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-The Project Gutenberg EBook of Viagem ao norte do Brazil feita nos annos
-1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux, by Ivo D'Evreux
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
-
-Author: Ivo D'Evreux
-
-Annotator: Ferdinand Diniz
-
-Translator: Cesar Augusto Marques
-
-Release Date: September 21, 2020 [EBook #63258]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL ***
-
-
-
-
-Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
-produced from images generously made available by Cornell
-University Digital Collections)
-
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-
-VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL PELO PADRE IVO D’EVREUX
-
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-
- VIAGEM
- AO
- NORTE DO BRASIL
- FEITA NOS ANNOS DE 1613 A 1614,
-
- PELO PADRE
- IVO D’EVREUX
- RELIGIOSO CAPUCHINHO
-
- PUBLICADA CONFORME O EXEMPLAR, UNICO, CONSERVADO NA BIBLIOTHECA
- IMPERIAL DE PARIZ
-
- COM INTRODUCÇÃO E NOTAS
- POR
- MR. FERDINAND DINIZ,
- CONSERVADOR DA BIBLIOTHECA SANTA GENOVEVA
-
- Traduzida pelo
- DR. CEZAR AUGUSTO MARQUES
- Cavalleiro da Real e Militar Ordem Portuguesa de Nosso Senhor
- Jesus Christo, Cavalleiro e Official da Imperial Ordem da Rosa,
- Membro do Instituto Historico, Geographico, e Ethnographico
- do Brazil, da Sociedade Geographica de Pariz, e socio
- correspondente, effectivo, honorario e benemerito de muitas
- outras sociedades litterarias e scientificas, nacionaes e
- estrangeiras.
-
- MARANHÃO—1874.
-
- Maranhão.—Typ. do Frias, r. da Palma 6.
-
-
-
-
-Á SAUDOSISSIMA MEMORIA, DE MEU PAE E VERDADEIRO AMIGO
-
-O Illm. Sr. Augusto José Marques.
-
-
-Á vós, ó meo querido Pae, levanto, dedico e consagro este pequeno, porem
-sincero monumento de minha saudade sempre viva, de meo extremecido amor,
-de meo eterno reconhecimento, e de minha dôr pungente pela vossa ausencia
-d’este Mundo.
-
-Bem sei que Deos, querendo recompensar vossas virtudes, cêdo vos tirou do
-seio dos que muito vos extremeciam; mas essa ideia póde sim consolar-me,
-nunca porem mitigar as vivas saudades, que me pungem a alma.
-
-Aceitae, ó meo bom Pae, estas flores que, ainda uma vez banhadas com
-minhas lagrymas, espalho sobre vosso tumulo, a lá do Céo, onde vos
-collocaram vossas virtudes e a Misericordia Divina, abençoae o vosso filho
-
- Cezar.
-
-
-
-
-AO LEITOR.
-
-
-A introducção, que se vae lêr, escripta pela habil penna de Mr. Ferdinand
-Diniz dispensa-me de escrever um prologo, e felizmente sou substituido de
-maneira muito vantajosa para os meos leitores.
-
-Realisei ainda uma vez um dos meos mais ardentes desejos, traduzindo
-e entregando á publicidade uma das obras raras a respeito da historia
-primitiva do Maranhão, que me tem merecido muitas investigações e aturado
-estudo.
-
-Dou-me por satisfeito d’esta e de outras fadigas, si d’ellas resultar
-algum proveito ao publico menos, lido para quem fiz esta traducção.
-
-Maranhão, 20 de outubro de 1874.
-
- _Dr. Cesar Augusto Marques._
-
-
-
-
-INTRODUCÇÃO.
-
-O Padre Ivo de Evreux e as primeiras missões do Maranhão.
-
-
-No tempo de Luiz XIII, o magnifico Convento dos Capuchinhos da rua de
-Santo Honorato contava entre seos Monges dois religiosos com o mesmo
-nome—o Padre Ivo de Paris e o Padre Ivo de Evreux. O primeiro, advogado
-antigo, verboso, ardente na discussão, muito versado nas ideias do seu
-seculo, gosava pela cidade de alta reputação, e as biographias modernas
-confirmão ainda sua fama passada: o segundo, amigo reconcentrado do
-estudo, e mais ainda da humanidade, espirito observador, alma apaixonada
-pelas bellezas da naturesa, prompto a acudir onde o chamava seo zelo,
-não se importando da curiosidade que podia despertar, foi completamente
-esquecido, e de tal forma, que, apezar de seo reconhecido merito,
-decorreram 250 annos sobre seo humilde tumulo sem que uma voz amiga tenha
-para elle despertado a attenção publica.
-
-Para que se fallasse n’este obscuro Monge foram necessarias duas cousas,
-com que não se contava durante sua vida: a transformação em poderoso
-Imperio dos desertos, que elle percorreo, e o amor apaixonado por certos
-livros velhos, que se rehabilitam e com razão, pois elles, por si só,
-narram factos que, sendo desconhecidos, fariam com que a civilisação
-crescente de certos paizes caminhasse na ignorancia de sua origem.
-
-Tinha então o grande Convento de Pariz muitos homens condemnados á
-injusto esquecimento.
-
-Fundado em 1575 por Catharina de Medicis,[A] havia em pouco tempo
-adquerido fama de conter monges doutos em theologia, zelosos, cheios de
-abnegnação e caritativos nas epidemias, a qual, quasi intacta, conservou
-durante o decimo sexto seculo.
-
-Era n’elle, que o partido, favoravel aos religiosos regulares, vinha
-procurar espiritos activos para luctar com o Bispo de Belley.
-
-Era sobre estes vastos terrenos, possuidos apenas pela Casa de
-_Tremouille_, que existia essa immensa officina bem conhecida pelo Corpo
-medico de Pariz, onde os cortesãos, assim como os mais humildes burguezes
-vinham provêr-se de medicamentos, que só ahi encontravam, ou que se
-preparavam com incuria notavel nos outros lugares de tão grande cidade.[B]
-
-Fallemos francamente: não era nem a sciencia, então incontestavel,
-d’esses Religiosos, nem os resultados positivos de sua cuidadosa
-administração, nem mesmo os beneficios diarios, pelos quaes eram tão
-uteis ás classes necessitadas, que lhes grangearam o credito unisono,
-que gosavam em Pariz, pois o deviam sobre tudo as brilhantes conversões,
-realisadas recentemente no Mosteiro de Santo Honorato.
-
-Foi n’este Convento, que um dos maiores senhores do ultimo reinado, o
-conde de Bouchage, mais conhecido depois pelo Padre Angelo de Joyeuse,
-veio trocar as grandezas da Côrte, onde voluntariamente demittio-se dos
-seos cargos militares, pela vida pobre e obscura que ahi se passava.
-
-Foi n’este sombrio asylo que um dos ramos mais illustres da familia de
-Pembroke veio abjurar o calvinismo, e, renunciando vida mais brilhante,
-sugeitou-se ás humildes funcções, que desde o principio do seculo lhes
-foram impostos, obrigando-se a proseguir sem descanço na missão a que
-voluntariamente se impozera.
-
-Facil nos seria abundar agora na citação de nomes celebres, e de causar
-talvez admiração fazendo sobresahir os esquecidos: para ser breve devemos
-porem cingir-nos ao objecto em questão.[C]
-
-O Padre Ivo d’Evreux e o Padre Ivo de Pariz appareceram, como dissemos,
-quase ao mesmo tempo; porem a fama, sempre crescente de um, eclypsou
-completamente a lembrança mui fugitiva, que o outro deixou, e até em bons
-escriptos são elles confundidos. Tiveram, comtudo, bom é repetir, destino
-bem differente.
-
-Ivo de Evreux, como dissemos, fugia em geral do bulicio politico, e
-somente tomava parte nas luctas do seculo quando tinha de sustentar
-algum ponto de doutrina religiosa: o segundo, muito mais moço na Ordem,
-que o seo homonymo, sempre prompto a entrar nos combates, que as Ordens
-Regulares sustentavam algumas vezes contra o poder ecclesiastico, tinha
-por isto adquirido muita fama, com que bastante se gloriava o Mosteiro.
-
-Era notado não só como orador eloquente, mas tambem como um dos mais
-fecundos do seu tempo.
-
-A hyperbole do elogio monastico chegou até o ponto de consideral-o como o
-engenho mais poderoso de sua Ordem.
-
-Foi sempre elle quem representou unicamente seos Superiores: eram d’elle
-os muitos livros, escriptos quase todos em latim, que foram oppostos,
-e victoriosamente, ás publicações violentas atiradas contra as Ordens
-mendicantes.
-
-Da sua antiga occupação de advogado se recordava e se aproveitava das
-tricas e desordens, proprias da epocha, e até lançava mão da astrologia
-judiciaria, pelo que se lhe attribuio a authoria do _Fatum Mundi_, livro
-absurdo, mas que durante algum tempo preoccupou a attenção publica.
-
-Declarado por unanimidade o oraculo do seu Convento, nem se quer por
-um momento houve a ideia de associar-se á sua lembrança o nome d’um
-Religioso, igual ao seo, e que apenas sabia sacrificar-se com o fim de
-ganhar algumas almas para Deos! O que fazia o nosso modesto amante da
-natureza diante de tal personagem, tão cercada de gloria, diante da
-_Phenix_ dos theologos francezes, como então por gosto o appelidavam?[D]
-
-Mas, quem é que se recorda hoje do Padre Ivo de Pariz? Quem cuida hoje
-nas discussões, cuja vehemencia lhe attribuiram tão viva admiração?
-
-Colloquemos os homens e os factos nos lugares, que devem occupar.
-
-Ivo d’Evreux poude contemplar em sua grandeza primitiva uma terra
-exuberante de vida e de mocidade: dois seculos de esquecimento passaram
-sobre sua obra, e hoje em dia brilha elle remoçado, cheio de graça, ao
-lado de Lery, de Fernando Cardim, de Anchieta, emfim de todas essas almas
-privilegiadas, que uniam a faculdade da observação á apreciação apurada
-das bellezas da natureza, e que saudaram, poetas desconhecidos, a aurora
-de um grande Imperio.
-
-Ivo d’Evreux, diga-se com pezar, teve o destino de quasi todos os
-historiadores primitivos do novo mundo: sua biographia, embora pouco
-desenvolvida, ainda está por escrever, e apesar das mais minuciosas e
-constantes investigações n’estes ultimos tempos, apenas conhecemos as
-circumstancias mais importantes de sua vida, e assim mesmo nada ao certo
-saberiamos si não fossem algumas notas colhidas em varios archivos dos
-antigos Conventos. Foi geral o esquecimento tanto da sua obra, como do
-seo autor. Pensam os escriptores de sua Ordem haverem dito bastante,
-lembrando ter elle vivido no seculo XVII, ter sido missionario zeloso, e
-autor de um livro, continuação obrigada da viagem do Padre Claudio, e até
-se esquecem de mencionar a sua existencia por espaço de dois annos entre
-os indios, onde este apenas demorou-se quatro mezes.
-
-Conforme as inducções, que se podem tirar de um folheto manuscripto,
-conservado na bibliotheca _Mazarina_, opusculo cheio de datas precisas,
-relativas aos Capuchinhos do Convento da rua de Santo Honorato, o nosso
-Missionario devia ter nascido em 1577.
-
-Indica por certo seu sobrenome a cidade onde elle nasceo, porem ignoramos
-qual foi o nome, que teve no seculo, como então se dizia. Á este respeito
-os amadores das viagens antigas foram mais bem succedidos quanto ao seo
-companheiro, o Padre Claudio, que se sabe pertencera a uma excellente
-familia, a dos Foullon.[E] O que ha de bem averiguado é, que os paes do
-Padre Ivo o applicaram á estudos excellentes, e que os seus professores
-não se contentaram de ensinarem-lhe só o latim e sim tambem o grego, e
-até o hebreu, e inspiraram-lhe tal gosto litterario, sem o qual não ha
-escriptor habil.
-
-No convento de Ruão passou o seo noviciado, e ahi entrou em 18 de agosto
-de 1595, não existindo a menor duvida a este respeito.[F]
-
-Depois de ter tomado o habito n’essa Caza, ahi provavelmente demorou-se
-alguns annos, e devia prégar na maior parte das cidades da alta Normandia.
-
-É provavel, que então se achasse em relações de estudo e de sacerdocio
-com o joven Francisco de Bourdemare, como elle natural da Normandia, como
-elle Prégador em sua Provincia, e mais tarde designado para succedel-o na
-missão do Maranhão.[G]
-
-Distinguido muito cedo pelos seos Superiores, e tendo já o titulo de
-Prégador, que então só se dava aos Religiosos notaveis, foi designado o
-Padre Ivo para preencher as funcções de Guardião do Convento de Montfort.
-
-Infelizmente os documentos, que temos á vista e que provam este facto,
-não dizem qual foi a Cidade onde se passaram a maior parte dos annos de
-estudo do nosso bom Missionario.
-
-Ha em França mais de treze localidades com este nome e não nos é
-possivel, absolutamente fallando, dizer onde o nosso viajante se
-fortaleceu em sua carreira religiosa.
-
-Nos primeiros annos do seculo mudou logo de residencia, e achamol-o no
-grande Convento de Santo Honorato, no meiado do anno de 1611, no tempo
-em que era Provincial da Ordem o Padre Leonardo de Pariz,[H] quase na
-occasião d’este sabio Religioso ter sido pelo Papa nomeado Superior das
-missões orientaes.
-
-Teremos ainda occasião de fallar no movimento politico, dado ás
-expedições maritimas, quando ja ia em meio o seculo XVI, e que tinha
-por fim fazer com que, o nosso comercio partilhasse das vantagens, que
-a Hespanha e Portugal haviam para si monopolisado. Cincoenta annos mais
-tarde, embora aproveitando-se das vantagens adquiridas pelas exploraçães
-dos Varazano, dos Cartier, dos Roberval, e de tantos outros navegantes,
-que nos deram o que n’aquelle tempo se chamava _nova França_, todas as
-attenções se fixavam nas regiões mais favorecidas, que então se pretendia
-colonisar, e as quaes com enthusiasmo se chamava _França equinoccial_.
-
-Ja havia desde 1555 uma _França Antarctica_, a qual, apesar de ter este
-nome por tão pouco tempo, não deixou comtudo de grangear para nossos
-homens do mar as sympathias calorosas e dedicadas dos povos indigenas,
-que então em tribus numerosas occupavam o Brazil em varias partes.
-Auxiliava tambem estas conquistas pacificas o movimento protestante, bem
-que não devesse deixar vestigios duradouros n’America do Sul, porque os
-refugiados e os Missionarios subordinavam a si e procuravam á porfia
-converter á suas crenças estas nações barbaras.[I]
-
-Sem tratar dos armadores de Dieppe, cujas primeiras explorações pelas
-costas do Maranhão, datam de 1524, sem mencionar as navegações de
-Affonso de Xaintongeois até as boccas do Amazonas no anno de 1542,
-ser-nos-ia facil provar, que 25 annos mais tarde Henrique IV doara a um
-bravo capitão da religião reformada a immensa extensão de territorio,
-para a qual devia ir Ivo d’Evreux, sahindo do seu pacifico retiro de
-Montfort, afim de cathequisar os selvagens.
-
-Vemos com effeito Daniel de la Touche, senhor de Ravardiere, de posse
-d’essas doações tão vagamente definidas pelas Cartas patentes de julho de
-1605.[J]
-
-Adquirimos tambem a certeza, que depois de dois annos, após duas viagens
-successivas ao norte do Brasil, Ravardiere decidio os Tabajaras e
-Tupinambás, propriamente ditos, a mandarem uma especie de embaixada
-ao Rei Christianissimo com o fim de solicitar sua protecção contra as
-invasões dos portuguezes.
-
-Foi debalde esta missão d’indios, porem como Ravardiere continuasse
-a residir por muito tempo entre elles, conseguio em 1610, que lhe
-fossem renovadas as doações feitas cinco annos antes, e assim julgou-se
-authorisado, logo depois da morte de Henrique IV, a formar uma associação
-para a definitiva colonisação d’estas regiões abandonadas.[K]
-
-Não foi comtudo aos partidistas de sua Religião, que se dirigio
-Ravardiere para ser bem succedido n’este empenho: pelo contrario sem
-hesitar entrou em conferencia com catholicos proeminentes, cuja lealdade
-perfeitamente conhecia, como sejam, o almirante Francisco de Razilly,
-uma das mais antigas glorias da França, e Niculau de Harlay, uma de suas
-summidades financeiras, e elles se lhe associaram para a exploração
-d’este previlegio.
-
-Em todo o seculo XVII não conhecemos outra transacção, entre catholicos
-e protestantes, mais leal e desinteressada: foi na verdade uma empresa,
-digna de contar em si o Padre Ivo d’Evreux, tão sincero como justo.
-
-O titulo de lugar-tenente do Rei, sem a menor questão, foi transferido
-á Rasilly, que teve toda a liberdade de acção, não deixando comtudo de
-fazer prevalecer as prerogativas da communhão, que professava.
-
-Em todas as praias onde desembarcassem, devia levantar-se uma cruz com
-toda a solemnidade, e bem assim missionarios catholicos seriam condusidos
-para propagação da fe entre o gentilismo.
-
-Estes contractos foram na verdade pontualmente executados, e nem na obra
-de Claudio d’Abbeville, e nem na de Ivo de Evreux se encontra uma só
-palavra, que faça suspeitar o menor estremecimento entre os chefes da
-expedicção.
-
-Fortalecido com o credito, que de ha muito gosava na Corte, ajudado alem
-disto, por soccorros pecuniarios, e pela verdadeira importancia, que lhe
-proveio de associar-se com Niculau de Harlay, senhor de Sancy, Barão de
-Molle e de Grois Bois, o almirante Razilly com toda a prestesa chegou
-ao fim, que tinha em vista, interessando a Regente no bom exito de uma
-empreza, ja antecedentemente approvada por Henrique IV.
-
-Por seos rogos escreveo Maria de Medicis ao Padre Leonardo, que n’esse
-tempo era Guardião do grande Convento dos Capuchinhos da rua de Santo
-Honorato, pedindo-lhe com toda a instancia quatro religiosos, afim de
-fundarem um convento da Ordem na Ilha do Maranhão.
-
-Diga-se a verdade: o norte do Brazil que actualmente offerece todos os
-recursos da civilisação, então se apresentava, até mesmo aos mais doutos
-da Universidade de Pariz, como um paiz entregue a todos os horrores
-da vida selvagem; os cosmographos francezes quando d’ella tractavam,
-exageravam a rusticidade d’esse paiz, deixando comtudo a imaginação o
-campo inteiramente livre, não marcando nenhum limite exacto, e era sobre
-essas informações inexactas que Raleigh se deleitava de evocar todos os
-monstros do mundo antigo.
-
-Nem um só momento exitaram estes Religiosos quando o Padre Provincial
-lhes leo a Carta regia na occasião em que se achavam no refeitorio:
-d’entre elles quarenta quizeram ser escolhidos para tão perigosa empresa,
-e os documentos officiaes, que temos à vista, nos fizeram até conhecer
-a especie de enthusiasmo que d’elles se apoderou quando souberam o
-contheudo da mensagem das Tulherias. Offereceram-se a maior parte
-dos Padres com expontaneo enthusiasmo para esta nova missão, e sendo
-reprimido o zelo dos mais fervorosos, declarou logo o Padre Leonardo, de
-accordo com o Definidor da Ordem, que seriam quatro apenas os escolhidos,
-de conformidade com o pedido.
-
-Eis a lista destes nomes pela ordem, que devem guardar entre si, e os
-raros historiadores, que d’elles tem tratado teriam evitado alguns erros
-se, como nós, tivessem consultado os archivos do Convento.
-
-O muito veneravel Padre Ivo d’Evreux, superior.[L]
-
-O muito veneravel Padre Claudio d’Abbeville.
-
-O muito veneravel Padre Arsenio de Paris.
-
-O muito veneravel Padre Ambrosio de Amiens.
-
-Ajoelharam-se os escolhidos diante do Padre Leonardo, e humildemente lhes
-agradeceram tal honra; foi-lhes annunciada a proximidade da viagem, e
-desde esse momento para ella se acharam promptos.
-
-Não ha a menor duvida á respeito da qualidade do Religioso, a quem se
-confiou a direcção das missões do Maranhão, e não se comprehende como
-Berredo, antigo Governador da Provincia, que foi autoridade no Brazil,
-deo o titulo de Superior á Claudio d’Abbeville, que occupa na ordem
-hierarchica o lugar immediato ao digno Missionario director dos trabalhos.
-
-Certamente era necessario que o Padre Ivo ja tivesse adquirido na Ordem
-credito inabalavel para que fosse preferido aos tres religiosos, seos
-adjuntos. Eram sacerdotes todos tres; como elle deram provas de possuirem
-solida instrucção, e o terceiro até, ja muito adiántado na carreira, por
-varias vezes tinha occupado certos empregos honrosos, signaes evidentes
-da consideração de seos superiores. O Padre Ambrosio éra alem d’isto
-dedicado com ardor á todas as obras de caridade, durante as calamidades
-dos ultimos annos do seculo, sendo muito conhecida sua bondade sempre em
-acção: suas prédicas fervorosas, bem acolhidas pelo povo, lhe grangearam
-o apellido de «_Apostolo da França_.»[M]
-
-Tem a data de 12 de agosto de 1611 as _Cartas de obediencia_, que os
-Superiores deram ao Padre Ivo d’Evreux, e lhe ordenaram, que fosse
-embarcar-se no porto de Caucale n’um navio sob o commando de Rzailly,
-lugar-tenente do Rei.
-
-Não devemos repetir aqui o que em termos percisos e apropriados contou
-Claudio d’Abbeville na primeira parte de sua narração a respeito dos
-pormenores da longa viagem dos missionarios até o Brazil, da separação
-forçada da flotilha, que os conduzia, e das peripecias d’esta navegação,
-que durou cinco mezes. O que porem podemos affirmar é que o Padre
-Ivo não soffreu somente o aborrecimento de uma viagem maritima, cujas
-difficuldades não se pode agora imaginar, e que aos cuidados de uma
-installação penosa vieram reunir-se fadigas imprevistas, e depois de
-desembarcado, dores pungentes, como fossem as que elle experimentou pela
-morte do digno Padre Ambrosio, e em seguida os soffrimentos provenientes
-de uma molestia, que o forçou a regressar, e da qual foi victima afinal.
-
-Tudo isto foi narrado com simplicidade e dignidade por tão zeloso
-missionario, e sem duvida muito melhor do que o fariamos.
-
-O que não disse o pobre Monge, cuja exquisita sensibilidade e admiravel
-resignação se revelam tantas vezes, foi o pezar, que experimentou quando
-vio, que da coragem imprudente de Pésieux resultou a morte d’este seo
-amigo, sem que o valor de Ravardiere podesse ser bastante para sustentar
-a Colonia; o que tambem não poude contar foi a perda das funcções de
-Superior da missão, que devia assumir antes do triumpho das armas de
-Jeronymo d’Albuquerque, e da expulsão definitiva dos francezes. Para
-explicar essas circumstancias, não mencionadas de forma alguma pelo digno
-missionario, é indispensavel fallar-se da situação administrativa em que
-então se achava o grande Convento da rua de Santo Honorato.
-
-O Padre Leonardo, tão afamado entre seos irmãos de habito, em 1614
-deixou de ser Provincial, e só poderia ser reeleito no anno de 1615.
-Foi substituido pelo veneravel Honorato de Champigny,[N] e com razão
-elogiam-se os melhoramentos de toda a natureza, a actividade, e
-especialmente a distribuição de soccorros caridosos, postos em pratica
-durante a sua administração.
-
-N’esta epocha, um Religioso estrangeiro, natural da Escossia, e
-descendente de uma boa familia, attrahia a si os olhares de seos irmãos,
-e póde dizer-se até os da propria França, o Padre Archanjo de Pembroke,
-que veio substituir de alguma forma o Padre Angelo de Joyeuse.
-
-Eleito Provincial em 1609, e não deixando depois d’isto d’exercer
-importantes encargos, foi este Capuchinho, logo depois da partida
-do Padre Ivo, nomeiado director dos missões _nas Indias orientaes e
-occidentaes_. Os motivos, que fizeram abandonar mais tarde a missão do
-Maranhão, não foram declarados, ou para melhor dizer, não existiam.
-Archanjo de Pembroke resolveo ir pessoalmente ao Brasil dar consideravel
-impulso á pequena missão, que alguns mezes antes havia sido derigida por
-Francisco de Razilly.
-
-Para este fim escolheo onze religiosos, de cujo zelo podia confiar:
-infelizmente ignoram-se os seos nomes, e apenas se sabe que entre elles
-havia um historiador, cuja _Narração_, nos parece de facto perdida, por
-não ter sido possivel encontral-a, apezar de todas as pesquizas feitas
-com constancia e perseverança por muitos mezes em Pariz, Ruão e Madrid.[O]
-
-O Padre Francisco de Bourdemare pertenceo á classe d’esses ricos
-gentis-homens, que após á saciedade de todas as superfluidades da
-fortuna, de repente suffocam n’um carcere o que se chama orgulho do
-seculo e lembranças mundanas.
-
-Havia ja alguns annos, que era viuvo: á seo filho entregou todas as suas
-herdades, e depois foi sepultar-se nos Mosteiros de Orleans e de Ruão,
-e d’ahi mudou-se para o Convento da rua de Santo Honorato em Pariz, onde
-exhibio diariamente, dizem, provas de humildade muito alem da exigida
-pelos membros da Communidade.
-
-Gentil-homem notavel, não havia muito, pela sua elegancia, na epocha da
-grandeza, anterior ao fausto de Luiz XIV, então somente trazia vestidos
-remendados, e ainda á sua pobreza juntava o habito de Capuchinho.
-
-Completar o seu martyrio dedicando-se fervorosamente á conversão dos
-selvagens, pareceo-lhe coisa tão natural como invejavel; este homem, cuja
-sociedade tinha sido tão procurada, e cuja instrucção era tão solida
-á ponto de poder escrever em latim uma obra volumosa, encarou como
-beneficio dos Definidores da sua Ordem o ser mandado a um paiz deserto,
-onde faltassem todos os recursos na vida: elle e Archanjo de Pembroke,
-cuja existencia tinha sido ainda mais brilhante que a sua, embarcaram-se
-com outros dez Monges n’um navio commandado pelo bravo Pratz, que com
-tresentos colonos novos ia soccorrer Ravardiere, cuja situação sem duvida
-era prevista em Pariz como difficil.
-
-Cheios de presentes pelos senhores da Córte de Luiz XIII com os quaes
-ainda bem recentemente elles entretinham relações diarias, e sobretudo
-satisfeitos por levarem ao modesto Convento do Maranhão os bellos
-ornamentos feitos pelas proprias mãos da Duqueza de Guise, partiram
-do Havre, e pode dizer-se, que para aquelle tempo foi por certo um
-phenomeno, pois apenas gastaram dois mezes e meio para chegarem á costa
-do norte do Brazil, porem apenas vellejavam ainda na bahia de Guaxenduba
-souberam logo do estado lastimoso, em que se achavam os negocios da
-França n’aquelles lugares.
-
-Não ignoravam os Missionarios, que pelo seo Instituto se achavam ao
-abrigo das eventualidades politicas, que o resto da expedição podia
-temer (por exemplo não podiam ser prisioneiros): foram, como que com
-pompa, para o seo Convento em S. Luiz, e comsigo levaram os presentes
-da Duqueza de Guise, porem apenas acharam ahi um só religioso, o Padre
-Arsenio de Pariz,[P] e esse mesmo muito doente.
-
-Mais doente ainda, que seo unico companheiro se achava o Padre Ivo
-d’Evreux, quando soube, estar substituido como Superior do nascente
-Mosteiro, e é provavel, que elle embarcasse a bordo d’algum dos navios da
-esquadra.
-
-Dizem os documentos que temos á vista, que n’esse tempo elle se achava
-em inacção, victima d’uma paralysia geral, consequencia provavel das
-fadigas, a que diariamente se entregava no _Fórte_.
-
-Para explicar a invasão lenta, porem continua, de tão triste molestia,
-basta recordar agora o que era então a nascente cidade de S. Luiz.
-
-Embora seja hoje, e com razão, esta risonha Capital considerada uma das
-cidades mais saudaveis do Imperio do Brasil, então apenas surgia do seio
-das florestas: os miasmas deleterios, que constantemente se desprendiam
-dos logares recentemente desbravados, a falta absoluta de certos
-medicamentos energicos, apropriados a combater com decidida vantagem
-essas influencias paludosas: tudo isto explica como o Padre Ivo d’Evreux
-não poude esperar pelo resultado da guerra começada, e como se vio
-coagido a regressar para a Europa, receiando ser pesado á missão depois
-de haver sido o seu agente mais activo e o seu sustentaculo mais dedicado.
-
-Não sabemos como se effectuou esta viagem, nem si elle foi para Pariz, e
-nem tão pouco si foi em sua terra natal buscar um azylo no Convento dos
-Capuchinhos,[Q] fundado apenas alguns mezes depois da sua partida.
-
-Os archivos da cidade d’Evreux, nada dizem a tal respeito, e nem tambem
-relativamente á missão brasileira, parecendo-nos dever esperar-se do
-acaso o apparecimento de documentos biographicos, cuja existencia nem se
-suspeita.
-
-O historico da segunda missão dos Capuchinhos franceses em Maranhão,
-completamente ignorada por Berredo e outros escriptores portuguezes, não
-nos deixa na mesma incertesa quanto aos missionarios, que succederam á
-Ivo d’Evreux e aos seos companheiros.[R]
-
-Sabemos que chegaram em 15 de junho diante da nascente cidade, que
-cantaram um _Te-Deum_ no dia 22 do mesmo mez, no rustico Convento
-principiado a edificar por seos antecessores, e tambem não ignoramos
-hoje, que elles previram o máo exito da missão.
-
-Ignoramos o que fez o Padre Arcanjo no Convento de São Luiz, porem
-quasi que se pode dizer, que não imitou o zelo dos Padres Ivo d’Evreux
-e Arsenio de Pariz, sendo tão mal succedido em seos esforços que até
-appareceo a desunião «entre as coisas da Colonia, augmentada ainda com a
-chegada dos portuguezes, que se assenhorearam do paiz.»
-
-O piedoso biographo, cuja narração nos serve do guia, diz, que o novo
-Superior administrou o baptismo a 650 indios, porem accrescenta logo,
-que sem duvida estes pobres selvagens não ficaram por muito tempo fieis
-á religião, que abraçaram, voltando a sua antiga idolatria: «não chega
-a sessenta os christãos sinceros, e n’esse numero estão incluidos vinte
-meninos.» Si se encontrasse uma biographia cheia de particularidades e
-de aventuras do Monge escossez, de que tracta o velho historiador da
-Ordem, taxando-a de muito exagerada, provavelmente n’ella se encontrariam
-narrações minuciosas de sua missão na America. Infelizmente este livro,
-se existe em alguma bibliotheca pouco conhecida, é tão raro como o de
-Francisco de Bourdemare, e temos sido infelizes nas diversas pesquizas,
-que até hoje fizemos com o fim de offerecer aos nossos leitores um
-extracto do seo contheudo.[S]
-
-Suspeitamos que o Padre Arcanjo de Pembroke deixou muitos dos seos
-confrades no Convento dos Capuchinhos recentemente edificado, e que
-regressou para França ao fim de 1614 no navio do Capitão Pratz, que levou
-á Paris Gregorio Fragoso, sobrinho de Jeronymo de Albuquerque, incumbido
-d’uma missão diplomatica, que devia discutir-se em Lisboa.
-
-Recolhido á sua cella no Convento da rua de Santo Honorato, o
-Padre Ancanjo facilmente esqueceo-se do Brasil[T], tomou parte nos
-acontecimentos politicos do seu tempo, vieram de novo as dignidades
-da Ordem procural-o, e viveo no grande mosteiro até o momento, em que
-Richelieu chegou ao apogeo do seo poder.
-
-Os amadores das viagens antigas, aquelles que prescrutam ainda com
-interesse as lembranças espalhadas aqui e ali, e com as quaes se deve
-compôr a historia das nossas Colonias, mais gloriosa do que se pensa, não
-se demoraram n’essas particularidades, e antes desejaram saber como o
-Maranhão escapou aos esforços corajosos do bravo Ravardiere.
-
-A _Historia Geral do Brasil_, publicada ultimamente pelo veridico
-Sr. Adolpho de Varnhagem lhe responderá com mais promptidão ainda do
-que o poeta laureado Southey. Ahi lerão como as forças portuguezas,
-expedidas d’esde outubro de 1612 para expellir os francezes do seu novo
-estabelecimento, de que tinha ciumes a Corte de Madrid, ainda em Maio de
-1613 foram reforçadas por Jeronymo d’Albuquerque vindo do Ceará, onde
-combinou com Martim Soares nos meios de ser bem succedida essa expedição
-sob seo commando, a qual se antolhava irriçada de difficuldades.
-
-De Pernambuco ainda vieram reforços indispensaveis, e por isso em 23
-d’agosto começou o bloqueio das forças francezas, porem no dia 19 de
-novembro, Ravardiere á frente de 200 soldados d’infantaria, e de 1500
-indios atacou com energia os sitiadores de sua nascente cidade; perdeo-se
-ahi o bravo Pezieux n’uma imprudente tentativa por não ter executado as
-ordens do seu chefe mais experiente do que elle.
-
-Tomaram por sua vez a offensiva os portuguezes, e em pouco tempo, apesar
-da sua reconhecida habilidade e do seu notavel valor, foi obrigado
-o Chefe da nova Colonia a concordar n’um armisticio, cujo desenlace
-seria terminado perante as Cortes de Madrid e de Pariz, para as quaes
-appellaram ambas as partes belligerantes.
-
-Antes de chegar a este ponto vio Ravardiere de seo exercito cem homens
-mortos e nove prisioneiros. Pode dizer-se, que si sua resistencia foi
-a de um bravo, como tal ja reconhecido, o procedimento, que então
-ostentarão seos adversarios, foi em todo o sentido generoso, porem, força
-é dizer que depois de convenções tão livremente estipuladas, e quando em
-3 de Novembro de 1615 entregou Ravardiere com todas as solemnidades o
-_Forte de São Luiz_ á Alexandre de Moura appareceo um acto de deslealdade
-manchando esta campanha tão nobremente terminada. Ravardiere deixou o
-Maranhão e foi em companhia de Alexandre de Moura para Pernambuco, d’onde
-partio em pouco tempo para Lisboa, e ahi no _Forte de Belem_ soffreo
-rigorosa prisão, que não durou menos de tres annos.[U]
-
-Pelo que acabamos de dizer vê-se facilmente, que a Cidade de S. Luiz, a
-florescente Capital de uma das mais ricas Provincias do Brasil, é uma
-Cidade de origem absolutamente franceza, e a Camara Municipal assim
-felizmente o comprehendeo por haver ainda ha pouco tempo feito surgir
-das ruinas os modestos edificios, que attestam esta epocha, provando com
-isto, e ao mesmo tempo, ausencia de patriotismo mesquinho e sentimento de
-bom gosto.[V]
-
-Mas voltando ao livro, que nos prende a attenção, façamos conhecer a
-sorte caprichosa, que o esperava em França. Despertaremos tambem com o
-bom Religioso algumas reminicencias, com que se pode enfeitar a poesia.
-
-Menos infeliz na apparencia que João de Lery, tão bem classificado com o
-appellido de «Montaigne dos velhos viajantes,»[W] Ivo d’Evreux durante 15
-annos não vio seo manuscripto, extraviado por um infortunio, que o ferio
-completa e absolutamente.
-
-Enviado aos Superiores da Ordem este livro, complemento do de Claudio
-d’Abbeville, foi destruido antes de haver apparecido. Impresso por
-Francisco Huby, em cujas officinas já havia sido edictada a obra do seo
-companheiro, foi inteiramente dilacerado.
-
-Francisco Huby, dizemos com pezar, deixou-se n’essa occasião seduzir, e
-esquecendo-se dos deveres inherentes á sua profissão, não se importou em
-ser o instrumento d’uma vingança politica tão mesquinha.
-
-É de suppôr, que o motivo, que fez prender Ravardiere no _Forte de
-Belem_, levantou tambem mãos sacrilegas para destruir na rua de São
-Thiago o precioso volume, no qual se expunham com admiravel sinceridade
-as vantagens para a França, provenientes da expedição de 1613.
-
-Entre a impressão da viagem de Claudio d’Abbeville, e a do livro, que é
-sua continuação, deo-se um acontecimento politico d’alto alcance.
-
-Foi resolvido o casamento de Luiz XIII, ainda menino, com uma princesa
-hespanhola[X], e um partido inteiro mostrou muito interesse em dissipar
-qualquer sombra, que prejudicasse a casa de Hespanha.
-
-Os projectos de conquista d’America do Sul não acharam mais apoio,
-e desde então empregaram-se todos os meios afim de ser esquecido um
-projecto de conquista, com que ja se havia inquietado a Hespanha,
-chegando-se até a destruir completamente a simples narração dos
-incidentes d’essa missão ja passada ha tanto tempo, embora escripta com
-toda a calma e conveniencia.
-
-Quando se deo este acto arbitrario havia em França um homem, que ligava
-muito interesse á obra e ao seo auctor.
-
-Felizmente Francisco de Razilly não cahio no captiveiro, que paralisava
-todos os esforços de Ravardiere, e pode até affirmar-se, que não perdeo
-de vista, por um só momento, as vantagens, que seo paiz podia tirar de
-uma Colonia, cujos primeiros passos elle tinha dirigido. Sabendo que
-hia ser destruido o volume do Padre Ivo d’Evreux, apezar de impresso
-inteiramente, foi á imprensa de Huby para vêr se obtinha um exemplar:
-ou porque não fosse com toda a promptidão, ou porque ja se tivesse dado
-começo a destruição da obra, apenas poude salvar algumas folhas por
-si ou por _meios_ subtis de um seo agente, as quaes reunidas mostraram
-a lamentavel perda de diversos fragmentos, e com essas lacunas tão
-importantes foi impossivel formar um exemplar completo. Mandou o
-Almirante imprimir o seu protesto em outra parte, e não nas officinas
-da rua de Sam Thiago, juntou-o ao livro, encadernado com todo o luxo,
-tendo na frente as armas da casa de França, e foi leval-o, não á Maria de
-Medicis, antiga protectora da Colonia do Maranhão, e sim a Luiz XIII.
-
-O menino rei ainda na anno antecedente tinha brincado muito com tres
-pobres selvagens Tupinambás, dos quaes fora padrinho, e suas recordações
-eram ainda tam frescas, que de vez em quando esboçava os grotescos
-ornatos, com que se enfeitavam os nossos indios:[Y] leo talvez algumas
-paginas do bello volume, que Razilly lhe offereceo, e n’isto ficou todo
-o seo interesse. Richelieu ainda não era Superintendente da sua marinha,
-e ainda dormiram na Corte por muitos annos os projectos de longas
-navegações.
-
-O livro do Padre Ivo, junto ao do Padre Claudio, foi posto nas estantes
-da bibliotheca, e ahi todos os deixaram em paz.
-
-Foi no tempo do digno Van-Praet, no principio de 1835, que o autor d’esta
-noticia teve a felicidade de encontral-o. Seria occioso o dizer como o
-feliz descubridor ficou surprehendido lendo esta agradavel narração, tão
-sincera em suas menores particularidades como preciosa pelas suas uteis
-noticias. Para comprehender bem o seo valor basta dizer-se, que o nosso
-bom missionario demorou-se dois annos, onde seo veneravel companheiro
-apenas demorou-se quatro mezes. Desde então appareceo Ivo d’Evreux n’uma
-serie de artigos, que publicava a _Revista de Pariz_ a respeito dos
-_antigos viajantes francezes_, e na verdade sem desvantagem, ao lado do
-Padre du Tertre, a quem Chateaubriand justamente chamou o Bernardin de
-Sant’Pierre do 16º seculo.
-
-Este artigo, cujo menor defeito era sem duvida alguma o ser pouco
-desenvolvido, formou n’esse mesmo anno uma pequena brochura, publicada em
-casa de Techener, e immediatamente esgotou-se a edicção.
-
-Desde essa epocha não foi mais Ivo d’Evreux de todo desconhecido aos
-amadores das viagens antigas, aos homens de bom gosto, que buscam avidos
-de curiosidade os escriptores esquecidos, percursores do grande seculo.
-Preoccupado, mais do que se crê na Europa, de suas tradicções poeticas,
-e de suas nascentes glorias, o Brasil saudou o nome do velho viajante,
-e lhe deo um lugar entre os homens pouco conhecidos, mas que devem ser
-consultados quando se tracta dos tempos primitivos.
-
-O Imperador D. Pedro, que occupa um lugar entre os bibliographos mais
-illustrados, e que tem decidido gosto pelas raridades bibliographicas,
-que derramam alguma luz sobre as antiguidades do seo vasto Imperio,
-mandou extrahir uma copia, sendo depois imitado seo exemplo!
-
-O unico exemplar, pertencente á bibliotheca imperial d’ahi em diante foi
-lido e relido:[Z] uma phalange de escriptores habeis e zelosos, que
-exhumaram do pó a historia do seo bello paiz, o chamaram em testemunho de
-suas asserções, Adolpho de Varnhagem, Pereira da Silva, Lisboa o auctor
-do _Timon_, e no ultimo lugar o sabio Caetano da Silva, o citaram entre
-as melhores autoridades, que se pode invocar sobre as crenças dos indios,
-e assim o fizeram sahir da obscuridade, em que jazia.
-
-Não tinha a França prestado attenção a estes testemunhos de estima
-para dar ao Padre Ivo d’Evreux o lugar, que merecia. Se Boucher de la
-Richarderie não tivesse pronunciado seo nome, levantando o mais que poude
-o de Claudio d’Abbeville, o Sr. Henrique Ternaux Compans não o incluiria
-na sua preciosa collecção dos viajantes conhecedores da antiga America. O
-Sr. d’Avezac o cita com destincção e faz sobre-sahir suas boas qualidades.
-
-Todos estes testemunhos de admiração para com o humilde escriptor, que
-sem ostentação sacrificou sua obra, infelizmente tem concorrido pouco
-para tirar sua vida da obscuridade, e não sabemos em que auctoridade se
-baseia um sabio bibliographo para dizer que elle viveo até 1650.[AA]
-
-Á vista d’um volumoso manuscripto da bibliotheca imperial pensamos
-um dia que ião ser esclarecidas todas as nossas duvidas sobre os
-principaes pontos da biographia do nosso escriptor, porem assim não
-aconteceo. _Os elogios historicos de todos os grandes homens e de todos
-os illustres religiosos da Provincia de Pariz_ infelizmente só dão
-noticias relativas aos religiosos de Santo Honorato, de Picpus, e de S.
-Thiago.[AB] Chegou-se até a dizer na obra, que havendo o Padre Paschoal
-d’Abbeville[AC] separado sua Provincia da Normandia em 1629 não devia
-procurar-se n’esta compilação o nome dos Religiosos, que não residiram em
-Pariz.
-
-Não se deve esquecer de todo a excitação puramente litteraria, que se
-experimentou em França logo depois da chegada dos selvagens brasileiros,
-que desembarcaram sessenta annos antes em Ruão ou em Pariz. Estes
-apparecimentos successivos d’indios, seguidos sempre de narrações mais
-ou menos notaveis, levão evidentemente o espirito a pensar nas bellezas
-primitivas da natureza, o que produz encantos e amplidão de ideias.
-
-D’esta influencia não se livrou o nosso Montaigne, como elle revellou em
-algumas palavras espirituosas, que escreveu a proposito d’uma cantiga
-brasileira.
-
-Os dois maiores poetas d’aquelles tempos, tão differentes entre si e
-comtudo tão approximados, se abalaram a ponto de dedicarem particular
-attenção a esses habitantes das grandes florestas, por acaso misturados
-com os cortezãos de França, que invejavam seos gosos pacificos, e a
-tranquillidade de suas existencias.
-
-Ronsard não é de parecer que estes homens, que lembram a origem do Mundo,
-percam sua feliz innocencia, e por isso insta com os visitantes para que
-não troquem a sua ignorancia pelos cuidados da civilisação.[AD]
-
-Malherbe tambem a respeito d’elles entreteve por muito tempo o douto
-Peiresc, por meio de cartas, onde dizia que a paz e a alegria estava em
-imital-os.
-
-Suas dansas inspiraram os mais delicados cortesãos, e um dos mais habeis
-artistas de Pariz fez com as suas arias uma especie de dança muito
-agradavel, cuja descripção nos deixou o poeta.[AE]
-
-Poderiamos ainda citar outros exemplos d’esta subita predilecção pela
-independencia dos pobres indios, e especialmente pelo magnifico paiz, que
-habitam.
-
-Conforme estes poetas, a cuja frente deve collocar-se Bartas,[AF] é
-n’esta fonte vital, que pode restaurar-se por novas comparações um estro
-quasi a exhaurir-se.
-
-Sem duvida alguma todos estes antigos viajantes, completamente esquecidos
-durante um seculo, exerceram real influencia no seo tempo, e ainda mais
-alem, como se pode provar á vista dos escriptos de Chateaubriand: a
-singelesa de suas narrações e a frescura de suas pinturas inspiraram os
-grandes escriptores, já cuidadosos de abandonarem nas suas descripções
-os typos ajustados ou estudados, e de influirem ou attrahirem só pela
-verdade.
-
-Ivo d’Evreux não foi somente um pintor habil, um narrador sincero, e sim
-tambem um observador perspicaz dos costumes de uma raça, para assim dizer
-extincta, e que não se poderia consultar frequentemente.
-
-Para escolher um só exemplo entre muitos, que elle offerece, basta
-dizer-se, que foi o unico, que descreveo os verdadeiros idolos, modelados
-em cera, ou esculpidos em madeira pelos indios.
-
-Hans-Staden, Thevet, Lery e o proprio Gabriel Soares, tão prolixos á
-respeito do culto do _maracá_, guardam silencio relativamente ao que
-então se rendia á essas estatuasinhas modeladas grosseiramente, sem
-duvida, pelos habitantes nomades das grandes florestas, as quaes com tudo
-servem para mostrar um principio da pratica nascente da arte: assim elle
-o confessa n’estas palavras: «Este mau costume crescia e estendia-se
-pelas aldeias proximas de Juniparão.» Depois accrescentou, que seo
-companheiro o Revd. Padre Arsenio encontrou estes idolos na visinhança
-dos bosques.... Ora, pode-se deduzir d’este trecho curiosa inducção, não
-sem interesse para a archeologia futura de um grande Imperio, e vem a
-ser, que no começo do XVII seculo notavel mudança se tinha já feito nas
-ideias religiosas do grande povo da costa.
-
-Sem duvida, n’esse tempo ja os Piagas tinham visto imagens nas igrejas,
-que se edificavam em varias partes do litoral: com a maravilhosa
-facilidade d’imitação, innata nos indios, ja no fim do XVI seculo tinham
-representado em estatuas alguns dos numerosos genios de suas florestas.
-Estes primeiros idolos foram infelizmente modelados em madeira, e
-embora houvesse grande copia d’elles, nenhum, ao menos que o saibamos,
-é conservado nos museos ethnographicos do novo Mundo, estabelecidos em
-varias localidades. Os Tupinambás, apenas chegaram na visinhança do rio
-das Amazonas, receberam ideias mais adiantadas de povos mais civilisados
-que elles: a poderosa nação dos Omaguas, por exemplo, cujas tribus vinham
-das regiões peruviannas, poderia ter influido sobre a arte grosseira, de
-que entre elles encontraram se tão curiosos _especimens_. Note-se, que
-estes importantes factos são, em geral, absolutamente despresados pelos
-escriptores portuguezes, e por isso não é pequena gloria para a nossa
-litteratura antiga, o ter possuido escriptores, dotados de genio tão
-observador á ponto de prestarem muita attenção ao estudo d’estes objectos.
-
-Entre os que se misturaram com estas nações infelizes, no principio
-do seculo XVII, não conhecemos, na verdade, senão um unico viajante
-portuguez, cuja narração encantadora deve estar ao lado das de João de
-Lery e do Padre Ivo d’Evreux.[AG]
-
-Foi Fernando Cardin, Superior dos Jesuitas ainda em 1609, e que visitou
-os indios do Sul depois de haver por muito tempo administrado as
-aldeias dos Ilheos e da Bahia. Bem que este Missionario não possa, pela
-importancia de documentos, comparar-se a Gabriel Soares,[AH] a quem se
-deve recorrer sempre que se queira, ter ideia exacta da nacionalidade dos
-indios, e da emigração das suas tribus, comtudo muito se lhe assimelha
-pelo seo estylo: como elle despresa os preconceitos, ama os selvagens,
-e com animação pinta admiravelmente o indio na sua aldeia, dando-nos a
-saber a grandesa, cheia de sinceridade, do seo caracter.
-
-A descripção do Padre Ivo d’Evreux não é, somente, mais um documento de
-grande importancia, que se ajunta á historia do Brasil com o fim de
-provar unicamente factos tendentes á fundação da Cidade de S. Luiz e sim
-para os francezes tem outro genero de merecimento.
-
-Pela sincera elegancia de sua dicção, pela cor habilmente destribuida
-de seo estylo, pela perspicacia de suas observações, e, pode tambem
-dizer-se, pelo sentimento apurado das bellesas da naturesa, que mostra o
-seu autor, ella pertence á serie de escriptores francezes, continuadores
-da epocha de Montaigne, e prognosticadores do grande seculo. Ivo
-d’Evreux, si fosse lido, teria nesse tempo influido, como alguns annos
-antes, João de Lery, que descreveo scenas analogas áquellas que elle tão
-bem soube pintar. Claudio d’Abbeville, escriptor muito menos habil do que
-elle, foi o continuador d’esta influencia litteraria.
-
-Si no retiro, por elle escolhido, e que cremos, não sem fundamento, ter
-sido em Ruão ou Evreux, ou mesmo no arrebalde de Sant’Eloy, soubesse o
-Padre Ivo qual foi a sorte definitiva dos seos charos indios, sua alma se
-teria entristecido profundamente.
-
-Depois de expulsos os francezes, foi Jeronymo d’Albuquerque nomeiado
-capitão-mór do Maranhão sendo Francisco Caldeira Castello Branco
-designado para continuar os descobrimentos e conquistas nas regiões do
-Pará.
-
-Dos esforços combinados destes dois officiaes resultou a fundação da
-risonha Cidade de S. Luiz e da de Belem.
-
-Estas duas Cidades edificaram-se pacificamente, sem opposição alguma da
-parte dos indios, que até ajudaram os consideraveis trabalhos, exigidos
-para a construcção d’ellas, e muitos d’elles acompanharam até um Official
-chamado Bento Maciel ás margens do rio Pindaré em busca de immensas
-riquezas metalicas, que se desconfiava existirem por ahi algures: fatal
-expedicção, cujo resultado foi somente a destruição dos Guajajaras.
-
-Os Tupinambás inegavelmente não eram mais hostis aos portuguezes, e
-viviam sob a direcção de Mathias d’Albuquerque, filho do governador;
-mas nem por isso deixavam elles de lastimar a ausencia de seos antigos
-alliados. Ja não residiam nos arrebaldes da cidade nova, e sim no
-districto de Cumã em numerosas aldeias. Indo um dia o seo chefe europeo
-ter com seo pae, que o mandou chamar, passaram por Tapuitapera alguns
-indios vindos do Pará, trasendo cartas para o capitão-mór de S. Luiz. Um
-Tupinambá convertido ao christianismo, por nome Amaro, aproveitou-se da
-passagem dos seos compatriotas para executar um plano terrivel.
-
-Tomou uma das cartas, abrio-a, e fingindo lel-a[AI] dirigio-se aos
-chefes das aldeias, e declarou-lhes que o fim d’estas missivas era uma
-abominavel trahição, urdida pelos portuguezes, que tinham resolvido,
-atreveo-se elle a dizer, reduzil-os á condicção d’escravos.
-
-Terrivel carnificina, onde pereceram todos os brancos, foi o resultado
-d’esta astucia do indio, bem facil de ser acreditada á vista dos
-acontecimentos precedentes.
-
-Espalhou-se pelo littoral a noticia d’este facto. Mathias de Albuquerque
-promptamente regressou ao campo onde se deram scenas tão tristes, e
-vingou seos compatriotas exterminando sem piedade os Tupinambás.
-
-As tribus, que moravam mais longe, insurgiram-se, e formaram entre si
-indissoluvel alliança, animando-as implacavel vingança, apezar de serem á
-principio tão pacificas, e de se acharem tão dispostas á abraçar a nova
-fé, que lhe tinha prégado o Padre Ivo d’Evreux. Levantaram-se tambem, e
-espontaneamente, aldeias mui longinquas.
-
-Jeronymo d’Albuquerque expedio contra ellas tropas aguerridas, e em
-breve o incendio e a morte substituio as festas, que faziam com toda a
-segurança e boa fé.
-
-Tinham apenas passado tres annos depois da partida dos capuchinhos
-francezes, e por isso era no principio do anno de 1617. A Cidade de S.
-Luiz do Maranhão, activamente edificada, começou a tomar o aspecto de uma
-Cidade européa.
-
-Este progresso inquietava os selvagens, que á custa de seos soffrimentos
-tornaram-se previdentes; forçados á deixar o sul do Brazil procuraram
-grandes florestas, e abrigados em seos seios esperavam recobrar sua
-independencia, e para isto só tinham um pensamento—a destruição completa
-de uma raça invasora, que não poude ser expellida pelos seos antepassados.
-
-Formaram os chefes Tupinambás uma liga desde os desertos de Cumã até ás
-margens do Amazonas: pretendiam assaltar de surpreza a nova colonia,
-e n’um dia convencionado matariam todos os habitantes. N’esse tempo
-não havia quasi indio, que não arrostasse sem medo as descargas de
-mosquetaria.
-
-Em quanto se ouvia este plano, e se trabalhava na sua execução, estava
-em Tapuitapera Mathias d’Albuquerque, com pequeno numero de soldados,
-descuidado de si e dos seos: entre os indios appareceu um trahidor, que
-descobrio o projecto dos chefes dos selvagens ao commandante portuguez,
-que não se assustando com o numero dos seos terriveis inimigos, travou-se
-com elles no primeiro combate, e levou-os de vencida até á distancia de
-50 legoas, ajudado em tão atrevida acção pelo bravo official Manoel Pires.
-
-Ainda vivia, porem bem proximo do termo de sua existencia o antagonista
-de Razilly e de la Ravardière: sem sahir da nova Cidade de S. Luiz muito
-ajudou seo filho com seos conselhos e com remessa de soldados que tinha
-em reserva.
-
-Não se assustou Mathias de Albuquerque com as difficuldades de todo o
-genero, que encontrava seo pequeno exercito n’esses immensos desertos;
-foi batendo os indios pouco á pouco até que em 3 de Fevereiro de 1617
-derrotou-os completamente, e obrigou-os a procurar refugio no seio das
-florestas. Só então, depois de exterminadas as tribus mais temiveis, é
-que o velho general se recolheo á Cidade de S. Luiz, e o que elle havia
-feito nos desertos do Maranhão tinha tambem posto em pratica Francisco
-Caldeira nas solidões do Pará, onde se edificava a Cidade de Belem.
-
-Não eram estes, por certo, os sonhos de Ivo de Evreux e de seos tres
-companheiros para com o Maranhão: em suas almas haviam imaginado a
-fundação de uma Cidade nova, onde os corações innocentes dos indios se
-lhes reuniriam para em commum louvar o Deos da paz. Ordens de exterminio,
-em vez de orações, faziam em redor dos colonos um deserto que causava
-terror. Seriamos injustos, se não dissesemos, que os Religiosos trasidos
-por Jeronimo d’Albuquerque continuaram a missão dos Padres francezes.
-Como Ivo d’Evreux e Claudio d’Abbeville, os Padres portuguezes Frei Cosme
-de São Damião e Frei Manoel da Piedade, eram da Ordem dos Capuchinhos
-desde 1617, isto é, desde o momento em que a guerra se tornou mais
-cruel, e Bourdemare publicou seo livro: á Corte de Madrid pediram
-religiosos activos, acostumados a todas as fadigas, e por isso capazes
-de affrontal-as e de os ajudar. No dia 22 de julho chegaram mais quatro
-religiosos a essas terras, não para o pequeno Convento de São Luiz, e sim
-foram residir nas circumvisinhanças da Cidade de Belem, e d’ahi começou a
-cathequese no Pará.[AJ]
-
-Não se sabe com certesa, se estes factos historicos, que de ora em diante
-terão lugar importante nos _Annaes do Brasil_, chegaram aos ouvidos dos
-missionarios dedicados que tantas fadigas soffreram para a conversão
-dos indios; a Europa gastou mais de dois seculos olhando para elles
-com indifferença, e ainda passaram mais vinte annos depois d’elles
-terminados, para então ver-se a continuação corajosa da obra dos seos
-antecessores[AK] por alguns Capuchinhos do Convento de Pariz: n’esse
-tempo estava Ivo d’Evreux bem proximo do termo de sua existencia, se é
-que ja não se tinha acabado tão dura perigrinação para elle.
-
-Tudo emfim estava acabado para os povos, nossos fieis alliados por algum
-tempo, e aos quaes procuramos fazer comprehender as luzes do Evangelho.
-Achavam-se ja embrenhados nas margens desertas do Xingù, do Tocantins, e
-do Araguaya: ahi, bem longe dos colonos europeos se perpetuaram sob os
-nomes de _Apiacas_, de _Gés_ e de _Mundurucus_, outrora tão temidos e
-hoje tão pouco, e até pelo contrario favorecidos por uma administração
-humana.[AL]
-
-Estes primitivos senhores do Brasil fallam ainda o idioma puro dos
-Tupys, cujos vestigios nos foram conservados por Ivo d’Evreux e Thevet,
-e especialmente por João de Lery, antes de ter reunido por meio de
-laboriosas fadigas os elementos do seo livro.
-
-Foi nas margens destes grandes rios, ja citados, que ha quarenta annos o
-illustre Martius observou tantas tribus desimadas.
-
-Ainda agora se lastimaria muito o sabio viajante sabendo, que até hoje
-ninguem colheo as ultimas lembranças, guardadas como legado por esses
-indios. Quando o governo brasileiro pensou, ha pouco tempo, na creação
-d’uma commissão scientifica, composta de sabios nacionaes, encarregada de
-visitar os pontos mais longinquos d’esse immenso Imperio, que não conta
-menos de 36° do Oriente ao Ocidente, forão o Ceará, o Maranhão, o Pará
-e o Rio de Janeiro os primeiros lugares designados para a exploração.
-Comprehendeo muito bem, que se havia nestas terras virgens admiraveis
-productos da natureza a colher, tambem existia uma mythologia e uma serie
-de tradicções historicas á salvar-se do esquecimento, em quanto Freire
-Allemão, Capanema e Gabaglia faziam collecções de preciosos materiaes
-sobre historia natural, geographia e meteorologia, que formaram o objecto
-d’uma vasta publicação.[AM]
-
-Um poeta historiador, estimado pelo seo paiz, corajosamente embrenhava-se
-n’essas solidões incognitas para conhecer os segredos da vida intima
-dos indios. Antonio Gonçalves Dias, nascido no interior da provincia do
-Maranhão, familiarisado desde a infancia com as legendas americanas,
-fallando a _lingoa geral_, incumbia-se de alguma forma da execução do
-programma de Martius.
-
-Bem cedo as legendas americanas, não nos animamos a dizer os mythos
-religiosos dos grandes povos do littoral, nos appareceram, taes quaes tem
-sido perpetuadas no interior, (graças talvez ao exilio) e quando chegar o
-momento de estudar-se com afinco a ethnographia, então se comprehenderá
-todo o valor das narrações sinceras de Lery, de Hans Staden, e de Ivo
-d’Evreux.
-
-Seria injustiça muito censuravel o negar-se as antigas tentativas feitas
-pelos Religiosos portuguezes para a cathequese dos povos selvagens,
-habitantes das regiões do Amazonas: graças a elles, em 1607, principiou
-a exploração do Maranhão por essas viagens, corajosamente emprehendidas
-por Missionarios vindos dos Conventos de Pernambuco. Estas tentativas
-não foram perdidas para a geographia, mas quanto ao proveito do
-Christianismo, ellas se terminaram em um martyrio inutil. Mais tarde, sem
-duvida, a obra dos Figueiras e dos Pintos produsio seos fructos, assim
-como os grandes trabalhos evangelicos suavisaram a posição dos indios do
-Maranhão.[AN]
-
-Foi ainda um escriptor francez, quase desconhecido, contemporaneo dos
-nossos bons missionarios, que com muito zelo, e pode até dizer-se com
-cuidado verdadeiramente piedoso, traçou o _itinerario_ seguido por estes
-homens corajosos, de tempo do Padre Ivo, e sem duvida seos conhecidos,
-mas que não possuiam nem a bondade e nem a sinceridade d’elle.[AO]
-
-Conta-nos Pedro du Jarric como as immensas regiões do Brasil, cubiçadas
-pela França, foram percorridas por dois Religiosos de sua Ordem, quase no
-mesmo tempo, em que Ravardiere pela primeira vez explorava o littoral.
-
-N’essa occasião Francisco Pinto e Luiz Figueira tinham grande vantagem
-moral sobre os francezes, porque sabiam muito bem a lingoa dos povos, que
-buscavam converter.
-
-Muito mais moço do que o seo companheiro, martyr no apostolado, o Padre
-Luiz Figueira iniciou-se, então mais do que nunca, nos segredos de uma
-lingoa, já visivelmente alterada no littoral, porem pura no seio das
-florestas.
-
-Cinco annos após a impressão do volume do Padre Ivo, elle publicou a
-sua _Arte de Grammatica_, e pela primeira vez depois de alguns ensaios
-incompletos do seculo XVI conheceu-se os principios de um idioma, que
-ainda fallava um povo corajoso, porem prestes a morrer.[AP]
-
-Voltemos ao nosso piedoso viajante.
-
-Se vivesse ainda, como é bem provavel, alem da epocha em que se deram
-estes acontecimentos, em 1619 por exemplo, Ivo d’Evreux certamente não
-fazia mais parte do grande Mosteiro d’onde outrora sahio com destino ao
-novo mundo.
-
-Póde suppôr-se, que o seo homonimo de Pariz principiava a eclipsal-o, e
-por isso vivia elle longe da grande Communidade: se residisse no Convento
-da rua de Santo Honorato, não é provavel que fosse de todo esquecido
-nas pequenas biographias, escriptas tão liberalmente á respeito de
-Religiosos, que nada escreveram, como seja, entre outros, Ivo de Corbeil,
-simples irmão leigo, fallescido em 1623, apenas conhecido na Ordem pelo
-seo amor á humanidade.
-
-Temos alem d’isto a certesa de ter se recolhido o Padre Ivo d’Evreux
-ao modesto Convento de sua terra natal: em 1620 estava elle em Santo
-Eloy,[AQ] e suppomos ter escolhido esta residencia por ser proxima ao
-Convento de Andelys.
-
-N’estas ferteis campinas, onde se despertou o genio de Poussin, ainda o
-nosso bom Missionario teve descanço bastante para admirar os risos da
-natureza e a frescura das paisagens.
-
-É possivel que em outra occasião tivesse elle oportunidade para
-conservar-nos suas minuciosas observações, que hoje talvez o fizessem
-distincto naturalista, mas depois da emoção impressa em seo pensamento
-pela magestosa solidão das florestas seculares do Brasil, somente se
-deixou captivar pelas calorosas discussões da theologia.
-
-Um livro ainda difficil de ser obtido (a cada momento topamos com
-raridades tão difficeis de serem alcançadas como a _Viagem_) nos prova,
-que no seo retiro não poude resistir ao espirito do seculo.
-
-Não tendo mais indios a converter se pôz a discutir com protestantes, e
-coisa estranha, foi um dos seos compatriotas, personagem muito estimado
-pelos seos correligionarios, a quem elle atacou ou talvez a quem
-respondeu somente.
-
-Ignoramos o titulo do primeiro opusculo, que elle arremessou ao seu
-adversario, porem um sabio bibliographo da Normandia, o Sr. Frére, nos
-deo o segundo, para nós uma especie de revelação.
-
-É este o titulo do folheto «_Supplemento necessario ao escripto que o
-Capuchinho Ivo fez imprimir relativamente as conferencias entre elle e
-João Maximiliano Delangle_.» Ruão, David Jeuffroy. 1618 em 8.º[AR]
-
-Este escripto, attribuido pelo douto bibliographo ao nosso missionario,
-bem puderia não ser devido á sua propria penna, porem prova o
-apparecimento de outra obra mais desenvolvida, e a existencia de serias
-discussões oraes entre elle e os dissidentes. Mais agradaveis sem duvida
-lhe foram sinceras discussões, que havia pouco tempo teve com Japi-Açu na
-Ilha do Maranhão, onde as continuas predicas feitas no Forte de S. Luiz,
-em presença de grande assembleia de indios, somente eram interrompidas
-pela severa polidez, que lhes prescrevia escutar o orador em quanto
-quizessem que elle fallasse, circumstancia, diga-se de passagem, que bem
-poderia em algumas occasiões enganar um zeloso missionario sobre o exito
-de seos esforços.
-
-Ivo d’Evreux então achava-se a braços com um dos homens mais firmes e
-mais estimados entre os protestantes, e o escripto do Religioso foi
-denunciado ao parlamento.
-
-João Maximiliano de Baux, senhor de Langle, era um ministro, joven,
-ardente, natural de Evreux como o Padre Ivo, morador em Quevilly, pequena
-Cidade de 1:500 a 1:600 habitantes á pequena distancia de Ruão.[AS]
-
-Ignoramos qual o objecto da discussão, e embora todas as nossas
-deligencias não vimos uma só peça do processo, porem é certo que o ultimo
-escripto, revelado pelo Sr. Frère, excitou de maneira notavel a attenção
-da autoridade, porque em 8 d’Abril de 1620 proferio o parlamento uma
-sentença a esse respeito condemnando David Jeuffroy a pagar uma multa de
-50 libras por haver publicado sem licença previa o livro denunciado.[AT]
-Como se vê, não alcançou esta decisão o nosso Missionario, e sim
-limitou-se ao impressor, por elle escolhido, embora contenha uma censura
-indirecta ao livro suppondo-se, que o nosso bom Missionario, pelo ardor
-da questão, se deixasse arrebatar a ponto de fazer allusões pessoaes
-dignas de censura.
-
-Á este respeito havia pouco escrupulo em 1618, e afinal se pensava que
-seria interrompida a carreira do joven ministro, atacado pelo Padre Ivo:
-bem longe d’isto, porque em 1623 foi pelos seos correligionarios nomeado
-deputado ao synodo nacional de Charenton, e quatro annos depois tambem
-fez parte do da Normandia, na villa de Alençon.
-
-De 1620 em diante perdemos todos os vestigios do Padre Ivo d’Evreux;
-comtudo muitos escriptores ecclesiasticos depois d’isto registaram seo
-nome em seos vastos obituarios, multiplicando erros, e assim provando que
-nunca viram a obra do Padre Ivo.
-
-Boverio de Salluzo,[AU] Marcellino de Piza,[AV] Wading,[AW]
-ordinariamente tão exacto, o Padre Diniz de Gênes,[AX] ou só dão
-particularidades geraes, mui approximadas relativamente á sua obra, sem
-mencionar a data d’ella, ou grosseiramente alteram o millesimo do anno da
-impressão. Este ultimo, por exemplo, diz que foi em 1654, erro bem claro,
-proveniente d’um primeiro erro typographico, repetido por Masseville,[AY]
-e até por Moreri Normando.[AZ] O Padre Francisco Martin, da Ordem dos
-Franciscanos, cujo manuscripto se guarda em Caen, por seo motu proprio a
-colloca no anno de 1659, dando sempre como lugar da impressão a cidade de
-Ruão.
-
-O _Epithome da la bibliotheca oriental y occidental_ de Leon Pinello,
-livro reeditado por Barcia no seculo XVIII, é o unico, que n’aquelle
-tempo mencionou com exactidão a _Viagem_, que reimprimimos, embora o seo
-titulo fosse tão alterado pelo bibliographo hespanhol a ponto de por
-elle ser difficil reconhecer-se o habil continuador do Padre Claudio
-d’Abbeville, devido isto a influencia de Diniz de Gênes.[BA]
-
-Quasi que temos certesa, á vista dos manuscriptos doados pelo grande
-Convento da rua de Santo Honorato, de ter vivido o Padre Ivo d’Evreux
-alem de 1629, já esquecido porque n’aquelle tempo havia firme proposito
-de desviar o Rei de Hespanha das tentativas feitas, não havia muito, á
-respeito do Maranhão.
-
-É verdade, que os antigos chefes da expedição não poderam renovar tão
-vasta empreza, onde se achavam seos maiores interesses.
-
-Embora a estima, que parecia gosar na corte o Almirante Rasilly, foi mal
-succedido em todos os seos projectos com este fim, e depois que o bravo
-Ravardiere, preso no Castello de Belem, recobrou a sua liberdade, nunca
-mais regressou á America do sul.
-
-Apparecem ainda estes dois nomes na historia da nossa marinha[BB] e de
-maneira gloriosa, porem na Africa, n’essas praias doentias, onde para
-segurança do commercio deviam ser castigados de vez em quando atrevidos
-piratas.
-
-Ravardiere, como acabamos de vêr, empregou gloriosamente os ultimos annos
-de sua vida tão activa em favor do Christianismo, assim como já o tinha
-feito em prol de sua patria, faltando-lhe apenas tempo para redigir a
-Narração de suas viagens pela America do sul.
-
-Sabemos com certesa ter ordenado, que se escrevesse em 1614 um Relatorio
-minucioso de sua expedição pelo Amazonas. Até nós não chegou esta
-especie de jornal, que alem de esclarecer muitas coisas, seria tambem de
-muito interesse para ser comparado com os documentos fornecidos n’essa
-epocha por um francez, cujas viagens mereceo as honras da impressão.
-
-Na verdade, dez annos antes, no meiado de 1604, João Mocquet, o guarda
-das curiosidades de Henrique IV e de Luiz XIII, percorreo as margens do
-Amazonas, e exforçou-se para fazer conhecer aos seos compatriotas este
-grande rio. Infelizmente este pobre cirurgião d’aldeia tinha mais zelo do
-que luzes, e por isso não podiam ser suas observações confrontadas com as
-de um homem, tão conhecido pela sua instrucção, como pela sua lealdade.
-
-A viagem de Ravardiere pelo Amazonas e Maranhão deve estar minuciosamente
-descripta na grande chronica dos Padres da Companhia, existente em Evora.
-
-Consultando os sabios trabalhos bibliographicos do Sr. Rivara, n’elles
-adquirimos esta certesa, pois o Cap. 111 d’este vasto _Cathalogo_ tracta
-especialmente do dominio dos francezes n’essas regiões. Não podemos
-pessoalmente examinal-o. Graças ao espirito investigador de tantos sabios
-historiadores, ainda não perdemos de todo a esperança de encontrar o
-escripto em questão.
-
-Diariamente emprega o Brazil os mais louvaveis exforços para colligir
-documentos inedictos, fontes da sua historia, e se em alguma livraria por
-ahi algures fosse descuberta a _Viagem_ de Ravardiere, serviria, com os
-escriptos de Claudio d’Abbeville e de Ivo d’Evreux, de guia seguro para
-se consultar relativamente a estas Provincias do norte, das quaes só se
-conhecem as explendidas solidões, e cujo passado nos foi, para assim
-dizer, revelado pelo nosso Missionario.
-
-
-NOTAS
-
-[A] A ordem constitutiva do Mosteiro tem a data de 28 de Novembro. O
-lugar da escolha foi concedido no anno precedente por Catharina de
-Medicis aos Capuchinhos, vindos da Italia, e a doação foi confirmada por
-Henrique III em 24 de setembro de 1574. Vide _Boverio_, Annali di Frati
-minori.
-
-[B] O _Mercure-Galant_ deo á luz uma descripção, muito curiosa, da grande
-botica do Convento.
-
-[C] Em 1617 contavam-se 655 Religiosos nas duas Custodias de Pariz e de
-Roão, e entre elles 209 clerigos.
-
-Em 1685 haviam em França 5:681 Capuchinhos.
-
-[D] Não inventamos: um dos seos mais ardentes admiradores, tambem
-Capuchinho, falla d’elle nestes termos: _Tantarum segete scientiarum,
-factus est dives ut Galliæ Phœnix hac nostra ætate communiter sit
-appelatus_. Vide o vasto Repertorio de Diniz de Gênes. _Bibliotheca
-scriptorum ordinis minorum Sancti Francisci capucinorum._
-
-Wading, mais moderado, contenta-se em chamar o Padre Ivo de
-Pariz—_egregius concinnator, insignis Capuccinus_.
-
-O autor anonymo dos elogios manuscriptos dos Capuchinhos da Cidade de
-Pariz não pôz limites ao seu enthusiasmo, quando disse: «a natureza
-parece ter querido exgotar-se, quando cedeo a tão grande personagem tudo
-quanto podia dar-lhe com abundancia de grandeza, tão rara quam admiravel.»
-
-Nasceo em 1590, Ivo de Pariz, tomou o habito religioso em 27 de setembro
-de 1620, seis annos depois que o Padre Ivo de Evreux regressou doente do
-Brazil, e afinal falleceo em 14 de ouctubro de 1678.
-
-Este religioso conseguio imprimir vinte e oito obras de sua lavra, cujos
-titulos principaes vamos reproduzir seguindo a ordem chronologica de suas
-publicações.
-
-_Os felizes resultados da piedade, ou os triumphos da vida religiosa
-sobre o mundo, e contra a heresia._ 4.ª edicção, Pariz 1634. 2 vol. em 12.
-
-_Da indifferença._ 2.ª edicção. Pariz. 1640. em 8.º
-
-_A theologia natural._ Pariz. 1640-1643. 4 T. em 4.º
-
-_Astrologiæ novæ methodus et fatum universi observatum, a Franc Allaeo
-Arabe Christiano._ Pariz. 1654. Temeo este Capuchinho, apesar de atrevido
-e credulo, publicar este livro com o seo nome, e por isso deo-o á luz sob
-o titulo _Fatum Mundi_.
-
-_Jus naturale rebus creatis á Deo constitutum_ etc. etc. Parisiis. 1658
-in folio.
-
-O _Fatum Mundi_ foi reimpresso em 1658, e no anno seguinte appareceu esta
-obra.
-
-_Dissertatio de libro præcedenti ad amplissimos viros senatus Britanniæ
-Armoricæ._ Parisiis. 1659. in folio.
-
-_Digestum sapientiæ in quo hebetur scientiarum omnium rerum divinarum
-et humanarum nexus_ etc. etc. 1654-1659. 3 vol. in fol, reimpressos com
-augmentos em 1661.
-
-_O Magistrado christão, coordenado pelo Padre Ivo, seo sobrinho._ Pariz.
-1688 em 12.
-
-_As falsas opiniões do Mundo._ Pariz 1688 em 12 etc. etc.
-
-Vê-se, que não ha analogia alguma entre os estudos d’estes dois
-Capuchinhos.
-
-Uma das obras do Padre Ivo de Pariz foi queimada pela mão do carrasco.
-
-[E] E não Silvére, como por descuido disse em sua biographia o veneravel
-Eyriés. (Vid Mr. Prarond. _Les hommes utiles de l’arrondissement
-d’Abbeville._ 1858—in 8.º)
-
-[F] Vid o Manuscripto da Bibliotheca mazarina, ja citada, que tem este
-titulo «_Annales des R. P. Capucins de la Province de Paris, la mer et la
-source de toutes celles de ça les monts._» N. 2879 pet in 4.º
-
-[G] Francisco de Bourdemare, ou Boudemard, natural de Ruão, deixou a
-Provincia, onde gosava sua familia de muita consideração para em Orleans
-fazer-se Capuchinho. Como noviço entrou no Convento d’esta Cidade, em 2
-de outubro de 1603, porem é muito provavel, que voltasse para a Normandia
-antes de ir residir no grande Convento da rua de Santo Honorato.
-
-[H] O Padre Leonardo morreu em Pariz com 72 annos de idade, no dia 4 de
-setembro de 1640. Antonio Fauro, seo pae, era conselheiro do parlamento
-de Pariz.
-
-O livro dos _Elogios-historicos_, manuscripto da Bibliotheca Imperial,
-o qualifica como «o maior homem, que ja teve, e que nunca mais terá, a
-Religião dos Capuchinhos.» Encontra-se elle outra vez Provincial na rua
-de Santo Honorato no anno de 1615.
-
-[I] Vide à respeito da expedicção protestante do Sr. Villegagnon, as
-Relações circunstanciadas de Niculau Barre, de João de Lery e do Anonymo
-conhecido por Chrispim. É certo que estabeleceram os Calvinistas seo
-predominio na Bahia do Rio de Janeiro, porem á elle se podem oppôr
-diversos pamphletos, escriptos por causa do Chefe da empresa. Estas peças
-satyricas fazem parte das ricas collecções da _Bibliotheca do Arsenal_.
-
-[J] Como se verá em outro lugar, logo após a publicação da primeira
-parte da viagem, a antiga expedição de Ravardière foi precedida pelas
-de Riffault em 1594, e de De-Vaux, o companheiro d’este ultimo, que
-misturando-se com os Indios dedicou-se muito ao descobrimento d’este paiz.
-
-[K] Julgamos dever reproduzir aqui o texto d’esta concessão renovada: não
-conhecemos o primeiro. «Luiz, a todos os que virem a presente. Saude.
-O defunto Rei Henrique, o grande, nosso muito honrado senhor e pae, a
-quem Deos perdoe, tendo por Cartas patentes de julho de 1605 constituido
-e estabelecido o Sr. de Revardiere de la Touche, seo lugar-tenente
-general na America, desde o rio do Amazonas até a Ilha da Trindade, e
-havendo elle feito duas viagens ás Indias para descobrir as enseadas e
-rios proprios para o desembarque e estabelecimento de colonias, no que
-seria bem succedido, pois apenas chegou n’esse paiz soube predispôr
-os habitantes das ilhas do Maranhão e terra firme, os Tupinambás e
-Tobajaras, e outros a procurarem nossa protecção e sugeitarem-se á nossa
-authoridade, tanto por seo generoso e prudente procedimento, como pela
-affeição e inclinação natural, que n’estes povos se encontram para com
-a nação franceza, bem conhecida por elles pela remessa que fizeram dos
-seos embaixadores, que morreram apenas chegaram ao porto de Caucalle, e
-dos quaes teriamos ainda recebido iguaes protestos, segundo as narrações
-feitas pelo Sr. de Ravardiere, tudo isto depois nos daria occasião de lhe
-fazer expedir nossas Cartas patentes de outubro de 1610 para regressar,
-como Chefe, ao dito paiz, continuar seos progressos, como teria feito, e
-ahi demorar-se-ia dois annos e meio em paz, e 18 mezes tanto em guerra
-como em treguas com os portuguezes etc. etc.»
-
-Guardamos para a proxima publicação do livro de Claudio d’Abbeville, de
-que este é o complemento, todas as occorrencias politicas, relativas
-á expedicção, e reservamos tambem para ella os traços biographicos de
-Razilly, de Ravardiere e de Pezieux.
-
-[L] Pode-se ler tudo isto minuciosamente na _Carta de obediencia_ dada ao
-Padre Ivo na _Chronologia historica dos Capuchinhos da Cidade de Paris_
-pag. 193. Tem a data de 27 de agosto de 1611, e começa assim: «_Venerando
-in Christo Patri Ivoni Ebroiense predicatori ordinis fratrum minorum
-Sancti Francisci Capucinorum, frater Leonardus pariensis ejusdem ordinis
-in Provincia parisiensi licet immeritus salutem in domino, in eo qui est
-nostra salus_».
-
-[M] Descançam seos restos mortaes no Brazil, pois foi o unico de seos
-companheiros, que não voltou á Europa. O padre Ambrosio de Amiens,
-pelos seos estudos, tinha-se distinguido na Sorbona, e quando ia
-requerer licença para seguir a carreira da magistratura, ou dedicar-se
-simplesmente á advocacia, resolveo em 1575 entrar na Ordem dos
-Capuchinhos: foi um dos primeiros irmãos, que tomou o habito no Convento
-da rua de Santo Honorato, onde por diversas vezes exerceo o cargo de
-Guardião.
-
-Deve-se collocar entre os annos de 1584 e 1586 a epocha das corajosas
-dedicações, em que elle afrontou os horrores do contagio para soccorrer
-a população parisiense, que então lhe deo o sobrenome pelo qual era
-conhecido. A sua idade, ja avançada, devia isental-o d’esta viagem, porem
-não foi possivel resistir-se ás suas instancias, e nem a todos os meios,
-que empregou para fazer parte d’essa missão, que foi de grande utilidade.
-
-Vêde o _Manuscripto_ da Bibliotheca Imperial intitulado «_Eloges
-historiques de tous les grands hommes, et de tous les illustres religieux
-de la Province de Pariz_.»
-
-[N] O Padre Honorato de Champigny morreo com cheiro de Santidade em 1621.
-
-[O] Sabemos d’esta obra por Guibert apenas, pois nenhuma outra
-bibliographia especial a menciona. Bourdemare publicou suas observações
-sob o titulo _Relatio de populis brasiliensibus_. Madrid. 1617 in 4.º
-Leon Pinelli falla de Frei J. Francisco de Burdemar (assim escreveo
-elle) como falla de Ivo d’Evreux por ouvir dizer. Affirma o _Livro dos
-elogios_ ter emprehendido duas viagens á America, e afinal que morrera
-como _forasteiro_ n’um dos Conventos da sua Ordem em Hespanha, um anno
-antes da publicação do seo livro. Parece-nos, que a expressão pelo
-biographo usada da palavra espanhola—_forasteiro_, quer dizer pura e
-simplesmente—_estrangeiro_.
-
-[P] O Padre Arsenio de Pariz tambem não tardou em deixar o Brasil, porem
-o triste resultado dos negocios do Maranhão não arrefeceu o seo zelo
-pelas missões. Foi para o Canadá onde prégou aos Hurons depois de haver
-convertido os Tupinambás.
-
-Foi Superior das missões da America do Norte por cinco annos e depois
-morreo no grande Convento de Pariz, em 20 de Junho de 1645 contando 46
-annos de habito. É muito provavel, que tivesse por successor na America
-o Padre Angelo de Luynes, Guardião de Noyon, pois foi Commissario e
-Superior das missões do Canadá em 1646.
-
-[Q] O Convento dos Capuchinhos da Cidade d’Evreux foi edificado em 1612
-«na extremidade de um suburbio da cidade do lado do meio dia, devido
-em parte aos cuidados e á liberalidade de João le Jau, então grande
-penitenciario e vigario geral da diocese.» Vide _Histoire civile et
-ecclesiastique du comté d’Evreux_, pag. 365. O abbade Lebeurier, cujas
-luzes e zelo archiologico são conhecidos, prestou-se a fazer a este
-respeito todas as pesquizas possiveis, porem, infelizmente, debalde.
-
-[R] O manuscripto que temos á vista, e que dá conta summaria da viagem
-de Arcanjo de Pemuroke, não nos diz claramente o nome da localidade
-onde saltaram os Missionarios, e por isso nos limitamos a transcrever a
-narração do seo desembarque: «foram alguns soldados á terra, e acharam
-diversos obstaculos, que nos pareceram máos prognosticos, como fossem
-alguns portuguezes e um sacerdote secular, que assolavão os gentios
-contra os francezes, e do _Forte_ souberam nossos soldados, que os
-portuguezes projectavam tomar a costa do Maranhão, e d’ella expellir
-os francezes, o que fez suspeitar aos Padres que poucos fructos aqui
-colheriam:» _Ms. da herdade dos Capuchinhos da rua de Santo Honorato_.
-
-[S] Circumscripto a um pequeno quadro, apenas podemos dar mui
-summariamente a descripção dos acontecimentos, que deram em resultado o
-abandono do Maranhão pelos francezes.
-
-Acabou-se tudo em 21 de novembro de 1614, depois da batalha onde falleceu
-o infeliz Pézieux.
-
-Alem da grande _Memoria_ publicada pela Academia Real das Sciencias de
-Lisboa á respeito d’esta expedicção, encontram-se mais amplas informações
-sobre este periodo da historia do Maranhão e suas missões pelos Jesuitas
-na vasta e preciosa publicação do Dr. A. J. de Mello Moraes, intitulada
-«_Corographia historica, chronologica, genealogica, nobiliaria e politica
-do Imperio do Brasil_.» (Vide o Tomo 3º, publicado em 1860).
-
-[T] Sua morte está marcada nos _Obituarios_ da Ordem no dia 29 d’Agosto
-de 1632, isto é, no anno em que foi celebrado o tractado de Castelnaudary.
-
-Contava n’esse tempo 47 annos de Religião, e n’ella sempre foi conhecido
-pelo _Religioso escossez_, embora pertencesse realmente a uma familia
-gaulesa.
-
-[U] Ordinariamente calam os historiadores esta ultima circumstancia, e
-não se encontra nem se quer referida summariamente e sem commentarios
-senão na collecção diplomatica (Quadro elementar) do Visconde de
-Santarem. A Carta authographa, que prova o captiveiro de Ravardiere
-existe na _Bibliotheca da rua Richelieu_, onde a vimos. Ella contraria,
-repita-se, o que se passou um anno antes no campo de Jeronymo
-d’Albuquerque. Está escripta com muita moderação, e foi derigida a M. de
-Puysieux (Vid _fonds franç._—Nº 228—15 p. 197.)
-
-[V] Informações inexactas sem duvida fizeram com que Mr. Ferdinand Diniz
-mencionasse aqui este facto, nunca acontecido.—Do traductor.
-
-[W] Lembro-me com prazer duma delicada expressão do sabio Augusto de
-Saint Hilaire.
-
-Lery, como se sabe, viajou pelo Rio de Janeiro no tempo de Villegagnon,
-isto é em 1556. A primeira edicção da sua interessante narrativa
-somente appareceu em 1571. Nosso Ivo d’Evreux, cujo estylo tem tantos
-pontos de contacto com o d’este escriptor, leria seo livro? N’elle nada
-encontramos, que nos leve a responder pela afirmativa. Multiplicaram-se
-porem as edicções de Lery e a tal ponto, que a quinquagesima e ultima foi
-em 1611.
-
-[X] Este projecto de dupla aliança entre as duas corôas ja era de 1612,
-porem foi annunciado officialmente em 25 de Março do mesmo anno, mas só
-foi executado d’ahi ha tres annos.
-
-Partiram os Missionarios a 19 de Março. Os esponsaes do rei de França com
-a infanta ainda não preocupavam os espiritos como depois aconteceo, por
-exemplo, em 1615.
-
-Todos os factos relativos aos dois reinados são minuciosamente descriptos
-no livro intitulado «_Inventaire generale de l’histoire de France par
-Jean de Serre, commençant á Pharamond et finissant á Louis XIII_. Paris,
-Mathurin Henault, in 18. (Vid o T. VIII).
-
-[Y] Podia ainda ver-se, ha alguns mezes atraz, na casa de um vendedor de
-curiosidades, da rua do Petit Leon, um desenho attribuido a Luiz XIII,
-quando menino, representando muito bem a figura d’um Tupinambá enfeitado
-com pinturas exquisitas.
-
-[Z] Devo ainda a Mr. Ferdinand Diniz a seguinte communicação, feita em
-carta, por mim sempre muito presada, de 16 de setembro de 1873.
-
-«O segundo exemplar conhecido da obra do Padre Ivo d’Evreux pertence ao
-Sr. Dr. Court, habil e zeloso bibliographo e possuidor, por sua fortuna,
-de grandes raridades.
-
-«Tive em minhas mãos este precioso exemplar, que custou 800 francos.
-
-«Tem mais duas ou tres folhas do que o da Bibliotheca Imperial.
-
-«O feliz possuidor do exemplar conhecido mora em Pariz, _rue du Centre n.
-4_; actualmente anda viajando em beneficio da saude alterada de um seo
-irmão, porem quando elle voltar, irei de novo visitar seo thesouro.»—Do
-traductor.
-
-[AA] É geral a obscuridade, que reina sobre a biographia d’estes antigos
-viajantes, tão importantes debaixo do ponto de vista da historia. O
-veneravel Eyriés, que citamos as vezes, é bem pouco baseiado em suas
-ideias, por exemplo, quando affirma que Claudio d’Abbeville viveo
-até 1632, quando os Manuscriptos da casa de Santo Honorato o dão por
-fallecido em Ruão no anno de 1616 com 23 annos de religião.
-
-Tambem não é exacto o attribuir-se-lhe a _Vida da bemaventurada Coletta_,
-virgem da Ordem de Santa Clara, pois appareceo este livro em 1616, em
-12, e em 1628 em 8º: as iniciaes, que traz no frontespicio bem poderiam
-evitar este engano, na verdade pequeno.
-
-O opusculo, de que estamos tractando, acha-se na _Bibliotheca do
-Arsenal_, onde o examinamos.
-
-[AB] Essa compilação, verdadeiramente curiosa, começou em 18 de novembro
-de 1709, e se compunha outr’ora de 3 vol. em 4.º. O T. 1º, infelizmente
-perdido, continha os _Annaes da Provincia_, e provavelmente ficamos
-privados de algumas preciosas particularidades sobre a missão do Padre
-Ivo: tinha o titulo de—_Capuchinhos da rua de Santo Honorato_, 4.º (Ter.)
-
-[AC] O Padre Pascoal d’Abbeville foi eleito 19º Provincial do Convento
-da rua de Santo Honorato: a divisão havida em 1629 foi provavelmente por
-causa do numero sempre crescente de Religiosos nos tres Conventos de
-Pariz.
-
-[AD] Em geral não são conhecidos estes versos de Ronsard, derigidos ao
-fundador da França antarctica, a essa personagem voluvel, ora huguenote,
-ora fervoroso catholico; cujas severidades excentricas Lery evitou
-fugindo para as mais longinquas florestas:
-
- Douto Villegaignon, como te enganas!
- Tu pretendes em vão tornar ameno
- D’America o viver estranho e rude...
- Acaso não vês tu que a nova gente
- Tão nua é no trajar como no peito
- É nua de malicia?—que não sabe
- Ao vicio e á virtude o nome ao menos?
- —Que não sonha com Reis nem com Senados,
- E, isenta do temor, das leis ao jugo,
- Á mercè das paixões a vida passa?
- Ignoras, por ventura, que ahi mostra-se
- Cada homem de si livre senhor;
- e Leis, Senádos, Reis, em si resume?
- Não é a terra e o ar commum a todos?
- Vê-se, áquella, cobrir ferro importuno
- O seio virginal de longos sulcos?...
- Commum é tudo ahi, como dos rios
- São as aguas perennes que trasbordam
- Sem processo intentar de plena posse.
- Oh, não queiras, por isso, dessa gente
- O repouso turbar dos velhos usos!
- Si ha remorso em tua alma, em paz os deixa;
- Não procures, p’ra os campos estenderem.
- Ensinar-lhes á terra pôr limites!
- Choverão os processos, e a fraude
- Á amisáde terá então de unir-se!
- Logo após, d’ambição o duro espinho
- (Como a nòs acontece, desgraçados!)
- Tormento lhes será—negro, incessante.
- —Seu repouso não quebres: são felizes;
- Elles gosam na terra a edade d’oiro.
-
- (Traducção do Sr. J. T. de Souza.)
-
-[AE] Vide a «Correspondencia e a Collecção Peiresc.»
-
-[AF] Este estimavel escriptor deo d’isto uma prova no seo poema da
-primeira semana, somente impresso em 1610 embora fallecesse seo auctor em
-1599.
-
- Ja o ardente Cocuyo á Nova Espanha
- Vai nas azas dois fachos conduzindo,
- Outros dois flamejando ergue na fronte.
- Á luz d’este esplendor de regios leitos
- Nos cortinados arabescos pintam-se,
- Á luz d’este esplendor em noite negra
- O habil artesão o marfim pule,
- Conta o avaro, no cofre, seu thesouro,
- Veloz o escriptor a penna guia.
-
- Traducção do Sr. J. T. de Souza.
-
-[AG] _Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuitica pela Bahia,
-Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, etc. escripta
-em duas cartas ao Padre Provincial em Portugal_. Lisboa. 1847 em 8.º
-
-[AH] _Tratado descriptivo do Brasil em 1587_, etc. Rio de Janeiro, 1851
-em 8.º Foram estas duas obras exhumadas pelo Sr. F. A. de Varnhagem,
-historiador tão conhecido do Brasil. Esta ultima obra, de que existe um
-Manuscripto na _bibliotheca imperial_ de Pariz foi tambem reproduzida
-por seo habil edictor na _Revista_ trimensal. Morreo Gabriel Soares em
-1591 n’uma praia deserta, após deploravel naufragio: como se vê foi quasi
-contemporaneo de Ivo d’Evreux.
-
-[AI] Affirma Berredo ser este indio um amigo dedicado dos franceses,
-porem melhor informado o _Jornal de Timon_ nos deo o nome deste selvagem,
-educado nas missões do Sul. Ja se vê, que não podia ter muita affeição
-aos francezes.
-
-Para urdir este horrivel estratagema, basta somente o odio, que nutriam
-certos indios contra os dominadores do seo paiz, não sendo necessario ser
-filho de Ruão ou de Rochelles.
-
-[AJ] Vide _Berredo, Annaes historicos do Maranhão_, e tambem o _Jornal de
-Timon_ de J. Lisboa, ns. 11 e 12, 1858, Lisboa. Diz este escriptor ter
-fallecido Jeronimo d’Albuquerque em 1618 succedendo-lhe no governo seo
-filho Antonio d’Albuquerque.
-
-[AK] Partiram para Goiana em 1635 os Missionarios da Ordem dos
-Capuchinhos, cujos trabalhos podem ser vistos nos manuscriptos legados
-pelo grande Convento de Pariz.
-
-[AL] Vide a respeito d’estes povos a rapida visita, que lhes fez
-Castelnau em 1851: _Expedicção scientifica nas partes centraes d’America
-do Sul_. T. 2º pag. 316.
-
-[AM] Vide _Trabalhos da Commissão scientifica de exploração_. Rio de
-Janeiro. Typ. de Laemmert—1862 in 4.º
-
-[AN] Na _Corographia historica_ do Dr. Mello Moraes encontram-se noticias
-minuciosas sobre as missões dos jesuitas e administração dos indios no
-Maranhão. Desde o principio do seo T. 3º teve este escriptor o cuidado
-de confessar o immenso auxilio, que lhe prestaram as obras doadas ao
-Instituto Historico do Rio de Janeiro pelo conselheiro Antonio de
-Vasconcellos de Drumond e Menezes. Em suas longas viagens, o diplomata, a
-quem se deve tão preciosas informações sobre a Africa, não se limitou a
-estas investigações, pois ainda colheu muitos manuscriptos á respeito do
-Brazil, que hoje servem de base ao historiador.
-
-Cego ha muitos annos, faz ainda muita honra á sua patria.
-
-[AO] Tres annos antes da partida dos Capuchinhos para Maranhão, o padre
-du Jarric dedicava ao Rei menino o seguinte livro: «_Segunda parte
-da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas tanto nas indias
-orientaes como nos outros paizes descubertos pelos portuguezes, no
-estabelecimento e progresso da fé christan e catholica, e principalmente
-do que fizeram e soffreram os religiosos da companhia de Jesus para este
-fim ate o anno de 1600_» pelo Padre Pedro du Jarric, da mesma companhia
-em Bordeaux, Simon Mellange. 1610 em 4.º Tudo quanto diz respeito ao
-Brazil acha-se n’este vasto resumo desde pag. 248 até 359, porem deve
-procurar-se os factos curiosos, citados n’esta noticia no livro 5º do que
-o auctor chamou _Historia das Indias Orientaes_, parte 3ª pag. 490.
-
-[AP] Desta primeira edicção, publicada em 1621, tornou-se, para assim
-dizer, impossivel ser encontrado um sò exemplar.
-
-A segunda edicção sahio com o titulo _Arte de grammatica da lingua
-brasilica do padre Luiz Figueira, Theologo da Companhia de Jesus_.
-Lisboa, Miguel Deslande, anno 1687, pet. em 12.º O sabio bibliographo
-portuguez o Sr. Innocencio Francisco da Silva não reproduz exactamente
-este titulo, porem menciona uma edicção da Bahia em 1851 pelo Sr. João
-Joaquim da Silva Guimarães, cujo titulo é muito extenso.
-
-A grammatica do Padre Anchieta—_Arte da grammatica da lingua mais usada
-na costa do Brasil_, appareceo em Coimbra no anno de 1595, em 8º, e
-d’ella em Portugal apenas se conhece um exemplar.
-
-[AQ] Santo Eloy, perto de Gisors, no destricto de Euro, é uma povoação de
-381 habitantes, á 25 kil. de Andelys.
-
-Ha tambem Santo Eloy de Fourques, aldeia do Euro, a 25 kil. de Bernay.
-
-Estamos propensos a crer, que foi na primeira, onde residio o nosso
-Missionario.
-
-[AR] Vide _Bibliographia Normanda_.
-
-Derigimo-nos directamente á douta officiosidade do Sr. Frère afim de
-obtermos o conhecimento do _Supplemento necessario_, porem apesar de
-constantes investigações vio-se na impossibilidade de nos dar outras
-noticias alem das que colhemos em sua excellente obra.
-
-[AS] Quevilly, _Clavilleum_, povoação do Senna inferior, distante de Ruão
-apenas 6 kil. e faz parte do districto de Grande Couronne.
-
-[AT] Mais tarde foi chamado Maximiliano de Baux para encarregar-se
-da egreja do culto reformado em Ruão, viveo até a idade de 84 annos,
-e falleceo em 1674 deixando reputação de homem recto, e de costumes
-austeros.
-
-Vide os irmãos Haag, a _França protestante_.
-
-[AU] _Cupucinorum Annales_. Lugduni, 1632, em fol. e depois a traducção
-italianna—_Annali di Fratri minori Cappucini_ etc. Venetia 1643 em 4.º
-
-[AV] _Annales seu sacrarum historiarum ordinis minorum sancti Francisci
-qui Capucini nuncupantur_ etc. Lugduni. 1676.
-
-[AW] _Annales ordinis minorum_. 2.ª edic., Roma, 1731. Depois os
-_Scriptores ordinis minorum_. 1650, em fol.
-
-[AX] _Bibliotheca scriptorum ordinis minorum_, Genova, 1680 em 4.º,
-reimp. em 1691 in fol. Este ultimo depois de algumas linhas, em que
-fallou do merecimento de _Ivo Ebroycensis, vulgo de Evreux_, dá tambem
-noticia do seu livro: _scripsit gallicé Relationem sui itineris et
-navigationis sociorum que Capucinorum ad regnum Marangani: cui etiam
-adjunxit historiam de moribus illarum nationum_. Rothomagi. 1654. Vid T.
-1º em 4.º
-
-[AY] _Historia da Normandia_. T. VI pag. 414. Masseville prova com toda
-a evidencia ter se contentado com traduzir o Padre Diniz de Gênes, pois
-disse ter o nosso Missionario, «dado uma Relação geographica das regiões,
-por onde se embrenhou, e particularmente do paiz do _Marangan_». _Regni
-Marangani_, escreveo seo predecessor.
-
-[AZ] Vede este precioso manuscripto na Bibliotheca de Caen. Uma
-bibliotheca americana organisada pelo coronel Antonio de Alcedo.
-Madrid. 1791, 2 vol. em 8º, não menciona o Padre Ivo, causando-nos tal
-omissão pouco desgosto, á vista de se dizer ahi haver o Padre Claudio
-d’Abbeville, seu companheiro, convertido com infatigavel zelo os
-selvagens do Canadá!
-
-[BA] A primeira edicção do _Epitome_, hoje rarissima por ter sido
-suprimida por ordem da Inquisição, só traz no seu titulo aberto a
-gravura o anno da impressão 1629 e o nome de _Antonio de Léon_, e
-não o de Pinelo. Não falla de Ivo d’Evreux, isto é, deste livro, que
-pertence a Bibliotheca de Santa Genoveva. Na edicção em 3 vol. pequenos
-em fol., por Barcia, assim menciona invertendo o seu titulo: _Fr. Ivon
-d’Evreux, capuchino. Relacion de su viage al Reino de Marangano, com sus
-companeros: historia de los costumbres de aquellas naciones_. Imp. em
-1654 em 4º francez.
-
-[BB] Isaac de Razilly, cavalleiro da ordem de São João de Jerusalem,
-primeiro capitão do almirantado de França, chefe d’esquadra da armada
-real na provincia da Bretanha, foi nomeiado almirante da frota real,
-em expedicção nas costas da Barbaria no anno de 1630, e adjunto de
-Ravardière: em 3 de septembro d’esse mesmo anno estava elle em Safy
-resgatando captivos.
-
-
-
-
- CONTINUAÇÃO
-
- DA HISTORIA
-
- DAS COISAS MAIS MEMORAVEIS
-
- HAVIDAS EM
-
- MARANHÃO[1]
-
- NOS ANNOS DE 1613 A 1614
-
- SEGUNDO TRATADO
-
- PARIZ.
- IMPRENSA DE FRANCISCO HUBY
- RUA DE SÃO THIAGO, NA BIBLIA DE OIRO, E NA SUA OFFICINA
- NO PALACIO DA GALERIA DOS PRESIONEIROS
- MDCXV
- COM PRIVILEGIO DO REI
-
-
-
-
-AO REI
-
-
-SENHOR.
-
-O que eu pude por meios subtis saber á respeito do livro do Rvd.
-Padre Ivo d’Evreux, supprimido por fraude e impiedade mediante certa
-quantia dada ao impressor Francisco Huby,[2] ponho agora na presença
-de V. Magestade, dois annos e meio depois do seu apparecimento, tão
-injustamente supprimida apenas veio a luz, afim de que V. M. e a Rainha
-sua Mãe, então regente, não visse a verdade tão clara, como ahi estava, e
-fosse mais facilmente illudida sua boa fé, por meio de falsas informações
-para que, contra suas santas e boas intenções, deixasse morrer a empresa,
-mais cheia de piedade e honra, que então se podia executar no novo Mundo,
-como se conhecerá tanto pela obra do Padre Claudio d’Abbeville, como por
-esta, embora incompleta por faltar a maior parte do Prefacio e alguns
-capitulos no fim.
-
-Praticaram estes actos com intenção de perder V. M. o titulo de Rei
-Christianissimo forçando-o a abandonar os sacrificios, e as obrigações
-contrahidas para com os novos christãos, a reputação de suas armas e
-bandeiras, a utilidade vossa e de vossos subditos, proveniente de um
-paiz tão rico e fertil, um porto tão importante como proprio á navegação
-de longo curso, hoje deteriorado, e tudo o mais adquerido com muitas
-despezas e cuidados.
-
-Para chegar-se a este ponto necessario foi recorrer á duas imposturas,
-muito bem conhecidas por pessoas de bom senso: uma foi de dizer-se que
-este paiz nada produzia, e nem tinha riqueza alguma, contra a verdade
-geralmente sabida: a outra foi de serem os indios incapazes de receberem
-a luz do Christianismo em opposição á palavra de Deos e á doutrina
-universal da Igreja.
-
-Eis como, Senhor, acabou-se esta excellente empresa tão bem começada,
-sendo tão triste resultado devido a fraude e a malicia d’aquelles,
-que, desejando occultar seos defeitos, os atiravam sobre o paiz, que
-por negligencia dos maus francezes, cuidadosos só do seo proveito e
-interesse particular, se esqueceram do de V. M., embaraçando perda tão
-notavel, ludibrio hoje de todas as nações estrangeiras, menoscabo de
-vossa auctoridade real em toda a Europa, e de dôr a todos os vossos bons
-subditos. Quando V. M. quizer sahir d’estas illusões, aconselhado por
-pessoas honradas, e reconhecidas pelo seu zelo ao augmento da gloria
-de Deos, e do vosso reinado, eu vos offereço ainda a minha vida e a de
-meus irmãos, fazendo conhecer, com a nossa pouca pratica e experiencia,
-por todos os cantos do novo Mundo, que em toda a christandade não ha um
-Monarcha tão grande e poderoso, como um Rei de França, quando elle quizer
-empregar não seo poder, e sim apenas sua authoridade.
-
-Eis, Senhor, tudo o que pode um dos vossos mais humildes subditos, que,
-embora tenha soffrido, durante vossa minoridade, maos tractos, perda
-de bens e de fortuna, ainda tem coragem bastante para vos servir com
-dedicação.
-
-Estou certo de acolherdes meos serviços, e o voto solemne, que faço de
-ser até o fim de minha vida,
-
-Vosso humillissimo e obedientissimo servo e subdito
-
- _Francisco de Rasilly_.
-
-
-
-
-AO REI
-
-
-SENHOR.
-
-A principal razão, que moveo os antigos a collocar entre os Deoses a
-maior parte dos seos Imperadores, foi o espirito religioso d’elles
-manifestado durante a vida.
-
-Coisa notavel na historia: ainda que alguns imperadores levantados
-da infima classe até ao cume do poder, se tenham mostrado crueis e
-sanguinarios para com seos subditos, comtudo alcançaram, após sua morte,
-o nome de Deoses, tiveram Templos e altares, sacrificios e sacerdotes,
-creados e nomeados pelo senado em virtude da piedade e da religião, que
-conservaram inalteraveis no meio dos seos muitos defeitos.
-
-Estes monarchas, grandes em dominio e pequenos no conhecimento do
-verdadeiro Deos, tinham innato em seo coração o amor pela Magestade
-divina, de que são viva imagem todos os monarchas, e por isso lhes
-pertence estender o reino de Deos como seos Loco-tenentes.
-
-Com esta intenção espalhavam arcos e tropheos, columnas e imagens para o
-ensino da religião, e á posteridade legavam chapas e laminas de metaes
-indistructiveis, como sejam o bronze, o ouro, e a prata, onde se viam
-gravadas as suas imagens, e com ellas alguns vestigios da sua piedade,
-cuja memoria o tempo não póde destruir.
-
-Antonino, o pio, assim deixou buriladas em bronze e prata, sua caridade
-e religião representadas na imagem de uma mulher, vestida como Deosa,
-tendo em frente um altar onde se achava um pouco de fogo ardendo
-constantemente, e no qual ella derramava á todo o instante, como em
-sacrificio, oleos odoriferos, mostrando com isto a Piedade e Religião,
-que consagrava aos Deoses.
-
-Si a inclinação natural, sem o auxilio da graça e da luz sobrenatural,
-podesse tanto no coração d’estes monarchas, o que podemos dizer e pensar
-quando Deos inspira o coração dos reis illustrados e ricos da verdadeira
-religião?
-
-Luiz 4.º, imperador, principe virtuoso e geralmente estimado á todas
-as suas occupações preferia a Religião, e para animar todos os seos
-subditos á imital-o, mandou cunhar o dinheiro com a figura de um templo
-atravessado por uma cruz, e ao redor lia-se a inscripção—_Christiana
-Religio_.
-
-O que excedeo, Senhor, a todos os Monarchas do Mundo, em piedade, e
-religião, foi São Luiz, a honra dos francezes, e de quem herdastes sangue
-e sceptro, nome e imitação de suas virtudes, porque não só empregou seos
-thesouros e sua nobresa, mas tambem sua pessoa, atravessando mares,
-(mares, que, como a morte, não fazem distincção quando querem involver
-alguem nas suas ondas) afim de erguer a piedade e a religião, abatidas
-pela crueldade dos infieis, e n’esta tarefa morreu.
-
-Até hoje ainda não houve seculo algum de Rei, tão parecido com o do
-bom São Luiz, como o vosso, Senhor, e deixando á parte o que não vem a
-proposito, eu tomarei somente este bello feito, com que imitastes sua
-piedade e religião, para com esses pobres selvagens, desejosos em extremo
-de conhecerem a Deos, e de viverem á sombra de vossas luzes, como sejam
-os habitantes de _Maranhão_, de _Tapuytapera_, de _Cumã_, de _Cayté_, do
-_Pará_, alem dos _Tabaiares_ e os _Cabellos-compridos_ e muitas outras
-Nações, que muito ambicionavam aproximarem-se dos Padres, como direi
-adiante.
-
-Tudo isto, Senhor, só vós podeis, porque os indios naturalmente gostam
-dos francezes e aborrecem os portuguezes: os nossos religiosos apenas
-podem arriscar suas vidas para convertel-os, porem pouco duraria isto a
-não ser a vossa real piedade.
-
-Não é empresa tão difficil como se calcula, e nem tão cheia de cuidados e
-de gostos, como se suppõe: não serão precisos 500 ou 1:000 escudos, pois
-basta mediocre liberalidade, porem bem administrada para a sustentação do
-seminario, onde se devem educar os filhos dos selvagens, unica esperança
-da firmesa da religião n’aquelle paiz.
-
-Si V. M., Senhor, se resolver a fazer isto, asseguro-vos que o vosso
-exemplo será imitado por muitos Principes e Princezas, Senhores e Damas,
-que contribuirão com alguma coisa para o augmento da fé n’aquelles
-logares.
-
-Para que eu não canse a V. M. com desagradavel prolixidade, acabarei com
-esta historia evangelica da pobre Chananea, reputada como cadella, a qual
-pedia, para livrar sua filha do poder do Diabo, apenas as migalhas, que
-cahiam da meza real do Redemptor.
-
-Descende do mesmo Pae de Chananéa esta nação de selvagens, e seos filhos
-estão no dominio do diabo, como infieis: ella não pede nem vossos
-thesouros, e nem grande quantia, e sim apenas as migalhas superfluas, que
-cahem, aqui e ali, da vossa real grandesa.
-
-Por tudo isto, Senhor, eu humildemente vos supplico, que olheis com bons
-olhos para esta pobre Nação, e que recebaes com animo bem disposto este
-pequeno _Tratado das coisas mais notaveis acontecidas durante a minha
-residencia entre elles por espaço de dois annos_, conforme as ordens da
-Rainha vossa Mãe, dadas aos nossos Rvds. Padres, que procurei cumprir
-tanto quanto me foi possivel, como vereis quando lerdes essa minha obra,
-cujo trabalho, si merecer a vossa approvação, dar-me-hei por muito bem
-recompensado em quanto viver, e toda a existencia, que por Deos me fôr
-concedida, eu a empregarei em servir fielmente a V. M., como aquelle que
-é e sempre será de
-
- V. M. subdito muito humilde e fiel,
-
- Frei _Ivo d’Evreux_, Capuchinho.
-
-
-
-
-ADVERTENCIA AO LEITOR.
-
-
-AMIGO LEITOR.
-
-Advirto-vos, que não repetirei aqui coisas ja escriptas pelo Padre
-Claudio d’Abbeville na sua _Historia_, e somente accrescentarei o que
-mais do que elle soube por experiencia, pois eu estive em Maranhão
-dois annos completos e elle apenas quatro mezes: verificareis esta
-verdade, comparando os nossos escriptos, e facilmente descobrireis o que
-augmentei.
-
-
-
-
-PREFACIO A RESPEITO DOS DOIS SEGUINTES TRATADOS.
-
-
-A _Sapiencia_ nos _Proverbios_ 29, apresenta um ensino allegorico, muito
-bonito, n’estas palavras: _pauper et dives obviaverunt sibi, utriusque
-illuminator est Dominus_: vi o pobre sahindo do Hospital cuberto de
-chagas e ulceras, carregado, e não vestido, de trapos, caminhar pela
-praça publica e entrar no Templo do Senhor pela porta do meio-dia:
-na mesma occasião vi o rico sahir do seu palacio, vestido de seda e
-carregado de ouro, prata, e pedras preciosas, caminhando pela estrada que
-vae dar á porta do Tabernaculo pelo lado do Septentrião, tão a proposito,
-que um e outro, o pobre e o rico, se encontraram frente a frente, bem no
-centro da grande cortina do _Sancta Sanctorum_, onde a face do Senhor
-espalha tão bella claridade, que o rosto d’estas duas pessoas brilhavam
-com o mesmo esplendor divino.
-
-Vejamos o que quer dizer a _Sapiencia_ na obscuridade d’estas palavras.
-
-Deixemos as diversas explicações mysticas e espirituaes, que d’ellas se
-podem deduzir, e tomemos somente a que nos pode servir em relação ao que
-escrevemos no frontespicio do nosso livro.
-
-O pobre é o padre São Francisco e os Religiosos da sua Ordem: o rico é
-o poder real de Vossa Magestade Christianissima, proveniente do ramo
-sagrado do Rei São Luiz. Quando e onde se encontraram este pobre e este
-rico? Foi sem a menor duvida na missão evangelica para converter os
-indios. Entre os dois estava Deos, o grande illuminador dos peccadores
-nas trevas da morte.
-
-O pobre São Francisco na conversão dos gentios fez nas Indias o que
-disse São Paulo:—_ego plantavi_, plantei a fé entre os selvagens do
-Maranhão: São Luiz, protector da França, e avô do nosso Rei, quando
-nos mettemos n’esta empresa, respondeo—_Rigabo_—eu a regarei, e não
-consentirei que ella murche á falta de cuidados. De nada serviria a
-planta, si em sua raiz não se deitasse agua para ella florescer, por que
-em pouco tempo o rigor do sol a seccaria, e o nosso Deos, que sempre
-prescruta a inclinação dos seos subditos, affirma que infalivelmente a
-augmentará—_incrementum dabo_: e por uma luz, sempre crescente de dia
-para dia, derramada entre os indios á respeito dos mysterios da nossa fé,
-espancareis as trevas da ignorancia, porque o Senhor é o illuminador de
-ambos, _utriusque illuminator est Dominus_.
-
-Quem melhor o pode saber que os selvagens aos quaes baptisamos e lhes
-promettemos fazel-os christãos?
-
-Si invocassemos o seo testemunho, elles responderiam—_credimus_.
-
-Oh! Piedade Real, não perdestes vosso tempo enviando-nos como Mensageiros
-do Evangelho.
-
-
-
-
-Continuação da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas no
-Maranhão em 1613 e 1614.
-
-
-
-
-PRIMEIRO TRATADO.
-
-
-
-
-CAPITULO I
-
-Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz do Maranhão.[3]
-
-
-O Psalmista Rei David, no seo Psalmo 28, composto em acção de graças pelo
-acabamento do Tabernaculo, disse—_Afferte Domino fili Dei, afferte Domino
-filios arietum_.
-
-«Trazei ao Senhor, ó filhos de Deos, trazei cordeiros ao Senhor,» o
-que Rabbi Jonathas assim explicou—_Tribuite coram Domino laudem cœtus
-Angelorum, tribuite coram Domino gloriam et fortitudinem_—«dae louvores
-ao Senhor, ó choros angelicos, dae ao Senhor gloria e força:» queria elle
-dizer, que os Anjos bemaventurados auxiliam os homens em todos os seos
-santos projectos, e especialmente quando se trata de procurar a salvação
-das almas, porque caminham adiante estes felizes espiritos e rompem a
-turba dos diabos, inimigos da salvação afim de soccorrerem os homens
-apostolicos, incumbidos de salvarem as almas errantes nos desertos da
-infidelidade, ahi comparados aos filhos dos Carneiros que saltam aqui e
-ali pelos rochedos da dureza do coração, porem afagados pelas doçuras
-do Evangelho se deixam guiar brandamente até a porta do Tabernaculo de
-Deos, levados no grande mar do baptismo, e offerecidos á face do _Sancta
-Sanctorum_.
-
-Os primeiros sacrificios, que Deos recebeo do povo de Israel, em procura
-da terra da promissão, d’onde expellio a infidelidade, foram sob as
-tendas e pavilhões do Tabernaculo, porem depois edificou-se o templo, e
-ahi continuaram os mesmos sacrificios.
-
-Coisa similhante nos aconteceo quando fomos a esse paiz, cheio de
-infidelidade e ignorancia de Deos, carregado de demonios, insolentes
-tyrannos d’essas pobres almas captivas, levar a luz do Evangelho, banir
-as falsas crenças, expellir os demonios, plantar e construir a Igreja de
-Deos: durante mais de quatro mezes celebramos os santos sacrificios n’uma
-bonita tenda, no meio de arvores verdejantes: partindo depois alguns
-da nossa comitiva para a França em busca de auxilio, e ficando o resto
-para fundar a Colonia; fizemos edificar a _Capella de São Francisco do
-Maranhão_ em um bello e agradavel lugar, junto do mar, proximo de uma
-bella e inexgotavel fonte, e ahi escolhi minha moradia, que um dia tinha
-de servir de Convento aos Religiosos, que eu esperava para me ajudarem.
-
-Acabou-se esta Capella na vespera de Natal e muito a proposito pela
-devoção, que sempre teve o Seraphico Padre São Francisco, a quem era
-dedicada.
-
-Alem de todas as festas do anno celebrava a noite, estrellada e sem
-trevas, do nascimento do verdadeiro Sol, Jesus-Christo, e tinha este
-santo Padre o costume de fazer um presepio, a cujo lado passava toda a
-noite contemplando o profundo mysterio da Encarnação, e da vinda tão
-estranha do Altissimo á terra.
-
-Na verdade enchia-me de immenso prazer vendo n’esta capellinha, feita
-de madeira, coberta de folhas de palmeiras, mais similhante ao presepio
-de Belem do que esses grandes e preciosos templos da Europa, os nossos
-compatriotas francezes cantarem os psalmos e matinas d’esta noite, e
-depois de purificados pelo Sacramento da penitencia receberem o mesmo
-Filho de Deos no presepio dos seos corações, envolvido nas faixas do
-Santissimo Sacramento do altar.
-
-Festejamos tambem o dia de natal; a noite prégamos, o que sempre fizemos
-depois das festas e nos domingos, e com prazer, embora muito soffressemos
-no principio: em quanto durou esta devoção corria o tempo tão depressa,
-que o dia parecia ter somente duas horas; e assim achando-se o nosso
-espirito preoccupado com obras piedosas sentia a morte vir tão depressa.
-
-Não fui eu só que senti isto, muitas outras pessoas depois me disseram o
-mesmo, e em quanto me permittio a saude, observou-se, e sem enfado, este
-uso.
-
-Augmentou-se ainda mais esta devoção quando se edificou no _Forte_ a
-_Capella de São Luiz_,[4] á imitação das Igrejas dos nossos Conventos,
-com madeira, cercada e cuberta de ramos fortes, cortados das arvores
-chamadas _Acaiukantin_.
-
-Ahi celebrei missas, cantei vesperas, préguei e baptisei os cathecumenos.
-
-A tarde tocava o sino, todos se reuniam n’esta capella, onde se cantava a
-saudação angelica, implorava-se a graça divina, e depois cada um ia para
-onde queria.
-
-
-
-
-CAPITULO II
-
-Do estado do poder temporal em sua primitiva.
-
-
-Compõe-se o homem de espirito e corpo; devendo zelar em primeiro lugar
-aquelle como mais nobre e depois este; pareceu-nos de muita razão cuidar
-a principio nas Capellas para n’ellas abastecer o espirito com a palavra
-de Deos, e do SS. Sacramento, e depois no que diz respeito áo temporal.
-
-Assim como uma terra, ainda inculta não dá grande contentamento á
-seu dono, e si elle não tivesse pão, que lhe viesse d’algures, por
-certo que morreria de fome, assim tambem era sem commodidades o lugar
-escolhido para a edificação da fortaleza de São Luiz, n’uma ponta de
-rocha, habitada outr’ora por selvagens, que a cultivaram a seu modo,
-ou para melhor dizer a esterilisaram, visto que depois de tres annos
-faltaram-lhe forças para produzir couza alguma, alem de matto agreste,
-sendo necessario descançar por muitos annos.
-
-Foi a causa dos nossos soffrimentos no principio, pois apenas tinhamos
-farinha de mandioca para fazer _mingau_, isto é, uma especie de papa com
-sal, agua e pimenta, chamada pelos indios _Yonker_, e assim passavamos a
-vida.
-
-Quem não podia comer esta farinha secca, desmanchava-a n’agoa, e assim
-alimentava-se com ella.
-
-Os que em França somente usavam de comidas delicadas, n’aquelle paiz
-apenas achavam legumes bem agradaveis.
-
-Conto isto para louvar a paciencia dos francezes em serviço do seo
-Rei, para destruir essa macula, que ordinariamente lhes lanção, de
-impacientes, imprudentes e desobedientes, porque na verdade eu só vi o
-contrario.
-
-Os que desejarem muito ir para aquelle paiz, não se admirem de ouvir
-fallar em tanta pobresa, porque não soffrerão mais do que nós, visto a
-terra ir melhorando diariamente, e os viveres se augmentarem gradualmente.
-
-Para remediar esta falta, resolveo-se mandar pescar peixe-boi[5], á 30 ou
-40 legoas distante da ilha: estes peixes tem a testa como os bois, porem
-sem cornos, duas patas adiante debaixo das mamas, párem filhos como as
-vaccas, nutrem-nos com seo leite, mas a cria tem a propriedade notavel
-de abraçar a mãe pelas costas com suas patinhas, e nunca as deixa embora
-mortas, pelo que alguns são agarrados vivos, e assim trazidos para a
-Ilha: são muito delicados.
-
-Sirva isto d’instrucção aos meninos, cumprindo a Lei de Deos, que
-manda honrar Pae e Mãe, isto é, amar e respeitar, e de advertencia
-aos catholicos para ficarem firmes e unidos no seio da Igreja, sua
-Mãe, d’onde perseguição alguma as possa arrancar, amando todos os bons
-francezes, seo Rei e sua Patria.
-
-São apanhados estes peixes-bois nos pastos, ou nas hervas que crescem nas
-praias.
-
-Vão os selvagens remando mansamente suas canôas por detraz d’ellas,
-atiram-lhe duas ou tres setas, e apenas mortas são puxadas para terra,
-retalhadas e salgadas.
-
-Coisa igual acontece aos glutões, que no meio dos banquetes são
-surprehendidos e n’um instante lá vão para o inferno.
-
-Encontra-se o sal necessario ás commodidades da vida, na distancia de
-40 legoas da Ilha, em terrenos arenosos, onde se mostra naturalmente,
-em forma de gelo, duro e luzente como cristal, por occasião do fluxo e
-refluxo do mar, e quando este se retira o sol o cresta e é melhor que o
-sal de França e de Hespanha.
-
-È necessario apanhal-o antes da estação das chuvas para que ellas lavem o
-lugar onde elle estava.
-
-Chegado a este ponto, dispersou-se uma parte dos francezes pelas aldeias,
-conforme o costume do paiz, que é ter _Chetuasaps_, isto é, hospedes ou
-compadres, aos quaes por pagamento se dava generos em vez de dinheiro.
-
-Esta hospitalidade ou compadresco é entre elles muito intima, porque
-estimam seos hospedes, como se fossem seos proprios filhos, vão caçar e
-pescar para elles e conforme o seo costume entregam-lhes as filhas, que
-desde então se chamam _Maria_, e tem por sobrenome o do Francez a quem
-se ligam, de sorte que dizendo-se _Maria de tal_ sabe-se logo de quem é
-concubina.
-
-Com certesa não sei porque dão este nome ás concubinas: mostrei um certo
-dia a um selvagem um registro da Mãe de Deos, e lhe disse _Koai Tupan
-Marie_, «eis a Mãe de Deos,» _ché ai Tupan Arobiar Marie_, «creio e
-conheço, que _Maria_ é a Mãe de Deos,» e _Maria_ chamamos nossas filhas
-que damos aos _Caraibas_.
-
-Este costume foi prohibido aos francezes, e si ha alguma falta á este
-respeito é occultamente, e os proprios selvagens que no principio d’esta
-prohibição desconfiaram da fidelidade e da amisade dos francezes, apenas
-souberam, que Deos só permittia a posse da mulher por meio do casamento,
-e que os Padres, Missionarios de Deos, assim o prégavam e prohibiam por
-ordem do _Maioral_, mostram-se escandalisados quando vêem o contrario,
-que denunciam logo a este e a nós, de maneira que qualquer francez deve
-fazer seos negocios mui occultamente si não quizer ser conhecido.
-
-
-
-
-CAPITULO III
-
-Da construcção do Forte de São Luiz, e do interesse dos selvagens em
-carregar terra.
-
-
-Chegado o tempo proprio de trabalhar nas fortificações da praça designada
-á defeza dos francezes, fincada a madeira segundo o plano dado para
-servir de cercadura ao _Forte_, e de sustentar as terras, mandou-se então
-avisar por todas as aldeias da ilha e da provincia de Tapuytapera,[6]
-que viessem Indios uns após outros conduzir a terra tirada dos fossos
-para os terraços das cortinas, esporões e plata-formas, depois cobertas
-por grandes e grossas _Apparituries_, «mangues» arvores duras como ferro
-e incorruptiveis; de forma que seria contra ella quasi inutil o tiro do
-canhão, e mui difficil a escalada: assim se disse e assim se fez: de
-todas as aldeias pouco a pouco vinham os selvagens com suas mulheres
-e filhos, trazendo viveres para o tempo, que calculavam demorar-se no
-trabalho, e sempre debaixo das ordens dos seos Principaes, costume
-que geralmente observam, trazendo-os sempre na frente da Companhia,
-fazendo-lhes a natureza conhecer, que o exemplo dos superiores anima
-infinitamente os inferiores.
-
-Mais do que nós são elles fieis á natureza, pois vemos o contrario na
-Republica Christã, d’onde provem os erros e a corrupção dos costumes,
-porque ainda que devamos prestar attenção somente á doutrina e não
-entregarmo-nos a má vida, os fracos fazem o que querem sem cuidar do máo
-nome, que adquirem.
-
-Apenas chegavam estes selvagens entregavam-se ao trabalho com
-incomparavel dedicação, mostrando na voz e nos gestos admiravel coragem,
-parecendo antes que iam á um festejo de casamento do que para o serviço,
-rindo e brincando uns com os outros, correndo dos fossos para os terraços
-com uma especie de emulação para vêr quem dava mais caminhadas, e
-conduzia maior numero de cestos de terra.
-
-Notareis agora, que não ha ninguem no mundo mais infatigavel do que
-elles, quando de boa vontade trabalham em qualquer coisa; não cuidam em
-comer e beber com tanto que tenham á sua frente o seu chefe, e quando
-encontram difficuldades, por maiores que sejam, riem, cantam e gritam
-para se animarem reciprocamente.
-
-Se ao contrario o tractardes com asperesa e ameaças, nada farão que
-preste, e conhecendo o seo natural nunca constrangem seos filhos e nem
-seos escravos, e antes os governam com doçura.
-
-O francez, especialmente os nobres, tem igual naturesa; não soffrem
-constrangimento, porem não duvidam expôr sua vida, afim de comprirem as
-doces ordens dos seos Principes: bello argumento para convencer os que
-governam, que mais vale a doçura e clemencia do que o rigor e a força,
-respeitando assim o natural da Nação francesa.
-
-Não trabalhavam somente os homens e sim tambem as mulheres e os
-filhinhos, aos quaes elles davam pequenos cestos, para carregar terra
-conforme suas forças.
-
-Vi muitos meninos, apenas com dois ou tres annos d’idade, fazer a carga
-com suas mãosinhas e não ter força para conduzil-a.
-
-Perguntei a alguns velhos porque consentiam que trabalhassem os meninos,
-servindo isto para distrahir os que os vigiavam, especialmente seos
-paes, que assim não podiam adiantar a tarefa, achando-se elles sempre
-em perigo, ou por estarem nùs apezar de tenrinhos, ou por poderem ser
-feridos pelo desabamento de algum pedaço de terra, ou por alguma pedra,
-que se desprendesse do monte.
-
-Respondeo-me assim o interprete. Temos muito prazer vendo nossos filhos
-comnosco trabalhando n’este _Forte_, para que um dia digam á seos filhos
-e estes a seos descendentes «eis a Fortalesa, que nós e nossos paes
-fizemos para os Francezes, que trouxeram Padres, que levantaram casas a
-Deos, e que vieram defender-nos de nossos inimigos.»
-
-É mui commum esta maneira de communicar á seos filhos o que entre elles
-se passa, já que por escriptos não podem fazel-o aos vindouros, e ir
-assim á posteridade.
-
-Para nada esquecer, como que gravam na memoria as occorrencias, e só
-d’esta maneira se pode explicar como contam muitas coisas passadas nos
-seculos, em que viveram seos avós, ou no tempo da sua mocidade: vão
-passando por esta forma o que sabem a seos filhos, como ainda diremos
-ádiante.
-
-Desejaria muito, que nossos Paes assim se empenhassem para gravar no
-coração de seos descendentes...
-
- * * * * *
-
-... mente e em abundancia, os selvagens lançam fogo nos espinhaes e
-moutas, onde se recolhem esses reptis.
-
-Ha de tres qualidades:[7] uma de terra, que mora nos mattos; outra de
-agoa doce, que mora nas margens dos rios e lugares pantanosos: a ultima,
-é do mar, e a que vem pôr seos ovos na areia, que fica bem perto, e onde
-os occultam com geito. Parece-se muito com os ovos de galinhas, menos na
-casca, que não é tão dura, e sim mais flexivel e molle, nem tão grossos
-e agudos, e sim mais redondos, porem muito saborosos, quer comidos na
-casca, quer de outra qualquer maneira.
-
-Nas margens d’este rio encontram-se arvores medicinaes, muito melhores do
-que as que se achavam commummente, como eu e muitos dos meos companheiros
-verificamos: alem d’esta virtude, são mais fortes que as do Levante,
-mostrando a experiencia que uma onça d’estas faz tanto effeito como duas
-d’aquelle paiz. Sendo bem preparadas certas composições são excellentes
-laxantes, e assim conservam o corpo para seo beneficio. Existem bellos
-prados, largos e compridos á perder de vista, que produzem herva fina
-e macia. Encontra-se a piteira, de cujos productos se fazem na China
-muitos tafetás: crescem seos ramos como a cauda de um cavallo, tem a
-bellesa da seda e é ainda mais forte. A terra é forte e feraz e produz
-com mais certesa, que a do _Maranhão_, ou de suas visinhanças, e dizem-me
-que dá duas colheitas annualmente. As florestas são altas, virgens, e
-ricas de muitas especies de madeiras, quer proprias á tincturaria, quer
-á medicina, e asseguram-nos os selvagens, que lá moram, a existencia ahi
-do _pau brazil_. No meio d’estas florestas, ha muitos viados, capivaras,
-cabras, vaccas bravas[8] e javalis, e em poucas horas matareis tantas
-quantas precisardes, e para que não me accusem de hyperbolico, invoco
-o testemunho dos que viajaram pelo _Miary_, e hoje se acham em França:
-se lerem isto, dirão que são estas as informações, que me deram, e que
-os selvagens, remadores das suas canoas, lhes traziam tanta caça, que
-d’ella não sabiam o que fazer.
-
-Contou-me um fidalgo, que andou n’essa viagem, haver morto com um só tiro
-tres javalis,[9] o que não poderia acontecer se estivessem espalhados.
-
-Ha muitas arvores carregadas de cortiço de mel de abelhas, as quaes são
-mais pequenas e franzinas do que as nossas, porem mais industriosas, pois
-fabricam mel excellente, liquido, e tão claro como agua potavel pura,
-guardado em pequenas celulas de cera da grossura da casca de um ovo,
-similhantes na forma á nossas garrafinhas de vidro, e penduradas com
-alguma ordem n’uma arvoresinha de cera, que se acha encostada ou presa
-pelos ramos ao tronco, ou nas cavidades das arvores das florestas ou dos
-prados.
-
-Com este mel fabrica-se vinho muito forte e quente para o estomago,
-similhante na côr e no gosto ao de Canaria. Nossa gente, quando por lá
-andou, fez algum vinho, e com elle embebedou-se.
-
-Existe tambem ahi uma especie de mel, impropriamente, assim chamado,
-porque é tão azedo, como vinagre, e fabricado por outra especie de
-abelhas.
-
-Alguns dias depois que ahi chegou nossa gente, procuraram os
-_Tabajares_,[10] e suas habitações: encontraram, não os que procuravam, e
-sim os _Aiupaues_,[11] e caminhos recentemente abertos.
-
-Vendo que diminuia a farinha, da qual apenas poderia ter quanto bastasse
-para regressar a Maranhão, essa mesma muito pouca, deliberou regressar
-com os seos selvagens, deixando ahi somente dois escravos _Tabajares_,
-a quem deram farinha para um mez, e diversos generos, promettendo-lhes
-liberdade com certesa, e boa recompensa si fossem procurar e achassem
-seos similhantes, o que acceitaram e cumpriram aproximando-se das suas
-aldeias e gritando para não serem flexados, visto andar esta Nação em
-guerra com uma outra visinha. Aos seos gritos accudiram muitos, aos
-quaes contaram o que traziam, como estavam em Maranhão os francezes
-bem fortificados, que entre elles se achavam os Padres, que os foram
-procurar; mas que se viram obrigados a retirar-se por falta de farinha,
-sendo elles escolhidos para ir procural-os, e dando-lhes os presentes
-fortaleciam mais as suas palavras, mormente sendo proferidas por dois
-individuos, seos conhecidos, que foram escravisados na guerra pelos
-_Tupinambás_.
-
-Bem podeis calcular como elles ficaram alegres com as noticias dadas
-pelos _Tabajares_. Ahi descançaram por tres ou quatro mezes para contarem
-tudo bem a sua vontade, e regressamos com nossa gente para a Ilha.
-
-
-
-
-CAPITULO VII
-
-Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem ao Amazonas.
-
-
-Apenas voltou esta expedição do Mearim, fallou-se com enthusiasmo de uma
-viagem, em breves dias, ao Amazonas.[12]
-
-Já antes se havia fallado n’ella, porem com tal friesa, que poucos
-acreditavam, não havendo probabilidade de deixar-se a Ilha, sendo nós
-tão poucos para defendel a contra as aggressões dos portuguezes, que nos
-ameaçavam ha muito tempo.
-
-Ao divulgar-se esta noticia levantaram-se a ilha e as provincias
-visinhas, porque, como é geralmente sabido, não ha no Mundo nação
-alguma mais inclinada á guerra e á viagens pelo desconhecido como estes
-selvagens brasileiros.
-
-Quatrocentas ou quinhentas legoas nada são para elles quando vão atacar
-seos inimigos e fazel-os escravos. Com quanto sejam por naturesa timidos
-e medrosos, nos combates ganham calor, não abandonam o campo, e quando
-perdem as armas pelejam com unhas e dentes.
-
-Suas guerras são feitas, pela maior parte por surpresa e astucias; ao
-romper do dia assaltam seos inimigos dentro de suas aldeias: salvam-se
-de ordinario os que tem boas pernas, sendo aprisionados os velhos,
-as mulheres, e os meninos, e condusidos como escravos para as terras
-dos _Tupinambás_. Tambem sob o pretexto de negocio, vão elles pelas
-praias, onde moram seos inimigos, promettem-lhes muito, mostram-lhes
-suas mercadorias em _caramemos_ ou _paneiros_, onde arranjam o que tem
-de melhor, e quando os veem entretidos, lançam-se sobre elles, pobres
-ingenuos, matam uns, aprisionam e captivam outros: por este motivo todas
-as nações do Brasil, desconfiam d’elles, julgam-nos traidores, e nem
-querem sua paz.
-
-São muito afoitos quando estão com os francezes, e querem que estes
-vão sempre adiante, e se acontece voltar um francez para traz, ninguem
-corre melhor e mais veloz do que elles. D’isto se conclue quanto valle a
-opinião que se forma de certas pessoas, que não passa de uma loucura e
-vaidade d’este mundo, acontecendo muitas vezes ficarem atraz os bons e
-virtuosos ou serem queridos e levados os viciosos e corrompidos.
-
-Indaguei e procurei saber muito o modo como se preparavam para a guerra,
-não me contentando só com as informações.
-
-Em primeiro lugar as mulheres e as suas filhas preparam a _farinha de
-munição_,[13] e em abundancia, por saberem, naturalmente, que um soldado
-bem nutrido valle por dois, que a fome é a coisa mais perigosa n’um
-exercito, por transformar os mais valentes em covardes, e fracos, os
-quaes em vez de atacarem o inimigo, buscam meios de viver.
-
-É differente da usual esta farinha de munição, por ser mais bem cozida,
-e misturada com _cariman_ para durar mais tempo, embora menos saborosa,
-porem mais san e fresca.
-
-Em segundo lugar empregam-se os homens em fazer canoas, ou concertar as
-que já possuem proprias para este fim, por que é necessario, que sejam
-compridas e largas para levarem muitas pessoas, suas armas e provisões, e
-comtudo são feitas de uma arvore, cortada bem perto da raiz, sem galhos
-e ramos, ficando apenas o tronco bem direito em toda a sua extensão,
-e então tiram-lhe a casca, e racham n’a dando-lhe meio pé de largura
-e profundidade: n’este caso lançam-lhe fogo n’essa fenda por meio de
-cavacos bem seccos, e vão queimando pouco a pouco o interior do tronco,
-raspam com uma chapa de aço, e assim vão fazendo até que o tronco esteja
-todo cavado, deixando apenas duas pollegadas d’espessura, e depois com
-alavancas dão-lhe fórma e largura: estas canoas conduzem as vezes 200
-ou 300 pessoas[14] com as suas competentes munições. São conduzidas por
-mancebos fortes e robustos, escolhidos de proposito, por meio de remos de
-pás de tres pés cada um, que cortam as agoas a pique e não de travessia.
-
-Em terceiro lugar preparam suas pennas, tanto para a cabeça, braços, e
-rins, como para as armas. Para a cabeça usam de uma peruca ou cabelleira
-de pennas de cores vermelhas, amarellas, verde-gaio e violetas, que
-prendem aos cabellos com uma especie de colla ou grude.
-
-Enfeitam a testa com grandes pennas de araras, e outros passaros
-similhantes, de cores variadas, e dispostas á maneira de mitra, que
-amarram atraz da cabeça.
-
-Nos braços atam braceletes tambem de pennas de diversas cores, tecidas
-com fio de algodão, similhante á mitra de que acabamos de fallar.
-
-Nos rins usam de uma roda de pennas da cauda de ema,[15] presa por dois
-fios d’algodão, tinctos de vermelho, cruzando-se pelos hombros a maneira
-de suspensorios, de sorte que ao vel-os emplumados, dir-se-hia que são
-emas, que só tem pennas nestas tres partes do corpo.
-
-Na verdade, quando os vejo assim lembro-me do que antigamente disse Job
-no cap. 39. _Penna struthionis similis est pennis Erodii et Accipitris_:
-a penna de ema é igual a da garça real e do gavião: esta passagem é
-claramente explicada por diversas licções ou versões dos Gregos e dos
-Romanos, que tinham por costume apresentarem os coroneis aos capitães e
-soldados pennas d’ema para collocarem em seos capacetes e morriões afim
-de animal-os á guerra.
-
-Quiz saber por intermedio do meu interprete porque traziam sobre os
-rins estas pennas de ema: responderam-me, que seos paes lhes deixaram
-este costume para ensinar-lhes como deviam proceder na guerra, imitando
-a ema, pois quando ella se sente mais forte ataca atrevidamente o
-seo perseguidor, e quando mais fraca abre suas azas, despede o vôo e
-arremessa com os pés areia e pedras sobre seos inimigos: assim devemos
-fazer, accrescentavam elles. Reconheci este costume da ema, vendo uma
-pequena, creada na aldeia de _Vsaap_, que era perseguida diariamente
-por todos os rapasinhos do lugar: quando eram só dois ou tres, ella os
-accommettia, e dando-lhes com o peito, atirava-os por terra, porem quando
-era maior o numero preferia fugir.
-
-Estou certo, que muitas pessoas se admirarão, não só do que acabo de
-dizer, mas tambem como é possivel buscarem estes selvagens, meios de
-governarem-se entre as praticas animaes: si se lembrarem porem que o
-conhecimento das hervas medicinaes foi ensinado aos homens pela cegonha,
-pela pomba; pelo viado e pelo cabrito; que a maneira de fazer a guerra
-e postar sentinellas foi colhida das aves chamadas grous; que a bondade
-do estado monarchico foi a principio observado entre as abelhas; que os
-architectos com as andorinhas aprenderam a fazer abobadas; que o proprio
-Jesus-Christo nos mandou observar o milhafre, o abutre, a aguia e o
-pardal, desapparecerá a admiração, e especialmente si acreditarem, que
-estes selvagens imitam com a maior perfeição possivel os passaros e
-animaes do seo paiz, o que elles exaltam nos cantos que recitam em suas
-festas.
-
-Por que nos passaros de sua terra predominam as cores verde-gaio,
-vermelho e amarello elles gostam de pannos e vestidos destas tres cores.
-
-Por que as onças e os javalis são os animaes mais ferozes do mundo,
-elles arrancam os seos dentes e os trazem nos labios e orelhas afim de
-parecerem mais terriveis.
-
-As pennas das armas são postas nas extremidades dos arcos e das flexas.
-
-Assim preparados bebem publicamente o vinho de _muay_, e dizem adeos aos
-que ficam.
-
-
-
-
-CAPITULO VIII
-
-Partida dos francezes para o Amazonas em companhia dos selvagens.
-
-
-Antes que entre na materia, convem narrar o que me disseram os selvagens
-relativamente á verdade da existencia das Amazonas, porque é questão de
-todos os dias se n’esses lugares ha Amazonas, e si são similhantes ás
-descriptas pelos historiadores?
-
-É voz geral e commum entre os selvagens, que ha Amazonas, e que habitam
-n’uma ilha muito grande, cercada pelo grande rio do _Maranhão_, ou das
-_Amazonas_, que desembocca no mar por um espaço de 50 legoas de largura:
-que essas Amazonas foram antigamente mulheres e filhas dos _Tupinambás_,
-que se retiraram da companhia e do dominio d’elles—seduzidas e guiadas
-por uma d’ellas: que internando-se pelo paiz ao longo d’esta costa,
-descobriram á final uma linda ilha, ahi se recolheram, e em certas
-estações do anno acceitam por companheiros os homens das habitações mais
-proximas.
-
-Si párem um menino pertence ao pae, que d’elle cuida logo depois de
-desmamado: si porem é uma menina fica com a mãe em casa. Eis a voz geral
-e commum.
-
-N’um dia, quando os francezes andavam n’esta viagem, fui visitado por
-um grande Principal, que morava muito acima n’este rio. Depois dos
-seos cumprimentos, que descreverei mais adiante, me disse morar nas
-ultimas terras dos Tupinambás, e que só em duas luas podia voltar do rio
-_Maranhão_ á sua aldeia, e então lhe respondi admirando-me do trabalho
-que tomou vindo de tão longe. Replicou-me «fui ao Pará vêr meos parentes,
-quando foram os francezes guerrear nossos inimigos, e ouvindo fallar
-de vós e dos outros Padres, quiz vel-os pessoalmente para dar noticias
-certas aos meos companheiros.»
-
-Por intermedio do meo interprete lhe perguntei si sua residencia era
-muito longe da das _Amazonas_, e elle respondeo-me «uma lua,» isto é, um
-mez para ir.
-
-Repliquei-lhe, si tinha estado entre ellas, e si as tinha visto, e
-respondeu-me «que nem uma coisa nem outra», pois nas canoas de guerra,
-onde andou, se desviou da ilha onde ellas residiam.
-
-Esta palavra _Amasonas_ lhes foi imposta pelos portuguezes e
-francezes[16] pela similhança, que ellas tinham com as antigas _Amazonas_
-por causa de sua separação dos homens; porem não cortam a mama direita,
-e nem imitam a coragem d’essas afamadas guerreiras, mas vivem como as
-outras mulheres selvagens, ageis e dextras no manejo do arco, e nuas se
-defendem dos seos inimigos, como podem.
-
-No dia 8 de julho de 1613 do porto de Santa Maria do Maranhão, partio o
-Sr. Ravardiere ao som de muitos tiros de artilharia e mosquetaria, com
-que o saudou o Forte de S. Luiz segundo é costume entre os militares.
-
-Levou em sua companhia 40 soldados valentes, e 10 marinheiros, e por
-cautella tambem 20 dos principaes selvagens, tanto da Ilha do Maranhão e
-de Tapuytapera, como de Cumã.
-
-Seguio para Cumã[17] onde o esperavam muitas canoas de indios, e
-provendo-se de farinha seguio para _Caieté_ onde haviam 20 aldeias de
-_Tupinambás_, e ahi se demorando mais de um mez, reforçou a tripolação de
-sua embarcação com mais 60 escravos que lhe deram.
-
-No dia 17 de agosto partio de _Caieté_ com muitos habitantes d’essa
-localidade, e dirigio-se para a aldeia _Meron_, onde em grandes canoas
-embarcou selvagens e francezes, e seguio para a embocadura do rio _Pará_:
-em viagem morreo afogado um francez por ter se virado a canoa em que elle
-ia, porem salvaram-se seos companheiros trepados no dorso da mesma.
-
-O rio Pará desde a sua emboccadura para cima é muito povoado de
-Tupinambás; chegando á ultima aldeia, situada á 60 legoas da sua
-emboccadura, todos os principaes d’esses lugares lhe pediram com
-instancia, que fosse guerrear os _Camarapins_,[18] os quaes são muito
-ferozes, não querem paz, e por isso não poupam seos inimigos, pois quando
-os captivam, matam-nos e comem-nos: poucos dias antes tinham matado
-tres filhinhos d’um dos principaes dos Tupinambás d’aquellas regiões, e
-guardaram os ossos d’elles para mostrar aos paes afim de causar-lhes mais
-dó.
-
-Este exercito de francezes e de Tupinambás, em numero de 1200,
-sahio do _Pará_, entrou no rio de _Pacajares_, d’ahi dirigio-se ao
-de _Parisop_,[19] onde encontraram _Vuacété_ ou _Vuac-Uaçú_, que
-simpathisando com este movimento offereceo para reforçal-o 1200 dos seos
-companheiros.
-
-Acceitou-se apenas um pequeno numero de selvagens, que elle mesmo
-acompanhou, e os encaminhou ao lugar, onde residiam os inimigos, o qual
-era nas _Iuras_,[20] que são casas feitas á imitação das «_Ponte aux
-changes_,» de S. Miguel de Paris, collocadas no cume de grossas arvores
-plantadas n’agoa.
-
-Foram immediatamente cercados pelos nossos, que os saudaram com 1000
-ou 1200 tiros de mosquetaria em tres horas: defenderam-se porem elles
-valorosamente de sorte que sobre os nossos cahiam as flexas como chuva ou
-saraiva, ferindo alguns francezes e Tupinambás, porem não matando um só.
-
-Sobre alguns dispararam-se tiros de morteiro, e de canhão,
-incendiaram-se-lhes tres _Iuras_ morrendo n’essa occasião 60 indios
-d’elles, o que somente servio para mais augmentar-lhes o desespero pois
-antes queriam morrer do que cahir nas mãos dos Tupinambás.
-
-Á vista d’isto resolveo-se abandonal-os com intenção de ver, si n’outra
-occasião, tratados com doçura podiam ser domesticados.
-
-Durante o medonho combate dos mosqueteiros, usaram os selvagens d’uma
-traça singular pendurando os seos mortos no parapeito de suas _Iuras_, e
-por meio de uma corda de algodão amarrada aos pés faziam com que elles se
-mexessem.
-
-Pelas fendas ou frestas viam os francezes estes corpos, e julgando-os
-vivos contra elles faziam fogo tres e quatro vezes a ponto de ficarem
-despedaçados, o que provocava os gritos e zombarias d’estes canalhas, e
-somente terminou-se esta triste scena quando uma mulher acenando com um
-pano branco á maneira dos parlamentares, fez com que cessasse o fogo, e
-então ella gritou «_Vuac, Vuac._» Porque trouxeste estas boccas de fogo,
-(fallava dos francezes por causa da luz, que sahia das caçoletas de suas
-armas) para arruinar-nos, e destruir a terra?
-
-«Pensas contar-nos no numero dos teos escravos, eis os ossos dos teos
-amigos e dos teos alliados, cuja carne comi, e ainda espero comer a tua e
-a dos teos.»
-
-Pelos interpretes se lhe disse, que se entregasse afim de salvar o resto,
-que havia.
-
-Não, não, respondeo ella, nunca nos entregaremos aos _Tupinambás_,
-elles são traidores. Eis aqui os nossos principaes, que morreram
-victimas d’essas boccas de fogo de gente, que nunca vimos: si fôr
-necessario morreremos todos, voluntariamente, como fizeram nossos grandes
-guerreiros. Nossa nação é grande, e ahi fica para vingar nossa morte.
-
-Um dos seos principaes veio n’uma canoa collocar-se á frente do nosso
-exercito, trazendo n’uma das mãos um feixe de flexas, e na outra o arco,
-disse: «Vinde, vinde ao combate, nada tememos, somos valentes, e eu só
-por mim atravessarei a muitos.»
-
-Chegando-se porem muito perto dos nossos soldados, um d’elles acertou-lhe
-com uma balla na testa, que o atirou n’agoa ja morto.
-
-Eram tão dextros no manejo das flexas, que atirando-as ao ar vinham
-cahir na galeota, onde estavam nossos soldados, e nas canoas dos indios,
-ferindo muitos.
-
-Por isto avaliareis a coragem d’estes selvagens, maus somente pela
-naturesa.
-
-O que seriam si fossem policiados, ou conduzidos e instruidos pela
-disciplina militar?
-
-
-
-
-CAPITULO IX
-
-Do que aconteceu na Ilha durante esta viagem, e principalmente das
-astucias de um selvagem chamado Capitão.
-
-
-Em quanto uma parte dos nossos francezes, e muitos dos principaes
-selvagens estavam no Pará e em suas circumvisinhanças passaram-se na
-Ilha muitas coisas notaveis, que contarei nos seguintes capitulos.
-
-Tratarei em primeiro lugar de um indio agradavel e astucioso intitulado
-Capitão,[21] irmão da mãe de um principal, muito amigo dos francezes,
-chamado _Ianuaravaête_, que quer dizer _cão grande_ ou _cão furioso_.
-
-Este Capitão astuciosamente aproximou-se de nós, dizendo por intermedio
-do interprete, que desejava ser christão, aprender a ler, e a escrever,
-fallar francez e fazer cortesias, gestos e ceremonias dos francezes.
-
-Acreditaram nas suas palavras, e alguns até cercaram-lhe de muitas
-attenções.
-
-Passou alguns mezes em nossa visinhança, e mostrando-se com desejos de
-ter vestidos como os nossos paramentos sagrados, com os quaes diziamos
-missa; por sua mulher nos mandou pedir, o que negamos.
-
-Não nos deixou por esta recusa, porem algum tempo depois, disfarçando
-muito bem seo descontentamento, ia á sua aldeia e voltava, até que poude
-espalhar pela _Ilha_ o boato de que os francezes pretendiam escravisar os
-Tupinambás, e por tanto que era necessario fugir e abandonal-os.
-
-Alguns acreditaram, e por isso deixaram suas aldeias e foram para outras,
-onde podessem fugir com mais prestesa si assim fosse necessario.
-
-Julgou chegada a occasião de se fazer valer entre os seos: pois tinha
-extremo desejo de ser grande, e não podia chegar a sel-o, porque fogem as
-honras d’aquelles que as procuram com methodo, o que vemos em todas as
-condicções, e foi este o seo fim e intenção quando de nós se aproximou,
-servindo-se de nosso concurso para realisar seo desideratum, visto o
-ambicioso nada poupar, nem mesmo as coisas sagradas, para obter o que
-deseja.
-
-Principiou visitando as aldeias da Ilha, onde desconfiava ter
-descontentes, e ahi nas cabanas e na _casa-grande_, costumava batendo nas
-coxas grandes palmadas, harengar assim—_Ché, Ché, Ché, auaête. Ché, Ché,
-Ché. Pagy Uaçú, Ché, Ché, Ché, Aiuka pais &_: quer isto dizer, eu, eu,
-eu, sou furioso e valente. Eu, eu, eu, sou um grande feiticeiro. Fui eu,
-fui eu, fui eu que matei os Padres, etc. Fiz morrer o Padre, que está
-enterrado em _Yuiret_, onde mora o _Pay Uaçú_, o grande Padre a quem
-reenviei todos os males, que tem causado,[22] e a quem matarei como o
-outro.
-
-Atormentarei os Francezes com molestias, e lhe darei tantos bixos nas
-pernas e nos pés, que elles se verão na necessidade de regressar a sua
-patria. Farei morrer suas plantações e assim morrerão de fome: já com
-elles morei, comi com elles muitas vezes, e vi o que praticavam quando
-serviam a _Tupan_, e reconheci que nada sabiam á vista de nós outros
-_Pagés_, feiticeiros.
-
-Á vista disto não devemos temel-os, saiamos, quero caminhar na frente,
-porque sou forte e valente.
-
-Perto de dois mezes gastou elle percorrendo assim a Ilha sem que de
-nada soubessemos, porque quando os negocios são secretos e de interesse
-publico, não são descobertos como acontece quando se trata de utilidade
-particular.
-
-_Japy-açú_ o reprehendeo e mui acremente por estes discursos, bem como
-_Piraiuua_; porem seo irmão o _Cão-grande_ o denunciou, e alem d’isso
-pedio licença para ir em pessoa agarral-o e prendel-o.
-
-Chegaram promptamente estas noticias aos ouvidos de _Capitão_, que
-começou a tremer como si tivesse febre, e não dizia mais _Ché auo-êtê_,
-nem _Ché Pagi uaçú_, ou _Ché Aiuca Pay_, porem ao contrario diante dos
-seos, tremendo de medo, dizia: «_Ché assequegai seta, ypocku Tupinambo,
-ypocku decatugué: giriragoy Topinamho giriragoy seta atupaué: ypocku
-ianuara vaeté, ypocku decatugné giriragoy ianuara vaeté giriragoy seta
-atupaué_.»
-
-Ah! que medo tenho, oh! quanto são malvados os Tupinambás, perfeitos
-malvados:[23] mentiram os _Tupinambás_, mentiram muito e muito: o _Cão
-grande_, é um malvado, malvado completo: mentio o _Cão-grande_, mentio
-tambem muito e muito, etc. Nada disto eu disse, não causei a morte do
-Padre, não disse que queria fazer morrer o Padre-grande, e nem que lhe
-dei molestias.
-
-Tambem não disse, que quero atormentar os Francezes, e fazer seccar suas
-plantas, porque não sou e nem fui feiticeiro, e assim quero ser filho
-dos Padres, quero voltar e trabalhar para elles, e si os deixei foi para
-colher meo milho: quero ir ja onde está o Padre-Grande, levar-lhe o meo
-milho, o meo peixe, e a minha caça, e dar-lhe um dos meos escravos para
-apaziguar o chefe dos francezes afim delle não crer no _Cão grande_, que
-sempre me quer mal embora eu seja seo irmão: muitas vezes me quiz matar,
-e si o _Muruuichaue_, quer dizer o «Principal dos Francezes» lhe der uma
-vez ordem de prender-me, elle me matará sem duvida alguma.
-
-Por estas palavras conhecereis a indole d’estes selvagens, que não dizem
-a verdade quando necessitam defender-se.
-
-Este miseravel _Capitão_, fugio e escondeo-se nos mattos, e depois foi
-para uma aldeia chamada _Giroparieta_, quer dizer _aldeia de todos os
-diabos_, ao pé da praia, e d’ahi enviou-me um dos seos parentes pedir-me
-paz, e que obtivesse do Maioral o seu perdão.
-
-Mandou-me um seu escravo forte e robusto, bom pescador, e caçador:
-elle, sua mulher e mais pessoas da familia, me vieram ver, trazendo-me
-milho, peixe, e caça, e tanto elle como sua mulher muito fallaram
-para me persuadir de que eu não devia crer o que se dissesse d’elle,
-chamando os _Tupinambás_ e o _Cão-grande_,—mentirosos e outros nomes
-feios, asseverando que era bom amigo, que desejava ser christão, e que
-si o Maioral, e eu tambem nos esquecessemos de tudo, elle e sua mulher
-regressariam contentes.
-
-
-
-
-CAPITULO X
-
-Da chegada de uma barca portugueza á Maranhão.
-
-
-Quando menos pensavamos, achando-se a Ilha sem indios e sem francezes,
-por terem aquelles ido viajar pelo Amazonas, e estes pela segunda vez
-ao _Miary_, de que brevemente trataremos, por espaço de um mez fomos
-incommodados com mil noticias, ora de selvagens residentes perto do
-mar, ora de francezes moradores nos fortes, que diziam ter ouvido tiros
-de peça para o lado da costa da pequena _Ilha de Santa Anna_, e da de
-_Tabucuru_,[24] e ter visto tres navios velejando ao redor da Ilha, eis
-que se apresentou uma barca, commandada por um capitão portuguez, chamado
-Martin Soares.
-
-Vinha da Ilha de Santa Anna, onde tinha desembarcado, tomado posse d’ella
-para o Rei Catholico, plantado uma grande Cruz, e levantado um marco com
-uma inscripção, de que logo fallaremos.
-
-Andou este navio por todo o porto de Caurs, saltando sua tripulação
-sempre que lhe approuve para vêr e escolher lugares proprios á plantação
-de canas e ao fabrico do assucar, especialmente no lugar chamado
-_Ianuarapin_, onde foi erguida uma Cruz com o fim de crear-se uma bella
-habitação de portuguezes, e construir-se muitos engenhos de assucar.
-
-Approximaram-se depois da enseiada de Caurs, uma das entradas da Ilha,
-onde depois da sua vinda, se edificaram dois bellos fortes afim de
-impedir o desembarque.
-
-Elles davam alguns tiros de peça para chamar os selvagens da Ilha:
-nenhum lá foi, menos o Principal de _Itaparis_, suspeito por traidor:
-perguntaram-lhe muita coisa, e ignora-se o que respondeo: deram-lhe
-machados e fouces, e depois veio para a Ilha.
-
-Os portuguezes traziam comsigo os indios _Canibaes_,[25] moradores em
-_Mocuru_, e parentes de outros do mesmo nome refugiados em Maranhão, os
-quaes elles mandaram á terra para tomar conhecimento, e informações, si
-na Ilha haviam muitos francezes, si estavam fortificados, e si tinham
-canhões.
-
-Felizmente dirigiram-se aos _Tupinambás_, que lhes disseram não haver
-na Ilha um só francez, um só forte, um só navio, barca, nem canhão,
-e com tal segurança principiaram a comer, e os Tupinambás mandaram
-immediatamente ao forte de S. Luiz contar tudo isto.
-
-Expedio-se logo uma barca, bem esquipada, com o fim de prender os
-portuguezes; porem aconteceo, que um traidor _Canibal_, inimigo rancoroso
-dos francezes, e a quem já se tinha muitas vezes perdoado castigos,
-em que havia incorrido, sabendo da noticia da vinda dos outros, foi
-procural-os furtivamente, e em segredo lhes disse—«que fazeis aqui, fugi
-depressa para o mar, regressae ao vosso navio, porque os francezes tem na
-Ilha um bello forte, canôas, navios, e canhões.»
-
-Mal ouviram isto, levantaram-se ás pressas, e disseram aos seos hospedes
-_Tupinambás_, que os divertiam—Ah! maus, enganaes vossos camaradas—e
-assim dizendo á passos apressados foram com o traidor para a sua canôa, e
-em breve chegaram a barca, ancorada n’uma enseiada um pouco adiante.
-
-Vendo isto os portuguezes, desconfiaram logo que os francezes estavam
-na Ilha, e que não deixariam de os perseguir, e apenas tinham levantado
-ancoras, descobriram a barca dos francezes, e estes a d’elles,
-apressaram-se a tomar a dianteira dos portuguezes, navegando á bolina,
-muito bem, quebrando os rolos d’agoa, pelos bancos d’area, pouco pensando
-em encalhar comtanto que conseguissem apresional-a do que lhes resultaria
-muita commodidade, visto conhecer-se a intenção dos portuguezes,
-descoberta pela bôa vontade dos...
-
- * * * * *
-
-... todas as Nações, e nós vemos por experiencia em varios lugares da
-França, d’onde veio o proverbio—_chorar de alegria_.
-
-Chegados ao Forte depois de descançarem como poderam, conservaram-se
-serios e reservados sem entregarem-se á vivacidade e impulso da
-curiosidade, e sendo a imperfeição unica dos francezes o fazer tudo ás
-pressas, buscando todos os meios de conseguir seos fins, foram elles ter
-com o Maioral, aos quaes assim fallaram:
-
-«Conforme as noticias que déstes a dois dos nossos, escravos entre os
-_Tupinambás_, para nos transmittirem fielmente a respeito da tua vinda
-e da dos Padres n’estes lugares afim de defender-nos dos _Peros_, e
-ensinar-nos a conhecer o verdadeiro Deos, dar-nos machados e outras
-ferramentas para facilitar a nossa vida, fallamos n’isto em muitas
-reuniões, e recordando-nos de que os francezes sempre nos fôram fieis,
-vivendo em paz comnosco, e acompanhando-nos á guerra, onde alguns
-morreram, todos os meos similhantes mostraram-se contentes e resolveram,
-de combinação com o nosso chefe, obedecer-te e em tudo fazer-te a
-vontade: eis porque me mandaram expressamente afim de pedir-te alguns
-francezes para acompanhar-nos e guardar-nos até voltarmos do lugar, por
-ti indicado.»
-
-Respondeo-se-lhe com palavras de amisade, e que se lhes daria os
-francezes.
-
-Sahindo d’ahi foram procurar-me em minha casa, onde tambem me exposeram a
-sua missão, de que fallarei quando for occasião.
-
-Pediram-me o meu pequeno interprete para ir com elles assegurar ao
-_Thion_, seo chefe, e a todos os seos companheiros, que eu os receberia
-como filhos de Deos, e que podiam vir afoitamente confiados na protecção
-dos Padres.
-
-Acompanhados por muitos francezes e pelo meo interprete, a quem dei
-algumas imagens como mimos, a _Thion_, elles embarcaram para o Mearim em
-busca de suas casas.
-
-Foram recebidos com muitos applausos, choros, lagrymas, e danças de dia e
-de noite.
-
-Prepararam vinhos em abundancia, presentearam os francezes com muitos
-porcos do matto e outras caças, e offereceram-lhes muitas raparigas das
-mais bonitas, o que regeitaram dizendo que Deos não queria, e que os
-Padres prohibiam, e se quizessem agradar os Padres, quando fossem para a
-Ilha, deviam levar Cruzes para expellir o _Giropary_[26] do meio d’elles:
-assim o disseram, assim o fizeram, plantando muitas Cruzes, em varios
-lugares na frente de suas casas, como ainda hoje se vê, e que ficaram
-como prova de habitação antiga, d’onde foram chamados para ir á outra
-terra, já illuminada pelo conhecimento de Deos, e enriquecida com os
-Sacrosantos Sacramentos da Igreja, como aconteceo outr’ora com a nação do
-povo de Israel, que sahio do Egypto em busca da terra da Promissão.
-
-Dispostas estas coisas, cada um cuidou em arrumar-se e fazer sua
-colheita, destruir as roças, e preparar bom farnél, pois deviam em pouco
-tempo deixar e abandonar este lugar: indagavam muito de varias coisas
-tendentes á sua salvação, e eram satisfeitas as suas perguntas.
-
-Aproveitaram-se os Francezes da occasião e facilidade, que lhes offerecia
-para conquistar a nação proxima de indios inimigos, da aldeia de Thion,
-e causava pena ouvil-os dizer, que haviam comido a muitos, porque eram
-mais fortes, tinham maior numero de aldeiamentos e de homens, e o
-Principal d’elles, chamado _Farinha-grossa_, valente na guerra, alegre,
-e muito propenso ao Christianismo, como fallaremos n’outro lugar, dizia
-com garbo, «si eu quizesse comer os inimigos, não ficaria um só, porem
-conservei-os para satisfazer minha vontade, uns após outros, entreter
-meo apetite, e exercitar diariamente minha gente na guerra: e de que
-serviria matal-os todos de uma só vez quando não havia quem os comesse?
-Alem d’isto não tendo minha gente com quem bater-se, se desuniriam, e
-separar-se-iam como aconteceo á _Thion_.» Assim disse, porque antes estas
-duas nações formavam uma só, morando juntas, em lugares longinquos e
-distantes dos inimigos, contra os quaes podiam exercitar-se na guerra, e
-apezar de tudo atacaram-se reciprocamente.
-
-Tal proceder confirma a bella maxima do Estado—quem deseja conservar o
-interior em paz, deve empregar os sediciosos fóra d’ahi, especialmente
-contra os inimigos da fé, e fallando em sentido moral—quem quer salvár o
-coração de todo o vicio e imperfeição deve resguardal-o das impressões
-exteriores.
-
-Como condições de paz estabeleceo-se o esquecimento reciproco de todas
-as injurias, mortes e banquetes com os corpos dos inimigos: que devia
-revestir-se de paciencia quem mais perdesse: que não devia havêr
-exprobrações de parte á parte, e quando recolhidos a Ilha, morariam
-separados uns dos outros, e todos seriam fieis aos Francezes.
-
-Chegada a occasião foram enviadas muitas canoas e barcos, nas quaes
-vieram para a Ilha.
-
-Foram bem recebidos, o seo chefe _Thion_ saudado com cinco tiros de peça,
-e duas descargas de mosquetaria, passando por meio de soldados francezes,
-dispostos conforme as ceremonias da guerra, assim entrou no Forte, onde o
-Sr. Pesieux e eu o acolhemos, e o condusimos á sua casa para descançar.
-
-Em lugar proprio contarei o que elle nos disse.
-
-
-
-
-CAPITULO XIII
-
-Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary.
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-Conversando familiarmente com esta nação, descubri muitas de suas
-particularidades, e tambem outras, pertencentes tanto á elles como á
-todos os _Tupinambás_, ainda não escriptas por pessoa alguma, ou ao menos
-mencionadas sufficientemente, e como são bellas e raras tractarei d’ellas
-mais detidamente.
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-Estes povos, antes de reunidos, eram chamados _Tabajares_ pelos
-Tupinambás.[27]
-
-Este nome é appelativo e commum para designar toda a sorte de inimigos,
-e tanto assim é, que esta mesma nação de _Tabajares_ chamava os
-_Tupinambás_ da ilha _Tabajares_, _Topinambas_, embora pacificados e
-amigos. Os _Topinambas_ os chamavam _Mearinenses_, quer dizer vindos do
-_Miary_,[28] ou habitantes do _Miary_, assim como os Dinamarquezes, que
-vieram occupar a Neustria, Provincia antiga e dependente da Corôa de
-França, foram chamados Normandos, e sendo ella conservada em homenagem
-pelos Reis de França, perdeo seo antigo nome, e conservou o de Normandia.
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-Os francezes os chamam _Pedras-verdes_[29] por causa de uma montanha, não
-muito longe de sua antiga habitação, onde se acham mui bellas e preciosas
-_pedras verdes_, dotadas de muitas propriedades, especialmente contra
-doenças do baço, e frouxo de sangue, e tambem me disseram haver ahi
-esmeraldas muito finas: ahi hiam os selvagens buscar estas pedras verdes
-tanto para collocal-as em seos labios, como para negocio com as nações
-visinhas.
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-Os _Tupinambás_ e os _Tapuias_ dão muito apreço a estas pedras:[30]
-vi por uma pedra para o beiço dar o valor de mais de vinte escudos de
-mercadorias um _Tupinambá_ á um _Miarinense_, em nossa casa de São
-Francisco, no Maranhão.
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-Um certo _Cabelo comprido_ veio ter comnosco, ornado com seos enfeites
-mais lindos, que consistiam em dois chifres de bodes, e quatro dentes de
-corça, muito cumpridos, em vez de brincos, de que muito se orgulhava por
-havel-os alcançado com industria, ao passo que era commum, especialmente
-entre as mulheres, trasel-os de madeira, redondos, muito toscos, e da
-grossura de dois dedos: calculae o buraco, que fazem nas orelhas: a maior
-porem de suas ostentações era uma destas pedras verdes, de comprimento,
-pelo menos, de quatro dedos, bem redonda, o que me agradou tanto á ponto
-de desejar trazel-a para a França. Perguntei-lhe o que queria que lhe
-désse por esta pedra: respondeo-me, «dê-me um Navio de França, carregado
-de machados, de foices, de vestidos, de espadas e de arcabuses.»
-
-Outro Tupinambá, já muito velho, trazia uma pedra destas em seo labio
-inferior: era oval e tão larga como o concavo da mão, e como a tivesse
-trasido por muito tempo ahi, sem nunca tiral-a, estava como que
-encaixilhada no seo queixo, ja tendo a carne se dobrado sobre os bordos
-da pedra e tomado a sua propria forma.
-
-Narrei tudo isto afim de demonstrar o valor destas pedras verdes.
-
-Estes _Miarinenses_ são ordinariamente de boa estatura, bem conformados,
-e valentes na guerra: sendo bem guiados não recuam e nem fogem como os
-outros Tupinambás, explicando-se isto pelo facto de serem criados entre
-os combates, sempre travados contra os portuguezes, aos quaes atacaram
-outr’ora, escalaram suas fortalezas, tomaram suas bandeiras e nunca
-mais abandonaram sua primeira habitação, como nos contou _Thion_, seo
-Principal, quando veio do Forte de São Luiz, se a falta de canhões não
-obrigasse os francezes, que estavam com elles, a cederem á força e á
-superioridade do numero dos portuguezes.
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-Causa gosto ver o zelo e o cuidado, com que trazem as espadas, que lhes
-dão os francezes, sempre a seo lado, sem nunca tiral-as senão quando
-se deitam, e quando trabalham em suas roças, penduram-nas junto a si
-em algum ramo de arvore, fazendo-me lembrar a historia de Nehemias, na
-reparação dos muros de Jerusalem, quando os seos habitantes trasiam n’uma
-das mãos as armas e na outra os instrumentos do trabalho.
-
-Gostam muito de traser as espadas tão limpas como cristal, e para isso as
-esfregam com areia fina e azeite de mamona, amolam-nas repetidas vezes
-para estarem sempre cortantes, aguçam as pontas, quando estão gastas pela
-ferrugem muito commum na zona tórrida.
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-Acostumam-se a bem manejal-as, fazendo marchas e contra-marchas, á
-maneira dos suissos quando esgrimam.
-
-Alem de serem corajosos e bons soldados, trabalham muito bem, e antes
-quero uma hora de tarefa d’elles do que um dia dos _Tupinambás_.
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-Seos Principaes trabalham tanto quanto os seos subordinados de menor
-representação, porem o serviço está bem regulado, porque ao romper do dia
-levantam-se, almoçam, e depois vão elles mulher e filhos, conjunctamente,
-alegres risonhos, cantando trabalhar em suas roças, e quando o sol
-principia a chegar ao seo maior auge do calor, que é perto das dez horas,
-deixam a lida, vão comer e dormir, e duas horas depois do meio dia,
-quando o sol principia a declinar voltam outra vez ao trabalho, onde se
-conservam até ao anoitecer.
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-Os Principaes, que ordinariamente tem mesa franca, para o que necessitam
-de roças maiores, preparam um _Cauin_ geral, e como todos partilham
-d’elle, se incumbem de cuidar nas plantações, o que fazem com alegria
-n’uma ou duas manhãs, e depois vão beber na casa d’aquelle para quem
-trabalharam, bebendo cada um quando chega a sua vez, e quando o acham
-bom o gabam com todas as suas forças, compõem cantigas adequadas, que
-entoam ao redor da casa ao som do _Maracá_, pronunciando estas ou outras
-similhantes palavras: «oh! o vinho, o bom vinho, nunca elle teve igual;
-oh! o vinho, o bom vinho, nós o beberemos á vontade, oh! o vinho, o bom
-vinho, n’elle não acharemos preguiça.»
-
-Chamam o vinho preguiçoso quando não tem força bastante para embriagal-os
-immediatamente, e que não lhes provocam o vomito por mais que bebam.
-
-Tomam as raparigas parte n’esta festa, onde se dança e canta-se á fartar,
-deitam-se os que se embriagam logo e raras vezes apparecem questões:
-são alegres e agradaveis n’essa occasião, especialmente as mulheres,
-que fazem mil macaquices á ponto de provocarem grande hilaridade, até a
-individuos mais tristes e melancolicos. Por mim confesso, que nunca em
-minha vida me ri tanto como quando estas mulheres altercavam umas com as
-outras, empunhando copos de madeira cheios de vinho, bebendo ora um, ora
-outro, fazendo muitas macaquices e tregeitos.
-
-Dão com muita facilidade o que mais presam, como sejam suas filhas e suas
-mulheres, porque observei quando se cuidou na segunda viagem do _Miary_
-que muitos _Tupinambás_ tanto da _Ilha_ do Maranhão, como de Tapuitapera,
-foram de proposito com os Francezes para pedirem filhas e mulheres dos
-Miarinenses, o que facilmente obtiveram, como muitas outras coisas, que
-só fazem estes povos, e por isso mesmo muito caros e preciosos entre os
-Tupinambás.
-
-Tambem tem por costume, que igualmente observei entre os Tupinambás, o
-trazerem assobios e flautas, feitos dos ossos das pernas, coxas e braços
-de seos inimigos, dos quaes arrancam sons fortes, agudos e claros, e ao
-som d’elles entoam seos cantos usuaes, especialmente quando estão nos
-_Cauins_, ou quando vão a guerra.
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-As raparigas não se despresam em casar com velhos e grisalhos, como
-praticam as dos _Tupinambás_, e sim antes querem esposar um velho,
-especialmente quando é Principal, e admirei-me, como coisa desagradavel,
-o vêr muitas jovens, de quinze a deseseis annos, casadas com velhos, e o
-contrario praticam as raparigas dos _Tupinambás_, as quaes passam a sua
-mocidade livremente, e depois acceitam um marido.
-
-O que acabei de dizer, só tem por fim o mostrar a cegueira das almas
-captivadas pelo espirito immundo, que não se descuida de perdel-as por
-meio de suas traças.
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-CAPITULO XIV
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-Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos e como escravisam
-seos inimigos.
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-Estes povos, e não só elles, porem geralmente todos os Indios do Brazil,
-tem por costume cortar o corpo, e recortal-o tão lindamente, que os
-costureiros e alfaiates, embora habeis em sua profissão, buscam imital-os
-no córte dos seos vestidos.
-
-Este costume não é só privativo dos homens, e sim tambem das mulheres,
-com a differença unica de que os homens se cortam por todo o corpo, e
-as mulheres apenas desde o umbigo até as coxas, o que praticam por meio
-de um dente de _Cutia_, muito agudo, e uma especie de gomma queimada,
-reduzida á carvão, applicada sobre a chaga, e nunca se apagam os córtes.
-
-Digo de passagem e não para demorar-me, e sim apenas para descubrir a
-origem deste antigo costume, que me parece ser fundado pela naturesa,
-visto ser praticado, já ha muitos annos, por nações civilisadas, cujo
-conhecimento por falta de communicação não podia ter esta Nação barbara,
-e assim inventou-o e d’elle usou.
-
-Soube d’estes selvagens, que duas razões os levam a cortar assim seos
-corpos, uma significa o pesar e o sentimento, que tem pela morte de seos
-paes, assassinados pelos seos inimigos, e outra representa o protesto
-de vingança, que contra estes promettem elles, como valentes e fortes,
-parecendo quererem dizer por estes córtes dolorosos, que não pouparam
-nem seo sangue e nem sua vida para vingal-os, e na verdade quanto mais
-estigmatisados mais valentes e corajosos são reputados, no que tambem são
-imitados pelas mulheres de iguaes qualidades.
-
-Para mostrar a origem anterior d’este costume, não necessito remontar-me
-ás historias profanas, no que seria prolixo, e sim contentar-me-hei
-fazendo vêr em diversos trechos das escripturas sanctas quanto Deos
-reprova este uso barbaro e selvagem. No Levitico 19. _Super mortuo non
-incidetis carnem vestram, nec figuras aliquas, aut stigmatas facietis
-vobis._ Sobre a vossa carne não fareis incisões, figuras ou signaes.
-No cap. 21. _Necque in carnibus suis facient incisuras_: e não farão
-incisões na sua carne. No Deut. 14. _Non vos incidetis, necfacietis
-calvitiem super mortuo._ No morto não fareis incisões e nem cortareis os
-cabellos.
-
-Á respeito d’estas passagens interpretam os Padres, como fazem os gentios
-e os idolatras, e de maneira notavel este trecho—_não fareis incisões e
-nem cortareis os cabellos_, por que se vêem juntas estas duas coisas, que
-os indios sempre separam restrictamente: quanto á incisão, já sabeis o
-que ella significa, mas quanto ao arrancamento do cabello ficae sabendo,
-que apenas as mulheres e as moças sabem do captiveiro ou morte na guerra
-dos seos Paes ou maridos, cortam os cabellos, gritam e lamentam-se
-horrivelmente, excitando seos similhantes á vingança, á tomar as armas e
-a perseguir seos inimigos, como farei vêr quando narrar a _Historia dos
-Tremembeses_.
-
-Dos escravos, que me deram n’aquelle paiz para trabalharem á bem da minha
-subsistencia soube da maneira como faziam prisioneiros e escravos.
-
-N’um certo dia reprehendi a preguiça d’um d’elles, fórte e valente, que
-me fora dado por um _Tupinambá_, e elle para minha advertencia me deo a
-seguinte resposta, embora branda (bem sei o que é necessario observar
-para com esta nação, que as reprehensões consideram como chagas e
-feridas, e aos castigos preferem a morte,[31] e por esta forma desejam
-antes morrer com honra, segundo dizem, no meio das assembleias, como ja
-muito bem descreveo o Padre Claudio d’Abbeville): eil-a «na guerra não
-me pozeste a mão sobre a espadua,[32] como fez aquelle que me deo a ti
-para agora me reprehenderes.» Nasceo-me logo a curiosidade de saber por
-intermedio do meu interprete o que elle queria dizer, e então fiquei
-sciente de ser uma ceremonia de guerra entre estas nações, quando um
-é prisioneiro do outro, bater-lhe este com a mão sobre a espadua e
-dizer-lhe—faço-te meo escravo—e desde então este infeliz captivo, por
-maior que seja entre os seos, se reconhece escravo e vencido, acompanha
-o vencedor, serve-o fielmente sem que seo senhor ande vigiando-o, tendo
-liberdade para andar por onde quiser, só fazendo o que fôr de sua
-vontade, e de ordinario casa-se com a filha ou a irmã do seo senhor, e
-assim vive até o dia em que deve ser morto e comido, o que não se pratica
-mais em _Maranhão_, _Tapuitapera_ e em _Cumã_, e só raras vezes em
-_Caieté_.
-
-Estas nações me despertaram a lembrança do que li outr’ora nos livros
-sagrados e na Historia dos Romanos, quando procediam ao captiveiro
-dos prisioneiros, e para bem entender-se bom é notar-se, que foram as
-ceremonias externas inventadas para representarem com sinceridade as
-affeições do interior: por exemplo, dobrar o joelho, beijar a mão,
-descubrir a cabeça, quando saudamos alguem, que estimamos, são outros
-tantos testemunhos de apreço interno em que o temos: outr’ora as espadas
-tinham hierogliphos representando o mysterio occulto das acções internas
-e externas dos homens.
-
-Deixando de parte o que não serve ao meo fim contento-me em referir os
-dois seguintes casos:—o sceptro apoiado sobre a espadua significa o
-poder regio: a alabarda sobre a espadua declara o poder dos chefes de
-guerra: as maças de ouro e prata—o poder dos Senados e dos Pontifices: os
-machados com ramos de parreira enroscadas—o poder dos consulados e dos
-governadores das provincias. Observe-se o que foi escripto por Isaias
-cap. 9. _Factus est Principatus super humerum ejus_, seo dominio foi
-posto sobre sua espadua, e no cap. 22. _Dabo clavem domus Davis super
-humerum ejus_, e porei a chave da casa de David sobre sua espadua, quer
-dizer o—sceptro de David.
-
-Ao contrario, pôr uma canga, como trazem os bois ou cavallos quando
-no trabalho, ou então passar debaixo de uma lança, atravessada sobre
-duas outras fixadas perpendicularmente, ou receber sobre a espadua nua
-uma vergastada era o signal da escravidão, como muito bem o patenteiou
-Isaias, cap. 9. _Jugum oneris ejus et virgam humeris ejus, et sceptrum
-exactoris ejus superasti_: venceste o jugo do teu fardo e a vara de sua
-espada, o sceptro do seu exactor, fallando do captiveiro da Gentilidade,
-libertada pelo Salvador: assim tambem estes selvagens batendo sobre o
-hombro de seus prisioneiros, significavam serem elles seos captivos, e
-na verdade encontro uma bella profecia, toda litteral, narrando esta
-desgraça, á qual estão sujeitos estes pobres selvagens de Chanaan, por
-juizo impenetravel da sabedoria divina, e participação da antiga maldição
-de Channan, seo Pae: é em Isaias, cap. 47—_Tolle molam, et mole farinam:
-denuda turpitudinem tuam, discooperi humerum, revela crura, transit
-flumina_, toma a mó, e móe a farinha, descobre tua torpesa e tua espadua,
-mostra tuas coxas e passa o rio.
-
-Tomam estes selvagens a mó, e a farinha, não tendo ferramenta alguma
-para trabalhar, quer nos bosques quer nas roças, servem-se unicamente de
-machados de pedra para cortar arvores, fazer suas casas e canoas, aguçar
-paus, cultivar a terra, semeiar, plantar raizes, e por unica recompensa
-de seos trabalhos só comem farinha, e raizes passadas por um rallador,
-feito de pedrinhas agudas, engastadas n’uma taboa da largura de meio pé.
-
-Cosinham a farinha n’uma grande panella de barro, ao fogo, como
-amplamente está escripto na Historia do R. Padre Claudio d’Abbeville.
-
-É tão patente sua torpesa, que suas mulheres e filhas, embora honestas,
-sentem repugnancia de se vestirem. Trazem o hombro descuberto, sujeito
-á este grande captiveiro, commum a todas as nações. Mostram suas coxas,
-e a falta de castidade está em uso entre elles sem reprovação, menos o
-adulterio.
-
-Passam rios buscando ilhas incognitas atraz de segurança.
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-CAPITULO XV
-
-Leis do Captiveiro.
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-Já que estamos fallando dos escravos bom é tratar das leis do captiveiro,
-isto é, das que devem guardar os escravos.
-
-Primeiramente não devem tocar na mulher do seo senhor, sob pena de serem
-flexados logo, e a mulher morta ou pelo menos bem açoitada, e entregue
-a seos Paes, resultando-lhe muita vergonha de ser companheira de um dos
-seos servos.
-
-Notae, que as raparigas não são despresadas por se entregarem a quem
-muito bem lhes parece em quanto solteiras, logo porem que recebem um
-marido, si se entregam a outro, alem da injuria de serem chamadas
-_Patakeres_, quer dizer, prostitutas, tem seos maridos o poder de
-matal-as, açoital-as e repudial-as.
-
-É bem verdade terem os francezes abrandado esta lei tão rude, não dando
-permissão aos maridos de matar tanto o escravo como a mulher adultera,
-ordenando que fossem conduzidos ao Forte de São Luiz para vêr punil-as,
-ou elle mesmo infringir-lhes o castigo, como vi acontecer, entre outros
-factos, no adulterio commettido entre a mulher do Principal _Uyrapyran_,
-e um escravo, bonito rapaz.
-
-Tinha o referido escravo muito amor a esta mulher, e depois de ter
-cogitado todos os meios de gosal-a, vio-a ir um dia á fonte, muito longe
-da aldeia, foi logo atraz expôr-lhe sua vontade, e depois agarrando-a com
-violencia entranhou-se com ella n’um bosque, onde saciou seos desejos, e
-como ella era de boa familia não quiz gritar para não ser diffamada, e
-ainda em cima pedio segredo ao escravo.
-
-Enfadado o marido com a grande demora da mulher, e desconfiando de alguma
-cousa por ser bonita e agradavel, foi á fonte, onde encontrou junto a
-borda o pote de sua mulher cheio d’agoa, e lançando a vista ao redor,
-como costumam a praticar os homens ciumentos, vio sahir sua mulher de um
-lado do bosque e o escravo de outro. Agarrou o escravo pelo colleirinho,
-e confiou-o à guarda dos seos amigos, e levou sua mulher para casa de
-seos paes, que se comprometteram a entregal-a quando pedisse.
-
-Na manhã seguinte, em companhia dos seos, levou este escravo á minha
-casa, expondo-me o facto como acima referi, acrescentando que si não
-fosse o respeito ás recommendações dos Padres e dos Francezes, elle teria
-matado o escravo, perdoando comtudo a sua mulher visto ter sido forçada,
-a qual ja havia entregado a seos parentes com intenção de repudial-a.
-
-Louvei a sua obediencia e respeito: era na verdade um homem bem feito,
-de bonito rosto, e bom corpo, fallando bem e em bons termos, mostrando
-tanto nas maneiras como no corpo, generosidade e nobresa de coragem.
-
-Mandei-o á presença do senhor de Pezieux, loco-tenente de Sua Magestade
-na ausencia do Sr. de la Ravardiere, que tendo ouvido a queixa, mandou
-carregar de ferros os pés do escravo, promettendo ao Principal fazer a
-justiça, que elle quizesse.
-
-Replicou-lhe o Principal que desejava vel-o morto como era costume:
-respondeo o senhor de Pezieux, que Deos tinha ordenado em sua lei, que
-deviam morrer tanto o homem como a mulher adultera.
-
-Sim, disse o Principal, porem ella foi constrangida.
-
-«Não, respondeo o senhor de Pezieux, a mulher não pode ser forçada por
-um só homem, ou pelo menos deve gritar, e não pedir segredo ao selvagem,
-o que é tacito consentimento:» dizia tudo isto para salvar o escravo da
-morte, por que muito bem sabia não concordar o Principal na morte de sua
-mulher visto os muitos parentes que ella tinha.
-
-Conseguio-o logo, porque elle pedio ao Sr. de Pezieux, que não matasse o
-escravo, mas sim que o prendesse na golilha, e que lhe fosse permittido
-açoital-o á vontade.
-
-«Sim, disse-lhe o Sr. de Pezieux, com tanto que dês quatro açoites com
-cordas em tua mulher, diante de todas as mulheres, que se acharem no
-Forte, e ao som da corneta.»
-
-Acordes n’isto, na manhã seguinte, foi a mulher conduzida e confrontada
-com o escravo, reconheceo-se que o facto deo-se como ja referi, foram
-ambos conduzidos á praça publica do Forte, onde se fincou o esteio e a
-golilha: ahi o marido representou o papel de verdugo, escolheo tres ou
-quatro cordas bem duras, que enrolou em seo braço, e voltou em sua mão
-direita, e com ellas açoitou sua mulher por quatro vezes, deixando-lhes
-vergões bem grossos e cumpridos, impressos sobre seos rins, ventre e
-costas, não sem derramar muitas lagrimas, que lhe corriam ao longo das
-faces, e sem exhalar profundos suspiros: sua mulher tambem gemia, com a
-vista baixa, envergonhada de assim se vêr rodeiada por tantas mulheres,
-que, como ella, tambem choravam tanto por compaixão, como apprehensivas
-de que para o futuro não lhes acontecesse o mesmo.
-
-Os homens ao contrario mostravam-se alegres diante de tão boa justiça, e
-gracejando diziam á suas mulheres—_ah! se te pilho!_
-
-Durante todo o dia estiveram tristes as mulheres dos Tabajares.
-
-Depois de haver açoitado sua mulher, este bom marido lhe disse «eu não
-tinha desejos de castigar-te, fiz o que pude perante o Maioral dos
-Francezes para salvar-te, porem vae, enchuga tuas lagrimas, e tornar-te
-hei a tomar por mulher, e te levarei para casa quando acabar de castigar
-este escravo.»
-
-Sabe Deos, se o pesar que elle teve pelos açoites, que deo a mulher,
-melhorou a sorte do pobre escravo, porque pondo-o na praça ou no largo,
-fez um circulo do tamanho do seo chicote, separado todos, um por um.
-
-Tinha o escravo ferros nos pés, estava em pé, nu como a palma da mão,
-e assim soffreu o castigo, sem dizer uma palavra e sem mecher-se: por
-tres vezes cansado e sem poder respirar descançou, depois de fortalecido
-recommeçou e de tal maneira, que não poupou uma só parte do corpo.
-
-Começou pelos pés, seguio pelas pernas, coxas, partes naturaes, rins,
-ventre, espaduas, peito, e acabou pelo rosto e testa.
-
-Esteve muito tempo doente por este castigo, sempre com ferros nos pés,
-conforme pedio o Principal, porem passado algum tempo consentio que
-lhos tirassem, á pedido do senhor de Pezieux, que desejava satisfazer
-os desejos dos seos Principaes para melhor obrigal-os a serem fieis aos
-Francezes.
-
-Acabado isto, tomou conta da mulher, que já não chorava, e sim
-principiava a rir-se, e assim voltaram para casa como se nada tivesse
-acontecido.
-
-
-
-
-CAPITULO XVI
-
-Outras leis para os escravos.
-
-
-Consistem as outras leis, em não poderem os escravos, de ambos os sexos,
-casarem-se senão á vontade dos seos senhores, porque tanto uns como
-outros moram juntos e seos descendentes pertencem ao mesmo domno.
-
-Os selvagens _Tupinambás_ tomam ordinariamente para mulher as raparigas
-captivas, e dão suas proprias filhas ou irmans aos mancebos escravos afim
-de cuidarem no arranjo da casa e da cozinha.
-
-Praticam o contrario os francezes, porque compram homens e mulheres
-escravas para casal-os, ficando a mulher com o dever de cuidar no arranjo
-da casa, e o marido com o de ir pescar e caçar.
-
-Se acontece um francez comprar alguma rapariga escrava, mostra-a a algum
-joven _Tupinambá_, que morre de amores pelas que são bellas, depois
-promette-lhe que será seo genro pois ama sua escrava como si fosse sua
-propria filha para assim vir o _Tupinambá_ morar com elle, casar com a
-rapariga, e por esta forma ter por uma escrava dois escravos, a quem
-trata por filha e genro, e elles o chamam seo _Cheru_, isto é, seo Pae.
-
-As raparigas escravas, que não se casão, dispoem de si como querem,
-si por ventura seos senhores não lhe prohibem relações com certos e
-determinados individuos, porque então em caso contrario soffrem muito;
-mas quando seos senhores lhe impoem completa abstinencia, ellas lhe dizem
-bem claramente, que então as tomem por mulheres visto não querer, que
-alguem as ame.
-
-Devem os escravos trazer fielmente o resultado da sua pescaria e caçada,
-e depôl-o aos pés do seo senhor ou senhora, para elles escolherem e
-depois lhes darem o resto.
-
-Não podem trabalhar para outrem sem consentimento do seo senhor, e
-nem dar seo rebanho, que lhes deo o senhor, sem lhe dizerem antes uma
-palavra, pois de outra forma pode ser tomado como coisa, que não pertence
-legitimamente aos escravos.
-
-Não devem passar atravez da parede das casas, somente feita de _pindoba_,
-ou de ramos de palmeira, ao contrario são criminosos de morte, porque
-devem passar pela porta, commum, ou atravez da parede de palmas.
-
-Não devem fugir, porque quando são agarrados, está tudo perdido, visto
-que são comidos: n’este caso já não pertencem ao senhor, e sim a todos,
-e para este fim quando se prende um escravo fugido, sahem da aldeia as
-velhas, vão ao seu encontro, e gritando dizem «é nosso, entregae-nos,
-queremos comel-o», e batendo com a mão na bocca, gritam uns para os
-outros com certa expressão «nós o comeremos, nós o comeremos, é nosso.»
-
-Vou dar-lhes um exemplo:
-
-Um guerreiro Principal da ilha do Maranhão, chamado _Ybuira Pointan_,[33]
-quer dizer, _Pau brasil_, ao regressar da guerra trouxe comsigo alguns
-escravos, dos quaes um procurou salvar-se pela fuga, porem sendo
-agarrado, foram as velhas ao seu encontro batendo na bocca com as mãos, e
-dizendo «é nosso, entregae-o, é necessario que seja comido».
-
-Houve muita difficuldade em salval-o apezar da prohibição de não se
-comerem os escravos, e si não se empregassem ameaças, elle seria devorado
-pelas velhas.
-
-Si acontece morrerem de molestias estes escravos, sendo assim privados do
-leito de honra, isto é, de serem mortos e comidos publicamente, um pouco
-antes do seo fallecimento levam-nos para o matto, lá partem-lhe a cabeça,
-espalham o cerebro, e deixam o corpo insepulto e entregue a certas aves
-grandes, similhantes aos nossos corvos, que comem os enforcados e os
-rodados.
-
-Quando são achados mortos em seos leitos, atiram-nos em terra,
-arrastam-nos pelos pés até o matto, onde lhes racham a cabeça, como acima
-disse, o que ja não se pratica na Ilha e nem em suas circumvisinhanças,
-senão raras vezes e occultamente.
-
-Gozam tambem de muitos privilegios, que os levam a residir
-voluntariamente entre os _Tupinambás_, sem desejar fugir, considerando
-seos senhores e senhoras como paes e mães, pela docilidade com que os
-tratam cumprindo assim seo dever; não ralham com elles e nem os offendem,
-não os espancam, desculpam-nos em muita coisa contanto que não offenda
-os seos costumes: são muito compadecidos, e chegam a chorar quando
-os francezes tratam os seos com aspereza, e si outros se lastimam do
-procedimento dos francezes prestam-lhe todo o credito ao que dizem.
-
-Quando fogem dos francezes elles os occultam, levam-lhes o sustento nos
-mattos, vão vesital-os, as raparigas vão dormir com elles, contam-lhes o
-que se passa, aconselham-nos sobre o que devem fazer, e de tal sorte que
-é muito difficil agarral-os, embora vão atraz d’elles uns vinte homens, e
-isto não fazem para com os escravos dos seos similhantes.
-
-Vem a proposito o contar que um dia perguntei a um dos escravos, que
-tinha em meu poder, si não estava satisfeito vivendo commigo, não só
-porque lhe ensinei a temer a Deos, como tambem pela certesa, que tinha,
-de não ser comido, e que, quando christão, seria livre, morando com os
-padres como si fosse filho d’elles.
-
-Pelo interprete respondeo-me julgar-se feliz por haver cahido nas mãos
-dos Padres, tanto por conhecer á Deos como por viver com elles, e si
-fosse para o poder de outro chefe, não estaria socegado e nem descançado
-de não ser comido, porque, acrescentava elle, quando se morre, nada mais
-se sente, quer elles comam ou não, e o mesmo para o morto: amofinar-me-ia
-de morrer na minha cama, e não á maneira dos grandes no meio das danças e
-dos _Cauins_, afim de vingar-me antes de morrer, dos que iriam comer-me.
-
-Quando penso, que sou filho de um dos grandes do meo paiz, que meo
-pae é homem moderado, que todos o cercavam para escutal-o quando elle
-ia á _casa grande_,[34] vendo-me agora escravo, sem pintura no corpo,
-sem cocar, sem enfeites nos braços, e nem nos pulsos, como acontece
-aos filhos dos grandes das nossas terras, antes queria ser morto
-especialmente quando me lembro, que fui agarrado ainda menino, com minha
-mãe, lá na minha terra, e trazido para _Comã_, onde vi matar e comer
-minha mãe, com quem desejei morrer, porque ella me amava muito, e por
-isso não posso senão lamentar minha vida.
-
-Proferindo estas palavras, chorou muito, a ponto de pungir-me o coração,
-visto saber por experiencia quanto são amorosos estes selvagens, para com
-seos paes, e estes para com elles.
-
-Accrescentou, que depois de ter sido sua mãe morta e comida, seo senhor
-e sua senhora o adoptaram por filho, e elle os tratava por pae e mãe:
-quando fallava d’elles era com affeição inexplicavel, embora tivessem
-comido sua propria mãe, e ja fosse resolvido o comel-o tambem pouco tempo
-antes de chegarmos á Ilha.
-
-Seo senhor e senhora tomavam o trabalho de vir vel-o em nossa casa,
-embora fosse necessario vencer a distancia de 50 legoas, desde sua aldeia
-até aqui.
-
-Gozam ainda de muitos outros privilegios, porque lhes é permittido
-o namorar as raparigas livres, sem risco algum, olhar mesmo para as
-raparigas de seo senhor e senhora, si quizerem, e n’isto não ha muita
-recusa, comtudo ellas buscam os mattos e em certas cabanazinhas os
-esperam em hora marcada, para evitar pequeno remoque que costumam a fazer
-das moças de boa raça, quando se entregam a escravos, o que serve antes
-de riso do que de deshonra.
-
-Vão livremente aos _Cauins_, e dansas publicas, enfeitando de mil
-maneiras o seo corpo quer com pinturas, quer com pennas, quando podem,
-pois estas são muito caras.
-
-Vivem com os filhos de seos senhores, como si fossem irmãos, e em breve
-tempo gozam muita liberdade no seo captiveiro.
-
-
-
-
-CAPITULO XVII
-
-Quanto são misericordiosos os selvagens para com os criminosos por acaso
-e sem malicia.
-
-
-Entre as perfeições naturaes que a experiencia me tem mostrado n’estes
-selvagens, nota-se uma justa misericordia, isto é, desejam a punição
-dos maus, quando por maldade praticam algum crime, e ao contrario são
-compadecidos e pedem misericordia para aquelles, que por acaso ou
-inadvertidamente incorrem n’alguma falta, e isto vou provar á vista do
-seguinte exemplo.
-
-_Maioba_ é uma grande aldeia, distante tres leguas do Forte de São Luiz:
-o seo Principal é um bom homem, amado pelos francezes, e veio fazer a
-nossa casa.
-
-Tinha dois filhos fortes e robustos, ambos casados, e duas filhas, uma
-casada e outra solteira, bonitas e engraçadas, muito amadas por seo Pae
-e Mãe, de tal forma que eram perdidos por ellas e o assumpto predilecto
-de suas conversações, e guardavam a solteira para um francez quando
-voltassem os navios, diziam elles, e que os francezes se resolvessem a
-casar com indias.
-
-Fundava seos castellos e sua fortuna sobre um fragil barco, similhante
-a aquella boa mulher, que tendo em suas mãos o primeiro ovo de sua
-gallinha, sua imaginação ia levantando-a até um principado, que d’ahi ha
-pouco cahio no chão e inutilisou-se, e com elle foi-se toda a ventura
-esperada por ella.
-
-Assim este homem não tendo outra consolação senão em sua filha, poucos
-dias depois, por uma noite tão triste, _Geropary_ torceo o collo d’esta
-plantinha, virando-lhe a bocca para as costas: coisa terrivel! estava
-negra como o diabo, os olhos esbugalhados e revirados, a bocca aberta, a
-lingua sahida para fóra, os labios superiores e inferiores revirados á
-deixar vêr os dentes e as gengivas, o que poderia pela tristesa e medo,
-que causava, matar a seos parentes.
-
-Nunca pude saber qual foi a causa d’isto, e apenas me disseram que era
-infiel, e talvez vivesse deshonestamente, porem nunca deo escandalo.
-
-Embora seo pae tivesse vendido sua filha mais velha á algum francez para
-d’ella abusar, depois a tirou da companhia do seo marido.
-
-Dizem os que se acham em peccado mortal, que elles estão sob o dominio e
-posse do diabo, e o mesmo lhes aconteceria, si Deos quizesse.
-
-Não foi só esta desgraça, porque uma arrasta outra comsigo, e a primeira
-é embaixadora da segunda.
-
-Pouco tempo depois, este Principal fez uma festa de vinho publicamente, e
-para isto convidou não só os habitantes de sua aldeia, como tambem os da
-visinhança.
-
-Quando todos dançavam e cantavam, quando o vinho fervia e muitos já se
-achavam embriagados, seos dois filhos, de que ja fallei, travaram-se de
-razões, e o autor da questão querendo agarrar seo irmão, por um acaso
-ferio-lhe no ventre com um punhado de flechas, que este trasia pelo que
-cahio logo banhado em sangue. Tiraram-se as flexas com muita dor, como
-bem se calcula, o soffrimento fez desapparecer o vinho, a festa ficou
-perturbada, as cantorias se mudaram em gritos e lamentos, o vinho em
-lagrimas, as dansas em espancamentos proprios e arrancamento de cabellos.
-
-O infeliz pae, expectador de similhante tragedia, assentado n’uma rede
-d’algodão, teve um desmaio, e cahio para traz.
-
-Voltando a si, disse aos que o rodeiavam, que de uma só vez perdeo seos
-dois filhos, não fallando na que tinha perdido antes, um ferido por sua
-culpa, e o outro que os francezes mandariam matar; todos se condoeram
-d’elle.
-
-Resolveram todos os Principaes da Ilha a virem ao Forte de São Luiz
-interceder a favor do vivo.
-
-Em quanto se passavam estes factos, o ferido contra sua vontade,
-aproximava-se da morte, chamou seo irmão, e lhe disse: sou um grande
-criminoso, pois de uma só vez matei muitas pessoas, isto é, a mim, a
-meo pae, que morrerá de tristesa e a ti porque os francezes te mandarão
-matar: elles são justiceiros em punir os maus: mas sabes tu o que ha?
-toma meo conselho, e faze o que te digo.
-
-Os Padres que vieram com os francezes, são compadecidos, e nos amam e
-aos nossos filhos, e pelos seos interpretes soube que aqui vieram para
-salvar-nos.
-
-Já ouvi dizer, n’uma reunião a um dos nossos similhantes, que os
-antecessores dos Padres baptisaram antigamente em quanto com elles
-estiveram, e que vio os _Canibaes_ se abrigarem em suas Igrejas, quando
-faziam alguma maldade, por terem certesa de que ahi ninguem lhes faria
-mal.
-
-Faze o mesmo, quando anoitecer vae com meo Pae procurar o Padre na sua
-cabana de _Yviret_, pede para te pôr na casa de Deos, que é defronte da
-residencia d’elle, e ahi fica, até que meo Pae, conjuntamente com os
-Principaes, intercedam por ti, e consigam o teo perdão do Maioral dos
-francezes.
-
-Para mais facilidade, tu sabes que os Francezes necessitam de canoas e de
-escravos, offereça pois meo Pae ao chefe tua canoa e teos escravos, para
-que não morras.
-
-Tudo isto foi cumprido pontualmente, porque este velho, Pae dos dois
-rapazes, foi procurar-me, rogou-me e instou-me para que recebesse seo
-filho na casa de Deos, e intercedesse para ser perdoado pelo Maioral dos
-Francezes, buscando convencer-me, entre outras, com estas razões.
-
-«Vós outros Padres fazeis regorgitar de povo as nossas _Casas Grandes_,
-quando quereis, desejando vêr ahi grandes e pequenos, afim de ouvirem a
-causa, que vos obrigou a deixar vossas casas e terras, muito melhores do
-que estas, para nos ensinarem a naturesa de Deos, que é, como dizeis,
-bom, misericordioso, amante da vida e inimigo da morte, e por isso não
-quer que ninguem morra assim como elle morreo n’um madeiro para fazer
-viver os mortos.
-
-«Dizeis ainda, que nossos filhos não são mais nossos, o sim vossos, que
-Deos vol-os deo, e que d’elles tomaes cuidados até a morte: mostrae-me
-hoje, que vossa palavra é verdadeira.
-
-«Estou velho, perdi todos os meos filhos, só me resta um, que fez esta
-casa, que vos estima muito, e a todos os Padres e quer ser christão.
-
-«Matou seo irmão sem querer, ou melhor, foi seo irmão quem se matou a
-si proprio com as flechas, que trazia. Rogo-te o recebas na casa de
-Deos, e vem commigo fallar ao chefe, porque elle nada te recusará visto
-estimar-te muito.
-
-«Quiz trazer commigo o filho, a favor de quem intercedo porem elle teme
-muito a ira dos Francezes: actualmente anda errante e fugitivo pelos
-mattos, como si fosse um javaly: quando ouve o ramalhar das arvores
-suspeita ser os Franceses, que armados andam em busca d’elle para
-prendel-o e conduzi-lo a _Yviret_, onde será amarrado á bocca de uma
-peça.»
-
-Respondi pelo meo interprete, asseverando-lhe que empregaria os meos
-esforços, que tinha esperança de obter o que elle desejava porque o chefe
-me estimava; mas que era bom, que elle fosse pessoalmente fazer seo
-pedido, e que eu iria depois delle.
-
-Foi immediatamente ao Forte em companhia de um dos principaes interpretes
-da Colonia, chamado _Migan_,[35] e expôz suas razões e rogos ao senhor de
-Pezieux, por esta fôrma.
-
-«Sou um Pae muito infeliz, e acabarei minha velhice como os javalys,
-vivendo só, comendo raizes amargas e cruas, se de mim não tiveres piedade.
-
-«A misericordia muito convem aos grandes, e maiores não podem ser, quando
-usam d’ella e de clemencia.
-
-«É teu rei o maior do Mundo, como nos contam os nossos, que estiveram em
-França.
-
-«Elle para aqui te mandou como um dos Principaes da sua côrte afim de nos
-livrares do captiveiro dos _Peros_: ora como és grande, e misericordioso,
-usa de misericordia para com os infelizes, que são desgraçados por acaso
-e não por malicia.
-
-«Bem conheço, que é preciso ser justo, e indagar o motivo para se fazer a
-escolha, e proceder-se a vingança sobre os maus, o que mui restrictamente
-observamos entre nós, desde os nossos paes, mas quando a falta não é
-originada por maldade nós perdoamos.
-
-«Tenho dois filhos, como sabes, os quaes tem vindo trabalhar no teo
-Forte, um matou o outro por acaso e sem maldade, ou para melhor dizer,
-suicidou-se o mais velho nas flechas do mais moço, que está vivo, e te
-peço que não o persigas e sim o perdôes.
-
-«É elle, que me hade sustentar na velhice: sempre foi amigo dos
-francezes, e quando algum vae a minha aldeia, chama logo os seos cães, e
-vae caçar cotias e as pacas para elle comer.
-
-«Fez a cása dos Padres, e assevera-me que elles o protegem.
-
-«Sempre foi muito obediente á sua madrasta, que o ama como si fosse
-seo proprio filho: seo irmão, que sem querer, elle matou, era mau, não
-estimava os Francezes, nunca lhes deo coisa alguma, não ia á caça para
-elles, aborrecia sua madrasta, e muitas vezes a zangava: quando morreo,
-estava bebado, e veio tomar a mulher do seo irmão, e arrancando o filho,
-que ella tinha ao collo, atirou o menino para um lado e a mãe para outro,
-dando-lhe bofetadas, embora estivesse grávida, na minha presença e á
-vista do seo marido, e tudo soffremos com paciencia; porem vindo agarrar
-seo irmão para espancal-o, ferio-se no ventre com as flechas, que elle
-trasia na mão e assim morreo.
-
-«Porque perderei eu meos dois filhos, de uma só vez, e já na minha
-velhice?
-
-«Si queres mandar matar o unico que tenho, mata-me primeiro, e depois
-a elle. Elle te dá sua canoa para a pescaria e seos escravos para te
-servirem.»
-
-Admirou o Sr. de Pezieux este discurso, como depois me disse e por muitas
-vezes, e o referio á diversas pessoas, admirando-se de ver tão bella
-Rhetorica na bocca de um selvagem.
-
-Previno-vos, que represento todos estes discursos e supplicas o mais
-sinceramente que me foi possivel, sem o emprego de artificio algum.
-
-Respondeo o Sr. de Pezieux dizendo ser grande crime um irmão matar outro,
-mas como elle asseverava ter sido antes por culpa do fallecido do que
-pela do vivo, perdoava a rogo dos Padres, a quem nada queria recusar, e
-assegurou-lhe logo que seo filho nada soffreria, que acceitava a canoa
-e os escravos, porem que tudo isto lhe offerecia para o arrimo de sua
-velhice visto ser elle amigo dos Padres e dos Francezes.
-
-Alegrou-se muito o bom velho com este acto de misericordia e
-liberalidade, e não foi ingrato, não só fazendo conhecido por toda a Ilha
-o facto, como tambem offerecendo ao dito Sr. e a nós tudo quanto elle e
-seu filho caçavam.
-
-
-
-
-CAPITULO XVIII
-
-Quanto é facil civilizar os selvagens á maneira dos francezes, e
-ensinar-lhes os officios, que temos em França.
-
-
-No Liv. 2.º, Cap. 1.º, dos Machabeos, lemos, que o fogo sagrado do altar
-foi escondido no poço de Nephtar durante o captiveiro do povo e se
-transformou em limo.
-
-Quando o povo regressou, já livre, os Sacerdotes apanharam este limo, e o
-deitaram na madeira do altar, levantado para os sacrificios.
-
-Apenas o sol, lá de cima, começou a lançar seos raios sobre o limo, este
-se transformou em fogo, e devorou os holocaustos.
-
-Desejo servir-me d’esta figura para explicar o que tenho a dizer n’este e
-nos seguintes Capitulos.
-
-Convem notar, que por este fogo se deve entender o espirito humano
-imitando a naturesa do fogo por sua actividade, ligeiresa, calôr e
-claridade, o qual se torna lodo e limo, escondido n’um centro differente
-do seo proprio, devido isto á sua alma captiva pela infidelidade.
-
-Quero dizer, que sendo o espirito do homem creado para conhecer a Deos,
-e aprender artes e sciencias, torna-se entorpecido e obscurecido entre
-as immundicies, quando sua alma está presa nas cadeias da infidelidade,
-sob a tyrannia de Satanaz, mas quando sua alma desprende-se do captiveiro
-pela intenção e guia dos Prophetas de Deos, sahe o espirito d’esse
-poço lamacento, e animado pela luz, e conhecimento de Deos, das artes,
-e das boas sciencias, torna-se apto e prompto para executar o que
-percebe e aprende, o que farei vêr, e tocar com o dedo a respeito dos
-nossos selvagens, e mui principalmente quando de suas perguntas mais
-comesinhas nasce a esperança d’elles se civilisarem, e viverem reunidos
-n’uma cidade, negociando, aprendendo officios, estudando, escrevendo e
-adquirindo sciencia.
-
-Tenho para mim, que são mais faceis de serem civilisados, do que os
-aldeões de França, por ter a novidade não sei que influencia sobre o
-espirito afim de excital-o a aprender o que elle vê de novo, e lhe agrada.
-
-Os nossos _Tupinambás_ nunca tiveram ideia alguma de civilisação até
-hoje; eis a razão porque elles se esforção, por toda a forma, de imitar
-os nossos francezes, como depois direi.
-
-Ao contrario os aldeões da nossa França estão de tal sorte enraisados em
-sua rusticidade, que, em qualquer conversação, embora nas cidades entre
-pessoas distinctas, sempre mostram signaes de camponezes.
-
-Aos _Tupinambás_, depois de dois annos de convivencia com os francezes,
-estes lhes ensinaram a tirar o chapeu, a saudar a todos, a beijar as
-mãos, a comprimentar, a dar os bons dias, a dizer adeos, a ir á Igreja,
-a tomar agua benta, a ajoelhar-se, a pôr as mãos, a fazer o signal da
-Cruz na testa e no peito, a bater no peito diante de Deos, a ouvir missa
-e sermão, ainda que nada d’isto comprehendam, a levar o _Agnus Dei_, a
-ajudar o sacerdote á missa, a assentar-se á mesa, a estender a toalha
-diante de si, a lavar suas mãos, a pegar na carne com tres dedos, a
-cortal-a no prato, e a beber em commum, e breve farão todos os actos
-de civilidade e delicadesa, que se costuma a praticar entre nós, e já
-se acham tão adiantados a ponto de parecerem ter sempre vivido entre os
-francezes.
-
-Ninguem pois poderá contestar-me, que não sejam estes factos bastante
-para convencer-nos do que devemos esperar e acreditar ser esta nação, com
-o andar dos tempos, civilisada, honesta e muito aproveitada.
-
-Como os exemplos provam mais que outra qualquer especie de argumentação,
-vou contar-vos o caso de alguns selvagens educados em casa de nobres.
-
-Actualmente ha em Maranhão uma mulher selvagem, de uma das boas raças da
-Ilha, que foi antigamente, quando bem pequena, tomada pelos portuguezes,
-e vendida como escrava á D. Catharina de Albuquerque, sobrinha do grande
-Albuquerque, Vice-Rei das Indias Orientaes, sob o dominio do Rei de
-Portugal, a qual reside presentemente em Pernambuco, e é Marqueza de
-Fernando de Noronha, ilha muito bella e fertil, segundo diz o Revd. Padre
-Claudio d’Abbeville na sua Historia.
-
-Esta rapariga fez-se christã, e se a vestissem á portugueza não se
-poderia facilmente dizer qual a sua origem, se portugueza ou selvagem,
-mostrando sempre a vergonha e o pudor, inseparaveis de uma mulher, e
-occultando com cuidado a imperfeição do seo sexo.
-
-Poderia dizer outro tanto de muitos selvagens, educados entre os
-portuguezes, e dos quaes alguns foram á França, e conservam ainda hoje o
-que aprenderam, e o praticam quando se acham entre os francezes.
-
-É novo entre elles o uso da barba e dos bigodes, porem como vêem esse uso
-entre os Francezes, tambem deixam crescer tanto uma como outra coisa.
-
-Tem incomparavel aptidão para as artes e officios.
-
-Conheço um selvagem do Miary, chamado _Ferrador_, por causa do officio,
-que aprendeo, vendo somente trabalhar um ferrador francez que nada lhe
-explicou.
-
-Sabia muito bem malhar com os outros uma barra de ferro encandecida,
-como se tivesse longa pratica, apesar de ser coisa muito sabida entre os
-officiaes do mesmo officio, que é necessario muito tempo para aprender-se
-a musica dos martellos na bigorna do ferrador.
-
-Achando-se este mesmo selvagem nos desertos do Miary com seos
-semelhantes, sem bigorna e martello, limas e tornos, trabalhava comtudo
-muito bem fazendo pontas ou lanças para flechas, harpões e anzóes.
-Por bigorna tinha uma pedra muito dura, por martello outra de menor
-consistencia, e depois aquecendo ao fogo o ferro, dava-lhe a forma que
-queria.
-
-Os officios mais necessarios entre elles são os de ferreiro, tanoeiro,
-carpinteiro, marcineiro, cordoeiro, alfaiate, sapateiro, tecelão, oleiro,
-ladrilhador, e agricultor.
-
-Para todos estes officios são aptos e inclinados pela natureza.
-
-Para o de ferreiro ou de ferrador ja referimos um exemplo.
-
-Quanto ao officio de tecelão seria a sua especialidade se aprendessem;
-tecem seos leitos muito bem, trabalham em lã tão perfeitamente como os
-francezes, embora não empreguem a lançadeira, e nem a agulha de ferro, e
-sim pequenos pausinhos.
-
-Contarei ainda uma bonita historia.
-
-Fui um dia visitar o grande _Thion_, principal dos Pedras-verdes,
-_Tabajares_; quando cheguei a sua casa, e porque lhe pedisse, uma de suas
-mulheres me levou para debaixo de uma bella arvore no fim da sua cabana,
-que a abrigava dos ardores do sol, onde estava armado um teiar de faser
-redes de algodão, em que elle trabalhava.
-
-Gostei muito de vêr este grande Capitão, velho Coronel de sua nação,
-enobrecido por tantas cicatrises, entregando-se com praser á este
-officio, e não podendo conter-me, perguntei-lhe a razão d’isto, esperando
-aprender alguma coisa de novo n’este facto tão particular, que estava
-vendo.
-
-Pelo meu interprete lhe perguntei a razão, porque se dava a esse mister.
-
-Respondeo-me, «porque os rapases observam minhas acções e praticam o que
-eu faço; se eu ficasse deitado na rede e a fumar, elles não quereriam
-fazer outra coisa: quando me vêm ir para o campo com o machado no hombro
-e a fouce na mão, ou tecer rede, elles se se envergonham de nada fazer.»
-
-Eu e os que comigo então se achavam, sentiram muito prazer ouvindo estas
-palavras, e desejaria vel-as praticadas por todos os christãos, porque
-então a ociosidade, mãe de todos os vicios, não estaria em França, como
-actualmente se vê.
-
-O officio de carpinteiro não lhes é muito difficil, porque os vi fazendo
-suas casas, e as dos Francezes, assentando seo machado, e repetindo o
-golpe no mesmo lugar, quatro ou cinco vezes, com tanta firmeza, como
-faria qualquer carpinteiro bem habil.
-
-A arte de marcineria lhes é facil, porque com suas fouces aplainam um
-pedaço de pau, tão liso e tão igual, como se tivesse passado o raspador
-por cima d’elle.
-
-Com o auxilio de suas facas somente, fazem macaquinhos e outras figuras
-de madeira.
-
-Não precisam de serra, e nem de outro qualquer instrumento para fazer
-seos arcos, remos e espada de guerra, pois basta-lhes uma simples
-machadinha.
-
-Cavam, arranjam suas canôas, e dão-lhes a forma, que lhes apraz.
-
-Brevemente tractarei de outros officios, nos quaes os vi trabalhar com
-tal industria a ponto de parecer-me que, com pouco tempo de ensino,
-chegaram á perfeição.
-
-Alem d’isto fazem muito bem vestidos, cubertas de cama, sobre-céos,
-sanéfas e cortinados de cama, pennas de diversas cores, que por sua
-perfeição se pensa terem vindo de fóra.
-
-Não fallarei da propensão natural, que elles tem para pintar, fazer
-diversas folhagens, e figuras, servindo-se apenas de uma pequena lasca de
-pau, ou ponteiro, ao passo que os nossos pintores necessitam de tantos
-pinceis, compassos, regoas, e lapis.
-
-
-
-
-CAPITULO XIX
-
-Quanto são aptos os selvagens para aprenderem sciencias e virtudes.
-
-
-Quando regressei das Indias para a França, pelas frequentes e constantes
-perguntas, feitas pelas pessoas, que me vinham visitar, reconheci quanto
-é difficil acreditarem os Francezes, que os selvagens sejam aptos para
-aprenderem sciencia e virtude, e não sei se alguns chegam a ponto de
-julgar estes povos antes do genero dos macacos, do que dos homens.
-
-Em quanto a mim elles são homens, e provarei, e por tanto capazes de
-obterem sciencia e virtude.
-
-Seneca na sua epistola 110 disse «_Omnibus natura dedit fundamenta
-semenque virtutum_.» A natura deo a todas as creaturas, sem excepção de
-uma só, as raizes e as sementes das virtudes, palavras mui notaveis:
-assim como as raizes e as sementes são lançadas na terra e por
-conseguinte enterradas em suas entranhas, assim tambem Deos lançou
-naturalmente no espirito do homem as raizes e as sementes da virtude:
-com taes alicerces pode o homem, ajudado por Deos, edificar um predio, e
-extrahir da semente uma bella arvore carregada de flores e de fructos,
-doutrina esta muito bem provada por S. João Chrisostomo, na Homilia
-55, ao povo de Antiochia, e na Homilia 15 á respeito da Epistola 1ª á
-Thimotheo moralisando esta passagem do Genesis:—_Germinet terra, herbam
-virentem, e omne lignum pomiferum_, «produsa a terra herva verdejante ou
-arvore fructifera:» acrescentou ainda—_Dic ut producat ipse terra fructum
-proprium et exibit quicquid facere velis_, «dize e ordena á tua propria
-terra, que produza seo fructo natural, e verás ella produzir logo o que
-pedires.»
-
-São Bernardo, no _Tractado da vida solitaria_, disse—_virtus vis est
-quædam ex natura_, «a virtude é uma certa força, que sahe da natureza.»
-
-Se assim não fôr, quero provar por muitos exemplos, começando pelas
-sciencias, para cujo ensino concorrem as tres faculdades da alma—vontade,
-intelligencia, e memoria: a vontade dá ao homem o desejo de aprender,
-e por ella vencemos toda a sorte de trabalhos e difficuldades: a
-intelligencia dá vivacidade para comprehender, e a memoria guarda e
-conserva o que conheceo e aprendeo.
-
-São mui curiosos os selvagens de saber novidades e para satisfazer tal
-desejo, os caminhos e a distancia das terras, por maiores, que sejam,
-lhes parecem curtos, não sentem a fome, porque passam, e os trabalhos
-como que são descanço para elles: prestam-vos toda a sua attenção,
-escutam o que disserdes durante o tempo que vos parecer, sem enfado e
-em silencio, á respeito de Deos, ou de qualquer assumpto, e se tiverdes
-paciencia, elles vos farão milhares de perguntas.
-
-Lembra-me, que entre as praticas, que eu lhes fazia ordinariamente por
-intermedio do meo interprete, eu lhes disse que apenas chegassem de
-França os Padres, elles mandariam edificar casas de pedra ou de madeira,
-onde seriam recolhidos seos filhos, aos quaes os Padres ensinariam tudo o
-que sabem os _Caraibas_.
-
-Responderam-me: oh! quanto são felizes nossos filhos por aprenderem tão
-bellas coisas, oh! quanto fomos infelizes nós e os nossos antepassados
-por não haverem Principaes n’esse tempo.
-
-É viva sua intelligencia como reconhecereis pelo seguinte facto.
-
-Não ha estrellas no Ceo, que elles não conheçam e calculam pouco mais ou
-menos a vinda das chuvas e as outras estações do anno.
-
-Pela phisionomia distinguem um Francez de um Portuguez, um Tapuyo de um
-Tupinambá, e assim por diante.
-
-Nada fazem antes de pensar, e pezam em seu juiso uma coisa antes de
-emittir sua opinião. Ficam serios e pensativos, porem não se precipitam
-em fallar.
-
-Mas, dizeis vós, como é possivel que estas pessoas tenham tal juiso
-fazendo o que fazem?
-
-Porque elles dão por uma faca cem escudos de ambar gris, ou qualquer
-outra coisa, que apreciamos, como sejam: ouro, prata e pedras preciosas.
-
-Eu vos direi a opinião que elles fazem de nós, muito contraria n’este
-ponto: julgam-nos loucos e pouco judiciosos em apreciar mais as coisas,
-que não servem para o sustento da vida do que aquellas, que nos
-proporcionam o viver commodamente.
-
-Na verdade, quem deixará de confessar, ser uma faca mais necessaria á
-vida do homem, do que um diamante de cem mil escudos, comparando um
-objecto com outro, e pondo de parte, a estima que se lhe dá?
-
-Para provar que não lhes falta juiso afim de avaliar a estima que fazem
-os Francezes das coisas existentes em sua terra, basta dizer, que elles
-sabem altear muito o preço das coisas, que julgam ser apreciadas pelos
-francezes.
-
-Um dia disseram-me alguns, que era preciso haver muita falta de madeira
-em França, e que experimentassemos muito frio para mandarmos navios de
-tão longe, a mercê de tantos perigos, carregarem de paus.[36]
-
-Respondi-lhes que não era para queimar e sim para tingir de cores.
-
-Replicaram-me: porque nos compraes o que cresce em nosso paiz a troco de
-vestidos vermelhos, amarellos e verde-gaios? Eu os satisfiz dizendo ser
-necessario misturar outras cores com as do seo paiz para tingir panos.
-
-Si me disserdes, que elles fazem acções inteiramente brutaes, como
-as de comer seos inimigos, e praticar tudo que os offenda, como seja
-expol-os em lugares onde ha piolhos, vermes, espinhos, etc., eu vos
-responderei não provir isto de falta de juiso, porem sim de um erro
-hereditario, sempre existente entre elles, por pensarem, que sua honra
-depende de vingança: parece-me, que tambem não é desculpavel o erro
-dos nossos francezes de se matarem em duello, e comtudo vemos os mais
-bellos espiritos, e os primeiros da nobreza concordarem com este erro,
-despresando a Lei de Deos, e arriscando a eternidade de sua salvação.
-
-Quanto a memoria elles a possuem muito feliz, porque lembram-se sempre do
-que viram e ouviram com todas as circumstancias do lugar, do tempo, das
-pessoas, quando o caso se disse ou se executou, fazendo uma geographia
-ou descripção natural com a ponta de seos dedos na areia, do que estão
-contando.
-
-O que mais me admirou foi vel-os narrar tudo quanto se ha passado desde
-tempos immemoriaes, somente por tradicção, porque tem por costume os
-velhos contar diante dos moços quem foram seos avós e antepassados, e
-o que se passou no tempo d’elles: fazem isto na _casa grande_, algumas
-vezes nas suas residencias particulares, acordando muito cedo, e
-convidando gente para ouvil-os, e o mesmo fazem quando se vesitam, porque
-abraçando-se com amisade, e chorando, contam um ao outro, palavra por
-palavra quem foram seos avós e ante-passados, e o que se passou no tempo
-em que viveram.
-
-
-
-
-CAPITULO XX
-
-Continuação do objecto antecedente.
-
-
-Concordo que sejam estes povos inclinados pela naturesa á muitos vicios,
-porem é necessario lembrar-nos, que elles são captivos por infidelidade
-d’estes espiritos rebeldes a Lei de Deos, e instigadores da sua
-transgressão.
-
-São João na sua Epistola 1.ª chama _iniquidade_ ou _desigualdade_
-o desvio ou a digressão do direito, como muito bem explica o texto
-Grego[BC] ——————————, assim traduzido _Peccatum est exorbitatio á lege_.
-
-Esta Lei é divina ou humana: aquella dada por escripto á Moysés, e depois
-por Jesus Christo aos christãos, e esta acha-se gravada no intimo d’alma.
-
-Transgredindo-se estas duas Leis commettem-se dois peccados, um contra
-os mandamentos de Deos, e outro contra a lei natural: por elles serão
-accusados e condemnados os incredulos, cada um de per si, alem do peccado
-commum da infidelidade.
-
-Entre todos os vicios a que estão sugeitos estes barbaros, sobresahe a
-vingança, que nunca perdoam, e a praticam logo que podem, embora as boas
-apparencias com que tratam seos inimigos reconciliados.
-
-Não ha a menor duvida que retirando-se os francezes do Maranhão, todas as
-nações, antes inimigas, que ahi residem promiscuamente, por terem a nossa
-alliança, devorar-se-hão umas ás outras, embora, o que é para admirar,
-vivam agora muito bem sob o dominio dos francezes, e até contrahindo-se
-casamentos entre ellas.
-
-Gostam tanto de vinho a ponto de ser considerada a embriaguez por elles,
-e até mesmo pelas mulheres, como uma grande honra.
-
-São impudicos extraordinariamente, mais as raparigas do que qualquer
-outros inventores de noticias falsas, mentirosos, levianos e
-inconstantes, vicios mui communs a todos os incredulos, e por ultimo são
-extremamente preguiçosos a ponto de não quererem trabalhar, embora vivam
-na miseria, antes do que na opulencia por meio do trabalho.
-
-Se elles quizessem, não era necessario muito cansaço para terem em poucas
-horas muita carne e peixe.
-
-O que acabo de dizer, refere-se especialmente aos _Tupinambás_, porque
-as outras nações, como sejam os _Tabajares_, _Cabellos-compridos_,
-_Tremembés_, _Canibaes_, _Pacajares_, _Camarapins_, e _Pinarienses_, e
-outros trabalham muito para viver, ajuntar generos, ter boa casa, e todas
-as commodidades.
-
-Vou dar-vos um exemplo bem notavel da preguiça dos nossos _Tupinambás_.
-
-Obtendo alguns Francezes do Forte licença para irem passear ás aldeias,
-foram á do chefe _Vsaap_.
-
-Na entrada da primeira choupana encontraram um grande fumeiro cheio de
-caça, e ao lado d’elle um indio, dono da casa, deitado n’uma rede de
-algodão, que gemia muito como se estivesse bastante doente.
-
-Os nossos Francezes alegres e promptos á festejarem esta mesa tão bem
-preparada, lhe perguntaram com brandura e carinho _Dê omano Chetuasap_,
-«está doente meo compadre?» Sim, respondeo elle. Que tendes, replicaram
-os Francezes, quem vos fez mal? Minha mulher, disse elle. Foi para roça
-desde pela manhã, e eu ainda não comi. A farinha e a carne está tão perto
-de vós, porque não vos levantaes, para comer, disseram os francezes? Sou
-preguiçoso, não sei levantar-me. Quereis, tornaram os francezes, que vos
-levemos a farinha e a carne, e comeremos comvosco? Quero, respondeo elle
-logo.
-
-Começaram todos a aliviar o fumeiro, pozeram tudo diante d’elle, e
-assentando-se em roda, como é de costume, excitaram-lhe o apetite pela
-boa vontade que mostravam, e o trabalho, que elles tiveram de tirar
-a comida de cima do fumeiro, em distancia de tres pés, foi o unico
-pagamento de tal companhia na mesa.
-
-Apesar de suas perversas inclinações, elles tem outras muito boas,
-louvaveis e virtuosas.
-
-Vivem pacificamente com os outros, dividem com elles o resultado de sua
-pescaria, caçada e lavoura, e não comem ás escondidas.
-
-Um dia na aldeia de Januaran só tinham farinha para comer. Appareceu um
-rapaz trazendo uma perdiz morta ha pouco; sua mãe depennou-a ao fogo,
-cozinhou-a, deitou-a n’um pilão, reduzio-a á pó, e juntando-lhe folhas
-de mandioca, cujo gosto é similhante ao da chicoria selvagem, fez ferver
-tudo, e depois de bem picado ou cortado em pedacinhos, d’esta mistura
-fez pequenos bolos, do tamanho de uma balla, e mandou distribuil-os pela
-aldeia, um para cada choupana.
-
-Vi ainda uma coisa mais admiravel, embora comesinha, e sem consequencia.
-
-Appareceram em minha casa muitos selvagens esfaimados, vindos da
-pescaria, onde somente apanharam um carangueijo, que assaram sobre
-carvões, e pedindo-me farinha, o comeram todos, fazendo roda, cada um o
-seo pedacinho: eram doze ou treze.
-
-Bem podeis imaginar o que tocaria a cada um, sendo o carangueijo do
-tamanho de um ovo de galinha.
-
-É muito grande a liberalidade entre elles, e desconhecida a avaresa.
-
-Si algum delles tiver desejos de possuir uma coisa, que pertença a outro,
-elle o diz francamente, e é preciso que o objecto seja muito estimado
-para não ser dado logo, embora o que a pedio fique na obrigação de dar ao
-outro tambem o que elle desejar.
-
-Tornam-se mais liberaes para com os estrangeiros do que para com seos
-patricios.
-
-Ficam reduzidos á pobresa comtanto que bem hospedem os estrangeiros, que
-vão visital-os, julgando-se bem recompensados com a fama de liberaes,
-espalhada pelos que não são de sua terra, e julgam chegar ella até aos
-paizes estrangeiros, onde serão tidos por grandes e ricos.
-
-Com taes ideias muitas vezes vão fazer visitas a cem, duzentas e
-tresentas legoas afim de serem apreciados por suas liberalidades.
-
-Nunca roubam uns aos outros; o que possuem está á vista, pendurado nas
-vigas e barrotes de suas casas.
-
-É bem verdade, que dentro da Ilha actualmente, em Tapuytapera, e Cumã,
-elles tem cofres, que lhes deram os Francezes, onde guardam o que tem de
-melhor, e, ou excitados por isto, ou pelo exemplo dos Francezes, muitos
-d’elles ja aprenderam a arte de furtar.
-
-Elles chamam furtar—_Mondá_, ao ladrão _Mondaron_, e este nome é entre
-elles grande injuria a ponto de mudarem de côr quando o pronunciam:
-chamar uma mulher ladra, é duas vezes prostituta, com o nome de
-_Menondere_ para differençar de prostituta simples—_Patakuere_, é aquelle
-primeiro epitheto o mais afrontoso, que se lhe pode dizer.
-
-Tomareis uma boa vingança chamando-os ladrões, quando elles vos atirarem
-ao rosto um bem claro, e expressivo _Giriragoy_, que quer dizer
-_mentiste_, sem exceptuar pessoa alguma, e por isto bem podeis avaliar
-quanto este vicio é detestado por elles, pois não podem tolerar a injuria.
-
-Guardam reciproca equidade, não se enganam nem se illudem: si um
-offende a outro, segue-se logo a pena de _Talião_: são mui tolerantes,
-respeitam-se reciprocamente, especialmente os velhos.
-
-São muito soffredores em suas miserias e fome chegando até a comer
-terra,[37] ao que acostumam seos filhos, o que vi muitas vezes.
-
-Vi muitos meninos tendo nas mãos uma bolla de terra, que ha em sua aldeia
-como _terra siggilada_, a qual apreciam e comem como fazem as crianças,
-em França com as maçans, as pêras, e outros fructos que se lhes dá.
-
-Não se esmeram no preparo da comida, como nós, por que ou a cozinham ao
-fogo, ou a fazem ferver n’uma panella sem sal, ou assam-n’a no fumeiro.
-
-
-
-
-CAPITULO XXI
-
-Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada
-inviolavelmente pela mocidade.
-
-
-O que mais me impressionou e admirou durante os dois annos, que estive
-entre os selvagens, foi a ordem e respeito observado inviolavelmente
-pelos moços para com os seos parentes mais velhos, ou entre elles,
-fazendo cada um o que permitte a sua idade sem cuidar do que se acha no
-mais alto ou no menor grau.
-
-Ninguem deixará de admirar-se commigo vendo a naturesa somente ter
-n’estes barbaros o poder de fazel-os guardar o respeito, que os meninos
-devem a seos maiores, e fazer conter a estes no que é exigido pela
-diversidade das idades.
-
-Quem não se hade admirar vendo a naturesa somente ter mais força para
-fazer observar estas coisas, do que a Lei e a graça de Jesus-Christo
-sobre os Christãos, entre os quaes raras vezes se contem a mocidade nos
-seos deveres, apesar de todos os bons ensinos, mestres e pedagogos,
-apparecendo sempre confusão e grande presumpção.
-
-Muito praser terei si o caso seguinte nos der algum remedio.
-
-Distinguem os selvagens suas idades por certos graus, e cada grau tem no
-frontespicio de sua entrada, seu nome proprio, que ensina ao que pretende
-entrar em seo palacio os seos jardins e alamedas, a sua occupação, e isto
-por enigmas, como eram outr’ora os Hierogliphos dos Egypcios.
-
-O primeiro grau é destinado as crianças do sexo masculino e legitimos
-e dão-lhe em sua lingua o nome de _Peitan_, isto é, «menino sahindo do
-ventre de sua mãe.»
-
-Á este primeiro grau da idade do menino é inteiramente cheio de
-ignorancia, de fraqueza e de lagrimas, base de todos os outros graus.
-
-A natureza, boa mãe d’estes selvagens, quiz que o menino sahindo do
-ventre de sua mãe, se achasse em estado de receber em si as primeiras
-sementes do natural commum d’estes selvagens, porque não é afagado,
-pensado, aquecido, bem nutrido, bem tratado, nem confiado aos cuidados
-de alguma ama, e sim apenas lavado em algum riacho ou n’alguma vasilha
-com agua, deitado n’uma redezinha de algodão, com todos os seos membros
-em plena liberdade, nus inteiramente, tendo por unico alimento o leite
-de sua mãe, e grãos de milho assados, mastigados por ella até ficarem
-reduzidos á farinha, amassados com saliva em forma de caldo, e postos em
-sua boquinha como costumam a fazer os passaros com a sua prole, isto é,
-passando de bocca para bocca.
-
-É bem verdade, que quando o menino é um pouco forte, por conhecimento
-e inclinação natural, ri-se, brinca e salta, nos braços de sua mãe,
-pensando estar mastigando sua comida, levando seo bracinho á bocca
-d’ella, recebendo no concavo de sua mãosinha este repasto natural, que
-leva á bocca e come: quando se sente farto, bota fóra o resto, e virando
-a cara, e batendo com as mãos na bocca da mãe, lhe dá a entender que não
-quer mais.
-
-Obedece a mãe promptamente não forçando seo apetite e nem lhe dando
-occasião de chorar.
-
-Si o menino tem sêde, por gestos sabe pedir o peito de sua mãe.
-
-Em tão tenra idade mostram o respeito e o dever, que a natureza lhes dá,
-porque não são gritadores, comtanto que vejam suas mães, e ficam no lugar
-onde os deixam.
-
-Quando vão trabalhar nas roças ellas as assentam nuasinhas na areia ou na
-terra, onde ficam caladinhas, ainda que o ardor do sol lhes dê no rosto
-ou no corpo.
-
-Qual seria de nós, que hoje poderia viver soffrendo na primeira idade
-tantos encommodos?
-
-Esperam os nossos paes a retribuição e dever, que principiamos a
-pagar-lhes desde a primeira idade, si não estão cegos pelo amor que nos
-tem; o mesmo devem esperar nas outras idades, sendo mais reconhecidos os
-nossos deveres para com elles, custe o que custar-nos.
-
-Começa a segunda idade, quando o menino anima-se a andar sosinho, e
-apezar de haver alguma confusão da-se-lhe o mesmo nome.
-
-Observei differença na maneira de criar os meninos, que não sabem andar,
-e os que se esforçam para o fazer, o que nos leva a formar outra classe,
-e dar-lhe nome proprio: chama-se _Kunumy-miry_, «rapazinho»[38] e abrange
-até 7 a 8 annos.
-
-Durante este tempo não se separam de suas mães, e nem acompanham seos
-Paes, e o que é mais, deixam-nos mamar até que por si mesmo aborreçam o
-peito, habituando-se pouco a pouco ás comidas grosseiras como os grandes
-e adultos.
-
-Dão lhes pequenos arcos e flexas proporcionaes ás suas forças,
-reunindo-se uns aos outros plantam e juntam algumas cabaças, nas quaes
-fazem alvo para o tiro das suas flechas adextrando assim bem cêdo seos
-braços.
-
-Não açoitam, e nem castigam seos filhos, que obedecem a seos paes e
-respeitam os mais velhos.
-
-È muito agradavel esta idade dos meninos, e n’ella podereis descobrir a
-differença existente entre nós pela naturesa e pela graça: sem fazer
-comparação, acho-os mimosos, doceis e affaveis como os meninos francezes,
-não esquecendo antes tornando bem saliente a graça do Espirito Santo
-concedida pelo baptismo aos filhos dos Christãos.
-
-Si acontece morrerem os meninos n’esta idade, tem os paes pesar profundo,
-e sempre se recordam d’elles, especialmente nas cerimonias de lagrimas e
-lamentações, recordações que fazem uns aos outros, lastimando esta perda
-e a morte dos seos filhinhos, dando-lhes o nome de _Ykunumirmee-seon_ «o
-menino morto na infancia.»
-
-Vi mães, quase loucas, no meio de suas roças, ou nas matas sosinhas, em
-pé ou agachadas, chorando amargamente, e quando lhes perguntava para que
-faziam isto, respondiam-me «Oh! recordo-me da morte de meos filhinhos,
-_Ché Kunumirmee-seon_, ainda na infancia» e depois continuavam a chorar e
-muito.
-
-È na verdade mui natural o ter pesar da perda e morte d’estes meninos,
-que ja haviam custado tantos trabalhos á seos paes, e que estavam na
-edade de dar-lhes alguma alegria.
-
-Acha-se a terceira classe entre estas duas primeiras—infancia e puericia,
-e as da adolescencia e virilidade, entre os 8 a 15 annos, a que chamamos
-mocidade: appellidam-nos os selvagens simplesmente por _Kunumy_ sendo a
-infancia chamada _Kunumy-miry_, e a adolescencia _Kunumy-uaçu_.
-
-Estes _Kunumys_, ou rapazes, na idade do 8 a 15 annos, não ficam mais
-em casa e nem ao redor de sua mãe, e sim acompanham seos paes, tomam
-parte no trabalho d’elles imitando o que vêem fazer: empregam-se em
-buscar comida para a familia, vão as matas caçar aves, e ao mar flechar
-peixes e admira vêr a industria com que flecham as vezes tres a tres
-peixes juntos, ou agarram em linha feita de _tucu_ ou em _pussars_,
-especie de rêde de pescar, que enchem de ostras e outros mariscos, e
-levam para casa. Não se lhes manda fazer isto, porem elles o fazem por
-instincto proprio, como dever de sua idade, e já feito tambem por seos
-antepassados.
-
-Este trabalho e exercicio mais agradavel do que penoso, e proporcional a
-sua idade, os isenta de muitos vicios, aos quaes a naturesa corrompida
-costuma a prestar attenção, e a ter predilecção por elles.
-
-Eis a razão porque se facilita á mocidade diversos exercicios liberaes
-e mecanicos, para distrahil-a e desvial-a da má inclinação de cada um,
-reforçada pelo ocio mormente n’aquella idade.
