<p>Mostrava nas palavras verdadeira energia de luctador; -o seu campo de batalha era aquelle.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>De entre muitas cannas, suspensas ao longo da parede -da varanda, escolheu a que tinha ponteira mais flexivel -e resistente. Da gaveta da sua banca de professor, -tirou uma sedela de côr verde-agua.</p> - -<p>Calculava tudo para ficar victorioso, n’esta peleja -que durava annos. Alli não havia mestre, nem discipulos. -Os rapazes davam-lhe conselhos, offereciam-se para -ir ás minhocas, e o Thomaz achou muito grossa a sedela:</p> - -<p>—És tolo—retorquiu o mestre. Não ves que é uma -truta do tamanho d’um savel! Se a apanho, vocês tem -feriado tres dias! Como ficará o D. Luiz? Ai! que regalo.</p> - -<p>O morgado da Torre Velha era o seu competidor -na pesca á linha.</p> - -<p>Encontravam-se frequentemente n’este desafio tacito. -A cada peixe que um encacifrasse, o outro fazia um<span class="pagenum"><a name="Page_183" id="Page_183">[183]</a></span> -cumprimento espalhafatoso, mas odiento. Ambos se julgavam -com eguaes direitos, á creação de todo o rio. -A truta grande, porém, como um e outro tinham jurado -apanhal-a, era motivo de mais grave conflicto. Por -causa d’ella tinham feito pesquizas especiaes. Iam de -noite, de dia, nas occasiões das cheias para juncto da -azenha; porque, de vez emquando, o formoso animal -vinha-se alli refrescar, nas aguas correntes.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Estudavam em separado, os estados climatericos, para -calcularem o momento proprio de conseguirem o seu fim. -Quando a qualquer d’elles parecia opportuno, tomava -a canna precipitadamente, e ainda que o jantar estivesse -na mesa, abalava para o rio. Muitas foram as desillusões, -fadigas e contrariedades; mas tudo venciam com -tenacidade heroica. A dormir e acordados tinham momentos -de subito terror: cada um via o outro, apparecendo -victorioso, com a truta presa do anzol, usando -de mil habilidades para a trazer á margem, sem partir -a sedela. Porém n’esta occasião o mestre de latim (talvez -ainda resto do espirito de rigorismo com que entrára -na varanda) entendeu que devia continuar as licções -e disse encostando a canna ao canto:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_184" id="Page_184">[184]</a></span></p> - -<p>—Vamos primeiro acabar as licções.</p> - -<p>Os discipulos entreolharam-se aterrados! Por esta -é que elles não esperavam. A lembrança feliz não sortira -effeito. Uma risonha invenção, reduzida a nada. -O plano de irem roubar n’essa tarde certas uvas doiradas, -completamente gorado! Todos os rostos se voltaram -para o Thomaz, que estava cabisbaixo e confuso. -Porém, neste apuro, foi o sonso do Esteves, que fallou:</p> - -<p>—A estas horas, já está por lá o senhor D. Luiz, -com a sua canna...</p> - -<p>O padre João, deu um pulo na cadeira e perguntou -rapidamente:</p> - -<p>—O senhor viu-o passar!?</p> - -<p>—Não senhor; mas no outro dia pediu ao moleiro -que, quando ella por alli apparecesse, o mandasse chamar.</p> - -<p>Era quasi tão terminante como se o tivessem lá visto. -Seria mais acertado partir immediatamente, antes que o -da Torre Velha tivesse denuncia. Tornava-se indispensavel -tomar-lhe a deanteira.</p> - -<p>—Bem, bem... Essas licções na ponta da lingua -para amanhã. E não me vão para o rio, por causa das -lavadeiras. Não gosto da lingua da tal Lindoria, que -vae por ahi badalar... badalar...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_185" id="Page_185">[185]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Partiu de canna ao hombro e n’um passo diligente. -<i>Deus nobis heac otia fecit</i>—segredava comsigo. Os discipulos -fugiam para o outro lado, com medo que ainda -lhe desse a tineta, de voltar para traz. Corriam pelos -caminhos, davam saltos, guinchos... O Thomaz relembrou-lhes -o que disse o padre João, porém elles, -não se importaram, continuando a correr e a gritar sem -fazerem caso.</p> - -<p>Na margem do rio, o sacerdote, armou-se de todos -os cuidados para não ser presentido do esperto animal. -Ao dirigir-se á pedra branca, os passos eram -miudos, evitando as folhas seccas, que gemem debaixo -dos pés.</p> - -<p>Que enorme prazer de vingança! Iria passar á porta -do morgado, com a truta pendente da mão. «Olha lá! -rala-te p’ra’hi!»—havia de dizer mentalmente. Nunca -houve bandido que espreitasse com mais sagacidade a -sua victima.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_186" id="Page_186">[186]</a></span></p> - -<p>Já de longe levava a canna prestes, a sedela colhida -na mão para a lançar imprevistamente. Estava a pouca -distancia, quando estacou, pallido de colera! O D. Luiz, -surgíra n’esse momento da porta da azenha, seguindo -rio acima com o anzol tambem prompto!