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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux - -Author: Ivo D'Evreux - -Annotator: Ferdinand Diniz - -Translator: Cesar Augusto Marques - -Release Date: September 21, 2020 [EBook #63258] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL *** - - - - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was -produced from images generously made available by Cornell -University Digital Collections) - - - - - - - - - - -VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL PELO PADRE IVO D’EVREUX - - - - - VIAGEM - AO - NORTE DO BRASIL - FEITA NOS ANNOS DE 1613 A 1614, - - PELO PADRE - IVO D’EVREUX - RELIGIOSO CAPUCHINHO - - PUBLICADA CONFORME O EXEMPLAR, UNICO, CONSERVADO NA BIBLIOTHECA - IMPERIAL DE PARIZ - - COM INTRODUCÇÃO E NOTAS - POR - MR. FERDINAND DINIZ, - CONSERVADOR DA BIBLIOTHECA SANTA GENOVEVA - - Traduzida pelo - DR. CEZAR AUGUSTO MARQUES - Cavalleiro da Real e Militar Ordem Portuguesa de Nosso Senhor - Jesus Christo, Cavalleiro e Official da Imperial Ordem da Rosa, - Membro do Instituto Historico, Geographico, e Ethnographico - do Brazil, da Sociedade Geographica de Pariz, e socio - correspondente, effectivo, honorario e benemerito de muitas - outras sociedades litterarias e scientificas, nacionaes e - estrangeiras. - - MARANHÃO—1874. - - Maranhão.—Typ. do Frias, r. da Palma 6. - - - - -Á SAUDOSISSIMA MEMORIA, DE MEU PAE E VERDADEIRO AMIGO - -O Illm. Sr. Augusto José Marques. - - -Á vós, ó meo querido Pae, levanto, dedico e consagro este pequeno, porem -sincero monumento de minha saudade sempre viva, de meo extremecido amor, -de meo eterno reconhecimento, e de minha dôr pungente pela vossa ausencia -d’este Mundo. - -Bem sei que Deos, querendo recompensar vossas virtudes, cêdo vos tirou do -seio dos que muito vos extremeciam; mas essa ideia póde sim consolar-me, -nunca porem mitigar as vivas saudades, que me pungem a alma. - -Aceitae, ó meo bom Pae, estas flores que, ainda uma vez banhadas com -minhas lagrymas, espalho sobre vosso tumulo, a lá do Céo, onde vos -collocaram vossas virtudes e a Misericordia Divina, abençoae o vosso filho - - Cezar. - - - - -AO LEITOR. - - -A introducção, que se vae lêr, escripta pela habil penna de Mr. Ferdinand -Diniz dispensa-me de escrever um prologo, e felizmente sou substituido de -maneira muito vantajosa para os meos leitores. - -Realisei ainda uma vez um dos meos mais ardentes desejos, traduzindo -e entregando á publicidade uma das obras raras a respeito da historia -primitiva do Maranhão, que me tem merecido muitas investigações e aturado -estudo. - -Dou-me por satisfeito d’esta e de outras fadigas, si d’ellas resultar -algum proveito ao publico menos, lido para quem fiz esta traducção. - -Maranhão, 20 de outubro de 1874. - - _Dr. Cesar Augusto Marques._ - - - - -INTRODUCÇÃO. - -O Padre Ivo de Evreux e as primeiras missões do Maranhão. - - -No tempo de Luiz XIII, o magnifico Convento dos Capuchinhos da rua de -Santo Honorato contava entre seos Monges dois religiosos com o mesmo -nome—o Padre Ivo de Paris e o Padre Ivo de Evreux. O primeiro, advogado -antigo, verboso, ardente na discussão, muito versado nas ideias do seu -seculo, gosava pela cidade de alta reputação, e as biographias modernas -confirmão ainda sua fama passada: o segundo, amigo reconcentrado do -estudo, e mais ainda da humanidade, espirito observador, alma apaixonada -pelas bellezas da naturesa, prompto a acudir onde o chamava seo zelo, -não se importando da curiosidade que podia despertar, foi completamente -esquecido, e de tal forma, que, apezar de seo reconhecido merito, -decorreram 250 annos sobre seo humilde tumulo sem que uma voz amiga tenha -para elle despertado a attenção publica. - -Para que se fallasse n’este obscuro Monge foram necessarias duas cousas, -com que não se contava durante sua vida: a transformação em poderoso -Imperio dos desertos, que elle percorreo, e o amor apaixonado por certos -livros velhos, que se rehabilitam e com razão, pois elles, por si só, -narram factos que, sendo desconhecidos, fariam com que a civilisação -crescente de certos paizes caminhasse na ignorancia de sua origem. - -Tinha então o grande Convento de Pariz muitos homens condemnados á -injusto esquecimento. - -Fundado em 1575 por Catharina de Medicis,[A] havia em pouco tempo -adquerido fama de conter monges doutos em theologia, zelosos, cheios de -abnegnação e caritativos nas epidemias, a qual, quasi intacta, conservou -durante o decimo sexto seculo. - -Era n’elle, que o partido, favoravel aos religiosos regulares, vinha -procurar espiritos activos para luctar com o Bispo de Belley. - -Era sobre estes vastos terrenos, possuidos apenas pela Casa de -_Tremouille_, que existia essa immensa officina bem conhecida pelo Corpo -medico de Pariz, onde os cortesãos, assim como os mais humildes burguezes -vinham provêr-se de medicamentos, que só ahi encontravam, ou que se -preparavam com incuria notavel nos outros lugares de tão grande cidade.[B] - -Fallemos francamente: não era nem a sciencia, então incontestavel, -d’esses Religiosos, nem os resultados positivos de sua cuidadosa -administração, nem mesmo os beneficios diarios, pelos quaes eram tão -uteis ás classes necessitadas, que lhes grangearam o credito unisono, -que gosavam em Pariz, pois o deviam sobre tudo as brilhantes conversões, -realisadas recentemente no Mosteiro de Santo Honorato. - -Foi n’este Convento, que um dos maiores senhores do ultimo reinado, o -conde de Bouchage, mais conhecido depois pelo Padre Angelo de Joyeuse, -veio trocar as grandezas da Côrte, onde voluntariamente demittio-se dos -seos cargos militares, pela vida pobre e obscura que ahi se passava. - -Foi n’este sombrio asylo que um dos ramos mais illustres da familia de -Pembroke veio abjurar o calvinismo, e, renunciando vida mais brilhante, -sugeitou-se ás humildes funcções, que desde o principio do seculo lhes -foram impostos, obrigando-se a proseguir sem descanço na missão a que -voluntariamente se impozera. - -Facil nos seria abundar agora na citação de nomes celebres, e de causar -talvez admiração fazendo sobresahir os esquecidos: para ser breve devemos -porem cingir-nos ao objecto em questão.[C] - -O Padre Ivo d’Evreux e o Padre Ivo de Pariz appareceram, como dissemos, -quase ao mesmo tempo; porem a fama, sempre crescente de um, eclypsou -completamente a lembrança mui fugitiva, que o outro deixou, e até em bons -escriptos são elles confundidos. Tiveram, comtudo, bom é repetir, destino -bem differente. - -Ivo de Evreux, como dissemos, fugia em geral do bulicio politico, e -somente tomava parte nas luctas do seculo quando tinha de sustentar -algum ponto de doutrina religiosa: o segundo, muito mais moço na Ordem, -que o seo homonymo, sempre prompto a entrar nos combates, que as Ordens -Regulares sustentavam algumas vezes contra o poder ecclesiastico, tinha -por isto adquirido muita fama, com que bastante se gloriava o Mosteiro. - -Era notado não só como orador eloquente, mas tambem como um dos mais -fecundos do seu tempo. - -A hyperbole do elogio monastico chegou até o ponto de consideral-o como o -engenho mais poderoso de sua Ordem. - -Foi sempre elle quem representou unicamente seos Superiores: eram d’elle -os muitos livros, escriptos quase todos em latim, que foram oppostos, -e victoriosamente, ás publicações violentas atiradas contra as Ordens -mendicantes. - -Da sua antiga occupação de advogado se recordava e se aproveitava das -tricas e desordens, proprias da epocha, e até lançava mão da astrologia -judiciaria, pelo que se lhe attribuio a authoria do _Fatum Mundi_, livro -absurdo, mas que durante algum tempo preoccupou a attenção publica. - -Declarado por unanimidade o oraculo do seu Convento, nem se quer por -um momento houve a ideia de associar-se á sua lembrança o nome d’um -Religioso, igual ao seo, e que apenas sabia sacrificar-se com o fim de -ganhar algumas almas para Deos! O que fazia o nosso modesto amante da -natureza diante de tal personagem, tão cercada de gloria, diante da -_Phenix_ dos theologos francezes, como então por gosto o appelidavam?[D] - -Mas, quem é que se recorda hoje do Padre Ivo de Pariz? Quem cuida hoje -nas discussões, cuja vehemencia lhe attribuiram tão viva admiração? - -Colloquemos os homens e os factos nos lugares, que devem occupar. - -Ivo d’Evreux poude contemplar em sua grandeza primitiva uma terra -exuberante de vida e de mocidade: dois seculos de esquecimento passaram -sobre sua obra, e hoje em dia brilha elle remoçado, cheio de graça, ao -lado de Lery, de Fernando Cardim, de Anchieta, emfim de todas essas almas -privilegiadas, que uniam a faculdade da observação á apreciação apurada -das bellezas da natureza, e que saudaram, poetas desconhecidos, a aurora -de um grande Imperio. - -Ivo d’Evreux, diga-se com pezar, teve o destino de quasi todos os -historiadores primitivos do novo mundo: sua biographia, embora pouco -desenvolvida, ainda está por escrever, e apesar das mais minuciosas e -constantes investigações n’estes ultimos tempos, apenas conhecemos as -circumstancias mais importantes de sua vida, e assim mesmo nada ao certo -saberiamos si não fossem algumas notas colhidas em varios archivos dos -antigos Conventos. Foi geral o esquecimento tanto da sua obra, como do -seo autor. Pensam os escriptores de sua Ordem haverem dito bastante, -lembrando ter elle vivido no seculo XVII, ter sido missionario zeloso, e -autor de um livro, continuação obrigada da viagem do Padre Claudio, e até -se esquecem de mencionar a sua existencia por espaço de dois annos entre -os indios, onde este apenas demorou-se quatro mezes. - -Conforme as inducções, que se podem tirar de um folheto manuscripto, -conservado na bibliotheca _Mazarina_, opusculo cheio de datas precisas, -relativas aos Capuchinhos do Convento da rua de Santo Honorato, o nosso -Missionario devia ter nascido em 1577. - -Indica por certo seu sobrenome a cidade onde elle nasceo, porem ignoramos -qual foi o nome, que teve no seculo, como então se dizia. Á este respeito -os amadores das viagens antigas foram mais bem succedidos quanto ao seo -companheiro, o Padre Claudio, que se sabe pertencera a uma excellente -familia, a dos Foullon.[E] O que ha de bem averiguado é, que os paes do -Padre Ivo o applicaram á estudos excellentes, e que os seus professores -não se contentaram de ensinarem-lhe só o latim e sim tambem o grego, e -até o hebreu, e inspiraram-lhe tal gosto litterario, sem o qual não ha -escriptor habil. - -No convento de Ruão passou o seo noviciado, e ahi entrou em 18 de agosto -de 1595, não existindo a menor duvida a este respeito.[F] - -Depois de ter tomado o habito n’essa Caza, ahi provavelmente demorou-se -alguns annos, e devia prégar na maior parte das cidades da alta Normandia. - -É provavel, que então se achasse em relações de estudo e de sacerdocio -com o joven Francisco de Bourdemare, como elle natural da Normandia, como -elle Prégador em sua Provincia, e mais tarde designado para succedel-o na -missão do Maranhão.[G] - -Distinguido muito cedo pelos seos Superiores, e tendo já o titulo de -Prégador, que então só se dava aos Religiosos notaveis, foi designado o -Padre Ivo para preencher as funcções de Guardião do Convento de Montfort. - -Infelizmente os documentos, que temos á vista e que provam este facto, -não dizem qual foi a Cidade onde se passaram a maior parte dos annos de -estudo do nosso bom Missionario. - -Ha em França mais de treze localidades com este nome e não nos é -possivel, absolutamente fallando, dizer onde o nosso viajante se -fortaleceu em sua carreira religiosa. - -Nos primeiros annos do seculo mudou logo de residencia, e achamol-o no -grande Convento de Santo Honorato, no meiado do anno de 1611, no tempo -em que era Provincial da Ordem o Padre Leonardo de Pariz,[H] quase na -occasião d’este sabio Religioso ter sido pelo Papa nomeado Superior das -missões orientaes. - -Teremos ainda occasião de fallar no movimento politico, dado ás -expedições maritimas, quando ja ia em meio o seculo XVI, e que tinha -por fim fazer com que, o nosso comercio partilhasse das vantagens, que -a Hespanha e Portugal haviam para si monopolisado. Cincoenta annos mais -tarde, embora aproveitando-se das vantagens adquiridas pelas exploraçães -dos Varazano, dos Cartier, dos Roberval, e de tantos outros navegantes, -que nos deram o que n’aquelle tempo se chamava _nova França_, todas as -attenções se fixavam nas regiões mais favorecidas, que então se pretendia -colonisar, e as quaes com enthusiasmo se chamava _França equinoccial_. - -Ja havia desde 1555 uma _França Antarctica_, a qual, apesar de ter este -nome por tão pouco tempo, não deixou comtudo de grangear para nossos -homens do mar as sympathias calorosas e dedicadas dos povos indigenas, -que então em tribus numerosas occupavam o Brazil em varias partes. -Auxiliava tambem estas conquistas pacificas o movimento protestante, bem -que não devesse deixar vestigios duradouros n’America do Sul, porque os -refugiados e os Missionarios subordinavam a si e procuravam á porfia -converter á suas crenças estas nações barbaras.[I] - -Sem tratar dos armadores de Dieppe, cujas primeiras explorações pelas -costas do Maranhão, datam de 1524, sem mencionar as navegações de -Affonso de Xaintongeois até as boccas do Amazonas no anno de 1542, -ser-nos-ia facil provar, que 25 annos mais tarde Henrique IV doara a um -bravo capitão da religião reformada a immensa extensão de territorio, -para a qual devia ir Ivo d’Evreux, sahindo do seu pacifico retiro de -Montfort, afim de cathequisar os selvagens. - -Vemos com effeito Daniel de la Touche, senhor de Ravardiere, de posse -d’essas doações tão vagamente definidas pelas Cartas patentes de julho de -1605.[J] - -Adquirimos tambem a certeza, que depois de dois annos, após duas viagens -successivas ao norte do Brasil, Ravardiere decidio os Tabajaras e -Tupinambás, propriamente ditos, a mandarem uma especie de embaixada -ao Rei Christianissimo com o fim de solicitar sua protecção contra as -invasões dos portuguezes. - -Foi debalde esta missão d’indios, porem como Ravardiere continuasse -a residir por muito tempo entre elles, conseguio em 1610, que lhe -fossem renovadas as doações feitas cinco annos antes, e assim julgou-se -authorisado, logo depois da morte de Henrique IV, a formar uma associação -para a definitiva colonisação d’estas regiões abandonadas.[K] - -Não foi comtudo aos partidistas de sua Religião, que se dirigio -Ravardiere para ser bem succedido n’este empenho: pelo contrario sem -hesitar entrou em conferencia com catholicos proeminentes, cuja lealdade -perfeitamente conhecia, como sejam, o almirante Francisco de Razilly, -uma das mais antigas glorias da França, e Niculau de Harlay, uma de suas -summidades financeiras, e elles se lhe associaram para a exploração -d’este previlegio. - -Em todo o seculo XVII não conhecemos outra transacção, entre catholicos -e protestantes, mais leal e desinteressada: foi na verdade uma empresa, -digna de contar em si o Padre Ivo d’Evreux, tão sincero como justo. - -O titulo de lugar-tenente do Rei, sem a menor questão, foi transferido -á Rasilly, que teve toda a liberdade de acção, não deixando comtudo de -fazer prevalecer as prerogativas da communhão, que professava. - -Em todas as praias onde desembarcassem, devia levantar-se uma cruz com -toda a solemnidade, e bem assim missionarios catholicos seriam condusidos -para propagação da fe entre o gentilismo. - -Estes contractos foram na verdade pontualmente executados, e nem na obra -de Claudio d’Abbeville, e nem na de Ivo de Evreux se encontra uma só -palavra, que faça suspeitar o menor estremecimento entre os chefes da -expedicção. - -Fortalecido com o credito, que de ha muito gosava na Corte, ajudado alem -disto, por soccorros pecuniarios, e pela verdadeira importancia, que lhe -proveio de associar-se com Niculau de Harlay, senhor de Sancy, Barão de -Molle e de Grois Bois, o almirante Razilly com toda a prestesa chegou -ao fim, que tinha em vista, interessando a Regente no bom exito de uma -empreza, ja antecedentemente approvada por Henrique IV. - -Por seos rogos escreveo Maria de Medicis ao Padre Leonardo, que n’esse -tempo era Guardião do grande Convento dos Capuchinhos da rua de Santo -Honorato, pedindo-lhe com toda a instancia quatro religiosos, afim de -fundarem um convento da Ordem na Ilha do Maranhão. - -Diga-se a verdade: o norte do Brazil que actualmente offerece todos os -recursos da civilisação, então se apresentava, até mesmo aos mais doutos -da Universidade de Pariz, como um paiz entregue a todos os horrores -da vida selvagem; os cosmographos francezes quando d’ella tractavam, -exageravam a rusticidade d’esse paiz, deixando comtudo a imaginação o -campo inteiramente livre, não marcando nenhum limite exacto, e era sobre -essas informações inexactas que Raleigh se deleitava de evocar todos os -monstros do mundo antigo. - -Nem um só momento exitaram estes Religiosos quando o Padre Provincial -lhes leo a Carta regia na occasião em que se achavam no refeitorio: -d’entre elles quarenta quizeram ser escolhidos para tão perigosa empresa, -e os documentos officiaes, que temos à vista, nos fizeram até conhecer -a especie de enthusiasmo que d’elles se apoderou quando souberam o -contheudo da mensagem das Tulherias. Offereceram-se a maior parte -dos Padres com expontaneo enthusiasmo para esta nova missão, e sendo -reprimido o zelo dos mais fervorosos, declarou logo o Padre Leonardo, de -accordo com o Definidor da Ordem, que seriam quatro apenas os escolhidos, -de conformidade com o pedido. - -Eis a lista destes nomes pela ordem, que devem guardar entre si, e os -raros historiadores, que d’elles tem tratado teriam evitado alguns erros -se, como nós, tivessem consultado os archivos do Convento. - -O muito veneravel Padre Ivo d’Evreux, superior.[L] - -O muito veneravel Padre Claudio d’Abbeville. - -O muito veneravel Padre Arsenio de Paris. - -O muito veneravel Padre Ambrosio de Amiens. - -Ajoelharam-se os escolhidos diante do Padre Leonardo, e humildemente lhes -agradeceram tal honra; foi-lhes annunciada a proximidade da viagem, e -desde esse momento para ella se acharam promptos. - -Não ha a menor duvida á respeito da qualidade do Religioso, a quem se -confiou a direcção das missões do Maranhão, e não se comprehende como -Berredo, antigo Governador da Provincia, que foi autoridade no Brazil, -deo o titulo de Superior á Claudio d’Abbeville, que occupa na ordem -hierarchica o lugar immediato ao digno Missionario director dos trabalhos. - -Certamente era necessario que o Padre Ivo ja tivesse adquirido na Ordem -credito inabalavel para que fosse preferido aos tres religiosos, seos -adjuntos. Eram sacerdotes todos tres; como elle deram provas de possuirem -solida instrucção, e o terceiro até, ja muito adiántado na carreira, por -varias vezes tinha occupado certos empregos honrosos, signaes evidentes -da consideração de seos superiores. O Padre Ambrosio éra alem d’isto -dedicado com ardor á todas as obras de caridade, durante as calamidades -dos ultimos annos do seculo, sendo muito conhecida sua bondade sempre em -acção: suas prédicas fervorosas, bem acolhidas pelo povo, lhe grangearam -o apellido de «_Apostolo da França_.»[M] - -Tem a data de 12 de agosto de 1611 as _Cartas de obediencia_, que os -Superiores deram ao Padre Ivo d’Evreux, e lhe ordenaram, que fosse -embarcar-se no porto de Caucale n’um navio sob o commando de Rzailly, -lugar-tenente do Rei. - -Não devemos repetir aqui o que em termos percisos e apropriados contou -Claudio d’Abbeville na primeira parte de sua narração a respeito dos -pormenores da longa viagem dos missionarios até o Brazil, da separação -forçada da flotilha, que os conduzia, e das peripecias d’esta navegação, -que durou cinco mezes. O que porem podemos affirmar é que o Padre -Ivo não soffreu somente o aborrecimento de uma viagem maritima, cujas -difficuldades não se pode agora imaginar, e que aos cuidados de uma -installação penosa vieram reunir-se fadigas imprevistas, e depois de -desembarcado, dores pungentes, como fossem as que elle experimentou pela -morte do digno Padre Ambrosio, e em seguida os soffrimentos provenientes -de uma molestia, que o forçou a regressar, e da qual foi victima afinal. - -Tudo isto foi narrado com simplicidade e dignidade por tão zeloso -missionario, e sem duvida muito melhor do que o fariamos. - -O que não disse o pobre Monge, cuja exquisita sensibilidade e admiravel -resignação se revelam tantas vezes, foi o pezar, que experimentou quando -vio, que da coragem imprudente de Pésieux resultou a morte d’este seo -amigo, sem que o valor de Ravardiere podesse ser bastante para sustentar -a Colonia; o que tambem não poude contar foi a perda das funcções de -Superior da missão, que devia assumir antes do triumpho das armas de -Jeronymo d’Albuquerque, e da expulsão definitiva dos francezes. Para -explicar essas circumstancias, não mencionadas de forma alguma pelo digno -missionario, é indispensavel fallar-se da situação administrativa em que -então se achava o grande Convento da rua de Santo Honorato. - -O Padre Leonardo, tão afamado entre seos irmãos de habito, em 1614 -deixou de ser Provincial, e só poderia ser reeleito no anno de 1615. -Foi substituido pelo veneravel Honorato de Champigny,[N] e com razão -elogiam-se os melhoramentos de toda a natureza, a actividade, e -especialmente a distribuição de soccorros caridosos, postos em pratica -durante a sua administração. - -N’esta epocha, um Religioso estrangeiro, natural da Escossia, e -descendente de uma boa familia, attrahia a si os olhares de seos irmãos, -e póde dizer-se até os da propria França, o Padre Archanjo de Pembroke, -que veio substituir de alguma forma o Padre Angelo de Joyeuse. - -Eleito Provincial em 1609, e não deixando depois d’isto d’exercer -importantes encargos, foi este Capuchinho, logo depois da partida -do Padre Ivo, nomeiado director dos missões _nas Indias orientaes e -occidentaes_. Os motivos, que fizeram abandonar mais tarde a missão do -Maranhão, não foram declarados, ou para melhor dizer, não existiam. -Archanjo de Pembroke resolveo ir pessoalmente ao Brasil dar consideravel -impulso á pequena missão, que alguns mezes antes havia sido derigida por -Francisco de Razilly. - -Para este fim escolheo onze religiosos, de cujo zelo podia confiar: -infelizmente ignoram-se os seos nomes, e apenas se sabe que entre elles -havia um historiador, cuja _Narração_, nos parece de facto perdida, por -não ter sido possivel encontral-a, apezar de todas as pesquizas feitas -com constancia e perseverança por muitos mezes em Pariz, Ruão e Madrid.[O] - -O Padre Francisco de Bourdemare pertenceo á classe d’esses ricos -gentis-homens, que após á saciedade de todas as superfluidades da -fortuna, de repente suffocam n’um carcere o que se chama orgulho do -seculo e lembranças mundanas. - -Havia ja alguns annos, que era viuvo: á seo filho entregou todas as suas -herdades, e depois foi sepultar-se nos Mosteiros de Orleans e de Ruão, -e d’ahi mudou-se para o Convento da rua de Santo Honorato em Pariz, onde -exhibio diariamente, dizem, provas de humildade muito alem da exigida -pelos membros da Communidade. - -Gentil-homem notavel, não havia muito, pela sua elegancia, na epocha da -grandeza, anterior ao fausto de Luiz XIV, então somente trazia vestidos -remendados, e ainda á sua pobreza juntava o habito de Capuchinho. - -Completar o seu martyrio dedicando-se fervorosamente á conversão dos -selvagens, pareceo-lhe coisa tão natural como invejavel; este homem, cuja -sociedade tinha sido tão procurada, e cuja instrucção era tão solida -á ponto de poder escrever em latim uma obra volumosa, encarou como -beneficio dos Definidores da sua Ordem o ser mandado a um paiz deserto, -onde faltassem todos os recursos na vida: elle e Archanjo de Pembroke, -cuja existencia tinha sido ainda mais brilhante que a sua, embarcaram-se -com outros dez Monges n’um navio commandado pelo bravo Pratz, que com -tresentos colonos novos ia soccorrer Ravardiere, cuja situação sem duvida -era prevista em Pariz como difficil. - -Cheios de presentes pelos senhores da Córte de Luiz XIII com os quaes -ainda bem recentemente elles entretinham relações diarias, e sobretudo -satisfeitos por levarem ao modesto Convento do Maranhão os bellos -ornamentos feitos pelas proprias mãos da Duqueza de Guise, partiram -do Havre, e pode dizer-se, que para aquelle tempo foi por certo um -phenomeno, pois apenas gastaram dois mezes e meio para chegarem á costa -do norte do Brazil, porem apenas vellejavam ainda na bahia de Guaxenduba -souberam logo do estado lastimoso, em que se achavam os negocios da -França n’aquelles lugares. - -Não ignoravam os Missionarios, que pelo seo Instituto se achavam ao -abrigo das eventualidades politicas, que o resto da expedição podia -temer (por exemplo não podiam ser prisioneiros): foram, como que com -pompa, para o seo Convento em S. Luiz, e comsigo levaram os presentes -da Duqueza de Guise, porem apenas acharam ahi um só religioso, o Padre -Arsenio de Pariz,[P] e esse mesmo muito doente. - -Mais doente ainda, que seo unico companheiro se achava o Padre Ivo -d’Evreux, quando soube, estar substituido como Superior do nascente -Mosteiro, e é provavel, que elle embarcasse a bordo d’algum dos navios da -esquadra. - -Dizem os documentos que temos á vista, que n’esse tempo elle se achava -em inacção, victima d’uma paralysia geral, consequencia provavel das -fadigas, a que diariamente se entregava no _Fórte_. - -Para explicar a invasão lenta, porem continua, de tão triste molestia, -basta recordar agora o que era então a nascente cidade de S. Luiz. - -Embora seja hoje, e com razão, esta risonha Capital considerada uma das -cidades mais saudaveis do Imperio do Brasil, então apenas surgia do seio -das florestas: os miasmas deleterios, que constantemente se desprendiam -dos logares recentemente desbravados, a falta absoluta de certos -medicamentos energicos, apropriados a combater com decidida vantagem -essas influencias paludosas: tudo isto explica como o Padre Ivo d’Evreux -não poude esperar pelo resultado da guerra começada, e como se vio -coagido a regressar para a Europa, receiando ser pesado á missão depois -de haver sido o seu agente mais activo e o seu sustentaculo mais dedicado. - -Não sabemos como se effectuou esta viagem, nem si elle foi para Pariz, e -nem tão pouco si foi em sua terra natal buscar um azylo no Convento dos -Capuchinhos,[Q] fundado apenas alguns mezes depois da sua partida. - -Os archivos da cidade d’Evreux, nada dizem a tal respeito, e nem tambem -relativamente á missão brasileira, parecendo-nos dever esperar-se do -acaso o apparecimento de documentos biographicos, cuja existencia nem se -suspeita. - -O historico da segunda missão dos Capuchinhos franceses em Maranhão, -completamente ignorada por Berredo e outros escriptores portuguezes, não -nos deixa na mesma incertesa quanto aos missionarios, que succederam á -Ivo d’Evreux e aos seos companheiros.[R] - -Sabemos que chegaram em 15 de junho diante da nascente cidade, que -cantaram um _Te-Deum_ no dia 22 do mesmo mez, no rustico Convento -principiado a edificar por seos antecessores, e tambem não ignoramos -hoje, que elles previram o máo exito da missão. - -Ignoramos o que fez o Padre Arcanjo no Convento de São Luiz, porem -quasi que se pode dizer, que não imitou o zelo dos Padres Ivo d’Evreux -e Arsenio de Pariz, sendo tão mal succedido em seos esforços que até -appareceo a desunião «entre as coisas da Colonia, augmentada ainda com a -chegada dos portuguezes, que se assenhorearam do paiz.» - -O piedoso biographo, cuja narração nos serve do guia, diz, que o novo -Superior administrou o baptismo a 650 indios, porem accrescenta logo, -que sem duvida estes pobres selvagens não ficaram por muito tempo fieis -á religião, que abraçaram, voltando a sua antiga idolatria: «não chega -a sessenta os christãos sinceros, e n’esse numero estão incluidos vinte -meninos.» Si se encontrasse uma biographia cheia de particularidades e -de aventuras do Monge escossez, de que tracta o velho historiador da -Ordem, taxando-a de muito exagerada, provavelmente n’ella se encontrariam -narrações minuciosas de sua missão na America. Infelizmente este livro, -se existe em alguma bibliotheca pouco conhecida, é tão raro como o de -Francisco de Bourdemare, e temos sido infelizes nas diversas pesquizas, -que até hoje fizemos com o fim de offerecer aos nossos leitores um -extracto do seo contheudo.[S] - -Suspeitamos que o Padre Arcanjo de Pembroke deixou muitos dos seos -confrades no Convento dos Capuchinhos recentemente edificado, e que -regressou para França ao fim de 1614 no navio do Capitão Pratz, que levou -á Paris Gregorio Fragoso, sobrinho de Jeronymo de Albuquerque, incumbido -d’uma missão diplomatica, que devia discutir-se em Lisboa. - -Recolhido á sua cella no Convento da rua de Santo Honorato, o -Padre Ancanjo facilmente esqueceo-se do Brasil[T], tomou parte nos -acontecimentos politicos do seu tempo, vieram de novo as dignidades -da Ordem procural-o, e viveo no grande mosteiro até o momento, em que -Richelieu chegou ao apogeo do seo poder. - -Os amadores das viagens antigas, aquelles que prescrutam ainda com -interesse as lembranças espalhadas aqui e ali, e com as quaes se deve -compôr a historia das nossas Colonias, mais gloriosa do que se pensa, não -se demoraram n’essas particularidades, e antes desejaram saber como o -Maranhão escapou aos esforços corajosos do bravo Ravardiere. - -A _Historia Geral do Brasil_, publicada ultimamente pelo veridico -Sr. Adolpho de Varnhagem lhe responderá com mais promptidão ainda do -que o poeta laureado Southey. Ahi lerão como as forças portuguezas, -expedidas d’esde outubro de 1612 para expellir os francezes do seu novo -estabelecimento, de que tinha ciumes a Corte de Madrid, ainda em Maio de -1613 foram reforçadas por Jeronymo d’Albuquerque vindo do Ceará, onde -combinou com Martim Soares nos meios de ser bem succedida essa expedição -sob seo commando, a qual se antolhava irriçada de difficuldades. - -De Pernambuco ainda vieram reforços indispensaveis, e por isso em 23 -d’agosto começou o bloqueio das forças francezas, porem no dia 19 de -novembro, Ravardiere á frente de 200 soldados d’infantaria, e de 1500 -indios atacou com energia os sitiadores de sua nascente cidade; perdeo-se -ahi o bravo Pezieux n’uma imprudente tentativa por não ter executado as -ordens do seu chefe mais experiente do que elle. - -Tomaram por sua vez a offensiva os portuguezes, e em pouco tempo, apesar -da sua reconhecida habilidade e do seu notavel valor, foi obrigado -o Chefe da nova Colonia a concordar n’um armisticio, cujo desenlace -seria terminado perante as Cortes de Madrid e de Pariz, para as quaes -appellaram ambas as partes belligerantes. - -Antes de chegar a este ponto vio Ravardiere de seo exercito cem homens -mortos e nove prisioneiros. Pode dizer-se, que si sua resistencia foi -a de um bravo, como tal ja reconhecido, o procedimento, que então -ostentarão seos adversarios, foi em todo o sentido generoso, porem, força -é dizer que depois de convenções tão livremente estipuladas, e quando em -3 de Novembro de 1615 entregou Ravardiere com todas as solemnidades o -_Forte de São Luiz_ á Alexandre de Moura appareceo um acto de deslealdade -manchando esta campanha tão nobremente terminada. Ravardiere deixou o -Maranhão e foi em companhia de Alexandre de Moura para Pernambuco, d’onde -partio em pouco tempo para Lisboa, e ahi no _Forte de Belem_ soffreo -rigorosa prisão, que não durou menos de tres annos.[U] - -Pelo que acabamos de dizer vê-se facilmente, que a Cidade de S. Luiz, a -florescente Capital de uma das mais ricas Provincias do Brasil, é uma -Cidade de origem absolutamente franceza, e a Camara Municipal assim -felizmente o comprehendeo por haver ainda ha pouco tempo feito surgir -das ruinas os modestos edificios, que attestam esta epocha, provando com -isto, e ao mesmo tempo, ausencia de patriotismo mesquinho e sentimento de -bom gosto.[V] - -Mas voltando ao livro, que nos prende a attenção, façamos conhecer a -sorte caprichosa, que o esperava em França. Despertaremos tambem com o -bom Religioso algumas reminicencias, com que se pode enfeitar a poesia. - -Menos infeliz na apparencia que João de Lery, tão bem classificado com o -appellido de «Montaigne dos velhos viajantes,»[W] Ivo d’Evreux durante 15 -annos não vio seo manuscripto, extraviado por um infortunio, que o ferio -completa e absolutamente. - -Enviado aos Superiores da Ordem este livro, complemento do de Claudio -d’Abbeville, foi destruido antes de haver apparecido. Impresso por -Francisco Huby, em cujas officinas já havia sido edictada a obra do seo -companheiro, foi inteiramente dilacerado. - -Francisco Huby, dizemos com pezar, deixou-se n’essa occasião seduzir, e -esquecendo-se dos deveres inherentes á sua profissão, não se importou em -ser o instrumento d’uma vingança politica tão mesquinha. - -É de suppôr, que o motivo, que fez prender Ravardiere no _Forte de -Belem_, levantou tambem mãos sacrilegas para destruir na rua de São -Thiago o precioso volume, no qual se expunham com admiravel sinceridade -as vantagens para a França, provenientes da expedição de 1613. - -Entre a impressão da viagem de Claudio d’Abbeville, e a do livro, que é -sua continuação, deo-se um acontecimento politico d’alto alcance. - -Foi resolvido o casamento de Luiz XIII, ainda menino, com uma princesa -hespanhola[X], e um partido inteiro mostrou muito interesse em dissipar -qualquer sombra, que prejudicasse a casa de Hespanha. - -Os projectos de conquista d’America do Sul não acharam mais apoio, -e desde então empregaram-se todos os meios afim de ser esquecido um -projecto de conquista, com que ja se havia inquietado a Hespanha, -chegando-se até a destruir completamente a simples narração dos -incidentes d’essa missão ja passada ha tanto tempo, embora escripta com -toda a calma e conveniencia. - -Quando se deo este acto arbitrario havia em França um homem, que ligava -muito interesse á obra e ao seo auctor. - -Felizmente Francisco de Razilly não cahio no captiveiro, que paralisava -todos os esforços de Ravardiere, e pode até affirmar-se, que não perdeo -de vista, por um só momento, as vantagens, que seo paiz podia tirar de -uma Colonia, cujos primeiros passos elle tinha dirigido. Sabendo que -hia ser destruido o volume do Padre Ivo d’Evreux, apezar de impresso -inteiramente, foi á imprensa de Huby para vêr se obtinha um exemplar: -ou porque não fosse com toda a promptidão, ou porque ja se tivesse dado -começo a destruição da obra, apenas poude salvar algumas folhas por -si ou por _meios_ subtis de um seo agente, as quaes reunidas mostraram -a lamentavel perda de diversos fragmentos, e com essas lacunas tão -importantes foi impossivel formar um exemplar completo. Mandou o -Almirante imprimir o seu protesto em outra parte, e não nas officinas -da rua de Sam Thiago, juntou-o ao livro, encadernado com todo o luxo, -tendo na frente as armas da casa de França, e foi leval-o, não á Maria de -Medicis, antiga protectora da Colonia do Maranhão, e sim a Luiz XIII. - -O menino rei ainda na anno antecedente tinha brincado muito com tres -pobres selvagens Tupinambás, dos quaes fora padrinho, e suas recordações -eram ainda tam frescas, que de vez em quando esboçava os grotescos -ornatos, com que se enfeitavam os nossos indios:[Y] leo talvez algumas -paginas do bello volume, que Razilly lhe offereceo, e n’isto ficou todo -o seo interesse. Richelieu ainda não era Superintendente da sua marinha, -e ainda dormiram na Corte por muitos annos os projectos de longas -navegações. - -O livro do Padre Ivo, junto ao do Padre Claudio, foi posto nas estantes -da bibliotheca, e ahi todos os deixaram em paz. - -Foi no tempo do digno Van-Praet, no principio de 1835, que o autor d’esta -noticia teve a felicidade de encontral-o. Seria occioso o dizer como o -feliz descubridor ficou surprehendido lendo esta agradavel narração, tão -sincera em suas menores particularidades como preciosa pelas suas uteis -noticias. Para comprehender bem o seo valor basta dizer-se, que o nosso -bom missionario demorou-se dois annos, onde seo veneravel companheiro -apenas demorou-se quatro mezes. Desde então appareceo Ivo d’Evreux n’uma -serie de artigos, que publicava a _Revista de Pariz_ a respeito dos -_antigos viajantes francezes_, e na verdade sem desvantagem, ao lado do -Padre du Tertre, a quem Chateaubriand justamente chamou o Bernardin de -Sant’Pierre do 16º seculo. - -Este artigo, cujo menor defeito era sem duvida alguma o ser pouco -desenvolvido, formou n’esse mesmo anno uma pequena brochura, publicada em -casa de Techener, e immediatamente esgotou-se a edicção. - -Desde essa epocha não foi mais Ivo d’Evreux de todo desconhecido aos -amadores das viagens antigas, aos homens de bom gosto, que buscam avidos -de curiosidade os escriptores esquecidos, percursores do grande seculo. -Preoccupado, mais do que se crê na Europa, de suas tradicções poeticas, -e de suas nascentes glorias, o Brasil saudou o nome do velho viajante, -e lhe deo um lugar entre os homens pouco conhecidos, mas que devem ser -consultados quando se tracta dos tempos primitivos. - -O Imperador D. Pedro, que occupa um lugar entre os bibliographos mais -illustrados, e que tem decidido gosto pelas raridades bibliographicas, -que derramam alguma luz sobre as antiguidades do seo vasto Imperio, -mandou extrahir uma copia, sendo depois imitado seo exemplo! - -O unico exemplar, pertencente á bibliotheca imperial d’ahi em diante foi -lido e relido:[Z] uma phalange de escriptores habeis e zelosos, que -exhumaram do pó a historia do seo bello paiz, o chamaram em testemunho de -suas asserções, Adolpho de Varnhagem, Pereira da Silva, Lisboa o auctor -do _Timon_, e no ultimo lugar o sabio Caetano da Silva, o citaram entre -as melhores autoridades, que se pode invocar sobre as crenças dos indios, -e assim o fizeram sahir da obscuridade, em que jazia. - -Não tinha a França prestado attenção a estes testemunhos de estima -para dar ao Padre Ivo d’Evreux o lugar, que merecia. Se Boucher de la -Richarderie não tivesse pronunciado seo nome, levantando o mais que poude -o de Claudio d’Abbeville, o Sr. Henrique Ternaux Compans não o incluiria -na sua preciosa collecção dos viajantes conhecedores da antiga America. O -Sr. d’Avezac o cita com destincção e faz sobre-sahir suas boas qualidades. - -Todos estes testemunhos de admiração para com o humilde escriptor, que -sem ostentação sacrificou sua obra, infelizmente tem concorrido pouco -para tirar sua vida da obscuridade, e não sabemos em que auctoridade se -baseia um sabio bibliographo para dizer que elle viveo até 1650.[AA] - -Á vista d’um volumoso manuscripto da bibliotheca imperial pensamos -um dia que ião ser esclarecidas todas as nossas duvidas sobre os -principaes pontos da biographia do nosso escriptor, porem assim não -aconteceo. _Os elogios historicos de todos os grandes homens e de todos -os illustres religiosos da Provincia de Pariz_ infelizmente só dão -noticias relativas aos religiosos de Santo Honorato, de Picpus, e de S. -Thiago.[AB] Chegou-se até a dizer na obra, que havendo o Padre Paschoal -d’Abbeville[AC] separado sua Provincia da Normandia em 1629 não devia -procurar-se n’esta compilação o nome dos Religiosos, que não residiram em -Pariz. - -Não se deve esquecer de todo a excitação puramente litteraria, que se -experimentou em França logo depois da chegada dos selvagens brasileiros, -que desembarcaram sessenta annos antes em Ruão ou em Pariz. Estes -apparecimentos successivos d’indios, seguidos sempre de narrações mais -ou menos notaveis, levão evidentemente o espirito a pensar nas bellezas -primitivas da natureza, o que produz encantos e amplidão de ideias. - -D’esta influencia não se livrou o nosso Montaigne, como elle revellou em -algumas palavras espirituosas, que escreveu a proposito d’uma cantiga -brasileira. - -Os dois maiores poetas d’aquelles tempos, tão differentes entre si e -comtudo tão approximados, se abalaram a ponto de dedicarem particular -attenção a esses habitantes das grandes florestas, por acaso misturados -com os cortezãos de França, que invejavam seos gosos pacificos, e a -tranquillidade de suas existencias. - -Ronsard não é de parecer que estes homens, que lembram a origem do Mundo, -percam sua feliz innocencia, e por isso insta com os visitantes para que -não troquem a sua ignorancia pelos cuidados da civilisação.[AD] - -Malherbe tambem a respeito d’elles entreteve por muito tempo o douto -Peiresc, por meio de cartas, onde dizia que a paz e a alegria estava em -imital-os. - -Suas dansas inspiraram os mais delicados cortesãos, e um dos mais habeis -artistas de Pariz fez com as suas arias uma especie de dança muito -agradavel, cuja descripção nos deixou o poeta.[AE] - -Poderiamos ainda citar outros exemplos d’esta subita predilecção pela -independencia dos pobres indios, e especialmente pelo magnifico paiz, que -habitam. - -Conforme estes poetas, a cuja frente deve collocar-se Bartas,[AF] é -n’esta fonte vital, que pode restaurar-se por novas comparações um estro -quasi a exhaurir-se. - -Sem duvida alguma todos estes antigos viajantes, completamente esquecidos -durante um seculo, exerceram real influencia no seo tempo, e ainda mais -alem, como se pode provar á vista dos escriptos de Chateaubriand: a -singelesa de suas narrações e a frescura de suas pinturas inspiraram os -grandes escriptores, já cuidadosos de abandonarem nas suas descripções -os typos ajustados ou estudados, e de influirem ou attrahirem só pela -verdade. - -Ivo d’Evreux não foi somente um pintor habil, um narrador sincero, e sim -tambem um observador perspicaz dos costumes de uma raça, para assim dizer -extincta, e que não se poderia consultar frequentemente. - -Para escolher um só exemplo entre muitos, que elle offerece, basta -dizer-se, que foi o unico, que descreveo os verdadeiros idolos, modelados -em cera, ou esculpidos em madeira pelos indios. - -Hans-Staden, Thevet, Lery e o proprio Gabriel Soares, tão prolixos á -respeito do culto do _maracá_, guardam silencio relativamente ao que -então se rendia á essas estatuasinhas modeladas grosseiramente, sem -duvida, pelos habitantes nomades das grandes florestas, as quaes com tudo -servem para mostrar um principio da pratica nascente da arte: assim elle -o confessa n’estas palavras: «Este mau costume crescia e estendia-se -pelas aldeias proximas de Juniparão.» Depois accrescentou, que seo -companheiro o Revd. Padre Arsenio encontrou estes idolos na visinhança -dos bosques.... Ora, pode-se deduzir d’este trecho curiosa inducção, não -sem interesse para a archeologia futura de um grande Imperio, e vem a -ser, que no começo do XVII seculo notavel mudança se tinha já feito nas -ideias religiosas do grande povo da costa. - -Sem duvida, n’esse tempo ja os Piagas tinham visto imagens nas igrejas, -que se edificavam em varias partes do litoral: com a maravilhosa -facilidade d’imitação, innata nos indios, ja no fim do XVI seculo tinham -representado em estatuas alguns dos numerosos genios de suas florestas. -Estes primeiros idolos foram infelizmente modelados em madeira, e -embora houvesse grande copia d’elles, nenhum, ao menos que o saibamos, -é conservado nos museos ethnographicos do novo Mundo, estabelecidos em -varias localidades. Os Tupinambás, apenas chegaram na visinhança do rio -das Amazonas, receberam ideias mais adiantadas de povos mais civilisados -que elles: a poderosa nação dos Omaguas, por exemplo, cujas tribus vinham -das regiões peruviannas, poderia ter influido sobre a arte grosseira, de -que entre elles encontraram se tão curiosos _especimens_. Note-se, que -estes importantes factos são, em geral, absolutamente despresados pelos -escriptores portuguezes, e por isso não é pequena gloria para a nossa -litteratura antiga, o ter possuido escriptores, dotados de genio tão -observador á ponto de prestarem muita attenção ao estudo d’estes objectos. - -Entre os que se misturaram com estas nações infelizes, no principio -do seculo XVII, não conhecemos, na verdade, senão um unico viajante -portuguez, cuja narração encantadora deve estar ao lado das de João de -Lery e do Padre Ivo d’Evreux.[AG] - -Foi Fernando Cardin, Superior dos Jesuitas ainda em 1609, e que visitou -os indios do Sul depois de haver por muito tempo administrado as -aldeias dos Ilheos e da Bahia. Bem que este Missionario não possa, pela -importancia de documentos, comparar-se a Gabriel Soares,[AH] a quem se -deve recorrer sempre que se queira, ter ideia exacta da nacionalidade dos -indios, e da emigração das suas tribus, comtudo muito se lhe assimelha -pelo seo estylo: como elle despresa os preconceitos, ama os selvagens, -e com animação pinta admiravelmente o indio na sua aldeia, dando-nos a -saber a grandesa, cheia de sinceridade, do seo caracter. - -A descripção do Padre Ivo d’Evreux não é, somente, mais um documento de -grande importancia, que se ajunta á historia do Brasil com o fim de -provar unicamente factos tendentes á fundação da Cidade de S. Luiz e sim -para os francezes tem outro genero de merecimento. - -Pela sincera elegancia de sua dicção, pela cor habilmente destribuida -de seo estylo, pela perspicacia de suas observações, e, pode tambem -dizer-se, pelo sentimento apurado das bellesas da naturesa, que mostra o -seu autor, ella pertence á serie de escriptores francezes, continuadores -da epocha de Montaigne, e prognosticadores do grande seculo. Ivo -d’Evreux, si fosse lido, teria nesse tempo influido, como alguns annos -antes, João de Lery, que descreveo scenas analogas áquellas que elle tão -bem soube pintar. Claudio d’Abbeville, escriptor muito menos habil do que -elle, foi o continuador d’esta influencia litteraria. - -Si no retiro, por elle escolhido, e que cremos, não sem fundamento, ter -sido em Ruão ou Evreux, ou mesmo no arrebalde de Sant’Eloy, soubesse o -Padre Ivo qual foi a sorte definitiva dos seos charos indios, sua alma se -teria entristecido profundamente. - -Depois de expulsos os francezes, foi Jeronymo d’Albuquerque nomeiado -capitão-mór do Maranhão sendo Francisco Caldeira Castello Branco -designado para continuar os descobrimentos e conquistas nas regiões do -Pará. - -Dos esforços combinados destes dois officiaes resultou a fundação da -risonha Cidade de S. Luiz e da de Belem. - -Estas duas Cidades edificaram-se pacificamente, sem opposição alguma da -parte dos indios, que até ajudaram os consideraveis trabalhos, exigidos -para a construcção d’ellas, e muitos d’elles acompanharam até um Official -chamado Bento Maciel ás margens do rio Pindaré em busca de immensas -riquezas metalicas, que se desconfiava existirem por ahi algures: fatal -expedicção, cujo resultado foi somente a destruição dos Guajajaras. - -Os Tupinambás inegavelmente não eram mais hostis aos portuguezes, e -viviam sob a direcção de Mathias d’Albuquerque, filho do governador; -mas nem por isso deixavam elles de lastimar a ausencia de seos antigos -alliados. Ja não residiam nos arrebaldes da cidade nova, e sim no -districto de Cumã em numerosas aldeias. Indo um dia o seo chefe europeo -ter com seo pae, que o mandou chamar, passaram por Tapuitapera alguns -indios vindos do Pará, trasendo cartas para o capitão-mór de S. Luiz. Um -Tupinambá convertido ao christianismo, por nome Amaro, aproveitou-se da -passagem dos seos compatriotas para executar um plano terrivel. - -Tomou uma das cartas, abrio-a, e fingindo lel-a[AI] dirigio-se aos -chefes das aldeias, e declarou-lhes que o fim d’estas missivas era uma -abominavel trahição, urdida pelos portuguezes, que tinham resolvido, -atreveo-se elle a dizer, reduzil-os á condicção d’escravos. - -Terrivel carnificina, onde pereceram todos os brancos, foi o resultado -d’esta astucia do indio, bem facil de ser acreditada á vista dos -acontecimentos precedentes. - -Espalhou-se pelo littoral a noticia d’este facto. Mathias de Albuquerque -promptamente regressou ao campo onde se deram scenas tão tristes, e -vingou seos compatriotas exterminando sem piedade os Tupinambás. - -As tribus, que moravam mais longe, insurgiram-se, e formaram entre si -indissoluvel alliança, animando-as implacavel vingança, apezar de serem á -principio tão pacificas, e de se acharem tão dispostas á abraçar a nova -fé, que lhe tinha prégado o Padre Ivo d’Evreux. Levantaram-se tambem, e -espontaneamente, aldeias mui longinquas. - -Jeronymo d’Albuquerque expedio contra ellas tropas aguerridas, e em -breve o incendio e a morte substituio as festas, que faziam com toda a -segurança e boa fé. - -Tinham apenas passado tres annos depois da partida dos capuchinhos -francezes, e por isso era no principio do anno de 1617. A Cidade de S. -Luiz do Maranhão, activamente edificada, começou a tomar o aspecto de uma -Cidade européa. - -Este progresso inquietava os selvagens, que á custa de seos soffrimentos -tornaram-se previdentes; forçados á deixar o sul do Brazil procuraram -grandes florestas, e abrigados em seos seios esperavam recobrar sua -independencia, e para isto só tinham um pensamento—a destruição completa -de uma raça invasora, que não poude ser expellida pelos seos antepassados. - -Formaram os chefes Tupinambás uma liga desde os desertos de Cumã até ás -margens do Amazonas: pretendiam assaltar de surpreza a nova colonia, -e n’um dia convencionado matariam todos os habitantes. N’esse tempo -não havia quasi indio, que não arrostasse sem medo as descargas de -mosquetaria. - -Em quanto se ouvia este plano, e se trabalhava na sua execução, estava -em Tapuitapera Mathias d’Albuquerque, com pequeno numero de soldados, -descuidado de si e dos seos: entre os indios appareceu um trahidor, que -descobrio o projecto dos chefes dos selvagens ao commandante portuguez, -que não se assustando com o numero dos seos terriveis inimigos, travou-se -com elles no primeiro combate, e levou-os de vencida até á distancia de -50 legoas, ajudado em tão atrevida acção pelo bravo official Manoel Pires. - -Ainda vivia, porem bem proximo do termo de sua existencia o antagonista -de Razilly e de la Ravardière: sem sahir da nova Cidade de S. Luiz muito -ajudou seo filho com seos conselhos e com remessa de soldados que tinha -em reserva. - -Não se assustou Mathias de Albuquerque com as difficuldades de todo o -genero, que encontrava seo pequeno exercito n’esses immensos desertos; -foi batendo os indios pouco á pouco até que em 3 de Fevereiro de 1617 -derrotou-os completamente, e obrigou-os a procurar refugio no seio das -florestas. Só então, depois de exterminadas as tribus mais temiveis, é -que o velho general se recolheo á Cidade de S. Luiz, e o que elle havia -feito nos desertos do Maranhão tinha tambem posto em pratica Francisco -Caldeira nas solidões do Pará, onde se edificava a Cidade de Belem. - -Não eram estes, por certo, os sonhos de Ivo de Evreux e de seos tres -companheiros para com o Maranhão: em suas almas haviam imaginado a -fundação de uma Cidade nova, onde os corações innocentes dos indios se -lhes reuniriam para em commum louvar o Deos da paz. Ordens de exterminio, -em vez de orações, faziam em redor dos colonos um deserto que causava -terror. Seriamos injustos, se não dissesemos, que os Religiosos trasidos -por Jeronimo d’Albuquerque continuaram a missão dos Padres francezes. -Como Ivo d’Evreux e Claudio d’Abbeville, os Padres portuguezes Frei Cosme -de São Damião e Frei Manoel da Piedade, eram da Ordem dos Capuchinhos -desde 1617, isto é, desde o momento em que a guerra se tornou mais -cruel, e Bourdemare publicou seo livro: á Corte de Madrid pediram -religiosos activos, acostumados a todas as fadigas, e por isso capazes -de affrontal-as e de os ajudar. No dia 22 de julho chegaram mais quatro -religiosos a essas terras, não para o pequeno Convento de São Luiz, e sim -foram residir nas circumvisinhanças da Cidade de Belem, e d’ahi começou a -cathequese no Pará.[AJ] - -Não se sabe com certesa, se estes factos historicos, que de ora em diante -terão lugar importante nos _Annaes do Brasil_, chegaram aos ouvidos dos -missionarios dedicados que tantas fadigas soffreram para a conversão -dos indios; a Europa gastou mais de dois seculos olhando para elles -com indifferença, e ainda passaram mais vinte annos depois d’elles -terminados, para então ver-se a continuação corajosa da obra dos seos -antecessores[AK] por alguns Capuchinhos do Convento de Pariz: n’esse -tempo estava Ivo d’Evreux bem proximo do termo de sua existencia, se é -que ja não se tinha acabado tão dura perigrinação para elle. - -Tudo emfim estava acabado para os povos, nossos fieis alliados por algum -tempo, e aos quaes procuramos fazer comprehender as luzes do Evangelho. -Achavam-se ja embrenhados nas margens desertas do Xingù, do Tocantins, e -do Araguaya: ahi, bem longe dos colonos europeos se perpetuaram sob os -nomes de _Apiacas_, de _Gés_ e de _Mundurucus_, outrora tão temidos e -hoje tão pouco, e até pelo contrario favorecidos por uma administração -humana.[AL] - -Estes primitivos senhores do Brasil fallam ainda o idioma puro dos -Tupys, cujos vestigios nos foram conservados por Ivo d’Evreux e Thevet, -e especialmente por João de Lery, antes de ter reunido por meio de -laboriosas fadigas os elementos do seo livro. - -Foi nas margens destes grandes rios, ja citados, que ha quarenta annos o -illustre Martius observou tantas tribus desimadas. - -Ainda agora se lastimaria muito o sabio viajante sabendo, que até hoje -ninguem colheo as ultimas lembranças, guardadas como legado por esses -indios. Quando o governo brasileiro pensou, ha pouco tempo, na creação -d’uma commissão scientifica, composta de sabios nacionaes, encarregada de -visitar os pontos mais longinquos d’esse immenso Imperio, que não conta -menos de 36° do Oriente ao Ocidente, forão o Ceará, o Maranhão, o Pará -e o Rio de Janeiro os primeiros lugares designados para a exploração. -Comprehendeo muito bem, que se havia nestas terras virgens admiraveis -productos da natureza a colher, tambem existia uma mythologia e uma serie -de tradicções historicas á salvar-se do esquecimento, em quanto Freire -Allemão, Capanema e Gabaglia faziam collecções de preciosos materiaes -sobre historia natural, geographia e meteorologia, que formaram o objecto -d’uma vasta publicação.[AM] - -Um poeta historiador, estimado pelo seo paiz, corajosamente embrenhava-se -n’essas solidões incognitas para conhecer os segredos da vida intima -dos indios. Antonio Gonçalves Dias, nascido no interior da provincia do -Maranhão, familiarisado desde a infancia com as legendas americanas, -fallando a _lingoa geral_, incumbia-se de alguma forma da execução do -programma de Martius. - -Bem cedo as legendas americanas, não nos animamos a dizer os mythos -religiosos dos grandes povos do littoral, nos appareceram, taes quaes tem -sido perpetuadas no interior, (graças talvez ao exilio) e quando chegar o -momento de estudar-se com afinco a ethnographia, então se comprehenderá -todo o valor das narrações sinceras de Lery, de Hans Staden, e de Ivo -d’Evreux. - -Seria injustiça muito censuravel o negar-se as antigas tentativas feitas -pelos Religiosos portuguezes para a cathequese dos povos selvagens, -habitantes das regiões do Amazonas: graças a elles, em 1607, principiou -a exploração do Maranhão por essas viagens, corajosamente emprehendidas -por Missionarios vindos dos Conventos de Pernambuco. Estas tentativas -não foram perdidas para a geographia, mas quanto ao proveito do -Christianismo, ellas se terminaram em um martyrio inutil. Mais tarde, sem -duvida, a obra dos Figueiras e dos Pintos produsio seos fructos, assim -como os grandes trabalhos evangelicos suavisaram a posição dos indios do -Maranhão.[AN] - -Foi ainda um escriptor francez, quase desconhecido, contemporaneo dos -nossos bons missionarios, que com muito zelo, e pode até dizer-se com -cuidado verdadeiramente piedoso, traçou o _itinerario_ seguido por estes -homens corajosos, de tempo do Padre Ivo, e sem duvida seos conhecidos, -mas que não possuiam nem a bondade e nem a sinceridade d’elle.[AO] - -Conta-nos Pedro du Jarric como as immensas regiões do Brasil, cubiçadas -pela França, foram percorridas por dois Religiosos de sua Ordem, quase no -mesmo tempo, em que Ravardiere pela primeira vez explorava o littoral. - -N’essa occasião Francisco Pinto e Luiz Figueira tinham grande vantagem -moral sobre os francezes, porque sabiam muito bem a lingoa dos povos, que -buscavam converter. - -Muito mais moço do que o seo companheiro, martyr no apostolado, o Padre -Luiz Figueira iniciou-se, então mais do que nunca, nos segredos de uma -lingoa, já visivelmente alterada no littoral, porem pura no seio das -florestas. - -Cinco annos após a impressão do volume do Padre Ivo, elle publicou a -sua _Arte de Grammatica_, e pela primeira vez depois de alguns ensaios -incompletos do seculo XVI conheceu-se os principios de um idioma, que -ainda fallava um povo corajoso, porem prestes a morrer.[AP] - -Voltemos ao nosso piedoso viajante. - -Se vivesse ainda, como é bem provavel, alem da epocha em que se deram -estes acontecimentos, em 1619 por exemplo, Ivo d’Evreux certamente não -fazia mais parte do grande Mosteiro d’onde outrora sahio com destino ao -novo mundo. - -Póde suppôr-se, que o seo homonimo de Pariz principiava a eclipsal-o, e -por isso vivia elle longe da grande Communidade: se residisse no Convento -da rua de Santo Honorato, não é provavel que fosse de todo esquecido -nas pequenas biographias, escriptas tão liberalmente á respeito de -Religiosos, que nada escreveram, como seja, entre outros, Ivo de Corbeil, -simples irmão leigo, fallescido em 1623, apenas conhecido na Ordem pelo -seo amor á humanidade. - -Temos alem d’isto a certesa de ter se recolhido o Padre Ivo d’Evreux -ao modesto Convento de sua terra natal: em 1620 estava elle em Santo -Eloy,[AQ] e suppomos ter escolhido esta residencia por ser proxima ao -Convento de Andelys. - -N’estas ferteis campinas, onde se despertou o genio de Poussin, ainda o -nosso bom Missionario teve descanço bastante para admirar os risos da -natureza e a frescura das paisagens. - -É possivel que em outra occasião tivesse elle oportunidade para -conservar-nos suas minuciosas observações, que hoje talvez o fizessem -distincto naturalista, mas depois da emoção impressa em seo pensamento -pela magestosa solidão das florestas seculares do Brasil, somente se -deixou captivar pelas calorosas discussões da theologia. - -Um livro ainda difficil de ser obtido (a cada momento topamos com -raridades tão difficeis de serem alcançadas como a _Viagem_) nos prova, -que no seo retiro não poude resistir ao espirito do seculo. - -Não tendo mais indios a converter se pôz a discutir com protestantes, e -coisa estranha, foi um dos seos compatriotas, personagem muito estimado -pelos seos correligionarios, a quem elle atacou ou talvez a quem -respondeu somente. - -Ignoramos o titulo do primeiro opusculo, que elle arremessou ao seu -adversario, porem um sabio bibliographo da Normandia, o Sr. Frére, nos -deo o segundo, para nós uma especie de revelação. - -É este o titulo do folheto «_Supplemento necessario ao escripto que o -Capuchinho Ivo fez imprimir relativamente as conferencias entre elle e -João Maximiliano Delangle_.» Ruão, David Jeuffroy. 1618 em 8.º[AR] - -Este escripto, attribuido pelo douto bibliographo ao nosso missionario, -bem puderia não ser devido á sua propria penna, porem prova o -apparecimento de outra obra mais desenvolvida, e a existencia de serias -discussões oraes entre elle e os dissidentes. Mais agradaveis sem duvida -lhe foram sinceras discussões, que havia pouco tempo teve com Japi-Açu na -Ilha do Maranhão, onde as continuas predicas feitas no Forte de S. Luiz, -em presença de grande assembleia de indios, somente eram interrompidas -pela severa polidez, que lhes prescrevia escutar o orador em quanto -quizessem que elle fallasse, circumstancia, diga-se de passagem, que bem -poderia em algumas occasiões enganar um zeloso missionario sobre o exito -de seos esforços. - -Ivo d’Evreux então achava-se a braços com um dos homens mais firmes e -mais estimados entre os protestantes, e o escripto do Religioso foi -denunciado ao parlamento. - -João Maximiliano de Baux, senhor de Langle, era um ministro, joven, -ardente, natural de Evreux como o Padre Ivo, morador em Quevilly, pequena -Cidade de 1:500 a 1:600 habitantes á pequena distancia de Ruão.[AS] - -Ignoramos qual o objecto da discussão, e embora todas as nossas -deligencias não vimos uma só peça do processo, porem é certo que o ultimo -escripto, revelado pelo Sr. Frère, excitou de maneira notavel a attenção -da autoridade, porque em 8 d’Abril de 1620 proferio o parlamento uma -sentença a esse respeito condemnando David Jeuffroy a pagar uma multa de -50 libras por haver publicado sem licença previa o livro denunciado.[AT] -Como se vê, não alcançou esta decisão o nosso Missionario, e sim -limitou-se ao impressor, por elle escolhido, embora contenha uma censura -indirecta ao livro suppondo-se, que o nosso bom Missionario, pelo ardor -da questão, se deixasse arrebatar a ponto de fazer allusões pessoaes -dignas de censura. - -Á este respeito havia pouco escrupulo em 1618, e afinal se pensava que -seria interrompida a carreira do joven ministro, atacado pelo Padre Ivo: -bem longe d’isto, porque em 1623 foi pelos seos correligionarios nomeado -deputado ao synodo nacional de Charenton, e quatro annos depois tambem -fez parte do da Normandia, na villa de Alençon. - -De 1620 em diante perdemos todos os vestigios do Padre Ivo d’Evreux; -comtudo muitos escriptores ecclesiasticos depois d’isto registaram seo -nome em seos vastos obituarios, multiplicando erros, e assim provando que -nunca viram a obra do Padre Ivo. - -Boverio de Salluzo,[AU] Marcellino de Piza,[AV] Wading,[AW] -ordinariamente tão exacto, o Padre Diniz de Gênes,[AX] ou só dão -particularidades geraes, mui approximadas relativamente á sua obra, sem -mencionar a data d’ella, ou grosseiramente alteram o millesimo do anno da -impressão. Este ultimo, por exemplo, diz que foi em 1654, erro bem claro, -proveniente d’um primeiro erro typographico, repetido por Masseville,[AY] -e até por Moreri Normando.[AZ] O Padre Francisco Martin, da Ordem dos -Franciscanos, cujo manuscripto se guarda em Caen, por seo motu proprio a -colloca no anno de 1659, dando sempre como lugar da impressão a cidade de -Ruão. - -O _Epithome da la bibliotheca oriental y occidental_ de Leon Pinello, -livro reeditado por Barcia no seculo XVIII, é o unico, que n’aquelle -tempo mencionou com exactidão a _Viagem_, que reimprimimos, embora o seo -titulo fosse tão alterado pelo bibliographo hespanhol a ponto de por -elle ser difficil reconhecer-se o habil continuador do Padre Claudio -d’Abbeville, devido isto a influencia de Diniz de Gênes.[BA] - -Quasi que temos certesa, á vista dos manuscriptos doados pelo grande -Convento da rua de Santo Honorato, de ter vivido o Padre Ivo d’Evreux -alem de 1629, já esquecido porque n’aquelle tempo havia firme proposito -de desviar o Rei de Hespanha das tentativas feitas, não havia muito, á -respeito do Maranhão. - -É verdade, que os antigos chefes da expedição não poderam renovar tão -vasta empreza, onde se achavam seos maiores interesses. - -Embora a estima, que parecia gosar na corte o Almirante Rasilly, foi mal -succedido em todos os seos projectos com este fim, e depois que o bravo -Ravardiere, preso no Castello de Belem, recobrou a sua liberdade, nunca -mais regressou á America do sul. - -Apparecem ainda estes dois nomes na historia da nossa marinha[BB] e de -maneira gloriosa, porem na Africa, n’essas praias doentias, onde para -segurança do commercio deviam ser castigados de vez em quando atrevidos -piratas. - -Ravardiere, como acabamos de vêr, empregou gloriosamente os ultimos annos -de sua vida tão activa em favor do Christianismo, assim como já o tinha -feito em prol de sua patria, faltando-lhe apenas tempo para redigir a -Narração de suas viagens pela America do sul. - -Sabemos com certesa ter ordenado, que se escrevesse em 1614 um Relatorio -minucioso de sua expedição pelo Amazonas. Até nós não chegou esta -especie de jornal, que alem de esclarecer muitas coisas, seria tambem de -muito interesse para ser comparado com os documentos fornecidos n’essa -epocha por um francez, cujas viagens mereceo as honras da impressão. - -Na verdade, dez annos antes, no meiado de 1604, João Mocquet, o guarda -das curiosidades de Henrique IV e de Luiz XIII, percorreo as margens do -Amazonas, e exforçou-se para fazer conhecer aos seos compatriotas este -grande rio. Infelizmente este pobre cirurgião d’aldeia tinha mais zelo do -que luzes, e por isso não podiam ser suas observações confrontadas com as -de um homem, tão conhecido pela sua instrucção, como pela sua lealdade. - -A viagem de Ravardiere pelo Amazonas e Maranhão deve estar minuciosamente -descripta na grande chronica dos Padres da Companhia, existente em Evora. - -Consultando os sabios trabalhos bibliographicos do Sr. Rivara, n’elles -adquirimos esta certesa, pois o Cap. 111 d’este vasto _Cathalogo_ tracta -especialmente do dominio dos francezes n’essas regiões. Não podemos -pessoalmente examinal-o. Graças ao espirito investigador de tantos sabios -historiadores, ainda não perdemos de todo a esperança de encontrar o -escripto em questão. - -Diariamente emprega o Brazil os mais louvaveis exforços para colligir -documentos inedictos, fontes da sua historia, e se em alguma livraria por -ahi algures fosse descuberta a _Viagem_ de Ravardiere, serviria, com os -escriptos de Claudio d’Abbeville e de Ivo d’Evreux, de guia seguro para -se consultar relativamente a estas Provincias do norte, das quaes só se -conhecem as explendidas solidões, e cujo passado nos foi, para assim -dizer, revelado pelo nosso Missionario. - - -NOTAS - -[A] A ordem constitutiva do Mosteiro tem a data de 28 de Novembro. O -lugar da escolha foi concedido no anno precedente por Catharina de -Medicis aos Capuchinhos, vindos da Italia, e a doação foi confirmada por -Henrique III em 24 de setembro de 1574. Vide _Boverio_, Annali di Frati -minori. - -[B] O _Mercure-Galant_ deo á luz uma descripção, muito curiosa, da grande -botica do Convento. - -[C] Em 1617 contavam-se 655 Religiosos nas duas Custodias de Pariz e de -Roão, e entre elles 209 clerigos. - -Em 1685 haviam em França 5:681 Capuchinhos. - -[D] Não inventamos: um dos seos mais ardentes admiradores, tambem -Capuchinho, falla d’elle nestes termos: _Tantarum segete scientiarum, -factus est dives ut Galliæ Phœnix hac nostra ætate communiter sit -appelatus_. Vide o vasto Repertorio de Diniz de Gênes. _Bibliotheca -scriptorum ordinis minorum Sancti Francisci capucinorum._ - -Wading, mais moderado, contenta-se em chamar o Padre Ivo de -Pariz—_egregius concinnator, insignis Capuccinus_. - -O autor anonymo dos elogios manuscriptos dos Capuchinhos da Cidade de -Pariz não pôz limites ao seu enthusiasmo, quando disse: «a natureza -parece ter querido exgotar-se, quando cedeo a tão grande personagem tudo -quanto podia dar-lhe com abundancia de grandeza, tão rara quam admiravel.» - -Nasceo em 1590, Ivo de Pariz, tomou o habito religioso em 27 de setembro -de 1620, seis annos depois que o Padre Ivo de Evreux regressou doente do -Brazil, e afinal falleceo em 14 de ouctubro de 1678. - -Este religioso conseguio imprimir vinte e oito obras de sua lavra, cujos -titulos principaes vamos reproduzir seguindo a ordem chronologica de suas -publicações. - -_Os felizes resultados da piedade, ou os triumphos da vida religiosa -sobre o mundo, e contra a heresia._ 4.ª edicção, Pariz 1634. 2 vol. em 12. - -_Da indifferença._ 2.ª edicção. Pariz. 1640. em 8.º - -_A theologia natural._ Pariz. 1640-1643. 4 T. em 4.º - -_Astrologiæ novæ methodus et fatum universi observatum, a Franc Allaeo -Arabe Christiano._ Pariz. 1654. Temeo este Capuchinho, apesar de atrevido -e credulo, publicar este livro com o seo nome, e por isso deo-o á luz sob -o titulo _Fatum Mundi_. - -_Jus naturale rebus creatis á Deo constitutum_ etc. etc. Parisiis. 1658 -in folio. - -O _Fatum Mundi_ foi reimpresso em 1658, e no anno seguinte appareceu esta -obra. - -_Dissertatio de libro præcedenti ad amplissimos viros senatus Britanniæ -Armoricæ._ Parisiis. 1659. in folio. - -_Digestum sapientiæ in quo hebetur scientiarum omnium rerum divinarum -et humanarum nexus_ etc. etc. 1654-1659. 3 vol. in fol, reimpressos com -augmentos em 1661. - -_O Magistrado christão, coordenado pelo Padre Ivo, seo sobrinho._ Pariz. -1688 em 12. - -_As falsas opiniões do Mundo._ Pariz 1688 em 12 etc. etc. - -Vê-se, que não ha analogia alguma entre os estudos d’estes dois -Capuchinhos. - -Uma das obras do Padre Ivo de Pariz foi queimada pela mão do carrasco. - -[E] E não Silvére, como por descuido disse em sua biographia o veneravel -Eyriés. (Vid Mr. Prarond. _Les hommes utiles de l’arrondissement -d’Abbeville._ 1858—in 8.º) - -[F] Vid o Manuscripto da Bibliotheca mazarina, ja citada, que tem este -titulo «_Annales des R. P. Capucins de la Province de Paris, la mer et la -source de toutes celles de ça les monts._» N. 2879 pet in 4.º - -[G] Francisco de Bourdemare, ou Boudemard, natural de Ruão, deixou a -Provincia, onde gosava sua familia de muita consideração para em Orleans -fazer-se Capuchinho. Como noviço entrou no Convento d’esta Cidade, em 2 -de outubro de 1603, porem é muito provavel, que voltasse para a Normandia -antes de ir residir no grande Convento da rua de Santo Honorato. - -[H] O Padre Leonardo morreu em Pariz com 72 annos de idade, no dia 4 de -setembro de 1640. Antonio Fauro, seo pae, era conselheiro do parlamento -de Pariz. - -O livro dos _Elogios-historicos_, manuscripto da Bibliotheca Imperial, -o qualifica como «o maior homem, que ja teve, e que nunca mais terá, a -Religião dos Capuchinhos.» Encontra-se elle outra vez Provincial na rua -de Santo Honorato no anno de 1615. - -[I] Vide à respeito da expedicção protestante do Sr. Villegagnon, as -Relações circunstanciadas de Niculau Barre, de João de Lery e do Anonymo -conhecido por Chrispim. É certo que estabeleceram os Calvinistas seo -predominio na Bahia do Rio de Janeiro, porem á elle se podem oppôr -diversos pamphletos, escriptos por causa do Chefe da empresa. Estas peças -satyricas fazem parte das ricas collecções da _Bibliotheca do Arsenal_. - -[J] Como se verá em outro lugar, logo após a publicação da primeira -parte da viagem, a antiga expedição de Ravardière foi precedida pelas -de Riffault em 1594, e de De-Vaux, o companheiro d’este ultimo, que -misturando-se com os Indios dedicou-se muito ao descobrimento d’este paiz. - -[K] Julgamos dever reproduzir aqui o texto d’esta concessão renovada: não -conhecemos o primeiro. «Luiz, a todos os que virem a presente. Saude. -O defunto Rei Henrique, o grande, nosso muito honrado senhor e pae, a -quem Deos perdoe, tendo por Cartas patentes de julho de 1605 constituido -e estabelecido o Sr. de Revardiere de la Touche, seo lugar-tenente -general na America, desde o rio do Amazonas até a Ilha da Trindade, e -havendo elle feito duas viagens ás Indias para descobrir as enseadas e -rios proprios para o desembarque e estabelecimento de colonias, no que -seria bem succedido, pois apenas chegou n’esse paiz soube predispôr -os habitantes das ilhas do Maranhão e terra firme, os Tupinambás e -Tobajaras, e outros a procurarem nossa protecção e sugeitarem-se á nossa -authoridade, tanto por seo generoso e prudente procedimento, como pela -affeição e inclinação natural, que n’estes povos se encontram para com -a nação franceza, bem conhecida por elles pela remessa que fizeram dos -seos embaixadores, que morreram apenas chegaram ao porto de Caucalle, e -dos quaes teriamos ainda recebido iguaes protestos, segundo as narrações -feitas pelo Sr. de Ravardiere, tudo isto depois nos daria occasião de lhe -fazer expedir nossas Cartas patentes de outubro de 1610 para regressar, -como Chefe, ao dito paiz, continuar seos progressos, como teria feito, e -ahi demorar-se-ia dois annos e meio em paz, e 18 mezes tanto em guerra -como em treguas com os portuguezes etc. etc.» - -Guardamos para a proxima publicação do livro de Claudio d’Abbeville, de -que este é o complemento, todas as occorrencias politicas, relativas -á expedicção, e reservamos tambem para ella os traços biographicos de -Razilly, de Ravardiere e de Pezieux. - -[L] Pode-se ler tudo isto minuciosamente na _Carta de obediencia_ dada ao -Padre Ivo na _Chronologia historica dos Capuchinhos da Cidade de Paris_ -pag. 193. Tem a data de 27 de agosto de 1611, e começa assim: «_Venerando -in Christo Patri Ivoni Ebroiense predicatori ordinis fratrum minorum -Sancti Francisci Capucinorum, frater Leonardus pariensis ejusdem ordinis -in Provincia parisiensi licet immeritus salutem in domino, in eo qui est -nostra salus_». - -[M] Descançam seos restos mortaes no Brazil, pois foi o unico de seos -companheiros, que não voltou á Europa. O padre Ambrosio de Amiens, -pelos seos estudos, tinha-se distinguido na Sorbona, e quando ia -requerer licença para seguir a carreira da magistratura, ou dedicar-se -simplesmente á advocacia, resolveo em 1575 entrar na Ordem dos -Capuchinhos: foi um dos primeiros irmãos, que tomou o habito no Convento -da rua de Santo Honorato, onde por diversas vezes exerceo o cargo de -Guardião. - -Deve-se collocar entre os annos de 1584 e 1586 a epocha das corajosas -dedicações, em que elle afrontou os horrores do contagio para soccorrer -a população parisiense, que então lhe deo o sobrenome pelo qual era -conhecido. A sua idade, ja avançada, devia isental-o d’esta viagem, porem -não foi possivel resistir-se ás suas instancias, e nem a todos os meios, -que empregou para fazer parte d’essa missão, que foi de grande utilidade. - -Vêde o _Manuscripto_ da Bibliotheca Imperial intitulado «_Eloges -historiques de tous les grands hommes, et de tous les illustres religieux -de la Province de Pariz_.» - -[N] O Padre Honorato de Champigny morreo com cheiro de Santidade em 1621. - -[O] Sabemos d’esta obra por Guibert apenas, pois nenhuma outra -bibliographia especial a menciona. Bourdemare publicou suas observações -sob o titulo _Relatio de populis brasiliensibus_. Madrid. 1617 in 4.º -Leon Pinelli falla de Frei J. Francisco de Burdemar (assim escreveo -elle) como falla de Ivo d’Evreux por ouvir dizer. Affirma o _Livro dos -elogios_ ter emprehendido duas viagens á America, e afinal que morrera -como _forasteiro_ n’um dos Conventos da sua Ordem em Hespanha, um anno -antes da publicação do seo livro. Parece-nos, que a expressão pelo -biographo usada da palavra espanhola—_forasteiro_, quer dizer pura e -simplesmente—_estrangeiro_. - -[P] O Padre Arsenio de Pariz tambem não tardou em deixar o Brasil, porem -o triste resultado dos negocios do Maranhão não arrefeceu o seo zelo -pelas missões. Foi para o Canadá onde prégou aos Hurons depois de haver -convertido os Tupinambás. - -Foi Superior das missões da America do Norte por cinco annos e depois -morreo no grande Convento de Pariz, em 20 de Junho de 1645 contando 46 -annos de habito. É muito provavel, que tivesse por successor na America -o Padre Angelo de Luynes, Guardião de Noyon, pois foi Commissario e -Superior das missões do Canadá em 1646. - -[Q] O Convento dos Capuchinhos da Cidade d’Evreux foi edificado em 1612 -«na extremidade de um suburbio da cidade do lado do meio dia, devido -em parte aos cuidados e á liberalidade de João le Jau, então grande -penitenciario e vigario geral da diocese.» Vide _Histoire civile et -ecclesiastique du comté d’Evreux_, pag. 365. O abbade Lebeurier, cujas -luzes e zelo archiologico são conhecidos, prestou-se a fazer a este -respeito todas as pesquizas possiveis, porem, infelizmente, debalde. - -[R] O manuscripto que temos á vista, e que dá conta summaria da viagem -de Arcanjo de Pemuroke, não nos diz claramente o nome da localidade -onde saltaram os Missionarios, e por isso nos limitamos a transcrever a -narração do seo desembarque: «foram alguns soldados á terra, e acharam -diversos obstaculos, que nos pareceram máos prognosticos, como fossem -alguns portuguezes e um sacerdote secular, que assolavão os gentios -contra os francezes, e do _Forte_ souberam nossos soldados, que os -portuguezes projectavam tomar a costa do Maranhão, e d’ella expellir -os francezes, o que fez suspeitar aos Padres que poucos fructos aqui -colheriam:» _Ms. da herdade dos Capuchinhos da rua de Santo Honorato_. - -[S] Circumscripto a um pequeno quadro, apenas podemos dar mui -summariamente a descripção dos acontecimentos, que deram em resultado o -abandono do Maranhão pelos francezes. - -Acabou-se tudo em 21 de novembro de 1614, depois da batalha onde falleceu -o infeliz Pézieux. - -Alem da grande _Memoria_ publicada pela Academia Real das Sciencias de -Lisboa á respeito d’esta expedicção, encontram-se mais amplas informações -sobre este periodo da historia do Maranhão e suas missões pelos Jesuitas -na vasta e preciosa publicação do Dr. A. J. de Mello Moraes, intitulada -«_Corographia historica, chronologica, genealogica, nobiliaria e politica -do Imperio do Brasil_.» (Vide o Tomo 3º, publicado em 1860). - -[T] Sua morte está marcada nos _Obituarios_ da Ordem no dia 29 d’Agosto -de 1632, isto é, no anno em que foi celebrado o tractado de Castelnaudary. - -Contava n’esse tempo 47 annos de Religião, e n’ella sempre foi conhecido -pelo _Religioso escossez_, embora pertencesse realmente a uma familia -gaulesa. - -[U] Ordinariamente calam os historiadores esta ultima circumstancia, e -não se encontra nem se quer referida summariamente e sem commentarios -senão na collecção diplomatica (Quadro elementar) do Visconde de -Santarem. A Carta authographa, que prova o captiveiro de Ravardiere -existe na _Bibliotheca da rua Richelieu_, onde a vimos. Ella contraria, -repita-se, o que se passou um anno antes no campo de Jeronymo -d’Albuquerque. Está escripta com muita moderação, e foi derigida a M. de -Puysieux (Vid _fonds franç._—Nº 228—15 p. 197.) - -[V] Informações inexactas sem duvida fizeram com que Mr. Ferdinand Diniz -mencionasse aqui este facto, nunca acontecido.—Do traductor. - -[W] Lembro-me com prazer duma delicada expressão do sabio Augusto de -Saint Hilaire. - -Lery, como se sabe, viajou pelo Rio de Janeiro no tempo de Villegagnon, -isto é em 1556. A primeira edicção da sua interessante narrativa -somente appareceu em 1571. Nosso Ivo d’Evreux, cujo estylo tem tantos -pontos de contacto com o d’este escriptor, leria seo livro? N’elle nada -encontramos, que nos leve a responder pela afirmativa. Multiplicaram-se -porem as edicções de Lery e a tal ponto, que a quinquagesima e ultima foi -em 1611. - -[X] Este projecto de dupla aliança entre as duas corôas ja era de 1612, -porem foi annunciado officialmente em 25 de Março do mesmo anno, mas só -foi executado d’ahi ha tres annos. - -Partiram os Missionarios a 19 de Março. Os esponsaes do rei de França com -a infanta ainda não preocupavam os espiritos como depois aconteceo, por -exemplo, em 1615. - -Todos os factos relativos aos dois reinados são minuciosamente descriptos -no livro intitulado «_Inventaire generale de l’histoire de France par -Jean de Serre, commençant á Pharamond et finissant á Louis XIII_. Paris, -Mathurin Henault, in 18. (Vid o T. VIII). - -[Y] Podia ainda ver-se, ha alguns mezes atraz, na casa de um vendedor de -curiosidades, da rua do Petit Leon, um desenho attribuido a Luiz XIII, -quando menino, representando muito bem a figura d’um Tupinambá enfeitado -com pinturas exquisitas. - -[Z] Devo ainda a Mr. Ferdinand Diniz a seguinte communicação, feita em -carta, por mim sempre muito presada, de 16 de setembro de 1873. - -«O segundo exemplar conhecido da obra do Padre Ivo d’Evreux pertence ao -Sr. Dr. Court, habil e zeloso bibliographo e possuidor, por sua fortuna, -de grandes raridades. - -«Tive em minhas mãos este precioso exemplar, que custou 800 francos. - -«Tem mais duas ou tres folhas do que o da Bibliotheca Imperial. - -«O feliz possuidor do exemplar conhecido mora em Pariz, _rue du Centre n. -4_; actualmente anda viajando em beneficio da saude alterada de um seo -irmão, porem quando elle voltar, irei de novo visitar seo thesouro.»—Do -traductor. - -[AA] É geral a obscuridade, que reina sobre a biographia d’estes antigos -viajantes, tão importantes debaixo do ponto de vista da historia. O -veneravel Eyriés, que citamos as vezes, é bem pouco baseiado em suas -ideias, por exemplo, quando affirma que Claudio d’Abbeville viveo -até 1632, quando os Manuscriptos da casa de Santo Honorato o dão por -fallecido em Ruão no anno de 1616 com 23 annos de religião. - -Tambem não é exacto o attribuir-se-lhe a _Vida da bemaventurada Coletta_, -virgem da Ordem de Santa Clara, pois appareceo este livro em 1616, em -12, e em 1628 em 8º: as iniciaes, que traz no frontespicio bem poderiam -evitar este engano, na verdade pequeno. - -O opusculo, de que estamos tractando, acha-se na _Bibliotheca do -Arsenal_, onde o examinamos. - -[AB] Essa compilação, verdadeiramente curiosa, começou em 18 de novembro -de 1709, e se compunha outr’ora de 3 vol. em 4.º. O T. 1º, infelizmente -perdido, continha os _Annaes da Provincia_, e provavelmente ficamos -privados de algumas preciosas particularidades sobre a missão do Padre -Ivo: tinha o titulo de—_Capuchinhos da rua de Santo Honorato_, 4.º (Ter.) - -[AC] O Padre Pascoal d’Abbeville foi eleito 19º Provincial do Convento -da rua de Santo Honorato: a divisão havida em 1629 foi provavelmente por -causa do numero sempre crescente de Religiosos nos tres Conventos de -Pariz. - -[AD] Em geral não são conhecidos estes versos de Ronsard, derigidos ao -fundador da França antarctica, a essa personagem voluvel, ora huguenote, -ora fervoroso catholico; cujas severidades excentricas Lery evitou -fugindo para as mais longinquas florestas: - - Douto Villegaignon, como te enganas! - Tu pretendes em vão tornar ameno - D’America o viver estranho e rude... - Acaso não vês tu que a nova gente - Tão nua é no trajar como no peito - É nua de malicia?—que não sabe - Ao vicio e á virtude o nome ao menos? - —Que não sonha com Reis nem com Senados, - E, isenta do temor, das leis ao jugo, - Á mercè das paixões a vida passa? - Ignoras, por ventura, que ahi mostra-se - Cada homem de si livre senhor; - e Leis, Senádos, Reis, em si resume? - Não é a terra e o ar commum a todos? - Vê-se, áquella, cobrir ferro importuno - O seio virginal de longos sulcos?... - Commum é tudo ahi, como dos rios - São as aguas perennes que trasbordam - Sem processo intentar de plena posse. - Oh, não queiras, por isso, dessa gente - O repouso turbar dos velhos usos! - Si ha remorso em tua alma, em paz os deixa; - Não procures, p’ra os campos estenderem. - Ensinar-lhes á terra pôr limites! - Choverão os processos, e a fraude - Á amisáde terá então de unir-se! - Logo após, d’ambição o duro espinho - (Como a nòs acontece, desgraçados!) - Tormento lhes será—negro, incessante. - —Seu repouso não quebres: são felizes; - Elles gosam na terra a edade d’oiro. - - (Traducção do Sr. J. T. de Souza.) - -[AE] Vide a «Correspondencia e a Collecção Peiresc.» - -[AF] Este estimavel escriptor deo d’isto uma prova no seo poema da -primeira semana, somente impresso em 1610 embora fallecesse seo auctor em -1599. - - Ja o ardente Cocuyo á Nova Espanha - Vai nas azas dois fachos conduzindo, - Outros dois flamejando ergue na fronte. - Á luz d’este esplendor de regios leitos - Nos cortinados arabescos pintam-se, - Á luz d’este esplendor em noite negra - O habil artesão o marfim pule, - Conta o avaro, no cofre, seu thesouro, - Veloz o escriptor a penna guia. - - Traducção do Sr. J. T. de Souza. - -[AG] _Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuitica pela Bahia, -Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, etc. escripta -em duas cartas ao Padre Provincial em Portugal_. Lisboa. 1847 em 8.º - -[AH] _Tratado descriptivo do Brasil em 1587_, etc. Rio de Janeiro, 1851 -em 8.º Foram estas duas obras exhumadas pelo Sr. F. A. de Varnhagem, -historiador tão conhecido do Brasil. Esta ultima obra, de que existe um -Manuscripto na _bibliotheca imperial_ de Pariz foi tambem reproduzida -por seo habil edictor na _Revista_ trimensal. Morreo Gabriel Soares em -1591 n’uma praia deserta, após deploravel naufragio: como se vê foi quasi -contemporaneo de Ivo d’Evreux. - -[AI] Affirma Berredo ser este indio um amigo dedicado dos franceses, -porem melhor informado o _Jornal de Timon_ nos deo o nome deste selvagem, -educado nas missões do Sul. Ja se vê, que não podia ter muita affeição -aos francezes. - -Para urdir este horrivel estratagema, basta somente o odio, que nutriam -certos indios contra os dominadores do seo paiz, não sendo necessario ser -filho de Ruão ou de Rochelles. - -[AJ] Vide _Berredo, Annaes historicos do Maranhão_, e tambem o _Jornal de -Timon_ de J. Lisboa, ns. 11 e 12, 1858, Lisboa. Diz este escriptor ter -fallecido Jeronimo d’Albuquerque em 1618 succedendo-lhe no governo seo -filho Antonio d’Albuquerque. - -[AK] Partiram para Goiana em 1635 os Missionarios da Ordem dos -Capuchinhos, cujos trabalhos podem ser vistos nos manuscriptos legados -pelo grande Convento de Pariz. - -[AL] Vide a respeito d’estes povos a rapida visita, que lhes fez -Castelnau em 1851: _Expedicção scientifica nas partes centraes d’America -do Sul_. T. 2º pag. 316. - -[AM] Vide _Trabalhos da Commissão scientifica de exploração_. Rio de -Janeiro. Typ. de Laemmert—1862 in 4.º - -[AN] Na _Corographia historica_ do Dr. Mello Moraes encontram-se noticias -minuciosas sobre as missões dos jesuitas e administração dos indios no -Maranhão. Desde o principio do seo T. 3º teve este escriptor o cuidado -de confessar o immenso auxilio, que lhe prestaram as obras doadas ao -Instituto Historico do Rio de Janeiro pelo conselheiro Antonio de -Vasconcellos de Drumond e Menezes. Em suas longas viagens, o diplomata, a -quem se deve tão preciosas informações sobre a Africa, não se limitou a -estas investigações, pois ainda colheu muitos manuscriptos á respeito do -Brazil, que hoje servem de base ao historiador. - -Cego ha muitos annos, faz ainda muita honra á sua patria. - -[AO] Tres annos antes da partida dos Capuchinhos para Maranhão, o padre -du Jarric dedicava ao Rei menino o seguinte livro: «_Segunda parte -da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas tanto nas indias -orientaes como nos outros paizes descubertos pelos portuguezes, no -estabelecimento e progresso da fé christan e catholica, e principalmente -do que fizeram e soffreram os religiosos da companhia de Jesus para este -fim ate o anno de 1600_» pelo Padre Pedro du Jarric, da mesma companhia -em Bordeaux, Simon Mellange. 1610 em 4.º Tudo quanto diz respeito ao -Brazil acha-se n’este vasto resumo desde pag. 248 até 359, porem deve -procurar-se os factos curiosos, citados n’esta noticia no livro 5º do que -o auctor chamou _Historia das Indias Orientaes_, parte 3ª pag. 490. - -[AP] Desta primeira edicção, publicada em 1621, tornou-se, para assim -dizer, impossivel ser encontrado um sò exemplar. - -A segunda edicção sahio com o titulo _Arte de grammatica da lingua -brasilica do padre Luiz Figueira, Theologo da Companhia de Jesus_. -Lisboa, Miguel Deslande, anno 1687, pet. em 12.º O sabio bibliographo -portuguez o Sr. Innocencio Francisco da Silva não reproduz exactamente -este titulo, porem menciona uma edicção da Bahia em 1851 pelo Sr. João -Joaquim da Silva Guimarães, cujo titulo é muito extenso. - -A grammatica do Padre Anchieta—_Arte da grammatica da lingua mais usada -na costa do Brasil_, appareceo em Coimbra no anno de 1595, em 8º, e -d’ella em Portugal apenas se conhece um exemplar. - -[AQ] Santo Eloy, perto de Gisors, no destricto de Euro, é uma povoação de -381 habitantes, á 25 kil. de Andelys. - -Ha tambem Santo Eloy de Fourques, aldeia do Euro, a 25 kil. de Bernay. - -Estamos propensos a crer, que foi na primeira, onde residio o nosso -Missionario. - -[AR] Vide _Bibliographia Normanda_. - -Derigimo-nos directamente á douta officiosidade do Sr. Frère afim de -obtermos o conhecimento do _Supplemento necessario_, porem apesar de -constantes investigações vio-se na impossibilidade de nos dar outras -noticias alem das que colhemos em sua excellente obra. - -[AS] Quevilly, _Clavilleum_, povoação do Senna inferior, distante de Ruão -apenas 6 kil. e faz parte do districto de Grande Couronne. - -[AT] Mais tarde foi chamado Maximiliano de Baux para encarregar-se -da egreja do culto reformado em Ruão, viveo até a idade de 84 annos, -e falleceo em 1674 deixando reputação de homem recto, e de costumes -austeros. - -Vide os irmãos Haag, a _França protestante_. - -[AU] _Cupucinorum Annales_. Lugduni, 1632, em fol. e depois a traducção -italianna—_Annali di Fratri minori Cappucini_ etc. Venetia 1643 em 4.º - -[AV] _Annales seu sacrarum historiarum ordinis minorum sancti Francisci -qui Capucini nuncupantur_ etc. Lugduni. 1676. - -[AW] _Annales ordinis minorum_. 2.ª edic., Roma, 1731. Depois os -_Scriptores ordinis minorum_. 1650, em fol. - -[AX] _Bibliotheca scriptorum ordinis minorum_, Genova, 1680 em 4.º, -reimp. em 1691 in fol. Este ultimo depois de algumas linhas, em que -fallou do merecimento de _Ivo Ebroycensis, vulgo de Evreux_, dá tambem -noticia do seu livro: _scripsit gallicé Relationem sui itineris et -navigationis sociorum que Capucinorum ad regnum Marangani: cui etiam -adjunxit historiam de moribus illarum nationum_. Rothomagi. 1654. Vid T. -1º em 4.º - -[AY] _Historia da Normandia_. T. VI pag. 414. Masseville prova com toda -a evidencia ter se contentado com traduzir o Padre Diniz de Gênes, pois -disse ter o nosso Missionario, «dado uma Relação geographica das regiões, -por onde se embrenhou, e particularmente do paiz do _Marangan_». _Regni -Marangani_, escreveo seo predecessor. - -[AZ] Vede este precioso manuscripto na Bibliotheca de Caen. Uma -bibliotheca americana organisada pelo coronel Antonio de Alcedo. -Madrid. 1791, 2 vol. em 8º, não menciona o Padre Ivo, causando-nos tal -omissão pouco desgosto, á vista de se dizer ahi haver o Padre Claudio -d’Abbeville, seu companheiro, convertido com infatigavel zelo os -selvagens do Canadá! - -[BA] A primeira edicção do _Epitome_, hoje rarissima por ter sido -suprimida por ordem da Inquisição, só traz no seu titulo aberto a -gravura o anno da impressão 1629 e o nome de _Antonio de Léon_, e -não o de Pinelo. Não falla de Ivo d’Evreux, isto é, deste livro, que -pertence a Bibliotheca de Santa Genoveva. Na edicção em 3 vol. pequenos -em fol., por Barcia, assim menciona invertendo o seu titulo: _Fr. Ivon -d’Evreux, capuchino. Relacion de su viage al Reino de Marangano, com sus -companeros: historia de los costumbres de aquellas naciones_. Imp. em -1654 em 4º francez. - -[BB] Isaac de Razilly, cavalleiro da ordem de São João de Jerusalem, -primeiro capitão do almirantado de França, chefe d’esquadra da armada -real na provincia da Bretanha, foi nomeiado almirante da frota real, -em expedicção nas costas da Barbaria no anno de 1630, e adjunto de -Ravardière: em 3 de septembro d’esse mesmo anno estava elle em Safy -resgatando captivos. - - - - - CONTINUAÇÃO - - DA HISTORIA - - DAS COISAS MAIS MEMORAVEIS - - HAVIDAS EM - - MARANHÃO[1] - - NOS ANNOS DE 1613 A 1614 - - SEGUNDO TRATADO - - PARIZ. - IMPRENSA DE FRANCISCO HUBY - RUA DE SÃO THIAGO, NA BIBLIA DE OIRO, E NA SUA OFFICINA - NO PALACIO DA GALERIA DOS PRESIONEIROS - MDCXV - COM PRIVILEGIO DO REI - - - - -AO REI - - -SENHOR. - -O que eu pude por meios subtis saber á respeito do livro do Rvd. -Padre Ivo d’Evreux, supprimido por fraude e impiedade mediante certa -quantia dada ao impressor Francisco Huby,[2] ponho agora na presença -de V. Magestade, dois annos e meio depois do seu apparecimento, tão -injustamente supprimida apenas veio a luz, afim de que V. M. e a Rainha -sua Mãe, então regente, não visse a verdade tão clara, como ahi estava, e -fosse mais facilmente illudida sua boa fé, por meio de falsas informações -para que, contra suas santas e boas intenções, deixasse morrer a empresa, -mais cheia de piedade e honra, que então se podia executar no novo Mundo, -como se conhecerá tanto pela obra do Padre Claudio d’Abbeville, como por -esta, embora incompleta por faltar a maior parte do Prefacio e alguns -capitulos no fim. - -Praticaram estes actos com intenção de perder V. M. o titulo de Rei -Christianissimo forçando-o a abandonar os sacrificios, e as obrigações -contrahidas para com os novos christãos, a reputação de suas armas e -bandeiras, a utilidade vossa e de vossos subditos, proveniente de um -paiz tão rico e fertil, um porto tão importante como proprio á navegação -de longo curso, hoje deteriorado, e tudo o mais adquerido com muitas -despezas e cuidados. - -Para chegar-se a este ponto necessario foi recorrer á duas imposturas, -muito bem conhecidas por pessoas de bom senso: uma foi de dizer-se que -este paiz nada produzia, e nem tinha riqueza alguma, contra a verdade -geralmente sabida: a outra foi de serem os indios incapazes de receberem -a luz do Christianismo em opposição á palavra de Deos e á doutrina -universal da Igreja. - -Eis como, Senhor, acabou-se esta excellente empresa tão bem começada, -sendo tão triste resultado devido a fraude e a malicia d’aquelles, -que, desejando occultar seos defeitos, os atiravam sobre o paiz, que -por negligencia dos maus francezes, cuidadosos só do seo proveito e -interesse particular, se esqueceram do de V. M., embaraçando perda tão -notavel, ludibrio hoje de todas as nações estrangeiras, menoscabo de -vossa auctoridade real em toda a Europa, e de dôr a todos os vossos bons -subditos. Quando V. M. quizer sahir d’estas illusões, aconselhado por -pessoas honradas, e reconhecidas pelo seu zelo ao augmento da gloria -de Deos, e do vosso reinado, eu vos offereço ainda a minha vida e a de -meus irmãos, fazendo conhecer, com a nossa pouca pratica e experiencia, -por todos os cantos do novo Mundo, que em toda a christandade não ha um -Monarcha tão grande e poderoso, como um Rei de França, quando elle quizer -empregar não seo poder, e sim apenas sua authoridade. - -Eis, Senhor, tudo o que pode um dos vossos mais humildes subditos, que, -embora tenha soffrido, durante vossa minoridade, maos tractos, perda -de bens e de fortuna, ainda tem coragem bastante para vos servir com -dedicação. - -Estou certo de acolherdes meos serviços, e o voto solemne, que faço de -ser até o fim de minha vida, - -Vosso humillissimo e obedientissimo servo e subdito - - _Francisco de Rasilly_. - - - - -AO REI - - -SENHOR. - -A principal razão, que moveo os antigos a collocar entre os Deoses a -maior parte dos seos Imperadores, foi o espirito religioso d’elles -manifestado durante a vida. - -Coisa notavel na historia: ainda que alguns imperadores levantados -da infima classe até ao cume do poder, se tenham mostrado crueis e -sanguinarios para com seos subditos, comtudo alcançaram, após sua morte, -o nome de Deoses, tiveram Templos e altares, sacrificios e sacerdotes, -creados e nomeados pelo senado em virtude da piedade e da religião, que -conservaram inalteraveis no meio dos seos muitos defeitos. - -Estes monarchas, grandes em dominio e pequenos no conhecimento do -verdadeiro Deos, tinham innato em seo coração o amor pela Magestade -divina, de que são viva imagem todos os monarchas, e por isso lhes -pertence estender o reino de Deos como seos Loco-tenentes. - -Com esta intenção espalhavam arcos e tropheos, columnas e imagens para o -ensino da religião, e á posteridade legavam chapas e laminas de metaes -indistructiveis, como sejam o bronze, o ouro, e a prata, onde se viam -gravadas as suas imagens, e com ellas alguns vestigios da sua piedade, -cuja memoria o tempo não póde destruir. - -Antonino, o pio, assim deixou buriladas em bronze e prata, sua caridade -e religião representadas na imagem de uma mulher, vestida como Deosa, -tendo em frente um altar onde se achava um pouco de fogo ardendo -constantemente, e no qual ella derramava á todo o instante, como em -sacrificio, oleos odoriferos, mostrando com isto a Piedade e Religião, -que consagrava aos Deoses. - -Si a inclinação natural, sem o auxilio da graça e da luz sobrenatural, -podesse tanto no coração d’estes monarchas, o que podemos dizer e pensar -quando Deos inspira o coração dos reis illustrados e ricos da verdadeira -religião? - -Luiz 4.º, imperador, principe virtuoso e geralmente estimado á todas -as suas occupações preferia a Religião, e para animar todos os seos -subditos á imital-o, mandou cunhar o dinheiro com a figura de um templo -atravessado por uma cruz, e ao redor lia-se a inscripção—_Christiana -Religio_. - -O que excedeo, Senhor, a todos os Monarchas do Mundo, em piedade, e -religião, foi São Luiz, a honra dos francezes, e de quem herdastes sangue -e sceptro, nome e imitação de suas virtudes, porque não só empregou seos -thesouros e sua nobresa, mas tambem sua pessoa, atravessando mares, -(mares, que, como a morte, não fazem distincção quando querem involver -alguem nas suas ondas) afim de erguer a piedade e a religião, abatidas -pela crueldade dos infieis, e n’esta tarefa morreu. - -Até hoje ainda não houve seculo algum de Rei, tão parecido com o do -bom São Luiz, como o vosso, Senhor, e deixando á parte o que não vem a -proposito, eu tomarei somente este bello feito, com que imitastes sua -piedade e religião, para com esses pobres selvagens, desejosos em extremo -de conhecerem a Deos, e de viverem á sombra de vossas luzes, como sejam -os habitantes de _Maranhão_, de _Tapuytapera_, de _Cumã_, de _Cayté_, do -_Pará_, alem dos _Tabaiares_ e os _Cabellos-compridos_ e muitas outras -Nações, que muito ambicionavam aproximarem-se dos Padres, como direi -adiante. - -Tudo isto, Senhor, só vós podeis, porque os indios naturalmente gostam -dos francezes e aborrecem os portuguezes: os nossos religiosos apenas -podem arriscar suas vidas para convertel-os, porem pouco duraria isto a -não ser a vossa real piedade. - -Não é empresa tão difficil como se calcula, e nem tão cheia de cuidados e -de gostos, como se suppõe: não serão precisos 500 ou 1:000 escudos, pois -basta mediocre liberalidade, porem bem administrada para a sustentação do -seminario, onde se devem educar os filhos dos selvagens, unica esperança -da firmesa da religião n’aquelle paiz. - -Si V. M., Senhor, se resolver a fazer isto, asseguro-vos que o vosso -exemplo será imitado por muitos Principes e Princezas, Senhores e Damas, -que contribuirão com alguma coisa para o augmento da fé n’aquelles -logares. - -Para que eu não canse a V. M. com desagradavel prolixidade, acabarei com -esta historia evangelica da pobre Chananea, reputada como cadella, a qual -pedia, para livrar sua filha do poder do Diabo, apenas as migalhas, que -cahiam da meza real do Redemptor. - -Descende do mesmo Pae de Chananéa esta nação de selvagens, e seos filhos -estão no dominio do diabo, como infieis: ella não pede nem vossos -thesouros, e nem grande quantia, e sim apenas as migalhas superfluas, que -cahem, aqui e ali, da vossa real grandesa. - -Por tudo isto, Senhor, eu humildemente vos supplico, que olheis com bons -olhos para esta pobre Nação, e que recebaes com animo bem disposto este -pequeno _Tratado das coisas mais notaveis acontecidas durante a minha -residencia entre elles por espaço de dois annos_, conforme as ordens da -Rainha vossa Mãe, dadas aos nossos Rvds. Padres, que procurei cumprir -tanto quanto me foi possivel, como vereis quando lerdes essa minha obra, -cujo trabalho, si merecer a vossa approvação, dar-me-hei por muito bem -recompensado em quanto viver, e toda a existencia, que por Deos me fôr -concedida, eu a empregarei em servir fielmente a V. M., como aquelle que -é e sempre será de - - V. M. subdito muito humilde e fiel, - - Frei _Ivo d’Evreux_, Capuchinho. - - - - -ADVERTENCIA AO LEITOR. - - -AMIGO LEITOR. - -Advirto-vos, que não repetirei aqui coisas ja escriptas pelo Padre -Claudio d’Abbeville na sua _Historia_, e somente accrescentarei o que -mais do que elle soube por experiencia, pois eu estive em Maranhão -dois annos completos e elle apenas quatro mezes: verificareis esta -verdade, comparando os nossos escriptos, e facilmente descobrireis o que -augmentei. - - - - -PREFACIO A RESPEITO DOS DOIS SEGUINTES TRATADOS. - - -A _Sapiencia_ nos _Proverbios_ 29, apresenta um ensino allegorico, muito -bonito, n’estas palavras: _pauper et dives obviaverunt sibi, utriusque -illuminator est Dominus_: vi o pobre sahindo do Hospital cuberto de -chagas e ulceras, carregado, e não vestido, de trapos, caminhar pela -praça publica e entrar no Templo do Senhor pela porta do meio-dia: -na mesma occasião vi o rico sahir do seu palacio, vestido de seda e -carregado de ouro, prata, e pedras preciosas, caminhando pela estrada que -vae dar á porta do Tabernaculo pelo lado do Septentrião, tão a proposito, -que um e outro, o pobre e o rico, se encontraram frente a frente, bem no -centro da grande cortina do _Sancta Sanctorum_, onde a face do Senhor -espalha tão bella claridade, que o rosto d’estas duas pessoas brilhavam -com o mesmo esplendor divino. - -Vejamos o que quer dizer a _Sapiencia_ na obscuridade d’estas palavras. - -Deixemos as diversas explicações mysticas e espirituaes, que d’ellas se -podem deduzir, e tomemos somente a que nos pode servir em relação ao que -escrevemos no frontespicio do nosso livro. - -O pobre é o padre São Francisco e os Religiosos da sua Ordem: o rico é -o poder real de Vossa Magestade Christianissima, proveniente do ramo -sagrado do Rei São Luiz. Quando e onde se encontraram este pobre e este -rico? Foi sem a menor duvida na missão evangelica para converter os -indios. Entre os dois estava Deos, o grande illuminador dos peccadores -nas trevas da morte. - -O pobre São Francisco na conversão dos gentios fez nas Indias o que -disse São Paulo:—_ego plantavi_, plantei a fé entre os selvagens do -Maranhão: São Luiz, protector da França, e avô do nosso Rei, quando -nos mettemos n’esta empresa, respondeo—_Rigabo_—eu a regarei, e não -consentirei que ella murche á falta de cuidados. De nada serviria a -planta, si em sua raiz não se deitasse agua para ella florescer, por que -em pouco tempo o rigor do sol a seccaria, e o nosso Deos, que sempre -prescruta a inclinação dos seos subditos, affirma que infalivelmente a -augmentará—_incrementum dabo_: e por uma luz, sempre crescente de dia -para dia, derramada entre os indios á respeito dos mysterios da nossa fé, -espancareis as trevas da ignorancia, porque o Senhor é o illuminador de -ambos, _utriusque illuminator est Dominus_. - -Quem melhor o pode saber que os selvagens aos quaes baptisamos e lhes -promettemos fazel-os christãos? - -Si invocassemos o seo testemunho, elles responderiam—_credimus_. - -Oh! Piedade Real, não perdestes vosso tempo enviando-nos como Mensageiros -do Evangelho. - - - - -Continuação da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas no -Maranhão em 1613 e 1614. - - - - -PRIMEIRO TRATADO. - - - - -CAPITULO I - -Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz do Maranhão.[3] - - -O Psalmista Rei David, no seo Psalmo 28, composto em acção de graças pelo -acabamento do Tabernaculo, disse—_Afferte Domino fili Dei, afferte Domino -filios arietum_. - -«Trazei ao Senhor, ó filhos de Deos, trazei cordeiros ao Senhor,» o -que Rabbi Jonathas assim explicou—_Tribuite coram Domino laudem cœtus -Angelorum, tribuite coram Domino gloriam et fortitudinem_—«dae louvores -ao Senhor, ó choros angelicos, dae ao Senhor gloria e força:» queria elle -dizer, que os Anjos bemaventurados auxiliam os homens em todos os seos -santos projectos, e especialmente quando se trata de procurar a salvação -das almas, porque caminham adiante estes felizes espiritos e rompem a -turba dos diabos, inimigos da salvação afim de soccorrerem os homens -apostolicos, incumbidos de salvarem as almas errantes nos desertos da -infidelidade, ahi comparados aos filhos dos Carneiros que saltam aqui e -ali pelos rochedos da dureza do coração, porem afagados pelas doçuras -do Evangelho se deixam guiar brandamente até a porta do Tabernaculo de -Deos, levados no grande mar do baptismo, e offerecidos á face do _Sancta -Sanctorum_. - -Os primeiros sacrificios, que Deos recebeo do povo de Israel, em procura -da terra da promissão, d’onde expellio a infidelidade, foram sob as -tendas e pavilhões do Tabernaculo, porem depois edificou-se o templo, e -ahi continuaram os mesmos sacrificios. - -Coisa similhante nos aconteceo quando fomos a esse paiz, cheio de -infidelidade e ignorancia de Deos, carregado de demonios, insolentes -tyrannos d’essas pobres almas captivas, levar a luz do Evangelho, banir -as falsas crenças, expellir os demonios, plantar e construir a Igreja de -Deos: durante mais de quatro mezes celebramos os santos sacrificios n’uma -bonita tenda, no meio de arvores verdejantes: partindo depois alguns -da nossa comitiva para a França em busca de auxilio, e ficando o resto -para fundar a Colonia; fizemos edificar a _Capella de São Francisco do -Maranhão_ em um bello e agradavel lugar, junto do mar, proximo de uma -bella e inexgotavel fonte, e ahi escolhi minha moradia, que um dia tinha -de servir de Convento aos Religiosos, que eu esperava para me ajudarem. - -Acabou-se esta Capella na vespera de Natal e muito a proposito pela -devoção, que sempre teve o Seraphico Padre São Francisco, a quem era -dedicada. - -Alem de todas as festas do anno celebrava a noite, estrellada e sem -trevas, do nascimento do verdadeiro Sol, Jesus-Christo, e tinha este -santo Padre o costume de fazer um presepio, a cujo lado passava toda a -noite contemplando o profundo mysterio da Encarnação, e da vinda tão -estranha do Altissimo á terra. - -Na verdade enchia-me de immenso prazer vendo n’esta capellinha, feita -de madeira, coberta de folhas de palmeiras, mais similhante ao presepio -de Belem do que esses grandes e preciosos templos da Europa, os nossos -compatriotas francezes cantarem os psalmos e matinas d’esta noite, e -depois de purificados pelo Sacramento da penitencia receberem o mesmo -Filho de Deos no presepio dos seos corações, envolvido nas faixas do -Santissimo Sacramento do altar. - -Festejamos tambem o dia de natal; a noite prégamos, o que sempre fizemos -depois das festas e nos domingos, e com prazer, embora muito soffressemos -no principio: em quanto durou esta devoção corria o tempo tão depressa, -que o dia parecia ter somente duas horas; e assim achando-se o nosso -espirito preoccupado com obras piedosas sentia a morte vir tão depressa. - -Não fui eu só que senti isto, muitas outras pessoas depois me disseram o -mesmo, e em quanto me permittio a saude, observou-se, e sem enfado, este -uso. - -Augmentou-se ainda mais esta devoção quando se edificou no _Forte_ a -_Capella de São Luiz_,[4] á imitação das Igrejas dos nossos Conventos, -com madeira, cercada e cuberta de ramos fortes, cortados das arvores -chamadas _Acaiukantin_. - -Ahi celebrei missas, cantei vesperas, préguei e baptisei os cathecumenos. - -A tarde tocava o sino, todos se reuniam n’esta capella, onde se cantava a -saudação angelica, implorava-se a graça divina, e depois cada um ia para -onde queria. - - - - -CAPITULO II - -Do estado do poder temporal em sua primitiva. - - -Compõe-se o homem de espirito e corpo; devendo zelar em primeiro lugar -aquelle como mais nobre e depois este; pareceu-nos de muita razão cuidar -a principio nas Capellas para n’ellas abastecer o espirito com a palavra -de Deos, e do SS. Sacramento, e depois no que diz respeito áo temporal. - -Assim como uma terra, ainda inculta não dá grande contentamento á -seu dono, e si elle não tivesse pão, que lhe viesse d’algures, por -certo que morreria de fome, assim tambem era sem commodidades o lugar -escolhido para a edificação da fortaleza de São Luiz, n’uma ponta de -rocha, habitada outr’ora por selvagens, que a cultivaram a seu modo, -ou para melhor dizer a esterilisaram, visto que depois de tres annos -faltaram-lhe forças para produzir couza alguma, alem de matto agreste, -sendo necessario descançar por muitos annos. - -Foi a causa dos nossos soffrimentos no principio, pois apenas tinhamos -farinha de mandioca para fazer _mingau_, isto é, uma especie de papa com -sal, agua e pimenta, chamada pelos indios _Yonker_, e assim passavamos a -vida. - -Quem não podia comer esta farinha secca, desmanchava-a n’agoa, e assim -alimentava-se com ella. - -Os que em França somente usavam de comidas delicadas, n’aquelle paiz -apenas achavam legumes bem agradaveis. - -Conto isto para louvar a paciencia dos francezes em serviço do seo -Rei, para destruir essa macula, que ordinariamente lhes lanção, de -impacientes, imprudentes e desobedientes, porque na verdade eu só vi o -contrario. - -Os que desejarem muito ir para aquelle paiz, não se admirem de ouvir -fallar em tanta pobresa, porque não soffrerão mais do que nós, visto a -terra ir melhorando diariamente, e os viveres se augmentarem gradualmente. - -Para remediar esta falta, resolveo-se mandar pescar peixe-boi[5], á 30 ou -40 legoas distante da ilha: estes peixes tem a testa como os bois, porem -sem cornos, duas patas adiante debaixo das mamas, párem filhos como as -vaccas, nutrem-nos com seo leite, mas a cria tem a propriedade notavel -de abraçar a mãe pelas costas com suas patinhas, e nunca as deixa embora -mortas, pelo que alguns são agarrados vivos, e assim trazidos para a -Ilha: são muito delicados. - -Sirva isto d’instrucção aos meninos, cumprindo a Lei de Deos, que -manda honrar Pae e Mãe, isto é, amar e respeitar, e de advertencia -aos catholicos para ficarem firmes e unidos no seio da Igreja, sua -Mãe, d’onde perseguição alguma as possa arrancar, amando todos os bons -francezes, seo Rei e sua Patria. - -São apanhados estes peixes-bois nos pastos, ou nas hervas que crescem nas -praias. - -Vão os selvagens remando mansamente suas canôas por detraz d’ellas, -atiram-lhe duas ou tres setas, e apenas mortas são puxadas para terra, -retalhadas e salgadas. - -Coisa igual acontece aos glutões, que no meio dos banquetes são -surprehendidos e n’um instante lá vão para o inferno. - -Encontra-se o sal necessario ás commodidades da vida, na distancia de -40 legoas da Ilha, em terrenos arenosos, onde se mostra naturalmente, -em forma de gelo, duro e luzente como cristal, por occasião do fluxo e -refluxo do mar, e quando este se retira o sol o cresta e é melhor que o -sal de França e de Hespanha. - -È necessario apanhal-o antes da estação das chuvas para que ellas lavem o -lugar onde elle estava. - -Chegado a este ponto, dispersou-se uma parte dos francezes pelas aldeias, -conforme o costume do paiz, que é ter _Chetuasaps_, isto é, hospedes ou -compadres, aos quaes por pagamento se dava generos em vez de dinheiro. - -Esta hospitalidade ou compadresco é entre elles muito intima, porque -estimam seos hospedes, como se fossem seos proprios filhos, vão caçar e -pescar para elles e conforme o seo costume entregam-lhes as filhas, que -desde então se chamam _Maria_, e tem por sobrenome o do Francez a quem -se ligam, de sorte que dizendo-se _Maria de tal_ sabe-se logo de quem é -concubina. - -Com certesa não sei porque dão este nome ás concubinas: mostrei um certo -dia a um selvagem um registro da Mãe de Deos, e lhe disse _Koai Tupan -Marie_, «eis a Mãe de Deos,» _ché ai Tupan Arobiar Marie_, «creio e -conheço, que _Maria_ é a Mãe de Deos,» e _Maria_ chamamos nossas filhas -que damos aos _Caraibas_. - -Este costume foi prohibido aos francezes, e si ha alguma falta á este -respeito é occultamente, e os proprios selvagens que no principio d’esta -prohibição desconfiaram da fidelidade e da amisade dos francezes, apenas -souberam, que Deos só permittia a posse da mulher por meio do casamento, -e que os Padres, Missionarios de Deos, assim o prégavam e prohibiam por -ordem do _Maioral_, mostram-se escandalisados quando vêem o contrario, -que denunciam logo a este e a nós, de maneira que qualquer francez deve -fazer seos negocios mui occultamente si não quizer ser conhecido. - - - - -CAPITULO III - -Da construcção do Forte de São Luiz, e do interesse dos selvagens em -carregar terra. - - -Chegado o tempo proprio de trabalhar nas fortificações da praça designada -á defeza dos francezes, fincada a madeira segundo o plano dado para -servir de cercadura ao _Forte_, e de sustentar as terras, mandou-se então -avisar por todas as aldeias da ilha e da provincia de Tapuytapera,[6] -que viessem Indios uns após outros conduzir a terra tirada dos fossos -para os terraços das cortinas, esporões e plata-formas, depois cobertas -por grandes e grossas _Apparituries_, «mangues» arvores duras como ferro -e incorruptiveis; de forma que seria contra ella quasi inutil o tiro do -canhão, e mui difficil a escalada: assim se disse e assim se fez: de -todas as aldeias pouco a pouco vinham os selvagens com suas mulheres -e filhos, trazendo viveres para o tempo, que calculavam demorar-se no -trabalho, e sempre debaixo das ordens dos seos Principaes, costume -que geralmente observam, trazendo-os sempre na frente da Companhia, -fazendo-lhes a natureza conhecer, que o exemplo dos superiores anima -infinitamente os inferiores. - -Mais do que nós são elles fieis á natureza, pois vemos o contrario na -Republica Christã, d’onde provem os erros e a corrupção dos costumes, -porque ainda que devamos prestar attenção somente á doutrina e não -entregarmo-nos a má vida, os fracos fazem o que querem sem cuidar do máo -nome, que adquirem. - -Apenas chegavam estes selvagens entregavam-se ao trabalho com -incomparavel dedicação, mostrando na voz e nos gestos admiravel coragem, -parecendo antes que iam á um festejo de casamento do que para o serviço, -rindo e brincando uns com os outros, correndo dos fossos para os terraços -com uma especie de emulação para vêr quem dava mais caminhadas, e -conduzia maior numero de cestos de terra. - -Notareis agora, que não ha ninguem no mundo mais infatigavel do que -elles, quando de boa vontade trabalham em qualquer coisa; não cuidam em -comer e beber com tanto que tenham á sua frente o seu chefe, e quando -encontram difficuldades, por maiores que sejam, riem, cantam e gritam -para se animarem reciprocamente. - -Se ao contrario o tractardes com asperesa e ameaças, nada farão que -preste, e conhecendo o seo natural nunca constrangem seos filhos e nem -seos escravos, e antes os governam com doçura. - -O francez, especialmente os nobres, tem igual naturesa; não soffrem -constrangimento, porem não duvidam expôr sua vida, afim de comprirem as -doces ordens dos seos Principes: bello argumento para convencer os que -governam, que mais vale a doçura e clemencia do que o rigor e a força, -respeitando assim o natural da Nação francesa. - -Não trabalhavam somente os homens e sim tambem as mulheres e os -filhinhos, aos quaes elles davam pequenos cestos, para carregar terra -conforme suas forças. - -Vi muitos meninos, apenas com dois ou tres annos d’idade, fazer a carga -com suas mãosinhas e não ter força para conduzil-a. - -Perguntei a alguns velhos porque consentiam que trabalhassem os meninos, -servindo isto para distrahir os que os vigiavam, especialmente seos -paes, que assim não podiam adiantar a tarefa, achando-se elles sempre -em perigo, ou por estarem nùs apezar de tenrinhos, ou por poderem ser -feridos pelo desabamento de algum pedaço de terra, ou por alguma pedra, -que se desprendesse do monte. - -Respondeo-me assim o interprete. Temos muito prazer vendo nossos filhos -comnosco trabalhando n’este _Forte_, para que um dia digam á seos filhos -e estes a seos descendentes «eis a Fortalesa, que nós e nossos paes -fizemos para os Francezes, que trouxeram Padres, que levantaram casas a -Deos, e que vieram defender-nos de nossos inimigos.» - -É mui commum esta maneira de communicar á seos filhos o que entre elles -se passa, já que por escriptos não podem fazel-o aos vindouros, e ir -assim á posteridade. - -Para nada esquecer, como que gravam na memoria as occorrencias, e só -d’esta maneira se pode explicar como contam muitas coisas passadas nos -seculos, em que viveram seos avós, ou no tempo da sua mocidade: vão -passando por esta forma o que sabem a seos filhos, como ainda diremos -ádiante. - -Desejaria muito, que nossos Paes assim se empenhassem para gravar no -coração de seos descendentes... - - * * * * * - -... mente e em abundancia, os selvagens lançam fogo nos espinhaes e -moutas, onde se recolhem esses reptis. - -Ha de tres qualidades:[7] uma de terra, que mora nos mattos; outra de -agoa doce, que mora nas margens dos rios e lugares pantanosos: a ultima, -é do mar, e a que vem pôr seos ovos na areia, que fica bem perto, e onde -os occultam com geito. Parece-se muito com os ovos de galinhas, menos na -casca, que não é tão dura, e sim mais flexivel e molle, nem tão grossos -e agudos, e sim mais redondos, porem muito saborosos, quer comidos na -casca, quer de outra qualquer maneira. - -Nas margens d’este rio encontram-se arvores medicinaes, muito melhores do -que as que se achavam commummente, como eu e muitos dos meos companheiros -verificamos: alem d’esta virtude, são mais fortes que as do Levante, -mostrando a experiencia que uma onça d’estas faz tanto effeito como duas -d’aquelle paiz. Sendo bem preparadas certas composições são excellentes -laxantes, e assim conservam o corpo para seo beneficio. Existem bellos -prados, largos e compridos á perder de vista, que produzem herva fina -e macia. Encontra-se a piteira, de cujos productos se fazem na China -muitos tafetás: crescem seos ramos como a cauda de um cavallo, tem a -bellesa da seda e é ainda mais forte. A terra é forte e feraz e produz -com mais certesa, que a do _Maranhão_, ou de suas visinhanças, e dizem-me -que dá duas colheitas annualmente. As florestas são altas, virgens, e -ricas de muitas especies de madeiras, quer proprias á tincturaria, quer -á medicina, e asseguram-nos os selvagens, que lá moram, a existencia ahi -do _pau brazil_. No meio d’estas florestas, ha muitos viados, capivaras, -cabras, vaccas bravas[8] e javalis, e em poucas horas matareis tantas -quantas precisardes, e para que não me accusem de hyperbolico, invoco -o testemunho dos que viajaram pelo _Miary_, e hoje se acham em França: -se lerem isto, dirão que são estas as informações, que me deram, e que -os selvagens, remadores das suas canoas, lhes traziam tanta caça, que -d’ella não sabiam o que fazer. - -Contou-me um fidalgo, que andou n’essa viagem, haver morto com um só tiro -tres javalis,[9] o que não poderia acontecer se estivessem espalhados. - -Ha muitas arvores carregadas de cortiço de mel de abelhas, as quaes são -mais pequenas e franzinas do que as nossas, porem mais industriosas, pois -fabricam mel excellente, liquido, e tão claro como agua potavel pura, -guardado em pequenas celulas de cera da grossura da casca de um ovo, -similhantes na forma á nossas garrafinhas de vidro, e penduradas com -alguma ordem n’uma arvoresinha de cera, que se acha encostada ou presa -pelos ramos ao tronco, ou nas cavidades das arvores das florestas ou dos -prados. - -Com este mel fabrica-se vinho muito forte e quente para o estomago, -similhante na côr e no gosto ao de Canaria. Nossa gente, quando por lá -andou, fez algum vinho, e com elle embebedou-se. - -Existe tambem ahi uma especie de mel, impropriamente, assim chamado, -porque é tão azedo, como vinagre, e fabricado por outra especie de -abelhas. - -Alguns dias depois que ahi chegou nossa gente, procuraram os -_Tabajares_,[10] e suas habitações: encontraram, não os que procuravam, e -sim os _Aiupaues_,[11] e caminhos recentemente abertos. - -Vendo que diminuia a farinha, da qual apenas poderia ter quanto bastasse -para regressar a Maranhão, essa mesma muito pouca, deliberou regressar -com os seos selvagens, deixando ahi somente dois escravos _Tabajares_, -a quem deram farinha para um mez, e diversos generos, promettendo-lhes -liberdade com certesa, e boa recompensa si fossem procurar e achassem -seos similhantes, o que acceitaram e cumpriram aproximando-se das suas -aldeias e gritando para não serem flexados, visto andar esta Nação em -guerra com uma outra visinha. Aos seos gritos accudiram muitos, aos -quaes contaram o que traziam, como estavam em Maranhão os francezes -bem fortificados, que entre elles se achavam os Padres, que os foram -procurar; mas que se viram obrigados a retirar-se por falta de farinha, -sendo elles escolhidos para ir procural-os, e dando-lhes os presentes -fortaleciam mais as suas palavras, mormente sendo proferidas por dois -individuos, seos conhecidos, que foram escravisados na guerra pelos -_Tupinambás_. - -Bem podeis calcular como elles ficaram alegres com as noticias dadas -pelos _Tabajares_. Ahi descançaram por tres ou quatro mezes para contarem -tudo bem a sua vontade, e regressamos com nossa gente para a Ilha. - - - - -CAPITULO VII - -Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem ao Amazonas. - - -Apenas voltou esta expedição do Mearim, fallou-se com enthusiasmo de uma -viagem, em breves dias, ao Amazonas.