-
-A quarta classe é para os que os selvagens chamam _Kunumy-uaçú_,
-«mancebos»: abrange a idade de 15 a 25 annos, por nós chamada
-«adolescencia.»
-
-Tem outro modo de vida, entregam-se com todo o esforço ao trabalho,
-acostumam se a remar, e por isso são escolhidos para tripularem as canôas
-quando vão á guerra.
-
-Applicam-se especialmente a fazer flexas para a guerra, a caçarem com
-cães, a flechar e arpoar peixes grandes, não usam ainda de _Karacóbes_,
-isto é, de um pedaço de pano atado na frente para encobrir suas
-vergonhas, como fazem os homens casados, e sim de uma folha de Palmeira.
-
-Tem o poder de dividir o que possuem com os mais velhos, reunidos na
-_Casa-grande_, onde conversam, e servem tambem os mais velhos.
-
-É n’este tempo, diga-se a verdade, que elles mais ajudam a seos paes e
-mães, trabalhando, pescando e caçando, antes de se casarem, e portanto
-sem obrigação de sustentarem mulher: eis porque sentem muito seos paes
-quando elles morrem n’esta idade, dando-lhes em signal de sua dor o nome
-de _Ykunumy-uaçú-remee-seon_, que quer dizer «o mancebo morto» ou «o
-mancebo morto na sua adolescencia.»
-
-Abrange a quinta classe desde 25 até 40 annos, e se chama _Aua_ o
-individuo n’ella comprehendido, vocabulo aplicado a todas as idades,
-assim como usamos com o nome _homem_.
-
-Apesar d’isto ser privativo d’esta idade, assim como o homem é pelos
-Latinos chamado _vir_, _á virtude_, e em Francez idade viril, de
-virilidade, quer dizer—a força, que no homem chegou a seu termo: n’esta
-mesma lingua de selvagens a palavra _Aua_, de que procede _Auaté_, quer
-dizer «forte, robusto, valente, audacioso», para significar a 5ª idade
-dos seos filhos.
-
-N’essa occasião como guerreiros são bons para combater, nunca porem para
-commandar: buscam casar-se, o que não é difficil por consistir o enxoval
-da noiva apenas de algumas cabaças, que lhes dá sua mãe para principiar
-sua casa, vestidos, e roupas, ao contrario em nosso paiz as mães fornecem
-enfeites e pedras brancas a suas filhas.
-
-Os paes dão por dote aos maridos de suas filhas 30 ou 40 toros de pau de
-tamanho proprio a poderem ser levados á casa do noivo, os quaes servem
-para com elles se accender o _fogo das bodas_: o individuo casado de novo
-não se chama _Aua_, e sim _Mendar-amo_.
-
-Embora sejam casados o homem e a mulher não ficam livres da obrigação
-natural de proteger seos paes e ajudal-os a fazer suas roças.
-
-Soube d’isto em minha casa, vendo a filha de _Japy-açú_, baptisada e
-casada á face da Igreja, dizer a um outro selvagem, seo marido, tambem
-christão, quando pretendia ir a _Tapuitapera_ ajudar o Rvd. Padre Arsenio
-no baptismo de muitos selvagens, «Onde queres ir? Tu bem sabes que ainda
-não se fizeram as roças de meo Pae, e que ha falta de mantimentos: não
-sabes, que si elle me deo a ti foi com a obrigação de o auxiliares na
-velhice? Si queres abandonal-o então volto para a casa d’elle.»
-
-Advertiram-na á respeito d’estas ultimas palavras, fazendo-a reconhecer
-o juramento que dera, de nunca abandonal-o ou separar-se d’elle,
-louvando-se comtudo muito os outros sentimentos, que manifestou á favor
-de seo Pae, e praza a Deos que todos os christãos a imitassem dando
-verdadeira intelligencia a estas palavras formaes do casamento que o
-homem e a mulher deixaram seos paes para viverem juntos—porque de outra
-fórma seria Deus authorisar a ingratidão dos filhos casados sob pretexto
-de terem filhos, ou poder tel-os e precisar cuidar do seo sustento,
-quando ao contrario Deos condemna, como reprobo, o que abandona seos
-paes, sem os quaes, não fallando na vontade de Deos, não viriam ao mundo
-nem elles, e nem seos filhos, embora por essas palavras mostre a grande
-união, que pelo casamento se faz entre o corpo e o espiríto dos casados.
-
-Comprehende a 6ª classe os annos de 40 até a morte: é a mais honrosa de
-todas, e cercada de respeito e veneração, os soldados valentes, e os
-capitães prudentes.
-
-Assim como o mez dá a colheita dos trabalhos e a recompensa da paciencia,
-com que o lavrador supportou o inverno e a primavera, lavrando com a sua
-charrua o campo em todos os sentidos, sem ser ajudado pela terra, assim
-tambem quando chega a estação da velhice são honrados pelos que tem menos
-idade.
-
-O que occupa esta classe chama-se _Thuyuae_, quer dizer, «ancião ou
-velho.»
-
-Não póde, como os outros, ser assiduo ao trabalho: trabalha quando
-quer, e bem a sua vontade, mais para exemplo da mocidade, respeitando
-tradicções da sua Nação, do que por necessidade: é ouvido com todo o
-silencio na _casa-grande_, falla grave e pausadamente usando de gestos,
-que bem explicam o que elle quer dizer e o sentimento, com que falla.
-
-Todos lhe respondem com brandura e respeito, e ouvem-nos os mancebos
-com attenção: quando vae a festa das _Cauinagens_ é o primeiro, que
-se assenta e é servido; entre as moças, que distribuem o vinho pelos
-convidados, as de mais consideração o servem, e são as parentas mais
-proximas do que fez o convite.
-
-No meio das danças entoam os cantos; dam-lhe a nota, principiam pela mais
-baixa até a mais grave, crescendo gradualmente até chegar á força da
-nossa musica.
-
-Suas mulheres cuidam n’elles, lavam-lhes os pés, apromptam e trazem-lhe a
-comida, e se ha alguma difficuldade na carne, no peixe ou nos mariscos,
-ellas a tiram, accommodando-a ás suas forças.
-
-Quando morrem alguns d’elles os velhos lhe prestam honras, e o choram
-como as mulheres, e lhe dam o nome de _thuy-uae-pee-seon_: quando
-morrem na guerra, chamam-no _marate-kuepee-seon_, «velho morto no meio
-das armas», o que ennobrece tanto seos filhos e parentes, como entre
-nós qualquer velho Coronel, que occupou sua vida inteira no serviço do
-exercito pelo Rei e pela Patria, e que por corôa de gloria morreo com as
-armas na mão, com a frente para os inimigos, no meio de renhido combate,
-coisa nunca esquecida por seos filhos antes considerada como grande
-herança, e de que se aproveitam apresentando-os ao Principe como bons
-serviços de seo Pae, e pedindo por elles uma recompensa.
-
-Não fazendo estes selvagens caso algum de recompensas humanas, porem
-empenhando todas as suas forças para conseguirem essas honras, provam
-com isto o quanto apreciam não só os actos de heroismo de seos paes, mas
-tambem a serem estimados por causa d’elles.
-
-Os que morrem nos seos leitos não deixam de ser honrados, conforme o seo
-merito, e chamam-no _theon-suyee-seon_, «o bom velho que morreo na cama».
-
-Por isto podeis avaliar como a naturesa por si só nos ensina a respeitar,
-a ajudar, e a soccorrer os velhos e anciões e á refrear com violencia
-a temeridade e presumpção dos moços, que sem prevêrem o futuro, não se
-recordam de que na sua velhice, se lhes fará justamente o que elles,
-quando jovens, fizeram aos mais velhos, dando esse exemplo á seos filhos,
-e ensinando-os a serem ingratos.
-
-
-
-
-CAPITULO XXII
-
-A mesma ordem e respeito é observada entre as raparigas e as mulheres.
-
-
-Encontram-se n’estes selvagens vestigios da naturesa, como as pedras
-preciosas se acham nas encostas das montanhas.
-
-Seria um louco o que quizesse encontrar em seos jazigos os diamantes tão
-claros e brilhantes, como quanto lapidados e engastados n’um anel.
-
-Provem esta differença de se acharem tão ricas pedras cubertas de jaça
-sem mostrar o seo valor de tal sorte, que muitos passam e tornam a passar
-por cima d’ellas sem levantal-as visto não as conhecerem.
-
-Acontece a mesma coisa na conversação d’estes pobres selvagens: muitos
-ignoram e ignorarão ainda o que tenho narrado e narrarei, e embora tenham
-conversado com elles por muito tempo, por falta de conhecimento ou de
-observação da boa conducta natural d’estas pessoas fóra da graça de Deos,
-passaram por ellas, á similhança das pedras preciosas, sem tirar o menor
-proveito, e olhando-as com indifferença.
-
-A mesma ordem de classes de idade tenho observado entre as raparigas e as
-mulheres, como entre os homens.
-
-A primeira classe é commum á ambos os sexos, cujos individuos, sahindo
-immediatamente do ventre de suas mães, se chama _Peitan_, como já
-dissemos no art. antecedente.
-
-A segunda classe estabelece distinção de idade, de sexo, e de dever:
-d’idade de moça para moça, de sexo de moça para rapaz, e de dever de mais
-moça para mais velha.
-
-Comprehende esta classe os sete primeiros annos, e a rapariga d’esse
-tempo se chama _kugnantin-myri_, quer dizer _rapariguinha_.
-
-Reside com sua mãe, mama mais um anno do que os rapazes, e vi meninas com
-seis annos d’idade ainda mamando, embora comam bem, fallem, e corram como
-as outras.
-
-Em quanto os rapazes d’esta idade carregam arcos e flexas, as raparigas
-se empregam em ajudar suas mães, fiando algodão como podem, e fazendo uma
-especie de redesinha como costumam por brinquedo, e amassando o barro com
-que imitam as mais habeis no fabrico de potes e panellas.
-
-Expliquemos o amor, que o pae e a mãe dedicam a seos filhos e filhas.
-
-Pae e mãe consagram todo o seo amor aos filhos, e ás raparigas apenas
-accidentalmente, e n’isto acho-lhes razão natural, nossa luz commum,
-a qual nos torna mais affeiçoados aos filhos do que ás filhas, porque
-aquelles conservam o tronco e estas o despedaçam.
-
-Abrangem a terceira classe desde 7 até 15 annos, e a moça n’esta idade se
-chama _kugnantin_, «rapariga»: n’este tempo ordinariamente perdem, por
-suas loucas phantasias, o que este sexo tem de mais charo, e sem o que
-não podem ser estimadas nem diante de Deos, nem dos homens; perdoem-me
-se digo, que n’esta idade não são prudentes, embora a honra e a lei
-de Deos as convidasse á immortalidade da candura, porque estas pobres
-raparigas selvagens pensam, e muito mal, aconselhadas pelo autor de todas
-as desgraças, que não devem ser mais puras quando chega esse tempo. Nada
-mais direi para não offender o leitor: basta tocar apenas o fio do meo
-discurso.
-
-N’essa idade aprendem todos os deveres de uma mulher: fiam algodão,
-tecem redes, trabalham em embiras, semeam e plantão nas roças, fabricam
-farinha, fazem vinhos, preparam a comida, guardam completo silencio
-quando se acham em quaesquer reuniões onde ha homens, e em geral fallam
-pouco se não estão com outras da mesma idade.
-
-A quarta classe está entre 15 a 25 annos, e a rapariga n’ella
-comprehendida chama-se _kugnammucu_, «moça ou mulher completa», o que nós
-dizemos por «moça boa para casar.»
-
-Passaremos em silencio o abuso, que se pratica n’estes annos, devido aos
-enganos de sua Nação, reputados como lei por elles.
-
-São ellas, que cuidam da casa alliviando suas mães, e tratando das
-coisas necessarias á vida da familia: cedo são pedidas em casamento,
-si seos paes não as destinam para algum francez afim de terem muitos
-generos, e no caso contrario são concedidas, e então se chamam
-_kugnammucu-poare_,[39] «mulher casada, ou no vigor da idade.»
-
-D’ahi em diante acompanha seo marido carregando na cabeça e ás costas
-todos os utencilios necessarios ao preparo da comida, as vezes a propria
-comida, ou os viveres necessarios á jornada, como fazem os burros de
-carga com a bagagem e alimentação dos seos senhores.
-
-É occasião de dizer, que ambiciosos como os grandes da Europa, que
-desejam ostentar sua grandesa apresentando grande numero de burros, estes
-selvagens tambem desejam ter muitas mulheres para acompanhal-os, e levar
-suas bagagens, mormente havendo entre elles o costume de serem estimados
-e apreciados pelo grande numero de mulheres á seo cargo.
-
-Quando grávidas, após o casamento, são chamadas _puruabore_, «mulher
-prenhe», e apezar d’este estado não deixam de trabalhar até á hora
-do parto, como si nada tivessem. Apresentam grande volume, porque
-ordinariamente parem meninos grandes e corpolentos.
-
-Talvez se pense que n’este estado cuidam ellas em cobrir sua nudez, porem
-não soffrem a menor alteração o seo modo de viver.
-
-Chegado o tempo do parto, si assim se póde chamar, não procura para
-esse fim a cama, si as dores não são fortes: em qualquer dos casos
-senta-se, é rodeada por suas visinhas convidadas para assistil-as,
-pouco antes do apparecimento das dores, por meio d’estas palavras
-_chemenbuirare-kuritim_ «eu vou já partir, ou estou quase a parir»: corre
-veloz o boato de casa em casa, que tal e tal mulher vae parir, dizendo
-com o nome proprio da parturiente estas palavras _ymen-buirare_, que
-significa «tal mulher pario, ou está para parir.»
-
-Acha-se ahi o marido com as visinhas, e si ha demora no parto, elle
-aperta-lhe o ventre para fazer sahir o menino, o que acontecido, deita-se
-para observar o resguardo em lugar de sua mulher,[40] a qual continua a
-fazer o serviço do costume, e então é vesitado em sua cama por todas as
-mulheres da aldeia, que lhe dirigem palavras cheias de consolação pelo
-trabalho e dôr, que teve de fazer o menino, sendo tratado como gravemente
-doente e muito cançado, á maneira do que se pratica em identicas
-circumstancias com as mulheres de paizes civilisados.
-
-Comprehende a quinta classe desde 25 até 40 annos, quando o homem e a
-mulher attingem ao seo maior vigor.
-
-Dam-lhe geral e commummente o nome de _kugnan_, «uma mulher, ou uma
-mulher em todo o seo vigor».
-
-N’essa idade conservam ainda as indias alguns traços de sua mocidade, e
-principiam a declinar sensivelmente, sendo feias e porcas, trazendo as
-mamas pendentes á similhança dos cães de caça, o que causa horror: quando
-jovens, são bonitas e asseiadas, e tem os peitos em pé.
-
-Não quero demorar-me muito n’esta materia, e concluo dizendo, que a
-recompensa dada n’este mundo á puresa é a incorruptibilidade e inteiresa
-acompanhada de bom cheiro, mui bem representada nas letras santas pela
-flôr do lyrio puro, inteiro e cheiroso—_sicut lilium inter spinas, sic
-amia mea inter filias_.
-
-A sexta e ultima classe está entre os 40 annos e o resto da vida, e então
-a mulher se chama _Uainuy_: n’este tempo ainda parem.
-
-Gosam do privilegio da mãe de familia: presidem ao fabrico dos _cauins_,
-e de todas as outras bebidas fermentadas.
-
-Occupam lugar distincto na _casa-grande_ quando ahi vão as mulheres
-conversar, e quando ainda se achava em pleno vigor o poder de comerem
-os escravos, eram ellas as incumbidas de assar bem o corpo d’elles, de
-guardar a gordura, que não queriam, para fazer o _mingau_, de cozinhar
-as tripas, e outros intestinos em grandes panellas de barro, de n’ellas
-misturar farinha e couves, e dividil-as depois por escudellas de pau, que
-mandavam distribuir pelas raparigas.
-
-Dam principio ás lagrymas e lamentos pelos defunctos, ou pela boa chegada
-de suas amigas.
-
-Ensinam ás moças o que aprenderam.
-
-Usam de más palavras, e são mais descaradas do que as raparigas e as
-moças, e nem me atrevo a dizer o que ellas são, o que vi e observei,
-sendo tambem verdade que vi e conheci muitas boas, honestas e caridosas.
-
-Existiam no _Forte de São Luiz_ duas boas mulheres _Tabajares_, que não
-se cansavam de trazer-me presentesinhos, e quando me os offereciam,
-sempre choravam e desculpavam-se de não poderem dar melhores.
-
-Não espero muito d’estas velhas: e o superior nada tem a fazer senão
-esperar que a morte o livre d’ellas: quando morrem não são muito choradas
-e nem lamentadas, porque os selvagens gostam muito de ter mulheres moças.
-
-Os selvagens creem supersticiosamente terem as mulheres, depois de
-mortas, muita difficuldade de deparar com o lugar onde, alem das
-montanhas, dançam seos ante-passados, e que muitas ficam pelos caminhos,
-se é que lá chegam.
-
-Não guardam asseio algum quando atingem a idade da decrepitude, e entre
-os velhos e velhas nota-se a differença de serem os velhos veneraveis e
-apresentarem gravidade e autoridade, e as velhas encolhidas e enrugadas
-como pergaminho exposto ao fogo: com tudo isto são respeitadas por seos
-maridos e filhos, especialmente pelas moças e meninas.
-
-
-
-
-CAPITULO XXIII
-
-Da consaguinidade entre os selvagens.
-
-
-Como entre nós, a consaguinidade entre estes barbaros tem muitos graus
-e ramos, e se observa entre todas as familias com tanto cuidado como
-fazemos, excepto porem a castimonia, que tem alguns embaraços entre
-elles, menos no primeiro grau—de pae para filha.
-
-Entre os irmãos e irmans não ha casamentos, mas duvido, e não sem razão,
-da regularidade da vida d’elles, e nem isto merece ser escripto.
-
-Bróta o primeiro ramo do tronco de seos avós, que elles chamam
-_Tamoin_,[41] e debaixo desta denominação comprehendem todos os seos
-ante-passados desde Nóe até o ultimo dos seos avós, e admira como se
-lembram e contam de avô em avô, seos ante-passados, o que difficilmente
-fazemos na Europa podendo remontar-nos, sem esquecer-nos, até o tataravô.
-
-O segundo ramo nasce e cresce do primeiro e chama-se _Tuue_, «pae», e é o
-que os gera em legitimo casamento, como acontece entre nós, porque para
-os bastardos ha outra Lei, de que fallarei em lugar proprio.
-
-Este ramo paterno dá outro, que se chama _Taire_, «filho», o qual se
-córta e divide-se em diversos galhos, a que chamam _chéircure_, «meo
-irmão mais velho», um dia—a cumieira da casa e da familia, e _chéubuire_,
-«meo irmãosinho», que só cuidará da casa, si fallecer seo irmão mais
-velho.
-
-Tendo filhos um destes irmãos, qualquer que seja o sexo, deve chamar o
-irmão de seo pae _chétuteure_, «meo tio» e sua mulher _chéaché_, «minha
-tia». Da mesma forma si seo pae tiver irmans elle as chama _chéaché_,
-«minha tia», como tambem os maridos d’estas _chétuteure_, «meo tio».
-
-Os tios e tias chamam os meninos de seos irmãos e irmans _chéyeure_ «meo
-sobrinho», e as meninas _reindeure_ ou _chereindeure_, «minha sobrinha».
-
-Os filhos de dois irmãos, isto é, de um irmão e os de outra irman se
-chamam os homens _rieure_ ou _cherieure_, «meo primo», e as moças
-_yeipere_ ou _cheitipere_ «minha prima.»
-
-Quanto á descendencia do lado das mulheres, a avó é o tronco, seja
-paterna ou materna, e chama-se _ariy_ ou _cheariy_, «minha avó.»
-
-A mãe é o segundo ramo, e chama-se _Ai_, «mãe», ou _cheai_, «minha mãe».
-
-Seguem-se gradualmente a filha, cujo nome é _tagyre_, filha, ou
-_cheagyre_, «minha filha», a irman _teindure_, «irman», ou _chéreindure_,
-«minha irman», a tia _yaché_, «tia», ou _chéaché_, «minha tia», a
-sobrinha _reindure_ ou _chereindure_, «minha sobrinha», ou «minha pequena
-irman», modo de fallar entre elles, a prima _yetipere_, «prima», ou
-_cheytipere_, «minha prima.»
-
-Eis os ramos de consaguinidade entre elles.
-
-Para os homens.
-
- Avô.
- Pae.
- Filho.
- Irmão.
- Tio.
- Sobrinho.
- Primo.
-
-Traduzido em sua lingua é
-
- _Chéramoin_ ou _tamoin_.
- _Tuue_ ou _chéru_.
- _Tayre_ ou _chéayre_.
- _Cheircure_ ou _chéubuire_.
- _Tuteure_ ou _chétuteure_.
- _Yeure_ ou _chéyeure_.
- _Rieure_ ou _chérieure_.
-
-Para as mulheres.
-
- Avó.
- Mãe.
- Filha.
- Irman.
- Tia.
- Sobrinha.
- Prima.
-
-Em sua linguagem.
-
- _Ariy_ ou _Ché-Ariy_.
- _Ai_ ou _Chéai_.
- _Tagyre_ ou _Chéagyre_.
- _Theindeure_ ou _Chéreindeure_.
- _Yaché_ ou _Chéaché_.
- _Reindure_ ou _Chéreindure_.
- _Yetipere_ ou _Ché-yetipere_.
-
-Alem d’estas consaguinidades existem mais duas por contractos de
-alliança; uma quando se dá sua filha á um individuo, ou quando se recebe
-uma moça para casar-se com seu filho, e outra quando, por contracto
-d’alliança com os francezes, lhes dam suas filhas para concubinas.
-
-Aos que dam suas filhas chamam _taiuuen_ «genro», ou _Chéraiuuen_, «meo
-genro».
-
-Á mulher de seo filho chamam _Tautateu_, «nóra», ou _Cherautateu_, «minha
-nora».
-
-Chamam os Francezes seos alliados por hospitalidade _Tuasap_, «compadre»
-ou _ché-tuasap_, «meo compadre» e as vezes _Chéaire_, «meo filho,» ou
-_Cheraiuuen_, «meu genro,» quando sua filha é concubina do Francez.
-
-É este o ramo d’alliança.
-
- Genro.
- Nóra.
- Compadre.
-
-Em sua linguagem é
-
- _Taiuuen_, ou _Ché-raiuuen_.
- _Tautateu_ ou _Cherautateu_.
- _Tuassap_ ou _Chetuassap_, ou então _Ché-aire_.
-
-São bastardos os filhos, que tem fóra do casamento legitimo á moda
-d’elles, e entre estes bastardos ha ainda certa ordem.
-
-A primeira é dos que tem pae e mãe, ambos Tupinambás: a segunda dos que
-tem por mãe uma india Tupinambá e por pae um Francez: a terceira dos
-filhos de um Tupinambá e de uma escrava: a quarta de uma Tupinambá e de
-um escravo: a quinta finalmente de uma escrava e de um Francez.
-
-A linha dos bastardos é a seguinte:
-
- De um Tupinambá com uma Tupinambá.
- De uma india Tupinambá com um Francez.
- De um Tupinambá com uma escrava.
- De uma india Tupinambá e um escravo.
- De uma escrava e de um Francez.
-
-Em sua linguagem chamam estes bastardos _Marap_, ou _Ché-marap_, e aos
-bastardos dos Francezes _Mulatres_, «mulatos.»
-
-São diversas as leis d’estes bastardos conforme sua descendencia, e antes
-de tratar d’ellas convem estabelecer a regra geral para com os bastardos,
-que é quando...
-
- (Falta uma folha.)
-
-... elles o chamam _Toreuue_, «folgasão,» _Cheroreuue_, «sou divertido,
-folgasão:» o que é agradavel e tem para dizer alguma coisa chama-se
-_aron-ayue_.
-
-Suas saudações, perguntas e respostas, quando juntas, são o mais amavel
-que é possivel, mormente quando as fazem com acento muito longo, brando,
-e insinuante, especialmente as mulheres e as moças, e como sei que será
-agradavel ao Leitor vou aqui transcrever algumas de suas frazes communs e
-ordinarias.[42]
-
-Quando se levantam pela manhã dizem
-
- Tyen-de-Koem. Bom dia.
- Nein Tyen-de-Koem Para vós tambem.
-
-A tarde, do regressar do trabalho, quando se despedem
-
- Tyen de Karuq. Boa tarde.
- Nein Tyen de Karuq. Para vós tambem.
-
-Quando chega a noite, e querem dormir, dizem reciprocamente.
-
- Tyen-de-potom. Boa noite.
- Nein-Tyen-de-petom. Para vós tambem.
-
-Se alguem se derige a elles, ou passa ao pé d’elles ou se encontra
-no caminho, muitas vezes pára um pouco, com expressão docil e rosto
-prasenteiro perguntam um ao outro:
-
- Mamo sui pereiu? D’onde vindes?
- Mamo peresso? Onde ides?
-
-Logo que respondem e dizem d’onde vem e para onde vão, podeis ficar
-certo que se trata de uma das coisas seguintes, constante emprego de sua
-vida e exercicio, isto é, da pescaria no mar, da entrada nos bosques, da
-derrubada das arvores, da visita de suas roças, da plantação de raizes,
-da colheita dos fructos, e dos nabos, da caçada, dos passeios por varios
-lugares, da visita das aldeias e das habitações de uns e outros.
-
-São estas as respostas d’elles.
-
- Paranam-sui-kaiut. Venho do mar.
- Pira-rekie-sui-kaiut. Venho de pescar.
- Kaa-sui-kaiut. Venho do matto.
- Ybuira monosoc, ou então ybuira mondoc. Venho de cortar matto.
- Ko-sui-kaiut. Venho da roça.
- Ko-piraruer-kaiut. Venho de roçar.
- Maetum aruere. Venho de cavar e de plantar.
- Vuapoo-aruere kaiut. Venho de colher fructos.
- Kaaue-aruere kaiut. Venho da caça.
- Mosu-aruere-kaiut. Venho de passeiar.
- Taaue-sui-kaiut. Venho de tal aldeia.
- Ahere-piac-sui-kaiut. Venho de ver tal pessoa.
- Chere-suiu então cheretansui. Venho de minha casa.
- Ne in cheaiurco. Adeos, vou-me embora.
- Ne in oro iurco. Adeos, vamo-nos embora.
-
-Quando vae algum visinho procural-os em sua casa, ou quando sentem falta
-de alguma coisa, procurando por ahi algures elles perguntam:
-
- Que procuraes? Maeperese-kar?
- Que perguntaes? Maraereico?
-
-Então dizem o que procuram, e respondem ás perguntas mui francamente; por
-exemplo:
-
- Quero comêr. Agerure deué-cheremyuran ressé.
- Quero farinha. Agerure uiressé.
- Quero carne. Agerure soo ressé.
- Quero peixe. Agerure pyra ressé.
- Quero agoa. Agerure v-ressé.
- Quero fogo. Agerure tata cheué.
- Quero uma faca. Agerure xè.
- Um machado. Iu.
-
-Se veem alguem pensativo, elles lhe perguntam o que ha e no que pensam.
-
- Que pensaes? Mara-péde-ie-mongueta.
-
-Elle responde:
-
- Não penso em coisa alguma. Ai Kogué.
- Penso em alguma coisa. Maerssé-kaien-arico.
- Penso em vós. Dressé kaien-arico.
-
-Si veem um conversando com outros, tem muita curiosidade de saber o que
-dizem, e por isso vão procural-os, e amigavelmente lhe perguntam:
-
- Que dizeis? ou então, em que { Mára-erepe? Mára-erepipo?
- conversavam? { Mara-peie-peiupé.
-
-Respondem elles:
-
- Fallavamos de nossas occupações. Ore-rei-koran koiomongueta.
- Fallavamos de vós. Deressé koia-mongueta.
-
-Assim passavam entre si a vida mui pacifica e familiarmente.
-
-
-
-
-CAPITULO XXV
-
-Dos caracteres incompativeis entre os selvagens.
-
-
-Costumava Socrates dizer, que assim como o vinho aspero e grosseiro é de
-digestão má e desagradavel ao paladar, assim tambem os caracteres rudes,
-grosseiros e impectuosos não servem para companheiros de uma conversação
-entre homens.
-
-Escreveo Plutarcho, que assim como o som aspero dos caldeirões e
-panellas quebradas encolerisam os tigres a ponto de fazel-os accommetter
-desesperadamente e saltar sobre os que vem fazer perto d’elles tão
-incommodo e desagradavel barulho, assim tambem fazem as más inclinações,
-ou os maus caracteres entre os homens.
-
-Aborrecem sobre todas as coisas o companheiro, que provoca e faz mal ao
-seo visinho, e chamam-no _Moiaron_, e quando se insultam por palavras,
-chamam-no então _Oroacap_.
-
-Quando encontram taes caracteres, fogem d’elles e evitam iguaes
-contestações, e ainda fazem mais, previnem os Francezes seos compadres,
-afim de que nada peçam á tal gente.
-
-Si por ventura teem mulheres com esse genio ficam muito contrariados,
-e não necessitam ser muito rogados afim de livrarem-se d’ellas, ou de
-consentir que vão para onde bem lhes parecer.
-
-Ha em _Juniparan_, na Ilha, um hermaphrodita, no exterior mais homem do
-que mulher, porque tem face e voz de mulher, cabellos finos, flexiveis, e
-compridos, e comtudo casou-se e teve filhos, mas tem um genio tão fórte
-que vive porque receiam os selvagens da aldeia trocar palavras com elle.
-
-Presenciei a mudança de uma familia inteira somente para evitar a
-visinhança de um selvagem de muito máo caracter.
-
-Escarnecem e despresam o homem, que se accommoda com as provocações e
-questões de sua mulher quando ella tem mau genio.
-
-Em quanto ahi morei, aconteceo aborrecer-se um selvagem do mau genio de
-sua mulher a ponto de empunhar com a mão direita um cacete, e na esquerda
-segurar nos cabellos d’ella querendo experimentar se este oleo e balsamo
-adoçaria o azedume de seo mal, porem admirou-se de vêr, que cahindo o
-fogo na chaga mais o augmentasse, porque podendo escapar-se de suas mãos,
-á vista dos visinhos, tomou tambem ella outro cacete, quiz fazer o mesmo
-ao marido, e depois de se haverem espancado reciprocamente com grande
-applauso de todos, ficaram ambos com igualdade de circumstancias frente a
-frente um do outro, sendo depois o marido a fabula e o assumpto de todas
-as conversas, quer dos grandes quer dos pequenos. Diziam os antigos nas
-suas _Casas-grandes_, que elle não teve remedio si não ficar com sua
-mulher, porque já a conhecia.
-
-Vi os abandonar e deixar seos generos a quem vendem, só para evitar
-questões com o comprador.
-
-Notareis, que elles só tem—_sim_ e _não_—quando negociam juntos, ou com
-os Francezes, nunca regateando.
-
-Muitos outros exemplos eu poderia ainda reproduzir, porem bastam estes.
-
-Avaliam muito bem as pessoas colericas, a que chamam _Poromotare-vim_,
-e reciprocamente se advertem dizendo—_Cheporomatare-vim_, «estou
-encholerisado,» e então ninguem lhe diz nada, antes buscam abandonal-o
-o mais que podem, o que exprimem por _Mogerecoap_, «abrandar alguem».
-_Aimogerecoap_, «abrando o que está encolerisado.»
-
-Observei muitas vezes, quando viam um Francez enraivecido, ficarem como
-que fóra de si, mudarem de côr, e fugirem da vista d’elle, dizendo uns
-aos outros _Ymari turuçu_ «está muito zangado, está muito enfurecido.»
-_Ché-assequeié seta_. «Tenho medo d’elle.»
-
-Aconteceu encolerisarem-se muitas vezes duas ou tres pessoas da nossa
-equipagem na aldeia, em que estavam. Vieram por isto os Principaes ao
-Forte de São Luiz queixarem-se e pedindo, que lhes tirassem de lá esses
-Francezes, porque lhes faziam medo, e especialmente a seos filhos, o que
-conseguiram.
-
-Si as questões de palavras e as raivas são temiveis, muito mais ainda
-o são os insultos e as disputas, o que é muito raro, a ponto de
-espancarem-se, o que chamam _ionupan_ «espancar-se», e ainda mais quando
-se ferem, o que explicam por _iuapichap_, «ferir-se,» mormente quando
-depois de se haverem maltratado reciprocamente vão por despeito queimar
-as suas casas, o que exprimem pela palavra _Iuapic_ «incendiarios»
-reciprocos: todos sentem estas coisas, e ninguem se atreve a metter-se
-entre elles para aplacal-os: eis como fazem: vae cada um para seu lado, e
-tomando uma porção de pindoba secca, acendem-na, atiram sobre a cobertura
-de sua propria casa, dizendo uns aos outros—salve quem poder sua casa,
-queimei a minha, ninguem podia oppôr-se a minha vontade, e assim em
-poucos momentos a aldeia está queimada e ninguem lhe diz nada.
-
-Aconteceria isto muitas vezes na Ilha, se não fosse o receio que tinham
-dos Francezes.
-
-Não gostam de ser injuriados, seja homem ou mulher, e nem mesmo as
-publicas consentem que se as chame _Pataqueres_ «meretrises.»
-
-Recorda-me que tendo tido uma india escrava um filho de um Francez, as
-outras lançaram-lhe isto em rosto chamando-a _Pataquere_, «meretriz» com
-o que se doeu muito, e disse que, se continuassem, ella mataria seo filho
-ou o enterraria vivo.
-
-Chamam a injuria _Curap_.
-
-Ninguem se admire de evitarem estes selvagens a colera e seos
-effeitos, por ser esta paixão contraria a natureza do homem, fazendo-o
-inteiramente bruto, como disse São Basilio Magno, na Homilia 10, da
-ira, e transformar o homem n’um animal feroz—_Hominem penitus in feram
-converti_: São Gregorio de Nissa, na Oração 2ª sobre a bemaventurança,
-compara a colera com esses antigos feiticeiros do Paganismo, que por
-encanto mudavam e transformavam o homem em diversos animaes ferozes como
-o javaly e a panthera. A colera faz o mesmo.
-
-São Gregorio Magno, no 5º livro da sua _Moral_, cap. 30, diz ser o
-cerebro do colerico o buraco, onde se geram as víboras.—_Cogitationes
-iracundi viperæ sunt generationis_.
-
-Platão contra esta paixão aconselhava, como remedio, aos seos discipulos,
-que observassem bem os gestos e as palavras de um homem colerico, e ou
-que se mirassem n’um espelho quando se enraivecessem.
-
-Não é coisa nova e nem fóra de proposito o temerem e fugirem estes
-selvagens quando veem um homem encolerisado, especialmente um Francez,
-porque diz o proverbio, cap. 27—_Impetum concitati spiritus ferre quis
-poterit?_
-
-Não é menos difficil de crer-se, que, por despeito, apoz calorosa ou
-inconveniente questão, queimem elles suas casas, porque no _Proverbio
-26_ acha-se _sicut carbones ad prunas et ligna ad ignem_—assim como o
-carvão é para o brasieiro, e a lenha para o fogo, assim tambem a questão
-de palavras é para o homem naturalmente colerico, _sic homo iracundus
-suscitat rixas_, e no _Ecclesiastico 28_, _secundum ligna sylvæ, sic
-ignis exardescit_—tal é a quantidade da lenha qual a força do fogo,
-fallando da colera.
-
-
-
-
-CAPITULO XXVI
-
-Da economia dos selvagens.
-
-
-Dizia Pitacus ser bem regulada a familia quando n’ella encontram-se duas
-coisas—falta de superfluidade tanto no que diz respeito á vida como ao
-governo da casa, e o que é necessario para isto.
-
-Diz Cicero, que perguntando-se a Catão, qual é o melhor governo de uma
-casa, elle respondera—onde houver comida, vestuario e amor ao trabalho.
-
-Parece-me ser estas sentenças mais applicaveis aos selvagens, e aos que
-passam vida frugal do que á outra classe de individuos.
-
-São Thomaz definindo a economia concluio dizendo não ser outra coisa mais
-do que uma boa ordem domestica, e para conseguir-se este fim convinha,
-que a familia tivesse viveres e tudo o mais necessario a vida, sendo mui
-essencial não só uma boa intelligencia, como tambem que cuidassem todos
-os membros d’ella em seos deveres.
-
-A propria natureza, e não qualquer sciencia adquirida, ensina isto aos
-selvagens.
-
-As aldeias são divididas em quatro habitações, sob o governo de um
-_Muruuichaue_, para o temporal, e um _Pagy-uaçú_ «um feiticeiro» para as
-molestias e bruxarias.[43]
-
-Cada habitação tem o seo Principal: estes quatro Principaes estão sob as
-ordens do maioral da aldeia, o qual conjunctamente com outros de varias
-aldeias obedecem ao Principal soberano da provincia. Cada...
-
- (falta uma folha.)
-
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-CAPITULO XXVIII
-
-Do cuidado que do seo corpo tem os selvagens.
-
-
-Platão chamava o corpo um privilegio da Naturesa, e Crates, o philosopho,
-um reino solitario.
-
-Mereceriam estas duas sentenças amplo desenvolvimento, si não nos
-occupassemos de uma historia, que exige estylo conciso, sem superfluidade
-de palavras ou digressões fóra de proposito.
-
-Applicamos comtudo o dizer d’estes dois philosophos ao nosso assumpto
-para notar, que tendo a naturesa, por longos annos, recusado vestidos aos
-corpos dos indios, os compensara formando-os bellos e agradaveis, sem o
-menor auxilio de suas mães, que apenas os lavam e carregam como si fosse
-qualquer pedaço de pau.
-
-Assenta-lhes muito bem a opinião de Crates chamando o corpo um reino
-solitario e deserto, porque assim como os animaes do deserto crescem e
-ficam vigorosos, em quanto residem ahi, isto é, em sua plena liberdade,
-assim tambem quando sob o dominio do homem e presos, embora no Palacio
-dos Reis e principes da terra, para serem vistos e observados como
-novidade, principiam logo a emagrecer, a entristecer-se, a perder o
-desejo da propagação e de conservação da especie, somente por terem
-perdido a liberdade que outr’ora gosavam no seu reino solitario.
-
-Negando a natureza á estes selvagens viveres bem preparados, bebidas bem
-feitas, vestidos pomposos, leitos macios, soberbas casas e palacios,
-compensou-os porem, dando lhes plena liberdade como aos passarinhos no
-ar, e as bestas no campo, sem lastimarem-se, como fazem outros quando
-comparam as pretendidas commodidades d’este Mundo.
-
-Se o diabo com o fim de roubar-lhes o bem da salvação, não se metesse
-entre elles, levantando novas discordias afim de se matarem e comerem
-reciprocamente, não haveriam por certo homens mais felizes no mundo por
-causa de sua natural franqueza e liberdade, que, adubando as suas carnes
-as transformam em perfeita e saudavel nutrição, e d’ahi provem a bellesa
-de seos corpos.
-
-Espero a objecção para responder—isto é, de se terem visto muitos indios
-sordidos e horriveis. Respondo: não é no rosto, onde se deve observar a
-forma e a bellesa de um homem, e eis a razão porque Demostenes zombou,
-quando os embaixadores de Athenas regressando de sua commissão junto a
-Philippe, Rei de Macedonia, gabavam muito a formosura d’elle: não, não,
-disse Demostenes, não é digna de louvor a belleza do rosto de um homem,
-tão commum entre os Cortezãos, porem merece encomios a sua estatura, a
-proporção de seos membros, e a sua figura e elegancia.
-
-Fallo de haver a naturesa dado ordinariamente aos selvagens, e
-especialmente aos _Tupinambás_, corpo bem feito, bem proporcional
-e elegante, e quando estragam seos rostos por incisões, fendas, e
-extravagancias de pinturas e de ossos, o fazem pela ideia erronea, que
-tem, de serem por isto reputados valentes.
-
-Tem muito cuidado na limpesa de seos corpos: lavam-se muitas vezes, e
-não se passa um só dia, em que não deitem muita agua sobre si, em que se
-não esfreguem com as mãos por todos os lados para tirar o pó e outras
-immundicies.
-
-Penteiam-se as mulheres muitas vezes.
-
-Receiam emmagrecer, o que chamam em sua linguagem _angaiuare_, e
-lastimam-se diante dos seos semelhantes dizendo _Ché-angaiuare_, «estou
-magro,» e todos se compadecem mormente quando chegam de qualquer
-viagem abatidos pelo trabalho: todos o lastimam e o deploram, dizendo
-_Deangoiuare seta_, «ah! quanto está magro, só tem ossos.»
-
-Eis a causa unica por que não podiam residir comnosco os rapazes
-baptisados, visto temerem muito as mães, que não emagrecessem em poder
-dos Francezes, os quaes suppunham ter falta de tudo.
-
-Não consentiam que seos maridos trouxessem comsigo os filhos para vêr os
-Padres e as Capellas de Deos, senão á força, e com vivas recommendações
-para que voltassem, e quando se lembravam d’elles grande era a sua
-tristesa, e choravam.
-
-Conservei em minha companhia um rapaz de _Tapuitapera_ chamado _Miguel_,
-já baptisado, e que muito bem sabia a doutrina christã, afim de ensinal-a
-aos meos escravos.
-
-Residio comigo por alguns mezes, porem não poude ficar mais por causa das
-importunações de sua mãe, e a dor que mostrava chorando e lamentando-se
-constantemente, de maneira que veio seo pae de proposito para leval-o,
-dizendo-lhe que sua mãe o esperava cheia de piedade (modo de fallar para
-mostrar compaixão): veio pedir-me licença para o seo regresso chorando
-por deixar-me (tanto amam e estimam seos paes!) dizendo que sua mãe
-estava magra, e cheia de tristesa por sua ausencia e pensando tambem que
-elle definhava estando comigo, asseverando-me que contaria á sua mãe o
-bom tratamento que eu lhe dava, e a licença que lhe concedi de voltar a
-sua casa.
-
-Um de nossos escravos commetteo uma falta, pela qual ia ser castigado:
-mal soube elle desta resolução, e quando ia ser preso, disse que estava
-magro, e que não o açoitassem como si fosse gordo, porque a gordura
-cobre os ossos, apara os açoites e impede que a dor lhes chegue. «Si me
-açoitaes com força me quebraes as veias apenas cobertas pela pelle», e
-assim dizia por ser muito magro.
-
-Para engordarem reuniam-se muitos indios, embarcavam-se n’uma canoa
-grande, muniam-se de farinha, de flechas e de cães, iam á terra firme,
-onde matavam a caça, que apeteciam, como veados, onças, capivaras, vaccas
-bravas, tatùs, e muitos passaros, e ahi se demorando em quanto havia
-farinha, engordavam á farta com estas comidas, e voltavam depois para a
-Ilha trasendo muita caça assada.
-
-Quando á Ilha regressou da guerra do Pará o indio _Brasil_ julgando-se
-magro, pedio licença ao Sr. de Ravardiere para ir á terra firme levando
-comsigo alguns Francezes afim de engordar, o que lhe foi permittido.
-
-Embrenharam-se muito pelo sertão, e quando a felicidade os encheo de
-caça, aconteceo-lhes uma desgraça—acabou-se-lhes a farinha: viram-se
-obrigados a comer palmito, como si fosse pão, com a carne que tinham, o
-que contrariou muito os Francezes não habituados a esta especie de pão,
-sentindo muito que a festa não fosse completa, havendo tanta carne, sem
-pão e sem sal.
-
-Aconteceo-lhes o mesmo, que a Midas, possuidor de muito ouro, quando sua
-mulher lhe apresentou na meza muitas iguarias, todas porem de ouro, ou
-então á Tantalo morrendo de sêde apezar de cercado d’agoa: o mesmo lhes
-aconteceo, emagreciam em vez de engordarem por não levarem a farinha
-necessaria.
-
-N’este ponto os Francezes imitam os selvagens, e por isso estes os
-estimam.
-
-Os Francezes residentes no Fórte pedem licença para passeiar e
-refazerem-se de forças.
-
-Quando os selvagens sabem d’isto, vão á caça, e mediante a troca de
-alguns generos offerecem a estes passeiadores dois ou tres banquetes:
-findos estes regressam á sua terra, e assim vão continuando ora
-n’uma aldeia, ora n’outra, girando por toda a Ilha, ou provincia de
-_Tapuitapera_ e _Comã_ divertindo-se e engordando.
-
-Os Francezes hospedados por seos compadres n’estas aldeias não são muito
-felizes em seos passeios, porque se ha então alguma coisa boa não é para
-elles, e sim para os viandantes.
-
-Costumam os selvagens dar o melhor, que possuem aos hospedes, por dois ou
-tres dias, findos os quaes tratam-nos com o uso commum e trivial.
-
-Admire-se, eu vos peço, ainda que ligeiramente, o grande amor de Deos
-para com os homens, dando-lhes o sentimento natural da caridade para com
-o proximo. O que fazem de melhor os christãos, ou observam os Religiosos,
-do que a caridade puramente natural dos selvagens, que não podem alcançar
-a gloria, bem differente do que acontece á caridade sobre natural dos
-christãos, que espera a recompensa da vida eterna?
-
-O aceio do corpo faz-se por muitas maneiras, e entre ellas contam-se
-estas.
-
-Trazem sempre na bocca a herva do Petun, (tabaco ou fumo) cujo fumo
-expellem pela bocca e narinas com intenção de seccar as humidades do
-cerebro e as vezes o engolem para limpar o estomago de cruezas que sahem
-por meio do arrôto.
-
-Apenas acabam de comer fumam o Petun, e o mesmo praticam pela manhan e a
-noite, quando se levantam e deitam-se.
-
-A proposito de Petun devo contar a ideia supersticiosa, que formam desta
-herva e do seo fumo.
-
-Crêem, que esta herva os torna discretos, judiciosos, e eloquentes, de
-forma que antes de começarem algum discurso usam d’ella: não me parece,
-que seja comtudo muito supersticiosa, porque ha nisto uma razão natural:
-eu mesmo a experimentei, e reconheci, que a sua fumaça exclarece o
-entendimento dissipando os vapores dos orgãos do cerebro, fortalece a voz
-seccando a humidade e escarros da bocca, permittindo assim facilidade á
-lingua para bem exercer suas funcções.
-
-É facil experimentar-se isto usando-se d’ella com parcimonia e em
-occasião propria, porque o abuso continuado d’ella não me parece bom e
-saudavel aos que se alimentam de bebidas e carnes quentes, porem é util
-aos que sentem frios e humidos o estomago e o cerebro.
-
-Eis a razão porque o selvagem, habitante d’esta zona humida, e que
-bebe de ordinario somente agoa, uza constantemente d’este fumo afim de
-descarregar o cerebro de humidades e frialdade, e o estomago de cruezas,
-o que tambem praticam os marinheiros e os habitantes das praias.
-
-Pondo-se de infusão por espaço de 24 horas esta herva, presta-se muito
-para purificar o corpo de infecções. Usa-se somente do vinho.
-
-Crêem tambem que, engolindo o fumo, ficam alegres, joviaes e previnidos
-contra a tristesa e melancolia.
-
-Vou referir-vos alguns casos que me contaram:
-
-Um selvagem que foi morto na bocca de uma peça, e de quem hei-de fallar
-no _Tratado do Spiritual_, antes de se encaminhar para o supplicio pedio
-um macinho de _Petun_, como ultima consolação d’esta vida afim de morrer
-com energia e alegria. Apenas alcançou o que desejava mostrou-se alegre e
-sempre cantando até o fim.
-
-Quando seos companheiros o ataram á bocca da peça, elle pedio para que
-não amarrassem o braço direito de fórma que o embaraçasse de levar á
-bocca o Petun: quando a bala dividio o seo corpo em duas partes, uma foi
-para o mar, e a outra cahio na base do rochedo, e n’esta achou-se ainda
-seguro pela mão direita o mólho de _Petun_.
-
-Os selvagens sentenciados á morte não soffrem a pena sem usarem antes
-do _Petun_, conforme o costume da terra, e não deixavam este habito nem
-mesmo os doentes.
-
-Os feiticeiros do paiz servem-se d’esta planta com proveito, o que agora
-não refiro, e sim guardo para o fazer mais adiante, si não me esquecer.
-
-Empregam ainda outro meio para a conservação da saude.
-
-Comem muitas vezes e pouco de cada uma: depois que comem lavam muito bem
-a bocca, e se tem sêde quando comem, bebem pouco apenas para apagar a
-sêde, gargarejam bem a agua na bocca para aplacar o ardor do paladar.
-
-Cozinham muito bem suas comidas, e não usam d’ellas meias cozidas ou
-aferventadas, sendo n’isto mais cuidadosos do que os Francezes.
-
-Untam-se com azeite de palmas, de urucú, e de genipapo,[44] o que tem
-sempre em abundancia.
-
-Estou certo que os meos leitores, pouco conhecedores da disposição do
-corpo humano e do regimem necessario á sua conservação, julgarão que a
-natureza ensinou a estes homens o mesmo que a sciencia e a experiencia
-ensinaram a outros.
-
-
-
-
-CAPITULO XXIX
-
-De algumas indisposições naturaes, a que os selvagens se acham sugeitos,
-e quaes os nomes, que dão aos membros do corpo.
-
-
-São os selvagens, na verdade, dotados pela naturesa com boa saude, feliz
-e agradavel disposição.
-
-Raras vezes, na proporção de um para cem, encontram-se entre elles corpos
-mal feitos e monstruosos.
-
-Não vi um só cego, apesar de existirem, porque elles o chamam
-_Thessa-um_, «cego,» _Cheressa-um_, «estou cego,» e _Ressa-um_ «tu és
-cego.»
-
-Notei porem terem alguns a vista curta, especialmente os velhos, e
-notavelmente as mulheres, visto que depois de 30 annos d’idade tem a
-vista tão curta e fraca a ponto de não poderem mais tirar dos pés os
-_Thons_[45] «bixos» como fazem os rapazes e as moças.
-
-A proposito dizia um capitão Francez, não da nossa gente e pouco crente,
-que o Papa não tinha poder sobre o mar, porque Deos havia dito a São
-Pedro que seo poder estendia-se somente sobre a terra, e por isso todos
-os que passam o mar em busca d’estas terras não são mais sugeitos aos
-mandamentos da Igreja, podendo mui livremente tomar uma rapariga para
-concubina, visto terem necessidade d’ella para tirar dos pés d’elle e de
-outros francezes estes bixos.
-
-Conto isto para mostrar quanto são perigosos estes paizes ás almas que
-tudo envenenam.
-
-Vi zarolhos, a que chamam _Thessaue_, porem muito poucos, e vesgos que
-denominam _Thessauen_, «vesgo» _Cheressauen_, «estou vesgo,» _Deressauen_
-«tu és vesgo.»
-
-Encontram-se alguns gagos, a que chamam _Gningayue_, «gago,»
-_Chegningayue_, «estou gago.»
-
-Os velhos e os meninos são muito ramellosos, a que chamam _Thessau-um_
-«ramelloso» _Cheressau-um_ «estou ramelloso», _Deressau-um_ «tu és
-ramelloso»: é o resultado da grande humidade do paiz, mais predominante
-nos corpos dos meninos e dos velhos por causa da fraqueza do calor
-natural, que é maior nos corpos d’estes do que nos dos outros, onde é
-mais forte e intenso.
-
-Existem poucos calvos, e se chamam _apterep_ «calvo,» _Cheapterep_ «estou
-calvo», e não existem muitos por serem seos cabellos nutridos com força,
-e eis a razão porque tem os cabellos fortes, duros e lisos.
-
-Encontram-se poucos coxos _Parin_, poucos manetas _Iuuasuc_, e poucos
-mudos _Gneen-eum_, alguns gottosos _Karuarebore_, de _Karuare_ «gotta.»
-
-Encontra-se tambem uma especie de sarnentos de raça, os quaes mudam de
-pelle annualmente, e comtudo não sentem molestia alguma, estão sãos, e
-chamam-nos a todos, que soffrem este mal _Kuruuebore_.
-
-Ha tambem obesos, _Timbep_, e se diz _Chetimbep_ «estou obeso,»
-_Detimbep_ «tu és obeso,» e _Ytimbep_, «elle é obeso.»
-
-A todas as partes do corpo dão um nome especial, e particular.
-
-Chamam a alma _an_, «minha alma» _che-an_, «tua alma» _dean_, «nossas
-almas» _orean_, «vossas almas» _pean_, «suas almas» _yan_, em quanto
-a alma está unida ao corpo, porque quando está separada chamam-na
-_anguere_.
-
- A cabeça. _Acan._
- Minha cabeça. _Cheacan._
- Caspa. _Kua._
- Cabellos. _Aue._
- Meos cabellos. _Cheaue._
- Cerebro. _Aputuon._
- Rosto. _Suua._
- Palpebra. _Taupepyre._
- Cara. _Tova._
- Meo rosto. _Cherova._
- Teo rosto. _Derova._
- Seo rosto. _Sova._
- Olho. _Tessa._
- Lagrymas. _Thessau._
- Meo olho. _Cheressa._
- Mancha no olho. _Tessaton._
- Vi uma mancha no olho. _Cheressaton._
- Piscar os olhos. _Sapumi._
- Pisco os olhos. _Assapumi._
- Ouvido. _Apuissa._
- Ouvir. _Sendup._
- Ouço. _Assendup._
- Orelha. _Nemby._
- Minha orelha. _Chénemby._
- Nariz. _Tin._
- Monco. _Embuue._
- Narinas. _Apoin-uare._
- Paladar da bocca, ou véo do paladar. _Konguire._
- Bocca. _Giuru._
- Beiço superior. _Apuan._
- Beiço inferior. _Teube._
- Garganta. _Yasseok._
- Escarrar. _Gneumon._
- Eu escarro. _Auendeumon._
- Tu escarras. _Eveuendeumon._
- Saliva. _Thenduc._
- Lingua. _Apekon._
- Minha lingua. _Ché-ape kon._
- Fallar. _Gneem._
- Eu fallo. _Aigneem._
- Bom fallador. _Gneemporam._
- Halito. _Puitu._
- Dentes. _Taim._
- Doe-me os dentes. _Chéréuassu._
- Meo dente. _Cheraim._
- Teo dente. _Deraim._
- Seo dente. _Saim._
- Dente maxillar. _Taiuue._
- Mastigar. _Chuu._
- Eu mastigo. _Achuu._
- Face. _Tovape._
- Beijar. _Geurupuitare._
- Eu beijo. _Aigeurupuitare._
- Bochechudo. _Tovape-uaçu._
- Queixo. _Tendeuua._
- Barba. _Tendeuua-aue._
- Barbudo. _Tendeuuaaue-reKuare._
- Cachaço. _Aiure._
- Collo. _Aiuripui._
- Estrangular. _Iubuic._
- Peito. _Potia._
- Espaduas. _Atiue._
- Braços. _Iuua._
- Cotuvello. _Tenuvangan._
- Punho. _Papue._
- Palma da mão. _Papuitare._
- Mão. _Pó._
- Minha mão. _Chépo._
- Mão direita. _Ekatua._
- Mão esquerda. _Açu._
- Dedos. _Puan._
- Unha. _Puampé._
- Minha unha. _Chépuampé._
- Mama. _Cam._
- Coração. _Gnaen._
- Veias. _Taiuc._
- Sangue. _Tubui._
- Baço. _Perep._
- Tripa. _Thyepuy._
- Figado. _Puya._
- Fel. _Puya-upiare._
- Barriga. _Thuye-uaçu._
- Ventre. _Theic._
- Embigo. _Puruan._
- Dorso. _Atucupé._
- Rins. _Puiacoo._
- Ilharga. _Ké._
- Minha ilharga. _Ché-ké._
- Costella. _Aru kan._
- Minha costella. _Ché-aru kan._
- Quadril. _Tenambuik._
- Madre. _Acaia._
- Testiculos. _Pere-ketin._
- Nadegas. _Tevire._
- Curva da perna. _Ananguire._
- Coxas. _Uue._
- Joelhos. _Tenupuian._
- Pernas. _Tuma._
- Pé. _Pui._
- Calcanhar. _Puita._
- Planta de pé. _Puipuitare._
- Dedo do pé. _Puissan._
- Corpo. _Tétè._
- Meo corpo. _Chéreté._
- Pello. _Pyre._
- Suor. _Thue._
- Gordura. _Kaue._
- Osso. _Cam._
- Meo osso. _Chécam._
- Tutano. _Camaputuon._
-
-
-
-
-CAPITULO XXX
-
-De algumas molestias particulares a estes paizes de indios, e de seos
-remedios.
-
-
-O Genesis nos ensina, como explicam os doutores haver Deos dado aos
-homens contra todos os males o fructo de uma arvore, a maneira da
-Theriaga.
-
-Este mesmo Deos, sempre bom para com todas as creaturas, embora pequenas
-e longe d’elle, prevendo que esta infeliz raça de selvagens viveria, por
-longos annos, vagabunda e nua pelas grandes florestas do Brasil, lhes deo
-muitas especies de arvores e hervas para o curativo de suas feridas e
-molestias.
-
-Tem este paiz muitas arvores medicinaes, gommas salutiferas, e
-excellentes hervas, como não ha em parte alguma.
-
-O tempo e o estudo hão de fazel-as conhecidas.[46] Vi tirar-se da casca
-de certa arvore uma especie de almecega, similhante á que cresce nos
-jardins da Europa, e dizem os selvagens que serve para toda a molestia,
-e assim a empregam. Contam mais, que todos os animaes ferozes quando se
-sentem feridos ou doentes, recorrem a esta arvore para curarem-se, e por
-isso raras vezes se encontra uma só com toda a sua casca, por ser roida
-constantemente por todos os bixos.
-
-Encontra-se tambem crescida nas folhas das arvores uma especie de gomma
-branca, de côr prateada, e que dizem ser muito boa para certas chagas.
-
-Ha outra gomma, tambem branca, optima para limpar chagas e fazer suppurar
-os abcessos profundos fazendo seo effeito em 24 horas.
-
-Vi o seo emprego n’um moço francez, que estava commigo o qual tinha, por
-causa dos bixos, os pés e as pernas tão estragados e inchados a ponto
-de receiarmos que as perdesse: coisa horrivel e impossivel de narrar-se
-bem: fez-se applicação de emplastos d’esta gomma nas pernas e pés, e no
-dia seguinte estava são como si antes não tivesse coisa alguma, porque
-puchando os bixos do interior das carnes onde se achavam á superficie das
-feridas, ahi pela cabeça se grudaram os emplastos, e assim morreram todos
-em numero consideravel, limpando muito bem a chaga e deixando-a viva e
-vermelha.
-
-Não fallarei de outras hervas e balsamos, e nem d’um milhão de hervas,
-das quaes se podem destillar espiritos e essencias, porque desejo
-fallar de certas molestias, reinantes n’este paiz, dos remedios, que
-contra ellas se applicam, não porque seja a terra doentia e insalubre,
-antes muito boa e saudavel, especialmente de junho a janeiro: durante
-este tempo as brisas, isto é, os ventos de Este ou do Oriente sopram
-constantemente, livrando o paiz de vapores pestillenciaes, e por isso
-raras vezes adoecem os selvagens, e a fallar a verdade, elles só tem uma
-molestia, de que morrem.
-
-São os francezes muito mais sujeitos á doenças, como a experiencia fez
-conhecer a mim e a outros, porem creio ser isto devido ás necessidades e
-miserias, porque passamos no principio do estabelecimento ou da fundação
-e não a outra causa.
-
-Tinham então os francezes poucas commodidades, porem ja começavam a
-gozal-as quando deixei a Ilha.
-
-Não desejo a pessoa alguma taes necessidades e molestias, porem fiquem
-todos certos e convencidos de que não soffrerão a centesima parte do que
-soffremos.
-
-Das suas molestias a primeira chama-se _Pian_, que vem da palavra
-_Pé_, que quer dizer «caminho», ou, se quereis, «pé,» por originar
-esta molestia do escarro, ou da sanie, espalhado no chão, por onde se
-caminha: começa ordinariamente debaixo dos dedos dos pés, do tamanho de
-um liard,[BD] de côr negra: os indios chamam esta mancha _Aipian_, isto
-é, a «Mãe Pian,»[47] porque d’ella descendem todas as outras chagas e
-postemas, que esta horrivel molestia espalha por todo o corpo á maneira
-de uma herva ou arbusto, que sahindo d’esta _Mãe Pian_, como de uma raiz,
-fosse sempre crescendo, subindo, e espalhando, pelo corpo ramos, folhas e
-olhos, que enchesse interna e externamente o doente de crueis dores, e de
-incrivel putrefacção, das quaes muitos morrem. Dura pouco mais ou menos
-dois annos.
-
-Si um francez soffrer esta molestia deve curar-se perfeitamente antes de
-regressar ao seo paiz, porque não ha remedio no mundo, excepto no Brasil,
-que a cure, a não ser o rhuibarbo commum, isto é, a morte, que cura todos
-os males.
-
-Ja disse como esta molestia chega accidentalmente: vejamos agora sua
-origem e fonte ordinaria e natural afim de prevenir os francezes, que la
-forem.
-
-Esta molestia ataca os francezes, como o mal de Napoles, por excessiva
-communicação com as raparigas indigenas: para evital-a convem a vida
-casta, ou então que tragam suas mulheres, ou que se casem com as indias
-christãs, visto ser o casamento poderoso antidoto contra tal veneno,
-o que se observa mesmo no casamento natural dos indios, os quaes não
-soffrem o _grande mal_, se não o tem adquirido algures, e sim o
-_pequeno_, que todos soffrem na vida, similhante a syphilis e a variola
-na Europa.
-
-Esta _bouba_ grande excede em dor e sordidez, sem comparação, ao mal de
-Napoles, e com razão, porque merece ser punido n’esta vida o peccado, que
-commettem os francezes com as Indias, arrebatando de nossas mãos, estas
-infelizes almas quando pretendiamos salval-as, si com seos maus exemplos
-não as conduzissem ás fornalhas da lubricidade.
-
-Meditem bem os que são capazes de commetterem taes crimes, na conta que
-darão a Deos por haverem causado o damno e a perda d’estas pobres almas
-indigenas.
-
-Si a vida eterna é somente concedida aos que buscam a salvação de outrem,
-que lugar esperarão os que, para satisfação de brutaes desejos, seduzem
-essas pobres creaturas a ponto de fazel-as despresar as prédicas do
-Evangelho e a sua propria salvação?
-
-Tempo e paciencia são os principaes remedios para esta molestia; os
-suores aproveitam muito, mitigam e encurtam o tempo, bem como as dietas e
-o regimen de vida.
-
-A experiencia tem mostrado, que para estas molestias a carne mais propria
-é a do _tubarão_ (não usada pelos sãos, por lhes fazer vomitar até
-sangue, e produzir-lhes grandes molestias) cozida com hervas duras e
-amargas, que se encontram em todo o paiz.
-
-Por um momento de prazer soffrem mil dores, e o que para os bons é veneno
-para elles é carne saudavel, embora de mau gosto.
-
-É costume d’este astuto Boticario Satanaz untar o bordo do copo com mel
-ou assucar para se beber de um só trago o veneno, que depois vae roer
-e encher de dor as entranhas: quero dizer, que ao peccador apresenta o
-prazer, e não o seo castigo, e bem depressa experimenta o desgraçado, que
-o prazer vôa, porem a dor é eterna.
-
-O Sr. de Ravardiere, outros francezes, e eu sobre todos, soffremos
-intensas febres quartans, terçans, e incertas, as quaes depois de
-haverem mortificado muito o corpo, deixam dores nos rins, produzem
-colicas insuportaveis com vomitos continuos, sempre debilitando o corpo,
-resfriando e contrahindo o estomago, acompanhada por continua fluxão do
-cerebro, que se espalha pelos braços, coxas, e pernas, tornando-as sem
-acção, á similhança de uma estatua ou pedra immovel.
-
-Parece-me que é a molestia, que ceifa maior numero de selvagens
-tornando-os ethicos e paralyticos.
-
-Os remedios para estas molestias são—o beber menos agua que fôr possivel,
-porque o sabor das aguas alterado com o calor da febre, faz beber muita
-agua, perdendo o estomago seo calor proprio, adquirindo grande crueza e
-fraqueza, de que resulta não só a sua constricção, mas tambem a pituita e
-outros humores corrompidos: presentemente como ha cerveja espero que não
-sejam frequentes estas molestias e que não chegarão ao excesso, que vi, e
-cujas consequencias ainda sinto.
-
-O vinho e a aguardente são bons para aquecer o estomago, e por isso
-aconselho aos que lá forem, que poupem muito o seo vinho e aguardente
-para essa e outras necessidades, e não os gastem prodigamente em
-deboches, mórmente sendo a cerveja, ahi feita com milho bom, muito mais
-saborosa e saudavel, por causa do continuo calor, do que o vinho e a
-aguardente.
-
-As boas bebidas são o unico remedio, e as aves e ovos ahi em abundancia
-são o alimento d’esses doentes.
-
-As outras molestias são o defluxo e violentas dores de dentes por causa
-da humidade da noite nesta Zona tórrida, como bem notou o jesuita Acosta,
-na sua _Historia dos Indios_, a qual pode recorrer o leitor, visto que
-nada quero dizer ou escrever sem sciencia propria.
-
-É tão forte a humidade da noite, que produz ferrugem nas espadas,
-mosquetes, facas, machados e machadinhos, que corroe e destroe não
-havendo cuidado de os limpar.
-
-São mui frias as fluxões do cerebro, pois descendo á raiz dos dentes
-apodrecem-nos e os fazem cahir.
-
-São remedios especiaes á estes males a applicação de cauterios no pescoço
-e braços, e cobrir bem a cabeça durante a noite.
-
-Todos os annos reina doença de olhos, das quaes poucos escapam
-especialmente os Franceses, porque dura apenas oito dias, sendo por sua
-vehemencia antes furor do que molestia, e si se não atacar logo corre-se
-o risco de vêr-se somente metade do mau tempo.
-
-È facil o remedio: tome-se um pouco de vitriolo, deite-se n’uma garrafa
-cheia d’agoa bem limpa, e d’ella se derrame um pouco nos olhos bem
-abertos e fixos, abstendo-se de tocal-os, tendo-os sempre cobertos, e
-não os expondo ao vento e nem ao sol, porque senão o mal redobra visto
-que sendo formada esta molestia de uma fluxão quente e acrimoniosa, si
-esfregardes os olhos e vos expôrdes a acção do vento e do sol, mais
-exacerbareis o vosso mal.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXI
-
-Da morte e dos funeraes dos Indios.
-
-
-Jacob despresou duas irmans Lya e Rachel, o que é diversamente explicado
-por Padres e Doutores. Tomarei somente o que convem á historia, isto é,
-que Deos tem duas filhas a Naturesa e a Graça, que dá por esposa aos seos
-escolhidos.
-
-A Naturesa é imperfeita, porem fecunda como Lya: a Graça é de formosura
-inexcedivel, porem esteril como Rachel. Ambas são irmans: basta vel-as
-para reconhecer-se, e como taes são seos filhos-irmãos germanos;
-differençando-se apenas por linhas diversas, isto é, n’um ponto de
-ceremonia, nas ultimas homenagens prestadas a seos parentes, reconhecemos
-facilmente a verdadeira religião e os seos herdeiros.
-
-Acha-se isto tão naturalmente gravado no fundo da alma das nações as mais
-barbaras, que serve de argumento mui positivo para provar acharem-se em
-verdadeira graça os que prestam homenagem aos seos defunctos.
-
-Em caso contrario prova-se que estão em poder do gentilismo, e em
-opposição ao instincto puramente natural, imitando n’este caso os brutos,
-não fazendo caso dos seos amigos fallecidos, especialmente da sua alma,
-melhor parte de sua composição.
-
-É a maldição dada por Job, no cap. 18—_Memoria illius pereat de terra,
-et non celebretur nomem ejus in plateis_, «desappareça da terra a sua
-memoria, e nem seja seo nome pronunciado na rua.»
-
-Symmachus explicando diz _Non erit nomem ejus in faciem fori_—não chegará
-seo nome ao foro dos senadores, e mais claramente Policronius _Nec in
-amicorum versabitur memoria_ «nem seos amigos se recordarão d’elles,»
-grande maldição, visto que os povos os mais selvagens do Universo que
-são os habitantes do Brasil nada mais receiam, após a morte, do que não
-serem chorados e lamentados, isto é, que para elles, na morte, não hajam
-da parte dos seos parentes, lagrymas, lamentações, e outras ceremonias
-embora supersticiosas.
-
-Quando se acham muito doentes estes selvagens, e por seos parentes
-julgados em perigo de vida, perguntam-lhes o que desejam comer antes da
-morte, e saciam-lhes o desejo.
-
-Em quanto doentes alimentam-se com farinha de mandioca e _ionker_
-«pimenta da india,» misturada com sal, julgando com tal dieta, abuso
-inaudito entre elles, recobrarão a antiga saude.
-
-Vi um homem e uma mulher da nação dos _Tabajares_, que tinham só pelle
-e ossos, parecendo-me terem apenas vida por dois dias, e por isso os
-baptisei logo, apenas me pediram, e escaparem da morte tomando taes
-caldos.
-
-Quando chega a hora da morte, reunem-se todos os seos parentes, e
-geralmente todos os seos concidadãos, cercam-lhe o leito do moribundo, os
-parentes mais perto, depois os velhos e as velhas, e assim de idade em
-idade: não dizem uma só palavra, olham-no com toda a attenção, banham-se
-de lagrymas constantemente; mas apenas a pobre creatura exhala o ultimo
-suspiro, dão berros e gritos, fazem lamentações compostas por uma musica
-do vozes fortes, agudas, baixas, infantis, emfim de todo o genero, que
-infallivelmente enternece todos os corações, embora sejam naturaes todas
-essas dores e lagrymas, sem conhecimento do bem e do mal, que poderá
-gozar esse espirito desprendido do corpo morto.
-
-Depois de muitas lamentações, o Principal da aldeia ou o Principal dos
-amigos fazia um grande discurso muito commovente, batendo muitas vezes
-no peito e nas coxas, e então contava as façanhas e proesas do morto,
-dizendo no fim—_Ha quem d’elle se queixe? Não fez em sua vida o que faz
-um homem forte e valente?_
-
-Conto isto porque presenciei-o tres ou quatro vezes, lembrando-me de
-haver lido e notado em Polybio, Livro 6º, e em Deodoro da Sicilia, Livro
-2º, cap. 3º, terem os antigos Romanos o costume de levarem seos defunctos
-á Praça publica, e ahi o filho mais velho da casa, ou o principal
-herdeiro em falta de filhos machos e de maior idade, subia á uma especie
-de theatro, e desfiando todos os louvores, que podia fazer ao morto,
-seo parente, desafiava todos os assistentes para que o accusassem, si
-podessem, afim d’elle defendel-o, e depois convidava-os a acompanharem o
-corpo até a sepultura.
-
-Voltemos aos nossos selvagens. Acabado que seja o choro e o discurso
-tomam o corpo, ja cheio de pennas na cabeça e nos braços, uns o vestem
-com um capote, outros lhe dão um chapeo, si o ha, trasem-lhe o massinho
-de petum[48], seo arco, frexas, machados, foices, fogo, agoa, farinha,
-carne e peixe e o que em vida elle mais apreciava.
-
-Faziam depois um buraco fundo e redondo em fórma de poço: assentavam
-o morto sobre seos calcanhares conforme era o seo costume, e á cova
-desciam-no de mansinho[49] accommodando ao redor d’elle a farinha, a
-agoa, a carne, o peixe e ao lado de sua mão direita afim de poder pegar
-em tudo com facilidade e na esquerda arrumavam os machados, as foices, os
-arcos e as flexas.
-
-Ao lado d’elle faziam um buraco, onde accendiam fogo com lenha bem secca
-afim de não apagar-se, e despedindo-se d’elle o incumbiam de dar muitas
-lembranças á seos paes, avós e amigos, que dançavam nas montanhas, alem
-dos Andes, onde julgam ir todos depois de mortos.
-
-Uns dão-lhe presentes para levarem a seos amigos, e outros lhe
-recommendam, entre varias coisas, muito animo no decorrer da viagem, que
-não deixem o fogo apagar-se, que não passem pela terra dos inimigos, e
-que nunca se esqueçam de seos machados e foices quando dormirem n’algum
-lugar.
-
-Cobrem-no depois pouco á pouco com terra, e ficam ainda por algum tempo
-junto á cova, chorando-o muito e dizendo-lhe adeos: de vez em quando ahi
-voltam as mulheres ora de dia ora de noite, choram muito e perguntam á
-sepultura, se elle ja partio.
-
-A proposito contarei tres historias interessantes.
-
-Enterraram um bom velho em distancia de 50 passos de minha casa. Dia e
-noite consumiam-me as velhas com seos choros.
-
-Para adquirir socego lembrei-me de mandar esconder n’uma moita em
-caminho, perto da cova, dois rapazes francezes, que commigo moravam. Mais
-adiante mandei tambem esconder dois escravos nossos, a quem ensinei o que
-deviam fazer.
-
-A noite todos occuparam as suas posições, e no fim de um quarto de hora
-quando vieram as velhas, todas juntas, e que principiaram a gritar na
-cova, responderam os franceses, imitando _Jeropary_, e ellas cheias de
-susto despararam a correr, e quando no caminho encontraram outros dois
-_Jeropary_, redobraram de esforços, e saltando por abrolhos e espinheiros
-chegaram á casa mais mortas do que vivas, e ahi sobresaltando a todos
-mandaram fechar as portas para que não entrasse o tal _Jeropary_.
-
-Estava eu perto e muito gostei d’esta comedia por alcançar socego, visto
-não regressarem mais as velhas.
-
-Morreo um selvagem, e foi enterrado na estrada perto de _São Francisco_,
-lugar no _Forte de São Luiz_.
-
-Fora baptisado antes da sua morte, e com tudo, sem sciencia nossa,
-enterraram-no ahi e com as ceremonias que já descrevi. Mortifiquei-me
-muito com isto, ralhei bastante, porem não pude descobrir o culpado por
-já haver decorrido tres ou quatro dias.
-
-Passando por ahi achei sua mulher, que voltava da roça, assentada sobre a
-sepultura, chorando amargamente, e espalhando n’ella algumas espigas de
-milho.
-
-Indagando-lhe o que fazia, respondeo-me estar perguntando a seo marido
-si elle ja tinha partido, porque receiava haverem amarrado muito as suas
-pernas, e não lhe terem dado a sua faca, pois havia levado comsigo apenas
-o seo machado e sua foice, e que lhe trasia o milho para comer e partir
-no caso de já não ter mais provisões.
-
-Fil-a sahir, mostrando como pude, a sua ignorancia e superstição.
-
-Falleceo um menino com doença no ventre, de dois annos de idade, e duas
-horas depois de baptisado.
-
-Eu, o Sr. de Pezieux, e outros franceses fomos amortalhal-o n’um lençol
-d’algodão.
-
-Encontramos o corpo cercado por muitas velhas, fazendo algasarra capaz de
-quebrar uma cabeça de aço, carregado de missangas, que trasem para ahi os
-francezes, e de muitos busios, de que usam nos seos adornos e enfeites
-para as grandes festas.
-
-Não podemos convencer ás velhas afim de serem tirados taes enfeites, e
-sendo assim mesmo conduzido n’uma prancha por um francez, fizemos o seo
-funeral a maneira da Europa, levando o seo corpo á capella do Forte de
-São Luiz, onde recitamos as orações prescriptas pela Igreja para esse fim.
-
-Seguiram-nos as velhas de bem perto, e não se animando a entrar,
-começaram a entoar uma musica tão alta e forte, que não nos entendiamos
-dentro da Igreja.
-
-Imposemos silencio, e foi o corpo enterrado no cemiterio junto á capella.
-
-As velhas se metteram entre os francezes, umas trazendo fogo, agoa,
-farinha, e outras o mais que ja dissemos para o caminho, o que mandei
-deitar fóra fazendo-lhes vêr a asneira por intermedio do interprete.
-
-Recolheram-se as suas casas, onde se fartaram de chorar.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXII
-
-Do regresso á Ilha do Sr. de la Ravardiere e de alguns Principaes, que o
-seguiram.
-
-
-Com a chegada da barca portugueza o Sr. de Pezieux escreveo ao Sr. de la
-Ravardiere e expedio uma canôa para tal fim, descrevendo o estado em que
-nos achavamos e prestes a sermos sitiados em breve tempo.
-
-Gastou a canoa tres mezes na viagem, e sciente destas coisas partio
-logo que poude em direcção da Ilha, afrontando perigos, que muitos são
-n’estes mares; porem de coisa alguma nos serviria sua actividade, porque
-se n’esse intervallo soffressemos o cerco seriamos já então vencedores ou
-vencidos.
-
-Esta interrupção da viagem do Amazonas causou muito mal a Colonia, porque
-se teria colhido muitos generos pelas margens dos rios, muito mais
-povoados de selvagens de diversas nações do que a Ilha, Tapuitapera, Comã
-e Caieté.[50]
-
-São mais pacificos, e bem providos de algodão.
-
-Quanto mais pobres e necessitados de machados, foices, facas e vestidos,
-tanto mais facil é a troco de qualquer d’estes objectos alcançar grandes
-riquezas.
-
-Outro prejuiso soffreo a Colonia dos francezes, porque achando-se muitas
-nações resolvidas a aproximarem-se da Ilha, por ahi residirem e fazerem
-suas roças, vindo com o Sr. de la Ravardiere, ao saberem taes noticias
-dos portuguezes, resolveram suspender a execução do seo plano, e esperar
-o resultado dos negocios.
-
-Chegando o Sr. de la Ravardiere proseguio-se activamente nas obras dos
-Fortes das avenidas da Ilha, montando-se-lhes artilharia e dando-se-lhes
-guarnição.
-
-Passados alguns dias achou-se acompanhado por muitos guerreiros
-selvagens, que vieram para a Ilha, e entre elles estava o _Arraia
-grande_ dos Caietés, selvagem pelos seos muito estimado, valente, bom
-conselheiro, e de tal influencia, que os seos companheiros o seguem,
-trabalham e abraçam inteiramente as suas ideias, o que foi muito util
-aos francezes visto assim terem muitos homens dedicados, e occupados no
-serviço.
-
-Pouco antes da viagem do Amazonas alguns bregeiros espalharam entre os
-_Caietés_ do _Pará_, que sob o pretexto dessa viagem iam os francezes
-captival-os.
-
-Esta noticia aterrou-os de tal forma, que muitos ja estavam resolvidos a
-deixar suas casas, e a buscar outro lugar quando o _Arraia grande_ por
-seos discursos lhes fez vêr quanto era infundado o seo receio, dizendo
-então muito bem dos francezes.
-
-Elle, sua mulher, e alguns parentes acompanharam uma barca, que ia da
-Ilha para o Pará em busca dos generos do paiz, ahi mui preciosos.
-
-Quiz a infelicidade que, no regresso para a Ilha, naufragasse a canôa por
-estar muito pesada duas legoas longe da terra.
-
-Despresaram todas as riquezas, procurando salvarem-se agarrados a um
-pedaço da escotilha, a uma taboa, ou ao bote.
-
-Esperou o _Arraia grande_, que todos procurassem meios de salvarem-se,
-e afinal elle, sua mulher, e um interprete francez si puzeram a nadar
-animando elle a todos com estas palavras—«a morte é invejosa, vêde como
-atira estas ondas sobre a nossa cabeça afim de nos arremeçar no abysmo,
-mostremos-lhe que somos ainda fortes e valentes, e que não é chegado o
-tempo de nos levar.»
-
-Salvaram-se todos em varias ilhas não habitadas, excepto um francez,
-victima de tubarões.[51]
-
-Vendo o _Arraia grande_ os francezes nús e famintos, em lugares estereis
-e cercados de mar, atirou-se ás ondas, a nado atravessou grande espaço
-cheio de mangue desembaraçando-se á muito custo das raizes destas
-arvores, e do tujuco onde as vezes se enterrava até o pescoço.
-
-Chegando a aldeia dos seos similhantes animou-os a virem com algumas
-canoas, vestidos e viveres, e depois que todos regressaram ás aldeias
-defronte do lugar do naufragio, elle lhes entregou tudo quanto haviam
-perdido, e que o mar tinha atirado ás praias.
-
-Outr’ora este indio, n’um navio de São Maló, veio a França, onde se
-demorou um anno pouco mais ou menos, e em tão pouco tempo aprendeo
-a fallar francez, e ainda hoje se fazia entender bem, embora ja se
-houvessem passado muitos annos, e tem tão bom juiso e memoria que ainda
-hoje conta varias particularidades, que la existem.
-
-Não trato do estado espiritual, e nem do que me disse relativamente ao
-Christianismo, porque deixo isso para o seo lugar proprio, mas quanto ao
-temporal muitas vezes o ouvi dizer aos seos similhantes, e especialmente
-aos _Tabajares_ do Forte de São Luiz, «que os francezes eram fortes, que
-habitavam um paiz grande, abundante de boas comidas, de muito vinho, de
-pão, de boi, de carneiro, de galinhas, de muitas especies de ovos, e de
-grande variedade de peixes: que suas casas eram construidas de pedras,
-cercadas de grossos muros, onde estava assestada grossa artilharia,
-batendo o mar na base da muralha, ou então sendo esta circulada de fossos
-cheios d’agoa.
-
-«Pelas ruas estão lojas de todos os generos. Andam a cavallo, e os
-Grandes, ou melhor os Principaes são acompanhados por muitas pessoas,
-como o Sr. de la Ravardiere, residente perto da cidade, onde cheguei.
-
-«O Rei de França mora no centro do seo reino, n’uma cidade chamada Pariz.
-Os francezes aborrecem, como nós, os _Peros_, e lhes fazem guerra por
-terra e por mar, e sempre com vantagem, porque são fracos os _Peros_,
-valentes e animosos os francezes como nenhuma outra nação, e eis a razão
-porque não devemos temer aquelles visto estes nos defenderem. Alguns
-maldizentes de nossa gente espalharam não terem os francezes podido
-tomar os _Camarapins_, porem isto é falso. Cumpriram seo dever e si os
-Tupinambás tivessem querido ajudar-nos, seriam agarrados, porem o chefe
-dos franceses condoeo-se d’elles, e não quiz que todos fossem queimados
-como aconteceo em parte.»
-
-Fez este e outros discursos similhantes, e depois percorrendo a Ilha, em
-cada aldeia os repetia nas _reuniões_ na _caza grande_.
-
-Procurando imitar a maneira porque entrou na grande praça de São Luiz,
-não só para saudar os Tabajaras, como tambem para ajudar os francezes,
-dispoz elle a sua gente, em numero de cem a cento e vinte, um a um, ou um
-atraz do outro, e assim por diante.
-
-A uns deo cabaças, panellas, e rodela, e a outros espadas e punhaes, a
-estes arcos e flexas, a aquelles differentes instrumentos, dividindo os
-tocadores de Maracá[52] pelas desenas, e assim percorreram a habitação
-dos _Tabajaras_, e depois foram á praça grande do Forte, onde estavamos,
-e ahi acabaram suas danças, muito similhantes a dos _Pantalons_, andando
-e fazendo mesuras, batendo todos ao mesmo tempo com o pé em terra, ao
-som da voz e do Maracá, cujo compasso todos observavam entoando sempre
-louvores aos francezes.
-
-Mechiam em todos os sentidos a cabeça e as mãos, com taes gestos que
-faziam rir as pedras.
-
-Chamam os Tupinambás a esta dança _Porasséu-tapui_, quer dizer, _dança
-dos Tapuias_, porque era outra a dança dos _Tupinambás_, sempre em roda e
-nunca mudando de lugar.
-
-Acabada a dança, veio saudar-nos, e foi comer e descançar na casa, que se
-lhe havia preparado.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXIII
-
-Viagem do capitão Maillar,[53] pela terra firme á casa de um grande
-feiticeiro. Descripção d’esta terra e das zombarias d’elle.
-
-
-É verdade, reconhecida por todos que hão habitado o Brasil, não ser a
-terra firme tão bonita e tão fertil como as Ilhas.
-
-São as ilhas formadas por areia preta e fina, queimada e ardente pelo
-continuo calor, e por isso são ellas mais sujeitas n’esta Zona tórrida
-aos calores e ardores, porque o mar redobra pela reflexão e poder da
-luz do Sol sobre a capacidade proxima e concentrica da terra, o que se
-prova por meio dos espelhos ardentes, cujos centros sendo opacos, e mais
-elevados do que suas circumferencias e bordas, os raios do sól se reunem
-e concentram ahi, produzindo fogo e chama, e assim queimando os objectos
-convenientemente dispostos n’esses lugares.
-
-Ouvindo o Sr. de la Ravardiere os indios fallarem muitas vezes de uma
-localidade muito boa, distante 100 ou 150 legoas do Maranhão, na terra
-firme para as bandas do rio Mearim e longe d’elle 40 ou 50 legoas, mandou
-uma barca e canoas com o capitão Maillar de São Maló, alguns francezes, e
-um cirurgião, todos muito conhecedores da natureza das hervas e arvores
-preciosas.
-
-Ahi vivia, vindo do Maranhão, um dos seos principaes feiticeiros, com 40
-ou 50 selvagens, entre homens e mulheres, n’uma aldeia, que edificara,
-cultivando a terra, que tudo lhe produzia em abundancia, e por isso
-abusando da credulidade dos Tupinambás este miseravel lhes dizia possuir
-um espirito com o poder de fazer a terra dar-lhe o que quizesse.
-
-Ahi chegou o capitão com muitas difficuldades, passando vasta e comprida
-planicie de juncos e caniços, atravessando agoa pela cintura, e depois de
-alguma demora regressou contando-nos o seguinte.
-
-A terra d’esta localidade é dura, gorda e negra, boa para a cultura da
-canna do assucar, e muito melhor que a de Pernambuco, o que bem podia
-avaliar por ter residido por muitos annos ahi e em outros lugares
-possuidos pelos portuguezes.
-
-A terra é cortada por muitos riachos capazes de moverem engenhos para o
-fabrico do assucar.
-
-Ha abundancia de peixes d’agoa doce, grandes e de varias qualidades; são
-innumeraveis as tartarugas; existe toda a qualidade, e em quantidade
-inexprimivel, de caça, como sejam viados, corças, javalis, vacas-bravas,
-e diversas especies de tatús, muitos coelhos e lebres, iguaes ás de
-França, porem mais pequenas, immensa variedade de passaros, como
-sejam perdizes, faisões, mutuns,[54] pombas bravas, trocazes, rolas,
-garças-reaes, e outras admiraveis.
-
-A terra produz raizes tão grossas como a coxa: o tabaco petum ahi cresce
-forte e optimo, e dizem que dá duas colheitas por anno.
-
-O milho cresce forte, cheio, e dá muitas espigas.
-
-Ha fructas muito melhores, e em maior quantidade do que na Ilha, em
-_Tapuitapera_, e _Comã_, papagaios de varias côres e diversos tamanhos,
-notando-se entre elles os _Tuins_,[55] do tamanho de pardaes, os quaes
-aprendem com facilidade a fallar, porem morrem de mal quando são levados
-para a Ilha: vi entre muitos salvarem-se apenas seis, os quaes comendo,
-cantando, e dançando em suas gaiolas, sem apparencia de molestia, davam
-duas ou tres voltas e morriam logo.
-
-Ha tambem muitos macacos e monos barbados, bonitos e raros, e que seriam
-muito apreciados em França, se lá chegassem.
-
-Ahi residia um barbeiro ou feiticeiro muito bem arranjado e com todas as
-commodidades.
-
-Tinha vindo, um pouco antes d’esta viagem, fazer suas feitiçarias e
-nigromancias para ganhar o vestuario e a ferramenta dos selvagens
-do Maranhão e leval-os comsigo quando fosse para a sua terra. Estas
-feitiçarias eram diversas.
-
-Tinha uma grande boneca, que com artificio se movia, especialmente
-com o maxilar inferior; dizia elle ás mulheres dos selvagens, que si
-desejavam vêr quadruplicada a sua colheita de grãos e legumes trouxessem
-e dessem á ella alguns d’estes generos, afim de serem mastigados tres ou
-quatro vezes, e por esta forma recebendo a força de multiplicação do seo
-espirito, que estava na boneca, podiam depois serem plantados em suas
-roças, pois já comsigo levavam a força da multiplicação.
-
-Gozou de muita influencia por onde passou, muitas foram as dadivas das
-mulheres, e mal satisfazia o que promettia, guardavam ellas com todo o
-cuidado os legumes e grãos mastigados.
-
-Estabeleceo uma dansa ou procissão geral fazendo com que todos os
-selvagens levassem na mão um ramo de palmeira espinhosa,[56] chamada
-_tucum_, e assim andavam ao redor das casas, cantando e dansando, para
-animar, dizia elle, o seo espirito a mandar chuvas, então n’esse anno mui
-tardias: depois da procissão _cauinavam_ (bebiam _cauim_) até cahir.[57]
-
-Mandou encher d’agoa muitas vasilhas de barro, e rosnando em cima d’ella
-não sei que palavras, ensopava um ramo de palmeira, e com ella aspergia
-a cabeça de cada um d’elles, dizendo «sêde limpos e puros afim de meo
-espirito enviar-vos chuva em abundancia.»
-
-Tomava uma grande tabóca de bambu, enchia-a de _petum_, deitava-lhe fogo
-n’uma das extremidades, e depois soprava a fumaça sobre os selvagens
-dizendo «recebei a força do meo espirito,[58] e por elle gozareis sempre
-saude, e sereis valentes contra vossos inimigos.»
-
-Plantou no centro d’aldeia uma arvore de maio, carregou-a de algodão,
-e depois de haver dado muitas voltas e vira-voltas em redor, lhes
-prognosticou grande colheita n’esse anno.
-
-Apezar de tudo isto não vindo a chuva, dia e noite fazia elle dançar e
-cantar os selvagens, gritando com quanta força tinham afim de despertar
-seo espirito, como faziam outr’ora os sacrificadores de Baal.
-
-Com tudo isto não choveo.
-
-Fez acreditar á estes selvagens, que elle bem via o seo espirito,
-carregado de chuvas, do lado do mar, porem que não se animava a vir por
-causa da _Cruz_, erguida no centro da praça, fronteira a Capella de N. S.
-d’Vsaap, e que se quizessem ter chuva não havia mais do que deital-a por
-terra, e teriam concordado n’isto facilmente, pondo-o logo em execução se
-ahi não estivessem os Francezes, e si não temessem o castigo.
-
-Chegando estas noticias ao Forte, mandou-se immediatamente o _Cão-grande_
-e alguns Francezes para irem buscar o feiticeiro afim de vêr si elle
-poderia dançar no meio d’uma sala, contra sua vontade, e teria sido preso
-si, advertido como foi, não preparasse sua bagagem, e com sua equipagem
-não se salvasse n’uma canôa, mandando desculpar-se, d’ahi ha pouco tempo,
-por um seo parente trazendo muitos presentes com o fim de fazer pazes.
-
-Fez crer aos selvagens da Ilha, que tinha um espirito muito bom, que era
-muito amigo de Deos, que não era mau, e que por tanto só podia fazer bem.
-
-Dizia elle: «come commigo, dorme, caminha diante de mim, e muitas vezes
-vôa diante dos meos olhos, e quando é tempo de fazer minhas hortas,
-só tenho o trabalho de marcal-as com um pau a sua extensão, e no dia
-seguinte acho tudo prompto.»
-
-Sabendo alguns selvagens christãos, que pretendiamos castigar seo
-companheiro que d’elles tanto abusou, me pediram, que me condoesse d’elle
-e que nada soffresse por não ter sido mau e nem o seo espirito, visto
-terem ambos feito crescer os bens da terra. Ensinei-lhes a este respeito
-o que deviam crêr.
-
-Vede, meos leitores, quanto Satanaz é astucioso: similhante á um macaco
-imita as ceremonias da Igreja para elevar sua superstição, e conservar
-sob seo dominio as almas dos infieis por essa procissão de palmas, essa
-aspersão d’agoa, esse sopro de fumo para communicar o espirito, de que
-fallaremos mais simplesmente no _Tratado do espiritual_.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXIV
-
-Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos, suas habitações, e
-procedimento.
-
-
-N’esse tempo a nação dos _Tremembés_, moradora alem da montanha de
-_Camussy_, e nas planicies e areiaes da banda do rio _Tury_, não muito
-distante das Arvores Seccas, das Areias Brancas, e da pequena Ilha de
-Santa Anna, sahio, sem esperar-se, para a floresta, onde se aninham os
-passaros vermelhos, e para os areiaes onde se encontra o ambar gris,
-e se pesca grande quantidade de peixes, com intenção, de surprehender
-os _Tupinambás_, seos inimigos irreconciliaveis, o que malogrou-se,
-visto que muitos _Tupinambás_ da Ilha tendo ido ahi com o fim especial
-de pescar, foram accommettidos pelos _Tremembés_,[59] sendo uns mortos
-immediatamente, outros captivos sem saber-se o que d’elles fizeram, e
-finalmente alguns embarcados n’uma canôa poderam salvar-se regressando á
-Ilha do Maranhão, onde contaram tão tristes casos causando nas aldeias,
-a que pertenciam os mortos, tanta indignação, que todos, vóz em grita e
-chorando, especialmente as mães e as mulheres, insistiram pela vingança,
-ao que acquiesceram os Principaes, vindo pedir aos francezes um chefe e
-alguns soldados, no que foram satisfeitos.
-
-_Japy-açú_ foi o conductor d’este exercito[60] composto de grande numero
-de selvagens, e acompanhado por alguns francezes.
-
-Atravessaram o mar entre a ilha e as areias brancas, saltaram em terra
-para descançar e passar a noite pescando uns, caçando outros, e as
-mulheres e as filhas procurando agoa pelos areiaes, a qual não podia
-ser senão salôbra, isto é, meia doce e meia salgada, armando as redes,
-fazendo fogo e preparando a comida.
-
-Os mancebos _Tupinambás_ fizeram _Aiupuues_, (choupanas) tanto para
-os Principaes como para os Francezes: na melhor _auipaue_ alojou-se
-o Coronel, e os Capitães armaram suas redes ao redor da do Coronel,
-ceremonia que observam em todas as suas guerras, especialmente quando se
-acham perto do inimigo.
-
-Escondem o fogo com receio de não serem á noite descubertos pelos
-inimigos, por ser costume geral d’elles o fazer subir no cume de arvores
-muito altas suas sentinellas afim de descubrirem fogo ou luz dos inimigos.
-
-Na manhã seguinte puzeram-se em marcha até um grande areial cercado de
-mato por tres lados, e de mar pelo ultimo: ahi encontraram as choupanas
-dos _Tremembés_, uma panella portugueza, e combinando isto com o que
-já sabiamos anteriormente, ficamos sabendo, que os Portuguezes estavam
-na _Tartaruga_, na serra de _Camussy_, unidos aos _Tremembés_, aos
-_Montagnars_, tanto de _Ybuapap_ como de _Mocuru_, principalmente com
-_Jeropary-uaçu_, isto é, com o _Grande-diabo_, principe e rei de uma
-grande nação de Cambaes,[61] muito amigo dos francezes, e inimigo natural
-dos portuguezes, podendo afiançar-se com certesa, que si os francezes
-ahi fossem, elle trahiria os portuguezes e unindo-se a elles, por ser
-_mulato-francez_, isto é, filho de um francez e de uma india.
-
-Voltemos ao nosso proposito.
-
-Encontraram os nossos selvagens ainda vivo um dos seus, que fugio para
-o mato, e escondeo-se no concavo de uma arvore; porem ouvindo o som das
-trompas de guerra, que eram feitas de um grosso madeiro cavado, tendo as
-aberturas superior e inferior similhantes á uma trombeta, sahio muito
-magro, e quase que sem figura humana por não ter comido durante oito dias
-senão folhas da arvore, onde escondeo-se: ensinou, como lhe permittiram
-suas forças, o lugar onde jaziam mortos seos companheiros, que foram
-encontrados com as cabeças rachadas, e sobre seos corpos os machados de
-pedras, instrumentos d’essas atrocidades, por ser costume entre elles
-nunca se servirem d’uma arma com que ja mataram um inimigo.
-
-_Caruatapyran_, um dos Principaes de Comã, trouxe-me um d’esses machados
-de pedra, ainda tinto de sangue, com alguns cabellos adherentes, e com um
-pouco do cerebro do Principal _Íanuaran_, que com elle foi morto, o que
-se soube por ser encontrado sobre seo corpo.
-
-_Caruatapyran_ pegando um d’esses machados, feito em fórma de crescente,
-ensinou-me o que eu não sabia, dizendo-me terem os _Tremembés_ o
-costume mensal de vellar toda a noite fazendo seos machados até ficarem
-perfeitos, em virtude da superstição, que nutriam, de que indo para a
-guerra armados com taes instrumentos nunca seriam vencidos, e sim sempre
-vencedores.
-
-Em quanto os homens e as mulheres se entregavam a este trabalho dançavam
-as moças e os meninos a frente das choupanas ao luar do crescente.
-
-São valentes os _Tremembés_ e temidos pelos _Tupinambás_; d’estatura
-regular, mais vagamundos do que estaveis em suas moradias: alimentam-se
-ordinariamente de peixes, porem vão á caça quando lhes apraz: não gostam
-de fazer hortas, e nem casas: moram debaixo das choupanas; preferem as
-planicies ás florestas porque com um simples olhar descobrem tudo quanto
-está ás suas vistas.
-
-Não conduzem após si muita bagagem, pois contentam-se com seos arcos,
-flexas, machados, um pouco de _cauï_, algumas cabaças[62] para guardar
-agoa, e umas panellas para cozinhar a comida: com mais destresa que os
-Tupinambás pescam á flexa: são tão robustos a ponto de segurarem pelo
-braço um dos seos inimigos e atirarem-no ao chão, como se fosse um capão.
-Dormem n’areia ordinariamente.
-
-Servem-se d’este lugar de areias brancas, e de arvores seccas para
-agarrar os _Tupinambás_, como ratoeira para pilhar ratos, e isto por tres
-razões.
-
-A primeira, por causa da pesca, ahi abundante e variada.
-
-A segunda, por causa de uma floresta, onde os passaros vermelhos de todas
-as partes vem fazer ninho para desovar. Não deixam de ir ahi em certo
-tempo os _Tupinambás_ para tirar do ninho os filhótes e os ovos meios
-chocos, havendo abundancia impossivel de descrever-se, levando, quando
-regressão á villa, provisão para dois mezes, preparando antecedentemente
-uns assados, e outros seccos e duros como paus, o que nunca me agradou, e
-a fallar verdade, nunca pude comel-os, embora sejam para os selvagens o
-primeiro prato, e bem delicioso. Logo contarei alguns uzos particulares,
-e bem notaveis, d’estes passaros.
-
-O terceiro motivo é para colher o ambar-gris, chamado pelos Tupinambás
-_Piraputy_ «excremento de peixes,»[63] por que elles pensam ser o
-ambar-gris o excremento das baleias, ou de outros peixes iguaes em
-corpulencia, o qual vindo á tona d’agoa, é pelas ondas atirado a essas
-praias.
-
-Dizem alguns francezes não ser o ambar-gris outra coisa mais do que a
-«flor do mar,» a que os selvagens chamam _Paranampoture_, ou uma certa
-gomma do mar, _Paranamussuk_.
-
-Decida o leitor como lhe aprouver.
-
-N’estas areias encontra-se o ambar-gris em massa, mais n’um tempo do que
-n’outro, e algumas vezes chega a massa a tal tamanho e grossura, que
-merece ser guardada n’algum gabinete real, não podendo ser justamente
-apreçada e vendida. Acontece as vezes virem poisar sobre ellas todos
-os bixos, passaros, carangueijos, lagartos, e outros reptis d’ahi, das
-circumvisinhanças, e do mar, e com elles as vêem procurando-as com
-cuidado, e por isso são essas grandes massas partidas em varios pedaços.
-
-Aconselhei a elles, que ahi fizessem um _Forte_ não só para impedirem
-as correrias dos _Tremembés_, como para tapar a entrada aos navios, que
-buscam a Ilha de Sant’Anna afim de colherem o ambar-gris; não ha duvida,
-que o mar atira muitas vezes sobre estas areias o ambar, que por ahi
-espalhado é comido por animaes, passaros e reptis, pois os selvagens da
-Ilha ahi vão apenas duas ou tres vezes durante o anno.
-
-Tenho certesa, que a colheita do ambar chegaria para pagar as despezas do
-Forte, da sua guarnição, e do mais que fosse necessario.
-
-Os nossos selvagens e francezes depois de muitas indagações por varios
-lugares somente acharam os corpos mortos dos seos, as choupanas, e
-vestigios de inimigos, e assim regressaram á Ilha mais famintos do que
-feridos.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXV
-
-Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuitapera e da viagem ao Uarpy.
-
-
-Lá para o lado do Oeste havia uma nação, de que nunca se fallou,
-desconhecida por todos os _Tupinambás_, moradora nos mattos na distancia
-de mais de 400 á 500 legoas da Ilha, sem conhecer a vantagem dos machados
-e das foices, pois apenas se serviam dos machados de pedra, e assim
-viviam em segredo nas florestas d’essa localidade sob a obediencia de um
-Rei.
-
-Souberam por alguns selvagens, que apresionaram no mar, da vinda dos
-francezes á Maranhão, da sua residencia ahi, trazendo comsigo Padres, que
-ensinavam qual era o verdadeiro Deos, e absolviam os selvagens dos seos
-peccados.
-
-Levando taes noticias ao seo rei mandou este logo algumas canoas, e
-n’uma d’ellas foi o governador, abaixo d’elle, d’esta nação, acompanhado
-por duzentos mancebos fortes e valentes, ageis na natação e no uso da
-flecha, com instrucção de chegarem á Ilha, porem não podendo pôr pé em
-terra, limitando-se apenas a fallar com os interpretes dos francezes,
-e regressando depois á sua terra tomando todo o cuidado para não ser
-descoberto o caminho que seguiam.
-
-Chegaram defronte de _Tapuitapera_, onde então se achava o interprete
-_Migam_, que apenas soube da chegada d’elles foi ao seo encontro no mar,
-e com o seo Principal fallou por muito tempo.
-
-Interrogou-o o Principal acerca dos Padres, quem eram, o que faziam e
-ensinavam: á respeito dos francezes, quaes suas forças, e mercadorias,
-si era certo terem conciliado os _Tupinambás_ com os _Tabajares_, e si
-viviam em paz na Ilha.
-
-Respondendo o interprete a tudo isto, como devia, ficou satisfeito
-e assim o disse, asseverando que o mesmo aconteceria a seo Rei e a
-sua Nação, porque todos desejavam aproximarem-se dos francezes para
-conhecerem a Deos, terem machados e foices de ferro, com que cultivassem
-suas roças, e estivessem sempre em guarda contra os seos inimigos,
-plantando muito algodão e outros generos para offerecerem, como
-recompensa, aos francezes, aos quaes apenas pediam alliança e protecção.
-
-Perguntou-lhes o interprete, si era grande sua nação, e si estava muito
-longe, ao que respondeo affirmativamente, marcando a distancia por legoas
-pouco mais ou menos, que podiam haver da Ilha á sua terra, mostrando
-com os dedos o numero de luas, isto é, de mezes, que eram necessarios
-para regressarem ao seo paiz, e accrescentou «não te posso dizer o logar
-da nossa habitação, porque meo Rei assim me prohibio, e tambem porque
-receiamos, que si nos faça guerra. D’aqui ha seis mezes regressarei para
-te dar certas noticias, e podes dizer ao teo chefe, que sendo verdadeiras
-as tuas informações viremos morar por aqui perto.»
-
-O interprete respondeo—«vem, te rogo, vêr o Fórte, que fizemos, as
-grandes peças, que montamos sobre suas muralhas, e os francezes, que as
-guarnecem para de tudo dares noticias á teo Rei.»
-
-«Não, disse elle, eu e os meos recebemos ordem de não saltar em terra».
-Tanto porem instaram com elle, quase recebendo refens, consentio alguns
-dos seos saltar em _Tapuitapera_, onde foram muito bem tratados, e ahi
-adquirindo, em troca de generos, que levaram, alguns machados e foices,
-regressaram mui contentes.
-
-Durante essa visita, conservaram-se a nado as canoas, os remos armados, e
-tudo prestes se houvesse alguma traição. Tinham os outros as flechas e os
-arcos promptos, tanto desconfiam estas nações umas das outras!
-
-Apenas chegaram os seos, restituiram os refens, e foram-se em paz. Deos
-os guie e os traga ao seo gremio.
-
-Quanto á viagem ao _Uarpy_,[64][BE] rio e região, em distancia para mais
-de 120 legoas da Ilha, lá para as bandas dos Caietés, foi emprehendida
-pelo Sr. de Pezieux, com alguns francezes, e duzentos selvagens pelos
-seguintes motivos.
-
-Primeiro: para descobrir uma mina de oiro e prata na distancia de
-100 legoas acima do rio, d’onde os selvagens nos trouxeram enxofre
-mineral, muito bom, e por tanto havia esperança de serem as minas boas e
-abundantes.
-
-Tem me esquecido dizer, que ha em toda esta terra grande numero de minas
-de oiro, misturado com cobre, de prata misturada com chumbo,[65] o que
-provam as agoas mineraes que descem dos montes.
-
-Segundo: para traser comsigo uma nação de Tabajares, habitante das
-margens do Rio.
-
-Terceiro: para procurar uma nação de _cabellos compridos_ por ahi
-errante, os quaes são doceis, faceis de serem civilisados, e que negociam
-com os _Tupinambás_.
-
-Si se realisarem estas coisas, como creio, a Ilha será em pouco tempo
-rica de generos cultivados por todos estes selvagens reunidos, e
-tornar-se-ha forte contra a invasão dos portuguezes, e descançando
-n’esta esperança vou fallar de algumas raridades, que notei ahi, cortando
-as difficuldades que se apresentam á primeira vista por meio de razões
-boas e naturaes.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXVI
-
-Dos astros e do sól.
-
-
-É bello e magnifico o Ceo, n’esta zona tórrida, embora pareça muito menos
-estrellado do que na Europa, isto é, não apparecem tantas estrellinhas
-fixadas na abobada azulada d’aquelle como acontece na do nosso, pois no
-Maranhão ha estrellas maiores e brilhantes, e mais luzentes do que aqui.
-
-Não me convenço de lá não haverem menos estrellas do que aqui, antes esta
-falta, que noto, attribuo á minha vista, e por mais esta razão.
-
-Todos os que habitam fóra dos dois solsticios, _Cancer_ e _Capricornio_,
-olham obliquamente o centro do ceo, que é a linha ecliptica ou zona
-tórrida, onde passa o sol, e por tanto tem maior horisonte, ou maior
-espaço do ceo a contemplar, e menos numero de estrellas a contar.
-
-É pela experiencia confirmada esta razão, porque nasce e deita-se o sol,
-sem preceder aurora, e assim acaba o dia e começa a noite, e si ha tarde
-ou manhã é quasi nada.
-
-Na Europa acontece o contrario, pois algumas vezes temos mais de duas
-horas de tarde, e outras tantas de manhã, antes do nascimento e do occaso
-do sol, porque os habitantes da zona tórrida estão na esphéra direita e
-nós outros na obliqua.
-
-Ainda acrescento outra experiencia.
-
-Quando regressamos de Maranhão para cá, no Polo Septentrional,
-descubrimos mais depressa a estrella d’este Polo, do que quando na nossa
-viagem para lá descobrimos a estrella do Cruzeiro embora mais elevada do
-que o Polo Antarctico ou Austral.
-
-Ainda fiz outra observação n’este planeta do Sol, é que mostra dois
-meios-dias diversos entre os dois termos do anno, de sorte que n’uma
-metade do anno, olhando o Este está á direita, isto é, na parte austral,
-e no resto do anno a esquerda, isto é, na parte septentrional, e em
-ambos elles ha pouca sombra. O sol no zenith somente duas vezes no anno
-olha para esta terra, como succede a todas as regiões contidas nos dois
-solsticios: algumas vezes está tão perto da esphera direita, que pouco
-falta para chegar ao meio dia, e ferir-vos a prumo o cume da cabeça.
-
-Comtudo isto destinguem-se perfeitamente ambos estes meios-dias.
-
-Explica-se isto por ser preciso cortar duas vezes, annualmente, o sol
-quando no zenith, a zona tórrida, como já disse, para fazer os solsticios
-de Cancer e Capricornio, e por tanto os habitantes da zona tórrida o vêem
-fazer o seo meio-dia ora de um lado, ora de outro: por exemplo: quando
-sahe do Capricornio afim de encaminhar-se para Cancer, os brasileiros
-habitantes da zona tórrida observam o seo meio-dia á direita e quando
-deixa Cancer com direcção á Capricornio vêem-no á esquerda.
-
-Abre-se-me vasto campo para descobrir a sabedoria de Deos na organisação
-do mundo, tendo por fim apenas escrever succintamente uma historia,
-entrego á consideração do leitor chamando a sua attenção para a maneira
-como Deos dividio o curso do sol em duas extremidades e um meio,
-recebendo os habitantes de todas estas tres partes a mesma luz durante o
-anno, tanto uns como outros, excepto os habitantes de Cancer, que apenas
-tem durante o anno tres dias e algumas horas de sol mais do que os de
-Capricornio, originando-se por isso os annos bissextos e a reforma do
-calendario, como vamos explicar.
-
-Principiemos pelo meio-dia, e acabemos pelas extremidades.
-
-O meio é composto de duas extremidades, equidistantes uma da outra,
-porque de outra forma não seria meio.
-
-O curso do Sol se faz em 24 horas, dia natural, e em 12 mezes por anno.
-
-Ora sendo a zona tórrida o meio do curso diario e annual do sol, é
-indispensavel, que na sua terceira parte e porção mostre diaria e
-annualmente á luz do sol igual a que se apresenta nas duas extremidades,
-o que não poderia fazer; si os dias não fossem iguaes, tendo cada um 12
-horas de Sol, porque, si excedessem ainda que pouco, não seria o meio do
-curso do sol, e sim cahiria mais para uma das duas extremidades, tendo,
-durante 12 mezes, uns dias maiores do que outros, compensando n’uns o que
-n’outros perdia, e convindo por isso marcar-se outra zona de céo, que
-fosse o meio e o centro d’esse curso, sendo o meio a essencia e a base
-das duas extremidades.
-
-É impossivel imaginar-se dois extremos sem meio: como ja disse, o meio
-é composto de duas extremidades, e por isso sendo a zona tórrida o
-meio da carreira do sol, deve ter sua porção de luz á custa das duas
-extremidades, que são dose e dose, que dá o sol igualmente para os dois
-solsticios, entre as duas partes do anno, recompensando n’um tempo o que
-n’outro perdeo.
-
-Consideremos agora uma terceira porção para servir de meio d’estas duas
-extremidades, dose á dose.
-
-Convem tomar 12 de uma parte e 12 de outra para ser o todo igual:
-comprehendereis assim facilmente como esta zona tórrida gosa igualmente
-com as outras partes do mundo da luz do sol sem mudar seo numero de seis
-a seis em tempo algum, porque partecipa igualmente das duas extremidades,
-quer vá o sol visitar Cancer e seos habitantes dando-lhe com a sua boa
-chegada mais largura e liberalidade de luz, quer vá fazer outro tanto
-no Capricornio, não lhe sendo por isso de forma alguma importuna a zona
-tórrida, e nem alteando o seo imposto ordinario, fazendo-lhe pagar
-somente, seis horas da manhã, e seis depois do meio dia, a luz e calor
-para a sua passagem da travessia da terra, e pelo trabalho dos seos
-habitantes durante a sua vinda.
-
-Quanto ás terras e aos habitantes inter e extra-tropicaes dividem entre
-si igualmente, pouco mais ou menos, em diversos tempos, a luz do sol, e
-por compensação mais n’um tempo do que em outro: no fim do anno acham que
-cada um teve 12 horas de luz para um dia natural, e dose mezes por anno.
-
-Já disse que os habitantes de Cancer, dentro e fóra do seo Tropico, gosam
-mais tres dias do sol do que os outros.
-
-Dar a razão natural d’isto, e o que dizem os astrologos, é o mesmo que
-nada, por ser segredo, que em si guardou a divina Providencia, e uma
-honra que deo ao mundo antigo, composto d’Asia, Africa e Europa, e si
-basta uma razão allegorica, sou de opinião que é para fazer sobresahir
-tres privilegios especiaes, que sobre o mundo velho alcançou o novo, e
-que são—a primeira habitação do homem expellido do Paraiso Terrestre;
-dadiva da lei escripta á Moysés; e a redempção do mundo por Jesus Christo.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXVII
-
-Ventos, chuvas, trovões, e relampagos em Maranhão e suas
-circumvisinhanças.
-
-
-Alem do que a este respeito disse em sua _Historia_ o padre Claudio
-d’Abbeville acrescentarei para satisfação do leitor o que me fez conhecer
-a experiencia:
-
-1.º Fallando dos ventos, entre os quaes o do Oriente tem o sceptro e
-occupa o reino do Brasil, alem das razões dadas por esse Reverendo Padre,
-dou outra, que devo aos mathematicos, que por lá andaram e escreveram
-sobre a materia.
-
-Dizem elles, que a constancia d’esse vento soprando por ahi é devida á
-disposição das costas do Brasil, em linha recta de Este a Oeste, porque
-tendo o sol levantado os vapores da terra e da agoa e atirando-os apòs
-si, pela violencia do seo curso diario encontram as costas do Brasil do
-Oriente ao Ocidente sem inflexão ou curva alguma e por isso seguem por
-ahi.
-
-Praticamente observa-se isto com o fumo, que espalha-se no primeiro
-corpo solido, que encontra como sustentaculo de sua fraqueza, e sem elle
-derrama-se á feição do vento, que ahi sopra.
-
-Com quanto o vento das outras tres partes do mundo, a saber, Oeste, Norte
-e Sul não reinem no Maranhão e suas circumvisinhanças em comparação com o
-de Este, não se pode comtudo dizer, que não soprem algumas vezes ventos
-do Norte e do Sul, e raras vezes o de Oeste.
-
-Em Maranhão os ventos vão sempre augmentando desde Agosto até Janeiro,
-que é propriamente o estio d’esta terra, e quando o tempo é sempre sereno.
-
-Explica-se isto pelo curso do sol que regressando do solsticio de Cancer
-para o de Capricornio surgem debaixo da zona tórrida grandes vapores,
-aquosos e humidos, e quanto mais se aproxima d’essas terras mais se
-levanta, e por tanto mais se reforçam esses ventos, que não são outra
-coisa senão esses vapores misturados com o ar.
-
-2.º A razão porque começam as chuvas em Janeiro ou em Fevereiro, e vão
-sempre augmentando até principio de Junho ou fins de Abril, é porque o
-Sol volta do solsticio de Capricornio para o de Cancer, e attrahindo
-muita humidade expande-a no ar, e d’ahi cahem as chuvas: quanto mais o
-Sol se aproxima do seo termo, mais augmenta sua humidade, e torna a queda
-das agoas mais expessa, forte, e rapida, e por isso vemos no Brazil ser
-differente a epocha e a força das chuvas, isto é, mais depressa e mais
-abundante n’uma terra do que em outra.
-
-De ordinario são as chuvas abundantes e frequentes, duradouras e
-continuas, mais á noite do que de dia: é o tempo proprio para semeiar-se,
-porque tudo nasce, cresce, produz, e dá colheitas.
-
-Quando a terra é arenosa, e que está secca pela proximidade do Sol, ao
-cahir das chuvas continuas e abundantes, ella absorve admiravelmente as
-agoas, muda a sua secura para uma temperatura humida, que é a mãe das
-gerações.
-
-São diversas estas chuvas do orvalho da noite no estio, porque tem
-este bom cheiro e aquellas mau, visto que provindo as chuvas do choque
-de expessos vapores aerios, trazem portanto comsigo a qualidade de
-seos agentes e a sua causa efficiente: acrescente-se ainda que a queda
-impetuosa das agoas sobre a terra, coberta de folhas em putrefacção ou
-de cinzas de paus queimados, revolve-a, e d’ella faz desprender-se, com
-o seo estado constante de calor natural, mau cheiro proveniente de taes
-objectos.
-
-O orvalho cahindo doce e brandamente em noite serena, mais fria do que
-cálida, exhala cheiro agradavel, especialmente quando se derrama sobre
-plantas odoriferas.
-
-É mais doentio o tempo das chuvas do que o das brisas, ou ventos de Este,
-porque em primeiro logar não sopram mais os ventos, e por conseguinte
-não purificam o ar, e d’elle não expellem vapores intensos, maritimos e
-aquosos, e por isso mui doentios: em segundo logar chocando-se as nuvens
-e cahindo as chuvas, apparecem molezas no corpo, doenças de coração,
-desarranjos do estomago, enfraquecendo-se os nervos, e infiltrando-se os
-ossos de humidade o que não apparece no tempo das ventanias, que limpam o
-ar, o mar, e a terra.
-
-3.º Os trovões e relampagos são, sem comparação alguma, mais fortes e
-frequentes no Brasil do que no mundo velho, especialmente no tempo das
-chuvas, são horriveis os trovões, parecendo abalar-se a terra, e um
-relampago dura mais do que dose na Europa.
-
-Durante esse tempo não sahem de casa os selvagens, e nem o mais valente
-se atreve a pôr o nariz fóra da porta, e eu mesmo, sem ser dos mais
-timoratos, fartei-me de medo, embora ninguem visse a queda do raio.
-
-Eis a razão.
-
-Emquanto é brando o calor de Agosto á Fevereiro raras vezes ha trovões;
-mas quando surge a guerra do frio e do calor, que é de Fevereiro á Junho,
-então é necessario que appareçam escorvas e peças, isto é, raios e
-trovões.
-
-N’este tempo reina o calor na zona tórrida com todo o seo vigor, e o frio
-então se fortifica pelo regresso do Sol de Capricornio para Cancer, cheio
-de humidades do ar, e por isso é grande o combate, mais frequentes os
-trovões, e mais medonhos os relampagos.
-
-Não se descobre a queda dos raios porque são altas e vigorosas as arvores
-do Brazil, e ordinariamente é n’ellas, como acontece em toda a parte,
-onde cahem os raios.
-
-Como é o paiz coberto de florestas, e repleto de arvores de admiravel
-altura, é bem facil cahir o raio desapercebidamente.
-
-Prova-se isto todos os dias com arvores cahidas e queimadas, que se
-encontram nas florestas.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXVIII
-
-Mar, agoas, e fontes do Maranhão.
-
-
-O mar, pelas suas marés, não é o mesmo que o do restante do Mundo.
-
-Embora o Occeano acompanhe infallivelmente o crescente, o plenilunio, e o
-minguante da Lua, comtudo notaram nossos marinheiros em um ou dois dias,
-e algumas vezes mais, differença e falta de igualdade do que se observa
-n’outras marés do Universo.
-
-Explica-se isto observando-se, que o Brazil está cercado de milhares de
-inflexões ou voltas, formadas umas por bancos e corôas de areia, e outras
-por voltas de pontas de terra e bahias.
-
-Accrescente-se ainda terem todas estas terras as sahidas mui retalhadas,
-que impossibilitam o desembocar da maré com toda a sua força para os rios
-salgados e portos e barras, como acontece n’outras partes.
-
-Reparae por exemplo o fluxo e refluxo do mar no rio Sena, pois quando o
-mar no Havre da Graça principia a refluir já a onda chegou a Ponte de
-Arche.
-
-Reparei tambem na seguinte coisa commum ás outras marés, porem não tanto
-como as antecedentes.
-
-O mar no seo fluxo, batendo nas pontas das rochas, deixa no meio um canal
-ou rego, que mostra a sua corrente principal, forrado de excrecencias
-maritimas, que ahi se amontoam, e si passar-se uma corda pelo seo nivel
-poderá servir de marca aos pilotos para reconhecer o canal no meio dos
-recifes.
-
-Parece-me explicar-se isto pela propriedade da forma circular, que tem
-os elementos, a qual lhes permitte expandir-se até a circumferencia: em
-virtude d’isto o mar faz no meio do centro do seo fluxo o rego, ou fio de
-sua carreira, depois dispersa-se, e dá a cada ponta de rochedo a sahida
-para a maré, e por isso tenho observado algumas vezes muitos pedaços
-de pau serem arremeçados em diversos sentidos contra os rochedos pela
-violencia e corrente d’essas differentes marés.
-
-As agoas do Maranhão são incorruptiveis, e muito melhores do que as da
-Europa, como tive occasião de verificar por espaço de dez semanas na
-viagem do meo regresso: eis a razão: quanto mais sugeito está um corpo á
-transformação e mudanças de qualidade, mais susceptivel se torna de ser
-corrompido e mau por causa das alterações, que soffre, ora as agoas do
-Maranhão achando-se sempre no mesmo estado, são por tanto incorruptiveis
-e optimas. As agoas da Europa são pelo contrario ora quentes, ora frias,
-e por conseguinte corrompidas e más.
-
-Não são frias como as da Europa as fontes do Maranhão, porque sendo
-baixas as terras do Brazil não póde operar-se a anteperistase em suas
-entranhas, especialmente pela proximidade do sól, que penetra muito bem e
-com todo o vigor na terra, que é arenosa e mui susceptivel de calor.
-
-As agoas da Europa são frias no Estio por causa da grande anteperistase
-das terras, d’onde cahem as agoas, que são altas, muitas vezes fortes e
-densas, e por isso resistem ao sol.
-
-Conservam as fontes do Brazil sempre a mesma temperatura, porque o sol
-derrama-se igualmente por cima d’ellas, que nada tem, que lhes possa
-imprimir alguma qualidade fria.
-
-Entre as fontes do Maranhão umas são melhores do que outras, e tem até
-côres diversas: a que nasce da terra é diversa em gosto e côr, porque
-sendo a terra baixa, e havendo muitas arvores, umas com bom gosto e
-outras com mau, estendem por ahi suas raizes, e d’ellas os olhos d’agoa,
-ou os veios das fontes recebem qualidade boa ou má, tanto da terra como
-das arvores.
-
-Notei n’estas fontes o seccarem umas em setembro, e outras minguarem
-muito, porque sendo o terreno do Maranhão quente, secco, e arenoso
-consome facilmente as agoas das chuvas, que por elle corre, e que serve
-de alimento ás ditas fontes: achando-se pois os mezes de setembro,
-outubro, novembro e dezembro muito longe das chuvas, é natural, que ás
-fontes aconteça o que já dissemos.
-
-Quem quizer beber agoa muito fria, deve expol-a ao sereno, e na manhã
-seguinte está tão fria como gêlo, o que não lhe succederá se n’essa
-hora for buscal-a á fonte, porque sendo as noites em Maranhão muito
-frias, ellas tem muito mais força sobre uma porção d’agoa guardada n’uma
-vasilha, cercada de ar por todos os lados, do que sobre agoas sempre em
-movimento pela corrente, contidas em leitos baixos, cobertas e sombrias
-por todos os lados, e tendo a superficie apenas á vista.
-
-Facilmente observa-se isto na Europa, durante o inverno, nas fontes e
-poços situados em lugares retirados e sombrios, pois nunca suas agoas se
-gelam, ou pelo menos se esfriam.
-
-
-
-
-CAPITULO XXXIX
-
-Singularidades de algumas arvores do Maranhão.[66]
-
-
-As arvores do Maranhão, em sua maior parte, são duras e pesadas, porque a
-solidez nas coisas mixtas provem da boa cocção da humidade.
-
-N’este paiz existe em igual abundancia tanto a humidade como o calor,
-cada um durante a sua estação: as chuvas tem seo tempo proprio para
-alagar a terra, e o calor tambem o tem para coser e digerir esta
-humidade, que é nutricção dos vegetaes, especialmente das arvores, que
-estendendo suas raizes dentro e fóra da terra por ahi chupam muita agoa
-e sobrevindo o calor transforma a humidade em corpo solido.
-
-As arvores estão sempre verdejantes por successão diaria e continua de
-folhas novas ás velhas, de fórma que, sahindo aquellas dos olhos dos
-ramos vão logo por força propria attrahindo a seiva, ficando d’ella
-privada as velhas, que por isso definham e cahem.
-
-Observamos isto no nosso corpo quando uma unha nova vem substituir a
-velha.
-
-Por esta renovação de folhas conservam-se as arvores no mesmo estado, o
-que não vemos na Europa porque o inverno retem no interior das arvores o
-calor natural d’ellas: é necessario que cáiam as folhas antes da ausencia
-do calor, ficando só a humidade, que apodrece o pé da folha em vez de lhe
-dar vigor como acontecia no tempo do calor, e por tanto assim se faz a
-queda das folhas.
-
-No Brazil acontece o contrario porque vivendo o calor e a humidade em
-boa e perpetua companhia, novas folhas nascem ao mesmo tempo que as
-velhas cahem: geralmente, em todas as coisas notam-se tres estados: 1.º
-Crescer. 2.º Permanecer. 3.º Decrescer e assim sempre até morrer: eis o
-que observamos nas folhas—teem tempo para crescerem, ficarem perfeitas, e
-depois irem definhando até cahirem seccas.
-
-Entre estas arvores merecem especial menção em primeiro lugar os
-_mangues_, arvores, que crescem nas barreiras do mar, e espalham
-seos ramos, e fibras sobre as areias do mar, ou entre as pedras que
-cobrem o limo, ahi se fortificam, engrossam, e chegando ao seo estado
-completo, começam elles mesmos a deitar novas fibras, que tem igual
-desenvolvimento, e assim se reproduzem infinitamente, não pelas raizes,
-como as outras arvores, e sim pelos seos ramos.
-
-Não sei o que mais admirar, si a successão perpetua de pae a filho, ou a
-geração inteiramente diversa das outras arvores.
-
-A razão, porque assim produzem estas arvores, provém de serem altas,
-pesadas e em seo principio finas e delgadas para a raiz, e grossas no
-centro: se nasciam da raiz de seo pae, nunca poderiam subir por causa da
-fraqueza e delicadesa de seo pé, da grossura e peso do seo meio, e assim
-ficam deitadas e rastejando pela areia, a que deo a natureza o encargo
-de dar dois nascimentos; um do ramo de seo pae, onde ficam perpetuamente
-encorporadas e por conseguinte bem sustentadas, outro da origem da
-enseiada do mar, na qual ellas aprofundam e estendem suas raizes, e d’ahi
-extrahem segunda nutrição, e assim sustentadas e nutridas por cima e por
-baixo com facilidade crescem.
-
-Notae de passagem esta bella particularidade de terem dois nascimentos e
-duas nutrições: a primeira de cima consubstancial com o seo gerador, que
-com elle faz uma mesma essencia, sendo gerado, sahido d’elle, e sempre
-com elle e inseparavelmente vivendo de sua nutrição. O segundo nascimento
-e nutrição é debaixo do seio da areia do mar, nutrindo-se do mesmo mar,
-chamando para cima esta nutrição para unil-a com a que recebe de seo Pae:
-por estas duas nutrições cresce, estende seos ramos, dos quaes, de novo,
-por outro nascimento produz seos fios, que adquirem raizes dentro do
-mesmo mar, que o produz.
-
-D’esta comparação eu me servia para fazer comprehender aos selvagens
-o Mysterio da Encarnação do Filho de Deos dizendo ter elle dois
-nascimentos, um de cima, eterno e divino, sahindo de seo Pae sem d’elle
-sahir, distincto de seo pae por hypostase como o ramo de mangue, com o
-filho gerado d’elle, unico comtudo na essencia e na substancia com seo
-gerador, como a fibra com seo ramo, vivendo de uma mesma nutrição divina
-e celeste, a saber, o amor do Espirito Santo, que constitue a terceira
-pessoa da Trindade: o outro nascimento é de baixo, temporal e humano,
-sahido do seio da Virgem Maria, nutrido com o seo leite sagrado, foi
-crescendo homem e Deos ao mesmo tempo, vivendo interiormente da nutrição
-divina, e exteriormente da nutrição corporal, e quando chegou á idade
-de 33 annos e meio, depois de haver communicado sua doutrina celeste aos
-homens, confirmada por seos milagres, estendeo seos braços, consentindo
-que fossem pregados na arvore da Cruz e do meio de suas chagas sahiram
-seos escolhidos, que depois tomaram raizes na Santa Igreja, regenerados
-pela agoa do baptismo, e nutridos pelos Sanctos Sacramentos.
-
-Diziam-me os selvagens, que comprehendiam isto muito bem e sem a menor
-difficuldade, porque si Deos deo tal poder ás arvores, que não sentem,
-porque não poderia elle fazer o mesmo a si?
-
-N’esse paiz existem arvores, que se mostram exteriormente seccas, sem
-folha alguma, e comtudo quando chega o tempo proprio brotam d’ellas em
-quantidade flores muito bellas e em cachopas, porem são de diversas cores
-e ordinariamente amarellas.
-
-Encontra-se a razão d’esta particularidade no logar escolhido pela
-naturesa para terminar a sua acção: por exemplo; quando é liberal dando
-a qualquer membro um excesso de nutrição, é á custa dos outros: quando
-estas arvores dão sua seiva para formar uma casca grossa, verdejante
-e humida e cobrir de lindas folhas os seos ramos, não produzem bellas
-flores, as quaes naturalmente, em todos os vegetaes, formam-se de uma
-seiva bem digerida e subtil, e por tanto podendo subir facilmente até as
-extremidades dos ramos, não cuidando das outras partes da arvore para
-lhes dar qualquer nutrição.
-
-Reconheci isto em França, onde se pódam as cerejeiras para não dar
-fructo, afim de com toda a sua seiva produzirem flores largas e dobradas,
-como rosas almiscaradas duplas.
-
-Tambem existem outras arvores, que fecham suas folhas, e as dobram
-sobre si, quando o sol está no seo occaso, e apenas se levanta ellas
-desdobram-se e expandem, como acontece em França, ao Girasol.
-
-Este phenomeno é devido á humidade ou sereno na noite, que as aperta e
-fecha porque o frio tem essa qualidade, e o calor do dia as abre e as
-expande por ter essa propriedade.
-
-Com bastante difficuldade pude deparar com as razões naturaes de muitas
-singularidades, que vi em Maranhão, porem confesso com franqueza, que
-nunca achei a causa natural: certas arvores d’aquelle paiz, apenas se
-toca com a mão o seo tronco, immediatamente fecham todas as suas folhas:
-por certo haverá n’estas arvores alguma propriedade sensitiva, como ha
-na esponja, a qual apenas sente a mão do homem, que a pretende cortar,
-ella se aperta, e occulta-se no concavo e na fenda da pedra do mar, que a
-forma.
-
-Os cajueiros, que produzem uma fructa propria para fazer vinho, nascem
-espontaneamente pela costa do mar, e por isso vivem da seiva maritima e
-salgada, resultando d’isto ser o vinho de cajú picante e acre, e produzir
-no futuro dores nos rins, e ser prejudicial aos pulmões.
-
-Por experiencia coei este vinho, e d’elle tirei muito sal.
-
-Ha espinhos, que dirieis serem creados por Deos para representar o
-mysterio da paixão de Jesus Christo,[67] porque crescem formando
-ramilhetes quatro em cima, equidistantes á maneira de uma Cruz, e um no
-cume com a ponta virada para o Ceo, ornado de nove folhas, dispostas
-como tres raminhos, cada um com tres espinhos, que em tempo proprio se
-transformam em tres flores, ficando o espinho maior no centro.
-
-São estes cinco espinhos os instrumentos das cinco chagas de
-Jesus-Christo. Cercando a corôa de espinhos seo Chefe, como o espinho
-de cima é cercado de folhas, isto é, de peccados e de vaidades das tres
-idades do mundo, na lei da natureza, escripta e de fé, cujos peccados e
-imperfeições se transformam, pelo merecimento do sangue de Jesus Christo,
-em flores da Graça, em boas obras, e na recompensa da gloria.
-
-
-
-
-CAPITULO XL
-
-Dos peixes, passaros e lagartos, que se encontram n’esses paizes.
-
-
-Eis uma questão não pequena, de phisica ou de philosophia natural—«como
-pode um animal, vivo e perfeito na sua especie, formar-se sem
-progenitores.»
-
-Alberto, o grande escriptor, vio peixes vivos no meio de uma grande pedra
-marmore, tirada da rocha, e rachada no centro.
-
-Não é novidade para os que leram este autor, porque eu vi em Maranhão,
-nos regatos formados pelas chuvas, e que pouco duram, muito bons peixes,
-iguaes em tamanho e côr aos que vivem em rios permanentes, e que nascem
-de ovas.
-
-Como é possivel, que sem haver ovas, possam estes peixes nascer, crescer
-e morrer, com a queda, augmento e ausencia das chuvas?
-
-A razão d’isto está na força e influencia dos planetas predominantes em
-janeiro e fevereiro, quando nascem estes peixes, e na conjuncção forte
-da humidade e do calor e na disposição do terreno, tudo isto combinado
-de tal forma, que dá origem a taes e taes peixes de preferencia aqui do
-que em qualquer outra parte; como vemos na Europa em que a diversidade
-das terras, por onde passam as chuvas, produz differentes variedades de
-peixes.
-
-Entre os passaros do Maranhão, dos quaes eu diria maravilhas, si outros
-ja o não tivessem feito, notei uma especie singular de aves aquaticas
-vermelhas,[68] cuja penna e carne são de côr escarlate, dando-se a
-particularidade de serem brancas quando sahem do ovo, depois com o tempo,
-quando podem vôar; são pretos, e assim ficam até chegarem a sua grandesa
-e grossura natural, d’ahi vão se tornando meio pardos e meio vermelhos, e
-finalmente totalmente rubros, passando assim por quatro mudanças.
-
-Não digo isto por ouvir dizer, porem observei nos que se criam em casa
-presos. Este phenomeno não se dá sem uma razão profunda, e fundada na
-naturesa, e me parece ser esta: a côr da pelle e das pennas é devida
-á disposição e qualidade do alimento, que nutre a ave, porque diz o
-philosopho, a pelle e as pennas nascem, crescem e se nutrem com a
-superfluidade dos alimentos: ora a côr branca faz suppor alimentação
-leve e delicada, e por isso a avesinha ao sahir da casca do ovo, vivendo
-somente á custa de moscas e mosquitos, que vôam ao redor d’elle, é
-natural que suas plumas, originadas de tão fraca comida, tenham a côr
-branca.
-
-A côr negra porem faz crer em abundancia e superfluidade de alimentação,
-porque a intensidade do calor natural vae sempre excitando o apetite, e
-empurrando-o para o pasto e por isso notei, que quando esta ave tem as
-pennas pretas é glutão e come constantemente.
-
-A côr parda e meia vermelha mostra uma tendencia, ou uma regra, nascida
-expontaneamente da naturesa para acolher uma certa alimentação, que
-lhe é propria, e então observei escolher esta ave uma comida singular
-e especial, isto é—os carangueijos, os quaes consummidos no estomago,
-ahi se transformam em chylo vermelho como escarlate, e este cahindo no
-figado, se d’elle não receber alguma côr, como acontece com os outros
-animaes, tinge-o com sua côr, e sempre assim passa para as veias, das
-veias para a carne, da carne para as pennas, e tão perfeitamente, que si
-fosse um mettido dentro de uma panella para cozinhar, podia dizer-se que
-havia dentro uma porção de vermelhão.
-
-Entre milhares de lagartos e reptis do mar, appliquei minha attenção para
-uma especie bem monstruosa.
-
-É um animal que vive umas vezes n’agoa, outras em terra, e tambem nas
-arvores, contendo em si as tres espheras com que vivem todos os animaes
-do mundo.
-
-Com os peixes partilha o elemento d’agoa, com os homens e os quadrupedes
-o da terra, e com os passaros aninha-se e repousa nas arvores. Direi
-ainda que só parece terem os astros lhe dado sobre os rins, desde a
-cabeça até o fim da cauda um reflexo de seos raios e brilhos, porque
-notareis no dorso uma bella facha de raios do sol e das estrellas,
-similhantes aos que fazem os nossos pintores ao redor do globo do sol e
-das estrellas.
-
-Tem a pelle esmaltada de côr prateiada e azulada, como a abobada celeste
-quando serena.
-
-Quando este animal sente a intensidade do Sol, sahe do mar, sobe ás
-arvores visinhas, e escolhendo um ramo para deitar-se, ahi se estende e
-descança.
-
-Põe seos ovos nas arvores maritimas, os quaes aquecidos pelo calor do
-Sol deixam sahir os lagartinhos, que apenas sahem das cascas dos ovos
-conhecem logo o pae e a mãe, acompanham-no ao pasto no mar, em terra e
-nas arvores.
-
-Explico a rasão d’isto dizendo que quanto mais humido é o animal, mais
-somnolento é elle. Entre todas as especies de animaes esta sorte de
-lagartos é humida e fria, e por tanto sujeita ao dormir, e como seja
-mais agradavel o somno quando se tem os membros em certo grau de calor,
-eis por que elles buscam soalheiros. Reconhecendo pequeno o seo calor
-natural, eis porque põem seos ovos em lugar expostos aos raios do Sol.
-
-
-
-
-CAPITULO XLI
-
-Da pesca do Piry.
-
-
-Os selvagens do _Maranhão_, de _Tapuitapera_, e de _Comã_ tem uma
-pescaria certa e annual, como annualmente a do bacalhau nos Bancos da
-Terra Nova.
-
-Alguns mezes depois das chuvas, quando julgam as agoas escoadas, muitos
-embarcam em suas canoas, levando farinha para alguns mezes ou seis
-semanas, e assim vão costeando a terra á um lugar distante da Ilha 40 ou
-mais legoas: ahi se arrancham, levantam choupanas, e depois dedicam-se a
-pescaria, a caça dos crocodillos, e á procura das tartarugas.
-
-Ahi se reunem muitos selvagens de diversas aldeias da Ilha, de
-Tapuitapera, e de Comã.
-
-Apanham-se os peixes nas pôças, ou buracos de areia com pouca agoa, e
-quando se vae um pouco mais tarde, coagido pela estação, encontram-se
-essas pôças seccas e o peixe morto.
-
-Sendo impossivel dizer-se o numero ou a quantidade d’estes peixes, faço
-porem comprehendel-a asseverando, que chega para carregar todos os
-selvagens, e ainda fica muitissimo. São grossos e curtos, não excedem
-porem a grossura e expessura de um braço, tem de comprimento meio pé
-entre a cauda e a cabeça, o focinho achatado e muito similhante ao do
-tenca, e parecem-se muito com os peixes maritimos chamados _marujos
-pintados_.
-
-Apanhados nas redes, que levam, chamadas _pussars_, seguram-nas pelo meio
-dose a dose, lançam-nos com entranhas e tudo ao fumeiro para assal-os,
-e assim ajuntam muitos, que levam para suas casas, e com esta comida
-sustentam-se um ou dois mezes. Quando querem comer, tiram a pelle do
-peixe, seccam-na ao sol, pisam-na em um almofariz, reduzem-na á pó, com
-que fazem seos _mingaus_, isto é, suas bebidas, como fazem os turcos com
-o pó dos quartos de boi cozidos ao forno quando vão para a guerra.
-
-Dirigindo-me um dia para a Ilha, achei-me em certa aldeia, onde nada
-tendo que dar-me para jantar, ferveram alguns d’estes peixes n’uma
-panella, do caldo fizeram _mingau_, vindo o resto no prato.
-
-Bem contra minha vontade de nada me servi por causa do mau gosto da
-fumaça, porem com muito apetite comeram de tudo os francezes, que vinham
-commigo, achando saborosos os peixes, com grande satisfação dos indios,
-que os apreciam tanto á ponto de irem muito longe buscal-os.
-
-Como se acham em tanta abundancia estes peixes em taes fóssos ou poços
-desde o inverno até esse tempo? Se explicações servem ja as dei no cap.
-40, e por isso á ellas me refiro, acrescentando ainda o seguinte.
-
-A grande quantidade de chuva faz transbordar os rios, os regatos, e o
-proprio mar, de maneira que todos estes campos ficam innundados até
-a altura de um homem: assim sahem os peixes do lugar natural, onde
-habitavam, ahi regalam-se com pastos novos a ponto de não se lembrarem de
-regressar a Patria, e por isso quando as agoas se abaixam, ficam presos
-em fóssos e poços como vimos em todos os lugares onde se dão estes factos.
-
-A caça dos jacarés lhes é util e agradavel: são pequenos crocodillos com
-8 ou 10 pés de comprimento, de pelle dura, ventre molle, sem lingua, com
-olhos vivos, sempre alerta e maus: accommettem o homem, cortam e devoram
-o primeiro membro que agarram.
-
-Escondem-se em grotas, á margem dos rios, e sempre de emboscada, nadam
-como peixes, arrastam-se ligeira e brandamente, abrem a bocca, e como que
-intentam assustar-vos si vos encontram: põem ovos iguaes aos de galinha,
-porem cobertos de protuberancias, como as castanhas; dizem que são bons
-para comer, mas eu não affianço porque nunca os provei, pois sempre tive
-muito horror á estes bixos.
-
-Chocam seos ovos, e d’elles sahem jacarésinhos, gordos, grandes e
-compridos, como os lagartos que vemos pelo estio correr nos muros.
-
-É para admirar, que de tão pequeno bixo origine-se tão grande animal, e
-que apenas sahido da casca do ovo começa a andar e arrastar-se!
-
-Sua carne cheira a almiscar, é doce e desagradavel: os selvagens porem
-não fazem caso d’isto, apreciam-na muito quando a encontram, e por isso
-empregam-se muito em caçal-os.
-
-O logar _Piry_, humido e cheio de limo, tem muitos jacarés, que são
-perseguidos pelos selvagens por meio de flechas, atiradas com direcção
-á garganta ou á barriga, e depois acabam-nos com uma barra de ferro,
-escamam-nos, e cortam-nos em pedaços, que assam.
-
-Si são pequenos, cozinham-nos com escamas, e assim preparados acham-nos
-muito bons e até delicados, porque assados com sua gordura, dizem elles,
-nada perdem de sua substancia.
-
-Achei melhor crer do que experimentar, embora tivesse muitas occasiões
-de o fazer, visto que recebi muitos presentes d’elles quando voltaram os
-selvagens do _Piry_.
-
-A recordação somente d’estes animaes me fazia nauseas até o coração, á
-vista d’esses pedaços.
-
-Diziam os francezes, que o comeram, ser similhante a carne fresca de
-porco, um pouco mais adocicada, oleosa, e com o cheiro de almiscar.
-
-He muito perigoso tomar-se banho n’esse paiz, a não ser em logar
-descoberto, porque estes despresiveis animaes se arrastam de mansinho e
-se atiram sobre vós.
-
-Contaram-me, que um menino, da aldeia de _Rasaiup_, cahindo n’um riacho,
-onde hia buscar agoa, foi agarrado e devorado pelos jacarés.
-
-Quando andei pelas costas do mar, desde _Trou_ até _Rasaiup_, em
-companhia de muitos selvagens, elles me levaram para beber agoa n’uma
-grota cheia de sarças e outras mattas, e me advirtiram, que ahi ninguem
-se podia demorar muito por ser o escondrijo dos jacarés.
-
-Fazem-lhes muita guerra os nossos selvagens, por gosto e utilidade, e
-trazem grande provisão d’elles quando voltam do Piry.
-
-A razão de não terem lingua, estes animaes é porque segundo creio, tem a
-garganta e o pescoço, inteiramente inflexiveis, a ponto de não poderem
-olhar nem para traz nem para o lado sem moverem o corpo todo: alem
-disso, elles tem o maxillar inferior duro e immovel, tudo isto contrario
-ao uso da lingua, e só mastigam com o maxillar superior.
-
-Eis porque agarram e devoram a presa de um só jacto, não precisando
-viral-a e reviral-a da garganta.
-
-Disse S. Gregorio, que os crocodillos do Nilo chegavam a ter até o
-comprimento de 20 covados, a cor de açafrão, porem os do Maranhão e de
-suas circumvisinhanças não iam alem, como ja disse, de 10 ou 12 pés, com
-a differença tambem de habitarem aquelles, durante a noite, a agoa, e de
-dia a terra, porque busca o calor, visto serem no Egypto á noite as agoas
-quentes e a terra fria, e de dia vice-versa.
-
-No Maranhão acontece o contrario: de noite ficam em terra, e de dia
-n’agoa, porque as agoas são frias á noite e quentes de dia, e a terra
-temperada.
-
-A razão, porque este animal tem medo dos que o perseguem, e é atrevido
-contra os que fogem d’elle, é porque facilmente atira-se sobre este, e só
-com muita difficuldade se defende d’aquelles, sendo este procedimento o
-resultado de sua naturesa timida e assustada.
-
-Tem só um intestino, porque não faz a primeira digestão nas carnes
-cortadas em bocadinhos.
-
-Temem mais os selvagens que os francezes, e os do Nilo receiam mais
-os egypcios do que os estrangeiros, o que explica Solinus dizendo
-reconhecerem elles naturalmente pelo cheiro os que o guerreiam
-constantemente.
-
-Disse um phisiologista, que quando elle devora alguem, chora a sua
-desgraça: não sei si será verdade.[69]
-
-Alem d’estes exercicios, no Piry perseguem os selvagens as tartarugas,
-ahi em quantidade incrivel, e trazem-nas vivas tantas quantas podem.
-
-Não são avarentos, antes sim por poucos generos alcançareis muitas.
-
-Lembro-me, que passando algumas canoas pela nossa situação de São
-Francisco, por uma faquinha de custo de um soldo na França, deram-me
-setenta, e pela farinha, que lhes offereci para jantar, mimosearam-me com
-vinte e cinco, que guardei em lugar humido e fresco, deitando-lhes todos
-os dias um pouco d’agoa, e assim se conserváram sem comer por mais de
-seis semanas.
-
-Os selvagens comem-nas com muito gosto, e dizem que ellas lhes conservam
-a saude, e lhes fazem bom estomago.
-
-Cozinham-nas em seos cascos inteirinhas, sem tirar-lhes as entranhas, e
-nós as achamos assim preparadas muito melhores do que de outra fórma.
-
-Si algum d’elles soffre dos ouvidos por algum defluxo tiram as mulheres
-o sangue d’estes reptis, misturam-no com o leite tirado de suas mamas, e
-com isto friccionam o fundo da orelha.
-
-Quando arrancam o cabello dos seos corpos, com pinças de ferro, que lhes
-dão os francezes, esfregam a pelle com...
-
- (falta uma folha).
-
-
-
-
-CAPITULO XLIII
-
-Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas.
-
-
-Ha outra caçada de um verme, tão divertida e agradavel como as
-precedentes, é a dos ratos domesticos e selvagens.
-
-Não comem os domesticos, ao menos que eu saiba, porem caçam-nos
-cruelmente; porque si entra um rato em qualquer casa, reunem-se todos os
-habitantes, uns com arcos, e outros com flechas e paus, e com o auxilio
-tambem de alguns cães não escapa o pobre rato.
-
-Depois de morto é espetado na ponta de uma vara, fincada no meio da
-aldeia, para servir de alvo ao exercicio das flexas dos meninos.
-
-As aldeias mais proximas dos portos, onde chegam navios, tem mais ratos,
-porque apenas sentem a terra, atiram-se as ondas, nadam, trocando assim
-o seo paiz natal, que é o mar, para ficar n’um paiz mais firme e seguro,
-que é a terra.
-
-Comem os ratos selvagens, que vivem nos bosques e no dizer d’elles é
-comida deliciosa.
-
-Caçam-nos assim: cavam um buraco no meio de um certo lugar no matto,
-fazem varias entradas, similhantes ás coelheiras, ou terreiros de
-coelhos: reunem-se depois muitos sujeitos, armados de paus, e vão fazer
-grande alarido ao redor d’esse fosso, como se costuma fazer nas caçadas
-dos lobos.
-
-Batem as mattas, e d’ellas fazem sahir os ratos, e elles fugindo, e
-encontrando esses buracos tão proprios para se occultarem, ahi entram,
-e então aproximando-se os selvagens, toma cada um conta do seo buraco,
-e entrando outros dentro do fosso, á cacete matam os ratos, dividem-nos
-igualmente, e regressam para a aldeia trazendo cada um o que lhe tocou.
-
-Assam os ratos ao fumeiro ou sobre carvões, abrem-nos por diante sem
-lhes tirar a pelle, a qual fazem tostar depois que o animal está cozido
-por dentro, para não perder a gordura, e depois os guardam dentro de uma
-porção de farinha.
-
-São estes ratos assim preparados, guardadas as proporções, mais
-apreciados do que os javalys e os viados, e as vezes trazem os selvagens
-quantidade incrivel d’elles.
-
-Caçam as formigas em tempo de chuva, por ser a epocha propria d’ellas
-mudarem de habitação.
-
-As que podem vôar buscam a região do ar, deixando suas casas, feitas e
-cavadas na terra.
-
-As outras, si por instincto natural desconfiam, que podem as agoas
-invadir suas grutas, e estragar seos armazens, celleiros, ou dispensa,
-pegam na bagagem, com ordem digna de ser mencionada, e auxiliadas com a
-experiencia, como vou contar para servir de modello a todas as outras.
-
-Na nossa casa de S. Francisco, no principio das chuvas um milhar de
-milhões de formigas sahio de uma caverna, perto d’ahi, e veio tomar posse
-de um canto do meo quarto, onde cavou camaras, ante-camaras e celleiros.
-
-N’uma bella manhã sahiram todas, e trouxeram um alqueire, talvez, de
-ovos, indo em diversas estações, isto é, em distancia de 2 passos uma da
-outra.
-
-Cada acervo trazia suas formigas em ordem, vindo descarregar cada uma o
-que trazia no montão proximo, e assim iam fazendo os outros acervos ou
-companhias.
-
-Admirei-me de vêr tantas formigas, e tantos ovos, que deitavam mau cheiro.
-
-Mandei fazer bom fogo, e atirar sobre estes ovos, e no caminho por onde
-passavam estes animaes.
-
-Puzeram-se em alarme, e cada uma buscou salvar os ovos que poude, como
-fez Eneas á Anchises, seo pae na destruição de Troya.
-
-Não fui tão bem succedido, porque regressaram ao lugar que haviam
-escolhido, não pensando talvez, que me incommodassem, o que assim não
-aconteceo, porque reunindo-se todas por espaço de 2 dias, deliberaram ir
-a pilhagem fóra do quarto, mostrando-se contentes com a habitação, que
-bem a meo pesar lhes dei.
-
-Causar-vos-hia satisfação vendo estes animaesinhos, desde o amanhecer
-até ao anoitecer, fazer suas provisões, que são as folhas de uma certa
-arvore, em cujos ramos, como presenciei, estavam muitas para cortal-as e
-deixal-as cahir em terra, onde cada formiga pegava no que podia e levava
-para os armazens.
-
-Tinham aberto dois caminhos, muito bons para o seo tamanho: por um iam as
-carregadas, e por outro as desembaraçadas, evitando assim a confusão e
-a mistura, embora fossem mais de quatrocentas as carregadeiras. O mesmo
-fazem as outras especies de formigas.
-
-É para admirar-se tambem a especie de abobadas, que com admiravel
-industria fazem quando querem caminhar abrigadas.
-
-Caçam os selvagens somente as formigas grossas como o dedo pollegar,
-para o que aballa-se uma aldeia inteira de homens, mulheres, rapazes e
-raparigas.
-
-A primeira vez que vi esta caçada, não sabia o que era, e nem onde
-hia tão apressada tanta gente deixando suas casas para correr após as
-formigas voadoras, as quaes agarram mettem-nas n’uma cabaça, tiram-lhes
-as azas para frital-as e comel-as.
-
-Caçam-nas tambem por outra maneira, e são as raparigas e as mulheres que,
-sentando-se na bocca da caverna, convidam-nas a sahir[70] por meio de uma
-pequena cantoria, assim traduzida pelo meo interprete.
-
-«Vinde, minha amiga, vinde vêr a mulher formosa, ella vos dará avelans.»
-
-Repetiam isto á medida que iam sahindo, e que iam sendo agarradas,
-tirando-se-lhes as azas e os pés.
-
-Quando eram duas as mulheres, cantava uma e depois outra, e as formigas
-que então sahiam, eram da cantora.
-
-Causa admiração vendo-se os grandes pedaços de terra, que tiram de suas
-cavernas.
-
-No tempo das chuvas tapam os buracos do lado das enchurradas, e deixam
-somente aquelles, por onde pode vir a chuva raras vezes.
-
-As formigas do Maranhão tem dois inimigos encarniçados, especialmente
-estas alladas: um—certa especie de cães selvagens,[71] com pello de
-lobo, fedorentos o mais que é possivel, focinho e lingua muito aguda,
-e que procura o formigueiro para alimentar-se: outro, uma qualidade de
-formigas corpulentas, que de ordinario nascem com as outras, como o
-zangão entre as abelhas, e em quanto são pequenas e fracas, trabalham
-conjuntamente sem fazerem barulho, e nem se offenderem.
-
-Quando grandes e fortes deixam as outras, fazem bando á parte, só e só,
-não vivem mais em companhia, e põem se de embuscada pelo caminho, onde
-costumam passar suas irmãs e parentas, como fez antigamente Abimelech,
-bastardo de Gedeon, sobre os 70 filhos legitimos de seo pae, seos
-proprios irmãos, os quaes matou todos sobre uma pedra em Ephra.
-
-Sirva d’isto ao leitor para applicar como julgar acertado.
-
-Eis como os nossos selvagens se distrahem mais utilmente com estes
-animaes, do que os nossos rapazes com as borboletas: de tudo se
-aproveitam e nada perdem, reunindo o util ao agradavel.
-
-Vejamos o resto.
-
-A caça dos lagartos, chamados pelos _Tupinambás_—_Tarure_ (os grandes) e
-_Toju_ (os pequenos,) é feita por diverso modo,[72] conforme são da terra
-ou do mar.
-
-Os maritimos habitam ordinariamente as praias cobertas de mangues, onde,
-duas vezes dentro do espaço de 24 horas, entra o mar.
-
-Ahi nutrem-se de carangueijos, de mexilhões, e de camarões, vulgarmente
-chamados em França—lagostins, e de peixes, que apanham na enchente.
-
-Poem seos ovos nos concavos das arvores.
-
-Os selvagens caçam-nos e flecham-nos na vasante; enterrando-se pelo
-tujuco.
-
-Para comida servem tanto como os coelhos, ou uma grande lebre, conforme o
-tamanho do animal.
-
-Fervem-nos para fazer mingau, ou assam-nos ao fumeiro.
-
-Os francezes assam-nos ao espeto, bem untado de gordura de peixe-boi, e a
-primeira vista pensareis que são coelhos ou lebres espetadas.
-
-O guisado, que d’elles se faz, é muito parecido com o das lebres e
-coelhos, e muitos francezes gostam mais d’elles do que os nossos coelhos.
-
-Eu antes quero crêr do que provar.
-
-A caça dos lagartos terrestres é mais de meninos que de homens, embora
-tenha visto alguns homens atraz delles, como os meninos, e até 20
-selvagens, homens e rapazes, atraz de trez lagartos.
-
-Apenas os pilham, assam-nos, e toma cada um a parte, que lhe pertence e
-acham-na muito boa.
-
-Os rapazes apenas os veem correr pela casa, nas paredes ou nas arvores,
-flecham-nos, porem escolhem os maiores por que tem mais que comer: alguns
-tem o comprimento de um braço e a mesma largura.
-
-Ha outros vermes, que não sahem das arvores, deitados sobre folhas,
-expostos ao sol: dizem os selvagens que são venenosos, e por isso os
-deixam: não se assustam com a vossa presença, si não os perseguirdes.
-
-Parecem-se com os camaleões, de que ainda fallarei, tem brilho nos olhos,
-e a côr de escarlate.
-
-Costumam estes lagartos domesticos á juntarem-se e unirem-se em forma
-de bolla, de tal maneira que a cauda do macho toca a cabeça da femea, e
-reciprocamente, e assim todos curvados, tocam-se as duas cabeças e as
-duas caudas.
-
-Tive medo quando vi isto pela primeira vez, porque não sabia o que seria,
-e nem si era alguma especie de serpente, com quatro olhos, e um só corpo
-enrolado.
-
-Os lagartos femeas são mais grossos do que os machos.
-
-Os pequenos lagartos poem ovos, de cinco até sete cada um do tamanho da
-cabeça do dedo minimo, n’um buraco, que cobrem de areia, fazendo o resto
-o calôr do sol.
-
-Os lagartos grandes põem ovos maiores, á proporção do seo corpo, e
-ordinariamente fazem ninhos nos tectos das casas, nos bosques, e para ahi
-levam tudo o que acham ser molle, como sejam musgos, pennas, algodão,
-farrapos, e frequentam muito a casa si não lhes fazem mal.
-
-Fazem tanto barulho como um cão, quando caminham e conduzem na bocca o
-que acham, e é um prazer vel-os em tal lida.
-
-Não fazem caminho direito quando construem seo ninho, e antes usam de
-muitos rodeios para não serem descobertos.
-
-O sol chóca e faz abrir seos ovos, porque são muito frios e não tem calor
-proprio para isso.
-
-São caçados por cobras grandes e horriveis, umas brancas como agoa,
-outras de côr de violeta, e finalmente algumas manchadas de diversas
-côres.
-
-Invadem até as casas para nos tectos caçarem estes lagartos, que apenas
-as presentem ao longe, fogem como se a casa tivesse pegado fogo.
-
-Mandei matar tres cobras d’estas n’um domingo, quando eu e meos
-companheiros fomos dizer missa na capella de S. Francisco, onde as
-achamos perseguindo os lagartos grandes, dos quaes já tinham matado
-muitos.
-
-Pagaram tal temeridade levando cada uma mais de cincoenta cacetadas, e
-ainda se salvariam, si eu não as mandasse cortar em pedaços, que viveram
-e remecheram-se por mais de 24 horas procurando reunirem-se o que não
-conseguiram por estarem distantes umas das outras, talvez por quatro ou
-cinco passos.
-
-Os selvagens tem muito horror d’estes lagartos, e dizem ser venenosos.
-
-Os lagartos, quando velhos, perdem sua cauda, que fica negra, e por isso
-mesmo é fragil como vidro, e quebra-se por qualquer causa.
-
-Não creio, que ellas renasçam, embora o affirme Aristoteles.
-
-Fundo-me no que observei n’um lagarto grande, que estava na nossa
-casa de S. Francisco, onde se conservou por dois annos sem cauda,
-vindo diariamente comer em nossa presença, com as galinhas com que se
-familiarisou.
-
-Dizem, e os francezes o asseveram por experiencia, que ha uma especie de
-lagartos grandes que apanham os frangos, e levam-nos para o matto, onde
-vão comel-os.
-
-
-
-
-CAPITULO XLIV
-
-Das aranhas, cigarras e mosquitos.
-
-
-A vida do homem é comparada com a da aranha em muitos lugares da
-Escriptura Santa, especialmente no Psal. 89. _Anni nostri sicut Aranea
-meditabuntur_ «nossos annos se passaram, serão contados e meditados como
-os da Aranha.»
-
-Escreveo S. Isidoro, que a aranha é um verme do elemento do ar, n’elle
-nutrido, d’onde se deriva a etymologia do seo nome, nunca descança,
-sempre trabalha, de si tira com que formar sua teia, sempre em perigo por
-se achar ella, seos bens, e suas riquezas, suspensas n’um fio, mercê do
-menor sopro de vento, ou do capricho de um criado ou de uma camareira,
-que com um espanador destrua todo o trabalho.
-
-Quereis mais bello espelho para considerar as desgraças e miserias d’esta
-vida?
-
-Não perderei tempo referindo o que se sabe acerca da naturesa d’este
-verme, e apenas contarei o que achei de curioso e especial nas formigas
-do Maranhão, e antes de entrar na materia fallarei d’uma especie do
-tamanho de um punho de braço, e as vezes até maior.
-
-Encontram-se ordinariamente no tronco das arvores, proximas ás casas,
-nas estacas, nos cantos, caminham pouco, não tem teias, muito venenosas,
-vermelhas quasi da côr de borrachos quando sahem do ovo, coisa horrivel e
-feia!
-
-Fogem d’ellas os Indios, e julgam mortifera a sua picada. Nutrem-se da
-corrupção do ar.
-
-Existem outras de diversas especies, maiores e menores, e todas
-domesticadas, e nos mattos encontram-se grandes, menores, e pequenas.
-
-Em todo o tempo produzem e especialmente no inverno.
-
-Com a frescura da noite juntam-se: deixa o macho a sua teia para se unir
-com o seo fio á teia da femea, si ella está collocada em lugar mais
-baixo: si porem a teia da femea é superior á do macho desce ella, vem
-procural-o, e assim si juntam.
-
-É muito facil de vêr-se, pois o praticam todos os dias, no fim da tarde.
-
-O macho é pequeno, e a femea é tres vezes maior do que elle.
-
-Fazem uma pequena bolça, redonda e chata, muito bem feita e tecida,
-parecendo-se com setim branco e a similhança de um breve de _Agnus Dei_.
-
-N’ella deixam apenas um buraquinho, por onde com o pé introduzem os ovos.
-
-Quando está fechada a bolça tapam o buraquinho, e carregam-na junto
-ao ventre e estomago, aquecendo-a por esta fórma, e quando presentem
-estar os filhos em estado de sahir, rasgam a bolça ao redor, como se
-faz com a casca da fava, sahem logo, correm pela teia da mãe, e a noite
-agasalham-se debaixo da mãe, como fazem os pintos com as gallinhas afim
-de resguardarem-se do frio da noite.
-
-Quando tem forças, cada uma faz a sua teia, e por sua industria cuida de
-si.
-
-Ha outras, que fazem pequenos pucaros de barro, do tamanho e feitio de
-uma ameixa de dama, tão bem feitos, quanto é possivel, por dentro e por
-fóra, o que tambem fazem certas especies de moscas, de que ainda fallarei.
-
-São as boccas d’estes potes proporcionaes aos seos tamanhos, com um
-buraco tão pequeno, em que cabe apenas um alfinete, por onde sahem os
-ovos para serem aquecidos pelo Sol.
-
-Este pucaro costuma estar junto a uma arvore, ou n’uma folha de palmeira,
-e a terra de que é feito, muito se parece com a de _Beauvais_.
-
-Enchem o pucaro de ovos, tapam no, e quando as mães julgam ja terem os
-filhos sahido da casca, destapam o buraco, e então sahem as aranhasinhas
-e acompanham-nas.
-
-As aranhas dos mattos procedem de outro modo: roem as amendoas das nozes
-das palmeiras espinhosas, pouco a pouco e deitam fora tudo por meio de
-tres buracos naturaes, que tem estes fructos: depois ahi dentro fazem
-seus ninhos e depositam seos ovos.
-
-São differentes as teias destas aranhas quanto a sua posição por ellas
-escolhidas.
-
-As domesticadas armam suas teias nas rachas e entradas dos buracos, afim
-de agarrarem moscas e mosquitos.
-
-Umas estendem suas teias nas arvores, de um ramo a outro, e de um arbusto
-a outro para agarrarem borboletas e outros bichinhos iguaes: outras tecem
-as teias por cima da terra para pilharem vermes, como sejam formigas e
-outros iguaes.
-
-Algumas fazem teias tão fortes, que até n’ellas cahem lagartinhas, e
-então descem as aranhas, matam-nas por meio de um aguilhão, que tem em
-si, e depois chupam-lhe os miolos e o sangue, e só quando se fartam, é
-que as deixam.
-
-Vi aranhas do mar, muito parecidas com as de terra porem maiores.[73]
-Habitam em buracos nas praias, e alimentam-se de peixinhos.
-
-Dizem que chupam o sangue e o humor das cobras, iguaes as que mandei
-cortar em pedaços, e asseveram os selvagens, que se morderem a cabeça
-d’algum individuo, ficará louco. No Maranhão, como em parte alguma, tem
-muitas cigarras,[74] que fazem em tempo proprio um barulho infernal, como
-eu não acreditaria si não ouvisse: ha de diversas variedades, tamanhos e
-cantos.
-
-São umas grossas, tem seis pollegadas de comprimento, e voz forte e
-alta a ponto de ferir-vos vivamente os ouvidos. Não cantam no inverno,
-e sim no estio, e quando se aproximam as chuvas gritam tanto a ponto de
-estalarem pelos lados, como me contaram os selvagens, sendo isto causado
-pelo bater das azas quando si esforçam e se incham para dar mais harmonia
-á voz.
-
-Estudei os usos e costumes destes animaes em alguns, que conservei entre
-folhas na nossa casa.
-
-Reconheci ser seo canto devido a tres coisas.
-
-1.ª Engolem o ar, enchem o ventre, entumecem-se bem para estenderem bem
-os lados, e ficarem sonoras. Ha grande accordo entre a extensão dos
-lados, e as azas, por meio das quaes forma-se o som, que claramente se vê
-tomarem ellas folego quando erguem as azas, e quando abaixam, estendem e
-dilatam os flancos.
-
-2.ª As azas são mui finas e diaphanas, e por tanto proprias para formar o
-som por serem muito seccas.
-
-3.ª As azas de cima sendo fortes e massiças, tocando e batendo as azas do
-meio contra os lados e com auxilio do ar, forma o som.
-
-Vou fazer-vos comprehender isto por meio de comparações vulgares.
-
-N’uma cithara ha tres coisas para produzir harmonia—as costas onde fica
-o ar, que entra pela rosa do meio, as cordas tesas, limpas, seccas e bem
-collocadas, e a mão do tocador: assim tem estes animaesinhos as costas e
-as ilhargas cheias de ar, que entrou pela bocca, as segundas azas são as
-cordas, e as grossas a mão do tocador.
-
-Cantam no estio desde o nascer do sol até meia noite ou duas horas
-depois, e se callam por causa do orvalho, que começa a cahir com frio, e
-assim ficam até que appareça o sol e com seos raios extinga as gottas de
-orvalho, que cahiram nas folhas, e então vem ellas aquecer suas azas.
-
-Em quanto guardam silencio, é minha opinião, que ellas se nutrem com o
-mesmo orvalho, e não digo isto sem causa pois quasi sempre ficam no mesmo
-logar, e quando sentem algum movimento voam para outra folha.
-
-Algumas d’ellas, especialmente as todas verdes, não tem voz, arrastam-se
-pela terra como os gafanhotos, juntam-se como as moscas, põem em setembro
-ovinhos negros nos buracos dos ramos das arvores, nos quaes se formam os
-vermes, ao depois cigarras: vão pouco a pouco se fortificando afim de
-passarem a estação invernosa, e substituirem seos paes e mães que n’esse
-tempo morrem arrebentados á força de gritar como ja disse.
-
-Não tem sangue, ou tem muito menos que as moscas, porem são organisadas
-de uma substancia porosa, secca, e ligeira.
-
-Matam-nas as gallinhas, porem não as comem, e quando por acaso o fazem,
-enfraquecem e emmagrecem.
-
-Ha n’este paiz diversas especies de mosquitos, porem apenas tratarei
-dos que o merecerem pelos seos principios naturaes, e são os chamados
-_Maringoins_ pelos selvagens: ha de diversos tamanhos e grossura, e todos
-tem a mesma forma.
-
-Originam-se de um humor acre, gostam dos sabores picantes e acidos, e
-por isso encontram-se muito no mar e suas praias no tempo do inverno,
-formados pelo humor e vapores do mar.
-
-Incommodam muito os homens picando-lhes a pelle com seo bico ponteagudo
-como uma agulha, e sugando assim o humor salgado, que corre entre a pelle
-e a carne.
-
-Gostam da luz porem aborrecem a chama e a fumaça, e por isso quando
-anoitece, as que andam por fóra, poisam nas folhas das arvores, e os
-que estão dentro de casa nos tectos, bem a seu pesar, por causa das
-fogueiras, que acendem os selvagens ao redor de si, para se livrarem
-d’elles.
-
-Nos lugares mais proximos a agoa, maior abundancia d’elles existe, visto
-serem creados por agoas, como ja disse.
-
-São caçados pelos morcegos, que, buscando-os nos lugares onde se fixam,
-involvem-nos com suas azas e depois os comem.
-
-São por elles muitissimo perseguidos os nossos francezes, quando vão
-á pesca do peixe-boi, e para evital-os armam suas redes no ramo das
-arvores, o mais alto que podem, por ahi soprarem mais o ar e o vento: si
-se partissem as cordas dariam bello salto, e não deixam de emballançar-se
-para afugental-os.
-
-
-
-
-CAPITULO XLV
-
-Dos grillos, dos camaleões e das moscas.
-
-
-De todos os animaes, que fazem companhia ao homem, no Brasil, nenhum
-ha que iguale ao grillo, chamado pelos selvagens _Cuju_[75]; e por ser
-tão familiar e domestico pude á vontade satisfazer minha curiosidade
-estudando este animalsinho.
-
-Nasce da corrupção.
-
-Quando se faz uma casa coberta de palma fresca, apparecem n’um momento
-milhões e milhares d’estes grillos ou _Cujus_. Virão dos bosques
-visinhos? não pode ser; porque nas casas cobertas de palma velha não são
-encontrados, logo força é confessar, que formam-se na palma nova com o
-auxilio do sol.
-
-Notei que dois ou tres dias depois de coberta a casa, os grillos são
-brancos como neve, signal de nova geração, pouco a pouco tomam a sua cor
-ordinaria, amarello-negro.
-
-Alem d’isto originam-se tambem de ervilhas, e favas podres o que conheci
-por experiencia.
-
-Quanto á producção do pae e da mãe provêm d’uma semente deixada nas
-folhas de palma: é pegajosa e fica onde se colloca, até que d’ella por
-meio de calor saia outro grillosinho.
-
-É ardente no seo ajuntamento, e eis porque tanto se multiplicam.
-
-É muito pequeno, porem astucioso, tem horas para comer e para cantar:
-não deixam de procurar comida quando presentem estarem todos deitados, e
-então descem do tecto e correm, por assim dizer, os cantos da casa, onde
-se aproveitam de todas as migalhas e restos de comida, e se encontram
-restos de carangueijo deixam tudo mais.
-
-Acabada a comida regressam a seos logares, onde cantam e passam o resto
-da noite, e o dia tambem, se o ardor do sol o não encommodar.
-
-Não gostam de chuvas, e emquanto está chovendo, não cantam.
-
-Gostam portanto do tempo sereno e doce, sem muito calor, e sem muita
-chuva. Roem muito os pannos, que encontram, e se acharem um capote de cem
-escudos n’uma noite dão cabo d’elle.
-
-Não tocam em panno de linho á não estar elle engordurado, ou com algum
-liquido, de que gostem, e por isso para conservar-se alguns vestidos,
-embrulham-se n’estes pannos.
-
-Tem quatro inimigos capitaes.
-
-1.º Os lagartos, que correm apoz elles, como os cães atraz das lebres.
-
-É um gosto vêr as voltas e vira-voltas que dá a caça e o caçador.
-
-2.º Certos macaquinhos amarellos e verdes a que chamam os selvagens
-_Sapaius_, vivos e ageis como um passaro; caçam com uma das mãos e na
-outra guardam os grillos.
-
-3.º São as gallinhas, que os devoram com incrivel avidez, e para isto
-voam sobre as casas, e não poucas vezes estragam a cobertura d’ellas.
-
-4.º São certas formigas grandes, que atacam-os nos buracos e cavernas,
-onde se abrigam nas casas: distrahi-me algumas vezes vendo tão singular
-combate; a formiga desce ao buraco, onde tanto faz, que o _Cuju_ sahe á
-campo, ou então é puchado pelos pés, e muitas vezes prefere a morte á
-perder suas pernas posteriores, que leva a formiga.
-
-Outras vezes deixa-se o grillo comer dentro do buraco, de maneira que
-somente fica a cabeça e as azas, que as formigas carregam como tropheos.
-
-Tem os grillos particular malicia, como experimentei, por que mordem a
-extremidade dos dedos das pessoas, que dormem, e carregam o bocadinho de
-pelle que podem tirar.
-
-Achei-me por isso muito encommodado do pollegar, a ponto de não poder
-escrever por oito dias.
-
-O Camaleão é um animal do tamanho e da grossura de um pequeno lagarto,
-e á elle similhante no rosto, olhos, e cabeça, tendo nas costas escamas
-como o crocodillo, e parece ter a pelle coberta de pelle ou limo.
-
-Tem a cauda muito comprida, e de ordinario dobrada em dedalus, diminuindo
-gradualmente até a ponta.
-
-Raras vezes se vê o macho com a femea, e por isso não me atrevo a contar
-o modo de sua procreação, porque não pude vel-a, e nem imaginal-a.
-Contento-me apenas em referir o que vi.
-
-É muito demorado no seo andar, está sempre ao sol, deitado sobre folhas
-ou ramos, e por isso se pensa que vive só de orvalho.
-
-Batem-lhe as ilhargas constantemente, e muito mais quando receiam alguma
-coisa, sendo isto motivado pela sua timidez natural, proveniente de muito
-humor frio, pelo qual torna-se venenoso quando é comido por algum animal.
-
-Nunca se encontra nas arvores fructiferas, prevenção da naturesa para não
-envenenar com o seo frio excessivo o fructo que tocasse, e por isso é
-visto nos ramos de arvores, que somente servem para o fogo.
-
-Como o lagarto tem quatro pés, e muda de côr conforme o movimento do
-corpo, e os batimentos das ilhargas.
-
-São raros em Maranhão, e somente são encontrados em lugares bem expostos
-ao meio-dia: deitam-se nas folhas, estendem as quatro patas, e descançam
-a cabeça. Não fazem movimento algum com os olhos, quando estão vendo, e
-nem abaixam as palpebras superiores: constantemente bate-lhe o papo.
-
-Dizem, que se este animal fosse lançado ao fogo difficilmente arderia,
-porem envenenaria pela fumaça as pessoas presentes.
-
-Não fiz esta experiencia com o camaleão, e sim com outro animal mui
-similhante a elle pela friesa.
-
-Mandei lançal-o n’um braseiro, que mandei preparar, e retirando-me
-para longe, tomei cuidado que ficasse sempre no fogo, movendo-o
-constantemente, e depois que morreo, vio-se que o fogo não poude obrar
-contra seo corpo, ficando inteiro e solido, conservando sua figura e
-pelle: mandei tiral-o do fogo e enterral-o.
-
-Ha muitas especies de moscas, umas da noite, outras do dia.
-
-As moscas da noite são as que buscam o seo sustento durante ella
-agarrando os bichinhos, que voam, onde encontram: como tem de
-alimentar-se nas trevas, deo-lhes a Providencia uma luz,[76] que trazem
-adiante e atraz: a luz dianteira está n’uma placa de forma quadrangular,
-adherente ao estomago, sendo os dous angulos, que tocam a sua barba,
-muito estreitos, e esta construida de uma pellicula diaphana, e coberta
-de um pello mui delicado, com que recebem a humidade da noite, e por este
-meio produzem um brilho de luz. Percebeis bem isto recordando vos do
-brilho da pescada á noite, por causa da delicadesa da escama ou da sua
-pelle humedecida.
-
-Acontece o mesmo com certa especie de madeira podre, ou melhor rarifeita,
-e tenue, livre de todas as immundicies, e que tem a propriedade de
-attrahir a humidade.
-
-O mesmo tem elles no chato da barriga, onde se encontra uma pellicula bem
-lisa, cheia do pello tão fino, de que acima fallei.
-
-Quando voam atravez de uma noite escura, parecem ser grossas faiscas de
-ardente fornalha de fundir metaes.
-
-Pertencem ao dia as outras moscas; são infinitas e varias e por isso
-somente me demorarei, tratando das que tiverem alguma coisa digna da
-consideração do leitor, como sejam as abelhas, e as vespas, e do mais que
-fallarei.
-
-As abelhas do Maranhão, e de suas circumvisinhanças fabricam suas casas
-de tres modos: entre os ramos das arvores, como ja disse, quando escrevi
-sobre o _Meary_, ou no concavo das arvores, isto é, no tronco principal,
-porque escolhem uma arvore que tenha uma concavidade no tronco, sobem
-pela frente d’elle, e depois descem até a terra, onde fazem os alicerces
-dos seos cortiços, e depois fabricam o seo mel, caminhando sempre para
-cima. Quando não é assim, escolhem lugar apropriado, levantam da terra um
-cortiço concavo, onde fabricam mel e cera.
-
-É virgem a sua geração, e creio não haver entre elles macho e femea, e
-assim todos trazem comsigo o germen da futura procreação.
-
-Dir-vos-hei a razão d’este meu modo de pensar, que formei observando
-com attenção um cortiço de abelhas n’uma grande arvore concava e secca,
-distante 30 passos de nossa casa de São Francisco, o que ainda me foi
-facil, pois estas moscas não dão ferroadas,[77] comtanto que não se lhes
-faça mal, embora se esteja bem perto d’ellas.
-
-Fizeram os selvagens um buraco ao pé d’esta arvore, por onde sahia o mel,
-e por ahi observei tudo bem a minha vontade, até mesmo as camarasinhas,
-em que se achavam ellas envolvidas.
-
-Estes casulos eram tapados de todos os lados, embrulhados n’uma tella bem
-delicada, e por cima está a cera e o mel.
-
-N’algumas camarasinhas d’estas, achei somente algumas gottas de semente,
-claras como a agoa da rocha, e soube ser a materia de que se organisavam
-as novas moscas.
-
-N’umas vi o _cháos_, ainda informe, feito e composto desta materia prima,
-a maneira de uma pasta molle, branca como creme: n’outras vi moscasinhas,
-perfeitamente formadas, e ja com movimento, porem envolvidas n’uma tella
-delicada e diaphana, que rasguei com cuidado, e vi n’estas moscas todas
-as suas partes bem distinctas e conformadas, menos os pés, por serem os
-ultimos, que se formam, e ja depois, que se movem.
-
-Reconheci ser verdade o que diz S. Isidoro d’estas moscas «_Apes
-dictæ sunt quia sine pedibus nascutur, nain postmodum accipiunt_:»
-as _abelhas_, ou antes os _apedes_, são assim chamados porque nascem
-sem pés, sendo este nome composto por _a_, que quer dizer—_sem_, e
-_pedes_—_pés_. Assim composta quer dizer—_sem pés_, mas não se usa em
-francez, e sim emprega-se o nome de _abelhas_.
-
-Sobre o que eu disse á respeito de sua geração virginal, alem da
-experiencia, que eu tive, de que podem duvidar alguns espiritos, ha uma
-testemunha irrefragavel, Santo Ambrosio, Doutor que si dedicou ao estudo
-dos segredos da abelha mais do que nenhum outro antes ou depois d’elle.
-
-Não o fez sem motivo, pois desde o seo berço que estas moscas se alojaram
-em seos labios, e depois em toda a sua bocca, eis suas palavras: _Apes
-nuilo concubitu miscentur, nec libidine resolvuntur, nec partus doloribus
-quatiuntur, sed integritatem corporis virginalem servantes subito maximum
-filiorum examen emittunt_: «não si misturam as abelhas por meio de alguma
-conjuncção, não si entregam por meio de sensualidade, não soffrem dores
-de parto, porem conservam a integridade virginal de seo corpo, e em
-pouco tempo produzem grande numero de novas abelhas.»
-
-Diz o autor do livro da «_Naturesa das coisas_»—_Omnibus virginalis
-integritas corporis_—«conservam todas a inteiresa virginal do seo corpo.»
-
-Ha diversas especies de vespas, tendo uma d’ellas alguma coisa de novo:
-esta qualidade é negra, mui delgada no meio do corpo a ponto de julgar-se
-estar o ventre unido ao estomago por um só fio.
-
-São industriosas o mais, que é possivel.
-
-Recolhem-se todas á um nicho de terra, no cimo das arvores, tão bem
-estocado, que dentro d’elle não cahe uma só gotta d’agoa; a cobertura ou
-tecto d’este nicho é em fórma de zimborio, e apenas cahe a chuva, corre
-ligeiramente, e ahi não si demora: n’elle não tem abertura alguma, e
-apenas cinco ou seis buracos proporcionaes á grossura d’ellas.
-
-No interior fazem accommodações para viver, e fabricam uma especie de mel
-bem amargoso, e negro como tinta.
-
-Cada uma tem sua casa, cavada na espessura do nicho, á maneira dos
-buracos de um pombal, onde se agasalham os seos habitantes.
-
-É admiravel a sua industria no fabrico d’estes nichos, e presenciei-a
-muitas vezes.
-
-Á margem das fontes fazem argamassa, carregando com os pés um pouco de
-terra, que desmancham e amassam com agoa, que vão buscar, e trazem unido
-ao pello de suas coxas. Assim preparado, vão carregando em varias partes
-do seo corpo.
-
-1.º No pescoço.
-
-2.º Nos pés.
-
-3.º Na união das coxas contra seo corpo.
-
-Não deixam seos filhos no nicho commum, porem fabrica cada uma o seo
-cubiculo á parte, á imitação da flor de meimendro, presa ou suspensa á
-algum pau, ou outra coisa coberta, longe do perigo de ventos e de chuva.
-
-Levam muito tempo preparando seo nicho, e o enfeitam o mais que podem,
-com o brunidor do seo fucinho.
-
-Depositam no interior sua semente, como fazem as abelhas, fecham a
-entrada, occultam-na, dormem á noite em commum, e ainda a madrugada está
-longe, e já ellas se despertam para montar guarda e fazer sentinella ao
-redor de sua habitação, fazendo guerra de morte a quem se lhe aproximar.
-
-Posso dar noticias d’isto, porque um dia, indo a um canto de minha casa
-arrumar não sei o que, quando passei, bati, sem querer, com a minha
-cabeça no nicho, onde estava a mãe, e ella, julgando mal de minhas
-intenções, pensou que eu o fizesse por maldade, e cheia de colera,
-escolheo a parte mais delicada do corpo humano, isto é, os olhos, para
-vingar-se.
-
-Permittio Deos porem que em lugar dos olhos me ferisse as sobrancelhas
-com o seo aguilhão.
-
-Foi tão doloroso o golpe, e tão penetrante o veneno, que cahi por terra,
-batendo-me extraordinariamente todas as minhas veias, desde a planta dos
-pés até o cume da cabeça, como nunca senti em minha vida.
-
-Recolhi-me a cama com o coração sobresaltado, inchou muito a parte
-offendida, e ardia como brasa.
-
-Julguei perder o olho, e assim estive por muitos dias, ao depois fiquei
-bom.
-
-Procream ainda de outra forma. Fazem um pequeno pucaro de barro,
-arredondado, similhante aos feitos pelas aranhas, como ja disse, deitam
-dentro suas sementes, que se transformam em vermes vermelhos, iguaes aos
-que se encontram nas ameixas das damas: adquire depois azas, e fica vespa.
-
-Não tem os selvagens cantharidas em seo paiz, porem fazem muito apreço
-d’ellas e dão muitos generos para possuil-as. Trazem-nas os francezes,
-porque anteriormente já tinham ensinado aos selvagens as propriedades
-d’ellas, o que não se deve escrever: prova isto que os homens viciosos
-mais depressa gastariam esta nação do que ella o é por natureza.
-
-Ha tambem insectos e vermes roedores mui subtis e engenhosos, com uma
-capa bonita e inteira, porem passando uma escova por cima, desapparece
-até o pello e fica só a urdidura.
-
-O mesmo acontece aos vermes roedores dos bosques, que fazem grande
-sussurro.
-
-Deos porem fez passaros que vae tirando das arvores taes vermes.
-
-
-
-
-CAPITULO XLVI
-
-Das onças e dos macacos do Brazil.
-
-
-A onça é o animal mais furioso do Brazil e é do tamanho dos galgos da
-Europa.
-
-No rosto parece-se muito com o gato, tem bigodes horrivelmente dispostos,
-vista perspicaz e aterradora, pelle como a de lobo, manchada de negro á
-maneira da do leopardo, garras muito compridas, patas como de gato, cauda
-grande e maior que todo o corpo diminuindo pouco a pouco até a ponta, e
-com ella brinca n’um areial voltando-se para apanhal-a, e correndo para
-o mesmo fim, como fazem os gatinhos no meio de uma salla, divertindo-se
-cada um com o rabinho.
-
-Ama a solidão, aborrece a sociedade, habita só nos bosques, e somente é
-acompanhada por occasião da sua juncção, o que feito retira-se a femea.
-
-Nada receia, nada teme: pára vendo dirigir-vos á ella, ou fica no fim da
-estrada, por onde tendes de passar, de forma que ou voltareis, ou então
-combatereis porque não cede.
-
-É melhor a retirada ainda que com algum vexame, do que por orgulho
-arriscar sua vida em luta com tal animal.
-
-O Rvd. padre Arsenio assim o fez, vindo da aldeia da _Mayoba_ para a
-nossa casa de S. Francisco, quando encontrou, ao meio dia, na estrada uma
-onça que veio esperal-o. Regressou para a aldeia, e assim evitou perigo
-tão proximo.
-
-Não buscam os homens, e é raro encontral-as, e quando isto se dá o perigo
-é certo.
-
-Não se atiram, e nem correm logo atraz das pessoas que vêem, antes
-dão-lhe tempo bastante para fugir, e apenas agarram um ou outro menino,
-porem raras vezes.
-
-Tem muito medo de fogo a ponto de não se approximarem d’elle, e por isso
-evitam-nas os indios accendendo fogueiras em suas casas, sempre abertas
-quer de dia quer de noite.
-
-Fazem guerra desabrida aos cães e macacos, vindo agarrar aquelles até
-junto ás aldeias, sem causarem o menor mal aos selvagens deitados em
-suas redes, e quando vão estes á caça, acompanhados por muitos cães, são
-estes devorados e comidos pelas onças, que fingem correr diante d’elles,
-e quando se acham longe de seos senhores, saltam sobre elles e facilmente
-os estrangulam.
-
-Poucos escapam de suas garras para trazer noticias a seos senhores, que
-não os ouvindo ladrar, acreditam que as onças os comeram.
-
-Não vão mais alem, e regressam mais depressa a casa onde suas mulheres e
-filhos choram a morte do cão, que elles levaram á caça com intenção de
-divertirem-se.
-
-Si é perigoso atacar um soldado furioso, e victorioso de seos inimigos,
-ainda muito mais o é apresentando-se em tal occasião á vista das onças.
-
-Caçam os macacos desta sorte: batem em circumferencia o bosque, onde se
-abrigam os macacos, encurralam-nos n’um ponto, onde se agrupam: então
-trepam as onças em varias arvores, e d’ali se atiram sobre os ramos e
-hastes de outras onde estão os macacos, e assim os apanham.
-
-Empregam tambem outro ardil. Occultam-se debaixo de folhas n’um lugar,
-onde ellas sabem, que os macacos vem beber, ou quando estão pescando
-mariscos e carangueijos, então d’um só pulo agarram os que podem.
-
-Fazem ainda mais.
-
-Quando vêem ou ouvem que os macacos estão reunidos em qualquer lugar,
-vão surrateiramente arrastando a barriga pelo chão, como fazem os gatos
-quando querem agarrar algum ratinho, e depois estendem-se e fingem-se
-mortas.
-
-Chega um macaco, pára, chama outros, que chegam logo, descem o mais
-que podem, sempre desconfiados, para verem e examinarem se na verdade
-está morto o inimigo: rangem uns os dentes, e outros como que fazem
-uma especie de discurso de congratulação por tal fim: eis senão quando
-resuscita o fingido morto, mais depressa do que elles sobe ao cimo da
-arvore, onde transforma a vida d’elles em morte, não simulada e sim real.
-
-A onça só pare uma vez, e um só filho, como a leôa, e eis a razão de
-haverem poucas no Brasil. A onçasinha rasga o utero de sua mãe, que o
-nutre mui curiosamente até que fique em estado de cuidar por si de sua
-alimentação. Apesar de tal ruptura, unem-se em tempo proprio, porem não
-ha fructos d’esta união.
-
-As onças são errantes, caminham por diversos logares, atravessam
-braços de mar, e quando falta-lhes pasto em terra, vão ao mar pescar
-carangueijos e outros iguaes bixos do mar.
-
-Existem tambem onças marinhas, como ja disse quando fallei do Meary,
-tendo a parte anterior igual a da terra, e a posterior similhante a cauda
-de um peixe.
-
-São tão furiosas, como as terrestres, e saltam da agua contra seos
-inimigos.
-
-Machos e femeas veem-se livres dos filhos que trazem no ventre, á maneira
-das baleias, dos golfinhos e de outros peixes do mar.
-
-Em Maranhão e seos contornos ha muita variedade de macacos:[78] uns
-grandes, fortes, barbados, e de sexo bem distincto, especie perigosa, e
-que nas mattas muito bem se defendem das invasões dos selvagens.
-
-Contou-me um interprete que n’um certo dia um selvagem com uma flecha
-ferio a espadua de um destes macacos, e que elle tirou a flecha,
-arremeçou-a contra o selvagem e o ferio gravemente.
-
-Atiram-se sobre as raparigas e mulheres, e forçam-nas si não são mais
-fortes do que elle.
-
-Ha outros barbados, mais pequenos, que trazem mamas nos seios, e sexo bem
-visivel em lugar proprio.
-
-São muito bem tratados pelos francezes: os selvagens os agarram atirando
-um projectil qualquer sobre elles, que cahem atordoados, e são assim
-amarrados.
-
-Os triviaes são quasi que similhantes em sexo, e nem merecem descripção
-alguma.
-
-Em geral os monos são agradaveis á vista.
-
-Caminham um atraz do outro, e com tal cadencia no passo, que os que vem
-atraz assentam os pés e as mãos, onde assentaram os que foram adiante.
-
-Fazem assim uma corda de duzentos á tresentos, e diria ainda mais, si não
-receiasse causar admiração ao leitor.
-
-Achei-me muitas vezes nas mattas, onde elles habitavam e dir-vos-hei, sem
-precisar o numero, que vi grande quantidade d’elles na fórma ja dita.
-
-Cousa agradavel o mais que se pode imaginar.
-
-Arremeçam-se estes animaes de uma arvore a outra, de um ramo a outro,
-como faria um passaro bem voador, e o fazem com tal prestesa, que mal se
-vê.
-
-Si vos descobrem debaixo de alguma arvore, fazem incrivel matinada, e
-depois de vos fazerem muitas caretas e de dizer-vos mil injurias em sua
-linguagem, embrenham-se pelos mattos.
-
-Nunca deixam em hora certa,[79] á tarde ou noite, de ir beber agoa, mas
-sabeis com que subtileza?
-
-Pára o grosso do exercito na distancia de 300 passos da fonte, manda
-espias para examinar a fonte e suas circumvisinhanças, espreitam si
-nada ha que os assuste, examinam com cuidado si ha embuscada de algum
-inimigo, e apenas o descobrem gritam com voz forte e correm a reunir-se
-ao exercito.
-
-Voltam depois de algum tempo e praticam o mesmo.
-
-No caso de segurança gritam e ganem para vir o exercito, e chegado este
-ainda usa de outra velhacaria.
-
-Bebem todos um a um: á medida, que um bebe, passa alem e trepa n’uma
-arvore, e assim até o ultimo: assim bebem, passam para outro lado, por
-onde não vieram e ahi acabam a fieira.
-
-Deixam a fonte e vão em tumulto procurar seos amores, e n’isto ha
-ordinariamente grandes gritarias, gemidos, mordiduras e arranhamentos,
-porque querem os mais fortes escolher as damas e serem servidos em
-primeiro lugar.
-
-Nada digo sem experiencia e tudo isto presenciei todas as tardes na nossa
-fonte de S. Francisco.
-
-Vão pescar sempre em companhia, carregando ás macacas ás costas seos
-filhos.
-
-Pescam carangueijos e mariscos.
-
-Antes de agarrarem os carangueijos, quebram-lhe as tezoiras para
-livrarem-se das mordidellas, depois quebram-nos com os dentes, e, se
-estão rijos, com pedras, e o mesmo fazem com os mariscos.
-
-Cuidam muito as mães no sustento dos filhos, antes de poderem elles por
-si buscal-o; tiram o marisco e o carangueijo da concha, limpam-no muito
-bem, e offerecem ao filho nas costas, e estes o agarram e comem.
-
-Nunca vão para longe das arvores: é o seo refugio apenas ouvem algum
-motim, ou vêem alguem, e por isso para as suas pescarias escolhem lugares
-proximos á arvores altas e copadas.
-
-Si veêm passar uma canoa de selvagens, muito longe d’elles, saudam-nos
-rindo a seu modo, si se aproxima a canoa, fogem, e ninguem os pilha.
-
-
-
-
-CAPITULO XLVII
-
-Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos d’aquelle paiz.
-
-
-Na Ilha ordinariamente não se vêem aguias, porem ha muitas na terra
-firme, proxima a Maranhão.
-
-Não são verdadeiramente tão grandes como a do velho mundo, porem são mais
-furiosas, atrevidas, e valentes, que accommettem os homens, e não fazem
-seos ninhos, sobre rochedos, como diz Job, _Aquilla in petris manet_ «a
-aguia mora nos rochedos» porem entre as arvores.
-
-Vou contar-vos á este respeito o que ouvi em Maranhão sobre duas
-aguias extraordinariamente ferozes, que vieram aninhar-se nos mangues
-_d’Uy-rapiran_, aldeiazinha na costa, distante legoa e meia do Forte de
-S. Luiz.
-
-Mostraram-me o lugar, onde ellas viviam, n’um dia, em que passeiando pelo
-mar fui visitar um francez, morador n’essa aldeia.
-
-Tinham essas aguias cortado ramos mais grossos do que uma côxa de homem,
-e tinham feito tão boas acommodações, que melhores não fariam doze
-homens.
-
-Ahi tinham depositado seos ovos com seos filhinhos, e ninguem se atrevia
-a passar por perto.
-
-Vão caçar cabritos-montezes, matam-nos, espedaçam-nos com unhas e bicos,
-e depois trazem alguns boccados a seos filhos.
-
-Pescam da mesma fórma arremeçando-se sobre os golphinhos, pirapamas,
-e trombudos, e tiram-no do mar com suas garras, deitam-nos em terra,
-dividem-nos em pedaços, que levam a seos filhos.
-
-Vão ainda mais longe: mataram um homem e uma mulher _Tupinambás_, o
-que lhes causou a sua morte e a do seos filhos, porque si lhes armou
-uma cilada tão bem arranjada, que conseguio-se matar o macho, e a
-femea achando-se viuva retirou-se para a terra firme abandonando
-seos filhinhos, que foram passados pelas armas dos _Tupinambás_ em
-vingança do crime commettido na pessoa dos dois, que elles mataram, e
-destruio-se-lhes o ninho.
-
-A femea é maior que o macho, ambos de côr parda, olhar vivo e feroz,
-poupa forte e irriçada no cume da cabeça, pennas grossas no canudo e
-grandes como a de um gallo da India: servem-se d’ellas os _Tupinambás_
-para emplumar suas flexas.
-
-Nota-se n’estas pennas uma coisa particular e especial: si os selvagens
-as misturam com outras pennas, como sejam de araras, e de outros passaros
-grandes, são estas roidas e comidas por aquellas, pelo que são guardadas
-a parte, e com outras não as deitam em suas flexas.
-
-Por maiores, que sejam os outros passaros, é a Aguia o Senhor e o Rei não
-por igualdade de forças, mas por subtileza e ligeireza de vôo, subindo
-muito alto quando quer perseguir os passaros grandes, e descendo mui
-rasteiramente quando elles tambem descem, e quebram-lhes a cabeça com o
-bico.
-
-Ficam assustados todos os passaros quando ouvem o seo grito, calam-se e
-occultam-se entre folhas.
-
-Caçam principalmente os gaviões, parecidos com as pombas brancas,
-que vivem nas praias, saltando de ramo em ramo, esperando a vinda de
-passarinhos para assaltal-os e agarral-os. Ahi vão as aguias caçal-os, e
-despedaçal-os n’um momento.
-
-Nutrem-se tambem de tartarugas do mar e de terra, e não poupam a alguma
-serpente ou cobra que por ventura encontrem.
-
-Raras vezes podem os selvagens pilhal-as de geito para flechal-as.
-
-Trepam-se no cume das arvores, onde expandem as azas aos raios do sol,
-tirando com seo bico as pennas velhas, que por esse estado ja não servem:
-ahi vão os selvagens buscar estas pennas para seo uso.
-
-Assimelham-se muito na fórma e côr ás pennas dos gallos da India, e são
-muito boas para escrever.
-
-Alem d’estas aguias ha passaros grandes chamados _uira uaçú_, quasi do
-tamanho dos abestruses da Africa,[80] mais compridos, porem não tão
-grossos.
-
-Os grous de lá parecem-se com os pardaes. Si algum foi para a França,
-levado por nossos companheiros, saibam que ha outros ainda mais grossos.
-
-Agarram-nos os selvagens quando pequenos, e para isso procuram a occasião
-em que os paes vão caçar.
-
-São brancos quando pequenos, mechem-se pouco a pouco, e vão mudando até
-que alcance suas pennas e cor verdadeiras.
-
-São muito glutões, e parece que não se fartam, porem quando comem é por
-muitos dias.
-
-Si os macacos pudessem persuadir os selvagens a extinguir essa raça, o
-fariam indubitavelmente, porque perdem milhões dos seos para sustento
-d’ellas.
-
-Os _Tupinambás_, que criam estes passaros, conhecem que a melhor carne,
-que se lhes pode dar, é a de macacos, e para isto vão ao matto caçal-os e
-matal-os.
-
-Ha outras especies de passaros grandes, porem que não se comparam com
-estes, e são as _araras_, os _canindés_, e outros, os quaes são agarrados
-pelos indios por maneira astuciosa.
-
-Vão ao matto, escolhem as arvores, onde costumam estes passaros passar a
-noite, e onde se recolhem depois de comer: fazem debaixo d’essas arvores
-uma casinha redonda, com capacidade para conter tres homens, e coberta
-de palhas: ahi se recolhem e esperam a vinda dos passaros, que como
-não desconfiam, aproximam-se muito, e então os selvagens lhes atiram
-qualquer projectil, que os atordoa sem matal-os, cahem em terra onde são
-facilmente agarrados e prendem, e com o correr do tempo de tal maneira
-se domesticam, que embora os soltem, não deixam a casa do seo dono:
-introduzem-se pelos quartos, fazem grande matinada, com voz similhante a
-do côrvo, aprendem a fallar como os papagaios, e dão suas pennas á seos
-hospedes para com ellas se adornarem e enfeitarem.[81]
-
-Os habitantes do rio depennam seos gansos para encher colchões, e os
-indios tiram as pennas d’estes passaros para fazer seos enfeites e
-adornos.
-
-Ha muitas e diversas qualidades de garças, umas maiores, e outras mais
-pequenas.
-
-Fazem seos ninhos nos mangues á beira do mar, vivem de peixe, e trazem
-alguns inteiros a seos filhos que principiam a comel-os desde os seos
-primeiros dias.
-
-Admirei-me de ter sido encontrado um peixe grande, do tamanho de um
-arenque, no ventre de uma garça, pouca implumada.
-
-Os selvagens vão tirar dos ninhos as garçasinhas, armados de bons cacetes
-para se defenderem dos paes e mães, que em tal caso não deixam de acudir
-aos que nutrem tão terna e cuidadosamente afim de estenderem a especie.
-
-Similhantes as garças ha outros passaros chamados _forquilhas_ pelos
-francezes e portuguezes, porque teem a cauda fendida quando vôãm: fazem
-seos ninhos nos mangues, em lugar recondito, e pouco frequentado dos
-homens o quanto é possivel: ahi põem, e deixam seos filhos, vão para o
-mar, e ahi ficam por todo o dia enchendo de peixe uma grande bolsa, que
-trasem debaixo da goela, e que depois levam a seos filhos: quando está
-vasia esta bolsa, enche-se de vento que os alivia e sustenta no meio do
-ar, quando passam muitos dias e noites sem ir a terra, e atiram-se pelo
-mar em distancia de 50 a 60 legoas procurando alimentos.
-
-Tem a vista extraordinariamente apurada a ponto de verem do mais alto
-lugar, a que sobem, o peixe que náda no mar, e sobre elle cahem e
-agarram-no. Tem uma propriedade muito boa e é que perseguem os peixes,
-que andam atraz dos pequenos para devoral-os.
-
-Aproximam-se d’agoa, e como querem participar da presa, perseguem-nos o
-quanto podem.
-
-Alem destes passaros grandes ha milhares de passarinhos, entre os quaes
-merecem especial menção os seguintes.
-
-As andorinhas do mar em tão grande quantidade, que cobrem as praias nas
-vasantes: são boas para se comer, e á vontade matareis muitas com uma
-arma, carregada de chumbo miudo, e sentado n’uma canoa.
-
-Ha outra qualidade de passaros, que admiram muito a ponto de não se
-acreditar, e comtudo é verdade, por mim experimentada, os quaes tem por
-bico duas facas, embutidas em seos cabos, e aos quaes dão o nome de
-_navalhas_: o bico não lhes serve para buscar alimento, e por isso dizem
-que elles só vivem de vento, porque essas facas cortantes não lhes servem
-senão de passatempo quando passeiam pelas praias, e encontram outros
-passaros, que são por elles cortados pelo meio.
-
-No dia, em que parti do Maranhão, um mancebo pertencente ao Sr. de Sam
-Vicente, que me acompanhou em toda a minha viagem, matou um, cujo bico
-guardei e trouxe para a França.
-
-Ha melros como os de França, iguaes na plumagem e no canto, que espandem
-suas pennas á vontade no fim das chuvas, quando vem o bom tempo visitar
-os habitantes da zona tórrida: no fim do bom tempo e principio das chuvas
-soltam um canto triste, como que chorando o passado, e prevendo as
-tempestades do inverno, si tal nome merece.
-
-Ha muitos passarinhos de bellesa incrivel: uns pardos, outros cor de
-violeta, azulados, amarellos e mesclados: fazem os selvagens penachos
-de suas pennas, que são muito caras por ser difficil matal-os, porque
-presentindo o inimigo, que os busca, trepam-se no cume das arvores mais
-altas, nas pontas dos ramos, fazem seos ninhos os quaes amarram com uma
-embira muito forte, e na outra extremidade que cahe no sollo, fabricam
-uma especie de pote de terra, no qual criam seos filhos entrando por um
-só buraco, proporcional á sua grossura.
-
-Trouxe para França esses passarinhos, que aqui causaram muita admiração.
-
-Possue o Maranhão um genero de passarinhos, que não excede no corpo á
-extremidade do pollegar, e acrescento com todas as suas pennas, e tem
-canto melodioso, que faz lembrar o das andorinhas, que imitam quando
-querem cantar: levantam o bico, e soltam o canto o mais alto, que podem,
-e o sustentam em quanto o permittem suas azas.
-
-Fazem suas casas junto ás fontes, onde muitas vezes vão banhar suas
-azinhas para mais facilmente voarem alto. Ahi perto fazem seos ninhos, e
-imaginae o tamanho dos ovos, que chegam de 5 a 7: seos filhinhos ainda
-são de mais admiravel pequenez.
-
-São tão fecundos, que os meninos enchem cabaças de ovos d’elles.
-
-Ha de diversas cores, amarellos, violetas, pardos, etc.
-
-
-
-
-CAPITULO XLVIII
-
-Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á respeito das
-Indias Occidentaes.
-
-
-Para perfeição d’este primeiro tratado, julguei acertado responder á
-todas ás perguntas, que se fazem n’esse paiz.
-
-1.ª Si esta terra de equinoccio pode ser habitada por francezes
-delicados, naturaes de um paiz temperado, criados com cuidado e bons
-alimentos, pois não parece poderem se accommodar n’um paiz agreste,
-selvagem, cheio de mattas, entre barbaros, e debaixo da zona tórrida e
-ardente.
-
-Respondo, que na verdade todos os principios são difficeis, porem pouco a
-pouco apparece a facilidade.
-
-Não ha no mundo villa ou aldeia, que não cause susto e encommodo no
-principio, porem depois de alguns annos tudo vae bem, e os nossos padres
-ja ahi deixaram o fructo de suas fadigas.
-
-Não eram mui delicados os cidadãos romanos? E comtudo não deixaram Roma e
-Italia para plantarem suas colonias nas florestas gaulezas e allemans?
-
-O portuguez não é, como nós os francezes, na Europa sugeito a todas as
-molestias, trabalhos e fadigas? Sim! porem é neste ponto mais soffredor
-do que nós, pois bem sabe ser necessario primeiro lavrar para depois
-colher: comtudo estabelece-se muito bem no Brasil, faz grandes negocios,
-sendo a terra bem preparada e cultivada. Havendo dinheiro ha ahi de
-tudo, como em Lisboa. Eu vos lembro, que se a paciencia dos homens tem
-tornado, dentro de oito mezes, boas e ferteis as terras crestadas pelo
-gelo ou congeladas, uma terra, o coração do mundo, não será habitavel
-pelos francezes? É até loucura pensar n’isto, e portanto concluo, que
-esta terra é apropriada á naturesa dos francezes como é a França, si for
-bem cultivada e provida de viveres necessarios e acommodados ao gosto
-francez, como sejam pão e vinho: quanto á carne, peixe, legumes e raises,
-ha de tudo isto incrivel abundancia, tendo apenas o trabalho de colher e
-plantar os vegetaes.
-
-Enganar-se-hia porem quem pensasse, que as arvores produzissem patinhos
-assados, as corças, quartos de carneiro, recentemente tirados do espeto,
-e o ar andorinhas bem cozidas, de fórma que não havia mais trabalho do
-que abrir a bocca e comer.
-
-Com tal fantasia, não lhe aconselho, que lá vá, porque arrepender-se-hia.
-
-É pois esta terra habitavel pelos francezes, e si ahi não tiverem
-commodidades, arrepender-se-hão, porem tarde.
-
-2.ª Eis o que disse, e basta[82] a terra é habitavel, e pode ahi
-morar-se com algum encommodo durante alguns annos. Mas será saudavel
-para os francezes? Os indios ahi são sadios, e vivem longo tempo,
-embora selvagens e barbaros, nascidos n’este clima, e acostumados á tal
-temperatura. Não tem os francezes tal privilegio, pois são sujeitos á
-muitas febres, que se terminam em paralysia e outros encommodos. Respondo
-a isto, que julgamos das substancias pelos accidentes, e das terras pelos
-encommodos e enfermidades.
-
-Comparemos agora a menor aldeia de França com a Colonia Francesa n’estas
-terras, e no espaço de um anno achamos haver na aldeia dez vezes mais
-doentes do que em dois no Maranhão.
-
-Si algumas pessoas se dão mal, não é novidade pois em toda a parte está a
-morte: assim são as molestias.
-
-D’estes males não estão isentos Reis e Principes em paizes os mais
-agradaveis e salubres, que se possa imaginar.
-
-Em dois annos, que lá estive, apenas houve uma morte a do Rvd. padre
-Ambrosio:[83] fallo da morte natural, porque os devorados pelos peixes, a
-culpa foi d’elles por se lançarem ao mar.
-
-Morreu o Rvd. padre de uma paralysia, porque estando muito atado a
-derrubar arvores grandes, e tendo o suor molhado seo habito, foi assim
-mesmo celebrar missa, e apenas sahio da igreja foi acommettido por uma
-febre, de que falleceo poucos dias depois.
-
-Digo isto com certesa, porque o assisti até o fim, achando-se fóra em
-serviço de Deos os outros dois padres.
-
-Á vista d’isto Maranhão e Paris pleiteam entre si.
-
-Diz Paris—«és má terra, porque mataste um padre capuchinho que te mandei.»
-
-Responde Maranhão «por um perdi quatro dos meos.»
-
-«Tendes rasão para censurar-me?» Assim o deveria ser, si os meus fossem
-tratados como principes, e o pobre capuchinho apenas tivesse farinha, ou
-pouco mais.
-
-«Concordemos pois, que o clima é sam e salubre, e que desperta muito o
-apetite, e si houvessem muitas gulodices como em França, para ahi iriam
-as pressas muitas moças francezas.»
-
-3.ª Dizem vae tudo muito bem, porem não ha vinho, e nem trigo, principaes
-alimentos, indispensaveis nos melhores banquetes para as carnes mais
-delicadas.
-
-Respondo, que ha milho em grande abundancia, de que se pode fazer pão,
-como nós o faziamos, e o achavamos muito agradavel ao gosto, embora
-gostassemos mais da farinha do paiz, especialmente quando fresca, porque
-não é pesada ao estomago.
-
-Este pão de milho serve d’alimento em muitas terras do velho mundo,[84] e
-especialmente na Turquia, onde é chamado trigo da Turquia.
-
-Não se perdeo ainda a esperança, que a terra firme do Brasil, forte e
-gorda, não possa produzir trigo, com que se fabrique o pão como na França.
-
-Os habitantes de Pernambuco ja o fizeram; não estão longe de nós, porem
-em terras peiores.
-
-Quanto a terra firme do Maranhão, melhor seria si o rei de Hespanha não
-prohibisse nas Indias Orientaes e Occidentaes plantação de trigo e de
-vinhas para tel-as sempre dependentes de seo soccorro, e de tudo quanto
-cresce nos seos Reinos de Hespanha e Portugal.
-
-Accrescento ainda, que o Perú, que está no mesmo paralello que a terra
-firme do Maranhão, é abundante de trigo e de vinhas. Quem pode impedir,
-que ahi se produzam estes generos?
-
-Quanto ao vinho, não é feito das vinhas do paiz, embora ahi possam
-crescer,[85] e contam-nos, que as trazidas pelos nossos religiosos na
-ultima viagem pegaram e produziram fructos. Quem pode impedir grandes
-plantações de vinhas, e que em dois ou tres annos se façam grandes
-colheitas?
-
-A França nem sempre tem vinho, actualmente porem tem muito.
-
-Os flamengos, os inglezes, os hibernios e dinamarquezes não fabricam
-vinho, contentam-se com cerveja, e se querem beber vinho abrem a bolsa, e
-ahi vão os melhores vinhos do Universo.
-
-O mesmo succede em Maranhão, porque os navios ahi os levam. É bem
-verdade, que é um pouco mais caro do que em França, porem é melhor,
-segundo pensam alguns francezes, que avaliam as coisas pelo preço.
-
-Os mais economicos acostumam-se com a cerveja do paiz que é muito boa por
-ser feita de milho, e não é muito cara por haver muita abundancia deste
-genero na terra e serem as agoas boas e puras.
-
-4.ª Dizem. Si é assim não é máo, porem pode ahi fazer-se vantagens, visto
-que, em quanto ahi estive, nunca me animei a gastar dinheiro. Respondo.
-
-Se todos soubessem porque se dava essa falta, ficariam contentes, porem
-não é cousa que todos devam saber.
-
-Direi somente, que esta falta não provem da terra, que é propria a
-produsir bons generos quando bem cultivada, como sejam: _Algodão_,
-_canafistula_, _madeira de diversas cores_, _piteira_,[86] _tinturas
-de urucú_, _de cramesim_, _pimentas longas_, _lapis-lazuli_, _cobre_,
-_prata_, _oiro_, _pedras preciosas_, _plumas_, _passaros de diversas
-cores_, _macacos_, _macacos-monos_, _e saguins_, e especialmente
-assucares, quando si levantarem engenhos e plantarem cannas.
-
-Si nada de lá se trouxer (callando o que si deve dizer em publico) provem
-da má direcção dos negocios, cuidando cada um de si, o que tem feito
-com que haja pouco sortimento de mercadorias francezas, necessarias aos
-selvagens, e pelas quaes dão algodão, tinturas, pimentas, e outras coisas
-similhantes, alem de outros generos, que por si mesmo possam obter os
-francezes.
-
-Vendo os selvagens a pobresa dos armazens, onde apenas haviam mercadorias
-para com ellas si comprar farinha, ficam preguiçosos, nada fazem e nem
-farão emquanto os francezes não tiverem coisa alguma a dar-lhes em
-recompensa: tal é o seo genio e assim o farão, e por isto não merecem
-censura, por que em todo o Christianismo não si encontra um só homem, que
-trabalhe de graça.
-
-Não vos admireis si nada tragam, e sim si na primeira viagem conduzirem
-comsigo alguma coisa.
-
-Não me prendo as rasões ja ditas, e outras, que callo, e sim no caso de
-provêr-se á esta falta, como convem, eu vos asseguro que a Ilha e suas
-circumvisinhanças ainda produzirão bons estofos.
-
-Tendo satisfeito a todas as perguntas e objecções sinto repugnancia em
-responder a muitos mancebos, que por bens de fortuna somente possuem
-a espada e o punhal, mais que ricos de coragem cortam muitas vezes a
-garganta uns dos outros, e vão em companhia para um paiz bem triste, onde
-navio algum vae levar novidades.
-
-Desejaria perguntar-lhes—que fazeis em França senão esposar questões de
-vossos irmãos mais velhos? Porque não experimentaes fortuna, ou ao menos
-porque não ides enriquecer vosso espirito com a vista de coisas novas?
-Passarieis assim o vosso tempo, em quanto si aplaca o vosso coração, e
-si fortalece o vosso juiso: prestarieis serviço a Deos e ao vosso Rei
-visitando esta nova França.
-
-Ahi descobrireis novas terras, achareis alguma coisa de valor, como sejam
-pedras preciosas etc., e quando mais não fosse, bastaria que, quando
-voltardes, não ficasseis mudo nas reuniões, porque aquelle que viaja tem
-sempre ganho o seo pão.
-
-As cinzas e os fogões são para os cazeiros, creados por Deos para
-cultivar a terra.
-
-A nobresa n’este mundo tem outro fim, e qual é elle? o de empregar vossos
-esforços e trabalhos para dilatar o reinado de Deos, ajudar os Apostolos
-de Jesus Christo a chegarem aos fins para os quaes são enviados, isto é,
-para augmento do sceptro e da corôa de vosso principe, e morrer por estas
-duas empresas—é morrer em leito de honra.
-
-Vós me respondereis—mas sob que ordens e porque meios? Minha penna,
-senhores, não pode ir mais longe. Fiz o que devia e o resto ignoro.
-
-Espero portanto, que Deos inspirará aquelles, que tudo podem, á favor da
-perfeição de tão alta empresa.
-
-
-
-
-CAPITULO XLIX
-
-Instrucção para os que vão pela primeira vez ás Indias.
-
-
-Sabio é aquelle, diz o proverbio, que para seos negocios se aproveita do
-exemplo e experiencia dos outros.
-
-Se os nossos francezes, antes de terem ido á India, soubessem o que
-depois conheceram, teriam melhor dirigido os seos negocios, e nem teriam
-passado pelos encommodos, que soffreram: o que resolver ahi ir, calcule
-quanto tempo ahi se pode demorar, junte ainda mais um bocado, porque lá
-não se tem a commodidade do regresso quando se quer.
-
-Faça seo sortimento para esse tempo, e por duas formas, uma para si e
-outra para os selvagens afim de obter delles viveres e outros generos.
-
-As suas provisões devem consistir de aguardente forte, do melhor vinho
-de Canaria, em bons frascos de estanho, bem arrolhados e acondicionados
-n’uma frasqueira fechada a chave, e esta tão bem guardada, como o seo
-coração, para servir nas necessidades e nas molestias que podem apparecer.
-
-Fuja de sucia com pessoa alguma, porque então desapparecem bem depressa
-as suas provisões.
-
-É costume no mar, desde que se suspeita haver vinho ou agoardente na
-frasqueira de algum passageiro, o pedir-se de vez em quando uma vez
-d’esses espiritos para beber em companhia, e quando se está em viagem
-deve-se fazer de duas coisas uma, ou ser-se liberal e para isso não
-faltam instigações, ou então passar-se por velhaco, e soffrer todas as
-injurias, que lhe queiram fazer.
-
-O meio mais seguro para evitar estas coisas é não entrar em sucias.
-
-Para a passagem do mar deve surtir-se de algum vinho tinto, e de coisas
-iguaes para quando precisar visto o trivial do navio ser muito mal
-preparado.
-
-Deve fornecer-se de um bom numero de camisas, lenços, e vestidos de
-fustão, e não de estofos pesados, excepto os vestuarios para festas,
-porque n’este paiz não se precisa senão de pannos leves.
-
-Leve sabão para o aceio da casa, muitos sapatos porque lá não achará um
-só, senão os que para ahi forem levados e por alto preço, de forma que
-pelo preço de um par tereis em França uma duzia, toalhas, guardanapos,
-lençóes e um bom colchão, e se quizerdes viver á francesa, isto é, com
-limpesa, deveis levar baixela de estanho para quando estiverdes doentes.
-
-Devereis levar assucar, boas especiarias, uma porção de rhuibarbo muito
-fino, tudo bem acondicionado n’uma caixa para livrar o assucar das
-formigas do paiz, porque é impossivel imaginar-se o que fazem estes
-animaesinhos, que metem-se por toda a parte, e tudo trespassam se é de
-madeira.
-
-Devem essas caixas ser feitas de ferro branco.
-
-As mercadorias pelas quaes dos Indios obtereis em troca viveres e outros
-generos do paiz, e escravos para servir-vos e cultivar vossas roças, são
-as seguintes—facas de cabo de pau, de que usam os magarefes, e muito
-apetecidas pelos selvagens, muitas thesouras de bolsa de couro, muitos
-pentes, contas de vidro verde-gaio, a que chamam missanga, foices,[87]
-machados, podões, chapeos de pouco valor, fraques, camisollas, calções de
-adellos, espadas velhas, e arcabuses de pouco preço.
-
-Dão muito apreço a tudo isto, e assim tereis escravos e bons generos.
-
-Não esqueçaes tambem pannos verdes-gaios, e vermelhos de pouco valor,
-porque não fazem grande differença dos estofos, rosetas, assobios,
-campainhas, anneis de cobre dourado, anzóes, alicates de latão chatos,
-com um pé de cumprimento e meio de largura, tudo isto por elles muito
-apreciado.
-
-Assim bem providos destes generos, não duvideis de serdes bem vindo entre
-elles: ahi não deveis viver vida folgada, e muito negocio fareis n’esse
-paiz pelo qual pouco dareis, se souberdes guiar-vos.
-
-Assim preparado, não vos esqueçaes do principal, que é antes de
-embarcardes purificar e robustecer vossa alma com o Santissimo Sacramento
-da confissão e da communhão, dispondo todos os vossos negocios como quem
-não sabe se o mar lhe permittirá o voltar.
-
-Apenas embarcado, fazei vossa cama o mais perto, que fôr possivel, do
-mastro grande para evitardes o balanço visto ser ahi o lugar mais quieto
-do navio.
-
-Deve-se sempre temer a Deos, porem não receiar os acasos do mar, sendo
-melhor mostrar o rosto tranquillo do que desassocegado, visto de nada
-servir o medo.
-
-Não vos assusteis senão quando os pilotos implorarem misericordia, porque
-então é preciso cuidar da alma, visto irem mal as cousas.
-
-Quando virdes o navio navegando de lado, as caixas viradas, o mar
-entrando no convez, as vellas molhando-se nas ondas, os marinheiros
-jurando e buffando,[88] não vos assusteis, mostrae-vos sempre de animo
-prasenteiro, não vos descuidando porem da vossa consciencia.
-
-Não questioneis com algum marinheiro, pois com isso nada alcançareis.
-
-Quando chegardes ao porto, não vos apresseis em saltar, cuidae primeiro
-nas vossas mercadorias e bagagem, porque acontece muitas vezes visitarem
-a bagagem, e serrarem os caixões, onde vem os generos, de maneira que se
-possa introduzir a mão.
-
-Fazei conduzir tudo em vossa companhia para casa do vosso Compadre, que
-deveis escolher com estes predicados se fôr possivel.
-
-1.º Que tenha escravos, canôa e cães, para não sentirdes falta de peixe
-e de caça, senão raras vezes tereis estes generos, sendo necessario
-compral-os aos selvagens, e assim muito cara vos seria a vida.
-
-2.º Indagae se elle tem bom genio especialmente a mulher, porque nada ha
-peior do que má hospede.
-
-Se encontrardes bom acolhimento, convem fazer alguns presentes, e depois
-deveis trazel-os sempre na esperança de outros, sem serdes comtudo muito
-liberal, e por isso todos os mezes lhe deveis dar alguma coisa afim de
-não vos chamarem avarento, e como tal não vos apregoem entre os seos
-iguaes, criando assim difficuldades quando quizerdes obter alguma coisa.
-
-Não vos deixeis prender pelos affagos das filhas dos vossos hospedes,
-ou de outras, pois não vos faltarão caricias se souberem que tendes
-mercadorias.
-
-Em tudo o mais é preciso andar prevenido, tendo sempre bem presente á
-memoria o acaso e o perigo, que fazem contrahir molestias sórdidas
-áquelles, que de si se esquecem.
-
-Podeis livrar-vos d’isto com facilidade, mormente se considerardes o
-grande peccado, que commeteis.
-
-
-
-
-CAPITULO L
-
-Do acolhimento, que fazem os selvagens aos francezes recem-chegados, e
-como convem proceder para com elles.
-
-
-Si ha nação no mundo, que goste de fazer bom acolhimento aos seos amigos
-recem-chegados, e que os receba em suas casas para tratal-os bem o quanto
-é possivel, sem duvida alguma os _Tupinambás_ occupam o primeiro lugar á
-vista do que fizeram aos francezes.
-
-Logo que fundeou o navio, que trasiam os francezes, surgiram de todos os
-lados selvagens em suas canôas, bem enfeitados de pennas e preparados
-segundo sua classe como si fossem para uma grande festa.
-
-Apenas descobrem ao longe navios que demandam a terra corre logo este
-boato por todas as aldeias _Aurt vgar uaçú Karaibe_, ou _Aurt Navire
-suay_ «ahi vem os grandes navios de França.»
-
-Immediatamente tomam os seos vestidos bonitos, si os tem, e principiam
-a fallar uns aos outros por esta forma: «ahi vem navios de França, e eu
-vou ter um bom compadre, elle me dará machados, foices, facas, espadas, e
-roupa: eu lhe darei minha filha, irei pescar e caçar para elle, plantarei
-muito algodão, dar-lhe-hei gaviões e ambar, e ficarei rico, porque hei
-de escolher um bom compadre, que tenha muitas mercadorias.»
-
-Dizendo isto batem nas pernas e nos peitos em signal de alegria.
-
-As mulheres e os rapazes fabricam farinha fresca e nova, e os homens
-vão pescar e caçar, e quando a casa está provida de carnes de diversas
-qualidades, raizes, peixes, caça, e farinha, vão todos aos navios.
-
-Os mais impacientes vão em suas canôas á bordo do navio, ancorado na
-enseiada, endagar se vieram os seos velhos _Chetuassaps_, e qual é o
-francez que traz mais generos para lhe offerecer seo compadresco, sua
-casa e sua filha.
-
-Apenas salta o francez é logo rodeiado por elles: homens e mulheres
-mostram-se prasenteiros, presenteam-nos com viveres, convidam-nos para
-compadre, offerecem-se para levar-lhes sua bagagem, em fim fazem o que
-podem para contental-os e agradal-os.
-
-Não tem inveja por estar um francez em casa de outro: o que primeiro se
-apresenta é que leva o hospede, sem a menor questão, e nem por isso se
-insultam.
-
-Fazem mais ainda: quando um francez muda de compadre, não questionam por
-isto, despresam-no, e tem-no por homem mau, e assim raciocinam.
-
-«Si não poude viver com aquelle, como viverá commigo?»
-
-Si o selvagem é genioso, avarento e preguiçoso, quando o francez o deixa
-não se zangam os outros, antes dizem «É bem feito ser elle despresado, é
-um homem difficil de ser aturado, avarento e preguiçoso.»
-
-Escolhendo o francez um compadre, segue-o e vae para a aldeia,[89] e
-então o hospede com certa gravidade, como si nunca o houvesse visto,
-lhe estende a mão e lhe diz: «_Ereiup Chetuassap?_» «Chegaste meu
-compadre,»[90] coisa digna de vêr-se e de contemplar-se.
-
-Direis ao vel-os, que sahem á maneira dos imperadores de um gabinete bem
-fechado, onde estavam empenhados em grandes negocios.
-
-Si querem fazer grande acolhimento a um francez e lhe mostrar que muito o
-estimam, antes que o pae de familia lhe diga _Ereiup_, as mulheres e as
-filhas o lamentam e depois dam-lhe bons dias.
-
-Responde-lhe o francez _Pá_, «sim?» resposta que quer dizer «sim de todo
-o coração: eu te escolhi para morar comtigo, e para ser meo compadre, e
-do numero de tua familia: te dei a preferencia porque te estimo e por me
-pareceres bom homem.»
-
-Diz-lhe o selvagem—_Auge-y-po_ «muito bem, estou muito contente,
-honras-me muito, sêde bem vindo e aqui serás tão bem acolhido como em
-parte alguma.»
-
-Por isto reconhecereis a candura e a simplicidade da naturesa, que
-consiste em poucas palavras e muitas obras. O contrario acontece á
-corrupção, pois inventa muitos discursos, muitas palavras adocicadas,
-cortejo sobre cortejo muitas vezes só com o chapéo, e não com o coração.
-
-D’estas duas recepções qual será a melhor e a mais consentanea com a lei
-de Deos, e com a simplicidade do christianismo?
-
-Após aquellas palavras, elle vos diz—_Marapé derere?_ «Como te chamas?
-qual é o teu nome? como queres que te chamemos? que nome queres que se te
-dê?»
-
-Convem notar, que si não escolherdes um nome pelo qual sereis conhecido
-em toda a parte, elles vos darão um escolhido entre as coisas naturaes,
-existentes no seo paiz, e o mais apropriado á vossa physionomia, genio,
-ou maneira de viver, que por ventura descobrirem em vossa pessoa.
-
-Por exemplo, entre os francezes, um foi chamado _beiço de sargo_, porque
-tinha o beiço inferior puchado para diante como os peixes chamados
-_sargos_.
-
-Tiveram outros o apellido de _garganta grande_ porque nada o fartava,
-de _sapo-boi_,[91] por estar sempre entumecido, de _cão pirento_ pela
-sua cor má, de _piriquito_ porque levava só a fallar, de _lança grande_
-por ser alto e esguio, e assim por diante, e ordinariamente fazem estas
-coisas em suas _casas grandes_, e por esta fórma pouco mais ou menos.
-«Que nome se ha de dar a teo compadre?»
-
-—Não sei, é preciso estudar.
-
-Indica cada um a sua opinião, e o nome que encontra mais apropriado, e si
-é bem recebido pela assembléa lhe é imposto com seo consentimento, si é
-homem de posição: si é do vulgo, queira ou não queira, ha de ter o nome,
-que lhe der a assembléa.
-
-Tem tambem outra maneira de impôr nomes: quando elles vos estimam, e vos
-dam muito apreço, elles vos dam o seo proprio nome.
-
-Depois de saber vosso nome pensam na cozinha dizendo—_Demursusen
-Chetuasap_, ou então _Deambuassuk Chetuasap?_ «Tem fome, meo compadre?
-quer comer alguma coisa?»
-
-A hospede vos escuta e vos attende prompta a servir-vos si disserdes
-_sim_ ou _não_, porque tomarão vossa resposta, como dinheiro contado,
-visto que n’essas terras nem se deve ser vergonhoso, e nem guardar
-silencio.
-
-Si tendes fome, direis _Pá, chemursusain, Pá, cheambuassuk_, «sim, tenho
-fome, quero comer.»
-
-Perguntam elles _Maé-pereipotar_, «que queres tu comer? que desejas tu
-que eu te traga?»
-
-São mui liberaes no principio, diligentes na caça e na pesca, afim de
-contentar-vos e ganhar vossa affeição para obter generos; mas cuidado,
-não lhe dês tudo no principio, conservae-o sempre na esperança, dando-lhe
-cada mez alguma coisinha.
-
-Á sua pergunta dizei, si quereis carne, peixe, passaros, raizes, ou outra
-qualquer coisa, e então vossos hospedes, o marido e a mulher trazem para
-vós a caça, o _Mingau_, que tiverem, podeis comer a vontade e dar a quem
-quizerdes.
-
-Apenas tiverdes comido, arma a sua rede ao pé da vossa, principia a
-conversar comvosco, offerece-vos um caximbo cheio de fumo, que accende,
-chupa tres fumaças, que expelle pelas ventas, e depois vos entrega como
-coisa muito bôa, e que faz muita estima, como na França se pratica com
-as bebidas.
-
-Accende tambem seo caximbo, e depois de haver tomado cinco ou seis
-fumaças diz—_Ereia Kasse pipo_: «deixaste teo paiz para vir ver-nos,
-visitar-nos e trazer-nos generos?»
-
-Respondei-lhe _Pá_—«sim, deixei tudo, despresei meos amigos, e meo paiz
-para vir aqui vêr-te.»
-
-Levantando então a cabeça como que admirado, diz _Yandé repiac aut_,
-«compadeceo-se de mim, olhou-nos com piedade: lembraram-se os francezes
-de nós, não se esqueceram de nós.»
-
-Deixaram sua terra para nos vir ver—_Y Katu Karaibe_: «são bons os
-francezes e muito nossos amigos.»
-
-Depois pergunta ao francez _Mabuype deruuichaue Yrom?_ «Comvosco quantos
-superiores, guerreiros, capitães e principaes vieram?»
-
-Responde-lhe elle _Seta_, «muitos.»
-
-Replica o selvagem—_De Muruuichaue?_ «Não és d’esse numero? Não és um dos
-principaes?»
-
-Bem podeis pensar, que não ha ninguem, por mais mediocre, que seja a sua
-condicção, que de si não diga bem, e por isso responde o francez _Ché
-Muruuichaue_ «sim, sou um dos principaes.»
-
-Diz o selvagem _Teh Augeypo_ «muito bem, estou muito contente: basta,
-fallemos de outra coisa.» _Ereru patua? Ereru de caramemo seta?_
-«Trouxestes muitas caixas e cestas, cheias de mercadorias?»
-
-São as melhores noticias, que se lhes pode dar, para as quaes tem sempre
-dispostos o animo e o coração, de sorte, que tudo quanto dizem é somente
-como que um preambulo para chegar a este ponto.
-
-Depois que o francez responde-lhe affirmativamente diz o selvagem—_Mea
-porerut decarameno pupé?_ «O que trouxestes em vossas caixas e coffres de
-joias? que mercadorias?» dizem elles com vóz doce e agradavel, pois são
-muito curiosos de saber o que trazem comsigo os francezes.
-
-Deve estar prevenido o francez para não dizer e nem mostrar o que elles
-desejam, afim de trasel-os sempre na expectativa, si dos seos serviços
-quer aproveitar-se.
-
-Deve responder-lhe—_Y Katu paué_ «trouxe tantas coisas, cujos nomes nem
-mesmo sei, são bellas e magnificas.»
-
-Esta resposta é como agoa lançada na fornalha ardente do ferreiro, a
-qual redobra o calor, e activa a chama, e assim desperta a curiosidade
-do selvagem, até por meios adulatorios, expressados por gestos, dizendo
-_Eimonbeu opap-Katu_ «eu te peço, não me occultes nada, dize-me.»
-_Yassoi-auok de Karamemo assepiak demae_: «Abre-me tuas caixas, teos
-cestos, deixa-me vêr tuas mercadorias, tuas riquezas.»
-
-Deve responder o francez _Aimosanen ressepiak_ ou _Kayren deué_ «agora
-não posso, deixa-me descançar, logo te mostrarei:» _Begoyé sepiak_ «não
-duvides, um dia verás á tua vontade.»
-
-O selvagem entende o que isto quer dizer, e vendo que perde seo tempo,
-diz a si mesmo, levantando os hombros, e como que se lastimando—_Augé
-katut tegné_, «pois bem, esperarei.»
-
-Bem sei que não serei ouvido, porem, diz elle ao francez _Dererupé
-xeapare amon?_ «Não trouxestes muitas fouces e machadinhos de cabo de
-ferro?»
-
-_Dererupé urá sossea-mon?_ «Trouxestes machados de cabo de pau?» _Ererupé
-ytaxéamo?_ «Não trouxestes facas d’aço?» _Ererupé ytaapen?_ «Trouxestes
-espadas d’aço?» _Ererupé tatau?_ «Trouxeste arcabuzes?» _Ererupé tatapuy
-seta?_ «Trouxeste muita polvora?»
-
-Responde o francez a tudo isto _Aru seta yagatupé giapareté_ «Sim, trouxe
-muita coisa boa e bonita.» Diz o selvagem _Augé-y-pó_ «Muito bem.»
-
-_Ercipotar turumi? Ercipotar keré?_ «queres dormir? queres deitar-te?»
-Responde o francez _Pa che potar_ «sim, quero dormir, deixa-me.»
-
-Da-lhe então o selvagem as boas tardes, ou boas noites, dizendo—_Nein
-tyande karuk tyande petom_ «boa tarde, boa noite, descançae á vontade.»
-
-Deixemol-os em descanço, e passemos á segunda parte d’esta historia.
-
-
-
-
-Continuação da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas no
-Maranhão em 1613 e 1614.
-
-
-
-
-SEGUNDO TRATADO.
-
-
-
-
-CAPITULO I
-
-Dos fructos do Evangelho, que appareceram cedo pelo baptismo de muitos
-meninos.
-
-
-O cantico segundo, (representando allegoricamente a origem da Igreja, em
-terra nova, ainda não illuminada pelo conhecimento do verdadeiro Deos)
-diz: _Vox turturis audita est in terra nostra: ficus protulit grossos
-suos: vineæ florentes dederunt odorem suum_: «foi ouvida a voz da rolla
-em nossa terra: produzio a figueira seos figos verdes, e as vinhas em
-florescencia derramaram seo aroma.»
-
-Interpretando estas palavras Rabbi Jonathas, diz em sua Paraphrase
-chaldaica, que a vóz da rolla significa a vóz do Espirito Santo
-annunciando a Redempção promettida a Abraham, pae de todos os crentes:
-eis suas proprias palavras:—_Vox spiritus sancti et redemptiones quam
-dixi Abrahæ Patri vestro_: «a vóz do Espirito Santo e da Redempção, que
-prometti a Abraham, vosso Pae.»
-
-Diz mais, que pela figueira deve entender-se a Igreja, e que pelos figos
-novos se representa a confissão da fé, que devem os crentes fazer diante
-de Deos, e finalmente que pelas vinhas em flor exhalando bom cheiro são
-indicados os meninos louvando o Senhor dos seculos: _Cœtus Israel,
-qui comparatus est precocibus ficubus aperuit os suum, et etiam pueri
-et infantes laudaverunt Dominatorem sæculi_: em nosso tempo vimos isto
-realisado em Maranhão, e suas circumvisinhanças, onde depois que á vóz do
-Espirito Santo, por meio da prédica do Evangelho, se fez ouvir n’estas
-terras, e tocou o coração de muitos, especialmente dos que solicitaram
-o baptismo, a bella figueira da Igreja produzio novos figos, que são as
-almas sahidas de infidelidade para a crença do verdadeiro Deos, e então
-as vinhas em florescencia exhalaram seo cheiro quando em suas cabeças
-receberam os meninos as agoas do baptismo, louvando o Senhor dos Seculos
-pela parte que ja tomavam do sangue de Jesus Christo e da fé da Igreja.
-
-Coisa admiravel, digna de ser bem pensada e considerada: apenas a vóz do
-Evangelho trovejou, e fuzilou por essas florestas desertas, por estas
-sarças, cheias de agudos espinhos, esses pobres bichos (esses selvagens)
-presos nos laços do cruel caçador Satanaz, começaram animados pela força
-e impetuosidade d’essa vóz a construir seus pequenos templos, como
-outr’ora tinha predicto o Propheta Rei David no Psalmo 28. _Vox Domini
-præparantis Cervos, et revelabit condensa et in templo ejus omnes dicent
-gloriam_: a vóz do Senhor amançando os viados, descobrirá o interior das
-brenhas e das sarças e no seo Templo todos entoarão louvores á elle.
-
-Explicam os doutos, em varias licções, estas palavras dizendo que á voz
-do Senhor parem os bichos seos filhos, á similhança da mão da parteira ou
-do cirurgião habil, que serve para tirar do ventre da mulher o menino sam
-e salvo.
-
-Esta voz não é outra, a darmos credito aos naturalistas, senão o ribombo
-do trovão, e a luz do relampago, que por um segredo muito intimo da
-naturesa faz com que param as femeas dos animaes ferozes.
-
-O mesmo produz a prédica do Evangelho, animada e vivificada pelo Espirito
-Santo, excitando o coração d’estes barbaros, ha muito tempo internados
-nas sarças e brenhas da ignorancia, da infidelidade, e dos maos costumes.
-
-Nas _casas grandes_ não se falla mais de outra coisa senão do
-conhecimento de Deos, contando cada um o que ouvio de nós quando
-veio visitar-nos, e terminando essas especies de conferencias pela
-manifestação do grande desejo, que tinham de vêr seos filhos baptisados e
-elles tambem, por meio d’estas e outras palavras similhantes.
-
-Que coisas, diziam elles, são estas, que os Padres nos contam por meio
-dos interpretes? Nunca as ouvimos iguaes.
-
-Nossos paes, ja por tradicção nos contaram, que outr’ora veio aqui um
-grande _Maratá de Tupan_,[92] isto é, Apostolo de Deos nas provincias,
-onde residiam, e lhes ensinou muitas coisas de Deos: foi elle quem lhes
-mostrou a mandioca, as raizes para fazer pão, porque antes só comiam
-nossos paes raizes do matto.
-
-Vendo este _Maratá_, que nossos antepassados não faziam caso do que
-dizia, resolveo deixal-os, mas antes quiz dar-lhes um testemunho de sua
-vinda aqui, esculpindo n’uma rocha uma especie de mesa, imagens, letras,
-á fórma de seos pés, e dos seos companheiros, as patas dos animaes, que
-trasiam, os furos dos cajados, a que se arrimavam em viagem, o que feito
-passaram o mar, procurando outra terra.
-
-Reconhecendo nossos paes sua falta, procuraram-no muito, porem nunca
-d’elle tiveram noticias, e até hoje ainda não veio visitar-nos algum
-_Maratá de Tupan_.
-
-Muito tempo ha, que frequentamos os francezes, e nenhum d’elles nos
-trouxe padres, e nem nos contou o que por seos interpretes nos dizem os
-padres.
-
-Por exemplo fazem viver de maneira diversa os _Caraibas_.
-
-Prohibem os francezes de tomarem nossas filhas, o que outr’ora faziam com
-facilidade, dando-nos em troca algumas mercadorias.
-
-Dizem grandes coisas de Deos, e á elle fallam em suas Igrejas, e para
-isso fecham as portas, fazem-nos sahir para que desça _Tupan_ diante
-d’elles, e então si ajoelham todos os _Caraibas_.
-
-Bebe e come _Tupan_ em bellos vazos de oiro, e em mesa bem preparada e
-ornada de bellos estofos, e bonitos pannos de linho.
-
-Adornam-se com ricos vestuarios, e quando querem fallar aos _Caraibas_
-assentam-se no meio d’elles, e somente falla um Padre, que está assentado.
-
-Escutam-no todos os francezes, falla por muito tempo, cança-se, ninguem o
-entende porem todos ahi estão firmes.
-
-Depois que este falla, cantam uns depois de outros, de lado a lado, lêem
-n’um _Cotiare_, (n’um livro) o que cantam e dizem elles que assim estão
-fallando á Deos.
-
-Julgam nossos paes perdidos com _Jeropary_, ardendo em fogos
-subterraneos, e riem-se de nós quando choramos e lamentamos nos funeraes
-de nossos parentes.
-
-Mandam atirar no matto a comida, a bebida, e o fogo, que costumamos dar
-aos nossos parentes defunctos para fazer a viagem até onde estão nossos
-avós nas montanhas dos Andes.
-
-Elles nos dizem e prégam, que somos muito tollos em dar credito aos
-nossos _barbeiros_ e _feiticeiros_, especialmente ao seo sopro para o
-curativo dos infermos.
-
-Fallam com altivez contra _Jeropary_, e não o temem de fórma alguma.
-
-Promettem aos que crêem em _Tupan_, e que elles lavam com suas mãos, de
-subir ao Céo por cima das estrellas, do sol e da lua, onde está _Tupan_
-sentado, e em roda d’elle os _Maratás_, e todos os que acreditam em suas
-palavras, e são por elles lavados.