</p> - -<p>—Olhem o excommungado do barbaças que teve -denuncia!—exclamou o ecclesiastico. Bem disseram os -rapazes!</p> - -<p>O fidalgo, homem edoso, corpulento, tez morena das -soalheiras, olhar emprehendedor, tambem o viu e, provavelmente, -faria identicas reflexões.</p> - -<p>Comprimentaram-se com sorriso desdenhoso e n’esse -instante abriu-se entre elles uma lucta colossal.</p> - -<p>Estavam quasi a mesma distancia. Approximarem-se -atabalhoados era inconveniente. Tanto um, como -outro comprehenderam a gravidade do momento. O -peixe era um só e decerto não teria a condescendencia -de pegar nos dois anzoes ao mesmo tempo. O padre -João humildou-se. Fez ao inimigo um signal em que -pedia uma tregua, com o fim de parlamentarem. As circumstancias -exigíam prudencia e ambos se afastaram da -margem, para virem á falla.</p> - -<p>O padre disse primeiro:</p> - -<p>—Assim não póde ser, morgado. Nem p’ra mim, -nem p’ra Vossa Senhoria!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_187" id="Page_187">[187]</a></span></p> - -<p>—Que quer você que lh’eu faça? O rio não é -grande?</p> - -<p>—Mas a truta é uma, e se vamos á porfia escapule-se. -Vossa Senhoria sabe que ella está alli.</p> - -<p>—Palavra que não! Porque diabo não está você a -dar aula aos seus rapazes?!</p> - -<p>O sacerdote, zangado comsigo por lhe ter denunciado -a truta, não pôde supportar-lhe a censura:</p> - -<p>—E porque diabo não está o senhor a dormir a sua -sesta! Ora é muito fina!</p> - -<p>Estavam furiosos um contra o outro; mas a occasião -era inopportuna para se descomporem. N’esse momento, -juncto da pedra branca, a superficie do rio enrugou-se, -a agua espadanou e um peixe enguliu um insecto -que vinha nadando.</p> - -<p>—Seria ella?—rugiu o D. Luiz, com vontade de -matar o padre.</p> - -<p>—Ná...—opinou este fazendo-se forte—Ella ha de -fazer mais mossa.</p> - -<p>No fundo ambos acreditaram que podia ser. «Maldito -sotaina!» «Maldito barbaças!»—insultaram-se mentalmente.</p> - -<p>—Bem—disse o padre. Dois ao mesmo tempo é -que não póde ser. Quer Vossa Senhoria que se tire á -sorte quem ha-de ir?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_188" id="Page_188">[188]</a></span></p> - -<p>—Valeu—concordou o fidalgo.</p> - -<p>D. Luiz tirou um pataco do bolso e perguntou:</p> - -<p>—Cruzes ou cunhos?</p> - -<p>—Cruzes que eu sou padre. Agora trapaceie, se lhe -parece.</p> - -<p>—Não tenho os seus costumes, seu bebedo!—respondeu -o fidalgo, mostrando na palma da mão as cruzes -da moeda.</p> - -<p>E atirando ao ar o pataco com força, viram-no cahir -a distancia. Os dois pescadores correram cheios de -commoção.</p> - -<p>—Cunhos!—gritou o morgado ao ver a papuda -efigie do rei D. João VI.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_189" id="Page_189">[189]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>O padre João acceitou resignado a sentença. Encostou -a um valado a canna, tirou prodiga pitada da caixa -de prata e foi-se sentar n’uma pedra trauteando cantochão, -talvez pela mesma razão que tem os condemnados -á morte, para pedirem que rufem os tambores, -junto do cadafalso. D. Luiz augmentava-lhe o supplicio, -caminhando vagarosamente para a margem. Dois annos -de pesquizas e cuidados iriam terminar n’aquelle instante, -pela victoria do seu adversario? Desappareceria -aquelle tropheu de gloria, que lhe dera tantos sonhos -enthusiastas? Principiou a cantar alto, desvairado por -um sentimento de malevolencia. O da Torre Velha -advertiu-o:</p> - -<p>—Isso é para espantar, padre João?</p> - -<p>Callou-se ficando n’um abatimento triste.</p> - -<p>Ia presenciar a sua vergonha. O dia estava magnifico. -Com ar de trovoada o peixe pica, que nem mil -diabos! E figurava-se-lhe na imaginação a truta grande<span class="pagenum"><a name="Page_190" id="Page_190">[190]</a></span> -de guela aberta, aboccando a minhoca do barbaças. -Era horrivel e desoladora esta possibilidade!</p> - -<p>Mas porque é que o cubiçado peixe não havia de -fugir? A maior parte das vezes é o que succede—consolou-se. -A elle mesmo não lhe tinha acontecido? Ella -a serenar, a serenar, muito quietinha, deante dos seus -olhos, nem parecia coisa viva... Procurava o lado de -cima, lançava o anzol a distancia para vir nadando -pela agua a baixo como um bicho inexperto, e afinal, -a truta que para elle era o animal mais intelligente da -creação, escapulia-se por entre os penedos, que era um -regalo! Quantas vezes isto lhe succedera? Uma infinidade.