[12] - -Já antes se havia fallado n’ella, porem com tal friesa, que poucos -acreditavam, não havendo probabilidade de deixar-se a Ilha, sendo nós -tão poucos para defendel a contra as aggressões dos portuguezes, que nos -ameaçavam ha muito tempo. - -Ao divulgar-se esta noticia levantaram-se a ilha e as provincias -visinhas, porque, como é geralmente sabido, não ha no Mundo nação -alguma mais inclinada á guerra e á viagens pelo desconhecido como estes -selvagens brasileiros. - -Quatrocentas ou quinhentas legoas nada são para elles quando vão atacar -seos inimigos e fazel-os escravos. Com quanto sejam por naturesa timidos -e medrosos, nos combates ganham calor, não abandonam o campo, e quando -perdem as armas pelejam com unhas e dentes. - -Suas guerras são feitas, pela maior parte por surpresa e astucias; ao -romper do dia assaltam seos inimigos dentro de suas aldeias: salvam-se -de ordinario os que tem boas pernas, sendo aprisionados os velhos, -as mulheres, e os meninos, e condusidos como escravos para as terras -dos _Tupinambás_. Tambem sob o pretexto de negocio, vão elles pelas -praias, onde moram seos inimigos, promettem-lhes muito, mostram-lhes -suas mercadorias em _caramemos_ ou _paneiros_, onde arranjam o que tem -de melhor, e quando os veem entretidos, lançam-se sobre elles, pobres -ingenuos, matam uns, aprisionam e captivam outros: por este motivo todas -as nações do Brasil, desconfiam d’elles, julgam-nos traidores, e nem -querem sua paz. - -São muito afoitos quando estão com os francezes, e querem que estes -vão sempre adiante, e se acontece voltar um francez para traz, ninguem -corre melhor e mais veloz do que elles. D’isto se conclue quanto valle a -opinião que se forma de certas pessoas, que não passa de uma loucura e -vaidade d’este mundo, acontecendo muitas vezes ficarem atraz os bons e -virtuosos ou serem queridos e levados os viciosos e corrompidos. - -Indaguei e procurei saber muito o modo como se preparavam para a guerra, -não me contentando só com as informações. - -Em primeiro lugar as mulheres e as suas filhas preparam a _farinha de -munição_,[13] e em abundancia, por saberem, naturalmente, que um soldado -bem nutrido valle por dois, que a fome é a coisa mais perigosa n’um -exercito, por transformar os mais valentes em covardes, e fracos, os -quaes em vez de atacarem o inimigo, buscam meios de viver. - -É differente da usual esta farinha de munição, por ser mais bem cozida, -e misturada com _cariman_ para durar mais tempo, embora menos saborosa, -porem mais san e fresca. - -Em segundo lugar empregam-se os homens em fazer canoas, ou concertar as -que já possuem proprias para este fim, por que é necessario, que sejam -compridas e largas para levarem muitas pessoas, suas armas e provisões, e -comtudo são feitas de uma arvore, cortada bem perto da raiz, sem galhos -e ramos, ficando apenas o tronco bem direito em toda a sua extensão, -e então tiram-lhe a casca, e racham n’a dando-lhe meio pé de largura -e profundidade: n’este caso lançam-lhe fogo n’essa fenda por meio de -cavacos bem seccos, e vão queimando pouco a pouco o interior do tronco, -raspam com uma chapa de aço, e assim vão fazendo até que o tronco esteja -todo cavado, deixando apenas duas pollegadas d’espessura, e depois com -alavancas dão-lhe fórma e largura: estas canoas conduzem as vezes 200 -ou 300 pessoas[14] com as suas competentes munições. São conduzidas por -mancebos fortes e robustos, escolhidos de proposito, por meio de remos de -pás de tres pés cada um, que cortam as agoas a pique e não de travessia. - -Em terceiro lugar preparam suas pennas, tanto para a cabeça, braços, e -rins, como para as armas. Para a cabeça usam de uma peruca ou cabelleira -de pennas de cores vermelhas, amarellas, verde-gaio e violetas, que -prendem aos cabellos com uma especie de colla ou grude. - -Enfeitam a testa com grandes pennas de araras, e outros passaros -similhantes, de cores variadas, e dispostas á maneira de mitra, que -amarram atraz da cabeça. - -Nos braços atam braceletes tambem de pennas de diversas cores, tecidas -com fio de algodão, similhante á mitra de que acabamos de fallar. - -Nos rins usam de uma roda de pennas da cauda de ema,[15] presa por dois -fios d’algodão, tinctos de vermelho, cruzando-se pelos hombros a maneira -de suspensorios, de sorte que ao vel-os emplumados, dir-se-hia que são -emas, que só tem pennas nestas tres partes do corpo. - -Na verdade, quando os vejo assim lembro-me do que antigamente disse Job -no cap. 39. _Penna struthionis similis est pennis Erodii et Accipitris_: -a penna de ema é igual a da garça real e do gavião: esta passagem é -claramente explicada por diversas licções ou versões dos Gregos e dos -Romanos, que tinham por costume apresentarem os coroneis aos capitães e -soldados pennas d’ema para collocarem em seos capacetes e morriões afim -de animal-os á guerra. - -Quiz saber por intermedio do meu interprete porque traziam sobre os -rins estas pennas de ema: responderam-me, que seos paes lhes deixaram -este costume para ensinar-lhes como deviam proceder na guerra, imitando -a ema, pois quando ella se sente mais forte ataca atrevidamente o -seo perseguidor, e quando mais fraca abre suas azas, despede o vôo e -arremessa com os pés areia e pedras sobre seos inimigos: assim devemos -fazer, accrescentavam elles. Reconheci este costume da ema, vendo uma -pequena, creada na aldeia de _Vsaap_, que era perseguida diariamente -por todos os rapasinhos do lugar: quando eram só dois ou tres, ella os -accommettia, e dando-lhes com o peito, atirava-os por terra, porem quando -era maior o numero preferia fugir. - -Estou certo, que muitas pessoas se admirarão, não só do que acabo de -dizer, mas tambem como é possivel buscarem estes selvagens, meios de -governarem-se entre as praticas animaes: si se lembrarem porem que o -conhecimento das hervas medicinaes foi ensinado aos homens pela cegonha, -pela pomba; pelo viado e pelo cabrito; que a maneira de fazer a guerra -e postar sentinellas foi colhida das aves chamadas grous; que a bondade -do estado monarchico foi a principio observado entre as abelhas; que os -architectos com as andorinhas aprenderam a fazer abobadas; que o proprio -Jesus-Christo nos mandou observar o milhafre, o abutre, a aguia e o -pardal, desapparecerá a admiração, e especialmente si acreditarem, que -estes selvagens imitam com a maior perfeição possivel os passaros e -animaes do seo paiz, o que elles exaltam nos cantos que recitam em suas -festas. - -Por que nos passaros de sua terra predominam as cores verde-gaio, -vermelho e amarello elles gostam de pannos e vestidos destas tres cores. - -Por que as onças e os javalis são os animaes mais ferozes do mundo, -elles arrancam os seos dentes e os trazem nos labios e orelhas afim de -parecerem mais terriveis. - -As pennas das armas são postas nas extremidades dos arcos e das flexas. - -Assim preparados bebem publicamente o vinho de _muay_, e dizem adeos aos -que ficam. - - - - -CAPITULO VIII - -Partida dos francezes para o Amazonas em companhia dos selvagens. - - -Antes que entre na materia, convem narrar o que me disseram os selvagens -relativamente á verdade da existencia das Amazonas, porque é questão de -todos os dias se n’esses lugares ha Amazonas, e si são similhantes ás -descriptas pelos historiadores? - -É voz geral e commum entre os selvagens, que ha Amazonas, e que habitam -n’uma ilha muito grande, cercada pelo grande rio do _Maranhão_, ou das -_Amazonas_, que desembocca no mar por um espaço de 50 legoas de largura: -que essas Amazonas foram antigamente mulheres e filhas dos _Tupinambás_, -que se retiraram da companhia e do dominio d’elles—seduzidas e guiadas -por uma d’ellas: que internando-se pelo paiz ao longo d’esta costa, -descobriram á final uma linda ilha, ahi se recolheram, e em certas -estações do anno acceitam por companheiros os homens das habitações mais -proximas. - -Si párem um menino pertence ao pae, que d’elle cuida logo depois de -desmamado: si porem é uma menina fica com a mãe em casa. Eis a voz geral -e commum. - -N’um dia, quando os francezes andavam n’esta viagem, fui visitado por -um grande Principal, que morava muito acima n’este rio. Depois dos -seos cumprimentos, que descreverei mais adiante, me disse morar nas -ultimas terras dos Tupinambás, e que só em duas luas podia voltar do rio -_Maranhão_ á sua aldeia, e então lhe respondi admirando-me do trabalho -que tomou vindo de tão longe. Replicou-me «fui ao Pará vêr meos parentes, -quando foram os francezes guerrear nossos inimigos, e ouvindo fallar -de vós e dos outros Padres, quiz vel-os pessoalmente para dar noticias -certas aos meos companheiros.» - -Por intermedio do meo interprete lhe perguntei si sua residencia era -muito longe da das _Amazonas_, e elle respondeo-me «uma lua,» isto é, um -mez para ir. - -Repliquei-lhe, si tinha estado entre ellas, e si as tinha visto, e -respondeu-me «que nem uma coisa nem outra», pois nas canoas de guerra, -onde andou, se desviou da ilha onde ellas residiam. - -Esta palavra _Amasonas_ lhes foi imposta pelos portuguezes e -francezes[16] pela similhança, que ellas tinham com as antigas _Amazonas_ -por causa de sua separação dos homens; porem não cortam a mama direita, -e nem imitam a coragem d’essas afamadas guerreiras, mas vivem como as -outras mulheres selvagens, ageis e dextras no manejo do arco, e nuas se -defendem dos seos inimigos, como podem. - -No dia 8 de julho de 1613 do porto de Santa Maria do Maranhão, partio o -Sr. Ravardiere ao som de muitos tiros de artilharia e mosquetaria, com -que o saudou o Forte de S. Luiz segundo é costume entre os militares. - -Levou em sua companhia 40 soldados valentes, e 10 marinheiros, e por -cautella tambem 20 dos principaes selvagens, tanto da Ilha do Maranhão e -de Tapuytapera, como de Cumã. - -Seguio para Cumã[17] onde o esperavam muitas canoas de indios, e -provendo-se de farinha seguio para _Caieté_ onde haviam 20 aldeias de -_Tupinambás_, e ahi se demorando mais de um mez, reforçou a tripolação de -sua embarcação com mais 60 escravos que lhe deram. - -No dia 17 de agosto partio de _Caieté_ com muitos habitantes d’essa -localidade, e dirigio-se para a aldeia _Meron_, onde em grandes canoas -embarcou selvagens e francezes, e seguio para a embocadura do rio _Pará_: -em viagem morreo afogado um francez por ter se virado a canoa em que elle -ia, porem salvaram-se seos companheiros trepados no dorso da mesma. - -O rio Pará desde a sua emboccadura para cima é muito povoado de -Tupinambás; chegando á ultima aldeia, situada á 60 legoas da sua -emboccadura, todos os principaes d’esses lugares lhe pediram com -instancia, que fosse guerrear os _Camarapins_,[18] os quaes são muito -ferozes, não querem paz, e por isso não poupam seos inimigos, pois quando -os captivam, matam-nos e comem-nos: poucos dias antes tinham matado -tres filhinhos d’um dos principaes dos Tupinambás d’aquellas regiões, e -guardaram os ossos d’elles para mostrar aos paes afim de causar-lhes mais -dó. - -Este exercito de francezes e de Tupinambás, em numero de 1200, -sahio do _Pará_, entrou no rio de _Pacajares_, d’ahi dirigio-se ao -de _Parisop_,[19] onde encontraram _Vuacété_ ou _Vuac-Uaçú_, que -simpathisando com este movimento offereceo para reforçal-o 1200 dos seos -companheiros. - -Acceitou-se apenas um pequeno numero de selvagens, que elle mesmo -acompanhou, e os encaminhou ao lugar, onde residiam os inimigos, o qual -era nas _Iuras_,[20] que são casas feitas á imitação das «_Ponte aux -changes_,» de S. Miguel de Paris, collocadas no cume de grossas arvores -plantadas n’agoa. - -Foram immediatamente cercados pelos nossos, que os saudaram com 1000 -ou 1200 tiros de mosquetaria em tres horas: defenderam-se porem elles -valorosamente de sorte que sobre os nossos cahiam as flexas como chuva ou -saraiva, ferindo alguns francezes e Tupinambás, porem não matando um só. - -Sobre alguns dispararam-se tiros de morteiro, e de canhão, -incendiaram-se-lhes tres _Iuras_ morrendo n’essa occasião 60 indios -d’elles, o que somente servio para mais augmentar-lhes o desespero pois -antes queriam morrer do que cahir nas mãos dos Tupinambás. - -Á vista d’isto resolveo-se abandonal-os com intenção de ver, si n’outra -occasião, tratados com doçura podiam ser domesticados. - -Durante o medonho combate dos mosqueteiros, usaram os selvagens d’uma -traça singular pendurando os seos mortos no parapeito de suas _Iuras_, e -por meio de uma corda de algodão amarrada aos pés faziam com que elles se -mexessem. - -Pelas fendas ou frestas viam os francezes estes corpos, e julgando-os -vivos contra elles faziam fogo tres e quatro vezes a ponto de ficarem -despedaçados, o que provocava os gritos e zombarias d’estes canalhas, e -somente terminou-se esta triste scena quando uma mulher acenando com um -pano branco á maneira dos parlamentares, fez com que cessasse o fogo, e -então ella gritou «_Vuac, Vuac._» Porque trouxeste estas boccas de fogo, -(fallava dos francezes por causa da luz, que sahia das caçoletas de suas -armas) para arruinar-nos, e destruir a terra? - -«Pensas contar-nos no numero dos teos escravos, eis os ossos dos teos -amigos e dos teos alliados, cuja carne comi, e ainda espero comer a tua e -a dos teos.» - -Pelos interpretes se lhe disse, que se entregasse afim de salvar o resto, -que havia. - -Não, não, respondeo ella, nunca nos entregaremos aos _Tupinambás_, -elles são traidores. Eis aqui os nossos principaes, que morreram -victimas d’essas boccas de fogo de gente, que nunca vimos: si fôr -necessario morreremos todos, voluntariamente, como fizeram nossos grandes -guerreiros. Nossa nação é grande, e ahi fica para vingar nossa morte. - -Um dos seos principaes veio n’uma canoa collocar-se á frente do nosso -exercito, trazendo n’uma das mãos um feixe de flexas, e na outra o arco, -disse: «Vinde, vinde ao combate, nada tememos, somos valentes, e eu só -por mim atravessarei a muitos.» - -Chegando-se porem muito perto dos nossos soldados, um d’elles acertou-lhe -com uma balla na testa, que o atirou n’agoa ja morto. - -Eram tão dextros no manejo das flexas, que atirando-as ao ar vinham -cahir na galeota, onde estavam nossos soldados, e nas canoas dos indios, -ferindo muitos. - -Por isto avaliareis a coragem d’estes selvagens, maus somente pela -naturesa. - -O que seriam si fossem policiados, ou conduzidos e instruidos pela -disciplina militar? - - - - -CAPITULO IX - -Do que aconteceu na Ilha durante esta viagem, e principalmente das -astucias de um selvagem chamado Capitão. - - -Em quanto uma parte dos nossos francezes, e muitos dos principaes -selvagens estavam no Pará e em suas circumvisinhanças passaram-se na -Ilha muitas coisas notaveis, que contarei nos seguintes capitulos. - -Tratarei em primeiro lugar de um indio agradavel e astucioso intitulado -Capitão,[21] irmão da mãe de um principal, muito amigo dos francezes, -chamado _Ianuaravaête_, que quer dizer _cão grande_ ou _cão furioso_. - -Este Capitão astuciosamente aproximou-se de nós, dizendo por intermedio -do interprete, que desejava ser christão, aprender a ler, e a escrever, -fallar francez e fazer cortesias, gestos e ceremonias dos francezes. - -Acreditaram nas suas palavras, e alguns até cercaram-lhe de muitas -attenções. - -Passou alguns mezes em nossa visinhança, e mostrando-se com desejos de -ter vestidos como os nossos paramentos sagrados, com os quaes diziamos -missa; por sua mulher nos mandou pedir, o que negamos. - -Não nos deixou por esta recusa, porem algum tempo depois, disfarçando -muito bem seo descontentamento, ia á sua aldeia e voltava, até que poude -espalhar pela _Ilha_ o boato de que os francezes pretendiam escravisar os -Tupinambás, e por tanto que era necessario fugir e abandonal-os. - -Alguns acreditaram, e por isso deixaram suas aldeias e foram para outras, -onde podessem fugir com mais prestesa si assim fosse necessario. - -Julgou chegada a occasião de se fazer valer entre os seos: pois tinha -extremo desejo de ser grande, e não podia chegar a sel-o, porque fogem as -honras d’aquelles que as procuram com methodo, o que vemos em todas as -condicções, e foi este o seo fim e intenção quando de nós se aproximou, -servindo-se de nosso concurso para realisar seo desideratum, visto o -ambicioso nada poupar, nem mesmo as coisas sagradas, para obter o que -deseja. - -Principiou visitando as aldeias da Ilha, onde desconfiava ter -descontentes, e ahi nas cabanas e na _casa-grande_, costumava batendo nas -coxas grandes palmadas, harengar assim—_Ché, Ché, Ché, auaête. Ché, Ché, -Ché. Pagy Uaçú, Ché, Ché, Ché, Aiuka pais &_: quer isto dizer, eu, eu, -eu, sou furioso e valente. Eu, eu, eu, sou um grande feiticeiro. Fui eu, -fui eu, fui eu que matei os Padres, etc. Fiz morrer o Padre, que está -enterrado em _Yuiret_, onde mora o _Pay Uaçú_, o grande Padre a quem -reenviei todos os males, que tem causado,[22] e a quem matarei como o -outro. - -Atormentarei os Francezes com molestias, e lhe darei tantos bixos nas -pernas e nos pés, que elles se verão na necessidade de regressar a sua -patria. Farei morrer suas plantações e assim morrerão de fome: já com -elles morei, comi com elles muitas vezes, e vi o que praticavam quando -serviam a _Tupan_, e reconheci que nada sabiam á vista de nós outros -_Pagés_, feiticeiros. - -Á vista disto não devemos temel-os, saiamos, quero caminhar na frente, -porque sou forte e valente. - -Perto de dois mezes gastou elle percorrendo assim a Ilha sem que de -nada soubessemos, porque quando os negocios são secretos e de interesse -publico, não são descobertos como acontece quando se trata de utilidade -particular. - -_Japy-açú_ o reprehendeo e mui acremente por estes discursos, bem como -_Piraiuua_; porem seo irmão o _Cão-grande_ o denunciou, e alem d’isso -pedio licença para ir em pessoa agarral-o e prendel-o. - -Chegaram promptamente estas noticias aos ouvidos de _Capitão_, que -começou a tremer como si tivesse febre, e não dizia mais _Ché auo-êtê_, -nem _Ché Pagi uaçú_, ou _Ché Aiuca Pay_, porem ao contrario diante dos -seos, tremendo de medo, dizia: «_Ché assequegai seta, ypocku Tupinambo, -ypocku decatugué: giriragoy Topinamho giriragoy seta atupaué: ypocku -ianuara vaeté, ypocku decatugné giriragoy ianuara vaeté giriragoy seta -atupaué_.» - -Ah! que medo tenho, oh! quanto são malvados os Tupinambás, perfeitos -malvados:[23] mentiram os _Tupinambás_, mentiram muito e muito: o _Cão -grande_, é um malvado, malvado completo: mentio o _Cão-grande_, mentio -tambem muito e muito, etc. Nada disto eu disse, não causei a morte do -Padre, não disse que queria fazer morrer o Padre-grande, e nem que lhe -dei molestias. - -Tambem não disse, que quero atormentar os Francezes, e fazer seccar suas -plantas, porque não sou e nem fui feiticeiro, e assim quero ser filho -dos Padres, quero voltar e trabalhar para elles, e si os deixei foi para -colher meo milho: quero ir ja onde está o Padre-Grande, levar-lhe o meo -milho, o meo peixe, e a minha caça, e dar-lhe um dos meos escravos para -apaziguar o chefe dos francezes afim delle não crer no _Cão grande_, que -sempre me quer mal embora eu seja seo irmão: muitas vezes me quiz matar, -e si o _Muruuichaue_, quer dizer o «Principal dos Francezes» lhe der uma -vez ordem de prender-me, elle me matará sem duvida alguma. - -Por estas palavras conhecereis a indole d’estes selvagens, que não dizem -a verdade quando necessitam defender-se. - -Este miseravel _Capitão_, fugio e escondeo-se nos mattos, e depois foi -para uma aldeia chamada _Giroparieta_, quer dizer _aldeia de todos os -diabos_, ao pé da praia, e d’ahi enviou-me um dos seos parentes pedir-me -paz, e que obtivesse do Maioral o seu perdão. - -Mandou-me um seu escravo forte e robusto, bom pescador, e caçador: -elle, sua mulher e mais pessoas da familia, me vieram ver, trazendo-me -milho, peixe, e caça, e tanto elle como sua mulher muito fallaram -para me persuadir de que eu não devia crer o que se dissesse d’elle, -chamando os _Tupinambás_ e o _Cão-grande_,—mentirosos e outros nomes -feios, asseverando que era bom amigo, que desejava ser christão, e que -si o Maioral, e eu tambem nos esquecessemos de tudo, elle e sua mulher -regressariam contentes. - - - - -CAPITULO X - -Da chegada de uma barca portugueza á Maranhão. - - -Quando menos pensavamos, achando-se a Ilha sem indios e sem francezes, -por terem aquelles ido viajar pelo Amazonas, e estes pela segunda vez -ao _Miary_, de que brevemente trataremos, por espaço de um mez fomos -incommodados com mil noticias, ora de selvagens residentes perto do -mar, ora de francezes moradores nos fortes, que diziam ter ouvido tiros -de peça para o lado da costa da pequena _Ilha de Santa Anna_, e da de -_Tabucuru_,[24] e ter visto tres navios velejando ao redor da Ilha, eis -que se apresentou uma barca, commandada por um capitão portuguez, chamado -Martin Soares. - -Vinha da Ilha de Santa Anna, onde tinha desembarcado, tomado posse d’ella -para o Rei Catholico, plantado uma grande Cruz, e levantado um marco com -uma inscripção, de que logo fallaremos. - -Andou este navio por todo o porto de Caurs, saltando sua tripulação -sempre que lhe approuve para vêr e escolher lugares proprios á plantação -de canas e ao fabrico do assucar, especialmente no lugar chamado -_Ianuarapin_, onde foi erguida uma Cruz com o fim de crear-se uma bella -habitação de portuguezes, e construir-se muitos engenhos de assucar. - -Approximaram-se depois da enseiada de Caurs, uma das entradas da Ilha, -onde depois da sua vinda, se edificaram dois bellos fortes afim de -impedir o desembarque. - -Elles davam alguns tiros de peça para chamar os selvagens da Ilha: -nenhum lá foi, menos o Principal de _Itaparis_, suspeito por traidor: -perguntaram-lhe muita coisa, e ignora-se o que respondeo: deram-lhe -machados e fouces, e depois veio para a Ilha. - -Os portuguezes traziam comsigo os indios _Canibaes_,[25] moradores em -_Mocuru_, e parentes de outros do mesmo nome refugiados em Maranhão, os -quaes elles mandaram á terra para tomar conhecimento, e informações, si -na Ilha haviam muitos francezes, si estavam fortificados, e si tinham -canhões. - -Felizmente dirigiram-se aos _Tupinambás_, que lhes disseram não haver -na Ilha um só francez, um só forte, um só navio, barca, nem canhão, -e com tal segurança principiaram a comer, e os Tupinambás mandaram -immediatamente ao forte de S. Luiz contar tudo isto. - -Expedio-se logo uma barca, bem esquipada, com o fim de prender os -portuguezes; porem aconteceo, que um traidor _Canibal_, inimigo rancoroso -dos francezes, e a quem já se tinha muitas vezes perdoado castigos, -em que havia incorrido, sabendo da noticia da vinda dos outros, foi -procural-os furtivamente, e em segredo lhes disse—«que fazeis aqui, fugi -depressa para o mar, regressae ao vosso navio, porque os francezes tem na -Ilha um bello forte, canôas, navios, e canhões.» - -Mal ouviram isto, levantaram-se ás pressas, e disseram aos seos hospedes -_Tupinambás_, que os divertiam—Ah! maus, enganaes vossos camaradas—e -assim dizendo á passos apressados foram com o traidor para a sua canôa, e -em breve chegaram a barca, ancorada n’uma enseiada um pouco adiante. - -Vendo isto os portuguezes, desconfiaram logo que os francezes estavam -na Ilha, e que não deixariam de os perseguir, e apenas tinham levantado -ancoras, descobriram a barca dos francezes, e estes a d’elles, -apressaram-se a tomar a dianteira dos portuguezes, navegando á bolina, -muito bem, quebrando os rolos d’agoa, pelos bancos d’area, pouco pensando -em encalhar comtanto que conseguissem apresional-a do que lhes resultaria -muita commodidade, visto conhecer-se a intenção dos portuguezes, -descoberta pela bôa vontade dos... - - * * * * * - -... todas as Nações, e nós vemos por experiencia em varios lugares da -França, d’onde veio o proverbio—_chorar de alegria_. - -Chegados ao Forte depois de descançarem como poderam, conservaram-se -serios e reservados sem entregarem-se á vivacidade e impulso da -curiosidade, e sendo a imperfeição unica dos francezes o fazer tudo ás -pressas, buscando todos os meios de conseguir seos fins, foram elles ter -com o Maioral, aos quaes assim fallaram: - -«Conforme as noticias que déstes a dois dos nossos, escravos entre os -_Tupinambás_, para nos transmittirem fielmente a respeito da tua vinda -e da dos Padres n’estes lugares afim de defender-nos dos _Peros_, e -ensinar-nos a conhecer o verdadeiro Deos, dar-nos machados e outras -ferramentas para facilitar a nossa vida, fallamos n’isto em muitas -reuniões, e recordando-nos de que os francezes sempre nos fôram fieis, -vivendo em paz comnosco, e acompanhando-nos á guerra, onde alguns -morreram, todos os meos similhantes mostraram-se contentes e resolveram, -de combinação com o nosso chefe, obedecer-te e em tudo fazer-te a -vontade: eis porque me mandaram expressamente afim de pedir-te alguns -francezes para acompanhar-nos e guardar-nos até voltarmos do lugar, por -ti indicado.» - -Respondeo-se-lhe com palavras de amisade, e que se lhes daria os -francezes. - -Sahindo d’ahi foram procurar-me em minha casa, onde tambem me exposeram a -sua missão, de que fallarei quando for occasião. - -Pediram-me o meu pequeno interprete para ir com elles assegurar ao -_Thion_, seo chefe, e a todos os seos companheiros, que eu os receberia -como filhos de Deos, e que podiam vir afoitamente confiados na protecção -dos Padres. - -Acompanhados por muitos francezes e pelo meo interprete, a quem dei -algumas imagens como mimos, a _Thion_, elles embarcaram para o Mearim em -busca de suas casas. - -Foram recebidos com muitos applausos, choros, lagrymas, e danças de dia e -de noite. - -Prepararam vinhos em abundancia, presentearam os francezes com muitos -porcos do matto e outras caças, e offereceram-lhes muitas raparigas das -mais bonitas, o que regeitaram dizendo que Deos não queria, e que os -Padres prohibiam, e se quizessem agradar os Padres, quando fossem para a -Ilha, deviam levar Cruzes para expellir o _Giropary_[26] do meio d’elles: -assim o disseram, assim o fizeram, plantando muitas Cruzes, em varios -lugares na frente de suas casas, como ainda hoje se vê, e que ficaram -como prova de habitação antiga, d’onde foram chamados para ir á outra -terra, já illuminada pelo conhecimento de Deos, e enriquecida com os -Sacrosantos Sacramentos da Igreja, como aconteceo outr’ora com a nação do -povo de Israel, que sahio do Egypto em busca da terra da Promissão. - -Dispostas estas coisas, cada um cuidou em arrumar-se e fazer sua -colheita, destruir as roças, e preparar bom farnél, pois deviam em pouco -tempo deixar e abandonar este lugar: indagavam muito de varias coisas -tendentes á sua salvação, e eram satisfeitas as suas perguntas. - -Aproveitaram-se os Francezes da occasião e facilidade, que lhes offerecia -para conquistar a nação proxima de indios inimigos, da aldeia de Thion, -e causava pena ouvil-os dizer, que haviam comido a muitos, porque eram -mais fortes, tinham maior numero de aldeiamentos e de homens, e o -Principal d’elles, chamado _Farinha-grossa_, valente na guerra, alegre, -e muito propenso ao Christianismo, como fallaremos n’outro lugar, dizia -com garbo, «si eu quizesse comer os inimigos, não ficaria um só, porem -conservei-os para satisfazer minha vontade, uns após outros, entreter -meo apetite, e exercitar diariamente minha gente na guerra: e de que -serviria matal-os todos de uma só vez quando não havia quem os comesse? -Alem d’isto não tendo minha gente com quem bater-se, se desuniriam, e -separar-se-iam como aconteceo á _Thion_.» Assim disse, porque antes estas -duas nações formavam uma só, morando juntas, em lugares longinquos e -distantes dos inimigos, contra os quaes podiam exercitar-se na guerra, e -apezar de tudo atacaram-se reciprocamente. - -Tal proceder confirma a bella maxima do Estado—quem deseja conservar o -interior em paz, deve empregar os sediciosos fóra d’ahi, especialmente -contra os inimigos da fé, e fallando em sentido moral—quem quer salvár o -coração de todo o vicio e imperfeição deve resguardal-o das impressões -exteriores. - -Como condições de paz estabeleceo-se o esquecimento reciproco de todas -as injurias, mortes e banquetes com os corpos dos inimigos: que devia -revestir-se de paciencia quem mais perdesse: que não devia havêr -exprobrações de parte á parte, e quando recolhidos a Ilha, morariam -separados uns dos outros, e todos seriam fieis aos Francezes. - -Chegada a occasião foram enviadas muitas canoas e barcos, nas quaes -vieram para a Ilha. - -Foram bem recebidos, o seo chefe _Thion_ saudado com cinco tiros de peça, -e duas descargas de mosquetaria, passando por meio de soldados francezes, -dispostos conforme as ceremonias da guerra, assim entrou no Forte, onde o -Sr. Pesieux e eu o acolhemos, e o condusimos á sua casa para descançar. - -Em lugar proprio contarei o que elle nos disse. - - - - -CAPITULO XIII - -Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary. - - -Conversando familiarmente com esta nação, descubri muitas de suas -particularidades, e tambem outras, pertencentes tanto á elles como á -todos os _Tupinambás_, ainda não escriptas por pessoa alguma, ou ao menos -mencionadas sufficientemente, e como são bellas e raras tractarei d’ellas -mais detidamente. - -Estes povos, antes de reunidos, eram chamados _Tabajares_ pelos -Tupinambás.[27] - -Este nome é appelativo e commum para designar toda a sorte de inimigos, -e tanto assim é, que esta mesma nação de _Tabajares_ chamava os -_Tupinambás_ da ilha _Tabajares_, _Topinambas_, embora pacificados e -amigos. Os _Topinambas_ os chamavam _Mearinenses_, quer dizer vindos do -_Miary_,[28] ou habitantes do _Miary_, assim como os Dinamarquezes, que -vieram occupar a Neustria, Provincia antiga e dependente da Corôa de -França, foram chamados Normandos, e sendo ella conservada em homenagem -pelos Reis de França, perdeo seo antigo nome, e conservou o de Normandia. - -Os francezes os chamam _Pedras-verdes_[29] por causa de uma montanha, não -muito longe de sua antiga habitação, onde se acham mui bellas e preciosas -_pedras verdes_, dotadas de muitas propriedades, especialmente contra -doenças do baço, e frouxo de sangue, e tambem me disseram haver ahi -esmeraldas muito finas: ahi hiam os selvagens buscar estas pedras verdes -tanto para collocal-as em seos labios, como para negocio com as nações -visinhas. - -Os _Tupinambás_ e os _Tapuias_ dão muito apreço a estas pedras:[30] -vi por uma pedra para o beiço dar o valor de mais de vinte escudos de -mercadorias um _Tupinambá_ á um _Miarinense_, em nossa casa de São -Francisco, no Maranhão. - -Um certo _Cabelo comprido_ veio ter comnosco, ornado com seos enfeites -mais lindos, que consistiam em dois chifres de bodes, e quatro dentes de -corça, muito cumpridos, em vez de brincos, de que muito se orgulhava por -havel-os alcançado com industria, ao passo que era commum, especialmente -entre as mulheres, trasel-os de madeira, redondos, muito toscos, e da -grossura de dois dedos: calculae o buraco, que fazem nas orelhas: a maior -porem de suas ostentações era uma destas pedras verdes, de comprimento, -pelo menos, de quatro dedos, bem redonda, o que me agradou tanto á ponto -de desejar trazel-a para a França. Perguntei-lhe o que queria que lhe -désse por esta pedra: respondeo-me, «dê-me um Navio de França, carregado -de machados, de foices, de vestidos, de espadas e de arcabuses.» - -Outro Tupinambá, já muito velho, trazia uma pedra destas em seo labio -inferior: era oval e tão larga como o concavo da mão, e como a tivesse -trasido por muito tempo ahi, sem nunca tiral-a, estava como que -encaixilhada no seo queixo, ja tendo a carne se dobrado sobre os bordos -da pedra e tomado a sua propria forma. - -Narrei tudo isto afim de demonstrar o valor destas pedras verdes. - -Estes _Miarinenses_ são ordinariamente de boa estatura, bem conformados, -e valentes na guerra: sendo bem guiados não recuam e nem fogem como os -outros Tupinambás, explicando-se isto pelo facto de serem criados entre -os combates, sempre travados contra os portuguezes, aos quaes atacaram -outr’ora, escalaram suas fortalezas, tomaram suas bandeiras e nunca -mais abandonaram sua primeira habitação, como nos contou _Thion_, seo -Principal, quando veio do Forte de São Luiz, se a falta de canhões não -obrigasse os francezes, que estavam com elles, a cederem á força e á -superioridade do numero dos portuguezes. - -Causa gosto ver o zelo e o cuidado, com que trazem as espadas, que lhes -dão os francezes, sempre a seo lado, sem nunca tiral-as senão quando -se deitam, e quando trabalham em suas roças, penduram-nas junto a si -em algum ramo de arvore, fazendo-me lembrar a historia de Nehemias, na -reparação dos muros de Jerusalem, quando os seos habitantes trasiam n’uma -das mãos as armas e na outra os instrumentos do trabalho. - -Gostam muito de traser as espadas tão limpas como cristal, e para isso as -esfregam com areia fina e azeite de mamona, amolam-nas repetidas vezes -para estarem sempre cortantes, aguçam as pontas, quando estão gastas pela -ferrugem muito commum na zona tórrida. - -Acostumam-se a bem manejal-as, fazendo marchas e contra-marchas, á -maneira dos suissos quando esgrimam. - -Alem de serem corajosos e bons soldados, trabalham muito bem, e antes -quero uma hora de tarefa d’elles do que um dia dos _Tupinambás_. - -Seos Principaes trabalham tanto quanto os seos subordinados de menor -representação, porem o serviço está bem regulado, porque ao romper do dia -levantam-se, almoçam, e depois vão elles mulher e filhos, conjunctamente, -alegres risonhos, cantando trabalhar em suas roças, e quando o sol -principia a chegar ao seo maior auge do calor, que é perto das dez horas, -deixam a lida, vão comer e dormir, e duas horas depois do meio dia, -quando o sol principia a declinar voltam outra vez ao trabalho, onde se -conservam até ao anoitecer. - -Os Principaes, que ordinariamente tem mesa franca, para o que necessitam -de roças maiores, preparam um _Cauin_ geral, e como todos partilham -d’elle, se incumbem de cuidar nas plantações, o que fazem com alegria -n’uma ou duas manhãs, e depois vão beber na casa d’aquelle para quem -trabalharam, bebendo cada um quando chega a sua vez, e quando o acham -bom o gabam com todas as suas forças, compõem cantigas adequadas, que -entoam ao redor da casa ao som do _Maracá_, pronunciando estas ou outras -similhantes palavras: «oh! o vinho, o bom vinho, nunca elle teve igual; -oh! o vinho, o bom vinho, nós o beberemos á vontade, oh! o vinho, o bom -vinho, n’elle não acharemos preguiça.» - -Chamam o vinho preguiçoso quando não tem força bastante para embriagal-os -immediatamente, e que não lhes provocam o vomito por mais que bebam. - -Tomam as raparigas parte n’esta festa, onde se dança e canta-se á fartar, -deitam-se os que se embriagam logo e raras vezes apparecem questões: -são alegres e agradaveis n’essa occasião, especialmente as mulheres, -que fazem mil macaquices á ponto de provocarem grande hilaridade, até a -individuos mais tristes e melancolicos. Por mim confesso, que nunca em -minha vida me ri tanto como quando estas mulheres altercavam umas com as -outras, empunhando copos de madeira cheios de vinho, bebendo ora um, ora -outro, fazendo muitas macaquices e tregeitos. - -Dão com muita facilidade o que mais presam, como sejam suas filhas e suas -mulheres, porque observei quando se cuidou na segunda viagem do _Miary_ -que muitos _Tupinambás_ tanto da _Ilha_ do Maranhão, como de Tapuitapera, -foram de proposito com os Francezes para pedirem filhas e mulheres dos -Miarinenses, o que facilmente obtiveram, como muitas outras coisas, que -só fazem estes povos, e por isso mesmo muito caros e preciosos entre os -Tupinambás. - -Tambem tem por costume, que igualmente observei entre os Tupinambás, o -trazerem assobios e flautas, feitos dos ossos das pernas, coxas e braços -de seos inimigos, dos quaes arrancam sons fortes, agudos e claros, e ao -som d’elles entoam seos cantos usuaes, especialmente quando estão nos -_Cauins_, ou quando vão a guerra. - -As raparigas não se despresam em casar com velhos e grisalhos, como -praticam as dos _Tupinambás_, e sim antes querem esposar um velho, -especialmente quando é Principal, e admirei-me, como coisa desagradavel, -o vêr muitas jovens, de quinze a deseseis annos, casadas com velhos, e o -contrario praticam as raparigas dos _Tupinambás_, as quaes passam a sua -mocidade livremente, e depois acceitam um marido. - -O que acabei de dizer, só tem por fim o mostrar a cegueira das almas -captivadas pelo espirito immundo, que não se descuida de perdel-as por -meio de suas traças. - - - - -CAPITULO XIV - -Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos e como escravisam -seos inimigos. - - -Estes povos, e não só elles, porem geralmente todos os Indios do Brazil, -tem por costume cortar o corpo, e recortal-o tão lindamente, que os -costureiros e alfaiates, embora habeis em sua profissão, buscam imital-os -no córte dos seos vestidos. - -Este costume não é só privativo dos homens, e sim tambem das mulheres, -com a differença unica de que os homens se cortam por todo o corpo, e -as mulheres apenas desde o umbigo até as coxas, o que praticam por meio -de um dente de _Cutia_, muito agudo, e uma especie de gomma queimada, -reduzida á carvão, applicada sobre a chaga, e nunca se apagam os córtes. - -Digo de passagem e não para demorar-me, e sim apenas para descubrir a -origem deste antigo costume, que me parece ser fundado pela naturesa, -visto ser praticado, já ha muitos annos, por nações civilisadas, cujo -conhecimento por falta de communicação não podia ter esta Nação barbara, -e assim inventou-o e d’elle usou. - -Soube d’estes selvagens, que duas razões os levam a cortar assim seos -corpos, uma significa o pesar e o sentimento, que tem pela morte de seos -paes, assassinados pelos seos inimigos, e outra representa o protesto -de vingança, que contra estes promettem elles, como valentes e fortes, -parecendo quererem dizer por estes córtes dolorosos, que não pouparam -nem seo sangue e nem sua vida para vingal-os, e na verdade quanto mais -estigmatisados mais valentes e corajosos são reputados, no que tambem são -imitados pelas mulheres de iguaes qualidades. - -Para mostrar a origem anterior d’este costume, não necessito remontar-me -ás historias profanas, no que seria prolixo, e sim contentar-me-hei -fazendo vêr em diversos trechos das escripturas sanctas quanto Deos -reprova este uso barbaro e selvagem. No Levitico 19. _Super mortuo non -incidetis carnem vestram, nec figuras aliquas, aut stigmatas facietis -vobis._ Sobre a vossa carne não fareis incisões, figuras ou signaes. -No cap. 21. _Necque in carnibus suis facient incisuras_: e não farão -incisões na sua carne. No Deut. 14. _Non vos incidetis, necfacietis -calvitiem super mortuo._ No morto não fareis incisões e nem cortareis os -cabellos. - -Á respeito d’estas passagens interpretam os Padres, como fazem os gentios -e os idolatras, e de maneira notavel este trecho—_não fareis incisões e -nem cortareis os cabellos_, por que se vêem juntas estas duas coisas, que -os indios sempre separam restrictamente: quanto á incisão, já sabeis o -que ella significa, mas quanto ao arrancamento do cabello ficae sabendo, -que apenas as mulheres e as moças sabem do captiveiro ou morte na guerra -dos seos Paes ou maridos, cortam os cabellos, gritam e lamentam-se -horrivelmente, excitando seos similhantes á vingança, á tomar as armas e -a perseguir seos inimigos, como farei vêr quando narrar a _Historia dos -Tremembeses_. - -Dos escravos, que me deram n’aquelle paiz para trabalharem á bem da minha -subsistencia soube da maneira como faziam prisioneiros e escravos. - -N’um certo dia reprehendi a preguiça d’um d’elles, fórte e valente, que -me fora dado por um _Tupinambá_, e elle para minha advertencia me deo a -seguinte resposta, embora branda (bem sei o que é necessario observar -para com esta nação, que as reprehensões consideram como chagas e -feridas, e aos castigos preferem a morte,[31] e por esta forma desejam -antes morrer com honra, segundo dizem, no meio das assembleias, como ja -muito bem descreveo o Padre Claudio d’Abbeville): eil-a «na guerra não -me pozeste a mão sobre a espadua,[32] como fez aquelle que me deo a ti -para agora me reprehenderes.» Nasceo-me logo a curiosidade de saber por -intermedio do meu interprete o que elle queria dizer, e então fiquei -sciente de ser uma ceremonia de guerra entre estas nações, quando um -é prisioneiro do outro, bater-lhe este com a mão sobre a espadua e -dizer-lhe—faço-te meo escravo—e desde então este infeliz captivo, por -maior que seja entre os seos, se reconhece escravo e vencido, acompanha -o vencedor, serve-o fielmente sem que seo senhor ande vigiando-o, tendo -liberdade para andar por onde quiser, só fazendo o que fôr de sua -vontade, e de ordinario casa-se com a filha ou a irmã do seo senhor, e -assim vive até o dia em que deve ser morto e comido, o que não se pratica -mais em _Maranhão_, _Tapuitapera_ e em _Cumã_, e só raras vezes em -_Caieté_. - -Estas nações me despertaram a lembrança do que li outr’ora nos livros -sagrados e na Historia dos Romanos, quando procediam ao captiveiro -dos prisioneiros, e para bem entender-se bom é notar-se, que foram as -ceremonias externas inventadas para representarem com sinceridade as -affeições do interior: por exemplo, dobrar o joelho, beijar a mão, -descubrir a cabeça, quando saudamos alguem, que estimamos, são outros -tantos testemunhos de apreço interno em que o temos: outr’ora as espadas -tinham hierogliphos representando o mysterio occulto das acções internas -e externas dos homens. - -Deixando de parte o que não serve ao meo fim contento-me em referir os -dois seguintes casos:—o sceptro apoiado sobre a espadua significa o -poder regio: a alabarda sobre a espadua declara o poder dos chefes de -guerra: as maças de ouro e prata—o poder dos Senados e dos Pontifices: os -machados com ramos de parreira enroscadas—o poder dos consulados e dos -governadores das provincias. Observe-se o que foi escripto por Isaias -cap. 9. _Factus est Principatus super humerum ejus_, seo dominio foi -posto sobre sua espadua, e no cap. 22. _Dabo clavem domus Davis super -humerum ejus_, e porei a chave da casa de David sobre sua espadua, quer -dizer o—sceptro de David. - -Ao contrario, pôr uma canga, como trazem os bois ou cavallos quando -no trabalho, ou então passar debaixo de uma lança, atravessada sobre -duas outras fixadas perpendicularmente, ou receber sobre a espadua nua -uma vergastada era o signal da escravidão, como muito bem o patenteiou -Isaias, cap. 9. _Jugum oneris ejus et virgam humeris ejus, et sceptrum -exactoris ejus superasti_: venceste o jugo do teu fardo e a vara de sua -espada, o sceptro do seu exactor, fallando do captiveiro da Gentilidade, -libertada pelo Salvador: assim tambem estes selvagens batendo sobre o -hombro de seus prisioneiros, significavam serem elles seos captivos, e -na verdade encontro uma bella profecia, toda litteral, narrando esta -desgraça, á qual estão sujeitos estes pobres selvagens de Chanaan, por -juizo impenetravel da sabedoria divina, e participação da antiga maldição -de Channan, seo Pae: é em Isaias, cap. 47—_Tolle molam, et mole farinam: -denuda turpitudinem tuam, discooperi humerum, revela crura, transit -flumina_, toma a mó, e móe a farinha, descobre tua torpesa e tua espadua, -mostra tuas coxas e passa o rio. - -Tomam estes selvagens a mó, e a farinha, não tendo ferramenta alguma -para trabalhar, quer nos bosques quer nas roças, servem-se unicamente de -machados de pedra para cortar arvores, fazer suas casas e canoas, aguçar -paus, cultivar a terra, semeiar, plantar raizes, e por unica recompensa -de seos trabalhos só comem farinha, e raizes passadas por um rallador, -feito de pedrinhas agudas, engastadas n’uma taboa da largura de meio pé. - -Cosinham a farinha n’uma grande panella de barro, ao fogo, como -amplamente está escripto na Historia do R. Padre Claudio d’Abbeville. - -É tão patente sua torpesa, que suas mulheres e filhas, embora honestas, -sentem repugnancia de se vestirem. Trazem o hombro descuberto, sujeito -á este grande captiveiro, commum a todas as nações. Mostram suas coxas, -e a falta de castidade está em uso entre elles sem reprovação, menos o -adulterio. - -Passam rios buscando ilhas incognitas atraz de segurança. - - - - -CAPITULO XV - -Leis do Captiveiro. - - -Já que estamos fallando dos escravos bom é tratar das leis do captiveiro, -isto é, das que devem guardar os escravos. - -Primeiramente não devem tocar na mulher do seo senhor, sob pena de serem -flexados logo, e a mulher morta ou pelo menos bem açoitada, e entregue -a seos Paes, resultando-lhe muita vergonha de ser companheira de um dos -seos servos. - -Notae, que as raparigas não são despresadas por se entregarem a quem -muito bem lhes parece em quanto solteiras, logo porem que recebem um -marido, si se entregam a outro, alem da injuria de serem chamadas -_Patakeres_, quer dizer, prostitutas, tem seos maridos o poder de -matal-as, açoital-as e repudial-as. - -É bem verdade terem os francezes abrandado esta lei tão rude, não dando -permissão aos maridos de matar tanto o escravo como a mulher adultera, -ordenando que fossem conduzidos ao Forte de São Luiz para vêr punil-as, -ou elle mesmo infringir-lhes o castigo, como vi acontecer, entre outros -factos, no adulterio commettido entre a mulher do Principal _Uyrapyran_, -e um escravo, bonito rapaz. - -Tinha o referido escravo muito amor a esta mulher, e depois de ter -cogitado todos os meios de gosal-a, vio-a ir um dia á fonte, muito longe -da aldeia, foi logo atraz expôr-lhe sua vontade, e depois agarrando-a com -violencia entranhou-se com ella n’um bosque, onde saciou seos desejos, e -como ella era de boa familia não quiz gritar para não ser diffamada, e -ainda em cima pedio segredo ao escravo. - -Enfadado o marido com a grande demora da mulher, e desconfiando de alguma -cousa por ser bonita e agradavel, foi á fonte, onde encontrou junto a -borda o pote de sua mulher cheio d’agoa, e lançando a vista ao redor, -como costumam a praticar os homens ciumentos, vio sahir sua mulher de um -lado do bosque e o escravo de outro. Agarrou o escravo pelo colleirinho, -e confiou-o à guarda dos seos amigos, e levou sua mulher para casa de -seos paes, que se comprometteram a entregal-a quando pedisse. - -Na manhã seguinte, em companhia dos seos, levou este escravo á minha -casa, expondo-me o facto como acima referi, acrescentando que si não -fosse o respeito ás recommendações dos Padres e dos Francezes, elle teria -matado o escravo, perdoando comtudo a sua mulher visto ter sido forçada, -a qual ja havia entregado a seos parentes com intenção de repudial-a. - -Louvei a sua obediencia e respeito: era na verdade um homem bem feito, -de bonito rosto, e bom corpo, fallando bem e em bons termos, mostrando -tanto nas maneiras como no corpo, generosidade e nobresa de coragem. - -Mandei-o á presença do senhor de Pezieux, loco-tenente de Sua Magestade -na ausencia do Sr. de la Ravardiere, que tendo ouvido a queixa, mandou -carregar de ferros os pés do escravo, promettendo ao Principal fazer a -justiça, que elle quizesse. - -Replicou-lhe o Principal que desejava vel-o morto como era costume: -respondeo o senhor de Pezieux, que Deos tinha ordenado em sua lei, que -deviam morrer tanto o homem como a mulher adultera. - -Sim, disse o Principal, porem ella foi constrangida. - -«Não, respondeo o senhor de Pezieux, a mulher não pode ser forçada por -um só homem, ou pelo menos deve gritar, e não pedir segredo ao selvagem, -o que é tacito consentimento:» dizia tudo isto para salvar o escravo da -morte, por que muito bem sabia não concordar o Principal na morte de sua -mulher visto os muitos parentes que ella tinha. - -Conseguio-o logo, porque elle pedio ao Sr. de Pezieux, que não matasse o -escravo, mas sim que o prendesse na golilha, e que lhe fosse permittido -açoital-o á vontade. - -«Sim, disse-lhe o Sr. de Pezieux, com tanto que dês quatro açoites com -cordas em tua mulher, diante de todas as mulheres, que se acharem no -Forte, e ao som da corneta.» - -Acordes n’isto, na manhã seguinte, foi a mulher conduzida e confrontada -com o escravo, reconheceo-se que o facto deo-se como ja referi, foram -ambos conduzidos á praça publica do Forte, onde se fincou o esteio e a -golilha: ahi o marido representou o papel de verdugo, escolheo tres ou -quatro cordas bem duras, que enrolou em seo braço, e voltou em sua mão -direita, e com ellas açoitou sua mulher por quatro vezes, deixando-lhes -vergões bem grossos e cumpridos, impressos sobre seos rins, ventre e -costas, não sem derramar muitas lagrimas, que lhe corriam ao longo das -faces, e sem exhalar profundos suspiros: sua mulher tambem gemia, com a -vista baixa, envergonhada de assim se vêr rodeiada por tantas mulheres, -que, como ella, tambem choravam tanto por compaixão, como apprehensivas -de que para o futuro não lhes acontecesse o mesmo. - -Os homens ao contrario mostravam-se alegres diante de tão boa justiça, e -gracejando diziam á suas mulheres—_ah! se te pilho!_ - -Durante todo o dia estiveram tristes as mulheres dos Tabajares. - -Depois de haver açoitado sua mulher, este bom marido lhe disse «eu não -tinha desejos de castigar-te, fiz o que pude perante o Maioral dos -Francezes para salvar-te, porem vae, enchuga tuas lagrimas, e tornar-te -hei a tomar por mulher, e te levarei para casa quando acabar de castigar -este escravo.» - -Sabe Deos, se o pesar que elle teve pelos açoites, que deo a mulher, -melhorou a sorte do pobre escravo, porque pondo-o na praça ou no largo, -fez um circulo do tamanho do seo chicote, separado todos, um por um. - -Tinha o escravo ferros nos pés, estava em pé, nu como a palma da mão, -e assim soffreu o castigo, sem dizer uma palavra e sem mecher-se: por -tres vezes cansado e sem poder respirar descançou, depois de fortalecido -recommeçou e de tal maneira, que não poupou uma só parte do corpo. - -Começou pelos pés, seguio pelas pernas, coxas, partes naturaes, rins, -ventre, espaduas, peito, e acabou pelo rosto e testa. - -Esteve muito tempo doente por este castigo, sempre com ferros nos pés, -conforme pedio o Principal, porem passado algum tempo consentio que -lhos tirassem, á pedido do senhor de Pezieux, que desejava satisfazer -os desejos dos seos Principaes para melhor obrigal-os a serem fieis aos -Francezes. - -Acabado isto, tomou conta da mulher, que já não chorava, e sim -principiava a rir-se, e assim voltaram para casa como se nada tivesse -acontecido. - - - - -CAPITULO XVI - -Outras leis para os escravos. - - -Consistem as outras leis, em não poderem os escravos, de ambos os sexos, -casarem-se senão á vontade dos seos senhores, porque tanto uns como -outros moram juntos e seos descendentes pertencem ao mesmo domno. - -Os selvagens _Tupinambás_ tomam ordinariamente para mulher as raparigas -captivas, e dão suas proprias filhas ou irmans aos mancebos escravos afim -de cuidarem no arranjo da casa e da cozinha. - -Praticam o contrario os francezes, porque compram homens e mulheres -escravas para casal-os, ficando a mulher com o dever de cuidar no arranjo -da casa, e o marido com o de ir pescar e caçar. - -Se acontece um francez comprar alguma rapariga escrava, mostra-a a algum -joven _Tupinambá_, que morre de amores pelas que são bellas, depois -promette-lhe que será seo genro pois ama sua escrava como si fosse sua -propria filha para assim vir o _Tupinambá_ morar com elle, casar com a -rapariga, e por esta forma ter por uma escrava dois escravos, a quem -trata por filha e genro, e elles o chamam seo _Cheru_, isto é, seo Pae. - -As raparigas escravas, que não se casão, dispoem de si como querem, -si por ventura seos senhores não lhe prohibem relações com certos e -determinados individuos, porque então em caso contrario soffrem muito; -mas quando seos senhores lhe impoem completa abstinencia, ellas lhe dizem -bem claramente, que então as tomem por mulheres visto não querer, que -alguem as ame. - -Devem os escravos trazer fielmente o resultado da sua pescaria e caçada, -e depôl-o aos pés do seo senhor ou senhora, para elles escolherem e -depois lhes darem o resto. - -Não podem trabalhar para outrem sem consentimento do seo senhor, e -nem dar seo rebanho, que lhes deo o senhor, sem lhe dizerem antes uma -palavra, pois de outra forma pode ser tomado como coisa, que não pertence -legitimamente aos escravos. - -Não devem passar atravez da parede das casas, somente feita de _pindoba_, -ou de ramos de palmeira, ao contrario são criminosos de morte, porque -devem passar pela porta, commum, ou atravez da parede de palmas. - -Não devem fugir, porque quando são agarrados, está tudo perdido, visto -que são comidos: n’este caso já não pertencem ao senhor, e sim a todos, -e para este fim quando se prende um escravo fugido, sahem da aldeia as -velhas, vão ao seu encontro, e gritando dizem «é nosso, entregae-nos, -queremos comel-o», e batendo com a mão na bocca, gritam uns para os -outros com certa expressão «nós o comeremos, nós o comeremos, é nosso.» - -Vou dar-lhes um exemplo: - -Um guerreiro Principal da ilha do Maranhão, chamado _Ybuira Pointan_,[33] -quer dizer, _Pau brasil_, ao regressar da guerra trouxe comsigo alguns -escravos, dos quaes um procurou salvar-se pela fuga, porem sendo -agarrado, foram as velhas ao seu encontro batendo na bocca com as mãos, e -dizendo «é nosso, entregae-o, é necessario que seja comido». - -Houve muita difficuldade em salval-o apezar da prohibição de não se -comerem os escravos, e si não se empregassem ameaças, elle seria devorado -pelas velhas. - -Si acontece morrerem de molestias estes escravos, sendo assim privados do -leito de honra, isto é, de serem mortos e comidos publicamente, um pouco -antes do seo fallecimento levam-nos para o matto, lá partem-lhe a cabeça, -espalham o cerebro, e deixam o corpo insepulto e entregue a certas aves -grandes, similhantes aos nossos corvos, que comem os enforcados e os -rodados. - -Quando são achados mortos em seos leitos, atiram-nos em terra, -arrastam-nos pelos pés até o matto, onde lhes racham a cabeça, como acima -disse, o que ja não se pratica na Ilha e nem em suas circumvisinhanças, -senão raras vezes e occultamente. - -Gozam tambem de muitos privilegios, que os levam a residir -voluntariamente entre os _Tupinambás_, sem desejar fugir, considerando -seos senhores e senhoras como paes e mães, pela docilidade com que os -tratam cumprindo assim seo dever; não ralham com elles e nem os offendem, -não os espancam, desculpam-nos em muita coisa contanto que não offenda -os seos costumes: são muito compadecidos, e chegam a chorar quando -os francezes tratam os seos com aspereza, e si outros se lastimam do -procedimento dos francezes prestam-lhe todo o credito ao que dizem. - -Quando fogem dos francezes elles os occultam, levam-lhes o sustento nos -mattos, vão vesital-os, as raparigas vão dormir com elles, contam-lhes o -que se passa, aconselham-nos sobre o que devem fazer, e de tal sorte que -é muito difficil agarral-os, embora vão atraz d’elles uns vinte homens, e -isto não fazem para com os escravos dos seos similhantes. - -Vem a proposito o contar que um dia perguntei a um dos escravos, que -tinha em meu poder, si não estava satisfeito vivendo commigo, não só -porque lhe ensinei a temer a Deos, como tambem pela certesa, que tinha, -de não ser comido, e que, quando christão, seria livre, morando com os -padres como si fosse filho d’elles. - -Pelo interprete respondeo-me julgar-se feliz por haver cahido nas mãos -dos Padres, tanto por conhecer á Deos como por viver com elles, e si -fosse para o poder de outro chefe, não estaria socegado e nem descançado -de não ser comido, porque, acrescentava elle, quando se morre, nada mais -se sente, quer elles comam ou não, e o mesmo para o morto: amofinar-me-ia -de morrer na minha cama, e não á maneira dos grandes no meio das danças e -dos _Cauins_, afim de vingar-me antes de morrer, dos que iriam comer-me. - -Quando penso, que sou filho de um dos grandes do meo paiz, que meo -pae é homem moderado, que todos o cercavam para escutal-o quando elle -ia á _casa grande_,[34] vendo-me agora escravo, sem pintura no corpo, -sem cocar, sem enfeites nos braços, e nem nos pulsos, como acontece -aos filhos dos grandes das nossas terras, antes queria ser morto -especialmente quando me lembro, que fui agarrado ainda menino, com minha -mãe, lá na minha terra, e trazido para _Comã_, onde vi matar e comer -minha mãe, com quem desejei morrer, porque ella me amava muito, e por -isso não posso senão lamentar minha vida. - -Proferindo estas palavras, chorou muito, a ponto de pungir-me o coração, -visto saber por experiencia quanto são amorosos estes selvagens, para com -seos paes, e estes para com elles. - -Accrescentou, que depois de ter sido sua mãe morta e comida, seo senhor -e sua senhora o adoptaram por filho, e elle os tratava por pae e mãe: -quando fallava d’elles era com affeição inexplicavel, embora tivessem -comido sua propria mãe, e ja fosse resolvido o comel-o tambem pouco tempo -antes de chegarmos á Ilha. - -Seo senhor e senhora tomavam o trabalho de vir vel-o em nossa casa, -embora fosse necessario vencer a distancia de 50 legoas, desde sua aldeia -até aqui. - -Gozam ainda de muitos outros privilegios, porque lhes é permittido -o namorar as raparigas livres, sem risco algum, olhar mesmo para as -raparigas de seo senhor e senhora, si quizerem, e n’isto não ha muita -recusa, comtudo ellas buscam os mattos e em certas cabanazinhas os -esperam em hora marcada, para evitar pequeno remoque que costumam a fazer -das moças de boa raça, quando se entregam a escravos, o que serve antes -de riso do que de deshonra. - -Vão livremente aos _Cauins_, e dansas publicas, enfeitando de mil -maneiras o seo corpo quer com pinturas, quer com pennas, quando podem, -pois estas são muito caras. - -Vivem com os filhos de seos senhores, como si fossem irmãos, e em breve -tempo gozam muita liberdade no seo captiveiro. - - - - -CAPITULO XVII - -Quanto são misericordiosos os selvagens para com os criminosos por acaso -e sem malicia. - - -Entre as perfeições naturaes que a experiencia me tem mostrado n’estes -selvagens, nota-se uma justa misericordia, isto é, desejam a punição -dos maus, quando por maldade praticam algum crime, e ao contrario são -compadecidos e pedem misericordia para aquelles, que por acaso ou -inadvertidamente incorrem n’alguma falta, e isto vou provar á vista do -seguinte exemplo. - -_Maioba_ é uma grande aldeia, distante tres leguas do Forte de São Luiz: -o seo Principal é um bom homem, amado pelos francezes, e veio fazer a -nossa casa. - -Tinha dois filhos fortes e robustos, ambos casados, e duas filhas, uma -casada e outra solteira, bonitas e engraçadas, muito amadas por seo Pae -e Mãe, de tal forma que eram perdidos por ellas e o assumpto predilecto -de suas conversações, e guardavam a solteira para um francez quando -voltassem os navios, diziam elles, e que os francezes se resolvessem a -casar com indias. - -Fundava seos castellos e sua fortuna sobre um fragil barco, similhante -a aquella boa mulher, que tendo em suas mãos o primeiro ovo de sua -gallinha, sua imaginação ia levantando-a até um principado, que d’ahi ha -pouco cahio no chão e inutilisou-se, e com elle foi-se toda a ventura -esperada por ella. - -Assim este homem não tendo outra consolação senão em sua filha, poucos -dias depois, por uma noite tão triste, _Geropary_ torceo o collo d’esta -plantinha, virando-lhe a bocca para as costas: coisa terrivel! estava -negra como o diabo, os olhos esbugalhados e revirados, a bocca aberta, a -lingua sahida para fóra, os labios superiores e inferiores revirados á -deixar vêr os dentes e as gengivas, o que poderia pela tristesa e medo, -que causava, matar a seos parentes. - -Nunca pude saber qual foi a causa d’isto, e apenas me disseram que era -infiel, e talvez vivesse deshonestamente, porem nunca deo escandalo. - -Embora seo pae tivesse vendido sua filha mais velha á algum francez para -d’ella abusar, depois a tirou da companhia do seo marido. - -Dizem os que se acham em peccado mortal, que elles estão sob o dominio e -posse do diabo, e o mesmo lhes aconteceria, si Deos quizesse. - -Não foi só esta desgraça, porque uma arrasta outra comsigo, e a primeira -é embaixadora da segunda. - -Pouco tempo depois, este Principal fez uma festa de vinho publicamente, e -para isto convidou não só os habitantes de sua aldeia, como tambem os da -visinhança. - -Quando todos dançavam e cantavam, quando o vinho fervia e muitos já se -achavam embriagados, seos dois filhos, de que ja fallei, travaram-se de -razões, e o autor da questão querendo agarrar seo irmão, por um acaso -ferio-lhe no ventre com um punhado de flechas, que este trasia pelo que -cahio logo banhado em sangue. Tiraram-se as flexas com muita dor, como -bem se calcula, o soffrimento fez desapparecer o vinho, a festa ficou -perturbada, as cantorias se mudaram em gritos e lamentos, o vinho em -lagrimas, as dansas em espancamentos proprios e arrancamento de cabellos. - -O infeliz pae, expectador de similhante tragedia, assentado n’uma rede -d’algodão, teve um desmaio, e cahio para traz. - -Voltando a si, disse aos que o rodeiavam, que de uma só vez perdeo seos -dois filhos, não fallando na que tinha perdido antes, um ferido por sua -culpa, e o outro que os francezes mandariam matar; todos se condoeram -d’elle. - -Resolveram todos os Principaes da Ilha a virem ao Forte de São Luiz -interceder a favor do vivo. - -Em quanto se passavam estes factos, o ferido contra sua vontade, -aproximava-se da morte, chamou seo irmão, e lhe disse: sou um grande -criminoso, pois de uma só vez matei muitas pessoas, isto é, a mim, a -meo pae, que morrerá de tristesa e a ti porque os francezes te mandarão -matar: elles são justiceiros em punir os maus: mas sabes tu o que ha? -toma meo conselho, e faze o que te digo. - -Os Padres que vieram com os francezes, são compadecidos, e nos amam e -aos nossos filhos, e pelos seos interpretes soube que aqui vieram para -salvar-nos. - -Já ouvi dizer, n’uma reunião a um dos nossos similhantes, que os -antecessores dos Padres baptisaram antigamente em quanto com elles -estiveram, e que vio os _Canibaes_ se abrigarem em suas Igrejas, quando -faziam alguma maldade, por terem certesa de que ahi ninguem lhes faria -mal. - -Faze o mesmo, quando anoitecer vae com meo Pae procurar o Padre na sua -cabana de _Yviret_, pede para te pôr na casa de Deos, que é defronte da -residencia d’elle, e ahi fica, até que meo Pae, conjuntamente com os -Principaes, intercedam por ti, e consigam o teo perdão do Maioral dos -francezes. - -Para mais facilidade, tu sabes que os Francezes necessitam de canoas e de -escravos, offereça pois meo Pae ao chefe tua canoa e teos escravos, para -que não morras. - -Tudo isto foi cumprido pontualmente, porque este velho, Pae dos dois -rapazes, foi procurar-me, rogou-me e instou-me para que recebesse seo -filho na casa de Deos, e intercedesse para ser perdoado pelo Maioral dos -Francezes, buscando convencer-me, entre outras, com estas razões. - -«Vós outros Padres fazeis regorgitar de povo as nossas _Casas Grandes_, -quando quereis, desejando vêr ahi grandes e pequenos, afim de ouvirem a -causa, que vos obrigou a deixar vossas casas e terras, muito melhores do -que estas, para nos ensinarem a naturesa de Deos, que é, como dizeis, -bom, misericordioso, amante da vida e inimigo da morte, e por isso não -quer que ninguem morra assim como elle morreo n’um madeiro para fazer -viver os mortos. - -«Dizeis ainda, que nossos filhos não são mais nossos, o sim vossos, que -Deos vol-os deo, e que d’elles tomaes cuidados até a morte: mostrae-me -hoje, que vossa palavra é verdadeira. - -«Estou velho, perdi todos os meos filhos, só me resta um, que fez esta -casa, que vos estima muito, e a todos os Padres e quer ser christão. - -«Matou seo irmão sem querer, ou melhor, foi seo irmão quem se matou a -si proprio com as flechas, que trazia. Rogo-te o recebas na casa de -Deos, e vem commigo fallar ao chefe, porque elle nada te recusará visto -estimar-te muito. - -«Quiz trazer commigo o filho, a favor de quem intercedo porem elle teme -muito a ira dos Francezes: actualmente anda errante e fugitivo pelos -mattos, como si fosse um javaly: quando ouve o ramalhar das arvores -suspeita ser os Franceses, que armados andam em busca d’elle para -prendel-o e conduzi-lo a _Yviret_, onde será amarrado á bocca de uma -peça.» - -Respondi pelo meo interprete, asseverando-lhe que empregaria os meos -esforços, que tinha esperança de obter o que elle desejava porque o chefe -me estimava; mas que era bom, que elle fosse pessoalmente fazer seo -pedido, e que eu iria depois delle. - -Foi immediatamente ao Forte em companhia de um dos principaes interpretes -da Colonia, chamado _Migan_,[35] e expôz suas razões e rogos ao senhor de -Pezieux, por esta fôrma. - -«Sou um Pae muito infeliz, e acabarei minha velhice como os javalys, -vivendo só, comendo raizes amargas e cruas, se de mim não tiveres piedade. - -«A misericordia muito convem aos grandes, e maiores não podem ser, quando -usam d’ella e de clemencia. - -«É teu rei o maior do Mundo, como nos contam os nossos, que estiveram em -França. - -«Elle para aqui te mandou como um dos Principaes da sua côrte afim de nos -livrares do captiveiro dos _Peros_: ora como és grande, e misericordioso, -usa de misericordia para com os infelizes, que são desgraçados por acaso -e não por malicia. - -«Bem conheço, que é preciso ser justo, e indagar o motivo para se fazer a -escolha, e proceder-se a vingança sobre os maus, o que mui restrictamente -observamos entre nós, desde os nossos paes, mas quando a falta não é -originada por maldade nós perdoamos. - -«Tenho dois filhos, como sabes, os quaes tem vindo trabalhar no teo -Forte, um matou o outro por acaso e sem maldade, ou para melhor dizer, -suicidou-se o mais velho nas flechas do mais moço, que está vivo, e te -peço que não o persigas e sim o perdôes. - -«É elle, que me hade sustentar na velhice: sempre foi amigo dos -francezes, e quando algum vae a minha aldeia, chama logo os seos cães, e -vae caçar cotias e as pacas para elle comer. - -«Fez a cása dos Padres, e assevera-me que elles o protegem. - -«Sempre foi muito obediente á sua madrasta, que o ama como si fosse -seo proprio filho: seo irmão, que sem querer, elle matou, era mau, não -estimava os Francezes, nunca lhes deo coisa alguma, não ia á caça para -elles, aborrecia sua madrasta, e muitas vezes a zangava: quando morreo, -estava bebado, e veio tomar a mulher do seo irmão, e arrancando o filho, -que ella tinha ao collo, atirou o menino para um lado e a mãe para outro, -dando-lhe bofetadas, embora estivesse grávida, na minha presença e á -vista do seo marido, e tudo soffremos com paciencia; porem vindo agarrar -seo irmão para espancal-o, ferio-se no ventre com as flechas, que elle -trasia na mão e assim morreo. - -«Porque perderei eu meos dois filhos, de uma só vez, e já na minha -velhice? - -«Si queres mandar matar o unico que tenho, mata-me primeiro, e depois -a elle. Elle te dá sua canoa para a pescaria e seos escravos para te -servirem.» - -Admirou o Sr. de Pezieux este discurso, como depois me disse e por muitas -vezes, e o referio á diversas pessoas, admirando-se de ver tão bella -Rhetorica na bocca de um selvagem. - -Previno-vos, que represento todos estes discursos e supplicas o mais -sinceramente que me foi possivel, sem o emprego de artificio algum. - -Respondeo o Sr. de Pezieux dizendo ser grande crime um irmão matar outro, -mas como elle asseverava ter sido antes por culpa do fallecido do que -pela do vivo, perdoava a rogo dos Padres, a quem nada queria recusar, e -assegurou-lhe logo que seo filho nada soffreria, que acceitava a canoa -e os escravos, porem que tudo isto lhe offerecia para o arrimo de sua -velhice visto ser elle amigo dos Padres e dos Francezes. - -Alegrou-se muito o bom velho com este acto de misericordia e -liberalidade, e não foi ingrato, não só fazendo conhecido por toda a Ilha -o facto, como tambem offerecendo ao dito Sr. e a nós tudo quanto elle e -seu filho caçavam. - - - - -CAPITULO XVIII - -Quanto é facil civilizar os selvagens á maneira dos francezes, e -ensinar-lhes os officios, que temos em França. - - -No Liv. 2.º, Cap. 1.º, dos Machabeos, lemos, que o fogo sagrado do altar -foi escondido no poço de Nephtar durante o captiveiro do povo e se -transformou em limo. - -Quando o povo regressou, já livre, os Sacerdotes apanharam este limo, e o -deitaram na madeira do altar, levantado para os sacrificios. - -Apenas o sol, lá de cima, começou a lançar seos raios sobre o limo, este -se transformou em fogo, e devorou os holocaustos. - -Desejo servir-me d’esta figura para explicar o que tenho a dizer n’este e -nos seguintes Capitulos. - -Convem notar, que por este fogo se deve entender o espirito humano -imitando a naturesa do fogo por sua actividade, ligeiresa, calôr e -claridade, o qual se torna lodo e limo, escondido n’um centro differente -do seo proprio, devido isto á sua alma captiva pela infidelidade. - -Quero dizer, que sendo o espirito do homem creado para conhecer a Deos, -e aprender artes e sciencias, torna-se entorpecido e obscurecido entre -as immundicies, quando sua alma está presa nas cadeias da infidelidade, -sob a tyrannia de Satanaz, mas quando sua alma desprende-se do captiveiro -pela intenção e guia dos Prophetas de Deos, sahe o espirito d’esse -poço lamacento, e animado pela luz, e conhecimento de Deos, das artes, -e das boas sciencias, torna-se apto e prompto para executar o que -percebe e aprende, o que farei vêr, e tocar com o dedo a respeito dos -nossos selvagens, e mui principalmente quando de suas perguntas mais -comesinhas nasce a esperança d’elles se civilisarem, e viverem reunidos -n’uma cidade, negociando, aprendendo officios, estudando, escrevendo e -adquirindo sciencia. - -Tenho para mim, que são mais faceis de serem civilisados, do que os -aldeões de França, por ter a novidade não sei que influencia sobre o -espirito afim de excital-o a aprender o que elle vê de novo, e lhe agrada. - -Os nossos _Tupinambás_ nunca tiveram ideia alguma de civilisação até -hoje; eis a razão porque elles se esforção, por toda a forma, de imitar -os nossos francezes, como depois direi. - -Ao contrario os aldeões da nossa França estão de tal sorte enraisados em -sua rusticidade, que, em qualquer conversação, embora nas cidades entre -pessoas distinctas, sempre mostram signaes de camponezes. - -Aos _Tupinambás_, depois de dois annos de convivencia com os francezes, -estes lhes ensinaram a tirar o chapeu, a saudar a todos, a beijar as -mãos, a comprimentar, a dar os bons dias, a dizer adeos, a ir á Igreja, -a tomar agua benta, a ajoelhar-se, a pôr as mãos, a fazer o signal da -Cruz na testa e no peito, a bater no peito diante de Deos, a ouvir missa -e sermão, ainda que nada d’isto comprehendam, a levar o _Agnus Dei_, a -ajudar o sacerdote á missa, a assentar-se á mesa, a estender a toalha -diante de si, a lavar suas mãos, a pegar na carne com tres dedos, a -cortal-a no prato, e a beber em commum, e breve farão todos os actos -de civilidade e delicadesa, que se costuma a praticar entre nós, e já -se acham tão adiantados a ponto de parecerem ter sempre vivido entre os -francezes. - -Ninguem pois poderá contestar-me, que não sejam estes factos bastante -para convencer-nos do que devemos esperar e acreditar ser esta nação, com -o andar dos tempos, civilisada, honesta e muito aproveitada. - -Como os exemplos provam mais que outra qualquer especie de argumentação, -vou contar-vos o caso de alguns selvagens educados em casa de nobres. - -Actualmente ha em Maranhão uma mulher selvagem, de uma das boas raças da -Ilha, que foi antigamente, quando bem pequena, tomada pelos portuguezes, -e vendida como escrava á D. Catharina de Albuquerque, sobrinha do grande -Albuquerque, Vice-Rei das Indias Orientaes, sob o dominio do Rei de -Portugal, a qual reside presentemente em Pernambuco, e é Marqueza de -Fernando de Noronha, ilha muito bella e fertil, segundo diz o Revd. Padre -Claudio d’Abbeville na sua Historia. - -Esta rapariga fez-se christã, e se a vestissem á portugueza não se -poderia facilmente dizer qual a sua origem, se portugueza ou selvagem, -mostrando sempre a vergonha e o pudor, inseparaveis de uma mulher, e -occultando com cuidado a imperfeição do seo sexo. - -Poderia dizer outro tanto de muitos selvagens, educados entre os -portuguezes, e dos quaes alguns foram á França, e conservam ainda hoje o -que aprenderam, e o praticam quando se acham entre os francezes. - -É novo entre elles o uso da barba e dos bigodes, porem como vêem esse uso -entre os Francezes, tambem deixam crescer tanto uma como outra coisa. - -Tem incomparavel aptidão para as artes e officios. - -Conheço um selvagem do Miary, chamado _Ferrador_, por causa do officio, -que aprendeo, vendo somente trabalhar um ferrador francez que nada lhe -explicou. - -Sabia muito bem malhar com os outros uma barra de ferro encandecida, -como se tivesse longa pratica, apesar de ser coisa muito sabida entre os -officiaes do mesmo officio, que é necessario muito tempo para aprender-se -a musica dos martellos na bigorna do ferrador. - -Achando-se este mesmo selvagem nos desertos do Miary com seos -semelhantes, sem bigorna e martello, limas e tornos, trabalhava comtudo -muito bem fazendo pontas ou lanças para flechas, harpões e anzóes. -Por bigorna tinha uma pedra muito dura, por martello outra de menor -consistencia, e depois aquecendo ao fogo o ferro, dava-lhe a forma que -queria. - -Os officios mais necessarios entre elles são os de ferreiro, tanoeiro, -carpinteiro, marcineiro, cordoeiro, alfaiate, sapateiro, tecelão, oleiro, -ladrilhador, e agricultor. - -Para todos estes officios são aptos e inclinados pela natureza. - -Para o de ferreiro ou de ferrador ja referimos um exemplo. - -Quanto ao officio de tecelão seria a sua especialidade se aprendessem; -tecem seos leitos muito bem, trabalham em lã tão perfeitamente como os -francezes, embora não empreguem a lançadeira, e nem a agulha de ferro, e -sim pequenos pausinhos. - -Contarei ainda uma bonita historia. - -Fui um dia visitar o grande _Thion_, principal dos Pedras-verdes, -_Tabajares_; quando cheguei a sua casa, e porque lhe pedisse, uma de suas -mulheres me levou para debaixo de uma bella arvore no fim da sua cabana, -que a abrigava dos ardores do sol, onde estava armado um teiar de faser -redes de algodão, em que elle trabalhava. - -Gostei muito de vêr este grande Capitão, velho Coronel de sua nação, -enobrecido por tantas cicatrises, entregando-se com praser á este -officio, e não podendo conter-me, perguntei-lhe a razão d’isto, esperando -aprender alguma coisa de novo n’este facto tão particular, que estava -vendo. - -Pelo meu interprete lhe perguntei a razão, porque se dava a esse mister. - -Respondeo-me, «porque os rapases observam minhas acções e praticam o que -eu faço; se eu ficasse deitado na rede e a fumar, elles não quereriam -fazer outra coisa: quando me vêm ir para o campo com o machado no hombro -e a fouce na mão, ou tecer rede, elles se se envergonham de nada fazer.» - -Eu e os que comigo então se achavam, sentiram muito prazer ouvindo estas -palavras, e desejaria vel-as praticadas por todos os christãos, porque -então a ociosidade, mãe de todos os vicios, não estaria em França, como -actualmente se vê. - -O officio de carpinteiro não lhes é muito difficil, porque os vi fazendo -suas casas, e as dos Francezes, assentando seo machado, e repetindo o -golpe no mesmo lugar, quatro ou cinco vezes, com tanta firmeza, como -faria qualquer carpinteiro bem habil. - -A arte de marcineria lhes é facil, porque com suas fouces aplainam um -pedaço de pau, tão liso e tão igual, como se tivesse passado o raspador -por cima d’elle. - -Com o auxilio de suas facas somente, fazem macaquinhos e outras figuras -de madeira. - -Não precisam de serra, e nem de outro qualquer instrumento para fazer -seos arcos, remos e espada de guerra, pois basta-lhes uma simples -machadinha. - -Cavam, arranjam suas canôas, e dão-lhes a forma, que lhes apraz. - -Brevemente tractarei de outros officios, nos quaes os vi trabalhar com -tal industria a ponto de parecer-me que, com pouco tempo de ensino, -chegaram á perfeição. - -Alem d’isto fazem muito bem vestidos, cubertas de cama, sobre-céos, -sanéfas e cortinados de cama, pennas de diversas cores, que por sua -perfeição se pensa terem vindo de fóra. - -Não fallarei da propensão natural, que elles tem para pintar, fazer -diversas folhagens, e figuras, servindo-se apenas de uma pequena lasca de -pau, ou ponteiro, ao passo que os nossos pintores necessitam de tantos -pinceis, compassos, regoas, e lapis. - - - - -CAPITULO XIX - -Quanto são aptos os selvagens para aprenderem sciencias e virtudes. - - -Quando regressei das Indias para a França, pelas frequentes e constantes -perguntas, feitas pelas pessoas, que me vinham visitar, reconheci quanto -é difficil acreditarem os Francezes, que os selvagens sejam aptos para -aprenderem sciencia e virtude, e não sei se alguns chegam a ponto de -julgar estes povos antes do genero dos macacos, do que dos homens. - -Em quanto a mim elles são homens, e provarei, e por tanto capazes de -obterem sciencia e virtude. - -Seneca na sua epistola 110 disse «_Omnibus natura dedit fundamenta -semenque virtutum_.» A natura deo a todas as creaturas, sem excepção de -uma só, as raizes e as sementes das virtudes, palavras mui notaveis: -assim como as raizes e as sementes são lançadas na terra e por -conseguinte enterradas em suas entranhas, assim tambem Deos lançou -naturalmente no espirito do homem as raizes e as sementes da virtude: -com taes alicerces pode o homem, ajudado por Deos, edificar um predio, e -extrahir da semente uma bella arvore carregada de flores e de fructos, -doutrina esta muito bem provada por S. João Chrisostomo, na Homilia -55, ao povo de Antiochia, e na Homilia 15 á respeito da Epistola 1ª á -Thimotheo moralisando esta passagem do Genesis:—_Germinet terra, herbam -virentem, e omne lignum pomiferum_, «produsa a terra herva verdejante ou -arvore fructifera:» acrescentou ainda—_Dic ut producat ipse terra fructum -proprium et exibit quicquid facere velis_, «dize e ordena á tua propria -terra, que produza seo fructo natural, e verás ella produzir logo o que -pedires.» - -São Bernardo, no _Tractado da vida solitaria_, disse—_virtus vis est -quædam ex natura_, «a virtude é uma certa força, que sahe da natureza.» - -Se assim não fôr, quero provar por muitos exemplos, começando pelas -sciencias, para cujo ensino concorrem as tres faculdades da alma—vontade, -intelligencia, e memoria: a vontade dá ao homem o desejo de aprender, -e por ella vencemos toda a sorte de trabalhos e difficuldades: a -intelligencia dá vivacidade para comprehender, e a memoria guarda e -conserva o que conheceo e aprendeo. - -São mui curiosos os selvagens de saber novidades e para satisfazer tal -desejo, os caminhos e a distancia das terras, por maiores, que sejam, -lhes parecem curtos, não sentem a fome, porque passam, e os trabalhos -como que são descanço para elles: prestam-vos toda a sua attenção, -escutam o que disserdes durante o tempo que vos parecer, sem enfado e -em silencio, á respeito de Deos, ou de qualquer assumpto, e se tiverdes -paciencia, elles vos farão milhares de perguntas. - -Lembra-me, que entre as praticas, que eu lhes fazia ordinariamente por -intermedio do meo interprete, eu lhes disse que apenas chegassem de -França os Padres, elles mandariam edificar casas de pedra ou de madeira, -onde seriam recolhidos seos filhos, aos quaes os Padres ensinariam tudo o -que sabem os _Caraibas_. - -Responderam-me: oh! quanto são felizes nossos filhos por aprenderem tão -bellas coisas, oh! quanto fomos infelizes nós e os nossos antepassados -por não haverem Principaes n’esse tempo. - -É viva sua intelligencia como reconhecereis pelo seguinte facto. - -Não ha estrellas no Ceo, que elles não conheçam e calculam pouco mais ou -menos a vinda das chuvas e as outras estações do anno. - -Pela phisionomia distinguem um Francez de um Portuguez, um Tapuyo de um -Tupinambá, e assim por diante. - -Nada fazem antes de pensar, e pezam em seu juiso uma coisa antes de -emittir sua opinião. Ficam serios e pensativos, porem não se precipitam -em fallar. - -Mas, dizeis vós, como é possivel que estas pessoas tenham tal juiso -fazendo o que fazem? - -Porque elles dão por uma faca cem escudos de ambar gris, ou qualquer -outra coisa, que apreciamos, como sejam: ouro, prata e pedras preciosas. - -Eu vos direi a opinião que elles fazem de nós, muito contraria n’este -ponto: julgam-nos loucos e pouco judiciosos em apreciar mais as coisas, -que não servem para o sustento da vida do que aquellas, que nos -proporcionam o viver commodamente. - -Na verdade, quem deixará de confessar, ser uma faca mais necessaria á -vida do homem, do que um diamante de cem mil escudos, comparando um -objecto com outro, e pondo de parte, a estima que se lhe dá? - -Para provar que não lhes falta juiso afim de avaliar a estima que fazem -os Francezes das coisas existentes em sua terra, basta dizer, que elles -sabem altear muito o preço das coisas, que julgam ser apreciadas pelos -francezes. - -Um dia disseram-me alguns, que era preciso haver muita falta de madeira -em França, e que experimentassemos muito frio para mandarmos navios de -tão longe, a mercê de tantos perigos, carregarem de paus.[36] - -Respondi-lhes que não era para queimar e sim para tingir de cores. - -Replicaram-me: porque nos compraes o que cresce em nosso paiz a troco de -vestidos vermelhos, amarellos e verde-gaios? Eu os satisfiz dizendo ser -necessario misturar outras cores com as do seo paiz para tingir panos. - -Si me disserdes, que elles fazem acções inteiramente brutaes, como -as de comer seos inimigos, e praticar tudo que os offenda, como seja -expol-os em lugares onde ha piolhos, vermes, espinhos, etc., eu vos -responderei não provir isto de falta de juiso, porem sim de um erro -hereditario, sempre existente entre elles, por pensarem, que sua honra -depende de vingança: parece-me, que tambem não é desculpavel o erro -dos nossos francezes de se matarem em duello, e comtudo vemos os mais -bellos espiritos, e os primeiros da nobreza concordarem com este erro, -despresando a Lei de Deos, e arriscando a eternidade de sua salvação. - -Quanto a memoria elles a possuem muito feliz, porque lembram-se sempre do -que viram e ouviram com todas as circumstancias do lugar, do tempo, das -pessoas, quando o caso se disse ou se executou, fazendo uma geographia -ou descripção natural com a ponta de seos dedos na areia, do que estão -contando. - -O que mais me admirou foi vel-os narrar tudo quanto se ha passado desde -tempos immemoriaes, somente por tradicção, porque tem por costume os -velhos contar diante dos moços quem foram seos avós e antepassados, e -o que se passou no tempo d’elles: fazem isto na _casa grande_, algumas -vezes nas suas residencias particulares, acordando muito cedo, e -convidando gente para ouvil-os, e o mesmo fazem quando se vesitam, porque -abraçando-se com amisade, e chorando, contam um ao outro, palavra por -palavra quem foram seos avós e ante-passados, e o que se passou no tempo -em que viveram. - - - - -CAPITULO XX - -Continuação do objecto antecedente. - - -Concordo que sejam estes povos inclinados pela naturesa á muitos vicios, -porem é necessario lembrar-nos, que elles são captivos por infidelidade -d’estes espiritos rebeldes a Lei de Deos, e instigadores da sua -transgressão. - -São João na sua Epistola 1.ª chama _iniquidade_ ou _desigualdade_ -o desvio ou a digressão do direito, como muito bem explica o texto -Grego[BC] ——————————, assim traduzido _Peccatum est exorbitatio á lege_. - -Esta Lei é divina ou humana: aquella dada por escripto á Moysés, e depois -por Jesus Christo aos christãos, e esta acha-se gravada no intimo d’alma. - -Transgredindo-se estas duas Leis commettem-se dois peccados, um contra -os mandamentos de Deos, e outro contra a lei natural: por elles serão -accusados e condemnados os incredulos, cada um de per si, alem do peccado -commum da infidelidade. - -Entre todos os vicios a que estão sugeitos estes barbaros, sobresahe a -vingança, que nunca perdoam, e a praticam logo que podem, embora as boas -apparencias com que tratam seos inimigos reconciliados. - -Não ha a menor duvida que retirando-se os francezes do Maranhão, todas as -nações, antes inimigas, que ahi residem promiscuamente, por terem a nossa -alliança, devorar-se-hão umas ás outras, embora, o que é para admirar, -vivam agora muito bem sob o dominio dos francezes, e até contrahindo-se -casamentos entre ellas. - -Gostam tanto de vinho a ponto de ser considerada a embriaguez por elles, -e até mesmo pelas mulheres, como uma grande honra. - -São impudicos extraordinariamente, mais as raparigas do que qualquer -outros inventores de noticias falsas, mentirosos, levianos e -inconstantes, vicios mui communs a todos os incredulos, e por ultimo são -extremamente preguiçosos a ponto de não quererem trabalhar, embora vivam -na miseria, antes do que na opulencia por meio do trabalho. - -Se elles quizessem, não era necessario muito cansaço para terem em poucas -horas muita carne e peixe. - -O que acabo de dizer, refere-se especialmente aos _Tupinambás_, porque -as outras nações, como sejam os _Tabajares_, _Cabellos-compridos_, -_Tremembés_, _Canibaes_, _Pacajares_, _Camarapins_, e _Pinarienses_, e -outros trabalham muito para viver, ajuntar generos, ter boa casa, e todas -as commodidades. - -Vou dar-vos um exemplo bem notavel da preguiça dos nossos _Tupinambás_. - -Obtendo alguns Francezes do Forte licença para irem passear ás aldeias, -foram á do chefe _Vsaap_. - -Na entrada da primeira choupana encontraram um grande fumeiro cheio de -caça, e ao lado d’elle um indio, dono da casa, deitado n’uma rede de -algodão, que gemia muito como se estivesse bastante doente. - -Os nossos Francezes alegres e promptos á festejarem esta mesa tão bem -preparada, lhe perguntaram com brandura e carinho _Dê omano Chetuasap_, -«está doente meo compadre?» Sim, respondeo elle. Que tendes, replicaram -os Francezes, quem vos fez mal? Minha mulher, disse elle. Foi para roça -desde pela manhã, e eu ainda não comi. A farinha e a carne está tão perto -de vós, porque não vos levantaes, para comer, disseram os francezes? Sou -preguiçoso, não sei levantar-me. Quereis, tornaram os francezes, que vos -levemos a farinha e a carne, e comeremos comvosco? Quero, respondeo elle -logo. - -Começaram todos a aliviar o fumeiro, pozeram tudo diante d’elle, e -assentando-se em roda, como é de costume, excitaram-lhe o apetite pela -boa vontade que mostravam, e o trabalho, que elles tiveram de tirar -a comida de cima do fumeiro, em distancia de tres pés, foi o unico -pagamento de tal companhia na mesa. - -Apesar de suas perversas inclinações, elles tem outras muito boas, -louvaveis e virtuosas. - -Vivem pacificamente com os outros, dividem com elles o resultado de sua -pescaria, caçada e lavoura, e não comem ás escondidas. - -Um dia na aldeia de Januaran só tinham farinha para comer. Appareceu um -rapaz trazendo uma perdiz morta ha pouco; sua mãe depennou-a ao fogo, -cozinhou-a, deitou-a n’um pilão, reduzio-a á pó, e juntando-lhe folhas -de mandioca, cujo gosto é similhante ao da chicoria selvagem, fez ferver -tudo, e depois de bem picado ou cortado em pedacinhos, d’esta mistura -fez pequenos bolos, do tamanho de uma balla, e mandou distribuil-os pela -aldeia, um para cada choupana. - -Vi ainda uma coisa mais admiravel, embora comesinha, e sem consequencia. - -Appareceram em minha casa muitos selvagens esfaimados, vindos da -pescaria, onde somente apanharam um carangueijo, que assaram sobre -carvões, e pedindo-me farinha, o comeram todos, fazendo roda, cada um o -seo pedacinho: eram doze ou treze. - -Bem podeis imaginar o que tocaria a cada um, sendo o carangueijo do -tamanho de um ovo de galinha. - -É muito grande a liberalidade entre elles, e desconhecida a avaresa. - -Si algum delles tiver desejos de possuir uma coisa, que pertença a outro, -elle o diz francamente, e é preciso que o objecto seja muito estimado -para não ser dado logo, embora o que a pedio fique na obrigação de dar ao -outro tambem o que elle desejar. - -Tornam-se mais liberaes para com os estrangeiros do que para com seos -patricios. - -Ficam reduzidos á pobresa comtanto que bem hospedem os estrangeiros, que -vão visital-os, julgando-se bem recompensados com a fama de liberaes, -espalhada pelos que não são de sua terra, e julgam chegar ella até aos -paizes estrangeiros, onde serão tidos por grandes e ricos. - -Com taes ideias muitas vezes vão fazer visitas a cem, duzentas e -tresentas legoas afim de serem apreciados por suas liberalidades. - -Nunca roubam uns aos outros; o que possuem está á vista, pendurado nas -vigas e barrotes de suas casas. - -É bem verdade, que dentro da Ilha actualmente, em Tapuytapera, e Cumã, -elles tem cofres, que lhes deram os Francezes, onde guardam o que tem de -melhor, e, ou excitados por isto, ou pelo exemplo dos Francezes, muitos -d’elles ja aprenderam a arte de furtar. - -Elles chamam furtar—_Mondá_, ao ladrão _Mondaron_, e este nome é entre -elles grande injuria a ponto de mudarem de côr quando o pronunciam: -chamar uma mulher ladra, é duas vezes prostituta, com o nome de -_Menondere_ para differençar de prostituta simples—_Patakuere_, é aquelle -primeiro epitheto o mais afrontoso, que se lhe pode dizer. - -Tomareis uma boa vingança chamando-os ladrões, quando elles vos atirarem -ao rosto um bem claro, e expressivo _Giriragoy_, que quer dizer -_mentiste_, sem exceptuar pessoa alguma, e por isto bem podeis avaliar -quanto este vicio é detestado por elles, pois não podem tolerar a injuria. - -Guardam reciproca equidade, não se enganam nem se illudem: si um -offende a outro, segue-se logo a pena de _Talião_: são mui tolerantes, -respeitam-se reciprocamente, especialmente os velhos. - -São muito soffredores em suas miserias e fome chegando até a comer -terra,[37] ao que acostumam seos filhos, o que vi muitas vezes. - -Vi muitos meninos tendo nas mãos uma bolla de terra, que ha em sua aldeia -como _terra siggilada_, a qual apreciam e comem como fazem as crianças, -em França com as maçans, as pêras, e outros fructos que se lhes dá. - -Não se esmeram no preparo da comida, como nós, por que ou a cozinham ao -fogo, ou a fazem ferver n’uma panella sem sal, ou assam-n’a no fumeiro. - - - - -CAPITULO XXI - -Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada -inviolavelmente pela mocidade. - - -O que mais me impressionou e admirou durante os dois annos, que estive -entre os selvagens, foi a ordem e respeito observado inviolavelmente -pelos moços para com os seos parentes mais velhos, ou entre elles, -fazendo cada um o que permitte a sua idade sem cuidar do que se acha no -mais alto ou no menor grau. - -Ninguem deixará de admirar-se commigo vendo a naturesa somente ter -n’estes barbaros o poder de fazel-os guardar o respeito, que os meninos -devem a seos maiores, e fazer conter a estes no que é exigido pela -diversidade das idades. - -Quem não se hade admirar vendo a naturesa somente ter mais força para -fazer observar estas coisas, do que a Lei e a graça de Jesus-Christo -sobre os Christãos, entre os quaes raras vezes se contem a mocidade nos -seos deveres, apesar de todos os bons ensinos, mestres e pedagogos, -apparecendo sempre confusão e grande presumpção. - -Muito praser terei si o caso seguinte nos der algum remedio. - -Distinguem os selvagens suas idades por certos graus, e cada grau tem no -frontespicio de sua entrada, seu nome proprio, que ensina ao que pretende -entrar em seo palacio os seos jardins e alamedas, a sua occupação, e isto -por enigmas, como eram outr’ora os Hierogliphos dos Egypcios. - -O primeiro grau é destinado as crianças do sexo masculino e legitimos -e dão-lhe em sua lingua o nome de _Peitan_, isto é, «menino sahindo do -ventre de sua mãe.» - -Á este primeiro grau da idade do menino é inteiramente cheio de -ignorancia, de fraqueza e de lagrimas, base de todos os outros graus. - -A natureza, boa mãe d’estes selvagens, quiz que o menino sahindo do -ventre de sua mãe, se achasse em estado de receber em si as primeiras -sementes do natural commum d’estes selvagens, porque não é afagado, -pensado, aquecido, bem nutrido, bem tratado, nem confiado aos cuidados -de alguma ama, e sim apenas lavado em algum riacho ou n’alguma vasilha -com agua, deitado n’uma redezinha de algodão, com todos os seos membros -em plena liberdade, nus inteiramente, tendo por unico alimento o leite -de sua mãe, e grãos de milho assados, mastigados por ella até ficarem -reduzidos á farinha, amassados com saliva em forma de caldo, e postos em -sua boquinha como costumam a fazer os passaros com a sua prole, isto é, -passando de bocca para bocca. - -É bem verdade, que quando o menino é um pouco forte, por conhecimento -e inclinação natural, ri-se, brinca e salta, nos braços de sua mãe, -pensando estar mastigando sua comida, levando seo bracinho á bocca -d’ella, recebendo no concavo de sua mãosinha este repasto natural, que -leva á bocca e come: quando se sente farto, bota fóra o resto, e virando -a cara, e batendo com as mãos na bocca da mãe, lhe dá a entender que não -quer mais. - -Obedece a mãe promptamente não forçando seo apetite e nem lhe dando -occasião de chorar. - -Si o menino tem sêde, por gestos sabe pedir o peito de sua mãe. - -Em tão tenra idade mostram o respeito e o dever, que a natureza lhes dá, -porque não são gritadores, comtanto que vejam suas mães, e ficam no lugar -onde os deixam. - -Quando vão trabalhar nas roças ellas as assentam nuasinhas na areia ou na -terra, onde ficam caladinhas, ainda que o ardor do sol lhes dê no rosto -ou no corpo. - -Qual seria de nós, que hoje poderia viver soffrendo na primeira idade -tantos encommodos? - -Esperam os nossos paes a retribuição e dever, que principiamos a -pagar-lhes desde a primeira idade, si não estão cegos pelo amor que nos -tem; o mesmo devem esperar nas outras idades, sendo mais reconhecidos os -nossos deveres para com elles, custe o que custar-nos. - -Começa a segunda idade, quando o menino anima-se a andar sosinho, e -apezar de haver alguma confusão da-se-lhe o mesmo nome. - -Observei differença na maneira de criar os meninos, que não sabem andar, -e os que se esforçam para o fazer, o que nos leva a formar outra classe, -e dar-lhe nome proprio: chama-se _Kunumy-miry_, «rapazinho»[38] e abrange -até 7 a 8 annos. - -Durante este tempo não se separam de suas mães, e nem acompanham seos -Paes, e o que é mais, deixam-nos mamar até que por si mesmo aborreçam o -peito, habituando-se pouco a pouco ás comidas grosseiras como os grandes -e adultos. - -Dão lhes pequenos arcos e flexas proporcionaes ás suas forças, -reunindo-se uns aos outros plantam e juntam algumas cabaças, nas quaes -fazem alvo para o tiro das suas flechas adextrando assim bem cêdo seos -braços. - -Não açoitam, e nem castigam seos filhos, que obedecem a seos paes e -respeitam os mais velhos. - -È muito agradavel esta idade dos meninos, e n’ella podereis descobrir a -differença existente entre nós pela naturesa e pela graça: sem fazer -comparação, acho-os mimosos, doceis e affaveis como os meninos francezes, -não esquecendo antes tornando bem saliente a graça do Espirito Santo -concedida pelo baptismo aos filhos dos Christãos. - -Si acontece morrerem os meninos n’esta idade, tem os paes pesar profundo, -e sempre se recordam d’elles, especialmente nas cerimonias de lagrimas e -lamentações, recordações que fazem uns aos outros, lastimando esta perda -e a morte dos seos filhinhos, dando-lhes o nome de _Ykunumirmee-seon_ «o -menino morto na infancia.» - -Vi mães, quase loucas, no meio de suas roças, ou nas matas sosinhas, em -pé ou agachadas, chorando amargamente, e quando lhes perguntava para que -faziam isto, respondiam-me «Oh! recordo-me da morte de meos filhinhos, -_Ché Kunumirmee-seon_, ainda na infancia» e depois continuavam a chorar e -muito. - -È na verdade mui natural o ter pesar da perda e morte d’estes meninos, -que ja haviam custado tantos trabalhos á seos paes, e que estavam na -edade de dar-lhes alguma alegria. - -Acha-se a terceira classe entre estas duas primeiras—infancia e puericia, -e as da adolescencia e virilidade, entre os 8 a 15 annos, a que chamamos -mocidade: appellidam-nos os selvagens simplesmente por _Kunumy_ sendo a -infancia chamada _Kunumy-miry_, e a adolescencia _Kunumy-uaçu_. - -Estes _Kunumys_, ou rapazes, na idade do 8 a 15 annos, não ficam mais -em casa e nem ao redor de sua mãe, e sim acompanham seos paes, tomam -parte no trabalho d’elles imitando o que vêem fazer: empregam-se em -buscar comida para a familia, vão as matas caçar aves, e ao mar flechar -peixes e admira vêr a industria com que flecham as vezes tres a tres -peixes juntos, ou agarram em linha feita de _tucu_ ou em _pussars_, -especie de rêde de pescar, que enchem de ostras e outros mariscos, e -levam para casa. Não se lhes manda fazer isto, porem elles o fazem por -instincto proprio, como dever de sua idade, e já feito tambem por seos -antepassados. - -Este trabalho e exercicio mais agradavel do que penoso, e proporcional a -sua idade, os isenta de muitos vicios, aos quaes a naturesa corrompida -costuma a prestar attenção, e a ter predilecção por elles. - -Eis a razão porque se facilita á mocidade diversos exercicios liberaes -e mecanicos, para distrahil-a e desvial-a da má inclinação de cada um, -reforçada pelo ocio mormente n’aquella idade. - -A quarta classe é para os que os selvagens chamam _Kunumy-uaçú_, -«mancebos»: abrange a idade de 15 a 25 annos, por nós chamada -«adolescencia.» - -Tem outro modo de vida, entregam-se com todo o esforço ao trabalho, -acostumam se a remar, e por isso são escolhidos para tripularem as canôas -quando vão á guerra. - -Applicam-se especialmente a fazer flexas para a guerra, a caçarem com -cães, a flechar e arpoar peixes grandes, não usam ainda de _Karacóbes_, -isto é, de um pedaço de pano atado na frente para encobrir suas -vergonhas, como fazem os homens casados, e sim de uma folha de Palmeira. - -Tem o poder de dividir o que possuem com os mais velhos, reunidos na -_Casa-grande_, onde conversam, e servem tambem os mais velhos. - -É n’este tempo, diga-se a verdade, que elles mais ajudam a seos paes e -mães, trabalhando, pescando e caçando, antes de se casarem, e portanto -sem obrigação de sustentarem mulher: eis porque sentem muito seos paes -quando elles morrem n’esta idade, dando-lhes em signal de sua dor o nome -de _Ykunumy-uaçú-remee-seon_, que quer dizer «o mancebo morto» ou «o -mancebo morto na sua adolescencia.» - -Abrange a quinta classe desde 25 até 40 annos, e se chama _Aua_ o -individuo n’ella comprehendido, vocabulo aplicado a todas as idades, -assim como usamos com o nome _homem_. - -Apesar d’isto ser privativo d’esta idade, assim como o homem é pelos -Latinos chamado _vir_, _á virtude_, e em Francez idade viril, de -virilidade, quer dizer—a força, que no homem chegou a seu termo: n’esta -mesma lingua de selvagens a palavra _Aua_, de que procede _Auaté_, quer -dizer «forte, robusto, valente, audacioso», para significar a 5ª idade -dos seos filhos. - -N’essa occasião como guerreiros são bons para combater, nunca porem para -commandar: buscam casar-se, o que não é difficil por consistir o enxoval -da noiva apenas de algumas cabaças, que lhes dá sua mãe para principiar -sua casa, vestidos, e roupas, ao contrario em nosso paiz as mães fornecem -enfeites e pedras brancas a suas filhas. - -Os paes dão por dote aos maridos de suas filhas 30 ou 40 toros de pau de -tamanho proprio a poderem ser levados á casa do noivo, os quaes servem -para com elles se accender o _fogo das bodas_: o individuo casado de novo -não se chama _Aua_, e sim _Mendar-amo_. - -Embora sejam casados o homem e a mulher não ficam livres da obrigação -natural de proteger seos paes e ajudal-os a fazer suas roças. - -Soube d’isto em minha casa, vendo a filha de _Japy-açú_, baptisada e -casada á face da Igreja, dizer a um outro selvagem, seo marido, tambem -christão, quando pretendia ir a _Tapuitapera_ ajudar o Rvd. Padre Arsenio -no baptismo de muitos selvagens, «Onde queres ir? Tu bem sabes que ainda -não se fizeram as roças de meo Pae, e que ha falta de mantimentos: não -sabes, que si elle me deo a ti foi com a obrigação de o auxiliares na -velhice? Si queres abandonal-o então volto para a casa d’elle.» - -Advertiram-na á respeito d’estas ultimas palavras, fazendo-a reconhecer -o juramento que dera, de nunca abandonal-o ou separar-se d’elle, -louvando-se comtudo muito os outros sentimentos, que manifestou á favor -de seo Pae, e praza a Deos que todos os christãos a imitassem dando -verdadeira intelligencia a estas palavras formaes do casamento que o -homem e a mulher deixaram seos paes para viverem juntos—porque de outra -fórma seria Deus authorisar a ingratidão dos filhos casados sob pretexto -de terem filhos, ou poder tel-os e precisar cuidar do seo sustento, -quando ao contrario Deos condemna, como reprobo, o que abandona seos -paes, sem os quaes, não fallando na vontade de Deos, não viriam ao mundo -nem elles, e nem seos filhos, embora por essas palavras mostre a grande -união, que pelo casamento se faz entre o corpo e o espiríto dos casados. - -Comprehende a 6ª classe os annos de 40 até a morte: é a mais honrosa de -todas, e cercada de respeito e veneração, os soldados valentes, e os -capitães prudentes. - -Assim como o mez dá a colheita dos trabalhos e a recompensa da paciencia, -com que o lavrador supportou o inverno e a primavera, lavrando com a sua -charrua o campo em todos os sentidos, sem ser ajudado pela terra, assim -tambem quando chega a estação da velhice são honrados pelos que tem menos -idade. - -O que occupa esta classe chama-se _Thuyuae_, quer dizer, «ancião ou -velho.» - -Não póde, como os outros, ser assiduo ao trabalho: trabalha quando -quer, e bem a sua vontade, mais para exemplo da mocidade, respeitando -tradicções da sua Nação, do que por necessidade: é ouvido com todo o -silencio na _casa-grande_, falla grave e pausadamente usando de gestos, -que bem explicam o que elle quer dizer e o sentimento, com que falla. - -Todos lhe respondem com brandura e respeito, e ouvem-nos os mancebos -com attenção: quando vae a festa das _Cauinagens_ é o primeiro, que -se assenta e é servido; entre as moças, que distribuem o vinho pelos -convidados, as de mais consideração o servem, e são as parentas mais -proximas do que fez o convite. - -No meio das danças entoam os cantos; dam-lhe a nota, principiam pela mais -baixa até a mais grave, crescendo gradualmente até chegar á força da -nossa musica. - -Suas mulheres cuidam n’elles, lavam-lhes os pés, apromptam e trazem-lhe a -comida, e se ha alguma difficuldade na carne, no peixe ou nos mariscos, -ellas a tiram, accommodando-a ás suas forças. - -Quando morrem alguns d’elles os velhos lhe prestam honras, e o choram -como as mulheres, e lhe dam o nome de _thuy-uae-pee-seon_: quando -morrem na guerra, chamam-no _marate-kuepee-seon_, «velho morto no meio -das armas», o que ennobrece tanto seos filhos e parentes, como entre -nós qualquer velho Coronel, que occupou sua vida inteira no serviço do -exercito pelo Rei e pela Patria, e que por corôa de gloria morreo com as -armas na mão, com a frente para os inimigos, no meio de renhido combate, -coisa nunca esquecida por seos filhos antes considerada como grande -herança, e de que se aproveitam apresentando-os ao Principe como bons -serviços de seo Pae, e pedindo por elles uma recompensa. - -Não fazendo estes selvagens caso algum de recompensas humanas, porem -empenhando todas as suas forças para conseguirem essas honras, provam -com isto o quanto apreciam não só os actos de heroismo de seos paes, mas -tambem a serem estimados por causa d’elles. - -Os que morrem nos seos leitos não deixam de ser honrados, conforme o seo -merito, e chamam-no _theon-suyee-seon_, «o bom velho que morreo na cama». - -Por isto podeis avaliar como a naturesa por si só nos ensina a respeitar, -a ajudar, e a soccorrer os velhos e anciões e á refrear com violencia -a temeridade e presumpção dos moços, que sem prevêrem o futuro, não se -recordam de que na sua velhice, se lhes fará justamente o que elles, -quando jovens, fizeram aos mais velhos, dando esse exemplo á seos filhos, -e ensinando-os a serem ingratos. - - - - -CAPITULO XXII - -A mesma ordem e respeito é observada entre as raparigas e as mulheres. - - -Encontram-se n’estes selvagens vestigios da naturesa, como as pedras -preciosas se acham nas encostas das montanhas. - -Seria um louco o que quizesse encontrar em seos jazigos os diamantes tão -claros e brilhantes, como quanto lapidados e engastados n’um anel. - -Provem esta differença de se acharem tão ricas pedras cubertas de jaça -sem mostrar o seo valor de tal sorte, que muitos passam e tornam a passar -por cima d’ellas sem levantal-as visto não as conhecerem. - -Acontece a mesma coisa na conversação d’estes pobres selvagens: muitos -ignoram e ignorarão ainda o que tenho narrado e narrarei, e embora tenham -conversado com elles por muito tempo, por falta de conhecimento ou de -observação da boa conducta natural d’estas pessoas fóra da graça de Deos, -passaram por ellas, á similhança das pedras preciosas, sem tirar o menor -proveito, e olhando-as com indifferença. - -A mesma ordem de classes de idade tenho observado entre as raparigas e as -mulheres, como entre os homens. - -A primeira classe é commum á ambos os sexos, cujos individuos, sahindo -immediatamente do ventre de suas mães, se chama _Peitan_, como já -dissemos no art. antecedente. - -A segunda classe estabelece distinção de idade, de sexo, e de dever: -d’idade de moça para moça, de sexo de moça para rapaz, e de dever de mais -moça para mais velha. - -Comprehende esta classe os sete primeiros annos, e a rapariga d’esse -tempo se chama _kugnantin-myri_, quer dizer _rapariguinha_. - -Reside com sua mãe, mama mais um anno do que os rapazes, e vi meninas com -seis annos d’idade ainda mamando, embora comam bem, fallem, e corram como -as outras. - -Em quanto os rapazes d’esta idade carregam arcos e flexas, as raparigas -se empregam em ajudar suas mães, fiando algodão como podem, e fazendo uma -especie de redesinha como costumam por brinquedo, e amassando o barro com -que imitam as mais habeis no fabrico de potes e panellas. - -Expliquemos o amor, que o pae e a mãe dedicam a seos filhos e filhas. - -Pae e mãe consagram todo o seo amor aos filhos, e ás raparigas apenas -accidentalmente, e n’isto acho-lhes razão natural, nossa luz commum, -a qual nos torna mais affeiçoados aos filhos do que ás filhas, porque -aquelles conservam o tronco e estas o despedaçam. - -Abrangem a terceira classe desde 7 até 15 annos, e a moça n’esta idade se -chama _kugnantin_, «rapariga»: n’este tempo ordinariamente perdem, por -suas loucas phantasias, o que este sexo tem de mais charo, e sem o que -não podem ser estimadas nem diante de Deos, nem dos homens; perdoem-me -se digo, que n’esta idade não são prudentes, embora a honra e a lei -de Deos as convidasse á immortalidade da candura, porque estas pobres -raparigas selvagens pensam, e muito mal, aconselhadas pelo autor de todas -as desgraças, que não devem ser mais puras quando chega esse tempo. Nada -mais direi para não offender o leitor: basta tocar apenas o fio do meo -discurso. - -N’essa idade aprendem todos os deveres de uma mulher: fiam algodão, -tecem redes, trabalham em embiras, semeam e plantão nas roças, fabricam -farinha, fazem vinhos, preparam a comida, guardam completo silencio -quando se acham em quaesquer reuniões onde ha homens, e em geral fallam -pouco se não estão com outras da mesma idade. - -A quarta classe está entre 15 a 25 annos, e a rapariga n’ella -comprehendida chama-se _kugnammucu_, «moça ou mulher completa», o que nós -dizemos por «moça boa para casar.» - -Passaremos em silencio o abuso, que se pratica n’estes annos, devido aos -enganos de sua Nação, reputados como lei por elles. - -São ellas, que cuidam da casa alliviando suas mães, e tratando das -coisas necessarias á vida da familia: cedo são pedidas em casamento, -si seos paes não as destinam para algum francez afim de terem muitos -generos, e no caso contrario são concedidas, e então se chamam -_kugnammucu-poare_,[39] «mulher casada, ou no vigor da idade.» - -D’ahi em diante acompanha seo marido carregando na cabeça e ás costas -todos os utencilios necessarios ao preparo da comida, as vezes a propria -comida, ou os viveres necessarios á jornada, como fazem os burros de -carga com a bagagem e alimentação dos seos senhores. - -É occasião de dizer, que ambiciosos como os grandes da Europa, que -desejam ostentar sua grandesa apresentando grande numero de burros, estes -selvagens tambem desejam ter muitas mulheres para acompanhal-os, e levar -suas bagagens, mormente havendo entre elles o costume de serem estimados -e apreciados pelo grande numero de mulheres á seo cargo. - -Quando grávidas, após o casamento, são chamadas _puruabore_, «mulher -prenhe», e apezar d’este estado não deixam de trabalhar até á hora -do parto, como si nada tivessem. Apresentam grande volume, porque -ordinariamente parem meninos grandes e corpolentos. - -Talvez se pense que n’este estado cuidam ellas em cobrir sua nudez, porem -não soffrem a menor alteração o seo modo de viver. - -Chegado o tempo do parto, si assim se póde chamar, não procura para -esse fim a cama, si as dores não são fortes: em qualquer dos casos -senta-se, é rodeada por suas visinhas convidadas para assistil-as, -pouco antes do apparecimento das dores, por meio d’estas palavras -_chemenbuirare-kuritim_ «eu vou já partir, ou estou quase a parir»: corre -veloz o boato de casa em casa, que tal e tal mulher vae parir, dizendo -com o nome proprio da parturiente estas palavras _ymen-buirare_, que -significa «tal mulher pario, ou está para parir.» - -Acha-se ahi o marido com as visinhas, e si ha demora no parto, elle -aperta-lhe o ventre para fazer sahir o menino, o que acontecido, deita-se -para observar o resguardo em lugar de sua mulher,[40] a qual continua a -fazer o serviço do costume, e então é vesitado em sua cama por todas as -mulheres da aldeia, que lhe dirigem palavras cheias de consolação pelo -trabalho e dôr, que teve de fazer o menino, sendo tratado como gravemente -doente e muito cançado, á maneira do que se pratica em identicas -circumstancias com as mulheres de paizes civilisados. - -Comprehende a quinta classe desde 25 até 40 annos, quando o homem e a -mulher attingem ao seo maior vigor. - -Dam-lhe geral e commummente o nome de _kugnan_, «uma mulher, ou uma -mulher em todo o seo vigor». - -N’essa idade conservam ainda as indias alguns traços de sua mocidade, e -principiam a declinar sensivelmente, sendo feias e porcas, trazendo as -mamas pendentes á similhança dos cães de caça, o que causa horror: quando -jovens, são bonitas e asseiadas, e tem os peitos em pé. - -Não quero demorar-me muito n’esta materia, e concluo dizendo, que a -recompensa dada n’este mundo á puresa é a incorruptibilidade e inteiresa -acompanhada de bom cheiro, mui bem representada nas letras santas pela -flôr do lyrio puro, inteiro e cheiroso—_sicut lilium inter spinas, sic -amia mea inter filias_. - -A sexta e ultima classe está entre os 40 annos e o resto da vida, e então -a mulher se chama _Uainuy_: n’este tempo ainda parem. - -Gosam do privilegio da mãe de familia: presidem ao fabrico dos _cauins_, -e de todas as outras bebidas fermentadas. - -Occupam lugar distincto na _casa-grande_ quando ahi vão as mulheres -conversar, e quando ainda se achava em pleno vigor o poder de comerem -os escravos, eram ellas as incumbidas de assar bem o corpo d’elles, de -guardar a gordura, que não queriam, para fazer o _mingau_, de cozinhar -as tripas, e outros intestinos em grandes panellas de barro, de n’ellas -misturar farinha e couves, e dividil-as depois por escudellas de pau, que -mandavam distribuir pelas raparigas. - -Dam principio ás lagrymas e lamentos pelos defunctos, ou pela boa chegada -de suas amigas. - -Ensinam ás moças o que aprenderam. - -Usam de más palavras, e são mais descaradas do que as raparigas e as -moças, e nem me atrevo a dizer o que ellas são, o que vi e observei, -sendo tambem verdade que vi e conheci muitas boas, honestas e caridosas. - -Existiam no _Forte de São Luiz_ duas boas mulheres _Tabajares_, que não -se cansavam de trazer-me presentesinhos, e quando me os offereciam, -sempre choravam e desculpavam-se de não poderem dar melhores. - -Não espero muito d’estas velhas: e o superior nada tem a fazer senão -esperar que a morte o livre d’ellas: quando morrem não são muito choradas -e nem lamentadas, porque os selvagens gostam muito de ter mulheres moças. - -Os selvagens creem supersticiosamente terem as mulheres, depois de -mortas, muita difficuldade de deparar com o lugar onde, alem das -montanhas, dançam seos ante-passados, e que muitas ficam pelos caminhos, -se é que lá chegam. - -Não guardam asseio algum quando atingem a idade da decrepitude, e entre -os velhos e velhas nota-se a differença de serem os velhos veneraveis e -apresentarem gravidade e autoridade, e as velhas encolhidas e enrugadas -como pergaminho exposto ao fogo: com tudo isto são respeitadas por seos -maridos e filhos, especialmente pelas moças e meninas. - - - - -CAPITULO XXIII - -Da consaguinidade entre os selvagens. - - -Como entre nós, a consaguinidade entre estes barbaros tem muitos graus -e ramos, e se observa entre todas as familias com tanto cuidado como -fazemos, excepto porem a castimonia, que tem alguns embaraços entre -elles, menos no primeiro grau—de pae para filha. - -Entre os irmãos e irmans não ha casamentos, mas duvido, e não sem razão, -da regularidade da vida d’elles, e nem isto merece ser escripto. - -Bróta o primeiro ramo do tronco de seos avós, que elles chamam -_Tamoin_,[41] e debaixo desta denominação comprehendem todos os seos -ante-passados desde Nóe até o ultimo dos seos avós, e admira como se -lembram e contam de avô em avô, seos ante-passados, o que difficilmente -fazemos na Europa podendo remontar-nos, sem esquecer-nos, até o tataravô. - -O segundo ramo nasce e cresce do primeiro e chama-se _Tuue_, «pae», e é o -que os gera em legitimo casamento, como acontece entre nós, porque para -os bastardos ha outra Lei, de que fallarei em lugar proprio. - -Este ramo paterno dá outro, que se chama _Taire_, «filho», o qual se -córta e divide-se em diversos galhos, a que chamam _chéircure_, «meo -irmão mais velho», um dia—a cumieira da casa e da familia, e _chéubuire_, -«meo irmãosinho», que só cuidará da casa, si fallecer seo irmão mais -velho. - -Tendo filhos um destes irmãos, qualquer que seja o sexo, deve chamar o -irmão de seo pae _chétuteure_, «meo tio» e sua mulher _chéaché_, «minha -tia». Da mesma forma si seo pae tiver irmans elle as chama _chéaché_, -«minha tia», como tambem os maridos d’estas _chétuteure_, «meo tio». - -Os tios e tias chamam os meninos de seos irmãos e irmans _chéyeure_ «meo -sobrinho», e as meninas _reindeure_ ou _chereindeure_, «minha sobrinha». - -Os filhos de dois irmãos, isto é, de um irmão e os de outra irman se -chamam os homens _rieure_ ou _cherieure_, «meo primo», e as moças -_yeipere_ ou _cheitipere_ «minha prima.» - -Quanto á descendencia do lado das mulheres, a avó é o tronco, seja -paterna ou materna, e chama-se _ariy_ ou _cheariy_, «minha avó.» - -A mãe é o segundo ramo, e chama-se _Ai_, «mãe», ou _cheai_, «minha mãe». - -Seguem-se gradualmente a filha, cujo nome é _tagyre_, filha, ou -_cheagyre_, «minha filha», a irman _teindure_, «irman», ou _chéreindure_, -«minha irman», a tia _yaché_, «tia», ou _chéaché_, «minha tia», a -sobrinha _reindure_ ou _chereindure_, «minha sobrinha», ou «minha pequena -irman», modo de fallar entre elles, a prima _yetipere_, «prima», ou -_cheytipere_, «minha prima.» - -Eis os ramos de consaguinidade entre elles. - -Para os homens. - - Avô. - Pae. - Filho. - Irmão. - Tio. - Sobrinho. - Primo. - -Traduzido em sua lingua é - - _Chéramoin_ ou _tamoin_. - _Tuue_ ou _chéru_. - _Tayre_ ou _chéayre_. - _Cheircure_ ou _chéubuire_. - _Tuteure_ ou _chétuteure_. - _Yeure_ ou _chéyeure_. - _Rieure_ ou _chérieure_. - -Para as mulheres. - - Avó. - Mãe. - Filha. - Irman. - Tia. - Sobrinha. - Prima. - -Em sua linguagem. - - _Ariy_ ou _Ché-Ariy_. - _Ai_ ou _Chéai_. - _Tagyre_ ou _Chéagyre_. - _Theindeure_ ou _Chéreindeure_. - _Yaché_ ou _Chéaché_. - _Reindure_ ou _Chéreindure_. - _Yetipere_ ou _Ché-yetipere_. - -Alem d’estas consaguinidades existem mais duas por contractos de -alliança; uma quando se dá sua filha á um individuo, ou quando se recebe -uma moça para casar-se com seu filho, e outra quando, por contracto -d’alliança com os francezes, lhes dam suas filhas para concubinas. - -Aos que dam suas filhas chamam _taiuuen_ «genro», ou _Chéraiuuen_, «meo -genro». - -Á mulher de seo filho chamam _Tautateu_, «nóra», ou _Cherautateu_, «minha -nora». - -Chamam os Francezes seos alliados por hospitalidade _Tuasap_, «compadre» -ou _ché-tuasap_, «meo compadre» e as vezes _Chéaire_, «meo filho,» ou -_Cheraiuuen_, «meu genro,» quando sua filha é concubina do Francez. - -É este o ramo d’alliança. - - Genro. - Nóra. - Compadre. - -Em sua linguagem é - - _Taiuuen_, ou _Ché-raiuuen_. - _Tautateu_ ou _Cherautateu_. - _Tuassap_ ou _Chetuassap_, ou então _Ché-aire_. - -São bastardos os filhos, que tem fóra do casamento legitimo á moda -d’elles, e entre estes bastardos ha ainda certa ordem. - -A primeira é dos que tem pae e mãe, ambos Tupinambás: a segunda dos que -tem por mãe uma india Tupinambá e por pae um Francez: a terceira dos -filhos de um Tupinambá e de uma escrava: a quarta de uma Tupinambá e de -um escravo: a quinta finalmente de uma escrava e de um Francez. - -A linha dos bastardos é a seguinte: - - De um Tupinambá com uma Tupinambá. - De uma india Tupinambá com um Francez. - De um Tupinambá com uma escrava. - De uma india Tupinambá e um escravo. - De uma escrava e de um Francez. - -Em sua linguagem chamam estes bastardos _Marap_, ou _Ché-marap_, e aos -bastardos dos Francezes _Mulatres_, «mulatos.» - -São diversas as leis d’estes bastardos conforme sua descendencia, e antes -de tratar d’ellas convem estabelecer a regra geral para com os bastardos, -que é quando... - - (Falta uma folha.) - -... elles o chamam _Toreuue_, «folgasão,» _Cheroreuue_, «sou divertido, -folgasão:» o que é agradavel e tem para dizer alguma coisa chama-se -_aron-ayue_. - -Suas saudações, perguntas e respostas, quando juntas, são o mais amavel -que é possivel, mormente quando as fazem com acento muito longo, brando, -e insinuante, especialmente as mulheres e as moças, e como sei que será -agradavel ao Leitor vou aqui transcrever algumas de suas frazes communs e -ordinarias.[42] - -Quando se levantam pela manhã dizem - - Tyen-de-Koem. Bom dia. - Nein Tyen-de-Koem Para vós tambem. - -A tarde, do regressar do trabalho, quando se despedem - - Tyen de Karuq. Boa tarde. - Nein Tyen de Karuq. Para vós tambem. - -Quando chega a noite, e querem dormir, dizem reciprocamente. - - Tyen-de-potom. Boa noite. - Nein-Tyen-de-petom. Para vós tambem. - -Se alguem se derige a elles, ou passa ao pé d’elles ou se encontra -no caminho, muitas vezes pára um pouco, com expressão docil e rosto -prasenteiro perguntam um ao outro: - - Mamo sui pereiu? D’onde vindes? - Mamo peresso? Onde ides? - -Logo que respondem e dizem d’onde vem e para onde vão, podeis ficar -certo que se trata de uma das coisas seguintes, constante emprego de sua -vida e exercicio, isto é, da pescaria no mar, da entrada nos bosques, da -derrubada das arvores, da visita de suas roças, da plantação de raizes, -da colheita dos fructos, e dos nabos, da caçada, dos passeios por varios -lugares, da visita das aldeias e das habitações de uns e outros. - -São estas as respostas d’elles. - - Paranam-sui-kaiut. Venho do mar. - Pira-rekie-sui-kaiut. Venho de pescar. - Kaa-sui-kaiut. Venho do matto. - Ybuira monosoc, ou então ybuira mondoc. Venho de cortar matto. - Ko-sui-kaiut. Venho da roça. - Ko-piraruer-kaiut. Venho de roçar. - Maetum aruere. Venho de cavar e de plantar. - Vuapoo-aruere kaiut. Venho de colher fructos. - Kaaue-aruere kaiut. Venho da caça. - Mosu-aruere-kaiut. Venho de passeiar. - Taaue-sui-kaiut. Venho de tal aldeia. - Ahere-piac-sui-kaiut. Venho de ver tal pessoa. - Chere-suiu então cheretansui. Venho de minha casa. - Ne in cheaiurco. Adeos, vou-me embora. - Ne in oro iurco. Adeos, vamo-nos embora. - -Quando vae algum visinho procural-os em sua casa, ou quando sentem falta -de alguma coisa, procurando por ahi algures elles perguntam: - - Que procuraes? Maeperese-kar? - Que perguntaes? Maraereico? - -Então dizem o que procuram, e respondem ás perguntas mui francamente; por -exemplo: - - Quero comêr. Agerure deué-cheremyuran ressé. - Quero farinha. Agerure uiressé. - Quero carne. Agerure soo ressé. - Quero peixe. Agerure pyra ressé. - Quero agoa. Agerure v-ressé. - Quero fogo. Agerure tata cheué. - Quero uma faca. Agerure xè. - Um machado. Iu. - -Se veem alguem pensativo, elles lhe perguntam o que ha e no que pensam. - - Que pensaes? Mara-péde-ie-mongueta. - -Elle responde: - - Não penso em coisa alguma. Ai Kogué. - Penso em alguma coisa. Maerssé-kaien-arico. - Penso em vós. Dressé kaien-arico. - -Si veem um conversando com outros, tem muita curiosidade de saber o que -dizem, e por isso vão procural-os, e amigavelmente lhe perguntam: - - Que dizeis? ou então, em que { Mára-erepe? Mára-erepipo? - conversavam? { Mara-peie-peiupé. - -Respondem elles: - - Fallavamos de nossas occupações. Ore-rei-koran koiomongueta. - Fallavamos de vós. Deressé koia-mongueta. - -Assim passavam entre si a vida mui pacifica e familiarmente. - - - - -CAPITULO XXV - -Dos caracteres incompativeis entre os selvagens. - - -Costumava Socrates dizer, que assim como o vinho aspero e grosseiro é de -digestão má e desagradavel ao paladar, assim tambem os caracteres rudes, -grosseiros e impectuosos não servem para companheiros de uma conversação -entre homens. - -Escreveo Plutarcho, que assim como o som aspero dos caldeirões e -panellas quebradas encolerisam os tigres a ponto de fazel-os accommetter -desesperadamente e saltar sobre os que vem fazer perto d’elles tão -incommodo e desagradavel barulho, assim tambem fazem as más inclinações, -ou os maus caracteres entre os homens. - -Aborrecem sobre todas as coisas o companheiro, que provoca e faz mal ao -seo visinho, e chamam-no _Moiaron_, e quando se insultam por palavras, -chamam-no então _Oroacap_. - -Quando encontram taes caracteres, fogem d’elles e evitam iguaes -contestações, e ainda fazem mais, previnem os Francezes seos compadres, -afim de que nada peçam á tal gente. - -Si por ventura teem mulheres com esse genio ficam muito contrariados, -e não necessitam ser muito rogados afim de livrarem-se d’ellas, ou de -consentir que vão para onde bem lhes parecer. - -Ha em _Juniparan_, na Ilha, um hermaphrodita, no exterior mais homem do -que mulher, porque tem face e voz de mulher, cabellos finos, flexiveis, e -compridos, e comtudo casou-se e teve filhos, mas tem um genio tão fórte -que vive porque receiam os selvagens da aldeia trocar palavras com elle. - -Presenciei a mudança de uma familia inteira somente para evitar a -visinhança de um selvagem de muito máo caracter. - -Escarnecem e despresam o homem, que se accommoda com as provocações e -questões de sua mulher quando ella tem mau genio. - -Em quanto ahi morei, aconteceo aborrecer-se um selvagem do mau genio de -sua mulher a ponto de empunhar com a mão direita um cacete, e na esquerda -segurar nos cabellos d’ella querendo experimentar se este oleo e balsamo -adoçaria o azedume de seo mal, porem admirou-se de vêr, que cahindo o -fogo na chaga mais o augmentasse, porque podendo escapar-se de suas mãos, -á vista dos visinhos, tomou tambem ella outro cacete, quiz fazer o mesmo -ao marido, e depois de se haverem espancado reciprocamente com grande -applauso de todos, ficaram ambos com igualdade de circumstancias frente a -frente um do outro, sendo depois o marido a fabula e o assumpto de todas -as conversas, quer dos grandes quer dos pequenos. Diziam os antigos nas -suas _Casas-grandes_, que elle não teve remedio si não ficar com sua -mulher, porque já a conhecia. - -Vi os abandonar e deixar seos generos a quem vendem, só para evitar -questões com o comprador. - -Notareis, que elles só tem—_sim_ e _não_—quando negociam juntos, ou com -os Francezes, nunca regateando. - -Muitos outros exemplos eu poderia ainda reproduzir, porem bastam estes. - -Avaliam muito bem as pessoas colericas, a que chamam _Poromotare-vim_, -e reciprocamente se advertem dizendo—_Cheporomatare-vim_, «estou -encholerisado,» e então ninguem lhe diz nada, antes buscam abandonal-o -o mais que podem, o que exprimem por _Mogerecoap_, «abrandar alguem». -_Aimogerecoap_, «abrando o que está encolerisado.» - -Observei muitas vezes, quando viam um Francez enraivecido, ficarem como -que fóra de si, mudarem de côr, e fugirem da vista d’elle, dizendo uns -aos outros _Ymari turuçu_ «está muito zangado, está muito enfurecido.» -_Ché-assequeié seta_. «Tenho medo d’elle.» - -Aconteceu encolerisarem-se muitas vezes duas ou tres pessoas da nossa -equipagem na aldeia, em que estavam. Vieram por isto os Principaes ao -Forte de São Luiz queixarem-se e pedindo, que lhes tirassem de lá esses -Francezes, porque lhes faziam medo, e especialmente a seos filhos, o que -conseguiram. - -Si as questões de palavras e as raivas são temiveis, muito mais ainda -o são os insultos e as disputas, o que é muito raro, a ponto de -espancarem-se, o que chamam _ionupan_ «espancar-se», e ainda mais quando -se ferem, o que explicam por _iuapichap_, «ferir-se,» mormente quando -depois de se haverem maltratado reciprocamente vão por despeito queimar -as suas casas, o que exprimem pela palavra _Iuapic_ «incendiarios» -reciprocos: todos sentem estas coisas, e ninguem se atreve a metter-se -entre elles para aplacal-os: eis como fazem: vae cada um para seu lado, e -tomando uma porção de pindoba secca, acendem-na, atiram sobre a cobertura -de sua propria casa, dizendo uns aos outros—salve quem poder sua casa, -queimei a minha, ninguem podia oppôr-se a minha vontade, e assim em -poucos momentos a aldeia está queimada e ninguem lhe diz nada. - -Aconteceria isto muitas vezes na Ilha, se não fosse o receio que tinham -dos Francezes. - -Não gostam de ser injuriados, seja homem ou mulher, e nem mesmo as -publicas consentem que se as chame _Pataqueres_ «meretrises.» - -Recorda-me que tendo tido uma india escrava um filho de um Francez, as -outras lançaram-lhe isto em rosto chamando-a _Pataquere_, «meretriz» com -o que se doeu muito, e disse que, se continuassem, ella mataria seo filho -ou o enterraria vivo. - -Chamam a injuria _Curap_. - -Ninguem se admire de evitarem estes selvagens a colera e seos -effeitos, por ser esta paixão contraria a natureza do homem, fazendo-o -inteiramente bruto, como disse São Basilio Magno, na Homilia 10, da -ira, e transformar o homem n’um animal feroz—_Hominem penitus in feram -converti_: São Gregorio de Nissa, na Oração 2ª sobre a bemaventurança, -compara a colera com esses antigos feiticeiros do Paganismo, que por -encanto mudavam e transformavam o homem em diversos animaes ferozes como -o javaly e a panthera. A colera faz o mesmo. - -São Gregorio Magno, no 5º livro da sua _Moral_, cap. 30, diz ser o -cerebro do colerico o buraco, onde se geram as víboras.