-
-Regeitam raparigas e mulheres, dizendo que o filho de _Tupan_ não as
-teve, sahindo do ventre de uma rapariga chamada _Maria_ com a qual nunca
-seo marido teve relações.
-
-Ha dias nos quaes não comem carne embora lh’a offereçam.
-
-Não se passam dez dias, contando pelos dedos, que não mandem os Francezes
-vestirem-se com roupas bonitas, e irem a casa de _Tupan_ fallar com elles
-e escutar a palavra de Deos.
-
-Vestem-se de maneira diversa dos outros francezes, caminham diante
-d’elles, e todos os saudam. Convivem sempre com os grandes, que lhes
-fazem tudo quanto querem, e dizem até que abandonaram suas riquezas e
-fazendas para mais livres conversarem com _Tupan_, e manifestarem a
-vontade d’elle aos francezes.
-
-Quando vamos vel-os, nos acariciam, especialmente a nossos filhos
-dizendo-nos, que já não nos pertencem e sim a elles, sendo-lhes dados por
-_Tupan_.
-
-Que não nos penalizemos por isso, porque nunca nos deixarão e nem nossos
-filhos: que elles são muitos em França, que todos os annos virão outros,
-que depois de haverem educado e ensinado nossos filhos, os farão fallar
-em Deos tão familiarmente como elles o fazem: que lhes ensinarão a
-_rotiarer_ (a escrever) e a fazer fallar o _papere_ (o papel) mandado de
-muito longe aos que estão auzentes.
-
-Dizem-nos que seo Rei é poderoso, que os ama, e nos ajudará em quanto
-elles estiverem comnosco. Ah! porque não somos mais moços para vêr as
-grandes coisas, que farão os Padres em nossas terras! Elles construirão
-com pedra grandes Igrejas como ha em França.
-
-Trarão bellos estofos para ornar o lugar, onde desce _Tupan_. Mandarão
-buscar _miengarres_, isto é, musicos cantores[93] para entoarem as
-grandezas de _Tupan_.
-
-Recolherão todos os nossos filhos n’um lugar, onde alguns dos Padres
-cuidarão d’elles. Mandarão buscar de França mulheres para ensinarem o
-que sabem á nossas filhas. Não nos faltarão ferramentas para nossas
-roças. Ah! diziam alguns d’elles em continuação, si chegarmos a vêr essas
-mulheres em nossas terras, então temos certesa que não nos deixarão
-os francezes, e nem os Padres, especialmente si nos derem mulheres de
-França. Si eu tivesse, disse um d’elles, uma mulher franceza não queria
-outra, e faria tanta roça que havia de chegar para sustentar tantas
-francezas, como de dedos eu tenho nas mãos e nos pés, isto é, vinte,
-numero infinido para significar muito, porque depois de terem chegado a
-vinte, começam a contar de novo.
-
-Levantando-se então elle, que era o Principal no meio do grupo, em que
-me achava, e batendo nas nadegas com quanta força tinha, disse _Aça-uçu,
-Kugnan Karaibe, Aça-uçu seta, &._ «Amo uma mulher francesa com todo o meu
-coração, amo-a extremosamente.»
-
-Respondeo o _Cão grande_, tambem Principal—«prometteram-me uma mulher
-francesa, que desposarei na mão dos padres, e me farei christão como fiz
-meo filho Luiz-galante, e quero ter em pouco tempo um filho legitimo.
-Minha primeira mulher está velha, e por isso não precisa mais de marido,
-e as outras oito, ainda moças, as darei por esposas a meos parentes, e
-ficarei só com a mulher de França, e minha velha mulher para nos servir.»
-
-Faziam outros iguaes discursos em suas _cazas grandes_ e na minha
-residencia, ou quando me viam passar, contentando-me de referir apenas o
-que acima escrevi para mostrar o fervor d’estes barbaros, suscitado pelo
-Divino Espirito Santo.
-
-_Vox turturis audita est in terra nostra_, para produzir de seo seio
-fechado e preoccupado por mil infecções estes bellos e amigaveis
-viadinhos, _vox Domini præparantis Cervos_, e em outro logar _Cerva
-charissima e gratissimus hynnulus_, cap. 5º dos _proverbios_, «a côrça
-muito estimada, e o templo muito lindo.»
-
-Continuemos.
-
-A estas palavras seguio-se logo a pratica, porque foram muitos meninos
-entregues ao Rvd. padre Arsenio, residente em _Juniparan_, e a mim,
-morador em São Francisco, perto do Fórte de São Luiz, para acudir aos
-francezes e receber os Indios de outras terras, que todos os dias nos
-vinham vêr e conhecer, si era verdade o que de nós se dizia em longes
-terras.
-
-Foi esta a divisão, que fizemos, de tantas e tão grandes terras para
-cultivar e lavrar o que permittissem nossas forças, cuidando um de uma
-parte e outro de outra, excepto quando houvesse necessidade de sahir da
-Ilha, porque então se tomariam providencias adequadas.
-
-Impossivel é á palavra o pintar o contentamento e a alegria, que
-sentiamos vendo estes selvagens trazer-nos seos filhos, voluntaria e
-expontaneamente, para serem baptisados, preparando-os o melhor que
-podiam com os meios offerecidos pelos francezes, isto é, vestidos com
-um pedaço de panno de algodão, escolhendo padrinhos entre os francezes,
-contrahindo assim com elles estreita alliança, especialmente com os
-meninos baptisados, si estivessem em idade de o conhecerem, porque então
-considerariam seos padrinhos como seos proprios paes, chamando-lhes
-pelo nome de _cheru_, «meo pae» e sendo pelos francezes chamados os
-rapazes _cheaire_ «meo filho,» e as meninas _cheagire_ «minha filha»:
-vestiam-nos em summa o melhor, que podiam, e os selvagens, paes dos
-meninos baptisados, lhes offereciam todas as commodidades resultantes de
-suas roças, de suas pescarias, e caçadas.
-
-Vendo assim estas cousas, lembrava-me do que diz o cap. 5º dos
-_canticos_. _Oculi ejus sicut cólombæ super rivulos aquarum, quæ lactæ
-sunt lotæ, et resident juxta fluenta plenissima_: «os olhos de Jesus
-Christo, esposo da Igreja, parecem-se com os olhos da pomba, orvalhada de
-leite, que contempla os regatos das fontes, e faz seo abrigo e morada nos
-rochedos, que abrangem rios amplos e espaçosos.»
-
-Estes olhos de Jesus Christo são as graças do Espirito Santo, que
-fazem quebrar seos ovos á maneira das tartarugas, expostos á mercê das
-innundações do mar e da frialdade da areia.
-
-Tem estes mesmos olhos por plano e fim lavar e purificar as almas,
-especialmente as almasinhas rociadas de leite. Assim como a pomba branca
-brinca sobre os riachos, e habita á margem dos grandes rios, assim tambem
-o Espirito Santo folga e muito na conversão de uma terra nova, e encara
-com bons olhos a sahida d’estas almasinhas do estado geral d’estas terras
-barbaras, a saber, da ignorancia de Deos para chegar a conhecel-o por
-meio das agoas do baptismo, partecipantes, como nós, da visão de Deos,
-porque não fazem accepção de ninguem, visto que estas almas barbaras lhe
-custaram tanto como as nossas.
-
-Oh! preço infinito! oh! falta de caridade, que não tem desculpa perante
-Deos, de se verem tantas almas pedindo a salvação, sem embaraços e
-riscos, e em risco de se perderem por não haver um pequeno auxilio.
-
-Bom Deos! todos nós acreditamos, e Jesus Christo confirma esta crença,
-que uma só alma valle mais que todo o resto do mundo, isto é, que todos
-os imperios, e reinados da terra, que todas as riquezas e thesouros do
-homem: mais ah! não temos difficuldade de pôr em execução nossas crenças.
-
-Não posso deixar este assumpto sem primeiro declarar a luta interior, que
-experimentei, para fazer vêr e descarregar minha consciencia tanto quanto
-a julgo compromettida, parecendo-me bastante para minha justificação e
-defesa o que acabo de dizer.
-
-Li e notei em bons auctores, profundos e perspicases no conhecimento dos
-segredos e mysterios da Escriptura, que as pombas brancas orvalhadas de
-leite eram certas pombas, que os Syrios creavam em honra e veneração de
-sua rainha Semiramis, sendo prohibido matal-as sob pena de morte.
-
-Contam-nos os antigos ter-se esta rainha immortalisado por um acto
-memoravel, entre seos altos feitos d’armas, o mais milagroso quanto é
-possivel á grandesa dos reis, qual a suspensão entre o Céo e a terra de
-seos jardins, pomares, e bosques de recreio.
-
-Salomão procurou esta comparação entre as coisas profanas para mostrar
-uma obra divina notavel entre as outras, qual a conversão das almas,
-inteiramente reservada ao poder de Deos por ser uma segunda creação pela
-qual assim como suspendeo a terra no ar, assim tambem suspenderá jardins,
-pomares, e florestas de sua igreja com surpresa dos calculos e juizos
-humanos, afim do dar lugar aos seos predestinados e eleitos chamando-os
-quando lhes apraz, no meio dos desertos, e do interior das mais vastas e
-densas florestas.
-
-Antes de ir adiante, não deixarei escapar a coincidencia que se nota
-entre a grande Semiramis e Maria de França, rainha christianissima.
-
-Semiramis rainha reinante e tutora do seu filho o rei d’Asyria
-emprehendeo grandes coisas, em beneficio e sustentaculo do imperio de seo
-filho.
-
-Igual caso se dá com a nossa rainha, e embora Semiramis tenha em seo
-tempo feito muitas obras magnificas, pelas quaes grangeou o amor e a
-obediencia de seos subditos mais do que outra qualquer, sua antecessora,
-a immortalidade de seo nome foi devida a seos edificios miraculosos.
-
-Com igual razão direi, que entre as heroicas acções da rainha, mãe do
-rei, que levaram a posteridade seo nome immortal, conta-se a missão dos
-padres capuchinhos ás terras do Brasil para ahi plantar os jardins da
-igreja, começada e fundada sob sua authoridade e ordem, e assim será o
-Brasil obrigado a sustentar estas pombas brancas em memoria e lembrança
-de tão grande Semiramis que tem tanta piedade como poder para aperfeiçoar
-esta empresa.
-
-Ainda vos peço, que em nossas pequenas pombas rociadas de leite deveis
-vêr os filhinhos dos selvagens conduzidos ao gremio do christianismo pelo
-baptismo.
-
-Ha cinco annos, pouco mais ou menos, nem havia desejo de se intentar a
-cathequese d’esta gente.
-
-O diabo ahi mandava com imperio, arrastava para si todas estas almas sem
-pagar dizimo a Deos, porem presentemente, em quanto durar e continuar a
-missão, com o auxilio de Deos ouvireis dizer quaes os grandes fructos,
-ja colhidos, e outros que se colhem todos os dias.
-
-A nossa maior consolação, a que nos fazia soffrer as amarguras e as
-difficuldades dos trabalhos, que ahi não nos faltavam, era vêr a
-franqueza e boa vontade, com que os selvagens nos apresentavam seos
-filhos para serem baptisados dizendo então nós, em conversa com elles,
-que para nós nada havia mais agradavel do que o trazerem elles seos
-filhos á pia baptismal, e sempre que comnosco fallavam era assumpto da
-conversa a manifestação de seos desejos por verem seos filhos por nós
-baptisados.
-
-Poderia aqui reproduzir muitos exemplos para confirmar esta verdade, mas
-como tenho de referil-os em lugar proprio, deixo-os agora de mão.
-
-
-
-
-CAPITULO II
-
-Do baptismo de muitos infermos e velhos, que falleceram depois de
-christãos.
-
-
-Entre os mais bellos enigmas sagrados, que recita Job no seo livro,
-está no Cap. XIV a parabola do loureiro dizendo. _Si senuerit in terra
-radix ejus, et in pulvere mortuus fuerit truncus illius, ad odorem aquæ
-germinabit, et faciet comam quasi cùm primo plantatum est_: «Si a raiz do
-loureiro se mergulha na terra, e seo tronco morrer no pó, apenas sentir o
-cheiro da agoa germinará e produzirá nova copa de folhas, como si fosse
-recentemente plantado.»
-
-Os Setenta assim inverteram esta passagem: _Si in petra mortuus fuerit
-truncus ejus, ab odore aquæ florebit, et faciet messem, sicut nova
-plantata_: «si o tronco do Loureiro morrer na pedra, com o cheiro d’agoa
-florescerá, e como planta nova mostrará em breve sua copa.»
-
-Outra versão ha ainda mais bella: _Attracto humore aquæo iterum germinat,
-exibet quæ fructus decerpendos, ut plantæ solent_ «o Loureiro morto
-chupando a agoa germina de novo, e como as outras plantas offerece
-sazonados fructos.»
-
-N’estes trez trechos descobrireis muitas coisas, que servem litteralmente
-ao nosso fim.
-
-1.º A raiz do Loureiro dentro da terra.
-
-2.º Seo tronco morto no pó ou na pedra.
-
-3.º O cheiro d’agoa, que dá a vida perdida á raiz e ao tronco fazendo
-produzir folhas, flores e fructos.
-
-O Loureiro representa as Nações infieis, conforme a ficção dos antigos da
-nympha Daphné, a qual perseguida pelos demonios com o nome de Appollo foi
-convertida em Loureiro.
-
-Sua raiz sepultada no pó ou na rocha representa longa serie de annos,
-nos quaes estas Nações barbaras jazeram entregues aos seos barbaros e
-inveterados costumes.
-
-O tronco ja morto representa o fim e terminação d’esta ignorancia.
-
-Deos querendo presentemente visitar esta Nação escolheo os enfermos, os
-velhos, os caducos e moribundos para fazel-os renascer em Jesus Christo,
-levando as folhas verdes da graça, as flores dos dons do Espirito Santo,
-e os fructos dos meritos da paixão de Jesus Christo, e com isto tudo o
-cheiro e o atractivo da agoa do baptismo.
-
-Sentiamos muito consolo quando baptisavamos os doentes e os velhos, cuja
-morte era esperada com certeza, por que receiavamos que por falta de
-soccorros, nos vissemos obrigados a deixar e abandonar todos os meninos
-recentemente baptisados e os adultos, que constantemente si apresentavam.
-
-Tinhamos ao menos certeza, que baptisando os que se achavam proximos da
-morte, abria-se o Paraizo, e perdia-se a occasião que lhes faria perder
-talvez a graça obtida, ficando sós e longe dos Ministros da Igreja para
-nutril-os na graça recebida.
-
-Alem d’isto o baptismo d’estes velhos fazia muita impressão no coração
-das testemunhas vendo a devoção, com que ordinariamente recebiam o
-baptismo.
-
-Vou dar-vos alguns exemplos.
-
-Na ilha cahiram doentes duas raparigas, uma livre e outra escrava,
-sendo aquella casada com um Tupinambá, muito bom moço, o qual depois da
-morte de sua mulher, constantemente nos perseguia para ser baptisado,
-aprendendo com muito boa vontade a doutrina christã.
-
-Esta rapariga, proxima da morte, pedio que lhe dessem o baptismo,
-confessando por palavras nascidas do coração a verdade da nossa religião,
-mostrando por signaes exteriores o toque do Espirito Santo no seo
-coração, banhando-se de lagrymas de amor e de reconhecimento ao grande
-_Tupan_, que lhe fazia tão assignalada graça de a ter feito nascer neste
-seculo para tiral-a do meio de tantas almas perdidas de sua nação e
-conceder-lhe o goso do paraizo.
-
-Fitava com attenção o Ceo, e com palavras doceis e tremulas recitava
-o que sabia á respeito da crença de Deos, repellindo para bem longe
-_Geropary_ e seos antigos enganos.
-
-No meio d’este discurso, precursor da morte, lamentava a condemnação de
-seos antepassados.
-
-Fazia exposições muito bellas a seo marido e o animava a receber quanto
-antes a purificação de seos peccados.
-
-Devo dizer d’ella um facto muito particular, qual o de haver conhecido um
-só homem, o seo marido, o que é não pequeno milagre n’aquelle paiz, por
-causa do mau costume introdusido pelo diabo no coração das moças, de se
-honrarem pela deshonra, e de não apreciarem a castidade ou a virgindade.
-
-Bem vêdes por isto, que em todos os escolhidos de Deos ha sempre alguma
-virtude natural, que provoque, não por merecimento e sim pela occasião,
-a graça de Deos, que similhante ao sol, com indifferença, está a entrar
-n’alma de todos, si houver para isso disposição.
-
-A _Tapuia_, ou escrava, atacada por violenta febre, que a atormentava
-muito, achava-se em sua rede só e por todos abandonada, conforme o uso
-e costumes d’elles, que consideram grande deshonra cuidar d’uma escrava
-quando está a morrer, isto antes da nossa chegada a ilha, quando então
-lhes mostrámos o quanto era desagradavel á Deos a crueldade com que
-atiravam por terra o escravo moribundo e lhe quebravam a cabeça como ja
-disse.
-
-Esta desgraçada mulher, prisioneira de Satan, e victima das desgraças
-communs da natureza, que são as enfermidades e as doçuras dolorosas
-e insuportaveis, sem pessoa alguma junto de si foi então olhada com
-piedade, e visitada por seo Creador, animando-a a pedir o baptismo. Oh!
-juiso de Deos! Oh! providencia eterna!
-
-Quem poderá comprehender teos conselhos na vida do homem!
-
-Esta pobre creatura, dardejada vivamente no coração pelas flechas das
-primeiras graças do seo senhor, não merecidas por alguma obra boa
-anterior, que houvesse feito, lançava suas vistas por todo o quarto
-procurando ver, si alguem lhe apparecia para mandar chamar os Padres,
-afim de ser lavada com as agoas do baptismo, e felizmente lhe appareceu
-um francez, a quem expoz seos desejos, e veio elle logo dizel-os ao
-padre, indicando a casa d’ella, que era perto, e elle foi logo visital-a,
-instruil-a e baptisal-a.
-
-O francez, que cuidou d’ella, e o padre que a baptisou, me contaram
-coisas admiraveis.
-
-Esta infeliz creatura quanto ao corpo, porem muito feliz quanto á alma,
-principiou a experimentar os penhores do Ceo, e o merecimento do sangue
-de Jesus Christo que recebeo pelo baptismo. Tinha sempre os olhos fixos
-no Ceo, derramava abundantes lagrymas, e dizia de momento a momento,
-estas palavras—_Y Katu Tupan, ché arobiar Tupan_. Oh! quanto Deos é
-bom! Oh! quanto Deos é bom! eu creio n’elle. Depois por meio de signaes
-mostrava aos francezes, que _Jiropary_, o diabo, andava ao redor de sua
-rede, e então dizia _Ko Jiropary, Ko y pochu Jiropary_: «está ali o
-diabo, atirai sobre elle a agoa de _Tupan_, isto é, agoa benta para elle
-fugir.» Fazia-lhe o francez a vontade e dizia ella que o diabo fugia a
-toda a pressa, e por isso constantemente pedia ao francez que derramasse
-em roda d’ella e de sua rede muita agoa benta o que fazia, bem como o
-padre quando ahi se achava.
-
-Apenas lhe apparecia uma dor de cabeça, que muito a encommodava, pedia
-para que lavassem a testa, as fontes e a cabeça com agoa benta, com que
-alliviava muito, a ponto de não sentir mais doença alguma: pouco depois
-entregou sua alma ao Creador.
-
-Amortalharam e sepultaram seo corpo á maneira dos christãos: aconteceo
-porem, que alguns malvados, filhos de _Giropary_, que nunca foram
-descobertos, senão seriam punidos, foram á noite desenterral-a,
-quebraram-lhe a cabeça e roubaram o panno de algodão de sua mortalha:
-pela manhã foi outra vez sepultada.
-
-Ninguem se admire d’isto, pois o diabo reserva sempre para si alguns bons
-servos, mesmo nos reinos os mais bem policiados, afim de executar suas
-mais detestaveis intenções.
-
-Sabeis sem duvida, que os _Tupinambás_ aborrecem naturalmente os que
-abrem as sepulturas dos mortos e não podem por isso tolerar, que os
-francezes abram as covas, onde foram enterrados seos parentes para lhes
-tirar os objectos, que elles cheios de superstição ali deixam.
-
-Ahi estava a morrer um velho _Tabajare_, tão magro, que os ossos lhe
-furavam a pelle, sem voz, e sem movimentos na sua rede.
-
-Julgando-se mais proximo da morte do que da vida, inspirado por Deos,
-pedio o baptismo.
-
-Fomos visital-o e cathequisal-o pedindo-lhe sua opinião a respeito de
-todos os pontos e artigos, que lhe propuzemos.
-
-Com as mãos postas nos disse que acreditava no que lhe diziamos.
-
-Demorando-nos nos artigos relativos á crença da Santissima Trindade, da
-Incarnação, Morte, e Paixão do Filho de Deos, do Baptismo, e do Mysterio
-da Santa Eucharistia, por que estava proximo da morte, procuramos
-fazer-lhe entender estas materias tão altas e profundas por comparações
-familiares, a que prestou muita attenção, e dezejando com todo o fervor
-o baptismo nós lhe promettemos, que no cazo de ficar bom elle receberia
-as ceremonias do baptismo na capella de S. Luiz, e aprenderia com gosto a
-doutrina christan, que ensinavamos aos catecumenos antes de baptisal-os.
-
-Respondeo-nos, que não era tão longe a Capella de Sam Luiz, que não
-podesse ser levado até lá afim de, antes de morrer, ser baptisado,
-consolação que muito desejava afim de ir direito para o Ceo.
-
-Vendo este fervor e devoção ficamos satisfeitos e concordamos ser elle
-carregado n’uma rede até a igreja de Sam Luiz, e ahi baptisado com toda a
-solemnidade.
-
-Alguns dias depois morreo tranquillamente.
-
-N’esse mesmo tempo cahio doente uma mulher _Tabajare_, e tão gravemente,
-que todos julgavam-na em breve morta: fomos vel-a e lhe offerecemos o
-baptismo que aceitou de muito boa vontade, e com muita attenção escutava
-o que diziamos, por intermedio dos interpretes, a respeito das glorias do
-Paraizo, das penas do inferno, do que ella devia crer, antes de receber o
-baptismo no caso de Deos lhe dar saude, e que podesse aprender a religião
-christan, e então na igreja receberia as ceremonias do baptismo, no que
-concordou e foi baptisada: recobrando sua saude, julgou do seu dever
-cumprir sua palavra, embaraçando-a porem o facto de ser mulher de um
-_Tabajare_, que tinha mais duas, não podendo ella continuar a viver com
-elle casada segundo as leis do christianismo.
-
-Removemos este obstaculo seguindo o conselho de Sam Paulo: _si qua mulier
-fidelis habet virum infidelem et hic consentit habitare cum illa, non
-dimitat virum etc quod si infidelis discedit, discedat_: «si alguma
-mulher fiel estiver casada com um homem infiel, e que este queira morar
-com ella, ella que não o deixe, si o homem infiel a deixar, ella o deixe
-tambem.»
-
-Em virtude d’isto fizemos saber a seo marido, que se quizesse ter
-por unica esta mulher christan, deixando as outras, que ella não o
-abandonaria, mas que si quizesse viver como d’antes na qualidade de
-concubina, que nós e os grandes dos francezes lhe afiançavamos, que elle
-seria despresado como incompativel com o christianismo.
-
-A principio mostrou repugnancia porem afinal concordou, vivendo como
-mulher christan e unica com seo marido.
-
-Faziamos o mesmo aos meninos pequenos, proximos á morte, observando porem
-estas formalidades: pediamos o consentimento dos paes e mães antes de
-baptisal-os, embora não os deixassemos de baptisar, quando os viamos
-moribundos: apesar de estarmos certos da boa vontade geral dos selvagens
-de apresentarem seos filhos ao baptismo, nós lhes prestavamos esta
-homenagem com o fim de attrahil-os á se converterem.
-
-Não vem a proposito referir aqui alguns exemplos, porque nada acho n’isto
-de extraordinario.
-
-
-
-
-CAPITULO III
-
-Do baptismo de muitos adultos, especialmente de um chamado Martinho.
-
-
-Antes de tratar d’esta materia, julgo necessario advertir ao leitor, que
-no fim da obra do reverendo padre Claudio achará alguma coisa d’esta e da
-seguinte historia, tudo extrahido de uma de minhas cartas, que enviei de
-Maranhão, á meos superiores, e como apenas esbocei-as, justo é que eu as
-descreva minuciosamente.
-
-Estas sagradas agoas do baptismo não estagnaram na ilha, pois
-atravessando a corrente forte e impetuosa do mar, sem com elle
-misturar-se, passaram ás terras firmes de _Alcantara_ e _Comã_, que
-despertadas por seo doce sussurro acolheram bem os espiritos d’aquelles,
-que Deos tinha escolhido para si, e pelo bom gosto d’ellas procuraram
-indagar-lhes a origem, maravilha, que não pode ser descripta como merece,
-pois á força d’estas agoas venceo incomparavelmente a actividade do
-azougue, chamando a si todos os pedaços de oiro espalhados por diversos
-lugares, isto é, as almas inspiradas por Deos em _Tapuitapera_ e _Comã_
-vinham á Maranhão onde tinha assentado seos alicerces a salvação d’este
-paiz.
-
-Quem poderia dizer o grande numero de pessoas, que nos vinham visitar
-para aprender alguma coisa dos mysterios da nossa fé?
-
-Na verdade ninguem, mas para contentar o leitor e dar-lhe alguma ideia
-direi, que não havia um só dia, em que não recebesse novos visitadores
-e as vezes chegavam a 100 e a 120: eis a razão porque não podia deixar
-facilmente o Forte, e ir ás aldeias á meo cargo ministrar o pasto
-espiritual.
-
-Muitos d’estes selvagens de diversas idades se me apresentaram pedindo o
-baptismo, o que eu difficultava, e somente concedia aos que julgava, por
-algum acto extraordinario, enviados por Deos para tal fim.
-
-A razão porque apresentavamos essas difficuldades ja o disse, por vir da
-incertesa do soccorro, e do temor em que estavamos de baptisar todos os
-que nos pediam, e depois deixal-os sem coadjutores, pelo que poderiam
-cahir em peior estado do que se achavam anteriormente.
-
-Não deixavamos comtudo de trazel-os esperançados, e aproveitavamos a
-occasião de instruil-os no conhecimento e amor do Omnipotente até á vinda
-dos novos padres, que os acharam promptos para satisfazer suas vontades.
-
-Entre os que foram inspirados vivamente pelo Espirito Santo, e que
-por isso baptisamos havia um indio de _Tapuitapera_, principal n’uma
-aldeia antiga d’esta provincia, chamada _Marentin_, sempre grande amigo
-dos francezes, de boa indole, modesto, de poucas fallas, olhos sempre
-voltados para terra, tido outr’ora entre os seos por afamado barbeiro ou
-feiticeiro, tendo n’elle muita fé os doentes.
-
-Contou-me elle e depois muitos outros, que era christão, e quando exercia
-a sua arte de barbeiro era visitado por muitos espiritos folgazões,
-que brincavam diante d’elle, quando embrenhava-se nos mattos, tomando
-diversas cores, sem lhes fazer mal algum antes até tornando-se seos
-intimos: achavam-se porem na duvida si eram espiritos bons ou maos: tal
-era a sua crença n’estes espiritos bons ou maos.
-
-Conforme o costume tinha tres mulheres, antes de ser christão.
-
-Aconteceo porem, que inexperadamente viesse com muitos selvagens, seos
-similhantes, de _Tapuitapera_ para vêr não só a nós como tambem as
-ceremonias, com que serviamos a _Tupan_.
-
-Achando-se no _Forte de S. Luiz_, vio na manhã do dia seguinte (que era
-domingo) os francezes vestidos com suas boas roupas, acompanhando seos
-chefes em caminho para a nossa casa de S. Francisco afim de ouvirem
-missa. Após estes iam os selvagens, o que o animou a seguir o prestito,
-especialmente pelo desejo e intenção, que tinham, ha muitos annos de
-aproximar-se de nós.
-
-A Capella de Sam Francisco encheo-se logo de francezes, de selvagens
-christãos, e não christãos, que tinham todos especial devoção de receber
-em si algumas gottas de agoa benta.
-
-_Marentin_, observando a pressa de todos, alcançou como poude o canto de
-uma porta, trepou-se n’um banco, que ahi achou para ver á sua vontade
-tudo quanto eu fazia.
-
-Apenas pisei nos degraos do altar, voltei-me afim de saudar a todos, e
-descobrindo este selvagem acudio ao meu espirito a esperança de salval-o.
-
-Contou depois, como prestou attenção a todas as ceremonias, que fiz
-na celebração do alto e profundo mysterio da Missa, e desejou saber
-porque me revesti de alva branca, liguei a cintura, deitei o manipulo
-no braço, e a estolla no pescoço: aproximei-me á direita do altar,
-onde me apresentaram um vaso com agoa e sal, sobre o qual pronunciei
-algumas palavras fazendo muitos signaes da Cruz; levantaram-se os
-francezes, me respondiam cantando, e tendo eu um ramo de palma na mão o
-mergulhei n’agoa deitando algumas gottas no altar, depois sobre mim, e
-levantando-me fui aspergir os francezes começando pelos chefes e acabando
-pelos que estavam na porta da Igreja, chegando tambem para esse fim
-os selvagens não christãos, na convicção de que lhes serviria contra
-_Jeropary_, desceo elle mesmo do banco, rompeo a multidão para receber
-tambem algumas gottas d’agoa benta, o que conseguio.
-
-Não gosou logo esta gotta de celeste orvalho, porque as cantharidas
-peçonhentas e venenosas cahiram sobre as flores de sua alma
-entre-abertas, porem as abelhas industriosas de inspirações divinas
-vieram reunir ahi o doce mel da raça christã, porque regressando ao seo
-lugar agachou-se atraz dos outros, dormio, e durante o seo somno vio o
-Ceo aberto, e para elle irem subindo muitas pessoas vestidas de branco, e
-atraz d’ellas muitos _Tupinambás_ a medida, que eram por nós baptisados.
-
-Disseram-lhe na visita que as pessoas vestidas de branco eram _Caraybas_,
-isto é, francezes ou christãos,[94] conhecedores de Deos e do baptismo
-desde a mais remota antiguidade, e que os selvagens, que os acompanham,
-eram lavados por nós, e acreditam em Deos, em nossas palavras e de nossas
-mãos recebiam o baptismo.
-
-Despertando, não disse palavra, porem ficou muito pensativo e
-melancolico, e assim embarcou, e foi para a sua terra.
-
-Chegando a sua casa todos o desconheceram, e lhe perguntaram o que
-sentia, e si havia recebido alguma desfeita dos francezes em _Yviret_.
-
-Sem dar resposta alguma de dia para dia mais se entristecia, fugia da
-companhia de seos similhantes passeando só em suas roças e bosques,
-onde foi accommettido por estes espiritos loucos, cahindo depois tão
-gravemente doente a ponto de chegar ás portas da morte, sempre afflicto
-pela visão, que vira em _Yviret_, e pelos espiritos de que já fallei.
-
-Finalmente ouvio uma voz interior dizendo-lhe que se quizesse livrar-se
-de tál afflicção e molestia, e ir com Deos para o Ceo convinha, antes de
-morrer, lavar-se com essa agoa, que cahio n’elle quando esteve na casa de
-_Tupan_ em _Yviret_.
-
-Obedecendo a esta voz, em madrugada alta, mandou um seo irmão ter
-comnosco, e pedir-nos por intermedio do chefe dos francezes, cuja
-intervenção invocou, um pouco d’agoa de _Tupan_, n’uma porção de algodão,
-guardada n’um _caramémo_,[95] afim de não se perder uma só gotta para
-lavar sua cabeça, e ir assim lavado para o Ceo.
-
-Cumprio a ordem o enviado, dando seo recado ao Sr. de Pezieux, bom
-catholico, que se admirou, bem como o Sr. de Ravardiere e outros.
-
-O Sr. de Pezieux mandou-me este homem, com um interprete, para me dizer o
-fim de sua vinda que muito me maravilhou vendo n’um selvagem tão grande
-fé, misturada com temor, respeito e humildade.
-
-Quiz ir logo ter com elle, porem não pude, porque, como ja disse, de
-todas as partes vinham diariamente muitos selvagens procurar-me, e nem
-foi possivel mandar-lhe o Rvd. padre Arsenio porque estava occupado
-em outro logar, e por isso mandei-lhe um francez proprio e capaz para
-fazer-lhe companhia, cuidar na sua salvação e baptisal-o, sem ceremonia,
-no caso de receio de morte.
-
-Chegando á sua casa o francez com o irmão de Marentin, disse-lhe que eu
-não podia deixar a ilha, e nem o Forte de Sam Luiz por causa dos muitos
-selvagens, que me vinham procurar, mas que elle vinha em meo logar afim
-de o baptisar, antes de morrer, no caso d’estar tão doente á ponto de não
-poder ir á ilha para ser baptisado por nossas mãos.
-
-Ouvindo isto recobrou forças e actividade, e disse, «visto que a coisa
-é assim, não quero ser baptisado por um _Caraiba_, e sim pelas mãos dos
-padres,» e nem deixou de levantar-se (embora doente e fraco a ponto
-de não poder estar em pé senão com muito custo) na manhã seguinte, de
-embarcar-se e vir procurar-me no _Forte_, expondo-me o seo grande desejo
-de ser filho de Deos e baptisado, e de apagar as visões, que tinha na
-cabeça.
-
-Respondi-lhe que era necessario aprender a doutrina christan o mais cedo
-que podesse, deixando muitas mulheres, e contentando-se apenas com uma.
-
-Eram estas as duas coisas, que, entre outras, exigiamos dos adultos.
-
-Replicou-me, que em quanto a pluralidade de mulheres foi coisa, que nunca
-approvou, e que achava de razão um homem ter uma mulher só, mas que em
-beneficio de sua casa necessitava de muitas.
-
-Disse-lhe que podia ter muitas mulheres como servas, e não como esposas.
-
-Concordou n’isto facilmente, e cheio de bons desejos em poucos dias
-aprendeo a doutrina christan e pedio-me, que eu o instruisse, antes de
-ser baptisado, das ceremonias que com tanta attenção vio no primeiro dia,
-em que foi tocado pelo espirito de Deos.
-
-Disse-lhe que Tupan era um grande Senhor, sempre comnosco embora não
-seja visto, devendo ser servido com profunda reverencia, com ornatos e
-vestidos diversos do ordinario.
-
-Expliquei-lhe que o primeiro vestido branco, que me vio tomar,
-significava tres coisas: 1.º a innocencia e puresa, com que deviamos
-apparecer diante d’elle; 2.ª o vestido de sua humanidade, proveniente do
-sangue de uma virgem, de quem fallava com os homens: 3.ª para representar
-o vestido de zombaria, que lhe deram seos inimigos quando quiz por nós
-soffrer, ameaçando-lhe de o fazer padecer o que quizessem, embora tivesse
-elle o poder de impedil-os em suas intenções.
-
-Disse-lhe, que a corda com que apertei a cintura, e essas tiras de
-seda, que puz no braço e no pescoço representavam os ornamentos, que
-deviamos dar á nossa alma para ser agradavel a Deos: a corda quer
-dizer—continencia de mulheres, a tira do braço—o bem, que devemos
-fazer ao proximo, e a do pescoço, onde é costume trazer-se collares e
-aderesses,—o amor e a perseverança na nossa profissão, que tudo isto
-junto faz lembrar as cordas com que foi preso o Salvador.
-
-O outro vestido de seda, que puz por cima de tudo isto, mostra o zelo ou
-a salvação das almas, que devemos procurar, não nos contentando só de
-ir para o Ceo, mas fazendo tudo quanto pudermos para que nos acompanhem
-nossos similhantes.
-
-Significa tambem o segundo vestido a vestimenta de zombaria, que foi dado
-a Nosso Senhor em sua Paixão.
-
-A respeito da agoa e do sal, sobre que pronunciei algumas palavras,
-expliquei-lhe que eu o fiz para dar a agoa o poder, da parte de Deos,
-de expellir o diabo do lugar e das pessoas, em que estivesse, e que a
-aspersão, que eu fazia com a palma sobre os francezes era para expellir
-o diabo, que andava ao redor d’elles, e que o canto, que elles entoavam
-em quanto eu lhes lançava agoa benta, era uma supplica a Deos para
-purifical-os de seos peccados.
-
-Perfeitamente instruido de todas estas coisas, concordamos baptisal-o no
-dia da festa da Santissima Trindade.
-
-Para seo padrinho escolheo o Sr. de Pezieux, e no dia aprazado
-vestiram-no com uma roupa de algodão bem alvo em respeitosa homenagem
-ao Sacramento, que ia receber, isto é, a innocencia e candura baptismal
-conferida sob a invocação das tres pessoas da Santissima Trindade.
-
-Grande numero de selvagens, principalmente de _Tapuitapera_, assistiram
-a este baptismo, o que lhes fez grande impressão no espirito, vendo
-este homem, seo similhante, respeitado por elles tanto por suas antigas
-feitiçarias, como por sua autoridade e idade, receber, como si fosse
-menino, sobre sua cabeça a agoa de Jesus Christo.
-
-Querendo aproveitar tão boa occasião pedi aos francezes que abrissem
-caminho para que de mim se aproximassem os primeiros e os principaes
-selvagens, que ahi se achassem, aos quaes dirigi a palavra por meio do
-interprete.
-
-«Todos os dias, meos amigos, vedes em vossa terra os passaros seguirem
-uns aos outros, de forma que quando uns levantam o vôo, todos os outros
-os acompanham.
-
-«Sabeis tambem que os javalys caminham em grande companhia, sem que um só
-delles se desvie dos passos dos primeiros.
-
-«Por experiencia conheceis que os _Paratins_, isto é, os peixes
-chamados—sargos—no mar andam sempre em grandes bandos seguindo seos
-conductores, de tal fórma que vindo os primeiros ao encontro de vossas
-canôas, quando ides pescar, imitam-nos os outros cahindo dentro dellas e
-assim apanhaes vós grande quantidade d’esses peixes.
-
-«O que é isto? O exemplo dos similhantes. A naturesa implantou em
-tódas as creaturas vivas e intelligentes o desejo d’imitação de coisas
-similhantes, conforme as differentes especies.
-
-«Observae agora este homem vosso similhante e principal, que si fez filho
-de Deos.
-
-«Bem sei que trazei-nos vossos filhos, porem pensam alguns de vós que não
-são capazes, por velhos, de receberem o baptismo: é um engano, porque,
-como vossos filhos, podeis ser baptisados, e ir para o Ceo. Vêde diante
-de nós este homem que vou baptisar, que me prometteo de ensinar os que o
-quizessem ouvir. Abri os ouvidos para ouvil-o.»
-
-Dito isto, mandei ajoelhar-se nos degraus do altar, e recitar em vóz alta
-e clara na sua lingua, e de mãos postas a doutrina christã, que para
-diante será encontrada em lugar proprio.
-
-Comecei depois as ceremonias do baptismo, observadas com muita attenção
-por todos os selvagens, recebendo o nome de Martim Francisco, lembrado
-por seo padrinho por tal ou qual semelhança com o seo antigo nome de
-_Marentin_, fazendo assim geralmente conhecido pelos selvagens tal
-conversão.
-
-Acabado isto, mandei-o sentar junto de seo Padrinho, e comecei a
-celebração da missa, que ouvio com toda a devoção, de mãos postas, e na
-occasião de levantar-se a Hostia ajoelhou-se, como os outros, recitou a
-oração dominical e o credo em quanto vio os francezes tambem de joelhos.
-
-Passados alguns dias quiz regressar á sua aldeia, tendo alcançado a
-saude do corpo e da alma, e despedindo de nossos chefes e de mim, nós o
-mimoseamos com rosarios, imagens, _Agnus Dei_ e bentinhos.
-
-Recommendamos muito, que depois de orar a Deos, resasse tambem para a
-Virgem Maria, Mãe de Jesus Christo, recitando em sua lingua _Ave Maria_
-tantas vezes quantas fossem as contas do seo rosario, e a oração
-dominical tantas quantas fossem as contas grandes.
-
-Tomou tal devoção com a Santissima Mãe de Deos que trazia sempre ao
-pescoço o seo rosario, que beijava muitas vezes, e quando queria orar a
-Deos elle o tirava e fazia o que lhe ensinamos.
-
-Antes de partir disse-me que só tinha um filho, que me traria no seo
-regresso para eu vel-o, e quando estivesse instruido na doutrina christã,
-eu o baptisaria e elle o daria aos Padres para ficar sempre com elles.
-
-Prometteo igualmente escolher uma das suas tres mulheres, com certesa a
-mãe do seo filho, si ella quizesse ser christã como elle, conservando as
-outras como servas.
-
-Bem compromettido com estas promessas, embarcou para _Tapuitapera_ em
-procura de sua aldeia e de sua casa.
-
-
-
-
-CAPITULO IV
-
-Do que fez este christão em beneficio da instrucção e conversão dos seos
-similhantes.
-
-
-Nada ha mais bravio e mais difficil para domesticar-se do que a
-phanthéra, ainda mais por ser de naturesa furiosa para com os animaes das
-florestas, que ella ataca e despedaça no primeiro encontro.
-
-Ao contrario, quando se sente grávida, torna-se mais favoravel, exhala
-bom cheiro pelos poros do seo corpo, e muda sua voz de cruel para branda,
-como que convidando os outros animaes a seguil-a, o que fazem.
-
-A nação dos _Tupinambás_ era uma verdadeira panthéra, cruel como nenhuma,
-segundo mostra o seo procedimento devorando seos inimigos. Apenas
-appareceo a graça sobre estas terras, mudaram em doçura sua crueldade;
-seos discursos desesperados em salutares; seos cheiros putridos,
-provenientes de seus fumeiros em outros agradaveis, approximando-se aos
-de Jesus Christo, transbordando de amor para com o proximo, desejando-lhe
-fazer o mesmo que elles receberam, inspirados pela concepção espiritual
-das graças de Deos no fundo de sua alma, como se lê nos _Canticos_ I.
-_Oleum effusum nomen tuum, idéo adolescentulæ dilexerunt te nimis_: e
-pouco depois, _Trahe me post te, curremus in odorem unguentorum tuorum_:
-«teo nome, ó Salvador do Mundo, e o teo conhecimento é um balsamo
-derramado, por cuja influencia e cheiro sentem-se as novas almas cheias
-de teo amor, e todas se dedicam a adquerir-te.»
-
-Martinho Francisco entre os outros selvagens executou esta doutrina,
-porque apenas chegou a aldeia principiou a fallar a seos visinhos, e
-d’ahi caminhando para outras aldeias da provincia de _Tapuitapéra_,
-sempre das grandezas de Deos e das graças que elle recebeo. Apresentava
-sempre aos olhos dos selvagens a desgraça dos seos antepassados, que
-tinham fallecido nas crenças de _Jeropary_, e a felicidade, que gozavam
-os que se baptisavam e se faziam filhos de Deos.
-
-Taes conversas produziram effeito, muitos procuraram a fonte de salvação
-para n’ella beber, e sugar o leite do peito de Jesus-Christo, como elle o
-fez e se conta do Unicorne, que procurando as agoas, distantes do veneno,
-por acaso foi tocado até o coração pela suavidade do canto de uma joven
-donzella[96] deitada sob os ramos floridos das arvores da floresta, o que
-livrou este animal de sua furia natural e o aproximou do peito d’aquella
-que o commoveo.
-
-O Unicorne, grato e não avaro do bem recebido, desejoso de que seos
-similhantes tambem o partilhem, vae procural-os no centro dos bosques,
-e por todas as sortes e gestos convidam-nos a seguil-o afim de tomarem
-parte na sua felicidade.
-
-A joven donzella representa a esposa de Jesus Christo, a santa igreja,
-seo canto harmonioso a prédica do Evangelho, seo peito, onde são
-acolhidos os proprios animaes irracionaes, a misericordia divina com
-todo o seo poder, as agoas sem veneno, os sagrados sacramentos, o
-feroz Unicorne, os infieis, e Martinho Francisco, por seos discursos e
-exemplos, foi a primeira acquisição, seguida de muitas outras.
-
-Não se tinham passados seis mezes, e ja se experimentavam grandes
-effeitos, porque tendo elle convertido e instruido muitos habitantes
-de _Tapuitapéra_ de todas as idades, mandou-nos os mais instruidos e
-intelligentes ao Forte de Sam Luiz para serem baptisados, o que fez,
-depois de os reter comigo por algum tempo para experimental-os em seos
-desejos.
-
-Augmentando-se diariamente o numero dos catecumenos em _Tapuitapéra_ foi
-necessario ahi ir o Rvd. padre Arsenio para baptisar muitos d’elles,
-dignos d’essa graça tanto pelo seo desejo, como pela sua instrucção
-christã.
-
-Tinha Martinho edificado uma Capella, e junto d’ella uma casa, no meio de
-sua aldeia, com o auxilio dos outros christãos e selvagens ahi residentes.
-
-Benzeo o padre a Capella, e tomou conta da casa, onde foi vesitado e
-sustentado em quanto ahi esteve, por christãos e selvagens.
-
-Depois que baptisou os que para isso julgou aptos, foi vêr algumas
-aldeias da provincia, e o seo principal soberano, e por toda a parte
-foi muito bem acolhido, manifestando todos em geral o desejo de serem
-christãos, e de terem padres em suas aldeias.
-
-Alcançou o bom homem Martinho Francisco nome honroso, dado pelos
-habitantes de _Tapuitapéra_ em recompensa de seos trabalhos e fadigas
-para fazel-os christãos por ter sido entre elles o primeiro christão, e
-por saberem quanto nós o estimavamos.
-
-Chamaram-no _Pai-miry_, «Padre pequeno ou o vigario dos Padres,» e na
-verdade bem merecia tal nome, porque desde que se fez christão nunca mais
-se descobrio n’elle vestigios do antigo homem, ou os máos costumes dos
-selvagens. Era grave, modesto, pouco fallador e raras vezes ria-se, e
-nada fazia que parecesse ser contrario ao christianismo.
-
-Era este o regimen de vida que observava, e como mais velho fazia
-observar aos outros christãos:
-
-1.º Pela manhã e á tarde reuniam-se todos na Capella: levantava-se um
-d’elles, ajoelhavam-se outros, e depois dizia um em seo idioma «_em
-nome do Pai, do Filho, e do Espirito Santo_» e fazia o signal da Cruz,
-na testa, na bocca e nos peitos, no que era pelos outros imitado:
-punha depois as mãos, fixava a vista no altar, e recitava pausada
-e distinctamente a oração dominical, o symbolo dos Apostolos, os
-mandamentos de Deos e da Igreja, o que findo, si tinha alguma advertencia
-a fazer aproveitava a occasião, sinão, recolhia-se cada um á sua casa.
-
-2.º Viviam em commum quando se achavam juntos, e para isso traziam o
-resultado de suas pescarias e caçadas para serem igualmente dividido
-entre elles, e antes de comerem, o mais velho recitava em sua linguagem
-o _Benedicite_, fazendo o signal da Cruz sobre si, e sobre as iguarias:
-tiravam todos o chapeo, faziam em si o mesmo signal e ninguem tocava na
-comida antes de abençoada.
-
-Em quanto comiam não contavam coisas más ou que excitasse o riso, como
-fazem os Tupinambás; porem o mais velho dizia alguma coisa á respeito de
-Deos e da Religião.
-
-3.º Nunca iam aos _cauins_ e reuniões, conforme costumavam os
-_Tupinambás_: era um dos pontos principaes, que Martinho Francisco
-gravava no coração dos convertidos, isto é, que os _cauins_ eram
-inventados por _Jeropary_ para semeiar a discordia entre elles, e fazer
-com que praticassem toda a especie de males os que os frequentassem,
-sendo impossivel amar a Deos quem gostasse de _cauins_, porque, dizia
-elle, quando descubro, que alguns dos meos similhantes se retiram das
-_cauinagens_, agouro que bem depressa serão christãos e vou procural-os;
-mas não tenho animo para fazer o mesmo aos que frequentam taes orgias.
-
-O que elle dizia era verdade por ser horrivel espectaculo vêr essas
-gentes em reuniões, parecendo antes congresso nocturno de feiticeiros do
-que ajuntamento de homens.
-
-Achei-me apenas uma só vez n’estas reuniões para d’ellas poder fallar, e
-nunca mais lá tornei.
-
-Via aqui uns deitados em suas redes vomitando com muita força, outro
-caminhando ou marchando em diversos sentidos com o juiso perdido pelo
-vinho, ali outros gritando, fazendo mil tregeitos, estes dançando ao
-som do _maracá_, aquelles bebendo com muito boa vontade, aquell’outros
-fumando para mais se embriagarem, e o que ainda é peior, é estarem
-mulheres e moças ahi misturadas parecendo bem difficil a presença de
-Bacho sem Venus.
-
-Por minha vontade os francezes deviam fazer o que fizeram os portuguezes,
-isto é, prohibir todas estas _cauinagens_: os portuguezes, depois
-que habitaram algum tempo na India, reconheceram, que um dos maiores
-embaraços para a propagação do christianismo eram essas reuniões
-diabolicas, de que procedem todas as discordias e desgraças entre os
-selvagens.
-
-4.º Vestem-se estes novos christãos o melhor que podem, caminham todos
-juntos, não trazem flechas e nem arcos, excepto quando vão á caça ou a
-pesca, contentando-se em trazer um cacete de uma especie de ebano, negro
-ou vermelho, com que se distinguem facilmente dos outros.
-
-Quando vão a outras aldeias, si encontram algum christão, recolhem-se á
-casa d’elle, contentam-se com o que tem e vivem sóbriamente como tanto
-convem a um christão.
-
-
-
-
-CAPITULO V
-
-De um Indio, condemnado á morte, que pedio o baptismo antes de morrer.
-
-
-Não se acreditaria, si a experiencia não o tivesse confirmado, que
-vendo-se simplesmente por fora a concha de uma ostra marinha coberta e
-suja de lama e lodo, que ella em si ja tivesse uma perola preciosa digna
-de ser collocada no gabinete dos principes.
-
-Quem poderá crer, que um selvagem iniquo, impuro, e immundo, como não
-posso dizer, embora creia que o proprio diabo, author de taes traças, se
-envergonhe d’isto, não tenha inimisade e soberba contra o soberano, que o
-tira d’isto?
-
-Quem poderá, digo eu, crer, que tal individuo, por determinação da divina
-Providencia, fosse escolhido para o reino do Ceo, e tirado d’esses
-abysmos infernaes, para receber (na hora da morte, bem merecidas por
-suas torpezas) o sagrado baptismo, que o lava de todas as máculas, e lhe
-proporciona facil e franca entrada no Paraiso?
-
-Um pobre indio, bruto, mais cavallo do que homem, fugio para o matto por
-ouvir dizer, que os francezes o procuravam e aos seos similhantes para
-matal-os e purificar a terra de suas maldades por meio da santidade do
-Evangelho, da candura, da puresa, e da claresa da Religião Catholica
-Apostolica Romana.
-
-Apenas foi apanhado amarraram-no, e trouxeram-no com segurança ao Forte
-de Sam Luiz, onde deitaram-lhe ferros aos pés: vigiaram-no bem até
-que chegassem os principaes de outras aldeias para assistirem ao seo
-processo, e proferirem sua sentença, como fizeram a final.
-
-Não esperou o prisioneiro pelo principio do processo, e elle mesmo
-sentenciou-se, porque diante de todos disse, «vou morrer, e bem o mereço,
-porem desejo que igual fim tenham os meos cumplices.»
-
-Terminado o processo e proferida a sentença, cuidou-se em sua alma
-dizendo-se-lhe, que si elle recebesse o baptismo, apesar de sua má vida
-passada, iria direito para o Ceo apenas sua alma se desprendesse do corpo.
-
-Acreditou nossas palavras, e pedio o baptismo: para tal fim veio o Sr.
-de Pezieux procurar-me em nossa casa de S. Francisco em Maranhão, e
-conversando si devia ser eu quem o baptisasse, resolvemos negativamente
-pelas seguintes razões:
-
-Pensavam os selvagens que nós outros padres eram pessoas misericordiosas
-e compassivas, que expontaneamente empregavamos nossos esforços perante
-os grandes para alcançar a vida dos condemnados: que os grandes nos
-estimavam, e nada nos negavam, e que, alem d’isto, nós prégavamos,
-que Deos não queria a morte e sim a vida do peccador, e que por isso
-tinhamos vindo aqui para dar essa vida de forma que, si eu o baptisasse
-publicamente, antes d’elle morrer, teria satisfeito muitos caprichos
-d’estes espiritos debeis e incapazes a respeito da opinião, que formavam
-de nós e que seria muito prejudicial a nossas intenções dando alem d’isso
-causa a varias murmurações dos selvagens, que diziam—«si os padres
-gostam da vida, porque deixam este christão ir morrer? Si amam tanto os
-christãos porque não amam este? Si os grandes nada lhes negam, porque não
-pedem a vida d’este?»
-
-Por tudo isto, e por outras razões, que omitto, decidimos ser conveniente
-e necessario, que eu não o baptisasse. Roguei pois ao dito senhor que,
-depois de instruil-o pelos interpretes, o baptisasse antes de ir ao
-supplicio, sem as ceremonias da igreja o que se prestou e cumprio.
-
-Recebeo, com tranquilidade e sem tristeza, na presença dos principaes
-selvagens o baptismo, depois do que um dos Principaes, chamado
-_Karuatapiran_ «Cardo vermelho,» de quem ainda fallarei, lhe disse estas
-palavras:
-
-«Tens agora occasião de estares consolado e de não te affligires, pois
-presentemente és filho de Deos pelo baptismo, que recebeste da mão de
-_Tatu-uaçu_ (nome do Sr. de Pezieux em sua lingua) com permissão dos
-Padres. Morres por teos crimes, approvamos tua morte, e eu mesmo quero
-pôr o fogo na peça para que saibam e vejam os francezes, que detestamos
-tuas maldades; mas repara na bondade de Deos e dos Padres para comtigo,
-expellindo Jeropary para longe de ti por meio do baptismo de maneira que
-apenas tua alma sahir do corpo vae direita para o Ceo vêr _Tupan_ e viver
-com os _Caraibas_, que o cercam: quando _Tupan_ mandar alguem tomar teo
-corpo, si quizeres ter no Ceo os cabellos compridos e o corpo de mulher
-antes do que o de um homem, pede a _Tupan_, que te dê o corpo de mulher e
-resuscitarás mulher, e lá no Ceo ficarás ao lado das mulheres e não dos
-homens.»
-
-Desculpareis este pobre selvagem, não christão e nem cathecumeno,
-fallando da Resurreição. Elle nos ouvio ensinar que n’um dia
-resuscitariam todos os homens, regressando cada alma do lugar em
-que estava para occupar o seo corpo, acrescentando o que pensou ser
-indifferente á Resurreição, isto é, que uma alma recebe um corpo de homem
-ou de mulher, no que se enganou não se deixando em pé tal ideia falsa,
-pois elle e o paciente foram instruidos da verdade: julguei acertado
-referir aqui simplesmente o que se passou para que o leitor reconheça
-sempre quanto sou fiel em minhas descripções, como ja disse, e provarei
-sempre nos discursos, que ainda hei de transcrever.
-
-Este infeliz condemnado recebeo as consolações de muito boa vontade, e
-antes de caminhar para o supplicio disse aos que o acompanhavam: «vou
-morrer, não mais os verei, não tenho mais medo de _Jeropary_ pois sou
-filho de Deos, não tenho que prover-me de fogo, de farinha, de agoa, e
-nem de ferramenta alguma para viajar alem das montanhas, onde cuidaes que
-estão dançando vossos paes. Dae-me porem um pouco de _Petum_ para que eu
-morra alegremente, com voz e sem medo.»
-
-Deram-lhe o que elle pedio, á similhança dos que vão ser justiçados, aos
-quaes tambem se dá pão e vinho, costume não d’agora, e sim desde a mais
-remota antiguidade, pois então se offerecia aos criminosos vinho com
-myrrha e opio para provocar o somno dos pacientes.
-
-Feito isto, levaram-no para junto da peça montada na muralha do Forte
-de S. Luiz, junto ao mar, amarraram-no pela cintura á bocca da peça,
-e o _Cardo vermelho_ lançou fogo á escorva, em presença de todos os
-Principaes, dos selvagens e dos francezes, e immediatamente a bala
-dividio o corpo em duas porções, cahindo uma ao pé da muralha, e outra no
-mar, onde nunca mais foi encontrada.
-
-Quanto a sua alma, é de crer que os anjos a levassem ao Ceo, pois morreo
-logo depois de haver recebido as agoas do baptismo, certesa infallivel da
-salvação d’aquelles, a quem Deos concedeo tal graça, não pequena e nem
-commum, porem tão rara como o arrependimento do bom ladrão na Cruz, que
-tendo vivido sempre desregradamente até chegar áquelle logar, recebeo
-comtudo esta promessa de Jesus Christo—_Hodie mecum eris in Paradiso_,
-«hoje estarás commigo no Paraiso»: outro tanto podemos dizer d’esse
-infeliz e desgraçado indio, que nos deo tão bella occasião d’admirar e de
-adorar os juizos de Deos.
-
-_Karuatapiran_, o algoz, com gestos e palavras mostrava grande
-contentamento e alegria perante os francezes por haver recebido tal
-honra, que apreciava muito mais do que as que sua Nação cheia de abusos
-dá aos que publicamente matam os prisioneiros, sendo essas consideradas
-as maiores existentes entre elles, e um favor não pequeno aos mancebos,
-quando escolhidos para tal fim, pois é uma especie de accesso de grandeza
-para ser um dia Principal.
-
-Por tudo isto o grande _Karuatapiran_ exaltava-se d’este seo feito e
-d’elle se servia para se fazer timido dizendo por todas as aldeias por
-onde andava, o que tinha feito, asseverando ser irmão dos francezes, seo
-defensor e exterminador dos maus e dos rebeldes.
-
-
-
-
-CAPITULO VI
-
-Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens, quando nos vinham
-vêr, para chamal-os ao conhecimento de Deos e á obediencia de nosso Rei.
-
-
-O meio pelo qual outr’ora os Athenienses chamavam os povos ao
-conhecimento da Philosophia, e á obediencia de uma Republica, era
-representado pelo simulacro do seo _Palladium_, que fingiam ser trazido
-do Ceo, e por elles collocado no lugar mais alto de sua cidade.
-
-Tal era o idolo de Pallas, armado dos pés até a cabeça, correndo de
-sua bocca raios de mel, que cahiam sobre seos ouvintes e expectadores,
-produzindo-lhes doce somno.
-
-Ensinaram os Druidas a mesma coisa aos Gaulezes levantando a estatua de
-Hercules no frontespicio de seos Templos, tendo na sua cabeça a cabeça de
-um leão, e nas espaduas a clava de suas victorias, sahindo de sua bocca
-uma especie de hera, porem de oiro, que prendia pelas orelhas homens e
-mulheres, moços e velhos afim de attrahil-os a si.
-
-Com isto queriam os Athenienses e os Gaulezes dizer, que os homens são
-attrahidos pela doçura e pela razão á obediencia das leis divinas e
-humanas, na qual se conservam por meio das armas, sustentadas pelos
-soberanos para a conservação dos seos vassallos.
-
-O primeiro d’estes dois fins nos pertencia desde que Sua Magestade e os
-nossos Padres nos remetteram para cá á fim de chamarmos ao conhecimento
-de Deos estas pobres almas selvagens, que, antes de começarmos a
-cathequisal-as, reconhecemol-as anciosas por doçura, e por isso
-combinamos pautar por ella nossas palavras e acções, com que sempre nos
-démos muito bem.
-
-Já tinha lido no cantico primeiro, que entre os ornamentos dados
-por Jesus Christo á sua Igreja, a mansidão e a clemencia para com
-os peccadores e infieis era um dos primeiros deveres conforme estas
-palavras: _Murenulas aureas faciemus tibi vermiculatus argento_ «nós te
-faremos collares de oiro, torcidos como pequenas lampreias, esmaltadas de
-fios de prata em forma de vermesinho para mais fazer realçar a bellesa do
-oiro.»
-
-Dizem os Septenta—_Simulachra auri faciemus tibi, cum vermiculacionibus
-argenti_; «nós te faremos pequenas estatuas de oiro fino, esmaltadas de
-fio de prata do feitio de vermesinhos.»
-
-Accrescenta Rabbi Jonathas que taes eram as taboas de Saphira, em que
-estavam gravados os mandamentos da lei de Deos porque a luz da gloria do
-Doador dava á saphyra diaphana a côr de oiro, e a escripta gravada em
-linha pelo dedo de Deos formava o esmalte em pequenas lampreias ou vermes
-da terra.
-
-Quem não diria que ha intelligencia entre estas ceremonias divinas e as
-dos Athenienses e Gaulezes, visto significar-nos umas e outras, por meio
-de estatuas e cadeias de oiro, a força e o poder da doçura para subjugar
-as almas mais barbaras á obediencia das leis de Deos.
-
-Não é sem rasão, que Jesus Christo ornou os collares de oiro de sua
-esposa com figuras de vermes da terra, e de pequenas lampreias, visto que
-elle mesmo se fez verme para chamar a si os vermes, e misturou-se com a
-terra para se juntar com os vermes, que ahi achasse.
-
-Assim como as lampreias não repellem as serpentes por que podem causar
-medo com o veneno, que estas vomitarem, assim tambem Jesus Christo não
-despresa os homens, pobres serpentes, comtanto que estes se despojem do
-seo veneno.
-
-Si o Mestre fez isto, o que devem fazer os obscuros discipulos de Sua
-Magestade?
-
-Quem se offerece a servir a Deos na conversão dos selvagens deve modelar
-suas palavras e acções pela doçura, de que sempre usou Jesus Christo na
-terra.
-
-Eram estes os artigos de nossas conferencias com os selvagens.
-
-1. Procuravamos convencel-os, que eramos seos amigos, e amigos fieis,
-mais que seos paes, mães, e outros parentes, dizendo-lhes estas e outras
-palavras _pera-uçu_, _pare koroyco_ «somos vossos amigos, vossos intimos.»
-
-Com taes expressões alegraram-se muito, e cheios de confiança vinham
-conversar comnosco a ponto de tornarem-se importunos, não nos permittindo
-descanço algum, e só nos olhando e observando até os nossos menores
-gestos.
-
-Vou dar-vos alguns exemplos.
-
-Um dia de paschoa, depois do serviço, ao qual assistiram muitos
-selvagens, tanto de _Tapuitapera_ como da _Ilha_, quiz recolher-me para
-meditar no sermão, que devia prégar depois do jantar, e para isto mandei
-fechar as portas de nossa casa para que ninguem entrasse durante esse
-pouco tempo até a hora da prédica, porem os selvagens impacientes, para
-entrarem, rodeiaram a casa duas ou tres vezes buscando uma abertura, e
-afinal quebraram algumas estacas e por ahi passaram.
-
-Mostrei-lhes má cara significando o meo descontentamento pelo que haviam
-feito, e lhes perguntei porque eram tão importunos?
-
-Responderam-me «porque tinhamos vontade de te vêr, e fallar comtigo
-livremente, na ausencia dos francezes, e para esse fim viemos de
-proposito». Á vista d’isto não tive outro remedio senão atural-os.
-
-Quando eu orava sosinho na nossa Capella, com as portas fechadas, rompiam
-o panno de Guiné, com que forramos a Igrejinha para vêr o que fazia eu
-ajoelhado defronte do Altar, e diziam uns para os outros _ygneém Tupan_
-«falla com Deos», e d’ahi não sahiam em quanto eu rezava.
-
-Para livrar-me d’estas importunações mandei construir uma cerca ao redor
-da nossa casa e Capella de S. Francisco, muito forte, e entremeiada com
-ramos de palmeira espinhosa, assim conhecida por ter espinhos maiores do
-que o comprimento de um dedo, e embora tudo isto achavam meios de entrar
-e de me procurarem.
-
-Ao escrever isto recorda-me o dito de Antalcide, escripto por Plutarcho
-no tratado dos _Apophtegmas Laconicos_, «quem quizer ganhar a amisade dos
-homens, deve ter na lingua um regato de mel, e nas mãos muitos fructos»
-isto é—palavras doces e serviços conforme ás palavras.
-
-Mais não podiamos fazer para com estes selvagens do que captarmos
-sua amisade por palavras doceis, e fazer-lhes conhecer a Deos e os
-sacramentos da Igreja, unicos fructos da Paixão de Jesus Christo.
-
-Ælian, no livro 14 de suas _Historias diversas_, disse, que «Epaminondas
-se admiraria muito se sahisse do seo palacio para misturar-se com o povo,
-e não adquirisse um novo amigo para juntal-o aos seos amigos.»
-
-Não nos seria necessario ir a 200 e nem a 300 legoas afim de conquistar
-novos amigos para Jesus Christo, porque viriam por si mesmos offerecer-se
-para isso.
-
-Gelius no livro 1º cap. 3º conta, que Pericles, um dos grandes do
-Areopago de Athenas, terminava a amisade dos homens junto aos altares dos
-Deoses, porem nunca fallou da amisade divina entre Deos e os homens,
-estabelecida e enraisada sobre os altares, porque pagão, como era, não
-podia comprehender a força e o vigor de tal amor, similhante ao do
-proprio centro, onde cada creatura tem o destino de viver e descançar.
-
-O poderoso rei Darius recebeu em presente de um seu amigo uma bella romã,
-que partio ao meio, e admirando a bellesa e o numero dos seos grãosinhos
-disse aos que com elle estavam—por minha vontade eu teria tantos Zopiros,
-(nome do seo mais intimo amigo) quanto ha de grãos n’esta romã.
-
-Não foi pequena graça, e nem pequeno privilegio, que Deos fez á Ordem
-Seraphica de São Francisco dando-lhe a faca da palavra para abrir o pomo
-ainda inteiro e fechado das terras de Maranhão afim de apresentar a Jesus
-Christo milhões de almas, não só para com Elle se conciliarem, mas tambem
-para um dia lhe serem fieis esposas.
-
-Deos inspirou a Salomão, no liv. 4º dos Reis, cap. 29, fazer os capiteis
-das columnas com arame, semeiado de romãs, indicando assim a missão do
-Evangelho para com as nações infieis, servindo para agarrar os peixes
-fugitivos por meio de uma eloquencia docil, e as romãs para ligal-os e
-unil-os pelo amor de Jesus Christo ao resto dos fieis, não havendo nada
-mais forte para obter o accordo que o proprio amor.
-
-Eis a razão porque julguei ser absolutamente necessario fazer conhecer
-a estes selvagens, que nós os amavamos terna e infinitamente, que lhes
-offereciamos nossas pessoas e bens, dizendo-lhes _ore-mae pémareamo_
-«tudo o que temos é vosso.»
-
-Por isto quando tinhamos muitos peixes, o que acontecia ordinariamente,
-lhes davamos todos, especialmente aos _Tabajares_, recem-chegados
-á _Ilha_, ainda necessitados de tudo, por não terem feito roças,
-especialmente os nossos visinhos.
-
-2.º Nós lhes expunhamos os fructos e os emolumentos, que deviam esperar
-de nossa amisade, isto é, reforma em sua vida, conhecimento do verdadeiro
-Deos, defesa do nosso rei contra seos inimigos, o qual não deixaria de
-enviar-lhes homens e armas conforme necessitassem. _Pe moé Koroiut,
-pere Koramrecé: Tupan mombe-ouane koroiut peam: yande mogna gare, rhé,
-opap katu, ahé maé mognan. Yangaturan: yandé renonde vuac ueriko: ahé
-gneem rupi yané rekormé. Pepusurom peamo tareumbare soiy yauaeté oreru
-vichaue: Pepusurum okat araia oboure uaia pepusurô anuam_; quer isto
-dizer—«Nós vos ensinamos a viver mais para a vossa felicidade: queremos
-ensinar-vos o verdadeiro Deos, creador do universo, infinitamente bom, e
-que nos prometteo o Ceo si n’esta vida fizermos o que elle diz. Viemos
-defender-vos de vossos inimigos. Nosso rei, que é forte e poderoso, vos
-dará sempre soccorro de armas e de homens.»
-
-Prestavam muita attenção ao que diziamos, e nos respondiam que os
-francezes sempre os haviam auxiliado; que tinham vindo agora por ordem do
-rei para tiral-os das cadeias de _Jeropary_, que não duvidavam aprender
-grandes coisas á respeito de Deos, especialmente quando ja soubessemos
-sua lingua, porque os interpretes, diziam elles, não fallam como vós
-á Deos. Não nos podem dizer outra coisa, porem se fallasseis comnosco
-vós nos dirieis o que Deos vos disser. Nossos filhos serão mais felizes
-do que nós, porque comvosco aprenderão a lingua francesa, como nos
-promettestes, e assim terão mais conhecimento de Deos do que nós, que ja
-somos velhos.
-
-Nós o que temos feito é correr e andar errantes pelos bosques adiante
-dos _Peros_[97] tendo por alimento apenas raizes de arvores. Nossos
-filhos estarão seguros contra seos inimigos, os francezes se unirão
-á nossas filhas, e nossos filhos ás filhas dos francezes, e assim
-seremos parentes: ficareis comnosco, em nossas aldeias, e sereis nossos
-padres _Tupan_ os amará, e _Jeropary_ nada poderá contra elles. Haverá
-abundancia de viveres e nunca se sentirá falta de mercadorias francezas.
-
-Oh! quanto serão felizes! porem nós não veremos estas coisas.
-
-O imperador Vespasiano e tambem Domiciano, quando entravam n’um paiz
-novo para ahi estabelecer Colonias Romanas, tinham por costume mandar
-fundir em bronze a Fé e os seos fructos, que publicamente promettiam a
-todos, representando uma dama, que estendia a mão direita, symbolo da Fé,
-trazendo na esquerda a cornucopia da abundancia, cheia de toda a especie
-de fructos, e tinham este mesmo carimbo o dinheiro, que ahi faziam correr
-assegurando por esta fórma a sua fidelidade para com estes povos, de que
-resultaria muitos bens e commodidades á sua nação.
-
-Tomae, se quizerdes, por esta dama a Santa Igreja entrando pela primeira
-vez n’estas terras barbaras, estendendo sua mão direita para prometter
-aos seos habitantes a fé de Jesus Christo, seo esposo, e a fidelidade de
-seos sectarios, que não se poupam a trabalhos, e arriscam até a propria
-vida para ajudal-a na salvação d’ellas.
-
-Os fructos, que ella lhes offerecia, eram os sacramentos, o conhecimento
-de Deos e das coisas divinas.
-
-Tomae tambem, si quizerdes, por esta mesma Dama, a França plantando
-pela primeira vez seos lyrios n’estas regiões e paizes do Brazil, dando
-com a mão direita a segurança de defender e conservar estes selvagens
-obedientes á sua corôa, e com a esquerda os fructos provenientes do
-commercio entre ella e o Brazil.
-
-
-
-
-CAPITULO VII
-
-Formulario da doutrina christã, que aprendiam e recitavam de cór, antes
-de serem baptisados.
-
-
-No Levitico 1.º, e em outro lugar lemos, que antes da victima escolhida
-ser levada ao altar devia aquelle, que a apresentava, pôr suas mãos na
-cabeça entre os cornos.
-
-Accrescentam outros, que esses cornos eram enfeitados de flores de junco
-marinho, (cujos espinhos, e não flores, foram postos na cabeça de Jesus
-Christo, offerecido em holocausto sobre a Cruz) e então os sacerdotes
-agarravam a victima, e a lavavam n’um grande vaso de bronze chamado
-_mar_. Representa isto os novos cathecumenos, desejosos de serem lavados
-pelo baptismo, e offerecidos diante do altar do Redemptor.
-
-A primeira coisa, que se exige d’estes cathecumenos, é que ponham as
-mãos sobre a cabeça: as mãos são os hyerogliphos das obras, e a cabeça a
-séde do espirito e do entendimento. A primeira coisa portanto necessaria
-á estes noviços da fé christã é a operação do entendimento; quero com
-esta expressão dizer, que elles saibam e entendam o que pretendem crêr
-e prometter, e torcer os cornos da curiosidade e o proprio juizo dos
-orgulhosos possuidores do Junco marinho, corôa dos deoses, por meio da
-obediencia á Revelação divina. É o que pediamos aos adultos antes de
-conferir-lhes o baptismo, e nenhum o conseguia sem primeiro conhecer bem
-isto, por acto obrigatorio, a que deveriam tambem assistir os christãos,
-ignorantes de sua fé e profissão.
-
-
-DOUTRINA CHRISTÃ
-
-_na lingua dos Tupinambás[98] e em francez, e, em primeiro lugar a oração
-dominical_
-
- _Ore-ruuc vuac peté cuare,_
- Padre nosso, que estás no Ceo,
- _y moe-tepoire derere-toico_
- sanctificado seja teo nome,
- _to-ure de reigne_
- venha nós o teo reino,
- _teié-mognan deremimotare yboipé vaacpe iémognan eaue,_
- seja feita a tua vontade assim na terra como no Ceo.
- _oreremiu-areduare eimé iury oreue,_
- dae-nos hoje o pão quotidiano,
- _de-eiuru oré yangaypaue reçe,_
- perdôa nossas offensas,
- _ore recome-moçaré supè ore-ieuron eaue_
- como nós perdoamos aos que nos offendem
- _moar-ocar humé yepé tecomemo-pupé_
- não nos deixeis cahir em tentação
- _oré pessuron peyepé mae ayue suy._
- mas livrae-nos do mal. Amen Jesus.
-
-SAUDAÇÃO ANGELICA.
-
- _Ave Maria gratia, resse tonussen väé,_
- Eu te saudo Maria, de graça cheia,
- _Deyron yandé yaré-reco_
- o Senhor é comtigo,
- _ymonbeu katu poïre aue edereico kugnan suy_
- benta és tú entre as mulheres.
- _ymonbeau katu poïre aue demeinboïre Jesus._
- bento é o fructo do teo ventre, Jesus.
-
-ORAÇÃO A VIRGEM.
-
- _Santa Maria Tupan seu_
- Santa Maria mãe de Deos
- _hé Tupan mongueta ore yangaypaue vaë ressé_
- rogae a Deos por nós peccadores
- _cohu yran ore-requi ore-rumeué_
- agora, e na hora de nossa morte. Amen Jesus.
-
-O SYMBOLO DOS APOSTOLOS.
-
- _Arobiar Tupan_
- Creio em Deos
- _tuue opap katu maeté tiruan_
- padre todo poderoso
- _mognangare vuac_
- creador do Ceo
- _mognangare ybuy_
- creador da terra
- _Jesus-Christo tayre oyepe vac_
- em Jesus Christo, seo filho unico
- _ahe Sainct Esprit, demognan pitan amo_
- que foi concebido do Espirito Santo
- _ahé poïre oart Sainct Marie, suy_
- e nasceo da Virgem Maria
- _Ponce Pilate muruuichaue amoseico sericomemo poïre amo_
- padeceo sob poder de Poncio Pilatos, presidente
- _yiuca poire amo yuira_
- morreo sobre o madeiro da Cruz
- _ioasaue ressé_
- morreo
- _ymoiar ypoire ytemim buire amo_
- foi amortalhado e enterrado no sepulchro
- _ouue ieuue euue apeterpé_
- desceo aos infernos
- _ahé sui turiare mossa poire ressé uue ombueue sui. Secobé yereie-buire_
- ao terceiro dia resurgio dos mortos
- _oié upire vuacpé_
- subio ao Ceo
- _Tupan tuue opap-katu maeté tiruan mognangare katu aue cotu seua_
- está assentado á direita de Deos, seo Pae Omnipotente
- _ahé sui turiné ycobé vãe omano vãe poire paué recomognan_
- de lá virá a julgar vivos e mortos.
- _Arobiar Saincte eglise catholique_
- Creio na Santa Igreja Catholica,
- _arobiar Saincte tecokatu demosaoc morupé_
- creio na communhão dos Santos
- _arobiar teco-engay paue ressé morupé Tupan deuron_
- creio na remissão dos peccados por Deos
- _arobiar asé-recobé iebure_
- creio na resurreição da carne
- _arobiar teiubé opauaaerem-eim-rerecoe nuame_
- creio na vida eterna. Amen Jesus.
-
-OS DEZ MANDAMENTOS.
-
- _1.º Ymoeté yepé Tupan._
- I Honra um só Deos
- _2.º Aytè ereté netieume poire renoy teigné._
- II Não jurarás em vão o nome de teo Deos.
- _3.º Ymoeté dimanche are maratecuare eum aue._
- III Honra e sanctifica o domingo, dia de repouso.
- _4.º Ymoeté deruue desseu eaue._
- IV Honra teo pae e tua mãe.
- _5.º Eparapiti humé._
- V Tu não matarás.
- _6.º Eporopotare humé._
- VI Tu guardarás castidade.
- _7.º Emonmaron humé._
- VII Tu não furtarás.
- _8.º Teremoen humé aua ressé._
- VIII Tu não levantarás falso testemunho contra teo proximo.
- _9.º Yemonmotare humé aua remerico ressé._
- IX Tu não conhecerás a mulher de outrem.
- _10. Yemonmotare humé aua mae ressé._
- X Tu não cubiçarás coisas alheias.
-
-RESUMO DOS MANDAMENTOS DE DEOS.
-
- _1.º Opap katu maeté tiruan sosay asé Tupan rausuué._
- Sobre todas as cousas amarás a Deos.
- _2.º Oie ausuue eaué asé uua pichare raussuue._
- Ama teo proximo como a ti mesmo.
-
-OS MANDAMENTOS DA SANTA IGREJA.
-
- _1.º Arve maratecuare ehumé messe renduue._
- Ouve missa nos dias de festa.
- _2.º Sei hu iauion yemonbeu._
- Todos os annos ao menos uma vez confessa teos peccados.
- _3.º Tupan rare pacques iauion._
- Teo Deos pela paschoa commungarás.
- _4.º Iecuacuue iauion erecucuue._
- Tu guardarás jejuns pela quaresma e vigilias.
- _5.º Aiamion asé mae moiaoc._
- Pagarás os dizimos.
-
-OS SETE SACRAMENTOS.
-
- _1.º Iemongaraiue._
- Baptismo.
- _2.º Asé seurap aua reu assu yendu karaiue non._
- Receberás na testa o santo oleo pela mão do Bispo.
- _3.º Asé-reon yanondé Tupan rare._
- Antes de morrer receberás o corpo de Deos.
- _5.º Oyekoacuue, oyemonbeu._
- Penitencia, confissão.
- _6.º Oyemo-auare._
- Ordem.
- _7.º Mendar._
- Casamento.
-
-
-
-
-CAPITULO VIII
-
-Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos, dos espiritos e
-da alma.
-
-
-O Psalmista Rei David, no Psalmo 101, que é uma supplica por elle
-composta para os pobres e infelizes, cheios de anciedade e oppressão,
-particularmente os infieis, diz—_Placuerunt servis tuis lapides ejus, et
-terra ejus miserebuntur._ «As pedras de Syão agradarão a teos servos; e
-por esta causa serão misericordiosas para com a terra.»
-
-S. Jeronymo transforma estas palavras d’esta forma—_Quia placitos
-fecerunt servi tui lapides ejus, et pulverem ejus miserabilem_. «Teos
-servos fizeram suas pedras agradaveis á tua Magestade, até chegar ao pó
-sem consideração.»
-
-Apliquemos estas palavras ao nosso objecto, pondo de parte todos os
-outros mysterios, e digamos que _Placuerunt servis tuis lapides ejus_.
-
-Em nossa primeira missão achamos estes pobres selvagens e barbaros como
-pedras proprias para construir e edificar a Santa Igreja em paizes
-desertos, e com o nosso ministerio demos a misericordia divina á algum
-punhado de terra e areia.
-
-Baptisamos muitos meninos, moribundos e adultos, que são na verdade tres
-grãos de areia, á similhança da extenção e profundidade das areias do
-mar, isto é, em comparação da quantidade e multidão das nações immensas
-pelo seo numero, na visinhança do Maranhão.
-
-Digamos depois, com São Jeronymo, _quia placitos fecerunt servi tui
-lapides ejus, et pulverem ejus miserabilem_, que temos feito vêr a toda
-a Christandade, e aos seos monarchas, espirituaes ou temporaes, em
-desencargo de nossa consciencia, que á Deos agrada o despertar estes
-barbaros do profundo somno de uma crença má, ou si quizerdes, que á Deos
-agrada fazer arder e queimar a pequena faisca do fogo da luz natural, que
-sob as causas de mil superstições é sempre guardada entre estas nações
-desde o naufragio universal do diluvio.
-
-Esta faisca, occulta sob as cinsas, entre estes selvagens, é a crença
-natural, que sempre tiveram de Deos, dos espiritos e da immortalidade da
-alma.
-
-Quanto á crença de Deos, é impossivel, naturalmente fallando, que
-haja no Mundo uma Nação tão rude, estupida e brutal que não reconheça
-universalmente uma Magestade Soberana, porque, como diz Lactancio
-Firmiano, em suas Instituições divinas, livro 1.º, cap. 2.º—_Nemo est
-enim tam rudis, tam feris moribus, qui non oculos suos in cœlis tollens
-etc_. Não ha homem tão rude, nem tão brutal, que levantando os olhos
-para o Ceo, ainda que não possa comprehender que haja Deos, qual seja a
-sua providencia, embora não conheça da grandesa e extenção dos Ceos, do
-perpetuo movimento d’elles, da disposição, firmesa, utilidade e bellesa
-d’estas abobadas azuladas, que não reconheça haver um Soberano que tudo
-isto dirige e com harmonia.
-
-Boecio, livr. 4º, da _Consolação dos sabios_. Prosa 6.ª _Omnium generatio
-rerum_ etc. «que a geração continua dos mistos, a diversidade, e
-ordem das formas, que vestem a materia primitiva, convence natural e
-necessariamente, que ha um primeiro director no movimento uniforme de
-tantas coisas de formas contrarias no sentido de aperfeiçoar este mundo
-universal.»
-
-Seneca, na Epistola 92 á seo amigo Lucilio—_Quis dubitare potest mi
-Lucilli, quin Deorum immortalium munus sit quod vivimus?_ «Quem é meu
-amigo Lucilio, que duvida não ser sua vida um dom e beneficio dos Deoses
-immortaes?»
-
-Aristoteles, Livro II _dos animaes_, depois que contou muito bem a
-perfeição d’elles concluio _debemus inspicere formas et delectari in
-Artifice qui fecit eas_: «devemos contemplar as formas das creaturas, não
-para olhal-as só e simplesmente, e sim para d’ellas passar ao que as fez
-afim de nos regosijarmos.»
-
-É facto averiguado sempre terem tido estes selvagens conhecimento de
-Deos, porem não da Essencia, Unidade, e Trindade, materia inteiramente
-dependente de fé, embora Deos tenha deixado na naturesa alguns vestigios,
-pelos quaes possam os homens formar algumas conjecturas.
-
-Aristoteles, livro 4º, do _Ceo e da terra_, depois de ter pensado muito
-nas perfeições d’este mundo, disse _Nihil est perfectum nisi Trinitas_.
-«Somente a Trindade é perfeita.»
-
-Estes selvagens sempre chamaram a Deos—_Tupan_, nome que dão ao _trovão_,
-a maneira do que se pratica entre os homens, isto é, terem as obras
-primas o nome do autor: Note-se porem que este nome no singular não se
-applica aos relampagos e trovões, que rebentam e illuminam todas as
-partes, por cima da cabeça dos selvagens, aterrando-os, porque sabem
-e reconhecem, que elles são formados pela poderosa mão d’Aquelle, que
-habita nos Ceos.
-
-Por intermedio do interprete informei-me dos velhos do paiz si elles
-acreditavam, que este _Tupan_, autor do trovão, era homem como elle?
-
-Responderam-me que não, porque si fosse um homem como nós, seria um
-grande senhor, e como poderia elle correr tão depressa, do Oriente
-para o Occidente, quando troveja ao mesmo tempo sobre nós, e nas quatro
-partes do mundo, tanto na França, como sobre nós? Demais, si fosse homem,
-era necessario, que outro homem o fizesse, porque todo o homem procede
-de outro homem. Ainda mais: _Jeropary_ é o creado de Deos, e nós não o
-vemos, ao passo que todo o homem se vê, e por isso não pensamos, que
-_Tupan_ seja um homem.
-
-Mas, repliquei eu, o que pensaes que elle seja?
-
-Não sabemos, responderam, porem pensamos, que existe em toda a parte, e
-que fez tudo quanto existe. Nossos feiticeiros ainda não fallaram com
-elle, pois apenas fallam com os companheiros de _Jeropary_.
-
-Eis a crença de Deos, sempre pela naturesa impressa nos espiritos dos
-selvagens, que com tudo não o reconheciam por meio de preces e de
-supplicios.
-
-Acreditavam naturalmente nos espiritos bons e maus.
-
-Chamam os bons espiritos ou anjos _Apoiaueué_, e os maos ou diabos
-_Uaiupia_.
-
-Vou contar-vos o que pude colher de suas conversas por diversas vezes.
-
-Pensam que os anjos lhes trazem chuva em tempo proprio, que não fazem mal
-ás suas roças, que não os castigam e nem os atormentam, que sobem ao Ceo
-para contar á Deos o que se passa aqui na terra, que não causam medo nem
-á noite e nem nos bosques, que acompanham e protegem os francezes.
-
-Pensam, que os diabos estão sob o dominio de _Jeropary_, que era creado
-de Deos, e que por suas maldades Deos o despresou, não querendo mais
-vêl-o e nem aos seos, pelo que aborrecia os homens e nada valia: que os
-diabos impedem as vindas das chuvas em tempo proprio, que os trazem em
-guerra com seos inimigos, que os maltrata, e lhes faz medo, habitando
-ordinariamente em aldeias abandonadas, especialmente em logares onde tem
-sido sepultados os corpos de seos parentes.
-
-Ouvi tambem dizer a alguns indios, que indo elles apanhar cajus em
-algumas aldeias abandonadas, sahio-lhe ao encontro _Jeropary_ gritando
-com voz medonha, e chegou até o ponto de espancar muito alguns dos seos.
-
-Dizem tambem, que _Jeropary_ e os seos tem certos animaes, que nunca
-se vê, que só andam a noite, soltando gritos horriveis, que abala todo
-o interior (o que ouvi infinitas vezes) com os quaes convivem, e por
-isso os chamam _Soo-Jeropary_ «animal de Jeropary», e creem que estes
-animaes servem aos diabos ora de homens ora de mulheres, e por isso nós
-o chamamos _Succubes_ e _Incubes_, e os selvagens _Kugnan Jeropary_ «a
-mulher do diabo» _Aua Jeropary_ «o homem do diabo.»
-
-Ha tambem certos passaros noturnos, que não cantam, mas que tem um
-piado queixoso, enfadonho, e triste, que vivem sempre escondidos, não
-sahindo dos bosques, chamados pelos indios _Uyra Jeropary_ «passaros do
-diabo,»[99] e dizem que os diabos com elles convivem, que quando põem é
-um ovo em cada lugar, e assim por diante, que são cobertos pelo diabo, e
-que só comem terra.
-
-Não exgotando minha curiosidade procurei indagar bem a verdade d’isto:
-muitas vezes estes animaes nocturnos vinham rodear nossa casa de Sam
-Francisco e soltar seos gritos medonhos, quando as noites eram sombrias e
-negras.
-
-Apromptei-me para com outros francezes investir estes passaros onde se
-achassem conforme pudessemos prevêr, porem nada pudemos conseguir por não
-vel-os, embora os ouvissemos gritar em distancia de mais de um quarto de
-legoa.
-
-Disseram-me alguns francezes, que eram uma especie de gatos bravos, o que
-não pode ser a vista do som, do sussurro e do volume do grito, que elle
-solta.
-
-Outros disseram ser o vagido de _vaccas bravas_, o que negam os selvagens
-dizendo ser vozes de uma especie de animaes parecidos com maçaricos, e
-maiores do que uma raposa.
-
-Quiz eu mesmo verificar o que eram estes passaros de _Jeropary_, e
-para isto fui caminhando de mansinho até onde meos ouvidos me levaram
-a pensar, que lá estavam, pelo piado melancolico d’elles. Calculado o
-lugar ahi fui no dia seguinte á tarde muito cedo occultar-me nos mattos,
-e d’esta vez não me enganei porque apenas anoiteceu aproximou-se este
-triste passaro de mim e distante apenas dois passos saltando sobre a
-areia, e soltou seo canto medonho, o que não pude aturar. Sahi logo do
-meo logar e fui onde elle estava e nada achei: sua configuração e tamanho
-era de uma coruja de França e as pennas pardas.
-
-Tudo o que referi não está longe do senso commum, porque lemos na
-Historia, e em diversos autores a união dos diabos com animaes feios e
-immundos, e foi elle que desde o principio do mundo tomou a forma de uma
-serpente cabelluda para enganar nossos primeiros paes.
-
-Creem na immortalidade da alma: quando no corpo chamam-na _An_, e quando
-deixa este para ir ao lugar, que lhe é destinado, _Anguere_.
-
-Creem que só as mulheres virtuosas tem alma immortal, segundo o que pude
-comprehender de varios discursos d’elles e de muitas perguntas que lhes
-fiz, pensando que estas mulheres virtuosas devem ser postas ao lado dos
-homens, visto terem todos almas immortaes depois da morte.
-
-Em quanto ás outras mulheres duvidam que ellas tenham alma.
-
-Pensam, e muito naturalmente, que as almas dos maus vão ter com
-_Jeropary_, que são ellas que os atormentam de concomitancia com o
-proprio diabo, e que vão residir nas antigas aldeias, onde são enterrados
-os corpos, que habitaram.
-
-Pensam, que as almas dos bons, vão para um lugar de repouso, onde dançam
-constantemente sem nada lhes faltar.
-
-Eis tudo quanto pude saber relativamente a estes tres pontos de sua
-crença natural de Deos, dos Espiritos e das Almas, por meio de
-cuidadosas indagações entre discursos communs, que ouvi por dois annos de
-muitissimos selvagens.
-
-
-
-
-CAPITULO IX
-
-Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em suas cadeias por
-tão longo tempo estes selvagens.
-
-
-Adonibesec, um dos maiores tyrannos do mundo, venceo e subjugou setenta
-Reis, aos quaes mandou cortar os dedos das mãos e dos pés, e todas as
-vezes que queria comer, mandava buscal-os e pol-os debaixo da mesa como
-cães para roerem os ossos, e os boccados de pão, que lhes atirava, e
-era com isto unicamente que elles viviam, porque acabada a refeição do
-tyranno passavam elles outra vez para os grilhões.
-
-Este tyranno representava o diabo, cujo poder sempre exerceu nas Nações
-á elle sujeitas pela infidelidade, tendo-as sempre presas, não lhes
-consentindo outros viveres alem dos seos restos, cortando-lhes todos os
-meios de acção e de fuga, alterando ou extinguindo os signaes, que Deos
-naturalmente imprimio nos homens, pelos quaes podiam inclinar-se a Deos
-para d’elles ter piedade, que é o que o diabo mais teme, o que é facil de
-vêr-se em nossos selvagens por longo tempo sem conhecimento algum do Deos
-Omnipotente, presos em suas cadeias infernaes pelos abusos e corrupções,
-que entre elles lançou o diabo.
-
-Eis porque S. Paulo representava as artimanhas e tricas de Satanaz em
-suas...
-
- (Falta uma folha.)
-
-... esta razão tinhamos nós occasião d’admirar a forma e a maneira de
-proceder dos Pagés ou Feiticeiros, que occupam entre os selvagens o lugar
-de Mediadores entre os espiritos e o resto do povo, e são os que hão
-adquirido maior autoridade por suas fraudes, subtilezas e abusos, com
-que tem subjugado esta gente mui fortemente sob o reinado do inimigo da
-salvação, como está escripto no _Proverbio 29_—_Princeps qui libenter
-audit verba mendacii, omnes ministros habet impios_ «o Principe, que
-prestar ouvidos á mentira, é servido por ministros impios e maus.»
-
-Pondo de parte a explicação litteraria d’esta passagem, nós a aplicamos
-ao nosso fim dizendo, que este Principe, que presta attenção á mentira,
-ou para melhor dizer, que é o Pae da mentira, é o diabo inimigo da
-verdade: seos officiaes abusam do povo por meio de invenções, subtilesas,
-e encantos provenientes da instigação dos demonios, como são os
-feiticeiros brazileiros, e com tal autoridade se conservam sem a menor
-contestação, embora conheçam os enganos, que reciprocamente empregam
-contra seos compatriotas.
-
-Estes feiticeiros não tem chefes, porem tornam-se taes, si os favorece
-a capacidade de seo espirito, de sorte que os que o possuem melhor, são
-considerados mais habeis.
-
-Começam muitos a aprender este officio, convidados pela honra e lucro,
-que d’elle colhem os mais espertos, porem poucos atingem á perfeição.
-
-Não encontrareis muitas aldeias, onde os principaes e os velhos não
-confessem saber alguma coisa d’elle.
-
-Os noviços d’essa arte estudam muito a merecer elogios, e d’elles
-dizer-se maravilhas e fazem alguma subtilesa diante de seos similhantes
-para obter fama.
-
-Depende seo adiantamento d’algum acaso, como por exemplo se predizem a
-chuva, e ella apparece, se sopram algum doente e elles recobram a saude,
-o que os faz muito estimados e respeitados como feiticeiros experientes.
-
-Por exemplo, sem comparação, si algum medico novo ou cirurgião cuidasse
-de um doente perdido, ou de alguma chaga pertinaz, e que apparecesse
-a saude, não tanto pela industria do medico, e sim pela boa naturesa
-coadjuvada por unguentos communs, não ha duvida que tal cura seria
-attribuida á sciencia e experiencia dos curadores, e se aproveitariam
-d’isto para fazer voar sua fama entre as boas cidades, e serem recebidos
-com muita distincção nas boas casas.
-
-O mesmo acontece no Brasil com estes novos feiticeiros, quando se
-restabelece o infermo depois dos seos sopros.
-
-Não receis que isto fique só na casa do doente, porque sae o
-feiticeirinho de aldeia em aldeia contando suas proesas, e triplicando-as.
-
-O diabo, espirito suberbo, não se communica indifferentemente a todos os
-feiticeiros; porem d’entre elles escolhem os mais bellos espiritos, e
-lhes infundem suas invenções e subtilesas.
-
-Julgae por isto. Nunca vereis os diabos fazerem grandes operações e
-communicações aos pequenos feiticeiros, e limitam-se apenas a dar-lhe
-malicia conforme o juiso e talento do seo espirito.
-
-Si pelo contrario encontram algum bello espirito, elles o instruem
-largamente de suas perversas e condemnaveis sciencias, que são de
-ordinario as nigromancias, judiarias e magicas. O mesmo acontece aos
-feiticeiros: achareis muitos pequenos, de que não se faz grande caso,
-e nem se tem muito medo, valendo-lhes pouco o officio: outros mais
-instruidos e mediocres, que occupam o lugar medio entre pequenos e
-grandes. Ordinariamente viajam por certas aldeias importunando os seos
-habitantes, cuidando de dansas e de outras coisas, que dependem do seo
-officio.
-
-Si algum seu collega apparece por ahi, elles não ficam contentes, mas
-quando é convidado algum de seos superiores soffrem-no com paciencia.
-
-Quanto mais progressos fazem nos abusos, mais graves se mostram: fallam
-pouco, buscam a solidão, evitam o mais que podem as companhias, com
-o que alcançam mais honra e respeito, são mais procurados depois dos
-Principaes, e estes lhes fallam com attenção ahi usada, e ninguem os
-maltrata.
-
-Para conservar taes honras edificam suas casas á parte, longe de visinhos.
-
-O demonio ardiloso ensina o que pratica a disciplina religiosa, isto é,
-o necessario para conservar o espirito de Deos, fazer sua alma capaz
-das suas visitas e consolações para o que necessario é amar a solidão e
-n’ella residir, evitando cuidadosamente o mais que é possivel a companhia
-dos homens, com o que não somente adquirireis favores espirituaes, mas
-tambem a honra e o respeito d’aquelles, que evitaes.
-
-A compleição dos homens é similhante a da honra e da sombra: si correis
-após ellas, ellas fugirão diante de vós, si as evitaes, ellas vos
-procurarão.
-
-Assim são os homens: sê-de com elles familiares, e sereis despresados;
-fugi d’elles, sereis respeitados.
-
-Por similhança este velho doutor da malicia ensina os seos principaes
-discipulos a evitar communicações, a fugir de tristezas e melancolias, a
-fugir de invenções e fantesias, a residir sós com suas familias com o fim
-de poder melhor imprimir em seos pensamentos os meios, pelos quaes quer
-conservar estes povos na ignorancia e superstição regosijando-se de vêr
-tantas nações presas em suas cadeias.
-
-Não é de hoje, e nem n’esta nação somente, que elle inverte os exercicios
-da verdadeira Religião, mas de todos os tempos e em todos os lugares,
-porque não pode ser autor, e sim falso imitador do verdadeiro bem.
-
-Assim como a serpente se occulta debaixo das folhas para picar o segador,
-assim tambem elle occulta seo veneno e sua falsa Religião sob apparencia
-somente de uma imitação das obras de Deos.
-
-Dizem Plinio e Solinus, que Cerasto, serpente mortifera, se cobre d’areia
-deixando apenas de fóra os cornos afim de enganar os passaros com a ideia
-de ser comida, e quando se approximam, ella sahe da embuscada e os apanha.
-
-O Genesis compara o diabo com esta serpente _Cerastes in semita_ «Ceraste
-no caminho.» Vemos isto em nossos selvagens, nutridos e entretidos com
-taes engodos, que eu não os acreditaria si os não visse, e si o leitor
-duvidar, peço-lhe que creia no que vou contar-lhe.
-
-São tão tolos estes pobres selvagens, que em relação aos seos
-feiticeiros, especialmente aos grandes, creem firmemente, que elles podem
-enviar-lhes molestias e fomes, e tirar-lhes tudo o que elles tem, e
-embora saibam os proprios feiticeiros, que elles todos são embusteiros,
-não julgam poder curar-se sem que passem por mãos de outros.
-
-Si adoece algum francez nas aldeias, seo Compadre e sua Comadre lhe pedem
-permissão para que os feiticeiros o visitem, o bafejem, e lhe toquem com
-as mãos.
-
-O que dirieis vós, si eu vos dissesse, que vindo visitar-me muitos
-selvagens, quando adoeci, me pediram muito affectuosamente licença para
-me trazerem seos feiticeiros afim de me bafejarem, e apalparem-me, sem o
-que, asseguravam-me, eu não ficaria bom?
-
-O grande _Thion_ adoecendo apenas chegou do _Mearim_ ao Fórte de S.
-Luiz, pensou, e por muito tempo acreditou ser isto devido a ameaça do
-Principal-feiticeiro da sua terra, que pretendia seduzir e impedir esses
-povos _Mearinenses_ de virem á Ilha, logrando vêr muitos com elle ficarem
-nas florestas do _Mearim_.
-
-Tinha ameaçado _Thion_ com a morte apenas aqui chegasse, o que não
-aconteceo, porque depois d’uma febre violenta recobrou sua saude: com
-tudo, emquanto esteve doente, pensou morrer, por maiores que fossem as
-nossas advertencias de que não devia prestar credito a taes feiticeiras.
-
-Si estes pequenos e mediocres feiticeiros gozam de autoridade entre os
-seos, muito mais aquelles, que se chamam propriamente _Pagy-uaçú_[100]
-«grandes feiticeiros», porque são como os Soberanos d’uma Provincia,
-muito temidos, chegando a tal poder por muitas subtilesas: de ordinario
-tem communicação tacita com o diabo. Por onde passam, seguem-nos os
-povos; são graves e por isso não se communicam facilmente com os seos:
-são muito bem acompanhados quando vão a qualquer parte, e tem muitas
-mulheres, não lhes faltam mercadorias, julgam-se felizes seos similhantes
-quando os presenteiam, e com uma feitiçaria tiram aos seos compatriotas o
-melhor que possuem em suas caixas.
-
-Não descobrem suas subtilezas diante dos selvagens, e pelo contrario
-zombam delles, e muitos me contaram os meios, que empregaram para isto, o
-que ainda direi em lugar proprio.
-
-_Japy-açú_ e o grande feiticeiro de _Tapuitapera_ tiveram entre si uma
-questão, de que resultou reciproca desconfiança.
-
-O grande feiticeiro mandou dizer-lhe, si elle já não se lembrava das
-molestias, que outr’ora lhe enviou, e de que pensou morrer a ponto de lhe
-pedir que as removesse, e si agora já não as temia?
-
-Estas palavras impressionaram _Japy-açú_, e julgou-se feliz de ter sua
-amisade. A questão foi por causa de uma mulher retida por força; porem
-merece ser contada esta historia por haver relação entre ella e o objecto
-de que tratamos.
-
-Adquirio o grande feiticeiro de _Tapuitapera_ em sua Provincia e
-circumvisinhança fama e autoridade de um perfeito Magico, que a seu
-bel-prazer distribuia molestias e mortes, curava e dava saude, e por isso
-alcançou em seo paiz o grau de Soberano Principal, e dispunha de todos á
-sua vontade.
-
-_Japy-açú_ mofava e zombava de tudo isto, o que sabido pelo outro o fez
-dizer, que em pouco tempo em si mesmo experimentaria si não tinha o poder
-de fazer bem ou mal a quem quizesse.
-
-Não fez _Japy-açú_ caso d’isto, porem veio a fortuna proteger ao seo
-contrario fazendo com que elle cahisse doente muito naturalmente;
-pensou ser sua molestia devida ao feiticeiro de _Tapuitapéra_, embora a
-existencia do mar entre uma e outra Provincia, e pela força de imaginação
-agravou-se sua molestia a ponto de o julgarem á morte.
-
-Todos os feiticeiros e feiticeirinhos da Ilha o visitaram, porem nenhum
-lhe deo saude e afinal escolheo as melhores fazendas que havia e
-humildemente mandou a esse feiticeiro seo antagonista, pedindo-lhe pelos
-mensageiros seos parentes, que desse ordens á molestia para deixal-o.
-
-O feiticeiro tomando as mercadorias lhe mandou não sei que moxinifada
-para elle tomar, asseverando-lhe cura em breve tempo. _Japy-açu_
-acreditou, principiou pouco a pouco a passar melhor temendo d’ahi em
-diante o feiticeiro, que comtudo entre os seos zombava d’elle, e outras
-vezes o apontava para mais firmar sua autoridade.
-
-Ora como é possivel, direis vós, que appareçam e desappareçam as
-molestias por força d’imaginação e apprehensão, d’estes selvagens a
-respeito das ameaças ou dos favores de seos feiticeiros?
-
-Decida a medicina: comtudo responderei á pergunta com os exemplos mui
-communs, dos _Hypocondriacos_, ou doentes imaginarios, os quaes embora
-sãos, e bem conservados, julgam-se debeis e fracos, pensando cada um
-soffrer uma molestia differente.
-
-Fechando este artigo, eu vos faço notar que se julgam uns grandes
-feiticeiros por fazerem mal, e outros por praticarem o bem.
-
-
-
-
-CAPITULO XI
-
-Como falla o diabo aos feiticeiros do Brazil, suas falsas prophecias,
-idolos e sacrificios.
-
-
-Diz Santo Agostinho, que o diabo insuflado por sua soberba quiz ser
-obedecido como Deos, imitando com falsidade em tudo e por tudo o
-proceder de Deos, especialmente em seos oraculos—_Diabolus est Angelus
-per superbiam separatus á Deo, qui in veritate non istetit, et doctor
-mendacii, etc_. «o diabo é um Anjo separado por sua soberba de Deos, que
-não quiz persistir na verdade fazendo-se assim doutor da mentira.»
-
-Vendo que Deos fallava outr’ora a seos prophetas por diversos modos,
-e a seo povo entre duas figuras de cherubins postas sobre a arca da
-alliança, quiz tambem em todos os tempos ter falsos prophetas, com os
-quaes consultava seos desgraçados projectos, e seos falsos oraculos
-proferidos entre diversas figuras por meio de demonios escondidos por ahi
-ou occultos ora sob a figura de uma serpente, ora de um touro, ora de um
-mocho ou gralha, e finalmente de uma pyramide, estatua e assim por diante.
-
-Advinhavam estes falsos prophetas o futuro não por espirito prophetico,
-visto não ter o diabo tal poder, e sim por experiencia de muito tempo,
-junta á subtilesa de seo espirito, que os faz presagiar coisas futuras
-pelo que vê nos homens e nas coisas, como bem diz Isidoro—_Dæmones
-triplici acumine præscientiæ vigent, scilicet, sublimitate naturæ,
-experientia temporum, revelatione superiorum potestatum_, «possuem os
-demonios tres subtilesas para prevêr o futuro, finura por naturesa,
-experiencia de tempo, e revelação de poderes superiores.»
-
-Deixando de parte a experiencia tão antiga dos seos procedimentos para
-com a Gentilidade, quero fazer-vos vêr o que ha de verdadeiro a tal
-respeito, visto que o diabo tem sempre enganado, e ainda hoje, estes
-pobres selvagens por seos oraculos e predicções.
-
-O feiticeiro, de que ja vos fallei, recolhido ás campinas do Mearim,
-tinha em casa diabos sob a figura de pequenos passaros negros, que o
-advertiam do que deviam fazer e do que se passava na ilha e em outros
-lugares.
-
-Quando quiz ir a Maranhão revelaram-lhe estes passaros por occasião
-de andar passeiando nas suas roças, que cedo chegariam os Tapuyas, e
-destruiriam seo milho e suas raizes, mas que nenhum mal succederia
-nem a elle, nem aos seos, e assim aconteceo, porque vindo os Tapuyas
-de mansinho para sorprehendel-o, ouviram grande matinada na casa do
-feiticeiro, e por isso não se animaram a atacar, receiando superioridade
-de defensores, contentando-se com carregar os milhos e raizes, e assim se
-foram.
-
-Estes mesmos passaros, ou os diabos sob tal forma, ordenaram a este
-feiticeiro, que fosse á ilha do Maranhão, fazer suas feitiçarias, e
-convidar os que quizessem deixar a ilha para vir ahi residir devendo
-desembarcar no porto de _Taperussu_, isto é, na aldeia dos animaes
-gordos, n’uma das extremidades do Maranhão, sendo-lhe absolutamente
-prohibido aproximar-se do lugar onde moravam os padres, o que cumprio
-pontualmente.
-
-Nunca poude vir ahi nos vêr, apesar de toda a segurança que lhe
-promettiamos. Dizia que seos espiritos nos temiam, e se lhes
-desobedecessem, suas roças ficariam por fazer, não trabalharia mais, e
-perderia o poder, que tinha entre os seos, que seos espiritos lhe haviam
-aconselhado de retirar-se do Maranhão antes de nós lá chegarmos afim de
-continuarem á viver com elle tão pacificamente como até hoje.
-
-Estes e outros factos contava elle aos habitantes de _Taperussu_, que
-em parte lhe prestavam credito, pois n’essa occasião muitas mulheres
-se agarravam ás suas pernas, chorando e gritando, pedindo-lhe para que
-não deixasse o seo paiz, e nem fosse para _Yuiret_, onde estavamos,
-principalmente porque lhe fora isso prohibido pelos espiritos, e se
-fizesse o contrario succeder-lhe-hia mal.
-
-Considerae, leitor, a maldade, e o temor d’estes demonios, maldade
-para impedir que se cheguem os homens á luz da verdade, ficando sempre
-obedientes ás trevas da infidelidade.
-
-É proprio da malicia fugir da claridade com medo de serem descobertas
-suas maldades, e sua autoridade destruida.
-
-O temor, que elles tem, dos servos de Deos, em cuja presença não se podem
-sustentar, bem como o mocho diante dos raios do sol, e os sapos á vista
-da flor e cheiro da vinha, mostra quam grande é o poder de Deos, dado á
-sua igreja contra a potestade do inferno.
-
-Prosigamos.
-
-Dois principaes feiticeiros governavam duas nações de _Tabajares_,
-inimigas reciprocas, das quaes abusavam dizendo que tinham repetidas
-conferencias com os diabos tomando a figura de diversos passaros.
-
-O feiticeiro do lado de Thion, mau e desgraçado (que nunca quiz vir á
-ilha, e que della desviava seos similhantes o mais que podia) criava
-em sua casa um morcego, a que chamava _Endura_, que lhe fallava em voz
-humana em lingua dos _Tupinambás_, algumas vezes tão alto, que podia ser
-ouvido á seis passos de distancia, não distincta, porem confusamente e
-com timbre infantil.
-
-Respondia-lhe o selvagem ficando só em sua casa, porque despedia a todos
-quando percebia que elle lhe queria fallar.
-
-Quando os nossos la foram afim de preparar os selvagens a sahir do seo
-paiz para a ilha, instigou-se a curiosidade de alguns francezes, que
-tinham ouvido dizer maravilhas d’este feiticeiro, e pediram a seos
-compadres que lhes dissessem o que percebessem do colloquio d’elle com o
-morcego, e para isso aproximaram-se de mansinho da morada d’elle a ponto
-de ouvirem perfeitamente a voz de ambos, e querendo chegar mais perto
-foram descobertos pelo feiticeiro, e retirou-se o morcego.
-
-Chamou-os o feiticeiro, sem zangar-se, fel-os entrar em sua casa, e
-perguntou-lhes o que queriam e porque estavam a escutar?
-
-Responderam-lhes os francezes, que tinham ouvido dizer aos selvagens
-seos similhantes, que ahi havia uma communicação visivel e familiar com
-_Jeropary_, que d’ella desejavam vêr alguma coisa, e eis porque se tinham
-aproximado, e ouvido distinctamente duas vozes, a sua e uma outra mais
-doce e clara.
-
-É verdade, disse elle, eu fallava agora com o meo morcego, que me veio
-dizer maravilhas e grandes novidades, como sejam guerra em França, e
-que os _Caraibas_ do Maranhão não estavam onde pensavam, que de nada me
-assustasse, e ficasse com elle n’esta terra não acompanhando á ilha meos
-compatriotas, que aqui não ficariamos muito tempo, porque os francezes
-regressariam á sua patria, e que muitos selvagens de _Tapuitapéra_ tinham
-fugido para o matto.
-
-Perguntaram-lhes os francezes como elle criava e sustentava este morcego?
-
-Respondeo, que um dia seo espirito, em quanto elle estava só, lhe disse
-que de ora em diante lhe fallaria sob a figura de tão feio animal, e
-que por isso lhe havia preparado um quarto em sua casa, onde dormiria e
-descançaria, comendo do que elle comesse, e quando quizesse fallar-lhe,
-que elle o ouviria e responderia: que este espirito tambem quando
-quizesse communicar-lhe alguma coisa de novo o chamaria por seo nome, e
-com elle fallaria na casa ou no bosque, e mandou o feiticeiro fazer-lhe
-um ninho para recolher-se, e com elle sempre fallava sob a forma de
-morcego.
-
-Dizendo isto mostrou um dos cantos da sua casa, onde estava o ninho feito
-de folhas de palmeira: ahi, disse, vem elle comigo conversar, discorremos
-como dois iguaes, e come o que lhe dou.
-
-Não posso deixar de notar as particularidades seguintes:
-
-1.ª Porque o diabo antes quiz tomar a forma de um morcego do que a de
-outro qualquer passaro.
-
-2.ª Como o diabo imita a voz humana.
-
-3.ª Da verdade d’estas novidades em França, e como é possivel, que saiba
-o diabo o que se passa no mundo.
-
-4.ª Porque razão comia carne.
-
-5.ª Da localidade por elle escolhida para discorrer com o seo Magico.
-
-Para satisfazer a primeira, dizemos, que o axioma dos philosophos—_todos
-procuram seos similhantes_, é uma verdade provada quer nas coisas
-physicas, quer nas sobrenaturaes, porque o diabo, que por sua soberba se
-fez espirito immundo, busca de ordinario tomar as formas mais horriveis e
-immundas, que pode ser, para communicar-se com seos bons servos e amigos.
-
-Bem sei o que disse S. Paulo—_Ipse enim Sathanas transfigurat se in
-Angelum lucis_ «que Satanaz, transformado em camaleão, para seduzir os
-tolos, toma a forma de um Anjo de luz», isto é, reveste-se de bellas
-figuras, ou profere boas palavras para melhor fazer seo jogo.
-
-As bonitas formas de mulheres e raparigas, que elle toma para melhor
-attrahir os homens luxuriosos, não tem outro motivo senão o desejo de
-chamar a si os individuos conforme sua inclinação.
-
-Diz S. Thomaz, que por este motivo, não pode o diabo aborrecer
-naturalmente os Anjos felizes, porque tem parte na natureza d’elles,
-sendo impossivel amal-os em relação á justiça dos Anjos, e injustiça dos
-diabos.
-
-D’esta conclusão deduso duas inclinações dos demonios: uma natural com
-que amam as coisas boas, ou pelo menos não as podem aborrecer, e a outra
-é proveniente da culpa e da soberba, com que procuram coisas immundas
-e abominaveis, e não podem proceder de diverso modo porque gostam da
-perversão do appetite, por culpa da natureza.
-
-Dizemos por isto em lingua vulgar, que o diabo horrorisa-se das torpesas
-e maldades, a que leva o homem a praticar por suas instigações, o que
-entendereis conforme a distincção da naturesa e a culpa do diabo.
-
-Eis uma das principaes causas, porque este cruel Behemot toma a figura de
-morcego, a que accrescento outra tirada de uma propriedade peculiar aos
-morcegos, qual a destes maus passaros nocturnos, muito mais horriveis e
-maiores do que os de França procurarem as pessoas que estão deitadas e
-dormindo,[101] e lhe arrancarem um pedaço de carne e depois lhe chuparem
-muito sangue sem que se desperte a victima, porque tem a propriedade de
-conservar o homem adormecido emquanto lhe chupam o sangue: achando-se
-fartos o deixam, continuando o sangue a correr, e por isto fica debil a
-pessoa, e por muitos dias anda com difficuldade.
-
-Melhor escolha não podia fazer Satanaz para representar sua naturesa e
-crueldade porque anda a noite, e sob as trevas da ignorancia procura os
-homens adormecidos e si delicia nas suas carnes, tirando-lhe a inclinação
-natural que tem para com Deos, e procura meios de sugar á sua vontade o
-sangue, instrumento da vida, as affeições e paixões dos seos captivos
-para tornal-os fracos e impotentes em fazer o bem e procurar sua salvação.
-
-2.º Consiste a 2ª dificuldade na imitação da voz humana pelo diabo, não
-tendo orgãos e nem lingua para fazel-o.
-
-Sua palavra é apenas a manifestação de seo desejo e vontade quando falla
-aos outros diabos, seos companheiros, e aos homens pelas impressões
-fantasticas, que faz as suas imaginações.
-
-Comtudo nos ensina a Santa Escriptura, que elle servio-se da lingua da
-serpente para seduzir nossa primeira mãe, permittindo Deos, porque não
-tem poder na creatura, em quanto fraca e indigente, sem licença de Deos,
-e com ella pode crear um corpo no ar, e articular em qualquer lingua até
-mesmo nas desconhecidas suas affeições e desejos.
-
-Ponho de parte mil outros modos, pelos quaes manifesta seos desejos aos
-feiticeiros, por não ser nosso proposito.
-
-3.º Notamos as noticias, que deo dos motins havidos era França, isto é,
-d’esta ultima leva de soldados, e como poude ser isto.
-
-Direi com Santo Agostinho, que os demonios excedem em ligeiresa todo o
-corpo existente na maquina do mundo, nada havendo que possa com elles
-competir em velocidade.
-
-Em 24 horas fez o primeiro movel este grande curso em torno das abobadas
-inferiores, espaço superior aos calculos dos mathematicos, de tal modo
-que dentro d’uma hora vence não sei quantas mil legoas.
-
-Calculae agora a ligeiresa d’estes espiritos, que em poucos momentos
-giram ao redor do universo, sabendo e vendo o que por elle se passa, e
-conjecturando o que se pode predizer das coisas futuras: si tão ligeiros
-fossem os correios, á cada hora receberiamos noticias de todas as partes.
-
-4.º Usava de carne, dado o caso de ser verdadeira a existencia d’este
-morcego, de que se servia o diabo, e por tanto tinha necessidade de
-nutrir-se, e si fosse apenas parto de imaginação não tinha precisão de
-carne para viver.
-
-Não obstante tudo isto, tem sempre sido costume do demonio comer e beber
-apparentemente em companhia do seos mais dedicados servos, imitando assim
-o exemplo dos anjos bons do antigo Testamento, que comiam com Abraham,
-Loth, Tobias e outros.
-
-5.º A situação do logar procurado por este espirito, isto é, os bosques,
-o concavo das arvores, ou o recanto de alguma casa solitaria, nos faz
-ver a inclinação, que tem estes espiritos rebeldes a fazerem, como os
-condemnados, suas moradias em logares escuros e desertos, tristes e
-melancolicos, temendo, se assim se pode dizer, a luz creada, e a doçura
-da harmonia.
-
-Acha-se isto em prova na pessoa de Saul, possesso, sendo aplacado pelo
-som da harpa de David.
-
-Asmodeo foi preso pelo anjo Raphael no fundo do deserto, e Satanaz pelo
-anjo do Apocalypse no fundo dos abysmos.
-
-Este pobre, victima de legiões diabolicas, que Jesus-Christo livrou, dia
-e noite morava nos sepulchros dos defuntos.
-
-Fingiam os antigos, que Cerberas, tirado do inferno, apenas vio a
-brilhante luz do sol principiou a vomitar Aconite, até que lhe foi
-permittido regressar ás suas cavernas tenebrosas.
-
-Diga-se isto em relação ao feiticeiro da aldeia do grande _Thion_.
-
-Quanto ao _Pagy-uassu_, das aldeias de _farinha molhada_, prevenio aos
-seos, alguns mezes antes, da chegada dos francezes, que breve chegavam os
-_Caraybas_, trazendo-lhes mercadorias, sendo para notar, que ignoravam a
-estada dos francezes na _Ilha do Maranhão_.
-
-Com tal aviso vestiram-se uns de camisas, e outros de diversos factos do
-tempo, que outr’ora com elles moravam os francezes.
-
-Assim vestidos foram ter com os habitantes das aldeias de _Thion_, e para
-assustal-os lhes disseram—«entregae-vos á nós, porque os francezes estão
-comnosco; olhae as roupas que nos deram.»
-
-Estas palavras intimidaram muito a _Thion_ e os seos, e pensavam em fugir
-quando chegaram os enviados dos francezes dizendo-lhes, que estes os
-veriam ver logo que elles mandassem suas embaixadas á ilha.
-
-Por isto podeis ver, quanto o astucioso Satanaz dava poderes a estes
-_pagys_, fazendo-lhes prever coisas futuras.
-
-Sua astucia porem não é tão grande, relativamente á predicção, porque via
-o esforço dos francezes visitando os povos visinhos, e tambem o desejo e
-a resolução de ir procurar essas nações, onde se achassem, e por tanto
-este bom criado advertio seo senhor.
-
-Usam os diabos de outra maneira de fallar e de communicar-se com os
-diabos e com os feiticeiros d’este paiz, a saber, fazem um buraco em
-terra, dentro de casas longinquas, deitam-se de bruços os feiticeiros,
-mettem a cabeça no buraco, fecham os olhos, perguntam ao demonio o que
-querem, e do fundo do buraco estes lhes respondem.
-
-Este uso era muito trivial na Gentilidade, e deixando as historias
-profanas vou referir-me ao que está escripto no livro 1º dos Reys, cap.
-28 quando Saul foi consultar a feiticeira de Endor, a qual curvando-se em
-terra, metendo a cabeça e o rosto n’um buraco, fazendo suas invocações,
-disse—_Deos vidi ascendentes de terra_—«vi Deoses subindo da terra.»
-
-Não é sem fundamento, que ella escreveo e servio-se d’estas palavras—_vi
-deoses_, a menos, que estas feitiçarias não tivessem poder e força
-para fazer apparecer alguns diabos, mas quiz Deos, que a propria alma
-de Samuel acudisse á sua palavra afim de prophetisar a ultima desgraça
-de Saul, que em suas necessidades havia recorrido aos adevinhos e
-feiticeiros.
-
-Soube de alguns francezes, moradores na aldeia de _Vsaap_, que um
-feiticeiro d’ahi era mui respeitado e temido pelos selvagens, por ser
-geral a crença delle fallar com toda a liberdade com o diabo, pela
-maneira ja dita, e por isso não se atreviam a aproximar-se de sua casa
-quando viam a porta fechada receiando tal colloquio.
-
-Havia tambem na Ilha uma velha feiticeira, que guardava-se muito em
-segredo: era mui apreciada pelos selvagens e procurada especialmente nas
-molestias incuraveis; quando todos os feiticeiros já não sabiam o que
-haviam fazer, então ella era convidada, e trazida com segurança, porem
-sempre occulta.
-
-N’um dia, segundo o que me disseram alguns francezes, ella veio a _Vsaap_
-para fazer uma cura, já sem esperança, e, antes de começar fechou-se
-n’uma casa, isolada no meio da praça da aldeia, e ahi fez suas invocações
-e feitiçarias diabolicas sobre o corpo do infermo, fazendo apparecer
-visivelmente o seo demonio.
-
-Os francezes, que isto me contaram, tiveram desejos de espiar o que fazia
-esta feiticeira, porem os selvagens os embaraçaram o mais que poderam,
-asseverando-lhes serem perigosos e maus os espiritos d’esta mulher, de
-fórma que na seguinte noite torceriam o pescoço de quem os espiasse.
-
-Zombaram os francezes, e foram de muito boa vontade á essa casa, com
-grande admiração dos selvagens, que os julgavam atrevidos e presumpçosos,
-e fazendo um buraco na parede de palha viram as gesticulações d’essa
-mulher e notaram não sei que de monstruoso ao redor d’ella, não podendo
-destinguir o que era, e assim se retiraram.
-
-Em quanto estive doente, muitas pessoas me fallaram d’esta desgraçada
-creatura com grandes gabos e estima, como infallivel em dar saude aos que
-lh’a pediam. Bem podeis calcular si me agradavam taes palavras.
-
-Fallaram-me tambem de certos barbeiros d’aquelles paizes, que habitavam
-em choupanas nos bosques, onde iam consultar seos espiritos.
-
-Na verdade, é frequente na Ilha e nos paizes visinhos edificarem os
-feiticeiros pequenas choupanas de palha em lugares longinquos nos mattos:
-ahi collocam pequenos idolos de cera ou de madeira em forma humana,[102]
-uns maiores, outros menores, porem os maiores não tem mais que um covado.
-Ali em certos dias vão elles levando comsigo fogo, agoa, carne ou peixe,
-farinha, milho, legumes, pennas de côr e flôres. D’estas carnes fazem
-uma especie de sacrificio a esses idolos queimam resinas cheirosas,
-enfeitam-nos com pennas e flores, e ahi se demoram muito tempo sosinhos:
-crê-se que era a communicação d’estes espiritos.
-
-Crescia este mau costume, e estendia-se as aldeias visinhas de
-_Juniparan_, onde morava o Revd. Padre Arsenio a ponto d’elle encontrar
-estes idolos de cera na visinhança dos bosques e algumas vezes nas
-proprias casas.
-
-Livrou-se d’elles por meio d’exorcismos, que fez em sua Capella contra
-estes diabos tão insolentes como atrevidos, e depois não ouvi mais fallar
-n’isto.
-
-Considerae agora a presumpção de Satanaz, que em todos os lugares, e em
-todas as nações, quando póde, se faz conhecido por alguma especie de
-adoração e sacrificio por saber, que nenhuma religião boa ou má, pode
-existir sem algum sacrificio e representação da coisa adorada.
-
-Eis porque elle inventou os idolos em lugar das verdadeiras imagens, que
-Deos mandou levantar no tabernaculo, e depois no templo de Salomão.
-
-Em vez dos verdadeiros sacrificios, que Deos estabelecia na sua lei,
-procurou este espirito soberbo ter altares e sacrificios de toda a
-especie de animaes e fructos da terra.
-
-Comquanto esta nação de selvagens não tivesse perante o publico algumas
-ceremonias de religião, nem préces e nem orações, comtudo em particular
-estes feiticeiros serviam ao diabo, como ja disse.
-
-Para acabar, direi que acreditavam estas pessoas em espiritos
-particulares, até mesmo francezes.
-
-Vou dar-vos exemplos.
-
-Quando o Sr. de la Ravardiere, depois da guerra dos _Camarapins_,
-regressava do Pará, advertio-lhe uma mulher que fora resolvida a
-sua morte, bem como a de todos os francezes e _Tupinambás_, que o
-acompanhavam, pelos selvagens d’aldeia, onde estava alojado.
-
-Fez-se tudo quanto foi possivel para descobrir-se a verdade, porem todos
-negaram e nada confessaram.
-
-Fizeram crer aos selvagens d’aquelles lugares, que no relogio
-d’algibeira, que trasia o Sr. de la Ravardiere, havia um _espirito_
-escondido, que dava movimento ao que se via por dentro e por fóra, e que
-aos francezes revellava as coisas mais secretas.
-
-Fez-se vir ao chefe, ao qual se disse, que se o ponteiro do relogio
-chegasse a tal ponto do quadrante, que fallava a verdade o _espirito_,
-e por isso acrescentaram—leva-o comtigo e guarda-o até ahi chegar o
-ponteiro, e vem antes do nosso _espirito_ e conta-nos tudo.
-
-Pegou do relogio e levou-o para sua casa, e vendo que elle caminhava
-sempre para diante, acreditou facilmente no espirito dos francezes, que
-imprimia tal movimento, e não esperou que chegasse ao fim prescripto,
-voltou, declarou tudo e restituio o relogio.
-
-O capitão d’um navio de guerra deo-nos uma bella imagem, tomada de um
-navio portuguez, que ia para Pernambuco.
-
-Por acaso mandei guardar essa imagem, na hora em que a recebi, n’uma das
-caixas, que tinha em nosso quarto, e n’esse mesmo momento vieram muitas
-mulheres indias á nossa casa, e vendo a imagem muito bem esculpida,
-pintada com diversas cores sobre fundo de oiro, admiraram-se e não
-queriam entrar, dizendo—_Y anaité asse quege seta?_ «que coisa nova
-é esta que nos olha tão vivamente? Ella nos faz medo.» Fil-os entrar
-dizendo-lhes que não tivessem medo, e que era uma imagem dos servos de
-Deos. Admirei-me de vel-os immediatamente prostrados a seos pés chorando
-sua boa vinda, e depois me perguntaram que carne ella comia para irem
-buscal-a. Ri-me de tal simplicidade, e colloquei a imagem na Capella de
-Sam Francisco.
-
-Coisa igual aconteceo a um _Tabajare_, muito simples, vendo da porta da
-Capella de S. Luiz um bello crucifixo, que dentro estava. Não me foi
-possivel fazel-o entrar na Capella, e dizia ao interprete. «Elle me olha
-vivamente, está vivo sem duvida, tenho medo d’entrar não sendo baptisado
-porque me faz mal.»
-
-Fizeram o mesmo muitos outros, porem tomando o crucifixo em meos braços,
-fiz-lhes vêr que elle era de madeira, representando com tal forma o que
-Jesus Christo por nós soffreo.
-
-Eis o resultado da superstição, como eu já disse, que entre elles
-derramaram seos feiticeiros, tanto á respeito de seos idolos, como de
-seos espiritos.
-
-
-
-
-CAPITULO XII
-
-De algumas outras ceremonias diabolicas praticadas pelos feiticeiros do
-Brazil.
-
-
-Sentiria muito este Principe se deixasse intacta alguma coisa no serviço
-de Deos, sem procurar imital-a falsamente, e sem buscar introduzil-a no
-culto supersticioso de sua soberba.
-
-Outr’ora Deos no Antigo Testamento instituio as agoas da Purificação,
-feitas e compostas de diversas materias e differentes ceremonias,
-conforme o fim e objecto, a que se destinavam, tanto para purificar os
-homens, os vasos, e os utensilios do Templo, como os vestidos, as casas e
-todos os moveis.
-
-Por imitação instituio este demonio as agoas de lustração, das quaes
-se serviam os pagãos para diversos fins, bem como os judeos, lavando e
-aspergindo com ellas os homens antes dos sacrificios, os utencilios dos
-templos dos idolos, as casas, os vestidos e moveis dos infieis.
-
-Vejamos se esqueceo-se esta desgraçada serpente d’illudir nossos
-selvagens com taes superstições.
-
-Quando outros exemplos não podessemos produzir alem do já referido no
-_Tratado do Temporal_, das nigromancias feitas pelo feiticeiro, vindo dos
-campos do Mearim, bastava só esse para demonstrar claramente as loucuras
-e abusos, que semeára este antigo enganador entre os povos, em relação ao
-nosso fim.
-
-Como soube, da propria bocca dos feiticeiros, de muitas particularidades,
-que faziam para illudir estas gentes, não quero privar o leitor de as
-conhecer.
-
-È costume dos _Pagys-uaçus_ celebrarem, em certa epoca do anno,
-lustrações publicas,[103] isto é, purificações supersticiosas por
-aspersão d’agoa sobre os selvagens, e bem que tudo dependa de sua
-imaginação, fazendo á capricho taes oblações, comtudo de ordinario enchem
-d’agoa grandes potes de barro, proferindo em segredo algumas palavras
-sobre elles, deitando tambem fumaças de _Petum_, e misturando tambem um
-pouco de pó da casa, em que se acham, punham-se a dançar, e depois o
-feiticeiro toma um ramo de palha, mete dentro do pote, e com elle asperge
-a companhia.
-
-Feito isto, toma cada um a porção d’agua que quer nas _cuias_, ou
-tigellas de madeira, e com ella lavam a si e a seos filhos.
-
-_Pacamão_, grande feiticeiro de _Commã_,[104] contou-me um dia, que faria
-sahir agoa da terra, com que lavava estas gentes, com grande admiração de
-todos os barbaros, que viam sahir tão fresquinha essa agua do meio de sua
-casa, e a tomavam como si fosse milagrosamente enviada pelos espiritos,
-mas o astucioso tinha enchido d’agoa um grande vaso e mettendo-o em terra
-d’elle fazia sahir agoa por meio de tubos ou canaes, ou tabocas, que em
-abundancia se encontram nas mattas do Brasil, e d’esta forma illudia os
-seos.
-
-Aos gentios tinha o diabo communicado muitas ideias erroneas á respeito
-das agoas, das fontes, e dos regatos. N’umas habitavam Nymphas, e
-n’outras deosas: estas faziam uma coisa, e aquellas—outras; umas eram
-perigosas e enganadoras, outras agradaveis e sinceras; umas sagradas, e
-outras profanas.
-
-Quando os selvagens vêem certa especie de lagartos, parecidos com os
-venenosos de diversas cores, correr para agoa, pensam supersticiosamente,
-que essa fonte é prejudicial ás mulheres, e que d’ella bebe _Jeropary_.
-
-Sabendo desta superstição para livrar-me do encommodo que me davam as
-mulheres vindo lavar-se na fonte do nosso logar de Sam Francisco, fiz
-correr o boato, que lá haviam sardões, e depois d’isto nenhuma mais se
-animou a ir ahi excepto as escravas do Forte, que não tinham licença
-de lavar-se na fonte, e d’est’arte tive o prazer de mandar amural-a e
-fechar á chave, afim de conservar a agoa sempre limpa.
-
-Chega esta superstição a ponto de acreditarem, que estes lagartos
-atiram-se ás mulheres, adormecem-nas, e gozam-nas, ficando grávidas, e
-parindo lagartos em vez de crianças.
-
-Eis porque, quando mandei espalhar tal boato, vinham as escravas do Forte
-em bandos, armadas de cacetes, de facas, e de outros instrumentos iguaes
-para se defenderem, diziam ellas, d’estes lagartos, o que motivaram muito
-riso a nós outros, os francezes.
-
-Alem das agoas de lustrações, e diabolicas abluções praticadas por estes
-feiticeiros tem uma maneira particular de communicar seo espirito aos
-outros, isto é, por meio da herva _Petun_ introdusida n’um caniço, de que
-elles pucham a fumaça, lançando-a sobre os circunstantes ou soprando-a
-mesmo na canna, exhortando-os a receber seo espirito e sua virtude.
-
-Parece que este cautelloso dragão quer com tal ceremonia falsa imitar
-Jesus Christo quando deo seo espirito aos Apostolos, e o seo poder aos
-seos successores para transmitil-o aos iniciados nas ordens sagradas.
-Assim se lê em São João—_Insufflavit et dixit eis, accipite Spiritum
-Sanctum_: «soprou sobre elles, e lhes disse—Recebei o Espirito Santo.»
-
-D’onde estes feiticeiros tirariam esta ceremonia satanica, si o diabo não
-lh’as tivesse mostrado? Achando-se sempre fechados n’esta grande e vasta
-região do Brasil, sem communicação alguma com o velho mundo, não podiam
-aprendel-a de outra nação.
-
-Estes bafejos lhes são muito particulares, como ceremonia necessaria para
-curar os infermos, porque vós os vedes puchar pela bocca, como podem, o
-mal, dizem elles, do paciente, fazendo-o passar para a bocca e garganta
-d’elle, inchando muito as bochechas, e deixando d’ellas sahir de um só
-jacto o vento ahi contido, causando estampido igual ao de um tiro de
-pistola, e escarrando com grande força dizendo ser o mal, que haviam
-chupado, e fazendo acreditar ao doente.
-
-Á este respeito o Sr. de Pezieux e eu passamos um dia alegre na aldeia de
-_Vsaap_.
-
-Um pobre moço selvagem estava atacado pela colica do paiz.
-
-Veio um d’estes feiticeiros exercer sua attração de espirito sobre o
-seo ventre, fazendo muitos tregeitos, e retrahindo-se por diversas
-vezes vendo-nos prestar-lhe muita attenção, e apesar de tudo isto o
-doente continuava a gritar. Veio o feiticeiro depois procurar-nos e
-mostrando-nos dois outros pregos nos disse—«eis o que lhe tirei do
-ventre, cujos intestinos estão cheios d’isto, é preciso tiral-os um por
-um. Si eu não os tirasse todos, lhe cravariam as tripas e a garganta.»
-
-Imbuio a este moço, sempre gritando, que lhe tinha tirado do ventre esses
-pregos.
-
-Si essas casas fossem cobertas de ardosias, penso que meteria na cabeça
-d’esse rapaz ter elle comido as ripas e os pregos; mas não sendo communs
-entre elles pregos de ferro, não sei como poude illudir os assistentes
-com tal loucura.
-
-Poderia referir muitos outros exemplos, porem bastam-me estes ao meo fim.
-
-Ora si é coisa digna de admiração vêr o Espirito Infernal em tudo quanto
-acabamos de dizer até aqui, muito maior deve ser o nosso espanto pelo
-que vou dizer, isto é, pela existencia da confissão auricular entre os
-selvagens.
-
-Nada digo que não ouvisse da bocca de _Pacamão_, de outros selvagens e
-dos franceses.
-
-O grande _Pagy_, na sua provincia de _Commã_, ia visitar, quando
-lhe aprasia, as aldeias do seo dominio, ordenando que todos fossem
-confessar-se com elle, especialmente as mulheres e as raparigas, e quando
-encontrava alguma que se recusava a dizer tudo, elle a ameaçava com o
-seo _espirito_, que as havia de atormentar, e tinha muita finura para
-reconhecer si occultavam ou não alguma coisa. Dava-lhes depois não sei
-que especie de absolvição, e contava tal feito d’esta e d’aquella, e
-apesar de tudo isto sempre exerceo seo officio de confessar até nossa
-chegada.
-
-Pensae, eu vos peço, quem lhe ensinaria esta maneira de confissão
-auricular, de ameaçar seos similhantes, no caso de occultarem alguma
-coisa com o seo _espirito_, que os castigaria, e que os absolveria, se
-tudo confessassem?
-
-
-
-
-CAPITULO XIII
-
-Claros signaes do reino do diabo no Maranhão.
-
-
-O Salvador do Mundo em S. Marcos, antes de subir á direita de seo Pae,
-encarregou a seos Apostolos e discipulos de irem pelo universo converter
-os infieis assegurando-lhes por certos indicios e signaes a proxima
-ruina do imperio dos demonios, a saber—_signa eos qui crediderint hæc
-sequentur: In nomine meo dæmonia ejicient, linguis loquentur novis,
-serpentes tollent, et si mortiferum quid biberint, non eis nocebit.
-Super ægros manus imponent et bene habebunt_: «estes signaes seguiram
-os crentes, em meu nome expellirão o diabo, fallarão novas lingoas,
-desviarão as serpentes, e si beberem algum veneno mortifero nada
-soffrerão.»
-
-Para bem entender-se estas palavras, convem notar com os padres e
-doutores, que foram postas litteralmente em pratica pelos primeiros
-christãos, quando na primeira idade da igreja era preciso combater a
-obstinação dos judeos e a louca sabedoria dos gentios.
-
-Depois que estendeo-se a fé por todo o universo, que foi por todos
-condemnada a pertinacia dos judeos e tida por vaidade a sabedoria humana,
-não foi mais necessario observar litteralmente estes signaes na conversão
-dos incredulos e sim unicamente a pratica allegorica e mistica.
-
-Eis o que desejamos mostrar n’este capitulo ter-se feito todos os dias em
-Maranhão.
-
-Primeiramente elle disse—_In nomine meo dæmonia ejicient_: «em meo nome
-elles expellirão os demonios.»
-
-Em dois annos que estive em Maranhão, vi isto cumprido por diversas
-formas, por que os diabos fizeram apparecer realmente o medo e o temor
-que tinham do nome de Deos, procurando por todos os meios embaraçar nossa
-missão, já persuadindo seos feiticeiros, mais fieis, a ordenar as nações
-sobre que tinham poder, de não se aproximarem de nós, já infundindo-lhes
-terror com o signal da Cruz e excitando-os a arrancar os que existiam,
-dando maus exemplos com ridicularisar o que sanctamente ensinavamos a
-estes barbaros, intimidando por muitas vezes os habitantes de _Maranhão_,
-_Tapuitapéra_, _Commã_, _Caetés_, _Pará_ e _Mearim_ e fazendo-os fugir
-para os matos e logares desconhecidos com receio de serem presos e
-captivados pelos francezes ou pelos portuguezes.
-
-Finalmente mostrou-se tudo de forma diversa, porque quando julgavamos
-tudo perdido, foi quando Deos mostrou o poder do seo nome, conservando
-não só estes selvagens junto de nós, mas tambem fazendo com que
-despresassem seos feiticeiros e o poder do diabo, fazendo fugir
-_Jeropary_, com o nome de Deos, e a ablução de Jesus Christo.
-
-Vou mostrar bons exemplos.
-
-Lembrar-vos-heis do que acima vos disse tanto dos feiticeiros dos campos
-do Mearim e das habitações de _Thion_, como da maneira porque os diabos
-manifestavam o temor, que tinham das cruzes, que plantavamos em nome
-de Jesus Christo, e de nós seos fieis servos: quando alguns de seos
-Principaes me diziam, que estes feiticeiros não quiseram vir com elles,
-eu lhes perguntava a razão, e elles me respondiam—_porque Jeropary tem
-medo de Tupan_.
-
-_Acaiuy_, principal do Mearim, de quem fallaremos mais de espaço, veio
-me pedir licença para fazer sua casa ao pé da minha, não querendo ficar
-com os outros no _Forte_, dizendo-me entre outras rasões que tinha para
-isto, ser porque _Jeropary_ não se atrevia a aproximar-se do logar, em
-que habitavamos visto termos vindo expressamente para repellil-o.
-
-_Pedro Cão_, selvagem baptisado em Dieppe havia muitos annos, dizia
-a mim e aos Srs. de la Ravardiere, de Pezieux, e a outros quando o
-interrogavamos á respeito de sua felicidade na guerra, que Deos sempre o
-livrára de mil perigos porque era christão, e fazia fugir o diabo apenas
-chegava n’uma aldeia, e que seos similhantes mostravam-se animados,
-quando em companhia d’elle, não temendo _Jeropary_.
-
-O mesmo pensavam os habitantes de _Tapuytapéra_ á respeito dos novos
-christãos, julgando que elles perseguiam e faziam fugir _Jeropary_,
-mostrando-se contentes por isto quando tinham esses christãos em suas
-aldeias.
-
-Servindo-nos d’estas crenças embutiamos no espirito dos cathecumenos
-como ponto de fé, que logo que elles fossem _lavados_, adquiririam poder
-contra o diabo, e nunca mais deviam temel-o.
-
-Corre voz geral em todas estas terras, que os diabos são _espiritos
-maus_, que temem os _Pays_ e os _Caraybas_, isto é, os padres e todos os
-que são baptisados.
-
-Recorda-me que fallando mil vezes d’esta materia aos selvagens, elles me
-disseram—_Jeropary yportassuasseque gésera_—«o diabo está agora pobre
-e miseravel, tem muito medo e já não é atrevido como era.» _Jeropary
-ypochu, Tupan Katu_ «o diabo é mau, cruel e nada valle, porem Deos é
-muito bom.»
-
-Que desejarieis mais para o complemento d’este primeiro signal, e
-segurança da total ruina do diabo?
-
-São os proprios diabos, que confessam temer o nome de Jesus Christo,
-as armas de sua paixão, e até os seos servos, dissuadindo seos intimos
-amigos para que de nós se ausentassem, abalando ceos e terra afim de
-embaraçar-nos, e movendo tudo para inutilisar nossos esforços, emfim
-cahiram de ventas no chão, e chegaram ao cabo de suas astucias.
-
-Os que outr’ora os temiam, hoje os despresam; emfim só nos resta
-continuar as obras começadas.
-
-_Linguis loquentur novis_: «fallarão novas linguas». Na verdade os nossos
-selvagens do Maranhão fallam uma linguagem inteiramente nova, visto
-que, esse _Marata_ antigo, isto é, um dos Apostolos de Jesus Christo
-de quem fallarei mais adiante, não lhes ensinou a fallar como fallam
-agora, a saber: na profissão do christianismo recitando o symbolo dos
-Apostolos _Arobiar Tupan_ etc. etc., a dirigir-se a Deos por meio da
-oração dominical _Oreruue_ etc. a encaminhar suas vidas e acções segundo
-os mandamentos da lei de Deos _Ymoeté yepé Tupan_ etc. etc. conforme os
-mandamentos da Igreja. _Are maratecuare ehumé_ etc. «lavar e fortificar
-suas almas pelos Santissimos Sacramentos.» _Iemongarauiue_ etc.
-
-É por certo fallar linguagem nova, quando discorrem sobre os mysterios
-da nossa fé, como sejam a unidade da essencia em Deos, e na Trindade
-das Pessoas; que o Filho de Deos tomou corpo no ventre da Virgem: que
-os maus vão para o inferno, que todos os homens resuscitarão em corpo e
-alma, indo depois cada um para o lugar de sua sentença: são estes com
-tudo os discursos diarios dos feiticeiros, só fallando em matar, comer,
-assar e seccar a carne dos seos inimigos, e nas suas incontinencias,
-libertinagens e loucuras.
-
-Admirar-se-ha muito quem pensar em tal mudança entre os barbaros, que
-somente sabem o que lhes ensinou a natureza.
-
-Creem os judeos, que os Apostolos sahiram d’um tunel, bem cheio, de vinho
-e de carne, e viram que os gentios de diversas nações davam signaes
-de entender o que prégavam, e que os Apostolos por sua vez tambem os
-percebiam.
-
-Tambem vos disse, que os selvagens ficavam muito admirados quando viam
-seos similhantes, baptisados, discorrer em sua lingua sobre coisas altas,
-profundas, e tão novas, como as que conheciamos por seos interpretes, e
-diziam uns aos outros—como é que esta gente falla tambem de _Tupan_, como
-os Padres lhes tem ensinado tão bellas coisas, quaes as que nos contam:
-como nossos filhos sabem mais do que nós, nossos Padres, e mais remotos
-antepassados, que embora tenham vivido muito nada nos contaram como estes
-Padres: por força fallaram com Deos.
-
-_Em terceiro lugar._ _Serpentes tollent_ «elles desviaram as serpentes.»
-Que são essas serpentes do Brazil, que com sua lingua e cauda envenenam
-estes povos? Não são todos os grandes e pequenos feiticeiros, que
-envenenam suas Nações?
-
-A fé de Jesus Christo é como a Cegonha, que purifica o paiz, onde está,
-das serpentes venenosas.
-
-S. Paulo, na Ilha de Malta, atirou ao fogo a vibora que trazia no dedo.
-
-O dedo dado por Jesus Christo aos Apostolos, é o poder do Espirito Santo,
-que de ordinario busca agentes naturaes docemente, sem constrangimento,
-para dispôr o objecto a receber uma nova fórma pelo banimento e ruina de
-outra fórma contraria.
-
-Estas viboras, arremeçadas ao fogo, são os Ministros de Satanaz, que o
-Espirito Santo expelle para tornar a Nação cheia d’abusos susceptivel de
-acceitar o Evangelho e de conhecer a Deos.
-
-Si eu disser, que me parece ter o Espirito Santo, em relação a estes
-feiticeiros do Maranhão, feito um grande milagre, que nunca fez para com
-os sacrificadores do Paganismo, creio ser bem recebida a minha opinião,
-porque, alem de dois ou tres feiticeiros, todos os grandes só desejam ser
-baptisados: ao contrario, raras vezes estes sacrificadores do diabo, na
-gentilidade esposavam o christianismo.
-
-Por isso podiamos dizer, que as serpentes venenosas, que se arrastam na
-terra, tornam-se passaros voadores no elemento do ar, conforme a profecia
-de Isaias: _De radice colubri egredietur Regulus, et semen ejus absorvens
-volucrem_: «da raiz da cobra sahirá o Basilico, e a semente do Basilico
-engulirá o passaro,» o que Vatable assim interpreta[105]: _De radice
-serpentis egredietur Regulos, et fructus ejus, cerestes volans_: «da raiz
-da serpente sahirá o Basilico, e o seo fructo será uma cerasta volante.»
-
-Para entender esta passagem convem recordar-se do que escrevem os
-naturalistas, a saber, que as cobras grandes e grossas geram o Basilico
-quando comem um sapo; porem o Basilico procura gallinhas brancas, com
-quem se unem, pondo ellas ovos, que enterram n’areia ao ardor do Sol, e
-d’elles sahem serpentes, que voam.
-
-Nada dizem, que eu não visse em Maranhão, conforme me diziam e pensavam
-os selvagens, e aconteceo-me por duas vezes, que uma gallinha branca
-que eu tinha, pozesse dois ovosinhos redondos como uma ameixa de dama e
-salpicados, e depois ella mudou de cacarejar, e parecia louca.
-
-Disseram-me então os selvagens, que infallivelmente o Basilico nos mattos
-a tinha coberto, pelo que convinha matar, quebrar e queimar os ovos, para
-evitar a morte infallivel de quem os comêsse: si se deixasse os ovos, sem
-queimal-os, d’elles sahiriam serpentes voadoras, que não era a primeira
-vez, que isto acontecia, e então todas as gallinhas mudam de canto, e não
-param n’um lugar.
-
-Appliquemos isto ao nosso fim, e digamos que a antiga cobra é Satanaz,
-Principe dos Demonios, os Basilicos são os Diabos destacados nas
-Provincias por Lucifer para seduzir o Mundo; as serpentes são seos
-Ministros, como sejam os _Pagys_ ou feiticeiros do Brazil, que desejam
-adquerir azas para mudar de elemento da terra para o do ar, deixar seos
-velhos e abominaveis costumes de arrastar o peito em seo execrando e
-diabolico serviço, e aproximar-se do Ceo, como o resto dos indios pela
-ablução ou lavagem de seos antigos peccados pelo Sacramento do Baptismo.
-
-Estas serpentes, tão perseguidas no Brazil, são esses desgraçados
-costumes, e abominaveis peccados, como sejam as vilanias, raivas, e
-vinganças, já descriptas amplamente n’outra parte.
-
-_Em quarto lugar._ _Et si mortiferum quid biberint non eis nocebit_: «e
-si bebem algum veneno mortifero, não lhes damnificará.» O verdadeiro
-veneno, que engolem as almas, é a falsa doutrina, que o Diabo faz
-suggerir nos ouvidos dos novos christãos.
-
-Vós o achareis em muitos exemplos do proprio seculo dos Apostolos. Certos
-seductores iam corromper os individuos sem malicia, e apenas bebiam ellas
-o _Aconito_, sentiam-se afflictos, impressionados em sua alma, e abalados
-em sua fé; porem o Espirito Santo mencionado no genesis—_Spiritus Domini,
-ferebatur super aquas_ «o Espirito do Senhor é levado sobre as agoas de
-Chaos,» isto é, ainda não purificadas e nem limpidas, ou como querem
-dizer os outros: _Incubabat aquis_, deitava-se sobre as agoas do Chaos
-para d’elle tirar as bellas pombas, como fingiam os Poetas, os ovos de
-Thetis, cobertos pelo pombo branco, ou o Cysne, de que sahiram Castor e
-Pollux, ou então _fouebat aquas_, aquecia essas agoas ainda frias.
-
-O Espirito Santo, digo eu desculpa mais facilmente a fragilidade e
-fraquesa d’estes novos christãos, mas não as dos antigos crentes.
-
-Assim vae adejando sobre as agoas desviadas do verdadeiro caminho pelos
-maus discursos d’aquelles, que tem a alma mal conformada, vae chocando
-os ovos abandonados pelo Pae e Mãe, almas recentemente lavadas, porem
-separadas da presença d’aquelles que as tem lavado.
-
-Aquecidas essas agoas geladas pelo sopro do pernicioso Aquilon, não quer
-que o veneno bebido lhes dê a morte, conduzindo-as ao regaço de sua Mãe,
-e entre os braços dos que, depois de Deos, os geraram espiritualmente em
-Jesus Christo para obrigal-os a vomitar o veneno do seo coração, e tomar
-o alimento salutar, pelo qual se fortificaram para resistir de ora em
-diante a todos os choques.
-
-Passou-se isto no Brazil, como aconteceo no tempo dos Apostolos, onde
-um certo numero de novos christãos de _Tapuitapéra_, seduzidos por
-más palavras de um certo personagem, metade d’elles se deshouveram e
-renunciaram o Christianismo; porem nós cuidamos d’elles com todo o zelo.
-
-Assim fizeram os nossos superiores, que redobraram de cuidados para
-remediar este mal levando para ahi tudo quanto julgaram necessario,
-e por isso essas novas plantas, fanadas por brisa gelada, adquiriram
-seo antigo vigor e florescencia, e tornando a vel-os no Forte de Sam
-Luiz, procuramos animal-os a ficarem firmes e constantes na profissão
-do Christianismo, e ordenamos-lhes de não se separarem de Martinho
-Francisco, ahi nosso suffraganeo.
-
-Sentia-se o diabo cercado por todos os lados, e peiores os seos negocios
-de dia para dia.
-
-N’esta epocha, em que estou escrevendo, espero que os padres que por la
-andam, lhe deem terriveis combates, e que seo reinado vá de decadencia
-em decadencia, até total ruina; porque antes de eu deixar a ilha, via
-e experimentava a disposição geral e universal d’estes selvagens,[106]
-especialmente dos meninos, para os converterem.
-
-
-
-
-CAPITULO XIV
-
-Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer, e começarão a
-estabelecer o reinado de Jesus Christo.
-
-
-O psalmista rei David, no seo psalmo 8.º—_In finem pro torcularibus,
-psalmus David_, isto é, o psalmo de David, que deve ser cantado em acção
-de graças ao Senhor no fim das vindimas diz, prevendo a ruina total do
-imperio de Lucifer sobre as almas dos infieis, e o estabelecimento do
-reinado de Jesus Christo—_Ex ore infantium et lactentium perfecisti
-laudem propter inimicos tuos, ut destruas inimicum et ultorem_. «Tens
-apurado teos louvores pela bocca dos meninos e das crianças de peito
-á despeito dos teos inimigos, e por isso tu destroes o adversario e o
-tyranno vingativo.»
-
-Rabbi Jonathas embellezou esta passagem, e esclareceo-a por esta
-forma—_Fundasti fortitudinem, ut destruas Auctorem inimicitiarum et
-ultorem_ «estabelecestes a força do teo imperio pela bocca e confissão
-da Fé dos meninos para mostrar tua grandesa, e destruir o autor das
-vinganças e o sanguinario vingador.»
-
-Disse São Jeronymo—_Quiescat inimicus et ultor_ «fechaste a bocca ao
-seductor inimigo da salvação, e enraivecido contra os homens pela voz dos
-meninos.»
-
-Grande maravilha é o serem os meninos o symbolo da proxima fundação do
-reinado de Jesus Christo e a queda do poder dos demonios.
-
-Não me demoro em fundamentar com muitos exemplos este signal da
-providencia de Deos, e assim limito-me a referir o que se passou no
-Triumpho de Jesus Christo antes de sua Paixão, quando os meninos em
-alta voz diziam—_Hosanna filio David_ «seja bem vindo o Filho de Deos,»
-o que disse em primeiro logar o santo rei no seo cantico—_In finem pro
-torcularibus_, «no fim pelas pressões,» isto é, no fim do reinado de
-Satanaz, e no principio da Paixão de Jesus Christo, quando era tempo de
-pagarem os meninos este tributo de reconhecimento.
-
-Em segundo lugar, de dia a dia, na continuação, no fim, e na consummação
-do captiveiro de Satanaz sobre as almas infieis, e no principio da Santa
-Igreja, fundada entre ellas, principalmente pelos meninos, o que desejo
-mostrar ter sido feito pelos filhos do Brasil.
-
-Estas almas juvenis, ainda não corrompidas por antigos e maus costumes
-de seos paes, mostram não sei que disposição singular e particular para
-receber, como si fosse uma taboa rasa, qualquer pintura...
-
- (Falta uma folha.)
-
-... repugnancia: nós lhe facilitavamos os meios de o entender comparando
-com as coisas, que veem diariamente.
-
-Assim como crescem as ostras sobre os ramos das arvores, tomando carnes
-e recebendo vida entre duas conchas, sem mistura, nem effusão de semente
-do humor marinho, e apenas pelo calor do sol, assim tambem o Filho de
-Deos no ventre da joven, a Santa Virgem, recebeo seo precioso sangue da
-materia, e o Espirito Santo, do calor, e assim tomou corpo sem alguma
-outra operação humana.
-
-Gostavam muito da comparação, e me disseram que em seo paiz muitas coisas
-se geravam pela simples influencia do Sol, como os lagartos, que sahem
-dos ovos, depois que recebem a vida do calor do Sol, e por isso não
-tinham difficuldade em crer o que nós lhes ensinavamos, e nem que Deos se
-fizesse homem para morrer afim de salvar os seos, porque, diziam elles,
-_Jeropary_, apesar de ser espirito mau, entra no corpo dos monstros para
-nos amedrontar, espancar e atormentar.
-
-Sobre tudo muita admiração nos causava o como facilmente se convenciam da
-verdade e da realidade de Jesus Christo, Filho de Deos, sob as especies
-de pão e vinho, ao passo que viamos tantas almas vacillantes n’este
-ponto, embora lhes sóbre espirito e comprehensão para outras coisas.
-
-A este respeito não pude dizer outra coisa, senão o que disse a
-Escriptura Santa no proverbio 25—_Sicut qui mel multum comedit, non est
-ei bonun, sic qui scrutator est magestatis, opprimetur a gloria_.—«É
-coisa tão doce como o mel, mas quem d’ella comer muito, não pode offender
-mais o estomago.»
-
-Nada ha de mais suave e delicioso do que a contemplação das obras de
-Deos e a leitura das letras santas, mas para aquelle que vae muito alem,
-e tudo mede pela vara de seo espirito, impellido pela soberba de seo
-entendimento.
-
-Nada ha mais seguro, que não fique opprimido pelos vivos raios da gloria
-de Sua Magestade, como se observa nos mochos cegos, visto quererem olhar
-e julgar da face do sol, e da sua luz.
-
-Ao contrario, os que manejam com temor e humildade os mysterios de nossa
-fé, são esclarecidos sem prejuiso de suas vistas, e docilmente obedecem a
-vontade e poder do soberano, que pode o que quer, quer e faz o que diz.
-
-Estes pobres selvagens, fallo até dos que não são ainda christãos, apenas
-se lhes fazia signal de sahirem da igreja, retiravam-se promptamente,
-ficando comtudo na porta, que se conservava fechada em quanto se recitava
-o canon da missa, e fazia-se a communhão.
-
-Diziam elles, em resumo, que n’essa hora descia _Tupan_ sobre os altares,
-bebendo e comendo comnosco, que não tinham merecimento para ficar ahi em
-frente d’elle senão quando fossem baptisados, e a maior parte d’elles se
-ajoelhavam, imitando os francezes.
-
-Os Indios christãos ajoelhavam-se apenas ouviam tocar a campainha,
-juntavam as mãos e adoravam a Deos.
-
-Ao mysterio do Sacratissimo Corpo e Precioso Sangue do Filho de Deos
-elles chamam _Tupan_, quer dizer, o proprio Deos, segundo suas crenças,
-_Aséreu yanondé Tupan rare_, quer dizer, «antes de morrer receberás o
-corpo de Deos».
-
-Ainda que eu reconhecesse n’elles facilidade de crer segredo tão
-profundo, não me animaria a communicar-lhes senão em artigo de morte,
-e antes queria deixar esta tarefa para os que viessem depois de mim,
-porque dando n’um certo dia a communhão a uma India, a quem examinei
-tanto quanto pude antes de lhe dar o Precioso Corpo de Jesus Christo na
-Paschoa, apenas recebeo a Hostia Consagrada perturbou-se muito e não
-a poude engolir a ponto de querer tiral-a com a mão o que lhe prohibi
-disendo só poder ser tocada por sacerdotes, que não tivesse receio, e
-nem se assustasse tendo de receber seo Deos, que era de sua vontade,
-que ella recebesse a hostia e a engolisse com toda a confiança, o que
-fez mediante um pouco de vinho que lhe dei a beber no calix: tão grande
-secura da lingoa e bocca proveio da grande timidez d’ella em receber
-tão santo manjar, o que me resolveo de então em diante a deixal-os bem
-fundamentarem-se no conhecimento d’este artigo antes de administrar-lhes
-o Santo Sacramento, e ainda que muitos me pedissem o _Tupan_, eu lhes
-respondia que esperassem pela vinda dos nossos padres.
-
-Não ha grande difficuldade em fazel-os confessar suas faltas, até mesmo
-as proprias mulheres, e de coisas que são difficeis a este sexo declarar
-aos sacerdotes, representantes da pessoa de Deos.
-
-Mui livremente vos dizem sim e não, o tempo, o lugar, a qualidade das
-pessoas, o numero de seos peccados, sem algum vexame tolo e mau como por
-ahi se observa.
-
-Não tem a menor hesitação em crer na efficacia do baptismo, que é o
-lavamento dos peccados, a filiação de Deos, e a acquisição do Ceo, tendo
-como certo que os baptisados vão para o paraiso gozar da companhia de
-Deos, com tanto que não caiam outra vez em peccado mortal.
-
-Acreditaram sempre, que havia inferno, onde estava _Jeropary_, e para
-onde iam os maus.
-
-Sabiam ao mesmo tempo por tradicção, que Deos era muito feliz lá em cima,
-vivendo com os espiritos bons, e que seos paes que tinham tido boa vida,
-iam para um lugar de delicias, onde nada lhes faltava embora terrestre.
-
-A vista d’isto facil nos foi fazel-os entender o que deviam crer do
-paraiso, do inferno e de um terceiro lugar, onde se purificam as almas
-antes de irem para o Ceo, de um quarto onde os meninos, que não chegaram
-a receber o baptismo, morrendo antes do uso da razão, eram recebidos para
-não padecerem por nunca poderem vêr a Deos, visto ser o baptismo a chave
-do Ceo.
-
-Não se acreditaria, senão vendo-se, quanto são os selvagens curiosos por
-saberem das coisas de Deos. Todos, quando com elles conversavamos, nos
-faziam mil perguntas á este respeito, iguaes á estas:
-
-Como Deos fez o Mundo?
-
-Si o fez com suas proprias mãos, ou si ajudado pelos bons espiritos poude
-fazer o Ceo, as estrellas, o sol, a lua, o fogo, o ar, a agoa, a terra,
-os primeiros homens, os primeiros passaros, peixes e animaes, reptis,
-arvores e hervas?
-
-O que existia antes de feito o mundo, e o que fazia Deos vivendo sosinho?
-
-De que forma está no Ceo?
-
-Como faz rebumbar o trovão, e cahir a chuva?
-
-Si falla aos homens, si viemos do Ceo, si nascemos de mulheres, si vimos
-anjos e diabos?
-
-Quem nos ensinou tudo quanto ensinavamos, si não morriamos, e depois da
-nossa morte como si faziam outros padres?
-
-Si em França haviam muitos padres, si andam vestidos como nós, si havia
-um padre que fosse rei, porque regeitavamos mulheres e mercadorias?
-
-Si a Mãe de Deos era uma rapariga como outra qualquer, si bebia e comia
-como nós, porque tinha morrido, si não vinha do Ceo passeiar as vezes na
-terra e fallar comnosco?
-
-Si os Apostolos eram padres como nós, quantos tinham existido, porque os
-outros _Caraibas_ francezes não eram tambem padres como nós, si fomos nós
-mesmos que nos fizemos Padres, ou si foi outra pessoa?
-
-A todas estas e a muitas outras perguntas respondiamos com a verdade, e
-elles por gestos e palavras demonstravam seo contentamento.
-
-Assim corria de maneira agradavel o tempo entre taes perguntas e
-entretinimento.
-
-É por isso que pretendo aqui deixar as diversas e mais singulares
-conversações, que tive com os _Muruuichaues_, isto é, com os principaes
-de _Maranhão_, _Tapuitapéra_, _Commã_, _Caietés_, _Pará_ e _Miary_.
-
-Não quero demorar-me mais fallando em taes perguntas e respostas, visto
-que as vereis mais adiante, e espero que minhas respostas vos contentarão
-muito, e vos assevero que serão fielmente transcriptas até na propria
-linguagem com que foram proferidas.
-
-Espero desculpa não só por isso como tambem pelo mais que ja deixei
-escripto, mormente não se achando tantos ornatos n’esta historia como
-exigia a curiosidade d’este seculo.
-
-É minha opinião, que a bellesa de uma historia consiste na verdade do
-facto e na simplicidade do estylo.
-
-Si eu não descrever palavra por palavra essas conferencias, ou si
-não usar de muitas palavras, basta que não offenda em coisa alguma a
-substancia do facto, sendo essa abundancia de discurso necessaria e
-requerida para vos fazer entender bem claramente suas intenções, e as
-nossas expressões.
-
-
-
-
-CAPITULO XVI
-
-Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro de Commã.
-
-
-Tendo tido muitas conferencias com este principal e grande feiticeiro,
-vou narral-as por capitulos: eis o primeiro.
-
-_Pacamão_ é pequeno no corpo, vil e abjecto á tal ponto, que quem não o
-conhece, não faria caso d’elle.
-
-Comtudo isto é o maior e o mais graduado de todos os principaes do
-Maranhão, especialmente na provincia de _Commã_, uma das mais bellas,
-fertil e povoada no paiz dos _Tupinambás_.
-
-Goza entre elles de tal poder, que somente com sua palavra tem movido
-todos os habitantes, sendo extremamente temído.
-
-É fino e velhaco tanto quanto pode ser um selvagem, e por essas
-qualidades chegou a obter esse poder, grandesa e prestigio, sendo tido
-por supremo curandeiro, subtilissimo feiticeiro, muito familiarisado
-com os Espiritos, tendo entre suas mãos e á sua disposição a morte e a
-vida, concedendo vida e saude a quem bem lhe aprouver; alem de grande
-bafejador entretinha os ingenuos por meio de confissões, de lustração,
-incensamento, e muitas outras coisas iguaes como ja dissemos.
-
-Não foi dos primeiros a visitar os francezes e fazer-lhes seos
-offerecimentos, desejando vêr o que elles queriam, porque tinham vindo
-aqui, e como se estabeleceriam.
-
-Informando-se bem de tudo isto, veio ao Forte de Sam Luiz, entrou, e
-saudou agradavelmente o Sr. de la Ravardiere. Vinha bem acompanhado por
-indios enfeitados de pennas, trouxe comsigo a mais vigorosa de todas as
-suas mulheres, cujo numero chegava a trinta.
-
-Chegando a _Yuiret_, tendo passado o mar em nossa barca, que tinha ido
-buscar farinha á sua terra, distante mais de 40 legoas do Forte de Sam
-Luiz, fez saber ao Sr. de la Ravardiere, que ia ao seo Forte, e foi
-esperado.
-
-Formou sua gente, uns atraz dos outros, e todos o acompanharam.
-
-Andou ao redor das casas, situadas na grande praça de Sam Luiz, fallando
-como era de costume, apregoando sua grandesa, o seo amor aos francezes, o
-objecto da sua visita, e tambem o valor e poder dos francezes.
-
-Acabado isto, aproximou-se da porta do Forte, perto de um quartinho, onde
-estavam alguns francezes observando o que elle fazia.
-
-Ordenou á sua mulher, que se prevenisse para carregal-o até a casa do
-governador, e foi obedecido promptamente, escanxando-se na cintura d’ella
-como usam os indios quando carregam seos filhos: assim entrou no Forte,
-e dirigio-se ao dito senhor: sua mulher era negra como o diabo e pintada
-desde a planta dos pés até a cabeça com o succo do genipapo.
-
-Antes de ir adiante pensae si era possivel conter o riso, vendo-se um dos
-Principaes do Brazil montado em tão bello cavallo.
-
-Foi comtudo muito bem acolhido, e disse o que lhe veio á mente para
-desculpar-se, findo o que, e depois de tratar dos seos negocios, veio á
-minha casa, em São Francisco, acompanhado por gente implumada.
-
-Mandei logo armar-lhe uma rede de algodão bem alva, onde assentou-se, e
-pedindo a um dos seos companheiros o seo caximbo, este o entregou ja com
-fogo.
-
-Depois de ter tomado tres ou quatro caximbadas, exhalando o fumo pelas
-ventas começou assim a fallar-me grave e pausadamente achando-me defronte
-d’elle n’outra rede:
-
-«Ha muitas luas, que eu tive vontade de te vir vêr e aos outros Padres;
-mas tu, que fallas com Deos sabes, que não é bom e nem prudente ser-se
-leviano e facil, mormente nós outros que fallamos com os Espiritos, e
-mover-nos com as primeiras noticias e pôr-nos á caminho, porque sendo
-observados pelos nossos similhantes, elles nos imitarão.
-
-«O poder, que alcançamos sobre nossa gente, se conserva por certa
-gravidade em nossas acções e palavras.
-
-«Os intromettidos, e os que a primeira noticia apromptam suas canoas, se
-emplumam e vão logo vêr o que ha de novo são pouco estimados, e nunca
-chegam a ser grandes Principaes.
-
-«Foi isto o que me impedio e embaraçou de vir logo.
-
-«Os habitantes de _Tapuitapéra_ e muitos de minha provincia vieram antes
-de mim, porem são menos do que eu.
-
-«Alegro-me com a vossa vinda, porque saberei que ha Deos: sou mais capaz
-de o saber do que um só dos meos similhantes: não desejava que um só
-d’elles me precedesse ou que tu o levasses diante de mim, e o fizesses
-fallar com Deos.
-
-«Quando me ensinardes o que é _Tupan_, terei mais autoridade e serei mais
-estimado, do que actualmente, e em meo paiz occuparei o primeiro logar
-depois de ti.
-
-«Dize o que queres que eu faça, e quando meos similhantes virem, que eu
-sou filho de Deos e lavado todos desejarão sel-o, buscando imitar-me.
-
-«Terei grande pesar, si estimares outro mais do que eu, porque sempre
-vizei altas coisas.
-
-«Tinha muita curiosidade de visitar e de ouvir os Francezes.
-
-«De meos avós aprendi a historia de Noé, o qual construio uma barca, pôz
-dentro sua gente, que Deos fez chuver abundantemente por muitos dias, que
-a terra ficou submergida debaixo d’agoa, invadindo campos, montanhas,
-valles, mar, e separando-nos de vós.
-
-«Noé foi pae de todos.
-
-«Soube tambem que Maria era Mãe de _Tupan_, sendo Virgem, porem Deos
-mesmo fez corpo para si no ventre d’ella e quando cresceo mandou
-_Maratás_, Apostolos para toda a parte, nossos paes viram um, cujos
-vestigios ainda existe.
-
-«Vós outros padres são mais do que nós, porque fallaes a _Tupan_, e sois
-temídos pelos espiritos: eis porque quero ser padre.
-
-«Muito tempo ha, que eu sou _pagy_, e ninguem é mais do que eu, porem não
-faço caso d’isto, porque vejo que meos similhantes somente vos apreciarão.
-
-«Desejaria muito que viesses a minha provincia, boa terra, onde se
-encontram muitos javalys, viados, e corças, nada te faltará, e sempre
-estarei comtigo.»
-
-Respondi-lhe a tudo isto, dizendo ter muita satisfação de vel-o, ja tendo
-muitas vezes ouvido fallar d’elle e do seo poder, como enganava com
-certos ardis os indios fazendo-os acreditar ter em seo poder um espirito
-familiar, sendo ainda maior o seo contentamento por vel-o principiar a
-reconhecer sua falta, sendo certo que por seo discurso eu bem percebia
-que elle não tinha a intenção, que Deos exige, para ser posto no numero
-dos seos filhos e lavado com agoa divina.
-
-Replicou-me assim:
-
-«Que queres dizer com isto, que eu não procuro Deos como convem?
-
-«Será porque desejo ser padre como tu, fazer-me admirar mais do que nunca
-entre os meos, persuadil-os a ser filhos de Deos, a procurar-te para
-serem baptisados, e fazeres em minha provincia o que quizeres, que de mim
-se diga que eu era o grande _Pagy_, sendo o primeiro a reconhecer Deos e
-vós outros padres.
-
-«Sendo estimado pelo grande espirito, os outros á minha sombra procurarão
-a Deos e farão como eu.
-
-«Si eu não me fizer lavar, muitos não o farão, e dirão—esperemos que
-_Pacamão_ seja _Caraiba_, e depois nós o seremos, porque tem melhor
-espirito e é mais esperto do que nós.
-
-«Deves saber que antes de terdes chegado, eu ja lavava os habitantes do
-meo paiz, como vós padres fazeis com os vossos, porem em nome do meo
-espirito, e vós o praticaes em nome de _Tupan_.
-
-«Eu bafejava os infermos, e elles ficavam bons: elles me diziam o que
-fizeram, e eu embaracei _Jeropary_ de fazer-lhes mal.
-
-«Fazia apparecer annos bons, e vingava-me dando doenças aos que me
-despresavam. Dava-lhes agua que corria do pavimento de minha casa, o que
-agora não faço e nem quero mais fazer, porque era a subtilesa do meo
-espirito, que me suggeria todas estas coisas, zombando assim dos meos,
-que julgavam, por falta de espirito, ser isto maravilha.
-
-«Foi um francez que me ensinou a fazer brotar agoa do soalho de minha
-casa.»
-
-Respondi-lhe pelo meu interprete, que na sua réplica descobria não
-procurar elle a Deos como era conveniente, por que pretendia por meio
-do baptismo fazer-se maior e mais estimado entre os seos do que era
-antes por meio de seos grosseiros embustes, visto que Deos exigia de
-seos filhos, que fossem humildes, e que se arrependessem dos peccados
-passados: com quanto na verdade Deos não deixe de exaltar os seos,
-muito mais do que os diabos fazem com os seos sectarios, em quanto elle
-tivesse esse espirito, não esperasse que os padres o baptisassem, e sim o
-fariam só quando elle não fosse soberbo, e estivesse arrependido de suas
-feitiçarias.
-
-Em quanto eu dizia estas palavras, chegou o interprete do Sr. de la
-Ravardiere por nome _Mingan_, a quem eu tinha mandado chamar para
-conversar com _Pacamão_, porque é da indole d’esses selvagens dar mais
-credito aos interpretes mais velhos do que aos moços.
-
-Contei-lhe palavra por palavra toda a nossa conferencia até aquella
-hora, e lhe pedi para fallar a elle de conformidade com os meos e seos
-pensamentos.
-
-Eis como elle fallou:
-
-«Tu bem sabes, que ha muito tempo eu converso comvosco, e com vossos
-paes, quando estavamos em _Potyiu_.
-
-«Muitas vezes te chamei embusteiro por abusares de teos similhantes,
-muito credulos.
-
-«Tu lhes fazias crer tudo quanto querias: teos paes e todos os não
-baptisados vão para _Jeropary_ no inferno, e tu irás com elles si não
-fizeres o que dizem os padres.
-
-«Quando estavamos comtigo antes da vinda dos padres, sempre zombavamos do
-que faziam vós e os outros _pagys_: não diziamos palavra por não ser esse
-o nosso fim, e sim colher algodão.
-
-«Lançavamos mão de vossas filhas, e d’ellas tinhamos filhos, o que é
-hoje prohibido pelos Padres, não me atrevendo por isto nem eu e nem os
-outros, ir a Igreja, porque os Padres nos ensinam, que Deos prohibe a
-deshonestidade.
-
-«Tens trinta mulheres, deves deixal-as e te contentares com uma, se
-desejas ser filho de Deos e receber o baptismo.
-
-«Pensa bem e sobretudo na felicidade que si te offerece de poder
-salvar-te e livrar-te das patas do Diabo.
-
-«Teos paes não tiveram tal occasião: foi Deos que te inspirou a vir ter
-com os Padres e lhes pedir o baptismo.
-
-«Lembra-te que Deos sabe de tudo e não pode ser enganado, quer e deseja
-que todos que o buscam, renunciem o diabo e suas acções.»
-
-Respondeo assim _Pacamão_:
-
-«Não sabes o que tenho sido entre os meos? Quanto caso fazem de meos
-feitiços? Não sabes que sempre tratei os francezes como pude, e de muito
-boa vontade?
-
-«Animei sempre meos similhantes a dar-lhes suas filhas e seos generos em
-troco de ferramentas: sentia-me satisfeito entre elles aprendendo alguma
-coisa de novo, porque os francezes tem mais espirito e intelligencia do
-que nós, e apenas soube da chegada dos Padres fiquei muito contente, e
-disse aos meos similhantes—que felicidade! elles nos ensinaram a conhecer
-a Deos, quero ir vel-os. Foi isto que aqui me trouxe, e é d’isto que nos
-occupamos.»
-
-Disse a _Migan_ estar elle repetindo o que eu ja havia dito, isto
-é, que era bem vindo, sendo porem necessario buscar o baptismo com
-arrependimento e humildade.
-
-Migan explicou-lhe muito bem a grandeza e o poder de Deos, e a pequenez
-dos homens, especialmente dos captivos de Satanaz.
-
-Mostrou-se satisfeito, e me prometteo vir na manhã seguinte fallar
-commigo dos seos negocios.
-
-Assim finalisou-se esta conferencia, e si retiraram para o Forte depois
-de ter cada um bebido um pouco de agoardente.
-
-Vamos notar muito bellas particularidades n’este discurso, que não seriam
-entendidas ou passariam desapercebidas si não fossem indicadas.
-
-Em primeiro lugar o falso zelo d’estes selvagens em conservarem sua
-autoridade e prestigio entre os seos, não fazendo acção alguma sem
-reflectir, pela qual possam ser mal apreciados pelos seos inferiores,
-tão levianos e imperfeitos como elles, e por conseguinte tão incapazes
-de entretêr os espiritos familiares como elles: supponhamos que para ter
-o gozo dos espiritos é preciso ser constante e grave, e não se deixar
-levar pelas primeiras informações. Pensando n’isto, vêde como os diabos
-abusam da luz natural do homem, que claramente nos faz vêr si desejamos
-conservar em nós o verdadeiro espirito de Deos, sendo conveniente banir
-a leviandade e inconstancia do nosso interior, reconcentrar-nos com
-firmesa, e nada fazer ou dizer, que não seja discutido e decidido pela
-rasão.
-
-De outra fórma somos menores em relação a profissão do Christianismo, do
-que estes feiticeiros, que se esforçam a ser graves procurando conquistar
-a estima de seos similhantes.
-
-Em segundo lugar notareis os effeitos do espirito diabolico, que são
-a soberba e a grande presumpção, que já se abriga até entre as coisas
-sagradas: tão grande é o seo veneno a ponto de querer atacar o seo
-contrario, visto não haver maior antagonismo do que entre o Espirito de
-Deos e o de Satanaz, a humildade de Jesus Christo e a soberba de Lucifer,
-a abnegação do Christão e a presumpção dos filhos do diabo!
-
-Assim procedia Simão, o magico, para com S. Pedro, procurando com seo
-dinheiro o Espirito de Deos, afim de se fazer reconhecido como grande por
-meio do Espirito Santo.
-
-Que grande cegueira julgar Deos vassallo da vaidade!
-
-Que desgraça estar uma alma presa por infernaes obscuridades!
-
-Este pobre feiticeiro do Brazil julgava no principio, que tinhamos Deos
-em nossa algibeira para dal-o a quem bem nos aprouvesse, obedecendo elle
-a quem o entregassemos.
-
-Com o fim de se apoderar de sua alma o diabo o escravisa e o obriga a
-commetter mil loucuras, inspirando esse _Pagy_ para isso. Deos nos livre
-de tal perigo!
-
-Em terceiro lugar—quanto ao que elle disse de Noé e da Virgem não
-ousarei dizer d’onde elle teve essas ideias: si foi dos francezes, não
-parece muito, porque os que vieram antes de nós só lhes fallariam de
-obscenidade, e concubinatos; é mais provavel, que fosse de tradicções
-antigas, porque apenas chegamos a _Yuiret_, _Japy-açú_ nos fallou quasi
-da mesma maneira do diluvio e de um Apostolo, que por aqui andou, como se
-lê na obra do Reverendo Padre Claudio d’Abbeville.
-
-
-
-
-CAPITULO XVII
-
-Segunda conferencia, que tive com Pacamão.
-
-
-Na manhã seguinte veio vêr-me, como me tinha promettido, em companhia de
-sua gente.
-
-Não quiz assentar-se na rede, e pegando-me na mão disse-me _Ché assepiak
-ok Tupan_ «eu te rogo leva-me a vêr a casa de Deos quero fallar-te
-conforme teos discursos de hontem á tarde.»
-
-Disse-lhe, que me acompanhasse, que satisfaria seos desejos, e assim o
-fiz.
-
-Logo que entraram todos, mandou que ficassem na porta e proximando-se de
-mim fallou-me em segredo—aquelles, nada sabem e nem entendem o que se
-fallar á respeito de Deos, por tanto quero que conversemos á vontade.
-
-Mandei ornar a nossa Capella com os melhores paramentos, e pôr sobre os
-degraos do altar muitas e differentes Imagens.
-
-Aproximamos-nos do altar sempre acompanhado pelo intreprete.
-
-Por mais de duas horas indagou de mim tudo quanto via.
-
-1.º Quiz saber o que significava o Crucifixo dizendo-me—quem é este morto
-tão bem feito e tão bem estendido n’este pau encruzado? Expliquei-lhe
-que isto representava o Filho de Deos, feito homem no ventre da Virgem,
-pregado por seos inimigos sobre esse madeiro afim de ir ter com seu
-seo Pae, felicidade que alcançariam tambem os que fossem lavados com o
-sangue, que elle via correr de suas mãos, pés e lado.
-
-Conservou-se admirado por algum tempo, olhando com muita attenção a
-Imagem do Crucificado: exhalou depois um suspiro, e soltou estas palavras
-como _omano Tupan?_ «Que! será possivel que Deos morresse?»
-
-Repliquei-lhe não ser necessario, que elle pensasse que Deos tivesse
-morrido, porque sempre viveo desde a eternidade, dando vida aos homens
-e aos animaes: o que falleceo foi o corpo somente, que elle tomou da
-Virgem Santa Maria para matar _Jeropary_, como elle via fazer aos meninos
-quando querem apanhar um peixe grande no mar, que devora os pequenos,
-deitando como isca no anzol de sua linha o corpo de um d’esses peixinhos,
-o que sendo visto pelo peixe grande atira-se sobre elle e vê-se pilhado,
-puxado, derribado e morto, em favor e livramento dos pequenos.
-
-Assim tambem este mau _Jeropary_ ia devorando todos os nossos Paes, porem
-aprouve a Deos enviar seo Filho para pescal-o á linha, servindo de haste
-esta Cruz, de anzol ou de croquezinho estes cravos e espinhos, e d’isca
-seo corpo.
-
-Mas, respondeo-me elle, porque havia o diabo de ter poder sobre nossos
-paes?
-
-Porque, respondi, elles foram rebeldes á lei de Deos, comendo do fructo
-prohibido, e deixaram-se enganar pelo diabo, debaixo da forma de serpente.
-
-Com quanto Deos nos podesse salvar por outros meios, achou mais docil e
-rasoavel tomar o rapinador em lugar de suas victimas.
-
-Mostrou-se contente, e perguntou—o corpo de _Tupan_ está ainda em França
-sobre a Cruz, como este que tu me mostras, e tu o vistes?
-
-Não, respondi, porem resuscitou pouco depois da sua morte, levando seo
-corpo lá para cima, lá para o Ceo, vivendo e brilhando como o sol,
-sentado no mais bello lugar do Paraizo, vindo curvar-se diante d’elle
-todos os espiritos e almas de pessoas de bem, e agradecer-lhes a morte do
-seo inimigo.
-
-Com a protecção d’este corpo, os nossos, depois de mortos, resuscitarão e
-irão para o Ceo levados pelos Anjos, isto é, nós que somos lavados com o
-sangue derramado de suas chagas.
-
-Vossos corpos e os de vossos paes irão ter com _Jeropary_ arder em fogos
-eternos, si não fordes lavados com este sangue.
-
-É necessario, disse elle, correr muito sangue de seo corpo, e que vós o
-guardeis com todo o cuidado para lavar tanta gente.
-
-Respondi—és ainda muito obtuso para comprehenderes estes mysterios.
-
-«Basta ter sido espalhado uma unica vez esse sangue sobre a terra, e que
-em memoria e respeito a elle lavemos espiritualmente as almas com agoa
-elementar, que derramamos sobre vossos corpos.
-
-«Não vês correr sempre uma fonte, ainda que cavada uma só vez pela mão de
-Deos?
-
-«Tu bem sabes, que as constellações sete-estrellas e a ursamenor foram
-pregadas uma só vez no Ceo, e com tudo todos os annos, apenas brilham por
-cima da tua cabeça, ellas te mandam chuva, que rega tuas roças.»
-
-Disse ainda:
-
-«Eram malvados os que mataram _Tupan_, porque elle era bom, eu o amo, e
-n’elle creio.»
-
-Respondi-lhe. Foram seduzidos por _Jeropary_, como tu, que os animou a
-perseguil-o, a matal-o, e crucifical-o, porque elle os censurava por sua
-maldade, como nós agora fazemos, seguindo em tudo a lei, que nos deo.
-Todos os que obedecem ao diabo são seos inimigos e si elle hoje voltasse
-ao Mundo passaria por iguaes soffrimentos, repetindo os actuaes o mesmo
-que fizeram os outros antigamente.
-
-Respondeo-me—desejava que me desses uma Imagem como esta para levar
-commigo quando regressasse á minha provincia. Repetirei palavra por
-palavra á meos similhantes o que acabas de dizer-me, e farei para ella
-melhor casa do que esta, eu a fecharei muito bem, só eu entrarei ahi, e
-algumas pessoas capazes de entenderem as explicações, que me destes.
-
-Respondi—quando fores baptisado, nós te daremos licença para fazeres uma
-casa, onde levantaremos um Altar igual á este, com iguaes ornatos, e com
-Imagens como as que estás vendo.
-
-2.º Nos pés do Crucifixo havia uma Imagem de Nossa Senhora, feita em
-bordado alto, de extrema belleza, e revestida de perolas, presente
-do Sr. de S. Vicente quando regressou á França: olhando para ella,
-perguntou-me—quem é esta mulher tão bonita, e este menino que olha para
-ella de mãos postas? Eu lhe disse, que era a figura de Maria, Mãe de
-Deos, e este menino é o filho de Deos quando sahio do ventre d’Ella.
-
-Repetio estas palavras duas ou tres vezes—_Ko ai Tupan Marie?_ «Como é
-Maria Mãe de Deos?» _Kugnan Ycatu_, «linda mulher.»
-
-Respondi, que assim devia ser, pois que Deos a escolheo para Esposa e Mãe
-de seu Filho, que era a Princesa de todas as mulheres, tendo tido por
-marido Deos unicamente, e que sendo pura deo á luz o Filho de Deos, que
-tinha resuscitado depois da sua morte, como aconteceo a seo Filho, sendo
-levada para o Ceo pelos Anjos, onde estava assentada ao pé do corpo de
-seo Filho.
-
-Que grande coisa, disse elle, uma Virgem parir. Como, respondi eu, não
-vês crescerem as ôstras nos ramos das arvores, só e unicamente, sem
-auxilio algum?
-
-Deos ama a puresa, porque elle é mais puro do que a luz do sol.
-
-È verdade, respondeo, porem vós, e os outros padres, sabeis grandes
-coisas, sois mais sabios do que nós, porque não prestamos attenção ás
-coisas da nossa terra, que vemos todos os dias, e vós em tão pouco tempo
-já as conheceis.
-
-Ainda não é tudo, disse-lhe, vinde commigo, e prestae attenção ao que vou
-dizer-vos por intermedio do meo interprete para repetirdes tudo, quanto
-souberdes, aos teos companheiros, que ficaram na porta por tua ordem,
-visto ser da vontade de Deos que todos se salvem grandes e pequenos.
-
-Dizendo-lhe isto, fiz-lhe vêr todas as peças e quadros da creação e
-da redempção, apontando-lhe todas as suas diversas partes: n’uma, por
-exemplo, a creação dos Ceos e dos elementos, n’outra a creação dos peixes
-e dos passaros, e n’outra a creação dos animaes, das arvores e das
-hervas: causava prazer vel-os olhar com muita attenção para as figuras
-dos passaros, dos peixes e dos animaes afim de conhecerem os da sua
-terra, e quando descobriam um parecido, não deixavam de dizer-nos—eis tal
-passaro, tal peixe, e tal animal, e os que não conheciam perguntavam
-si haviam em França, e como se chamava. Captivou-lhes principalmente a
-attenção a figura de Deos, no meio do quadro, com os braços abertos,
-soltando da bocca um forte sopro de vento, e me perguntaram o que isto
-queria dizer?
-
-Expliquei-lhes, que isto representava a maneira, como foram feitas todas
-as coisas, apenas com a palavra de Deos, cujo poder e dominio estendia-se
-ás duas extremidades do Ceo.
-
-Admirou-se tambem muito da mulher ter sido formada pela costella do
-homem, quando dormia, pedio-me explicações, e assim o satisfiz dizendo,
-que Deos quiz com isto que elle tivesse uma só mulher e não mais de
-trinta como elle tinha; porque si Deos quizesse, que tivesse mais de uma,
-elle o teria permittido desde o principio, e sendo creado somente uma e
-ainda á custa da costella do homem assim demonstrou, que este só devia
-ter uma mulher, a quem amasse e conservasse, e não mudal-a á capricho da
-vontade, como fazeis vós outros, sectarios de Jeropary, que vos persuadio
-terdes muitas mulheres afim de indispor-vos e estrangular-vos uns com
-os outros, visto que costumaes roubal-as até na casa de seos proprios
-maridos.
-
-Na escada do altar estavam as imagens dos doze Apostolos e o padre Sam
-Francisco, muito bem feitas e illuminadas.
-
-Perguntou-me quem eram esses _Caraybas_?
-
-Estes doze, respondi, são doze _Maratas_ do filho do _Tupan_,[107] os
-quaes, depois que subiram ao Ceo, dividiram o Mundo Universal em doze
-partes: tomou cada um a sua, onde foi guerrear _Jeropary_, e lavar todos
-os crentes em Deos, deixando successores, que foram se revesando até nós.
-Peguei na imagem de S. Bartholomeo, e lhe disse—Olhae, veio a vossa terra
-este grande _Marata_, e aqui fez muitas maravilhas, como por tradicção
-vos contou vossos antepassados. Foi elle quem fez talhar, á rocha, o
-altar as imagens, e as inscripções, que ainda existem actualmente, como
-tendes visto.[108]
-
-Foi elle quem vos deixou a _mandióca_, e vos ensinou a fazer pão, pois
-vossos paes, antes de sua vinda, comiam só raizes amargas dos mattos.
-
-Como não quizestes obedecer, elle vos deixou, predizendo grandes
-desgraças, e que ficarieis por muito tempo sem vêr _Maratas_.
-
-Tal qual aconteceo, e só agora é que tivestes quem vos livrasse das mãos
-do diabo, e vos fizesse filho de Deos.
-
-Tomae cuidado em não fazerdes o que fizeram vossos paes.
-
-Logo que lhes transmitti estas palavras pelo meu interprete, olhou para a
-imagem de Sam Francisco e me disse—quem é aquelle que está vestido como
-tu?
-
-É, disse eu, o pae de nós outros padres, que assim se vestem.
-
-Vive ainda? replicou, está em França? Foi elle quem te mandou para cá e
-aos outros padres?
-
-Não, respondi, ja não vive, morreo, porque nós todos morremos, porem
-deixou successores, que nos mandaram para cá. Não está mais em França, e
-sim no Ceo com Deos, onde esperamos ir vel-o.
-
-Não tinha mulheres, como vós não tendes? perguntou.
-
-Não, respondi, porque todos os padres não as tem, imitando assim o Filho
-de Deos, seo Rei, que vivendo n’este mundo não tinha mulher.
-
-Dizendo isto, olhava o Ceo e as sanefas que cobriam nosso altar, as quaes
-eram de bello damasco com grandes folhagens, agaloadas, e guarnecidas de
-passamanes e franjas de prata fina, bem como o frontal do altar.
-
-Disse depois que tudo era bonito, e que serviamos _Tupan_ com grande
-reverencia e pedio-me para baptisal-o antes do seo regresso, e que lhe
-desse imagens para leval-as comsigo.
-
-É preciso, respondi, que saibas antes a doutrina de Deos.
-
-Não me dissestes ja, replicou elle, tudo quanto era necessario saber para
-ser lavado?
-
-Não, respondi, isto não passou de uma conversa: ha ainda muito que
-aprender.
-
-Que me ensinarás ainda?
-
-Respondi—si quizeres morar commigo eu te ensinarei, ou te farei ensinar
-muita coisa, mas não te posso baptisar ja, sem primeiro saberes a
-doutrina de _Tupan_. Quero experimentar tua constancia, e esperar
-nossos padres que não tardam a chegar conforme me prometteram. Elles te
-baptisarão, e irão comtigo fazer a casa de Deos na tua aldeia, e não te
-deixaram mais.
-
-Antes d’isso não deixes de repetir na tua _caza grande_ á teos
-similhantes o que sabes: não faças mais feitiçarias, e assim nós, e todos
-os francezes, te estimaremos, e sempre serás bem vindo.
-
-Prometto, disse elle, e cumprirei minha palavra. Bem desejo que tu me
-lavasses agora. Não deixarei de te vir visitar muitas vezes, porque
-sempre aprenderei alguma coisa.
-
-Chamou então seos companheiros, que ficaram por todo este tempo na porta
-da igreja.
-
-Que obediencia e respeito entre os selvagens! Mandou que se aproximassem
-ao altar e á elles repetio o que lhe ensinei, mostrando-lhes as imagens e
-explicando o que representavam.
-
-Esta pobre gente estava como que fóra de si, mostrando-se admirada a seo
-geito, e depois despedio-se e foi para o Forte de S. Luiz, onde embarcou
-e regressou á sua terra.
-
-Veio depois visitar-me para tratar do mesmo objecto, e contou-me como
-cumprio suas promessas, fallando na _caza grande_, e repetindo o que lhe
-ensinei, e affirmou que todos se fariam christãos logo que elle fosse
-baptisado, o que me pedio ainda uma vez.
-
-Animei-o a continuar a proceder assim, e dei-lhe esperança de que seria
-baptisado em pouco tempo, apenas chegassem os Padres de França.
-
-Conversamos ainda sobre os objectos, de que já nos tinhamos occupado da
-primeira vez, e com avidez recebia todos os conhecimentos mostrando por
-seos gestos indizivel contentamento.
-
-N’esta segunda visita, veio mais modesto, e acompanhado por poucas
-pessoas, sem muitos enfeites de pennas, e fallando com muito menos
-arrogancia do que o fez na primeira vez.
-
-
-
-
-CAPITULO XVIII
-
-Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra.
-
-
-O grande feiticeiro de _Tapuytapéra_ era homem muito respeitavel, de boa
-estatura e bem feito, valente guerreiro, modesto, grave, e de poucas
-palavras: era muito amigo dos francezes, e gozava entre os habitantes do
-seo paiz do mesmo poder, que Pacamão em _Commã_, Japy-açú em _Maranhão_,
-o Arraia-grande entre os _Caietés_, Thion e Farinha-molhada entre os
-_Tabajares_, rico, e de muito bons filhos, que são fieis aos francezes e
-christãos, como d’aqui ha pouco diremos.
-
-Veio ao Fórte de S. Luiz seguido por perto de tresentos a quatrocentos
-dos seos companheiros para fazel-os trabalhar nas fortificações, e
-regressar á seos lares depois de acabarem seo tempo, revesando-se assim,
-e nunca menos de dusentos a tresentos selvagens.
-
-Durante as horas do trabalho assentava-se elle junto aos francezes
-mais graduados, ahi vigiava a sua gente, animava-a, e recommendava-lhe
-perfeição de obra.
-
-Fui vêl-o n’essa lida, desculpou-se muito para commigo, por intermedio
-do seo interprete, por não me ter vindo vêr logo que chegou a Ilha, por
-estas palavras:
-
-«Não te fui procurar, embora tivesse muito que conversar comtigo, porem
-deve ser com descanço.
-
-«Agora é preciso vigiar minha gente no trabalho, afim de se empregar com
-animo na fortificação d’esta praça.
-
-«Não deixarei de te ir vêr com _Migan_, que está aqui para te fazer
-sabedor do que eu digo, contando-me tambem as maravilhas, que ensinas aos
-nossos similhantes.»
-
-Respondi-lhe, que achava isto bom, e que estava contente vendo-o assiduo
-no trabalho para que fóssem bem feitas as trincheiras e fóssos afim
-de resistirem a seos inimigos, e que depois si nos offerecia occasião
-de conferenciarmos: que era só isto, que eu desejava, que nós todos o
-estimavamos e muito, tanto por sua bondade natural como porque elle era
-amigo dos francezes, e sempre fiel.
-
-Assentamos-nos depois um em frente do outro, conversamos sobre muitas
-coisas indifferentes, especialmente do enthusiasmo de sua gente, e
-particularmente das crianças, que carregavam terra, o que causava a elle
-e á nós muita satisfação, fazendo-me dizer e a proposito, que bem razão
-lhes assistia n’esse trabalho, cheio de fervor e de coragem, pois era
-para elles, que se lidava, visto que um dia veriam as maravilhas feitas
-pelos francezes n’esta terra.
-
-«Serão bem differentes do que somos, dizia elle, porque serão _Caraibas_,
-andarão vestidos, e verão as Igrejas de Deos construidas de pedra.»
-
-Confirmei em minha resposta a felicidade de seos filhos no futuro,
-assegurando-lhes, que d’ella tambem gozariam porque não haveria muita
-demora na vinda de soccorros e navios de França trazendo muitos Padres,
-muitos francezes guerreiros, muita ferramenta e generos para elles:
-que então se construiriam casas á maneira dos francezes, que seriam
-acompanhados por elles quando fossem guerrear seos inimigos, que viriam
-os _Tupinambás_ e os outros alliados cultivar a terra da _Ilha_, e que
-tudo isto poderiam vêr antes de morrerem.
-
-Ditas estas palavras despedi-me d’elle, e regressei á minha habitação.
-
-Quando acabou o tempo do seo trabalho veio visitar-me, acompanhado pelos
-principaes da sua Nação, e pelo interprete _Migan_.
-
-Assentou-se, e pedindo fumo, como costumava, me disse estas palavras:
-
-—Antigamente usei de muitas feitiçarias para me tornar grande e
-authoridade entre os meos.
-
-Muito tempo ha que conheci este abuso, e que zombo dos que se empregam
-n’este officio.
-
-Não ignoro a existencia de um Deos, porem não sei conhecel-o.
-
-Seria impossivel o giro annual do sol, a existencia de ventos e chuvas, e
-o forte estampido dos trovões si não houvesse um Deos, autor de tudo isto.
-
-Temos então homens maus, que vivem livremente sem temer algum castigo, e
-pensamos que elles irão ter com _Jeropary_.
-
-Temos outros homens, que são bons, que não matam, que dão expontaneamente
-a sua comida, e pensamos serem elles amados por Deos, e por tanto que não
-vão cahir no poder do diabo.
-
-Alegrei-me muito quando me noticiaram a vinda dos padres, que faziam
-conhecer _Tupan_, e que em seo nome lavavam os homens: foi este o
-principal motivo, que aqui me trouxe para vos vêr, e manifestar-vos o meo
-desejo de ser instruido e baptisado, porque ja soube, que dissestes serem
-condemnados os não baptisados, e que se perderam nossos paes.
-
-Tenho muitos filhos, quero que sejam christãos, como eu afim de irmos
-todos para a companhia de Deos.
-
-Desejo edificar na minha aldeia para elle uma casa, e junto d’ella outra
-para vós: eu o sustentarei e nada lhe faltará.
-
-Os que na minha provincia confiam e tem fé em mim, serão christãos.—
-
-Traduzindo-me o interprete tudo quanto acima escrevi, acrescentou «este
-homem tem muito amor a Deos, e conhece-o muito, porque usa das palavras
-mais expressivas da sua lingua para melhor exprimir o que sente e
-conhece, e tenho muita pena de não poderdes entendel-o e conhecer o que
-elle diz. Respondei conforme seos desejos, fazei com que elle entenda
-estas palavras, o mais eloquentemente que puderdes.»
-
-«Informaram-nos os francezes muito bem de vós e de vossos filhos, tanto
-de vossa fidelidade, e amisade, como de vossa natural bondade: eis o
-verdadeiro meio de cedo receberdes o favor de Deos, alcançardes seo
-conhecimento e seo baptismo. Tu o vês ordinariamente diante de ti quando
-a terra produz facilmente muitos fructos, provenientes da semente n’ella
-lançada.
-
-«O homem é a terra, e o Evangelho a semente: quando Deos encontra boa
-terra, sem cardos e nem espinhos, elle ahi lança sua semente: á vista
-disto muito espero de ti e de teos filhos, e te asseguro que si fossemos
-mais nós os padres, tu já levavas um comtigo: tende porem paciencia,
-breve chegarão outros.
-
-«Não deixes comtudo de edificar a casa de Deos e a dos padres, para que
-apenas cheguem, possas leval-os e acommodal-os.
-
-«Não podes demorar-te aqui muito tempo em virtude do teo cargo: nós como
-somos poucos, não podemos tambem ir comtigo; conserva teos bons desejos,
-e Deos te ajudará.
-
-«Conheci ja que tens muito amor a Deos, que seo espirito tocou-te o
-coração, e illuminou-te o entendimento para te guiar no que me dissestes:
-é grande bem para ti, não o despreses.»
-
-Respondeo-me assim:
-
-—Nunca fui mau, nunca me agradaram as carnificinas dos nossos escravos.
-Nunca roubei as mulheres dos outros, contentava-me com as minhas. É bem
-verdade, que me fiz temido ameaçando os que me despresam com molestias,
-que contrahiam por medo.
-
-Nunca fallei com Espiritos, como fazem os outros _pagés_, e apenas
-empreguei a subtilesa da minha intelligencia, e a grandesa da minha
-coragem. Minhas feitiçarias concorreram menos do que a coragem, que
-muitas vezes hei manifestado na guerra, para conquistar a authoridade que
-hoje occupo.
-
-Estou velho, e só ambiciono paz e tranquilidade.—
-
-Respondi-lhe haver procedido bem, irritando contra si muito menos o
-soberano, á vista do comportamento de outros feiticeiros, que entretinham
-relações com o diabo, e que assim ficasse gosando a tranquillidade de sua
-consciencia até o dia do seo baptismo.
-
-Pedio-me para vêr a Capella, e buscou informar-se de tudo quanto
-via—altares, paramentos, e imagens.
-
-Expliquei-lhe tudo bem á sua vontade, e assim despedio-se de mim para
-regressar ao seu paiz, o que fez. Dei-lhe imagens para levar comsigo,
-o que recebeo com muita alegria, e expliquei-lhe o que significavam, e
-recommendei-lhe que as guardasse com todo o cuidado para que _Jeropary_
-não as tomasse, visto ter sido vencido antigamente pelo Filho de Deos,
-que morreo na Cruz.
-
-Com taes impressões partio.
-
-Pouco tempo depois foi convertido Martinho Francisco a quem permittimos
-edificar uma Capella na sua aldeia, onde celebrariamos missa, e
-baptisariamos quando fossemos a _Tapuitapéra_.
-
-Este grande feiticeiro, de quem acabamos de fallar, teve ciumes, e
-mandou-me dizer, que muito se admirava de eu ter dado licença a Martinho
-Francisco para fazer uma Capella na sua aldeia antes d’elle construir uma
-na sua, preferencia que elle bem merecia pela sua grandesa, tendo tambem
-padres comsigo como lhe fôra permittido.
-
-Aos que me trouxeram o recado respondi não ter ultrapassado de
-forma alguma minhas palavras e promessas, que era elle o primeiro
-de _Tapuitapéra_, a quem tinha dado licença para fazer uma capella,
-que devia preceder os outros e em quanto aos padres ainda não tinham
-chegado: que quando fossemos a _Tapuitapéra_ não deixariamos de ir vel-o
-e visital-o; mas que eu não podia recusar a Martinho Francisco, ja
-christão, o ter junto de si uma casa de Deos para fazer suas orações.
-Achou boa a resposta.
-
-Entre os convertidos por Martinho, depois do seo baptismo, foram dois
-dos filhos d’este _Muruuichaue_, e com isto teve Martinho singular
-consolação, animando-os a aprender suas crenças e a doutrina christan;
-porem aconteceo, infelizmente, serem elles seduzidos pelas más palavras
-de um de nossos interpretes para deixarem o Christianismo.
-
-Sabendo seo bom pae, que elles para esse fim tinham deixado seos habitos
-e vestidos, lhes disse o que ides fazer? moveis-vos por bem pouco!
-
-«Porque vos despis, e dissestes, que não querieis mais ser christãos?
-
-«Quero agora que torneis a tomar vossos vestidos; ide procurar Martinho
-Francisco na sua aldeia, e d’elle recebei a doutrina, que os padres lhe
-ensinaram.
-
-«Não vos separeis d’elle, e nem cá venham senão em sua companhia.
-
-«Eu mandarei chamal-o para que vá ter com os padres.»
-
-Estes rapazes obedeceram a seo pae, tornaram a tomar seos vestidos,
-vieram procurar Martinho Francisco, que foi ter com o grande feiticeiro,
-e veio depois em companhia de muitos christãos ao Forte de Sam Luiz para
-nos declarar, e aos nossos chefes, como se passaram estas coisas, e a
-ellas se deo remedio, conforme a occasião permittio.
-
-O Revd. Padre Arsenio, acompanhado por muitos christãos, foi vêl-o em
-sua aldeia, onde foi muito bem recebido, notando toda a alegria que póde
-mostrar no rosto um selvagem, presenteou-lhe com muita caça, e rogou-lhes
-que si quizesse morar em _Tapuitapéra_ que escolhesse para residencia
-sua aldeia, e ahi seria bem acommodado, tanto quanto permitte o paiz.
-
-Depois d’isto mandou-me seo filho mais velho, chamado _Chenamby_,
-«minha orelha,» com sua mulher, ambos com carga, e um filho pequeno.
-Disse _Chenamby_—Meo pae está com muito cuidado em ti, receia que não
-tenhas farinha, e é isto que aqui me traz. Logo que houver milho elle
-te mandará muito. Tem muita vontade de saber logo que aqui cheguem os
-Padres, porque immediatamente deixará a sua aldeia, e atravessará o mar
-para cumprimental-os, pedir um d’elles e leval-o comsigo para aprender a
-sciencia de Deos, e ser por elle lavado.
-
-Dois dos meos irmãos são _Caraibas_, os quaes, como sabes, se despiram,
-apesar das observações, que lhe fizeram, actualmente vão indo bem, e
-estão sempre com o _padre-miry_, «padre pequeno,» (sobrenome que davam a
-Martinho Francisco por causa do empenho d’elle em converter as almas):
-quero ser christão, conjunctamente com meo pae, minha mulher, que aqui
-está, e meo filho pequeno que ella carrega, o qual chegando á idade
-propria, darei aos padres para ser por elles instruido.—
-
-Este _Chenamby_ balbuciava um pouco o francez, e entendia tambem alguma
-coisa, graças ao trabalho e empenho, que para isso empregava, fallando
-com os francezes o mais que podia.
-
-Respondi-lhe em sua linguagem por meio do interprete, d’esta forma:
-
-«Que estava muito contente por seo pae lembrar-se de nós principalmente
-pela constancia da boa vontade de seo pae e de seos irmãos para com
-o christianismo, e especialmente vendo elle e sua mulher dispostos a
-receberem a fé christã, e a nos offerecerem seos filhos para ensinarmos o
-que fosse conveniente quando comnosco estivesse.
-
-«Exhortei-os por muitas palavras a terem elle e sua mulher constancia em
-tal desejo.»
-
-Sua mulher era de agradavel presença, moça, modesta, e trazia em seos
-olhos não sei que pudor, não se animando a olhar-me directamente: alem
-d’isto occultava com o pé direito de seo filho sua enfermidade, guardando
-o respeito natural de não se apresentar de outra forma diante de mim,
-de que tirei boa conclusão agradando-me ainda mais de suas maneiras e
-procedimento: achei-a muito boa e caridosa para com os francezes, humilde
-e obediente a seo sogro e marido, virtudes não pequenas n’uma india.
-
-Antes de partir prometteo-me seo marido, que não casaria com outra, e nem
-a abandonaria.
-
-Respondi-lhe, que se assim fizesse os padres o casariam á face da igreja,
-depois de baptisado.
-
-
-
-
-CAPITULO XIX
-
-Conferencia com Iacupen.[109]
-
-
-Era Iacupen um dos principaes da tribu dos _canibaleiros_, conduzidos
-para a ilha pelo Sr. de la Ravardiere, pae de um mancebo christão, de boa
-indole, chamado João, e antes _Acaiuy-miry_, «cajú pequeno ou cajusinho.»
-Teve por varias vezes o trabalho de vir de Juniparan procurar-me e
-conversar commigo sobre as coisas divinas, e sobre a vaidade d’este mundo.
-
-Um dia veio a minha casa com seo filho, e assim fallou-me:
-
-—Tenho muito desgosto de não ser baptisado, porque sei que em quanto
-estiver assim, o diabo pode perseguir-me e perder-me.
-
-Ah! quem pode assegurar-me a vida até a noite?
-
-Agora volto para minha aldeia, posso encontrar uma onça furiosa, que me
-corte a garganta, e me mate sosinho no bosque.
-
-Para onde irá meo espirito?
-
-Não tenho pesar e nem inveja, que meo filho, que aqui está, se baptisasse
-primeiro do que eu.
-
-Mas dize-me: não é coisa notavel, que elle seja Filho de Deos antes de
-mim, seo pae, e que eu d’elle aprenda o que devia ensinar-lhe?
-
-Penso n’isto, e torno a pensar muitas vezes, principalmente depois
-da vossa vinda, e da de outros padres: lembro-me da crueldade de
-_Jeropary_ para com a nossa nação, porque tem feito morrer a todos, e
-persuadio a nossos feiticeiros de conduzir-nos ao centro de uma floresta
-desconhecida, onde dançariamos constantemente, alimentando-nos somente
-do amago das palmeiras e da caça, succumbindo muitos por fraqueza e
-debilidade.
-
-Sahindo nós de lá, e vindo nos navios do _Muruuichaue_ la Ravardiere para
-a ilha do Maranhão, armou-nos _Jeropary_ outra emboscada, instigando por
-meio de um francez aos _Tupinambás_ para matarem e comerem muita gente
-nossa: si não é a vossa chegada acabariam comnosco.
-
-Ja vedes, que somos muito infelizes n’esta vida.
-
-Perseguimos os veados e outros bixos para matal-os e comel-os, porem
-elles não necessitam de ferramentas, de fogo e nem de canoas, pois
-acham a comida feita: quando perseguidos n’um lugar, em poucas horas
-transportam-se para outro atravessando até braços de mar, sem canôa: nós
-outros porem não podemos fazer o mesmo: faltam-nos ferramentas, fogo e
-canoas, e o que é mais, vem ainda perseguir-nos nossos inimigos, ora os
-_Peros_, ora os _Tupinambás_, e finalmente outras nações adversarias:
-finalmente a nossa posição é peior do que a dos animaes da terra.—
-
-Respondi-lhe: «O que disseste, é bem certo, porque o diabo o que deseja
-somente é matar o corpo e perder a alma, e assim procede sempre com
-aquelles, com quem tem pouco a ganhar retendo-os em suas cadeias: é um
-monsenhor, e trata cruelmente seos servos.
-
-«Deos não é recebedor dos velhos, e nem dos moços. Os primeiros, que se
-apresentam, são recebidos por elle, comtudo os ultimos são sempre os
-primeiros, porque recebem o christianismo com mais consideração, e o
-conservam com mais fervor do que os que o abraçam ligeiramente.
-
-«Nosso Deos nos fez miseraveis n’este mundo afim de não olharmos só nas
-delicias da carne, e sim para preparar-nos com destino a outra vida alem
-d’esta.»
-
-Antes de passar adiante convem explicar o que elle quiz dizer, quando
-fallou da desgraça de sua nação, devida aos conselhos dos seos
-feiticeiros, e á carnificina feita pelos _Tupinambás_.
-
-Havia entre elles um grande feiticeiro, que entretinha com o diabo
-visiveis relações, e gozava de tal poder entre elles que todos lhe
-obedeciam.
-
-Aproveitou-se o diabo de tal ensejo para seduzir e enganar esta populaça,
-ensinando ao feiticeiro o que devia dizer-lhe para elle ir tomar posse
-d’uma terra, onde tudo, facil e sem trabalho lhe appareceria á medida de
-seos desejos.
-
-Esta nação, tão cheia de prejuisos, seguio este desgraçado, não
-intermediando muito tempo sem conhecer a zombaria do espirito do
-conductor, porque falleceram milhares, e acharam-se no meio de vasta
-floresta, dançando constantemente, como elle lhe ordenou, até que
-chegasse o Espirito para lhe indicar o lugar procurado.
-
-Ahi achou-se o Sr. de la Ravardiere, demonstrou-lhe seo engano, o que
-reconhecido, seguiram-no e embarcaram-se em seos navios com destino á
-Ilha do Maranhão, onde algum tempo depois um miseravel francez tendo
-uma questão com o Principal d’essa gente, para vingar-se, instigou os
-_Tupinambás_ a matal-a, subindo esta carnificina a cem ou á cento e
-vinte, entre mortos e prisioneiros.
-
-Tal barbaridade foi praticada cinco ou seis mezes antes da nossa chegada.
-
-Continuemos.
-
-Depois de minha resposta, disse-me:
-
-—Tenho bem pesar de não poder obsequiar-vos como mereceis, porque não
-tenho meios de ter escravos; outr’ora fui rico, hoje sou pobre.
-
-Fiz o que pude ao padre, residente em _Juniparan_.
-
-Tenho bem pesar de não traser-te caça sempre que venho vêr-te.—
-
-Repliquei-lhe immediatamente:
-
-«Não é isto que desejo de ti, e estou muito contente de conhecer tua
-devoção, e tua boa vontade, porem ambiciono que sempre progridas de dia á
-dia, e adquiras novos conhecimentos á respeito de Deos.
-
-«Tens um padre na tua aldeia, visita-o sempre, e d’elle aprende as
-maravilhas de _Tupan_.
-
-«Tens alem d’isto teo filho, que sabe a doutrina christan; elle que a
-ensine a ti e a todos de tua casa, o que fará melhor do que nós, visto
-pronunciar bem as palavras da tua lingua.»
-
-—O que acabas de dizer-me afflige-me muito, respondeo-me elle, porque meo
-filho depois de christão, logo no principio, procedeo bem: ja sabia lêr
-um pouco no seo _Cotiare_, e escrever, estava sempre com o padre, e o
-seguia por toda a parte.
-
-Deixou depois tudo isto, entregou-se á liberdade, esqueceo o que havia
-aprendido, e foge para o matto quando o padre o procura: isto me mata
-e como nada aproveito em fallar-lhe, eu te peço que tu lhe mostres, e
-proves ser elle filho de Deos, e que _Jeropary_ o quer seduzir: eil-o
-aqui, falla-lhe.»
-
-Satisfiz-lhe o desejo, recordando á seo filho o fervor, com que recebeo o
-baptismo, admirando-me de vel-o tão mudado a ponto de fugir dos padres,
-pelo que eu acreditava andar o diabo no seo encalço si não regressasse
-aos seos deveres, se não frequentasse o padre de _Juniparan_, e não
-abraçasse sua antiga fé.
-
-Ouvio-me pacientemente, e prometteo-me melhor procedimento.
-
-Considerae, eu vos peço, o zelo de um verdadeiro pae para salvar seo
-filho, como mostrou o grande feiticeiro de _Tapuitapéra_: este pae é
-ainda pagão, e comtudo vós o vedes solicito, e cuidadoso pela consciencia
-de seo filho.
-
-Quantos paes ha em França, que só cuidam dos bens temporaes de seos
-filhos, e despresam os espirituaes!
-
-Veio outra vez visitar-me em companhia de alguns selvagens, seos
-visinhos: rolou nossa conversação á respeito da creação do Mundo, da
-providencia de Deos para com o procedimento dos homens, e da vocação
-singular e particular de cada um.
-
-—É preciso, disse, que seja Deos um Espirito poderoso, incomprehensivel
-para nós, para crear com uma só palavra, como ouvimos muitas vezes de vós
-outros padres, tudo o que vemos e ouvimos.
-
-Imagino a immensidade do mar, que ha d’aqui até a França, tanto assim,
-que os navios gastam doze luas no trajecto de ida e volta, e admiro que o
-sol, que temos, seja tambem vosso.
-
-Quantos passaros, peixes, e animaes existe no Mundo, todos foram feitos
-por _Tupan_.—
-
-O segundo ponto de discussão foi este:
-
-«Vejo-me embaraçado quando penso nas diversas nações, que existem no
-Mundo.
-
-«Vejo os francezes ricos, valentes, inventando navios para passarem o
-mar, canoas, e polvora para matar os homens insensivelmente, bem vestidos
-e nutridos, temidos e respeitados.
-
-«Ao contrario nós vivemos errantes e vagabundos, sem roupas, machados,
-fouces, facas e outras ferramentas.
-
-«De que procede isto?
-
-«Nascem ao mesmo tempo dois meninos, um francez, e outro _Tupinambá_,
-ambos doentes e fracos, e não obstante um nasce para gozar de todas as
-commodidades e o outro para viver pobremente.
-
-«Livres nascemos, um não tem mais do que outro, e comtudo uns são
-escravos, e outros _Muruuicháues_.»
-
-Eis o terceiro ponto de discussão:
-
-—Não posso tranquilisar o meo espirito quando penso, que vós outros
-francezes tendes mais conhecimento de Deos do que nós. Porque temos
-vivido tanto tempo na ignorancia? Dizei-nos, que foi Deos quem vos
-enviou, e para que não o fez antes? Nossos paes não se teriam perdido,
-como succedeo. Os padres são homens como nós, e porque elles fallam a
-Deos, e nós não?—
-
-Respondi-lhe a tudo isto, dizendo «ser muito pequeno nosso espirito para
-conceber coisas tão altas, reservadas por Deos só para si. Basta saber
-que elle fez tudo, ama e dá o necessario a todos.»
-
-Quando vê um individuo disposto a abraçar suas crenças não deixa de
-o mandar vesitar pelos seos Apostolos, que lhe proporcionam meios de
-salvar-se, sendo de crer não achar-se seo coração e espirito, antes da
-nossa vinda, disposto e apto para receber tão grande luz, qual a do
-Evangelho.
-
-Estes e outros discursos similhantes, que adiante encontrareis, vos
-habilitarão a julgar da capacidade de suas almas para receberem a fé de
-Jesus Christo, nosso Salvador.
-
-
-
-
-CAPITULO XX
-
-Conferencia com o Principal d’Orobutin.
-
-
-Era este Principal de alta estatura, muito magro, modesto e affavel, e
-tinha estado doente desde a nossa chegada até quando veio vesitar-nos.
-
-Entrou em nossa casa acompanhado por alguns dos seos, com muito respeito
-e quasi a tremer.
-
-Acolhendo-o muito bem, mandei sental-o em frente a mim n’uma rêde de
-algodão, e logo conforme o costume, principiou assim a fallar-me:
-
-«Vim hoje ter comtigo, ó padre, para duas coisas: a primeira para
-desculpar-me e pedir-te que não repares o não me encontrares quando
-chegaste em _Uraparis_, como fizeram _Japy-açú_, _Pira-Juua_,
-_Ianuarauaeté_, e outros Principaes da ilha, e não poude tambem vir
-antes de _Pacamão_, de _Aua Thion_, meo chefe, pois achava-me gravemente
-doente, porem no meio de minha molestia sempre tive o desejo de vêr teo
-rosto, e ouvir de tua bocca o que meos companheiros de aldeia me contavam
-de vós outros padres.
-
-«A segunda coisa que aqui me traz, é offerecer-te meos filhos, que t’os
-dou, quero que sejam teos, e que os faças _Caraibas_.
-
-«Desejo igualmente e peço-te, que venhas tu ou um dos padres á minha
-aldeia edificar uma casa para Deos instruir a mim e a meos similhantes,
-e declarar-nos o que _Tupan_ deseja de nós para sermos lavados, como tem
-sido os outros.
-
-«Asseguro-te que não faltariam viveres, por ser minha terra boa e
-abundante de caça.»
-
-Advirto ao leitor, que é facil traduzir as palavras e pensamentos
-d’este selvagem, porem não os gestos e a vivacidade do seo espirito ao
-pronuncial-os: direi apenas que suas expressões eram acompanhadas de
-lagrymas e com vóz cheia de fervor e devoção revelava-me o toque do
-Espirito Santo, e o ardente desejo de ser christão.
-
-Respondi-lhe:
-
-«Não precisa pedires desculpa pela tua auzencia quando saltamos na ilha,
-porque alem de estares doente, muito longe é d’aqui á tua aldeia, e isto
-só basta para seres desculpado.
-
-«Regosijo-me muito vendo em ti tão boa vontade para comnosco, e tão
-grande desejo de tua salvação, da de teos filhos e em geral da de teos
-similhantes.
-
-«Si actualmente tivessemos mais padres acredita que eu iria, ou mandaria
-outro á tua aldeia, porem não podemos deixar a ilha por causa dos
-estrangeiros que nos vem vêr, e ao que é conveniente corresponder.
-
-«Logo que chegarem os padres de França asseguro-te que terás um d’elles,
-porque reconheço claramente seres um dos escolhidos por Deos para seo
-filho.
-
-«Coragem, e espera o que te digo.»
-
-Replicou-me:
-
-«Déste-me muita consolação, porque desde que correo o boato em nossa
-terra de dizerdes maravilhas de _Tupan_ e de tratardes com bondade nossos
-similhantes, que eu nunca mais tive socego de espirito.
-
-«Quando irás procurar os padres, quando da bocca delles ouvirás o que
-dizem teos compatriotas? Levanta-te, e faze esforços para caminhar.
-
-«Obedecendo muitas vezes a este pensamento, levantei-me da cama, porem
-estava tão magro e descarnado, que nem pude sustentar-me nas pernas: olha
-para meos braços, meo corpo, e minhas coxas, que não recobraram ainda a
-carne e a gordura, que a molestia me comeo.
-
-«Admirou-me muito quando soube ter _Marentin_ vindo tão doente
-procurar-te, e receber o baptismo.
-
-«Peço-te encarecidamente, que antes do meo regresso me ensines alguma
-coisa de Deos, e acredita, que fixarei em minha memoria, e não
-esquecerei uma só palavra, e mui fielmente o referirei a minha gente e a
-meos filhos.
-
-«Tenho tres filhos, sendo o mais velho este que aqui vedes: quero que
-fiquem com os padres quando vierem, que se assentem á seos pés, e que
-escutem com cuidado o que elles disserem, e cumpram suas ordens.
-
-«Elles caçarão e pescarão para os padres.»
-
-Pelo interprete lhe disse ter elle razão, e que eu não podia recusal-a,
-e assim que attendesse bem ao que eu ia ensinar-lhe, e que chamasse
-para junto de si seo filho e seos companheiros, o que feito principiei
-a explicar-lhes o mysterio da creação e da redempção por meio de
-comparações ordinarias e palpaveis.
-
-É impossivel descrever-se a attenção e emoção, com que elle recebia estas
-agoas sagradas do Redemptor.
-
-Nunca animal algum foi tão avido e desejoso por uma fonte clara em pleno
-estio, do que este saboreando a nova doutrina.
-
-Prasa ao Ceos, sem fazer comparação alguma, que os christãos acolhessem a
-palavra de Deos com tanta avidez.
-
-Tinha as espaduas curvadas, em quanto fallei, os olhos meio baixos,
-e apenas como que a furto respirava e cuspia, e n’essa occasião era
-possivel presentir-se o caminhar de um rato.
-
-No fim disse-me—que grandes coisas! nunca ouvi fallar n’ellas e nem
-n’outras similhantes, porque Deos não quiz fallar comnosco, e nem com os
-nossos antepassados, e nenhum _Caraiba_ ainda nos entreteve contando-as.
-
-Acabas de dizer-me que Deos está em toda a parte, que não póde ser visto,
-mas vê tudo e nos ouve, acompanhando-nos por toda a parte, e sempre
-adiante: que somente os baptisados podem sentil-o e reconhecel-o, que não
-tem corpo como nós, mas sim é um espirito derramado por todo o universo.
-
-Ouvi bem, mas difficilmente comprehendo, porque não estamos costumados
-a ouvir tão grandes coisas, e sim temos inclinação natural para
-pescar, caçar, flechar e fazer muitos exercicios. Em quanto aos mais
-entregamo-nos aos nossos feiticeiros, dotados de animo mais subtil para
-conversarem com os espiritos.
-
-Disseste-me ser Deos como o ar que respiramos constantemente, pois sem
-elle morreriamos: que _Tupan_ nos dava vida e respiração, entrava em nós
-e nos cercava por toda a parte como o ar: que assim como o ar existe e
-vae por toda a parte, assim tambem Deos entrava e existia em todo o lugar.
-
-Entendo bem este ponto, pois si Deos fez o ar, necessariamente é mais do
-que elle.
-
-Estou muito satisfeito por me dizeres, que _Jeropary_ apenas era criado
-ou servo de _Tupan_, que é perseguido pelos espiritos bons, quando faz ou
-persegue algum homem ou mulher sem licença de Deos, e que finalmente não
-tem poder sobre os baptisados.
-
-Bem fez Deos, porque _Jeropary_ é mau, e eu bem desejaria que elle fosse
-açoitado até morrer pelos bons Espiritos.
-
-Apenas eu fôr christão, si elle aproximar-se de minha aldeia, irei
-atrevidamente ao seo encontro, e não terei medo algum.—
-
-Desculpae as expressões d’este selvagem, não christão.
-
-Escutae o resto da sua conversação.
-
-—Era necessario, que a moça, com quem Deos se casou, fosse muito bonita,
-riquissima, e a mais poderosa do seo paiz, por ser _Tupan_ o maior de
-todos os _Muruuichaues_: creio que seo filho tinha grande sequito e muito
-acompanhamento; porem os malvados traidores, que o mataram, eram velhacos
-e cautellosos porque o fizeram occultamente pois si sua gente soubesse o
-teriam defendido.
-
-Parece-me que ficariam bem admirados quando o viram sahir vivo de sua
-sepultura: devia então vingar-se dos que o fizeram morrer, mas tu me
-disseste uma coisa admiravel, isto é, que elle subio para o Ceo, somente
-em corpo e alma, que está sentado acima do sól, que tem olhos mais
-claros que o sól e a lua, que nada se faz na terra, que elle não veja
-e observe tanto na tua patria como na nossa, ouvindo distinctamente as
-nossas palavras, as vossas preces nas Igrejas, escutando-as, e vindo
-todos os dias sobre os vossos altares, onde com elle fallaes, bem como
-todos os _Caraibas_ com liberdade, até sem abrir a bocca, não deixando de
-perceber o que dizeis em vosso coração.
-
-Disseste tambem, que foi elle quem vos mandou para cá afim de ensinar-nos
-estas coisas, a meo vêr muito bellas, e não me enfadarei de ouvil-as,
-porem o barco está prompto para regressar, e estão á minha espera minhas
-roças, que deixei boas para a colheita.
-
-Tudo isto obriga-me a partir, alem de não ter trazido farinha commigo.—
-
-Respondi-lhe, que si era só por falta de farinha, que elle se via
-constrangido a partir, que eu tinha alguma á sua disposição e de seos
-companheiros.
-
-Agradeceo-me a seo modo, despedimos-nos reciprocamente, e elle partio.
-
-
-
-
-CAPITULO XXI
-
-Conferencia com o Onda, um dos Principaes de Commã.
-
-
-Este Principal sempre foi o pae commum dos francezes em _Commã_
-honrando-os, respeitando-os, e defendendo-os contra todas as más
-indisposições suscitadas, como era costume, pelos malvados e libertinos,
-a ponto de ser por elles aborrecido e ameaçado de ser espancado senão
-morto a não ser o receio, que tinham dos francezes.
-
-Quando foi nossa gente ao Pará, elle a acolheu com toda a bondade e
-generosidade, ambicionando ser o _chetuasap_ ordinario do chefe dos
-francezes, consistindo toda a sua fortuna e felicidade em ser amado e
-apreciado pelos francezes.
-
-Tinha um filho com 20 annos d’idade, que recommendou muito ao Sr. de la
-Ravardiere e a todos nós, pedindo que o acolhessemos bem, não exigindo
-outra recompensa de sua fiel amisade senão a de poder seo filho viver
-entre os francezes, n’uma palavra—ser francez.
-
-N’essa occasião tinha recommendado á seo filho, que se esforçasse o mais,
-que podesse, para aprender a lingua francesa, e para o conseguir com mais
-facilidade ordenou-lhe que frequentasse os francezes quanto podesse,
-estando sempre entre os residentes em _Commã_, e de tal fórma se houve,
-que aprendeo algumas palavras de nossa lingua.
-
-Pensou este bom homem ter obtido todas as riquezas do mundo, quando vio
-seo filho balbuciar vinte ou trinta palavras francezas, e julgou ser
-tempo de trazer este grande doutor aos _pays_, isto é, aos padres para
-ser baptisado, e depois ser _Caraiba_, «francez.»
-
-Tereis sem duvida notado, tanto por este discurso, como por muitos outros
-precedentes e subsequentes, que os selvagens julgavam necessario ser
-primeiro baptisado para depois ser francez, sendo manifesta loucura o
-pensar em contrario e na verdade não se enganavam.
-
-O verdadeiro francez é mais francez pela piedade e religião do que pela
-origem, visto que Deos o felicitou fazendo-o vassallo e subdito de um
-rei christianissimo, primeiro filho da igreja, e sempre seo fidelissimo
-protector, como demonstrou em todo o tempo e em todas as occasiões.
-
-Si dermos credito a Santo Agostinho, no Tratado do Ante-Christo, é elle,
-que deve resistir a este Ante-Christo, como se vê em mais de um lugar.
-
-Voltemos ao nosso homem.
-
-Trouxe seo filho com muito respeito, e assentando-se n’uma rêde, e
-o rapaz perto d’elle, desculpou-se de não ter vindo logo vêr-nos e
-visitar-nos, assegurando porem ser um dos nossos melhores amigos, que
-desejava ter padres com elle na sua aldeia, que os acolheria muito bem,
-que nada lhes faltaria para a vida, nem javalis, veados, e outros bichos
-proprios á esse fim.
-
-É por esta fórma que todos se desculpam.
-
-Depois d’isto, assim fallou-me:
-
-«Sou homem de idade, como vedes, porem tenho muita força, e espero vêr
-este meo filho, que aqui te trago, bom _Caraiba_, como me prometteo
-o Grande, que sympathisa com elle, quer vestil-o e tel-o aqui com os
-francezes.
-
-Eis porque venho pedir-te para laval-o com agoa de _Tupan_: assevero-te,
-que elle sabe tudo quanto é preciso saber, e breve o ouvirás porque tive
-o cuidado que elle fallasse com os francezes, e todos me dizem que elle
-entende muito.
-
-É bom rapaz e amigo dos francezes.»
-
-Dizendo isto, fez signal a seo filho para aproximar-se, e ordenou-lhe que
-contasse tudo quanto sabia de francez.
-
-Só com muito custo podia conter o riso, e nem si quer me era permittido
-usar do interprete que ria-se a bom rir, de tal simplicidade; comtudo,
-eu o tranquilisei pedindo-lhe desculpa pelas travessuras de um pequeno
-papagaio, que eu tinha, a fim de não pensar que era elle o provocador do
-riso.
-
-O rapaz recitou-me a doutrina, que seo pae julgava bastante para receber
-o baptismo, e o fez d’esta maneira: _bom dia, senhor, como estaes: Bem,
-senhor, prompto ao vosso serviço, quereis comer, sim: pão, peixe, carne,
-minha cabeça, eo chapeo, meo gibão, meo borzeguim, minha camisa_[BF]
-
-Não pude ouvir mais com receio de arrebentar de riso.
-
-Disse-lhe ser bastante, que só por isto eu fazia ideia d’elle não ter
-perdido seo tempo.
-
-O bom homem pressuroso interrompeo-me dizendo ter ainda que dizer-me.
-
-Levantou-se do seo logar, tomou todos os utencilios do meo quarto, e
-mostrando-me um apoz outro disse-me, que elle de tudo sabia o nome em
-francez.
-
-Aproximando-se de minha mesa, e agarrando-a com duas mãos, dizia—elle
-ainda sabe o nome d’isto em francez.
-
-Dirigio-se a seu filho, e perguntou-lhe se era verdade o que dizia. Sim,
-respondeo-lhe o moço, e ainda mais, pois chamaria pelo nome tal e tal
-francez, bem como tambem sabia a denominação das armas: _Um arcabuz, que
-faz puf, uma espada, um canhão, que faz pataú_.
-
-Mas, disse-lhe o pae, bem depressa saberás o resto?
-
-Sim.
-
-Muito bem, replicou o pae, não deixes de vir todos os dias recitar tua
-lição diante do padre.
-
-Deixando-lhe toda a liberdade de fallar afim d’eu poder conter o riso, e
-d’elle dar expansão ao seo fervor, que não era isto, que eu exigia para
-conferir-lhe o baptismo, e sim o conhecimento de Deos e de outras coisas
-dependentes da nossa religião.
-
-Ficou admirado de ouvir-me, reconhecendo inutil a estima que elle tinha
-de vêr seo filho, grande doutor, e parecendo não entender até o que eu
-lhe dizia.
-
-Pelo interprete expliquei-lhe o meu pensamento, e elle respondeo-me não
-ter ouvido ainda fallar n’isso, mas que como seo filho era intelligente
-cedo aprenderia bastando-lhe apenas uma lua, para o que deixava seo filho
-no Forte de Sam Luiz.
-
-Disse-lhe que elle fazia muito, que eu o trataria o melhor que me fosse
-possivel, e sempre seria bem acolhido entre os francezes.
-
-Mas, disse eu, porque não procuras para ti o bem, que desejas a teo filho?
-
-Ah! respondeo-me, sou muito velho: nada mais poderei aprender, como esses
-rapazes, que vão ser _Caraibas_.
-
-Como, repliquei, antes queres ir com os diabos queimar-te no inferno, do
-que esforçar-te para aprenderes a sciencia de Deos? Tua velhice não é
-desculpa aproveitavel.
-
-Tens eloquencia para fallar um dia inteiro, si quizeres. Calcula ha
-quanto tempo fallas, e quantas palavras tens proferido.
-
-Não precisas aprender a quinta parte das questões, que me tens proposto,
-afim de seres christão; nas palavras de tua lingua, pelas quaes
-comprehendemos os objectos expressados na nossa linguagem.
-
-Aprendeis com muita facilidade cantigas e descantes, tão compridos sobre
-feitos de vossos antepassados.
-
-Poderás assim aprender facilmente o que queres, que saiba teo filho.
-
-Pois bem, me disse elle, vou fazel-o.
-
-Voltando-se para o filho, recommendou-lhe que escutasse bem tudo quanto
-lhe ensinassem, que não perdesse uma só palavra, e que imitasse todas as
-acções dos francezes, que viria depois buscal-o para a terra d’elle afim
-de ensinar-lhe o que tivesse aprendido.
-
-Serás bem recebido, todos farão caso de ti, e se reunirão para te ouvir
-contar tão boas coisas. Depois viremos procurar os padres para nos
-baptisarem.
-
-Assim fallando, olhou-me a sorrir-se.
-
-Muito bem, disse elle: Padre, não beberemos bom vinho de França? ou
-_Cauin_, que queima, isto é, aguardente?
-
-Não terás d’ella alguma garrafa na tua frasqueira? Dá-me as chaves d’ella.
-
-O _Muruuichaue_ me deo em sua casa um pouco, e era muito boa e muito
-forte: esfregando seo estomago com a mão, dizia-me, olha, ainda sinto
-ella aquecer-me.
-
-É costume da França tirar da frasqueira a garrafa quando se recebe
-visitas de amigos.
-
-Tenho desejos de vir muitas vezes a _Yuiret_, quando chegam navios de
-França para gozar do seo vinho muito melhor do que o nosso.
-
-Vendo finalmente a simplicidade d’este homem, que foi o primeiro a
-rir-se, e não tratando nós mais das coisas de Deos, foi-me necessario
-rir tambem, dar-lhe agoardente, e depois de ter bebido um bom copo, pelo
-interprete notou não ter eu bebido com elle, que convinha fazel-o, e que
-depois elle me acompanharia.
-
-Assim o fiz para chamar estes homens ao seio de Deos, tel-os como que
-obrigados ou agradecidos a nós em tudo quanto podessemos, conforme sua
-naturesa, quando n’isto não ha offensa á Deos.
-
-Depois de achar-se um pouco enthusiasmado com o segundo copo começou a
-pronunciar gutturalmente estas palavras—_Goy y katu de katogne kauin
-tata_, «oh! quanto é bom, muito bom o vinho de fogo, ou o vinho que arde.»
-
-Como mau agouro ouvi a palavra _Goy_, que é o começo para beber-se muito,
-e principiei a cogitar na maneira por que havia de fechar a garrafa,
-visto não haver necessidade de tal despesa, então grande pela sua falta.
-
-Disse ao meu interprete, que a levasse, e este querendo cumprir a minha
-determinação, o meo selvagem agarrou a dizendo não ser costume dos
-francezes guardarem as garrafas, tiradas da frasqueira para a meza e que
-por muitas vezes se tinha achado entre elles.
-
-Reconheci que era necessario resgatar a minha prisioneira, embora ella
-nada me ficasse a devêr pela sua boa composição.
-
-Disse-lhe, que _cauiu-tata_ não era similhante ao que tinha bebido
-antigamente, que perturbava a cabeça de quem o bebesse muito, que eu
-devia cuidar do seo corpo e de sua saude, mas que eu ainda lhe daria um
-copinho para dizer-lhe adeos, e assim foi-se satisfeito.
-
-Veio visitar-me no dia seguinte. Prevenindo-me e indo ao encontro dos
-seos desejos mostrei-lhe uma garrafa quebrada, igual a do dia antecedente
-fingindo estar muito triste pela agoardente que se tinha derramado e
-perdido: mostrou-me igual sentimento, e batendo na coxa me disse—Aqui
-está, si tivesses permittido, nós a tinhamos bebido, e nada teria
-acontecido.
-
-o...
-
- * * * * *
-
-_Faltam as ultimas folhas d’esta narração no exemplar unico da edicção
-original, existente na Bibliotheca Imperial de Pariz._ (Vide o Prefacio.)
-
-_Suppre-se de alguma forma esta falta, bem sensivel, publicando-se no fim
-da obra, curiosissimas cartas, por longo tempo esquecidas._
-
-
-NOTAS
-
-[BC] Por falta de typos proprios deixamos em claro este espaço.—Do
-traductor.
-
-[BD] Quarta parte de um soldo de França.—Do traductor.
-
-[BE] Gurupy.—Do traductor.
-
-[BF] Em francez muito mal escripto estão estas palavras, é impossivel
-traduzil-as com taes erros.—Do traductor.
-
-
-
-
-ADDENDUM.
-
-
-Congratulação á França pela chegada dos Padres Capuchinhos á nova India
-da America Meridional do Brazil.
-
-Grande reino, e povo francez, tens razão de louvar a Deos:
-Christianissimo Reinado, de dia para dia crescem tuas alegrias, dando
-sempre de ti boas novidades: sól dos reinos, flor dos povos do Universo,
-és notavel por todas as maneiras.
-
-Por tua antiguidade na fé catholica, religião christã, devoção aos
-altares divinos, e fervor em ouvir a palavra de Deos.
-
-Pelo amor e dedicação a teo Principe natural, por tua honesta
-sinceridade, ou sincera franqueza, na conversação, qualidades, que
-nenhuma outra nação possue como tu.
-
-Esplendido, magnifico, e magnanimo reino sobre todos os reinos da terra.
-
-Pela magestade da tua corôa, a bella e antiga serie de teos monarchas
-até o numero de sessenta e quatro Reis, dos quaes foram uns Imperadores,
-outros Santos canonisados no Ceo: e tambem pelo valor e proezas na
-guerra, praticada por tua gente valerosa, liberal nobresa de gravata
-branca como leite.
-
-Pela sapiencia de tuas universidades em todas as especies de sciencias
-e faculdades, pela amplidão de teos magistrados, pela prudencia de teos
-respeitaveis parlamentos, pela serenidade de teos conselhos, e pelas
-bellas leis de tua politica.
-
-Que digo eu?
-
-Povo sabio, intelligente, grande nação, illustre reino, ceo estrellado de
-tão bellos espiritos delicados, parabens: és na verdade maravilhosamente
-illustre!
-
-Pela multidão de tantos prelados veneraveis, grandes bispos, ricos
-abbades, e chefes de ordens.
-
-Pelo crescido numero de tantos homens santos, notaveis pela bondade,
-famosos pela sciencia, e nobres pela progenie, illustres pelos milagres
-que hão florescido e brilhado dentro e fora dos teos mosteiros.
-
-Pela tua posição entre dois grandes mares, onde por meio de teos dois
-braços exerces piedade e justiça em villas tão grandes e bellas, ricas,
-afamadas e populosas, n’um paiz tão abundante, e em provincias tão amplas
-e copiosas, e em tão grande numero.
-
-O que te falta para chegares ao cumulo de tua felicidade?
-
-O que pode accrescentar-se ao ramalhete de teos louvores, á grinalda de
-tuas honras, á corôa de tuas glorias, tecida em ternario, symbolisado
-pelos teos tres lyzes, em campo de oiro, a não ser que hoje enriquecido
-pelo Rei Luiz, o rei dos lyzes, alcances, sob sua authoridade, o cheiro
-de Jesus no Ceo, e ao longe a salvação dos povos selvagens mergulhados
-em trevas, e nas sombras da morte d’infidelidade, de incivilidade, e de
-barbaridade.
-
-Foste por Deos escolhido para tão grande honra, satisfação e alegria para
-levar ahi, o suave nome do Redemptor, estabelecer o imperial sceptro
-de sua cruz triumphante, signal sagrado, signal do Filho do Homem, e
-estandarte do grande rei dos reis, sob o qual se devem reunir todos
-os povos, que se desejam salvar, e então ahi semear a boa nova do seo
-Evangelho, salvador dos crentes.