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Ainda outra consideração:</p> - -<p>O morgado não era grande pescador de linha. Ignorava -muitos segredos da arte sublime e não possuia todos -os petrechos. Teria elle escolhido uma sedela bastante -verde-agua para não ser percebida, e bastante forte -para resistir aos repellões do valentissimo animal?! A -truta é o peixe mais valente do rio, tem uma força que -poucos apreciam. Talvez o seu antagonista não soubesse -calcular essa rijeza—considerou.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_191" id="Page_191">[191]</a></span></p> - -<p>Porém a gravidade do caso parecia ter dado ao -D. Luiz uma intelligencia agudissima. Atirou calculadamente -o seu anzol e seguia pela margem, com o olho -álerta e prompto a dar a pancada, logo que chegasse -o momento. O padre João teve vontade de fingir uma -dôr, só para o perturbar. A anciedade do seu peito, -crescia tumultuariamente, como oceano em furia. Aquella -alma bondosa, teve a ideia repugnante de desejar uma -apoplexia ao fidalgo! Mas reconhecendo-se criminoso, -por este mau pensamento, poz o coração á larga, tornou-se -magnanimo e até, mentalmente, pediu a Deus, -que deixasse o morgado pescar a truta grande. Mas o -da Torre Velha relanceou-lhe um olhar triumphante e -o padre João, logo mudou de parecer, rosnando:</p> - -<p>—Ah! ladrão! que se ella te foge muito me hei de rir.</p> - -<p>O instante verdadeiramente supremo ia chegar. O -anzol já se podia calcular perto da pedra branca.</p> - -<p>Que infernal chamma abrazava o peito do ecclesiastico!? -Poz-se de pé, só para seguir nas minudencias toda -a peripecia. O fidalgo, attento e subtil, empregava o -maximo da sua intelligencia.</p> - -<p>Afinal, sente a pancada! Curva-se a ponteira! O -peixe estava preso!</p> - -<p>—Ah! grande maroto, que m’a roubaste—exclamou -o ecclesiastico.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_192" id="Page_192">[192]</a></span></p> - -<p>O instincto obrigou-o a ser generoso. Gritou ao -D. Luiz:</p> - -<p>—Agora é não a deixar fugir.</p> - -<p>—Elle é o deixa—respondeu com orgulho, o da -Torre Velha.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_193" id="Page_193">[193]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Começou a lucta heroica entre o fidalgo e o peixe. -O animal era valente, podia quebrar a sedela, se o quizesse -tirar sofregamente do rio. Tambem podia acontecer -rasgar-se-lhe o beiço ou metter-se debaixo d’alguma -lapa, se não tomasse precauções. Para obstar aos inconvenientes -era indispensavel cançal-o, com paciencia -e perspicacia. Por isso D. Luiz attrahiu-o a um logar -conhecido, e alli o deixou rabear, defendendo-lhe o -mysterioso poço, onde a truta se podia enredar n’alguma -raiz. Puchava-a vagaroso e com delicadesa, consentia-lhe -prudentes guinadas para o largo, dava-lhe linha -calculadamente.</p> - -<p>Ao fim de cinco minutos, tanto o fidalgo como o -padre João, reconheceram que o peixe estava prompto. -Condescendia, deixava-se ir para onde o levassem, mostrava-se -fatigado e manso.</p> - -<p>O sacerdote, já resignado, seguia todas as manobras -sem rancor.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_194" id="Page_194">[194]</a></span></p> - -<p>—Ande que apanhou—disse. Puche-a para perto e -deite-lhe a mão debaixo d’agua, se não, ainda a vê por -um oculo.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>O D. Luiz aproveitou o conselho.</p> - -<p>Attrahiu manhosamente o peixe ao sopé do muro, -para que lhe ficasse debaixo d’um terrouço. Depois desceu; -deitou-se de barriga, tão baixo que as barbas lhe -tocavam na agua; introduziu um braço, guiando-se pela -sedela; e, quando conheceu que lhe tinha um dedo na -guelra, disse victorioso:</p> - -<p>—Esta já não foge, padre! Que bruta que ella é!</p> - -<p>Retirou o braço da agua, ergueu-se, ficando com o -peixe pendente.</p> - -<p>—Olhem o que é! Um barbo!... um peixe reles!—exclamou -o sacerdote.</p> - -<p>D. Luiz da Torre Velha, assim ludibriado pelo acaso, -teve a ideia de atirar com o barbo á cara do padre! Porem -era uma injustiça—considerou. Que culpa tinha -de tudo isto o mestre de latim?! O seu abatimento, gerado -na fatal desillusão era patente. Pegou na canna, na<span class="pagenum"><a name="Page_195" id="Page_195">[195]</a></span> -sedela, no cacifre, no peixe e... zaz!... atirou tudo -ao meio do rio.</p> - -<p>—Nunca mais! Póde ter a certeza de que nunca -mais volto a isto—affirmou retirando-se.</p> - -<p class="date">Abril—85.