—_Cogitationes -iracundi viperæ sunt generationis_. - -Platão contra esta paixão aconselhava, como remedio, aos seos discipulos, -que observassem bem os gestos e as palavras de um homem colerico, e ou -que se mirassem n’um espelho quando se enraivecessem. - -Não é coisa nova e nem fóra de proposito o temerem e fugirem estes -selvagens quando veem um homem encolerisado, especialmente um Francez, -porque diz o proverbio, cap. 27—_Impetum concitati spiritus ferre quis -poterit?_ - -Não é menos difficil de crer-se, que, por despeito, apoz calorosa ou -inconveniente questão, queimem elles suas casas, porque no _Proverbio -26_ acha-se _sicut carbones ad prunas et ligna ad ignem_—assim como o -carvão é para o brasieiro, e a lenha para o fogo, assim tambem a questão -de palavras é para o homem naturalmente colerico, _sic homo iracundus -suscitat rixas_, e no _Ecclesiastico 28_, _secundum ligna sylvæ, sic -ignis exardescit_—tal é a quantidade da lenha qual a força do fogo, -fallando da colera. - - - - -CAPITULO XXVI - -Da economia dos selvagens. - - -Dizia Pitacus ser bem regulada a familia quando n’ella encontram-se duas -coisas—falta de superfluidade tanto no que diz respeito á vida como ao -governo da casa, e o que é necessario para isto. - -Diz Cicero, que perguntando-se a Catão, qual é o melhor governo de uma -casa, elle respondera—onde houver comida, vestuario e amor ao trabalho. - -Parece-me ser estas sentenças mais applicaveis aos selvagens, e aos que -passam vida frugal do que á outra classe de individuos. - -São Thomaz definindo a economia concluio dizendo não ser outra coisa mais -do que uma boa ordem domestica, e para conseguir-se este fim convinha, -que a familia tivesse viveres e tudo o mais necessario a vida, sendo mui -essencial não só uma boa intelligencia, como tambem que cuidassem todos -os membros d’ella em seos deveres. - -A propria natureza, e não qualquer sciencia adquirida, ensina isto aos -selvagens. - -As aldeias são divididas em quatro habitações, sob o governo de um -_Muruuichaue_, para o temporal, e um _Pagy-uaçú_ «um feiticeiro» para as -molestias e bruxarias.[43] - -Cada habitação tem o seo Principal: estes quatro Principaes estão sob as -ordens do maioral da aldeia, o qual conjunctamente com outros de varias -aldeias obedecem ao Principal soberano da provincia. Cada... - - (falta uma folha.) - - - - -CAPITULO XXVIII - -Do cuidado que do seo corpo tem os selvagens. - - -Platão chamava o corpo um privilegio da Naturesa, e Crates, o philosopho, -um reino solitario. - -Mereceriam estas duas sentenças amplo desenvolvimento, si não nos -occupassemos de uma historia, que exige estylo conciso, sem superfluidade -de palavras ou digressões fóra de proposito. - -Applicamos comtudo o dizer d’estes dois philosophos ao nosso assumpto -para notar, que tendo a naturesa, por longos annos, recusado vestidos aos -corpos dos indios, os compensara formando-os bellos e agradaveis, sem o -menor auxilio de suas mães, que apenas os lavam e carregam como si fosse -qualquer pedaço de pau. - -Assenta-lhes muito bem a opinião de Crates chamando o corpo um reino -solitario e deserto, porque assim como os animaes do deserto crescem e -ficam vigorosos, em quanto residem ahi, isto é, em sua plena liberdade, -assim tambem quando sob o dominio do homem e presos, embora no Palacio -dos Reis e principes da terra, para serem vistos e observados como -novidade, principiam logo a emagrecer, a entristecer-se, a perder o -desejo da propagação e de conservação da especie, somente por terem -perdido a liberdade que outr’ora gosavam no seu reino solitario. - -Negando a natureza á estes selvagens viveres bem preparados, bebidas bem -feitas, vestidos pomposos, leitos macios, soberbas casas e palacios, -compensou-os porem, dando lhes plena liberdade como aos passarinhos no -ar, e as bestas no campo, sem lastimarem-se, como fazem outros quando -comparam as pretendidas commodidades d’este Mundo. - -Se o diabo com o fim de roubar-lhes o bem da salvação, não se metesse -entre elles, levantando novas discordias afim de se matarem e comerem -reciprocamente, não haveriam por certo homens mais felizes no mundo por -causa de sua natural franqueza e liberdade, que, adubando as suas carnes -as transformam em perfeita e saudavel nutrição, e d’ahi provem a bellesa -de seos corpos. - -Espero a objecção para responder—isto é, de se terem visto muitos indios -sordidos e horriveis. Respondo: não é no rosto, onde se deve observar a -forma e a bellesa de um homem, e eis a razão porque Demostenes zombou, -quando os embaixadores de Athenas regressando de sua commissão junto a -Philippe, Rei de Macedonia, gabavam muito a formosura d’elle: não, não, -disse Demostenes, não é digna de louvor a belleza do rosto de um homem, -tão commum entre os Cortezãos, porem merece encomios a sua estatura, a -proporção de seos membros, e a sua figura e elegancia. - -Fallo de haver a naturesa dado ordinariamente aos selvagens, e -especialmente aos _Tupinambás_, corpo bem feito, bem proporcional -e elegante, e quando estragam seos rostos por incisões, fendas, e -extravagancias de pinturas e de ossos, o fazem pela ideia erronea, que -tem, de serem por isto reputados valentes. - -Tem muito cuidado na limpesa de seos corpos: lavam-se muitas vezes, e -não se passa um só dia, em que não deitem muita agua sobre si, em que se -não esfreguem com as mãos por todos os lados para tirar o pó e outras -immundicies. - -Penteiam-se as mulheres muitas vezes. - -Receiam emmagrecer, o que chamam em sua linguagem _angaiuare_, e -lastimam-se diante dos seos semelhantes dizendo _Ché-angaiuare_, «estou -magro,» e todos se compadecem mormente quando chegam de qualquer -viagem abatidos pelo trabalho: todos o lastimam e o deploram, dizendo -_Deangoiuare seta_, «ah! quanto está magro, só tem ossos.» - -Eis a causa unica por que não podiam residir comnosco os rapazes -baptisados, visto temerem muito as mães, que não emagrecessem em poder -dos Francezes, os quaes suppunham ter falta de tudo. - -Não consentiam que seos maridos trouxessem comsigo os filhos para vêr os -Padres e as Capellas de Deos, senão á força, e com vivas recommendações -para que voltassem, e quando se lembravam d’elles grande era a sua -tristesa, e choravam. - -Conservei em minha companhia um rapaz de _Tapuitapera_ chamado _Miguel_, -já baptisado, e que muito bem sabia a doutrina christã, afim de ensinal-a -aos meos escravos. - -Residio comigo por alguns mezes, porem não poude ficar mais por causa das -importunações de sua mãe, e a dor que mostrava chorando e lamentando-se -constantemente, de maneira que veio seo pae de proposito para leval-o, -dizendo-lhe que sua mãe o esperava cheia de piedade (modo de fallar para -mostrar compaixão): veio pedir-me licença para o seo regresso chorando -por deixar-me (tanto amam e estimam seos paes!) dizendo que sua mãe -estava magra, e cheia de tristesa por sua ausencia e pensando tambem que -elle definhava estando comigo, asseverando-me que contaria á sua mãe o -bom tratamento que eu lhe dava, e a licença que lhe concedi de voltar a -sua casa. - -Um de nossos escravos commetteo uma falta, pela qual ia ser castigado: -mal soube elle desta resolução, e quando ia ser preso, disse que estava -magro, e que não o açoitassem como si fosse gordo, porque a gordura -cobre os ossos, apara os açoites e impede que a dor lhes chegue. «Si me -açoitaes com força me quebraes as veias apenas cobertas pela pelle», e -assim dizia por ser muito magro. - -Para engordarem reuniam-se muitos indios, embarcavam-se n’uma canoa -grande, muniam-se de farinha, de flechas e de cães, iam á terra firme, -onde matavam a caça, que apeteciam, como veados, onças, capivaras, vaccas -bravas, tatùs, e muitos passaros, e ahi se demorando em quanto havia -farinha, engordavam á farta com estas comidas, e voltavam depois para a -Ilha trasendo muita caça assada. - -Quando á Ilha regressou da guerra do Pará o indio _Brasil_ julgando-se -magro, pedio licença ao Sr. de Ravardiere para ir á terra firme levando -comsigo alguns Francezes afim de engordar, o que lhe foi permittido. - -Embrenharam-se muito pelo sertão, e quando a felicidade os encheo de -caça, aconteceo-lhes uma desgraça—acabou-se-lhes a farinha: viram-se -obrigados a comer palmito, como si fosse pão, com a carne que tinham, o -que contrariou muito os Francezes não habituados a esta especie de pão, -sentindo muito que a festa não fosse completa, havendo tanta carne, sem -pão e sem sal. - -Aconteceo-lhes o mesmo, que a Midas, possuidor de muito ouro, quando sua -mulher lhe apresentou na meza muitas iguarias, todas porem de ouro, ou -então á Tantalo morrendo de sêde apezar de cercado d’agoa: o mesmo lhes -aconteceo, emagreciam em vez de engordarem por não levarem a farinha -necessaria. - -N’este ponto os Francezes imitam os selvagens, e por isso estes os -estimam. - -Os Francezes residentes no Fórte pedem licença para passeiar e -refazerem-se de forças. - -Quando os selvagens sabem d’isto, vão á caça, e mediante a troca de -alguns generos offerecem a estes passeiadores dois ou tres banquetes: -findos estes regressam á sua terra, e assim vão continuando ora -n’uma aldeia, ora n’outra, girando por toda a Ilha, ou provincia de -_Tapuitapera_ e _Comã_ divertindo-se e engordando. - -Os Francezes hospedados por seos compadres n’estas aldeias não são muito -felizes em seos passeios, porque se ha então alguma coisa boa não é para -elles, e sim para os viandantes. - -Costumam os selvagens dar o melhor, que possuem aos hospedes, por dois ou -tres dias, findos os quaes tratam-nos com o uso commum e trivial. - -Admire-se, eu vos peço, ainda que ligeiramente, o grande amor de Deos -para com os homens, dando-lhes o sentimento natural da caridade para com -o proximo. O que fazem de melhor os christãos, ou observam os Religiosos, -do que a caridade puramente natural dos selvagens, que não podem alcançar -a gloria, bem differente do que acontece á caridade sobre natural dos -christãos, que espera a recompensa da vida eterna? - -O aceio do corpo faz-se por muitas maneiras, e entre ellas contam-se -estas. - -Trazem sempre na bocca a herva do Petun, (tabaco ou fumo) cujo fumo -expellem pela bocca e narinas com intenção de seccar as humidades do -cerebro e as vezes o engolem para limpar o estomago de cruezas que sahem -por meio do arrôto. - -Apenas acabam de comer fumam o Petun, e o mesmo praticam pela manhan e a -noite, quando se levantam e deitam-se. - -A proposito de Petun devo contar a ideia supersticiosa, que formam desta -herva e do seo fumo. - -Crêem, que esta herva os torna discretos, judiciosos, e eloquentes, de -forma que antes de começarem algum discurso usam d’ella: não me parece, -que seja comtudo muito supersticiosa, porque ha nisto uma razão natural: -eu mesmo a experimentei, e reconheci, que a sua fumaça exclarece o -entendimento dissipando os vapores dos orgãos do cerebro, fortalece a voz -seccando a humidade e escarros da bocca, permittindo assim facilidade á -lingua para bem exercer suas funcções. - -É facil experimentar-se isto usando-se d’ella com parcimonia e em -occasião propria, porque o abuso continuado d’ella não me parece bom e -saudavel aos que se alimentam de bebidas e carnes quentes, porem é util -aos que sentem frios e humidos o estomago e o cerebro. - -Eis a razão porque o selvagem, habitante d’esta zona humida, e que -bebe de ordinario somente agoa, uza constantemente d’este fumo afim de -descarregar o cerebro de humidades e frialdade, e o estomago de cruezas, -o que tambem praticam os marinheiros e os habitantes das praias. - -Pondo-se de infusão por espaço de 24 horas esta herva, presta-se muito -para purificar o corpo de infecções. Usa-se somente do vinho. - -Crêem tambem que, engolindo o fumo, ficam alegres, joviaes e previnidos -contra a tristesa e melancolia. - -Vou referir-vos alguns casos que me contaram: - -Um selvagem que foi morto na bocca de uma peça, e de quem hei-de fallar -no _Tratado do Spiritual_, antes de se encaminhar para o supplicio pedio -um macinho de _Petun_, como ultima consolação d’esta vida afim de morrer -com energia e alegria. Apenas alcançou o que desejava mostrou-se alegre e -sempre cantando até o fim. - -Quando seos companheiros o ataram á bocca da peça, elle pedio para que -não amarrassem o braço direito de fórma que o embaraçasse de levar á -bocca o Petun: quando a bala dividio o seo corpo em duas partes, uma foi -para o mar, e a outra cahio na base do rochedo, e n’esta achou-se ainda -seguro pela mão direita o mólho de _Petun_. - -Os selvagens sentenciados á morte não soffrem a pena sem usarem antes -do _Petun_, conforme o costume da terra, e não deixavam este habito nem -mesmo os doentes. - -Os feiticeiros do paiz servem-se d’esta planta com proveito, o que agora -não refiro, e sim guardo para o fazer mais adiante, si não me esquecer. - -Empregam ainda outro meio para a conservação da saude. - -Comem muitas vezes e pouco de cada uma: depois que comem lavam muito bem -a bocca, e se tem sêde quando comem, bebem pouco apenas para apagar a -sêde, gargarejam bem a agua na bocca para aplacar o ardor do paladar. - -Cozinham muito bem suas comidas, e não usam d’ellas meias cozidas ou -aferventadas, sendo n’isto mais cuidadosos do que os Francezes. - -Untam-se com azeite de palmas, de urucú, e de genipapo,[44] o que tem -sempre em abundancia. - -Estou certo que os meos leitores, pouco conhecedores da disposição do -corpo humano e do regimem necessario á sua conservação, julgarão que a -natureza ensinou a estes homens o mesmo que a sciencia e a experiencia -ensinaram a outros. - - - - -CAPITULO XXIX - -De algumas indisposições naturaes, a que os selvagens se acham sugeitos, -e quaes os nomes, que dão aos membros do corpo. - - -São os selvagens, na verdade, dotados pela naturesa com boa saude, feliz -e agradavel disposição. - -Raras vezes, na proporção de um para cem, encontram-se entre elles corpos -mal feitos e monstruosos. - -Não vi um só cego, apesar de existirem, porque elles o chamam -_Thessa-um_, «cego,» _Cheressa-um_, «estou cego,» e _Ressa-um_ «tu és -cego.» - -Notei porem terem alguns a vista curta, especialmente os velhos, e -notavelmente as mulheres, visto que depois de 30 annos d’idade tem a -vista tão curta e fraca a ponto de não poderem mais tirar dos pés os -_Thons_[45] «bixos» como fazem os rapazes e as moças. - -A proposito dizia um capitão Francez, não da nossa gente e pouco crente, -que o Papa não tinha poder sobre o mar, porque Deos havia dito a São -Pedro que seo poder estendia-se somente sobre a terra, e por isso todos -os que passam o mar em busca d’estas terras não são mais sugeitos aos -mandamentos da Igreja, podendo mui livremente tomar uma rapariga para -concubina, visto terem necessidade d’ella para tirar dos pés d’elle e de -outros francezes estes bixos. - -Conto isto para mostrar quanto são perigosos estes paizes ás almas que -tudo envenenam. - -Vi zarolhos, a que chamam _Thessaue_, porem muito poucos, e vesgos que -denominam _Thessauen_, «vesgo» _Cheressauen_, «estou vesgo,» _Deressauen_ -«tu és vesgo.» - -Encontram-se alguns gagos, a que chamam _Gningayue_, «gago,» -_Chegningayue_, «estou gago.» - -Os velhos e os meninos são muito ramellosos, a que chamam _Thessau-um_ -«ramelloso» _Cheressau-um_ «estou ramelloso», _Deressau-um_ «tu és -ramelloso»: é o resultado da grande humidade do paiz, mais predominante -nos corpos dos meninos e dos velhos por causa da fraqueza do calor -natural, que é maior nos corpos d’estes do que nos dos outros, onde é -mais forte e intenso. - -Existem poucos calvos, e se chamam _apterep_ «calvo,» _Cheapterep_ «estou -calvo», e não existem muitos por serem seos cabellos nutridos com força, -e eis a razão porque tem os cabellos fortes, duros e lisos. - -Encontram-se poucos coxos _Parin_, poucos manetas _Iuuasuc_, e poucos -mudos _Gneen-eum_, alguns gottosos _Karuarebore_, de _Karuare_ «gotta.» - -Encontra-se tambem uma especie de sarnentos de raça, os quaes mudam de -pelle annualmente, e comtudo não sentem molestia alguma, estão sãos, e -chamam-nos a todos, que soffrem este mal _Kuruuebore_. - -Ha tambem obesos, _Timbep_, e se diz _Chetimbep_ «estou obeso,» -_Detimbep_ «tu és obeso,» e _Ytimbep_, «elle é obeso.» - -A todas as partes do corpo dão um nome especial, e particular. - -Chamam a alma _an_, «minha alma» _che-an_, «tua alma» _dean_, «nossas -almas» _orean_, «vossas almas» _pean_, «suas almas» _yan_, em quanto -a alma está unida ao corpo, porque quando está separada chamam-na -_anguere_. - - A cabeça. _Acan._ - Minha cabeça. _Cheacan._ - Caspa. _Kua._ - Cabellos. _Aue._ - Meos cabellos. _Cheaue._ - Cerebro. _Aputuon._ - Rosto. _Suua._ - Palpebra. _Taupepyre._ - Cara. _Tova._ - Meo rosto. _Cherova._ - Teo rosto. _Derova._ - Seo rosto. _Sova._ - Olho. _Tessa._ - Lagrymas. _Thessau._ - Meo olho. _Cheressa._ - Mancha no olho. _Tessaton._ - Vi uma mancha no olho. _Cheressaton._ - Piscar os olhos. _Sapumi._ - Pisco os olhos. _Assapumi._ - Ouvido. _Apuissa._ - Ouvir. _Sendup._ - Ouço. _Assendup._ - Orelha. _Nemby._ - Minha orelha. _Chénemby._ - Nariz. _Tin._ - Monco. _Embuue._ - Narinas. _Apoin-uare._ - Paladar da bocca, ou véo do paladar. _Konguire._ - Bocca. _Giuru._ - Beiço superior. _Apuan._ - Beiço inferior. _Teube._ - Garganta. _Yasseok._ - Escarrar. _Gneumon._ - Eu escarro. _Auendeumon._ - Tu escarras. _Eveuendeumon._ - Saliva. _Thenduc._ - Lingua. _Apekon._ - Minha lingua. _Ché-ape kon._ - Fallar. _Gneem._ - Eu fallo. _Aigneem._ - Bom fallador. _Gneemporam._ - Halito. _Puitu._ - Dentes. _Taim._ - Doe-me os dentes. _Chéréuassu._ - Meo dente. _Cheraim._ - Teo dente. _Deraim._ - Seo dente. _Saim._ - Dente maxillar. _Taiuue._ - Mastigar. _Chuu._ - Eu mastigo. _Achuu._ - Face. _Tovape._ - Beijar. _Geurupuitare._ - Eu beijo. _Aigeurupuitare._ - Bochechudo. _Tovape-uaçu._ - Queixo. _Tendeuua._ - Barba. _Tendeuua-aue._ - Barbudo. _Tendeuuaaue-reKuare._ - Cachaço. _Aiure._ - Collo. _Aiuripui._ - Estrangular. _Iubuic._ - Peito. _Potia._ - Espaduas. _Atiue._ - Braços. _Iuua._ - Cotuvello. _Tenuvangan._ - Punho. _Papue._ - Palma da mão. _Papuitare._ - Mão. _Pó._ - Minha mão. _Chépo._ - Mão direita. _Ekatua._ - Mão esquerda. _Açu._ - Dedos. _Puan._ - Unha. _Puampé._ - Minha unha. _Chépuampé._ - Mama. _Cam._ - Coração. _Gnaen._ - Veias. _Taiuc._ - Sangue. _Tubui._ - Baço. _Perep._ - Tripa. _Thyepuy._ - Figado. _Puya._ - Fel. _Puya-upiare._ - Barriga. _Thuye-uaçu._ - Ventre. _Theic._ - Embigo. _Puruan._ - Dorso. _Atucupé._ - Rins. _Puiacoo._ - Ilharga. _Ké._ - Minha ilharga. _Ché-ké._ - Costella. _Aru kan._ - Minha costella. _Ché-aru kan._ - Quadril. _Tenambuik._ - Madre. _Acaia._ - Testiculos. _Pere-ketin._ - Nadegas. _Tevire._ - Curva da perna. _Ananguire._ - Coxas. _Uue._ - Joelhos. _Tenupuian._ - Pernas. _Tuma._ - Pé. _Pui._ - Calcanhar. _Puita._ - Planta de pé. _Puipuitare._ - Dedo do pé. _Puissan._ - Corpo. _Tétè._ - Meo corpo. _Chéreté._ - Pello. _Pyre._ - Suor. _Thue._ - Gordura. _Kaue._ - Osso. _Cam._ - Meo osso. _Chécam._ - Tutano. _Camaputuon._ - - - - -CAPITULO XXX - -De algumas molestias particulares a estes paizes de indios, e de seos -remedios. - - -O Genesis nos ensina, como explicam os doutores haver Deos dado aos -homens contra todos os males o fructo de uma arvore, a maneira da -Theriaga. - -Este mesmo Deos, sempre bom para com todas as creaturas, embora pequenas -e longe d’elle, prevendo que esta infeliz raça de selvagens viveria, por -longos annos, vagabunda e nua pelas grandes florestas do Brasil, lhes deo -muitas especies de arvores e hervas para o curativo de suas feridas e -molestias. - -Tem este paiz muitas arvores medicinaes, gommas salutiferas, e -excellentes hervas, como não ha em parte alguma. - -O tempo e o estudo hão de fazel-as conhecidas.[46] Vi tirar-se da casca -de certa arvore uma especie de almecega, similhante á que cresce nos -jardins da Europa, e dizem os selvagens que serve para toda a molestia, -e assim a empregam. Contam mais, que todos os animaes ferozes quando se -sentem feridos ou doentes, recorrem a esta arvore para curarem-se, e por -isso raras vezes se encontra uma só com toda a sua casca, por ser roida -constantemente por todos os bixos. - -Encontra-se tambem crescida nas folhas das arvores uma especie de gomma -branca, de côr prateada, e que dizem ser muito boa para certas chagas. - -Ha outra gomma, tambem branca, optima para limpar chagas e fazer suppurar -os abcessos profundos fazendo seo effeito em 24 horas. - -Vi o seo emprego n’um moço francez, que estava commigo o qual tinha, por -causa dos bixos, os pés e as pernas tão estragados e inchados a ponto -de receiarmos que as perdesse: coisa horrivel e impossivel de narrar-se -bem: fez-se applicação de emplastos d’esta gomma nas pernas e pés, e no -dia seguinte estava são como si antes não tivesse coisa alguma, porque -puchando os bixos do interior das carnes onde se achavam á superficie das -feridas, ahi pela cabeça se grudaram os emplastos, e assim morreram todos -em numero consideravel, limpando muito bem a chaga e deixando-a viva e -vermelha. - -Não fallarei de outras hervas e balsamos, e nem d’um milhão de hervas, -das quaes se podem destillar espiritos e essencias, porque desejo -fallar de certas molestias, reinantes n’este paiz, dos remedios, que -contra ellas se applicam, não porque seja a terra doentia e insalubre, -antes muito boa e saudavel, especialmente de junho a janeiro: durante -este tempo as brisas, isto é, os ventos de Este ou do Oriente sopram -constantemente, livrando o paiz de vapores pestillenciaes, e por isso -raras vezes adoecem os selvagens, e a fallar a verdade, elles só tem uma -molestia, de que morrem. - -São os francezes muito mais sujeitos á doenças, como a experiencia fez -conhecer a mim e a outros, porem creio ser isto devido ás necessidades e -miserias, porque passamos no principio do estabelecimento ou da fundação -e não a outra causa. - -Tinham então os francezes poucas commodidades, porem ja começavam a -gozal-as quando deixei a Ilha. - -Não desejo a pessoa alguma taes necessidades e molestias, porem fiquem -todos certos e convencidos de que não soffrerão a centesima parte do que -soffremos. - -Das suas molestias a primeira chama-se _Pian_, que vem da palavra -_Pé_, que quer dizer «caminho», ou, se quereis, «pé,» por originar -esta molestia do escarro, ou da sanie, espalhado no chão, por onde se -caminha: começa ordinariamente debaixo dos dedos dos pés, do tamanho de -um liard,[BD] de côr negra: os indios chamam esta mancha _Aipian_, isto -é, a «Mãe Pian,»[47] porque d’ella descendem todas as outras chagas e -postemas, que esta horrivel molestia espalha por todo o corpo á maneira -de uma herva ou arbusto, que sahindo d’esta _Mãe Pian_, como de uma raiz, -fosse sempre crescendo, subindo, e espalhando, pelo corpo ramos, folhas e -olhos, que enchesse interna e externamente o doente de crueis dores, e de -incrivel putrefacção, das quaes muitos morrem. Dura pouco mais ou menos -dois annos. - -Si um francez soffrer esta molestia deve curar-se perfeitamente antes de -regressar ao seo paiz, porque não ha remedio no mundo, excepto no Brasil, -que a cure, a não ser o rhuibarbo commum, isto é, a morte, que cura todos -os males. - -Ja disse como esta molestia chega accidentalmente: vejamos agora sua -origem e fonte ordinaria e natural afim de prevenir os francezes, que la -forem. - -Esta molestia ataca os francezes, como o mal de Napoles, por excessiva -communicação com as raparigas indigenas: para evital-a convem a vida -casta, ou então que tragam suas mulheres, ou que se casem com as indias -christãs, visto ser o casamento poderoso antidoto contra tal veneno, -o que se observa mesmo no casamento natural dos indios, os quaes não -soffrem o _grande mal_, se não o tem adquirido algures, e sim o -_pequeno_, que todos soffrem na vida, similhante a syphilis e a variola -na Europa. - -Esta _bouba_ grande excede em dor e sordidez, sem comparação, ao mal de -Napoles, e com razão, porque merece ser punido n’esta vida o peccado, que -commettem os francezes com as Indias, arrebatando de nossas mãos, estas -infelizes almas quando pretendiamos salval-as, si com seos maus exemplos -não as conduzissem ás fornalhas da lubricidade. - -Meditem bem os que são capazes de commetterem taes crimes, na conta que -darão a Deos por haverem causado o damno e a perda d’estas pobres almas -indigenas. - -Si a vida eterna é somente concedida aos que buscam a salvação de outrem, -que lugar esperarão os que, para satisfação de brutaes desejos, seduzem -essas pobres creaturas a ponto de fazel-as despresar as prédicas do -Evangelho e a sua propria salvação? - -Tempo e paciencia são os principaes remedios para esta molestia; os -suores aproveitam muito, mitigam e encurtam o tempo, bem como as dietas e -o regimen de vida. - -A experiencia tem mostrado, que para estas molestias a carne mais propria -é a do _tubarão_ (não usada pelos sãos, por lhes fazer vomitar até -sangue, e produzir-lhes grandes molestias) cozida com hervas duras e -amargas, que se encontram em todo o paiz. - -Por um momento de prazer soffrem mil dores, e o que para os bons é veneno -para elles é carne saudavel, embora de mau gosto. - -É costume d’este astuto Boticario Satanaz untar o bordo do copo com mel -ou assucar para se beber de um só trago o veneno, que depois vae roer -e encher de dor as entranhas: quero dizer, que ao peccador apresenta o -prazer, e não o seo castigo, e bem depressa experimenta o desgraçado, que -o prazer vôa, porem a dor é eterna. - -O Sr. de Ravardiere, outros francezes, e eu sobre todos, soffremos -intensas febres quartans, terçans, e incertas, as quaes depois de -haverem mortificado muito o corpo, deixam dores nos rins, produzem -colicas insuportaveis com vomitos continuos, sempre debilitando o corpo, -resfriando e contrahindo o estomago, acompanhada por continua fluxão do -cerebro, que se espalha pelos braços, coxas, e pernas, tornando-as sem -acção, á similhança de uma estatua ou pedra immovel. - -Parece-me que é a molestia, que ceifa maior numero de selvagens -tornando-os ethicos e paralyticos. - -Os remedios para estas molestias são—o beber menos agua que fôr possivel, -porque o sabor das aguas alterado com o calor da febre, faz beber muita -agua, perdendo o estomago seo calor proprio, adquirindo grande crueza e -fraqueza, de que resulta não só a sua constricção, mas tambem a pituita e -outros humores corrompidos: presentemente como ha cerveja espero que não -sejam frequentes estas molestias e que não chegarão ao excesso, que vi, e -cujas consequencias ainda sinto. - -O vinho e a aguardente são bons para aquecer o estomago, e por isso -aconselho aos que lá forem, que poupem muito o seo vinho e aguardente -para essa e outras necessidades, e não os gastem prodigamente em -deboches, mórmente sendo a cerveja, ahi feita com milho bom, muito mais -saborosa e saudavel, por causa do continuo calor, do que o vinho e a -aguardente. - -As boas bebidas são o unico remedio, e as aves e ovos ahi em abundancia -são o alimento d’esses doentes. - -As outras molestias são o defluxo e violentas dores de dentes por causa -da humidade da noite nesta Zona tórrida, como bem notou o jesuita Acosta, -na sua _Historia dos Indios_, a qual pode recorrer o leitor, visto que -nada quero dizer ou escrever sem sciencia propria. - -É tão forte a humidade da noite, que produz ferrugem nas espadas, -mosquetes, facas, machados e machadinhos, que corroe e destroe não -havendo cuidado de os limpar. - -São mui frias as fluxões do cerebro, pois descendo á raiz dos dentes -apodrecem-nos e os fazem cahir. - -São remedios especiaes á estes males a applicação de cauterios no pescoço -e braços, e cobrir bem a cabeça durante a noite. - -Todos os annos reina doença de olhos, das quaes poucos escapam -especialmente os Franceses, porque dura apenas oito dias, sendo por sua -vehemencia antes furor do que molestia, e si se não atacar logo corre-se -o risco de vêr-se somente metade do mau tempo. - -È facil o remedio: tome-se um pouco de vitriolo, deite-se n’uma garrafa -cheia d’agoa bem limpa, e d’ella se derrame um pouco nos olhos bem -abertos e fixos, abstendo-se de tocal-os, tendo-os sempre cobertos, e -não os expondo ao vento e nem ao sol, porque senão o mal redobra visto -que sendo formada esta molestia de uma fluxão quente e acrimoniosa, si -esfregardes os olhos e vos expôrdes a acção do vento e do sol, mais -exacerbareis o vosso mal. - - - - -CAPITULO XXXI - -Da morte e dos funeraes dos Indios. - - -Jacob despresou duas irmans Lya e Rachel, o que é diversamente explicado -por Padres e Doutores. Tomarei somente o que convem á historia, isto é, -que Deos tem duas filhas a Naturesa e a Graça, que dá por esposa aos seos -escolhidos. - -A Naturesa é imperfeita, porem fecunda como Lya: a Graça é de formosura -inexcedivel, porem esteril como Rachel. Ambas são irmans: basta vel-as -para reconhecer-se, e como taes são seos filhos-irmãos germanos; -differençando-se apenas por linhas diversas, isto é, n’um ponto de -ceremonia, nas ultimas homenagens prestadas a seos parentes, reconhecemos -facilmente a verdadeira religião e os seos herdeiros. - -Acha-se isto tão naturalmente gravado no fundo da alma das nações as mais -barbaras, que serve de argumento mui positivo para provar acharem-se em -verdadeira graça os que prestam homenagem aos seos defunctos. - -Em caso contrario prova-se que estão em poder do gentilismo, e em -opposição ao instincto puramente natural, imitando n’este caso os brutos, -não fazendo caso dos seos amigos fallecidos, especialmente da sua alma, -melhor parte de sua composição. - -É a maldição dada por Job, no cap. 18—_Memoria illius pereat de terra, -et non celebretur nomem ejus in plateis_, «desappareça da terra a sua -memoria, e nem seja seo nome pronunciado na rua.» - -Symmachus explicando diz _Non erit nomem ejus in faciem fori_—não chegará -seo nome ao foro dos senadores, e mais claramente Policronius _Nec in -amicorum versabitur memoria_ «nem seos amigos se recordarão d’elles,» -grande maldição, visto que os povos os mais selvagens do Universo que -são os habitantes do Brasil nada mais receiam, após a morte, do que não -serem chorados e lamentados, isto é, que para elles, na morte, não hajam -da parte dos seos parentes, lagrymas, lamentações, e outras ceremonias -embora supersticiosas. - -Quando se acham muito doentes estes selvagens, e por seos parentes -julgados em perigo de vida, perguntam-lhes o que desejam comer antes da -morte, e saciam-lhes o desejo. - -Em quanto doentes alimentam-se com farinha de mandioca e _ionker_ -«pimenta da india,» misturada com sal, julgando com tal dieta, abuso -inaudito entre elles, recobrarão a antiga saude. - -Vi um homem e uma mulher da nação dos _Tabajares_, que tinham só pelle -e ossos, parecendo-me terem apenas vida por dois dias, e por isso os -baptisei logo, apenas me pediram, e escaparem da morte tomando taes -caldos. - -Quando chega a hora da morte, reunem-se todos os seos parentes, e -geralmente todos os seos concidadãos, cercam-lhe o leito do moribundo, os -parentes mais perto, depois os velhos e as velhas, e assim de idade em -idade: não dizem uma só palavra, olham-no com toda a attenção, banham-se -de lagrymas constantemente; mas apenas a pobre creatura exhala o ultimo -suspiro, dão berros e gritos, fazem lamentações compostas por uma musica -do vozes fortes, agudas, baixas, infantis, emfim de todo o genero, que -infallivelmente enternece todos os corações, embora sejam naturaes todas -essas dores e lagrymas, sem conhecimento do bem e do mal, que poderá -gozar esse espirito desprendido do corpo morto. - -Depois de muitas lamentações, o Principal da aldeia ou o Principal dos -amigos fazia um grande discurso muito commovente, batendo muitas vezes -no peito e nas coxas, e então contava as façanhas e proesas do morto, -dizendo no fim—_Ha quem d’elle se queixe? Não fez em sua vida o que faz -um homem forte e valente?_ - -Conto isto porque presenciei-o tres ou quatro vezes, lembrando-me de -haver lido e notado em Polybio, Livro 6º, e em Deodoro da Sicilia, Livro -2º, cap. 3º, terem os antigos Romanos o costume de levarem seos defunctos -á Praça publica, e ahi o filho mais velho da casa, ou o principal -herdeiro em falta de filhos machos e de maior idade, subia á uma especie -de theatro, e desfiando todos os louvores, que podia fazer ao morto, -seo parente, desafiava todos os assistentes para que o accusassem, si -podessem, afim d’elle defendel-o, e depois convidava-os a acompanharem o -corpo até a sepultura. - -Voltemos aos nossos selvagens. Acabado que seja o choro e o discurso -tomam o corpo, ja cheio de pennas na cabeça e nos braços, uns o vestem -com um capote, outros lhe dão um chapeo, si o ha, trasem-lhe o massinho -de petum[48], seo arco, frexas, machados, foices, fogo, agoa, farinha, -carne e peixe e o que em vida elle mais apreciava. - -Faziam depois um buraco fundo e redondo em fórma de poço: assentavam -o morto sobre seos calcanhares conforme era o seo costume, e á cova -desciam-no de mansinho[49] accommodando ao redor d’elle a farinha, a -agoa, a carne, o peixe e ao lado de sua mão direita afim de poder pegar -em tudo com facilidade e na esquerda arrumavam os machados, as foices, os -arcos e as flexas. - -Ao lado d’elle faziam um buraco, onde accendiam fogo com lenha bem secca -afim de não apagar-se, e despedindo-se d’elle o incumbiam de dar muitas -lembranças á seos paes, avós e amigos, que dançavam nas montanhas, alem -dos Andes, onde julgam ir todos depois de mortos. - -Uns dão-lhe presentes para levarem a seos amigos, e outros lhe -recommendam, entre varias coisas, muito animo no decorrer da viagem, que -não deixem o fogo apagar-se, que não passem pela terra dos inimigos, e -que nunca se esqueçam de seos machados e foices quando dormirem n’algum -lugar. - -Cobrem-no depois pouco á pouco com terra, e ficam ainda por algum tempo -junto á cova, chorando-o muito e dizendo-lhe adeos: de vez em quando ahi -voltam as mulheres ora de dia ora de noite, choram muito e perguntam á -sepultura, se elle ja partio. - -A proposito contarei tres historias interessantes. - -Enterraram um bom velho em distancia de 50 passos de minha casa. Dia e -noite consumiam-me as velhas com seos choros. - -Para adquirir socego lembrei-me de mandar esconder n’uma moita em -caminho, perto da cova, dois rapazes francezes, que commigo moravam. Mais -adiante mandei tambem esconder dois escravos nossos, a quem ensinei o que -deviam fazer. - -A noite todos occuparam as suas posições, e no fim de um quarto de hora -quando vieram as velhas, todas juntas, e que principiaram a gritar na -cova, responderam os franceses, imitando _Jeropary_, e ellas cheias de -susto despararam a correr, e quando no caminho encontraram outros dois -_Jeropary_, redobraram de esforços, e saltando por abrolhos e espinheiros -chegaram á casa mais mortas do que vivas, e ahi sobresaltando a todos -mandaram fechar as portas para que não entrasse o tal _Jeropary_. - -Estava eu perto e muito gostei d’esta comedia por alcançar socego, visto -não regressarem mais as velhas. - -Morreo um selvagem, e foi enterrado na estrada perto de _São Francisco_, -lugar no _Forte de São Luiz_. - -Fora baptisado antes da sua morte, e com tudo, sem sciencia nossa, -enterraram-no ahi e com as ceremonias que já descrevi. Mortifiquei-me -muito com isto, ralhei bastante, porem não pude descobrir o culpado por -já haver decorrido tres ou quatro dias. - -Passando por ahi achei sua mulher, que voltava da roça, assentada sobre a -sepultura, chorando amargamente, e espalhando n’ella algumas espigas de -milho. - -Indagando-lhe o que fazia, respondeo-me estar perguntando a seo marido -si elle ja tinha partido, porque receiava haverem amarrado muito as suas -pernas, e não lhe terem dado a sua faca, pois havia levado comsigo apenas -o seo machado e sua foice, e que lhe trasia o milho para comer e partir -no caso de já não ter mais provisões. - -Fil-a sahir, mostrando como pude, a sua ignorancia e superstição. - -Falleceo um menino com doença no ventre, de dois annos de idade, e duas -horas depois de baptisado. - -Eu, o Sr. de Pezieux, e outros franceses fomos amortalhal-o n’um lençol -d’algodão. - -Encontramos o corpo cercado por muitas velhas, fazendo algasarra capaz de -quebrar uma cabeça de aço, carregado de missangas, que trasem para ahi os -francezes, e de muitos busios, de que usam nos seos adornos e enfeites -para as grandes festas. - -Não podemos convencer ás velhas afim de serem tirados taes enfeites, e -sendo assim mesmo conduzido n’uma prancha por um francez, fizemos o seo -funeral a maneira da Europa, levando o seo corpo á capella do Forte de -São Luiz, onde recitamos as orações prescriptas pela Igreja para esse fim. - -Seguiram-nos as velhas de bem perto, e não se animando a entrar, -começaram a entoar uma musica tão alta e forte, que não nos entendiamos -dentro da Igreja. - -Imposemos silencio, e foi o corpo enterrado no cemiterio junto á capella. - -As velhas se metteram entre os francezes, umas trazendo fogo, agoa, -farinha, e outras o mais que ja dissemos para o caminho, o que mandei -deitar fóra fazendo-lhes vêr a asneira por intermedio do interprete. - -Recolheram-se as suas casas, onde se fartaram de chorar. - - - - -CAPITULO XXXII - -Do regresso á Ilha do Sr. de la Ravardiere e de alguns Principaes, que o -seguiram. - - -Com a chegada da barca portugueza o Sr. de Pezieux escreveo ao Sr. de la -Ravardiere e expedio uma canôa para tal fim, descrevendo o estado em que -nos achavamos e prestes a sermos sitiados em breve tempo. - -Gastou a canoa tres mezes na viagem, e sciente destas coisas partio -logo que poude em direcção da Ilha, afrontando perigos, que muitos são -n’estes mares; porem de coisa alguma nos serviria sua actividade, porque -se n’esse intervallo soffressemos o cerco seriamos já então vencedores ou -vencidos. - -Esta interrupção da viagem do Amazonas causou muito mal a Colonia, porque -se teria colhido muitos generos pelas margens dos rios, muito mais -povoados de selvagens de diversas nações do que a Ilha, Tapuitapera, Comã -e Caieté.[50] - -São mais pacificos, e bem providos de algodão. - -Quanto mais pobres e necessitados de machados, foices, facas e vestidos, -tanto mais facil é a troco de qualquer d’estes objectos alcançar grandes -riquezas. - -Outro prejuiso soffreo a Colonia dos francezes, porque achando-se muitas -nações resolvidas a aproximarem-se da Ilha, por ahi residirem e fazerem -suas roças, vindo com o Sr. de la Ravardiere, ao saberem taes noticias -dos portuguezes, resolveram suspender a execução do seo plano, e esperar -o resultado dos negocios. - -Chegando o Sr. de la Ravardiere proseguio-se activamente nas obras dos -Fortes das avenidas da Ilha, montando-se-lhes artilharia e dando-se-lhes -guarnição. - -Passados alguns dias achou-se acompanhado por muitos guerreiros -selvagens, que vieram para a Ilha, e entre elles estava o _Arraia -grande_ dos Caietés, selvagem pelos seos muito estimado, valente, bom -conselheiro, e de tal influencia, que os seos companheiros o seguem, -trabalham e abraçam inteiramente as suas ideias, o que foi muito util -aos francezes visto assim terem muitos homens dedicados, e occupados no -serviço. - -Pouco antes da viagem do Amazonas alguns bregeiros espalharam entre os -_Caietés_ do _Pará_, que sob o pretexto dessa viagem iam os francezes -captival-os. - -Esta noticia aterrou-os de tal forma, que muitos ja estavam resolvidos a -deixar suas casas, e a buscar outro lugar quando o _Arraia grande_ por -seos discursos lhes fez vêr quanto era infundado o seo receio, dizendo -então muito bem dos francezes. - -Elle, sua mulher, e alguns parentes acompanharam uma barca, que ia da -Ilha para o Pará em busca dos generos do paiz, ahi mui preciosos. - -Quiz a infelicidade que, no regresso para a Ilha, naufragasse a canôa por -estar muito pesada duas legoas longe da terra. - -Despresaram todas as riquezas, procurando salvarem-se agarrados a um -pedaço da escotilha, a uma taboa, ou ao bote. - -Esperou o _Arraia grande_, que todos procurassem meios de salvarem-se, -e afinal elle, sua mulher, e um interprete francez si puzeram a nadar -animando elle a todos com estas palavras—«a morte é invejosa, vêde como -atira estas ondas sobre a nossa cabeça afim de nos arremeçar no abysmo, -mostremos-lhe que somos ainda fortes e valentes, e que não é chegado o -tempo de nos levar.» - -Salvaram-se todos em varias ilhas não habitadas, excepto um francez, -victima de tubarões.[51] - -Vendo o _Arraia grande_ os francezes nús e famintos, em lugares estereis -e cercados de mar, atirou-se ás ondas, a nado atravessou grande espaço -cheio de mangue desembaraçando-se á muito custo das raizes destas -arvores, e do tujuco onde as vezes se enterrava até o pescoço. - -Chegando a aldeia dos seos similhantes animou-os a virem com algumas -canoas, vestidos e viveres, e depois que todos regressaram ás aldeias -defronte do lugar do naufragio, elle lhes entregou tudo quanto haviam -perdido, e que o mar tinha atirado ás praias. - -Outr’ora este indio, n’um navio de São Maló, veio a França, onde se -demorou um anno pouco mais ou menos, e em tão pouco tempo aprendeo -a fallar francez, e ainda hoje se fazia entender bem, embora ja se -houvessem passado muitos annos, e tem tão bom juiso e memoria que ainda -hoje conta varias particularidades, que la existem. - -Não trato do estado espiritual, e nem do que me disse relativamente ao -Christianismo, porque deixo isso para o seo lugar proprio, mas quanto ao -temporal muitas vezes o ouvi dizer aos seos similhantes, e especialmente -aos _Tabajares_ do Forte de São Luiz, «que os francezes eram fortes, que -habitavam um paiz grande, abundante de boas comidas, de muito vinho, de -pão, de boi, de carneiro, de galinhas, de muitas especies de ovos, e de -grande variedade de peixes: que suas casas eram construidas de pedras, -cercadas de grossos muros, onde estava assestada grossa artilharia, -batendo o mar na base da muralha, ou então sendo esta circulada de fossos -cheios d’agoa. - -«Pelas ruas estão lojas de todos os generos. Andam a cavallo, e os -Grandes, ou melhor os Principaes são acompanhados por muitas pessoas, -como o Sr. de la Ravardiere, residente perto da cidade, onde cheguei. - -«O Rei de França mora no centro do seo reino, n’uma cidade chamada Pariz. -Os francezes aborrecem, como nós, os _Peros_, e lhes fazem guerra por -terra e por mar, e sempre com vantagem, porque são fracos os _Peros_, -valentes e animosos os francezes como nenhuma outra nação, e eis a razão -porque não devemos temer aquelles visto estes nos defenderem. Alguns -maldizentes de nossa gente espalharam não terem os francezes podido -tomar os _Camarapins_, porem isto é falso. Cumpriram seo dever e si os -Tupinambás tivessem querido ajudar-nos, seriam agarrados, porem o chefe -dos franceses condoeo-se d’elles, e não quiz que todos fossem queimados -como aconteceo em parte.» - -Fez este e outros discursos similhantes, e depois percorrendo a Ilha, em -cada aldeia os repetia nas _reuniões_ na _caza grande_. - -Procurando imitar a maneira porque entrou na grande praça de São Luiz, -não só para saudar os Tabajaras, como tambem para ajudar os francezes, -dispoz elle a sua gente, em numero de cem a cento e vinte, um a um, ou um -atraz do outro, e assim por diante. - -A uns deo cabaças, panellas, e rodela, e a outros espadas e punhaes, a -estes arcos e flexas, a aquelles differentes instrumentos, dividindo os -tocadores de Maracá[52] pelas desenas, e assim percorreram a habitação -dos _Tabajaras_, e depois foram á praça grande do Forte, onde estavamos, -e ahi acabaram suas danças, muito similhantes a dos _Pantalons_, andando -e fazendo mesuras, batendo todos ao mesmo tempo com o pé em terra, ao -som da voz e do Maracá, cujo compasso todos observavam entoando sempre -louvores aos francezes. - -Mechiam em todos os sentidos a cabeça e as mãos, com taes gestos que -faziam rir as pedras. - -Chamam os Tupinambás a esta dança _Porasséu-tapui_, quer dizer, _dança -dos Tapuias_, porque era outra a dança dos _Tupinambás_, sempre em roda e -nunca mudando de lugar. - -Acabada a dança, veio saudar-nos, e foi comer e descançar na casa, que se -lhe havia preparado. - - - - -CAPITULO XXXIII - -Viagem do capitão Maillar,[53] pela terra firme á casa de um grande -feiticeiro. Descripção d’esta terra e das zombarias d’elle. - - -É verdade, reconhecida por todos que hão habitado o Brasil, não ser a -terra firme tão bonita e tão fertil como as Ilhas. - -São as ilhas formadas por areia preta e fina, queimada e ardente pelo -continuo calor, e por isso são ellas mais sujeitas n’esta Zona tórrida -aos calores e ardores, porque o mar redobra pela reflexão e poder da -luz do Sol sobre a capacidade proxima e concentrica da terra, o que se -prova por meio dos espelhos ardentes, cujos centros sendo opacos, e mais -elevados do que suas circumferencias e bordas, os raios do sól se reunem -e concentram ahi, produzindo fogo e chama, e assim queimando os objectos -convenientemente dispostos n’esses lugares. - -Ouvindo o Sr. de la Ravardiere os indios fallarem muitas vezes de uma -localidade muito boa, distante 100 ou 150 legoas do Maranhão, na terra -firme para as bandas do rio Mearim e longe d’elle 40 ou 50 legoas, mandou -uma barca e canoas com o capitão Maillar de São Maló, alguns francezes, e -um cirurgião, todos muito conhecedores da natureza das hervas e arvores -preciosas. - -Ahi vivia, vindo do Maranhão, um dos seos principaes feiticeiros, com 40 -ou 50 selvagens, entre homens e mulheres, n’uma aldeia, que edificara, -cultivando a terra, que tudo lhe produzia em abundancia, e por isso -abusando da credulidade dos Tupinambás este miseravel lhes dizia possuir -um espirito com o poder de fazer a terra dar-lhe o que quizesse. - -Ahi chegou o capitão com muitas difficuldades, passando vasta e comprida -planicie de juncos e caniços, atravessando agoa pela cintura, e depois de -alguma demora regressou contando-nos o seguinte. - -A terra d’esta localidade é dura, gorda e negra, boa para a cultura da -canna do assucar, e muito melhor que a de Pernambuco, o que bem podia -avaliar por ter residido por muitos annos ahi e em outros lugares -possuidos pelos portuguezes. - -A terra é cortada por muitos riachos capazes de moverem engenhos para o -fabrico do assucar. - -Ha abundancia de peixes d’agoa doce, grandes e de varias qualidades; são -innumeraveis as tartarugas; existe toda a qualidade, e em quantidade -inexprimivel, de caça, como sejam viados, corças, javalis, vacas-bravas, -e diversas especies de tatús, muitos coelhos e lebres, iguaes ás de -França, porem mais pequenas, immensa variedade de passaros, como -sejam perdizes, faisões, mutuns,[54] pombas bravas, trocazes, rolas, -garças-reaes, e outras admiraveis. - -A terra produz raizes tão grossas como a coxa: o tabaco petum ahi cresce -forte e optimo, e dizem que dá duas colheitas por anno. - -O milho cresce forte, cheio, e dá muitas espigas. - -Ha fructas muito melhores, e em maior quantidade do que na Ilha, em -_Tapuitapera_, e _Comã_, papagaios de varias côres e diversos tamanhos, -notando-se entre elles os _Tuins_,[55] do tamanho de pardaes, os quaes -aprendem com facilidade a fallar, porem morrem de mal quando são levados -para a Ilha: vi entre muitos salvarem-se apenas seis, os quaes comendo, -cantando, e dançando em suas gaiolas, sem apparencia de molestia, davam -duas ou tres voltas e morriam logo. - -Ha tambem muitos macacos e monos barbados, bonitos e raros, e que seriam -muito apreciados em França, se lá chegassem. - -Ahi residia um barbeiro ou feiticeiro muito bem arranjado e com todas as -commodidades. - -Tinha vindo, um pouco antes d’esta viagem, fazer suas feitiçarias e -nigromancias para ganhar o vestuario e a ferramenta dos selvagens -do Maranhão e leval-os comsigo quando fosse para a sua terra. Estas -feitiçarias eram diversas. - -Tinha uma grande boneca, que com artificio se movia, especialmente -com o maxilar inferior; dizia elle ás mulheres dos selvagens, que si -desejavam vêr quadruplicada a sua colheita de grãos e legumes trouxessem -e dessem á ella alguns d’estes generos, afim de serem mastigados tres ou -quatro vezes, e por esta forma recebendo a força de multiplicação do seo -espirito, que estava na boneca, podiam depois serem plantados em suas -roças, pois já comsigo levavam a força da multiplicação. - -Gozou de muita influencia por onde passou, muitas foram as dadivas das -mulheres, e mal satisfazia o que promettia, guardavam ellas com todo o -cuidado os legumes e grãos mastigados. - -Estabeleceo uma dansa ou procissão geral fazendo com que todos os -selvagens levassem na mão um ramo de palmeira espinhosa,[56] chamada -_tucum_, e assim andavam ao redor das casas, cantando e dansando, para -animar, dizia elle, o seo espirito a mandar chuvas, então n’esse anno mui -tardias: depois da procissão _cauinavam_ (bebiam _cauim_) até cahir.[57] - -Mandou encher d’agoa muitas vasilhas de barro, e rosnando em cima d’ella -não sei que palavras, ensopava um ramo de palmeira, e com ella aspergia -a cabeça de cada um d’elles, dizendo «sêde limpos e puros afim de meo -espirito enviar-vos chuva em abundancia.» - -Tomava uma grande tabóca de bambu, enchia-a de _petum_, deitava-lhe fogo -n’uma das extremidades, e depois soprava a fumaça sobre os selvagens -dizendo «recebei a força do meo espirito,[58] e por elle gozareis sempre -saude, e sereis valentes contra vossos inimigos.» - -Plantou no centro d’aldeia uma arvore de maio, carregou-a de algodão, -e depois de haver dado muitas voltas e vira-voltas em redor, lhes -prognosticou grande colheita n’esse anno. - -Apezar de tudo isto não vindo a chuva, dia e noite fazia elle dançar e -cantar os selvagens, gritando com quanta força tinham afim de despertar -seo espirito, como faziam outr’ora os sacrificadores de Baal. - -Com tudo isto não choveo. - -Fez acreditar á estes selvagens, que elle bem via o seo espirito, -carregado de chuvas, do lado do mar, porem que não se animava a vir por -causa da _Cruz_, erguida no centro da praça, fronteira a Capella de N. S. -d’Vsaap, e que se quizessem ter chuva não havia mais do que deital-a por -terra, e teriam concordado n’isto facilmente, pondo-o logo em execução se -ahi não estivessem os Francezes, e si não temessem o castigo. - -Chegando estas noticias ao Forte, mandou-se immediatamente o _Cão-grande_ -e alguns Francezes para irem buscar o feiticeiro afim de vêr si elle -poderia dançar no meio d’uma sala, contra sua vontade, e teria sido preso -si, advertido como foi, não preparasse sua bagagem, e com sua equipagem -não se salvasse n’uma canôa, mandando desculpar-se, d’ahi ha pouco tempo, -por um seo parente trazendo muitos presentes com o fim de fazer pazes. - -Fez crer aos selvagens da Ilha, que tinha um espirito muito bom, que era -muito amigo de Deos, que não era mau, e que por tanto só podia fazer bem. - -Dizia elle: «come commigo, dorme, caminha diante de mim, e muitas vezes -vôa diante dos meos olhos, e quando é tempo de fazer minhas hortas, -só tenho o trabalho de marcal-as com um pau a sua extensão, e no dia -seguinte acho tudo prompto.» - -Sabendo alguns selvagens christãos, que pretendiamos castigar seo -companheiro que d’elles tanto abusou, me pediram, que me condoesse d’elle -e que nada soffresse por não ter sido mau e nem o seo espirito, visto -terem ambos feito crescer os bens da terra. Ensinei-lhes a este respeito -o que deviam crêr. - -Vede, meos leitores, quanto Satanaz é astucioso: similhante á um macaco -imita as ceremonias da Igreja para elevar sua superstição, e conservar -sob seo dominio as almas dos infieis por essa procissão de palmas, essa -aspersão d’agoa, esse sopro de fumo para communicar o espirito, de que -fallaremos mais simplesmente no _Tratado do espiritual_. - - - - -CAPITULO XXXIV - -Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos, suas habitações, e -procedimento. - - -N’esse tempo a nação dos _Tremembés_, moradora alem da montanha de -_Camussy_, e nas planicies e areiaes da banda do rio _Tury_, não muito -distante das Arvores Seccas, das Areias Brancas, e da pequena Ilha de -Santa Anna, sahio, sem esperar-se, para a floresta, onde se aninham os -passaros vermelhos, e para os areiaes onde se encontra o ambar gris, -e se pesca grande quantidade de peixes, com intenção, de surprehender -os _Tupinambás_, seos inimigos irreconciliaveis, o que malogrou-se, -visto que muitos _Tupinambás_ da Ilha tendo ido ahi com o fim especial -de pescar, foram accommettidos pelos _Tremembés_,[59] sendo uns mortos -immediatamente, outros captivos sem saber-se o que d’elles fizeram, e -finalmente alguns embarcados n’uma canôa poderam salvar-se regressando á -Ilha do Maranhão, onde contaram tão tristes casos causando nas aldeias, -a que pertenciam os mortos, tanta indignação, que todos, vóz em grita e -chorando, especialmente as mães e as mulheres, insistiram pela vingança, -ao que acquiesceram os Principaes, vindo pedir aos francezes um chefe e -alguns soldados, no que foram satisfeitos. - -_Japy-açú_ foi o conductor d’este exercito[60] composto de grande numero -de selvagens, e acompanhado por alguns francezes. - -Atravessaram o mar entre a ilha e as areias brancas, saltaram em terra -para descançar e passar a noite pescando uns, caçando outros, e as -mulheres e as filhas procurando agoa pelos areiaes, a qual não podia -ser senão salôbra, isto é, meia doce e meia salgada, armando as redes, -fazendo fogo e preparando a comida. - -Os mancebos _Tupinambás_ fizeram _Aiupuues_, (choupanas) tanto para -os Principaes como para os Francezes: na melhor _auipaue_ alojou-se -o Coronel, e os Capitães armaram suas redes ao redor da do Coronel, -ceremonia que observam em todas as suas guerras, especialmente quando se -acham perto do inimigo. - -Escondem o fogo com receio de não serem á noite descubertos pelos -inimigos, por ser costume geral d’elles o fazer subir no cume de arvores -muito altas suas sentinellas afim de descubrirem fogo ou luz dos inimigos. - -Na manhã seguinte puzeram-se em marcha até um grande areial cercado de -mato por tres lados, e de mar pelo ultimo: ahi encontraram as choupanas -dos _Tremembés_, uma panella portugueza, e combinando isto com o que -já sabiamos anteriormente, ficamos sabendo, que os Portuguezes estavam -na _Tartaruga_, na serra de _Camussy_, unidos aos _Tremembés_, aos -_Montagnars_, tanto de _Ybuapap_ como de _Mocuru_, principalmente com -_Jeropary-uaçu_, isto é, com o _Grande-diabo_, principe e rei de uma -grande nação de Cambaes,[61] muito amigo dos francezes, e inimigo natural -dos portuguezes, podendo afiançar-se com certesa, que si os francezes -ahi fossem, elle trahiria os portuguezes e unindo-se a elles, por ser -_mulato-francez_, isto é, filho de um francez e de uma india. - -Voltemos ao nosso proposito. - -Encontraram os nossos selvagens ainda vivo um dos seus, que fugio para -o mato, e escondeo-se no concavo de uma arvore; porem ouvindo o som das -trompas de guerra, que eram feitas de um grosso madeiro cavado, tendo as -aberturas superior e inferior similhantes á uma trombeta, sahio muito -magro, e quase que sem figura humana por não ter comido durante oito dias -senão folhas da arvore, onde escondeo-se: ensinou, como lhe permittiram -suas forças, o lugar onde jaziam mortos seos companheiros, que foram -encontrados com as cabeças rachadas, e sobre seos corpos os machados de -pedras, instrumentos d’essas atrocidades, por ser costume entre elles -nunca se servirem d’uma arma com que ja mataram um inimigo. - -_Caruatapyran_, um dos Principaes de Comã, trouxe-me um d’esses machados -de pedra, ainda tinto de sangue, com alguns cabellos adherentes, e com um -pouco do cerebro do Principal _Íanuaran_, que com elle foi morto, o que -se soube por ser encontrado sobre seo corpo. - -_Caruatapyran_ pegando um d’esses machados, feito em fórma de crescente, -ensinou-me o que eu não sabia, dizendo-me terem os _Tremembés_ o -costume mensal de vellar toda a noite fazendo seos machados até ficarem -perfeitos, em virtude da superstição, que nutriam, de que indo para a -guerra armados com taes instrumentos nunca seriam vencidos, e sim sempre -vencedores. - -Em quanto os homens e as mulheres se entregavam a este trabalho dançavam -as moças e os meninos a frente das choupanas ao luar do crescente. - -São valentes os _Tremembés_ e temidos pelos _Tupinambás_; d’estatura -regular, mais vagamundos do que estaveis em suas moradias: alimentam-se -ordinariamente de peixes, porem vão á caça quando lhes apraz: não gostam -de fazer hortas, e nem casas: moram debaixo das choupanas; preferem as -planicies ás florestas porque com um simples olhar descobrem tudo quanto -está ás suas vistas. - -Não conduzem após si muita bagagem, pois contentam-se com seos arcos, -flexas, machados, um pouco de _cauï_, algumas cabaças[62] para guardar -agoa, e umas panellas para cozinhar a comida: com mais destresa que os -Tupinambás pescam á flexa: são tão robustos a ponto de segurarem pelo -braço um dos seos inimigos e atirarem-no ao chão, como se fosse um capão. -Dormem n’areia ordinariamente. - -Servem-se d’este lugar de areias brancas, e de arvores seccas para -agarrar os _Tupinambás_, como ratoeira para pilhar ratos, e isto por tres -razões. - -A primeira, por causa da pesca, ahi abundante e variada. - -A segunda, por causa de uma floresta, onde os passaros vermelhos de todas -as partes vem fazer ninho para desovar. Não deixam de ir ahi em certo -tempo os _Tupinambás_ para tirar do ninho os filhótes e os ovos meios -chocos, havendo abundancia impossivel de descrever-se, levando, quando -regressão á villa, provisão para dois mezes, preparando antecedentemente -uns assados, e outros seccos e duros como paus, o que nunca me agradou, e -a fallar verdade, nunca pude comel-os, embora sejam para os selvagens o -primeiro prato, e bem delicioso. Logo contarei alguns uzos particulares, -e bem notaveis, d’estes passaros. - -O terceiro motivo é para colher o ambar-gris, chamado pelos Tupinambás -_Piraputy_ «excremento de peixes,»[63] por que elles pensam ser o -ambar-gris o excremento das baleias, ou de outros peixes iguaes em -corpulencia, o qual vindo á tona d’agoa, é pelas ondas atirado a essas -praias. - -Dizem alguns francezes não ser o ambar-gris outra coisa mais do que a -«flor do mar,» a que os selvagens chamam _Paranampoture_, ou uma certa -gomma do mar, _Paranamussuk_. - -Decida o leitor como lhe aprouver. - -N’estas areias encontra-se o ambar-gris em massa, mais n’um tempo do que -n’outro, e algumas vezes chega a massa a tal tamanho e grossura, que -merece ser guardada n’algum gabinete real, não podendo ser justamente -apreçada e vendida. Acontece as vezes virem poisar sobre ellas todos -os bixos, passaros, carangueijos, lagartos, e outros reptis d’ahi, das -circumvisinhanças, e do mar, e com elles as vêem procurando-as com -cuidado, e por isso são essas grandes massas partidas em varios pedaços. - -Aconselhei a elles, que ahi fizessem um _Forte_ não só para impedirem -as correrias dos _Tremembés_, como para tapar a entrada aos navios, que -buscam a Ilha de Sant’Anna afim de colherem o ambar-gris; não ha duvida, -que o mar atira muitas vezes sobre estas areias o ambar, que por ahi -espalhado é comido por animaes, passaros e reptis, pois os selvagens da -Ilha ahi vão apenas duas ou tres vezes durante o anno. - -Tenho certesa, que a colheita do ambar chegaria para pagar as despezas do -Forte, da sua guarnição, e do mais que fosse necessario. - -Os nossos selvagens e francezes depois de muitas indagações por varios -lugares somente acharam os corpos mortos dos seos, as choupanas, e -vestigios de inimigos, e assim regressaram á Ilha mais famintos do que -feridos. - - - - -CAPITULO XXXV - -Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuitapera e da viagem ao Uarpy. - - -Lá para o lado do Oeste havia uma nação, de que nunca se fallou, -desconhecida por todos os _Tupinambás_, moradora nos mattos na distancia -de mais de 400 á 500 legoas da Ilha, sem conhecer a vantagem dos machados -e das foices, pois apenas se serviam dos machados de pedra, e assim -viviam em segredo nas florestas d’essa localidade sob a obediencia de um -Rei. - -Souberam por alguns selvagens, que apresionaram no mar, da vinda dos -francezes á Maranhão, da sua residencia ahi, trazendo comsigo Padres, que -ensinavam qual era o verdadeiro Deos, e absolviam os selvagens dos seos -peccados. - -Levando taes noticias ao seo rei mandou este logo algumas canoas, e -n’uma d’ellas foi o governador, abaixo d’elle, d’esta nação, acompanhado -por duzentos mancebos fortes e valentes, ageis na natação e no uso da -flecha, com instrucção de chegarem á Ilha, porem não podendo pôr pé em -terra, limitando-se apenas a fallar com os interpretes dos francezes, -e regressando depois á sua terra tomando todo o cuidado para não ser -descoberto o caminho que seguiam. - -Chegaram defronte de _Tapuitapera_, onde então se achava o interprete -_Migam_, que apenas soube da chegada d’elles foi ao seo encontro no mar, -e com o seo Principal fallou por muito tempo. - -Interrogou-o o Principal acerca dos Padres, quem eram, o que faziam e -ensinavam: á respeito dos francezes, quaes suas forças, e mercadorias, -si era certo terem conciliado os _Tupinambás_ com os _Tabajares_, e si -viviam em paz na Ilha. - -Respondendo o interprete a tudo isto, como devia, ficou satisfeito -e assim o disse, asseverando que o mesmo aconteceria a seo Rei e a -sua Nação, porque todos desejavam aproximarem-se dos francezes para -conhecerem a Deos, terem machados e foices de ferro, com que cultivassem -suas roças, e estivessem sempre em guarda contra os seos inimigos, -plantando muito algodão e outros generos para offerecerem, como -recompensa, aos francezes, aos quaes apenas pediam alliança e protecção. - -Perguntou-lhes o interprete, si era grande sua nação, e si estava muito -longe, ao que respondeo affirmativamente, marcando a distancia por legoas -pouco mais ou menos, que podiam haver da Ilha á sua terra, mostrando -com os dedos o numero de luas, isto é, de mezes, que eram necessarios -para regressarem ao seo paiz, e accrescentou «não te posso dizer o logar -da nossa habitação, porque meo Rei assim me prohibio, e tambem porque -receiamos, que si nos faça guerra. D’aqui ha seis mezes regressarei para -te dar certas noticias, e podes dizer ao teo chefe, que sendo verdadeiras -as tuas informações viremos morar por aqui perto.» - -O interprete respondeo—«vem, te rogo, vêr o Fórte, que fizemos, as -grandes peças, que montamos sobre suas muralhas, e os francezes, que as -guarnecem para de tudo dares noticias á teo Rei.» - -«Não, disse elle, eu e os meos recebemos ordem de não saltar em terra». -Tanto porem instaram com elle, quase recebendo refens, consentio alguns -dos seos saltar em _Tapuitapera_, onde foram muito bem tratados, e ahi -adquirindo, em troca de generos, que levaram, alguns machados e foices, -regressaram mui contentes. - -Durante essa visita, conservaram-se a nado as canoas, os remos armados, e -tudo prestes se houvesse alguma traição. Tinham os outros as flechas e os -arcos promptos, tanto desconfiam estas nações umas das outras! - -Apenas chegaram os seos, restituiram os refens, e foram-se em paz. Deos -os guie e os traga ao seo gremio. - -Quanto á viagem ao _Uarpy_,[64][BE] rio e região, em distancia para mais -de 120 legoas da Ilha, lá para as bandas dos Caietés, foi emprehendida -pelo Sr. de Pezieux, com alguns francezes, e duzentos selvagens pelos -seguintes motivos. - -Primeiro: para descobrir uma mina de oiro e prata na distancia de -100 legoas acima do rio, d’onde os selvagens nos trouxeram enxofre -mineral, muito bom, e por tanto havia esperança de serem as minas boas e -abundantes. - -Tem me esquecido dizer, que ha em toda esta terra grande numero de minas -de oiro, misturado com cobre, de prata misturada com chumbo,[65] o que -provam as agoas mineraes que descem dos montes. - -Segundo: para traser comsigo uma nação de Tabajares, habitante das -margens do Rio. - -Terceiro: para procurar uma nação de _cabellos compridos_ por ahi -errante, os quaes são doceis, faceis de serem civilisados, e que negociam -com os _Tupinambás_. - -Si se realisarem estas coisas, como creio, a Ilha será em pouco tempo -rica de generos cultivados por todos estes selvagens reunidos, e -tornar-se-ha forte contra a invasão dos portuguezes, e descançando -n’esta esperança vou fallar de algumas raridades, que notei ahi, cortando -as difficuldades que se apresentam á primeira vista por meio de razões -boas e naturaes. - - - - -CAPITULO XXXVI - -Dos astros e do sól. - - -É bello e magnifico o Ceo, n’esta zona tórrida, embora pareça muito menos -estrellado do que na Europa, isto é, não apparecem tantas estrellinhas -fixadas na abobada azulada d’aquelle como acontece na do nosso, pois no -Maranhão ha estrellas maiores e brilhantes, e mais luzentes do que aqui. - -Não me convenço de lá não haverem menos estrellas do que aqui, antes esta -falta, que noto, attribuo á minha vista, e por mais esta razão. - -Todos os que habitam fóra dos dois solsticios, _Cancer_ e _Capricornio_, -olham obliquamente o centro do ceo, que é a linha ecliptica ou zona -tórrida, onde passa o sol, e por tanto tem maior horisonte, ou maior -espaço do ceo a contemplar, e menos numero de estrellas a contar. - -É pela experiencia confirmada esta razão, porque nasce e deita-se o sol, -sem preceder aurora, e assim acaba o dia e começa a noite, e si ha tarde -ou manhã é quasi nada. - -Na Europa acontece o contrario, pois algumas vezes temos mais de duas -horas de tarde, e outras tantas de manhã, antes do nascimento e do occaso -do sol, porque os habitantes da zona tórrida estão na esphéra direita e -nós outros na obliqua. - -Ainda acrescento outra experiencia. - -Quando regressamos de Maranhão para cá, no Polo Septentrional, -descubrimos mais depressa a estrella d’este Polo, do que quando na nossa -viagem para lá descobrimos a estrella do Cruzeiro embora mais elevada do -que o Polo Antarctico ou Austral. - -Ainda fiz outra observação n’este planeta do Sol, é que mostra dois -meios-dias diversos entre os dois termos do anno, de sorte que n’uma -metade do anno, olhando o Este está á direita, isto é, na parte austral, -e no resto do anno a esquerda, isto é, na parte septentrional, e em -ambos elles ha pouca sombra. O sol no zenith somente duas vezes no anno -olha para esta terra, como succede a todas as regiões contidas nos dois -solsticios: algumas vezes está tão perto da esphera direita, que pouco -falta para chegar ao meio dia, e ferir-vos a prumo o cume da cabeça. - -Comtudo isto destinguem-se perfeitamente ambos estes meios-dias. - -Explica-se isto por ser preciso cortar duas vezes, annualmente, o sol -quando no zenith, a zona tórrida, como já disse, para fazer os solsticios -de Cancer e Capricornio, e por tanto os habitantes da zona tórrida o vêem -fazer o seo meio-dia ora de um lado, ora de outro: por exemplo: quando -sahe do Capricornio afim de encaminhar-se para Cancer, os brasileiros -habitantes da zona tórrida observam o seo meio-dia á direita e quando -deixa Cancer com direcção á Capricornio vêem-no á esquerda. - -Abre-se-me vasto campo para descobrir a sabedoria de Deos na organisação -do mundo, tendo por fim apenas escrever succintamente uma historia, -entrego á consideração do leitor chamando a sua attenção para a maneira -como Deos dividio o curso do sol em duas extremidades e um meio, -recebendo os habitantes de todas estas tres partes a mesma luz durante o -anno, tanto uns como outros, excepto os habitantes de Cancer, que apenas -tem durante o anno tres dias e algumas horas de sol mais do que os de -Capricornio, originando-se por isso os annos bissextos e a reforma do -calendario, como vamos explicar. - -Principiemos pelo meio-dia, e acabemos pelas extremidades. - -O meio é composto de duas extremidades, equidistantes uma da outra, -porque de outra forma não seria meio. - -O curso do Sol se faz em 24 horas, dia natural, e em 12 mezes por anno. - -Ora sendo a zona tórrida o meio do curso diario e annual do sol, é -indispensavel, que na sua terceira parte e porção mostre diaria e -annualmente á luz do sol igual a que se apresenta nas duas extremidades, -o que não poderia fazer; si os dias não fossem iguaes, tendo cada um 12 -horas de Sol, porque, si excedessem ainda que pouco, não seria o meio do -curso do sol, e sim cahiria mais para uma das duas extremidades, tendo, -durante 12 mezes, uns dias maiores do que outros, compensando n’uns o que -n’outros perdia, e convindo por isso marcar-se outra zona de céo, que -fosse o meio e o centro d’esse curso, sendo o meio a essencia e a base -das duas extremidades. - -É impossivel imaginar-se dois extremos sem meio: como ja disse, o meio -é composto de duas extremidades, e por isso sendo a zona tórrida o -meio da carreira do sol, deve ter sua porção de luz á custa das duas -extremidades, que são dose e dose, que dá o sol igualmente para os dois -solsticios, entre as duas partes do anno, recompensando n’um tempo o que -n’outro perdeo. - -Consideremos agora uma terceira porção para servir de meio d’estas duas -extremidades, dose á dose. - -Convem tomar 12 de uma parte e 12 de outra para ser o todo igual: -comprehendereis assim facilmente como esta zona tórrida gosa igualmente -com as outras partes do mundo da luz do sol sem mudar seo numero de seis -a seis em tempo algum, porque partecipa igualmente das duas extremidades, -quer vá o sol visitar Cancer e seos habitantes dando-lhe com a sua boa -chegada mais largura e liberalidade de luz, quer vá fazer outro tanto -no Capricornio, não lhe sendo por isso de forma alguma importuna a zona -tórrida, e nem alteando o seo imposto ordinario, fazendo-lhe pagar -somente, seis horas da manhã, e seis depois do meio dia, a luz e calor -para a sua passagem da travessia da terra, e pelo trabalho dos seos -habitantes durante a sua vinda. - -Quanto ás terras e aos habitantes inter e extra-tropicaes dividem entre -si igualmente, pouco mais ou menos, em diversos tempos, a luz do sol, e -por compensação mais n’um tempo do que em outro: no fim do anno acham que -cada um teve 12 horas de luz para um dia natural, e dose mezes por anno. - -Já disse que os habitantes de Cancer, dentro e fóra do seo Tropico, gosam -mais tres dias do sol do que os outros. - -Dar a razão natural d’isto, e o que dizem os astrologos, é o mesmo que -nada, por ser segredo, que em si guardou a divina Providencia, e uma -honra que deo ao mundo antigo, composto d’Asia, Africa e Europa, e si -basta uma razão allegorica, sou de opinião que é para fazer sobresahir -tres privilegios especiaes, que sobre o mundo velho alcançou o novo, e -que são—a primeira habitação do homem expellido do Paraiso Terrestre; -dadiva da lei escripta á Moysés; e a redempção do mundo por Jesus Christo. - - - - -CAPITULO XXXVII - -Ventos, chuvas, trovões, e relampagos em Maranhão e suas -circumvisinhanças. - - -Alem do que a este respeito disse em sua _Historia_ o padre Claudio -d’Abbeville acrescentarei para satisfação do leitor o que me fez conhecer -a experiencia: - -1.º Fallando dos ventos, entre os quaes o do Oriente tem o sceptro e -occupa o reino do Brasil, alem das razões dadas por esse Reverendo Padre, -dou outra, que devo aos mathematicos, que por lá andaram e escreveram -sobre a materia. - -Dizem elles, que a constancia d’esse vento soprando por ahi é devida á -disposição das costas do Brasil, em linha recta de Este a Oeste, porque -tendo o sol levantado os vapores da terra e da agoa e atirando-os apòs -si, pela violencia do seo curso diario encontram as costas do Brasil do -Oriente ao Ocidente sem inflexão ou curva alguma e por isso seguem por -ahi. - -Praticamente observa-se isto com o fumo, que espalha-se no primeiro -corpo solido, que encontra como sustentaculo de sua fraqueza, e sem elle -derrama-se á feição do vento, que ahi sopra. - -Com quanto o vento das outras tres partes do mundo, a saber, Oeste, Norte -e Sul não reinem no Maranhão e suas circumvisinhanças em comparação com o -de Este, não se pode comtudo dizer, que não soprem algumas vezes ventos -do Norte e do Sul, e raras vezes o de Oeste. - -Em Maranhão os ventos vão sempre augmentando desde Agosto até Janeiro, -que é propriamente o estio d’esta terra, e quando o tempo é sempre sereno. - -Explica-se isto pelo curso do sol que regressando do solsticio de Cancer -para o de Capricornio surgem debaixo da zona tórrida grandes vapores, -aquosos e humidos, e quanto mais se aproxima d’essas terras mais se -levanta, e por tanto mais se reforçam esses ventos, que não são outra -coisa senão esses vapores misturados com o ar. - -2.º A razão porque começam as chuvas em Janeiro ou em Fevereiro, e vão -sempre augmentando até principio de Junho ou fins de Abril, é porque o -Sol volta do solsticio de Capricornio para o de Cancer, e attrahindo -muita humidade expande-a no ar, e d’ahi cahem as chuvas: quanto mais o -Sol se aproxima do seo termo, mais augmenta sua humidade, e torna a queda -das agoas mais expessa, forte, e rapida, e por isso vemos no Brazil ser -differente a epocha e a força das chuvas, isto é, mais depressa e mais -abundante n’uma terra do que em outra. - -De ordinario são as chuvas abundantes e frequentes, duradouras e -continuas, mais á noite do que de dia: é o tempo proprio para semeiar-se, -porque tudo nasce, cresce, produz, e dá colheitas. - -Quando a terra é arenosa, e que está secca pela proximidade do Sol, ao -cahir das chuvas continuas e abundantes, ella absorve admiravelmente as -agoas, muda a sua secura para uma temperatura humida, que é a mãe das -gerações. - -São diversas estas chuvas do orvalho da noite no estio, porque tem -este bom cheiro e aquellas mau, visto que provindo as chuvas do choque -de expessos vapores aerios, trazem portanto comsigo a qualidade de -seos agentes e a sua causa efficiente: acrescente-se ainda que a queda -impetuosa das agoas sobre a terra, coberta de folhas em putrefacção ou -de cinzas de paus queimados, revolve-a, e d’ella faz desprender-se, com -o seo estado constante de calor natural, mau cheiro proveniente de taes -objectos. - -O orvalho cahindo doce e brandamente em noite serena, mais fria do que -cálida, exhala cheiro agradavel, especialmente quando se derrama sobre -plantas odoriferas. - -É mais doentio o tempo das chuvas do que o das brisas, ou ventos de Este, -porque em primeiro logar não sopram mais os ventos, e por conseguinte -não purificam o ar, e d’elle não expellem vapores intensos, maritimos e -aquosos, e por isso mui doentios: em segundo logar chocando-se as nuvens -e cahindo as chuvas, apparecem molezas no corpo, doenças de coração, -desarranjos do estomago, enfraquecendo-se os nervos, e infiltrando-se os -ossos de humidade o que não apparece no tempo das ventanias, que limpam o -ar, o mar, e a terra. - -3.º Os trovões e relampagos são, sem comparação alguma, mais fortes e -frequentes no Brasil do que no mundo velho, especialmente no tempo das -chuvas, são horriveis os trovões, parecendo abalar-se a terra, e um -relampago dura mais do que dose na Europa. - -Durante esse tempo não sahem de casa os selvagens, e nem o mais valente -se atreve a pôr o nariz fóra da porta, e eu mesmo, sem ser dos mais -timoratos, fartei-me de medo, embora ninguem visse a queda do raio. - -Eis a razão. - -Emquanto é brando o calor de Agosto á Fevereiro raras vezes ha trovões; -mas quando surge a guerra do frio e do calor, que é de Fevereiro á Junho, -então é necessario que appareçam escorvas e peças, isto é, raios e -trovões. - -N’este tempo reina o calor na zona tórrida com todo o seo vigor, e o frio -então se fortifica pelo regresso do Sol de Capricornio para Cancer, cheio -de humidades do ar, e por isso é grande o combate, mais frequentes os -trovões, e mais medonhos os relampagos. - -Não se descobre a queda dos raios porque são altas e vigorosas as arvores -do Brazil, e ordinariamente é n’ellas, como acontece em toda a parte, -onde cahem os raios. - -Como é o paiz coberto de florestas, e repleto de arvores de admiravel -altura, é bem facil cahir o raio desapercebidamente. - -Prova-se isto todos os dias com arvores cahidas e queimadas, que se -encontram nas florestas. - - - - -CAPITULO XXXVIII - -Mar, agoas, e fontes do Maranhão. - - -O mar, pelas suas marés, não é o mesmo que o do restante do Mundo. - -Embora o Occeano acompanhe infallivelmente o crescente, o plenilunio, e o -minguante da Lua, comtudo notaram nossos marinheiros em um ou dois dias, -e algumas vezes mais, differença e falta de igualdade do que se observa -n’outras marés do Universo. - -Explica-se isto observando-se, que o Brazil está cercado de milhares de -inflexões ou voltas, formadas umas por bancos e corôas de areia, e outras -por voltas de pontas de terra e bahias. - -Accrescente-se ainda terem todas estas terras as sahidas mui retalhadas, -que impossibilitam o desembocar da maré com toda a sua força para os rios -salgados e portos e barras, como acontece n’outras partes. - -Reparae por exemplo o fluxo e refluxo do mar no rio Sena, pois quando o -mar no Havre da Graça principia a refluir já a onda chegou a Ponte de -Arche. - -Reparei tambem na seguinte coisa commum ás outras marés, porem não tanto -como as antecedentes. - -O mar no seo fluxo, batendo nas pontas das rochas, deixa no meio um canal -ou rego, que mostra a sua corrente principal, forrado de excrecencias -maritimas, que ahi se amontoam, e si passar-se uma corda pelo seo nivel -poderá servir de marca aos pilotos para reconhecer o canal no meio dos -recifes. - -Parece-me explicar-se isto pela propriedade da forma circular, que tem -os elementos, a qual lhes permitte expandir-se até a circumferencia: em -virtude d’isto o mar faz no meio do centro do seo fluxo o rego, ou fio de -sua carreira, depois dispersa-se, e dá a cada ponta de rochedo a sahida -para a maré, e por isso tenho observado algumas vezes muitos pedaços -de pau serem arremeçados em diversos sentidos contra os rochedos pela -violencia e corrente d’essas differentes marés. - -As agoas do Maranhão são incorruptiveis, e muito melhores do que as da -Europa, como tive occasião de verificar por espaço de dez semanas na -viagem do meo regresso: eis a razão: quanto mais sugeito está um corpo á -transformação e mudanças de qualidade, mais susceptivel se torna de ser -corrompido e mau por causa das alterações, que soffre, ora as agoas do -Maranhão achando-se sempre no mesmo estado, são por tanto incorruptiveis -e optimas. As agoas da Europa são pelo contrario ora quentes, ora frias, -e por conseguinte corrompidas e más. - -Não são frias como as da Europa as fontes do Maranhão, porque sendo -baixas as terras do Brazil não póde operar-se a anteperistase em suas -entranhas, especialmente pela proximidade do sól, que penetra muito bem e -com todo o vigor na terra, que é arenosa e mui susceptivel de calor. - -As agoas da Europa são frias no Estio por causa da grande anteperistase -das terras, d’onde cahem as agoas, que são altas, muitas vezes fortes e -densas, e por isso resistem ao sol. - -Conservam as fontes do Brazil sempre a mesma temperatura, porque o sol -derrama-se igualmente por cima d’ellas, que nada tem, que lhes possa -imprimir alguma qualidade fria. - -Entre as fontes do Maranhão umas são melhores do que outras, e tem até -côres diversas: a que nasce da terra é diversa em gosto e côr, porque -sendo a terra baixa, e havendo muitas arvores, umas com bom gosto e -outras com mau, estendem por ahi suas raizes, e d’ellas os olhos d’agoa, -ou os veios das fontes recebem qualidade boa ou má, tanto da terra como -das arvores. - -Notei n’estas fontes o seccarem umas em setembro, e outras minguarem -muito, porque sendo o terreno do Maranhão quente, secco, e arenoso -consome facilmente as agoas das chuvas, que por elle corre, e que serve -de alimento ás ditas fontes: achando-se pois os mezes de setembro, -outubro, novembro e dezembro muito longe das chuvas, é natural, que ás -fontes aconteça o que já dissemos. - -Quem quizer beber agoa muito fria, deve expol-a ao sereno, e na manhã -seguinte está tão fria como gêlo, o que não lhe succederá se n’essa -hora for buscal-a á fonte, porque sendo as noites em Maranhão muito -frias, ellas tem muito mais força sobre uma porção d’agoa guardada n’uma -vasilha, cercada de ar por todos os lados, do que sobre agoas sempre em -movimento pela corrente, contidas em leitos baixos, cobertas e sombrias -por todos os lados, e tendo a superficie apenas á vista. - -Facilmente observa-se isto na Europa, durante o inverno, nas fontes e -poços situados em lugares retirados e sombrios, pois nunca suas agoas se -gelam, ou pelo menos se esfriam. - - - - -CAPITULO XXXIX - -Singularidades de algumas arvores do Maranhão.[66] - - -As arvores do Maranhão, em sua maior parte, são duras e pesadas, porque a -solidez nas coisas mixtas provem da boa cocção da humidade. - -N’este paiz existe em igual abundancia tanto a humidade como o calor, -cada um durante a sua estação: as chuvas tem seo tempo proprio para -alagar a terra, e o calor tambem o tem para coser e digerir esta -humidade, que é nutricção dos vegetaes, especialmente das arvores, que -estendendo suas raizes dentro e fóra da terra por ahi chupam muita agoa -e sobrevindo o calor transforma a humidade em corpo solido. - -As arvores estão sempre verdejantes por successão diaria e continua de -folhas novas ás velhas, de fórma que, sahindo aquellas dos olhos dos -ramos vão logo por força propria attrahindo a seiva, ficando d’ella -privada as velhas, que por isso definham e cahem. - -Observamos isto no nosso corpo quando uma unha nova vem substituir a -velha. - -Por esta renovação de folhas conservam-se as arvores no mesmo estado, o -que não vemos na Europa porque o inverno retem no interior das arvores o -calor natural d’ellas: é necessario que cáiam as folhas antes da ausencia -do calor, ficando só a humidade, que apodrece o pé da folha em vez de lhe -dar vigor como acontecia no tempo do calor, e por tanto assim se faz a -queda das folhas. - -No Brazil acontece o contrario porque vivendo o calor e a humidade em -boa e perpetua companhia, novas folhas nascem ao mesmo tempo que as -velhas cahem: geralmente, em todas as coisas notam-se tres estados: 1.º -Crescer. 2.º Permanecer. 3.º Decrescer e assim sempre até morrer: eis o -que observamos nas folhas—teem tempo para crescerem, ficarem perfeitas, e -depois irem definhando até cahirem seccas. - -Entre estas arvores merecem especial menção em primeiro lugar os -_mangues_, arvores, que crescem nas barreiras do mar, e espalham -seos ramos, e fibras sobre as areias do mar, ou entre as pedras que -cobrem o limo, ahi se fortificam, engrossam, e chegando ao seo estado -completo, começam elles mesmos a deitar novas fibras, que tem igual -desenvolvimento, e assim se reproduzem infinitamente, não pelas raizes, -como as outras arvores, e sim pelos seos ramos. - -Não sei o que mais admirar, si a successão perpetua de pae a filho, ou a -geração inteiramente diversa das outras arvores. - -A razão, porque assim produzem estas arvores, provém de serem altas, -pesadas e em seo principio finas e delgadas para a raiz, e grossas no -centro: se nasciam da raiz de seo pae, nunca poderiam subir por causa da -fraqueza e delicadesa de seo pé, da grossura e peso do seo meio, e assim -ficam deitadas e rastejando pela areia, a que deo a natureza o encargo -de dar dois nascimentos; um do ramo de seo pae, onde ficam perpetuamente -encorporadas e por conseguinte bem sustentadas, outro da origem da -enseiada do mar, na qual ellas aprofundam e estendem suas raizes, e d’ahi -extrahem segunda nutrição, e assim sustentadas e nutridas por cima e por -baixo com facilidade crescem. - -Notae de passagem esta bella particularidade de terem dois nascimentos e -duas nutrições: a primeira de cima consubstancial com o seo gerador, que -com elle faz uma mesma essencia, sendo gerado, sahido d’elle, e sempre -com elle e inseparavelmente vivendo de sua nutrição. O segundo nascimento -e nutrição é debaixo do seio da areia do mar, nutrindo-se do mesmo mar, -chamando para cima esta nutrição para unil-a com a que recebe de seo Pae: -por estas duas nutrições cresce, estende seos ramos, dos quaes, de novo, -por outro nascimento produz seos fios, que adquirem raizes dentro do -mesmo mar, que o produz. - -D’esta comparação eu me servia para fazer comprehender aos selvagens -o Mysterio da Encarnação do Filho de Deos dizendo ter elle dois -nascimentos, um de cima, eterno e divino, sahindo de seo Pae sem d’elle -sahir, distincto de seo pae por hypostase como o ramo de mangue, com o -filho gerado d’elle, unico comtudo na essencia e na substancia com seo -gerador, como a fibra com seo ramo, vivendo de uma mesma nutrição divina -e celeste, a saber, o amor do Espirito Santo, que constitue a terceira -pessoa da Trindade: o outro nascimento é de baixo, temporal e humano, -sahido do seio da Virgem Maria, nutrido com o seo leite sagrado, foi -crescendo homem e Deos ao mesmo tempo, vivendo interiormente da nutrição -divina, e exteriormente da nutrição corporal, e quando chegou á idade -de 33 annos e meio, depois de haver communicado sua doutrina celeste aos -homens, confirmada por seos milagres, estendeo seos braços, consentindo -que fossem pregados na arvore da Cruz e do meio de suas chagas sahiram -seos escolhidos, que depois tomaram raizes na Santa Igreja, regenerados -pela agoa do baptismo, e nutridos pelos Sanctos Sacramentos. - -Diziam-me os selvagens, que comprehendiam isto muito bem e sem a menor -difficuldade, porque si Deos deo tal poder ás arvores, que não sentem, -porque não poderia elle fazer o mesmo a si? - -N’esse paiz existem arvores, que se mostram exteriormente seccas, sem -folha alguma, e comtudo quando chega o tempo proprio brotam d’ellas em -quantidade flores muito bellas e em cachopas, porem são de diversas cores -e ordinariamente amarellas. - -Encontra-se a razão d’esta particularidade no logar escolhido pela -naturesa para terminar a sua acção: por exemplo; quando é liberal dando -a qualquer membro um excesso de nutrição, é á custa dos outros: quando -estas arvores dão sua seiva para formar uma casca grossa, verdejante -e humida e cobrir de lindas folhas os seos ramos, não produzem bellas -flores, as quaes naturalmente, em todos os vegetaes, formam-se de uma -seiva bem digerida e subtil, e por tanto podendo subir facilmente até as -extremidades dos ramos, não cuidando das outras partes da arvore para -lhes dar qualquer nutrição. - -Reconheci isto em França, onde se pódam as cerejeiras para não dar -fructo, afim de com toda a sua seiva produzirem flores largas e dobradas, -como rosas almiscaradas duplas. - -Tambem existem outras arvores, que fecham suas folhas, e as dobram -sobre si, quando o sol está no seo occaso, e apenas se levanta ellas -desdobram-se e expandem, como acontece em França, ao Girasol. - -Este phenomeno é devido á humidade ou sereno na noite, que as aperta e -fecha porque o frio tem essa qualidade, e o calor do dia as abre e as -expande por ter essa propriedade. - -Com bastante difficuldade pude deparar com as razões naturaes de muitas -singularidades, que vi em Maranhão, porem confesso com franqueza, que -nunca achei a causa natural: certas arvores d’aquelle paiz, apenas se -toca com a mão o seo tronco, immediatamente fecham todas as suas folhas: -por certo haverá n’estas arvores alguma propriedade sensitiva, como ha -na esponja, a qual apenas sente a mão do homem, que a pretende cortar, -ella se aperta, e occulta-se no concavo e na fenda da pedra do mar, que a -forma. - -Os cajueiros, que produzem uma fructa propria para fazer vinho, nascem -espontaneamente pela costa do mar, e por isso vivem da seiva maritima e -salgada, resultando d’isto ser o vinho de cajú picante e acre, e produzir -no futuro dores nos rins, e ser prejudicial aos pulmões. - -Por experiencia coei este vinho, e d’elle tirei muito sal. - -Ha espinhos, que dirieis serem creados por Deos para representar o -mysterio da paixão de Jesus Christo,[67] porque crescem formando -ramilhetes quatro em cima, equidistantes á maneira de uma Cruz, e um no -cume com a ponta virada para o Ceo, ornado de nove folhas, dispostas -como tres raminhos, cada um com tres espinhos, que em tempo proprio se -transformam em tres flores, ficando o espinho maior no centro. - -São estes cinco espinhos os instrumentos das cinco chagas de -Jesus-Christo. Cercando a corôa de espinhos seo Chefe, como o espinho -de cima é cercado de folhas, isto é, de peccados e de vaidades das tres -idades do mundo, na lei da natureza, escripta e de fé, cujos peccados e -imperfeições se transformam, pelo merecimento do sangue de Jesus Christo, -em flores da Graça, em boas obras, e na recompensa da gloria. - - - - -CAPITULO XL - -Dos peixes, passaros e lagartos, que se encontram n’esses paizes. - - -Eis uma questão não pequena, de phisica ou de philosophia natural—«como -pode um animal, vivo e perfeito na sua especie, formar-se sem -progenitores.» - -Alberto, o grande escriptor, vio peixes vivos no meio de uma grande pedra -marmore, tirada da rocha, e rachada no centro. - -Não é novidade para os que leram este autor, porque eu vi em Maranhão, -nos regatos formados pelas chuvas, e que pouco duram, muito bons peixes, -iguaes em tamanho e côr aos que vivem em rios permanentes, e que nascem -de ovas. - -Como é possivel, que sem haver ovas, possam estes peixes nascer, crescer -e morrer, com a queda, augmento e ausencia das chuvas? - -A razão d’isto está na força e influencia dos planetas predominantes em -janeiro e fevereiro, quando nascem estes peixes, e na conjuncção forte -da humidade e do calor e na disposição do terreno, tudo isto combinado -de tal forma, que dá origem a taes e taes peixes de preferencia aqui do -que em qualquer outra parte; como vemos na Europa em que a diversidade -das terras, por onde passam as chuvas, produz differentes variedades de -peixes. - -Entre os passaros do Maranhão, dos quaes eu diria maravilhas, si outros -ja o não tivessem feito, notei uma especie singular de aves aquaticas -vermelhas,[68] cuja penna e carne são de côr escarlate, dando-se a -particularidade de serem brancas quando sahem do ovo, depois com o tempo, -quando podem vôar; são pretos, e assim ficam até chegarem a sua grandesa -e grossura natural, d’ahi vão se tornando meio pardos e meio vermelhos, e -finalmente totalmente rubros, passando assim por quatro mudanças. - -Não digo isto por ouvir dizer, porem observei nos que se criam em casa -presos. Este phenomeno não se dá sem uma razão profunda, e fundada na -naturesa, e me parece ser esta: a côr da pelle e das pennas é devida -á disposição e qualidade do alimento, que nutre a ave, porque diz o -philosopho, a pelle e as pennas nascem, crescem e se nutrem com a -superfluidade dos alimentos: ora a côr branca faz suppor alimentação -leve e delicada, e por isso a avesinha ao sahir da casca do ovo, vivendo -somente á custa de moscas e mosquitos, que vôam ao redor d’elle, é -natural que suas plumas, originadas de tão fraca comida, tenham a côr -branca. - -A côr negra porem faz crer em abundancia e superfluidade de alimentação, -porque a intensidade do calor natural vae sempre excitando o apetite, e -empurrando-o para o pasto e por isso notei, que quando esta ave tem as -pennas pretas é glutão e come constantemente. - -A côr parda e meia vermelha mostra uma tendencia, ou uma regra, nascida -expontaneamente da naturesa para acolher uma certa alimentação, que -lhe é propria, e então observei escolher esta ave uma comida singular -e especial, isto é—os carangueijos, os quaes consummidos no estomago, -ahi se transformam em chylo vermelho como escarlate, e este cahindo no -figado, se d’elle não receber alguma côr, como acontece com os outros -animaes, tinge-o com sua côr, e sempre assim passa para as veias, das -veias para a carne, da carne para as pennas, e tão perfeitamente, que si -fosse um mettido dentro de uma panella para cozinhar, podia dizer-se que -havia dentro uma porção de vermelhão. - -Entre milhares de lagartos e reptis do mar, appliquei minha attenção para -uma especie bem monstruosa. - -É um animal que vive umas vezes n’agoa, outras em terra, e tambem nas -arvores, contendo em si as tres espheras com que vivem todos os animaes -do mundo. - -Com os peixes partilha o elemento d’agoa, com os homens e os quadrupedes -o da terra, e com os passaros aninha-se e repousa nas arvores. Direi -ainda que só parece terem os astros lhe dado sobre os rins, desde a -cabeça até o fim da cauda um reflexo de seos raios e brilhos, porque -notareis no dorso uma bella facha de raios do sol e das estrellas, -similhantes aos que fazem os nossos pintores ao redor do globo do sol e -das estrellas. - -Tem a pelle esmaltada de côr prateiada e azulada, como a abobada celeste -quando serena. - -Quando este animal sente a intensidade do Sol, sahe do mar, sobe ás -arvores visinhas, e escolhendo um ramo para deitar-se, ahi se estende e -descança. - -Põe seos ovos nas arvores maritimas, os quaes aquecidos pelo calor do -Sol deixam sahir os lagartinhos, que apenas sahem das cascas dos ovos -conhecem logo o pae e a mãe, acompanham-no ao pasto no mar, em terra e -nas arvores. - -Explico a rasão d’isto dizendo que quanto mais humido é o animal, mais -somnolento é elle. Entre todas as especies de animaes esta sorte de -lagartos é humida e fria, e por tanto sujeita ao dormir, e como seja -mais agradavel o somno quando se tem os membros em certo grau de calor, -eis por que elles buscam soalheiros. Reconhecendo pequeno o seo calor -natural, eis porque põem seos ovos em lugar expostos aos raios do Sol. - - - - -CAPITULO XLI - -Da pesca do Piry. - - -Os selvagens do _Maranhão_, de _Tapuitapera_, e de _Comã_ tem uma -pescaria certa e annual, como annualmente a do bacalhau nos Bancos da -Terra Nova. - -Alguns mezes depois das chuvas, quando julgam as agoas escoadas, muitos -embarcam em suas canoas, levando farinha para alguns mezes ou seis -semanas, e assim vão costeando a terra á um lugar distante da Ilha 40 ou -mais legoas: ahi se arrancham, levantam choupanas, e depois dedicam-se a -pescaria, a caça dos crocodillos, e á procura das tartarugas. - -Ahi se reunem muitos selvagens de diversas aldeias da Ilha, de -Tapuitapera, e de Comã. - -Apanham-se os peixes nas pôças, ou buracos de areia com pouca agoa, e -quando se vae um pouco mais tarde, coagido pela estação, encontram-se -essas pôças seccas e o peixe morto. - -Sendo impossivel dizer-se o numero ou a quantidade d’estes peixes, faço -porem comprehendel-a asseverando, que chega para carregar todos os -selvagens, e ainda fica muitissimo. São grossos e curtos, não excedem -porem a grossura e expessura de um braço, tem de comprimento meio pé -entre a cauda e a cabeça, o focinho achatado e muito similhante ao do -tenca, e parecem-se muito com os peixes maritimos chamados _marujos -pintados_. - -Apanhados nas redes, que levam, chamadas _pussars_, seguram-nas pelo meio -dose a dose, lançam-nos com entranhas e tudo ao fumeiro para assal-os, -e assim ajuntam muitos, que levam para suas casas, e com esta comida -sustentam-se um ou dois mezes. Quando querem comer, tiram a pelle do -peixe, seccam-na ao sol, pisam-na em um almofariz, reduzem-na á pó, com -que fazem seos _mingaus_, isto é, suas bebidas, como fazem os turcos com -o pó dos quartos de boi cozidos ao forno quando vão para a guerra. - -Dirigindo-me um dia para a Ilha, achei-me em certa aldeia, onde nada -tendo que dar-me para jantar, ferveram alguns d’estes peixes n’uma -panella, do caldo fizeram _mingau_, vindo o resto no prato. - -Bem contra minha vontade de nada me servi por causa do mau gosto da -fumaça, porem com muito apetite comeram de tudo os francezes, que vinham -commigo, achando saborosos os peixes, com grande satisfação dos indios, -que os apreciam tanto á ponto de irem muito longe buscal-os. - -Como se acham em tanta abundancia estes peixes em taes fóssos ou poços -desde o inverno até esse tempo? Se explicações servem ja as dei no cap. -40, e por isso á ellas me refiro, acrescentando ainda o seguinte. - -A grande quantidade de chuva faz transbordar os rios, os regatos, e o -proprio mar, de maneira que todos estes campos ficam innundados até -a altura de um homem: assim sahem os peixes do lugar natural, onde -habitavam, ahi regalam-se com pastos novos a ponto de não se lembrarem de -regressar a Patria, e por isso quando as agoas se abaixam, ficam presos -em fóssos e poços como vimos em todos os lugares onde se dão estes factos. - -A caça dos jacarés lhes é util e agradavel: são pequenos crocodillos com -8 ou 10 pés de comprimento, de pelle dura, ventre molle, sem lingua, com -olhos vivos, sempre alerta e maus: accommettem o homem, cortam e devoram -o primeiro membro que agarram. - -Escondem-se em grotas, á margem dos rios, e sempre de emboscada, nadam -como peixes, arrastam-se ligeira e brandamente, abrem a bocca, e como que -intentam assustar-vos si vos encontram: põem ovos iguaes aos de galinha, -porem cobertos de protuberancias, como as castanhas; dizem que são bons -para comer, mas eu não affianço porque nunca os provei, pois sempre tive -muito horror á estes bixos. - -Chocam seos ovos, e d’elles sahem jacarésinhos, gordos, grandes e -compridos, como os lagartos que vemos pelo estio correr nos muros. - -É para admirar, que de tão pequeno bixo origine-se tão grande animal, e -que apenas sahido da casca do ovo começa a andar e arrastar-se! - -Sua carne cheira a almiscar, é doce e desagradavel: os selvagens porem -não fazem caso d’isto, apreciam-na muito quando a encontram, e por isso -empregam-se muito em caçal-os. - -O logar _Piry_, humido e cheio de limo, tem muitos jacarés, que são -perseguidos pelos selvagens por meio de flechas, atiradas com direcção -á garganta ou á barriga, e depois acabam-nos com uma barra de ferro, -escamam-nos, e cortam-nos em pedaços, que assam. - -Si são pequenos, cozinham-nos com escamas, e assim preparados acham-nos -muito bons e até delicados, porque assados com sua gordura, dizem elles, -nada perdem de sua substancia. - -Achei melhor crer do que experimentar, embora tivesse muitas occasiões -de o fazer, visto que recebi muitos presentes d’elles quando voltaram os -selvagens do _Piry_. - -A recordação somente d’estes animaes me fazia nauseas até o coração, á -vista d’esses pedaços. - -Diziam os francezes, que o comeram, ser similhante a carne fresca de -porco, um pouco mais adocicada, oleosa, e com o cheiro de almiscar. - -He muito perigoso tomar-se banho n’esse paiz, a não ser em logar -descoberto, porque estes despresiveis animaes se arrastam de mansinho e -se atiram sobre vós. - -Contaram-me, que um menino, da aldeia de _Rasaiup_, cahindo n’um riacho, -onde hia buscar agoa, foi agarrado e devorado pelos jacarés. - -Quando andei pelas costas do mar, desde _Trou_ até _Rasaiup_, em -companhia de muitos selvagens, elles me levaram para beber agoa n’uma -grota cheia de sarças e outras mattas, e me advirtiram, que ahi ninguem -se podia demorar muito por ser o escondrijo dos jacarés. - -Fazem-lhes muita guerra os nossos selvagens, por gosto e utilidade, e -trazem grande provisão d’elles quando voltam do Piry. - -A razão de não terem lingua, estes animaes é porque segundo creio, tem a -garganta e o pescoço, inteiramente inflexiveis, a ponto de não poderem -olhar nem para traz nem para o lado sem moverem o corpo todo: alem -disso, elles tem o maxillar inferior duro e immovel, tudo isto contrario -ao uso da lingua, e só mastigam com o maxillar superior. - -Eis porque agarram e devoram a presa de um só jacto, não precisando -viral-a e reviral-a da garganta. - -Disse S. Gregorio, que os crocodillos do Nilo chegavam a ter até o -comprimento de 20 covados, a cor de açafrão, porem os do Maranhão e de -suas circumvisinhanças não iam alem, como ja disse, de 10 ou 12 pés, com -a differença tambem de habitarem aquelles, durante a noite, a agoa, e de -dia a terra, porque busca o calor, visto serem no Egypto á noite as agoas -quentes e a terra fria, e de dia vice-versa. - -No Maranhão acontece o contrario: de noite ficam em terra, e de dia -n’agoa, porque as agoas são frias á noite e quentes de dia, e a terra -temperada. - -A razão, porque este animal tem medo dos que o perseguem, e é atrevido -contra os que fogem d’elle, é porque facilmente atira-se sobre este, e só -com muita difficuldade se defende d’aquelles, sendo este procedimento o -resultado de sua naturesa timida e assustada. - -Tem só um intestino, porque não faz a primeira digestão nas carnes -cortadas em bocadinhos. - -Temem mais os selvagens que os francezes, e os do Nilo receiam mais -os egypcios do que os estrangeiros, o que explica Solinus dizendo -reconhecerem elles naturalmente pelo cheiro os que o guerreiam -constantemente. - -Disse um phisiologista, que quando elle devora alguem, chora a sua -desgraça: não sei si será verdade.[69] - -Alem d’estes exercicios, no Piry perseguem os selvagens as tartarugas, -ahi em quantidade incrivel, e trazem-nas vivas tantas quantas podem. - -Não são avarentos, antes sim por poucos generos alcançareis muitas. - -Lembro-me, que passando algumas canoas pela nossa situação de São -Francisco, por uma faquinha de custo de um soldo na França, deram-me -setenta, e pela farinha, que lhes offereci para jantar, mimosearam-me com -vinte e cinco, que guardei em lugar humido e fresco, deitando-lhes todos -os dias um pouco d’agoa, e assim se conserváram sem comer por mais de -seis semanas. - -Os selvagens comem-nas com muito gosto, e dizem que ellas lhes conservam -a saude, e lhes fazem bom estomago. - -Cozinham-nas em seos cascos inteirinhas, sem tirar-lhes as entranhas, e -nós as achamos assim preparadas muito melhores do que de outra fórma. - -Si algum d’elles soffre dos ouvidos por algum defluxo tiram as mulheres -o sangue d’estes reptis, misturam-no com o leite tirado de suas mamas, e -com isto friccionam o fundo da orelha. - -Quando arrancam o cabello dos seos corpos, com pinças de ferro, que lhes -dão os francezes, esfregam a pelle com... - - (falta uma folha). - - - - -CAPITULO XLIII - -Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas. - - -Ha outra caçada de um verme, tão divertida e agradavel como as -precedentes, é a dos ratos domesticos e selvagens. - -Não comem os domesticos, ao menos que eu saiba, porem caçam-nos -cruelmente; porque si entra um rato em qualquer casa, reunem-se todos os -habitantes, uns com arcos, e outros com flechas e paus, e com o auxilio -tambem de alguns cães não escapa o pobre rato. - -Depois de morto é espetado na ponta de uma vara, fincada no meio da -aldeia, para servir de alvo ao exercicio das flexas dos meninos. - -As aldeias mais proximas dos portos, onde chegam navios, tem mais ratos, -porque apenas sentem a terra, atiram-se as ondas, nadam, trocando assim -o seo paiz natal, que é o mar, para ficar n’um paiz mais firme e seguro, -que é a terra. - -Comem os ratos selvagens, que vivem nos bosques e no dizer d’elles é -comida deliciosa. - -Caçam-nos assim: cavam um buraco no meio de um certo lugar no matto, -fazem varias entradas, similhantes ás coelheiras, ou terreiros de -coelhos: reunem-se depois muitos sujeitos, armados de paus, e vão fazer -grande alarido ao redor d’esse fosso, como se costuma fazer nas caçadas -dos lobos. - -Batem as mattas, e d’ellas fazem sahir os ratos, e elles fugindo, e -encontrando esses buracos tão proprios para se occultarem, ahi entram, -e então aproximando-se os selvagens, toma cada um conta do seo buraco, -e entrando outros dentro do fosso, á cacete matam os ratos, dividem-nos -igualmente, e regressam para a aldeia trazendo cada um o que lhe tocou. - -Assam os ratos ao fumeiro ou sobre carvões, abrem-nos por diante sem -lhes tirar a pelle, a qual fazem tostar depois que o animal está cozido -por dentro, para não perder a gordura, e depois os guardam dentro de uma -porção de farinha. - -São estes ratos assim preparados, guardadas as proporções, mais -apreciados do que os javalys e os viados, e as vezes trazem os selvagens -quantidade incrivel d’elles. - -Caçam as formigas em tempo de chuva, por ser a epocha propria d’ellas -mudarem de habitação. - -As que podem vôar buscam a região do ar, deixando suas casas, feitas e -cavadas na terra. - -As outras, si por instincto natural desconfiam, que podem as agoas -invadir suas grutas, e estragar seos armazens, celleiros, ou dispensa, -pegam na bagagem, com ordem digna de ser mencionada, e auxiliadas com a -experiencia, como vou contar para servir de modello a todas as outras. - -Na nossa casa de S. Francisco, no principio das chuvas um milhar de -milhões de formigas sahio de uma caverna, perto d’ahi, e veio tomar posse -de um canto do meo quarto, onde cavou camaras, ante-camaras e celleiros. - -N’uma bella manhã sahiram todas, e trouxeram um alqueire, talvez, de -ovos, indo em diversas estações, isto é, em distancia de 2 passos uma da -outra. - -Cada acervo trazia suas formigas em ordem, vindo descarregar cada uma o -que trazia no montão proximo, e assim iam fazendo os outros acervos ou -companhias. - -Admirei-me de vêr tantas formigas, e tantos ovos, que deitavam mau cheiro. - -Mandei fazer bom fogo, e atirar sobre estes ovos, e no caminho por onde -passavam estes animaes. - -Puzeram-se em alarme, e cada uma buscou salvar os ovos que poude, como -fez Eneas á Anchises, seo pae na destruição de Troya. - -Não fui tão bem succedido, porque regressaram ao lugar que haviam -escolhido, não pensando talvez, que me incommodassem, o que assim não -aconteceo, porque reunindo-se todas por espaço de 2 dias, deliberaram ir -a pilhagem fóra do quarto, mostrando-se contentes com a habitação, que -bem a meo pesar lhes dei. - -Causar-vos-hia satisfação vendo estes animaesinhos, desde o amanhecer -até ao anoitecer, fazer suas provisões, que são as folhas de uma certa -arvore, em cujos ramos, como presenciei, estavam muitas para cortal-as e -deixal-as cahir em terra, onde cada formiga pegava no que podia e levava -para os armazens. - -Tinham aberto dois caminhos, muito bons para o seo tamanho: por um iam as -carregadas, e por outro as desembaraçadas, evitando assim a confusão e -a mistura, embora fossem mais de quatrocentas as carregadeiras. O mesmo -fazem as outras especies de formigas. - -É para admirar-se tambem a especie de abobadas, que com admiravel -industria fazem quando querem caminhar abrigadas. - -Caçam os selvagens somente as formigas grossas como o dedo pollegar, -para o que aballa-se uma aldeia inteira de homens, mulheres, rapazes e -raparigas. - -A primeira vez que vi esta caçada, não sabia o que era, e nem onde -hia tão apressada tanta gente deixando suas casas para correr após as -formigas voadoras, as quaes agarram mettem-nas n’uma cabaça, tiram-lhes -as azas para frital-as e comel-as. - -Caçam-nas tambem por outra maneira, e são as raparigas e as mulheres que, -sentando-se na bocca da caverna, convidam-nas a sahir[70] por meio de uma -pequena cantoria, assim traduzida pelo meo interprete. - -«Vinde, minha amiga, vinde vêr a mulher formosa, ella vos dará avelans.» - -Repetiam isto á medida que iam sahindo, e que iam sendo agarradas, -tirando-se-lhes as azas e os pés. - -Quando eram duas as mulheres, cantava uma e depois outra, e as formigas -que então sahiam, eram da cantora. - -Causa admiração vendo-se os grandes pedaços de terra, que tiram de suas -cavernas. - -No tempo das chuvas tapam os buracos do lado das enchurradas, e deixam -somente aquelles, por onde pode vir a chuva raras vezes. - -As formigas do Maranhão tem dois inimigos encarniçados, especialmente -estas alladas: um—certa especie de cães selvagens,[71] com pello de -lobo, fedorentos o mais que é possivel, focinho e lingua muito aguda, -e que procura o formigueiro para alimentar-se: outro, uma qualidade de -formigas corpulentas, que de ordinario nascem com as outras, como o -zangão entre as abelhas, e em quanto são pequenas e fracas, trabalham -conjuntamente sem fazerem barulho, e nem se offenderem. - -Quando grandes e fortes deixam as outras, fazem bando á parte, só e só, -não vivem mais em companhia, e põem se de embuscada pelo caminho, onde -costumam passar suas irmãs e parentas, como fez antigamente Abimelech, -bastardo de Gedeon, sobre os 70 filhos legitimos de seo pae, seos -proprios irmãos, os quaes matou todos sobre uma pedra em Ephra. - -Sirva d’isto ao leitor para applicar como julgar acertado. - -Eis como os nossos selvagens se distrahem mais utilmente com estes -animaes, do que os nossos rapazes com as borboletas: de tudo se -aproveitam e nada perdem, reunindo o util ao agradavel. - -Vejamos o resto. - -A caça dos lagartos, chamados pelos _Tupinambás_—_Tarure_ (os grandes) e -_Toju_ (os pequenos,) é feita por diverso modo,[72] conforme são da terra -ou do mar. - -Os maritimos habitam ordinariamente as praias cobertas de mangues, onde, -duas vezes dentro do espaço de 24 horas, entra o mar. - -Ahi nutrem-se de carangueijos, de mexilhões, e de camarões, vulgarmente -chamados em França—lagostins, e de peixes, que apanham na enchente. - -Poem seos ovos nos concavos das arvores. - -Os selvagens caçam-nos e flecham-nos na vasante; enterrando-se pelo -tujuco. - -Para comida servem tanto como os coelhos, ou uma grande lebre, conforme o -tamanho do animal. - -Fervem-nos para fazer mingau, ou assam-nos ao fumeiro. - -Os francezes assam-nos ao espeto, bem untado de gordura de peixe-boi, e a -primeira vista pensareis que são coelhos ou lebres espetadas. - -O guisado, que d’elles se faz, é muito parecido com o das lebres e -coelhos, e muitos francezes gostam mais d’elles do que os nossos coelhos. - -Eu antes quero crêr do que provar. - -A caça dos lagartos terrestres é mais de meninos que de homens, embora -tenha visto alguns homens atraz delles, como os meninos, e até 20 -selvagens, homens e rapazes, atraz de trez lagartos. - -Apenas os pilham, assam-nos, e toma cada um a parte, que lhe pertence e -acham-na muito boa. - -Os rapazes apenas os veem correr pela casa, nas paredes ou nas arvores, -flecham-nos, porem escolhem os maiores por que tem mais que comer: alguns -tem o comprimento de um braço e a mesma largura. - -Ha outros vermes, que não sahem das arvores, deitados sobre folhas, -expostos ao sol: dizem os selvagens que são venenosos, e por isso os -deixam: não se assustam com a vossa presença, si não os perseguirdes. - -Parecem-se com os camaleões, de que ainda fallarei, tem brilho nos olhos, -e a côr de escarlate. - -Costumam estes lagartos domesticos á juntarem-se e unirem-se em forma -de bolla, de tal maneira que a cauda do macho toca a cabeça da femea, e -reciprocamente, e assim todos curvados, tocam-se as duas cabeças e as -duas caudas. - -Tive medo quando vi isto pela primeira vez, porque não sabia o que seria, -e nem si era alguma especie de serpente, com quatro olhos, e um só corpo -enrolado. - -Os lagartos femeas são mais grossos do que os machos. - -Os pequenos lagartos poem ovos, de cinco até sete cada um do tamanho da -cabeça do dedo minimo, n’um buraco, que cobrem de areia, fazendo o resto -o calôr do sol. - -Os lagartos grandes põem ovos maiores, á proporção do seo corpo, e -ordinariamente fazem ninhos nos tectos das casas, nos bosques, e para ahi -levam tudo o que acham ser molle, como sejam musgos, pennas, algodão, -farrapos, e frequentam muito a casa si não lhes fazem mal. - -Fazem tanto barulho como um cão, quando caminham e conduzem na bocca o -que acham, e é um prazer vel-os em tal lida. - -Não fazem caminho direito quando construem seo ninho, e antes usam de -muitos rodeios para não serem descobertos. - -O sol chóca e faz abrir seos ovos, porque são muito frios e não tem calor -proprio para isso. - -São caçados por cobras grandes e horriveis, umas brancas como agoa, -outras de côr de violeta, e finalmente algumas manchadas de diversas -côres. - -Invadem até as casas para nos tectos caçarem estes lagartos, que apenas -as presentem ao longe, fogem como se a casa tivesse pegado fogo. - -Mandei matar tres cobras d’estas n’um domingo, quando eu e meos -companheiros fomos dizer missa na capella de S. Francisco, onde as -achamos perseguindo os lagartos grandes, dos quaes já tinham matado -muitos. - -Pagaram tal temeridade levando cada uma mais de cincoenta cacetadas, e -ainda se salvariam, si eu não as mandasse cortar em pedaços, que viveram -e remecheram-se por mais de 24 horas procurando reunirem-se o que não -conseguiram por estarem distantes umas das outras, talvez por quatro ou -cinco passos. - -Os selvagens tem muito horror d’estes lagartos, e dizem ser venenosos. - -Os lagartos, quando velhos, perdem sua cauda, que fica negra, e por isso -mesmo é fragil como vidro, e quebra-se por qualquer causa. - -Não creio, que ellas renasçam, embora o affirme Aristoteles. - -Fundo-me no que observei n’um lagarto grande, que estava na nossa -casa de S. Francisco, onde se conservou por dois annos sem cauda, -vindo diariamente comer em nossa presença, com as galinhas com que se -familiarisou. - -Dizem, e os francezes o asseveram por experiencia, que ha uma especie de -lagartos grandes que apanham os frangos, e levam-nos para o matto, onde -vão comel-os. - - - - -CAPITULO XLIV - -Das aranhas, cigarras e mosquitos. - - -A vida do homem é comparada com a da aranha em muitos lugares da -Escriptura Santa, especialmente no Psal. 89. _Anni nostri sicut Aranea -meditabuntur_ «nossos annos se passaram, serão contados e meditados como -os da Aranha.» - -Escreveo S. Isidoro, que a aranha é um verme do elemento do ar, n’elle -nutrido, d’onde se deriva a etymologia do seo nome, nunca descança, -sempre trabalha, de si tira com que formar sua teia, sempre em perigo por -se achar ella, seos bens, e suas riquezas, suspensas n’um fio, mercê do -menor sopro de vento, ou do capricho de um criado ou de uma camareira, -que com um espanador destrua todo o trabalho. - -Quereis mais bello espelho para considerar as desgraças e miserias d’esta -vida? - -Não perderei tempo referindo o que se sabe acerca da naturesa d’este -verme, e apenas contarei o que achei de curioso e especial nas formigas -do Maranhão, e antes de entrar na materia fallarei d’uma especie do -tamanho de um punho de braço, e as vezes até maior. - -Encontram-se ordinariamente no tronco das arvores, proximas ás casas, -nas estacas, nos cantos, caminham pouco, não tem teias, muito venenosas, -vermelhas quasi da côr de borrachos quando sahem do ovo, coisa horrivel e -feia! - -Fogem d’ellas os Indios, e julgam mortifera a sua picada. Nutrem-se da -corrupção do ar. - -Existem outras de diversas especies, maiores e menores, e todas -domesticadas, e nos mattos encontram-se grandes, menores, e pequenas. - -Em todo o tempo produzem e especialmente no inverno. - -Com a frescura da noite juntam-se: deixa o macho a sua teia para se unir -com o seo fio á teia da femea, si ella está collocada em lugar mais -baixo: si porem a teia da femea é superior á do macho desce ella, vem -procural-o, e assim si juntam. - -É muito facil de vêr-se, pois o praticam todos os dias, no fim da tarde. - -O macho é pequeno, e a femea é tres vezes maior do que elle. - -Fazem uma pequena bolça, redonda e chata, muito bem feita e tecida, -parecendo-se com setim branco e a similhança de um breve de _Agnus Dei_. - -N’ella deixam apenas um buraquinho, por onde com o pé introduzem os ovos. - -Quando está fechada a bolça tapam o buraquinho, e carregam-na junto -ao ventre e estomago, aquecendo-a por esta fórma, e quando presentem -estar os filhos em estado de sahir, rasgam a bolça ao redor, como se -faz com a casca da fava, sahem logo, correm pela teia da mãe, e a noite -agasalham-se debaixo da mãe, como fazem os pintos com as gallinhas afim -de resguardarem-se do frio da noite. - -Quando tem forças, cada uma faz a sua teia, e por sua industria cuida de -si. - -Ha outras, que fazem pequenos pucaros de barro, do tamanho e feitio de -uma ameixa de dama, tão bem feitos, quanto é possivel, por dentro e por -fóra, o que tambem fazem certas especies de moscas, de que ainda fallarei. - -São as boccas d’estes potes proporcionaes aos seos tamanhos, com um -buraco tão pequeno, em que cabe apenas um alfinete, por onde sahem os -ovos para serem aquecidos pelo Sol. - -Este pucaro costuma estar junto a uma arvore, ou n’uma folha de palmeira, -e a terra de que é feito, muito se parece com a de _Beauvais_. - -Enchem o pucaro de ovos, tapam no, e quando as mães julgam ja terem os -filhos sahido da casca, destapam o buraco, e então sahem as aranhasinhas -e acompanham-nas. - -As aranhas dos mattos procedem de outro modo: roem as amendoas das nozes -das palmeiras espinhosas, pouco a pouco e deitam fora tudo por meio de -tres buracos naturaes, que tem estes fructos: depois ahi dentro fazem -seus ninhos e depositam seos ovos. - -São differentes as teias destas aranhas quanto a sua posição por ellas -escolhidas. - -As domesticadas armam suas teias nas rachas e entradas dos buracos, afim -de agarrarem moscas e mosquitos. - -Umas estendem suas teias nas arvores, de um ramo a outro, e de um arbusto -a outro para agarrarem borboletas e outros bichinhos iguaes: outras tecem -as teias por cima da terra para pilharem vermes, como sejam formigas e -outros iguaes. - -Algumas fazem teias tão fortes, que até n’ellas cahem lagartinhas, e -então descem as aranhas, matam-nas por meio de um aguilhão, que tem em -si, e depois chupam-lhe os miolos e o sangue, e só quando se fartam, é -que as deixam. - -Vi aranhas do mar, muito parecidas com as de terra porem maiores.[73] -Habitam em buracos nas praias, e alimentam-se de peixinhos. - -Dizem que chupam o sangue e o humor das cobras, iguaes as que mandei -cortar em pedaços, e asseveram os selvagens, que se morderem a cabeça -d’algum individuo, ficará louco. No Maranhão, como em parte alguma, tem -muitas cigarras,[74] que fazem em tempo proprio um barulho infernal, como -eu não acreditaria si não ouvisse: ha de diversas variedades, tamanhos e -cantos. - -São umas grossas, tem seis pollegadas de comprimento, e voz forte e -alta a ponto de ferir-vos vivamente os ouvidos. Não cantam no inverno, -e sim no estio, e quando se aproximam as chuvas gritam tanto a ponto de -estalarem pelos lados, como me contaram os selvagens, sendo isto causado -pelo bater das azas quando si esforçam e se incham para dar mais harmonia -á voz. - -Estudei os usos e costumes destes animaes em alguns, que conservei entre -folhas na nossa casa. - -Reconheci ser seo canto devido a tres coisas. - -1.ª Engolem o ar, enchem o ventre, entumecem-se bem para estenderem bem -os lados, e ficarem sonoras. Ha grande accordo entre a extensão dos -lados, e as azas, por meio das quaes forma-se o som, que claramente se vê -tomarem ellas folego quando erguem as azas, e quando abaixam, estendem e -dilatam os flancos. - -2.