-
-Outr’ora até o occidente buscando para o meio-dia pelo grande Carlos
-Magno, com a sua espada de ferro, mostraste o teu valor contra os
-serracenos, importunos á Hespanha.
-
-Até ao oriente pelo grande São Luiz, uma, duas vezes, fizeste sentir
-á impiedade turca, a força de teo braço, e erguido na Palestina, esse
-bello estandarte da Santa Cruz por um duque de Boillon, por um duque de
-Mercœur, e um duque de Nevers.
-
-Tremeram ao ouvir o nome da França, tão fatal a elles, a quem mostraste
-tua coragem com o cutello na mão.
-
-Mas agora—_Nova bella eligit Dominus, Clypeus, et hasta si apparuerint_,
-novas guerras, conquistas impertinentes, escudos e lanças, ahi se verão?
-Nada d’isto, e sim a Cruz de Jesus, o altar do grande rei, exercitos com
-seu augustissimo Missah, espada de Deos e de Gedeon, d’aquelle que é Deos
-e homem ao mesmo tempo, agoa benta para expellir os diabos, a conquista
-dos corações antropophagos ou comedores de homens pelo meio simples da
-palavra de Deos, que fará despil-os de crueldade, e de então em diante
-amarem o proximo como a si mesmo, abandonarem a imprudencia e o impudor,
-revestirem-se com o branco da innocencia e da honestidade: oh! quanta
-brutalidade adquirirá o uso da razão, e tu, ó França, foste escolhida
-para fazer tal guerra? Em tua consciencia, dize-me, não é esta uma
-guerra, com sceptro de liz, de rosas e de flores?
-
-Quem ouvio jamais coisas similhantes nas batalhas do mundo? porem estas
-são guerras do amantissimo Jesus.
-
-Nada mais te falta agora depois dos teos combates de outras eras, senão
-o alegrar-te de plantar a fé e a lei entre gente de ferozes costumes, e
-de barbaros feitos, porem mui facil em supportar o jugo do teu humano
-concurso, o que não tem podido conseguir o soberbo ou rustico portuguez.
-
-Regosija-te pois, principe dos lyzes, por ser a tua maior gloria o
-servir ao grande Rei do Ceo e da terra, de legado e de embaixada de suas
-maravilhas e grandezas em ilhas remotas, e em partes longinquas da Região
-Austral.
-
-Esta sabia Princesa christianissima, muito catholica, e de magnanima
-coragem, qual outra Judith, nossa grande rainha, a Regente nossa senhora
-fez esta exigencia por cartas dirigidas aos Reverendissimos Padres
-Superiores dos Capuchinhos da provincia de França, e de Pariz, seos
-humildes servos.
-
-Reuniram-se em capitulo para conceder ao Sr. de Rasily,
-loco-tenente-general de Sua Magestade n’aquellas terras tão remotas um
-certo numero de religiosos, que deviam ser consagrados á uma empresa tão
-sancta como perigosa.
-
-Sendo este desejo acolhido livremente, em lugar de quatro, que hoje lá se
-acham como exploradores da terra, todos quatro sacerdotes e prégadores,
-o padre Ivo d’Evreux, o padre Claudio d’Abbeville, o padre Ambrosio de
-Amiens, o padre Arsenio de Paris, todos em numero de cincoenta e quatro,
-presentes ao capitulo, se inscreveram e offereceram-se cordialmente para
-arriscar sua vida, tão nobremente, afim de salvar esses pobres pagés,
-esses pobres selvagens, esses infelizes atormentados pela tempestade do
-diabo sem consolador e sem pae.
-
-Ainda agora, para maior gloria do Salvador, foi a narração augmentada por
-tres pares de cartas, mais recentes do que as precedentes. Narram ellas
-a sua partida, a sua navegação, ora calma, ora tempestuosa, a sua feliz
-chegada, e tantos beneficios, que Sua Magestade, por intermedio d’elles,
-tem já feito, e com taes particularidades, como nunca se vio impresso.
-
-Lêde pois.
-
-Mas antes d’isto, para que o Deista, o Censor mundano, e o zombador
-heretico não se ria de projectos tão honrosos, vindos do Ceo, convem
-saber-se, que ha longo tempo fôra tudo isto prophetisado por santos
-inspirados pelo Espirito Santo.
-
-Disse o Propheta Isaias—_propter hoc in doctrinis glorificate Dominum,
-in insulis maris nomen Domini Dei Israel_: pelo que eu fizer no meio da
-terra glorificae o Senhor por doutrinas, pregae essas doutrinas por todas
-as ilhas do mar, annunciae, e glorificae o nome do Senhor, Deos d’Israel.
-
-Alem d’isso, eis meo Salvador, eu o unirei a mim, meo escolhido, minha
-alma n’elle se completa e elle dará juiso aos gentios etc. etc.
-
-E as ilhas esperaram attentas a lei, e eu t’a daria em alliança do povo
-como luz aos gentios afim de abrires os olhos aos cegos, e tirares os
-prisioneiros dos calabouços, das prisões e das densas trevas.
-
-Louvae ao Senhor por meio de canticos por toda a terra, mares, ilhas,
-e seos habitantes—_ponent Domino gloriam et laudem ejus in insulis
-numciabunt_: glorificarão ao Senhor e o louvarão nas ilhas.
-
-Prophetisa o mesmo, que ellas receberão sua lei: meo Justo está perto,
-sahio meo Salvador (Deos é o Pae) meos braços julgarão os povos, as ilhas
-me esperarão e sustentarão meo braço, isto é, receberão meo filho.
-
-N’outro lugar fallando á sua igreja, que é a Romana (n’outra taes factos
-nunca appareceram) diz—por que as ilhas me esperam, e no começo os navios
-do mar, para que eu conduza teos filhos de bem longe.
-
-No Capitulo 66 Deos disse pelo mesmo Propheta:
-
-«Porei n’elles o signal, mandarei os que ja se salvaram aos gentios no
-mar, na Africa, em Lidia que atiram a flecha, á Italia, a Grecia e as
-ilhas longinquas, aos que não ouvirão fallar de mim e não presenciarão
-minha gloria, e elles annunciarão minha gloria aos gentios, e os
-conduzirão como dadiva ou offerenda ao Senhor, ricos presentes e perolas
-preciosas a Deos.»
-
-O propheta Sophonias:
-
-«Os homens illustres o adorarão em qualquer parte e em todas as ilhas dos
-gentios.»
-
-O grande inspirador dos Prophetas por seo Espirito, Jesus Christo tambem
-disse e prophetisou taes coisas.
-
-E este Evangelho do Reino será prégado pelo Universo, como testemunho a
-todos os gentios, e então virá a consummação do Mundo.
-
-Nós outros catholicos devemos sentir grande alegria vendo cumprir-se
-todos os dias a palavra de Deos tão fielmente, não por meio de uma
-Assembléa reunida com tal fim, e sim pela Santa Igreja Romana, e deve em
-particular este grande reino agradecer a Deos por d’elle servir-se para
-levar tão longe a gloria dos seos tropheos.
-
-O seguinte trecho vos convencerá d’esta verdade, extrahida de quatro
-cartas, que d’aquelle paiz escreveo o Padre Arsenio, um dos quatro, a
-saber, uma ao Revd. Padre Commissario Provincial, uma ao Revd. Padre
-Custodio da custodia de Pariz, uma ao Revd. Padre Vigario de Pariz, e
-uma a seo irmão, todas datadas em 27 de Agosto, e dizendo mais que a
-sua quarta carta de 20. Outra carta do Revd. Padre Claudio a seos dois
-irmãos, o Sr. Foulon, e o Padre Marçal,[110] e uma para dois Padres já
-mencionados, escripta ao Sr. Fermanet, e para vos ser agradavel e não
-repetir as mesmas, foi tudo reunido n’uma só carta, como vereis, mui
-fielmente, e com suas proprias palavras.
-
-Lêde em nome de Deos.
-
-
-_Fidelissima narração, extrahida de seis pares de cartas dos Revds.
-Padres Claudio d’Abbeville e Arsenio, Prégadores Capuchinhos, escriptas
-aos Padres da sua Ordem de Pariz, e a outras pessoas do seculo, sendo
-quatro do Revd. Padre Arsenio, uma do Padre Claudio, e uma para duas
-pessoas._
-
-_Meos Reverendos e carissimos Padres._—A paz do Senhor seja comvosco.
-Nós vos dirigimos esta pequena carta para dar-vos noticias acerca da
-nossa viagem, e como chegamos, mercê de Deos, felizmente a esta terra do
-Brazil na Ilha do Maranhão, entre os povos _Tupinambás_, não sem grandes
-fadigas.
-
-Cinco mezes estivemos no mar soffrendo encommodos, que só podem avaliar
-os que por elles já passaram, e como o Sr. de Rasilly, por estes dois
-ou tres mezes, regressa á França afim de trazer-nos novos auxilios,
-reservamos-nos para n’essa occasião descrevermos mais amplamente o
-resultado da nossa viagem, tanto no mar como em terra, n’este novo Mundo.
-
-Aproveitamos agora a occasião para dizer-vos e muito ás pressas, que
-para aqui chegarmos foi necessario partir de Caucale, porto da Bretanha,
-e já estando d’elle distante dusentas legoas do mar levantou-se grande
-tempestade, que separou os nossos tres navios, uns dos outros, causando
-admiração, até mesmo aos nossos melhores pilotos, o não ter algum d’elles
-naufragado.
-
-Quiz Deos porem livrar-nos d’esta desgraça, e encontramos dois de nossos
-navios, arribados em Inglaterra, d’onde vos escrevemos, e creio que já
-estareis de posse das nossas cartas.
-
-Na segunda-feira de Paschoa partimos de Plymouth,[111] na Inglaterra, e
-navegamos sempre com bom tempo, menos alguns dias na costa de Guiné, mui
-perigosa pelas molestias do paiz.
-
-Sahindo de Plymouth auxiliou-nos vento tão favoravel, que em pouco tempo
-passamos as Ilhas Canarias, por entre as ilhas _Boa Ventura_ e _Canaria
-grande_, vistas por nós perfeitamente.
-
-Das Canarias ganhamos a Costa d’Africa no Cabo do Bajador, sempre
-navegando pela Barbaria: de Bajador desviamos-nos da Costa d’Africa até
-o rio chamado _Lore_ pelos hespanhoes,[112] e perto d’elle fundeamos:
-sahindo d’ahi ainda nos desviamos da Costa d’Africa até o Cabo branco,
-lugar bem debaixo do tropico de Cancer.
-
-D’este Cabo procuramos a Costa de Guiné, passando entre as ilhas do
-Cabo verde, o proprio Cabo verde lugar perigosissimo pelas molestias
-contagiosas, ahi reinantes em certas estações do anno: esta molestia
-ataca as gengivas de tal sorte, que a carne cobre os dentes, e os faz
-cahir com grande perda de sangue a ponto de não se poder estancar,
-sobrevindo tambem os encommodos de estomago e inchação, e d’isto tudo
-resulta a morte escapando poucos: mercê de Deos ninguem morreo durante
-a nossa viagem, porem apenas entramos na terra, falleceram tres, e ahi
-ficaram sepultados.
-
-De Guiné viemos-nos aproximando da linha equinoccial, que passamos bem
-difficilmente, coisa ja por nós esperada á vista da estação em que
-estavamos.
-
-Soprou vento contrario por quinze dias causando-nos grandes sustos, e
-receios de que não apparecessem calmarias antes de passarmos a linha:
-graças a Deos, pouco a pouco, embora o vento contrario, tanto bordo
-demos, que quando mal pensamos, estavamos no hemispherio do meio dia.
-
-Passando a linha, avistamos e afinal chegamos a uma pequena ilha chamada
-Fernando de la Roque,[113] situada a quatro graus de altura para o
-meio dia, e a cinco para seis legoas de circumferencia, ilha bella e
-agradavel, cujas propriedades, querendo Deos, havemos de descrever na
-primeira opportunidade: é na verdade um verdadeiro paraisosinho terreste.
-
-Saltamos n’esta ilha, onde apenas achamos 17 ou 18 indios selvagens, em
-companhia de um portuguez, todos escravos e ahi postos por determinação
-da gente de Pernambuco: d’estes indios baptisamos cinco.
-
-Depois de havermos plantado a Cruz n’esta ilha, no centro de uma capella,
-feita por nós para celebração da santa missa, e de abençoado o logar onde
-residimos por 15 dias, casamos dois destes selvagens, um indio com uma
-india, depois de baptisados.
-
-Não quizemos baptisar o resto aqui, porem achamos bom addiar o baptismo
-até chegarmos ao lugar do nosso destino, si bem que libertassemos todos
-esses selvagens tirando-os do captiveiro, e fazendo-os livres com muita
-satisfação d’elles, depois do que manifestaram ardente desejo de nos
-acompanharem até Maranhão, como de facto aconteceo.
-
-Vieram comnosco trazendo muito algodão, e outros generos, que possuiam.
-
-De Fernando de la Roque ganhamos a Costa do Brasil, caminhando até o
-_cabo da tartaruga_, terra firme no paiz dos _canibaes_, onde, diz
-Euzebio, na sua _Historia_, passara o Apostolo Sam Matheus á vista d’esta
-Costa do Brasil: imaginae a nossa alegria vendo terras tão desejadas após
-cinco mezes de navegação.
-
-Depois de 15 dias de demora no _cabo das tartarugas_, continuamos a
-navegar, e chegamos á ilha do Maranhão, onde fundeamos no dia da gloriosa
-Santa Anna, Mãe da Sagrada Virgem Maria, com que muito me alegrei,
-(disse o padre Claudio) por termos tido n’esse dia, que eu tanto amo, a
-felicidade de chegarmos ao lugar tão desejado.
-
-No domingo seguinte saltamos todos em terra, levando agoa benta, cantando
-o _Te-Deum laudamus_, o _Veni Creator_, a ladainha de Nossa Senhora, e
-depois caminhamos em procissão desde o porto atê ao lugar escolhido para
-levantar se uma Cruz, a qual foi carregada pelo Sr. de Rasilly e todos os
-Principaes da nossa Companhia.
-
-Depois de benzida esta ilha, até então _Ilhasinha_, foi pelos Srs. de
-Rasilly e la Ravardière chamada _Ilha de Santa Anna_, não só por termos
-ahi chegado n’esse dia, como tambem porque chamava-se Anna a Condessa de
-Soissons, parenta do Sr. de Rasilly.[114]
-
-Depois plantamos a Cruz: ao pé d’ella, estando todo o largo abençoado,
-enterramos um pobre homem, tanoeiro, que vinha comnosco.
-
-Fêz-se tudo isto com geral contentamento e demoramo-nos ahi oito dias.
-
-Deixamos esta pequena ilha e fomos procurar a ilha grande do Maranhão,
-habitada por selvagens (que são as pedras preciosas que cobiçamos) e
-graças a Deos chegamos bons e bem dispostos.
-
-Vestidos com os nossos habitos de sarja fina por causa do calor da zona
-tórrida e revestidos de uma bonita sobrepelliz branca, empunhando nossos
-bastões, e em cima de tudo a Cruz com o Crucificado, descemos do navio
-para uma canôa, especie de batel construido pelos indios de um só tronco
-de pau, onde estavam todos os selvagens, que ja tinham estado na praia
-com o Sr. de Rasilly, e muitos francezes ja dos que vieram comnosco e
-ja dos pertencentes á equipagem do Sr. de Manoir, e do Capitão Geraldo,
-todos francezes, que aqui achamos: muitos d’estes selvagens atiraram-se
-ao mar e nadaram afim de chegarem primeiro do que nós.
-
-Assim conduzidos saltamos em terra, onde se ajoelhou o Sr. de Rasilly
-e todos os francezes para nos receberem (honra não commum) e como nos
-achassemos embaraçados com tal sorpresa, eu tive (disse o padre Claudio)
-a feliz lembrança de entoar o _Te-Deum laudamus_ conforme o cantico da
-igreja, e assim caminhamos em procissão entre lagrymas de alegria de
-muitos francezes, e seguidos pelos indios.
-
-Assim tomamos posse d’esta terra e novo mundo para Jesus Christo, e em
-seo nome, esperando abençôar o lugar, e n’elle plantar a Cruz em qualquer
-dia para isso designado.
-
-Deixo as outras particularidades para contar-vos quando escrever mais de
-espaço sobre esta nossa viagem.
-
-Somente vos digo que no domingo 12 de agosto, dia de Santa Clara,
-celebramos todos quatro as primeiras missas, que aqui se disseram.
-
-Com bem razão ordenou Deos que o dia de uma Santa Virgem da nossa Ordem,
-que deo nova luz ao mundo, fosse escolhido para fazer brilhar a nova luz
-do seo Evangelho n’este novo mundo.
-
-Não é possivel descrever-vos o grande contentamento, que mostraram estes
-pobres selvagens com a nossa vinda.
-
-É um povo conquistado e ganhado, povo grande, que na verdade nos ama, e
-nos dedica affeição, e chama-nos grandes prophetas de Deos e de Tupan, e
-em sua linguagem padres Carribain, Matarata.[115]
-
-Depois que aqui chegamos temos tido muito boas noticias.
-
-Os indios do Pará, outro povo, de um lado visinho do Amazonas, e do outro
-d’este povo, onde existem somente cem mil homens, desejam muito que lá
-vamos instruil-os.
-
-Embora _messis multa, operarii autem pauci_ «seja grande a colheita, são
-poucos os operarios.» Si quizessemos desde ja se baptisaria grande parte.
-
-É certo que «_regiones albescunt ad messem_,» estas regiões aqui
-enbranquecem mostrando a necessidade de ceifa, felizmente chegou o tempo
-de ser Deos aqui adorado e reconhecido.
-
-Agora estamos procurando lugar para nos acommodar e fazer uma Capella,
-até que cheguem de França pedreiros para edificarem uma Igreja.
-
-Existem muitas mattas virgens, que convem arrotear antes.
-
-Não posso descrever-vos agora o grande contentamento dos selvagens pela
-nossa chegada.
-
-Dão-nos boa esperança de se converterem. Todo este povo ainda que bruto e
-selvagem mostrou-se contente com a nossa chegada, tem vindo vêr-nos com
-muita alegria, manifestando grande desejo de instruir-se no christianismo.
-
-Creio que quando soubermos a lingua d’elles haverá muito que colher,
-com grande satisfação para os que tem zelo pelas coisas de Deos e pela
-salvação das almas.
-
-Preparam todos os seos filhos para nos trazerem afim de serem por nós
-instruidos, e ja nos prometteram não mais comer carne humana. São muito
-bonachãos, e não maliciosos. Por unica religião apenas creem em Deos, que
-chamam _Tupan_, e na immortalidade da alma.
-
-Quanto ao paiz é terra fertil e muito boa, onde não ha frio, e sim estio
-constante; ninguem conhece o que é frio, e as arvores estão sempre
-verdes.
-
-Os dias e as noites são sempre do mesmo tamanho: nasce o sol as 6 horas
-da manhã e encerra-se as 6 da tarde.
-
-Estamos apenas a dois graos e meio da linha equinoccial ou do Equador.
-
-É voz geral haver n’este paiz muitas riquezas, como sejam minas de
-oiro, de pedras preciosas, de perolas, de ambar-gris, alem de muitas
-pimenteiras, muito algodão, muita herva da rainha, ou petum, e muito
-assucar.
-
-Brevemente, quando nos estabelecermos bem, nós vos asseguramos ser isto
-aqui um pequeno paraiso terreste, com todas as commodidades e alegrias.
-
-Não posso ir mais longe: fica o resto para quando fôr o Sr. de Rasilly, e
-então hei-de dizer-vos outras coisas em particular.
-
-Quanto a minha saude nunca passei tão bem como agora, graças a Deos e só
-bebendo agoa, (palavras do padre Claudio.)
-
-Si na França me fosse preciso fazer a millesima parte do que aqui faço,
-mil vezes teria morrido, e n’isto reconheço, que _non in solo pane vivit
-homo_, «o homem não vive só de pão.»
-
-Convem que para cá venham os delicados de França.
-
-Louvo a Deos por nunca ter enjoado, com grande admiração de todos.
-
-Quando chegamos no paiz dos calores, justamente quando estavamos sob o
-tropico de Cancer, quando o sol estava subindo, tive apenas dois ou tres
-pequenos accessos de febre passageira, graças a Deos.
-
-Deixo o mais para outra occasião, pois agora falta-nos tempo, e
-sobram-nos trabalhos.
-
-Rogae a Deos por nós, e pelos nossos companheiros, o mais que poderdes,
-pois agora, mais do que nunca necessitamos da graça de Deos, sem as quaes
-nada se consegue.
-
-O que n’este sentido fizerdes, Deos vos compensará.
-
-
-_Summario de algumas coisas mais particulares, referidas vocalmente aos
-Padres Capuchinhos de Pariz pelo Sr. de Manoir._
-
-O Sr. de Manoir,[116] (um dos capitães, de que se fallou na carta
-precedente, que fôra encontrado n’aquelle paiz com o capitão Geraldo)
-chegando ultimamente á França, e sendo portador da carta, ja transcripta
-e de muitas outras (algumas das quaes bem desejariamos aqui publicar para
-que não ficassem sepultadas no esquecimento as maravilhosas obras de
-Deos, de que ellas fallam, como que para despertarem os homens afim de
-louvarem a sabedoria, providencia, e bondade do Creador) contou muitas
-particularidades dos padres, não referidas em suas cartas.
-
-Disse, que os padres chegando ahi começaram a edificar sua morada,
-construindo uma Capella para celebração da missa, e algumas cellas
-pequenas para residencia, sendo coadjuvados por alguns selvagens com
-alguns pannos e ramos de arvores.
-
-N’um certo dia, quando um padre celebrava missa, chegou um selvagem dos
-mais velhos, (que elles consideram seos governadores, honrando-os e
-respeitando-os por causa da sua idade avançada) em companhia de trinta
-selvagens para ouvirem missa, o que fizeram, admirando com grande
-surpresa tão bellas ceremonias, e tão lindos ornatos, por elles nunca
-visto (pois que homens e mulheres andam todos nús.)
-
-Quando o sacerdote chegou á consagração e ao offertorio, desceo um véo
-entre elle e o povo, de forma que este não poude ver aquelle, e nem o que
-se fazia por detraz d’esse véo.
-
-Julgaram isto uma affronta e mostraram-se offendidos, e por isso, finda a
-missa, foram perguntar a causa de tal offensa.
-
-Responderam os padres que n’isto não havia offensa, e que assim se fez
-por serem elles ainda pagãos, não podendo ser a Missa celebrada em suas
-presenças embora estando na Igreja.
-
-Deram-se por satisfeitos e mostraram-se tranquillos, e foram contar o
-occorrido ás suas mulheres, que se mostraram desejosas de vêr os grandes
-Prophetas de Deos e de Tupan, e se reuniram em grande numero para tal fim.
-
-Não quizeram porem os padres abrir-lhes a porta de sua pequena choupana
-porque estavam núas, mas ellas não esperaram por segunda recusa e
-metteram a porta dentro, o que não lhes foi difficil praticar, entraram
-e não se cançaram de olhar e contemplar os Padres, embora se demorassem
-pouco tempo, por lhes pedirem os Padres que se retirassem, o que
-cumpriram.
-
-Depois desta visita, reuniram-se os velhos em grande numero e combinaram
-entre si qual devia ser o presente que offerecessem a esses Prophetas,
-como demonstração de sua benevolencia e regosijo pela sua chegada.
-
-Finalmente concordaram, visto dormirem os Padres no chão duro, que se
-désse a cada um o seo colchão de algodão, que ahi floresce, e uma das
-mais bellas raparigas, o maior presente que costumam fazer.
-
-Trouxeram quatro colchões e quatro raparigas, e offereceram aos Padres,
-que rindo-se aceitaram aquelles e recusaram estas com palavras de
-agradecimento.
-
-Admirados com tal procedimento, diziam uns aos outros. O que é isto?
-Estes Prophetas não são homens como nós? Porque não acceitam estas
-raparigas, sendo impossivel o passar um homem sem ellas? Porque nos fazem
-tal offensa?
-
-Responderam os Padres, que assim procediam, não por que reprovassem
-o casamento, quando conforme ás leis de Deos, visto que até elles o
-louvavam, mas como Deos havia outhorgado graças mui particulares a elles,
-e não aos outros homens, porque o serviam com mais perfeição, podiam
-passar sem mulheres por meio dessas graças.
-
-Ouvindo esta pobre gente taes palavras ficaram admirados e como que fóra
-de si, contemplando a santidade destes Prophetas, e d’ahi em diante os
-veneraram mais, julgando-se felizes quando lhes entregavam seos filhos
-para serem educados em nossa santa fé, e afinal baptisados.
-
-Tudo isto se poderá vêr na seguinte carta, escripta por esses Padres
-á um honrado mercador de Ruão chamado Fermanet, um dos seos maiores
-bemfeitores, para que se veja que nada acrescentamos, e que apenas
-narramos os factos pura e simplesmente colhidos n’essas cartas e em
-informações de pessoas fidedignas, testemunhas occulares, e por que
-n’ella se encontram particularidades não mencionados nos outros.
-
-Eil-a:
-
-
-_Carta escripta pelos Padres Capuchinhos ao Sr. Fermanet._
-
-A paz do Senhor Deos esteja comvosco.
-
-Depois de tantas recommendações, que nos fizestes quando partimos para
-vos escrever, seriamos culpados si não vos dessemos noticias de paiz tão
-bom, graças á Deos.
-
-Depois de 4 a 5 mezes de viagem ahi chegamos felizmente, sendo bem
-recebidos pelos Indios, conforme sua rusticidade, não nos importando
-o modo e sim a demonstração do seo contentamento então e ainda agora
-diariamente, trazendo-nos seos filhos para instruil-os o que faremos
-mediante a graça de Deos.
-
-Quando voltar o Sr. de Rasilly, por estes 2 ou 3 mezes, nós vos
-mandaremos o numero dos convertidos e dos baptisados.
-
-O paiz é muito bom, e ha esperança de produzir muito tabaco Petum, e
-Urucú, havendo ja muito assucar, bellas pedras, ambar-gris, e dizem-nos,
-que distante d’aqui 20 legoas ha uma mina de oiro.
-
-Si não fosse grande a nossa pressa, nós vos dariamos mais algumas
-noticias, porem não podemos alongar-nos.
-
-Beijando humildemente vossas mãos, e recommendando-nos á senhora vossa
-mulher, somos de vós e d’ella
-
- Vossos humillissimos servos em Nosso Senhor.
-
- Frei _Claudio d’Abbeville_.
- Frei _Arsenio de Pariz_.
-
-
-_Narração de um marinheiro, vindo do mesmo paiz, feita ao Revd. padre
-Guardião do Havre da Grace, e por este communicada ao Revd. padre
-Commissario._
-
-Revd. Padre, eu vos saúdo humildemente em Nosso Senhor.
-
-O fim d’esta é communicar-vos, que veio hoje procurar-me um marinheiro,
-que vio e fallou com os nossos Irmãos, que estão em Maranhão com os
-Tupinambás, onde felizmente chegaram no dia 8 de Julho.
-
-Este marinheiro ahi ouvio missa, e á ella assistio com muito respeito um
-velho selvagem do paiz, acompanhado por 25 ou 30 indios.
-
-Quando chegou o tempo de consagrar-se e elevar-se a santa hostia, desceo
-um véo, causando-lhes isto admiração.
-
-Recebida a explicação mostraram-se satisfeitos, e logo começaram a contar
-por toda a parte o que viram, e por isso vieram muitos ajudal-os a
-edificar sua habitação e Forte, ja em principio.
-
-Veio o marinheiro em 22 de Agosto no navio de Moisset, recommendado ao
-Sr. de Manoir, a quem, segundo pensa, terão nossos Irmãos entregado
-suas cartas, ou a algum outro official de navio, o que me dispensa de
-contar-vos outras particularidades.
-
-Não mudaram, e nem mudarão a côr dos seos habitos, usando apenas de um
-tecido mais leve do que o nosso, por causa do calor.
-
-Deos seja louvado por tudo, e lhes conceda a graça de ahi apparecerem
-muitos fructos para a gloria do seo Santissimo Nome, e exaltação da Santa
-Fé da sua Igreja.
-
-Sou de vossa Reverendissima o menor servo em Jesus Christo
-
-Havre, 12 de Novembro de 1612.
-
- Frei _Theophilo_, indigno Capuchinho.
-
-
-
-
- NOTAS
-
- CRITICAS E HISTORICAS
-
- SOBRE A VIAGEM DO
-
- PADRE IVO DE EVREUX
-
- POR
-
- MR. FERDINAND DINIZ.
-
-
-
-
-NOTAS.
-
-
-1 (frontespicio).
-
-Esta vasta provincia, uma das mais florescentes do Brazil, antes da
-chegada dos missionarios francezes não teve estabelecimento algum
-importante. Eram arbitrarios os seos limites, convindo não esquecer que
-a immensa capitania do Piauhy fez parte d’ella até 1811. Presentemente
-tem 186 legoas, de 20 ao gráo, de comprimento, 140 de largura, e nunca
-menos de 20,000 legoas quadradas de superficie. Fica entre 1° 16′ e 7°
-35′ de lat. merid. Confina ao N O com o Pará, servindo de linha divisoria
-o Gurupy, á N E é banhada pelo Occeano Atlantico, a S E com o Piauhy,
-separando-a d’elle o rio Parnahyba, e finalmente a S com a provincia de
-Goyaz pelo rio Tocantins.[BG]
-
-Ainda que seja quente e humido o clima do Maranhão é sadio. As chuvas que
-fertilisam este rico territorio principiam regularmente em outubro.
-
-O aspecto geral do paiz offerece por toda a parte ondulações do terreno,
-mas em nenhuma offerece elevações consideraveis, exceptuando-se d’estas
-asserções geraes e por força mui summarias a comarca de Pastos-bons, onde
-se encontram montanhas como sejam Alpercatas, Valentim, Negro etc. É
-regada por 14 correntes d’agoa.
-
-De todos estes rios é o _Parnahyba_ o mais considerável: infelizmente
-suas margens não são totalmente sadias, pois em varios pontos, como
-em quasi toda a provincia, reinam as febres intermitentes. Avalia-se
-seo curso em 240 legoas. O _Itapecurú_, seo immediato, e de que falla
-constantemente o Padre Ivo d’Evreux, banha apenas 150 legoas de terreno,
-o Mearim 78 legoas, sendo ainda menos consideraveis o _Pindaré_, o
-_Tury-assú_, o _Gurupy_, e o _Manoel Alves Grande_. Julga-se que é de
-462,000 pessoas a população de toda a provincia, embora diga o relatorio
-official da presidencia, com data de 3 de julho de 1862, que esta cifra é
-apenas de 312,628 almas, sendo 227,873 livres e 84,755 escravos. Convem
-observar, que o recenseamento geral da população do Imperio, feito em
-1825, dava apenas 165,020 almas, sendo esta cifra muito inferior á
-realidade, porque recusaram muitos Srs. dizer com certesa o numero dos
-seos escravos.
-
-Nada se sabe, e nem será possivel saber-se exactamente, a respeito da
-povoação nomade dos indios, isto é, d’aquella cujo conhecimento seria
-muito curioso afim de apreciar-se as mudanças, que houveram nas aldeias
-depois do que escreveo o Padre Ivo, podendo apenas dizer-se que é maior
-no Maranhão, no Pará, e na nova provincia do Rio Negro, do que n’outra
-qualquer parte.
-
-Em summa o governo só tem dados mui imperfeitos e raros sobre estas
-infelizes hordas, das quaes se occupa actualmente.
-
-Os cuidados tardios, embora caridosos, da administração provincial, tem
-que acabar muitos males afim de que seja completa a reparação.
-
-Tudo ainda está por fazer relativamente aos Indios.
-
-Não souberam estas tribus conservar nem a dignidade que dá completa
-liberdade aos habitantes das florestas, e nem os principios de
-civilisação, que se intentou incutir-lhes no seculo XVII.
-
-Reconcentradas no interior por Mathias de Albuquerque, dizimadas pela
-variola, hoje são apenas a sombra do que foram sob o dominio dos seos
-chefes independentes.
-
-Esta população indigena é comtudo maior nos desertos do Maranhão, e
-embora d’ella não tratem certas estatisticas, é avaliada em 5,000 o
-numero dos indigenas reunidos em aldeias.
-
-Si dermos credito á um intelligente militar, que viveo em constantes
-relações com elles por espaço de 20 annos, a sua decadencia physica é
-menor que a moral, pois perderam até a reminiscencia de suas tradicções
-théogonicas, ainda mal, visto ser muito curioso o comparal-as com a
-narração dos antigos viajantes francezes.
-
-Sob este ponto são elles menos favorecidos que os Guarayos, visitados
-por Orbigny, os quaes ainda hoje repetem em seos canticos as legendas
-cosmogonicas do seculo XVI.
-
-Os indios do Maranhão, entre os quaes se contam os Timbyras, os Gés, os
-Krans, e os Cherentes não podem fornecer ao historiador senão informações
-mui incompletas, pois que ha perto de 40 annos já o major Francisco de
-Paula Ribeiro se queixava do immenso esquecimento d’elles, (vide _Revista
-Trimensal_, tomo 3.º, pag. 311) esquecimento fatal de grandes tradicções,
-pelo que se tornam hoje preciosos certos livros, como sejam os dos nossos
-velhos missionarios, onde pelo menos se encontram os mythos antigos, ahi
-escriptos para serem combatidos.
-
-De vez em quando entre estes indios degenerados apresentam-se alguns
-homens energicos, que comprehendem o abatimento de sua raça, e que
-desejariam vel-a progredir, porem são mui raros, pouco comprehendidos,
-e demais só olham para o futuro, e não experimentam amor algum por sua
-antiga nacionalidade.
-
-Seos compatriotas longe de ajudal-os nos trabalhos emprehendidos para
-melhorar seo futuro, ainda os amesquinham com o seo odio tão irreflectido
-quam brutal.
-
-Foi o que aconteceo a _Tempe_ e a _Kocril_, chefes conhecidos pelo major
-Ribeiro. Trabalharam inutilmente para chamar ao caminho da civilisação as
-tribus, cujo governo lhe foi confiado, e a final foram victimas do seo
-zelo.
-
-Vide «_Memoria sobre as nações gentias, que presentemente habitam o
-continente do Maranhão escripta no anno de 1819 pelo major graduado
-Francisco de Paula Ribeiro_, _Revista Trimensal_, T. 3º pag. 184.»
-
-De passagem disemos, que não deixaram descendentes, pelo menos
-conhecidos, os Tupinambás cathequisados pelos missionarios francezes,
-suppondo-se apenas, que um ramo d’esta grande nação ainda hoje povôa
-_Vinhaes_ e _Villa do Paço do Lumiar_, achando-se no mesmo caso _S.
-Miguel_ e _Tresidélla_, a margem do rio Itapecurú, e _Vianna_, no Pindaré.
-
-Com mais probabilidade ainda confundiram-se os Tupinambás com as
-tribus do inferior, tomando os nomes de Timbyras e Gamellas. São
-tambem subdivisões dos Timbyras os _Sakamecrans_, os _Kapiekrans_ ou
-_Canellas-finas_, e os Gés, que vagam pelas grandes florestas á Oeste
-do Itapecurú. Nega o major Ribeiro, que ainda sejam antropóphagos estas
-diversas tribus. N’este escriptor imparcial, e que reconhece a ferocidade
-dos Timbyras, é que se deve estudar as horriveis represalias, de que tem
-sido elles os indios, sendo a escravidão a menos sanguinolenta. Elle
-avaliou em 80:000 o numero d’indios selvagens, embrenhados nos mattos em
-1819, hoje sem duvida consideravelmente diminuido.
-
-
-2 (pag. 1).
-
-Francisco Huby era tambem livreiro e tinha sua loja n’uma praça entre
-os mais afreguezados armazens na galeria dos prisioneiros em Palacio, e
-soffrera-a como os outros no grande incendio de 1618.
-
-Quatro annos antes d’elle encarregar-se da publicação do livro de Claudio
-d’Abbeville, de que este é continuação, morava na rua de Sam Thiago no
-_Folle de oiro_, e não na _Biblia de oiro_, que depois tomou por divisa.
-
-Si foi ferido na prosperidade, foi justamente por haver permittido, que
-mão impia privasse a França por mais de dois seculos do livro precioso,
-de que tinha sido edictor, e que hoje entregamos a publicidade, graças a
-uma d’essas empresas litterarias tão raras em nossos dias, onde a honra
-das letras é o pensamento dominante e superior a todas as considerações.
-
-O volume, que servio para a nossa reimpressão é encadernado em marroquim
-encarnado, semeiado do flores de lys de oiro, e com as armas de Luiz
-XIII. Faz parte da reserva sob n.º 01766 da Bibliotheca Imperial de Pariz.
-
-
-3 (pag. 9).
-
-A capital do Maranhão occupa ainda hoje o mesmo lugar escolhido por seos
-antigos fundadores. Está situada a 2° 30′ e 44″ lat. austral e 1° 6′ e
-24″ de long. oriental do meridiano do Forte de Villegagnon, na bahia do
-Rio de Janeiro.
-
-La Ravardiere e Rasilly escolheram para edifical-a a ponta de terra
-O d’uma pequena peninsula, ligada á ilha do Maranhão pela calçada do
-_Caminho grande_.
-
-Os rios _Anil_ e _Bacanga_, vindos de diversos pontos da ilha confundem
-suas agoas na mesma embocadura e formam vasta bahia. A elevação, que
-se apresenta ao S do _Anil_, á E e ao N. do _Bacanga_ (lugar onde se
-confundem as agoas d’estes dois pequenos rios) é o lugar primitivo onde
-se levantou a cidade nascente collocada sob o patrocinio de Sam Luiz.
-
-A cidade de Sam Luiz, elevada em 1676 á dignidade episcopal por uma Bulla
-de Innocencio XI, conta nunca menos de 30 mil habitantes, e está situada
-em terreno docemente ondulado, sempre, em todas as estações, carregado de
-rica vegetação, e assim offerecendo aos viajantes panorama encantador.
-(Vide _Corographia Brasilica_, _Will. Hadfield_, _Milliet de St.
-Adolphe_, e principalmente os _Apontamentos estatisticos da provincia do
-Maranhão_, annexos ao _Almanack_ de 1860 publicado por B. de Mattos.)
-
-Esta linda cidade é naturalmente dividida pela espinha dorsal da
-peninsula, que separa as duas bacias dos rios na direcção de E. O.
-
-Seo ponto mais elevado é o _Campo d’Ourique_, onde apresenta 32m 692c de
-elevação acima do nivel medio do mar.
-
-É dividida em tres parochias: _N. S. da Victoria_, _S. João_, e _N. S. da
-Conceição_, tem 72 ruas, 19 becos, 10 praças, 55 edificios publicos, e
-2,764 casas, das quaes 450 tem um só pavimento.
-
-Para utilidade dos habitantes podem ser maiores e mais regulares as
-praças, e embora sejam as ruas cortadas em angulo recto, podiam ser mais
-largas e melhor dispostas sendo observadas as regras da hygiene.
-
-Não são más suas calçadas, e tem declive bastante em relação aos dois
-rios que banham a cidade. Em resumo é a Capital do Maranhão saudavel e
-limpa.
-
-«O navio que demandar o porto, toma por marca o Palacio do governo,
-assentado n’uma eminencia que domina o porto.
-
-Este edificio tem a seos pés o Forte de Sam Luiz, e de suas janellas
-percorrendo-se com os olhos uma extensa bahia avista-se ao longe as
-costas e a cidade de Alcantara: mais perto da barra está o pequeno _Forte
-da Ponta d’areia_, e dentro do porto na margem opposta do Bacanga a
-pequena _ermida do Bomfim_, muito arruinada, e na frente do Anil a _Ponta
-de Sam Francisco_, onde segundo a noticia que nos dirige, entregou la
-Ravardiere ao commandante portuguez a cidade nascente e a fortalesa de
-Sam Luiz, nunca se podendo assas louvar n’essa occasião o procedimento
-inteiramente nobre do commandante francez e de Alexandre de Moura por
-parte da Hespanha.
-
-O joven cirurgião de Pariz que foi com tanto zelo pensar os feridos dos
-dois partidos, e que recebeo tão penhorador acolhimento no campo inimigo
-poude d’elle dar somente uma ideia, por sua narração sincera e franca,
-da cordialidade, que appareceu entre os francezes e os portuguezes depois
-do combate. (Vide _Archivos das viagens publicadas_ por M. Ternaux
-Compans.)
-
-Em distancia de alguns metros pelo Anil acima está o convento e Igreja de
-Santo Antonio, construidos no proprio lugar onde em 1612 Ivo d’Evreux,
-ajudado pelos padres Arsenio e Claudio d’Abbeville, edificou seo
-conventosinho sob a invocação de Sam Francisco. Soffreo depois d’isto
-varios concertos e augmentos este mosteiro dos Capuchinhos francezes,
-achando-se hoje uma parte do edificio moderno occupado pelo Seminario
-Episcopal, e a Igreja, hoje em construcção, levanta-se com architectura
-gothica simples.» Pelo que nos dizem será a igreja mais bonita do
-Maranhão.
-
-Não é esta a unica construcção digna de mencionar-se na cidade, porem é a
-unica que nos interessa directamente.
-
-Mencionamos apenas o _Caes da Sagração_, assim chamado em memoria da
-coroação e sagração do Sr. D. Pedro 2.º, e da vasta bahia, onde agora
-se escava para poder n’ella fundear uma fragata a vapor da primeira
-ordem, e apenas citamos a dóca que se projecta fazer nas _enseiadas das
-Pedras_.[BH]
-
-Contam-se muitas construcções monumentaes, como sejam a igreja do Carmo,
-a Cathedral, o quartel do Campo de Ourique, o Theatro, e mais outras
-que força é omittir, pois apenas n’uma ligeira nota desejamos mostrar
-englobadamente o que em 250 annos se tornou isto fundação francesa.
-
-William Hadfield, um dos mais modernos viajantes, que tratou d’este paiz,
-observou que é na cidade de Sam Luiz, onde no Brasil se falla o portuguez
-com mais pureza. É a patria de dois escriptores mui estimados no Imperio,
-Odorico Mendes e João Francisco Lisboa, fallecido ha pouco.
-
-Depois de haver traduzido com superioridade de estylo, que causaria
-inveja aos contemporaneos de Camões, occupa-se actualmente Odorico Mendes
-na traducção em verso das obras de Homero, onde a sciencia do rythmo
-disputa com a inspiração.
-
-Quanto ao poeta das legendas nacionaes, cujos cantos são geralmente
-repetidos no Brasil (queremos fallar de Gonçalves Dias) pertence tambem
-á provincia do Maranhão, por elle explorada como sabio e como viajante
-intrepido, porem nasceu em Caxias.
-
-As obras d’esses tres escriptores honram ao paiz, são tambem a honra da
-bibliotheca publica; porem este estabelecimento, creado n’uma cidade
-eminentemente litteraria, não está em relação com as necessidades
-crescentes de outras instituições suas, relativas á instrucção publica.
-Ha tres annos contava apenas 1031 volumes.
-
-Prasa aos Ceos, que o livro, que agora réproduzimos, o primeiro que,
-com o de Claudio d’Abbeville, foi escripto na Cidade nascente, marque
-o principio de uma era nova para estabelecimento tão indispensavel
-n’uma Capital, já florescente. Muitas outras instituições supprem
-esta deficiencia, publica-se na Capital diversos jornaes, taes como o
-_Publicador Maranhense_, a _Imprensa_, o _Jornal do Commercio_ etc. etc.,
-e tambem ha uma _Associação typographica_, um _Gabinete de leitura_, e a
-sociedade litteraria _Atheneo Maranhense_.
-
-Tudo isto na verdade é mui differente do tempo, em que o Padre Arsenio
-de Pariz com muita difficuldade achava apenas uma folha de papel para
-escrevêr á seos Superiores.
-
-
-4 (pag. 11).
-
-A Cathedral de _São Luiz_ ou do _Maranhão_, (assim com estes dois nomes
-se designa a Cidade) deixou a invocação de São Luiz de França. É a antiga
-Igreja do Convento dos Jesuitas a actual cathedral sob a invocação de N.
-S. da Victoria. (Vide Ayres do Cazal—_Corographia Brazilica_. Rio de
-Janeiro 1817. T. 1.º pag. 166).
-
-Parece-nos, que nas grandes construcções, que actualmente se estão
-trabalhando para o augmento do Convento de S. Antonio, respeitou-se a
-pequena Capella feita pelos francezes. São tres os frades d’esta Ordem,
-Frei Vicente de Jesus, guardião; Frei Ricardo do Sepulchro e Frei Joaquim
-de S. Francisco, todos sacerdotes.
-
-
-5 (pag. 12).
-
-Ao norte do Brazil e no interior da Goyanna havia então prodigiosa
-abundancia d’esta especie de fóca, cuja carne era muito saborosa:
-chamam-na os portuguezes _peixe-boi_, e os indios _manati_. Ainda hoje
-os habitantes ribeirinhos do Amazonas e do Tocantins nutrem-se com a
-excellente carne d’este peixe. (Vide Osculati, _America equatoriale_).
-Claudio d’Abbeville lhe deo o nome de _Uraraura_.
-
-
-6 (pag. 14).
-
-Esta localidade, ja citada, ainda o será muitas vezes.
-
-O vasto territorio, ainda hoje conhecido em Maranhão pelo nome de
-_Tapuitapéra_, está hoje dividido pelas comarcas de Alcantara e de
-Guimarães. Antigamente foi occupado por onze aldeias de indios, das quaes
-a maior era Cumã. _Tapuitapéra_ dista 40 legoas de Maranhão.[BI] Pensa
-_Martius_ que esta palavra quer dizer—habitação de indios inimigos. Vide
-_Glossaria linguarum brasilensium_. Erlanguem. 1863, em 8.º
-
-N’esta obra acham-se tambem os nomes dos lugares, dos vegetaes e dos
-animaes.
-
-O _Aparaturier_, que deo tão felizes comparações ao padre Ivo, é
-simplesmente o mangue (_Rhyzophora._ Lin.) Esta arvore das praias
-americanas tão util á industria, forma vastas florestas maritimas, e
-em roda da costa do Brasil e de Venezuela. Com muita frequencia se
-tem destruido estas arvores, em varios lugares, e temos ouvido até
-attribuir-se a invasão recente da febre amarella á destruição systematica
-d’este bonito vegetal, que aformosêa com sua verdura todas as praias
-brasileiras. Cahindo sob o ferro do cultivador deixa á descoberto praias
-cheias de lôdo, habitadas por myriades de carangueijos, formando assim
-pantanos d’onde se desprendem miasmas de especie muito perigosa.
-
-No Brasil conhece-se duas qualidades de mangue, o _branco_ e o
-_vermelho_, e para a descripção scientifica d’elles enviamos nossos
-leitores para Aug. de St. Hilaire. Julgamos que a palavra antiga, ahi
-empregada pelo padre Ivo, vem do verbo _parere_, parir, porque esta
-arvore se reproduz pelas raizes, que, como arcadas, espalham ao redor de
-si. (Vide _Nossas scenas da naturesa sob os tropicos_,) e ahi achareis o
-effeito do mangue nas paisagens.
-
-
-7 (pag. 17).
-
-É lamentavel esta lacuna, porem deixa comtudo perceber, que se trata das
-tartarugas do Maranhão.
-
-Com os ovos d’este chelidoniano prepara-se no Pará o que se
-chama—_manteiga de tartaruga_, de que se exporta prodigiosa quantidade.
-
-
-8 (pag. 17).
-
-N’esta enumeração mui completa de quadrupedes que se podem caçar, um nome
-desperta naturalmente a attenção do leitor, e é _vacca brava_. É bem
-possivel, rigorosamente fallando, que os campos do Mearim ja tivessem
-algum individuo da raça bovina, ja ha muito tempo introduzida em
-Pernambuco: Claudio d’Abbeville é muito explicito n’este ponto.
-
-Mas não é d’isto que quiz tratar o nosso bom missionario: a vacca brava,
-ou _bragua_, como chama em outro lugar, é o _Tapir_ ou _Tapié_, conforme
-Montoya, animal muito commum em todo o Brasil.
-
-Para denominal-o serviram-se os hespanhoes e portuguezes d’um nome pedido
-por emprestimo aos Mouros. Chamavam-no tambem _Anta_ ou _Danta_, que
-significa, dizem, bufalo. Quando chegou aos americanos a sua vez de dar
-nome ao boi, chamaram-no _Tapir-açù_.
-
-Martius observa com razão, que esta palavra na lingua geral se applica
-a todo o mamifero corpulento. Sendo este pachyderma o animal mais
-corpulento conhecido na America do Sul, foi sua caça procurada de
-preferencia pelos Europeos, e assim desappareceo, ou pelo menos tornou-se
-mais rara nos lugares onde outr’ora era abundante. Em certos paizes da
-America era um animal sagrado, e assim figura em diversos monumentos.
-
-No Brasil procuravam os indigenas este animal, tanto por ser boa caça
-como pela espessura de seo couro, de que faziam escudos impenetraveis ás
-flexas, pela maior parte armadas de uma ponta aguda de madeira ou de cana.
-
-João de Lery trouxe do Brasil para França alguns d’esses broqueis, porem
-não chegaram á Europa, porque uma terrivel fome devida á longa viagem de
-5 mezes obrigou o pobre viajante a comel-as, depois de amolecidas por
-meio d’agoa.
-
-Os nossos leitores que desejarem conhecer minuciosamente o Tapir
-americano, consultem uma excellente dissertação, dedicada especialmente á
-este animal, escripta pelo Dr. Roulin, Bibliothecario do Instituto.
-
-No _Glossario_ de Martius lê-se uma extensa synonimia relativa ao Tapir.
-(Vide pag. 479.)
-
-
-9 (pag. 18)
-
-É certo que os indios d’esta tribu foram contrarios aos francezes.
-
-Ha na historia d’esta expedição um ponto, que não foi ainda bem
-esclarecido: o mais afamado capitão de indios de que se recorda o Brasil
-fez suas primeiras campanhas durante o dominio dos francezes.
-
-O celebre Camarão, o grande chefe ou _Morubixaba_ dos Tabajares,
-commandava 30 frecheiros na lucta entre la Ravardiere e Jeronymo de
-Albuquerque.
-
-Convidado pelo governo portuguez para tomar parte n’esta guerra, partio
-de sua aldeia, no _Rio Grande do Norte_, e foi para o _Presidio de N. S.
-do Amparo_, no Maranhão, em 6 de setembro de 1614: seguio-o seo irmão
-_Jacauna_ com um filho de igual nome, e de 18 annos de idade.
-
-Depois de muitos annos Camarão, que teve tão boa escola, adquirio fama
-immortal nos fastos do Brasil por occasião da expulsão dos hollandezes.
-(Vide _Memorias para a historia da Capitania do Maranhão, impressa nas
-Noticias para a historia e geographia das Nações ultramarinas_.)
-
-
-10 (pag. 18).
-
-No Brasil não ha verdadeiros javalys, e nem este nome se pode dar aos
-_Pecoris_ ou _Tajassus_, ou _Porcos do Matto_ na linguagem dos naturaes.
-Não é extraordinaria a proesa do fidalgo, porque andando os _pecaris_
-sempre em bando basta chumbo grosso para matal-os. Martius deo a
-synomimia completa d’este animal no _Glossaria linguarum brasiliensium_.
-(Vide a divisão _Animalia cum Synonimis_, pag. 477.)
-
-
-11 (pag. 18).
-
-Um _ajoupa_ é uma pequena cabana coberta de folhas e abertas por todos os
-lados.
-
-Esta palavra é muito usada nos nossos estabelecimentos de Guyana. Vê-se
-estampas de _ajoupas_ em Barrére.
-
-
-12 (pag. 19).
-
-Em 1542 a fóz do grande rio foi explorada por Aphonso de Xaintongeois.
-(Vide o _Manuscripto original de sua viagem_ na Bibliotheca Imperial de
-Pariz.)
-
-João Mocquet, cirurgião francez, guarda das curiosidades de Henrique
-IV, visitou suas praias. (Vide o _Manuscripto_ do seo _Relatorio_ na
-_Bibliotheca de Santa Genoveva_.)
-
-Finalmente la Ravardiere fez até lá um reconhecimento.
-
-João Mocquet foi muito explicito quando tratou do mytho das Amasonas, que
-tanto occupou Condamine e o illustre Humboldt. Tudo quanto elle referio
-d’estas guerreiras soube do chefe _Anacaiury_, cujo personagem, ou seo
-homonymo, encontra-se nas obras de Ivo d’Evreux.
-
-Governava uma nação no Oyapok ou do Yapoco.
-
-Mocquet disse a seos leitores, que não poude visitar, como desejava, o
-Amasonas «por serem violentas as correntes para os navios, e mesmo para o
-seo patacho que ja fazia muita agoa.»
-
-Todas estas narrações a respeito do grande rio deixou em França
-impressões tão duradouras, que o Conde de Pagan, quarenta annos depois,
-convidou a Mararin a reerguer projectos esquecidos. Para a conquista
-da Amasonia elle queria união com os indios, e por sua vontade devia
-o Cardeal ligar-se «aos illustres _Homagues_ (Omaguas) aos generosos
-_Yorimanes_ e aos valentes _Tupinambás_.» Nunca certamente os selvagens
-receberam tão pomposos nomes!
-
-Seria mui curiosa, si se achasse, a narração da expedição pelas margens
-do Amasonas em 1613, feita por ordem de la Ravardiere e ainda no tempo de
-Luiz XIII existia uma copia.
-
-
-13 (pag. 20).
-
-Entra Gabriel Soares em minuciosas descripções do fabrico d’esta farinha,
-de que os indios fazem grandes provisões.
-
-A especie de mandioca, conhecida pelo nome de _Carimã_, serve de base.
-
-Esta raiz a principio dissecada a fogo brando, depois ralada, é pisada
-n’um almofariz, peneirada e misturada com certa quantidade de outra
-qualidade de mandióca na occasião de ser torrada, o que se faz até ficar
-muito secca, e n’esse estado é conservada por muito tempo.
-
-Encontram-se sobre esta industria agricola do Brasil todos os
-esclarecimentos necessarios no _Tratado descriptivo do Brasil_, pag. 167.
-
-Augusto Saint-Hilaire disse com rasão, que a cultura da mandióca tirou a
-maior parte dos seos processos da economia domestica dos Tupis, e resumio
-concisa e habilmente tudo que ha a dizer-se relativamente ao cultivo da
-planta. (_Voyage dans le district des Diamants et sur le littoral du
-Brésil_. T. 2—pag. 263 e seguintes.)
-
-
-14 (pag. 21).
-
-Gabriel Soares está aqui inteiramente de accordo com o nosso Missionario.
-
-Estas grandes canoas chamavam-se _Maracatim_, por causa do _Maracá_, que,
-como protector, trasiam na prôa. _Iga_ chamava-se uma canôa pequena, e
-_Igaripé_ uma canoa de cortiça ou casca de arvores, etc. etc. (Vide _Ruiz
-de Montoya_, _Tesoro_, na pag. 173.)
-
-
-15 (pag. 21).
-
-André Thevet, e depois d’elle João de Lery descreveram com exactidão este
-genero de ornato, chamado _Araroye_ pelo ultimo d’estes viajantes.
-
-Coube ao padre Ivo fazer-nos conhecer seo valor symbolico.
-
-
-16 (pag. 24).
-
-A curiosa narração do indio confirma a opinião de Humboldt, e bem pode
-ser que antigamente se encontrassem algumas mulheres cansadas do jugo dos
-homens, e por isso entregues á vida guerreira.
-
-Combina igualmente com as tradicções colhidas por Condamine e sessenta
-annos antes do Padre Ivo o franciscano. André Thevet não esteve longe
-de vêr n’estes selvagens americanos descendentes directos do exercito
-feminino commandado por Pentisilée.
-
-Humbold disse com rasão, que o mytho das Amasonas era de todos os seculos
-e de todos os periodos da civilisação.
-
-
-17 (pag. 25).
-
-Esta nação não é indicada no _Diccionario topographico, historico,
-descriptivo da Comarca do Alto Amasonas_. Recife. 1852—1 vol. em 12.
-
-Tambem não a encontramos na longa nomenclatura da _Corographia Paraense_
-de Ignacio Accioli de Cerqueira e Silva. Deve estar extincta, e Martius
-tambem não a cita no seo _Glossaria_, publicado ultimamente.
-
-
-18 (pag. 25).
-
-Por este nome, aqui tão frequente, designa-se uma grande aldeia alem de
-Tapuitapéra.
-
-Era tambem o nome de um vasto territorio e de um rio.
-
-Segundo o padre Claudio—_Cumã_ significa _proprio para pesca_, porem
-duvidamos que seja exacta a explicação.
-
-Debalde procura-se esta palavra no _Glossaria_ de Martius publicado em
-1863.
-
-
-19 (pag. 25).
-
-_Cazal_, o _Diccionario do Alto Amasonas_, e _Accioli_ nada dizem a
-respeito d’estes rios, onde comtudo esteve um exercito de 2,000 homens!
-Martius trata de uma nação de _Pacajaz_ ou _Pacayá_, no Pará. (Vide
-_Glossaria linguarum_. pag. 519.)
-
-
-20 (pag. 25).
-
-Esta ligeira descripção das casas aereas construidas sobre mangues e
-troncos das palmeiras _muritis_ lembra um facto bem curioso, classificado
-outr’ora como fabula, e descripto na Relação de Walther Ralegh.
-
-É bem possivel que haja alguma exageração, porem o facto é authentico, e
-deo-se na foz do Orenoco.
-
-Os _Waraons_ visitados ha perto de um seculo pelo Dr. Leblond, os
-_Guaraunos_ descriptos pelo sabio Codazzi, são um e o mesmo povo, salvos
-de inteira destruição por sua maneira de viver.
-
-Os _Camarapins_, cujo desaparecimento acabamos de provar, foram menos
-felises.
-
-Á respeito dos indios das _Iouras_ consulte-se o resumo, que outr’ora
-fizemos, dos manuscriptos, por onde o Medico francez provou sua moradia
-entre os Waraons. (Vide _Guyana_, 1828, em 18.)
-
-Codazzi, cujos bellos trabalhos geographicos são conhecidos, citava em
-1841, os Guaraunos, como não tendo ainda abandonado suas casas aereas.
-
-Ha trinta annos, quando muito, vinham elles negociar com os habitantes da
-Trindade. (Vide o _Resumen de la Geographia de Venezuela_. Pariz. 1841—em
-8.)
-
-Agostinho Codazzi morreo ultimamente.
-
-Quanto aos manuscriptos de Leblond, que ja tivemos á nossa disposição,
-pertenciam á collecção das viagens, possuida em 1824 pelo edictor Nepveu.
-
-
-21 (pag. 28).
-
-Este personagem tinha um nome todo portuguez, e era muito dedicado á
-nação, a cujos interesses servia.
-
-O titulo de _Capitão_ afinal estendeo-se a todos os chefes da raça
-indigena.
-
-
-22 (pag. 29).
-
-Este selvagem fanfarrão gabava-se de ter feito morrer o padre Ambrosio,
-residente em _Iuiret_, cuja pronuncia segundo Claudio d’Abbeville, é
-_Jeuiree_, e ella indica a estranha significação d’este nome.
-
-O _Pay açu_, o grande padre é Ivo d’Evreux. A palavra _Pay_ quer dizer em
-portuguez _Padre_. Pay-_guaçu_, diz Ruiz de Montoya significar Bispo ou
-Prelado em Guarany.
-
-O nome de _Pay_ foi mais facilmente adoptado pelos indigenas pela
-sua analogia em designar pessoas graves. Os feiticeiros eram
-chamados—_hechizeros_—para servir-nos da propria expressão do
-lexicographo hespanhol.
-
-Da _lingua geral_, modificação do Guarany, _Pay_ significa padre, monge e
-senhor. _Pay Abaré Guaçu_ era a designação dos prelados e dos jesuitas.
-Os indios ainda chamavam o papa _Pay aboré oçu eté_.
-
-
-23 (pag. 29).
-
-Não sabemos porque o missionario modifica a orthographia do nome de um
-povo, que elle ja escreveo muitas vezes de forma diversa.
-
-Claudio d’Abbeville escreve _Topinambás_, o author da sumptuosa
-entrada _Tupinabaulx_, Hans Staden _Topinembas_, e emfim João de Lery
-_Tuupinambaults_. Malherbe suavisando a expressão escreve _Topinambus_.
-Foi esta ultima orthographia a que prevaleceo no tempo de Luiz XIV, porem
-preferimos a que é adoptada pelos brasileiros.
-
-
-24 (pag. 31).
-
-Por esta palavra tão vaga, aqui empregada pelo padre Ivo, suppomos que
-elle pretende designar os povos mais selvagens ainda que os Tupinambás,
-ou então que se entregavam mais especialmente a anthropophagia.
-
-Nas obras de Humboldt encontra-se uma curiosa definição da palavra
-_Canibal_. Notaremos apenas, que 50 annos antes do tempo, em que escreveo
-o padre Ivo, designavam-se assim, quasi que exclusivamente, os indios
-mais proximos do Equador.
-
-Na historia da França antarctica por André Thevet, á proposito da madeira
-de tincturaria, lê-se o seguinte: «o da costa do rio de Ianaire é melhor
-que o da costa de Canibaes e de toda a costa do Maranhão,» (pag. 116
-verso), e mais adiante: «visto que chegamos a estes Canibaes, d’elles
-diremos apenas, que este povo, depois do cabo de Santo Agostinho, e alem
-até o Maranhão, é o mais cruel e deshumano que em qualquer outra parte da
-America. Esta canalha come ordinariamente carne humana, como nós comemos
-carneiro.» (pag. 119.)
-
-
-25 (pag. 31.)
-
-Foi com effeito nas margens do Itapecurú, que se apresentaram os
-portuguezes.
-
-Claudio d’Abbeville disse algumas palavras sobre este bello rio, porem
-exagerou o seo curso.
-
-Nós estamos tão pouco ao facto da geographia d’esse paiz, que Adriano
-Balbi se contentou em mencionar seo nome apenas no quadro, que traçou,
-dos rios do Maranhão.
-
-Que prodigiosas mudanças não se terão operado sobre suas margens desde o
-tempo, em que o nosso bom frade assim o chamava alterando-lhe o nome!
-
-Em lugar d’estas florestas, onde andavam errantes os Timbyras, cultiva-se
-milho, mandióca, canna de assucar, fumo e algodão, e a producção ultima
-d’este genero foi tão abundante, que subio a 35,000 saccas.
-
-Em França não se conhece o nome das cidades mais importantes, assentadas
-á margem d’este rio, e apenas se encontram em nossos livros de geographia.
-
-Quem já ouvio fallar da pequena cidade de Caxias, a risonha patria de
-Gonçalves Dias? Comtudo é uma cidade rica, commercial, banhada pelo
-Itapecurú, e distante da capital sessenta legoas.
-
-Em 1821 era apenas um povoado de 2,400 almas, e hoje este numero
-elevou-se a 6,000 habitantes.
-
-Caxias é o centro do commercio entretido com o Piauhy, e com immensas
-solidões de campos de criação de gado, conhecidas pelo nome de _sertão_.
-
-Edificada para assim dizer no deserto, tem escolas florescentes, um
-theatro, estabelecimentos de utilidade publica, que nem sempre se
-encontra em cidades mais consideraveis.
-
-O nome de _Caxias_ tem no Brazil significação politica, porque, em 1832,
-travou-se no _Morro do Alecrim_ uma batalha, cujo resultado consolidou a
-Independencia da Provincia. Mais tarde, na propria colina, chamada das
-_Tabócas_ deo-se o sanguinolento combate, onde foi vencido[BJ] _Fidié_, e
-que inspirou a Gonçalves Dias tão energicos versos.
-
-Seriam necessarios volumes para narrar, ainda que summariamente, as
-perturbações, que se seguiram a este acontecimento, e as luctas
-tempestuosas, que houveram neste canto ignorado do mundo até 1848, quando
-o Dr. Furtado conseguio reprimir a horda, que assolava esta cidade
-nascente.[BK]
-
-A propria naturesa, por si só, é grande n’estas regiões: 20 mil
-habitantes formam a população d’este vasto municipio, empregado
-superficialmente na agricultura.
-
-Na distancia, em que nos achamos, estas revoluções tão cumpridas para
-serem contadas, assimilham-se ás da idade media, que a historia local as
-vezes registra, mas que facilmente esquece visto não ligar-se á algum dos
-grandes interesses, que prende a attenção do mundo.
-
-Com mais justa rasão pode applicar-se isto a villa do Codó, a mais
-florescente após Caxias, como ella banhada pelo Itapicurú, e como ella
-separada da Capital por um espaço de 60 legoas.
-
-
-26 (pag. 34).
-
-Este nome do principio do mal, acceito em toda a obra pelo Padre Ivo
-d’Evreux e por Claudio d’Abbeville parece ser mais particular ao Norte do
-Brazil.
-
-Martius escreve _Jurupari_, ou _Jerupari_. _Anhagá_ parece ser mais uzado
-ao Sul. Não se acha a significação desta palavra no _Tesoro de la lingua
-Guarani_. _Angai_ neste precioso Diccionario significa espirito mau.
-_Anhanga_ significa hoje apenas um _phantasma_. (Vide Gonçalves Dias,
-_Diccionario da lingua Tupy_.)
-
-
-27 (pag. 36).
-
-Estes povos, antes de reunidos, eram chamados Tabaiares pelos Tupinambás.
-Pag. 36.
-
-Tabajares não significa de maneira alguma _inimigo_, e sim senhores da
-Aldeia. (Vide Adolpho de Varnhagem, _Historia geral do Brazil_. T. 1.º
-Accioli. _Revista do Instituto_.)
-
-
-28 (pag. 36).
-
-A denominação, adoptada no Seculo XVII por nossos compatriotas, veio
-sem duvida alguma do costume que tinham estes indios de furar o labio
-inferior, e mesmo as faces para n’ellas introduzir discos de uma especie
-de esmeralda, feitos com muita paciencia, e apreciados como joias
-estimaveis. (Vide _Sur l’usage de se percer la lévre inferieure chez
-les Américains du sud_, a serie de nossos artigos, inserida com muitas
-gravuras no _Magasin pittoresque_. T. 18 pag. 138, 183, 239. 338, 350 e
-390.)
-
-
-29 (pag. 36).
-
-_Mearinense_ é evidentemente um nome creado pelo nosso bom Missionario, e
-melhor não o inventaria Rabelais.
-
-Os Mearinenses eram os proprios Tupinambás que residiam nas ferteis
-margens do Meary, d’onde proveio o nome á provincia, no pensar de Cazal.
-O Mearim, que offerece um curso de 166 legoas, só é navegavel no inverno,
-e as canoas grandes sobem unicamente até 60 legoas. Nasce na _Serra do
-Negro e Canella_ aos 8° 2′ e 23″ de lat. e 2° 21′ de long. contados da
-Ilha de Villegagnon na bahia do Rio de Janeiro.
-
-
-30 (pag. 36).
-
-A palavra _Tapuya_ ou _Tapuy_ tem levantado grandes discussões: será o
-nome de um povo? (Vide o _Diccionario de Gonçalves Dias_).
-
-Significará inimigo? Ruiz de Montoya nada diz a tal respeito. Será
-preciso crear uma nação distincta da dos Tupys, a qual estes deram tal
-nome. Um escriptor, authoridade na materia, Ignacio Accioli não hesita a
-tal respeito.
-
-Quando enumera as principaes divisões da raça Tupica, elle diz:
-«outra nação geral, a dos Tapuias, divide-se, como pensam muitos, em
-pequenas tribus fallando perto de cem dialectos, e são os _Aymorés_,
-os _Potentus_, os _Guaitacás_, os _Guaramonis_, os _Guaregores_, os
-_Jaçarussus_, os _Amanipaqués_, os _Payeias_ e grande numero de outras.»
-(Vide T. XII da _Revista Trimensal—Dissertação historica, ethnographica e
-politica sobre quaes eram as tribus aborigenes_, etc., etc., pag. 143.)
-
-
-31 (pag. 42).
-
-Este pensamento passou como proverbio na ilha e em Goyana.
-
-
-32 (pag. 42).
-
-Hans Staden prisioneiro, pelos Tupinambás em 1550, ao sahir do Forte da
-Bertioga suscitou grande discussão para saber-se com certeza, quem foi o
-primeiro que o tocou. (Vide _la Collection. Ternaux Compans_.)
-
-
-33 (pag. 49).
-
-Nada tem de extraordinario o nome d’este chefe, porem é necessario
-escrevel-o assim com mais exactidão, _Ibira Pitanga_. (Vide _Ruiz de
-Montoya_.) Lery escreveo _Araboutan_, Thevet _Oraboutan_. Desapparece
-esta celebre madeira cada vez mais das grandes florestas, onde íam
-buscal-os os nossos antepassados.
-
-
-34 (pag. 51).
-
-É um Tabajara quem falla, porem observamos, que a palavra _Carbet_ não
-pertence á _lingua geral_.
-
-O padre Ruiz de Montoya não a inserio no seo precioso _Tesoro de la
-lingua Guarany_.
-
-É usado mais particularmente entre os Galibis e os outros povos de Guyana.
-
-Resente-se esta expressão da visinhança da nossa colonia.
-
-Convem fazer certa differenca entre os _Carbets_, ou _casa grande_, e
-as _Ocas_ ou _Tabas_, que formavam a architectura rudimentar dos outros
-povos do Brasil.
-
-Ouçamos a este respeito o Padre _du Tertre_. «No meio de todas estas
-casas, fazem uma grande, commum, a que chamam _Carbet_, a qual tem
-ordinariamente 60 ou 80 pés de comprimento, e é formada de grandes
-forquilhas de 12 a 20 pés de altura, infincadas na terra: sobre ellas
-collocam uma palmeira, ou outro tronco de arvore muito direito, que serve
-de cumieira, e n’ella ajustam caibros, que descem até tocar em terra,
-e cobrem-nos com ramos ou folhas de palmeiras, ficando muito escuro o
-interior da casa, pois a claridade só entra pela porta, e esta é tão
-baixa, que para entrar-se é necessario curvar-se.»
-
-Estas particularidades pedimos emprestadas a uma obra do anno de 1643, e
-se referem especialmente a architectura rustica dos Caraibas insulares.
-
-Escolhemos este exemplo quasi contemporaneo do livro publicado pelo nosso
-autor, porque na realidade não ha grande differença entre os _Carbets_
-das ilhas e os dos continentes.
-
-Si se escrevesse uma historia d’essas casas de folhas tão rapidamente
-construidas, apresentar-se-iam certas variedades conforme os usos e
-fins para que se destinam. (Vide a este respeito _Le voyage pittoresque
-au Bresil de Debet_, depois as gravuras do livro de _André Thevet_,
-publicado em 1558.)
-
-Haviam pequenos e grandes _Carbets_, aquelles onde os Piagas faziam suas
-charlatanerias, e estes onde se formavam os grandes conselhos.
-
-Tinham estes ultimos a configuração de um dos nossos vastos alpendres,
-tendo lugar para 150 ou 200 guerreiros.
-
-No XVII seculo, na linguagem de nossas colonias, nas ilhas ou no
-continente, formar um conselho qualquer era _Carbeter_; o termo era
-proprio e acha-se usado por todos os viajantes. (Vide entre outros Biet,
-_Voyage de la France équinoxiale_. Paris. 1654, em 4.º)
-
-
-35 (pag. 56).
-
-David Migan era natural de Dieppe, e como fizeram tantos outros naturaes
-da Normandia no fim do seculo XVI, veio tentar fortuna entre os selvagens
-do Brasil.
-
-Encontraram-no os chefes da opposição estabelecido havia muitos annos em
-Jupinaram, na ilha do Maranhão.
-
-Era em toda a extensão da palavra um interprete da Normandia, e sabe Deos
-de que reputação gozavam estes interpretes no que dizia respeito ao que
-então se chamava mundo civilisado.
-
-Comparavam-nos até aos selvagens, cujos odiosos festins, dizia-se, que
-elles partilhavam.
-
-David Migan teve as honras do Mercurio francez. (Vide T. 3, pag. 164)
-
-Regressou á França com Rasilly a quem era muito affeiçoado, e assim foi
-bom por ser o unico capaz de traduzir para a Rainha, a longa exposição de
-Itapucu.
-
-De passagem lembramos ter elle tambem assignado o termo de cessão, que la
-Ravardiere fez de seos direitos a Francisco de Rasilly, o que indica, sem
-duvida alguma, o gozar de consideração excepcional.
-
-O nome de Migan nos parece ser _nome de guerra_, pois esta palavra na
-lingua _tupy_, significa o caldo grosso, que se fazia com a farinha de
-mandioca.
-
-Malherbe, que estava nas Tulherias, quando se apresentaram os indios,
-notou a habilidade d’este homem.
-
-Havia outro interprete chamado Sebastião, muito affeiçoado a Ivo d’Evreux.
-
-
-36 (pag. 65).
-
-É mui curioso o achar-se em Maranhão, no anno de 1612, um selvagem
-fazendo ao padre Ivo o mesmo raciocinio, a que foi obrigado á responder
-João de Lery em 1556: «o que quer dizer vós _Mair_ e _Peros_, (francezes
-e portuguezes) virdes de tão longe buscar madeira para vos aquecer? Lá
-não a tendes?» (Vide _Histoire d’un voyage en la terre du Bresil_, Rouen
-1578 em 8.º)
-
-
-37 (pag. 70).
-
-Largamente descreveo Mr. Humboldt a região dos Otomanos, e as porções
-immensas de terra, que reunem estes indios para comer quando lhes falta a
-caça e a pesca.
-
-Pensa o grande viajante, que esta terra secca ao sol, formando tulhas de
-bolasinhas, dispostas symetricamente, é procurada pelos selvagens por
-conterem particulas animalisadas e que a fazem nutritiva.
-
-Prova o padre du Tertre, que tanto os indios das ilhas como os do
-continente comem terra, embora pense que seja por aberração de gosto.
-
-«Todos comem terra, mães e filhos, diz elle, e a causa de tão grande
-aberração de gosto não pode proceder, penso eu, senão de um excesso de
-melancolia.» (_Hist. nat. das Antilhas, habitadas pelos francezes_. T.
-2º, pag. 375.)
-
-Não longe das regiões descriptas pelo padre Ivo, á margem do rio
-Ucayale, encontram-se ainda os indios _Pinacos_, cujo nome verdadeiro é
-_Puynagas_. Estes indios despresados por seos compatriotas, são afamados
-comedores de terra. A este respeito, entre outros, foi publicado um
-curioso opusculo de Mr. Moreau de Jonnès com o titulo de _Observations
-sur les Geophages des Antilles_. Paris. An. VI. Tem somente 11 paginas.
-
-
-38 (pag. 73).
-
-Na enumeração das diversas classes da infancia achamos ainda exactidão
-no padre Ivo, embora confundisse a letra N com a R: a palavra _menino_
-escreve-se _Curumim_ nos Glossarios brasileiros. (Vide Gonçalves Dias,
-_Diccionario da lingua Tupy_. Leipzig, 1858 em 12.)
-
-
-39 (pag. 81).
-
-Gonçalves Dias chama a virgem _Cunhã mucu_. (Vide _Diccionario_.)
-
-
-40 (pag. 82).
-
-Este singular uso, fallado por todos os viajantes do XVI seculo, como
-acaba de ver-se ainda não estava modificado.
-
-Não se encontra somente entre os Caraibas das ilhas, e sim tambem em
-pleno vigor na Europa, e especialmente entre os Bascos, e era então
-chamado a «encubação.»
-
-As «_Miscellanias historicas_,» publicadas em Orange em 1675, contem
-interessantes observações á tal respeito. «Nota-se, diz elle, um
-admiravel costume em Bearn. Quando pare uma mulher, anda á pé e o marido
-deita-se para guardar o resguardo. Creio que os Bearnenses tomaram este
-costume dos hespanhoes, de quem Strabon disse a mesma coisa no livro 3º
-da sua _Geographia_.»
-
-O mesmo faziam os Tibarénienses, como refere Nimphodore, na excellente
-obra de Apollonio de Rhodes, livro 2, e os Tartaros segundo o testemunho
-de Marco Paulo, cap. 41. livro 2.º
-
-Esto uso, tão exquisito, e só explicavel si se podesse descer até o
-recondito mais intimo do caracter indiano, era religiosamente observado
-pelos mais valentes e afamados guerreiros Tupinambás, e provocaria o riso
-do homem civilisado, si indagasse a sua origem natural. Torna-se porem
-admiravel, para assim dizer, quando se sabe ser tal costume acompanhado
-de mui crueis privações, porque o indio, que acaba de ser pae, e que
-se condemna a tão ridiculo repouso, não só priva-se de alimentos, como
-ainda se entrega a outros supplicios com intenção de evitar que soffra o
-filhinho certos males, que elle receia.
-
-Pela sua ignorancia e superstição julga-se com grande influencia
-phisiologica sobre o menino, e muito soffre e com stoicismo afim de
-poupar algumas dores ao recem-nascido.
-
-O homem civilisado das cidades, embora mediocremente intelligente,
-abstem-se de esquadrinhar estas ideias cheias de dedicação, embora
-inconstantes dos selvagens, e ri-se antes de proferir seo juiso.
-
-A companheira do indio tambem supersticiosa, approva o que faz seo
-marido: soffre, sem queixar-se, verdadeiras dores e entrega-se a um novo
-trabalho ainda mais pesado, porque todo o serviço da casa cahe sobre
-ella.
-
-No modo de pensar desta pobre mulher a salvação do recem-nascido depende
-do procedimento stoico de seo marido. Nunca podemos saber qual era o
-motivo, que obrigava os antigos a entregarem-se a este repouso tão
-exquisito, não differente provavelmente do concedido aos americanos.
-Carli, cuja engenhosa erudicção explica tantas coisas antigas da
-America, não procurou mesmo uma hypothese para descobrir motivo tão
-ridiculo. Enganou-se por certo, quando disse serem elles alimentados
-abundantemente. (Vide _Lettres Américaines_. Boston et Pariz, 1788, T. 1
-pag. 114.)
-
-É bom ler-se com cuidado a versão francesa d’esta curiosa passagem.
-
-Não soube o traductor francez, Febvre de Villebrune, dar real valor ás
-palavras _italianisadas_ pelo autor.
-
-Antonio Biet, é mais justo para com os indios, e menos inclinado á
-zombaria do que os seos predecessores, quando descreve a «incubação»
-entre os Galibis.
-
-«O pobre indio, diz elle, soffre muito durante seis semanas, come pouco,
-e quando acaba o resguardo, está tão magro como um esqueleto.»
-
-O mesmo viajante nos mostra o Galibi, sempre paciente, não deixando
-a _casa grande_, e nem se animando a levantar os olhos para os que o
-rodeiam. (_Voyage de la France equinoccial_, Livro 3.º pag. 390.)
-
-Descrevendo os costumes de certos Caraibas, não podia o autor da historia
-moral das Antilhas esquecer a incubação.
-
-Rochefort conta as particularidades e especifica sua analogia com uma
-ceremonia identica, que vio n’uma provincia de França.
-
-Este repouso forçado do indio pareceo-lhe muito absurdo, porem não nega
-ao pobre paciente o merito do jejum, antes confessa, que durante sua
-reclusão apenas lhe dão um pouco de farinha e agoa. (Vide _Historia
-moral_ pag. 494.)
-
-Não proseguiremos n’estas citações, bastando dizer que entre os povos
-do Brasil os Tupiniquins, os Tupinacs, os Tabajares, os Petiguaras, e
-muitas outras tribus imitam os Tupis, e estes nomes nada mais adiantam.
-
-Convem comtudo fazer bem saliente o amor paterno entre os indios,
-dando-se assim ao mais extravagante dos costumes a sua origem verdadeira.
-
-
-41 (pag. 84).
-
-_Tamoi_ quer dizer avô na lingua dos Tupinambás: aqui ha alteração de
-palavra, proveniente por differença de pronuncia.
-
-Lê-se no _Tesoro de la lingua Guarany_, base da lexicographia brasileira
-_Tamôi_, _abuelo_, _Cheramòi_, _mi abuelo_, _Cherúramôîruba_, _mi
-bisabuelo_, _Cherúramôî_, _el abuelo de mi padre_, etc.
-
-Por sua origem tinham os Tamoyos real proeminencia sobre as outras tribus
-da mesma raça.
-
-No meiado do Seculo XVI habitavam as circumvisinhanças de _Nicteroy_,
-ou antes do Rio de Janeiro: como alliados fieis dos franceses foram
-expellidos d’esse bello territorio por Salema, e os restos de suas tribus
-desceram para as regiões do Norte, onde encontraram seos antigos amigos,
-que se haviam refugiado especialmente nos campos de Maranhão.
-
-
-42 (pag. 87).
-
-Não é de mediocre importancia a especie de vocabulario, aqui offerecida
-pelo nosso missionario.
-
-Os leitores francezes, pouco familiarisados com a philologia americana,
-despresaram sem duvida esta collecção de frases, provenientes d’uma
-lingua, que comtudo servio de recreiação á Boileau: o mesmo não
-acontecerá n’um vasto Imperio, onde as letras são hoje tão honradas.
-
-Ha muitos annos já, que o Autor da _Historia Geral do Brazil_ provou a
-importancia do estudo das linguas indigenas n’uma _Memoria_ impressa
-entre as actas do _Instituto Historico do Rio de Janeiro_. (Agosto 1840.)
-
-O padre Anchieta, a quem se deve a composição da primeira grammatica,
-conhecida, da lingua geral, não fallava o Tupy sem uma especie de
-enthusiasmo; o padre Figueira o imitou em sua sincera admiração; Laet,
-com quanto não manifestasse admiração gabou sua abundancia e doçura, e
-nisto foi seguido por Bettendorf.
-
-Pode dizer-se, que entre todos estes foi o padre Araujo quem melhor fez
-sobresahir sua importancia debaixo do ponto de vista philosophico.
-
-«Como foi, disse algures esse Religioso, que os povos, que a fallaram,
-tendo suas ideias limitadas em estreito circulo de objectos, todos
-necessarios embora á seo modo de vida, podessem conceber signaes
-representando idéas, capazes de indicar o objecto, que não conheciam
-antes, e isto não de qualquer forma, e sim com propriedade, energia e
-elegancia», accrescentando «sem ter ideia alguma da religião, a não ser
-da natural, encontraram em sua propria lingua expressão para patenteiar
-toda a sublimidade dos mysterios da religião, e da Graça, sem pedir
-emprestado coisa alguma aos outros idiomas.»
-
-Enganar-se-ia completamente quem julgasse estar hoje esquecida a lingua
-usada entre tribus numerosas quando em 1500 Pedro Alvares Cabral
-descobrio o Brasil.
-
-Deixou não só vestigios na Geographia do Brazil, mais tambem ainda hoje
-se falla n’algumas aldeias, tendo estreita affinidade com o _Guarany_,
-lingua usada na mór parte do Paraguay. Comtudo não é a mesma do seculo
-XVI.
-
-Modificam-se os idiomas dos povos selvagens á similhança dos idiomas dos
-povos civilisados, e ainda mais talvez quando uma corrente de ideias
-novas vem desvial-os da liberdade do seo andar.
-
-O _Maya_, o _Quiché_, o _Aztéco_, o _Quichua_, o _Aymara_ não são o que
-foram no tempo de Cortez, de Alvarado, e de Pizarro.
-
-Si o sabio Veytia podesse, ha perto de um seculo, confrontar a differença
-enorme, que apresenta o Nahuatl antigo com o que fallavam muitas pessoas
-do seo tempo, imagine-se o que não succederia quando se fizesse a mesma
-confrontação entre a lingua Tupy, e o moderno Guarany.
-
-Esta ultima lingua, tão em uso no Paraguay, não é mais fallada com a
-pureza da sua origem, segundo diz o Sr. Beaurepaire de Rohan, si não
-pelos _Cayuas_, das nascentes de Iguatiny.
-
-São pois mui preciosos todos os livros, que tratam da lingua antiga
-debaixo do ponto de vista grammatical.
-
-Debaixo d’este ponto de vista, as viagens d’Hans Staden, de Thevet, e
-de Lery tem mais valor do que as Relações de Claudio d’Abbeville e Ivo
-d’Evreux.
-
-Acham-se todos os promenores apreciaveis á este respeito no nosso
-opusculo publicado sob este titulo—_Une fête bresilienne célébrée á Rouen
-en 1550. Suivie d’un fragment du XVI siécle roulant sur la Théogonie des
-anciens peuples du Brésil e des poésies en langue Tupique de Christovam
-Valente_. Pariz, Techener, 1850, gr. em 8.º
-
-O sabio Hermann E. Ludewig não conheceo o vocabulario apresentado pelo
-padre Ivo, ou pelo menos não tratou d’elle. (Vide _The literature of
-American aboriginal languages_. London, 1857, in 8.)
-
-Finalmente tem se feito n’estes ultimos tempos trabalhos de tanto folego,
-merecendo o primeiro lugar os do illustre _Martius_.
-
-Um distincto litterato brazileiro, o Dr. Gonçalves Dias, que já publicou
-em _Leipzig_ o _Diccionario da lingua Tupy_ (1858) foi de novo estudal-o
-nas profundas florestas do Amazonas.
-
-A philologia brasileira ainda fará grandes progressos.
-
-
-43 (pag. 94).
-
-Aqui ha falta sensivel em nosso texto, por ter indubitavel o nosso
-viajante occupar-se largamente d’uma raça, que com os _Morobixabas_
-representam o papel principal na vida civil e politica dos Brasileiros.
-
-Simão de Vasconcellos nas suas—_Noticias do Brasil_—nada deixa a desejar
-a tal respeito, e para elle enviamos nossos leitores, observando apenas
-que os _Piayes_, os _Pagé_ ou _Pagy_ somente alcançavam a prodigiosa
-influencia, que gozavam, submettendo-se á experiencias e a jejuns tão
-rigorosos a ponto de arriscarem sua vida, obtendo finalmente o titulo,
-que tanto ambicionavam.
-
-São as mesmas essas provas ou experiencias desde a embocadura do Orenoco
-até as do Rio da Prata.
-
-Quando o candidato estava ja muito enfraquecido pelo jejum, entregavam-no
-ás mordiduras das formigas, abarrotavam-no de bebidas asquerosas, cuja
-base era o succo do tabaco, e algumas vezes defumavam-no a ponto de
-perder os sentidos.
-
-Si resistia a taes supplicios, era igual senão superior aos guerreiros.
-
-Deixou-nos Vasconcellos a respeito do que se pode chamar _Collegio dos
-Piagas_, á similhança do _Collegio dos Druidas_, certas particularidades
-muito minuciosas, applicaveis principalmente ás Provincias do Sul.
-
-No Norte os _Pages Aybas_ eram os feiticeiros afamados astrologos, ou
-melhor _tempestuosos_, a que nada podia resistir. Sob sua dependencia
-estavam os astros, e sob sua obediencia o sol e a lua para cumprir suas
-ordens: desencadeiavam os ventos e levantavam tempestades. Os mais
-ferozes animaes, como as onças e jacarés, obedeciam-no.
-
-Para alcançar aos olhos do publico tal poder recorria o Pagé Aybas a um
-meio, que nunca falhou, isto, é a _herva dos feiticeiros_ ainda mais
-poderosa do que a da Europa, o _Paricá_, cujos effeitos terriveis foram
-descriptos pelo Dr. Rodrigues Ferreira. (Vide _Memorias das Academias
-das Sciencias de Lisboa_.)
-
-Mastigava-se o _Paricá_, e com isto fazia-se um unguento, uzado para
-uncturas.
-
-
-44 (pag. 100).
-
-Ha aqui um pequeno erro typographico, que convem corrigir: leia-se pois
-_rocou_.
-
-Em toda a America Meridional costumavam os selvagens tingir a pelle de
-vermelho alaranjado, ou de negro azulado por meio do _rocou_, _Bixia
-Orellana_, ou _Genipapeiro_ (_Genipa Americana_.)
-
-O Padre Ivo descrevendo com exactidão o fructo d’esta arvore, em
-abundancia no Maranhão, diz—o summo claro, e limpido que se extrahe
-della, fica muito negro logo depois da sua applicação, e assim
-conserva-se por 9 dias (Vide a este respeito _Humboldt_, _Voyage aux
-régions équinoxiales_.)
-
-
-45 (pag. 101).
-
-Serve-se aqui Ivo d’Evreux de uma expressão impropria designando pela
-palavra _Thon_ o que se chama _bicho de pé_, _niga_, _pulex penetrans_,
-dos entomologistas. Bem pode ser que a palavra seja da _lingua geral_.
-Encontra-se com a mesma accepção em Thevet, que a escreveo em 1558 (Vide
-_France antarctique_. pag. 90). È muito conhecido este insecto, e por
-isso desnecessario é demorarmo-nos descrevendo os males, que produz.
-(Vide entre outros Naturalistas, o veridico Auguste de Saint-Hilaire,
-_Voyage dans l’interieur du Brésil_. T. 1.º pag. 35 e 36).
-
-
-46 (pag. 106).
-
-Realisou-se completamente a prophecia do bom Padre.
-
-Poucas são as regiões do mundo, que, como esta, tenham sido exploradas em
-beneficio da sciencia.
-
-Alem das _Plantas uteis do Brazil_, devidas ao nunca assás chorado
-Augusto de St. Hilaire, ha hoje a _Flora brasiliensis_ do illustre
-Martius, tambem autor da _Materia-medica_ deste paiz.
-
-Não desejamos cançar o espirito do leitor com uma arida nomenclatura de
-livros especiaes.
-
-Contentamos-nos apenas dizendo, que muito tem os brazileiros concorrido
-para estes trabalhos scientificos, citando somente as _Memorias_ do
-Dr. Freire Allemão, recentemente publicadas, e a grande collecção,
-infelizmente não acabada, da _Flora Fluminensis_.
-
-
-47 (pag. 108).
-
-Esta molestia, tão cruel e tão similhante á syphilis, se não é a propria
-syphilis, tambem acha-se descripta na _France antarctique_ de André
-Thevet, livro publicado em 1558 (vide pag. 86). João de Lery tambem
-descreveo seos symptomas. Está claro, que não se pode attribuir aos
-negros de Guiné molestia tão geral entre os Americanos.
-
-
-48 (pag. 114).
-
-O Padre Ivo é rigorosamente exacto no que diz á respeito dos funeraes dos
-Indios, e com elle concordam em tudo Lery e Thevet, dando este ultimo uma
-excellente estampa representando um Indio prestes a ser sepultado. (Vide
-pag. 82 v.)
-
-
-49 (pag. 114).
-
-Não se esqueciam os Tupinambás de collocar, entre as suas singulares
-previsões para o morto, um pouco de tabaco, carne, peixe, raizes de cará
-e de farinha de mandióca. É rigorosamente verdadeiro tudo o que o padre
-Ivo conta n’este capitulo, como se pode vêr nas estampas que apresentam
-Thevèt na _France antarctique_, e Lery na sua _voyage_.
-
-
-50 (pag. 117).
-
-Os Tapuytapéras, cujo nome deviam á uma localidade do Maranhão, tinham
-cabellos cumpridos. Pertenciam á raça Tupy, pois que _Migan_, o
-interprete natural de Dieppe, entendia sua linguagem, e o mesmo succedia
-aos de Commã, cuja aldeia tinha indios com este nome.
-
-Os Cahetés, no seculo XVI, constituiam uma nação essencialmente bellicosa
-occupando a maior parte do territorio de Pernambuco. Fallavam a lingua
-Tupica, ou _lingua geral_. Encontram-se as mais curiosas particularidades
-á respeito de sua organisação interna no _Roteiro do Brasil_, manuscripto
-existente na Bibliotheca Imperial de Pariz.
-
-Hoje está sabido, que este livro, tão notavel, composto em 1587 por
-Gabriel Soares, é o trabalho mais completo, que existe sobre as diversas
-tribus do Brasil existentes no tempo do padre Ivo.
-
-Passados muitos annos a Academia Real das Sciencias de Lisboa,
-reconhecendo a sua importancia, imprimio-a nas suas _Noticias das
-nações ultramarinas_, e depois o Sr. Francisco Adolpho de Varnhagem,
-colleccionando todas as copias d’esta mesma obra, embora sob diversos
-titulos, publicou uma nova edicção superior á todas, sob o titulo de
-_Tratado descriptivo do Brasil em 1587, obra de Gabriel Soares de Sousa,
-senhor de engenho na Bahia, nella residente dezesete annos, seo vereador
-da Camara_. _Rio de Janeiro._—1851 em 8.º
-
-
-51 (pag. 118).
-
-O padre Ivo quando quer designar o tubarão, escreve impropriamente
-_requin_, quando na primitiva era _requiem_. Pode bem ser, que o nome
-imposto a este peixe tão voraz provenha da rapidez com que mata.
-
-
-52 (pag. 120).
-
-O _Maracá_ era um instrumento symbolico, usado tanto nas festas
-religiosas como nas profanas. Thevet, o guarda das curiosidades do Rei, o
-descreveo muito bem em seos manuscriptos, inedictos, e como sei que não
-será desagradavel para aqui transcrevo as suas palavras:
-
-Tendo nas mãos um ou dois _maracás_, que é um fructo grande, de forma
-oval, similhante ao ovo de abestruz, e da grossura de uma abobora, mais
-agradavel á vista do que ao paladar, pelo que ninguem o come, fazem com
-elles muitos mysterios e superstições tão extravagantes como incriveis.
-Cavam o fructo, enchem-no de milho graudo, amarram-no a ponta de uma
-haste, enfeitam-no com pennas e enterrando a outra ponta, fica ella
-em pé. Cada casa tem um ou dois Maracás, que respeitam como si fosse
-_Tupan_, trazendo-o sempre na mão, quando dançam e fazendo chocalhar.
-
-Pensam que é _Tupan_ que lhes falla (Manuscripto de André Thevet,
-conservado na Bibliotheca Imperial de Pariz.)
-
-Hans Staden e Lery, Roulox Baro escreveram largas paginas a respeito do
-Maracá, e o proprio Malherbe falla dos que ouvio em Paris por occasião do
-baptismo de tres indios sendo padrinho Luiz XIII.
-
-Chegando a Pariz, e residindo no Convento dos seos protectores, os indios
-revestidos dos seos bellos adornos, e com o _maracá_ em punho, excitaram
-muito enthusiasmo, a ponto de haver muita paixão pela sua dança e pela
-sua propria musica.
-
-Seria muito curioso si hoje se achasse a Sarabanda composta em honra
-d’elles pelo famoso Gauthier. Malherbe escreveo ao celebre Peirese
-dizendo tel-a mandado á Marco Antonio «como excellente peça digna de
-ouvir-se» (Vide _Correspondance_, pag. 285, antiga edicção.)
-
-Ainda, passadas 12 paginas Malherbe tratou da musica então em voga, e
-do seo auctor, dizendo «ser Gauthier considerado o primeiro no officio,
-ignorando porem si sahira bem, e si o gosto da Provincia se conformará
-com o da Côrte.»
-
-Não se contentaram somente de proporcionar aos pobres selvagens
-distracções ligeiras, pois procuraram obrigal-os a residir em França.
-
-Diz o poeta pag. 275 «os Capuchinhos, para obsequiarem completamente
-estes pobres selvagens, resolveram algumas beatas a casarem-se com elles,
-e ja deram começo a excursão d’este plano.»
-
-Emquanto porem eram bem acolhidos os guerreiros do Maranhão, suas
-mulheres não gozavam iguaes favores.
-
-Uma certa Princesa cujo nome calla o poeta, manifestando opinião
-singular, dizia «que para elles tinha muita satisfação de dar-lhes casa e
-comida, mas que ás senhoras, suas mulheres, não podiam ser senão...» bem
-me entendeis, e por isso não podia recebel-as em sua casa.
-
-
-53 (pag. 120).
-
-É mui curioso o saber-se, que esta expedição exploradora ás margens do
-Mearim, reconheceo logo serem essas terras essencialmente proprias para
-a plantação da canna de assucar, a que se empregam todos os braços de
-15 annos para cá, sendo esta revolução agricola devida á influencia do
-Dr. Joaquim Franco de Sá. A charrua despresada por tão longos annos hoje
-sulca este solo admiravel.
-
-
-54 (pag. 122).
-
-Deve lêr-se _Mutum_ sendo a especie mais pequena designada pelo nome de
-_Mutum Pinima_. (Vide _Diccionario Tupy_ de Gonçalves Dias.)
-
-Trata-se aqui de Hocco _Crax Alector_, caça mui procurada.
-
-A imperial sociedade de acclimatação emprega actualmente louvaveis
-exforços para naturalisar em França este passaro do Brasil e da Goyana.
-
-
-55 (pag. 122).
-
-É uma linda especie de periquito, conhecida no Brasil pelo nome de _Tui_.
-
-Forma ás vezes bandos tão grandes a ponto de ser um dos flagellos da
-agricultura.
-
-
-56 (pag. 123).
-
-É a palmeira chamada—_Tucum_—pelos brasileiros.
-
-Consulte-se a magnifica _Monographia das palmeiras_ por Martius. O
-_Tucum_ tem fibras verdes e macias, das quaes se faz excellente fio,
-proprio para cordas.
-
-
-57 (pag. 123).
-
-Ivo d’Evreux não hesita com sua sinceridade habitual a formar um verbo
-derivado da lingua indigena.
-
-Desde as margens do Orenoco até as do Rio da Prata era o _Cauim_
-preparado em grande quantidade.
-
-Tinha o mesmo nome em toda a parte esta especie de cerveja, ou talvez
-melhor de cidra, quer fosse preparada com milho mastigado pelas mulheres,
-quer com mandióca cajú ou jabuticaba.
-
-Encontramos este fabrico e nome até entre os Araucans. (Vide a importante
-obra, do Chili, do Sr. Claudio Gay.)
-
-A palavra _cauin_ atravessou espaços immensos, são os mesmos em toda a
-parte os processos para o seu fabrico, o que prova estreito parentesco
-entre os povos mais distantes, uns dos outros.
-
-Hans Staden, Lery, Thevet tem apontado seos abusos, e chamamos a attenção
-dos nossos leitores para as suas curiosas narrativas.
-
-O que os nossos antigos viajantes chamavam _Cauinage_ era afinal uma
-solemnidade, cujo sentido religioso não conhecemos.
-
-Precediam ou succediam estas orgias ás grandes expedicções.
-
-O «vinho da Europa» se chama hoje _Cauin Pyranga_, e a aguardente tão
-fatal aos indios, _Cauin Tata_, «bebida de fogo.»
-
-
-58 (pag. 123).
-
-Descreve com minuciosa curiosidade João de Lery esta festa solemne, na
-qual se infiltrava o _espirito de coragem_, aos guerreiros prestes a
-partirem para uma expedição.
-
-Uma das estampas do seo livro representa até esta ceremonia.
-
-Entre todas as tribus da raça tupy o tabaco é considerado como planta
-sagrada.
-
-Reunimos tudo que se sabia ha alguns annos á respeito da origem do
-_Petum_ na carta, que dirigimos a Mr. Alfredo Demersay, sobre a
-introducção do tabaco em França, (Vide _Etudes economiques sur l’Amerique
-meridionale. Du Tabac du Paraguay_. Pariz. Guillamin. 1851 em 8.º)
-
-
-59 (pag. 125).
-
-O nome d’esta nação tão pouco conhecida, e que se apresenta á penna do
-padre Ivo, é uma garantia da exactidão das suas narrações.
-
-Ainda em 1817 existiam alguns _Tramembez_ entre os trabalhadores brancos
-do Ceará: cultivavam mandióca e residiam na villa de _Nossa Senhora da
-Conceição d’Almofalla_, onde haviam muitas salinas. (Vide Ayres Casal,
-_Corographia Brasilica_, T. 2º, pag. 235.)
-
-Gaba o padre Ivo o valor e a industria d’estes indios, inimigos
-encarniçados dos Tupinambás.
-
-
-60 (pag. 125).
-
-Tratamos d’este famoso indio quando elle se revestio do commando.
-
-É a figura indigena mais predominante nas duas obras do padre Claudio
-d’Abbeville e padre Ivo.
-
-Na _lingua geral_ a palavra _japim_ é o nome de um lindo passaro, de
-pennas amarellas e negras, que anda em numerosos bandos e que em toda a
-parte faz tão lindos ninhos.
-
-Pode tambem dar-se-lhe outra significação. _Japy_ significa na lingua
-indigena do Maranhão, «o choque, o golpe.» (Vide Gonçalves Dias,
-_Diccionario_.) A primeira explicação é a unica adoptada. Japy-uaçú era o
-que se chamava um _Mitagaya_, um grande guerreiro.
-
-
-61 (pag. 126).
-
-Deixa-se o padre Ivo levar muito pelas recordações da Europa.
-
-_Jeropary-açú_, de que tratam escriptores portuguezes, nada tem de commum
-com um principe ou um rei, taes como eram representados no novo-mundo por
-convenção hierarchica.
-
-Este erro ja havia sido anteriormente commettido por André Thevèt na sua
-_França antartica_ e na sua _Cosmographia_. O historiador de Portugal, La
-Clede, que vivia no seculo XVIII foi mais longe ainda na enumeração dos
-pomposos titulos, que dá a alguns pobres chefes de tribus.
-
-
-62 (pag. 127).
-
-Com o nome de _cabaças_ conhece-se geralmente no Brasil vasilhas
-ordinarias, feitas com o fructo da cabeceira.
-
-Em Venezuella chama-se _Tutumas_.
-
-Algumas destas vasilhas naturaes mostram delicados ornatos, cores
-inalteraveis pela agua e grande brilho. (Vide a este respeito Claudio
-d’Abbeville, _Histoire de la mission des péres Capucins_.)
-
-
-63 (pag. 128).
-
-É isto confirmado por Magalhães de Gandavo, o primeiro escriptor
-portuguez, que escreveo uma historia regular do Brasil em 1576.
-
-Este amigo de Camões recorda a expressão indigena de que se serve o padre
-Ivo, porem não partilha sua opinião, antes crê ser o ambar um producto
-vegetal formado no fundo do mar. O que é certo é, que nos seculos XVI
-e XVII o encontro, quasi sempre casual, de enormes pedaços de ambar,
-arremeçados pelas ondas em praias não exploradas, enriqueceo muita gente.
-
-
-64 (pag. 131).
-
-Debalde procuramos este nome no livro de Ayres do Casal, e no Diccionario
-de Milliet de Saint Adolphe.
-
-A região habitada pelos Cahetés de que trata, sabemos com certesa ser na
-provincia de Pernambuco.
-
-A palavra _Cahetés_ significa _floresta grande_, e se applica a diversas
-localidades.
-
-Foram os _Cahetés_, que em 1556 mataram e devoraram o primeiro Bispo do
-Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha.
-
-Este sabio prelado, natural de Setubal, e educado na universidade de
-Pariz, regressava á Lisboa, onde ia queixar-se do governador da Bahia.
-
-Mostra-se ainda hoje a colina, onde elle morreu, e não cresce ahi planta
-alguma, segundo a crença do povo. (Vide Adolpho de Varnhagem—_Historia
-Geral do Brazil_.)
-
-O livro de Gabriel Soares contem tudo quanto se deseja á respeito dos
-Cahetés, indios considerados geralmente como invensiveis guerreiros, e
-que se gabavam de habeis musicos.
-
-A exploração do _Uarpy_, de que aqui se trata, e emprehendida pelo Sr. de
-Pezieux é uma prova evidente do cuidado, que havia de explorar-se esta
-região, percorrendo-se de N. a S.
-
-
-65 (pag. 131).
-
-Estas minas de oiro, que se esperava encontrar no Maranhão em 1613,
-existem hoje na serra de _Maracassumé_.
-
-Encontra-se o metal precioso sobre tudo em _Piranhas_, (districto de
-_Santa Helena_) nas cabeceiras dos rios Pindaré, Gurupy, Cabello de Velha
-(_Cururupu_) Prata (Santa Helena) na Revirada, nas margens do Tomatahy,
-etc., etc., porem em pequena porção.
-
-Existe cobre na Chapada no lugar _Fazendinha_ e no Alto Pindaré.
-
-Ferro existe em mais lugares, nos montes de Tirocambo e em Pastos-Bons.
-
-Suppõe-se haverem minas de estanho, porem ainda não se sabe com certesa.
-
-Encontra-se tambem o carvão de pedra, precioso mineral no estado
-actual da industria: depararam-se ja com alguns indicios no canal do
-Arapapahy, e affirma-se haver uma mina na distancia de meia legoa do
-Codó, na fazenda de Santo Antonio, cujas amostras provam ser de superior
-qualidade. Dizem haver tambem em Vinhaes.
-
-Em Sam José dos Mattões encontram-se cristaes de rocha e pedras
-semi-preciosas, e saphiras em Sam Bernardo da Parnahyba.
-
-De passagem lembramos que as primeiras minas de ouro, ou para melhor
-dizer, os primeiros veios de ouro, destinados a enriquecerem o Brasil,
-somente foram descobertos em Minas-Geraes, no anno de 1595.
-
-Pelas Provincias do norte não conheceo a Metropole as riquezas
-metalicas d’este vasto territorio, onde desemboccam o _Rio doce_, e o
-_Jequitinhonha_.
-
-Sabe-se que este ultimo rio que toma o nome de Belmonte na occasião em
-que se lança no mar, pouco distante do primeiro, com o andar dos tempos
-deo á corôa enorme quantidade de diamantes.
-
-Estas pedras, encontradas em 1729, principalmente no valle cercado
-de alcantiladas rochas, chamado pelos indios—_Ivitur_, e pelos
-portuguezes—_Serro do Frio_, não eram completamente despresadas pelos
-indios, pois seos filhos as ajuntavam, e com ellas brincavam.
-
-No Maranhão não ha diamantes.
-
-
-66 (pag. 141).
-
-Mostra-se o padre Ivo aqui mui parco em suas descripções, porem deve-se
-desculpal-o por não ser naturalista como um theologo do seo tempo. Foi
-ainda mais parco o seo predecessor.
-
-O que disse de algumas plantas do genero _mimosa_ indica a sua
-preoccupação á respeito de certos phenomenos naturaes.
-
-As qualidades maleficas, que reconhece no succo do Cajú, de que se
-fabrica uma especie de cidra, são mui exageradas.
-
-Diremos de passagem, que a palavra _Cauin_ deriva-se do nome indigena
-d’esta arvore. _Caju-y_, licor de _Caju_.
-
-
-67 (pag. 145).
-
-Á flor da paixão (_Grenadilla cœrulea_) na qual a imaginação prevenida
-encontra santos attributos, gozava então de prodigioso favor. Foi
-descripta em varias obras, e gravada exagerando-se os pontos de
-similhança, que podia ter com os instrumentos do supplicio de Jesus
-Christo.
-
-Ivo d’Evreux encontrou nos campos do Brasil magnificas flores d’estas, e
-mostrou-as aos amadores. Alguns annos depois elle se teria aproveitado da
-descripção poetica, que d’ella fez o poeta popular Santa Rita Durão no
-poema intitulado _Caramuru_.
-
-Lembramos aos amadores de flores phantasticas uma gravura do seculo
-XVII, mui curiosa, mostrando a planta com o seo tamanho natural na obra
-_Antonii Possevini Mantuani Societatis, Jesu cultura ingeniorum, examen
-ingeniorum Joannis Huartis. Expenditur Coloniæ Agrippinæ_. 1610 em 12.
-
-
-68 (pag. 146).
-
-O guará (_Ibis rubra_, ou _Tantalus ruber_) desappareceo em parte de
-varias localidades do littoral, onde costumava expandir sua brilhante
-plumagem, sujeita, conforme a idade, a diversas modificações.
-
-Na obra curiosa de Hans Staden, publicada na Allemanha em 1557, vê-se
-qual é o papel, que representa esta ave na industria indigena.
-
-Formavam os Tupinambás em tempo certo verdadeiras expedições para
-procurar as pennas d’ellas, sempre raras, afim de servirem nas festas com
-que as tribus se obsequiavam reciprocamente.
-
-Em caso de necessidade eram substituidas por pennas de gallinhas, tinctas
-com uma preparação vermelha de _Ibirapitanga_, ou pau-brasil.
-
-Actualmente refugiou-se o guará nas margens, pouco frequentadas, do rio
-de Sam Francisco, e principalmente nas desertas regiões do Rio Negro.
-Ainda tambem encontram-se algumas na _lagoa dos patos_, e em _Guaratuba_.
-(Vide _le second voyage d’Aug. St. Hilaire_. T. 2º, pag. 222.)
-
-
-69 (pag. 152).
-
-É impossivel aos que não leram as obras da idade media interpretar bem o
-sentido d’esta frase.
-
-O livro conhecido sob o nome de _Phisiologus_ gozava ainda de certo
-credito no tempo do padre Ivo de Evreux. Quem quizer informar-se d’isto
-minuciosamente leia o precioso resumo d’esta curiosa obra, publicada
-pelos Rvds. padres Cahier e Martin, sob o titulo _Melanges d’Archéologie,
-d’histoire et de litterature_. 4 vol. in-fol.
-
-
-70 (pag. 156).
-
-As mulheres Tupinambás, que assim cantavam para attrahir as formigas, e
-activar a caça d’estes insectos, não o faziam somente para destruil-as,
-ou para resguardar suas plantações de milho de uma invasão invencivel.
-
-As formigas grandes torradas eram consideradas como uma das golodices
-mais preciosas, cuja receita foi por ellas ensinada a alguns colonos
-do Sul, e sem duvida não será desputada pelos nossos modernos Brillat
-Savarin.
-
-Assim como os Arabes comem ainda hoje gafanhotos, conservados em sal ou
-pela dissecação, e os Guaraons das margens do Orénoco apreciam muito
-as larvas da palmeira Muriti (não fallando de outra comida da terra do
-mesmo genero), assim tambem os nossos selvagens guardam grandes provisões
-d’estes insectos para sua nutrição.
-
-Augusto de Saint-Hilaire, o mais verdadeiro viajante, que percorreo o
-Brasil, achou ainda em vigor o costume de se comer formigas assadas.
-
-Depois de ter affirmado ser muito apreciado esse manjar no Espirito
-Santo, pelo que os habitantes de Campos, sempre rivaes dos da Cidade
-da Victoria, os chamavam _Tata Tanajuras_, «comedores de formigas»,
-accrescentou «eu mesmo comi um prato d’estes animaes, preparados por uma
-mulher Paulista, e não lhes achei mau gosto.» (Vide _Le second voyage au
-Brésil_. T. 2.º pag. 181).
-
-Martim Soares de Souza, com rasão chamado o Gregorio de Tours dos
-Brasileiros, é mais claro a respeito do proveito que os indios tiravam
-das formigas como alimento.
-
-Copiamos aqui o que elle tão curiosamente disse. Depois de haver fallado
-da especie grande, a que chamam Içans, escreveo—«_E estas formigas comem
-os indios, torradas sobre o fogo, e fazem-lhe muita festa; e alguns
-homens brancos andam entre elles, e os mistiços as tem por bom jantar, e
-o gabam de saboroso, dizendo que sabem a passas de Alicante: e torradas
-são brancas dentro._»
-
-
-71 (pag. 156).
-
-O pretendido cão, de que aqui falla o nosso Missionario, está muito longe
-da raça canina: é apenas o _papa-formigas_, chamado pelos indigenas
-_tamanduá_, e pela sciencia _Myrmecophaga jubata_.
-
-O naturalista Waterton, que com tanta curiosidade estudou os quadrupedes
-do novo mundo nos proprios lugares, onde com plena liberdade se entregam
-aos seos instinctos, fez excellente descripção d’este animal.
-
-Ha no Brasil muitas especies de papa-formigas, sendo rarissima a chamada
-pelos portuguezes _Tamanduà-cavallo_: parece ter sido este sobrenome o
-causador de haver o padre Claudio d’Abbeville errado, quando disse ser o
-_papa-formigas_ do tamanho de um cavallo.
-
-A palavra india, que designa este curioso animal, é composta de duas
-Tupis—_taixi_, «formiga,» e _mondê_ ou _mondâ_, «tomar.»
-
-
-72 (pag. 157).
-
-Deve escrever-se _Taranyra_, cujo nome pertence a um pequeno lagarto.
-Falla-se aqui do _Tiú_ (_Tupinambis monitor_).
-
-É excellente a carne d’este reptil, e muito havia de concorrer para
-tornal-a saborosa a preparação culinaria tão gabada pelo Padre Ivo
-d’Evreux.
-
-A repugnancia d’esse bom Padre para taes comidas, não é de fórma alguma
-partilhada pelos descendentes dos Europeos, acostumados ás melhores mezas.
-
-A carne de Tui pela sua côr e maciesa muito assimilha-se á da gallinha
-mais preciosa, e por isso apparece nas melhores mezas do Brasil.
-
-
-73 (pag. 162).
-
-O nosso autor quer fallar da _Aranha caranguejeira_, (_Aranea
-avicularia_) porem aqui enganou-se. Exagera muito as dimensões d’este
-insecto, na verdade nojento, como se pode vêr em todas as collecções
-de entomologia. Não é verdade dizer-se que não fabricam fios para suas
-teias: a sua picada não mata, porem envenena. Na lingua Tupy chama-se
-_Nhandu-Guaçu_ ou de _Jandu_.
-
-
-74 (pag. 163).
-
-O que nos diz o bom Religioso do barulho da cigarra denota gosto de
-observação na historia natural, muito raro n’aquella epoca, mas convem
-não confundir a cigarra brasileira com o insecto assim chamado na Europa.
-
-
-75 (pag. 165).
-
-Na lingua _Tupi_ escreve-se _Okiju_. (Vide _Martius_, _Glossaria ling.
-bras._ pag. 465).
-
-
-76 (pag. 168).
-
-Ivo d’Evreux confesse-se, está aqui muito inferior á seo contemporaneo o
-Padre du Tertre.
-
-É verdade porem tudo quanto elle diz da luz dos _pyrilampos_.
-
-A entomologia estava então muito pouco adiantada para que houvesse uma
-classificação entre os insectos, e não temos habilitações para preencher
-esta falta. Actualmente conhece-se no Brazil oito especies de pyrilampos
-a saber:
-
- _Lampyris crassicornis_,
- _ « signaticollis_,
- _ « concoloripennis_,
- _ « fulvipes_,
- _ « diaphana_,
- _ « hespera_,
- _ « nigra_,
- _ « maculata_.
-
-Pode tambem juntar-se a estes lindos insectos a _lucidota thoraxica_.
-
-
-77 (pag. 169).
-
-É muito exacto, e as abelhas do Brazil não tem aguilhão: eis o que diz um
-observador sabio e veridico.
-
-Depois de haver affirmado, como o Padre Ivo, que as abelhas não picavam,
-disse Augusto de Saint Hilaire «uma especie chamada _tataira_ deixa,
-segundo dizem, escapar pelo anus um liquido ardente; e por isso é só á
-noite que se colhe o seo mel.»
-
-As especies chamadas _uruçú-boi_, _sanharó_, _burá_, _bravo_, _chupé_,
-_arapua_ e _tupi_ se defendem, quando são atacadas, mas parece não terem
-aguilhão, limitando-se a morderem como fazem as outras.
-
-É muito liquido o mel das diversas especies, e a cera tem a côr parda
-muito carregada, não se podendo até hoje conseguir tornal-a branca, como
-a da Europa.
-
-Spix e Martius dão curiosas informações a respeito d’estes uteis
-insectos, que completam as do nosso grande botanico. (Vide _Voyage dans
-les provinces do Rio de Janeiro e de Minas Geraes_. T. 2.º, pag. 371 e
-seguintes.)
-
-
-78 (pag. 176).
-
-Não ha talvez no mundo região alguma, que tenha maior variedade de
-macacos do que o Brazil.
-
-Creio que aqui se trata primeiro da _guariba_, ou _mycetes ursinus_,
-e depois do macaquinho _stentor_, que intentou descrevêr o nosso bom
-Missionario.
-
-É provavelmente d’esta especie a descripção tão agradavel e tão animada,
-feita pelo nosso velho escriptor.
-
-Convem observar porem que o Padre Ivo fez-se echo de uma crença popular
-muito vulgar no seculo XVI.
-
-Esta especie de legenda das florestas, muito mais applicavel aos macacos
-da Africa e da Asia do que aos do novo-mundo, não se extinguio ainda
-de todo nos campos da America Meridional, e mostraram a M. Castelnau
-uma india, que julgava ter escolhido seo marido entre os macacos das
-florestas (Vide _Expedition dans les parties centrales de l’Amérique du
-sud, de Rio de Janeiro á Lima et de Lima au Pará, exécutée par ordre du
-governement français_. Paris 1851, _partie historique_. 5 vol. in 8.º)
-
-
-79 (pag. 177).
-
-Basta ter-se vivido nas florestas habitadas por macacos para conhecer-se
-a exactidão do que escreveo o Padre Ivo.
-
-
-80 (pag. 180).
-
-Ha aqui com certesa erro, ou então exageração.
-
-O Padre Claudio d’Abbeville, que descreve a mesma ave de rapina (pag.
-232) julga ser elle «duas vezes mais corpolento do que a aguia, ter a
-perna da grossura de um braço, e a pata em fórma de unhada.»
-
-Poderia ser esta descripção do Condor, porem não existe esta ave na
-America do Sul.
-
-Diz o Coronel Ignacio Accioli ter o _gavião real_ tanta força a ponto de
-fazer parar em sua carreira um viado por mais forte que seja.
-
-É tão phantastica a descripção do Padre Ivo, que á primeira vista se pode
-applical-a ao abestruz americano de _Nandú_, que se encontra somente no
-Ceará e Piauhy.
-
-Um escriptor contemporaneo, Gabriel Soares, tantas vezes citado,
-restabelece a verdade fallando do _Ura-açu_ disse «são passaros, como os
-milhafres de Portugal, sem differença alguma, negros e de azas grandes,
-de cujas pennas utilisam-se os indios para emplumarem suas flexas, e
-vivem de rapina.» (Vide _Tratado descriptivo do Brasil em 1587_. Rio de
-Janeiro.—1851 1.º vol. in 8.º pag. 232.)
-
-Lembramos de passagem, que debaixo do ponto de vista scientifico a parte
-ornithologica é muito imperfeita, embora a bellesa do estylo do nosso
-velho viajante.
-
-O que diz, por exemplo, o Padre Ivo do passaro mosca, ou do colibri,
-é inteiramente inexacto, pois elle não tem o tal canto agudo, que faz
-lembrar o grito da cotovia.
-
-Confundiram-se as recordações com a distancia.
-
-
-81 (pag. 181).
-
-Ivo de Evreux quer dizer, que os Indios se _fazem galans_, preparando-se
-com pennas de papagaios.
-
-Faziam os Tupinambás com estas pennas não só mantos, diademas e
-perneiras, mas tambem cortavam bem miudinhas as pennas pequenas e
-coloridas d’estes passaros, e cobriam com esta pennugem o corpo, e n’elle
-grudavam-na com certa gomma.
-
-Este enfeite selvagem e singularmente original ainda é muito usado e
-apreciado em certas tribus.
-
-Segundo conta João de Lery durou mais de tres seculos.
-
-A viagem pittoresca de Debret apresenta uma amostra.
-
-
-82 (pag. 185).
-
-Basta, é bastante. Os hespanhóes e os portuguezes conservaram a palavra
-_bastar_.
-
-
-83 (pag. 185).
-
-Já pagamos justo tributo de saudade a este Religioso, tão cheio de
-bondade como de zelo, cuja sepultura no antigo cemiterio do pequeno
-Convento não é sabida em Maranhão.
-
-Como indica o seo sobrenome de Religião, nasceo o Padre Ambrosio na
-Capital da Picardia, «de parentes abastados, diz o manuscripto dos
-elogios, e que lhe deram educação conforme permittiam seos negocios.»
-
-Depois de haver estudado na Sorbona, quando estava prestes a receber a
-sua carta de licenciado, foi abalado pelas prédicas do Padre Pacifico de
-São Gervasio, e entrou no Convento em 1575, quasi no tempo da fundação do
-Mosteiro de Santo Honorato.
-
-Em 1599 acabou seo noviciado, e com satisfação começou a preencher as
-obrigações de irmão leigo.
-
-Cedo passou a prégador, e então adquirio essa fama de caridoso, que o fez
-tão popular.
-
-Aspirava a mais do que isto, «porque queria converter todas as Indias»,
-diz a noticia a elle dedicada.
-
-O Padre Ivo cercava de todos os cuidados os seos confrades quando
-emprehendiam viagens tão incommodas principalmente n’aquelle tempo.
-
-Estava já muito enfraquecido, e sem forças, quando em 26 de setembro de
-1612 cahio doente, em sua pobre cabana de pindoba.
-
-Ardente febre o devorava, e comtudo, ainda depois de receber a extrema
-uncção, conservou em bom estado e sempre firme o uso de suas faculdades
-intellectuaes.
-
-Transcrevamos aqui algumas palavras, que mostram qual foi o fim de tão
-bom velho.
-
-Claudio d’Abbeville assim o conta:
-
-«Cahindo sobre elle um pequeno painel da Imagem de S. Pedro, pendurado
-por cima de sua cama, e a que dedicava profunda devoção, elle
-disse—vamos, grande Santo, partamos, ja que vieste buscar-me.—
-
-«Dizendo isto olhou para o Crucifixo e após curta agonia restituio ao
-Creador sua alma tão bôa em 9 de Outubro de 1612, dia da festividade do
-Glorioso Apostolo de França, S. Diniz, Bispo de Pariz:
-
-«Foi sepultado no lugar chamado S. Francisco, consagrado ao nosso
-Patriarcha, como premicias dos Capuchinhos Francezes.» (Vide tambem
-«_Éloges historiques de tous les illustres religieux capucins de la
-ville de Paris, les uns par la prédication, les autres par les vertus
-et sainteté de leurs œuvres, les autres par les missions parmy les
-infidelles etc. etc._ sob numero _Capucin_ Saint Honoré 4 (ter).)»
-
-É para sentir-se e muito que se tenha perdido ha alguns annos o 1.º vol.
-d’esta importante collecção, contendo os Annaes da Provincia.
-
-
-84 (pag. 186).
-
-Prova esta phrase tão rigorosa do velho missionario a rapidez, com que
-se espalhou na Europa o _avati_, dos brasileiros, o _milho_ dos ilheos
-visto, bem como o tabaco, por Christovão Colombo na primeira viagem em
-1493.
-
-Levantaram os botanicos grande questão, ainda não resolvida, sobre a
-origem primitiva do milho.
-
-Pelo que diz respeito ao Brasil citamos a opinião d’um viajante, que por
-seu saber pode passar por authoridade.
-
-Augusto de St. Hilaire pensa ter nascido no Paraguay, onde o vio em
-estado inculto.
-
-A cultura do milho é ao Sul d’America a planta nutritiva por excellencia,
-e prepara-se sua farinha por processos simples, e que dão optimo gosto.
-
-Enviamos nossos leitores, que desejam instruir-se de tudo quanto se
-refere á esta graminea para o precioso livro do Dr. Duchesne—_Traité
-complet du maüs ou blé de Turquie_. Paris. Renouard, 1833 em 8º, e para a
-grande obra de M. Bonafous.
-
-
-85 (pag. 187).
-
-Falla aqui verdade o padre Ivo, porem não se segue que ao norte do Brasil
-se possa fazer vinho.
-
-O maior obstaculo, que encontra este fabrico, está no amadurecimento do
-fructo sob os tropicos.
-
-No mesmo cacho ao lado de muitas uvas maduras encontra-se grande numero
-de verdes.
-
-È voz corrente ter-se feito algum vinho na visinhança da Bahia.
-
-Caminhando-se para o sul, na região temperada de Mendoza, a uva amadurece
-perfeitamente, e dá vinho precioso. (Vide, entre outras viagens a
-respeito d’este ponto curioso de agricultura americana—_Sallusti_,
-_Storia delle missione del Chile_. 4. vol. em 8.º Padre Barrére.
-_Nouvelle Relation de la France equinoxiale_. Paris, 1743. 1º vol. em 12,
-pags. 53 e 54.)
-
-
-86 (pag. 187).
-
-Trata-se aqui do fio que se extrahe com abundancia de uma especie de
-Ananaz. (_Ananas non aculeatus_, _Pitta dictus Plum_.)
-
-Com elle os portuguezes faziam meias, quasi tão procuradas como as de
-seda.
-
-
-87 (pag. 191).
-
-Não se encontra esta palavra no Diccionario de Nicot, irmão de Villemain.
-
-Podemos affirmar, que se deve escrever _hansares_—que significa—uma foice
-de grande tamanho.
-
-
-88 (pag. 192).
-
-Fazer certo sussurro expellindo com força o ar pelo nariz. É expressão
-do povo, confundida no Diccionario da Academia com a palavra—_renâcler_
-«roncar» usada trivialmente no stylo familiar.
-
-
-89 (pag. 194).
-
-São por Cardim muito bem pintadas essas recepções de indios.
-
-Os brasileiros não podem preferir, na bellesa da narração e no encanto
-das particularidades, senão um só viajante portuguez á Ivo d’Evreux e á
-Claudio d’Abbeville, e é aquelle cujo nome acabamos de proferir.
-
-Este escriptor agradavel porem muito conciso, pertence á ordem dos
-jesuitas.
-
-Foi para o Brasil em 1583, e ahi ficou revestido de todas as dignidades
-até o fim de 1618: soube portanto do estabelecimento dos francezes ao
-Norte do Brasil, e certamente na Bahia soube de sua expulsão, e sobre
-isto infelizmente nada disse.
-
-Fernão Cardim estava em posição bem diversa da do padre Ivo d’Evreux.
-
-Pelas costas do Brasil, onde elle se apresentava, submettiam-se os indios
-ao christianismo, perdendo sua grandeza primitiva e conservando a maior
-parte dos seos usos.
-
-O Missionario francez ao contrario cathequisa os indigenas, que combatem
-pela sua independencia contra seos conquistadores.
-
-Os dois bons missionarios tiveram ambos a mesma sincera indulgencia e
-admiração para com os povos ainda na infancia, aos quaes pregaram, e cuja
-prévidencia é o seo maior e mais terrivel defeito.
-
-As cartas de Fernão Cardim foram felizmente descobertas pelo incansavel
-autor da _Historia geral do Brasil_.
-
-O Sr. Francisco Adolpho de Varnhagem não pôz seo nome n’esta preciosa
-publicação, honra que aqui lhe restituimos, e a que tem direito como
-homem de saber e gosto.
-
-O opusculo de Fernão Cardim tem o titulo de _Narrativa epistolar de uma
-viagem e missão jesuitica pela Bahia, Ilheos etc etc._—_Lisboa_, 1847, em
-8.º de 123 paginas.
-
-Parece-me que o sabio edictor não se lembrou de haverem preciosas
-informações á respeito de Cardim e dos missionarios contemporaneos do
-Brasil n’um escriptor de Toulon por nome Jarric. (Vide _La 2me partie des
-choses plus memorables advenues tant aux Indes orientales que autres pays
-de la découverte des Portugais en l’establissement de la foi chrestienne
-et catholique etc. Bordeaux 1610_ em 4.º É dedicado a Luiz XIII. O que
-n’este livro se refere ao Brasil, e particularmente ás regiões visinhas
-do Maranhão, acha-se na pag. 248 até 359.)
-
-Morreo o padre du Jarric em 1609.
-
-Foi sua obra traduzida em latim, e impressa na Colonia em 1615.
-
-Esta traducção, augmentada em alguns lugares, foi publicada em 4 vol. em
-8.º
-
-
-90 (pag. 194).
-
-Ha quasi certesa de não ter o nosso bom missionario lido a narração de
-André Thevet, publicada em 1558, e nem a viagem mais recente de João de
-Lery, cujas opiniões religiosas deviam afastal-o d’essas obras.
-
-Comparando-se estes velhos viajantes entre si, facilmente nota-se a
-similhança das narrativas.
-
-Eis o que disse João de Lery á respeito da recepção, que lhe fizeram os
-Tupinambás.
-
-Descrevendo as ceremonias, que fazem os _Tuupinambaults_ para receberem
-seos amigos, que os vem visitar, merece dizer-se em primeiro lugar,
-que apenas chega o viajante a casa do _Mussacat_, isto é, do bom pae
-de familia, dá de comer aos que por ahi passam, e que elle escolher
-para seo hospede, facto que se hade praticar em toda e qualquer aldeia,
-por onde se transitar, sob pena de cauzar enfado se não é procurado
-immediatamente. Assenta-se depois n’uma rede onde fica por algum tempo
-em silencio. Vêm depois as mulheres, sentam-se no chão, tapam os olhos
-com as mãos deplorando a bôa vinda d’aquelle, cujos louvores farão em
-occasião apropriada.
-
-Por exemplo:—tiveste tanto trabalho para nos vêr; tu és bom, e valente:
-si é um francez, ou outro qualquer estrangeiro, accrescentam—trouxestes
-para nós tão bellas obras, como aqui não temos, e immediatamente derramam
-muitas lagrymas, e assim aplaudem e lisongeam.
-
-Si o recem-chegado assentado em seo leito quer pagar-lhes as finezas,
-dizendo de sua parte coisas agradaveis, não querendo porem chorar, (como
-eu sei alguns dos nossos, que vendo as maneiras d’essas mulheres perante
-elles, foram tão nescios, que as imitaram) devem ao menos por fingimento
-exhalar alguns suspiros.
-
-Feitos assim estes primeiros cumprimentos pelas mulheres, entra depois
-o _mussacat_, isto é, o velho dono da casa, que fingirá durante um
-quarto d’hora não vos vêr (caricia mui opposta ás nossas embaixadas,
-cumprimentos e apertos de mão á chegada dos nossos amigos). Chega-se
-depois onde estaes, e diz _ereiubé_, isto é, chegaste? etc. etc. (vide
-_Jean de Lery, istoire d’un voyage en la terre du Brésil_. Rouen, 1578,
-em 8º, 1ª edicção.)
-
-
-91 (pag. 195).
-
-Ha no Brasil um sapo de grande tamanho, a que se deo o nome de «_sapo
-boi_.»
-
-Claudio d’Abbeville diz—«n’aquelle paiz encontram-se uns sapos muito
-grandes a que chamam _cururu_. Alguns ha que tem mais de um pé ou pé
-e meio de diametro: quando são esfolados, é impossivel dizer-se quam
-branca é a sua carne, e como são bons para comer-se. Vi alguns fidalgos
-francezes comel-a com apetite.
-
-
-92 (pag. 203).
-
-Mui visivelmente falla-se aqui da lenda brasileira relativa a _Sumé_, o
-legislador dos Tupys.
-
-No curioso opusculo, que a respeito d’este personagem publicou o Sr.
-Adolpho de Varnhagem, conta a sua chegada á Ilha do Maranhão, e como
-desappareceo na occasião, em que se preparavam todos para sacrifical-o.
-
-A palavra—_Maratá_—nos põe em embaraços, pois debalde a procuramos em
-Ruiz de Montoya: é alteração da palavra _Mair_ ou _Maïr_, tantas vezes
-empregada por Lery e Thevèt, para mostrar ou indicar um estrangeiro, ou
-uma pessoa extraordinaria. Não podemos dar uma resposta satisfatoria. O
-Sumé, que propaga a cultura da mandióca, é barbado.
-
-Diz-se com razão ser personagem analoga a Manco Capac dos peruanos, e ao
-Quetzalcoalt dos Azetecas, e ao Zamma da America Central. (Vide Adolpho
-de Varnhagem, _Historia geral do Brasil_. T. 1º pag. 136, e _Sumé.
-Lenda mytho-religiosa americana etc. agora traduzida por um Paulista de
-Sorocaba_. Madrid, 1855, broch. in 8 de 39 pag.)
-
-
-93 (pag. 205).
-
-O verbo _cantar_ na linguagem tupy é _Nheengar_. Um _Nheengaçara_ é um
-cantor propriamente dito.
-
-
-94 (pag. 220).
-
-Parecerá estranho ao leitor serem os francezes comparados n’este lugar
-aos Caraibas.
-
-Os que lerem com attenção as obras de Humboldt acharão a chave d’este
-enigma. Os Caraibas do continente americano, nação immensa, eram notaveis
-em toda a America pelo seo valor e penetração. Seos piayas, ou antes seos
-feiticeiros os elevavam acima de todas as outras nações: eram no Novo
-Mundo o mesmo que os Chaldeos no velho. Simão de Vasconcellos nos dá a
-prova d’esta supremacia intellectual: no sul do Brasil os _Caraibe-bébé_,
-eram feiticeiros ou advinhadores notaveis: assim se chamavam os homens
-intelligentes, os espiritos, e os anjos, e depois tambem os estrangeiros.
-O Sr. Adolpho de Varnhagem fez notar, que o nome de _Carayba_ foi em seo
-principio dado aos Europeos, sendo todos os Christãos assim chamados.
-(Historia geral, pag. 312.)
-
-
-95 (pag. 220).
-
-Um _Caramémo_ é que se chama em Guyana um _Pagará_, isto é, um paneiro
-leve, feito com folhas de certa palmeira e ás vezes com bonita forma.
-
-Claudio d’Abbeville assim tambem o chama, quando descreveo os utensilios
-de uma casa indigena. Barrère fez desenhar este lindo _Specimen_.
-
-
-96 (pag. 226).
-
-Ivo d’Evreux, familiarisado com todos os symbolos em voga no seo tempo,
-não se esqueceo de uma graciosa alegoria na qual figura o Unicornio.
-Vide _Le Monde enchantée_, e especialmente a dissertação intitulada
-_Revue de l’histoire de la Licorne par un naturaliste de Montpellier_.
-(P. J. Amoreu.) Montpellier Durville, 1818, em 8.º 47 pags.
-
-
-97 (pag. 239).
-
-É sabido ser esse o nome, que aos portuguezes davam os Tupinambás.
-
-_Pero_ quer dizer _cão_ na lingua de Camões, mas suppõe-se que o
-nome—_Pedro_—muito usado no Brazil, provinha de tão estranha designação.
-
-Ayres Casal conta até á este respeito uma historiasinha, recorrendo á
-tradicção, de como um serralheiro, chamado Pedro, fôra arremeçado pelas
-ondas, após um naufragio, ás praias do Maranhão. Graças a sua habilidade
-no trabalho do ferro fez-se este homem agradavel aos indios, e seo nome
-com pequena modificação servio d’ahi em diante para fazer conhecidos os
-individuos, que se julgavam ser da sua raça.
-
-Em sua _Corographia_ o Dr. Mello Moraes escreveo esta _legenda_ muito
-mais completa.
-
-
-98 (pag. 242).
-
-Não se tem procurado esclarecer por meio de uma discussão
-grammatical—esta parte do livro.
-
-Differenças mui sensiveis, produzidas pelo tempo e sobre tudo pela
-pronuncia, fizeram este lugar para assim dizer indicifravel. Nada é
-mais dificil do que traduzir pelos caracteres da nossa escripta os sons
-das linguas indigenas. Essas inflexões tão delicadas, e as vezes tão
-fugitivas, em sua apparente rudeza são dificultosamente ffixadas no
-papel. Notou Humboldt pertencerem ellas algumas vezes á certos caracteres
-physicos das raças.
-
-As nações européas, as mais habituadas á estes estudos, não percebiam
-da mesma fórma os sons, e nem os escreviam da mesma maneira: quando
-os portuguezes ouvem _Oca_, por exemplo, ou então _Toba_, o francez
-percebe _Oc_ e _Tob_, e quando aquelle ouve _Murubixaba_ este percebe
-_Muruvichave_. Deixa a differença de ser grande quando são as palavras
-pronunciadas conforme o genio de cada lingua.
-
-A palavra _Tupinambás_, como se acha escripta no principio d’esta nota,
-(_Tobinambos_) equivale absolutamente pelo som na lingua portuguesa á
-palavra _Tupinambus_, como a pronunciavam os contemporaneos de Malherbe.
-
-Para a historia da linguistica não é sem interesse esta curta doutrina
-christã, podendo ser comparada com certas obras do mesmo genero,
-escriptas por penna portuguesa, estando n’este caso, entre outras, os
-canticos religiosos em lingua tupy por Christovão Valente, os quaes
-incluí no opusculo—_Une fête brésilienne_. Pariz. Techener, 1850.
-
-Não se póde achar o livro que os contem, e talvez só exista na
-Bibliotheca Imperial.
-
-Reproduzimos aqui seo nome—_Cathecismo brasilico da doutrina christã,
-com o ceremonial dos sacramentos e mais actos parochiaes. Composto por
-padres doutos da Companhia de Jesus, aperfeiçoado e dado á luz pelo padre
-Antonio de Araujo da mesma Companhia, emendado nesta segunda impressão
-pelo padre Bertholomeu de Lean da mesma Companhia_, Lisboa, na officina
-de Miguel Deslandes 1861, em 8.º pequeno. A primeira edicção foi em 1618.
-
-Si se quizesse, poder-se-ía completar este estudo comparativo procurando
-os seguintes manuscriptos, citados por Barbosa Machado, e que seria coisa
-curiosa si fossem publicados.
-
-Ludewig os ommittio em seo importante trabalho, completado por Mr.
-Trubener. O Padre João de Jesus _explicação dos mysterios da fé_. O Padre
-Manoel da Veiga _Cathecismo_. F. Pedro de Santa Rosa _Confessionario_.
-André Thevèt nos seos manuscriptos conservados na Bibliotheca Imperial
-de Pariz, dá o _Pater_ e o _Credo_ em lingua _tupy_, depois reproduzidos
-em sua grande _Cosmographia_. São preciosos estes dois documentos
-especialmente por sua antiguidade, pois datam de 1556.
-
-Entre os livros d’este genero um dos mais modernos e dos mais curiosos
-é o do Padre Marcos Antonio, intitulado: _Doutrina e perguntas dos
-mysterios principaes de nossa santa fé na lingua Brasila_. Foi composto
-em 1750 e Ludewig menciona-o como fazendo parte das collecções do
-_British Museum_.
-
-
-99 (pag. 250).
-
-Lery ja tinha asseverado o effeito, que faz nos indios o canto
-melancolico do Macauhan. A crença nos mensageiros das almas, nos
-passaros propheticos ainda não se extinguio de todo, pois ainda existe
-na poderosa nação dos Guayacurus, depois de haver exercido antigamente
-sua poderosa influencia em todas as tribus dos Tupys, porem o padre Ivo
-deo-lhe extensão que nunca teve, visivel alteração nas antigas ideias
-mythologicas.
-
-O nome d’este passaro respeitado é escripto em portuguez _Acaúan_, e
-tambem _Macauan_: nutre-se de reptis, e não tem esse aspecto sinistro,
-que lhe dá o nosso bom Missionario.
-
-Tem a cabeça muito grossa em relação ao corpo, é côr de cinza, o peito e
-o ventre vermelhos, azas e cauda negras com pintas brancas. Pensa hoje em
-dia a maior parte dos indios, que a missão deste passaro é annunciar-lhe
-a chegada de algum hospede. Consulte-se sobre o Acaúan, Accioli,
-_Corographia Paraense_, e Gonçalves Dias, _Diccionario da lingua Tupy_.
-Martius na palavra _Oacaoam_ diz ser o Macagua de Felix de Azara. Falco
-(herpethocheres).
-
-
-100 (pag. 257).
-
-No tempo de Ivo d’Evreux, eram chamados _Barbeiros_, os cirurgiões mais
-habeis, e alguns annos antes até o illustre Ambrosio Paré era assim
-conhecido.
-
-Como os _Piayes_, _Pagé_, _Pagy_, _Boyés_ ou _Piaches_ (por todos estes
-nomes são conhecidos) cuidam de curar feridas e molestias.
-
-O padre Ivo, como se verá adiante, os compára por despreso aos barbeiros,
-mas entenda-se, aos barbeiros das aldeias.
-
-Este capitulo é por certo um dos mais curiosos do livro, e deve ser
-com todo o cuidado comparado com o que escreveo Simão de Vasconcellos,
-(_Chronica da Companhia de Jesus_, in fol.) e com todas as _Memorias_
-publicadas pelo Instituto Historico do Rio de Janeiro sobre a religião
-primitiva dos indigenas, achando-se ahi bem claramente definidos os
-attributos de Jeropary.
-
-É na verdade para sentir-se a falta de uma folha, porque nos trouxe a
-perda de preciosos documentos de homens praticos e habeis, que entre si
-conservavam as tradicções.
-
-
-101 (pag. 264).
-
-No tempo d’esta narração eram ainda os morcegos classificados como
-passaros.
-
-O que aqui diz o nosso viajante sobre os vampyros não é exageração.
-
-Consulte-se a este respeito Ch. Watterten (_Excursions dans l’Amerique
-meridionale_, p. 15 e 389.)
-
-Este sabio naturalista descreveo com minucioso cuidado o genero da
-ferida, que produz o morcego americano nas pessoas, que dormem. Matou um
-vampyro, que tinha 32 pollegadas de extensão de azas abertas. Em geral
-são muito menores.
-
-
-102 (pag. 268).
-
-Entre os antigos viajantes do seculo XVII é Ivo d’Evreux o unico, como
-notamos, que menciona entre os Tupinambás os rudimentos de estatuaria
-(imperfeita sem duvida) com applicação á mythologia d’estes povos.
-
-D’estas coisas nada escreveram Thevèt, Hans Stadens, e Lery,
-Vasconcellos, Cardin e Jaboatão.
-
-Eram os Tupys unicamente caçadores, e só per accidens se entregavam á
-vida agricola. Os unicos vestigios de cultura, que d’elles conhecemos,
-se referem aos seos _Macanas_, ou a sua _Lyvera-péme_, especie de armas
-pesadas, que elles enfeitavam á capricho.
-
-Tinham por costume pôr um Maracá, enfeitado de bonitas pennas na prôa de
-suas canôas de guerra, tão esguias como elegantes, e será bem possivel,
-que a base d’esse instrumento seja ornado de sculpturas similhantes
-ás que se observam entre os insulares da Polynesia. É provavel que
-multiplicando-se suas relações com os Europeos, tenham os Tupinambás
-bebido entre elles ideias de sculptura rudimentar que applicam á suas
-divindades grosseiras.
-
-O veridico Barrére, que escreveo mais de um seculo depois de Ivo
-d’Evreux, falla de um piaya fazendo uma estatueta de _Anaanh_, genio do
-mal, que não é senão o _Anhanga_ do padre Nobrega e de Anchieta, cuja
-terrivel missão sobre a terra foi tão bem descripta por João de Lery, que
-sempre o chamou _Aignan_.
-
-Dêem-lhe nas ilhas ou nos continentes os nomes de _Uracan_, de
-_Hyorocan_, de _Jeropary_, de _Maboya_, de _Amignao_, reconheçam-se os
-genios secundarios, como seos mensageiros (apenas citarei um, o malicioso
-_Chinay_, que faz emmagrecer os pobres indios sugando-lhes seo sangue.)
-Anhanga teve sempre fama terrivel nos seculos XVII e XVIII.
-
-Este typo primitivo da sculptura religiosa dos Tupys foi infelizmente
-aberto em madeira muito molle, e por isso não poude resistir á acção
-do tempo, ou á invasão das formigas: duvidamos que se encontre um só
-_specimen_ de dois seculos atraz.
-
-Eis finalmente a passagem tão curiosa de Barrére que confirma as
-palavras do padre Ivo. «Tem os indios outra sorte de feitiçaria, que os
-singularisa. Fazem uma figura do diabo n’um pedaço de madeira molle e
-sonora: esta estatua do tamanho de tres a quatro pés é muito feia pela
-sua immensa cauda, e grandes lanhos.
-
-«Chamam-na _Anaantanha_ que parece dizer—_imagem do diabo_, porque
-_Tanha_ significa figura, e _Anaan-diabo_. Depois de haverem soprado
-sobre os enfermos, trazem os _Piayas_ esta figura para fóra da
-_casa-grande_:
-
-«Ahi elles o interrogam, esbordoam-na á cacete, como para obrigar o
-diabo, bem a seu pesar, a deixar o enfermo.» (Vide _Nouvelle Relation
-de la France équinoxiale, contenant la description des côtes de la
-Guiane, de l’isle de Cayenne, le commerce de cette colonie, les divers
-changements arrivés dans ce pays_ etc. etc. Paris. 1743, em 12 gr.)
-
-N’um capitulo precedente Ivo d’Evreux ja fallou de uma boneca que tinha
-uma especie de mecanismo, que servia para as nigromancias do Piaya.
-
-É para sentir-se, que não se encontrasse um só d’estes idolos nas
-collecções etnographicas, que então começou-se a fazer.
-
-Poucos annos antes de haver la Ravardiere explorado o rio do Amasonas,
-João Mocquet, o guarda das curiosidades do Rei, percorreo essas praias, e
-seria de rara felicidade para a archeologia americana si elle encontrasse
-alguns dos idolos de que falla o padre Ivo.
-
-
-103 (pag. 271).
-
-É mui provavel, que estas lustrações sejam feitas á imitação das
-ceremonias, que entre os christãos viram os _Tupinambás_.
-
-Pode bem ser, que o mesmo aconteça á respeito da pretendida confissão
-auricular de que falla o autor um pouco mais adiante.
-
-Os antigos viajantes, Hans Staden, Lery e Thevèt nada dizem, que tenha
-relação com tal costume.
-
-
-104 (pag. 272).
-
-Parece á primeira vista ter recebido este _piaga_, tão influente, um nome
-francez: assim porem não aconteceu.
-
-Havia n’esse tempo um poderoso Chefe, chamado _Pacquara-behu_ «barriga
-d’uma paca cheia d’agoa». _Pacamont_ pode significar a «paca agarrada na
-armadilha», (_Pacamondé_).
-
-O nome da terra, onde tinha influencia, significa a «região das plantas
-leitosas», e escreve-se _Cumá_.
-
-
-105 (pag. 280).
-
-Vatable ou Vateblé era um celebre sabio na lingua hebraica, no seculo
-XVI, restaurador na França dos estudos orientaes.
-
-Morreo em 1547.
-
-Suas notas sobre o antigo testamento acham-se na Biblia de Robert Etienne.
-
-
-106 (pag. 282).
-
-Prova-nos esta phrase ter o Padre Ivo escripto sua obra na Europa, e
-saber da missão dirigida pelo Padre Archangelo.
-
-Affirma Marcellino de Piza terem 565 indios recebido o baptismo n’esta
-segunda expedição religiosa. (Vide _Annales historiarum ordinis minorum_.
-Lugd. 1676 in fol.)
-
-O Padre Archangelo, acompanhado por 12 confrades, portador de magnificos
-ornamentos bordados pela Duqueza de Guize devia por certo cercar-se de
-outra pompa, que não tiveram os quatro Geraes Capuchinhos, que deram
-principio á missão.
-
-Graças aos documentos, que nos são proporcionados pela marinha, e que
-devemos ao obsequio do Sr. P. Margry, soubemos por uma carta inedicta
-do Sr. de Beaulieu a Mr. de Razilly, que o Padre Archangelo, muito
-conhecedor do valor do dinheiro abstrahindo o seo voto de pobresa, não
-quiz embarcar-se antes de lhe haverem dado a esperança de conseguir
-subsidios.
-
-Apesar dos recursos, de que dispunha o seo chefe espiritual, ainda está
-por fazer a historia d’esta segunda missão: não deixou até vestigios,
-e ficará para sempre ignorada em quanto não descobrirmos o livro de
-Francisco de Bourdenare.
-
-Sabemos apenas que muito mais favorecido, que Ivo d’Evreux, por seos
-superiores, recebeo, graças ás suas cartas de obediencia, o direito de
-admittir noviços em seo Convento.
-
-Não teve tempo de utilisar-se de tal privilegio, mas quando regressou á
-Europa, em recompensa do seo zelo foi em 1615 nomeado Guardião do grande
-Convento da rua de Santo Honorato.
-
-Todos estes factos, omittidos naturalmente pelos historiadores do
-Maranhão, acham-se referidos nos _Éloges historiques_, manuscripto da
-Bibliotheca Imperial, e seria injustiça esquecer serem elles tambem
-narrados pelo Padre Marcellino de Piza.
-
-Depois de haver contado como o Geral dos Capuchinhos Paulo de Caesena
-deo licença á Honorato de Pariz, então Provincial, para mandar á America
-uma segunda missão, disse:—«_Ille nihil cunctatus, duodecim fratres ad
-hanc expeditionem, aptos elegit quorum animosa phalanx navem conscençâ
-secedens in Indiam, a barbara illa natione jam capucinorum placidis
-moribus assueta per humaniter fuit excepta_.»
-
-Na entrada dos portuguezes o Padre Archangelo de Pembroke retirou-se com
-os Capuchinhos francezes ficando em lugar d’elles os Franciscanos, que em
-numero de vinte se recolheram ao Mosteiro.
-
-Sob a direcção de Frei Christovão Severino teve então o Convento nova
-regra.
-
-Foram as bases lançadas em 1624 porem só foram cumpridas pontualmente em
-4 de Agosto do anno seguinte.
-
-Abstemos-nos porem de offerecer ás vistas do leitor as desgraçadas
-peripecias, porque passou este Mosteiro durante 225 annos: basta dizer,
-que no fim de um seculo estava quasi reduzido a ruinas.
-
-Em 1860 o actual Guardião, que tinha sob seo governo somente dois
-franciscanos, mas que soube felizmente captar as sympathias dos
-habitantes de São Luiz, recorreo á caridade publica afim de concertar-se
-como merece este edificio, a que se ligam interessantes recordações do
-paiz.
-
-A Ordem é actualmente muito pobre, porem offerece grande contraste,
-segundo é voz geral, quando em seo zelo é comparada com outros
-Conventos[BL] opulentos da Cidade, que estão se arruinando.
-
-Não foram em vão as supplicas de Frei Vicente de Jesus, pois elle
-arrecadou grandes quantias, que chegaram para reparar os estragos do
-tempo.
-
-Conservando a humilde Capella, onde orou o Padre Ivo d’Evreux, fizeram-se
-novas edificações que tornaram a Igreja de Santo Antonio a mais linda de
-tão bella Cidade.
-
-
-107 (pag. 301).
-
-É mui curioso vêr aqui o Padre Ivo d’Evreux fazer uma especie de allusão
-á antigas crenças d’esses povos, as quaes Thevet, ou talvez o Cavalheiro
-de Villegagnon tinham guardado desde 1555, e que parece ser ignoradas
-pelos nossos viajantes do Seculo XVI, pois não tratam d’ellas em suas
-narrações.
-
-Uma nota, mesmo concisa nos levaria muito longe, e vêr-nos-iamos forçados
-a chamar a attenção do leitor para um opusculo, no qual reunimos tudo o
-que podemos encontrar á respeito das ideias mythologicas dos Tamoyos e
-dos Tupinambás. (Vide sobre os _Maraïta—Une fête bresilienne célébrée
-à Rouen em 1550 suivie d’un fragment du XVIme siécle roulant sur la
-Théogonie des anciens peuples du Brésil_. Paris, Techener, 1850 gr. in
-8.º)
-
-
-108 (pag. 301).
-
-A legenda brazileira de geração em geração transmittio a narração das
-perigrinações de dois prophetas, bem distinctos, igualmente estimados por
-esses selvagens, que os chamou _Tamandaré_ e _Sumé_.
-
-Como Boudaha, deixou o ultimo impressas as suas pegadas sobre a rocha
-viva, quando deixou a terra.
-
-O mytho de Tamandaré, que se lê na descripção do diluvio americano, é
-contado extensamente por Vasconcellos nas suas _Noticias do Brazil_, pag.
-47 e 48.
-
-Ahi se lerá como o Noé americano subindo ao cume de uma palmeira, que
-tocava com o seo vertice o Ceo, e agarrando d’ahi sua Familia poude
-salval-a, e com ella repovoou a terra.
-
-Na phrase aqui citada, Ivo d’Evreux alludio ao legislador mais moderno,
-Sumé, este Triptolémio brazileiro, que ensinou a cultura da mandióca aos
-descendentes de Tamandaré.
-
-Simão de Vasconcellos diz mui positivamente, que «havia entre elles
-tradicção muito antiga, transmittida de paes a filhos, dizendo haverem
-apparecido, muitos seculos depois do diluvio, homens brancos n’estas
-terras, que fallavam aos povos de um só Deos e de outra vida. Um d’elles
-chamava-se _Sumé_, que parece quer dizer _Thomé_.»
-
-Preferindo a tradicção, que dá a São Bartholameu a honra de haver
-evangelisado os povos longiquos, provou com isto o Padre Ivo o seo
-conhecimento das origens.
-
-Com effeito, segundo diz Eusebio, chegou este Apostolo viajante até a
-extremidade das Indias, São Pantene percorreo o interior da Asia desde o
-III seculo, e ahi já achou vestigios do christianismo, que bem se podiam
-attribuir ás prédicas de Sam Bartholameo.
-
-Prevaleceo comtudo no Brasil a legenda em contrario, como a outra na
-India. (Vide _Jornada do Arcebispo de Goa dom Frei Aleixo de Menezes,
-quando foi ás serras de Malauare, lugares em que moram os antiguos
-christãos de S. Thomé_. Coimbra, 1606, in fol.)
-
-No tempo de Vasconcellos bem visiveis eram os signaes dos pés de S.
-Thomé, ao norte do porto de S. Vicente, perto da Villa.
-
-Estes signaes de dois pes nùs por maravilha impressos na rocha (_tão
-vivos e expressos, como si em um mesmo tempo juntamente se fizeram_) não
-eram vistos debaixo d’agoa.
-
-O religioso franciscano Jaboatam achou no Recife, em Pernambuco, pegàdas
-santas.
-
-N’esta segunda edicção da legenda, somente apparece um pé como o
-de um menino de 5 annos, que suppõe ser o piedoso narrador o de um
-jovem companheiro do Apostolo. (Vide _Novo Orbe Serafico_, reimpresso
-ultimamente pelos esforços do _Instituto Historico e Geoqraphico do Rio
-de Janeiro_.)
-
-Não se encontram esses afamados signaes somente em diversos pontos do
-littoral, e sim em outros lugares, o que seria enfadonho enumerar.
-
-Não contentes ainda com isto fizeram com que o santo viajante se
-embrenhasse corajosamente pelo interior do Brasil, onde em caracteres
-gigantescos sobre pedras ou rochas escreveo a historia da sua missão.
-
-Ha em Minas uma aldeia, a que se deo o nome chamando-a _Sam Thomé das
-Lettras_.
-
-Um observador circumspecto, o general Cunha Mattos, não vio taes
-inscripções, e combateo a tradicção dizendo que esses traços
-phantasticos, que se observam n’um dos lados da _Serra das lettras_
-foram formados por accidentes de terreno, isto é, por dendrites, para
-servir-me de suas expressões. (Vide _Itinerario do Rio de Janeiro ao Pará
-e Maranhão_. Rio de Janeiro. 1836. 2 vol. em 8.º T. 1.º pag. 63).
-
-Dura até hoje esta opinião sobre a gigantesca inscripção da _Serra das
-lettras_, e acredita-se actualmente serem devidos a infiltração de
-particulas ferruginosas obrando sobre o grão da serra, e por est’arte
-simulando caracteres escriptos.
-
-No Brasil são muitos os hieroglyphos grosseiramente embutidos, e ninguem
-duvida serem devidos á origem indigena. Muitas obras nos mostram os seos
-_fac-simile_.
-
-A grande viagem pitoresca de Mr. Debret tem dois, que não deixam de ter
-interesse.
-
-Fallamos da inscripção do monte de _Anastabia_, e das esculpturas
-embutidas n’uma rocha, que se encontra perto das margens do rio Yapurá,
-na provincia do Pará, bem pode ser que as palavras do Padre Ivo se
-refiram á este monumento, grosseiramente trabalhado, e de que trata Mr.
-Debret na pag. 46 do seo T. 1º, porem em alguns não acha a mais prevenida
-imaginação bases para assentar uma opinião historica ou religiosa.
-
-Pelo que se refere _ás rochas incisadas_, de que falla o nosso bom frade,
-é tradicção geral em toda a America, que estes accidentes, resultados
-de grandes commoções da natureza, são sempre explicados pela legenda
-indigena, que os attribue ao supremo poder de um semi-Deos, que, a sua
-vontade, quebra as montanhas mais resistentes ao trabalho do homem e,
-algumas vezes, até os mais gigantescos.
-
-Em Nova-Granada o salto de Tequendama não teve outra origem, pois foi
-feito, como se sabe, pelo grande Bochica: poderiamos tambem citar a
-abertura feita no _recife_, que margina o littoral de Pernambuco, e
-que se attribue ao grande Sumé, ou ao seu representante christão, o
-Apostolo viajante. (Vide Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão, _Novo
-Orbe Serafico Brasilico_, ou _Chronica dos frades menores da provincia do
-Brasil_. 2.ª edicç. Rio de Janeiro. 1858.)
-
-Jaboatão escreveu em 1761.
-
-
-109 (pag. 311).
-
-Tinha este chefe indigena um nome bem conhecido na ornithologia do
-Brasil. O _Jacupema_ é o _Penelopsupereiliaris_ uma das melhores caças do
-Brasil.
-
-
-110 (pag. 334.)
-
-Na familia dos Foulon, de que gozava muita consideração em Abbeville,
-tinham muitos dos seos membros se dedicado á vida monastica.
-
-O padre Marçal esteve em Pariz com seo irmão o padre Claudio; este
-ultimo, cujo artigo está tão cheio de erros na biographia universal, era
-ja guardião do convento na sua patria desde 1608, mas, como o padre Ivo,
-começou o seo noviciado em 9 de junho de 1595.
-
-A bibliotheca do Arsenal possue um opusculo, hoje raro, do padre Claudio,
-cujo titulo é—_L’arrivée des Pêres Capucins et la conversion des sauvages
-a nostre sainte Foy déclarés par le R. P. Claude d’Abbeville, prédicateur
-capucin à Paris_, chez Jean Nigaut, rue de St. Jean de Latran, em 1613.
-Pode comparar-se este escripto com o artigo intitulado—_Retour du sieur
-de Rasilly en France et des Toupinambous qu’il amena á Paris._ _Mercure
-française_. T. 3, pag. 164. _L’histoire chronologique de la bienheureuse
-Colette, réformatrice des trois ordres du Seraphique Pere St. François._
-Paris. Nicolas Buon, 1628, em 12: não é do padre Claudio, como suppõe
-Eyriés. A dedicatoria tem a assignatura de Fr. S. d’A, indigno
-capuchinho. Já tinha morrido Claudio d’Abbeville quando appareceo esta
-obra. Depois de ter 23 annos de religião, falleceo em Ruão em 1616 e não
-em 1632.
-
-
-111 (pag. 335).
-
-Leia-se _Plymouth_: Claudio d’Abbeville escreve _Pleme_.
-
-
-112 (pag. 335).
-
-Trata-se aqui do _Rio do Ouro_.
-
-
-113 (pag. 336).
-
-Difficilmente por este nome se sabe ser a _Ilha de Fernão de Noronha_, e
-não _Fernando de Noronha_, como escreve alguns geographos.
-
-Está a 75° long. E. N. E. do Cabo de Sam Roque, e na lat. de 3° 48, á
-52′. Explica-se esta alteração de nome pela sua visinhança do Cabo de Sam
-Roque.
-
-Alguns viajantes antigos escreveram _Fernando de la Rogne_: n’esse caso
-está o padre Claudio.
-
-
-114 (pag. 337).
-
-Omittio o padre Claudio d’Abbeville esta ultima circumstancia.
-
-
-115 (pag. 339).
-
-Leia-se _Tupan_ em vez de _Iupan_. Quanto a palavra Matarata, que
-ahi se lê, não se pode entender pelo adjectivo _Mbaraeté_, que
-significa—_forte_. Parece estar sob esta significação no _Tesoro de la
-lingua Guarany_, do padre Ruiz de Montoya.
-
-
-116 (pag. 341).
-
-O capitão du Manoir estava ha muito tempo estabelecido na Ilha, onde
-tinha muitas relações.
-
-Foi elle quem hospedou os Missionarios, e lhes offereceo uma festa
-«tão magnifica como podia ser em França» disse o padre Claudio, a qual
-assistiram os Srs. de Rasilly e Pezieux. Foi da sua habitação que
-partiram os nossos para tomar posse do lugar, onde se edificou o _Forte
-de Sam Luiz_. Regressou á França antes de ser o Maranhão tomado pelos
-portuguezes.
-
-Quando evacuaram as nossas forças navaes o porto do Maranhão, muitos
-francezes não seguiram o exemplo de Manoir, e se estabeleceram na nova
-Colonia, onde só foram permittidos artistas.
-
-Erraria quem suppozesse ter sido abandonada a missão fundada com tanto
-zelo pelos nossos Religiosos: sem a menor alteração foram incumbidos
-d’ellas os Franciscanos: a este respeito achou-se tudo quanto podia
-desejar-se no _Orbe Seraphico_ do padre Jaboatão.
-
-Contem este resumo uma longa biographia de Frei Francisco do Rosario,
-frade celebre na Ordem de Sam Francisco, que tomou posse do Convento dos
-Capuchinhos perto de dez annos depois, que estes o abandonaram de todo.
-
-Embrenhava-se muitas vezes este zeloso Missionario nos desertos
-desconhecidos do Maranhão, onde ia cathequisar os indios.
-
-Em 1630 compôz uma obra aproveitavel sobre as tribus que visitou.
-Infelizmente nunca foi publicada, e o seria se fosse encontrada, como
-precioso commentario á obra do padre Ivo.
-
-Cansado por seos trabalhos, cuja multiplicidade espanta até a imaginação,
-foi para a Bahia, onde revestido das dignidades da ordem falleceo com
-cheiro de santidade em 24 de fevereiro de 1650.
-
-Afirma-se haver elle predicto muitos annos antes os grandes
-acontecimentos politicos, que, produzindo a expulsão da Hespanha, dava
-independencia ao Brasil.
-
-Parece que vio-se obrigado a reconstruir em 1625 os edificios que
-deixaram em começo os nossos Religiosos, e por isso foi elle em Sam Luiz
-julgado como o primeiro fundador do Convento da sua Ordem.
-
-Vamos ainda dizer uma palavra para acabar estas notas. Serão ellas ainda
-um dia completadas pelo trabalho, que ha de preceder a _Relação do Padre
-Claudio d’Abbeville_, e si se quizer, o podem ser ja, consultando se
-varias obras francezas contemporaneas, absolutamente despresadas, sob
-este ponto de vista, pelos historiadores da America. N’este caso, entre
-outros, está o padre Pedro du Jarric, pois, na verdade, ninguem pensaria
-achar n’uma _Historia das Indias orientaes_ todos os factos religiosos,
-acontecidos em Maranhão antes de 1607.
-
-Consultando-se o 5.º volume d’esta volumosa obra, encontra-se a
-tragica historia dos padres Francisco Pinto e Luiz Figueira, jesuitas
-portuguezes, os primeiros que visitaram os desertos desconhecidos, cujo
-littoral occuparam os francezes.
-
-Francisco Pyrard, o viajante Belga, residente na pequena cidade de Laval,
-nos contou tambem na sua _Relação das Indias e especialmente das Ilhas
-Maldivas_, o que na Europa se pensava do Brasil no tempo, em que viveo o
-padre Ivo. Não trata do Maranhão, e bem o podia fazer.
-
-Deve ainda dizer-se que esta bella provincia, conhecida mais pela obra de
-Mr. Herald do que por outras antigas, ficou por muito tempo fóra da toda
-a vida politica.
-
-Doada a principio aos filhos de José de Barros, o famoso historiador das
-Indias, só foi conhecida na Europa por uma lastimavel catastrophe, pois
-era esquecida apesar da fertilidade e da magnificencia da sua vegetação.
-
-Apparece comtudo n’um dos monumentos geographicos mais importantes, onde
-se verificou o que era o Brasil no seculo XVI: queremos fallar da bella
-_Carta_ de Gaspar Viegas, que tem a data de outubro de 1534, hoje na
-Bibliotheca Imperial de Paris.
-
-Nenhum historiador até hoje ainda a mencionou, apezar de sua exactidão
-tão admiravel para aquelles tempos e ainda continuaria a ser esquecida
-se o Sr. de Cortambert não nos fizesse o favor de communicar-nos a sua
-existencia.
-
-Sentimos muito praser recordando-nos, que este bello trabalho do
-desconhecido geographo vae de hora em diante ligar-se ao mais vasto e ao
-mais exacto reconhecimento das costas do Brasil, que tem podido obter a
-sciencia n’estes ultimos tempos, e d’ella fará objecto de especial estudo
-o Sr. capitão da fragata Mouchez na sua grande obra nautica a respeito do
-littoral do Brasil.
-
-Deviam acabar aqui as notas indispensaveis para conhecer-se na França e
-mesmo na America o texto do nosso velho viajante.
-
-Accrescentaremos apenas uma palavra, talvez indispensavel para
-comprehender-se o valor do documento por nós exhumado.
-
-O padre Arsenio de Pariz, o fiel companheiro do padre Ivo d’Evreux, disse
-em 1613 ao Superior do seo Mosteiro á proposito das regiões, por onde
-evangelisou, o seguinte:
-
-«Eu vos asseguro, meo padre, que quando estiver um pouco estabelecido,
-será um verdadeiro paraiso terrestre.»
-
-A esperança do bom Religioso não era das que se podem realisar
-completamente: não caminham assim as coisas neste mundo, porem não sendo
-o paraiso, é o Maranhão uma das provincias de um vasto Imperio, que vae
-progredindo.
-
-No meio de prosperidades reaes, e apezar dos esforços de espiritos
-felizmente bem intencionados, o progresso intelletual do paiz está muito
-longe do que devia ser.
-
-As recordações do passado, que tanto desenvolvem as populações, ahi não
-existem.
-
-Não ha archivos, bibliothecas publicas, e nem instituições litterarias,
-e tanto é verdade isto, que o Imperador, o Sr. D. Pedro 2º, ha dez annos
-incumbio um dos homens mais activos e eminentes d’este paiz para examinar
-na Cidade de Sam Luiz o estado real dos depositos litterarios da Capital
-do Maranhão.
-
-Não reproduziremos aqui as queixas judiciosas e bem fundadas do Sr.
-Gonçalves Dias sobre o lamentavel estado dos estabelecimentos, objecto de
-suas investigações.
-
-Pode lêr-se o seo _Relatorio_ escripto em bom estylo na _Revista
-Trimensal_ publicada com tanto zelo pelo Instituto Historico do Rio de
-Janeiro.
-
-Citaremos apenas, que ha dez annos, Gonçalves Dias achou 2:000 volumes
-na Bibliotheca Publica e no Almanach de 1860, edictado pelo Sr. B. de
-Mattos, apparecem 1:030 em deploravel estado!
-
-Possa a reimpressão da obra do padre Ivo d’Evreux marcar uma nova era na
-patria de Odorico Mendes, de Gonçalves Dias, e de João Lisboa.
-
-
-FIM.
-
-
-NOTAS
-
-[BG] Consulte-se a respeito de todos estes assumptos o meo _Diccionario
-historico e geographico do Maranhão_. Iria longe se eu quizesse
-acompanhar _parí passu_ esta publicação, onde não poucas vezes foi
-illudida a bôa fé de Mr. Ferdinand Diniz.—Do traductor.
-
-[BH] Outro engano. Aqui não se conhece esta dóca.—Do traductor.
-
-[BI] 40 leguas? Não, e sim 4 leguas. Vide art. _Alcantara_ no meo
-_Diccionario_.—Do traductor.
-
-[BJ] É engano. O major Fidié não foi vencido, e sim capitulou
-honrosamente em 1.º de Agosto de 1823. (Vide _Historia da Independencia
-do Maranhão_ (1822 a 1823) pelo Dr. Luiz Antonio Vieira da Silva, hoje
-Senador do Imperio, pag. 109 a 127.)—Do traductor.
-
-[BK] Mr. Ferdinand Diniz foi illudido por escriptos politicos, embora
-habilmente manejados porem sempre com paixão.
-
-Não foi o Conselheiro Furtado a quem se deve esse estado de paz, e sim a
-outro cidadão como ja disse no meo _Diccionario_ neste trecho que para
-aqui transcrevo.
-
-—Durou este triste e lamentavel estado de ferocidade ou dezespero até
-o tempo, em que o fallescido Dr. Eduardo Olympio Machado perante os
-escolhidos da Provincia em 1851 recitou estas palavras:
-
-«A febre homicida, que ía lavrando pelo municipio de Caxias, tem feito,
-vae para tres mezes, prolongada remissão. E qual o reagente que conseguio
-acalmar seos lugubres accessos? A energia e actividade do actual
-delegado de policia o Dr. João de Carvalho Fernandes Vieira, o qual,
-formando culpa aos delinquentes, perseguindo-os com incansavel zelo,
-devassando as casas de certos individuos, que até então contavam, senão
-com acquiescencia, com o silencio da auctoridade publica, tem conseguido
-restituir á tranquilidade o districto de sua jurisdicção.»
-
-Foram estes valiosos e importantes serviços apreciados pelo Governo
-Central, pois mandou por mais de um Aviso louvar o Dr. João de Carvalho.
-
-D’ahi a poucos annos houve quem intentasse arrancar esses louros da
-fronte do energico e activo ex-juiz municipal e delegado de policia de
-Caxias para offerecer a outro, que nada fez, não cuidando da historia que
-tudo registra e a todos faz justiça!
-
-Esta acção, por demais injusta, nos faz lembrar estes versos do poeta de
-Mantua:
-
- Hos ego versiculos feci: tulit alter honores
- Sic vas non vobis, nidificates, aves etc etc.
-
-Do traductor.
-
-[BL] É injustiça confundir-se nesta censura o Convento do Carmo, graças
-ao zelo do seo benemerito Provincial o Revd. Frei Caetano de Santa Rita
-Serejo.—Do traductor.
-
-
-
-
-INDICE.
-
-
- Ao leitor
-
- Introducção 1
-
- Ao Rei 1
-
- Ao Rei 3
-
- Prefacio 7
-
- Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz do
- Maranhão 9
-
- Do estado do poder temporal em sua primitiva 11
-
- Da construcção do Forte de S. Luiz, e do interesse dos
- selvagens em carregar terra 14
-
- Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem ao Amazonas 19
-
- Partida dos francezes para o Amazonas em companhia dos
- selvagens 23
-
- Do que aconteceo na Ilha durante esta viagem, e principalmente
- das astucias de um selvagem chamado Capitão 27
-
- Da chegada de uma barca portugueza a Maranhão 31
-
- Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary 36
-
- Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos e como
- escravisam seos inimigos 40
-
- Leis do captiveiro 44
-
- Outras leis para os escravos 48
-
- Quanto são misericordiosos os selvagens para com os criminosos
- por acaso e sem malicia 52
-
- Quanto é facil civilisar os selvagens á maneira dos francezes e
- ensinar-lhes os officios que temos em França 58
-
- Quanto são aptos os selvagens para aprenderem sciencias e
- virtudes 63
-
- Continuação do objecto antecedente 67
-
- Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada
- inviolavelmente pela mocidade 71
-
- A mesma ordem e respeito é observada entre as raparigas e as
- mulheres 79
-
- Da consaguinidade entre os selvagens 84
-
- Dos caracteres incompativeis entre os selvagens 90
-
- Da economia dos selvagens 94
-
- Do cuidado que do seo corpo tem os selvagens 95
-
- De algumas indisposições naturaes, a que os selvagens se acham
- sujeitos, e quaes os nomes que dão aos membros do corpo 101
-
- De algumas molestias particulares á estes paizes de indios e de
- seos remedios 106
-
- Da morte e dos funeraes dos indios 111
-
- Do regresso á ilha do Sr. de la Ravardiere e de alguns
- Principaes, que o seguiram 116
-
- Viagem do capitão Maillar pela terra firme á casa de um grande
- feiticeiro. Descripção desta terra e das zombarias d’elle 120
-
- Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos, suas habitações
- e procedimento 125
-
- Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuytapéra e da viagem ao
- Uarpy 129
-
- Dos astros e do sol 132
-
- Ventos, chuvas, trovões e relampagos em Maranhão e suas
- circumvisinhanças 135
-
- Mar, agoas e fontes do Maranhão 139
-
- Singularidades de algumas arvores do Maranhão 141
-
- Dos peixes, passaros e lagartos, que se encontram n’estes
- paizes 146
-
- Da pesca do Pery 148
-
- Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas 153
-
- Das aranhas, cigarras e mosquitos 165
-
- Dos grilos, dos camaleões e das moscas 160
-
- Das onças e dos macacos do Brazil 173
-
- Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos d’aquelle
- paiz 178
-
- Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á
- respeito das Indias Occidentaes 184
-
- Instrucção para os que vão pela primeira vez ás Indias 189
-
- Do acolhimento, que fazem os selvagens aos francezes
- recem-chegados, e como convem proceder para com elles 193
-
- Dos fructos do Evangelho, que appareceram cedo pelo baptismo de
- muitos meninos 201
-
- Do baptismo de muitos enfermos e velhos, que falleceram depois
- de christãos 210
-
- Do baptismo de muitos adultos, especialmente d’um chamado
- Martinho 217
-
- Do que fez este christão em beneficio da instrucção e conversão
- dos seos similhantes 225
-
- De um Indio condemnado á morte, que pedio o baptismo antes de
- morrer 230
-
- Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens quando
- nos vinham vêr, para chamal-os ao conhecimento de Deos e á
- obediencia de nosso Rei 234
-
- Formulario da doutrina christã, que aprendiam e recitavam de
- cór, antes de serem baptisados 241
-
- Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos, dos
- espiritos e da alma 246
-
- Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em suas
- cadeias por tão longo tempo estes selvagens 252
-
- Como falla o diabo aos feiticeiros do Brasil, suas falsas
- profecias, idolos e sacrificios 259
-
- De algumas outras ceremonias diabolicas praticadas pelos
- feiticeiros do Brasil 271
-
- Claros signaes do reino do diabo em Maranhão 275
-
- Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer e
- começarão a restabelecer o reinado de Jesus Christo 283
-
- Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro de Commã 289
-
- Segunda conferencia que tive com Pacamão 296
-
- Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra 304
-
- Conferencia com Jacupen 311
-
- Conferencia com o principal de Orubutin 317
-
- Conferencia com o Onda, um dos principaes de Commã 321
-
- Congratulação á França etc. etc. 329
-
- Fidelissima narração etc. etc. 334
-
- Narração d’um marinheiro 344
-
- Notas criticas e historicas por Mr. Ferdinand Diniz 347
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Viagem ao norte do Brazil feita nos
-annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D, by Ivo D'Evreux
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL ***
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- The Project Gutenberg eBook of Viagem ao norte do Brazil pelo Padre Ivo D’Evreux, by Ivo D’Evreux, Ferdinand Diniz.
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-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of Viagem ao norte do Brazil feita nos annos
-1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux, by Ivo D'Evreux
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
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-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
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-
-Title: Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
-
-Author: Ivo D'Evreux
-
-Annotator: Ferdinand Diniz
-
-Translator: Cesar Augusto Marques
-
-Release Date: September 21, 2020 [EBook #63258]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL ***
-
-
-
-
-Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
-produced from images generously made available by Cornell
-University Digital Collections)
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<h1><span class="smaller">VIAGEM</span><br />
-AO NORTE DO BRAZIL<br />
-<span class="smaller">PELO PADRE</span><br />
-IVO D’EVREUX</h1>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="tp">
-
-<p class="titlepage"><span class="larger">VIAGEM</span><br />
-<span class="smaller">AO</span><br />
-<span class="larger">NORTE DO BRASIL</span><br />
-<span class="smaller">FEITA NOS ANNOS DE 1613 A 1614,<br />
-PELO PADRE</span><br />
-<span class="larger">IVO D’EVREUX</span><br />
-<span class="smaller">RELIGIOSO CAPUCHINHO<br />
-PUBLICADA CONFORME O EXEMPLAR, UNICO, CONSERVADO NA BIBLIOTHECA IMPERIAL<br />
-<b>DE PARIZ</b><br />
-COM INTRODUCÇÃO E NOTAS<br />
-<b>POR</b></span><br />
-<b>MR. FERDINAND DINIZ,</b><br />
-<span class="smaller"><b>CONSERVADOR DA BIBLIOTHECA SANTA GENOVEVA</b><br />
-Traduzida pelo<br />
-<b>DR. CEZAR AUGUSTO MARQUES</b><br />
-Cavalleiro da Real e Militar Ordem Portuguesa de
-Nosso Senhor Jesus Christo, Cavalleiro e
-Official da Imperial Ordem da Rosa, Membro do Instituto
-Historico, Geographico, e Ethnographico do
-Brazil, da Sociedade Geographica de Pariz, e socio correspondente,
-effectivo, honorario e benemerito
-de muitas outras sociedades litterarias e scientificas,
-nacionaes e estrangeiras.</span></p>
-
-<div class="figcenter titlepage" style="width: 200px;">
-<img src="images/tp-deco.jpg" width="200" height="100" alt="" />
-</div>
-
-<p class="titlepage">MARANHÃO—1874.</p>
-
-<p class="titlepage smaller">Maranhão.—Typ. do Frias, r. da Palma 6.</p>
-
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h2 class="nobreak">Á SAUDOSISSIMA MEMORIA,<br />
-<span class="smaller">DE MEU PAE E VERDADEIRO AMIGO</span><br />
-O Illm. Sr. Augusto José Marques.</h2>
-
-<p>Á vós, ó meo querido Pae, levanto, dedico e consagro este
-pequeno, porem sincero monumento de minha saudade sempre
-viva, de meo extremecido amor, de meo eterno reconhecimento,
-e de minha dôr pungente pela vossa ausencia d’este
-Mundo.</p>
-
-<p>Bem sei que Deos, querendo recompensar vossas virtudes,
-cêdo vos tirou do seio dos que muito vos extremeciam; mas
-essa ideia póde sim consolar-me, nunca porem mitigar as vivas
-saudades, que me pungem a alma.</p>
-
-<p>Aceitae, ó meo bom Pae, estas flores que, ainda uma vez
-banhadas com minhas lagrymas, espalho sobre vosso tumulo,
-a lá do Céo, onde vos collocaram vossas virtudes e a Misericordia
-Divina, abençoae o vosso filho</p>
-
-<p class="right">Cezar.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h2 class="nobreak" id="AO_LEITOR">AO LEITOR.</h2>
-
-</div>
-
-<p>A introducção, que se vae lêr, escripta pela habil penna de
-Mr. Ferdinand Diniz dispensa-me de escrever um prologo, e felizmente
-sou substituido de maneira muito vantajosa para os
-meos leitores.</p>
-
-<p>Realisei ainda uma vez um dos meos mais ardentes desejos,
-traduzindo e entregando á publicidade uma das obras raras a
-respeito da historia primitiva do Maranhão, que me tem merecido
-muitas investigações e aturado estudo.</p>
-
-<p>Dou-me por satisfeito d’esta e de outras fadigas, si d’ellas resultar
-algum proveito ao publico menos, lido para quem fiz esta
-traducção.</p>
-
-<p>Maranhão, 20 de outubro de 1874.</p>
-
-<p class="right"><i>Dr. Cesar Augusto Marques.</i></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_i"></a>[i]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="INTRODUCCAO">INTRODUCÇÃO.</h2>
-
-<p class="subhead">O Padre Ivo de Evreux e as primeiras missões
-do Maranhão.</p>
-
-</div>
-
-<p>No tempo de Luiz XIII, o magnifico Convento dos Capuchinhos
-da rua de Santo Honorato contava entre seos Monges
-dois religiosos com o mesmo nome—o Padre Ivo de
-Paris e o Padre Ivo de Evreux. O primeiro, advogado antigo,
-verboso, ardente na discussão, muito versado nas ideias
-do seu seculo, gosava pela cidade de alta reputação, e as
-biographias modernas confirmão ainda sua fama passada: o
-segundo, amigo reconcentrado do estudo, e mais ainda da
-humanidade, espirito observador, alma apaixonada pelas
-bellezas da naturesa, prompto a acudir onde o chamava seo
-zelo, não se importando da curiosidade que podia despertar,
-foi completamente esquecido, e de tal forma, que, apezar
-de seo reconhecido merito, decorreram 250 annos sobre
-seo humilde tumulo sem que uma voz amiga tenha para elle
-despertado a attenção publica.</p>
-
-<p>Para que se fallasse n’este obscuro Monge foram necessarias
-duas cousas, com que não se contava durante sua
-vida: a transformação em poderoso Imperio dos desertos,
-que elle percorreo, e o amor apaixonado por certos livros<span class="pagenum"><a id="Page_ii"></a>[ii]</span>
-velhos, que se rehabilitam e com razão, pois elles, por si
-só, narram factos que, sendo desconhecidos, fariam com que
-a civilisação crescente de certos paizes caminhasse na ignorancia
-de sua origem.</p>
-
-<p>Tinha então o grande Convento de Pariz muitos homens
-condemnados á injusto esquecimento.</p>
-
-<p>Fundado em 1575 por Catharina de Medicis,<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[A]</a> havia em
-pouco tempo adquerido fama de conter monges doutos em
-theologia, zelosos, cheios de abnegnação e caritativos nas
-epidemias, a qual, quasi intacta, conservou durante o decimo
-sexto seculo.</p>
-
-<p>Era n’elle, que o partido, favoravel aos religiosos regulares,
-vinha procurar espiritos activos para luctar com o Bispo
-de Belley.</p>
-
-<p>Era sobre estes vastos terrenos, possuidos apenas pela
-Casa de <i>Tremouille</i>, que existia essa immensa officina bem
-conhecida pelo Corpo medico de Pariz, onde os cortesãos,
-assim como os mais humildes burguezes vinham provêr-se
-de medicamentos, que só ahi encontravam, ou que se preparavam
-com incuria notavel nos outros lugares de tão
-grande cidade.<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[B]</a></p>
-
-<p>Fallemos francamente: não era nem a sciencia, então incontestavel,
-d’esses Religiosos, nem os resultados positivos
-de sua cuidadosa administração, nem mesmo os beneficios
-diarios, pelos quaes eram tão uteis ás classes necessitadas,
-que lhes grangearam o credito unisono, que gosavam em
-Pariz, pois o deviam sobre tudo as brilhantes conversões,
-realisadas recentemente no Mosteiro de Santo Honorato.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_iii"></a>[iii]</span></p>
-
-<p>Foi n’este Convento, que um dos maiores senhores
-do ultimo reinado, o conde de Bouchage, mais conhecido
-depois pelo Padre Angelo de Joyeuse, veio trocar as grandezas
-da Côrte, onde voluntariamente demittio-se dos seos
-cargos militares, pela vida pobre e obscura que ahi se passava.</p>
-
-<p>Foi n’este sombrio asylo que um dos ramos mais illustres
-da familia de Pembroke veio abjurar o calvinismo, e, renunciando
-vida mais brilhante, sugeitou-se ás humildes funcções,
-que desde o principio do seculo lhes foram impostos,
-obrigando-se a proseguir sem descanço na missão a que voluntariamente
-se impozera.</p>
-
-<p>Facil nos seria abundar agora na citação de nomes celebres,
-e de causar talvez admiração fazendo sobresahir os esquecidos:
-para ser breve devemos porem cingir-nos ao objecto
-em questão.<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[C]</a></p>
-
-<p>O Padre Ivo d’Evreux e o Padre Ivo de Pariz appareceram,
-como dissemos, quase ao mesmo tempo; porem a fama, sempre
-crescente de um, eclypsou completamente a lembrança
-mui fugitiva, que o outro deixou, e até em bons escriptos
-são elles confundidos. Tiveram, comtudo, bom é repetir, destino
-bem differente.</p>
-
-<p>Ivo de Evreux, como dissemos, fugia em geral do bulicio
-politico, e somente tomava parte nas luctas do seculo quando
-tinha de sustentar algum ponto de doutrina religiosa: o
-segundo, muito mais moço na Ordem, que o seo homonymo,
-sempre prompto a entrar nos combates, que as Ordens Regulares
-sustentavam algumas vezes contra o poder ecclesiastico,
-tinha por isto adquirido muita fama, com que bastante
-se gloriava o Mosteiro.</p>
-
-<p>Era notado não só como orador eloquente, mas tambem
-como um dos mais fecundos do seu tempo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_iv"></a>[iv]</span></p>
-
-<p>A hyperbole do elogio monastico chegou até o ponto
-de consideral-o como o engenho mais poderoso de sua Ordem.</p>
-
-<p>Foi sempre elle quem representou unicamente seos Superiores:
-eram d’elle os muitos livros, escriptos quase todos
-em latim, que foram oppostos, e victoriosamente, ás publicações
-violentas atiradas contra as Ordens mendicantes.</p>
-
-<p>Da sua antiga occupação de advogado se recordava e
-se aproveitava das tricas e desordens, proprias da epocha,
-e até lançava mão da astrologia judiciaria, pelo que se
-lhe attribuio a authoria do <i>Fatum Mundi</i>, livro absurdo,
-mas que durante algum tempo preoccupou a attenção publica.</p>
-
-<p>Declarado por unanimidade o oraculo do seu Convento,
-nem se quer por um momento houve a ideia de associar-se
-á sua lembrança o nome d’um Religioso, igual ao seo, e que
-apenas sabia sacrificar-se com o fim de ganhar algumas almas
-para Deos! O que fazia o nosso modesto amante da natureza
-diante de tal personagem, tão cercada de gloria, diante
-da <i>Phenix</i> dos theologos francezes, como então por
-gosto o appelidavam?<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[D]</a></p>
-
-<p>Mas, quem é que se recorda hoje do Padre Ivo de Pariz?
-Quem cuida hoje nas discussões, cuja vehemencia lhe attribuiram
-tão viva admiração?</p>
-
-<p>Colloquemos os homens e os factos nos lugares, que devem
-occupar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_v"></a>[v]</span></p>
-
-<p>Ivo d’Evreux poude contemplar em sua grandeza primitiva
-uma terra exuberante de vida e de mocidade: dois seculos
-de esquecimento passaram sobre sua obra, e hoje em
-dia brilha elle remoçado, cheio de graça, ao lado de Lery,
-de Fernando Cardim, de Anchieta, emfim de todas essas
-almas privilegiadas, que uniam a faculdade da observação
-á apreciação apurada das bellezas da natureza, e que saudaram,
-poetas desconhecidos, a aurora de um grande Imperio.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_vi"></a>[vi]</span></p>
-
-<p>Ivo d’Evreux, diga-se com pezar, teve o destino de
-quasi todos os historiadores primitivos do novo mundo:
-sua biographia, embora pouco desenvolvida, ainda está
-por escrever, e apesar das mais minuciosas e constantes
-investigações n’estes ultimos tempos, apenas conhecemos
-as circumstancias mais importantes de sua vida, e assim
-mesmo nada ao certo saberiamos si não fossem algumas
-notas colhidas em varios archivos dos antigos Conventos.
-Foi geral o esquecimento tanto da sua obra, como do seo
-autor. Pensam os escriptores de sua Ordem haverem
-dito bastante, lembrando ter elle vivido no seculo XVII,
-ter sido missionario zeloso, e autor de um livro, continuação
-obrigada da viagem do Padre Claudio, e até se
-esquecem de mencionar a sua existencia por espaço de dois
-annos entre os indios, onde este apenas demorou-se quatro
-mezes.</p>
-
-<p>Conforme as inducções, que se podem tirar de um folheto
-manuscripto, conservado na bibliotheca <i>Mazarina</i>, opusculo
-cheio de datas precisas, relativas aos Capuchinhos do Convento
-da rua de Santo Honorato, o nosso Missionario devia
-ter nascido em 1577.</p>
-
-<p>Indica por certo seu sobrenome a cidade onde elle nasceo,
-porem ignoramos qual foi o nome, que teve no seculo, como
-então se dizia. Á este respeito os amadores das viagens antigas
-foram mais bem succedidos quanto ao seo companheiro,
-o Padre Claudio, que se sabe pertencera a uma excellente
-familia, a dos Foullon.<a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[E]</a> O que ha de bem averiguado é,
-que os paes do Padre Ivo o applicaram á estudos excellentes,
-e que os seus professores não se contentaram de ensinarem-lhe
-só o latim e sim tambem o grego, e até o hebreu,
-e inspiraram-lhe tal gosto litterario, sem o qual não ha escriptor
-habil.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_vii"></a>[vii]</span></p>
-
-<p>No convento de Ruão passou o seo noviciado, e ahi entrou
-em 18 de agosto de 1595, não existindo a menor duvida
-a este respeito.<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[F]</a></p>
-
-<p>Depois de ter tomado o habito n’essa Caza, ahi provavelmente
-demorou-se alguns annos, e devia prégar na maior
-parte das cidades da alta Normandia.</p>
-
-<p>É provavel, que então se achasse em relações de estudo
-e de sacerdocio com o joven Francisco de Bourdemare, como
-elle natural da Normandia, como elle Prégador em sua Provincia,
-e mais tarde designado para succedel-o na missão
-do Maranhão.<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[G]</a></p>
-
-<p>Distinguido muito cedo pelos seos Superiores, e tendo já
-o titulo de Prégador, que então só se dava aos Religiosos
-notaveis, foi designado o Padre Ivo para preencher as funcções
-de Guardião do Convento de Montfort.</p>
-
-<p>Infelizmente os documentos, que temos á vista e que provam
-este facto, não dizem qual foi a Cidade onde se passaram
-a maior parte dos annos de estudo do nosso bom Missionario.</p>
-
-<p>Ha em França mais de treze localidades com este nome
-e não nos é possivel, absolutamente fallando, dizer onde o
-nosso viajante se fortaleceu em sua carreira religiosa.</p>
-
-<p>Nos primeiros annos do seculo mudou logo de residencia,
-e achamol-o no grande Convento de Santo Honorato, no
-meiado do anno de 1611, no tempo em que era Provincial<span class="pagenum"><a id="Page_viii"></a>[viii]</span>
-da Ordem o Padre Leonardo de Pariz,<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[H]</a> quase na occasião
-d’este sabio Religioso ter sido pelo Papa nomeado Superior
-das missões orientaes.</p>
-
-<p>Teremos ainda occasião de fallar no movimento politico,
-dado ás expedições maritimas, quando ja ia em meio o seculo
-XVI, e que tinha por fim fazer com que, o nosso comercio
-partilhasse das vantagens, que a Hespanha e Portugal
-haviam para si monopolisado. Cincoenta annos mais tarde,
-embora aproveitando-se das vantagens adquiridas pelas exploraçães
-dos Varazano, dos Cartier, dos Roberval, e de tantos
-outros navegantes, que nos deram o que n’aquelle tempo
-se chamava <i>nova França</i>, todas as attenções se fixavam
-nas regiões mais favorecidas, que então se pretendia colonisar,
-e as quaes com enthusiasmo se chamava <i>França equinoccial</i>.</p>
-
-<p>Ja havia desde 1555 uma <i>França Antarctica</i>, a qual,
-apesar de ter este nome por tão pouco tempo, não deixou
-comtudo de grangear para nossos homens do mar as sympathias
-calorosas e dedicadas dos povos indigenas, que então
-em tribus numerosas occupavam o Brazil em varias partes.
-Auxiliava tambem estas conquistas pacificas o movimento
-protestante, bem que não devesse deixar vestigios
-duradouros n’America do Sul, porque os refugiados e os
-Missionarios subordinavam a si e procuravam á porfia converter
-á suas crenças estas nações barbaras.<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[I]</a></p>
-
-<p>Sem tratar dos armadores de Dieppe, cujas primeiras
-explorações pelas costas do Maranhão, datam de 1524, sem<span class="pagenum"><a id="Page_ix"></a>[ix]</span>
-mencionar as navegações de Affonso de Xaintongeois até as
-boccas do Amazonas no anno de 1542, ser-nos-ia facil provar,
-que 25 annos mais tarde Henrique IV doara a um bravo
-capitão da religião reformada a immensa extensão de
-territorio, para a qual devia ir Ivo d’Evreux, sahindo do seu
-pacifico retiro de Montfort, afim de cathequisar os selvagens.</p>
-
-<p>Vemos com effeito Daniel de la Touche, senhor de Ravardiere,
-de posse d’essas doações tão vagamente definidas
-pelas Cartas patentes de julho de 1605.<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[J]</a></p>
-
-<p>Adquirimos tambem a certeza, que depois de dois annos,
-após duas viagens successivas ao norte do Brasil, Ravardiere
-decidio os Tabajaras e Tupinambás, propriamente ditos, a
-mandarem uma especie de embaixada ao Rei Christianissimo
-com o fim de solicitar sua protecção contra as invasões dos
-portuguezes.</p>
-
-<p>Foi debalde esta missão d’indios, porem como Ravardiere
-continuasse a residir por muito tempo entre elles, conseguio
-em 1610, que lhe fossem renovadas as doações feitas cinco
-annos antes, e assim julgou-se authorisado, logo depois da
-morte de Henrique IV, a formar uma associação para a definitiva
-colonisação d’estas regiões abandonadas.<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[K]</a></p>
-
-<p>Não foi comtudo aos partidistas de sua Religião, que se
-dirigio Ravardiere para ser bem succedido n’este empenho:<span class="pagenum"><a id="Page_x"></a>[x]</span>
-pelo contrario sem hesitar entrou em conferencia com catholicos
-proeminentes, cuja lealdade perfeitamente conhecia,
-como sejam, o almirante Francisco de Razilly, uma das mais
-antigas glorias da França, e Niculau de Harlay, uma de suas
-summidades financeiras, e elles se lhe associaram para a
-exploração d’este previlegio.</p>
-
-<p>Em todo o seculo XVII não conhecemos outra transacção,
-entre catholicos e protestantes, mais leal e desinteressada:
-foi na verdade uma empresa, digna de contar em si o Padre
-Ivo d’Evreux, tão sincero como justo.</p>
-
-<p>O titulo de lugar-tenente do Rei, sem a menor questão,
-foi transferido á Rasilly, que teve toda a liberdade de acção,
-não deixando comtudo de fazer prevalecer as prerogativas
-da communhão, que professava.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_xi"></a>[xi]</span></p>
-
-<p>Em todas as praias onde desembarcassem, devia levantar-se
-uma cruz com toda a solemnidade, e bem assim missionarios
-catholicos seriam condusidos para propagação da
-fe entre o gentilismo.</p>
-
-<p>Estes contractos foram na verdade pontualmente executados,
-e nem na obra de Claudio d’Abbeville, e nem na de
-Ivo de Evreux se encontra uma só palavra, que faça suspeitar
-o menor estremecimento entre os chefes da expedicção.</p>
-
-<p>Fortalecido com o credito, que de ha muito gosava na
-Corte, ajudado alem disto, por soccorros pecuniarios, e pela
-verdadeira importancia, que lhe proveio de associar-se com
-Niculau de Harlay, senhor de Sancy, Barão de Molle e de
-Grois Bois, o almirante Razilly com toda a prestesa chegou
-ao fim, que tinha em vista, interessando a Regente no bom
-exito de uma empreza, ja antecedentemente approvada por
-Henrique IV.</p>
-
-<p>Por seos rogos escreveo Maria de Medicis ao Padre Leonardo,
-que n’esse tempo era Guardião do grande Convento dos
-Capuchinhos da rua de Santo Honorato, pedindo-lhe com toda
-a instancia quatro religiosos, afim de fundarem um convento
-da Ordem na Ilha do Maranhão.</p>
-
-<p>Diga-se a verdade: o norte do Brazil que actualmente offerece
-todos os recursos da civilisação, então se apresentava,
-até mesmo aos mais doutos da Universidade de Pariz,
-como um paiz entregue a todos os horrores da vida selvagem;
-os cosmographos francezes quando d’ella tractavam,
-exageravam a rusticidade d’esse paiz, deixando comtudo a
-imaginação o campo inteiramente livre, não marcando nenhum
-limite exacto, e era sobre essas informações inexactas
-que Raleigh se deleitava de evocar todos os monstros do
-mundo antigo.</p>
-
-<p>Nem um só momento exitaram estes Religiosos quando o
-Padre Provincial lhes leo a Carta regia na occasião em que
-se achavam no refeitorio: d’entre elles quarenta quizeram
-ser escolhidos para tão perigosa empresa, e os documentos
-officiaes, que temos à vista, nos fizeram até conhecer a especie<span class="pagenum"><a id="Page_xii"></a>[xii]</span>
-de enthusiasmo que d’elles se apoderou quando souberam
-o contheudo da mensagem das Tulherias. Offereceram-se
-a maior parte dos Padres com expontaneo enthusiasmo
-para esta nova missão, e sendo reprimido o zelo dos
-mais fervorosos, declarou logo o Padre Leonardo, de accordo
-com o Definidor da Ordem, que seriam quatro apenas os escolhidos,
-de conformidade com o pedido.</p>
-
-<p>Eis a lista destes nomes pela ordem, que devem guardar
-entre si, e os raros historiadores, que d’elles tem tratado
-teriam evitado alguns erros se, como nós, tivessem consultado
-os archivos do Convento.</p>
-
-<p>O muito veneravel Padre Ivo d’Evreux, superior.<a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[L]</a></p>
-
-<p>O muito veneravel Padre Claudio d’Abbeville.</p>
-
-<p>O muito veneravel Padre Arsenio de Paris.</p>
-
-<p>O muito veneravel Padre Ambrosio de Amiens.</p>
-
-<p>Ajoelharam-se os escolhidos diante do Padre Leonardo, e
-humildemente lhes agradeceram tal honra; foi-lhes annunciada
-a proximidade da viagem, e desde esse momento para
-ella se acharam promptos.</p>
-
-<p>Não ha a menor duvida á respeito da qualidade do Religioso,
-a quem se confiou a direcção das missões do Maranhão,
-e não se comprehende como Berredo, antigo Governador
-da Provincia, que foi autoridade no Brazil, deo o titulo
-de Superior á Claudio d’Abbeville, que occupa na ordem
-hierarchica o lugar immediato ao digno Missionario director
-dos trabalhos.</p>
-
-<p>Certamente era necessario que o Padre Ivo ja tivesse adquirido
-na Ordem credito inabalavel para que fosse preferido<span class="pagenum"><a id="Page_xiii"></a>[xiii]</span>
-aos tres religiosos, seos adjuntos. Eram sacerdotes todos
-tres; como elle deram provas de possuirem solida instrucção,
-e o terceiro até, ja muito adiántado na carreira, por
-varias vezes tinha occupado certos empregos honrosos, signaes
-evidentes da consideração de seos superiores. O Padre
-Ambrosio éra alem d’isto dedicado com ardor á todas as
-obras de caridade, durante as calamidades dos ultimos annos
-do seculo, sendo muito conhecida sua bondade sempre
-em acção: suas prédicas fervorosas, bem acolhidas pelo povo,
-lhe grangearam o apellido de «<i>Apostolo da França</i>.»<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[M]</a></p>
-
-<p>Tem a data de 12 de agosto de 1611 as <i>Cartas de obediencia</i>,
-que os Superiores deram ao Padre Ivo d’Evreux,
-e lhe ordenaram, que fosse embarcar-se no porto de Caucale
-n’um navio sob o commando de Rzailly, lugar-tenente
-do Rei.</p>
-
-<p>Não devemos repetir aqui o que em termos percisos e
-apropriados contou Claudio d’Abbeville na primeira parte de
-sua narração a respeito dos pormenores da longa viagem
-dos missionarios até o Brazil, da separação forçada da flotilha,
-que os conduzia, e das peripecias d’esta navegação,
-que durou cinco mezes. O que porem podemos affirmar é<span class="pagenum"><a id="Page_xiv"></a>[xiv]</span>
-que o Padre Ivo não soffreu somente o aborrecimento de
-uma viagem maritima, cujas difficuldades não se pode agora
-imaginar, e que aos cuidados de uma installação penosa
-vieram reunir-se fadigas imprevistas, e depois de desembarcado,
-dores pungentes, como fossem as que elle experimentou
-pela morte do digno Padre Ambrosio, e em seguida
-os soffrimentos provenientes de uma molestia, que o forçou
-a regressar, e da qual foi victima afinal.</p>
-
-<p>Tudo isto foi narrado com simplicidade e dignidade por
-tão zeloso missionario, e sem duvida muito melhor do que
-o fariamos.</p>
-
-<p>O que não disse o pobre Monge, cuja exquisita sensibilidade
-e admiravel resignação se revelam tantas vezes, foi o
-pezar, que experimentou quando vio, que da coragem imprudente
-de Pésieux resultou a morte d’este seo amigo, sem
-que o valor de Ravardiere podesse ser bastante para sustentar
-a Colonia; o que tambem não poude contar foi a perda
-das funcções de Superior da missão, que devia assumir
-antes do triumpho das armas de Jeronymo d’Albuquerque,
-e da expulsão definitiva dos francezes. Para explicar essas
-circumstancias, não mencionadas de forma alguma pelo digno
-missionario, é indispensavel fallar-se da situação administrativa
-em que então se achava o grande Convento da rua
-de Santo Honorato.</p>
-
-<p>O Padre Leonardo, tão afamado entre seos irmãos de habito,
-em 1614 deixou de ser Provincial, e só poderia ser reeleito
-no anno de 1615. Foi substituido pelo veneravel Honorato
-de Champigny,<a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[N]</a> e com razão elogiam-se os melhoramentos
-de toda a natureza, a actividade, e especialmente a
-distribuição de soccorros caridosos, postos em pratica durante
-a sua administração.</p>
-
-<p>N’esta epocha, um Religioso estrangeiro, natural da Escossia,
-e descendente de uma boa familia, attrahia a si os olhares<span class="pagenum"><a id="Page_xv"></a>[xv]</span>
-de seos irmãos, e póde dizer-se até os da propria França,
-o Padre Archanjo de Pembroke, que veio substituir de
-alguma forma o Padre Angelo de Joyeuse.</p>
-
-<p>Eleito Provincial em 1609, e não deixando depois d’isto
-d’exercer importantes encargos, foi este Capuchinho, logo
-depois da partida do Padre Ivo, nomeiado director dos missões
-<i>nas Indias orientaes e occidentaes</i>. Os motivos, que
-fizeram abandonar mais tarde a missão do Maranhão, não
-foram declarados, ou para melhor dizer, não existiam. Archanjo
-de Pembroke resolveo ir pessoalmente ao Brasil dar
-consideravel impulso á pequena missão, que alguns mezes
-antes havia sido derigida por Francisco de Razilly.</p>
-
-<p>Para este fim escolheo onze religiosos, de cujo zelo podia
-confiar: infelizmente ignoram-se os seos nomes, e apenas se
-sabe que entre elles havia um historiador, cuja <i>Narração</i>,
-nos parece de facto perdida, por não ter sido possivel encontral-a,
-apezar de todas as pesquizas feitas com constancia
-e perseverança por muitos mezes em Pariz, Ruão e Madrid.<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[O]</a></p>
-
-<p>O Padre Francisco de Bourdemare pertenceo á classe d’esses
-ricos gentis-homens, que após á saciedade de todas as
-superfluidades da fortuna, de repente suffocam n’um carcere
-o que se chama orgulho do seculo e lembranças mundanas.</p>
-
-<p>Havia ja alguns annos, que era viuvo: á seo filho entregou
-todas as suas herdades, e depois foi sepultar-se nos<span class="pagenum"><a id="Page_xvi"></a>[xvi]</span>
-Mosteiros de Orleans e de Ruão, e d’ahi mudou-se para o
-Convento da rua de Santo Honorato em Pariz, onde exhibio
-diariamente, dizem, provas de humildade muito alem da
-exigida pelos membros da Communidade.</p>
-
-<p>Gentil-homem notavel, não havia muito, pela sua elegancia,
-na epocha da grandeza, anterior ao fausto de Luiz XIV,
-então somente trazia vestidos remendados, e ainda á sua pobreza
-juntava o habito de Capuchinho.</p>
-
-<p>Completar o seu martyrio dedicando-se fervorosamente á
-conversão dos selvagens, pareceo-lhe coisa tão natural como
-invejavel; este homem, cuja sociedade tinha sido tão procurada,
-e cuja instrucção era tão solida á ponto de poder
-escrever em latim uma obra volumosa, encarou como beneficio
-dos Definidores da sua Ordem o ser mandado a um
-paiz deserto, onde faltassem todos os recursos na vida: elle
-e Archanjo de Pembroke, cuja existencia tinha sido ainda
-mais brilhante que a sua, embarcaram-se com outros dez
-Monges n’um navio commandado pelo bravo Pratz, que com
-tresentos colonos novos ia soccorrer Ravardiere, cuja situação
-sem duvida era prevista em Pariz como difficil.</p>
-
-<p>Cheios de presentes pelos senhores da Córte de Luiz XIII
-com os quaes ainda bem recentemente elles entretinham relações
-diarias, e sobretudo satisfeitos por levarem ao modesto
-Convento do Maranhão os bellos ornamentos feitos pelas
-proprias mãos da Duqueza de Guise, partiram do Havre, e
-pode dizer-se, que para aquelle tempo foi por certo um phenomeno,
-pois apenas gastaram dois mezes e meio para chegarem
-á costa do norte do Brazil, porem apenas vellejavam
-ainda na bahia de Guaxenduba souberam logo do estado
-lastimoso, em que se achavam os negocios da França n’aquelles
-lugares.</p>
-
-<p>Não ignoravam os Missionarios, que pelo seo Instituto se
-achavam ao abrigo das eventualidades politicas, que o resto
-da expedição podia temer (por exemplo não podiam ser prisioneiros):
-foram, como que com pompa, para o seo Convento
-em S. Luiz, e comsigo levaram os presentes da Duqueza<span class="pagenum"><a id="Page_xvii"></a>[xvii]</span>
-de Guise, porem apenas acharam ahi um só religioso, o Padre
-Arsenio de Pariz,<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[P]</a> e esse mesmo muito doente.</p>
-
-<p>Mais doente ainda, que seo unico companheiro se achava
-o Padre Ivo d’Evreux, quando soube, estar substituido como
-Superior do nascente Mosteiro, e é provavel, que elle embarcasse
-a bordo d’algum dos navios da esquadra.</p>
-
-<p>Dizem os documentos que temos á vista, que n’esse tempo
-elle se achava em inacção, victima d’uma paralysia geral,
-consequencia provavel das fadigas, a que diariamente
-se entregava no <i>Fórte</i>.</p>
-
-<p>Para explicar a invasão lenta, porem continua, de tão
-triste molestia, basta recordar agora o que era então a nascente
-cidade de S. Luiz.</p>
-
-<p>Embora seja hoje, e com razão, esta risonha Capital considerada
-uma das cidades mais saudaveis do Imperio do
-Brasil, então apenas surgia do seio das florestas: os miasmas
-deleterios, que constantemente se desprendiam dos logares
-recentemente desbravados, a falta absoluta de certos medicamentos
-energicos, apropriados a combater com decidida
-vantagem essas influencias paludosas: tudo isto explica como
-o Padre Ivo d’Evreux não poude esperar pelo resultado da
-guerra começada, e como se vio coagido a regressar para a
-Europa, receiando ser pesado á missão depois de haver sido
-o seu agente mais activo e o seu sustentaculo mais dedicado.</p>
-
-<p>Não sabemos como se effectuou esta viagem, nem si elle
-foi para Pariz, e nem tão pouco si foi em sua terra natal<span class="pagenum"><a id="Page_xviii"></a>[xviii]</span>
-buscar um azylo no Convento dos Capuchinhos,<a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[Q]</a> fundado
-apenas alguns mezes depois da sua partida.</p>
-
-<p>Os archivos da cidade d’Evreux, nada dizem a tal respeito,
-e nem tambem relativamente á missão brasileira, parecendo-nos
-dever esperar-se do acaso o apparecimento de
-documentos biographicos, cuja existencia nem se suspeita.</p>
-
-<p>O historico da segunda missão dos Capuchinhos franceses
-em Maranhão, completamente ignorada por Berredo e outros
-escriptores portuguezes, não nos deixa na mesma incertesa
-quanto aos missionarios, que succederam á Ivo d’Evreux e
-aos seos companheiros.<a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[R]</a></p>
-
-<p>Sabemos que chegaram em 15 de junho diante da nascente
-cidade, que cantaram um <i>Te-Deum</i> no dia 22 do
-mesmo mez, no rustico Convento principiado a edificar por
-seos antecessores, e tambem não ignoramos hoje, que elles
-previram o máo exito da missão.</p>
-
-<p>Ignoramos o que fez o Padre Arcanjo no Convento de São
-Luiz, porem quasi que se pode dizer, que não imitou o zelo
-dos Padres Ivo d’Evreux e Arsenio de Pariz, sendo tão mal<span class="pagenum"><a id="Page_xix"></a>[xix]</span>
-succedido em seos esforços que até appareceo a desunião
-«entre as coisas da Colonia, augmentada ainda com a chegada
-dos portuguezes, que se assenhorearam do paiz.»</p>
-
-<p>O piedoso biographo, cuja narração nos serve do guia,
-diz, que o novo Superior administrou o baptismo a 650 indios,
-porem accrescenta logo, que sem duvida estes pobres
-selvagens não ficaram por muito tempo fieis á religião, que
-abraçaram, voltando a sua antiga idolatria: «não chega a
-sessenta os christãos sinceros, e n’esse numero estão incluidos
-vinte meninos.» Si se encontrasse uma biographia cheia
-de particularidades e de aventuras do Monge escossez, de
-que tracta o velho historiador da Ordem, taxando-a de muito
-exagerada, provavelmente n’ella se encontrariam narrações
-minuciosas de sua missão na America. Infelizmente este livro,
-se existe em alguma bibliotheca pouco conhecida, é tão
-raro como o de Francisco de Bourdemare, e temos sido infelizes
-nas diversas pesquizas, que até hoje fizemos com o
-fim de offerecer aos nossos leitores um extracto do seo contheudo.<a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[S]</a></p>
-
-<p>Suspeitamos que o Padre Arcanjo de Pembroke deixou
-muitos dos seos confrades no Convento dos Capuchinhos recentemente
-edificado, e que regressou para França ao fim
-de 1614 no navio do Capitão Pratz, que levou á Paris Gregorio
-Fragoso, sobrinho de Jeronymo de Albuquerque, incumbido<span class="pagenum"><a id="Page_xx"></a>[xx]</span>
-d’uma missão diplomatica, que devia discutir-se em
-Lisboa.</p>
-
-<p>Recolhido á sua cella no Convento da rua de Santo Honorato,
-o Padre Ancanjo facilmente esqueceo-se do Brasil<a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[T]</a>,
-tomou parte nos acontecimentos politicos do seu tempo, vieram
-de novo as dignidades da Ordem procural-o, e viveo
-no grande mosteiro até o momento, em que Richelieu chegou
-ao apogeo do seo poder.</p>
-
-<p>Os amadores das viagens antigas, aquelles que prescrutam
-ainda com interesse as lembranças espalhadas aqui e ali, e
-com as quaes se deve compôr a historia das nossas Colonias,
-mais gloriosa do que se pensa, não se demoraram n’essas
-particularidades, e antes desejaram saber como o Maranhão
-escapou aos esforços corajosos do bravo Ravardiere.</p>
-
-<p>A <i>Historia Geral do Brasil</i>, publicada ultimamente pelo
-veridico Sr. Adolpho de Varnhagem lhe responderá com mais
-promptidão ainda do que o poeta laureado Southey. Ahi lerão
-como as forças portuguezas, expedidas d’esde outubro
-de 1612 para expellir os francezes do seu novo estabelecimento,
-de que tinha ciumes a Corte de Madrid, ainda em
-Maio de 1613 foram reforçadas por Jeronymo d’Albuquerque
-vindo do Ceará, onde combinou com Martim Soares nos meios
-de ser bem succedida essa expedição sob seo commando, a
-qual se antolhava irriçada de difficuldades.</p>
-
-<p>De Pernambuco ainda vieram reforços indispensaveis, e
-por isso em 23 d’agosto começou o bloqueio das forças francezas,
-porem no dia 19 de novembro, Ravardiere á frente
-de 200 soldados d’infantaria, e de 1500 indios atacou com
-energia os sitiadores de sua nascente cidade; perdeo-se ahi<span class="pagenum"><a id="Page_xxi"></a>[xxi]</span>
-o bravo Pezieux n’uma imprudente tentativa por não ter
-executado as ordens do seu chefe mais experiente do que
-elle.</p>
-
-<p>Tomaram por sua vez a offensiva os portuguezes, e em pouco
-tempo, apesar da sua reconhecida habilidade e do seu notavel
-valor, foi obrigado o Chefe da nova Colonia a concordar
-n’um armisticio, cujo desenlace seria terminado perante
-as Cortes de Madrid e de Pariz, para as quaes appellaram
-ambas as partes belligerantes.</p>
-
-<p>Antes de chegar a este ponto vio Ravardiere de seo exercito
-cem homens mortos e nove prisioneiros. Pode dizer-se,
-que si sua resistencia foi a de um bravo, como tal ja reconhecido,
-o procedimento, que então ostentarão seos adversarios,
-foi em todo o sentido generoso, porem, força é dizer
-que depois de convenções tão livremente estipuladas, e
-quando em 3 de Novembro de 1615 entregou Ravardiere
-com todas as solemnidades o <i>Forte de São Luiz</i> á Alexandre
-de Moura appareceo um acto de deslealdade manchando
-esta campanha tão nobremente terminada. Ravardiere deixou
-o Maranhão e foi em companhia de Alexandre de Moura
-para Pernambuco, d’onde partio em pouco tempo para Lisboa,
-e ahi no <i>Forte de Belem</i> soffreo rigorosa prisão, que
-não durou menos de tres annos.<a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[U]</a></p>
-
-<p>Pelo que acabamos de dizer vê-se facilmente, que a Cidade
-de S. Luiz, a florescente Capital de uma das mais ricas
-Provincias do Brasil, é uma Cidade de origem absolutamente
-franceza, e a Camara Municipal assim felizmente o comprehendeo
-por haver ainda ha pouco tempo feito surgir das<span class="pagenum"><a id="Page_xxii"></a>[xxii]</span>
-ruinas os modestos edificios, que attestam esta epocha, provando
-com isto, e ao mesmo tempo, ausencia de patriotismo
-mesquinho e sentimento de bom gosto.<a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[V]</a></p>
-
-<p>Mas voltando ao livro, que nos prende a attenção, façamos
-conhecer a sorte caprichosa, que o esperava em França.
-Despertaremos tambem com o bom Religioso algumas reminicencias,
-com que se pode enfeitar a poesia.</p>
-
-<p>Menos infeliz na apparencia que João de Lery, tão bem
-classificado com o appellido de «Montaigne dos velhos viajantes,»<a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[W]</a>
-Ivo d’Evreux durante 15 annos não vio seo manuscripto,
-extraviado por um infortunio, que o ferio completa
-e absolutamente.</p>
-
-<p>Enviado aos Superiores da Ordem este livro, complemento
-do de Claudio d’Abbeville, foi destruido antes de haver apparecido.
-Impresso por Francisco Huby, em cujas officinas já
-havia sido edictada a obra do seo companheiro, foi inteiramente
-dilacerado.</p>
-
-<p>Francisco Huby, dizemos com pezar, deixou-se n’essa occasião
-seduzir, e esquecendo-se dos deveres inherentes á
-sua profissão, não se importou em ser o instrumento d’uma
-vingança politica tão mesquinha.</p>
-
-<p>É de suppôr, que o motivo, que fez prender Ravardiere
-no <i>Forte de Belem</i>, levantou tambem mãos sacrilegas para
-destruir na rua de São Thiago o precioso volume, no qual<span class="pagenum"><a id="Page_xxiii"></a>[xxiii]</span>
-se expunham com admiravel sinceridade as vantagens para
-a França, provenientes da expedição de 1613.</p>
-
-<p>Entre a impressão da viagem de Claudio d’Abbeville, e
-a do livro, que é sua continuação, deo-se um acontecimento
-politico d’alto alcance.</p>
-
-<p>Foi resolvido o casamento de Luiz XIII, ainda menino, com
-uma princesa hespanhola<a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[X]</a>, e um partido inteiro mostrou
-muito interesse em dissipar qualquer sombra, que prejudicasse
-a casa de Hespanha.</p>
-
-<p>Os projectos de conquista d’America do Sul não acharam
-mais apoio, e desde então empregaram-se todos os meios
-afim de ser esquecido um projecto de conquista, com que
-ja se havia inquietado a Hespanha, chegando-se até a destruir
-completamente a simples narração dos incidentes d’essa
-missão ja passada ha tanto tempo, embora escripta com toda
-a calma e conveniencia.</p>
-
-<p>Quando se deo este acto arbitrario havia em França um
-homem, que ligava muito interesse á obra e ao seo auctor.</p>
-
-<p>Felizmente Francisco de Razilly não cahio no captiveiro,
-que paralisava todos os esforços de Ravardiere, e pode até
-affirmar-se, que não perdeo de vista, por um só momento, as
-vantagens, que seo paiz podia tirar de uma Colonia, cujos
-primeiros passos elle tinha dirigido. Sabendo que hia ser
-destruido o volume do Padre Ivo d’Evreux, apezar de impresso
-inteiramente, foi á imprensa de Huby para vêr se obtinha
-um exemplar: ou porque não fosse com toda a promptidão,
-ou porque ja se tivesse dado começo a destruição da<span class="pagenum"><a id="Page_xxiv"></a>[xxiv]</span>
-obra, apenas poude salvar algumas folhas por si ou por <i>meios</i>
-subtis de um seo agente, as quaes reunidas mostraram a lamentavel
-perda de diversos fragmentos, e com essas lacunas
-tão importantes foi impossivel formar um exemplar completo.
-Mandou o Almirante imprimir o seu protesto em outra
-parte, e não nas officinas da rua de Sam Thiago, juntou-o
-ao livro, encadernado com todo o luxo, tendo na frente as
-armas da casa de França, e foi leval-o, não á Maria de Medicis,
-antiga protectora da Colonia do Maranhão, e sim a
-Luiz XIII.</p>
-
-<p>O menino rei ainda na anno antecedente tinha brincado
-muito com tres pobres selvagens Tupinambás, dos quaes
-fora padrinho, e suas recordações eram ainda tam frescas,
-que de vez em quando esboçava os grotescos ornatos, com
-que se enfeitavam os nossos indios:<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[Y]</a> leo talvez algumas paginas
-do bello volume, que Razilly lhe offereceo, e n’isto ficou
-todo o seo interesse. Richelieu ainda não era Superintendente
-da sua marinha, e ainda dormiram na Corte por
-muitos annos os projectos de longas navegações.</p>
-
-<p>O livro do Padre Ivo, junto ao do Padre Claudio, foi posto
-nas estantes da bibliotheca, e ahi todos os deixaram em
-paz.</p>
-
-<p>Foi no tempo do digno Van-Praet, no principio de 1835,
-que o autor d’esta noticia teve a felicidade de encontral-o.
-Seria occioso o dizer como o feliz descubridor ficou surprehendido
-lendo esta agradavel narração, tão sincera em suas
-menores particularidades como preciosa pelas suas uteis noticias.
-Para comprehender bem o seo valor basta dizer-se,
-que o nosso bom missionario demorou-se dois annos, onde
-seo veneravel companheiro apenas demorou-se quatro mezes.
-Desde então appareceo Ivo d’Evreux n’uma serie de<span class="pagenum"><a id="Page_xxv"></a>[xxv]</span>
-artigos, que publicava a <i>Revista de Pariz</i> a respeito dos <i>antigos
-viajantes francezes</i>, e na verdade sem desvantagem,
-ao lado do Padre du Tertre, a quem Chateaubriand justamente
-chamou o Bernardin de Sant’Pierre do 16º seculo.</p>
-
-<p>Este artigo, cujo menor defeito era sem duvida alguma o
-ser pouco desenvolvido, formou n’esse mesmo anno uma
-pequena brochura, publicada em casa de Techener, e immediatamente
-esgotou-se a edicção.</p>
-
-<p>Desde essa epocha não foi mais Ivo d’Evreux de todo
-desconhecido aos amadores das viagens antigas, aos homens
-de bom gosto, que buscam avidos de curiosidade os escriptores
-esquecidos, percursores do grande seculo. Preoccupado,
-mais do que se crê na Europa, de suas tradicções poeticas,
-e de suas nascentes glorias, o Brasil saudou o nome
-do velho viajante, e lhe deo um lugar entre os homens pouco
-conhecidos, mas que devem ser consultados quando se
-tracta dos tempos primitivos.</p>
-
-<p>O Imperador D. Pedro, que occupa um lugar entre os bibliographos
-mais illustrados, e que tem decidido gosto pelas
-raridades bibliographicas, que derramam alguma luz sobre
-as antiguidades do seo vasto Imperio, mandou extrahir
-uma copia, sendo depois imitado seo exemplo!</p>
-
-<p>O unico exemplar, pertencente á bibliotheca imperial d’ahi
-em diante foi lido e relido:<a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[Z]</a> uma phalange de escriptores<span class="pagenum"><a id="Page_xxvi"></a>[xxvi]</span>
-habeis e zelosos, que exhumaram do pó a historia do seo
-bello paiz, o chamaram em testemunho de suas asserções,
-Adolpho de Varnhagem, Pereira da Silva, Lisboa o auctor
-do <i>Timon</i>, e no ultimo lugar o sabio Caetano da Silva, o
-citaram entre as melhores autoridades, que se pode invocar
-sobre as crenças dos indios, e assim o fizeram sahir da obscuridade,
-em que jazia.</p>
-
-<p>Não tinha a França prestado attenção a estes testemunhos
-de estima para dar ao Padre Ivo d’Evreux o lugar, que
-merecia. Se Boucher de la Richarderie não tivesse pronunciado
-seo nome, levantando o mais que poude o de Claudio
-d’Abbeville, o Sr. Henrique Ternaux Compans não o incluiria
-na sua preciosa collecção dos viajantes conhecedores da
-antiga America. O Sr. d’Avezac o cita com destincção e faz
-sobre-sahir suas boas qualidades.</p>
-
-<p>Todos estes testemunhos de admiração para com o humilde
-escriptor, que sem ostentação sacrificou sua obra, infelizmente
-tem concorrido pouco para tirar sua vida da obscuridade,
-e não sabemos em que auctoridade se baseia um
-sabio bibliographo para dizer que elle viveo até 1650.<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[AA]</a></p>
-
-<p>Á vista d’um volumoso manuscripto da bibliotheca imperial
-pensamos um dia que ião ser esclarecidas todas as
-nossas duvidas sobre os principaes pontos da biographia do
-nosso escriptor, porem assim não aconteceo. <i>Os elogios historicos<span class="pagenum"><a id="Page_xxvii"></a>[xxvii]</span>
-de todos os grandes homens e de todos os illustres
-religiosos da Provincia de Pariz</i> infelizmente só dão noticias
-relativas aos religiosos de Santo Honorato, de Picpus,
-e de S. Thiago.<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[AB]</a> Chegou-se até a dizer na obra, que havendo
-o Padre Paschoal d’Abbeville<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[AC]</a> separado sua Provincia
-da Normandia em 1629 não devia procurar-se n’esta
-compilação o nome dos Religiosos, que não residiram em
-Pariz.</p>
-
-<p>Não se deve esquecer de todo a excitação puramente litteraria,
-que se experimentou em França logo depois da
-chegada dos selvagens brasileiros, que desembarcaram sessenta
-annos antes em Ruão ou em Pariz. Estes apparecimentos
-successivos d’indios, seguidos sempre de narrações
-mais ou menos notaveis, levão evidentemente o espirito a
-pensar nas bellezas primitivas da natureza, o que produz
-encantos e amplidão de ideias.</p>
-
-<p>D’esta influencia não se livrou o nosso Montaigne, como
-elle revellou em algumas palavras espirituosas, que escreveu
-a proposito d’uma cantiga brasileira.</p>
-
-<p>Os dois maiores poetas d’aquelles tempos, tão differentes
-entre si e comtudo tão approximados, se abalaram a ponto
-de dedicarem particular attenção a esses habitantes das
-grandes florestas, por acaso misturados com os cortezãos de
-França, que invejavam seos gosos pacificos, e a tranquillidade
-de suas existencias.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxviii"></a>[xxviii]</span></p>
-
-<p>Ronsard não é de parecer que estes homens, que lembram
-a origem do Mundo, percam sua feliz innocencia, e por
-isso insta com os visitantes para que não troquem a sua
-ignorancia pelos cuidados da civilisação.<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[AD]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxix"></a>[xxix]</span></p>
-
-<p>Malherbe tambem a respeito d’elles entreteve por muito
-tempo o douto Peiresc, por meio de cartas, onde dizia que
-a paz e a alegria estava em imital-os.</p>
-
-<p>Suas dansas inspiraram os mais delicados cortesãos, e
-um dos mais habeis artistas de Pariz fez com as suas arias
-uma especie de dança muito agradavel, cuja descripção nos
-deixou o poeta.<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[AE]</a></p>
-
-<p>Poderiamos ainda citar outros exemplos d’esta subita predilecção
-pela independencia dos pobres indios, e especialmente
-pelo magnifico paiz, que habitam.</p>
-
-<p>Conforme estes poetas, a cuja frente deve collocar-se
-Bartas,<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[AF]</a> é n’esta fonte vital, que pode restaurar-se por novas
-comparações um estro quasi a exhaurir-se.</p>
-
-<p>Sem duvida alguma todos estes antigos viajantes, completamente
-esquecidos durante um seculo, exerceram real
-influencia no seo tempo, e ainda mais alem, como se pode
-provar á vista dos escriptos de Chateaubriand: a singelesa
-de suas narrações e a frescura de suas pinturas inspiraram
-os grandes escriptores, já cuidadosos de abandonarem nas
-suas descripções os typos ajustados ou estudados, e de influirem
-ou attrahirem só pela verdade.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxx"></a>[xxx]</span></p>
-
-<p>Ivo d’Evreux não foi somente um pintor habil, um narrador
-sincero, e sim tambem um observador perspicaz dos
-costumes de uma raça, para assim dizer extincta, e que não
-se poderia consultar frequentemente.</p>
-
-<p>Para escolher um só exemplo entre muitos, que elle offerece,
-basta dizer-se, que foi o unico, que descreveo os
-verdadeiros idolos, modelados em cera, ou esculpidos em
-madeira pelos indios.</p>
-
-<p>Hans-Staden, Thevet, Lery e o proprio Gabriel Soares, tão
-prolixos á respeito do culto do <i>maracá</i>, guardam silencio
-relativamente ao que então se rendia á essas estatuasinhas
-modeladas grosseiramente, sem duvida, pelos habitantes nomades
-das grandes florestas, as quaes com tudo servem para
-mostrar um principio da pratica nascente da arte: assim elle
-o confessa n’estas palavras: «Este mau costume crescia e
-estendia-se pelas aldeias proximas de Juniparão.» Depois accrescentou,
-que seo companheiro o Revd. Padre Arsenio encontrou
-estes idolos na visinhança dos bosques.... Ora, pode-se
-deduzir d’este trecho curiosa inducção, não sem interesse
-para a archeologia futura de um grande Imperio, e
-vem a ser, que no começo do XVII seculo notavel mudança
-se tinha já feito nas ideias religiosas do grande povo da
-costa.</p>
-
-<p>Sem duvida, n’esse tempo ja os Piagas tinham visto imagens
-nas igrejas, que se edificavam em varias partes do litoral:
-com a maravilhosa facilidade d’imitação, innata nos
-indios, ja no fim do XVI seculo tinham representado em estatuas
-alguns dos numerosos genios de suas florestas. Estes
-primeiros idolos foram infelizmente modelados em madeira,
-e embora houvesse grande copia d’elles, nenhum, ao menos
-que o saibamos, é conservado nos museos ethnographicos
-do novo Mundo, estabelecidos em varias localidades.
-Os Tupinambás, apenas chegaram na visinhança do rio das
-Amazonas, receberam ideias mais adiantadas de povos mais
-civilisados que elles: a poderosa nação dos Omaguas, por
-exemplo, cujas tribus vinham das regiões peruviannas, poderia<span class="pagenum"><a id="Page_xxxi"></a>[xxxi]</span>
-ter influido sobre a arte grosseira, de que entre elles
-encontraram se tão curiosos <i>especimens</i>. Note-se, que estes
-importantes factos são, em geral, absolutamente despresados
-pelos escriptores portuguezes, e por isso não é pequena
-gloria para a nossa litteratura antiga, o ter possuido escriptores,
-dotados de genio tão observador á ponto de prestarem
-muita attenção ao estudo d’estes objectos.</p>
-
-<p>Entre os que se misturaram com estas nações infelizes, no
-principio do seculo XVII, não conhecemos, na verdade, senão
-um unico viajante portuguez, cuja narração encantadora
-deve estar ao lado das de João de Lery e do Padre Ivo
-d’Evreux.<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[AG]</a></p>
-
-<p>Foi Fernando Cardin, Superior dos Jesuitas ainda em 1609,
-e que visitou os indios do Sul depois de haver por muito
-tempo administrado as aldeias dos Ilheos e da Bahia. Bem
-que este Missionario não possa, pela importancia de documentos,
-comparar-se a Gabriel Soares,<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[AH]</a> a quem se deve recorrer
-sempre que se queira, ter ideia exacta da nacionalidade
-dos indios, e da emigração das suas tribus, comtudo
-muito se lhe assimelha pelo seo estylo: como elle despresa
-os preconceitos, ama os selvagens, e com animação pinta
-admiravelmente o indio na sua aldeia, dando-nos a saber a
-grandesa, cheia de sinceridade, do seo caracter.</p>
-
-<p>A descripção do Padre Ivo d’Evreux não é, somente,
-mais um documento de grande importancia, que se ajunta<span class="pagenum"><a id="Page_xxxii"></a>[xxxii]</span>
-á historia do Brasil com o fim de provar unicamente factos
-tendentes á fundação da Cidade de S. Luiz e sim para os
-francezes tem outro genero de merecimento.</p>
-
-<p>Pela sincera elegancia de sua dicção, pela cor habilmente
-destribuida de seo estylo, pela perspicacia de suas observações,
-e, pode tambem dizer-se, pelo sentimento apurado das
-bellesas da naturesa, que mostra o seu autor, ella pertence
-á serie de escriptores francezes, continuadores da epocha
-de Montaigne, e prognosticadores do grande seculo. Ivo
-d’Evreux, si fosse lido, teria nesse tempo influido, como alguns
-annos antes, João de Lery, que descreveo scenas analogas
-áquellas que elle tão bem soube pintar. Claudio d’Abbeville,
-escriptor muito menos habil do que elle, foi o continuador
-d’esta influencia litteraria.</p>
-
-<p>Si no retiro, por elle escolhido, e que cremos, não sem
-fundamento, ter sido em Ruão ou Evreux, ou mesmo no arrebalde
-de Sant’Eloy, soubesse o Padre Ivo qual foi a sorte
-definitiva dos seos charos indios, sua alma se teria entristecido
-profundamente.</p>
-
-<p>Depois de expulsos os francezes, foi Jeronymo d’Albuquerque
-nomeiado capitão-mór do Maranhão sendo Francisco
-Caldeira Castello Branco designado para continuar os descobrimentos
-e conquistas nas regiões do Pará.</p>
-
-<p>Dos esforços combinados destes dois officiaes resultou a
-fundação da risonha Cidade de S. Luiz e da de Belem.</p>
-
-<p>Estas duas Cidades edificaram-se pacificamente, sem opposição
-alguma da parte dos indios, que até ajudaram os
-consideraveis trabalhos, exigidos para a construcção d’ellas,
-e muitos d’elles acompanharam até um Official chamado Bento
-Maciel ás margens do rio Pindaré em busca de immensas
-riquezas metalicas, que se desconfiava existirem por ahi algures:
-fatal expedicção, cujo resultado foi somente a destruição
-dos Guajajaras.</p>
-
-<p>Os Tupinambás inegavelmente não eram mais hostis aos
-portuguezes, e viviam sob a direcção de Mathias d’Albuquerque,
-filho do governador; mas nem por isso deixavam elles<span class="pagenum"><a id="Page_xxxiii"></a>[xxxiii]</span>
-de lastimar a ausencia de seos antigos alliados. Ja não residiam
-nos arrebaldes da cidade nova, e sim no districto de
-Cumã em numerosas aldeias. Indo um dia o seo chefe europeo
-ter com seo pae, que o mandou chamar, passaram por
-Tapuitapera alguns indios vindos do Pará, trasendo cartas
-para o capitão-mór de S. Luiz. Um Tupinambá convertido ao
-christianismo, por nome Amaro, aproveitou-se da passagem
-dos seos compatriotas para executar um plano terrivel.</p>
-
-<p>Tomou uma das cartas, abrio-a, e fingindo lel-a<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[AI]</a> dirigio-se
-aos chefes das aldeias, e declarou-lhes que o fim d’estas
-missivas era uma abominavel trahição, urdida pelos portuguezes,
-que tinham resolvido, atreveo-se elle a dizer, reduzil-os
-á condicção d’escravos.</p>
-
-<p>Terrivel carnificina, onde pereceram todos os brancos, foi
-o resultado d’esta astucia do indio, bem facil de ser acreditada
-á vista dos acontecimentos precedentes.</p>
-
-<p>Espalhou-se pelo littoral a noticia d’este facto. Mathias de
-Albuquerque promptamente regressou ao campo onde se deram
-scenas tão tristes, e vingou seos compatriotas exterminando
-sem piedade os Tupinambás.</p>
-
-<p>As tribus, que moravam mais longe, insurgiram-se, e formaram
-entre si indissoluvel alliança, animando-as implacavel
-vingança, apezar de serem á principio tão pacificas, e de
-se acharem tão dispostas á abraçar a nova fé, que lhe tinha
-prégado o Padre Ivo d’Evreux. Levantaram-se tambem, e
-espontaneamente, aldeias mui longinquas.</p>
-
-<p>Jeronymo d’Albuquerque expedio contra ellas tropas aguerridas,
-e em breve o incendio e a morte substituio as festas,
-que faziam com toda a segurança e boa fé.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxxiv"></a>[xxxiv]</span></p>
-
-<p>Tinham apenas passado tres annos depois da partida dos
-capuchinhos francezes, e por isso era no principio do anno
-de 1617. A Cidade de S. Luiz do Maranhão, activamente
-edificada, começou a tomar o aspecto de uma Cidade européa.</p>
-
-<p>Este progresso inquietava os selvagens, que á custa de
-seos soffrimentos tornaram-se previdentes; forçados á deixar
-o sul do Brazil procuraram grandes florestas, e abrigados em
-seos seios esperavam recobrar sua independencia, e para
-isto só tinham um pensamento—a destruição completa de
-uma raça invasora, que não poude ser expellida pelos seos
-antepassados.</p>
-
-<p>Formaram os chefes Tupinambás uma liga desde os desertos
-de Cumã até ás margens do Amazonas: pretendiam
-assaltar de surpreza a nova colonia, e n’um dia convencionado
-matariam todos os habitantes. N’esse tempo não havia
-quasi indio, que não arrostasse sem medo as descargas de
-mosquetaria.</p>
-
-<p>Em quanto se ouvia este plano, e se trabalhava na sua
-execução, estava em Tapuitapera Mathias d’Albuquerque,
-com pequeno numero de soldados, descuidado de si e dos
-seos: entre os indios appareceu um trahidor, que descobrio
-o projecto dos chefes dos selvagens ao commandante portuguez,
-que não se assustando com o numero dos seos terriveis
-inimigos, travou-se com elles no primeiro combate, e
-levou-os de vencida até á distancia de 50 legoas, ajudado
-em tão atrevida acção pelo bravo official Manoel Pires.</p>
-
-<p>Ainda vivia, porem bem proximo do termo de sua existencia
-o antagonista de Razilly e de la Ravardière: sem sahir
-da nova Cidade de S. Luiz muito ajudou seo filho com
-seos conselhos e com remessa de soldados que tinha em reserva.</p>
-
-<p>Não se assustou Mathias de Albuquerque com as difficuldades
-de todo o genero, que encontrava seo pequeno exercito
-n’esses immensos desertos; foi batendo os indios pouco
-á pouco até que em 3 de Fevereiro de 1617 derrotou-os<span class="pagenum"><a id="Page_xxxv"></a>[xxxv]</span>
-completamente, e obrigou-os a procurar refugio no seio das
-florestas. Só então, depois de exterminadas as tribus mais
-temiveis, é que o velho general se recolheo á Cidade de S.