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 200px;"> -<img src="images/footer10.jpg" width="200" height="150" alt="" /> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_196" id="Page_196">[196]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_197" id="Page_197">[197]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header10.jpg" width="500" height="120" alt="" /> -</div> - -<h2 id="UM_CORVO_E_UM_PAPAGAIO">UM CORVO E UM PAPAGAIO<br /> -<span class="smaller">(CONTO PARA CREANÇAS, OFFERECIDO AOS MEUS FILHOS)</span></h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-i.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Isto passou-se no tempo dos animaes fallantes:</p> - -<p>Um velho corvo, tendo de edade perto -d’um seculo, n’um dia de muita chuva e vento, -veiu, já sem forças, poisar na beira d’um telhado. -Este valente da amplidão dos ares, tinha perdido toda -a arrogancia do seu porte; encolhido e a tremer não -se podia já ter nas pernas. A extremidade amarellada -das suas pennas, outr’ora tão negras, mostrava que padecia -de velhice e de fome. Ao habitante eterno dos -penhascos sombrios, ao motejador das tempestades que -assustam os homens, coube-lhe o vir dar o ultimo suspiro -da sua longa vida, perto do comedoiro farto e luxuoso -d’um vulgarissimo papagaio real. Este, de papo -cheio, e aquecido pelo ar tepido da cosinha, ao sentir<span class="pagenum"><a name="Page_198" id="Page_198">[198]</a></span> -a queda do corpo enfraquecido do corvo, perguntou -d’um modo gracejador:</p> - -<p>—Que é lá!? Quem passa?</p> - -<p>Uma voz quasi soluçante, conservando a meiguice -dum peito corajoso, e o vigor do suspiro d’um general -moribundo nos campos de batalha, respondeu:</p> - -<p>—Gente de paz, amigo. Descanço um momento.</p> - -<p>—Olha um corvo!—gritou o papagaio cheio de -medo. Aqui d’el-rei que me come! Antonio, acode!</p> - -<p>Mas o corvo, com uma voz tranquilla e cheia de -bondade, serenou-o:</p> - -<p>—Não te assustes... Não tenhas a meu respeito -a opinião do povo, que é errada. Sou meigo e infeliz. -Tive filhos, casa, uma companheira de muitos annos e -tudo isto me roubaram os homens. Durante a minha -vida d’um seculo, tenho visto mais barbaridades praticadas -pelos corações piedosos, do que todas as que -attribuem á minha raça maldita.</p> - -<p>O papagaio, ainda receioso, mas cheio de curiosidade -perguntou:</p> - -<p>—Então não és feroz e cruel como dizem?</p> - -<p>—Não. Tenho affectos; no alto dos meus queridos -rochedos, muita vez escutei com prazer o canto dos -passaros nossos irmãos e a alguns quiz imitar. Amigos -meus e meus irmãos viveram entre homens, tornaram-se<span class="pagenum"><a name="Page_199" id="Page_199">[199]</a></span> -familiares, chegando a comprehender a linguagem que -se falla. Eu sempre gostei do ar forte e da liberdade -das montanhas. Hoje enfraquecido e cheio de fome fui -arrumado para este telhado, pelo vento que toda a vida -escarneci. Ha muitos dias que não como, dás-me alguma -coisa d’isso que ahi tens?</p> - -<p>—Não posso—respondeu o egoista.—O meu arroz -mal chega para mim... Tu tambem o não comias. -Do que mais gostas, segundo dizem, é de carne -podre.</p> - -<p>—Que remedio tenho eu, á falta de melhor? É o -unico alimento dos infelizes que vivem nas solidões. -Comemos tudo... a fome é negra. O teu arroz cheira -tão bem... Dá-me um bocadinho? Poucos minutos me -restam de vida. Deixa-me ao menos aproveitar da tua -comida, isso que tu deitas fóra e desprezas.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Fez um esforço para voar; mas não podia. No entretanto -esse mesmo movimento d’azas atemorisou o -papagaio que bradou:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_200" id="Page_200">[200]</a></span></p> - -<p>—Não te chegues, não te chegues! Tu o que desejas -é comer o meu arroz e talvez engulir-me a mim -mesmo. Nada de brincadeiras. Essa tua fraqueza póde -muito bem ser fingida, para me enganares. Não te chegues, -senão chamo o Antonio, o meu amigo cosinheiro, -que arranja coisinhas boas para o meu papinho, e -se elle vem, olha que dá cabo de ti.</p> - -<p>O corvo, quasi agonisante, soluçava tremendo de frio -e de fome:</p> - -<p>—Não me odeies, lá por eu ter má opinião em toda -a gente. No tempo em que era forte, quantas vezes -não cobri com o meu corpo, muitos passarinhos que -não podiam resistir á tempestade?! Fiz o bem que -pude. Soccorre-me hoje, que estou para morrer.</p> - -<p>O papagaio, desconfiado e vaidoso, temendo que -o rustico habitante dos pincaros lhe sujasse a plumagem -vistosa, ordenou:</p> - -<p>—Então deixa-te estar ahi. Vou pedir ao Antonio -que te deite um pedaço de carne, da que não presta. -Talvez a não mereças; mas devemos ser caridosos—concluiu -espanejando-se.