ª As azas são mui finas e diaphanas, e por tanto proprias para formar o -som por serem muito seccas. - -3.ª As azas de cima sendo fortes e massiças, tocando e batendo as azas do -meio contra os lados e com auxilio do ar, forma o som. - -Vou fazer-vos comprehender isto por meio de comparações vulgares. - -N’uma cithara ha tres coisas para produzir harmonia—as costas onde fica -o ar, que entra pela rosa do meio, as cordas tesas, limpas, seccas e bem -collocadas, e a mão do tocador: assim tem estes animaesinhos as costas e -as ilhargas cheias de ar, que entrou pela bocca, as segundas azas são as -cordas, e as grossas a mão do tocador. - -Cantam no estio desde o nascer do sol até meia noite ou duas horas -depois, e se callam por causa do orvalho, que começa a cahir com frio, e -assim ficam até que appareça o sol e com seos raios extinga as gottas de -orvalho, que cahiram nas folhas, e então vem ellas aquecer suas azas. - -Em quanto guardam silencio, é minha opinião, que ellas se nutrem com o -mesmo orvalho, e não digo isto sem causa pois quasi sempre ficam no mesmo -logar, e quando sentem algum movimento voam para outra folha. - -Algumas d’ellas, especialmente as todas verdes, não tem voz, arrastam-se -pela terra como os gafanhotos, juntam-se como as moscas, põem em setembro -ovinhos negros nos buracos dos ramos das arvores, nos quaes se formam os -vermes, ao depois cigarras: vão pouco a pouco se fortificando afim de -passarem a estação invernosa, e substituirem seos paes e mães que n’esse -tempo morrem arrebentados á força de gritar como ja disse. - -Não tem sangue, ou tem muito menos que as moscas, porem são organisadas -de uma substancia porosa, secca, e ligeira. - -Matam-nas as gallinhas, porem não as comem, e quando por acaso o fazem, -enfraquecem e emmagrecem. - -Ha n’este paiz diversas especies de mosquitos, porem apenas tratarei -dos que o merecerem pelos seos principios naturaes, e são os chamados -_Maringoins_ pelos selvagens: ha de diversos tamanhos e grossura, e todos -tem a mesma forma. - -Originam-se de um humor acre, gostam dos sabores picantes e acidos, e -por isso encontram-se muito no mar e suas praias no tempo do inverno, -formados pelo humor e vapores do mar. - -Incommodam muito os homens picando-lhes a pelle com seo bico ponteagudo -como uma agulha, e sugando assim o humor salgado, que corre entre a pelle -e a carne. - -Gostam da luz porem aborrecem a chama e a fumaça, e por isso quando -anoitece, as que andam por fóra, poisam nas folhas das arvores, e os -que estão dentro de casa nos tectos, bem a seu pesar, por causa das -fogueiras, que acendem os selvagens ao redor de si, para se livrarem -d’elles. - -Nos lugares mais proximos a agoa, maior abundancia d’elles existe, visto -serem creados por agoas, como ja disse. - -São caçados pelos morcegos, que, buscando-os nos lugares onde se fixam, -involvem-nos com suas azas e depois os comem. - -São por elles muitissimo perseguidos os nossos francezes, quando vão -á pesca do peixe-boi, e para evital-os armam suas redes no ramo das -arvores, o mais alto que podem, por ahi soprarem mais o ar e o vento: si -se partissem as cordas dariam bello salto, e não deixam de emballançar-se -para afugental-os. - - - - -CAPITULO XLV - -Dos grillos, dos camaleões e das moscas. - - -De todos os animaes, que fazem companhia ao homem, no Brasil, nenhum -ha que iguale ao grillo, chamado pelos selvagens _Cuju_[75]; e por ser -tão familiar e domestico pude á vontade satisfazer minha curiosidade -estudando este animalsinho. - -Nasce da corrupção. - -Quando se faz uma casa coberta de palma fresca, apparecem n’um momento -milhões e milhares d’estes grillos ou _Cujus_. Virão dos bosques -visinhos? não pode ser; porque nas casas cobertas de palma velha não são -encontrados, logo força é confessar, que formam-se na palma nova com o -auxilio do sol. - -Notei que dois ou tres dias depois de coberta a casa, os grillos são -brancos como neve, signal de nova geração, pouco a pouco tomam a sua cor -ordinaria, amarello-negro. - -Alem d’isto originam-se tambem de ervilhas, e favas podres o que conheci -por experiencia. - -Quanto á producção do pae e da mãe provêm d’uma semente deixada nas -folhas de palma: é pegajosa e fica onde se colloca, até que d’ella por -meio de calor saia outro grillosinho. - -É ardente no seo ajuntamento, e eis porque tanto se multiplicam. - -É muito pequeno, porem astucioso, tem horas para comer e para cantar: -não deixam de procurar comida quando presentem estarem todos deitados, e -então descem do tecto e correm, por assim dizer, os cantos da casa, onde -se aproveitam de todas as migalhas e restos de comida, e se encontram -restos de carangueijo deixam tudo mais. - -Acabada a comida regressam a seos logares, onde cantam e passam o resto -da noite, e o dia tambem, se o ardor do sol o não encommodar. - -Não gostam de chuvas, e emquanto está chovendo, não cantam. - -Gostam portanto do tempo sereno e doce, sem muito calor, e sem muita -chuva. Roem muito os pannos, que encontram, e se acharem um capote de cem -escudos n’uma noite dão cabo d’elle. - -Não tocam em panno de linho á não estar elle engordurado, ou com algum -liquido, de que gostem, e por isso para conservar-se alguns vestidos, -embrulham-se n’estes pannos. - -Tem quatro inimigos capitaes. - -1.º Os lagartos, que correm apoz elles, como os cães atraz das lebres. - -É um gosto vêr as voltas e vira-voltas que dá a caça e o caçador. - -2.º Certos macaquinhos amarellos e verdes a que chamam os selvagens -_Sapaius_, vivos e ageis como um passaro; caçam com uma das mãos e na -outra guardam os grillos. - -3.º São as gallinhas, que os devoram com incrivel avidez, e para isto -voam sobre as casas, e não poucas vezes estragam a cobertura d’ellas. - -4.º São certas formigas grandes, que atacam-os nos buracos e cavernas, -onde se abrigam nas casas: distrahi-me algumas vezes vendo tão singular -combate; a formiga desce ao buraco, onde tanto faz, que o _Cuju_ sahe á -campo, ou então é puchado pelos pés, e muitas vezes prefere a morte á -perder suas pernas posteriores, que leva a formiga. - -Outras vezes deixa-se o grillo comer dentro do buraco, de maneira que -somente fica a cabeça e as azas, que as formigas carregam como tropheos. - -Tem os grillos particular malicia, como experimentei, por que mordem a -extremidade dos dedos das pessoas, que dormem, e carregam o bocadinho de -pelle que podem tirar. - -Achei-me por isso muito encommodado do pollegar, a ponto de não poder -escrever por oito dias. - -O Camaleão é um animal do tamanho e da grossura de um pequeno lagarto, -e á elle similhante no rosto, olhos, e cabeça, tendo nas costas escamas -como o crocodillo, e parece ter a pelle coberta de pelle ou limo. - -Tem a cauda muito comprida, e de ordinario dobrada em dedalus, diminuindo -gradualmente até a ponta. - -Raras vezes se vê o macho com a femea, e por isso não me atrevo a contar -o modo de sua procreação, porque não pude vel-a, e nem imaginal-a. -Contento-me apenas em referir o que vi. - -É muito demorado no seo andar, está sempre ao sol, deitado sobre folhas -ou ramos, e por isso se pensa que vive só de orvalho. - -Batem-lhe as ilhargas constantemente, e muito mais quando receiam alguma -coisa, sendo isto motivado pela sua timidez natural, proveniente de muito -humor frio, pelo qual torna-se venenoso quando é comido por algum animal. - -Nunca se encontra nas arvores fructiferas, prevenção da naturesa para não -envenenar com o seo frio excessivo o fructo que tocasse, e por isso é -visto nos ramos de arvores, que somente servem para o fogo. - -Como o lagarto tem quatro pés, e muda de côr conforme o movimento do -corpo, e os batimentos das ilhargas. - -São raros em Maranhão, e somente são encontrados em lugares bem expostos -ao meio-dia: deitam-se nas folhas, estendem as quatro patas, e descançam -a cabeça. Não fazem movimento algum com os olhos, quando estão vendo, e -nem abaixam as palpebras superiores: constantemente bate-lhe o papo. - -Dizem, que se este animal fosse lançado ao fogo difficilmente arderia, -porem envenenaria pela fumaça as pessoas presentes. - -Não fiz esta experiencia com o camaleão, e sim com outro animal mui -similhante a elle pela friesa. - -Mandei lançal-o n’um braseiro, que mandei preparar, e retirando-me -para longe, tomei cuidado que ficasse sempre no fogo, movendo-o -constantemente, e depois que morreo, vio-se que o fogo não poude obrar -contra seo corpo, ficando inteiro e solido, conservando sua figura e -pelle: mandei tiral-o do fogo e enterral-o. - -Ha muitas especies de moscas, umas da noite, outras do dia. - -As moscas da noite são as que buscam o seo sustento durante ella -agarrando os bichinhos, que voam, onde encontram: como tem de -alimentar-se nas trevas, deo-lhes a Providencia uma luz,[76] que trazem -adiante e atraz: a luz dianteira está n’uma placa de forma quadrangular, -adherente ao estomago, sendo os dous angulos, que tocam a sua barba, -muito estreitos, e esta construida de uma pellicula diaphana, e coberta -de um pello mui delicado, com que recebem a humidade da noite, e por este -meio produzem um brilho de luz. Percebeis bem isto recordando vos do -brilho da pescada á noite, por causa da delicadesa da escama ou da sua -pelle humedecida. - -Acontece o mesmo com certa especie de madeira podre, ou melhor rarifeita, -e tenue, livre de todas as immundicies, e que tem a propriedade de -attrahir a humidade. - -O mesmo tem elles no chato da barriga, onde se encontra uma pellicula bem -lisa, cheia do pello tão fino, de que acima fallei. - -Quando voam atravez de uma noite escura, parecem ser grossas faiscas de -ardente fornalha de fundir metaes. - -Pertencem ao dia as outras moscas; são infinitas e varias e por isso -somente me demorarei, tratando das que tiverem alguma coisa digna da -consideração do leitor, como sejam as abelhas, e as vespas, e do mais que -fallarei. - -As abelhas do Maranhão, e de suas circumvisinhanças fabricam suas casas -de tres modos: entre os ramos das arvores, como ja disse, quando escrevi -sobre o _Meary_, ou no concavo das arvores, isto é, no tronco principal, -porque escolhem uma arvore que tenha uma concavidade no tronco, sobem -pela frente d’elle, e depois descem até a terra, onde fazem os alicerces -dos seos cortiços, e depois fabricam o seo mel, caminhando sempre para -cima. Quando não é assim, escolhem lugar apropriado, levantam da terra um -cortiço concavo, onde fabricam mel e cera. - -É virgem a sua geração, e creio não haver entre elles macho e femea, e -assim todos trazem comsigo o germen da futura procreação. - -Dir-vos-hei a razão d’este meu modo de pensar, que formei observando -com attenção um cortiço de abelhas n’uma grande arvore concava e secca, -distante 30 passos de nossa casa de São Francisco, o que ainda me foi -facil, pois estas moscas não dão ferroadas,[77] comtanto que não se lhes -faça mal, embora se esteja bem perto d’ellas. - -Fizeram os selvagens um buraco ao pé d’esta arvore, por onde sahia o mel, -e por ahi observei tudo bem a minha vontade, até mesmo as camarasinhas, -em que se achavam ellas envolvidas. - -Estes casulos eram tapados de todos os lados, embrulhados n’uma tella bem -delicada, e por cima está a cera e o mel. - -N’algumas camarasinhas d’estas, achei somente algumas gottas de semente, -claras como a agoa da rocha, e soube ser a materia de que se organisavam -as novas moscas. - -N’umas vi o _cháos_, ainda informe, feito e composto desta materia prima, -a maneira de uma pasta molle, branca como creme: n’outras vi moscasinhas, -perfeitamente formadas, e ja com movimento, porem envolvidas n’uma tella -delicada e diaphana, que rasguei com cuidado, e vi n’estas moscas todas -as suas partes bem distinctas e conformadas, menos os pés, por serem os -ultimos, que se formam, e ja depois, que se movem. - -Reconheci ser verdade o que diz S. Isidoro d’estas moscas «_Apes -dictæ sunt quia sine pedibus nascutur, nain postmodum accipiunt_:» -as _abelhas_, ou antes os _apedes_, são assim chamados porque nascem -sem pés, sendo este nome composto por _a_, que quer dizer—_sem_, e -_pedes_—_pés_. Assim composta quer dizer—_sem pés_, mas não se usa em -francez, e sim emprega-se o nome de _abelhas_. - -Sobre o que eu disse á respeito de sua geração virginal, alem da -experiencia, que eu tive, de que podem duvidar alguns espiritos, ha uma -testemunha irrefragavel, Santo Ambrosio, Doutor que si dedicou ao estudo -dos segredos da abelha mais do que nenhum outro antes ou depois d’elle. - -Não o fez sem motivo, pois desde o seo berço que estas moscas se alojaram -em seos labios, e depois em toda a sua bocca, eis suas palavras: _Apes -nuilo concubitu miscentur, nec libidine resolvuntur, nec partus doloribus -quatiuntur, sed integritatem corporis virginalem servantes subito maximum -filiorum examen emittunt_: «não si misturam as abelhas por meio de alguma -conjuncção, não si entregam por meio de sensualidade, não soffrem dores -de parto, porem conservam a integridade virginal de seo corpo, e em -pouco tempo produzem grande numero de novas abelhas.» - -Diz o autor do livro da «_Naturesa das coisas_»—_Omnibus virginalis -integritas corporis_—«conservam todas a inteiresa virginal do seo corpo.» - -Ha diversas especies de vespas, tendo uma d’ellas alguma coisa de novo: -esta qualidade é negra, mui delgada no meio do corpo a ponto de julgar-se -estar o ventre unido ao estomago por um só fio. - -São industriosas o mais, que é possivel. - -Recolhem-se todas á um nicho de terra, no cimo das arvores, tão bem -estocado, que dentro d’elle não cahe uma só gotta d’agoa; a cobertura ou -tecto d’este nicho é em fórma de zimborio, e apenas cahe a chuva, corre -ligeiramente, e ahi não si demora: n’elle não tem abertura alguma, e -apenas cinco ou seis buracos proporcionaes á grossura d’ellas. - -No interior fazem accommodações para viver, e fabricam uma especie de mel -bem amargoso, e negro como tinta. - -Cada uma tem sua casa, cavada na espessura do nicho, á maneira dos -buracos de um pombal, onde se agasalham os seos habitantes. - -É admiravel a sua industria no fabrico d’estes nichos, e presenciei-a -muitas vezes. - -Á margem das fontes fazem argamassa, carregando com os pés um pouco de -terra, que desmancham e amassam com agoa, que vão buscar, e trazem unido -ao pello de suas coxas. Assim preparado, vão carregando em varias partes -do seo corpo. - -1.º No pescoço. - -2.º Nos pés. - -3.º Na união das coxas contra seo corpo. - -Não deixam seos filhos no nicho commum, porem fabrica cada uma o seo -cubiculo á parte, á imitação da flor de meimendro, presa ou suspensa á -algum pau, ou outra coisa coberta, longe do perigo de ventos e de chuva. - -Levam muito tempo preparando seo nicho, e o enfeitam o mais que podem, -com o brunidor do seo fucinho. - -Depositam no interior sua semente, como fazem as abelhas, fecham a -entrada, occultam-na, dormem á noite em commum, e ainda a madrugada está -longe, e já ellas se despertam para montar guarda e fazer sentinella ao -redor de sua habitação, fazendo guerra de morte a quem se lhe aproximar. - -Posso dar noticias d’isto, porque um dia, indo a um canto de minha casa -arrumar não sei o que, quando passei, bati, sem querer, com a minha -cabeça no nicho, onde estava a mãe, e ella, julgando mal de minhas -intenções, pensou que eu o fizesse por maldade, e cheia de colera, -escolheo a parte mais delicada do corpo humano, isto é, os olhos, para -vingar-se. - -Permittio Deos porem que em lugar dos olhos me ferisse as sobrancelhas -com o seo aguilhão. - -Foi tão doloroso o golpe, e tão penetrante o veneno, que cahi por terra, -batendo-me extraordinariamente todas as minhas veias, desde a planta dos -pés até o cume da cabeça, como nunca senti em minha vida. - -Recolhi-me a cama com o coração sobresaltado, inchou muito a parte -offendida, e ardia como brasa. - -Julguei perder o olho, e assim estive por muitos dias, ao depois fiquei -bom. - -Procream ainda de outra forma. Fazem um pequeno pucaro de barro, -arredondado, similhante aos feitos pelas aranhas, como ja disse, deitam -dentro suas sementes, que se transformam em vermes vermelhos, iguaes aos -que se encontram nas ameixas das damas: adquire depois azas, e fica vespa. - -Não tem os selvagens cantharidas em seo paiz, porem fazem muito apreço -d’ellas e dão muitos generos para possuil-as. Trazem-nas os francezes, -porque anteriormente já tinham ensinado aos selvagens as propriedades -d’ellas, o que não se deve escrever: prova isto que os homens viciosos -mais depressa gastariam esta nação do que ella o é por natureza. - -Ha tambem insectos e vermes roedores mui subtis e engenhosos, com uma -capa bonita e inteira, porem passando uma escova por cima, desapparece -até o pello e fica só a urdidura. - -O mesmo acontece aos vermes roedores dos bosques, que fazem grande -sussurro. - -Deos porem fez passaros que vae tirando das arvores taes vermes. - - - - -CAPITULO XLVI - -Das onças e dos macacos do Brazil. - - -A onça é o animal mais furioso do Brazil e é do tamanho dos galgos da -Europa. - -No rosto parece-se muito com o gato, tem bigodes horrivelmente dispostos, -vista perspicaz e aterradora, pelle como a de lobo, manchada de negro á -maneira da do leopardo, garras muito compridas, patas como de gato, cauda -grande e maior que todo o corpo diminuindo pouco a pouco até a ponta, e -com ella brinca n’um areial voltando-se para apanhal-a, e correndo para -o mesmo fim, como fazem os gatinhos no meio de uma salla, divertindo-se -cada um com o rabinho. - -Ama a solidão, aborrece a sociedade, habita só nos bosques, e somente é -acompanhada por occasião da sua juncção, o que feito retira-se a femea. - -Nada receia, nada teme: pára vendo dirigir-vos á ella, ou fica no fim da -estrada, por onde tendes de passar, de forma que ou voltareis, ou então -combatereis porque não cede. - -É melhor a retirada ainda que com algum vexame, do que por orgulho -arriscar sua vida em luta com tal animal. - -O Rvd. padre Arsenio assim o fez, vindo da aldeia da _Mayoba_ para a -nossa casa de S. Francisco, quando encontrou, ao meio dia, na estrada uma -onça que veio esperal-o. Regressou para a aldeia, e assim evitou perigo -tão proximo. - -Não buscam os homens, e é raro encontral-as, e quando isto se dá o perigo -é certo. - -Não se atiram, e nem correm logo atraz das pessoas que vêem, antes -dão-lhe tempo bastante para fugir, e apenas agarram um ou outro menino, -porem raras vezes. - -Tem muito medo de fogo a ponto de não se approximarem d’elle, e por isso -evitam-nas os indios accendendo fogueiras em suas casas, sempre abertas -quer de dia quer de noite. - -Fazem guerra desabrida aos cães e macacos, vindo agarrar aquelles até -junto ás aldeias, sem causarem o menor mal aos selvagens deitados em -suas redes, e quando vão estes á caça, acompanhados por muitos cães, são -estes devorados e comidos pelas onças, que fingem correr diante d’elles, -e quando se acham longe de seos senhores, saltam sobre elles e facilmente -os estrangulam. - -Poucos escapam de suas garras para trazer noticias a seos senhores, que -não os ouvindo ladrar, acreditam que as onças os comeram. - -Não vão mais alem, e regressam mais depressa a casa onde suas mulheres e -filhos choram a morte do cão, que elles levaram á caça com intenção de -divertirem-se. - -Si é perigoso atacar um soldado furioso, e victorioso de seos inimigos, -ainda muito mais o é apresentando-se em tal occasião á vista das onças. - -Caçam os macacos desta sorte: batem em circumferencia o bosque, onde se -abrigam os macacos, encurralam-nos n’um ponto, onde se agrupam: então -trepam as onças em varias arvores, e d’ali se atiram sobre os ramos e -hastes de outras onde estão os macacos, e assim os apanham. - -Empregam tambem outro ardil. Occultam-se debaixo de folhas n’um lugar, -onde ellas sabem, que os macacos vem beber, ou quando estão pescando -mariscos e carangueijos, então d’um só pulo agarram os que podem. - -Fazem ainda mais. - -Quando vêem ou ouvem que os macacos estão reunidos em qualquer lugar, -vão surrateiramente arrastando a barriga pelo chão, como fazem os gatos -quando querem agarrar algum ratinho, e depois estendem-se e fingem-se -mortas. - -Chega um macaco, pára, chama outros, que chegam logo, descem o mais -que podem, sempre desconfiados, para verem e examinarem se na verdade -está morto o inimigo: rangem uns os dentes, e outros como que fazem -uma especie de discurso de congratulação por tal fim: eis senão quando -resuscita o fingido morto, mais depressa do que elles sobe ao cimo da -arvore, onde transforma a vida d’elles em morte, não simulada e sim real. - -A onça só pare uma vez, e um só filho, como a leôa, e eis a razão de -haverem poucas no Brasil. A onçasinha rasga o utero de sua mãe, que o -nutre mui curiosamente até que fique em estado de cuidar por si de sua -alimentação. Apesar de tal ruptura, unem-se em tempo proprio, porem não -ha fructos d’esta união. - -As onças são errantes, caminham por diversos logares, atravessam -braços de mar, e quando falta-lhes pasto em terra, vão ao mar pescar -carangueijos e outros iguaes bixos do mar. - -Existem tambem onças marinhas, como ja disse quando fallei do Meary, -tendo a parte anterior igual a da terra, e a posterior similhante a cauda -de um peixe. - -São tão furiosas, como as terrestres, e saltam da agua contra seos -inimigos. - -Machos e femeas veem-se livres dos filhos que trazem no ventre, á maneira -das baleias, dos golfinhos e de outros peixes do mar. - -Em Maranhão e seos contornos ha muita variedade de macacos:[78] uns -grandes, fortes, barbados, e de sexo bem distincto, especie perigosa, e -que nas mattas muito bem se defendem das invasões dos selvagens. - -Contou-me um interprete que n’um certo dia um selvagem com uma flecha -ferio a espadua de um destes macacos, e que elle tirou a flecha, -arremeçou-a contra o selvagem e o ferio gravemente. - -Atiram-se sobre as raparigas e mulheres, e forçam-nas si não são mais -fortes do que elle. - -Ha outros barbados, mais pequenos, que trazem mamas nos seios, e sexo bem -visivel em lugar proprio. - -São muito bem tratados pelos francezes: os selvagens os agarram atirando -um projectil qualquer sobre elles, que cahem atordoados, e são assim -amarrados. - -Os triviaes são quasi que similhantes em sexo, e nem merecem descripção -alguma. - -Em geral os monos são agradaveis á vista. - -Caminham um atraz do outro, e com tal cadencia no passo, que os que vem -atraz assentam os pés e as mãos, onde assentaram os que foram adiante. - -Fazem assim uma corda de duzentos á tresentos, e diria ainda mais, si não -receiasse causar admiração ao leitor. - -Achei-me muitas vezes nas mattas, onde elles habitavam e dir-vos-hei, sem -precisar o numero, que vi grande quantidade d’elles na fórma ja dita. - -Cousa agradavel o mais que se pode imaginar. - -Arremeçam-se estes animaes de uma arvore a outra, de um ramo a outro, -como faria um passaro bem voador, e o fazem com tal prestesa, que mal se -vê. - -Si vos descobrem debaixo de alguma arvore, fazem incrivel matinada, e -depois de vos fazerem muitas caretas e de dizer-vos mil injurias em sua -linguagem, embrenham-se pelos mattos. - -Nunca deixam em hora certa,[79] á tarde ou noite, de ir beber agoa, mas -sabeis com que subtileza? - -Pára o grosso do exercito na distancia de 300 passos da fonte, manda -espias para examinar a fonte e suas circumvisinhanças, espreitam si -nada ha que os assuste, examinam com cuidado si ha embuscada de algum -inimigo, e apenas o descobrem gritam com voz forte e correm a reunir-se -ao exercito. - -Voltam depois de algum tempo e praticam o mesmo. - -No caso de segurança gritam e ganem para vir o exercito, e chegado este -ainda usa de outra velhacaria. - -Bebem todos um a um: á medida, que um bebe, passa alem e trepa n’uma -arvore, e assim até o ultimo: assim bebem, passam para outro lado, por -onde não vieram e ahi acabam a fieira. - -Deixam a fonte e vão em tumulto procurar seos amores, e n’isto ha -ordinariamente grandes gritarias, gemidos, mordiduras e arranhamentos, -porque querem os mais fortes escolher as damas e serem servidos em -primeiro lugar. - -Nada digo sem experiencia e tudo isto presenciei todas as tardes na nossa -fonte de S. Francisco. - -Vão pescar sempre em companhia, carregando ás macacas ás costas seos -filhos. - -Pescam carangueijos e mariscos. - -Antes de agarrarem os carangueijos, quebram-lhe as tezoiras para -livrarem-se das mordidellas, depois quebram-nos com os dentes, e, se -estão rijos, com pedras, e o mesmo fazem com os mariscos. - -Cuidam muito as mães no sustento dos filhos, antes de poderem elles por -si buscal-o; tiram o marisco e o carangueijo da concha, limpam-no muito -bem, e offerecem ao filho nas costas, e estes o agarram e comem. - -Nunca vão para longe das arvores: é o seo refugio apenas ouvem algum -motim, ou vêem alguem, e por isso para as suas pescarias escolhem lugares -proximos á arvores altas e copadas. - -Si veêm passar uma canoa de selvagens, muito longe d’elles, saudam-nos -rindo a seu modo, si se aproxima a canoa, fogem, e ninguem os pilha. - - - - -CAPITULO XLVII - -Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos d’aquelle paiz. - - -Na Ilha ordinariamente não se vêem aguias, porem ha muitas na terra -firme, proxima a Maranhão. - -Não são verdadeiramente tão grandes como a do velho mundo, porem são mais -furiosas, atrevidas, e valentes, que accommettem os homens, e não fazem -seos ninhos, sobre rochedos, como diz Job, _Aquilla in petris manet_ «a -aguia mora nos rochedos» porem entre as arvores. - -Vou contar-vos á este respeito o que ouvi em Maranhão sobre duas -aguias extraordinariamente ferozes, que vieram aninhar-se nos mangues -_d’Uy-rapiran_, aldeiazinha na costa, distante legoa e meia do Forte de -S. Luiz. - -Mostraram-me o lugar, onde ellas viviam, n’um dia, em que passeiando pelo -mar fui visitar um francez, morador n’essa aldeia. - -Tinham essas aguias cortado ramos mais grossos do que uma côxa de homem, -e tinham feito tão boas acommodações, que melhores não fariam doze -homens. - -Ahi tinham depositado seos ovos com seos filhinhos, e ninguem se atrevia -a passar por perto. - -Vão caçar cabritos-montezes, matam-nos, espedaçam-nos com unhas e bicos, -e depois trazem alguns boccados a seos filhos. - -Pescam da mesma fórma arremeçando-se sobre os golphinhos, pirapamas, -e trombudos, e tiram-no do mar com suas garras, deitam-nos em terra, -dividem-nos em pedaços, que levam a seos filhos. - -Vão ainda mais longe: mataram um homem e uma mulher _Tupinambás_, o -que lhes causou a sua morte e a do seos filhos, porque si lhes armou -uma cilada tão bem arranjada, que conseguio-se matar o macho, e a -femea achando-se viuva retirou-se para a terra firme abandonando -seos filhinhos, que foram passados pelas armas dos _Tupinambás_ em -vingança do crime commettido na pessoa dos dois, que elles mataram, e -destruio-se-lhes o ninho. - -A femea é maior que o macho, ambos de côr parda, olhar vivo e feroz, -poupa forte e irriçada no cume da cabeça, pennas grossas no canudo e -grandes como a de um gallo da India: servem-se d’ellas os _Tupinambás_ -para emplumar suas flexas. - -Nota-se n’estas pennas uma coisa particular e especial: si os selvagens -as misturam com outras pennas, como sejam de araras, e de outros passaros -grandes, são estas roidas e comidas por aquellas, pelo que são guardadas -a parte, e com outras não as deitam em suas flexas. - -Por maiores, que sejam os outros passaros, é a Aguia o Senhor e o Rei não -por igualdade de forças, mas por subtileza e ligeireza de vôo, subindo -muito alto quando quer perseguir os passaros grandes, e descendo mui -rasteiramente quando elles tambem descem, e quebram-lhes a cabeça com o -bico. - -Ficam assustados todos os passaros quando ouvem o seo grito, calam-se e -occultam-se entre folhas. - -Caçam principalmente os gaviões, parecidos com as pombas brancas, -que vivem nas praias, saltando de ramo em ramo, esperando a vinda de -passarinhos para assaltal-os e agarral-os. Ahi vão as aguias caçal-os, e -despedaçal-os n’um momento. - -Nutrem-se tambem de tartarugas do mar e de terra, e não poupam a alguma -serpente ou cobra que por ventura encontrem. - -Raras vezes podem os selvagens pilhal-as de geito para flechal-as. - -Trepam-se no cume das arvores, onde expandem as azas aos raios do sol, -tirando com seo bico as pennas velhas, que por esse estado ja não servem: -ahi vão os selvagens buscar estas pennas para seo uso. - -Assimelham-se muito na fórma e côr ás pennas dos gallos da India, e são -muito boas para escrever. - -Alem d’estas aguias ha passaros grandes chamados _uira uaçú_, quasi do -tamanho dos abestruses da Africa,[80] mais compridos, porem não tão -grossos. - -Os grous de lá parecem-se com os pardaes. Si algum foi para a França, -levado por nossos companheiros, saibam que ha outros ainda mais grossos. - -Agarram-nos os selvagens quando pequenos, e para isso procuram a occasião -em que os paes vão caçar. - -São brancos quando pequenos, mechem-se pouco a pouco, e vão mudando até -que alcance suas pennas e cor verdadeiras. - -São muito glutões, e parece que não se fartam, porem quando comem é por -muitos dias. - -Si os macacos pudessem persuadir os selvagens a extinguir essa raça, o -fariam indubitavelmente, porque perdem milhões dos seos para sustento -d’ellas. - -Os _Tupinambás_, que criam estes passaros, conhecem que a melhor carne, -que se lhes pode dar, é a de macacos, e para isto vão ao matto caçal-os e -matal-os. - -Ha outras especies de passaros grandes, porem que não se comparam com -estes, e são as _araras_, os _canindés_, e outros, os quaes são agarrados -pelos indios por maneira astuciosa. - -Vão ao matto, escolhem as arvores, onde costumam estes passaros passar a -noite, e onde se recolhem depois de comer: fazem debaixo d’essas arvores -uma casinha redonda, com capacidade para conter tres homens, e coberta -de palhas: ahi se recolhem e esperam a vinda dos passaros, que como -não desconfiam, aproximam-se muito, e então os selvagens lhes atiram -qualquer projectil, que os atordoa sem matal-os, cahem em terra onde são -facilmente agarrados e prendem, e com o correr do tempo de tal maneira -se domesticam, que embora os soltem, não deixam a casa do seo dono: -introduzem-se pelos quartos, fazem grande matinada, com voz similhante a -do côrvo, aprendem a fallar como os papagaios, e dão suas pennas á seos -hospedes para com ellas se adornarem e enfeitarem.[81] - -Os habitantes do rio depennam seos gansos para encher colchões, e os -indios tiram as pennas d’estes passaros para fazer seos enfeites e -adornos. - -Ha muitas e diversas qualidades de garças, umas maiores, e outras mais -pequenas. - -Fazem seos ninhos nos mangues á beira do mar, vivem de peixe, e trazem -alguns inteiros a seos filhos que principiam a comel-os desde os seos -primeiros dias. - -Admirei-me de ter sido encontrado um peixe grande, do tamanho de um -arenque, no ventre de uma garça, pouca implumada. - -Os selvagens vão tirar dos ninhos as garçasinhas, armados de bons cacetes -para se defenderem dos paes e mães, que em tal caso não deixam de acudir -aos que nutrem tão terna e cuidadosamente afim de estenderem a especie. - -Similhantes as garças ha outros passaros chamados _forquilhas_ pelos -francezes e portuguezes, porque teem a cauda fendida quando vôãm: fazem -seos ninhos nos mangues, em lugar recondito, e pouco frequentado dos -homens o quanto é possivel: ahi põem, e deixam seos filhos, vão para o -mar, e ahi ficam por todo o dia enchendo de peixe uma grande bolsa, que -trasem debaixo da goela, e que depois levam a seos filhos: quando está -vasia esta bolsa, enche-se de vento que os alivia e sustenta no meio do -ar, quando passam muitos dias e noites sem ir a terra, e atiram-se pelo -mar em distancia de 50 a 60 legoas procurando alimentos. - -Tem a vista extraordinariamente apurada a ponto de verem do mais alto -lugar, a que sobem, o peixe que náda no mar, e sobre elle cahem e -agarram-no. Tem uma propriedade muito boa e é que perseguem os peixes, -que andam atraz dos pequenos para devoral-os. - -Aproximam-se d’agoa, e como querem participar da presa, perseguem-nos o -quanto podem. - -Alem destes passaros grandes ha milhares de passarinhos, entre os quaes -merecem especial menção os seguintes. - -As andorinhas do mar em tão grande quantidade, que cobrem as praias nas -vasantes: são boas para se comer, e á vontade matareis muitas com uma -arma, carregada de chumbo miudo, e sentado n’uma canoa. - -Ha outra qualidade de passaros, que admiram muito a ponto de não se -acreditar, e comtudo é verdade, por mim experimentada, os quaes tem por -bico duas facas, embutidas em seos cabos, e aos quaes dão o nome de -_navalhas_: o bico não lhes serve para buscar alimento, e por isso dizem -que elles só vivem de vento, porque essas facas cortantes não lhes servem -senão de passatempo quando passeiam pelas praias, e encontram outros -passaros, que são por elles cortados pelo meio. - -No dia, em que parti do Maranhão, um mancebo pertencente ao Sr. de Sam -Vicente, que me acompanhou em toda a minha viagem, matou um, cujo bico -guardei e trouxe para a França. - -Ha melros como os de França, iguaes na plumagem e no canto, que espandem -suas pennas á vontade no fim das chuvas, quando vem o bom tempo visitar -os habitantes da zona tórrida: no fim do bom tempo e principio das chuvas -soltam um canto triste, como que chorando o passado, e prevendo as -tempestades do inverno, si tal nome merece. - -Ha muitos passarinhos de bellesa incrivel: uns pardos, outros cor de -violeta, azulados, amarellos e mesclados: fazem os selvagens penachos -de suas pennas, que são muito caras por ser difficil matal-os, porque -presentindo o inimigo, que os busca, trepam-se no cume das arvores mais -altas, nas pontas dos ramos, fazem seos ninhos os quaes amarram com uma -embira muito forte, e na outra extremidade que cahe no sollo, fabricam -uma especie de pote de terra, no qual criam seos filhos entrando por um -só buraco, proporcional á sua grossura. - -Trouxe para França esses passarinhos, que aqui causaram muita admiração. - -Possue o Maranhão um genero de passarinhos, que não excede no corpo á -extremidade do pollegar, e acrescento com todas as suas pennas, e tem -canto melodioso, que faz lembrar o das andorinhas, que imitam quando -querem cantar: levantam o bico, e soltam o canto o mais alto, que podem, -e o sustentam em quanto o permittem suas azas. - -Fazem suas casas junto ás fontes, onde muitas vezes vão banhar suas -azinhas para mais facilmente voarem alto. Ahi perto fazem seos ninhos, e -imaginae o tamanho dos ovos, que chegam de 5 a 7: seos filhinhos ainda -são de mais admiravel pequenez. - -São tão fecundos, que os meninos enchem cabaças de ovos d’elles. - -Ha de diversas cores, amarellos, violetas, pardos, etc. - - - - -CAPITULO XLVIII - -Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á respeito das -Indias Occidentaes. - - -Para perfeição d’este primeiro tratado, julguei acertado responder á -todas ás perguntas, que se fazem n’esse paiz. - -1.ª Si esta terra de equinoccio pode ser habitada por francezes -delicados, naturaes de um paiz temperado, criados com cuidado e bons -alimentos, pois não parece poderem se accommodar n’um paiz agreste, -selvagem, cheio de mattas, entre barbaros, e debaixo da zona tórrida e -ardente. - -Respondo, que na verdade todos os principios são difficeis, porem pouco a -pouco apparece a facilidade. - -Não ha no mundo villa ou aldeia, que não cause susto e encommodo no -principio, porem depois de alguns annos tudo vae bem, e os nossos padres -ja ahi deixaram o fructo de suas fadigas. - -Não eram mui delicados os cidadãos romanos? E comtudo não deixaram Roma e -Italia para plantarem suas colonias nas florestas gaulezas e allemans? - -O portuguez não é, como nós os francezes, na Europa sugeito a todas as -molestias, trabalhos e fadigas? Sim! porem é neste ponto mais soffredor -do que nós, pois bem sabe ser necessario primeiro lavrar para depois -colher: comtudo estabelece-se muito bem no Brasil, faz grandes negocios, -sendo a terra bem preparada e cultivada. Havendo dinheiro ha ahi de -tudo, como em Lisboa. Eu vos lembro, que se a paciencia dos homens tem -tornado, dentro de oito mezes, boas e ferteis as terras crestadas pelo -gelo ou congeladas, uma terra, o coração do mundo, não será habitavel -pelos francezes? É até loucura pensar n’isto, e portanto concluo, que -esta terra é apropriada á naturesa dos francezes como é a França, si for -bem cultivada e provida de viveres necessarios e acommodados ao gosto -francez, como sejam pão e vinho: quanto á carne, peixe, legumes e raises, -ha de tudo isto incrivel abundancia, tendo apenas o trabalho de colher e -plantar os vegetaes. - -Enganar-se-hia porem quem pensasse, que as arvores produzissem patinhos -assados, as corças, quartos de carneiro, recentemente tirados do espeto, -e o ar andorinhas bem cozidas, de fórma que não havia mais trabalho do -que abrir a bocca e comer. - -Com tal fantasia, não lhe aconselho, que lá vá, porque arrepender-se-hia. - -É pois esta terra habitavel pelos francezes, e si ahi não tiverem -commodidades, arrepender-se-hão, porem tarde. - -2.ª Eis o que disse, e basta[82] a terra é habitavel, e pode ahi -morar-se com algum encommodo durante alguns annos. Mas será saudavel -para os francezes? Os indios ahi são sadios, e vivem longo tempo, -embora selvagens e barbaros, nascidos n’este clima, e acostumados á tal -temperatura. Não tem os francezes tal privilegio, pois são sujeitos á -muitas febres, que se terminam em paralysia e outros encommodos. Respondo -a isto, que julgamos das substancias pelos accidentes, e das terras pelos -encommodos e enfermidades. - -Comparemos agora a menor aldeia de França com a Colonia Francesa n’estas -terras, e no espaço de um anno achamos haver na aldeia dez vezes mais -doentes do que em dois no Maranhão. - -Si algumas pessoas se dão mal, não é novidade pois em toda a parte está a -morte: assim são as molestias. - -D’estes males não estão isentos Reis e Principes em paizes os mais -agradaveis e salubres, que se possa imaginar. - -Em dois annos, que lá estive, apenas houve uma morte a do Rvd. padre -Ambrosio:[83] fallo da morte natural, porque os devorados pelos peixes, a -culpa foi d’elles por se lançarem ao mar. - -Morreu o Rvd. padre de uma paralysia, porque estando muito atado a -derrubar arvores grandes, e tendo o suor molhado seo habito, foi assim -mesmo celebrar missa, e apenas sahio da igreja foi acommettido por uma -febre, de que falleceo poucos dias depois. - -Digo isto com certesa, porque o assisti até o fim, achando-se fóra em -serviço de Deos os outros dois padres. - -Á vista d’isto Maranhão e Paris pleiteam entre si. - -Diz Paris—«és má terra, porque mataste um padre capuchinho que te mandei.» - -Responde Maranhão «por um perdi quatro dos meos.» - -«Tendes rasão para censurar-me?» Assim o deveria ser, si os meus fossem -tratados como principes, e o pobre capuchinho apenas tivesse farinha, ou -pouco mais. - -«Concordemos pois, que o clima é sam e salubre, e que desperta muito o -apetite, e si houvessem muitas gulodices como em França, para ahi iriam -as pressas muitas moças francezas.» - -3.ª Dizem vae tudo muito bem, porem não ha vinho, e nem trigo, principaes -alimentos, indispensaveis nos melhores banquetes para as carnes mais -delicadas. - -Respondo, que ha milho em grande abundancia, de que se pode fazer pão, -como nós o faziamos, e o achavamos muito agradavel ao gosto, embora -gostassemos mais da farinha do paiz, especialmente quando fresca, porque -não é pesada ao estomago. - -Este pão de milho serve d’alimento em muitas terras do velho mundo,[84] e -especialmente na Turquia, onde é chamado trigo da Turquia. - -Não se perdeo ainda a esperança, que a terra firme do Brasil, forte e -gorda, não possa produzir trigo, com que se fabrique o pão como na França. - -Os habitantes de Pernambuco ja o fizeram; não estão longe de nós, porem -em terras peiores. - -Quanto a terra firme do Maranhão, melhor seria si o rei de Hespanha não -prohibisse nas Indias Orientaes e Occidentaes plantação de trigo e de -vinhas para tel-as sempre dependentes de seo soccorro, e de tudo quanto -cresce nos seos Reinos de Hespanha e Portugal. - -Accrescento ainda, que o Perú, que está no mesmo paralello que a terra -firme do Maranhão, é abundante de trigo e de vinhas. Quem pode impedir, -que ahi se produzam estes generos? - -Quanto ao vinho, não é feito das vinhas do paiz, embora ahi possam -crescer,[85] e contam-nos, que as trazidas pelos nossos religiosos na -ultima viagem pegaram e produziram fructos. Quem pode impedir grandes -plantações de vinhas, e que em dois ou tres annos se façam grandes -colheitas? - -A França nem sempre tem vinho, actualmente porem tem muito. - -Os flamengos, os inglezes, os hibernios e dinamarquezes não fabricam -vinho, contentam-se com cerveja, e se querem beber vinho abrem a bolsa, e -ahi vão os melhores vinhos do Universo. - -O mesmo succede em Maranhão, porque os navios ahi os levam. É bem -verdade, que é um pouco mais caro do que em França, porem é melhor, -segundo pensam alguns francezes, que avaliam as coisas pelo preço. - -Os mais economicos acostumam-se com a cerveja do paiz que é muito boa por -ser feita de milho, e não é muito cara por haver muita abundancia deste -genero na terra e serem as agoas boas e puras. - -4.ª Dizem. Si é assim não é máo, porem pode ahi fazer-se vantagens, visto -que, em quanto ahi estive, nunca me animei a gastar dinheiro. Respondo. - -Se todos soubessem porque se dava essa falta, ficariam contentes, porem -não é cousa que todos devam saber. - -Direi somente, que esta falta não provem da terra, que é propria a -produsir bons generos quando bem cultivada, como sejam: _Algodão_, -_canafistula_, _madeira de diversas cores_, _piteira_,[86] _tinturas -de urucú_, _de cramesim_, _pimentas longas_, _lapis-lazuli_, _cobre_, -_prata_, _oiro_, _pedras preciosas_, _plumas_, _passaros de diversas -cores_, _macacos_, _macacos-monos_, _e saguins_, e especialmente -assucares, quando si levantarem engenhos e plantarem cannas. - -Si nada de lá se trouxer (callando o que si deve dizer em publico) provem -da má direcção dos negocios, cuidando cada um de si, o que tem feito -com que haja pouco sortimento de mercadorias francezas, necessarias aos -selvagens, e pelas quaes dão algodão, tinturas, pimentas, e outras coisas -similhantes, alem de outros generos, que por si mesmo possam obter os -francezes. - -Vendo os selvagens a pobresa dos armazens, onde apenas haviam mercadorias -para com ellas si comprar farinha, ficam preguiçosos, nada fazem e nem -farão emquanto os francezes não tiverem coisa alguma a dar-lhes em -recompensa: tal é o seo genio e assim o farão, e por isto não merecem -censura, por que em todo o Christianismo não si encontra um só homem, que -trabalhe de graça. - -Não vos admireis si nada tragam, e sim si na primeira viagem conduzirem -comsigo alguma coisa. - -Não me prendo as rasões ja ditas, e outras, que callo, e sim no caso de -provêr-se á esta falta, como convem, eu vos asseguro que a Ilha e suas -circumvisinhanças ainda produzirão bons estofos. - -Tendo satisfeito a todas as perguntas e objecções sinto repugnancia em -responder a muitos mancebos, que por bens de fortuna somente possuem -a espada e o punhal, mais que ricos de coragem cortam muitas vezes a -garganta uns dos outros, e vão em companhia para um paiz bem triste, onde -navio algum vae levar novidades. - -Desejaria perguntar-lhes—que fazeis em França senão esposar questões de -vossos irmãos mais velhos? Porque não experimentaes fortuna, ou ao menos -porque não ides enriquecer vosso espirito com a vista de coisas novas? -Passarieis assim o vosso tempo, em quanto si aplaca o vosso coração, e -si fortalece o vosso juiso: prestarieis serviço a Deos e ao vosso Rei -visitando esta nova França. - -Ahi descobrireis novas terras, achareis alguma coisa de valor, como sejam -pedras preciosas etc., e quando mais não fosse, bastaria que, quando -voltardes, não ficasseis mudo nas reuniões, porque aquelle que viaja tem -sempre ganho o seo pão. - -As cinzas e os fogões são para os cazeiros, creados por Deos para -cultivar a terra. - -A nobresa n’este mundo tem outro fim, e qual é elle? o de empregar vossos -esforços e trabalhos para dilatar o reinado de Deos, ajudar os Apostolos -de Jesus Christo a chegarem aos fins para os quaes são enviados, isto é, -para augmento do sceptro e da corôa de vosso principe, e morrer por estas -duas empresas—é morrer em leito de honra. - -Vós me respondereis—mas sob que ordens e porque meios? Minha penna, -senhores, não pode ir mais longe. Fiz o que devia e o resto ignoro. - -Espero portanto, que Deos inspirará aquelles, que tudo podem, á favor da -perfeição de tão alta empresa. - - - - -CAPITULO XLIX - -Instrucção para os que vão pela primeira vez ás Indias. - - -Sabio é aquelle, diz o proverbio, que para seos negocios se aproveita do -exemplo e experiencia dos outros. - -Se os nossos francezes, antes de terem ido á India, soubessem o que -depois conheceram, teriam melhor dirigido os seos negocios, e nem teriam -passado pelos encommodos, que soffreram: o que resolver ahi ir, calcule -quanto tempo ahi se pode demorar, junte ainda mais um bocado, porque lá -não se tem a commodidade do regresso quando se quer. - -Faça seo sortimento para esse tempo, e por duas formas, uma para si e -outra para os selvagens afim de obter delles viveres e outros generos. - -As suas provisões devem consistir de aguardente forte, do melhor vinho -de Canaria, em bons frascos de estanho, bem arrolhados e acondicionados -n’uma frasqueira fechada a chave, e esta tão bem guardada, como o seo -coração, para servir nas necessidades e nas molestias que podem apparecer. - -Fuja de sucia com pessoa alguma, porque então desapparecem bem depressa -as suas provisões. - -É costume no mar, desde que se suspeita haver vinho ou agoardente na -frasqueira de algum passageiro, o pedir-se de vez em quando uma vez -d’esses espiritos para beber em companhia, e quando se está em viagem -deve-se fazer de duas coisas uma, ou ser-se liberal e para isso não -faltam instigações, ou então passar-se por velhaco, e soffrer todas as -injurias, que lhe queiram fazer. - -O meio mais seguro para evitar estas coisas é não entrar em sucias. - -Para a passagem do mar deve surtir-se de algum vinho tinto, e de coisas -iguaes para quando precisar visto o trivial do navio ser muito mal -preparado. - -Deve fornecer-se de um bom numero de camisas, lenços, e vestidos de -fustão, e não de estofos pesados, excepto os vestuarios para festas, -porque n’este paiz não se precisa senão de pannos leves. - -Leve sabão para o aceio da casa, muitos sapatos porque lá não achará um -só, senão os que para ahi forem levados e por alto preço, de forma que -pelo preço de um par tereis em França uma duzia, toalhas, guardanapos, -lençóes e um bom colchão, e se quizerdes viver á francesa, isto é, com -limpesa, deveis levar baixela de estanho para quando estiverdes doentes. - -Devereis levar assucar, boas especiarias, uma porção de rhuibarbo muito -fino, tudo bem acondicionado n’uma caixa para livrar o assucar das -formigas do paiz, porque é impossivel imaginar-se o que fazem estes -animaesinhos, que metem-se por toda a parte, e tudo trespassam se é de -madeira. - -Devem essas caixas ser feitas de ferro branco. - -As mercadorias pelas quaes dos Indios obtereis em troca viveres e outros -generos do paiz, e escravos para servir-vos e cultivar vossas roças, são -as seguintes—facas de cabo de pau, de que usam os magarefes, e muito -apetecidas pelos selvagens, muitas thesouras de bolsa de couro, muitos -pentes, contas de vidro verde-gaio, a que chamam missanga, foices,[87] -machados, podões, chapeos de pouco valor, fraques, camisollas, calções de -adellos, espadas velhas, e arcabuses de pouco preço. - -Dão muito apreço a tudo isto, e assim tereis escravos e bons generos. - -Não esqueçaes tambem pannos verdes-gaios, e vermelhos de pouco valor, -porque não fazem grande differença dos estofos, rosetas, assobios, -campainhas, anneis de cobre dourado, anzóes, alicates de latão chatos, -com um pé de cumprimento e meio de largura, tudo isto por elles muito -apreciado. - -Assim bem providos destes generos, não duvideis de serdes bem vindo entre -elles: ahi não deveis viver vida folgada, e muito negocio fareis n’esse -paiz pelo qual pouco dareis, se souberdes guiar-vos. - -Assim preparado, não vos esqueçaes do principal, que é antes de -embarcardes purificar e robustecer vossa alma com o Santissimo Sacramento -da confissão e da communhão, dispondo todos os vossos negocios como quem -não sabe se o mar lhe permittirá o voltar. - -Apenas embarcado, fazei vossa cama o mais perto, que fôr possivel, do -mastro grande para evitardes o balanço visto ser ahi o lugar mais quieto -do navio. - -Deve-se sempre temer a Deos, porem não receiar os acasos do mar, sendo -melhor mostrar o rosto tranquillo do que desassocegado, visto de nada -servir o medo. - -Não vos assusteis senão quando os pilotos implorarem misericordia, porque -então é preciso cuidar da alma, visto irem mal as cousas. - -Quando virdes o navio navegando de lado, as caixas viradas, o mar -entrando no convez, as vellas molhando-se nas ondas, os marinheiros -jurando e buffando,[88] não vos assusteis, mostrae-vos sempre de animo -prasenteiro, não vos descuidando porem da vossa consciencia. - -Não questioneis com algum marinheiro, pois com isso nada alcançareis. - -Quando chegardes ao porto, não vos apresseis em saltar, cuidae primeiro -nas vossas mercadorias e bagagem, porque acontece muitas vezes visitarem -a bagagem, e serrarem os caixões, onde vem os generos, de maneira que se -possa introduzir a mão. - -Fazei conduzir tudo em vossa companhia para casa do vosso Compadre, que -deveis escolher com estes predicados se fôr possivel. - -1.º Que tenha escravos, canôa e cães, para não sentirdes falta de peixe -e de caça, senão raras vezes tereis estes generos, sendo necessario -compral-os aos selvagens, e assim muito cara vos seria a vida. - -2.º Indagae se elle tem bom genio especialmente a mulher, porque nada ha -peior do que má hospede. - -Se encontrardes bom acolhimento, convem fazer alguns presentes, e depois -deveis trazel-os sempre na esperança de outros, sem serdes comtudo muito -liberal, e por isso todos os mezes lhe deveis dar alguma coisa afim de -não vos chamarem avarento, e como tal não vos apregoem entre os seos -iguaes, criando assim difficuldades quando quizerdes obter alguma coisa. - -Não vos deixeis prender pelos affagos das filhas dos vossos hospedes, -ou de outras, pois não vos faltarão caricias se souberem que tendes -mercadorias. - -Em tudo o mais é preciso andar prevenido, tendo sempre bem presente á -memoria o acaso e o perigo, que fazem contrahir molestias sórdidas -áquelles, que de si se esquecem. - -Podeis livrar-vos d’isto com facilidade, mormente se considerardes o -grande peccado, que commeteis. - - - - -CAPITULO L - -Do acolhimento, que fazem os selvagens aos francezes recem-chegados, e -como convem proceder para com elles. - - -Si ha nação no mundo, que goste de fazer bom acolhimento aos seos amigos -recem-chegados, e que os receba em suas casas para tratal-os bem o quanto -é possivel, sem duvida alguma os _Tupinambás_ occupam o primeiro lugar á -vista do que fizeram aos francezes. - -Logo que fundeou o navio, que trasiam os francezes, surgiram de todos os -lados selvagens em suas canôas, bem enfeitados de pennas e preparados -segundo sua classe como si fossem para uma grande festa. - -Apenas descobrem ao longe navios que demandam a terra corre logo este -boato por todas as aldeias _Aurt vgar uaçú Karaibe_, ou _Aurt Navire -suay_ «ahi vem os grandes navios de França.» - -Immediatamente tomam os seos vestidos bonitos, si os tem, e principiam -a fallar uns aos outros por esta forma: «ahi vem navios de França, e eu -vou ter um bom compadre, elle me dará machados, foices, facas, espadas, e -roupa: eu lhe darei minha filha, irei pescar e caçar para elle, plantarei -muito algodão, dar-lhe-hei gaviões e ambar, e ficarei rico, porque hei -de escolher um bom compadre, que tenha muitas mercadorias.» - -Dizendo isto batem nas pernas e nos peitos em signal de alegria. - -As mulheres e os rapazes fabricam farinha fresca e nova, e os homens -vão pescar e caçar, e quando a casa está provida de carnes de diversas -qualidades, raizes, peixes, caça, e farinha, vão todos aos navios. - -Os mais impacientes vão em suas canôas á bordo do navio, ancorado na -enseiada, endagar se vieram os seos velhos _Chetuassaps_, e qual é o -francez que traz mais generos para lhe offerecer seo compadresco, sua -casa e sua filha. - -Apenas salta o francez é logo rodeiado por elles: homens e mulheres -mostram-se prasenteiros, presenteam-nos com viveres, convidam-nos para -compadre, offerecem-se para levar-lhes sua bagagem, em fim fazem o que -podem para contental-os e agradal-os. - -Não tem inveja por estar um francez em casa de outro: o que primeiro se -apresenta é que leva o hospede, sem a menor questão, e nem por isso se -insultam. - -Fazem mais ainda: quando um francez muda de compadre, não questionam por -isto, despresam-no, e tem-no por homem mau, e assim raciocinam. - -«Si não poude viver com aquelle, como viverá commigo?» - -Si o selvagem é genioso, avarento e preguiçoso, quando o francez o deixa -não se zangam os outros, antes dizem «É bem feito ser elle despresado, é -um homem difficil de ser aturado, avarento e preguiçoso.» - -Escolhendo o francez um compadre, segue-o e vae para a aldeia,[89] e -então o hospede com certa gravidade, como si nunca o houvesse visto, -lhe estende a mão e lhe diz: «_Ereiup Chetuassap?_» «Chegaste meu -compadre,»[90] coisa digna de vêr-se e de contemplar-se. - -Direis ao vel-os, que sahem á maneira dos imperadores de um gabinete bem -fechado, onde estavam empenhados em grandes negocios. - -Si querem fazer grande acolhimento a um francez e lhe mostrar que muito o -estimam, antes que o pae de familia lhe diga _Ereiup_, as mulheres e as -filhas o lamentam e depois dam-lhe bons dias. - -Responde-lhe o francez _Pá_, «sim?» resposta que quer dizer «sim de todo -o coração: eu te escolhi para morar comtigo, e para ser meo compadre, e -do numero de tua familia: te dei a preferencia porque te estimo e por me -pareceres bom homem.» - -Diz-lhe o selvagem—_Auge-y-po_ «muito bem, estou muito contente, -honras-me muito, sêde bem vindo e aqui serás tão bem acolhido como em -parte alguma.» - -Por isto reconhecereis a candura e a simplicidade da naturesa, que -consiste em poucas palavras e muitas obras. O contrario acontece á -corrupção, pois inventa muitos discursos, muitas palavras adocicadas, -cortejo sobre cortejo muitas vezes só com o chapéo, e não com o coração. - -D’estas duas recepções qual será a melhor e a mais consentanea com a lei -de Deos, e com a simplicidade do christianismo? - -Após aquellas palavras, elle vos diz—_Marapé derere?_ «Como te chamas? -qual é o teu nome? como queres que te chamemos? que nome queres que se te -dê?» - -Convem notar, que si não escolherdes um nome pelo qual sereis conhecido -em toda a parte, elles vos darão um escolhido entre as coisas naturaes, -existentes no seo paiz, e o mais apropriado á vossa physionomia, genio, -ou maneira de viver, que por ventura descobrirem em vossa pessoa. - -Por exemplo, entre os francezes, um foi chamado _beiço de sargo_, porque -tinha o beiço inferior puchado para diante como os peixes chamados -_sargos_. - -Tiveram outros o apellido de _garganta grande_ porque nada o fartava, -de _sapo-boi_,[91] por estar sempre entumecido, de _cão pirento_ pela -sua cor má, de _piriquito_ porque levava só a fallar, de _lança grande_ -por ser alto e esguio, e assim por diante, e ordinariamente fazem estas -coisas em suas _casas grandes_, e por esta fórma pouco mais ou menos. -«Que nome se ha de dar a teo compadre?» - -—Não sei, é preciso estudar. - -Indica cada um a sua opinião, e o nome que encontra mais apropriado, e si -é bem recebido pela assembléa lhe é imposto com seo consentimento, si é -homem de posição: si é do vulgo, queira ou não queira, ha de ter o nome, -que lhe der a assembléa. - -Tem tambem outra maneira de impôr nomes: quando elles vos estimam, e vos -dam muito apreço, elles vos dam o seo proprio nome. - -Depois de saber vosso nome pensam na cozinha dizendo—_Demursusen -Chetuasap_, ou então _Deambuassuk Chetuasap?_ «Tem fome, meo compadre? -quer comer alguma coisa?» - -A hospede vos escuta e vos attende prompta a servir-vos si disserdes -_sim_ ou _não_, porque tomarão vossa resposta, como dinheiro contado, -visto que n’essas terras nem se deve ser vergonhoso, e nem guardar -silencio. - -Si tendes fome, direis _Pá, chemursusain, Pá, cheambuassuk_, «sim, tenho -fome, quero comer.» - -Perguntam elles _Maé-pereipotar_, «que queres tu comer? que desejas tu -que eu te traga?» - -São mui liberaes no principio, diligentes na caça e na pesca, afim de -contentar-vos e ganhar vossa affeição para obter generos; mas cuidado, -não lhe dês tudo no principio, conservae-o sempre na esperança, dando-lhe -cada mez alguma coisinha. - -Á sua pergunta dizei, si quereis carne, peixe, passaros, raizes, ou outra -qualquer coisa, e então vossos hospedes, o marido e a mulher trazem para -vós a caça, o _Mingau_, que tiverem, podeis comer a vontade e dar a quem -quizerdes. - -Apenas tiverdes comido, arma a sua rede ao pé da vossa, principia a -conversar comvosco, offerece-vos um caximbo cheio de fumo, que accende, -chupa tres fumaças, que expelle pelas ventas, e depois vos entrega como -coisa muito bôa, e que faz muita estima, como na França se pratica com -as bebidas. - -Accende tambem seo caximbo, e depois de haver tomado cinco ou seis -fumaças diz—_Ereia Kasse pipo_: «deixaste teo paiz para vir ver-nos, -visitar-nos e trazer-nos generos?» - -Respondei-lhe _Pá_—«sim, deixei tudo, despresei meos amigos, e meo paiz -para vir aqui vêr-te.» - -Levantando então a cabeça como que admirado, diz _Yandé repiac aut_, -«compadeceo-se de mim, olhou-nos com piedade: lembraram-se os francezes -de nós, não se esqueceram de nós.» - -Deixaram sua terra para nos vir ver—_Y Katu Karaibe_: «são bons os -francezes e muito nossos amigos.» - -Depois pergunta ao francez _Mabuype deruuichaue Yrom?_ «Comvosco quantos -superiores, guerreiros, capitães e principaes vieram?» - -Responde-lhe elle _Seta_, «muitos.» - -Replica o selvagem—_De Muruuichaue?_ «Não és d’esse numero? Não és um dos -principaes?» - -Bem podeis pensar, que não ha ninguem, por mais mediocre, que seja a sua -condicção, que de si não diga bem, e por isso responde o francez _Ché -Muruuichaue_ «sim, sou um dos principaes.» - -Diz o selvagem _Teh Augeypo_ «muito bem, estou muito contente: basta, -fallemos de outra coisa.» _Ereru patua? Ereru de caramemo seta?_ -«Trouxestes muitas caixas e cestas, cheias de mercadorias?» - -São as melhores noticias, que se lhes pode dar, para as quaes tem sempre -dispostos o animo e o coração, de sorte, que tudo quanto dizem é somente -como que um preambulo para chegar a este ponto. - -Depois que o francez responde-lhe affirmativamente diz o selvagem—_Mea -porerut decarameno pupé?_ «O que trouxestes em vossas caixas e coffres de -joias? que mercadorias?» dizem elles com vóz doce e agradavel, pois são -muito curiosos de saber o que trazem comsigo os francezes. - -Deve estar prevenido o francez para não dizer e nem mostrar o que elles -desejam, afim de trasel-os sempre na expectativa, si dos seos serviços -quer aproveitar-se. - -Deve responder-lhe—_Y Katu paué_ «trouxe tantas coisas, cujos nomes nem -mesmo sei, são bellas e magnificas.» - -Esta resposta é como agoa lançada na fornalha ardente do ferreiro, a -qual redobra o calor, e activa a chama, e assim desperta a curiosidade -do selvagem, até por meios adulatorios, expressados por gestos, dizendo -_Eimonbeu opap-Katu_ «eu te peço, não me occultes nada, dize-me.» -_Yassoi-auok de Karamemo assepiak demae_: «Abre-me tuas caixas, teos -cestos, deixa-me vêr tuas mercadorias, tuas riquezas.» - -Deve responder o francez _Aimosanen ressepiak_ ou _Kayren deué_ «agora -não posso, deixa-me descançar, logo te mostrarei:» _Begoyé sepiak_ «não -duvides, um dia verás á tua vontade.» - -O selvagem entende o que isto quer dizer, e vendo que perde seo tempo, -diz a si mesmo, levantando os hombros, e como que se lastimando—_Augé -katut tegné_, «pois bem, esperarei.» - -Bem sei que não serei ouvido, porem, diz elle ao francez _Dererupé -xeapare amon?_ «Não trouxestes muitas fouces e machadinhos de cabo de -ferro?» - -_Dererupé urá sossea-mon?_ «Trouxestes machados de cabo de pau?» _Ererupé -ytaxéamo?_ «Não trouxestes facas d’aço?» _Ererupé ytaapen?_ «Trouxestes -espadas d’aço?» _Ererupé tatau?_ «Trouxeste arcabuzes?» _Ererupé tatapuy -seta?_ «Trouxeste muita polvora?» - -Responde o francez a tudo isto _Aru seta yagatupé giapareté_ «Sim, trouxe -muita coisa boa e bonita.» Diz o selvagem _Augé-y-pó_ «Muito bem.» - -_Ercipotar turumi? Ercipotar keré?_ «queres dormir? queres deitar-te?» -Responde o francez _Pa che potar_ «sim, quero dormir, deixa-me.» - -Da-lhe então o selvagem as boas tardes, ou boas noites, dizendo—_Nein -tyande karuk tyande petom_ «boa tarde, boa noite, descançae á vontade.» - -Deixemol-os em descanço, e passemos á segunda parte d’esta historia. - - - - -Continuação da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas no -Maranhão em 1613 e 1614. - - - - -SEGUNDO TRATADO. - - - - -CAPITULO I - -Dos fructos do Evangelho, que appareceram cedo pelo baptismo de muitos -meninos. - - -O cantico segundo, (representando allegoricamente a origem da Igreja, em -terra nova, ainda não illuminada pelo conhecimento do verdadeiro Deos) -diz: _Vox turturis audita est in terra nostra: ficus protulit grossos -suos: vineæ florentes dederunt odorem suum_: «foi ouvida a voz da rolla -em nossa terra: produzio a figueira seos figos verdes, e as vinhas em -florescencia derramaram seo aroma.» - -Interpretando estas palavras Rabbi Jonathas, diz em sua Paraphrase -chaldaica, que a vóz da rolla significa a vóz do Espirito Santo -annunciando a Redempção promettida a Abraham, pae de todos os crentes: -eis suas proprias palavras:—_Vox spiritus sancti et redemptiones quam -dixi Abrahæ Patri vestro_: «a vóz do Espirito Santo e da Redempção, que -prometti a Abraham, vosso Pae.» - -Diz mais, que pela figueira deve entender-se a Igreja, e que pelos figos -novos se representa a confissão da fé, que devem os crentes fazer diante -de Deos, e finalmente que pelas vinhas em flor exhalando bom cheiro são -indicados os meninos louvando o Senhor dos seculos: _Cœtus Israel, -qui comparatus est precocibus ficubus aperuit os suum, et etiam pueri -et infantes laudaverunt Dominatorem sæculi_: em nosso tempo vimos isto -realisado em Maranhão, e suas circumvisinhanças, onde depois que á vóz do -Espirito Santo, por meio da prédica do Evangelho, se fez ouvir n’estas -terras, e tocou o coração de muitos, especialmente dos que solicitaram -o baptismo, a bella figueira da Igreja produzio novos figos, que são as -almas sahidas de infidelidade para a crença do verdadeiro Deos, e então -as vinhas em florescencia exhalaram seo cheiro quando em suas cabeças -receberam os meninos as agoas do baptismo, louvando o Senhor dos Seculos -pela parte que ja tomavam do sangue de Jesus Christo e da fé da Igreja. - -Coisa admiravel, digna de ser bem pensada e considerada: apenas a vóz do -Evangelho trovejou, e fuzilou por essas florestas desertas, por estas -sarças, cheias de agudos espinhos, esses pobres bichos (esses selvagens) -presos nos laços do cruel caçador Satanaz, começaram animados pela força -e impetuosidade d’essa vóz a construir seus pequenos templos, como -outr’ora tinha predicto o Propheta Rei David no Psalmo 28. _Vox Domini -præparantis Cervos, et revelabit condensa et in templo ejus omnes dicent -gloriam_: a vóz do Senhor amançando os viados, descobrirá o interior das -brenhas e das sarças e no seo Templo todos entoarão louvores á elle. - -Explicam os doutos, em varias licções, estas palavras dizendo que á voz -do Senhor parem os bichos seos filhos, á similhança da mão da parteira ou -do cirurgião habil, que serve para tirar do ventre da mulher o menino sam -e salvo. - -Esta voz não é outra, a darmos credito aos naturalistas, senão o ribombo -do trovão, e a luz do relampago, que por um segredo muito intimo da -naturesa faz com que param as femeas dos animaes ferozes. - -O mesmo produz a prédica do Evangelho, animada e vivificada pelo Espirito -Santo, excitando o coração d’estes barbaros, ha muito tempo internados -nas sarças e brenhas da ignorancia, da infidelidade, e dos maos costumes. - -Nas _casas grandes_ não se falla mais de outra coisa senão do -conhecimento de Deos, contando cada um o que ouvio de nós quando -veio visitar-nos, e terminando essas especies de conferencias pela -manifestação do grande desejo, que tinham de vêr seos filhos baptisados e -elles tambem, por meio d’estas e outras palavras similhantes. - -Que coisas, diziam elles, são estas, que os Padres nos contam por meio -dos interpretes? Nunca as ouvimos iguaes. - -Nossos paes, ja por tradicção nos contaram, que outr’ora veio aqui um -grande _Maratá de Tupan_,[92] isto é, Apostolo de Deos nas provincias, -onde residiam, e lhes ensinou muitas coisas de Deos: foi elle quem lhes -mostrou a mandioca, as raizes para fazer pão, porque antes só comiam -nossos paes raizes do matto. - -Vendo este _Maratá_, que nossos antepassados não faziam caso do que -dizia, resolveo deixal-os, mas antes quiz dar-lhes um testemunho de sua -vinda aqui, esculpindo n’uma rocha uma especie de mesa, imagens, letras, -á fórma de seos pés, e dos seos companheiros, as patas dos animaes, que -trasiam, os furos dos cajados, a que se arrimavam em viagem, o que feito -passaram o mar, procurando outra terra. - -Reconhecendo nossos paes sua falta, procuraram-no muito, porem nunca -d’elle tiveram noticias, e até hoje ainda não veio visitar-nos algum -_Maratá de Tupan_. - -Muito tempo ha, que frequentamos os francezes, e nenhum d’elles nos -trouxe padres, e nem nos contou o que por seos interpretes nos dizem os -padres. - -Por exemplo fazem viver de maneira diversa os _Caraibas_. - -Prohibem os francezes de tomarem nossas filhas, o que outr’ora faziam com -facilidade, dando-nos em troca algumas mercadorias. - -Dizem grandes coisas de Deos, e á elle fallam em suas Igrejas, e para -isso fecham as portas, fazem-nos sahir para que desça _Tupan_ diante -d’elles, e então si ajoelham todos os _Caraibas_. - -Bebe e come _Tupan_ em bellos vazos de oiro, e em mesa bem preparada e -ornada de bellos estofos, e bonitos pannos de linho. - -Adornam-se com ricos vestuarios, e quando querem fallar aos _Caraibas_ -assentam-se no meio d’elles, e somente falla um Padre, que está assentado. - -Escutam-no todos os francezes, falla por muito tempo, cança-se, ninguem o -entende porem todos ahi estão firmes. - -Depois que este falla, cantam uns depois de outros, de lado a lado, lêem -n’um _Cotiare_, (n’um livro) o que cantam e dizem elles que assim estão -fallando á Deos. - -Julgam nossos paes perdidos com _Jeropary_, ardendo em fogos -subterraneos, e riem-se de nós quando choramos e lamentamos nos funeraes -de nossos parentes. - -Mandam atirar no matto a comida, a bebida, e o fogo, que costumamos dar -aos nossos parentes defunctos para fazer a viagem até onde estão nossos -avós nas montanhas dos Andes. - -Elles nos dizem e prégam, que somos muito tollos em dar credito aos -nossos _barbeiros_ e _feiticeiros_, especialmente ao seo sopro para o -curativo dos infermos. - -Fallam com altivez contra _Jeropary_, e não o temem de fórma alguma. - -Promettem aos que crêem em _Tupan_, e que elles lavam com suas mãos, de -subir ao Céo por cima das estrellas, do sol e da lua, onde está _Tupan_ -sentado, e em roda d’elle os _Maratás_, e todos os que acreditam em suas -palavras, e são por elles lavados. - -Regeitam raparigas e mulheres, dizendo que o filho de _Tupan_ não as -teve, sahindo do ventre de uma rapariga chamada _Maria_ com a qual nunca -seo marido teve relações. - -Ha dias nos quaes não comem carne embora lh’a offereçam. - -Não se passam dez dias, contando pelos dedos, que não mandem os Francezes -vestirem-se com roupas bonitas, e irem a casa de _Tupan_ fallar com elles -e escutar a palavra de Deos. - -Vestem-se de maneira diversa dos outros francezes, caminham diante -d’elles, e todos os saudam. Convivem sempre com os grandes, que lhes -fazem tudo quanto querem, e dizem até que abandonaram suas riquezas e -fazendas para mais livres conversarem com _Tupan_, e manifestarem a -vontade d’elle aos francezes. - -Quando vamos vel-os, nos acariciam, especialmente a nossos filhos -dizendo-nos, que já não nos pertencem e sim a elles, sendo-lhes dados por -_Tupan_. - -Que não nos penalizemos por isso, porque nunca nos deixarão e nem nossos -filhos: que elles são muitos em França, que todos os annos virão outros, -que depois de haverem educado e ensinado nossos filhos, os farão fallar -em Deos tão familiarmente como elles o fazem: que lhes ensinarão a -_rotiarer_ (a escrever) e a fazer fallar o _papere_ (o papel) mandado de -muito longe aos que estão auzentes. - -Dizem-nos que seo Rei é poderoso, que os ama, e nos ajudará em quanto -elles estiverem comnosco. Ah! porque não somos mais moços para vêr as -grandes coisas, que farão os Padres em nossas terras! Elles construirão -com pedra grandes Igrejas como ha em França. - -Trarão bellos estofos para ornar o lugar, onde desce _Tupan_. Mandarão -buscar _miengarres_, isto é, musicos cantores[93] para entoarem as -grandezas de _Tupan_. - -Recolherão todos os nossos filhos n’um lugar, onde alguns dos Padres -cuidarão d’elles. Mandarão buscar de França mulheres para ensinarem o -que sabem á nossas filhas. Não nos faltarão ferramentas para nossas -roças. Ah! diziam alguns d’elles em continuação, si chegarmos a vêr essas -mulheres em nossas terras, então temos certesa que não nos deixarão -os francezes, e nem os Padres, especialmente si nos derem mulheres de -França. Si eu tivesse, disse um d’elles, uma mulher franceza não queria -outra, e faria tanta roça que havia de chegar para sustentar tantas -francezas, como de dedos eu tenho nas mãos e nos pés, isto é, vinte, -numero infinido para significar muito, porque depois de terem chegado a -vinte, começam a contar de novo. - -Levantando-se então elle, que era o Principal no meio do grupo, em que -me achava, e batendo nas nadegas com quanta força tinha, disse _Aça-uçu, -Kugnan Karaibe, Aça-uçu seta, &._ «Amo uma mulher francesa com todo o meu -coração, amo-a extremosamente.» - -Respondeo o _Cão grande_, tambem Principal—«prometteram-me uma mulher -francesa, que desposarei na mão dos padres, e me farei christão como fiz -meo filho Luiz-galante, e quero ter em pouco tempo um filho legitimo. -Minha primeira mulher está velha, e por isso não precisa mais de marido, -e as outras oito, ainda moças, as darei por esposas a meos parentes, e -ficarei só com a mulher de França, e minha velha mulher para nos servir.» - -Faziam outros iguaes discursos em suas _cazas grandes_ e na minha -residencia, ou quando me viam passar, contentando-me de referir apenas o -que acima escrevi para mostrar o fervor d’estes barbaros, suscitado pelo -Divino Espirito Santo. - -_Vox turturis audita est in terra nostra_, para produzir de seo seio -fechado e preoccupado por mil infecções estes bellos e amigaveis -viadinhos, _vox Domini præparantis Cervos_, e em outro logar _Cerva -charissima e gratissimus hynnulus_, cap. 5º dos _proverbios_, «a côrça -muito estimada, e o templo muito lindo.» - -Continuemos. - -A estas palavras seguio-se logo a pratica, porque foram muitos meninos -entregues ao Rvd. padre Arsenio, residente em _Juniparan_, e a mim, -morador em São Francisco, perto do Fórte de São Luiz, para acudir aos -francezes e receber os Indios de outras terras, que todos os dias nos -vinham vêr e conhecer, si era verdade o que de nós se dizia em longes -terras. - -Foi esta a divisão, que fizemos, de tantas e tão grandes terras para -cultivar e lavrar o que permittissem nossas forças, cuidando um de uma -parte e outro de outra, excepto quando houvesse necessidade de sahir da -Ilha, porque então se tomariam providencias adequadas. - -Impossivel é á palavra o pintar o contentamento e a alegria, que -sentiamos vendo estes selvagens trazer-nos seos filhos, voluntaria e -expontaneamente, para serem baptisados, preparando-os o melhor que -podiam com os meios offerecidos pelos francezes, isto é, vestidos com -um pedaço de panno de algodão, escolhendo padrinhos entre os francezes, -contrahindo assim com elles estreita alliança, especialmente com os -meninos baptisados, si estivessem em idade de o conhecerem, porque então -considerariam seos padrinhos como seos proprios paes, chamando-lhes -pelo nome de _cheru_, «meo pae» e sendo pelos francezes chamados os -rapazes _cheaire_ «meo filho,» e as meninas _cheagire_ «minha filha»: -vestiam-nos em summa o melhor, que podiam, e os selvagens, paes dos -meninos baptisados, lhes offereciam todas as commodidades resultantes de -suas roças, de suas pescarias, e caçadas. - -Vendo assim estas cousas, lembrava-me do que diz o cap. 5º dos -_canticos_. _Oculi ejus sicut cólombæ super rivulos aquarum, quæ lactæ -sunt lotæ, et resident juxta fluenta plenissima_: «os olhos de Jesus -Christo, esposo da Igreja, parecem-se com os olhos da pomba, orvalhada de -leite, que contempla os regatos das fontes, e faz seo abrigo e morada nos -rochedos, que abrangem rios amplos e espaçosos.» - -Estes olhos de Jesus Christo são as graças do Espirito Santo, que -fazem quebrar seos ovos á maneira das tartarugas, expostos á mercê das -innundações do mar e da frialdade da areia. - -Tem estes mesmos olhos por plano e fim lavar e purificar as almas, -especialmente as almasinhas rociadas de leite. Assim como a pomba branca -brinca sobre os riachos, e habita á margem dos grandes rios, assim tambem -o Espirito Santo folga e muito na conversão de uma terra nova, e encara -com bons olhos a sahida d’estas almasinhas do estado geral d’estas terras -barbaras, a saber, da ignorancia de Deos para chegar a conhecel-o por -meio das agoas do baptismo, partecipantes, como nós, da visão de Deos, -porque não fazem accepção de ninguem, visto que estas almas barbaras lhe -custaram tanto como as nossas. - -Oh! preço infinito! oh! falta de caridade, que não tem desculpa perante -Deos, de se verem tantas almas pedindo a salvação, sem embaraços e -riscos, e em risco de se perderem por não haver um pequeno auxilio. - -Bom Deos! todos nós acreditamos, e Jesus Christo confirma esta crença, -que uma só alma valle mais que todo o resto do mundo, isto é, que todos -os imperios, e reinados da terra, que todas as riquezas e thesouros do -homem: mais ah! não temos difficuldade de pôr em execução nossas crenças. - -Não posso deixar este assumpto sem primeiro declarar a luta interior, que -experimentei, para fazer vêr e descarregar minha consciencia tanto quanto -a julgo compromettida, parecendo-me bastante para minha justificação e -defesa o que acabo de dizer. - -Li e notei em bons auctores, profundos e perspicases no conhecimento dos -segredos e mysterios da Escriptura, que as pombas brancas orvalhadas de -leite eram certas pombas, que os Syrios creavam em honra e veneração de -sua rainha Semiramis, sendo prohibido matal-as sob pena de morte. - -Contam-nos os antigos ter-se esta rainha immortalisado por um acto -memoravel, entre seos altos feitos d’armas, o mais milagroso quanto é -possivel á grandesa dos reis, qual a suspensão entre o Céo e a terra de -seos jardins, pomares, e bosques de recreio. - -Salomão procurou esta comparação entre as coisas profanas para mostrar -uma obra divina notavel entre as outras, qual a conversão das almas, -inteiramente reservada ao poder de Deos por ser uma segunda creação pela -qual assim como suspendeo a terra no ar, assim tambem suspenderá jardins, -pomares, e florestas de sua igreja com surpresa dos calculos e juizos -humanos, afim do dar lugar aos seos predestinados e eleitos chamando-os -quando lhes apraz, no meio dos desertos, e do interior das mais vastas e -densas florestas. - -Antes de ir adiante, não deixarei escapar a coincidencia que se nota -entre a grande Semiramis e Maria de França, rainha christianissima. - -Semiramis rainha reinante e tutora do seu filho o rei d’Asyria -emprehendeo grandes coisas, em beneficio e sustentaculo do imperio de seo -filho. - -Igual caso se dá com a nossa rainha, e embora Semiramis tenha em seo -tempo feito muitas obras magnificas, pelas quaes grangeou o amor e a -obediencia de seos subditos mais do que outra qualquer, sua antecessora, -a immortalidade de seo nome foi devida a seos edificios miraculosos. - -Com igual razão direi, que entre as heroicas acções da rainha, mãe do -rei, que levaram a posteridade seo nome immortal, conta-se a missão dos -padres capuchinhos ás terras do Brasil para ahi plantar os jardins da -igreja, começada e fundada sob sua authoridade e ordem, e assim será o -Brasil obrigado a sustentar estas pombas brancas em memoria e lembrança -de tão grande Semiramis que tem tanta piedade como poder para aperfeiçoar -esta empresa. - -Ainda vos peço, que em nossas pequenas pombas rociadas de leite deveis -vêr os filhinhos dos selvagens conduzidos ao gremio do christianismo pelo -baptismo. - -Ha cinco annos, pouco mais ou menos, nem havia desejo de se intentar a -cathequese d’esta gente. - -O diabo ahi mandava com imperio, arrastava para si todas estas almas sem -pagar dizimo a Deos, porem presentemente, em quanto durar e continuar a -missão, com o auxilio de Deos ouvireis dizer quaes os grandes fructos, -ja colhidos, e outros que se colhem todos os dias. - -A nossa maior consolação, a que nos fazia soffrer as amarguras e as -difficuldades dos trabalhos, que ahi não nos faltavam, era vêr a -franqueza e boa vontade, com que os selvagens nos apresentavam seos -filhos para serem baptisados dizendo então nós, em conversa com elles, -que para nós nada havia mais agradavel do que o trazerem elles seos -filhos á pia baptismal, e sempre que comnosco fallavam era assumpto da -conversa a manifestação de seos desejos por verem seos filhos por nós -baptisados. - -Poderia aqui reproduzir muitos exemplos para confirmar esta verdade, mas -como tenho de referil-os em lugar proprio, deixo-os agora de mão. - - - - -CAPITULO II - -Do baptismo de muitos infermos e velhos, que falleceram depois de -christãos. - - -Entre os mais bellos enigmas sagrados, que recita Job no seo livro, -está no Cap. XIV a parabola do loureiro dizendo. _Si senuerit in terra -radix ejus, et in pulvere mortuus fuerit truncus illius, ad odorem aquæ -germinabit, et faciet comam quasi cùm primo plantatum est_: «Si a raiz do -loureiro se mergulha na terra, e seo tronco morrer no pó, apenas sentir o -cheiro da agoa germinará e produzirá nova copa de folhas, como si fosse -recentemente plantado.» - -Os Setenta assim inverteram esta passagem: _Si in petra mortuus fuerit -truncus ejus, ab odore aquæ florebit, et faciet messem, sicut nova -plantata_: «si o tronco do Loureiro morrer na pedra, com o cheiro d’agoa -florescerá, e como planta nova mostrará em breve sua copa.» - -Outra versão ha ainda mais bella: _Attracto humore aquæo iterum germinat, -exibet quæ fructus decerpendos, ut plantæ solent_ «o Loureiro morto -chupando a agoa germina de novo, e como as outras plantas offerece -sazonados fructos.» - -N’estes trez trechos descobrireis muitas coisas, que servem litteralmente -ao nosso fim. - -1.º A raiz do Loureiro dentro da terra. - -2.º Seo tronco morto no pó ou na pedra. - -3.º O cheiro d’agoa, que dá a vida perdida á raiz e ao tronco fazendo -produzir folhas, flores e fructos. - -O Loureiro representa as Nações infieis, conforme a ficção dos antigos da -nympha Daphné, a qual perseguida pelos demonios com o nome de Appollo foi -convertida em Loureiro. - -Sua raiz sepultada no pó ou na rocha representa longa serie de annos, -nos quaes estas Nações barbaras jazeram entregues aos seos barbaros e -inveterados costumes. - -O tronco ja morto representa o fim e terminação d’esta ignorancia. - -Deos querendo presentemente visitar esta Nação escolheo os enfermos, os -velhos, os caducos e moribundos para fazel-os renascer em Jesus Christo, -levando as folhas verdes da graça, as flores dos dons do Espirito Santo, -e os fructos dos meritos da paixão de Jesus Christo, e com isto tudo o -cheiro e o atractivo da agoa do baptismo. - -Sentiamos muito consolo quando baptisavamos os doentes e os velhos, cuja -morte era esperada com certeza, por que receiavamos que por falta de -soccorros, nos vissemos obrigados a deixar e abandonar todos os meninos -recentemente baptisados e os adultos, que constantemente si apresentavam. - -Tinhamos ao menos certeza, que baptisando os que se achavam proximos da -morte, abria-se o Paraizo, e perdia-se a occasião que lhes faria perder -talvez a graça obtida, ficando sós e longe dos Ministros da Igreja para -nutril-os na graça recebida. - -Alem d’isto o baptismo d’estes velhos fazia muita impressão no coração -das testemunhas vendo a devoção, com que ordinariamente recebiam o -baptismo. - -Vou dar-vos alguns exemplos. - -Na ilha cahiram doentes duas raparigas, uma livre e outra escrava, -sendo aquella casada com um Tupinambá, muito bom moço, o qual depois da -morte de sua mulher, constantemente nos perseguia para ser baptisado, -aprendendo com muito boa vontade a doutrina christã. - -Esta rapariga, proxima da morte, pedio que lhe dessem o baptismo, -confessando por palavras nascidas do coração a verdade da nossa religião, -mostrando por signaes exteriores o toque do Espirito Santo no seo -coração, banhando-se de lagrymas de amor e de reconhecimento ao grande -_Tupan_, que lhe fazia tão assignalada graça de a ter feito nascer neste -seculo para tiral-a do meio de tantas almas perdidas de sua nação e -conceder-lhe o goso do paraizo. - -Fitava com attenção o Ceo, e com palavras doceis e tremulas recitava -o que sabia á respeito da crença de Deos, repellindo para bem longe -_Geropary_ e seos antigos enganos. - -No meio d’este discurso, precursor da morte, lamentava a condemnação de -seos antepassados. - -Fazia exposições muito bellas a seo marido e o animava a receber quanto -antes a purificação de seos peccados. - -Devo dizer d’ella um facto muito particular, qual o de haver conhecido um -só homem, o seo marido, o que é não pequeno milagre n’aquelle paiz, por -causa do mau costume introdusido pelo diabo no coração das moças, de se -honrarem pela deshonra, e de não apreciarem a castidade ou a virgindade. - -Bem vêdes por isto, que em todos os escolhidos de Deos ha sempre alguma -virtude natural, que provoque, não por merecimento e sim pela occasião, -a graça de Deos, que similhante ao sol, com indifferença, está a entrar -n’alma de todos, si houver para isso disposição. - -A _Tapuia_, ou escrava, atacada por violenta febre, que a atormentava -muito, achava-se em sua rede só e por todos abandonada, conforme o uso -e costumes d’elles, que consideram grande deshonra cuidar d’uma escrava -quando está a morrer, isto antes da nossa chegada a ilha, quando então -lhes mostrámos o quanto era desagradavel á Deos a crueldade com que -atiravam por terra o escravo moribundo e lhe quebravam a cabeça como ja -disse. - -Esta desgraçada mulher, prisioneira de Satan, e victima das desgraças -communs da natureza, que são as enfermidades e as doçuras dolorosas -e insuportaveis, sem pessoa alguma junto de si foi então olhada com -piedade, e visitada por seo Creador, animando-a a pedir o baptismo. Oh! -juiso de Deos! Oh! providencia eterna! - -Quem poderá comprehender teos conselhos na vida do homem! - -Esta pobre creatura, dardejada vivamente no coração pelas flechas das -primeiras graças do seo senhor, não merecidas por alguma obra boa -anterior, que houvesse feito, lançava suas vistas por todo o quarto -procurando ver, si alguem lhe apparecia para mandar chamar os Padres, -afim de ser lavada com as agoas do baptismo, e felizmente lhe appareceu -um francez, a quem expoz seos desejos, e veio elle logo dizel-os ao -padre, indicando a casa d’ella, que era perto, e elle foi logo visital-a, -instruil-a e baptisal-a. - -O francez, que cuidou d’ella, e o padre que a baptisou, me contaram -coisas admiraveis. - -Esta infeliz creatura quanto ao corpo, porem muito feliz quanto á alma, -principiou a experimentar os penhores do Ceo, e o merecimento do sangue -de Jesus Christo que recebeo pelo baptismo. Tinha sempre os olhos fixos -no Ceo, derramava abundantes lagrymas, e dizia de momento a momento, -estas palavras—_Y Katu Tupan, ché arobiar Tupan_. Oh! quanto Deos é -bom! Oh! quanto Deos é bom! eu creio n’elle. Depois por meio de signaes -mostrava aos francezes, que _Jiropary_, o diabo, andava ao redor de sua -rede, e então dizia _Ko Jiropary, Ko y pochu Jiropary_: «está ali o -diabo, atirai sobre elle a agoa de _Tupan_, isto é, agoa benta para elle -fugir.» Fazia-lhe o francez a vontade e dizia ella que o diabo fugia a -toda a pressa, e por isso constantemente pedia ao francez que derramasse -em roda d’ella e de sua rede muita agoa benta o que fazia, bem como o -padre quando ahi se achava. - -Apenas lhe apparecia uma dor de cabeça, que muito a encommodava, pedia -para que lavassem a testa, as fontes e a cabeça com agoa benta, com que -alliviava muito, a ponto de não sentir mais doença alguma: pouco depois -entregou sua alma ao Creador. - -Amortalharam e sepultaram seo corpo á maneira dos christãos: aconteceo -porem, que alguns malvados, filhos de _Giropary_, que nunca foram -descobertos, senão seriam punidos, foram á noite desenterral-a, -quebraram-lhe a cabeça e roubaram o panno de algodão de sua mortalha: -pela manhã foi outra vez sepultada. - -Ninguem se admire d’isto, pois o diabo reserva sempre para si alguns bons -servos, mesmo nos reinos os mais bem policiados, afim de executar suas -mais detestaveis intenções. - -Sabeis sem duvida, que os _Tupinambás_ aborrecem naturalmente os que -abrem as sepulturas dos mortos e não podem por isso tolerar, que os -francezes abram as covas, onde foram enterrados seos parentes para lhes -tirar os objectos, que elles cheios de superstição ali deixam. - -Ahi estava a morrer um velho _Tabajare_, tão magro, que os ossos lhe -furavam a pelle, sem voz, e sem movimentos na sua rede. - -Julgando-se mais proximo da morte do que da vida, inspirado por Deos, -pedio o baptismo. - -Fomos visital-o e cathequisal-o pedindo-lhe sua opinião a respeito de -todos os pontos e artigos, que lhe propuzemos. - -Com as mãos postas nos disse que acreditava no que lhe diziamos. - -Demorando-nos nos artigos relativos á crença da Santissima Trindade, da -Incarnação, Morte, e Paixão do Filho de Deos, do Baptismo, e do Mysterio -da Santa Eucharistia, por que estava proximo da morte, procuramos -fazer-lhe entender estas materias tão altas e profundas por comparações -familiares, a que prestou muita attenção, e dezejando com todo o fervor -o baptismo nós lhe promettemos, que no cazo de ficar bom elle receberia -as ceremonias do baptismo na capella de S. Luiz, e aprenderia com gosto a -doutrina christan, que ensinavamos aos catecumenos antes de baptisal-os. - -Respondeo-nos, que não era tão longe a Capella de Sam Luiz, que não -podesse ser levado até lá afim de, antes de morrer, ser baptisado, -consolação que muito desejava afim de ir direito para o Ceo. - -Vendo este fervor e devoção ficamos satisfeitos e concordamos ser elle -carregado n’uma rede até a igreja de Sam Luiz, e ahi baptisado com toda a -solemnidade. - -Alguns dias depois morreo tranquillamente. - -N’esse mesmo tempo cahio doente uma mulher _Tabajare_, e tão gravemente, -que todos julgavam-na em breve morta: fomos vel-a e lhe offerecemos o -baptismo que aceitou de muito boa vontade, e com muita attenção escutava -o que diziamos, por intermedio dos interpretes, a respeito das glorias do -Paraizo, das penas do inferno, do que ella devia crer, antes de receber o -baptismo no caso de Deos lhe dar saude, e que podesse aprender a religião -christan, e então na igreja receberia as ceremonias do baptismo, no que -concordou e foi baptisada: recobrando sua saude, julgou do seu dever -cumprir sua palavra, embaraçando-a porem o facto de ser mulher de um -_Tabajare_, que tinha mais duas, não podendo ella continuar a viver com -elle casada segundo as leis do christianismo. - -Removemos este obstaculo seguindo o conselho de Sam Paulo: _si qua mulier -fidelis habet virum infidelem et hic consentit habitare cum illa, non -dimitat virum etc quod si infidelis discedit, discedat_: «si alguma -mulher fiel estiver casada com um homem infiel, e que este queira morar -com ella, ella que não o deixe, si o homem infiel a deixar, ella o deixe -tambem.» - -Em virtude d’isto fizemos saber a seo marido, que se quizesse ter -por unica esta mulher christan, deixando as outras, que ella não o -abandonaria, mas que si quizesse viver como d’antes na qualidade de -concubina, que nós e os grandes dos francezes lhe afiançavamos, que elle -seria despresado como incompativel com o christianismo. - -A principio mostrou repugnancia porem afinal concordou, vivendo como -mulher christan e unica com seo marido. - -Faziamos o mesmo aos meninos pequenos, proximos á morte, observando porem -estas formalidades: pediamos o consentimento dos paes e mães antes de -baptisal-os, embora não os deixassemos de baptisar, quando os viamos -moribundos: apesar de estarmos certos da boa vontade geral dos selvagens -de apresentarem seos filhos ao baptismo, nós lhes prestavamos esta -homenagem com o fim de attrahil-os á se converterem. - -Não vem a proposito referir aqui alguns exemplos, porque nada acho n’isto -de extraordinario. - - - - -CAPITULO III - -Do baptismo de muitos adultos, especialmente de um chamado Martinho. - - -Antes de tratar d’esta materia, julgo necessario advertir ao leitor, que -no fim da obra do reverendo padre Claudio achará alguma coisa d’esta e da -seguinte historia, tudo extrahido de uma de minhas cartas, que enviei de -Maranhão, á meos superiores, e como apenas esbocei-as, justo é que eu as -descreva minuciosamente. - -Estas sagradas agoas do baptismo não estagnaram na ilha, pois -atravessando a corrente forte e impetuosa do mar, sem com elle -misturar-se, passaram ás terras firmes de _Alcantara_ e _Comã_, que -despertadas por seo doce sussurro acolheram bem os espiritos d’aquelles, -que Deos tinha escolhido para si, e pelo bom gosto d’ellas procuraram -indagar-lhes a origem, maravilha, que não pode ser descripta como merece, -pois á força d’estas agoas venceo incomparavelmente a actividade do -azougue, chamando a si todos os pedaços de oiro espalhados por diversos -lugares, isto é, as almas inspiradas por Deos em _Tapuitapera_ e _Comã_ -vinham á Maranhão onde tinha assentado seos alicerces a salvação d’este -paiz. - -Quem poderia dizer o grande numero de pessoas, que nos vinham visitar -para aprender alguma coisa dos mysterios da nossa fé? - -Na verdade ninguem, mas para contentar o leitor e dar-lhe alguma ideia -direi, que não havia um só dia, em que não recebesse novos visitadores -e as vezes chegavam a 100 e a 120: eis a razão porque não podia deixar -facilmente o Forte, e ir ás aldeias á meo cargo ministrar o pasto -espiritual. - -Muitos d’estes selvagens de diversas idades se me apresentaram pedindo o -baptismo, o que eu difficultava, e somente concedia aos que julgava, por -algum acto extraordinario, enviados por Deos para tal fim. - -A razão porque apresentavamos essas difficuldades ja o disse, por vir da -incertesa do soccorro, e do temor em que estavamos de baptisar todos os -que nos pediam, e depois deixal-os sem coadjutores, pelo que poderiam -cahir em peior estado do que se achavam anteriormente. - -Não deixavamos comtudo de trazel-os esperançados, e aproveitavamos a -occasião de instruil-os no conhecimento e amor do Omnipotente até á vinda -dos novos padres, que os acharam promptos para satisfazer suas vontades. - -Entre os que foram inspirados vivamente pelo Espirito Santo, e que -por isso baptisamos havia um indio de _Tapuitapera_, principal n’uma -aldeia antiga d’esta provincia, chamada _Marentin_, sempre grande amigo -dos francezes, de boa indole, modesto, de poucas fallas, olhos sempre -voltados para terra, tido outr’ora entre os seos por afamado barbeiro ou -feiticeiro, tendo n’elle muita fé os doentes. - -Contou-me elle e depois muitos outros, que era christão, e quando exercia -a sua arte de barbeiro era visitado por muitos espiritos folgazões, -que brincavam diante d’elle, quando embrenhava-se nos mattos, tomando -diversas cores, sem lhes fazer mal algum antes até tornando-se seos -intimos: achavam-se porem na duvida si eram espiritos bons ou maos: tal -era a sua crença n’estes espiritos bons ou maos. - -Conforme o costume tinha tres mulheres, antes de ser christão. - -Aconteceo porem, que inexperadamente viesse com muitos selvagens, seos -similhantes, de _Tapuitapera_ para vêr não só a nós como tambem as -ceremonias, com que serviamos a _Tupan_. - -Achando-se no _Forte de S. Luiz_, vio na manhã do dia seguinte (que era -domingo) os francezes vestidos com suas boas roupas, acompanhando seos -chefes em caminho para a nossa casa de S. Francisco afim de ouvirem -missa. Após estes iam os selvagens, o que o animou a seguir o prestito, -especialmente pelo desejo e intenção, que tinham, ha muitos annos de -aproximar-se de nós. - -A Capella de Sam Francisco encheo-se logo de francezes, de selvagens -christãos, e não christãos, que tinham todos especial devoção de receber -em si algumas gottas de agoa benta. - -_Marentin_, observando a pressa de todos, alcançou como poude o canto de -uma porta, trepou-se n’um banco, que ahi achou para ver á sua vontade -tudo quanto eu fazia. - -Apenas pisei nos degraos do altar, voltei-me afim de saudar a todos, e -descobrindo este selvagem acudio ao meu espirito a esperança de salval-o. - -Contou depois, como prestou attenção a todas as ceremonias, que fiz -na celebração do alto e profundo mysterio da Missa, e desejou saber -porque me revesti de alva branca, liguei a cintura, deitei o manipulo -no braço, e a estolla no pescoço: aproximei-me á direita do altar, -onde me apresentaram um vaso com agoa e sal, sobre o qual pronunciei -algumas palavras fazendo muitos signaes da Cruz; levantaram-se os -francezes, me respondiam cantando, e tendo eu um ramo de palma na mão o -mergulhei n’agoa deitando algumas gottas no altar, depois sobre mim, e -levantando-me fui aspergir os francezes começando pelos chefes e acabando -pelos que estavam na porta da Igreja, chegando tambem para esse fim -os selvagens não christãos, na convicção de que lhes serviria contra -_Jeropary_, desceo elle mesmo do banco, rompeo a multidão para receber -tambem algumas gottas d’agoa benta, o que conseguio. - -Não gosou logo esta gotta de celeste orvalho, porque as cantharidas -peçonhentas e venenosas cahiram sobre as flores de sua alma -entre-abertas, porem as abelhas industriosas de inspirações divinas -vieram reunir ahi o doce mel da raça christã, porque regressando ao seo -lugar agachou-se atraz dos outros, dormio, e durante o seo somno vio o -Ceo aberto, e para elle irem subindo muitas pessoas vestidas de branco, e -atraz d’ellas muitos _Tupinambás_ a medida, que eram por nós baptisados. - -Disseram-lhe na visita que as pessoas vestidas de branco eram _Caraybas_, -isto é, francezes ou christãos,[94] conhecedores de Deos e do baptismo -desde a mais remota antiguidade, e que os selvagens, que os acompanham, -eram lavados por nós, e acreditam em Deos, em nossas palavras e de nossas -mãos recebiam o baptismo. - -Despertando, não disse palavra, porem ficou muito pensativo e -melancolico, e assim embarcou, e foi para a sua terra. - -Chegando a sua casa todos o desconheceram, e lhe perguntaram o que -sentia, e si havia recebido alguma desfeita dos francezes em _Yviret_. - -Sem dar resposta alguma de dia para dia mais se entristecia, fugia da -companhia de seos similhantes passeando só em suas roças e bosques, -onde foi accommettido por estes espiritos loucos, cahindo depois tão -gravemente doente a ponto de chegar ás portas da morte, sempre afflicto -pela visão, que vira em _Yviret_, e pelos espiritos de que já fallei. - -Finalmente ouvio uma voz interior dizendo-lhe que se quizesse livrar-se -de tál afflicção e molestia, e ir com Deos para o Ceo convinha, antes de -morrer, lavar-se com essa agoa, que cahio n’elle quando esteve na casa de -_Tupan_ em _Yviret_. - -Obedecendo a esta voz, em madrugada alta, mandou um seo irmão ter -comnosco, e pedir-nos por intermedio do chefe dos francezes, cuja -intervenção invocou, um pouco d’agoa de _Tupan_, n’uma porção de algodão, -guardada n’um _caramémo_,[95] afim de não se perder uma só gotta para -lavar sua cabeça, e ir assim lavado para o Ceo. - -Cumprio a ordem o enviado, dando seo recado ao Sr. de Pezieux, bom -catholico, que se admirou, bem como o Sr. de Ravardiere e outros. - -O Sr. de Pezieux mandou-me este homem, com um interprete, para me dizer o -fim de sua vinda que muito me maravilhou vendo n’um selvagem tão grande -fé, misturada com temor, respeito e humildade. - -Quiz ir logo ter com elle, porem não pude, porque, como ja disse, de -todas as partes vinham diariamente muitos selvagens procurar-me, e nem -foi possivel mandar-lhe o Rvd. padre Arsenio porque estava occupado -em outro logar, e por isso mandei-lhe um francez proprio e capaz para -fazer-lhe companhia, cuidar na sua salvação e baptisal-o, sem ceremonia, -no caso de receio de morte. - -Chegando á sua casa o francez com o irmão de Marentin, disse-lhe que eu -não podia deixar a ilha, e nem o Forte de Sam Luiz por causa dos muitos -selvagens, que me vinham procurar, mas que elle vinha em meo logar afim -de o baptisar, antes de morrer, no caso d’estar tão doente á ponto de não -poder ir á ilha para ser baptisado por nossas mãos. - -Ouvindo isto recobrou forças e actividade, e disse, «visto que a coisa -é assim, não quero ser baptisado por um _Caraiba_, e sim pelas mãos dos -padres,» e nem deixou de levantar-se (embora doente e fraco a ponto -de não poder estar em pé senão com muito custo) na manhã seguinte, de -embarcar-se e vir procurar-me no _Forte_, expondo-me o seo grande desejo -de ser filho de Deos e baptisado, e de apagar as visões, que tinha na -cabeça. - -Respondi-lhe que era necessario aprender a doutrina christan o mais cedo -que podesse, deixando muitas mulheres, e contentando-se apenas com uma. - -Eram estas as duas coisas, que, entre outras, exigiamos dos adultos. - -Replicou-me, que em quanto a pluralidade de mulheres foi coisa, que nunca -approvou, e que achava de razão um homem ter uma mulher só, mas que em -beneficio de sua casa necessitava de muitas. - -Disse-lhe que podia ter muitas mulheres como servas, e não como esposas. - -Concordou n’isto facilmente, e cheio de bons desejos em poucos dias -aprendeo a doutrina christan e pedio-me, que eu o instruisse, antes de -ser baptisado, das ceremonias que com tanta attenção vio no primeiro dia, -em que foi tocado pelo espirito de Deos. - -Disse-lhe que Tupan era um grande Senhor, sempre comnosco embora não -seja visto, devendo ser servido com profunda reverencia, com ornatos e -vestidos diversos do ordinario. - -Expliquei-lhe que o primeiro vestido branco, que me vio tomar, -significava tres coisas: 1.º a innocencia e puresa, com que deviamos -apparecer diante d’elle; 2.ª o vestido de sua humanidade, proveniente do -sangue de uma virgem, de quem fallava com os homens: 3.ª para representar -o vestido de zombaria, que lhe deram seos inimigos quando quiz por nós -soffrer, ameaçando-lhe de o fazer padecer o que quizessem, embora tivesse -elle o poder de impedil-os em suas intenções. - -Disse-lhe, que a corda com que apertei a cintura, e essas tiras de -seda, que puz no braço e no pescoço representavam os ornamentos, que -deviamos dar á nossa alma para ser agradavel a Deos: a corda quer -dizer—continencia de mulheres, a tira do braço—o bem, que devemos -fazer ao proximo, e a do pescoço, onde é costume trazer-se collares e -aderesses,—o amor e a perseverança na nossa profissão, que tudo isto -junto faz lembrar as cordas com que foi preso o Salvador. - -O outro vestido de seda, que puz por cima de tudo isto, mostra o zelo ou -a salvação das almas, que devemos procurar, não nos contentando só de -ir para o Ceo, mas fazendo tudo quanto pudermos para que nos acompanhem -nossos similhantes. - -Significa tambem o segundo vestido a vestimenta de zombaria, que foi dado -a Nosso Senhor em sua Paixão. - -A respeito da agoa e do sal, sobre que pronunciei algumas palavras, -expliquei-lhe que eu o fiz para dar a agoa o poder, da parte de Deos, -de expellir o diabo do lugar e das pessoas, em que estivesse, e que a -aspersão, que eu fazia com a palma sobre os francezes era para expellir -o diabo, que andava ao redor d’elles, e que o canto, que elles entoavam -em quanto eu lhes lançava agoa benta, era uma supplica a Deos para -purifical-os de seos peccados. - -Perfeitamente instruido de todas estas coisas, concordamos baptisal-o no -dia da festa da Santissima Trindade. - -Para seo padrinho escolheo o Sr. de Pezieux, e no dia aprazado -vestiram-no com uma roupa de algodão bem alvo em respeitosa homenagem -ao Sacramento, que ia receber, isto é, a innocencia e candura baptismal -conferida sob a invocação das tres pessoas da Santissima Trindade. - -Grande numero de selvagens, principalmente de _Tapuitapera_, assistiram -a este baptismo, o que lhes fez grande impressão no espirito, vendo -este homem, seo similhante, respeitado por elles tanto por suas antigas -feitiçarias, como por sua autoridade e idade, receber, como si fosse -menino, sobre sua cabeça a agoa de Jesus Christo. - -Querendo aproveitar tão boa occasião pedi aos francezes que abrissem -caminho para que de mim se aproximassem os primeiros e os principaes -selvagens, que ahi se achassem, aos quaes dirigi a palavra por meio do -interprete. - -«Todos os dias, meos amigos, vedes em vossa terra os passaros seguirem -uns aos outros, de forma que quando uns levantam o vôo, todos os outros -os acompanham. - -«Sabeis tambem que os javalys caminham em grande companhia, sem que um só -delles se desvie dos passos dos primeiros. - -«Por experiencia conheceis que os _Paratins_, isto é, os peixes -chamados—sargos—no mar andam sempre em grandes bandos seguindo seos -conductores, de tal fórma que vindo os primeiros ao encontro de vossas -canôas, quando ides pescar, imitam-nos os outros cahindo dentro dellas e -assim apanhaes vós grande quantidade d’esses peixes. - -«O que é isto? O exemplo dos similhantes. A naturesa implantou em -tódas as creaturas vivas e intelligentes o desejo d’imitação de coisas -similhantes, conforme as differentes especies. - -«Observae agora este homem vosso similhante e principal, que si fez filho -de Deos. - -«Bem sei que trazei-nos vossos filhos, porem pensam alguns de vós que não -são capazes, por velhos, de receberem o baptismo: é um engano, porque, -como vossos filhos, podeis ser baptisados, e ir para o Ceo. Vêde diante -de nós este homem que vou baptisar, que me prometteo de ensinar os que o -quizessem ouvir. Abri os ouvidos para ouvil-o.» - -Dito isto, mandei ajoelhar-se nos degraus do altar, e recitar em vóz alta -e clara na sua lingua, e de mãos postas a doutrina christã, que para -diante será encontrada em lugar proprio. - -Comecei depois as ceremonias do baptismo, observadas com muita attenção -por todos os selvagens, recebendo o nome de Martim Francisco, lembrado -por seo padrinho por tal ou qual semelhança com o seo antigo nome de -_Marentin_, fazendo assim geralmente conhecido pelos selvagens tal -conversão. - -Acabado isto, mandei-o sentar junto de seo Padrinho, e comecei a -celebração da missa, que ouvio com toda a devoção, de mãos postas, e na -occasião de levantar-se a Hostia ajoelhou-se, como os outros, recitou a -oração dominical e o credo em quanto vio os francezes tambem de joelhos. - -Passados alguns dias quiz regressar á sua aldeia, tendo alcançado a -saude do corpo e da alma, e despedindo de nossos chefes e de mim, nós o -mimoseamos com rosarios, imagens, _Agnus Dei_ e bentinhos. - -Recommendamos muito, que depois de orar a Deos, resasse tambem para a -Virgem Maria, Mãe de Jesus Christo, recitando em sua lingua _Ave Maria_ -tantas vezes quantas fossem as contas do seo rosario, e a oração -dominical tantas quantas fossem as contas grandes. - -Tomou tal devoção com a Santissima Mãe de Deos que trazia sempre ao -pescoço o seo rosario, que beijava muitas vezes, e quando queria orar a -Deos elle o tirava e fazia o que lhe ensinamos. - -Antes de partir disse-me que só tinha um filho, que me traria no seo -regresso para eu vel-o, e quando estivesse instruido na doutrina christã, -eu o baptisaria e elle o daria aos Padres para ficar sempre com elles. - -Prometteo igualmente escolher uma das suas tres mulheres, com certesa a -mãe do seo filho, si ella quizesse ser christã como elle, conservando as -outras como servas. - -Bem compromettido com estas promessas, embarcou para _Tapuitapera_ em -procura de sua aldeia e de sua casa. - - - - -CAPITULO IV - -Do que fez este christão em beneficio da instrucção e conversão dos seos -similhantes. - - -Nada ha mais bravio e mais difficil para domesticar-se do que a -phanthéra, ainda mais por ser de naturesa furiosa para com os animaes das -florestas, que ella ataca e despedaça no primeiro encontro. - -Ao contrario, quando se sente grávida, torna-se mais favoravel, exhala -bom cheiro pelos poros do seo corpo, e muda sua voz de cruel para branda, -como que convidando os outros animaes a seguil-a, o que fazem. - -A nação dos _Tupinambás_ era uma verdadeira panthéra, cruel como nenhuma, -segundo mostra o seo procedimento devorando seos inimigos. Apenas -appareceo a graça sobre estas terras, mudaram em doçura sua crueldade; -seos discursos desesperados em salutares; seos cheiros putridos, -provenientes de seus fumeiros em outros agradaveis, approximando-se aos -de Jesus Christo, transbordando de amor para com o proximo, desejando-lhe -fazer o mesmo que elles receberam, inspirados pela concepção espiritual -das graças de Deos no fundo de sua alma, como se lê nos _Canticos_ I. -_Oleum effusum nomen tuum, idéo adolescentulæ dilexerunt te nimis_: e -pouco depois, _Trahe me post te, curremus in odorem unguentorum tuorum_: -«teo nome, ó Salvador do Mundo, e o teo conhecimento é um balsamo -derramado, por cuja influencia e cheiro sentem-se as novas almas cheias -de teo amor, e todas se dedicam a adquerir-te.» - -Martinho Francisco entre os outros selvagens executou esta doutrina, -porque apenas chegou a aldeia principiou a fallar a seos visinhos, e -d’ahi caminhando para outras aldeias da provincia de _Tapuitapéra_, -sempre das grandezas de Deos e das graças que elle recebeo. Apresentava -sempre aos olhos dos selvagens a desgraça dos seos antepassados, que -tinham fallecido nas crenças de _Jeropary_, e a felicidade, que gozavam -os que se baptisavam e se faziam filhos de Deos. - -Taes conversas produziram effeito, muitos procuraram a fonte de salvação -para n’ella beber, e sugar o leite do peito de Jesus-Christo, como elle o -fez e se conta do Unicorne, que procurando as agoas, distantes do veneno, -por acaso foi tocado até o coração pela suavidade do canto de uma joven -donzella[96] deitada sob os ramos floridos das arvores da floresta, o que -livrou este animal de sua furia natural e o aproximou do peito d’aquella -que o commoveo. - -O Unicorne, grato e não avaro do bem recebido, desejoso de que seos -similhantes tambem o partilhem, vae procural-os no centro dos bosques, -e por todas as sortes e gestos convidam-nos a seguil-o afim de tomarem -parte na sua felicidade. - -A joven donzella representa a esposa de Jesus Christo, a santa igreja, -seo canto harmonioso a prédica do Evangelho, seo peito, onde são -acolhidos os proprios animaes irracionaes, a misericordia divina com -todo o seo poder, as agoas sem veneno, os sagrados sacramentos, o -feroz Unicorne, os infieis, e Martinho Francisco, por seos discursos e -exemplos, foi a primeira acquisição, seguida de muitas outras. - -Não se tinham passados seis mezes, e ja se experimentavam grandes -effeitos, porque tendo elle convertido e instruido muitos habitantes -de _Tapuitapéra_ de todas as idades, mandou-nos os mais instruidos e -intelligentes ao Forte de Sam Luiz para serem baptisados, o que fez, -depois de os reter comigo por algum tempo para experimental-os em seos -desejos. - -Augmentando-se diariamente o numero dos catecumenos em _Tapuitapéra_ foi -necessario ahi ir o Rvd. padre Arsenio para baptisar muitos d’elles, -dignos d’essa graça tanto pelo seo desejo, como pela sua instrucção -christã. - -Tinha Martinho edificado uma Capella, e junto d’ella uma casa, no meio de -sua aldeia, com o auxilio dos outros christãos e selvagens ahi residentes. - -Benzeo o padre a Capella, e tomou conta da casa, onde foi vesitado e -sustentado em quanto ahi esteve, por christãos e selvagens. - -Depois que baptisou os que para isso julgou aptos, foi vêr algumas -aldeias da provincia, e o seo principal soberano, e por toda a parte -foi muito bem acolhido, manifestando todos em geral o desejo de serem -christãos, e de terem padres em suas aldeias. - -Alcançou o bom homem Martinho Francisco nome honroso, dado pelos -habitantes de _Tapuitapéra_ em recompensa de seos trabalhos e fadigas -para fazel-os christãos por ter sido entre elles o primeiro christão, e -por saberem quanto nós o estimavamos. - -Chamaram-no _Pai-miry_, «Padre pequeno ou o vigario dos Padres,» e na -verdade bem merecia tal nome, porque desde que se fez christão nunca mais -se descobrio n’elle vestigios do antigo homem, ou os máos costumes dos -selvagens. Era grave, modesto, pouco fallador e raras vezes ria-se, e -nada fazia que parecesse ser contrario ao christianismo. - -Era este o regimen de vida que observava, e como mais velho fazia -observar aos outros christãos: - -1.º Pela manhã e á tarde reuniam-se todos na Capella: levantava-se um -d’elles, ajoelhavam-se outros, e depois dizia um em seo idioma «_em -nome do Pai, do Filho, e do Espirito Santo_» e fazia o signal da Cruz, -na testa, na bocca e nos peitos, no que era pelos outros imitado: -punha depois as mãos, fixava a vista no altar, e recitava pausada -e distinctamente a oração dominical, o symbolo dos Apostolos, os -mandamentos de Deos e da Igreja, o que findo, si tinha alguma advertencia -a fazer aproveitava a occasião, sinão, recolhia-se cada um á sua casa. - -2.º Viviam em commum quando se achavam juntos, e para isso traziam o -resultado de suas pescarias e caçadas para serem igualmente dividido -entre elles, e antes de comerem, o mais velho recitava em sua linguagem -o _Benedicite_, fazendo o signal da Cruz sobre si, e sobre as iguarias: -tiravam todos o chapeo, faziam em si o mesmo signal e ninguem tocava na -comida antes de abençoada. - -Em quanto comiam não contavam coisas más ou que excitasse o riso, como -fazem os Tupinambás; porem o mais velho dizia alguma coisa á respeito de -Deos e da Religião. - -3.º Nunca iam aos _cauins_ e reuniões, conforme costumavam os -_Tupinambás_: era um dos pontos principaes, que Martinho Francisco -gravava no coração dos convertidos, isto é, que os _cauins_ eram -inventados por _Jeropary_ para semeiar a discordia entre elles, e fazer -com que praticassem toda a especie de males os que os frequentassem, -sendo impossivel amar a Deos quem gostasse de _cauins_, porque, dizia -elle, quando descubro, que alguns dos meos similhantes se retiram das -_cauinagens_, agouro que bem depressa serão christãos e vou procural-os; -mas não tenho animo para fazer o mesmo aos que frequentam taes orgias. - -O que elle dizia era verdade por ser horrivel espectaculo vêr essas -gentes em reuniões, parecendo antes congresso nocturno de feiticeiros do -que ajuntamento de homens. - -Achei-me apenas uma só vez n’estas reuniões para d’ellas poder fallar, e -nunca mais lá tornei. - -Via aqui uns deitados em suas redes vomitando com muita força, outro -caminhando ou marchando em diversos sentidos com o juiso perdido pelo -vinho, ali outros gritando, fazendo mil tregeitos, estes dançando ao -som do _maracá_, aquelles bebendo com muito boa vontade, aquell’outros -fumando para mais se embriagarem, e o que ainda é peior, é estarem -mulheres e moças ahi misturadas parecendo bem difficil a presença de -Bacho sem Venus. - -Por minha vontade os francezes deviam fazer o que fizeram os portuguezes, -isto é, prohibir todas estas _cauinagens_: os portuguezes, depois -que habitaram algum tempo na India, reconheceram, que um dos maiores -embaraços para a propagação do christianismo eram essas reuniões -diabolicas, de que procedem todas as discordias e desgraças entre os -selvagens. - -4.º Vestem-se estes novos christãos o melhor que podem, caminham todos -juntos, não trazem flechas e nem arcos, excepto quando vão á caça ou a -pesca, contentando-se em trazer um cacete de uma especie de ebano, negro -ou vermelho, com que se distinguem facilmente dos outros. - -Quando vão a outras aldeias, si encontram algum christão, recolhem-se á -casa d’elle, contentam-se com o que tem e vivem sóbriamente como tanto -convem a um christão. - - - - -CAPITULO V - -De um Indio, condemnado á morte, que pedio o baptismo antes de morrer. - - -Não se acreditaria, si a experiencia não o tivesse confirmado, que -vendo-se simplesmente por fora a concha de uma ostra marinha coberta e -suja de lama e lodo, que ella em si ja tivesse uma perola preciosa digna -de ser collocada no gabinete dos principes. - -Quem poderá crer, que um selvagem iniquo, impuro, e immundo, como não -posso dizer, embora creia que o proprio diabo, author de taes traças, se -envergonhe d’isto, não tenha inimisade e soberba contra o soberano, que o -tira d’isto? - -Quem poderá, digo eu, crer, que tal individuo, por determinação da divina -Providencia, fosse escolhido para o reino do Ceo, e tirado d’esses -abysmos infernaes, para receber (na hora da morte, bem merecidas por -suas torpezas) o sagrado baptismo, que o lava de todas as máculas, e lhe -proporciona facil e franca entrada no Paraiso? - -Um pobre indio, bruto, mais cavallo do que homem, fugio para o matto por -ouvir dizer, que os francezes o procuravam e aos seos similhantes para -matal-os e purificar a terra de suas maldades por meio da santidade do -Evangelho, da candura, da puresa, e da claresa da Religião Catholica -Apostolica Romana. - -Apenas foi apanhado amarraram-no, e trouxeram-no com segurança ao Forte -de Sam Luiz, onde deitaram-lhe ferros aos pés: vigiaram-no bem até -que chegassem os principaes de outras aldeias para assistirem ao seo -processo, e proferirem sua sentença, como fizeram a final. - -Não esperou o prisioneiro pelo principio do processo, e elle mesmo -sentenciou-se, porque diante de todos disse, «vou morrer, e bem o mereço, -porem desejo que igual fim tenham os meos cumplices.» - -Terminado o processo e proferida a sentença, cuidou-se em sua alma -dizendo-se-lhe, que si elle recebesse o baptismo, apesar de sua má vida -passada, iria direito para o Ceo apenas sua alma se desprendesse do corpo. - -Acreditou nossas palavras, e pedio o baptismo: para tal fim veio o Sr. -de Pezieux procurar-me em nossa casa de S. Francisco em Maranhão, e -conversando si devia ser eu quem o baptisasse, resolvemos negativamente -pelas seguintes razões: - -Pensavam os selvagens que nós outros padres eram pessoas misericordiosas -e compassivas, que expontaneamente empregavamos nossos esforços perante -os grandes para alcançar a vida dos condemnados: que os grandes nos -estimavam, e nada nos negavam, e que, alem d’isto, nós prégavamos, -que Deos não queria a morte e sim a vida do peccador, e que por isso -tinhamos vindo aqui para dar essa vida de forma que, si eu o baptisasse -publicamente, antes d’elle morrer, teria satisfeito muitos caprichos -d’estes espiritos debeis e incapazes a respeito da opinião, que formavam -de nós e que seria muito prejudicial a nossas intenções dando alem d’isso -causa a varias murmurações dos selvagens, que diziam—«si os padres -gostam da vida, porque deixam este christão ir morrer? Si amam tanto os -christãos porque não amam este? Si os grandes nada lhes negam, porque não -pedem a vida d’este?» - -Por tudo isto, e por outras razões, que omitto, decidimos ser conveniente -e necessario, que eu não o baptisasse. Roguei pois ao dito senhor que, -depois de instruil-o pelos interpretes, o baptisasse antes de ir ao -supplicio, sem as ceremonias da igreja o que se prestou e cumprio. - -Recebeo, com tranquilidade e sem tristeza, na presença dos principaes -selvagens o baptismo, depois do que um dos Principaes, chamado -_Karuatapiran_ «Cardo vermelho,» de quem ainda fallarei, lhe disse estas -palavras: - -«Tens agora occasião de estares consolado e de não te affligires, pois -presentemente és filho de Deos pelo baptismo, que recebeste da mão de -_Tatu-uaçu_ (nome do Sr. de Pezieux em sua lingua) com permissão dos -Padres. Morres por teos crimes, approvamos tua morte, e eu mesmo quero -pôr o fogo na peça para que saibam e vejam os francezes, que detestamos -tuas maldades; mas repara na bondade de Deos e dos Padres para comtigo, -expellindo Jeropary para longe de ti por meio do baptismo de maneira que -apenas tua alma sahir do corpo vae direita para o Ceo vêr _Tupan_ e viver -com os _Caraibas_, que o cercam: quando _Tupan_ mandar alguem tomar teo -corpo, si quizeres ter no Ceo os cabellos compridos e o corpo de mulher -antes do que o de um homem, pede a _Tupan_, que te dê o corpo de mulher e -resuscitarás mulher, e lá no Ceo ficarás ao lado das mulheres e não dos -homens.» - -Desculpareis este pobre selvagem, não christão e nem cathecumeno, -fallando da Resurreição. Elle nos ouvio ensinar que n’um dia -resuscitariam todos os homens, regressando cada alma do lugar em -que estava para occupar o seo corpo, acrescentando o que pensou ser -indifferente á Resurreição, isto é, que uma alma recebe um corpo de homem -ou de mulher, no que se enganou não se deixando em pé tal ideia falsa, -pois elle e o paciente foram instruidos da verdade: julguei acertado -referir aqui simplesmente o que se passou para que o leitor reconheça -sempre quanto sou fiel em minhas descripções, como ja disse, e provarei -sempre nos discursos, que ainda hei de transcrever. - -Este infeliz condemnado recebeo as consolações de muito boa vontade, e -antes de caminhar para o supplicio disse aos que o acompanhavam: «vou -morrer, não mais os verei, não tenho mais medo de _Jeropary_ pois sou -filho de Deos, não tenho que prover-me de fogo, de farinha, de agoa, e -nem de ferramenta alguma para viajar alem das montanhas, onde cuidaes que -estão dançando vossos paes. Dae-me porem um pouco de _Petum_ para que eu -morra alegremente, com voz e sem medo.» - -Deram-lhe o que elle pedio, á similhança dos que vão ser justiçados, aos -quaes tambem se dá pão e vinho, costume não d’agora, e sim desde a mais -remota antiguidade, pois então se offerecia aos criminosos vinho com -myrrha e opio para provocar o somno dos pacientes. - -Feito isto, levaram-no para junto da peça montada na muralha do Forte -de S. Luiz, junto ao mar, amarraram-no pela cintura á bocca da peça, -e o _Cardo vermelho_ lançou fogo á escorva, em presença de todos os -Principaes, dos selvagens e dos francezes, e immediatamente a bala -dividio o corpo em duas porções, cahindo uma ao pé da muralha, e outra no -mar, onde nunca mais foi encontrada. - -Quanto a sua alma, é de crer que os anjos a levassem ao Ceo, pois morreo -logo depois de haver recebido as agoas do baptismo, certesa infallivel da -salvação d’aquelles, a quem Deos concedeo tal graça, não pequena e nem -commum, porem tão rara como o arrependimento do bom ladrão na Cruz, que -tendo vivido sempre desregradamente até chegar áquelle logar, recebeo -comtudo esta promessa de Jesus Christo—_Hodie mecum eris in Paradiso_, -«hoje estarás commigo no Paraiso»: outro tanto podemos dizer d’esse -infeliz e desgraçado indio, que nos deo tão bella occasião d’admirar e de -adorar os juizos de Deos. - -_Karuatapiran_, o algoz, com gestos e palavras mostrava grande -contentamento e alegria perante os francezes por haver recebido tal -honra, que apreciava muito mais do que as que sua Nação cheia de abusos -dá aos que publicamente matam os prisioneiros, sendo essas consideradas -as maiores existentes entre elles, e um favor não pequeno aos mancebos, -quando escolhidos para tal fim, pois é uma especie de accesso de grandeza -para ser um dia Principal. - -Por tudo isto o grande _Karuatapiran_ exaltava-se d’este seo feito e -d’elle se servia para se fazer timido dizendo por todas as aldeias por -onde andava, o que tinha feito, asseverando ser irmão dos francezes, seo -defensor e exterminador dos maus e dos rebeldes. - - - - -CAPITULO VI - -Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens, quando nos vinham -vêr, para chamal-os ao conhecimento de Deos e á obediencia de nosso Rei. - - -O meio pelo qual outr’ora os Athenienses chamavam os povos ao -conhecimento da Philosophia, e á obediencia de uma Republica, era -representado pelo simulacro do seo _Palladium_, que fingiam ser trazido -do Ceo, e por elles collocado no lugar mais alto de sua cidade. - -Tal era o idolo de Pallas, armado dos pés até a cabeça, correndo de -sua bocca raios de mel, que cahiam sobre seos ouvintes e expectadores, -produzindo-lhes doce somno. - -Ensinaram os Druidas a mesma coisa aos Gaulezes levantando a estatua de -Hercules no frontespicio de seos Templos, tendo na sua cabeça a cabeça de -um leão, e nas espaduas a clava de suas victorias, sahindo de sua bocca -uma especie de hera, porem de oiro, que prendia pelas orelhas homens e -mulheres, moços e velhos afim de attrahil-os a si. - -Com isto queriam os Athenienses e os Gaulezes dizer, que os homens são -attrahidos pela doçura e pela razão á obediencia das leis divinas e -humanas, na qual se conservam por meio das armas, sustentadas pelos -soberanos para a conservação dos seos vassallos. - -O primeiro d’estes dois fins nos pertencia desde que Sua Magestade e os -nossos Padres nos remetteram para cá á fim de chamarmos ao conhecimento -de Deos estas pobres almas selvagens, que, antes de começarmos a -cathequisal-as, reconhecemol-as anciosas por doçura, e por isso -combinamos pautar por ella nossas palavras e acções, com que sempre nos -démos muito bem. - -Já tinha lido no cantico primeiro, que entre os ornamentos dados -por Jesus Christo á sua Igreja, a mansidão e a clemencia para com -os peccadores e infieis era um dos primeiros deveres conforme estas -palavras: _Murenulas aureas faciemus tibi vermiculatus argento_ «nós te -faremos collares de oiro, torcidos como pequenas lampreias, esmaltadas de -fios de prata em forma de vermesinho para mais fazer realçar a bellesa do -oiro.» - -Dizem os Septenta—_Simulachra auri faciemus tibi, cum vermiculacionibus -argenti_; «nós te faremos pequenas estatuas de oiro fino, esmaltadas de -fio de prata do feitio de vermesinhos.» - -Accrescenta Rabbi Jonathas que taes eram as taboas de Saphira, em que -estavam gravados os mandamentos da lei de Deos porque a luz da gloria do -Doador dava á saphyra diaphana a côr de oiro, e a escripta gravada em -linha pelo dedo de Deos formava o esmalte em pequenas lampreias ou vermes -da terra. - -Quem não diria que ha intelligencia entre estas ceremonias divinas e as -dos Athenienses e Gaulezes, visto significar-nos umas e outras, por meio -de estatuas e cadeias de oiro, a força e o poder da doçura para subjugar -as almas mais barbaras á obediencia das leis de Deos. - -Não é sem rasão, que Jesus Christo ornou os collares de oiro de sua -esposa com figuras de vermes da terra, e de pequenas lampreias, visto que -elle mesmo se fez verme para chamar a si os vermes, e misturou-se com a -terra para se juntar com os vermes, que ahi achasse. - -Assim como as lampreias não repellem as serpentes por que podem causar -medo com o veneno, que estas vomitarem, assim tambem Jesus Christo não -despresa os homens, pobres serpentes, comtanto que estes se despojem do -seo veneno. - -Si o Mestre fez isto, o que devem fazer os obscuros discipulos de Sua -Magestade? - -Quem se offerece a servir a Deos na conversão dos selvagens deve modelar -suas palavras e acções pela doçura, de que sempre usou Jesus Christo na -terra. - -Eram estes os artigos de nossas conferencias com os selvagens. - -1. Procuravamos convencel-os, que eramos seos amigos, e amigos fieis, -mais que seos paes, mães, e outros parentes, dizendo-lhes estas e outras -palavras _pera-uçu_, _pare koroyco_ «somos vossos amigos, vossos intimos.» - -Com taes expressões alegraram-se muito, e cheios de confiança vinham -conversar comnosco a ponto de tornarem-se importunos, não nos permittindo -descanço algum, e só nos olhando e observando até os nossos menores -gestos. - -Vou dar-vos alguns exemplos. - -Um dia de paschoa, depois do serviço, ao qual assistiram muitos -selvagens, tanto de _Tapuitapera_ como da _Ilha_, quiz recolher-me para -meditar no sermão, que devia prégar depois do jantar, e para isto mandei -fechar as portas de nossa casa para que ninguem entrasse durante esse -pouco tempo até a hora da prédica, porem os selvagens impacientes, para -entrarem, rodeiaram a casa duas ou tres vezes buscando uma abertura, e -afinal quebraram algumas estacas e por ahi passaram. - -Mostrei-lhes má cara significando o meo descontentamento pelo que haviam -feito, e lhes perguntei porque eram tão importunos? - -Responderam-me «porque tinhamos vontade de te vêr, e fallar comtigo -livremente, na ausencia dos francezes, e para esse fim viemos de -proposito». Á vista d’isto não tive outro remedio senão atural-os. - -Quando eu orava sosinho na nossa Capella, com as portas fechadas, rompiam -o panno de Guiné, com que forramos a Igrejinha para vêr o que fazia eu -ajoelhado defronte do Altar, e diziam uns para os outros _ygneém Tupan_ -«falla com Deos», e d’ahi não sahiam em quanto eu rezava. - -Para livrar-me d’estas importunações mandei construir uma cerca ao redor -da nossa casa e Capella de S. Francisco, muito forte, e entremeiada com -ramos de palmeira espinhosa, assim conhecida por ter espinhos maiores do -que o comprimento de um dedo, e embora tudo isto achavam meios de entrar -e de me procurarem. - -Ao escrever isto recorda-me o dito de Antalcide, escripto por Plutarcho -no tratado dos _Apophtegmas Laconicos_, «quem quizer ganhar a amisade dos -homens, deve ter na lingua um regato de mel, e nas mãos muitos fructos» -isto é—palavras doces e serviços conforme ás palavras. - -Mais não podiamos fazer para com estes selvagens do que captarmos -sua amisade por palavras doceis, e fazer-lhes conhecer a Deos e os -sacramentos da Igreja, unicos fructos da Paixão de Jesus Christo. - -Ælian, no livro 14 de suas _Historias diversas_, disse, que «Epaminondas -se admiraria muito se sahisse do seo palacio para misturar-se com o povo, -e não adquirisse um novo amigo para juntal-o aos seos amigos.» - -Não nos seria necessario ir a 200 e nem a 300 legoas afim de conquistar -novos amigos para Jesus Christo, porque viriam por si mesmos offerecer-se -para isso. - -Gelius no livro 1º cap. 3º conta, que Pericles, um dos grandes do -Areopago de Athenas, terminava a amisade dos homens junto aos altares dos -Deoses, porem nunca fallou da amisade divina entre Deos e os homens, -estabelecida e enraisada sobre os altares, porque pagão, como era, não -podia comprehender a força e o vigor de tal amor, similhante ao do -proprio centro, onde cada creatura tem o destino de viver e descançar. - -O poderoso rei Darius recebeu em presente de um seu amigo uma bella romã, -que partio ao meio, e admirando a bellesa e o numero dos seos grãosinhos -disse aos que com elle estavam—por minha vontade eu teria tantos Zopiros, -(nome do seo mais intimo amigo) quanto ha de grãos n’esta romã. - -Não foi pequena graça, e nem pequeno privilegio, que Deos fez á Ordem -Seraphica de São Francisco dando-lhe a faca da palavra para abrir o pomo -ainda inteiro e fechado das terras de Maranhão afim de apresentar a Jesus -Christo milhões de almas, não só para com Elle se conciliarem, mas tambem -para um dia lhe serem fieis esposas. - -Deos inspirou a Salomão, no liv. 4º dos Reis, cap. 29, fazer os capiteis -das columnas com arame, semeiado de romãs, indicando assim a missão do -Evangelho para com as nações infieis, servindo para agarrar os peixes -fugitivos por meio de uma eloquencia docil, e as romãs para ligal-os e -unil-os pelo amor de Jesus Christo ao resto dos fieis, não havendo nada -mais forte para obter o accordo que o proprio amor. - -Eis a razão porque julguei ser absolutamente necessario fazer conhecer -a estes selvagens, que nós os amavamos terna e infinitamente, que lhes -offereciamos nossas pessoas e bens, dizendo-lhes _ore-mae pémareamo_ -«tudo o que temos é vosso.» - -Por isto quando tinhamos muitos peixes, o que acontecia ordinariamente, -lhes davamos todos, especialmente aos _Tabajares_, recem-chegados -á _Ilha_, ainda necessitados de tudo, por não terem feito roças, -especialmente os nossos visinhos. - -2.