-Luiz, e o que elle havia feito nos desertos do Maranhão tinha
-tambem posto em pratica Francisco Caldeira nas solidões
-do Pará, onde se edificava a Cidade de Belem.</p>
-
-<p>Não eram estes, por certo, os sonhos de Ivo de Evreux e
-de seos tres companheiros para com o Maranhão: em suas
-almas haviam imaginado a fundação de uma Cidade nova,
-onde os corações innocentes dos indios se lhes reuniriam
-para em commum louvar o Deos da paz. Ordens de exterminio,
-em vez de orações, faziam em redor dos colonos um
-deserto que causava terror. Seriamos injustos, se não dissesemos,
-que os Religiosos trasidos por Jeronimo d’Albuquerque
-continuaram a missão dos Padres francezes. Como Ivo
-d’Evreux e Claudio d’Abbeville, os Padres portuguezes Frei
-Cosme de São Damião e Frei Manoel da Piedade, eram da
-Ordem dos Capuchinhos desde 1617, isto é, desde o momento
-em que a guerra se tornou mais cruel, e Bourdemare publicou
-seo livro: á Corte de Madrid pediram religiosos activos,
-acostumados a todas as fadigas, e por isso capazes de
-affrontal-as e de os ajudar. No dia 22 de julho chegaram
-mais quatro religiosos a essas terras, não para o pequeno
-Convento de São Luiz, e sim foram residir nas circumvisinhanças
-da Cidade de Belem, e d’ahi começou a cathequese
-no Pará.<a id="FNanchor_36" href="#Footnote_36" class="fnanchor">[AJ]</a></p>
-
-<p>Não se sabe com certesa, se estes factos historicos, que de
-ora em diante terão lugar importante nos <i>Annaes do Brasil</i>,
-chegaram aos ouvidos dos missionarios dedicados que tantas
-fadigas soffreram para a conversão dos indios; a Europa
-gastou mais de dois seculos olhando para elles com indifferença,<span class="pagenum"><a id="Page_xxxvi"></a>[xxxvi]</span>
-e ainda passaram mais vinte annos depois d’elles terminados,
-para então ver-se a continuação corajosa da obra
-dos seos antecessores<a id="FNanchor_37" href="#Footnote_37" class="fnanchor">[AK]</a> por alguns Capuchinhos do Convento
-de Pariz: n’esse tempo estava Ivo d’Evreux bem proximo do
-termo de sua existencia, se é que ja não se tinha acabado
-tão dura perigrinação para elle.</p>
-
-<p>Tudo emfim estava acabado para os povos, nossos fieis
-alliados por algum tempo, e aos quaes procuramos fazer comprehender
-as luzes do Evangelho. Achavam-se ja embrenhados
-nas margens desertas do Xingù, do Tocantins, e do
-Araguaya: ahi, bem longe dos colonos europeos se perpetuaram
-sob os nomes de <i>Apiacas</i>, de <i>Gés</i> e de <i>Mundurucus</i>,
-outrora tão temidos e hoje tão pouco, e até pelo contrario
-favorecidos por uma administração humana.<a id="FNanchor_38" href="#Footnote_38" class="fnanchor">[AL]</a></p>
-
-<p>Estes primitivos senhores do Brasil fallam ainda o idioma
-puro dos Tupys, cujos vestigios nos foram conservados por
-Ivo d’Evreux e Thevet, e especialmente por João de Lery,
-antes de ter reunido por meio de laboriosas fadigas os elementos
-do seo livro.</p>
-
-<p>Foi nas margens destes grandes rios, ja citados, que ha
-quarenta annos o illustre Martius observou tantas tribus desimadas.</p>
-
-<p>Ainda agora se lastimaria muito o sabio viajante sabendo,
-que até hoje ninguem colheo as ultimas lembranças,
-guardadas como legado por esses indios. Quando o governo
-brasileiro pensou, ha pouco tempo, na creação d’uma commissão
-scientifica, composta de sabios nacionaes, encarregada
-de visitar os pontos mais longinquos d’esse immenso Imperio,
-que não conta menos de 36° do Oriente ao Ocidente,<span class="pagenum"><a id="Page_xxxvii"></a>[xxxvii]</span>
-forão o Ceará, o Maranhão, o Pará e o Rio de Janeiro os primeiros
-lugares designados para a exploração. Comprehendeo
-muito bem, que se havia nestas terras virgens admiraveis
-productos da natureza a colher, tambem existia uma mythologia
-e uma serie de tradicções historicas á salvar-se do esquecimento,
-em quanto Freire Allemão, Capanema e Gabaglia
-faziam collecções de preciosos materiaes sobre historia
-natural, geographia e meteorologia, que formaram o objecto
-d’uma vasta publicação.<a id="FNanchor_39" href="#Footnote_39" class="fnanchor">[AM]</a></p>
-
-<p>Um poeta historiador, estimado pelo seo paiz, corajosamente
-embrenhava-se n’essas solidões incognitas para conhecer
-os segredos da vida intima dos indios. Antonio Gonçalves
-Dias, nascido no interior da provincia do Maranhão,
-familiarisado desde a infancia com as legendas americanas,
-fallando a <i>lingoa geral</i>, incumbia-se de alguma forma da
-execução do programma de Martius.</p>
-
-<p>Bem cedo as legendas americanas, não nos animamos a
-dizer os mythos religiosos dos grandes povos do littoral, nos
-appareceram, taes quaes tem sido perpetuadas no interior,
-(graças talvez ao exilio) e quando chegar o momento de estudar-se
-com afinco a ethnographia, então se comprehenderá
-todo o valor das narrações sinceras de Lery, de Hans Staden,
-e de Ivo d’Evreux.</p>
-
-<p>Seria injustiça muito censuravel o negar-se as antigas
-tentativas feitas pelos Religiosos portuguezes para a cathequese
-dos povos selvagens, habitantes das regiões do Amazonas:
-graças a elles, em 1607, principiou a exploração do
-Maranhão por essas viagens, corajosamente emprehendidas
-por Missionarios vindos dos Conventos de Pernambuco. Estas
-tentativas não foram perdidas para a geographia, mas
-quanto ao proveito do Christianismo, ellas se terminaram
-em um martyrio inutil. Mais tarde, sem duvida, a obra dos
-Figueiras e dos Pintos produsio seos fructos, assim como os<span class="pagenum"><a id="Page_xxxviii"></a>[xxxviii]</span>
-grandes trabalhos evangelicos suavisaram a posição dos indios
-do Maranhão.<a id="FNanchor_40" href="#Footnote_40" class="fnanchor">[AN]</a></p>
-
-<p>Foi ainda um escriptor francez, quase desconhecido, contemporaneo
-dos nossos bons missionarios, que com muito
-zelo, e pode até dizer-se com cuidado verdadeiramente piedoso,
-traçou o <i>itinerario</i> seguido por estes homens corajosos,
-de tempo do Padre Ivo, e sem duvida seos conhecidos,
-mas que não possuiam nem a bondade e nem a sinceridade
-d’elle.<a id="FNanchor_41" href="#Footnote_41" class="fnanchor">[AO]</a></p>
-
-<p>Conta-nos Pedro du Jarric como as immensas regiões do
-Brasil, cubiçadas pela França, foram percorridas por dois
-Religiosos de sua Ordem, quase no mesmo tempo, em que
-Ravardiere pela primeira vez explorava o littoral.</p>
-
-<p>N’essa occasião Francisco Pinto e Luiz Figueira tinham
-grande vantagem moral sobre os francezes, porque sabiam
-muito bem a lingoa dos povos, que buscavam converter.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxxix"></a>[xxxix]</span></p>
-
-<p>Muito mais moço do que o seo companheiro, martyr
-no apostolado, o Padre Luiz Figueira iniciou-se, então
-mais do que nunca, nos segredos de uma lingoa, já visivelmente
-alterada no littoral, porem pura no seio das florestas.</p>
-
-<p>Cinco annos após a impressão do volume do Padre Ivo,
-elle publicou a sua <i>Arte de Grammatica</i>, e pela primeira
-vez depois de alguns ensaios incompletos do seculo XVI conheceu-se
-os principios de um idioma, que ainda fallava um
-povo corajoso, porem prestes a morrer.<a id="FNanchor_42" href="#Footnote_42" class="fnanchor">[AP]</a></p>
-
-<p>Voltemos ao nosso piedoso viajante.</p>
-
-<p>Se vivesse ainda, como é bem provavel, alem da epocha
-em que se deram estes acontecimentos, em 1619 por exemplo,
-Ivo d’Evreux certamente não fazia mais parte do grande
-Mosteiro d’onde outrora sahio com destino ao novo
-mundo.</p>
-
-<p>Póde suppôr-se, que o seo homonimo de Pariz principiava
-a eclipsal-o, e por isso vivia elle longe da grande Communidade:
-se residisse no Convento da rua de Santo Honorato,
-não é provavel que fosse de todo esquecido nas pequenas
-biographias, escriptas tão liberalmente á respeito de Religiosos,
-que nada escreveram, como seja, entre outros, Ivo de
-Corbeil, simples irmão leigo, fallescido em 1623, apenas conhecido
-na Ordem pelo seo amor á humanidade.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_xl"></a>[xl]</span></p>
-
-<p>Temos alem d’isto a certesa de ter se recolhido o
-Padre Ivo d’Evreux ao modesto Convento de sua terra
-natal: em 1620 estava elle em Santo Eloy,<a id="FNanchor_43" href="#Footnote_43" class="fnanchor">[AQ]</a> e suppomos
-ter escolhido esta residencia por ser proxima ao Convento
-de Andelys.</p>
-
-<p>N’estas ferteis campinas, onde se despertou o genio de
-Poussin, ainda o nosso bom Missionario teve descanço bastante
-para admirar os risos da natureza e a frescura das
-paisagens.</p>
-
-<p>É possivel que em outra occasião tivesse elle oportunidade
-para conservar-nos suas minuciosas observações, que
-hoje talvez o fizessem distincto naturalista, mas depois da
-emoção impressa em seo pensamento pela magestosa solidão
-das florestas seculares do Brasil, somente se deixou captivar
-pelas calorosas discussões da theologia.</p>
-
-<p>Um livro ainda difficil de ser obtido (a cada momento topamos
-com raridades tão difficeis de serem alcançadas como
-a <i>Viagem</i>) nos prova, que no seo retiro não poude resistir
-ao espirito do seculo.</p>
-
-<p>Não tendo mais indios a converter se pôz a discutir
-com protestantes, e coisa estranha, foi um dos seos compatriotas,
-personagem muito estimado pelos seos correligionarios,
-a quem elle atacou ou talvez a quem respondeu
-somente.</p>
-
-<p>Ignoramos o titulo do primeiro opusculo, que elle arremessou
-ao seu adversario, porem um sabio bibliographo da
-Normandia, o Sr. Frére, nos deo o segundo, para nós uma
-especie de revelação.</p>
-
-<p>É este o titulo do folheto «<i>Supplemento necessario ao escripto
-que o Capuchinho Ivo fez imprimir relativamente<span class="pagenum"><a id="Page_xli"></a>[xli]</span>
-as conferencias entre elle e João Maximiliano Delangle</i>.»
-Ruão, David Jeuffroy. 1618 em 8.º<a id="FNanchor_44" href="#Footnote_44" class="fnanchor">[AR]</a></p>
-
-<p>Este escripto, attribuido pelo douto bibliographo ao nosso
-missionario, bem puderia não ser devido á sua propria
-penna, porem prova o apparecimento de outra obra
-mais desenvolvida, e a existencia de serias discussões oraes
-entre elle e os dissidentes. Mais agradaveis sem duvida lhe
-foram sinceras discussões, que havia pouco tempo teve com
-Japi-Açu na Ilha do Maranhão, onde as continuas predicas
-feitas no Forte de S. Luiz, em presença de grande assembleia
-de indios, somente eram interrompidas pela severa
-polidez, que lhes prescrevia escutar o orador em quanto
-quizessem que elle fallasse, circumstancia, diga-se de passagem,
-que bem poderia em algumas occasiões enganar um
-zeloso missionario sobre o exito de seos esforços.</p>
-
-<p>Ivo d’Evreux então achava-se a braços com um dos homens
-mais firmes e mais estimados entre os protestantes, e
-o escripto do Religioso foi denunciado ao parlamento.</p>
-
-<p>João Maximiliano de Baux, senhor de Langle, era um ministro,
-joven, ardente, natural de Evreux como o Padre Ivo,
-morador em Quevilly, pequena Cidade de 1:500 a 1:600 habitantes
-á pequena distancia de Ruão.<a id="FNanchor_45" href="#Footnote_45" class="fnanchor">[AS]</a></p>
-
-<p>Ignoramos qual o objecto da discussão, e embora todas
-as nossas deligencias não vimos uma só peça do processo,
-porem é certo que o ultimo escripto, revelado pelo Sr. Frère,
-excitou de maneira notavel a attenção da autoridade, porque
-em 8 d’Abril de 1620 proferio o parlamento uma sentença<span class="pagenum"><a id="Page_xlii"></a>[xlii]</span>
-a esse respeito condemnando David Jeuffroy a pagar
-uma multa de 50 libras por haver publicado sem licença
-previa o livro denunciado.<a id="FNanchor_46" href="#Footnote_46" class="fnanchor">[AT]</a> Como se vê, não alcançou esta
-decisão o nosso Missionario, e sim limitou-se ao impressor,
-por elle escolhido, embora contenha uma censura indirecta
-ao livro suppondo-se, que o nosso bom Missionario, pelo
-ardor da questão, se deixasse arrebatar a ponto de fazer
-allusões pessoaes dignas de censura.</p>
-
-<p>Á este respeito havia pouco escrupulo em 1618, e afinal
-se pensava que seria interrompida a carreira do joven ministro,
-atacado pelo Padre Ivo: bem longe d’isto, porque em
-1623 foi pelos seos correligionarios nomeado deputado ao
-synodo nacional de Charenton, e quatro annos depois tambem
-fez parte do da Normandia, na villa de Alençon.</p>
-
-<p>De 1620 em diante perdemos todos os vestigios do Padre
-Ivo d’Evreux; comtudo muitos escriptores ecclesiasticos depois
-d’isto registaram seo nome em seos vastos obituarios,
-multiplicando erros, e assim provando que nunca viram a
-obra do Padre Ivo.</p>
-
-<p>Boverio de Salluzo,<a id="FNanchor_47" href="#Footnote_47" class="fnanchor">[AU]</a> Marcellino de Piza,<a id="FNanchor_48" href="#Footnote_48" class="fnanchor">[AV]</a> Wading,<a id="FNanchor_49" href="#Footnote_49" class="fnanchor">[AW]</a> ordinariamente
-tão exacto, o Padre Diniz de Gênes,<a id="FNanchor_50" href="#Footnote_50" class="fnanchor">[AX]</a> ou só dão<span class="pagenum"><a id="Page_xliii"></a>[xliii]</span>
-particularidades geraes, mui approximadas relativamente á
-sua obra, sem mencionar a data d’ella, ou grosseiramente
-alteram o millesimo do anno da impressão. Este ultimo,
-por exemplo, diz que foi em 1654, erro bem claro, proveniente
-d’um primeiro erro typographico, repetido por Masseville,<a id="FNanchor_51" href="#Footnote_51" class="fnanchor">[AY]</a>
-e até por Moreri Normando.<a id="FNanchor_52" href="#Footnote_52" class="fnanchor">[AZ]</a> O Padre Francisco
-Martin, da Ordem dos Franciscanos, cujo manuscripto se
-guarda em Caen, por seo motu proprio a colloca no anno
-de 1659, dando sempre como lugar da impressão a cidade
-de Ruão.</p>
-
-<p>O <i>Epithome da la bibliotheca oriental y occidental</i> de
-Leon Pinello, livro reeditado por Barcia no seculo XVIII, é
-o unico, que n’aquelle tempo mencionou com exactidão a
-<i>Viagem</i>, que reimprimimos, embora o seo titulo fosse tão
-alterado pelo bibliographo hespanhol a ponto de por elle ser
-difficil reconhecer-se o habil continuador do Padre Claudio
-d’Abbeville, devido isto a influencia de Diniz de Gênes.<a id="FNanchor_53" href="#Footnote_53" class="fnanchor">[BA]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_xliv"></a>[xliv]</span></p>
-
-<p>Quasi que temos certesa, á vista dos manuscriptos doados
-pelo grande Convento da rua de Santo Honorato, de ter vivido
-o Padre Ivo d’Evreux alem de 1629, já esquecido porque
-n’aquelle tempo havia firme proposito de desviar o Rei
-de Hespanha das tentativas feitas, não havia muito, á respeito
-do Maranhão.</p>
-
-<p>É verdade, que os antigos chefes da expedição não poderam
-renovar tão vasta empreza, onde se achavam seos
-maiores interesses.</p>
-
-<p>Embora a estima, que parecia gosar na corte o Almirante
-Rasilly, foi mal succedido em todos os seos projectos
-com este fim, e depois que o bravo Ravardiere, preso no
-Castello de Belem, recobrou a sua liberdade, nunca mais
-regressou á America do sul.</p>
-
-<p>Apparecem ainda estes dois nomes na historia da nossa
-marinha<a id="FNanchor_54" href="#Footnote_54" class="fnanchor">[BB]</a> e de maneira gloriosa, porem na Africa, n’essas
-praias doentias, onde para segurança do commercio deviam
-ser castigados de vez em quando atrevidos piratas.</p>
-
-<p>Ravardiere, como acabamos de vêr, empregou gloriosamente
-os ultimos annos de sua vida tão activa em favor do
-Christianismo, assim como já o tinha feito em prol de sua
-patria, faltando-lhe apenas tempo para redigir a Narração
-de suas viagens pela America do sul.</p>
-
-<p>Sabemos com certesa ter ordenado, que se escrevesse
-em 1614 um Relatorio minucioso de sua expedição pelo<span class="pagenum"><a id="Page_xlv"></a>[xlv]</span>
-Amazonas. Até nós não chegou esta especie de jornal, que
-alem de esclarecer muitas coisas, seria tambem de muito
-interesse para ser comparado com os documentos fornecidos
-n’essa epocha por um francez, cujas viagens mereceo as
-honras da impressão.</p>
-
-<p>Na verdade, dez annos antes, no meiado de 1604, João
-Mocquet, o guarda das curiosidades de Henrique IV e de
-Luiz XIII, percorreo as margens do Amazonas, e exforçou-se
-para fazer conhecer aos seos compatriotas este grande rio.
-Infelizmente este pobre cirurgião d’aldeia tinha mais zelo
-do que luzes, e por isso não podiam ser suas observações
-confrontadas com as de um homem, tão conhecido pela sua
-instrucção, como pela sua lealdade.</p>
-
-<p>A viagem de Ravardiere pelo Amazonas e Maranhão deve
-estar minuciosamente descripta na grande chronica dos Padres
-da Companhia, existente em Evora.</p>
-
-<p>Consultando os sabios trabalhos bibliographicos do Sr. Rivara,
-n’elles adquirimos esta certesa, pois o Cap. 111 d’este
-vasto <i>Cathalogo</i> tracta especialmente do dominio dos francezes
-n’essas regiões. Não podemos pessoalmente examinal-o.
-Graças ao espirito investigador de tantos sabios historiadores,
-ainda não perdemos de todo a esperança de encontrar
-o escripto em questão.</p>
-
-<p>Diariamente emprega o Brazil os mais louvaveis exforços
-para colligir documentos inedictos, fontes da sua historia, e
-se em alguma livraria por ahi algures fosse descuberta a
-<i>Viagem</i> de Ravardiere, serviria, com os escriptos de Claudio
-d’Abbeville e de Ivo d’Evreux, de guia seguro para se consultar
-relativamente a estas Provincias do norte, das quaes
-só se conhecem as explendidas solidões, e cujo passado nos
-foi, para assim dizer, revelado pelo nosso Missionario.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 100px;">
-<img src="images/footer1.jpg" width="100" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<div class="footnotes">
-
-<h3>NOTAS</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[A]</a> A ordem constitutiva do Mosteiro tem a data de 28 de Novembro.
-O lugar da escolha foi concedido no anno precedente
-por Catharina de Medicis aos Capuchinhos, vindos da Italia, e a
-doação foi confirmada por Henrique III em 24 de setembro de
-1574. Vide <i>Boverio</i>, Annali di Frati minori.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[B]</a> O <i>Mercure-Galant</i> deo á luz uma descripção, muito curiosa,
-da grande botica do Convento.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[C]</a> Em 1617 contavam-se 655 Religiosos nas duas Custodias de
-Pariz e de Roão, e entre elles 209 clerigos.</p>
-
-<p>Em 1685 haviam em França 5:681 Capuchinhos.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[D]</a> Não inventamos: um dos seos mais ardentes admiradores,
-tambem Capuchinho, falla d’elle nestes termos: <i>Tantarum segete
-scientiarum, factus est dives ut Galliæ Phœnix hac nostra ætate
-communiter sit appelatus</i>. Vide o vasto Repertorio de Diniz de
-Gênes. <i>Bibliotheca scriptorum ordinis minorum Sancti Francisci
-capucinorum.</i></p>
-
-<p>Wading, mais moderado, contenta-se em chamar o Padre Ivo
-de Pariz—<i>egregius concinnator, insignis Capuccinus</i>.</p>
-
-<p>O autor anonymo dos elogios manuscriptos dos Capuchinhos da
-Cidade de Pariz não pôz limites ao seu enthusiasmo, quando disse:
-«a natureza parece ter querido exgotar-se, quando cedeo a tão
-grande personagem tudo quanto podia dar-lhe com abundancia
-de grandeza, tão rara quam admiravel.»</p>
-
-<p>Nasceo em 1590, Ivo de Pariz, tomou o habito religioso em
-27 de setembro de 1620, seis annos depois que o Padre Ivo de
-Evreux regressou doente do Brazil, e afinal falleceo em 14 de
-ouctubro de 1678.</p>
-
-<p>Este religioso conseguio imprimir vinte e oito obras de sua lavra,
-cujos titulos principaes vamos reproduzir seguindo a ordem
-chronologica de suas publicações.</p>
-
-<p><i>Os felizes resultados da piedade, ou os triumphos da vida religiosa
-sobre o mundo, e contra a heresia.</i> 4.ª edicção, Pariz 1634.
-2 vol. em 12.</p>
-
-<p><i>Da indifferença.</i> 2.ª edicção. Pariz. 1640. em 8.º</p>
-
-<p><i>A theologia natural.</i> Pariz. 1640-1643. 4 T. em 4.º</p>
-
-<p><i>Astrologiæ novæ methodus et fatum universi observatum, a
-Franc Allaeo Arabe Christiano.</i> Pariz. 1654. Temeo este Capuchinho,
-apesar de atrevido e credulo, publicar este livro com o
-seo nome, e por isso deo-o á luz sob o titulo <i>Fatum Mundi</i>.</p>
-
-<p><i>Jus naturale rebus creatis á Deo constitutum</i> etc. etc. Parisiis.
-1658 in folio.</p>
-
-<p>O <i>Fatum Mundi</i> foi reimpresso em 1658, e no anno seguinte
-appareceu esta obra.</p>
-
-<p><i>Dissertatio de libro præcedenti ad amplissimos viros senatus
-Britanniæ Armoricæ.</i> Parisiis. 1659. in folio.</p>
-
-<p><i>Digestum sapientiæ in quo hebetur scientiarum omnium rerum
-divinarum et humanarum nexus</i> etc. etc. 1654-1659. 3 vol. in
-fol, reimpressos com augmentos em 1661.</p>
-
-<p><i>O Magistrado christão, coordenado pelo Padre Ivo, seo sobrinho.</i>
-Pariz. 1688 em 12.</p>
-
-<p><i>As falsas opiniões do Mundo.</i> Pariz 1688 em 12 etc. etc.</p>
-
-<p>Vê-se, que não ha analogia alguma entre os estudos d’estes dois
-Capuchinhos.</p>
-
-<p>Uma das obras do Padre Ivo de Pariz foi queimada pela mão do
-carrasco.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[E]</a> E não Silvére, como por descuido disse em sua biographia o
-veneravel Eyriés. (Vid Mr. Prarond. <i>Les hommes utiles de l’arrondissement
-d’Abbeville.</i> 1858—in 8.º)</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[F]</a> Vid o Manuscripto da Bibliotheca mazarina, ja citada, que
-tem este titulo «<i>Annales des R. P. Capucins de la Province de
-Paris, la mer et la source de toutes celles de ça les monts.</i>» N. 2879
-pet in 4.º</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[G]</a> Francisco de Bourdemare, ou Boudemard, natural de Ruão,
-deixou a Provincia, onde gosava sua familia de muita consideração
-para em Orleans fazer-se Capuchinho. Como noviço entrou
-no Convento d’esta Cidade, em 2 de outubro de 1603, porem é
-muito provavel, que voltasse para a Normandia antes de ir residir
-no grande Convento da rua de Santo Honorato.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[H]</a> O Padre Leonardo morreu em Pariz com 72 annos de idade,
-no dia 4 de setembro de 1640. Antonio Fauro, seo pae, era conselheiro
-do parlamento de Pariz.</p>
-
-<p>O livro dos <i>Elogios-historicos</i>, manuscripto da Bibliotheca Imperial,
-o qualifica como «o maior homem, que ja teve, e que nunca
-mais terá, a Religião dos Capuchinhos.» Encontra-se elle
-outra vez Provincial na rua de Santo Honorato no anno de 1615.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[I]</a> Vide à respeito da expedicção protestante do Sr. Villegagnon,
-as Relações circunstanciadas de Niculau Barre, de João de Lery
-e do Anonymo conhecido por Chrispim. É certo que estabeleceram
-os Calvinistas seo predominio na Bahia do Rio de Janeiro,
-porem á elle se podem oppôr diversos pamphletos, escriptos por
-causa do Chefe da empresa. Estas peças satyricas fazem parte
-das ricas collecções da <i>Bibliotheca do Arsenal</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[J]</a> Como se verá em outro lugar, logo após a publicação da
-primeira parte da viagem, a antiga expedição de Ravardière foi
-precedida pelas de Riffault em 1594, e de De-Vaux, o companheiro
-d’este ultimo, que misturando-se com os Indios dedicou-se muito
-ao descobrimento d’este paiz.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[K]</a> Julgamos dever reproduzir aqui o texto d’esta concessão renovada:
-não conhecemos o primeiro. «Luiz, a todos os que virem
-a presente. Saude. O defunto Rei Henrique, o grande, nosso
-muito honrado senhor e pae, a quem Deos perdoe, tendo por Cartas
-patentes de julho de 1605 constituido e estabelecido o Sr. de
-Revardiere de la Touche, seo lugar-tenente general na America,
-desde o rio do Amazonas até a Ilha da Trindade, e havendo elle
-feito duas viagens ás Indias para descobrir as enseadas e rios
-proprios para o desembarque e estabelecimento de colonias, no
-que seria bem succedido, pois apenas chegou n’esse paiz soube
-predispôr os habitantes das ilhas do Maranhão e terra firme, os
-Tupinambás e Tobajaras, e outros a procurarem nossa protecção
-e sugeitarem-se á nossa authoridade, tanto por seo generoso e
-prudente procedimento, como pela affeição e inclinação natural,
-que n’estes povos se encontram para com a nação franceza, bem
-conhecida por elles pela remessa que fizeram dos seos embaixadores,
-que morreram apenas chegaram ao porto de Caucalle, e
-dos quaes teriamos ainda recebido iguaes protestos, segundo as
-narrações feitas pelo Sr. de Ravardiere, tudo isto depois nos daria
-occasião de lhe fazer expedir nossas Cartas patentes de outubro
-de 1610 para regressar, como Chefe, ao dito paiz, continuar
-seos progressos, como teria feito, e ahi demorar-se-ia dois annos
-e meio em paz, e 18 mezes tanto em guerra como em treguas
-com os portuguezes etc. etc.»</p>
-
-<p>Guardamos para a proxima publicação do livro de Claudio
-d’Abbeville, de que este é o complemento, todas as occorrencias
-politicas, relativas á expedicção, e reservamos tambem
-para ella os traços biographicos de Razilly, de Ravardiere e de
-Pezieux.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[L]</a> Pode-se ler tudo isto minuciosamente na <i>Carta de obediencia</i>
-dada ao Padre Ivo na <i>Chronologia historica dos Capuchinhos
-da Cidade de Paris</i> pag. 193. Tem a data de 27 de agosto de
-1611, e começa assim: «<i>Venerando in Christo Patri Ivoni Ebroiense
-predicatori ordinis fratrum minorum Sancti Francisci Capucinorum,
-frater Leonardus pariensis ejusdem ordinis in Provincia
-parisiensi licet immeritus salutem in domino, in eo qui
-est nostra salus</i>».</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[M]</a> Descançam seos restos mortaes no Brazil, pois foi o unico de
-seos companheiros, que não voltou á Europa. O padre Ambrosio
-de Amiens, pelos seos estudos, tinha-se distinguido na Sorbona,
-e quando ia requerer licença para seguir a carreira da magistratura,
-ou dedicar-se simplesmente á advocacia, resolveo em 1575
-entrar na Ordem dos Capuchinhos: foi um dos primeiros irmãos,
-que tomou o habito no Convento da rua de Santo Honorato, onde
-por diversas vezes exerceo o cargo de Guardião.</p>
-
-<p>Deve-se collocar entre os annos de 1584 e 1586 a epocha das
-corajosas dedicações, em que elle afrontou os horrores do contagio
-para soccorrer a população parisiense, que então lhe deo o sobrenome
-pelo qual era conhecido. A sua idade, ja avançada, devia
-isental-o d’esta viagem, porem não foi possivel resistir-se ás
-suas instancias, e nem a todos os meios, que empregou para fazer
-parte d’essa missão, que foi de grande utilidade.</p>
-
-<p>Vêde o <i>Manuscripto</i> da Bibliotheca Imperial intitulado «<i>Eloges
-historiques de tous les grands hommes, et de tous les illustres religieux
-de la Province de Pariz</i>.»</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[N]</a> O Padre Honorato de Champigny morreo com cheiro de Santidade
-em 1621.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[O]</a> Sabemos d’esta obra por Guibert apenas, pois nenhuma outra
-bibliographia especial a menciona. Bourdemare publicou suas
-observações sob o titulo <i>Relatio de populis brasiliensibus</i>. Madrid.
-1617 in 4.º Leon Pinelli falla de Frei J. Francisco de Burdemar
-(assim escreveo elle) como falla de Ivo d’Evreux por ouvir dizer.
-Affirma o <i>Livro dos elogios</i> ter emprehendido duas viagens á
-America, e afinal que morrera como <i>forasteiro</i> n’um dos Conventos
-da sua Ordem em Hespanha, um anno antes da publicação do seo
-livro. Parece-nos, que a expressão pelo biographo usada da palavra
-espanhola—<i>forasteiro</i>, quer dizer pura e simplesmente—<i>estrangeiro</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[P]</a> O Padre Arsenio de Pariz tambem não tardou em deixar o
-Brasil, porem o triste resultado dos negocios do Maranhão não arrefeceu
-o seo zelo pelas missões. Foi para o Canadá onde prégou
-aos Hurons depois de haver convertido os Tupinambás.</p>
-
-<p>Foi Superior das missões da America do Norte por cinco annos
-e depois morreo no grande Convento de Pariz, em 20 de Junho
-de 1645 contando 46 annos de habito. É muito provavel, que tivesse
-por successor na America o Padre Angelo de Luynes,
-Guardião de Noyon, pois foi Commissario e Superior das missões
-do Canadá em 1646.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[Q]</a> O Convento dos Capuchinhos da Cidade d’Evreux foi edificado
-em 1612 «na extremidade de um suburbio da cidade do lado
-do meio dia, devido em parte aos cuidados e á liberalidade de
-João le Jau, então grande penitenciario e vigario geral da diocese.»
-Vide <i>Histoire civile et ecclesiastique du comté d’Evreux</i>,
-pag. 365. O abbade Lebeurier, cujas luzes e zelo archiologico
-são conhecidos, prestou-se a fazer a este respeito todas as pesquizas
-possiveis, porem, infelizmente, debalde.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[R]</a> O manuscripto que temos á vista, e que dá conta summaria
-da viagem de Arcanjo de Pemuroke, não nos diz claramente o
-nome da localidade onde saltaram os Missionarios, e por isso nos
-limitamos a transcrever a narração do seo desembarque: «foram
-alguns soldados á terra, e acharam diversos obstaculos, que nos
-pareceram máos prognosticos, como fossem alguns portuguezes e
-um sacerdote secular, que assolavão os gentios contra os francezes,
-e do <i>Forte</i> souberam nossos soldados, que os portuguezes projectavam
-tomar a costa do Maranhão, e d’ella expellir os francezes, o
-que fez suspeitar aos Padres que poucos fructos aqui colheriam:»
-<i>Ms. da herdade dos Capuchinhos da rua de Santo Honorato</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[S]</a> Circumscripto a um pequeno quadro, apenas podemos dar
-mui summariamente a descripção dos acontecimentos, que deram
-em resultado o abandono do Maranhão pelos francezes.</p>
-
-<p>Acabou-se tudo em 21 de novembro de 1614, depois da batalha
-onde falleceu o infeliz Pézieux.</p>
-
-<p>Alem da grande <i>Memoria</i> publicada pela Academia Real das
-Sciencias de Lisboa á respeito d’esta expedicção, encontram-se
-mais amplas informações sobre este periodo da historia do Maranhão
-e suas missões pelos Jesuitas na vasta e preciosa publicação
-do Dr. A. J. de Mello Moraes, intitulada «<i>Corographia historica,
-chronologica, genealogica, nobiliaria e politica do Imperio do
-Brasil</i>.» (Vide o Tomo 3º, publicado em 1860).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[T]</a> Sua morte está marcada nos <i>Obituarios</i> da Ordem no dia
-29 d’Agosto de 1632, isto é, no anno em que foi celebrado o tractado
-de Castelnaudary.</p>
-
-<p>Contava n’esse tempo 47 annos de Religião, e n’ella sempre foi
-conhecido pelo <i>Religioso escossez</i>, embora pertencesse realmente
-a uma familia gaulesa.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[U]</a> Ordinariamente calam os historiadores esta ultima circumstancia,
-e não se encontra nem se quer referida summariamente e
-sem commentarios senão na collecção diplomatica (Quadro elementar)
-do Visconde de Santarem. A Carta authographa, que
-prova o captiveiro de Ravardiere existe na <i>Bibliotheca da rua Richelieu</i>,
-onde a vimos. Ella contraria, repita-se, o que se passou
-um anno antes no campo de Jeronymo d’Albuquerque. Está escripta
-com muita moderação, e foi derigida a M. de Puysieux
-(Vid <i>fonds franç.</i>—Nº 228—15 p. 197.)</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[V]</a> Informações inexactas sem duvida fizeram com que Mr. Ferdinand
-Diniz mencionasse aqui este facto, nunca acontecido.—Do traductor.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[W]</a> Lembro-me com prazer duma delicada expressão do sabio
-Augusto de Saint Hilaire.</p>
-
-<p>Lery, como se sabe, viajou pelo Rio de Janeiro no tempo de
-Villegagnon, isto é em 1556. A primeira edicção da sua interessante
-narrativa somente appareceu em 1571. Nosso Ivo d’Evreux,
-cujo estylo tem tantos pontos de contacto com o d’este escriptor,
-leria seo livro? N’elle nada encontramos, que nos leve a responder
-pela afirmativa. Multiplicaram-se porem as edicções de Lery
-e a tal ponto, que a quinquagesima e ultima foi em 1611.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[X]</a> Este projecto de dupla aliança entre as duas corôas ja era de
-1612, porem foi annunciado officialmente em 25 de Março do
-mesmo anno, mas só foi executado d’ahi ha tres annos.</p>
-
-<p>Partiram os Missionarios a 19 de Março. Os esponsaes do rei
-de França com a infanta ainda não preocupavam os espiritos
-como depois aconteceo, por exemplo, em 1615.</p>
-
-<p>Todos os factos relativos aos dois reinados são minuciosamente
-descriptos no livro intitulado «<i>Inventaire generale de l’histoire de
-France par Jean de Serre, commençant á Pharamond et finissant
-á Louis XIII</i>. Paris, Mathurin Henault, in 18. (Vid o T. VIII).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[Y]</a> Podia ainda ver-se, ha alguns mezes atraz, na casa de um
-vendedor de curiosidades, da rua do Petit Leon, um desenho attribuido
-a Luiz XIII, quando menino, representando muito bem a
-figura d’um Tupinambá enfeitado com pinturas exquisitas.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[Z]</a> Devo ainda a Mr. Ferdinand Diniz a seguinte communicação,
-feita em carta, por mim sempre muito presada, de 16 de setembro
-de 1873.</p>
-
-<p>«O segundo exemplar conhecido da obra do Padre Ivo d’Evreux
-pertence ao Sr. Dr. Court, habil e zeloso bibliographo e possuidor,
-por sua fortuna, de grandes raridades.</p>
-
-<p>«Tive em minhas mãos este precioso exemplar, que custou 800
-francos.</p>
-
-<p>«Tem mais duas ou tres folhas do que o da Bibliotheca Imperial.</p>
-
-<p>«O feliz possuidor do exemplar conhecido mora em Pariz, <i>rue
-du Centre n. 4</i>; actualmente anda viajando em beneficio da saude
-alterada de um seo irmão, porem quando elle voltar, irei de novo
-visitar seo thesouro.»—Do traductor.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[AA]</a> É geral a obscuridade, que reina sobre a biographia d’estes
-antigos viajantes, tão importantes debaixo do ponto de vista da
-historia. O veneravel Eyriés, que citamos as vezes, é bem pouco
-baseiado em suas ideias, por exemplo, quando affirma que Claudio
-d’Abbeville viveo até 1632, quando os Manuscriptos da casa
-de Santo Honorato o dão por fallecido em Ruão no anno de 1616
-com 23 annos de religião.</p>
-
-<p>Tambem não é exacto o attribuir-se-lhe a <i>Vida da bemaventurada
-Coletta</i>, virgem da Ordem de Santa Clara, pois appareceo
-este livro em 1616, em 12, e em 1628 em 8º: as iniciaes, que traz
-no frontespicio bem poderiam evitar este engano, na verdade pequeno.</p>
-
-<p>O opusculo, de que estamos tractando, acha-se na <i>Bibliotheca
-do Arsenal</i>, onde o examinamos.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[AB]</a> Essa compilação, verdadeiramente curiosa, começou em 18
-de novembro de 1709, e se compunha outr’ora de 3 vol. em 4.º.
-O T. 1º, infelizmente perdido, continha os <i>Annaes da Provincia</i>,
-e provavelmente ficamos privados de algumas preciosas particularidades
-sobre a missão do Padre Ivo: tinha o titulo de—<i>Capuchinhos
-da rua de Santo Honorato</i>, 4.º (Ter.)</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[AC]</a> O Padre Pascoal d’Abbeville foi eleito 19º Provincial do Convento
-da rua de Santo Honorato: a divisão havida em 1629 foi
-provavelmente por causa do numero sempre crescente de Religiosos
-nos tres Conventos de Pariz.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[AD]</a> Em geral não são conhecidos estes versos de Ronsard, derigidos
-ao fundador da França antarctica, a essa personagem voluvel,
-ora huguenote, ora fervoroso catholico; cujas severidades excentricas
-Lery evitou fugindo para as mais longinquas florestas:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Douto Villegaignon, como te enganas!</div>
- <div class="verse indent0">Tu pretendes em vão tornar ameno</div>
- <div class="verse indent0">D’America o viver estranho e rude...</div>
- <div class="verse indent0">Acaso não vês tu que a nova gente</div>
- <div class="verse indent0">Tão nua é no trajar como no peito</div>
- <div class="verse indent0">É nua de malicia?—que não sabe</div>
- <div class="verse indent0">Ao vicio e á virtude o nome ao menos?</div>
- <div class="verse indent0">—Que não sonha com Reis nem com Senados,</div>
- <div class="verse indent0">E, isenta do temor, das leis ao jugo,</div>
- <div class="verse indent0">Á mercè das paixões a vida passa?</div>
- <div class="verse indent0">Ignoras, por ventura, que ahi mostra-se</div>
- <div class="verse indent0">Cada homem de si livre senhor;</div>
- <div class="verse indent0">e Leis, Senádos, Reis, em si resume?</div>
- <div class="verse indent0">Não é a terra e o ar commum a todos?</div>
- <div class="verse indent0">Vê-se, áquella, cobrir ferro importuno</div>
- <div class="verse indent0">O seio virginal de longos sulcos?...</div>
- <div class="verse indent0">Commum é tudo ahi, como dos rios</div>
- <div class="verse indent0">São as aguas perennes que trasbordam</div>
- <div class="verse indent0">Sem processo intentar de plena posse.</div>
- <div class="verse indent0">Oh, não queiras, por isso, dessa gente</div>
- <div class="verse indent0">O repouso turbar dos velhos usos!</div>
- <div class="verse indent0">Si ha remorso em tua alma, em paz os deixa;</div>
- <div class="verse indent0">Não procures, p’ra os campos estenderem.</div>
- <div class="verse indent0">Ensinar-lhes á terra pôr limites!</div>
- <div class="verse indent0">Choverão os processos, e a fraude</div>
- <div class="verse indent0">Á amisáde terá então de unir-se!</div>
- <div class="verse indent0">Logo após, d’ambição o duro espinho</div>
- <div class="verse indent0">(Como a nòs acontece, desgraçados!)</div>
- <div class="verse indent0">Tormento lhes será—negro, incessante.</div>
- <div class="verse indent0">—Seu repouso não quebres: são felizes;</div>
- <div class="verse indent0">Elles gosam na terra a edade d’oiro.</div>
- <div class="verse right">(Traducção do Sr. J. T. de Souza.)</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[AE]</a> Vide a «Correspondencia e a Collecção Peiresc.»</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[AF]</a> Este estimavel escriptor deo d’isto uma prova no seo poema
-da primeira semana, somente impresso em 1610 embora fallecesse
-seo auctor em 1599.</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Ja o ardente Cocuyo á Nova Espanha</div>
- <div class="verse indent0">Vai nas azas dois fachos conduzindo,</div>
- <div class="verse indent0">Outros dois flamejando ergue na fronte.</div>
- <div class="verse indent0">Á luz d’este esplendor de regios leitos</div>
- <div class="verse indent0">Nos cortinados arabescos pintam-se,</div>
- <div class="verse indent0">Á luz d’este esplendor em noite negra</div>
- <div class="verse indent0">O habil artesão o marfim pule,</div>
- <div class="verse indent0">Conta o avaro, no cofre, seu thesouro,</div>
- <div class="verse indent0">Veloz o escriptor a penna guia.</div>
- <div class="verse right">Traducção do Sr. J. T. de Souza.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[AG]</a> <i>Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuitica pela
-Bahia, Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro,
-etc. escripta em duas cartas ao Padre Provincial em Portugal</i>.
-Lisboa. 1847 em 8.º</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[AH]</a> <i>Tratado descriptivo do Brasil em 1587</i>, etc. Rio de Janeiro,
-1851 em 8.º Foram estas duas obras exhumadas pelo Sr. F. A.
-de Varnhagem, historiador tão conhecido do Brasil. Esta ultima
-obra, de que existe um Manuscripto na <i>bibliotheca imperial</i> de
-Pariz foi tambem reproduzida por seo habil edictor na <i>Revista</i>
-trimensal. Morreo Gabriel Soares em 1591 n’uma praia deserta,
-após deploravel naufragio: como se vê foi quasi contemporaneo
-de Ivo d’Evreux.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[AI]</a> Affirma Berredo ser este indio um amigo dedicado dos franceses,
-porem melhor informado o <i>Jornal de Timon</i> nos deo o
-nome deste selvagem, educado nas missões do Sul. Ja se vê, que
-não podia ter muita affeição aos francezes.</p>
-
-<p>Para urdir este horrivel estratagema, basta somente o odio,
-que nutriam certos indios contra os dominadores do seo paiz, não
-sendo necessario ser filho de Ruão ou de Rochelles.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_36" href="#FNanchor_36" class="label">[AJ]</a> Vide <i>Berredo, Annaes historicos do Maranhão</i>, e tambem o
-<i>Jornal de Timon</i> de J. Lisboa, ns. 11 e 12, 1858, Lisboa. Diz
-este escriptor ter fallecido Jeronimo d’Albuquerque em 1618 succedendo-lhe
-no governo seo filho Antonio d’Albuquerque.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_37" href="#FNanchor_37" class="label">[AK]</a> Partiram para Goiana em 1635 os Missionarios da Ordem dos
-Capuchinhos, cujos trabalhos podem ser vistos nos manuscriptos
-legados pelo grande Convento de Pariz.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_38" href="#FNanchor_38" class="label">[AL]</a> Vide a respeito d’estes povos a rapida visita, que lhes fez
-Castelnau em 1851: <i>Expedicção scientifica nas partes centraes
-d’America do Sul</i>. T. 2º pag. 316.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_39" href="#FNanchor_39" class="label">[AM]</a> Vide <i>Trabalhos da Commissão scientifica de exploração</i>. Rio
-de Janeiro. Typ. de Laemmert—1862 in 4.º</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_40" href="#FNanchor_40" class="label">[AN]</a> Na <i>Corographia historica</i> do Dr. Mello Moraes encontram-se
-noticias minuciosas sobre as missões dos jesuitas e administração
-dos indios no Maranhão. Desde o principio do seo T. 3º teve este
-escriptor o cuidado de confessar o immenso auxilio, que lhe prestaram
-as obras doadas ao Instituto Historico do Rio de Janeiro
-pelo conselheiro Antonio de Vasconcellos de Drumond e Menezes.
-Em suas longas viagens, o diplomata, a quem se deve tão preciosas
-informações sobre a Africa, não se limitou a estas investigações,
-pois ainda colheu muitos manuscriptos á respeito do Brazil,
-que hoje servem de base ao historiador.</p>
-
-<p>Cego ha muitos annos, faz ainda muita honra á sua patria.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_41" href="#FNanchor_41" class="label">[AO]</a> Tres annos antes da partida dos Capuchinhos para Maranhão,
-o padre du Jarric dedicava ao Rei menino o seguinte livro: «<i>Segunda
-parte da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas
-tanto nas indias orientaes como nos outros paizes descubertos pelos
-portuguezes, no estabelecimento e progresso da fé christan e
-catholica, e principalmente do que fizeram e soffreram os religiosos
-da companhia de Jesus para este fim ate o anno de 1600</i>» pelo
-Padre Pedro du Jarric, da mesma companhia em Bordeaux, Simon
-Mellange. 1610 em 4.º Tudo quanto diz respeito ao Brazil
-acha-se n’este vasto resumo desde pag. 248 até 359, porem deve
-procurar-se os factos curiosos, citados n’esta noticia no livro 5º
-do que o auctor chamou <i>Historia das Indias Orientaes</i>, parte 3ª
-pag. 490.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_42" href="#FNanchor_42" class="label">[AP]</a> Desta primeira edicção, publicada em 1621, tornou-se, para
-assim dizer, impossivel ser encontrado um sò exemplar.</p>
-
-<p>A segunda edicção sahio com o titulo <i>Arte de grammatica da
-lingua brasilica do padre Luiz Figueira, Theologo da Companhia
-de Jesus</i>. Lisboa, Miguel Deslande, anno 1687, pet. em 12.º O
-sabio bibliographo portuguez o Sr. Innocencio Francisco da Silva
-não reproduz exactamente este titulo, porem menciona uma edicção
-da Bahia em 1851 pelo Sr. João Joaquim da Silva Guimarães,
-cujo titulo é muito extenso.</p>
-
-<p>A grammatica do Padre Anchieta—<i>Arte da grammatica da lingua
-mais usada na costa do Brasil</i>, appareceo em Coimbra no
-anno de 1595, em 8º, e d’ella em Portugal apenas se conhece um
-exemplar.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_43" href="#FNanchor_43" class="label">[AQ]</a> Santo Eloy, perto de Gisors, no destricto de Euro, é uma povoação
-de 381 habitantes, á 25 kil. de Andelys.</p>
-
-<p>Ha tambem Santo Eloy de Fourques, aldeia do Euro, a 25 kil.
-de Bernay.</p>
-
-<p>Estamos propensos a crer, que foi na primeira, onde residio o
-nosso Missionario.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_44" href="#FNanchor_44" class="label">[AR]</a> Vide <i>Bibliographia Normanda</i>.</p>
-
-<p>Derigimo-nos directamente á douta officiosidade do Sr. Frère
-afim de obtermos o conhecimento do <i>Supplemento necessario</i>, porem
-apesar de constantes investigações vio-se na impossibilidade
-de nos dar outras noticias alem das que colhemos em sua excellente
-obra.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_45" href="#FNanchor_45" class="label">[AS]</a> Quevilly, <i>Clavilleum</i>, povoação do Senna inferior, distante
-de Ruão apenas 6 kil. e faz parte do districto de Grande Couronne.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_46" href="#FNanchor_46" class="label">[AT]</a> Mais tarde foi chamado Maximiliano de Baux para encarregar-se
-da egreja do culto reformado em Ruão, viveo até a idade
-de 84 annos, e falleceo em 1674 deixando reputação de homem
-recto, e de costumes austeros.</p>
-
-<p>Vide os irmãos Haag, a <i>França protestante</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_47" href="#FNanchor_47" class="label">[AU]</a> <i>Cupucinorum Annales</i>. Lugduni, 1632, em fol. e depois a traducção
-italianna—<i>Annali di Fratri minori Cappucini</i> etc. Venetia
-1643 em 4.º</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_48" href="#FNanchor_48" class="label">[AV]</a> <i>Annales seu sacrarum historiarum ordinis minorum sancti
-Francisci qui Capucini nuncupantur</i> etc. Lugduni. 1676.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_49" href="#FNanchor_49" class="label">[AW]</a> <i>Annales ordinis minorum</i>. 2.ª edic., Roma, 1731.
-Depois os <i>Scriptores ordinis minorum</i>. 1650, em fol.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_50" href="#FNanchor_50" class="label">[AX]</a> <i>Bibliotheca scriptorum ordinis minorum</i>, Genova, 1680 em
-4.º, reimp. em 1691 in fol. Este ultimo depois de algumas linhas,
-em que fallou do merecimento de <i>Ivo Ebroycensis, vulgo de
-Evreux</i>, dá tambem noticia do seu livro: <i>scripsit gallicé Relationem
-sui itineris et navigationis sociorum que Capucinorum ad
-regnum Marangani: cui etiam adjunxit historiam de moribus illarum
-nationum</i>. Rothomagi. 1654. Vid T. 1º em 4.º</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_51" href="#FNanchor_51" class="label">[AY]</a> <i>Historia da Normandia</i>. T. VI pag. 414. Masseville prova
-com toda a evidencia ter se contentado com traduzir o Padre Diniz
-de Gênes, pois disse ter o nosso Missionario, «dado uma Relação
-geographica das regiões, por onde se embrenhou, e particularmente
-do paiz do <i>Marangan</i>». <i>Regni Marangani</i>, escreveo
-seo predecessor.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_52" href="#FNanchor_52" class="label">[AZ]</a> Vede este precioso manuscripto na Bibliotheca de Caen.
-Uma bibliotheca americana organisada pelo coronel Antonio de
-Alcedo. Madrid. 1791, 2 vol. em 8º, não menciona o Padre Ivo,
-causando-nos tal omissão pouco desgosto, á vista de se dizer ahi
-haver o Padre Claudio d’Abbeville, seu companheiro, convertido
-com infatigavel zelo os selvagens do Canadá!</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_53" href="#FNanchor_53" class="label">[BA]</a> A primeira edicção do <i>Epitome</i>, hoje rarissima por ter sido
-suprimida por ordem da Inquisição, só traz no seu titulo aberto a
-gravura o anno da impressão 1629 e o nome de <i>Antonio de Léon</i>,
-e não o de Pinelo. Não falla de Ivo d’Evreux, isto é, deste livro,
-que pertence a Bibliotheca de Santa Genoveva. Na edicção em 3
-vol. pequenos em fol., por Barcia, assim menciona invertendo o
-seu titulo: <i>Fr. Ivon d’Evreux, capuchino. Relacion de su viage
-al Reino de Marangano, com sus companeros: historia de los costumbres
-de aquellas naciones</i>. Imp. em 1654 em 4º francez.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_54" href="#FNanchor_54" class="label">[BB]</a> Isaac de Razilly, cavalleiro da ordem de São João de Jerusalem,
-primeiro capitão do almirantado de França, chefe d’esquadra
-da armada real na provincia da Bretanha, foi nomeiado almirante
-da frota real, em expedicção nas costas da Barbaria no anno
-de 1630, e adjunto de Ravardière: em 3 de septembro d’esse
-mesmo anno estava elle em Safy resgatando captivos.</p>
-
-</div>
-
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="tp">
-
-<p class="titlepage larger">CONTINUAÇÃO<br />
-<span class="larger">DA HISTORIA</span><br />
-DAS COISAS MAIS MEMORAVEIS<br />
-<span class="smaller">HAVIDAS EM</span><br />
-MARANHÃO<a id="Nanchor_1" href="#Note_1" class="fnanchor">[1]</a><br />
-<span class="smaller">NOS ANNOS DE 1613 A 1614</span></p>
-
-<p class="titlepage">SEGUNDO TRATADO</p>
-
-<p class="titlepage">PARIZ.<br />
-<span class="smaller">IMPRENSA DE FRANCISCO HUBY</span><br />
-RUA DE SÃO THIAGO, NA BIBLIA DE OIRO, E NA SUA OFFICINA<br />
-<span class="smaller">NO PALACIO DA GALERIA DOS PRESIONEIROS</span><br />
-MDCXV<br />
-<span class="smaller">COM PRIVILEGIO DO REI</span></p>
-
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_1"></a>[1]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="AO_REI_I">AO REI</h2>
-
-</div>
-
-<p class="noindent"><span class="smcap">Senhor.</span></p>
-
-<p>O que eu pude por meios subtis saber á respeito do livro
-do Rvd. Padre Ivo d’Evreux, supprimido por fraude e impiedade
-mediante certa quantia dada ao impressor Francisco
-Huby,<a id="Nanchor_2" href="#Note_2" class="fnanchor">[2]</a> ponho agora na presença de V. Magestade, dois annos
-e meio depois do seu apparecimento, tão injustamente
-supprimida apenas veio a luz, afim de que V. M. e a Rainha
-sua Mãe, então regente, não visse a verdade tão clara, como
-ahi estava, e fosse mais facilmente illudida sua boa fé, por
-meio de falsas informações para que, contra suas santas e
-boas intenções, deixasse morrer a empresa, mais cheia de
-piedade e honra, que então se podia executar no novo
-Mundo, como se conhecerá tanto pela obra do Padre Claudio
-d’Abbeville, como por esta, embora incompleta por faltar a
-maior parte do Prefacio e alguns capitulos no fim.</p>
-
-<p>Praticaram estes actos com intenção de perder V. M. o titulo
-de Rei Christianissimo forçando-o a abandonar os sacrificios,
-e as obrigações contrahidas para com os novos christãos,
-a reputação de suas armas e bandeiras, a utilidade
-vossa e de vossos subditos, proveniente de um paiz tão rico
-e fertil, um porto tão importante como proprio á navegação
-de longo curso, hoje deteriorado, e tudo o mais adquerido
-com muitas despezas e cuidados.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_2"></a>[2]</span></p>
-
-<p>Para chegar-se a este ponto necessario foi recorrer á duas
-imposturas, muito bem conhecidas por pessoas de bom senso:
-uma foi de dizer-se que este paiz nada produzia, e nem tinha
-riqueza alguma, contra a verdade geralmente sabida: a
-outra foi de serem os indios incapazes de receberem a luz
-do Christianismo em opposição á palavra de Deos e á doutrina
-universal da Igreja.</p>
-
-<p>Eis como, Senhor, acabou-se esta excellente empresa tão
-bem começada, sendo tão triste resultado devido a fraude
-e a malicia d’aquelles, que, desejando occultar seos defeitos,
-os atiravam sobre o paiz, que por negligencia dos maus
-francezes, cuidadosos só do seo proveito e interesse particular,
-se esqueceram do de V. M., embaraçando perda tão
-notavel, ludibrio hoje de todas as nações estrangeiras, menoscabo
-de vossa auctoridade real em toda a Europa, e de
-dôr a todos os vossos bons subditos. Quando V. M. quizer
-sahir d’estas illusões, aconselhado por pessoas honradas, e
-reconhecidas pelo seu zelo ao augmento da gloria de Deos,
-e do vosso reinado, eu vos offereço ainda a minha vida e a
-de meus irmãos, fazendo conhecer, com a nossa pouca pratica
-e experiencia, por todos os cantos do novo Mundo, que
-em toda a christandade não ha um Monarcha tão grande e
-poderoso, como um Rei de França, quando elle quizer empregar
-não seo poder, e sim apenas sua authoridade.</p>
-
-<p>Eis, Senhor, tudo o que pode um dos vossos mais humildes
-subditos, que, embora tenha soffrido, durante vossa minoridade,
-maos tractos, perda de bens e de fortuna, ainda
-tem coragem bastante para vos servir com dedicação.</p>
-
-<p>Estou certo de acolherdes meos serviços, e o voto solemne,
-que faço de ser até o fim de minha vida,</p>
-
-<p>Vosso humillissimo e obedientissimo servo e subdito</p>
-
-<p class="right"><i>Francisco de Rasilly</i>.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 100px;">
-<img src="images/footer2.jpg" width="100" height="50" alt="" />
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_3"></a>[3]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="AO_REI_II">AO REI</h2>
-
-</div>
-
-<p class="noindent"><span class="smcap">Senhor.</span></p>
-
-<p>A principal razão, que moveo os antigos a collocar entre
-os Deoses a maior parte dos seos Imperadores, foi o espirito
-religioso d’elles manifestado durante a vida.</p>
-
-<p>Coisa notavel na historia: ainda que alguns imperadores
-levantados da infima classe até ao cume do poder, se tenham
-mostrado crueis e sanguinarios para com seos subditos,
-comtudo alcançaram, após sua morte, o nome de Deoses,
-tiveram Templos e altares, sacrificios e sacerdotes, creados
-e nomeados pelo senado em virtude da piedade e da
-religião, que conservaram inalteraveis no meio dos seos muitos
-defeitos.</p>
-
-<p>Estes monarchas, grandes em dominio e pequenos no conhecimento
-do verdadeiro Deos, tinham innato em seo coração
-o amor pela Magestade divina, de que são viva imagem
-todos os monarchas, e por isso lhes pertence estender
-o reino de Deos como seos Loco-tenentes.</p>
-
-<p>Com esta intenção espalhavam arcos e tropheos, columnas
-e imagens para o ensino da religião, e á posteridade
-legavam chapas e laminas de metaes indistructiveis, como
-sejam o bronze, o ouro, e a prata, onde se viam gravadas
-as suas imagens, e com ellas alguns vestigios da sua piedade,
-cuja memoria o tempo não póde destruir.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_4"></a>[4]</span></p>
-
-<p>Antonino, o pio, assim deixou buriladas em bronze e prata,
-sua caridade e religião representadas na imagem de uma
-mulher, vestida como Deosa, tendo em frente um altar onde
-se achava um pouco de fogo ardendo constantemente, e no
-qual ella derramava á todo o instante, como em sacrificio,
-oleos odoriferos, mostrando com isto a Piedade e Religião,
-que consagrava aos Deoses.</p>
-
-<p>Si a inclinação natural, sem o auxilio da graça e da luz
-sobrenatural, podesse tanto no coração d’estes monarchas, o
-que podemos dizer e pensar quando Deos inspira o coração
-dos reis illustrados e ricos da verdadeira religião?</p>
-
-<p>Luiz 4.º, imperador, principe virtuoso e geralmente estimado
-á todas as suas occupações preferia a Religião, e para
-animar todos os seos subditos á imital-o, mandou cunhar o
-dinheiro com a figura de um templo atravessado por uma
-cruz, e ao redor lia-se a inscripção—<i>Christiana Religio</i>.</p>
-
-<p>O que excedeo, Senhor, a todos os Monarchas do Mundo,
-em piedade, e religião, foi São Luiz, a honra dos francezes,
-e de quem herdastes sangue e sceptro, nome e imitação de
-suas virtudes, porque não só empregou seos thesouros e sua
-nobresa, mas tambem sua pessoa, atravessando mares, (mares,
-que, como a morte, não fazem distincção quando querem
-involver alguem nas suas ondas) afim de erguer a piedade
-e a religião, abatidas pela crueldade dos infieis, e
-n’esta tarefa morreu.</p>
-
-<p>Até hoje ainda não houve seculo algum de Rei, tão parecido
-com o do bom São Luiz, como o vosso, Senhor, e
-deixando á parte o que não vem a proposito, eu tomarei
-somente este bello feito, com que imitastes sua piedade e
-religião, para com esses pobres selvagens, desejosos em extremo
-de conhecerem a Deos, e de viverem á sombra de
-vossas luzes, como sejam os habitantes de <i>Maranhão</i>, de
-<i>Tapuytapera</i>, de <i>Cumã</i>, de <i>Cayté</i>, do <i>Pará</i>, alem dos <i>Tabaiares</i>
-e os <i>Cabellos-compridos</i> e muitas outras Nações,
-que muito ambicionavam aproximarem-se dos Padres, como
-direi adiante.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_5"></a>[5]</span></p>
-
-<p>Tudo isto, Senhor, só vós podeis, porque os indios naturalmente
-gostam dos francezes e aborrecem os portuguezes:
-os nossos religiosos apenas podem arriscar suas vidas para
-convertel-os, porem pouco duraria isto a não ser a vossa
-real piedade.</p>
-
-<p>Não é empresa tão difficil como se calcula, e nem tão
-cheia de cuidados e de gostos, como se suppõe: não serão
-precisos 500 ou 1:000 escudos, pois basta mediocre liberalidade,
-porem bem administrada para a sustentação do seminario,
-onde se devem educar os filhos dos selvagens,
-unica esperança da firmesa da religião n’aquelle paiz.</p>
-
-<p>Si V. M., Senhor, se resolver a fazer isto, asseguro-vos
-que o vosso exemplo será imitado por muitos Principes e
-Princezas, Senhores e Damas, que contribuirão com alguma
-coisa para o augmento da fé n’aquelles logares.</p>
-
-<p>Para que eu não canse a V. M. com desagradavel prolixidade,
-acabarei com esta historia evangelica da pobre Chananea,
-reputada como cadella, a qual pedia, para livrar sua
-filha do poder do Diabo, apenas as migalhas, que cahiam da
-meza real do Redemptor.</p>
-
-<p>Descende do mesmo Pae de Chananéa esta nação de selvagens,
-e seos filhos estão no dominio do diabo, como infieis:
-ella não pede nem vossos thesouros, e nem grande
-quantia, e sim apenas as migalhas superfluas, que cahem,
-aqui e ali, da vossa real grandesa.</p>
-
-<p>Por tudo isto, Senhor, eu humildemente vos supplico, que
-olheis com bons olhos para esta pobre Nação, e que recebaes
-com animo bem disposto este pequeno <i>Tratado das
-coisas mais notaveis acontecidas durante a minha residencia
-entre elles por espaço de dois annos</i>, conforme as ordens
-da Rainha vossa Mãe, dadas aos nossos Rvds. Padres,
-que procurei cumprir tanto quanto me foi possivel, como
-vereis quando lerdes essa minha obra, cujo trabalho, si
-merecer a vossa approvação, dar-me-hei por muito bem recompensado
-em quanto viver, e toda a existencia, que por<span class="pagenum"><a id="Page_6"></a>[6]</span>
-Deos me fôr concedida, eu a empregarei em servir fielmente
-a V. M., como aquelle que é e sempre será de</p>
-
-<p class="center">V. M. subdito muito humilde e fiel,</p>
-
-<p class="right">Frei <i>Ivo d’Evreux</i>, Capuchinho.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h2 class="nobreak">ADVERTENCIA AO LEITOR.</h2>
-
-</div>
-
-<p class="noindent"><span class="smcap">Amigo leitor</span>.</p>
-
-<p>Advirto-vos, que não repetirei aqui coisas ja escriptas pelo
-Padre Claudio d’Abbeville na sua <i>Historia</i>, e somente accrescentarei
-o que mais do que elle soube por experiencia, pois
-eu estive em Maranhão dois annos completos e elle apenas
-quatro mezes: verificareis esta verdade, comparando os nossos
-escriptos, e facilmente descobrireis o que augmentei.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 100px;">
-<img src="images/footer3.jpg" width="100" height="75" alt="" />
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_7"></a>[7]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="PREFACIO">PREFACIO<br />
-<span class="smaller">A RESPEITO DOS DOIS SEGUINTES TRATADOS.</span></h2>
-
-</div>
-
-<p>A <i>Sapiencia</i> nos <i>Proverbios</i> 29, apresenta um ensino allegorico,
-muito bonito, n’estas palavras: <i>pauper et dives
-obviaverunt sibi, utriusque illuminator est Dominus</i>: vi o
-pobre sahindo do Hospital cuberto de chagas e ulceras, carregado,
-e não vestido, de trapos, caminhar pela praça publica
-e entrar no Templo do Senhor pela porta do meio-dia:
-na mesma occasião vi o rico sahir do seu palacio, vestido
-de seda e carregado de ouro, prata, e pedras preciosas, caminhando
-pela estrada que vae dar á porta do Tabernaculo
-pelo lado do Septentrião, tão a proposito, que um e outro,
-o pobre e o rico, se encontraram frente a frente, bem no
-centro da grande cortina do <i>Sancta Sanctorum</i>, onde a face
-do Senhor espalha tão bella claridade, que o rosto d’estas
-duas pessoas brilhavam com o mesmo esplendor divino.</p>
-
-<p>Vejamos o que quer dizer a <i>Sapiencia</i> na obscuridade
-d’estas palavras.</p>
-
-<p>Deixemos as diversas explicações mysticas e espirituaes,
-que d’ellas se podem deduzir, e tomemos somente a que nos
-pode servir em relação ao que escrevemos no frontespicio
-do nosso livro.</p>
-
-<p>O pobre é o padre São Francisco e os Religiosos da sua
-Ordem: o rico é o poder real de Vossa Magestade Christianissima,
-proveniente do ramo sagrado do Rei São Luiz.
-Quando e onde se encontraram este pobre e este rico? Foi<span class="pagenum"><a id="Page_8"></a>[8]</span>
-sem a menor duvida na missão evangelica para converter
-os indios. Entre os dois estava Deos, o grande illuminador
-dos peccadores nas trevas da morte.</p>
-
-<p>O pobre São Francisco na conversão dos gentios fez nas
-Indias o que disse São Paulo:—<i>ego plantavi</i>, plantei a fé entre
-os selvagens do Maranhão: São Luiz, protector da França,
-e avô do nosso Rei, quando nos mettemos n’esta empresa,
-respondeo—<i>Rigabo</i>—eu a regarei, e não consentirei que
-ella murche á falta de cuidados. De nada serviria a planta,
-si em sua raiz não se deitasse agua para ella florescer, por
-que em pouco tempo o rigor do sol a seccaria, e o nosso
-Deos, que sempre prescruta a inclinação dos seos subditos,
-affirma que infalivelmente a augmentará—<i>incrementum dabo</i>:
-e por uma luz, sempre crescente de dia para dia, derramada
-entre os indios á respeito dos mysterios da nossa fé,
-espancareis as trevas da ignorancia, porque o Senhor é o
-illuminador de ambos, <i>utriusque illuminator est Dominus</i>.</p>
-
-<p>Quem melhor o pode saber que os selvagens aos quaes
-baptisamos e lhes promettemos fazel-os christãos?</p>
-
-<p>Si invocassemos o seo testemunho, elles responderiam—<i>credimus</i>.</p>
-
-<p>Oh! Piedade Real, não perdestes vosso tempo enviando-nos
-como Mensageiros do Evangelho.</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 100px;">
-<img src="images/footer4.jpg" width="100" height="75" alt="" />
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_9"></a>[9]</span></p>
-
-<p class="center larger">Continuação da historia das coisas mais memoraveis,
-acontecidas no Maranhão em 1613 e 1614.</p>
-
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h2 class="nobreak" id="PRIMEIRO_TRATADO">PRIMEIRO TRATADO.</h2>
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_I">CAPITULO I</h3>
-
-<p class="subhead">Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz
-do Maranhão.<a id="Nanchor_3" href="#Note_3" class="fnanchor">[3]</a></p>
-
-</div>
-
-<p>O Psalmista Rei David, no seo Psalmo 28, composto em
-acção de graças pelo acabamento do Tabernaculo, disse—<i>Afferte
-Domino fili Dei, afferte Domino filios arietum</i>.</p>
-
-<p>«Trazei ao Senhor, ó filhos de Deos, trazei cordeiros ao
-Senhor,» o que Rabbi Jonathas assim explicou—<i>Tribuite
-coram Domino laudem cœtus Angelorum, tribuite coram Domino
-gloriam et fortitudinem</i>—«dae louvores ao Senhor, ó
-choros angelicos, dae ao Senhor gloria e força:» queria elle
-dizer, que os Anjos bemaventurados auxiliam os homens em
-todos os seos santos projectos, e especialmente quando se
-trata de procurar a salvação das almas, porque caminham
-adiante estes felizes espiritos e rompem a turba dos diabos,
-inimigos da salvação afim de soccorrerem os homens apostolicos,
-incumbidos de salvarem as almas errantes nos desertos
-da infidelidade, ahi comparados aos filhos dos Carneiros
-que saltam aqui e ali pelos rochedos da dureza do
-coração, porem afagados pelas doçuras do Evangelho se deixam
-guiar brandamente até a porta do Tabernaculo de Deos,<span class="pagenum"><a id="Page_10"></a>[10]</span>
-levados no grande mar do baptismo, e offerecidos á face do
-<i>Sancta Sanctorum</i>.</p>
-
-<p>Os primeiros sacrificios, que Deos recebeo do povo de Israel,
-em procura da terra da promissão, d’onde expellio a
-infidelidade, foram sob as tendas e pavilhões do Tabernaculo,
-porem depois edificou-se o templo, e ahi continuaram
-os mesmos sacrificios.</p>
-
-<p>Coisa similhante nos aconteceo quando fomos a esse paiz,
-cheio de infidelidade e ignorancia de Deos, carregado de demonios,
-insolentes tyrannos d’essas pobres almas captivas,
-levar a luz do Evangelho, banir as falsas crenças, expellir
-os demonios, plantar e construir a Igreja de Deos: durante
-mais de quatro mezes celebramos os santos sacrificios n’uma
-bonita tenda, no meio de arvores verdejantes: partindo depois
-alguns da nossa comitiva para a França em busca de
-auxilio, e ficando o resto para fundar a Colonia; fizemos edificar
-a <i>Capella de São Francisco do Maranhão</i> em um bello
-e agradavel lugar, junto do mar, proximo de uma bella e
-inexgotavel fonte, e ahi escolhi minha moradia, que um dia
-tinha de servir de Convento aos Religiosos, que eu esperava
-para me ajudarem.</p>
-
-<p>Acabou-se esta Capella na vespera de Natal e muito a proposito
-pela devoção, que sempre teve o Seraphico Padre
-São Francisco, a quem era dedicada.</p>
-
-<p>Alem de todas as festas do anno celebrava a noite, estrellada
-e sem trevas, do nascimento do verdadeiro Sol, Jesus-Christo,
-e tinha este santo Padre o costume de fazer um
-presepio, a cujo lado passava toda a noite contemplando o
-profundo mysterio da Encarnação, e da vinda tão estranha
-do Altissimo á terra.</p>
-
-<p>Na verdade enchia-me de immenso prazer vendo n’esta
-capellinha, feita de madeira, coberta de folhas de palmeiras,
-mais similhante ao presepio de Belem do que esses grandes
-e preciosos templos da Europa, os nossos compatriotas
-francezes cantarem os psalmos e matinas d’esta noite, e depois
-de purificados pelo Sacramento da penitencia receberem<span class="pagenum"><a id="Page_11"></a>[11]</span>
-o mesmo Filho de Deos no presepio dos seos corações,
-envolvido nas faixas do Santissimo Sacramento do altar.</p>
-
-<p>Festejamos tambem o dia de natal; a noite prégamos, o
-que sempre fizemos depois das festas e nos domingos, e com
-prazer, embora muito soffressemos no principio: em quanto
-durou esta devoção corria o tempo tão depressa, que o dia
-parecia ter somente duas horas; e assim achando-se o nosso
-espirito preoccupado com obras piedosas sentia a morte vir
-tão depressa.</p>
-
-<p>Não fui eu só que senti isto, muitas outras pessoas depois
-me disseram o mesmo, e em quanto me permittio a saude,
-observou-se, e sem enfado, este uso.</p>
-
-<p>Augmentou-se ainda mais esta devoção quando se edificou
-no <i>Forte</i> a <i>Capella de São Luiz</i>,<a id="Nanchor_4" href="#Note_4" class="fnanchor">[4]</a> á imitação das Igrejas dos
-nossos Conventos, com madeira, cercada e cuberta de ramos
-fortes, cortados das arvores chamadas <i>Acaiukantin</i>.</p>
-
-<p>Ahi celebrei missas, cantei vesperas, préguei e baptisei
-os cathecumenos.</p>
-
-<p>A tarde tocava o sino, todos se reuniam n’esta capella,
-onde se cantava a saudação angelica, implorava-se a graça
-divina, e depois cada um ia para onde queria.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_II">CAPITULO II</h3>
-
-<p class="subhead">Do estado do poder temporal em sua primitiva.</p>
-
-</div>
-
-<p>Compõe-se o homem de espirito e corpo; devendo zelar
-em primeiro lugar aquelle como mais nobre e depois este;
-pareceu-nos de muita razão cuidar a principio nas Capellas
-para n’ellas abastecer o espirito com a palavra de Deos, e<span class="pagenum"><a id="Page_12"></a>[12]</span>
-do SS. Sacramento, e depois no que diz respeito áo temporal.</p>
-
-<p>Assim como uma terra, ainda inculta não dá grande contentamento
-á seu dono, e si elle não tivesse pão, que lhe
-viesse d’algures, por certo que morreria de fome, assim
-tambem era sem commodidades o lugar escolhido para a
-edificação da fortaleza de São Luiz, n’uma ponta de rocha,
-habitada outr’ora por selvagens, que a cultivaram a seu
-modo, ou para melhor dizer a esterilisaram, visto que depois
-de tres annos faltaram-lhe forças para produzir couza alguma,
-alem de matto agreste, sendo necessario descançar por
-muitos annos.</p>
-
-<p>Foi a causa dos nossos soffrimentos no principio, pois apenas
-tinhamos farinha de mandioca para fazer <i>mingau</i>, isto
-é, uma especie de papa com sal, agua e pimenta, chamada
-pelos indios <i>Yonker</i>, e assim passavamos a vida.</p>
-
-<p>Quem não podia comer esta farinha secca, desmanchava-a
-n’agoa, e assim alimentava-se com ella.</p>
-
-<p>Os que em França somente usavam de comidas delicadas,
-n’aquelle paiz apenas achavam legumes bem agradaveis.</p>
-
-<p>Conto isto para louvar a paciencia dos francezes em serviço
-do seo Rei, para destruir essa macula, que ordinariamente
-lhes lanção, de impacientes, imprudentes e desobedientes,
-porque na verdade eu só vi o contrario.</p>
-
-<p>Os que desejarem muito ir para aquelle paiz, não se admirem
-de ouvir fallar em tanta pobresa, porque não soffrerão
-mais do que nós, visto a terra ir melhorando diariamente,
-e os viveres se augmentarem gradualmente.</p>
-
-<p>Para remediar esta falta, resolveo-se mandar pescar peixe-boi<a id="Nanchor_5" href="#Note_5" class="fnanchor">[5]</a>,
-á 30 ou 40 legoas distante da ilha: estes peixes tem
-a testa como os bois, porem sem cornos, duas patas adiante
-debaixo das mamas, párem filhos como as vaccas, nutrem-nos
-com seo leite, mas a cria tem a propriedade notavel
-de abraçar a mãe pelas costas com suas patinhas, e nunca
-as deixa embora mortas, pelo que alguns são agarrados vivos,
-e assim trazidos para a Ilha: são muito delicados.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_13"></a>[13]</span></p>
-
-<p>Sirva isto d’instrucção aos meninos, cumprindo a Lei de
-Deos, que manda honrar Pae e Mãe, isto é, amar e respeitar,
-e de advertencia aos catholicos para ficarem firmes e
-unidos no seio da Igreja, sua Mãe, d’onde perseguição alguma
-as possa arrancar, amando todos os bons francezes, seo
-Rei e sua Patria.</p>
-
-<p>São apanhados estes peixes-bois nos pastos, ou nas hervas
-que crescem nas praias.</p>
-
-<p>Vão os selvagens remando mansamente suas canôas por
-detraz d’ellas, atiram-lhe duas ou tres setas, e apenas mortas
-são puxadas para terra, retalhadas e salgadas.</p>
-
-<p>Coisa igual acontece aos glutões, que no meio dos banquetes
-são surprehendidos e n’um instante lá vão para o inferno.</p>
-
-<p>Encontra-se o sal necessario ás commodidades da vida, na
-distancia de 40 legoas da Ilha, em terrenos arenosos, onde
-se mostra naturalmente, em forma de gelo, duro e luzente
-como cristal, por occasião do fluxo e refluxo do mar, e quando
-este se retira o sol o cresta e é melhor que o sal de França
-e de Hespanha.</p>
-
-<p>È necessario apanhal-o antes da estação das chuvas para
-que ellas lavem o lugar onde elle estava.</p>
-
-<p>Chegado a este ponto, dispersou-se uma parte dos francezes
-pelas aldeias, conforme o costume do paiz, que é ter
-<i>Chetuasaps</i>, isto é, hospedes ou compadres, aos quaes por
-pagamento se dava generos em vez de dinheiro.</p>
-
-<p>Esta hospitalidade ou compadresco é entre elles muito intima,
-porque estimam seos hospedes, como se fossem seos
-proprios filhos, vão caçar e pescar para elles e conforme o
-seo costume entregam-lhes as filhas, que desde então se chamam
-<i>Maria</i>, e tem por sobrenome o do Francez a quem se
-ligam, de sorte que dizendo-se <i>Maria de tal</i> sabe-se logo de
-quem é concubina.</p>
-
-<p>Com certesa não sei porque dão este nome ás concubinas:
-mostrei um certo dia a um selvagem um registro da Mãe de
-Deos, e lhe disse <i>Koai Tupan Marie</i>, «eis a Mãe de Deos,»<span class="pagenum"><a id="Page_14"></a>[14]</span>
-<i>ché ai Tupan Arobiar Marie</i>, «creio e conheço, que <i>Maria</i>
-é a Mãe de Deos,» e <i>Maria</i> chamamos nossas filhas que damos
-aos <i>Caraibas</i>.</p>
-
-<p>Este costume foi prohibido aos francezes, e si ha alguma
-falta á este respeito é occultamente, e os proprios selvagens
-que no principio d’esta prohibição desconfiaram da fidelidade
-e da amisade dos francezes, apenas souberam,
-que Deos só permittia a posse da mulher por meio do casamento,
-e que os Padres, Missionarios de Deos, assim o prégavam
-e prohibiam por ordem do <i>Maioral</i>, mostram-se escandalisados
-quando vêem o contrario, que denunciam logo
-a este e a nós, de maneira que qualquer francez deve fazer
-seos negocios mui occultamente si não quizer ser conhecido.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_III">CAPITULO III</h3>
-
-<p class="subhead">Da construcção do Forte de São Luiz, e do interesse
-dos selvagens em carregar terra.</p>
-
-</div>
-
-<p>Chegado o tempo proprio de trabalhar nas fortificações da
-praça designada á defeza dos francezes, fincada a madeira
-segundo o plano dado para servir de cercadura ao <i>Forte</i>, e
-de sustentar as terras, mandou-se então avisar por todas as
-aldeias da ilha e da provincia de Tapuytapera,<a id="Nanchor_6" href="#Note_6" class="fnanchor">[6]</a> que viessem
-Indios uns após outros conduzir a terra tirada dos fossos
-para os terraços das cortinas, esporões e plata-formas,
-depois cobertas por grandes e grossas <i>Apparituries</i>, «mangues»
-arvores duras como ferro e incorruptiveis; de forma que
-seria contra ella quasi inutil o tiro do canhão, e mui difficil<span class="pagenum"><a id="Page_15"></a>[15]</span>
-a escalada: assim se disse e assim se fez: de todas as aldeias
-pouco a pouco vinham os selvagens com suas mulheres
-e filhos, trazendo viveres para o tempo, que calculavam
-demorar-se no trabalho, e sempre debaixo das ordens dos
-seos Principaes, costume que geralmente observam, trazendo-os
-sempre na frente da Companhia, fazendo-lhes a natureza
-conhecer, que o exemplo dos superiores anima infinitamente
-os inferiores.</p>
-
-<p>Mais do que nós são elles fieis á natureza, pois vemos o
-contrario na Republica Christã, d’onde provem os erros e a
-corrupção dos costumes, porque ainda que devamos prestar
-attenção somente á doutrina e não entregarmo-nos a má
-vida, os fracos fazem o que querem sem cuidar do máo
-nome, que adquirem.</p>
-
-<p>Apenas chegavam estes selvagens entregavam-se ao trabalho
-com incomparavel dedicação, mostrando na voz e nos
-gestos admiravel coragem, parecendo antes que iam á um
-festejo de casamento do que para o serviço, rindo e brincando
-uns com os outros, correndo dos fossos para os terraços
-com uma especie de emulação para vêr quem dava
-mais caminhadas, e conduzia maior numero de cestos de
-terra.</p>
-
-<p>Notareis agora, que não ha ninguem no mundo mais infatigavel
-do que elles, quando de boa vontade trabalham em
-qualquer coisa; não cuidam em comer e beber com tanto
-que tenham á sua frente o seu chefe, e quando encontram
-difficuldades, por maiores que sejam, riem, cantam e gritam
-para se animarem reciprocamente.</p>
-
-<p>Se ao contrario o tractardes com asperesa e ameaças, nada
-farão que preste, e conhecendo o seo natural nunca constrangem
-seos filhos e nem seos escravos, e antes os governam
-com doçura.</p>
-
-<p>O francez, especialmente os nobres, tem igual naturesa;
-não soffrem constrangimento, porem não duvidam expôr sua
-vida, afim de comprirem as doces ordens dos seos Principes:
-bello argumento para convencer os que governam, que<span class="pagenum"><a id="Page_16"></a>[16]</span>
-mais vale a doçura e clemencia do que o rigor e a força,
-respeitando assim o natural da Nação francesa.</p>
-
-<p>Não trabalhavam somente os homens e sim tambem as
-mulheres e os filhinhos, aos quaes elles davam pequenos
-cestos, para carregar terra conforme suas forças.</p>
-
-<p>Vi muitos meninos, apenas com dois ou tres annos d’idade,
-fazer a carga com suas mãosinhas e não ter força para
-conduzil-a.</p>
-
-<p>Perguntei a alguns velhos porque consentiam que trabalhassem
-os meninos, servindo isto para distrahir os que os
-vigiavam, especialmente seos paes, que assim não podiam
-adiantar a tarefa, achando-se elles sempre em perigo, ou
-por estarem nùs apezar de tenrinhos, ou por poderem ser
-feridos pelo desabamento de algum pedaço de terra, ou por
-alguma pedra, que se desprendesse do monte.</p>
-
-<p>Respondeo-me assim o interprete. Temos muito prazer
-vendo nossos filhos comnosco trabalhando n’este <i>Forte</i>, para
-que um dia digam á seos filhos e estes a seos descendentes
-«eis a Fortalesa, que nós e nossos paes fizemos para os
-Francezes, que trouxeram Padres, que levantaram casas
-a Deos, e que vieram defender-nos de nossos inimigos.»</p>
-
-<p>É mui commum esta maneira de communicar á seos filhos
-o que entre elles se passa, já que por escriptos não podem
-fazel-o aos vindouros, e ir assim á posteridade.</p>
-
-<p>Para nada esquecer, como que gravam na memoria as occorrencias,
-e só d’esta maneira se pode explicar como contam
-muitas coisas passadas nos seculos, em que viveram
-seos avós, ou no tempo da sua mocidade: vão passando por
-esta forma o que sabem a seos filhos, como ainda diremos
-ádiante.</p>
-
-<p>Desejaria muito, que nossos Paes assim se empenhassem
-para gravar no coração de seos descendentes...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_17"></a>[17]</span></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p class="noindent">... mente e em abundancia, os selvagens lançam
-fogo nos espinhaes e moutas, onde se recolhem esses
-reptis.</p>
-
-<p>Ha de tres qualidades:<a id="Nanchor_7" href="#Note_7" class="fnanchor">[7]</a> uma de terra, que mora nos
-mattos; outra de agoa doce, que mora nas margens dos rios
-e lugares pantanosos: a ultima, é do mar, e a que vem
-pôr seos ovos na areia, que fica bem perto, e onde os occultam
-com geito. Parece-se muito com os ovos de galinhas,
-menos na casca, que não é tão dura, e sim mais flexivel e
-molle, nem tão grossos e agudos, e sim mais redondos, porem
-muito saborosos, quer comidos na casca, quer de outra
-qualquer maneira.</p>
-
-<p>Nas margens d’este rio encontram-se arvores medicinaes,
-muito melhores do que as que se achavam commummente,
-como eu e muitos dos meos companheiros verificamos: alem
-d’esta virtude, são mais fortes que as do Levante, mostrando
-a experiencia que uma onça d’estas faz tanto effeito como
-duas d’aquelle paiz. Sendo bem preparadas certas composições
-são excellentes laxantes, e assim conservam o corpo
-para seo beneficio. Existem bellos prados, largos e compridos
-á perder de vista, que produzem herva fina e macia.
-Encontra-se a piteira, de cujos productos se fazem na China
-muitos tafetás: crescem seos ramos como a cauda de um cavallo,
-tem a bellesa da seda e é ainda mais forte. A terra
-é forte e feraz e produz com mais certesa, que a do <i>Maranhão</i>,
-ou de suas visinhanças, e dizem-me que dá duas colheitas
-annualmente. As florestas são altas, virgens, e ricas
-de muitas especies de madeiras, quer proprias á tincturaria,
-quer á medicina, e asseguram-nos os selvagens, que lá moram,
-a existencia ahi do <i>pau brazil</i>. No meio d’estas florestas,
-ha muitos viados, capivaras, cabras, vaccas bravas<a id="Nanchor_8" href="#Note_8" class="fnanchor">[8]</a>
-e javalis, e em poucas horas matareis tantas quantas precisardes,
-e para que não me accusem de hyperbolico, invoco
-o testemunho dos que viajaram pelo <i>Miary</i>, e hoje se acham
-em França: se lerem isto, dirão que são estas as informações,
-que me deram, e que os selvagens, remadores das<span class="pagenum"><a id="Page_18"></a>[18]</span>
-suas canoas, lhes traziam tanta caça, que d’ella não sabiam
-o que fazer.</p>
-
-<p>Contou-me um fidalgo, que andou n’essa viagem, haver
-morto com um só tiro tres javalis,<a id="Nanchor_9" href="#Note_9" class="fnanchor">[9]</a> o que não poderia
-acontecer se estivessem espalhados.</p>
-
-<p>Ha muitas arvores carregadas de cortiço de mel de abelhas,
-as quaes são mais pequenas e franzinas do que as nossas,
-porem mais industriosas, pois fabricam mel excellente,
-liquido, e tão claro como agua potavel pura, guardado em
-pequenas celulas de cera da grossura da casca de um ovo,
-similhantes na forma á nossas garrafinhas de vidro, e penduradas
-com alguma ordem n’uma arvoresinha de cera, que
-se acha encostada ou presa pelos ramos ao tronco, ou nas
-cavidades das arvores das florestas ou dos prados.</p>
-
-<p>Com este mel fabrica-se vinho muito forte e quente para
-o estomago, similhante na côr e no gosto ao de Canaria.
-Nossa gente, quando por lá andou, fez algum vinho, e com
-elle embebedou-se.</p>
-
-<p>Existe tambem ahi uma especie de mel, impropriamente,
-assim chamado, porque é tão azedo, como vinagre, e fabricado
-por outra especie de abelhas.</p>
-
-<p>Alguns dias depois que ahi chegou nossa gente, procuraram
-os <i>Tabajares</i>,<a id="Nanchor_10" href="#Note_10" class="fnanchor">[10]</a> e suas habitações: encontraram, não
-os que procuravam, e sim os <i>Aiupaues</i>,<a id="Nanchor_11" href="#Note_11" class="fnanchor">[11]</a> e caminhos recentemente
-abertos.</p>
-
-<p>Vendo que diminuia a farinha, da qual apenas poderia ter
-quanto bastasse para regressar a Maranhão, essa mesma
-muito pouca, deliberou regressar com os seos selvagens,
-deixando ahi somente dois escravos <i>Tabajares</i>, a quem deram
-farinha para um mez, e diversos generos, promettendo-lhes
-liberdade com certesa, e boa recompensa si fossem procurar
-e achassem seos similhantes, o que acceitaram e cumpriram
-aproximando-se das suas aldeias e gritando para não
-serem flexados, visto andar esta Nação em guerra com uma
-outra visinha. Aos seos gritos accudiram muitos, aos quaes
-contaram o que traziam, como estavam em Maranhão os<span class="pagenum"><a id="Page_19"></a>[19]</span>
-francezes bem fortificados, que entre elles se achavam os
-Padres, que os foram procurar; mas que se viram obrigados
-a retirar-se por falta de farinha, sendo elles escolhidos
-para ir procural-os, e dando-lhes os presentes fortaleciam
-mais as suas palavras, mormente sendo proferidas por dois
-individuos, seos conhecidos, que foram escravisados na guerra
-pelos <i>Tupinambás</i>.</p>
-
-<p>Bem podeis calcular como elles ficaram alegres com as
-noticias dadas pelos <i>Tabajares</i>. Ahi descançaram por tres
-ou quatro mezes para contarem tudo bem a sua vontade, e
-regressamos com nossa gente para a Ilha.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_VII">CAPITULO VII</h3>
-
-<p class="subhead">Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem
-ao Amazonas.</p>
-
-</div>
-
-<p>Apenas voltou esta expedição do Mearim, fallou-se com
-enthusiasmo de uma viagem, em breves dias, ao Amazonas.<a id="Nanchor_12" href="#Note_12" class="fnanchor">[12]</a></p>
-
-<p>Já antes se havia fallado n’ella, porem com tal friesa, que
-poucos acreditavam, não havendo probabilidade de deixar-se
-a Ilha, sendo nós tão poucos para defendel a contra as
-aggressões dos portuguezes, que nos ameaçavam ha muito
-tempo.</p>
-
-<p>Ao divulgar-se esta noticia levantaram-se a ilha e as provincias
-visinhas, porque, como é geralmente sabido, não ha
-no Mundo nação alguma mais inclinada á guerra e á viagens
-pelo desconhecido como estes selvagens brasileiros.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_20"></a>[20]</span></p>
-
-<p>Quatrocentas ou quinhentas legoas nada são para elles
-quando vão atacar seos inimigos e fazel-os escravos. Com
-quanto sejam por naturesa timidos e medrosos, nos combates
-ganham calor, não abandonam o campo, e quando perdem
-as armas pelejam com unhas e dentes.</p>
-
-<p>Suas guerras são feitas, pela maior parte por surpresa e
-astucias; ao romper do dia assaltam seos inimigos dentro de
-suas aldeias: salvam-se de ordinario os que tem boas pernas,
-sendo aprisionados os velhos, as mulheres, e os meninos, e
-condusidos como escravos para as terras dos <i>Tupinambás</i>.
-Tambem sob o pretexto de negocio, vão elles pelas praias,
-onde moram seos inimigos, promettem-lhes muito, mostram-lhes
-suas mercadorias em <i>caramemos</i> ou <i>paneiros</i>, onde arranjam
-o que tem de melhor, e quando os veem entretidos,
-lançam-se sobre elles, pobres ingenuos, matam uns, aprisionam
-e captivam outros: por este motivo todas as nações do
-Brasil, desconfiam d’elles, julgam-nos traidores, e nem querem
-sua paz.</p>
-
-<p>São muito afoitos quando estão com os francezes, e querem
-que estes vão sempre adiante, e se acontece voltar um
-francez para traz, ninguem corre melhor e mais veloz do
-que elles. D’isto se conclue quanto valle a opinião que se
-forma de certas pessoas, que não passa de uma loucura e
-vaidade d’este mundo, acontecendo muitas vezes ficarem
-atraz os bons e virtuosos ou serem queridos e levados os
-viciosos e corrompidos.</p>
-
-<p>Indaguei e procurei saber muito o modo como se preparavam
-para a guerra, não me contentando só com as informações.</p>
-
-<p>Em primeiro lugar as mulheres e as suas filhas preparam
-a <i>farinha de munição</i>,<a id="Nanchor_13" href="#Note_13" class="fnanchor">[13]</a> e em abundancia, por saberem,
-naturalmente, que um soldado bem nutrido valle por dois,
-que a fome é a coisa mais perigosa n’um exercito, por transformar
-os mais valentes em covardes, e fracos, os quaes em
-vez de atacarem o inimigo, buscam meios de viver.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_21"></a>[21]</span></p>
-
-<p>É differente da usual esta farinha de munição, por ser
-mais bem cozida, e misturada com <i>cariman</i> para durar
-mais tempo, embora menos saborosa, porem mais san e
-fresca.</p>
-
-<p>Em segundo lugar empregam-se os homens em fazer canoas,
-ou concertar as que já possuem proprias para este fim, por
-que é necessario, que sejam compridas e largas para levarem
-muitas pessoas, suas armas e provisões, e comtudo são
-feitas de uma arvore, cortada bem perto da raiz, sem galhos
-e ramos, ficando apenas o tronco bem direito em toda
-a sua extensão, e então tiram-lhe a casca, e racham n’a
-dando-lhe meio pé de largura e profundidade: n’este caso
-lançam-lhe fogo n’essa fenda por meio de cavacos bem seccos,
-e vão queimando pouco a pouco o interior do tronco,
-raspam com uma chapa de aço, e assim vão fazendo até
-que o tronco esteja todo cavado, deixando apenas duas pollegadas
-d’espessura, e depois com alavancas dão-lhe fórma
-e largura: estas canoas conduzem as vezes 200 ou 300 pessoas<a id="Nanchor_14" href="#Note_14" class="fnanchor">[14]</a>
-com as suas competentes munições. São conduzidas
-por mancebos fortes e robustos, escolhidos de proposito, por
-meio de remos de pás de tres pés cada um, que cortam as
-agoas a pique e não de travessia.</p>
-
-<p>Em terceiro lugar preparam suas pennas, tanto para a
-cabeça, braços, e rins, como para as armas. Para a cabeça
-usam de uma peruca ou cabelleira de pennas de cores vermelhas,
-amarellas, verde-gaio e violetas, que prendem aos
-cabellos com uma especie de colla ou grude.</p>
-
-<p>Enfeitam a testa com grandes pennas de araras, e outros
-passaros similhantes, de cores variadas, e dispostas á maneira
-de mitra, que amarram atraz da cabeça.</p>
-
-<p>Nos braços atam braceletes tambem de pennas de diversas
-cores, tecidas com fio de algodão, similhante á mitra
-de que acabamos de fallar.</p>
-
-<p>Nos rins usam de uma roda de pennas da cauda de ema,<a id="Nanchor_15" href="#Note_15" class="fnanchor">[15]</a>
-presa por dois fios d’algodão, tinctos de vermelho, cruzando-se
-pelos hombros a maneira de suspensorios, de sorte que<span class="pagenum"><a id="Page_22"></a>[22]</span>
-ao vel-os emplumados, dir-se-hia que são emas, que só tem
-pennas nestas tres partes do corpo.</p>
-
-<p>Na verdade, quando os vejo assim lembro-me do que antigamente
-disse Job no cap. 39. <i>Penna struthionis similis
-est pennis Erodii et Accipitris</i>: a penna de ema é igual a da
-garça real e do gavião: esta passagem é claramente explicada
-por diversas licções ou versões dos Gregos e dos Romanos,
-que tinham por costume apresentarem os coroneis
-aos capitães e soldados pennas d’ema para collocarem em
-seos capacetes e morriões afim de animal-os á guerra.</p>
-
-<p>Quiz saber por intermedio do meu interprete porque traziam
-sobre os rins estas pennas de ema: responderam-me,
-que seos paes lhes deixaram este costume para ensinar-lhes
-como deviam proceder na guerra, imitando a ema, pois quando
-ella se sente mais forte ataca atrevidamente o seo perseguidor,
-e quando mais fraca abre suas azas, despede o vôo
-e arremessa com os pés areia e pedras sobre seos inimigos:
-assim devemos fazer, accrescentavam elles. Reconheci este
-costume da ema, vendo uma pequena, creada na aldeia de
-<i>Vsaap</i>, que era perseguida diariamente por todos os rapasinhos
-do lugar: quando eram só dois ou tres, ella os accommettia,
-e dando-lhes com o peito, atirava-os por terra, porem
-quando era maior o numero preferia fugir.</p>
-
-<p>Estou certo, que muitas pessoas se admirarão, não só do
-que acabo de dizer, mas tambem como é possivel buscarem
-estes selvagens, meios de governarem-se entre as praticas
-animaes: si se lembrarem porem que o conhecimento das
-hervas medicinaes foi ensinado aos homens pela cegonha,
-pela pomba; pelo viado e pelo cabrito; que a maneira de
-fazer a guerra e postar sentinellas foi colhida das aves chamadas
-grous; que a bondade do estado monarchico foi a
-principio observado entre as abelhas; que os architectos com
-as andorinhas aprenderam a fazer abobadas; que o proprio
-Jesus-Christo nos mandou observar o milhafre, o abutre, a
-aguia e o pardal, desapparecerá a admiração, e especialmente
-si acreditarem, que estes selvagens imitam com a maior<span class="pagenum"><a id="Page_23"></a>[23]</span>
-perfeição possivel os passaros e animaes do seo paiz, o que
-elles exaltam nos cantos que recitam em suas festas.</p>
-
-<p>Por que nos passaros de sua terra predominam as cores
-verde-gaio, vermelho e amarello elles gostam de pannos e
-vestidos destas tres cores.</p>
-
-<p>Por que as onças e os javalis são os animaes mais ferozes
-do mundo, elles arrancam os seos dentes e os trazem
-nos labios e orelhas afim de parecerem mais terriveis.</p>
-
-<p>As pennas das armas são postas nas extremidades dos
-arcos e das flexas.</p>
-
-<p>Assim preparados bebem publicamente o vinho de <i>muay</i>,
-e dizem adeos aos que ficam.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_VIII">CAPITULO VIII</h3>
-
-<p class="subhead">Partida dos francezes para o Amazonas em companhia
-dos selvagens.</p>
-
-</div>
-
-<p>Antes que entre na materia, convem narrar o que me
-disseram os selvagens relativamente á verdade da existencia
-das Amazonas, porque é questão de todos os dias se
-n’esses lugares ha Amazonas, e si são similhantes ás descriptas
-pelos historiadores?</p>
-
-<p>É voz geral e commum entre os selvagens, que ha Amazonas,
-e que habitam n’uma ilha muito grande, cercada pelo
-grande rio do <i>Maranhão</i>, ou das <i>Amazonas</i>, que desembocca
-no mar por um espaço de 50 legoas de largura: que
-essas Amazonas foram antigamente mulheres e filhas dos
-<i>Tupinambás</i>, que se retiraram da companhia e do dominio
-d’elles—seduzidas e guiadas por uma d’ellas: que internando-se<span class="pagenum"><a id="Page_24"></a>[24]</span>
-pelo paiz ao longo d’esta costa, descobriram á final
-uma linda ilha, ahi se recolheram, e em certas estações do
-anno acceitam por companheiros os homens das habitações
-mais proximas.</p>
-
-<p>Si párem um menino pertence ao pae, que d’elle cuida
-logo depois de desmamado: si porem é uma menina fica
-com a mãe em casa. Eis a voz geral e commum.</p>
-
-<p>N’um dia, quando os francezes andavam n’esta viagem,
-fui visitado por um grande Principal, que morava muito
-acima n’este rio. Depois dos seos cumprimentos, que descreverei
-mais adiante, me disse morar nas ultimas terras
-dos Tupinambás, e que só em duas luas podia voltar do rio
-<i>Maranhão</i> á sua aldeia, e então lhe respondi admirando-me
-do trabalho que tomou vindo de tão longe. Replicou-me
-«fui ao Pará vêr meos parentes, quando foram os francezes
-guerrear nossos inimigos, e ouvindo fallar de vós e dos outros
-Padres, quiz vel-os pessoalmente para dar noticias certas
-aos meos companheiros.»</p>
-
-<p>Por intermedio do meo interprete lhe perguntei si sua
-residencia era muito longe da das <i>Amazonas</i>, e elle respondeo-me
-«uma lua,» isto é, um mez para ir.</p>
-
-<p>Repliquei-lhe, si tinha estado entre ellas, e si as tinha
-visto, e respondeu-me «que nem uma coisa nem outra»,
-pois nas canoas de guerra, onde andou, se desviou da ilha
-onde ellas residiam.</p>
-
-<p>Esta palavra <i>Amasonas</i> lhes foi imposta pelos portuguezes
-e francezes<a id="Nanchor_16" href="#Note_16" class="fnanchor">[16]</a> pela similhança, que ellas tinham com as
-antigas <i>Amazonas</i> por causa de sua separação dos homens;
-porem não cortam a mama direita, e nem imitam a coragem
-d’essas afamadas guerreiras, mas vivem como as outras
-mulheres selvagens, ageis e dextras no manejo do arco, e
-nuas se defendem dos seos inimigos, como podem.</p>
-
-<p>No dia 8 de julho de 1613 do porto de Santa Maria do
-Maranhão, partio o Sr. Ravardiere ao som de muitos tiros
-de artilharia e mosquetaria, com que o saudou o Forte de
-S. Luiz segundo é costume entre os militares.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_25"></a>[25]</span></p>
-
-<p>Levou em sua companhia 40 soldados valentes, e 10 marinheiros,
-e por cautella tambem 20 dos principaes selvagens,
-tanto da Ilha do Maranhão e de Tapuytapera, como de Cumã.</p>
-
-<p>Seguio para Cumã<a id="Nanchor_17" href="#Note_17" class="fnanchor">[17]</a> onde o esperavam muitas canoas
-de indios, e provendo-se de farinha seguio para <i>Caieté</i> onde
-haviam 20 aldeias de <i>Tupinambás</i>, e ahi se demorando
-mais de um mez, reforçou a tripolação de sua embarcação
-com mais 60 escravos que lhe deram.</p>
-
-<p>No dia 17 de agosto partio de <i>Caieté</i> com muitos habitantes
-d’essa localidade, e dirigio-se para a aldeia <i>Meron</i>, onde
-em grandes canoas embarcou selvagens e francezes, e seguio
-para a embocadura do rio <i>Pará</i>: em viagem morreo
-afogado um francez por ter se virado a canoa em que elle
-ia, porem salvaram-se seos companheiros trepados no dorso
-da mesma.</p>
-
-<p>O rio Pará desde a sua emboccadura para cima é muito
-povoado de Tupinambás; chegando á ultima aldeia, situada
-á 60 legoas da sua emboccadura, todos os principaes d’esses
-lugares lhe pediram com instancia, que fosse guerrear os
-<i>Camarapins</i>,<a id="Nanchor_18" href="#Note_18" class="fnanchor">[18]</a> os quaes são muito ferozes, não querem
-paz, e por isso não poupam seos inimigos, pois quando os
-captivam, matam-nos e comem-nos: poucos dias antes tinham
-matado tres filhinhos d’um dos principaes dos Tupinambás
-d’aquellas regiões, e guardaram os ossos d’elles para mostrar
-aos paes afim de causar-lhes mais dó.</p>
-
-<p>Este exercito de francezes e de Tupinambás, em numero
-de 1200, sahio do <i>Pará</i>, entrou no rio de <i>Pacajares</i>, d’ahi
-dirigio-se ao de <i>Parisop</i>,<a id="Nanchor_19" href="#Note_19" class="fnanchor">[19]</a> onde encontraram <i>Vuacété</i> ou
-<i>Vuac-Uaçú</i>, que simpathisando com este movimento offereceo
-para reforçal-o 1200 dos seos companheiros.</p>
-
-<p>Acceitou-se apenas um pequeno numero de selvagens, que
-elle mesmo acompanhou, e os encaminhou ao lugar, onde
-residiam os inimigos, o qual era nas <i>Iuras</i>,<a id="Nanchor_20" href="#Note_20" class="fnanchor">[20]</a> que são casas
-feitas á imitação das «<i>Ponte aux changes</i>,» de S. Miguel de
-Paris, collocadas no cume de grossas arvores plantadas
-n’agoa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_26"></a>[26]</span></p>
-
-<p>Foram immediatamente cercados pelos nossos, que os saudaram
-com 1000 ou 1200 tiros de mosquetaria em tres horas:
-defenderam-se porem elles valorosamente de sorte que
-sobre os nossos cahiam as flexas como chuva ou saraiva,
-ferindo alguns francezes e Tupinambás, porem não matando
-um só.</p>
-
-<p>Sobre alguns dispararam-se tiros de morteiro, e de canhão,
-incendiaram-se-lhes tres <i>Iuras</i> morrendo n’essa occasião
-60 indios d’elles, o que somente servio para mais augmentar-lhes
-o desespero pois antes queriam morrer do que
-cahir nas mãos dos Tupinambás.</p>
-
-<p>Á vista d’isto resolveo-se abandonal-os com intenção de
-ver, si n’outra occasião, tratados com doçura podiam ser
-domesticados.</p>
-
-<p>Durante o medonho combate dos mosqueteiros, usaram os
-selvagens d’uma traça singular pendurando os seos mortos
-no parapeito de suas <i>Iuras</i>, e por meio de uma corda de
-algodão amarrada aos pés faziam com que elles se mexessem.</p>
-
-<p>Pelas fendas ou frestas viam os francezes estes corpos, e
-julgando-os vivos contra elles faziam fogo tres e quatro vezes
-a ponto de ficarem despedaçados, o que provocava os
-gritos e zombarias d’estes canalhas, e somente terminou-se
-esta triste scena quando uma mulher acenando com um pano
-branco á maneira dos parlamentares, fez com que cessasse o
-fogo, e então ella gritou «<i>Vuac, Vuac.</i>» Porque trouxeste
-estas boccas de fogo, (fallava dos francezes por causa da luz,
-que sahia das caçoletas de suas armas) para arruinar-nos, e
-destruir a terra?</p>
-
-<p>«Pensas contar-nos no numero dos teos escravos, eis os
-ossos dos teos amigos e dos teos alliados, cuja carne comi,
-e ainda espero comer a tua e a dos teos.»</p>
-
-<p>Pelos interpretes se lhe disse, que se entregasse afim de
-salvar o resto, que havia.</p>
-
-<p>Não, não, respondeo ella, nunca nos entregaremos aos
-<i>Tupinambás</i>, elles são traidores. Eis aqui os nossos principaes,<span class="pagenum"><a id="Page_27"></a>[27]</span>
-que morreram victimas d’essas boccas de fogo de
-gente, que nunca vimos: si fôr necessario morreremos todos,
-voluntariamente, como fizeram nossos grandes guerreiros.
-Nossa nação é grande, e ahi fica para vingar nossa
-morte.</p>
-
-<p>Um dos seos principaes veio n’uma canoa collocar-se á
-frente do nosso exercito, trazendo n’uma das mãos um feixe
-de flexas, e na outra o arco, disse: «Vinde, vinde ao combate,
-nada tememos, somos valentes, e eu só por mim atravessarei
-a muitos.»</p>
-
-<p>Chegando-se porem muito perto dos nossos soldados, um
-d’elles acertou-lhe com uma balla na testa, que o atirou n’agoa
-ja morto.</p>
-
-<p>Eram tão dextros no manejo das flexas, que atirando-as
-ao ar vinham cahir na galeota, onde estavam nossos soldados,
-e nas canoas dos indios, ferindo muitos.</p>
-
-<p>Por isto avaliareis a coragem d’estes selvagens, maus somente
-pela naturesa.</p>
-
-<p>O que seriam si fossem policiados, ou conduzidos e instruidos
-pela disciplina militar?</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_IX">CAPITULO IX</h3>
-
-<p class="subhead">Do que aconteceu na Ilha durante esta viagem, e
-principalmente das astucias de um selvagem
-chamado Capitão.</p>
-
-</div>
-
-<p>Em quanto uma parte dos nossos francezes, e muitos dos
-principaes selvagens estavam no Pará e em suas circumvisinhanças<span class="pagenum"><a id="Page_28"></a>[28]</span>
-passaram-se na Ilha muitas coisas notaveis, que
-contarei nos seguintes capitulos.</p>
-
-<p>Tratarei em primeiro lugar de um indio agradavel e astucioso
-intitulado Capitão,<a id="Nanchor_21" href="#Note_21" class="fnanchor">[21]</a> irmão da mãe de um principal,
-muito amigo dos francezes, chamado <i>Ianuaravaête</i>, que quer
-dizer <i>cão grande</i> ou <i>cão furioso</i>.</p>
-
-<p>Este Capitão astuciosamente aproximou-se de nós, dizendo
-por intermedio do interprete, que desejava ser christão,
-aprender a ler, e a escrever, fallar francez e fazer cortesias,
-gestos e ceremonias dos francezes.</p>
-
-<p>Acreditaram nas suas palavras, e alguns até cercaram-lhe
-de muitas attenções.</p>
-
-<p>Passou alguns mezes em nossa visinhança, e mostrando-se
-com desejos de ter vestidos como os nossos paramentos
-sagrados, com os quaes diziamos missa; por sua mulher nos
-mandou pedir, o que negamos.</p>
-
-<p>Não nos deixou por esta recusa, porem algum tempo depois,
-disfarçando muito bem seo descontentamento, ia á sua
-aldeia e voltava, até que poude espalhar pela <i>Ilha</i> o boato
-de que os francezes pretendiam escravisar os Tupinambás,
-e por tanto que era necessario fugir e abandonal-os.</p>
-
-<p>Alguns acreditaram, e por isso deixaram suas aldeias e
-foram para outras, onde podessem fugir com mais prestesa
-si assim fosse necessario.</p>
-
-<p>Julgou chegada a occasião de se fazer valer entre os seos:
-pois tinha extremo desejo de ser grande, e não podia chegar
-a sel-o, porque fogem as honras d’aquelles que as procuram
-com methodo, o que vemos em todas as condicções,
-e foi este o seo fim e intenção quando de nós se aproximou,
-servindo-se de nosso concurso para realisar seo desideratum,
-visto o ambicioso nada poupar, nem mesmo as coisas sagradas,
-para obter o que deseja.</p>
-
-<p>Principiou visitando as aldeias da Ilha, onde desconfiava
-ter descontentes, e ahi nas cabanas e na <i>casa-grande</i>, costumava
-batendo nas coxas grandes palmadas, harengar assim—<i>Ché,
-Ché, Ché, auaête. Ché, Ché, Ché. Pagy Uaçú, Ché,<span class="pagenum"><a id="Page_29"></a>[29]</span>
-Ché, Ché, Aiuka pais &amp;</i>: quer isto dizer, eu, eu, eu, sou furioso
-e valente. Eu, eu, eu, sou um grande feiticeiro. Fui
-eu, fui eu, fui eu que matei os Padres, etc. Fiz morrer o
-Padre, que está enterrado em <i>Yuiret</i>, onde mora o <i>Pay
-Uaçú</i>, o grande Padre a quem reenviei todos os males, que
-tem causado,<a id="Nanchor_22" href="#Note_22" class="fnanchor">[22]</a> e a quem matarei como o outro.</p>
-
-<p>Atormentarei os Francezes com molestias, e lhe darei tantos
-bixos nas pernas e nos pés, que elles se verão na necessidade
-de regressar a sua patria. Farei morrer suas plantações
-e assim morrerão de fome: já com elles morei, comi
-com elles muitas vezes, e vi o que praticavam quando serviam
-a <i>Tupan</i>, e reconheci que nada sabiam á vista de nós
-outros <i>Pagés</i>, feiticeiros.</p>
-
-<p>Á vista disto não devemos temel-os, saiamos, quero caminhar
-na frente, porque sou forte e valente.</p>
-
-<p>Perto de dois mezes gastou elle percorrendo assim a Ilha
-sem que de nada soubessemos, porque quando os negocios
-são secretos e de interesse publico, não são descobertos
-como acontece quando se trata de utilidade particular.</p>
-
-<p><i>Japy-açú</i> o reprehendeo e mui acremente por estes discursos,
-bem como <i>Piraiuua</i>; porem seo irmão o <i>Cão-grande</i>
-o denunciou, e alem d’isso pedio licença para ir em pessoa
-agarral-o e prendel-o.</p>
-
-<p>Chegaram promptamente estas noticias aos ouvidos de <i>Capitão</i>,
-que começou a tremer como si tivesse febre, e não
-dizia mais <i>Ché auo-êtê</i>, nem <i>Ché Pagi uaçú</i>, ou <i>Ché Aiuca
-Pay</i>, porem ao contrario diante dos seos, tremendo de medo,
-dizia: «<i>Ché assequegai seta, ypocku Tupinambo, ypocku
-decatugué: giriragoy Topinamho giriragoy seta atupaué:
-ypocku ianuara vaeté, ypocku decatugné giriragoy ianuara
-vaeté giriragoy seta atupaué</i>.»</p>
-
-<p>Ah! que medo tenho, oh! quanto são malvados os Tupinambás,
-perfeitos malvados:<a id="Nanchor_23" href="#Note_23" class="fnanchor">[23]</a> mentiram os <i>Tupinambás</i>,
-mentiram muito e muito: o <i>Cão grande</i>, é um malvado, malvado
-completo: mentio o <i>Cão-grande</i>, mentio tambem muito
-e muito, etc. Nada disto eu disse, não causei a morte do<span class="pagenum"><a id="Page_30"></a>[30]</span>
-Padre, não disse que queria fazer morrer o Padre-grande, e
-nem que lhe dei molestias.</p>
-
-<p>Tambem não disse, que quero atormentar os Francezes,
-e fazer seccar suas plantas, porque não sou e nem fui feiticeiro,
-e assim quero ser filho dos Padres, quero voltar e trabalhar
-para elles, e si os deixei foi para colher meo milho:
-quero ir ja onde está o Padre-Grande, levar-lhe o meo milho,
-o meo peixe, e a minha caça, e dar-lhe um dos meos
-escravos para apaziguar o chefe dos francezes afim delle não
-crer no <i>Cão grande</i>, que sempre me quer mal embora eu
-seja seo irmão: muitas vezes me quiz matar, e si o <i>Muruuichaue</i>,
-quer dizer o «Principal dos Francezes» lhe der uma
-vez ordem de prender-me, elle me matará sem duvida alguma.</p>
-
-<p>Por estas palavras conhecereis a indole d’estes selvagens,
-que não dizem a verdade quando necessitam defender-se.</p>
-
-<p>Este miseravel <i>Capitão</i>, fugio e escondeo-se nos mattos,
-e depois foi para uma aldeia chamada <i>Giroparieta</i>, quer
-dizer <i>aldeia de todos os diabos</i>, ao pé da praia, e d’ahi enviou-me
-um dos seos parentes pedir-me paz, e que obtivesse
-do Maioral o seu perdão.</p>
-
-<p>Mandou-me um seu escravo forte e robusto, bom pescador,
-e caçador: elle, sua mulher e mais pessoas da familia,
-me vieram ver, trazendo-me milho, peixe, e caça, e tanto
-elle como sua mulher muito fallaram para me persuadir de
-que eu não devia crer o que se dissesse d’elle, chamando
-os <i>Tupinambás</i> e o <i>Cão-grande</i>,—mentirosos e outros nomes
-feios, asseverando que era bom amigo, que desejava
-ser christão, e que si o Maioral, e eu tambem nos esquecessemos
-de tudo, elle e sua mulher regressariam contentes.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_31"></a>[31]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_X">CAPITULO X</h3>
-
-<p class="subhead">Da chegada de uma barca portugueza á Maranhão.</p>
-
-</div>
-
-<p>Quando menos pensavamos, achando-se a Ilha sem indios
-e sem francezes, por terem aquelles ido viajar pelo Amazonas,
-e estes pela segunda vez ao <i>Miary</i>, de que brevemente
-trataremos, por espaço de um mez fomos incommodados
-com mil noticias, ora de selvagens residentes perto
-do mar, ora de francezes moradores nos fortes, que diziam
-ter ouvido tiros de peça para o lado da costa da pequena
-<i>Ilha de Santa Anna</i>, e da de <i>Tabucuru</i>,<a id="Nanchor_24" href="#Note_24" class="fnanchor">[24]</a> e ter visto tres
-navios velejando ao redor da Ilha, eis que se apresentou
-uma barca, commandada por um capitão portuguez, chamado
-Martin Soares.</p>
-
-<p>Vinha da Ilha de Santa Anna, onde tinha desembarcado,
-tomado posse d’ella para o Rei Catholico, plantado uma
-grande Cruz, e levantado um marco com uma inscripção,
-de que logo fallaremos.</p>
-
-<p>Andou este navio por todo o porto de Caurs, saltando sua
-tripulação sempre que lhe approuve para vêr e escolher
-lugares proprios á plantação de canas e ao fabrico do assucar,
-especialmente no lugar chamado <i>Ianuarapin</i>, onde
-foi erguida uma Cruz com o fim de crear-se uma bella habitação
-de portuguezes, e construir-se muitos engenhos de
-assucar.</p>
-
-<p>Approximaram-se depois da enseiada de Caurs, uma das
-entradas da Ilha, onde depois da sua vinda, se edificaram
-dois bellos fortes afim de impedir o desembarque.</p>
-
-<p>Elles davam alguns tiros de peça para chamar os selvagens
-da Ilha: nenhum lá foi, menos o Principal de <i>Itaparis</i>,
-suspeito por traidor: perguntaram-lhe muita coisa, e ignora-se
-o que respondeo: deram-lhe machados e fouces, e depois
-veio para a Ilha.</p>
-
-<p>Os portuguezes traziam comsigo os indios <i>Canibaes</i>,<a id="Nanchor_25" href="#Note_25" class="fnanchor">[25]</a>
-moradores em <i>Mocuru</i>, e parentes de outros do mesmo<span class="pagenum"><a id="Page_32"></a>[32]</span>
-nome refugiados em Maranhão, os quaes elles mandaram á
-terra para tomar conhecimento, e informações, si na Ilha
-haviam muitos francezes, si estavam fortificados, e si tinham
-canhões.</p>
-
-<p>Felizmente dirigiram-se aos <i>Tupinambás</i>, que lhes disseram
-não haver na Ilha um só francez, um só forte, um
-só navio, barca, nem canhão, e com tal segurança principiaram
-a comer, e os Tupinambás mandaram immediatamente
-ao forte de S. Luiz contar tudo isto.</p>
-
-<p>Expedio-se logo uma barca, bem esquipada, com o fim
-de prender os portuguezes; porem aconteceo, que um traidor
-<i>Canibal</i>, inimigo rancoroso dos francezes, e a quem
-já se tinha muitas vezes perdoado castigos, em que havia
-incorrido, sabendo da noticia da vinda dos outros, foi procural-os
-furtivamente, e em segredo lhes disse—«que fazeis
-aqui, fugi depressa para o mar, regressae ao vosso navio,
-porque os francezes tem na Ilha um bello forte, canôas, navios,
-e canhões.»</p>
-
-<p>Mal ouviram isto, levantaram-se ás pressas, e disseram
-aos seos hospedes <i>Tupinambás</i>, que os divertiam—Ah!
-maus, enganaes vossos camaradas—e assim dizendo á passos
-apressados foram com o traidor para a sua canôa, e
-em breve chegaram a barca, ancorada n’uma enseiada
-um pouco adiante.</p>
-
-<p>Vendo isto os portuguezes, desconfiaram logo que os francezes
-estavam na Ilha, e que não deixariam de os perseguir,
-e apenas tinham levantado ancoras, descobriram a
-barca dos francezes, e estes a d’elles, apressaram-se a tomar
-a dianteira dos portuguezes, navegando á bolina, muito
-bem, quebrando os rolos d’agoa, pelos bancos d’area, pouco
-pensando em encalhar comtanto que conseguissem apresional-a
-do que lhes resultaria muita commodidade, visto
-conhecer-se a intenção dos portuguezes, descoberta pela bôa
-vontade dos...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_33"></a>[33]</span></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p class="noindent">... todas as Nações, e nós vemos por experiencia em varios
-lugares da França, d’onde veio o proverbio—<i>chorar de
-alegria</i>.</p>
-
-<p>Chegados ao Forte depois de descançarem como poderam,
-conservaram-se serios e reservados sem entregarem-se
-á vivacidade e impulso da curiosidade, e sendo a imperfeição
-unica dos francezes o fazer tudo ás pressas, buscando
-todos os meios de conseguir seos fins, foram elles ter com
-o Maioral, aos quaes assim fallaram:</p>
-
-<p>«Conforme as noticias que déstes a dois dos nossos, escravos
-entre os <i>Tupinambás</i>, para nos transmittirem fielmente
-a respeito da tua vinda e da dos Padres n’estes lugares
-afim de defender-nos dos <i>Peros</i>, e ensinar-nos a conhecer
-o verdadeiro Deos, dar-nos machados e outras ferramentas
-para facilitar a nossa vida, fallamos n’isto em muitas
-reuniões, e recordando-nos de que os francezes sempre
-nos fôram fieis, vivendo em paz comnosco, e acompanhando-nos
-á guerra, onde alguns morreram, todos os meos similhantes
-mostraram-se contentes e resolveram, de combinação
-com o nosso chefe, obedecer-te e em tudo fazer-te a
-vontade: eis porque me mandaram expressamente afim de
-pedir-te alguns francezes para acompanhar-nos e guardar-nos
-até voltarmos do lugar, por ti indicado.»</p>
-
-<p>Respondeo-se-lhe com palavras de amisade, e que se lhes
-daria os francezes.</p>
-
-<p>Sahindo d’ahi foram procurar-me em minha casa, onde
-tambem me exposeram a sua missão, de que fallarei quando
-for occasião.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_34"></a>[34]</span></p>
-
-<p>Pediram-me o meu pequeno interprete para ir com elles
-assegurar ao <i>Thion</i>, seo chefe, e a todos os seos companheiros,
-que eu os receberia como filhos de Deos, e que podiam
-vir afoitamente confiados na protecção dos Padres.</p>
-
-<p>Acompanhados por muitos francezes e pelo meo interprete,
-a quem dei algumas imagens como mimos, a <i>Thion</i>, elles
-embarcaram para o Mearim em busca de suas casas.</p>
-
-<p>Foram recebidos com muitos applausos, choros, lagrymas,
-e danças de dia e de noite.</p>
-
-<p>Prepararam vinhos em abundancia, presentearam os francezes
-com muitos porcos do matto e outras caças, e offereceram-lhes
-muitas raparigas das mais bonitas, o que regeitaram
-dizendo que Deos não queria, e que os Padres prohibiam,
-e se quizessem agradar os Padres, quando fossem
-para a Ilha, deviam levar Cruzes para expellir o <i>Giropary</i><a id="Nanchor_26" href="#Note_26" class="fnanchor">[26]</a>
-do meio d’elles: assim o disseram, assim o fizeram, plantando
-muitas Cruzes, em varios lugares na frente de suas
-casas, como ainda hoje se vê, e que ficaram como prova de
-habitação antiga, d’onde foram chamados para ir á outra
-terra, já illuminada pelo conhecimento de Deos, e enriquecida
-com os Sacrosantos Sacramentos da Igreja, como aconteceo
-outr’ora com a nação do povo de Israel, que sahio do
-Egypto em busca da terra da Promissão.</p>
-
-<p>Dispostas estas coisas, cada um cuidou em arrumar-se e
-fazer sua colheita, destruir as roças, e preparar bom farnél,
-pois deviam em pouco tempo deixar e abandonar este lugar:
-indagavam muito de varias coisas tendentes á sua salvação,
-e eram satisfeitas as suas perguntas.</p>
-
-<p>Aproveitaram-se os Francezes da occasião e facilidade, que
-lhes offerecia para conquistar a nação proxima de indios inimigos,
-da aldeia de Thion, e causava pena ouvil-os dizer,
-que haviam comido a muitos, porque eram mais fortes, tinham
-maior numero de aldeiamentos e de homens, e o Principal
-d’elles, chamado <i>Farinha-grossa</i>, valente na guerra,
-alegre, e muito propenso ao Christianismo, como fallaremos
-n’outro lugar, dizia com garbo, «si eu quizesse comer os<span class="pagenum"><a id="Page_35"></a>[35]</span>
-inimigos, não ficaria um só, porem conservei-os para satisfazer
-minha vontade, uns após outros, entreter meo apetite,
-e exercitar diariamente minha gente na guerra: e de que
-serviria matal-os todos de uma só vez quando não havia
-quem os comesse? Alem d’isto não tendo minha gente
-com quem bater-se, se desuniriam, e separar-se-iam como
-aconteceo á <i>Thion</i>.» Assim disse, porque antes estas duas
-nações formavam uma só, morando juntas, em lugares longinquos
-e distantes dos inimigos, contra os quaes podiam
-exercitar-se na guerra, e apezar de tudo atacaram-se reciprocamente.</p>
-
-<p>Tal proceder confirma a bella maxima do Estado—quem
-deseja conservar o interior em paz, deve empregar os sediciosos
-fóra d’ahi, especialmente contra os inimigos da fé,
-e fallando em sentido moral—quem quer salvár o coração
-de todo o vicio e imperfeição deve resguardal-o das impressões
-exteriores.</p>
-
-<p>Como condições de paz estabeleceo-se o esquecimento reciproco
-de todas as injurias, mortes e banquetes com os corpos
-dos inimigos: que devia revestir-se de paciencia quem
-mais perdesse: que não devia havêr exprobrações de parte
-á parte, e quando recolhidos a Ilha, morariam separados uns
-dos outros, e todos seriam fieis aos Francezes.</p>
-
-<p>Chegada a occasião foram enviadas muitas canoas e barcos,
-nas quaes vieram para a Ilha.</p>
-
-<p>Foram bem recebidos, o seo chefe <i>Thion</i> saudado com
-cinco tiros de peça, e duas descargas de mosquetaria, passando
-por meio de soldados francezes, dispostos conforme
-as ceremonias da guerra, assim entrou no Forte, onde o Sr.
-Pesieux e eu o acolhemos, e o condusimos á sua casa para
-descançar.</p>
-
-<p>Em lugar proprio contarei o que elle nos disse.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_36"></a>[36]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XIII">CAPITULO XIII</h3>
-
-<p class="subhead">Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary.</p>
-
-</div>
-
-<p>Conversando familiarmente com esta nação, descubri muitas
-de suas particularidades, e tambem outras, pertencentes
-tanto á elles como á todos os <i>Tupinambás</i>, ainda não escriptas
-por pessoa alguma, ou ao menos mencionadas sufficientemente,
-e como são bellas e raras tractarei d’ellas mais
-detidamente.</p>
-
-<p>Estes povos, antes de reunidos, eram chamados <i>Tabajares</i>
-pelos Tupinambás.<a id="Nanchor_27" href="#Note_27" class="fnanchor">[27]</a></p>
-
-<p>Este nome é appelativo e commum para designar toda a
-sorte de inimigos, e tanto assim é, que esta mesma nação
-de <i>Tabajares</i> chamava os <i>Tupinambás</i> da ilha <i>Tabajares</i>,
-<i>Topinambas</i>, embora pacificados e amigos. Os <i>Topinambas</i>
-os chamavam <i>Mearinenses</i>, quer dizer vindos do <i>Miary</i>,<a id="Nanchor_28" href="#Note_28" class="fnanchor">[28]</a>
-ou habitantes do <i>Miary</i>, assim como os Dinamarquezes, que
-vieram occupar a Neustria, Provincia antiga e dependente da
-Corôa de França, foram chamados Normandos, e sendo ella
-conservada em homenagem pelos Reis de França, perdeo
-seo antigo nome, e conservou o de Normandia.</p>
-
-<p>Os francezes os chamam <i>Pedras-verdes</i><a id="Nanchor_29" href="#Note_29" class="fnanchor">[29]</a> por causa de uma
-montanha, não muito longe de sua antiga habitação, onde
-se acham mui bellas e preciosas <i>pedras verdes</i>, dotadas de
-muitas propriedades, especialmente contra doenças do baço,
-e frouxo de sangue, e tambem me disseram haver ahi esmeraldas
-muito finas: ahi hiam os selvagens buscar estas
-pedras verdes tanto para collocal-as em seos labios, como
-para negocio com as nações visinhas.</p>
-
-<p>Os <i>Tupinambás</i> e os <i>Tapuias</i> dão muito apreço a estas
-pedras:<a id="Nanchor_30" href="#Note_30" class="fnanchor">[30]</a> vi por uma pedra para o beiço dar o valor de mais
-de vinte escudos de mercadorias um <i>Tupinambá</i> á um <i>Miarinense</i>,
-em nossa casa de São Francisco, no Maranhão.</p>
-
-<p>Um certo <i>Cabelo comprido</i> veio ter comnosco, ornado
-com seos enfeites mais lindos, que consistiam em dois chifres<span class="pagenum"><a id="Page_37"></a>[37]</span>
-de bodes, e quatro dentes de corça, muito cumpridos,
-em vez de brincos, de que muito se orgulhava por havel-os
-alcançado com industria, ao passo que era commum, especialmente
-entre as mulheres, trasel-os de madeira, redondos,
-muito toscos, e da grossura de dois dedos: calculae o
-buraco, que fazem nas orelhas: a maior porem de suas ostentações
-era uma destas pedras verdes, de comprimento,
-pelo menos, de quatro dedos, bem redonda, o que me agradou
-tanto á ponto de desejar trazel-a para a França. Perguntei-lhe
-o que queria que lhe désse por esta pedra: respondeo-me,
-«dê-me um Navio de França, carregado de machados,
-de foices, de vestidos, de espadas e de arcabuses.»</p>
-
-<p>Outro Tupinambá, já muito velho, trazia uma pedra destas
-em seo labio inferior: era oval e tão larga como o concavo
-da mão, e como a tivesse trasido por muito tempo ahi,
-sem nunca tiral-a, estava como que encaixilhada no seo
-queixo, ja tendo a carne se dobrado sobre os bordos da pedra
-e tomado a sua propria forma.</p>
-
-<p>Narrei tudo isto afim de demonstrar o valor destas pedras
-verdes.</p>
-
-<p>Estes <i>Miarinenses</i> são ordinariamente de boa estatura,
-bem conformados, e valentes na guerra: sendo bem guiados
-não recuam e nem fogem como os outros Tupinambás, explicando-se
-isto pelo facto de serem criados entre os combates,
-sempre travados contra os portuguezes, aos quaes
-atacaram outr’ora, escalaram suas fortalezas, tomaram suas
-bandeiras e nunca mais abandonaram sua primeira habitação,
-como nos contou <i>Thion</i>, seo Principal, quando veio do
-Forte de São Luiz, se a falta de canhões não obrigasse os
-francezes, que estavam com elles, a cederem á força e á superioridade
-do numero dos portuguezes.</p>
-
-<p>Causa gosto ver o zelo e o cuidado, com que trazem as
-espadas, que lhes dão os francezes, sempre a seo lado, sem
-nunca tiral-as senão quando se deitam, e quando trabalham<span class="pagenum"><a id="Page_38"></a>[38]</span>
-em suas roças, penduram-nas junto a si em algum ramo de
-arvore, fazendo-me lembrar a historia de Nehemias, na reparação
-dos muros de Jerusalem, quando os seos habitantes
-trasiam n’uma das mãos as armas e na outra os instrumentos
-do trabalho.</p>
-
-<p>Gostam muito de traser as espadas tão limpas como cristal,
-e para isso as esfregam com areia fina e azeite de mamona,
-amolam-nas repetidas vezes para estarem sempre cortantes,
-aguçam as pontas, quando estão gastas pela ferrugem
-muito commum na zona tórrida.</p>
-
-<p>Acostumam-se a bem manejal-as, fazendo marchas e contra-marchas,
-á maneira dos suissos quando esgrimam.</p>
-
-<p>Alem de serem corajosos e bons soldados, trabalham muito
-bem, e antes quero uma hora de tarefa d’elles do que um
-dia dos <i>Tupinambás</i>.</p>
-
-<p>Seos Principaes trabalham tanto quanto os seos subordinados
-de menor representação, porem o serviço está bem
-regulado, porque ao romper do dia levantam-se, almoçam,
-e depois vão elles mulher e filhos, conjunctamente, alegres
-risonhos, cantando trabalhar em suas roças, e quando o sol
-principia a chegar ao seo maior auge do calor, que é perto
-das dez horas, deixam a lida, vão comer e dormir, e duas
-horas depois do meio dia, quando o sol principia a declinar
-voltam outra vez ao trabalho, onde se conservam até ao anoitecer.</p>
-
-<p>Os Principaes, que ordinariamente tem mesa franca, para
-o que necessitam de roças maiores, preparam um <i>Cauin</i>
-geral, e como todos partilham d’elle, se incumbem de cuidar
-nas plantações, o que fazem com alegria n’uma ou
-duas manhãs, e depois vão beber na casa d’aquelle para
-quem trabalharam, bebendo cada um quando chega a sua
-vez, e quando o acham bom o gabam com todas as suas
-forças, compõem cantigas adequadas, que entoam ao redor
-da casa ao som do <i>Maracá</i>, pronunciando estas ou outras
-similhantes palavras: «oh! o vinho, o bom vinho, nunca<span class="pagenum"><a id="Page_39"></a>[39]</span>
-elle teve igual; oh! o vinho, o bom vinho, nós o beberemos
-á vontade, oh! o vinho, o bom vinho, n’elle não acharemos
-preguiça.»</p>
-
-<p>Chamam o vinho preguiçoso quando não tem força bastante
-para embriagal-os immediatamente, e que não lhes provocam
-o vomito por mais que bebam.</p>
-
-<p>Tomam as raparigas parte n’esta festa, onde se dança e
-canta-se á fartar, deitam-se os que se embriagam logo e raras
-vezes apparecem questões: são alegres e agradaveis
-n’essa occasião, especialmente as mulheres, que fazem mil
-macaquices á ponto de provocarem grande hilaridade, até a
-individuos mais tristes e melancolicos. Por mim confesso,
-que nunca em minha vida me ri tanto como quando estas
-mulheres altercavam umas com as outras, empunhando copos
-de madeira cheios de vinho, bebendo ora um, ora outro,
-fazendo muitas macaquices e tregeitos.</p>
-
-<p>Dão com muita facilidade o que mais presam, como sejam
-suas filhas e suas mulheres, porque observei quando se cuidou
-na segunda viagem do <i>Miary</i> que muitos <i>Tupinambás</i>
-tanto da <i>Ilha</i> do Maranhão, como de Tapuitapera, foram de
-proposito com os Francezes para pedirem filhas e mulheres
-dos Miarinenses, o que facilmente obtiveram, como muitas
-outras coisas, que só fazem estes povos, e por isso mesmo
-muito caros e preciosos entre os Tupinambás.</p>
-
-<p>Tambem tem por costume, que igualmente observei entre
-os Tupinambás, o trazerem assobios e flautas, feitos dos ossos
-das pernas, coxas e braços de seos inimigos, dos quaes
-arrancam sons fortes, agudos e claros, e ao som d’elles entoam
-seos cantos usuaes, especialmente quando estão nos
-<i>Cauins</i>, ou quando vão a guerra.</p>
-
-<p>As raparigas não se despresam em casar com velhos e
-grisalhos, como praticam as dos <i>Tupinambás</i>, e sim antes
-querem esposar um velho, especialmente quando é Principal,
-e admirei-me, como coisa desagradavel, o vêr muitas
-jovens, de quinze a deseseis annos, casadas com velhos, e o
-contrario praticam as raparigas dos <i>Tupinambás</i>, as quaes<span class="pagenum"><a id="Page_40"></a>[40]</span>
-passam a sua mocidade livremente, e depois acceitam um
-marido.</p>
-
-<p>O que acabei de dizer, só tem por fim o mostrar a cegueira
-das almas captivadas pelo espirito immundo, que não
-se descuida de perdel-as por meio de suas traças.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XIV">CAPITULO XIV</h3>
-
-<p class="subhead">Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos
-e como escravisam seos inimigos.</p>
-
-</div>
-
-<p>Estes povos, e não só elles, porem geralmente todos os
-Indios do Brazil, tem por costume cortar o corpo, e recortal-o
-tão lindamente, que os costureiros e alfaiates, embora
-habeis em sua profissão, buscam imital-os no córte dos seos
-vestidos.</p>
-
-<p>Este costume não é só privativo dos homens, e sim tambem
-das mulheres, com a differença unica de que os homens
-se cortam por todo o corpo, e as mulheres apenas
-desde o umbigo até as coxas, o que praticam por meio de
-um dente de <i>Cutia</i>, muito agudo, e uma especie de gomma
-queimada, reduzida á carvão, applicada sobre a chaga, e
-nunca se apagam os córtes.</p>
-
-<p>Digo de passagem e não para demorar-me, e sim apenas
-para descubrir a origem deste antigo costume, que me parece
-ser fundado pela naturesa, visto ser praticado, já ha
-muitos annos, por nações civilisadas, cujo conhecimento por
-falta de communicação não podia ter esta Nação barbara,
-e assim inventou-o e d’elle usou.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_41"></a>[41]</span></p>
-
-<p>Soube d’estes selvagens, que duas razões os levam a
-cortar assim seos corpos, uma significa o pesar e o sentimento,
-que tem pela morte de seos paes, assassinados pelos
-seos inimigos, e outra representa o protesto de vingança,
-que contra estes promettem elles, como valentes e fortes,
-parecendo quererem dizer por estes córtes dolorosos, que
-não pouparam nem seo sangue e nem sua vida para vingal-os,
-e na verdade quanto mais estigmatisados mais valentes
-e corajosos são reputados, no que tambem são imitados
-pelas mulheres de iguaes qualidades.</p>
-
-<p>Para mostrar a origem anterior d’este costume, não necessito
-remontar-me ás historias profanas, no que seria prolixo,
-e sim contentar-me-hei fazendo vêr em diversos trechos
-das escripturas sanctas quanto Deos reprova este uso
-barbaro e selvagem. No Levitico 19. <i>Super mortuo non incidetis
-carnem vestram, nec figuras aliquas, aut stigmatas
-facietis vobis.</i> Sobre a vossa carne não fareis incisões, figuras
-ou signaes. No cap. 21. <i>Necque in carnibus suis facient
-incisuras</i>: e não farão incisões na sua carne. No Deut. 14.
-<i>Non vos incidetis, necfacietis calvitiem super mortuo.</i> No
-morto não fareis incisões e nem cortareis os cabellos.</p>
-
-<p>Á respeito d’estas passagens interpretam os Padres, como
-fazem os gentios e os idolatras, e de maneira notavel este
-trecho—<i>não fareis incisões e nem cortareis os cabellos</i>, por
-que se vêem juntas estas duas coisas, que os indios sempre
-separam restrictamente: quanto á incisão, já sabeis o que
-ella significa, mas quanto ao arrancamento do cabello ficae
-sabendo, que apenas as mulheres e as moças sabem do captiveiro
-ou morte na guerra dos seos Paes ou maridos, cortam
-os cabellos, gritam e lamentam-se horrivelmente, excitando
-seos similhantes á vingança, á tomar as armas e a
-perseguir seos inimigos, como farei vêr quando narrar a
-<i>Historia dos Tremembeses</i>.</p>
-
-<p>Dos escravos, que me deram n’aquelle paiz para trabalharem
-á bem da minha subsistencia soube da maneira como
-faziam prisioneiros e escravos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_42"></a>[42]</span></p>
-
-<p>N’um certo dia reprehendi a preguiça d’um d’elles, fórte
-e valente, que me fora dado por um <i>Tupinambá</i>, e elle
-para minha advertencia me deo a seguinte resposta, embora
-branda (bem sei o que é necessario observar para com
-esta nação, que as reprehensões consideram como chagas e
-feridas, e aos castigos preferem a morte,<a id="Nanchor_31" href="#Note_31" class="fnanchor">[31]</a> e por esta forma
-desejam antes morrer com honra, segundo dizem, no
-meio das assembleias, como ja muito bem descreveo o Padre
-Claudio d’Abbeville): eil-a «na guerra não me pozeste a
-mão sobre a espadua,<a id="Nanchor_32" href="#Note_32" class="fnanchor">[32]</a> como fez aquelle que me deo a ti
-para agora me reprehenderes.» Nasceo-me logo a curiosidade
-de saber por intermedio do meu interprete o que elle
-queria dizer, e então fiquei sciente de ser uma ceremonia
-de guerra entre estas nações, quando um é prisioneiro do
-outro, bater-lhe este com a mão sobre a espadua e dizer-lhe—faço-te
-meo escravo—e desde então este infeliz captivo,
-por maior que seja entre os seos, se reconhece escravo
-e vencido, acompanha o vencedor, serve-o fielmente sem
-que seo senhor ande vigiando-o, tendo liberdade para andar
-por onde quiser, só fazendo o que fôr de sua vontade, e de
-ordinario casa-se com a filha ou a irmã do seo senhor, e
-assim vive até o dia em que deve ser morto e comido, o
-que não se pratica mais em <i>Maranhão</i>, <i>Tapuitapera</i> e em
-<i>Cumã</i>, e só raras vezes em <i>Caieté</i>.</p>
-
-<p>Estas nações me despertaram a lembrança do que li outr’ora
-nos livros sagrados e na Historia dos Romanos, quando
-procediam ao captiveiro dos prisioneiros, e para bem entender-se
-bom é notar-se, que foram as ceremonias externas
-inventadas para representarem com sinceridade as affeições
-do interior: por exemplo, dobrar o joelho, beijar a mão,
-descubrir a cabeça, quando saudamos alguem, que estimamos,
-são outros tantos testemunhos de apreço interno em
-que o temos: outr’ora as espadas tinham hierogliphos representando
-o mysterio occulto das acções internas e externas
-dos homens.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_43"></a>[43]</span></p>
-
-<p>Deixando de parte o que não serve ao meo fim contento-me
-em referir os dois seguintes casos:—o sceptro apoiado
-sobre a espadua significa o poder regio: a alabarda sobre a
-espadua declara o poder dos chefes de guerra: as maças de
-ouro e prata—o poder dos Senados e dos Pontifices: os machados
-com ramos de parreira enroscadas—o poder dos
-consulados e dos governadores das provincias. Observe-se o
-que foi escripto por Isaias cap. 9. <i>Factus est Principatus
-super humerum ejus</i>, seo dominio foi posto sobre sua espadua,
-e no cap. 22. <i>Dabo clavem domus Davis super humerum
-ejus</i>, e porei a chave da casa de David sobre sua
-espadua, quer dizer o—sceptro de David.</p>
-
-<p>Ao contrario, pôr uma canga, como trazem os bois ou cavallos
-quando no trabalho, ou então passar debaixo de uma
-lança, atravessada sobre duas outras fixadas perpendicularmente,
-ou receber sobre a espadua nua uma vergastada era
-o signal da escravidão, como muito bem o patenteiou Isaias,
-cap. 9. <i>Jugum oneris ejus et virgam humeris ejus, et sceptrum
-exactoris ejus superasti</i>: venceste o jugo do teu fardo
-e a vara de sua espada, o sceptro do seu exactor, fallando
-do captiveiro da Gentilidade, libertada pelo Salvador:
-assim tambem estes selvagens batendo sobre o hombro de
-seus prisioneiros, significavam serem elles seos captivos, e
-na verdade encontro uma bella profecia, toda litteral, narrando
-esta desgraça, á qual estão sujeitos estes pobres selvagens
-de Chanaan, por juizo impenetravel da sabedoria divina,
-e participação da antiga maldição de Channan, seo Pae:
-é em Isaias, cap. 47—<i>Tolle molam, et mole farinam: denuda
-turpitudinem tuam, discooperi humerum, revela
-crura, transit flumina</i>, toma a mó, e móe a farinha, descobre
-tua torpesa e tua espadua, mostra tuas coxas e passa o rio.</p>
-
-<p>Tomam estes selvagens a mó, e a farinha, não tendo ferramenta
-alguma para trabalhar, quer nos bosques quer nas
-roças, servem-se unicamente de machados de pedra para
-cortar arvores, fazer suas casas e canoas, aguçar paus, cultivar<span class="pagenum"><a id="Page_44"></a>[44]</span>
-a terra, semeiar, plantar raizes, e por unica recompensa
-de seos trabalhos só comem farinha, e raizes passadas
-por um rallador, feito de pedrinhas agudas, engastadas
-n’uma taboa da largura de meio pé.</p>
-
-<p>Cosinham a farinha n’uma grande panella de barro, ao
-fogo, como amplamente está escripto na Historia do R. Padre
-Claudio d’Abbeville.</p>
-
-<p>É tão patente sua torpesa, que suas mulheres e filhas,
-embora honestas, sentem repugnancia de se vestirem. Trazem
-o hombro descuberto, sujeito á este grande captiveiro,
-commum a todas as nações. Mostram suas coxas, e a falta
-de castidade está em uso entre elles sem reprovação, menos
-o adulterio.</p>
-
-<p>Passam rios buscando ilhas incognitas atraz de segurança.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XV">CAPITULO XV</h3>
-
-<p class="subhead">Leis do Captiveiro.</p>
-
-</div>
-
-<p>Já que estamos fallando dos escravos bom é tratar das
-leis do captiveiro, isto é, das que devem guardar os escravos.</p>
-
-<p>Primeiramente não devem tocar na mulher do seo senhor,
-sob pena de serem flexados logo, e a mulher morta ou pelo
-menos bem açoitada, e entregue a seos Paes, resultando-lhe
-muita vergonha de ser companheira de um dos seos servos.</p>
-
-<p>Notae, que as raparigas não são despresadas por se entregarem
-a quem muito bem lhes parece em quanto solteiras,
-logo porem que recebem um marido, si se entregam a<span class="pagenum"><a id="Page_45"></a>[45]</span>
-outro, alem da injuria de serem chamadas <i>Patakeres</i>, quer
-dizer, prostitutas, tem seos maridos o poder de matal-as,
-açoital-as e repudial-as.</p>
-
-<p>É bem verdade terem os francezes abrandado esta lei tão
-rude, não dando permissão aos maridos de matar tanto o escravo
-como a mulher adultera, ordenando que fossem conduzidos
-ao Forte de São Luiz para vêr punil-as, ou elle mesmo
-infringir-lhes o castigo, como vi acontecer, entre outros factos,
-no adulterio commettido entre a mulher do Principal <i>Uyrapyran</i>,
-e um escravo, bonito rapaz.</p>
-
-<p>Tinha o referido escravo muito amor a esta mulher, e depois
-de ter cogitado todos os meios de gosal-a, vio-a ir um
-dia á fonte, muito longe da aldeia, foi logo atraz expôr-lhe
-sua vontade, e depois agarrando-a com violencia entranhou-se
-com ella n’um bosque, onde saciou seos desejos, e como
-ella era de boa familia não quiz gritar para não ser diffamada,
-e ainda em cima pedio segredo ao escravo.</p>
-
-<p>Enfadado o marido com a grande demora da mulher, e
-desconfiando de alguma cousa por ser bonita e agradavel,
-foi á fonte, onde encontrou junto a borda o pote de sua
-mulher cheio d’agoa, e lançando a vista ao redor, como
-costumam a praticar os homens ciumentos, vio sahir sua mulher
-de um lado do bosque e o escravo de outro. Agarrou
-o escravo pelo colleirinho, e confiou-o à guarda dos seos
-amigos, e levou sua mulher para casa de seos paes, que se
-comprometteram a entregal-a quando pedisse.</p>
-
-<p>Na manhã seguinte, em companhia dos seos, levou este
-escravo á minha casa, expondo-me o facto como acima referi,
-acrescentando que si não fosse o respeito ás recommendações
-dos Padres e dos Francezes, elle teria matado o
-escravo, perdoando comtudo a sua mulher visto ter sido
-forçada, a qual ja havia entregado a seos parentes com intenção
-de repudial-a.</p>
-
-<p>Louvei a sua obediencia e respeito: era na verdade um
-homem bem feito, de bonito rosto, e bom corpo, fallando<span class="pagenum"><a id="Page_46"></a>[46]</span>
-bem e em bons termos, mostrando tanto nas maneiras como
-no corpo, generosidade e nobresa de coragem.</p>
-
-<p>Mandei-o á presença do senhor de Pezieux, loco-tenente
-de Sua Magestade na ausencia do Sr. de la Ravardiere,
-que tendo ouvido a queixa, mandou carregar de ferros os
-pés do escravo, promettendo ao Principal fazer a justiça,
-que elle quizesse.</p>
-
-<p>Replicou-lhe o Principal que desejava vel-o morto como
-era costume: respondeo o senhor de Pezieux, que Deos tinha
-ordenado em sua lei, que deviam morrer tanto o homem
-como a mulher adultera.</p>
-
-<p>Sim, disse o Principal, porem ella foi constrangida.</p>
-
-<p>«Não, respondeo o senhor de Pezieux, a mulher não pode
-ser forçada por um só homem, ou pelo menos deve gritar,
-e não pedir segredo ao selvagem, o que é tacito consentimento:»
-dizia tudo isto para salvar o escravo da morte, por
-que muito bem sabia não concordar o Principal na morte
-de sua mulher visto os muitos parentes que ella tinha.</p>
-
-<p>Conseguio-o logo, porque elle pedio ao Sr. de Pezieux,
-que não matasse o escravo, mas sim que o prendesse na
-golilha, e que lhe fosse permittido açoital-o á vontade.</p>
-
-<p>«Sim, disse-lhe o Sr. de Pezieux, com tanto que dês quatro
-açoites com cordas em tua mulher, diante de todas as
-mulheres, que se acharem no Forte, e ao som da corneta.»</p>
-
-<p>Acordes n’isto, na manhã seguinte, foi a mulher conduzida
-e confrontada com o escravo, reconheceo-se que o facto
-deo-se como ja referi, foram ambos conduzidos á praça publica
-do Forte, onde se fincou o esteio e a golilha: ahi o
-marido representou o papel de verdugo, escolheo tres ou
-quatro cordas bem duras, que enrolou em seo braço, e voltou
-em sua mão direita, e com ellas açoitou sua mulher por
-quatro vezes, deixando-lhes vergões bem grossos e cumpridos,
-impressos sobre seos rins, ventre e costas, não sem
-derramar muitas lagrimas, que lhe corriam ao longo das<span class="pagenum"><a id="Page_47"></a>[47]</span>
-faces, e sem exhalar profundos suspiros: sua mulher tambem
-gemia, com a vista baixa, envergonhada de assim se vêr
-rodeiada por tantas mulheres, que, como ella, tambem choravam
-tanto por compaixão, como apprehensivas de que para
-o futuro não lhes acontecesse o mesmo.</p>
-
-<p>Os homens ao contrario mostravam-se alegres diante de
-tão boa justiça, e gracejando diziam á suas mulheres—<i>ah!
-se te pilho!</i></p>
-
-<p>Durante todo o dia estiveram tristes as mulheres dos Tabajares.</p>
-
-<p>Depois de haver açoitado sua mulher, este bom marido
-lhe disse «eu não tinha desejos de castigar-te, fiz o que
-pude perante o Maioral dos Francezes para salvar-te, porem
-vae, enchuga tuas lagrimas, e tornar-te hei a tomar por mulher,
-e te levarei para casa quando acabar de castigar este
-escravo.»</p>
-
-<p>Sabe Deos, se o pesar que elle teve pelos açoites, que
-deo a mulher, melhorou a sorte do pobre escravo, porque
-pondo-o na praça ou no largo, fez um circulo do tamanho
-do seo chicote, separado todos, um por um.</p>
-
-<p>Tinha o escravo ferros nos pés, estava em pé, nu como
-a palma da mão, e assim soffreu o castigo, sem dizer uma
-palavra e sem mecher-se: por tres vezes cansado e sem
-poder respirar descançou, depois de fortalecido recommeçou
-e de tal maneira, que não poupou uma só parte do
-corpo.</p>
-
-<p>Começou pelos pés, seguio pelas pernas, coxas, partes
-naturaes, rins, ventre, espaduas, peito, e acabou pelo rosto
-e testa.</p>
-
-<p>Esteve muito tempo doente por este castigo, sempre com
-ferros nos pés, conforme pedio o Principal, porem passado
-algum tempo consentio que lhos tirassem, á pedido do senhor
-de Pezieux, que desejava satisfazer os desejos dos seos
-Principaes para melhor obrigal-os a serem fieis aos Francezes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_48"></a>[48]</span></p>
-
-<p>Acabado isto, tomou conta da mulher, que já não chorava,
-e sim principiava a rir-se, e assim voltaram para casa
-como se nada tivesse acontecido.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XVI">CAPITULO XVI</h3>
-
-<p class="subhead">Outras leis para os escravos.</p>
-
-</div>
-
-<p>Consistem as outras leis, em não poderem os escravos, de
-ambos os sexos, casarem-se senão á vontade dos seos senhores,
-porque tanto uns como outros moram juntos e seos
-descendentes pertencem ao mesmo domno.</p>
-
-<p>Os selvagens <i>Tupinambás</i> tomam ordinariamente para
-mulher as raparigas captivas, e dão suas proprias filhas ou
-irmans aos mancebos escravos afim de cuidarem no arranjo
-da casa e da cozinha.</p>
-
-<p>Praticam o contrario os francezes, porque compram homens
-e mulheres escravas para casal-os, ficando a mulher
-com o dever de cuidar no arranjo da casa, e o marido com
-o de ir pescar e caçar.</p>
-
-<p>Se acontece um francez comprar alguma rapariga escrava,
-mostra-a a algum joven <i>Tupinambá</i>, que morre de amores
-pelas que são bellas, depois promette-lhe que será seo genro
-pois ama sua escrava como si fosse sua propria filha para
-assim vir o <i>Tupinambá</i> morar com elle, casar com a rapariga,
-e por esta forma ter por uma escrava dois escravos, a
-quem trata por filha e genro, e elles o chamam seo <i>Cheru</i>,
-isto é, seo Pae.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_49"></a>[49]</span></p>
-
-<p>As raparigas escravas, que não se casão, dispoem de si
-como querem, si por ventura seos senhores não lhe prohibem
-relações com certos e determinados individuos, porque
-então em caso contrario soffrem muito; mas quando seos
-senhores lhe impoem completa abstinencia, ellas lhe dizem
-bem claramente, que então as tomem por mulheres visto
-não querer, que alguem as ame.</p>
-
-<p>Devem os escravos trazer fielmente o resultado da sua
-pescaria e caçada, e depôl-o aos pés do seo senhor ou
-senhora, para elles escolherem e depois lhes darem o
-resto.</p>
-
-<p>Não podem trabalhar para outrem sem consentimento do
-seo senhor, e nem dar seo rebanho, que lhes deo o senhor,
-sem lhe dizerem antes uma palavra, pois de outra forma
-pode ser tomado como coisa, que não pertence legitimamente
-aos escravos.</p>
-
-<p>Não devem passar atravez da parede das casas, somente
-feita de <i>pindoba</i>, ou de ramos de palmeira, ao contrario
-são criminosos de morte, porque devem passar pela porta,
-commum, ou atravez da parede de palmas.</p>
-
-<p>Não devem fugir, porque quando são agarrados, está tudo
-perdido, visto que são comidos: n’este caso já não pertencem
-ao senhor, e sim a todos, e para este fim quando se
-prende um escravo fugido, sahem da aldeia as velhas, vão
-ao seu encontro, e gritando dizem «é nosso, entregae-nos,
-queremos comel-o», e batendo com a mão na bocca, gritam
-uns para os outros com certa expressão «nós o comeremos,
-nós o comeremos, é nosso.»</p>
-
-<p>Vou dar-lhes um exemplo:</p>
-
-<p>Um guerreiro Principal da ilha do Maranhão, chamado
-<i>Ybuira Pointan</i>,<a id="Nanchor_33" href="#Note_33" class="fnanchor">[33]</a> quer dizer, <i>Pau brasil</i>, ao regressar da
-guerra trouxe comsigo alguns escravos, dos quaes um procurou
-salvar-se pela fuga, porem sendo agarrado, foram as
-velhas ao seu encontro batendo na bocca com as mãos,
-e dizendo «é nosso, entregae-o, é necessario que seja comido».</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_50"></a>[50]</span></p>
-
-<p>Houve muita difficuldade em salval-o apezar da prohibição
-de não se comerem os escravos, e si não se empregassem
-ameaças, elle seria devorado pelas velhas.</p>
-
-<p>Si acontece morrerem de molestias estes escravos, sendo
-assim privados do leito de honra, isto é, de serem mortos
-e comidos publicamente, um pouco antes do seo fallecimento
-levam-nos para o matto, lá partem-lhe a cabeça, espalham o
-cerebro, e deixam o corpo insepulto e entregue a certas
-aves grandes, similhantes aos nossos corvos, que comem
-os enforcados e os rodados.</p>
-
-<p>Quando são achados mortos em seos leitos, atiram-nos em
-terra, arrastam-nos pelos pés até o matto, onde lhes racham
-a cabeça, como acima disse, o que ja não se pratica na Ilha
-e nem em suas circumvisinhanças, senão raras vezes e occultamente.</p>
-
-<p>Gozam tambem de muitos privilegios, que os levam a residir
-voluntariamente entre os <i>Tupinambás</i>, sem desejar fugir,
-considerando seos senhores e senhoras como paes e
-mães, pela docilidade com que os tratam cumprindo assim
-seo dever; não ralham com elles e nem os offendem, não
-os espancam, desculpam-nos em muita coisa contanto que
-não offenda os seos costumes: são muito compadecidos, e
-chegam a chorar quando os francezes tratam os seos com
-aspereza, e si outros se lastimam do procedimento dos francezes
-prestam-lhe todo o credito ao que dizem.</p>
-
-<p>Quando fogem dos francezes elles os occultam, levam-lhes
-o sustento nos mattos, vão vesital-os, as raparigas vão
-dormir com elles, contam-lhes o que se passa, aconselham-nos
-sobre o que devem fazer, e de tal sorte que é muito
-difficil agarral-os, embora vão atraz d’elles uns vinte homens,
-e isto não fazem para com os escravos dos seos similhantes.</p>
-
-<p>Vem a proposito o contar que um dia perguntei a um dos
-escravos, que tinha em meu poder, si não estava satisfeito
-vivendo commigo, não só porque lhe ensinei a temer a Deos,
-como tambem pela certesa, que tinha, de não ser comido,<span class="pagenum"><a id="Page_51"></a>[51]</span>
-e que, quando christão, seria livre, morando com os padres
-como si fosse filho d’elles.</p>
-
-<p>Pelo interprete respondeo-me julgar-se feliz por haver
-cahido nas mãos dos Padres, tanto por conhecer á Deos
-como por viver com elles, e si fosse para o poder de outro
-chefe, não estaria socegado e nem descançado de não
-ser comido, porque, acrescentava elle, quando se morre,
-nada mais se sente, quer elles comam ou não, e o mesmo
-para o morto: amofinar-me-ia de morrer na minha cama,
-e não á maneira dos grandes no meio das danças e dos
-<i>Cauins</i>, afim de vingar-me antes de morrer, dos que iriam
-comer-me.</p>
-
-<p>Quando penso, que sou filho de um dos grandes do meo
-paiz, que meo pae é homem moderado, que todos o cercavam
-para escutal-o quando elle ia á <i>casa grande</i>,<a id="Nanchor_34" href="#Note_34" class="fnanchor">[34]</a> vendo-me
-agora escravo, sem pintura no corpo, sem cocar, sem
-enfeites nos braços, e nem nos pulsos, como acontece aos
-filhos dos grandes das nossas terras, antes queria ser morto
-especialmente quando me lembro, que fui agarrado ainda
-menino, com minha mãe, lá na minha terra, e trazido para
-<i>Comã</i>, onde vi matar e comer minha mãe, com quem desejei
-morrer, porque ella me amava muito, e por isso não
-posso senão lamentar minha vida.</p>
-
-<p>Proferindo estas palavras, chorou muito, a ponto de pungir-me
-o coração, visto saber por experiencia quanto são
-amorosos estes selvagens, para com seos paes, e estes para
-com elles.</p>
-
-<p>Accrescentou, que depois de ter sido sua mãe morta e
-comida, seo senhor e sua senhora o adoptaram por filho, e
-elle os tratava por pae e mãe: quando fallava d’elles era
-com affeição inexplicavel, embora tivessem comido sua propria
-mãe, e ja fosse resolvido o comel-o tambem pouco tempo
-antes de chegarmos á Ilha.</p>
-
-<p>Seo senhor e senhora tomavam o trabalho de vir vel-o
-em nossa casa, embora fosse necessario vencer a distancia
-de 50 legoas, desde sua aldeia até aqui.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_52"></a>[52]</span></p>
-
-<p>Gozam ainda de muitos outros privilegios, porque lhes é
-permittido o namorar as raparigas livres, sem risco algum,
-olhar mesmo para as raparigas de seo senhor e senhora, si
-quizerem, e n’isto não ha muita recusa, comtudo ellas buscam
-os mattos e em certas cabanazinhas os esperam em hora
-marcada, para evitar pequeno remoque que costumam a
-fazer das moças de boa raça, quando se entregam a escravos,
-o que serve antes de riso do que de deshonra.</p>
-
-<p>Vão livremente aos <i>Cauins</i>, e dansas publicas, enfeitando
-de mil maneiras o seo corpo quer com pinturas, quer com
-pennas, quando podem, pois estas são muito caras.</p>
-
-<p>Vivem com os filhos de seos senhores, como si fossem
-irmãos, e em breve tempo gozam muita liberdade no seo
-captiveiro.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XVII">CAPITULO XVII</h3>
-
-<p class="subhead">Quanto são misericordiosos os selvagens para com os
-criminosos por acaso e sem malicia.</p>
-
-</div>
-
-<p>Entre as perfeições naturaes que a experiencia me tem
-mostrado n’estes selvagens, nota-se uma justa misericordia,
-isto é, desejam a punição dos maus, quando por maldade
-praticam algum crime, e ao contrario são compadecidos e
-pedem misericordia para aquelles, que por acaso ou inadvertidamente
-incorrem n’alguma falta, e isto vou provar á vista
-do seguinte exemplo.</p>
-
-<p><i>Maioba</i> é uma grande aldeia, distante tres leguas do Forte
-de São Luiz: o seo Principal é um bom homem, amado pelos
-francezes, e veio fazer a nossa casa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_53"></a>[53]</span></p>
-
-<p>Tinha dois filhos fortes e robustos, ambos casados, e duas
-filhas, uma casada e outra solteira, bonitas e engraçadas,
-muito amadas por seo Pae e Mãe, de tal forma que eram
-perdidos por ellas e o assumpto predilecto de suas conversações,
-e guardavam a solteira para um francez quando voltassem
-os navios, diziam elles, e que os francezes se resolvessem
-a casar com indias.</p>
-
-<p>Fundava seos castellos e sua fortuna sobre um fragil barco,
-similhante a aquella boa mulher, que tendo em suas
-mãos o primeiro ovo de sua gallinha, sua imaginação ia levantando-a
-até um principado, que d’ahi ha pouco cahio no
-chão e inutilisou-se, e com elle foi-se toda a ventura esperada
-por ella.</p>
-
-<p>Assim este homem não tendo outra consolação senão em
-sua filha, poucos dias depois, por uma noite tão triste, <i>Geropary</i>
-torceo o collo d’esta plantinha, virando-lhe a bocca
-para as costas: coisa terrivel! estava negra como o diabo,
-os olhos esbugalhados e revirados, a bocca aberta, a lingua
-sahida para fóra, os labios superiores e inferiores revirados
-á deixar vêr os dentes e as gengivas, o que poderia pela
-tristesa e medo, que causava, matar a seos parentes.</p>
-
-<p>Nunca pude saber qual foi a causa d’isto, e apenas me
-disseram que era infiel, e talvez vivesse deshonestamente,
-porem nunca deo escandalo.</p>
-
-<p>Embora seo pae tivesse vendido sua filha mais velha á
-algum francez para d’ella abusar, depois a tirou da companhia
-do seo marido.</p>
-
-<p>Dizem os que se acham em peccado mortal, que elles estão
-sob o dominio e posse do diabo, e o mesmo lhes aconteceria,
-si Deos quizesse.</p>
-
-<p>Não foi só esta desgraça, porque uma arrasta outra comsigo,
-e a primeira é embaixadora da segunda.</p>
-
-<p>Pouco tempo depois, este Principal fez uma festa de vinho
-publicamente, e para isto convidou não só os habitantes
-de sua aldeia, como tambem os da visinhança.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_54"></a>[54]</span></p>
-
-<p>Quando todos dançavam e cantavam, quando o vinho fervia
-e muitos já se achavam embriagados, seos dois filhos,
-de que ja fallei, travaram-se de razões, e o autor da questão
-querendo agarrar seo irmão, por um acaso ferio-lhe no
-ventre com um punhado de flechas, que este trasia pelo que
-cahio logo banhado em sangue. Tiraram-se as flexas com
-muita dor, como bem se calcula, o soffrimento fez desapparecer
-o vinho, a festa ficou perturbada, as cantorias se
-mudaram em gritos e lamentos, o vinho em lagrimas,
-as dansas em espancamentos proprios e arrancamento de
-cabellos.</p>
-
-<p>O infeliz pae, expectador de similhante tragedia, assentado
-n’uma rede d’algodão, teve um desmaio, e cahio para
-traz.</p>
-
-<p>Voltando a si, disse aos que o rodeiavam, que de uma
-só vez perdeo seos dois filhos, não fallando na que tinha
-perdido antes, um ferido por sua culpa, e o outro que os
-francezes mandariam matar; todos se condoeram d’elle.</p>
-
-<p>Resolveram todos os Principaes da Ilha a virem ao Forte
-de São Luiz interceder a favor do vivo.</p>
-
-<p>Em quanto se passavam estes factos, o ferido contra sua
-vontade, aproximava-se da morte, chamou seo irmão, e lhe
-disse: sou um grande criminoso, pois de uma só vez matei
-muitas pessoas, isto é, a mim, a meo pae, que morrerá de
-tristesa e a ti porque os francezes te mandarão matar: elles
-são justiceiros em punir os maus: mas sabes tu o que ha?
-toma meo conselho, e faze o que te digo.</p>
-
-<p>Os Padres que vieram com os francezes, são compadecidos,
-e nos amam e aos nossos filhos, e pelos seos interpretes
-soube que aqui vieram para salvar-nos.</p>
-
-<p>Já ouvi dizer, n’uma reunião a um dos nossos similhantes,
-que os antecessores dos Padres baptisaram antigamente
-em quanto com elles estiveram, e que vio os <i>Canibaes</i> se
-abrigarem em suas Igrejas, quando faziam alguma maldade,
-por terem certesa de que ahi ninguem lhes faria mal.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_55"></a>[55]</span></p>
-
-<p>Faze o mesmo, quando anoitecer vae com meo Pae procurar
-o Padre na sua cabana de <i>Yviret</i>, pede para te pôr
-na casa de Deos, que é defronte da residencia d’elle, e ahi
-fica, até que meo Pae, conjuntamente com os Principaes,
-intercedam por ti, e consigam o teo perdão do Maioral dos
-francezes.</p>
-
-<p>Para mais facilidade, tu sabes que os Francezes necessitam
-de canoas e de escravos, offereça pois meo Pae ao chefe
-tua canoa e teos escravos, para que não morras.</p>
-
-<p>Tudo isto foi cumprido pontualmente, porque este velho,
-Pae dos dois rapazes, foi procurar-me, rogou-me e instou-me
-para que recebesse seo filho na casa de Deos, e intercedesse
-para ser perdoado pelo Maioral dos Francezes, buscando
-convencer-me, entre outras, com estas razões.</p>
-
-<p>«Vós outros Padres fazeis regorgitar de povo as nossas <i>Casas
-Grandes</i>, quando quereis, desejando vêr ahi grandes e
-pequenos, afim de ouvirem a causa, que vos obrigou a deixar
-vossas casas e terras, muito melhores do que estas,
-para nos ensinarem a naturesa de Deos, que é, como dizeis,
-bom, misericordioso, amante da vida e inimigo da morte, e
-por isso não quer que ninguem morra assim como elle morreo
-n’um madeiro para fazer viver os mortos.</p>
-
-<p>«Dizeis ainda, que nossos filhos não são mais nossos, o sim
-vossos, que Deos vol-os deo, e que d’elles tomaes cuidados
-até a morte: mostrae-me hoje, que vossa palavra é verdadeira.</p>
-
-<p>«Estou velho, perdi todos os meos filhos, só me resta um,
-que fez esta casa, que vos estima muito, e a todos os Padres
-e quer ser christão.</p>
-
-<p>«Matou seo irmão sem querer, ou melhor, foi seo irmão
-quem se matou a si proprio com as flechas, que
-trazia. Rogo-te o recebas na casa de Deos, e vem commigo
-fallar ao chefe, porque elle nada te recusará visto
-estimar-te muito.</p>
-
-<p>«Quiz trazer commigo o filho, a favor de quem intercedo
-porem elle teme muito a ira dos Francezes: actualmente<span class="pagenum"><a id="Page_56"></a>[56]</span>
-anda errante e fugitivo pelos mattos, como si fosse um javaly:
-quando ouve o ramalhar das arvores suspeita ser os
-Franceses, que armados andam em busca d’elle para prendel-o
-e conduzi-lo a <i>Yviret</i>, onde será amarrado á bocca de
-uma peça.»</p>
-
-<p>Respondi pelo meo interprete, asseverando-lhe que empregaria
-os meos esforços, que tinha esperança de obter o
-que elle desejava porque o chefe me estimava; mas que era
-bom, que elle fosse pessoalmente fazer seo pedido, e que eu
-iria depois delle.</p>
-
-<p>Foi immediatamente ao Forte em companhia de um dos
-principaes interpretes da Colonia, chamado <i>Migan</i>,<a id="Nanchor_35" href="#Note_35" class="fnanchor">[35]</a> e
-expôz suas razões e rogos ao senhor de Pezieux, por esta
-fôrma.</p>
-
-<p>«Sou um Pae muito infeliz, e acabarei minha velhice como
-os javalys, vivendo só, comendo raizes amargas e cruas, se
-de mim não tiveres piedade.</p>
-
-<p>«A misericordia muito convem aos grandes, e maiores
-não podem ser, quando usam d’ella e de clemencia.</p>
-
-<p>«É teu rei o maior do Mundo, como nos contam os nossos,
-que estiveram em França.</p>
-
-<p>«Elle para aqui te mandou como um dos Principaes da
-sua côrte afim de nos livrares do captiveiro dos <i>Peros</i>: ora
-como és grande, e misericordioso, usa de misericordia para
-com os infelizes, que são desgraçados por acaso e não por
-malicia.</p>
-
-<p>«Bem conheço, que é preciso ser justo, e indagar o motivo
-para se fazer a escolha, e proceder-se a vingança sobre
-os maus, o que mui restrictamente observamos entre nós,
-desde os nossos paes, mas quando a falta não é originada
-por maldade nós perdoamos.</p>
-
-<p>«Tenho dois filhos, como sabes, os quaes tem vindo trabalhar
-no teo Forte, um matou o outro por acaso e sem
-maldade, ou para melhor dizer, suicidou-se o mais velho
-nas flechas do mais moço, que está vivo, e te peço que não
-o persigas e sim o perdôes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_57"></a>[57]</span></p>
-
-<p>«É elle, que me hade sustentar na velhice: sempre foi
-amigo dos francezes, e quando algum vae a minha aldeia,
-chama logo os seos cães, e vae caçar cotias e as pacas para
-elle comer.</p>
-
-<p>«Fez a cása dos Padres, e assevera-me que elles o protegem.</p>
-
-<p>«Sempre foi muito obediente á sua madrasta, que o ama
-como si fosse seo proprio filho: seo irmão, que sem querer,
-elle matou, era mau, não estimava os Francezes, nunca lhes
-deo coisa alguma, não ia á caça para elles, aborrecia sua
-madrasta, e muitas vezes a zangava: quando morreo, estava
-bebado, e veio tomar a mulher do seo irmão, e arrancando
-o filho, que ella tinha ao collo, atirou o menino para
-um lado e a mãe para outro, dando-lhe bofetadas, embora
-estivesse grávida, na minha presença e á vista do seo marido,
-e tudo soffremos com paciencia; porem vindo agarrar
-seo irmão para espancal-o, ferio-se no ventre com as flechas,
-que elle trasia na mão e assim morreo.</p>
-
-<p>«Porque perderei eu meos dois filhos, de uma só vez, e
-já na minha velhice?</p>
-
-<p>«Si queres mandar matar o unico que tenho, mata-me
-primeiro, e depois a elle. Elle te dá sua canoa para a pescaria
-e seos escravos para te servirem.»</p>
-
-<p>Admirou o Sr. de Pezieux este discurso, como depois me
-disse e por muitas vezes, e o referio á diversas pessoas,
-admirando-se de ver tão bella Rhetorica na bocca de um selvagem.</p>
-
-<p>Previno-vos, que represento todos estes discursos e supplicas
-o mais sinceramente que me foi possivel, sem o emprego
-de artificio algum.</p>
-
-<p>Respondeo o Sr. de Pezieux dizendo ser grande crime um
-irmão matar outro, mas como elle asseverava ter sido antes
-por culpa do fallecido do que pela do vivo, perdoava a rogo
-dos Padres, a quem nada queria recusar, e assegurou-lhe
-logo que seo filho nada soffreria, que acceitava a canoa e
-os escravos, porem que tudo isto lhe offerecia para o arrimo<span class="pagenum"><a id="Page_58"></a>[58]</span>
-de sua velhice visto ser elle amigo dos Padres e dos
-Francezes.</p>
-
-<p>Alegrou-se muito o bom velho com este acto de misericordia
-e liberalidade, e não foi ingrato, não só fazendo conhecido
-por toda a Ilha o facto, como tambem offerecendo
-ao dito Sr. e a nós tudo quanto elle e seu filho caçavam.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XVIII">CAPITULO XVIII</h3>
-
-<p class="subhead">Quanto é facil civilizar os selvagens á maneira dos
-francezes, e ensinar-lhes os officios, que
-temos em França.</p>
-
-</div>
-
-<p>No Liv. 2.º, Cap. 1.º, dos Machabeos, lemos, que o fogo
-sagrado do altar foi escondido no poço de Nephtar durante
-o captiveiro do povo e se transformou em limo.</p>
-
-<p>Quando o povo regressou, já livre, os Sacerdotes apanharam
-este limo, e o deitaram na madeira do altar, levantado
-para os sacrificios.</p>
-
-<p>Apenas o sol, lá de cima, começou a lançar seos raios
-sobre o limo, este se transformou em fogo, e devorou os
-holocaustos.</p>
-
-<p>Desejo servir-me d’esta figura para explicar o que tenho
-a dizer n’este e nos seguintes Capitulos.</p>
-
-<p>Convem notar, que por este fogo se deve entender o espirito
-humano imitando a naturesa do fogo por sua actividade,
-ligeiresa, calôr e claridade, o qual se torna lodo e
-limo, escondido n’um centro differente do seo proprio, devido
-isto á sua alma captiva pela infidelidade.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_59"></a>[59]</span></p>
-
-<p>Quero dizer, que sendo o espirito do homem creado para
-conhecer a Deos, e aprender artes e sciencias, torna-se entorpecido
-e obscurecido entre as immundicies, quando sua
-alma está presa nas cadeias da infidelidade, sob a tyrannia
-de Satanaz, mas quando sua alma desprende-se do captiveiro
-pela intenção e guia dos Prophetas de Deos, sahe o
-espirito d’esse poço lamacento, e animado pela luz, e conhecimento
-de Deos, das artes, e das boas sciencias, torna-se
-apto e prompto para executar o que percebe e aprende,
-o que farei vêr, e tocar com o dedo a respeito dos nossos
-selvagens, e mui principalmente quando de suas perguntas
-mais comesinhas nasce a esperança d’elles se civilisarem,
-e viverem reunidos n’uma cidade, negociando, aprendendo
-officios, estudando, escrevendo e adquirindo sciencia.</p>
-
-<p>Tenho para mim, que são mais faceis de serem civilisados,
-do que os aldeões de França, por ter a novidade não
-sei que influencia sobre o espirito afim de excital-o a aprender
-o que elle vê de novo, e lhe agrada.</p>
-
-<p>Os nossos <i>Tupinambás</i> nunca tiveram ideia alguma de
-civilisação até hoje; eis a razão porque elles se esforção, por
-toda a forma, de imitar os nossos francezes, como depois
-direi.</p>
-
-<p>Ao contrario os aldeões da nossa França estão de tal sorte
-enraisados em sua rusticidade, que, em qualquer conversação,
-embora nas cidades entre pessoas distinctas, sempre
-mostram signaes de camponezes.</p>
-
-<p>Aos <i>Tupinambás</i>, depois de dois annos de convivencia
-com os francezes, estes lhes ensinaram a tirar o chapeu, a
-saudar a todos, a beijar as mãos, a comprimentar, a dar os
-bons dias, a dizer adeos, a ir á Igreja, a tomar agua benta,
-a ajoelhar-se, a pôr as mãos, a fazer o signal da Cruz na
-testa e no peito, a bater no peito diante de Deos, a ouvir
-missa e sermão, ainda que nada d’isto comprehendam, a
-levar o <i>Agnus Dei</i>, a ajudar o sacerdote á missa, a assentar-se
-á mesa, a estender a toalha diante de si, a lavar suas
-mãos, a pegar na carne com tres dedos, a cortal-a no prato,<span class="pagenum"><a id="Page_60"></a>[60]</span>
-e a beber em commum, e breve farão todos os actos de
-civilidade e delicadesa, que se costuma a praticar entre
-nós, e já se acham tão adiantados a ponto de parecerem
-ter sempre vivido entre os francezes.</p>
-
-<p>Ninguem pois poderá contestar-me, que não sejam estes
-factos bastante para convencer-nos do que devemos esperar
-e acreditar ser esta nação, com o andar dos tempos, civilisada,
-honesta e muito aproveitada.</p>
-
-<p>Como os exemplos provam mais que outra qualquer especie
-de argumentação, vou contar-vos o caso de alguns
-selvagens educados em casa de nobres.</p>
-
-<p>Actualmente ha em Maranhão uma mulher selvagem, de
-uma das boas raças da Ilha, que foi antigamente, quando
-bem pequena, tomada pelos portuguezes, e vendida como
-escrava á D. Catharina de Albuquerque, sobrinha do grande
-Albuquerque, Vice-Rei das Indias Orientaes, sob o dominio
-do Rei de Portugal, a qual reside presentemente em Pernambuco,
-e é Marqueza de Fernando de Noronha, ilha muito
-bella e fertil, segundo diz o Revd. Padre Claudio d’Abbeville
-na sua Historia.</p>
-
-<p>Esta rapariga fez-se christã, e se a vestissem á portugueza
-não se poderia facilmente dizer qual a sua origem,
-se portugueza ou selvagem, mostrando sempre a vergonha
-e o pudor, inseparaveis de uma mulher, e occultando com
-cuidado a imperfeição do seo sexo.</p>
-
-<p>Poderia dizer outro tanto de muitos selvagens, educados
-entre os portuguezes, e dos quaes alguns foram á França, e
-conservam ainda hoje o que aprenderam, e o praticam quando
-se acham entre os francezes.</p>
-
-<p>É novo entre elles o uso da barba e dos bigodes, porem
-como vêem esse uso entre os Francezes, tambem deixam
-crescer tanto uma como outra coisa.</p>
-
-<p>Tem incomparavel aptidão para as artes e officios.</p>
-
-<p>Conheço um selvagem do Miary, chamado <i>Ferrador</i>, por
-causa do officio, que aprendeo, vendo somente trabalhar um
-ferrador francez que nada lhe explicou.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_61"></a>[61]</span></p>
-
-<p>Sabia muito bem malhar com os outros uma barra de ferro
-encandecida, como se tivesse longa pratica, apesar de ser
-coisa muito sabida entre os officiaes do mesmo officio, que
-é necessario muito tempo para aprender-se a musica dos
-martellos na bigorna do ferrador.</p>
-
-<p>Achando-se este mesmo selvagem nos desertos do Miary
-com seos semelhantes, sem bigorna e martello, limas e tornos,
-trabalhava comtudo muito bem fazendo pontas ou lanças
-para flechas, harpões e anzóes. Por bigorna tinha uma
-pedra muito dura, por martello outra de menor consistencia,
-e depois aquecendo ao fogo o ferro, dava-lhe a forma que
-queria.</p>
-
-<p>Os officios mais necessarios entre elles são os de ferreiro,
-tanoeiro, carpinteiro, marcineiro, cordoeiro, alfaiate, sapateiro,
-tecelão, oleiro, ladrilhador, e agricultor.</p>
-
-<p>Para todos estes officios são aptos e inclinados pela natureza.</p>
-
-<p>Para o de ferreiro ou de ferrador ja referimos um exemplo.</p>
-
-<p>Quanto ao officio de tecelão seria a sua especialidade se
-aprendessem; tecem seos leitos muito bem, trabalham em
-lã tão perfeitamente como os francezes, embora não empreguem
-a lançadeira, e nem a agulha de ferro, e sim pequenos
-pausinhos.</p>
-
-<p>Contarei ainda uma bonita historia.</p>
-
-<p>Fui um dia visitar o grande <i>Thion</i>, principal dos Pedras-verdes,
-<i>Tabajares</i>; quando cheguei a sua casa, e porque
-lhe pedisse, uma de suas mulheres me levou para debaixo
-de uma bella arvore no fim da sua cabana, que a abrigava
-dos ardores do sol, onde estava armado um teiar de faser
-redes de algodão, em que elle trabalhava.</p>
-
-<p>Gostei muito de vêr este grande Capitão, velho Coronel
-de sua nação, enobrecido por tantas cicatrises, entregando-se
-com praser á este officio, e não podendo conter-me, perguntei-lhe
-a razão d’isto, esperando aprender alguma coisa
-de novo n’este facto tão particular, que estava vendo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_62"></a>[62]</span></p>
-
-<p>Pelo meu interprete lhe perguntei a razão, porque se dava
-a esse mister.</p>
-
-<p>Respondeo-me, «porque os rapases observam minhas acções
-e praticam o que eu faço; se eu ficasse deitado na rede
-e a fumar, elles não quereriam fazer outra coisa: quando me
-vêm ir para o campo com o machado no hombro e a fouce
-na mão, ou tecer rede, elles se se envergonham de nada
-fazer.»</p>
-
-<p>Eu e os que comigo então se achavam, sentiram muito
-prazer ouvindo estas palavras, e desejaria vel-as praticadas
-por todos os christãos, porque então a ociosidade, mãe de
-todos os vicios, não estaria em França, como actualmente
-se vê.</p>
-
-<p>O officio de carpinteiro não lhes é muito difficil, porque
-os vi fazendo suas casas, e as dos Francezes, assentando
-seo machado, e repetindo o golpe no mesmo lugar, quatro
-ou cinco vezes, com tanta firmeza, como faria qualquer carpinteiro
-bem habil.</p>
-
-<p>A arte de marcineria lhes é facil, porque com suas fouces
-aplainam um pedaço de pau, tão liso e tão igual, como se
-tivesse passado o raspador por cima d’elle.</p>
-
-<p>Com o auxilio de suas facas somente, fazem macaquinhos
-e outras figuras de madeira.</p>
-
-<p>Não precisam de serra, e nem de outro qualquer instrumento
-para fazer seos arcos, remos e espada de guerra, pois
-basta-lhes uma simples machadinha.</p>
-
-<p>Cavam, arranjam suas canôas, e dão-lhes a forma, que
-lhes apraz.</p>
-
-<p>Brevemente tractarei de outros officios, nos quaes os vi
-trabalhar com tal industria a ponto de parecer-me que, com
-pouco tempo de ensino, chegaram á perfeição.</p>
-
-<p>Alem d’isto fazem muito bem vestidos, cubertas de cama,
-sobre-céos, sanéfas e cortinados de cama, pennas de diversas
-cores, que por sua perfeição se pensa terem vindo de
-fóra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_63"></a>[63]</span></p>
-
-<p>Não fallarei da propensão natural, que elles tem para pintar,
-fazer diversas folhagens, e figuras, servindo-se apenas
-de uma pequena lasca de pau, ou ponteiro, ao passo que os
-nossos pintores necessitam de tantos pinceis, compassos, regoas,
-e lapis.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XIX">CAPITULO XIX</h3>
-
-<p class="subhead">Quanto são aptos os selvagens para aprenderem
-sciencias e virtudes.</p>
-
-</div>
-
-<p>Quando regressei das Indias para a França, pelas frequentes
-e constantes perguntas, feitas pelas pessoas, que
-me vinham visitar, reconheci quanto é difficil acreditarem
-os Francezes, que os selvagens sejam aptos para aprenderem
-sciencia e virtude, e não sei se alguns chegam a ponto
-de julgar estes povos antes do genero dos macacos, do que
-dos homens.</p>
-
-<p>Em quanto a mim elles são homens, e provarei, e por
-tanto capazes de obterem sciencia e virtude.</p>
-
-<p>Seneca na sua epistola 110 disse «<i>Omnibus natura dedit
-fundamenta semenque virtutum</i>.» A natura deo a todas as
-creaturas, sem excepção de uma só, as raizes e as sementes
-das virtudes, palavras mui notaveis: assim como as raizes
-e as sementes são lançadas na terra e por conseguinte
-enterradas em suas entranhas, assim tambem Deos lançou
-naturalmente no espirito do homem as raizes e as sementes
-da virtude: com taes alicerces pode o homem, ajudado por
-Deos, edificar um predio, e extrahir da semente uma bella
-arvore carregada de flores e de fructos, doutrina esta muito<span class="pagenum"><a id="Page_64"></a>[64]</span>
-bem provada por S. João Chrisostomo, na Homilia 55, ao
-povo de Antiochia, e na Homilia 15 á respeito da Epistola
-1ª á Thimotheo moralisando esta passagem do Genesis:—<i>Germinet
-terra, herbam virentem, e omne lignum pomiferum</i>,
-«produsa a terra herva verdejante ou arvore fructifera:»
-acrescentou ainda—<i>Dic ut producat ipse terra fructum
-proprium et exibit quicquid facere velis</i>, «dize e ordena
-á tua propria terra, que produza seo fructo natural, e
-verás ella produzir logo o que pedires.»</p>
-
-<p>São Bernardo, no <i>Tractado da vida solitaria</i>, disse—<i>virtus
-vis est quædam ex natura</i>, «a virtude é uma certa força,
-que sahe da natureza.»</p>
-
-<p>Se assim não fôr, quero provar por muitos exemplos,
-começando pelas sciencias, para cujo ensino concorrem as
-tres faculdades da alma—vontade, intelligencia, e memoria:
-a vontade dá ao homem o desejo de aprender, e por ella
-vencemos toda a sorte de trabalhos e difficuldades: a intelligencia
-dá vivacidade para comprehender, e a memoria
-guarda e conserva o que conheceo e aprendeo.</p>
-
-<p>São mui curiosos os selvagens de saber novidades e para
-satisfazer tal desejo, os caminhos e a distancia das terras,
-por maiores, que sejam, lhes parecem curtos, não sentem a
-fome, porque passam, e os trabalhos como que são descanço
-para elles: prestam-vos toda a sua attenção, escutam o
-que disserdes durante o tempo que vos parecer, sem enfado
-e em silencio, á respeito de Deos, ou de qualquer assumpto,
-e se tiverdes paciencia, elles vos farão milhares de
-perguntas.</p>
-
-<p>Lembra-me, que entre as praticas, que eu lhes fazia ordinariamente
-por intermedio do meo interprete, eu lhes disse
-que apenas chegassem de França os Padres, elles mandariam
-edificar casas de pedra ou de madeira, onde seriam
-recolhidos seos filhos, aos quaes os Padres ensinariam tudo
-o que sabem os <i>Caraibas</i>.</p>
-
-<p>Responderam-me: oh! quanto são felizes nossos filhos por
-aprenderem tão bellas coisas, oh! quanto fomos infelizes nós<span class="pagenum"><a id="Page_65"></a>[65]</span>
-e os nossos antepassados por não haverem Principaes n’esse
-tempo.</p>
-
-<p>É viva sua intelligencia como reconhecereis pelo seguinte
-facto.</p>
-
-<p>Não ha estrellas no Ceo, que elles não conheçam e calculam
-pouco mais ou menos a vinda das chuvas e as outras
-estações do anno.</p>
-
-<p>Pela phisionomia distinguem um Francez de um Portuguez,
-um Tapuyo de um Tupinambá, e assim por diante.</p>
-
-<p>Nada fazem antes de pensar, e pezam em seu juiso uma
-coisa antes de emittir sua opinião. Ficam serios e pensativos,
-porem não se precipitam em fallar.</p>
-
-<p>Mas, dizeis vós, como é possivel que estas pessoas tenham
-tal juiso fazendo o que fazem?</p>
-
-<p>Porque elles dão por uma faca cem escudos de ambar
-gris, ou qualquer outra coisa, que apreciamos, como sejam:
-ouro, prata e pedras preciosas.</p>
-
-<p>Eu vos direi a opinião que elles fazem de nós, muito contraria
-n’este ponto: julgam-nos loucos e pouco judiciosos em
-apreciar mais as coisas, que não servem para o sustento da
-vida do que aquellas, que nos proporcionam o viver commodamente.</p>
-
-<p>Na verdade, quem deixará de confessar, ser uma faca
-mais necessaria á vida do homem, do que um diamante de
-cem mil escudos, comparando um objecto com outro, e pondo
-de parte, a estima que se lhe dá?</p>
-
-<p>Para provar que não lhes falta juiso afim de avaliar a estima
-que fazem os Francezes das coisas existentes em sua
-terra, basta dizer, que elles sabem altear muito o preço das
-coisas, que julgam ser apreciadas pelos francezes.</p>
-
-<p>Um dia disseram-me alguns, que era preciso haver muita
-falta de madeira em França, e que experimentassemos muito
-frio para mandarmos navios de tão longe, a mercê de tantos
-perigos, carregarem de paus.<a id="Nanchor_36" href="#Note_36" class="fnanchor">[36]</a></p>
-
-<p>Respondi-lhes que não era para queimar e sim para tingir
-de cores.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_66"></a>[66]</span></p>
-
-<p>Replicaram-me: porque nos compraes o que cresce em
-nosso paiz a troco de vestidos vermelhos, amarellos e verde-gaios?
-Eu os satisfiz dizendo ser necessario misturar outras
-cores com as do seo paiz para tingir panos.</p>
-
-<p>Si me disserdes, que elles fazem acções inteiramente
-brutaes, como as de comer seos inimigos, e praticar tudo
-que os offenda, como seja expol-os em lugares onde ha piolhos,
-vermes, espinhos, etc., eu vos responderei não provir
-isto de falta de juiso, porem sim de um erro hereditario,
-sempre existente entre elles, por pensarem, que sua honra
-depende de vingança: parece-me, que tambem não é desculpavel
-o erro dos nossos francezes de se matarem em
-duello, e comtudo vemos os mais bellos espiritos, e os primeiros
-da nobreza concordarem com este erro, despresando
-a Lei de Deos, e arriscando a eternidade de sua salvação.</p>
-
-<p>Quanto a memoria elles a possuem muito feliz, porque
-lembram-se sempre do que viram e ouviram com todas as
-circumstancias do lugar, do tempo, das pessoas, quando o
-caso se disse ou se executou, fazendo uma geographia ou
-descripção natural com a ponta de seos dedos na areia, do
-que estão contando.</p>
-
-<p>O que mais me admirou foi vel-os narrar tudo quanto se
-ha passado desde tempos immemoriaes, somente por tradicção,
-porque tem por costume os velhos contar diante dos
-moços quem foram seos avós e antepassados, e o que se
-passou no tempo d’elles: fazem isto na <i>casa grande</i>, algumas
-vezes nas suas residencias particulares, acordando muito
-cedo, e convidando gente para ouvil-os, e o mesmo fazem
-quando se vesitam, porque abraçando-se com amisade,
-e chorando, contam um ao outro, palavra por palavra quem
-foram seos avós e ante-passados, e o que se passou no tempo
-em que viveram.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_67"></a>[67]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XX">CAPITULO XX</h3>
-
-<p class="subhead">Continuação do objecto antecedente.</p>
-
-</div>
-
-<p>Concordo que sejam estes povos inclinados pela naturesa
-á muitos vicios, porem é necessario lembrar-nos, que elles
-são captivos por infidelidade d’estes espiritos rebeldes a Lei
-de Deos, e instigadores da sua transgressão.</p>
-
-<p>São João na sua Epistola 1.ª chama <i>iniquidade</i> ou <i>desigualdade</i>
-o desvio ou a digressão do direito, como muito
-bem explica o texto Grego<a id="FNanchor_55" href="#Footnote_55" class="fnanchor">[BC]</a> ——————————, assim
-traduzido <i>Peccatum est exorbitatio á lege</i>.</p>
-
-<p>Esta Lei é divina ou humana: aquella dada por escripto
-á Moysés, e depois por Jesus Christo aos christãos, e esta
-acha-se gravada no intimo d’alma.</p>
-
-<p>Transgredindo-se estas duas Leis commettem-se dois peccados,
-um contra os mandamentos de Deos, e outro contra
-a lei natural: por elles serão accusados e condemnados os
-incredulos, cada um de per si, alem do peccado commum
-da infidelidade.</p>
-
-<p>Entre todos os vicios a que estão sugeitos estes barbaros,
-sobresahe a vingança, que nunca perdoam, e a praticam logo
-que podem, embora as boas apparencias com que tratam
-seos inimigos reconciliados.</p>
-
-<p>Não ha a menor duvida que retirando-se os francezes do
-Maranhão, todas as nações, antes inimigas, que ahi residem
-promiscuamente, por terem a nossa alliança, devorar-se-hão
-umas ás outras, embora, o que é para admirar, vivam agora
-muito bem sob o dominio dos francezes, e até contrahindo-se
-casamentos entre ellas.</p>
-
-<p>Gostam tanto de vinho a ponto de ser considerada a embriaguez
-por elles, e até mesmo pelas mulheres, como uma
-grande honra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_68"></a>[68]</span></p>
-
-<p>São impudicos extraordinariamente, mais as raparigas do
-que qualquer outros inventores de noticias falsas, mentirosos,
-levianos e inconstantes, vicios mui communs a todos
-os incredulos, e por ultimo são extremamente preguiçosos a
-ponto de não quererem trabalhar, embora vivam na miseria,
-antes do que na opulencia por meio do trabalho.</p>
-
-<p>Se elles quizessem, não era necessario muito cansaço para
-terem em poucas horas muita carne e peixe.</p>
-
-<p>O que acabo de dizer, refere-se especialmente aos <i>Tupinambás</i>,
-porque as outras nações, como sejam os <i>Tabajares</i>,
-<i>Cabellos-compridos</i>, <i>Tremembés</i>, <i>Canibaes</i>, <i>Pacajares</i>,
-<i>Camarapins</i>, e <i>Pinarienses</i>, e outros trabalham muito para
-viver, ajuntar generos, ter boa casa, e todas as commodidades.</p>
-
-<p>Vou dar-vos um exemplo bem notavel da preguiça dos
-nossos <i>Tupinambás</i>.</p>
-
-<p>Obtendo alguns Francezes do Forte licença para irem passear
-ás aldeias, foram á do chefe <i>Vsaap</i>.</p>
-
-<p>Na entrada da primeira choupana encontraram um grande
-fumeiro cheio de caça, e ao lado d’elle um indio, dono da
-casa, deitado n’uma rede de algodão, que gemia muito como
-se estivesse bastante doente.</p>
-
-<p>Os nossos Francezes alegres e promptos á festejarem esta
-mesa tão bem preparada, lhe perguntaram com brandura e
-carinho <i>Dê omano Chetuasap</i>, «está doente meo compadre?»
-Sim, respondeo elle. Que tendes, replicaram os Francezes,
-quem vos fez mal? Minha mulher, disse elle. Foi para
-roça desde pela manhã, e eu ainda não comi. A farinha e
-a carne está tão perto de vós, porque não vos levantaes,
-para comer, disseram os francezes? Sou preguiçoso, não sei
-levantar-me. Quereis, tornaram os francezes, que vos levemos
-a farinha e a carne, e comeremos comvosco? Quero,
-respondeo elle logo.</p>
-
-<p>Começaram todos a aliviar o fumeiro, pozeram tudo diante
-d’elle, e assentando-se em roda, como é de costume,
-excitaram-lhe o apetite pela boa vontade que mostravam, e<span class="pagenum"><a id="Page_69"></a>[69]</span>
-o trabalho, que elles tiveram de tirar a comida de cima do
-fumeiro, em distancia de tres pés, foi o unico pagamento de
-tal companhia na mesa.</p>
-
-<p>Apesar de suas perversas inclinações, elles tem outras
-muito boas, louvaveis e virtuosas.</p>
-
-<p>Vivem pacificamente com os outros, dividem com elles o
-resultado de sua pescaria, caçada e lavoura, e não comem
-ás escondidas.</p>
-
-<p>Um dia na aldeia de Januaran só tinham farinha para
-comer. Appareceu um rapaz trazendo uma perdiz morta ha
-pouco; sua mãe depennou-a ao fogo, cozinhou-a, deitou-a
-n’um pilão, reduzio-a á pó, e juntando-lhe folhas de mandioca,
-cujo gosto é similhante ao da chicoria selvagem, fez
-ferver tudo, e depois de bem picado ou cortado em pedacinhos,
-d’esta mistura fez pequenos bolos, do tamanho de
-uma balla, e mandou distribuil-os pela aldeia, um para cada
-choupana.</p>
-
-<p>Vi ainda uma coisa mais admiravel, embora comesinha, e
-sem consequencia.</p>
-
-<p>Appareceram em minha casa muitos selvagens esfaimados,
-vindos da pescaria, onde somente apanharam um carangueijo,
-que assaram sobre carvões, e pedindo-me farinha, o comeram
-todos, fazendo roda, cada um o seo pedacinho: eram
-doze ou treze.</p>
-
-<p>Bem podeis imaginar o que tocaria a cada um, sendo o
-carangueijo do tamanho de um ovo de galinha.</p>
-
-<p>É muito grande a liberalidade entre elles, e desconhecida
-a avaresa.</p>
-
-<p>Si algum delles tiver desejos de possuir uma coisa, que
-pertença a outro, elle o diz francamente, e é preciso que o
-objecto seja muito estimado para não ser dado logo, embora
-o que a pedio fique na obrigação de dar ao outro tambem
-o que elle desejar.</p>
-
-<p>Tornam-se mais liberaes para com os estrangeiros do que
-para com seos patricios.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_70"></a>[70]</span></p>
-
-<p>Ficam reduzidos á pobresa comtanto que bem hospedem
-os estrangeiros, que vão visital-os, julgando-se bem recompensados
-com a fama de liberaes, espalhada pelos que não
-são de sua terra, e julgam chegar ella até aos paizes estrangeiros,
-onde serão tidos por grandes e ricos.</p>
-
-<p>Com taes ideias muitas vezes vão fazer visitas a cem, duzentas
-e tresentas legoas afim de serem apreciados por suas
-liberalidades.</p>
-
-<p>Nunca roubam uns aos outros; o que possuem está á vista,
-pendurado nas vigas e barrotes de suas casas.</p>
-
-<p>É bem verdade, que dentro da Ilha actualmente, em Tapuytapera,
-e Cumã, elles tem cofres, que lhes deram os
-Francezes, onde guardam o que tem de melhor, e, ou excitados
-por isto, ou pelo exemplo dos Francezes, muitos d’elles
-ja aprenderam a arte de furtar.</p>
-
-<p>Elles chamam furtar—<i>Mondá</i>, ao ladrão <i>Mondaron</i>, e este
-nome é entre elles grande injuria a ponto de mudarem de
-côr quando o pronunciam: chamar uma mulher ladra, é
-duas vezes prostituta, com o nome de <i>Menondere</i> para differençar
-de prostituta simples—<i>Patakuere</i>, é aquelle primeiro
-epitheto o mais afrontoso, que se lhe pode dizer.</p>
-
-<p>Tomareis uma boa vingança chamando-os ladrões, quando
-elles vos atirarem ao rosto um bem claro, e expressivo <i>Giriragoy</i>,
-que quer dizer <i>mentiste</i>, sem exceptuar pessoa alguma,
-e por isto bem podeis avaliar quanto este vicio é
-detestado por elles, pois não podem tolerar a injuria.</p>
-
-<p>Guardam reciproca equidade, não se enganam nem se
-illudem: si um offende a outro, segue-se logo a pena de
-<i>Talião</i>: são mui tolerantes, respeitam-se reciprocamente,
-especialmente os velhos.</p>
-
-<p>São muito soffredores em suas miserias e fome chegando
-até a comer terra,<a id="Nanchor_37" href="#Note_37" class="fnanchor">[37]</a> ao que acostumam seos filhos, o que
-vi muitas vezes.</p>
-
-<p>Vi muitos meninos tendo nas mãos uma bolla de terra,
-que ha em sua aldeia como <i>terra siggilada</i>, a qual apreciam<span class="pagenum"><a id="Page_71"></a>[71]</span>
-e comem como fazem as crianças, em França com as maçans,
-as pêras, e outros fructos que se lhes dá.</p>
-
-<p>Não se esmeram no preparo da comida, como nós, por
-que ou a cozinham ao fogo, ou a fazem ferver n’uma panella
-sem sal, ou assam-n’a no fumeiro.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXI">CAPITULO XXI</h3>
-
-<p class="subhead">Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada
-inviolavelmente pela mocidade.</p>
-
-</div>
-
-<p>O que mais me impressionou e admirou durante os dois
-annos, que estive entre os selvagens, foi a ordem e respeito
-observado inviolavelmente pelos moços para com os seos
-parentes mais velhos, ou entre elles, fazendo cada um o que
-permitte a sua idade sem cuidar do que se acha no mais
-alto ou no menor grau.</p>
-
-<p>Ninguem deixará de admirar-se commigo vendo a naturesa
-somente ter n’estes barbaros o poder de fazel-os guardar
-o respeito, que os meninos devem a seos maiores, e
-fazer conter a estes no que é exigido pela diversidade das
-idades.</p>
-
-<p>Quem não se hade admirar vendo a naturesa somente ter
-mais força para fazer observar estas coisas, do que a Lei e
-a graça de Jesus-Christo sobre os Christãos, entre os quaes
-raras vezes se contem a mocidade nos seos deveres, apesar
-de todos os bons ensinos, mestres e pedagogos, apparecendo
-sempre confusão e grande presumpção.</p>
-
-<p>Muito praser terei si o caso seguinte nos der algum remedio.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_72"></a>[72]</span></p>
-
-<p>Distinguem os selvagens suas idades por certos graus,
-e cada grau tem no frontespicio de sua entrada, seu
-nome proprio, que ensina ao que pretende entrar em
-seo palacio os seos jardins e alamedas, a sua occupação, e
-isto por enigmas, como eram outr’ora os Hierogliphos dos
-Egypcios.</p>
-
-<p>O primeiro grau é destinado as crianças do sexo masculino
-e legitimos e dão-lhe em sua lingua o nome de <i>Peitan</i>,
-isto é, «menino sahindo do ventre de sua mãe.»</p>
-
-<p>Á este primeiro grau da idade do menino é inteiramente
-cheio de ignorancia, de fraqueza e de lagrimas, base de todos
-os outros graus.</p>
-
-<p>A natureza, boa mãe d’estes selvagens, quiz que o menino
-sahindo do ventre de sua mãe, se achasse em estado
-de receber em si as primeiras sementes do natural commum
-d’estes selvagens, porque não é afagado, pensado, aquecido,
-bem nutrido, bem tratado, nem confiado aos cuidados de
-alguma ama, e sim apenas lavado em algum riacho ou n’alguma
-vasilha com agua, deitado n’uma redezinha de algodão,
-com todos os seos membros em plena liberdade, nus
-inteiramente, tendo por unico alimento o leite de sua mãe,
-e grãos de milho assados, mastigados por ella até ficarem
-reduzidos á farinha, amassados com saliva em forma de
-caldo, e postos em sua boquinha como costumam a fazer os
-passaros com a sua prole, isto é, passando de bocca para
-bocca.</p>
-
-<p>É bem verdade, que quando o menino é um pouco forte,
-por conhecimento e inclinação natural, ri-se, brinca e salta,
-nos braços de sua mãe, pensando estar mastigando sua comida,
-levando seo bracinho á bocca d’ella, recebendo no concavo
-de sua mãosinha este repasto natural, que leva á bocca
-e come: quando se sente farto, bota fóra o resto, e virando
-a cara, e batendo com as mãos na bocca da mãe, lhe dá a
-entender que não quer mais.</p>
-
-<p>Obedece a mãe promptamente não forçando seo apetite e
-nem lhe dando occasião de chorar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_73"></a>[73]</span></p>
-
-<p>Si o menino tem sêde, por gestos sabe pedir o peito de
-sua mãe.</p>
-
-<p>Em tão tenra idade mostram o respeito e o dever, que a
-natureza lhes dá, porque não são gritadores, comtanto que
-vejam suas mães, e ficam no lugar onde os deixam.</p>
-
-<p>Quando vão trabalhar nas roças ellas as assentam nuasinhas
-na areia ou na terra, onde ficam caladinhas, ainda
-que o ardor do sol lhes dê no rosto ou no corpo.</p>
-
-<p>Qual seria de nós, que hoje poderia viver soffrendo na primeira
-idade tantos encommodos?</p>
-
-<p>Esperam os nossos paes a retribuição e dever, que principiamos
-a pagar-lhes desde a primeira idade, si não estão
-cegos pelo amor que nos tem; o mesmo devem esperar nas
-outras idades, sendo mais reconhecidos os nossos deveres
-para com elles, custe o que custar-nos.</p>
-
-<p>Começa a segunda idade, quando o menino anima-se a
-andar sosinho, e apezar de haver alguma confusão da-se-lhe
-o mesmo nome.</p>
-
-<p>Observei differença na maneira de criar os meninos,
-que não sabem andar, e os que se esforçam para o fazer, o
-que nos leva a formar outra classe, e dar-lhe nome proprio:
-chama-se <i>Kunumy-miry</i>, «rapazinho»<a id="Nanchor_38" href="#Note_38" class="fnanchor">[38]</a> e abrange até 7 a
-8 annos.</p>
-
-<p>Durante este tempo não se separam de suas mães, e nem
-acompanham seos Paes, e o que é mais, deixam-nos mamar
-até que por si mesmo aborreçam o peito, habituando-se
-pouco a pouco ás comidas grosseiras como os grandes e
-adultos.</p>
-
-<p>Dão lhes pequenos arcos e flexas proporcionaes ás suas
-forças, reunindo-se uns aos outros plantam e juntam algumas
-cabaças, nas quaes fazem alvo para o tiro das suas flechas
-adextrando assim bem cêdo seos braços.</p>
-
-<p>Não açoitam, e nem castigam seos filhos, que obedecem
-a seos paes e respeitam os mais velhos.</p>
-
-<p>È muito agradavel esta idade dos meninos, e n’ella podereis
-descobrir a differença existente entre nós pela naturesa<span class="pagenum"><a id="Page_74"></a>[74]</span>
-e pela graça: sem fazer comparação, acho-os mimosos, doceis
-e affaveis como os meninos francezes, não esquecendo
-antes tornando bem saliente a graça do Espirito Santo concedida
-pelo baptismo aos filhos dos Christãos.</p>
-
-<p>Si acontece morrerem os meninos n’esta idade, tem os
-paes pesar profundo, e sempre se recordam d’elles, especialmente
-nas cerimonias de lagrimas e lamentações, recordações
-que fazem uns aos outros, lastimando esta perda e a
-morte dos seos filhinhos, dando-lhes o nome de <i>Ykunumirmee-seon</i>
-«o menino morto na infancia.»</p>
-
-<p>Vi mães, quase loucas, no meio de suas roças, ou nas
-matas sosinhas, em pé ou agachadas, chorando amargamente,
-e quando lhes perguntava para que faziam isto, respondiam-me
-«Oh! recordo-me da morte de meos filhinhos, <i>Ché Kunumirmee-seon</i>,
-ainda na infancia» e depois continuavam
-a chorar e muito.</p>
-
-<p>È na verdade mui natural o ter pesar da perda e morte
-d’estes meninos, que ja haviam custado tantos trabalhos á
-seos paes, e que estavam na edade de dar-lhes alguma alegria.</p>
-
-<p>Acha-se a terceira classe entre estas duas primeiras—infancia
-e puericia, e as da adolescencia e virilidade, entre
-os 8 a 15 annos, a que chamamos mocidade: appellidam-nos
-os selvagens simplesmente por <i>Kunumy</i> sendo a
-infancia chamada <i>Kunumy-miry</i>, e a adolescencia <i>Kunumy-uaçu</i>.</p>
-
-<p>Estes <i>Kunumys</i>, ou rapazes, na idade do 8 a 15 annos,
-não ficam mais em casa e nem ao redor de sua mãe, e sim
-acompanham seos paes, tomam parte no trabalho d’elles
-imitando o que vêem fazer: empregam-se em buscar comida
-para a familia, vão as matas caçar aves, e ao mar flechar
-peixes e admira vêr a industria com que flecham as vezes
-tres a tres peixes juntos, ou agarram em linha feita de <i>tucu</i>
-ou em <i>pussars</i>, especie de rêde de pescar, que enchem de
-ostras e outros mariscos, e levam para casa. Não se lhes
-manda fazer isto, porem elles o fazem por instincto proprio,<span class="pagenum"><a id="Page_75"></a>[75]</span>
-como dever de sua idade, e já feito tambem por seos antepassados.</p>
-
-<p>Este trabalho e exercicio mais agradavel do que penoso,
-e proporcional a sua idade, os isenta de muitos vicios, aos
-quaes a naturesa corrompida costuma a prestar attenção, e
-a ter predilecção por elles.</p>
-
-<p>Eis a razão porque se facilita á mocidade diversos exercicios
-liberaes e mecanicos, para distrahil-a e desvial-a da
-má inclinação de cada um, reforçada pelo ocio mormente
-n’aquella idade.</p>
-
-<p>A quarta classe é para os que os selvagens chamam <i>Kunumy-uaçú</i>,
-«mancebos»: abrange a idade de 15 a 25 annos,
-por nós chamada «adolescencia.»</p>
-
-<p>Tem outro modo de vida, entregam-se com todo o esforço
-ao trabalho, acostumam se a remar, e por isso são escolhidos
-para tripularem as canôas quando vão á guerra.</p>
-
-<p>Applicam-se especialmente a fazer flexas para a guerra, a
-caçarem com cães, a flechar e arpoar peixes grandes, não
-usam ainda de <i>Karacóbes</i>, isto é, de um pedaço de pano
-atado na frente para encobrir suas vergonhas, como fazem
-os homens casados, e sim de uma folha de Palmeira.</p>
-
-<p>Tem o poder de dividir o que possuem com os mais velhos,
-reunidos na <i>Casa-grande</i>, onde conversam, e servem
-tambem os mais velhos.</p>
-
-<p>É n’este tempo, diga-se a verdade, que elles mais ajudam
-a seos paes e mães, trabalhando, pescando e caçando, antes
-de se casarem, e portanto sem obrigação de sustentarem
-mulher: eis porque sentem muito seos paes quando elles
-morrem n’esta idade, dando-lhes em signal de sua dor o
-nome de <i>Ykunumy-uaçú-remee-seon</i>, que quer dizer «o mancebo
-morto» ou «o mancebo morto na sua adolescencia.»</p>
-
-<p>Abrange a quinta classe desde 25 até 40 annos, e se chama
-<i>Aua</i> o individuo n’ella comprehendido, vocabulo aplicado
-a todas as idades, assim como usamos com o nome <i>homem</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_76"></a>[76]</span></p>
-
-<p>Apesar d’isto ser privativo d’esta idade, assim como
-o homem é pelos Latinos chamado <i>vir</i>, <i>á virtude</i>, e em
-Francez idade viril, de virilidade, quer dizer—a força, que
-no homem chegou a seu termo: n’esta mesma lingua de selvagens
-a palavra <i>Aua</i>, de que procede <i>Auaté</i>, quer dizer
-«forte, robusto, valente, audacioso», para significar a 5ª idade
-dos seos filhos.</p>
-
-<p>N’essa occasião como guerreiros são bons para combater,
-nunca porem para commandar: buscam casar-se, o que não
-é difficil por consistir o enxoval da noiva apenas de algumas
-cabaças, que lhes dá sua mãe para principiar sua casa,
-vestidos, e roupas, ao contrario em nosso paiz as mães fornecem
-enfeites e pedras brancas a suas filhas.</p>
-
-<p>Os paes dão por dote aos maridos de suas filhas 30 ou 40
-toros de pau de tamanho proprio a poderem ser levados á
-casa do noivo, os quaes servem para com elles se accender
-o <i>fogo das bodas</i>: o individuo casado de novo não se chama
-<i>Aua</i>, e sim <i>Mendar-amo</i>.</p>
-
-<p>Embora sejam casados o homem e a mulher não ficam livres
-da obrigação natural de proteger seos paes e ajudal-os
-a fazer suas roças.</p>
-
-<p>Soube d’isto em minha casa, vendo a filha de <i>Japy-açú</i>,
-baptisada e casada á face da Igreja, dizer a um outro selvagem,
-seo marido, tambem christão, quando pretendia ir
-a <i>Tapuitapera</i> ajudar o Rvd. Padre Arsenio no baptismo de
-muitos selvagens, «Onde queres ir? Tu bem sabes que ainda
-não se fizeram as roças de meo Pae, e que ha falta de
-mantimentos: não sabes, que si elle me deo a ti foi com a
-obrigação de o auxiliares na velhice? Si queres abandonal-o
-então volto para a casa d’elle.»</p>
-
-<p>Advertiram-na á respeito d’estas ultimas palavras, fazendo-a
-reconhecer o juramento que dera, de nunca abandonal-o
-ou separar-se d’elle, louvando-se comtudo muito os
-outros sentimentos, que manifestou á favor de seo Pae, e
-praza a Deos que todos os christãos a imitassem dando verdadeira<span class="pagenum"><a id="Page_77"></a>[77]</span>
-intelligencia a estas palavras formaes do casamento
-que o homem e a mulher deixaram seos paes para
-viverem juntos—porque de outra fórma seria Deus authorisar
-a ingratidão dos filhos casados sob pretexto de terem
-filhos, ou poder tel-os e precisar cuidar do seo sustento,
-quando ao contrario Deos condemna, como reprobo, o que
-abandona seos paes, sem os quaes, não fallando na vontade
-de Deos, não viriam ao mundo nem elles, e nem seos
-filhos, embora por essas palavras mostre a grande união,
-que pelo casamento se faz entre o corpo e o espiríto dos
-casados.</p>
-
-<p>Comprehende a 6ª classe os annos de 40 até a morte: é
-a mais honrosa de todas, e cercada de respeito e veneração,
-os soldados valentes, e os capitães prudentes.</p>
-
-<p>Assim como o mez dá a colheita dos trabalhos e a recompensa
-da paciencia, com que o lavrador supportou o inverno
-e a primavera, lavrando com a sua charrua o campo
-em todos os sentidos, sem ser ajudado pela terra, assim
-tambem quando chega a estação da velhice são honrados
-pelos que tem menos idade.</p>
-
-<p>O que occupa esta classe chama-se <i>Thuyuae</i>, quer dizer,
-«ancião ou velho.»</p>
-
-<p>Não póde, como os outros, ser assiduo ao trabalho: trabalha
-quando quer, e bem a sua vontade, mais para exemplo
-da mocidade, respeitando tradicções da sua Nação, do
-que por necessidade: é ouvido com todo o silencio na <i>casa-grande</i>,
-falla grave e pausadamente usando de gestos, que
-bem explicam o que elle quer dizer e o sentimento, com
-que falla.</p>
-
-<p>Todos lhe respondem com brandura e respeito, e ouvem-nos
-os mancebos com attenção: quando vae a festa das
-<i>Cauinagens</i> é o primeiro, que se assenta e é servido; entre
-as moças, que distribuem o vinho pelos convidados, as de
-mais consideração o servem, e são as parentas mais proximas
-do que fez o convite.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_78"></a>[78]</span></p>
-
-<p>No meio das danças entoam os cantos; dam-lhe a nota,
-principiam pela mais baixa até a mais grave, crescendo
-gradualmente até chegar á força da nossa musica.</p>
-
-<p>Suas mulheres cuidam n’elles, lavam-lhes os pés, apromptam
-e trazem-lhe a comida, e se ha alguma difficuldade na
-carne, no peixe ou nos mariscos, ellas a tiram, accommodando-a
-ás suas forças.</p>
-
-<p>Quando morrem alguns d’elles os velhos lhe prestam honras,
-e o choram como as mulheres, e lhe dam o nome de
-<i>thuy-uae-pee-seon</i>: quando morrem na guerra, chamam-no
-<i>marate-kuepee-seon</i>, «velho morto no meio das armas», o
-que ennobrece tanto seos filhos e parentes, como entre nós
-qualquer velho Coronel, que occupou sua vida inteira no
-serviço do exercito pelo Rei e pela Patria, e que por corôa
-de gloria morreo com as armas na mão, com a frente para
-os inimigos, no meio de renhido combate, coisa nunca esquecida
-por seos filhos antes considerada como grande herança,
-e de que se aproveitam apresentando-os ao Principe
-como bons serviços de seo Pae, e pedindo por elles uma
-recompensa.</p>
-
-<p>Não fazendo estes selvagens caso algum de recompensas
-humanas, porem empenhando todas as suas forças para conseguirem
-essas honras, provam com isto o quanto apreciam
-não só os actos de heroismo de seos paes, mas tambem a
-serem estimados por causa d’elles.</p>
-
-<p>Os que morrem nos seos leitos não deixam de ser honrados,
-conforme o seo merito, e chamam-no <i>theon-suyee-seon</i>,
-«o bom velho que morreo na cama».</p>
-
-<p>Por isto podeis avaliar como a naturesa por si só nos ensina
-a respeitar, a ajudar, e a soccorrer os velhos e anciões
-e á refrear com violencia a temeridade e presumpção dos
-moços, que sem prevêrem o futuro, não se recordam de
-que na sua velhice, se lhes fará justamente o que elles,
-quando jovens, fizeram aos mais velhos, dando esse exemplo
-á seos filhos, e ensinando-os a serem ingratos.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_79"></a>[79]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXII">CAPITULO XXII</h3>
-
-<p class="subhead">A mesma ordem e respeito é observada entre as
-raparigas e as mulheres.</p>
-
-</div>
-
-<p>Encontram-se n’estes selvagens vestigios da naturesa, como
-as pedras preciosas se acham nas encostas das montanhas.</p>
-
-<p>Seria um louco o que quizesse encontrar em seos jazigos
-os diamantes tão claros e brilhantes, como quanto lapidados
-e engastados n’um anel.</p>
-
-<p>Provem esta differença de se acharem tão ricas pedras
-cubertas de jaça sem mostrar o seo valor de tal sorte, que
-muitos passam e tornam a passar por cima d’ellas sem levantal-as
-visto não as conhecerem.</p>
-
-<p>Acontece a mesma coisa na conversação d’estes pobres
-selvagens: muitos ignoram e ignorarão ainda o que tenho
-narrado e narrarei, e embora tenham conversado com elles
-por muito tempo, por falta de conhecimento ou de observação
-da boa conducta natural d’estas pessoas fóra da graça
-de Deos, passaram por ellas, á similhança das pedras preciosas,
-sem tirar o menor proveito, e olhando-as com indifferença.</p>
-
-<p>A mesma ordem de classes de idade tenho observado entre
-as raparigas e as mulheres, como entre os homens.</p>
-
-<p>A primeira classe é commum á ambos os sexos, cujos individuos,
-sahindo immediatamente do ventre de suas mães,
-se chama <i>Peitan</i>, como já dissemos no art. antecedente.</p>
-
-<p>A segunda classe estabelece distinção de idade, de sexo,
-e de dever: d’idade de moça para moça, de sexo de moça
-para rapaz, e de dever de mais moça para mais velha.</p>
-
-<p>Comprehende esta classe os sete primeiros annos, e a
-rapariga d’esse tempo se chama <i>kugnantin-myri</i>, quer dizer
-<i>rapariguinha</i>.</p>
-
-<p>Reside com sua mãe, mama mais um anno do que os rapazes,
-e vi meninas com seis annos d’idade ainda mamando,
-embora comam bem, fallem, e corram como as outras.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_80"></a>[80]</span></p>
-
-<p>Em quanto os rapazes d’esta idade carregam arcos e flexas,
-as raparigas se empregam em ajudar suas mães, fiando
-algodão como podem, e fazendo uma especie de redesinha
-como costumam por brinquedo, e amassando o barro com
-que imitam as mais habeis no fabrico de potes e panellas.</p>
-
-<p>Expliquemos o amor, que o pae e a mãe dedicam a seos
-filhos e filhas.</p>
-
-<p>Pae e mãe consagram todo o seo amor aos filhos, e ás
-raparigas apenas accidentalmente, e n’isto acho-lhes razão
-natural, nossa luz commum, a qual nos torna mais affeiçoados
-aos filhos do que ás filhas, porque aquelles conservam
-o tronco e estas o despedaçam.</p>
-
-<p>Abrangem a terceira classe desde 7 até 15 annos, e a moça
-n’esta idade se chama <i>kugnantin</i>, «rapariga»: n’este tempo
-ordinariamente perdem, por suas loucas phantasias, o que
-este sexo tem de mais charo, e sem o que não podem ser
-estimadas nem diante de Deos, nem dos homens; perdoem-me
-se digo, que n’esta idade não são prudentes, embora a
-honra e a lei de Deos as convidasse á immortalidade da
-candura, porque estas pobres raparigas selvagens pensam,
-e muito mal, aconselhadas pelo autor de todas as desgraças,
-que não devem ser mais puras quando chega esse tempo.
-Nada mais direi para não offender o leitor: basta tocar apenas
-o fio do meo discurso.</p>
-
-<p>N’essa idade aprendem todos os deveres de uma mulher:
-fiam algodão, tecem redes, trabalham em embiras, semeam
-e plantão nas roças, fabricam farinha, fazem vinhos, preparam
-a comida, guardam completo silencio quando se acham
-em quaesquer reuniões onde ha homens, e em geral fallam
-pouco se não estão com outras da mesma idade.</p>
-
-<p>A quarta classe está entre 15 a 25 annos, e a rapariga n’ella
-comprehendida chama-se <i>kugnammucu</i>, «moça ou mulher
-completa», o que nós dizemos por «moça boa para casar.»</p>
-
-<p>Passaremos em silencio o abuso, que se pratica n’estes
-annos, devido aos enganos de sua Nação, reputados como
-lei por elles.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_81"></a>[81]</span></p>
-
-<p>São ellas, que cuidam da casa alliviando suas mães, e
-tratando das coisas necessarias á vida da familia: cedo são
-pedidas em casamento, si seos paes não as destinam para
-algum francez afim de terem muitos generos, e no caso
-contrario são concedidas, e então se chamam <i>kugnammucu-poare</i>,<a id="Nanchor_39" href="#Note_39" class="fnanchor">[39]</a>
-«mulher casada, ou no vigor da idade.»</p>
-
-<p>D’ahi em diante acompanha seo marido carregando na
-cabeça e ás costas todos os utencilios necessarios ao preparo
-da comida, as vezes a propria comida, ou os viveres
-necessarios á jornada, como fazem os burros de carga com
-a bagagem e alimentação dos seos senhores.</p>
-
-<p>É occasião de dizer, que ambiciosos como os grandes da
-Europa, que desejam ostentar sua grandesa apresentando
-grande numero de burros, estes selvagens tambem desejam
-ter muitas mulheres para acompanhal-os, e levar suas bagagens,
-mormente havendo entre elles o costume de serem
-estimados e apreciados pelo grande numero de mulheres á
-seo cargo.</p>
-
-<p>Quando grávidas, após o casamento, são chamadas <i>puruabore</i>,
-«mulher prenhe», e apezar d’este estado não deixam
-de trabalhar até á hora do parto, como si nada tivessem.
-Apresentam grande volume, porque ordinariamente parem
-meninos grandes e corpolentos.</p>
-
-<p>Talvez se pense que n’este estado cuidam ellas em cobrir
-sua nudez, porem não soffrem a menor alteração o seo modo
-de viver.</p>
-
-<p>Chegado o tempo do parto, si assim se póde chamar,
-não procura para esse fim a cama, si as dores não são
-fortes: em qualquer dos casos senta-se, é rodeada por suas
-visinhas convidadas para assistil-as, pouco antes do apparecimento
-das dores, por meio d’estas palavras <i>chemenbuirare-kuritim</i>
-«eu vou já partir, ou estou quase a parir»:
-corre veloz o boato de casa em casa, que tal e tal mulher
-vae parir, dizendo com o nome proprio da parturiente estas
-palavras <i>ymen-buirare</i>, que significa «tal mulher pario, ou
-está para parir.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_82"></a>[82]</span></p>
-
-<p>Acha-se ahi o marido com as visinhas, e si ha demora
-no parto, elle aperta-lhe o ventre para fazer sahir o menino,
-o que acontecido, deita-se para observar o resguardo
-em lugar de sua mulher,<a id="Nanchor_40" href="#Note_40" class="fnanchor">[40]</a> a qual continua a fazer o serviço
-do costume, e então é vesitado em sua cama por todas
-as mulheres da aldeia, que lhe dirigem palavras cheias
-de consolação pelo trabalho e dôr, que teve de fazer o menino,
-sendo tratado como gravemente doente e muito cançado,
-á maneira do que se pratica em identicas circumstancias
-com as mulheres de paizes civilisados.</p>
-
-<p>Comprehende a quinta classe desde 25 até 40 annos,
-quando o homem e a mulher attingem ao seo maior vigor.</p>
-
-<p>Dam-lhe geral e commummente o nome de <i>kugnan</i>, «uma
-mulher, ou uma mulher em todo o seo vigor».</p>
-
-<p>N’essa idade conservam ainda as indias alguns traços de
-sua mocidade, e principiam a declinar sensivelmente, sendo
-feias e porcas, trazendo as mamas pendentes á similhança
-dos cães de caça, o que causa horror: quando jovens, são
-bonitas e asseiadas, e tem os peitos em pé.</p>
-
-<p>Não quero demorar-me muito n’esta materia, e concluo
-dizendo, que a recompensa dada n’este mundo á puresa é
-a incorruptibilidade e inteiresa acompanhada de bom cheiro,
-mui bem representada nas letras santas pela flôr do lyrio
-puro, inteiro e cheiroso—<i>sicut lilium inter spinas, sic amia
-mea inter filias</i>.</p>
-
-<p>A sexta e ultima classe está entre os 40 annos e o resto
-da vida, e então a mulher se chama <i>Uainuy</i>: n’este tempo
-ainda parem.</p>
-
-<p>Gosam do privilegio da mãe de familia: presidem ao fabrico
-dos <i>cauins</i>, e de todas as outras bebidas fermentadas.</p>
-
-<p>Occupam lugar distincto na <i>casa-grande</i> quando ahi vão
-as mulheres conversar, e quando ainda se achava em pleno
-vigor o poder de comerem os escravos, eram ellas as incumbidas
-de assar bem o corpo d’elles, de guardar a gordura,
-que não queriam, para fazer o <i>mingau</i>, de cozinhar as tripas,<span class="pagenum"><a id="Page_83"></a>[83]</span>
-e outros intestinos em grandes panellas de barro, de
-n’ellas misturar farinha e couves, e dividil-as depois por escudellas
-de pau, que mandavam distribuir pelas raparigas.</p>
-
-<p>Dam principio ás lagrymas e lamentos pelos defunctos, ou
-pela boa chegada de suas amigas.</p>
-
-<p>Ensinam ás moças o que aprenderam.</p>
-
-<p>Usam de más palavras, e são mais descaradas do que as
-raparigas e as moças, e nem me atrevo a dizer o que ellas
-são, o que vi e observei, sendo tambem verdade que vi e
-conheci muitas boas, honestas e caridosas.</p>
-
-<p>Existiam no <i>Forte de São Luiz</i> duas boas mulheres <i>Tabajares</i>,
-que não se cansavam de trazer-me presentesinhos,
-e quando me os offereciam, sempre choravam e desculpavam-se
-de não poderem dar melhores.</p>
-
-<p>Não espero muito d’estas velhas: e o superior nada tem
-a fazer senão esperar que a morte o livre d’ellas: quando
-morrem não são muito choradas e nem lamentadas, porque
-os selvagens gostam muito de ter mulheres moças.</p>
-
-<p>Os selvagens creem supersticiosamente terem as mulheres,
-depois de mortas, muita difficuldade de deparar com o
-lugar onde, alem das montanhas, dançam seos ante-passados,
-e que muitas ficam pelos caminhos, se é que lá chegam.</p>
-
-<p>Não guardam asseio algum quando atingem a idade da
-decrepitude, e entre os velhos e velhas nota-se a differença
-de serem os velhos veneraveis e apresentarem gravidade
-e autoridade, e as velhas encolhidas e enrugadas
-como pergaminho exposto ao fogo: com tudo isto são respeitadas
-por seos maridos e filhos, especialmente pelas
-moças e meninas.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_84"></a>[84]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXIII">CAPITULO XXIII</h3>
-
-<p class="subhead">Da consaguinidade entre os selvagens.</p>
-
-</div>
-
-<p>Como entre nós, a consaguinidade entre estes barbaros
-tem muitos graus e ramos, e se observa entre todas as familias
-com tanto cuidado como fazemos, excepto porem a
-castimonia, que tem alguns embaraços entre elles, menos
-no primeiro grau—de pae para filha.</p>
-
-<p>Entre os irmãos e irmans não ha casamentos, mas duvido,
-e não sem razão, da regularidade da vida d’elles, e nem
-isto merece ser escripto.</p>
-
-<p>Bróta o primeiro ramo do tronco de seos avós, que elles
-chamam <i>Tamoin</i>,<a id="Nanchor_41" href="#Note_41" class="fnanchor">[41]</a> e debaixo desta denominação comprehendem
-todos os seos ante-passados desde Nóe até o ultimo
-dos seos avós, e admira como se lembram e contam de avô
-em avô, seos ante-passados, o que difficilmente fazemos na
-Europa podendo remontar-nos, sem esquecer-nos, até o tataravô.</p>
-
-<p>O segundo ramo nasce e cresce do primeiro e chama-se
-<i>Tuue</i>, «pae», e é o que os gera em legitimo casamento,
-como acontece entre nós, porque para os bastardos ha outra
-Lei, de que fallarei em lugar proprio.</p>
-
-<p>Este ramo paterno dá outro, que se chama <i>Taire</i>, «filho»,
-o qual se córta e divide-se em diversos galhos, a que chamam
-<i>chéircure</i>, «meo irmão mais velho», um dia—a cumieira
-da casa e da familia, e <i>chéubuire</i>, «meo irmãosinho»,
-que só cuidará da casa, si fallecer seo irmão mais velho.</p>
-
-<p>Tendo filhos um destes irmãos, qualquer que seja o sexo,
-deve chamar o irmão de seo pae <i>chétuteure</i>, «meo tio» e
-sua mulher <i>chéaché</i>, «minha tia». Da mesma forma si seo
-pae tiver irmans elle as chama <i>chéaché</i>, «minha tia», como
-tambem os maridos d’estas <i>chétuteure</i>, «meo tio».</p>
-
-<p>Os tios e tias chamam os meninos de seos irmãos e irmans
-<i>chéyeure</i> «meo sobrinho», e as meninas <i>reindeure</i> ou
-<i>chereindeure</i>, «minha sobrinha».</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_85"></a>[85]</span></p>
-
-<p>Os filhos de dois irmãos, isto é, de um irmão e os de
-outra irman se chamam os homens <i>rieure</i> ou <i>cherieure</i>,
-«meo primo», e as moças <i>yeipere</i> ou <i>cheitipere</i> «minha
-prima.»</p>
-
-<p>Quanto á descendencia do lado das mulheres, a avó é o
-tronco, seja paterna ou materna, e chama-se <i>ariy</i> ou <i>cheariy</i>,
-«minha avó.»</p>
-
-<p>A mãe é o segundo ramo, e chama-se <i>Ai</i>, «mãe», ou <i>cheai</i>,
-«minha mãe».</p>
-
-<p>Seguem-se gradualmente a filha, cujo nome é <i>tagyre</i>, filha,
-ou <i>cheagyre</i>, «minha filha», a irman <i>teindure</i>, «irman», ou
-<i>chéreindure</i>, «minha irman», a tia <i>yaché</i>, «tia», ou <i>chéaché</i>,
-«minha tia», a sobrinha <i>reindure</i> ou <i>chereindure</i>, «minha
-sobrinha», ou «minha pequena irman», modo de fallar entre
-elles, a prima <i>yetipere</i>, «prima», ou <i>cheytipere</i>, «minha
-prima.»</p>
-
-<p>Eis os ramos de consaguinidade entre elles.</p>
-
-<p>Para os homens.</p>
-
-<ul>
-<li>Avô.</li>
-<li>Pae.</li>
-<li>Filho.</li>
-<li>Irmão.</li>
-<li>Tio.</li>
-<li>Sobrinho.</li>
-<li>Primo.</li>
-</ul>
-
-<p>Traduzido em sua lingua é</p>
-
-<ul>
-<li><i>Chéramoin</i> ou <i>tamoin</i>.</li>
-<li><i>Tuue</i> ou <i>chéru</i>.</li>
-<li><i>Tayre</i> ou <i>chéayre</i>.</li>
-<li><i>Cheircure</i> ou <i>chéubuire</i>.</li>
-<li><i>Tuteure</i> ou <i>chétuteure</i>.</li>
-<li><i>Yeure</i> ou <i>chéyeure</i>.</li>
-<li><i>Rieure</i> ou <i>chérieure</i>.</li>
-</ul>
-
-<p>Para as mulheres.</p>
-
-<ul>
-<li>Avó.</li>
-<li>Mãe.<span class="pagenum"><a id="Page_86"></a>[86]</span></li>
-<li>Filha.</li>
-<li>Irman.</li>
-<li>Tia.</li>
-<li>Sobrinha.</li>
-<li>Prima.</li>
-</ul>
-
-<p>Em sua linguagem.</p>
-
-<ul>
-<li><i>Ariy</i> ou <i>Ché-Ariy</i>.</li>
-<li><i>Ai</i> ou <i>Chéai</i>.</li>
-<li><i>Tagyre</i> ou <i>Chéagyre</i>.</li>
-<li><i>Theindeure</i> ou <i>Chéreindeure</i>.</li>
-<li><i>Yaché</i> ou <i>Chéaché</i>.</li>
-<li><i>Reindure</i> ou <i>Chéreindure</i>.</li>
-<li><i>Yetipere</i> ou <i>Ché-yetipere</i>.</li>
-</ul>
-
-<p>Alem d’estas consaguinidades existem mais duas por contractos
-de alliança; uma quando se dá sua filha á um individuo,
-ou quando se recebe uma moça para casar-se com
-seu filho, e outra quando, por contracto d’alliança com os
-francezes, lhes dam suas filhas para concubinas.</p>
-
-<p>Aos que dam suas filhas chamam <i>taiuuen</i> «genro», ou
-<i>Chéraiuuen</i>, «meo genro».</p>
-
-<p>Á mulher de seo filho chamam <i>Tautateu</i>, «nóra», ou <i>Cherautateu</i>,
-«minha nora».</p>
-
-<p>Chamam os Francezes seos alliados por hospitalidade <i>Tuasap</i>,
-«compadre» ou <i>ché-tuasap</i>, «meo compadre» e as
-vezes <i>Chéaire</i>, «meo filho,» ou <i>Cheraiuuen</i>, «meu genro,»
-quando sua filha é concubina do Francez.</p>
-
-<p>É este o ramo d’alliança.</p>
-
-<ul>
-<li>Genro.</li>
-<li>Nóra.</li>
-<li>Compadre.</li>
-</ul>
-
-<p>Em sua linguagem é</p>
-
-<ul>
-<li><i>Taiuuen</i>, ou <i>Ché-raiuuen</i>.</li>
-<li><i>Tautateu</i> ou <i>Cherautateu</i>.</li>
-<li><i>Tuassap</i> ou <i>Chetuassap</i>, ou então <i>Ché-aire</i>.</li>
-</ul>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_87"></a>[87]</span></p>
-
-<p>São bastardos os filhos, que tem fóra do casamento legitimo
-á moda d’elles, e entre estes bastardos ha ainda certa
-ordem.</p>
-
-<p>A primeira é dos que tem pae e mãe, ambos Tupinambás:
-a segunda dos que tem por mãe uma india Tupinambá
-e por pae um Francez: a terceira dos filhos de um Tupinambá
-e de uma escrava: a quarta de uma Tupinambá e de um
-escravo: a quinta finalmente de uma escrava e de um Francez.</p>
-
-<p>A linha dos bastardos é a seguinte:</p>
-
-<ul>
-<li>De um Tupinambá com uma Tupinambá.</li>
-<li>De uma india Tupinambá com um Francez.</li>
-<li>De um Tupinambá com uma escrava.</li>
-<li>De uma india Tupinambá e um escravo.</li>
-<li>De uma escrava e de um Francez.</li>
-</ul>
-
-<p>Em sua linguagem chamam estes bastardos <i>Marap</i>, ou
-<i>Ché-marap</i>, e aos bastardos dos Francezes <i>Mulatres</i>, «mulatos.»</p>
-
-<p>São diversas as leis d’estes bastardos conforme sua descendencia,
-e antes de tratar d’ellas convem estabelecer a
-regra geral para com os bastardos, que é quando...</p>
-
-<p class="center">(Falta uma folha.)</p>
-
-<p class="noindent">... elles o chamam <i>Toreuue</i>, «folgasão,» <i>Cheroreuue</i>, «sou divertido,
-folgasão:» o que é agradavel e tem para dizer alguma
-coisa chama-se <i>aron-ayue</i>.</p>
-
-<p>Suas saudações, perguntas e respostas, quando juntas, são
-o mais amavel que é possivel, mormente quando as fazem
-com acento muito longo, brando, e insinuante, especialmente
-as mulheres e as moças, e como sei que será agradavel ao
-Leitor vou aqui transcrever algumas de suas frazes communs
-e ordinarias.<a id="Nanchor_42" href="#Note_42" class="fnanchor">[42]</a></p>
-
-<p>Quando se levantam pela manhã dizem</p>
-
-<table summary="Traduções de palavras">
- <tr>
- <td>Tyen-de-Koem.</td>
- <td>Bom dia.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Nein Tyen-de-Koem</td>
- <td>Para vós tambem.</td>
- </tr>
-</table>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_88"></a>[88]</span></p>
-
-<p>A tarde, do regressar do trabalho, quando se despedem</p>
-
-<table summary="Traduções de palavras">
- <tr>
- <td>Tyen de Karuq.</td>
- <td>Boa tarde.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Nein Tyen de Karuq.</td>
- <td>Para vós tambem.</td>
- </tr>
-</table>
-
-<p>Quando chega a noite, e querem dormir, dizem reciprocamente.</p>
-
-<table summary="Traduções de palavras">
- <tr>
- <td>Tyen-de-potom.</td>
- <td>Boa noite.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Nein-Tyen-de-petom.</td>
- <td>Para vós tambem.</td>
- </tr>
-</table>
-
-<p>Se alguem se derige a elles, ou passa ao pé d’elles ou se
-encontra no caminho, muitas vezes pára um pouco, com expressão
-docil e rosto prasenteiro perguntam um ao outro:</p>
-
-<table summary="Traduções de palavras">
- <tr>
- <td>Mamo sui pereiu?</td>
- <td>D’onde vindes?</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Mamo peresso?</td>
- <td>Onde ides?</td>
- </tr>
-</table>
-
-<p>Logo que respondem e dizem d’onde vem e para onde
-vão, podeis ficar certo que se trata de uma das coisas seguintes,
-constante emprego de sua vida e exercicio, isto é,
-da pescaria no mar, da entrada nos bosques, da derrubada
-das arvores, da visita de suas roças, da plantação de raizes,
-da colheita dos fructos, e dos nabos, da caçada, dos passeios
-por varios lugares, da visita das aldeias e das habitações de
-uns e outros.</p>
-
-<p>São estas as respostas d’elles.</p>
-
-<table summary="Traduções de palavras">
- <tr>
- <td>Paranam-sui-kaiut.</td>
- <td>Venho do mar.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Pira-rekie-sui-kaiut.</td>
- <td>Venho de pescar.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Kaa-sui-kaiut.</td>
- <td>Venho do matto.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ybuira monosoc, ou então ybuira mondoc.</td>
- <td>Venho de cortar matto.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ko-sui-kaiut.</td>
- <td>Venho da roça.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ko-piraruer-kaiut.</td>
- <td>Venho de roçar.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Maetum aruere.</td>
- <td>Venho de cavar e de plantar.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Vuapoo-aruere kaiut.</td>
- <td>Venho de colher fructos.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Kaaue-aruere kaiut.</td>
- <td>Venho da caça.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Mosu-aruere-kaiut.</td>
- <td>Venho de passeiar.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Taaue-sui-kaiut.</td>
- <td>Venho de tal aldeia.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ahere-piac-sui-kaiut.</td>
- <td>Venho de ver tal pessoa.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Chere-suiu então cheretansui.</td>
- <td>Venho de minha casa.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ne in cheaiurco.</td>
- <td>Adeos, vou-me embora.<span class="pagenum"><a id="Page_89"></a>[89]</span></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ne in oro iurco.</td>
- <td>Adeos, vamo-nos embora.</td>
- </tr>
-</table>
-
-<p>Quando vae algum visinho procural-os em sua casa, ou
-quando sentem falta de alguma coisa, procurando por ahi
-algures elles perguntam:</p>
-
-<table summary="Traduções de palavras">
- <tr>
- <td>Que procuraes?</td>
- <td>Maeperese-kar?</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Que perguntaes?</td>
- <td>Maraereico?</td>
- </tr>
-</table>
-
-<p>Então dizem o que procuram, e respondem ás perguntas
-mui francamente; por exemplo:</p>
-
-<table summary="Traduções de palavras">
- <tr>
- <td>Quero comêr.</td>
- <td>Agerure deué-cheremyuran ressé.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Quero farinha.</td>
- <td>Agerure uiressé.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Quero carne.</td>
- <td>Agerure soo ressé.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Quero peixe.</td>
- <td>Agerure pyra ressé.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Quero agoa.</td>
- <td>Agerure v-ressé.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Quero fogo.</td>
- <td>Agerure tata cheué.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Quero uma faca.</td>
- <td>Agerure xè.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Um machado.</td>
- <td>Iu.</td>
- </tr>
-</table>
-
-<p>Se veem alguem pensativo, elles lhe perguntam o que ha
-e no que pensam.</p>
-
-<table summary="Traduções de palavras">
- <tr>
- <td>Que pensaes?</td>
- <td>Mara-péde-ie-mongueta.</td>
- </tr>
-</table>
-
-<p>Elle responde:</p>
-
-<table summary="Traduções de palavras">
- <tr>
- <td>Não penso em coisa alguma.</td>
- <td>Ai Kogué.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Penso em alguma coisa.</td>
- <td>Maerssé-kaien-arico.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Penso em vós.</td>
- <td>Dressé kaien-arico.</td>
- </tr>
-</table>
-
-<p>Si veem um conversando com outros, tem muita curiosidade
-de saber o que dizem, e por isso vão procural-os, e
-amigavelmente lhe perguntam:</p>
-
-<table summary="Traduções de palavras">
- <tr>
- <td>Que dizeis? ou então, em que conversavam?</td>
- <td>Mára-erepe? Mára-erepipo? Mara-peie-peiupé.</td>
- </tr>
-</table>
-
-<p>Respondem elles:</p>
-
-<table summary="Traduções de palavras">
- <tr>
- <td>Fallavamos de nossas occupações.</td>
- <td>Ore-rei-koran koiomongueta.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Fallavamos de vós.</td>
- <td>Deressé koia-mongueta.</td>
- </tr>
-</table>
-
-<p>Assim passavam entre si a vida mui pacifica e familiarmente.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_90"></a>[90]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXV">CAPITULO XXV</h3>
-
-<p class="subhead">Dos caracteres incompativeis entre os selvagens.</p>
-
-</div>
-
-<p>Costumava Socrates dizer, que assim como o vinho aspero
-e grosseiro é de digestão má e desagradavel ao paladar,
-assim tambem os caracteres rudes, grosseiros e impectuosos
-não servem para companheiros de uma conversação entre
-homens.</p>
-
-<p>Escreveo Plutarcho, que assim como o som aspero dos
-caldeirões e panellas quebradas encolerisam os tigres a ponto
-de fazel-os accommetter desesperadamente e saltar sobre os
-que vem fazer perto d’elles tão incommodo e desagradavel
-barulho, assim tambem fazem as más inclinações, ou os
-maus caracteres entre os homens.</p>
-
-<p>Aborrecem sobre todas as coisas o companheiro, que
-provoca e faz mal ao seo visinho, e chamam-no <i>Moiaron</i>,
-e quando se insultam por palavras, chamam-no então <i>Oroacap</i>.</p>
-
-<p>Quando encontram taes caracteres, fogem d’elles e evitam
-iguaes contestações, e ainda fazem mais, previnem os
-Francezes seos compadres, afim de que nada peçam á tal
-gente.</p>
-
-<p>Si por ventura teem mulheres com esse genio ficam
-muito contrariados, e não necessitam ser muito rogados afim
-de livrarem-se d’ellas, ou de consentir que vão para onde
-bem lhes parecer.</p>
-
-<p>Ha em <i>Juniparan</i>, na Ilha, um hermaphrodita, no exterior
-mais homem do que mulher, porque tem face e voz de
-mulher, cabellos finos, flexiveis, e compridos, e comtudo
-casou-se e teve filhos, mas tem um genio tão fórte que vive
-porque receiam os selvagens da aldeia trocar palavras com
-elle.</p>
-
-<p>Presenciei a mudança de uma familia inteira somente
-para evitar a visinhança de um selvagem de muito máo caracter.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_91"></a>[91]</span></p>
-
-<p>Escarnecem e despresam o homem, que se accommoda
-com as provocações e questões de sua mulher quando ella
-tem mau genio.</p>
-
-<p>Em quanto ahi morei, aconteceo aborrecer-se um selvagem
-do mau genio de sua mulher a ponto de empunhar com a
-mão direita um cacete, e na esquerda segurar nos cabellos
-d’ella querendo experimentar se este oleo e balsamo adoçaria
-o azedume de seo mal, porem admirou-se de vêr, que
-cahindo o fogo na chaga mais o augmentasse, porque podendo
-escapar-se de suas mãos, á vista dos visinhos, tomou
-tambem ella outro cacete, quiz fazer o mesmo ao marido, e
-depois de se haverem espancado reciprocamente com grande
-applauso de todos, ficaram ambos com igualdade de circumstancias
-frente a frente um do outro, sendo depois o
-marido a fabula e o assumpto de todas as conversas, quer
-dos grandes quer dos pequenos. Diziam os antigos nas suas
-<i>Casas-grandes</i>, que elle não teve remedio si não ficar com
-sua mulher, porque já a conhecia.</p>
-
-<p>Vi os abandonar e deixar seos generos a quem vendem,
-só para evitar questões com o comprador.</p>
-
-<p>Notareis, que elles só tem—<i>sim</i> e <i>não</i>—quando negociam
-juntos, ou com os Francezes, nunca regateando.</p>
-
-<p>Muitos outros exemplos eu poderia ainda reproduzir, porem
-bastam estes.</p>
-
-<p>Avaliam muito bem as pessoas colericas, a que chamam
-<i>Poromotare-vim</i>, e reciprocamente se advertem dizendo—<i>Cheporomatare-vim</i>,
-«estou encholerisado,» e então ninguem
-lhe diz nada, antes buscam abandonal-o o mais que podem,
-o que exprimem por <i>Mogerecoap</i>, «abrandar alguem». <i>Aimogerecoap</i>,
-«abrando o que está encolerisado.»</p>
-
-<p>Observei muitas vezes, quando viam um Francez enraivecido,
-ficarem como que fóra de si, mudarem de côr, e fugirem
-da vista d’elle, dizendo uns aos outros <i>Ymari turuçu</i>
-«está muito zangado, está muito enfurecido.» <i>Ché-assequeié
-seta</i>. «Tenho medo d’elle.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_92"></a>[92]</span></p>
-
-<p>Aconteceu encolerisarem-se muitas vezes duas ou tres pessoas
-da nossa equipagem na aldeia, em que estavam. Vieram
-por isto os Principaes ao Forte de São Luiz queixarem-se
-e pedindo, que lhes tirassem de lá esses Francezes, porque
-lhes faziam medo, e especialmente a seos filhos, o que
-conseguiram.</p>
-
-<p>Si as questões de palavras e as raivas são temiveis, muito
-mais ainda o são os insultos e as disputas, o que é muito raro,
-a ponto de espancarem-se, o que chamam <i>ionupan</i> «espancar-se»,
-e ainda mais quando se ferem, o que explicam por
-<i>iuapichap</i>, «ferir-se,» mormente quando depois de se haverem
-maltratado reciprocamente vão por despeito queimar as suas
-casas, o que exprimem pela palavra <i>Iuapic</i> «incendiarios»
-reciprocos: todos sentem estas coisas, e ninguem se atreve
-a metter-se entre elles para aplacal-os: eis como fazem: vae
-cada um para seu lado, e tomando uma porção de pindoba
-secca, acendem-na, atiram sobre a cobertura de sua propria
-casa, dizendo uns aos outros—salve quem poder sua casa,
-queimei a minha, ninguem podia oppôr-se a minha vontade,
-e assim em poucos momentos a aldeia está queimada e ninguem
-lhe diz nada.</p>
-
-<p>Aconteceria isto muitas vezes na Ilha, se não fosse o receio
-que tinham dos Francezes.</p>
-
-<p>Não gostam de ser injuriados, seja homem ou mulher, e
-nem mesmo as publicas consentem que se as chame <i>Pataqueres</i>
-«meretrises.»</p>
-
-<p>Recorda-me que tendo tido uma india escrava um filho
-de um Francez, as outras lançaram-lhe isto em rosto chamando-a
-<i>Pataquere</i>, «meretriz» com o que se doeu muito,
-e disse que, se continuassem, ella mataria seo filho ou o enterraria
-vivo.</p>
-
-<p>Chamam a injuria <i>Curap</i>.</p>
-
-<p>Ninguem se admire de evitarem estes selvagens a colera
-e seos effeitos, por ser esta paixão contraria a natureza
-do homem, fazendo-o inteiramente bruto, como disse São<span class="pagenum"><a id="Page_93"></a>[93]</span>
-Basilio Magno, na Homilia 10, da ira, e transformar o homem
-n’um animal feroz—<i>Hominem penitus in feram converti</i>:
-São Gregorio de Nissa, na Oração 2ª sobre a bemaventurança,
-compara a colera com esses antigos feiticeiros do
-Paganismo, que por encanto mudavam e transformavam o
-homem em diversos animaes ferozes como o javaly e a panthera.