</p> - -<p>O velho corvo, já sem altivez, agradeceu com ternura -na voz:</p> - -<p>—Obrigado. Nosso Senhor t’o pague.</p> - -<p>No telhado porém, não podia resistir aos impulsos<span class="pagenum"><a name="Page_201" id="Page_201">[201]</a></span> -do vento. Confiado, ou talvez contra vontade, deu um -vôo, do beiral onde estava, para o poleiro, desculpando-se:</p> - -<p>—Tem paciencia. Não posso estar alli. Comerei -n’este cantinho a esmola que me fazes.</p> - -<p>Mas a proximidade d’aquelle corpo sujo, volumoso, -d’aspecto selvagem, assustou o timido papagaio real, -que logo gritou fóra de si:</p> - -<p>—Ó Antonio. Traz o pau!...</p> - -<p>E esvoaçava sem querer poisar. Agarrava-se á corrente -que o prendia ao comedoiro. Tremia de verdadeiro -medo, elle saudavel e nedio, diante d’este habitante -dos rochedos, que estava a dar o ultimo suspiro.</p> - -<p>O cosinheiro, ao ver o corpo immundo e repellente, -perto do seu estimado papagaio, exclamou irado:</p> - -<p>—Olha o ladrão de um corvo!...</p> - -<p>E dando uma pancada no animal desfallecido, atirou-o -sobre o lagedo da rua, onde o desgraçado morreu -logo. Em seguida, o Antonio com o fim de socegar -o seu querido, passava-lhe com brandura a mão na -cabeça dizendo:</p> - -<p>—Calla-te loiro, não tenhas medo. Queria-te fazer -mal? Levou a sua conta. Coitadinho do loiro, coitadinho -do loiro.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_202" id="Page_202">[202]</a></span></p> - -<p>Assim se cumpre, muitas vezes, a justiça na terra. -Meus filhos, não se deve acreditar facilmente nas culpas -d’aquelles que são infelizes, principalmente quando -precisam de que se lhes faça bem.</p> - -<p class="date">Lisboa, Março, 85.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 200px;"> -<img src="images/footer11.jpg" width="200" height="125" alt="" /> -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_203" id="Page_203">[203]</a></span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header11.jpg" width="500" height="120" alt="" /> -</div> - -<h2 id="A_VISTA_DO_SALGUEIRO">A VISTA DO SALGUEIRO<br /> -<span class="smaller">(CONTO PARA CREANÇAS)</span></h2> - -<div> -<img class="dropcap" src="images/dropcap-a.jpg" width="100" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="dropcap">Ambrosio era velho e vivia n’uma casa muito -pobre, toda esburacada e de telha vãa. Lá -dentro, os ratos eram tantos como as formigas -n’um carreiro; e elle, sentado ao lume, via-os ir e vir, -sem mesmo ter medo d’elles. Por traz da casa havia um -pequeno quintal, ao fundo corria o rio, e pegado estava -o moinho, habitado pelo moleiro, homem que elle -odiava mais do que a morte.</p> - -<p>Na tarde serena d’um dia d’agosto, Ambrosio, foi -visto na margem, sentado n’uma pedra, o queixo pousado -nos joelhos, a olhar fixamente e pasmado para -uma arvore do outro lado. O ceu era dum azul pallido; -as aguas passavam silenciosamente, até entrarem -na guela d’azenha, onde produziam um sussurro; a roda -movia-se de vagar; porque a força do rio era pouca...<span class="pagenum"><a name="Page_204" id="Page_204">[204]</a></span> -O pensamento d’Ambrosio voava, n’um mundo de independencia -e maldade, planeando vinganças contra o -moleiro seu inimigo. Era um odio velho, nascido de -conflictos diarios, aggravado por muitos nadas de que, -o do moinho, nem tinha consciencia. No corpo d’Ambrosio, -magro como de feiticeira, passava-se no momento -em que o viram a olhar para o triste salgueiro, -uma lucta violenta e feroz.</p> - -<p>N’esse dia, apparecera-lhe em casa, um bacoro de -perna quebrada. Sem mais reflectir attribuiu logo o -maleficio ao damnado visinho e foi para alli ruminar -uma vingança, que o deixasse consolado. Tinha um coração -de pedra este demonio de velho! Se não fora assim, -como poderia gozar, inventando martyrios, n’uma -tarde serena de verão, toda silencio e bondade!</p> - -<p>Mas não se desprendia do terrivel desejo de matar -o moleiro, com os maiores soffrimentos e castigos, que -no mundo tivesse havido! Seria capaz de se vender ao -diabo, só para conseguir o seu fim.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Veio-lhe esta ideia audaciosa e encarou-a resolutamente. -Tão firme foi o seu pensar, que logo o diabo<span class="pagenum"><a name="Page_205" id="Page_205">[205]</a></span> -em pessoa alli lhe appareceu deante dos olhos, offerecendo-se-lhe -para tudo, em troca da alma se elle realmente -lh’a queria vender. Era figura bem conhecida, -a que estava deante de Ambrosio:—meio homem, meio -cabra; um comprido pello cobrindo-lhe o corpo; um -rabo a dar para um lado e para o outro, como o d’um -lobo; os cornos arrebitados na cabeça; e os olhos a -coriscarem como dois carvões accesos. O velho não se -atemorisou, e como desejava vingar-se do moleiro, sentiu -o peito cheio de goso, quando o diabo lhe disse:</p> - -<p>—Ouvi a tua voz. Aqui me tens. Acceito o teu contracto. -Pede o que quizeres.