º Nós lhes expunhamos os fructos e os emolumentos, que deviam esperar -de nossa amisade, isto é, reforma em sua vida, conhecimento do verdadeiro -Deos, defesa do nosso rei contra seos inimigos, o qual não deixaria de -enviar-lhes homens e armas conforme necessitassem. _Pe moé Koroiut, -pere Koramrecé: Tupan mombe-ouane koroiut peam: yande mogna gare, rhé, -opap katu, ahé maé mognan. Yangaturan: yandé renonde vuac ueriko: ahé -gneem rupi yané rekormé. Pepusurom peamo tareumbare soiy yauaeté oreru -vichaue: Pepusurum okat araia oboure uaia pepusurô anuam_; quer isto -dizer—«Nós vos ensinamos a viver mais para a vossa felicidade: queremos -ensinar-vos o verdadeiro Deos, creador do universo, infinitamente bom, e -que nos prometteo o Ceo si n’esta vida fizermos o que elle diz. Viemos -defender-vos de vossos inimigos. Nosso rei, que é forte e poderoso, vos -dará sempre soccorro de armas e de homens.» - -Prestavam muita attenção ao que diziamos, e nos respondiam que os -francezes sempre os haviam auxiliado; que tinham vindo agora por ordem do -rei para tiral-os das cadeias de _Jeropary_, que não duvidavam aprender -grandes coisas á respeito de Deos, especialmente quando ja soubessemos -sua lingua, porque os interpretes, diziam elles, não fallam como vós -á Deos. Não nos podem dizer outra coisa, porem se fallasseis comnosco -vós nos dirieis o que Deos vos disser. Nossos filhos serão mais felizes -do que nós, porque comvosco aprenderão a lingua francesa, como nos -promettestes, e assim terão mais conhecimento de Deos do que nós, que ja -somos velhos. - -Nós o que temos feito é correr e andar errantes pelos bosques adiante -dos _Peros_[97] tendo por alimento apenas raizes de arvores. Nossos -filhos estarão seguros contra seos inimigos, os francezes se unirão -á nossas filhas, e nossos filhos ás filhas dos francezes, e assim -seremos parentes: ficareis comnosco, em nossas aldeias, e sereis nossos -padres _Tupan_ os amará, e _Jeropary_ nada poderá contra elles. Haverá -abundancia de viveres e nunca se sentirá falta de mercadorias francezas. - -Oh! quanto serão felizes! porem nós não veremos estas coisas. - -O imperador Vespasiano e tambem Domiciano, quando entravam n’um paiz -novo para ahi estabelecer Colonias Romanas, tinham por costume mandar -fundir em bronze a Fé e os seos fructos, que publicamente promettiam a -todos, representando uma dama, que estendia a mão direita, symbolo da Fé, -trazendo na esquerda a cornucopia da abundancia, cheia de toda a especie -de fructos, e tinham este mesmo carimbo o dinheiro, que ahi faziam correr -assegurando por esta fórma a sua fidelidade para com estes povos, de que -resultaria muitos bens e commodidades á sua nação. - -Tomae, se quizerdes, por esta dama a Santa Igreja entrando pela primeira -vez n’estas terras barbaras, estendendo sua mão direita para prometter -aos seos habitantes a fé de Jesus Christo, seo esposo, e a fidelidade de -seos sectarios, que não se poupam a trabalhos, e arriscam até a propria -vida para ajudal-a na salvação d’ellas. - -Os fructos, que ella lhes offerecia, eram os sacramentos, o conhecimento -de Deos e das coisas divinas. - -Tomae tambem, si quizerdes, por esta mesma Dama, a França plantando -pela primeira vez seos lyrios n’estas regiões e paizes do Brazil, dando -com a mão direita a segurança de defender e conservar estes selvagens -obedientes á sua corôa, e com a esquerda os fructos provenientes do -commercio entre ella e o Brazil. - - - - -CAPITULO VII - -Formulario da doutrina christã, que aprendiam e recitavam de cór, antes -de serem baptisados. - - -No Levitico 1.º, e em outro lugar lemos, que antes da victima escolhida -ser levada ao altar devia aquelle, que a apresentava, pôr suas mãos na -cabeça entre os cornos. - -Accrescentam outros, que esses cornos eram enfeitados de flores de junco -marinho, (cujos espinhos, e não flores, foram postos na cabeça de Jesus -Christo, offerecido em holocausto sobre a Cruz) e então os sacerdotes -agarravam a victima, e a lavavam n’um grande vaso de bronze chamado -_mar_. Representa isto os novos cathecumenos, desejosos de serem lavados -pelo baptismo, e offerecidos diante do altar do Redemptor. - -A primeira coisa, que se exige d’estes cathecumenos, é que ponham as -mãos sobre a cabeça: as mãos são os hyerogliphos das obras, e a cabeça a -séde do espirito e do entendimento. A primeira coisa portanto necessaria -á estes noviços da fé christã é a operação do entendimento; quero com -esta expressão dizer, que elles saibam e entendam o que pretendem crêr -e prometter, e torcer os cornos da curiosidade e o proprio juizo dos -orgulhosos possuidores do Junco marinho, corôa dos deoses, por meio da -obediencia á Revelação divina. É o que pediamos aos adultos antes de -conferir-lhes o baptismo, e nenhum o conseguia sem primeiro conhecer bem -isto, por acto obrigatorio, a que deveriam tambem assistir os christãos, -ignorantes de sua fé e profissão. - - -DOUTRINA CHRISTÃ - -_na lingua dos Tupinambás[98] e em francez, e, em primeiro lugar a oração -dominical_ - - _Ore-ruuc vuac peté cuare,_ - Padre nosso, que estás no Ceo, - _y moe-tepoire derere-toico_ - sanctificado seja teo nome, - _to-ure de reigne_ - venha nós o teo reino, - _teié-mognan deremimotare yboipé vaacpe iémognan eaue,_ - seja feita a tua vontade assim na terra como no Ceo. - _oreremiu-areduare eimé iury oreue,_ - dae-nos hoje o pão quotidiano, - _de-eiuru oré yangaypaue reçe,_ - perdôa nossas offensas, - _ore recome-moçaré supè ore-ieuron eaue_ - como nós perdoamos aos que nos offendem - _moar-ocar humé yepé tecomemo-pupé_ - não nos deixeis cahir em tentação - _oré pessuron peyepé mae ayue suy._ - mas livrae-nos do mal. Amen Jesus. - -SAUDAÇÃO ANGELICA. - - _Ave Maria gratia, resse tonussen väé,_ - Eu te saudo Maria, de graça cheia, - _Deyron yandé yaré-reco_ - o Senhor é comtigo, - _ymonbeu katu poïre aue edereico kugnan suy_ - benta és tú entre as mulheres. - _ymonbeau katu poïre aue demeinboïre Jesus._ - bento é o fructo do teo ventre, Jesus. - -ORAÇÃO A VIRGEM. - - _Santa Maria Tupan seu_ - Santa Maria mãe de Deos - _hé Tupan mongueta ore yangaypaue vaë ressé_ - rogae a Deos por nós peccadores - _cohu yran ore-requi ore-rumeué_ - agora, e na hora de nossa morte. Amen Jesus. - -O SYMBOLO DOS APOSTOLOS. - - _Arobiar Tupan_ - Creio em Deos - _tuue opap katu maeté tiruan_ - padre todo poderoso - _mognangare vuac_ - creador do Ceo - _mognangare ybuy_ - creador da terra - _Jesus-Christo tayre oyepe vac_ - em Jesus Christo, seo filho unico - _ahe Sainct Esprit, demognan pitan amo_ - que foi concebido do Espirito Santo - _ahé poïre oart Sainct Marie, suy_ - e nasceo da Virgem Maria - _Ponce Pilate muruuichaue amoseico sericomemo poïre amo_ - padeceo sob poder de Poncio Pilatos, presidente - _yiuca poire amo yuira_ - morreo sobre o madeiro da Cruz - _ioasaue ressé_ - morreo - _ymoiar ypoire ytemim buire amo_ - foi amortalhado e enterrado no sepulchro - _ouue ieuue euue apeterpé_ - desceo aos infernos - _ahé sui turiare mossa poire ressé uue ombueue sui. Secobé yereie-buire_ - ao terceiro dia resurgio dos mortos - _oié upire vuacpé_ - subio ao Ceo - _Tupan tuue opap-katu maeté tiruan mognangare katu aue cotu seua_ - está assentado á direita de Deos, seo Pae Omnipotente - _ahé sui turiné ycobé vãe omano vãe poire paué recomognan_ - de lá virá a julgar vivos e mortos. - _Arobiar Saincte eglise catholique_ - Creio na Santa Igreja Catholica, - _arobiar Saincte tecokatu demosaoc morupé_ - creio na communhão dos Santos - _arobiar teco-engay paue ressé morupé Tupan deuron_ - creio na remissão dos peccados por Deos - _arobiar asé-recobé iebure_ - creio na resurreição da carne - _arobiar teiubé opauaaerem-eim-rerecoe nuame_ - creio na vida eterna. Amen Jesus. - -OS DEZ MANDAMENTOS. - - _1.º Ymoeté yepé Tupan._ - I Honra um só Deos - _2.º Aytè ereté netieume poire renoy teigné._ - II Não jurarás em vão o nome de teo Deos. - _3.º Ymoeté dimanche are maratecuare eum aue._ - III Honra e sanctifica o domingo, dia de repouso. - _4.º Ymoeté deruue desseu eaue._ - IV Honra teo pae e tua mãe. - _5.º Eparapiti humé._ - V Tu não matarás. - _6.º Eporopotare humé._ - VI Tu guardarás castidade. - _7.º Emonmaron humé._ - VII Tu não furtarás. - _8.º Teremoen humé aua ressé._ - VIII Tu não levantarás falso testemunho contra teo proximo. - _9.º Yemonmotare humé aua remerico ressé._ - IX Tu não conhecerás a mulher de outrem. - _10. Yemonmotare humé aua mae ressé._ - X Tu não cubiçarás coisas alheias. - -RESUMO DOS MANDAMENTOS DE DEOS. - - _1.º Opap katu maeté tiruan sosay asé Tupan rausuué._ - Sobre todas as cousas amarás a Deos. - _2.º Oie ausuue eaué asé uua pichare raussuue._ - Ama teo proximo como a ti mesmo. - -OS MANDAMENTOS DA SANTA IGREJA. - - _1.º Arve maratecuare ehumé messe renduue._ - Ouve missa nos dias de festa. - _2.º Sei hu iauion yemonbeu._ - Todos os annos ao menos uma vez confessa teos peccados. - _3.º Tupan rare pacques iauion._ - Teo Deos pela paschoa commungarás. - _4.º Iecuacuue iauion erecucuue._ - Tu guardarás jejuns pela quaresma e vigilias. - _5.º Aiamion asé mae moiaoc._ - Pagarás os dizimos. - -OS SETE SACRAMENTOS. - - _1.º Iemongaraiue._ - Baptismo. - _2.º Asé seurap aua reu assu yendu karaiue non._ - Receberás na testa o santo oleo pela mão do Bispo. - _3.º Asé-reon yanondé Tupan rare._ - Antes de morrer receberás o corpo de Deos. - _5.º Oyekoacuue, oyemonbeu._ - Penitencia, confissão. - _6.º Oyemo-auare._ - Ordem. - _7.º Mendar._ - Casamento. - - - - -CAPITULO VIII - -Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos, dos espiritos e -da alma. - - -O Psalmista Rei David, no Psalmo 101, que é uma supplica por elle -composta para os pobres e infelizes, cheios de anciedade e oppressão, -particularmente os infieis, diz—_Placuerunt servis tuis lapides ejus, et -terra ejus miserebuntur._ «As pedras de Syão agradarão a teos servos; e -por esta causa serão misericordiosas para com a terra.» - -S. Jeronymo transforma estas palavras d’esta forma—_Quia placitos -fecerunt servi tui lapides ejus, et pulverem ejus miserabilem_. «Teos -servos fizeram suas pedras agradaveis á tua Magestade, até chegar ao pó -sem consideração.» - -Apliquemos estas palavras ao nosso objecto, pondo de parte todos os -outros mysterios, e digamos que _Placuerunt servis tuis lapides ejus_. - -Em nossa primeira missão achamos estes pobres selvagens e barbaros como -pedras proprias para construir e edificar a Santa Igreja em paizes -desertos, e com o nosso ministerio demos a misericordia divina á algum -punhado de terra e areia. - -Baptisamos muitos meninos, moribundos e adultos, que são na verdade tres -grãos de areia, á similhança da extenção e profundidade das areias do -mar, isto é, em comparação da quantidade e multidão das nações immensas -pelo seo numero, na visinhança do Maranhão. - -Digamos depois, com São Jeronymo, _quia placitos fecerunt servi tui -lapides ejus, et pulverem ejus miserabilem_, que temos feito vêr a toda -a Christandade, e aos seos monarchas, espirituaes ou temporaes, em -desencargo de nossa consciencia, que á Deos agrada o despertar estes -barbaros do profundo somno de uma crença má, ou si quizerdes, que á Deos -agrada fazer arder e queimar a pequena faisca do fogo da luz natural, que -sob as causas de mil superstições é sempre guardada entre estas nações -desde o naufragio universal do diluvio. - -Esta faisca, occulta sob as cinsas, entre estes selvagens, é a crença -natural, que sempre tiveram de Deos, dos espiritos e da immortalidade da -alma. - -Quanto á crença de Deos, é impossivel, naturalmente fallando, que -haja no Mundo uma Nação tão rude, estupida e brutal que não reconheça -universalmente uma Magestade Soberana, porque, como diz Lactancio -Firmiano, em suas Instituições divinas, livro 1.º, cap. 2.º—_Nemo est -enim tam rudis, tam feris moribus, qui non oculos suos in cœlis tollens -etc_. Não ha homem tão rude, nem tão brutal, que levantando os olhos -para o Ceo, ainda que não possa comprehender que haja Deos, qual seja a -sua providencia, embora não conheça da grandesa e extenção dos Ceos, do -perpetuo movimento d’elles, da disposição, firmesa, utilidade e bellesa -d’estas abobadas azuladas, que não reconheça haver um Soberano que tudo -isto dirige e com harmonia. - -Boecio, livr. 4º, da _Consolação dos sabios_. Prosa 6.ª _Omnium generatio -rerum_ etc. «que a geração continua dos mistos, a diversidade, e -ordem das formas, que vestem a materia primitiva, convence natural e -necessariamente, que ha um primeiro director no movimento uniforme de -tantas coisas de formas contrarias no sentido de aperfeiçoar este mundo -universal.» - -Seneca, na Epistola 92 á seo amigo Lucilio—_Quis dubitare potest mi -Lucilli, quin Deorum immortalium munus sit quod vivimus?_ «Quem é meu -amigo Lucilio, que duvida não ser sua vida um dom e beneficio dos Deoses -immortaes?» - -Aristoteles, Livro II _dos animaes_, depois que contou muito bem a -perfeição d’elles concluio _debemus inspicere formas et delectari in -Artifice qui fecit eas_: «devemos contemplar as formas das creaturas, não -para olhal-as só e simplesmente, e sim para d’ellas passar ao que as fez -afim de nos regosijarmos.» - -É facto averiguado sempre terem tido estes selvagens conhecimento de -Deos, porem não da Essencia, Unidade, e Trindade, materia inteiramente -dependente de fé, embora Deos tenha deixado na naturesa alguns vestigios, -pelos quaes possam os homens formar algumas conjecturas. - -Aristoteles, livro 4º, do _Ceo e da terra_, depois de ter pensado muito -nas perfeições d’este mundo, disse _Nihil est perfectum nisi Trinitas_. -«Somente a Trindade é perfeita.» - -Estes selvagens sempre chamaram a Deos—_Tupan_, nome que dão ao _trovão_, -a maneira do que se pratica entre os homens, isto é, terem as obras -primas o nome do autor: Note-se porem que este nome no singular não se -applica aos relampagos e trovões, que rebentam e illuminam todas as -partes, por cima da cabeça dos selvagens, aterrando-os, porque sabem -e reconhecem, que elles são formados pela poderosa mão d’Aquelle, que -habita nos Ceos. - -Por intermedio do interprete informei-me dos velhos do paiz si elles -acreditavam, que este _Tupan_, autor do trovão, era homem como elle? - -Responderam-me que não, porque si fosse um homem como nós, seria um -grande senhor, e como poderia elle correr tão depressa, do Oriente -para o Occidente, quando troveja ao mesmo tempo sobre nós, e nas quatro -partes do mundo, tanto na França, como sobre nós? Demais, si fosse homem, -era necessario, que outro homem o fizesse, porque todo o homem procede -de outro homem. Ainda mais: _Jeropary_ é o creado de Deos, e nós não o -vemos, ao passo que todo o homem se vê, e por isso não pensamos, que -_Tupan_ seja um homem. - -Mas, repliquei eu, o que pensaes que elle seja? - -Não sabemos, responderam, porem pensamos, que existe em toda a parte, e -que fez tudo quanto existe. Nossos feiticeiros ainda não fallaram com -elle, pois apenas fallam com os companheiros de _Jeropary_. - -Eis a crença de Deos, sempre pela naturesa impressa nos espiritos dos -selvagens, que com tudo não o reconheciam por meio de preces e de -supplicios. - -Acreditavam naturalmente nos espiritos bons e maus. - -Chamam os bons espiritos ou anjos _Apoiaueué_, e os maos ou diabos -_Uaiupia_. - -Vou contar-vos o que pude colher de suas conversas por diversas vezes. - -Pensam que os anjos lhes trazem chuva em tempo proprio, que não fazem mal -ás suas roças, que não os castigam e nem os atormentam, que sobem ao Ceo -para contar á Deos o que se passa aqui na terra, que não causam medo nem -á noite e nem nos bosques, que acompanham e protegem os francezes. - -Pensam, que os diabos estão sob o dominio de _Jeropary_, que era creado -de Deos, e que por suas maldades Deos o despresou, não querendo mais -vêl-o e nem aos seos, pelo que aborrecia os homens e nada valia: que os -diabos impedem as vindas das chuvas em tempo proprio, que os trazem em -guerra com seos inimigos, que os maltrata, e lhes faz medo, habitando -ordinariamente em aldeias abandonadas, especialmente em logares onde tem -sido sepultados os corpos de seos parentes. - -Ouvi tambem dizer a alguns indios, que indo elles apanhar cajus em -algumas aldeias abandonadas, sahio-lhe ao encontro _Jeropary_ gritando -com voz medonha, e chegou até o ponto de espancar muito alguns dos seos. - -Dizem tambem, que _Jeropary_ e os seos tem certos animaes, que nunca -se vê, que só andam a noite, soltando gritos horriveis, que abala todo -o interior (o que ouvi infinitas vezes) com os quaes convivem, e por -isso os chamam _Soo-Jeropary_ «animal de Jeropary», e creem que estes -animaes servem aos diabos ora de homens ora de mulheres, e por isso nós -o chamamos _Succubes_ e _Incubes_, e os selvagens _Kugnan Jeropary_ «a -mulher do diabo» _Aua Jeropary_ «o homem do diabo.» - -Ha tambem certos passaros noturnos, que não cantam, mas que tem um -piado queixoso, enfadonho, e triste, que vivem sempre escondidos, não -sahindo dos bosques, chamados pelos indios _Uyra Jeropary_ «passaros do -diabo,»[99] e dizem que os diabos com elles convivem, que quando põem é -um ovo em cada lugar, e assim por diante, que são cobertos pelo diabo, e -que só comem terra. - -Não exgotando minha curiosidade procurei indagar bem a verdade d’isto: -muitas vezes estes animaes nocturnos vinham rodear nossa casa de Sam -Francisco e soltar seos gritos medonhos, quando as noites eram sombrias e -negras. - -Apromptei-me para com outros francezes investir estes passaros onde se -achassem conforme pudessemos prevêr, porem nada pudemos conseguir por não -vel-os, embora os ouvissemos gritar em distancia de mais de um quarto de -legoa. - -Disseram-me alguns francezes, que eram uma especie de gatos bravos, o que -não pode ser a vista do som, do sussurro e do volume do grito, que elle -solta. - -Outros disseram ser o vagido de _vaccas bravas_, o que negam os selvagens -dizendo ser vozes de uma especie de animaes parecidos com maçaricos, e -maiores do que uma raposa. - -Quiz eu mesmo verificar o que eram estes passaros de _Jeropary_, e -para isto fui caminhando de mansinho até onde meos ouvidos me levaram -a pensar, que lá estavam, pelo piado melancolico d’elles. Calculado o -lugar ahi fui no dia seguinte á tarde muito cedo occultar-me nos mattos, -e d’esta vez não me enganei porque apenas anoiteceu aproximou-se este -triste passaro de mim e distante apenas dois passos saltando sobre a -areia, e soltou seo canto medonho, o que não pude aturar. Sahi logo do -meo logar e fui onde elle estava e nada achei: sua configuração e tamanho -era de uma coruja de França e as pennas pardas. - -Tudo o que referi não está longe do senso commum, porque lemos na -Historia, e em diversos autores a união dos diabos com animaes feios e -immundos, e foi elle que desde o principio do mundo tomou a forma de uma -serpente cabelluda para enganar nossos primeiros paes. - -Creem na immortalidade da alma: quando no corpo chamam-na _An_, e quando -deixa este para ir ao lugar, que lhe é destinado, _Anguere_. - -Creem que só as mulheres virtuosas tem alma immortal, segundo o que pude -comprehender de varios discursos d’elles e de muitas perguntas que lhes -fiz, pensando que estas mulheres virtuosas devem ser postas ao lado dos -homens, visto terem todos almas immortaes depois da morte. - -Em quanto ás outras mulheres duvidam que ellas tenham alma. - -Pensam, e muito naturalmente, que as almas dos maus vão ter com -_Jeropary_, que são ellas que os atormentam de concomitancia com o -proprio diabo, e que vão residir nas antigas aldeias, onde são enterrados -os corpos, que habitaram. - -Pensam, que as almas dos bons, vão para um lugar de repouso, onde dançam -constantemente sem nada lhes faltar. - -Eis tudo quanto pude saber relativamente a estes tres pontos de sua -crença natural de Deos, dos Espiritos e das Almas, por meio de -cuidadosas indagações entre discursos communs, que ouvi por dois annos de -muitissimos selvagens. - - - - -CAPITULO IX - -Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em suas cadeias por -tão longo tempo estes selvagens. - - -Adonibesec, um dos maiores tyrannos do mundo, venceo e subjugou setenta -Reis, aos quaes mandou cortar os dedos das mãos e dos pés, e todas as -vezes que queria comer, mandava buscal-os e pol-os debaixo da mesa como -cães para roerem os ossos, e os boccados de pão, que lhes atirava, e -era com isto unicamente que elles viviam, porque acabada a refeição do -tyranno passavam elles outra vez para os grilhões. - -Este tyranno representava o diabo, cujo poder sempre exerceu nas Nações -á elle sujeitas pela infidelidade, tendo-as sempre presas, não lhes -consentindo outros viveres alem dos seos restos, cortando-lhes todos os -meios de acção e de fuga, alterando ou extinguindo os signaes, que Deos -naturalmente imprimio nos homens, pelos quaes podiam inclinar-se a Deos -para d’elles ter piedade, que é o que o diabo mais teme, o que é facil de -vêr-se em nossos selvagens por longo tempo sem conhecimento algum do Deos -Omnipotente, presos em suas cadeias infernaes pelos abusos e corrupções, -que entre elles lançou o diabo. - -Eis porque S. Paulo representava as artimanhas e tricas de Satanaz em -suas... - - (Falta uma folha.) - -... esta razão tinhamos nós occasião d’admirar a forma e a maneira de -proceder dos Pagés ou Feiticeiros, que occupam entre os selvagens o lugar -de Mediadores entre os espiritos e o resto do povo, e são os que hão -adquirido maior autoridade por suas fraudes, subtilezas e abusos, com -que tem subjugado esta gente mui fortemente sob o reinado do inimigo da -salvação, como está escripto no _Proverbio 29_—_Princeps qui libenter -audit verba mendacii, omnes ministros habet impios_ «o Principe, que -prestar ouvidos á mentira, é servido por ministros impios e maus.» - -Pondo de parte a explicação litteraria d’esta passagem, nós a aplicamos -ao nosso fim dizendo, que este Principe, que presta attenção á mentira, -ou para melhor dizer, que é o Pae da mentira, é o diabo inimigo da -verdade: seos officiaes abusam do povo por meio de invenções, subtilesas, -e encantos provenientes da instigação dos demonios, como são os -feiticeiros brazileiros, e com tal autoridade se conservam sem a menor -contestação, embora conheçam os enganos, que reciprocamente empregam -contra seos compatriotas. - -Estes feiticeiros não tem chefes, porem tornam-se taes, si os favorece -a capacidade de seo espirito, de sorte que os que o possuem melhor, são -considerados mais habeis. - -Começam muitos a aprender este officio, convidados pela honra e lucro, -que d’elle colhem os mais espertos, porem poucos atingem á perfeição. - -Não encontrareis muitas aldeias, onde os principaes e os velhos não -confessem saber alguma coisa d’elle. - -Os noviços d’essa arte estudam muito a merecer elogios, e d’elles -dizer-se maravilhas e fazem alguma subtilesa diante de seos similhantes -para obter fama. - -Depende seo adiantamento d’algum acaso, como por exemplo se predizem a -chuva, e ella apparece, se sopram algum doente e elles recobram a saude, -o que os faz muito estimados e respeitados como feiticeiros experientes. - -Por exemplo, sem comparação, si algum medico novo ou cirurgião cuidasse -de um doente perdido, ou de alguma chaga pertinaz, e que apparecesse -a saude, não tanto pela industria do medico, e sim pela boa naturesa -coadjuvada por unguentos communs, não ha duvida que tal cura seria -attribuida á sciencia e experiencia dos curadores, e se aproveitariam -d’isto para fazer voar sua fama entre as boas cidades, e serem recebidos -com muita distincção nas boas casas. - -O mesmo acontece no Brasil com estes novos feiticeiros, quando se -restabelece o infermo depois dos seos sopros. - -Não receis que isto fique só na casa do doente, porque sae o -feiticeirinho de aldeia em aldeia contando suas proesas, e triplicando-as. - -O diabo, espirito suberbo, não se communica indifferentemente a todos os -feiticeiros; porem d’entre elles escolhem os mais bellos espiritos, e -lhes infundem suas invenções e subtilesas. - -Julgae por isto. Nunca vereis os diabos fazerem grandes operações e -communicações aos pequenos feiticeiros, e limitam-se apenas a dar-lhe -malicia conforme o juiso e talento do seo espirito. - -Si pelo contrario encontram algum bello espirito, elles o instruem -largamente de suas perversas e condemnaveis sciencias, que são de -ordinario as nigromancias, judiarias e magicas. O mesmo acontece aos -feiticeiros: achareis muitos pequenos, de que não se faz grande caso, -e nem se tem muito medo, valendo-lhes pouco o officio: outros mais -instruidos e mediocres, que occupam o lugar medio entre pequenos e -grandes. Ordinariamente viajam por certas aldeias importunando os seos -habitantes, cuidando de dansas e de outras coisas, que dependem do seo -officio. - -Si algum seu collega apparece por ahi, elles não ficam contentes, mas -quando é convidado algum de seos superiores soffrem-no com paciencia. - -Quanto mais progressos fazem nos abusos, mais graves se mostram: fallam -pouco, buscam a solidão, evitam o mais que podem as companhias, com -o que alcançam mais honra e respeito, são mais procurados depois dos -Principaes, e estes lhes fallam com attenção ahi usada, e ninguem os -maltrata. - -Para conservar taes honras edificam suas casas á parte, longe de visinhos. - -O demonio ardiloso ensina o que pratica a disciplina religiosa, isto é, -o necessario para conservar o espirito de Deos, fazer sua alma capaz -das suas visitas e consolações para o que necessario é amar a solidão e -n’ella residir, evitando cuidadosamente o mais que é possivel a companhia -dos homens, com o que não somente adquirireis favores espirituaes, mas -tambem a honra e o respeito d’aquelles, que evitaes. - -A compleição dos homens é similhante a da honra e da sombra: si correis -após ellas, ellas fugirão diante de vós, si as evitaes, ellas vos -procurarão. - -Assim são os homens: sê-de com elles familiares, e sereis despresados; -fugi d’elles, sereis respeitados. - -Por similhança este velho doutor da malicia ensina os seos principaes -discipulos a evitar communicações, a fugir de tristezas e melancolias, a -fugir de invenções e fantesias, a residir sós com suas familias com o fim -de poder melhor imprimir em seos pensamentos os meios, pelos quaes quer -conservar estes povos na ignorancia e superstição regosijando-se de vêr -tantas nações presas em suas cadeias. - -Não é de hoje, e nem n’esta nação somente, que elle inverte os exercicios -da verdadeira Religião, mas de todos os tempos e em todos os lugares, -porque não pode ser autor, e sim falso imitador do verdadeiro bem. - -Assim como a serpente se occulta debaixo das folhas para picar o segador, -assim tambem elle occulta seo veneno e sua falsa Religião sob apparencia -somente de uma imitação das obras de Deos. - -Dizem Plinio e Solinus, que Cerasto, serpente mortifera, se cobre d’areia -deixando apenas de fóra os cornos afim de enganar os passaros com a ideia -de ser comida, e quando se approximam, ella sahe da embuscada e os apanha. - -O Genesis compara o diabo com esta serpente _Cerastes in semita_ «Ceraste -no caminho.» Vemos isto em nossos selvagens, nutridos e entretidos com -taes engodos, que eu não os acreditaria si os não visse, e si o leitor -duvidar, peço-lhe que creia no que vou contar-lhe. - -São tão tolos estes pobres selvagens, que em relação aos seos -feiticeiros, especialmente aos grandes, creem firmemente, que elles podem -enviar-lhes molestias e fomes, e tirar-lhes tudo o que elles tem, e -embora saibam os proprios feiticeiros, que elles todos são embusteiros, -não julgam poder curar-se sem que passem por mãos de outros. - -Si adoece algum francez nas aldeias, seo Compadre e sua Comadre lhe pedem -permissão para que os feiticeiros o visitem, o bafejem, e lhe toquem com -as mãos. - -O que dirieis vós, si eu vos dissesse, que vindo visitar-me muitos -selvagens, quando adoeci, me pediram muito affectuosamente licença para -me trazerem seos feiticeiros afim de me bafejarem, e apalparem-me, sem o -que, asseguravam-me, eu não ficaria bom? - -O grande _Thion_ adoecendo apenas chegou do _Mearim_ ao Fórte de S. -Luiz, pensou, e por muito tempo acreditou ser isto devido a ameaça do -Principal-feiticeiro da sua terra, que pretendia seduzir e impedir esses -povos _Mearinenses_ de virem á Ilha, logrando vêr muitos com elle ficarem -nas florestas do _Mearim_. - -Tinha ameaçado _Thion_ com a morte apenas aqui chegasse, o que não -aconteceo, porque depois d’uma febre violenta recobrou sua saude: com -tudo, emquanto esteve doente, pensou morrer, por maiores que fossem as -nossas advertencias de que não devia prestar credito a taes feiticeiras. - -Si estes pequenos e mediocres feiticeiros gozam de autoridade entre os -seos, muito mais aquelles, que se chamam propriamente _Pagy-uaçú_[100] -«grandes feiticeiros», porque são como os Soberanos d’uma Provincia, -muito temidos, chegando a tal poder por muitas subtilesas: de ordinario -tem communicação tacita com o diabo. Por onde passam, seguem-nos os -povos; são graves e por isso não se communicam facilmente com os seos: -são muito bem acompanhados quando vão a qualquer parte, e tem muitas -mulheres, não lhes faltam mercadorias, julgam-se felizes seos similhantes -quando os presenteiam, e com uma feitiçaria tiram aos seos compatriotas o -melhor que possuem em suas caixas. - -Não descobrem suas subtilezas diante dos selvagens, e pelo contrario -zombam delles, e muitos me contaram os meios, que empregaram para isto, o -que ainda direi em lugar proprio. - -_Japy-açú_ e o grande feiticeiro de _Tapuitapera_ tiveram entre si uma -questão, de que resultou reciproca desconfiança. - -O grande feiticeiro mandou dizer-lhe, si elle já não se lembrava das -molestias, que outr’ora lhe enviou, e de que pensou morrer a ponto de lhe -pedir que as removesse, e si agora já não as temia? - -Estas palavras impressionaram _Japy-açú_, e julgou-se feliz de ter sua -amisade. A questão foi por causa de uma mulher retida por força; porem -merece ser contada esta historia por haver relação entre ella e o objecto -de que tratamos. - -Adquirio o grande feiticeiro de _Tapuitapera_ em sua Provincia e -circumvisinhança fama e autoridade de um perfeito Magico, que a seu -bel-prazer distribuia molestias e mortes, curava e dava saude, e por isso -alcançou em seo paiz o grau de Soberano Principal, e dispunha de todos á -sua vontade. - -_Japy-açú_ mofava e zombava de tudo isto, o que sabido pelo outro o fez -dizer, que em pouco tempo em si mesmo experimentaria si não tinha o poder -de fazer bem ou mal a quem quizesse. - -Não fez _Japy-açú_ caso d’isto, porem veio a fortuna proteger ao seo -contrario fazendo com que elle cahisse doente muito naturalmente; -pensou ser sua molestia devida ao feiticeiro de _Tapuitapéra_, embora a -existencia do mar entre uma e outra Provincia, e pela força de imaginação -agravou-se sua molestia a ponto de o julgarem á morte. - -Todos os feiticeiros e feiticeirinhos da Ilha o visitaram, porem nenhum -lhe deo saude e afinal escolheo as melhores fazendas que havia e -humildemente mandou a esse feiticeiro seo antagonista, pedindo-lhe pelos -mensageiros seos parentes, que desse ordens á molestia para deixal-o. - -O feiticeiro tomando as mercadorias lhe mandou não sei que moxinifada -para elle tomar, asseverando-lhe cura em breve tempo. _Japy-açu_ -acreditou, principiou pouco a pouco a passar melhor temendo d’ahi em -diante o feiticeiro, que comtudo entre os seos zombava d’elle, e outras -vezes o apontava para mais firmar sua autoridade. - -Ora como é possivel, direis vós, que appareçam e desappareçam as -molestias por força d’imaginação e apprehensão, d’estes selvagens a -respeito das ameaças ou dos favores de seos feiticeiros? - -Decida a medicina: comtudo responderei á pergunta com os exemplos mui -communs, dos _Hypocondriacos_, ou doentes imaginarios, os quaes embora -sãos, e bem conservados, julgam-se debeis e fracos, pensando cada um -soffrer uma molestia differente. - -Fechando este artigo, eu vos faço notar que se julgam uns grandes -feiticeiros por fazerem mal, e outros por praticarem o bem. - - - - -CAPITULO XI - -Como falla o diabo aos feiticeiros do Brazil, suas falsas prophecias, -idolos e sacrificios. - - -Diz Santo Agostinho, que o diabo insuflado por sua soberba quiz ser -obedecido como Deos, imitando com falsidade em tudo e por tudo o -proceder de Deos, especialmente em seos oraculos—_Diabolus est Angelus -per superbiam separatus á Deo, qui in veritate non istetit, et doctor -mendacii, etc_. «o diabo é um Anjo separado por sua soberba de Deos, que -não quiz persistir na verdade fazendo-se assim doutor da mentira.» - -Vendo que Deos fallava outr’ora a seos prophetas por diversos modos, -e a seo povo entre duas figuras de cherubins postas sobre a arca da -alliança, quiz tambem em todos os tempos ter falsos prophetas, com os -quaes consultava seos desgraçados projectos, e seos falsos oraculos -proferidos entre diversas figuras por meio de demonios escondidos por ahi -ou occultos ora sob a figura de uma serpente, ora de um touro, ora de um -mocho ou gralha, e finalmente de uma pyramide, estatua e assim por diante. - -Advinhavam estes falsos prophetas o futuro não por espirito prophetico, -visto não ter o diabo tal poder, e sim por experiencia de muito tempo, -junta á subtilesa de seo espirito, que os faz presagiar coisas futuras -pelo que vê nos homens e nas coisas, como bem diz Isidoro—_Dæmones -triplici acumine præscientiæ vigent, scilicet, sublimitate naturæ, -experientia temporum, revelatione superiorum potestatum_, «possuem os -demonios tres subtilesas para prevêr o futuro, finura por naturesa, -experiencia de tempo, e revelação de poderes superiores.» - -Deixando de parte a experiencia tão antiga dos seos procedimentos para -com a Gentilidade, quero fazer-vos vêr o que ha de verdadeiro a tal -respeito, visto que o diabo tem sempre enganado, e ainda hoje, estes -pobres selvagens por seos oraculos e predicções. - -O feiticeiro, de que ja vos fallei, recolhido ás campinas do Mearim, -tinha em casa diabos sob a figura de pequenos passaros negros, que o -advertiam do que deviam fazer e do que se passava na ilha e em outros -lugares. - -Quando quiz ir a Maranhão revelaram-lhe estes passaros por occasião -de andar passeiando nas suas roças, que cedo chegariam os Tapuyas, e -destruiriam seo milho e suas raizes, mas que nenhum mal succederia -nem a elle, nem aos seos, e assim aconteceo, porque vindo os Tapuyas -de mansinho para sorprehendel-o, ouviram grande matinada na casa do -feiticeiro, e por isso não se animaram a atacar, receiando superioridade -de defensores, contentando-se com carregar os milhos e raizes, e assim se -foram. - -Estes mesmos passaros, ou os diabos sob tal forma, ordenaram a este -feiticeiro, que fosse á ilha do Maranhão, fazer suas feitiçarias, e -convidar os que quizessem deixar a ilha para vir ahi residir devendo -desembarcar no porto de _Taperussu_, isto é, na aldeia dos animaes -gordos, n’uma das extremidades do Maranhão, sendo-lhe absolutamente -prohibido aproximar-se do lugar onde moravam os padres, o que cumprio -pontualmente. - -Nunca poude vir ahi nos vêr, apesar de toda a segurança que lhe -promettiamos. Dizia que seos espiritos nos temiam, e se lhes -desobedecessem, suas roças ficariam por fazer, não trabalharia mais, e -perderia o poder, que tinha entre os seos, que seos espiritos lhe haviam -aconselhado de retirar-se do Maranhão antes de nós lá chegarmos afim de -continuarem á viver com elle tão pacificamente como até hoje. - -Estes e outros factos contava elle aos habitantes de _Taperussu_, que -em parte lhe prestavam credito, pois n’essa occasião muitas mulheres -se agarravam ás suas pernas, chorando e gritando, pedindo-lhe para que -não deixasse o seo paiz, e nem fosse para _Yuiret_, onde estavamos, -principalmente porque lhe fora isso prohibido pelos espiritos, e se -fizesse o contrario succeder-lhe-hia mal. - -Considerae, leitor, a maldade, e o temor d’estes demonios, maldade -para impedir que se cheguem os homens á luz da verdade, ficando sempre -obedientes ás trevas da infidelidade. - -É proprio da malicia fugir da claridade com medo de serem descobertas -suas maldades, e sua autoridade destruida. - -O temor, que elles tem, dos servos de Deos, em cuja presença não se podem -sustentar, bem como o mocho diante dos raios do sol, e os sapos á vista -da flor e cheiro da vinha, mostra quam grande é o poder de Deos, dado á -sua igreja contra a potestade do inferno. - -Prosigamos. - -Dois principaes feiticeiros governavam duas nações de _Tabajares_, -inimigas reciprocas, das quaes abusavam dizendo que tinham repetidas -conferencias com os diabos tomando a figura de diversos passaros. - -O feiticeiro do lado de Thion, mau e desgraçado (que nunca quiz vir á -ilha, e que della desviava seos similhantes o mais que podia) criava -em sua casa um morcego, a que chamava _Endura_, que lhe fallava em voz -humana em lingua dos _Tupinambás_, algumas vezes tão alto, que podia ser -ouvido á seis passos de distancia, não distincta, porem confusamente e -com timbre infantil. - -Respondia-lhe o selvagem ficando só em sua casa, porque despedia a todos -quando percebia que elle lhe queria fallar. - -Quando os nossos la foram afim de preparar os selvagens a sahir do seo -paiz para a ilha, instigou-se a curiosidade de alguns francezes, que -tinham ouvido dizer maravilhas d’este feiticeiro, e pediram a seos -compadres que lhes dissessem o que percebessem do colloquio d’elle com o -morcego, e para isso aproximaram-se de mansinho da morada d’elle a ponto -de ouvirem perfeitamente a voz de ambos, e querendo chegar mais perto -foram descobertos pelo feiticeiro, e retirou-se o morcego. - -Chamou-os o feiticeiro, sem zangar-se, fel-os entrar em sua casa, e -perguntou-lhes o que queriam e porque estavam a escutar? - -Responderam-lhes os francezes, que tinham ouvido dizer aos selvagens -seos similhantes, que ahi havia uma communicação visivel e familiar com -_Jeropary_, que d’ella desejavam vêr alguma coisa, e eis porque se tinham -aproximado, e ouvido distinctamente duas vozes, a sua e uma outra mais -doce e clara. - -É verdade, disse elle, eu fallava agora com o meo morcego, que me veio -dizer maravilhas e grandes novidades, como sejam guerra em França, e -que os _Caraibas_ do Maranhão não estavam onde pensavam, que de nada me -assustasse, e ficasse com elle n’esta terra não acompanhando á ilha meos -compatriotas, que aqui não ficariamos muito tempo, porque os francezes -regressariam á sua patria, e que muitos selvagens de _Tapuitapéra_ tinham -fugido para o matto. - -Perguntaram-lhes os francezes como elle criava e sustentava este morcego? - -Respondeo, que um dia seo espirito, em quanto elle estava só, lhe disse -que de ora em diante lhe fallaria sob a figura de tão feio animal, e -que por isso lhe havia preparado um quarto em sua casa, onde dormiria e -descançaria, comendo do que elle comesse, e quando quizesse fallar-lhe, -que elle o ouviria e responderia: que este espirito tambem quando -quizesse communicar-lhe alguma coisa de novo o chamaria por seo nome, e -com elle fallaria na casa ou no bosque, e mandou o feiticeiro fazer-lhe -um ninho para recolher-se, e com elle sempre fallava sob a forma de -morcego. - -Dizendo isto mostrou um dos cantos da sua casa, onde estava o ninho feito -de folhas de palmeira: ahi, disse, vem elle comigo conversar, discorremos -como dois iguaes, e come o que lhe dou. - -Não posso deixar de notar as particularidades seguintes: - -1.ª Porque o diabo antes quiz tomar a forma de um morcego do que a de -outro qualquer passaro. - -2.ª Como o diabo imita a voz humana. - -3.ª Da verdade d’estas novidades em França, e como é possivel, que saiba -o diabo o que se passa no mundo. - -4.ª Porque razão comia carne. - -5.ª Da localidade por elle escolhida para discorrer com o seo Magico. - -Para satisfazer a primeira, dizemos, que o axioma dos philosophos—_todos -procuram seos similhantes_, é uma verdade provada quer nas coisas -physicas, quer nas sobrenaturaes, porque o diabo, que por sua soberba se -fez espirito immundo, busca de ordinario tomar as formas mais horriveis e -immundas, que pode ser, para communicar-se com seos bons servos e amigos. - -Bem sei o que disse S. Paulo—_Ipse enim Sathanas transfigurat se in -Angelum lucis_ «que Satanaz, transformado em camaleão, para seduzir os -tolos, toma a forma de um Anjo de luz», isto é, reveste-se de bellas -figuras, ou profere boas palavras para melhor fazer seo jogo. - -As bonitas formas de mulheres e raparigas, que elle toma para melhor -attrahir os homens luxuriosos, não tem outro motivo senão o desejo de -chamar a si os individuos conforme sua inclinação. - -Diz S. Thomaz, que por este motivo, não pode o diabo aborrecer -naturalmente os Anjos felizes, porque tem parte na natureza d’elles, -sendo impossivel amal-os em relação á justiça dos Anjos, e injustiça dos -diabos. - -D’esta conclusão deduso duas inclinações dos demonios: uma natural com -que amam as coisas boas, ou pelo menos não as podem aborrecer, e a outra -é proveniente da culpa e da soberba, com que procuram coisas immundas -e abominaveis, e não podem proceder de diverso modo porque gostam da -perversão do appetite, por culpa da natureza. - -Dizemos por isto em lingua vulgar, que o diabo horrorisa-se das torpesas -e maldades, a que leva o homem a praticar por suas instigações, o que -entendereis conforme a distincção da naturesa e a culpa do diabo. - -Eis uma das principaes causas, porque este cruel Behemot toma a figura de -morcego, a que accrescento outra tirada de uma propriedade peculiar aos -morcegos, qual a destes maus passaros nocturnos, muito mais horriveis e -maiores do que os de França procurarem as pessoas que estão deitadas e -dormindo,[101] e lhe arrancarem um pedaço de carne e depois lhe chuparem -muito sangue sem que se desperte a victima, porque tem a propriedade de -conservar o homem adormecido emquanto lhe chupam o sangue: achando-se -fartos o deixam, continuando o sangue a correr, e por isto fica debil a -pessoa, e por muitos dias anda com difficuldade. - -Melhor escolha não podia fazer Satanaz para representar sua naturesa e -crueldade porque anda a noite, e sob as trevas da ignorancia procura os -homens adormecidos e si delicia nas suas carnes, tirando-lhe a inclinação -natural que tem para com Deos, e procura meios de sugar á sua vontade o -sangue, instrumento da vida, as affeições e paixões dos seos captivos -para tornal-os fracos e impotentes em fazer o bem e procurar sua salvação. - -2.º Consiste a 2ª dificuldade na imitação da voz humana pelo diabo, não -tendo orgãos e nem lingua para fazel-o. - -Sua palavra é apenas a manifestação de seo desejo e vontade quando falla -aos outros diabos, seos companheiros, e aos homens pelas impressões -fantasticas, que faz as suas imaginações. - -Comtudo nos ensina a Santa Escriptura, que elle servio-se da lingua da -serpente para seduzir nossa primeira mãe, permittindo Deos, porque não -tem poder na creatura, em quanto fraca e indigente, sem licença de Deos, -e com ella pode crear um corpo no ar, e articular em qualquer lingua até -mesmo nas desconhecidas suas affeições e desejos. - -Ponho de parte mil outros modos, pelos quaes manifesta seos desejos aos -feiticeiros, por não ser nosso proposito. - -3.º Notamos as noticias, que deo dos motins havidos era França, isto é, -d’esta ultima leva de soldados, e como poude ser isto. - -Direi com Santo Agostinho, que os demonios excedem em ligeiresa todo o -corpo existente na maquina do mundo, nada havendo que possa com elles -competir em velocidade. - -Em 24 horas fez o primeiro movel este grande curso em torno das abobadas -inferiores, espaço superior aos calculos dos mathematicos, de tal modo -que dentro d’uma hora vence não sei quantas mil legoas. - -Calculae agora a ligeiresa d’estes espiritos, que em poucos momentos -giram ao redor do universo, sabendo e vendo o que por elle se passa, e -conjecturando o que se pode predizer das coisas futuras: si tão ligeiros -fossem os correios, á cada hora receberiamos noticias de todas as partes. - -4.º Usava de carne, dado o caso de ser verdadeira a existencia d’este -morcego, de que se servia o diabo, e por tanto tinha necessidade de -nutrir-se, e si fosse apenas parto de imaginação não tinha precisão de -carne para viver. - -Não obstante tudo isto, tem sempre sido costume do demonio comer e beber -apparentemente em companhia do seos mais dedicados servos, imitando assim -o exemplo dos anjos bons do antigo Testamento, que comiam com Abraham, -Loth, Tobias e outros. - -5.º A situação do logar procurado por este espirito, isto é, os bosques, -o concavo das arvores, ou o recanto de alguma casa solitaria, nos faz -ver a inclinação, que tem estes espiritos rebeldes a fazerem, como os -condemnados, suas moradias em logares escuros e desertos, tristes e -melancolicos, temendo, se assim se pode dizer, a luz creada, e a doçura -da harmonia. - -Acha-se isto em prova na pessoa de Saul, possesso, sendo aplacado pelo -som da harpa de David. - -Asmodeo foi preso pelo anjo Raphael no fundo do deserto, e Satanaz pelo -anjo do Apocalypse no fundo dos abysmos. - -Este pobre, victima de legiões diabolicas, que Jesus-Christo livrou, dia -e noite morava nos sepulchros dos defuntos. - -Fingiam os antigos, que Cerberas, tirado do inferno, apenas vio a -brilhante luz do sol principiou a vomitar Aconite, até que lhe foi -permittido regressar ás suas cavernas tenebrosas. - -Diga-se isto em relação ao feiticeiro da aldeia do grande _Thion_. - -Quanto ao _Pagy-uassu_, das aldeias de _farinha molhada_, prevenio aos -seos, alguns mezes antes, da chegada dos francezes, que breve chegavam os -_Caraybas_, trazendo-lhes mercadorias, sendo para notar, que ignoravam a -estada dos francezes na _Ilha do Maranhão_. - -Com tal aviso vestiram-se uns de camisas, e outros de diversos factos do -tempo, que outr’ora com elles moravam os francezes. - -Assim vestidos foram ter com os habitantes das aldeias de _Thion_, e para -assustal-os lhes disseram—«entregae-vos á nós, porque os francezes estão -comnosco; olhae as roupas que nos deram.» - -Estas palavras intimidaram muito a _Thion_ e os seos, e pensavam em fugir -quando chegaram os enviados dos francezes dizendo-lhes, que estes os -veriam ver logo que elles mandassem suas embaixadas á ilha. - -Por isto podeis ver, quanto o astucioso Satanaz dava poderes a estes -_pagys_, fazendo-lhes prever coisas futuras. - -Sua astucia porem não é tão grande, relativamente á predicção, porque via -o esforço dos francezes visitando os povos visinhos, e tambem o desejo e -a resolução de ir procurar essas nações, onde se achassem, e por tanto -este bom criado advertio seo senhor. - -Usam os diabos de outra maneira de fallar e de communicar-se com os -diabos e com os feiticeiros d’este paiz, a saber, fazem um buraco em -terra, dentro de casas longinquas, deitam-se de bruços os feiticeiros, -mettem a cabeça no buraco, fecham os olhos, perguntam ao demonio o que -querem, e do fundo do buraco estes lhes respondem. - -Este uso era muito trivial na Gentilidade, e deixando as historias -profanas vou referir-me ao que está escripto no livro 1º dos Reys, cap. -28 quando Saul foi consultar a feiticeira de Endor, a qual curvando-se em -terra, metendo a cabeça e o rosto n’um buraco, fazendo suas invocações, -disse—_Deos vidi ascendentes de terra_—«vi Deoses subindo da terra.» - -Não é sem fundamento, que ella escreveo e servio-se d’estas palavras—_vi -deoses_, a menos, que estas feitiçarias não tivessem poder e força -para fazer apparecer alguns diabos, mas quiz Deos, que a propria alma -de Samuel acudisse á sua palavra afim de prophetisar a ultima desgraça -de Saul, que em suas necessidades havia recorrido aos adevinhos e -feiticeiros. - -Soube de alguns francezes, moradores na aldeia de _Vsaap_, que um -feiticeiro d’ahi era mui respeitado e temido pelos selvagens, por ser -geral a crença delle fallar com toda a liberdade com o diabo, pela -maneira ja dita, e por isso não se atreviam a aproximar-se de sua casa -quando viam a porta fechada receiando tal colloquio. - -Havia tambem na Ilha uma velha feiticeira, que guardava-se muito em -segredo: era mui apreciada pelos selvagens e procurada especialmente nas -molestias incuraveis; quando todos os feiticeiros já não sabiam o que -haviam fazer, então ella era convidada, e trazida com segurança, porem -sempre occulta. - -N’um dia, segundo o que me disseram alguns francezes, ella veio a _Vsaap_ -para fazer uma cura, já sem esperança, e, antes de começar fechou-se -n’uma casa, isolada no meio da praça da aldeia, e ahi fez suas invocações -e feitiçarias diabolicas sobre o corpo do infermo, fazendo apparecer -visivelmente o seo demonio. - -Os francezes, que isto me contaram, tiveram desejos de espiar o que fazia -esta feiticeira, porem os selvagens os embaraçaram o mais que poderam, -asseverando-lhes serem perigosos e maus os espiritos d’esta mulher, de -fórma que na seguinte noite torceriam o pescoço de quem os espiasse. - -Zombaram os francezes, e foram de muito boa vontade á essa casa, com -grande admiração dos selvagens, que os julgavam atrevidos e presumpçosos, -e fazendo um buraco na parede de palha viram as gesticulações d’essa -mulher e notaram não sei que de monstruoso ao redor d’ella, não podendo -destinguir o que era, e assim se retiraram. - -Em quanto estive doente, muitas pessoas me fallaram d’esta desgraçada -creatura com grandes gabos e estima, como infallivel em dar saude aos que -lh’a pediam. Bem podeis calcular si me agradavam taes palavras. - -Fallaram-me tambem de certos barbeiros d’aquelles paizes, que habitavam -em choupanas nos bosques, onde iam consultar seos espiritos. - -Na verdade, é frequente na Ilha e nos paizes visinhos edificarem os -feiticeiros pequenas choupanas de palha em lugares longinquos nos mattos: -ahi collocam pequenos idolos de cera ou de madeira em forma humana,[102] -uns maiores, outros menores, porem os maiores não tem mais que um covado. -Ali em certos dias vão elles levando comsigo fogo, agoa, carne ou peixe, -farinha, milho, legumes, pennas de côr e flôres. D’estas carnes fazem -uma especie de sacrificio a esses idolos queimam resinas cheirosas, -enfeitam-nos com pennas e flores, e ahi se demoram muito tempo sosinhos: -crê-se que era a communicação d’estes espiritos. - -Crescia este mau costume, e estendia-se as aldeias visinhas de -_Juniparan_, onde morava o Revd. Padre Arsenio a ponto d’elle encontrar -estes idolos de cera na visinhança dos bosques e algumas vezes nas -proprias casas. - -Livrou-se d’elles por meio d’exorcismos, que fez em sua Capella contra -estes diabos tão insolentes como atrevidos, e depois não ouvi mais fallar -n’isto. - -Considerae agora a presumpção de Satanaz, que em todos os lugares, e em -todas as nações, quando póde, se faz conhecido por alguma especie de -adoração e sacrificio por saber, que nenhuma religião boa ou má, pode -existir sem algum sacrificio e representação da coisa adorada. - -Eis porque elle inventou os idolos em lugar das verdadeiras imagens, que -Deos mandou levantar no tabernaculo, e depois no templo de Salomão. - -Em vez dos verdadeiros sacrificios, que Deos estabelecia na sua lei, -procurou este espirito soberbo ter altares e sacrificios de toda a -especie de animaes e fructos da terra. - -Comquanto esta nação de selvagens não tivesse perante o publico algumas -ceremonias de religião, nem préces e nem orações, comtudo em particular -estes feiticeiros serviam ao diabo, como ja disse. - -Para acabar, direi que acreditavam estas pessoas em espiritos -particulares, até mesmo francezes. - -Vou dar-vos exemplos. - -Quando o Sr. de la Ravardiere, depois da guerra dos _Camarapins_, -regressava do Pará, advertio-lhe uma mulher que fora resolvida a -sua morte, bem como a de todos os francezes e _Tupinambás_, que o -acompanhavam, pelos selvagens d’aldeia, onde estava alojado. - -Fez-se tudo quanto foi possivel para descobrir-se a verdade, porem todos -negaram e nada confessaram. - -Fizeram crer aos selvagens d’aquelles lugares, que no relogio -d’algibeira, que trasia o Sr. de la Ravardiere, havia um _espirito_ -escondido, que dava movimento ao que se via por dentro e por fóra, e que -aos francezes revellava as coisas mais secretas. - -Fez-se vir ao chefe, ao qual se disse, que se o ponteiro do relogio -chegasse a tal ponto do quadrante, que fallava a verdade o _espirito_, -e por isso acrescentaram—leva-o comtigo e guarda-o até ahi chegar o -ponteiro, e vem antes do nosso _espirito_ e conta-nos tudo. - -Pegou do relogio e levou-o para sua casa, e vendo que elle caminhava -sempre para diante, acreditou facilmente no espirito dos francezes, que -imprimia tal movimento, e não esperou que chegasse ao fim prescripto, -voltou, declarou tudo e restituio o relogio. - -O capitão d’um navio de guerra deo-nos uma bella imagem, tomada de um -navio portuguez, que ia para Pernambuco. - -Por acaso mandei guardar essa imagem, na hora em que a recebi, n’uma das -caixas, que tinha em nosso quarto, e n’esse mesmo momento vieram muitas -mulheres indias á nossa casa, e vendo a imagem muito bem esculpida, -pintada com diversas cores sobre fundo de oiro, admiraram-se e não -queriam entrar, dizendo—_Y anaité asse quege seta?_ «que coisa nova -é esta que nos olha tão vivamente? Ella nos faz medo.» Fil-os entrar -dizendo-lhes que não tivessem medo, e que era uma imagem dos servos de -Deos. Admirei-me de vel-os immediatamente prostrados a seos pés chorando -sua boa vinda, e depois me perguntaram que carne ella comia para irem -buscal-a. Ri-me de tal simplicidade, e colloquei a imagem na Capella de -Sam Francisco. - -Coisa igual aconteceo a um _Tabajare_, muito simples, vendo da porta da -Capella de S. Luiz um bello crucifixo, que dentro estava. Não me foi -possivel fazel-o entrar na Capella, e dizia ao interprete. «Elle me olha -vivamente, está vivo sem duvida, tenho medo d’entrar não sendo baptisado -porque me faz mal.» - -Fizeram o mesmo muitos outros, porem tomando o crucifixo em meos braços, -fiz-lhes vêr que elle era de madeira, representando com tal forma o que -Jesus Christo por nós soffreo. - -Eis o resultado da superstição, como eu já disse, que entre elles -derramaram seos feiticeiros, tanto á respeito de seos idolos, como de -seos espiritos. - - - - -CAPITULO XII - -De algumas outras ceremonias diabolicas praticadas pelos feiticeiros do -Brazil. - - -Sentiria muito este Principe se deixasse intacta alguma coisa no serviço -de Deos, sem procurar imital-a falsamente, e sem buscar introduzil-a no -culto supersticioso de sua soberba. - -Outr’ora Deos no Antigo Testamento instituio as agoas da Purificação, -feitas e compostas de diversas materias e differentes ceremonias, -conforme o fim e objecto, a que se destinavam, tanto para purificar os -homens, os vasos, e os utensilios do Templo, como os vestidos, as casas e -todos os moveis. - -Por imitação instituio este demonio as agoas de lustração, das quaes -se serviam os pagãos para diversos fins, bem como os judeos, lavando e -aspergindo com ellas os homens antes dos sacrificios, os utencilios dos -templos dos idolos, as casas, os vestidos e moveis dos infieis. - -Vejamos se esqueceo-se esta desgraçada serpente d’illudir nossos -selvagens com taes superstições. - -Quando outros exemplos não podessemos produzir alem do já referido no -_Tratado do Temporal_, das nigromancias feitas pelo feiticeiro, vindo dos -campos do Mearim, bastava só esse para demonstrar claramente as loucuras -e abusos, que semeára este antigo enganador entre os povos, em relação ao -nosso fim. - -Como soube, da propria bocca dos feiticeiros, de muitas particularidades, -que faziam para illudir estas gentes, não quero privar o leitor de as -conhecer. - -È costume dos _Pagys-uaçus_ celebrarem, em certa epoca do anno, -lustrações publicas,[103] isto é, purificações supersticiosas por -aspersão d’agoa sobre os selvagens, e bem que tudo dependa de sua -imaginação, fazendo á capricho taes oblações, comtudo de ordinario enchem -d’agoa grandes potes de barro, proferindo em segredo algumas palavras -sobre elles, deitando tambem fumaças de _Petum_, e misturando tambem um -pouco de pó da casa, em que se acham, punham-se a dançar, e depois o -feiticeiro toma um ramo de palha, mete dentro do pote, e com elle asperge -a companhia. - -Feito isto, toma cada um a porção d’agua que quer nas _cuias_, ou -tigellas de madeira, e com ella lavam a si e a seos filhos. - -_Pacamão_, grande feiticeiro de _Commã_,[104] contou-me um dia, que faria -sahir agoa da terra, com que lavava estas gentes, com grande admiração de -todos os barbaros, que viam sahir tão fresquinha essa agua do meio de sua -casa, e a tomavam como si fosse milagrosamente enviada pelos espiritos, -mas o astucioso tinha enchido d’agoa um grande vaso e mettendo-o em terra -d’elle fazia sahir agoa por meio de tubos ou canaes, ou tabocas, que em -abundancia se encontram nas mattas do Brasil, e d’esta forma illudia os -seos. - -Aos gentios tinha o diabo communicado muitas ideias erroneas á respeito -das agoas, das fontes, e dos regatos. N’umas habitavam Nymphas, e -n’outras deosas: estas faziam uma coisa, e aquellas—outras; umas eram -perigosas e enganadoras, outras agradaveis e sinceras; umas sagradas, e -outras profanas. - -Quando os selvagens vêem certa especie de lagartos, parecidos com os -venenosos de diversas cores, correr para agoa, pensam supersticiosamente, -que essa fonte é prejudicial ás mulheres, e que d’ella bebe _Jeropary_. - -Sabendo desta superstição para livrar-me do encommodo que me davam as -mulheres vindo lavar-se na fonte do nosso logar de Sam Francisco, fiz -correr o boato, que lá haviam sardões, e depois d’isto nenhuma mais se -animou a ir ahi excepto as escravas do Forte, que não tinham licença -de lavar-se na fonte, e d’est’arte tive o prazer de mandar amural-a e -fechar á chave, afim de conservar a agoa sempre limpa. - -Chega esta superstição a ponto de acreditarem, que estes lagartos -atiram-se ás mulheres, adormecem-nas, e gozam-nas, ficando grávidas, e -parindo lagartos em vez de crianças. - -Eis porque, quando mandei espalhar tal boato, vinham as escravas do Forte -em bandos, armadas de cacetes, de facas, e de outros instrumentos iguaes -para se defenderem, diziam ellas, d’estes lagartos, o que motivaram muito -riso a nós outros, os francezes. - -Alem das agoas de lustrações, e diabolicas abluções praticadas por estes -feiticeiros tem uma maneira particular de communicar seo espirito aos -outros, isto é, por meio da herva _Petun_ introdusida n’um caniço, de que -elles pucham a fumaça, lançando-a sobre os circunstantes ou soprando-a -mesmo na canna, exhortando-os a receber seo espirito e sua virtude. - -Parece que este cautelloso dragão quer com tal ceremonia falsa imitar -Jesus Christo quando deo seo espirito aos Apostolos, e o seo poder aos -seos successores para transmitil-o aos iniciados nas ordens sagradas. -Assim se lê em São João—_Insufflavit et dixit eis, accipite Spiritum -Sanctum_: «soprou sobre elles, e lhes disse—Recebei o Espirito Santo.» - -D’onde estes feiticeiros tirariam esta ceremonia satanica, si o diabo não -lh’as tivesse mostrado? Achando-se sempre fechados n’esta grande e vasta -região do Brasil, sem communicação alguma com o velho mundo, não podiam -aprendel-a de outra nação. - -Estes bafejos lhes são muito particulares, como ceremonia necessaria para -curar os infermos, porque vós os vedes puchar pela bocca, como podem, o -mal, dizem elles, do paciente, fazendo-o passar para a bocca e garganta -d’elle, inchando muito as bochechas, e deixando d’ellas sahir de um só -jacto o vento ahi contido, causando estampido igual ao de um tiro de -pistola, e escarrando com grande força dizendo ser o mal, que haviam -chupado, e fazendo acreditar ao doente. - -Á este respeito o Sr. de Pezieux e eu passamos um dia alegre na aldeia de -_Vsaap_. - -Um pobre moço selvagem estava atacado pela colica do paiz. - -Veio um d’estes feiticeiros exercer sua attração de espirito sobre o -seo ventre, fazendo muitos tregeitos, e retrahindo-se por diversas -vezes vendo-nos prestar-lhe muita attenção, e apesar de tudo isto o -doente continuava a gritar. Veio o feiticeiro depois procurar-nos e -mostrando-nos dois outros pregos nos disse—«eis o que lhe tirei do -ventre, cujos intestinos estão cheios d’isto, é preciso tiral-os um por -um. Si eu não os tirasse todos, lhe cravariam as tripas e a garganta.» - -Imbuio a este moço, sempre gritando, que lhe tinha tirado do ventre esses -pregos. - -Si essas casas fossem cobertas de ardosias, penso que meteria na cabeça -d’esse rapaz ter elle comido as ripas e os pregos; mas não sendo communs -entre elles pregos de ferro, não sei como poude illudir os assistentes -com tal loucura. - -Poderia referir muitos outros exemplos, porem bastam-me estes ao meo fim. - -Ora si é coisa digna de admiração vêr o Espirito Infernal em tudo quanto -acabamos de dizer até aqui, muito maior deve ser o nosso espanto pelo -que vou dizer, isto é, pela existencia da confissão auricular entre os -selvagens. - -Nada digo que não ouvisse da bocca de _Pacamão_, de outros selvagens e -dos franceses. - -O grande _Pagy_, na sua provincia de _Commã_, ia visitar, quando -lhe aprasia, as aldeias do seo dominio, ordenando que todos fossem -confessar-se com elle, especialmente as mulheres e as raparigas, e quando -encontrava alguma que se recusava a dizer tudo, elle a ameaçava com o -seo _espirito_, que as havia de atormentar, e tinha muita finura para -reconhecer si occultavam ou não alguma coisa. Dava-lhes depois não sei -que especie de absolvição, e contava tal feito d’esta e d’aquella, e -apesar de tudo isto sempre exerceo seo officio de confessar até nossa -chegada. - -Pensae, eu vos peço, quem lhe ensinaria esta maneira de confissão -auricular, de ameaçar seos similhantes, no caso de occultarem alguma -coisa com o seo _espirito_, que os castigaria, e que os absolveria, se -tudo confessassem? - - - - -CAPITULO XIII - -Claros signaes do reino do diabo no Maranhão. - - -O Salvador do Mundo em S. Marcos, antes de subir á direita de seo Pae, -encarregou a seos Apostolos e discipulos de irem pelo universo converter -os infieis assegurando-lhes por certos indicios e signaes a proxima -ruina do imperio dos demonios, a saber—_signa eos qui crediderint hæc -sequentur: In nomine meo dæmonia ejicient, linguis loquentur novis, -serpentes tollent, et si mortiferum quid biberint, non eis nocebit. -Super ægros manus imponent et bene habebunt_: «estes signaes seguiram -os crentes, em meu nome expellirão o diabo, fallarão novas lingoas, -desviarão as serpentes, e si beberem algum veneno mortifero nada -soffrerão.» - -Para bem entender-se estas palavras, convem notar com os padres e -doutores, que foram postas litteralmente em pratica pelos primeiros -christãos, quando na primeira idade da igreja era preciso combater a -obstinação dos judeos e a louca sabedoria dos gentios. - -Depois que estendeo-se a fé por todo o universo, que foi por todos -condemnada a pertinacia dos judeos e tida por vaidade a sabedoria humana, -não foi mais necessario observar litteralmente estes signaes na conversão -dos incredulos e sim unicamente a pratica allegorica e mistica. - -Eis o que desejamos mostrar n’este capitulo ter-se feito todos os dias em -Maranhão. - -Primeiramente elle disse—_In nomine meo dæmonia ejicient_: «em meo nome -elles expellirão os demonios.» - -Em dois annos que estive em Maranhão, vi isto cumprido por diversas -formas, por que os diabos fizeram apparecer realmente o medo e o temor -que tinham do nome de Deos, procurando por todos os meios embaraçar nossa -missão, já persuadindo seos feiticeiros, mais fieis, a ordenar as nações -sobre que tinham poder, de não se aproximarem de nós, já infundindo-lhes -terror com o signal da Cruz e excitando-os a arrancar os que existiam, -dando maus exemplos com ridicularisar o que sanctamente ensinavamos a -estes barbaros, intimidando por muitas vezes os habitantes de _Maranhão_, -_Tapuitapéra_, _Commã_, _Caetés_, _Pará_ e _Mearim_ e fazendo-os fugir -para os matos e logares desconhecidos com receio de serem presos e -captivados pelos francezes ou pelos portuguezes. - -Finalmente mostrou-se tudo de forma diversa, porque quando julgavamos -tudo perdido, foi quando Deos mostrou o poder do seo nome, conservando -não só estes selvagens junto de nós, mas tambem fazendo com que -despresassem seos feiticeiros e o poder do diabo, fazendo fugir -_Jeropary_, com o nome de Deos, e a ablução de Jesus Christo. - -Vou mostrar bons exemplos. - -Lembrar-vos-heis do que acima vos disse tanto dos feiticeiros dos campos -do Mearim e das habitações de _Thion_, como da maneira porque os diabos -manifestavam o temor, que tinham das cruzes, que plantavamos em nome -de Jesus Christo, e de nós seos fieis servos: quando alguns de seos -Principaes me diziam, que estes feiticeiros não quiseram vir com elles, -eu lhes perguntava a razão, e elles me respondiam—_porque Jeropary tem -medo de Tupan_. - -_Acaiuy_, principal do Mearim, de quem fallaremos mais de espaço, veio -me pedir licença para fazer sua casa ao pé da minha, não querendo ficar -com os outros no _Forte_, dizendo-me entre outras rasões que tinha para -isto, ser porque _Jeropary_ não se atrevia a aproximar-se do logar, em -que habitavamos visto termos vindo expressamente para repellil-o. - -_Pedro Cão_, selvagem baptisado em Dieppe havia muitos annos, dizia -a mim e aos Srs. de la Ravardiere, de Pezieux, e a outros quando o -interrogavamos á respeito de sua felicidade na guerra, que Deos sempre o -livrára de mil perigos porque era christão, e fazia fugir o diabo apenas -chegava n’uma aldeia, e que seos similhantes mostravam-se animados, -quando em companhia d’elle, não temendo _Jeropary_. - -O mesmo pensavam os habitantes de _Tapuytapéra_ á respeito dos novos -christãos, julgando que elles perseguiam e faziam fugir _Jeropary_, -mostrando-se contentes por isto quando tinham esses christãos em suas -aldeias. - -Servindo-nos d’estas crenças embutiamos no espirito dos cathecumenos -como ponto de fé, que logo que elles fossem _lavados_, adquiririam poder -contra o diabo, e nunca mais deviam temel-o. - -Corre voz geral em todas estas terras, que os diabos são _espiritos -maus_, que temem os _Pays_ e os _Caraybas_, isto é, os padres e todos os -que são baptisados. - -Recorda-me que fallando mil vezes d’esta materia aos selvagens, elles me -disseram—_Jeropary yportassuasseque gésera_—«o diabo está agora pobre -e miseravel, tem muito medo e já não é atrevido como era.» _Jeropary -ypochu, Tupan Katu_ «o diabo é mau, cruel e nada valle, porem Deos é -muito bom.» - -Que desejarieis mais para o complemento d’este primeiro signal, e -segurança da total ruina do diabo? - -São os proprios diabos, que confessam temer o nome de Jesus Christo, -as armas de sua paixão, e até os seos servos, dissuadindo seos intimos -amigos para que de nós se ausentassem, abalando ceos e terra afim de -embaraçar-nos, e movendo tudo para inutilisar nossos esforços, emfim -cahiram de ventas no chão, e chegaram ao cabo de suas astucias. - -Os que outr’ora os temiam, hoje os despresam; emfim só nos resta -continuar as obras começadas. - -_Linguis loquentur novis_: «fallarão novas linguas». Na verdade os nossos -selvagens do Maranhão fallam uma linguagem inteiramente nova, visto -que, esse _Marata_ antigo, isto é, um dos Apostolos de Jesus Christo -de quem fallarei mais adiante, não lhes ensinou a fallar como fallam -agora, a saber: na profissão do christianismo recitando o symbolo dos -Apostolos _Arobiar Tupan_ etc. etc., a dirigir-se a Deos por meio da -oração dominical _Oreruue_ etc. a encaminhar suas vidas e acções segundo -os mandamentos da lei de Deos _Ymoeté yepé Tupan_ etc. etc. conforme os -mandamentos da Igreja. _Are maratecuare ehumé_ etc. «lavar e fortificar -suas almas pelos Santissimos Sacramentos.» _Iemongarauiue_ etc. - -É por certo fallar linguagem nova, quando discorrem sobre os mysterios -da nossa fé, como sejam a unidade da essencia em Deos, e na Trindade -das Pessoas; que o Filho de Deos tomou corpo no ventre da Virgem: que -os maus vão para o inferno, que todos os homens resuscitarão em corpo e -alma, indo depois cada um para o lugar de sua sentença: são estes com -tudo os discursos diarios dos feiticeiros, só fallando em matar, comer, -assar e seccar a carne dos seos inimigos, e nas suas incontinencias, -libertinagens e loucuras. - -Admirar-se-ha muito quem pensar em tal mudança entre os barbaros, que -somente sabem o que lhes ensinou a natureza. - -Creem os judeos, que os Apostolos sahiram d’um tunel, bem cheio, de vinho -e de carne, e viram que os gentios de diversas nações davam signaes -de entender o que prégavam, e que os Apostolos por sua vez tambem os -percebiam. - -Tambem vos disse, que os selvagens ficavam muito admirados quando viam -seos similhantes, baptisados, discorrer em sua lingua sobre coisas altas, -profundas, e tão novas, como as que conheciamos por seos interpretes, e -diziam uns aos outros—como é que esta gente falla tambem de _Tupan_, como -os Padres lhes tem ensinado tão bellas coisas, quaes as que nos contam: -como nossos filhos sabem mais do que nós, nossos Padres, e mais remotos -antepassados, que embora tenham vivido muito nada nos contaram como estes -Padres: por força fallaram com Deos. - -_Em terceiro lugar._ _Serpentes tollent_ «elles desviaram as serpentes.» -Que são essas serpentes do Brazil, que com sua lingua e cauda envenenam -estes povos? Não são todos os grandes e pequenos feiticeiros, que -envenenam suas Nações? - -A fé de Jesus Christo é como a Cegonha, que purifica o paiz, onde está, -das serpentes venenosas. - -S. Paulo, na Ilha de Malta, atirou ao fogo a vibora que trazia no dedo. - -O dedo dado por Jesus Christo aos Apostolos, é o poder do Espirito Santo, -que de ordinario busca agentes naturaes docemente, sem constrangimento, -para dispôr o objecto a receber uma nova fórma pelo banimento e ruina de -outra fórma contraria. - -Estas viboras, arremeçadas ao fogo, são os Ministros de Satanaz, que o -Espirito Santo expelle para tornar a Nação cheia d’abusos susceptivel de -acceitar o Evangelho e de conhecer a Deos. - -Si eu disser, que me parece ter o Espirito Santo, em relação a estes -feiticeiros do Maranhão, feito um grande milagre, que nunca fez para com -os sacrificadores do Paganismo, creio ser bem recebida a minha opinião, -porque, alem de dois ou tres feiticeiros, todos os grandes só desejam ser -baptisados: ao contrario, raras vezes estes sacrificadores do diabo, na -gentilidade esposavam o christianismo. - -Por isso podiamos dizer, que as serpentes venenosas, que se arrastam na -terra, tornam-se passaros voadores no elemento do ar, conforme a profecia -de Isaias: _De radice colubri egredietur Regulus, et semen ejus absorvens -volucrem_: «da raiz da cobra sahirá o Basilico, e a semente do Basilico -engulirá o passaro,» o que Vatable assim interpreta[105]: _De radice -serpentis egredietur Regulos, et fructus ejus, cerestes volans_: «da raiz -da serpente sahirá o Basilico, e o seo fructo será uma cerasta volante.» - -Para entender esta passagem convem recordar-se do que escrevem os -naturalistas, a saber, que as cobras grandes e grossas geram o Basilico -quando comem um sapo; porem o Basilico procura gallinhas brancas, com -quem se unem, pondo ellas ovos, que enterram n’areia ao ardor do Sol, e -d’elles sahem serpentes, que voam. - -Nada dizem, que eu não visse em Maranhão, conforme me diziam e pensavam -os selvagens, e aconteceo-me por duas vezes, que uma gallinha branca -que eu tinha, pozesse dois ovosinhos redondos como uma ameixa de dama e -salpicados, e depois ella mudou de cacarejar, e parecia louca. - -Disseram-me então os selvagens, que infallivelmente o Basilico nos mattos -a tinha coberto, pelo que convinha matar, quebrar e queimar os ovos, para -evitar a morte infallivel de quem os comêsse: si se deixasse os ovos, sem -queimal-os, d’elles sahiriam serpentes voadoras, que não era a primeira -vez, que isto acontecia, e então todas as gallinhas mudam de canto, e não -param n’um lugar. - -Appliquemos isto ao nosso fim, e digamos que a antiga cobra é Satanaz, -Principe dos Demonios, os Basilicos são os Diabos destacados nas -Provincias por Lucifer para seduzir o Mundo; as serpentes são seos -Ministros, como sejam os _Pagys_ ou feiticeiros do Brazil, que desejam -adquerir azas para mudar de elemento da terra para o do ar, deixar seos -velhos e abominaveis costumes de arrastar o peito em seo execrando e -diabolico serviço, e aproximar-se do Ceo, como o resto dos indios pela -ablução ou lavagem de seos antigos peccados pelo Sacramento do Baptismo. - -Estas serpentes, tão perseguidas no Brazil, são esses desgraçados -costumes, e abominaveis peccados, como sejam as vilanias, raivas, e -vinganças, já descriptas amplamente n’outra parte. - -_Em quarto lugar._ _Et si mortiferum quid biberint non eis nocebit_: «e -si bebem algum veneno mortifero, não lhes damnificará.» O verdadeiro -veneno, que engolem as almas, é a falsa doutrina, que o Diabo faz -suggerir nos ouvidos dos novos christãos. - -Vós o achareis em muitos exemplos do proprio seculo dos Apostolos. Certos -seductores iam corromper os individuos sem malicia, e apenas bebiam ellas -o _Aconito_, sentiam-se afflictos, impressionados em sua alma, e abalados -em sua fé; porem o Espirito Santo mencionado no genesis—_Spiritus Domini, -ferebatur super aquas_ «o Espirito do Senhor é levado sobre as agoas de -Chaos,» isto é, ainda não purificadas e nem limpidas, ou como querem -dizer os outros: _Incubabat aquis_, deitava-se sobre as agoas do Chaos -para d’elle tirar as bellas pombas, como fingiam os Poetas, os ovos de -Thetis, cobertos pelo pombo branco, ou o Cysne, de que sahiram Castor e -Pollux, ou então _fouebat aquas_, aquecia essas agoas ainda frias. - -O Espirito Santo, digo eu desculpa mais facilmente a fragilidade e -fraquesa d’estes novos christãos, mas não as dos antigos crentes. - -Assim vae adejando sobre as agoas desviadas do verdadeiro caminho pelos -maus discursos d’aquelles, que tem a alma mal conformada, vae chocando -os ovos abandonados pelo Pae e Mãe, almas recentemente lavadas, porem -separadas da presença d’aquelles que as tem lavado. - -Aquecidas essas agoas geladas pelo sopro do pernicioso Aquilon, não quer -que o veneno bebido lhes dê a morte, conduzindo-as ao regaço de sua Mãe, -e entre os braços dos que, depois de Deos, os geraram espiritualmente em -Jesus Christo para obrigal-os a vomitar o veneno do seo coração, e tomar -o alimento salutar, pelo qual se fortificaram para resistir de ora em -diante a todos os choques. - -Passou-se isto no Brazil, como aconteceo no tempo dos Apostolos, onde -um certo numero de novos christãos de _Tapuitapéra_, seduzidos por -más palavras de um certo personagem, metade d’elles se deshouveram e -renunciaram o Christianismo; porem nós cuidamos d’elles com todo o zelo. - -Assim fizeram os nossos superiores, que redobraram de cuidados para -remediar este mal levando para ahi tudo quanto julgaram necessario, -e por isso essas novas plantas, fanadas por brisa gelada, adquiriram -seo antigo vigor e florescencia, e tornando a vel-os no Forte de Sam -Luiz, procuramos animal-os a ficarem firmes e constantes na profissão -do Christianismo, e ordenamos-lhes de não se separarem de Martinho -Francisco, ahi nosso suffraganeo. - -Sentia-se o diabo cercado por todos os lados, e peiores os seos negocios -de dia para dia. - -N’esta epocha, em que estou escrevendo, espero que os padres que por la -andam, lhe deem terriveis combates, e que seo reinado vá de decadencia -em decadencia, até total ruina; porque antes de eu deixar a ilha, via -e experimentava a disposição geral e universal d’estes selvagens,[106] -especialmente dos meninos, para os converterem. - - - - -CAPITULO XIV - -Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer, e começarão a -estabelecer o reinado de Jesus Christo. - - -O psalmista rei David, no seo psalmo 8.º—_In finem pro torcularibus, -psalmus David_, isto é, o psalmo de David, que deve ser cantado em acção -de graças ao Senhor no fim das vindimas diz, prevendo a ruina total do -imperio de Lucifer sobre as almas dos infieis, e o estabelecimento do -reinado de Jesus Christo—_Ex ore infantium et lactentium perfecisti -laudem propter inimicos tuos, ut destruas inimicum et ultorem_. «Tens -apurado teos louvores pela bocca dos meninos e das crianças de peito -á despeito dos teos inimigos, e por isso tu destroes o adversario e o -tyranno vingativo.» - -Rabbi Jonathas embellezou esta passagem, e esclareceo-a por esta -forma—_Fundasti fortitudinem, ut destruas Auctorem inimicitiarum et -ultorem_ «estabelecestes a força do teo imperio pela bocca e confissão -da Fé dos meninos para mostrar tua grandesa, e destruir o autor das -vinganças e o sanguinario vingador.» - -Disse São Jeronymo—_Quiescat inimicus et ultor_ «fechaste a bocca ao -seductor inimigo da salvação, e enraivecido contra os homens pela voz dos -meninos.» - -Grande maravilha é o serem os meninos o symbolo da proxima fundação do -reinado de Jesus Christo e a queda do poder dos demonios. - -Não me demoro em fundamentar com muitos exemplos este signal da -providencia de Deos, e assim limito-me a referir o que se passou no -Triumpho de Jesus Christo antes de sua Paixão, quando os meninos em -alta voz diziam—_Hosanna filio David_ «seja bem vindo o Filho de Deos,» -o que disse em primeiro logar o santo rei no seo cantico—_In finem pro -torcularibus_, «no fim pelas pressões,» isto é, no fim do reinado de -Satanaz, e no principio da Paixão de Jesus Christo, quando era tempo de -pagarem os meninos este tributo de reconhecimento. - -Em segundo lugar, de dia a dia, na continuação, no fim, e na consummação -do captiveiro de Satanaz sobre as almas infieis, e no principio da Santa -Igreja, fundada entre ellas, principalmente pelos meninos, o que desejo -mostrar ter sido feito pelos filhos do Brasil. - -Estas almas juvenis, ainda não corrompidas por antigos e maus costumes -de seos paes, mostram não sei que disposição singular e particular para -receber, como si fosse uma taboa rasa, qualquer pintura... - - (Falta uma folha.) - -... repugnancia: nós lhe facilitavamos os meios de o entender comparando -com as coisas, que veem diariamente. - -Assim como crescem as ostras sobre os ramos das arvores, tomando carnes -e recebendo vida entre duas conchas, sem mistura, nem effusão de semente -do humor marinho, e apenas pelo calor do sol, assim tambem o Filho de -Deos no ventre da joven, a Santa Virgem, recebeo seo precioso sangue da -materia, e o Espirito Santo, do calor, e assim tomou corpo sem alguma -outra operação humana. - -Gostavam muito da comparação, e me disseram que em seo paiz muitas coisas -se geravam pela simples influencia do Sol, como os lagartos, que sahem -dos ovos, depois que recebem a vida do calor do Sol, e por isso não -tinham difficuldade em crer o que nós lhes ensinavamos, e nem que Deos se -fizesse homem para morrer afim de salvar os seos, porque, diziam elles, -_Jeropary_, apesar de ser espirito mau, entra no corpo dos monstros para -nos amedrontar, espancar e atormentar. - -Sobre tudo muita admiração nos causava o como facilmente se convenciam da -verdade e da realidade de Jesus Christo, Filho de Deos, sob as especies -de pão e vinho, ao passo que viamos tantas almas vacillantes n’este -ponto, embora lhes sóbre espirito e comprehensão para outras coisas. - -A este respeito não pude dizer outra coisa, senão o que disse a -Escriptura Santa no proverbio 25—_Sicut qui mel multum comedit, non est -ei bonun, sic qui scrutator est magestatis, opprimetur a gloria_.—«É -coisa tão doce como o mel, mas quem d’ella comer muito, não pode offender -mais o estomago.» - -Nada ha de mais suave e delicioso do que a contemplação das obras de -Deos e a leitura das letras santas, mas para aquelle que vae muito alem, -e tudo mede pela vara de seo espirito, impellido pela soberba de seo -entendimento. - -Nada ha mais seguro, que não fique opprimido pelos vivos raios da gloria -de Sua Magestade, como se observa nos mochos cegos, visto quererem olhar -e julgar da face do sol, e da sua luz. - -Ao contrario, os que manejam com temor e humildade os mysterios de nossa -fé, são esclarecidos sem prejuiso de suas vistas, e docilmente obedecem a -vontade e poder do soberano, que pode o que quer, quer e faz o que diz. - -Estes pobres selvagens, fallo até dos que não são ainda christãos, apenas -se lhes fazia signal de sahirem da igreja, retiravam-se promptamente, -ficando comtudo na porta, que se conservava fechada em quanto se recitava -o canon da missa, e fazia-se a communhão. - -Diziam elles, em resumo, que n’essa hora descia _Tupan_ sobre os altares, -bebendo e comendo comnosco, que não tinham merecimento para ficar ahi em -frente d’elle senão quando fossem baptisados, e a maior parte d’elles se -ajoelhavam, imitando os francezes. - -Os Indios christãos ajoelhavam-se apenas ouviam tocar a campainha, -juntavam as mãos e adoravam a Deos. - -Ao mysterio do Sacratissimo Corpo e Precioso Sangue do Filho de Deos -elles chamam _Tupan_, quer dizer, o proprio Deos, segundo suas crenças, -_Aséreu yanondé Tupan rare_, quer dizer, «antes de morrer receberás o -corpo de Deos». - -Ainda que eu reconhecesse n’elles facilidade de crer segredo tão -profundo, não me animaria a communicar-lhes senão em artigo de morte, -e antes queria deixar esta tarefa para os que viessem depois de mim, -porque dando n’um certo dia a communhão a uma India, a quem examinei -tanto quanto pude antes de lhe dar o Precioso Corpo de Jesus Christo na -Paschoa, apenas recebeo a Hostia Consagrada perturbou-se muito e não -a poude engolir a ponto de querer tiral-a com a mão o que lhe prohibi -disendo só poder ser tocada por sacerdotes, que não tivesse receio, e -nem se assustasse tendo de receber seo Deos, que era de sua vontade, -que ella recebesse a hostia e a engolisse com toda a confiança, o que -fez mediante um pouco de vinho que lhe dei a beber no calix: tão grande -secura da lingoa e bocca proveio da grande timidez d’ella em receber -tão santo manjar, o que me resolveo de então em diante a deixal-os bem -fundamentarem-se no conhecimento d’este artigo antes de administrar-lhes -o Santo Sacramento, e ainda que muitos me pedissem o _Tupan_, eu lhes -respondia que esperassem pela vinda dos nossos padres. - -Não ha grande difficuldade em fazel-os confessar suas faltas, até mesmo -as proprias mulheres, e de coisas que são difficeis a este sexo declarar -aos sacerdotes, representantes da pessoa de Deos. - -Mui livremente vos dizem sim e não, o tempo, o lugar, a qualidade das -pessoas, o numero de seos peccados, sem algum vexame tolo e mau como por -ahi se observa. - -Não tem a menor hesitação em crer na efficacia do baptismo, que é o -lavamento dos peccados, a filiação de Deos, e a acquisição do Ceo, tendo -como certo que os baptisados vão para o paraiso gozar da companhia de -Deos, com tanto que não caiam outra vez em peccado mortal. - -Acreditaram sempre, que havia inferno, onde estava _Jeropary_, e para -onde iam os maus. - -Sabiam ao mesmo tempo por tradicção, que Deos era muito feliz lá em cima, -vivendo com os espiritos bons, e que seos paes que tinham tido boa vida, -iam para um lugar de delicias, onde nada lhes faltava embora terrestre. - -A vista d’isto facil nos foi fazel-os entender o que deviam crer do -paraiso, do inferno e de um terceiro lugar, onde se purificam as almas -antes de irem para o Ceo, de um quarto onde os meninos, que não chegaram -a receber o baptismo, morrendo antes do uso da razão, eram recebidos para -não padecerem por nunca poderem vêr a Deos, visto ser o baptismo a chave -do Ceo. - -Não se acreditaria, senão vendo-se, quanto são os selvagens curiosos por -saberem das coisas de Deos. Todos, quando com elles conversavamos, nos -faziam mil perguntas á este respeito, iguaes á estas: - -Como Deos fez o Mundo? - -Si o fez com suas proprias mãos, ou si ajudado pelos bons espiritos poude -fazer o Ceo, as estrellas, o sol, a lua, o fogo, o ar, a agoa, a terra, -os primeiros homens, os primeiros passaros, peixes e animaes, reptis, -arvores e hervas? - -O que existia antes de feito o mundo, e o que fazia Deos vivendo sosinho? - -De que forma está no Ceo? - -Como faz rebumbar o trovão, e cahir a chuva? - -Si falla aos homens, si viemos do Ceo, si nascemos de mulheres, si vimos -anjos e diabos? - -Quem nos ensinou tudo quanto ensinavamos, si não morriamos, e depois da -nossa morte como si faziam outros padres? - -Si em França haviam muitos padres, si andam vestidos como nós, si havia -um padre que fosse rei, porque regeitavamos mulheres e mercadorias? - -Si a Mãe de Deos era uma rapariga como outra qualquer, si bebia e comia -como nós, porque tinha morrido, si não vinha do Ceo passeiar as vezes na -terra e fallar comnosco? - -Si os Apostolos eram padres como nós, quantos tinham existido, porque os -outros _Caraibas_ francezes não eram tambem padres como nós, si fomos nós -mesmos que nos fizemos Padres, ou si foi outra pessoa? - -A todas estas e a muitas outras perguntas respondiamos com a verdade, e -elles por gestos e palavras demonstravam seo contentamento. - -Assim corria de maneira agradavel o tempo entre taes perguntas e -entretinimento. - -É por isso que pretendo aqui deixar as diversas e mais singulares -conversações, que tive com os _Muruuichaues_, isto é, com os principaes -de _Maranhão_, _Tapuitapéra_, _Commã_, _Caietés_, _Pará_ e _Miary_. - -Não quero demorar-me mais fallando em taes perguntas e respostas, visto -que as vereis mais adiante, e espero que minhas respostas vos contentarão -muito, e vos assevero que serão fielmente transcriptas até na propria -linguagem com que foram proferidas. - -Espero desculpa não só por isso como tambem pelo mais que ja deixei -escripto, mormente não se achando tantos ornatos n’esta historia como -exigia a curiosidade d’este seculo. - -É minha opinião, que a bellesa de uma historia consiste na verdade do -facto e na simplicidade do estylo. - -Si eu não descrever palavra por palavra essas conferencias, ou si -não usar de muitas palavras, basta que não offenda em coisa alguma a -substancia do facto, sendo essa abundancia de discurso necessaria e -requerida para vos fazer entender bem claramente suas intenções, e as -nossas expressões. - - - - -CAPITULO XVI - -Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro de Commã. - - -Tendo tido muitas conferencias com este principal e grande feiticeiro, -vou narral-as por capitulos: eis o primeiro. - -_Pacamão_ é pequeno no corpo, vil e abjecto á tal ponto, que quem não o -conhece, não faria caso d’elle. - -Comtudo isto é o maior e o mais graduado de todos os principaes do -Maranhão, especialmente na provincia de _Commã_, uma das mais bellas, -fertil e povoada no paiz dos _Tupinambás_. - -Goza entre elles de tal poder, que somente com sua palavra tem movido -todos os habitantes, sendo extremamente temído. - -É fino e velhaco tanto quanto pode ser um selvagem, e por essas -qualidades chegou a obter esse poder, grandesa e prestigio, sendo tido -por supremo curandeiro, subtilissimo feiticeiro, muito familiarisado -com os Espiritos, tendo entre suas mãos e á sua disposição a morte e a -vida, concedendo vida e saude a quem bem lhe aprouver; alem de grande -bafejador entretinha os ingenuos por meio de confissões, de lustração, -incensamento, e muitas outras coisas iguaes como ja dissemos. - -Não foi dos primeiros a visitar os francezes e fazer-lhes seos -offerecimentos, desejando vêr o que elles queriam, porque tinham vindo -aqui, e como se estabeleceriam. - -Informando-se bem de tudo isto, veio ao Forte de Sam Luiz, entrou, e -saudou agradavelmente o Sr. de la Ravardiere. Vinha bem acompanhado por -indios enfeitados de pennas, trouxe comsigo a mais vigorosa de todas as -suas mulheres, cujo numero chegava a trinta. - -Chegando a _Yuiret_, tendo passado o mar em nossa barca, que tinha ido -buscar farinha á sua terra, distante mais de 40 legoas do Forte de Sam -Luiz, fez saber ao Sr. de la Ravardiere, que ia ao seo Forte, e foi -esperado. - -Formou sua gente, uns atraz dos outros, e todos o acompanharam. - -Andou ao redor das casas, situadas na grande praça de Sam Luiz, fallando -como era de costume, apregoando sua grandesa, o seo amor aos francezes, o -objecto da sua visita, e tambem o valor e poder dos francezes. - -Acabado isto, aproximou-se da porta do Forte, perto de um quartinho, onde -estavam alguns francezes observando o que elle fazia. - -Ordenou á sua mulher, que se prevenisse para carregal-o até a casa do -governador, e foi obedecido promptamente, escanxando-se na cintura d’ella -como usam os indios quando carregam seos filhos: assim entrou no Forte, -e dirigio-se ao dito senhor: sua mulher era negra como o diabo e pintada -desde a planta dos pés até a cabeça com o succo do genipapo. - -Antes de ir adiante pensae si era possivel conter o riso, vendo-se um dos -Principaes do Brazil montado em tão bello cavallo. - -Foi comtudo muito bem acolhido, e disse o que lhe veio á mente para -desculpar-se, findo o que, e depois de tratar dos seos negocios, veio á -minha casa, em São Francisco, acompanhado por gente implumada. - -Mandei logo armar-lhe uma rede de algodão bem alva, onde assentou-se, e -pedindo a um dos seos companheiros o seo caximbo, este o entregou ja com -fogo. - -Depois de ter tomado tres ou quatro caximbadas, exhalando o fumo pelas -ventas começou assim a fallar-me grave e pausadamente achando-me defronte -d’elle n’outra rede: - -«Ha muitas luas, que eu tive vontade de te vir vêr e aos outros Padres; -mas tu, que fallas com Deos sabes, que não é bom e nem prudente ser-se -leviano e facil, mormente nós outros que fallamos com os Espiritos, e -mover-nos com as primeiras noticias e pôr-nos á caminho, porque sendo -observados pelos nossos similhantes, elles nos imitarão. - -«O poder, que alcançamos sobre nossa gente, se conserva por certa -gravidade em nossas acções e palavras. - -«Os intromettidos, e os que a primeira noticia apromptam suas canoas, se -emplumam e vão logo vêr o que ha de novo são pouco estimados, e nunca -chegam a ser grandes Principaes. - -«Foi isto o que me impedio e embaraçou de vir logo. - -«Os habitantes de _Tapuitapéra_ e muitos de minha provincia vieram antes -de mim, porem são menos do que eu. - -«Alegro-me com a vossa vinda, porque saberei que ha Deos: sou mais capaz -de o saber do que um só dos meos similhantes: não desejava que um só -d’elles me precedesse ou que tu o levasses diante de mim, e o fizesses -fallar com Deos. - -«Quando me ensinardes o que é _Tupan_, terei mais autoridade e serei mais -estimado, do que actualmente, e em meo paiz occuparei o primeiro logar -depois de ti. - -«Dize o que queres que eu faça, e quando meos similhantes virem, que eu -sou filho de Deos e lavado todos desejarão sel-o, buscando imitar-me. - -«Terei grande pesar, si estimares outro mais do que eu, porque sempre -vizei altas coisas. - -«Tinha muita curiosidade de visitar e de ouvir os Francezes. - -«De meos avós aprendi a historia de Noé, o qual construio uma barca, pôz -dentro sua gente, que Deos fez chuver abundantemente por muitos dias, que -a terra ficou submergida debaixo d’agoa, invadindo campos, montanhas, -valles, mar, e separando-nos de vós. - -«Noé foi pae de todos. - -«Soube tambem que Maria era Mãe de _Tupan_, sendo Virgem, porem Deos -mesmo fez corpo para si no ventre d’ella e quando cresceo mandou -_Maratás_, Apostolos para toda a parte, nossos paes viram um, cujos -vestigios ainda existe. - -«Vós outros padres são mais do que nós, porque fallaes a _Tupan_, e sois -temídos pelos espiritos: eis porque quero ser padre. - -«Muito tempo ha, que eu sou _pagy_, e ninguem é mais do que eu, porem não -faço caso d’isto, porque vejo que meos similhantes somente vos apreciarão. - -«Desejaria muito que viesses a minha provincia, boa terra, onde se -encontram muitos javalys, viados, e corças, nada te faltará, e sempre -estarei comtigo.» - -Respondi-lhe a tudo isto, dizendo ter muita satisfação de vel-o, ja tendo -muitas vezes ouvido fallar d’elle e do seo poder, como enganava com -certos ardis os indios fazendo-os acreditar ter em seo poder um espirito -familiar, sendo ainda maior o seo contentamento por vel-o principiar a -reconhecer sua falta, sendo certo que por seo discurso eu bem percebia -que elle não tinha a intenção, que Deos exige, para ser posto no numero -dos seos filhos e lavado com agoa divina. - -Replicou-me assim: - -«Que queres dizer com isto, que eu não procuro Deos como convem? - -«Será porque desejo ser padre como tu, fazer-me admirar mais do que nunca -entre os meos, persuadil-os a ser filhos de Deos, a procurar-te para -serem baptisados, e fazeres em minha provincia o que quizeres, que de mim -se diga que eu era o grande _Pagy_, sendo o primeiro a reconhecer Deos e -vós outros padres. - -«Sendo estimado pelo grande espirito, os outros á minha sombra procurarão -a Deos e farão como eu. - -«Si eu não me fizer lavar, muitos não o farão, e dirão—esperemos que -_Pacamão_ seja _Caraiba_, e depois nós o seremos, porque tem melhor -espirito e é mais esperto do que nós. - -«Deves saber que antes de terdes chegado, eu ja lavava os habitantes do -meo paiz, como vós padres fazeis com os vossos, porem em nome do meo -espirito, e vós o praticaes em nome de _Tupan_. - -«Eu bafejava os infermos, e elles ficavam bons: elles me diziam o que -fizeram, e eu embaracei _Jeropary_ de fazer-lhes mal. - -«Fazia apparecer annos bons, e vingava-me dando doenças aos que me -despresavam. Dava-lhes agua que corria do pavimento de minha casa, o que -agora não faço e nem quero mais fazer, porque era a subtilesa do meo -espirito, que me suggeria todas estas coisas, zombando assim dos meos, -que julgavam, por falta de espirito, ser isto maravilha. - -«Foi um francez que me ensinou a fazer brotar agoa do soalho de minha -casa.» - -Respondi-lhe pelo meu interprete, que na sua réplica descobria não -procurar elle a Deos como era conveniente, por que pretendia por meio -do baptismo fazer-se maior e mais estimado entre os seos do que era -antes por meio de seos grosseiros embustes, visto que Deos exigia de -seos filhos, que fossem humildes, e que se arrependessem dos peccados -passados: com quanto na verdade Deos não deixe de exaltar os seos, -muito mais do que os diabos fazem com os seos sectarios, em quanto elle -tivesse esse espirito, não esperasse que os padres o baptisassem, e sim o -fariam só quando elle não fosse soberbo, e estivesse arrependido de suas -feitiçarias. - -Em quanto eu dizia estas palavras, chegou o interprete do Sr. de la -Ravardiere por nome _Mingan_, a quem eu tinha mandado chamar para -conversar com _Pacamão_, porque é da indole d’esses selvagens dar mais -credito aos interpretes mais velhos do que aos moços. - -Contei-lhe palavra por palavra toda a nossa conferencia até aquella -hora, e lhe pedi para fallar a elle de conformidade com os meos e seos -pensamentos. - -Eis como elle fallou: - -«Tu bem sabes, que ha muito tempo eu converso comvosco, e com vossos -paes, quando estavamos em _Potyiu_. - -«Muitas vezes te chamei embusteiro por abusares de teos similhantes, -muito credulos. - -«Tu lhes fazias crer tudo quanto querias: teos paes e todos os não -baptisados vão para _Jeropary_ no inferno, e tu irás com elles si não -fizeres o que dizem os padres. - -«Quando estavamos comtigo antes da vinda dos padres, sempre zombavamos do -que faziam vós e os outros _pagys_: não diziamos palavra por não ser esse -o nosso fim, e sim colher algodão. - -«Lançavamos mão de vossas filhas, e d’ellas tinhamos filhos, o que é -hoje prohibido pelos Padres, não me atrevendo por isto nem eu e nem os -outros, ir a Igreja, porque os Padres nos ensinam, que Deos prohibe a -deshonestidade. - -«Tens trinta mulheres, deves deixal-as e te contentares com uma, se -desejas ser filho de Deos e receber o baptismo. - -«Pensa bem e sobretudo na felicidade que si te offerece de poder -salvar-te e livrar-te das patas do Diabo. - -«Teos paes não tiveram tal occasião: foi Deos que te inspirou a vir ter -com os Padres e lhes pedir o baptismo. - -«Lembra-te que Deos sabe de tudo e não pode ser enganado, quer e deseja -que todos que o buscam, renunciem o diabo e suas acções.» - -Respondeo assim _Pacamão_: - -«Não sabes o que tenho sido entre os meos? Quanto caso fazem de meos -feitiços? Não sabes que sempre tratei os francezes como pude, e de muito -boa vontade? - -«Animei sempre meos similhantes a dar-lhes suas filhas e seos generos em -troco de ferramentas: sentia-me satisfeito entre elles aprendendo alguma -coisa de novo, porque os francezes tem mais espirito e intelligencia do -que nós, e apenas soube da chegada dos Padres fiquei muito contente, e -disse aos meos similhantes—que felicidade! elles nos ensinaram a conhecer -a Deos, quero ir vel-os. Foi isto que aqui me trouxe, e é d’isto que nos -occupamos.» - -Disse a _Migan_ estar elle repetindo o que eu ja havia dito, isto -é, que era bem vindo, sendo porem necessario buscar o baptismo com -arrependimento e humildade. - -Migan explicou-lhe muito bem a grandeza e o poder de Deos, e a pequenez -dos homens, especialmente dos captivos de Satanaz. - -Mostrou-se satisfeito, e me prometteo vir na manhã seguinte fallar -commigo dos seos negocios. - -Assim finalisou-se esta conferencia, e si retiraram para o Forte depois -de ter cada um bebido um pouco de agoardente. - -Vamos notar muito bellas particularidades n’este discurso, que não seriam -entendidas ou passariam desapercebidas si não fossem indicadas. - -Em primeiro lugar o falso zelo d’estes selvagens em conservarem sua -autoridade e prestigio entre os seos, não fazendo acção alguma sem -reflectir, pela qual possam ser mal apreciados pelos seos inferiores, -tão levianos e imperfeitos como elles, e por conseguinte tão incapazes -de entretêr os espiritos familiares como elles: supponhamos que para ter -o gozo dos espiritos é preciso ser constante e grave, e não se deixar -levar pelas primeiras informações. Pensando n’isto, vêde como os diabos -abusam da luz natural do homem, que claramente nos faz vêr si desejamos -conservar em nós o verdadeiro espirito de Deos, sendo conveniente banir -a leviandade e inconstancia do nosso interior, reconcentrar-nos com -firmesa, e nada fazer ou dizer, que não seja discutido e decidido pela -rasão. - -De outra fórma somos menores em relação a profissão do Christianismo, do -que estes feiticeiros, que se esforçam a ser graves procurando conquistar -a estima de seos similhantes. - -Em segundo lugar notareis os effeitos do espirito diabolico, que são -a soberba e a grande presumpção, que já se abriga até entre as coisas -sagradas: tão grande é o seo veneno a ponto de querer atacar o seo -contrario, visto não haver maior antagonismo do que entre o Espirito de -Deos e o de Satanaz, a humildade de Jesus Christo e a soberba de Lucifer, -a abnegação do Christão e a presumpção dos filhos do diabo! - -Assim procedia Simão, o magico, para com S. Pedro, procurando com seo -dinheiro o Espirito de Deos, afim de se fazer reconhecido como grande por -meio do Espirito Santo. - -Que grande cegueira julgar Deos vassallo da vaidade! - -Que desgraça estar uma alma presa por infernaes obscuridades! - -Este pobre feiticeiro do Brazil julgava no principio, que tinhamos Deos -em nossa algibeira para dal-o a quem bem nos aprouvesse, obedecendo elle -a quem o entregassemos. - -Com o fim de se apoderar de sua alma o diabo o escravisa e o obriga a -commetter mil loucuras, inspirando esse _Pagy_ para isso. Deos nos livre -de tal perigo! - -Em terceiro lugar—quanto ao que elle disse de Noé e da Virgem não -ousarei dizer d’onde elle teve essas ideias: si foi dos francezes, não -parece muito, porque os que vieram antes de nós só lhes fallariam de -obscenidade, e concubinatos; é mais provavel, que fosse de tradicções -antigas, porque apenas chegamos a _Yuiret_, _Japy-açú_ nos fallou quasi -da mesma maneira do diluvio e de um Apostolo, que por aqui andou, como se -lê na obra do Reverendo Padre Claudio d’Abbeville. - - - - -CAPITULO XVII - -Segunda conferencia, que tive com Pacamão. - - -Na manhã seguinte veio vêr-me, como me tinha promettido, em companhia de -sua gente. - -Não quiz assentar-se na rede, e pegando-me na mão disse-me _Ché assepiak -ok Tupan_ «eu te rogo leva-me a vêr a casa de Deos quero fallar-te -conforme teos discursos de hontem á tarde.» - -Disse-lhe, que me acompanhasse, que satisfaria seos desejos, e assim o -fiz. - -Logo que entraram todos, mandou que ficassem na porta e proximando-se de -mim fallou-me em segredo—aquelles, nada sabem e nem entendem o que se -fallar á respeito de Deos, por tanto quero que conversemos á vontade. - -Mandei ornar a nossa Capella com os melhores paramentos, e pôr sobre os -degraos do altar muitas e differentes Imagens. - -Aproximamos-nos do altar sempre acompanhado pelo intreprete. - -Por mais de duas horas indagou de mim tudo quanto via. - -1.º Quiz saber o que significava o Crucifixo dizendo-me—quem é este morto -tão bem feito e tão bem estendido n’este pau encruzado? Expliquei-lhe -que isto representava o Filho de Deos, feito homem no ventre da Virgem, -pregado por seos inimigos sobre esse madeiro afim de ir ter com seu -seo Pae, felicidade que alcançariam tambem os que fossem lavados com o -sangue, que elle via correr de suas mãos, pés e lado. - -Conservou-se admirado por algum tempo, olhando com muita attenção a -Imagem do Crucificado: exhalou depois um suspiro, e soltou estas palavras -como _omano Tupan?_ «Que! será possivel que Deos morresse?» - -Repliquei-lhe não ser necessario, que elle pensasse que Deos tivesse -morrido, porque sempre viveo desde a eternidade, dando vida aos homens -e aos animaes: o que falleceo foi o corpo somente, que elle tomou da -Virgem Santa Maria para matar _Jeropary_, como elle via fazer aos meninos -quando querem apanhar um peixe grande no mar, que devora os pequenos, -deitando como isca no anzol de sua linha o corpo de um d’esses peixinhos, -o que sendo visto pelo peixe grande atira-se sobre elle e vê-se pilhado, -puxado, derribado e morto, em favor e livramento dos pequenos. - -Assim tambem este mau _Jeropary_ ia devorando todos os nossos Paes, porem -aprouve a Deos enviar seo Filho para pescal-o á linha, servindo de haste -esta Cruz, de anzol ou de croquezinho estes cravos e espinhos, e d’isca -seo corpo. - -Mas, respondeo-me elle, porque havia o diabo de ter poder sobre nossos -paes? - -Porque, respondi, elles foram rebeldes á lei de Deos, comendo do fructo -prohibido, e deixaram-se enganar pelo diabo, debaixo da forma de serpente. - -Com quanto Deos nos podesse salvar por outros meios, achou mais docil e -rasoavel tomar o rapinador em lugar de suas victimas. - -Mostrou-se contente, e perguntou—o corpo de _Tupan_ está ainda em França -sobre a Cruz, como este que tu me mostras, e tu o vistes? - -Não, respondi, porem resuscitou pouco depois da sua morte, levando seo -corpo lá para cima, lá para o Ceo, vivendo e brilhando como o sol, -sentado no mais bello lugar do Paraizo, vindo curvar-se diante d’elle -todos os espiritos e almas de pessoas de bem, e agradecer-lhes a morte do -seo inimigo. - -Com a protecção d’este corpo, os nossos, depois de mortos, resuscitarão e -irão para o Ceo levados pelos Anjos, isto é, nós que somos lavados com o -sangue derramado de suas chagas. - -Vossos corpos e os de vossos paes irão ter com _Jeropary_ arder em fogos -eternos, si não fordes lavados com este sangue. - -É necessario, disse elle, correr muito sangue de seo corpo, e que vós o -guardeis com todo o cuidado para lavar tanta gente. - -Respondi—és ainda muito obtuso para comprehenderes estes mysterios. - -«Basta ter sido espalhado uma unica vez esse sangue sobre a terra, e que -em memoria e respeito a elle lavemos espiritualmente as almas com agoa -elementar, que derramamos sobre vossos corpos. - -«Não vês correr sempre uma fonte, ainda que cavada uma só vez pela mão de -Deos? - -«Tu bem sabes, que as constellações sete-estrellas e a ursamenor foram -pregadas uma só vez no Ceo, e com tudo todos os annos, apenas brilham por -cima da tua cabeça, ellas te mandam chuva, que rega tuas roças.» - -Disse ainda: - -«Eram malvados os que mataram _Tupan_, porque elle era bom, eu o amo, e -n’elle creio.» - -Respondi-lhe. Foram seduzidos por _Jeropary_, como tu, que os animou a -perseguil-o, a matal-o, e crucifical-o, porque elle os censurava por sua -maldade, como nós agora fazemos, seguindo em tudo a lei, que nos deo. -Todos os que obedecem ao diabo são seos inimigos e si elle hoje voltasse -ao Mundo passaria por iguaes soffrimentos, repetindo os actuaes o mesmo -que fizeram os outros antigamente. - -Respondeo-me—desejava que me desses uma Imagem como esta para levar -commigo quando regressasse á minha provincia. Repetirei palavra por -palavra á meos similhantes o que acabas de dizer-me, e farei para ella -melhor casa do que esta, eu a fecharei muito bem, só eu entrarei ahi, e -algumas pessoas capazes de entenderem as explicações, que me destes. - -Respondi—quando fores baptisado, nós te daremos licença para fazeres uma -casa, onde levantaremos um Altar igual á este, com iguaes ornatos, e com -Imagens como as que estás vendo. - -2.º Nos pés do Crucifixo havia uma Imagem de Nossa Senhora, feita em -bordado alto, de extrema belleza, e revestida de perolas, presente -do Sr. de S. Vicente quando regressou á França: olhando para ella, -perguntou-me—quem é esta mulher tão bonita, e este menino que olha para -ella de mãos postas? Eu lhe disse, que era a figura de Maria, Mãe de -Deos, e este menino é o filho de Deos quando sahio do ventre d’Ella. - -Repetio estas palavras duas ou tres vezes—_Ko ai Tupan Marie?_ «Como é -Maria Mãe de Deos?» _Kugnan Ycatu_, «linda mulher.» - -Respondi, que assim devia ser, pois que Deos a escolheo para Esposa e Mãe -de seu Filho, que era a Princesa de todas as mulheres, tendo tido por -marido Deos unicamente, e que sendo pura deo á luz o Filho de Deos, que -tinha resuscitado depois da sua morte, como aconteceo a seo Filho, sendo -levada para o Ceo pelos Anjos, onde estava assentada ao pé do corpo de -seo Filho. - -Que grande coisa, disse elle, uma Virgem parir. Como, respondi eu, não -vês crescerem as ôstras nos ramos das arvores, só e unicamente, sem -auxilio algum? - -Deos ama a puresa, porque elle é mais puro do que a luz do sol. - -È verdade, respondeo, porem vós, e os outros padres, sabeis grandes -coisas, sois mais sabios do que nós, porque não prestamos attenção ás -coisas da nossa terra, que vemos todos os dias, e vós em tão pouco tempo -já as conheceis. - -Ainda não é tudo, disse-lhe, vinde commigo, e prestae attenção ao que vou -dizer-vos por intermedio do meo interprete para repetirdes tudo, quanto -souberdes, aos teos companheiros, que ficaram na porta por tua ordem, -visto ser da vontade de Deos que todos se salvem grandes e pequenos. - -Dizendo-lhe isto, fiz-lhe vêr todas as peças e quadros da creação e -da redempção, apontando-lhe todas as suas diversas partes: n’uma, por -exemplo, a creação dos Ceos e dos elementos, n’outra a creação dos peixes -e dos passaros, e n’outra a creação dos animaes, das arvores e das -hervas: causava prazer vel-os olhar com muita attenção para as figuras -dos passaros, dos peixes e dos animaes afim de conhecerem os da sua -terra, e quando descobriam um parecido, não deixavam de dizer-nos—eis tal -passaro, tal peixe, e tal animal, e os que não conheciam perguntavam -si haviam em França, e como se chamava. Captivou-lhes principalmente a -attenção a figura de Deos, no meio do quadro, com os braços abertos, -soltando da bocca um forte sopro de vento, e me perguntaram o que isto -queria dizer? - -Expliquei-lhes, que isto representava a maneira, como foram feitas todas -as coisas, apenas com a palavra de Deos, cujo poder e dominio estendia-se -ás duas extremidades do Ceo. - -Admirou-se tambem muito da mulher ter sido formada pela costella do -homem, quando dormia, pedio-me explicações, e assim o satisfiz dizendo, -que Deos quiz com isto que elle tivesse uma só mulher e não mais de -trinta como elle tinha; porque si Deos quizesse, que tivesse mais de uma, -elle o teria permittido desde o principio, e sendo creado somente uma e -ainda á custa da costella do homem assim demonstrou, que este só devia -ter uma mulher, a quem amasse e conservasse, e não mudal-a á capricho da -vontade, como fazeis vós outros, sectarios de Jeropary, que vos persuadio -terdes muitas mulheres afim de indispor-vos e estrangular-vos uns com -os outros, visto que costumaes roubal-as até na casa de seos proprios -maridos. - -Na escada do altar estavam as imagens dos doze Apostolos e o padre Sam -Francisco, muito bem feitas e illuminadas. - -Perguntou-me quem eram esses _Caraybas_? - -Estes doze, respondi, são doze _Maratas_ do filho do _Tupan_,[107] os -quaes, depois que subiram ao Ceo, dividiram o Mundo Universal em doze -partes: tomou cada um a sua, onde foi guerrear _Jeropary_, e lavar todos -os crentes em Deos, deixando successores, que foram se revesando até nós. -Peguei na imagem de S. Bartholomeo, e lhe disse—Olhae, veio a vossa terra -este grande _Marata_, e aqui fez muitas maravilhas, como por tradicção -vos contou vossos antepassados. Foi elle quem fez talhar, á rocha, o -altar as imagens, e as inscripções, que ainda existem actualmente, como -tendes visto.[108] - -Foi elle quem vos deixou a _mandióca_, e vos ensinou a fazer pão, pois -vossos paes, antes de sua vinda, comiam só raizes amargas dos mattos. - -Como não quizestes obedecer, elle vos deixou, predizendo grandes -desgraças, e que ficarieis por muito tempo sem vêr _Maratas_. - -Tal qual aconteceo, e só agora é que tivestes quem vos livrasse das mãos -do diabo, e vos fizesse filho de Deos. - -Tomae cuidado em não fazerdes o que fizeram vossos paes. - -Logo que lhes transmitti estas palavras pelo meu interprete, olhou para a -imagem de Sam Francisco e me disse—quem é aquelle que está vestido como -tu? - -É, disse eu, o pae de nós outros padres, que assim se vestem. - -Vive ainda? replicou, está em França? Foi elle quem te mandou para cá e -aos outros padres? - -Não, respondi, ja não vive, morreo, porque nós todos morremos, porem -deixou successores, que nos mandaram para cá. Não está mais em França, e -sim no Ceo com Deos, onde esperamos ir vel-o. - -Não tinha mulheres, como vós não tendes? perguntou. - -Não, respondi, porque todos os padres não as tem, imitando assim o Filho -de Deos, seo Rei, que vivendo n’este mundo não tinha mulher. - -Dizendo isto, olhava o Ceo e as sanefas que cobriam nosso altar, as quaes -eram de bello damasco com grandes folhagens, agaloadas, e guarnecidas de -passamanes e franjas de prata fina, bem como o frontal do altar. - -Disse depois que tudo era bonito, e que serviamos _Tupan_ com grande -reverencia e pedio-me para baptisal-o antes do seo regresso, e que lhe -desse imagens para leval-as comsigo. - -É preciso, respondi, que saibas antes a doutrina de Deos. - -Não me dissestes ja, replicou elle, tudo quanto era necessario saber para -ser lavado? - -Não, respondi, isto não passou de uma conversa: ha ainda muito que -aprender. - -Que me ensinarás ainda? - -Respondi—si quizeres morar commigo eu te ensinarei, ou te farei ensinar -muita coisa, mas não te posso baptisar ja, sem primeiro saberes a -doutrina de _Tupan_. Quero experimentar tua constancia, e esperar -nossos padres que não tardam a chegar conforme me prometteram. Elles te -baptisarão, e irão comtigo fazer a casa de Deos na tua aldeia, e não te -deixaram mais. - -Antes d’isso não deixes de repetir na tua _caza grande_ á teos -similhantes o que sabes: não faças mais feitiçarias, e assim nós, e todos -os francezes, te estimaremos, e sempre serás bem vindo. - -Prometto, disse elle, e cumprirei minha palavra. Bem desejo que tu me -lavasses agora. Não deixarei de te vir visitar muitas vezes, porque -sempre aprenderei alguma coisa. - -Chamou então seos companheiros, que ficaram por todo este tempo na porta -da igreja. - -Que obediencia e respeito entre os selvagens! Mandou que se aproximassem -ao altar e á elles repetio o que lhe ensinei, mostrando-lhes as imagens e -explicando o que representavam. - -Esta pobre gente estava como que fóra de si, mostrando-se admirada a seo -geito, e depois despedio-se e foi para o Forte de S. Luiz, onde embarcou -e regressou á sua terra. - -Veio depois visitar-me para tratar do mesmo objecto, e contou-me como -cumprio suas promessas, fallando na _caza grande_, e repetindo o que lhe -ensinei, e affirmou que todos se fariam christãos logo que elle fosse -baptisado, o que me pedio ainda uma vez. - -Animei-o a continuar a proceder assim, e dei-lhe esperança de que seria -baptisado em pouco tempo, apenas chegassem os Padres de França. - -Conversamos ainda sobre os objectos, de que já nos tinhamos occupado da -primeira vez, e com avidez recebia todos os conhecimentos mostrando por -seos gestos indizivel contentamento. - -N’esta segunda visita, veio mais modesto, e acompanhado por poucas -pessoas, sem muitos enfeites de pennas, e fallando com muito menos -arrogancia do que o fez na primeira vez. - - - - -CAPITULO XVIII - -Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra. - - -O grande feiticeiro de _Tapuytapéra_ era homem muito respeitavel, de boa -estatura e bem feito, valente guerreiro, modesto, grave, e de poucas -palavras: era muito amigo dos francezes, e gozava entre os habitantes do -seo paiz do mesmo poder, que Pacamão em _Commã_, Japy-açú em _Maranhão_, -o Arraia-grande entre os _Caietés_, Thion e Farinha-molhada entre os -_Tabajares_, rico, e de muito bons filhos, que são fieis aos francezes e -christãos, como d’aqui ha pouco diremos. - -Veio ao Fórte de S. Luiz seguido por perto de tresentos a quatrocentos -dos seos companheiros para fazel-os trabalhar nas fortificações, e -regressar á seos lares depois de acabarem seo tempo, revesando-se assim, -e nunca menos de dusentos a tresentos selvagens. - -Durante as horas do trabalho assentava-se elle junto aos francezes -mais graduados, ahi vigiava a sua gente, animava-a, e recommendava-lhe -perfeição de obra. - -Fui vêl-o n’essa lida, desculpou-se muito para commigo, por intermedio -do seo interprete, por não me ter vindo vêr logo que chegou a Ilha, por -estas palavras: - -«Não te fui procurar, embora tivesse muito que conversar comtigo, porem -deve ser com descanço. - -«Agora é preciso vigiar minha gente no trabalho, afim de se empregar com -animo na fortificação d’esta praça. - -«Não deixarei de te ir vêr com _Migan_, que está aqui para te fazer -sabedor do que eu digo, contando-me tambem as maravilhas, que ensinas aos -nossos similhantes.» - -Respondi-lhe, que achava isto bom, e que estava contente vendo-o assiduo -no trabalho para que fóssem bem feitas as trincheiras e fóssos afim -de resistirem a seos inimigos, e que depois si nos offerecia occasião -de conferenciarmos: que era só isto, que eu desejava, que nós todos o -estimavamos e muito, tanto por sua bondade natural como porque elle era -amigo dos francezes, e sempre fiel. - -Assentamos-nos depois um em frente do outro, conversamos sobre muitas -coisas indifferentes, especialmente do enthusiasmo de sua gente, e -particularmente das crianças, que carregavam terra, o que causava a elle -e á nós muita satisfação, fazendo-me dizer e a proposito, que bem razão -lhes assistia n’esse trabalho, cheio de fervor e de coragem, pois era -para elles, que se lidava, visto que um dia veriam as maravilhas feitas -pelos francezes n’esta terra. - -«Serão bem differentes do que somos, dizia elle, porque serão _Caraibas_, -andarão vestidos, e verão as Igrejas de Deos construidas de pedra.» - -Confirmei em minha resposta a felicidade de seos filhos no futuro, -assegurando-lhes, que d’ella tambem gozariam porque não haveria muita -demora na vinda de soccorros e navios de França trazendo muitos Padres, -muitos francezes guerreiros, muita ferramenta e generos para elles: -que então se construiriam casas á maneira dos francezes, que seriam -acompanhados por elles quando fossem guerrear seos inimigos, que viriam -os _Tupinambás_ e os outros alliados cultivar a terra da _Ilha_, e que -tudo isto poderiam vêr antes de morrerem. - -Ditas estas palavras despedi-me d’elle, e regressei á minha habitação. - -Quando acabou o tempo do seo trabalho veio visitar-me, acompanhado pelos -principaes da sua Nação, e pelo interprete _Migan_. - -Assentou-se, e pedindo fumo, como costumava, me disse estas palavras: - -—Antigamente usei de muitas feitiçarias para me tornar grande e -authoridade entre os meos. - -Muito tempo ha que conheci este abuso, e que zombo dos que se empregam -n’este officio. - -Não ignoro a existencia de um Deos, porem não sei conhecel-o. - -Seria impossivel o giro annual do sol, a existencia de ventos e chuvas, e -o forte estampido dos trovões si não houvesse um Deos, autor de tudo isto. - -Temos então homens maus, que vivem livremente sem temer algum castigo, e -pensamos que elles irão ter com _Jeropary_. - -Temos outros homens, que são bons, que não matam, que dão expontaneamente -a sua comida, e pensamos serem elles amados por Deos, e por tanto que não -vão cahir no poder do diabo. - -Alegrei-me muito quando me noticiaram a vinda dos padres, que faziam -conhecer _Tupan_, e que em seo nome lavavam os homens: foi este o -principal motivo, que aqui me trouxe para vos vêr, e manifestar-vos o meo -desejo de ser instruido e baptisado, porque ja soube, que dissestes serem -condemnados os não baptisados, e que se perderam nossos paes. - -Tenho muitos filhos, quero que sejam christãos, como eu afim de irmos -todos para a companhia de Deos. - -Desejo edificar na minha aldeia para elle uma casa, e junto d’ella outra -para vós: eu o sustentarei e nada lhe faltará. - -Os que na minha provincia confiam e tem fé em mim, serão christãos.