-A colera faz o mesmo.</p>
-
-<p>São Gregorio Magno, no 5º livro da sua <i>Moral</i>, cap. 30,
-diz ser o cerebro do colerico o buraco, onde se geram as
-víboras.—<i>Cogitationes iracundi viperæ sunt generationis</i>.</p>
-
-<p>Platão contra esta paixão aconselhava, como remedio, aos
-seos discipulos, que observassem bem os gestos e as palavras
-de um homem colerico, e ou que se mirassem n’um
-espelho quando se enraivecessem.</p>
-
-<p>Não é coisa nova e nem fóra de proposito o temerem e
-fugirem estes selvagens quando veem um homem encolerisado,
-especialmente um Francez, porque diz o proverbio,
-cap. 27—<i>Impetum concitati spiritus ferre quis poterit?</i></p>
-
-<p>Não é menos difficil de crer-se, que, por despeito, apoz
-calorosa ou inconveniente questão, queimem elles suas casas,
-porque no <i>Proverbio 26</i> acha-se <i>sicut carbones ad prunas
-et ligna ad ignem</i>—assim como o carvão é para o brasieiro,
-e a lenha para o fogo, assim tambem a questão de
-palavras é para o homem naturalmente colerico, <i>sic homo
-iracundus suscitat rixas</i>, e no <i>Ecclesiastico 28</i>, <i>secundum
-ligna sylvæ, sic ignis exardescit</i>—tal é a quantidade da lenha
-qual a força do fogo, fallando da colera.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_94"></a>[94]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXVI">CAPITULO XXVI</h3>
-
-<p class="subhead">Da economia dos selvagens.</p>
-
-</div>
-
-<p>Dizia Pitacus ser bem regulada a familia quando n’ella
-encontram-se duas coisas—falta de superfluidade tanto no
-que diz respeito á vida como ao governo da casa, e o que
-é necessario para isto.</p>
-
-<p>Diz Cicero, que perguntando-se a Catão, qual é o melhor
-governo de uma casa, elle respondera—onde houver comida,
-vestuario e amor ao trabalho.</p>
-
-<p>Parece-me ser estas sentenças mais applicaveis aos selvagens,
-e aos que passam vida frugal do que á outra classe
-de individuos.</p>
-
-<p>São Thomaz definindo a economia concluio dizendo não
-ser outra coisa mais do que uma boa ordem domestica, e
-para conseguir-se este fim convinha, que a familia tivesse
-viveres e tudo o mais necessario a vida, sendo mui essencial
-não só uma boa intelligencia, como tambem que cuidassem
-todos os membros d’ella em seos deveres.</p>
-
-<p>A propria natureza, e não qualquer sciencia adquirida,
-ensina isto aos selvagens.</p>
-
-<p>As aldeias são divididas em quatro habitações, sob o governo
-de um <i>Muruuichaue</i>, para o temporal, e um <i>Pagy-uaçú</i>
-«um feiticeiro» para as molestias e bruxarias.<a id="Nanchor_43" href="#Note_43" class="fnanchor">[43]</a></p>
-
-<p>Cada habitação tem o seo Principal: estes quatro Principaes
-estão sob as ordens do maioral da aldeia, o qual conjunctamente
-com outros de varias aldeias obedecem ao Principal
-soberano da provincia. Cada...</p>
-
-<p class="center">(falta uma folha.)</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_95"></a>[95]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXVIII">CAPITULO XXVIII</h3>
-
-<p class="subhead">Do cuidado que do seo corpo tem os selvagens.</p>
-
-</div>
-
-<p>Platão chamava o corpo um privilegio da Naturesa, e Crates,
-o philosopho, um reino solitario.</p>
-
-<p>Mereceriam estas duas sentenças amplo desenvolvimento,
-si não nos occupassemos de uma historia, que exige estylo
-conciso, sem superfluidade de palavras ou digressões fóra de
-proposito.</p>
-
-<p>Applicamos comtudo o dizer d’estes dois philosophos ao
-nosso assumpto para notar, que tendo a naturesa, por longos
-annos, recusado vestidos aos corpos dos indios, os compensara
-formando-os bellos e agradaveis, sem o menor auxilio
-de suas mães, que apenas os lavam e carregam como
-si fosse qualquer pedaço de pau.</p>
-
-<p>Assenta-lhes muito bem a opinião de Crates chamando o
-corpo um reino solitario e deserto, porque assim como os
-animaes do deserto crescem e ficam vigorosos, em quanto
-residem ahi, isto é, em sua plena liberdade, assim tambem
-quando sob o dominio do homem e presos, embora no Palacio
-dos Reis e principes da terra, para serem vistos e observados
-como novidade, principiam logo a emagrecer, a
-entristecer-se, a perder o desejo da propagação e de conservação
-da especie, somente por terem perdido a liberdade
-que outr’ora gosavam no seu reino solitario.</p>
-
-<p>Negando a natureza á estes selvagens viveres bem preparados,
-bebidas bem feitas, vestidos pomposos, leitos macios,
-soberbas casas e palacios, compensou-os porem, dando
-lhes plena liberdade como aos passarinhos no ar, e as
-bestas no campo, sem lastimarem-se, como fazem outros
-quando comparam as pretendidas commodidades d’este
-Mundo.</p>
-
-<p>Se o diabo com o fim de roubar-lhes o bem da salvação,
-não se metesse entre elles, levantando novas discordias afim
-de se matarem e comerem reciprocamente, não haveriam<span class="pagenum"><a id="Page_96"></a>[96]</span>
-por certo homens mais felizes no mundo por causa de sua
-natural franqueza e liberdade, que, adubando as suas carnes
-as transformam em perfeita e saudavel nutrição, e d’ahi
-provem a bellesa de seos corpos.</p>
-
-<p>Espero a objecção para responder—isto é, de se terem
-visto muitos indios sordidos e horriveis. Respondo: não é
-no rosto, onde se deve observar a forma e a bellesa de um
-homem, e eis a razão porque Demostenes zombou, quando
-os embaixadores de Athenas regressando de sua commissão
-junto a Philippe, Rei de Macedonia, gabavam muito a formosura
-d’elle: não, não, disse Demostenes, não é digna de
-louvor a belleza do rosto de um homem, tão commum entre
-os Cortezãos, porem merece encomios a sua estatura, a proporção
-de seos membros, e a sua figura e elegancia.</p>
-
-<p>Fallo de haver a naturesa dado ordinariamente aos selvagens,
-e especialmente aos <i>Tupinambás</i>, corpo bem feito,
-bem proporcional e elegante, e quando estragam seos rostos
-por incisões, fendas, e extravagancias de pinturas e de ossos,
-o fazem pela ideia erronea, que tem, de serem por isto reputados
-valentes.</p>
-
-<p>Tem muito cuidado na limpesa de seos corpos: lavam-se
-muitas vezes, e não se passa um só dia, em que não deitem
-muita agua sobre si, em que se não esfreguem com
-as mãos por todos os lados para tirar o pó e outras immundicies.</p>
-
-<p>Penteiam-se as mulheres muitas vezes.</p>
-
-<p>Receiam emmagrecer, o que chamam em sua linguagem
-<i>angaiuare</i>, e lastimam-se diante dos seos semelhantes dizendo
-<i>Ché-angaiuare</i>, «estou magro,» e todos se compadecem
-mormente quando chegam de qualquer viagem abatidos
-pelo trabalho: todos o lastimam e o deploram, dizendo
-<i>Deangoiuare seta</i>, «ah! quanto está magro, só tem ossos.»</p>
-
-<p>Eis a causa unica por que não podiam residir comnosco
-os rapazes baptisados, visto temerem muito as mães, que
-não emagrecessem em poder dos Francezes, os quaes suppunham
-ter falta de tudo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_97"></a>[97]</span></p>
-
-<p>Não consentiam que seos maridos trouxessem comsigo os
-filhos para vêr os Padres e as Capellas de Deos, senão á
-força, e com vivas recommendações para que voltassem, e
-quando se lembravam d’elles grande era a sua tristesa, e
-choravam.</p>
-
-<p>Conservei em minha companhia um rapaz de <i>Tapuitapera</i>
-chamado <i>Miguel</i>, já baptisado, e que muito bem
-sabia a doutrina christã, afim de ensinal-a aos meos escravos.</p>
-
-<p>Residio comigo por alguns mezes, porem não poude ficar
-mais por causa das importunações de sua mãe, e a dor que
-mostrava chorando e lamentando-se constantemente, de maneira
-que veio seo pae de proposito para leval-o, dizendo-lhe
-que sua mãe o esperava cheia de piedade (modo de fallar
-para mostrar compaixão): veio pedir-me licença para o
-seo regresso chorando por deixar-me (tanto amam e estimam
-seos paes!) dizendo que sua mãe estava magra, e
-cheia de tristesa por sua ausencia e pensando tambem que
-elle definhava estando comigo, asseverando-me que contaria
-á sua mãe o bom tratamento que eu lhe dava, e a licença
-que lhe concedi de voltar a sua casa.</p>
-
-<p>Um de nossos escravos commetteo uma falta, pela qual
-ia ser castigado: mal soube elle desta resolução, e quando
-ia ser preso, disse que estava magro, e que não o açoitassem
-como si fosse gordo, porque a gordura cobre os ossos,
-apara os açoites e impede que a dor lhes chegue. «Si me
-açoitaes com força me quebraes as veias apenas cobertas
-pela pelle», e assim dizia por ser muito magro.</p>
-
-<p>Para engordarem reuniam-se muitos indios, embarcavam-se
-n’uma canoa grande, muniam-se de farinha, de flechas e
-de cães, iam á terra firme, onde matavam a caça, que apeteciam,
-como veados, onças, capivaras, vaccas bravas, tatùs,
-e muitos passaros, e ahi se demorando em quanto havia
-farinha, engordavam á farta com estas comidas, e voltavam
-depois para a Ilha trasendo muita caça assada.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_98"></a>[98]</span></p>
-
-<p>Quando á Ilha regressou da guerra do Pará o indio <i>Brasil</i>
-julgando-se magro, pedio licença ao Sr. de Ravardiere para
-ir á terra firme levando comsigo alguns Francezes afim de
-engordar, o que lhe foi permittido.</p>
-
-<p>Embrenharam-se muito pelo sertão, e quando a felicidade
-os encheo de caça, aconteceo-lhes uma desgraça—acabou-se-lhes
-a farinha: viram-se obrigados a comer palmito, como si
-fosse pão, com a carne que tinham, o que contrariou muito
-os Francezes não habituados a esta especie de pão, sentindo
-muito que a festa não fosse completa, havendo tanta carne,
-sem pão e sem sal.</p>
-
-<p>Aconteceo-lhes o mesmo, que a Midas, possuidor de muito
-ouro, quando sua mulher lhe apresentou na meza muitas
-iguarias, todas porem de ouro, ou então á Tantalo morrendo
-de sêde apezar de cercado d’agoa: o mesmo lhes aconteceo,
-emagreciam em vez de engordarem por não levarem
-a farinha necessaria.</p>
-
-<p>N’este ponto os Francezes imitam os selvagens, e por isso
-estes os estimam.</p>
-
-<p>Os Francezes residentes no Fórte pedem licença para passeiar
-e refazerem-se de forças.</p>
-
-<p>Quando os selvagens sabem d’isto, vão á caça, e mediante
-a troca de alguns generos offerecem a estes passeiadores
-dois ou tres banquetes: findos estes regressam á sua terra,
-e assim vão continuando ora n’uma aldeia, ora n’outra, girando
-por toda a Ilha, ou provincia de <i>Tapuitapera</i> e <i>Comã</i>
-divertindo-se e engordando.</p>
-
-<p>Os Francezes hospedados por seos compadres n’estas aldeias
-não são muito felizes em seos passeios, porque se ha
-então alguma coisa boa não é para elles, e sim para os viandantes.</p>
-
-<p>Costumam os selvagens dar o melhor, que possuem aos
-hospedes, por dois ou tres dias, findos os quaes tratam-nos
-com o uso commum e trivial.</p>
-
-<p>Admire-se, eu vos peço, ainda que ligeiramente, o grande
-amor de Deos para com os homens, dando-lhes o sentimento<span class="pagenum"><a id="Page_99"></a>[99]</span>
-natural da caridade para com o proximo. O que fazem de
-melhor os christãos, ou observam os Religiosos, do que a
-caridade puramente natural dos selvagens, que não podem
-alcançar a gloria, bem differente do que acontece á caridade
-sobre natural dos christãos, que espera a recompensa da
-vida eterna?</p>
-
-<p>O aceio do corpo faz-se por muitas maneiras, e entre ellas
-contam-se estas.</p>
-
-<p>Trazem sempre na bocca a herva do Petun, (tabaco ou
-fumo) cujo fumo expellem pela bocca e narinas com intenção
-de seccar as humidades do cerebro e as vezes o engolem
-para limpar o estomago de cruezas que sahem por meio
-do arrôto.</p>
-
-<p>Apenas acabam de comer fumam o Petun, e o mesmo
-praticam pela manhan e a noite, quando se levantam e deitam-se.</p>
-
-<p>A proposito de Petun devo contar a ideia supersticiosa,
-que formam desta herva e do seo fumo.</p>
-
-<p>Crêem, que esta herva os torna discretos, judiciosos, e
-eloquentes, de forma que antes de começarem algum discurso
-usam d’ella: não me parece, que seja comtudo muito
-supersticiosa, porque ha nisto uma razão natural: eu mesmo
-a experimentei, e reconheci, que a sua fumaça exclarece o
-entendimento dissipando os vapores dos orgãos do cerebro,
-fortalece a voz seccando a humidade e escarros da bocca,
-permittindo assim facilidade á lingua para bem exercer suas
-funcções.</p>
-
-<p>É facil experimentar-se isto usando-se d’ella com parcimonia
-e em occasião propria, porque o abuso continuado
-d’ella não me parece bom e saudavel aos que se alimentam
-de bebidas e carnes quentes, porem é util aos que sentem
-frios e humidos o estomago e o cerebro.</p>
-
-<p>Eis a razão porque o selvagem, habitante d’esta zona
-humida, e que bebe de ordinario somente agoa, uza
-constantemente d’este fumo afim de descarregar o cerebro
-de humidades e frialdade, e o estomago de cruezas, o<span class="pagenum"><a id="Page_100"></a>[100]</span>
-que tambem praticam os marinheiros e os habitantes das
-praias.</p>
-
-<p>Pondo-se de infusão por espaço de 24 horas esta herva,
-presta-se muito para purificar o corpo de infecções. Usa-se
-somente do vinho.</p>
-
-<p>Crêem tambem que, engolindo o fumo, ficam alegres, joviaes
-e previnidos contra a tristesa e melancolia.</p>
-
-<p>Vou referir-vos alguns casos que me contaram:</p>
-
-<p>Um selvagem que foi morto na bocca de uma peça, e de
-quem hei-de fallar no <i>Tratado do Spiritual</i>, antes de se
-encaminhar para o supplicio pedio um macinho de <i>Petun</i>,
-como ultima consolação d’esta vida afim de morrer com
-energia e alegria. Apenas alcançou o que desejava mostrou-se
-alegre e sempre cantando até o fim.</p>
-
-<p>Quando seos companheiros o ataram á bocca da peça, elle
-pedio para que não amarrassem o braço direito de fórma
-que o embaraçasse de levar á bocca o Petun: quando a bala
-dividio o seo corpo em duas partes, uma foi para o mar, e
-a outra cahio na base do rochedo, e n’esta achou-se ainda
-seguro pela mão direita o mólho de <i>Petun</i>.</p>
-
-<p>Os selvagens sentenciados á morte não soffrem a pena
-sem usarem antes do <i>Petun</i>, conforme o costume da terra,
-e não deixavam este habito nem mesmo os doentes.</p>
-
-<p>Os feiticeiros do paiz servem-se d’esta planta com proveito,
-o que agora não refiro, e sim guardo para o fazer mais
-adiante, si não me esquecer.</p>
-
-<p>Empregam ainda outro meio para a conservação da saude.</p>
-
-<p>Comem muitas vezes e pouco de cada uma: depois que
-comem lavam muito bem a bocca, e se tem sêde quando comem,
-bebem pouco apenas para apagar a sêde, gargarejam
-bem a agua na bocca para aplacar o ardor do paladar.</p>
-
-<p>Cozinham muito bem suas comidas, e não usam d’ellas
-meias cozidas ou aferventadas, sendo n’isto mais cuidadosos
-do que os Francezes.</p>
-
-<p>Untam-se com azeite de palmas, de urucú, e de genipapo,<a id="Nanchor_44" href="#Note_44" class="fnanchor">[44]</a>
-o que tem sempre em abundancia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_101"></a>[101]</span></p>
-
-<p>Estou certo que os meos leitores, pouco conhecedores da
-disposição do corpo humano e do regimem necessario á sua
-conservação, julgarão que a natureza ensinou a estes homens
-o mesmo que a sciencia e a experiencia ensinaram a
-outros.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXIX">CAPITULO XXIX</h3>
-
-<p class="subhead">De algumas indisposições naturaes, a que os selvagens
-se acham sugeitos, e quaes os nomes, que
-dão aos membros do corpo.</p>
-
-</div>
-
-<p>São os selvagens, na verdade, dotados pela naturesa com
-boa saude, feliz e agradavel disposição.</p>
-
-<p>Raras vezes, na proporção de um para cem, encontram-se
-entre elles corpos mal feitos e monstruosos.</p>
-
-<p>Não vi um só cego, apesar de existirem, porque elles o
-chamam <i>Thessa-um</i>, «cego,» <i>Cheressa-um</i>, «estou cego,»
-e <i>Ressa-um</i> «tu és cego.»</p>
-
-<p>Notei porem terem alguns a vista curta, especialmente os
-velhos, e notavelmente as mulheres, visto que depois de 30
-annos d’idade tem a vista tão curta e fraca a ponto de não
-poderem mais tirar dos pés os <i>Thons</i><a id="Nanchor_45" href="#Note_45" class="fnanchor">[45]</a> «bixos» como fazem
-os rapazes e as moças.</p>
-
-<p>A proposito dizia um capitão Francez, não da nossa gente
-e pouco crente, que o Papa não tinha poder sobre o mar,
-porque Deos havia dito a São Pedro que seo poder estendia-se
-somente sobre a terra, e por isso todos os que passam
-o mar em busca d’estas terras não são mais sugeitos<span class="pagenum"><a id="Page_102"></a>[102]</span>
-aos mandamentos da Igreja, podendo mui livremente tomar
-uma rapariga para concubina, visto terem necessidade d’ella
-para tirar dos pés d’elle e de outros francezes estes bixos.</p>
-
-<p>Conto isto para mostrar quanto são perigosos estes paizes
-ás almas que tudo envenenam.</p>
-
-<p>Vi zarolhos, a que chamam <i>Thessaue</i>, porem muito poucos,
-e vesgos que denominam <i>Thessauen</i>, «vesgo» <i>Cheressauen</i>,
-«estou vesgo,» <i>Deressauen</i> «tu és vesgo.»</p>
-
-<p>Encontram-se alguns gagos, a que chamam <i>Gningayue</i>,
-«gago,» <i>Chegningayue</i>, «estou gago.»</p>
-
-<p>Os velhos e os meninos são muito ramellosos, a que chamam
-<i>Thessau-um</i> «ramelloso» <i>Cheressau-um</i> «estou ramelloso»,
-<i>Deressau-um</i> «tu és ramelloso»: é o resultado da
-grande humidade do paiz, mais predominante nos corpos
-dos meninos e dos velhos por causa da fraqueza do calor
-natural, que é maior nos corpos d’estes do que nos dos outros,
-onde é mais forte e intenso.</p>
-
-<p>Existem poucos calvos, e se chamam <i>apterep</i> «calvo,»
-<i>Cheapterep</i> «estou calvo», e não existem muitos por serem
-seos cabellos nutridos com força, e eis a razão porque tem
-os cabellos fortes, duros e lisos.</p>
-
-<p>Encontram-se poucos coxos <i>Parin</i>, poucos manetas <i>Iuuasuc</i>,
-e poucos mudos <i>Gneen-eum</i>, alguns gottosos <i>Karuarebore</i>,
-de <i>Karuare</i> «gotta.»</p>
-
-<p>Encontra-se tambem uma especie de sarnentos de raça,
-os quaes mudam de pelle annualmente, e comtudo não sentem
-molestia alguma, estão sãos, e chamam-nos a todos,
-que soffrem este mal <i>Kuruuebore</i>.</p>
-
-<p>Ha tambem obesos, <i>Timbep</i>, e se diz <i>Chetimbep</i> «estou
-obeso,» <i>Detimbep</i> «tu és obeso,» e <i>Ytimbep</i>, «elle é obeso.»</p>
-
-<p>A todas as partes do corpo dão um nome especial, e particular.</p>
-
-<p>Chamam a alma <i>an</i>, «minha alma» <i>che-an</i>, «tua alma»
-<i>dean</i>, «nossas almas» <i>orean</i>, «vossas almas» <i>pean</i>, «suas
-almas» <i>yan</i>, em quanto a alma está unida ao corpo, porque
-quando está separada chamam-na <i>anguere</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_103"></a>[103]</span></p>
-
-<table summary="Traduções de palavras">
- <tr>
- <td>A cabeça.</td>
- <td><i>Acan.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Minha cabeça.</td>
- <td><i>Cheacan.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Caspa.</td>
- <td><i>Kua.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Cabellos.</td>
- <td><i>Aue.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Meos cabellos.</td>
- <td><i>Cheaue.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Cerebro.</td>
- <td><i>Aputuon.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Rosto.</td>
- <td><i>Suua.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Palpebra.</td>
- <td><i>Taupepyre.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Cara.</td>
- <td><i>Tova.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Meo rosto.</td>
- <td><i>Cherova.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Teo rosto.</td>
- <td><i>Derova.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Seo rosto.</td>
- <td><i>Sova.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Olho.</td>
- <td><i>Tessa.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Lagrymas.</td>
- <td><i>Thessau.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Meo olho.</td>
- <td><i>Cheressa.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Mancha no olho.</td>
- <td><i>Tessaton.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Vi uma mancha no olho.</td>
- <td><i>Cheressaton.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Piscar os olhos.</td>
- <td><i>Sapumi.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Pisco os olhos.</td>
- <td><i>Assapumi.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ouvido.</td>
- <td><i>Apuissa.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ouvir.</td>
- <td><i>Sendup.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ouço.</td>
- <td><i>Assendup.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Orelha.</td>
- <td><i>Nemby.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Minha orelha.</td>
- <td><i>Chénemby.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Nariz.</td>
- <td><i>Tin.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Monco.</td>
- <td><i>Embuue.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Narinas.</td>
- <td><i>Apoin-uare.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Paladar da bocca, ou véo do paladar.</td>
- <td><i>Konguire.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Bocca.</td>
- <td><i>Giuru.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Beiço superior.</td>
- <td><i>Apuan.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Beiço inferior.</td>
- <td><i>Teube.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Garganta.</td>
- <td><i>Yasseok.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Escarrar.</td>
- <td><i>Gneumon.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Eu escarro.</td>
- <td><i>Auendeumon.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Tu escarras.</td>
- <td><i>Eveuendeumon.</i><span class="pagenum"><a id="Page_104"></a>[104]</span></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Saliva.</td>
- <td><i>Thenduc.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Lingua.</td>
- <td><i>Apekon.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Minha lingua.</td>
- <td><i>Ché-ape kon.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Fallar.</td>
- <td><i>Gneem.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Eu fallo.</td>
- <td><i>Aigneem.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Bom fallador.</td>
- <td><i>Gneemporam.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Halito.</td>
- <td><i>Puitu.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Dentes.</td>
- <td><i>Taim.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Doe-me os dentes.</td>
- <td><i>Chéréuassu.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Meo dente.</td>
- <td><i>Cheraim.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Teo dente.</td>
- <td><i>Deraim.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Seo dente.</td>
- <td><i>Saim.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Dente maxillar.</td>
- <td><i>Taiuue.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Mastigar.</td>
- <td><i>Chuu.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Eu mastigo.</td>
- <td><i>Achuu.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Face.</td>
- <td><i>Tovape.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Beijar.</td>
- <td><i>Geurupuitare.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Eu beijo.</td>
- <td><i>Aigeurupuitare.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Bochechudo.</td>
- <td><i>Tovape-uaçu.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Queixo.</td>
- <td><i>Tendeuua.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Barba.</td>
- <td><i>Tendeuua-aue.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Barbudo.</td>
- <td><i>Tendeuuaaue-reKuare.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Cachaço.</td>
- <td><i>Aiure.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Collo.</td>
- <td><i>Aiuripui.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Estrangular.</td>
- <td><i>Iubuic.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Peito.</td>
- <td><i>Potia.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Espaduas.</td>
- <td><i>Atiue.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Braços.</td>
- <td><i>Iuua.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Cotuvello.</td>
- <td><i>Tenuvangan.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Punho.</td>
- <td><i>Papue.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Palma da mão.</td>
- <td><i>Papuitare.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Mão.</td>
- <td><i>Pó.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Minha mão.</td>
- <td><i>Chépo.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Mão direita.</td>
- <td><i>Ekatua.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Mão esquerda.</td>
- <td><i>Açu.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Dedos.</td>
- <td><i>Puan.</i><span class="pagenum"><a id="Page_105"></a>[105]</span></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Unha.</td>
- <td><i>Puampé.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Minha unha.</td>
- <td><i>Chépuampé.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Mama.</td>
- <td><i>Cam.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Coração.</td>
- <td><i>Gnaen.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Veias.</td>
- <td><i>Taiuc.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Sangue.</td>
- <td><i>Tubui.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Baço.</td>
- <td><i>Perep.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Tripa.</td>
- <td><i>Thyepuy.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Figado.</td>
- <td><i>Puya.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Fel.</td>
- <td><i>Puya-upiare.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Barriga.</td>
- <td><i>Thuye-uaçu.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ventre.</td>
- <td><i>Theic.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Embigo.</td>
- <td><i>Puruan.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Dorso.</td>
- <td><i>Atucupé.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Rins.</td>
- <td><i>Puiacoo.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ilharga.</td>
- <td><i>Ké.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Minha ilharga.</td>
- <td><i>Ché-ké.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Costella.</td>
- <td><i>Aru kan.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Minha costella.</td>
- <td><i>Ché-aru kan.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Quadril.</td>
- <td><i>Tenambuik.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Madre.</td>
- <td><i>Acaia.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Testiculos.</td>
- <td><i>Pere-ketin.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Nadegas.</td>
- <td><i>Tevire.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Curva da perna.</td>
- <td><i>Ananguire.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Coxas.</td>
- <td><i>Uue.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Joelhos.</td>
- <td><i>Tenupuian.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Pernas.</td>
- <td><i>Tuma.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Pé.</td>
- <td><i>Pui.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Calcanhar.</td>
- <td><i>Puita.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Planta de pé.</td>
- <td><i>Puipuitare.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Dedo do pé.</td>
- <td><i>Puissan.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Corpo.</td>
- <td><i>Tétè.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Meo corpo.</td>
- <td><i>Chéreté.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Pello.</td>
- <td><i>Pyre.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Suor.</td>
- <td><i>Thue.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Gordura.</td>
- <td><i>Kaue.</i><span class="pagenum"><a id="Page_106"></a>[106]</span></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Osso.</td>
- <td><i>Cam.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Meo osso.</td>
- <td><i>Chécam.</i></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Tutano.</td>
- <td><i>Camaputuon.</i></td>
- </tr>
-</table>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXX">CAPITULO XXX</h3>
-
-<p class="subhead">De algumas molestias particulares a estes paizes
-de indios, e de seos remedios.</p>
-
-</div>
-
-<p>O Genesis nos ensina, como explicam os doutores haver
-Deos dado aos homens contra todos os males o fructo de
-uma arvore, a maneira da Theriaga.</p>
-
-<p>Este mesmo Deos, sempre bom para com todas as creaturas,
-embora pequenas e longe d’elle, prevendo que esta
-infeliz raça de selvagens viveria, por longos annos, vagabunda
-e nua pelas grandes florestas do Brasil, lhes deo muitas
-especies de arvores e hervas para o curativo de suas
-feridas e molestias.</p>
-
-<p>Tem este paiz muitas arvores medicinaes, gommas salutiferas,
-e excellentes hervas, como não ha em parte alguma.</p>
-
-<p>O tempo e o estudo hão de fazel-as conhecidas.<a id="Nanchor_46" href="#Note_46" class="fnanchor">[46]</a> Vi tirar-se
-da casca de certa arvore uma especie de almecega,
-similhante á que cresce nos jardins da Europa, e dizem os
-selvagens que serve para toda a molestia, e assim a empregam.
-Contam mais, que todos os animaes ferozes quando
-se sentem feridos ou doentes, recorrem a esta arvore para
-curarem-se, e por isso raras vezes se encontra uma só com
-toda a sua casca, por ser roida constantemente por todos
-os bixos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_107"></a>[107]</span></p>
-
-<p>Encontra-se tambem crescida nas folhas das arvores uma
-especie de gomma branca, de côr prateada, e que dizem
-ser muito boa para certas chagas.</p>
-
-<p>Ha outra gomma, tambem branca, optima para limpar
-chagas e fazer suppurar os abcessos profundos fazendo seo
-effeito em 24 horas.</p>
-
-<p>Vi o seo emprego n’um moço francez, que estava commigo
-o qual tinha, por causa dos bixos, os pés e as pernas tão
-estragados e inchados a ponto de receiarmos que as perdesse:
-coisa horrivel e impossivel de narrar-se bem: fez-se
-applicação de emplastos d’esta gomma nas pernas e pés, e
-no dia seguinte estava são como si antes não tivesse coisa
-alguma, porque puchando os bixos do interior das carnes
-onde se achavam á superficie das feridas, ahi pela cabeça
-se grudaram os emplastos, e assim morreram todos em numero
-consideravel, limpando muito bem a chaga e deixando-a
-viva e vermelha.</p>
-
-<p>Não fallarei de outras hervas e balsamos, e nem d’um milhão
-de hervas, das quaes se podem destillar espiritos e essencias,
-porque desejo fallar de certas molestias, reinantes
-n’este paiz, dos remedios, que contra ellas se applicam, não
-porque seja a terra doentia e insalubre, antes muito boa e
-saudavel, especialmente de junho a janeiro: durante este
-tempo as brisas, isto é, os ventos de Este ou do Oriente
-sopram constantemente, livrando o paiz de vapores pestillenciaes,
-e por isso raras vezes adoecem os selvagens, e a
-fallar a verdade, elles só tem uma molestia, de que morrem.</p>
-
-<p>São os francezes muito mais sujeitos á doenças, como a
-experiencia fez conhecer a mim e a outros, porem creio ser
-isto devido ás necessidades e miserias, porque passamos no
-principio do estabelecimento ou da fundação e não a outra
-causa.</p>
-
-<p>Tinham então os francezes poucas commodidades, porem
-ja começavam a gozal-as quando deixei a Ilha.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_108"></a>[108]</span></p>
-
-<p>Não desejo a pessoa alguma taes necessidades e molestias,
-porem fiquem todos certos e convencidos de que não
-soffrerão a centesima parte do que soffremos.</p>
-
-<p>Das suas molestias a primeira chama-se <i>Pian</i>, que vem
-da palavra <i>Pé</i>, que quer dizer «caminho», ou, se quereis,
-«pé,» por originar esta molestia do escarro, ou da sanie,
-espalhado no chão, por onde se caminha: começa ordinariamente
-debaixo dos dedos dos pés, do tamanho de um liard,<a id="FNanchor_56" href="#Footnote_56" class="fnanchor">[BD]</a>
-de côr negra: os indios chamam esta mancha <i>Aipian</i>, isto é,
-a «Mãe Pian,»<a id="Nanchor_47" href="#Note_47" class="fnanchor">[47]</a> porque d’ella descendem todas as outras
-chagas e postemas, que esta horrivel molestia espalha por
-todo o corpo á maneira de uma herva ou arbusto, que sahindo
-d’esta <i>Mãe Pian</i>, como de uma raiz, fosse sempre
-crescendo, subindo, e espalhando, pelo corpo ramos, folhas
-e olhos, que enchesse interna e externamente o doente de
-crueis dores, e de incrivel putrefacção, das quaes muitos
-morrem. Dura pouco mais ou menos dois annos.</p>
-
-<p>Si um francez soffrer esta molestia deve curar-se perfeitamente
-antes de regressar ao seo paiz, porque não ha remedio
-no mundo, excepto no Brasil, que a cure, a não ser
-o rhuibarbo commum, isto é, a morte, que cura todos os
-males.</p>
-
-<p>Ja disse como esta molestia chega accidentalmente: vejamos
-agora sua origem e fonte ordinaria e natural afim de
-prevenir os francezes, que la forem.</p>
-
-<p>Esta molestia ataca os francezes, como o mal de Napoles,
-por excessiva communicação com as raparigas indigenas:
-para evital-a convem a vida casta, ou então que tragam
-suas mulheres, ou que se casem com as indias christãs, visto
-ser o casamento poderoso antidoto contra tal veneno, o que
-se observa mesmo no casamento natural dos indios, os quaes
-não soffrem o <i>grande mal</i>, se não o tem adquirido algures,<span class="pagenum"><a id="Page_109"></a>[109]</span>
-e sim o <i>pequeno</i>, que todos soffrem na vida, similhante a
-syphilis e a variola na Europa.</p>
-
-<p>Esta <i>bouba</i> grande excede em dor e sordidez, sem comparação,
-ao mal de Napoles, e com razão, porque merece
-ser punido n’esta vida o peccado, que commettem os francezes
-com as Indias, arrebatando de nossas mãos, estas infelizes
-almas quando pretendiamos salval-as, si com seos
-maus exemplos não as conduzissem ás fornalhas da lubricidade.</p>
-
-<p>Meditem bem os que são capazes de commetterem taes
-crimes, na conta que darão a Deos por haverem causado o
-damno e a perda d’estas pobres almas indigenas.</p>
-
-<p>Si a vida eterna é somente concedida aos que buscam a
-salvação de outrem, que lugar esperarão os que, para satisfação
-de brutaes desejos, seduzem essas pobres creaturas
-a ponto de fazel-as despresar as prédicas do Evangelho e a
-sua propria salvação?</p>
-
-<p>Tempo e paciencia são os principaes remedios para esta
-molestia; os suores aproveitam muito, mitigam e encurtam
-o tempo, bem como as dietas e o regimen de vida.</p>
-
-<p>A experiencia tem mostrado, que para estas molestias a
-carne mais propria é a do <i>tubarão</i> (não usada pelos sãos,
-por lhes fazer vomitar até sangue, e produzir-lhes grandes
-molestias) cozida com hervas duras e amargas, que se encontram
-em todo o paiz.</p>
-
-<p>Por um momento de prazer soffrem mil dores, e o que
-para os bons é veneno para elles é carne saudavel, embora
-de mau gosto.</p>
-
-<p>É costume d’este astuto Boticario Satanaz untar o bordo
-do copo com mel ou assucar para se beber de um só trago
-o veneno, que depois vae roer e encher de dor as entranhas:
-quero dizer, que ao peccador apresenta o prazer, e
-não o seo castigo, e bem depressa experimenta o desgraçado,
-que o prazer vôa, porem a dor é eterna.</p>
-
-<p>O Sr. de Ravardiere, outros francezes, e eu sobre todos,
-soffremos intensas febres quartans, terçans, e incertas, as<span class="pagenum"><a id="Page_110"></a>[110]</span>
-quaes depois de haverem mortificado muito o corpo, deixam
-dores nos rins, produzem colicas insuportaveis com vomitos
-continuos, sempre debilitando o corpo, resfriando e contrahindo
-o estomago, acompanhada por continua fluxão do cerebro,
-que se espalha pelos braços, coxas, e pernas, tornando-as
-sem acção, á similhança de uma estatua ou pedra
-immovel.</p>
-
-<p>Parece-me que é a molestia, que ceifa maior numero de
-selvagens tornando-os ethicos e paralyticos.</p>
-
-<p>Os remedios para estas molestias são—o beber menos
-agua que fôr possivel, porque o sabor das aguas alterado
-com o calor da febre, faz beber muita agua, perdendo o estomago
-seo calor proprio, adquirindo grande crueza e fraqueza,
-de que resulta não só a sua constricção, mas tambem
-a pituita e outros humores corrompidos: presentemente como
-ha cerveja espero que não sejam frequentes estas molestias
-e que não chegarão ao excesso, que vi, e cujas consequencias
-ainda sinto.</p>
-
-<p>O vinho e a aguardente são bons para aquecer o estomago,
-e por isso aconselho aos que lá forem, que poupem
-muito o seo vinho e aguardente para essa e outras necessidades,
-e não os gastem prodigamente em deboches, mórmente
-sendo a cerveja, ahi feita com milho bom, muito mais saborosa
-e saudavel, por causa do continuo calor, do que o
-vinho e a aguardente.</p>
-
-<p>As boas bebidas são o unico remedio, e as aves e ovos
-ahi em abundancia são o alimento d’esses doentes.</p>
-
-<p>As outras molestias são o defluxo e violentas dores de
-dentes por causa da humidade da noite nesta Zona tórrida,
-como bem notou o jesuita Acosta, na sua <i>Historia dos Indios</i>,
-a qual pode recorrer o leitor, visto que nada quero
-dizer ou escrever sem sciencia propria.</p>
-
-<p>É tão forte a humidade da noite, que produz ferrugem nas
-espadas, mosquetes, facas, machados e machadinhos, que
-corroe e destroe não havendo cuidado de os limpar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_111"></a>[111]</span></p>
-
-<p>São mui frias as fluxões do cerebro, pois descendo á raiz
-dos dentes apodrecem-nos e os fazem cahir.</p>
-
-<p>São remedios especiaes á estes males a applicação de cauterios
-no pescoço e braços, e cobrir bem a cabeça durante
-a noite.</p>
-
-<p>Todos os annos reina doença de olhos, das quaes poucos
-escapam especialmente os Franceses, porque dura apenas
-oito dias, sendo por sua vehemencia antes furor do que molestia,
-e si se não atacar logo corre-se o risco de vêr-se somente
-metade do mau tempo.</p>
-
-<p>È facil o remedio: tome-se um pouco de vitriolo, deite-se
-n’uma garrafa cheia d’agoa bem limpa, e d’ella se derrame
-um pouco nos olhos bem abertos e fixos, abstendo-se de tocal-os,
-tendo-os sempre cobertos, e não os expondo ao vento
-e nem ao sol, porque senão o mal redobra visto que sendo
-formada esta molestia de uma fluxão quente e acrimoniosa,
-si esfregardes os olhos e vos expôrdes a acção do vento e
-do sol, mais exacerbareis o vosso mal.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXI">CAPITULO XXXI</h3>
-
-<p class="subhead">Da morte e dos funeraes dos Indios.</p>
-
-</div>
-
-<p>Jacob despresou duas irmans Lya e Rachel, o que é diversamente
-explicado por Padres e Doutores. Tomarei somente
-o que convem á historia, isto é, que Deos tem duas
-filhas a Naturesa e a Graça, que dá por esposa aos seos escolhidos.</p>
-
-<p>A Naturesa é imperfeita, porem fecunda como Lya: a Graça
-é de formosura inexcedivel, porem esteril como Rachel.<span class="pagenum"><a id="Page_112"></a>[112]</span>
-Ambas são irmans: basta vel-as para reconhecer-se, e como
-taes são seos filhos-irmãos germanos; differençando-se apenas
-por linhas diversas, isto é, n’um ponto de ceremonia,
-nas ultimas homenagens prestadas a seos parentes, reconhecemos
-facilmente a verdadeira religião e os seos herdeiros.</p>
-
-<p>Acha-se isto tão naturalmente gravado no fundo da alma
-das nações as mais barbaras, que serve de argumento mui
-positivo para provar acharem-se em verdadeira graça os que
-prestam homenagem aos seos defunctos.</p>
-
-<p>Em caso contrario prova-se que estão em poder do gentilismo,
-e em opposição ao instincto puramente natural, imitando
-n’este caso os brutos, não fazendo caso dos seos amigos
-fallecidos, especialmente da sua alma, melhor parte de
-sua composição.</p>
-
-<p>É a maldição dada por Job, no cap. 18—<i>Memoria illius
-pereat de terra, et non celebretur nomem ejus in plateis</i>,
-«desappareça da terra a sua memoria, e nem seja seo nome
-pronunciado na rua.»</p>
-
-<p>Symmachus explicando diz <i>Non erit nomem ejus in faciem
-fori</i>—não chegará seo nome ao foro dos senadores, e
-mais claramente Policronius <i>Nec in amicorum versabitur
-memoria</i> «nem seos amigos se recordarão d’elles,» grande
-maldição, visto que os povos os mais selvagens do Universo
-que são os habitantes do Brasil nada mais receiam, após a
-morte, do que não serem chorados e lamentados, isto é,
-que para elles, na morte, não hajam da parte dos seos parentes,
-lagrymas, lamentações, e outras ceremonias embora
-supersticiosas.</p>
-
-<p>Quando se acham muito doentes estes selvagens, e por
-seos parentes julgados em perigo de vida, perguntam-lhes o
-que desejam comer antes da morte, e saciam-lhes o desejo.</p>
-
-<p>Em quanto doentes alimentam-se com farinha de mandioca
-e <i>ionker</i> «pimenta da india,» misturada com sal, julgando
-com tal dieta, abuso inaudito entre elles, recobrarão a antiga
-saude.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_113"></a>[113]</span></p>
-
-<p>Vi um homem e uma mulher da nação dos <i>Tabajares</i>, que
-tinham só pelle e ossos, parecendo-me terem apenas vida
-por dois dias, e por isso os baptisei logo, apenas me pediram,
-e escaparem da morte tomando taes caldos.</p>
-
-<p>Quando chega a hora da morte, reunem-se todos os seos
-parentes, e geralmente todos os seos concidadãos, cercam-lhe
-o leito do moribundo, os parentes mais perto, depois os
-velhos e as velhas, e assim de idade em idade: não dizem
-uma só palavra, olham-no com toda a attenção, banham-se
-de lagrymas constantemente; mas apenas a pobre creatura
-exhala o ultimo suspiro, dão berros e gritos, fazem lamentações
-compostas por uma musica do vozes fortes, agudas,
-baixas, infantis, emfim de todo o genero, que infallivelmente
-enternece todos os corações, embora sejam naturaes todas
-essas dores e lagrymas, sem conhecimento do bem e do
-mal, que poderá gozar esse espirito desprendido do corpo
-morto.</p>
-
-<p>Depois de muitas lamentações, o Principal da aldeia ou o
-Principal dos amigos fazia um grande discurso muito commovente,
-batendo muitas vezes no peito e nas coxas, e então
-contava as façanhas e proesas do morto, dizendo no fim—<i>Ha
-quem d’elle se queixe? Não fez em sua vida o que faz um
-homem forte e valente?</i></p>
-
-<p>Conto isto porque presenciei-o tres ou quatro vezes, lembrando-me
-de haver lido e notado em Polybio, Livro 6º, e
-em Deodoro da Sicilia, Livro 2º, cap. 3º, terem os antigos
-Romanos o costume de levarem seos defunctos á Praça publica,
-e ahi o filho mais velho da casa, ou o principal herdeiro
-em falta de filhos machos e de maior idade, subia á
-uma especie de theatro, e desfiando todos os louvores, que
-podia fazer ao morto, seo parente, desafiava todos os assistentes
-para que o accusassem, si podessem, afim d’elle defendel-o,
-e depois convidava-os a acompanharem o corpo até
-a sepultura.</p>
-
-<p>Voltemos aos nossos selvagens. Acabado que seja o choro
-e o discurso tomam o corpo, ja cheio de pennas na cabeça<span class="pagenum"><a id="Page_114"></a>[114]</span>
-e nos braços, uns o vestem com um capote, outros lhe dão
-um chapeo, si o ha, trasem-lhe o massinho de petum<a id="Nanchor_48" href="#Note_48" class="fnanchor">[48]</a>,
-seo arco, frexas, machados, foices, fogo, agoa, farinha, carne
-e peixe e o que em vida elle mais apreciava.</p>
-
-<p>Faziam depois um buraco fundo e redondo em fórma de
-poço: assentavam o morto sobre seos calcanhares conforme
-era o seo costume, e á cova desciam-no de mansinho<a id="Nanchor_49" href="#Note_49" class="fnanchor">[49]</a> accommodando
-ao redor d’elle a farinha, a agoa, a carne, o
-peixe e ao lado de sua mão direita afim de poder pegar em
-tudo com facilidade e na esquerda arrumavam os machados,
-as foices, os arcos e as flexas.</p>
-
-<p>Ao lado d’elle faziam um buraco, onde accendiam fogo
-com lenha bem secca afim de não apagar-se, e despedindo-se
-d’elle o incumbiam de dar muitas lembranças á seos paes,
-avós e amigos, que dançavam nas montanhas, alem dos Andes,
-onde julgam ir todos depois de mortos.</p>
-
-<p>Uns dão-lhe presentes para levarem a seos amigos, e outros
-lhe recommendam, entre varias coisas, muito animo no
-decorrer da viagem, que não deixem o fogo apagar-se, que
-não passem pela terra dos inimigos, e que nunca se esqueçam
-de seos machados e foices quando dormirem n’algum
-lugar.</p>
-
-<p>Cobrem-no depois pouco á pouco com terra, e ficam ainda
-por algum tempo junto á cova, chorando-o muito e dizendo-lhe
-adeos: de vez em quando ahi voltam as mulheres
-ora de dia ora de noite, choram muito e perguntam á sepultura,
-se elle ja partio.</p>
-
-<p>A proposito contarei tres historias interessantes.</p>
-
-<p>Enterraram um bom velho em distancia de 50 passos de
-minha casa. Dia e noite consumiam-me as velhas com seos
-choros.</p>
-
-<p>Para adquirir socego lembrei-me de mandar esconder
-n’uma moita em caminho, perto da cova, dois rapazes francezes,
-que commigo moravam. Mais adiante mandei tambem
-esconder dois escravos nossos, a quem ensinei o que deviam
-fazer.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_115"></a>[115]</span></p>
-
-<p>A noite todos occuparam as suas posições, e no fim de um
-quarto de hora quando vieram as velhas, todas juntas, e que
-principiaram a gritar na cova, responderam os franceses,
-imitando <i>Jeropary</i>, e ellas cheias de susto despararam a correr,
-e quando no caminho encontraram outros dois <i>Jeropary</i>,
-redobraram de esforços, e saltando por abrolhos e espinheiros
-chegaram á casa mais mortas do que vivas, e ahi sobresaltando
-a todos mandaram fechar as portas para que não
-entrasse o tal <i>Jeropary</i>.</p>
-
-<p>Estava eu perto e muito gostei d’esta comedia por alcançar
-socego, visto não regressarem mais as velhas.</p>
-
-<p>Morreo um selvagem, e foi enterrado na estrada perto de
-<i>São Francisco</i>, lugar no <i>Forte de São Luiz</i>.</p>
-
-<p>Fora baptisado antes da sua morte, e com tudo, sem sciencia
-nossa, enterraram-no ahi e com as ceremonias que já
-descrevi. Mortifiquei-me muito com isto, ralhei bastante, porem
-não pude descobrir o culpado por já haver decorrido
-tres ou quatro dias.</p>
-
-<p>Passando por ahi achei sua mulher, que voltava da roça,
-assentada sobre a sepultura, chorando amargamente, e espalhando
-n’ella algumas espigas de milho.</p>
-
-<p>Indagando-lhe o que fazia, respondeo-me estar perguntando
-a seo marido si elle ja tinha partido, porque receiava
-haverem amarrado muito as suas pernas, e não lhe terem
-dado a sua faca, pois havia levado comsigo apenas o seo
-machado e sua foice, e que lhe trasia o milho para comer
-e partir no caso de já não ter mais provisões.</p>
-
-<p>Fil-a sahir, mostrando como pude, a sua ignorancia e superstição.</p>
-
-<p>Falleceo um menino com doença no ventre, de dois annos
-de idade, e duas horas depois de baptisado.</p>
-
-<p>Eu, o Sr. de Pezieux, e outros franceses fomos amortalhal-o
-n’um lençol d’algodão.</p>
-
-<p>Encontramos o corpo cercado por muitas velhas, fazendo
-algasarra capaz de quebrar uma cabeça de aço, carregado
-de missangas, que trasem para ahi os francezes, e de muitos<span class="pagenum"><a id="Page_116"></a>[116]</span>
-busios, de que usam nos seos adornos e enfeites para as
-grandes festas.</p>
-
-<p>Não podemos convencer ás velhas afim de serem tirados
-taes enfeites, e sendo assim mesmo conduzido n’uma prancha
-por um francez, fizemos o seo funeral a maneira da Europa,
-levando o seo corpo á capella do Forte de São Luiz,
-onde recitamos as orações prescriptas pela Igreja para esse
-fim.</p>
-
-<p>Seguiram-nos as velhas de bem perto, e não se animando
-a entrar, começaram a entoar uma musica tão alta e forte,
-que não nos entendiamos dentro da Igreja.</p>
-
-<p>Imposemos silencio, e foi o corpo enterrado no cemiterio
-junto á capella.</p>
-
-<p>As velhas se metteram entre os francezes, umas trazendo
-fogo, agoa, farinha, e outras o mais que ja dissemos para o
-caminho, o que mandei deitar fóra fazendo-lhes vêr a asneira
-por intermedio do interprete.</p>
-
-<p>Recolheram-se as suas casas, onde se fartaram de chorar.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXII">CAPITULO XXXII</h3>
-
-<p class="subhead">Do regresso á Ilha do Sr. de la Ravardiere e de
-alguns Principaes, que o seguiram.</p>
-
-</div>
-
-<p>Com a chegada da barca portugueza o Sr. de Pezieux escreveo
-ao Sr. de la Ravardiere e expedio uma canôa para tal
-fim, descrevendo o estado em que nos achavamos e prestes
-a sermos sitiados em breve tempo.</p>
-
-<p>Gastou a canoa tres mezes na viagem, e sciente destas
-coisas partio logo que poude em direcção da Ilha, afrontando<span class="pagenum"><a id="Page_117"></a>[117]</span>
-perigos, que muitos são n’estes mares; porem de coisa
-alguma nos serviria sua actividade, porque se n’esse intervallo
-soffressemos o cerco seriamos já então vencedores ou
-vencidos.</p>
-
-<p>Esta interrupção da viagem do Amazonas causou muito
-mal a Colonia, porque se teria colhido muitos generos pelas
-margens dos rios, muito mais povoados de selvagens
-de diversas nações do que a Ilha, Tapuitapera, Comã e
-Caieté.<a id="Nanchor_50" href="#Note_50" class="fnanchor">[50]</a></p>
-
-<p>São mais pacificos, e bem providos de algodão.</p>
-
-<p>Quanto mais pobres e necessitados de machados, foices,
-facas e vestidos, tanto mais facil é a troco de qualquer d’estes
-objectos alcançar grandes riquezas.</p>
-
-<p>Outro prejuiso soffreo a Colonia dos francezes, porque
-achando-se muitas nações resolvidas a aproximarem-se da
-Ilha, por ahi residirem e fazerem suas roças, vindo com o
-Sr. de la Ravardiere, ao saberem taes noticias dos portuguezes,
-resolveram suspender a execução do seo plano, e esperar
-o resultado dos negocios.</p>
-
-<p>Chegando o Sr. de la Ravardiere proseguio-se activamente
-nas obras dos Fortes das avenidas da Ilha, montando-se-lhes
-artilharia e dando-se-lhes guarnição.</p>
-
-<p>Passados alguns dias achou-se acompanhado por muitos
-guerreiros selvagens, que vieram para a Ilha, e entre elles
-estava o <i>Arraia grande</i> dos Caietés, selvagem pelos seos
-muito estimado, valente, bom conselheiro, e de tal influencia,
-que os seos companheiros o seguem, trabalham e abraçam
-inteiramente as suas ideias, o que foi muito util aos
-francezes visto assim terem muitos homens dedicados, e occupados
-no serviço.</p>
-
-<p>Pouco antes da viagem do Amazonas alguns bregeiros espalharam
-entre os <i>Caietés</i> do <i>Pará</i>, que sob o pretexto dessa
-viagem iam os francezes captival-os.</p>
-
-<p>Esta noticia aterrou-os de tal forma, que muitos ja estavam
-resolvidos a deixar suas casas, e a buscar outro lugar
-quando o <i>Arraia grande</i> por seos discursos lhes fez vêr<span class="pagenum"><a id="Page_118"></a>[118]</span>
-quanto era infundado o seo receio, dizendo então muito bem
-dos francezes.</p>
-
-<p>Elle, sua mulher, e alguns parentes acompanharam uma
-barca, que ia da Ilha para o Pará em busca dos generos do
-paiz, ahi mui preciosos.</p>
-
-<p>Quiz a infelicidade que, no regresso para a Ilha, naufragasse
-a canôa por estar muito pesada duas legoas longe da
-terra.</p>
-
-<p>Despresaram todas as riquezas, procurando salvarem-se
-agarrados a um pedaço da escotilha, a uma taboa, ou ao
-bote.</p>
-
-<p>Esperou o <i>Arraia grande</i>, que todos procurassem meios
-de salvarem-se, e afinal elle, sua mulher, e um interprete
-francez si puzeram a nadar animando elle a todos com estas
-palavras—«a morte é invejosa, vêde como atira estas
-ondas sobre a nossa cabeça afim de nos arremeçar no abysmo,
-mostremos-lhe que somos ainda fortes e valentes, e que
-não é chegado o tempo de nos levar.»</p>
-
-<p>Salvaram-se todos em varias ilhas não habitadas, excepto
-um francez, victima de tubarões.<a id="Nanchor_51" href="#Note_51" class="fnanchor">[51]</a></p>
-
-<p>Vendo o <i>Arraia grande</i> os francezes nús e famintos, em
-lugares estereis e cercados de mar, atirou-se ás ondas, a
-nado atravessou grande espaço cheio de mangue desembaraçando-se
-á muito custo das raizes destas arvores, e do tujuco
-onde as vezes se enterrava até o pescoço.</p>
-
-<p>Chegando a aldeia dos seos similhantes animou-os a virem
-com algumas canoas, vestidos e viveres, e depois que
-todos regressaram ás aldeias defronte do lugar do naufragio,
-elle lhes entregou tudo quanto haviam perdido, e que
-o mar tinha atirado ás praias.</p>
-
-<p>Outr’ora este indio, n’um navio de São Maló, veio a França,
-onde se demorou um anno pouco mais ou menos, e em
-tão pouco tempo aprendeo a fallar francez, e ainda hoje se
-fazia entender bem, embora ja se houvessem passado muitos
-annos, e tem tão bom juiso e memoria que ainda hoje
-conta varias particularidades, que la existem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_119"></a>[119]</span></p>
-
-<p>Não trato do estado espiritual, e nem do que me disse
-relativamente ao Christianismo, porque deixo isso para o
-seo lugar proprio, mas quanto ao temporal muitas vezes o
-ouvi dizer aos seos similhantes, e especialmente aos <i>Tabajares</i>
-do Forte de São Luiz, «que os francezes eram fortes,
-que habitavam um paiz grande, abundante de boas comidas,
-de muito vinho, de pão, de boi, de carneiro, de galinhas,
-de muitas especies de ovos, e de grande variedade
-de peixes: que suas casas eram construidas de pedras, cercadas
-de grossos muros, onde estava assestada grossa artilharia,
-batendo o mar na base da muralha, ou então sendo
-esta circulada de fossos cheios d’agoa.</p>
-
-<p>«Pelas ruas estão lojas de todos os generos. Andam a cavallo,
-e os Grandes, ou melhor os Principaes são acompanhados
-por muitas pessoas, como o Sr. de la Ravardiere,
-residente perto da cidade, onde cheguei.</p>
-
-<p>«O Rei de França mora no centro do seo reino, n’uma cidade
-chamada Pariz. Os francezes aborrecem, como nós, os
-<i>Peros</i>, e lhes fazem guerra por terra e por mar, e sempre
-com vantagem, porque são fracos os <i>Peros</i>, valentes e animosos
-os francezes como nenhuma outra nação, e eis a razão
-porque não devemos temer aquelles visto estes nos defenderem.
-Alguns maldizentes de nossa gente espalharam
-não terem os francezes podido tomar os <i>Camarapins</i>, porem
-isto é falso. Cumpriram seo dever e si os Tupinambás
-tivessem querido ajudar-nos, seriam agarrados, porem o
-chefe dos franceses condoeo-se d’elles, e não quiz que todos
-fossem queimados como aconteceo em parte.»</p>
-
-<p>Fez este e outros discursos similhantes, e depois percorrendo
-a Ilha, em cada aldeia os repetia nas <i>reuniões</i> na
-<i>caza grande</i>.</p>
-
-<p>Procurando imitar a maneira porque entrou na grande
-praça de São Luiz, não só para saudar os Tabajaras, como
-tambem para ajudar os francezes, dispoz elle a sua gente,
-em numero de cem a cento e vinte, um a um, ou um atraz
-do outro, e assim por diante.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_120"></a>[120]</span></p>
-
-<p>A uns deo cabaças, panellas, e rodela, e a outros espadas
-e punhaes, a estes arcos e flexas, a aquelles differentes
-instrumentos, dividindo os tocadores de Maracá<a id="Nanchor_52" href="#Note_52" class="fnanchor">[52]</a> pelas desenas,
-e assim percorreram a habitação dos <i>Tabajaras</i>, e
-depois foram á praça grande do Forte, onde estavamos, e
-ahi acabaram suas danças, muito similhantes a dos <i>Pantalons</i>,
-andando e fazendo mesuras, batendo todos ao mesmo
-tempo com o pé em terra, ao som da voz e do Maracá, cujo
-compasso todos observavam entoando sempre louvores aos
-francezes.</p>
-
-<p>Mechiam em todos os sentidos a cabeça e as mãos, com
-taes gestos que faziam rir as pedras.</p>
-
-<p>Chamam os Tupinambás a esta dança <i>Porasséu-tapui</i>,
-quer dizer, <i>dança dos Tapuias</i>, porque era outra a dança
-dos <i>Tupinambás</i>, sempre em roda e nunca mudando de
-lugar.</p>
-
-<p>Acabada a dança, veio saudar-nos, e foi comer e descançar
-na casa, que se lhe havia preparado.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXIII">CAPITULO XXXIII</h3>
-
-<p class="subhead">Viagem do capitão Maillar,<a id="Nanchor_53" href="#Note_53" class="fnanchor">[53]</a> pela terra firme á casa de
-um grande feiticeiro. Descripção d’esta terra
-e das zombarias d’elle.</p>
-
-</div>
-
-<p>É verdade, reconhecida por todos que hão habitado o
-Brasil, não ser a terra firme tão bonita e tão fertil como as
-Ilhas.</p>
-
-<p>São as ilhas formadas por areia preta e fina, queimada e
-ardente pelo continuo calor, e por isso são ellas mais sujeitas<span class="pagenum"><a id="Page_121"></a>[121]</span>
-n’esta Zona tórrida aos calores e ardores, porque o
-mar redobra pela reflexão e poder da luz do Sol sobre a capacidade
-proxima e concentrica da terra, o que se prova
-por meio dos espelhos ardentes, cujos centros sendo opacos,
-e mais elevados do que suas circumferencias e bordas, os
-raios do sól se reunem e concentram ahi, produzindo fogo e
-chama, e assim queimando os objectos convenientemente
-dispostos n’esses lugares.</p>
-
-<p>Ouvindo o Sr. de la Ravardiere os indios fallarem muitas
-vezes de uma localidade muito boa, distante 100 ou 150 legoas
-do Maranhão, na terra firme para as bandas do rio
-Mearim e longe d’elle 40 ou 50 legoas, mandou uma barca
-e canoas com o capitão Maillar de São Maló, alguns francezes,
-e um cirurgião, todos muito conhecedores da natureza
-das hervas e arvores preciosas.</p>
-
-<p>Ahi vivia, vindo do Maranhão, um dos seos principaes feiticeiros,
-com 40 ou 50 selvagens, entre homens e mulheres,
-n’uma aldeia, que edificara, cultivando a terra, que tudo
-lhe produzia em abundancia, e por isso abusando da credulidade
-dos Tupinambás este miseravel lhes dizia possuir um
-espirito com o poder de fazer a terra dar-lhe o que quizesse.</p>
-
-<p>Ahi chegou o capitão com muitas difficuldades, passando
-vasta e comprida planicie de juncos e caniços, atravessando
-agoa pela cintura, e depois de alguma demora regressou
-contando-nos o seguinte.</p>
-
-<p>A terra d’esta localidade é dura, gorda e negra, boa para
-a cultura da canna do assucar, e muito melhor que a de
-Pernambuco, o que bem podia avaliar por ter residido por
-muitos annos ahi e em outros lugares possuidos pelos portuguezes.</p>
-
-<p>A terra é cortada por muitos riachos capazes de moverem
-engenhos para o fabrico do assucar.</p>
-
-<p>Ha abundancia de peixes d’agoa doce, grandes e de varias
-qualidades; são innumeraveis as tartarugas; existe toda
-a qualidade, e em quantidade inexprimivel, de caça, como<span class="pagenum"><a id="Page_122"></a>[122]</span>
-sejam viados, corças, javalis, vacas-bravas, e diversas especies
-de tatús, muitos coelhos e lebres, iguaes ás de França,
-porem mais pequenas, immensa variedade de passaros, como
-sejam perdizes, faisões, mutuns,<a id="Nanchor_54" href="#Note_54" class="fnanchor">[54]</a> pombas bravas, trocazes,
-rolas, garças-reaes, e outras admiraveis.</p>
-
-<p>A terra produz raizes tão grossas como a coxa: o tabaco
-petum ahi cresce forte e optimo, e dizem que dá duas colheitas
-por anno.</p>
-
-<p>O milho cresce forte, cheio, e dá muitas espigas.</p>
-
-<p>Ha fructas muito melhores, e em maior quantidade do
-que na Ilha, em <i>Tapuitapera</i>, e <i>Comã</i>, papagaios de varias
-côres e diversos tamanhos, notando-se entre elles os
-<i>Tuins</i>,<a id="Nanchor_55" href="#Note_55" class="fnanchor">[55]</a> do tamanho de pardaes, os quaes aprendem com
-facilidade a fallar, porem morrem de mal quando são levados
-para a Ilha: vi entre muitos salvarem-se apenas seis,
-os quaes comendo, cantando, e dançando em suas gaiolas,
-sem apparencia de molestia, davam duas ou tres voltas e
-morriam logo.</p>
-
-<p>Ha tambem muitos macacos e monos barbados, bonitos e
-raros, e que seriam muito apreciados em França, se lá chegassem.</p>
-
-<p>Ahi residia um barbeiro ou feiticeiro muito bem arranjado
-e com todas as commodidades.</p>
-
-<p>Tinha vindo, um pouco antes d’esta viagem, fazer suas
-feitiçarias e nigromancias para ganhar o vestuario e a ferramenta
-dos selvagens do Maranhão e leval-os comsigo
-quando fosse para a sua terra. Estas feitiçarias eram diversas.</p>
-
-<p>Tinha uma grande boneca, que com artificio se movia,
-especialmente com o maxilar inferior; dizia elle ás mulheres
-dos selvagens, que si desejavam vêr quadruplicada a sua
-colheita de grãos e legumes trouxessem e dessem á ella
-alguns d’estes generos, afim de serem mastigados tres ou
-quatro vezes, e por esta forma recebendo a força de multiplicação
-do seo espirito, que estava na boneca, podiam depois<span class="pagenum"><a id="Page_123"></a>[123]</span>
-serem plantados em suas roças, pois já comsigo levavam
-a força da multiplicação.</p>
-
-<p>Gozou de muita influencia por onde passou, muitas foram
-as dadivas das mulheres, e mal satisfazia o que promettia,
-guardavam ellas com todo o cuidado os legumes e grãos
-mastigados.</p>
-
-<p>Estabeleceo uma dansa ou procissão geral fazendo com
-que todos os selvagens levassem na mão um ramo de palmeira
-espinhosa,<a id="Nanchor_56" href="#Note_56" class="fnanchor">[56]</a> chamada <i>tucum</i>, e assim andavam ao
-redor das casas, cantando e dansando, para animar, dizia
-elle, o seo espirito a mandar chuvas, então n’esse anno mui
-tardias: depois da procissão <i>cauinavam</i> (bebiam <i>cauim</i>) até
-cahir.<a id="Nanchor_57" href="#Note_57" class="fnanchor">[57]</a></p>
-
-<p>Mandou encher d’agoa muitas vasilhas de barro, e rosnando
-em cima d’ella não sei que palavras, ensopava um
-ramo de palmeira, e com ella aspergia a cabeça de cada
-um d’elles, dizendo «sêde limpos e puros afim de meo espirito
-enviar-vos chuva em abundancia.»</p>
-
-<p>Tomava uma grande tabóca de bambu, enchia-a de <i>petum</i>,
-deitava-lhe fogo n’uma das extremidades, e depois
-soprava a fumaça sobre os selvagens dizendo «recebei a
-força do meo espirito,<a id="Nanchor_58" href="#Note_58" class="fnanchor">[58]</a> e por elle gozareis sempre saude,
-e sereis valentes contra vossos inimigos.»</p>
-
-<p>Plantou no centro d’aldeia uma arvore de maio, carregou-a
-de algodão, e depois de haver dado muitas voltas e
-vira-voltas em redor, lhes prognosticou grande colheita
-n’esse anno.</p>
-
-<p>Apezar de tudo isto não vindo a chuva, dia e noite fazia
-elle dançar e cantar os selvagens, gritando com quanta
-força tinham afim de despertar seo espirito, como faziam outr’ora
-os sacrificadores de Baal.</p>
-
-<p>Com tudo isto não choveo.</p>
-
-<p>Fez acreditar á estes selvagens, que elle bem via o seo
-espirito, carregado de chuvas, do lado do mar, porem que
-não se animava a vir por causa da <i>Cruz</i>, erguida no centro
-da praça, fronteira a Capella de N. S. d’Vsaap, e que se quizessem<span class="pagenum"><a id="Page_124"></a>[124]</span>
-ter chuva não havia mais do que deital-a por terra,
-e teriam concordado n’isto facilmente, pondo-o logo em execução
-se ahi não estivessem os Francezes, e si não temessem
-o castigo.</p>
-
-<p>Chegando estas noticias ao Forte, mandou-se immediatamente
-o <i>Cão-grande</i> e alguns Francezes para irem buscar o
-feiticeiro afim de vêr si elle poderia dançar no meio d’uma
-sala, contra sua vontade, e teria sido preso si, advertido
-como foi, não preparasse sua bagagem, e com sua equipagem
-não se salvasse n’uma canôa, mandando desculpar-se,
-d’ahi ha pouco tempo, por um seo parente trazendo muitos
-presentes com o fim de fazer pazes.</p>
-
-<p>Fez crer aos selvagens da Ilha, que tinha um espirito
-muito bom, que era muito amigo de Deos, que não era mau,
-e que por tanto só podia fazer bem.</p>
-
-<p>Dizia elle: «come commigo, dorme, caminha diante de
-mim, e muitas vezes vôa diante dos meos olhos, e quando
-é tempo de fazer minhas hortas, só tenho o trabalho de
-marcal-as com um pau a sua extensão, e no dia seguinte
-acho tudo prompto.»</p>
-
-<p>Sabendo alguns selvagens christãos, que pretendiamos castigar
-seo companheiro que d’elles tanto abusou, me pediram,
-que me condoesse d’elle e que nada soffresse por não ter
-sido mau e nem o seo espirito, visto terem ambos feito
-crescer os bens da terra. Ensinei-lhes a este respeito o que
-deviam crêr.</p>
-
-<p>Vede, meos leitores, quanto Satanaz é astucioso: similhante
-á um macaco imita as ceremonias da Igreja para
-elevar sua superstição, e conservar sob seo dominio as almas
-dos infieis por essa procissão de palmas, essa aspersão
-d’agoa, esse sopro de fumo para communicar o espirito,
-de que fallaremos mais simplesmente no <i>Tratado do
-espiritual</i>.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_125"></a>[125]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXIV">CAPITULO XXXIV</h3>
-
-<p class="subhead">Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos,
-suas habitações, e procedimento.</p>
-
-</div>
-
-<p>N’esse tempo a nação dos <i>Tremembés</i>, moradora alem
-da montanha de <i>Camussy</i>, e nas planicies e areiaes da
-banda do rio <i>Tury</i>, não muito distante das Arvores Seccas,
-das Areias Brancas, e da pequena Ilha de Santa Anna, sahio,
-sem esperar-se, para a floresta, onde se aninham os
-passaros vermelhos, e para os areiaes onde se encontra o
-ambar gris, e se pesca grande quantidade de peixes, com
-intenção, de surprehender os <i>Tupinambás</i>, seos inimigos
-irreconciliaveis, o que malogrou-se, visto que muitos <i>Tupinambás</i>
-da Ilha tendo ido ahi com o fim especial de pescar,
-foram accommettidos pelos <i>Tremembés</i>,<a id="Nanchor_59" href="#Note_59" class="fnanchor">[59]</a> sendo uns
-mortos immediatamente, outros captivos sem saber-se o que
-d’elles fizeram, e finalmente alguns embarcados n’uma canôa
-poderam salvar-se regressando á Ilha do Maranhão, onde
-contaram tão tristes casos causando nas aldeias, a que pertenciam
-os mortos, tanta indignação, que todos, vóz em
-grita e chorando, especialmente as mães e as mulheres, insistiram
-pela vingança, ao que acquiesceram os Principaes,
-vindo pedir aos francezes um chefe e alguns soldados, no
-que foram satisfeitos.</p>
-
-<p><i>Japy-açú</i> foi o conductor d’este exercito<a id="Nanchor_60" href="#Note_60" class="fnanchor">[60]</a> composto de
-grande numero de selvagens, e acompanhado por alguns
-francezes.</p>
-
-<p>Atravessaram o mar entre a ilha e as areias brancas, saltaram
-em terra para descançar e passar a noite pescando
-uns, caçando outros, e as mulheres e as filhas procurando
-agoa pelos areiaes, a qual não podia ser senão salôbra, isto
-é, meia doce e meia salgada, armando as redes, fazendo
-fogo e preparando a comida.</p>
-
-<p>Os mancebos <i>Tupinambás</i> fizeram <i>Aiupuues</i>, (choupanas)
-tanto para os Principaes como para os Francezes: na melhor<span class="pagenum"><a id="Page_126"></a>[126]</span>
-<i>auipaue</i> alojou-se o Coronel, e os Capitães armaram suas
-redes ao redor da do Coronel, ceremonia que observam em
-todas as suas guerras, especialmente quando se acham perto
-do inimigo.</p>
-
-<p>Escondem o fogo com receio de não serem á noite descubertos
-pelos inimigos, por ser costume geral d’elles o fazer
-subir no cume de arvores muito altas suas sentinellas
-afim de descubrirem fogo ou luz dos inimigos.</p>
-
-<p>Na manhã seguinte puzeram-se em marcha até um grande
-areial cercado de mato por tres lados, e de mar pelo ultimo:
-ahi encontraram as choupanas dos <i>Tremembés</i>, uma panella
-portugueza, e combinando isto com o que já sabiamos
-anteriormente, ficamos sabendo, que os Portuguezes estavam
-na <i>Tartaruga</i>, na serra de <i>Camussy</i>, unidos aos <i>Tremembés</i>,
-aos <i>Montagnars</i>, tanto de <i>Ybuapap</i> como de <i>Mocuru</i>,
-principalmente com <i>Jeropary-uaçu</i>, isto é, com o <i>Grande-diabo</i>,
-principe e rei de uma grande nação de Cambaes,<a id="Nanchor_61" href="#Note_61" class="fnanchor">[61]</a>
-muito amigo dos francezes, e inimigo natural dos portuguezes,
-podendo afiançar-se com certesa, que si os francezes
-ahi fossem, elle trahiria os portuguezes e unindo-se a elles,
-por ser <i>mulato-francez</i>, isto é, filho de um francez e de
-uma india.</p>
-
-<p>Voltemos ao nosso proposito.</p>
-
-<p>Encontraram os nossos selvagens ainda vivo um dos seus,
-que fugio para o mato, e escondeo-se no concavo de uma
-arvore; porem ouvindo o som das trompas de guerra, que
-eram feitas de um grosso madeiro cavado, tendo as aberturas
-superior e inferior similhantes á uma trombeta, sahio
-muito magro, e quase que sem figura humana por não ter
-comido durante oito dias senão folhas da arvore, onde escondeo-se:
-ensinou, como lhe permittiram suas forças, o lugar
-onde jaziam mortos seos companheiros, que foram encontrados
-com as cabeças rachadas, e sobre seos corpos os
-machados de pedras, instrumentos d’essas atrocidades, por
-ser costume entre elles nunca se servirem d’uma arma com
-que ja mataram um inimigo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_127"></a>[127]</span></p>
-
-<p><i>Caruatapyran</i>, um dos Principaes de Comã, trouxe-me
-um d’esses machados de pedra, ainda tinto de sangue, com
-alguns cabellos adherentes, e com um pouco do cerebro do
-Principal <i>Íanuaran</i>, que com elle foi morto, o que se soube
-por ser encontrado sobre seo corpo.</p>
-
-<p><i>Caruatapyran</i> pegando um d’esses machados, feito em
-fórma de crescente, ensinou-me o que eu não sabia, dizendo-me
-terem os <i>Tremembés</i> o costume mensal de vellar
-toda a noite fazendo seos machados até ficarem perfeitos,
-em virtude da superstição, que nutriam, de que indo para
-a guerra armados com taes instrumentos nunca seriam vencidos,
-e sim sempre vencedores.</p>
-
-<p>Em quanto os homens e as mulheres se entregavam a
-este trabalho dançavam as moças e os meninos a frente das
-choupanas ao luar do crescente.</p>
-
-<p>São valentes os <i>Tremembés</i> e temidos pelos <i>Tupinambás</i>;
-d’estatura regular, mais vagamundos do que estaveis
-em suas moradias: alimentam-se ordinariamente de peixes,
-porem vão á caça quando lhes apraz: não gostam de fazer
-hortas, e nem casas: moram debaixo das choupanas; preferem
-as planicies ás florestas porque com um simples olhar
-descobrem tudo quanto está ás suas vistas.</p>
-
-<p>Não conduzem após si muita bagagem, pois contentam-se
-com seos arcos, flexas, machados, um pouco de <i>cauï</i>, algumas
-cabaças<a id="Nanchor_62" href="#Note_62" class="fnanchor">[62]</a> para guardar agoa, e umas panellas para
-cozinhar a comida: com mais destresa que os Tupinambás
-pescam á flexa: são tão robustos a ponto de segurarem pelo
-braço um dos seos inimigos e atirarem-no ao chão, como se
-fosse um capão. Dormem n’areia ordinariamente.</p>
-
-<p>Servem-se d’este lugar de areias brancas, e de arvores
-seccas para agarrar os <i>Tupinambás</i>, como ratoeira para
-pilhar ratos, e isto por tres razões.</p>
-
-<p>A primeira, por causa da pesca, ahi abundante e variada.</p>
-
-<p>A segunda, por causa de uma floresta, onde os passaros
-vermelhos de todas as partes vem fazer ninho para desovar.<span class="pagenum"><a id="Page_128"></a>[128]</span>
-Não deixam de ir ahi em certo tempo os <i>Tupinambás</i>
-para tirar do ninho os filhótes e os ovos meios
-chocos, havendo abundancia impossivel de descrever-se, levando,
-quando regressão á villa, provisão para dois mezes,
-preparando antecedentemente uns assados, e outros seccos
-e duros como paus, o que nunca me agradou, e a fallar verdade,
-nunca pude comel-os, embora sejam para os selvagens
-o primeiro prato, e bem delicioso. Logo contarei alguns
-uzos particulares, e bem notaveis, d’estes passaros.</p>
-
-<p>O terceiro motivo é para colher o ambar-gris, chamado
-pelos Tupinambás <i>Piraputy</i> «excremento de peixes,»<a id="Nanchor_63" href="#Note_63" class="fnanchor">[63]</a> por
-que elles pensam ser o ambar-gris o excremento das baleias,
-ou de outros peixes iguaes em corpulencia, o qual
-vindo á tona d’agoa, é pelas ondas atirado a essas praias.</p>
-
-<p>Dizem alguns francezes não ser o ambar-gris outra coisa
-mais do que a «flor do mar,» a que os selvagens chamam
-<i>Paranampoture</i>, ou uma certa gomma do mar, <i>Paranamussuk</i>.</p>
-
-<p>Decida o leitor como lhe aprouver.</p>
-
-<p>N’estas areias encontra-se o ambar-gris em massa, mais
-n’um tempo do que n’outro, e algumas vezes chega a massa
-a tal tamanho e grossura, que merece ser guardada n’algum
-gabinete real, não podendo ser justamente apreçada e vendida.
-Acontece as vezes virem poisar sobre ellas todos os
-bixos, passaros, carangueijos, lagartos, e outros reptis d’ahi,
-das circumvisinhanças, e do mar, e com elles as vêem procurando-as
-com cuidado, e por isso são essas grandes massas
-partidas em varios pedaços.</p>
-
-<p>Aconselhei a elles, que ahi fizessem um <i>Forte</i> não só para
-impedirem as correrias dos <i>Tremembés</i>, como para tapar
-a entrada aos navios, que buscam a Ilha de Sant’Anna afim
-de colherem o ambar-gris; não ha duvida, que o mar atira
-muitas vezes sobre estas areias o ambar, que por ahi espalhado
-é comido por animaes, passaros e reptis, pois os selvagens
-da Ilha ahi vão apenas duas ou tres vezes durante
-o anno.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_129"></a>[129]</span></p>
-
-<p>Tenho certesa, que a colheita do ambar chegaria para
-pagar as despezas do Forte, da sua guarnição, e do mais
-que fosse necessario.</p>
-
-<p>Os nossos selvagens e francezes depois de muitas indagações
-por varios lugares somente acharam os corpos mortos
-dos seos, as choupanas, e vestigios de inimigos, e assim regressaram
-á Ilha mais famintos do que feridos.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXV">CAPITULO XXXV</h3>
-
-<p class="subhead">Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuitapera e
-da viagem ao Uarpy.</p>
-
-</div>
-
-<p>Lá para o lado do Oeste havia uma nação, de que nunca
-se fallou, desconhecida por todos os <i>Tupinambás</i>, moradora
-nos mattos na distancia de mais de 400 á 500 legoas
-da Ilha, sem conhecer a vantagem dos machados e das
-foices, pois apenas se serviam dos machados de pedra, e
-assim viviam em segredo nas florestas d’essa localidade sob
-a obediencia de um Rei.</p>
-
-<p>Souberam por alguns selvagens, que apresionaram no mar,
-da vinda dos francezes á Maranhão, da sua residencia ahi,
-trazendo comsigo Padres, que ensinavam qual era o verdadeiro
-Deos, e absolviam os selvagens dos seos peccados.</p>
-
-<p>Levando taes noticias ao seo rei mandou este logo algumas
-canoas, e n’uma d’ellas foi o governador, abaixo d’elle,
-d’esta nação, acompanhado por duzentos mancebos fortes e
-valentes, ageis na natação e no uso da flecha, com instrucção
-de chegarem á Ilha, porem não podendo pôr pé em
-terra, limitando-se apenas a fallar com os interpretes dos<span class="pagenum"><a id="Page_130"></a>[130]</span>
-francezes, e regressando depois á sua terra tomando todo
-o cuidado para não ser descoberto o caminho que seguiam.</p>
-
-<p>Chegaram defronte de <i>Tapuitapera</i>, onde então se achava
-o interprete <i>Migam</i>, que apenas soube da chegada d’elles
-foi ao seo encontro no mar, e com o seo Principal fallou
-por muito tempo.</p>
-
-<p>Interrogou-o o Principal acerca dos Padres, quem eram,
-o que faziam e ensinavam: á respeito dos francezes, quaes
-suas forças, e mercadorias, si era certo terem conciliado
-os <i>Tupinambás</i> com os <i>Tabajares</i>, e si viviam em paz na
-Ilha.</p>
-
-<p>Respondendo o interprete a tudo isto, como devia, ficou
-satisfeito e assim o disse, asseverando que o mesmo aconteceria
-a seo Rei e a sua Nação, porque todos desejavam
-aproximarem-se dos francezes para conhecerem a Deos, terem
-machados e foices de ferro, com que cultivassem suas
-roças, e estivessem sempre em guarda contra os seos inimigos,
-plantando muito algodão e outros generos para offerecerem,
-como recompensa, aos francezes, aos quaes apenas
-pediam alliança e protecção.</p>
-
-<p>Perguntou-lhes o interprete, si era grande sua nação, e
-si estava muito longe, ao que respondeo affirmativamente,
-marcando a distancia por legoas pouco mais ou menos, que
-podiam haver da Ilha á sua terra, mostrando com os dedos
-o numero de luas, isto é, de mezes, que eram necessarios
-para regressarem ao seo paiz, e accrescentou «não te posso
-dizer o logar da nossa habitação, porque meo Rei assim me
-prohibio, e tambem porque receiamos, que si nos faça guerra.
-D’aqui ha seis mezes regressarei para te dar certas noticias,
-e podes dizer ao teo chefe, que sendo verdadeiras as
-tuas informações viremos morar por aqui perto.»</p>
-
-<p>O interprete respondeo—«vem, te rogo, vêr o Fórte, que
-fizemos, as grandes peças, que montamos sobre suas muralhas,
-e os francezes, que as guarnecem para de tudo dares
-noticias á teo Rei.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_131"></a>[131]</span></p>
-
-<p>«Não, disse elle, eu e os meos recebemos ordem de não
-saltar em terra». Tanto porem instaram com elle, quase recebendo
-refens, consentio alguns dos seos saltar em <i>Tapuitapera</i>,
-onde foram muito bem tratados, e ahi adquirindo,
-em troca de generos, que levaram, alguns machados e foices,
-regressaram mui contentes.</p>
-
-<p>Durante essa visita, conservaram-se a nado as canoas, os
-remos armados, e tudo prestes se houvesse alguma traição.
-Tinham os outros as flechas e os arcos promptos, tanto desconfiam
-estas nações umas das outras!</p>
-
-<p>Apenas chegaram os seos, restituiram os refens, e foram-se
-em paz. Deos os guie e os traga ao seo gremio.</p>
-
-<p>Quanto á viagem ao <i>Uarpy</i>,<a id="Nanchor_64" href="#Note_64" class="fnanchor">[64]</a><a id="FNanchor_57" href="#Footnote_57" class="fnanchor">[BE]</a> rio e região, em distancia
-para mais de 120 legoas da Ilha, lá para as bandas
-dos Caietés, foi emprehendida pelo Sr. de Pezieux,
-com alguns francezes, e duzentos selvagens pelos seguintes
-motivos.</p>
-
-<p>Primeiro: para descobrir uma mina de oiro e prata na distancia
-de 100 legoas acima do rio, d’onde os selvagens nos
-trouxeram enxofre mineral, muito bom, e por tanto havia
-esperança de serem as minas boas e abundantes.</p>
-
-<p>Tem me esquecido dizer, que ha em toda esta terra grande
-numero de minas de oiro, misturado com cobre, de prata
-misturada com chumbo,<a id="Nanchor_65" href="#Note_65" class="fnanchor">[65]</a> o que provam as agoas mineraes
-que descem dos montes.</p>
-
-<p>Segundo: para traser comsigo uma nação de Tabajares,
-habitante das margens do Rio.</p>
-
-<p>Terceiro: para procurar uma nação de <i>cabellos compridos</i>
-por ahi errante, os quaes são doceis, faceis de serem civilisados,
-e que negociam com os <i>Tupinambás</i>.</p>
-
-<p>Si se realisarem estas coisas, como creio, a Ilha será em
-pouco tempo rica de generos cultivados por todos estes selvagens
-reunidos, e tornar-se-ha forte contra a invasão dos portuguezes,<span class="pagenum"><a id="Page_132"></a>[132]</span>
-e descançando n’esta esperança vou fallar de algumas
-raridades, que notei ahi, cortando as difficuldades que
-se apresentam á primeira vista por meio de razões boas e
-naturaes.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXVI">CAPITULO XXXVI</h3>
-
-<p class="subhead">Dos astros e do sól.</p>
-
-</div>
-
-<p>É bello e magnifico o Ceo, n’esta zona tórrida, embora
-pareça muito menos estrellado do que na Europa, isto é, não
-apparecem tantas estrellinhas fixadas na abobada azulada d’aquelle
-como acontece na do nosso, pois no Maranhão ha estrellas
-maiores e brilhantes, e mais luzentes do que aqui.</p>
-
-<p>Não me convenço de lá não haverem menos estrellas do
-que aqui, antes esta falta, que noto, attribuo á minha vista,
-e por mais esta razão.</p>
-
-<p>Todos os que habitam fóra dos dois solsticios, <i>Cancer</i> e
-<i>Capricornio</i>, olham obliquamente o centro do ceo, que é a
-linha ecliptica ou zona tórrida, onde passa o sol, e por tanto
-tem maior horisonte, ou maior espaço do ceo a contemplar,
-e menos numero de estrellas a contar.</p>
-
-<p>É pela experiencia confirmada esta razão, porque nasce e
-deita-se o sol, sem preceder aurora, e assim acaba o dia e
-começa a noite, e si ha tarde ou manhã é quasi nada.</p>
-
-<p>Na Europa acontece o contrario, pois algumas vezes temos
-mais de duas horas de tarde, e outras tantas de manhã,
-antes do nascimento e do occaso do sol, porque os habitantes
-da zona tórrida estão na esphéra direita e nós outros
-na obliqua.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_133"></a>[133]</span></p>
-
-<p>Ainda acrescento outra experiencia.</p>
-
-<p>Quando regressamos de Maranhão para cá, no Polo Septentrional,
-descubrimos mais depressa a estrella d’este Polo,
-do que quando na nossa viagem para lá descobrimos a estrella
-do Cruzeiro embora mais elevada do que o Polo Antarctico
-ou Austral.</p>
-
-<p>Ainda fiz outra observação n’este planeta do Sol, é que
-mostra dois meios-dias diversos entre os dois termos do anno,
-de sorte que n’uma metade do anno, olhando o Este está á
-direita, isto é, na parte austral, e no resto do anno a esquerda,
-isto é, na parte septentrional, e em ambos elles ha
-pouca sombra. O sol no zenith somente duas vezes no anno
-olha para esta terra, como succede a todas as regiões contidas
-nos dois solsticios: algumas vezes está tão perto da esphera
-direita, que pouco falta para chegar ao meio dia, e
-ferir-vos a prumo o cume da cabeça.</p>
-
-<p>Comtudo isto destinguem-se perfeitamente ambos estes
-meios-dias.</p>
-
-<p>Explica-se isto por ser preciso cortar duas vezes, annualmente,
-o sol quando no zenith, a zona tórrida, como já
-disse, para fazer os solsticios de Cancer e Capricornio, e
-por tanto os habitantes da zona tórrida o vêem fazer o seo
-meio-dia ora de um lado, ora de outro: por exemplo: quando
-sahe do Capricornio afim de encaminhar-se para Cancer,
-os brasileiros habitantes da zona tórrida observam o seo
-meio-dia á direita e quando deixa Cancer com direcção á
-Capricornio vêem-no á esquerda.</p>
-
-<p>Abre-se-me vasto campo para descobrir a sabedoria de
-Deos na organisação do mundo, tendo por fim apenas escrever
-succintamente uma historia, entrego á consideração do
-leitor chamando a sua attenção para a maneira como Deos
-dividio o curso do sol em duas extremidades e um meio, recebendo
-os habitantes de todas estas tres partes a mesma
-luz durante o anno, tanto uns como outros, excepto os habitantes
-de Cancer, que apenas tem durante o anno tres dias
-e algumas horas de sol mais do que os de Capricornio, originando-se<span class="pagenum"><a id="Page_134"></a>[134]</span>
-por isso os annos bissextos e a reforma do calendario,
-como vamos explicar.</p>
-
-<p>Principiemos pelo meio-dia, e acabemos pelas extremidades.</p>
-
-<p>O meio é composto de duas extremidades, equidistantes
-uma da outra, porque de outra forma não seria meio.</p>
-
-<p>O curso do Sol se faz em 24 horas, dia natural, e em 12
-mezes por anno.</p>
-
-<p>Ora sendo a zona tórrida o meio do curso diario e annual
-do sol, é indispensavel, que na sua terceira parte e porção
-mostre diaria e annualmente á luz do sol igual a que se
-apresenta nas duas extremidades, o que não poderia fazer;
-si os dias não fossem iguaes, tendo cada um 12 horas de
-Sol, porque, si excedessem ainda que pouco, não seria o
-meio do curso do sol, e sim cahiria mais para uma das duas
-extremidades, tendo, durante 12 mezes, uns dias maiores
-do que outros, compensando n’uns o que n’outros perdia, e
-convindo por isso marcar-se outra zona de céo, que fosse o
-meio e o centro d’esse curso, sendo o meio a essencia e a
-base das duas extremidades.</p>
-
-<p>É impossivel imaginar-se dois extremos sem meio: como
-ja disse, o meio é composto de duas extremidades, e por
-isso sendo a zona tórrida o meio da carreira do sol, deve
-ter sua porção de luz á custa das duas extremidades, que
-são dose e dose, que dá o sol igualmente para os dois solsticios,
-entre as duas partes do anno, recompensando n’um
-tempo o que n’outro perdeo.</p>
-
-<p>Consideremos agora uma terceira porção para servir de
-meio d’estas duas extremidades, dose á dose.</p>
-
-<p>Convem tomar 12 de uma parte e 12 de outra para ser
-o todo igual: comprehendereis assim facilmente como esta
-zona tórrida gosa igualmente com as outras partes do mundo
-da luz do sol sem mudar seo numero de seis a seis em
-tempo algum, porque partecipa igualmente das duas extremidades,
-quer vá o sol visitar Cancer e seos habitantes dando-lhe
-com a sua boa chegada mais largura e liberalidade<span class="pagenum"><a id="Page_135"></a>[135]</span>
-de luz, quer vá fazer outro tanto no Capricornio, não lhe
-sendo por isso de forma alguma importuna a zona tórrida,
-e nem alteando o seo imposto ordinario, fazendo-lhe pagar
-somente, seis horas da manhã, e seis depois do meio dia, a
-luz e calor para a sua passagem da travessia da terra, e
-pelo trabalho dos seos habitantes durante a sua vinda.</p>
-
-<p>Quanto ás terras e aos habitantes inter e extra-tropicaes
-dividem entre si igualmente, pouco mais ou menos, em diversos
-tempos, a luz do sol, e por compensação mais n’um
-tempo do que em outro: no fim do anno acham que cada
-um teve 12 horas de luz para um dia natural, e dose mezes
-por anno.</p>
-
-<p>Já disse que os habitantes de Cancer, dentro e fóra do seo
-Tropico, gosam mais tres dias do sol do que os outros.</p>
-
-<p>Dar a razão natural d’isto, e o que dizem os astrologos,
-é o mesmo que nada, por ser segredo, que em si guardou
-a divina Providencia, e uma honra que deo ao mundo antigo,
-composto d’Asia, Africa e Europa, e si basta uma razão
-allegorica, sou de opinião que é para fazer sobresahir tres
-privilegios especiaes, que sobre o mundo velho alcançou o
-novo, e que são—a primeira habitação do homem expellido
-do Paraiso Terrestre; dadiva da lei escripta á Moysés; e a
-redempção do mundo por Jesus Christo.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXVII">CAPITULO XXXVII</h3>
-
-<p class="subhead">Ventos, chuvas, trovões, e relampagos em Maranhão e
-suas circumvisinhanças.</p>
-
-</div>
-
-<p>Alem do que a este respeito disse em sua <i>Historia</i> o padre
-Claudio d’Abbeville acrescentarei para satisfação do leitor
-o que me fez conhecer a experiencia:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_136"></a>[136]</span></p>
-
-<p>1.º Fallando dos ventos, entre os quaes o do Oriente tem
-o sceptro e occupa o reino do Brasil, alem das razões dadas
-por esse Reverendo Padre, dou outra, que devo aos mathematicos,
-que por lá andaram e escreveram sobre a materia.</p>
-
-<p>Dizem elles, que a constancia d’esse vento soprando por
-ahi é devida á disposição das costas do Brasil, em linha
-recta de Este a Oeste, porque tendo o sol levantado os vapores
-da terra e da agoa e atirando-os apòs si, pela violencia
-do seo curso diario encontram as costas do Brasil do
-Oriente ao Ocidente sem inflexão ou curva alguma e por
-isso seguem por ahi.</p>
-
-<p>Praticamente observa-se isto com o fumo, que espalha-se
-no primeiro corpo solido, que encontra como sustentaculo de
-sua fraqueza, e sem elle derrama-se á feição do vento, que
-ahi sopra.</p>
-
-<p>Com quanto o vento das outras tres partes do mundo, a
-saber, Oeste, Norte e Sul não reinem no Maranhão e suas
-circumvisinhanças em comparação com o de Este, não se
-pode comtudo dizer, que não soprem algumas vezes ventos
-do Norte e do Sul, e raras vezes o de Oeste.</p>
-
-<p>Em Maranhão os ventos vão sempre augmentando desde
-Agosto até Janeiro, que é propriamente o estio d’esta terra,
-e quando o tempo é sempre sereno.</p>
-
-<p>Explica-se isto pelo curso do sol que regressando do solsticio
-de Cancer para o de Capricornio surgem debaixo da
-zona tórrida grandes vapores, aquosos e humidos, e quanto
-mais se aproxima d’essas terras mais se levanta, e por
-tanto mais se reforçam esses ventos, que não são outra
-coisa senão esses vapores misturados com o ar.</p>
-
-<p>2.º A razão porque começam as chuvas em Janeiro ou
-em Fevereiro, e vão sempre augmentando até principio de
-Junho ou fins de Abril, é porque o Sol volta do solsticio de
-Capricornio para o de Cancer, e attrahindo muita humidade
-expande-a no ar, e d’ahi cahem as chuvas: quanto mais o
-Sol se aproxima do seo termo, mais augmenta sua humidade,
-e torna a queda das agoas mais expessa, forte, e rapida,<span class="pagenum"><a id="Page_137"></a>[137]</span>
-e por isso vemos no Brazil ser differente a epocha e
-a força das chuvas, isto é, mais depressa e mais abundante
-n’uma terra do que em outra.</p>
-
-<p>De ordinario são as chuvas abundantes e frequentes, duradouras
-e continuas, mais á noite do que de dia: é o tempo
-proprio para semeiar-se, porque tudo nasce, cresce, produz,
-e dá colheitas.</p>
-
-<p>Quando a terra é arenosa, e que está secca pela proximidade
-do Sol, ao cahir das chuvas continuas e abundantes,
-ella absorve admiravelmente as agoas, muda a sua secura
-para uma temperatura humida, que é a mãe das gerações.</p>
-
-<p>São diversas estas chuvas do orvalho da noite no estio,
-porque tem este bom cheiro e aquellas mau, visto que provindo
-as chuvas do choque de expessos vapores aerios, trazem
-portanto comsigo a qualidade de seos agentes e a sua
-causa efficiente: acrescente-se ainda que a queda impetuosa
-das agoas sobre a terra, coberta de folhas em putrefacção ou
-de cinzas de paus queimados, revolve-a, e d’ella faz desprender-se,
-com o seo estado constante de calor natural, mau
-cheiro proveniente de taes objectos.</p>
-
-<p>O orvalho cahindo doce e brandamente em noite serena,
-mais fria do que cálida, exhala cheiro agradavel, especialmente
-quando se derrama sobre plantas odoriferas.</p>
-
-<p>É mais doentio o tempo das chuvas do que o das brisas,
-ou ventos de Este, porque em primeiro logar não sopram
-mais os ventos, e por conseguinte não purificam o ar, e
-d’elle não expellem vapores intensos, maritimos e aquosos,
-e por isso mui doentios: em segundo logar chocando-se as
-nuvens e cahindo as chuvas, apparecem molezas no corpo,
-doenças de coração, desarranjos do estomago, enfraquecendo-se
-os nervos, e infiltrando-se os ossos de humidade o
-que não apparece no tempo das ventanias, que limpam o ar,
-o mar, e a terra.</p>
-
-<p>3.º Os trovões e relampagos são, sem comparação alguma,
-mais fortes e frequentes no Brasil do que no mundo velho,<span class="pagenum"><a id="Page_138"></a>[138]</span>
-especialmente no tempo das chuvas, são horriveis os
-trovões, parecendo abalar-se a terra, e um relampago dura
-mais do que dose na Europa.</p>
-
-<p>Durante esse tempo não sahem de casa os selvagens, e
-nem o mais valente se atreve a pôr o nariz fóra da porta,
-e eu mesmo, sem ser dos mais timoratos, fartei-me de medo,
-embora ninguem visse a queda do raio.</p>
-
-<p>Eis a razão.</p>
-
-<p>Emquanto é brando o calor de Agosto á Fevereiro raras
-vezes ha trovões; mas quando surge a guerra do frio e do
-calor, que é de Fevereiro á Junho, então é necessario que
-appareçam escorvas e peças, isto é, raios e trovões.</p>
-
-<p>N’este tempo reina o calor na zona tórrida com todo o
-seo vigor, e o frio então se fortifica pelo regresso do Sol
-de Capricornio para Cancer, cheio de humidades do ar, e
-por isso é grande o combate, mais frequentes os trovões, e
-mais medonhos os relampagos.</p>
-
-<p>Não se descobre a queda dos raios porque são altas e
-vigorosas as arvores do Brazil, e ordinariamente é n’ellas,
-como acontece em toda a parte, onde cahem os raios.</p>
-
-<p>Como é o paiz coberto de florestas, e repleto de arvores
-de admiravel altura, é bem facil cahir o raio desapercebidamente.</p>
-
-<p>Prova-se isto todos os dias com arvores cahidas e queimadas,
-que se encontram nas florestas.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_139"></a>[139]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXVIII">CAPITULO XXXVIII</h3>
-
-<p class="subhead">Mar, agoas, e fontes do Maranhão.</p>
-
-</div>
-
-<p>O mar, pelas suas marés, não é o mesmo que o do restante
-do Mundo.</p>
-
-<p>Embora o Occeano acompanhe infallivelmente o crescente,
-o plenilunio, e o minguante da Lua, comtudo notaram
-nossos marinheiros em um ou dois dias, e algumas
-vezes mais, differença e falta de igualdade do que se observa
-n’outras marés do Universo.</p>
-
-<p>Explica-se isto observando-se, que o Brazil está cercado
-de milhares de inflexões ou voltas, formadas umas por bancos
-e corôas de areia, e outras por voltas de pontas de terra
-e bahias.</p>
-
-<p>Accrescente-se ainda terem todas estas terras as sahidas
-mui retalhadas, que impossibilitam o desembocar da maré
-com toda a sua força para os rios salgados e portos e barras,
-como acontece n’outras partes.</p>
-
-<p>Reparae por exemplo o fluxo e refluxo do mar no rio
-Sena, pois quando o mar no Havre da Graça principia a refluir
-já a onda chegou a Ponte de Arche.</p>
-
-<p>Reparei tambem na seguinte coisa commum ás outras marés,
-porem não tanto como as antecedentes.</p>
-
-<p>O mar no seo fluxo, batendo nas pontas das rochas, deixa
-no meio um canal ou rego, que mostra a sua corrente principal,
-forrado de excrecencias maritimas, que ahi se amontoam,
-e si passar-se uma corda pelo seo nivel poderá servir
-de marca aos pilotos para reconhecer o canal no meio
-dos recifes.</p>
-
-<p>Parece-me explicar-se isto pela propriedade da forma circular,
-que tem os elementos, a qual lhes permitte expandir-se
-até a circumferencia: em virtude d’isto o mar faz no
-meio do centro do seo fluxo o rego, ou fio de sua carreira,
-depois dispersa-se, e dá a cada ponta de rochedo a sahida
-para a maré, e por isso tenho observado algumas vezes<span class="pagenum"><a id="Page_140"></a>[140]</span>
-muitos pedaços de pau serem arremeçados em diversos
-sentidos contra os rochedos pela violencia e corrente d’essas
-differentes marés.</p>
-
-<p>As agoas do Maranhão são incorruptiveis, e muito melhores
-do que as da Europa, como tive occasião de verificar
-por espaço de dez semanas na viagem do meo regresso:
-eis a razão: quanto mais sugeito está um corpo á transformação
-e mudanças de qualidade, mais susceptivel se torna
-de ser corrompido e mau por causa das alterações, que soffre,
-ora as agoas do Maranhão achando-se sempre no mesmo
-estado, são por tanto incorruptiveis e optimas. As agoas da
-Europa são pelo contrario ora quentes, ora frias, e por conseguinte
-corrompidas e más.</p>
-
-<p>Não são frias como as da Europa as fontes do Maranhão,
-porque sendo baixas as terras do Brazil não póde operar-se
-a anteperistase em suas entranhas, especialmente pela proximidade
-do sól, que penetra muito bem e com todo o vigor
-na terra, que é arenosa e mui susceptivel de calor.</p>
-
-<p>As agoas da Europa são frias no Estio por causa da grande
-anteperistase das terras, d’onde cahem as agoas, que são
-altas, muitas vezes fortes e densas, e por isso resistem ao
-sol.</p>
-
-<p>Conservam as fontes do Brazil sempre a mesma temperatura,
-porque o sol derrama-se igualmente por cima d’ellas,
-que nada tem, que lhes possa imprimir alguma qualidade
-fria.</p>
-
-<p>Entre as fontes do Maranhão umas são melhores do que
-outras, e tem até côres diversas: a que nasce da terra é
-diversa em gosto e côr, porque sendo a terra baixa, e havendo
-muitas arvores, umas com bom gosto e outras com
-mau, estendem por ahi suas raizes, e d’ellas os olhos d’agoa,
-ou os veios das fontes recebem qualidade boa ou má, tanto
-da terra como das arvores.</p>
-
-<p>Notei n’estas fontes o seccarem umas em setembro, e outras
-minguarem muito, porque sendo o terreno do Maranhão
-quente, secco, e arenoso consome facilmente as agoas das<span class="pagenum"><a id="Page_141"></a>[141]</span>
-chuvas, que por elle corre, e que serve de alimento ás ditas
-fontes: achando-se pois os mezes de setembro, outubro,
-novembro e dezembro muito longe das chuvas, é natural,
-que ás fontes aconteça o que já dissemos.</p>
-
-<p>Quem quizer beber agoa muito fria, deve expol-a ao sereno,
-e na manhã seguinte está tão fria como gêlo, o que
-não lhe succederá se n’essa hora for buscal-a á fonte, porque
-sendo as noites em Maranhão muito frias, ellas tem muito
-mais força sobre uma porção d’agoa guardada n’uma vasilha,
-cercada de ar por todos os lados, do que sobre agoas
-sempre em movimento pela corrente, contidas em leitos baixos,
-cobertas e sombrias por todos os lados, e tendo a superficie
-apenas á vista.</p>
-
-<p>Facilmente observa-se isto na Europa, durante o inverno,
-nas fontes e poços situados em lugares retirados e sombrios,
-pois nunca suas agoas se gelam, ou pelo menos se
-esfriam.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXIX">CAPITULO XXXIX</h3>
-
-<p class="subhead">Singularidades de algumas arvores do Maranhão.<a id="Nanchor_66" href="#Note_66" class="fnanchor">[66]</a></p>
-
-</div>
-
-<p>As arvores do Maranhão, em sua maior parte, são duras
-e pesadas, porque a solidez nas coisas mixtas provem da
-boa cocção da humidade.</p>
-
-<p>N’este paiz existe em igual abundancia tanto a humidade
-como o calor, cada um durante a sua estação: as chuvas tem
-seo tempo proprio para alagar a terra, e o calor tambem o
-tem para coser e digerir esta humidade, que é nutricção
-dos vegetaes, especialmente das arvores, que estendendo<span class="pagenum"><a id="Page_142"></a>[142]</span>
-suas raizes dentro e fóra da terra por ahi chupam muita
-agoa e sobrevindo o calor transforma a humidade em corpo
-solido.</p>
-
-<p>As arvores estão sempre verdejantes por successão diaria
-e continua de folhas novas ás velhas, de fórma que, sahindo
-aquellas dos olhos dos ramos vão logo por força propria attrahindo
-a seiva, ficando d’ella privada as velhas, que por
-isso definham e cahem.</p>
-
-<p>Observamos isto no nosso corpo quando uma unha nova
-vem substituir a velha.</p>
-
-<p>Por esta renovação de folhas conservam-se as arvores no
-mesmo estado, o que não vemos na Europa porque o inverno
-retem no interior das arvores o calor natural d’ellas:
-é necessario que cáiam as folhas antes da ausencia do calor,
-ficando só a humidade, que apodrece o pé da folha em
-vez de lhe dar vigor como acontecia no tempo do calor, e
-por tanto assim se faz a queda das folhas.</p>
-
-<p>No Brazil acontece o contrario porque vivendo o calor e
-a humidade em boa e perpetua companhia, novas folhas nascem
-ao mesmo tempo que as velhas cahem: geralmente,
-em todas as coisas notam-se tres estados: 1.º Crescer. 2.º
-Permanecer. 3.º Decrescer e assim sempre até morrer: eis
-o que observamos nas folhas—teem tempo para crescerem,
-ficarem perfeitas, e depois irem definhando até cahirem
-seccas.</p>
-
-<p>Entre estas arvores merecem especial menção em primeiro
-lugar os <i>mangues</i>, arvores, que crescem nas barreiras do
-mar, e espalham seos ramos, e fibras sobre as areias do
-mar, ou entre as pedras que cobrem o limo, ahi se fortificam,
-engrossam, e chegando ao seo estado completo, começam
-elles mesmos a deitar novas fibras, que tem igual desenvolvimento,
-e assim se reproduzem infinitamente, não pelas
-raizes, como as outras arvores, e sim pelos seos ramos.</p>
-
-<p>Não sei o que mais admirar, si a successão perpetua de
-pae a filho, ou a geração inteiramente diversa das outras
-arvores.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_143"></a>[143]</span></p>
-
-<p>A razão, porque assim produzem estas arvores, provém
-de serem altas, pesadas e em seo principio finas e delgadas
-para a raiz, e grossas no centro: se nasciam da raiz de seo
-pae, nunca poderiam subir por causa da fraqueza e delicadesa
-de seo pé, da grossura e peso do seo meio, e assim
-ficam deitadas e rastejando pela areia, a que deo a natureza
-o encargo de dar dois nascimentos; um do ramo de seo
-pae, onde ficam perpetuamente encorporadas e por conseguinte
-bem sustentadas, outro da origem da enseiada do mar,
-na qual ellas aprofundam e estendem suas raizes, e d’ahi
-extrahem segunda nutrição, e assim sustentadas e nutridas
-por cima e por baixo com facilidade crescem.</p>
-
-<p>Notae de passagem esta bella particularidade de terem
-dois nascimentos e duas nutrições: a primeira de cima consubstancial
-com o seo gerador, que com elle faz uma mesma
-essencia, sendo gerado, sahido d’elle, e sempre com elle
-e inseparavelmente vivendo de sua nutrição. O segundo nascimento
-e nutrição é debaixo do seio da areia do mar, nutrindo-se
-do mesmo mar, chamando para cima esta nutrição
-para unil-a com a que recebe de seo Pae: por estas duas
-nutrições cresce, estende seos ramos, dos quaes, de novo,
-por outro nascimento produz seos fios, que adquirem raizes
-dentro do mesmo mar, que o produz.</p>
-
-<p>D’esta comparação eu me servia para fazer comprehender
-aos selvagens o Mysterio da Encarnação do Filho de Deos
-dizendo ter elle dois nascimentos, um de cima, eterno e divino,
-sahindo de seo Pae sem d’elle sahir, distincto de seo
-pae por hypostase como o ramo de mangue, com o filho gerado
-d’elle, unico comtudo na essencia e na substancia com
-seo gerador, como a fibra com seo ramo, vivendo de uma
-mesma nutrição divina e celeste, a saber, o amor do Espirito
-Santo, que constitue a terceira pessoa da Trindade: o
-outro nascimento é de baixo, temporal e humano, sahido do
-seio da Virgem Maria, nutrido com o seo leite sagrado, foi
-crescendo homem e Deos ao mesmo tempo, vivendo interiormente
-da nutrição divina, e exteriormente da nutrição corporal,<span class="pagenum"><a id="Page_144"></a>[144]</span>
-e quando chegou á idade de 33 annos e meio, depois
-de haver communicado sua doutrina celeste aos homens, confirmada
-por seos milagres, estendeo seos braços, consentindo
-que fossem pregados na arvore da Cruz e do meio de suas
-chagas sahiram seos escolhidos, que depois tomaram raizes
-na Santa Igreja, regenerados pela agoa do baptismo, e nutridos
-pelos Sanctos Sacramentos.</p>
-
-<p>Diziam-me os selvagens, que comprehendiam isto muito
-bem e sem a menor difficuldade, porque si Deos deo tal poder
-ás arvores, que não sentem, porque não poderia elle
-fazer o mesmo a si?</p>
-
-<p>N’esse paiz existem arvores, que se mostram exteriormente
-seccas, sem folha alguma, e comtudo quando chega o tempo
-proprio brotam d’ellas em quantidade flores muito bellas e
-em cachopas, porem são de diversas cores e ordinariamente
-amarellas.</p>
-
-<p>Encontra-se a razão d’esta particularidade no logar escolhido
-pela naturesa para terminar a sua acção: por exemplo;
-quando é liberal dando a qualquer membro um excesso de
-nutrição, é á custa dos outros: quando estas arvores dão sua
-seiva para formar uma casca grossa, verdejante e humida e
-cobrir de lindas folhas os seos ramos, não produzem bellas
-flores, as quaes naturalmente, em todos os vegetaes, formam-se
-de uma seiva bem digerida e subtil, e por tanto
-podendo subir facilmente até as extremidades dos ramos,
-não cuidando das outras partes da arvore para lhes dar qualquer
-nutrição.</p>
-
-<p>Reconheci isto em França, onde se pódam as cerejeiras
-para não dar fructo, afim de com toda a sua seiva produzirem
-flores largas e dobradas, como rosas almiscaradas duplas.</p>
-
-<p>Tambem existem outras arvores, que fecham suas folhas,
-e as dobram sobre si, quando o sol está no seo occaso, e
-apenas se levanta ellas desdobram-se e expandem, como
-acontece em França, ao Girasol.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_145"></a>[145]</span></p>
-
-<p>Este phenomeno é devido á humidade ou sereno na noite,
-que as aperta e fecha porque o frio tem essa qualidade, e
-o calor do dia as abre e as expande por ter essa propriedade.</p>
-
-<p>Com bastante difficuldade pude deparar com as razões
-naturaes de muitas singularidades, que vi em Maranhão, porem
-confesso com franqueza, que nunca achei a causa natural:
-certas arvores d’aquelle paiz, apenas se toca com a mão
-o seo tronco, immediatamente fecham todas as suas folhas:
-por certo haverá n’estas arvores alguma propriedade sensitiva,
-como ha na esponja, a qual apenas sente a mão do
-homem, que a pretende cortar, ella se aperta, e occulta-se
-no concavo e na fenda da pedra do mar, que a forma.</p>
-
-<p>Os cajueiros, que produzem uma fructa propria para fazer
-vinho, nascem espontaneamente pela costa do mar, e
-por isso vivem da seiva maritima e salgada, resultando d’isto
-ser o vinho de cajú picante e acre, e produzir no futuro dores
-nos rins, e ser prejudicial aos pulmões.</p>
-
-<p>Por experiencia coei este vinho, e d’elle tirei muito sal.</p>
-
-<p>Ha espinhos, que dirieis serem creados por Deos para representar
-o mysterio da paixão de Jesus Christo,<a id="Nanchor_67" href="#Note_67" class="fnanchor">[67]</a> porque
-crescem formando ramilhetes quatro em cima, equidistantes
-á maneira de uma Cruz, e um no cume com a ponta virada
-para o Ceo, ornado de nove folhas, dispostas como tres raminhos,
-cada um com tres espinhos, que em tempo proprio
-se transformam em tres flores, ficando o espinho maior no
-centro.</p>
-
-<p>São estes cinco espinhos os instrumentos das cinco chagas
-de Jesus-Christo. Cercando a corôa de espinhos seo Chefe,
-como o espinho de cima é cercado de folhas, isto é, de peccados
-e de vaidades das tres idades do mundo, na lei da
-natureza, escripta e de fé, cujos peccados e imperfeições se
-transformam, pelo merecimento do sangue de Jesus Christo,
-em flores da Graça, em boas obras, e na recompensa da
-gloria.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_146"></a>[146]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XL">CAPITULO XL</h3>
-
-<p class="subhead">Dos peixes, passaros e lagartos, que se encontram
-n’esses paizes.</p>
-
-</div>
-
-<p>Eis uma questão não pequena, de phisica ou de philosophia
-natural—«como pode um animal, vivo e perfeito na
-sua especie, formar-se sem progenitores.»</p>
-
-<p>Alberto, o grande escriptor, vio peixes vivos no meio de
-uma grande pedra marmore, tirada da rocha, e rachada no
-centro.</p>
-
-<p>Não é novidade para os que leram este autor, porque
-eu vi em Maranhão, nos regatos formados pelas chuvas, e
-que pouco duram, muito bons peixes, iguaes em tamanho
-e côr aos que vivem em rios permanentes, e que nascem
-de ovas.</p>
-
-<p>Como é possivel, que sem haver ovas, possam estes peixes
-nascer, crescer e morrer, com a queda, augmento e ausencia
-das chuvas?</p>
-
-<p>A razão d’isto está na força e influencia dos planetas predominantes
-em janeiro e fevereiro, quando nascem estes
-peixes, e na conjuncção forte da humidade e do calor e na
-disposição do terreno, tudo isto combinado de tal forma, que
-dá origem a taes e taes peixes de preferencia aqui do que
-em qualquer outra parte; como vemos na Europa em que a
-diversidade das terras, por onde passam as chuvas, produz
-differentes variedades de peixes.</p>
-
-<p>Entre os passaros do Maranhão, dos quaes eu diria maravilhas,
-si outros ja o não tivessem feito, notei uma especie
-singular de aves aquaticas vermelhas,<a id="Nanchor_68" href="#Note_68" class="fnanchor">[68]</a> cuja penna e carne
-são de côr escarlate, dando-se a particularidade de serem
-brancas quando sahem do ovo, depois com o tempo, quando
-podem vôar; são pretos, e assim ficam até chegarem a
-sua grandesa e grossura natural, d’ahi vão se tornando meio
-pardos e meio vermelhos, e finalmente totalmente rubros,
-passando assim por quatro mudanças.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_147"></a>[147]</span></p>
-
-<p>Não digo isto por ouvir dizer, porem observei nos que se
-criam em casa presos. Este phenomeno não se dá sem uma
-razão profunda, e fundada na naturesa, e me parece ser
-esta: a côr da pelle e das pennas é devida á disposição e
-qualidade do alimento, que nutre a ave, porque diz o philosopho,
-a pelle e as pennas nascem, crescem e se nutrem
-com a superfluidade dos alimentos: ora a côr branca faz suppor
-alimentação leve e delicada, e por isso a avesinha ao
-sahir da casca do ovo, vivendo somente á custa de moscas
-e mosquitos, que vôam ao redor d’elle, é natural que suas
-plumas, originadas de tão fraca comida, tenham a côr branca.</p>
-
-<p>A côr negra porem faz crer em abundancia e superfluidade
-de alimentação, porque a intensidade do calor natural
-vae sempre excitando o apetite, e empurrando-o para o pasto
-e por isso notei, que quando esta ave tem as pennas pretas
-é glutão e come constantemente.</p>
-
-<p>A côr parda e meia vermelha mostra uma tendencia, ou
-uma regra, nascida expontaneamente da naturesa para acolher
-uma certa alimentação, que lhe é propria, e então observei
-escolher esta ave uma comida singular e especial,
-isto é—os carangueijos, os quaes consummidos no estomago,
-ahi se transformam em chylo vermelho como escarlate,
-e este cahindo no figado, se d’elle não receber alguma côr,
-como acontece com os outros animaes, tinge-o com sua côr,
-e sempre assim passa para as veias, das veias para a carne,
-da carne para as pennas, e tão perfeitamente, que si fosse
-um mettido dentro de uma panella para cozinhar, podia dizer-se
-que havia dentro uma porção de vermelhão.</p>
-
-<p>Entre milhares de lagartos e reptis do mar, appliquei minha
-attenção para uma especie bem monstruosa.</p>
-
-<p>É um animal que vive umas vezes n’agoa, outras em terra,
-e tambem nas arvores, contendo em si as tres espheras
-com que vivem todos os animaes do mundo.</p>
-
-<p>Com os peixes partilha o elemento d’agoa, com os homens
-e os quadrupedes o da terra, e com os passaros aninha-se
-e repousa nas arvores. Direi ainda que só parece<span class="pagenum"><a id="Page_148"></a>[148]</span>
-terem os astros lhe dado sobre os rins, desde a cabeça até
-o fim da cauda um reflexo de seos raios e brilhos, porque
-notareis no dorso uma bella facha de raios do sol e das estrellas,
-similhantes aos que fazem os nossos pintores ao redor
-do globo do sol e das estrellas.</p>
-
-<p>Tem a pelle esmaltada de côr prateiada e azulada, como
-a abobada celeste quando serena.</p>
-
-<p>Quando este animal sente a intensidade do Sol, sahe do
-mar, sobe ás arvores visinhas, e escolhendo um ramo para
-deitar-se, ahi se estende e descança.</p>
-
-<p>Põe seos ovos nas arvores maritimas, os quaes aquecidos
-pelo calor do Sol deixam sahir os lagartinhos, que apenas
-sahem das cascas dos ovos conhecem logo o pae e a mãe,
-acompanham-no ao pasto no mar, em terra e nas arvores.</p>
-
-<p>Explico a rasão d’isto dizendo que quanto mais humido
-é o animal, mais somnolento é elle. Entre todas as especies
-de animaes esta sorte de lagartos é humida e fria, e por
-tanto sujeita ao dormir, e como seja mais agradavel o somno
-quando se tem os membros em certo grau de calor, eis por
-que elles buscam soalheiros. Reconhecendo pequeno o seo
-calor natural, eis porque põem seos ovos em lugar expostos
-aos raios do Sol.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLI">CAPITULO XLI</h3>
-
-<p class="subhead">Da pesca do Piry.</p>
-
-</div>
-
-<p>Os selvagens do <i>Maranhão</i>, de <i>Tapuitapera</i>, e de <i>Comã</i>
-tem uma pescaria certa e annual, como annualmente a do
-bacalhau nos Bancos da Terra Nova.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_149"></a>[149]</span></p>
-
-<p>Alguns mezes depois das chuvas, quando julgam as agoas
-escoadas, muitos embarcam em suas canoas, levando farinha
-para alguns mezes ou seis semanas, e assim vão costeando
-a terra á um lugar distante da Ilha 40 ou mais legoas:
-ahi se arrancham, levantam choupanas, e depois dedicam-se
-a pescaria, a caça dos crocodillos, e á procura das tartarugas.</p>
-
-<p>Ahi se reunem muitos selvagens de diversas aldeias da
-Ilha, de Tapuitapera, e de Comã.</p>
-
-<p>Apanham-se os peixes nas pôças, ou buracos de areia com
-pouca agoa, e quando se vae um pouco mais tarde, coagido
-pela estação, encontram-se essas pôças seccas e o peixe
-morto.</p>
-
-<p>Sendo impossivel dizer-se o numero ou a quantidade
-d’estes peixes, faço porem comprehendel-a asseverando, que
-chega para carregar todos os selvagens, e ainda fica muitissimo.
-São grossos e curtos, não excedem porem a grossura
-e expessura de um braço, tem de comprimento meio
-pé entre a cauda e a cabeça, o focinho achatado e muito
-similhante ao do tenca, e parecem-se muito com os peixes
-maritimos chamados <i>marujos pintados</i>.</p>
-
-<p>Apanhados nas redes, que levam, chamadas <i>pussars</i>, seguram-nas
-pelo meio dose a dose, lançam-nos com entranhas
-e tudo ao fumeiro para assal-os, e assim ajuntam muitos,
-que levam para suas casas, e com esta comida sustentam-se
-um ou dois mezes. Quando querem comer, tiram a pelle
-do peixe, seccam-na ao sol, pisam-na em um almofariz, reduzem-na
-á pó, com que fazem seos <i>mingaus</i>, isto é, suas
-bebidas, como fazem os turcos com o pó dos quartos de boi
-cozidos ao forno quando vão para a guerra.</p>
-
-<p>Dirigindo-me um dia para a Ilha, achei-me em certa aldeia,
-onde nada tendo que dar-me para jantar, ferveram alguns
-d’estes peixes n’uma panella, do caldo fizeram <i>mingau</i>,
-vindo o resto no prato.</p>
-
-<p>Bem contra minha vontade de nada me servi por causa
-do mau gosto da fumaça, porem com muito apetite comeram<span class="pagenum"><a id="Page_150"></a>[150]</span>
-de tudo os francezes, que vinham commigo, achando saborosos
-os peixes, com grande satisfação dos indios, que os
-apreciam tanto á ponto de irem muito longe buscal-os.</p>
-
-<p>Como se acham em tanta abundancia estes peixes em taes
-fóssos ou poços desde o inverno até esse tempo? Se explicações
-servem ja as dei no cap. 40, e por isso á ellas me
-refiro, acrescentando ainda o seguinte.</p>
-
-<p>A grande quantidade de chuva faz transbordar os rios, os
-regatos, e o proprio mar, de maneira que todos estes campos
-ficam innundados até a altura de um homem: assim sahem
-os peixes do lugar natural, onde habitavam, ahi regalam-se
-com pastos novos a ponto de não se lembrarem de
-regressar a Patria, e por isso quando as agoas se abaixam,
-ficam presos em fóssos e poços como vimos em todos os lugares
-onde se dão estes factos.</p>
-
-<p>A caça dos jacarés lhes é util e agradavel: são pequenos
-crocodillos com 8 ou 10 pés de comprimento, de pelle dura,
-ventre molle, sem lingua, com olhos vivos, sempre alerta e
-maus: accommettem o homem, cortam e devoram o primeiro
-membro que agarram.</p>
-
-<p>Escondem-se em grotas, á margem dos rios, e sempre
-de emboscada, nadam como peixes, arrastam-se ligeira e
-brandamente, abrem a bocca, e como que intentam assustar-vos
-si vos encontram: põem ovos iguaes aos de galinha,
-porem cobertos de protuberancias, como as castanhas;
-dizem que são bons para comer, mas eu não affianço porque
-nunca os provei, pois sempre tive muito horror á estes
-bixos.</p>
-
-<p>Chocam seos ovos, e d’elles sahem jacarésinhos, gordos,
-grandes e compridos, como os lagartos que vemos pelo estio
-correr nos muros.</p>
-
-<p>É para admirar, que de tão pequeno bixo origine-se tão
-grande animal, e que apenas sahido da casca do ovo começa
-a andar e arrastar-se!</p>
-
-<p>Sua carne cheira a almiscar, é doce e desagradavel: os
-selvagens porem não fazem caso d’isto, apreciam-na muito<span class="pagenum"><a id="Page_151"></a>[151]</span>
-quando a encontram, e por isso empregam-se muito em caçal-os.</p>
-
-<p>O logar <i>Piry</i>, humido e cheio de limo, tem muitos jacarés,
-que são perseguidos pelos selvagens por meio de flechas,
-atiradas com direcção á garganta ou á barriga, e depois
-acabam-nos com uma barra de ferro, escamam-nos, e
-cortam-nos em pedaços, que assam.</p>
-
-<p>Si são pequenos, cozinham-nos com escamas, e assim
-preparados acham-nos muito bons e até delicados, porque
-assados com sua gordura, dizem elles, nada perdem de sua
-substancia.</p>
-
-<p>Achei melhor crer do que experimentar, embora tivesse
-muitas occasiões de o fazer, visto que recebi muitos presentes
-d’elles quando voltaram os selvagens do <i>Piry</i>.</p>
-
-<p>A recordação somente d’estes animaes me fazia nauseas
-até o coração, á vista d’esses pedaços.</p>
-
-<p>Diziam os francezes, que o comeram, ser similhante a
-carne fresca de porco, um pouco mais adocicada, oleosa, e
-com o cheiro de almiscar.</p>
-
-<p>He muito perigoso tomar-se banho n’esse paiz, a não ser
-em logar descoberto, porque estes despresiveis animaes se
-arrastam de mansinho e se atiram sobre vós.</p>
-
-<p>Contaram-me, que um menino, da aldeia de <i>Rasaiup</i>,
-cahindo n’um riacho, onde hia buscar agoa, foi agarrado
-e devorado pelos jacarés.</p>
-
-<p>Quando andei pelas costas do mar, desde <i>Trou</i> até <i>Rasaiup</i>,
-em companhia de muitos selvagens, elles me levaram
-para beber agoa n’uma grota cheia de sarças e outras
-mattas, e me advirtiram, que ahi ninguem se podia demorar
-muito por ser o escondrijo dos jacarés.</p>
-
-<p>Fazem-lhes muita guerra os nossos selvagens, por gosto e
-utilidade, e trazem grande provisão d’elles quando voltam
-do Piry.</p>
-
-<p>A razão de não terem lingua, estes animaes é porque segundo
-creio, tem a garganta e o pescoço, inteiramente inflexiveis,
-a ponto de não poderem olhar nem para traz nem<span class="pagenum"><a id="Page_152"></a>[152]</span>
-para o lado sem moverem o corpo todo: alem disso, elles
-tem o maxillar inferior duro e immovel, tudo isto contrario
-ao uso da lingua, e só mastigam com o maxillar superior.</p>
-
-<p>Eis porque agarram e devoram a presa de um só jacto,
-não precisando viral-a e reviral-a da garganta.</p>
-
-<p>Disse S. Gregorio, que os crocodillos do Nilo chegavam a
-ter até o comprimento de 20 covados, a cor de açafrão, porem
-os do Maranhão e de suas circumvisinhanças não iam
-alem, como ja disse, de 10 ou 12 pés, com a differença
-tambem de habitarem aquelles, durante a noite, a agoa, e
-de dia a terra, porque busca o calor, visto serem no Egypto
-á noite as agoas quentes e a terra fria, e de dia vice-versa.</p>
-
-<p>No Maranhão acontece o contrario: de noite ficam em terra,
-e de dia n’agoa, porque as agoas são frias á noite e quentes
-de dia, e a terra temperada.</p>
-
-<p>A razão, porque este animal tem medo dos que o perseguem,
-e é atrevido contra os que fogem d’elle, é porque facilmente
-atira-se sobre este, e só com muita difficuldade se
-defende d’aquelles, sendo este procedimento o resultado de
-sua naturesa timida e assustada.</p>
-
-<p>Tem só um intestino, porque não faz a primeira digestão
-nas carnes cortadas em bocadinhos.</p>
-
-<p>Temem mais os selvagens que os francezes, e os do Nilo
-receiam mais os egypcios do que os estrangeiros, o que explica
-Solinus dizendo reconhecerem elles naturalmente pelo
-cheiro os que o guerreiam constantemente.</p>
-
-<p>Disse um phisiologista, que quando elle devora alguem,
-chora a sua desgraça: não sei si será verdade.<a id="Nanchor_69" href="#Note_69" class="fnanchor">[69]</a></p>
-
-<p>Alem d’estes exercicios, no Piry perseguem os selvagens
-as tartarugas, ahi em quantidade incrivel, e trazem-nas vivas
-tantas quantas podem.</p>
-
-<p>Não são avarentos, antes sim por poucos generos alcançareis
-muitas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_153"></a>[153]</span></p>
-
-<p>Lembro-me, que passando algumas canoas pela nossa situação
-de São Francisco, por uma faquinha de custo de um
-soldo na França, deram-me setenta, e pela farinha, que lhes
-offereci para jantar, mimosearam-me com vinte e cinco, que
-guardei em lugar humido e fresco, deitando-lhes todos os dias
-um pouco d’agoa, e assim se conserváram sem comer por
-mais de seis semanas.</p>
-
-<p>Os selvagens comem-nas com muito gosto, e dizem que
-ellas lhes conservam a saude, e lhes fazem bom estomago.</p>
-
-<p>Cozinham-nas em seos cascos inteirinhas, sem tirar-lhes as
-entranhas, e nós as achamos assim preparadas muito melhores
-do que de outra fórma.</p>
-
-<p>Si algum d’elles soffre dos ouvidos por algum defluxo
-tiram as mulheres o sangue d’estes reptis, misturam-no com
-o leite tirado de suas mamas, e com isto friccionam o fundo
-da orelha.</p>
-
-<p>Quando arrancam o cabello dos seos corpos, com pinças
-de ferro, que lhes dão os francezes, esfregam a pelle com...</p>
-
-<p class="center">(falta uma folha).</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLIII">CAPITULO XLIII</h3>
-
-<p class="subhead">Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas.</p>
-
-</div>
-
-<p>Ha outra caçada de um verme, tão divertida e agradavel
-como as precedentes, é a dos ratos domesticos e selvagens.</p>
-
-<p>Não comem os domesticos, ao menos que eu saiba, porem
-caçam-nos cruelmente; porque si entra um rato em qualquer<span class="pagenum"><a id="Page_154"></a>[154]</span>
-casa, reunem-se todos os habitantes, uns com arcos, e
-outros com flechas e paus, e com o auxilio tambem de alguns
-cães não escapa o pobre rato.</p>
-
-<p>Depois de morto é espetado na ponta de uma vara, fincada
-no meio da aldeia, para servir de alvo ao exercicio
-das flexas dos meninos.</p>
-
-<p>As aldeias mais proximas dos portos, onde chegam navios,
-tem mais ratos, porque apenas sentem a terra, atiram-se
-as ondas, nadam, trocando assim o seo paiz natal, que
-é o mar, para ficar n’um paiz mais firme e seguro, que é
-a terra.</p>
-
-<p>Comem os ratos selvagens, que vivem nos bosques e no
-dizer d’elles é comida deliciosa.</p>
-
-<p>Caçam-nos assim: cavam um buraco no meio de um certo
-lugar no matto, fazem varias entradas, similhantes ás coelheiras,
-ou terreiros de coelhos: reunem-se depois muitos
-sujeitos, armados de paus, e vão fazer grande alarido ao
-redor d’esse fosso, como se costuma fazer nas caçadas dos
-lobos.</p>
-
-<p>Batem as mattas, e d’ellas fazem sahir os ratos, e elles
-fugindo, e encontrando esses buracos tão proprios para se
-occultarem, ahi entram, e então aproximando-se os selvagens,
-toma cada um conta do seo buraco, e entrando outros
-dentro do fosso, á cacete matam os ratos, dividem-nos igualmente,
-e regressam para a aldeia trazendo cada um o que
-lhe tocou.</p>
-
-<p>Assam os ratos ao fumeiro ou sobre carvões, abrem-nos
-por diante sem lhes tirar a pelle, a qual fazem tostar depois
-que o animal está cozido por dentro, para não perder
-a gordura, e depois os guardam dentro de uma porção de
-farinha.</p>
-
-<p>São estes ratos assim preparados, guardadas as proporções,
-mais apreciados do que os javalys e os viados, e as
-vezes trazem os selvagens quantidade incrivel d’elles.</p>
-
-<p>Caçam as formigas em tempo de chuva, por ser a epocha
-propria d’ellas mudarem de habitação.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_155"></a>[155]</span></p>
-
-<p>As que podem vôar buscam a região do ar, deixando suas
-casas, feitas e cavadas na terra.</p>
-
-<p>As outras, si por instincto natural desconfiam, que podem
-as agoas invadir suas grutas, e estragar seos armazens,
-celleiros, ou dispensa, pegam na bagagem, com ordem
-digna de ser mencionada, e auxiliadas com a experiencia,
-como vou contar para servir de modello a todas as outras.</p>
-
-<p>Na nossa casa de S. Francisco, no principio das chuvas
-um milhar de milhões de formigas sahio de uma caverna,
-perto d’ahi, e veio tomar posse de um canto do meo quarto,
-onde cavou camaras, ante-camaras e celleiros.</p>
-
-<p>N’uma bella manhã sahiram todas, e trouxeram um alqueire,
-talvez, de ovos, indo em diversas estações, isto é,
-em distancia de 2 passos uma da outra.</p>
-
-<p>Cada acervo trazia suas formigas em ordem, vindo descarregar
-cada uma o que trazia no montão proximo, e assim
-iam fazendo os outros acervos ou companhias.</p>
-
-<p>Admirei-me de vêr tantas formigas, e tantos ovos, que
-deitavam mau cheiro.</p>
-
-<p>Mandei fazer bom fogo, e atirar sobre estes ovos, e no
-caminho por onde passavam estes animaes.</p>
-
-<p>Puzeram-se em alarme, e cada uma buscou salvar os ovos
-que poude, como fez Eneas á Anchises, seo pae na destruição
-de Troya.</p>
-
-<p>Não fui tão bem succedido, porque regressaram ao lugar
-que haviam escolhido, não pensando talvez, que me incommodassem,
-o que assim não aconteceo, porque reunindo-se
-todas por espaço de 2 dias, deliberaram ir a pilhagem fóra
-do quarto, mostrando-se contentes com a habitação, que bem
-a meo pesar lhes dei.</p>
-
-<p>Causar-vos-hia satisfação vendo estes animaesinhos, desde
-o amanhecer até ao anoitecer, fazer suas provisões, que são
-as folhas de uma certa arvore, em cujos ramos, como presenciei,
-estavam muitas para cortal-as e deixal-as cahir em
-terra, onde cada formiga pegava no que podia e levava para
-os armazens.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_156"></a>[156]</span></p>
-
-<p>Tinham aberto dois caminhos, muito bons para o seo tamanho:
-por um iam as carregadas, e por outro as desembaraçadas,
-evitando assim a confusão e a mistura, embora
-fossem mais de quatrocentas as carregadeiras. O mesmo fazem
-as outras especies de formigas.</p>
-
-<p>É para admirar-se tambem a especie de abobadas, que
-com admiravel industria fazem quando querem caminhar
-abrigadas.</p>
-
-<p>Caçam os selvagens somente as formigas grossas como o
-dedo pollegar, para o que aballa-se uma aldeia inteira de
-homens, mulheres, rapazes e raparigas.</p>
-
-<p>A primeira vez que vi esta caçada, não sabia o que era,
-e nem onde hia tão apressada tanta gente deixando suas casas
-para correr após as formigas voadoras, as quaes agarram
-mettem-nas n’uma cabaça, tiram-lhes as azas para frital-as e
-comel-as.</p>
-
-<p>Caçam-nas tambem por outra maneira, e são as raparigas
-e as mulheres que, sentando-se na bocca da caverna, convidam-nas
-a sahir<a id="Nanchor_70" href="#Note_70" class="fnanchor">[70]</a> por meio de uma pequena cantoria, assim
-traduzida pelo meo interprete.</p>
-
-<p>«Vinde, minha amiga, vinde vêr a mulher formosa, ella
-vos dará avelans.»</p>
-
-<p>Repetiam isto á medida que iam sahindo, e que iam sendo
-agarradas, tirando-se-lhes as azas e os pés.</p>
-
-<p>Quando eram duas as mulheres, cantava uma e depois outra,
-e as formigas que então sahiam, eram da cantora.</p>
-
-<p>Causa admiração vendo-se os grandes pedaços de terra,
-que tiram de suas cavernas.</p>
-
-<p>No tempo das chuvas tapam os buracos do lado das enchurradas,
-e deixam somente aquelles, por onde pode vir a
-chuva raras vezes.</p>
-
-<p>As formigas do Maranhão tem dois inimigos encarniçados,
-especialmente estas alladas: um—certa especie de cães selvagens,<a id="Nanchor_71" href="#Note_71" class="fnanchor">[71]</a>
-com pello de lobo, fedorentos o mais que é possivel,
-focinho e lingua muito aguda, e que procura o formigueiro
-para alimentar-se: outro, uma qualidade de formigas<span class="pagenum"><a id="Page_157"></a>[157]</span>
-corpulentas, que de ordinario nascem com as outras,
-como o zangão entre as abelhas, e em quanto são pequenas
-e fracas, trabalham conjuntamente sem fazerem barulho, e
-nem se offenderem.</p>
-
-<p>Quando grandes e fortes deixam as outras, fazem bando
-á parte, só e só, não vivem mais em companhia, e põem se
-de embuscada pelo caminho, onde costumam passar suas irmãs
-e parentas, como fez antigamente Abimelech, bastardo
-de Gedeon, sobre os 70 filhos legitimos de seo pae, seos
-proprios irmãos, os quaes matou todos sobre uma pedra em
-Ephra.</p>
-
-<p>Sirva d’isto ao leitor para applicar como julgar acertado.</p>
-
-<p>Eis como os nossos selvagens se distrahem mais utilmente
-com estes animaes, do que os nossos rapazes com as borboletas:
-de tudo se aproveitam e nada perdem, reunindo o
-util ao agradavel.</p>
-
-<p>Vejamos o resto.</p>
-
-<p>A caça dos lagartos, chamados pelos <i>Tupinambás</i>—<i>Tarure</i>
-(os grandes) e <i>Toju</i> (os pequenos,) é feita por diverso
-modo,<a id="Nanchor_72" href="#Note_72" class="fnanchor">[72]</a> conforme são da terra ou do mar.</p>
-
-<p>Os maritimos habitam ordinariamente as praias cobertas
-de mangues, onde, duas vezes dentro do espaço de 24 horas,
-entra o mar.</p>
-
-<p>Ahi nutrem-se de carangueijos, de mexilhões, e de camarões,
-vulgarmente chamados em França—lagostins, e de peixes,
-que apanham na enchente.</p>
-
-<p>Poem seos ovos nos concavos das arvores.</p>
-
-<p>Os selvagens caçam-nos e flecham-nos na vasante; enterrando-se
-pelo tujuco.</p>
-
-<p>Para comida servem tanto como os coelhos, ou uma grande
-lebre, conforme o tamanho do animal.</p>
-
-<p>Fervem-nos para fazer mingau, ou assam-nos ao fumeiro.</p>
-
-<p>Os francezes assam-nos ao espeto, bem untado de gordura
-de peixe-boi, e a primeira vista pensareis que são coelhos
-ou lebres espetadas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_158"></a>[158]</span></p>
-
-<p>O guisado, que d’elles se faz, é muito parecido com o das
-lebres e coelhos, e muitos francezes gostam mais d’elles do
-que os nossos coelhos.</p>
-
-<p>Eu antes quero crêr do que provar.</p>
-
-<p>A caça dos lagartos terrestres é mais de meninos que de
-homens, embora tenha visto alguns homens atraz delles,
-como os meninos, e até 20 selvagens, homens e rapazes,
-atraz de trez lagartos.</p>
-
-<p>Apenas os pilham, assam-nos, e toma cada um a parte,
-que lhe pertence e acham-na muito boa.</p>
-
-<p>Os rapazes apenas os veem correr pela casa, nas paredes
-ou nas arvores, flecham-nos, porem escolhem os maiores por
-que tem mais que comer: alguns tem o comprimento de um
-braço e a mesma largura.</p>
-
-<p>Ha outros vermes, que não sahem das arvores, deitados
-sobre folhas, expostos ao sol: dizem os selvagens que são
-venenosos, e por isso os deixam: não se assustam com a vossa
-presença, si não os perseguirdes.</p>
-
-<p>Parecem-se com os camaleões, de que ainda fallarei, tem
-brilho nos olhos, e a côr de escarlate.</p>
-
-<p>Costumam estes lagartos domesticos á juntarem-se e unirem-se
-em forma de bolla, de tal maneira que a cauda do
-macho toca a cabeça da femea, e reciprocamente, e assim
-todos curvados, tocam-se as duas cabeças e as duas caudas.</p>
-
-<p>Tive medo quando vi isto pela primeira vez, porque não
-sabia o que seria, e nem si era alguma especie de serpente,
-com quatro olhos, e um só corpo enrolado.</p>
-
-<p>Os lagartos femeas são mais grossos do que os machos.</p>
-
-<p>Os pequenos lagartos poem ovos, de cinco até sete cada
-um do tamanho da cabeça do dedo minimo, n’um buraco,
-que cobrem de areia, fazendo o resto o calôr do sol.</p>
-
-<p>Os lagartos grandes põem ovos maiores, á proporção do
-seo corpo, e ordinariamente fazem ninhos nos tectos das
-casas, nos bosques, e para ahi levam tudo o que acham ser<span class="pagenum"><a id="Page_159"></a>[159]</span>
-molle, como sejam musgos, pennas, algodão, farrapos, e
-frequentam muito a casa si não lhes fazem mal.</p>
-
-<p>Fazem tanto barulho como um cão, quando caminham e
-conduzem na bocca o que acham, e é um prazer vel-os em
-tal lida.</p>
-
-<p>Não fazem caminho direito quando construem seo ninho,
-e antes usam de muitos rodeios para não serem descobertos.</p>
-
-<p>O sol chóca e faz abrir seos ovos, porque são muito frios
-e não tem calor proprio para isso.</p>
-
-<p>São caçados por cobras grandes e horriveis, umas brancas
-como agoa, outras de côr de violeta, e finalmente algumas
-manchadas de diversas côres.</p>
-
-<p>Invadem até as casas para nos tectos caçarem estes lagartos,
-que apenas as presentem ao longe, fogem como se
-a casa tivesse pegado fogo.</p>
-
-<p>Mandei matar tres cobras d’estas n’um domingo, quando
-eu e meos companheiros fomos dizer missa na capella de
-S. Francisco, onde as achamos perseguindo os lagartos grandes,
-dos quaes já tinham matado muitos.</p>
-
-<p>Pagaram tal temeridade levando cada uma mais de cincoenta
-cacetadas, e ainda se salvariam, si eu não as mandasse
-cortar em pedaços, que viveram e remecheram-se
-por mais de 24 horas procurando reunirem-se o que não conseguiram
-por estarem distantes umas das outras, talvez por
-quatro ou cinco passos.</p>
-
-<p>Os selvagens tem muito horror d’estes lagartos, e dizem
-ser venenosos.</p>
-
-<p>Os lagartos, quando velhos, perdem sua cauda, que fica
-negra, e por isso mesmo é fragil como vidro, e quebra-se
-por qualquer causa.</p>
-
-<p>Não creio, que ellas renasçam, embora o affirme Aristoteles.</p>
-
-<p>Fundo-me no que observei n’um lagarto grande, que
-estava na nossa casa de S. Francisco, onde se conservou
-por dois annos sem cauda, vindo diariamente comer<span class="pagenum"><a id="Page_160"></a>[160]</span>
-em nossa presença, com as galinhas com que se familiarisou.</p>
-
-<p>Dizem, e os francezes o asseveram por experiencia, que
-ha uma especie de lagartos grandes que apanham os frangos,
-e levam-nos para o matto, onde vão comel-os.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLIV">CAPITULO XLIV</h3>
-
-<p class="subhead">Das aranhas, cigarras e mosquitos.</p>
-
-</div>
-
-<p>A vida do homem é comparada com a da aranha em
-muitos lugares da Escriptura Santa, especialmente no Psal.
-89. <i>Anni nostri sicut Aranea meditabuntur</i> «nossos annos
-se passaram, serão contados e meditados como os da Aranha.»</p>
-
-<p>Escreveo S. Isidoro, que a aranha é um verme do elemento
-do ar, n’elle nutrido, d’onde se deriva a etymologia
-do seo nome, nunca descança, sempre trabalha, de si tira
-com que formar sua teia, sempre em perigo por se achar
-ella, seos bens, e suas riquezas, suspensas n’um fio, mercê
-do menor sopro de vento, ou do capricho de um criado ou
-de uma camareira, que com um espanador destrua todo o
-trabalho.</p>
-
-<p>Quereis mais bello espelho para considerar as desgraças
-e miserias d’esta vida?</p>
-
-<p>Não perderei tempo referindo o que se sabe acerca da
-naturesa d’este verme, e apenas contarei o que achei de curioso
-e especial nas formigas do Maranhão, e antes de entrar
-na materia fallarei d’uma especie do tamanho de um
-punho de braço, e as vezes até maior.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_161"></a>[161]</span></p>
-
-<p>Encontram-se ordinariamente no tronco das arvores, proximas
-ás casas, nas estacas, nos cantos, caminham pouco,
-não tem teias, muito venenosas, vermelhas quasi da côr de
-borrachos quando sahem do ovo, coisa horrivel e feia!</p>
-
-<p>Fogem d’ellas os Indios, e julgam mortifera a sua picada.
-Nutrem-se da corrupção do ar.</p>
-
-<p>Existem outras de diversas especies, maiores e menores,
-e todas domesticadas, e nos mattos encontram-se grandes,
-menores, e pequenas.</p>
-
-<p>Em todo o tempo produzem e especialmente no inverno.</p>
-
-<p>Com a frescura da noite juntam-se: deixa o macho a sua
-teia para se unir com o seo fio á teia da femea, si ella está
-collocada em lugar mais baixo: si porem a teia da femea é
-superior á do macho desce ella, vem procural-o, e assim si
-juntam.</p>
-
-<p>É muito facil de vêr-se, pois o praticam todos os dias, no
-fim da tarde.</p>
-
-<p>O macho é pequeno, e a femea é tres vezes maior do
-que elle.</p>
-
-<p>Fazem uma pequena bolça, redonda e chata, muito bem
-feita e tecida, parecendo-se com setim branco e a similhança
-de um breve de <i>Agnus Dei</i>.</p>
-
-<p>N’ella deixam apenas um buraquinho, por onde com o pé
-introduzem os ovos.</p>
-
-<p>Quando está fechada a bolça tapam o buraquinho, e carregam-na
-junto ao ventre e estomago, aquecendo-a por esta
-fórma, e quando presentem estar os filhos em estado de sahir,
-rasgam a bolça ao redor, como se faz com a casca da
-fava, sahem logo, correm pela teia da mãe, e a noite agasalham-se
-debaixo da mãe, como fazem os pintos com as
-gallinhas afim de resguardarem-se do frio da noite.</p>
-
-<p>Quando tem forças, cada uma faz a sua teia, e por sua
-industria cuida de si.</p>
-
-<p>Ha outras, que fazem pequenos pucaros de barro, do tamanho
-e feitio de uma ameixa de dama, tão bem feitos,<span class="pagenum"><a id="Page_162"></a>[162]</span>
-quanto é possivel, por dentro e por fóra, o que tambem
-fazem certas especies de moscas, de que ainda fallarei.</p>
-
-<p>São as boccas d’estes potes proporcionaes aos seos tamanhos,
-com um buraco tão pequeno, em que cabe apenas
-um alfinete, por onde sahem os ovos para serem aquecidos
-pelo Sol.</p>
-
-<p>Este pucaro costuma estar junto a uma arvore, ou n’uma
-folha de palmeira, e a terra de que é feito, muito se parece
-com a de <i>Beauvais</i>.</p>
-
-<p>Enchem o pucaro de ovos, tapam no, e quando as mães
-julgam ja terem os filhos sahido da casca, destapam o buraco,
-e então sahem as aranhasinhas e acompanham-nas.</p>
-
-<p>As aranhas dos mattos procedem de outro modo: roem as
-amendoas das nozes das palmeiras espinhosas, pouco a pouco
-e deitam fora tudo por meio de tres buracos naturaes,
-que tem estes fructos: depois ahi dentro fazem seus ninhos
-e depositam seos ovos.</p>
-
-<p>São differentes as teias destas aranhas quanto a sua posição
-por ellas escolhidas.</p>
-
-<p>As domesticadas armam suas teias nas rachas e entradas
-dos buracos, afim de agarrarem moscas e mosquitos.</p>
-
-<p>Umas estendem suas teias nas arvores, de um ramo a outro,
-e de um arbusto a outro para agarrarem borboletas e
-outros bichinhos iguaes: outras tecem as teias por cima da
-terra para pilharem vermes, como sejam formigas e outros
-iguaes.</p>
-
-<p>Algumas fazem teias tão fortes, que até n’ellas cahem lagartinhas,
-e então descem as aranhas, matam-nas por meio
-de um aguilhão, que tem em si, e depois chupam-lhe os
-miolos e o sangue, e só quando se fartam, é que as deixam.</p>
-
-<p>Vi aranhas do mar, muito parecidas com as de terra porem
-maiores.<a id="Nanchor_73" href="#Note_73" class="fnanchor">[73]</a> Habitam em buracos nas praias, e alimentam-se
-de peixinhos.</p>
-
-<p>Dizem que chupam o sangue e o humor das cobras, iguaes
-as que mandei cortar em pedaços, e asseveram os selvagens,<span class="pagenum"><a id="Page_163"></a>[163]</span>
-que se morderem a cabeça d’algum individuo, ficará
-louco. No Maranhão, como em parte alguma, tem muitas cigarras,<a id="Nanchor_74" href="#Note_74" class="fnanchor">[74]</a>
-que fazem em tempo proprio um barulho infernal,
-como eu não acreditaria si não ouvisse: ha de diversas variedades,
-tamanhos e cantos.</p>
-
-<p>São umas grossas, tem seis pollegadas de comprimento,
-e voz forte e alta a ponto de ferir-vos vivamente os ouvidos.
-Não cantam no inverno, e sim no estio, e quando se
-aproximam as chuvas gritam tanto a ponto de estalarem pelos
-lados, como me contaram os selvagens, sendo isto causado
-pelo bater das azas quando si esforçam e se incham para dar
-mais harmonia á voz.</p>
-
-<p>Estudei os usos e costumes destes animaes em alguns,
-que conservei entre folhas na nossa casa.</p>
-
-<p>Reconheci ser seo canto devido a tres coisas.</p>
-
-<p>1.ª Engolem o ar, enchem o ventre, entumecem-se bem
-para estenderem bem os lados, e ficarem sonoras. Ha grande
-accordo entre a extensão dos lados, e as azas, por meio
-das quaes forma-se o som, que claramente se vê tomarem
-ellas folego quando erguem as azas, e quando abaixam, estendem
-e dilatam os flancos.</p>
-
-<p>2.ª As azas são mui finas e diaphanas, e por tanto proprias
-para formar o som por serem muito seccas.</p>
-
-<p>3.ª As azas de cima sendo fortes e massiças, tocando e
-batendo as azas do meio contra os lados e com auxilio do
-ar, forma o som.</p>
-
-<p>Vou fazer-vos comprehender isto por meio de comparações
-vulgares.</p>
-
-<p>N’uma cithara ha tres coisas para produzir harmonia—as
-costas onde fica o ar, que entra pela rosa do meio, as cordas
-tesas, limpas, seccas e bem collocadas, e a mão do tocador:
-assim tem estes animaesinhos as costas e as ilhargas
-cheias de ar, que entrou pela bocca, as segundas azas são as
-cordas, e as grossas a mão do tocador.</p>
-
-<p>Cantam no estio desde o nascer do sol até meia noite ou
-duas horas depois, e se callam por causa do orvalho, que<span class="pagenum"><a id="Page_164"></a>[164]</span>
-começa a cahir com frio, e assim ficam até que appareça o
-sol e com seos raios extinga as gottas de orvalho, que cahiram
-nas folhas, e então vem ellas aquecer suas azas.</p>
-
-<p>Em quanto guardam silencio, é minha opinião, que ellas
-se nutrem com o mesmo orvalho, e não digo isto sem causa
-pois quasi sempre ficam no mesmo logar, e quando sentem
-algum movimento voam para outra folha.</p>
-
-<p>Algumas d’ellas, especialmente as todas verdes, não tem
-voz, arrastam-se pela terra como os gafanhotos, juntam-se
-como as moscas, põem em setembro ovinhos negros nos
-buracos dos ramos das arvores, nos quaes se formam os
-vermes, ao depois cigarras: vão pouco a pouco se fortificando
-afim de passarem a estação invernosa, e substituirem
-seos paes e mães que n’esse tempo morrem arrebentados á
-força de gritar como ja disse.</p>
-
-<p>Não tem sangue, ou tem muito menos que as moscas,
-porem são organisadas de uma substancia porosa, secca, e
-ligeira.</p>
-
-<p>Matam-nas as gallinhas, porem não as comem, e quando
-por acaso o fazem, enfraquecem e emmagrecem.</p>
-
-<p>Ha n’este paiz diversas especies de mosquitos, porem apenas
-tratarei dos que o merecerem pelos seos principios naturaes,
-e são os chamados <i>Maringoins</i> pelos selvagens: ha
-de diversos tamanhos e grossura, e todos tem a mesma
-forma.</p>
-
-<p>Originam-se de um humor acre, gostam dos sabores picantes
-e acidos, e por isso encontram-se muito no mar e
-suas praias no tempo do inverno, formados pelo humor e
-vapores do mar.</p>
-
-<p>Incommodam muito os homens picando-lhes a pelle com
-seo bico ponteagudo como uma agulha, e sugando assim o
-humor salgado, que corre entre a pelle e a carne.</p>
-
-<p>Gostam da luz porem aborrecem a chama e a fumaça, e
-por isso quando anoitece, as que andam por fóra, poisam
-nas folhas das arvores, e os que estão dentro de casa nos
-tectos, bem a seu pesar, por causa das fogueiras, que<span class="pagenum"><a id="Page_165"></a>[165]</span>
-acendem os selvagens ao redor de si, para se livrarem
-d’elles.</p>
-
-<p>Nos lugares mais proximos a agoa, maior abundancia
-d’elles existe, visto serem creados por agoas, como ja disse.</p>
-
-<p>São caçados pelos morcegos, que, buscando-os nos lugares
-onde se fixam, involvem-nos com suas azas e depois os
-comem.</p>
-
-<p>São por elles muitissimo perseguidos os nossos francezes,
-quando vão á pesca do peixe-boi, e para evital-os armam
-suas redes no ramo das arvores, o mais alto que podem,
-por ahi soprarem mais o ar e o vento: si se partissem as
-cordas dariam bello salto, e não deixam de emballançar-se
-para afugental-os.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLV">CAPITULO XLV</h3>
-
-<p class="subhead">Dos grillos, dos camaleões e das moscas.</p>
-
-</div>
-
-<p>De todos os animaes, que fazem companhia ao homem,
-no Brasil, nenhum ha que iguale ao grillo, chamado pelos
-selvagens <i>Cuju</i><a id="Nanchor_75" href="#Note_75" class="fnanchor">[75]</a>; e por ser tão familiar e domestico pude
-á vontade satisfazer minha curiosidade estudando este animalsinho.</p>
-
-<p>Nasce da corrupção.</p>
-
-<p>Quando se faz uma casa coberta de palma fresca, apparecem
-n’um momento milhões e milhares d’estes grillos ou
-<i>Cujus</i>. Virão dos bosques visinhos? não pode ser; porque
-nas casas cobertas de palma velha não são encontrados,
-logo força é confessar, que formam-se na palma nova com
-o auxilio do sol.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_166"></a>[166]</span></p>
-
-<p>Notei que dois ou tres dias depois de coberta a casa, os
-grillos são brancos como neve, signal de nova geração,
-pouco a pouco tomam a sua cor ordinaria, amarello-negro.</p>
-
-<p>Alem d’isto originam-se tambem de ervilhas, e favas podres
-o que conheci por experiencia.</p>
-
-<p>Quanto á producção do pae e da mãe provêm d’uma semente
-deixada nas folhas de palma: é pegajosa e fica onde
-se colloca, até que d’ella por meio de calor saia outro grillosinho.</p>
-
-<p>É ardente no seo ajuntamento, e eis porque tanto se multiplicam.</p>
-
-<p>É muito pequeno, porem astucioso, tem horas para comer
-e para cantar: não deixam de procurar comida quando
-presentem estarem todos deitados, e então descem do tecto
-e correm, por assim dizer, os cantos da casa, onde se aproveitam
-de todas as migalhas e restos de comida, e se encontram
-restos de carangueijo deixam tudo mais.</p>
-
-<p>Acabada a comida regressam a seos logares, onde cantam
-e passam o resto da noite, e o dia tambem, se o ardor do
-sol o não encommodar.</p>
-
-<p>Não gostam de chuvas, e emquanto está chovendo, não
-cantam.</p>
-
-<p>Gostam portanto do tempo sereno e doce, sem muito calor,
-e sem muita chuva. Roem muito os pannos, que encontram,
-e se acharem um capote de cem escudos n’uma noite
-dão cabo d’elle.</p>
-
-<p>Não tocam em panno de linho á não estar elle engordurado,
-ou com algum liquido, de que gostem, e por isso para
-conservar-se alguns vestidos, embrulham-se n’estes pannos.</p>
-
-<p>Tem quatro inimigos capitaes.</p>
-
-<p>1.º Os lagartos, que correm apoz elles, como os cães atraz
-das lebres.</p>
-
-<p>É um gosto vêr as voltas e vira-voltas que dá a caça e o
-caçador.</p>
-
-<p>2.º Certos macaquinhos amarellos e verdes a que chamam
-os selvagens <i>Sapaius</i>, vivos e ageis como um passaro;<span class="pagenum"><a id="Page_167"></a>[167]</span>
-caçam com uma das mãos e na outra guardam os
-grillos.</p>
-
-<p>3.º São as gallinhas, que os devoram com incrivel avidez,
-e para isto voam sobre as casas, e não poucas vezes estragam
-a cobertura d’ellas.</p>
-
-<p>4.º São certas formigas grandes, que atacam-os nos buracos
-e cavernas, onde se abrigam nas casas: distrahi-me algumas
-vezes vendo tão singular combate; a formiga desce
-ao buraco, onde tanto faz, que o <i>Cuju</i> sahe á campo, ou então
-é puchado pelos pés, e muitas vezes prefere a morte á
-perder suas pernas posteriores, que leva a formiga.</p>
-
-<p>Outras vezes deixa-se o grillo comer dentro do buraco, de
-maneira que somente fica a cabeça e as azas, que as formigas
-carregam como tropheos.</p>
-
-<p>Tem os grillos particular malicia, como experimentei, por
-que mordem a extremidade dos dedos das pessoas, que dormem,
-e carregam o bocadinho de pelle que podem tirar.</p>
-
-<p>Achei-me por isso muito encommodado do pollegar, a ponto
-de não poder escrever por oito dias.</p>
-
-<p>O Camaleão é um animal do tamanho e da grossura de
-um pequeno lagarto, e á elle similhante no rosto, olhos, e
-cabeça, tendo nas costas escamas como o crocodillo, e parece
-ter a pelle coberta de pelle ou limo.</p>
-
-<p>Tem a cauda muito comprida, e de ordinario dobrada em
-dedalus, diminuindo gradualmente até a ponta.</p>
-
-<p>Raras vezes se vê o macho com a femea, e por isso não
-me atrevo a contar o modo de sua procreação, porque não
-pude vel-a, e nem imaginal-a. Contento-me apenas em referir
-o que vi.</p>
-
-<p>É muito demorado no seo andar, está sempre ao sol, deitado
-sobre folhas ou ramos, e por isso se pensa que vive só
-de orvalho.</p>
-
-<p>Batem-lhe as ilhargas constantemente, e muito mais quando
-receiam alguma coisa, sendo isto motivado pela sua timidez
-natural, proveniente de muito humor frio, pelo qual
-torna-se venenoso quando é comido por algum animal.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_168"></a>[168]</span></p>
-
-<p>Nunca se encontra nas arvores fructiferas, prevenção da
-naturesa para não envenenar com o seo frio excessivo o
-fructo que tocasse, e por isso é visto nos ramos de arvores,
-que somente servem para o fogo.</p>
-
-<p>Como o lagarto tem quatro pés, e muda de côr conforme
-o movimento do corpo, e os batimentos das ilhargas.</p>
-
-<p>São raros em Maranhão, e somente são encontrados em
-lugares bem expostos ao meio-dia: deitam-se nas folhas, estendem
-as quatro patas, e descançam a cabeça. Não fazem
-movimento algum com os olhos, quando estão vendo, e nem
-abaixam as palpebras superiores: constantemente bate-lhe o
-papo.</p>
-
-<p>Dizem, que se este animal fosse lançado ao fogo difficilmente
-arderia, porem envenenaria pela fumaça as pessoas
-presentes.</p>
-
-<p>Não fiz esta experiencia com o camaleão, e sim com outro
-animal mui similhante a elle pela friesa.</p>
-
-<p>Mandei lançal-o n’um braseiro, que mandei preparar, e
-retirando-me para longe, tomei cuidado que ficasse sempre
-no fogo, movendo-o constantemente, e depois que morreo,
-vio-se que o fogo não poude obrar contra seo corpo, ficando
-inteiro e solido, conservando sua figura e pelle: mandei tiral-o
-do fogo e enterral-o.</p>
-
-<p>Ha muitas especies de moscas, umas da noite, outras do
-dia.</p>
-
-<p>As moscas da noite são as que buscam o seo sustento durante
-ella agarrando os bichinhos, que voam, onde encontram:
-como tem de alimentar-se nas trevas, deo-lhes a
-Providencia uma luz,<a id="Nanchor_76" href="#Note_76" class="fnanchor">[76]</a> que trazem adiante e atraz: a luz
-dianteira está n’uma placa de forma quadrangular, adherente
-ao estomago, sendo os dous angulos, que tocam a sua barba,
-muito estreitos, e esta construida de uma pellicula diaphana,
-e coberta de um pello mui delicado, com que recebem
-a humidade da noite, e por este meio produzem um
-brilho de luz. Percebeis bem isto recordando vos do brilho<span class="pagenum"><a id="Page_169"></a>[169]</span>
-da pescada á noite, por causa da delicadesa da escama ou
-da sua pelle humedecida.</p>
-
-<p>Acontece o mesmo com certa especie de madeira podre,
-ou melhor rarifeita, e tenue, livre de todas as immundicies,
-e que tem a propriedade de attrahir a humidade.</p>
-
-<p>O mesmo tem elles no chato da barriga, onde se encontra
-uma pellicula bem lisa, cheia do pello tão fino, de que
-acima fallei.</p>
-
-<p>Quando voam atravez de uma noite escura, parecem ser
-grossas faiscas de ardente fornalha de fundir metaes.</p>
-
-<p>Pertencem ao dia as outras moscas; são infinitas e varias
-e por isso somente me demorarei, tratando das que
-tiverem alguma coisa digna da consideração do leitor,
-como sejam as abelhas, e as vespas, e do mais que fallarei.</p>
-
-<p>As abelhas do Maranhão, e de suas circumvisinhanças fabricam
-suas casas de tres modos: entre os ramos das arvores,
-como ja disse, quando escrevi sobre o <i>Meary</i>, ou
-no concavo das arvores, isto é, no tronco principal, porque
-escolhem uma arvore que tenha uma concavidade no tronco,
-sobem pela frente d’elle, e depois descem até a terra, onde
-fazem os alicerces dos seos cortiços, e depois fabricam o seo
-mel, caminhando sempre para cima. Quando não é assim,
-escolhem lugar apropriado, levantam da terra um cortiço
-concavo, onde fabricam mel e cera.</p>
-
-<p>É virgem a sua geração, e creio não haver entre elles
-macho e femea, e assim todos trazem comsigo o germen da
-futura procreação.</p>
-
-<p>Dir-vos-hei a razão d’este meu modo de pensar, que formei
-observando com attenção um cortiço de abelhas n’uma
-grande arvore concava e secca, distante 30 passos de nossa
-casa de São Francisco, o que ainda me foi facil, pois estas
-moscas não dão ferroadas,<a id="Nanchor_77" href="#Note_77" class="fnanchor">[77]</a> comtanto que não se lhes faça
-mal, embora se esteja bem perto d’ellas.</p>
-
-<p>Fizeram os selvagens um buraco ao pé d’esta arvore, por
-onde sahia o mel, e por ahi observei tudo bem a minha<span class="pagenum"><a id="Page_170"></a>[170]</span>
-vontade, até mesmo as camarasinhas, em que se achavam
-ellas envolvidas.</p>
-
-<p>Estes casulos eram tapados de todos os lados, embrulhados
-n’uma tella bem delicada, e por cima está a cera e o
-mel.</p>
-
-<p>N’algumas camarasinhas d’estas, achei somente algumas
-gottas de semente, claras como a agoa da rocha, e soube
-ser a materia de que se organisavam as novas moscas.</p>
-
-<p>N’umas vi o <i>cháos</i>, ainda informe, feito e composto desta
-materia prima, a maneira de uma pasta molle, branca como
-creme: n’outras vi moscasinhas, perfeitamente formadas, e ja
-com movimento, porem envolvidas n’uma tella delicada e
-diaphana, que rasguei com cuidado, e vi n’estas moscas todas
-as suas partes bem distinctas e conformadas, menos os
-pés, por serem os ultimos, que se formam, e ja depois, que
-se movem.</p>
-
-<p>Reconheci ser verdade o que diz S. Isidoro d’estas moscas
-«<i>Apes dictæ sunt quia sine pedibus nascutur, nain
-postmodum accipiunt</i>:» as <i>abelhas</i>, ou antes os <i>apedes</i>, são
-assim chamados porque nascem sem pés, sendo este nome
-composto por <i>a</i>, que quer dizer—<i>sem</i>, e <i>pedes</i>—<i>pés</i>. Assim
-composta quer dizer—<i>sem pés</i>, mas não se usa em francez,
-e sim emprega-se o nome de <i>abelhas</i>.</p>
-
-<p>Sobre o que eu disse á respeito de sua geração virginal,
-alem da experiencia, que eu tive, de que podem duvidar
-alguns espiritos, ha uma testemunha irrefragavel, Santo Ambrosio,
-Doutor que si dedicou ao estudo dos segredos da
-abelha mais do que nenhum outro antes ou depois d’elle.</p>
-
-<p>Não o fez sem motivo, pois desde o seo berço que estas
-moscas se alojaram em seos labios, e depois em toda a sua
-bocca, eis suas palavras: <i>Apes nuilo concubitu miscentur,
-nec libidine resolvuntur, nec partus doloribus quatiuntur,
-sed integritatem corporis virginalem servantes subito
-maximum filiorum examen emittunt</i>: «não si misturam as
-abelhas por meio de alguma conjuncção, não si entregam
-por meio de sensualidade, não soffrem dores de parto, porem<span class="pagenum"><a id="Page_171"></a>[171]</span>
-conservam a integridade virginal de seo corpo, e em
-pouco tempo produzem grande numero de novas abelhas.»</p>
-
-<p>Diz o autor do livro da «<i>Naturesa das coisas</i>»—<i>Omnibus
-virginalis integritas corporis</i>—«conservam todas a inteiresa
-virginal do seo corpo.»</p>
-
-<p>Ha diversas especies de vespas, tendo uma d’ellas alguma
-coisa de novo: esta qualidade é negra, mui delgada no
-meio do corpo a ponto de julgar-se estar o ventre unido ao
-estomago por um só fio.</p>
-
-<p>São industriosas o mais, que é possivel.</p>
-
-<p>Recolhem-se todas á um nicho de terra, no cimo das arvores,
-tão bem estocado, que dentro d’elle não cahe uma
-só gotta d’agoa; a cobertura ou tecto d’este nicho é em fórma
-de zimborio, e apenas cahe a chuva, corre ligeiramente,
-e ahi não si demora: n’elle não tem abertura alguma,
-e apenas cinco ou seis buracos proporcionaes á grossura
-d’ellas.</p>
-
-<p>No interior fazem accommodações para viver, e fabricam
-uma especie de mel bem amargoso, e negro como tinta.</p>
-
-<p>Cada uma tem sua casa, cavada na espessura do nicho,
-á maneira dos buracos de um pombal, onde se agasalham
-os seos habitantes.</p>
-
-<p>É admiravel a sua industria no fabrico d’estes nichos, e
-presenciei-a muitas vezes.</p>
-
-<p>Á margem das fontes fazem argamassa, carregando com
-os pés um pouco de terra, que desmancham e amassam
-com agoa, que vão buscar, e trazem unido ao pello de suas
-coxas. Assim preparado, vão carregando em varias partes
-do seo corpo.</p>
-
-<p>1.º No pescoço.</p>
-
-<p>2.º Nos pés.</p>
-
-<p>3.º Na união das coxas contra seo corpo.</p>
-
-<p>Não deixam seos filhos no nicho commum, porem fabrica
-cada uma o seo cubiculo á parte, á imitação da flor de meimendro,
-presa ou suspensa á algum pau, ou outra coisa coberta,
-longe do perigo de ventos e de chuva.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_172"></a>[172]</span></p>
-
-<p>Levam muito tempo preparando seo nicho, e o enfeitam
-o mais que podem, com o brunidor do seo fucinho.</p>
-
-<p>Depositam no interior sua semente, como fazem as abelhas,
-fecham a entrada, occultam-na, dormem á noite em
-commum, e ainda a madrugada está longe, e já ellas se
-despertam para montar guarda e fazer sentinella ao redor
-de sua habitação, fazendo guerra de morte a quem se lhe
-aproximar.</p>
-
-<p>Posso dar noticias d’isto, porque um dia, indo a um canto
-de minha casa arrumar não sei o que, quando passei, bati,
-sem querer, com a minha cabeça no nicho, onde estava a
-mãe, e ella, julgando mal de minhas intenções, pensou que
-eu o fizesse por maldade, e cheia de colera, escolheo a
-parte mais delicada do corpo humano, isto é, os olhos,
-para vingar-se.</p>
-
-<p>Permittio Deos porem que em lugar dos olhos me ferisse
-as sobrancelhas com o seo aguilhão.</p>
-
-<p>Foi tão doloroso o golpe, e tão penetrante o veneno, que
-cahi por terra, batendo-me extraordinariamente todas as
-minhas veias, desde a planta dos pés até o cume da cabeça,
-como nunca senti em minha vida.</p>
-
-<p>Recolhi-me a cama com o coração sobresaltado, inchou
-muito a parte offendida, e ardia como brasa.</p>
-
-<p>Julguei perder o olho, e assim estive por muitos dias, ao
-depois fiquei bom.</p>
-
-<p>Procream ainda de outra forma. Fazem um pequeno pucaro
-de barro, arredondado, similhante aos feitos pelas aranhas,
-como ja disse, deitam dentro suas sementes, que se
-transformam em vermes vermelhos, iguaes aos que se encontram
-nas ameixas das damas: adquire depois azas, e fica
-vespa.</p>
-
-<p>Não tem os selvagens cantharidas em seo paiz, porem fazem
-muito apreço d’ellas e dão muitos generos para possuil-as.
-Trazem-nas os francezes, porque anteriormente já
-tinham ensinado aos selvagens as propriedades d’ellas, o que
-não se deve escrever: prova isto que os homens viciosos<span class="pagenum"><a id="Page_173"></a>[173]</span>
-mais depressa gastariam esta nação do que ella o é por natureza.</p>
-
-<p>Ha tambem insectos e vermes roedores mui subtis e engenhosos,
-com uma capa bonita e inteira, porem passando
-uma escova por cima, desapparece até o pello e fica só a
-urdidura.</p>
-
-<p>O mesmo acontece aos vermes roedores dos bosques, que
-fazem grande sussurro.</p>
-
-<p>Deos porem fez passaros que vae tirando das arvores taes
-vermes.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLVI">CAPITULO XLVI</h3>
-
-<p class="subhead">Das onças e dos macacos do Brazil.</p>
-
-</div>
-
-<p>A onça é o animal mais furioso do Brazil e é do tamanho
-dos galgos da Europa.</p>
-
-<p>No rosto parece-se muito com o gato, tem bigodes horrivelmente
-dispostos, vista perspicaz e aterradora, pelle como
-a de lobo, manchada de negro á maneira da do leopardo,
-garras muito compridas, patas como de gato, cauda grande
-e maior que todo o corpo diminuindo pouco a pouco até a
-ponta, e com ella brinca n’um areial voltando-se para apanhal-a,
-e correndo para o mesmo fim, como fazem os gatinhos
-no meio de uma salla, divertindo-se cada um com o
-rabinho.</p>
-
-<p>Ama a solidão, aborrece a sociedade, habita só nos bosques,
-e somente é acompanhada por occasião da sua juncção,
-o que feito retira-se a femea.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_174"></a>[174]</span></p>
-
-<p>Nada receia, nada teme: pára vendo dirigir-vos á ella, ou
-fica no fim da estrada, por onde tendes de passar, de forma
-que ou voltareis, ou então combatereis porque não
-cede.</p>
-
-<p>É melhor a retirada ainda que com algum vexame, do que
-por orgulho arriscar sua vida em luta com tal animal.</p>
-
-<p>O Rvd. padre Arsenio assim o fez, vindo da aldeia da
-<i>Mayoba</i> para a nossa casa de S. Francisco, quando encontrou,
-ao meio dia, na estrada uma onça que veio esperal-o.
-Regressou para a aldeia, e assim evitou perigo tão proximo.</p>
-
-<p>Não buscam os homens, e é raro encontral-as, e quando
-isto se dá o perigo é certo.</p>
-
-<p>Não se atiram, e nem correm logo atraz das pessoas que
-vêem, antes dão-lhe tempo bastante para fugir, e apenas
-agarram um ou outro menino, porem raras vezes.</p>
-
-<p>Tem muito medo de fogo a ponto de não se approximarem
-d’elle, e por isso evitam-nas os indios accendendo
-fogueiras em suas casas, sempre abertas quer de dia quer
-de noite.</p>
-
-<p>Fazem guerra desabrida aos cães e macacos, vindo agarrar
-aquelles até junto ás aldeias, sem causarem o menor mal
-aos selvagens deitados em suas redes, e quando vão estes
-á caça, acompanhados por muitos cães, são estes devorados
-e comidos pelas onças, que fingem correr diante d’elles, e
-quando se acham longe de seos senhores, saltam sobre elles
-e facilmente os estrangulam.</p>
-
-<p>Poucos escapam de suas garras para trazer noticias a seos
-senhores, que não os ouvindo ladrar, acreditam que as onças
-os comeram.</p>
-
-<p>Não vão mais alem, e regressam mais depressa a casa
-onde suas mulheres e filhos choram a morte do cão, que elles
-levaram á caça com intenção de divertirem-se.</p>
-
-<p>Si é perigoso atacar um soldado furioso, e victorioso de
-seos inimigos, ainda muito mais o é apresentando-se em tal
-occasião á vista das onças.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_175"></a>[175]</span></p>
-
-<p>Caçam os macacos desta sorte: batem em circumferencia
-o bosque, onde se abrigam os macacos, encurralam-nos n’um
-ponto, onde se agrupam: então trepam as onças em varias
-arvores, e d’ali se atiram sobre os ramos e hastes de outras
-onde estão os macacos, e assim os apanham.</p>
-
-<p>Empregam tambem outro ardil. Occultam-se debaixo de
-folhas n’um lugar, onde ellas sabem, que os macacos vem
-beber, ou quando estão pescando mariscos e carangueijos,
-então d’um só pulo agarram os que podem.</p>
-
-<p>Fazem ainda mais.</p>
-
-<p>Quando vêem ou ouvem que os macacos estão reunidos
-em qualquer lugar, vão surrateiramente arrastando a
-barriga pelo chão, como fazem os gatos quando querem
-agarrar algum ratinho, e depois estendem-se e fingem-se
-mortas.</p>
-
-<p>Chega um macaco, pára, chama outros, que chegam logo,
-descem o mais que podem, sempre desconfiados, para verem
-e examinarem se na verdade está morto o inimigo: rangem
-uns os dentes, e outros como que fazem uma especie de discurso
-de congratulação por tal fim: eis senão quando resuscita
-o fingido morto, mais depressa do que elles sobe ao
-cimo da arvore, onde transforma a vida d’elles em morte,
-não simulada e sim real.</p>
-
-<p>A onça só pare uma vez, e um só filho, como a leôa, e
-eis a razão de haverem poucas no Brasil. A onçasinha rasga
-o utero de sua mãe, que o nutre mui curiosamente até que
-fique em estado de cuidar por si de sua alimentação. Apesar
-de tal ruptura, unem-se em tempo proprio, porem não
-ha fructos d’esta união.</p>
-
-<p>As onças são errantes, caminham por diversos logares,
-atravessam braços de mar, e quando falta-lhes pasto em
-terra, vão ao mar pescar carangueijos e outros iguaes bixos
-do mar.</p>
-
-<p>Existem tambem onças marinhas, como ja disse quando
-fallei do Meary, tendo a parte anterior igual a da terra, e
-a posterior similhante a cauda de um peixe.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_176"></a>[176]</span></p>
-
-<p>São tão furiosas, como as terrestres, e saltam da agua
-contra seos inimigos.</p>
-
-<p>Machos e femeas veem-se livres dos filhos que trazem no
-ventre, á maneira das baleias, dos golfinhos e de outros peixes
-do mar.</p>
-
-<p>Em Maranhão e seos contornos ha muita variedade de macacos:<a id="Nanchor_78" href="#Note_78" class="fnanchor">[78]</a>
-uns grandes, fortes, barbados, e de sexo bem distincto,
-especie perigosa, e que nas mattas muito bem se defendem
-das invasões dos selvagens.</p>
-
-<p>Contou-me um interprete que n’um certo dia um selvagem
-com uma flecha ferio a espadua de um destes macacos, e
-que elle tirou a flecha, arremeçou-a contra o selvagem e o
-ferio gravemente.</p>
-
-<p>Atiram-se sobre as raparigas e mulheres, e forçam-nas si
-não são mais fortes do que elle.</p>
-
-<p>Ha outros barbados, mais pequenos, que trazem mamas
-nos seios, e sexo bem visivel em lugar proprio.</p>
-
-<p>São muito bem tratados pelos francezes: os selvagens os
-agarram atirando um projectil qualquer sobre elles, que cahem
-atordoados, e são assim amarrados.</p>
-
-<p>Os triviaes são quasi que similhantes em sexo, e nem
-merecem descripção alguma.</p>
-
-<p>Em geral os monos são agradaveis á vista.</p>
-
-<p>Caminham um atraz do outro, e com tal cadencia no passo,
-que os que vem atraz assentam os pés e as mãos, onde assentaram
-os que foram adiante.</p>
-
-<p>Fazem assim uma corda de duzentos á tresentos, e
-diria ainda mais, si não receiasse causar admiração ao
-leitor.</p>
-
-<p>Achei-me muitas vezes nas mattas, onde elles habitavam
-e dir-vos-hei, sem precisar o numero, que vi grande quantidade
-d’elles na fórma ja dita.</p>
-
-<p>Cousa agradavel o mais que se pode imaginar.</p>
-
-<p>Arremeçam-se estes animaes de uma arvore a outra, de
-um ramo a outro, como faria um passaro bem voador, e o
-fazem com tal prestesa, que mal se vê.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_177"></a>[177]</span></p>
-
-<p>Si vos descobrem debaixo de alguma arvore, fazem incrivel
-matinada, e depois de vos fazerem muitas caretas e
-de dizer-vos mil injurias em sua linguagem, embrenham-se
-pelos mattos.</p>
-
-<p>Nunca deixam em hora certa,<a id="Nanchor_79" href="#Note_79" class="fnanchor">[79]</a> á tarde ou noite, de ir
-beber agoa, mas sabeis com que subtileza?</p>
-
-<p>Pára o grosso do exercito na distancia de 300 passos da
-fonte, manda espias para examinar a fonte e suas circumvisinhanças,
-espreitam si nada ha que os assuste, examinam
-com cuidado si ha embuscada de algum inimigo, e apenas
-o descobrem gritam com voz forte e correm a reunir-se ao
-exercito.</p>
-
-<p>Voltam depois de algum tempo e praticam o mesmo.</p>
-
-<p>No caso de segurança gritam e ganem para vir o exercito,
-e chegado este ainda usa de outra velhacaria.</p>
-
-<p>Bebem todos um a um: á medida, que um bebe, passa
-alem e trepa n’uma arvore, e assim até o ultimo: assim bebem,
-passam para outro lado, por onde não vieram e ahi
-acabam a fieira.</p>
-
-<p>Deixam a fonte e vão em tumulto procurar seos amores,
-e n’isto ha ordinariamente grandes gritarias, gemidos, mordiduras
-e arranhamentos, porque querem os mais fortes escolher
-as damas e serem servidos em primeiro lugar.</p>
-
-<p>Nada digo sem experiencia e tudo isto presenciei todas as
-tardes na nossa fonte de S. Francisco.</p>
-
-<p>Vão pescar sempre em companhia, carregando ás macacas
-ás costas seos filhos.</p>
-
-<p>Pescam carangueijos e mariscos.</p>
-
-<p>Antes de agarrarem os carangueijos, quebram-lhe as tezoiras
-para livrarem-se das mordidellas, depois quebram-nos
-com os dentes, e, se estão rijos, com pedras, e o mesmo
-fazem com os mariscos.</p>
-
-<p>Cuidam muito as mães no sustento dos filhos, antes de
-poderem elles por si buscal-o; tiram o marisco e o carangueijo
-da concha, limpam-no muito bem, e offerecem ao filho
-nas costas, e estes o agarram e comem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_178"></a>[178]</span></p>
-
-<p>Nunca vão para longe das arvores: é o seo refugio apenas
-ouvem algum motim, ou vêem alguem, e por isso para
-as suas pescarias escolhem lugares proximos á arvores altas
-e copadas.</p>
-
-<p>Si veêm passar uma canoa de selvagens, muito longe
-d’elles, saudam-nos rindo a seu modo, si se aproxima a canoa,
-fogem, e ninguem os pilha.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLVII">CAPITULO XLVII</h3>
-
-<p class="subhead">Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos
-d’aquelle paiz.</p>
-
-</div>
-
-<p>Na Ilha ordinariamente não se vêem aguias, porem ha
-muitas na terra firme, proxima a Maranhão.</p>
-
-<p>Não são verdadeiramente tão grandes como a do velho
-mundo, porem são mais furiosas, atrevidas, e valentes, que
-accommettem os homens, e não fazem seos ninhos, sobre rochedos,
-como diz Job, <i>Aquilla in petris manet</i> «a aguia
-mora nos rochedos» porem entre as arvores.</p>
-
-<p>Vou contar-vos á este respeito o que ouvi em Maranhão
-sobre duas aguias extraordinariamente ferozes, que vieram
-aninhar-se nos mangues <i>d’Uy-rapiran</i>, aldeiazinha na costa,
-distante legoa e meia do Forte de S. Luiz.</p>
-
-<p>Mostraram-me o lugar, onde ellas viviam, n’um dia, em
-que passeiando pelo mar fui visitar um francez, morador
-n’essa aldeia.</p>
-
-<p>Tinham essas aguias cortado ramos mais grossos do que
-uma côxa de homem, e tinham feito tão boas acommodações,
-que melhores não fariam doze homens.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_179"></a>[179]</span></p>
-
-<p>Ahi tinham depositado seos ovos com seos filhinhos, e ninguem
-se atrevia a passar por perto.</p>
-
-<p>Vão caçar cabritos-montezes, matam-nos, espedaçam-nos
-com unhas e bicos, e depois trazem alguns boccados a seos
-filhos.</p>
-
-<p>Pescam da mesma fórma arremeçando-se sobre os golphinhos,
-pirapamas, e trombudos, e tiram-no do mar com
-suas garras, deitam-nos em terra, dividem-nos em pedaços,
-que levam a seos filhos.</p>
-
-<p>Vão ainda mais longe: mataram um homem e uma mulher
-<i>Tupinambás</i>, o que lhes causou a sua morte e a do
-seos filhos, porque si lhes armou uma cilada tão bem arranjada,
-que conseguio-se matar o macho, e a femea achando-se
-viuva retirou-se para a terra firme abandonando seos
-filhinhos, que foram passados pelas armas dos <i>Tupinambás</i>
-em vingança do crime commettido na pessoa dos dois, que
-elles mataram, e destruio-se-lhes o ninho.</p>
-
-<p>A femea é maior que o macho, ambos de côr parda, olhar
-vivo e feroz, poupa forte e irriçada no cume da cabeça,
-pennas grossas no canudo e grandes como a de um gallo
-da India: servem-se d’ellas os <i>Tupinambás</i> para emplumar
-suas flexas.</p>
-
-<p>Nota-se n’estas pennas uma coisa particular e especial: si
-os selvagens as misturam com outras pennas, como sejam
-de araras, e de outros passaros grandes, são estas roidas e
-comidas por aquellas, pelo que são guardadas a parte, e
-com outras não as deitam em suas flexas.</p>
-
-<p>Por maiores, que sejam os outros passaros, é a Aguia o
-Senhor e o Rei não por igualdade de forças, mas por subtileza
-e ligeireza de vôo, subindo muito alto quando quer
-perseguir os passaros grandes, e descendo mui rasteiramente
-quando elles tambem descem, e quebram-lhes a cabeça
-com o bico.</p>
-
-<p>Ficam assustados todos os passaros quando ouvem o seo
-grito, calam-se e occultam-se entre folhas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_180"></a>[180]</span></p>
-
-<p>Caçam principalmente os gaviões, parecidos com as pombas
-brancas, que vivem nas praias, saltando de ramo em
-ramo, esperando a vinda de passarinhos para assaltal-os e
-agarral-os. Ahi vão as aguias caçal-os, e despedaçal-os
-n’um momento.</p>
-
-<p>Nutrem-se tambem de tartarugas do mar e de terra, e não
-poupam a alguma serpente ou cobra que por ventura encontrem.</p>
-
-<p>Raras vezes podem os selvagens pilhal-as de geito para
-flechal-as.</p>
-
-<p>Trepam-se no cume das arvores, onde expandem as azas
-aos raios do sol, tirando com seo bico as pennas velhas, que
-por esse estado ja não servem: ahi vão os selvagens buscar
-estas pennas para seo uso.</p>
-
-<p>Assimelham-se muito na fórma e côr ás pennas dos gallos
-da India, e são muito boas para escrever.</p>
-
-<p>Alem d’estas aguias ha passaros grandes chamados <i>uira
-uaçú</i>, quasi do tamanho dos abestruses da Africa,<a id="Nanchor_80" href="#Note_80" class="fnanchor">[80]</a> mais
-compridos, porem não tão grossos.</p>
-
-<p>Os grous de lá parecem-se com os pardaes. Si algum foi
-para a França, levado por nossos companheiros, saibam que
-ha outros ainda mais grossos.</p>
-
-<p>Agarram-nos os selvagens quando pequenos, e para isso
-procuram a occasião em que os paes vão caçar.</p>
-
-<p>São brancos quando pequenos, mechem-se pouco a pouco,
-e vão mudando até que alcance suas pennas e cor verdadeiras.</p>
-
-<p>São muito glutões, e parece que não se fartam, porem
-quando comem é por muitos dias.</p>
-
-<p>Si os macacos pudessem persuadir os selvagens a extinguir
-essa raça, o fariam indubitavelmente, porque perdem
-milhões dos seos para sustento d’ellas.</p>
-
-<p>Os <i>Tupinambás</i>, que criam estes passaros, conhecem que
-a melhor carne, que se lhes pode dar, é a de macacos, e
-para isto vão ao matto caçal-os e matal-os.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_181"></a>[181]</span></p>
-
-<p>Ha outras especies de passaros grandes, porem que não
-se comparam com estes, e são as <i>araras</i>, os <i>canindés</i>, e
-outros, os quaes são agarrados pelos indios por maneira astuciosa.</p>
-
-<p>Vão ao matto, escolhem as arvores, onde costumam estes
-passaros passar a noite, e onde se recolhem depois de
-comer: fazem debaixo d’essas arvores uma casinha redonda,
-com capacidade para conter tres homens, e coberta de palhas:
-ahi se recolhem e esperam a vinda dos passaros, que
-como não desconfiam, aproximam-se muito, e então os selvagens
-lhes atiram qualquer projectil, que os atordoa sem
-matal-os, cahem em terra onde são facilmente agarrados e
-prendem, e com o correr do tempo de tal maneira se domesticam,
-que embora os soltem, não deixam a casa do seo
-dono: introduzem-se pelos quartos, fazem grande matinada,
-com voz similhante a do côrvo, aprendem a fallar como os
-papagaios, e dão suas pennas á seos hospedes para com ellas
-se adornarem e enfeitarem.<a id="Nanchor_81" href="#Note_81" class="fnanchor">[81]</a></p>
-
-<p>Os habitantes do rio depennam seos gansos para encher
-colchões, e os indios tiram as pennas d’estes passaros para
-fazer seos enfeites e adornos.</p>
-
-<p>Ha muitas e diversas qualidades de garças, umas maiores,
-e outras mais pequenas.</p>
-
-<p>Fazem seos ninhos nos mangues á beira do mar, vivem
-de peixe, e trazem alguns inteiros a seos filhos que principiam
-a comel-os desde os seos primeiros dias.</p>
-
-<p>Admirei-me de ter sido encontrado um peixe grande, do
-tamanho de um arenque, no ventre de uma garça, pouca
-implumada.</p>
-
-<p>Os selvagens vão tirar dos ninhos as garçasinhas, armados
-de bons cacetes para se defenderem dos paes e mães,
-que em tal caso não deixam de acudir aos que nutrem tão
-terna e cuidadosamente afim de estenderem a especie.</p>
-
-<p>Similhantes as garças ha outros passaros chamados <i>forquilhas</i>
-pelos francezes e portuguezes, porque teem a cauda
-fendida quando vôãm: fazem seos ninhos nos mangues, em<span class="pagenum"><a id="Page_182"></a>[182]</span>
-lugar recondito, e pouco frequentado dos homens o quanto
-é possivel: ahi põem, e deixam seos filhos, vão para o
-mar, e ahi ficam por todo o dia enchendo de peixe uma
-grande bolsa, que trasem debaixo da goela, e que depois
-levam a seos filhos: quando está vasia esta bolsa, enche-se
-de vento que os alivia e sustenta no meio do ar, quando
-passam muitos dias e noites sem ir a terra, e atiram-se
-pelo mar em distancia de 50 a 60 legoas procurando alimentos.</p>
-
-<p>Tem a vista extraordinariamente apurada a ponto de verem
-do mais alto lugar, a que sobem, o peixe que náda no
-mar, e sobre elle cahem e agarram-no. Tem uma propriedade
-muito boa e é que perseguem os peixes, que andam
-atraz dos pequenos para devoral-os.</p>
-
-<p>Aproximam-se d’agoa, e como querem participar da presa,
-perseguem-nos o quanto podem.</p>
-
-<p>Alem destes passaros grandes ha milhares de passarinhos,
-entre os quaes merecem especial menção os seguintes.</p>
-
-<p>As andorinhas do mar em tão grande quantidade, que cobrem
-as praias nas vasantes: são boas para se comer, e á
-vontade matareis muitas com uma arma, carregada de chumbo
-miudo, e sentado n’uma canoa.</p>
-
-<p>Ha outra qualidade de passaros, que admiram muito a
-ponto de não se acreditar, e comtudo é verdade, por mim
-experimentada, os quaes tem por bico duas facas, embutidas
-em seos cabos, e aos quaes dão o nome de <i>navalhas</i>:
-o bico não lhes serve para buscar alimento, e por isso dizem
-que elles só vivem de vento, porque essas facas cortantes
-não lhes servem senão de passatempo quando passeiam pelas
-praias, e encontram outros passaros, que são por elles
-cortados pelo meio.</p>
-
-<p>No dia, em que parti do Maranhão, um mancebo pertencente
-ao Sr. de Sam Vicente, que me acompanhou em toda
-a minha viagem, matou um, cujo bico guardei e trouxe para
-a França.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_183"></a>[183]</span></p>
-
-<p>Ha melros como os de França, iguaes na plumagem e no
-canto, que espandem suas pennas á vontade no fim das chuvas,
-quando vem o bom tempo visitar os habitantes da zona
-tórrida: no fim do bom tempo e principio das chuvas soltam
-um canto triste, como que chorando o passado, e prevendo
-as tempestades do inverno, si tal nome merece.</p>
-
-<p>Ha muitos passarinhos de bellesa incrivel: uns pardos, outros
-cor de violeta, azulados, amarellos e mesclados: fazem
-os selvagens penachos de suas pennas, que são muito caras
-por ser difficil matal-os, porque presentindo o inimigo, que
-os busca, trepam-se no cume das arvores mais altas, nas
-pontas dos ramos, fazem seos ninhos os quaes amarram com
-uma embira muito forte, e na outra extremidade que cahe
-no sollo, fabricam uma especie de pote de terra, no qual
-criam seos filhos entrando por um só buraco, proporcional
-á sua grossura.</p>
-
-<p>Trouxe para França esses passarinhos, que aqui causaram
-muita admiração.</p>
-
-<p>Possue o Maranhão um genero de passarinhos, que não
-excede no corpo á extremidade do pollegar, e acrescento
-com todas as suas pennas, e tem canto melodioso, que faz
-lembrar o das andorinhas, que imitam quando querem cantar:
-levantam o bico, e soltam o canto o mais alto, que podem,
-e o sustentam em quanto o permittem suas azas.</p>
-
-<p>Fazem suas casas junto ás fontes, onde muitas vezes vão
-banhar suas azinhas para mais facilmente voarem alto. Ahi
-perto fazem seos ninhos, e imaginae o tamanho dos ovos,
-que chegam de 5 a 7: seos filhinhos ainda são de mais admiravel
-pequenez.</p>
-
-<p>São tão fecundos, que os meninos enchem cabaças de ovos
-d’elles.</p>
-
-<p>Ha de diversas cores, amarellos, violetas, pardos, etc.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_184"></a>[184]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLVIII">CAPITULO XLVIII</h3>
-
-<p class="subhead">Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á
-respeito das Indias Occidentaes.</p>
-
-</div>
-
-<p>Para perfeição d’este primeiro tratado, julguei acertado
-responder á todas ás perguntas, que se fazem n’esse paiz.</p>
-
-<p>1.ª Si esta terra de equinoccio pode ser habitada por francezes
-delicados, naturaes de um paiz temperado, criados
-com cuidado e bons alimentos, pois não parece poderem
-se accommodar n’um paiz agreste, selvagem, cheio de mattas,
-entre barbaros, e debaixo da zona tórrida e ardente.</p>
-
-<p>Respondo, que na verdade todos os principios são difficeis,
-porem pouco a pouco apparece a facilidade.</p>
-
-<p>Não ha no mundo villa ou aldeia, que não cause susto e
-encommodo no principio, porem depois de alguns annos tudo
-vae bem, e os nossos padres ja ahi deixaram o fructo de
-suas fadigas.</p>
-
-<p>Não eram mui delicados os cidadãos romanos? E comtudo
-não deixaram Roma e Italia para plantarem suas colonias
-nas florestas gaulezas e allemans?</p>
-
-<p>O portuguez não é, como nós os francezes, na Europa sugeito
-a todas as molestias, trabalhos e fadigas? Sim! porem
-é neste ponto mais soffredor do que nós, pois bem sabe ser
-necessario primeiro lavrar para depois colher: comtudo estabelece-se
-muito bem no Brasil, faz grandes negocios, sendo
-a terra bem preparada e cultivada. Havendo dinheiro
-ha ahi de tudo, como em Lisboa. Eu vos lembro, que se a
-paciencia dos homens tem tornado, dentro de oito mezes,
-boas e ferteis as terras crestadas pelo gelo ou congeladas,
-uma terra, o coração do mundo, não será habitavel pelos
-francezes? É até loucura pensar n’isto, e portanto concluo,
-que esta terra é apropriada á naturesa dos francezes como
-é a França, si for bem cultivada e provida de viveres necessarios
-e acommodados ao gosto francez, como sejam pão
-e vinho: quanto á carne, peixe, legumes e raises, ha de tudo<span class="pagenum"><a id="Page_185"></a>[185]</span>
-isto incrivel abundancia, tendo apenas o trabalho de colher
-e plantar os vegetaes.</p>
-
-<p>Enganar-se-hia porem quem pensasse, que as arvores produzissem
-patinhos assados, as corças, quartos de carneiro,
-recentemente tirados do espeto, e o ar andorinhas bem cozidas,
-de fórma que não havia mais trabalho do que abrir
-a bocca e comer.</p>
-
-<p>Com tal fantasia, não lhe aconselho, que lá vá, porque
-arrepender-se-hia.</p>
-
-<p>É pois esta terra habitavel pelos francezes, e si ahi não
-tiverem commodidades, arrepender-se-hão, porem tarde.</p>
-
-<p>2.ª Eis o que disse, e basta<a id="Nanchor_82" href="#Note_82" class="fnanchor">[82]</a> a terra é habitavel, e
-pode ahi morar-se com algum encommodo durante alguns
-annos. Mas será saudavel para os francezes? Os indios ahi
-são sadios, e vivem longo tempo, embora selvagens e barbaros,
-nascidos n’este clima, e acostumados á tal temperatura.
-Não tem os francezes tal privilegio, pois são sujeitos
-á muitas febres, que se terminam em paralysia e outros encommodos.
-Respondo a isto, que julgamos das substancias
-pelos accidentes, e das terras pelos encommodos e enfermidades.</p>
-
-<p>Comparemos agora a menor aldeia de França com a Colonia
-Francesa n’estas terras, e no espaço de um anno achamos
-haver na aldeia dez vezes mais doentes do que em dois
-no Maranhão.</p>
-
-<p>Si algumas pessoas se dão mal, não é novidade pois em
-toda a parte está a morte: assim são as molestias.</p>
-
-<p>D’estes males não estão isentos Reis e Principes em paizes
-os mais agradaveis e salubres, que se possa imaginar.</p>
-
-<p>Em dois annos, que lá estive, apenas houve uma morte a
-do Rvd. padre Ambrosio:<a id="Nanchor_83" href="#Note_83" class="fnanchor">[83]</a> fallo da morte natural, porque
-os devorados pelos peixes, a culpa foi d’elles por se lançarem
-ao mar.</p>
-
-<p>Morreu o Rvd. padre de uma paralysia, porque estando
-muito atado a derrubar arvores grandes, e tendo o suor
-molhado seo habito, foi assim mesmo celebrar missa, e<span class="pagenum"><a id="Page_186"></a>[186]</span>
-apenas sahio da igreja foi acommettido por uma febre, de
-que falleceo poucos dias depois.</p>
-
-<p>Digo isto com certesa, porque o assisti até o fim, achando-se
-fóra em serviço de Deos os outros dois padres.</p>
-
-<p>Á vista d’isto Maranhão e Paris pleiteam entre si.</p>
-
-<p>Diz Paris—«és má terra, porque mataste um padre capuchinho
-que te mandei.»</p>
-
-<p>Responde Maranhão «por um perdi quatro dos meos.»</p>
-
-<p>«Tendes rasão para censurar-me?» Assim o deveria ser, si
-os meus fossem tratados como principes, e o pobre capuchinho
-apenas tivesse farinha, ou pouco mais.</p>
-
-<p>«Concordemos pois, que o clima é sam e salubre, e que
-desperta muito o apetite, e si houvessem muitas gulodices
-como em França, para ahi iriam as pressas muitas moças
-francezas.»</p>
-
-<p>3.ª Dizem vae tudo muito bem, porem não ha vinho, e
-nem trigo, principaes alimentos, indispensaveis nos melhores
-banquetes para as carnes mais delicadas.</p>
-
-<p>Respondo, que ha milho em grande abundancia, de que
-se pode fazer pão, como nós o faziamos, e o achavamos
-muito agradavel ao gosto, embora gostassemos mais da farinha
-do paiz, especialmente quando fresca, porque não é pesada
-ao estomago.</p>
-
-<p>Este pão de milho serve d’alimento em muitas terras do
-velho mundo,<a id="Nanchor_84" href="#Note_84" class="fnanchor">[84]</a> e especialmente na Turquia, onde é chamado
-trigo da Turquia.</p>
-
-<p>Não se perdeo ainda a esperança, que a terra firme do
-Brasil, forte e gorda, não possa produzir trigo, com que se
-fabrique o pão como na França.</p>
-
-<p>Os habitantes de Pernambuco ja o fizeram; não estão longe
-de nós, porem em terras peiores.</p>
-
-<p>Quanto a terra firme do Maranhão, melhor seria si o rei
-de Hespanha não prohibisse nas Indias Orientaes e Occidentaes
-plantação de trigo e de vinhas para tel-as sempre dependentes
-de seo soccorro, e de tudo quanto cresce nos seos
-Reinos de Hespanha e Portugal.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_187"></a>[187]</span></p>
-
-<p>Accrescento ainda, que o Perú, que está no mesmo paralello
-que a terra firme do Maranhão, é abundante de trigo e
-de vinhas. Quem pode impedir, que ahi se produzam estes
-generos?</p>
-
-<p>Quanto ao vinho, não é feito das vinhas do paiz, embora
-ahi possam crescer,<a id="Nanchor_85" href="#Note_85" class="fnanchor">[85]</a> e contam-nos, que as trazidas pelos
-nossos religiosos na ultima viagem pegaram e produziram
-fructos. Quem pode impedir grandes plantações de vinhas,
-e que em dois ou tres annos se façam grandes colheitas?</p>
-
-<p>A França nem sempre tem vinho, actualmente porem tem
-muito.</p>
-
-<p>Os flamengos, os inglezes, os hibernios e dinamarquezes
-não fabricam vinho, contentam-se com cerveja, e se querem
-beber vinho abrem a bolsa, e ahi vão os melhores vinhos
-do Universo.</p>
-
-<p>O mesmo succede em Maranhão, porque os navios ahi os
-levam. É bem verdade, que é um pouco mais caro do que
-em França, porem é melhor, segundo pensam alguns francezes,
-que avaliam as coisas pelo preço.</p>
-
-<p>Os mais economicos acostumam-se com a cerveja do paiz
-que é muito boa por ser feita de milho, e não é muito cara
-por haver muita abundancia deste genero na terra e serem
-as agoas boas e puras.</p>
-
-<p>4.ª Dizem. Si é assim não é máo, porem pode ahi fazer-se
-vantagens, visto que, em quanto ahi estive, nunca me animei
-a gastar dinheiro. Respondo.</p>
-
-<p>Se todos soubessem porque se dava essa falta, ficariam
-contentes, porem não é cousa que todos devam saber.</p>
-
-<p>Direi somente, que esta falta não provem da terra, que é
-propria a produsir bons generos quando bem cultivada,
-como sejam: <i>Algodão</i>, <i>canafistula</i>, <i>madeira de diversas cores</i>,
-<i>piteira</i>,<a id="Nanchor_86" href="#Note_86" class="fnanchor">[86]</a> <i>tinturas de urucú</i>, <i>de cramesim</i>, <i>pimentas
-longas</i>, <i>lapis-lazuli</i>, <i>cobre</i>, <i>prata</i>, <i>oiro</i>, <i>pedras preciosas</i>,
-<i>plumas</i>, <i>passaros de diversas cores</i>, <i>macacos</i>, <i>macacos-monos</i>,
-<i>e saguins</i>, e especialmente assucares, quando si levantarem
-engenhos e plantarem cannas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_188"></a>[188]</span></p>
-
-<p>Si nada de lá se trouxer (callando o que si deve dizer
-em publico) provem da má direcção dos negocios, cuidando
-cada um de si, o que tem feito com que haja pouco sortimento
-de mercadorias francezas, necessarias aos selvagens,
-e pelas quaes dão algodão, tinturas, pimentas, e outras
-coisas similhantes, alem de outros generos, que por si mesmo
-possam obter os francezes.</p>
-
-<p>Vendo os selvagens a pobresa dos armazens, onde apenas
-haviam mercadorias para com ellas si comprar farinha,
-ficam preguiçosos, nada fazem e nem farão emquanto os
-francezes não tiverem coisa alguma a dar-lhes em recompensa:
-tal é o seo genio e assim o farão, e por isto não
-merecem censura, por que em todo o Christianismo não si
-encontra um só homem, que trabalhe de graça.</p>
-
-<p>Não vos admireis si nada tragam, e sim si na primeira
-viagem conduzirem comsigo alguma coisa.</p>
-
-<p>Não me prendo as rasões ja ditas, e outras, que callo, e
-sim no caso de provêr-se á esta falta, como convem, eu
-vos asseguro que a Ilha e suas circumvisinhanças ainda produzirão
-bons estofos.</p>
-
-<p>Tendo satisfeito a todas as perguntas e objecções sinto
-repugnancia em responder a muitos mancebos, que por bens
-de fortuna somente possuem a espada e o punhal, mais que
-ricos de coragem cortam muitas vezes a garganta uns dos
-outros, e vão em companhia para um paiz bem triste, onde
-navio algum vae levar novidades.</p>
-
-<p>Desejaria perguntar-lhes—que fazeis em França senão esposar
-questões de vossos irmãos mais velhos? Porque não
-experimentaes fortuna, ou ao menos porque não ides enriquecer
-vosso espirito com a vista de coisas novas? Passarieis
-assim o vosso tempo, em quanto si aplaca o vosso coração,
-e si fortalece o vosso juiso: prestarieis serviço a Deos
-e ao vosso Rei visitando esta nova França.</p>
-
-<p>Ahi descobrireis novas terras, achareis alguma coisa de
-valor, como sejam pedras preciosas etc., e quando mais não
-fosse, bastaria que, quando voltardes, não ficasseis mudo<span class="pagenum"><a id="Page_189"></a>[189]</span>
-nas reuniões, porque aquelle que viaja tem sempre ganho
-o seo pão.</p>
-
-<p>As cinzas e os fogões são para os cazeiros, creados por
-Deos para cultivar a terra.</p>
-
-<p>A nobresa n’este mundo tem outro fim, e qual é elle?
-o de empregar vossos esforços e trabalhos para dilatar
-o reinado de Deos, ajudar os Apostolos de Jesus Christo
-a chegarem aos fins para os quaes são enviados, isto
-é, para augmento do sceptro e da corôa de vosso principe,
-e morrer por estas duas empresas—é morrer em leito
-de honra.</p>
-
-<p>Vós me respondereis—mas sob que ordens e porque meios?
-Minha penna, senhores, não pode ir mais longe. Fiz o que
-devia e o resto ignoro.</p>
-
-<p>Espero portanto, que Deos inspirará aquelles, que tudo
-podem, á favor da perfeição de tão alta empresa.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLIX">CAPITULO XLIX</h3>
-
-<p class="subhead">Instrucção para os que vão pela primeira vez ás Indias.</p>
-
-</div>
-
-<p>Sabio é aquelle, diz o proverbio, que para seos negocios
-se aproveita do exemplo e experiencia dos outros.</p>
-
-<p>Se os nossos francezes, antes de terem ido á India, soubessem
-o que depois conheceram, teriam melhor dirigido os
-seos negocios, e nem teriam passado pelos encommodos,
-que soffreram: o que resolver ahi ir, calcule quanto tempo
-ahi se pode demorar, junte ainda mais um bocado, porque
-lá não se tem a commodidade do regresso quando se
-quer.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_190"></a>[190]</span></p>
-
-<p>Faça seo sortimento para esse tempo, e por duas formas,
-uma para si e outra para os selvagens afim de obter delles
-viveres e outros generos.</p>
-
-<p>As suas provisões devem consistir de aguardente forte, do
-melhor vinho de Canaria, em bons frascos de estanho, bem
-arrolhados e acondicionados n’uma frasqueira fechada a chave,
-e esta tão bem guardada, como o seo coração, para servir
-nas necessidades e nas molestias que podem apparecer.</p>
-
-<p>Fuja de sucia com pessoa alguma, porque então desapparecem
-bem depressa as suas provisões.</p>
-
-<p>É costume no mar, desde que se suspeita haver vinho ou
-agoardente na frasqueira de algum passageiro, o pedir-se de
-vez em quando uma vez d’esses espiritos para beber em
-companhia, e quando se está em viagem deve-se fazer de
-duas coisas uma, ou ser-se liberal e para isso não faltam
-instigações, ou então passar-se por velhaco, e soffrer todas
-as injurias, que lhe queiram fazer.</p>
-
-<p>O meio mais seguro para evitar estas coisas é não entrar
-em sucias.</p>
-
-<p>Para a passagem do mar deve surtir-se de algum vinho
-tinto, e de coisas iguaes para quando precisar visto o trivial
-do navio ser muito mal preparado.</p>
-
-<p>Deve fornecer-se de um bom numero de camisas, lenços,
-e vestidos de fustão, e não de estofos pesados, excepto os
-vestuarios para festas, porque n’este paiz não se precisa senão
-de pannos leves.</p>
-
-<p>Leve sabão para o aceio da casa, muitos sapatos porque
-lá não achará um só, senão os que para ahi forem levados
-e por alto preço, de forma que pelo preço de um par tereis
-em França uma duzia, toalhas, guardanapos, lençóes e
-um bom colchão, e se quizerdes viver á francesa, isto é,
-com limpesa, deveis levar baixela de estanho para quando
-estiverdes doentes.</p>
-
-<p>Devereis levar assucar, boas especiarias, uma porção de
-rhuibarbo muito fino, tudo bem acondicionado n’uma caixa
-para livrar o assucar das formigas do paiz, porque é impossivel<span class="pagenum"><a id="Page_191"></a>[191]</span>
-imaginar-se o que fazem estes animaesinhos, que metem-se
-por toda a parte, e tudo trespassam se é de madeira.</p>
-
-<p>Devem essas caixas ser feitas de ferro branco.</p>
-
-<p>As mercadorias pelas quaes dos Indios obtereis em
-troca viveres e outros generos do paiz, e escravos para servir-vos
-e cultivar vossas roças, são as seguintes—facas de
-cabo de pau, de que usam os magarefes, e muito apetecidas
-pelos selvagens, muitas thesouras de bolsa de couro,
-muitos pentes, contas de vidro verde-gaio, a que chamam
-missanga, foices,<a id="Nanchor_87" href="#Note_87" class="fnanchor">[87]</a> machados, podões, chapeos de pouco valor,
-fraques, camisollas, calções de adellos, espadas velhas,
-e arcabuses de pouco preço.</p>
-
-<p>Dão muito apreço a tudo isto, e assim tereis escravos e
-bons generos.</p>
-
-<p>Não esqueçaes tambem pannos verdes-gaios, e vermelhos
-de pouco valor, porque não fazem grande differença dos estofos,
-rosetas, assobios, campainhas, anneis de cobre dourado,
-anzóes, alicates de latão chatos, com um pé de cumprimento
-e meio de largura, tudo isto por elles muito apreciado.</p>
-
-<p>Assim bem providos destes generos, não duvideis de serdes
-bem vindo entre elles: ahi não deveis viver vida folgada,
-e muito negocio fareis n’esse paiz pelo qual pouco dareis,
-se souberdes guiar-vos.</p>
-
-<p>Assim preparado, não vos esqueçaes do principal, que é
-antes de embarcardes purificar e robustecer vossa alma com
-o Santissimo Sacramento da confissão e da communhão, dispondo
-todos os vossos negocios como quem não sabe se o
-mar lhe permittirá o voltar.</p>
-
-<p>Apenas embarcado, fazei vossa cama o mais perto, que
-fôr possivel, do mastro grande para evitardes o balanço
-visto ser ahi o lugar mais quieto do navio.</p>
-
-<p>Deve-se sempre temer a Deos, porem não receiar os
-acasos do mar, sendo melhor mostrar o rosto tranquillo do
-que desassocegado, visto de nada servir o medo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_192"></a>[192]</span></p>
-
-<p>Não vos assusteis senão quando os pilotos implorarem
-misericordia, porque então é preciso cuidar da alma, visto
-irem mal as cousas.</p>
-
-<p>Quando virdes o navio navegando de lado, as caixas viradas,
-o mar entrando no convez, as vellas molhando-se nas
-ondas, os marinheiros jurando e buffando,<a id="Nanchor_88" href="#Note_88" class="fnanchor">[88]</a> não vos assusteis,
-mostrae-vos sempre de animo prasenteiro, não vos
-descuidando porem da vossa consciencia.</p>
-
-<p>Não questioneis com algum marinheiro, pois com isso
-nada alcançareis.</p>
-
-<p>Quando chegardes ao porto, não vos apresseis em saltar,
-cuidae primeiro nas vossas mercadorias e bagagem, porque
-acontece muitas vezes visitarem a bagagem, e serrarem os
-caixões, onde vem os generos, de maneira que se possa
-introduzir a mão.</p>
-
-<p>Fazei conduzir tudo em vossa companhia para casa do
-vosso Compadre, que deveis escolher com estes predicados
-se fôr possivel.</p>
-
-<p>1.º Que tenha escravos, canôa e cães, para não sentirdes
-falta de peixe e de caça, senão raras vezes tereis estes
-generos, sendo necessario compral-os aos selvagens, e assim
-muito cara vos seria a vida.</p>
-
-<p>2.º Indagae se elle tem bom genio especialmente a mulher,
-porque nada ha peior do que má hospede.</p>
-
-<p>Se encontrardes bom acolhimento, convem fazer alguns
-presentes, e depois deveis trazel-os sempre na esperança de
-outros, sem serdes comtudo muito liberal, e por isso todos
-os mezes lhe deveis dar alguma coisa afim de não vos chamarem
-avarento, e como tal não vos apregoem entre os seos
-iguaes, criando assim difficuldades quando quizerdes obter
-alguma coisa.</p>
-
-<p>Não vos deixeis prender pelos affagos das filhas dos vossos
-hospedes, ou de outras, pois não vos faltarão caricias se
-souberem que tendes mercadorias.</p>
-
-<p>Em tudo o mais é preciso andar prevenido, tendo sempre
-bem presente á memoria o acaso e o perigo, que fazem<span class="pagenum"><a id="Page_193"></a>[193]</span>
-contrahir molestias sórdidas áquelles, que de si se esquecem.</p>
-
-<p>Podeis livrar-vos d’isto com facilidade, mormente se considerardes
-o grande peccado, que commeteis.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_L">CAPITULO L</h3>
-
-<p class="subhead">Do acolhimento, que fazem os selvagens aos francezes
-recem-chegados, e como convem proceder para
-com elles.</p>
-
-</div>
-
-<p>Si ha nação no mundo, que goste de fazer bom acolhimento
-aos seos amigos recem-chegados, e que os receba
-em suas casas para tratal-os bem o quanto é possivel, sem
-duvida alguma os <i>Tupinambás</i> occupam o primeiro lugar á
-vista do que fizeram aos francezes.</p>
-
-<p>Logo que fundeou o navio, que trasiam os francezes, surgiram
-de todos os lados selvagens em suas canôas, bem enfeitados
-de pennas e preparados segundo sua classe como si
-fossem para uma grande festa.</p>
-
-<p>Apenas descobrem ao longe navios que demandam a terra
-corre logo este boato por todas as aldeias <i>Aurt vgar uaçú
-Karaibe</i>, ou <i>Aurt Navire suay</i> «ahi vem os grandes navios
-de França.»</p>
-
-<p>Immediatamente tomam os seos vestidos bonitos, si os
-tem, e principiam a fallar uns aos outros por esta forma:
-«ahi vem navios de França, e eu vou ter um bom compadre,
-elle me dará machados, foices, facas, espadas, e roupa:
-eu lhe darei minha filha, irei pescar e caçar para elle, plantarei
-muito algodão, dar-lhe-hei gaviões e ambar, e ficarei<span class="pagenum"><a id="Page_194"></a>[194]</span>
-rico, porque hei de escolher um bom compadre, que tenha
-muitas mercadorias.»</p>
-
-<p>Dizendo isto batem nas pernas e nos peitos em signal de
-alegria.</p>
-
-<p>As mulheres e os rapazes fabricam farinha fresca e nova,
-e os homens vão pescar e caçar, e quando a casa está provida
-de carnes de diversas qualidades, raizes, peixes, caça,
-e farinha, vão todos aos navios.</p>
-
-<p>Os mais impacientes vão em suas canôas á bordo do navio,
-ancorado na enseiada, endagar se vieram os seos velhos
-<i>Chetuassaps</i>, e qual é o francez que traz mais generos
-para lhe offerecer seo compadresco, sua casa e sua filha.</p>
-
-<p>Apenas salta o francez é logo rodeiado por elles: homens
-e mulheres mostram-se prasenteiros, presenteam-nos com viveres,
-convidam-nos para compadre, offerecem-se para levar-lhes
-sua bagagem, em fim fazem o que podem para contental-os
-e agradal-os.</p>
-
-<p>Não tem inveja por estar um francez em casa de outro: o
-que primeiro se apresenta é que leva o hospede, sem a menor
-questão, e nem por isso se insultam.</p>
-
-<p>Fazem mais ainda: quando um francez muda de compadre,
-não questionam por isto, despresam-no, e tem-no por
-homem mau, e assim raciocinam.</p>
-
-<p>«Si não poude viver com aquelle, como viverá commigo?»</p>
-
-<p>Si o selvagem é genioso, avarento e preguiçoso, quando
-o francez o deixa não se zangam os outros, antes dizem «É
-bem feito ser elle despresado, é um homem difficil de ser
-aturado, avarento e preguiçoso.»</p>
-
-<p>Escolhendo o francez um compadre, segue-o e vae para
-a aldeia,<a id="Nanchor_89" href="#Note_89" class="fnanchor">[89]</a> e então o hospede com certa gravidade, como
-si nunca o houvesse visto, lhe estende a mão e lhe diz:
-«<i>Ereiup Chetuassap?</i>» «Chegaste meu compadre,»<a id="Nanchor_90" href="#Note_90" class="fnanchor">[90]</a> coisa
-digna de vêr-se e de contemplar-se.</p>
-
-<p>Direis ao vel-os, que sahem á maneira dos imperadores
-de um gabinete bem fechado, onde estavam empenhados em
-grandes negocios.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_195"></a>[195]</span></p>
-
-<p>Si querem fazer grande acolhimento a um francez e lhe
-mostrar que muito o estimam, antes que o pae de familia
-lhe diga <i>Ereiup</i>, as mulheres e as filhas o lamentam e depois
-dam-lhe bons dias.</p>
-
-<p>Responde-lhe o francez <i>Pá</i>, «sim?» resposta que quer dizer
-«sim de todo o coração: eu te escolhi para morar comtigo,
-e para ser meo compadre, e do numero de tua familia:
-te dei a preferencia porque te estimo e por me pareceres
-bom homem.»</p>
-
-<p>Diz-lhe o selvagem—<i>Auge-y-po</i> «muito bem, estou muito
-contente, honras-me muito, sêde bem vindo e aqui serás tão
-bem acolhido como em parte alguma.»</p>
-
-<p>Por isto reconhecereis a candura e a simplicidade da naturesa,
-que consiste em poucas palavras e muitas obras. O
-contrario acontece á corrupção, pois inventa muitos discursos,
-muitas palavras adocicadas, cortejo sobre cortejo muitas
-vezes só com o chapéo, e não com o coração.</p>
-
-<p>D’estas duas recepções qual será a melhor e a mais consentanea
-com a lei de Deos, e com a simplicidade do christianismo?</p>
-
-<p>Após aquellas palavras, elle vos diz—<i>Marapé derere?</i>
-«Como te chamas? qual é o teu nome? como queres que te
-chamemos? que nome queres que se te dê?»</p>
-
-<p>Convem notar, que si não escolherdes um nome pelo qual
-sereis conhecido em toda a parte, elles vos darão um escolhido
-entre as coisas naturaes, existentes no seo paiz, e o
-mais apropriado á vossa physionomia, genio, ou maneira de
-viver, que por ventura descobrirem em vossa pessoa.</p>
-
-<p>Por exemplo, entre os francezes, um foi chamado <i>beiço
-de sargo</i>, porque tinha o beiço inferior puchado para diante
-como os peixes chamados <i>sargos</i>.</p>
-
-<p>Tiveram outros o apellido de <i>garganta grande</i> porque
-nada o fartava, de <i>sapo-boi</i>,<a id="Nanchor_91" href="#Note_91" class="fnanchor">[91]</a> por estar sempre entumecido,
-de <i>cão pirento</i> pela sua cor má, de <i>piriquito</i> porque levava
-só a fallar, de <i>lança grande</i> por ser alto e esguio, e
-assim por diante, e ordinariamente fazem estas coisas em<span class="pagenum"><a id="Page_196"></a>[196]</span>
-suas <i>casas grandes</i>, e por esta fórma pouco mais ou menos.
-«Que nome se ha de dar a teo compadre?»</p>
-
-<p>—Não sei, é preciso estudar.</p>
-
-<p>Indica cada um a sua opinião, e o nome que encontra
-mais apropriado, e si é bem recebido pela assembléa lhe é
-imposto com seo consentimento, si é homem de posição: si
-é do vulgo, queira ou não queira, ha de ter o nome, que
-lhe der a assembléa.</p>
-
-<p>Tem tambem outra maneira de impôr nomes: quando elles
-vos estimam, e vos dam muito apreço, elles vos dam o seo
-proprio nome.</p>
-
-<p>Depois de saber vosso nome pensam na cozinha dizendo—<i>Demursusen
-Chetuasap</i>, ou então <i>Deambuassuk Chetuasap?</i>
-«Tem fome, meo compadre? quer comer alguma coisa?»</p>
-
-<p>A hospede vos escuta e vos attende prompta a servir-vos
-si disserdes <i>sim</i> ou <i>não</i>, porque tomarão vossa resposta,
-como dinheiro contado, visto que n’essas terras nem se deve
-ser vergonhoso, e nem guardar silencio.</p>
-
-<p>Si tendes fome, direis <i>Pá, chemursusain, Pá, cheambuassuk</i>,
-«sim, tenho fome, quero comer.»</p>
-
-<p>Perguntam elles <i>Maé-pereipotar</i>, «que queres tu comer?
-que desejas tu que eu te traga?»</p>
-
-<p>São mui liberaes no principio, diligentes na caça e na
-pesca, afim de contentar-vos e ganhar vossa affeição para
-obter generos; mas cuidado, não lhe dês tudo no principio,
-conservae-o sempre na esperança, dando-lhe cada mez alguma
-coisinha.</p>
-
-<p>Á sua pergunta dizei, si quereis carne, peixe, passaros,
-raizes, ou outra qualquer coisa, e então vossos hospedes,
-o marido e a mulher trazem para vós a caça, o <i>Mingau</i>,
-que tiverem, podeis comer a vontade e dar a quem
-quizerdes.</p>
-
-<p>Apenas tiverdes comido, arma a sua rede ao pé da vossa,
-principia a conversar comvosco, offerece-vos um caximbo
-cheio de fumo, que accende, chupa tres fumaças, que expelle
-pelas ventas, e depois vos entrega como coisa muito<span class="pagenum"><a id="Page_197"></a>[197]</span>
-bôa, e que faz muita estima, como na França se pratica com
-as bebidas.</p>
-
-<p>Accende tambem seo caximbo, e depois de haver tomado
-cinco ou seis fumaças diz—<i>Ereia Kasse pipo</i>: «deixaste teo
-paiz para vir ver-nos, visitar-nos e trazer-nos generos?»</p>
-
-<p>Respondei-lhe <i>Pá</i>—«sim, deixei tudo, despresei meos amigos,
-e meo paiz para vir aqui vêr-te.»</p>
-
-<p>Levantando então a cabeça como que admirado, diz <i>Yandé
-repiac aut</i>, «compadeceo-se de mim, olhou-nos com piedade:
-lembraram-se os francezes de nós, não se esqueceram
-de nós.»</p>
-
-<p>Deixaram sua terra para nos vir ver—<i>Y Katu Karaibe</i>:
-«são bons os francezes e muito nossos amigos.»</p>
-
-<p>Depois pergunta ao francez <i>Mabuype deruuichaue Yrom?</i>
-«Comvosco quantos superiores, guerreiros, capitães e principaes
-vieram?»</p>
-
-<p>Responde-lhe elle <i>Seta</i>, «muitos.»</p>
-
-<p>Replica o selvagem—<i>De Muruuichaue?</i> «Não és d’esse
-numero? Não és um dos principaes?»</p>
-
-<p>Bem podeis pensar, que não ha ninguem, por mais mediocre,
-que seja a sua condicção, que de si não diga bem,
-e por isso responde o francez <i>Ché Muruuichaue</i> «sim, sou
-um dos principaes.»</p>
-
-<p>Diz o selvagem <i>Teh Augeypo</i> «muito bem, estou muito
-contente: basta, fallemos de outra coisa.» <i>Ereru patua?
-Ereru de caramemo seta?</i> «Trouxestes muitas caixas e cestas,
-cheias de mercadorias?»</p>
-
-<p>São as melhores noticias, que se lhes pode dar, para as
-quaes tem sempre dispostos o animo e o coração, de sorte,
-que tudo quanto dizem é somente como que um preambulo
-para chegar a este ponto.</p>
-
-<p>Depois que o francez responde-lhe affirmativamente diz o
-selvagem—<i>Mea porerut decarameno pupé?</i> «O que trouxestes
-em vossas caixas e coffres de joias? que mercadorias?»
-dizem elles com vóz doce e agradavel, pois são muito
-curiosos de saber o que trazem comsigo os francezes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_198"></a>[198]</span></p>
-
-<p>Deve estar prevenido o francez para não dizer e nem
-mostrar o que elles desejam, afim de trasel-os sempre na
-expectativa, si dos seos serviços quer aproveitar-se.</p>
-
-<p>Deve responder-lhe—<i>Y Katu paué</i> «trouxe tantas coisas,
-cujos nomes nem mesmo sei, são bellas e magnificas.»</p>
-
-<p>Esta resposta é como agoa lançada na fornalha ardente
-do ferreiro, a qual redobra o calor, e activa a chama, e assim
-desperta a curiosidade do selvagem, até por meios adulatorios,
-expressados por gestos, dizendo <i>Eimonbeu opap-Katu</i>
-«eu te peço, não me occultes nada, dize-me.» <i>Yassoi-auok
-de Karamemo assepiak demae</i>: «Abre-me tuas caixas,
-teos cestos, deixa-me vêr tuas mercadorias, tuas riquezas.»</p>
-
-<p>Deve responder o francez <i>Aimosanen ressepiak</i> ou <i>Kayren
-deué</i> «agora não posso, deixa-me descançar, logo te mostrarei:»
-<i>Begoyé sepiak</i> «não duvides, um dia verás á tua vontade.»</p>
-
-<p>O selvagem entende o que isto quer dizer, e vendo que
-perde seo tempo, diz a si mesmo, levantando os hombros, e
-como que se lastimando—<i>Augé katut tegné</i>, «pois bem, esperarei.»</p>
-
-<p>Bem sei que não serei ouvido, porem, diz elle ao francez
-<i>Dererupé xeapare amon?</i> «Não trouxestes muitas fouces
-e machadinhos de cabo de ferro?»</p>
-
-<p><i>Dererupé urá sossea-mon?</i> «Trouxestes machados de cabo
-de pau?» <i>Ererupé ytaxéamo?</i> «Não trouxestes facas d’aço?»
-<i>Ererupé ytaapen?</i> «Trouxestes espadas d’aço?» <i>Ererupé tatau?</i>
-«Trouxeste arcabuzes?» <i>Ererupé tatapuy seta?</i> «Trouxeste
-muita polvora?»</p>
-
-<p>Responde o francez a tudo isto <i>Aru seta yagatupé giapareté</i>
-«Sim, trouxe muita coisa boa e bonita.» Diz o selvagem
-<i>Augé-y-pó</i> «Muito bem.»</p>
-
-<p><i>Ercipotar turumi? Ercipotar keré?</i> «queres dormir? queres
-deitar-te?» Responde o francez <i>Pa che potar</i> «sim, quero
-dormir, deixa-me.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_199"></a>[199]</span></p>
-
-<p>Da-lhe então o selvagem as boas tardes, ou boas noites,
-dizendo—<i>Nein tyande karuk tyande petom</i> «boa tarde, boa
-noite, descançae á vontade.»</p>
-
-<p>Deixemol-os em descanço, e passemos á segunda parte
-d’esta historia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_200"></a>[200]</span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_201"></a>[201]</span></p>
-
-<p class="center larger">Continuação da historia das coisas mais memoraveis,
-acontecidas no Maranhão em 1613 e 1614.</p>
-
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h2 class="nobreak" id="SEGUNDO_TRATADO">SEGUNDO TRATADO.</h2>
-
-<h3 id="II_CAPITULO_I">CAPITULO I</h3>
-
-<p class="subhead">Dos fructos do Evangelho, que appareceram cedo pelo
-baptismo de muitos meninos.</p>
-
-</div>
-
-<p>O cantico segundo, (representando allegoricamente a origem
-da Igreja, em terra nova, ainda não illuminada pelo
-conhecimento do verdadeiro Deos) diz: <i>Vox turturis audita
-est in terra nostra: ficus protulit grossos suos: vineæ florentes
-dederunt odorem suum</i>: «foi ouvida a voz da rolla
-em nossa terra: produzio a figueira seos figos verdes, e as
-vinhas em florescencia derramaram seo aroma.»</p>
-
-<p>Interpretando estas palavras Rabbi Jonathas, diz em sua
-Paraphrase chaldaica, que a vóz da rolla significa a vóz do
-Espirito Santo annunciando a Redempção promettida a Abraham,
-pae de todos os crentes: eis suas proprias palavras:—<i>Vox
-spiritus sancti et redemptiones quam dixi Abrahæ Patri
-vestro</i>: «a vóz do Espirito Santo e da Redempção, que
-prometti a Abraham, vosso Pae.»</p>
-
-<p>Diz mais, que pela figueira deve entender-se a Igreja, e
-que pelos figos novos se representa a confissão da fé, que
-devem os crentes fazer diante de Deos, e finalmente que
-pelas vinhas em flor exhalando bom cheiro são indicados os<span class="pagenum"><a id="Page_202"></a>[202]</span>
-meninos louvando o Senhor dos seculos: <i>Cœtus Israel, qui
-comparatus est precocibus ficubus aperuit os suum, et etiam
-pueri et infantes laudaverunt Dominatorem sæculi</i>:
-em nosso tempo vimos isto realisado em Maranhão, e suas
-circumvisinhanças, onde depois que á vóz do Espirito Santo,
-por meio da prédica do Evangelho, se fez ouvir n’estas terras,
-e tocou o coração de muitos, especialmente dos que solicitaram
-o baptismo, a bella figueira da Igreja produzio novos
-figos, que são as almas sahidas de infidelidade para a
-crença do verdadeiro Deos, e então as vinhas em florescencia
-exhalaram seo cheiro quando em suas cabeças receberam
-os meninos as agoas do baptismo, louvando o Senhor
-dos Seculos pela parte que ja tomavam do sangue de Jesus
-Christo e da fé da Igreja.</p>
-
-<p>Coisa admiravel, digna de ser bem pensada e considerada:
-apenas a vóz do Evangelho trovejou, e fuzilou por essas
-florestas desertas, por estas sarças, cheias de agudos espinhos,
-esses pobres bichos (esses selvagens) presos nos laços
-do cruel caçador Satanaz, começaram animados pela força e
-impetuosidade d’essa vóz a construir seus pequenos templos,
-como outr’ora tinha predicto o Propheta Rei David no
-Psalmo 28. <i>Vox Domini præparantis Cervos, et revelabit
-condensa et in templo ejus omnes dicent gloriam</i>: a vóz
-do Senhor amançando os viados, descobrirá o interior das
-brenhas e das sarças e no seo Templo todos entoarão louvores
-á elle.</p>
-
-<p>Explicam os doutos, em varias licções, estas palavras dizendo
-que á voz do Senhor parem os bichos seos filhos, á
-similhança da mão da parteira ou do cirurgião habil, que
-serve para tirar do ventre da mulher o menino sam e salvo.</p>
-
-<p>Esta voz não é outra, a darmos credito aos naturalistas,
-senão o ribombo do trovão, e a luz do relampago, que por
-um segredo muito intimo da naturesa faz com que param
-as femeas dos animaes ferozes.</p>
-
-<p>O mesmo produz a prédica do Evangelho, animada e vivificada
-pelo Espirito Santo, excitando o coração d’estes barbaros,<span class="pagenum"><a id="Page_203"></a>[203]</span>
-ha muito tempo internados nas sarças e brenhas da
-ignorancia, da infidelidade, e dos maos costumes.</p>
-
-<p>Nas <i>casas grandes</i> não se falla mais de outra coisa senão
-do conhecimento de Deos, contando cada um o que ouvio
-de nós quando veio visitar-nos, e terminando essas especies
-de conferencias pela manifestação do grande desejo,
-que tinham de vêr seos filhos baptisados e elles tambem,
-por meio d’estas e outras palavras similhantes.</p>
-
-<p>Que coisas, diziam elles, são estas, que os Padres
-nos contam por meio dos interpretes? Nunca as ouvimos
-iguaes.</p>
-
-<p>Nossos paes, ja por tradicção nos contaram, que outr’ora
-veio aqui um grande <i>Maratá de Tupan</i>,<a id="Nanchor_92" href="#Note_92" class="fnanchor">[92]</a> isto é, Apostolo
-de Deos nas provincias, onde residiam, e lhes ensinou muitas
-coisas de Deos: foi elle quem lhes mostrou a mandioca,
-as raizes para fazer pão, porque antes só comiam nossos
-paes raizes do matto.</p>
-
-<p>Vendo este <i>Maratá</i>, que nossos antepassados não faziam
-caso do que dizia, resolveo deixal-os, mas antes quiz dar-lhes
-um testemunho de sua vinda aqui, esculpindo n’uma
-rocha uma especie de mesa, imagens, letras, á fórma de
-seos pés, e dos seos companheiros, as patas dos animaes,
-que trasiam, os furos dos cajados, a que se arrimavam em
-viagem, o que feito passaram o mar, procurando outra
-terra.</p>
-
-<p>Reconhecendo nossos paes sua falta, procuraram-no muito,
-porem nunca d’elle tiveram noticias, e até hoje ainda não
-veio visitar-nos algum <i>Maratá de Tupan</i>.</p>
-
-<p>Muito tempo ha, que frequentamos os francezes, e nenhum
-d’elles nos trouxe padres, e nem nos contou o que por
-seos interpretes nos dizem os padres.</p>
-
-<p>Por exemplo fazem viver de maneira diversa os <i>Caraibas</i>.</p>
-
-<p>Prohibem os francezes de tomarem nossas filhas, o que outr’ora
-faziam com facilidade, dando-nos em troca algumas
-mercadorias.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_204"></a>[204]</span></p>
-
-<p>Dizem grandes coisas de Deos, e á elle fallam em suas
-Igrejas, e para isso fecham as portas, fazem-nos sahir para
-que desça <i>Tupan</i> diante d’elles, e então si ajoelham todos
-os <i>Caraibas</i>.</p>
-
-<p>Bebe e come <i>Tupan</i> em bellos vazos de oiro, e em mesa
-bem preparada e ornada de bellos estofos, e bonitos pannos
-de linho.</p>
-
-<p>Adornam-se com ricos vestuarios, e quando querem fallar
-aos <i>Caraibas</i> assentam-se no meio d’elles, e somente falla
-um Padre, que está assentado.</p>
-
-<p>Escutam-no todos os francezes, falla por muito tempo,
-cança-se, ninguem o entende porem todos ahi estão firmes.</p>
-
-<p>Depois que este falla, cantam uns depois de outros, de
-lado a lado, lêem n’um <i>Cotiare</i>, (n’um livro) o que cantam
-e dizem elles que assim estão fallando á Deos.</p>
-
-<p>Julgam nossos paes perdidos com <i>Jeropary</i>, ardendo em
-fogos subterraneos, e riem-se de nós quando choramos e
-lamentamos nos funeraes de nossos parentes.</p>
-
-<p>Mandam atirar no matto a comida, a bebida, e o fogo,
-que costumamos dar aos nossos parentes defunctos para fazer
-a viagem até onde estão nossos avós nas montanhas
-dos Andes.</p>
-
-<p>Elles nos dizem e prégam, que somos muito tollos em
-dar credito aos nossos <i>barbeiros</i> e <i>feiticeiros</i>, especialmente
-ao seo sopro para o curativo dos infermos.</p>
-
-<p>Fallam com altivez contra <i>Jeropary</i>, e não o temem de
-fórma alguma.</p>
-
-<p>Promettem aos que crêem em <i>Tupan</i>, e que elles lavam
-com suas mãos, de subir ao Céo por cima das estrellas, do
-sol e da lua, onde está <i>Tupan</i> sentado, e em roda d’elle os
-<i>Maratás</i>, e todos os que acreditam em suas palavras, e são
-por elles lavados.</p>
-
-<p>Regeitam raparigas e mulheres, dizendo que o filho de
-<i>Tupan</i> não as teve, sahindo do ventre de uma rapariga
-chamada <i>Maria</i> com a qual nunca seo marido teve relações.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_205"></a>[205]</span></p>
-
-<p>Ha dias nos quaes não comem carne embora lh’a offereçam.</p>
-
-<p>Não se passam dez dias, contando pelos dedos, que não
-mandem os Francezes vestirem-se com roupas bonitas, e
-irem a casa de <i>Tupan</i> fallar com elles e escutar a palavra
-de Deos.</p>
-
-<p>Vestem-se de maneira diversa dos outros francezes, caminham
-diante d’elles, e todos os saudam. Convivem sempre
-com os grandes, que lhes fazem tudo quanto querem,
-e dizem até que abandonaram suas riquezas e fazendas para
-mais livres conversarem com <i>Tupan</i>, e manifestarem a vontade
-d’elle aos francezes.</p>
-
-<p>Quando vamos vel-os, nos acariciam, especialmente a nossos
-filhos dizendo-nos, que já não nos pertencem e sim a
-elles, sendo-lhes dados por <i>Tupan</i>.</p>
-
-<p>Que não nos penalizemos por isso, porque nunca nos
-deixarão e nem nossos filhos: que elles são muitos em França,
-que todos os annos virão outros, que depois de haverem
-educado e ensinado nossos filhos, os farão fallar em
-Deos tão familiarmente como elles o fazem: que lhes ensinarão
-a <i>rotiarer</i> (a escrever) e a fazer fallar o <i>papere</i> (o
-papel) mandado de muito longe aos que estão auzentes.</p>
-
-<p>Dizem-nos que seo Rei é poderoso, que os ama, e nos
-ajudará em quanto elles estiverem comnosco. Ah! porque
-não somos mais moços para vêr as grandes coisas, que farão
-os Padres em nossas terras! Elles construirão com pedra
-grandes Igrejas como ha em França.</p>
-
-<p>Trarão bellos estofos para ornar o lugar, onde desce <i>Tupan</i>.