</p> - -<p>—Então tu é que és o diabo?—perguntou.</p> - -<p>—Eu mesmo. Sou o que tudo posso depois lá do -<i>Outro</i> (apontou desdenhosamente para o ceu). No meu -reino posso mesmo mais do que <i>Elle</i>.</p> - -<p>—Fazes-me tudo quanto eu quizer para matar o moleiro?</p> - -<p>—Tudo, com tanto que me entregues a tua alma.</p> - -<p>—E para que queres tu a minha alma?</p> - -<p>—Para a guardar juncta com outras.</p> - -<p>Ambrosio observou escarnecendo:</p> - -<p>—Não acredito que faças bom negocio. Pelo que -dizem os padres, a minha alma não presta. Dou-ta, mas -has-de trazer-me aqui o moleiro pelo cachaço, e depois<span class="pagenum"><a name="Page_206" id="Page_206">[206]</a></span> -de bem amarrado e preso, deixares-me fazer o que eu -quizer. Mas quero-o bem amarrado e preso, porque tenho -medo, entendes?</p> - -<p>—Se entendo!... E só queres isso?</p> - -<p>—Se perguntas é porque estás em maré de franquesa. -Então vá lá: Quero ser rei; ter muito dinheiro, -muitos palacios, muitas cidades, muitos cavallos, coisas -ricas para comer.</p> - -<p>—Só isso?</p> - -<p>—Co’a breca! Muito boa deve ser a minha alma -para ti. Olha, já que offereces, quero uma sanfona, para -tocar aos ouvidos de minha mulher, quando ella estiver -a resmungar... Tu sabes; ás vezes leva noites inteiras -... ron-ron-ron... ron-ron-ron...</p> - -<p>—E por quanto tempo desejas tudo isso?</p> - -<p>—Essa agora é que nem parece sua, seu diabo! -Isso por muito tempo.</p> - -<p>—Não posso dar-te tudo por mais de cinco minutos.</p> - -<p>—Cá me parece sovinice. Cinco minutos não é nada.</p> - -<p>—É tempo bastante de gosares todas as coisas que -pedes e de te aborreceres de todas ellas.</p> - -<p>Ambrosio deu uma estrondosa gargalhada, que encheu -todo o valle, repercutindo-se nos reconcavos visinhos. -O diabo acrescentou:</p> - -<p>—É como te digo. N’esse ponto te mostrarei o meu<span class="pagenum"><a name="Page_207" id="Page_207">[207]</a></span> -grande poder. Um minuto basta para eu fazer passar -na tua vida, todas as grandesas da terra. Outro minuto -para percorreres todas as grandes cidades do mundo. -O terceiro minuto para tocares sanfona a tua mulher e -ella morrerá de desespero. O quarto para matares com -toda a pachorra o moleiro.</p> - -<p>—E o quinto?—perguntou Ambrosio.</p> - -<p>—Esse é para te aborreceres.</p> - -<p>—Como tu és grande, diabo!—disse o velho enthusiasmado. -Acceito.</p> - -<p>—Deixa tirar uma gotta de sangue das tuas veias. -Com esta penna de mocho, molhada no teu sangue, has-de -pôr o teu nome n’este livro.</p> - -<p>O inimigo do moleiro sentiu uma picada no sangradouro -e logo o seu nome appareceu brilhante como o -fogo, na pagina onde o escrevera, obrigado por uma -força irresistivel.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_208" id="Page_208">[208]</a></span></p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 50px;"> -<img src="images/deco1.jpg" width="50" height="50" alt="" /> -</div> - -<p>Depois um vento infernal levou-o pelo espaço. Tudo -quanto via e gosava eram deslumbramentos e delicias. -Corria-lhe o corpo um calor de mocidade. Ricos manjares -eram servidos em pratos d’oiro; as festas mais -divertidas e luxuosas, passavam-se em palacios de marfim -e cristal. Camas formadas de fofas nuvens, appareciam -dispostas para um momento de cansaço. Levado -milagrosamente, passou sobre os mares onde ruem -tempestades, viu a seus pés cidades cheias de bulicio -e riquesa, os reis da terra offereciam-lhe homenagem! -Os montes de perolas, oiro e diamantes já eram para -Ambrosio coisas sem valor. Por causa d’um mosquito -que lhe passou no nariz, teve uma rajada de colera, -que fez tremer toda a terra!</p> - -<p>Logo em seguida viu humilde e supplicante o moleiro, -que já estava preparado para o sacrificio.</p> - -<p>—Quero matal-o cá á minha moda—disse para o -diabo. Hade ser n’um banco, escochinado, como um -porco.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_209" id="Page_209">[209]</a></span></p> - -<p>No momento seguinte estava junto de sua mulher -tocando-lhe sanfona aos ouvidos. A pobre velha, entrevada -na cama, havia muitos annos, supplicava com -olhares, que lhe não atormentassem as ultimas horas -de vida. Porém o marido, homem de coração duro, foi -implacavel até ao fim e viu-a morrer no meio de soffrimentos -horriveis. Depois é que deu começo á tarefa -mais importante, que era dar morte afflictiva ao moleiro.