— - -Traduzindo-me o interprete tudo quanto acima escrevi, acrescentou «este -homem tem muito amor a Deos, e conhece-o muito, porque usa das palavras -mais expressivas da sua lingua para melhor exprimir o que sente e -conhece, e tenho muita pena de não poderdes entendel-o e conhecer o que -elle diz. Respondei conforme seos desejos, fazei com que elle entenda -estas palavras, o mais eloquentemente que puderdes.» - -«Informaram-nos os francezes muito bem de vós e de vossos filhos, tanto -de vossa fidelidade, e amisade, como de vossa natural bondade: eis o -verdadeiro meio de cedo receberdes o favor de Deos, alcançardes seo -conhecimento e seo baptismo. Tu o vês ordinariamente diante de ti quando -a terra produz facilmente muitos fructos, provenientes da semente n’ella -lançada. - -«O homem é a terra, e o Evangelho a semente: quando Deos encontra boa -terra, sem cardos e nem espinhos, elle ahi lança sua semente: á vista -disto muito espero de ti e de teos filhos, e te asseguro que si fossemos -mais nós os padres, tu já levavas um comtigo: tende porem paciencia, -breve chegarão outros. - -«Não deixes comtudo de edificar a casa de Deos e a dos padres, para que -apenas cheguem, possas leval-os e acommodal-os. - -«Não podes demorar-te aqui muito tempo em virtude do teo cargo: nós como -somos poucos, não podemos tambem ir comtigo; conserva teos bons desejos, -e Deos te ajudará. - -«Conheci ja que tens muito amor a Deos, que seo espirito tocou-te o -coração, e illuminou-te o entendimento para te guiar no que me dissestes: -é grande bem para ti, não o despreses.» - -Respondeo-me assim: - -—Nunca fui mau, nunca me agradaram as carnificinas dos nossos escravos. -Nunca roubei as mulheres dos outros, contentava-me com as minhas. É bem -verdade, que me fiz temido ameaçando os que me despresam com molestias, -que contrahiam por medo. - -Nunca fallei com Espiritos, como fazem os outros _pagés_, e apenas -empreguei a subtilesa da minha intelligencia, e a grandesa da minha -coragem. Minhas feitiçarias concorreram menos do que a coragem, que -muitas vezes hei manifestado na guerra, para conquistar a authoridade que -hoje occupo. - -Estou velho, e só ambiciono paz e tranquilidade.— - -Respondi-lhe haver procedido bem, irritando contra si muito menos o -soberano, á vista do comportamento de outros feiticeiros, que entretinham -relações com o diabo, e que assim ficasse gosando a tranquillidade de sua -consciencia até o dia do seo baptismo. - -Pedio-me para vêr a Capella, e buscou informar-se de tudo quanto -via—altares, paramentos, e imagens. - -Expliquei-lhe tudo bem á sua vontade, e assim despedio-se de mim para -regressar ao seu paiz, o que fez. Dei-lhe imagens para levar comsigo, -o que recebeo com muita alegria, e expliquei-lhe o que significavam, e -recommendei-lhe que as guardasse com todo o cuidado para que _Jeropary_ -não as tomasse, visto ter sido vencido antigamente pelo Filho de Deos, -que morreo na Cruz. - -Com taes impressões partio. - -Pouco tempo depois foi convertido Martinho Francisco a quem permittimos -edificar uma Capella na sua aldeia, onde celebrariamos missa, e -baptisariamos quando fossemos a _Tapuitapéra_. - -Este grande feiticeiro, de quem acabamos de fallar, teve ciumes, e -mandou-me dizer, que muito se admirava de eu ter dado licença a Martinho -Francisco para fazer uma Capella na sua aldeia antes d’elle construir uma -na sua, preferencia que elle bem merecia pela sua grandesa, tendo tambem -padres comsigo como lhe fôra permittido. - -Aos que me trouxeram o recado respondi não ter ultrapassado de -forma alguma minhas palavras e promessas, que era elle o primeiro -de _Tapuitapéra_, a quem tinha dado licença para fazer uma capella, -que devia preceder os outros e em quanto aos padres ainda não tinham -chegado: que quando fossemos a _Tapuitapéra_ não deixariamos de ir vel-o -e visital-o; mas que eu não podia recusar a Martinho Francisco, ja -christão, o ter junto de si uma casa de Deos para fazer suas orações. -Achou boa a resposta. - -Entre os convertidos por Martinho, depois do seo baptismo, foram dois -dos filhos d’este _Muruuichaue_, e com isto teve Martinho singular -consolação, animando-os a aprender suas crenças e a doutrina christan; -porem aconteceo, infelizmente, serem elles seduzidos pelas más palavras -de um de nossos interpretes para deixarem o Christianismo. - -Sabendo seo bom pae, que elles para esse fim tinham deixado seos habitos -e vestidos, lhes disse o que ides fazer? moveis-vos por bem pouco! - -«Porque vos despis, e dissestes, que não querieis mais ser christãos? - -«Quero agora que torneis a tomar vossos vestidos; ide procurar Martinho -Francisco na sua aldeia, e d’elle recebei a doutrina, que os padres lhe -ensinaram. - -«Não vos separeis d’elle, e nem cá venham senão em sua companhia. - -«Eu mandarei chamal-o para que vá ter com os padres.» - -Estes rapazes obedeceram a seo pae, tornaram a tomar seos vestidos, -vieram procurar Martinho Francisco, que foi ter com o grande feiticeiro, -e veio depois em companhia de muitos christãos ao Forte de Sam Luiz para -nos declarar, e aos nossos chefes, como se passaram estas coisas, e a -ellas se deo remedio, conforme a occasião permittio. - -O Revd. Padre Arsenio, acompanhado por muitos christãos, foi vêl-o em -sua aldeia, onde foi muito bem recebido, notando toda a alegria que póde -mostrar no rosto um selvagem, presenteou-lhe com muita caça, e rogou-lhes -que si quizesse morar em _Tapuitapéra_ que escolhesse para residencia -sua aldeia, e ahi seria bem acommodado, tanto quanto permitte o paiz. - -Depois d’isto mandou-me seo filho mais velho, chamado _Chenamby_, -«minha orelha,» com sua mulher, ambos com carga, e um filho pequeno. -Disse _Chenamby_—Meo pae está com muito cuidado em ti, receia que não -tenhas farinha, e é isto que aqui me traz. Logo que houver milho elle -te mandará muito. Tem muita vontade de saber logo que aqui cheguem os -Padres, porque immediatamente deixará a sua aldeia, e atravessará o mar -para cumprimental-os, pedir um d’elles e leval-o comsigo para aprender a -sciencia de Deos, e ser por elle lavado. - -Dois dos meos irmãos são _Caraibas_, os quaes, como sabes, se despiram, -apesar das observações, que lhe fizeram, actualmente vão indo bem, e -estão sempre com o _padre-miry_, «padre pequeno,» (sobrenome que davam a -Martinho Francisco por causa do empenho d’elle em converter as almas): -quero ser christão, conjunctamente com meo pae, minha mulher, que aqui -está, e meo filho pequeno que ella carrega, o qual chegando á idade -propria, darei aos padres para ser por elles instruido.— - -Este _Chenamby_ balbuciava um pouco o francez, e entendia tambem alguma -coisa, graças ao trabalho e empenho, que para isso empregava, fallando -com os francezes o mais que podia. - -Respondi-lhe em sua linguagem por meio do interprete, d’esta forma: - -«Que estava muito contente por seo pae lembrar-se de nós principalmente -pela constancia da boa vontade de seo pae e de seos irmãos para com -o christianismo, e especialmente vendo elle e sua mulher dispostos a -receberem a fé christã, e a nos offerecerem seos filhos para ensinarmos o -que fosse conveniente quando comnosco estivesse. - -«Exhortei-os por muitas palavras a terem elle e sua mulher constancia em -tal desejo.» - -Sua mulher era de agradavel presença, moça, modesta, e trazia em seos -olhos não sei que pudor, não se animando a olhar-me directamente: alem -d’isto occultava com o pé direito de seo filho sua enfermidade, guardando -o respeito natural de não se apresentar de outra forma diante de mim, -de que tirei boa conclusão agradando-me ainda mais de suas maneiras e -procedimento: achei-a muito boa e caridosa para com os francezes, humilde -e obediente a seo sogro e marido, virtudes não pequenas n’uma india. - -Antes de partir prometteo-me seo marido, que não casaria com outra, e nem -a abandonaria. - -Respondi-lhe, que se assim fizesse os padres o casariam á face da igreja, -depois de baptisado. - - - - -CAPITULO XIX - -Conferencia com Iacupen.[109] - - -Era Iacupen um dos principaes da tribu dos _canibaleiros_, conduzidos -para a ilha pelo Sr. de la Ravardiere, pae de um mancebo christão, de boa -indole, chamado João, e antes _Acaiuy-miry_, «cajú pequeno ou cajusinho.» -Teve por varias vezes o trabalho de vir de Juniparan procurar-me e -conversar commigo sobre as coisas divinas, e sobre a vaidade d’este mundo. - -Um dia veio a minha casa com seo filho, e assim fallou-me: - -—Tenho muito desgosto de não ser baptisado, porque sei que em quanto -estiver assim, o diabo pode perseguir-me e perder-me. - -Ah! quem pode assegurar-me a vida até a noite? - -Agora volto para minha aldeia, posso encontrar uma onça furiosa, que me -corte a garganta, e me mate sosinho no bosque. - -Para onde irá meo espirito? - -Não tenho pesar e nem inveja, que meo filho, que aqui está, se baptisasse -primeiro do que eu. - -Mas dize-me: não é coisa notavel, que elle seja Filho de Deos antes de -mim, seo pae, e que eu d’elle aprenda o que devia ensinar-lhe? - -Penso n’isto, e torno a pensar muitas vezes, principalmente depois -da vossa vinda, e da de outros padres: lembro-me da crueldade de -_Jeropary_ para com a nossa nação, porque tem feito morrer a todos, e -persuadio a nossos feiticeiros de conduzir-nos ao centro de uma floresta -desconhecida, onde dançariamos constantemente, alimentando-nos somente -do amago das palmeiras e da caça, succumbindo muitos por fraqueza e -debilidade. - -Sahindo nós de lá, e vindo nos navios do _Muruuichaue_ la Ravardiere para -a ilha do Maranhão, armou-nos _Jeropary_ outra emboscada, instigando por -meio de um francez aos _Tupinambás_ para matarem e comerem muita gente -nossa: si não é a vossa chegada acabariam comnosco. - -Ja vedes, que somos muito infelizes n’esta vida. - -Perseguimos os veados e outros bixos para matal-os e comel-os, porem -elles não necessitam de ferramentas, de fogo e nem de canoas, pois -acham a comida feita: quando perseguidos n’um lugar, em poucas horas -transportam-se para outro atravessando até braços de mar, sem canôa: nós -outros porem não podemos fazer o mesmo: faltam-nos ferramentas, fogo e -canoas, e o que é mais, vem ainda perseguir-nos nossos inimigos, ora os -_Peros_, ora os _Tupinambás_, e finalmente outras nações adversarias: -finalmente a nossa posição é peior do que a dos animaes da terra.— - -Respondi-lhe: «O que disseste, é bem certo, porque o diabo o que deseja -somente é matar o corpo e perder a alma, e assim procede sempre com -aquelles, com quem tem pouco a ganhar retendo-os em suas cadeias: é um -monsenhor, e trata cruelmente seos servos. - -«Deos não é recebedor dos velhos, e nem dos moços. Os primeiros, que se -apresentam, são recebidos por elle, comtudo os ultimos são sempre os -primeiros, porque recebem o christianismo com mais consideração, e o -conservam com mais fervor do que os que o abraçam ligeiramente. - -«Nosso Deos nos fez miseraveis n’este mundo afim de não olharmos só nas -delicias da carne, e sim para preparar-nos com destino a outra vida alem -d’esta.» - -Antes de passar adiante convem explicar o que elle quiz dizer, quando -fallou da desgraça de sua nação, devida aos conselhos dos seos -feiticeiros, e á carnificina feita pelos _Tupinambás_. - -Havia entre elles um grande feiticeiro, que entretinha com o diabo -visiveis relações, e gozava de tal poder entre elles que todos lhe -obedeciam. - -Aproveitou-se o diabo de tal ensejo para seduzir e enganar esta populaça, -ensinando ao feiticeiro o que devia dizer-lhe para elle ir tomar posse -d’uma terra, onde tudo, facil e sem trabalho lhe appareceria á medida de -seos desejos. - -Esta nação, tão cheia de prejuisos, seguio este desgraçado, não -intermediando muito tempo sem conhecer a zombaria do espirito do -conductor, porque falleceram milhares, e acharam-se no meio de vasta -floresta, dançando constantemente, como elle lhe ordenou, até que -chegasse o Espirito para lhe indicar o lugar procurado. - -Ahi achou-se o Sr. de la Ravardiere, demonstrou-lhe seo engano, o que -reconhecido, seguiram-no e embarcaram-se em seos navios com destino á -Ilha do Maranhão, onde algum tempo depois um miseravel francez tendo -uma questão com o Principal d’essa gente, para vingar-se, instigou os -_Tupinambás_ a matal-a, subindo esta carnificina a cem ou á cento e -vinte, entre mortos e prisioneiros. - -Tal barbaridade foi praticada cinco ou seis mezes antes da nossa chegada. - -Continuemos. - -Depois de minha resposta, disse-me: - -—Tenho bem pesar de não poder obsequiar-vos como mereceis, porque não -tenho meios de ter escravos; outr’ora fui rico, hoje sou pobre. - -Fiz o que pude ao padre, residente em _Juniparan_. - -Tenho bem pesar de não traser-te caça sempre que venho vêr-te.— - -Repliquei-lhe immediatamente: - -«Não é isto que desejo de ti, e estou muito contente de conhecer tua -devoção, e tua boa vontade, porem ambiciono que sempre progridas de dia á -dia, e adquiras novos conhecimentos á respeito de Deos. - -«Tens um padre na tua aldeia, visita-o sempre, e d’elle aprende as -maravilhas de _Tupan_. - -«Tens alem d’isto teo filho, que sabe a doutrina christan; elle que a -ensine a ti e a todos de tua casa, o que fará melhor do que nós, visto -pronunciar bem as palavras da tua lingua.» - -—O que acabas de dizer-me afflige-me muito, respondeo-me elle, porque meo -filho depois de christão, logo no principio, procedeo bem: ja sabia lêr -um pouco no seo _Cotiare_, e escrever, estava sempre com o padre, e o -seguia por toda a parte. - -Deixou depois tudo isto, entregou-se á liberdade, esqueceo o que havia -aprendido, e foge para o matto quando o padre o procura: isto me mata -e como nada aproveito em fallar-lhe, eu te peço que tu lhe mostres, e -proves ser elle filho de Deos, e que _Jeropary_ o quer seduzir: eil-o -aqui, falla-lhe.» - -Satisfiz-lhe o desejo, recordando á seo filho o fervor, com que recebeo o -baptismo, admirando-me de vel-o tão mudado a ponto de fugir dos padres, -pelo que eu acreditava andar o diabo no seo encalço si não regressasse -aos seos deveres, se não frequentasse o padre de _Juniparan_, e não -abraçasse sua antiga fé. - -Ouvio-me pacientemente, e prometteo-me melhor procedimento. - -Considerae, eu vos peço, o zelo de um verdadeiro pae para salvar seo -filho, como mostrou o grande feiticeiro de _Tapuitapéra_: este pae é -ainda pagão, e comtudo vós o vedes solicito, e cuidadoso pela consciencia -de seo filho. - -Quantos paes ha em França, que só cuidam dos bens temporaes de seos -filhos, e despresam os espirituaes! - -Veio outra vez visitar-me em companhia de alguns selvagens, seos -visinhos: rolou nossa conversação á respeito da creação do Mundo, da -providencia de Deos para com o procedimento dos homens, e da vocação -singular e particular de cada um. - -—É preciso, disse, que seja Deos um Espirito poderoso, incomprehensivel -para nós, para crear com uma só palavra, como ouvimos muitas vezes de vós -outros padres, tudo o que vemos e ouvimos. - -Imagino a immensidade do mar, que ha d’aqui até a França, tanto assim, -que os navios gastam doze luas no trajecto de ida e volta, e admiro que o -sol, que temos, seja tambem vosso. - -Quantos passaros, peixes, e animaes existe no Mundo, todos foram feitos -por _Tupan_.— - -O segundo ponto de discussão foi este: - -«Vejo-me embaraçado quando penso nas diversas nações, que existem no -Mundo. - -«Vejo os francezes ricos, valentes, inventando navios para passarem o -mar, canoas, e polvora para matar os homens insensivelmente, bem vestidos -e nutridos, temidos e respeitados. - -«Ao contrario nós vivemos errantes e vagabundos, sem roupas, machados, -fouces, facas e outras ferramentas. - -«De que procede isto? - -«Nascem ao mesmo tempo dois meninos, um francez, e outro _Tupinambá_, -ambos doentes e fracos, e não obstante um nasce para gozar de todas as -commodidades e o outro para viver pobremente. - -«Livres nascemos, um não tem mais do que outro, e comtudo uns são -escravos, e outros _Muruuicháues_.» - -Eis o terceiro ponto de discussão: - -—Não posso tranquilisar o meo espirito quando penso, que vós outros -francezes tendes mais conhecimento de Deos do que nós. Porque temos -vivido tanto tempo na ignorancia? Dizei-nos, que foi Deos quem vos -enviou, e para que não o fez antes? Nossos paes não se teriam perdido, -como succedeo. Os padres são homens como nós, e porque elles fallam a -Deos, e nós não?— - -Respondi-lhe a tudo isto, dizendo «ser muito pequeno nosso espirito para -conceber coisas tão altas, reservadas por Deos só para si. Basta saber -que elle fez tudo, ama e dá o necessario a todos.» - -Quando vê um individuo disposto a abraçar suas crenças não deixa de -o mandar vesitar pelos seos Apostolos, que lhe proporcionam meios de -salvar-se, sendo de crer não achar-se seo coração e espirito, antes da -nossa vinda, disposto e apto para receber tão grande luz, qual a do -Evangelho. - -Estes e outros discursos similhantes, que adiante encontrareis, vos -habilitarão a julgar da capacidade de suas almas para receberem a fé de -Jesus Christo, nosso Salvador. - - - - -CAPITULO XX - -Conferencia com o Principal d’Orobutin. - - -Era este Principal de alta estatura, muito magro, modesto e affavel, e -tinha estado doente desde a nossa chegada até quando veio vesitar-nos. - -Entrou em nossa casa acompanhado por alguns dos seos, com muito respeito -e quasi a tremer. - -Acolhendo-o muito bem, mandei sental-o em frente a mim n’uma rêde de -algodão, e logo conforme o costume, principiou assim a fallar-me: - -«Vim hoje ter comtigo, ó padre, para duas coisas: a primeira para -desculpar-me e pedir-te que não repares o não me encontrares quando -chegaste em _Uraparis_, como fizeram _Japy-açú_, _Pira-Juua_, -_Ianuarauaeté_, e outros Principaes da ilha, e não poude tambem vir -antes de _Pacamão_, de _Aua Thion_, meo chefe, pois achava-me gravemente -doente, porem no meio de minha molestia sempre tive o desejo de vêr teo -rosto, e ouvir de tua bocca o que meos companheiros de aldeia me contavam -de vós outros padres. - -«A segunda coisa que aqui me traz, é offerecer-te meos filhos, que t’os -dou, quero que sejam teos, e que os faças _Caraibas_. - -«Desejo igualmente e peço-te, que venhas tu ou um dos padres á minha -aldeia edificar uma casa para Deos instruir a mim e a meos similhantes, -e declarar-nos o que _Tupan_ deseja de nós para sermos lavados, como tem -sido os outros. - -«Asseguro-te que não faltariam viveres, por ser minha terra boa e -abundante de caça.» - -Advirto ao leitor, que é facil traduzir as palavras e pensamentos -d’este selvagem, porem não os gestos e a vivacidade do seo espirito ao -pronuncial-os: direi apenas que suas expressões eram acompanhadas de -lagrymas e com vóz cheia de fervor e devoção revelava-me o toque do -Espirito Santo, e o ardente desejo de ser christão. - -Respondi-lhe: - -«Não precisa pedires desculpa pela tua auzencia quando saltamos na ilha, -porque alem de estares doente, muito longe é d’aqui á tua aldeia, e isto -só basta para seres desculpado. - -«Regosijo-me muito vendo em ti tão boa vontade para comnosco, e tão -grande desejo de tua salvação, da de teos filhos e em geral da de teos -similhantes. - -«Si actualmente tivessemos mais padres acredita que eu iria, ou mandaria -outro á tua aldeia, porem não podemos deixar a ilha por causa dos -estrangeiros que nos vem vêr, e ao que é conveniente corresponder. - -«Logo que chegarem os padres de França asseguro-te que terás um d’elles, -porque reconheço claramente seres um dos escolhidos por Deos para seo -filho. - -«Coragem, e espera o que te digo.» - -Replicou-me: - -«Déste-me muita consolação, porque desde que correo o boato em nossa -terra de dizerdes maravilhas de _Tupan_ e de tratardes com bondade nossos -similhantes, que eu nunca mais tive socego de espirito. - -«Quando irás procurar os padres, quando da bocca delles ouvirás o que -dizem teos compatriotas? Levanta-te, e faze esforços para caminhar. - -«Obedecendo muitas vezes a este pensamento, levantei-me da cama, porem -estava tão magro e descarnado, que nem pude sustentar-me nas pernas: olha -para meos braços, meo corpo, e minhas coxas, que não recobraram ainda a -carne e a gordura, que a molestia me comeo. - -«Admirou-me muito quando soube ter _Marentin_ vindo tão doente -procurar-te, e receber o baptismo. - -«Peço-te encarecidamente, que antes do meo regresso me ensines alguma -coisa de Deos, e acredita, que fixarei em minha memoria, e não -esquecerei uma só palavra, e mui fielmente o referirei a minha gente e a -meos filhos. - -«Tenho tres filhos, sendo o mais velho este que aqui vedes: quero que -fiquem com os padres quando vierem, que se assentem á seos pés, e que -escutem com cuidado o que elles disserem, e cumpram suas ordens. - -«Elles caçarão e pescarão para os padres.» - -Pelo interprete lhe disse ter elle razão, e que eu não podia recusal-a, -e assim que attendesse bem ao que eu ia ensinar-lhe, e que chamasse -para junto de si seo filho e seos companheiros, o que feito principiei -a explicar-lhes o mysterio da creação e da redempção por meio de -comparações ordinarias e palpaveis. - -É impossivel descrever-se a attenção e emoção, com que elle recebia estas -agoas sagradas do Redemptor. - -Nunca animal algum foi tão avido e desejoso por uma fonte clara em pleno -estio, do que este saboreando a nova doutrina. - -Prasa ao Ceos, sem fazer comparação alguma, que os christãos acolhessem a -palavra de Deos com tanta avidez. - -Tinha as espaduas curvadas, em quanto fallei, os olhos meio baixos, -e apenas como que a furto respirava e cuspia, e n’essa occasião era -possivel presentir-se o caminhar de um rato. - -No fim disse-me—que grandes coisas! nunca ouvi fallar n’ellas e nem -n’outras similhantes, porque Deos não quiz fallar comnosco, e nem com os -nossos antepassados, e nenhum _Caraiba_ ainda nos entreteve contando-as. - -Acabas de dizer-me que Deos está em toda a parte, que não póde ser visto, -mas vê tudo e nos ouve, acompanhando-nos por toda a parte, e sempre -adiante: que somente os baptisados podem sentil-o e reconhecel-o, que não -tem corpo como nós, mas sim é um espirito derramado por todo o universo. - -Ouvi bem, mas difficilmente comprehendo, porque não estamos costumados -a ouvir tão grandes coisas, e sim temos inclinação natural para -pescar, caçar, flechar e fazer muitos exercicios. Em quanto aos mais -entregamo-nos aos nossos feiticeiros, dotados de animo mais subtil para -conversarem com os espiritos. - -Disseste-me ser Deos como o ar que respiramos constantemente, pois sem -elle morreriamos: que _Tupan_ nos dava vida e respiração, entrava em nós -e nos cercava por toda a parte como o ar: que assim como o ar existe e -vae por toda a parte, assim tambem Deos entrava e existia em todo o lugar. - -Entendo bem este ponto, pois si Deos fez o ar, necessariamente é mais do -que elle. - -Estou muito satisfeito por me dizeres, que _Jeropary_ apenas era criado -ou servo de _Tupan_, que é perseguido pelos espiritos bons, quando faz ou -persegue algum homem ou mulher sem licença de Deos, e que finalmente não -tem poder sobre os baptisados. - -Bem fez Deos, porque _Jeropary_ é mau, e eu bem desejaria que elle fosse -açoitado até morrer pelos bons Espiritos. - -Apenas eu fôr christão, si elle aproximar-se de minha aldeia, irei -atrevidamente ao seo encontro, e não terei medo algum.— - -Desculpae as expressões d’este selvagem, não christão. - -Escutae o resto da sua conversação. - -—Era necessario, que a moça, com quem Deos se casou, fosse muito bonita, -riquissima, e a mais poderosa do seo paiz, por ser _Tupan_ o maior de -todos os _Muruuichaues_: creio que seo filho tinha grande sequito e muito -acompanhamento; porem os malvados traidores, que o mataram, eram velhacos -e cautellosos porque o fizeram occultamente pois si sua gente soubesse o -teriam defendido. - -Parece-me que ficariam bem admirados quando o viram sahir vivo de sua -sepultura: devia então vingar-se dos que o fizeram morrer, mas tu me -disseste uma coisa admiravel, isto é, que elle subio para o Ceo, somente -em corpo e alma, que está sentado acima do sól, que tem olhos mais -claros que o sól e a lua, que nada se faz na terra, que elle não veja -e observe tanto na tua patria como na nossa, ouvindo distinctamente as -nossas palavras, as vossas preces nas Igrejas, escutando-as, e vindo -todos os dias sobre os vossos altares, onde com elle fallaes, bem como -todos os _Caraibas_ com liberdade, até sem abrir a bocca, não deixando de -perceber o que dizeis em vosso coração. - -Disseste tambem, que foi elle quem vos mandou para cá afim de ensinar-nos -estas coisas, a meo vêr muito bellas, e não me enfadarei de ouvil-as, -porem o barco está prompto para regressar, e estão á minha espera minhas -roças, que deixei boas para a colheita. - -Tudo isto obriga-me a partir, alem de não ter trazido farinha commigo.— - -Respondi-lhe, que si era só por falta de farinha, que elle se via -constrangido a partir, que eu tinha alguma á sua disposição e de seos -companheiros. - -Agradeceo-me a seo modo, despedimos-nos reciprocamente, e elle partio. - - - - -CAPITULO XXI - -Conferencia com o Onda, um dos Principaes de Commã. - - -Este Principal sempre foi o pae commum dos francezes em _Commã_ -honrando-os, respeitando-os, e defendendo-os contra todas as más -indisposições suscitadas, como era costume, pelos malvados e libertinos, -a ponto de ser por elles aborrecido e ameaçado de ser espancado senão -morto a não ser o receio, que tinham dos francezes. - -Quando foi nossa gente ao Pará, elle a acolheu com toda a bondade e -generosidade, ambicionando ser o _chetuasap_ ordinario do chefe dos -francezes, consistindo toda a sua fortuna e felicidade em ser amado e -apreciado pelos francezes. - -Tinha um filho com 20 annos d’idade, que recommendou muito ao Sr. de la -Ravardiere e a todos nós, pedindo que o acolhessemos bem, não exigindo -outra recompensa de sua fiel amisade senão a de poder seo filho viver -entre os francezes, n’uma palavra—ser francez. - -N’essa occasião tinha recommendado á seo filho, que se esforçasse o mais, -que podesse, para aprender a lingua francesa, e para o conseguir com mais -facilidade ordenou-lhe que frequentasse os francezes quanto podesse, -estando sempre entre os residentes em _Commã_, e de tal fórma se houve, -que aprendeo algumas palavras de nossa lingua. - -Pensou este bom homem ter obtido todas as riquezas do mundo, quando vio -seo filho balbuciar vinte ou trinta palavras francezas, e julgou ser -tempo de trazer este grande doutor aos _pays_, isto é, aos padres para -ser baptisado, e depois ser _Caraiba_, «francez.» - -Tereis sem duvida notado, tanto por este discurso, como por muitos outros -precedentes e subsequentes, que os selvagens julgavam necessario ser -primeiro baptisado para depois ser francez, sendo manifesta loucura o -pensar em contrario e na verdade não se enganavam. - -O verdadeiro francez é mais francez pela piedade e religião do que pela -origem, visto que Deos o felicitou fazendo-o vassallo e subdito de um -rei christianissimo, primeiro filho da igreja, e sempre seo fidelissimo -protector, como demonstrou em todo o tempo e em todas as occasiões. - -Si dermos credito a Santo Agostinho, no Tratado do Ante-Christo, é elle, -que deve resistir a este Ante-Christo, como se vê em mais de um lugar. - -Voltemos ao nosso homem. - -Trouxe seo filho com muito respeito, e assentando-se n’uma rêde, e -o rapaz perto d’elle, desculpou-se de não ter vindo logo vêr-nos e -visitar-nos, assegurando porem ser um dos nossos melhores amigos, que -desejava ter padres com elle na sua aldeia, que os acolheria muito bem, -que nada lhes faltaria para a vida, nem javalis, veados, e outros bichos -proprios á esse fim. - -É por esta fórma que todos se desculpam. - -Depois d’isto, assim fallou-me: - -«Sou homem de idade, como vedes, porem tenho muita força, e espero vêr -este meo filho, que aqui te trago, bom _Caraiba_, como me prometteo -o Grande, que sympathisa com elle, quer vestil-o e tel-o aqui com os -francezes. - -Eis porque venho pedir-te para laval-o com agoa de _Tupan_: assevero-te, -que elle sabe tudo quanto é preciso saber, e breve o ouvirás porque tive -o cuidado que elle fallasse com os francezes, e todos me dizem que elle -entende muito. - -É bom rapaz e amigo dos francezes.» - -Dizendo isto, fez signal a seo filho para aproximar-se, e ordenou-lhe que -contasse tudo quanto sabia de francez. - -Só com muito custo podia conter o riso, e nem si quer me era permittido -usar do interprete que ria-se a bom rir, de tal simplicidade; comtudo, -eu o tranquilisei pedindo-lhe desculpa pelas travessuras de um pequeno -papagaio, que eu tinha, a fim de não pensar que era elle o provocador do -riso. - -O rapaz recitou-me a doutrina, que seo pae julgava bastante para receber -o baptismo, e o fez d’esta maneira: _bom dia, senhor, como estaes: Bem, -senhor, prompto ao vosso serviço, quereis comer, sim: pão, peixe, carne, -minha cabeça, eo chapeo, meo gibão, meo borzeguim, minha camisa_[BF] - -Não pude ouvir mais com receio de arrebentar de riso. - -Disse-lhe ser bastante, que só por isto eu fazia ideia d’elle não ter -perdido seo tempo. - -O bom homem pressuroso interrompeo-me dizendo ter ainda que dizer-me. - -Levantou-se do seo logar, tomou todos os utencilios do meo quarto, e -mostrando-me um apoz outro disse-me, que elle de tudo sabia o nome em -francez. - -Aproximando-se de minha mesa, e agarrando-a com duas mãos, dizia—elle -ainda sabe o nome d’isto em francez. - -Dirigio-se a seu filho, e perguntou-lhe se era verdade o que dizia. Sim, -respondeo-lhe o moço, e ainda mais, pois chamaria pelo nome tal e tal -francez, bem como tambem sabia a denominação das armas: _Um arcabuz, que -faz puf, uma espada, um canhão, que faz pataú_. - -Mas, disse-lhe o pae, bem depressa saberás o resto? - -Sim. - -Muito bem, replicou o pae, não deixes de vir todos os dias recitar tua -lição diante do padre. - -Deixando-lhe toda a liberdade de fallar afim d’eu poder conter o riso, e -d’elle dar expansão ao seo fervor, que não era isto, que eu exigia para -conferir-lhe o baptismo, e sim o conhecimento de Deos e de outras coisas -dependentes da nossa religião. - -Ficou admirado de ouvir-me, reconhecendo inutil a estima que elle tinha -de vêr seo filho, grande doutor, e parecendo não entender até o que eu -lhe dizia. - -Pelo interprete expliquei-lhe o meu pensamento, e elle respondeo-me não -ter ouvido ainda fallar n’isso, mas que como seo filho era intelligente -cedo aprenderia bastando-lhe apenas uma lua, para o que deixava seo filho -no Forte de Sam Luiz. - -Disse-lhe que elle fazia muito, que eu o trataria o melhor que me fosse -possivel, e sempre seria bem acolhido entre os francezes. - -Mas, disse eu, porque não procuras para ti o bem, que desejas a teo filho? - -Ah! respondeo-me, sou muito velho: nada mais poderei aprender, como esses -rapazes, que vão ser _Caraibas_. - -Como, repliquei, antes queres ir com os diabos queimar-te no inferno, do -que esforçar-te para aprenderes a sciencia de Deos? Tua velhice não é -desculpa aproveitavel. - -Tens eloquencia para fallar um dia inteiro, si quizeres. Calcula ha -quanto tempo fallas, e quantas palavras tens proferido. - -Não precisas aprender a quinta parte das questões, que me tens proposto, -afim de seres christão; nas palavras de tua lingua, pelas quaes -comprehendemos os objectos expressados na nossa linguagem. - -Aprendeis com muita facilidade cantigas e descantes, tão compridos sobre -feitos de vossos antepassados. - -Poderás assim aprender facilmente o que queres, que saiba teo filho. - -Pois bem, me disse elle, vou fazel-o. - -Voltando-se para o filho, recommendou-lhe que escutasse bem tudo quanto -lhe ensinassem, que não perdesse uma só palavra, e que imitasse todas as -acções dos francezes, que viria depois buscal-o para a terra d’elle afim -de ensinar-lhe o que tivesse aprendido. - -Serás bem recebido, todos farão caso de ti, e se reunirão para te ouvir -contar tão boas coisas. Depois viremos procurar os padres para nos -baptisarem. - -Assim fallando, olhou-me a sorrir-se. - -Muito bem, disse elle: Padre, não beberemos bom vinho de França? ou -_Cauin_, que queima, isto é, aguardente? - -Não terás d’ella alguma garrafa na tua frasqueira? Dá-me as chaves d’ella. - -O _Muruuichaue_ me deo em sua casa um pouco, e era muito boa e muito -forte: esfregando seo estomago com a mão, dizia-me, olha, ainda sinto -ella aquecer-me. - -É costume da França tirar da frasqueira a garrafa quando se recebe -visitas de amigos. - -Tenho desejos de vir muitas vezes a _Yuiret_, quando chegam navios de -França para gozar do seo vinho muito melhor do que o nosso. - -Vendo finalmente a simplicidade d’este homem, que foi o primeiro a -rir-se, e não tratando nós mais das coisas de Deos, foi-me necessario -rir tambem, dar-lhe agoardente, e depois de ter bebido um bom copo, pelo -interprete notou não ter eu bebido com elle, que convinha fazel-o, e que -depois elle me acompanharia. - -Assim o fiz para chamar estes homens ao seio de Deos, tel-os como que -obrigados ou agradecidos a nós em tudo quanto podessemos, conforme sua -naturesa, quando n’isto não ha offensa á Deos. - -Depois de achar-se um pouco enthusiasmado com o segundo copo começou a -pronunciar gutturalmente estas palavras—_Goy y katu de katogne kauin -tata_, «oh! quanto é bom, muito bom o vinho de fogo, ou o vinho que arde.» - -Como mau agouro ouvi a palavra _Goy_, que é o começo para beber-se muito, -e principiei a cogitar na maneira por que havia de fechar a garrafa, -visto não haver necessidade de tal despesa, então grande pela sua falta. - -Disse ao meu interprete, que a levasse, e este querendo cumprir a minha -determinação, o meo selvagem agarrou a dizendo não ser costume dos -francezes guardarem as garrafas, tiradas da frasqueira para a meza e que -por muitas vezes se tinha achado entre elles. - -Reconheci que era necessario resgatar a minha prisioneira, embora ella -nada me ficasse a devêr pela sua boa composição. - -Disse-lhe, que _cauiu-tata_ não era similhante ao que tinha bebido -antigamente, que perturbava a cabeça de quem o bebesse muito, que eu -devia cuidar do seo corpo e de sua saude, mas que eu ainda lhe daria um -copinho para dizer-lhe adeos, e assim foi-se satisfeito. - -Veio visitar-me no dia seguinte. Prevenindo-me e indo ao encontro dos -seos desejos mostrei-lhe uma garrafa quebrada, igual a do dia antecedente -fingindo estar muito triste pela agoardente que se tinha derramado e -perdido: mostrou-me igual sentimento, e batendo na coxa me disse—Aqui -está, si tivesses permittido, nós a tinhamos bebido, e nada teria -acontecido. - -o... - - * * * * * - -_Faltam as ultimas folhas d’esta narração no exemplar unico da edicção -original, existente na Bibliotheca Imperial de Pariz._ (Vide o Prefacio.) - -_Suppre-se de alguma forma esta falta, bem sensivel, publicando-se no fim -da obra, curiosissimas cartas, por longo tempo esquecidas._ - - -NOTAS - -[BC] Por falta de typos proprios deixamos em claro este espaço.—Do -traductor. - -[BD] Quarta parte de um soldo de França.—Do traductor. - -[BE] Gurupy.—Do traductor. - -[BF] Em francez muito mal escripto estão estas palavras, é impossivel -traduzil-as com taes erros.—Do traductor. - - - - -ADDENDUM. - - -Congratulação á França pela chegada dos Padres Capuchinhos á nova India -da America Meridional do Brazil. - -Grande reino, e povo francez, tens razão de louvar a Deos: -Christianissimo Reinado, de dia para dia crescem tuas alegrias, dando -sempre de ti boas novidades: sól dos reinos, flor dos povos do Universo, -és notavel por todas as maneiras. - -Por tua antiguidade na fé catholica, religião christã, devoção aos -altares divinos, e fervor em ouvir a palavra de Deos. - -Pelo amor e dedicação a teo Principe natural, por tua honesta -sinceridade, ou sincera franqueza, na conversação, qualidades, que -nenhuma outra nação possue como tu. - -Esplendido, magnifico, e magnanimo reino sobre todos os reinos da terra. - -Pela magestade da tua corôa, a bella e antiga serie de teos monarchas -até o numero de sessenta e quatro Reis, dos quaes foram uns Imperadores, -outros Santos canonisados no Ceo: e tambem pelo valor e proezas na -guerra, praticada por tua gente valerosa, liberal nobresa de gravata -branca como leite. - -Pela sapiencia de tuas universidades em todas as especies de sciencias -e faculdades, pela amplidão de teos magistrados, pela prudencia de teos -respeitaveis parlamentos, pela serenidade de teos conselhos, e pelas -bellas leis de tua politica. - -Que digo eu? - -Povo sabio, intelligente, grande nação, illustre reino, ceo estrellado de -tão bellos espiritos delicados, parabens: és na verdade maravilhosamente -illustre! - -Pela multidão de tantos prelados veneraveis, grandes bispos, ricos -abbades, e chefes de ordens. - -Pelo crescido numero de tantos homens santos, notaveis pela bondade, -famosos pela sciencia, e nobres pela progenie, illustres pelos milagres -que hão florescido e brilhado dentro e fora dos teos mosteiros. - -Pela tua posição entre dois grandes mares, onde por meio de teos dois -braços exerces piedade e justiça em villas tão grandes e bellas, ricas, -afamadas e populosas, n’um paiz tão abundante, e em provincias tão amplas -e copiosas, e em tão grande numero. - -O que te falta para chegares ao cumulo de tua felicidade? - -O que pode accrescentar-se ao ramalhete de teos louvores, á grinalda de -tuas honras, á corôa de tuas glorias, tecida em ternario, symbolisado -pelos teos tres lyzes, em campo de oiro, a não ser que hoje enriquecido -pelo Rei Luiz, o rei dos lyzes, alcances, sob sua authoridade, o cheiro -de Jesus no Ceo, e ao longe a salvação dos povos selvagens mergulhados -em trevas, e nas sombras da morte d’infidelidade, de incivilidade, e de -barbaridade. - -Foste por Deos escolhido para tão grande honra, satisfação e alegria para -levar ahi, o suave nome do Redemptor, estabelecer o imperial sceptro -de sua cruz triumphante, signal sagrado, signal do Filho do Homem, e -estandarte do grande rei dos reis, sob o qual se devem reunir todos -os povos, que se desejam salvar, e então ahi semear a boa nova do seo -Evangelho, salvador dos crentes. - -Outr’ora até o occidente buscando para o meio-dia pelo grande Carlos -Magno, com a sua espada de ferro, mostraste o teu valor contra os -serracenos, importunos á Hespanha. - -Até ao oriente pelo grande São Luiz, uma, duas vezes, fizeste sentir -á impiedade turca, a força de teo braço, e erguido na Palestina, esse -bello estandarte da Santa Cruz por um duque de Boillon, por um duque de -Mercœur, e um duque de Nevers. - -Tremeram ao ouvir o nome da França, tão fatal a elles, a quem mostraste -tua coragem com o cutello na mão. - -Mas agora—_Nova bella eligit Dominus, Clypeus, et hasta si apparuerint_, -novas guerras, conquistas impertinentes, escudos e lanças, ahi se verão? -Nada d’isto, e sim a Cruz de Jesus, o altar do grande rei, exercitos com -seu augustissimo Missah, espada de Deos e de Gedeon, d’aquelle que é Deos -e homem ao mesmo tempo, agoa benta para expellir os diabos, a conquista -dos corações antropophagos ou comedores de homens pelo meio simples da -palavra de Deos, que fará despil-os de crueldade, e de então em diante -amarem o proximo como a si mesmo, abandonarem a imprudencia e o impudor, -revestirem-se com o branco da innocencia e da honestidade: oh! quanta -brutalidade adquirirá o uso da razão, e tu, ó França, foste escolhida -para fazer tal guerra? Em tua consciencia, dize-me, não é esta uma -guerra, com sceptro de liz, de rosas e de flores? - -Quem ouvio jamais coisas similhantes nas batalhas do mundo? porem estas -são guerras do amantissimo Jesus. - -Nada mais te falta agora depois dos teos combates de outras eras, senão -o alegrar-te de plantar a fé e a lei entre gente de ferozes costumes, e -de barbaros feitos, porem mui facil em supportar o jugo do teu humano -concurso, o que não tem podido conseguir o soberbo ou rustico portuguez. - -Regosija-te pois, principe dos lyzes, por ser a tua maior gloria o -servir ao grande Rei do Ceo e da terra, de legado e de embaixada de suas -maravilhas e grandezas em ilhas remotas, e em partes longinquas da Região -Austral. - -Esta sabia Princesa christianissima, muito catholica, e de magnanima -coragem, qual outra Judith, nossa grande rainha, a Regente nossa senhora -fez esta exigencia por cartas dirigidas aos Reverendissimos Padres -Superiores dos Capuchinhos da provincia de França, e de Pariz, seos -humildes servos. - -Reuniram-se em capitulo para conceder ao Sr. de Rasily, -loco-tenente-general de Sua Magestade n’aquellas terras tão remotas um -certo numero de religiosos, que deviam ser consagrados á uma empresa tão -sancta como perigosa. - -Sendo este desejo acolhido livremente, em lugar de quatro, que hoje lá se -acham como exploradores da terra, todos quatro sacerdotes e prégadores, -o padre Ivo d’Evreux, o padre Claudio d’Abbeville, o padre Ambrosio de -Amiens, o padre Arsenio de Paris, todos em numero de cincoenta e quatro, -presentes ao capitulo, se inscreveram e offereceram-se cordialmente para -arriscar sua vida, tão nobremente, afim de salvar esses pobres pagés, -esses pobres selvagens, esses infelizes atormentados pela tempestade do -diabo sem consolador e sem pae. - -Ainda agora, para maior gloria do Salvador, foi a narração augmentada por -tres pares de cartas, mais recentes do que as precedentes. Narram ellas -a sua partida, a sua navegação, ora calma, ora tempestuosa, a sua feliz -chegada, e tantos beneficios, que Sua Magestade, por intermedio d’elles, -tem já feito, e com taes particularidades, como nunca se vio impresso. - -Lêde pois. - -Mas antes d’isto, para que o Deista, o Censor mundano, e o zombador -heretico não se ria de projectos tão honrosos, vindos do Ceo, convem -saber-se, que ha longo tempo fôra tudo isto prophetisado por santos -inspirados pelo Espirito Santo. - -Disse o Propheta Isaias—_propter hoc in doctrinis glorificate Dominum, -in insulis maris nomen Domini Dei Israel_: pelo que eu fizer no meio da -terra glorificae o Senhor por doutrinas, pregae essas doutrinas por todas -as ilhas do mar, annunciae, e glorificae o nome do Senhor, Deos d’Israel. - -Alem d’isso, eis meo Salvador, eu o unirei a mim, meo escolhido, minha -alma n’elle se completa e elle dará juiso aos gentios etc. etc. - -E as ilhas esperaram attentas a lei, e eu t’a daria em alliança do povo -como luz aos gentios afim de abrires os olhos aos cegos, e tirares os -prisioneiros dos calabouços, das prisões e das densas trevas. - -Louvae ao Senhor por meio de canticos por toda a terra, mares, ilhas, -e seos habitantes—_ponent Domino gloriam et laudem ejus in insulis -numciabunt_: glorificarão ao Senhor e o louvarão nas ilhas. - -Prophetisa o mesmo, que ellas receberão sua lei: meo Justo está perto, -sahio meo Salvador (Deos é o Pae) meos braços julgarão os povos, as ilhas -me esperarão e sustentarão meo braço, isto é, receberão meo filho. - -N’outro lugar fallando á sua igreja, que é a Romana (n’outra taes factos -nunca appareceram) diz—por que as ilhas me esperam, e no começo os navios -do mar, para que eu conduza teos filhos de bem longe. - -No Capitulo 66 Deos disse pelo mesmo Propheta: - -«Porei n’elles o signal, mandarei os que ja se salvaram aos gentios no -mar, na Africa, em Lidia que atiram a flecha, á Italia, a Grecia e as -ilhas longinquas, aos que não ouvirão fallar de mim e não presenciarão -minha gloria, e elles annunciarão minha gloria aos gentios, e os -conduzirão como dadiva ou offerenda ao Senhor, ricos presentes e perolas -preciosas a Deos.» - -O propheta Sophonias: - -«Os homens illustres o adorarão em qualquer parte e em todas as ilhas dos -gentios.» - -O grande inspirador dos Prophetas por seo Espirito, Jesus Christo tambem -disse e prophetisou taes coisas. - -E este Evangelho do Reino será prégado pelo Universo, como testemunho a -todos os gentios, e então virá a consummação do Mundo. - -Nós outros catholicos devemos sentir grande alegria vendo cumprir-se -todos os dias a palavra de Deos tão fielmente, não por meio de uma -Assembléa reunida com tal fim, e sim pela Santa Igreja Romana, e deve em -particular este grande reino agradecer a Deos por d’elle servir-se para -levar tão longe a gloria dos seos tropheos. - -O seguinte trecho vos convencerá d’esta verdade, extrahida de quatro -cartas, que d’aquelle paiz escreveo o Padre Arsenio, um dos quatro, a -saber, uma ao Revd. Padre Commissario Provincial, uma ao Revd. Padre -Custodio da custodia de Pariz, uma ao Revd. Padre Vigario de Pariz, e -uma a seo irmão, todas datadas em 27 de Agosto, e dizendo mais que a -sua quarta carta de 20. Outra carta do Revd. Padre Claudio a seos dois -irmãos, o Sr. Foulon, e o Padre Marçal,[110] e uma para dois Padres já -mencionados, escripta ao Sr. Fermanet, e para vos ser agradavel e não -repetir as mesmas, foi tudo reunido n’uma só carta, como vereis, mui -fielmente, e com suas proprias palavras. - -Lêde em nome de Deos. - - -_Fidelissima narração, extrahida de seis pares de cartas dos Revds. -Padres Claudio d’Abbeville e Arsenio, Prégadores Capuchinhos, escriptas -aos Padres da sua Ordem de Pariz, e a outras pessoas do seculo, sendo -quatro do Revd. Padre Arsenio, uma do Padre Claudio, e uma para duas -pessoas._ - -_Meos Reverendos e carissimos Padres._—A paz do Senhor seja comvosco. -Nós vos dirigimos esta pequena carta para dar-vos noticias acerca da -nossa viagem, e como chegamos, mercê de Deos, felizmente a esta terra do -Brazil na Ilha do Maranhão, entre os povos _Tupinambás_, não sem grandes -fadigas. - -Cinco mezes estivemos no mar soffrendo encommodos, que só podem avaliar -os que por elles já passaram, e como o Sr. de Rasilly, por estes dois -ou tres mezes, regressa á França afim de trazer-nos novos auxilios, -reservamos-nos para n’essa occasião descrevermos mais amplamente o -resultado da nossa viagem, tanto no mar como em terra, n’este novo Mundo. - -Aproveitamos agora a occasião para dizer-vos e muito ás pressas, que -para aqui chegarmos foi necessario partir de Caucale, porto da Bretanha, -e já estando d’elle distante dusentas legoas do mar levantou-se grande -tempestade, que separou os nossos tres navios, uns dos outros, causando -admiração, até mesmo aos nossos melhores pilotos, o não ter algum d’elles -naufragado. - -Quiz Deos porem livrar-nos d’esta desgraça, e encontramos dois de nossos -navios, arribados em Inglaterra, d’onde vos escrevemos, e creio que já -estareis de posse das nossas cartas. - -Na segunda-feira de Paschoa partimos de Plymouth,[111] na Inglaterra, e -navegamos sempre com bom tempo, menos alguns dias na costa de Guiné, mui -perigosa pelas molestias do paiz. - -Sahindo de Plymouth auxiliou-nos vento tão favoravel, que em pouco tempo -passamos as Ilhas Canarias, por entre as ilhas _Boa Ventura_ e _Canaria -grande_, vistas por nós perfeitamente. - -Das Canarias ganhamos a Costa d’Africa no Cabo do Bajador, sempre -navegando pela Barbaria: de Bajador desviamos-nos da Costa d’Africa até -o rio chamado _Lore_ pelos hespanhoes,[112] e perto d’elle fundeamos: -sahindo d’ahi ainda nos desviamos da Costa d’Africa até o Cabo branco, -lugar bem debaixo do tropico de Cancer. - -D’este Cabo procuramos a Costa de Guiné, passando entre as ilhas do -Cabo verde, o proprio Cabo verde lugar perigosissimo pelas molestias -contagiosas, ahi reinantes em certas estações do anno: esta molestia -ataca as gengivas de tal sorte, que a carne cobre os dentes, e os faz -cahir com grande perda de sangue a ponto de não se poder estancar, -sobrevindo tambem os encommodos de estomago e inchação, e d’isto tudo -resulta a morte escapando poucos: mercê de Deos ninguem morreo durante -a nossa viagem, porem apenas entramos na terra, falleceram tres, e ahi -ficaram sepultados. - -De Guiné viemos-nos aproximando da linha equinoccial, que passamos bem -difficilmente, coisa ja por nós esperada á vista da estação em que -estavamos. - -Soprou vento contrario por quinze dias causando-nos grandes sustos, e -receios de que não apparecessem calmarias antes de passarmos a linha: -graças a Deos, pouco a pouco, embora o vento contrario, tanto bordo -demos, que quando mal pensamos, estavamos no hemispherio do meio dia. - -Passando a linha, avistamos e afinal chegamos a uma pequena ilha chamada -Fernando de la Roque,[113] situada a quatro graus de altura para o -meio dia, e a cinco para seis legoas de circumferencia, ilha bella e -agradavel, cujas propriedades, querendo Deos, havemos de descrever na -primeira opportunidade: é na verdade um verdadeiro paraisosinho terreste. - -Saltamos n’esta ilha, onde apenas achamos 17 ou 18 indios selvagens, em -companhia de um portuguez, todos escravos e ahi postos por determinação -da gente de Pernambuco: d’estes indios baptisamos cinco. - -Depois de havermos plantado a Cruz n’esta ilha, no centro de uma capella, -feita por nós para celebração da santa missa, e de abençoado o logar onde -residimos por 15 dias, casamos dois destes selvagens, um indio com uma -india, depois de baptisados. - -Não quizemos baptisar o resto aqui, porem achamos bom addiar o baptismo -até chegarmos ao lugar do nosso destino, si bem que libertassemos todos -esses selvagens tirando-os do captiveiro, e fazendo-os livres com muita -satisfação d’elles, depois do que manifestaram ardente desejo de nos -acompanharem até Maranhão, como de facto aconteceo. - -Vieram comnosco trazendo muito algodão, e outros generos, que possuiam. - -De Fernando de la Roque ganhamos a Costa do Brasil, caminhando até o -_cabo da tartaruga_, terra firme no paiz dos _canibaes_, onde, diz -Euzebio, na sua _Historia_, passara o Apostolo Sam Matheus á vista d’esta -Costa do Brasil: imaginae a nossa alegria vendo terras tão desejadas após -cinco mezes de navegação. - -Depois de 15 dias de demora no _cabo das tartarugas_, continuamos a -navegar, e chegamos á ilha do Maranhão, onde fundeamos no dia da gloriosa -Santa Anna, Mãe da Sagrada Virgem Maria, com que muito me alegrei, -(disse o padre Claudio) por termos tido n’esse dia, que eu tanto amo, a -felicidade de chegarmos ao lugar tão desejado. - -No domingo seguinte saltamos todos em terra, levando agoa benta, cantando -o _Te-Deum laudamus_, o _Veni Creator_, a ladainha de Nossa Senhora, e -depois caminhamos em procissão desde o porto atê ao lugar escolhido para -levantar se uma Cruz, a qual foi carregada pelo Sr. de Rasilly e todos os -Principaes da nossa Companhia. - -Depois de benzida esta ilha, até então _Ilhasinha_, foi pelos Srs. de -Rasilly e la Ravardière chamada _Ilha de Santa Anna_, não só por termos -ahi chegado n’esse dia, como tambem porque chamava-se Anna a Condessa de -Soissons, parenta do Sr. de Rasilly.[114] - -Depois plantamos a Cruz: ao pé d’ella, estando todo o largo abençoado, -enterramos um pobre homem, tanoeiro, que vinha comnosco. - -Fêz-se tudo isto com geral contentamento e demoramo-nos ahi oito dias. - -Deixamos esta pequena ilha e fomos procurar a ilha grande do Maranhão, -habitada por selvagens (que são as pedras preciosas que cobiçamos) e -graças a Deos chegamos bons e bem dispostos. - -Vestidos com os nossos habitos de sarja fina por causa do calor da zona -tórrida e revestidos de uma bonita sobrepelliz branca, empunhando nossos -bastões, e em cima de tudo a Cruz com o Crucificado, descemos do navio -para uma canôa, especie de batel construido pelos indios de um só tronco -de pau, onde estavam todos os selvagens, que ja tinham estado na praia -com o Sr. de Rasilly, e muitos francezes ja dos que vieram comnosco e -ja dos pertencentes á equipagem do Sr. de Manoir, e do Capitão Geraldo, -todos francezes, que aqui achamos: muitos d’estes selvagens atiraram-se -ao mar e nadaram afim de chegarem primeiro do que nós. - -Assim conduzidos saltamos em terra, onde se ajoelhou o Sr. de Rasilly -e todos os francezes para nos receberem (honra não commum) e como nos -achassemos embaraçados com tal sorpresa, eu tive (disse o padre Claudio) -a feliz lembrança de entoar o _Te-Deum laudamus_ conforme o cantico da -igreja, e assim caminhamos em procissão entre lagrymas de alegria de -muitos francezes, e seguidos pelos indios. - -Assim tomamos posse d’esta terra e novo mundo para Jesus Christo, e em -seo nome, esperando abençôar o lugar, e n’elle plantar a Cruz em qualquer -dia para isso designado. - -Deixo as outras particularidades para contar-vos quando escrever mais de -espaço sobre esta nossa viagem. - -Somente vos digo que no domingo 12 de agosto, dia de Santa Clara, -celebramos todos quatro as primeiras missas, que aqui se disseram. - -Com bem razão ordenou Deos que o dia de uma Santa Virgem da nossa Ordem, -que deo nova luz ao mundo, fosse escolhido para fazer brilhar a nova luz -do seo Evangelho n’este novo mundo. - -Não é possivel descrever-vos o grande contentamento, que mostraram estes -pobres selvagens com a nossa vinda. - -É um povo conquistado e ganhado, povo grande, que na verdade nos ama, e -nos dedica affeição, e chama-nos grandes prophetas de Deos e de Tupan, e -em sua linguagem padres Carribain, Matarata.[115] - -Depois que aqui chegamos temos tido muito boas noticias. - -Os indios do Pará, outro povo, de um lado visinho do Amazonas, e do outro -d’este povo, onde existem somente cem mil homens, desejam muito que lá -vamos instruil-os. - -Embora _messis multa, operarii autem pauci_ «seja grande a colheita, são -poucos os operarios.» Si quizessemos desde ja se baptisaria grande parte. - -É certo que «_regiones albescunt ad messem_,» estas regiões aqui -enbranquecem mostrando a necessidade de ceifa, felizmente chegou o tempo -de ser Deos aqui adorado e reconhecido. - -Agora estamos procurando lugar para nos acommodar e fazer uma Capella, -até que cheguem de França pedreiros para edificarem uma Igreja. - -Existem muitas mattas virgens, que convem arrotear antes. - -Não posso descrever-vos agora o grande contentamento dos selvagens pela -nossa chegada. - -Dão-nos boa esperança de se converterem. Todo este povo ainda que bruto e -selvagem mostrou-se contente com a nossa chegada, tem vindo vêr-nos com -muita alegria, manifestando grande desejo de instruir-se no christianismo. - -Creio que quando soubermos a lingua d’elles haverá muito que colher, -com grande satisfação para os que tem zelo pelas coisas de Deos e pela -salvação das almas. - -Preparam todos os seos filhos para nos trazerem afim de serem por nós -instruidos, e ja nos prometteram não mais comer carne humana. São muito -bonachãos, e não maliciosos. Por unica religião apenas creem em Deos, que -chamam _Tupan_, e na immortalidade da alma. - -Quanto ao paiz é terra fertil e muito boa, onde não ha frio, e sim estio -constante; ninguem conhece o que é frio, e as arvores estão sempre -verdes. - -Os dias e as noites são sempre do mesmo tamanho: nasce o sol as 6 horas -da manhã e encerra-se as 6 da tarde. - -Estamos apenas a dois graos e meio da linha equinoccial ou do Equador. - -É voz geral haver n’este paiz muitas riquezas, como sejam minas de -oiro, de pedras preciosas, de perolas, de ambar-gris, alem de muitas -pimenteiras, muito algodão, muita herva da rainha, ou petum, e muito -assucar. - -Brevemente, quando nos estabelecermos bem, nós vos asseguramos ser isto -aqui um pequeno paraiso terreste, com todas as commodidades e alegrias. - -Não posso ir mais longe: fica o resto para quando fôr o Sr. de Rasilly, e -então hei-de dizer-vos outras coisas em particular. - -Quanto a minha saude nunca passei tão bem como agora, graças a Deos e só -bebendo agoa, (palavras do padre Claudio.) - -Si na França me fosse preciso fazer a millesima parte do que aqui faço, -mil vezes teria morrido, e n’isto reconheço, que _non in solo pane vivit -homo_, «o homem não vive só de pão.» - -Convem que para cá venham os delicados de França. - -Louvo a Deos por nunca ter enjoado, com grande admiração de todos. - -Quando chegamos no paiz dos calores, justamente quando estavamos sob o -tropico de Cancer, quando o sol estava subindo, tive apenas dois ou tres -pequenos accessos de febre passageira, graças a Deos. - -Deixo o mais para outra occasião, pois agora falta-nos tempo, e -sobram-nos trabalhos. - -Rogae a Deos por nós, e pelos nossos companheiros, o mais que poderdes, -pois agora, mais do que nunca necessitamos da graça de Deos, sem as quaes -nada se consegue. - -O que n’este sentido fizerdes, Deos vos compensará. - - -_Summario de algumas coisas mais particulares, referidas vocalmente aos -Padres Capuchinhos de Pariz pelo Sr. de Manoir._ - -O Sr. de Manoir,[116] (um dos capitães, de que se fallou na carta -precedente, que fôra encontrado n’aquelle paiz com o capitão Geraldo) -chegando ultimamente á França, e sendo portador da carta, ja transcripta -e de muitas outras (algumas das quaes bem desejariamos aqui publicar para -que não ficassem sepultadas no esquecimento as maravilhosas obras de -Deos, de que ellas fallam, como que para despertarem os homens afim de -louvarem a sabedoria, providencia, e bondade do Creador) contou muitas -particularidades dos padres, não referidas em suas cartas. - -Disse, que os padres chegando ahi começaram a edificar sua morada, -construindo uma Capella para celebração da missa, e algumas cellas -pequenas para residencia, sendo coadjuvados por alguns selvagens com -alguns pannos e ramos de arvores. - -N’um certo dia, quando um padre celebrava missa, chegou um selvagem dos -mais velhos, (que elles consideram seos governadores, honrando-os e -respeitando-os por causa da sua idade avançada) em companhia de trinta -selvagens para ouvirem missa, o que fizeram, admirando com grande -surpresa tão bellas ceremonias, e tão lindos ornatos, por elles nunca -visto (pois que homens e mulheres andam todos nús.) - -Quando o sacerdote chegou á consagração e ao offertorio, desceo um véo -entre elle e o povo, de forma que este não poude ver aquelle, e nem o que -se fazia por detraz d’esse véo. - -Julgaram isto uma affronta e mostraram-se offendidos, e por isso, finda a -missa, foram perguntar a causa de tal offensa. - -Responderam os padres que n’isto não havia offensa, e que assim se fez -por serem elles ainda pagãos, não podendo ser a Missa celebrada em suas -presenças embora estando na Igreja. - -Deram-se por satisfeitos e mostraram-se tranquillos, e foram contar o -occorrido ás suas mulheres, que se mostraram desejosas de vêr os grandes -Prophetas de Deos e de Tupan, e se reuniram em grande numero para tal fim. - -Não quizeram porem os padres abrir-lhes a porta de sua pequena choupana -porque estavam núas, mas ellas não esperaram por segunda recusa e -metteram a porta dentro, o que não lhes foi difficil praticar, entraram -e não se cançaram de olhar e contemplar os Padres, embora se demorassem -pouco tempo, por lhes pedirem os Padres que se retirassem, o que -cumpriram. - -Depois desta visita, reuniram-se os velhos em grande numero e combinaram -entre si qual devia ser o presente que offerecessem a esses Prophetas, -como demonstração de sua benevolencia e regosijo pela sua chegada. - -Finalmente concordaram, visto dormirem os Padres no chão duro, que se -désse a cada um o seo colchão de algodão, que ahi floresce, e uma das -mais bellas raparigas, o maior presente que costumam fazer. - -Trouxeram quatro colchões e quatro raparigas, e offereceram aos Padres, -que rindo-se aceitaram aquelles e recusaram estas com palavras de -agradecimento. - -Admirados com tal procedimento, diziam uns aos outros. O que é isto? -Estes Prophetas não são homens como nós? Porque não acceitam estas -raparigas, sendo impossivel o passar um homem sem ellas? Porque nos fazem -tal offensa? - -Responderam os Padres, que assim procediam, não por que reprovassem -o casamento, quando conforme ás leis de Deos, visto que até elles o -louvavam, mas como Deos havia outhorgado graças mui particulares a elles, -e não aos outros homens, porque o serviam com mais perfeição, podiam -passar sem mulheres por meio dessas graças. - -Ouvindo esta pobre gente taes palavras ficaram admirados e como que fóra -de si, contemplando a santidade destes Prophetas, e d’ahi em diante os -veneraram mais, julgando-se felizes quando lhes entregavam seos filhos -para serem educados em nossa santa fé, e afinal baptisados. - -Tudo isto se poderá vêr na seguinte carta, escripta por esses Padres -á um honrado mercador de Ruão chamado Fermanet, um dos seos maiores -bemfeitores, para que se veja que nada acrescentamos, e que apenas -narramos os factos pura e simplesmente colhidos n’essas cartas e em -informações de pessoas fidedignas, testemunhas occulares, e por que -n’ella se encontram particularidades não mencionados nos outros. - -Eil-a: - - -_Carta escripta pelos Padres Capuchinhos ao Sr. Fermanet._ - -A paz do Senhor Deos esteja comvosco. - -Depois de tantas recommendações, que nos fizestes quando partimos para -vos escrever, seriamos culpados si não vos dessemos noticias de paiz tão -bom, graças á Deos. - -Depois de 4 a 5 mezes de viagem ahi chegamos felizmente, sendo bem -recebidos pelos Indios, conforme sua rusticidade, não nos importando -o modo e sim a demonstração do seo contentamento então e ainda agora -diariamente, trazendo-nos seos filhos para instruil-os o que faremos -mediante a graça de Deos. - -Quando voltar o Sr. de Rasilly, por estes 2 ou 3 mezes, nós vos -mandaremos o numero dos convertidos e dos baptisados. - -O paiz é muito bom, e ha esperança de produzir muito tabaco Petum, e -Urucú, havendo ja muito assucar, bellas pedras, ambar-gris, e dizem-nos, -que distante d’aqui 20 legoas ha uma mina de oiro. - -Si não fosse grande a nossa pressa, nós vos dariamos mais algumas -noticias, porem não podemos alongar-nos. - -Beijando humildemente vossas mãos, e recommendando-nos á senhora vossa -mulher, somos de vós e d’ella - - Vossos humillissimos servos em Nosso Senhor. - - Frei _Claudio d’Abbeville_. - Frei _Arsenio de Pariz_. - - -_Narração de um marinheiro, vindo do mesmo paiz, feita ao Revd. padre -Guardião do Havre da Grace, e por este communicada ao Revd. padre -Commissario._ - -Revd. Padre, eu vos saúdo humildemente em Nosso Senhor. - -O fim d’esta é communicar-vos, que veio hoje procurar-me um marinheiro, -que vio e fallou com os nossos Irmãos, que estão em Maranhão com os -Tupinambás, onde felizmente chegaram no dia 8 de Julho. - -Este marinheiro ahi ouvio missa, e á ella assistio com muito respeito um -velho selvagem do paiz, acompanhado por 25 ou 30 indios. - -Quando chegou o tempo de consagrar-se e elevar-se a santa hostia, desceo -um véo, causando-lhes isto admiração. - -Recebida a explicação mostraram-se satisfeitos, e logo começaram a contar -por toda a parte o que viram, e por isso vieram muitos ajudal-os a -edificar sua habitação e Forte, ja em principio. - -Veio o marinheiro em 22 de Agosto no navio de Moisset, recommendado ao -Sr. de Manoir, a quem, segundo pensa, terão nossos Irmãos entregado -suas cartas, ou a algum outro official de navio, o que me dispensa de -contar-vos outras particularidades. - -Não mudaram, e nem mudarão a côr dos seos habitos, usando apenas de um -tecido mais leve do que o nosso, por causa do calor. - -Deos seja louvado por tudo, e lhes conceda a graça de ahi apparecerem -muitos fructos para a gloria do seo Santissimo Nome, e exaltação da Santa -Fé da sua Igreja. - -Sou de vossa Reverendissima o menor servo em Jesus Christo - -Havre, 12 de Novembro de 1612. - - Frei _Theophilo_, indigno Capuchinho. - - - - - NOTAS - - CRITICAS E HISTORICAS - - SOBRE A VIAGEM DO - - PADRE IVO DE EVREUX - - POR - - MR. FERDINAND DINIZ. - - - - -NOTAS. - - -1 (frontespicio). - -Esta vasta provincia, uma das mais florescentes do Brazil, antes da -chegada dos missionarios francezes não teve estabelecimento algum -importante. Eram arbitrarios os seos limites, convindo não esquecer que -a immensa capitania do Piauhy fez parte d’ella até 1811. Presentemente -tem 186 legoas, de 20 ao gráo, de comprimento, 140 de largura, e nunca -menos de 20,000 legoas quadradas de superficie. Fica entre 1° 16′ e 7° -35′ de lat. merid. Confina ao N O com o Pará, servindo de linha divisoria -o Gurupy, á N E é banhada pelo Occeano Atlantico, a S E com o Piauhy, -separando-a d’elle o rio Parnahyba, e finalmente a S com a provincia de -Goyaz pelo rio Tocantins.[BG] - -Ainda que seja quente e humido o clima do Maranhão é sadio. As chuvas que -fertilisam este rico territorio principiam regularmente em outubro. - -O aspecto geral do paiz offerece por toda a parte ondulações do terreno, -mas em nenhuma offerece elevações consideraveis, exceptuando-se d’estas -asserções geraes e por força mui summarias a comarca de Pastos-bons, onde -se encontram montanhas como sejam Alpercatas, Valentim, Negro etc. É -regada por 14 correntes d’agoa. - -De todos estes rios é o _Parnahyba_ o mais considerável: infelizmente -suas margens não são totalmente sadias, pois em varios pontos, como -em quasi toda a provincia, reinam as febres intermitentes. Avalia-se -seo curso em 240 legoas. O _Itapecurú_, seo immediato, e de que falla -constantemente o Padre Ivo d’Evreux, banha apenas 150 legoas de terreno, -o Mearim 78 legoas, sendo ainda menos consideraveis o _Pindaré_, o -_Tury-assú_, o _Gurupy_, e o _Manoel Alves Grande_. Julga-se que é de -462,000 pessoas a população de toda a provincia, embora diga o relatorio -official da presidencia, com data de 3 de julho de 1862, que esta cifra é -apenas de 312,628 almas, sendo 227,873 livres e 84,755 escravos. Convem -observar, que o recenseamento geral da população do Imperio, feito em -1825, dava apenas 165,020 almas, sendo esta cifra muito inferior á -realidade, porque recusaram muitos Srs. dizer com certesa o numero dos -seos escravos. - -Nada se sabe, e nem será possivel saber-se exactamente, a respeito da -povoação nomade dos indios, isto é, d’aquella cujo conhecimento seria -muito curioso afim de apreciar-se as mudanças, que houveram nas aldeias -depois do que escreveo o Padre Ivo, podendo apenas dizer-se que é maior -no Maranhão, no Pará, e na nova provincia do Rio Negro, do que n’outra -qualquer parte. - -Em summa o governo só tem dados mui imperfeitos e raros sobre estas -infelizes hordas, das quaes se occupa actualmente. - -Os cuidados tardios, embora caridosos, da administração provincial, tem -que acabar muitos males afim de que seja completa a reparação. - -Tudo ainda está por fazer relativamente aos Indios. - -Não souberam estas tribus conservar nem a dignidade que dá completa -liberdade aos habitantes das florestas, e nem os principios de -civilisação, que se intentou incutir-lhes no seculo XVII. - -Reconcentradas no interior por Mathias de Albuquerque, dizimadas pela -variola, hoje são apenas a sombra do que foram sob o dominio dos seos -chefes independentes. - -Esta população indigena é comtudo maior nos desertos do Maranhão, e -embora d’ella não tratem certas estatisticas, é avaliada em 5,000 o -numero dos indigenas reunidos em aldeias. - -Si dermos credito á um intelligente militar, que viveo em constantes -relações com elles por espaço de 20 annos, a sua decadencia physica é -menor que a moral, pois perderam até a reminiscencia de suas tradicções -théogonicas, ainda mal, visto ser muito curioso o comparal-as com a -narração dos antigos viajantes francezes. - -Sob este ponto são elles menos favorecidos que os Guarayos, visitados -por Orbigny, os quaes ainda hoje repetem em seos canticos as legendas -cosmogonicas do seculo XVI. - -Os indios do Maranhão, entre os quaes se contam os Timbyras, os Gés, os -Krans, e os Cherentes não podem fornecer ao historiador senão informações -mui incompletas, pois que ha perto de 40 annos já o major Francisco de -Paula Ribeiro se queixava do immenso esquecimento d’elles, (vide _Revista -Trimensal_, tomo 3.º, pag. 311) esquecimento fatal de grandes tradicções, -pelo que se tornam hoje preciosos certos livros, como sejam os dos nossos -velhos missionarios, onde pelo menos se encontram os mythos antigos, ahi -escriptos para serem combatidos. - -De vez em quando entre estes indios degenerados apresentam-se alguns -homens energicos, que comprehendem o abatimento de sua raça, e que -desejariam vel-a progredir, porem são mui raros, pouco comprehendidos, -e demais só olham para o futuro, e não experimentam amor algum por sua -antiga nacionalidade. - -Seos compatriotas longe de ajudal-os nos trabalhos emprehendidos para -melhorar seo futuro, ainda os amesquinham com o seo odio tão irreflectido -quam brutal. - -Foi o que aconteceo a _Tempe_ e a _Kocril_, chefes conhecidos pelo major -Ribeiro. Trabalharam inutilmente para chamar ao caminho da civilisação as -tribus, cujo governo lhe foi confiado, e a final foram victimas do seo -zelo. - -Vide «_Memoria sobre as nações gentias, que presentemente habitam o -continente do Maranhão escripta no anno de 1819 pelo major graduado -Francisco de Paula Ribeiro_, _Revista Trimensal_, T. 3º pag. 184.» - -De passagem disemos, que não deixaram descendentes, pelo menos -conhecidos, os Tupinambás cathequisados pelos missionarios francezes, -suppondo-se apenas, que um ramo d’esta grande nação ainda hoje povôa -_Vinhaes_ e _Villa do Paço do Lumiar_, achando-se no mesmo caso _S. -Miguel_ e _Tresidélla_, a margem do rio Itapecurú, e _Vianna_, no Pindaré. - -Com mais probabilidade ainda confundiram-se os Tupinambás com as -tribus do inferior, tomando os nomes de Timbyras e Gamellas. São -tambem subdivisões dos Timbyras os _Sakamecrans_, os _Kapiekrans_ ou -_Canellas-finas_, e os Gés, que vagam pelas grandes florestas á Oeste -do Itapecurú. Nega o major Ribeiro, que ainda sejam antropóphagos estas -diversas tribus. N’este escriptor imparcial, e que reconhece a ferocidade -dos Timbyras, é que se deve estudar as horriveis represalias, de que tem -sido elles os indios, sendo a escravidão a menos sanguinolenta. Elle -avaliou em 80:000 o numero d’indios selvagens, embrenhados nos mattos em -1819, hoje sem duvida consideravelmente diminuido. - - -2 (pag. 1). - -Francisco Huby era tambem livreiro e tinha sua loja n’uma praça entre -os mais afreguezados armazens na galeria dos prisioneiros em Palacio, e -soffrera-a como os outros no grande incendio de 1618. - -Quatro annos antes d’elle encarregar-se da publicação do livro de Claudio -d’Abbeville, de que este é continuação, morava na rua de Sam Thiago no -_Folle de oiro_, e não na _Biblia de oiro_, que depois tomou por divisa. - -Si foi ferido na prosperidade, foi justamente por haver permittido, que -mão impia privasse a França por mais de dois seculos do livro precioso, -de que tinha sido edictor, e que hoje entregamos a publicidade, graças a -uma d’essas empresas litterarias tão raras em nossos dias, onde a honra -das letras é o pensamento dominante e superior a todas as considerações. - -O volume, que servio para a nossa reimpressão é encadernado em marroquim -encarnado, semeiado do flores de lys de oiro, e com as armas de Luiz -XIII. Faz parte da reserva sob n.º 01766 da Bibliotheca Imperial de Pariz. - - -3 (pag. 9). - -A capital do Maranhão occupa ainda hoje o mesmo lugar escolhido por seos -antigos fundadores. Está situada a 2° 30′ e 44″ lat. austral e 1° 6′ e -24″ de long. oriental do meridiano do Forte de Villegagnon, na bahia do -Rio de Janeiro. - -La Ravardiere e Rasilly escolheram para edifical-a a ponta de terra -O d’uma pequena peninsula, ligada á ilha do Maranhão pela calçada do -_Caminho grande_. - -Os rios _Anil_ e _Bacanga_, vindos de diversos pontos da ilha confundem -suas agoas na mesma embocadura e formam vasta bahia. A elevação, que -se apresenta ao S do _Anil_, á E e ao N. do _Bacanga_ (lugar onde se -confundem as agoas d’estes dois pequenos rios) é o lugar primitivo onde -se levantou a cidade nascente collocada sob o patrocinio de Sam Luiz. - -A cidade de Sam Luiz, elevada em 1676 á dignidade episcopal por uma Bulla -de Innocencio XI, conta nunca menos de 30 mil habitantes, e está situada -em terreno docemente ondulado, sempre, em todas as estações, carregado de -rica vegetação, e assim offerecendo aos viajantes panorama encantador. -(Vide _Corographia Brasilica_, _Will. Hadfield_, _Milliet de St. -Adolphe_, e principalmente os _Apontamentos estatisticos da provincia do -Maranhão_, annexos ao _Almanack_ de 1860 publicado por B. de Mattos.) - -Esta linda cidade é naturalmente dividida pela espinha dorsal da -peninsula, que separa as duas bacias dos rios na direcção de E. O. - -Seo ponto mais elevado é o _Campo d’Ourique_, onde apresenta 32m 692c de -elevação acima do nivel medio do mar. - -É dividida em tres parochias: _N. S. da Victoria_, _S. João_, e _N. S. da -Conceição_, tem 72 ruas, 19 becos, 10 praças, 55 edificios publicos, e -2,764 casas, das quaes 450 tem um só pavimento. - -Para utilidade dos habitantes podem ser maiores e mais regulares as -praças, e embora sejam as ruas cortadas em angulo recto, podiam ser mais -largas e melhor dispostas sendo observadas as regras da hygiene. - -Não são más suas calçadas, e tem declive bastante em relação aos dois -rios que banham a cidade. Em resumo é a Capital do Maranhão saudavel e -limpa. - -«O navio que demandar o porto, toma por marca o Palacio do governo, -assentado n’uma eminencia que domina o porto. - -Este edificio tem a seos pés o Forte de Sam Luiz, e de suas janellas -percorrendo-se com os olhos uma extensa bahia avista-se ao longe as -costas e a cidade de Alcantara: mais perto da barra está o pequeno _Forte -da Ponta d’areia_, e dentro do porto na margem opposta do Bacanga a -pequena _ermida do Bomfim_, muito arruinada, e na frente do Anil a _Ponta -de Sam Francisco_, onde segundo a noticia que nos dirige, entregou la -Ravardiere ao commandante portuguez a cidade nascente e a fortalesa de -Sam Luiz, nunca se podendo assas louvar n’essa occasião o procedimento -inteiramente nobre do commandante francez e de Alexandre de Moura por -parte da Hespanha. - -O joven cirurgião de Pariz que foi com tanto zelo pensar os feridos dos -dois partidos, e que recebeo tão penhorador acolhimento no campo inimigo -poude d’elle dar somente uma ideia, por sua narração sincera e franca, -da cordialidade, que appareceu entre os francezes e os portuguezes depois -do combate. (Vide _Archivos das viagens publicadas_ por M. Ternaux -Compans.) - -Em distancia de alguns metros pelo Anil acima está o convento e Igreja de -Santo Antonio, construidos no proprio lugar onde em 1612 Ivo d’Evreux, -ajudado pelos padres Arsenio e Claudio d’Abbeville, edificou seo -conventosinho sob a invocação de Sam Francisco. Soffreo depois d’isto -varios concertos e augmentos este mosteiro dos Capuchinhos francezes, -achando-se hoje uma parte do edificio moderno occupado pelo Seminario -Episcopal, e a Igreja, hoje em construcção, levanta-se com architectura -gothica simples.» Pelo que nos dizem será a igreja mais bonita do -Maranhão. - -Não é esta a unica construcção digna de mencionar-se na cidade, porem é a -unica que nos interessa directamente. - -Mencionamos apenas o _Caes da Sagração_, assim chamado em memoria da -coroação e sagração do Sr. D. Pedro 2.º, e da vasta bahia, onde agora -se escava para poder n’ella fundear uma fragata a vapor da primeira -ordem, e apenas citamos a dóca que se projecta fazer nas _enseiadas das -Pedras_.[BH] - -Contam-se muitas construcções monumentaes, como sejam a igreja do Carmo, -a Cathedral, o quartel do Campo de Ourique, o Theatro, e mais outras -que força é omittir, pois apenas n’uma ligeira nota desejamos mostrar -englobadamente o que em 250 annos se tornou isto fundação francesa. - -William Hadfield, um dos mais modernos viajantes, que tratou d’este paiz, -observou que é na cidade de Sam Luiz, onde no Brasil se falla o portuguez -com mais pureza. É a patria de dois escriptores mui estimados no Imperio, -Odorico Mendes e João Francisco Lisboa, fallecido ha pouco. - -Depois de haver traduzido com superioridade de estylo, que causaria -inveja aos contemporaneos de Camões, occupa-se actualmente Odorico Mendes -na traducção em verso das obras de Homero, onde a sciencia do rythmo -disputa com a inspiração. - -Quanto ao poeta das legendas nacionaes, cujos cantos são geralmente -repetidos no Brasil (queremos fallar de Gonçalves Dias) pertence tambem -á provincia do Maranhão, por elle explorada como sabio e como viajante -intrepido, porem nasceu em Caxias. - -As obras d’esses tres escriptores honram ao paiz, são tambem a honra da -bibliotheca publica; porem este estabelecimento, creado n’uma cidade -eminentemente litteraria, não está em relação com as necessidades -crescentes de outras instituições suas, relativas á instrucção publica. -Ha tres annos contava apenas 1031 volumes. - -Prasa aos Ceos, que o livro, que agora réproduzimos, o primeiro que, -com o de Claudio d’Abbeville, foi escripto na Cidade nascente, marque -o principio de uma era nova para estabelecimento tão indispensavel -n’uma Capital, já florescente. Muitas outras instituições supprem -esta deficiencia, publica-se na Capital diversos jornaes, taes como o -_Publicador Maranhense_, a _Imprensa_, o _Jornal do Commercio_ etc. etc., -e tambem ha uma _Associação typographica_, um _Gabinete de leitura_, e a -sociedade litteraria _Atheneo Maranhense_. - -Tudo isto na verdade é mui differente do tempo, em que o Padre Arsenio -de Pariz com muita difficuldade achava apenas uma folha de papel para -escrevêr á seos Superiores. - - -4 (pag. 11). - -A Cathedral de _São Luiz_ ou do _Maranhão_, (assim com estes dois nomes -se designa a Cidade) deixou a invocação de São Luiz de França. É a antiga -Igreja do Convento dos Jesuitas a actual cathedral sob a invocação de N. -S. da Victoria. (Vide Ayres do Cazal—_Corographia Brazilica_. Rio de -Janeiro 1817. T. 1.º pag. 166). - -Parece-nos, que nas grandes construcções, que actualmente se estão -trabalhando para o augmento do Convento de S. Antonio, respeitou-se a -pequena Capella feita pelos francezes. São tres os frades d’esta Ordem, -Frei Vicente de Jesus, guardião; Frei Ricardo do Sepulchro e Frei Joaquim -de S. Francisco, todos sacerdotes. - - -5 (pag. 12). - -Ao norte do Brazil e no interior da Goyanna havia então prodigiosa -abundancia d’esta especie de fóca, cuja carne era muito saborosa: -chamam-na os portuguezes _peixe-boi_, e os indios _manati_. Ainda hoje -os habitantes ribeirinhos do Amazonas e do Tocantins nutrem-se com a -excellente carne d’este peixe. (Vide Osculati, _America equatoriale_). -Claudio d’Abbeville lhe deo o nome de _Uraraura_. - - -6 (pag. 14). - -Esta localidade, ja citada, ainda o será muitas vezes. - -O vasto territorio, ainda hoje conhecido em Maranhão pelo nome de -_Tapuitapéra_, está hoje dividido pelas comarcas de Alcantara e de -Guimarães. Antigamente foi occupado por onze aldeias de indios, das quaes -a maior era Cumã. _Tapuitapéra_ dista 40 legoas de Maranhão.[BI] Pensa -_Martius_ que esta palavra quer dizer—habitação de indios inimigos. Vide -_Glossaria linguarum brasilensium_. Erlanguem. 1863, em 8.º - -N’esta obra acham-se tambem os nomes dos lugares, dos vegetaes e dos -animaes. - -O _Aparaturier_, que deo tão felizes comparações ao padre Ivo, é -simplesmente o mangue (_Rhyzophora._ Lin.) Esta arvore das praias -americanas tão util á industria, forma vastas florestas maritimas, e -em roda da costa do Brasil e de Venezuela. Com muita frequencia se -tem destruido estas arvores, em varios lugares, e temos ouvido até -attribuir-se a invasão recente da febre amarella á destruição systematica -d’este bonito vegetal, que aformosêa com sua verdura todas as praias -brasileiras. Cahindo sob o ferro do cultivador deixa á descoberto praias -cheias de lôdo, habitadas por myriades de carangueijos, formando assim -pantanos d’onde se desprendem miasmas de especie muito perigosa. - -No Brasil conhece-se duas qualidades de mangue, o _branco_ e o -_vermelho_, e para a descripção scientifica d’elles enviamos nossos -leitores para Aug. de St. Hilaire. Julgamos que a palavra antiga, ahi -empregada pelo padre Ivo, vem do verbo _parere_, parir, porque esta -arvore se reproduz pelas raizes, que, como arcadas, espalham ao redor de -si. (Vide _Nossas scenas da naturesa sob os tropicos_,) e ahi achareis o -effeito do mangue nas paisagens. - - -7 (pag. 17). - -É lamentavel esta lacuna, porem deixa comtudo perceber, que se trata das -tartarugas do Maranhão. - -Com os ovos d’este chelidoniano prepara-se no Pará o que se -chama—_manteiga de tartaruga_, de que se exporta prodigiosa quantidade. - - -8 (pag. 17). - -N’esta enumeração mui completa de quadrupedes que se podem caçar, um nome -desperta naturalmente a attenção do leitor, e é _vacca brava_. É bem -possivel, rigorosamente fallando, que os campos do Mearim ja tivessem -algum individuo da raça bovina, ja ha muito tempo introduzida em -Pernambuco: Claudio d’Abbeville é muito explicito n’este ponto. - -Mas não é d’isto que quiz tratar o nosso bom missionario: a vacca brava, -ou _bragua_, como chama em outro lugar, é o _Tapir_ ou _Tapié_, conforme -Montoya, animal muito commum em todo o Brasil. - -Para denominal-o serviram-se os hespanhoes e portuguezes d’um nome pedido -por emprestimo aos Mouros. Chamavam-no tambem _Anta_ ou _Danta_, que -significa, dizem, bufalo. Quando chegou aos americanos a sua vez de dar -nome ao boi, chamaram-no _Tapir-açù_. - -Martius observa com razão, que esta palavra na lingua geral se applica -a todo o mamifero corpulento. Sendo este pachyderma o animal mais -corpulento conhecido na America do Sul, foi sua caça procurada de -preferencia pelos Europeos, e assim desappareceo, ou pelo menos tornou-se -mais rara nos lugares onde outr’ora era abundante. Em certos paizes da -America era um animal sagrado, e assim figura em diversos monumentos. - -No Brasil procuravam os indigenas este animal, tanto por ser boa caça -como pela espessura de seo couro, de que faziam escudos impenetraveis ás -flexas, pela maior parte armadas de uma ponta aguda de madeira ou de cana. - -João de Lery trouxe do Brasil para França alguns d’esses broqueis, porem -não chegaram á Europa, porque uma terrivel fome devida á longa viagem de -5 mezes obrigou o pobre viajante a comel-as, depois de amolecidas por -meio d’agoa. - -Os nossos leitores que desejarem conhecer minuciosamente o Tapir -americano, consultem uma excellente dissertação, dedicada especialmente á -este animal, escripta pelo Dr. Roulin, Bibliothecario do Instituto. - -No _Glossario_ de Martius lê-se uma extensa synonimia relativa ao Tapir. -(Vide pag. 479.) - - -9 (pag. 18) - -É certo que os indios d’esta tribu foram contrarios aos francezes. - -Ha na historia d’esta expedição um ponto, que não foi ainda bem -esclarecido: o mais afamado capitão de indios de que se recorda o Brasil -fez suas primeiras campanhas durante o dominio dos francezes. - -O celebre Camarão, o grande chefe ou _Morubixaba_ dos Tabajares, -commandava 30 frecheiros na lucta entre la Ravardiere e Jeronymo de -Albuquerque. - -Convidado pelo governo portuguez para tomar parte n’esta guerra, partio -de sua aldeia, no _Rio Grande do Norte_, e foi para o _Presidio de N. S. -do Amparo_, no Maranhão, em 6 de setembro de 1614: seguio-o seo irmão -_Jacauna_ com um filho de igual nome, e de 18 annos de idade. - -Depois de muitos annos Camarão, que teve tão boa escola, adquirio fama -immortal nos fastos do Brasil por occasião da expulsão dos hollandezes. -(Vide _Memorias para a historia da Capitania do Maranhão, impressa nas -Noticias para a historia e geographia das Nações ultramarinas_.) - - -10 (pag. 18). - -No Brasil não ha verdadeiros javalys, e nem este nome se pode dar aos -_Pecoris_ ou _Tajassus_, ou _Porcos do Matto_ na linguagem dos naturaes. -Não é extraordinaria a proesa do fidalgo, porque andando os _pecaris_ -sempre em bando basta chumbo grosso para matal-os. Martius deo a -synomimia completa d’este animal no _Glossaria linguarum brasiliensium_. -(Vide a divisão _Animalia cum Synonimis_, pag. 477.) - - -11 (pag. 18). - -Um _ajoupa_ é uma pequena cabana coberta de folhas e abertas por todos os -lados. - -Esta palavra é muito usada nos nossos estabelecimentos de Guyana. Vê-se -estampas de _ajoupas_ em Barrére. - - -12 (pag. 19). - -Em 1542 a fóz do grande rio foi explorada por Aphonso de Xaintongeois. -(Vide o _Manuscripto original de sua viagem_ na Bibliotheca Imperial de -Pariz.) - -João Mocquet, cirurgião francez, guarda das curiosidades de Henrique -IV, visitou suas praias. (Vide o _Manuscripto_ do seo _Relatorio_ na -_Bibliotheca de Santa Genoveva_.) - -Finalmente la Ravardiere fez até lá um reconhecimento. - -João Mocquet foi muito explicito quando tratou do mytho das Amasonas, que -tanto occupou Condamine e o illustre Humboldt. Tudo quanto elle referio -d’estas guerreiras soube do chefe _Anacaiury_, cujo personagem, ou seo -homonymo, encontra-se nas obras de Ivo d’Evreux. - -Governava uma nação no Oyapok ou do Yapoco. - -Mocquet disse a seos leitores, que não poude visitar, como desejava, o -Amasonas «por serem violentas as correntes para os navios, e mesmo para o -seo patacho que ja fazia muita agoa.» - -Todas estas narrações a respeito do grande rio deixou em França -impressões tão duradouras, que o Conde de Pagan, quarenta annos depois, -convidou a Mararin a reerguer projectos esquecidos. Para a conquista -da Amasonia elle queria união com os indios, e por sua vontade devia -o Cardeal ligar-se «aos illustres _Homagues_ (Omaguas) aos generosos -_Yorimanes_ e aos valentes _Tupinambás_.» Nunca certamente os selvagens -receberam tão pomposos nomes! - -Seria mui curiosa, si se achasse, a narração da expedição pelas margens -do Amasonas em 1613, feita por ordem de la Ravardiere e ainda no tempo de -Luiz XIII existia uma copia. - - -13 (pag. 20). - -Entra Gabriel Soares em minuciosas descripções do fabrico d’esta farinha, -de que os indios fazem grandes provisões. - -A especie de mandioca, conhecida pelo nome de _Carimã_, serve de base. - -Esta raiz a principio dissecada a fogo brando, depois ralada, é pisada -n’um almofariz, peneirada e misturada com certa quantidade de outra -qualidade de mandióca na occasião de ser torrada, o que se faz até ficar -muito secca, e n’esse estado é conservada por muito tempo. - -Encontram-se sobre esta industria agricola do Brasil todos os -esclarecimentos necessarios no _Tratado descriptivo do Brasil_, pag. 167. - -Augusto Saint-Hilaire disse com rasão, que a cultura da mandióca tirou a -maior parte dos seos processos da economia domestica dos Tupis, e resumio -concisa e habilmente tudo que ha a dizer-se relativamente ao cultivo da -planta. (_Voyage dans le district des Diamants et sur le littoral du -Brésil_. T. 2—pag. 263 e seguintes.) - - -14 (pag. 21). - -Gabriel Soares está aqui inteiramente de accordo com o nosso Missionario. - -Estas grandes canoas chamavam-se _Maracatim_, por causa do _Maracá_, que, -como protector, trasiam na prôa. _Iga_ chamava-se uma canôa pequena, e -_Igaripé_ uma canoa de cortiça ou casca de arvores, etc. etc. (Vide _Ruiz -de Montoya_, _Tesoro_, na pag. 173.) - - -15 (pag. 21). - -André Thevet, e depois d’elle João de Lery descreveram com exactidão este -genero de ornato, chamado _Araroye_ pelo ultimo d’estes viajantes. - -Coube ao padre Ivo fazer-nos conhecer seo valor symbolico. - - -16 (pag. 24). - -A curiosa narração do indio confirma a opinião de Humboldt, e bem pode -ser que antigamente se encontrassem algumas mulheres cansadas do jugo dos -homens, e por isso entregues á vida guerreira. - -Combina igualmente com as tradicções colhidas por Condamine e sessenta -annos antes do Padre Ivo o franciscano. André Thevet não esteve longe -de vêr n’estes selvagens americanos descendentes directos do exercito -feminino commandado por Pentisilée. - -Humbold disse com rasão, que o mytho das Amasonas era de todos os seculos -e de todos os periodos da civilisação. - - -17 (pag. 25). - -Esta nação não é indicada no _Diccionario topographico, historico, -descriptivo da Comarca do Alto Amasonas_. Recife. 1852—1 vol. em 12. - -Tambem não a encontramos na longa nomenclatura da _Corographia Paraense_ -de Ignacio Accioli de Cerqueira e Silva. Deve estar extincta, e Martius -tambem não a cita no seo _Glossaria_, publicado ultimamente. - - -18 (pag. 25). - -Por este nome, aqui tão frequente, designa-se uma grande aldeia alem de -Tapuitapéra. - -Era tambem o nome de um vasto territorio e de um rio. - -Segundo o padre Claudio—_Cumã_ significa _proprio para pesca_, porem -duvidamos que seja exacta a explicação. - -Debalde procura-se esta palavra no _Glossaria_ de Martius publicado em -1863. - - -19 (pag. 25). - -_Cazal_, o _Diccionario do Alto Amasonas_, e _Accioli_ nada dizem a -respeito d’estes rios, onde comtudo esteve um exercito de 2,000 homens! -Martius trata de uma nação de _Pacajaz_ ou _Pacayá_, no Pará. (Vide -_Glossaria linguarum_. pag. 519.) - - -20 (pag. 25). - -Esta ligeira descripção das casas aereas construidas sobre mangues e -troncos das palmeiras _muritis_ lembra um facto bem curioso, classificado -outr’ora como fabula, e descripto na Relação de Walther Ralegh. - -É bem possivel que haja alguma exageração, porem o facto é authentico, e -deo-se na foz do Orenoco. - -Os _Waraons_ visitados ha perto de um seculo pelo Dr. Leblond, os -_Guaraunos_ descriptos pelo sabio Codazzi, são um e o mesmo povo, salvos -de inteira destruição por sua maneira de viver. - -Os _Camarapins_, cujo desaparecimento acabamos de provar, foram menos -felises. - -Á respeito dos indios das _Iouras_ consulte-se o resumo, que outr’ora -fizemos, dos manuscriptos, por onde o Medico francez provou sua moradia -entre os Waraons. (Vide _Guyana_, 1828, em 18.) - -Codazzi, cujos bellos trabalhos geographicos são conhecidos, citava em -1841, os Guaraunos, como não tendo ainda abandonado suas casas aereas. - -Ha trinta annos, quando muito, vinham elles negociar com os habitantes da -Trindade. (Vide o _Resumen de la Geographia de Venezuela_. Pariz. 1841—em -8.) - -Agostinho Codazzi morreo ultimamente. - -Quanto aos manuscriptos de Leblond, que ja tivemos á nossa disposição, -pertenciam á collecção das viagens, possuida em 1824 pelo edictor Nepveu. - - -21 (pag. 28). - -Este personagem tinha um nome todo portuguez, e era muito dedicado á -nação, a cujos interesses servia. - -O titulo de _Capitão_ afinal estendeo-se a todos os chefes da raça -indigena. - - -22 (pag. 29). - -Este selvagem fanfarrão gabava-se de ter feito morrer o padre Ambrosio, -residente em _Iuiret_, cuja pronuncia segundo Claudio d’Abbeville, é -_Jeuiree_, e ella indica a estranha significação d’este nome. - -O _Pay açu_, o grande padre é Ivo d’Evreux. A palavra _Pay_ quer dizer em -portuguez _Padre_. Pay-_guaçu_, diz Ruiz de Montoya significar Bispo ou -Prelado em Guarany. - -O nome de _Pay_ foi mais facilmente adoptado pelos indigenas pela -sua analogia em designar pessoas graves. Os feiticeiros eram -chamados—_hechizeros_—para servir-nos da propria expressão do -lexicographo hespanhol. - -Da _lingua geral_, modificação do Guarany, _Pay_ significa padre, monge e -senhor. _Pay Abaré Guaçu_ era a designação dos prelados e dos jesuitas. -Os indios ainda chamavam o papa _Pay aboré oçu eté_. - - -23 (pag. 29). - -Não sabemos porque o missionario modifica a orthographia do nome de um -povo, que elle ja escreveo muitas vezes de forma diversa. - -Claudio d’Abbeville escreve _Topinambás_, o author da sumptuosa -entrada _Tupinabaulx_, Hans Staden _Topinembas_, e emfim João de Lery -_Tuupinambaults_. Malherbe suavisando a expressão escreve _Topinambus_. -Foi esta ultima orthographia a que prevaleceo no tempo de Luiz XIV, porem -preferimos a que é adoptada pelos brasileiros. - - -24 (pag. 31). - -Por esta palavra tão vaga, aqui empregada pelo padre Ivo, suppomos que -elle pretende designar os povos mais selvagens ainda que os Tupinambás, -ou então que se entregavam mais especialmente a anthropophagia. - -Nas obras de Humboldt encontra-se uma curiosa definição da palavra -_Canibal_. Notaremos apenas, que 50 annos antes do tempo, em que escreveo -o padre Ivo, designavam-se assim, quasi que exclusivamente, os indios -mais proximos do Equador. - -Na historia da França antarctica por André Thevet, á proposito da madeira -de tincturaria, lê-se o seguinte: «o da costa do rio de Ianaire é melhor -que o da costa de Canibaes e de toda a costa do Maranhão,» (pag. 116 -verso), e mais adiante: «visto que chegamos a estes Canibaes, d’elles -diremos apenas, que este povo, depois do cabo de Santo Agostinho, e alem -até o Maranhão, é o mais cruel e deshumano que em qualquer outra parte da -America. Esta canalha come ordinariamente carne humana, como nós comemos -carneiro.» (pag. 119.) - - -25 (pag. 31.) - -Foi com effeito nas margens do Itapecurú, que se apresentaram os -portuguezes. - -Claudio d’Abbeville disse algumas palavras sobre este bello rio, porem -exagerou o seo curso. - -Nós estamos tão pouco ao facto da geographia d’esse paiz, que Adriano -Balbi se contentou em mencionar seo nome apenas no quadro, que traçou, -dos rios do Maranhão. - -Que prodigiosas mudanças não se terão operado sobre suas margens desde o -tempo, em que o nosso bom frade assim o chamava alterando-lhe o nome! - -Em lugar d’estas florestas, onde andavam errantes os Timbyras, cultiva-se -milho, mandióca, canna de assucar, fumo e algodão, e a producção ultima -d’este genero foi tão abundante, que subio a 35,000 saccas. - -Em França não se conhece o nome das cidades mais importantes, assentadas -á margem d’este rio, e apenas se encontram em nossos livros de geographia. - -Quem já ouvio fallar da pequena cidade de Caxias, a risonha patria de -Gonçalves Dias? Comtudo é uma cidade rica, commercial, banhada pelo -Itapecurú, e distante da capital sessenta legoas. - -Em 1821 era apenas um povoado de 2,400 almas, e hoje este numero -elevou-se a 6,000 habitantes. - -Caxias é o centro do commercio entretido com o Piauhy, e com immensas -solidões de campos de criação de gado, conhecidas pelo nome de _sertão_. - -Edificada para assim dizer no deserto, tem escolas florescentes, um -theatro, estabelecimentos de utilidade publica, que nem sempre se -encontra em cidades mais consideraveis. - -O nome de _Caxias_ tem no Brazil significação politica, porque, em 1832, -travou-se no _Morro do Alecrim_ uma batalha, cujo resultado consolidou a -Independencia da Provincia. Mais tarde, na propria colina, chamada das -_Tabócas_ deo-se o sanguinolento combate, onde foi vencido[BJ] _Fidié_, e -que inspirou a Gonçalves Dias tão energicos versos. - -Seriam necessarios volumes para narrar, ainda que summariamente, as -perturbações, que se seguiram a este acontecimento, e as luctas -tempestuosas, que houveram neste canto ignorado do mundo até 1848, quando -o Dr. Furtado conseguio reprimir a horda, que assolava esta cidade -nascente.[BK] - -A propria naturesa, por si só, é grande n’estas regiões: 20 mil -habitantes formam a população d’este vasto municipio, empregado -superficialmente na agricultura. - -Na distancia, em que nos achamos, estas revoluções tão cumpridas para -serem contadas, assimilham-se ás da idade media, que a historia local as -vezes registra, mas que facilmente esquece visto não ligar-se á algum dos -grandes interesses, que prende a attenção do mundo. - -Com mais justa rasão pode applicar-se isto a villa do Codó, a mais -florescente após Caxias, como ella banhada pelo Itapicurú, e como ella -separada da Capital por um espaço de 60 legoas. - - -26 (pag. 34). - -Este nome do principio do mal, acceito em toda a obra pelo Padre Ivo -d’Evreux e por Claudio d’Abbeville parece ser mais particular ao Norte do -Brazil. - -Martius escreve _Jurupari_, ou _Jerupari_. _Anhagá_ parece ser mais uzado -ao Sul. Não se acha a significação desta palavra no _Tesoro de la lingua -Guarani_. _Angai_ neste precioso Diccionario significa espirito mau. -_Anhanga_ significa hoje apenas um _phantasma_. (Vide Gonçalves Dias, -_Diccionario da lingua Tupy_.) - - -27 (pag. 36). - -Estes povos, antes de reunidos, eram chamados Tabaiares pelos Tupinambás. -Pag. 36. - -Tabajares não significa de maneira alguma _inimigo_, e sim senhores da -Aldeia. (Vide Adolpho de Varnhagem, _Historia geral do Brazil_. T. 1.º -Accioli. _Revista do Instituto_.) - - -28 (pag. 36). - -A denominação, adoptada no Seculo XVII por nossos compatriotas, veio -sem duvida alguma do costume que tinham estes indios de furar o labio -inferior, e mesmo as faces para n’ellas introduzir discos de uma especie -de esmeralda, feitos com muita paciencia, e apreciados como joias -estimaveis. (Vide _Sur l’usage de se percer la lévre inferieure chez -les Américains du sud_, a serie de nossos artigos, inserida com muitas -gravuras no _Magasin pittoresque_. T. 18 pag. 138, 183, 239. 338, 350 e -390.) - - -29 (pag. 36). - -_Mearinense_ é evidentemente um nome creado pelo nosso bom Missionario, e -melhor não o inventaria Rabelais. - -Os Mearinenses eram os proprios Tupinambás que residiam nas ferteis -margens do Meary, d’onde proveio o nome á provincia, no pensar de Cazal. -O Mearim, que offerece um curso de 166 legoas, só é navegavel no inverno, -e as canoas grandes sobem unicamente até 60 legoas. Nasce na _Serra do -Negro e Canella_ aos 8° 2′ e 23″ de lat. e 2° 21′ de long. contados da -Ilha de Villegagnon na bahia do Rio de Janeiro. - - -30 (pag. 36). - -A palavra _Tapuya_ ou _Tapuy_ tem levantado grandes discussões: será o -nome de um povo? (Vide o _Diccionario de Gonçalves Dias_). - -Significará inimigo? Ruiz de Montoya nada diz a tal respeito. Será -preciso crear uma nação distincta da dos Tupys, a qual estes deram tal -nome. Um escriptor, authoridade na materia, Ignacio Accioli não hesita a -tal respeito. - -Quando enumera as principaes divisões da raça Tupica, elle diz: -«outra nação geral, a dos Tapuias, divide-se, como pensam muitos, em -pequenas tribus fallando perto de cem dialectos, e são os _Aymorés_, -os _Potentus_, os _Guaitacás_, os _Guaramonis_, os _Guaregores_, os -_Jaçarussus_, os _Amanipaqués_, os _Payeias_ e grande numero de outras.» -(Vide T. XII da _Revista Trimensal—Dissertação historica, ethnographica e -politica sobre quaes eram as tribus aborigenes_, etc., etc., pag. 143.) - - -31 (pag. 42). - -Este pensamento passou como proverbio na ilha e em Goyana. - - -32 (pag. 42). - -Hans Staden prisioneiro, pelos Tupinambás em 1550, ao sahir do Forte da -Bertioga suscitou grande discussão para saber-se com certeza, quem foi o -primeiro que o tocou. (Vide _la Collection. Ternaux Compans_.) - - -33 (pag. 49). - -Nada tem de extraordinario o nome d’este chefe, porem é necessario -escrevel-o assim com mais exactidão, _Ibira Pitanga_. (Vide _Ruiz de -Montoya_.) Lery escreveo _Araboutan_, Thevet _Oraboutan_. Desapparece -esta celebre madeira cada vez mais das grandes florestas, onde íam -buscal-os os nossos antepassados. - - -34 (pag. 51). - -É um Tabajara quem falla, porem observamos, que a palavra _Carbet_ não -pertence á _lingua geral_. - -O padre Ruiz de Montoya não a inserio no seo precioso _Tesoro de la -lingua Guarany_. - -É usado mais particularmente entre os Galibis e os outros povos de Guyana. - -Resente-se esta expressão da visinhança da nossa colonia. - -Convem fazer certa differenca entre os _Carbets_, ou _casa grande_, e -as _Ocas_ ou _Tabas_, que formavam a architectura rudimentar dos outros -povos do Brasil. - -Ouçamos a este respeito o Padre _du Tertre_. «No meio de todas estas -casas, fazem uma grande, commum, a que chamam _Carbet_, a qual tem -ordinariamente 60 ou 80 pés de comprimento, e é formada de grandes -forquilhas de 12 a 20 pés de altura, infincadas na terra: sobre ellas -collocam uma palmeira, ou outro tronco de arvore muito direito, que serve -de cumieira, e n’ella ajustam caibros, que descem até tocar em terra, -e cobrem-nos com ramos ou folhas de palmeiras, ficando muito escuro o -interior da casa, pois a claridade só entra pela porta, e esta é tão -baixa, que para entrar-se é necessario curvar-se.» - -Estas particularidades pedimos emprestadas a uma obra do anno de 1643, e -se referem especialmente a architectura rustica dos Caraibas insulares. - -Escolhemos este exemplo quasi contemporaneo do livro publicado pelo nosso -autor, porque na realidade não ha grande differença entre os _Carbets_ -das ilhas e os dos continentes. - -Si se escrevesse uma historia d’essas casas de folhas tão rapidamente -construidas, apresentar-se-iam certas variedades conforme os usos e -fins para que se destinam. (Vide a este respeito _Le voyage pittoresque -au Bresil de Debet_, depois as gravuras do livro de _André Thevet_, -publicado em 1558.) - -Haviam pequenos e grandes _Carbets_, aquelles onde os Piagas faziam suas -charlatanerias, e estes onde se formavam os grandes conselhos. - -Tinham estes ultimos a configuração de um dos nossos vastos alpendres, -tendo lugar para 150 ou 200 guerreiros. - -No XVII seculo, na linguagem de nossas colonias, nas ilhas ou no -continente, formar um conselho qualquer era _Carbeter_; o termo era -proprio e acha-se usado por todos os viajantes. (Vide entre outros Biet, -_Voyage de la France équinoxiale_. Paris. 1654, em 4.º) - - -35 (pag. 56). - -David Migan era natural de Dieppe, e como fizeram tantos outros naturaes -da Normandia no fim do seculo XVI, veio tentar fortuna entre os selvagens -do Brasil. - -Encontraram-no os chefes da opposição estabelecido havia muitos annos em -Jupinaram, na ilha do Maranhão. - -Era em toda a extensão da palavra um interprete da Normandia, e sabe Deos -de que reputação gozavam estes interpretes no que dizia respeito ao que -então se chamava mundo civilisado. - -Comparavam-nos até aos selvagens, cujos odiosos festins, dizia-se, que -elles partilhavam. - -David Migan teve as honras do Mercurio francez. (Vide T. 3, pag. 164) - -Regressou á França com Rasilly a quem era muito affeiçoado, e assim foi -bom por ser o unico capaz de traduzir para a Rainha, a longa exposição de -Itapucu. - -De passagem lembramos ter elle tambem assignado o termo de cessão, que la -Ravardiere fez de seos direitos a Francisco de Rasilly, o que indica, sem -duvida alguma, o gozar de consideração excepcional. - -O nome de Migan nos parece ser _nome de guerra_, pois esta palavra na -lingua _tupy_, significa o caldo grosso, que se fazia com a farinha de -mandioca. - -Malherbe, que estava nas Tulherias, quando se apresentaram os indios, -notou a habilidade d’este homem. - -Havia outro interprete chamado Sebastião, muito affeiçoado a Ivo d’Evreux. - - -36 (pag. 65). - -É mui curioso o achar-se em Maranhão, no anno de 1612, um selvagem -fazendo ao padre Ivo o mesmo raciocinio, a que foi obrigado á responder -João de Lery em 1556: «o que quer dizer vós _Mair_ e _Peros_, (francezes -e portuguezes) virdes de tão longe buscar madeira para vos aquecer? Lá -não a tendes?» (Vide _Histoire d’un voyage en la terre du Bresil_, Rouen -1578 em 8.º) - - -37 (pag. 70). - -Largamente descreveo Mr. Humboldt a região dos Otomanos, e as porções -immensas de terra, que reunem estes indios para comer quando lhes falta a -caça e a pesca. - -Pensa o grande viajante, que esta terra secca ao sol, formando tulhas de -bolasinhas, dispostas symetricamente, é procurada pelos selvagens por -conterem particulas animalisadas e que a fazem nutritiva. - -Prova o padre du Tertre, que tanto os indios das ilhas como os do -continente comem terra, embora pense que seja por aberração de gosto. - -«Todos comem terra, mães e filhos, diz elle, e a causa de tão grande -aberração de gosto não pode proceder, penso eu, senão de um excesso de -melancolia.» (_Hist. nat. das Antilhas, habitadas pelos francezes_. T. -2º, pag. 375.) - -Não longe das regiões descriptas pelo padre Ivo, á margem do rio -Ucayale, encontram-se ainda os indios _Pinacos_, cujo nome verdadeiro é -_Puynagas_. Estes indios despresados por seos compatriotas, são afamados -comedores de terra. A este respeito, entre outros, foi publicado um -curioso opusculo de Mr. Moreau de Jonnès com o titulo de _Observations -sur les Geophages des Antilles_. Paris. An. VI. Tem somente 11 paginas. - - -38 (pag. 73). - -Na enumeração das diversas classes da infancia achamos ainda exactidão -no padre Ivo, embora confundisse a letra N com a R: a palavra _menino_ -escreve-se _Curumim_ nos Glossarios brasileiros. (Vide Gonçalves Dias, -_Diccionario da lingua Tupy_. Leipzig, 1858 em 12.) - - -39 (pag. 81). - -Gonçalves Dias chama a virgem _Cunhã mucu_. (Vide _Diccionario_.) - - -40 (pag. 82). - -Este singular uso, fallado por todos os viajantes do XVI seculo, como -acaba de ver-se ainda não estava modificado. - -Não se encontra somente entre os Caraibas das ilhas, e sim tambem em -pleno vigor na Europa, e especialmente entre os Bascos, e era então -chamado a «encubação.» - -As «_Miscellanias historicas_,» publicadas em Orange em 1675, contem -interessantes observações á tal respeito. «Nota-se, diz elle, um -admiravel costume em Bearn. Quando pare uma mulher, anda á pé e o marido -deita-se para guardar o resguardo. Creio que os Bearnenses tomaram este -costume dos hespanhoes, de quem Strabon disse a mesma coisa no livro 3º -da sua _Geographia_.» - -O mesmo faziam os Tibarénienses, como refere Nimphodore, na excellente -obra de Apollonio de Rhodes, livro 2, e os Tartaros segundo o testemunho -de Marco Paulo, cap. 41. livro 2.º - -Esto uso, tão exquisito, e só explicavel si se podesse descer até o -recondito mais intimo do caracter indiano, era religiosamente observado -pelos mais valentes e afamados guerreiros Tupinambás, e provocaria o riso -do homem civilisado, si indagasse a sua origem natural. Torna-se porem -admiravel, para assim dizer, quando se sabe ser tal costume acompanhado -de mui crueis privações, porque o indio, que acaba de ser pae, e que -se condemna a tão ridiculo repouso, não só priva-se de alimentos, como -ainda se entrega a outros supplicios com intenção de evitar que soffra o -filhinho certos males, que elle receia. - -Pela sua ignorancia e superstição julga-se com grande influencia -phisiologica sobre o menino, e muito soffre e com stoicismo afim de -poupar algumas dores ao recem-nascido. - -O homem civilisado das cidades, embora mediocremente intelligente, -abstem-se de esquadrinhar estas ideias cheias de dedicação, embora -inconstantes dos selvagens, e ri-se antes de proferir seo juiso. - -A companheira do indio tambem supersticiosa, approva o que faz seo -marido: soffre, sem queixar-se, verdadeiras dores e entrega-se a um novo -trabalho ainda mais pesado, porque todo o serviço da casa cahe sobre -ella. - -No modo de pensar desta pobre mulher a salvação do recem-nascido depende -do procedimento stoico de seo marido. Nunca podemos saber qual era o -motivo, que obrigava os antigos a entregarem-se a este repouso tão -exquisito, não differente provavelmente do concedido aos americanos. -Carli, cuja engenhosa erudicção explica tantas coisas antigas da -America, não procurou mesmo uma hypothese para descobrir motivo tão -ridiculo. Enganou-se por certo, quando disse serem elles alimentados -abundantemente. (Vide _Lettres Américaines_. Boston et Pariz, 1788, T. 1 -pag. 114.) - -É bom ler-se com cuidado a versão francesa d’esta curiosa passagem. - -Não soube o traductor francez, Febvre de Villebrune, dar real valor ás -palavras _italianisadas_ pelo autor. - -Antonio Biet, é mais justo para com os indios, e menos inclinado á -zombaria do que os seos predecessores, quando descreve a «incubação» -entre os Galibis. - -«O pobre indio, diz elle, soffre muito durante seis semanas, come pouco, -e quando acaba o resguardo, está tão magro como um esqueleto.» - -O mesmo viajante nos mostra o Galibi, sempre paciente, não deixando -a _casa grande_, e nem se animando a levantar os olhos para os que o -rodeiam. (_Voyage de la France equinoccial_, Livro 3.º pag. 390.) - -Descrevendo os costumes de certos Caraibas, não podia o autor da historia -moral das Antilhas esquecer a incubação. - -Rochefort conta as particularidades e especifica sua analogia com uma -ceremonia identica, que vio n’uma provincia de França. - -Este repouso forçado do indio pareceo-lhe muito absurdo, porem não nega -ao pobre paciente o merito do jejum, antes confessa, que durante sua -reclusão apenas lhe dão um pouco de farinha e agoa. (Vide _Historia -moral_ pag. 494.) - -Não proseguiremos n’estas citações, bastando dizer que entre os povos -do Brasil os Tupiniquins, os Tupinacs, os Tabajares, os Petiguaras, e -muitas outras tribus imitam os Tupis, e estes nomes nada mais adiantam. - -Convem comtudo fazer bem saliente o amor paterno entre os indios, -dando-se assim ao mais extravagante dos costumes a sua origem verdadeira. - - -41 (pag. 84). - -_Tamoi_ quer dizer avô na lingua dos Tupinambás: aqui ha alteração de -palavra, proveniente por differença de pronuncia. - -Lê-se no _Tesoro de la lingua Guarany_, base da lexicographia brasileira -_Tamôi_, _abuelo_, _Cheramòi_, _mi abuelo_, _Cherúramôîruba_, _mi -bisabuelo_, _Cherúramôî_, _el abuelo de mi padre_, etc. - -Por sua origem tinham os Tamoyos real proeminencia sobre as outras tribus -da mesma raça. - -No meiado do Seculo XVI habitavam as circumvisinhanças de _Nicteroy_, -ou antes do Rio de Janeiro: como alliados fieis dos franceses foram -expellidos d’esse bello territorio por Salema, e os restos de suas tribus -desceram para as regiões do Norte, onde encontraram seos antigos amigos, -que se haviam refugiado especialmente nos campos de Maranhão. - - -42 (pag. 87). - -Não é de mediocre importancia a especie de vocabulario, aqui offerecida -pelo nosso missionario. - -Os leitores francezes, pouco familiarisados com a philologia americana, -despresaram sem duvida esta collecção de frases, provenientes d’uma -lingua, que comtudo servio de recreiação á Boileau: o mesmo não -acontecerá n’um vasto Imperio, onde as letras são hoje tão honradas. - -Ha muitos annos já, que o Autor da _Historia Geral do Brazil_ provou a -importancia do estudo das linguas indigenas n’uma _Memoria_ impressa -entre as actas do _Instituto Historico do Rio de Janeiro_. (Agosto 1840.) - -O padre Anchieta, a quem se deve a composição da primeira grammatica, -conhecida, da lingua geral, não fallava o Tupy sem uma especie de -enthusiasmo; o padre Figueira o imitou em sua sincera admiração; Laet, -com quanto não manifestasse admiração gabou sua abundancia e doçura, e -nisto foi seguido por Bettendorf. - -Pode dizer-se, que entre todos estes foi o padre Araujo quem melhor fez -sobresahir sua importancia debaixo do ponto de vista philosophico. - -«Como foi, disse algures esse Religioso, que os povos, que a fallaram, -tendo suas ideias limitadas em estreito circulo de objectos, todos -necessarios embora á seo modo de vida, podessem conceber signaes -representando idéas, capazes de indicar o objecto, que não conheciam -antes, e isto não de qualquer forma, e sim com propriedade, energia e -elegancia», accrescentando «sem ter ideia alguma da religião, a não ser -da natural, encontraram em sua propria lingua expressão para patenteiar -toda a sublimidade dos mysterios da religião, e da Graça, sem pedir -emprestado coisa alguma aos outros idiomas.» - -Enganar-se-ia completamente quem julgasse estar hoje esquecida a lingua -usada entre tribus numerosas quando em 1500 Pedro Alvares Cabral -descobrio o Brasil. - -Deixou não só vestigios na Geographia do Brazil, mais tambem ainda hoje -se falla n’algumas aldeias, tendo estreita affinidade com o _Guarany_, -lingua usada na mór parte do Paraguay. Comtudo não é a mesma do seculo -XVI. - -Modificam-se os idiomas dos povos selvagens á similhança dos idiomas dos -povos civilisados, e ainda mais talvez quando uma corrente de ideias -novas vem desvial-os da liberdade do seo andar. - -O _Maya_, o _Quiché_, o _Aztéco_, o _Quichua_, o _Aymara_ não são o que -foram no tempo de Cortez, de Alvarado, e de Pizarro. - -Si o sabio Veytia podesse, ha perto de um seculo, confrontar a differença -enorme, que apresenta o Nahuatl antigo com o que fallavam muitas pessoas -do seo tempo, imagine-se o que não succederia quando se fizesse a mesma -confrontação entre a lingua Tupy, e o moderno Guarany. - -Esta ultima lingua, tão em uso no Paraguay, não é mais fallada com a -pureza da sua origem, segundo diz o Sr. Beaurepaire de Rohan, si não -pelos _Cayuas_, das nascentes de Iguatiny. - -São pois mui preciosos todos os livros, que tratam da lingua antiga -debaixo do ponto de vista grammatical. - -Debaixo d’este ponto de vista, as viagens d’Hans Staden, de Thevet, e -de Lery tem mais valor do que as Relações de Claudio d’Abbeville e Ivo -d’Evreux. - -Acham-se todos os promenores apreciaveis á este respeito no nosso -opusculo publicado sob este titulo—_Une fête bresilienne célébrée á Rouen -en 1550. Suivie d’un fragment du XVI siécle roulant sur la Théogonie des -anciens peuples du Brésil e des poésies en langue Tupique de Christovam -Valente_. Pariz, Techener, 1850, gr. em 8.º - -O sabio Hermann E. Ludewig não conheceo o vocabulario apresentado pelo -padre Ivo, ou pelo menos não tratou d’elle. (Vide _The literature of -American aboriginal languages_. London, 1857, in 8.) - -Finalmente tem se feito n’estes ultimos tempos trabalhos de tanto folego, -merecendo o primeiro lugar os do illustre _Martius_. - -Um distincto litterato brazileiro, o Dr. Gonçalves Dias, que já publicou -em _Leipzig_ o _Diccionario da lingua Tupy_ (1858) foi de novo estudal-o -nas profundas florestas do Amazonas. - -A philologia brasileira ainda fará grandes progressos. - - -43 (pag. 94). - -Aqui ha falta sensivel em nosso texto, por ter indubitavel o nosso -viajante occupar-se largamente d’uma raça, que com os _Morobixabas_ -representam o papel principal na vida civil e politica dos Brasileiros. - -Simão de Vasconcellos nas suas—_Noticias do Brasil_—nada deixa a desejar -a tal respeito, e para elle enviamos nossos leitores, observando apenas -que os _Piayes_, os _Pagé_ ou _Pagy_ somente alcançavam a prodigiosa -influencia, que gozavam, submettendo-se á experiencias e a jejuns tão -rigorosos a ponto de arriscarem sua vida, obtendo finalmente o titulo, -que tanto ambicionavam. - -São as mesmas essas provas ou experiencias desde a embocadura do Orenoco -até as do Rio da Prata. - -Quando o candidato estava ja muito enfraquecido pelo jejum, entregavam-no -ás mordiduras das formigas, abarrotavam-no de bebidas asquerosas, cuja -base era o succo do tabaco, e algumas vezes defumavam-no a ponto de -perder os sentidos. - -Si resistia a taes supplicios, era igual senão superior aos guerreiros. - -Deixou-nos Vasconcellos a respeito do que se pode chamar _Collegio dos -Piagas_, á similhança do _Collegio dos Druidas_, certas particularidades -muito minuciosas, applicaveis principalmente ás Provincias do Sul. - -No Norte os _Pages Aybas_ eram os feiticeiros afamados astrologos, ou -melhor _tempestuosos_, a que nada podia resistir. Sob sua dependencia -estavam os astros, e sob sua obediencia o sol e a lua para cumprir suas -ordens: desencadeiavam os ventos e levantavam tempestades. Os mais -ferozes animaes, como as onças e jacarés, obedeciam-no. - -Para alcançar aos olhos do publico tal poder recorria o Pagé Aybas a um -meio, que nunca falhou, isto, é a _herva dos feiticeiros_ ainda mais -poderosa do que a da Europa, o _Paricá_, cujos effeitos terriveis foram -descriptos pelo Dr. Rodrigues Ferreira. (Vide _Memorias das Academias -das Sciencias de Lisboa_.) - -Mastigava-se o _Paricá_, e com isto fazia-se um unguento, uzado para -uncturas. - - -44 (pag. 100). - -Ha aqui um pequeno erro typographico, que convem corrigir: leia-se pois -_rocou_. - -Em toda a America Meridional costumavam os selvagens tingir a pelle de -vermelho alaranjado, ou de negro azulado por meio do _rocou_, _Bixia -Orellana_, ou _Genipapeiro_ (_Genipa Americana_.) - -O Padre Ivo descrevendo com exactidão o fructo d’esta arvore, em -abundancia no Maranhão, diz—o summo claro, e limpido que se extrahe -della, fica muito negro logo depois da sua applicação, e assim -conserva-se por 9 dias (Vide a este respeito _Humboldt_, _Voyage aux -régions équinoxiales_.) - - -45 (pag. 101). - -Serve-se aqui Ivo d’Evreux de uma expressão impropria designando pela -palavra _Thon_ o que se chama _bicho de pé_, _niga_, _pulex penetrans_, -dos entomologistas. Bem pode ser que a palavra seja da _lingua geral_. -Encontra-se com a mesma accepção em Thevet, que a escreveo em 1558 (Vide -_France antarctique_. pag. 90). È muito conhecido este insecto, e por -isso desnecessario é demorarmo-nos descrevendo os males, que produz. -(Vide entre outros Naturalistas, o veridico Auguste de Saint-Hilaire, -_Voyage dans l’interieur du Brésil_. T. 1.º pag. 35 e 36). - - -46 (pag. 106). - -Realisou-se completamente a prophecia do bom Padre. - -Poucas são as regiões do mundo, que, como esta, tenham sido exploradas em -beneficio da sciencia. - -Alem das _Plantas uteis do Brazil_, devidas ao nunca assás chorado -Augusto de St. Hilaire, ha hoje a _Flora brasiliensis_ do illustre -Martius, tambem autor da _Materia-medica_ deste paiz. - -Não desejamos cançar o espirito do leitor com uma arida nomenclatura de -livros especiaes. - -Contentamos-nos apenas dizendo, que muito tem os brazileiros concorrido -para estes trabalhos scientificos, citando somente as _Memorias_ do -Dr. Freire Allemão, recentemente publicadas, e a grande collecção, -infelizmente não acabada, da _Flora Fluminensis_. - - -47 (pag. 108). - -Esta molestia, tão cruel e tão similhante á syphilis, se não é a propria -syphilis, tambem acha-se descripta na _France antarctique_ de André -Thevet, livro publicado em 1558 (vide pag. 86). João de Lery tambem -descreveo seos symptomas. Está claro, que não se pode attribuir aos -negros de Guiné molestia tão geral entre os Americanos. - - -48 (pag. 114). - -O Padre Ivo é rigorosamente exacto no que diz á respeito dos funeraes dos -Indios, e com elle concordam em tudo Lery e Thevet, dando este ultimo uma -excellente estampa representando um Indio prestes a ser sepultado. (Vide -pag. 82 v.) - - -49 (pag. 114). - -Não se esqueciam os Tupinambás de collocar, entre as suas singulares -previsões para o morto, um pouco de tabaco, carne, peixe, raizes de cará -e de farinha de mandióca. É rigorosamente verdadeiro tudo o que o padre -Ivo conta n’este capitulo, como se pode vêr nas estampas que apresentam -Thevèt na _France antarctique_, e Lery na sua _voyage_. - - -50 (pag. 117). - -Os Tapuytapéras, cujo nome deviam á uma localidade do Maranhão, tinham -cabellos cumpridos. Pertenciam á raça Tupy, pois que _Migan_, o -interprete natural de Dieppe, entendia sua linguagem, e o mesmo succedia -aos de Commã, cuja aldeia tinha indios com este nome. - -Os Cahetés, no seculo XVI, constituiam uma nação essencialmente bellicosa -occupando a maior parte do territorio de Pernambuco. Fallavam a lingua -Tupica, ou _lingua geral_. Encontram-se as mais curiosas particularidades -á respeito de sua organisação interna no _Roteiro do Brasil_, manuscripto -existente na Bibliotheca Imperial de Pariz. - -Hoje está sabido, que este livro, tão notavel, composto em 1587 por -Gabriel Soares, é o trabalho mais completo, que existe sobre as diversas -tribus do Brasil existentes no tempo do padre Ivo. - -Passados muitos annos a Academia Real das Sciencias de Lisboa, -reconhecendo a sua importancia, imprimio-a nas suas _Noticias das -nações ultramarinas_, e depois o Sr. Francisco Adolpho de Varnhagem, -colleccionando todas as copias d’esta mesma obra, embora sob diversos -titulos, publicou uma nova edicção superior á todas, sob o titulo de -_Tratado descriptivo do Brasil em 1587, obra de Gabriel Soares de Sousa, -senhor de engenho na Bahia, nella residente dezesete annos, seo vereador -da Camara_. _Rio de Janeiro._—1851 em 8.