-Mandarão buscar <i>miengarres</i>, isto é, musicos cantores<a id="Nanchor_93" href="#Note_93" class="fnanchor">[93]</a>
-para entoarem as grandezas de <i>Tupan</i>.</p>
-
-<p>Recolherão todos os nossos filhos n’um lugar, onde alguns
-dos Padres cuidarão d’elles. Mandarão buscar de França mulheres
-para ensinarem o que sabem á nossas filhas. Não nos
-faltarão ferramentas para nossas roças. Ah! diziam alguns
-d’elles em continuação, si chegarmos a vêr essas mulheres
-em nossas terras, então temos certesa que não nos deixarão<span class="pagenum"><a id="Page_206"></a>[206]</span>
-os francezes, e nem os Padres, especialmente si nos derem
-mulheres de França. Si eu tivesse, disse um d’elles, uma
-mulher franceza não queria outra, e faria tanta roça que
-havia de chegar para sustentar tantas francezas, como de
-dedos eu tenho nas mãos e nos pés, isto é, vinte, numero
-infinido para significar muito, porque depois de terem chegado
-a vinte, começam a contar de novo.</p>
-
-<p>Levantando-se então elle, que era o Principal no meio do
-grupo, em que me achava, e batendo nas nadegas com
-quanta força tinha, disse <i>Aça-uçu, Kugnan Karaibe, Aça-uçu
-seta, &amp;.</i> «Amo uma mulher francesa com todo o meu
-coração, amo-a extremosamente.»</p>
-
-<p>Respondeo o <i>Cão grande</i>, tambem Principal—«prometteram-me
-uma mulher francesa, que desposarei na mão dos
-padres, e me farei christão como fiz meo filho Luiz-galante,
-e quero ter em pouco tempo um filho legitimo. Minha primeira
-mulher está velha, e por isso não precisa mais de
-marido, e as outras oito, ainda moças, as darei por esposas
-a meos parentes, e ficarei só com a mulher de França, e
-minha velha mulher para nos servir.»</p>
-
-<p>Faziam outros iguaes discursos em suas <i>cazas grandes</i> e
-na minha residencia, ou quando me viam passar, contentando-me
-de referir apenas o que acima escrevi para mostrar
-o fervor d’estes barbaros, suscitado pelo Divino Espirito
-Santo.</p>
-
-<p><i>Vox turturis audita est in terra nostra</i>, para produzir de
-seo seio fechado e preoccupado por mil infecções estes bellos
-e amigaveis viadinhos, <i>vox Domini præparantis Cervos</i>,
-e em outro logar <i>Cerva charissima e gratissimus hynnulus</i>,
-cap. 5º dos <i>proverbios</i>, «a côrça muito estimada, e o templo
-muito lindo.»</p>
-
-<p>Continuemos.</p>
-
-<p>A estas palavras seguio-se logo a pratica, porque foram
-muitos meninos entregues ao Rvd. padre Arsenio, residente
-em <i>Juniparan</i>, e a mim, morador em São Francisco, perto
-do Fórte de São Luiz, para acudir aos francezes e receber os<span class="pagenum"><a id="Page_207"></a>[207]</span>
-Indios de outras terras, que todos os dias nos vinham vêr
-e conhecer, si era verdade o que de nós se dizia em longes
-terras.</p>
-
-<p>Foi esta a divisão, que fizemos, de tantas e tão grandes
-terras para cultivar e lavrar o que permittissem nossas forças,
-cuidando um de uma parte e outro de outra, excepto
-quando houvesse necessidade de sahir da Ilha, porque então
-se tomariam providencias adequadas.</p>
-
-<p>Impossivel é á palavra o pintar o contentamento e a alegria,
-que sentiamos vendo estes selvagens trazer-nos seos
-filhos, voluntaria e expontaneamente, para serem baptisados,
-preparando-os o melhor que podiam com os meios offerecidos
-pelos francezes, isto é, vestidos com um pedaço de panno
-de algodão, escolhendo padrinhos entre os francezes, contrahindo
-assim com elles estreita alliança, especialmente com os
-meninos baptisados, si estivessem em idade de o conhecerem,
-porque então considerariam seos padrinhos como seos proprios
-paes, chamando-lhes pelo nome de <i>cheru</i>, «meo pae»
-e sendo pelos francezes chamados os rapazes <i>cheaire</i> «meo
-filho,» e as meninas <i>cheagire</i> «minha filha»: vestiam-nos em
-summa o melhor, que podiam, e os selvagens, paes dos meninos
-baptisados, lhes offereciam todas as commodidades resultantes
-de suas roças, de suas pescarias, e caçadas.</p>
-
-<p>Vendo assim estas cousas, lembrava-me do que diz o cap.
-5º dos <i>canticos</i>. <i>Oculi ejus sicut cólombæ super rivulos
-aquarum, quæ lactæ sunt lotæ, et resident juxta fluenta
-plenissima</i>: «os olhos de Jesus Christo, esposo da Igreja,
-parecem-se com os olhos da pomba, orvalhada de leite, que
-contempla os regatos das fontes, e faz seo abrigo e morada
-nos rochedos, que abrangem rios amplos e espaçosos.»</p>
-
-<p>Estes olhos de Jesus Christo são as graças do Espirito
-Santo, que fazem quebrar seos ovos á maneira das tartarugas,
-expostos á mercê das innundações do mar e da frialdade
-da areia.</p>
-
-<p>Tem estes mesmos olhos por plano e fim lavar e purificar
-as almas, especialmente as almasinhas rociadas de leite. Assim<span class="pagenum"><a id="Page_208"></a>[208]</span>
-como a pomba branca brinca sobre os riachos, e habita
-á margem dos grandes rios, assim tambem o Espirito Santo
-folga e muito na conversão de uma terra nova, e encara
-com bons olhos a sahida d’estas almasinhas do estado geral
-d’estas terras barbaras, a saber, da ignorancia de Deos
-para chegar a conhecel-o por meio das agoas do baptismo,
-partecipantes, como nós, da visão de Deos, porque não fazem
-accepção de ninguem, visto que estas almas barbaras lhe
-custaram tanto como as nossas.</p>
-
-<p>Oh! preço infinito! oh! falta de caridade, que não tem
-desculpa perante Deos, de se verem tantas almas pedindo
-a salvação, sem embaraços e riscos, e em risco de se perderem
-por não haver um pequeno auxilio.</p>
-
-<p>Bom Deos! todos nós acreditamos, e Jesus Christo confirma
-esta crença, que uma só alma valle mais que todo o
-resto do mundo, isto é, que todos os imperios, e reinados
-da terra, que todas as riquezas e thesouros do homem: mais
-ah! não temos difficuldade de pôr em execução nossas
-crenças.</p>
-
-<p>Não posso deixar este assumpto sem primeiro declarar a
-luta interior, que experimentei, para fazer vêr e descarregar
-minha consciencia tanto quanto a julgo compromettida,
-parecendo-me bastante para minha justificação e defesa o
-que acabo de dizer.</p>
-
-<p>Li e notei em bons auctores, profundos e perspicases no
-conhecimento dos segredos e mysterios da Escriptura, que
-as pombas brancas orvalhadas de leite eram certas pombas,
-que os Syrios creavam em honra e veneração de sua rainha
-Semiramis, sendo prohibido matal-as sob pena de morte.</p>
-
-<p>Contam-nos os antigos ter-se esta rainha immortalisado
-por um acto memoravel, entre seos altos feitos d’armas, o
-mais milagroso quanto é possivel á grandesa dos reis, qual
-a suspensão entre o Céo e a terra de seos jardins, pomares,
-e bosques de recreio.</p>
-
-<p>Salomão procurou esta comparação entre as coisas profanas
-para mostrar uma obra divina notavel entre as outras,<span class="pagenum"><a id="Page_209"></a>[209]</span>
-qual a conversão das almas, inteiramente reservada ao poder
-de Deos por ser uma segunda creação pela qual assim
-como suspendeo a terra no ar, assim tambem suspenderá
-jardins, pomares, e florestas de sua igreja com surpresa dos
-calculos e juizos humanos, afim do dar lugar aos seos predestinados
-e eleitos chamando-os quando lhes apraz, no meio
-dos desertos, e do interior das mais vastas e densas florestas.</p>
-
-<p>Antes de ir adiante, não deixarei escapar a coincidencia
-que se nota entre a grande Semiramis e Maria de França,
-rainha christianissima.</p>
-
-<p>Semiramis rainha reinante e tutora do seu filho o rei d’Asyria
-emprehendeo grandes coisas, em beneficio e sustentaculo
-do imperio de seo filho.</p>
-
-<p>Igual caso se dá com a nossa rainha, e embora Semiramis
-tenha em seo tempo feito muitas obras magnificas,
-pelas quaes grangeou o amor e a obediencia de seos subditos
-mais do que outra qualquer, sua antecessora, a immortalidade
-de seo nome foi devida a seos edificios miraculosos.</p>
-
-<p>Com igual razão direi, que entre as heroicas acções da
-rainha, mãe do rei, que levaram a posteridade seo nome
-immortal, conta-se a missão dos padres capuchinhos ás terras
-do Brasil para ahi plantar os jardins da igreja, começada
-e fundada sob sua authoridade e ordem, e assim será o
-Brasil obrigado a sustentar estas pombas brancas em memoria
-e lembrança de tão grande Semiramis que tem tanta
-piedade como poder para aperfeiçoar esta empresa.</p>
-
-<p>Ainda vos peço, que em nossas pequenas pombas rociadas
-de leite deveis vêr os filhinhos dos selvagens conduzidos
-ao gremio do christianismo pelo baptismo.</p>
-
-<p>Ha cinco annos, pouco mais ou menos, nem havia desejo
-de se intentar a cathequese d’esta gente.</p>
-
-<p>O diabo ahi mandava com imperio, arrastava para si todas
-estas almas sem pagar dizimo a Deos, porem presentemente,
-em quanto durar e continuar a missão, com o auxilio<span class="pagenum"><a id="Page_210"></a>[210]</span>
-de Deos ouvireis dizer quaes os grandes fructos, ja colhidos,
-e outros que se colhem todos os dias.</p>
-
-<p>A nossa maior consolação, a que nos fazia soffrer as amarguras
-e as difficuldades dos trabalhos, que ahi não nos faltavam,
-era vêr a franqueza e boa vontade, com que os selvagens
-nos apresentavam seos filhos para serem baptisados
-dizendo então nós, em conversa com elles, que para nós
-nada havia mais agradavel do que o trazerem elles seos filhos
-á pia baptismal, e sempre que comnosco fallavam era
-assumpto da conversa a manifestação de seos desejos por
-verem seos filhos por nós baptisados.</p>
-
-<p>Poderia aqui reproduzir muitos exemplos para confirmar
-esta verdade, mas como tenho de referil-os em lugar proprio,
-deixo-os agora de mão.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_II">CAPITULO II</h3>
-
-<p class="subhead">Do baptismo de muitos infermos e velhos, que falleceram
-depois de christãos.</p>
-
-</div>
-
-<p>Entre os mais bellos enigmas sagrados, que recita Job
-no seo livro, está no Cap. XIV a parabola do loureiro dizendo.
-<i>Si senuerit in terra radix ejus, et in pulvere mortuus
-fuerit truncus illius, ad odorem aquæ germinabit,
-et faciet comam quasi cùm primo plantatum est</i>: «Si a
-raiz do loureiro se mergulha na terra, e seo tronco morrer
-no pó, apenas sentir o cheiro da agoa germinará e produzirá
-nova copa de folhas, como si fosse recentemente plantado.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_211"></a>[211]</span></p>
-
-<p>Os Setenta assim inverteram esta passagem: <i>Si in petra
-mortuus fuerit truncus ejus, ab odore aquæ florebit, et
-faciet messem, sicut nova plantata</i>: «si o tronco do Loureiro
-morrer na pedra, com o cheiro d’agoa florescerá, e
-como planta nova mostrará em breve sua copa.»</p>
-
-<p>Outra versão ha ainda mais bella: <i>Attracto humore
-aquæo iterum germinat, exibet quæ fructus decerpendos,
-ut plantæ solent</i> «o Loureiro morto chupando a agoa germina
-de novo, e como as outras plantas offerece sazonados
-fructos.»</p>
-
-<p>N’estes trez trechos descobrireis muitas coisas, que servem
-litteralmente ao nosso fim.</p>
-
-<p>1.º A raiz do Loureiro dentro da terra.</p>
-
-<p>2.º Seo tronco morto no pó ou na pedra.</p>
-
-<p>3.º O cheiro d’agoa, que dá a vida perdida á raiz e ao
-tronco fazendo produzir folhas, flores e fructos.</p>
-
-<p>O Loureiro representa as Nações infieis, conforme a ficção
-dos antigos da nympha Daphné, a qual perseguida pelos
-demonios com o nome de Appollo foi convertida em Loureiro.</p>
-
-<p>Sua raiz sepultada no pó ou na rocha representa longa
-serie de annos, nos quaes estas Nações barbaras jazeram
-entregues aos seos barbaros e inveterados costumes.</p>
-
-<p>O tronco ja morto representa o fim e terminação d’esta
-ignorancia.</p>
-
-<p>Deos querendo presentemente visitar esta Nação escolheo
-os enfermos, os velhos, os caducos e moribundos para fazel-os
-renascer em Jesus Christo, levando as folhas verdes
-da graça, as flores dos dons do Espirito Santo, e os fructos
-dos meritos da paixão de Jesus Christo, e com isto tudo o
-cheiro e o atractivo da agoa do baptismo.</p>
-
-<p>Sentiamos muito consolo quando baptisavamos os doentes
-e os velhos, cuja morte era esperada com certeza, por
-que receiavamos que por falta de soccorros, nos vissemos
-obrigados a deixar e abandonar todos os meninos recentemente<span class="pagenum"><a id="Page_212"></a>[212]</span>
-baptisados e os adultos, que constantemente si apresentavam.</p>
-
-<p>Tinhamos ao menos certeza, que baptisando os que se
-achavam proximos da morte, abria-se o Paraizo, e perdia-se
-a occasião que lhes faria perder talvez a graça obtida, ficando
-sós e longe dos Ministros da Igreja para nutril-os na
-graça recebida.</p>
-
-<p>Alem d’isto o baptismo d’estes velhos fazia muita impressão
-no coração das testemunhas vendo a devoção, com que
-ordinariamente recebiam o baptismo.</p>
-
-<p>Vou dar-vos alguns exemplos.</p>
-
-<p>Na ilha cahiram doentes duas raparigas, uma livre e outra
-escrava, sendo aquella casada com um Tupinambá, muito
-bom moço, o qual depois da morte de sua mulher, constantemente
-nos perseguia para ser baptisado, aprendendo com
-muito boa vontade a doutrina christã.</p>
-
-<p>Esta rapariga, proxima da morte, pedio que lhe dessem
-o baptismo, confessando por palavras nascidas do coração a
-verdade da nossa religião, mostrando por signaes exteriores
-o toque do Espirito Santo no seo coração, banhando-se de
-lagrymas de amor e de reconhecimento ao grande <i>Tupan</i>,
-que lhe fazia tão assignalada graça de a ter feito nascer neste
-seculo para tiral-a do meio de tantas almas perdidas de sua
-nação e conceder-lhe o goso do paraizo.</p>
-
-<p>Fitava com attenção o Ceo, e com palavras doceis e tremulas
-recitava o que sabia á respeito da crença de Deos,
-repellindo para bem longe <i>Geropary</i> e seos antigos enganos.</p>
-
-<p>No meio d’este discurso, precursor da morte, lamentava a
-condemnação de seos antepassados.</p>
-
-<p>Fazia exposições muito bellas a seo marido e o animava a
-receber quanto antes a purificação de seos peccados.</p>
-
-<p>Devo dizer d’ella um facto muito particular, qual o de haver
-conhecido um só homem, o seo marido, o que é não
-pequeno milagre n’aquelle paiz, por causa do mau costume<span class="pagenum"><a id="Page_213"></a>[213]</span>
-introdusido pelo diabo no coração das moças, de se honrarem
-pela deshonra, e de não apreciarem a castidade ou a
-virgindade.</p>
-
-<p>Bem vêdes por isto, que em todos os escolhidos de Deos
-ha sempre alguma virtude natural, que provoque, não por
-merecimento e sim pela occasião, a graça de Deos, que similhante
-ao sol, com indifferença, está a entrar n’alma de
-todos, si houver para isso disposição.</p>
-
-<p>A <i>Tapuia</i>, ou escrava, atacada por violenta febre, que a
-atormentava muito, achava-se em sua rede só e por todos
-abandonada, conforme o uso e costumes d’elles, que consideram
-grande deshonra cuidar d’uma escrava quando está
-a morrer, isto antes da nossa chegada a ilha, quando então
-lhes mostrámos o quanto era desagradavel á Deos a crueldade
-com que atiravam por terra o escravo moribundo e lhe quebravam
-a cabeça como ja disse.</p>
-
-<p>Esta desgraçada mulher, prisioneira de Satan, e victima
-das desgraças communs da natureza, que são as enfermidades
-e as doçuras dolorosas e insuportaveis, sem pessoa alguma
-junto de si foi então olhada com piedade, e visitada
-por seo Creador, animando-a a pedir o baptismo. Oh! juiso
-de Deos! Oh! providencia eterna!</p>
-
-<p>Quem poderá comprehender teos conselhos na vida do homem!</p>
-
-<p>Esta pobre creatura, dardejada vivamente no coração pelas
-flechas das primeiras graças do seo senhor, não merecidas
-por alguma obra boa anterior, que houvesse feito, lançava
-suas vistas por todo o quarto procurando ver, si alguem
-lhe apparecia para mandar chamar os Padres, afim
-de ser lavada com as agoas do baptismo, e felizmente lhe
-appareceu um francez, a quem expoz seos desejos, e veio
-elle logo dizel-os ao padre, indicando a casa d’ella, que era
-perto, e elle foi logo visital-a, instruil-a e baptisal-a.</p>
-
-<p>O francez, que cuidou d’ella, e o padre que a baptisou,
-me contaram coisas admiraveis.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_214"></a>[214]</span></p>
-
-<p>Esta infeliz creatura quanto ao corpo, porem muito feliz
-quanto á alma, principiou a experimentar os penhores do
-Ceo, e o merecimento do sangue de Jesus Christo que recebeo
-pelo baptismo. Tinha sempre os olhos fixos no Ceo, derramava
-abundantes lagrymas, e dizia de momento a momento,
-estas palavras—<i>Y Katu Tupan, ché arobiar Tupan</i>. Oh!
-quanto Deos é bom! Oh! quanto Deos é bom! eu creio n’elle.
-Depois por meio de signaes mostrava aos francezes, que
-<i>Jiropary</i>, o diabo, andava ao redor de sua rede, e então
-dizia <i>Ko Jiropary, Ko y pochu Jiropary</i>: «está ali o diabo,
-atirai sobre elle a agoa de <i>Tupan</i>, isto é, agoa benta para
-elle fugir.» Fazia-lhe o francez a vontade e dizia ella que o
-diabo fugia a toda a pressa, e por isso constantemente pedia
-ao francez que derramasse em roda d’ella e de sua rede
-muita agoa benta o que fazia, bem como o padre quando
-ahi se achava.</p>
-
-<p>Apenas lhe apparecia uma dor de cabeça, que muito a encommodava,
-pedia para que lavassem a testa, as fontes e a
-cabeça com agoa benta, com que alliviava muito, a ponto de
-não sentir mais doença alguma: pouco depois entregou sua
-alma ao Creador.</p>
-
-<p>Amortalharam e sepultaram seo corpo á maneira dos christãos:
-aconteceo porem, que alguns malvados, filhos de <i>Giropary</i>,
-que nunca foram descobertos, senão seriam punidos,
-foram á noite desenterral-a, quebraram-lhe a cabeça e
-roubaram o panno de algodão de sua mortalha: pela manhã
-foi outra vez sepultada.</p>
-
-<p>Ninguem se admire d’isto, pois o diabo reserva sempre
-para si alguns bons servos, mesmo nos reinos os mais bem
-policiados, afim de executar suas mais detestaveis intenções.</p>
-
-<p>Sabeis sem duvida, que os <i>Tupinambás</i> aborrecem naturalmente
-os que abrem as sepulturas dos mortos e não podem
-por isso tolerar, que os francezes abram as covas, onde foram
-enterrados seos parentes para lhes tirar os objectos, que
-elles cheios de superstição ali deixam.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_215"></a>[215]</span></p>
-
-<p>Ahi estava a morrer um velho <i>Tabajare</i>, tão magro, que
-os ossos lhe furavam a pelle, sem voz, e sem movimentos
-na sua rede.</p>
-
-<p>Julgando-se mais proximo da morte do que da vida, inspirado
-por Deos, pedio o baptismo.</p>
-
-<p>Fomos visital-o e cathequisal-o pedindo-lhe sua opinião a
-respeito de todos os pontos e artigos, que lhe propuzemos.</p>
-
-<p>Com as mãos postas nos disse que acreditava no que lhe
-diziamos.</p>
-
-<p>Demorando-nos nos artigos relativos á crença da Santissima
-Trindade, da Incarnação, Morte, e Paixão do Filho de
-Deos, do Baptismo, e do Mysterio da Santa Eucharistia, por
-que estava proximo da morte, procuramos fazer-lhe entender
-estas materias tão altas e profundas por comparações familiares,
-a que prestou muita attenção, e dezejando com
-todo o fervor o baptismo nós lhe promettemos, que no cazo
-de ficar bom elle receberia as ceremonias do baptismo na
-capella de S. Luiz, e aprenderia com gosto a doutrina christan,
-que ensinavamos aos catecumenos antes de baptisal-os.</p>
-
-<p>Respondeo-nos, que não era tão longe a Capella de Sam
-Luiz, que não podesse ser levado até lá afim de, antes de
-morrer, ser baptisado, consolação que muito desejava afim
-de ir direito para o Ceo.</p>
-
-<p>Vendo este fervor e devoção ficamos satisfeitos e concordamos
-ser elle carregado n’uma rede até a igreja de Sam
-Luiz, e ahi baptisado com toda a solemnidade.</p>
-
-<p>Alguns dias depois morreo tranquillamente.</p>
-
-<p>N’esse mesmo tempo cahio doente uma mulher <i>Tabajare</i>,
-e tão gravemente, que todos julgavam-na em breve morta:
-fomos vel-a e lhe offerecemos o baptismo que aceitou de
-muito boa vontade, e com muita attenção escutava o que diziamos,
-por intermedio dos interpretes, a respeito das glorias
-do Paraizo, das penas do inferno, do que ella devia crer,
-antes de receber o baptismo no caso de Deos lhe dar saude,
-e que podesse aprender a religião christan, e então na igreja
-receberia as ceremonias do baptismo, no que concordou e foi<span class="pagenum"><a id="Page_216"></a>[216]</span>
-baptisada: recobrando sua saude, julgou do seu dever cumprir
-sua palavra, embaraçando-a porem o facto de ser mulher
-de um <i>Tabajare</i>, que tinha mais duas, não podendo
-ella continuar a viver com elle casada segundo as leis do
-christianismo.</p>
-
-<p>Removemos este obstaculo seguindo o conselho de Sam
-Paulo: <i>si qua mulier fidelis habet virum infidelem et hic
-consentit habitare cum illa, non dimitat virum etc quod si
-infidelis discedit, discedat</i>: «si alguma mulher fiel estiver
-casada com um homem infiel, e que este queira morar com
-ella, ella que não o deixe, si o homem infiel a deixar,
-ella o deixe tambem.»</p>
-
-<p>Em virtude d’isto fizemos saber a seo marido, que se quizesse
-ter por unica esta mulher christan, deixando as outras,
-que ella não o abandonaria, mas que si quizesse viver como
-d’antes na qualidade de concubina, que nós e os grandes
-dos francezes lhe afiançavamos, que elle seria despresado
-como incompativel com o christianismo.</p>
-
-<p>A principio mostrou repugnancia porem afinal concordou,
-vivendo como mulher christan e unica com seo marido.</p>
-
-<p>Faziamos o mesmo aos meninos pequenos, proximos á
-morte, observando porem estas formalidades: pediamos o
-consentimento dos paes e mães antes de baptisal-os, embora
-não os deixassemos de baptisar, quando os viamos moribundos:
-apesar de estarmos certos da boa vontade geral dos
-selvagens de apresentarem seos filhos ao baptismo, nós lhes
-prestavamos esta homenagem com o fim de attrahil-os á se
-converterem.</p>
-
-<p>Não vem a proposito referir aqui alguns exemplos, porque
-nada acho n’isto de extraordinario.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_217"></a>[217]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_III">CAPITULO III</h3>
-
-<p class="subhead">Do baptismo de muitos adultos, especialmente de um
-chamado Martinho.</p>
-
-</div>
-
-<p>Antes de tratar d’esta materia, julgo necessario advertir
-ao leitor, que no fim da obra do reverendo padre Claudio
-achará alguma coisa d’esta e da seguinte historia, tudo extrahido
-de uma de minhas cartas, que enviei de Maranhão,
-á meos superiores, e como apenas esbocei-as, justo é que eu
-as descreva minuciosamente.</p>
-
-<p>Estas sagradas agoas do baptismo não estagnaram na ilha,
-pois atravessando a corrente forte e impetuosa do mar, sem
-com elle misturar-se, passaram ás terras firmes de <i>Alcantara</i>
-e <i>Comã</i>, que despertadas por seo doce sussurro acolheram
-bem os espiritos d’aquelles, que Deos tinha escolhido
-para si, e pelo bom gosto d’ellas procuraram indagar-lhes
-a origem, maravilha, que não pode ser descripta como
-merece, pois á força d’estas agoas venceo incomparavelmente
-a actividade do azougue, chamando a si todos os pedaços
-de oiro espalhados por diversos lugares, isto é, as almas
-inspiradas por Deos em <i>Tapuitapera</i> e <i>Comã</i> vinham á
-Maranhão onde tinha assentado seos alicerces a salvação d’este
-paiz.</p>
-
-<p>Quem poderia dizer o grande numero de pessoas, que nos
-vinham visitar para aprender alguma coisa dos mysterios da
-nossa fé?</p>
-
-<p>Na verdade ninguem, mas para contentar o leitor e dar-lhe
-alguma ideia direi, que não havia um só dia, em que
-não recebesse novos visitadores e as vezes chegavam a 100
-e a 120: eis a razão porque não podia deixar facilmente o
-Forte, e ir ás aldeias á meo cargo ministrar o pasto espiritual.</p>
-
-<p>Muitos d’estes selvagens de diversas idades se me apresentaram
-pedindo o baptismo, o que eu difficultava, e somente<span class="pagenum"><a id="Page_218"></a>[218]</span>
-concedia aos que julgava, por algum acto extraordinario,
-enviados por Deos para tal fim.</p>
-
-<p>A razão porque apresentavamos essas difficuldades ja o
-disse, por vir da incertesa do soccorro, e do temor em que
-estavamos de baptisar todos os que nos pediam, e depois
-deixal-os sem coadjutores, pelo que poderiam cahir em peior
-estado do que se achavam anteriormente.</p>
-
-<p>Não deixavamos comtudo de trazel-os esperançados, e
-aproveitavamos a occasião de instruil-os no conhecimento e
-amor do Omnipotente até á vinda dos novos padres, que os
-acharam promptos para satisfazer suas vontades.</p>
-
-<p>Entre os que foram inspirados vivamente pelo Espirito
-Santo, e que por isso baptisamos havia um indio de <i>Tapuitapera</i>,
-principal n’uma aldeia antiga d’esta provincia, chamada
-<i>Marentin</i>, sempre grande amigo dos francezes, de
-boa indole, modesto, de poucas fallas, olhos sempre voltados
-para terra, tido outr’ora entre os seos por afamado barbeiro
-ou feiticeiro, tendo n’elle muita fé os doentes.</p>
-
-<p>Contou-me elle e depois muitos outros, que era christão,
-e quando exercia a sua arte de barbeiro era visitado por
-muitos espiritos folgazões, que brincavam diante d’elle,
-quando embrenhava-se nos mattos, tomando diversas cores,
-sem lhes fazer mal algum antes até tornando-se seos intimos:
-achavam-se porem na duvida si eram espiritos bons
-ou maos: tal era a sua crença n’estes espiritos bons ou
-maos.</p>
-
-<p>Conforme o costume tinha tres mulheres, antes de ser
-christão.</p>
-
-<p>Aconteceo porem, que inexperadamente viesse com muitos
-selvagens, seos similhantes, de <i>Tapuitapera</i> para vêr não
-só a nós como tambem as ceremonias, com que serviamos
-a <i>Tupan</i>.</p>
-
-<p>Achando-se no <i>Forte de S. Luiz</i>, vio na manhã do dia
-seguinte (que era domingo) os francezes vestidos com suas
-boas roupas, acompanhando seos chefes em caminho para a<span class="pagenum"><a id="Page_219"></a>[219]</span>
-nossa casa de S. Francisco afim de ouvirem missa. Após
-estes iam os selvagens, o que o animou a seguir o prestito,
-especialmente pelo desejo e intenção, que tinham, ha muitos
-annos de aproximar-se de nós.</p>
-
-<p>A Capella de Sam Francisco encheo-se logo de francezes,
-de selvagens christãos, e não christãos, que tinham todos
-especial devoção de receber em si algumas gottas de agoa
-benta.</p>
-
-<p><i>Marentin</i>, observando a pressa de todos, alcançou como
-poude o canto de uma porta, trepou-se n’um banco, que
-ahi achou para ver á sua vontade tudo quanto eu fazia.</p>
-
-<p>Apenas pisei nos degraos do altar, voltei-me afim de saudar
-a todos, e descobrindo este selvagem acudio ao meu espirito
-a esperança de salval-o.</p>
-
-<p>Contou depois, como prestou attenção a todas as ceremonias,
-que fiz na celebração do alto e profundo mysterio da
-Missa, e desejou saber porque me revesti de alva branca,
-liguei a cintura, deitei o manipulo no braço, e a estolla no
-pescoço: aproximei-me á direita do altar, onde me apresentaram
-um vaso com agoa e sal, sobre o qual pronunciei
-algumas palavras fazendo muitos signaes da Cruz; levantaram-se
-os francezes, me respondiam cantando, e tendo eu
-um ramo de palma na mão o mergulhei n’agoa deitando
-algumas gottas no altar, depois sobre mim, e levantando-me
-fui aspergir os francezes começando pelos chefes e acabando
-pelos que estavam na porta da Igreja, chegando tambem
-para esse fim os selvagens não christãos, na convicção de
-que lhes serviria contra <i>Jeropary</i>, desceo elle mesmo do
-banco, rompeo a multidão para receber tambem algumas
-gottas d’agoa benta, o que conseguio.</p>
-
-<p>Não gosou logo esta gotta de celeste orvalho, porque as
-cantharidas peçonhentas e venenosas cahiram sobre as flores
-de sua alma entre-abertas, porem as abelhas industriosas
-de inspirações divinas vieram reunir ahi o doce mel
-da raça christã, porque regressando ao seo lugar agachou-se
-atraz dos outros, dormio, e durante o seo somno vio o<span class="pagenum"><a id="Page_220"></a>[220]</span>
-Ceo aberto, e para elle irem subindo muitas pessoas vestidas
-de branco, e atraz d’ellas muitos <i>Tupinambás</i> a medida,
-que eram por nós baptisados.</p>
-
-<p>Disseram-lhe na visita que as pessoas vestidas de branco
-eram <i>Caraybas</i>, isto é, francezes ou christãos,<a id="Nanchor_94" href="#Note_94" class="fnanchor">[94]</a> conhecedores
-de Deos e do baptismo desde a mais remota antiguidade,
-e que os selvagens, que os acompanham, eram lavados
-por nós, e acreditam em Deos, em nossas palavras e de
-nossas mãos recebiam o baptismo.</p>
-
-<p>Despertando, não disse palavra, porem ficou muito pensativo
-e melancolico, e assim embarcou, e foi para a sua
-terra.</p>
-
-<p>Chegando a sua casa todos o desconheceram, e lhe perguntaram
-o que sentia, e si havia recebido alguma desfeita
-dos francezes em <i>Yviret</i>.</p>
-
-<p>Sem dar resposta alguma de dia para dia mais se entristecia,
-fugia da companhia de seos similhantes passeando só
-em suas roças e bosques, onde foi accommettido por estes
-espiritos loucos, cahindo depois tão gravemente doente a
-ponto de chegar ás portas da morte, sempre afflicto pela
-visão, que vira em <i>Yviret</i>, e pelos espiritos de que já
-fallei.</p>
-
-<p>Finalmente ouvio uma voz interior dizendo-lhe que se quizesse
-livrar-se de tál afflicção e molestia, e ir com Deos para
-o Ceo convinha, antes de morrer, lavar-se com essa agoa,
-que cahio n’elle quando esteve na casa de <i>Tupan</i> em
-<i>Yviret</i>.</p>
-
-<p>Obedecendo a esta voz, em madrugada alta, mandou um
-seo irmão ter comnosco, e pedir-nos por intermedio do chefe
-dos francezes, cuja intervenção invocou, um pouco d’agoa de
-<i>Tupan</i>, n’uma porção de algodão, guardada n’um <i>caramémo</i>,<a id="Nanchor_95" href="#Note_95" class="fnanchor">[95]</a>
-afim de não se perder uma só gotta para lavar sua
-cabeça, e ir assim lavado para o Ceo.</p>
-
-<p>Cumprio a ordem o enviado, dando seo recado ao Sr. de
-Pezieux, bom catholico, que se admirou, bem como o Sr. de
-Ravardiere e outros.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_221"></a>[221]</span></p>
-
-<p>O Sr. de Pezieux mandou-me este homem, com um interprete,
-para me dizer o fim de sua vinda que muito me maravilhou
-vendo n’um selvagem tão grande fé, misturada com
-temor, respeito e humildade.</p>
-
-<p>Quiz ir logo ter com elle, porem não pude, porque, como
-ja disse, de todas as partes vinham diariamente muitos selvagens
-procurar-me, e nem foi possivel mandar-lhe o Rvd.
-padre Arsenio porque estava occupado em outro logar, e
-por isso mandei-lhe um francez proprio e capaz para fazer-lhe
-companhia, cuidar na sua salvação e baptisal-o, sem ceremonia,
-no caso de receio de morte.</p>
-
-<p>Chegando á sua casa o francez com o irmão de Marentin,
-disse-lhe que eu não podia deixar a ilha, e nem o Forte de
-Sam Luiz por causa dos muitos selvagens, que me vinham
-procurar, mas que elle vinha em meo logar afim de o baptisar,
-antes de morrer, no caso d’estar tão doente á ponto
-de não poder ir á ilha para ser baptisado por nossas mãos.</p>
-
-<p>Ouvindo isto recobrou forças e actividade, e disse, «visto
-que a coisa é assim, não quero ser baptisado por um <i>Caraiba</i>,
-e sim pelas mãos dos padres,» e nem deixou de levantar-se
-(embora doente e fraco a ponto de não poder estar
-em pé senão com muito custo) na manhã seguinte, de
-embarcar-se e vir procurar-me no <i>Forte</i>, expondo-me o seo
-grande desejo de ser filho de Deos e baptisado, e de apagar
-as visões, que tinha na cabeça.</p>
-
-<p>Respondi-lhe que era necessario aprender a doutrina christan
-o mais cedo que podesse, deixando muitas mulheres, e
-contentando-se apenas com uma.</p>
-
-<p>Eram estas as duas coisas, que, entre outras, exigiamos
-dos adultos.</p>
-
-<p>Replicou-me, que em quanto a pluralidade de mulheres
-foi coisa, que nunca approvou, e que achava de razão um
-homem ter uma mulher só, mas que em beneficio de sua
-casa necessitava de muitas.</p>
-
-<p>Disse-lhe que podia ter muitas mulheres como servas, e
-não como esposas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_222"></a>[222]</span></p>
-
-<p>Concordou n’isto facilmente, e cheio de bons desejos em
-poucos dias aprendeo a doutrina christan e pedio-me, que
-eu o instruisse, antes de ser baptisado, das ceremonias que
-com tanta attenção vio no primeiro dia, em que foi tocado
-pelo espirito de Deos.</p>
-
-<p>Disse-lhe que Tupan era um grande Senhor, sempre comnosco
-embora não seja visto, devendo ser servido com profunda
-reverencia, com ornatos e vestidos diversos do ordinario.</p>
-
-<p>Expliquei-lhe que o primeiro vestido branco, que me vio
-tomar, significava tres coisas: 1.º a innocencia e puresa,
-com que deviamos apparecer diante d’elle; 2.ª o vestido de
-sua humanidade, proveniente do sangue de uma virgem, de
-quem fallava com os homens: 3.ª para representar o vestido
-de zombaria, que lhe deram seos inimigos quando quiz
-por nós soffrer, ameaçando-lhe de o fazer padecer o que quizessem,
-embora tivesse elle o poder de impedil-os em suas
-intenções.</p>
-
-<p>Disse-lhe, que a corda com que apertei a cintura, e essas
-tiras de seda, que puz no braço e no pescoço representavam
-os ornamentos, que deviamos dar á nossa alma para
-ser agradavel a Deos: a corda quer dizer—continencia de
-mulheres, a tira do braço—o bem, que devemos fazer ao
-proximo, e a do pescoço, onde é costume trazer-se collares
-e aderesses,—o amor e a perseverança na nossa profissão,
-que tudo isto junto faz lembrar as cordas com que foi preso
-o Salvador.</p>
-
-<p>O outro vestido de seda, que puz por cima de tudo isto,
-mostra o zelo ou a salvação das almas, que devemos procurar,
-não nos contentando só de ir para o Ceo, mas fazendo
-tudo quanto pudermos para que nos acompanhem nossos
-similhantes.</p>
-
-<p>Significa tambem o segundo vestido a vestimenta de zombaria,
-que foi dado a Nosso Senhor em sua Paixão.</p>
-
-<p>A respeito da agoa e do sal, sobre que pronunciei algumas
-palavras, expliquei-lhe que eu o fiz para dar a agoa o<span class="pagenum"><a id="Page_223"></a>[223]</span>
-poder, da parte de Deos, de expellir o diabo do lugar e
-das pessoas, em que estivesse, e que a aspersão, que eu
-fazia com a palma sobre os francezes era para expellir o
-diabo, que andava ao redor d’elles, e que o canto, que
-elles entoavam em quanto eu lhes lançava agoa benta, era
-uma supplica a Deos para purifical-os de seos peccados.</p>
-
-<p>Perfeitamente instruido de todas estas coisas, concordamos
-baptisal-o no dia da festa da Santissima Trindade.</p>
-
-<p>Para seo padrinho escolheo o Sr. de Pezieux, e no dia
-aprazado vestiram-no com uma roupa de algodão bem alvo
-em respeitosa homenagem ao Sacramento, que ia receber,
-isto é, a innocencia e candura baptismal conferida sob a
-invocação das tres pessoas da Santissima Trindade.</p>
-
-<p>Grande numero de selvagens, principalmente de <i>Tapuitapera</i>,
-assistiram a este baptismo, o que lhes fez grande impressão
-no espirito, vendo este homem, seo similhante, respeitado
-por elles tanto por suas antigas feitiçarias, como por
-sua autoridade e idade, receber, como si fosse menino, sobre
-sua cabeça a agoa de Jesus Christo.</p>
-
-<p>Querendo aproveitar tão boa occasião pedi aos francezes
-que abrissem caminho para que de mim se aproximassem
-os primeiros e os principaes selvagens, que ahi se
-achassem, aos quaes dirigi a palavra por meio do interprete.</p>
-
-<p>«Todos os dias, meos amigos, vedes em vossa terra os
-passaros seguirem uns aos outros, de forma que quando uns
-levantam o vôo, todos os outros os acompanham.</p>
-
-<p>«Sabeis tambem que os javalys caminham em grande companhia,
-sem que um só delles se desvie dos passos dos primeiros.</p>
-
-<p>«Por experiencia conheceis que os <i>Paratins</i>, isto é, os
-peixes chamados—sargos—no mar andam sempre em grandes
-bandos seguindo seos conductores, de tal fórma que
-vindo os primeiros ao encontro de vossas canôas, quando
-ides pescar, imitam-nos os outros cahindo dentro dellas e assim
-apanhaes vós grande quantidade d’esses peixes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_224"></a>[224]</span></p>
-
-<p>«O que é isto? O exemplo dos similhantes. A naturesa
-implantou em tódas as creaturas vivas e intelligentes o desejo
-d’imitação de coisas similhantes, conforme as differentes
-especies.</p>
-
-<p>«Observae agora este homem vosso similhante e principal,
-que si fez filho de Deos.</p>
-
-<p>«Bem sei que trazei-nos vossos filhos, porem pensam alguns
-de vós que não são capazes, por velhos, de receberem
-o baptismo: é um engano, porque, como vossos filhos, podeis
-ser baptisados, e ir para o Ceo. Vêde diante de nós
-este homem que vou baptisar, que me prometteo de ensinar
-os que o quizessem ouvir. Abri os ouvidos para ouvil-o.»</p>
-
-<p>Dito isto, mandei ajoelhar-se nos degraus do altar, e recitar
-em vóz alta e clara na sua lingua, e de mãos postas a
-doutrina christã, que para diante será encontrada em lugar
-proprio.</p>
-
-<p>Comecei depois as ceremonias do baptismo, observadas
-com muita attenção por todos os selvagens, recebendo o
-nome de Martim Francisco, lembrado por seo padrinho por
-tal ou qual semelhança com o seo antigo nome de <i>Marentin</i>,
-fazendo assim geralmente conhecido pelos selvagens tal
-conversão.</p>
-
-<p>Acabado isto, mandei-o sentar junto de seo Padrinho, e
-comecei a celebração da missa, que ouvio com toda a devoção,
-de mãos postas, e na occasião de levantar-se a
-Hostia ajoelhou-se, como os outros, recitou a oração dominical
-e o credo em quanto vio os francezes tambem de
-joelhos.</p>
-
-<p>Passados alguns dias quiz regressar á sua aldeia, tendo
-alcançado a saude do corpo e da alma, e despedindo de
-nossos chefes e de mim, nós o mimoseamos com rosarios,
-imagens, <i>Agnus Dei</i> e bentinhos.</p>
-
-<p>Recommendamos muito, que depois de orar a Deos, resasse
-tambem para a Virgem Maria, Mãe de Jesus Christo,
-recitando em sua lingua <i>Ave Maria</i> tantas vezes quantas<span class="pagenum"><a id="Page_225"></a>[225]</span>
-fossem as contas do seo rosario, e a oração dominical tantas
-quantas fossem as contas grandes.</p>
-
-<p>Tomou tal devoção com a Santissima Mãe de Deos que
-trazia sempre ao pescoço o seo rosario, que beijava muitas
-vezes, e quando queria orar a Deos elle o tirava e fazia o
-que lhe ensinamos.</p>
-
-<p>Antes de partir disse-me que só tinha um filho, que me
-traria no seo regresso para eu vel-o, e quando estivesse
-instruido na doutrina christã, eu o baptisaria e elle o daria
-aos Padres para ficar sempre com elles.</p>
-
-<p>Prometteo igualmente escolher uma das suas tres mulheres,
-com certesa a mãe do seo filho, si ella quizesse ser
-christã como elle, conservando as outras como servas.</p>
-
-<p>Bem compromettido com estas promessas, embarcou para
-<i>Tapuitapera</i> em procura de sua aldeia e de sua casa.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_IV">CAPITULO IV</h3>
-
-<p class="subhead">Do que fez este christão em beneficio da instrucção
-e conversão dos seos similhantes.</p>
-
-</div>
-
-<p>Nada ha mais bravio e mais difficil para domesticar-se do
-que a phanthéra, ainda mais por ser de naturesa furiosa
-para com os animaes das florestas, que ella ataca e despedaça
-no primeiro encontro.</p>
-
-<p>Ao contrario, quando se sente grávida, torna-se mais favoravel,
-exhala bom cheiro pelos poros do seo corpo, e muda
-sua voz de cruel para branda, como que convidando os
-outros animaes a seguil-a, o que fazem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_226"></a>[226]</span></p>
-
-<p>A nação dos <i>Tupinambás</i> era uma verdadeira panthéra,
-cruel como nenhuma, segundo mostra o seo procedimento
-devorando seos inimigos. Apenas appareceo a graça sobre
-estas terras, mudaram em doçura sua crueldade; seos discursos
-desesperados em salutares; seos cheiros putridos,
-provenientes de seus fumeiros em outros agradaveis, approximando-se
-aos de Jesus Christo, transbordando de amor
-para com o proximo, desejando-lhe fazer o mesmo que elles
-receberam, inspirados pela concepção espiritual das graças
-de Deos no fundo de sua alma, como se lê nos <i>Canticos</i> I.
-<i>Oleum effusum nomen tuum, idéo adolescentulæ dilexerunt
-te nimis</i>: e pouco depois, <i>Trahe me post te, curremus
-in odorem unguentorum tuorum</i>: «teo nome, ó
-Salvador do Mundo, e o teo conhecimento é um balsamo
-derramado, por cuja influencia e cheiro sentem-se as novas
-almas cheias de teo amor, e todas se dedicam a adquerir-te.»</p>
-
-<p>Martinho Francisco entre os outros selvagens executou
-esta doutrina, porque apenas chegou a aldeia principiou a
-fallar a seos visinhos, e d’ahi caminhando para outras aldeias
-da provincia de <i>Tapuitapéra</i>, sempre das grandezas
-de Deos e das graças que elle recebeo. Apresentava sempre
-aos olhos dos selvagens a desgraça dos seos antepassados,
-que tinham fallecido nas crenças de <i>Jeropary</i>, e a felicidade,
-que gozavam os que se baptisavam e se faziam filhos de
-Deos.</p>
-
-<p>Taes conversas produziram effeito, muitos procuraram a
-fonte de salvação para n’ella beber, e sugar o leite do peito
-de Jesus-Christo, como elle o fez e se conta do Unicorne,
-que procurando as agoas, distantes do veneno, por acaso foi
-tocado até o coração pela suavidade do canto de uma joven
-donzella<a id="Nanchor_96" href="#Note_96" class="fnanchor">[96]</a> deitada sob os ramos floridos das arvores da floresta,
-o que livrou este animal de sua furia natural e o aproximou
-do peito d’aquella que o commoveo.</p>
-
-<p>O Unicorne, grato e não avaro do bem recebido, desejoso
-de que seos similhantes tambem o partilhem, vae procural-os<span class="pagenum"><a id="Page_227"></a>[227]</span>
-no centro dos bosques, e por todas as sortes e gestos
-convidam-nos a seguil-o afim de tomarem parte na sua felicidade.</p>
-
-<p>A joven donzella representa a esposa de Jesus Christo, a
-santa igreja, seo canto harmonioso a prédica do Evangelho,
-seo peito, onde são acolhidos os proprios animaes irracionaes,
-a misericordia divina com todo o seo poder, as agoas
-sem veneno, os sagrados sacramentos, o feroz Unicorne, os
-infieis, e Martinho Francisco, por seos discursos e exemplos,
-foi a primeira acquisição, seguida de muitas outras.</p>
-
-<p>Não se tinham passados seis mezes, e ja se experimentavam
-grandes effeitos, porque tendo elle convertido e instruido
-muitos habitantes de <i>Tapuitapéra</i> de todas as idades,
-mandou-nos os mais instruidos e intelligentes ao Forte
-de Sam Luiz para serem baptisados, o que fez, depois de os
-reter comigo por algum tempo para experimental-os em
-seos desejos.</p>
-
-<p>Augmentando-se diariamente o numero dos catecumenos
-em <i>Tapuitapéra</i> foi necessario ahi ir o Rvd. padre Arsenio
-para baptisar muitos d’elles, dignos d’essa graça tanto pelo
-seo desejo, como pela sua instrucção christã.</p>
-
-<p>Tinha Martinho edificado uma Capella, e junto d’ella uma
-casa, no meio de sua aldeia, com o auxilio dos outros christãos
-e selvagens ahi residentes.</p>
-
-<p>Benzeo o padre a Capella, e tomou conta da casa, onde
-foi vesitado e sustentado em quanto ahi esteve, por christãos
-e selvagens.</p>
-
-<p>Depois que baptisou os que para isso julgou aptos, foi
-vêr algumas aldeias da provincia, e o seo principal soberano,
-e por toda a parte foi muito bem acolhido, manifestando
-todos em geral o desejo de serem christãos, e de terem padres
-em suas aldeias.</p>
-
-<p>Alcançou o bom homem Martinho Francisco nome honroso,
-dado pelos habitantes de <i>Tapuitapéra</i> em recompensa
-de seos trabalhos e fadigas para fazel-os christãos por ter<span class="pagenum"><a id="Page_228"></a>[228]</span>
-sido entre elles o primeiro christão, e por saberem quanto
-nós o estimavamos.</p>
-
-<p>Chamaram-no <i>Pai-miry</i>, «Padre pequeno ou o vigario dos
-Padres,» e na verdade bem merecia tal nome, porque desde
-que se fez christão nunca mais se descobrio n’elle vestigios
-do antigo homem, ou os máos costumes dos selvagens. Era
-grave, modesto, pouco fallador e raras vezes ria-se, e nada
-fazia que parecesse ser contrario ao christianismo.</p>
-
-<p>Era este o regimen de vida que observava, e como mais
-velho fazia observar aos outros christãos:</p>
-
-<p>1.º Pela manhã e á tarde reuniam-se todos na Capella:
-levantava-se um d’elles, ajoelhavam-se outros, e depois dizia
-um em seo idioma «<i>em nome do Pai, do Filho, e do
-Espirito Santo</i>» e fazia o signal da Cruz, na testa, na bocca
-e nos peitos, no que era pelos outros imitado: punha depois
-as mãos, fixava a vista no altar, e recitava pausada e distinctamente
-a oração dominical, o symbolo dos Apostolos, os
-mandamentos de Deos e da Igreja, o que findo, si tinha alguma
-advertencia a fazer aproveitava a occasião, sinão, recolhia-se
-cada um á sua casa.</p>
-
-<p>2.º Viviam em commum quando se achavam juntos, e
-para isso traziam o resultado de suas pescarias e caçadas
-para serem igualmente dividido entre elles, e antes de comerem,
-o mais velho recitava em sua linguagem o <i>Benedicite</i>,
-fazendo o signal da Cruz sobre si, e sobre as iguarias:
-tiravam todos o chapeo, faziam em si o mesmo signal e ninguem
-tocava na comida antes de abençoada.</p>
-
-<p>Em quanto comiam não contavam coisas más ou que excitasse
-o riso, como fazem os Tupinambás; porem o mais
-velho dizia alguma coisa á respeito de Deos e da Religião.</p>
-
-<p>3.º Nunca iam aos <i>cauins</i> e reuniões, conforme costumavam
-os <i>Tupinambás</i>: era um dos pontos principaes, que
-Martinho Francisco gravava no coração dos convertidos, isto
-é, que os <i>cauins</i> eram inventados por <i>Jeropary</i> para semeiar
-a discordia entre elles, e fazer com que praticassem<span class="pagenum"><a id="Page_229"></a>[229]</span>
-toda a especie de males os que os frequentassem, sendo impossivel
-amar a Deos quem gostasse de <i>cauins</i>, porque, dizia
-elle, quando descubro, que alguns dos meos similhantes
-se retiram das <i>cauinagens</i>, agouro que bem depressa serão
-christãos e vou procural-os; mas não tenho animo para
-fazer o mesmo aos que frequentam taes orgias.</p>
-
-<p>O que elle dizia era verdade por ser horrivel espectaculo
-vêr essas gentes em reuniões, parecendo antes congresso
-nocturno de feiticeiros do que ajuntamento de homens.</p>
-
-<p>Achei-me apenas uma só vez n’estas reuniões para d’ellas
-poder fallar, e nunca mais lá tornei.</p>
-
-<p>Via aqui uns deitados em suas redes vomitando com muita
-força, outro caminhando ou marchando em diversos sentidos
-com o juiso perdido pelo vinho, ali outros gritando, fazendo
-mil tregeitos, estes dançando ao som do <i>maracá</i>, aquelles
-bebendo com muito boa vontade, aquell’outros fumando para
-mais se embriagarem, e o que ainda é peior, é estarem mulheres
-e moças ahi misturadas parecendo bem difficil a presença
-de Bacho sem Venus.</p>
-
-<p>Por minha vontade os francezes deviam fazer o que fizeram
-os portuguezes, isto é, prohibir todas estas <i>cauinagens</i>:
-os portuguezes, depois que habitaram algum tempo na India,
-reconheceram, que um dos maiores embaraços para a propagação
-do christianismo eram essas reuniões diabolicas, de
-que procedem todas as discordias e desgraças entre os selvagens.</p>
-
-<p>4.º Vestem-se estes novos christãos o melhor que podem,
-caminham todos juntos, não trazem flechas e nem arcos,
-excepto quando vão á caça ou a pesca, contentando-se
-em trazer um cacete de uma especie de ebano, negro ou
-vermelho, com que se distinguem facilmente dos outros.</p>
-
-<p>Quando vão a outras aldeias, si encontram algum christão,
-recolhem-se á casa d’elle, contentam-se com o que tem
-e vivem sóbriamente como tanto convem a um christão.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_230"></a>[230]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_V">CAPITULO V</h3>
-
-<p class="subhead">De um Indio, condemnado á morte, que pedio o
-baptismo antes de morrer.</p>
-
-</div>
-
-<p>Não se acreditaria, si a experiencia não o tivesse confirmado,
-que vendo-se simplesmente por fora a concha de uma
-ostra marinha coberta e suja de lama e lodo, que ella em
-si ja tivesse uma perola preciosa digna de ser collocada no
-gabinete dos principes.</p>
-
-<p>Quem poderá crer, que um selvagem iniquo, impuro, e
-immundo, como não posso dizer, embora creia que o proprio
-diabo, author de taes traças, se envergonhe d’isto, não
-tenha inimisade e soberba contra o soberano, que o tira
-d’isto?</p>
-
-<p>Quem poderá, digo eu, crer, que tal individuo, por determinação
-da divina Providencia, fosse escolhido para o reino
-do Ceo, e tirado d’esses abysmos infernaes, para receber (na
-hora da morte, bem merecidas por suas torpezas) o sagrado
-baptismo, que o lava de todas as máculas, e lhe proporciona
-facil e franca entrada no Paraiso?</p>
-
-<p>Um pobre indio, bruto, mais cavallo do que homem, fugio
-para o matto por ouvir dizer, que os francezes o procuravam
-e aos seos similhantes para matal-os e purificar a terra de
-suas maldades por meio da santidade do Evangelho, da candura,
-da puresa, e da claresa da Religião Catholica Apostolica
-Romana.</p>
-
-<p>Apenas foi apanhado amarraram-no, e trouxeram-no com
-segurança ao Forte de Sam Luiz, onde deitaram-lhe ferros
-aos pés: vigiaram-no bem até que chegassem os principaes
-de outras aldeias para assistirem ao seo processo, e proferirem
-sua sentença, como fizeram a final.</p>
-
-<p>Não esperou o prisioneiro pelo principio do processo, e
-elle mesmo sentenciou-se, porque diante de todos disse, «vou
-morrer, e bem o mereço, porem desejo que igual fim tenham
-os meos cumplices.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_231"></a>[231]</span></p>
-
-<p>Terminado o processo e proferida a sentença, cuidou-se em
-sua alma dizendo-se-lhe, que si elle recebesse o baptismo,
-apesar de sua má vida passada, iria direito para o Ceo apenas
-sua alma se desprendesse do corpo.</p>
-
-<p>Acreditou nossas palavras, e pedio o baptismo: para tal
-fim veio o Sr. de Pezieux procurar-me em nossa casa de S.
-Francisco em Maranhão, e conversando si devia ser eu quem
-o baptisasse, resolvemos negativamente pelas seguintes razões:</p>
-
-<p>Pensavam os selvagens que nós outros padres eram pessoas
-misericordiosas e compassivas, que expontaneamente
-empregavamos nossos esforços perante os grandes para alcançar
-a vida dos condemnados: que os grandes nos estimavam,
-e nada nos negavam, e que, alem d’isto, nós prégavamos,
-que Deos não queria a morte e sim a vida do peccador,
-e que por isso tinhamos vindo aqui para dar essa
-vida de forma que, si eu o baptisasse publicamente, antes
-d’elle morrer, teria satisfeito muitos caprichos d’estes espiritos
-debeis e incapazes a respeito da opinião, que formavam
-de nós e que seria muito prejudicial a nossas intenções
-dando alem d’isso causa a varias murmurações dos selvagens,
-que diziam—«si os padres gostam da vida, porque
-deixam este christão ir morrer? Si amam tanto os christãos
-porque não amam este? Si os grandes nada lhes negam,
-porque não pedem a vida d’este?»</p>
-
-<p>Por tudo isto, e por outras razões, que omitto, decidimos
-ser conveniente e necessario, que eu não o baptisasse.
-Roguei pois ao dito senhor que, depois de instruil-o pelos
-interpretes, o baptisasse antes de ir ao supplicio, sem as ceremonias
-da igreja o que se prestou e cumprio.</p>
-
-<p>Recebeo, com tranquilidade e sem tristeza, na presença
-dos principaes selvagens o baptismo, depois do que um dos
-Principaes, chamado <i>Karuatapiran</i> «Cardo vermelho,» de
-quem ainda fallarei, lhe disse estas palavras:</p>
-
-<p>«Tens agora occasião de estares consolado e de não te
-affligires, pois presentemente és filho de Deos pelo baptismo,<span class="pagenum"><a id="Page_232"></a>[232]</span>
-que recebeste da mão de <i>Tatu-uaçu</i> (nome do Sr. de Pezieux
-em sua lingua) com permissão dos Padres. Morres por
-teos crimes, approvamos tua morte, e eu mesmo quero pôr
-o fogo na peça para que saibam e vejam os francezes, que
-detestamos tuas maldades; mas repara na bondade de Deos
-e dos Padres para comtigo, expellindo Jeropary para longe
-de ti por meio do baptismo de maneira que apenas tua
-alma sahir do corpo vae direita para o Ceo vêr <i>Tupan</i> e
-viver com os <i>Caraibas</i>, que o cercam: quando <i>Tupan</i> mandar
-alguem tomar teo corpo, si quizeres ter no Ceo os cabellos
-compridos e o corpo de mulher antes do que o de
-um homem, pede a <i>Tupan</i>, que te dê o corpo de mulher
-e resuscitarás mulher, e lá no Ceo ficarás ao lado das mulheres
-e não dos homens.»</p>
-
-<p>Desculpareis este pobre selvagem, não christão e nem cathecumeno,
-fallando da Resurreição. Elle nos ouvio ensinar
-que n’um dia resuscitariam todos os homens, regressando
-cada alma do lugar em que estava para occupar o seo corpo,
-acrescentando o que pensou ser indifferente á Resurreição,
-isto é, que uma alma recebe um corpo de homem
-ou de mulher, no que se enganou não se deixando em pé
-tal ideia falsa, pois elle e o paciente foram instruidos da
-verdade: julguei acertado referir aqui simplesmente o que
-se passou para que o leitor reconheça sempre quanto sou
-fiel em minhas descripções, como ja disse, e provarei sempre
-nos discursos, que ainda hei de transcrever.</p>
-
-<p>Este infeliz condemnado recebeo as consolações de muito
-boa vontade, e antes de caminhar para o supplicio disse aos
-que o acompanhavam: «vou morrer, não mais os verei, não
-tenho mais medo de <i>Jeropary</i> pois sou filho de Deos, não
-tenho que prover-me de fogo, de farinha, de agoa, e nem
-de ferramenta alguma para viajar alem das montanhas,
-onde cuidaes que estão dançando vossos paes. Dae-me porem
-um pouco de <i>Petum</i> para que eu morra alegremente,
-com voz e sem medo.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_233"></a>[233]</span></p>
-
-<p>Deram-lhe o que elle pedio, á similhança dos que vão
-ser justiçados, aos quaes tambem se dá pão e vinho, costume
-não d’agora, e sim desde a mais remota antiguidade,
-pois então se offerecia aos criminosos vinho com myrrha e
-opio para provocar o somno dos pacientes.</p>
-
-<p>Feito isto, levaram-no para junto da peça montada
-na muralha do Forte de S. Luiz, junto ao mar, amarraram-no
-pela cintura á bocca da peça, e o <i>Cardo vermelho</i>
-lançou fogo á escorva, em presença de todos os
-Principaes, dos selvagens e dos francezes, e immediatamente
-a bala dividio o corpo em duas porções, cahindo
-uma ao pé da muralha, e outra no mar, onde nunca mais
-foi encontrada.</p>
-
-<p>Quanto a sua alma, é de crer que os anjos a levassem
-ao Ceo, pois morreo logo depois de haver recebido
-as agoas do baptismo, certesa infallivel da salvação d’aquelles,
-a quem Deos concedeo tal graça, não pequena
-e nem commum, porem tão rara como o arrependimento
-do bom ladrão na Cruz, que tendo vivido sempre desregradamente
-até chegar áquelle logar, recebeo comtudo
-esta promessa de Jesus Christo—<i>Hodie mecum eris in
-Paradiso</i>, «hoje estarás commigo no Paraiso»: outro tanto
-podemos dizer d’esse infeliz e desgraçado indio, que nos
-deo tão bella occasião d’admirar e de adorar os juizos de
-Deos.</p>
-
-<p><i>Karuatapiran</i>, o algoz, com gestos e palavras mostrava
-grande contentamento e alegria perante os francezes
-por haver recebido tal honra, que apreciava muito
-mais do que as que sua Nação cheia de abusos dá aos que
-publicamente matam os prisioneiros, sendo essas consideradas
-as maiores existentes entre elles, e um favor não
-pequeno aos mancebos, quando escolhidos para tal fim,
-pois é uma especie de accesso de grandeza para ser um
-dia Principal.</p>
-
-<p>Por tudo isto o grande <i>Karuatapiran</i> exaltava-se d’este
-seo feito e d’elle se servia para se fazer timido dizendo<span class="pagenum"><a id="Page_234"></a>[234]</span>
-por todas as aldeias por onde andava, o que tinha feito,
-asseverando ser irmão dos francezes, seo defensor e exterminador
-dos maus e dos rebeldes.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_VI">CAPITULO VI</h3>
-
-<p class="subhead">Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens,
-quando nos vinham vêr, para chamal-os
-ao conhecimento de Deos e á obediencia
-de nosso Rei.</p>
-
-</div>
-
-<p>O meio pelo qual outr’ora os Athenienses chamavam os
-povos ao conhecimento da Philosophia, e á obediencia de
-uma Republica, era representado pelo simulacro do seo
-<i>Palladium</i>, que fingiam ser trazido do Ceo, e por elles collocado
-no lugar mais alto de sua cidade.</p>
-
-<p>Tal era o idolo de Pallas, armado dos pés até a cabeça,
-correndo de sua bocca raios de mel, que cahiam sobre seos
-ouvintes e expectadores, produzindo-lhes doce somno.</p>
-
-<p>Ensinaram os Druidas a mesma coisa aos Gaulezes levantando
-a estatua de Hercules no frontespicio de seos Templos,
-tendo na sua cabeça a cabeça de um leão, e nas espaduas
-a clava de suas victorias, sahindo de sua bocca uma
-especie de hera, porem de oiro, que prendia pelas orelhas
-homens e mulheres, moços e velhos afim de attrahil-os a
-si.</p>
-
-<p>Com isto queriam os Athenienses e os Gaulezes dizer,
-que os homens são attrahidos pela doçura e pela razão á
-obediencia das leis divinas e humanas, na qual se conservam<span class="pagenum"><a id="Page_235"></a>[235]</span>
-por meio das armas, sustentadas pelos soberanos para
-a conservação dos seos vassallos.</p>
-
-<p>O primeiro d’estes dois fins nos pertencia desde que Sua
-Magestade e os nossos Padres nos remetteram para cá á fim
-de chamarmos ao conhecimento de Deos estas pobres almas
-selvagens, que, antes de começarmos a cathequisal-as, reconhecemol-as
-anciosas por doçura, e por isso combinamos
-pautar por ella nossas palavras e acções, com que sempre
-nos démos muito bem.</p>
-
-<p>Já tinha lido no cantico primeiro, que entre os ornamentos
-dados por Jesus Christo á sua Igreja, a mansidão e a
-clemencia para com os peccadores e infieis era um dos primeiros
-deveres conforme estas palavras: <i>Murenulas aureas
-faciemus tibi vermiculatus argento</i> «nós te faremos
-collares de oiro, torcidos como pequenas lampreias, esmaltadas
-de fios de prata em forma de vermesinho para mais
-fazer realçar a bellesa do oiro.»</p>
-
-<p>Dizem os Septenta—<i>Simulachra auri faciemus tibi, cum
-vermiculacionibus argenti</i>; «nós te faremos pequenas estatuas
-de oiro fino, esmaltadas de fio de prata do feitio de
-vermesinhos.»</p>
-
-<p>Accrescenta Rabbi Jonathas que taes eram as taboas de
-Saphira, em que estavam gravados os mandamentos da lei
-de Deos porque a luz da gloria do Doador dava á saphyra
-diaphana a côr de oiro, e a escripta gravada em linha pelo
-dedo de Deos formava o esmalte em pequenas lampreias
-ou vermes da terra.</p>
-
-<p>Quem não diria que ha intelligencia entre estas ceremonias
-divinas e as dos Athenienses e Gaulezes, visto significar-nos
-umas e outras, por meio de estatuas e cadeias de
-oiro, a força e o poder da doçura para subjugar as almas
-mais barbaras á obediencia das leis de Deos.</p>
-
-<p>Não é sem rasão, que Jesus Christo ornou os collares de
-oiro de sua esposa com figuras de vermes da terra, e de
-pequenas lampreias, visto que elle mesmo se fez verme<span class="pagenum"><a id="Page_236"></a>[236]</span>
-para chamar a si os vermes, e misturou-se com a terra
-para se juntar com os vermes, que ahi achasse.</p>
-
-<p>Assim como as lampreias não repellem as serpentes por
-que podem causar medo com o veneno, que estas vomitarem,
-assim tambem Jesus Christo não despresa os homens,
-pobres serpentes, comtanto que estes se despojem do seo
-veneno.</p>
-
-<p>Si o Mestre fez isto, o que devem fazer os obscuros discipulos
-de Sua Magestade?</p>
-
-<p>Quem se offerece a servir a Deos na conversão dos selvagens
-deve modelar suas palavras e acções pela doçura,
-de que sempre usou Jesus Christo na terra.</p>
-
-<p>Eram estes os artigos de nossas conferencias com os selvagens.</p>
-
-<p>1. Procuravamos convencel-os, que eramos seos amigos,
-e amigos fieis, mais que seos paes, mães, e outros parentes,
-dizendo-lhes estas e outras palavras <i>pera-uçu</i>, <i>pare koroyco</i>
-«somos vossos amigos, vossos intimos.»</p>
-
-<p>Com taes expressões alegraram-se muito, e cheios de confiança
-vinham conversar comnosco a ponto de tornarem-se
-importunos, não nos permittindo descanço algum, e só nos
-olhando e observando até os nossos menores gestos.</p>
-
-<p>Vou dar-vos alguns exemplos.</p>
-
-<p>Um dia de paschoa, depois do serviço, ao qual assistiram
-muitos selvagens, tanto de <i>Tapuitapera</i> como da <i>Ilha</i>, quiz
-recolher-me para meditar no sermão, que devia prégar depois
-do jantar, e para isto mandei fechar as portas de nossa
-casa para que ninguem entrasse durante esse pouco tempo
-até a hora da prédica, porem os selvagens impacientes, para
-entrarem, rodeiaram a casa duas ou tres vezes buscando
-uma abertura, e afinal quebraram algumas estacas e por
-ahi passaram.</p>
-
-<p>Mostrei-lhes má cara significando o meo descontentamento
-pelo que haviam feito, e lhes perguntei porque eram tão importunos?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_237"></a>[237]</span></p>
-
-<p>Responderam-me «porque tinhamos vontade de te vêr, e
-fallar comtigo livremente, na ausencia dos francezes, e para
-esse fim viemos de proposito». Á vista d’isto não tive outro
-remedio senão atural-os.</p>
-
-<p>Quando eu orava sosinho na nossa Capella, com as portas
-fechadas, rompiam o panno de Guiné, com que forramos
-a Igrejinha para vêr o que fazia eu ajoelhado defronte
-do Altar, e diziam uns para os outros <i>ygneém Tupan</i>
-«falla com Deos», e d’ahi não sahiam em quanto eu
-rezava.</p>
-
-<p>Para livrar-me d’estas importunações mandei construir
-uma cerca ao redor da nossa casa e Capella de S. Francisco,
-muito forte, e entremeiada com ramos de palmeira
-espinhosa, assim conhecida por ter espinhos maiores do que
-o comprimento de um dedo, e embora tudo isto achavam
-meios de entrar e de me procurarem.</p>
-
-<p>Ao escrever isto recorda-me o dito de Antalcide, escripto
-por Plutarcho no tratado dos <i>Apophtegmas Laconicos</i>, «quem
-quizer ganhar a amisade dos homens, deve ter na lingua um
-regato de mel, e nas mãos muitos fructos» isto é—palavras
-doces e serviços conforme ás palavras.</p>
-
-<p>Mais não podiamos fazer para com estes selvagens do que
-captarmos sua amisade por palavras doceis, e fazer-lhes conhecer
-a Deos e os sacramentos da Igreja, unicos fructos da
-Paixão de Jesus Christo.</p>
-
-<p>Ælian, no livro 14 de suas <i>Historias diversas</i>, disse, que
-«Epaminondas se admiraria muito se sahisse do seo palacio
-para misturar-se com o povo, e não adquirisse um novo
-amigo para juntal-o aos seos amigos.»</p>
-
-<p>Não nos seria necessario ir a 200 e nem a 300 legoas afim
-de conquistar novos amigos para Jesus Christo, porque viriam
-por si mesmos offerecer-se para isso.</p>
-
-<p>Gelius no livro 1º cap. 3º conta, que Pericles, um dos
-grandes do Areopago de Athenas, terminava a amisade dos
-homens junto aos altares dos Deoses, porem nunca fallou da<span class="pagenum"><a id="Page_238"></a>[238]</span>
-amisade divina entre Deos e os homens, estabelecida e enraisada
-sobre os altares, porque pagão, como era, não podia
-comprehender a força e o vigor de tal amor, similhante
-ao do proprio centro, onde cada creatura tem o destino de
-viver e descançar.</p>
-
-<p>O poderoso rei Darius recebeu em presente de um seu
-amigo uma bella romã, que partio ao meio, e admirando a
-bellesa e o numero dos seos grãosinhos disse aos que com
-elle estavam—por minha vontade eu teria tantos Zopiros,
-(nome do seo mais intimo amigo) quanto ha de grãos n’esta
-romã.</p>
-
-<p>Não foi pequena graça, e nem pequeno privilegio, que
-Deos fez á Ordem Seraphica de São Francisco dando-lhe a
-faca da palavra para abrir o pomo ainda inteiro e fechado
-das terras de Maranhão afim de apresentar a Jesus Christo
-milhões de almas, não só para com Elle se conciliarem, mas
-tambem para um dia lhe serem fieis esposas.</p>
-
-<p>Deos inspirou a Salomão, no liv. 4º dos Reis, cap. 29,
-fazer os capiteis das columnas com arame, semeiado de romãs,
-indicando assim a missão do Evangelho para com as
-nações infieis, servindo para agarrar os peixes fugitivos por
-meio de uma eloquencia docil, e as romãs para ligal-os e
-unil-os pelo amor de Jesus Christo ao resto dos fieis, não
-havendo nada mais forte para obter o accordo que o proprio
-amor.</p>
-
-<p>Eis a razão porque julguei ser absolutamente necessario
-fazer conhecer a estes selvagens, que nós os amavamos terna
-e infinitamente, que lhes offereciamos nossas pessoas e
-bens, dizendo-lhes <i>ore-mae pémareamo</i> «tudo o que temos
-é vosso.»</p>
-
-<p>Por isto quando tinhamos muitos peixes, o que acontecia
-ordinariamente, lhes davamos todos, especialmente aos
-<i>Tabajares</i>, recem-chegados á <i>Ilha</i>, ainda necessitados de
-tudo, por não terem feito roças, especialmente os nossos
-visinhos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_239"></a>[239]</span></p>
-
-<p>2.º Nós lhes expunhamos os fructos e os emolumentos,
-que deviam esperar de nossa amisade, isto é, reforma em
-sua vida, conhecimento do verdadeiro Deos, defesa do
-nosso rei contra seos inimigos, o qual não deixaria de enviar-lhes
-homens e armas conforme necessitassem. <i>Pe moé
-Koroiut, pere Koramrecé: Tupan mombe-ouane koroiut
-peam: yande mogna gare, rhé, opap katu, ahé maé
-mognan. Yangaturan: yandé renonde vuac ueriko: ahé
-gneem rupi yané rekormé. Pepusurom peamo tareumbare
-soiy yauaeté oreru vichaue: Pepusurum okat araia
-oboure uaia pepusurô anuam</i>; quer isto dizer—«Nós vos
-ensinamos a viver mais para a vossa felicidade: queremos
-ensinar-vos o verdadeiro Deos, creador do universo, infinitamente
-bom, e que nos prometteo o Ceo si n’esta vida
-fizermos o que elle diz. Viemos defender-vos de vossos inimigos.
-Nosso rei, que é forte e poderoso, vos dará sempre
-soccorro de armas e de homens.»</p>
-
-<p>Prestavam muita attenção ao que diziamos, e nos respondiam
-que os francezes sempre os haviam auxiliado; que tinham
-vindo agora por ordem do rei para tiral-os das cadeias
-de <i>Jeropary</i>, que não duvidavam aprender grandes
-coisas á respeito de Deos, especialmente quando ja soubessemos
-sua lingua, porque os interpretes, diziam elles, não
-fallam como vós á Deos. Não nos podem dizer outra coisa,
-porem se fallasseis comnosco vós nos dirieis o que Deos vos
-disser. Nossos filhos serão mais felizes do que nós, porque
-comvosco aprenderão a lingua francesa, como nos promettestes,
-e assim terão mais conhecimento de Deos do que nós,
-que ja somos velhos.</p>
-
-<p>Nós o que temos feito é correr e andar errantes pelos bosques
-adiante dos <i>Peros</i><a id="Nanchor_97" href="#Note_97" class="fnanchor">[97]</a> tendo por alimento apenas raizes
-de arvores. Nossos filhos estarão seguros contra seos inimigos,
-os francezes se unirão á nossas filhas, e nossos filhos ás
-filhas dos francezes, e assim seremos parentes: ficareis comnosco,
-em nossas aldeias, e sereis nossos padres <i>Tupan</i> os
-amará, e <i>Jeropary</i> nada poderá contra elles. Haverá abundancia<span class="pagenum"><a id="Page_240"></a>[240]</span>
-de viveres e nunca se sentirá falta de mercadorias
-francezas.</p>
-
-<p>Oh! quanto serão felizes! porem nós não veremos estas
-coisas.</p>
-
-<p>O imperador Vespasiano e tambem Domiciano, quando entravam
-n’um paiz novo para ahi estabelecer Colonias Romanas,
-tinham por costume mandar fundir em bronze a Fé e
-os seos fructos, que publicamente promettiam a todos, representando
-uma dama, que estendia a mão direita, symbolo
-da Fé, trazendo na esquerda a cornucopia da abundancia,
-cheia de toda a especie de fructos, e tinham este mesmo
-carimbo o dinheiro, que ahi faziam correr assegurando por
-esta fórma a sua fidelidade para com estes povos, de que
-resultaria muitos bens e commodidades á sua nação.</p>
-
-<p>Tomae, se quizerdes, por esta dama a Santa Igreja entrando
-pela primeira vez n’estas terras barbaras, estendendo sua
-mão direita para prometter aos seos habitantes a fé de Jesus
-Christo, seo esposo, e a fidelidade de seos sectarios, que
-não se poupam a trabalhos, e arriscam até a propria vida
-para ajudal-a na salvação d’ellas.</p>
-
-<p>Os fructos, que ella lhes offerecia, eram os sacramentos,
-o conhecimento de Deos e das coisas divinas.</p>
-
-<p>Tomae tambem, si quizerdes, por esta mesma Dama, a
-França plantando pela primeira vez seos lyrios n’estas regiões
-e paizes do Brazil, dando com a mão direita a segurança
-de defender e conservar estes selvagens obedientes á
-sua corôa, e com a esquerda os fructos provenientes do
-commercio entre ella e o Brazil.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_241"></a>[241]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_VII">CAPITULO VII</h3>
-
-<p class="subhead">Formulario da doutrina christã, que aprendiam e
-recitavam de cór, antes de serem baptisados.</p>
-
-</div>
-
-<p>No Levitico 1.º, e em outro lugar lemos, que antes da
-victima escolhida ser levada ao altar devia aquelle, que a
-apresentava, pôr suas mãos na cabeça entre os cornos.</p>
-
-<p>Accrescentam outros, que esses cornos eram enfeitados
-de flores de junco marinho, (cujos espinhos, e não flores,
-foram postos na cabeça de Jesus Christo, offerecido em holocausto
-sobre a Cruz) e então os sacerdotes agarravam a
-victima, e a lavavam n’um grande vaso de bronze chamado
-<i>mar</i>. Representa isto os novos cathecumenos, desejosos de
-serem lavados pelo baptismo, e offerecidos diante do altar
-do Redemptor.</p>
-
-<p>A primeira coisa, que se exige d’estes cathecumenos, é
-que ponham as mãos sobre a cabeça: as mãos são os hyerogliphos
-das obras, e a cabeça a séde do espirito e do entendimento.
-A primeira coisa portanto necessaria á estes
-noviços da fé christã é a operação do entendimento; quero
-com esta expressão dizer, que elles saibam e entendam o
-que pretendem crêr e prometter, e torcer os cornos da curiosidade
-e o proprio juizo dos orgulhosos possuidores do
-Junco marinho, corôa dos deoses, por meio da obediencia
-á Revelação divina. É o que pediamos aos adultos antes
-de conferir-lhes o baptismo, e nenhum o conseguia sem primeiro
-conhecer bem isto, por acto obrigatorio, a que deveriam
-tambem assistir os christãos, ignorantes de sua fé e
-profissão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_242"></a>[242]</span></p>
-
-<h4>DOUTRINA CHRISTÃ<br />
-<i>na lingua dos Tupinambás<a id="Nanchor_98" href="#Note_98" class="fnanchor">[98]</a> e em francez, e, em primeiro
-lugar a oração dominical</i></h4>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0"><i>Ore-ruuc vuac peté cuare,</i></div>
- <div class="verse indent0">Padre nosso, que estás no Ceo,</div>
- <div class="verse indent0"><i>y moe-tepoire derere-toico</i></div>
- <div class="verse indent0">sanctificado seja teo nome,</div>
- <div class="verse indent0"><i>to-ure de reigne</i></div>
- <div class="verse indent0">venha nós o teo reino,</div>
- <div class="verse indent0"><i>teié-mognan deremimotare yboipé vaacpe iémognan eaue,</i></div>
- <div class="verse indent0">seja feita a tua vontade assim na terra como no Ceo.</div>
- <div class="verse indent0"><i>oreremiu-areduare eimé iury oreue,</i></div>
- <div class="verse indent0">dae-nos hoje o pão quotidiano,</div>
- <div class="verse indent0"><i>de-eiuru oré yangaypaue reçe,</i></div>
- <div class="verse indent0">perdôa nossas offensas,</div>
- <div class="verse indent0"><i>ore recome-moçaré supè ore-ieuron eaue</i></div>
- <div class="verse indent0">como nós perdoamos aos que nos offendem</div>
- <div class="verse indent0"><i>moar-ocar humé yepé tecomemo-pupé</i></div>
- <div class="verse indent0">não nos deixeis cahir em tentação</div>
- <div class="verse indent0"><i>oré pessuron peyepé mae ayue suy.</i></div>
- <div class="verse indent0">mas livrae-nos do mal. Amen Jesus.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p class="center">SAUDAÇÃO ANGELICA.</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0"><i>Ave Maria gratia, resse tonussen väé,</i></div>
- <div class="verse indent0">Eu te saudo Maria, de graça cheia,</div>
- <div class="verse indent0"><i>Deyron yandé yaré-reco</i></div>
- <div class="verse indent0">o Senhor é comtigo,</div>
- <div class="verse indent0"><i>ymonbeu katu poïre aue edereico kugnan suy</i></div>
- <div class="verse indent0">benta és tú entre as mulheres.</div>
- <div class="verse indent0"><i>ymonbeau katu poïre aue demeinboïre Jesus.</i></div>
- <div class="verse indent0">bento é o fructo do teo ventre, Jesus.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_243"></a>[243]</span></p>
-
-<p class="center">ORAÇÃO A VIRGEM.</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0"><i>Santa Maria Tupan seu</i></div>
- <div class="verse indent0">Santa Maria mãe de Deos</div>
- <div class="verse indent0"><i>hé Tupan mongueta ore yangaypaue vaë ressé</i></div>
- <div class="verse indent0">rogae a Deos por nós peccadores</div>
- <div class="verse indent0"><i>cohu yran ore-requi ore-rumeué</i></div>
- <div class="verse indent0">agora, e na hora de nossa morte. Amen Jesus.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p class="center">O SYMBOLO DOS APOSTOLOS.</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0"><i>Arobiar Tupan</i></div>
- <div class="verse indent0">Creio em Deos</div>
- <div class="verse indent0"><i>tuue opap katu maeté tiruan</i></div>
- <div class="verse indent0">padre todo poderoso</div>
- <div class="verse indent0"><i>mognangare vuac</i></div>
- <div class="verse indent0">creador do Ceo</div>
- <div class="verse indent0"><i>mognangare ybuy</i></div>
- <div class="verse indent0">creador da terra</div>
- <div class="verse indent0"><i>Jesus-Christo tayre oyepe vac</i></div>
- <div class="verse indent0">em Jesus Christo, seo filho unico</div>
- <div class="verse indent0"><i>ahe Sainct Esprit, demognan pitan amo</i></div>
- <div class="verse indent0">que foi concebido do Espirito Santo</div>
- <div class="verse indent0"><i>ahé poïre oart Sainct Marie, suy</i></div>
- <div class="verse indent0">e nasceo da Virgem Maria</div>
- <div class="verse indent0"><i>Ponce Pilate muruuichaue amoseico sericomemo poïre amo</i></div>
- <div class="verse indent0">padeceo sob poder de Poncio Pilatos, presidente</div>
- <div class="verse indent0"><i>yiuca poire amo yuira</i></div>
- <div class="verse indent0">morreo sobre o madeiro da Cruz</div>
- <div class="verse indent0"><i>ioasaue ressé</i></div>
- <div class="verse indent0">morreo</div>
- <div class="verse indent0"><i>ymoiar ypoire ytemim buire amo</i></div>
- <div class="verse indent0">foi amortalhado e enterrado no sepulchro</div>
- <div class="verse indent0"><i>ouue ieuue euue apeterpé</i></div>
- <div class="verse indent0">desceo aos infernos</div><span class="pagenum"><a id="Page_244"></a>[244]</span>
- <div class="verse indent0"><i>ahé sui turiare mossa poire ressé uue ombueue sui. Secobé yereie-buire</i></div>
- <div class="verse indent0">ao terceiro dia resurgio dos mortos</div>
- <div class="verse indent0"><i>oié upire vuacpé</i></div>
- <div class="verse indent0">subio ao Ceo</div>
- <div class="verse indent0"><i>Tupan tuue opap-katu maeté tiruan mognangare katu aue cotu seua</i></div>
- <div class="verse indent0">está assentado á direita de Deos, seo Pae Omnipotente</div>
- <div class="verse indent0"><i>ahé sui turiné ycobé vãe omano vãe poire paué recomognan</i></div>
- <div class="verse indent0">de lá virá a julgar vivos e mortos.</div>
- <div class="verse indent0"><i>Arobiar Saincte eglise catholique</i></div>
- <div class="verse indent0">Creio na Santa Igreja Catholica,</div>
- <div class="verse indent0"><i>arobiar Saincte tecokatu demosaoc morupé</i></div>
- <div class="verse indent0">creio na communhão dos Santos</div>
- <div class="verse indent0"><i>arobiar teco-engay paue ressé morupé Tupan deuron</i></div>
- <div class="verse indent0">creio na remissão dos peccados por Deos</div>
- <div class="verse indent0"><i>arobiar asé-recobé iebure</i></div>
- <div class="verse indent0">creio na resurreição da carne</div>
- <div class="verse indent0"><i>arobiar teiubé opauaaerem-eim-rerecoe nuame</i></div>
- <div class="verse indent0">creio na vida eterna. Amen Jesus.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p class="center">OS DEZ MANDAMENTOS.</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0"><i>1.º Ymoeté yepé Tupan.</i></div>
- <div class="verse indent0">I Honra um só Deos</div>
- <div class="verse indent0"><i>2.º Aytè ereté netieume poire renoy teigné.</i></div>
- <div class="verse indent0">II Não jurarás em vão o nome de teo Deos.</div>
- <div class="verse indent0"><i>3.º Ymoeté dimanche are maratecuare eum aue.</i></div>
- <div class="verse indent0">III Honra e sanctifica o domingo, dia de repouso.</div>
- <div class="verse indent0"><i>4.º Ymoeté deruue desseu eaue.</i></div>
- <div class="verse indent0">IV Honra teo pae e tua mãe.</div>
- <div class="verse indent0"><i>5.º Eparapiti humé.</i></div>
- <div class="verse indent0">V Tu não matarás.</div>
- <div class="verse indent0"><i>6.º Eporopotare humé.</i></div>
- <div class="verse indent0">VI Tu guardarás castidade.</div><span class="pagenum"><a id="Page_245"></a>[245]</span>
- <div class="verse indent0"><i>7.º Emonmaron humé.</i></div>
- <div class="verse indent0">VII Tu não furtarás.</div>
- <div class="verse indent0"><i>8.º Teremoen humé aua ressé.</i></div>
- <div class="verse indent0">VIII Tu não levantarás falso testemunho contra teo proximo.</div>
- <div class="verse indent0"><i>9.º Yemonmotare humé aua remerico ressé.</i></div>
- <div class="verse indent0">IX Tu não conhecerás a mulher de outrem.</div>
- <div class="verse indent0"><i>10. Yemonmotare humé aua mae ressé.</i></div>
- <div class="verse indent0">X Tu não cubiçarás coisas alheias.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p class="center">RESUMO DOS MANDAMENTOS DE DEOS.</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0"><i>1.º Opap katu maeté tiruan sosay asé Tupan rausuué.</i></div>
- <div class="verse indent0">Sobre todas as cousas amarás a Deos.</div>
- <div class="verse indent0"><i>2.º Oie ausuue eaué asé uua pichare raussuue.</i></div>
- <div class="verse indent0">Ama teo proximo como a ti mesmo.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p class="center">OS MANDAMENTOS DA SANTA IGREJA.</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0"><i>1.º Arve maratecuare ehumé messe renduue.</i></div>
- <div class="verse indent0">Ouve missa nos dias de festa.</div>
- <div class="verse indent0"><i>2.º Sei hu iauion yemonbeu.</i></div>
- <div class="verse indent0">Todos os annos ao menos uma vez confessa teos peccados.</div>
- <div class="verse indent0"><i>3.º Tupan rare pacques iauion.</i></div>
- <div class="verse indent0">Teo Deos pela paschoa commungarás.</div>
- <div class="verse indent0"><i>4.º Iecuacuue iauion erecucuue.</i></div>
- <div class="verse indent0">Tu guardarás jejuns pela quaresma e vigilias.</div>
- <div class="verse indent0"><i>5.º Aiamion asé mae moiaoc.</i></div>
- <div class="verse indent0">Pagarás os dizimos.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p class="center">OS SETE SACRAMENTOS.</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0"><i>1.º Iemongaraiue.</i></div>
- <div class="verse indent0">Baptismo.</div>
- <div class="verse indent0"><i>2.º Asé seurap aua reu assu yendu karaiue non.</i></div>
- <div class="verse indent0">Receberás na testa o santo oleo pela mão do Bispo.</div><span class="pagenum"><a id="Page_246"></a>[246]</span>
- <div class="verse indent0"><i>3.º Asé-reon yanondé Tupan rare.</i></div>
- <div class="verse indent0">Antes de morrer receberás o corpo de Deos.</div>
- <div class="verse indent0"><i>5.º Oyekoacuue, oyemonbeu.</i></div>
- <div class="verse indent0">Penitencia, confissão.</div>
- <div class="verse indent0"><i>6.º Oyemo-auare.</i></div>
- <div class="verse indent0">Ordem.</div>
- <div class="verse indent0"><i>7.º Mendar.</i></div>
- <div class="verse indent0">Casamento.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_VIII">CAPITULO VIII</h3>
-
-<p class="subhead">Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos,
-dos espiritos e da alma.</p>
-
-</div>
-
-<p>O Psalmista Rei David, no Psalmo 101, que é uma supplica
-por elle composta para os pobres e infelizes, cheios
-de anciedade e oppressão, particularmente os infieis, diz—<i>Placuerunt
-servis tuis lapides ejus, et terra ejus miserebuntur.</i>
-«As pedras de Syão agradarão a teos servos; e
-por esta causa serão misericordiosas para com a terra.»</p>
-
-<p>S. Jeronymo transforma estas palavras d’esta forma—<i>Quia
-placitos fecerunt servi tui lapides ejus, et pulverem ejus
-miserabilem</i>. «Teos servos fizeram suas pedras agradaveis
-á tua Magestade, até chegar ao pó sem consideração.»</p>
-
-<p>Apliquemos estas palavras ao nosso objecto, pondo de parte
-todos os outros mysterios, e digamos que <i>Placuerunt servis
-tuis lapides ejus</i>.</p>
-
-<p>Em nossa primeira missão achamos estes pobres selvagens
-e barbaros como pedras proprias para construir e edificar
-a Santa Igreja em paizes desertos, e com o nosso ministerio<span class="pagenum"><a id="Page_247"></a>[247]</span>
-demos a misericordia divina á algum punhado de
-terra e areia.</p>
-
-<p>Baptisamos muitos meninos, moribundos e adultos, que
-são na verdade tres grãos de areia, á similhança da extenção
-e profundidade das areias do mar, isto é, em comparação
-da quantidade e multidão das nações immensas pelo seo
-numero, na visinhança do Maranhão.</p>
-
-<p>Digamos depois, com São Jeronymo, <i>quia placitos fecerunt
-servi tui lapides ejus, et pulverem ejus miserabilem</i>, que
-temos feito vêr a toda a Christandade, e aos seos monarchas,
-espirituaes ou temporaes, em desencargo de nossa
-consciencia, que á Deos agrada o despertar estes barbaros
-do profundo somno de uma crença má, ou si quizerdes, que
-á Deos agrada fazer arder e queimar a pequena faisca do
-fogo da luz natural, que sob as causas de mil superstições é
-sempre guardada entre estas nações desde o naufragio universal
-do diluvio.</p>
-
-<p>Esta faisca, occulta sob as cinsas, entre estes selvagens, é
-a crença natural, que sempre tiveram de Deos, dos espiritos
-e da immortalidade da alma.</p>
-
-<p>Quanto á crença de Deos, é impossivel, naturalmente fallando,
-que haja no Mundo uma Nação tão rude, estupida e
-brutal que não reconheça universalmente uma Magestade
-Soberana, porque, como diz Lactancio Firmiano, em suas
-Instituições divinas, livro 1.º, cap. 2.º—<i>Nemo est enim
-tam rudis, tam feris moribus, qui non oculos suos in
-cœlis tollens etc</i>. Não ha homem tão rude, nem tão brutal,
-que levantando os olhos para o Ceo, ainda que não possa
-comprehender que haja Deos, qual seja a sua providencia,
-embora não conheça da grandesa e extenção dos Ceos, do
-perpetuo movimento d’elles, da disposição, firmesa, utilidade
-e bellesa d’estas abobadas azuladas, que não reconheça
-haver um Soberano que tudo isto dirige e com harmonia.</p>
-
-<p>Boecio, livr. 4º, da <i>Consolação dos sabios</i>. Prosa 6.ª <i>Omnium
-generatio rerum</i> etc. «que a geração continua dos
-mistos, a diversidade, e ordem das formas, que vestem a<span class="pagenum"><a id="Page_248"></a>[248]</span>
-materia primitiva, convence natural e necessariamente, que
-ha um primeiro director no movimento uniforme de tantas
-coisas de formas contrarias no sentido de aperfeiçoar este
-mundo universal.»</p>
-
-<p>Seneca, na Epistola 92 á seo amigo Lucilio—<i>Quis dubitare
-potest mi Lucilli, quin Deorum immortalium munus
-sit quod vivimus?</i> «Quem é meu amigo Lucilio, que duvida
-não ser sua vida um dom e beneficio dos Deoses immortaes?»</p>
-
-<p>Aristoteles, Livro II <i>dos animaes</i>, depois que contou muito
-bem a perfeição d’elles concluio <i>debemus inspicere formas
-et delectari in Artifice qui fecit eas</i>: «devemos contemplar
-as formas das creaturas, não para olhal-as só e simplesmente,
-e sim para d’ellas passar ao que as fez afim de nos regosijarmos.»</p>
-
-<p>É facto averiguado sempre terem tido estes selvagens conhecimento
-de Deos, porem não da Essencia, Unidade, e
-Trindade, materia inteiramente dependente de fé, embora
-Deos tenha deixado na naturesa alguns vestigios, pelos quaes
-possam os homens formar algumas conjecturas.</p>
-
-<p>Aristoteles, livro 4º, do <i>Ceo e da terra</i>, depois de ter pensado
-muito nas perfeições d’este mundo, disse <i>Nihil est perfectum
-nisi Trinitas</i>. «Somente a Trindade é perfeita.»</p>
-
-<p>Estes selvagens sempre chamaram a Deos—<i>Tupan</i>, nome
-que dão ao <i>trovão</i>, a maneira do que se pratica entre os
-homens, isto é, terem as obras primas o nome do autor:
-Note-se porem que este nome no singular não se applica aos
-relampagos e trovões, que rebentam e illuminam todas as partes,
-por cima da cabeça dos selvagens, aterrando-os, porque
-sabem e reconhecem, que elles são formados pela poderosa
-mão d’Aquelle, que habita nos Ceos.</p>
-
-<p>Por intermedio do interprete informei-me dos velhos do
-paiz si elles acreditavam, que este <i>Tupan</i>, autor do trovão,
-era homem como elle?</p>
-
-<p>Responderam-me que não, porque si fosse um homem
-como nós, seria um grande senhor, e como poderia elle<span class="pagenum"><a id="Page_249"></a>[249]</span>
-correr tão depressa, do Oriente para o Occidente, quando
-troveja ao mesmo tempo sobre nós, e nas quatro partes do
-mundo, tanto na França, como sobre nós? Demais, si fosse
-homem, era necessario, que outro homem o fizesse, porque
-todo o homem procede de outro homem. Ainda mais: <i>Jeropary</i>
-é o creado de Deos, e nós não o vemos, ao passo que
-todo o homem se vê, e por isso não pensamos, que <i>Tupan</i>
-seja um homem.</p>
-
-<p>Mas, repliquei eu, o que pensaes que elle seja?</p>
-
-<p>Não sabemos, responderam, porem pensamos, que existe
-em toda a parte, e que fez tudo quanto existe. Nossos feiticeiros
-ainda não fallaram com elle, pois apenas fallam com
-os companheiros de <i>Jeropary</i>.</p>
-
-<p>Eis a crença de Deos, sempre pela naturesa impressa nos
-espiritos dos selvagens, que com tudo não o reconheciam
-por meio de preces e de supplicios.</p>
-
-<p>Acreditavam naturalmente nos espiritos bons e maus.</p>
-
-<p>Chamam os bons espiritos ou anjos <i>Apoiaueué</i>, e os maos
-ou diabos <i>Uaiupia</i>.</p>
-
-<p>Vou contar-vos o que pude colher de suas conversas por
-diversas vezes.</p>
-
-<p>Pensam que os anjos lhes trazem chuva em tempo proprio,
-que não fazem mal ás suas roças, que não os castigam
-e nem os atormentam, que sobem ao Ceo para contar á Deos
-o que se passa aqui na terra, que não causam medo nem á
-noite e nem nos bosques, que acompanham e protegem os
-francezes.</p>
-
-<p>Pensam, que os diabos estão sob o dominio de <i>Jeropary</i>,
-que era creado de Deos, e que por suas maldades Deos o
-despresou, não querendo mais vêl-o e nem aos seos, pelo
-que aborrecia os homens e nada valia: que os diabos impedem
-as vindas das chuvas em tempo proprio, que os trazem
-em guerra com seos inimigos, que os maltrata, e lhes faz
-medo, habitando ordinariamente em aldeias abandonadas,
-especialmente em logares onde tem sido sepultados os corpos
-de seos parentes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_250"></a>[250]</span></p>
-
-<p>Ouvi tambem dizer a alguns indios, que indo elles apanhar
-cajus em algumas aldeias abandonadas, sahio-lhe ao
-encontro <i>Jeropary</i> gritando com voz medonha, e chegou até
-o ponto de espancar muito alguns dos seos.</p>
-
-<p>Dizem tambem, que <i>Jeropary</i> e os seos tem certos animaes,
-que nunca se vê, que só andam a noite, soltando gritos
-horriveis, que abala todo o interior (o que ouvi infinitas
-vezes) com os quaes convivem, e por isso os chamam <i>Soo-Jeropary</i>
-«animal de Jeropary», e creem que estes animaes
-servem aos diabos ora de homens ora de mulheres, e por
-isso nós o chamamos <i>Succubes</i> e <i>Incubes</i>, e os selvagens
-<i>Kugnan Jeropary</i> «a mulher do diabo» <i>Aua Jeropary</i> «o
-homem do diabo.»</p>
-
-<p>Ha tambem certos passaros noturnos, que não cantam,
-mas que tem um piado queixoso, enfadonho, e triste, que
-vivem sempre escondidos, não sahindo dos bosques, chamados
-pelos indios <i>Uyra Jeropary</i> «passaros do diabo,»<a id="Nanchor_99" href="#Note_99" class="fnanchor">[99]</a> e
-dizem que os diabos com elles convivem, que quando põem
-é um ovo em cada lugar, e assim por diante, que são cobertos
-pelo diabo, e que só comem terra.</p>
-
-<p>Não exgotando minha curiosidade procurei indagar bem
-a verdade d’isto: muitas vezes estes animaes nocturnos vinham
-rodear nossa casa de Sam Francisco e soltar seos gritos
-medonhos, quando as noites eram sombrias e negras.</p>
-
-<p>Apromptei-me para com outros francezes investir estes
-passaros onde se achassem conforme pudessemos prevêr,
-porem nada pudemos conseguir por não vel-os, embora os
-ouvissemos gritar em distancia de mais de um quarto de
-legoa.</p>
-
-<p>Disseram-me alguns francezes, que eram uma especie de
-gatos bravos, o que não pode ser a vista do som, do sussurro
-e do volume do grito, que elle solta.</p>
-
-<p>Outros disseram ser o vagido de <i>vaccas bravas</i>, o que
-negam os selvagens dizendo ser vozes de uma especie de
-animaes parecidos com maçaricos, e maiores do que uma
-raposa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_251"></a>[251]</span></p>
-
-<p>Quiz eu mesmo verificar o que eram estes passaros de
-<i>Jeropary</i>, e para isto fui caminhando de mansinho até onde
-meos ouvidos me levaram a pensar, que lá estavam, pelo piado
-melancolico d’elles. Calculado o lugar ahi fui no dia seguinte
-á tarde muito cedo occultar-me nos mattos, e d’esta
-vez não me enganei porque apenas anoiteceu aproximou-se
-este triste passaro de mim e distante apenas dois passos saltando
-sobre a areia, e soltou seo canto medonho, o que não
-pude aturar. Sahi logo do meo logar e fui onde elle estava
-e nada achei: sua configuração e tamanho era de uma coruja
-de França e as pennas pardas.</p>
-
-<p>Tudo o que referi não está longe do senso commum, porque
-lemos na Historia, e em diversos autores a união dos
-diabos com animaes feios e immundos, e foi elle que desde
-o principio do mundo tomou a forma de uma serpente cabelluda
-para enganar nossos primeiros paes.</p>
-
-<p>Creem na immortalidade da alma: quando no corpo chamam-na
-<i>An</i>, e quando deixa este para ir ao lugar, que lhe
-é destinado, <i>Anguere</i>.</p>
-
-<p>Creem que só as mulheres virtuosas tem alma immortal,
-segundo o que pude comprehender de varios discursos d’elles
-e de muitas perguntas que lhes fiz, pensando que estas
-mulheres virtuosas devem ser postas ao lado dos homens,
-visto terem todos almas immortaes depois da morte.</p>
-
-<p>Em quanto ás outras mulheres duvidam que ellas tenham
-alma.</p>
-
-<p>Pensam, e muito naturalmente, que as almas dos maus
-vão ter com <i>Jeropary</i>, que são ellas que os atormentam de
-concomitancia com o proprio diabo, e que vão residir nas
-antigas aldeias, onde são enterrados os corpos, que habitaram.</p>
-
-<p>Pensam, que as almas dos bons, vão para um lugar
-de repouso, onde dançam constantemente sem nada lhes
-faltar.</p>
-
-<p>Eis tudo quanto pude saber relativamente a estes tres
-pontos de sua crença natural de Deos, dos Espiritos e das<span class="pagenum"><a id="Page_252"></a>[252]</span>
-Almas, por meio de cuidadosas indagações entre discursos
-communs, que ouvi por dois annos de muitissimos selvagens.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_IX">CAPITULO IX</h3>
-
-<p class="subhead">Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em
-suas cadeias por tão longo tempo estes selvagens.</p>
-
-</div>
-
-<p>Adonibesec, um dos maiores tyrannos do mundo, venceo
-e subjugou setenta Reis, aos quaes mandou cortar os dedos
-das mãos e dos pés, e todas as vezes que queria comer,
-mandava buscal-os e pol-os debaixo da mesa como cães
-para roerem os ossos, e os boccados de pão, que lhes atirava,
-e era com isto unicamente que elles viviam, porque
-acabada a refeição do tyranno passavam elles outra vez
-para os grilhões.</p>
-
-<p>Este tyranno representava o diabo, cujo poder sempre
-exerceu nas Nações á elle sujeitas pela infidelidade, tendo-as
-sempre presas, não lhes consentindo outros viveres alem
-dos seos restos, cortando-lhes todos os meios de acção e de
-fuga, alterando ou extinguindo os signaes, que Deos naturalmente
-imprimio nos homens, pelos quaes podiam inclinar-se
-a Deos para d’elles ter piedade, que é o que o diabo mais
-teme, o que é facil de vêr-se em nossos selvagens por
-longo tempo sem conhecimento algum do Deos Omnipotente,
-presos em suas cadeias infernaes pelos abusos e corrupções,
-que entre elles lançou o diabo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_253"></a>[253]</span></p>
-
-<p>Eis porque S. Paulo representava as artimanhas e tricas
-de Satanaz em suas...</p>
-
-<p class="center">(Falta uma folha.)</p>
-
-<p class="noindent">... esta razão tinhamos nós occasião d’admirar a forma e a maneira
-de proceder dos Pagés ou Feiticeiros, que occupam
-entre os selvagens o lugar de Mediadores entre os espiritos
-e o resto do povo, e são os que hão adquirido maior autoridade
-por suas fraudes, subtilezas e abusos, com que tem
-subjugado esta gente mui fortemente sob o reinado do inimigo
-da salvação, como está escripto no <i>Proverbio 29</i>—<i>Princeps
-qui libenter audit verba mendacii, omnes ministros
-habet impios</i> «o Principe, que prestar ouvidos á
-mentira, é servido por ministros impios e maus.»</p>
-
-<p>Pondo de parte a explicação litteraria d’esta passagem,
-nós a aplicamos ao nosso fim dizendo, que este Principe,
-que presta attenção á mentira, ou para melhor dizer, que
-é o Pae da mentira, é o diabo inimigo da verdade: seos
-officiaes abusam do povo por meio de invenções, subtilesas,
-e encantos provenientes da instigação dos demonios, como
-são os feiticeiros brazileiros, e com tal autoridade se conservam
-sem a menor contestação, embora conheçam os enganos,
-que reciprocamente empregam contra seos compatriotas.</p>
-
-<p>Estes feiticeiros não tem chefes, porem tornam-se taes,
-si os favorece a capacidade de seo espirito, de sorte
-que os que o possuem melhor, são considerados mais habeis.</p>
-
-<p>Começam muitos a aprender este officio, convidados pela
-honra e lucro, que d’elle colhem os mais espertos, porem
-poucos atingem á perfeição.</p>
-
-<p>Não encontrareis muitas aldeias, onde os principaes e os
-velhos não confessem saber alguma coisa d’elle.</p>
-
-<p>Os noviços d’essa arte estudam muito a merecer elogios,
-e d’elles dizer-se maravilhas e fazem alguma subtilesa diante
-de seos similhantes para obter fama.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_254"></a>[254]</span></p>
-
-<p>Depende seo adiantamento d’algum acaso, como por exemplo
-se predizem a chuva, e ella apparece, se sopram algum
-doente e elles recobram a saude, o que os faz muito estimados
-e respeitados como feiticeiros experientes.</p>
-
-<p>Por exemplo, sem comparação, si algum medico novo ou
-cirurgião cuidasse de um doente perdido, ou de alguma chaga
-pertinaz, e que apparecesse a saude, não tanto pela industria
-do medico, e sim pela boa naturesa coadjuvada por
-unguentos communs, não ha duvida que tal cura seria attribuida
-á sciencia e experiencia dos curadores, e se aproveitariam
-d’isto para fazer voar sua fama entre as boas
-cidades, e serem recebidos com muita distincção nas boas
-casas.</p>
-
-<p>O mesmo acontece no Brasil com estes novos feiticeiros,
-quando se restabelece o infermo depois dos seos sopros.</p>
-
-<p>Não receis que isto fique só na casa do doente, porque
-sae o feiticeirinho de aldeia em aldeia contando suas proesas,
-e triplicando-as.</p>
-
-<p>O diabo, espirito suberbo, não se communica indifferentemente
-a todos os feiticeiros; porem d’entre elles escolhem
-os mais bellos espiritos, e lhes infundem suas invenções e
-subtilesas.</p>
-
-<p>Julgae por isto. Nunca vereis os diabos fazerem grandes
-operações e communicações aos pequenos feiticeiros, e limitam-se
-apenas a dar-lhe malicia conforme o juiso e talento
-do seo espirito.</p>
-
-<p>Si pelo contrario encontram algum bello espirito, elles o
-instruem largamente de suas perversas e condemnaveis sciencias,
-que são de ordinario as nigromancias, judiarias e
-magicas. O mesmo acontece aos feiticeiros: achareis muitos
-pequenos, de que não se faz grande caso, e nem se tem
-muito medo, valendo-lhes pouco o officio: outros mais instruidos
-e mediocres, que occupam o lugar medio entre pequenos
-e grandes. Ordinariamente viajam por certas aldeias
-importunando os seos habitantes, cuidando de dansas e de
-outras coisas, que dependem do seo officio.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_255"></a>[255]</span></p>
-
-<p>Si algum seu collega apparece por ahi, elles não ficam
-contentes, mas quando é convidado algum de seos superiores
-soffrem-no com paciencia.</p>
-
-<p>Quanto mais progressos fazem nos abusos, mais graves
-se mostram: fallam pouco, buscam a solidão, evitam o mais
-que podem as companhias, com o que alcançam mais honra
-e respeito, são mais procurados depois dos Principaes, e
-estes lhes fallam com attenção ahi usada, e ninguem os
-maltrata.</p>
-
-<p>Para conservar taes honras edificam suas casas á parte,
-longe de visinhos.</p>
-
-<p>O demonio ardiloso ensina o que pratica a disciplina religiosa,
-isto é, o necessario para conservar o espirito de
-Deos, fazer sua alma capaz das suas visitas e consolações
-para o que necessario é amar a solidão e n’ella residir,
-evitando cuidadosamente o mais que é possivel a companhia
-dos homens, com o que não somente adquirireis favores
-espirituaes, mas tambem a honra e o respeito d’aquelles,
-que evitaes.</p>
-
-<p>A compleição dos homens é similhante a da honra e da
-sombra: si correis após ellas, ellas fugirão diante de vós,
-si as evitaes, ellas vos procurarão.</p>
-
-<p>Assim são os homens: sê-de com elles familiares, e sereis
-despresados; fugi d’elles, sereis respeitados.</p>
-
-<p>Por similhança este velho doutor da malicia ensina os
-seos principaes discipulos a evitar communicações, a fugir
-de tristezas e melancolias, a fugir de invenções e fantesias,
-a residir sós com suas familias com o fim de poder
-melhor imprimir em seos pensamentos os meios, pelos quaes
-quer conservar estes povos na ignorancia e superstição
-regosijando-se de vêr tantas nações presas em suas cadeias.</p>
-
-<p>Não é de hoje, e nem n’esta nação somente, que elle inverte
-os exercicios da verdadeira Religião, mas de todos os
-tempos e em todos os lugares, porque não pode ser autor,
-e sim falso imitador do verdadeiro bem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_256"></a>[256]</span></p>
-
-<p>Assim como a serpente se occulta debaixo das folhas
-para picar o segador, assim tambem elle occulta seo veneno
-e sua falsa Religião sob apparencia somente de uma imitação
-das obras de Deos.</p>
-
-<p>Dizem Plinio e Solinus, que Cerasto, serpente mortifera,
-se cobre d’areia deixando apenas de fóra os cornos afim de
-enganar os passaros com a ideia de ser comida, e quando
-se approximam, ella sahe da embuscada e os apanha.</p>
-
-<p>O Genesis compara o diabo com esta serpente <i>Cerastes in
-semita</i> «Ceraste no caminho.» Vemos isto em nossos selvagens,
-nutridos e entretidos com taes engodos, que eu não
-os acreditaria si os não visse, e si o leitor duvidar, peço-lhe
-que creia no que vou contar-lhe.</p>
-
-<p>São tão tolos estes pobres selvagens, que em relação aos
-seos feiticeiros, especialmente aos grandes, creem firmemente,
-que elles podem enviar-lhes molestias e fomes, e
-tirar-lhes tudo o que elles tem, e embora saibam os proprios
-feiticeiros, que elles todos são embusteiros, não
-julgam poder curar-se sem que passem por mãos de outros.</p>
-
-<p>Si adoece algum francez nas aldeias, seo Compadre e sua
-Comadre lhe pedem permissão para que os feiticeiros o visitem,
-o bafejem, e lhe toquem com as mãos.</p>
-
-<p>O que dirieis vós, si eu vos dissesse, que vindo visitar-me
-muitos selvagens, quando adoeci, me pediram muito affectuosamente
-licença para me trazerem seos feiticeiros afim
-de me bafejarem, e apalparem-me, sem o que, asseguravam-me,
-eu não ficaria bom?</p>
-
-<p>O grande <i>Thion</i> adoecendo apenas chegou do <i>Mearim</i>
-ao Fórte de S. Luiz, pensou, e por muito tempo acreditou
-ser isto devido a ameaça do Principal-feiticeiro da sua terra,
-que pretendia seduzir e impedir esses povos <i>Mearinenses</i>
-de virem á Ilha, logrando vêr muitos com elle ficarem nas
-florestas do <i>Mearim</i>.</p>
-
-<p>Tinha ameaçado <i>Thion</i> com a morte apenas aqui chegasse,
-o que não aconteceo, porque depois d’uma febre violenta<span class="pagenum"><a id="Page_257"></a>[257]</span>
-recobrou sua saude: com tudo, emquanto esteve doente,
-pensou morrer, por maiores que fossem as nossas
-advertencias de que não devia prestar credito a taes feiticeiras.</p>
-
-<p>Si estes pequenos e mediocres feiticeiros gozam de autoridade
-entre os seos, muito mais aquelles, que se chamam
-propriamente <i>Pagy-uaçú</i><a id="Nanchor_100" href="#Note_100" class="fnanchor">[100]</a> «grandes feiticeiros», porque são
-como os Soberanos d’uma Provincia, muito temidos, chegando
-a tal poder por muitas subtilesas: de ordinario tem communicação
-tacita com o diabo. Por onde passam, seguem-nos
-os povos; são graves e por isso não se communicam
-facilmente com os seos: são muito bem acompanhados quando
-vão a qualquer parte, e tem muitas mulheres, não lhes
-faltam mercadorias, julgam-se felizes seos similhantes quando
-os presenteiam, e com uma feitiçaria tiram aos seos compatriotas
-o melhor que possuem em suas caixas.</p>
-
-<p>Não descobrem suas subtilezas diante dos selvagens, e
-pelo contrario zombam delles, e muitos me contaram os
-meios, que empregaram para isto, o que ainda direi em
-lugar proprio.</p>
-
-<p><i>Japy-açú</i> e o grande feiticeiro de <i>Tapuitapera</i> tiveram
-entre si uma questão, de que resultou reciproca desconfiança.</p>
-
-<p>O grande feiticeiro mandou dizer-lhe, si elle já não se
-lembrava das molestias, que outr’ora lhe enviou, e de que
-pensou morrer a ponto de lhe pedir que as removesse, e
-si agora já não as temia?</p>
-
-<p>Estas palavras impressionaram <i>Japy-açú</i>, e julgou-se feliz
-de ter sua amisade. A questão foi por causa de uma mulher
-retida por força; porem merece ser contada esta historia
-por haver relação entre ella e o objecto de que tratamos.</p>
-
-<p>Adquirio o grande feiticeiro de <i>Tapuitapera</i> em sua Provincia
-e circumvisinhança fama e autoridade de um perfeito
-Magico, que a seu bel-prazer distribuia molestias e mortes,
-curava e dava saude, e por isso alcançou em seo paiz o<span class="pagenum"><a id="Page_258"></a>[258]</span>
-grau de Soberano Principal, e dispunha de todos á sua vontade.</p>
-
-<p><i>Japy-açú</i> mofava e zombava de tudo isto, o que sabido
-pelo outro o fez dizer, que em pouco tempo em si mesmo
-experimentaria si não tinha o poder de fazer bem ou mal
-a quem quizesse.</p>
-
-<p>Não fez <i>Japy-açú</i> caso d’isto, porem veio a fortuna proteger
-ao seo contrario fazendo com que elle cahisse doente
-muito naturalmente; pensou ser sua molestia devida ao
-feiticeiro de <i>Tapuitapéra</i>, embora a existencia do mar entre
-uma e outra Provincia, e pela força de imaginação agravou-se
-sua molestia a ponto de o julgarem á morte.</p>
-
-<p>Todos os feiticeiros e feiticeirinhos da Ilha o visitaram,
-porem nenhum lhe deo saude e afinal escolheo as melhores
-fazendas que havia e humildemente mandou a esse feiticeiro
-seo antagonista, pedindo-lhe pelos mensageiros seos parentes,
-que desse ordens á molestia para deixal-o.</p>
-
-<p>O feiticeiro tomando as mercadorias lhe mandou não sei
-que moxinifada para elle tomar, asseverando-lhe cura em
-breve tempo. <i>Japy-açu</i> acreditou, principiou pouco a pouco
-a passar melhor temendo d’ahi em diante o feiticeiro, que
-comtudo entre os seos zombava d’elle, e outras vezes o
-apontava para mais firmar sua autoridade.</p>
-
-<p>Ora como é possivel, direis vós, que appareçam e desappareçam
-as molestias por força d’imaginação e apprehensão,
-d’estes selvagens a respeito das ameaças ou dos favores de
-seos feiticeiros?</p>
-
-<p>Decida a medicina: comtudo responderei á pergunta com
-os exemplos mui communs, dos <i>Hypocondriacos</i>, ou doentes
-imaginarios, os quaes embora sãos, e bem conservados, julgam-se
-debeis e fracos, pensando cada um soffrer uma molestia
-differente.</p>
-
-<p>Fechando este artigo, eu vos faço notar que se julgam
-uns grandes feiticeiros por fazerem mal, e outros por praticarem
-o bem.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_259"></a>[259]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XI">CAPITULO XI</h3>
-
-<p class="subhead">Como falla o diabo aos feiticeiros do Brazil, suas falsas
-prophecias, idolos e sacrificios.</p>
-
-</div>
-
-<p>Diz Santo Agostinho, que o diabo insuflado por sua soberba
-quiz ser obedecido como Deos, imitando com falsidade
-em tudo e por tudo o proceder de Deos, especialmente em
-seos oraculos—<i>Diabolus est Angelus per superbiam separatus
-á Deo, qui in veritate non istetit, et doctor mendacii, etc</i>.
-«o diabo é um Anjo separado por sua soberba de Deos, que
-não quiz persistir na verdade fazendo-se assim doutor da
-mentira.»</p>
-
-<p>Vendo que Deos fallava outr’ora a seos prophetas por diversos
-modos, e a seo povo entre duas figuras de cherubins
-postas sobre a arca da alliança, quiz tambem em todos
-os tempos ter falsos prophetas, com os quaes consultava
-seos desgraçados projectos, e seos falsos oraculos proferidos
-entre diversas figuras por meio de demonios escondidos por
-ahi ou occultos ora sob a figura de uma serpente, ora de
-um touro, ora de um mocho ou gralha, e finalmente de
-uma pyramide, estatua e assim por diante.</p>
-
-<p>Advinhavam estes falsos prophetas o futuro não por espirito
-prophetico, visto não ter o diabo tal poder, e sim por
-experiencia de muito tempo, junta á subtilesa de seo espirito,
-que os faz presagiar coisas futuras pelo que vê nos homens
-e nas coisas, como bem diz Isidoro—<i>Dæmones triplici
-acumine præscientiæ vigent, scilicet, sublimitate naturæ,
-experientia temporum, revelatione superiorum potestatum</i>,
-«possuem os demonios tres subtilesas para prevêr o futuro,
-finura por naturesa, experiencia de tempo, e revelação de
-poderes superiores.»</p>
-
-<p>Deixando de parte a experiencia tão antiga dos seos procedimentos
-para com a Gentilidade, quero fazer-vos vêr o
-que ha de verdadeiro a tal respeito, visto que o diabo tem<span class="pagenum"><a id="Page_260"></a>[260]</span>
-sempre enganado, e ainda hoje, estes pobres selvagens por
-seos oraculos e predicções.</p>
-
-<p>O feiticeiro, de que ja vos fallei, recolhido ás campinas
-do Mearim, tinha em casa diabos sob a figura de pequenos
-passaros negros, que o advertiam do que deviam fazer e do
-que se passava na ilha e em outros lugares.</p>
-
-<p>Quando quiz ir a Maranhão revelaram-lhe estes passaros
-por occasião de andar passeiando nas suas roças, que cedo
-chegariam os Tapuyas, e destruiriam seo milho e suas raizes,
-mas que nenhum mal succederia nem a elle, nem aos seos,
-e assim aconteceo, porque vindo os Tapuyas de mansinho
-para sorprehendel-o, ouviram grande matinada na casa do
-feiticeiro, e por isso não se animaram a atacar, receiando
-superioridade de defensores, contentando-se com carregar
-os milhos e raizes, e assim se foram.</p>
-
-<p>Estes mesmos passaros, ou os diabos sob tal forma, ordenaram
-a este feiticeiro, que fosse á ilha do Maranhão, fazer
-suas feitiçarias, e convidar os que quizessem deixar a ilha
-para vir ahi residir devendo desembarcar no porto de <i>Taperussu</i>,
-isto é, na aldeia dos animaes gordos, n’uma das
-extremidades do Maranhão, sendo-lhe absolutamente prohibido
-aproximar-se do lugar onde moravam os padres, o que
-cumprio pontualmente.</p>
-
-<p>Nunca poude vir ahi nos vêr, apesar de toda a segurança
-que lhe promettiamos. Dizia que seos espiritos nos temiam,
-e se lhes desobedecessem, suas roças ficariam por fazer,
-não trabalharia mais, e perderia o poder, que tinha entre os
-seos, que seos espiritos lhe haviam aconselhado de retirar-se
-do Maranhão antes de nós lá chegarmos afim de continuarem
-á viver com elle tão pacificamente como até hoje.</p>
-
-<p>Estes e outros factos contava elle aos habitantes de <i>Taperussu</i>,
-que em parte lhe prestavam credito, pois n’essa
-occasião muitas mulheres se agarravam ás suas pernas, chorando
-e gritando, pedindo-lhe para que não deixasse o seo
-paiz, e nem fosse para <i>Yuiret</i>, onde estavamos, principalmente<span class="pagenum"><a id="Page_261"></a>[261]</span>
-porque lhe fora isso prohibido pelos espiritos, e se fizesse
-o contrario succeder-lhe-hia mal.</p>
-
-<p>Considerae, leitor, a maldade, e o temor d’estes demonios,
-maldade para impedir que se cheguem os homens á
-luz da verdade, ficando sempre obedientes ás trevas da infidelidade.</p>
-
-<p>É proprio da malicia fugir da claridade com medo de serem
-descobertas suas maldades, e sua autoridade destruida.</p>
-
-<p>O temor, que elles tem, dos servos de Deos, em cuja presença
-não se podem sustentar, bem como o mocho diante
-dos raios do sol, e os sapos á vista da flor e cheiro da vinha,
-mostra quam grande é o poder de Deos, dado á sua
-igreja contra a potestade do inferno.</p>
-
-<p>Prosigamos.</p>
-
-<p>Dois principaes feiticeiros governavam duas nações de <i>Tabajares</i>,
-inimigas reciprocas, das quaes abusavam dizendo
-que tinham repetidas conferencias com os diabos tomando
-a figura de diversos passaros.</p>
-
-<p>O feiticeiro do lado de Thion, mau e desgraçado (que
-nunca quiz vir á ilha, e que della desviava seos similhantes
-o mais que podia) criava em sua casa um morcego, a
-que chamava <i>Endura</i>, que lhe fallava em voz humana em
-lingua dos <i>Tupinambás</i>, algumas vezes tão alto, que podia
-ser ouvido á seis passos de distancia, não distincta, porem
-confusamente e com timbre infantil.</p>
-
-<p>Respondia-lhe o selvagem ficando só em sua casa, porque
-despedia a todos quando percebia que elle lhe queria
-fallar.</p>
-
-<p>Quando os nossos la foram afim de preparar os selvagens
-a sahir do seo paiz para a ilha, instigou-se a curiosidade
-de alguns francezes, que tinham ouvido dizer maravilhas
-d’este feiticeiro, e pediram a seos compadres que lhes
-dissessem o que percebessem do colloquio d’elle com o morcego,
-e para isso aproximaram-se de mansinho da morada
-d’elle a ponto de ouvirem perfeitamente a voz de ambos, e<span class="pagenum"><a id="Page_262"></a>[262]</span>
-querendo chegar mais perto foram descobertos pelo feiticeiro,
-e retirou-se o morcego.</p>
-
-<p>Chamou-os o feiticeiro, sem zangar-se, fel-os entrar em
-sua casa, e perguntou-lhes o que queriam e porque estavam
-a escutar?</p>
-
-<p>Responderam-lhes os francezes, que tinham ouvido dizer
-aos selvagens seos similhantes, que ahi havia uma communicação
-visivel e familiar com <i>Jeropary</i>, que d’ella desejavam
-vêr alguma coisa, e eis porque se tinham aproximado,
-e ouvido distinctamente duas vozes, a sua e uma outra mais
-doce e clara.</p>
-
-<p>É verdade, disse elle, eu fallava agora com o meo morcego,
-que me veio dizer maravilhas e grandes novidades,
-como sejam guerra em França, e que os <i>Caraibas</i> do Maranhão
-não estavam onde pensavam, que de nada me assustasse,
-e ficasse com elle n’esta terra não acompanhando á
-ilha meos compatriotas, que aqui não ficariamos muito tempo,
-porque os francezes regressariam á sua patria, e que muitos
-selvagens de <i>Tapuitapéra</i> tinham fugido para o matto.</p>
-
-<p>Perguntaram-lhes os francezes como elle criava e sustentava
-este morcego?</p>
-
-<p>Respondeo, que um dia seo espirito, em quanto elle estava
-só, lhe disse que de ora em diante lhe fallaria sob a
-figura de tão feio animal, e que por isso lhe havia preparado
-um quarto em sua casa, onde dormiria e descançaria,
-comendo do que elle comesse, e quando quizesse fallar-lhe,
-que elle o ouviria e responderia: que este espirito tambem
-quando quizesse communicar-lhe alguma coisa de novo o
-chamaria por seo nome, e com elle fallaria na casa ou no
-bosque, e mandou o feiticeiro fazer-lhe um ninho para recolher-se,
-e com elle sempre fallava sob a forma de morcego.</p>
-
-<p>Dizendo isto mostrou um dos cantos da sua casa, onde
-estava o ninho feito de folhas de palmeira: ahi, disse, vem
-elle comigo conversar, discorremos como dois iguaes, e come
-o que lhe dou.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_263"></a>[263]</span></p>
-
-<p>Não posso deixar de notar as particularidades seguintes:</p>
-
-<p>1.ª Porque o diabo antes quiz tomar a forma de um morcego
-do que a de outro qualquer passaro.</p>
-
-<p>2.ª Como o diabo imita a voz humana.</p>
-
-<p>3.ª Da verdade d’estas novidades em França, e como é
-possivel, que saiba o diabo o que se passa no mundo.</p>
-
-<p>4.ª Porque razão comia carne.</p>
-
-<p>5.ª Da localidade por elle escolhida para discorrer com o
-seo Magico.</p>
-
-<p>Para satisfazer a primeira, dizemos, que o axioma dos
-philosophos—<i>todos procuram seos similhantes</i>, é uma verdade
-provada quer nas coisas physicas, quer nas sobrenaturaes,
-porque o diabo, que por sua soberba se fez espirito
-immundo, busca de ordinario tomar as formas mais horriveis
-e immundas, que pode ser, para communicar-se com
-seos bons servos e amigos.</p>
-
-<p>Bem sei o que disse S. Paulo—<i>Ipse enim Sathanas transfigurat
-se in Angelum lucis</i> «que Satanaz, transformado em
-camaleão, para seduzir os tolos, toma a forma de um Anjo
-de luz», isto é, reveste-se de bellas figuras, ou profere boas
-palavras para melhor fazer seo jogo.</p>
-
-<p>As bonitas formas de mulheres e raparigas, que elle toma
-para melhor attrahir os homens luxuriosos, não tem outro
-motivo senão o desejo de chamar a si os individuos conforme
-sua inclinação.</p>
-
-<p>Diz S. Thomaz, que por este motivo, não pode o diabo
-aborrecer naturalmente os Anjos felizes, porque tem parte
-na natureza d’elles, sendo impossivel amal-os em relação á
-justiça dos Anjos, e injustiça dos diabos.</p>
-
-<p>D’esta conclusão deduso duas inclinações dos demonios:
-uma natural com que amam as coisas boas, ou pelo menos
-não as podem aborrecer, e a outra é proveniente da culpa
-e da soberba, com que procuram coisas immundas e abominaveis,
-e não podem proceder de diverso modo porque
-gostam da perversão do appetite, por culpa da natureza.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_264"></a>[264]</span></p>
-
-<p>Dizemos por isto em lingua vulgar, que o diabo horrorisa-se
-das torpesas e maldades, a que leva o homem a praticar
-por suas instigações, o que entendereis conforme a distincção
-da naturesa e a culpa do diabo.</p>
-
-<p>Eis uma das principaes causas, porque este cruel Behemot
-toma a figura de morcego, a que accrescento outra tirada
-de uma propriedade peculiar aos morcegos, qual a destes
-maus passaros nocturnos, muito mais horriveis e maiores
-do que os de França procurarem as pessoas que estão deitadas
-e dormindo,<a id="Nanchor_101" href="#Note_101" class="fnanchor">[101]</a> e lhe arrancarem um pedaço de carne e
-depois lhe chuparem muito sangue sem que se desperte a
-victima, porque tem a propriedade de conservar o homem
-adormecido emquanto lhe chupam o sangue: achando-se fartos
-o deixam, continuando o sangue a correr, e por isto
-fica debil a pessoa, e por muitos dias anda com difficuldade.</p>
-
-<p>Melhor escolha não podia fazer Satanaz para representar
-sua naturesa e crueldade porque anda a noite, e sob as trevas
-da ignorancia procura os homens adormecidos e si delicia
-nas suas carnes, tirando-lhe a inclinação natural que
-tem para com Deos, e procura meios de sugar á sua vontade
-o sangue, instrumento da vida, as affeições e paixões
-dos seos captivos para tornal-os fracos e impotentes em fazer
-o bem e procurar sua salvação.</p>
-
-<p>2.º Consiste a 2ª dificuldade na imitação da voz humana
-pelo diabo, não tendo orgãos e nem lingua para fazel-o.</p>
-
-<p>Sua palavra é apenas a manifestação de seo desejo e
-vontade quando falla aos outros diabos, seos companheiros,
-e aos homens pelas impressões fantasticas, que faz as suas
-imaginações.</p>
-
-<p>Comtudo nos ensina a Santa Escriptura, que elle servio-se
-da lingua da serpente para seduzir nossa primeira mãe, permittindo
-Deos, porque não tem poder na creatura, em quanto
-fraca e indigente, sem licença de Deos, e com ella pode
-crear um corpo no ar, e articular em qualquer lingua até
-mesmo nas desconhecidas suas affeições e desejos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_265"></a>[265]</span></p>
-
-<p>Ponho de parte mil outros modos, pelos quaes manifesta
-seos desejos aos feiticeiros, por não ser nosso proposito.</p>
-
-<p>3.º Notamos as noticias, que deo dos motins havidos era
-França, isto é, d’esta ultima leva de soldados, e como poude
-ser isto.</p>
-
-<p>Direi com Santo Agostinho, que os demonios excedem
-em ligeiresa todo o corpo existente na maquina do mundo,
-nada havendo que possa com elles competir em velocidade.</p>
-
-<p>Em 24 horas fez o primeiro movel este grande curso em
-torno das abobadas inferiores, espaço superior aos calculos
-dos mathematicos, de tal modo que dentro d’uma hora vence
-não sei quantas mil legoas.</p>
-
-<p>Calculae agora a ligeiresa d’estes espiritos, que em poucos
-momentos giram ao redor do universo, sabendo e vendo
-o que por elle se passa, e conjecturando o que se pode predizer
-das coisas futuras: si tão ligeiros fossem os correios,
-á cada hora receberiamos noticias de todas as partes.</p>
-
-<p>4.º Usava de carne, dado o caso de ser verdadeira a existencia
-d’este morcego, de que se servia o diabo, e por tanto
-tinha necessidade de nutrir-se, e si fosse apenas parto de
-imaginação não tinha precisão de carne para viver.</p>
-
-<p>Não obstante tudo isto, tem sempre sido costume do demonio
-comer e beber apparentemente em companhia do seos
-mais dedicados servos, imitando assim o exemplo dos anjos
-bons do antigo Testamento, que comiam com Abraham, Loth,
-Tobias e outros.</p>
-
-<p>5.º A situação do logar procurado por este espirito, isto
-é, os bosques, o concavo das arvores, ou o recanto de alguma
-casa solitaria, nos faz ver a inclinação, que tem estes
-espiritos rebeldes a fazerem, como os condemnados, suas moradias
-em logares escuros e desertos, tristes e melancolicos,
-temendo, se assim se pode dizer, a luz creada, e a doçura
-da harmonia.</p>
-
-<p>Acha-se isto em prova na pessoa de Saul, possesso, sendo
-aplacado pelo som da harpa de David.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_266"></a>[266]</span></p>
-
-<p>Asmodeo foi preso pelo anjo Raphael no fundo do deserto,
-e Satanaz pelo anjo do Apocalypse no fundo dos abysmos.</p>
-
-<p>Este pobre, victima de legiões diabolicas, que Jesus-Christo
-livrou, dia e noite morava nos sepulchros dos defuntos.</p>
-
-<p>Fingiam os antigos, que Cerberas, tirado do inferno, apenas
-vio a brilhante luz do sol principiou a vomitar Aconite,
-até que lhe foi permittido regressar ás suas cavernas tenebrosas.</p>
-
-<p>Diga-se isto em relação ao feiticeiro da aldeia do grande
-<i>Thion</i>.</p>
-
-<p>Quanto ao <i>Pagy-uassu</i>, das aldeias de <i>farinha molhada</i>,
-prevenio aos seos, alguns mezes antes, da chegada dos francezes,
-que breve chegavam os <i>Caraybas</i>, trazendo-lhes mercadorias,
-sendo para notar, que ignoravam a estada dos
-francezes na <i>Ilha do Maranhão</i>.</p>
-
-<p>Com tal aviso vestiram-se uns de camisas, e outros de diversos
-factos do tempo, que outr’ora com elles moravam os
-francezes.</p>
-
-<p>Assim vestidos foram ter com os habitantes das aldeias
-de <i>Thion</i>, e para assustal-os lhes disseram—«entregae-vos
-á nós, porque os francezes estão comnosco; olhae as roupas
-que nos deram.»</p>
-
-<p>Estas palavras intimidaram muito a <i>Thion</i> e os seos, e pensavam
-em fugir quando chegaram os enviados dos francezes
-dizendo-lhes, que estes os veriam ver logo que elles
-mandassem suas embaixadas á ilha.</p>
-
-<p>Por isto podeis ver, quanto o astucioso Satanaz dava poderes
-a estes <i>pagys</i>, fazendo-lhes prever coisas futuras.</p>
-
-<p>Sua astucia porem não é tão grande, relativamente á predicção,
-porque via o esforço dos francezes visitando os povos
-visinhos, e tambem o desejo e a resolução de ir procurar
-essas nações, onde se achassem, e por tanto este bom
-criado advertio seo senhor.</p>
-
-<p>Usam os diabos de outra maneira de fallar e de communicar-se
-com os diabos e com os feiticeiros d’este paiz, a saber,<span class="pagenum"><a id="Page_267"></a>[267]</span>
-fazem um buraco em terra, dentro de casas longinquas,
-deitam-se de bruços os feiticeiros, mettem a cabeça no buraco,
-fecham os olhos, perguntam ao demonio o que querem,
-e do fundo do buraco estes lhes respondem.</p>
-
-<p>Este uso era muito trivial na Gentilidade, e deixando as
-historias profanas vou referir-me ao que está escripto no livro
-1º dos Reys, cap. 28 quando Saul foi consultar a feiticeira
-de Endor, a qual curvando-se em terra, metendo a
-cabeça e o rosto n’um buraco, fazendo suas invocações,
-disse—<i>Deos vidi ascendentes de terra</i>—«vi Deoses subindo
-da terra.»</p>
-
-<p>Não é sem fundamento, que ella escreveo e servio-se
-d’estas palavras—<i>vi deoses</i>, a menos, que estas feitiçarias
-não tivessem poder e força para fazer apparecer alguns diabos,
-mas quiz Deos, que a propria alma de Samuel acudisse
-á sua palavra afim de prophetisar a ultima desgraça de
-Saul, que em suas necessidades havia recorrido aos adevinhos
-e feiticeiros.</p>
-
-<p>Soube de alguns francezes, moradores na aldeia de <i>Vsaap</i>,
-que um feiticeiro d’ahi era mui respeitado e temido
-pelos selvagens, por ser geral a crença delle fallar com toda
-a liberdade com o diabo, pela maneira ja dita, e por isso
-não se atreviam a aproximar-se de sua casa quando viam
-a porta fechada receiando tal colloquio.</p>
-
-<p>Havia tambem na Ilha uma velha feiticeira, que guardava-se
-muito em segredo: era mui apreciada pelos selvagens
-e procurada especialmente nas molestias incuraveis; quando
-todos os feiticeiros já não sabiam o que haviam fazer, então
-ella era convidada, e trazida com segurança, porem sempre
-occulta.</p>
-
-<p>N’um dia, segundo o que me disseram alguns francezes,
-ella veio a <i>Vsaap</i> para fazer uma cura, já sem esperança,
-e, antes de começar fechou-se n’uma casa, isolada no meio
-da praça da aldeia, e ahi fez suas invocações e feitiçarias
-diabolicas sobre o corpo do infermo, fazendo apparecer visivelmente
-o seo demonio.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_268"></a>[268]</span></p>
-
-<p>Os francezes, que isto me contaram, tiveram desejos de
-espiar o que fazia esta feiticeira, porem os selvagens os embaraçaram
-o mais que poderam, asseverando-lhes serem perigosos
-e maus os espiritos d’esta mulher, de fórma que na
-seguinte noite torceriam o pescoço de quem os espiasse.</p>
-
-<p>Zombaram os francezes, e foram de muito boa vontade á
-essa casa, com grande admiração dos selvagens, que os
-julgavam atrevidos e presumpçosos, e fazendo um buraco
-na parede de palha viram as gesticulações d’essa mulher e
-notaram não sei que de monstruoso ao redor d’ella, não podendo
-destinguir o que era, e assim se retiraram.</p>
-
-<p>Em quanto estive doente, muitas pessoas me fallaram d’esta
-desgraçada creatura com grandes gabos e estima, como infallivel
-em dar saude aos que lh’a pediam. Bem podeis calcular
-si me agradavam taes palavras.</p>
-
-<p>Fallaram-me tambem de certos barbeiros d’aquelles paizes,
-que habitavam em choupanas nos bosques, onde iam consultar
-seos espiritos.</p>
-
-<p>Na verdade, é frequente na Ilha e nos paizes visinhos
-edificarem os feiticeiros pequenas choupanas de palha em
-lugares longinquos nos mattos: ahi collocam pequenos idolos
-de cera ou de madeira em forma humana,<a id="Nanchor_102" href="#Note_102" class="fnanchor">[102]</a> uns maiores,
-outros menores, porem os maiores não tem mais que um
-covado. Ali em certos dias vão elles levando comsigo fogo,
-agoa, carne ou peixe, farinha, milho, legumes, pennas de
-côr e flôres. D’estas carnes fazem uma especie de sacrificio
-a esses idolos queimam resinas cheirosas, enfeitam-nos com
-pennas e flores, e ahi se demoram muito tempo sosinhos:
-crê-se que era a communicação d’estes espiritos.</p>
-
-<p>Crescia este mau costume, e estendia-se as aldeias visinhas
-de <i>Juniparan</i>, onde morava o Revd. Padre Arsenio
-a ponto d’elle encontrar estes idolos de cera na visinhança
-dos bosques e algumas vezes nas proprias casas.</p>
-
-<p>Livrou-se d’elles por meio d’exorcismos, que fez em sua
-Capella contra estes diabos tão insolentes como atrevidos, e
-depois não ouvi mais fallar n’isto.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_269"></a>[269]</span></p>
-
-<p>Considerae agora a presumpção de Satanaz, que em todos
-os lugares, e em todas as nações, quando póde, se faz conhecido
-por alguma especie de adoração e sacrificio por saber,
-que nenhuma religião boa ou má, pode existir sem algum
-sacrificio e representação da coisa adorada.</p>
-
-<p>Eis porque elle inventou os idolos em lugar das verdadeiras
-imagens, que Deos mandou levantar no tabernaculo,
-e depois no templo de Salomão.</p>
-
-<p>Em vez dos verdadeiros sacrificios, que Deos estabelecia
-na sua lei, procurou este espirito soberbo ter altares
-e sacrificios de toda a especie de animaes e fructos
-da terra.</p>
-
-<p>Comquanto esta nação de selvagens não tivesse perante
-o publico algumas ceremonias de religião, nem préces e nem
-orações, comtudo em particular estes feiticeiros serviam ao
-diabo, como ja disse.</p>
-
-<p>Para acabar, direi que acreditavam estas pessoas em espiritos
-particulares, até mesmo francezes.</p>
-
-<p>Vou dar-vos exemplos.</p>
-
-<p>Quando o Sr. de la Ravardiere, depois da guerra dos <i>Camarapins</i>,
-regressava do Pará, advertio-lhe uma mulher
-que fora resolvida a sua morte, bem como a de todos os
-francezes e <i>Tupinambás</i>, que o acompanhavam, pelos selvagens
-d’aldeia, onde estava alojado.</p>
-
-<p>Fez-se tudo quanto foi possivel para descobrir-se a verdade,
-porem todos negaram e nada confessaram.</p>
-
-<p>Fizeram crer aos selvagens d’aquelles lugares, que no relogio
-d’algibeira, que trasia o Sr. de la Ravardiere, havia
-um <i>espirito</i> escondido, que dava movimento ao que se via
-por dentro e por fóra, e que aos francezes revellava as coisas
-mais secretas.</p>
-
-<p>Fez-se vir ao chefe, ao qual se disse, que se o ponteiro
-do relogio chegasse a tal ponto do quadrante, que fallava a
-verdade o <i>espirito</i>, e por isso acrescentaram—leva-o comtigo
-e guarda-o até ahi chegar o ponteiro, e vem antes do
-nosso <i>espirito</i> e conta-nos tudo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_270"></a>[270]</span></p>
-
-<p>Pegou do relogio e levou-o para sua casa, e vendo que
-elle caminhava sempre para diante, acreditou facilmente no
-espirito dos francezes, que imprimia tal movimento, e não
-esperou que chegasse ao fim prescripto, voltou, declarou tudo
-e restituio o relogio.</p>
-
-<p>O capitão d’um navio de guerra deo-nos uma bella imagem,
-tomada de um navio portuguez, que ia para Pernambuco.</p>
-
-<p>Por acaso mandei guardar essa imagem, na hora em que
-a recebi, n’uma das caixas, que tinha em nosso quarto, e
-n’esse mesmo momento vieram muitas mulheres indias á
-nossa casa, e vendo a imagem muito bem esculpida, pintada
-com diversas cores sobre fundo de oiro, admiraram-se e não
-queriam entrar, dizendo—<i>Y anaité asse quege seta?</i> «que coisa
-nova é esta que nos olha tão vivamente? Ella nos faz medo.»
-Fil-os entrar dizendo-lhes que não tivessem medo, e que era
-uma imagem dos servos de Deos. Admirei-me de vel-os immediatamente
-prostrados a seos pés chorando sua boa vinda,
-e depois me perguntaram que carne ella comia para irem
-buscal-a. Ri-me de tal simplicidade, e colloquei a imagem na
-Capella de Sam Francisco.</p>
-
-<p>Coisa igual aconteceo a um <i>Tabajare</i>, muito simples,
-vendo da porta da Capella de S. Luiz um bello crucifixo,
-que dentro estava. Não me foi possivel fazel-o entrar na
-Capella, e dizia ao interprete. «Elle me olha vivamente,
-está vivo sem duvida, tenho medo d’entrar não sendo baptisado
-porque me faz mal.»</p>
-
-<p>Fizeram o mesmo muitos outros, porem tomando o crucifixo
-em meos braços, fiz-lhes vêr que elle era de madeira,
-representando com tal forma o que Jesus Christo por nós
-soffreo.</p>
-
-<p>Eis o resultado da superstição, como eu já disse, que entre
-elles derramaram seos feiticeiros, tanto á respeito de
-seos idolos, como de seos espiritos.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_271"></a>[271]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XII">CAPITULO XII</h3>
-
-<p class="subhead">De algumas outras ceremonias diabolicas praticadas
-pelos feiticeiros do Brazil.</p>
-
-</div>
-
-<p>Sentiria muito este Principe se deixasse intacta alguma
-coisa no serviço de Deos, sem procurar imital-a falsamente,
-e sem buscar introduzil-a no culto supersticioso de sua soberba.</p>
-
-<p>Outr’ora Deos no Antigo Testamento instituio as agoas da
-Purificação, feitas e compostas de diversas materias e differentes
-ceremonias, conforme o fim e objecto, a que se
-destinavam, tanto para purificar os homens, os vasos, e os
-utensilios do Templo, como os vestidos, as casas e todos os
-moveis.</p>
-
-<p>Por imitação instituio este demonio as agoas de lustração,
-das quaes se serviam os pagãos para diversos fins, bem
-como os judeos, lavando e aspergindo com ellas os homens
-antes dos sacrificios, os utencilios dos templos dos idolos,
-as casas, os vestidos e moveis dos infieis.</p>
-
-<p>Vejamos se esqueceo-se esta desgraçada serpente d’illudir
-nossos selvagens com taes superstições.</p>
-
-<p>Quando outros exemplos não podessemos produzir alem
-do já referido no <i>Tratado do Temporal</i>, das nigromancias
-feitas pelo feiticeiro, vindo dos campos do Mearim, bastava
-só esse para demonstrar claramente as loucuras e abusos,
-que semeára este antigo enganador entre os povos, em relação
-ao nosso fim.</p>
-
-<p>Como soube, da propria bocca dos feiticeiros, de muitas
-particularidades, que faziam para illudir estas gentes, não
-quero privar o leitor de as conhecer.</p>
-
-<p>È costume dos <i>Pagys-uaçus</i> celebrarem, em certa epoca
-do anno, lustrações publicas,<a id="Nanchor_103" href="#Note_103" class="fnanchor">[103]</a> isto é, purificações supersticiosas
-por aspersão d’agoa sobre os selvagens, e bem que
-tudo dependa de sua imaginação, fazendo á capricho taes
-oblações, comtudo de ordinario enchem d’agoa grandes potes<span class="pagenum"><a id="Page_272"></a>[272]</span>
-de barro, proferindo em segredo algumas palavras sobre
-elles, deitando tambem fumaças de <i>Petum</i>, e misturando
-tambem um pouco de pó da casa, em que se acham, punham-se
-a dançar, e depois o feiticeiro toma um ramo de
-palha, mete dentro do pote, e com elle asperge a companhia.</p>
-
-<p>Feito isto, toma cada um a porção d’agua que quer nas
-<i>cuias</i>, ou tigellas de madeira, e com ella lavam a si e a
-seos filhos.</p>
-
-<p><i>Pacamão</i>, grande feiticeiro de <i>Commã</i>,<a id="Nanchor_104" href="#Note_104" class="fnanchor">[104]</a> contou-me um
-dia, que faria sahir agoa da terra, com que lavava estas
-gentes, com grande admiração de todos os barbaros, que
-viam sahir tão fresquinha essa agua do meio de sua casa,
-e a tomavam como si fosse milagrosamente enviada pelos
-espiritos, mas o astucioso tinha enchido d’agoa um grande
-vaso e mettendo-o em terra d’elle fazia sahir agoa por meio
-de tubos ou canaes, ou tabocas, que em abundancia se
-encontram nas mattas do Brasil, e d’esta forma illudia os
-seos.</p>
-
-<p>Aos gentios tinha o diabo communicado muitas ideias erroneas
-á respeito das agoas, das fontes, e dos regatos. N’umas
-habitavam Nymphas, e n’outras deosas: estas faziam
-uma coisa, e aquellas—outras; umas eram perigosas e enganadoras,
-outras agradaveis e sinceras; umas sagradas, e outras
-profanas.</p>
-
-<p>Quando os selvagens vêem certa especie de lagartos, parecidos
-com os venenosos de diversas cores, correr para
-agoa, pensam supersticiosamente, que essa fonte é prejudicial
-ás mulheres, e que d’ella bebe <i>Jeropary</i>.</p>
-
-<p>Sabendo desta superstição para livrar-me do encommodo
-que me davam as mulheres vindo lavar-se na fonte do nosso
-logar de Sam Francisco, fiz correr o boato, que lá haviam
-sardões, e depois d’isto nenhuma mais se animou a ir ahi
-excepto as escravas do Forte, que não tinham licença de
-lavar-se na fonte, e d’est’arte tive o prazer de mandar<span class="pagenum"><a id="Page_273"></a>[273]</span>
-amural-a e fechar á chave, afim de conservar a agoa sempre
-limpa.</p>
-
-<p>Chega esta superstição a ponto de acreditarem, que estes
-lagartos atiram-se ás mulheres, adormecem-nas, e gozam-nas,
-ficando grávidas, e parindo lagartos em vez de crianças.</p>
-
-<p>Eis porque, quando mandei espalhar tal boato, vinham as
-escravas do Forte em bandos, armadas de cacetes, de facas,
-e de outros instrumentos iguaes para se defenderem, diziam
-ellas, d’estes lagartos, o que motivaram muito riso a nós
-outros, os francezes.</p>
-
-<p>Alem das agoas de lustrações, e diabolicas abluções praticadas
-por estes feiticeiros tem uma maneira particular de
-communicar seo espirito aos outros, isto é, por meio da herva
-<i>Petun</i> introdusida n’um caniço, de que elles pucham a
-fumaça, lançando-a sobre os circunstantes ou soprando-a
-mesmo na canna, exhortando-os a receber seo espirito e sua
-virtude.</p>
-
-<p>Parece que este cautelloso dragão quer com tal ceremonia
-falsa imitar Jesus Christo quando deo seo espirito aos
-Apostolos, e o seo poder aos seos successores para transmitil-o
-aos iniciados nas ordens sagradas. Assim se lê em São
-João—<i>Insufflavit et dixit eis, accipite Spiritum Sanctum</i>:
-«soprou sobre elles, e lhes disse—Recebei o Espirito Santo.»</p>
-
-<p>D’onde estes feiticeiros tirariam esta ceremonia satanica,
-si o diabo não lh’as tivesse mostrado? Achando-se sempre
-fechados n’esta grande e vasta região do Brasil, sem communicação
-alguma com o velho mundo, não podiam aprendel-a
-de outra nação.</p>
-
-<p>Estes bafejos lhes são muito particulares, como ceremonia
-necessaria para curar os infermos, porque vós os vedes puchar
-pela bocca, como podem, o mal, dizem elles, do paciente,
-fazendo-o passar para a bocca e garganta d’elle, inchando
-muito as bochechas, e deixando d’ellas sahir de um
-só jacto o vento ahi contido, causando estampido igual ao
-de um tiro de pistola, e escarrando com grande força dizendo<span class="pagenum"><a id="Page_274"></a>[274]</span>
-ser o mal, que haviam chupado, e fazendo acreditar ao
-doente.</p>
-
-<p>Á este respeito o Sr. de Pezieux e eu passamos um dia
-alegre na aldeia de <i>Vsaap</i>.</p>
-
-<p>Um pobre moço selvagem estava atacado pela colica do
-paiz.</p>
-
-<p>Veio um d’estes feiticeiros exercer sua attração de espirito
-sobre o seo ventre, fazendo muitos tregeitos, e retrahindo-se
-por diversas vezes vendo-nos prestar-lhe muita attenção,
-e apesar de tudo isto o doente continuava a gritar.
-Veio o feiticeiro depois procurar-nos e mostrando-nos dois
-outros pregos nos disse—«eis o que lhe tirei do ventre, cujos
-intestinos estão cheios d’isto, é preciso tiral-os um por
-um. Si eu não os tirasse todos, lhe cravariam as tripas e a
-garganta.»</p>
-
-<p>Imbuio a este moço, sempre gritando, que lhe tinha tirado
-do ventre esses pregos.</p>
-
-<p>Si essas casas fossem cobertas de ardosias, penso que
-meteria na cabeça d’esse rapaz ter elle comido as ripas e
-os pregos; mas não sendo communs entre elles pregos de
-ferro, não sei como poude illudir os assistentes com tal loucura.</p>
-
-<p>Poderia referir muitos outros exemplos, porem bastam-me
-estes ao meo fim.</p>
-
-<p>Ora si é coisa digna de admiração vêr o Espirito Infernal
-em tudo quanto acabamos de dizer até aqui, muito
-maior deve ser o nosso espanto pelo que vou dizer, isto é,
-pela existencia da confissão auricular entre os selvagens.</p>
-
-<p>Nada digo que não ouvisse da bocca de <i>Pacamão</i>, de
-outros selvagens e dos franceses.</p>
-
-<p>O grande <i>Pagy</i>, na sua provincia de <i>Commã</i>, ia visitar,
-quando lhe aprasia, as aldeias do seo dominio, ordenando
-que todos fossem confessar-se com elle, especialmente as
-mulheres e as raparigas, e quando encontrava alguma que
-se recusava a dizer tudo, elle a ameaçava com o seo <i>espirito</i>,
-que as havia de atormentar, e tinha muita finura para<span class="pagenum"><a id="Page_275"></a>[275]</span>
-reconhecer si occultavam ou não alguma coisa. Dava-lhes
-depois não sei que especie de absolvição, e contava tal feito
-d’esta e d’aquella, e apesar de tudo isto sempre exerceo seo
-officio de confessar até nossa chegada.</p>
-
-<p>Pensae, eu vos peço, quem lhe ensinaria esta maneira
-de confissão auricular, de ameaçar seos similhantes, no caso
-de occultarem alguma coisa com o seo <i>espirito</i>, que os castigaria,
-e que os absolveria, se tudo confessassem?</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XIII">CAPITULO XIII</h3>
-
-<p class="subhead">Claros signaes do reino do diabo no Maranhão.</p>
-
-</div>
-
-<p>O Salvador do Mundo em S. Marcos, antes de subir á direita
-de seo Pae, encarregou a seos Apostolos e discipulos
-de irem pelo universo converter os infieis assegurando-lhes
-por certos indicios e signaes a proxima ruina do imperio
-dos demonios, a saber—<i>signa eos qui crediderint hæc sequentur:
-In nomine meo dæmonia ejicient, linguis loquentur
-novis, serpentes tollent, et si mortiferum quid biberint,
-non eis nocebit. Super ægros manus imponent et bene habebunt</i>:
-«estes signaes seguiram os crentes, em meu nome
-expellirão o diabo, fallarão novas lingoas, desviarão as serpentes,
-e si beberem algum veneno mortifero nada soffrerão.»</p>
-
-<p>Para bem entender-se estas palavras, convem notar com
-os padres e doutores, que foram postas litteralmente em pratica
-pelos primeiros christãos, quando na primeira idade da
-igreja era preciso combater a obstinação dos judeos e a
-louca sabedoria dos gentios.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_276"></a>[276]</span></p>
-
-<p>Depois que estendeo-se a fé por todo o universo, que foi
-por todos condemnada a pertinacia dos judeos e tida por
-vaidade a sabedoria humana, não foi mais necessario observar
-litteralmente estes signaes na conversão dos incredulos
-e sim unicamente a pratica allegorica e mistica.</p>
-
-<p>Eis o que desejamos mostrar n’este capitulo ter-se feito
-todos os dias em Maranhão.</p>
-
-<p>Primeiramente elle disse—<i>In nomine meo dæmonia ejicient</i>:
-«em meo nome elles expellirão os demonios.»</p>
-
-<p>Em dois annos que estive em Maranhão, vi isto cumprido
-por diversas formas, por que os diabos fizeram apparecer realmente
-o medo e o temor que tinham do nome de Deos,
-procurando por todos os meios embaraçar nossa missão, já
-persuadindo seos feiticeiros, mais fieis, a ordenar as nações
-sobre que tinham poder, de não se aproximarem de nós, já
-infundindo-lhes terror com o signal da Cruz e excitando-os a
-arrancar os que existiam, dando maus exemplos com ridicularisar
-o que sanctamente ensinavamos a estes barbaros,
-intimidando por muitas vezes os habitantes de <i>Maranhão</i>,
-<i>Tapuitapéra</i>, <i>Commã</i>, <i>Caetés</i>, <i>Pará</i> e <i>Mearim</i> e fazendo-os
-fugir para os matos e logares desconhecidos com receio de
-serem presos e captivados pelos francezes ou pelos portuguezes.</p>
-
-<p>Finalmente mostrou-se tudo de forma diversa, porque
-quando julgavamos tudo perdido, foi quando Deos mostrou
-o poder do seo nome, conservando não só estes selvagens
-junto de nós, mas tambem fazendo com que despresassem
-seos feiticeiros e o poder do diabo, fazendo fugir <i>Jeropary</i>,
-com o nome de Deos, e a ablução de Jesus Christo.</p>
-
-<p>Vou mostrar bons exemplos.</p>
-
-<p>Lembrar-vos-heis do que acima vos disse tanto dos feiticeiros
-dos campos do Mearim e das habitações de <i>Thion</i>,
-como da maneira porque os diabos manifestavam o temor,
-que tinham das cruzes, que plantavamos em nome de Jesus
-Christo, e de nós seos fieis servos: quando alguns de seos
-Principaes me diziam, que estes feiticeiros não quiseram vir<span class="pagenum"><a id="Page_277"></a>[277]</span>
-com elles, eu lhes perguntava a razão, e elles me respondiam—<i>porque
-Jeropary tem medo de Tupan</i>.</p>
-
-<p><i>Acaiuy</i>, principal do Mearim, de quem fallaremos mais de
-espaço, veio me pedir licença para fazer sua casa ao pé da
-minha, não querendo ficar com os outros no <i>Forte</i>, dizendo-me
-entre outras rasões que tinha para isto, ser porque
-<i>Jeropary</i> não se atrevia a aproximar-se do logar, em que
-habitavamos visto termos vindo expressamente para repellil-o.</p>
-
-<p><i>Pedro Cão</i>, selvagem baptisado em Dieppe havia muitos
-annos, dizia a mim e aos Srs. de la Ravardiere, de Pezieux,
-e a outros quando o interrogavamos á respeito de sua felicidade
-na guerra, que Deos sempre o livrára de mil perigos
-porque era christão, e fazia fugir o diabo apenas
-chegava n’uma aldeia, e que seos similhantes mostravam-se
-animados, quando em companhia d’elle, não temendo <i>Jeropary</i>.</p>
-
-<p>O mesmo pensavam os habitantes de <i>Tapuytapéra</i> á respeito
-dos novos christãos, julgando que elles perseguiam e
-faziam fugir <i>Jeropary</i>, mostrando-se contentes por isto quando
-tinham esses christãos em suas aldeias.</p>
-
-<p>Servindo-nos d’estas crenças embutiamos no espirito dos
-cathecumenos como ponto de fé, que logo que elles fossem
-<i>lavados</i>, adquiririam poder contra o diabo, e nunca mais
-deviam temel-o.</p>
-
-<p>Corre voz geral em todas estas terras, que os diabos são
-<i>espiritos maus</i>, que temem os <i>Pays</i> e os <i>Caraybas</i>, isto é,
-os padres e todos os que são baptisados.</p>
-
-<p>Recorda-me que fallando mil vezes d’esta materia aos selvagens,
-elles me disseram—<i>Jeropary yportassuasseque gésera</i>—«o
-diabo está agora pobre e miseravel, tem muito
-medo e já não é atrevido como era.» <i>Jeropary ypochu,
-Tupan Katu</i> «o diabo é mau, cruel e nada valle, porem
-Deos é muito bom.»</p>
-
-<p>Que desejarieis mais para o complemento d’este primeiro
-signal, e segurança da total ruina do diabo?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_278"></a>[278]</span></p>
-
-<p>São os proprios diabos, que confessam temer o nome de
-Jesus Christo, as armas de sua paixão, e até os seos servos,
-dissuadindo seos intimos amigos para que de nós se
-ausentassem, abalando ceos e terra afim de embaraçar-nos,
-e movendo tudo para inutilisar nossos esforços, emfim cahiram
-de ventas no chão, e chegaram ao cabo de suas astucias.</p>
-
-<p>Os que outr’ora os temiam, hoje os despresam; emfim só
-nos resta continuar as obras começadas.</p>
-
-<p><i>Linguis loquentur novis</i>: «fallarão novas linguas». Na
-verdade os nossos selvagens do Maranhão fallam uma linguagem
-inteiramente nova, visto que, esse <i>Marata</i> antigo,
-isto é, um dos Apostolos de Jesus Christo de quem fallarei
-mais adiante, não lhes ensinou a fallar como fallam agora,
-a saber: na profissão do christianismo recitando o symbolo
-dos Apostolos <i>Arobiar Tupan</i> etc. etc., a dirigir-se a Deos
-por meio da oração dominical <i>Oreruue</i> etc. a encaminhar
-suas vidas e acções segundo os mandamentos da lei de
-Deos <i>Ymoeté yepé Tupan</i> etc. etc. conforme os mandamentos
-da Igreja. <i>Are maratecuare ehumé</i> etc. «lavar e fortificar
-suas almas pelos Santissimos Sacramentos.» <i>Iemongarauiue</i>
-etc.</p>
-
-<p>É por certo fallar linguagem nova, quando discorrem sobre
-os mysterios da nossa fé, como sejam a unidade da essencia
-em Deos, e na Trindade das Pessoas; que o Filho de
-Deos tomou corpo no ventre da Virgem: que os maus vão
-para o inferno, que todos os homens resuscitarão em corpo
-e alma, indo depois cada um para o lugar de sua sentença:
-são estes com tudo os discursos diarios dos feiticeiros, só
-fallando em matar, comer, assar e seccar a carne dos seos
-inimigos, e nas suas incontinencias, libertinagens e loucuras.</p>
-
-<p>Admirar-se-ha muito quem pensar em tal mudança entre
-os barbaros, que somente sabem o que lhes ensinou a natureza.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_279"></a>[279]</span></p>
-
-<p>Creem os judeos, que os Apostolos sahiram d’um tunel,
-bem cheio, de vinho e de carne, e viram que os gentios de
-diversas nações davam signaes de entender o que prégavam,
-e que os Apostolos por sua vez tambem os percebiam.</p>
-
-<p>Tambem vos disse, que os selvagens ficavam muito admirados
-quando viam seos similhantes, baptisados, discorrer
-em sua lingua sobre coisas altas, profundas, e tão novas,
-como as que conheciamos por seos interpretes, e diziam
-uns aos outros—como é que esta gente falla tambem de
-<i>Tupan</i>, como os Padres lhes tem ensinado tão bellas coisas,
-quaes as que nos contam: como nossos filhos sabem mais
-do que nós, nossos Padres, e mais remotos antepassados,
-que embora tenham vivido muito nada nos contaram como
-estes Padres: por força fallaram com Deos.</p>
-
-<p><i>Em terceiro lugar.</i> <i>Serpentes tollent</i> «elles desviaram as
-serpentes.» Que são essas serpentes do Brazil, que com sua
-lingua e cauda envenenam estes povos? Não são todos os
-grandes e pequenos feiticeiros, que envenenam suas Nações?</p>
-
-<p>A fé de Jesus Christo é como a Cegonha, que purifica o
-paiz, onde está, das serpentes venenosas.</p>
-
-<p>S. Paulo, na Ilha de Malta, atirou ao fogo a vibora que
-trazia no dedo.</p>
-
-<p>O dedo dado por Jesus Christo aos Apostolos, é o poder
-do Espirito Santo, que de ordinario busca agentes naturaes
-docemente, sem constrangimento, para dispôr o objecto a
-receber uma nova fórma pelo banimento e ruina de outra
-fórma contraria.</p>
-
-<p>Estas viboras, arremeçadas ao fogo, são os Ministros de
-Satanaz, que o Espirito Santo expelle para tornar a Nação
-cheia d’abusos susceptivel de acceitar o Evangelho e de conhecer
-a Deos.</p>
-
-<p>Si eu disser, que me parece ter o Espirito Santo, em relação
-a estes feiticeiros do Maranhão, feito um grande milagre,
-que nunca fez para com os sacrificadores do Paganismo,<span class="pagenum"><a id="Page_280"></a>[280]</span>
-creio ser bem recebida a minha opinião, porque, alem
-de dois ou tres feiticeiros, todos os grandes só desejam ser
-baptisados: ao contrario, raras vezes estes sacrificadores do
-diabo, na gentilidade esposavam o christianismo.</p>
-
-<p>Por isso podiamos dizer, que as serpentes venenosas, que
-se arrastam na terra, tornam-se passaros voadores no elemento
-do ar, conforme a profecia de Isaias: <i>De radice colubri
-egredietur Regulus, et semen ejus absorvens volucrem</i>:
-«da raiz da cobra sahirá o Basilico, e a semente do Basilico
-engulirá o passaro,» o que Vatable assim interpreta<a id="Nanchor_105" href="#Note_105" class="fnanchor">[105]</a>: <i>De
-radice serpentis egredietur Regulos, et fructus ejus, cerestes
-volans</i>: «da raiz da serpente sahirá o Basilico, e o seo
-fructo será uma cerasta volante.»</p>
-
-<p>Para entender esta passagem convem recordar-se do que
-escrevem os naturalistas, a saber, que as cobras grandes e
-grossas geram o Basilico quando comem um sapo; porem o
-Basilico procura gallinhas brancas, com quem se unem,
-pondo ellas ovos, que enterram n’areia ao ardor do Sol, e
-d’elles sahem serpentes, que voam.</p>
-
-<p>Nada dizem, que eu não visse em Maranhão, conforme
-me diziam e pensavam os selvagens, e aconteceo-me por
-duas vezes, que uma gallinha branca que eu tinha, pozesse
-dois ovosinhos redondos como uma ameixa de dama
-e salpicados, e depois ella mudou de cacarejar, e parecia
-louca.</p>
-
-<p>Disseram-me então os selvagens, que infallivelmente o
-Basilico nos mattos a tinha coberto, pelo que convinha matar,
-quebrar e queimar os ovos, para evitar a morte infallivel
-de quem os comêsse: si se deixasse os ovos, sem queimal-os,
-d’elles sahiriam serpentes voadoras, que não era a
-primeira vez, que isto acontecia, e então todas as gallinhas
-mudam de canto, e não param n’um lugar.</p>
-
-<p>Appliquemos isto ao nosso fim, e digamos que a antiga
-cobra é Satanaz, Principe dos Demonios, os Basilicos são os
-Diabos destacados nas Provincias por Lucifer para seduzir o
-Mundo; as serpentes são seos Ministros, como sejam os <i>Pagys</i><span class="pagenum"><a id="Page_281"></a>[281]</span>
-ou feiticeiros do Brazil, que desejam adquerir azas para
-mudar de elemento da terra para o do ar, deixar seos velhos
-e abominaveis costumes de arrastar o peito em seo
-execrando e diabolico serviço, e aproximar-se do Ceo, como
-o resto dos indios pela ablução ou lavagem de seos
-antigos peccados pelo Sacramento do Baptismo.</p>
-
-<p>Estas serpentes, tão perseguidas no Brazil, são esses desgraçados
-costumes, e abominaveis peccados, como sejam
-as vilanias, raivas, e vinganças, já descriptas amplamente
-n’outra parte.</p>
-
-<p><i>Em quarto lugar.</i> <i>Et si mortiferum quid biberint non
-eis nocebit</i>: «e si bebem algum veneno mortifero, não lhes
-damnificará.» O verdadeiro veneno, que engolem as almas,
-é a falsa doutrina, que o Diabo faz suggerir nos ouvidos dos
-novos christãos.</p>
-
-<p>Vós o achareis em muitos exemplos do proprio seculo dos
-Apostolos. Certos seductores iam corromper os individuos
-sem malicia, e apenas bebiam ellas o <i>Aconito</i>, sentiam-se
-afflictos, impressionados em sua alma, e abalados em sua
-fé; porem o Espirito Santo mencionado no genesis—<i>Spiritus
-Domini, ferebatur super aquas</i> «o Espirito do Senhor é
-levado sobre as agoas de Chaos,» isto é, ainda não purificadas
-e nem limpidas, ou como querem dizer os outros: <i>Incubabat
-aquis</i>, deitava-se sobre as agoas do Chaos para d’elle
-tirar as bellas pombas, como fingiam os Poetas, os ovos de
-Thetis, cobertos pelo pombo branco, ou o Cysne, de que sahiram
-Castor e Pollux, ou então <i>fouebat aquas</i>, aquecia
-essas agoas ainda frias.</p>
-
-<p>O Espirito Santo, digo eu desculpa mais facilmente a fragilidade
-e fraquesa d’estes novos christãos, mas não as dos
-antigos crentes.</p>
-
-<p>Assim vae adejando sobre as agoas desviadas do verdadeiro
-caminho pelos maus discursos d’aquelles, que tem a
-alma mal conformada, vae chocando os ovos abandonados
-pelo Pae e Mãe, almas recentemente lavadas, porem separadas
-da presença d’aquelles que as tem lavado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_282"></a>[282]</span></p>
-
-<p>Aquecidas essas agoas geladas pelo sopro do pernicioso
-Aquilon, não quer que o veneno bebido lhes dê a morte,
-conduzindo-as ao regaço de sua Mãe, e entre os braços dos
-que, depois de Deos, os geraram espiritualmente em Jesus
-Christo para obrigal-os a vomitar o veneno do seo coração,
-e tomar o alimento salutar, pelo qual se fortificaram para
-resistir de ora em diante a todos os choques.</p>
-
-<p>Passou-se isto no Brazil, como aconteceo no tempo dos
-Apostolos, onde um certo numero de novos christãos de
-<i>Tapuitapéra</i>, seduzidos por más palavras de um certo personagem,
-metade d’elles se deshouveram e renunciaram o
-Christianismo; porem nós cuidamos d’elles com todo o zelo.</p>
-
-<p>Assim fizeram os nossos superiores, que redobraram de
-cuidados para remediar este mal levando para ahi tudo
-quanto julgaram necessario, e por isso essas novas plantas,
-fanadas por brisa gelada, adquiriram seo antigo vigor e florescencia,
-e tornando a vel-os no Forte de Sam Luiz, procuramos
-animal-os a ficarem firmes e constantes na profissão
-do Christianismo, e ordenamos-lhes de não se separarem
-de Martinho Francisco, ahi nosso suffraganeo.</p>
-
-<p>Sentia-se o diabo cercado por todos os lados, e peiores os
-seos negocios de dia para dia.</p>
-
-<p>N’esta epocha, em que estou escrevendo, espero que os
-padres que por la andam, lhe deem terriveis combates, e
-que seo reinado vá de decadencia em decadencia, até total
-ruina; porque antes de eu deixar a ilha, via e experimentava
-a disposição geral e universal d’estes selvagens,<a id="Nanchor_106" href="#Note_106" class="fnanchor">[106]</a>
-especialmente dos meninos, para os converterem.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_283"></a>[283]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XIV">CAPITULO XIV</h3>
-
-<p class="subhead">Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer, e
-começarão a estabelecer o reinado de Jesus Christo.</p>
-
-</div>
-
-<p>O psalmista rei David, no seo psalmo 8.º—<i>In finem pro
-torcularibus, psalmus David</i>, isto é, o psalmo de David,
-que deve ser cantado em acção de graças ao Senhor no
-fim das vindimas diz, prevendo a ruina total do imperio de
-Lucifer sobre as almas dos infieis, e o estabelecimento do
-reinado de Jesus Christo—<i>Ex ore infantium et lactentium
-perfecisti laudem propter inimicos tuos, ut destruas inimicum
-et ultorem</i>. «Tens apurado teos louvores pela bocca
-dos meninos e das crianças de peito á despeito dos teos
-inimigos, e por isso tu destroes o adversario e o tyranno
-vingativo.»</p>
-
-<p>Rabbi Jonathas embellezou esta passagem, e esclareceo-a
-por esta forma—<i>Fundasti fortitudinem, ut destruas Auctorem
-inimicitiarum et ultorem</i> «estabelecestes a força do teo
-imperio pela bocca e confissão da Fé dos meninos para mostrar
-tua grandesa, e destruir o autor das vinganças e o sanguinario
-vingador.»</p>
-
-<p>Disse São Jeronymo—<i>Quiescat inimicus et ultor</i> «fechaste
-a bocca ao seductor inimigo da salvação, e enraivecido contra
-os homens pela voz dos meninos.»</p>
-
-<p>Grande maravilha é o serem os meninos o symbolo da
-proxima fundação do reinado de Jesus Christo e a queda do
-poder dos demonios.</p>
-
-<p>Não me demoro em fundamentar com muitos exemplos
-este signal da providencia de Deos, e assim limito-me a referir
-o que se passou no Triumpho de Jesus Christo antes de
-sua Paixão, quando os meninos em alta voz diziam—<i>Hosanna
-filio David</i> «seja bem vindo o Filho de Deos,» o que
-disse em primeiro logar o santo rei no seo cantico—<i>In finem
-pro torcularibus</i>, «no fim pelas pressões,» isto é, no
-fim do reinado de Satanaz, e no principio da Paixão de Jesus<span class="pagenum"><a id="Page_284"></a>[284]</span>
-Christo, quando era tempo de pagarem os meninos este
-tributo de reconhecimento.</p>
-
-<p>Em segundo lugar, de dia a dia, na continuação, no fim,
-e na consummação do captiveiro de Satanaz sobre as almas
-infieis, e no principio da Santa Igreja, fundada entre ellas,
-principalmente pelos meninos, o que desejo mostrar ter sido
-feito pelos filhos do Brasil.</p>
-
-<p>Estas almas juvenis, ainda não corrompidas por antigos
-e maus costumes de seos paes, mostram não sei que disposição
-singular e particular para receber, como si fosse uma
-taboa rasa, qualquer pintura...</p>
-
-<p class="center">(Falta uma folha.)</p>
-
-<p class="noindent">... repugnancia: nós lhe facilitavamos os meios de o entender
-comparando com as coisas, que veem diariamente.</p>
-
-<p>Assim como crescem as ostras sobre os ramos das arvores,
-tomando carnes e recebendo vida entre duas conchas,
-sem mistura, nem effusão de semente do humor marinho, e
-apenas pelo calor do sol, assim tambem o Filho de Deos no
-ventre da joven, a Santa Virgem, recebeo seo precioso sangue
-da materia, e o Espirito Santo, do calor, e assim tomou
-corpo sem alguma outra operação humana.</p>
-
-<p>Gostavam muito da comparação, e me disseram que em
-seo paiz muitas coisas se geravam pela simples influencia
-do Sol, como os lagartos, que sahem dos ovos, depois que
-recebem a vida do calor do Sol, e por isso não tinham
-difficuldade em crer o que nós lhes ensinavamos, e nem que
-Deos se fizesse homem para morrer afim de salvar os seos,
-porque, diziam elles, <i>Jeropary</i>, apesar de ser espirito mau,
-entra no corpo dos monstros para nos amedrontar, espancar
-e atormentar.</p>
-
-<p>Sobre tudo muita admiração nos causava o como facilmente
-se convenciam da verdade e da realidade de Jesus
-Christo, Filho de Deos, sob as especies de pão e vinho, ao
-passo que viamos tantas almas vacillantes n’este ponto, embora
-lhes sóbre espirito e comprehensão para outras coisas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_285"></a>[285]</span></p>
-
-<p>A este respeito não pude dizer outra coisa, senão o que
-disse a Escriptura Santa no proverbio 25—<i>Sicut qui mel
-multum comedit, non est ei bonun, sic qui scrutator est
-magestatis, opprimetur a gloria</i>.—«É coisa tão doce como
-o mel, mas quem d’ella comer muito, não pode offender
-mais o estomago.»</p>
-
-<p>Nada ha de mais suave e delicioso do que a contemplação
-das obras de Deos e a leitura das letras santas, mas
-para aquelle que vae muito alem, e tudo mede pela vara de
-seo espirito, impellido pela soberba de seo entendimento.</p>
-
-<p>Nada ha mais seguro, que não fique opprimido pelos vivos
-raios da gloria de Sua Magestade, como se observa nos
-mochos cegos, visto quererem olhar e julgar da face do sol,
-e da sua luz.</p>
-
-<p>Ao contrario, os que manejam com temor e humildade os
-mysterios de nossa fé, são esclarecidos sem prejuiso de suas
-vistas, e docilmente obedecem a vontade e poder do soberano,
-que pode o que quer, quer e faz o que diz.</p>
-
-<p>Estes pobres selvagens, fallo até dos que não são ainda
-christãos, apenas se lhes fazia signal de sahirem da igreja,
-retiravam-se promptamente, ficando comtudo na porta, que
-se conservava fechada em quanto se recitava o canon da
-missa, e fazia-se a communhão.</p>
-
-<p>Diziam elles, em resumo, que n’essa hora descia <i>Tupan</i>
-sobre os altares, bebendo e comendo comnosco, que não
-tinham merecimento para ficar ahi em frente d’elle senão
-quando fossem baptisados, e a maior parte d’elles se ajoelhavam,
-imitando os francezes.</p>
-
-<p>Os Indios christãos ajoelhavam-se apenas ouviam tocar a
-campainha, juntavam as mãos e adoravam a Deos.</p>
-
-<p>Ao mysterio do Sacratissimo Corpo e Precioso Sangue do
-Filho de Deos elles chamam <i>Tupan</i>, quer dizer, o proprio
-Deos, segundo suas crenças, <i>Aséreu yanondé Tupan rare</i>,
-quer dizer, «antes de morrer receberás o corpo de Deos».</p>
-
-<p>Ainda que eu reconhecesse n’elles facilidade de crer segredo
-tão profundo, não me animaria a communicar-lhes senão<span class="pagenum"><a id="Page_286"></a>[286]</span>
-em artigo de morte, e antes queria deixar esta tarefa
-para os que viessem depois de mim, porque dando n’um
-certo dia a communhão a uma India, a quem examinei tanto
-quanto pude antes de lhe dar o Precioso Corpo de Jesus
-Christo na Paschoa, apenas recebeo a Hostia Consagrada perturbou-se
-muito e não a poude engolir a ponto de querer
-tiral-a com a mão o que lhe prohibi disendo só poder ser
-tocada por sacerdotes, que não tivesse receio, e nem se assustasse
-tendo de receber seo Deos, que era de sua vontade,
-que ella recebesse a hostia e a engolisse com toda
-a confiança, o que fez mediante um pouco de vinho que lhe dei a
-beber no calix: tão grande secura da lingoa e bocca proveio
-da grande timidez d’ella em receber tão santo manjar, o
-que me resolveo de então em diante a deixal-os bem fundamentarem-se
-no conhecimento d’este artigo antes de administrar-lhes
-o Santo Sacramento, e ainda que muitos me
-pedissem o <i>Tupan</i>, eu lhes respondia que esperassem pela
-vinda dos nossos padres.</p>
-
-<p>Não ha grande difficuldade em fazel-os confessar suas
-faltas, até mesmo as proprias mulheres, e de coisas que são
-difficeis a este sexo declarar aos sacerdotes, representantes
-da pessoa de Deos.</p>
-
-<p>Mui livremente vos dizem sim e não, o tempo, o lugar, a
-qualidade das pessoas, o numero de seos peccados, sem algum
-vexame tolo e mau como por ahi se observa.</p>
-
-<p>Não tem a menor hesitação em crer na efficacia do baptismo,
-que é o lavamento dos peccados, a filiação de Deos,
-e a acquisição do Ceo, tendo como certo que os baptisados
-vão para o paraiso gozar da companhia de Deos, com tanto
-que não caiam outra vez em peccado mortal.</p>
-
-<p>Acreditaram sempre, que havia inferno, onde estava <i>Jeropary</i>,
-e para onde iam os maus.</p>
-
-<p>Sabiam ao mesmo tempo por tradicção, que Deos era
-muito feliz lá em cima, vivendo com os espiritos bons, e
-que seos paes que tinham tido boa vida, iam para um lugar
-de delicias, onde nada lhes faltava embora terrestre.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_287"></a>[287]</span></p>
-
-<p>A vista d’isto facil nos foi fazel-os entender o que deviam
-crer do paraiso, do inferno e de um terceiro lugar, onde se
-purificam as almas antes de irem para o Ceo, de um quarto
-onde os meninos, que não chegaram a receber o baptismo,
-morrendo antes do uso da razão, eram recebidos para não
-padecerem por nunca poderem vêr a Deos, visto ser o baptismo
-a chave do Ceo.</p>
-
-<p>Não se acreditaria, senão vendo-se, quanto são os selvagens
-curiosos por saberem das coisas de Deos. Todos, quando
-com elles conversavamos, nos faziam mil perguntas á este
-respeito, iguaes á estas:</p>
-
-<p>Como Deos fez o Mundo?</p>
-
-<p>Si o fez com suas proprias mãos, ou si ajudado pelos
-bons espiritos poude fazer o Ceo, as estrellas, o sol, a lua,
-o fogo, o ar, a agoa, a terra, os primeiros homens, os primeiros
-passaros, peixes e animaes, reptis, arvores e hervas?</p>
-
-<p>O que existia antes de feito o mundo, e o que fazia Deos
-vivendo sosinho?</p>
-
-<p>De que forma está no Ceo?</p>
-
-<p>Como faz rebumbar o trovão, e cahir a chuva?</p>
-
-<p>Si falla aos homens, si viemos do Ceo, si nascemos de
-mulheres, si vimos anjos e diabos?</p>
-
-<p>Quem nos ensinou tudo quanto ensinavamos, si não morriamos,
-e depois da nossa morte como si faziam outros padres?</p>
-
-<p>Si em França haviam muitos padres, si andam vestidos
-como nós, si havia um padre que fosse rei, porque regeitavamos
-mulheres e mercadorias?</p>
-
-<p>Si a Mãe de Deos era uma rapariga como outra qualquer,
-si bebia e comia como nós, porque tinha morrido, si não
-vinha do Ceo passeiar as vezes na terra e fallar comnosco?</p>
-
-<p>Si os Apostolos eram padres como nós, quantos tinham
-existido, porque os outros <i>Caraibas</i> francezes não eram tambem
-padres como nós, si fomos nós mesmos que nos fizemos
-Padres, ou si foi outra pessoa?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_288"></a>[288]</span></p>
-
-<p>A todas estas e a muitas outras perguntas respondiamos
-com a verdade, e elles por gestos e palavras demonstravam
-seo contentamento.</p>
-
-<p>Assim corria de maneira agradavel o tempo entre taes
-perguntas e entretinimento.</p>
-
-<p>É por isso que pretendo aqui deixar as diversas e mais
-singulares conversações, que tive com os <i>Muruuichaues</i>,
-isto é, com os principaes de <i>Maranhão</i>, <i>Tapuitapéra</i>, <i>Commã</i>,
-<i>Caietés</i>, <i>Pará</i> e <i>Miary</i>.</p>
-
-<p>Não quero demorar-me mais fallando em taes perguntas
-e respostas, visto que as vereis mais adiante, e espero que
-minhas respostas vos contentarão muito, e vos assevero que
-serão fielmente transcriptas até na propria linguagem com
-que foram proferidas.</p>
-
-<p>Espero desculpa não só por isso como tambem pelo mais
-que ja deixei escripto, mormente não se achando tantos ornatos
-n’esta historia como exigia a curiosidade d’este seculo.</p>
-
-<p>É minha opinião, que a bellesa de uma historia consiste
-na verdade do facto e na simplicidade do estylo.</p>
-
-<p>Si eu não descrever palavra por palavra essas conferencias,
-ou si não usar de muitas palavras, basta que não offenda
-em coisa alguma a substancia do facto, sendo essa
-abundancia de discurso necessaria e requerida para vos fazer
-entender bem claramente suas intenções, e as nossas
-expressões.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_289"></a>[289]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XVI">CAPITULO XVI</h3>
-
-<p class="subhead">Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro
-de Commã.</p>
-
-</div>
-
-<p>Tendo tido muitas conferencias com este principal e
-grande feiticeiro, vou narral-as por capitulos: eis o primeiro.</p>
-
-<p><i>Pacamão</i> é pequeno no corpo, vil e abjecto á tal ponto,
-que quem não o conhece, não faria caso d’elle.</p>
-
-<p>Comtudo isto é o maior e o mais graduado de todos os
-principaes do Maranhão, especialmente na provincia de <i>Commã</i>,
-uma das mais bellas, fertil e povoada no paiz dos <i>Tupinambás</i>.</p>
-
-<p>Goza entre elles de tal poder, que somente com sua palavra
-tem movido todos os habitantes, sendo extremamente
-temído.</p>
-
-<p>É fino e velhaco tanto quanto pode ser um selvagem, e
-por essas qualidades chegou a obter esse poder, grandesa
-e prestigio, sendo tido por supremo curandeiro, subtilissimo
-feiticeiro, muito familiarisado com os Espiritos, tendo entre
-suas mãos e á sua disposição a morte e a vida, concedendo
-vida e saude a quem bem lhe aprouver; alem de grande
-bafejador entretinha os ingenuos por meio de confissões, de
-lustração, incensamento, e muitas outras coisas iguaes como
-ja dissemos.</p>
-
-<p>Não foi dos primeiros a visitar os francezes e fazer-lhes
-seos offerecimentos, desejando vêr o que elles queriam, porque
-tinham vindo aqui, e como se estabeleceriam.</p>
-
-<p>Informando-se bem de tudo isto, veio ao Forte de Sam
-Luiz, entrou, e saudou agradavelmente o Sr. de la Ravardiere.
-Vinha bem acompanhado por indios enfeitados de
-pennas, trouxe comsigo a mais vigorosa de todas as suas
-mulheres, cujo numero chegava a trinta.</p>
-
-<p>Chegando a <i>Yuiret</i>, tendo passado o mar em nossa barca,
-que tinha ido buscar farinha á sua terra, distante mais de<span class="pagenum"><a id="Page_290"></a>[290]</span>
-40 legoas do Forte de Sam Luiz, fez saber ao Sr. de la Ravardiere,
-que ia ao seo Forte, e foi esperado.</p>
-
-<p>Formou sua gente, uns atraz dos outros, e todos o acompanharam.</p>
-
-<p>Andou ao redor das casas, situadas na grande praça de
-Sam Luiz, fallando como era de costume, apregoando sua
-grandesa, o seo amor aos francezes, o objecto da sua visita,
-e tambem o valor e poder dos francezes.</p>
-
-<p>Acabado isto, aproximou-se da porta do Forte, perto de um
-quartinho, onde estavam alguns francezes observando o que
-elle fazia.</p>
-
-<p>Ordenou á sua mulher, que se prevenisse para carregal-o
-até a casa do governador, e foi obedecido promptamente,
-escanxando-se na cintura d’ella como usam os indios quando
-carregam seos filhos: assim entrou no Forte, e dirigio-se ao
-dito senhor: sua mulher era negra como o diabo e pintada
-desde a planta dos pés até a cabeça com o succo do genipapo.</p>
-
-<p>Antes de ir adiante pensae si era possivel conter o riso,
-vendo-se um dos Principaes do Brazil montado em tão bello
-cavallo.</p>
-
-<p>Foi comtudo muito bem acolhido, e disse o que lhe veio
-á mente para desculpar-se, findo o que, e depois de tratar
-dos seos negocios, veio á minha casa, em São Francisco,
-acompanhado por gente implumada.</p>
-
-<p>Mandei logo armar-lhe uma rede de algodão bem alva,
-onde assentou-se, e pedindo a um dos seos companheiros o
-seo caximbo, este o entregou ja com fogo.</p>
-
-<p>Depois de ter tomado tres ou quatro caximbadas, exhalando
-o fumo pelas ventas começou assim a fallar-me grave
-e pausadamente achando-me defronte d’elle n’outra rede:</p>
-
-<p>«Ha muitas luas, que eu tive vontade de te vir vêr e
-aos outros Padres; mas tu, que fallas com Deos sabes, que
-não é bom e nem prudente ser-se leviano e facil, mormente
-nós outros que fallamos com os Espiritos, e mover-nos
-com as primeiras noticias e pôr-nos á caminho, porque<span class="pagenum"><a id="Page_291"></a>[291]</span>
-sendo observados pelos nossos similhantes, elles nos
-imitarão.</p>
-
-<p>«O poder, que alcançamos sobre nossa gente, se conserva
-por certa gravidade em nossas acções e palavras.</p>
-
-<p>«Os intromettidos, e os que a primeira noticia apromptam
-suas canoas, se emplumam e vão logo vêr o que ha de novo
-são pouco estimados, e nunca chegam a ser grandes Principaes.</p>
-
-<p>«Foi isto o que me impedio e embaraçou de vir logo.</p>
-
-<p>«Os habitantes de <i>Tapuitapéra</i> e muitos de minha provincia
-vieram antes de mim, porem são menos do que eu.</p>
-
-<p>«Alegro-me com a vossa vinda, porque saberei que ha
-Deos: sou mais capaz de o saber do que um só dos meos
-similhantes: não desejava que um só d’elles me precedesse
-ou que tu o levasses diante de mim, e o fizesses fallar com
-Deos.</p>
-
-<p>«Quando me ensinardes o que é <i>Tupan</i>, terei mais autoridade
-e serei mais estimado, do que actualmente, e em
-meo paiz occuparei o primeiro logar depois de ti.</p>
-
-<p>«Dize o que queres que eu faça, e quando meos similhantes
-virem, que eu sou filho de Deos e lavado todos desejarão
-sel-o, buscando imitar-me.</p>
-
-<p>«Terei grande pesar, si estimares outro mais do que eu,
-porque sempre vizei altas coisas.</p>
-
-<p>«Tinha muita curiosidade de visitar e de ouvir os Francezes.</p>
-
-<p>«De meos avós aprendi a historia de Noé, o qual construio
-uma barca, pôz dentro sua gente, que Deos fez chuver abundantemente
-por muitos dias, que a terra ficou submergida
-debaixo d’agoa, invadindo campos, montanhas, valles, mar,
-e separando-nos de vós.</p>
-
-<p>«Noé foi pae de todos.</p>
-
-<p>«Soube tambem que Maria era Mãe de <i>Tupan</i>, sendo Virgem,
-porem Deos mesmo fez corpo para si no ventre d’ella
-e quando cresceo mandou <i>Maratás</i>, Apostolos para toda a
-parte, nossos paes viram um, cujos vestigios ainda existe.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_292"></a>[292]</span></p>
-
-<p>«Vós outros padres são mais do que nós, porque fallaes a
-<i>Tupan</i>, e sois temídos pelos espiritos: eis porque quero ser
-padre.</p>
-
-<p>«Muito tempo ha, que eu sou <i>pagy</i>, e ninguem é mais do
-que eu, porem não faço caso d’isto, porque vejo que meos
-similhantes somente vos apreciarão.</p>
-
-<p>«Desejaria muito que viesses a minha provincia, boa terra,
-onde se encontram muitos javalys, viados, e corças, nada
-te faltará, e sempre estarei comtigo.»</p>
-
-<p>Respondi-lhe a tudo isto, dizendo ter muita satisfação de
-vel-o, ja tendo muitas vezes ouvido fallar d’elle e do seo poder,
-como enganava com certos ardis os indios fazendo-os
-acreditar ter em seo poder um espirito familiar, sendo ainda
-maior o seo contentamento por vel-o principiar a reconhecer
-sua falta, sendo certo que por seo discurso eu bem percebia
-que elle não tinha a intenção, que Deos exige, para ser posto
-no numero dos seos filhos e lavado com agoa divina.</p>
-
-<p>Replicou-me assim:</p>
-
-<p>«Que queres dizer com isto, que eu não procuro Deos
-como convem?</p>
-
-<p>«Será porque desejo ser padre como tu, fazer-me admirar
-mais do que nunca entre os meos, persuadil-os a ser filhos
-de Deos, a procurar-te para serem baptisados, e fazeres em
-minha provincia o que quizeres, que de mim se diga que
-eu era o grande <i>Pagy</i>, sendo o primeiro a reconhecer Deos
-e vós outros padres.</p>
-
-<p>«Sendo estimado pelo grande espirito, os outros á minha
-sombra procurarão a Deos e farão como eu.</p>
-
-<p>«Si eu não me fizer lavar, muitos não o farão, e dirão—esperemos
-que <i>Pacamão</i> seja <i>Caraiba</i>, e depois nós o seremos,
-porque tem melhor espirito e é mais esperto do que
-nós.</p>
-
-<p>«Deves saber que antes de terdes chegado, eu ja lavava
-os habitantes do meo paiz, como vós padres fazeis com os
-vossos, porem em nome do meo espirito, e vós o praticaes
-em nome de <i>Tupan</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_293"></a>[293]</span></p>
-
-<p>«Eu bafejava os infermos, e elles ficavam bons: elles me
-diziam o que fizeram, e eu embaracei <i>Jeropary</i> de fazer-lhes
-mal.</p>
-
-<p>«Fazia apparecer annos bons, e vingava-me dando doenças
-aos que me despresavam. Dava-lhes agua que corria do pavimento
-de minha casa, o que agora não faço e nem quero
-mais fazer, porque era a subtilesa do meo espirito, que me
-suggeria todas estas coisas, zombando assim dos meos, que
-julgavam, por falta de espirito, ser isto maravilha.</p>
-
-<p>«Foi um francez que me ensinou a fazer brotar agoa do
-soalho de minha casa.»</p>
-
-<p>Respondi-lhe pelo meu interprete, que na sua réplica descobria
-não procurar elle a Deos como era conveniente, por
-que pretendia por meio do baptismo fazer-se maior e mais
-estimado entre os seos do que era antes por meio de seos
-grosseiros embustes, visto que Deos exigia de seos filhos,
-que fossem humildes, e que se arrependessem dos peccados
-passados: com quanto na verdade Deos não deixe de exaltar
-os seos, muito mais do que os diabos fazem com os seos
-sectarios, em quanto elle tivesse esse espirito, não esperasse
-que os padres o baptisassem, e sim o fariam só quando
-elle não fosse soberbo, e estivesse arrependido de suas feitiçarias.</p>
-
-<p>Em quanto eu dizia estas palavras, chegou o interprete
-do Sr. de la Ravardiere por nome <i>Mingan</i>, a quem eu tinha
-mandado chamar para conversar com <i>Pacamão</i>, porque é
-da indole d’esses selvagens dar mais credito aos interpretes
-mais velhos do que aos moços.</p>
-
-<p>Contei-lhe palavra por palavra toda a nossa conferencia
-até aquella hora, e lhe pedi para fallar a elle de conformidade
-com os meos e seos pensamentos.</p>
-
-<p>Eis como elle fallou:</p>
-
-<p>«Tu bem sabes, que ha muito tempo eu converso comvosco,
-e com vossos paes, quando estavamos em <i>Potyiu</i>.</p>
-
-<p>«Muitas vezes te chamei embusteiro por abusares de teos
-similhantes, muito credulos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_294"></a>[294]</span></p>
-
-<p>«Tu lhes fazias crer tudo quanto querias: teos paes e todos
-os não baptisados vão para <i>Jeropary</i> no inferno, e tu irás
-com elles si não fizeres o que dizem os padres.</p>
-
-<p>«Quando estavamos comtigo antes da vinda dos padres,
-sempre zombavamos do que faziam vós e os outros <i>pagys</i>:
-não diziamos palavra por não ser esse o nosso fim, e sim
-colher algodão.</p>
-
-<p>«Lançavamos mão de vossas filhas, e d’ellas tinhamos filhos,
-o que é hoje prohibido pelos Padres, não me atrevendo
-por isto nem eu e nem os outros, ir a Igreja, porque os
-Padres nos ensinam, que Deos prohibe a deshonestidade.</p>
-
-<p>«Tens trinta mulheres, deves deixal-as e te contentares
-com uma, se desejas ser filho de Deos e receber o baptismo.</p>
-
-<p>«Pensa bem e sobretudo na felicidade que si te offerece
-de poder salvar-te e livrar-te das patas do Diabo.</p>
-
-<p>«Teos paes não tiveram tal occasião: foi Deos que te inspirou
-a vir ter com os Padres e lhes pedir o baptismo.</p>
-
-<p>«Lembra-te que Deos sabe de tudo e não pode ser enganado,
-quer e deseja que todos que o buscam, renunciem o
-diabo e suas acções.»</p>
-
-<p>Respondeo assim <i>Pacamão</i>:</p>
-
-<p>«Não sabes o que tenho sido entre os meos? Quanto caso
-fazem de meos feitiços? Não sabes que sempre tratei os
-francezes como pude, e de muito boa vontade?</p>
-
-<p>«Animei sempre meos similhantes a dar-lhes suas filhas
-e seos generos em troco de ferramentas: sentia-me satisfeito
-entre elles aprendendo alguma coisa de novo, porque os
-francezes tem mais espirito e intelligencia do que nós, e
-apenas soube da chegada dos Padres fiquei muito contente,
-e disse aos meos similhantes—que felicidade! elles nos ensinaram
-a conhecer a Deos, quero ir vel-os. Foi isto que
-aqui me trouxe, e é d’isto que nos occupamos.»</p>
-
-<p>Disse a <i>Migan</i> estar elle repetindo o que eu ja havia
-dito, isto é, que era bem vindo, sendo porem necessario
-buscar o baptismo com arrependimento e humildade.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_295"></a>[295]</span></p>
-
-<p>Migan explicou-lhe muito bem a grandeza e o poder de
-Deos, e a pequenez dos homens, especialmente dos captivos
-de Satanaz.</p>
-
-<p>Mostrou-se satisfeito, e me prometteo vir na manhã seguinte
-fallar commigo dos seos negocios.</p>
-
-<p>Assim finalisou-se esta conferencia, e si retiraram para o
-Forte depois de ter cada um bebido um pouco de agoardente.</p>
-
-<p>Vamos notar muito bellas particularidades n’este discurso,
-que não seriam entendidas ou passariam desapercebidas
-si não fossem indicadas.</p>
-
-<p>Em primeiro lugar o falso zelo d’estes selvagens em conservarem
-sua autoridade e prestigio entre os seos, não fazendo
-acção alguma sem reflectir, pela qual possam ser mal
-apreciados pelos seos inferiores, tão levianos e imperfeitos
-como elles, e por conseguinte tão incapazes de entretêr os
-espiritos familiares como elles: supponhamos que para ter o
-gozo dos espiritos é preciso ser constante e grave, e não se
-deixar levar pelas primeiras informações. Pensando n’isto,
-vêde como os diabos abusam da luz natural do homem, que
-claramente nos faz vêr si desejamos conservar em nós o
-verdadeiro espirito de Deos, sendo conveniente banir a leviandade
-e inconstancia do nosso interior, reconcentrar-nos
-com firmesa, e nada fazer ou dizer, que não seja discutido
-e decidido pela rasão.</p>
-
-<p>De outra fórma somos menores em relação a profissão do
-Christianismo, do que estes feiticeiros, que se esforçam a ser
-graves procurando conquistar a estima de seos similhantes.</p>
-
-<p>Em segundo lugar notareis os effeitos do espirito diabolico,
-que são a soberba e a grande presumpção, que já se
-abriga até entre as coisas sagradas: tão grande é o seo veneno
-a ponto de querer atacar o seo contrario, visto não
-haver maior antagonismo do que entre o Espirito de Deos e
-o de Satanaz, a humildade de Jesus Christo e a soberba de
-Lucifer, a abnegação do Christão e a presumpção dos filhos
-do diabo!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_296"></a>[296]</span></p>
-
-<p>Assim procedia Simão, o magico, para com S. Pedro, procurando
-com seo dinheiro o Espirito de Deos, afim de se fazer
-reconhecido como grande por meio do Espirito Santo.</p>
-
-<p>Que grande cegueira julgar Deos vassallo da vaidade!</p>
-
-<p>Que desgraça estar uma alma presa por infernaes obscuridades!</p>
-
-<p>Este pobre feiticeiro do Brazil julgava no principio, que
-tinhamos Deos em nossa algibeira para dal-o a quem bem
-nos aprouvesse, obedecendo elle a quem o entregassemos.</p>
-
-<p>Com o fim de se apoderar de sua alma o diabo o escravisa
-e o obriga a commetter mil loucuras, inspirando esse
-<i>Pagy</i> para isso. Deos nos livre de tal perigo!</p>
-
-<p>Em terceiro lugar—quanto ao que elle disse de Noé e da
-Virgem não ousarei dizer d’onde elle teve essas ideias:
-si foi dos francezes, não parece muito, porque os que vieram
-antes de nós só lhes fallariam de obscenidade, e concubinatos;
-é mais provavel, que fosse de tradicções antigas,
-porque apenas chegamos a <i>Yuiret</i>, <i>Japy-açú</i> nos fallou quasi
-da mesma maneira do diluvio e de um Apostolo, que por
-aqui andou, como se lê na obra do Reverendo Padre Claudio
-d’Abbeville.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XVII">CAPITULO XVII</h3>
-
-<p class="subhead">Segunda conferencia, que tive com Pacamão.</p>
-
-</div>
-
-<p>Na manhã seguinte veio vêr-me, como me tinha promettido,
-em companhia de sua gente.</p>
-
-<p>Não quiz assentar-se na rede, e pegando-me na mão disse-me
-<i>Ché assepiak ok Tupan</i> «eu te rogo leva-me a vêr a<span class="pagenum"><a id="Page_297"></a>[297]</span>
-casa de Deos quero fallar-te conforme teos discursos de hontem
-á tarde.»</p>
-
-<p>Disse-lhe, que me acompanhasse, que satisfaria seos desejos,
-e assim o fiz.</p>
-
-<p>Logo que entraram todos, mandou que ficassem na porta
-e proximando-se de mim fallou-me em segredo—aquelles,
-nada sabem e nem entendem o que se fallar á respeito de
-Deos, por tanto quero que conversemos á vontade.</p>
-
-<p>Mandei ornar a nossa Capella com os melhores paramentos,
-e pôr sobre os degraos do altar muitas e differentes
-Imagens.</p>
-
-<p>Aproximamos-nos do altar sempre acompanhado pelo intreprete.</p>
-
-<p>Por mais de duas horas indagou de mim tudo quanto via.</p>
-
-<p>1.º Quiz saber o que significava o Crucifixo dizendo-me—quem
-é este morto tão bem feito e tão bem estendido n’este
-pau encruzado? Expliquei-lhe que isto representava o Filho
-de Deos, feito homem no ventre da Virgem, pregado por
-seos inimigos sobre esse madeiro afim de ir ter com seu seo
-Pae, felicidade que alcançariam tambem os que fossem lavados
-com o sangue, que elle via correr de suas mãos,
-pés e lado.</p>
-
-<p>Conservou-se admirado por algum tempo, olhando com
-muita attenção a Imagem do Crucificado: exhalou depois um
-suspiro, e soltou estas palavras como <i>omano Tupan?</i> «Que!
-será possivel que Deos morresse?»</p>
-
-<p>Repliquei-lhe não ser necessario, que elle pensasse que
-Deos tivesse morrido, porque sempre viveo desde a eternidade,
-dando vida aos homens e aos animaes: o que falleceo
-foi o corpo somente, que elle tomou da Virgem Santa Maria
-para matar <i>Jeropary</i>, como elle via fazer aos meninos quando
-querem apanhar um peixe grande no mar, que devora
-os pequenos, deitando como isca no anzol de sua linha o
-corpo de um d’esses peixinhos, o que sendo visto pelo peixe
-grande atira-se sobre elle e vê-se pilhado, puxado, derribado
-e morto, em favor e livramento dos pequenos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_298"></a>[298]</span></p>
-
-<p>Assim tambem este mau <i>Jeropary</i> ia devorando todos
-os nossos Paes, porem aprouve a Deos enviar seo Filho
-para pescal-o á linha, servindo de haste esta Cruz, de anzol
-ou de croquezinho estes cravos e espinhos, e d’isca
-seo corpo.</p>
-
-<p>Mas, respondeo-me elle, porque havia o diabo de ter poder
-sobre nossos paes?</p>
-
-<p>Porque, respondi, elles foram rebeldes á lei de Deos, comendo
-do fructo prohibido, e deixaram-se enganar pelo
-diabo, debaixo da forma de serpente.</p>
-
-<p>Com quanto Deos nos podesse salvar por outros meios,
-achou mais docil e rasoavel tomar o rapinador em lugar de
-suas victimas.</p>
-
-<p>Mostrou-se contente, e perguntou—o corpo de <i>Tupan</i> está
-ainda em França sobre a Cruz, como este que tu me mostras,
-e tu o vistes?</p>
-
-<p>Não, respondi, porem resuscitou pouco depois da sua
-morte, levando seo corpo lá para cima, lá para o Ceo, vivendo
-e brilhando como o sol, sentado no mais bello lugar
-do Paraizo, vindo curvar-se diante d’elle todos os espiritos
-e almas de pessoas de bem, e agradecer-lhes a morte do
-seo inimigo.</p>
-
-<p>Com a protecção d’este corpo, os nossos, depois de mortos,
-resuscitarão e irão para o Ceo levados pelos Anjos, isto
-é, nós que somos lavados com o sangue derramado de suas
-chagas.</p>
-
-<p>Vossos corpos e os de vossos paes irão ter com <i>Jeropary</i>
-arder em fogos eternos, si não fordes lavados com este
-sangue.</p>
-
-<p>É necessario, disse elle, correr muito sangue de seo corpo,
-e que vós o guardeis com todo o cuidado para lavar
-tanta gente.</p>
-
-<p>Respondi—és ainda muito obtuso para comprehenderes
-estes mysterios.</p>
-
-<p>«Basta ter sido espalhado uma unica vez esse sangue sobre
-a terra, e que em memoria e respeito a elle lavemos<span class="pagenum"><a id="Page_299"></a>[299]</span>
-espiritualmente as almas com agoa elementar, que derramamos
-sobre vossos corpos.</p>
-
-<p>«Não vês correr sempre uma fonte, ainda que cavada
-uma só vez pela mão de Deos?</p>
-
-<p>«Tu bem sabes, que as constellações sete-estrellas e a ursamenor
-foram pregadas uma só vez no Ceo, e com tudo todos
-os annos, apenas brilham por cima da tua cabeça, ellas
-te mandam chuva, que rega tuas roças.»</p>
-
-<p>Disse ainda:</p>
-
-<p>«Eram malvados os que mataram <i>Tupan</i>, porque elle era
-bom, eu o amo, e n’elle creio.»</p>
-
-<p>Respondi-lhe. Foram seduzidos por <i>Jeropary</i>, como tu,
-que os animou a perseguil-o, a matal-o, e crucifical-o,
-porque elle os censurava por sua maldade, como nós
-agora fazemos, seguindo em tudo a lei, que nos deo. Todos
-os que obedecem ao diabo são seos inimigos e si elle
-hoje voltasse ao Mundo passaria por iguaes soffrimentos,
-repetindo os actuaes o mesmo que fizeram os outros antigamente.</p>
-
-<p>Respondeo-me—desejava que me desses uma Imagem
-como esta para levar commigo quando regressasse á minha
-provincia. Repetirei palavra por palavra á meos similhantes
-o que acabas de dizer-me, e farei para ella melhor casa do
-que esta, eu a fecharei muito bem, só eu entrarei ahi, e
-algumas pessoas capazes de entenderem as explicações, que
-me destes.</p>
-
-<p>Respondi—quando fores baptisado, nós te daremos licença
-para fazeres uma casa, onde levantaremos um Altar igual
-á este, com iguaes ornatos, e com Imagens como as que
-estás vendo.</p>
-
-<p>2.º Nos pés do Crucifixo havia uma Imagem de Nossa Senhora,
-feita em bordado alto, de extrema belleza, e revestida
-de perolas, presente do Sr. de S. Vicente quando regressou
-á França: olhando para ella, perguntou-me—quem
-é esta mulher tão bonita, e este menino que olha para ella
-de mãos postas? Eu lhe disse, que era a figura de Maria,<span class="pagenum"><a id="Page_300"></a>[300]</span>
-Mãe de Deos, e este menino é o filho de Deos quando sahio
-do ventre d’Ella.</p>
-
-<p>Repetio estas palavras duas ou tres vezes—<i>Ko ai Tupan
-Marie?</i> «Como é Maria Mãe de Deos?» <i>Kugnan Ycatu</i>, «linda
-mulher.»</p>
-
-<p>Respondi, que assim devia ser, pois que Deos a escolheo
-para Esposa e Mãe de seu Filho, que era a Princesa de todas
-as mulheres, tendo tido por marido Deos unicamente, e
-que sendo pura deo á luz o Filho de Deos, que tinha resuscitado
-depois da sua morte, como aconteceo a seo Filho,
-sendo levada para o Ceo pelos Anjos, onde estava assentada
-ao pé do corpo de seo Filho.</p>
-
-<p>Que grande coisa, disse elle, uma Virgem parir. Como,
-respondi eu, não vês crescerem as ôstras nos ramos das arvores,
-só e unicamente, sem auxilio algum?</p>
-
-<p>Deos ama a puresa, porque elle é mais puro do que a luz
-do sol.</p>
-
-<p>È verdade, respondeo, porem vós, e os outros padres,
-sabeis grandes coisas, sois mais sabios do que nós, porque
-não prestamos attenção ás coisas da nossa terra, que vemos
-todos os dias, e vós em tão pouco tempo já as conheceis.</p>
-
-<p>Ainda não é tudo, disse-lhe, vinde commigo, e prestae attenção
-ao que vou dizer-vos por intermedio do meo interprete
-para repetirdes tudo, quanto souberdes, aos teos companheiros,
-que ficaram na porta por tua ordem, visto ser
-da vontade de Deos que todos se salvem grandes e pequenos.</p>
-
-<p>Dizendo-lhe isto, fiz-lhe vêr todas as peças e quadros da
-creação e da redempção, apontando-lhe todas as suas diversas
-partes: n’uma, por exemplo, a creação dos Ceos e dos
-elementos, n’outra a creação dos peixes e dos passaros, e
-n’outra a creação dos animaes, das arvores e das hervas:
-causava prazer vel-os olhar com muita attenção para as figuras
-dos passaros, dos peixes e dos animaes afim de conhecerem
-os da sua terra, e quando descobriam um parecido,
-não deixavam de dizer-nos—eis tal passaro, tal peixe, e tal<span class="pagenum"><a id="Page_301"></a>[301]</span>
-animal, e os que não conheciam perguntavam si haviam em
-França, e como se chamava. Captivou-lhes principalmente a
-attenção a figura de Deos, no meio do quadro, com os braços
-abertos, soltando da bocca um forte sopro de vento, e me
-perguntaram o que isto queria dizer?</p>
-
-<p>Expliquei-lhes, que isto representava a maneira, como foram
-feitas todas as coisas, apenas com a palavra de Deos,
-cujo poder e dominio estendia-se ás duas extremidades do
-Ceo.</p>
-
-<p>Admirou-se tambem muito da mulher ter sido formada
-pela costella do homem, quando dormia, pedio-me explicações,
-e assim o satisfiz dizendo, que Deos quiz com isto que
-elle tivesse uma só mulher e não mais de trinta como elle
-tinha; porque si Deos quizesse, que tivesse mais de uma,
-elle o teria permittido desde o principio, e sendo creado somente
-uma e ainda á custa da costella do homem assim demonstrou,
-que este só devia ter uma mulher, a quem amasse
-e conservasse, e não mudal-a á capricho da vontade,
-como fazeis vós outros, sectarios de Jeropary, que vos persuadio
-terdes muitas mulheres afim de indispor-vos e estrangular-vos
-uns com os outros, visto que costumaes roubal-as
-até na casa de seos proprios maridos.</p>
-
-<p>Na escada do altar estavam as imagens dos doze Apostolos
-e o padre Sam Francisco, muito bem feitas e illuminadas.</p>
-
-<p>Perguntou-me quem eram esses <i>Caraybas</i>?</p>
-
-<p>Estes doze, respondi, são doze <i>Maratas</i> do filho do <i>Tupan</i>,<a id="Nanchor_107" href="#Note_107" class="fnanchor">[107]</a>
-os quaes, depois que subiram ao Ceo, dividiram o
-Mundo Universal em doze partes: tomou cada um a sua, onde
-foi guerrear <i>Jeropary</i>, e lavar todos os crentes em Deos, deixando
-successores, que foram se revesando até nós. Peguei
-na imagem de S. Bartholomeo, e lhe disse—Olhae, veio a
-vossa terra este grande <i>Marata</i>, e aqui fez muitas maravilhas,
-como por tradicção vos contou vossos antepassados. Foi
-elle quem fez talhar, á rocha, o altar as imagens, e as inscripções,
-que ainda existem actualmente, como tendes visto.<a id="Nanchor_108" href="#Note_108" class="fnanchor">[108]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_302"></a>[302]</span></p>
-
-<p>Foi elle quem vos deixou a <i>mandióca</i>, e vos ensinou a
-fazer pão, pois vossos paes, antes de sua vinda, comiam só
-raizes amargas dos mattos.</p>
-
-<p>Como não quizestes obedecer, elle vos deixou, predizendo
-grandes desgraças, e que ficarieis por muito tempo sem
-vêr <i>Maratas</i>.</p>
-
-<p>Tal qual aconteceo, e só agora é que tivestes quem vos
-livrasse das mãos do diabo, e vos fizesse filho de Deos.</p>
-
-<p>Tomae cuidado em não fazerdes o que fizeram vossos
-paes.</p>
-
-<p>Logo que lhes transmitti estas palavras pelo meu interprete,
-olhou para a imagem de Sam Francisco e me disse—quem
-é aquelle que está vestido como tu?</p>
-
-<p>É, disse eu, o pae de nós outros padres, que assim se
-vestem.</p>
-
-<p>Vive ainda? replicou, está em França? Foi elle quem te
-mandou para cá e aos outros padres?</p>
-
-<p>Não, respondi, ja não vive, morreo, porque nós todos morremos,
-porem deixou successores, que nos mandaram para
-cá. Não está mais em França, e sim no Ceo com Deos, onde
-esperamos ir vel-o.</p>
-
-<p>Não tinha mulheres, como vós não tendes? perguntou.</p>
-
-<p>Não, respondi, porque todos os padres não as tem, imitando
-assim o Filho de Deos, seo Rei, que vivendo n’este
-mundo não tinha mulher.</p>
-
-<p>Dizendo isto, olhava o Ceo e as sanefas que cobriam nosso
-altar, as quaes eram de bello damasco com grandes folhagens,
-agaloadas, e guarnecidas de passamanes e franjas de
-prata fina, bem como o frontal do altar.</p>
-
-<p>Disse depois que tudo era bonito, e que serviamos <i>Tupan</i>
-com grande reverencia e pedio-me para baptisal-o antes do
-seo regresso, e que lhe desse imagens para leval-as comsigo.</p>
-
-<p>É preciso, respondi, que saibas antes a doutrina de Deos.</p>
-
-<p>Não me dissestes ja, replicou elle, tudo quanto era necessario
-saber para ser lavado?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_303"></a>[303]</span></p>
-
-<p>Não, respondi, isto não passou de uma conversa: ha ainda
-muito que aprender.</p>
-
-<p>Que me ensinarás ainda?</p>
-
-<p>Respondi—si quizeres morar commigo eu te ensinarei, ou
-te farei ensinar muita coisa, mas não te posso baptisar ja,
-sem primeiro saberes a doutrina de <i>Tupan</i>. Quero experimentar
-tua constancia, e esperar nossos padres que não tardam
-a chegar conforme me prometteram. Elles te baptisarão,
-e irão comtigo fazer a casa de Deos na tua aldeia, e
-não te deixaram mais.</p>
-
-<p>Antes d’isso não deixes de repetir na tua <i>caza grande</i> á
-teos similhantes o que sabes: não faças mais feitiçarias, e
-assim nós, e todos os francezes, te estimaremos, e sempre
-serás bem vindo.</p>
-
-<p>Prometto, disse elle, e cumprirei minha palavra. Bem desejo
-que tu me lavasses agora. Não deixarei de te vir visitar
-muitas vezes, porque sempre aprenderei alguma coisa.</p>
-
-<p>Chamou então seos companheiros, que ficaram por todo
-este tempo na porta da igreja.</p>
-
-<p>Que obediencia e respeito entre os selvagens! Mandou que
-se aproximassem ao altar e á elles repetio o que lhe ensinei,
-mostrando-lhes as imagens e explicando o que representavam.</p>
-
-<p>Esta pobre gente estava como que fóra de si, mostrando-se
-admirada a seo geito, e depois despedio-se e foi para
-o Forte de S. Luiz, onde embarcou e regressou á sua terra.</p>
-
-<p>Veio depois visitar-me para tratar do mesmo objecto, e
-contou-me como cumprio suas promessas, fallando na <i>caza
-grande</i>, e repetindo o que lhe ensinei, e affirmou que todos
-se fariam christãos logo que elle fosse baptisado, o que me
-pedio ainda uma vez.</p>
-
-<p>Animei-o a continuar a proceder assim, e dei-lhe esperança
-de que seria baptisado em pouco tempo, apenas chegassem
-os Padres de França.</p>
-
-<p>Conversamos ainda sobre os objectos, de que já nos tinhamos
-occupado da primeira vez, e com avidez recebia<span class="pagenum"><a id="Page_304"></a>[304]</span>
-todos os conhecimentos mostrando por seos gestos indizivel
-contentamento.</p>
-
-<p>N’esta segunda visita, veio mais modesto, e acompanhado
-por poucas pessoas, sem muitos enfeites de pennas, e fallando
-com muito menos arrogancia do que o fez na primeira
-vez.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XVIII">CAPITULO XVIII</h3>
-
-<p class="subhead">Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra.</p>
-
-</div>
-
-<p>O grande feiticeiro de <i>Tapuytapéra</i> era homem muito
-respeitavel, de boa estatura e bem feito, valente guerreiro,
-modesto, grave, e de poucas palavras: era muito amigo dos
-francezes, e gozava entre os habitantes do seo paiz do mesmo
-poder, que Pacamão em <i>Commã</i>, Japy-açú em <i>Maranhão</i>,
-o Arraia-grande entre os <i>Caietés</i>, Thion e Farinha-molhada
-entre os <i>Tabajares</i>, rico, e de muito bons filhos, que
-são fieis aos francezes e christãos, como d’aqui ha pouco
-diremos.</p>
-
-<p>Veio ao Fórte de S. Luiz seguido por perto de tresentos
-a quatrocentos dos seos companheiros para fazel-os trabalhar
-nas fortificações, e regressar á seos lares depois de acabarem
-seo tempo, revesando-se assim, e nunca menos de dusentos
-a tresentos selvagens.</p>
-
-<p>Durante as horas do trabalho assentava-se elle junto aos
-francezes mais graduados, ahi vigiava a sua gente, animava-a,
-e recommendava-lhe perfeição de obra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_305"></a>[305]</span></p>
-
-<p>Fui vêl-o n’essa lida, desculpou-se muito para commigo,
-por intermedio do seo interprete, por não me ter vindo vêr
-logo que chegou a Ilha, por estas palavras:</p>
-
-<p>«Não te fui procurar, embora tivesse muito que conversar
-comtigo, porem deve ser com descanço.</p>
-
-<p>«Agora é preciso vigiar minha gente no trabalho, afim de
-se empregar com animo na fortificação d’esta praça.</p>
-
-<p>«Não deixarei de te ir vêr com <i>Migan</i>, que está aqui para
-te fazer sabedor do que eu digo, contando-me tambem as
-maravilhas, que ensinas aos nossos similhantes.»</p>
-
-<p>Respondi-lhe, que achava isto bom, e que estava contente
-vendo-o assiduo no trabalho para que fóssem bem
-feitas as trincheiras e fóssos afim de resistirem a seos inimigos,
-e que depois si nos offerecia occasião de conferenciarmos:
-que era só isto, que eu desejava, que nós todos o
-estimavamos e muito, tanto por sua bondade natural como
-porque elle era amigo dos francezes, e sempre fiel.</p>
-
-<p>Assentamos-nos depois um em frente do outro, conversamos
-sobre muitas coisas indifferentes, especialmente do enthusiasmo
-de sua gente, e particularmente das crianças, que
-carregavam terra, o que causava a elle e á nós muita satisfação,
-fazendo-me dizer e a proposito, que bem razão lhes
-assistia n’esse trabalho, cheio de fervor e de coragem, pois
-era para elles, que se lidava, visto que um dia veriam as
-maravilhas feitas pelos francezes n’esta terra.</p>
-
-<p>«Serão bem differentes do que somos, dizia elle, porque
-serão <i>Caraibas</i>, andarão vestidos, e verão as Igrejas de
-Deos construidas de pedra.»</p>
-
-<p>Confirmei em minha resposta a felicidade de seos filhos
-no futuro, assegurando-lhes, que d’ella tambem gozariam
-porque não haveria muita demora na vinda de soccorros e
-navios de França trazendo muitos Padres, muitos francezes
-guerreiros, muita ferramenta e generos para elles: que então
-se construiriam casas á maneira dos francezes, que seriam
-acompanhados por elles quando fossem guerrear seos
-inimigos, que viriam os <i>Tupinambás</i> e os outros alliados<span class="pagenum"><a id="Page_306"></a>[306]</span>
-cultivar a terra da <i>Ilha</i>, e que tudo isto poderiam vêr antes
-de morrerem.</p>
-
-<p>Ditas estas palavras despedi-me d’elle, e regressei á minha
-habitação.</p>
-
-<p>Quando acabou o tempo do seo trabalho veio visitar-me,
-acompanhado pelos principaes da sua Nação, e pelo interprete
-<i>Migan</i>.</p>
-
-<p>Assentou-se, e pedindo fumo, como costumava, me disse
-estas palavras:</p>
-
-<p>—Antigamente usei de muitas feitiçarias para me tornar
-grande e authoridade entre os meos.</p>
-
-<p>Muito tempo ha que conheci este abuso, e que zombo dos
-que se empregam n’este officio.</p>
-
-<p>Não ignoro a existencia de um Deos, porem não sei conhecel-o.</p>
-
-<p>Seria impossivel o giro annual do sol, a existencia de ventos
-e chuvas, e o forte estampido dos trovões si não houvesse
-um Deos, autor de tudo isto.</p>
-
-<p>Temos então homens maus, que vivem livremente sem
-temer algum castigo, e pensamos que elles irão ter com
-<i>Jeropary</i>.</p>
-
-<p>Temos outros homens, que são bons, que não matam, que
-dão expontaneamente a sua comida, e pensamos serem elles
-amados por Deos, e por tanto que não vão cahir no poder
-do diabo.</p>
-
-<p>Alegrei-me muito quando me noticiaram a vinda dos padres,
-que faziam conhecer <i>Tupan</i>, e que em seo nome lavavam
-os homens: foi este o principal motivo, que aqui me
-trouxe para vos vêr, e manifestar-vos o meo desejo de ser
-instruido e baptisado, porque ja soube, que dissestes serem
-condemnados os não baptisados, e que se perderam
-nossos paes.</p>
-
-<p>Tenho muitos filhos, quero que sejam christãos, como eu
-afim de irmos todos para a companhia de Deos.</p>
-
-<p>Desejo edificar na minha aldeia para elle uma casa, e junto
-d’ella outra para vós: eu o sustentarei e nada lhe faltará.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_307"></a>[307]</span></p>
-
-<p>Os que na minha provincia confiam e tem fé em mim,
-serão christãos.—</p>
-
-<p>Traduzindo-me o interprete tudo quanto acima escrevi,
-acrescentou «este homem tem muito amor a Deos, e conhece-o
-muito, porque usa das palavras mais expressivas da
-sua lingua para melhor exprimir o que sente e conhece, e
-tenho muita pena de não poderdes entendel-o e conhecer o
-que elle diz. Respondei conforme seos desejos, fazei com
-que elle entenda estas palavras, o mais eloquentemente que
-puderdes.»</p>
-
-<p>«Informaram-nos os francezes muito bem de vós e de
-vossos filhos, tanto de vossa fidelidade, e amisade, como
-de vossa natural bondade: eis o verdadeiro meio de cedo
-receberdes o favor de Deos, alcançardes seo conhecimento
-e seo baptismo. Tu o vês ordinariamente diante de ti quando
-a terra produz facilmente muitos fructos, provenientes da
-semente n’ella lançada.</p>
-
-<p>«O homem é a terra, e o Evangelho a semente: quando
-Deos encontra boa terra, sem cardos e nem espinhos, elle
-ahi lança sua semente: á vista disto muito espero de ti e de
-teos filhos, e te asseguro que si fossemos mais nós os padres,
-tu já levavas um comtigo: tende porem paciencia,
-breve chegarão outros.</p>
-
-<p>«Não deixes comtudo de edificar a casa de Deos e a dos
-padres, para que apenas cheguem, possas leval-os e acommodal-os.</p>
-
-<p>«Não podes demorar-te aqui muito tempo em virtude do
-teo cargo: nós como somos poucos, não podemos tambem ir
-comtigo; conserva teos bons desejos, e Deos te ajudará.</p>
-
-<p>«Conheci ja que tens muito amor a Deos, que seo espirito
-tocou-te o coração, e illuminou-te o entendimento para te
-guiar no que me dissestes: é grande bem para ti, não o despreses.»</p>
-
-<p>Respondeo-me assim:</p>
-
-<p>—Nunca fui mau, nunca me agradaram as carnificinas dos
-nossos escravos. Nunca roubei as mulheres dos outros, contentava-me<span class="pagenum"><a id="Page_308"></a>[308]</span>
-com as minhas. É bem verdade, que me fiz temido
-ameaçando os que me despresam com molestias, que
-contrahiam por medo.</p>
-
-<p>Nunca fallei com Espiritos, como fazem os outros <i>pagés</i>, e
-apenas empreguei a subtilesa da minha intelligencia, e a
-grandesa da minha coragem. Minhas feitiçarias concorreram
-menos do que a coragem, que muitas vezes hei manifestado
-na guerra, para conquistar a authoridade que hoje occupo.</p>
-
-<p>Estou velho, e só ambiciono paz e tranquilidade.—</p>
-
-<p>Respondi-lhe haver procedido bem, irritando contra si
-muito menos o soberano, á vista do comportamento de outros
-feiticeiros, que entretinham relações com o diabo, e que
-assim ficasse gosando a tranquillidade de sua consciencia até
-o dia do seo baptismo.</p>
-
-<p>Pedio-me para vêr a Capella, e buscou informar-se de tudo
-quanto via—altares, paramentos, e imagens.</p>
-
-<p>Expliquei-lhe tudo bem á sua vontade, e assim despedio-se
-de mim para regressar ao seu paiz, o que fez. Dei-lhe
-imagens para levar comsigo, o que recebeo com muita alegria,
-e expliquei-lhe o que significavam, e recommendei-lhe
-que as guardasse com todo o cuidado para que <i>Jeropary</i>
-não as tomasse, visto ter sido vencido antigamente pelo Filho
-de Deos, que morreo na Cruz.</p>
-
-<p>Com taes impressões partio.</p>
-
-<p>Pouco tempo depois foi convertido Martinho Francisco a
-quem permittimos edificar uma Capella na sua aldeia, onde
-celebrariamos missa, e baptisariamos quando fossemos a <i>Tapuitapéra</i>.</p>
-
-<p>Este grande feiticeiro, de quem acabamos de fallar, teve
-ciumes, e mandou-me dizer, que muito se admirava de eu
-ter dado licença a Martinho Francisco para fazer uma Capella
-na sua aldeia antes d’elle construir uma na sua, preferencia
-que elle bem merecia pela sua grandesa, tendo
-tambem padres comsigo como lhe fôra permittido.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_309"></a>[309]</span></p>
-
-<p>Aos que me trouxeram o recado respondi não ter ultrapassado
-de forma alguma minhas palavras e promessas, que
-era elle o primeiro de <i>Tapuitapéra</i>, a quem tinha dado licença
-para fazer uma capella, que devia preceder os outros
-e em quanto aos padres ainda não tinham chegado: que
-quando fossemos a <i>Tapuitapéra</i> não deixariamos de ir vel-o
-e visital-o; mas que eu não podia recusar a Martinho Francisco,
-ja christão, o ter junto de si uma casa de Deos para
-fazer suas orações. Achou boa a resposta.</p>
-
-<p>Entre os convertidos por Martinho, depois do seo baptismo,
-foram dois dos filhos d’este <i>Muruuichaue</i>, e com isto
-teve Martinho singular consolação, animando-os a aprender
-suas crenças e a doutrina christan; porem aconteceo, infelizmente,
-serem elles seduzidos pelas más palavras de um de
-nossos interpretes para deixarem o Christianismo.</p>
-
-<p>Sabendo seo bom pae, que elles para esse fim tinham deixado
-seos habitos e vestidos, lhes disse o que ides fazer?
-moveis-vos por bem pouco!</p>
-
-<p>«Porque vos despis, e dissestes, que não querieis mais
-ser christãos?</p>
-
-<p>«Quero agora que torneis a tomar vossos vestidos; ide procurar
-Martinho Francisco na sua aldeia, e d’elle recebei a
-doutrina, que os padres lhe ensinaram.</p>
-
-<p>«Não vos separeis d’elle, e nem cá venham senão em sua
-companhia.</p>
-
-<p>«Eu mandarei chamal-o para que vá ter com os padres.»</p>
-
-<p>Estes rapazes obedeceram a seo pae, tornaram a tomar
-seos vestidos, vieram procurar Martinho Francisco, que foi
-ter com o grande feiticeiro, e veio depois em companhia de
-muitos christãos ao Forte de Sam Luiz para nos declarar, e
-aos nossos chefes, como se passaram estas coisas, e a ellas
-se deo remedio, conforme a occasião permittio.</p>
-
-<p>O Revd. Padre Arsenio, acompanhado por muitos christãos,
-foi vêl-o em sua aldeia, onde foi muito bem recebido,
-notando toda a alegria que póde mostrar no rosto um selvagem,
-presenteou-lhe com muita caça, e rogou-lhes que<span class="pagenum"><a id="Page_310"></a>[310]</span>
-si quizesse morar em <i>Tapuitapéra</i> que escolhesse para
-residencia sua aldeia, e ahi seria bem acommodado, tanto
-quanto permitte o paiz.</p>
-
-<p>Depois d’isto mandou-me seo filho mais velho, chamado
-<i>Chenamby</i>, «minha orelha,» com sua mulher, ambos com
-carga, e um filho pequeno. Disse <i>Chenamby</i>—Meo pae está
-com muito cuidado em ti, receia que não tenhas farinha, e
-é isto que aqui me traz. Logo que houver milho elle te mandará
-muito. Tem muita vontade de saber logo que aqui cheguem
-os Padres, porque immediatamente deixará a sua aldeia,
-e atravessará o mar para cumprimental-os, pedir um
-d’elles e leval-o comsigo para aprender a sciencia de Deos,
-e ser por elle lavado.</p>
-
-<p>Dois dos meos irmãos são <i>Caraibas</i>, os quaes, como sabes,
-se despiram, apesar das observações, que lhe fizeram,
-actualmente vão indo bem, e estão sempre com o <i>padre-miry</i>,
-«padre pequeno,» (sobrenome que davam a Martinho
-Francisco por causa do empenho d’elle em converter as almas):
-quero ser christão, conjunctamente com meo pae, minha
-mulher, que aqui está, e meo filho pequeno que ella
-carrega, o qual chegando á idade propria, darei aos padres
-para ser por elles instruido.—</p>
-
-<p>Este <i>Chenamby</i> balbuciava um pouco o francez, e entendia
-tambem alguma coisa, graças ao trabalho e empenho,
-que para isso empregava, fallando com os francezes o mais
-que podia.</p>
-
-<p>Respondi-lhe em sua linguagem por meio do interprete,
-d’esta forma:</p>
-
-<p>«Que estava muito contente por seo pae lembrar-se de nós
-principalmente pela constancia da boa vontade de seo pae
-e de seos irmãos para com o christianismo, e especialmente
-vendo elle e sua mulher dispostos a receberem a fé christã,
-e a nos offerecerem seos filhos para ensinarmos o que fosse
-conveniente quando comnosco estivesse.</p>
-
-<p>«Exhortei-os por muitas palavras a terem elle e sua mulher
-constancia em tal desejo.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_311"></a>[311]</span></p>
-
-<p>Sua mulher era de agradavel presença, moça, modesta, e
-trazia em seos olhos não sei que pudor, não se animando a
-olhar-me directamente: alem d’isto occultava com o pé direito
-de seo filho sua enfermidade, guardando o respeito natural
-de não se apresentar de outra forma diante de mim,
-de que tirei boa conclusão agradando-me ainda mais de suas
-maneiras e procedimento: achei-a muito boa e caridosa para
-com os francezes, humilde e obediente a seo sogro e marido,
-virtudes não pequenas n’uma india.</p>
-
-<p>Antes de partir prometteo-me seo marido, que não casaria
-com outra, e nem a abandonaria.</p>
-
-<p>Respondi-lhe, que se assim fizesse os padres o casariam
-á face da igreja, depois de baptisado.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XIX">CAPITULO XIX</h3>
-
-<p class="subhead">Conferencia com Iacupen.<a id="Nanchor_109" href="#Note_109" class="fnanchor">[109]</a></p>
-
-</div>
-
-<p>Era Iacupen um dos principaes da tribu dos <i>canibaleiros</i>,
-conduzidos para a ilha pelo Sr. de la Ravardiere, pae de
-um mancebo christão, de boa indole, chamado João, e antes
-<i>Acaiuy-miry</i>, «cajú pequeno ou cajusinho.» Teve por varias
-vezes o trabalho de vir de Juniparan procurar-me e
-conversar commigo sobre as coisas divinas, e sobre a vaidade
-d’este mundo.</p>
-
-<p>Um dia veio a minha casa com seo filho, e assim fallou-me:</p>
-
-<p>—Tenho muito desgosto de não ser baptisado, porque sei
-que em quanto estiver assim, o diabo pode perseguir-me e
-perder-me.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_312"></a>[312]</span></p>
-
-<p>Ah! quem pode assegurar-me a vida até a noite?</p>
-
-<p>Agora volto para minha aldeia, posso encontrar uma onça
-furiosa, que me corte a garganta, e me mate sosinho no
-bosque.</p>
-
-<p>Para onde irá meo espirito?</p>
-
-<p>Não tenho pesar e nem inveja, que meo filho, que aqui
-está, se baptisasse primeiro do que eu.</p>
-
-<p>Mas dize-me: não é coisa notavel, que elle seja Filho de
-Deos antes de mim, seo pae, e que eu d’elle aprenda o que
-devia ensinar-lhe?</p>
-
-<p>Penso n’isto, e torno a pensar muitas vezes, principalmente
-depois da vossa vinda, e da de outros padres: lembro-me da
-crueldade de <i>Jeropary</i> para com a nossa nação, porque tem
-feito morrer a todos, e persuadio a nossos feiticeiros de conduzir-nos
-ao centro de uma floresta desconhecida, onde dançariamos
-constantemente, alimentando-nos somente do amago
-das palmeiras e da caça, succumbindo muitos por fraqueza
-e debilidade.</p>
-
-<p>Sahindo nós de lá, e vindo nos navios do <i>Muruuichaue</i>
-la Ravardiere para a ilha do Maranhão, armou-nos <i>Jeropary</i>
-outra emboscada, instigando por meio de um francez aos
-<i>Tupinambás</i> para matarem e comerem muita gente nossa:
-si não é a vossa chegada acabariam comnosco.</p>
-
-<p>Ja vedes, que somos muito infelizes n’esta vida.</p>
-
-<p>Perseguimos os veados e outros bixos para matal-os e comel-os,
-porem elles não necessitam de ferramentas, de fogo
-e nem de canoas, pois acham a comida feita: quando perseguidos
-n’um lugar, em poucas horas transportam-se para
-outro atravessando até braços de mar, sem canôa: nós outros
-porem não podemos fazer o mesmo: faltam-nos ferramentas,
-fogo e canoas, e o que é mais, vem ainda perseguir-nos
-nossos inimigos, ora os <i>Peros</i>, ora os <i>Tupinambás</i>,
-e finalmente outras nações adversarias: finalmente a nossa
-posição é peior do que a dos animaes da terra.—</p>
-
-<p>Respondi-lhe: «O que disseste, é bem certo, porque o diabo
-o que deseja somente é matar o corpo e perder a alma,<span class="pagenum"><a id="Page_313"></a>[313]</span>
-e assim procede sempre com aquelles, com quem tem pouco
-a ganhar retendo-os em suas cadeias: é um monsenhor,
-e trata cruelmente seos servos.</p>
-
-<p>«Deos não é recebedor dos velhos, e nem dos moços. Os
-primeiros, que se apresentam, são recebidos por elle, comtudo
-os ultimos são sempre os primeiros, porque recebem o
-christianismo com mais consideração, e o conservam com
-mais fervor do que os que o abraçam ligeiramente.</p>
-
-<p>«Nosso Deos nos fez miseraveis n’este mundo afim de não
-olharmos só nas delicias da carne, e sim para preparar-nos
-com destino a outra vida alem d’esta.»</p>
-
-<p>Antes de passar adiante convem explicar o que elle quiz
-dizer, quando fallou da desgraça de sua nação, devida aos
-conselhos dos seos feiticeiros, e á carnificina feita pelos <i>Tupinambás</i>.</p>
-
-<p>Havia entre elles um grande feiticeiro, que entretinha com
-o diabo visiveis relações, e gozava de tal poder entre elles
-que todos lhe obedeciam.</p>
-
-<p>Aproveitou-se o diabo de tal ensejo para seduzir e enganar
-esta populaça, ensinando ao feiticeiro o que devia
-dizer-lhe para elle ir tomar posse d’uma terra, onde tudo,
-facil e sem trabalho lhe appareceria á medida de seos desejos.</p>
-
-<p>Esta nação, tão cheia de prejuisos, seguio este desgraçado,
-não intermediando muito tempo sem conhecer a zombaria
-do espirito do conductor, porque falleceram milhares, e
-acharam-se no meio de vasta floresta, dançando constantemente,
-como elle lhe ordenou, até que chegasse o Espirito
-para lhe indicar o lugar procurado.</p>
-
-<p>Ahi achou-se o Sr. de la Ravardiere, demonstrou-lhe seo
-engano, o que reconhecido, seguiram-no e embarcaram-se
-em seos navios com destino á Ilha do Maranhão, onde algum
-tempo depois um miseravel francez tendo uma questão
-com o Principal d’essa gente, para vingar-se, instigou os
-<i>Tupinambás</i> a matal-a, subindo esta carnificina a cem ou á
-cento e vinte, entre mortos e prisioneiros.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_314"></a>[314]</span></p>
-
-<p>Tal barbaridade foi praticada cinco ou seis mezes antes da
-nossa chegada.</p>
-
-<p>Continuemos.</p>
-
-<p>Depois de minha resposta, disse-me:</p>
-
-<p>—Tenho bem pesar de não poder obsequiar-vos como
-mereceis, porque não tenho meios de ter escravos; outr’ora
-fui rico, hoje sou pobre.</p>
-
-<p>Fiz o que pude ao padre, residente em <i>Juniparan</i>.</p>
-
-<p>Tenho bem pesar de não traser-te caça sempre que venho
-vêr-te.—</p>
-
-<p>Repliquei-lhe immediatamente:</p>
-
-<p>«Não é isto que desejo de ti, e estou muito contente de
-conhecer tua devoção, e tua boa vontade, porem ambiciono
-que sempre progridas de dia á dia, e adquiras novos conhecimentos
-á respeito de Deos.</p>
-
-<p>«Tens um padre na tua aldeia, visita-o sempre, e d’elle
-aprende as maravilhas de <i>Tupan</i>.</p>
-
-<p>«Tens alem d’isto teo filho, que sabe a doutrina christan;
-elle que a ensine a ti e a todos de tua casa, o que fará melhor
-do que nós, visto pronunciar bem as palavras da tua
-lingua.»</p>
-
-<p>—O que acabas de dizer-me afflige-me muito, respondeo-me
-elle, porque meo filho depois de christão, logo no principio,
-procedeo bem: ja sabia lêr um pouco no seo <i>Cotiare</i>,
-e escrever, estava sempre com o padre, e o seguia por toda
-a parte.</p>
-
-<p>Deixou depois tudo isto, entregou-se á liberdade, esqueceo
-o que havia aprendido, e foge para o matto quando o padre
-o procura: isto me mata e como nada aproveito em fallar-lhe,
-eu te peço que tu lhe mostres, e proves ser elle filho
-de Deos, e que <i>Jeropary</i> o quer seduzir: eil-o aqui, falla-lhe.»</p>
-
-<p>Satisfiz-lhe o desejo, recordando á seo filho o fervor, com
-que recebeo o baptismo, admirando-me de vel-o tão mudado
-a ponto de fugir dos padres, pelo que eu acreditava andar
-o diabo no seo encalço si não regressasse aos seos deveres,<span class="pagenum"><a id="Page_315"></a>[315]</span>
-se não frequentasse o padre de <i>Juniparan</i>, e não
-abraçasse sua antiga fé.</p>
-
-<p>Ouvio-me pacientemente, e prometteo-me melhor procedimento.</p>
-
-<p>Considerae, eu vos peço, o zelo de um verdadeiro pae
-para salvar seo filho, como mostrou o grande feiticeiro de
-<i>Tapuitapéra</i>: este pae é ainda pagão, e comtudo vós o vedes
-solicito, e cuidadoso pela consciencia de seo filho.</p>
-
-<p>Quantos paes ha em França, que só cuidam dos bens temporaes
-de seos filhos, e despresam os espirituaes!</p>
-
-<p>Veio outra vez visitar-me em companhia de alguns selvagens,
-seos visinhos: rolou nossa conversação á respeito da
-creação do Mundo, da providencia de Deos para com o procedimento
-dos homens, e da vocação singular e particular
-de cada um.</p>
-
-<p>—É preciso, disse, que seja Deos um Espirito poderoso,
-incomprehensivel para nós, para crear com uma só palavra,
-como ouvimos muitas vezes de vós outros padres, tudo o
-que vemos e ouvimos.</p>
-
-<p>Imagino a immensidade do mar, que ha d’aqui até a França,
-tanto assim, que os navios gastam doze luas no trajecto
-de ida e volta, e admiro que o sol, que temos, seja tambem
-vosso.</p>
-
-<p>Quantos passaros, peixes, e animaes existe no Mundo, todos
-foram feitos por <i>Tupan</i>.—</p>
-
-<p>O segundo ponto de discussão foi este:</p>
-
-<p>«Vejo-me embaraçado quando penso nas diversas nações,
-que existem no Mundo.</p>
-
-<p>«Vejo os francezes ricos, valentes, inventando navios para
-passarem o mar, canoas, e polvora para matar os homens
-insensivelmente, bem vestidos e nutridos, temidos e respeitados.</p>
-
-<p>«Ao contrario nós vivemos errantes e vagabundos, sem
-roupas, machados, fouces, facas e outras ferramentas.</p>
-
-<p>«De que procede isto?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_316"></a>[316]</span></p>
-
-<p>«Nascem ao mesmo tempo dois meninos, um francez, e
-outro <i>Tupinambá</i>, ambos doentes e fracos, e não obstante
-um nasce para gozar de todas as commodidades e o outro
-para viver pobremente.</p>
-
-<p>«Livres nascemos, um não tem mais do que outro, e comtudo
-uns são escravos, e outros <i>Muruuicháues</i>.»</p>
-
-<p>Eis o terceiro ponto de discussão:</p>
-
-<p>—Não posso tranquilisar o meo espirito quando penso, que
-vós outros francezes tendes mais conhecimento de Deos do
-que nós. Porque temos vivido tanto tempo na ignorancia?