</p> - -<div class="figcenter tb" style="width: 90px;"> -<img src="images/deco2.jpg" width="90" height="30" alt="" /> -</div> - -<p>Espatifal-o como um porco fôra sempre a sua ideia -fixa. Ia realisal-a. A scena passa-se no quintalito junto -do rio. A victima, com a sua grande estatura sae -do moinho. Vem manietado e humilde, ao pé do algoz, -apresentar-se para o sacrificio. Ainda que não ousava -levantar os olhos, o seu porte era digno.</p> - -<p>—Ah!—disse Ambrosio com grande satisfação. Vamos -lá a isto?</p> - -<p>O proprio carrasco, é que foi buscar um banco. -Apontando para elle, mostrou-o á victima, com riso de -mau:</p> - -<p>—Hade ser aqui.</p> - -<p>O pobre moleiro conservava-se calado e triste. Não -ousava ter olhares colericos, talvez, para o suplicio lhe<span class="pagenum"><a name="Page_210" id="Page_210">[210]</a></span> -ser menos barbaro. Não pedia; pois era um homem -valente, digno, bondoso e reconhecia a crueldade do -inimigo.</p> - -<p>Ambrosio continuou:</p> - -<p>—Só para chegar a isto dei a minha alma ao diabo. -Se mil almas tivéra, todas daria, só para te cravar -mil vezes uma faca no coração e tirar-te mil vidas -que tu possuisses. Quem foi que me quebrou a -perna do bacoro? quem me fez secar a larangeira? -quem me roubou a panella velha, com que eu tirava -agua do rio? quem me estragou o mangericão?</p> - -<p>E como a victima dos seus odios, continuava a olhar -para a terra, sem responder, escarneceu:</p> - -<p>—Ah! não foi ninguem!... Estas coisas fazem-se -por si. Alem de seres o grande ladrão, que me roubou -os feijões, és mentiroso. Pois vaes pagal-as todas juntas, -meu rico amiguinho. Ora deite-se n’esta cama.</p> - -<p>E com uma força que não era a do seu braço enfesado -e velho, pegou no moleiro que era um gigante, e -estendeu-o como uma arveola sobre o banco, atando-o -fortemente com cordas.</p> - -<p>—Agora espere que vou aqui buscar uma coisa.</p> - -<p>Logo appareceu com um alguidar e uma comprida -faca de matador. Mostrando estes objectos, acrescentou:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_211" id="Page_211">[211]</a></span></p> - -<p>—Isto é um alguidar para receber o teu sangue vermelho -e quente. Isto, uma coisa a que se chama faca -para te fazer cocegas no coração. Talvez ainda tenha -tempo para arranjar um serrabulho d’esse sangue e -coração. Vamos á obra que se faz tarde.</p> - -<p>Com placidez, gosando á vontade o martyrio do -paciente, principiou a arregaçar os punhos da camisa -de estopa. Mostrou a faca reluzente á victima que estava -deitada. E voltando-se para o diabo disse:</p> - -<p>—Você muito póde, seu amigo. Como eu tenho aqui -este fanfarrão, sem se mecher? Tenho pena que meu -pae me não tivesse feito duas almas, para lhe dar a -você!</p> - -<p>O demonio austero e grave não respondeu á lisonja. -Ambrosio entrou de novo no seu pardieiro e trouxe -um pucaro d’agua quente. Tinha de molhar a pelle da -victima, para a ponta da faca entrar mais firmemente. -E chapinhando na garganta com a mão molhada, tinha -uma respiração d’homem feroz.</p> - -<p>Apontou a faca ao logar apropriado, principiou a -enterral-a lentamente, para a dôr ser mais prolongada, -o sangue já sahia em borbotões do peito arquejante -do moleiro.</p> - -<p>—Não berra como os pórcos, este maldito!—considerou -Ambrosio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_212" id="Page_212">[212]</a></span></p> - -<p>Ia-lhe remexendo cruelmente com o ferro nas entranhas! -Gosava a sua victoria, fazendo soffrer a victima.</p> - -<p>Foi prolongando este goso até aos ultimos momentos -do moleiro. E quando reconheceu que alli estava -definitivamente um morto respirou:</p> - -<p>—Ahhh!... Isto valia bem uma duzia d’almas! Quanto -falta senhor diabo?</p> - -<p>—Vae acabar o tempo. Já lá te esperam. Olha!</p> - -<p>Apontou para a bocca d’um enorme forno, onde -entre as labaredas infernaes, estavam homens e mulheres -dando gritos. Todas as velhas ideias de Ambrosio -sobre penas eternas, se condensaram n’aquella realidade. -Affrontou heroicamente um tal espectaculo, deante -do qual o seu coração deshumano, ainda teve coragem -para beber do sangue do inimigo! Porém o mundo infernal -das chammas e gritos, crescia rapida e formidavelmente. -O diabo sereno e magestoso estendia-lhe a -mão para o agarrar, com as suas unhas de macaco! O -aspecto do demonio era tão medonho e terrivel, que o -velho Ambrosio teve subitamente um grande medo, -todo o seu corpo estremeceu como se oscillasse o -mundo, amedrontado e covarde ia a dar um passo -para fugir...