º - - -51 (pag. 118). - -O padre Ivo quando quer designar o tubarão, escreve impropriamente -_requin_, quando na primitiva era _requiem_. Pode bem ser, que o nome -imposto a este peixe tão voraz provenha da rapidez com que mata. - - -52 (pag. 120). - -O _Maracá_ era um instrumento symbolico, usado tanto nas festas -religiosas como nas profanas. Thevet, o guarda das curiosidades do Rei, o -descreveo muito bem em seos manuscriptos, inedictos, e como sei que não -será desagradavel para aqui transcrevo as suas palavras: - -Tendo nas mãos um ou dois _maracás_, que é um fructo grande, de forma -oval, similhante ao ovo de abestruz, e da grossura de uma abobora, mais -agradavel á vista do que ao paladar, pelo que ninguem o come, fazem com -elles muitos mysterios e superstições tão extravagantes como incriveis. -Cavam o fructo, enchem-no de milho graudo, amarram-no a ponta de uma -haste, enfeitam-no com pennas e enterrando a outra ponta, fica ella -em pé. Cada casa tem um ou dois Maracás, que respeitam como si fosse -_Tupan_, trazendo-o sempre na mão, quando dançam e fazendo chocalhar. - -Pensam que é _Tupan_ que lhes falla (Manuscripto de André Thevet, -conservado na Bibliotheca Imperial de Pariz.) - -Hans Staden e Lery, Roulox Baro escreveram largas paginas a respeito do -Maracá, e o proprio Malherbe falla dos que ouvio em Paris por occasião do -baptismo de tres indios sendo padrinho Luiz XIII. - -Chegando a Pariz, e residindo no Convento dos seos protectores, os indios -revestidos dos seos bellos adornos, e com o _maracá_ em punho, excitaram -muito enthusiasmo, a ponto de haver muita paixão pela sua dança e pela -sua propria musica. - -Seria muito curioso si hoje se achasse a Sarabanda composta em honra -d’elles pelo famoso Gauthier. Malherbe escreveo ao celebre Peirese -dizendo tel-a mandado á Marco Antonio «como excellente peça digna de -ouvir-se» (Vide _Correspondance_, pag. 285, antiga edicção.) - -Ainda, passadas 12 paginas Malherbe tratou da musica então em voga, e -do seo auctor, dizendo «ser Gauthier considerado o primeiro no officio, -ignorando porem si sahira bem, e si o gosto da Provincia se conformará -com o da Côrte.» - -Não se contentaram somente de proporcionar aos pobres selvagens -distracções ligeiras, pois procuraram obrigal-os a residir em França. - -Diz o poeta pag. 275 «os Capuchinhos, para obsequiarem completamente -estes pobres selvagens, resolveram algumas beatas a casarem-se com elles, -e ja deram começo a excursão d’este plano.» - -Emquanto porem eram bem acolhidos os guerreiros do Maranhão, suas -mulheres não gozavam iguaes favores. - -Uma certa Princesa cujo nome calla o poeta, manifestando opinião -singular, dizia «que para elles tinha muita satisfação de dar-lhes casa e -comida, mas que ás senhoras, suas mulheres, não podiam ser senão...» bem -me entendeis, e por isso não podia recebel-as em sua casa. - - -53 (pag. 120). - -É mui curioso o saber-se, que esta expedição exploradora ás margens do -Mearim, reconheceo logo serem essas terras essencialmente proprias para -a plantação da canna de assucar, a que se empregam todos os braços de -15 annos para cá, sendo esta revolução agricola devida á influencia do -Dr. Joaquim Franco de Sá. A charrua despresada por tão longos annos hoje -sulca este solo admiravel. - - -54 (pag. 122). - -Deve lêr-se _Mutum_ sendo a especie mais pequena designada pelo nome de -_Mutum Pinima_. (Vide _Diccionario Tupy_ de Gonçalves Dias.) - -Trata-se aqui de Hocco _Crax Alector_, caça mui procurada. - -A imperial sociedade de acclimatação emprega actualmente louvaveis -exforços para naturalisar em França este passaro do Brasil e da Goyana. - - -55 (pag. 122). - -É uma linda especie de periquito, conhecida no Brasil pelo nome de _Tui_. - -Forma ás vezes bandos tão grandes a ponto de ser um dos flagellos da -agricultura. - - -56 (pag. 123). - -É a palmeira chamada—_Tucum_—pelos brasileiros. - -Consulte-se a magnifica _Monographia das palmeiras_ por Martius. O -_Tucum_ tem fibras verdes e macias, das quaes se faz excellente fio, -proprio para cordas. - - -57 (pag. 123). - -Ivo d’Evreux não hesita com sua sinceridade habitual a formar um verbo -derivado da lingua indigena. - -Desde as margens do Orenoco até as do Rio da Prata era o _Cauim_ -preparado em grande quantidade. - -Tinha o mesmo nome em toda a parte esta especie de cerveja, ou talvez -melhor de cidra, quer fosse preparada com milho mastigado pelas mulheres, -quer com mandióca cajú ou jabuticaba. - -Encontramos este fabrico e nome até entre os Araucans. (Vide a importante -obra, do Chili, do Sr. Claudio Gay.) - -A palavra _cauin_ atravessou espaços immensos, são os mesmos em toda a -parte os processos para o seu fabrico, o que prova estreito parentesco -entre os povos mais distantes, uns dos outros. - -Hans Staden, Lery, Thevet tem apontado seos abusos, e chamamos a attenção -dos nossos leitores para as suas curiosas narrativas. - -O que os nossos antigos viajantes chamavam _Cauinage_ era afinal uma -solemnidade, cujo sentido religioso não conhecemos. - -Precediam ou succediam estas orgias ás grandes expedicções. - -O «vinho da Europa» se chama hoje _Cauin Pyranga_, e a aguardente tão -fatal aos indios, _Cauin Tata_, «bebida de fogo.» - - -58 (pag. 123). - -Descreve com minuciosa curiosidade João de Lery esta festa solemne, na -qual se infiltrava o _espirito de coragem_, aos guerreiros prestes a -partirem para uma expedição. - -Uma das estampas do seo livro representa até esta ceremonia. - -Entre todas as tribus da raça tupy o tabaco é considerado como planta -sagrada. - -Reunimos tudo que se sabia ha alguns annos á respeito da origem do -_Petum_ na carta, que dirigimos a Mr. Alfredo Demersay, sobre a -introducção do tabaco em França, (Vide _Etudes economiques sur l’Amerique -meridionale. Du Tabac du Paraguay_. Pariz. Guillamin. 1851 em 8.º) - - -59 (pag. 125). - -O nome d’esta nação tão pouco conhecida, e que se apresenta á penna do -padre Ivo, é uma garantia da exactidão das suas narrações. - -Ainda em 1817 existiam alguns _Tramembez_ entre os trabalhadores brancos -do Ceará: cultivavam mandióca e residiam na villa de _Nossa Senhora da -Conceição d’Almofalla_, onde haviam muitas salinas. (Vide Ayres Casal, -_Corographia Brasilica_, T. 2º, pag. 235.) - -Gaba o padre Ivo o valor e a industria d’estes indios, inimigos -encarniçados dos Tupinambás. - - -60 (pag. 125). - -Tratamos d’este famoso indio quando elle se revestio do commando. - -É a figura indigena mais predominante nas duas obras do padre Claudio -d’Abbeville e padre Ivo. - -Na _lingua geral_ a palavra _japim_ é o nome de um lindo passaro, de -pennas amarellas e negras, que anda em numerosos bandos e que em toda a -parte faz tão lindos ninhos. - -Pode tambem dar-se-lhe outra significação. _Japy_ significa na lingua -indigena do Maranhão, «o choque, o golpe.» (Vide Gonçalves Dias, -_Diccionario_.) A primeira explicação é a unica adoptada. Japy-uaçú era o -que se chamava um _Mitagaya_, um grande guerreiro. - - -61 (pag. 126). - -Deixa-se o padre Ivo levar muito pelas recordações da Europa. - -_Jeropary-açú_, de que tratam escriptores portuguezes, nada tem de commum -com um principe ou um rei, taes como eram representados no novo-mundo por -convenção hierarchica. - -Este erro ja havia sido anteriormente commettido por André Thevèt na sua -_França antartica_ e na sua _Cosmographia_. O historiador de Portugal, La -Clede, que vivia no seculo XVIII foi mais longe ainda na enumeração dos -pomposos titulos, que dá a alguns pobres chefes de tribus. - - -62 (pag. 127). - -Com o nome de _cabaças_ conhece-se geralmente no Brasil vasilhas -ordinarias, feitas com o fructo da cabeceira. - -Em Venezuella chama-se _Tutumas_. - -Algumas destas vasilhas naturaes mostram delicados ornatos, cores -inalteraveis pela agua e grande brilho. (Vide a este respeito Claudio -d’Abbeville, _Histoire de la mission des péres Capucins_.) - - -63 (pag. 128). - -É isto confirmado por Magalhães de Gandavo, o primeiro escriptor -portuguez, que escreveo uma historia regular do Brasil em 1576. - -Este amigo de Camões recorda a expressão indigena de que se serve o padre -Ivo, porem não partilha sua opinião, antes crê ser o ambar um producto -vegetal formado no fundo do mar. O que é certo é, que nos seculos XVI -e XVII o encontro, quasi sempre casual, de enormes pedaços de ambar, -arremeçados pelas ondas em praias não exploradas, enriqueceo muita gente. - - -64 (pag. 131). - -Debalde procuramos este nome no livro de Ayres do Casal, e no Diccionario -de Milliet de Saint Adolphe. - -A região habitada pelos Cahetés de que trata, sabemos com certesa ser na -provincia de Pernambuco. - -A palavra _Cahetés_ significa _floresta grande_, e se applica a diversas -localidades. - -Foram os _Cahetés_, que em 1556 mataram e devoraram o primeiro Bispo do -Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha. - -Este sabio prelado, natural de Setubal, e educado na universidade de -Pariz, regressava á Lisboa, onde ia queixar-se do governador da Bahia. - -Mostra-se ainda hoje a colina, onde elle morreu, e não cresce ahi planta -alguma, segundo a crença do povo. (Vide Adolpho de Varnhagem—_Historia -Geral do Brazil_.) - -O livro de Gabriel Soares contem tudo quanto se deseja á respeito dos -Cahetés, indios considerados geralmente como invensiveis guerreiros, e -que se gabavam de habeis musicos. - -A exploração do _Uarpy_, de que aqui se trata, e emprehendida pelo Sr. de -Pezieux é uma prova evidente do cuidado, que havia de explorar-se esta -região, percorrendo-se de N. a S. - - -65 (pag. 131). - -Estas minas de oiro, que se esperava encontrar no Maranhão em 1613, -existem hoje na serra de _Maracassumé_. - -Encontra-se o metal precioso sobre tudo em _Piranhas_, (districto de -_Santa Helena_) nas cabeceiras dos rios Pindaré, Gurupy, Cabello de Velha -(_Cururupu_) Prata (Santa Helena) na Revirada, nas margens do Tomatahy, -etc., etc., porem em pequena porção. - -Existe cobre na Chapada no lugar _Fazendinha_ e no Alto Pindaré. - -Ferro existe em mais lugares, nos montes de Tirocambo e em Pastos-Bons. - -Suppõe-se haverem minas de estanho, porem ainda não se sabe com certesa. - -Encontra-se tambem o carvão de pedra, precioso mineral no estado -actual da industria: depararam-se ja com alguns indicios no canal do -Arapapahy, e affirma-se haver uma mina na distancia de meia legoa do -Codó, na fazenda de Santo Antonio, cujas amostras provam ser de superior -qualidade. Dizem haver tambem em Vinhaes. - -Em Sam José dos Mattões encontram-se cristaes de rocha e pedras -semi-preciosas, e saphiras em Sam Bernardo da Parnahyba. - -De passagem lembramos que as primeiras minas de ouro, ou para melhor -dizer, os primeiros veios de ouro, destinados a enriquecerem o Brasil, -somente foram descobertos em Minas-Geraes, no anno de 1595. - -Pelas Provincias do norte não conheceo a Metropole as riquezas -metalicas d’este vasto territorio, onde desemboccam o _Rio doce_, e o -_Jequitinhonha_. - -Sabe-se que este ultimo rio que toma o nome de Belmonte na occasião em -que se lança no mar, pouco distante do primeiro, com o andar dos tempos -deo á corôa enorme quantidade de diamantes. - -Estas pedras, encontradas em 1729, principalmente no valle cercado -de alcantiladas rochas, chamado pelos indios—_Ivitur_, e pelos -portuguezes—_Serro do Frio_, não eram completamente despresadas pelos -indios, pois seos filhos as ajuntavam, e com ellas brincavam. - -No Maranhão não ha diamantes. - - -66 (pag. 141). - -Mostra-se o padre Ivo aqui mui parco em suas descripções, porem deve-se -desculpal-o por não ser naturalista como um theologo do seo tempo. Foi -ainda mais parco o seo predecessor. - -O que disse de algumas plantas do genero _mimosa_ indica a sua -preoccupação á respeito de certos phenomenos naturaes. - -As qualidades maleficas, que reconhece no succo do Cajú, de que se -fabrica uma especie de cidra, são mui exageradas. - -Diremos de passagem, que a palavra _Cauin_ deriva-se do nome indigena -d’esta arvore. _Caju-y_, licor de _Caju_. - - -67 (pag. 145). - -Á flor da paixão (_Grenadilla cœrulea_) na qual a imaginação prevenida -encontra santos attributos, gozava então de prodigioso favor. Foi -descripta em varias obras, e gravada exagerando-se os pontos de -similhança, que podia ter com os instrumentos do supplicio de Jesus -Christo. - -Ivo d’Evreux encontrou nos campos do Brasil magnificas flores d’estas, e -mostrou-as aos amadores. Alguns annos depois elle se teria aproveitado da -descripção poetica, que d’ella fez o poeta popular Santa Rita Durão no -poema intitulado _Caramuru_. - -Lembramos aos amadores de flores phantasticas uma gravura do seculo -XVII, mui curiosa, mostrando a planta com o seo tamanho natural na obra -_Antonii Possevini Mantuani Societatis, Jesu cultura ingeniorum, examen -ingeniorum Joannis Huartis. Expenditur Coloniæ Agrippinæ_. 1610 em 12. - - -68 (pag. 146). - -O guará (_Ibis rubra_, ou _Tantalus ruber_) desappareceo em parte de -varias localidades do littoral, onde costumava expandir sua brilhante -plumagem, sujeita, conforme a idade, a diversas modificações. - -Na obra curiosa de Hans Staden, publicada na Allemanha em 1557, vê-se -qual é o papel, que representa esta ave na industria indigena. - -Formavam os Tupinambás em tempo certo verdadeiras expedições para -procurar as pennas d’ellas, sempre raras, afim de servirem nas festas com -que as tribus se obsequiavam reciprocamente. - -Em caso de necessidade eram substituidas por pennas de gallinhas, tinctas -com uma preparação vermelha de _Ibirapitanga_, ou pau-brasil. - -Actualmente refugiou-se o guará nas margens, pouco frequentadas, do rio -de Sam Francisco, e principalmente nas desertas regiões do Rio Negro. -Ainda tambem encontram-se algumas na _lagoa dos patos_, e em _Guaratuba_. -(Vide _le second voyage d’Aug. St. Hilaire_. T. 2º, pag. 222.) - - -69 (pag. 152). - -É impossivel aos que não leram as obras da idade media interpretar bem o -sentido d’esta frase. - -O livro conhecido sob o nome de _Phisiologus_ gozava ainda de certo -credito no tempo do padre Ivo de Evreux. Quem quizer informar-se d’isto -minuciosamente leia o precioso resumo d’esta curiosa obra, publicada -pelos Rvds. padres Cahier e Martin, sob o titulo _Melanges d’Archéologie, -d’histoire et de litterature_. 4 vol. in-fol. - - -70 (pag. 156). - -As mulheres Tupinambás, que assim cantavam para attrahir as formigas, e -activar a caça d’estes insectos, não o faziam somente para destruil-as, -ou para resguardar suas plantações de milho de uma invasão invencivel. - -As formigas grandes torradas eram consideradas como uma das golodices -mais preciosas, cuja receita foi por ellas ensinada a alguns colonos -do Sul, e sem duvida não será desputada pelos nossos modernos Brillat -Savarin. - -Assim como os Arabes comem ainda hoje gafanhotos, conservados em sal ou -pela dissecação, e os Guaraons das margens do Orénoco apreciam muito -as larvas da palmeira Muriti (não fallando de outra comida da terra do -mesmo genero), assim tambem os nossos selvagens guardam grandes provisões -d’estes insectos para sua nutrição. - -Augusto de Saint-Hilaire, o mais verdadeiro viajante, que percorreo o -Brasil, achou ainda em vigor o costume de se comer formigas assadas. - -Depois de ter affirmado ser muito apreciado esse manjar no Espirito -Santo, pelo que os habitantes de Campos, sempre rivaes dos da Cidade -da Victoria, os chamavam _Tata Tanajuras_, «comedores de formigas», -accrescentou «eu mesmo comi um prato d’estes animaes, preparados por uma -mulher Paulista, e não lhes achei mau gosto.» (Vide _Le second voyage au -Brésil_. T. 2.º pag. 181). - -Martim Soares de Souza, com rasão chamado o Gregorio de Tours dos -Brasileiros, é mais claro a respeito do proveito que os indios tiravam -das formigas como alimento. - -Copiamos aqui o que elle tão curiosamente disse. Depois de haver fallado -da especie grande, a que chamam Içans, escreveo—«_E estas formigas comem -os indios, torradas sobre o fogo, e fazem-lhe muita festa; e alguns -homens brancos andam entre elles, e os mistiços as tem por bom jantar, e -o gabam de saboroso, dizendo que sabem a passas de Alicante: e torradas -são brancas dentro._» - - -71 (pag. 156). - -O pretendido cão, de que aqui falla o nosso Missionario, está muito longe -da raça canina: é apenas o _papa-formigas_, chamado pelos indigenas -_tamanduá_, e pela sciencia _Myrmecophaga jubata_. - -O naturalista Waterton, que com tanta curiosidade estudou os quadrupedes -do novo mundo nos proprios lugares, onde com plena liberdade se entregam -aos seos instinctos, fez excellente descripção d’este animal. - -Ha no Brasil muitas especies de papa-formigas, sendo rarissima a chamada -pelos portuguezes _Tamanduà-cavallo_: parece ter sido este sobrenome o -causador de haver o padre Claudio d’Abbeville errado, quando disse ser o -_papa-formigas_ do tamanho de um cavallo. - -A palavra india, que designa este curioso animal, é composta de duas -Tupis—_taixi_, «formiga,» e _mondê_ ou _mondâ_, «tomar.» - - -72 (pag. 157). - -Deve escrever-se _Taranyra_, cujo nome pertence a um pequeno lagarto. -Falla-se aqui do _Tiú_ (_Tupinambis monitor_). - -É excellente a carne d’este reptil, e muito havia de concorrer para -tornal-a saborosa a preparação culinaria tão gabada pelo Padre Ivo -d’Evreux. - -A repugnancia d’esse bom Padre para taes comidas, não é de fórma alguma -partilhada pelos descendentes dos Europeos, acostumados ás melhores mezas. - -A carne de Tui pela sua côr e maciesa muito assimilha-se á da gallinha -mais preciosa, e por isso apparece nas melhores mezas do Brasil. - - -73 (pag. 162). - -O nosso autor quer fallar da _Aranha caranguejeira_, (_Aranea -avicularia_) porem aqui enganou-se. Exagera muito as dimensões d’este -insecto, na verdade nojento, como se pode vêr em todas as collecções -de entomologia. Não é verdade dizer-se que não fabricam fios para suas -teias: a sua picada não mata, porem envenena. Na lingua Tupy chama-se -_Nhandu-Guaçu_ ou de _Jandu_. - - -74 (pag. 163). - -O que nos diz o bom Religioso do barulho da cigarra denota gosto de -observação na historia natural, muito raro n’aquella epoca, mas convem -não confundir a cigarra brasileira com o insecto assim chamado na Europa. - - -75 (pag. 165). - -Na lingua _Tupi_ escreve-se _Okiju_. (Vide _Martius_, _Glossaria ling. -bras._ pag. 465). - - -76 (pag. 168). - -Ivo d’Evreux confesse-se, está aqui muito inferior á seo contemporaneo o -Padre du Tertre. - -É verdade porem tudo quanto elle diz da luz dos _pyrilampos_. - -A entomologia estava então muito pouco adiantada para que houvesse uma -classificação entre os insectos, e não temos habilitações para preencher -esta falta. Actualmente conhece-se no Brazil oito especies de pyrilampos -a saber: - - _Lampyris crassicornis_, - _ « signaticollis_, - _ « concoloripennis_, - _ « fulvipes_, - _ « diaphana_, - _ « hespera_, - _ « nigra_, - _ « maculata_. - -Pode tambem juntar-se a estes lindos insectos a _lucidota thoraxica_. - - -77 (pag. 169). - -É muito exacto, e as abelhas do Brazil não tem aguilhão: eis o que diz um -observador sabio e veridico. - -Depois de haver affirmado, como o Padre Ivo, que as abelhas não picavam, -disse Augusto de Saint Hilaire «uma especie chamada _tataira_ deixa, -segundo dizem, escapar pelo anus um liquido ardente; e por isso é só á -noite que se colhe o seo mel.» - -As especies chamadas _uruçú-boi_, _sanharó_, _burá_, _bravo_, _chupé_, -_arapua_ e _tupi_ se defendem, quando são atacadas, mas parece não terem -aguilhão, limitando-se a morderem como fazem as outras. - -É muito liquido o mel das diversas especies, e a cera tem a côr parda -muito carregada, não se podendo até hoje conseguir tornal-a branca, como -a da Europa. - -Spix e Martius dão curiosas informações a respeito d’estes uteis -insectos, que completam as do nosso grande botanico. (Vide _Voyage dans -les provinces do Rio de Janeiro e de Minas Geraes_. T. 2.º, pag. 371 e -seguintes.) - - -78 (pag. 176). - -Não ha talvez no mundo região alguma, que tenha maior variedade de -macacos do que o Brazil. - -Creio que aqui se trata primeiro da _guariba_, ou _mycetes ursinus_, -e depois do macaquinho _stentor_, que intentou descrevêr o nosso bom -Missionario. - -É provavelmente d’esta especie a descripção tão agradavel e tão animada, -feita pelo nosso velho escriptor. - -Convem observar porem que o Padre Ivo fez-se echo de uma crença popular -muito vulgar no seculo XVI. - -Esta especie de legenda das florestas, muito mais applicavel aos macacos -da Africa e da Asia do que aos do novo-mundo, não se extinguio ainda -de todo nos campos da America Meridional, e mostraram a M. Castelnau -uma india, que julgava ter escolhido seo marido entre os macacos das -florestas (Vide _Expedition dans les parties centrales de l’Amérique du -sud, de Rio de Janeiro á Lima et de Lima au Pará, exécutée par ordre du -governement français_. Paris 1851, _partie historique_. 5 vol. in 8.º) - - -79 (pag. 177). - -Basta ter-se vivido nas florestas habitadas por macacos para conhecer-se -a exactidão do que escreveo o Padre Ivo. - - -80 (pag. 180). - -Ha aqui com certesa erro, ou então exageração. - -O Padre Claudio d’Abbeville, que descreve a mesma ave de rapina (pag. -232) julga ser elle «duas vezes mais corpolento do que a aguia, ter a -perna da grossura de um braço, e a pata em fórma de unhada.» - -Poderia ser esta descripção do Condor, porem não existe esta ave na -America do Sul. - -Diz o Coronel Ignacio Accioli ter o _gavião real_ tanta força a ponto de -fazer parar em sua carreira um viado por mais forte que seja. - -É tão phantastica a descripção do Padre Ivo, que á primeira vista se pode -applical-a ao abestruz americano de _Nandú_, que se encontra somente no -Ceará e Piauhy. - -Um escriptor contemporaneo, Gabriel Soares, tantas vezes citado, -restabelece a verdade fallando do _Ura-açu_ disse «são passaros, como os -milhafres de Portugal, sem differença alguma, negros e de azas grandes, -de cujas pennas utilisam-se os indios para emplumarem suas flexas, e -vivem de rapina.» (Vide _Tratado descriptivo do Brasil em 1587_. Rio de -Janeiro.—1851 1.º vol. in 8.º pag. 232.) - -Lembramos de passagem, que debaixo do ponto de vista scientifico a parte -ornithologica é muito imperfeita, embora a bellesa do estylo do nosso -velho viajante. - -O que diz, por exemplo, o Padre Ivo do passaro mosca, ou do colibri, -é inteiramente inexacto, pois elle não tem o tal canto agudo, que faz -lembrar o grito da cotovia. - -Confundiram-se as recordações com a distancia. - - -81 (pag. 181). - -Ivo de Evreux quer dizer, que os Indios se _fazem galans_, preparando-se -com pennas de papagaios. - -Faziam os Tupinambás com estas pennas não só mantos, diademas e -perneiras, mas tambem cortavam bem miudinhas as pennas pequenas e -coloridas d’estes passaros, e cobriam com esta pennugem o corpo, e n’elle -grudavam-na com certa gomma. - -Este enfeite selvagem e singularmente original ainda é muito usado e -apreciado em certas tribus. - -Segundo conta João de Lery durou mais de tres seculos. - -A viagem pittoresca de Debret apresenta uma amostra. - - -82 (pag. 185). - -Basta, é bastante. Os hespanhóes e os portuguezes conservaram a palavra -_bastar_. - - -83 (pag. 185). - -Já pagamos justo tributo de saudade a este Religioso, tão cheio de -bondade como de zelo, cuja sepultura no antigo cemiterio do pequeno -Convento não é sabida em Maranhão. - -Como indica o seo sobrenome de Religião, nasceo o Padre Ambrosio na -Capital da Picardia, «de parentes abastados, diz o manuscripto dos -elogios, e que lhe deram educação conforme permittiam seos negocios.» - -Depois de haver estudado na Sorbona, quando estava prestes a receber a -sua carta de licenciado, foi abalado pelas prédicas do Padre Pacifico de -São Gervasio, e entrou no Convento em 1575, quasi no tempo da fundação do -Mosteiro de Santo Honorato. - -Em 1599 acabou seo noviciado, e com satisfação começou a preencher as -obrigações de irmão leigo. - -Cedo passou a prégador, e então adquirio essa fama de caridoso, que o fez -tão popular. - -Aspirava a mais do que isto, «porque queria converter todas as Indias», -diz a noticia a elle dedicada. - -O Padre Ivo cercava de todos os cuidados os seos confrades quando -emprehendiam viagens tão incommodas principalmente n’aquelle tempo. - -Estava já muito enfraquecido, e sem forças, quando em 26 de setembro de -1612 cahio doente, em sua pobre cabana de pindoba. - -Ardente febre o devorava, e comtudo, ainda depois de receber a extrema -uncção, conservou em bom estado e sempre firme o uso de suas faculdades -intellectuaes. - -Transcrevamos aqui algumas palavras, que mostram qual foi o fim de tão -bom velho. - -Claudio d’Abbeville assim o conta: - -«Cahindo sobre elle um pequeno painel da Imagem de S. Pedro, pendurado -por cima de sua cama, e a que dedicava profunda devoção, elle -disse—vamos, grande Santo, partamos, ja que vieste buscar-me.— - -«Dizendo isto olhou para o Crucifixo e após curta agonia restituio ao -Creador sua alma tão bôa em 9 de Outubro de 1612, dia da festividade do -Glorioso Apostolo de França, S. Diniz, Bispo de Pariz: - -«Foi sepultado no lugar chamado S. Francisco, consagrado ao nosso -Patriarcha, como premicias dos Capuchinhos Francezes.» (Vide tambem -«_Éloges historiques de tous les illustres religieux capucins de la -ville de Paris, les uns par la prédication, les autres par les vertus -et sainteté de leurs œuvres, les autres par les missions parmy les -infidelles etc. etc._ sob numero _Capucin_ Saint Honoré 4 (ter).)» - -É para sentir-se e muito que se tenha perdido ha alguns annos o 1.º vol. -d’esta importante collecção, contendo os Annaes da Provincia. - - -84 (pag. 186). - -Prova esta phrase tão rigorosa do velho missionario a rapidez, com que -se espalhou na Europa o _avati_, dos brasileiros, o _milho_ dos ilheos -visto, bem como o tabaco, por Christovão Colombo na primeira viagem em -1493. - -Levantaram os botanicos grande questão, ainda não resolvida, sobre a -origem primitiva do milho. - -Pelo que diz respeito ao Brasil citamos a opinião d’um viajante, que por -seu saber pode passar por authoridade. - -Augusto de St. Hilaire pensa ter nascido no Paraguay, onde o vio em -estado inculto. - -A cultura do milho é ao Sul d’America a planta nutritiva por excellencia, -e prepara-se sua farinha por processos simples, e que dão optimo gosto. - -Enviamos nossos leitores, que desejam instruir-se de tudo quanto se -refere á esta graminea para o precioso livro do Dr. Duchesne—_Traité -complet du maüs ou blé de Turquie_. Paris. Renouard, 1833 em 8º, e para a -grande obra de M. Bonafous. - - -85 (pag. 187). - -Falla aqui verdade o padre Ivo, porem não se segue que ao norte do Brasil -se possa fazer vinho. - -O maior obstaculo, que encontra este fabrico, está no amadurecimento do -fructo sob os tropicos. - -No mesmo cacho ao lado de muitas uvas maduras encontra-se grande numero -de verdes. - -È voz corrente ter-se feito algum vinho na visinhança da Bahia. - -Caminhando-se para o sul, na região temperada de Mendoza, a uva amadurece -perfeitamente, e dá vinho precioso. (Vide, entre outras viagens a -respeito d’este ponto curioso de agricultura americana—_Sallusti_, -_Storia delle missione del Chile_. 4. vol. em 8.º Padre Barrére. -_Nouvelle Relation de la France equinoxiale_. Paris, 1743. 1º vol. em 12, -pags. 53 e 54.) - - -86 (pag. 187). - -Trata-se aqui do fio que se extrahe com abundancia de uma especie de -Ananaz. (_Ananas non aculeatus_, _Pitta dictus Plum_.) - -Com elle os portuguezes faziam meias, quasi tão procuradas como as de -seda. - - -87 (pag. 191). - -Não se encontra esta palavra no Diccionario de Nicot, irmão de Villemain. - -Podemos affirmar, que se deve escrever _hansares_—que significa—uma foice -de grande tamanho. - - -88 (pag. 192). - -Fazer certo sussurro expellindo com força o ar pelo nariz. É expressão -do povo, confundida no Diccionario da Academia com a palavra—_renâcler_ -«roncar» usada trivialmente no stylo familiar. - - -89 (pag. 194). - -São por Cardim muito bem pintadas essas recepções de indios. - -Os brasileiros não podem preferir, na bellesa da narração e no encanto -das particularidades, senão um só viajante portuguez á Ivo d’Evreux e á -Claudio d’Abbeville, e é aquelle cujo nome acabamos de proferir. - -Este escriptor agradavel porem muito conciso, pertence á ordem dos -jesuitas. - -Foi para o Brasil em 1583, e ahi ficou revestido de todas as dignidades -até o fim de 1618: soube portanto do estabelecimento dos francezes ao -Norte do Brasil, e certamente na Bahia soube de sua expulsão, e sobre -isto infelizmente nada disse. - -Fernão Cardim estava em posição bem diversa da do padre Ivo d’Evreux. - -Pelas costas do Brasil, onde elle se apresentava, submettiam-se os indios -ao christianismo, perdendo sua grandeza primitiva e conservando a maior -parte dos seos usos. - -O Missionario francez ao contrario cathequisa os indigenas, que combatem -pela sua independencia contra seos conquistadores. - -Os dois bons missionarios tiveram ambos a mesma sincera indulgencia e -admiração para com os povos ainda na infancia, aos quaes pregaram, e cuja -prévidencia é o seo maior e mais terrivel defeito. - -As cartas de Fernão Cardim foram felizmente descobertas pelo incansavel -autor da _Historia geral do Brasil_. - -O Sr. Francisco Adolpho de Varnhagem não pôz seo nome n’esta preciosa -publicação, honra que aqui lhe restituimos, e a que tem direito como -homem de saber e gosto. - -O opusculo de Fernão Cardim tem o titulo de _Narrativa epistolar de uma -viagem e missão jesuitica pela Bahia, Ilheos etc etc._—_Lisboa_, 1847, em -8.º de 123 paginas. - -Parece-me que o sabio edictor não se lembrou de haverem preciosas -informações á respeito de Cardim e dos missionarios contemporaneos do -Brasil n’um escriptor de Toulon por nome Jarric. (Vide _La 2me partie des -choses plus memorables advenues tant aux Indes orientales que autres pays -de la découverte des Portugais en l’establissement de la foi chrestienne -et catholique etc. Bordeaux 1610_ em 4.º É dedicado a Luiz XIII. O que -n’este livro se refere ao Brasil, e particularmente ás regiões visinhas -do Maranhão, acha-se na pag. 248 até 359.) - -Morreo o padre du Jarric em 1609. - -Foi sua obra traduzida em latim, e impressa na Colonia em 1615. - -Esta traducção, augmentada em alguns lugares, foi publicada em 4 vol. em -8.º - - -90 (pag. 194). - -Ha quasi certesa de não ter o nosso bom missionario lido a narração de -André Thevet, publicada em 1558, e nem a viagem mais recente de João de -Lery, cujas opiniões religiosas deviam afastal-o d’essas obras. - -Comparando-se estes velhos viajantes entre si, facilmente nota-se a -similhança das narrativas. - -Eis o que disse João de Lery á respeito da recepção, que lhe fizeram os -Tupinambás. - -Descrevendo as ceremonias, que fazem os _Tuupinambaults_ para receberem -seos amigos, que os vem visitar, merece dizer-se em primeiro lugar, -que apenas chega o viajante a casa do _Mussacat_, isto é, do bom pae -de familia, dá de comer aos que por ahi passam, e que elle escolher -para seo hospede, facto que se hade praticar em toda e qualquer aldeia, -por onde se transitar, sob pena de cauzar enfado se não é procurado -immediatamente. Assenta-se depois n’uma rede onde fica por algum tempo -em silencio. Vêm depois as mulheres, sentam-se no chão, tapam os olhos -com as mãos deplorando a bôa vinda d’aquelle, cujos louvores farão em -occasião apropriada. - -Por exemplo:—tiveste tanto trabalho para nos vêr; tu és bom, e valente: -si é um francez, ou outro qualquer estrangeiro, accrescentam—trouxestes -para nós tão bellas obras, como aqui não temos, e immediatamente derramam -muitas lagrymas, e assim aplaudem e lisongeam. - -Si o recem-chegado assentado em seo leito quer pagar-lhes as finezas, -dizendo de sua parte coisas agradaveis, não querendo porem chorar, (como -eu sei alguns dos nossos, que vendo as maneiras d’essas mulheres perante -elles, foram tão nescios, que as imitaram) devem ao menos por fingimento -exhalar alguns suspiros. - -Feitos assim estes primeiros cumprimentos pelas mulheres, entra depois -o _mussacat_, isto é, o velho dono da casa, que fingirá durante um -quarto d’hora não vos vêr (caricia mui opposta ás nossas embaixadas, -cumprimentos e apertos de mão á chegada dos nossos amigos). Chega-se -depois onde estaes, e diz _ereiubé_, isto é, chegaste? etc. etc. (vide -_Jean de Lery, istoire d’un voyage en la terre du Brésil_. Rouen, 1578, -em 8º, 1ª edicção.) - - -91 (pag. 195). - -Ha no Brasil um sapo de grande tamanho, a que se deo o nome de «_sapo -boi_.» - -Claudio d’Abbeville diz—«n’aquelle paiz encontram-se uns sapos muito -grandes a que chamam _cururu_. Alguns ha que tem mais de um pé ou pé -e meio de diametro: quando são esfolados, é impossivel dizer-se quam -branca é a sua carne, e como são bons para comer-se. Vi alguns fidalgos -francezes comel-a com apetite. - - -92 (pag. 203). - -Mui visivelmente falla-se aqui da lenda brasileira relativa a _Sumé_, o -legislador dos Tupys. - -No curioso opusculo, que a respeito d’este personagem publicou o Sr. -Adolpho de Varnhagem, conta a sua chegada á Ilha do Maranhão, e como -desappareceo na occasião, em que se preparavam todos para sacrifical-o. - -A palavra—_Maratá_—nos põe em embaraços, pois debalde a procuramos em -Ruiz de Montoya: é alteração da palavra _Mair_ ou _Maïr_, tantas vezes -empregada por Lery e Thevèt, para mostrar ou indicar um estrangeiro, ou -uma pessoa extraordinaria. Não podemos dar uma resposta satisfatoria. O -Sumé, que propaga a cultura da mandióca, é barbado. - -Diz-se com razão ser personagem analoga a Manco Capac dos peruanos, e ao -Quetzalcoalt dos Azetecas, e ao Zamma da America Central. (Vide Adolpho -de Varnhagem, _Historia geral do Brasil_. T. 1º pag. 136, e _Sumé. -Lenda mytho-religiosa americana etc. agora traduzida por um Paulista de -Sorocaba_. Madrid, 1855, broch. in 8 de 39 pag.) - - -93 (pag. 205). - -O verbo _cantar_ na linguagem tupy é _Nheengar_. Um _Nheengaçara_ é um -cantor propriamente dito. - - -94 (pag. 220). - -Parecerá estranho ao leitor serem os francezes comparados n’este lugar -aos Caraibas. - -Os que lerem com attenção as obras de Humboldt acharão a chave d’este -enigma. Os Caraibas do continente americano, nação immensa, eram notaveis -em toda a America pelo seo valor e penetração. Seos piayas, ou antes seos -feiticeiros os elevavam acima de todas as outras nações: eram no Novo -Mundo o mesmo que os Chaldeos no velho. Simão de Vasconcellos nos dá a -prova d’esta supremacia intellectual: no sul do Brasil os _Caraibe-bébé_, -eram feiticeiros ou advinhadores notaveis: assim se chamavam os homens -intelligentes, os espiritos, e os anjos, e depois tambem os estrangeiros. -O Sr. Adolpho de Varnhagem fez notar, que o nome de _Carayba_ foi em seo -principio dado aos Europeos, sendo todos os Christãos assim chamados. -(Historia geral, pag. 312.) - - -95 (pag. 220). - -Um _Caramémo_ é que se chama em Guyana um _Pagará_, isto é, um paneiro -leve, feito com folhas de certa palmeira e ás vezes com bonita forma. - -Claudio d’Abbeville assim tambem o chama, quando descreveo os utensilios -de uma casa indigena. Barrère fez desenhar este lindo _Specimen_. - - -96 (pag. 226). - -Ivo d’Evreux, familiarisado com todos os symbolos em voga no seo tempo, -não se esqueceo de uma graciosa alegoria na qual figura o Unicornio. -Vide _Le Monde enchantée_, e especialmente a dissertação intitulada -_Revue de l’histoire de la Licorne par un naturaliste de Montpellier_. -(P. J. Amoreu.) Montpellier Durville, 1818, em 8.º 47 pags. - - -97 (pag. 239). - -É sabido ser esse o nome, que aos portuguezes davam os Tupinambás. - -_Pero_ quer dizer _cão_ na lingua de Camões, mas suppõe-se que o -nome—_Pedro_—muito usado no Brazil, provinha de tão estranha designação. - -Ayres Casal conta até á este respeito uma historiasinha, recorrendo á -tradicção, de como um serralheiro, chamado Pedro, fôra arremeçado pelas -ondas, após um naufragio, ás praias do Maranhão. Graças a sua habilidade -no trabalho do ferro fez-se este homem agradavel aos indios, e seo nome -com pequena modificação servio d’ahi em diante para fazer conhecidos os -individuos, que se julgavam ser da sua raça. - -Em sua _Corographia_ o Dr. Mello Moraes escreveo esta _legenda_ muito -mais completa. - - -98 (pag. 242). - -Não se tem procurado esclarecer por meio de uma discussão -grammatical—esta parte do livro. - -Differenças mui sensiveis, produzidas pelo tempo e sobre tudo pela -pronuncia, fizeram este lugar para assim dizer indicifravel. Nada é -mais dificil do que traduzir pelos caracteres da nossa escripta os sons -das linguas indigenas. Essas inflexões tão delicadas, e as vezes tão -fugitivas, em sua apparente rudeza são dificultosamente ffixadas no -papel. Notou Humboldt pertencerem ellas algumas vezes á certos caracteres -physicos das raças. - -As nações européas, as mais habituadas á estes estudos, não percebiam -da mesma fórma os sons, e nem os escreviam da mesma maneira: quando -os portuguezes ouvem _Oca_, por exemplo, ou então _Toba_, o francez -percebe _Oc_ e _Tob_, e quando aquelle ouve _Murubixaba_ este percebe -_Muruvichave_. Deixa a differença de ser grande quando são as palavras -pronunciadas conforme o genio de cada lingua. - -A palavra _Tupinambás_, como se acha escripta no principio d’esta nota, -(_Tobinambos_) equivale absolutamente pelo som na lingua portuguesa á -palavra _Tupinambus_, como a pronunciavam os contemporaneos de Malherbe. - -Para a historia da linguistica não é sem interesse esta curta doutrina -christã, podendo ser comparada com certas obras do mesmo genero, -escriptas por penna portuguesa, estando n’este caso, entre outras, os -canticos religiosos em lingua tupy por Christovão Valente, os quaes -incluí no opusculo—_Une fête brésilienne_. Pariz. Techener, 1850. - -Não se póde achar o livro que os contem, e talvez só exista na -Bibliotheca Imperial. - -Reproduzimos aqui seo nome—_Cathecismo brasilico da doutrina christã, -com o ceremonial dos sacramentos e mais actos parochiaes. Composto por -padres doutos da Companhia de Jesus, aperfeiçoado e dado á luz pelo padre -Antonio de Araujo da mesma Companhia, emendado nesta segunda impressão -pelo padre Bertholomeu de Lean da mesma Companhia_, Lisboa, na officina -de Miguel Deslandes 1861, em 8.º pequeno. A primeira edicção foi em 1618. - -Si se quizesse, poder-se-ía completar este estudo comparativo procurando -os seguintes manuscriptos, citados por Barbosa Machado, e que seria coisa -curiosa si fossem publicados. - -Ludewig os ommittio em seo importante trabalho, completado por Mr. -Trubener. O Padre João de Jesus _explicação dos mysterios da fé_. O Padre -Manoel da Veiga _Cathecismo_. F. Pedro de Santa Rosa _Confessionario_. -André Thevèt nos seos manuscriptos conservados na Bibliotheca Imperial -de Pariz, dá o _Pater_ e o _Credo_ em lingua _tupy_, depois reproduzidos -em sua grande _Cosmographia_. São preciosos estes dois documentos -especialmente por sua antiguidade, pois datam de 1556. - -Entre os livros d’este genero um dos mais modernos e dos mais curiosos -é o do Padre Marcos Antonio, intitulado: _Doutrina e perguntas dos -mysterios principaes de nossa santa fé na lingua Brasila_. Foi composto -em 1750 e Ludewig menciona-o como fazendo parte das collecções do -_British Museum_. - - -99 (pag. 250). - -Lery ja tinha asseverado o effeito, que faz nos indios o canto -melancolico do Macauhan. A crença nos mensageiros das almas, nos -passaros propheticos ainda não se extinguio de todo, pois ainda existe -na poderosa nação dos Guayacurus, depois de haver exercido antigamente -sua poderosa influencia em todas as tribus dos Tupys, porem o padre Ivo -deo-lhe extensão que nunca teve, visivel alteração nas antigas ideias -mythologicas. - -O nome d’este passaro respeitado é escripto em portuguez _Acaúan_, e -tambem _Macauan_: nutre-se de reptis, e não tem esse aspecto sinistro, -que lhe dá o nosso bom Missionario. - -Tem a cabeça muito grossa em relação ao corpo, é côr de cinza, o peito e -o ventre vermelhos, azas e cauda negras com pintas brancas. Pensa hoje em -dia a maior parte dos indios, que a missão deste passaro é annunciar-lhe -a chegada de algum hospede. Consulte-se sobre o Acaúan, Accioli, -_Corographia Paraense_, e Gonçalves Dias, _Diccionario da lingua Tupy_. -Martius na palavra _Oacaoam_ diz ser o Macagua de Felix de Azara. Falco -(herpethocheres). - - -100 (pag. 257). - -No tempo de Ivo d’Evreux, eram chamados _Barbeiros_, os cirurgiões mais -habeis, e alguns annos antes até o illustre Ambrosio Paré era assim -conhecido. - -Como os _Piayes_, _Pagé_, _Pagy_, _Boyés_ ou _Piaches_ (por todos estes -nomes são conhecidos) cuidam de curar feridas e molestias. - -O padre Ivo, como se verá adiante, os compára por despreso aos barbeiros, -mas entenda-se, aos barbeiros das aldeias. - -Este capitulo é por certo um dos mais curiosos do livro, e deve ser -com todo o cuidado comparado com o que escreveo Simão de Vasconcellos, -(_Chronica da Companhia de Jesus_, in fol.) e com todas as _Memorias_ -publicadas pelo Instituto Historico do Rio de Janeiro sobre a religião -primitiva dos indigenas, achando-se ahi bem claramente definidos os -attributos de Jeropary. - -É na verdade para sentir-se a falta de uma folha, porque nos trouxe a -perda de preciosos documentos de homens praticos e habeis, que entre si -conservavam as tradicções. - - -101 (pag. 264). - -No tempo d’esta narração eram ainda os morcegos classificados como -passaros. - -O que aqui diz o nosso viajante sobre os vampyros não é exageração. - -Consulte-se a este respeito Ch. Watterten (_Excursions dans l’Amerique -meridionale_, p. 15 e 389.) - -Este sabio naturalista descreveo com minucioso cuidado o genero da -ferida, que produz o morcego americano nas pessoas, que dormem. Matou um -vampyro, que tinha 32 pollegadas de extensão de azas abertas. Em geral -são muito menores. - - -102 (pag. 268). - -Entre os antigos viajantes do seculo XVII é Ivo d’Evreux o unico, como -notamos, que menciona entre os Tupinambás os rudimentos de estatuaria -(imperfeita sem duvida) com applicação á mythologia d’estes povos. - -D’estas coisas nada escreveram Thevèt, Hans Stadens, e Lery, -Vasconcellos, Cardin e Jaboatão. - -Eram os Tupys unicamente caçadores, e só per accidens se entregavam á -vida agricola. Os unicos vestigios de cultura, que d’elles conhecemos, -se referem aos seos _Macanas_, ou a sua _Lyvera-péme_, especie de armas -pesadas, que elles enfeitavam á capricho. - -Tinham por costume pôr um Maracá, enfeitado de bonitas pennas na prôa de -suas canôas de guerra, tão esguias como elegantes, e será bem possivel, -que a base d’esse instrumento seja ornado de sculpturas similhantes -ás que se observam entre os insulares da Polynesia. É provavel que -multiplicando-se suas relações com os Europeos, tenham os Tupinambás -bebido entre elles ideias de sculptura rudimentar que applicam á suas -divindades grosseiras. - -O veridico Barrére, que escreveo mais de um seculo depois de Ivo -d’Evreux, falla de um piaya fazendo uma estatueta de _Anaanh_, genio do -mal, que não é senão o _Anhanga_ do padre Nobrega e de Anchieta, cuja -terrivel missão sobre a terra foi tão bem descripta por João de Lery, que -sempre o chamou _Aignan_. - -Dêem-lhe nas ilhas ou nos continentes os nomes de _Uracan_, de -_Hyorocan_, de _Jeropary_, de _Maboya_, de _Amignao_, reconheçam-se os -genios secundarios, como seos mensageiros (apenas citarei um, o malicioso -_Chinay_, que faz emmagrecer os pobres indios sugando-lhes seo sangue.) -Anhanga teve sempre fama terrivel nos seculos XVII e XVIII. - -Este typo primitivo da sculptura religiosa dos Tupys foi infelizmente -aberto em madeira muito molle, e por isso não poude resistir á acção -do tempo, ou á invasão das formigas: duvidamos que se encontre um só -_specimen_ de dois seculos atraz. - -Eis finalmente a passagem tão curiosa de Barrére que confirma as -palavras do padre Ivo. «Tem os indios outra sorte de feitiçaria, que os -singularisa. Fazem uma figura do diabo n’um pedaço de madeira molle e -sonora: esta estatua do tamanho de tres a quatro pés é muito feia pela -sua immensa cauda, e grandes lanhos. - -«Chamam-na _Anaantanha_ que parece dizer—_imagem do diabo_, porque -_Tanha_ significa figura, e _Anaan-diabo_. Depois de haverem soprado -sobre os enfermos, trazem os _Piayas_ esta figura para fóra da -_casa-grande_: - -«Ahi elles o interrogam, esbordoam-na á cacete, como para obrigar o -diabo, bem a seu pesar, a deixar o enfermo.» (Vide _Nouvelle Relation -de la France équinoxiale, contenant la description des côtes de la -Guiane, de l’isle de Cayenne, le commerce de cette colonie, les divers -changements arrivés dans ce pays_ etc. etc. Paris. 1743, em 12 gr.) - -N’um capitulo precedente Ivo d’Evreux ja fallou de uma boneca que tinha -uma especie de mecanismo, que servia para as nigromancias do Piaya. - -É para sentir-se, que não se encontrasse um só d’estes idolos nas -collecções etnographicas, que então começou-se a fazer. - -Poucos annos antes de haver la Ravardiere explorado o rio do Amasonas, -João Mocquet, o guarda das curiosidades do Rei, percorreo essas praias, e -seria de rara felicidade para a archeologia americana si elle encontrasse -alguns dos idolos de que falla o padre Ivo. - - -103 (pag. 271). - -É mui provavel, que estas lustrações sejam feitas á imitação das -ceremonias, que entre os christãos viram os _Tupinambás_. - -Pode bem ser, que o mesmo aconteça á respeito da pretendida confissão -auricular de que falla o autor um pouco mais adiante. - -Os antigos viajantes, Hans Staden, Lery e Thevèt nada dizem, que tenha -relação com tal costume. - - -104 (pag. 272). - -Parece á primeira vista ter recebido este _piaga_, tão influente, um nome -francez: assim porem não aconteceu. - -Havia n’esse tempo um poderoso Chefe, chamado _Pacquara-behu_ «barriga -d’uma paca cheia d’agoa». _Pacamont_ pode significar a «paca agarrada na -armadilha», (_Pacamondé_). - -O nome da terra, onde tinha influencia, significa a «região das plantas -leitosas», e escreve-se _Cumá_. - - -105 (pag. 280). - -Vatable ou Vateblé era um celebre sabio na lingua hebraica, no seculo -XVI, restaurador na França dos estudos orientaes. - -Morreo em 1547. - -Suas notas sobre o antigo testamento acham-se na Biblia de Robert Etienne. - - -106 (pag. 282). - -Prova-nos esta phrase ter o Padre Ivo escripto sua obra na Europa, e -saber da missão dirigida pelo Padre Archangelo. - -Affirma Marcellino de Piza terem 565 indios recebido o baptismo n’esta -segunda expedição religiosa. (Vide _Annales historiarum ordinis minorum_. -Lugd. 1676 in fol.) - -O Padre Archangelo, acompanhado por 12 confrades, portador de magnificos -ornamentos bordados pela Duqueza de Guize devia por certo cercar-se de -outra pompa, que não tiveram os quatro Geraes Capuchinhos, que deram -principio á missão. - -Graças aos documentos, que nos são proporcionados pela marinha, e que -devemos ao obsequio do Sr. P. Margry, soubemos por uma carta inedicta -do Sr. de Beaulieu a Mr. de Razilly, que o Padre Archangelo, muito -conhecedor do valor do dinheiro abstrahindo o seo voto de pobresa, não -quiz embarcar-se antes de lhe haverem dado a esperança de conseguir -subsidios. - -Apesar dos recursos, de que dispunha o seo chefe espiritual, ainda está -por fazer a historia d’esta segunda missão: não deixou até vestigios, -e ficará para sempre ignorada em quanto não descobrirmos o livro de -Francisco de Bourdenare. - -Sabemos apenas que muito mais favorecido, que Ivo d’Evreux, por seos -superiores, recebeo, graças ás suas cartas de obediencia, o direito de -admittir noviços em seo Convento. - -Não teve tempo de utilisar-se de tal privilegio, mas quando regressou á -Europa, em recompensa do seo zelo foi em 1615 nomeado Guardião do grande -Convento da rua de Santo Honorato. - -Todos estes factos, omittidos naturalmente pelos historiadores do -Maranhão, acham-se referidos nos _Éloges historiques_, manuscripto da -Bibliotheca Imperial, e seria injustiça esquecer serem elles tambem -narrados pelo Padre Marcellino de Piza. - -Depois de haver contado como o Geral dos Capuchinhos Paulo de Caesena -deo licença á Honorato de Pariz, então Provincial, para mandar á America -uma segunda missão, disse:—«_Ille nihil cunctatus, duodecim fratres ad -hanc expeditionem, aptos elegit quorum animosa phalanx navem conscençâ -secedens in Indiam, a barbara illa natione jam capucinorum placidis -moribus assueta per humaniter fuit excepta_.» - -Na entrada dos portuguezes o Padre Archangelo de Pembroke retirou-se com -os Capuchinhos francezes ficando em lugar d’elles os Franciscanos, que em -numero de vinte se recolheram ao Mosteiro. - -Sob a direcção de Frei Christovão Severino teve então o Convento nova -regra. - -Foram as bases lançadas em 1624 porem só foram cumpridas pontualmente em -4 de Agosto do anno seguinte. - -Abstemos-nos porem de offerecer ás vistas do leitor as desgraçadas -peripecias, porque passou este Mosteiro durante 225 annos: basta dizer, -que no fim de um seculo estava quasi reduzido a ruinas. - -Em 1860 o actual Guardião, que tinha sob seo governo somente dois -franciscanos, mas que soube felizmente captar as sympathias dos -habitantes de São Luiz, recorreo á caridade publica afim de concertar-se -como merece este edificio, a que se ligam interessantes recordações do -paiz. - -A Ordem é actualmente muito pobre, porem offerece grande contraste, -segundo é voz geral, quando em seo zelo é comparada com outros -Conventos[BL] opulentos da Cidade, que estão se arruinando. - -Não foram em vão as supplicas de Frei Vicente de Jesus, pois elle -arrecadou grandes quantias, que chegaram para reparar os estragos do -tempo. - -Conservando a humilde Capella, onde orou o Padre Ivo d’Evreux, fizeram-se -novas edificações que tornaram a Igreja de Santo Antonio a mais linda de -tão bella Cidade. - - -107 (pag. 301). - -É mui curioso vêr aqui o Padre Ivo d’Evreux fazer uma especie de allusão -á antigas crenças d’esses povos, as quaes Thevet, ou talvez o Cavalheiro -de Villegagnon tinham guardado desde 1555, e que parece ser ignoradas -pelos nossos viajantes do Seculo XVI, pois não tratam d’ellas em suas -narrações. - -Uma nota, mesmo concisa nos levaria muito longe, e vêr-nos-iamos forçados -a chamar a attenção do leitor para um opusculo, no qual reunimos tudo o -que podemos encontrar á respeito das ideias mythologicas dos Tamoyos e -dos Tupinambás. (Vide sobre os _Maraïta—Une fête bresilienne célébrée -à Rouen em 1550 suivie d’un fragment du XVIme siécle roulant sur la -Théogonie des anciens peuples du Brésil_. Paris, Techener, 1850 gr. in -8.º) - - -108 (pag. 301). - -A legenda brazileira de geração em geração transmittio a narração das -perigrinações de dois prophetas, bem distinctos, igualmente estimados por -esses selvagens, que os chamou _Tamandaré_ e _Sumé_. - -Como Boudaha, deixou o ultimo impressas as suas pegadas sobre a rocha -viva, quando deixou a terra. - -O mytho de Tamandaré, que se lê na descripção do diluvio americano, é -contado extensamente por Vasconcellos nas suas _Noticias do Brazil_, pag. -47 e 48. - -Ahi se lerá como o Noé americano subindo ao cume de uma palmeira, que -tocava com o seo vertice o Ceo, e agarrando d’ahi sua Familia poude -salval-a, e com ella repovoou a terra. - -Na phrase aqui citada, Ivo d’Evreux alludio ao legislador mais moderno, -Sumé, este Triptolémio brazileiro, que ensinou a cultura da mandióca aos -descendentes de Tamandaré. - -Simão de Vasconcellos diz mui positivamente, que «havia entre elles -tradicção muito antiga, transmittida de paes a filhos, dizendo haverem -apparecido, muitos seculos depois do diluvio, homens brancos n’estas -terras, que fallavam aos povos de um só Deos e de outra vida. Um d’elles -chamava-se _Sumé_, que parece quer dizer _Thomé_.» - -Preferindo a tradicção, que dá a São Bartholameu a honra de haver -evangelisado os povos longiquos, provou com isto o Padre Ivo o seo -conhecimento das origens. - -Com effeito, segundo diz Eusebio, chegou este Apostolo viajante até a -extremidade das Indias, São Pantene percorreo o interior da Asia desde o -III seculo, e ahi já achou vestigios do christianismo, que bem se podiam -attribuir ás prédicas de Sam Bartholameo. - -Prevaleceo comtudo no Brasil a legenda em contrario, como a outra na -India. (Vide _Jornada do Arcebispo de Goa dom Frei Aleixo de Menezes, -quando foi ás serras de Malauare, lugares em que moram os antiguos -christãos de S. Thomé_. Coimbra, 1606, in fol.) - -No tempo de Vasconcellos bem visiveis eram os signaes dos pés de S. -Thomé, ao norte do porto de S. Vicente, perto da Villa. - -Estes signaes de dois pes nùs por maravilha impressos na rocha (_tão -vivos e expressos, como si em um mesmo tempo juntamente se fizeram_) não -eram vistos debaixo d’agoa. - -O religioso franciscano Jaboatam achou no Recife, em Pernambuco, pegàdas -santas. - -N’esta segunda edicção da legenda, somente apparece um pé como o -de um menino de 5 annos, que suppõe ser o piedoso narrador o de um -jovem companheiro do Apostolo. (Vide _Novo Orbe Serafico_, reimpresso -ultimamente pelos esforços do _Instituto Historico e Geoqraphico do Rio -de Janeiro_.) - -Não se encontram esses afamados signaes somente em diversos pontos do -littoral, e sim em outros lugares, o que seria enfadonho enumerar. - -Não contentes ainda com isto fizeram com que o santo viajante se -embrenhasse corajosamente pelo interior do Brasil, onde em caracteres -gigantescos sobre pedras ou rochas escreveo a historia da sua missão. - -Ha em Minas uma aldeia, a que se deo o nome chamando-a _Sam Thomé das -Lettras_. - -Um observador circumspecto, o general Cunha Mattos, não vio taes -inscripções, e combateo a tradicção dizendo que esses traços -phantasticos, que se observam n’um dos lados da _Serra das lettras_ -foram formados por accidentes de terreno, isto é, por dendrites, para -servir-me de suas expressões. (Vide _Itinerario do Rio de Janeiro ao Pará -e Maranhão_. Rio de Janeiro. 1836. 2 vol. em 8.º T. 1.º pag. 63). - -Dura até hoje esta opinião sobre a gigantesca inscripção da _Serra das -lettras_, e acredita-se actualmente serem devidos a infiltração de -particulas ferruginosas obrando sobre o grão da serra, e por est’arte -simulando caracteres escriptos. - -No Brasil são muitos os hieroglyphos grosseiramente embutidos, e ninguem -duvida serem devidos á origem indigena. Muitas obras nos mostram os seos -_fac-simile_. - -A grande viagem pitoresca de Mr. Debret tem dois, que não deixam de ter -interesse. - -Fallamos da inscripção do monte de _Anastabia_, e das esculpturas -embutidas n’uma rocha, que se encontra perto das margens do rio Yapurá, -na provincia do Pará, bem pode ser que as palavras do Padre Ivo se -refiram á este monumento, grosseiramente trabalhado, e de que trata Mr. -Debret na pag. 46 do seo T. 1º, porem em alguns não acha a mais prevenida -imaginação bases para assentar uma opinião historica ou religiosa. - -Pelo que se refere _ás rochas incisadas_, de que falla o nosso bom frade, -é tradicção geral em toda a America, que estes accidentes, resultados -de grandes commoções da natureza, são sempre explicados pela legenda -indigena, que os attribue ao supremo poder de um semi-Deos, que, a sua -vontade, quebra as montanhas mais resistentes ao trabalho do homem e, -algumas vezes, até os mais gigantescos. - -Em Nova-Granada o salto de Tequendama não teve outra origem, pois foi -feito, como se sabe, pelo grande Bochica: poderiamos tambem citar a -abertura feita no _recife_, que margina o littoral de Pernambuco, e -que se attribue ao grande Sumé, ou ao seu representante christão, o -Apostolo viajante. (Vide Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão, _Novo -Orbe Serafico Brasilico_, ou _Chronica dos frades menores da provincia do -Brasil_. 2.ª edicç. Rio de Janeiro. 1858.) - -Jaboatão escreveu em 1761. - - -109 (pag. 311). - -Tinha este chefe indigena um nome bem conhecido na ornithologia do -Brasil. O _Jacupema_ é o _Penelopsupereiliaris_ uma das melhores caças do -Brasil. - - -110 (pag. 334.) - -Na familia dos Foulon, de que gozava muita consideração em Abbeville, -tinham muitos dos seos membros se dedicado á vida monastica. - -O padre Marçal esteve em Pariz com seo irmão o padre Claudio; este -ultimo, cujo artigo está tão cheio de erros na biographia universal, era -ja guardião do convento na sua patria desde 1608, mas, como o padre Ivo, -começou o seo noviciado em 9 de junho de 1595. - -A bibliotheca do Arsenal possue um opusculo, hoje raro, do padre Claudio, -cujo titulo é—_L’arrivée des Pêres Capucins et la conversion des sauvages -a nostre sainte Foy déclarés par le R. P. Claude d’Abbeville, prédicateur -capucin à Paris_, chez Jean Nigaut, rue de St. Jean de Latran, em 1613. -Pode comparar-se este escripto com o artigo intitulado—_Retour du sieur -de Rasilly en France et des Toupinambous qu’il amena á Paris._ _Mercure -française_. T. 3, pag. 164. _L’histoire chronologique de la bienheureuse -Colette, réformatrice des trois ordres du Seraphique Pere St. François._ -Paris. Nicolas Buon, 1628, em 12: não é do padre Claudio, como suppõe -Eyriés. A dedicatoria tem a assignatura de Fr. S. d’A, indigno -capuchinho. Já tinha morrido Claudio d’Abbeville quando appareceo esta -obra. Depois de ter 23 annos de religião, falleceo em Ruão em 1616 e não -em 1632. - - -111 (pag. 335). - -Leia-se _Plymouth_: Claudio d’Abbeville escreve _Pleme_. - - -112 (pag. 335). - -Trata-se aqui do _Rio do Ouro_. - - -113 (pag. 336). - -Difficilmente por este nome se sabe ser a _Ilha de Fernão de Noronha_, e -não _Fernando de Noronha_, como escreve alguns geographos. - -Está a 75° long. E. N. E. do Cabo de Sam Roque, e na lat. de 3° 48, á -52′. Explica-se esta alteração de nome pela sua visinhança do Cabo de Sam -Roque. - -Alguns viajantes antigos escreveram _Fernando de la Rogne_: n’esse caso -está o padre Claudio. - - -114 (pag. 337). - -Omittio o padre Claudio d’Abbeville esta ultima circumstancia. - - -115 (pag. 339). - -Leia-se _Tupan_ em vez de _Iupan_. Quanto a palavra Matarata, que -ahi se lê, não se pode entender pelo adjectivo _Mbaraeté_, que -significa—_forte_. Parece estar sob esta significação no _Tesoro de la -lingua Guarany_, do padre Ruiz de Montoya. - - -116 (pag. 341). - -O capitão du Manoir estava ha muito tempo estabelecido na Ilha, onde -tinha muitas relações. - -Foi elle quem hospedou os Missionarios, e lhes offereceo uma festa -«tão magnifica como podia ser em França» disse o padre Claudio, a qual -assistiram os Srs. de Rasilly e Pezieux. Foi da sua habitação que -partiram os nossos para tomar posse do lugar, onde se edificou o _Forte -de Sam Luiz_. Regressou á França antes de ser o Maranhão tomado pelos -portuguezes. - -Quando evacuaram as nossas forças navaes o porto do Maranhão, muitos -francezes não seguiram o exemplo de Manoir, e se estabeleceram na nova -Colonia, onde só foram permittidos artistas. - -Erraria quem suppozesse ter sido abandonada a missão fundada com tanto -zelo pelos nossos Religiosos: sem a menor alteração foram incumbidos -d’ellas os Franciscanos: a este respeito achou-se tudo quanto podia -desejar-se no _Orbe Seraphico_ do padre Jaboatão. - -Contem este resumo uma longa biographia de Frei Francisco do Rosario, -frade celebre na Ordem de Sam Francisco, que tomou posse do Convento dos -Capuchinhos perto de dez annos depois, que estes o abandonaram de todo. - -Embrenhava-se muitas vezes este zeloso Missionario nos desertos -desconhecidos do Maranhão, onde ia cathequisar os indios. - -Em 1630 compôz uma obra aproveitavel sobre as tribus que visitou. -Infelizmente nunca foi publicada, e o seria se fosse encontrada, como -precioso commentario á obra do padre Ivo. - -Cansado por seos trabalhos, cuja multiplicidade espanta até a imaginação, -foi para a Bahia, onde revestido das dignidades da ordem falleceo com -cheiro de santidade em 24 de fevereiro de 1650. - -Afirma-se haver elle predicto muitos annos antes os grandes -acontecimentos politicos, que, produzindo a expulsão da Hespanha, dava -independencia ao Brasil. - -Parece que vio-se obrigado a reconstruir em 1625 os edificios que -deixaram em começo os nossos Religiosos, e por isso foi elle em Sam Luiz -julgado como o primeiro fundador do Convento da sua Ordem. - -Vamos ainda dizer uma palavra para acabar estas notas. Serão ellas ainda -um dia completadas pelo trabalho, que ha de preceder a _Relação do Padre -Claudio d’Abbeville_, e si se quizer, o podem ser ja, consultando se -varias obras francezas contemporaneas, absolutamente despresadas, sob -este ponto de vista, pelos historiadores da America. N’este caso, entre -outros, está o padre Pedro du Jarric, pois, na verdade, ninguem pensaria -achar n’uma _Historia das Indias orientaes_ todos os factos religiosos, -acontecidos em Maranhão antes de 1607. - -Consultando-se o 5.º volume d’esta volumosa obra, encontra-se a -tragica historia dos padres Francisco Pinto e Luiz Figueira, jesuitas -portuguezes, os primeiros que visitaram os desertos desconhecidos, cujo -littoral occuparam os francezes. - -Francisco Pyrard, o viajante Belga, residente na pequena cidade de Laval, -nos contou tambem na sua _Relação das Indias e especialmente das Ilhas -Maldivas_, o que na Europa se pensava do Brasil no tempo, em que viveo o -padre Ivo. Não trata do Maranhão, e bem o podia fazer. - -Deve ainda dizer-se que esta bella provincia, conhecida mais pela obra de -Mr. Herald do que por outras antigas, ficou por muito tempo fóra da toda -a vida politica. - -Doada a principio aos filhos de José de Barros, o famoso historiador das -Indias, só foi conhecida na Europa por uma lastimavel catastrophe, pois -era esquecida apesar da fertilidade e da magnificencia da sua vegetação. - -Apparece comtudo n’um dos monumentos geographicos mais importantes, onde -se verificou o que era o Brasil no seculo XVI: queremos fallar da bella -_Carta_ de Gaspar Viegas, que tem a data de outubro de 1534, hoje na -Bibliotheca Imperial de Paris. - -Nenhum historiador até hoje ainda a mencionou, apezar de sua exactidão -tão admiravel para aquelles tempos e ainda continuaria a ser esquecida -se o Sr. de Cortambert não nos fizesse o favor de communicar-nos a sua -existencia. - -Sentimos muito praser recordando-nos, que este bello trabalho do -desconhecido geographo vae de hora em diante ligar-se ao mais vasto e ao -mais exacto reconhecimento das costas do Brasil, que tem podido obter a -sciencia n’estes ultimos tempos, e d’ella fará objecto de especial estudo -o Sr. capitão da fragata Mouchez na sua grande obra nautica a respeito do -littoral do Brasil. - -Deviam acabar aqui as notas indispensaveis para conhecer-se na França e -mesmo na America o texto do nosso velho viajante. - -Accrescentaremos apenas uma palavra, talvez indispensavel para -comprehender-se o valor do documento por nós exhumado. - -O padre Arsenio de Pariz, o fiel companheiro do padre Ivo d’Evreux, disse -em 1613 ao Superior do seo Mosteiro á proposito das regiões, por onde -evangelisou, o seguinte: - -«Eu vos asseguro, meo padre, que quando estiver um pouco estabelecido, -será um verdadeiro paraiso terrestre.» - -A esperança do bom Religioso não era das que se podem realisar -completamente: não caminham assim as coisas neste mundo, porem não sendo -o paraiso, é o Maranhão uma das provincias de um vasto Imperio, que vae -progredindo. - -No meio de prosperidades reaes, e apezar dos esforços de espiritos -felizmente bem intencionados, o progresso intelletual do paiz está muito -longe do que devia ser. - -As recordações do passado, que tanto desenvolvem as populações, ahi não -existem. - -Não ha archivos, bibliothecas publicas, e nem instituições litterarias, -e tanto é verdade isto, que o Imperador, o Sr. D. Pedro 2º, ha dez annos -incumbio um dos homens mais activos e eminentes d’este paiz para examinar -na Cidade de Sam Luiz o estado real dos depositos litterarios da Capital -do Maranhão. - -Não reproduziremos aqui as queixas judiciosas e bem fundadas do Sr. -Gonçalves Dias sobre o lamentavel estado dos estabelecimentos, objecto de -suas investigações. - -Pode lêr-se o seo _Relatorio_ escripto em bom estylo na _Revista -Trimensal_ publicada com tanto zelo pelo Instituto Historico do Rio de -Janeiro. - -Citaremos apenas, que ha dez annos, Gonçalves Dias achou 2:000 volumes -na Bibliotheca Publica e no Almanach de 1860, edictado pelo Sr. B. de -Mattos, apparecem 1:030 em deploravel estado! - -Possa a reimpressão da obra do padre Ivo d’Evreux marcar uma nova era na -patria de Odorico Mendes, de Gonçalves Dias, e de João Lisboa. - - -FIM. - - -NOTAS - -[BG] Consulte-se a respeito de todos estes assumptos o meo _Diccionario -historico e geographico do Maranhão_. Iria longe se eu quizesse -acompanhar _parí passu_ esta publicação, onde não poucas vezes foi -illudida a bôa fé de Mr. Ferdinand Diniz.—Do traductor. - -[BH] Outro engano. Aqui não se conhece esta dóca.—Do traductor. - -[BI] 40 leguas? Não, e sim 4 leguas. Vide art. _Alcantara_ no meo -_Diccionario_.—Do traductor. - -[BJ] É engano. O major Fidié não foi vencido, e sim capitulou -honrosamente em 1.º de Agosto de 1823. (Vide _Historia da Independencia -do Maranhão_ (1822 a 1823) pelo Dr. Luiz Antonio Vieira da Silva, hoje -Senador do Imperio, pag. 109 a 127.)—Do traductor. - -[BK] Mr. Ferdinand Diniz foi illudido por escriptos politicos, embora -habilmente manejados porem sempre com paixão. - -Não foi o Conselheiro Furtado a quem se deve esse estado de paz, e sim a -outro cidadão como ja disse no meo _Diccionario_ neste trecho que para -aqui transcrevo. - -—Durou este triste e lamentavel estado de ferocidade ou dezespero até -o tempo, em que o fallescido Dr. Eduardo Olympio Machado perante os -escolhidos da Provincia em 1851 recitou estas palavras: - -«A febre homicida, que ía lavrando pelo municipio de Caxias, tem feito, -vae para tres mezes, prolongada remissão. E qual o reagente que conseguio -acalmar seos lugubres accessos? A energia e actividade do actual -delegado de policia o Dr. João de Carvalho Fernandes Vieira, o qual, -formando culpa aos delinquentes, perseguindo-os com incansavel zelo, -devassando as casas de certos individuos, que até então contavam, senão -com acquiescencia, com o silencio da auctoridade publica, tem conseguido -restituir á tranquilidade o districto de sua jurisdicção.» - -Foram estes valiosos e importantes serviços apreciados pelo Governo -Central, pois mandou por mais de um Aviso louvar o Dr. João de Carvalho. - -D’ahi a poucos annos houve quem intentasse arrancar esses louros da -fronte do energico e activo ex-juiz municipal e delegado de policia de -Caxias para offerecer a outro, que nada fez, não cuidando da historia que -tudo registra e a todos faz justiça! - -Esta acção, por demais injusta, nos faz lembrar estes versos do poeta de -Mantua: - - Hos ego versiculos feci: tulit alter honores - Sic vas non vobis, nidificates, aves etc etc. - -Do traductor. - -[BL] É injustiça confundir-se nesta censura o Convento do Carmo, graças -ao zelo do seo benemerito Provincial o Revd. Frei Caetano de Santa Rita -Serejo.—Do traductor. - - - - -INDICE. - - - Ao leitor - - Introducção 1 - - Ao Rei 1 - - Ao Rei 3 - - Prefacio 7 - - Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz do - Maranhão 9 - - Do estado do poder temporal em sua primitiva 11 - - Da construcção do Forte de S. Luiz, e do interesse dos - selvagens em carregar terra 14 - - Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem ao Amazonas 19 - - Partida dos francezes para o Amazonas em companhia dos - selvagens 23 - - Do que aconteceo na Ilha durante esta viagem, e principalmente - das astucias de um selvagem chamado Capitão 27 - - Da chegada de uma barca portugueza a Maranhão 31 - - Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary 36 - - Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos e como - escravisam seos inimigos 40 - - Leis do captiveiro 44 - - Outras leis para os escravos 48 - - Quanto são misericordiosos os selvagens para com os criminosos - por acaso e sem malicia 52 - - Quanto é facil civilisar os selvagens á maneira dos francezes e - ensinar-lhes os officios que temos em França 58 - - Quanto são aptos os selvagens para aprenderem sciencias e - virtudes 63 - - Continuação do objecto antecedente 67 - - Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada - inviolavelmente pela mocidade 71 - - A mesma ordem e respeito é observada entre as raparigas e as - mulheres 79 - - Da consaguinidade entre os selvagens 84 - - Dos caracteres incompativeis entre os selvagens 90 - - Da economia dos selvagens 94 - - Do cuidado que do seo corpo tem os selvagens 95 - - De algumas indisposições naturaes, a que os selvagens se acham - sujeitos, e quaes os nomes que dão aos membros do corpo 101 - - De algumas molestias particulares á estes paizes de indios e de - seos remedios 106 - - Da morte e dos funeraes dos indios 111 - - Do regresso á ilha do Sr. de la Ravardiere e de alguns - Principaes, que o seguiram 116 - - Viagem do capitão Maillar pela terra firme á casa de um grande - feiticeiro. Descripção desta terra e das zombarias d’elle 120 - - Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos, suas habitações - e procedimento 125 - - Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuytapéra e da viagem ao - Uarpy 129 - - Dos astros e do sol 132 - - Ventos, chuvas, trovões e relampagos em Maranhão e suas - circumvisinhanças 135 - - Mar, agoas e fontes do Maranhão 139 - - Singularidades de algumas arvores do Maranhão 141 - - Dos peixes, passaros e lagartos, que se encontram n’estes - paizes 146 - - Da pesca do Pery 148 - - Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas 153 - - Das aranhas, cigarras e mosquitos 165 - - Dos grilos, dos camaleões e das moscas 160 - - Das onças e dos macacos do Brazil 173 - - Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos d’aquelle - paiz 178 - - Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á - respeito das Indias Occidentaes 184 - - Instrucção para os que vão pela primeira vez ás Indias 189 - - Do acolhimento, que fazem os selvagens aos francezes - recem-chegados, e como convem proceder para com elles 193 - - Dos fructos do Evangelho, que appareceram cedo pelo baptismo de - muitos meninos 201 - - Do baptismo de muitos enfermos e velhos, que falleceram depois - de christãos 210 - - Do baptismo de muitos adultos, especialmente d’um chamado - Martinho 217 - - Do que fez este christão em beneficio da instrucção e conversão - dos seos similhantes 225 - - De um Indio condemnado á morte, que pedio o baptismo antes de - morrer 230 - - Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens quando - nos vinham vêr, para chamal-os ao conhecimento de Deos e á - obediencia de nosso Rei 234 - - Formulario da doutrina christã, que aprendiam e recitavam de - cór, antes de serem baptisados 241 - - Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos, dos - espiritos e da alma 246 - - Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em suas - cadeias por tão longo tempo estes selvagens 252 - - Como falla o diabo aos feiticeiros do Brasil, suas falsas - profecias, idolos e sacrificios 259 - - De algumas outras ceremonias diabolicas praticadas pelos - feiticeiros do Brasil 271 - - Claros signaes do reino do diabo em Maranhão 275 - - Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer e - começarão a restabelecer o reinado de Jesus Christo 283 - - Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro de Commã 289 - - Segunda conferencia que tive com Pacamão 296 - - Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra 304 - - Conferencia com Jacupen 311 - - Conferencia com o principal de Orubutin 317 - - Conferencia com o Onda, um dos principaes de Commã 321 - - Congratulação á França etc. etc. 329 - - Fidelissima narração etc. etc. 334 - - Narração d’um marinheiro 344 - - Notas criticas e historicas por Mr. Ferdinand Diniz 347 - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Viagem ao norte do Brazil feita nos -annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D, by Ivo D'Evreux - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL *** - -***** This file should be named 63258-0.txt or 63258-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/2/5/63258/ - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was -produced from images generously made available by Cornell -University Digital Collections) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux - -Author: Ivo D'Evreux - -Annotator: Ferdinand Diniz - -Translator: Cesar Augusto Marques - -Release Date: September 21, 2020 [EBook #63258] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL *** - - - - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was -produced from images generously made available by Cornell -University Digital Collections) - - - - - - -</pre> - - -<h1><span class="smaller">VIAGEM</span><br /> -AO NORTE DO BRAZIL<br /> -<span class="smaller">PELO PADRE</span><br /> -IVO D’EVREUX</h1> - -<hr class="chap" /> - -<div class="tp"> - -<p class="titlepage"><span class="larger">VIAGEM</span><br /> -<span class="smaller">AO</span><br /> -<span class="larger">NORTE DO BRASIL</span><br /> -<span class="smaller">FEITA NOS ANNOS DE 1613 A 1614,<br /> -PELO PADRE</span><br /> -<span class="larger">IVO D’EVREUX</span><br /> -<span class="smaller">RELIGIOSO CAPUCHINHO<br /> -PUBLICADA CONFORME O EXEMPLAR, UNICO, CONSERVADO NA BIBLIOTHECA IMPERIAL<br /> -<b>DE PARIZ</b><br /> -COM INTRODUCÇÃO E NOTAS<br /> -<b>POR</b></span><br /> -<b>MR. FERDINAND DINIZ,</b><br /> -<span class="smaller"><b>CONSERVADOR DA BIBLIOTHECA SANTA GENOVEVA</b><br /> -Traduzida pelo<br /> -<b>DR. CEZAR AUGUSTO MARQUES</b><br /> -Cavalleiro da Real e Militar Ordem Portuguesa de -Nosso Senhor Jesus Christo, Cavalleiro e -Official da Imperial Ordem da Rosa, Membro do Instituto -Historico, Geographico, e Ethnographico do -Brazil, da Sociedade Geographica de Pariz, e socio correspondente, -effectivo, honorario e benemerito -de muitas outras sociedades litterarias e scientificas, -nacionaes e estrangeiras.</span></p> - -<div class="figcenter titlepage" style="width: 200px;"> -<img src="images/tp-deco.jpg" width="200" height="100" alt="" /> -</div> - -<p class="titlepage">MARANHÃO—1874.</p> - -<p class="titlepage smaller">Maranhão.—Typ. do Frias, r. da Palma 6.</p> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak">Á SAUDOSISSIMA MEMORIA,<br /> -<span class="smaller">DE MEU PAE E VERDADEIRO AMIGO</span><br /> -O Illm. Sr. Augusto José Marques.</h2> - -<p>Á vós, ó meo querido Pae, levanto, dedico e consagro este -pequeno, porem sincero monumento de minha saudade sempre -viva, de meo extremecido amor, de meo eterno reconhecimento, -e de minha dôr pungente pela vossa ausencia d’este -Mundo.</p> - -<p>Bem sei que Deos, querendo recompensar vossas virtudes, -cêdo vos tirou do seio dos que muito vos extremeciam; mas -essa ideia póde sim consolar-me, nunca porem mitigar as vivas -saudades, que me pungem a alma.</p> - -<p>Aceitae, ó meo bom Pae, estas flores que, ainda uma vez -banhadas com minhas lagrymas, espalho sobre vosso tumulo, -a lá do Céo, onde vos collocaram vossas virtudes e a Misericordia -Divina, abençoae o vosso filho</p> - -<p class="right">Cezar.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak" id="AO_LEITOR">AO LEITOR.</h2> - -</div> - -<p>A introducção, que se vae lêr, escripta pela habil penna de -Mr. Ferdinand Diniz dispensa-me de escrever um prologo, e felizmente -sou substituido de maneira muito vantajosa para os -meos leitores.</p> - -<p>Realisei ainda uma vez um dos meos mais ardentes desejos, -traduzindo e entregando á publicidade uma das obras raras a -respeito da historia primitiva do Maranhão, que me tem merecido -muitas investigações e aturado estudo.</p> - -<p>Dou-me por satisfeito d’esta e de outras fadigas, si d’ellas resultar -algum proveito ao publico menos, lido para quem fiz esta -traducção.</p> - -<p>Maranhão, 20 de outubro de 1874.</p> - -<p class="right"><i>Dr. Cesar Augusto Marques.</i></p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_i"></a>[i]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="INTRODUCCAO">INTRODUCÇÃO.</h2> - -<p class="subhead">O Padre Ivo de Evreux e as primeiras missões -do Maranhão.</p> - -</div> - -<p>No tempo de Luiz XIII, o magnifico Convento dos Capuchinhos -da rua de Santo Honorato contava entre seos Monges -dois religiosos com o mesmo nome—o Padre Ivo de -Paris e o Padre Ivo de Evreux. O primeiro, advogado antigo, -verboso, ardente na discussão, muito versado nas ideias -do seu seculo, gosava pela cidade de alta reputação, e as -biographias modernas confirmão ainda sua fama passada: o -segundo, amigo reconcentrado do estudo, e mais ainda da -humanidade, espirito observador, alma apaixonada pelas -bellezas da naturesa, prompto a acudir onde o chamava seo -zelo, não se importando da curiosidade que podia despertar, -foi completamente esquecido, e de tal forma, que, apezar -de seo reconhecido merito, decorreram 250 annos sobre -seo humilde tumulo sem que uma voz amiga tenha para elle -despertado a attenção publica.</p> - -<p>Para que se fallasse n’este obscuro Monge foram necessarias -duas cousas, com que não se contava durante sua -vida: a transformação em poderoso Imperio dos desertos, -que elle percorreo, e o amor apaixonado por certos livros<span class="pagenum"><a id="Page_ii"></a>[ii]</span> -velhos, que se rehabilitam e com razão, pois elles, por si -só, narram factos que, sendo desconhecidos, fariam com que -a civilisação crescente de certos paizes caminhasse na ignorancia -de sua origem.</p> - -<p>Tinha então o grande Convento de Pariz muitos homens -condemnados á injusto esquecimento.</p> - -<p>Fundado em 1575 por Catharina de Medicis,<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[A]</a> havia em -pouco tempo adquerido fama de conter monges doutos em -theologia, zelosos, cheios de abnegnação e caritativos nas -epidemias, a qual, quasi intacta, conservou durante o decimo -sexto seculo.</p> - -<p>Era n’elle, que o partido, favoravel aos religiosos regulares, -vinha procurar espiritos activos para luctar com o Bispo -de Belley.</p> - -<p>Era sobre estes vastos terrenos, possuidos apenas pela -Casa de <i>Tremouille</i>, que existia essa immensa officina bem -conhecida pelo Corpo medico de Pariz, onde os cortesãos, -assim como os mais humildes burguezes vinham provêr-se -de medicamentos, que só ahi encontravam, ou que se preparavam -com incuria notavel nos outros lugares de tão -grande cidade.<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[B]</a></p> - -<p>Fallemos francamente: não era nem a sciencia, então incontestavel, -d’esses Religiosos, nem os resultados positivos -de sua cuidadosa administração, nem mesmo os beneficios -diarios, pelos quaes eram tão uteis ás classes necessitadas, -que lhes grangearam o credito unisono, que gosavam em -Pariz, pois o deviam sobre tudo as brilhantes conversões, -realisadas recentemente no Mosteiro de Santo Honorato.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_iii"></a>[iii]</span></p> - -<p>Foi n’este Convento, que um dos maiores senhores -do ultimo reinado, o conde de Bouchage, mais conhecido -depois pelo Padre Angelo de Joyeuse, veio trocar as grandezas -da Côrte, onde voluntariamente demittio-se dos seos -cargos militares, pela vida pobre e obscura que ahi se passava.</p> - -<p>Foi n’este sombrio asylo que um dos ramos mais illustres -da familia de Pembroke veio abjurar o calvinismo, e, renunciando -vida mais brilhante, sugeitou-se ás humildes funcções, -que desde o principio do seculo lhes foram impostos, -obrigando-se a proseguir sem descanço na missão a que voluntariamente -se impozera.</p> - -<p>Facil nos seria abundar agora na citação de nomes celebres, -e de causar talvez admiração fazendo sobresahir os esquecidos: -para ser breve devemos porem cingir-nos ao objecto -em questão.<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[C]</a></p> - -<p>O Padre Ivo d’Evreux e o Padre Ivo de Pariz appareceram, -como dissemos, quase ao mesmo tempo; porem a fama, sempre -crescente de um, eclypsou completamente a lembrança -mui fugitiva, que o outro deixou, e até em bons escriptos -são elles confundidos. Tiveram, comtudo, bom é repetir, destino -bem differente.</p> - -<p>Ivo de Evreux, como dissemos, fugia em geral do bulicio -politico, e somente tomava parte nas luctas do seculo quando -tinha de sustentar algum ponto de doutrina religiosa: o -segundo, muito mais moço na Ordem, que o seo homonymo, -sempre prompto a entrar nos combates, que as Ordens Regulares -sustentavam algumas vezes contra o poder ecclesiastico, -tinha por isto adquirido muita fama, com que bastante -se gloriava o Mosteiro.</p> - -<p>Era notado não só como orador eloquente, mas tambem -como um dos mais fecundos do seu tempo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_iv"></a>[iv]</span></p> - -<p>A hyperbole do elogio monastico chegou até o ponto -de consideral-o como o engenho mais poderoso de sua Ordem.</p> - -<p>Foi sempre elle quem representou unicamente seos Superiores: -eram d’elle os muitos livros, escriptos quase todos -em latim, que foram oppostos, e victoriosamente, ás publicações -violentas atiradas contra as Ordens mendicantes.</p> - -<p>Da sua antiga occupação de advogado se recordava e -se aproveitava das tricas e desordens, proprias da epocha, -e até lançava mão da astrologia judiciaria, pelo que se -lhe attribuio a authoria do <i>Fatum Mundi</i>, livro absurdo, -mas que durante algum tempo preoccupou a attenção publica.</p> - -<p>Declarado por unanimidade o oraculo do seu Convento, -nem se quer por um momento houve a ideia de associar-se -á sua lembrança o nome d’um Religioso, igual ao seo, e que -apenas sabia sacrificar-se com o fim de ganhar algumas almas -para Deos! O que fazia o nosso modesto amante da natureza -diante de tal personagem, tão cercada de gloria, diante -da <i>Phenix</i> dos theologos francezes, como então por -gosto o appelidavam?<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[D]</a></p> - -<p>Mas, quem é que se recorda hoje do Padre Ivo de Pariz? -Quem cuida hoje nas discussões, cuja vehemencia lhe attribuiram -tão viva admiração?</p> - -<p>Colloquemos os homens e os factos nos lugares, que devem -occupar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_v"></a>[v]</span></p> - -<p>Ivo d’Evreux poude contemplar em sua grandeza primitiva -uma terra exuberante de vida e de mocidade: dois seculos -de esquecimento passaram sobre sua obra, e hoje em -dia brilha elle remoçado, cheio de graça, ao lado de Lery, -de Fernando Cardim, de Anchieta, emfim de todas essas -almas privilegiadas, que uniam a faculdade da observação -á apreciação apurada das bellezas da natureza, e que saudaram, -poetas desconhecidos, a aurora de um grande Imperio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_vi"></a>[vi]</span></p> - -<p>Ivo d’Evreux, diga-se com pezar, teve o destino de -quasi todos os historiadores primitivos do novo mundo: -sua biographia, embora pouco desenvolvida, ainda está -por escrever, e apesar das mais minuciosas e constantes -investigações n’estes ultimos tempos, apenas conhecemos -as circumstancias mais importantes de sua vida, e assim -mesmo nada ao certo saberiamos si não fossem algumas -notas colhidas em varios archivos dos antigos Conventos. -Foi geral o esquecimento tanto da sua obra, como do seo -autor. Pensam os escriptores de sua Ordem haverem -dito bastante, lembrando ter elle vivido no seculo XVII, -ter sido missionario zeloso, e autor de um livro, continuação -obrigada da viagem do Padre Claudio, e até se -esquecem de mencionar a sua existencia por espaço de dois -annos entre os indios, onde este apenas demorou-se quatro -mezes.</p> - -<p>Conforme as inducções, que se podem tirar de um folheto -manuscripto, conservado na bibliotheca <i>Mazarina</i>, opusculo -cheio de datas precisas, relativas aos Capuchinhos do Convento -da rua de Santo Honorato, o nosso Missionario devia -ter nascido em 1577.</p> - -<p>Indica por certo seu sobrenome a cidade onde elle nasceo, -porem ignoramos qual foi o nome, que teve no seculo, como -então se dizia. Á este respeito os amadores das viagens antigas -foram mais bem succedidos quanto ao seo companheiro, -o Padre Claudio, que se sabe pertencera a uma excellente -familia, a dos Foullon.<a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[E]</a> O que ha de bem averiguado é, -que os paes do Padre Ivo o applicaram á estudos excellentes, -e que os seus professores não se contentaram de ensinarem-lhe -só o latim e sim tambem o grego, e até o hebreu, -e inspiraram-lhe tal gosto litterario, sem o qual não ha escriptor -habil.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_vii"></a>[vii]</span></p> - -<p>No convento de Ruão passou o seo noviciado, e ahi entrou -em 18 de agosto de 1595, não existindo a menor duvida -a este respeito.<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[F]</a></p> - -<p>Depois de ter tomado o habito n’essa Caza, ahi provavelmente -demorou-se alguns annos, e devia prégar na maior -parte das cidades da alta Normandia.</p> - -<p>É provavel, que então se achasse em relações de estudo -e de sacerdocio com o joven Francisco de Bourdemare, como -elle natural da Normandia, como elle Prégador em sua Provincia, -e mais tarde designado para succedel-o na missão -do Maranhão.<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[G]</a></p> - -<p>Distinguido muito cedo pelos seos Superiores, e tendo já -o titulo de Prégador, que então só se dava aos Religiosos -notaveis, foi designado o Padre Ivo para preencher as funcções -de Guardião do Convento de Montfort.</p> - -<p>Infelizmente os documentos, que temos á vista e que provam -este facto, não dizem qual foi a Cidade onde se passaram -a maior parte dos annos de estudo do nosso bom Missionario.</p> - -<p>Ha em França mais de treze localidades com este nome -e não nos é possivel, absolutamente fallando, dizer onde o -nosso viajante se fortaleceu em sua carreira religiosa.</p> - -<p>Nos primeiros annos do seculo mudou logo de residencia, -e achamol-o no grande Convento de Santo Honorato, no -meiado do anno de 1611, no tempo em que era Provincial<span class="pagenum"><a id="Page_viii"></a>[viii]</span> -da Ordem o Padre Leonardo de Pariz,<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[H]</a> quase na occasião -d’este sabio Religioso ter sido pelo Papa nomeado Superior -das missões orientaes.</p> - -<p>Teremos ainda occasião de fallar no movimento politico, -dado ás expedições maritimas, quando ja ia em meio o seculo -XVI, e que tinha por fim fazer com que, o nosso comercio -partilhasse das vantagens, que a Hespanha e Portugal -haviam para si monopolisado. Cincoenta annos mais tarde, -embora aproveitando-se das vantagens adquiridas pelas exploraçães -dos Varazano, dos Cartier, dos Roberval, e de tantos -outros navegantes, que nos deram o que n’aquelle tempo -se chamava <i>nova França</i>, todas as attenções se fixavam -nas regiões mais favorecidas, que então se pretendia colonisar, -e as quaes com enthusiasmo se chamava <i>França equinoccial</i>.</p> - -<p>Ja havia desde 1555 uma <i>França Antarctica</i>, a qual, -apesar de ter este nome por tão pouco tempo, não deixou -comtudo de grangear para nossos homens do mar as sympathias -calorosas e dedicadas dos povos indigenas, que então -em tribus numerosas occupavam o Brazil em varias partes. -Auxiliava tambem estas conquistas pacificas o movimento -protestante, bem que não devesse deixar vestigios -duradouros n’America do Sul, porque os refugiados e os -Missionarios subordinavam a si e procuravam á porfia converter -á suas crenças estas nações barbaras.<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[I]</a></p> - -<p>Sem tratar dos armadores de Dieppe, cujas primeiras -explorações pelas costas do Maranhão, datam de 1524, sem<span class="pagenum"><a id="Page_ix"></a>[ix]</span> -mencionar as navegações de Affonso de Xaintongeois até as -boccas do Amazonas no anno de 1542, ser-nos-ia facil provar, -que 25 annos mais tarde Henrique IV doara a um bravo -capitão da religião reformada a immensa extensão de -territorio, para a qual devia ir Ivo d’Evreux, sahindo do seu -pacifico retiro de Montfort, afim de cathequisar os selvagens.</p> - -<p>Vemos com effeito Daniel de la Touche, senhor de Ravardiere, -de posse d’essas doações tão vagamente definidas -pelas Cartas patentes de julho de 1605.<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[J]</a></p> - -<p>Adquirimos tambem a certeza, que depois de dois annos, -após duas viagens successivas ao norte do Brasil, Ravardiere -decidio os Tabajaras e Tupinambás, propriamente ditos, a -mandarem uma especie de embaixada ao Rei Christianissimo -com o fim de solicitar sua protecção contra as invasões dos -portuguezes.</p> - -<p>Foi debalde esta missão d’indios, porem como Ravardiere -continuasse a residir por muito tempo entre elles, conseguio -em 1610, que lhe fossem renovadas as doações feitas cinco -annos antes, e assim julgou-se authorisado, logo depois da -morte de Henrique IV, a formar uma associação para a definitiva -colonisação d’estas regiões abandonadas.<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[K]</a></p> - -<p>Não foi comtudo aos partidistas de sua Religião, que se -dirigio Ravardiere para ser bem succedido n’este empenho:<span class="pagenum"><a id="Page_x"></a>[x]</span> -pelo contrario sem hesitar entrou em conferencia com catholicos -proeminentes, cuja lealdade perfeitamente conhecia, -como sejam, o almirante Francisco de Razilly, uma das mais -antigas glorias da França, e Niculau de Harlay, uma de suas -summidades financeiras, e elles se lhe associaram para a -exploração d’este previlegio.</p> - -<p>Em todo o seculo XVII não conhecemos outra transacção, -entre catholicos e protestantes, mais leal e desinteressada: -foi na verdade uma empresa, digna de contar em si o Padre -Ivo d’Evreux, tão sincero como justo.</p> - -<p>O titulo de lugar-tenente do Rei, sem a menor questão, -foi transferido á Rasilly, que teve toda a liberdade de acção, -não deixando comtudo de fazer prevalecer as prerogativas -da communhão, que professava.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xi"></a>[xi]</span></p> - -<p>Em todas as praias onde desembarcassem, devia levantar-se -uma cruz com toda a solemnidade, e bem assim missionarios -catholicos seriam condusidos para propagação da -fe entre o gentilismo.</p> - -<p>Estes contractos foram na verdade pontualmente executados, -e nem na obra de Claudio d’Abbeville, e nem na de -Ivo de Evreux se encontra uma só palavra, que faça suspeitar -o menor estremecimento entre os chefes da expedicção.</p> - -<p>Fortalecido com o credito, que de ha muito gosava na -Corte, ajudado alem disto, por soccorros pecuniarios, e pela -verdadeira importancia, que lhe proveio de associar-se com -Niculau de Harlay, senhor de Sancy, Barão de Molle e de -Grois Bois, o almirante Razilly com toda a prestesa chegou -ao fim, que tinha em vista, interessando a Regente no bom -exito de uma empreza, ja antecedentemente approvada por -Henrique IV.</p> - -<p>Por seos rogos escreveo Maria de Medicis ao Padre Leonardo, -que n’esse tempo era Guardião do grande Convento dos -Capuchinhos da rua de Santo Honorato, pedindo-lhe com toda -a instancia quatro religiosos, afim de fundarem um convento -da Ordem na Ilha do Maranhão.</p> - -<p>Diga-se a verdade: o norte do Brazil que actualmente offerece -todos os recursos da civilisação, então se apresentava, -até mesmo aos mais doutos da Universidade de Pariz, -como um paiz entregue a todos os horrores da vida selvagem; -os cosmographos francezes quando d’ella tractavam, -exageravam a rusticidade d’esse paiz, deixando comtudo a -imaginação o campo inteiramente livre, não marcando nenhum -limite exacto, e era sobre essas informações inexactas -que Raleigh se deleitava de evocar todos os monstros do -mundo antigo.</p> - -<p>Nem um só momento exitaram estes Religiosos quando o -Padre Provincial lhes leo a Carta regia na occasião em que -se achavam no refeitorio: d’entre elles quarenta quizeram -ser escolhidos para tão perigosa empresa, e os documentos -officiaes, que temos à vista, nos fizeram até conhecer a especie<span class="pagenum"><a id="Page_xii"></a>[xii]</span> -de enthusiasmo que d’elles se apoderou quando souberam -o contheudo da mensagem das Tulherias. Offereceram-se -a maior parte dos Padres com expontaneo enthusiasmo -para esta nova missão, e sendo reprimido o zelo dos -mais fervorosos, declarou logo o Padre Leonardo, de accordo -com o Definidor da Ordem, que seriam quatro apenas os escolhidos, -de conformidade com o pedido.</p> - -<p>Eis a lista destes nomes pela ordem, que devem guardar -entre si, e os raros historiadores, que d’elles tem tratado -teriam evitado alguns erros se, como nós, tivessem consultado -os archivos do Convento.</p> - -<p>O muito veneravel Padre Ivo d’Evreux, superior.<a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[L]</a></p> - -<p>O muito veneravel Padre Claudio d’Abbeville.</p> - -<p>O muito veneravel Padre Arsenio de Paris.</p> - -<p>O muito veneravel Padre Ambrosio de Amiens.</p> - -<p>Ajoelharam-se os escolhidos diante do Padre Leonardo, e -humildemente lhes agradeceram tal honra; foi-lhes annunciada -a proximidade da viagem, e desde esse momento para -ella se acharam promptos.</p> - -<p>Não ha a menor duvida á respeito da qualidade do Religioso, -a quem se confiou a direcção das missões do Maranhão, -e não se comprehende como Berredo, antigo Governador -da Provincia, que foi autoridade no Brazil, deo o titulo -de Superior á Claudio d’Abbeville, que occupa na ordem -hierarchica o lugar immediato ao digno Missionario director -dos trabalhos.</p> - -<p>Certamente era necessario que o Padre Ivo ja tivesse adquirido -na Ordem credito inabalavel para que fosse preferido<span class="pagenum"><a id="Page_xiii"></a>[xiii]</span> -aos tres religiosos, seos adjuntos. Eram sacerdotes todos -tres; como elle deram provas de possuirem solida instrucção, -e o terceiro até, ja muito adiántado na carreira, por -varias vezes tinha occupado certos empregos honrosos, signaes -evidentes da consideração de seos superiores. O Padre -Ambrosio éra alem d’isto dedicado com ardor á todas as -obras de caridade, durante as calamidades dos ultimos annos -do seculo, sendo muito conhecida sua bondade sempre -em acção: suas prédicas fervorosas, bem acolhidas pelo povo, -lhe grangearam o apellido de «<i>Apostolo da França</i>.»<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[M]</a></p> - -<p>Tem a data de 12 de agosto de 1611 as <i>Cartas de obediencia</i>, -que os Superiores deram ao Padre Ivo d’Evreux, -e lhe ordenaram, que fosse embarcar-se no porto de Caucale -n’um navio sob o commando de Rzailly, lugar-tenente -do Rei.</p> - -<p>Não devemos repetir aqui o que em termos percisos e -apropriados contou Claudio d’Abbeville na primeira parte de -sua narração a respeito dos pormenores da longa viagem -dos missionarios até o Brazil, da separação forçada da flotilha, -que os conduzia, e das peripecias d’esta navegação, -que durou cinco mezes. O que porem podemos affirmar é<span class="pagenum"><a id="Page_xiv"></a>[xiv]</span> -que o Padre Ivo não soffreu somente o aborrecimento de -uma viagem maritima, cujas difficuldades não se pode agora -imaginar, e que aos cuidados de uma installação penosa -vieram reunir-se fadigas imprevistas, e depois de desembarcado, -dores pungentes, como fossem as que elle experimentou -pela morte do digno Padre Ambrosio, e em seguida -os soffrimentos provenientes de uma molestia, que o forçou -a regressar, e da qual foi victima afinal.</p> - -<p>Tudo isto foi narrado com simplicidade e dignidade por -tão zeloso missionario, e sem duvida muito melhor do que -o fariamos.</p> - -<p>O que não disse o pobre Monge, cuja exquisita sensibilidade -e admiravel resignação se revelam tantas vezes, foi o -pezar, que experimentou quando vio, que da coragem imprudente -de Pésieux resultou a morte d’este seo amigo, sem -que o valor de Ravardiere podesse ser bastante para sustentar -a Colonia; o que tambem não poude contar foi a perda -das funcções de Superior da missão, que devia assumir -antes do triumpho das armas de Jeronymo d’Albuquerque, -e da expulsão definitiva dos francezes. Para explicar essas -circumstancias, não mencionadas de forma alguma pelo digno -missionario, é indispensavel fallar-se da situação administrativa -em que então se achava o grande Convento da rua -de Santo Honorato.</p> - -<p>O Padre Leonardo, tão afamado entre seos irmãos de habito, -em 1614 deixou de ser Provincial, e só poderia ser reeleito -no anno de 1615. Foi substituido pelo veneravel Honorato -de Champigny,<a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[N]</a> e com razão elogiam-se os melhoramentos -de toda a natureza, a actividade, e especialmente a -distribuição de soccorros caridosos, postos em pratica durante -a sua administração.</p> - -<p>N’esta epocha, um Religioso estrangeiro, natural da Escossia, -e descendente de uma boa familia, attrahia a si os olhares<span class="pagenum"><a id="Page_xv"></a>[xv]</span> -de seos irmãos, e póde dizer-se até os da propria França, -o Padre Archanjo de Pembroke, que veio substituir de -alguma forma o Padre Angelo de Joyeuse.</p> - -<p>Eleito Provincial em 1609, e não deixando depois d’isto -d’exercer importantes encargos, foi este Capuchinho, logo -depois da partida do Padre Ivo, nomeiado director dos missões -<i>nas Indias orientaes e occidentaes</i>. Os motivos, que -fizeram abandonar mais tarde a missão do Maranhão, não -foram declarados, ou para melhor dizer, não existiam. Archanjo -de Pembroke resolveo ir pessoalmente ao Brasil dar -consideravel impulso á pequena missão, que alguns mezes -antes havia sido derigida por Francisco de Razilly.</p> - -<p>Para este fim escolheo onze religiosos, de cujo zelo podia -confiar: infelizmente ignoram-se os seos nomes, e apenas se -sabe que entre elles havia um historiador, cuja <i>Narração</i>, -nos parece de facto perdida, por não ter sido possivel encontral-a, -apezar de todas as pesquizas feitas com constancia -e perseverança por muitos mezes em Pariz, Ruão e Madrid.<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[O]</a></p> - -<p>O Padre Francisco de Bourdemare pertenceo á classe d’esses -ricos gentis-homens, que após á saciedade de todas as -superfluidades da fortuna, de repente suffocam n’um carcere -o que se chama orgulho do seculo e lembranças mundanas.</p> - -<p>Havia ja alguns annos, que era viuvo: á seo filho entregou -todas as suas herdades, e depois foi sepultar-se nos<span class="pagenum"><a id="Page_xvi"></a>[xvi]</span> -Mosteiros de Orleans e de Ruão, e d’ahi mudou-se para o -Convento da rua de Santo Honorato em Pariz, onde exhibio -diariamente, dizem, provas de humildade muito alem da -exigida pelos membros da Communidade.</p> - -<p>Gentil-homem notavel, não havia muito, pela sua elegancia, -na epocha da grandeza, anterior ao fausto de Luiz XIV, -então somente trazia vestidos remendados, e ainda á sua pobreza -juntava o habito de Capuchinho.</p> - -<p>Completar o seu martyrio dedicando-se fervorosamente á -conversão dos selvagens, pareceo-lhe coisa tão natural como -invejavel; este homem, cuja sociedade tinha sido tão procurada, -e cuja instrucção era tão solida á ponto de poder -escrever em latim uma obra volumosa, encarou como beneficio -dos Definidores da sua Ordem o ser mandado a um -paiz deserto, onde faltassem todos os recursos na vida: elle -e Archanjo de Pembroke, cuja existencia tinha sido ainda -mais brilhante que a sua, embarcaram-se com outros dez -Monges n’um navio commandado pelo bravo Pratz, que com -tresentos colonos novos ia soccorrer Ravardiere, cuja situação -sem duvida era prevista em Pariz como difficil.</p> - -<p>Cheios de presentes pelos senhores da Córte de Luiz XIII -com os quaes ainda bem recentemente elles entretinham relações -diarias, e sobretudo satisfeitos por levarem ao modesto -Convento do Maranhão os bellos ornamentos feitos pelas -proprias mãos da Duqueza de Guise, partiram do Havre, e -pode dizer-se, que para aquelle tempo foi por certo um phenomeno, -pois apenas gastaram dois mezes e meio para chegarem -á costa do norte do Brazil, porem apenas vellejavam -ainda na bahia de Guaxenduba souberam logo do estado -lastimoso, em que se achavam os negocios da França n’aquelles -lugares.</p> - -<p>Não ignoravam os Missionarios, que pelo seo Instituto se -achavam ao abrigo das eventualidades politicas, que o resto -da expedição podia temer (por exemplo não podiam ser prisioneiros): -foram, como que com pompa, para o seo Convento -em S. Luiz, e comsigo levaram os presentes da Duqueza<span class="pagenum"><a id="Page_xvii"></a>[xvii]</span> -de Guise, porem apenas acharam ahi um só religioso, o Padre -Arsenio de Pariz,<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[P]</a> e esse mesmo muito doente.</p> - -<p>Mais doente ainda, que seo unico companheiro se achava -o Padre Ivo d’Evreux, quando soube, estar substituido como -Superior do nascente Mosteiro, e é provavel, que elle embarcasse -a bordo d’algum dos navios da esquadra.</p> - -<p>Dizem os documentos que temos á vista, que n’esse tempo -elle se achava em inacção, victima d’uma paralysia geral, -consequencia provavel das fadigas, a que diariamente -se entregava no <i>Fórte</i>.</p> - -<p>Para explicar a invasão lenta, porem continua, de tão -triste molestia, basta recordar agora o que era então a nascente -cidade de S. Luiz.</p> - -<p>Embora seja hoje, e com razão, esta risonha Capital considerada -uma das cidades mais saudaveis do Imperio do -Brasil, então apenas surgia do seio das florestas: os miasmas -deleterios, que constantemente se desprendiam dos logares -recentemente desbravados, a falta absoluta de certos medicamentos -energicos, apropriados a combater com decidida -vantagem essas influencias paludosas: tudo isto explica como -o Padre Ivo d’Evreux não poude esperar pelo resultado da -guerra começada, e como se vio coagido a regressar para a -Europa, receiando ser pesado á missão depois de haver sido -o seu agente mais activo e o seu sustentaculo mais dedicado.</p> - -<p>Não sabemos como se effectuou esta viagem, nem si elle -foi para Pariz, e nem tão pouco si foi em sua terra natal<span class="pagenum"><a id="Page_xviii"></a>[xviii]</span> -buscar um azylo no Convento dos Capuchinhos,<a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[Q]</a> fundado -apenas alguns mezes depois da sua partida.</p> - -<p>Os archivos da cidade d’Evreux, nada dizem a tal respeito, -e nem tambem relativamente á missão brasileira, parecendo-nos -dever esperar-se do acaso o apparecimento de -documentos biographicos, cuja existencia nem se suspeita.</p> - -<p>O historico da segunda missão dos Capuchinhos franceses -em Maranhão, completamente ignorada por Berredo e outros -escriptores portuguezes, não nos deixa na mesma incertesa -quanto aos missionarios, que succederam á Ivo d’Evreux e -aos seos companheiros.<a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[R]</a></p> - -<p>Sabemos que chegaram em 15 de junho diante da nascente -cidade, que cantaram um <i>Te-Deum</i> no dia 22 do -mesmo mez, no rustico Convento principiado a edificar por -seos antecessores, e tambem não ignoramos hoje, que elles -previram o máo exito da missão.</p> - -<p>Ignoramos o que fez o Padre Arcanjo no Convento de São -Luiz, porem quasi que se pode dizer, que não imitou o zelo -dos Padres Ivo d’Evreux e Arsenio de Pariz, sendo tão mal<span class="pagenum"><a id="Page_xix"></a>[xix]</span> -succedido em seos esforços que até appareceo a desunião -«entre as coisas da Colonia, augmentada ainda com a chegada -dos portuguezes, que se assenhorearam do paiz.»</p> - -<p>O piedoso biographo, cuja narração nos serve do guia, -diz, que o novo Superior administrou o baptismo a 650 indios, -porem accrescenta logo, que sem duvida estes pobres -selvagens não ficaram por muito tempo fieis á religião, que -abraçaram, voltando a sua antiga idolatria: «não chega a -sessenta os christãos sinceros, e n’esse numero estão incluidos -vinte meninos.» Si se encontrasse uma biographia cheia -de particularidades e de aventuras do Monge escossez, de -que tracta o velho historiador da Ordem, taxando-a de muito -exagerada, provavelmente n’ella se encontrariam narrações -minuciosas de sua missão na America. Infelizmente este livro, -se existe em alguma bibliotheca pouco conhecida, é tão -raro como o de Francisco de Bourdemare, e temos sido infelizes -nas diversas pesquizas, que até hoje fizemos com o -fim de offerecer aos nossos leitores um extracto do seo contheudo.<a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[S]</a></p> - -<p>Suspeitamos que o Padre Arcanjo de Pembroke deixou -muitos dos seos confrades no Convento dos Capuchinhos recentemente -edificado, e que regressou para França ao fim -de 1614 no navio do Capitão Pratz, que levou á Paris Gregorio -Fragoso, sobrinho de Jeronymo de Albuquerque, incumbido<span class="pagenum"><a id="Page_xx"></a>[xx]</span> -d’uma missão diplomatica, que devia discutir-se em -Lisboa.</p> - -<p>Recolhido á sua cella no Convento da rua de Santo Honorato, -o Padre Ancanjo facilmente esqueceo-se do Brasil<a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[T]</a>, -tomou parte nos acontecimentos politicos do seu tempo, vieram -de novo as dignidades da Ordem procural-o, e viveo -no grande mosteiro até o momento, em que Richelieu chegou -ao apogeo do seo poder.</p> - -<p>Os amadores das viagens antigas, aquelles que prescrutam -ainda com interesse as lembranças espalhadas aqui e ali, e -com as quaes se deve compôr a historia das nossas Colonias, -mais gloriosa do que se pensa, não se demoraram n’essas -particularidades, e antes desejaram saber como o Maranhão -escapou aos esforços corajosos do bravo Ravardiere.</p> - -<p>A <i>Historia Geral do Brasil</i>, publicada ultimamente pelo -veridico Sr. Adolpho de Varnhagem lhe responderá com mais -promptidão ainda do que o poeta laureado Southey. Ahi lerão -como as forças portuguezas, expedidas d’esde outubro -de 1612 para expellir os francezes do seu novo estabelecimento, -de que tinha ciumes a Corte de Madrid, ainda em -Maio de 1613 foram reforçadas por Jeronymo d’Albuquerque -vindo do Ceará, onde combinou com Martim Soares nos meios -de ser bem succedida essa expedição sob seo commando, a -qual se antolhava irriçada de difficuldades.</p> - -<p>De Pernambuco ainda vieram reforços indispensaveis, e -por isso em 23 d’agosto começou o bloqueio das forças francezas, -porem no dia 19 de novembro, Ravardiere á frente -de 200 soldados d’infantaria, e de 1500 indios atacou com -energia os sitiadores de sua nascente cidade; perdeo-se ahi<span class="pagenum"><a id="Page_xxi"></a>[xxi]</span> -o bravo Pezieux n’uma imprudente tentativa por não ter -executado as ordens do seu chefe mais experiente do que -elle.</p> - -<p>Tomaram por sua vez a offensiva os portuguezes, e em pouco -tempo, apesar da sua reconhecida habilidade e do seu notavel -valor, foi obrigado o Chefe da nova Colonia a concordar -n’um armisticio, cujo desenlace seria terminado perante -as Cortes de Madrid e de Pariz, para as quaes appellaram -ambas as partes belligerantes.</p> - -<p>Antes de chegar a este ponto vio Ravardiere de seo exercito -cem homens mortos e nove prisioneiros. Pode dizer-se, -que si sua resistencia foi a de um bravo, como tal ja reconhecido, -o procedimento, que então ostentarão seos adversarios, -foi em todo o sentido generoso, porem, força é dizer -que depois de convenções tão livremente estipuladas, e -quando em 3 de Novembro de 1615 entregou Ravardiere -com todas as solemnidades o <i>Forte de São Luiz</i> á Alexandre -de Moura appareceo um acto de deslealdade manchando -esta campanha tão nobremente terminada. Ravardiere deixou -o Maranhão e foi em companhia de Alexandre de Moura -para Pernambuco, d’onde partio em pouco tempo para Lisboa, -e ahi no <i>Forte de Belem</i> soffreo rigorosa prisão, que -não durou menos de tres annos.<a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[U]</a></p> - -<p>Pelo que acabamos de dizer vê-se facilmente, que a Cidade -de S. Luiz, a florescente Capital de uma das mais ricas -Provincias do Brasil, é uma Cidade de origem absolutamente -franceza, e a Camara Municipal assim felizmente o comprehendeo -por haver ainda ha pouco tempo feito surgir das<span class="pagenum"><a id="Page_xxii"></a>[xxii]</span> -ruinas os modestos edificios, que attestam esta epocha, provando -com isto, e ao mesmo tempo, ausencia de patriotismo -mesquinho e sentimento de bom gosto.<a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[V]</a></p> - -<p>Mas voltando ao livro, que nos prende a attenção, façamos -conhecer a sorte caprichosa, que o esperava em França. -Despertaremos tambem com o bom Religioso algumas reminicencias, -com que se pode enfeitar a poesia.</p> - -<p>Menos infeliz na apparencia que João de Lery, tão bem -classificado com o appellido de «Montaigne dos velhos viajantes,»<a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[W]</a> -Ivo d’Evreux durante 15 annos não vio seo manuscripto, -extraviado por um infortunio, que o ferio completa -e absolutamente.</p> - -<p>Enviado aos Superiores da Ordem este livro, complemento -do de Claudio d’Abbeville, foi destruido antes de haver apparecido. -Impresso por Francisco Huby, em cujas officinas já -havia sido edictada a obra do seo companheiro, foi inteiramente -dilacerado.</p> - -<p>Francisco Huby, dizemos com pezar, deixou-se n’essa occasião -seduzir, e esquecendo-se dos deveres inherentes á -sua profissão, não se importou em ser o instrumento d’uma -vingança politica tão mesquinha.</p> - -<p>É de suppôr, que o motivo, que fez prender Ravardiere -no <i>Forte de Belem</i>, levantou tambem mãos sacrilegas para -destruir na rua de São Thiago o precioso volume, no qual<span class="pagenum"><a id="Page_xxiii"></a>[xxiii]</span> -se expunham com admiravel sinceridade as vantagens para -a França, provenientes da expedição de 1613.</p> - -<p>Entre a impressão da viagem de Claudio d’Abbeville, e -a do livro, que é sua continuação, deo-se um acontecimento -politico d’alto alcance.</p> - -<p>Foi resolvido o casamento de Luiz XIII, ainda menino, com -uma princesa hespanhola<a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[X]</a>, e um partido inteiro mostrou -muito interesse em dissipar qualquer sombra, que prejudicasse -a casa de Hespanha.</p> - -<p>Os projectos de conquista d’America do Sul não acharam -mais apoio, e desde então empregaram-se todos os meios -afim de ser esquecido um projecto de conquista, com que -ja se havia inquietado a Hespanha, chegando-se até a destruir -completamente a simples narração dos incidentes d’essa -missão ja passada ha tanto tempo, embora escripta com toda -a calma e conveniencia.</p> - -<p>Quando se deo este acto arbitrario havia em França um -homem, que ligava muito interesse á obra e ao seo auctor.</p> - -<p>Felizmente Francisco de Razilly não cahio no captiveiro, -que paralisava todos os esforços de Ravardiere, e pode até -affirmar-se, que não perdeo de vista, por um só momento, as -vantagens, que seo paiz podia tirar de uma Colonia, cujos -primeiros passos elle tinha dirigido. Sabendo que hia ser -destruido o volume do Padre Ivo d’Evreux, apezar de impresso -inteiramente, foi á imprensa de Huby para vêr se obtinha -um exemplar: ou porque não fosse com toda a promptidão, -ou porque ja se tivesse dado começo a destruição da<span class="pagenum"><a id="Page_xxiv"></a>[xxiv]</span> -obra, apenas poude salvar algumas folhas por si ou por <i>meios</i> -subtis de um seo agente, as quaes reunidas mostraram a lamentavel -perda de diversos fragmentos, e com essas lacunas -tão importantes foi impossivel formar um exemplar completo. -Mandou o Almirante imprimir o seu protesto em outra -parte, e não nas officinas da rua de Sam Thiago, juntou-o -ao livro, encadernado com todo o luxo, tendo na frente as -armas da casa de França, e foi leval-o, não á Maria de Medicis, -antiga protectora da Colonia do Maranhão, e sim a -Luiz XIII.</p> - -<p>O menino rei ainda na anno antecedente tinha brincado -muito com tres pobres selvagens Tupinambás, dos quaes -fora padrinho, e suas recordações eram ainda tam frescas, -que de vez em quando esboçava os grotescos ornatos, com -que se enfeitavam os nossos indios:<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[Y]</a> leo talvez algumas paginas -do bello volume, que Razilly lhe offereceo, e n’isto ficou -todo o seo interesse. Richelieu ainda não era Superintendente -da sua marinha, e ainda dormiram na Corte por -muitos annos os projectos de longas navegações.</p> - -<p>O livro do Padre Ivo, junto ao do Padre Claudio, foi posto -nas estantes da bibliotheca, e ahi todos os deixaram em -paz.</p> - -<p>Foi no tempo do digno Van-Praet, no principio de 1835, -que o autor d’esta noticia teve a felicidade de encontral-o. -Seria occioso o dizer como o feliz descubridor ficou surprehendido -lendo esta agradavel narração, tão sincera em suas -menores particularidades como preciosa pelas suas uteis noticias. -Para comprehender bem o seo valor basta dizer-se, -que o nosso bom missionario demorou-se dois annos, onde -seo veneravel companheiro apenas demorou-se quatro mezes. -Desde então appareceo Ivo d’Evreux n’uma serie de<span class="pagenum"><a id="Page_xxv"></a>[xxv]</span> -artigos, que publicava a <i>Revista de Pariz</i> a respeito dos <i>antigos -viajantes francezes</i>, e na verdade sem desvantagem, -ao lado do Padre du Tertre, a quem Chateaubriand justamente -chamou o Bernardin de Sant’Pierre do 16º seculo.</p> - -<p>Este artigo, cujo menor defeito era sem duvida alguma o -ser pouco desenvolvido, formou n’esse mesmo anno uma -pequena brochura, publicada em casa de Techener, e immediatamente -esgotou-se a edicção.</p> - -<p>Desde essa epocha não foi mais Ivo d’Evreux de todo -desconhecido aos amadores das viagens antigas, aos homens -de bom gosto, que buscam avidos de curiosidade os escriptores -esquecidos, percursores do grande seculo. Preoccupado, -mais do que se crê na Europa, de suas tradicções poeticas, -e de suas nascentes glorias, o Brasil saudou o nome -do velho viajante, e lhe deo um lugar entre os homens pouco -conhecidos, mas que devem ser consultados quando se -tracta dos tempos primitivos.</p> - -<p>O Imperador D. Pedro, que occupa um lugar entre os bibliographos -mais illustrados, e que tem decidido gosto pelas -raridades bibliographicas, que derramam alguma luz sobre -as antiguidades do seo vasto Imperio, mandou extrahir -uma copia, sendo depois imitado seo exemplo!</p> - -<p>O unico exemplar, pertencente á bibliotheca imperial d’ahi -em diante foi lido e relido:<a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[Z]</a> uma phalange de escriptores<span class="pagenum"><a id="Page_xxvi"></a>[xxvi]</span> -habeis e zelosos, que exhumaram do pó a historia do seo -bello paiz, o chamaram em testemunho de suas asserções, -Adolpho de Varnhagem, Pereira da Silva, Lisboa o auctor -do <i>Timon</i>, e no ultimo lugar o sabio Caetano da Silva, o -citaram entre as melhores autoridades, que se pode invocar -sobre as crenças dos indios, e assim o fizeram sahir da obscuridade, -em que jazia.</p> - -<p>Não tinha a França prestado attenção a estes testemunhos -de estima para dar ao Padre Ivo d’Evreux o lugar, que -merecia. Se Boucher de la Richarderie não tivesse pronunciado -seo nome, levantando o mais que poude o de Claudio -d’Abbeville, o Sr. Henrique Ternaux Compans não o incluiria -na sua preciosa collecção dos viajantes conhecedores da -antiga America. O Sr. d’Avezac o cita com destincção e faz -sobre-sahir suas boas qualidades.</p> - -<p>Todos estes testemunhos de admiração para com o humilde -escriptor, que sem ostentação sacrificou sua obra, infelizmente -tem concorrido pouco para tirar sua vida da obscuridade, -e não sabemos em que auctoridade se baseia um -sabio bibliographo para dizer que elle viveo até 1650.<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[AA]</a></p> - -<p>Á vista d’um volumoso manuscripto da bibliotheca imperial -pensamos um dia que ião ser esclarecidas todas as -nossas duvidas sobre os principaes pontos da biographia do -nosso escriptor, porem assim não aconteceo. <i>Os elogios historicos<span class="pagenum"><a id="Page_xxvii"></a>[xxvii]</span> -de todos os grandes homens e de todos os illustres -religiosos da Provincia de Pariz</i> infelizmente só dão noticias -relativas aos religiosos de Santo Honorato, de Picpus, -e de S. Thiago.<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[AB]</a> Chegou-se até a dizer na obra, que havendo -o Padre Paschoal d’Abbeville<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[AC]</a> separado sua Provincia -da Normandia em 1629 não devia procurar-se n’esta -compilação o nome dos Religiosos, que não residiram em -Pariz.</p> - -<p>Não se deve esquecer de todo a excitação puramente litteraria, -que se experimentou em França logo depois da -chegada dos selvagens brasileiros, que desembarcaram sessenta -annos antes em Ruão ou em Pariz. Estes apparecimentos -successivos d’indios, seguidos sempre de narrações -mais ou menos notaveis, levão evidentemente o espirito a -pensar nas bellezas primitivas da natureza, o que produz -encantos e amplidão de ideias.</p> - -<p>D’esta influencia não se livrou o nosso Montaigne, como -elle revellou em algumas palavras espirituosas, que escreveu -a proposito d’uma cantiga brasileira.</p> - -<p>Os dois maiores poetas d’aquelles tempos, tão differentes -entre si e comtudo tão approximados, se abalaram a ponto -de dedicarem particular attenção a esses habitantes das -grandes florestas, por acaso misturados com os cortezãos de -França, que invejavam seos gosos pacificos, e a tranquillidade -de suas existencias.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxviii"></a>[xxviii]</span></p> - -<p>Ronsard não é de parecer que estes homens, que lembram -a origem do Mundo, percam sua feliz innocencia, e por -isso insta com os visitantes para que não troquem a sua -ignorancia pelos cuidados da civilisação.<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[AD]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxix"></a>[xxix]</span></p> - -<p>Malherbe tambem a respeito d’elles entreteve por muito -tempo o douto Peiresc, por meio de cartas, onde dizia que -a paz e a alegria estava em imital-os.</p> - -<p>Suas dansas inspiraram os mais delicados cortesãos, e -um dos mais habeis artistas de Pariz fez com as suas arias -uma especie de dança muito agradavel, cuja descripção nos -deixou o poeta.<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[AE]</a></p> - -<p>Poderiamos ainda citar outros exemplos d’esta subita predilecção -pela independencia dos pobres indios, e especialmente -pelo magnifico paiz, que habitam.</p> - -<p>Conforme estes poetas, a cuja frente deve collocar-se -Bartas,<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[AF]</a> é n’esta fonte vital, que pode restaurar-se por novas -comparações um estro quasi a exhaurir-se.</p> - -<p>Sem duvida alguma todos estes antigos viajantes, completamente -esquecidos durante um seculo, exerceram real -influencia no seo tempo, e ainda mais alem, como se pode -provar á vista dos escriptos de Chateaubriand: a singelesa -de suas narrações e a frescura de suas pinturas inspiraram -os grandes escriptores, já cuidadosos de abandonarem nas -suas descripções os typos ajustados ou estudados, e de influirem -ou attrahirem só pela verdade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxx"></a>[xxx]</span></p> - -<p>Ivo d’Evreux não foi somente um pintor habil, um narrador -sincero, e sim tambem um observador perspicaz dos -costumes de uma raça, para assim dizer extincta, e que não -se poderia consultar frequentemente.</p> - -<p>Para escolher um só exemplo entre muitos, que elle offerece, -basta dizer-se, que foi o unico, que descreveo os -verdadeiros idolos, modelados em cera, ou esculpidos em -madeira pelos indios.</p> - -<p>Hans-Staden, Thevet, Lery e o proprio Gabriel Soares, tão -prolixos á respeito do culto do <i>maracá</i>, guardam silencio -relativamente ao que então se rendia á essas estatuasinhas -modeladas grosseiramente, sem duvida, pelos habitantes nomades -das grandes florestas, as quaes com tudo servem para -mostrar um principio da pratica nascente da arte: assim elle -o confessa n’estas palavras: «Este mau costume crescia e -estendia-se pelas aldeias proximas de Juniparão.» Depois accrescentou, -que seo companheiro o Revd. Padre Arsenio encontrou -estes idolos na visinhança dos bosques.... Ora, pode-se -deduzir d’este trecho curiosa inducção, não sem interesse -para a archeologia futura de um grande Imperio, e -vem a ser, que no começo do XVII seculo notavel mudança -se tinha já feito nas ideias religiosas do grande povo da -costa.</p> - -<p>Sem duvida, n’esse tempo ja os Piagas tinham visto imagens -nas igrejas, que se edificavam em varias partes do litoral: -com a maravilhosa facilidade d’imitação, innata nos -indios, ja no fim do XVI seculo tinham representado em estatuas -alguns dos numerosos genios de suas florestas. Estes -primeiros idolos foram infelizmente modelados em madeira, -e embora houvesse grande copia d’elles, nenhum, ao menos -que o saibamos, é conservado nos museos ethnographicos -do novo Mundo, estabelecidos em varias localidades. -Os Tupinambás, apenas chegaram na visinhança do rio das -Amazonas, receberam ideias mais adiantadas de povos mais -civilisados que elles: a poderosa nação dos Omaguas, por -exemplo, cujas tribus vinham das regiões peruviannas, poderia<span class="pagenum"><a id="Page_xxxi"></a>[xxxi]</span> -ter influido sobre a arte grosseira, de que entre elles -encontraram se tão curiosos <i>especimens</i>. Note-se, que estes -importantes factos são, em geral, absolutamente despresados -pelos escriptores portuguezes, e por isso não é pequena -gloria para a nossa litteratura antiga, o ter possuido escriptores, -dotados de genio tão observador á ponto de prestarem -muita attenção ao estudo d’estes objectos.</p> - -<p>Entre os que se misturaram com estas nações infelizes, no -principio do seculo XVII, não conhecemos, na verdade, senão -um unico viajante portuguez, cuja narração encantadora -deve estar ao lado das de João de Lery e do Padre Ivo -d’Evreux.<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[AG]</a></p> - -<p>Foi Fernando Cardin, Superior dos Jesuitas ainda em 1609, -e que visitou os indios do Sul depois de haver por muito -tempo administrado as aldeias dos Ilheos e da Bahia. Bem -que este Missionario não possa, pela importancia de documentos, -comparar-se a Gabriel Soares,<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[AH]</a> a quem se deve recorrer -sempre que se queira, ter ideia exacta da nacionalidade -dos indios, e da emigração das suas tribus, comtudo -muito se lhe assimelha pelo seo estylo: como elle despresa -os preconceitos, ama os selvagens, e com animação pinta -admiravelmente o indio na sua aldeia, dando-nos a saber a -grandesa, cheia de sinceridade, do seo caracter.