-Dizei-nos, que foi Deos quem vos enviou, e para que não o
-fez antes? Nossos paes não se teriam perdido, como succedeo.
-Os padres são homens como nós, e porque elles fallam
-a Deos, e nós não?—</p>
-
-<p>Respondi-lhe a tudo isto, dizendo «ser muito pequeno
-nosso espirito para conceber coisas tão altas, reservadas por
-Deos só para si. Basta saber que elle fez tudo, ama e dá o
-necessario a todos.»</p>
-
-<p>Quando vê um individuo disposto a abraçar suas crenças
-não deixa de o mandar vesitar pelos seos Apostolos, que lhe
-proporcionam meios de salvar-se, sendo de crer não achar-se
-seo coração e espirito, antes da nossa vinda, disposto e
-apto para receber tão grande luz, qual a do Evangelho.</p>
-
-<p>Estes e outros discursos similhantes, que adiante encontrareis,
-vos habilitarão a julgar da capacidade de suas
-almas para receberem a fé de Jesus Christo, nosso Salvador.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_317"></a>[317]</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XX">CAPITULO XX</h3>
-
-<p class="subhead">Conferencia com o Principal d’Orobutin.</p>
-
-</div>
-
-<p>Era este Principal de alta estatura, muito magro, modesto
-e affavel, e tinha estado doente desde a nossa chegada até
-quando veio vesitar-nos.</p>
-
-<p>Entrou em nossa casa acompanhado por alguns dos seos,
-com muito respeito e quasi a tremer.</p>
-
-<p>Acolhendo-o muito bem, mandei sental-o em frente a mim
-n’uma rêde de algodão, e logo conforme o costume, principiou
-assim a fallar-me:</p>
-
-<p>«Vim hoje ter comtigo, ó padre, para duas coisas: a primeira
-para desculpar-me e pedir-te que não repares o não
-me encontrares quando chegaste em <i>Uraparis</i>, como fizeram
-<i>Japy-açú</i>, <i>Pira-Juua</i>, <i>Ianuarauaeté</i>, e outros Principaes
-da ilha, e não poude tambem vir antes de <i>Pacamão</i>,
-de <i>Aua Thion</i>, meo chefe, pois achava-me gravemente doente,
-porem no meio de minha molestia sempre tive o desejo
-de vêr teo rosto, e ouvir de tua bocca o que meos
-companheiros de aldeia me contavam de vós outros padres.</p>
-
-<p>«A segunda coisa que aqui me traz, é offerecer-te meos
-filhos, que t’os dou, quero que sejam teos, e que os faças
-<i>Caraibas</i>.</p>
-
-<p>«Desejo igualmente e peço-te, que venhas tu ou um dos
-padres á minha aldeia edificar uma casa para Deos instruir
-a mim e a meos similhantes, e declarar-nos o que <i>Tupan</i>
-deseja de nós para sermos lavados, como tem sido os outros.</p>
-
-<p>«Asseguro-te que não faltariam viveres, por ser minha
-terra boa e abundante de caça.»</p>
-
-<p>Advirto ao leitor, que é facil traduzir as palavras e pensamentos
-d’este selvagem, porem não os gestos e a vivacidade
-do seo espirito ao pronuncial-os: direi apenas que suas
-expressões eram acompanhadas de lagrymas e com vóz cheia<span class="pagenum"><a id="Page_318"></a>[318]</span>
-de fervor e devoção revelava-me o toque do Espirito Santo,
-e o ardente desejo de ser christão.</p>
-
-<p>Respondi-lhe:</p>
-
-<p>«Não precisa pedires desculpa pela tua auzencia quando
-saltamos na ilha, porque alem de estares doente, muito
-longe é d’aqui á tua aldeia, e isto só basta para seres desculpado.</p>
-
-<p>«Regosijo-me muito vendo em ti tão boa vontade para
-comnosco, e tão grande desejo de tua salvação, da de teos
-filhos e em geral da de teos similhantes.</p>
-
-<p>«Si actualmente tivessemos mais padres acredita que eu
-iria, ou mandaria outro á tua aldeia, porem não podemos
-deixar a ilha por causa dos estrangeiros que nos vem vêr,
-e ao que é conveniente corresponder.</p>
-
-<p>«Logo que chegarem os padres de França asseguro-te
-que terás um d’elles, porque reconheço claramente seres
-um dos escolhidos por Deos para seo filho.</p>
-
-<p>«Coragem, e espera o que te digo.»</p>
-
-<p>Replicou-me:</p>
-
-<p>«Déste-me muita consolação, porque desde que correo o
-boato em nossa terra de dizerdes maravilhas de <i>Tupan</i> e
-de tratardes com bondade nossos similhantes, que eu nunca
-mais tive socego de espirito.</p>
-
-<p>«Quando irás procurar os padres, quando da bocca delles
-ouvirás o que dizem teos compatriotas? Levanta-te, e faze
-esforços para caminhar.</p>
-
-<p>«Obedecendo muitas vezes a este pensamento, levantei-me
-da cama, porem estava tão magro e descarnado, que
-nem pude sustentar-me nas pernas: olha para meos braços,
-meo corpo, e minhas coxas, que não recobraram ainda a
-carne e a gordura, que a molestia me comeo.</p>
-
-<p>«Admirou-me muito quando soube ter <i>Marentin</i> vindo tão
-doente procurar-te, e receber o baptismo.</p>
-
-<p>«Peço-te encarecidamente, que antes do meo regresso me
-ensines alguma coisa de Deos, e acredita, que fixarei em<span class="pagenum"><a id="Page_319"></a>[319]</span>
-minha memoria, e não esquecerei uma só palavra, e mui
-fielmente o referirei a minha gente e a meos filhos.</p>
-
-<p>«Tenho tres filhos, sendo o mais velho este que aqui vedes:
-quero que fiquem com os padres quando vierem, que
-se assentem á seos pés, e que escutem com cuidado o que
-elles disserem, e cumpram suas ordens.</p>
-
-<p>«Elles caçarão e pescarão para os padres.»</p>
-
-<p>Pelo interprete lhe disse ter elle razão, e que eu não podia
-recusal-a, e assim que attendesse bem ao que eu ia ensinar-lhe,
-e que chamasse para junto de si seo filho e seos
-companheiros, o que feito principiei a explicar-lhes o mysterio
-da creação e da redempção por meio de comparações
-ordinarias e palpaveis.</p>
-
-<p>É impossivel descrever-se a attenção e emoção, com que
-elle recebia estas agoas sagradas do Redemptor.</p>
-
-<p>Nunca animal algum foi tão avido e desejoso por uma
-fonte clara em pleno estio, do que este saboreando a nova
-doutrina.</p>
-
-<p>Prasa ao Ceos, sem fazer comparação alguma, que os christãos
-acolhessem a palavra de Deos com tanta avidez.</p>
-
-<p>Tinha as espaduas curvadas, em quanto fallei, os olhos
-meio baixos, e apenas como que a furto respirava e cuspia,
-e n’essa occasião era possivel presentir-se o caminhar de
-um rato.</p>
-
-<p>No fim disse-me—que grandes coisas! nunca ouvi fallar
-n’ellas e nem n’outras similhantes, porque Deos não quiz
-fallar comnosco, e nem com os nossos antepassados, e nenhum
-<i>Caraiba</i> ainda nos entreteve contando-as.</p>
-
-<p>Acabas de dizer-me que Deos está em toda a parte, que
-não póde ser visto, mas vê tudo e nos ouve, acompanhando-nos
-por toda a parte, e sempre adiante: que somente os
-baptisados podem sentil-o e reconhecel-o, que não tem corpo
-como nós, mas sim é um espirito derramado por todo o
-universo.</p>
-
-<p>Ouvi bem, mas difficilmente comprehendo, porque não estamos
-costumados a ouvir tão grandes coisas, e sim temos<span class="pagenum"><a id="Page_320"></a>[320]</span>
-inclinação natural para pescar, caçar, flechar e fazer muitos
-exercicios. Em quanto aos mais entregamo-nos aos nossos
-feiticeiros, dotados de animo mais subtil para conversarem
-com os espiritos.</p>
-
-<p>Disseste-me ser Deos como o ar que respiramos constantemente,
-pois sem elle morreriamos: que <i>Tupan</i> nos dava
-vida e respiração, entrava em nós e nos cercava por toda
-a parte como o ar: que assim como o ar existe e vae por
-toda a parte, assim tambem Deos entrava e existia em todo
-o lugar.</p>
-
-<p>Entendo bem este ponto, pois si Deos fez o ar, necessariamente
-é mais do que elle.</p>
-
-<p>Estou muito satisfeito por me dizeres, que <i>Jeropary</i> apenas
-era criado ou servo de <i>Tupan</i>, que é perseguido pelos
-espiritos bons, quando faz ou persegue algum homem ou
-mulher sem licença de Deos, e que finalmente não tem poder
-sobre os baptisados.</p>
-
-<p>Bem fez Deos, porque <i>Jeropary</i> é mau, e eu bem desejaria
-que elle fosse açoitado até morrer pelos bons Espiritos.</p>
-
-<p>Apenas eu fôr christão, si elle aproximar-se de minha aldeia,
-irei atrevidamente ao seo encontro, e não terei medo
-algum.—</p>
-
-<p>Desculpae as expressões d’este selvagem, não christão.</p>
-
-<p>Escutae o resto da sua conversação.</p>
-
-<p>—Era necessario, que a moça, com quem Deos se casou,
-fosse muito bonita, riquissima, e a mais poderosa do seo
-paiz, por ser <i>Tupan</i> o maior de todos os <i>Muruuichaues</i>:
-creio que seo filho tinha grande sequito e muito acompanhamento;
-porem os malvados traidores, que o mataram,
-eram velhacos e cautellosos porque o fizeram occultamente
-pois si sua gente soubesse o teriam defendido.</p>
-
-<p>Parece-me que ficariam bem admirados quando o viram
-sahir vivo de sua sepultura: devia então vingar-se dos que
-o fizeram morrer, mas tu me disseste uma coisa admiravel,
-isto é, que elle subio para o Ceo, somente em corpo e<span class="pagenum"><a id="Page_321"></a>[321]</span>
-alma, que está sentado acima do sól, que tem olhos mais
-claros que o sól e a lua, que nada se faz na terra, que elle
-não veja e observe tanto na tua patria como na nossa, ouvindo
-distinctamente as nossas palavras, as vossas preces
-nas Igrejas, escutando-as, e vindo todos os dias sobre os
-vossos altares, onde com elle fallaes, bem como todos os
-<i>Caraibas</i> com liberdade, até sem abrir a bocca, não deixando
-de perceber o que dizeis em vosso coração.</p>
-
-<p>Disseste tambem, que foi elle quem vos mandou para
-cá afim de ensinar-nos estas coisas, a meo vêr muito bellas,
-e não me enfadarei de ouvil-as, porem o barco está
-prompto para regressar, e estão á minha espera minhas roças,
-que deixei boas para a colheita.</p>
-
-<p>Tudo isto obriga-me a partir, alem de não ter trazido farinha
-commigo.—</p>
-
-<p>Respondi-lhe, que si era só por falta de farinha, que elle
-se via constrangido a partir, que eu tinha alguma á sua disposição
-e de seos companheiros.</p>
-
-<p>Agradeceo-me a seo modo, despedimos-nos reciprocamente,
-e elle partio.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XXI">CAPITULO XXI</h3>
-
-<p class="subhead">Conferencia com o Onda, um dos Principaes de Commã.</p>
-
-</div>
-
-<p>Este Principal sempre foi o pae commum dos francezes
-em <i>Commã</i> honrando-os, respeitando-os, e defendendo-os
-contra todas as más indisposições suscitadas, como era costume,<span class="pagenum"><a id="Page_322"></a>[322]</span>
-pelos malvados e libertinos, a ponto de ser por elles
-aborrecido e ameaçado de ser espancado senão morto a não
-ser o receio, que tinham dos francezes.</p>
-
-<p>Quando foi nossa gente ao Pará, elle a acolheu com toda
-a bondade e generosidade, ambicionando ser o <i>chetuasap</i>
-ordinario do chefe dos francezes, consistindo toda a sua
-fortuna e felicidade em ser amado e apreciado pelos francezes.</p>
-
-<p>Tinha um filho com 20 annos d’idade, que recommendou
-muito ao Sr. de la Ravardiere e a todos nós, pedindo que
-o acolhessemos bem, não exigindo outra recompensa de sua
-fiel amisade senão a de poder seo filho viver entre os francezes,
-n’uma palavra—ser francez.</p>
-
-<p>N’essa occasião tinha recommendado á seo filho, que se
-esforçasse o mais, que podesse, para aprender a lingua
-francesa, e para o conseguir com mais facilidade ordenou-lhe
-que frequentasse os francezes quanto podesse, estando
-sempre entre os residentes em <i>Commã</i>, e de tal fórma se
-houve, que aprendeo algumas palavras de nossa lingua.</p>
-
-<p>Pensou este bom homem ter obtido todas as riquezas do
-mundo, quando vio seo filho balbuciar vinte ou trinta palavras
-francezas, e julgou ser tempo de trazer este grande
-doutor aos <i>pays</i>, isto é, aos padres para ser baptisado, e
-depois ser <i>Caraiba</i>, «francez.»</p>
-
-<p>Tereis sem duvida notado, tanto por este discurso, como
-por muitos outros precedentes e subsequentes, que os selvagens
-julgavam necessario ser primeiro baptisado para depois
-ser francez, sendo manifesta loucura o pensar em contrario
-e na verdade não se enganavam.</p>
-
-<p>O verdadeiro francez é mais francez pela piedade e religião
-do que pela origem, visto que Deos o felicitou fazendo-o
-vassallo e subdito de um rei christianissimo, primeiro
-filho da igreja, e sempre seo fidelissimo protector, como demonstrou
-em todo o tempo e em todas as occasiões.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_323"></a>[323]</span></p>
-
-<p>Si dermos credito a Santo Agostinho, no Tratado do Ante-Christo,
-é elle, que deve resistir a este Ante-Christo, como
-se vê em mais de um lugar.</p>
-
-<p>Voltemos ao nosso homem.</p>
-
-<p>Trouxe seo filho com muito respeito, e assentando-se n’uma
-rêde, e o rapaz perto d’elle, desculpou-se de não ter vindo
-logo vêr-nos e visitar-nos, assegurando porem ser um dos
-nossos melhores amigos, que desejava ter padres com elle
-na sua aldeia, que os acolheria muito bem, que nada lhes
-faltaria para a vida, nem javalis, veados, e outros bichos
-proprios á esse fim.</p>
-
-<p>É por esta fórma que todos se desculpam.</p>
-
-<p>Depois d’isto, assim fallou-me:</p>
-
-<p>«Sou homem de idade, como vedes, porem tenho muita
-força, e espero vêr este meo filho, que aqui te trago, bom
-<i>Caraiba</i>, como me prometteo o Grande, que sympathisa com
-elle, quer vestil-o e tel-o aqui com os francezes.</p>
-
-<p>Eis porque venho pedir-te para laval-o com agoa de <i>Tupan</i>:
-assevero-te, que elle sabe tudo quanto é preciso saber,
-e breve o ouvirás porque tive o cuidado que elle fallasse
-com os francezes, e todos me dizem que elle entende
-muito.</p>
-
-<p>É bom rapaz e amigo dos francezes.»</p>
-
-<p>Dizendo isto, fez signal a seo filho para aproximar-se, e
-ordenou-lhe que contasse tudo quanto sabia de francez.</p>
-
-<p>Só com muito custo podia conter o riso, e nem si quer
-me era permittido usar do interprete que ria-se a bom rir,
-de tal simplicidade; comtudo, eu o tranquilisei pedindo-lhe
-desculpa pelas travessuras de um pequeno papagaio, que
-eu tinha, a fim de não pensar que era elle o provocador do
-riso.</p>
-
-<p>O rapaz recitou-me a doutrina, que seo pae julgava bastante
-para receber o baptismo, e o fez d’esta maneira: <i>bom
-dia, senhor, como estaes: Bem, senhor, prompto ao vosso
-serviço, quereis comer, sim: pão, peixe, carne, minha cabeça,<span class="pagenum"><a id="Page_324"></a>[324]</span>
-eo chapeo, meo gibão, meo borzeguim, minha camisa</i><a id="FNanchor_58" href="#Footnote_58" class="fnanchor">[BF]</a></p>
-
-<p>Não pude ouvir mais com receio de arrebentar de riso.</p>
-
-<p>Disse-lhe ser bastante, que só por isto eu fazia ideia d’elle
-não ter perdido seo tempo.</p>
-
-<p>O bom homem pressuroso interrompeo-me dizendo ter
-ainda que dizer-me.</p>
-
-<p>Levantou-se do seo logar, tomou todos os utencilios do
-meo quarto, e mostrando-me um apoz outro disse-me, que
-elle de tudo sabia o nome em francez.</p>
-
-<p>Aproximando-se de minha mesa, e agarrando-a com duas
-mãos, dizia—elle ainda sabe o nome d’isto em francez.</p>
-
-<p>Dirigio-se a seu filho, e perguntou-lhe se era verdade o
-que dizia. Sim, respondeo-lhe o moço, e ainda mais, pois
-chamaria pelo nome tal e tal francez, bem como tambem
-sabia a denominação das armas: <i>Um arcabuz, que faz puf,
-uma espada, um canhão, que faz pataú</i>.</p>
-
-<p>Mas, disse-lhe o pae, bem depressa saberás o resto?</p>
-
-<p>Sim.</p>
-
-<p>Muito bem, replicou o pae, não deixes de vir todos os
-dias recitar tua lição diante do padre.</p>
-
-<p>Deixando-lhe toda a liberdade de fallar afim d’eu poder
-conter o riso, e d’elle dar expansão ao seo fervor, que não
-era isto, que eu exigia para conferir-lhe o baptismo, e sim
-o conhecimento de Deos e de outras coisas dependentes da
-nossa religião.</p>
-
-<p>Ficou admirado de ouvir-me, reconhecendo inutil a estima
-que elle tinha de vêr seo filho, grande doutor, e parecendo
-não entender até o que eu lhe dizia.</p>
-
-<p>Pelo interprete expliquei-lhe o meu pensamento, e elle
-respondeo-me não ter ouvido ainda fallar n’isso, mas que<span class="pagenum"><a id="Page_325"></a>[325]</span>
-como seo filho era intelligente cedo aprenderia bastando-lhe
-apenas uma lua, para o que deixava seo filho no Forte de
-Sam Luiz.</p>
-
-<p>Disse-lhe que elle fazia muito, que eu o trataria o melhor
-que me fosse possivel, e sempre seria bem acolhido entre
-os francezes.</p>
-
-<p>Mas, disse eu, porque não procuras para ti o bem, que
-desejas a teo filho?</p>
-
-<p>Ah! respondeo-me, sou muito velho: nada mais poderei
-aprender, como esses rapazes, que vão ser <i>Caraibas</i>.</p>
-
-<p>Como, repliquei, antes queres ir com os diabos queimar-te
-no inferno, do que esforçar-te para aprenderes a sciencia de
-Deos? Tua velhice não é desculpa aproveitavel.</p>
-
-<p>Tens eloquencia para fallar um dia inteiro, si quizeres.
-Calcula ha quanto tempo fallas, e quantas palavras tens proferido.</p>
-
-<p>Não precisas aprender a quinta parte das questões, que
-me tens proposto, afim de seres christão; nas palavras de
-tua lingua, pelas quaes comprehendemos os objectos expressados
-na nossa linguagem.</p>
-
-<p>Aprendeis com muita facilidade cantigas e descantes, tão
-compridos sobre feitos de vossos antepassados.</p>
-
-<p>Poderás assim aprender facilmente o que queres, que saiba
-teo filho.</p>
-
-<p>Pois bem, me disse elle, vou fazel-o.</p>
-
-<p>Voltando-se para o filho, recommendou-lhe que escutasse
-bem tudo quanto lhe ensinassem, que não perdesse uma só
-palavra, e que imitasse todas as acções dos francezes, que
-viria depois buscal-o para a terra d’elle afim de ensinar-lhe
-o que tivesse aprendido.</p>
-
-<p>Serás bem recebido, todos farão caso de ti, e se reunirão
-para te ouvir contar tão boas coisas. Depois viremos procurar
-os padres para nos baptisarem.</p>
-
-<p>Assim fallando, olhou-me a sorrir-se.</p>
-
-<p>Muito bem, disse elle: Padre, não beberemos bom vinho
-de França? ou <i>Cauin</i>, que queima, isto é, aguardente?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_326"></a>[326]</span></p>
-
-<p>Não terás d’ella alguma garrafa na tua frasqueira? Dá-me
-as chaves d’ella.</p>
-
-<p>O <i>Muruuichaue</i> me deo em sua casa um pouco, e era
-muito boa e muito forte: esfregando seo estomago com a
-mão, dizia-me, olha, ainda sinto ella aquecer-me.</p>
-
-<p>É costume da França tirar da frasqueira a garrafa quando
-se recebe visitas de amigos.</p>
-
-<p>Tenho desejos de vir muitas vezes a <i>Yuiret</i>, quando chegam
-navios de França para gozar do seo vinho muito melhor
-do que o nosso.</p>
-
-<p>Vendo finalmente a simplicidade d’este homem, que foi o
-primeiro a rir-se, e não tratando nós mais das coisas de Deos,
-foi-me necessario rir tambem, dar-lhe agoardente, e depois
-de ter bebido um bom copo, pelo interprete notou não ter
-eu bebido com elle, que convinha fazel-o, e que depois elle
-me acompanharia.</p>
-
-<p>Assim o fiz para chamar estes homens ao seio de Deos,
-tel-os como que obrigados ou agradecidos a nós em tudo quanto
-podessemos, conforme sua naturesa, quando n’isto
-não ha offensa á Deos.</p>
-
-<p>Depois de achar-se um pouco enthusiasmado com o segundo
-copo começou a pronunciar gutturalmente estas palavras—<i>Goy
-y katu de katogne kauin tata</i>, «oh! quanto é bom,
-muito bom o vinho de fogo, ou o vinho que arde.»</p>
-
-<p>Como mau agouro ouvi a palavra <i>Goy</i>, que é o começo
-para beber-se muito, e principiei a cogitar na maneira por
-que havia de fechar a garrafa, visto não haver necessidade
-de tal despesa, então grande pela sua falta.</p>
-
-<p>Disse ao meu interprete, que a levasse, e este querendo
-cumprir a minha determinação, o meo selvagem agarrou a
-dizendo não ser costume dos francezes guardarem as garrafas,
-tiradas da frasqueira para a meza e que por muitas vezes
-se tinha achado entre elles.</p>
-
-<p>Reconheci que era necessario resgatar a minha prisioneira,
-embora ella nada me ficasse a devêr pela sua boa composição.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_327"></a>[327]</span></p>
-
-<p>Disse-lhe, que <i>cauiu-tata</i> não era similhante ao que tinha
-bebido antigamente, que perturbava a cabeça de quem
-o bebesse muito, que eu devia cuidar do seo corpo e de
-sua saude, mas que eu ainda lhe daria um copinho para dizer-lhe
-adeos, e assim foi-se satisfeito.</p>
-
-<p>Veio visitar-me no dia seguinte. Prevenindo-me e indo ao
-encontro dos seos desejos mostrei-lhe uma garrafa quebrada,
-igual a do dia antecedente fingindo estar muito triste
-pela agoardente que se tinha derramado e perdido: mostrou-me
-igual sentimento, e batendo na coxa me disse—Aqui
-está, si tivesses permittido, nós a tinhamos bebido, e
-nada teria acontecido.</p>
-
-<p>o...</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p><i>Faltam as ultimas folhas d’esta narração no exemplar
-unico da edicção original, existente na Bibliotheca Imperial
-de Pariz.</i> (<a href="#PREFACIO">Vide o Prefacio.</a>)</p>
-
-<p><i>Suppre-se de alguma forma esta falta, bem sensivel, publicando-se
-no fim da obra, curiosissimas cartas, por longo
-tempo esquecidas.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_328"></a>[328]</span></p>
-
-<div class="footnotes">
-
-<h3>NOTAS</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_55" href="#FNanchor_55" class="label">[BC]</a> Por falta de typos proprios deixamos em claro este espaço.—Do
-traductor.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_56" href="#FNanchor_56" class="label">[BD]</a> Quarta parte de um soldo de França.—Do traductor.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_57" href="#FNanchor_57" class="label">[BE]</a> Gurupy.—Do traductor.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_58" href="#FNanchor_58" class="label">[BF]</a> Em francez muito mal escripto estão estas palavras, é impossivel
-traduzil-as com taes erros.—Do traductor.</p>
-
-</div>
-
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_329"></a>[329]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="ADDENDUM">ADDENDUM.</h2>
-
-</div>
-
-<h3>Congratulação á França pela chegada dos Padres
-Capuchinhos á nova India da America Meridional
-do Brazil.</h3>
-
-<p>Grande reino, e povo francez, tens razão de louvar a Deos:
-Christianissimo Reinado, de dia para dia crescem tuas alegrias,
-dando sempre de ti boas novidades: sól dos reinos,
-flor dos povos do Universo, és notavel por todas as maneiras.</p>
-
-<p>Por tua antiguidade na fé catholica, religião christã, devoção
-aos altares divinos, e fervor em ouvir a palavra de
-Deos.</p>
-
-<p>Pelo amor e dedicação a teo Principe natural, por tua
-honesta sinceridade, ou sincera franqueza, na conversação,
-qualidades, que nenhuma outra nação possue como tu.</p>
-
-<p>Esplendido, magnifico, e magnanimo reino sobre todos os
-reinos da terra.</p>
-
-<p>Pela magestade da tua corôa, a bella e antiga serie de
-teos monarchas até o numero de sessenta e quatro Reis,
-dos quaes foram uns Imperadores, outros Santos canonisados
-no Ceo: e tambem pelo valor e proezas na guerra, praticada
-por tua gente valerosa, liberal nobresa de gravata
-branca como leite.</p>
-
-<p>Pela sapiencia de tuas universidades em todas as especies
-de sciencias e faculdades, pela amplidão de teos magistrados,
-pela prudencia de teos respeitaveis parlamentos,<span class="pagenum"><a id="Page_330"></a>[330]</span>
-pela serenidade de teos conselhos, e pelas bellas leis de tua
-politica.</p>
-
-<p>Que digo eu?</p>
-
-<p>Povo sabio, intelligente, grande nação, illustre reino, ceo
-estrellado de tão bellos espiritos delicados, parabens: és na
-verdade maravilhosamente illustre!</p>
-
-<p>Pela multidão de tantos prelados veneraveis, grandes bispos,
-ricos abbades, e chefes de ordens.</p>
-
-<p>Pelo crescido numero de tantos homens santos, notaveis
-pela bondade, famosos pela sciencia, e nobres pela progenie,
-illustres pelos milagres que hão florescido e brilhado dentro
-e fora dos teos mosteiros.</p>
-
-<p>Pela tua posição entre dois grandes mares, onde por meio
-de teos dois braços exerces piedade e justiça em villas tão
-grandes e bellas, ricas, afamadas e populosas, n’um paiz tão
-abundante, e em provincias tão amplas e copiosas, e em tão
-grande numero.</p>
-
-<p>O que te falta para chegares ao cumulo de tua felicidade?</p>
-
-<p>O que pode accrescentar-se ao ramalhete de teos louvores,
-á grinalda de tuas honras, á corôa de tuas glorias, tecida
-em ternario, symbolisado pelos teos tres lyzes, em
-campo de oiro, a não ser que hoje enriquecido pelo Rei
-Luiz, o rei dos lyzes, alcances, sob sua authoridade, o cheiro
-de Jesus no Ceo, e ao longe a salvação dos povos selvagens
-mergulhados em trevas, e nas sombras da morte d’infidelidade,
-de incivilidade, e de barbaridade.</p>
-
-<p>Foste por Deos escolhido para tão grande honra, satisfação
-e alegria para levar ahi, o suave nome do Redemptor,
-estabelecer o imperial sceptro de sua cruz triumphante, signal
-sagrado, signal do Filho do Homem, e estandarte do
-grande rei dos reis, sob o qual se devem reunir todos os
-povos, que se desejam salvar, e então ahi semear a boa
-nova do seo Evangelho, salvador dos crentes.</p>
-
-<p>Outr’ora até o occidente buscando para o meio-dia pelo
-grande Carlos Magno, com a sua espada de ferro, mostraste<span class="pagenum"><a id="Page_331"></a>[331]</span>
-o teu valor contra os serracenos, importunos á Hespanha.</p>
-
-<p>Até ao oriente pelo grande São Luiz, uma, duas vezes,
-fizeste sentir á impiedade turca, a força de teo braço, e erguido
-na Palestina, esse bello estandarte da Santa Cruz por
-um duque de Boillon, por um duque de Mercœur, e um duque
-de Nevers.</p>
-
-<p>Tremeram ao ouvir o nome da França, tão fatal a elles,
-a quem mostraste tua coragem com o cutello na mão.</p>
-
-<p>Mas agora—<i>Nova bella eligit Dominus, Clypeus, et hasta
-si apparuerint</i>, novas guerras, conquistas impertinentes, escudos
-e lanças, ahi se verão? Nada d’isto, e sim a Cruz de
-Jesus, o altar do grande rei, exercitos com seu augustissimo
-Missah, espada de Deos e de Gedeon, d’aquelle que é
-Deos e homem ao mesmo tempo, agoa benta para expellir
-os diabos, a conquista dos corações antropophagos ou comedores
-de homens pelo meio simples da palavra de Deos,
-que fará despil-os de crueldade, e de então em diante amarem
-o proximo como a si mesmo, abandonarem a imprudencia
-e o impudor, revestirem-se com o branco da innocencia
-e da honestidade: oh! quanta brutalidade adquirirá
-o uso da razão, e tu, ó França, foste escolhida para fazer
-tal guerra? Em tua consciencia, dize-me, não é esta uma
-guerra, com sceptro de liz, de rosas e de flores?</p>
-
-<p>Quem ouvio jamais coisas similhantes nas batalhas do
-mundo? porem estas são guerras do amantissimo Jesus.</p>
-
-<p>Nada mais te falta agora depois dos teos combates de outras
-eras, senão o alegrar-te de plantar a fé e a lei entre
-gente de ferozes costumes, e de barbaros feitos, porem mui
-facil em supportar o jugo do teu humano concurso, o que não
-tem podido conseguir o soberbo ou rustico portuguez.</p>
-
-<p>Regosija-te pois, principe dos lyzes, por ser a tua maior
-gloria o servir ao grande Rei do Ceo e da terra, de legado
-e de embaixada de suas maravilhas e grandezas em ilhas
-remotas, e em partes longinquas da Região Austral.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_332"></a>[332]</span></p>
-
-<p>Esta sabia Princesa christianissima, muito catholica, e de
-magnanima coragem, qual outra Judith, nossa grande rainha,
-a Regente nossa senhora fez esta exigencia por cartas
-dirigidas aos Reverendissimos Padres Superiores dos Capuchinhos
-da provincia de França, e de Pariz, seos humildes
-servos.</p>
-
-<p>Reuniram-se em capitulo para conceder ao Sr. de Rasily,
-loco-tenente-general de Sua Magestade n’aquellas terras tão
-remotas um certo numero de religiosos, que deviam ser
-consagrados á uma empresa tão sancta como perigosa.</p>
-
-<p>Sendo este desejo acolhido livremente, em lugar de quatro,
-que hoje lá se acham como exploradores da terra, todos
-quatro sacerdotes e prégadores, o padre Ivo d’Evreux,
-o padre Claudio d’Abbeville, o padre Ambrosio de Amiens, o
-padre Arsenio de Paris, todos em numero de cincoenta e quatro,
-presentes ao capitulo, se inscreveram e offereceram-se
-cordialmente para arriscar sua vida, tão nobremente, afim
-de salvar esses pobres pagés, esses pobres selvagens, esses
-infelizes atormentados pela tempestade do diabo sem consolador
-e sem pae.</p>
-
-<p>Ainda agora, para maior gloria do Salvador, foi a narração
-augmentada por tres pares de cartas, mais recentes
-do que as precedentes. Narram ellas a sua partida, a sua
-navegação, ora calma, ora tempestuosa, a sua feliz chegada,
-e tantos beneficios, que Sua Magestade, por intermedio
-d’elles, tem já feito, e com taes particularidades,
-como nunca se vio impresso.</p>
-
-<p>Lêde pois.</p>
-
-<p>Mas antes d’isto, para que o Deista, o Censor mundano,
-e o zombador heretico não se ria de projectos tão honrosos,
-vindos do Ceo, convem saber-se, que ha longo tempo fôra
-tudo isto prophetisado por santos inspirados pelo Espirito
-Santo.</p>
-
-<p>Disse o Propheta Isaias—<i>propter hoc in doctrinis glorificate
-Dominum, in insulis maris nomen Domini Dei Israel</i>:<span class="pagenum"><a id="Page_333"></a>[333]</span>
-pelo que eu fizer no meio da terra glorificae o Senhor
-por doutrinas, pregae essas doutrinas por todas as ilhas do
-mar, annunciae, e glorificae o nome do Senhor, Deos d’Israel.</p>
-
-<p>Alem d’isso, eis meo Salvador, eu o unirei a mim, meo
-escolhido, minha alma n’elle se completa e elle dará juiso
-aos gentios etc. etc.</p>
-
-<p>E as ilhas esperaram attentas a lei, e eu t’a daria em alliança
-do povo como luz aos gentios afim de abrires os olhos
-aos cegos, e tirares os prisioneiros dos calabouços, das prisões
-e das densas trevas.</p>
-
-<p>Louvae ao Senhor por meio de canticos por toda a terra,
-mares, ilhas, e seos habitantes—<i>ponent Domino gloriam et
-laudem ejus in insulis numciabunt</i>: glorificarão ao Senhor
-e o louvarão nas ilhas.</p>
-
-<p>Prophetisa o mesmo, que ellas receberão sua lei: meo Justo
-está perto, sahio meo Salvador (Deos é o Pae) meos braços
-julgarão os povos, as ilhas me esperarão e sustentarão meo
-braço, isto é, receberão meo filho.</p>
-
-<p>N’outro lugar fallando á sua igreja, que é a Romana (n’outra
-taes factos nunca appareceram) diz—por que as ilhas
-me esperam, e no começo os navios do mar, para que eu
-conduza teos filhos de bem longe.</p>
-
-<p>No Capitulo 66 Deos disse pelo mesmo Propheta:</p>
-
-<p>«Porei n’elles o signal, mandarei os que ja se salvaram
-aos gentios no mar, na Africa, em Lidia que atiram a flecha,
-á Italia, a Grecia e as ilhas longinquas, aos que não ouvirão
-fallar de mim e não presenciarão minha gloria, e
-elles annunciarão minha gloria aos gentios, e os conduzirão
-como dadiva ou offerenda ao Senhor, ricos presentes e perolas
-preciosas a Deos.»</p>
-
-<p>O propheta Sophonias:</p>
-
-<p>«Os homens illustres o adorarão em qualquer parte e em
-todas as ilhas dos gentios.»</p>
-
-<p>O grande inspirador dos Prophetas por seo Espirito, Jesus
-Christo tambem disse e prophetisou taes coisas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_334"></a>[334]</span></p>
-
-<p>E este Evangelho do Reino será prégado pelo Universo,
-como testemunho a todos os gentios, e então virá a consummação
-do Mundo.</p>
-
-<p>Nós outros catholicos devemos sentir grande alegria vendo
-cumprir-se todos os dias a palavra de Deos tão fielmente,
-não por meio de uma Assembléa reunida com tal fim, e
-sim pela Santa Igreja Romana, e deve em particular este
-grande reino agradecer a Deos por d’elle servir-se para levar
-tão longe a gloria dos seos tropheos.</p>
-
-<p>O seguinte trecho vos convencerá d’esta verdade, extrahida
-de quatro cartas, que d’aquelle paiz escreveo o Padre
-Arsenio, um dos quatro, a saber, uma ao Revd. Padre Commissario
-Provincial, uma ao Revd. Padre Custodio da custodia
-de Pariz, uma ao Revd. Padre Vigario de Pariz, e
-uma a seo irmão, todas datadas em 27 de Agosto, e dizendo
-mais que a sua quarta carta de 20. Outra carta do Revd.
-Padre Claudio a seos dois irmãos, o Sr. Foulon, e o Padre
-Marçal,<a id="Nanchor_110" href="#Note_110" class="fnanchor">[110]</a> e uma para dois Padres já mencionados, escripta
-ao Sr. Fermanet, e para vos ser agradavel e não repetir as
-mesmas, foi tudo reunido n’uma só carta, como vereis, mui
-fielmente, e com suas proprias palavras.</p>
-
-<p>Lêde em nome de Deos.</p>
-
-<h3 id="Fidelissima"><i>Fidelissima narração, extrahida de seis pares de cartas dos Revds.
-Padres Claudio d’Abbeville e Arsenio, Prégadores Capuchinhos,
-escriptas aos Padres da sua Ordem de Pariz, e a outras
-pessoas do seculo, sendo quatro do Revd. Padre Arsenio,
-uma do Padre Claudio, e uma para
-duas pessoas.</i></h3>
-
-<p><i>Meos Reverendos e carissimos Padres.</i>—A paz do Senhor
-seja comvosco. Nós vos dirigimos esta pequena carta para
-dar-vos noticias acerca da nossa viagem, e como chegamos,
-mercê de Deos, felizmente a esta terra do Brazil na Ilha do
-Maranhão, entre os povos <i>Tupinambás</i>, não sem grandes
-fadigas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_335"></a>[335]</span></p>
-
-<p>Cinco mezes estivemos no mar soffrendo encommodos, que
-só podem avaliar os que por elles já passaram, e como o
-Sr. de Rasilly, por estes dois ou tres mezes, regressa á
-França afim de trazer-nos novos auxilios, reservamos-nos
-para n’essa occasião descrevermos mais amplamente o resultado
-da nossa viagem, tanto no mar como em terra, n’este
-novo Mundo.</p>
-
-<p>Aproveitamos agora a occasião para dizer-vos e muito ás
-pressas, que para aqui chegarmos foi necessario partir de
-Caucale, porto da Bretanha, e já estando d’elle distante dusentas
-legoas do mar levantou-se grande tempestade, que
-separou os nossos tres navios, uns dos outros, causando
-admiração, até mesmo aos nossos melhores pilotos, o não
-ter algum d’elles naufragado.</p>
-
-<p>Quiz Deos porem livrar-nos d’esta desgraça, e encontramos
-dois de nossos navios, arribados em Inglaterra, d’onde
-vos escrevemos, e creio que já estareis de posse das nossas
-cartas.</p>
-
-<p>Na segunda-feira de Paschoa partimos de Plymouth,<a id="Nanchor_111" href="#Note_111" class="fnanchor">[111]</a> na
-Inglaterra, e navegamos sempre com bom tempo, menos
-alguns dias na costa de Guiné, mui perigosa pelas molestias
-do paiz.</p>
-
-<p>Sahindo de Plymouth auxiliou-nos vento tão favoravel,
-que em pouco tempo passamos as Ilhas Canarias, por entre
-as ilhas <i>Boa Ventura</i> e <i>Canaria grande</i>, vistas por nós perfeitamente.</p>
-
-<p>Das Canarias ganhamos a Costa d’Africa no Cabo do Bajador,
-sempre navegando pela Barbaria: de Bajador desviamos-nos
-da Costa d’Africa até o rio chamado <i>Lore</i> pelos hespanhoes,<a id="Nanchor_112" href="#Note_112" class="fnanchor">[112]</a>
-e perto d’elle fundeamos: sahindo d’ahi ainda
-nos desviamos da Costa d’Africa até o Cabo branco, lugar
-bem debaixo do tropico de Cancer.</p>
-
-<p>D’este Cabo procuramos a Costa de Guiné, passando entre
-as ilhas do Cabo verde, o proprio Cabo verde lugar perigosissimo
-pelas molestias contagiosas, ahi reinantes em certas
-estações do anno: esta molestia ataca as gengivas de tal<span class="pagenum"><a id="Page_336"></a>[336]</span>
-sorte, que a carne cobre os dentes, e os faz cahir com grande
-perda de sangue a ponto de não se poder estancar, sobrevindo
-tambem os encommodos de estomago e inchação, e
-d’isto tudo resulta a morte escapando poucos: mercê de
-Deos ninguem morreo durante a nossa viagem, porem apenas
-entramos na terra, falleceram tres, e ahi ficaram sepultados.</p>
-
-<p>De Guiné viemos-nos aproximando da linha equinoccial, que
-passamos bem difficilmente, coisa ja por nós esperada á vista
-da estação em que estavamos.</p>
-
-<p>Soprou vento contrario por quinze dias causando-nos
-grandes sustos, e receios de que não apparecessem calmarias
-antes de passarmos a linha: graças a Deos, pouco a pouco,
-embora o vento contrario, tanto bordo demos, que quando
-mal pensamos, estavamos no hemispherio do meio dia.</p>
-
-<p>Passando a linha, avistamos e afinal chegamos a uma pequena
-ilha chamada Fernando de la Roque,<a id="Nanchor_113" href="#Note_113" class="fnanchor">[113]</a> situada a quatro
-graus de altura para o meio dia, e a cinco para seis legoas
-de circumferencia, ilha bella e agradavel, cujas propriedades,
-querendo Deos, havemos de descrever na primeira
-opportunidade: é na verdade um verdadeiro paraisosinho
-terreste.</p>
-
-<p>Saltamos n’esta ilha, onde apenas achamos 17 ou 18 indios
-selvagens, em companhia de um portuguez, todos escravos
-e ahi postos por determinação da gente de Pernambuco:
-d’estes indios baptisamos cinco.</p>
-
-<p>Depois de havermos plantado a Cruz n’esta ilha, no centro
-de uma capella, feita por nós para celebração da santa
-missa, e de abençoado o logar onde residimos por 15 dias,
-casamos dois destes selvagens, um indio com uma india, depois
-de baptisados.</p>
-
-<p>Não quizemos baptisar o resto aqui, porem achamos bom
-addiar o baptismo até chegarmos ao lugar do nosso destino,
-si bem que libertassemos todos esses selvagens tirando-os
-do captiveiro, e fazendo-os livres com muita satisfação d’elles,<span class="pagenum"><a id="Page_337"></a>[337]</span>
-depois do que manifestaram ardente desejo de nos
-acompanharem até Maranhão, como de facto aconteceo.</p>
-
-<p>Vieram comnosco trazendo muito algodão, e outros generos,
-que possuiam.</p>
-
-<p>De Fernando de la Roque ganhamos a Costa do Brasil, caminhando
-até o <i>cabo da tartaruga</i>, terra firme no paiz dos
-<i>canibaes</i>, onde, diz Euzebio, na sua <i>Historia</i>, passara o Apostolo
-Sam Matheus á vista d’esta Costa do Brasil: imaginae a
-nossa alegria vendo terras tão desejadas após cinco mezes
-de navegação.</p>
-
-<p>Depois de 15 dias de demora no <i>cabo das tartarugas</i>,
-continuamos a navegar, e chegamos á ilha do Maranhão,
-onde fundeamos no dia da gloriosa Santa Anna, Mãe da Sagrada
-Virgem Maria, com que muito me alegrei, (disse o
-padre Claudio) por termos tido n’esse dia, que eu tanto amo,
-a felicidade de chegarmos ao lugar tão desejado.</p>
-
-<p>No domingo seguinte saltamos todos em terra, levando
-agoa benta, cantando o <i>Te-Deum laudamus</i>, o <i>Veni Creator</i>,
-a ladainha de Nossa Senhora, e depois caminhamos em
-procissão desde o porto atê ao lugar escolhido para levantar
-se uma Cruz, a qual foi carregada pelo Sr. de Rasilly e
-todos os Principaes da nossa Companhia.</p>
-
-<p>Depois de benzida esta ilha, até então <i>Ilhasinha</i>, foi pelos
-Srs. de Rasilly e la Ravardière chamada <i>Ilha de Santa Anna</i>,
-não só por termos ahi chegado n’esse dia, como tambem
-porque chamava-se Anna a Condessa de Soissons, parenta
-do Sr. de Rasilly.<a id="Nanchor_114" href="#Note_114" class="fnanchor">[114]</a></p>
-
-<p>Depois plantamos a Cruz: ao pé d’ella, estando todo o
-largo abençoado, enterramos um pobre homem, tanoeiro,
-que vinha comnosco.</p>
-
-<p>Fêz-se tudo isto com geral contentamento e demoramo-nos
-ahi oito dias.</p>
-
-<p>Deixamos esta pequena ilha e fomos procurar a ilha grande
-do Maranhão, habitada por selvagens (que são as pedras preciosas
-que cobiçamos) e graças a Deos chegamos bons e bem
-dispostos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_338"></a>[338]</span></p>
-
-<p>Vestidos com os nossos habitos de sarja fina por causa do
-calor da zona tórrida e revestidos de uma bonita sobrepelliz
-branca, empunhando nossos bastões, e em cima de tudo a
-Cruz com o Crucificado, descemos do navio para uma canôa,
-especie de batel construido pelos indios de um só tronco de
-pau, onde estavam todos os selvagens, que ja tinham estado
-na praia com o Sr. de Rasilly, e muitos francezes ja dos que
-vieram comnosco e ja dos pertencentes á equipagem do Sr.
-de Manoir, e do Capitão Geraldo, todos francezes, que aqui
-achamos: muitos d’estes selvagens atiraram-se ao mar e nadaram
-afim de chegarem primeiro do que nós.</p>
-
-<p>Assim conduzidos saltamos em terra, onde se ajoelhou o
-Sr. de Rasilly e todos os francezes para nos receberem (honra
-não commum) e como nos achassemos embaraçados com
-tal sorpresa, eu tive (disse o padre Claudio) a feliz lembrança
-de entoar o <i>Te-Deum laudamus</i> conforme o cantico
-da igreja, e assim caminhamos em procissão entre lagrymas
-de alegria de muitos francezes, e seguidos pelos indios.</p>
-
-<p>Assim tomamos posse d’esta terra e novo mundo para
-Jesus Christo, e em seo nome, esperando abençôar o lugar,
-e n’elle plantar a Cruz em qualquer dia para isso designado.</p>
-
-<p>Deixo as outras particularidades para contar-vos quando
-escrever mais de espaço sobre esta nossa viagem.</p>
-
-<p>Somente vos digo que no domingo 12 de agosto, dia de
-Santa Clara, celebramos todos quatro as primeiras missas,
-que aqui se disseram.</p>
-
-<p>Com bem razão ordenou Deos que o dia de uma Santa
-Virgem da nossa Ordem, que deo nova luz ao mundo, fosse
-escolhido para fazer brilhar a nova luz do seo Evangelho
-n’este novo mundo.</p>
-
-<p>Não é possivel descrever-vos o grande contentamento,
-que mostraram estes pobres selvagens com a nossa
-vinda.</p>
-
-<p>É um povo conquistado e ganhado, povo grande, que na
-verdade nos ama, e nos dedica affeição, e chama-nos grandes<span class="pagenum"><a id="Page_339"></a>[339]</span>
-prophetas de Deos e de Tupan, e em sua linguagem padres
-Carribain, Matarata.<a id="Nanchor_115" href="#Note_115" class="fnanchor">[115]</a></p>
-
-<p>Depois que aqui chegamos temos tido muito boas noticias.</p>
-
-<p>Os indios do Pará, outro povo, de um lado visinho do
-Amazonas, e do outro d’este povo, onde existem somente
-cem mil homens, desejam muito que lá vamos instruil-os.</p>
-
-<p>Embora <i>messis multa, operarii autem pauci</i> «seja grande
-a colheita, são poucos os operarios.» Si quizessemos
-desde ja se baptisaria grande parte.</p>
-
-<p>É certo que «<i>regiones albescunt ad messem</i>,» estas regiões
-aqui enbranquecem mostrando a necessidade de ceifa,
-felizmente chegou o tempo de ser Deos aqui adorado e reconhecido.</p>
-
-<p>Agora estamos procurando lugar para nos acommodar e
-fazer uma Capella, até que cheguem de França pedreiros para
-edificarem uma Igreja.</p>
-
-<p>Existem muitas mattas virgens, que convem arrotear
-antes.</p>
-
-<p>Não posso descrever-vos agora o grande contentamento
-dos selvagens pela nossa chegada.</p>
-
-<p>Dão-nos boa esperança de se converterem. Todo este povo
-ainda que bruto e selvagem mostrou-se contente com a nossa
-chegada, tem vindo vêr-nos com muita alegria, manifestando
-grande desejo de instruir-se no christianismo.</p>
-
-<p>Creio que quando soubermos a lingua d’elles haverá muito
-que colher, com grande satisfação para os que tem zelo
-pelas coisas de Deos e pela salvação das almas.</p>
-
-<p>Preparam todos os seos filhos para nos trazerem afim de
-serem por nós instruidos, e ja nos prometteram não mais
-comer carne humana. São muito bonachãos, e não maliciosos.
-Por unica religião apenas creem em Deos, que chamam
-<i>Tupan</i>, e na immortalidade da alma.</p>
-
-<p>Quanto ao paiz é terra fertil e muito boa, onde não ha
-frio, e sim estio constante; ninguem conhece o que é frio,
-e as arvores estão sempre verdes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_340"></a>[340]</span></p>
-
-<p>Os dias e as noites são sempre do mesmo tamanho: nasce
-o sol as 6 horas da manhã e encerra-se as 6 da tarde.</p>
-
-<p>Estamos apenas a dois graos e meio da linha equinoccial
-ou do Equador.</p>
-
-<p>É voz geral haver n’este paiz muitas riquezas, como sejam
-minas de oiro, de pedras preciosas, de perolas, de ambar-gris,
-alem de muitas pimenteiras, muito algodão, muita herva
-da rainha, ou petum, e muito assucar.</p>
-
-<p>Brevemente, quando nos estabelecermos bem, nós vos asseguramos
-ser isto aqui um pequeno paraiso terreste, com
-todas as commodidades e alegrias.</p>
-
-<p>Não posso ir mais longe: fica o resto para quando fôr o
-Sr. de Rasilly, e então hei-de dizer-vos outras coisas em particular.</p>
-
-<p>Quanto a minha saude nunca passei tão bem como agora,
-graças a Deos e só bebendo agoa, (palavras do padre Claudio.)</p>
-
-<p>Si na França me fosse preciso fazer a millesima parte do que
-aqui faço, mil vezes teria morrido, e n’isto reconheço,
-que <i>non in solo pane vivit homo</i>, «o homem não vive só
-de pão.»</p>
-
-<p>Convem que para cá venham os delicados de França.</p>
-
-<p>Louvo a Deos por nunca ter enjoado, com grande admiração
-de todos.</p>
-
-<p>Quando chegamos no paiz dos calores, justamente quando
-estavamos sob o tropico de Cancer, quando o sol estava subindo,
-tive apenas dois ou tres pequenos accessos de febre
-passageira, graças a Deos.</p>
-
-<p>Deixo o mais para outra occasião, pois agora falta-nos tempo,
-e sobram-nos trabalhos.</p>
-
-<p>Rogae a Deos por nós, e pelos nossos companheiros, o
-mais que poderdes, pois agora, mais do que nunca necessitamos
-da graça de Deos, sem as quaes nada se consegue.</p>
-
-<p>O que n’este sentido fizerdes, Deos vos compensará.</p>
-
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_341"></a>[341]</span></p>
-
-<h3><i>Summario de algumas coisas mais particulares, referidas
-vocalmente aos Padres Capuchinhos de Pariz pelo
-Sr. de Manoir.</i></h3>
-
-<p>O Sr. de Manoir,<a id="Nanchor_116" href="#Note_116" class="fnanchor">[116]</a> (um dos capitães, de que se fallou
-na carta precedente, que fôra encontrado n’aquelle paiz com
-o capitão Geraldo) chegando ultimamente á França, e sendo
-portador da carta, ja transcripta e de muitas outras (algumas
-das quaes bem desejariamos aqui publicar para que não
-ficassem sepultadas no esquecimento as maravilhosas obras
-de Deos, de que ellas fallam, como que para despertarem
-os homens afim de louvarem a sabedoria, providencia, e
-bondade do Creador) contou muitas particularidades dos padres,
-não referidas em suas cartas.</p>
-
-<p>Disse, que os padres chegando ahi começaram a edificar
-sua morada, construindo uma Capella para celebração da
-missa, e algumas cellas pequenas para residencia, sendo coadjuvados
-por alguns selvagens com alguns pannos e ramos
-de arvores.</p>
-
-<p>N’um certo dia, quando um padre celebrava missa, chegou
-um selvagem dos mais velhos, (que elles consideram
-seos governadores, honrando-os e respeitando-os por causa
-da sua idade avançada) em companhia de trinta selvagens
-para ouvirem missa, o que fizeram, admirando com grande
-surpresa tão bellas ceremonias, e tão lindos ornatos, por elles
-nunca visto (pois que homens e mulheres andam todos
-nús.)</p>
-
-<p>Quando o sacerdote chegou á consagração e ao offertorio,
-desceo um véo entre elle e o povo, de forma que este não
-poude ver aquelle, e nem o que se fazia por detraz d’esse
-véo.</p>
-
-<p>Julgaram isto uma affronta e mostraram-se offendidos, e
-por isso, finda a missa, foram perguntar a causa de tal offensa.</p>
-
-<p>Responderam os padres que n’isto não havia offensa, e
-que assim se fez por serem elles ainda pagãos, não podendo<span class="pagenum"><a id="Page_342"></a>[342]</span>
-ser a Missa celebrada em suas presenças embora estando na
-Igreja.</p>
-
-<p>Deram-se por satisfeitos e mostraram-se tranquillos, e foram
-contar o occorrido ás suas mulheres, que se mostraram
-desejosas de vêr os grandes Prophetas de Deos e de Tupan,
-e se reuniram em grande numero para tal fim.</p>
-
-<p>Não quizeram porem os padres abrir-lhes a porta de sua
-pequena choupana porque estavam núas, mas ellas não esperaram
-por segunda recusa e metteram a porta dentro, o
-que não lhes foi difficil praticar, entraram e não se cançaram
-de olhar e contemplar os Padres, embora se demorassem
-pouco tempo, por lhes pedirem os Padres que se retirassem,
-o que cumpriram.</p>
-
-<p>Depois desta visita, reuniram-se os velhos em grande numero
-e combinaram entre si qual devia ser o presente que
-offerecessem a esses Prophetas, como demonstração de sua
-benevolencia e regosijo pela sua chegada.</p>
-
-<p>Finalmente concordaram, visto dormirem os Padres no
-chão duro, que se désse a cada um o seo colchão de algodão,
-que ahi floresce, e uma das mais bellas raparigas, o
-maior presente que costumam fazer.</p>
-
-<p>Trouxeram quatro colchões e quatro raparigas, e offereceram
-aos Padres, que rindo-se aceitaram aquelles e recusaram
-estas com palavras de agradecimento.</p>
-
-<p>Admirados com tal procedimento, diziam uns aos outros.
-O que é isto? Estes Prophetas não são homens como
-nós? Porque não acceitam estas raparigas, sendo impossivel
-o passar um homem sem ellas? Porque nos fazem tal
-offensa?</p>
-
-<p>Responderam os Padres, que assim procediam, não por
-que reprovassem o casamento, quando conforme ás leis de
-Deos, visto que até elles o louvavam, mas como Deos havia
-outhorgado graças mui particulares a elles, e não aos outros
-homens, porque o serviam com mais perfeição, podiam
-passar sem mulheres por meio dessas graças.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_343"></a>[343]</span></p>
-
-<p>Ouvindo esta pobre gente taes palavras ficaram admirados
-e como que fóra de si, contemplando a santidade destes
-Prophetas, e d’ahi em diante os veneraram mais, julgando-se
-felizes quando lhes entregavam seos filhos para serem
-educados em nossa santa fé, e afinal baptisados.</p>
-
-<p>Tudo isto se poderá vêr na seguinte carta, escripta por
-esses Padres á um honrado mercador de Ruão chamado Fermanet,
-um dos seos maiores bemfeitores, para que se veja
-que nada acrescentamos, e que apenas narramos os factos
-pura e simplesmente colhidos n’essas cartas e em informações
-de pessoas fidedignas, testemunhas occulares, e por
-que n’ella se encontram particularidades não mencionados
-nos outros.</p>
-
-<p>Eil-a:</p>
-
-<h3><i>Carta escripta pelos Padres Capuchinhos ao Sr. Fermanet.</i></h3>
-
-<p>A paz do Senhor Deos esteja comvosco.</p>
-
-<p>Depois de tantas recommendações, que nos fizestes quando
-partimos para vos escrever, seriamos culpados si não vos
-dessemos noticias de paiz tão bom, graças á Deos.</p>
-
-<p>Depois de 4 a 5 mezes de viagem ahi chegamos felizmente,
-sendo bem recebidos pelos Indios, conforme sua rusticidade,
-não nos importando o modo e sim a demonstração
-do seo contentamento então e ainda agora diariamente, trazendo-nos
-seos filhos para instruil-os o que faremos mediante
-a graça de Deos.</p>
-
-<p>Quando voltar o Sr. de Rasilly, por estes 2 ou 3 mezes,
-nós vos mandaremos o numero dos convertidos e dos baptisados.</p>
-
-<p>O paiz é muito bom, e ha esperança de produzir muito
-tabaco Petum, e Urucú, havendo ja muito assucar, bellas
-pedras, ambar-gris, e dizem-nos, que distante d’aqui 20 legoas
-ha uma mina de oiro.</p>
-
-<p>Si não fosse grande a nossa pressa, nós vos dariamos
-mais algumas noticias, porem não podemos alongar-nos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_344"></a>[344]</span></p>
-
-<p>Beijando humildemente vossas mãos, e recommendando-nos
-á senhora vossa mulher, somos de vós e d’ella</p>
-
-<p class="center">Vossos humillissimos servos em Nosso Senhor.</p>
-
-<p class="right">Frei <i>Claudio d’Abbeville</i>.<br />
-Frei <i>Arsenio de Pariz</i>.</p>
-
-<h3 id="marinheiro"><i>Narração de um marinheiro, vindo do mesmo paiz, feita ao
-Revd. padre Guardião do Havre da Grace, e por este communicada
-ao Revd. padre Commissario.</i></h3>
-
-<p>Revd. Padre, eu vos saúdo humildemente em Nosso Senhor.</p>
-
-<p>O fim d’esta é communicar-vos, que veio hoje procurar-me
-um marinheiro, que vio e fallou com os nossos Irmãos,
-que estão em Maranhão com os Tupinambás, onde felizmente
-chegaram no dia 8 de Julho.</p>
-
-<p>Este marinheiro ahi ouvio missa, e á ella assistio com
-muito respeito um velho selvagem do paiz, acompanhado
-por 25 ou 30 indios.</p>
-
-<p>Quando chegou o tempo de consagrar-se e elevar-se a
-santa hostia, desceo um véo, causando-lhes isto admiração.</p>
-
-<p>Recebida a explicação mostraram-se satisfeitos, e logo começaram
-a contar por toda a parte o que viram, e por isso
-vieram muitos ajudal-os a edificar sua habitação e Forte, ja
-em principio.</p>
-
-<p>Veio o marinheiro em 22 de Agosto no navio de Moisset,
-recommendado ao Sr. de Manoir, a quem, segundo pensa,
-terão nossos Irmãos entregado suas cartas, ou a algum outro
-official de navio, o que me dispensa de contar-vos outras
-particularidades.</p>
-
-<p>Não mudaram, e nem mudarão a côr dos seos habitos,
-usando apenas de um tecido mais leve do que o nosso, por
-causa do calor.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_345"></a>[345]</span></p>
-
-<p>Deos seja louvado por tudo, e lhes conceda a graça de
-ahi apparecerem muitos fructos para a gloria do seo Santissimo
-Nome, e exaltação da Santa Fé da sua Igreja.</p>
-
-<p class="center">Sou de vossa Reverendissima o menor servo em Jesus Christo</p>
-
-<p>Havre, 12 de Novembro de 1612.</p>
-
-<p class="right">Frei <i>Theophilo</i>, indigno Capuchinho.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_346"></a>[346]</span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_347"></a>[347]</span></p>
-
-<div class="tp">
-
-<p class="titlepage"><span class="larger">NOTAS</span><br />
-CRITICAS E HISTORICAS<br />
-<span class="smaller">SOBRE A VIAGEM DO</span><br />
-PADRE IVO DE EVREUX<br />
-<span class="smaller">POR</span><br />
-MR. FERDINAND DINIZ.</p>
-
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_348"></a>[348]</span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_349"></a>[349]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="NOTAS">NOTAS.</h2>
-
-</div>
-
-<h3><a id="Note_1" href="#Nanchor_1">1</a> (frontespicio).</h3>
-
-<p>Esta vasta provincia, uma das mais florescentes do Brazil,
-antes da chegada dos missionarios francezes não teve estabelecimento
-algum importante. Eram arbitrarios os seos limites,
-convindo não esquecer que a immensa capitania do
-Piauhy fez parte d’ella até 1811. Presentemente tem 186
-legoas, de 20 ao gráo, de comprimento, 140 de largura, e
-nunca menos de 20,000 legoas quadradas de superficie.
-Fica entre 1° 16′ e 7° 35′ de lat. merid. Confina ao N O
-com o Pará, servindo de linha divisoria o Gurupy, á N E é
-banhada pelo Occeano Atlantico, a S E com o Piauhy, separando-a
-d’elle o rio Parnahyba, e finalmente a S com a provincia
-de Goyaz pelo rio Tocantins.<a id="FNanchor_59" href="#Footnote_59" class="fnanchor">[BG]</a></p>
-
-<p>Ainda que seja quente e humido o clima do Maranhão é
-sadio. As chuvas que fertilisam este rico territorio principiam
-regularmente em outubro.</p>
-
-<p>O aspecto geral do paiz offerece por toda a parte ondulações
-do terreno, mas em nenhuma offerece elevações consideraveis,
-exceptuando-se d’estas asserções geraes e por
-força mui summarias a comarca de Pastos-bons, onde se encontram
-montanhas como sejam Alpercatas, Valentim, Negro
-etc. É regada por 14 correntes d’agoa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_350"></a>[350]</span></p>
-
-<p>De todos estes rios é o <i>Parnahyba</i> o mais considerável:
-infelizmente suas margens não são totalmente sadias, pois
-em varios pontos, como em quasi toda a provincia, reinam
-as febres intermitentes. Avalia-se seo curso em 240 legoas.
-O <i>Itapecurú</i>, seo immediato, e de que falla constantemente
-o Padre Ivo d’Evreux, banha apenas 150 legoas de terreno,
-o Mearim 78 legoas, sendo ainda menos consideraveis o
-<i>Pindaré</i>, o <i>Tury-assú</i>, o <i>Gurupy</i>, e o <i>Manoel Alves
-Grande</i>. Julga-se que é de 462,000 pessoas a população
-de toda a provincia, embora diga o relatorio official da presidencia,
-com data de 3 de julho de 1862, que esta cifra
-é apenas de 312,628 almas, sendo 227,873 livres e 84,755
-escravos. Convem observar, que o recenseamento geral da
-população do Imperio, feito em 1825, dava apenas 165,020
-almas, sendo esta cifra muito inferior á realidade, porque
-recusaram muitos Srs. dizer com certesa o numero dos seos
-escravos.</p>
-
-<p>Nada se sabe, e nem será possivel saber-se exactamente,
-a respeito da povoação nomade dos indios, isto é, d’aquella
-cujo conhecimento seria muito curioso afim de apreciar-se
-as mudanças, que houveram nas aldeias depois do que escreveo
-o Padre Ivo, podendo apenas dizer-se que é maior
-no Maranhão, no Pará, e na nova provincia do Rio Negro,
-do que n’outra qualquer parte.</p>
-
-<p>Em summa o governo só tem dados mui imperfeitos e
-raros sobre estas infelizes hordas, das quaes se occupa actualmente.</p>
-
-<p>Os cuidados tardios, embora caridosos, da administração
-provincial, tem que acabar muitos males afim de que seja
-completa a reparação.</p>
-
-<p>Tudo ainda está por fazer relativamente aos Indios.</p>
-
-<p>Não souberam estas tribus conservar nem a dignidade
-que dá completa liberdade aos habitantes das florestas, e
-nem os principios de civilisação, que se intentou incutir-lhes
-no seculo XVII.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_351"></a>[351]</span></p>
-
-<p>Reconcentradas no interior por Mathias de Albuquerque,
-dizimadas pela variola, hoje são apenas a sombra do que
-foram sob o dominio dos seos chefes independentes.</p>
-
-<p>Esta população indigena é comtudo maior nos desertos
-do Maranhão, e embora d’ella não tratem certas estatisticas,
-é avaliada em 5,000 o numero dos indigenas reunidos em
-aldeias.</p>
-
-<p>Si dermos credito á um intelligente militar, que viveo em
-constantes relações com elles por espaço de 20 annos, a sua
-decadencia physica é menor que a moral, pois perderam até
-a reminiscencia de suas tradicções théogonicas, ainda mal,
-visto ser muito curioso o comparal-as com a narração dos
-antigos viajantes francezes.</p>
-
-<p>Sob este ponto são elles menos favorecidos que os Guarayos,
-visitados por Orbigny, os quaes ainda hoje repetem
-em seos canticos as legendas cosmogonicas do seculo XVI.</p>
-
-<p>Os indios do Maranhão, entre os quaes se contam os Timbyras,
-os Gés, os Krans, e os Cherentes não podem fornecer
-ao historiador senão informações mui incompletas, pois que
-ha perto de 40 annos já o major Francisco de Paula Ribeiro
-se queixava do immenso esquecimento d’elles, (vide <i>Revista
-Trimensal</i>, tomo 3.º, pag. 311) esquecimento fatal de grandes
-tradicções, pelo que se tornam hoje preciosos certos livros,
-como sejam os dos nossos velhos missionarios, onde
-pelo menos se encontram os mythos antigos, ahi escriptos
-para serem combatidos.</p>
-
-<p>De vez em quando entre estes indios degenerados apresentam-se
-alguns homens energicos, que comprehendem o
-abatimento de sua raça, e que desejariam vel-a progredir,
-porem são mui raros, pouco comprehendidos, e demais só
-olham para o futuro, e não experimentam amor algum por
-sua antiga nacionalidade.</p>
-
-<p>Seos compatriotas longe de ajudal-os nos trabalhos emprehendidos
-para melhorar seo futuro, ainda os amesquinham
-com o seo odio tão irreflectido quam brutal.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_352"></a>[352]</span></p>
-
-<p>Foi o que aconteceo a <i>Tempe</i> e a <i>Kocril</i>, chefes conhecidos
-pelo major Ribeiro. Trabalharam inutilmente para chamar
-ao caminho da civilisação as tribus, cujo governo lhe
-foi confiado, e a final foram victimas do seo zelo.</p>
-
-<p>Vide «<i>Memoria sobre as nações gentias, que presentemente
-habitam o continente do Maranhão escripta no anno
-de 1819 pelo major graduado Francisco de Paula Ribeiro</i>,
-<i>Revista Trimensal</i>, T. 3º pag. 184.»</p>
-
-<p>De passagem disemos, que não deixaram descendentes,
-pelo menos conhecidos, os Tupinambás cathequisados pelos
-missionarios francezes, suppondo-se apenas, que um ramo
-d’esta grande nação ainda hoje povôa <i>Vinhaes</i> e <i>Villa do
-Paço do Lumiar</i>, achando-se no mesmo caso <i>S. Miguel</i> e
-<i>Tresidélla</i>, a margem do rio Itapecurú, e <i>Vianna</i>, no Pindaré.</p>
-
-<p>Com mais probabilidade ainda confundiram-se os Tupinambás
-com as tribus do inferior, tomando os nomes de Timbyras
-e Gamellas. São tambem subdivisões dos Timbyras os
-<i>Sakamecrans</i>, os <i>Kapiekrans</i> ou <i>Canellas-finas</i>, e os Gés,
-que vagam pelas grandes florestas á Oeste do Itapecurú. Nega
-o major Ribeiro, que ainda sejam antropóphagos estas diversas
-tribus. N’este escriptor imparcial, e que reconhece a
-ferocidade dos Timbyras, é que se deve estudar as horriveis
-represalias, de que tem sido elles os indios, sendo a escravidão
-a menos sanguinolenta. Elle avaliou em 80:000 o
-numero d’indios selvagens, embrenhados nos mattos em
-1819, hoje sem duvida consideravelmente diminuido.</p>
-
-<h3><a id="Note_2" href="#Nanchor_2">2</a> (pag. 1).</h3>
-
-<p>Francisco Huby era tambem livreiro e tinha sua loja n’uma
-praça entre os mais afreguezados armazens na galeria dos
-prisioneiros em Palacio, e soffrera-a como os outros no grande
-incendio de 1618.</p>
-
-<p>Quatro annos antes d’elle encarregar-se da publicação do
-livro de Claudio d’Abbeville, de que este é continuação,<span class="pagenum"><a id="Page_353"></a>[353]</span>
-morava na rua de Sam Thiago no <i>Folle de oiro</i>, e não na
-<i>Biblia de oiro</i>, que depois tomou por divisa.</p>
-
-<p>Si foi ferido na prosperidade, foi justamente por haver
-permittido, que mão impia privasse a França por mais de dois
-seculos do livro precioso, de que tinha sido edictor, e que
-hoje entregamos a publicidade, graças a uma d’essas empresas
-litterarias tão raras em nossos dias, onde a honra das
-letras é o pensamento dominante e superior a todas as considerações.</p>
-
-<p>O volume, que servio para a nossa reimpressão é encadernado
-em marroquim encarnado, semeiado do flores de
-lys de oiro, e com as armas de Luiz XIII. Faz parte da reserva
-sob n.º 01766 da Bibliotheca Imperial de Pariz.</p>
-
-<h3><a id="Note_3" href="#Nanchor_3">3</a> (pag. 9).</h3>
-
-<p>A capital do Maranhão occupa ainda hoje o mesmo lugar
-escolhido por seos antigos fundadores. Está situada a 2° 30′
-e 44″ lat. austral e 1° 6′ e 24″ de long. oriental do meridiano
-do Forte de Villegagnon, na bahia do Rio de Janeiro.</p>
-
-<p>La Ravardiere e Rasilly escolheram para edifical-a a ponta
-de terra O d’uma pequena peninsula, ligada á ilha do Maranhão
-pela calçada do <i>Caminho grande</i>.</p>
-
-<p>Os rios <i>Anil</i> e <i>Bacanga</i>, vindos de diversos pontos da ilha
-confundem suas agoas na mesma embocadura e formam vasta
-bahia. A elevação, que se apresenta ao S do <i>Anil</i>, á E e ao
-N. do <i>Bacanga</i> (lugar onde se confundem as agoas d’estes
-dois pequenos rios) é o lugar primitivo onde se levantou a
-cidade nascente collocada sob o patrocinio de Sam Luiz.</p>
-
-<p>A cidade de Sam Luiz, elevada em 1676 á dignidade episcopal
-por uma Bulla de Innocencio XI, conta nunca menos
-de 30 mil habitantes, e está situada em terreno docemente
-ondulado, sempre, em todas as estações, carregado de rica
-vegetação, e assim offerecendo aos viajantes panorama encantador.
-(Vide <i>Corographia Brasilica</i>, <i>Will. Hadfield</i>, <i>Milliet
-de St. Adolphe</i>, e principalmente os <i>Apontamentos estatisticos<span class="pagenum"><a id="Page_354"></a>[354]</span>
-da provincia do Maranhão</i>, annexos ao <i>Almanack</i>
-de 1860 publicado por B. de Mattos.)</p>
-
-<p>Esta linda cidade é naturalmente dividida pela espinha
-dorsal da peninsula, que separa as duas bacias dos rios na
-direcção de E. O.</p>
-
-<p>Seo ponto mais elevado é o <i>Campo d’Ourique</i>, onde apresenta
-32m 692c de elevação acima do nivel medio do mar.</p>
-
-<p>É dividida em tres parochias: <i>N. S. da Victoria</i>, <i>S. João</i>,
-e <i>N. S. da Conceição</i>, tem 72 ruas, 19 becos, 10 praças,
-55 edificios publicos, e 2,764 casas, das quaes 450 tem um
-só pavimento.</p>
-
-<p>Para utilidade dos habitantes podem ser maiores e mais
-regulares as praças, e embora sejam as ruas cortadas em angulo
-recto, podiam ser mais largas e melhor dispostas sendo
-observadas as regras da hygiene.</p>
-
-<p>Não são más suas calçadas, e tem declive bastante em relação
-aos dois rios que banham a cidade. Em resumo é a
-Capital do Maranhão saudavel e limpa.</p>
-
-<p>«O navio que demandar o porto, toma por marca o Palacio
-do governo, assentado n’uma eminencia que domina o
-porto.</p>
-
-<p>Este edificio tem a seos pés o Forte de Sam Luiz, e de
-suas janellas percorrendo-se com os olhos uma extensa bahia
-avista-se ao longe as costas e a cidade de Alcantara:
-mais perto da barra está o pequeno <i>Forte da Ponta d’areia</i>,
-e dentro do porto na margem opposta do Bacanga a pequena
-<i>ermida do Bomfim</i>, muito arruinada, e na frente do Anil
-a <i>Ponta de Sam Francisco</i>, onde segundo a noticia que nos
-dirige, entregou la Ravardiere ao commandante portuguez a
-cidade nascente e a fortalesa de Sam Luiz, nunca se podendo
-assas louvar n’essa occasião o procedimento inteiramente
-nobre do commandante francez e de Alexandre de Moura por
-parte da Hespanha.</p>
-
-<p>O joven cirurgião de Pariz que foi com tanto zelo pensar
-os feridos dos dois partidos, e que recebeo tão penhorador
-acolhimento no campo inimigo poude d’elle dar somente uma<span class="pagenum"><a id="Page_355"></a>[355]</span>
-ideia, por sua narração sincera e franca, da cordialidade,
-que appareceu entre os francezes e os portuguezes depois do
-combate. (Vide <i>Archivos das viagens publicadas</i> por M. Ternaux
-Compans.)</p>
-
-<p>Em distancia de alguns metros pelo Anil acima está o
-convento e Igreja de Santo Antonio, construidos no proprio
-lugar onde em 1612 Ivo d’Evreux, ajudado pelos padres
-Arsenio e Claudio d’Abbeville, edificou seo conventosinho
-sob a invocação de Sam Francisco. Soffreo depois d’isto varios
-concertos e augmentos este mosteiro dos Capuchinhos
-francezes, achando-se hoje uma parte do edificio moderno
-occupado pelo Seminario Episcopal, e a Igreja, hoje em
-construcção, levanta-se com architectura gothica simples.»
-Pelo que nos dizem será a igreja mais bonita do Maranhão.</p>
-
-<p>Não é esta a unica construcção digna de mencionar-se na
-cidade, porem é a unica que nos interessa directamente.</p>
-
-<p>Mencionamos apenas o <i>Caes da Sagração</i>, assim chamado
-em memoria da coroação e sagração do Sr. D. Pedro 2.º, e
-da vasta bahia, onde agora se escava para poder n’ella fundear
-uma fragata a vapor da primeira ordem, e apenas citamos
-a dóca que se projecta fazer nas <i>enseiadas das Pedras</i>.<a id="FNanchor_60" href="#Footnote_60" class="fnanchor">[BH]</a></p>
-
-<p>Contam-se muitas construcções monumentaes, como sejam
-a igreja do Carmo, a Cathedral, o quartel do Campo de Ourique,
-o Theatro, e mais outras que força é omittir, pois
-apenas n’uma ligeira nota desejamos mostrar englobadamente
-o que em 250 annos se tornou isto fundação francesa.</p>
-
-<p>William Hadfield, um dos mais modernos viajantes, que
-tratou d’este paiz, observou que é na cidade de Sam Luiz,
-onde no Brasil se falla o portuguez com mais pureza. É a
-patria de dois escriptores mui estimados no Imperio, Odorico
-Mendes e João Francisco Lisboa, fallecido ha pouco.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_356"></a>[356]</span></p>
-
-<p>Depois de haver traduzido com superioridade de estylo,
-que causaria inveja aos contemporaneos de Camões, occupa-se
-actualmente Odorico Mendes na traducção em verso
-das obras de Homero, onde a sciencia do rythmo disputa
-com a inspiração.</p>
-
-<p>Quanto ao poeta das legendas nacionaes, cujos cantos são
-geralmente repetidos no Brasil (queremos fallar de Gonçalves
-Dias) pertence tambem á provincia do Maranhão, por
-elle explorada como sabio e como viajante intrepido, porem
-nasceu em Caxias.</p>
-
-<p>As obras d’esses tres escriptores honram ao paiz, são tambem
-a honra da bibliotheca publica; porem este estabelecimento,
-creado n’uma cidade eminentemente litteraria, não
-está em relação com as necessidades crescentes de outras
-instituições suas, relativas á instrucção publica. Ha tres annos
-contava apenas 1031 volumes.</p>
-
-<p>Prasa aos Ceos, que o livro, que agora réproduzimos, o
-primeiro que, com o de Claudio d’Abbeville, foi escripto na
-Cidade nascente, marque o principio de uma era nova para
-estabelecimento tão indispensavel n’uma Capital, já florescente.
-Muitas outras instituições supprem esta deficiencia,
-publica-se na Capital diversos jornaes, taes como o <i>Publicador
-Maranhense</i>, a <i>Imprensa</i>, o <i>Jornal do Commercio</i>
-etc. etc., e tambem ha uma <i>Associação typographica</i>, um
-<i>Gabinete de leitura</i>, e a sociedade litteraria <i>Atheneo Maranhense</i>.</p>
-
-<p>Tudo isto na verdade é mui differente do tempo, em que
-o Padre Arsenio de Pariz com muita difficuldade achava apenas
-uma folha de papel para escrevêr á seos Superiores.</p>
-
-<h3><a id="Note_4" href="#Nanchor_4">4</a> (pag. 11).</h3>
-
-<p>A Cathedral de <i>São Luiz</i> ou do <i>Maranhão</i>, (assim com
-estes dois nomes se designa a Cidade) deixou a invocação
-de São Luiz de França. É a antiga Igreja do Convento dos
-Jesuitas a actual cathedral sob a invocação de N. S. da<span class="pagenum"><a id="Page_357"></a>[357]</span>
-Victoria. (Vide Ayres do Cazal—<i>Corographia Brazilica</i>. Rio
-de Janeiro 1817. T. 1.º pag. 166).</p>
-
-<p>Parece-nos, que nas grandes construcções, que actualmente
-se estão trabalhando para o augmento do Convento
-de S. Antonio, respeitou-se a pequena Capella feita pelos
-francezes. São tres os frades d’esta Ordem, Frei Vicente de
-Jesus, guardião; Frei Ricardo do Sepulchro e Frei Joaquim
-de S. Francisco, todos sacerdotes.</p>
-
-<h3><a id="Note_5" href="#Nanchor_5">5</a> (pag. 12).</h3>
-
-<p>Ao norte do Brazil e no interior da Goyanna havia então
-prodigiosa abundancia d’esta especie de fóca, cuja carne
-era muito saborosa: chamam-na os portuguezes <i>peixe-boi</i>, e
-os indios <i>manati</i>. Ainda hoje os habitantes ribeirinhos do
-Amazonas e do Tocantins nutrem-se com a excellente carne
-d’este peixe. (Vide Osculati, <i>America equatoriale</i>). Claudio
-d’Abbeville lhe deo o nome de <i>Uraraura</i>.</p>
-
-<h3><a id="Note_6" href="#Nanchor_6">6</a> (pag. 14).</h3>
-
-<p>Esta localidade, ja citada, ainda o será muitas vezes.</p>
-
-<p>O vasto territorio, ainda hoje conhecido em Maranhão pelo
-nome de <i>Tapuitapéra</i>, está hoje dividido pelas comarcas de
-Alcantara e de Guimarães. Antigamente foi occupado por
-onze aldeias de indios, das quaes a maior era Cumã. <i>Tapuitapéra</i>
-dista 40 legoas de Maranhão.<a id="FNanchor_61" href="#Footnote_61" class="fnanchor">[BI]</a> Pensa <i>Martius</i> que
-esta palavra quer dizer—habitação de indios inimigos. Vide
-<i>Glossaria linguarum brasilensium</i>. Erlanguem. 1863,
-em 8.º</p>
-
-<p>N’esta obra acham-se tambem os nomes dos lugares, dos
-vegetaes e dos animaes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_358"></a>[358]</span></p>
-
-<p>O <i>Aparaturier</i>, que deo tão felizes comparações ao padre
-Ivo, é simplesmente o mangue (<i>Rhyzophora.</i> Lin.) Esta arvore
-das praias americanas tão util á industria, forma vastas
-florestas maritimas, e em roda da costa do Brasil e de
-Venezuela. Com muita frequencia se tem destruido estas arvores,
-em varios lugares, e temos ouvido até attribuir-se a
-invasão recente da febre amarella á destruição systematica
-d’este bonito vegetal, que aformosêa com sua verdura todas
-as praias brasileiras. Cahindo sob o ferro do cultivador deixa
-á descoberto praias cheias de lôdo, habitadas por myriades
-de carangueijos, formando assim pantanos d’onde se
-desprendem miasmas de especie muito perigosa.</p>
-
-<p>No Brasil conhece-se duas qualidades de mangue, o <i>branco</i>
-e o <i>vermelho</i>, e para a descripção scientifica d’elles enviamos
-nossos leitores para Aug. de St. Hilaire. Julgamos que
-a palavra antiga, ahi empregada pelo padre Ivo, vem do
-verbo <i>parere</i>, parir, porque esta arvore se reproduz pelas
-raizes, que, como arcadas, espalham ao redor de si. (Vide
-<i>Nossas scenas da naturesa sob os tropicos</i>,) e ahi achareis o
-effeito do mangue nas paisagens.</p>
-
-<h3><a id="Note_7" href="#Nanchor_7">7</a> (pag. 17).</h3>
-
-<p>É lamentavel esta lacuna, porem deixa comtudo perceber,
-que se trata das tartarugas do Maranhão.</p>
-
-<p>Com os ovos d’este chelidoniano prepara-se no Pará o que
-se chama—<i>manteiga de tartaruga</i>, de que se exporta prodigiosa
-quantidade.</p>
-
-<h3><a id="Note_8" href="#Nanchor_8">8</a> (pag. 17).</h3>
-
-<p>N’esta enumeração mui completa de quadrupedes que se
-podem caçar, um nome desperta naturalmente a attenção
-do leitor, e é <i>vacca brava</i>. É bem possivel, rigorosamente
-fallando, que os campos do Mearim ja tivessem algum individuo
-da raça bovina, ja ha muito tempo introduzida em<span class="pagenum"><a id="Page_359"></a>[359]</span>
-Pernambuco: Claudio d’Abbeville é muito explicito n’este
-ponto.</p>
-
-<p>Mas não é d’isto que quiz tratar o nosso bom missionario:
-a vacca brava, ou <i>bragua</i>, como chama em outro lugar,
-é o <i>Tapir</i> ou <i>Tapié</i>, conforme Montoya, animal muito commum
-em todo o Brasil.</p>
-
-<p>Para denominal-o serviram-se os hespanhoes e portuguezes
-d’um nome pedido por emprestimo aos Mouros. Chamavam-no
-tambem <i>Anta</i> ou <i>Danta</i>, que significa, dizem, bufalo.
-Quando chegou aos americanos a sua vez de dar nome
-ao boi, chamaram-no <i>Tapir-açù</i>.</p>
-
-<p>Martius observa com razão, que esta palavra na lingua
-geral se applica a todo o mamifero corpulento. Sendo este
-pachyderma o animal mais corpulento conhecido na America
-do Sul, foi sua caça procurada de preferencia pelos Europeos,
-e assim desappareceo, ou pelo menos tornou-se mais
-rara nos lugares onde outr’ora era abundante. Em certos
-paizes da America era um animal sagrado, e assim figura em
-diversos monumentos.</p>
-
-<p>No Brasil procuravam os indigenas este animal, tanto por
-ser boa caça como pela espessura de seo couro, de que faziam
-escudos impenetraveis ás flexas, pela maior parte armadas
-de uma ponta aguda de madeira ou de cana.</p>
-
-<p>João de Lery trouxe do Brasil para França alguns d’esses
-broqueis, porem não chegaram á Europa, porque uma terrivel
-fome devida á longa viagem de 5 mezes obrigou o pobre
-viajante a comel-as, depois de amolecidas por meio
-d’agoa.</p>
-
-<p>Os nossos leitores que desejarem conhecer minuciosamente
-o Tapir americano, consultem uma excellente dissertação,
-dedicada especialmente á este animal, escripta pelo
-Dr. Roulin, Bibliothecario do Instituto.</p>
-
-<p>No <i>Glossario</i> de Martius lê-se uma extensa synonimia relativa
-ao Tapir. (Vide pag. 479.)</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_360"></a>[360]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_9" href="#Nanchor_9">9</a> (pag. 18)</h3>
-
-<p>É certo que os indios d’esta tribu foram contrarios aos
-francezes.</p>
-
-<p>Ha na historia d’esta expedição um ponto, que não foi
-ainda bem esclarecido: o mais afamado capitão de indios de
-que se recorda o Brasil fez suas primeiras campanhas durante
-o dominio dos francezes.</p>
-
-<p>O celebre Camarão, o grande chefe ou <i>Morubixaba</i> dos
-Tabajares, commandava 30 frecheiros na lucta entre la Ravardiere
-e Jeronymo de Albuquerque.</p>
-
-<p>Convidado pelo governo portuguez para tomar parte n’esta
-guerra, partio de sua aldeia, no <i>Rio Grande do Norte</i>, e foi
-para o <i>Presidio de N. S. do Amparo</i>, no Maranhão, em 6
-de setembro de 1614: seguio-o seo irmão <i>Jacauna</i> com um
-filho de igual nome, e de 18 annos de idade.</p>
-
-<p>Depois de muitos annos Camarão, que teve tão boa escola,
-adquirio fama immortal nos fastos do Brasil por occasião
-da expulsão dos hollandezes. (Vide <i>Memorias para a
-historia da Capitania do Maranhão, impressa nas Noticias
-para a historia e geographia das Nações ultramarinas</i>.)</p>
-
-<h3><a id="Note_10" href="#Nanchor_10">10</a> (pag. 18).</h3>
-
-<p>No Brasil não ha verdadeiros javalys, e nem este nome se
-pode dar aos <i>Pecoris</i> ou <i>Tajassus</i>, ou <i>Porcos do Matto</i> na
-linguagem dos naturaes. Não é extraordinaria a proesa do
-fidalgo, porque andando os <i>pecaris</i> sempre em bando basta
-chumbo grosso para matal-os. Martius deo a synomimia completa
-d’este animal no <i>Glossaria linguarum brasiliensium</i>.
-(Vide a divisão <i>Animalia cum Synonimis</i>, pag. 477.)</p>
-
-<h3><a id="Note_11" href="#Nanchor_11">11</a> (pag. 18).</h3>
-
-<p>Um <i>ajoupa</i> é uma pequena cabana coberta de folhas e
-abertas por todos os lados.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_361"></a>[361]</span></p>
-
-<p>Esta palavra é muito usada nos nossos estabelecimentos
-de Guyana. Vê-se estampas de <i>ajoupas</i> em Barrére.</p>
-
-<h3><a id="Note_12" href="#Nanchor_12">12</a> (pag. 19).</h3>
-
-<p>Em 1542 a fóz do grande rio foi explorada por Aphonso
-de Xaintongeois. (Vide o <i>Manuscripto original de sua viagem</i>
-na Bibliotheca Imperial de Pariz.)</p>
-
-<p>João Mocquet, cirurgião francez, guarda das curiosidades
-de Henrique IV, visitou suas praias. (Vide o <i>Manuscripto</i> do
-seo <i>Relatorio</i> na <i>Bibliotheca de Santa Genoveva</i>.)</p>
-
-<p>Finalmente la Ravardiere fez até lá um reconhecimento.</p>
-
-<p>João Mocquet foi muito explicito quando tratou do mytho
-das Amasonas, que tanto occupou Condamine e o illustre
-Humboldt. Tudo quanto elle referio d’estas guerreiras soube
-do chefe <i>Anacaiury</i>, cujo personagem, ou seo homonymo,
-encontra-se nas obras de Ivo d’Evreux.</p>
-
-<p>Governava uma nação no Oyapok ou do Yapoco.</p>
-
-<p>Mocquet disse a seos leitores, que não poude visitar, como
-desejava, o Amasonas «por serem violentas as correntes
-para os navios, e mesmo para o seo patacho que ja fazia
-muita agoa.»</p>
-
-<p>Todas estas narrações a respeito do grande rio deixou em
-França impressões tão duradouras, que o Conde de Pagan,
-quarenta annos depois, convidou a Mararin a reerguer projectos
-esquecidos. Para a conquista da Amasonia elle queria
-união com os indios, e por sua vontade devia o Cardeal ligar-se
-«aos illustres <i>Homagues</i> (Omaguas) aos generosos <i>Yorimanes</i>
-e aos valentes <i>Tupinambás</i>.» Nunca certamente os
-selvagens receberam tão pomposos nomes!</p>
-
-<p>Seria mui curiosa, si se achasse, a narração da expedição
-pelas margens do Amasonas em 1613, feita por ordem
-de la Ravardiere e ainda no tempo de Luiz XIII existia uma
-copia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_362"></a>[362]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_13" href="#Nanchor_13">13</a> (pag. 20).</h3>
-
-<p>Entra Gabriel Soares em minuciosas descripções do fabrico
-d’esta farinha, de que os indios fazem grandes provisões.</p>
-
-<p>A especie de mandioca, conhecida pelo nome de <i>Carimã</i>,
-serve de base.</p>
-
-<p>Esta raiz a principio dissecada a fogo brando, depois ralada,
-é pisada n’um almofariz, peneirada e misturada com
-certa quantidade de outra qualidade de mandióca na occasião
-de ser torrada, o que se faz até ficar muito secca, e
-n’esse estado é conservada por muito tempo.</p>
-
-<p>Encontram-se sobre esta industria agricola do Brasil todos
-os esclarecimentos necessarios no <i>Tratado descriptivo do
-Brasil</i>, pag. 167.</p>
-
-<p>Augusto Saint-Hilaire disse com rasão, que a cultura da
-mandióca tirou a maior parte dos seos processos da economia
-domestica dos Tupis, e resumio concisa e habilmente
-tudo que ha a dizer-se relativamente ao cultivo da planta.
-(<i>Voyage dans le district des Diamants et sur le littoral du
-Brésil</i>. T. 2—pag. 263 e seguintes.)</p>
-
-<h3><a id="Note_14" href="#Nanchor_14">14</a> (pag. 21).</h3>
-
-<p>Gabriel Soares está aqui inteiramente de accordo com o
-nosso Missionario.</p>
-
-<p>Estas grandes canoas chamavam-se <i>Maracatim</i>, por causa
-do <i>Maracá</i>, que, como protector, trasiam na prôa. <i>Iga</i> chamava-se
-uma canôa pequena, e <i>Igaripé</i> uma canoa de cortiça
-ou casca de arvores, etc. etc. (Vide <i>Ruiz de Montoya</i>,
-<i>Tesoro</i>, na pag. 173.)</p>
-
-<h3><a id="Note_15" href="#Nanchor_15">15</a> (pag. 21).</h3>
-
-<p>André Thevet, e depois d’elle João de Lery descreveram
-com exactidão este genero de ornato, chamado <i>Araroye</i>
-pelo ultimo d’estes viajantes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_363"></a>[363]</span></p>
-
-<p>Coube ao padre Ivo fazer-nos conhecer seo valor symbolico.</p>
-
-<h3><a id="Note_16" href="#Nanchor_16">16</a> (pag. 24).</h3>
-
-<p>A curiosa narração do indio confirma a opinião de Humboldt,
-e bem pode ser que antigamente se encontrassem algumas
-mulheres cansadas do jugo dos homens, e por isso
-entregues á vida guerreira.</p>
-
-<p>Combina igualmente com as tradicções colhidas por Condamine
-e sessenta annos antes do Padre Ivo o franciscano.
-André Thevet não esteve longe de vêr n’estes selvagens
-americanos descendentes directos do exercito feminino commandado
-por Pentisilée.</p>
-
-<p>Humbold disse com rasão, que o mytho das Amasonas
-era de todos os seculos e de todos os periodos da civilisação.</p>
-
-<h3><a id="Note_17" href="#Nanchor_17">17</a> (pag. 25).</h3>
-
-<p>Esta nação não é indicada no <i>Diccionario topographico,
-historico, descriptivo da Comarca do Alto Amasonas</i>. Recife.
-1852—1 vol. em 12.</p>
-
-<p>Tambem não a encontramos na longa nomenclatura da
-<i>Corographia Paraense</i> de Ignacio Accioli de Cerqueira e
-Silva. Deve estar extincta, e Martius tambem não a cita no
-seo <i>Glossaria</i>, publicado ultimamente.</p>
-
-<h3><a id="Note_18" href="#Nanchor_18">18</a> (pag. 25).</h3>
-
-<p>Por este nome, aqui tão frequente, designa-se uma grande
-aldeia alem de Tapuitapéra.</p>
-
-<p>Era tambem o nome de um vasto territorio e de um rio.</p>
-
-<p>Segundo o padre Claudio—<i>Cumã</i> significa <i>proprio para
-pesca</i>, porem duvidamos que seja exacta a explicação.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_364"></a>[364]</span></p>
-
-<p>Debalde procura-se esta palavra no <i>Glossaria</i> de Martius
-publicado em 1863.</p>
-
-<h3><a id="Note_19" href="#Nanchor_19">19</a> (pag. 25).</h3>
-
-<p><i>Cazal</i>, o <i>Diccionario do Alto Amasonas</i>, e <i>Accioli</i> nada
-dizem a respeito d’estes rios, onde comtudo esteve um exercito
-de 2,000 homens! Martius trata de uma nação de
-<i>Pacajaz</i> ou <i>Pacayá</i>, no Pará. (Vide <i>Glossaria linguarum</i>.
-pag. 519.)</p>
-
-<h3><a id="Note_20" href="#Nanchor_20">20</a> (pag. 25).</h3>
-
-<p>Esta ligeira descripção das casas aereas construidas sobre
-mangues e troncos das palmeiras <i>muritis</i> lembra um facto
-bem curioso, classificado outr’ora como fabula, e descripto
-na Relação de Walther Ralegh.</p>
-
-<p>É bem possivel que haja alguma exageração, porem o
-facto é authentico, e deo-se na foz do Orenoco.</p>
-
-<p>Os <i>Waraons</i> visitados ha perto de um seculo pelo Dr. Leblond,
-os <i>Guaraunos</i> descriptos pelo sabio Codazzi, são um
-e o mesmo povo, salvos de inteira destruição por sua maneira
-de viver.</p>
-
-<p>Os <i>Camarapins</i>, cujo desaparecimento acabamos de provar,
-foram menos felises.</p>
-
-<p>Á respeito dos indios das <i>Iouras</i> consulte-se o resumo,
-que outr’ora fizemos, dos manuscriptos, por onde o Medico
-francez provou sua moradia entre os Waraons. (Vide <i>Guyana</i>,
-1828, em 18.)</p>
-
-<p>Codazzi, cujos bellos trabalhos geographicos são conhecidos,
-citava em 1841, os Guaraunos, como não tendo ainda
-abandonado suas casas aereas.</p>
-
-<p>Ha trinta annos, quando muito, vinham elles negociar com
-os habitantes da Trindade. (Vide o <i>Resumen de la Geographia
-de Venezuela</i>. Pariz. 1841—em 8.)</p>
-
-<p>Agostinho Codazzi morreo ultimamente.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_365"></a>[365]</span></p>
-
-<p>Quanto aos manuscriptos de Leblond, que ja tivemos á
-nossa disposição, pertenciam á collecção das viagens, possuida
-em 1824 pelo edictor Nepveu.</p>
-
-<h3><a id="Note_21" href="#Nanchor_21">21</a> (pag. 28).</h3>
-
-<p>Este personagem tinha um nome todo portuguez, e era
-muito dedicado á nação, a cujos interesses servia.</p>
-
-<p>O titulo de <i>Capitão</i> afinal estendeo-se a todos os chefes da
-raça indigena.</p>
-
-<h3><a id="Note_22" href="#Nanchor_22">22</a> (pag. 29).</h3>
-
-<p>Este selvagem fanfarrão gabava-se de ter feito morrer o
-padre Ambrosio, residente em <i>Iuiret</i>, cuja pronuncia segundo
-Claudio d’Abbeville, é <i>Jeuiree</i>, e ella indica a estranha
-significação d’este nome.</p>
-
-<p>O <i>Pay açu</i>, o grande padre é Ivo d’Evreux. A palavra
-<i>Pay</i> quer dizer em portuguez <i>Padre</i>. Pay-<i>guaçu</i>, diz Ruiz
-de Montoya significar Bispo ou Prelado em Guarany.</p>
-
-<p>O nome de <i>Pay</i> foi mais facilmente adoptado pelos indigenas
-pela sua analogia em designar pessoas graves. Os
-feiticeiros eram chamados—<i>hechizeros</i>—para servir-nos da
-propria expressão do lexicographo hespanhol.</p>
-
-<p>Da <i>lingua geral</i>, modificação do Guarany, <i>Pay</i> significa
-padre, monge e senhor. <i>Pay Abaré Guaçu</i> era a designação
-dos prelados e dos jesuitas. Os indios ainda chamavam
-o papa <i>Pay aboré oçu eté</i>.</p>
-
-<h3><a id="Note_23" href="#Nanchor_23">23</a> (pag. 29).</h3>
-
-<p>Não sabemos porque o missionario modifica a orthographia
-do nome de um povo, que elle ja escreveo muitas vezes de
-forma diversa.</p>
-
-<p>Claudio d’Abbeville escreve <i>Topinambás</i>, o author da
-sumptuosa entrada <i>Tupinabaulx</i>, Hans Staden <i>Topinembas</i>,<span class="pagenum"><a id="Page_366"></a>[366]</span>
-e emfim João de Lery <i>Tuupinambaults</i>. Malherbe suavisando
-a expressão escreve <i>Topinambus</i>. Foi esta ultima orthographia
-a que prevaleceo no tempo de Luiz XIV, porem preferimos
-a que é adoptada pelos brasileiros.</p>
-
-<h3><a id="Note_24" href="#Nanchor_24">24</a> (pag. 31).</h3>
-
-<p>Por esta palavra tão vaga, aqui empregada pelo padre
-Ivo, suppomos que elle pretende designar os povos mais
-selvagens ainda que os Tupinambás, ou então que se entregavam
-mais especialmente a anthropophagia.</p>
-
-<p>Nas obras de Humboldt encontra-se uma curiosa definição
-da palavra <i>Canibal</i>. Notaremos apenas, que 50 annos antes
-do tempo, em que escreveo o padre Ivo, designavam-se assim,
-quasi que exclusivamente, os indios mais proximos do
-Equador.</p>
-
-<p>Na historia da França antarctica por André Thevet, á proposito
-da madeira de tincturaria, lê-se o seguinte: «o da costa
-do rio de Ianaire é melhor que o da costa de Canibaes e de
-toda a costa do Maranhão,» (pag. 116 verso), e mais adiante:
-«visto que chegamos a estes Canibaes, d’elles diremos
-apenas, que este povo, depois do cabo de Santo Agostinho,
-e alem até o Maranhão, é o mais cruel e deshumano que
-em qualquer outra parte da America. Esta canalha come
-ordinariamente carne humana, como nós comemos carneiro.»
-(pag. 119.)</p>
-
-<h3><a id="Note_25" href="#Nanchor_25">25</a> (pag. 31.)</h3>
-
-<p>Foi com effeito nas margens do Itapecurú, que se apresentaram
-os portuguezes.</p>
-
-<p>Claudio d’Abbeville disse algumas palavras sobre este bello
-rio, porem exagerou o seo curso.</p>
-
-<p>Nós estamos tão pouco ao facto da geographia d’esse paiz,
-que Adriano Balbi se contentou em mencionar seo nome apenas
-no quadro, que traçou, dos rios do Maranhão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_367"></a>[367]</span></p>
-
-<p>Que prodigiosas mudanças não se terão operado sobre suas
-margens desde o tempo, em que o nosso bom frade assim o
-chamava alterando-lhe o nome!</p>
-
-<p>Em lugar d’estas florestas, onde andavam errantes os
-Timbyras, cultiva-se milho, mandióca, canna de assucar,
-fumo e algodão, e a producção ultima d’este genero foi tão
-abundante, que subio a 35,000 saccas.</p>
-
-<p>Em França não se conhece o nome das cidades mais importantes,
-assentadas á margem d’este rio, e apenas se encontram
-em nossos livros de geographia.</p>
-
-<p>Quem já ouvio fallar da pequena cidade de Caxias, a risonha
-patria de Gonçalves Dias? Comtudo é uma cidade
-rica, commercial, banhada pelo Itapecurú, e distante da capital
-sessenta legoas.</p>
-
-<p>Em 1821 era apenas um povoado de 2,400 almas, e hoje
-este numero elevou-se a 6,000 habitantes.</p>
-
-<p>Caxias é o centro do commercio entretido com o Piauhy,
-e com immensas solidões de campos de criação de gado,
-conhecidas pelo nome de <i>sertão</i>.</p>
-
-<p>Edificada para assim dizer no deserto, tem escolas florescentes,
-um theatro, estabelecimentos de utilidade publica,
-que nem sempre se encontra em cidades mais consideraveis.</p>
-
-<p>O nome de <i>Caxias</i> tem no Brazil significação politica, porque,
-em 1832, travou-se no <i>Morro do Alecrim</i> uma batalha,
-cujo resultado consolidou a Independencia da Provincia.
-Mais tarde, na propria colina, chamada das <i>Tabócas</i>
-deo-se o sanguinolento combate, onde foi vencido<a id="FNanchor_62" href="#Footnote_62" class="fnanchor">[BJ]</a> <i>Fidié</i>,
-e que inspirou a Gonçalves Dias tão energicos versos.</p>
-
-<p>Seriam necessarios volumes para narrar, ainda que summariamente,
-as perturbações, que se seguiram a este acontecimento,<span class="pagenum"><a id="Page_368"></a>[368]</span>
-e as luctas tempestuosas, que houveram neste
-canto ignorado do mundo até 1848, quando o Dr. Furtado
-conseguio reprimir a horda, que assolava esta cidade nascente.<a id="FNanchor_63" href="#Footnote_63" class="fnanchor">[BK]</a></p>
-
-<p>A propria naturesa, por si só, é grande n’estas regiões:
-20 mil habitantes formam a população d’este vasto municipio,
-empregado superficialmente na agricultura.</p>
-
-<p>Na distancia, em que nos achamos, estas revoluções tão
-cumpridas para serem contadas, assimilham-se ás da idade
-media, que a historia local as vezes registra, mas que facilmente
-esquece visto não ligar-se á algum dos grandes interesses,
-que prende a attenção do mundo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_369"></a>[369]</span></p>
-
-<p>Com mais justa rasão pode applicar-se isto a villa do Codó,
-a mais florescente após Caxias, como ella banhada pelo Itapicurú,
-e como ella separada da Capital por um espaço de
-60 legoas.</p>
-
-<h3><a id="Note_26" href="#Nanchor_26">26</a> (pag. 34).</h3>
-
-<p>Este nome do principio do mal, acceito em toda a obra
-pelo Padre Ivo d’Evreux e por Claudio d’Abbeville parece
-ser mais particular ao Norte do Brazil.</p>
-
-<p>Martius escreve <i>Jurupari</i>, ou <i>Jerupari</i>. <i>Anhagá</i> parece
-ser mais uzado ao Sul. Não se acha a significação desta palavra
-no <i>Tesoro de la lingua Guarani</i>. <i>Angai</i> neste precioso
-Diccionario significa espirito mau. <i>Anhanga</i> significa
-hoje apenas um <i>phantasma</i>. (Vide Gonçalves Dias, <i>Diccionario
-da lingua Tupy</i>.)</p>
-
-<h3><a id="Note_27" href="#Nanchor_27">27</a> (pag. 36).</h3>
-
-<p>Estes povos, antes de reunidos, eram chamados Tabaiares
-pelos Tupinambás. Pag. 36.</p>
-
-<p>Tabajares não significa de maneira alguma <i>inimigo</i>, e sim
-senhores da Aldeia. (Vide Adolpho de Varnhagem, <i>Historia
-geral do Brazil</i>. T. 1.º Accioli. <i>Revista do Instituto</i>.)</p>
-
-<h3><a id="Note_28" href="#Nanchor_28">28</a> (pag. 36).</h3>
-
-<p>A denominação, adoptada no Seculo XVII por nossos compatriotas,
-veio sem duvida alguma do costume que tinham
-estes indios de furar o labio inferior, e mesmo as faces para
-n’ellas introduzir discos de uma especie de esmeralda, feitos
-com muita paciencia, e apreciados como joias estimaveis.
-(Vide <i>Sur l’usage de se percer la lévre inferieure
-chez les Américains du sud</i>, a serie de nossos artigos, inserida
-com muitas gravuras no <i>Magasin pittoresque</i>. T. 18
-pag. 138, 183, 239. 338, 350 e 390.)</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_370"></a>[370]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_29" href="#Nanchor_29">29</a> (pag. 36).</h3>
-
-<p><i>Mearinense</i> é evidentemente um nome creado pelo nosso
-bom Missionario, e melhor não o inventaria Rabelais.</p>
-
-<p>Os Mearinenses eram os proprios Tupinambás que residiam
-nas ferteis margens do Meary, d’onde proveio o nome
-á provincia, no pensar de Cazal. O Mearim, que offerece
-um curso de 166 legoas, só é navegavel no inverno, e as
-canoas grandes sobem unicamente até 60 legoas. Nasce na
-<i>Serra do Negro e Canella</i> aos 8° 2′ e 23″ de lat. e 2° 21′
-de long. contados da Ilha de Villegagnon na bahia do Rio
-de Janeiro.</p>
-
-<h3><a id="Note_30" href="#Nanchor_30">30</a> (pag. 36).</h3>
-
-<p>A palavra <i>Tapuya</i> ou <i>Tapuy</i> tem levantado grandes discussões:
-será o nome de um povo? (Vide o <i>Diccionario de
-Gonçalves Dias</i>).</p>
-
-<p>Significará inimigo? Ruiz de Montoya nada diz a tal respeito.
-Será preciso crear uma nação distincta da dos Tupys,
-a qual estes deram tal nome. Um escriptor, authoridade na
-materia, Ignacio Accioli não hesita a tal respeito.</p>
-
-<p>Quando enumera as principaes divisões da raça Tupica,
-elle diz: «outra nação geral, a dos Tapuias, divide-se, como
-pensam muitos, em pequenas tribus fallando perto de cem
-dialectos, e são os <i>Aymorés</i>, os <i>Potentus</i>, os <i>Guaitacás</i>, os
-<i>Guaramonis</i>, os <i>Guaregores</i>, os <i>Jaçarussus</i>, os <i>Amanipaqués</i>,
-os <i>Payeias</i> e grande numero de outras.» (Vide T. XII
-da <i>Revista Trimensal—Dissertação historica, ethnographica
-e politica sobre quaes eram as tribus aborigenes</i>, etc., etc.,
-pag. 143.)</p>
-
-<h3><a id="Note_31" href="#Nanchor_31">31</a> (pag. 42).</h3>
-
-<p>Este pensamento passou como proverbio na ilha e em
-Goyana.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_371"></a>[371]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_32" href="#Nanchor_32">32</a> (pag. 42).</h3>
-
-<p>Hans Staden prisioneiro, pelos Tupinambás em 1550, ao
-sahir do Forte da Bertioga suscitou grande discussão para
-saber-se com certeza, quem foi o primeiro que o tocou.
-(Vide <i>la Collection. Ternaux Compans</i>.)</p>
-
-<h3><a id="Note_33" href="#Nanchor_33">33</a> (pag. 49).</h3>
-
-<p>Nada tem de extraordinario o nome d’este chefe, porem
-é necessario escrevel-o assim com mais exactidão, <i>Ibira Pitanga</i>.
-(Vide <i>Ruiz de Montoya</i>.) Lery escreveo <i>Araboutan</i>,
-Thevet <i>Oraboutan</i>. Desapparece esta celebre madeira cada
-vez mais das grandes florestas, onde íam buscal-os os nossos
-antepassados.</p>
-
-<h3><a id="Note_34" href="#Nanchor_34">34</a> (pag. 51).</h3>
-
-<p>É um Tabajara quem falla, porem observamos, que a palavra
-<i>Carbet</i> não pertence á <i>lingua geral</i>.</p>
-
-<p>O padre Ruiz de Montoya não a inserio no seo precioso
-<i>Tesoro de la lingua Guarany</i>.</p>
-
-<p>É usado mais particularmente entre os Galibis e os outros
-povos de Guyana.</p>
-
-<p>Resente-se esta expressão da visinhança da nossa colonia.</p>
-
-<p>Convem fazer certa differenca entre os <i>Carbets</i>, ou <i>casa
-grande</i>, e as <i>Ocas</i> ou <i>Tabas</i>, que formavam a architectura
-rudimentar dos outros povos do Brasil.</p>
-
-<p>Ouçamos a este respeito o Padre <i>du Tertre</i>. «No meio de
-todas estas casas, fazem uma grande, commum, a que chamam
-<i>Carbet</i>, a qual tem ordinariamente 60 ou 80 pés de
-comprimento, e é formada de grandes forquilhas de 12 a 20
-pés de altura, infincadas na terra: sobre ellas collocam uma
-palmeira, ou outro tronco de arvore muito direito, que serve
-de cumieira, e n’ella ajustam caibros, que descem até tocar<span class="pagenum"><a id="Page_372"></a>[372]</span>
-em terra, e cobrem-nos com ramos ou folhas de palmeiras,
-ficando muito escuro o interior da casa, pois a claridade só
-entra pela porta, e esta é tão baixa, que para entrar-se é
-necessario curvar-se.»</p>
-
-<p>Estas particularidades pedimos emprestadas a uma obra
-do anno de 1643, e se referem especialmente a architectura
-rustica dos Caraibas insulares.</p>
-
-<p>Escolhemos este exemplo quasi contemporaneo do livro
-publicado pelo nosso autor, porque na realidade não ha grande
-differença entre os <i>Carbets</i> das ilhas e os dos continentes.</p>
-
-<p>Si se escrevesse uma historia d’essas casas de folhas tão
-rapidamente construidas, apresentar-se-iam certas variedades
-conforme os usos e fins para que se destinam. (Vide a
-este respeito <i>Le voyage pittoresque au Bresil de Debet</i>, depois
-as gravuras do livro de <i>André Thevet</i>, publicado em
-1558.)</p>
-
-<p>Haviam pequenos e grandes <i>Carbets</i>, aquelles onde os
-Piagas faziam suas charlatanerias, e estes onde se formavam
-os grandes conselhos.</p>
-
-<p>Tinham estes ultimos a configuração de um dos nossos
-vastos alpendres, tendo lugar para 150 ou 200 guerreiros.</p>
-
-<p>No XVII seculo, na linguagem de nossas colonias, nas
-ilhas ou no continente, formar um conselho qualquer era
-<i>Carbeter</i>; o termo era proprio e acha-se usado por todos os
-viajantes. (Vide entre outros Biet, <i>Voyage de la France équinoxiale</i>.
-Paris. 1654, em 4.º)</p>
-
-<h3><a id="Note_35" href="#Nanchor_35">35</a> (pag. 56).</h3>
-
-<p>David Migan era natural de Dieppe, e como fizeram tantos
-outros naturaes da Normandia no fim do seculo XVI, veio
-tentar fortuna entre os selvagens do Brasil.</p>
-
-<p>Encontraram-no os chefes da opposição estabelecido havia
-muitos annos em Jupinaram, na ilha do Maranhão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_373"></a>[373]</span></p>
-
-<p>Era em toda a extensão da palavra um interprete da Normandia,
-e sabe Deos de que reputação gozavam estes interpretes
-no que dizia respeito ao que então se chamava mundo
-civilisado.</p>
-
-<p>Comparavam-nos até aos selvagens, cujos odiosos festins,
-dizia-se, que elles partilhavam.</p>
-
-<p>David Migan teve as honras do Mercurio francez. (Vide T.
-3, pag. 164)</p>
-
-<p>Regressou á França com Rasilly a quem era muito affeiçoado,
-e assim foi bom por ser o unico capaz de traduzir
-para a Rainha, a longa exposição de Itapucu.</p>
-
-<p>De passagem lembramos ter elle tambem assignado o termo
-de cessão, que la Ravardiere fez de seos direitos a Francisco
-de Rasilly, o que indica, sem duvida alguma, o gozar
-de consideração excepcional.</p>
-
-<p>O nome de Migan nos parece ser <i>nome de guerra</i>, pois
-esta palavra na lingua <i>tupy</i>, significa o caldo grosso, que se
-fazia com a farinha de mandioca.</p>
-
-<p>Malherbe, que estava nas Tulherias, quando se apresentaram
-os indios, notou a habilidade d’este homem.</p>
-
-<p>Havia outro interprete chamado Sebastião, muito affeiçoado
-a Ivo d’Evreux.</p>
-
-<h3><a id="Note_36" href="#Nanchor_36">36</a> (pag. 65).</h3>
-
-<p>É mui curioso o achar-se em Maranhão, no anno de 1612,
-um selvagem fazendo ao padre Ivo o mesmo raciocinio, a
-que foi obrigado á responder João de Lery em 1556: «o que
-quer dizer vós <i>Mair</i> e <i>Peros</i>, (francezes e portuguezes) virdes
-de tão longe buscar madeira para vos aquecer? Lá não
-a tendes?» (Vide <i>Histoire d’un voyage en la terre du Bresil</i>,
-Rouen 1578 em 8.º)</p>
-
-<h3><a id="Note_37" href="#Nanchor_37">37</a> (pag. 70).</h3>
-
-<p>Largamente descreveo Mr. Humboldt a região dos Otomanos,
-e as porções immensas de terra, que reunem estes indios
-para comer quando lhes falta a caça e a pesca.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_374"></a>[374]</span></p>
-
-<p>Pensa o grande viajante, que esta terra secca ao sol, formando
-tulhas de bolasinhas, dispostas symetricamente, é
-procurada pelos selvagens por conterem particulas animalisadas
-e que a fazem nutritiva.</p>
-
-<p>Prova o padre du Tertre, que tanto os indios das ilhas
-como os do continente comem terra, embora pense que seja
-por aberração de gosto.</p>
-
-<p>«Todos comem terra, mães e filhos, diz elle, e a causa de
-tão grande aberração de gosto não pode proceder, penso eu,
-senão de um excesso de melancolia.» (<i>Hist. nat. das Antilhas,
-habitadas pelos francezes</i>. T. 2º, pag. 375.)</p>
-
-<p>Não longe das regiões descriptas pelo padre Ivo, á margem
-do rio Ucayale, encontram-se ainda os indios <i>Pinacos</i>,
-cujo nome verdadeiro é <i>Puynagas</i>. Estes indios despresados
-por seos compatriotas, são afamados comedores de terra.
-A este respeito, entre outros, foi publicado um curioso opusculo
-de Mr. Moreau de Jonnès com o titulo de <i>Observations
-sur les Geophages des Antilles</i>. Paris. An. VI. Tem somente
-11 paginas.</p>
-
-<h3><a id="Note_38" href="#Nanchor_38">38</a> (pag. 73).</h3>
-
-<p>Na enumeração das diversas classes da infancia achamos
-ainda exactidão no padre Ivo, embora confundisse a letra N
-com a R: a palavra <i>menino</i> escreve-se <i>Curumim</i> nos Glossarios
-brasileiros. (Vide Gonçalves Dias, <i>Diccionario da lingua
-Tupy</i>. Leipzig, 1858 em 12.)</p>
-
-<h3><a id="Note_39" href="#Nanchor_39">39</a> (pag. 81).</h3>
-
-<p>Gonçalves Dias chama a virgem <i>Cunhã mucu</i>. (Vide <i>Diccionario</i>.)</p>
-
-<h3><a id="Note_40" href="#Nanchor_40">40</a> (pag. 82).</h3>
-
-<p>Este singular uso, fallado por todos os viajantes do XVI
-seculo, como acaba de ver-se ainda não estava modificado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_375"></a>[375]</span></p>
-
-<p>Não se encontra somente entre os Caraibas das ilhas, e
-sim tambem em pleno vigor na Europa, e especialmente
-entre os Bascos, e era então chamado a «encubação.»</p>
-
-<p>As «<i>Miscellanias historicas</i>,» publicadas em Orange em
-1675, contem interessantes observações á tal respeito. «Nota-se,
-diz elle, um admiravel costume em Bearn. Quando
-pare uma mulher, anda á pé e o marido deita-se para guardar
-o resguardo. Creio que os Bearnenses tomaram este costume
-dos hespanhoes, de quem Strabon disse a mesma coisa
-no livro 3º da sua <i>Geographia</i>.»</p>
-
-<p>O mesmo faziam os Tibarénienses, como refere Nimphodore,
-na excellente obra de Apollonio de Rhodes, livro 2,
-e os Tartaros segundo o testemunho de Marco Paulo, cap. 41.
-livro 2.º</p>
-
-<p>Esto uso, tão exquisito, e só explicavel si se podesse descer
-até o recondito mais intimo do caracter indiano, era religiosamente
-observado pelos mais valentes e afamados guerreiros
-Tupinambás, e provocaria o riso do homem civilisado,
-si indagasse a sua origem natural. Torna-se porem admiravel,
-para assim dizer, quando se sabe ser tal costume acompanhado
-de mui crueis privações, porque o indio, que acaba
-de ser pae, e que se condemna a tão ridiculo repouso, não
-só priva-se de alimentos, como ainda se entrega a outros
-supplicios com intenção de evitar que soffra o filhinho certos
-males, que elle receia.</p>
-
-<p>Pela sua ignorancia e superstição julga-se com grande influencia
-phisiologica sobre o menino, e muito soffre e com
-stoicismo afim de poupar algumas dores ao recem-nascido.</p>
-
-<p>O homem civilisado das cidades, embora mediocremente
-intelligente, abstem-se de esquadrinhar estas ideias cheias
-de dedicação, embora inconstantes dos selvagens, e ri-se
-antes de proferir seo juiso.</p>
-
-<p>A companheira do indio tambem supersticiosa, approva o
-que faz seo marido: soffre, sem queixar-se, verdadeiras dores
-e entrega-se a um novo trabalho ainda mais pesado,
-porque todo o serviço da casa cahe sobre ella.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_376"></a>[376]</span></p>
-
-<p>No modo de pensar desta pobre mulher a salvação do recem-nascido
-depende do procedimento stoico de seo marido.
-Nunca podemos saber qual era o motivo, que obrigava os
-antigos a entregarem-se a este repouso tão exquisito, não
-differente provavelmente do concedido aos americanos. Carli,
-cuja engenhosa erudicção explica tantas coisas antigas da
-America, não procurou mesmo uma hypothese para descobrir
-motivo tão ridiculo. Enganou-se por certo, quando disse
-serem elles alimentados abundantemente. (Vide <i>Lettres Américaines</i>.
-Boston et Pariz, 1788, T. 1 pag. 114.)</p>
-
-<p>É bom ler-se com cuidado a versão francesa d’esta curiosa
-passagem.</p>
-
-<p>Não soube o traductor francez, Febvre de Villebrune, dar
-real valor ás palavras <i>italianisadas</i> pelo autor.</p>
-
-<p>Antonio Biet, é mais justo para com os indios, e menos
-inclinado á zombaria do que os seos predecessores, quando
-descreve a «incubação» entre os Galibis.</p>
-
-<p>«O pobre indio, diz elle, soffre muito durante seis semanas,
-come pouco, e quando acaba o resguardo, está tão magro
-como um esqueleto.»</p>
-
-<p>O mesmo viajante nos mostra o Galibi, sempre paciente,
-não deixando a <i>casa grande</i>, e nem se animando a levantar
-os olhos para os que o rodeiam. (<i>Voyage de la France
-equinoccial</i>, Livro 3.º pag. 390.)</p>
-
-<p>Descrevendo os costumes de certos Caraibas, não podia
-o autor da historia moral das Antilhas esquecer a incubação.</p>
-
-<p>Rochefort conta as particularidades e especifica sua analogia
-com uma ceremonia identica, que vio n’uma provincia
-de França.</p>
-
-<p>Este repouso forçado do indio pareceo-lhe muito absurdo,
-porem não nega ao pobre paciente o merito do jejum, antes
-confessa, que durante sua reclusão apenas lhe dão um pouco
-de farinha e agoa. (Vide <i>Historia moral</i> pag. 494.)</p>
-
-<p>Não proseguiremos n’estas citações, bastando dizer que
-entre os povos do Brasil os Tupiniquins, os Tupinacs, os Tabajares,<span class="pagenum"><a id="Page_377"></a>[377]</span>
-os Petiguaras, e muitas outras tribus imitam os Tupis,
-e estes nomes nada mais adiantam.</p>
-
-<p>Convem comtudo fazer bem saliente o amor paterno entre
-os indios, dando-se assim ao mais extravagante dos costumes
-a sua origem verdadeira.</p>
-
-<h3><a id="Note_41" href="#Nanchor_41">41</a> (pag. 84).</h3>
-
-<p><i>Tamoi</i> quer dizer avô na lingua dos Tupinambás: aqui
-ha alteração de palavra, proveniente por differença de pronuncia.</p>
-
-<p>Lê-se no <i>Tesoro de la lingua Guarany</i>, base da lexicographia
-brasileira <i>Tamôi</i>, <i>abuelo</i>, <i>Cheramòi</i>, <i>mi abuelo</i>,
-<i>Cherúramôîruba</i>, <i>mi bisabuelo</i>, <i>Cherúramôî</i>, <i>el abuelo de
-mi padre</i>, etc.</p>
-
-<p>Por sua origem tinham os Tamoyos real proeminencia sobre
-as outras tribus da mesma raça.</p>
-
-<p>No meiado do Seculo XVI habitavam as circumvisinhanças
-de <i>Nicteroy</i>, ou antes do Rio de Janeiro: como alliados fieis
-dos franceses foram expellidos d’esse bello territorio por Salema,
-e os restos de suas tribus desceram para as regiões
-do Norte, onde encontraram seos antigos amigos, que se haviam
-refugiado especialmente nos campos de Maranhão.</p>
-
-<h3><a id="Note_42" href="#Nanchor_42">42</a> (pag. 87).</h3>
-
-<p>Não é de mediocre importancia a especie de vocabulario,
-aqui offerecida pelo nosso missionario.</p>
-
-<p>Os leitores francezes, pouco familiarisados com a philologia
-americana, despresaram sem duvida esta collecção de
-frases, provenientes d’uma lingua, que comtudo servio de
-recreiação á Boileau: o mesmo não acontecerá n’um vasto
-Imperio, onde as letras são hoje tão honradas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_378"></a>[378]</span></p>
-
-<p>Ha muitos annos já, que o Autor da <i>Historia Geral do
-Brazil</i> provou a importancia do estudo das linguas indigenas
-n’uma <i>Memoria</i> impressa entre as actas do <i>Instituto
-Historico do Rio de Janeiro</i>. (Agosto 1840.)</p>
-
-<p>O padre Anchieta, a quem se deve a composição da primeira
-grammatica, conhecida, da lingua geral, não fallava o
-Tupy sem uma especie de enthusiasmo; o padre Figueira o
-imitou em sua sincera admiração; Laet, com quanto não
-manifestasse admiração gabou sua abundancia e doçura, e
-nisto foi seguido por Bettendorf.</p>
-
-<p>Pode dizer-se, que entre todos estes foi o padre Araujo
-quem melhor fez sobresahir sua importancia debaixo do ponto
-de vista philosophico.</p>
-
-<p>«Como foi, disse algures esse Religioso, que os povos, que
-a fallaram, tendo suas ideias limitadas em estreito circulo de
-objectos, todos necessarios embora á seo modo de vida, podessem
-conceber signaes representando idéas, capazes de
-indicar o objecto, que não conheciam antes, e isto não de
-qualquer forma, e sim com propriedade, energia e elegancia»,
-accrescentando «sem ter ideia alguma da religião, a
-não ser da natural, encontraram em sua propria lingua expressão
-para patenteiar toda a sublimidade dos mysterios da
-religião, e da Graça, sem pedir emprestado coisa alguma aos
-outros idiomas.»</p>
-
-<p>Enganar-se-ia completamente quem julgasse estar hoje
-esquecida a lingua usada entre tribus numerosas quando em
-1500 Pedro Alvares Cabral descobrio o Brasil.</p>
-
-<p>Deixou não só vestigios na Geographia do Brazil, mais
-tambem ainda hoje se falla n’algumas aldeias, tendo
-estreita affinidade com o <i>Guarany</i>, lingua usada na mór
-parte do Paraguay. Comtudo não é a mesma do seculo
-XVI.</p>
-
-<p>Modificam-se os idiomas dos povos selvagens á similhança
-dos idiomas dos povos civilisados, e ainda mais talvez
-quando uma corrente de ideias novas vem desvial-os da
-liberdade do seo andar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_379"></a>[379]</span></p>
-
-<p>O <i>Maya</i>, o <i>Quiché</i>, o <i>Aztéco</i>, o <i>Quichua</i>, o <i>Aymara</i> não
-são o que foram no tempo de Cortez, de Alvarado, e de Pizarro.</p>
-
-<p>Si o sabio Veytia podesse, ha perto de um seculo,
-confrontar a differença enorme, que apresenta o Nahuatl
-antigo com o que fallavam muitas pessoas do seo tempo,
-imagine-se o que não succederia quando se fizesse a
-mesma confrontação entre a lingua Tupy, e o moderno
-Guarany.</p>
-
-<p>Esta ultima lingua, tão em uso no Paraguay, não é mais
-fallada com a pureza da sua origem, segundo diz o Sr.
-Beaurepaire de Rohan, si não pelos <i>Cayuas</i>, das nascentes
-de Iguatiny.</p>
-
-<p>São pois mui preciosos todos os livros, que tratam da
-lingua antiga debaixo do ponto de vista grammatical.</p>
-
-<p>Debaixo d’este ponto de vista, as viagens d’Hans Staden,
-de Thevet, e de Lery tem mais valor do que as Relações de
-Claudio d’Abbeville e Ivo d’Evreux.</p>
-
-<p>Acham-se todos os promenores apreciaveis á este respeito
-no nosso opusculo publicado sob este titulo—<i>Une fête bresilienne
-célébrée á Rouen en 1550. Suivie d’un fragment
-du XVI siécle roulant sur la Théogonie des anciens peuples
-du Brésil e des poésies en langue Tupique de Christovam
-Valente</i>. Pariz, Techener, 1850, gr. em 8.º</p>
-
-<p>O sabio Hermann E. Ludewig não conheceo o vocabulario
-apresentado pelo padre Ivo, ou pelo menos não tratou d’elle.
-(Vide <i>The literature of American aboriginal languages</i>. London,
-1857, in 8.)</p>
-
-<p>Finalmente tem se feito n’estes ultimos tempos trabalhos
-de tanto folego, merecendo o primeiro lugar os do illustre
-<i>Martius</i>.</p>
-
-<p>Um distincto litterato brazileiro, o Dr. Gonçalves Dias,
-que já publicou em <i>Leipzig</i> o <i>Diccionario da lingua Tupy</i>
-(1858) foi de novo estudal-o nas profundas florestas do
-Amazonas.</p>
-
-<p>A philologia brasileira ainda fará grandes progressos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_380"></a>[380]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_43" href="#Nanchor_43">43</a> (pag. 94).</h3>
-
-<p>Aqui ha falta sensivel em nosso texto, por ter indubitavel
-o nosso viajante occupar-se largamente d’uma raça,
-que com os <i>Morobixabas</i> representam o papel principal na
-vida civil e politica dos Brasileiros.</p>
-
-<p>Simão de Vasconcellos nas suas—<i>Noticias do Brasil</i>—nada
-deixa a desejar a tal respeito, e para elle enviamos
-nossos leitores, observando apenas que os <i>Piayes</i>, os <i>Pagé</i>
-ou <i>Pagy</i> somente alcançavam a prodigiosa influencia, que
-gozavam, submettendo-se á experiencias e a jejuns tão rigorosos
-a ponto de arriscarem sua vida, obtendo finalmente o
-titulo, que tanto ambicionavam.</p>
-
-<p>São as mesmas essas provas ou experiencias desde a embocadura
-do Orenoco até as do Rio da Prata.</p>
-
-<p>Quando o candidato estava ja muito enfraquecido pelo jejum,
-entregavam-no ás mordiduras das formigas, abarrotavam-no
-de bebidas asquerosas, cuja base era o succo do tabaco,
-e algumas vezes defumavam-no a ponto de perder os
-sentidos.</p>
-
-<p>Si resistia a taes supplicios, era igual senão superior aos
-guerreiros.</p>
-
-<p>Deixou-nos Vasconcellos a respeito do que se pode chamar
-<i>Collegio dos Piagas</i>, á similhança do <i>Collegio dos Druidas</i>,
-certas particularidades muito minuciosas, applicaveis
-principalmente ás Provincias do Sul.</p>
-
-<p>No Norte os <i>Pages Aybas</i> eram os feiticeiros afamados astrologos,
-ou melhor <i>tempestuosos</i>, a que nada podia resistir.
-Sob sua dependencia estavam os astros, e sob sua obediencia
-o sol e a lua para cumprir suas ordens: desencadeiavam
-os ventos e levantavam tempestades. Os mais ferozes animaes,
-como as onças e jacarés, obedeciam-no.</p>
-
-<p>Para alcançar aos olhos do publico tal poder recorria o
-Pagé Aybas a um meio, que nunca falhou, isto, é a <i>herva
-dos feiticeiros</i> ainda mais poderosa do que a da Europa, o
-<i>Paricá</i>, cujos effeitos terriveis foram descriptos pelo Dr. Rodrigues<span class="pagenum"><a id="Page_381"></a>[381]</span>
-Ferreira. (Vide <i>Memorias das Academias das Sciencias
-de Lisboa</i>.)</p>
-
-<p>Mastigava-se o <i>Paricá</i>, e com isto fazia-se um unguento,
-uzado para uncturas.</p>
-
-<h3><a id="Note_44" href="#Nanchor_44">44</a> (pag. 100).</h3>
-
-<p>Ha aqui um pequeno erro typographico, que convem corrigir:
-leia-se pois <i>rocou</i>.</p>
-
-<p>Em toda a America Meridional costumavam os selvagens
-tingir a pelle de vermelho alaranjado, ou de negro azulado
-por meio do <i>rocou</i>, <i>Bixia Orellana</i>, ou <i>Genipapeiro</i> (<i>Genipa Americana</i>.)</p>
-
-<p>O Padre Ivo descrevendo com exactidão o fructo d’esta
-arvore, em abundancia no Maranhão, diz—o summo claro,
-e limpido que se extrahe della, fica muito negro logo depois
-da sua applicação, e assim conserva-se por 9 dias (Vide
-a este respeito <i>Humboldt</i>, <i>Voyage aux régions équinoxiales</i>.)</p>
-
-<h3><a id="Note_45" href="#Nanchor_45">45</a> (pag. 101).</h3>
-
-<p>Serve-se aqui Ivo d’Evreux de uma expressão impropria
-designando pela palavra <i>Thon</i> o que se chama <i>bicho
-de pé</i>, <i>niga</i>, <i>pulex penetrans</i>, dos entomologistas. Bem
-pode ser que a palavra seja da <i>lingua geral</i>. Encontra-se
-com a mesma accepção em Thevet, que a escreveo em 1558
-(Vide <i>France antarctique</i>. pag. 90). È muito conhecido
-este insecto, e por isso desnecessario é demorarmo-nos descrevendo
-os males, que produz. (Vide entre outros Naturalistas,
-o veridico Auguste de Saint-Hilaire, <i>Voyage dans l’interieur
-du Brésil</i>. T. 1.º pag. 35 e 36).</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_382"></a>[382]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_46" href="#Nanchor_46">46</a> (pag. 106).</h3>
-
-<p>Realisou-se completamente a prophecia do bom Padre.</p>
-
-<p>Poucas são as regiões do mundo, que, como esta, tenham
-sido exploradas em beneficio da sciencia.</p>
-
-<p>Alem das <i>Plantas uteis do Brazil</i>, devidas ao nunca assás
-chorado Augusto de St. Hilaire, ha hoje a <i>Flora brasiliensis</i>
-do illustre Martius, tambem autor da <i>Materia-medica</i>
-deste paiz.</p>
-
-<p>Não desejamos cançar o espirito do leitor com uma arida
-nomenclatura de livros especiaes.</p>
-
-<p>Contentamos-nos apenas dizendo, que muito tem os brazileiros
-concorrido para estes trabalhos scientificos, citando
-somente as <i>Memorias</i> do Dr. Freire Allemão, recentemente
-publicadas, e a grande collecção, infelizmente não acabada,
-da <i>Flora Fluminensis</i>.</p>
-
-<h3><a id="Note_47" href="#Nanchor_47">47</a> (pag. 108).</h3>
-
-<p>Esta molestia, tão cruel e tão similhante á syphilis, se
-não é a propria syphilis, tambem acha-se descripta na <i>France
-antarctique</i> de André Thevet, livro publicado em 1558 (vide
-pag. 86). João de Lery tambem descreveo seos symptomas.
-Está claro, que não se pode attribuir aos negros de Guiné
-molestia tão geral entre os Americanos.</p>
-
-<h3><a id="Note_48" href="#Nanchor_48">48</a> (pag. 114).</h3>
-
-<p>O Padre Ivo é rigorosamente exacto no que diz á respeito
-dos funeraes dos Indios, e com elle concordam em tudo Lery
-e Thevet, dando este ultimo uma excellente estampa representando
-um Indio prestes a ser sepultado. (Vide pag.
-82 v.)</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_383"></a>[383]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_49" href="#Nanchor_49">49</a> (pag. 114).</h3>
-
-<p>Não se esqueciam os Tupinambás de collocar, entre as suas
-singulares previsões para o morto, um pouco de tabaco, carne,
-peixe, raizes de cará e de farinha de mandióca. É rigorosamente
-verdadeiro tudo o que o padre Ivo conta n’este capitulo,
-como se pode vêr nas estampas que apresentam Thevèt
-na <i>France antarctique</i>, e Lery na sua <i>voyage</i>.</p>
-
-<h3><a id="Note_50" href="#Nanchor_50">50</a> (pag. 117).</h3>
-
-<p>Os Tapuytapéras, cujo nome deviam á uma localidade do
-Maranhão, tinham cabellos cumpridos. Pertenciam á raça
-Tupy, pois que <i>Migan</i>, o interprete natural de Dieppe, entendia
-sua linguagem, e o mesmo succedia aos de Commã,
-cuja aldeia tinha indios com este nome.</p>
-
-<p>Os Cahetés, no seculo XVI, constituiam uma nação essencialmente
-bellicosa occupando a maior parte do territorio de
-Pernambuco. Fallavam a lingua Tupica, ou <i>lingua geral</i>. Encontram-se
-as mais curiosas particularidades á respeito de sua
-organisação interna no <i>Roteiro do Brasil</i>, manuscripto existente
-na Bibliotheca Imperial de Pariz.</p>
-
-<p>Hoje está sabido, que este livro, tão notavel, composto
-em 1587 por Gabriel Soares, é o trabalho mais completo,
-que existe sobre as diversas tribus do Brasil existentes no
-tempo do padre Ivo.</p>
-
-<p>Passados muitos annos a Academia Real das Sciencias de
-Lisboa, reconhecendo a sua importancia, imprimio-a nas suas
-<i>Noticias das nações ultramarinas</i>, e depois o Sr. Francisco
-Adolpho de Varnhagem, colleccionando todas as copias
-d’esta mesma obra, embora sob diversos titulos, publicou
-uma nova edicção superior á todas, sob o titulo de <i>Tratado
-descriptivo do Brasil em 1587, obra de Gabriel Soares de
-Sousa, senhor de engenho na Bahia, nella residente dezesete
-annos, seo vereador da Camara</i>. <i>Rio de Janeiro.</i>—1851
-em 8.º</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_384"></a>[384]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_51" href="#Nanchor_51">51</a> (pag. 118).</h3>
-
-<p>O padre Ivo quando quer designar o tubarão, escreve impropriamente
-<i>requin</i>, quando na primitiva era <i>requiem</i>.
-Pode bem ser, que o nome imposto a este peixe tão voraz
-provenha da rapidez com que mata.</p>
-
-<h3><a id="Note_52" href="#Nanchor_52">52</a> (pag. 120).</h3>
-
-<p>O <i>Maracá</i> era um instrumento symbolico, usado tanto nas
-festas religiosas como nas profanas. Thevet, o guarda das
-curiosidades do Rei, o descreveo muito bem em seos manuscriptos,
-inedictos, e como sei que não será desagradavel
-para aqui transcrevo as suas palavras:</p>
-
-<p>Tendo nas mãos um ou dois <i>maracás</i>, que é um fructo
-grande, de forma oval, similhante ao ovo de abestruz, e
-da grossura de uma abobora, mais agradavel á vista do que
-ao paladar, pelo que ninguem o come, fazem com elles
-muitos mysterios e superstições tão extravagantes como incriveis.
-Cavam o fructo, enchem-no de milho graudo, amarram-no
-a ponta de uma haste, enfeitam-no com pennas e
-enterrando a outra ponta, fica ella em pé. Cada casa tem
-um ou dois Maracás, que respeitam como si fosse <i>Tupan</i>,
-trazendo-o sempre na mão, quando dançam e fazendo chocalhar.</p>
-
-<p>Pensam que é <i>Tupan</i> que lhes falla (Manuscripto de André
-Thevet, conservado na Bibliotheca Imperial de Pariz.)</p>
-
-<p>Hans Staden e Lery, Roulox Baro escreveram largas paginas
-a respeito do Maracá, e o proprio Malherbe falla dos que
-ouvio em Paris por occasião do baptismo de tres indios sendo
-padrinho Luiz XIII.</p>
-
-<p>Chegando a Pariz, e residindo no Convento dos seos protectores,
-os indios revestidos dos seos bellos adornos, e com
-o <i>maracá</i> em punho, excitaram muito enthusiasmo, a ponto
-de haver muita paixão pela sua dança e pela sua propria
-musica.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_385"></a>[385]</span></p>
-
-<p>Seria muito curioso si hoje se achasse a Sarabanda composta
-em honra d’elles pelo famoso Gauthier. Malherbe escreveo
-ao celebre Peirese dizendo tel-a mandado á Marco
-Antonio «como excellente peça digna de ouvir-se» (Vide
-<i>Correspondance</i>, pag. 285, antiga edicção.)</p>
-
-<p>Ainda, passadas 12 paginas Malherbe tratou da musica
-então em voga, e do seo auctor, dizendo «ser Gauthier considerado
-o primeiro no officio, ignorando porem si sahira
-bem, e si o gosto da Provincia se conformará com o da
-Côrte.»</p>
-
-<p>Não se contentaram somente de proporcionar aos pobres
-selvagens distracções ligeiras, pois procuraram obrigal-os a
-residir em França.</p>
-
-<p>Diz o poeta pag. 275 «os Capuchinhos, para obsequiarem
-completamente estes pobres selvagens, resolveram algumas
-beatas a casarem-se com elles, e ja deram começo a excursão
-d’este plano.»</p>
-
-<p>Emquanto porem eram bem acolhidos os guerreiros do
-Maranhão, suas mulheres não gozavam iguaes favores.</p>
-
-<p>Uma certa Princesa cujo nome calla o poeta, manifestando
-opinião singular, dizia «que para elles tinha muita satisfação
-de dar-lhes casa e comida, mas que ás senhoras, suas
-mulheres, não podiam ser senão...» bem me entendeis, e
-por isso não podia recebel-as em sua casa.</p>
-
-<h3><a id="Note_53" href="#Nanchor_53">53</a> (pag. 120).</h3>
-
-<p>É mui curioso o saber-se, que esta expedição exploradora
-ás margens do Mearim, reconheceo logo serem essas
-terras essencialmente proprias para a plantação da
-canna de assucar, a que se empregam todos os braços de
-15 annos para cá, sendo esta revolução agricola devida
-á influencia do Dr. Joaquim Franco de Sá. A charrua despresada
-por tão longos annos hoje sulca este solo admiravel.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_386"></a>[386]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_54" href="#Nanchor_54">54</a> (pag. 122).</h3>
-
-<p>Deve lêr-se <i>Mutum</i> sendo a especie mais pequena designada
-pelo nome de <i>Mutum Pinima</i>. (Vide <i>Diccionario
-Tupy</i> de Gonçalves Dias.)</p>
-
-<p>Trata-se aqui de Hocco <i>Crax Alector</i>, caça mui procurada.</p>
-
-<p>A imperial sociedade de acclimatação emprega actualmente
-louvaveis exforços para naturalisar em França este passaro
-do Brasil e da Goyana.</p>
-
-<h3><a id="Note_55" href="#Nanchor_55">55</a> (pag. 122).</h3>
-
-<p>É uma linda especie de periquito, conhecida no Brasil pelo
-nome de <i>Tui</i>.</p>
-
-<p>Forma ás vezes bandos tão grandes a ponto de ser um
-dos flagellos da agricultura.</p>
-
-<h3><a id="Note_56" href="#Nanchor_56">56</a> (pag. 123).</h3>
-
-<p>É a palmeira chamada—<i>Tucum</i>—pelos brasileiros.</p>
-
-<p>Consulte-se a magnifica <i>Monographia das palmeiras</i> por
-Martius. O <i>Tucum</i> tem fibras verdes e macias, das quaes se
-faz excellente fio, proprio para cordas.</p>
-
-<h3><a id="Note_57" href="#Nanchor_57">57</a> (pag. 123).</h3>
-
-<p>Ivo d’Evreux não hesita com sua sinceridade habitual a
-formar um verbo derivado da lingua indigena.</p>
-
-<p>Desde as margens do Orenoco até as do Rio da Prata era
-o <i>Cauim</i> preparado em grande quantidade.</p>
-
-<p>Tinha o mesmo nome em toda a parte esta especie de cerveja,
-ou talvez melhor de cidra, quer fosse preparada com
-milho mastigado pelas mulheres, quer com mandióca cajú
-ou jabuticaba.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_387"></a>[387]</span></p>
-
-<p>Encontramos este fabrico e nome até entre os Araucans.
-(Vide a importante obra, do Chili, do Sr. Claudio Gay.)</p>
-
-<p>A palavra <i>cauin</i> atravessou espaços immensos, são os
-mesmos em toda a parte os processos para o seu fabrico, o
-que prova estreito parentesco entre os povos mais distantes,
-uns dos outros.</p>
-
-<p>Hans Staden, Lery, Thevet tem apontado seos abusos, e
-chamamos a attenção dos nossos leitores para as suas curiosas
-narrativas.</p>
-
-<p>O que os nossos antigos viajantes chamavam <i>Cauinage</i>
-era afinal uma solemnidade, cujo sentido religioso não conhecemos.</p>
-
-<p>Precediam ou succediam estas orgias ás grandes expedicções.</p>
-
-<p>O «vinho da Europa» se chama hoje <i>Cauin Pyranga</i>, e
-a aguardente tão fatal aos indios, <i>Cauin Tata</i>, «bebida de
-fogo.»</p>
-
-<h3><a id="Note_58" href="#Nanchor_58">58</a> (pag. 123).</h3>
-
-<p>Descreve com minuciosa curiosidade João de Lery esta
-festa solemne, na qual se infiltrava o <i>espirito de coragem</i>,
-aos guerreiros prestes a partirem para uma expedição.</p>
-
-<p>Uma das estampas do seo livro representa até esta ceremonia.</p>
-
-<p>Entre todas as tribus da raça tupy o tabaco é considerado
-como planta sagrada.</p>
-
-<p>Reunimos tudo que se sabia ha alguns annos á respeito
-da origem do <i>Petum</i> na carta, que dirigimos a Mr. Alfredo
-Demersay, sobre a introducção do tabaco em França, (Vide
-<i>Etudes economiques sur l’Amerique meridionale. Du Tabac
-du Paraguay</i>. Pariz. Guillamin. 1851 em 8.º)</p>
-
-<h3><a id="Note_59" href="#Nanchor_59">59</a> (pag. 125).</h3>
-
-<p>O nome d’esta nação tão pouco conhecida, e que se apresenta
-á penna do padre Ivo, é uma garantia da exactidão
-das suas narrações.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_388"></a>[388]</span></p>
-
-<p>Ainda em 1817 existiam alguns <i>Tramembez</i> entre os trabalhadores
-brancos do Ceará: cultivavam mandióca e residiam
-na villa de <i>Nossa Senhora da Conceição d’Almofalla</i>,
-onde haviam muitas salinas. (Vide Ayres Casal, <i>Corographia
-Brasilica</i>, T. 2º, pag. 235.)</p>
-
-<p>Gaba o padre Ivo o valor e a industria d’estes indios, inimigos
-encarniçados dos Tupinambás.</p>
-
-<h3><a id="Note_60" href="#Nanchor_60">60</a> (pag. 125).</h3>
-
-<p>Tratamos d’este famoso indio quando elle se revestio do
-commando.</p>
-
-<p>É a figura indigena mais predominante nas duas obras do
-padre Claudio d’Abbeville e padre Ivo.</p>
-
-<p>Na <i>lingua geral</i> a palavra <i>japim</i> é o nome de um lindo
-passaro, de pennas amarellas e negras, que anda em numerosos
-bandos e que em toda a parte faz tão lindos ninhos.</p>
-
-<p>Pode tambem dar-se-lhe outra significação. <i>Japy</i> significa
-na lingua indigena do Maranhão, «o choque, o golpe.» (Vide
-Gonçalves Dias, <i>Diccionario</i>.) A primeira explicação é a
-unica adoptada. Japy-uaçú era o que se chamava um <i>Mitagaya</i>,
-um grande guerreiro.</p>
-
-<h3><a id="Note_61" href="#Nanchor_61">61</a> (pag. 126).</h3>
-
-<p>Deixa-se o padre Ivo levar muito pelas recordações da
-Europa.</p>
-
-<p><i>Jeropary-açú</i>, de que tratam escriptores portuguezes,
-nada tem de commum com um principe ou um rei, taes
-como eram representados no novo-mundo por convenção hierarchica.</p>
-
-<p>Este erro ja havia sido anteriormente commettido por André
-Thevèt na sua <i>França antartica</i> e na sua <i>Cosmographia</i>.
-O historiador de Portugal, La Clede, que vivia no seculo
-XVIII foi mais longe ainda na enumeração dos pomposos titulos,
-que dá a alguns pobres chefes de tribus.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_389"></a>[389]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_62" href="#Nanchor_62">62</a> (pag. 127).</h3>
-
-<p>Com o nome de <i>cabaças</i> conhece-se geralmente no Brasil
-vasilhas ordinarias, feitas com o fructo da cabeceira.</p>
-
-<p>Em Venezuella chama-se <i>Tutumas</i>.</p>
-
-<p>Algumas destas vasilhas naturaes mostram delicados ornatos,
-cores inalteraveis pela agua e grande brilho. (Vide a
-este respeito Claudio d’Abbeville, <i>Histoire de la mission
-des péres Capucins</i>.)</p>
-
-<h3><a id="Note_63" href="#Nanchor_63">63</a> (pag. 128).</h3>
-
-<p>É isto confirmado por Magalhães de Gandavo, o primeiro
-escriptor portuguez, que escreveo uma historia regular do
-Brasil em 1576.</p>
-
-<p>Este amigo de Camões recorda a expressão indigena de
-que se serve o padre Ivo, porem não partilha sua opinião,
-antes crê ser o ambar um producto vegetal formado no fundo
-do mar. O que é certo é, que nos seculos XVI e XVII o encontro,
-quasi sempre casual, de enormes pedaços de ambar,
-arremeçados pelas ondas em praias não exploradas,
-enriqueceo muita gente.</p>
-
-<h3><a id="Note_64" href="#Nanchor_64">64</a> (pag. 131).</h3>
-
-<p>Debalde procuramos este nome no livro de Ayres do Casal,
-e no Diccionario de Milliet de Saint Adolphe.</p>
-
-<p>A região habitada pelos Cahetés de que trata, sabemos
-com certesa ser na provincia de Pernambuco.</p>
-
-<p>A palavra <i>Cahetés</i> significa <i>floresta grande</i>, e se applica a
-diversas localidades.</p>
-
-<p>Foram os <i>Cahetés</i>, que em 1556 mataram e devoraram o
-primeiro Bispo do Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha.</p>
-
-<p>Este sabio prelado, natural de Setubal, e educado na universidade
-de Pariz, regressava á Lisboa, onde ia queixar-se
-do governador da Bahia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_390"></a>[390]</span></p>
-
-<p>Mostra-se ainda hoje a colina, onde elle morreu, e não
-cresce ahi planta alguma, segundo a crença do povo. (Vide
-Adolpho de Varnhagem—<i>Historia Geral do Brazil</i>.)</p>
-
-<p>O livro de Gabriel Soares contem tudo quanto se deseja á
-respeito dos Cahetés, indios considerados geralmente como
-invensiveis guerreiros, e que se gabavam de habeis musicos.</p>
-
-<p>A exploração do <i>Uarpy</i>, de que aqui se trata, e emprehendida
-pelo Sr. de Pezieux é uma prova evidente do cuidado,
-que havia de explorar-se esta região, percorrendo-se
-de N. a S.</p>
-
-<h3><a id="Note_65" href="#Nanchor_65">65</a> (pag. 131).</h3>
-
-<p>Estas minas de oiro, que se esperava encontrar no Maranhão
-em 1613, existem hoje na serra de <i>Maracassumé</i>.</p>
-
-<p>Encontra-se o metal precioso sobre tudo em <i>Piranhas</i>,
-(districto de <i>Santa Helena</i>) nas cabeceiras dos rios Pindaré,
-Gurupy, Cabello de Velha (<i>Cururupu</i>) Prata (Santa Helena)
-na Revirada, nas margens do Tomatahy, etc., etc., porem
-em pequena porção.</p>
-
-<p>Existe cobre na Chapada no lugar <i>Fazendinha</i> e no Alto
-Pindaré.</p>
-
-<p>Ferro existe em mais lugares, nos montes de Tirocambo
-e em Pastos-Bons.</p>
-
-<p>Suppõe-se haverem minas de estanho, porem ainda não
-se sabe com certesa.</p>
-
-<p>Encontra-se tambem o carvão de pedra, precioso mineral
-no estado actual da industria: depararam-se ja com alguns
-indicios no canal do Arapapahy, e affirma-se haver uma mina
-na distancia de meia legoa do Codó, na fazenda de Santo
-Antonio, cujas amostras provam ser de superior qualidade.
-Dizem haver tambem em Vinhaes.</p>
-
-<p>Em Sam José dos Mattões encontram-se cristaes de rocha
-e pedras semi-preciosas, e saphiras em Sam Bernardo da
-Parnahyba.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_391"></a>[391]</span></p>
-
-<p>De passagem lembramos que as primeiras minas de ouro,
-ou para melhor dizer, os primeiros veios de ouro, destinados
-a enriquecerem o Brasil, somente foram descobertos em
-Minas-Geraes, no anno de 1595.</p>
-
-<p>Pelas Provincias do norte não conheceo a Metropole as
-riquezas metalicas d’este vasto territorio, onde desemboccam
-o <i>Rio doce</i>, e o <i>Jequitinhonha</i>.</p>
-
-<p>Sabe-se que este ultimo rio que toma o nome de Belmonte
-na occasião em que se lança no mar, pouco distante do primeiro,
-com o andar dos tempos deo á corôa enorme quantidade
-de diamantes.</p>
-
-<p>Estas pedras, encontradas em 1729, principalmente no
-valle cercado de alcantiladas rochas, chamado pelos indios—<i>Ivitur</i>,
-e pelos portuguezes—<i>Serro do Frio</i>, não eram
-completamente despresadas pelos indios, pois seos filhos as
-ajuntavam, e com ellas brincavam.</p>
-
-<p>No Maranhão não ha diamantes.</p>
-
-<h3><a id="Note_66" href="#Nanchor_66">66</a> (pag. 141).</h3>
-
-<p>Mostra-se o padre Ivo aqui mui parco em suas descripções,
-porem deve-se desculpal-o por não ser naturalista como um
-theologo do seo tempo. Foi ainda mais parco o seo predecessor.</p>
-
-<p>O que disse de algumas plantas do genero <i>mimosa</i> indica
-a sua preoccupação á respeito de certos phenomenos naturaes.</p>
-
-<p>As qualidades maleficas, que reconhece no succo do Cajú,
-de que se fabrica uma especie de cidra, são mui exageradas.</p>
-
-<p>Diremos de passagem, que a palavra <i>Cauin</i> deriva-se
-do nome indigena d’esta arvore. <i>Caju-y</i>, licor de <i>Caju</i>.</p>
-
-<h3><a id="Note_67" href="#Nanchor_67">67</a> (pag. 145).</h3>
-
-<p>Á flor da paixão (<i>Grenadilla cœrulea</i>) na qual a imaginação
-prevenida encontra santos attributos, gozava então de<span class="pagenum"><a id="Page_392"></a>[392]</span>
-prodigioso favor. Foi descripta em varias obras, e gravada
-exagerando-se os pontos de similhança, que podia ter com
-os instrumentos do supplicio de Jesus Christo.</p>
-
-<p>Ivo d’Evreux encontrou nos campos do Brasil magnificas
-flores d’estas, e mostrou-as aos amadores. Alguns annos
-depois elle se teria aproveitado da descripção poetica, que
-d’ella fez o poeta popular Santa Rita Durão no poema intitulado
-<i>Caramuru</i>.</p>
-
-<p>Lembramos aos amadores de flores phantasticas uma gravura
-do seculo XVII, mui curiosa, mostrando a planta com
-o seo tamanho natural na obra <i>Antonii Possevini Mantuani
-Societatis, Jesu cultura ingeniorum, examen ingeniorum
-Joannis Huartis. Expenditur Coloniæ Agrippinæ</i>. 1610
-em 12.</p>
-
-<h3><a id="Note_68" href="#Nanchor_68">68</a> (pag. 146).</h3>
-
-<p>O guará (<i>Ibis rubra</i>, ou <i>Tantalus ruber</i>) desappareceo
-em parte de varias localidades do littoral, onde costumava
-expandir sua brilhante plumagem, sujeita, conforme a idade,
-a diversas modificações.</p>
-
-<p>Na obra curiosa de Hans Staden, publicada na Allemanha
-em 1557, vê-se qual é o papel, que representa esta ave na
-industria indigena.</p>
-
-<p>Formavam os Tupinambás em tempo certo verdadeiras expedições
-para procurar as pennas d’ellas, sempre raras, afim
-de servirem nas festas com que as tribus se obsequiavam
-reciprocamente.</p>
-
-<p>Em caso de necessidade eram substituidas por pennas de
-gallinhas, tinctas com uma preparação vermelha de <i>Ibirapitanga</i>,
-ou pau-brasil.</p>
-
-<p>Actualmente refugiou-se o guará nas margens, pouco frequentadas,
-do rio de Sam Francisco, e principalmente nas
-desertas regiões do Rio Negro. Ainda tambem encontram-se
-algumas na <i>lagoa dos patos</i>, e em <i>Guaratuba</i>. (Vide <i>le second
-voyage d’Aug. St. Hilaire</i>. T. 2º, pag. 222.)</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_393"></a>[393]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_69" href="#Nanchor_69">69</a> (pag. 152).</h3>
-
-<p>É impossivel aos que não leram as obras da idade media
-interpretar bem o sentido d’esta frase.</p>
-
-<p>O livro conhecido sob o nome de <i>Phisiologus</i> gozava ainda
-de certo credito no tempo do padre Ivo de Evreux. Quem
-quizer informar-se d’isto minuciosamente leia o precioso resumo
-d’esta curiosa obra, publicada pelos Rvds. padres Cahier
-e Martin, sob o titulo <i>Melanges d’Archéologie, d’histoire
-et de litterature</i>. 4 vol. in-fol.</p>
-
-<h3><a id="Note_70" href="#Nanchor_70">70</a> (pag. 156).</h3>
-
-<p>As mulheres Tupinambás, que assim cantavam para attrahir
-as formigas, e activar a caça d’estes insectos, não o faziam
-somente para destruil-as, ou para resguardar suas plantações
-de milho de uma invasão invencivel.</p>
-
-<p>As formigas grandes torradas eram consideradas como
-uma das golodices mais preciosas, cuja receita foi por ellas
-ensinada a alguns colonos do Sul, e sem duvida não será
-desputada pelos nossos modernos Brillat Savarin.</p>
-
-<p>Assim como os Arabes comem ainda hoje gafanhotos, conservados
-em sal ou pela dissecação, e os Guaraons das margens
-do Orénoco apreciam muito as larvas da palmeira Muriti
-(não fallando de outra comida da terra do mesmo genero),
-assim tambem os nossos selvagens guardam grandes
-provisões d’estes insectos para sua nutrição.</p>
-
-<p>Augusto de Saint-Hilaire, o mais verdadeiro viajante, que
-percorreo o Brasil, achou ainda em vigor o costume de se
-comer formigas assadas.</p>
-
-<p>Depois de ter affirmado ser muito apreciado esse manjar
-no Espirito Santo, pelo que os habitantes de Campos, sempre
-rivaes dos da Cidade da Victoria, os chamavam <i>Tata
-Tanajuras</i>, «comedores de formigas», accrescentou «eu
-mesmo comi um prato d’estes animaes, preparados por uma<span class="pagenum"><a id="Page_394"></a>[394]</span>
-mulher Paulista, e não lhes achei mau gosto.» (Vide <i>Le second
-voyage au Brésil</i>. T. 2.º pag. 181).</p>
-
-<p>Martim Soares de Souza, com rasão chamado o Gregorio
-de Tours dos Brasileiros, é mais claro a respeito do proveito
-que os indios tiravam das formigas como alimento.</p>
-
-<p>Copiamos aqui o que elle tão curiosamente disse. Depois
-de haver fallado da especie grande, a que chamam Içans,
-escreveo—«<i>E estas formigas comem os indios, torradas sobre
-o fogo, e fazem-lhe muita festa; e alguns homens brancos
-andam entre elles, e os mistiços as tem por bom jantar,
-e o gabam de saboroso, dizendo que sabem a passas
-de Alicante: e torradas são brancas dentro.</i>»</p>
-
-<h3><a id="Note_71" href="#Nanchor_71">71</a> (pag. 156).</h3>
-
-<p>O pretendido cão, de que aqui falla o nosso Missionario,
-está muito longe da raça canina: é apenas o <i>papa-formigas</i>,
-chamado pelos indigenas <i>tamanduá</i>, e pela sciencia <i>Myrmecophaga
-jubata</i>.</p>
-
-<p>O naturalista Waterton, que com tanta curiosidade estudou
-os quadrupedes do novo mundo nos proprios lugares,
-onde com plena liberdade se entregam aos seos instinctos,
-fez excellente descripção d’este animal.</p>
-
-<p>Ha no Brasil muitas especies de papa-formigas, sendo rarissima
-a chamada pelos portuguezes <i>Tamanduà-cavallo</i>:
-parece ter sido este sobrenome o causador de haver o padre
-Claudio d’Abbeville errado, quando disse ser o <i>papa-formigas</i>
-do tamanho de um cavallo.</p>
-
-<p>A palavra india, que designa este curioso animal, é composta
-de duas Tupis—<i>taixi</i>, «formiga,» e <i>mondê</i> ou <i>mondâ</i>,
-«tomar.»</p>
-
-<h3><a id="Note_72" href="#Nanchor_72">72</a> (pag. 157).</h3>
-
-<p>Deve escrever-se <i>Taranyra</i>, cujo nome pertence a um
-pequeno lagarto. Falla-se aqui do <i>Tiú</i> (<i>Tupinambis monitor</i>).</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_395"></a>[395]</span></p>
-
-<p>É excellente a carne d’este reptil, e muito havia de concorrer
-para tornal-a saborosa a preparação culinaria tão gabada
-pelo Padre Ivo d’Evreux.</p>
-
-<p>A repugnancia d’esse bom Padre para taes comidas, não
-é de fórma alguma partilhada pelos descendentes dos Europeos,
-acostumados ás melhores mezas.</p>
-
-<p>A carne de Tui pela sua côr e maciesa muito assimilha-se
-á da gallinha mais preciosa, e por isso apparece nas melhores
-mezas do Brasil.</p>
-
-<h3><a id="Note_73" href="#Nanchor_73">73</a> (pag. 162).</h3>
-
-<p>O nosso autor quer fallar da <i>Aranha caranguejeira</i>, (<i>Aranea
-avicularia</i>) porem aqui enganou-se. Exagera muito as
-dimensões d’este insecto, na verdade nojento, como se pode
-vêr em todas as collecções de entomologia. Não é verdade
-dizer-se que não fabricam fios para suas teias: a sua picada
-não mata, porem envenena. Na lingua Tupy chama-se <i>Nhandu-Guaçu</i>
-ou de <i>Jandu</i>.</p>
-
-<h3><a id="Note_74" href="#Nanchor_74">74</a> (pag. 163).</h3>
-
-<p>O que nos diz o bom Religioso do barulho da cigarra denota
-gosto de observação na historia natural, muito raro n’aquella
-epoca, mas convem não confundir a cigarra brasileira
-com o insecto assim chamado na Europa.</p>
-
-<h3><a id="Note_75" href="#Nanchor_75">75</a> (pag. 165).</h3>
-
-<p>Na lingua <i>Tupi</i> escreve-se <i>Okiju</i>. (Vide <i>Martius</i>, <i>Glossaria
-ling. bras.</i> pag. 465).</p>
-
-<h3><a id="Note_76" href="#Nanchor_76">76</a> (pag. 168).</h3>
-
-<p>Ivo d’Evreux confesse-se, está aqui muito inferior á seo
-contemporaneo o Padre du Tertre.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_396"></a>[396]</span></p>
-
-<p>É verdade porem tudo quanto elle diz da luz dos <i>pyrilampos</i>.</p>
-
-<p>A entomologia estava então muito pouco adiantada para
-que houvesse uma classificação entre os insectos, e não temos habilitações para preencher esta falta. Actualmente conhece-se
-no Brazil oito especies de pyrilampos a saber:</p>
-
-<ul>
-<li><i>Lampyris crassicornis</i>,</li>
-<li><i><span class="ditto">«</span> signaticollis</i>,</li>
-<li><i><span class="ditto">«</span> concoloripennis</i>,</li>
-<li><i><span class="ditto">«</span> fulvipes</i>,</li>
-<li><i><span class="ditto">«</span> diaphana</i>,</li>
-<li><i><span class="ditto">«</span> hespera</i>,</li>
-<li><i><span class="ditto">«</span> nigra</i>,</li>
-<li><i><span class="ditto">«</span> maculata</i>.</li>
-</ul>
-
-<p>Pode tambem juntar-se a estes lindos insectos a <i>lucidota
-thoraxica</i>.</p>
-
-<h3><a id="Note_77" href="#Nanchor_77">77</a> (pag. 169).</h3>
-
-<p>É muito exacto, e as abelhas do Brazil não tem aguilhão:
-eis o que diz um observador sabio e veridico.</p>
-
-<p>Depois de haver affirmado, como o Padre Ivo, que as
-abelhas não picavam, disse Augusto de Saint Hilaire «uma
-especie chamada <i>tataira</i> deixa, segundo dizem, escapar pelo
-anus um liquido ardente; e por isso é só á noite que se colhe
-o seo mel.»</p>
-
-<p>As especies chamadas <i>uruçú-boi</i>, <i>sanharó</i>, <i>burá</i>, <i>bravo</i>,
-<i>chupé</i>, <i>arapua</i> e <i>tupi</i> se defendem, quando são atacadas,
-mas parece não terem aguilhão, limitando-se a morderem
-como fazem as outras.</p>
-
-<p>É muito liquido o mel das diversas especies, e a cera
-tem a côr parda muito carregada, não se podendo até hoje
-conseguir tornal-a branca, como a da Europa.</p>
-
-<p>Spix e Martius dão curiosas informações a respeito d’estes
-uteis insectos, que completam as do nosso grande botanico.<span class="pagenum"><a id="Page_397"></a>[397]</span>
-(Vide <i>Voyage dans les provinces do Rio de Janeiro e de
-Minas Geraes</i>. T. 2.º, pag. 371 e seguintes.)</p>
-
-<h3><a id="Note_78" href="#Nanchor_78">78</a> (pag. 176).</h3>
-
-<p>Não ha talvez no mundo região alguma, que tenha maior
-variedade de macacos do que o Brazil.</p>
-
-<p>Creio que aqui se trata primeiro da <i>guariba</i>, ou <i>mycetes
-ursinus</i>, e depois do macaquinho <i>stentor</i>, que intentou descrevêr
-o nosso bom Missionario.</p>
-
-<p>É provavelmente d’esta especie a descripção tão agradavel
-e tão animada, feita pelo nosso velho escriptor.</p>
-
-<p>Convem observar porem que o Padre Ivo fez-se echo de
-uma crença popular muito vulgar no seculo XVI.</p>
-
-<p>Esta especie de legenda das florestas, muito mais applicavel
-aos macacos da Africa e da Asia do que aos do novo-mundo,
-não se extinguio ainda de todo nos campos da America
-Meridional, e mostraram a M. Castelnau uma india, que
-julgava ter escolhido seo marido entre os macacos das florestas
-(Vide <i>Expedition dans les parties centrales de l’Amérique
-du sud, de Rio de Janeiro á Lima et de Lima au
-Pará, exécutée par ordre du governement français</i>. Paris
-1851, <i>partie historique</i>. 5 vol. in 8.º)</p>
-
-<h3><a id="Note_79" href="#Nanchor_79">79</a> (pag. 177).</h3>
-
-<p>Basta ter-se vivido nas florestas habitadas por macacos
-para conhecer-se a exactidão do que escreveo o Padre Ivo.</p>
-
-<h3><a id="Note_80" href="#Nanchor_80">80</a> (pag. 180).</h3>
-
-<p>Ha aqui com certesa erro, ou então exageração.</p>
-
-<p>O Padre Claudio d’Abbeville, que descreve a mesma ave
-de rapina (pag. 232) julga ser elle «duas vezes mais corpolento
-do que a aguia, ter a perna da grossura de um braço,
-e a pata em fórma de unhada.»</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_398"></a>[398]</span></p>
-
-<p>Poderia ser esta descripção do Condor, porem não existe
-esta ave na America do Sul.</p>
-
-<p>Diz o Coronel Ignacio Accioli ter o <i>gavião real</i> tanta força
-a ponto de fazer parar em sua carreira um viado por mais
-forte que seja.</p>
-
-<p>É tão phantastica a descripção do Padre Ivo, que á primeira
-vista se pode applical-a ao abestruz americano de
-<i>Nandú</i>, que se encontra somente no Ceará e Piauhy.</p>
-
-<p>Um escriptor contemporaneo, Gabriel Soares, tantas vezes
-citado, restabelece a verdade fallando do <i>Ura-açu</i> disse
-«são passaros, como os milhafres de Portugal, sem differença
-alguma, negros e de azas grandes, de cujas pennas
-utilisam-se os indios para emplumarem suas flexas, e vivem
-de rapina.» (Vide <i>Tratado descriptivo do Brasil em 1587</i>.
-Rio de Janeiro.—1851 1.º vol. in 8.º pag. 232.)</p>
-
-<p>Lembramos de passagem, que debaixo do ponto de vista
-scientifico a parte ornithologica é muito imperfeita, embora
-a bellesa do estylo do nosso velho viajante.</p>
-
-<p>O que diz, por exemplo, o Padre Ivo do passaro mosca,
-ou do colibri, é inteiramente inexacto, pois elle não tem o
-tal canto agudo, que faz lembrar o grito da cotovia.</p>
-
-<p>Confundiram-se as recordações com a distancia.</p>
-
-<h3><a id="Note_81" href="#Nanchor_81">81</a> (pag. 181).</h3>
-
-<p>Ivo de Evreux quer dizer, que os Indios se <i>fazem galans</i>,
-preparando-se com pennas de papagaios.</p>
-
-<p>Faziam os Tupinambás com estas pennas não só mantos,
-diademas e perneiras, mas tambem cortavam bem miudinhas
-as pennas pequenas e coloridas d’estes passaros, e
-cobriam com esta pennugem o corpo, e n’elle grudavam-na
-com certa gomma.</p>
-
-<p>Este enfeite selvagem e singularmente original ainda é
-muito usado e apreciado em certas tribus.</p>
-
-<p>Segundo conta João de Lery durou mais de tres seculos.</p>
-
-<p>A viagem pittoresca de Debret apresenta uma amostra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_399"></a>[399]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_82" href="#Nanchor_82">82</a> (pag. 185).</h3>
-
-<p>Basta, é bastante. Os hespanhóes e os portuguezes conservaram
-a palavra <i>bastar</i>.</p>
-
-<h3><a id="Note_83" href="#Nanchor_83">83</a> (pag. 185).</h3>
-
-<p>Já pagamos justo tributo de saudade a este Religioso, tão
-cheio de bondade como de zelo, cuja sepultura no antigo
-cemiterio do pequeno Convento não é sabida em Maranhão.</p>
-
-<p>Como indica o seo sobrenome de Religião, nasceo o Padre
-Ambrosio na Capital da Picardia, «de parentes abastados,
-diz o manuscripto dos elogios, e que lhe deram educação
-conforme permittiam seos negocios.»</p>
-
-<p>Depois de haver estudado na Sorbona, quando estava
-prestes a receber a sua carta de licenciado, foi abalado
-pelas prédicas do Padre Pacifico de São Gervasio, e entrou
-no Convento em 1575, quasi no tempo da fundação do Mosteiro
-de Santo Honorato.</p>
-
-<p>Em 1599 acabou seo noviciado, e com satisfação começou
-a preencher as obrigações de irmão leigo.</p>
-
-<p>Cedo passou a prégador, e então adquirio essa fama de
-caridoso, que o fez tão popular.</p>
-
-<p>Aspirava a mais do que isto, «porque queria converter
-todas as Indias», diz a noticia a elle dedicada.</p>
-
-<p>O Padre Ivo cercava de todos os cuidados os seos confrades
-quando emprehendiam viagens tão incommodas principalmente
-n’aquelle tempo.</p>
-
-<p>Estava já muito enfraquecido, e sem forças, quando em
-26 de setembro de 1612 cahio doente, em sua pobre cabana
-de pindoba.</p>
-
-<p>Ardente febre o devorava, e comtudo, ainda depois de
-receber a extrema uncção, conservou em bom estado e sempre
-firme o uso de suas faculdades intellectuaes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_400"></a>[400]</span></p>
-
-<p>Transcrevamos aqui algumas palavras, que mostram qual
-foi o fim de tão bom velho.</p>
-
-<p>Claudio d’Abbeville assim o conta:</p>
-
-<p>«Cahindo sobre elle um pequeno painel da Imagem de S.
-Pedro, pendurado por cima de sua cama, e a que dedicava
-profunda devoção, elle disse—vamos, grande Santo, partamos,
-ja que vieste buscar-me.—</p>
-
-<p>«Dizendo isto olhou para o Crucifixo e após curta agonia
-restituio ao Creador sua alma tão bôa em 9 de Outubro de
-1612, dia da festividade do Glorioso Apostolo de França, S.
-Diniz, Bispo de Pariz:</p>
-
-<p>«Foi sepultado no lugar chamado S. Francisco, consagrado
-ao nosso Patriarcha, como premicias dos Capuchinhos
-Francezes.» (Vide tambem «<i>Éloges historiques de tous les
-illustres religieux capucins de la ville de Paris, les uns
-par la prédication, les autres par les vertus et sainteté
-de leurs œuvres, les autres par les missions parmy les
-infidelles etc. etc.</i> sob numero <i>Capucin</i> Saint Honoré 4
-(ter).)»</p>
-
-<p>É para sentir-se e muito que se tenha perdido ha alguns
-annos o 1.º vol. d’esta importante collecção, contendo os
-Annaes da Provincia.</p>
-
-<h3><a id="Note_84" href="#Nanchor_84">84</a> (pag. 186).</h3>
-
-<p>Prova esta phrase tão rigorosa do velho missionario a rapidez,
-com que se espalhou na Europa o <i>avati</i>, dos brasileiros,
-o <i>milho</i> dos ilheos visto, bem como o tabaco, por
-Christovão Colombo na primeira viagem em 1493.</p>
-
-<p>Levantaram os botanicos grande questão, ainda não resolvida,
-sobre a origem primitiva do milho.</p>
-
-<p>Pelo que diz respeito ao Brasil citamos a opinião d’um
-viajante, que por seu saber pode passar por authoridade.</p>
-
-<p>Augusto de St. Hilaire pensa ter nascido no Paraguay,
-onde o vio em estado inculto.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_401"></a>[401]</span></p>
-
-<p>A cultura do milho é ao Sul d’America a planta nutritiva
-por excellencia, e prepara-se sua farinha por processos simples,
-e que dão optimo gosto.</p>
-
-<p>Enviamos nossos leitores, que desejam instruir-se de tudo
-quanto se refere á esta graminea para o precioso livro do
-Dr. Duchesne—<i>Traité complet du maüs ou blé de Turquie</i>.
-Paris. Renouard, 1833 em 8º, e para a grande obra de M.
-Bonafous.</p>
-
-<h3><a id="Note_85" href="#Nanchor_85">85</a> (pag. 187).</h3>
-
-<p>Falla aqui verdade o padre Ivo, porem não se segue que
-ao norte do Brasil se possa fazer vinho.</p>
-
-<p>O maior obstaculo, que encontra este fabrico, está no amadurecimento
-do fructo sob os tropicos.</p>
-
-<p>No mesmo cacho ao lado de muitas uvas maduras encontra-se
-grande numero de verdes.</p>
-
-<p>È voz corrente ter-se feito algum vinho na visinhança da
-Bahia.</p>
-
-<p>Caminhando-se para o sul, na região temperada de Mendoza,
-a uva amadurece perfeitamente, e dá vinho precioso.
-(Vide, entre outras viagens a respeito d’este ponto curioso de
-agricultura americana—<i>Sallusti</i>, <i>Storia delle missione del
-Chile</i>. 4. vol. em 8.º Padre Barrére. <i>Nouvelle Relation de
-la France equinoxiale</i>. Paris, 1743. 1º vol. em 12, pags.
-53 e 54.)</p>
-
-<h3><a id="Note_86" href="#Nanchor_86">86</a> (pag. 187).</h3>
-
-<p>Trata-se aqui do fio que se extrahe com abundancia de
-uma especie de Ananaz. (<i>Ananas non aculeatus</i>, <i>Pitta dictus
-Plum</i>.)</p>
-
-<p>Com elle os portuguezes faziam meias, quasi tão procuradas
-como as de seda.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_402"></a>[402]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_87" href="#Nanchor_87">87</a> (pag. 191).</h3>
-
-<p>Não se encontra esta palavra no Diccionario de Nicot, irmão
-de Villemain.</p>
-
-<p>Podemos affirmar, que se deve escrever <i>hansares</i>—que
-significa—uma foice de grande tamanho.</p>
-
-<h3><a id="Note_88" href="#Nanchor_88">88</a> (pag. 192).</h3>
-
-<p>Fazer certo sussurro expellindo com força o ar pelo nariz.
-É expressão do povo, confundida no Diccionario da Academia
-com a palavra—<i>renâcler</i> «roncar» usada trivialmente
-no stylo familiar.</p>
-
-<h3><a id="Note_89" href="#Nanchor_89">89</a> (pag. 194).</h3>
-
-<p>São por Cardim muito bem pintadas essas recepções de
-indios.</p>
-
-<p>Os brasileiros não podem preferir, na bellesa da narração
-e no encanto das particularidades, senão um só viajante portuguez
-á Ivo d’Evreux e á Claudio d’Abbeville, e é aquelle
-cujo nome acabamos de proferir.</p>
-
-<p>Este escriptor agradavel porem muito conciso, pertence á
-ordem dos jesuitas.</p>
-
-<p>Foi para o Brasil em 1583, e ahi ficou revestido de todas
-as dignidades até o fim de 1618: soube portanto do estabelecimento
-dos francezes ao Norte do Brasil, e certamente na
-Bahia soube de sua expulsão, e sobre isto infelizmente nada
-disse.</p>
-
-<p>Fernão Cardim estava em posição bem diversa da do padre
-Ivo d’Evreux.</p>
-
-<p>Pelas costas do Brasil, onde elle se apresentava, submettiam-se
-os indios ao christianismo, perdendo sua grandeza
-primitiva e conservando a maior parte dos seos usos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_403"></a>[403]</span></p>
-
-<p>O Missionario francez ao contrario cathequisa os indigenas,
-que combatem pela sua independencia contra seos conquistadores.</p>
-
-<p>Os dois bons missionarios tiveram ambos a mesma sincera
-indulgencia e admiração para com os povos ainda na infancia,
-aos quaes pregaram, e cuja prévidencia é o seo maior
-e mais terrivel defeito.</p>
-
-<p>As cartas de Fernão Cardim foram felizmente descobertas
-pelo incansavel autor da <i>Historia geral do Brasil</i>.</p>
-
-<p>O Sr. Francisco Adolpho de Varnhagem não pôz seo nome
-n’esta preciosa publicação, honra que aqui lhe restituimos,
-e a que tem direito como homem de saber e gosto.</p>
-
-<p>O opusculo de Fernão Cardim tem o titulo de <i>Narrativa
-epistolar de uma viagem e missão jesuitica pela Bahia,
-Ilheos etc etc.</i>—<i>Lisboa</i>, 1847, em 8.º de 123 paginas.</p>
-
-<p>Parece-me que o sabio edictor não se lembrou de haverem
-preciosas informações á respeito de Cardim e dos missionarios
-contemporaneos do Brasil n’um escriptor de Toulon
-por nome Jarric. (Vide <i>La 2me partie des choses plus
-memorables advenues tant aux Indes orientales que autres
-pays de la découverte des Portugais en l’establissement de
-la foi chrestienne et catholique etc. Bordeaux 1610</i> em 4.º
-É dedicado a Luiz XIII. O que n’este livro se refere ao Brasil,
-e particularmente ás regiões visinhas do Maranhão,
-acha-se na pag. 248 até 359.)</p>
-
-<p>Morreo o padre du Jarric em 1609.</p>
-
-<p>Foi sua obra traduzida em latim, e impressa na Colonia
-em 1615.</p>
-
-<p>Esta traducção, augmentada em alguns lugares, foi publicada
-em 4 vol. em 8.º</p>
-
-<h3><a id="Note_90" href="#Nanchor_90">90</a> (pag. 194).</h3>
-
-<p>Ha quasi certesa de não ter o nosso bom missionario lido
-a narração de André Thevet, publicada em 1558, e nem a<span class="pagenum"><a id="Page_404"></a>[404]</span>
-viagem mais recente de João de Lery, cujas opiniões religiosas
-deviam afastal-o d’essas obras.</p>
-
-<p>Comparando-se estes velhos viajantes entre si, facilmente
-nota-se a similhança das narrativas.</p>
-
-<p>Eis o que disse João de Lery á respeito da recepção, que
-lhe fizeram os Tupinambás.</p>
-
-<p>Descrevendo as ceremonias, que fazem os <i>Tuupinambaults</i>
-para receberem seos amigos, que os vem visitar,
-merece dizer-se em primeiro lugar, que apenas chega o viajante
-a casa do <i>Mussacat</i>, isto é, do bom pae de familia, dá
-de comer aos que por ahi passam, e que elle escolher para
-seo hospede, facto que se hade praticar em toda e qualquer
-aldeia, por onde se transitar, sob pena de cauzar enfado se
-não é procurado immediatamente. Assenta-se depois n’uma
-rede onde fica por algum tempo em silencio. Vêm depois as
-mulheres, sentam-se no chão, tapam os olhos com as mãos
-deplorando a bôa vinda d’aquelle, cujos louvores farão em
-occasião apropriada.</p>
-
-<p>Por exemplo:—tiveste tanto trabalho para nos vêr; tu és
-bom, e valente: si é um francez, ou outro qualquer estrangeiro,
-accrescentam—trouxestes para nós tão bellas obras,
-como aqui não temos, e immediatamente derramam muitas
-lagrymas, e assim aplaudem e lisongeam.</p>
-
-<p>Si o recem-chegado assentado em seo leito quer pagar-lhes as
-finezas, dizendo de sua parte coisas agradaveis, não
-querendo porem chorar, (como eu sei alguns dos nossos,
-que vendo as maneiras d’essas mulheres perante elles, foram
-tão nescios, que as imitaram) devem ao menos por fingimento
-exhalar alguns suspiros.</p>
-
-<p>Feitos assim estes primeiros cumprimentos pelas mulheres,
-entra depois o <i>mussacat</i>, isto é, o velho dono da casa, que
-fingirá durante um quarto d’hora não vos vêr (caricia mui opposta
-ás nossas embaixadas, cumprimentos e apertos de mão á
-chegada dos nossos amigos). Chega-se depois onde estaes, e
-diz <i>ereiubé</i>, isto é, chegaste? etc. etc. (vide <i>Jean de Lery,<span class="pagenum"><a id="Page_405"></a>[405]</span>
-istoire d’un voyage en la terre du Brésil</i>. Rouen, 1578,
-em 8º, 1ª edicção.)</p>
-
-<h3><a id="Note_91" href="#Nanchor_91">91</a> (pag. 195).</h3>
-
-<p>Ha no Brasil um sapo de grande tamanho, a que se deo
-o nome de «<i>sapo boi</i>.»</p>
-
-<p>Claudio d’Abbeville diz—«n’aquelle paiz encontram-se
-uns sapos muito grandes a que chamam <i>cururu</i>. Alguns ha
-que tem mais de um pé ou pé e meio de diametro: quando
-são esfolados, é impossivel dizer-se quam branca é a sua
-carne, e como são bons para comer-se. Vi alguns fidalgos
-francezes comel-a com apetite.</p>
-
-<h3><a id="Note_92" href="#Nanchor_92">92</a> (pag. 203).</h3>
-
-<p>Mui visivelmente falla-se aqui da lenda brasileira relativa
-a <i>Sumé</i>, o legislador dos Tupys.</p>
-
-<p>No curioso opusculo, que a respeito d’este personagem
-publicou o Sr. Adolpho de Varnhagem, conta a sua chegada
-á Ilha do Maranhão, e como desappareceo na occasião, em
-que se preparavam todos para sacrifical-o.</p>
-
-<p>A palavra—<i>Maratá</i>—nos põe em embaraços, pois debalde
-a procuramos em Ruiz de Montoya: é alteração da palavra
-<i>Mair</i> ou <i>Maïr</i>, tantas vezes empregada por Lery e Thevèt,
-para mostrar ou indicar um estrangeiro, ou uma pessoa extraordinaria.
-Não podemos dar uma resposta satisfatoria. O
-Sumé, que propaga a cultura da mandióca, é barbado.</p>
-
-<p>Diz-se com razão ser personagem analoga a Manco Capac
-dos peruanos, e ao Quetzalcoalt dos Azetecas, e ao Zamma
-da America Central. (Vide Adolpho de Varnhagem, <i>Historia
-geral do Brasil</i>. T. 1º pag. 136, e <i>Sumé. Lenda mytho-religiosa
-americana etc. agora traduzida por um Paulista de
-Sorocaba</i>. Madrid, 1855, broch. in 8 de 39 pag.)</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_406"></a>[406]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_93" href="#Nanchor_93">93</a> (pag. 205).</h3>
-
-<p>O verbo <i>cantar</i> na linguagem tupy é <i>Nheengar</i>. Um <i>Nheengaçara</i>
-é um cantor propriamente dito.</p>
-
-<h3><a id="Note_94" href="#Nanchor_94">94</a> (pag. 220).</h3>
-
-<p>Parecerá estranho ao leitor serem os francezes comparados
-n’este lugar aos Caraibas.</p>
-
-<p>Os que lerem com attenção as obras de Humboldt acharão
-a chave d’este enigma. Os Caraibas do continente americano,
-nação immensa, eram notaveis em toda a America
-pelo seo valor e penetração. Seos piayas, ou antes seos feiticeiros
-os elevavam acima de todas as outras nações: eram
-no Novo Mundo o mesmo que os Chaldeos no velho. Simão
-de Vasconcellos nos dá a prova d’esta supremacia intellectual:
-no sul do Brasil os <i>Caraibe-bébé</i>, eram feiticeiros ou advinhadores
-notaveis: assim se chamavam os homens intelligentes,
-os espiritos, e os anjos, e depois tambem os estrangeiros.
-O Sr. Adolpho de Varnhagem fez notar, que o nome
-de <i>Carayba</i> foi em seo principio dado aos Europeos, sendo
-todos os Christãos assim chamados. (Historia geral, pag.
-312.)</p>
-
-<h3><a id="Note_95" href="#Nanchor_95">95</a> (pag. 220).</h3>
-
-<p>Um <i>Caramémo</i> é que se chama em Guyana um <i>Pagará</i>,
-isto é, um paneiro leve, feito com folhas de certa palmeira
-e ás vezes com bonita forma.</p>
-
-<p>Claudio d’Abbeville assim tambem o chama, quando descreveo
-os utensilios de uma casa indigena. Barrère fez desenhar
-este lindo <i>Specimen</i>.</p>
-
-<h3><a id="Note_96" href="#Nanchor_96">96</a> (pag. 226).</h3>
-
-<p>Ivo d’Evreux, familiarisado com todos os symbolos em
-voga no seo tempo, não se esqueceo de uma graciosa alegoria<span class="pagenum"><a id="Page_407"></a>[407]</span>
-na qual figura o Unicornio. Vide <i>Le Monde enchantée</i>, e
-especialmente a dissertação intitulada <i>Revue de l’histoire de
-la Licorne par un naturaliste de Montpellier</i>. (P. J. Amoreu.)
-Montpellier Durville, 1818, em 8.º 47 pags.</p>
-
-<h3><a id="Note_97" href="#Nanchor_97">97</a> (pag. 239).</h3>
-
-<p>É sabido ser esse o nome, que aos portuguezes davam
-os Tupinambás.</p>
-
-<p><i>Pero</i> quer dizer <i>cão</i> na lingua de Camões, mas suppõe-se
-que o nome—<i>Pedro</i>—muito usado no Brazil, provinha de
-tão estranha designação.</p>
-
-<p>Ayres Casal conta até á este respeito uma historiasinha,
-recorrendo á tradicção, de como um serralheiro, chamado
-Pedro, fôra arremeçado pelas ondas, após um naufragio, ás
-praias do Maranhão. Graças a sua habilidade no trabalho do
-ferro fez-se este homem agradavel aos indios, e seo nome
-com pequena modificação servio d’ahi em diante para fazer
-conhecidos os individuos, que se julgavam ser da sua raça.</p>
-
-<p>Em sua <i>Corographia</i> o Dr. Mello Moraes escreveo esta <i>legenda</i>
-muito mais completa.</p>
-
-<h3><a id="Note_98" href="#Nanchor_98">98</a> (pag. 242).</h3>
-
-<p>Não se tem procurado esclarecer por meio de uma discussão
-grammatical—esta parte do livro.</p>
-
-<p>Differenças mui sensiveis, produzidas pelo tempo e sobre
-tudo pela pronuncia, fizeram este lugar para assim dizer indicifravel.
-Nada é mais dificil do que traduzir pelos caracteres
-da nossa escripta os sons das linguas indigenas. Essas
-inflexões tão delicadas, e as vezes tão fugitivas, em sua apparente
-rudeza são dificultosamente ffixadas no papel. Notou
-Humboldt pertencerem ellas algumas vezes á certos caracteres
-physicos das raças.</p>
-
-<p>As nações européas, as mais habituadas á estes estudos,
-não percebiam da mesma fórma os sons, e nem os escreviam<span class="pagenum"><a id="Page_408"></a>[408]</span>
-da mesma maneira: quando os portuguezes ouvem <i>Oca</i>,
-por exemplo, ou então <i>Toba</i>, o francez percebe <i>Oc</i> e <i>Tob</i>, e
-quando aquelle ouve <i>Murubixaba</i> este percebe <i>Muruvichave</i>.
-Deixa a differença de ser grande quando são as palavras
-pronunciadas conforme o genio de cada lingua.</p>
-
-<p>A palavra <i>Tupinambás</i>, como se acha escripta no principio
-d’esta nota, (<i>Tobinambos</i>) equivale absolutamente pelo
-som na lingua portuguesa á palavra <i>Tupinambus</i>, como a
-pronunciavam os contemporaneos de Malherbe.</p>
-
-<p>Para a historia da linguistica não é sem interesse esta
-curta doutrina christã, podendo ser comparada com certas
-obras do mesmo genero, escriptas por penna portuguesa,
-estando n’este caso, entre outras, os canticos religiosos em
-lingua tupy por Christovão Valente, os quaes incluí no
-opusculo—<i>Une fête brésilienne</i>. Pariz. Techener, 1850.</p>
-
-<p>Não se póde achar o livro que os contem, e talvez só
-exista na Bibliotheca Imperial.</p>
-
-<p>Reproduzimos aqui seo nome—<i>Cathecismo brasilico da
-doutrina christã, com o ceremonial dos sacramentos e mais
-actos parochiaes. Composto por padres doutos da Companhia
-de Jesus, aperfeiçoado e dado á luz pelo padre Antonio
-de Araujo da mesma Companhia, emendado nesta segunda
-impressão pelo padre Bertholomeu de Lean da mesma
-Companhia</i>, Lisboa, na officina de Miguel Deslandes 1861,
-em 8.º pequeno. A primeira edicção foi em 1618.</p>
-
-<p>Si se quizesse, poder-se-ía completar este estudo comparativo
-procurando os seguintes manuscriptos, citados por
-Barbosa Machado, e que seria coisa curiosa si fossem publicados.</p>
-
-<p>Ludewig os ommittio em seo importante trabalho, completado
-por Mr. Trubener. O Padre João de Jesus <i>explicação
-dos mysterios da fé</i>. O Padre Manoel da Veiga <i>Cathecismo</i>.
-F. Pedro de Santa Rosa <i>Confessionario</i>. André Thevèt
-nos seos manuscriptos conservados na Bibliotheca Imperial
-de Pariz, dá o <i>Pater</i> e o <i>Credo</i> em lingua <i>tupy</i>, depois
-reproduzidos em sua grande <i>Cosmographia</i>. São preciosos<span class="pagenum"><a id="Page_409"></a>[409]</span>
-estes dois documentos especialmente por sua antiguidade,
-pois datam de 1556.</p>
-
-<p>Entre os livros d’este genero um dos mais modernos e
-dos mais curiosos é o do Padre Marcos Antonio, intitulado:
-<i>Doutrina e perguntas dos mysterios principaes de nossa
-santa fé na lingua Brasila</i>. Foi composto em 1750 e Ludewig
-menciona-o como fazendo parte das collecções do
-<i>British Museum</i>.</p>
-
-<h3><a id="Note_99" href="#Nanchor_99">99</a> (pag. 250).</h3>
-
-<p>Lery ja tinha asseverado o effeito, que faz nos indios o
-canto melancolico do Macauhan. A crença nos mensageiros
-das almas, nos passaros propheticos ainda não se extinguio
-de todo, pois ainda existe na poderosa nação dos Guayacurus,
-depois de haver exercido antigamente sua poderosa
-influencia em todas as tribus dos Tupys, porem o padre Ivo
-deo-lhe extensão que nunca teve, visivel alteração nas antigas
-ideias mythologicas.</p>
-
-<p>O nome d’este passaro respeitado é escripto em portuguez
-<i>Acaúan</i>, e tambem <i>Macauan</i>: nutre-se de reptis, e
-não tem esse aspecto sinistro, que lhe dá o nosso bom Missionario.</p>
-
-<p>Tem a cabeça muito grossa em relação ao corpo, é côr de
-cinza, o peito e o ventre vermelhos, azas e cauda negras com
-pintas brancas. Pensa hoje em dia a maior parte dos indios,
-que a missão deste passaro é annunciar-lhe a chegada de algum
-hospede. Consulte-se sobre o Acaúan, Accioli, <i>Corographia
-Paraense</i>, e Gonçalves Dias, <i>Diccionario da lingua Tupy</i>.
-Martius na palavra <i>Oacaoam</i> diz ser o Macagua de Felix
-de Azara. Falco (herpethocheres).</p>
-
-<h3><a id="Note_100" href="#Nanchor_100">100</a> (pag. 257).</h3>
-
-<p>No tempo de Ivo d’Evreux, eram chamados <i>Barbeiros</i>,
-os cirurgiões mais habeis, e alguns annos antes até o illustre
-Ambrosio Paré era assim conhecido.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_410"></a>[410]</span></p>
-
-<p>Como os <i>Piayes</i>, <i>Pagé</i>, <i>Pagy</i>, <i>Boyés</i> ou <i>Piaches</i> (por todos
-estes nomes são conhecidos) cuidam de curar feridas e molestias.</p>
-
-<p>O padre Ivo, como se verá adiante, os compára por despreso
-aos barbeiros, mas entenda-se, aos barbeiros das aldeias.</p>
-
-<p>Este capitulo é por certo um dos mais curiosos do livro,
-e deve ser com todo o cuidado comparado com o que escreveo
-Simão de Vasconcellos, (<i>Chronica da Companhia de
-Jesus</i>, in fol.) e com todas as <i>Memorias</i> publicadas pelo Instituto
-Historico do Rio de Janeiro sobre a religião primitiva
-dos indigenas, achando-se ahi bem claramente definidos os
-attributos de Jeropary.</p>
-
-<p>É na verdade para sentir-se a falta de uma folha, porque
-nos trouxe a perda de preciosos documentos de homens praticos
-e habeis, que entre si conservavam as tradicções.</p>
-
-<h3><a id="Note_101" href="#Nanchor_101">101</a> (pag. 264).</h3>
-
-<p>No tempo d’esta narração eram ainda os morcegos classificados
-como passaros.</p>
-
-<p>O que aqui diz o nosso viajante sobre os vampyros não é
-exageração.</p>
-
-<p>Consulte-se a este respeito Ch. Watterten (<i>Excursions dans
-l’Amerique meridionale</i>, p. 15 e 389.)</p>
-
-<p>Este sabio naturalista descreveo com minucioso cuidado o
-genero da ferida, que produz o morcego americano nas pessoas,
-que dormem. Matou um vampyro, que tinha 32 pollegadas
-de extensão de azas abertas. Em geral são muito menores.</p>
-
-<h3><a id="Note_102" href="#Nanchor_102">102</a> (pag. 268).</h3>
-
-<p>Entre os antigos viajantes do seculo XVII é Ivo d’Evreux
-o unico, como notamos, que menciona entre os Tupinambás<span class="pagenum"><a id="Page_411"></a>[411]</span>
-os rudimentos de estatuaria (imperfeita sem duvida) com
-applicação á mythologia d’estes povos.</p>
-
-<p>D’estas coisas nada escreveram Thevèt, Hans Stadens, e
-Lery, Vasconcellos, Cardin e Jaboatão.</p>
-
-<p>Eram os Tupys unicamente caçadores, e só per accidens
-se entregavam á vida agricola. Os unicos vestigios de cultura,
-que d’elles conhecemos, se referem aos seos <i>Macanas</i>,
-ou a sua <i>Lyvera-péme</i>, especie de armas pesadas, que elles
-enfeitavam á capricho.</p>
-
-<p>Tinham por costume pôr um Maracá, enfeitado de bonitas
-pennas na prôa de suas canôas de guerra, tão esguias como
-elegantes, e será bem possivel, que a base d’esse instrumento
-seja ornado de sculpturas similhantes ás que se observam
-entre os insulares da Polynesia. É provavel que multiplicando-se
-suas relações com os Europeos, tenham os Tupinambás
-bebido entre elles ideias de sculptura rudimentar
-que applicam á suas divindades grosseiras.</p>
-
-<p>O veridico Barrére, que escreveo mais de um seculo depois
-de Ivo d’Evreux, falla de um piaya fazendo uma estatueta
-de <i>Anaanh</i>, genio do mal, que não é senão o <i>Anhanga</i>
-do padre Nobrega e de Anchieta, cuja terrivel missão
-sobre a terra foi tão bem descripta por João de Lery, que
-sempre o chamou <i>Aignan</i>.</p>
-
-<p>Dêem-lhe nas ilhas ou nos continentes os nomes de <i>Uracan</i>,
-de <i>Hyorocan</i>, de <i>Jeropary</i>, de <i>Maboya</i>, de <i>Amignao</i>,
-reconheçam-se os genios secundarios, como seos mensageiros
-(apenas citarei um, o malicioso <i>Chinay</i>, que faz emmagrecer
-os pobres indios sugando-lhes seo sangue.) Anhanga
-teve sempre fama terrivel nos seculos XVII e XVIII.</p>
-
-<p>Este typo primitivo da sculptura religiosa dos Tupys foi
-infelizmente aberto em madeira muito molle, e por isso não
-poude resistir á acção do tempo, ou á invasão das formigas:
-duvidamos que se encontre um só <i>specimen</i> de dois seculos
-atraz.</p>
-
-<p>Eis finalmente a passagem tão curiosa de Barrére que confirma
-as palavras do padre Ivo. «Tem os indios outra sorte<span class="pagenum"><a id="Page_412"></a>[412]</span>
-de feitiçaria, que os singularisa. Fazem uma figura do diabo
-n’um pedaço de madeira molle e sonora: esta estatua do tamanho
-de tres a quatro pés é muito feia pela sua immensa
-cauda, e grandes lanhos.</p>
-
-<p>«Chamam-na <i>Anaantanha</i> que parece dizer—<i>imagem do
-diabo</i>, porque <i>Tanha</i> significa figura, e <i>Anaan-diabo</i>. Depois
-de haverem soprado sobre os enfermos, trazem os <i>Piayas</i>
-esta figura para fóra da <i>casa-grande</i>:</p>
-
-<p>«Ahi elles o interrogam, esbordoam-na á cacete, como
-para obrigar o diabo, bem a seu pesar, a deixar o enfermo.»
-(Vide <i>Nouvelle Relation de la France équinoxiale, contenant
-la description des côtes de la Guiane, de l’isle de Cayenne,
-le commerce de cette colonie, les divers changements
-arrivés dans ce pays</i> etc. etc. Paris. 1743, em 12 gr.)</p>
-
-<p>N’um capitulo precedente Ivo d’Evreux ja fallou de uma
-boneca que tinha uma especie de mecanismo, que servia
-para as nigromancias do Piaya.</p>
-
-<p>É para sentir-se, que não se encontrasse um só d’estes
-idolos nas collecções etnographicas, que então começou-se a
-fazer.</p>
-
-<p>Poucos annos antes de haver la Ravardiere explorado o rio
-do Amasonas, João Mocquet, o guarda das curiosidades do
-Rei, percorreo essas praias, e seria de rara felicidade para
-a archeologia americana si elle encontrasse alguns dos idolos
-de que falla o padre Ivo.</p>
-
-<h3><a id="Note_103" href="#Nanchor_103">103</a> (pag. 271).</h3>
-
-<p>É mui provavel, que estas lustrações sejam feitas á imitação
-das ceremonias, que entre os christãos viram os <i>Tupinambás</i>.</p>
-
-<p>Pode bem ser, que o mesmo aconteça á respeito da pretendida
-confissão auricular de que falla o autor um pouco
-mais adiante.</p>
-
-<p>Os antigos viajantes, Hans Staden, Lery e Thevèt nada dizem,
-que tenha relação com tal costume.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_413"></a>[413]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_104" href="#Nanchor_104">104</a> (pag. 272).</h3>
-
-<p>Parece á primeira vista ter recebido este <i>piaga</i>, tão influente,
-um nome francez: assim porem não aconteceu.</p>
-
-<p>Havia n’esse tempo um poderoso Chefe, chamado <i>Pacquara-behu</i>
-«barriga d’uma paca cheia d’agoa». <i>Pacamont</i>
-pode significar a «paca agarrada na armadilha», (<i>Pacamondé</i>).</p>
-
-<p>O nome da terra, onde tinha influencia, significa a «região
-das plantas leitosas», e escreve-se <i>Cumá</i>.</p>
-
-<h3><a id="Note_105" href="#Nanchor_105">105</a> (pag. 280).</h3>
-
-<p>Vatable ou Vateblé era um celebre sabio na lingua hebraica,
-no seculo XVI, restaurador na França dos estudos
-orientaes.</p>
-
-<p>Morreo em 1547.</p>
-
-<p>Suas notas sobre o antigo testamento acham-se na Biblia
-de Robert Etienne.</p>
-
-<h3><a id="Note_106" href="#Nanchor_106">106</a> (pag. 282).</h3>
-
-<p>Prova-nos esta phrase ter o Padre Ivo escripto sua obra
-na Europa, e saber da missão dirigida pelo Padre Archangelo.</p>
-
-<p>Affirma Marcellino de Piza terem 565 indios recebido o
-baptismo n’esta segunda expedição religiosa. (Vide <i>Annales
-historiarum ordinis minorum</i>. Lugd. 1676 in fol.)</p>
-
-<p>O Padre Archangelo, acompanhado por 12 confrades, portador
-de magnificos ornamentos bordados pela Duqueza de
-Guize devia por certo cercar-se de outra pompa, que não
-tiveram os quatro Geraes Capuchinhos, que deram principio
-á missão.</p>
-
-<p>Graças aos documentos, que nos são proporcionados pela
-marinha, e que devemos ao obsequio do Sr. P. Margry,
-soubemos por uma carta inedicta do Sr. de Beaulieu a Mr.<span class="pagenum"><a id="Page_414"></a>[414]</span>
-de Razilly, que o Padre Archangelo, muito conhecedor do
-valor do dinheiro abstrahindo o seo voto de pobresa, não
-quiz embarcar-se antes de lhe haverem dado a esperança
-de conseguir subsidios.</p>
-
-<p>Apesar dos recursos, de que dispunha o seo chefe espiritual,
-ainda está por fazer a historia d’esta segunda missão:
-não deixou até vestigios, e ficará para sempre ignorada em
-quanto não descobrirmos o livro de Francisco de Bourdenare.</p>
-
-<p>Sabemos apenas que muito mais favorecido, que Ivo d’Evreux,
-por seos superiores, recebeo, graças ás suas cartas
-de obediencia, o direito de admittir noviços em seo Convento.</p>
-
-<p>Não teve tempo de utilisar-se de tal privilegio, mas quando
-regressou á Europa, em recompensa do seo zelo foi em
-1615 nomeado Guardião do grande Convento da rua de Santo
-Honorato.</p>
-
-<p>Todos estes factos, omittidos naturalmente pelos historiadores
-do Maranhão, acham-se referidos nos <i>Éloges historiques</i>,
-manuscripto da Bibliotheca Imperial, e seria injustiça
-esquecer serem elles tambem narrados pelo Padre Marcellino
-de Piza.</p>
-
-<p>Depois de haver contado como o Geral dos Capuchinhos
-Paulo de Caesena deo licença á Honorato de Pariz, então
-Provincial, para mandar á America uma segunda missão,
-disse:—«<i>Ille nihil cunctatus, duodecim fratres ad hanc
-expeditionem, aptos elegit quorum animosa phalanx navem
-conscençâ secedens in Indiam, a barbara illa natione jam
-capucinorum placidis moribus assueta per humaniter fuit
-excepta</i>.»</p>
-
-<p>Na entrada dos portuguezes o Padre Archangelo de Pembroke
-retirou-se com os Capuchinhos francezes ficando em
-lugar d’elles os Franciscanos, que em numero de vinte se
-recolheram ao Mosteiro.</p>
-
-<p>Sob a direcção de Frei Christovão Severino teve então o
-Convento nova regra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_415"></a>[415]</span></p>
-
-<p>Foram as bases lançadas em 1624 porem só foram cumpridas
-pontualmente em 4 de Agosto do anno seguinte.</p>
-
-<p>Abstemos-nos porem de offerecer ás vistas do leitor as desgraçadas
-peripecias, porque passou este Mosteiro durante
-225 annos: basta dizer, que no fim de um seculo estava
-quasi reduzido a ruinas.</p>
-
-<p>Em 1860 o actual Guardião, que tinha sob seo governo
-somente dois franciscanos, mas que soube felizmente captar
-as sympathias dos habitantes de São Luiz, recorreo á caridade
-publica afim de concertar-se como merece este edificio,
-a que se ligam interessantes recordações do paiz.</p>
-
-<p>A Ordem é actualmente muito pobre, porem offerece
-grande contraste, segundo é voz geral, quando em seo zelo
-é comparada com outros Conventos<a id="FNanchor_64" href="#Footnote_64" class="fnanchor">[BL]</a> opulentos da Cidade,
-que estão se arruinando.</p>
-
-<p>Não foram em vão as supplicas de Frei Vicente de Jesus,
-pois elle arrecadou grandes quantias, que chegaram para
-reparar os estragos do tempo.</p>
-
-<p>Conservando a humilde Capella, onde orou o Padre Ivo
-d’Evreux, fizeram-se novas edificações que tornaram a Igreja
-de Santo Antonio a mais linda de tão bella Cidade.</p>
-
-<h3><a id="Note_107" href="#Nanchor_107">107</a> (pag. 301).</h3>
-
-<p>É mui curioso vêr aqui o Padre Ivo d’Evreux fazer uma
-especie de allusão á antigas crenças d’esses povos, as quaes
-Thevet, ou talvez o Cavalheiro de Villegagnon tinham guardado
-desde 1555, e que parece ser ignoradas pelos nossos
-viajantes do Seculo XVI, pois não tratam d’ellas em suas
-narrações.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_416"></a>[416]</span></p>
-
-<p>Uma nota, mesmo concisa nos levaria muito longe, e vêr-nos-iamos
-forçados a chamar a attenção do leitor para um
-opusculo, no qual reunimos tudo o que podemos encontrar
-á respeito das ideias mythologicas dos Tamoyos e dos Tupinambás.
-(Vide sobre os <i>Maraïta—Une fête bresilienne célébrée
-à Rouen em 1550 suivie d’un fragment du XVIme siécle
-roulant sur la Théogonie des anciens peuples du Brésil</i>.
-Paris, Techener, 1850 gr. in 8.º)</p>
-
-<h3><a id="Note_108" href="#Nanchor_108">108</a> (pag. 301).</h3>
-
-<p>A legenda brazileira de geração em geração transmittio a
-narração das perigrinações de dois prophetas, bem distinctos,
-igualmente estimados por esses selvagens, que os
-chamou <i>Tamandaré</i> e <i>Sumé</i>.</p>
-
-<p>Como Boudaha, deixou o ultimo impressas as suas pegadas
-sobre a rocha viva, quando deixou a terra.</p>
-
-<p>O mytho de Tamandaré, que se lê na descripção do diluvio
-americano, é contado extensamente por Vasconcellos
-nas suas <i>Noticias do Brazil</i>, pag. 47 e 48.</p>
-
-<p>Ahi se lerá como o Noé americano subindo ao cume de
-uma palmeira, que tocava com o seo vertice o Ceo, e agarrando
-d’ahi sua Familia poude salval-a, e com ella repovoou
-a terra.</p>
-
-<p>Na phrase aqui citada, Ivo d’Evreux alludio ao legislador
-mais moderno, Sumé, este Triptolémio brazileiro, que ensinou
-a cultura da mandióca aos descendentes de Tamandaré.</p>
-
-<p>Simão de Vasconcellos diz mui positivamente, que «havia
-entre elles tradicção muito antiga, transmittida de paes a
-filhos, dizendo haverem apparecido, muitos seculos depois
-do diluvio, homens brancos n’estas terras, que fallavam aos
-povos de um só Deos e de outra vida. Um d’elles chamava-se
-<i>Sumé</i>, que parece quer dizer <i>Thomé</i>.»</p>
-
-<p>Preferindo a tradicção, que dá a São Bartholameu a honra
-de haver evangelisado os povos longiquos, provou com isto
-o Padre Ivo o seo conhecimento das origens.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_417"></a>[417]</span></p>
-
-<p>Com effeito, segundo diz Eusebio, chegou este Apostolo
-viajante até a extremidade das Indias, São Pantene percorreo
-o interior da Asia desde o III seculo, e ahi já achou
-vestigios do christianismo, que bem se podiam attribuir ás
-prédicas de Sam Bartholameo.</p>
-
-<p>Prevaleceo comtudo no Brasil a legenda em contrario,
-como a outra na India. (Vide <i>Jornada do Arcebispo de Goa
-dom Frei Aleixo de Menezes, quando foi ás serras de Malauare,
-lugares em que moram os antiguos christãos de S.
-Thomé</i>. Coimbra, 1606, in fol.)</p>
-
-<p>No tempo de Vasconcellos bem visiveis eram os signaes
-dos pés de S. Thomé, ao norte do porto de S. Vicente, perto
-da Villa.</p>
-
-<p>Estes signaes de dois pes nùs por maravilha impressos na
-rocha (<i>tão vivos e expressos, como si em um mesmo tempo
-juntamente se fizeram</i>) não eram vistos debaixo d’agoa.</p>
-
-<p>O religioso franciscano Jaboatam achou no Recife, em Pernambuco,
-pegàdas santas.</p>
-
-<p>N’esta segunda edicção da legenda, somente apparece um
-pé como o de um menino de 5 annos, que suppõe ser o
-piedoso narrador o de um jovem companheiro do Apostolo.
-(Vide <i>Novo Orbe Serafico</i>, reimpresso ultimamente pelos esforços
-do <i>Instituto Historico e Geoqraphico do Rio de Janeiro</i>.)</p>
-
-<p>Não se encontram esses afamados signaes somente em
-diversos pontos do littoral, e sim em outros lugares, o que
-seria enfadonho enumerar.</p>
-
-<p>Não contentes ainda com isto fizeram com que o santo
-viajante se embrenhasse corajosamente pelo interior do Brasil,
-onde em caracteres gigantescos sobre pedras ou rochas
-escreveo a historia da sua missão.</p>
-
-<p>Ha em Minas uma aldeia, a que se deo o nome chamando-a
-<i>Sam Thomé das Lettras</i>.</p>
-
-<p>Um observador circumspecto, o general Cunha Mattos,
-não vio taes inscripções, e combateo a tradicção dizendo
-que esses traços phantasticos, que se observam n’um dos<span class="pagenum"><a id="Page_418"></a>[418]</span>
-lados da <i>Serra das lettras</i> foram formados por accidentes
-de terreno, isto é, por dendrites, para servir-me de suas
-expressões. (Vide <i>Itinerario do Rio de Janeiro ao Pará e
-Maranhão</i>. Rio de Janeiro. 1836. 2 vol. em 8.º T. 1.º
-pag. 63).</p>
-
-<p>Dura até hoje esta opinião sobre a gigantesca inscripção
-da <i>Serra das lettras</i>, e acredita-se actualmente serem devidos
-a infiltração de particulas ferruginosas obrando sobre
-o grão da serra, e por est’arte simulando caracteres escriptos.</p>
-
-<p>No Brasil são muitos os hieroglyphos grosseiramente embutidos,
-e ninguem duvida serem devidos á origem indigena.
-Muitas obras nos mostram os seos <i>fac-simile</i>.</p>
-
-<p>A grande viagem pitoresca de Mr. Debret tem dois, que
-não deixam de ter interesse.</p>
-
-<p>Fallamos da inscripção do monte de <i>Anastabia</i>, e das
-esculpturas embutidas n’uma rocha, que se encontra perto
-das margens do rio Yapurá, na provincia do Pará, bem
-pode ser que as palavras do Padre Ivo se refiram á este
-monumento, grosseiramente trabalhado, e de que trata Mr.
-Debret na pag. 46 do seo T. 1º, porem em alguns não acha
-a mais prevenida imaginação bases para assentar uma opinião
-historica ou religiosa.</p>
-
-<p>Pelo que se refere <i>ás rochas incisadas</i>, de que falla o
-nosso bom frade, é tradicção geral em toda a America, que
-estes accidentes, resultados de grandes commoções da natureza,
-são sempre explicados pela legenda indigena, que os
-attribue ao supremo poder de um semi-Deos, que, a sua vontade,
-quebra as montanhas mais resistentes ao trabalho do
-homem e, algumas vezes, até os mais gigantescos.</p>
-
-<p>Em Nova-Granada o salto de Tequendama não teve outra
-origem, pois foi feito, como se sabe, pelo grande Bochica:
-poderiamos tambem citar a abertura feita no <i>recife</i>, que
-margina o littoral de Pernambuco, e que se attribue ao
-grande Sumé, ou ao seu representante christão, o Apostolo
-viajante. (Vide Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão, <i>Novo<span class="pagenum"><a id="Page_419"></a>[419]</span>
-Orbe Serafico Brasilico</i>, ou <i>Chronica dos frades menores
-da provincia do Brasil</i>. 2.ª edicç. Rio de Janeiro. 1858.)</p>
-
-<p>Jaboatão escreveu em 1761.</p>
-
-<h3><a id="Note_109" href="#Nanchor_109">109</a> (pag. 311).</h3>
-
-<p>Tinha este chefe indigena um nome bem conhecido na
-ornithologia do Brasil. O <i>Jacupema</i> é o <i>Penelopsupereiliaris</i>
-uma das melhores caças do Brasil.</p>
-
-<h3><a id="Note_110" href="#Nanchor_110">110</a> (pag. 334.)</h3>
-
-<p>Na familia dos Foulon, de que gozava muita consideração em
-Abbeville, tinham muitos dos seos membros se dedicado á
-vida monastica.</p>
-
-<p>O padre Marçal esteve em Pariz com seo irmão o padre
-Claudio; este ultimo, cujo artigo está tão cheio de erros na
-biographia universal, era ja guardião do convento na sua
-patria desde 1608, mas, como o padre Ivo, começou o seo
-noviciado em 9 de junho de 1595.</p>
-
-<p>A bibliotheca do Arsenal possue um opusculo, hoje raro,
-do padre Claudio, cujo titulo é—<i>L’arrivée des Pêres Capucins
-et la conversion des sauvages a nostre sainte Foy déclarés
-par le R. P. Claude d’Abbeville, prédicateur capucin
-à Paris</i>, chez Jean Nigaut, rue de St. Jean de Latran, em
-1613. Pode comparar-se este escripto com o artigo intitulado—<i>Retour
-du sieur de Rasilly en France et des
-Toupinambous qu’il amena á Paris.</i> <i>Mercure française</i>. T. 3,
-pag. 164. <i>L’histoire chronologique de la bienheureuse Colette,
-réformatrice des trois ordres du Seraphique Pere St.
-François.</i> Paris. Nicolas Buon, 1628, em 12: não é do padre
-Claudio, como suppõe Eyriés. A dedicatoria tem a assignatura
-de Fr. S. d’A, indigno capuchinho. Já tinha morrido
-Claudio d’Abbeville quando appareceo esta obra. Depois de
-ter 23 annos de religião, falleceo em Ruão em 1616 e não
-em 1632.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_420"></a>[420]</span></p>
-
-<h3><a id="Note_111" href="#Nanchor_111">111</a> (pag. 335).</h3>
-
-<p>Leia-se <i>Plymouth</i>: Claudio d’Abbeville escreve <i>Pleme</i>.</p>
-
-<h3><a id="Note_112" href="#Nanchor_112">112</a> (pag. 335).</h3>
-
-<p>Trata-se aqui do <i>Rio do Ouro</i>.</p>
-
-<h3><a id="Note_113" href="#Nanchor_113">113</a> (pag. 336).</h3>
-
-<p>Difficilmente por este nome se sabe ser a <i>Ilha de Fernão
-de Noronha</i>, e não <i>Fernando de Noronha</i>, como escreve
-alguns geographos.</p>
-
-<p>Está a 75° long. E. N. E. do Cabo de Sam Roque, e na
-lat. de 3° 48, á 52′. Explica-se esta alteração de nome pela
-sua visinhança do Cabo de Sam Roque.</p>
-
-<p>Alguns viajantes antigos escreveram <i>Fernando de la Rogne</i>:
-n’esse caso está o padre Claudio.</p>
-
-<h3><a id="Note_114" href="#Nanchor_114">114</a> (pag. 337).</h3>
-
-<p>Omittio o padre Claudio d’Abbeville esta ultima circumstancia.</p>
-
-<h3><a id="Note_115" href="#Nanchor_115">115</a> (pag. 339).</h3>
-
-<p>Leia-se <i>Tupan</i> em vez de <i>Iupan</i>. Quanto a palavra Matarata,
-que ahi se lê, não se pode entender pelo adjectivo
-<i>Mbaraeté</i>, que significa—<i>forte</i>. Parece estar sob esta significação
-no <i>Tesoro de la lingua Guarany</i>, do padre Ruiz de
-Montoya.</p>
-
-<h3><a id="Note_116" href="#Nanchor_116">116</a> (pag. 341).</h3>
-
-<p>O capitão du Manoir estava ha muito tempo estabelecido
-na Ilha, onde tinha muitas relações.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_421"></a>[421]</span></p>
-
-<p>Foi elle quem hospedou os Missionarios, e lhes offereceo
-uma festa «tão magnifica como podia ser em França» disse
-o padre Claudio, a qual assistiram os Srs. de Rasilly e Pezieux.
-Foi da sua habitação que partiram os nossos para tomar
-posse do lugar, onde se edificou o <i>Forte de Sam Luiz</i>.
-Regressou á França antes de ser o Maranhão tomado pelos
-portuguezes.</p>
-
-<p>Quando evacuaram as nossas forças navaes o porto do Maranhão,
-muitos francezes não seguiram o exemplo de Manoir,
-e se estabeleceram na nova Colonia, onde só foram permittidos
-artistas.</p>
-
-<p>Erraria quem suppozesse ter sido abandonada a missão
-fundada com tanto zelo pelos nossos Religiosos: sem a menor
-alteração foram incumbidos d’ellas os Franciscanos: a
-este respeito achou-se tudo quanto podia desejar-se no <i>Orbe
-Seraphico</i> do padre Jaboatão.</p>
-
-<p>Contem este resumo uma longa biographia de Frei Francisco
-do Rosario, frade celebre na Ordem de Sam Francisco,
-que tomou posse do Convento dos Capuchinhos perto de dez
-annos depois, que estes o abandonaram de todo.</p>
-
-<p>Embrenhava-se muitas vezes este zeloso Missionario nos
-desertos desconhecidos do Maranhão, onde ia cathequisar
-os indios.</p>
-
-<p>Em 1630 compôz uma obra aproveitavel sobre as tribus
-que visitou. Infelizmente nunca foi publicada, e o seria se
-fosse encontrada, como precioso commentario á obra do
-padre Ivo.</p>
-
-<p>Cansado por seos trabalhos, cuja multiplicidade espanta
-até a imaginação, foi para a Bahia, onde revestido das dignidades
-da ordem falleceo com cheiro de santidade em 24
-de fevereiro de 1650.</p>
-
-<p>Afirma-se haver elle predicto muitos annos antes os grandes
-acontecimentos politicos, que, produzindo a expulsão da
-Hespanha, dava independencia ao Brasil.</p>
-
-<p>Parece que vio-se obrigado a reconstruir em 1625 os edificios
-que deixaram em começo os nossos Religiosos, e por<span class="pagenum"><a id="Page_422"></a>[422]</span>
-isso foi elle em Sam Luiz julgado como o primeiro fundador
-do Convento da sua Ordem.</p>
-
-<p>Vamos ainda dizer uma palavra para acabar estas notas.
-Serão ellas ainda um dia completadas pelo trabalho, que ha
-de preceder a <i>Relação do Padre Claudio d’Abbeville</i>, e si se
-quizer, o podem ser ja, consultando se varias obras francezas
-contemporaneas, absolutamente despresadas, sob este
-ponto de vista, pelos historiadores da America. N’este caso,
-entre outros, está o padre Pedro du Jarric, pois, na verdade,
-ninguem pensaria achar n’uma <i>Historia das Indias orientaes</i>
-todos os factos religiosos, acontecidos em Maranhão antes de
-1607.</p>
-
-<p>Consultando-se o 5.º volume d’esta volumosa obra, encontra-se
-a tragica historia dos padres Francisco Pinto e
-Luiz Figueira, jesuitas portuguezes, os primeiros que visitaram
-os desertos desconhecidos, cujo littoral occuparam os
-francezes.</p>
-
-<p>Francisco Pyrard, o viajante Belga, residente na pequena
-cidade de Laval, nos contou tambem na sua <i>Relação das
-Indias e especialmente das Ilhas Maldivas</i>, o que na Europa
-se pensava do Brasil no tempo, em que viveo o padre
-Ivo. Não trata do Maranhão, e bem o podia fazer.</p>
-
-<p>Deve ainda dizer-se que esta bella provincia, conhecida
-mais pela obra de Mr. Herald do que por outras antigas,
-ficou por muito tempo fóra da toda a vida politica.</p>
-
-<p>Doada a principio aos filhos de José de Barros, o famoso
-historiador das Indias, só foi conhecida na Europa por uma
-lastimavel catastrophe, pois era esquecida apesar da fertilidade
-e da magnificencia da sua vegetação.</p>
-
-<p>Apparece comtudo n’um dos monumentos geographicos mais
-importantes, onde se verificou o que era o Brasil no seculo
-XVI: queremos fallar da bella <i>Carta</i> de Gaspar Viegas, que
-tem a data de outubro de 1534, hoje na Bibliotheca Imperial
-de Paris.</p>
-
-<p>Nenhum historiador até hoje ainda a mencionou, apezar de
-sua exactidão tão admiravel para aquelles tempos e ainda<span class="pagenum"><a id="Page_423"></a>[423]</span>
-continuaria a ser esquecida se o Sr. de Cortambert não nos
-fizesse o favor de communicar-nos a sua existencia.</p>
-
-<p>Sentimos muito praser recordando-nos, que este bello trabalho
-do desconhecido geographo vae de hora em diante
-ligar-se ao mais vasto e ao mais exacto reconhecimento das
-costas do Brasil, que tem podido obter a sciencia n’estes ultimos
-tempos, e d’ella fará objecto de especial estudo o Sr.
-capitão da fragata Mouchez na sua grande obra nautica a
-respeito do littoral do Brasil.</p>
-
-<p>Deviam acabar aqui as notas indispensaveis para conhecer-se
-na França e mesmo na America o texto do nosso velho
-viajante.</p>
-
-<p>Accrescentaremos apenas uma palavra, talvez indispensavel
-para comprehender-se o valor do documento por nós
-exhumado.</p>
-
-<p>O padre Arsenio de Pariz, o fiel companheiro do padre
-Ivo d’Evreux, disse em 1613 ao Superior do seo Mosteiro
-á proposito das regiões, por onde evangelisou, o seguinte:</p>
-
-<p>«Eu vos asseguro, meo padre, que quando estiver um
-pouco estabelecido, será um verdadeiro paraiso terrestre.»</p>
-
-<p>A esperança do bom Religioso não era das que se podem
-realisar completamente: não caminham assim as coisas neste
-mundo, porem não sendo o paraiso, é o Maranhão uma das provincias
-de um vasto Imperio, que vae progredindo.</p>
-
-<p>No meio de prosperidades reaes, e apezar dos esforços de
-espiritos felizmente bem intencionados, o progresso intelletual
-do paiz está muito longe do que devia ser.</p>
-
-<p>As recordações do passado, que tanto desenvolvem as
-populações, ahi não existem.</p>
-
-<p>Não ha archivos, bibliothecas publicas, e nem instituições
-litterarias, e tanto é verdade isto, que o Imperador, o Sr.
-D. Pedro 2º, ha dez annos incumbio um dos homens mais
-activos e eminentes d’este paiz para examinar na Cidade de
-Sam Luiz o estado real dos depositos litterarios da Capital
-do Maranhão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_424"></a>[424]</span></p>
-
-<p>Não reproduziremos aqui as queixas judiciosas e bem fundadas
-do Sr. Gonçalves Dias sobre o lamentavel estado dos
-estabelecimentos, objecto de suas investigações.</p>
-
-<p>Pode lêr-se o seo <i>Relatorio</i> escripto em bom estylo na
-<i>Revista Trimensal</i> publicada com tanto zelo pelo Instituto
-Historico do Rio de Janeiro.</p>
-
-<p>Citaremos apenas, que ha dez annos, Gonçalves Dias achou
-2:000 volumes na Bibliotheca Publica e no Almanach de
-1860, edictado pelo Sr. B. de Mattos, apparecem 1:030 em
-deploravel estado!</p>
-
-<p>Possa a reimpressão da obra do padre Ivo d’Evreux marcar
-uma nova era na patria de Odorico Mendes, de Gonçalves
-Dias, e de João Lisboa.</p>
-
-<p class="titlepage">FIM.</p>
-
-<div class="footnotes">
-
-<h3>NOTAS</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_59" href="#FNanchor_59" class="label">[BG]</a> Consulte-se a respeito de todos estes assumptos o meo <i>Diccionario
-historico e geographico do Maranhão</i>. Iria longe se eu
-quizesse acompanhar <i>parí passu</i> esta publicação, onde não poucas
-vezes foi illudida a bôa fé de Mr. Ferdinand Diniz.—Do traductor.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_60" href="#FNanchor_60" class="label">[BH]</a> Outro engano. Aqui não se conhece esta dóca.—Do traductor.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_61" href="#FNanchor_61" class="label">[BI]</a> 40 leguas? Não, e sim 4 leguas. Vide art. <i>Alcantara</i> no
-meo <i>Diccionario</i>.—Do traductor.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_62" href="#FNanchor_62" class="label">[BJ]</a> É engano. O major Fidié não foi vencido, e sim capitulou
-honrosamente em 1.º de Agosto de 1823. (Vide <i>Historia da Independencia
-do Maranhão</i> (1822 a 1823) pelo Dr. Luiz Antonio
-Vieira da Silva, hoje Senador do Imperio, pag. 109 a 127.)—Do traductor.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_63" href="#FNanchor_63" class="label">[BK]</a> Mr. Ferdinand Diniz foi illudido por escriptos politicos, embora
-habilmente manejados porem sempre com paixão.</p>
-
-<p>Não foi o Conselheiro Furtado a quem se deve esse estado de
-paz, e sim a outro cidadão como ja disse no meo <i>Diccionario</i>
-neste trecho que para aqui transcrevo.</p>
-
-<p>—Durou este triste e lamentavel estado de ferocidade ou dezespero
-até o tempo, em que o fallescido Dr. Eduardo Olympio
-Machado perante os escolhidos da Provincia em 1851 recitou
-estas palavras:</p>
-
-<p>«A febre homicida, que ía lavrando pelo municipio de Caxias,
-tem feito, vae para tres mezes, prolongada remissão. E qual o
-reagente que conseguio acalmar seos lugubres accessos? A
-energia e actividade do actual delegado de policia o Dr. João
-de Carvalho Fernandes Vieira, o qual, formando culpa aos delinquentes,
-perseguindo-os com incansavel zelo, devassando as
-casas de certos individuos, que até então contavam, senão com
-acquiescencia, com o silencio da auctoridade publica, tem conseguido
-restituir á tranquilidade o districto de sua jurisdicção.»</p>
-
-<p>Foram estes valiosos e importantes serviços apreciados pelo
-Governo Central, pois mandou por mais de um Aviso louvar o
-Dr. João de Carvalho.</p>
-
-<p>D’ahi a poucos annos houve quem intentasse arrancar esses
-louros da fronte do energico e activo ex-juiz municipal e delegado
-de policia de Caxias para offerecer a outro, que nada fez,
-não cuidando da historia que tudo registra e a todos faz justiça!</p>
-
-<p>Esta acção, por demais injusta, nos faz lembrar estes versos do
-poeta de Mantua:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0">Hos ego versiculos feci: tulit alter honores</div>
- <div class="verse indent0">Sic vas non vobis, nidificates, aves etc etc.</div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Do traductor.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_64" href="#FNanchor_64" class="label">[BL]</a> É injustiça confundir-se nesta censura o Convento do Carmo,
-graças ao zelo do seo benemerito Provincial o Revd. Frei
-Caetano de Santa Rita Serejo.—Do traductor.</p>
-
-</div>
-
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h2 class="nobreak" id="INDICE">INDICE.</h2>
-
-</div>
-
-<table summary="Indice">
- <tr>
- <td><a href="#AO_LEITOR">Ao leitor</a></td>
- <td class="tdpg"></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Introducção</td>
- <td class="tdpg"><a href="#INTRODUCCAO">1</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ao Rei</td>
- <td class="tdpg"><a href="#AO_REI_I">1</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ao Rei</td>
- <td class="tdpg"><a href="#AO_REI_II">3</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Prefacio</td>
- <td class="tdpg"><a href="#PREFACIO">7</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz do
- Maranhão</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_I">9</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Do estado do poder temporal em sua primitiva</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_II">11</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Da construcção do Forte de S. Luiz, e do interesse dos
- selvagens em carregar terra</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_III">14</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem ao
- Amazonas</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_VII">19</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Partida dos francezes para o Amazonas em companhia dos
- selvagens</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_VIII">23</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Do que aconteceo na Ilha durante esta viagem, e principalmente
- das astucias de um selvagem chamado Capitão</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_IX">27</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Da chegada de uma barca portugueza a Maranhão</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_X">31</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XIII">36</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos e
- como escravisam seos inimigos</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XIV">40</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Leis do captiveiro</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XV">44</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Outras leis para os escravos</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XVI">48</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Quanto são misericordiosos os selvagens para com os criminosos
- por acaso e sem malicia</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XVII">52</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Quanto é facil civilisar os selvagens á maneira dos francezes
- e ensinar-lhes os officios que temos em França</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XVIII">58</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Quanto são aptos os selvagens para aprenderem sciencias
- e virtudes</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XIX">63</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Continuação do objecto antecedente</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XX">67</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada
- inviolavelmente pela mocidade</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXI">71</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>A mesma ordem e respeito é observada entre as raparigas
- e as mulheres</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXII">79</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Da consaguinidade entre os selvagens</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXIII">84</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Dos caracteres incompativeis entre os selvagens</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXV">90</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Da economia dos selvagens</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXVI">94</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Do cuidado que do seo corpo tem os selvagens</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXVIII">95</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>De algumas indisposições naturaes, a que os selvagens se
- acham sujeitos, e quaes os nomes que dão aos membros
- do corpo</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXIX">101</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>De algumas molestias particulares á estes paizes de indios
- e de seos remedios</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXX">106</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Da morte e dos funeraes dos indios</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXI">111</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Do regresso á ilha do Sr. de la Ravardiere e de alguns
- Principaes, que o seguiram</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXII">116</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Viagem do capitão Maillar pela terra firme á casa de um
- grande feiticeiro. Descripção desta terra e das zombarias
- d’elle</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXII">120</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos, suas
- habitações e procedimento</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXIV">125</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuytapéra e da
- viagem ao Uarpy</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXV">129</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Dos astros e do sol </td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXVI">132</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ventos, chuvas, trovões e relampagos em Maranhão e suas
- circumvisinhanças </td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXVII">135</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Mar, agoas e fontes do Maranhão </td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXVIII">139</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Singularidades de algumas arvores do Maranhão </td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXIX">141</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Dos peixes, passaros e lagartos, que se encontram n’estes
- paizes </td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XL">146</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Da pesca do Pery </td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLI">148</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLIII">153</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Das aranhas, cigarras e mosquitos</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLIV">165</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Dos grilos, dos camaleões e das moscas</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLV">160</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Das onças e dos macacos do Brazil</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLVI">173</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos d’aquelle
- paiz</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLVII">178</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á
- respeito das Indias Occidentaes </td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLVIII">184</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Instrucção para os que vão pela primeira vez ás Indias</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLIX">189</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Do acolhimento, que fazem os selvagens aos francezes recem-chegados,
- e como convem proceder para com elles</td>
- <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_L">193</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Dos fructos do Evangelho, que appareceram cedo pelo baptismo
- de muitos meninos</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_I">201</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Do baptismo de muitos enfermos e velhos, que falleceram
- depois de christãos</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_II">210</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Do baptismo de muitos adultos, especialmente d’um chamado
- Martinho</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_III">217</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Do que fez este christão em beneficio da instrucção e conversão
- dos seos similhantes</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_IV">225</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>De um Indio condemnado á morte, que pedio o baptismo
- antes de morrer</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_V">230</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens
- quando nos vinham vêr, para chamal-os ao conhecimento
- de Deos e á obediencia de nosso Rei</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_VI">234</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Formulario da doutrina christã, que aprendiam e recitavam
- de cór, antes de serem baptisados</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_VII">241</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos,
- dos espiritos e da alma </td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_VIII">246</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em
- suas cadeias por tão longo tempo estes selvagens</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_IX">252</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Como falla o diabo aos feiticeiros do Brasil, suas falsas
- profecias, idolos e sacrificios</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XI">259</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>De algumas outras ceremonias diabolicas praticadas pelos
- feiticeiros do Brasil</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XII">271</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Claros signaes do reino do diabo em Maranhão</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XIII">275</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer e começarão
- a restabelecer o reinado de Jesus Christo</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XIV">283</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro de
- Commã</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XVI">289</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Segunda conferencia que tive com Pacamão</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XVII">296</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XVIII">304</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Conferencia com Jacupen</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XIX">311</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Conferencia com o principal de Orubutin</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XX">317</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Conferencia com o Onda, um dos principaes de Commã</td>
- <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XXI">321</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Congratulação á França etc. etc.</td>
- <td class="tdpg"><a href="#ADDENDUM">329</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Fidelissima narração etc. etc.</td>
- <td class="tdpg"><a href="#Fidelissima">334</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Narração d’um marinheiro</td>
- <td class="tdpg"><a href="#marinheiro">344</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Notas criticas e historicas por Mr. Ferdinand Diniz</td>
- <td class="tdpg"><a href="#NOTAS">347</a></td>
- </tr>
-</table>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Viagem ao norte do Brazil feita nos
-annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D, by Ivo D'Evreux
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL ***
-
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