</p> - -<p>N’esse instante escorregou e cahiu ao rio. Começou<span class="pagenum"><a name="Page_213" id="Page_213">[213]</a></span> -a berrar por soccorro como um possesso. O seu choro -era mais infeliz do que o de uma creança sem mãe.</p> - -<p>A agua escaldava-o e sentia-se abrazado como no -meio de labaredas infernaes! Quem lhe havia de acudir -n’aquelle instante de afflicção? Foi o visinho, o moleiro, -a sua victima que sahindo fóra do seu moinho o viu -debater-se covardemente, como se estivesse assoberbado, -por ondas d’um mar tormentoso!</p> - -<p>—Eh!... diabo de gato!—disse o collosso mettendo-se -ao rio e agarrando-o pela gola da vestia. Como -diabo te aconteceu isto?</p> - -<p>Levou-o para sua propria casa, metteu-o na cama -agasalhado, deu-lhe um caldo quente para o revigorar. -O velho Ambrosio, olhando-o receioso, batia o queixo -de medo e dizia com a cabeça debaixo da roupa:</p> - -<p>—Nada, não quero; elle póde deitar resalgar no -caldo!</p> - -<p class="date">Arcos, agosto, 86.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 200px;"> -<img src="images/footer12.jpg" width="200" height="125" alt="" /> -</div> - -<hr /> - -<h2>INDICE</h2> - -<table summary="Indice"> - <tr> - <td></td> - <td class="tdpg smaller">PAG.</td> - </tr> - <tr> - <td>A minha morte</td> - <td class="tdpg"><a href="#A_MINHA_MORTE">1</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Nosso Senhor Jesus Christo</td> - <td class="tdpg"><a href="#NOSSO_SENHOR_JESUS_CHRISTO">17</a></td> - </tr> - <tr> - <td>O cego de Guardiam</td> - <td class="tdpg"><a href="#O_CEGO_DE_GUARDIAM">27</a></td> - </tr> - <tr> - <td>A velhice d’um rei</td> - <td class="tdpg"><a href="#A_VELHICE_DUM_REI">51</a></td> - </tr> - <tr> - <td>A mulher de Lucas</td> - <td class="tdpg"><a href="#A_MULHER_DE_LUCAS">73</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dois caturras</td> - <td class="tdpg"><a href="#DOIS_CATURRAS">95</a></td> - </tr> - <tr> - <td>A postura dos ovos</td> - <td class="tdpg"><a href="#A_POSTURA_DOS_OVOS">115</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Rende-te Centurião</td> - <td class="tdpg"><a href="#RENDE-TE_CENTURIAO">129</a></td> - </tr> - <tr> - <td>A truta grande</td> - <td class="tdpg"><a href="#A_TRUTA_GRANDE">163</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Um corvo e um papagaio</td> - <td class="tdpg"><a href="#UM_CORVO_E_UM_PAPAGAIO">197</a></td> - </tr> - <tr> - <td>A vista do salgueiro</td> - <td class="tdpg"><a href="#A_VISTA_DO_SALGUEIRO">203</a></td> - </tr> -</table> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Novos contos, by -Francisco Teixeira de Queirós and Bento Moreno - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVOS CONTOS *** - -***** This file should be named 62954-h.htm or 62954-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/9/5/62954/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Redistribution is subject to the -trademark license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. 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You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format -other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg-tm web site -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain -Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1. - -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.8. 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It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at -www.gutenberg.org - - - -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the -mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its -volunteers and employees are scattered throughout numerous -locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt -Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. 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Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate - -Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works. - -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our Web site which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. - - - -</pre> - -</body> -</html> diff --git a/old/62954-h/images/cover.jpg b/old/62954-h/images/cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index dd80f1c..0000000 --- a/old/62954-h/images/cover.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/62954-h/images/deco.jpg b/old/62954-h/images/deco.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 7f6edef..0000000 --- a/old/62954-h/images/deco.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/62954-h/images/deco1.jpg b/old/62954-h/images/deco1.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 1393639..0000000 --- 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