</p> - -<p>A descripção do Padre Ivo d’Evreux não é, somente, -mais um documento de grande importancia, que se ajunta<span class="pagenum"><a id="Page_xxxii"></a>[xxxii]</span> -á historia do Brasil com o fim de provar unicamente factos -tendentes á fundação da Cidade de S. Luiz e sim para os -francezes tem outro genero de merecimento.</p> - -<p>Pela sincera elegancia de sua dicção, pela cor habilmente -destribuida de seo estylo, pela perspicacia de suas observações, -e, pode tambem dizer-se, pelo sentimento apurado das -bellesas da naturesa, que mostra o seu autor, ella pertence -á serie de escriptores francezes, continuadores da epocha -de Montaigne, e prognosticadores do grande seculo. Ivo -d’Evreux, si fosse lido, teria nesse tempo influido, como alguns -annos antes, João de Lery, que descreveo scenas analogas -áquellas que elle tão bem soube pintar. Claudio d’Abbeville, -escriptor muito menos habil do que elle, foi o continuador -d’esta influencia litteraria.</p> - -<p>Si no retiro, por elle escolhido, e que cremos, não sem -fundamento, ter sido em Ruão ou Evreux, ou mesmo no arrebalde -de Sant’Eloy, soubesse o Padre Ivo qual foi a sorte -definitiva dos seos charos indios, sua alma se teria entristecido -profundamente.</p> - -<p>Depois de expulsos os francezes, foi Jeronymo d’Albuquerque -nomeiado capitão-mór do Maranhão sendo Francisco -Caldeira Castello Branco designado para continuar os descobrimentos -e conquistas nas regiões do Pará.</p> - -<p>Dos esforços combinados destes dois officiaes resultou a -fundação da risonha Cidade de S. Luiz e da de Belem.</p> - -<p>Estas duas Cidades edificaram-se pacificamente, sem opposição -alguma da parte dos indios, que até ajudaram os -consideraveis trabalhos, exigidos para a construcção d’ellas, -e muitos d’elles acompanharam até um Official chamado Bento -Maciel ás margens do rio Pindaré em busca de immensas -riquezas metalicas, que se desconfiava existirem por ahi algures: -fatal expedicção, cujo resultado foi somente a destruição -dos Guajajaras.</p> - -<p>Os Tupinambás inegavelmente não eram mais hostis aos -portuguezes, e viviam sob a direcção de Mathias d’Albuquerque, -filho do governador; mas nem por isso deixavam elles<span class="pagenum"><a id="Page_xxxiii"></a>[xxxiii]</span> -de lastimar a ausencia de seos antigos alliados. Ja não residiam -nos arrebaldes da cidade nova, e sim no districto de -Cumã em numerosas aldeias. Indo um dia o seo chefe europeo -ter com seo pae, que o mandou chamar, passaram por -Tapuitapera alguns indios vindos do Pará, trasendo cartas -para o capitão-mór de S. Luiz. Um Tupinambá convertido ao -christianismo, por nome Amaro, aproveitou-se da passagem -dos seos compatriotas para executar um plano terrivel.</p> - -<p>Tomou uma das cartas, abrio-a, e fingindo lel-a<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[AI]</a> dirigio-se -aos chefes das aldeias, e declarou-lhes que o fim d’estas -missivas era uma abominavel trahição, urdida pelos portuguezes, -que tinham resolvido, atreveo-se elle a dizer, reduzil-os -á condicção d’escravos.</p> - -<p>Terrivel carnificina, onde pereceram todos os brancos, foi -o resultado d’esta astucia do indio, bem facil de ser acreditada -á vista dos acontecimentos precedentes.</p> - -<p>Espalhou-se pelo littoral a noticia d’este facto. Mathias de -Albuquerque promptamente regressou ao campo onde se deram -scenas tão tristes, e vingou seos compatriotas exterminando -sem piedade os Tupinambás.</p> - -<p>As tribus, que moravam mais longe, insurgiram-se, e formaram -entre si indissoluvel alliança, animando-as implacavel -vingança, apezar de serem á principio tão pacificas, e de -se acharem tão dispostas á abraçar a nova fé, que lhe tinha -prégado o Padre Ivo d’Evreux. Levantaram-se tambem, e -espontaneamente, aldeias mui longinquas.</p> - -<p>Jeronymo d’Albuquerque expedio contra ellas tropas aguerridas, -e em breve o incendio e a morte substituio as festas, -que faziam com toda a segurança e boa fé.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxxiv"></a>[xxxiv]</span></p> - -<p>Tinham apenas passado tres annos depois da partida dos -capuchinhos francezes, e por isso era no principio do anno -de 1617. A Cidade de S. Luiz do Maranhão, activamente -edificada, começou a tomar o aspecto de uma Cidade européa.</p> - -<p>Este progresso inquietava os selvagens, que á custa de -seos soffrimentos tornaram-se previdentes; forçados á deixar -o sul do Brazil procuraram grandes florestas, e abrigados em -seos seios esperavam recobrar sua independencia, e para -isto só tinham um pensamento—a destruição completa de -uma raça invasora, que não poude ser expellida pelos seos -antepassados.</p> - -<p>Formaram os chefes Tupinambás uma liga desde os desertos -de Cumã até ás margens do Amazonas: pretendiam -assaltar de surpreza a nova colonia, e n’um dia convencionado -matariam todos os habitantes. N’esse tempo não havia -quasi indio, que não arrostasse sem medo as descargas de -mosquetaria.</p> - -<p>Em quanto se ouvia este plano, e se trabalhava na sua -execução, estava em Tapuitapera Mathias d’Albuquerque, -com pequeno numero de soldados, descuidado de si e dos -seos: entre os indios appareceu um trahidor, que descobrio -o projecto dos chefes dos selvagens ao commandante portuguez, -que não se assustando com o numero dos seos terriveis -inimigos, travou-se com elles no primeiro combate, e -levou-os de vencida até á distancia de 50 legoas, ajudado -em tão atrevida acção pelo bravo official Manoel Pires.</p> - -<p>Ainda vivia, porem bem proximo do termo de sua existencia -o antagonista de Razilly e de la Ravardière: sem sahir -da nova Cidade de S. Luiz muito ajudou seo filho com -seos conselhos e com remessa de soldados que tinha em reserva.</p> - -<p>Não se assustou Mathias de Albuquerque com as difficuldades -de todo o genero, que encontrava seo pequeno exercito -n’esses immensos desertos; foi batendo os indios pouco -á pouco até que em 3 de Fevereiro de 1617 derrotou-os<span class="pagenum"><a id="Page_xxxv"></a>[xxxv]</span> -completamente, e obrigou-os a procurar refugio no seio das -florestas. Só então, depois de exterminadas as tribus mais -temiveis, é que o velho general se recolheo á Cidade de S. -Luiz, e o que elle havia feito nos desertos do Maranhão tinha -tambem posto em pratica Francisco Caldeira nas solidões -do Pará, onde se edificava a Cidade de Belem.</p> - -<p>Não eram estes, por certo, os sonhos de Ivo de Evreux e -de seos tres companheiros para com o Maranhão: em suas -almas haviam imaginado a fundação de uma Cidade nova, -onde os corações innocentes dos indios se lhes reuniriam -para em commum louvar o Deos da paz. Ordens de exterminio, -em vez de orações, faziam em redor dos colonos um -deserto que causava terror. Seriamos injustos, se não dissesemos, -que os Religiosos trasidos por Jeronimo d’Albuquerque -continuaram a missão dos Padres francezes. Como Ivo -d’Evreux e Claudio d’Abbeville, os Padres portuguezes Frei -Cosme de São Damião e Frei Manoel da Piedade, eram da -Ordem dos Capuchinhos desde 1617, isto é, desde o momento -em que a guerra se tornou mais cruel, e Bourdemare publicou -seo livro: á Corte de Madrid pediram religiosos activos, -acostumados a todas as fadigas, e por isso capazes de -affrontal-as e de os ajudar. No dia 22 de julho chegaram -mais quatro religiosos a essas terras, não para o pequeno -Convento de São Luiz, e sim foram residir nas circumvisinhanças -da Cidade de Belem, e d’ahi começou a cathequese -no Pará.<a id="FNanchor_36" href="#Footnote_36" class="fnanchor">[AJ]</a></p> - -<p>Não se sabe com certesa, se estes factos historicos, que de -ora em diante terão lugar importante nos <i>Annaes do Brasil</i>, -chegaram aos ouvidos dos missionarios dedicados que tantas -fadigas soffreram para a conversão dos indios; a Europa -gastou mais de dois seculos olhando para elles com indifferença,<span class="pagenum"><a id="Page_xxxvi"></a>[xxxvi]</span> -e ainda passaram mais vinte annos depois d’elles terminados, -para então ver-se a continuação corajosa da obra -dos seos antecessores<a id="FNanchor_37" href="#Footnote_37" class="fnanchor">[AK]</a> por alguns Capuchinhos do Convento -de Pariz: n’esse tempo estava Ivo d’Evreux bem proximo do -termo de sua existencia, se é que ja não se tinha acabado -tão dura perigrinação para elle.</p> - -<p>Tudo emfim estava acabado para os povos, nossos fieis -alliados por algum tempo, e aos quaes procuramos fazer comprehender -as luzes do Evangelho. Achavam-se ja embrenhados -nas margens desertas do Xingù, do Tocantins, e do -Araguaya: ahi, bem longe dos colonos europeos se perpetuaram -sob os nomes de <i>Apiacas</i>, de <i>Gés</i> e de <i>Mundurucus</i>, -outrora tão temidos e hoje tão pouco, e até pelo contrario -favorecidos por uma administração humana.<a id="FNanchor_38" href="#Footnote_38" class="fnanchor">[AL]</a></p> - -<p>Estes primitivos senhores do Brasil fallam ainda o idioma -puro dos Tupys, cujos vestigios nos foram conservados por -Ivo d’Evreux e Thevet, e especialmente por João de Lery, -antes de ter reunido por meio de laboriosas fadigas os elementos -do seo livro.</p> - -<p>Foi nas margens destes grandes rios, ja citados, que ha -quarenta annos o illustre Martius observou tantas tribus desimadas.</p> - -<p>Ainda agora se lastimaria muito o sabio viajante sabendo, -que até hoje ninguem colheo as ultimas lembranças, -guardadas como legado por esses indios. Quando o governo -brasileiro pensou, ha pouco tempo, na creação d’uma commissão -scientifica, composta de sabios nacionaes, encarregada -de visitar os pontos mais longinquos d’esse immenso Imperio, -que não conta menos de 36° do Oriente ao Ocidente,<span class="pagenum"><a id="Page_xxxvii"></a>[xxxvii]</span> -forão o Ceará, o Maranhão, o Pará e o Rio de Janeiro os primeiros -lugares designados para a exploração. Comprehendeo -muito bem, que se havia nestas terras virgens admiraveis -productos da natureza a colher, tambem existia uma mythologia -e uma serie de tradicções historicas á salvar-se do esquecimento, -em quanto Freire Allemão, Capanema e Gabaglia -faziam collecções de preciosos materiaes sobre historia -natural, geographia e meteorologia, que formaram o objecto -d’uma vasta publicação.<a id="FNanchor_39" href="#Footnote_39" class="fnanchor">[AM]</a></p> - -<p>Um poeta historiador, estimado pelo seo paiz, corajosamente -embrenhava-se n’essas solidões incognitas para conhecer -os segredos da vida intima dos indios. Antonio Gonçalves -Dias, nascido no interior da provincia do Maranhão, -familiarisado desde a infancia com as legendas americanas, -fallando a <i>lingoa geral</i>, incumbia-se de alguma forma da -execução do programma de Martius.</p> - -<p>Bem cedo as legendas americanas, não nos animamos a -dizer os mythos religiosos dos grandes povos do littoral, nos -appareceram, taes quaes tem sido perpetuadas no interior, -(graças talvez ao exilio) e quando chegar o momento de estudar-se -com afinco a ethnographia, então se comprehenderá -todo o valor das narrações sinceras de Lery, de Hans Staden, -e de Ivo d’Evreux.</p> - -<p>Seria injustiça muito censuravel o negar-se as antigas -tentativas feitas pelos Religiosos portuguezes para a cathequese -dos povos selvagens, habitantes das regiões do Amazonas: -graças a elles, em 1607, principiou a exploração do -Maranhão por essas viagens, corajosamente emprehendidas -por Missionarios vindos dos Conventos de Pernambuco. Estas -tentativas não foram perdidas para a geographia, mas -quanto ao proveito do Christianismo, ellas se terminaram -em um martyrio inutil. Mais tarde, sem duvida, a obra dos -Figueiras e dos Pintos produsio seos fructos, assim como os<span class="pagenum"><a id="Page_xxxviii"></a>[xxxviii]</span> -grandes trabalhos evangelicos suavisaram a posição dos indios -do Maranhão.<a id="FNanchor_40" href="#Footnote_40" class="fnanchor">[AN]</a></p> - -<p>Foi ainda um escriptor francez, quase desconhecido, contemporaneo -dos nossos bons missionarios, que com muito -zelo, e pode até dizer-se com cuidado verdadeiramente piedoso, -traçou o <i>itinerario</i> seguido por estes homens corajosos, -de tempo do Padre Ivo, e sem duvida seos conhecidos, -mas que não possuiam nem a bondade e nem a sinceridade -d’elle.<a id="FNanchor_41" href="#Footnote_41" class="fnanchor">[AO]</a></p> - -<p>Conta-nos Pedro du Jarric como as immensas regiões do -Brasil, cubiçadas pela França, foram percorridas por dois -Religiosos de sua Ordem, quase no mesmo tempo, em que -Ravardiere pela primeira vez explorava o littoral.</p> - -<p>N’essa occasião Francisco Pinto e Luiz Figueira tinham -grande vantagem moral sobre os francezes, porque sabiam -muito bem a lingoa dos povos, que buscavam converter.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxxix"></a>[xxxix]</span></p> - -<p>Muito mais moço do que o seo companheiro, martyr -no apostolado, o Padre Luiz Figueira iniciou-se, então -mais do que nunca, nos segredos de uma lingoa, já visivelmente -alterada no littoral, porem pura no seio das florestas.</p> - -<p>Cinco annos após a impressão do volume do Padre Ivo, -elle publicou a sua <i>Arte de Grammatica</i>, e pela primeira -vez depois de alguns ensaios incompletos do seculo XVI conheceu-se -os principios de um idioma, que ainda fallava um -povo corajoso, porem prestes a morrer.<a id="FNanchor_42" href="#Footnote_42" class="fnanchor">[AP]</a></p> - -<p>Voltemos ao nosso piedoso viajante.</p> - -<p>Se vivesse ainda, como é bem provavel, alem da epocha -em que se deram estes acontecimentos, em 1619 por exemplo, -Ivo d’Evreux certamente não fazia mais parte do grande -Mosteiro d’onde outrora sahio com destino ao novo -mundo.</p> - -<p>Póde suppôr-se, que o seo homonimo de Pariz principiava -a eclipsal-o, e por isso vivia elle longe da grande Communidade: -se residisse no Convento da rua de Santo Honorato, -não é provavel que fosse de todo esquecido nas pequenas -biographias, escriptas tão liberalmente á respeito de Religiosos, -que nada escreveram, como seja, entre outros, Ivo de -Corbeil, simples irmão leigo, fallescido em 1623, apenas conhecido -na Ordem pelo seo amor á humanidade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xl"></a>[xl]</span></p> - -<p>Temos alem d’isto a certesa de ter se recolhido o -Padre Ivo d’Evreux ao modesto Convento de sua terra -natal: em 1620 estava elle em Santo Eloy,<a id="FNanchor_43" href="#Footnote_43" class="fnanchor">[AQ]</a> e suppomos -ter escolhido esta residencia por ser proxima ao Convento -de Andelys.</p> - -<p>N’estas ferteis campinas, onde se despertou o genio de -Poussin, ainda o nosso bom Missionario teve descanço bastante -para admirar os risos da natureza e a frescura das -paisagens.</p> - -<p>É possivel que em outra occasião tivesse elle oportunidade -para conservar-nos suas minuciosas observações, que -hoje talvez o fizessem distincto naturalista, mas depois da -emoção impressa em seo pensamento pela magestosa solidão -das florestas seculares do Brasil, somente se deixou captivar -pelas calorosas discussões da theologia.</p> - -<p>Um livro ainda difficil de ser obtido (a cada momento topamos -com raridades tão difficeis de serem alcançadas como -a <i>Viagem</i>) nos prova, que no seo retiro não poude resistir -ao espirito do seculo.</p> - -<p>Não tendo mais indios a converter se pôz a discutir -com protestantes, e coisa estranha, foi um dos seos compatriotas, -personagem muito estimado pelos seos correligionarios, -a quem elle atacou ou talvez a quem respondeu -somente.</p> - -<p>Ignoramos o titulo do primeiro opusculo, que elle arremessou -ao seu adversario, porem um sabio bibliographo da -Normandia, o Sr. Frére, nos deo o segundo, para nós uma -especie de revelação.</p> - -<p>É este o titulo do folheto «<i>Supplemento necessario ao escripto -que o Capuchinho Ivo fez imprimir relativamente<span class="pagenum"><a id="Page_xli"></a>[xli]</span> -as conferencias entre elle e João Maximiliano Delangle</i>.» -Ruão, David Jeuffroy. 1618 em 8.º<a id="FNanchor_44" href="#Footnote_44" class="fnanchor">[AR]</a></p> - -<p>Este escripto, attribuido pelo douto bibliographo ao nosso -missionario, bem puderia não ser devido á sua propria -penna, porem prova o apparecimento de outra obra -mais desenvolvida, e a existencia de serias discussões oraes -entre elle e os dissidentes. Mais agradaveis sem duvida lhe -foram sinceras discussões, que havia pouco tempo teve com -Japi-Açu na Ilha do Maranhão, onde as continuas predicas -feitas no Forte de S. Luiz, em presença de grande assembleia -de indios, somente eram interrompidas pela severa -polidez, que lhes prescrevia escutar o orador em quanto -quizessem que elle fallasse, circumstancia, diga-se de passagem, -que bem poderia em algumas occasiões enganar um -zeloso missionario sobre o exito de seos esforços.</p> - -<p>Ivo d’Evreux então achava-se a braços com um dos homens -mais firmes e mais estimados entre os protestantes, e -o escripto do Religioso foi denunciado ao parlamento.</p> - -<p>João Maximiliano de Baux, senhor de Langle, era um ministro, -joven, ardente, natural de Evreux como o Padre Ivo, -morador em Quevilly, pequena Cidade de 1:500 a 1:600 habitantes -á pequena distancia de Ruão.<a id="FNanchor_45" href="#Footnote_45" class="fnanchor">[AS]</a></p> - -<p>Ignoramos qual o objecto da discussão, e embora todas -as nossas deligencias não vimos uma só peça do processo, -porem é certo que o ultimo escripto, revelado pelo Sr. Frère, -excitou de maneira notavel a attenção da autoridade, porque -em 8 d’Abril de 1620 proferio o parlamento uma sentença<span class="pagenum"><a id="Page_xlii"></a>[xlii]</span> -a esse respeito condemnando David Jeuffroy a pagar -uma multa de 50 libras por haver publicado sem licença -previa o livro denunciado.<a id="FNanchor_46" href="#Footnote_46" class="fnanchor">[AT]</a> Como se vê, não alcançou esta -decisão o nosso Missionario, e sim limitou-se ao impressor, -por elle escolhido, embora contenha uma censura indirecta -ao livro suppondo-se, que o nosso bom Missionario, pelo -ardor da questão, se deixasse arrebatar a ponto de fazer -allusões pessoaes dignas de censura.</p> - -<p>Á este respeito havia pouco escrupulo em 1618, e afinal -se pensava que seria interrompida a carreira do joven ministro, -atacado pelo Padre Ivo: bem longe d’isto, porque em -1623 foi pelos seos correligionarios nomeado deputado ao -synodo nacional de Charenton, e quatro annos depois tambem -fez parte do da Normandia, na villa de Alençon.</p> - -<p>De 1620 em diante perdemos todos os vestigios do Padre -Ivo d’Evreux; comtudo muitos escriptores ecclesiasticos depois -d’isto registaram seo nome em seos vastos obituarios, -multiplicando erros, e assim provando que nunca viram a -obra do Padre Ivo.</p> - -<p>Boverio de Salluzo,<a id="FNanchor_47" href="#Footnote_47" class="fnanchor">[AU]</a> Marcellino de Piza,<a id="FNanchor_48" href="#Footnote_48" class="fnanchor">[AV]</a> Wading,<a id="FNanchor_49" href="#Footnote_49" class="fnanchor">[AW]</a> ordinariamente -tão exacto, o Padre Diniz de Gênes,<a id="FNanchor_50" href="#Footnote_50" class="fnanchor">[AX]</a> ou só dão<span class="pagenum"><a id="Page_xliii"></a>[xliii]</span> -particularidades geraes, mui approximadas relativamente á -sua obra, sem mencionar a data d’ella, ou grosseiramente -alteram o millesimo do anno da impressão. Este ultimo, -por exemplo, diz que foi em 1654, erro bem claro, proveniente -d’um primeiro erro typographico, repetido por Masseville,<a id="FNanchor_51" href="#Footnote_51" class="fnanchor">[AY]</a> -e até por Moreri Normando.<a id="FNanchor_52" href="#Footnote_52" class="fnanchor">[AZ]</a> O Padre Francisco -Martin, da Ordem dos Franciscanos, cujo manuscripto se -guarda em Caen, por seo motu proprio a colloca no anno -de 1659, dando sempre como lugar da impressão a cidade -de Ruão.</p> - -<p>O <i>Epithome da la bibliotheca oriental y occidental</i> de -Leon Pinello, livro reeditado por Barcia no seculo XVIII, é -o unico, que n’aquelle tempo mencionou com exactidão a -<i>Viagem</i>, que reimprimimos, embora o seo titulo fosse tão -alterado pelo bibliographo hespanhol a ponto de por elle ser -difficil reconhecer-se o habil continuador do Padre Claudio -d’Abbeville, devido isto a influencia de Diniz de Gênes.<a id="FNanchor_53" href="#Footnote_53" class="fnanchor">[BA]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xliv"></a>[xliv]</span></p> - -<p>Quasi que temos certesa, á vista dos manuscriptos doados -pelo grande Convento da rua de Santo Honorato, de ter vivido -o Padre Ivo d’Evreux alem de 1629, já esquecido porque -n’aquelle tempo havia firme proposito de desviar o Rei -de Hespanha das tentativas feitas, não havia muito, á respeito -do Maranhão.</p> - -<p>É verdade, que os antigos chefes da expedição não poderam -renovar tão vasta empreza, onde se achavam seos -maiores interesses.</p> - -<p>Embora a estima, que parecia gosar na corte o Almirante -Rasilly, foi mal succedido em todos os seos projectos -com este fim, e depois que o bravo Ravardiere, preso no -Castello de Belem, recobrou a sua liberdade, nunca mais -regressou á America do sul.</p> - -<p>Apparecem ainda estes dois nomes na historia da nossa -marinha<a id="FNanchor_54" href="#Footnote_54" class="fnanchor">[BB]</a> e de maneira gloriosa, porem na Africa, n’essas -praias doentias, onde para segurança do commercio deviam -ser castigados de vez em quando atrevidos piratas.</p> - -<p>Ravardiere, como acabamos de vêr, empregou gloriosamente -os ultimos annos de sua vida tão activa em favor do -Christianismo, assim como já o tinha feito em prol de sua -patria, faltando-lhe apenas tempo para redigir a Narração -de suas viagens pela America do sul.</p> - -<p>Sabemos com certesa ter ordenado, que se escrevesse -em 1614 um Relatorio minucioso de sua expedição pelo<span class="pagenum"><a id="Page_xlv"></a>[xlv]</span> -Amazonas. Até nós não chegou esta especie de jornal, que -alem de esclarecer muitas coisas, seria tambem de muito -interesse para ser comparado com os documentos fornecidos -n’essa epocha por um francez, cujas viagens mereceo as -honras da impressão.</p> - -<p>Na verdade, dez annos antes, no meiado de 1604, João -Mocquet, o guarda das curiosidades de Henrique IV e de -Luiz XIII, percorreo as margens do Amazonas, e exforçou-se -para fazer conhecer aos seos compatriotas este grande rio. -Infelizmente este pobre cirurgião d’aldeia tinha mais zelo -do que luzes, e por isso não podiam ser suas observações -confrontadas com as de um homem, tão conhecido pela sua -instrucção, como pela sua lealdade.</p> - -<p>A viagem de Ravardiere pelo Amazonas e Maranhão deve -estar minuciosamente descripta na grande chronica dos Padres -da Companhia, existente em Evora.</p> - -<p>Consultando os sabios trabalhos bibliographicos do Sr. Rivara, -n’elles adquirimos esta certesa, pois o Cap. 111 d’este -vasto <i>Cathalogo</i> tracta especialmente do dominio dos francezes -n’essas regiões. Não podemos pessoalmente examinal-o. -Graças ao espirito investigador de tantos sabios historiadores, -ainda não perdemos de todo a esperança de encontrar -o escripto em questão.</p> - -<p>Diariamente emprega o Brazil os mais louvaveis exforços -para colligir documentos inedictos, fontes da sua historia, e -se em alguma livraria por ahi algures fosse descuberta a -<i>Viagem</i> de Ravardiere, serviria, com os escriptos de Claudio -d’Abbeville e de Ivo d’Evreux, de guia seguro para se consultar -relativamente a estas Provincias do norte, das quaes -só se conhecem as explendidas solidões, e cujo passado nos -foi, para assim dizer, revelado pelo nosso Missionario.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 100px;"> -<img src="images/footer1.jpg" width="100" height="50" alt="" /> -</div> - -<div class="footnotes"> - -<h3>NOTAS</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[A]</a> A ordem constitutiva do Mosteiro tem a data de 28 de Novembro. -O lugar da escolha foi concedido no anno precedente -por Catharina de Medicis aos Capuchinhos, vindos da Italia, e a -doação foi confirmada por Henrique III em 24 de setembro de -1574. Vide <i>Boverio</i>, Annali di Frati minori.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[B]</a> O <i>Mercure-Galant</i> deo á luz uma descripção, muito curiosa, -da grande botica do Convento.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[C]</a> Em 1617 contavam-se 655 Religiosos nas duas Custodias de -Pariz e de Roão, e entre elles 209 clerigos.</p> - -<p>Em 1685 haviam em França 5:681 Capuchinhos.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[D]</a> Não inventamos: um dos seos mais ardentes admiradores, -tambem Capuchinho, falla d’elle nestes termos: <i>Tantarum segete -scientiarum, factus est dives ut Galliæ Phœnix hac nostra ætate -communiter sit appelatus</i>. Vide o vasto Repertorio de Diniz de -Gênes. <i>Bibliotheca scriptorum ordinis minorum Sancti Francisci -capucinorum.</i></p> - -<p>Wading, mais moderado, contenta-se em chamar o Padre Ivo -de Pariz—<i>egregius concinnator, insignis Capuccinus</i>.</p> - -<p>O autor anonymo dos elogios manuscriptos dos Capuchinhos da -Cidade de Pariz não pôz limites ao seu enthusiasmo, quando disse: -«a natureza parece ter querido exgotar-se, quando cedeo a tão -grande personagem tudo quanto podia dar-lhe com abundancia -de grandeza, tão rara quam admiravel.»</p> - -<p>Nasceo em 1590, Ivo de Pariz, tomou o habito religioso em -27 de setembro de 1620, seis annos depois que o Padre Ivo de -Evreux regressou doente do Brazil, e afinal falleceo em 14 de -ouctubro de 1678.</p> - -<p>Este religioso conseguio imprimir vinte e oito obras de sua lavra, -cujos titulos principaes vamos reproduzir seguindo a ordem -chronologica de suas publicações.</p> - -<p><i>Os felizes resultados da piedade, ou os triumphos da vida religiosa -sobre o mundo, e contra a heresia.</i> 4.ª edicção, Pariz 1634. -2 vol. em 12.</p> - -<p><i>Da indifferença.</i> 2.ª edicção. Pariz. 1640. em 8.º</p> - -<p><i>A theologia natural.</i> Pariz. 1640-1643. 4 T. em 4.º</p> - -<p><i>Astrologiæ novæ methodus et fatum universi observatum, a -Franc Allaeo Arabe Christiano.</i> Pariz. 1654. Temeo este Capuchinho, -apesar de atrevido e credulo, publicar este livro com o -seo nome, e por isso deo-o á luz sob o titulo <i>Fatum Mundi</i>.</p> - -<p><i>Jus naturale rebus creatis á Deo constitutum</i> etc. etc. Parisiis. -1658 in folio.</p> - -<p>O <i>Fatum Mundi</i> foi reimpresso em 1658, e no anno seguinte -appareceu esta obra.</p> - -<p><i>Dissertatio de libro præcedenti ad amplissimos viros senatus -Britanniæ Armoricæ.</i> Parisiis. 1659. in folio.</p> - -<p><i>Digestum sapientiæ in quo hebetur scientiarum omnium rerum -divinarum et humanarum nexus</i> etc. etc. 1654-1659. 3 vol. in -fol, reimpressos com augmentos em 1661.</p> - -<p><i>O Magistrado christão, coordenado pelo Padre Ivo, seo sobrinho.</i> -Pariz. 1688 em 12.</p> - -<p><i>As falsas opiniões do Mundo.</i> Pariz 1688 em 12 etc. etc.</p> - -<p>Vê-se, que não ha analogia alguma entre os estudos d’estes dois -Capuchinhos.</p> - -<p>Uma das obras do Padre Ivo de Pariz foi queimada pela mão do -carrasco.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[E]</a> E não Silvére, como por descuido disse em sua biographia o -veneravel Eyriés. (Vid Mr. Prarond. <i>Les hommes utiles de l’arrondissement -d’Abbeville.</i> 1858—in 8.º)</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[F]</a> Vid o Manuscripto da Bibliotheca mazarina, ja citada, que -tem este titulo «<i>Annales des R. P. Capucins de la Province de -Paris, la mer et la source de toutes celles de ça les monts.</i>» N. 2879 -pet in 4.º</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[G]</a> Francisco de Bourdemare, ou Boudemard, natural de Ruão, -deixou a Provincia, onde gosava sua familia de muita consideração -para em Orleans fazer-se Capuchinho. Como noviço entrou -no Convento d’esta Cidade, em 2 de outubro de 1603, porem é -muito provavel, que voltasse para a Normandia antes de ir residir -no grande Convento da rua de Santo Honorato.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[H]</a> O Padre Leonardo morreu em Pariz com 72 annos de idade, -no dia 4 de setembro de 1640. Antonio Fauro, seo pae, era conselheiro -do parlamento de Pariz.</p> - -<p>O livro dos <i>Elogios-historicos</i>, manuscripto da Bibliotheca Imperial, -o qualifica como «o maior homem, que ja teve, e que nunca -mais terá, a Religião dos Capuchinhos.» Encontra-se elle -outra vez Provincial na rua de Santo Honorato no anno de 1615.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[I]</a> Vide à respeito da expedicção protestante do Sr. Villegagnon, -as Relações circunstanciadas de Niculau Barre, de João de Lery -e do Anonymo conhecido por Chrispim. É certo que estabeleceram -os Calvinistas seo predominio na Bahia do Rio de Janeiro, -porem á elle se podem oppôr diversos pamphletos, escriptos por -causa do Chefe da empresa. Estas peças satyricas fazem parte -das ricas collecções da <i>Bibliotheca do Arsenal</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[J]</a> Como se verá em outro lugar, logo após a publicação da -primeira parte da viagem, a antiga expedição de Ravardière foi -precedida pelas de Riffault em 1594, e de De-Vaux, o companheiro -d’este ultimo, que misturando-se com os Indios dedicou-se muito -ao descobrimento d’este paiz.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[K]</a> Julgamos dever reproduzir aqui o texto d’esta concessão renovada: -não conhecemos o primeiro. «Luiz, a todos os que virem -a presente. Saude. O defunto Rei Henrique, o grande, nosso -muito honrado senhor e pae, a quem Deos perdoe, tendo por Cartas -patentes de julho de 1605 constituido e estabelecido o Sr. de -Revardiere de la Touche, seo lugar-tenente general na America, -desde o rio do Amazonas até a Ilha da Trindade, e havendo elle -feito duas viagens ás Indias para descobrir as enseadas e rios -proprios para o desembarque e estabelecimento de colonias, no -que seria bem succedido, pois apenas chegou n’esse paiz soube -predispôr os habitantes das ilhas do Maranhão e terra firme, os -Tupinambás e Tobajaras, e outros a procurarem nossa protecção -e sugeitarem-se á nossa authoridade, tanto por seo generoso e -prudente procedimento, como pela affeição e inclinação natural, -que n’estes povos se encontram para com a nação franceza, bem -conhecida por elles pela remessa que fizeram dos seos embaixadores, -que morreram apenas chegaram ao porto de Caucalle, e -dos quaes teriamos ainda recebido iguaes protestos, segundo as -narrações feitas pelo Sr. de Ravardiere, tudo isto depois nos daria -occasião de lhe fazer expedir nossas Cartas patentes de outubro -de 1610 para regressar, como Chefe, ao dito paiz, continuar -seos progressos, como teria feito, e ahi demorar-se-ia dois annos -e meio em paz, e 18 mezes tanto em guerra como em treguas -com os portuguezes etc. etc.»</p> - -<p>Guardamos para a proxima publicação do livro de Claudio -d’Abbeville, de que este é o complemento, todas as occorrencias -politicas, relativas á expedicção, e reservamos tambem -para ella os traços biographicos de Razilly, de Ravardiere e de -Pezieux.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[L]</a> Pode-se ler tudo isto minuciosamente na <i>Carta de obediencia</i> -dada ao Padre Ivo na <i>Chronologia historica dos Capuchinhos -da Cidade de Paris</i> pag. 193. Tem a data de 27 de agosto de -1611, e começa assim: «<i>Venerando in Christo Patri Ivoni Ebroiense -predicatori ordinis fratrum minorum Sancti Francisci Capucinorum, -frater Leonardus pariensis ejusdem ordinis in Provincia -parisiensi licet immeritus salutem in domino, in eo qui -est nostra salus</i>».</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[M]</a> Descançam seos restos mortaes no Brazil, pois foi o unico de -seos companheiros, que não voltou á Europa. O padre Ambrosio -de Amiens, pelos seos estudos, tinha-se distinguido na Sorbona, -e quando ia requerer licença para seguir a carreira da magistratura, -ou dedicar-se simplesmente á advocacia, resolveo em 1575 -entrar na Ordem dos Capuchinhos: foi um dos primeiros irmãos, -que tomou o habito no Convento da rua de Santo Honorato, onde -por diversas vezes exerceo o cargo de Guardião.</p> - -<p>Deve-se collocar entre os annos de 1584 e 1586 a epocha das -corajosas dedicações, em que elle afrontou os horrores do contagio -para soccorrer a população parisiense, que então lhe deo o sobrenome -pelo qual era conhecido. A sua idade, ja avançada, devia -isental-o d’esta viagem, porem não foi possivel resistir-se ás -suas instancias, e nem a todos os meios, que empregou para fazer -parte d’essa missão, que foi de grande utilidade.</p> - -<p>Vêde o <i>Manuscripto</i> da Bibliotheca Imperial intitulado «<i>Eloges -historiques de tous les grands hommes, et de tous les illustres religieux -de la Province de Pariz</i>.»</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[N]</a> O Padre Honorato de Champigny morreo com cheiro de Santidade -em 1621.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[O]</a> Sabemos d’esta obra por Guibert apenas, pois nenhuma outra -bibliographia especial a menciona. Bourdemare publicou suas -observações sob o titulo <i>Relatio de populis brasiliensibus</i>. Madrid. -1617 in 4.º Leon Pinelli falla de Frei J. Francisco de Burdemar -(assim escreveo elle) como falla de Ivo d’Evreux por ouvir dizer. -Affirma o <i>Livro dos elogios</i> ter emprehendido duas viagens á -America, e afinal que morrera como <i>forasteiro</i> n’um dos Conventos -da sua Ordem em Hespanha, um anno antes da publicação do seo -livro. Parece-nos, que a expressão pelo biographo usada da palavra -espanhola—<i>forasteiro</i>, quer dizer pura e simplesmente—<i>estrangeiro</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[P]</a> O Padre Arsenio de Pariz tambem não tardou em deixar o -Brasil, porem o triste resultado dos negocios do Maranhão não arrefeceu -o seo zelo pelas missões. Foi para o Canadá onde prégou -aos Hurons depois de haver convertido os Tupinambás.</p> - -<p>Foi Superior das missões da America do Norte por cinco annos -e depois morreo no grande Convento de Pariz, em 20 de Junho -de 1645 contando 46 annos de habito. É muito provavel, que tivesse -por successor na America o Padre Angelo de Luynes, -Guardião de Noyon, pois foi Commissario e Superior das missões -do Canadá em 1646.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[Q]</a> O Convento dos Capuchinhos da Cidade d’Evreux foi edificado -em 1612 «na extremidade de um suburbio da cidade do lado -do meio dia, devido em parte aos cuidados e á liberalidade de -João le Jau, então grande penitenciario e vigario geral da diocese.» -Vide <i>Histoire civile et ecclesiastique du comté d’Evreux</i>, -pag. 365. O abbade Lebeurier, cujas luzes e zelo archiologico -são conhecidos, prestou-se a fazer a este respeito todas as pesquizas -possiveis, porem, infelizmente, debalde.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[R]</a> O manuscripto que temos á vista, e que dá conta summaria -da viagem de Arcanjo de Pemuroke, não nos diz claramente o -nome da localidade onde saltaram os Missionarios, e por isso nos -limitamos a transcrever a narração do seo desembarque: «foram -alguns soldados á terra, e acharam diversos obstaculos, que nos -pareceram máos prognosticos, como fossem alguns portuguezes e -um sacerdote secular, que assolavão os gentios contra os francezes, -e do <i>Forte</i> souberam nossos soldados, que os portuguezes projectavam -tomar a costa do Maranhão, e d’ella expellir os francezes, o -que fez suspeitar aos Padres que poucos fructos aqui colheriam:» -<i>Ms. da herdade dos Capuchinhos da rua de Santo Honorato</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[S]</a> Circumscripto a um pequeno quadro, apenas podemos dar -mui summariamente a descripção dos acontecimentos, que deram -em resultado o abandono do Maranhão pelos francezes.</p> - -<p>Acabou-se tudo em 21 de novembro de 1614, depois da batalha -onde falleceu o infeliz Pézieux.</p> - -<p>Alem da grande <i>Memoria</i> publicada pela Academia Real das -Sciencias de Lisboa á respeito d’esta expedicção, encontram-se -mais amplas informações sobre este periodo da historia do Maranhão -e suas missões pelos Jesuitas na vasta e preciosa publicação -do Dr. A. J. de Mello Moraes, intitulada «<i>Corographia historica, -chronologica, genealogica, nobiliaria e politica do Imperio do -Brasil</i>.» (Vide o Tomo 3º, publicado em 1860).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[T]</a> Sua morte está marcada nos <i>Obituarios</i> da Ordem no dia -29 d’Agosto de 1632, isto é, no anno em que foi celebrado o tractado -de Castelnaudary.</p> - -<p>Contava n’esse tempo 47 annos de Religião, e n’ella sempre foi -conhecido pelo <i>Religioso escossez</i>, embora pertencesse realmente -a uma familia gaulesa.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[U]</a> Ordinariamente calam os historiadores esta ultima circumstancia, -e não se encontra nem se quer referida summariamente e -sem commentarios senão na collecção diplomatica (Quadro elementar) -do Visconde de Santarem. A Carta authographa, que -prova o captiveiro de Ravardiere existe na <i>Bibliotheca da rua Richelieu</i>, -onde a vimos. Ella contraria, repita-se, o que se passou -um anno antes no campo de Jeronymo d’Albuquerque. Está escripta -com muita moderação, e foi derigida a M. de Puysieux -(Vid <i>fonds franç.</i>—Nº 228—15 p. 197.)</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[V]</a> Informações inexactas sem duvida fizeram com que Mr. Ferdinand -Diniz mencionasse aqui este facto, nunca acontecido.—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[W]</a> Lembro-me com prazer duma delicada expressão do sabio -Augusto de Saint Hilaire.</p> - -<p>Lery, como se sabe, viajou pelo Rio de Janeiro no tempo de -Villegagnon, isto é em 1556. A primeira edicção da sua interessante -narrativa somente appareceu em 1571. Nosso Ivo d’Evreux, -cujo estylo tem tantos pontos de contacto com o d’este escriptor, -leria seo livro? N’elle nada encontramos, que nos leve a responder -pela afirmativa. Multiplicaram-se porem as edicções de Lery -e a tal ponto, que a quinquagesima e ultima foi em 1611.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[X]</a> Este projecto de dupla aliança entre as duas corôas ja era de -1612, porem foi annunciado officialmente em 25 de Março do -mesmo anno, mas só foi executado d’ahi ha tres annos.</p> - -<p>Partiram os Missionarios a 19 de Março. Os esponsaes do rei -de França com a infanta ainda não preocupavam os espiritos -como depois aconteceo, por exemplo, em 1615.</p> - -<p>Todos os factos relativos aos dois reinados são minuciosamente -descriptos no livro intitulado «<i>Inventaire generale de l’histoire de -France par Jean de Serre, commençant á Pharamond et finissant -á Louis XIII</i>. Paris, Mathurin Henault, in 18. (Vid o T. VIII).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[Y]</a> Podia ainda ver-se, ha alguns mezes atraz, na casa de um -vendedor de curiosidades, da rua do Petit Leon, um desenho attribuido -a Luiz XIII, quando menino, representando muito bem a -figura d’um Tupinambá enfeitado com pinturas exquisitas.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[Z]</a> Devo ainda a Mr. Ferdinand Diniz a seguinte communicação, -feita em carta, por mim sempre muito presada, de 16 de setembro -de 1873.</p> - -<p>«O segundo exemplar conhecido da obra do Padre Ivo d’Evreux -pertence ao Sr. Dr. Court, habil e zeloso bibliographo e possuidor, -por sua fortuna, de grandes raridades.</p> - -<p>«Tive em minhas mãos este precioso exemplar, que custou 800 -francos.</p> - -<p>«Tem mais duas ou tres folhas do que o da Bibliotheca Imperial.</p> - -<p>«O feliz possuidor do exemplar conhecido mora em Pariz, <i>rue -du Centre n. 4</i>; actualmente anda viajando em beneficio da saude -alterada de um seo irmão, porem quando elle voltar, irei de novo -visitar seo thesouro.»—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[AA]</a> É geral a obscuridade, que reina sobre a biographia d’estes -antigos viajantes, tão importantes debaixo do ponto de vista da -historia. O veneravel Eyriés, que citamos as vezes, é bem pouco -baseiado em suas ideias, por exemplo, quando affirma que Claudio -d’Abbeville viveo até 1632, quando os Manuscriptos da casa -de Santo Honorato o dão por fallecido em Ruão no anno de 1616 -com 23 annos de religião.</p> - -<p>Tambem não é exacto o attribuir-se-lhe a <i>Vida da bemaventurada -Coletta</i>, virgem da Ordem de Santa Clara, pois appareceo -este livro em 1616, em 12, e em 1628 em 8º: as iniciaes, que traz -no frontespicio bem poderiam evitar este engano, na verdade pequeno.</p> - -<p>O opusculo, de que estamos tractando, acha-se na <i>Bibliotheca -do Arsenal</i>, onde o examinamos.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[AB]</a> Essa compilação, verdadeiramente curiosa, começou em 18 -de novembro de 1709, e se compunha outr’ora de 3 vol. em 4.º. -O T. 1º, infelizmente perdido, continha os <i>Annaes da Provincia</i>, -e provavelmente ficamos privados de algumas preciosas particularidades -sobre a missão do Padre Ivo: tinha o titulo de—<i>Capuchinhos -da rua de Santo Honorato</i>, 4.º (Ter.)</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[AC]</a> O Padre Pascoal d’Abbeville foi eleito 19º Provincial do Convento -da rua de Santo Honorato: a divisão havida em 1629 foi -provavelmente por causa do numero sempre crescente de Religiosos -nos tres Conventos de Pariz.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[AD]</a> Em geral não são conhecidos estes versos de Ronsard, derigidos -ao fundador da França antarctica, a essa personagem voluvel, -ora huguenote, ora fervoroso catholico; cujas severidades excentricas -Lery evitou fugindo para as mais longinquas florestas:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Douto Villegaignon, como te enganas!</div> - <div class="verse indent0">Tu pretendes em vão tornar ameno</div> - <div class="verse indent0">D’America o viver estranho e rude...</div> - <div class="verse indent0">Acaso não vês tu que a nova gente</div> - <div class="verse indent0">Tão nua é no trajar como no peito</div> - <div class="verse indent0">É nua de malicia?—que não sabe</div> - <div class="verse indent0">Ao vicio e á virtude o nome ao menos?</div> - <div class="verse indent0">—Que não sonha com Reis nem com Senados,</div> - <div class="verse indent0">E, isenta do temor, das leis ao jugo,</div> - <div class="verse indent0">Á mercè das paixões a vida passa?</div> - <div class="verse indent0">Ignoras, por ventura, que ahi mostra-se</div> - <div class="verse indent0">Cada homem de si livre senhor;</div> - <div class="verse indent0">e Leis, Senádos, Reis, em si resume?</div> - <div class="verse indent0">Não é a terra e o ar commum a todos?</div> - <div class="verse indent0">Vê-se, áquella, cobrir ferro importuno</div> - <div class="verse indent0">O seio virginal de longos sulcos?...</div> - <div class="verse indent0">Commum é tudo ahi, como dos rios</div> - <div class="verse indent0">São as aguas perennes que trasbordam</div> - <div class="verse indent0">Sem processo intentar de plena posse.</div> - <div class="verse indent0">Oh, não queiras, por isso, dessa gente</div> - <div class="verse indent0">O repouso turbar dos velhos usos!</div> - <div class="verse indent0">Si ha remorso em tua alma, em paz os deixa;</div> - <div class="verse indent0">Não procures, p’ra os campos estenderem.</div> - <div class="verse indent0">Ensinar-lhes á terra pôr limites!</div> - <div class="verse indent0">Choverão os processos, e a fraude</div> - <div class="verse indent0">Á amisáde terá então de unir-se!</div> - <div class="verse indent0">Logo após, d’ambição o duro espinho</div> - <div class="verse indent0">(Como a nòs acontece, desgraçados!)</div> - <div class="verse indent0">Tormento lhes será—negro, incessante.</div> - <div class="verse indent0">—Seu repouso não quebres: são felizes;</div> - <div class="verse indent0">Elles gosam na terra a edade d’oiro.</div> - <div class="verse right">(Traducção do Sr. J. T. de Souza.)</div> - </div> -</div> -</div> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[AE]</a> Vide a «Correspondencia e a Collecção Peiresc.»</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[AF]</a> Este estimavel escriptor deo d’isto uma prova no seo poema -da primeira semana, somente impresso em 1610 embora fallecesse -seo auctor em 1599.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Ja o ardente Cocuyo á Nova Espanha</div> - <div class="verse indent0">Vai nas azas dois fachos conduzindo,</div> - <div class="verse indent0">Outros dois flamejando ergue na fronte.</div> - <div class="verse indent0">Á luz d’este esplendor de regios leitos</div> - <div class="verse indent0">Nos cortinados arabescos pintam-se,</div> - <div class="verse indent0">Á luz d’este esplendor em noite negra</div> - <div class="verse indent0">O habil artesão o marfim pule,</div> - <div class="verse indent0">Conta o avaro, no cofre, seu thesouro,</div> - <div class="verse indent0">Veloz o escriptor a penna guia.</div> - <div class="verse right">Traducção do Sr. J. T. de Souza.</div> - </div> -</div> -</div> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[AG]</a> <i>Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuitica pela -Bahia, Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, -etc. escripta em duas cartas ao Padre Provincial em Portugal</i>. -Lisboa. 1847 em 8.º</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[AH]</a> <i>Tratado descriptivo do Brasil em 1587</i>, etc. Rio de Janeiro, -1851 em 8.º Foram estas duas obras exhumadas pelo Sr. F. A. -de Varnhagem, historiador tão conhecido do Brasil. Esta ultima -obra, de que existe um Manuscripto na <i>bibliotheca imperial</i> de -Pariz foi tambem reproduzida por seo habil edictor na <i>Revista</i> -trimensal. Morreo Gabriel Soares em 1591 n’uma praia deserta, -após deploravel naufragio: como se vê foi quasi contemporaneo -de Ivo d’Evreux.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[AI]</a> Affirma Berredo ser este indio um amigo dedicado dos franceses, -porem melhor informado o <i>Jornal de Timon</i> nos deo o -nome deste selvagem, educado nas missões do Sul. Ja se vê, que -não podia ter muita affeição aos francezes.</p> - -<p>Para urdir este horrivel estratagema, basta somente o odio, -que nutriam certos indios contra os dominadores do seo paiz, não -sendo necessario ser filho de Ruão ou de Rochelles.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_36" href="#FNanchor_36" class="label">[AJ]</a> Vide <i>Berredo, Annaes historicos do Maranhão</i>, e tambem o -<i>Jornal de Timon</i> de J. Lisboa, ns. 11 e 12, 1858, Lisboa. Diz -este escriptor ter fallecido Jeronimo d’Albuquerque em 1618 succedendo-lhe -no governo seo filho Antonio d’Albuquerque.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_37" href="#FNanchor_37" class="label">[AK]</a> Partiram para Goiana em 1635 os Missionarios da Ordem dos -Capuchinhos, cujos trabalhos podem ser vistos nos manuscriptos -legados pelo grande Convento de Pariz.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_38" href="#FNanchor_38" class="label">[AL]</a> Vide a respeito d’estes povos a rapida visita, que lhes fez -Castelnau em 1851: <i>Expedicção scientifica nas partes centraes -d’America do Sul</i>. T. 2º pag. 316.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_39" href="#FNanchor_39" class="label">[AM]</a> Vide <i>Trabalhos da Commissão scientifica de exploração</i>. Rio -de Janeiro. Typ. de Laemmert—1862 in 4.º</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_40" href="#FNanchor_40" class="label">[AN]</a> Na <i>Corographia historica</i> do Dr. Mello Moraes encontram-se -noticias minuciosas sobre as missões dos jesuitas e administração -dos indios no Maranhão. Desde o principio do seo T. 3º teve este -escriptor o cuidado de confessar o immenso auxilio, que lhe prestaram -as obras doadas ao Instituto Historico do Rio de Janeiro -pelo conselheiro Antonio de Vasconcellos de Drumond e Menezes. -Em suas longas viagens, o diplomata, a quem se deve tão preciosas -informações sobre a Africa, não se limitou a estas investigações, -pois ainda colheu muitos manuscriptos á respeito do Brazil, -que hoje servem de base ao historiador.</p> - -<p>Cego ha muitos annos, faz ainda muita honra á sua patria.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_41" href="#FNanchor_41" class="label">[AO]</a> Tres annos antes da partida dos Capuchinhos para Maranhão, -o padre du Jarric dedicava ao Rei menino o seguinte livro: «<i>Segunda -parte da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas -tanto nas indias orientaes como nos outros paizes descubertos pelos -portuguezes, no estabelecimento e progresso da fé christan e -catholica, e principalmente do que fizeram e soffreram os religiosos -da companhia de Jesus para este fim ate o anno de 1600</i>» pelo -Padre Pedro du Jarric, da mesma companhia em Bordeaux, Simon -Mellange. 1610 em 4.º Tudo quanto diz respeito ao Brazil -acha-se n’este vasto resumo desde pag. 248 até 359, porem deve -procurar-se os factos curiosos, citados n’esta noticia no livro 5º -do que o auctor chamou <i>Historia das Indias Orientaes</i>, parte 3ª -pag. 490.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_42" href="#FNanchor_42" class="label">[AP]</a> Desta primeira edicção, publicada em 1621, tornou-se, para -assim dizer, impossivel ser encontrado um sò exemplar.</p> - -<p>A segunda edicção sahio com o titulo <i>Arte de grammatica da -lingua brasilica do padre Luiz Figueira, Theologo da Companhia -de Jesus</i>. Lisboa, Miguel Deslande, anno 1687, pet. em 12.º O -sabio bibliographo portuguez o Sr. Innocencio Francisco da Silva -não reproduz exactamente este titulo, porem menciona uma edicção -da Bahia em 1851 pelo Sr. João Joaquim da Silva Guimarães, -cujo titulo é muito extenso.</p> - -<p>A grammatica do Padre Anchieta—<i>Arte da grammatica da lingua -mais usada na costa do Brasil</i>, appareceo em Coimbra no -anno de 1595, em 8º, e d’ella em Portugal apenas se conhece um -exemplar.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_43" href="#FNanchor_43" class="label">[AQ]</a> Santo Eloy, perto de Gisors, no destricto de Euro, é uma povoação -de 381 habitantes, á 25 kil. de Andelys.</p> - -<p>Ha tambem Santo Eloy de Fourques, aldeia do Euro, a 25 kil. -de Bernay.</p> - -<p>Estamos propensos a crer, que foi na primeira, onde residio o -nosso Missionario.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_44" href="#FNanchor_44" class="label">[AR]</a> Vide <i>Bibliographia Normanda</i>.</p> - -<p>Derigimo-nos directamente á douta officiosidade do Sr. Frère -afim de obtermos o conhecimento do <i>Supplemento necessario</i>, porem -apesar de constantes investigações vio-se na impossibilidade -de nos dar outras noticias alem das que colhemos em sua excellente -obra.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_45" href="#FNanchor_45" class="label">[AS]</a> Quevilly, <i>Clavilleum</i>, povoação do Senna inferior, distante -de Ruão apenas 6 kil. e faz parte do districto de Grande Couronne.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_46" href="#FNanchor_46" class="label">[AT]</a> Mais tarde foi chamado Maximiliano de Baux para encarregar-se -da egreja do culto reformado em Ruão, viveo até a idade -de 84 annos, e falleceo em 1674 deixando reputação de homem -recto, e de costumes austeros.</p> - -<p>Vide os irmãos Haag, a <i>França protestante</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_47" href="#FNanchor_47" class="label">[AU]</a> <i>Cupucinorum Annales</i>. Lugduni, 1632, em fol. e depois a traducção -italianna—<i>Annali di Fratri minori Cappucini</i> etc. Venetia -1643 em 4.º</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_48" href="#FNanchor_48" class="label">[AV]</a> <i>Annales seu sacrarum historiarum ordinis minorum sancti -Francisci qui Capucini nuncupantur</i> etc. Lugduni. 1676.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_49" href="#FNanchor_49" class="label">[AW]</a> <i>Annales ordinis minorum</i>. 2.ª edic., Roma, 1731. -Depois os <i>Scriptores ordinis minorum</i>. 1650, em fol.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_50" href="#FNanchor_50" class="label">[AX]</a> <i>Bibliotheca scriptorum ordinis minorum</i>, Genova, 1680 em -4.º, reimp. em 1691 in fol. Este ultimo depois de algumas linhas, -em que fallou do merecimento de <i>Ivo Ebroycensis, vulgo de -Evreux</i>, dá tambem noticia do seu livro: <i>scripsit gallicé Relationem -sui itineris et navigationis sociorum que Capucinorum ad -regnum Marangani: cui etiam adjunxit historiam de moribus illarum -nationum</i>. Rothomagi. 1654. Vid T. 1º em 4.º</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_51" href="#FNanchor_51" class="label">[AY]</a> <i>Historia da Normandia</i>. T. VI pag. 414. Masseville prova -com toda a evidencia ter se contentado com traduzir o Padre Diniz -de Gênes, pois disse ter o nosso Missionario, «dado uma Relação -geographica das regiões, por onde se embrenhou, e particularmente -do paiz do <i>Marangan</i>». <i>Regni Marangani</i>, escreveo -seo predecessor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_52" href="#FNanchor_52" class="label">[AZ]</a> Vede este precioso manuscripto na Bibliotheca de Caen. -Uma bibliotheca americana organisada pelo coronel Antonio de -Alcedo. Madrid. 1791, 2 vol. em 8º, não menciona o Padre Ivo, -causando-nos tal omissão pouco desgosto, á vista de se dizer ahi -haver o Padre Claudio d’Abbeville, seu companheiro, convertido -com infatigavel zelo os selvagens do Canadá!</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_53" href="#FNanchor_53" class="label">[BA]</a> A primeira edicção do <i>Epitome</i>, hoje rarissima por ter sido -suprimida por ordem da Inquisição, só traz no seu titulo aberto a -gravura o anno da impressão 1629 e o nome de <i>Antonio de Léon</i>, -e não o de Pinelo. Não falla de Ivo d’Evreux, isto é, deste livro, -que pertence a Bibliotheca de Santa Genoveva. Na edicção em 3 -vol. pequenos em fol., por Barcia, assim menciona invertendo o -seu titulo: <i>Fr. Ivon d’Evreux, capuchino. Relacion de su viage -al Reino de Marangano, com sus companeros: historia de los costumbres -de aquellas naciones</i>. Imp. em 1654 em 4º francez.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_54" href="#FNanchor_54" class="label">[BB]</a> Isaac de Razilly, cavalleiro da ordem de São João de Jerusalem, -primeiro capitão do almirantado de França, chefe d’esquadra -da armada real na provincia da Bretanha, foi nomeiado almirante -da frota real, em expedicção nas costas da Barbaria no anno -de 1630, e adjunto de Ravardière: em 3 de septembro d’esse -mesmo anno estava elle em Safy resgatando captivos.</p> - -</div> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="tp"> - -<p class="titlepage larger">CONTINUAÇÃO<br /> -<span class="larger">DA HISTORIA</span><br /> -DAS COISAS MAIS MEMORAVEIS<br /> -<span class="smaller">HAVIDAS EM</span><br /> -MARANHÃO<a id="Nanchor_1" href="#Note_1" class="fnanchor">[1]</a><br /> -<span class="smaller">NOS ANNOS DE 1613 A 1614</span></p> - -<p class="titlepage">SEGUNDO TRATADO</p> - -<p class="titlepage">PARIZ.<br /> -<span class="smaller">IMPRENSA DE FRANCISCO HUBY</span><br /> -RUA DE SÃO THIAGO, NA BIBLIA DE OIRO, E NA SUA OFFICINA<br /> -<span class="smaller">NO PALACIO DA GALERIA DOS PRESIONEIROS</span><br /> -MDCXV<br /> -<span class="smaller">COM PRIVILEGIO DO REI</span></p> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_1"></a>[1]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="AO_REI_I">AO REI</h2> - -</div> - -<p class="noindent"><span class="smcap">Senhor.</span></p> - -<p>O que eu pude por meios subtis saber á respeito do livro -do Rvd. Padre Ivo d’Evreux, supprimido por fraude e impiedade -mediante certa quantia dada ao impressor Francisco -Huby,<a id="Nanchor_2" href="#Note_2" class="fnanchor">[2]</a> ponho agora na presença de V. Magestade, dois annos -e meio depois do seu apparecimento, tão injustamente -supprimida apenas veio a luz, afim de que V. M. e a Rainha -sua Mãe, então regente, não visse a verdade tão clara, como -ahi estava, e fosse mais facilmente illudida sua boa fé, por -meio de falsas informações para que, contra suas santas e -boas intenções, deixasse morrer a empresa, mais cheia de -piedade e honra, que então se podia executar no novo -Mundo, como se conhecerá tanto pela obra do Padre Claudio -d’Abbeville, como por esta, embora incompleta por faltar a -maior parte do Prefacio e alguns capitulos no fim.</p> - -<p>Praticaram estes actos com intenção de perder V. M. o titulo -de Rei Christianissimo forçando-o a abandonar os sacrificios, -e as obrigações contrahidas para com os novos christãos, -a reputação de suas armas e bandeiras, a utilidade -vossa e de vossos subditos, proveniente de um paiz tão rico -e fertil, um porto tão importante como proprio á navegação -de longo curso, hoje deteriorado, e tudo o mais adquerido -com muitas despezas e cuidados.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_2"></a>[2]</span></p> - -<p>Para chegar-se a este ponto necessario foi recorrer á duas -imposturas, muito bem conhecidas por pessoas de bom senso: -uma foi de dizer-se que este paiz nada produzia, e nem tinha -riqueza alguma, contra a verdade geralmente sabida: a -outra foi de serem os indios incapazes de receberem a luz -do Christianismo em opposição á palavra de Deos e á doutrina -universal da Igreja.</p> - -<p>Eis como, Senhor, acabou-se esta excellente empresa tão -bem começada, sendo tão triste resultado devido a fraude -e a malicia d’aquelles, que, desejando occultar seos defeitos, -os atiravam sobre o paiz, que por negligencia dos maus -francezes, cuidadosos só do seo proveito e interesse particular, -se esqueceram do de V. M., embaraçando perda tão -notavel, ludibrio hoje de todas as nações estrangeiras, menoscabo -de vossa auctoridade real em toda a Europa, e de -dôr a todos os vossos bons subditos. Quando V. M. quizer -sahir d’estas illusões, aconselhado por pessoas honradas, e -reconhecidas pelo seu zelo ao augmento da gloria de Deos, -e do vosso reinado, eu vos offereço ainda a minha vida e a -de meus irmãos, fazendo conhecer, com a nossa pouca pratica -e experiencia, por todos os cantos do novo Mundo, que -em toda a christandade não ha um Monarcha tão grande e -poderoso, como um Rei de França, quando elle quizer empregar -não seo poder, e sim apenas sua authoridade.</p> - -<p>Eis, Senhor, tudo o que pode um dos vossos mais humildes -subditos, que, embora tenha soffrido, durante vossa minoridade, -maos tractos, perda de bens e de fortuna, ainda -tem coragem bastante para vos servir com dedicação.</p> - -<p>Estou certo de acolherdes meos serviços, e o voto solemne, -que faço de ser até o fim de minha vida,</p> - -<p>Vosso humillissimo e obedientissimo servo e subdito</p> - -<p class="right"><i>Francisco de Rasilly</i>.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 100px;"> -<img src="images/footer2.jpg" width="100" height="50" alt="" /> -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_3"></a>[3]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="AO_REI_II">AO REI</h2> - -</div> - -<p class="noindent"><span class="smcap">Senhor.</span></p> - -<p>A principal razão, que moveo os antigos a collocar entre -os Deoses a maior parte dos seos Imperadores, foi o espirito -religioso d’elles manifestado durante a vida.</p> - -<p>Coisa notavel na historia: ainda que alguns imperadores -levantados da infima classe até ao cume do poder, se tenham -mostrado crueis e sanguinarios para com seos subditos, -comtudo alcançaram, após sua morte, o nome de Deoses, -tiveram Templos e altares, sacrificios e sacerdotes, creados -e nomeados pelo senado em virtude da piedade e da -religião, que conservaram inalteraveis no meio dos seos muitos -defeitos.</p> - -<p>Estes monarchas, grandes em dominio e pequenos no conhecimento -do verdadeiro Deos, tinham innato em seo coração -o amor pela Magestade divina, de que são viva imagem -todos os monarchas, e por isso lhes pertence estender -o reino de Deos como seos Loco-tenentes.</p> - -<p>Com esta intenção espalhavam arcos e tropheos, columnas -e imagens para o ensino da religião, e á posteridade -legavam chapas e laminas de metaes indistructiveis, como -sejam o bronze, o ouro, e a prata, onde se viam gravadas -as suas imagens, e com ellas alguns vestigios da sua piedade, -cuja memoria o tempo não póde destruir.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_4"></a>[4]</span></p> - -<p>Antonino, o pio, assim deixou buriladas em bronze e prata, -sua caridade e religião representadas na imagem de uma -mulher, vestida como Deosa, tendo em frente um altar onde -se achava um pouco de fogo ardendo constantemente, e no -qual ella derramava á todo o instante, como em sacrificio, -oleos odoriferos, mostrando com isto a Piedade e Religião, -que consagrava aos Deoses.</p> - -<p>Si a inclinação natural, sem o auxilio da graça e da luz -sobrenatural, podesse tanto no coração d’estes monarchas, o -que podemos dizer e pensar quando Deos inspira o coração -dos reis illustrados e ricos da verdadeira religião?</p> - -<p>Luiz 4.º, imperador, principe virtuoso e geralmente estimado -á todas as suas occupações preferia a Religião, e para -animar todos os seos subditos á imital-o, mandou cunhar o -dinheiro com a figura de um templo atravessado por uma -cruz, e ao redor lia-se a inscripção—<i>Christiana Religio</i>.</p> - -<p>O que excedeo, Senhor, a todos os Monarchas do Mundo, -em piedade, e religião, foi São Luiz, a honra dos francezes, -e de quem herdastes sangue e sceptro, nome e imitação de -suas virtudes, porque não só empregou seos thesouros e sua -nobresa, mas tambem sua pessoa, atravessando mares, (mares, -que, como a morte, não fazem distincção quando querem -involver alguem nas suas ondas) afim de erguer a piedade -e a religião, abatidas pela crueldade dos infieis, e -n’esta tarefa morreu.</p> - -<p>Até hoje ainda não houve seculo algum de Rei, tão parecido -com o do bom São Luiz, como o vosso, Senhor, e -deixando á parte o que não vem a proposito, eu tomarei -somente este bello feito, com que imitastes sua piedade e -religião, para com esses pobres selvagens, desejosos em extremo -de conhecerem a Deos, e de viverem á sombra de -vossas luzes, como sejam os habitantes de <i>Maranhão</i>, de -<i>Tapuytapera</i>, de <i>Cumã</i>, de <i>Cayté</i>, do <i>Pará</i>, alem dos <i>Tabaiares</i> -e os <i>Cabellos-compridos</i> e muitas outras Nações, -que muito ambicionavam aproximarem-se dos Padres, como -direi adiante.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_5"></a>[5]</span></p> - -<p>Tudo isto, Senhor, só vós podeis, porque os indios naturalmente -gostam dos francezes e aborrecem os portuguezes: -os nossos religiosos apenas podem arriscar suas vidas para -convertel-os, porem pouco duraria isto a não ser a vossa -real piedade.</p> - -<p>Não é empresa tão difficil como se calcula, e nem tão -cheia de cuidados e de gostos, como se suppõe: não serão -precisos 500 ou 1:000 escudos, pois basta mediocre liberalidade, -porem bem administrada para a sustentação do seminario, -onde se devem educar os filhos dos selvagens, -unica esperança da firmesa da religião n’aquelle paiz.</p> - -<p>Si V. M., Senhor, se resolver a fazer isto, asseguro-vos -que o vosso exemplo será imitado por muitos Principes e -Princezas, Senhores e Damas, que contribuirão com alguma -coisa para o augmento da fé n’aquelles logares.</p> - -<p>Para que eu não canse a V. M. com desagradavel prolixidade, -acabarei com esta historia evangelica da pobre Chananea, -reputada como cadella, a qual pedia, para livrar sua -filha do poder do Diabo, apenas as migalhas, que cahiam da -meza real do Redemptor.</p> - -<p>Descende do mesmo Pae de Chananéa esta nação de selvagens, -e seos filhos estão no dominio do diabo, como infieis: -ella não pede nem vossos thesouros, e nem grande -quantia, e sim apenas as migalhas superfluas, que cahem, -aqui e ali, da vossa real grandesa.</p> - -<p>Por tudo isto, Senhor, eu humildemente vos supplico, que -olheis com bons olhos para esta pobre Nação, e que recebaes -com animo bem disposto este pequeno <i>Tratado das -coisas mais notaveis acontecidas durante a minha residencia -entre elles por espaço de dois annos</i>, conforme as ordens -da Rainha vossa Mãe, dadas aos nossos Rvds. Padres, -que procurei cumprir tanto quanto me foi possivel, como -vereis quando lerdes essa minha obra, cujo trabalho, si -merecer a vossa approvação, dar-me-hei por muito bem recompensado -em quanto viver, e toda a existencia, que por<span class="pagenum"><a id="Page_6"></a>[6]</span> -Deos me fôr concedida, eu a empregarei em servir fielmente -a V. M., como aquelle que é e sempre será de</p> - -<p class="center">V. M. subdito muito humilde e fiel,</p> - -<p class="right">Frei <i>Ivo d’Evreux</i>, Capuchinho.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak">ADVERTENCIA AO LEITOR.</h2> - -</div> - -<p class="noindent"><span class="smcap">Amigo leitor</span>.</p> - -<p>Advirto-vos, que não repetirei aqui coisas ja escriptas pelo -Padre Claudio d’Abbeville na sua <i>Historia</i>, e somente accrescentarei -o que mais do que elle soube por experiencia, pois -eu estive em Maranhão dois annos completos e elle apenas -quatro mezes: verificareis esta verdade, comparando os nossos -escriptos, e facilmente descobrireis o que augmentei.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 100px;"> -<img src="images/footer3.jpg" width="100" height="75" alt="" /> -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_7"></a>[7]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="PREFACIO">PREFACIO<br /> -<span class="smaller">A RESPEITO DOS DOIS SEGUINTES TRATADOS.</span></h2> - -</div> - -<p>A <i>Sapiencia</i> nos <i>Proverbios</i> 29, apresenta um ensino allegorico, -muito bonito, n’estas palavras: <i>pauper et dives -obviaverunt sibi, utriusque illuminator est Dominus</i>: vi o -pobre sahindo do Hospital cuberto de chagas e ulceras, carregado, -e não vestido, de trapos, caminhar pela praça publica -e entrar no Templo do Senhor pela porta do meio-dia: -na mesma occasião vi o rico sahir do seu palacio, vestido -de seda e carregado de ouro, prata, e pedras preciosas, caminhando -pela estrada que vae dar á porta do Tabernaculo -pelo lado do Septentrião, tão a proposito, que um e outro, -o pobre e o rico, se encontraram frente a frente, bem no -centro da grande cortina do <i>Sancta Sanctorum</i>, onde a face -do Senhor espalha tão bella claridade, que o rosto d’estas -duas pessoas brilhavam com o mesmo esplendor divino.</p> - -<p>Vejamos o que quer dizer a <i>Sapiencia</i> na obscuridade -d’estas palavras.</p> - -<p>Deixemos as diversas explicações mysticas e espirituaes, -que d’ellas se podem deduzir, e tomemos somente a que nos -pode servir em relação ao que escrevemos no frontespicio -do nosso livro.</p> - -<p>O pobre é o padre São Francisco e os Religiosos da sua -Ordem: o rico é o poder real de Vossa Magestade Christianissima, -proveniente do ramo sagrado do Rei São Luiz. -Quando e onde se encontraram este pobre e este rico? Foi<span class="pagenum"><a id="Page_8"></a>[8]</span> -sem a menor duvida na missão evangelica para converter -os indios. Entre os dois estava Deos, o grande illuminador -dos peccadores nas trevas da morte.</p> - -<p>O pobre São Francisco na conversão dos gentios fez nas -Indias o que disse São Paulo:—<i>ego plantavi</i>, plantei a fé entre -os selvagens do Maranhão: São Luiz, protector da França, -e avô do nosso Rei, quando nos mettemos n’esta empresa, -respondeo—<i>Rigabo</i>—eu a regarei, e não consentirei que -ella murche á falta de cuidados. De nada serviria a planta, -si em sua raiz não se deitasse agua para ella florescer, por -que em pouco tempo o rigor do sol a seccaria, e o nosso -Deos, que sempre prescruta a inclinação dos seos subditos, -affirma que infalivelmente a augmentará—<i>incrementum dabo</i>: -e por uma luz, sempre crescente de dia para dia, derramada -entre os indios á respeito dos mysterios da nossa fé, -espancareis as trevas da ignorancia, porque o Senhor é o -illuminador de ambos, <i>utriusque illuminator est Dominus</i>.</p> - -<p>Quem melhor o pode saber que os selvagens aos quaes -baptisamos e lhes promettemos fazel-os christãos?</p> - -<p>Si invocassemos o seo testemunho, elles responderiam—<i>credimus</i>.</p> - -<p>Oh! Piedade Real, não perdestes vosso tempo enviando-nos -como Mensageiros do Evangelho.</p> - -<div class="figcenter" style="width: 100px;"> -<img src="images/footer4.jpg" width="100" height="75" alt="" /> -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_9"></a>[9]</span></p> - -<p class="center larger">Continuação da historia das coisas mais memoraveis, -acontecidas no Maranhão em 1613 e 1614.</p> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak" id="PRIMEIRO_TRATADO">PRIMEIRO TRATADO.</h2> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_I">CAPITULO I</h3> - -<p class="subhead">Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz -do Maranhão.<a id="Nanchor_3" href="#Note_3" class="fnanchor">[3]</a></p> - -</div> - -<p>O Psalmista Rei David, no seo Psalmo 28, composto em -acção de graças pelo acabamento do Tabernaculo, disse—<i>Afferte -Domino fili Dei, afferte Domino filios arietum</i>.</p> - -<p>«Trazei ao Senhor, ó filhos de Deos, trazei cordeiros ao -Senhor,» o que Rabbi Jonathas assim explicou—<i>Tribuite -coram Domino laudem cœtus Angelorum, tribuite coram Domino -gloriam et fortitudinem</i>—«dae louvores ao Senhor, ó -choros angelicos, dae ao Senhor gloria e força:» queria elle -dizer, que os Anjos bemaventurados auxiliam os homens em -todos os seos santos projectos, e especialmente quando se -trata de procurar a salvação das almas, porque caminham -adiante estes felizes espiritos e rompem a turba dos diabos, -inimigos da salvação afim de soccorrerem os homens apostolicos, -incumbidos de salvarem as almas errantes nos desertos -da infidelidade, ahi comparados aos filhos dos Carneiros -que saltam aqui e ali pelos rochedos da dureza do -coração, porem afagados pelas doçuras do Evangelho se deixam -guiar brandamente até a porta do Tabernaculo de Deos,<span class="pagenum"><a id="Page_10"></a>[10]</span> -levados no grande mar do baptismo, e offerecidos á face do -<i>Sancta Sanctorum</i>.</p> - -<p>Os primeiros sacrificios, que Deos recebeo do povo de Israel, -em procura da terra da promissão, d’onde expellio a -infidelidade, foram sob as tendas e pavilhões do Tabernaculo, -porem depois edificou-se o templo, e ahi continuaram -os mesmos sacrificios.</p> - -<p>Coisa similhante nos aconteceo quando fomos a esse paiz, -cheio de infidelidade e ignorancia de Deos, carregado de demonios, -insolentes tyrannos d’essas pobres almas captivas, -levar a luz do Evangelho, banir as falsas crenças, expellir -os demonios, plantar e construir a Igreja de Deos: durante -mais de quatro mezes celebramos os santos sacrificios n’uma -bonita tenda, no meio de arvores verdejantes: partindo depois -alguns da nossa comitiva para a França em busca de -auxilio, e ficando o resto para fundar a Colonia; fizemos edificar -a <i>Capella de São Francisco do Maranhão</i> em um bello -e agradavel lugar, junto do mar, proximo de uma bella e -inexgotavel fonte, e ahi escolhi minha moradia, que um dia -tinha de servir de Convento aos Religiosos, que eu esperava -para me ajudarem.</p> - -<p>Acabou-se esta Capella na vespera de Natal e muito a proposito -pela devoção, que sempre teve o Seraphico Padre -São Francisco, a quem era dedicada.</p> - -<p>Alem de todas as festas do anno celebrava a noite, estrellada -e sem trevas, do nascimento do verdadeiro Sol, Jesus-Christo, -e tinha este santo Padre o costume de fazer um -presepio, a cujo lado passava toda a noite contemplando o -profundo mysterio da Encarnação, e da vinda tão estranha -do Altissimo á terra.</p> - -<p>Na verdade enchia-me de immenso prazer vendo n’esta -capellinha, feita de madeira, coberta de folhas de palmeiras, -mais similhante ao presepio de Belem do que esses grandes -e preciosos templos da Europa, os nossos compatriotas -francezes cantarem os psalmos e matinas d’esta noite, e depois -de purificados pelo Sacramento da penitencia receberem<span class="pagenum"><a id="Page_11"></a>[11]</span> -o mesmo Filho de Deos no presepio dos seos corações, -envolvido nas faixas do Santissimo Sacramento do altar.</p> - -<p>Festejamos tambem o dia de natal; a noite prégamos, o -que sempre fizemos depois das festas e nos domingos, e com -prazer, embora muito soffressemos no principio: em quanto -durou esta devoção corria o tempo tão depressa, que o dia -parecia ter somente duas horas; e assim achando-se o nosso -espirito preoccupado com obras piedosas sentia a morte vir -tão depressa.</p> - -<p>Não fui eu só que senti isto, muitas outras pessoas depois -me disseram o mesmo, e em quanto me permittio a saude, -observou-se, e sem enfado, este uso.</p> - -<p>Augmentou-se ainda mais esta devoção quando se edificou -no <i>Forte</i> a <i>Capella de São Luiz</i>,<a id="Nanchor_4" href="#Note_4" class="fnanchor">[4]</a> á imitação das Igrejas dos -nossos Conventos, com madeira, cercada e cuberta de ramos -fortes, cortados das arvores chamadas <i>Acaiukantin</i>.</p> - -<p>Ahi celebrei missas, cantei vesperas, préguei e baptisei -os cathecumenos.</p> - -<p>A tarde tocava o sino, todos se reuniam n’esta capella, -onde se cantava a saudação angelica, implorava-se a graça -divina, e depois cada um ia para onde queria.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_II">CAPITULO II</h3> - -<p class="subhead">Do estado do poder temporal em sua primitiva.</p> - -</div> - -<p>Compõe-se o homem de espirito e corpo; devendo zelar -em primeiro lugar aquelle como mais nobre e depois este; -pareceu-nos de muita razão cuidar a principio nas Capellas -para n’ellas abastecer o espirito com a palavra de Deos, e<span class="pagenum"><a id="Page_12"></a>[12]</span> -do SS. Sacramento, e depois no que diz respeito áo temporal.</p> - -<p>Assim como uma terra, ainda inculta não dá grande contentamento -á seu dono, e si elle não tivesse pão, que lhe -viesse d’algures, por certo que morreria de fome, assim -tambem era sem commodidades o lugar escolhido para a -edificação da fortaleza de São Luiz, n’uma ponta de rocha, -habitada outr’ora por selvagens, que a cultivaram a seu -modo, ou para melhor dizer a esterilisaram, visto que depois -de tres annos faltaram-lhe forças para produzir couza alguma, -alem de matto agreste, sendo necessario descançar por -muitos annos.</p> - -<p>Foi a causa dos nossos soffrimentos no principio, pois apenas -tinhamos farinha de mandioca para fazer <i>mingau</i>, isto -é, uma especie de papa com sal, agua e pimenta, chamada -pelos indios <i>Yonker</i>, e assim passavamos a vida.</p> - -<p>Quem não podia comer esta farinha secca, desmanchava-a -n’agoa, e assim alimentava-se com ella.</p> - -<p>Os que em França somente usavam de comidas delicadas, -n’aquelle paiz apenas achavam legumes bem agradaveis.</p> - -<p>Conto isto para louvar a paciencia dos francezes em serviço -do seo Rei, para destruir essa macula, que ordinariamente -lhes lanção, de impacientes, imprudentes e desobedientes, -porque na verdade eu só vi o contrario.</p> - -<p>Os que desejarem muito ir para aquelle paiz, não se admirem -de ouvir fallar em tanta pobresa, porque não soffrerão -mais do que nós, visto a terra ir melhorando diariamente, -e os viveres se augmentarem gradualmente.</p> - -<p>Para remediar esta falta, resolveo-se mandar pescar peixe-boi<a id="Nanchor_5" href="#Note_5" class="fnanchor">[5]</a>, -á 30 ou 40 legoas distante da ilha: estes peixes tem -a testa como os bois, porem sem cornos, duas patas adiante -debaixo das mamas, párem filhos como as vaccas, nutrem-nos -com seo leite, mas a cria tem a propriedade notavel -de abraçar a mãe pelas costas com suas patinhas, e nunca -as deixa embora mortas, pelo que alguns são agarrados vivos, -e assim trazidos para a Ilha: são muito delicados.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_13"></a>[13]</span></p> - -<p>Sirva isto d’instrucção aos meninos, cumprindo a Lei de -Deos, que manda honrar Pae e Mãe, isto é, amar e respeitar, -e de advertencia aos catholicos para ficarem firmes e -unidos no seio da Igreja, sua Mãe, d’onde perseguição alguma -as possa arrancar, amando todos os bons francezes, seo -Rei e sua Patria.</p> - -<p>São apanhados estes peixes-bois nos pastos, ou nas hervas -que crescem nas praias.</p> - -<p>Vão os selvagens remando mansamente suas canôas por -detraz d’ellas, atiram-lhe duas ou tres setas, e apenas mortas -são puxadas para terra, retalhadas e salgadas.</p> - -<p>Coisa igual acontece aos glutões, que no meio dos banquetes -são surprehendidos e n’um instante lá vão para o inferno.</p> - -<p>Encontra-se o sal necessario ás commodidades da vida, na -distancia de 40 legoas da Ilha, em terrenos arenosos, onde -se mostra naturalmente, em forma de gelo, duro e luzente -como cristal, por occasião do fluxo e refluxo do mar, e quando -este se retira o sol o cresta e é melhor que o sal de França -e de Hespanha.</p> - -<p>È necessario apanhal-o antes da estação das chuvas para -que ellas lavem o lugar onde elle estava.</p> - -<p>Chegado a este ponto, dispersou-se uma parte dos francezes -pelas aldeias, conforme o costume do paiz, que é ter -<i>Chetuasaps</i>, isto é, hospedes ou compadres, aos quaes por -pagamento se dava generos em vez de dinheiro.</p> - -<p>Esta hospitalidade ou compadresco é entre elles muito intima, -porque estimam seos hospedes, como se fossem seos -proprios filhos, vão caçar e pescar para elles e conforme o -seo costume entregam-lhes as filhas, que desde então se chamam -<i>Maria</i>, e tem por sobrenome o do Francez a quem se -ligam, de sorte que dizendo-se <i>Maria de tal</i> sabe-se logo de -quem é concubina.</p> - -<p>Com certesa não sei porque dão este nome ás concubinas: -mostrei um certo dia a um selvagem um registro da Mãe de -Deos, e lhe disse <i>Koai Tupan Marie</i>, «eis a Mãe de Deos,»<span class="pagenum"><a id="Page_14"></a>[14]</span> -<i>ché ai Tupan Arobiar Marie</i>, «creio e conheço, que <i>Maria</i> -é a Mãe de Deos,» e <i>Maria</i> chamamos nossas filhas que damos -aos <i>Caraibas</i>.</p> - -<p>Este costume foi prohibido aos francezes, e si ha alguma -falta á este respeito é occultamente, e os proprios selvagens -que no principio d’esta prohibição desconfiaram da fidelidade -e da amisade dos francezes, apenas souberam, -que Deos só permittia a posse da mulher por meio do casamento, -e que os Padres, Missionarios de Deos, assim o prégavam -e prohibiam por ordem do <i>Maioral</i>, mostram-se escandalisados -quando vêem o contrario, que denunciam logo -a este e a nós, de maneira que qualquer francez deve fazer -seos negocios mui occultamente si não quizer ser conhecido.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_III">CAPITULO III</h3> - -<p class="subhead">Da construcção do Forte de São Luiz, e do interesse -dos selvagens em carregar terra.</p> - -</div> - -<p>Chegado o tempo proprio de trabalhar nas fortificações da -praça designada á defeza dos francezes, fincada a madeira -segundo o plano dado para servir de cercadura ao <i>Forte</i>, e -de sustentar as terras, mandou-se então avisar por todas as -aldeias da ilha e da provincia de Tapuytapera,<a id="Nanchor_6" href="#Note_6" class="fnanchor">[6]</a> que viessem -Indios uns após outros conduzir a terra tirada dos fossos -para os terraços das cortinas, esporões e plata-formas, -depois cobertas por grandes e grossas <i>Apparituries</i>, «mangues» -arvores duras como ferro e incorruptiveis; de forma que -seria contra ella quasi inutil o tiro do canhão, e mui difficil<span class="pagenum"><a id="Page_15"></a>[15]</span> -a escalada: assim se disse e assim se fez: de todas as aldeias -pouco a pouco vinham os selvagens com suas mulheres -e filhos, trazendo viveres para o tempo, que calculavam -demorar-se no trabalho, e sempre debaixo das ordens dos -seos Principaes, costume que geralmente observam, trazendo-os -sempre na frente da Companhia, fazendo-lhes a natureza -conhecer, que o exemplo dos superiores anima infinitamente -os inferiores.</p> - -<p>Mais do que nós são elles fieis á natureza, pois vemos o -contrario na Republica Christã, d’onde provem os erros e a -corrupção dos costumes, porque ainda que devamos prestar -attenção somente á doutrina e não entregarmo-nos a má -vida, os fracos fazem o que querem sem cuidar do máo -nome, que adquirem.</p> - -<p>Apenas chegavam estes selvagens entregavam-se ao trabalho -com incomparavel dedicação, mostrando na voz e nos -gestos admiravel coragem, parecendo antes que iam á um -festejo de casamento do que para o serviço, rindo e brincando -uns com os outros, correndo dos fossos para os terraços -com uma especie de emulação para vêr quem dava -mais caminhadas, e conduzia maior numero de cestos de -terra.</p> - -<p>Notareis agora, que não ha ninguem no mundo mais infatigavel -do que elles, quando de boa vontade trabalham em -qualquer coisa; não cuidam em comer e beber com tanto -que tenham á sua frente o seu chefe, e quando encontram -difficuldades, por maiores que sejam, riem, cantam e gritam -para se animarem reciprocamente.</p> - -<p>Se ao contrario o tractardes com asperesa e ameaças, nada -farão que preste, e conhecendo o seo natural nunca constrangem -seos filhos e nem seos escravos, e antes os governam -com doçura.</p> - -<p>O francez, especialmente os nobres, tem igual naturesa; -não soffrem constrangimento, porem não duvidam expôr sua -vida, afim de comprirem as doces ordens dos seos Principes: -bello argumento para convencer os que governam, que<span class="pagenum"><a id="Page_16"></a>[16]</span> -mais vale a doçura e clemencia do que o rigor e a força, -respeitando assim o natural da Nação francesa.</p> - -<p>Não trabalhavam somente os homens e sim tambem as -mulheres e os filhinhos, aos quaes elles davam pequenos -cestos, para carregar terra conforme suas forças.</p> - -<p>Vi muitos meninos, apenas com dois ou tres annos d’idade, -fazer a carga com suas mãosinhas e não ter força para -conduzil-a.</p> - -<p>Perguntei a alguns velhos porque consentiam que trabalhassem -os meninos, servindo isto para distrahir os que os -vigiavam, especialmente seos paes, que assim não podiam -adiantar a tarefa, achando-se elles sempre em perigo, ou -por estarem nùs apezar de tenrinhos, ou por poderem ser -feridos pelo desabamento de algum pedaço de terra, ou por -alguma pedra, que se desprendesse do monte.</p> - -<p>Respondeo-me assim o interprete. Temos muito prazer -vendo nossos filhos comnosco trabalhando n’este <i>Forte</i>, para -que um dia digam á seos filhos e estes a seos descendentes -«eis a Fortalesa, que nós e nossos paes fizemos para os -Francezes, que trouxeram Padres, que levantaram casas -a Deos, e que vieram defender-nos de nossos inimigos.»</p> - -<p>É mui commum esta maneira de communicar á seos filhos -o que entre elles se passa, já que por escriptos não podem -fazel-o aos vindouros, e ir assim á posteridade.</p> - -<p>Para nada esquecer, como que gravam na memoria as occorrencias, -e só d’esta maneira se pode explicar como contam -muitas coisas passadas nos seculos, em que viveram -seos avós, ou no tempo da sua mocidade: vão passando por -esta forma o que sabem a seos filhos, como ainda diremos -ádiante.</p> - -<p>Desejaria muito, que nossos Paes assim se empenhassem -para gravar no coração de seos descendentes...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_17"></a>[17]</span></p> - -<hr class="tb" /> - -<p class="noindent">... mente e em abundancia, os selvagens lançam -fogo nos espinhaes e moutas, onde se recolhem esses -reptis.</p> - -<p>Ha de tres qualidades:<a id="Nanchor_7" href="#Note_7" class="fnanchor">[7]</a> uma de terra, que mora nos -mattos; outra de agoa doce, que mora nas margens dos rios -e lugares pantanosos: a ultima, é do mar, e a que vem -pôr seos ovos na areia, que fica bem perto, e onde os occultam -com geito. Parece-se muito com os ovos de galinhas, -menos na casca, que não é tão dura, e sim mais flexivel e -molle, nem tão grossos e agudos, e sim mais redondos, porem -muito saborosos, quer comidos na casca, quer de outra -qualquer maneira.</p> - -<p>Nas margens d’este rio encontram-se arvores medicinaes, -muito melhores do que as que se achavam commummente, -como eu e muitos dos meos companheiros verificamos: alem -d’esta virtude, são mais fortes que as do Levante, mostrando -a experiencia que uma onça d’estas faz tanto effeito como -duas d’aquelle paiz. Sendo bem preparadas certas composições -são excellentes laxantes, e assim conservam o corpo -para seo beneficio. Existem bellos prados, largos e compridos -á perder de vista, que produzem herva fina e macia. -Encontra-se a piteira, de cujos productos se fazem na China -muitos tafetás: crescem seos ramos como a cauda de um cavallo, -tem a bellesa da seda e é ainda mais forte. A terra -é forte e feraz e produz com mais certesa, que a do <i>Maranhão</i>, -ou de suas visinhanças, e dizem-me que dá duas colheitas -annualmente. As florestas são altas, virgens, e ricas -de muitas especies de madeiras, quer proprias á tincturaria, -quer á medicina, e asseguram-nos os selvagens, que lá moram, -a existencia ahi do <i>pau brazil</i>. No meio d’estas florestas, -ha muitos viados, capivaras, cabras, vaccas bravas<a id="Nanchor_8" href="#Note_8" class="fnanchor">[8]</a> -e javalis, e em poucas horas matareis tantas quantas precisardes, -e para que não me accusem de hyperbolico, invoco -o testemunho dos que viajaram pelo <i>Miary</i>, e hoje se acham -em França: se lerem isto, dirão que são estas as informações, -que me deram, e que os selvagens, remadores das<span class="pagenum"><a id="Page_18"></a>[18]</span> -suas canoas, lhes traziam tanta caça, que d’ella não sabiam -o que fazer.</p> - -<p>Contou-me um fidalgo, que andou n’essa viagem, haver -morto com um só tiro tres javalis,<a id="Nanchor_9" href="#Note_9" class="fnanchor">[9]</a> o que não poderia -acontecer se estivessem espalhados.</p> - -<p>Ha muitas arvores carregadas de cortiço de mel de abelhas, -as quaes são mais pequenas e franzinas do que as nossas, -porem mais industriosas, pois fabricam mel excellente, -liquido, e tão claro como agua potavel pura, guardado em -pequenas celulas de cera da grossura da casca de um ovo, -similhantes na forma á nossas garrafinhas de vidro, e penduradas -com alguma ordem n’uma arvoresinha de cera, que -se acha encostada ou presa pelos ramos ao tronco, ou nas -cavidades das arvores das florestas ou dos prados.</p> - -<p>Com este mel fabrica-se vinho muito forte e quente para -o estomago, similhante na côr e no gosto ao de Canaria. -Nossa gente, quando por lá andou, fez algum vinho, e com -elle embebedou-se.</p> - -<p>Existe tambem ahi uma especie de mel, impropriamente, -assim chamado, porque é tão azedo, como vinagre, e fabricado -por outra especie de abelhas.</p> - -<p>Alguns dias depois que ahi chegou nossa gente, procuraram -os <i>Tabajares</i>,<a id="Nanchor_10" href="#Note_10" class="fnanchor">[10]</a> e suas habitações: encontraram, não -os que procuravam, e sim os <i>Aiupaues</i>,<a id="Nanchor_11" href="#Note_11" class="fnanchor">[11]</a> e caminhos recentemente -abertos.</p> - -<p>Vendo que diminuia a farinha, da qual apenas poderia ter -quanto bastasse para regressar a Maranhão, essa mesma -muito pouca, deliberou regressar com os seos selvagens, -deixando ahi somente dois escravos <i>Tabajares</i>, a quem deram -farinha para um mez, e diversos generos, promettendo-lhes -liberdade com certesa, e boa recompensa si fossem procurar -e achassem seos similhantes, o que acceitaram e cumpriram -aproximando-se das suas aldeias e gritando para não -serem flexados, visto andar esta Nação em guerra com uma -outra visinha. Aos seos gritos accudiram muitos, aos quaes -contaram o que traziam, como estavam em Maranhão os<span class="pagenum"><a id="Page_19"></a>[19]</span> -francezes bem fortificados, que entre elles se achavam os -Padres, que os foram procurar; mas que se viram obrigados -a retirar-se por falta de farinha, sendo elles escolhidos -para ir procural-os, e dando-lhes os presentes fortaleciam -mais as suas palavras, mormente sendo proferidas por dois -individuos, seos conhecidos, que foram escravisados na guerra -pelos <i>Tupinambás</i>.</p> - -<p>Bem podeis calcular como elles ficaram alegres com as -noticias dadas pelos <i>Tabajares</i>. Ahi descançaram por tres -ou quatro mezes para contarem tudo bem a sua vontade, e -regressamos com nossa gente para a Ilha.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_VII">CAPITULO VII</h3> - -<p class="subhead">Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem -ao Amazonas.</p> - -</div> - -<p>Apenas voltou esta expedição do Mearim, fallou-se com -enthusiasmo de uma viagem, em breves dias, ao Amazonas.<a id="Nanchor_12" href="#Note_12" class="fnanchor">[12]</a></p> - -<p>Já antes se havia fallado n’ella, porem com tal friesa, que -poucos acreditavam, não havendo probabilidade de deixar-se -a Ilha, sendo nós tão poucos para defendel a contra as -aggressões dos portuguezes, que nos ameaçavam ha muito -tempo.</p> - -<p>Ao divulgar-se esta noticia levantaram-se a ilha e as provincias -visinhas, porque, como é geralmente sabido, não ha -no Mundo nação alguma mais inclinada á guerra e á viagens -pelo desconhecido como estes selvagens brasileiros.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_20"></a>[20]</span></p> - -<p>Quatrocentas ou quinhentas legoas nada são para elles -quando vão atacar seos inimigos e fazel-os escravos. Com -quanto sejam por naturesa timidos e medrosos, nos combates -ganham calor, não abandonam o campo, e quando perdem -as armas pelejam com unhas e dentes.</p> - -<p>Suas guerras são feitas, pela maior parte por surpresa e -astucias; ao romper do dia assaltam seos inimigos dentro de -suas aldeias: salvam-se de ordinario os que tem boas pernas, -sendo aprisionados os velhos, as mulheres, e os meninos, e -condusidos como escravos para as terras dos <i>Tupinambás</i>. -Tambem sob o pretexto de negocio, vão elles pelas praias, -onde moram seos inimigos, promettem-lhes muito, mostram-lhes -suas mercadorias em <i>caramemos</i> ou <i>paneiros</i>, onde arranjam -o que tem de melhor, e quando os veem entretidos, -lançam-se sobre elles, pobres ingenuos, matam uns, aprisionam -e captivam outros: por este motivo todas as nações do -Brasil, desconfiam d’elles, julgam-nos traidores, e nem querem -sua paz.</p> - -<p>São muito afoitos quando estão com os francezes, e querem -que estes vão sempre adiante, e se acontece voltar um -francez para traz, ninguem corre melhor e mais veloz do -que elles. D’isto se conclue quanto valle a opinião que se -forma de certas pessoas, que não passa de uma loucura e -vaidade d’este mundo, acontecendo muitas vezes ficarem -atraz os bons e virtuosos ou serem queridos e levados os -viciosos e corrompidos.</p> - -<p>Indaguei e procurei saber muito o modo como se preparavam -para a guerra, não me contentando só com as informações.</p> - -<p>Em primeiro lugar as mulheres e as suas filhas preparam -a <i>farinha de munição</i>,<a id="Nanchor_13" href="#Note_13" class="fnanchor">[13]</a> e em abundancia, por saberem, -naturalmente, que um soldado bem nutrido valle por dois, -que a fome é a coisa mais perigosa n’um exercito, por transformar -os mais valentes em covardes, e fracos, os quaes em -vez de atacarem o inimigo, buscam meios de viver.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_21"></a>[21]</span></p> - -<p>É differente da usual esta farinha de munição, por ser -mais bem cozida, e misturada com <i>cariman</i> para durar -mais tempo, embora menos saborosa, porem mais san e -fresca.</p> - -<p>Em segundo lugar empregam-se os homens em fazer canoas, -ou concertar as que já possuem proprias para este fim, por -que é necessario, que sejam compridas e largas para levarem -muitas pessoas, suas armas e provisões, e comtudo são -feitas de uma arvore, cortada bem perto da raiz, sem galhos -e ramos, ficando apenas o tronco bem direito em toda -a sua extensão, e então tiram-lhe a casca, e racham n’a -dando-lhe meio pé de largura e profundidade: n’este caso -lançam-lhe fogo n’essa fenda por meio de cavacos bem seccos, -e vão queimando pouco a pouco o interior do tronco, -raspam com uma chapa de aço, e assim vão fazendo até -que o tronco esteja todo cavado, deixando apenas duas pollegadas -d’espessura, e depois com alavancas dão-lhe fórma -e largura: estas canoas conduzem as vezes 200 ou 300 pessoas<a id="Nanchor_14" href="#Note_14" class="fnanchor">[14]</a> -com as suas competentes munições. São conduzidas -por mancebos fortes e robustos, escolhidos de proposito, por -meio de remos de pás de tres pés cada um, que cortam as -agoas a pique e não de travessia.</p> - -<p>Em terceiro lugar preparam suas pennas, tanto para a -cabeça, braços, e rins, como para as armas. Para a cabeça -usam de uma peruca ou cabelleira de pennas de cores vermelhas, -amarellas, verde-gaio e violetas, que prendem aos -cabellos com uma especie de colla ou grude.</p> - -<p>Enfeitam a testa com grandes pennas de araras, e outros -passaros similhantes, de cores variadas, e dispostas á maneira -de mitra, que amarram atraz da cabeça.</p> - -<p>Nos braços atam braceletes tambem de pennas de diversas -cores, tecidas com fio de algodão, similhante á mitra -de que acabamos de fallar.</p> - -<p>Nos rins usam de uma roda de pennas da cauda de ema,<a id="Nanchor_15" href="#Note_15" class="fnanchor">[15]</a> -presa por dois fios d’algodão, tinctos de vermelho, cruzando-se -pelos hombros a maneira de suspensorios, de sorte que<span class="pagenum"><a id="Page_22"></a>[22]</span> -ao vel-os emplumados, dir-se-hia que são emas, que só tem -pennas nestas tres partes do corpo.</p> - -<p>Na verdade, quando os vejo assim lembro-me do que antigamente -disse Job no cap. 39. <i>Penna struthionis similis -est pennis Erodii et Accipitris</i>: a penna de ema é igual a da -garça real e do gavião: esta passagem é claramente explicada -por diversas licções ou versões dos Gregos e dos Romanos, -que tinham por costume apresentarem os coroneis -aos capitães e soldados pennas d’ema para collocarem em -seos capacetes e morriões afim de animal-os á guerra.</p> - -<p>Quiz saber por intermedio do meu interprete porque traziam -sobre os rins estas pennas de ema: responderam-me, -que seos paes lhes deixaram este costume para ensinar-lhes -como deviam proceder na guerra, imitando a ema, pois quando -ella se sente mais forte ataca atrevidamente o seo perseguidor, -e quando mais fraca abre suas azas, despede o vôo -e arremessa com os pés areia e pedras sobre seos inimigos: -assim devemos fazer, accrescentavam elles. Reconheci este -costume da ema, vendo uma pequena, creada na aldeia de -<i>Vsaap</i>, que era perseguida diariamente por todos os rapasinhos -do lugar: quando eram só dois ou tres, ella os accommettia, -e dando-lhes com o peito, atirava-os por terra, porem -quando era maior o numero preferia fugir.</p> - -<p>Estou certo, que muitas pessoas se admirarão, não só do -que acabo de dizer, mas tambem como é possivel buscarem -estes selvagens, meios de governarem-se entre as praticas -animaes: si se lembrarem porem que o conhecimento das -hervas medicinaes foi ensinado aos homens pela cegonha, -pela pomba; pelo viado e pelo cabrito; que a maneira de -fazer a guerra e postar sentinellas foi colhida das aves chamadas -grous; que a bondade do estado monarchico foi a -principio observado entre as abelhas; que os architectos com -as andorinhas aprenderam a fazer abobadas; que o proprio -Jesus-Christo nos mandou observar o milhafre, o abutre, a -aguia e o pardal, desapparecerá a admiração, e especialmente -si acreditarem, que estes selvagens imitam com a maior<span class="pagenum"><a id="Page_23"></a>[23]</span> -perfeição possivel os passaros e animaes do seo paiz, o que -elles exaltam nos cantos que recitam em suas festas.</p> - -<p>Por que nos passaros de sua terra predominam as cores -verde-gaio, vermelho e amarello elles gostam de pannos e -vestidos destas tres cores.</p> - -<p>Por que as onças e os javalis são os animaes mais ferozes -do mundo, elles arrancam os seos dentes e os trazem -nos labios e orelhas afim de parecerem mais terriveis.</p> - -<p>As pennas das armas são postas nas extremidades dos -arcos e das flexas.</p> - -<p>Assim preparados bebem publicamente o vinho de <i>muay</i>, -e dizem adeos aos que ficam.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_VIII">CAPITULO VIII</h3> - -<p class="subhead">Partida dos francezes para o Amazonas em companhia -dos selvagens.</p> - -</div> - -<p>Antes que entre na materia, convem narrar o que me -disseram os selvagens relativamente á verdade da existencia -das Amazonas, porque é questão de todos os dias se -n’esses lugares ha Amazonas, e si são similhantes ás descriptas -pelos historiadores?</p> - -<p>É voz geral e commum entre os selvagens, que ha Amazonas, -e que habitam n’uma ilha muito grande, cercada pelo -grande rio do <i>Maranhão</i>, ou das <i>Amazonas</i>, que desembocca -no mar por um espaço de 50 legoas de largura: que -essas Amazonas foram antigamente mulheres e filhas dos -<i>Tupinambás</i>, que se retiraram da companhia e do dominio -d’elles—seduzidas e guiadas por uma d’ellas: que internando-se<span class="pagenum"><a id="Page_24"></a>[24]</span> -pelo paiz ao longo d’esta costa, descobriram á final -uma linda ilha, ahi se recolheram, e em certas estações do -anno acceitam por companheiros os homens das habitações -mais proximas.</p> - -<p>Si párem um menino pertence ao pae, que d’elle cuida -logo depois de desmamado: si porem é uma menina fica -com a mãe em casa. Eis a voz geral e commum.</p> - -<p>N’um dia, quando os francezes andavam n’esta viagem, -fui visitado por um grande Principal, que morava muito -acima n’este rio. Depois dos seos cumprimentos, que descreverei -mais adiante, me disse morar nas ultimas terras -dos Tupinambás, e que só em duas luas podia voltar do rio -<i>Maranhão</i> á sua aldeia, e então lhe respondi admirando-me -do trabalho que tomou vindo de tão longe. Replicou-me -«fui ao Pará vêr meos parentes, quando foram os francezes -guerrear nossos inimigos, e ouvindo fallar de vós e dos outros -Padres, quiz vel-os pessoalmente para dar noticias certas -aos meos companheiros.»</p> - -<p>Por intermedio do meo interprete lhe perguntei si sua -residencia era muito longe da das <i>Amazonas</i>, e elle respondeo-me -«uma lua,» isto é, um mez para ir.</p> - -<p>Repliquei-lhe, si tinha estado entre ellas, e si as tinha -visto, e respondeu-me «que nem uma coisa nem outra», -pois nas canoas de guerra, onde andou, se desviou da ilha -onde ellas residiam.</p> - -<p>Esta palavra <i>Amasonas</i> lhes foi imposta pelos portuguezes -e francezes<a id="Nanchor_16" href="#Note_16" class="fnanchor">[16]</a> pela similhança, que ellas tinham com as -antigas <i>Amazonas</i> por causa de sua separação dos homens; -porem não cortam a mama direita, e nem imitam a coragem -d’essas afamadas guerreiras, mas vivem como as outras -mulheres selvagens, ageis e dextras no manejo do arco, e -nuas se defendem dos seos inimigos, como podem.</p> - -<p>No dia 8 de julho de 1613 do porto de Santa Maria do -Maranhão, partio o Sr. Ravardiere ao som de muitos tiros -de artilharia e mosquetaria, com que o saudou o Forte de -S. Luiz segundo é costume entre os militares.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_25"></a>[25]</span></p> - -<p>Levou em sua companhia 40 soldados valentes, e 10 marinheiros, -e por cautella tambem 20 dos principaes selvagens, -tanto da Ilha do Maranhão e de Tapuytapera, como de Cumã.</p> - -<p>Seguio para Cumã<a id="Nanchor_17" href="#Note_17" class="fnanchor">[17]</a> onde o esperavam muitas canoas -de indios, e provendo-se de farinha seguio para <i>Caieté</i> onde -haviam 20 aldeias de <i>Tupinambás</i>, e ahi se demorando -mais de um mez, reforçou a tripolação de sua embarcação -com mais 60 escravos que lhe deram.</p> - -<p>No dia 17 de agosto partio de <i>Caieté</i> com muitos habitantes -d’essa localidade, e dirigio-se para a aldeia <i>Meron</i>, onde -em grandes canoas embarcou selvagens e francezes, e seguio -para a embocadura do rio <i>Pará</i>: em viagem morreo -afogado um francez por ter se virado a canoa em que elle -ia, porem salvaram-se seos companheiros trepados no dorso -da mesma.</p> - -<p>O rio Pará desde a sua emboccadura para cima é muito -povoado de Tupinambás; chegando á ultima aldeia, situada -á 60 legoas da sua emboccadura, todos os principaes d’esses -lugares lhe pediram com instancia, que fosse guerrear os -<i>Camarapins</i>,<a id="Nanchor_18" href="#Note_18" class="fnanchor">[18]</a> os quaes são muito ferozes, não querem -paz, e por isso não poupam seos inimigos, pois quando os -captivam, matam-nos e comem-nos: poucos dias antes tinham -matado tres filhinhos d’um dos principaes dos Tupinambás -d’aquellas regiões, e guardaram os ossos d’elles para mostrar -aos paes afim de causar-lhes mais dó.</p> - -<p>Este exercito de francezes e de Tupinambás, em numero -de 1200, sahio do <i>Pará</i>, entrou no rio de <i>Pacajares</i>, d’ahi -dirigio-se ao de <i>Parisop</i>,<a id="Nanchor_19" href="#Note_19" class="fnanchor">[19]</a> onde encontraram <i>Vuacété</i> ou -<i>Vuac-Uaçú</i>, que simpathisando com este movimento offereceo -para reforçal-o 1200 dos seos companheiros.</p> - -<p>Acceitou-se apenas um pequeno numero de selvagens, que -elle mesmo acompanhou, e os encaminhou ao lugar, onde -residiam os inimigos, o qual era nas <i>Iuras</i>,<a id="Nanchor_20" href="#Note_20" class="fnanchor">[20]</a> que são casas -feitas á imitação das «<i>Ponte aux changes</i>,» de S. Miguel de -Paris, collocadas no cume de grossas arvores plantadas -n’agoa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_26"></a>[26]</span></p> - -<p>Foram immediatamente cercados pelos nossos, que os saudaram -com 1000 ou 1200 tiros de mosquetaria em tres horas: -defenderam-se porem elles valorosamente de sorte que -sobre os nossos cahiam as flexas como chuva ou saraiva, -ferindo alguns francezes e Tupinambás, porem não matando -um só.</p> - -<p>Sobre alguns dispararam-se tiros de morteiro, e de canhão, -incendiaram-se-lhes tres <i>Iuras</i> morrendo n’essa occasião -60 indios d’elles, o que somente servio para mais augmentar-lhes -o desespero pois antes queriam morrer do que -cahir nas mãos dos Tupinambás.</p> - -<p>Á vista d’isto resolveo-se abandonal-os com intenção de -ver, si n’outra occasião, tratados com doçura podiam ser -domesticados.</p> - -<p>Durante o medonho combate dos mosqueteiros, usaram os -selvagens d’uma traça singular pendurando os seos mortos -no parapeito de suas <i>Iuras</i>, e por meio de uma corda de -algodão amarrada aos pés faziam com que elles se mexessem.</p> - -<p>Pelas fendas ou frestas viam os francezes estes corpos, e -julgando-os vivos contra elles faziam fogo tres e quatro vezes -a ponto de ficarem despedaçados, o que provocava os -gritos e zombarias d’estes canalhas, e somente terminou-se -esta triste scena quando uma mulher acenando com um pano -branco á maneira dos parlamentares, fez com que cessasse o -fogo, e então ella gritou «<i>Vuac, Vuac.</i>» Porque trouxeste -estas boccas de fogo, (fallava dos francezes por causa da luz, -que sahia das caçoletas de suas armas) para arruinar-nos, e -destruir a terra?</p> - -<p>«Pensas contar-nos no numero dos teos escravos, eis os -ossos dos teos amigos e dos teos alliados, cuja carne comi, -e ainda espero comer a tua e a dos teos.»</p> - -<p>Pelos interpretes se lhe disse, que se entregasse afim de -salvar o resto, que havia.</p> - -<p>Não, não, respondeo ella, nunca nos entregaremos aos -<i>Tupinambás</i>, elles são traidores. Eis aqui os nossos principaes,<span class="pagenum"><a id="Page_27"></a>[27]</span> -que morreram victimas d’essas boccas de fogo de -gente, que nunca vimos: si fôr necessario morreremos todos, -voluntariamente, como fizeram nossos grandes guerreiros. -Nossa nação é grande, e ahi fica para vingar nossa -morte.</p> - -<p>Um dos seos principaes veio n’uma canoa collocar-se á -frente do nosso exercito, trazendo n’uma das mãos um feixe -de flexas, e na outra o arco, disse: «Vinde, vinde ao combate, -nada tememos, somos valentes, e eu só por mim atravessarei -a muitos.»</p> - -<p>Chegando-se porem muito perto dos nossos soldados, um -d’elles acertou-lhe com uma balla na testa, que o atirou n’agoa -ja morto.</p> - -<p>Eram tão dextros no manejo das flexas, que atirando-as -ao ar vinham cahir na galeota, onde estavam nossos soldados, -e nas canoas dos indios, ferindo muitos.</p> - -<p>Por isto avaliareis a coragem d’estes selvagens, maus somente -pela naturesa.</p> - -<p>O que seriam si fossem policiados, ou conduzidos e instruidos -pela disciplina militar?</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_IX">CAPITULO IX</h3> - -<p class="subhead">Do que aconteceu na Ilha durante esta viagem, e -principalmente das astucias de um selvagem -chamado Capitão.</p> - -</div> - -<p>Em quanto uma parte dos nossos francezes, e muitos dos -principaes selvagens estavam no Pará e em suas circumvisinhanças<span class="pagenum"><a id="Page_28"></a>[28]</span> -passaram-se na Ilha muitas coisas notaveis, que -contarei nos seguintes capitulos.</p> - -<p>Tratarei em primeiro lugar de um indio agradavel e astucioso -intitulado Capitão,<a id="Nanchor_21" href="#Note_21" class="fnanchor">[21]</a> irmão da mãe de um principal, -muito amigo dos francezes, chamado <i>Ianuaravaête</i>, que quer -dizer <i>cão grande</i> ou <i>cão furioso</i>.</p> - -<p>Este Capitão astuciosamente aproximou-se de nós, dizendo -por intermedio do interprete, que desejava ser christão, -aprender a ler, e a escrever, fallar francez e fazer cortesias, -gestos e ceremonias dos francezes.</p> - -<p>Acreditaram nas suas palavras, e alguns até cercaram-lhe -de muitas attenções.</p> - -<p>Passou alguns mezes em nossa visinhança, e mostrando-se -com desejos de ter vestidos como os nossos paramentos -sagrados, com os quaes diziamos missa; por sua mulher nos -mandou pedir, o que negamos.</p> - -<p>Não nos deixou por esta recusa, porem algum tempo depois, -disfarçando muito bem seo descontentamento, ia á sua -aldeia e voltava, até que poude espalhar pela <i>Ilha</i> o boato -de que os francezes pretendiam escravisar os Tupinambás, -e por tanto que era necessario fugir e abandonal-os.</p> - -<p>Alguns acreditaram, e por isso deixaram suas aldeias e -foram para outras, onde podessem fugir com mais prestesa -si assim fosse necessario.</p> - -<p>Julgou chegada a occasião de se fazer valer entre os seos: -pois tinha extremo desejo de ser grande, e não podia chegar -a sel-o, porque fogem as honras d’aquelles que as procuram -com methodo, o que vemos em todas as condicções, -e foi este o seo fim e intenção quando de nós se aproximou, -servindo-se de nosso concurso para realisar seo desideratum, -visto o ambicioso nada poupar, nem mesmo as coisas sagradas, -para obter o que deseja.</p> - -<p>Principiou visitando as aldeias da Ilha, onde desconfiava -ter descontentes, e ahi nas cabanas e na <i>casa-grande</i>, costumava -batendo nas coxas grandes palmadas, harengar assim—<i>Ché, -Ché, Ché, auaête. Ché, Ché, Ché. Pagy Uaçú, Ché,<span class="pagenum"><a id="Page_29"></a>[29]</span> -Ché, Ché, Aiuka pais &</i>: quer isto dizer, eu, eu, eu, sou furioso -e valente. Eu, eu, eu, sou um grande feiticeiro. Fui -eu, fui eu, fui eu que matei os Padres, etc. Fiz morrer o -Padre, que está enterrado em <i>Yuiret</i>, onde mora o <i>Pay -Uaçú</i>, o grande Padre a quem reenviei todos os males, que -tem causado,<a id="Nanchor_22" href="#Note_22" class="fnanchor">[22]</a> e a quem matarei como o outro.</p> - -<p>Atormentarei os Francezes com molestias, e lhe darei tantos -bixos nas pernas e nos pés, que elles se verão na necessidade -de regressar a sua patria. Farei morrer suas plantações -e assim morrerão de fome: já com elles morei, comi -com elles muitas vezes, e vi o que praticavam quando serviam -a <i>Tupan</i>, e reconheci que nada sabiam á vista de nós -outros <i>Pagés</i>, feiticeiros.</p> - -<p>Á vista disto não devemos temel-os, saiamos, quero caminhar -na frente, porque sou forte e valente.</p> - -<p>Perto de dois mezes gastou elle percorrendo assim a Ilha -sem que de nada soubessemos, porque quando os negocios -são secretos e de interesse publico, não são descobertos -como acontece quando se trata de utilidade particular.</p> - -<p><i>Japy-açú</i> o reprehendeo e mui acremente por estes discursos, -bem como <i>Piraiuua</i>; porem seo irmão o <i>Cão-grande</i> -o denunciou, e alem d’isso pedio licença para ir em pessoa -agarral-o e prendel-o.</p> - -<p>Chegaram promptamente estas noticias aos ouvidos de <i>Capitão</i>, -que começou a tremer como si tivesse febre, e não -dizia mais <i>Ché auo-êtê</i>, nem <i>Ché Pagi uaçú</i>, ou <i>Ché Aiuca -Pay</i>, porem ao contrario diante dos seos, tremendo de medo, -dizia: «<i>Ché assequegai seta, ypocku Tupinambo, ypocku -decatugué: giriragoy Topinamho giriragoy seta atupaué: -ypocku ianuara vaeté, ypocku decatugné giriragoy ianuara -vaeté giriragoy seta atupaué</i>.»</p> - -<p>Ah! que medo tenho, oh! quanto são malvados os Tupinambás, -perfeitos malvados:<a id="Nanchor_23" href="#Note_23" class="fnanchor">[23]</a> mentiram os <i>Tupinambás</i>, -mentiram muito e muito: o <i>Cão grande</i>, é um malvado, malvado -completo: mentio o <i>Cão-grande</i>, mentio tambem muito -e muito, etc. Nada disto eu disse, não causei a morte do<span class="pagenum"><a id="Page_30"></a>[30]</span> -Padre, não disse que queria fazer morrer o Padre-grande, e -nem que lhe dei molestias.</p> - -<p>Tambem não disse, que quero atormentar os Francezes, -e fazer seccar suas plantas, porque não sou e nem fui feiticeiro, -e assim quero ser filho dos Padres, quero voltar e trabalhar -para elles, e si os deixei foi para colher meo milho: -quero ir ja onde está o Padre-Grande, levar-lhe o meo milho, -o meo peixe, e a minha caça, e dar-lhe um dos meos -escravos para apaziguar o chefe dos francezes afim delle não -crer no <i>Cão grande</i>, que sempre me quer mal embora eu -seja seo irmão: muitas vezes me quiz matar, e si o <i>Muruuichaue</i>, -quer dizer o «Principal dos Francezes» lhe der uma -vez ordem de prender-me, elle me matará sem duvida alguma.</p> - -<p>Por estas palavras conhecereis a indole d’estes selvagens, -que não dizem a verdade quando necessitam defender-se.</p> - -<p>Este miseravel <i>Capitão</i>, fugio e escondeo-se nos mattos, -e depois foi para uma aldeia chamada <i>Giroparieta</i>, quer -dizer <i>aldeia de todos os diabos</i>, ao pé da praia, e d’ahi enviou-me -um dos seos parentes pedir-me paz, e que obtivesse -do Maioral o seu perdão.</p> - -<p>Mandou-me um seu escravo forte e robusto, bom pescador, -e caçador: elle, sua mulher e mais pessoas da familia, -me vieram ver, trazendo-me milho, peixe, e caça, e tanto -elle como sua mulher muito fallaram para me persuadir de -que eu não devia crer o que se dissesse d’elle, chamando -os <i>Tupinambás</i> e o <i>Cão-grande</i>,—mentirosos e outros nomes -feios, asseverando que era bom amigo, que desejava -ser christão, e que si o Maioral, e eu tambem nos esquecessemos -de tudo, elle e sua mulher regressariam contentes.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_31"></a>[31]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_X">CAPITULO X</h3> - -<p class="subhead">Da chegada de uma barca portugueza á Maranhão.</p> - -</div> - -<p>Quando menos pensavamos, achando-se a Ilha sem indios -e sem francezes, por terem aquelles ido viajar pelo Amazonas, -e estes pela segunda vez ao <i>Miary</i>, de que brevemente -trataremos, por espaço de um mez fomos incommodados -com mil noticias, ora de selvagens residentes perto -do mar, ora de francezes moradores nos fortes, que diziam -ter ouvido tiros de peça para o lado da costa da pequena -<i>Ilha de Santa Anna</i>, e da de <i>Tabucuru</i>,<a id="Nanchor_24" href="#Note_24" class="fnanchor">[24]</a> e ter visto tres -navios velejando ao redor da Ilha, eis que se apresentou -uma barca, commandada por um capitão portuguez, chamado -Martin Soares.</p> - -<p>Vinha da Ilha de Santa Anna, onde tinha desembarcado, -tomado posse d’ella para o Rei Catholico, plantado uma -grande Cruz, e levantado um marco com uma inscripção, -de que logo fallaremos.</p> - -<p>Andou este navio por todo o porto de Caurs, saltando sua -tripulação sempre que lhe approuve para vêr e escolher -lugares proprios á plantação de canas e ao fabrico do assucar, -especialmente no lugar chamado <i>Ianuarapin</i>, onde -foi erguida uma Cruz com o fim de crear-se uma bella habitação -de portuguezes, e construir-se muitos engenhos de -assucar.</p> - -<p>Approximaram-se depois da enseiada de Caurs, uma das -entradas da Ilha, onde depois da sua vinda, se edificaram -dois bellos fortes afim de impedir o desembarque.</p> - -<p>Elles davam alguns tiros de peça para chamar os selvagens -da Ilha: nenhum lá foi, menos o Principal de <i>Itaparis</i>, -suspeito por traidor: perguntaram-lhe muita coisa, e ignora-se -o que respondeo: deram-lhe machados e fouces, e depois -veio para a Ilha.</p> - -<p>Os portuguezes traziam comsigo os indios <i>Canibaes</i>,<a id="Nanchor_25" href="#Note_25" class="fnanchor">[25]</a> -moradores em <i>Mocuru</i>, e parentes de outros do mesmo<span class="pagenum"><a id="Page_32"></a>[32]</span> -nome refugiados em Maranhão, os quaes elles mandaram á -terra para tomar conhecimento, e informações, si na Ilha -haviam muitos francezes, si estavam fortificados, e si tinham -canhões.</p> - -<p>Felizmente dirigiram-se aos <i>Tupinambás</i>, que lhes disseram -não haver na Ilha um só francez, um só forte, um -só navio, barca, nem canhão, e com tal segurança principiaram -a comer, e os Tupinambás mandaram immediatamente -ao forte de S. Luiz contar tudo isto.</p> - -<p>Expedio-se logo uma barca, bem esquipada, com o fim -de prender os portuguezes; porem aconteceo, que um traidor -<i>Canibal</i>, inimigo rancoroso dos francezes, e a quem -já se tinha muitas vezes perdoado castigos, em que havia -incorrido, sabendo da noticia da vinda dos outros, foi procural-os -furtivamente, e em segredo lhes disse—«que fazeis -aqui, fugi depressa para o mar, regressae ao vosso navio, -porque os francezes tem na Ilha um bello forte, canôas, navios, -e canhões.»</p> - -<p>Mal ouviram isto, levantaram-se ás pressas, e disseram -aos seos hospedes <i>Tupinambás</i>, que os divertiam—Ah! -maus, enganaes vossos camaradas—e assim dizendo á passos -apressados foram com o traidor para a sua canôa, e -em breve chegaram a barca, ancorada n’uma enseiada -um pouco adiante.</p> - -<p>Vendo isto os portuguezes, desconfiaram logo que os francezes -estavam na Ilha, e que não deixariam de os perseguir, -e apenas tinham levantado ancoras, descobriram a -barca dos francezes, e estes a d’elles, apressaram-se a tomar -a dianteira dos portuguezes, navegando á bolina, muito -bem, quebrando os rolos d’agoa, pelos bancos d’area, pouco -pensando em encalhar comtanto que conseguissem apresional-a -do que lhes resultaria muita commodidade, visto -conhecer-se a intenção dos portuguezes, descoberta pela bôa -vontade dos...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_33"></a>[33]</span></p> - -<hr class="tb" /> - -<p class="noindent">... todas as Nações, e nós vemos por experiencia em varios -lugares da França, d’onde veio o proverbio—<i>chorar de -alegria</i>.</p> - -<p>Chegados ao Forte depois de descançarem como poderam, -conservaram-se serios e reservados sem entregarem-se -á vivacidade e impulso da curiosidade, e sendo a imperfeição -unica dos francezes o fazer tudo ás pressas, buscando -todos os meios de conseguir seos fins, foram elles ter com -o Maioral, aos quaes assim fallaram:</p> - -<p>«Conforme as noticias que déstes a dois dos nossos, escravos -entre os <i>Tupinambás</i>, para nos transmittirem fielmente -a respeito da tua vinda e da dos Padres n’estes lugares -afim de defender-nos dos <i>Peros</i>, e ensinar-nos a conhecer -o verdadeiro Deos, dar-nos machados e outras ferramentas -para facilitar a nossa vida, fallamos n’isto em muitas -reuniões, e recordando-nos de que os francezes sempre -nos fôram fieis, vivendo em paz comnosco, e acompanhando-nos -á guerra, onde alguns morreram, todos os meos similhantes -mostraram-se contentes e resolveram, de combinação -com o nosso chefe, obedecer-te e em tudo fazer-te a -vontade: eis porque me mandaram expressamente afim de -pedir-te alguns francezes para acompanhar-nos e guardar-nos -até voltarmos do lugar, por ti indicado.»</p> - -<p>Respondeo-se-lhe com palavras de amisade, e que se lhes -daria os francezes.</p> - -<p>Sahindo d’ahi foram procurar-me em minha casa, onde -tambem me exposeram a sua missão, de que fallarei quando -for occasião.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_34"></a>[34]</span></p> - -<p>Pediram-me o meu pequeno interprete para ir com elles -assegurar ao <i>Thion</i>, seo chefe, e a todos os seos companheiros, -que eu os receberia como filhos de Deos, e que podiam -vir afoitamente confiados na protecção dos Padres.</p> - -<p>Acompanhados por muitos francezes e pelo meo interprete, -a quem dei algumas imagens como mimos, a <i>Thion</i>, elles -embarcaram para o Mearim em busca de suas casas.</p> - -<p>Foram recebidos com muitos applausos, choros, lagrymas, -e danças de dia e de noite.</p> - -<p>Prepararam vinhos em abundancia, presentearam os francezes -com muitos porcos do matto e outras caças, e offereceram-lhes -muitas raparigas das mais bonitas, o que regeitaram -dizendo que Deos não queria, e que os Padres prohibiam, -e se quizessem agradar os Padres, quando fossem -para a Ilha, deviam levar Cruzes para expellir o <i>Giropary</i><a id="Nanchor_26" href="#Note_26" class="fnanchor">[26]</a> -do meio d’elles: assim o disseram, assim o fizeram, plantando -muitas Cruzes, em varios lugares na frente de suas -casas, como ainda hoje se vê, e que ficaram como prova de -habitação antiga, d’onde foram chamados para ir á outra -terra, já illuminada pelo conhecimento de Deos, e enriquecida -com os Sacrosantos Sacramentos da Igreja, como aconteceo -outr’ora com a nação do povo de Israel, que sahio do -Egypto em busca da terra da Promissão.</p> - -<p>Dispostas estas coisas, cada um cuidou em arrumar-se e -fazer sua colheita, destruir as roças, e preparar bom farnél, -pois deviam em pouco tempo deixar e abandonar este lugar: -indagavam muito de varias coisas tendentes á sua salvação, -e eram satisfeitas as suas perguntas.</p> - -<p>Aproveitaram-se os Francezes da occasião e facilidade, que -lhes offerecia para conquistar a nação proxima de indios inimigos, -da aldeia de Thion, e causava pena ouvil-os dizer, -que haviam comido a muitos, porque eram mais fortes, tinham -maior numero de aldeiamentos e de homens, e o Principal -d’elles, chamado <i>Farinha-grossa</i>, valente na guerra, -alegre, e muito propenso ao Christianismo, como fallaremos -n’outro lugar, dizia com garbo, «si eu quizesse comer os<span class="pagenum"><a id="Page_35"></a>[35]</span> -inimigos, não ficaria um só, porem conservei-os para satisfazer -minha vontade, uns após outros, entreter meo apetite, -e exercitar diariamente minha gente na guerra: e de que -serviria matal-os todos de uma só vez quando não havia -quem os comesse? Alem d’isto não tendo minha gente -com quem bater-se, se desuniriam, e separar-se-iam como -aconteceo á <i>Thion</i>.» Assim disse, porque antes estas duas -nações formavam uma só, morando juntas, em lugares longinquos -e distantes dos inimigos, contra os quaes podiam -exercitar-se na guerra, e apezar de tudo atacaram-se reciprocamente.</p> - -<p>Tal proceder confirma a bella maxima do Estado—quem -deseja conservar o interior em paz, deve empregar os sediciosos -fóra d’ahi, especialmente contra os inimigos da fé, -e fallando em sentido moral—quem quer salvár o coração -de todo o vicio e imperfeição deve resguardal-o das impressões -exteriores.</p> - -<p>Como condições de paz estabeleceo-se o esquecimento reciproco -de todas as injurias, mortes e banquetes com os corpos -dos inimigos: que devia revestir-se de paciencia quem -mais perdesse: que não devia havêr exprobrações de parte -á parte, e quando recolhidos a Ilha, morariam separados uns -dos outros, e todos seriam fieis aos Francezes.</p> - -<p>Chegada a occasião foram enviadas muitas canoas e barcos, -nas quaes vieram para a Ilha.</p> - -<p>Foram bem recebidos, o seo chefe <i>Thion</i> saudado com -cinco tiros de peça, e duas descargas de mosquetaria, passando -por meio de soldados francezes, dispostos conforme -as ceremonias da guerra, assim entrou no Forte, onde o Sr. -Pesieux e eu o acolhemos, e o condusimos á sua casa para -descançar.</p> - -<p>Em lugar proprio contarei o que elle nos disse.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_36"></a>[36]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XIII">CAPITULO XIII</h3> - -<p class="subhead">Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary.</p> - -</div> - -<p>Conversando familiarmente com esta nação, descubri muitas -de suas particularidades, e tambem outras, pertencentes -tanto á elles como á todos os <i>Tupinambás</i>, ainda não escriptas -por pessoa alguma, ou ao menos mencionadas sufficientemente, -e como são bellas e raras tractarei d’ellas mais -detidamente.</p> - -<p>Estes povos, antes de reunidos, eram chamados <i>Tabajares</i> -pelos Tupinambás.<a id="Nanchor_27" href="#Note_27" class="fnanchor">[27]</a></p> - -<p>Este nome é appelativo e commum para designar toda a -sorte de inimigos, e tanto assim é, que esta mesma nação -de <i>Tabajares</i> chamava os <i>Tupinambás</i> da ilha <i>Tabajares</i>, -<i>Topinambas</i>, embora pacificados e amigos. Os <i>Topinambas</i> -os chamavam <i>Mearinenses</i>, quer dizer vindos do <i>Miary</i>,<a id="Nanchor_28" href="#Note_28" class="fnanchor">[28]</a> -ou habitantes do <i>Miary</i>, assim como os Dinamarquezes, que -vieram occupar a Neustria, Provincia antiga e dependente da -Corôa de França, foram chamados Normandos, e sendo ella -conservada em homenagem pelos Reis de França, perdeo -seo antigo nome, e conservou o de Normandia.</p> - -<p>Os francezes os chamam <i>Pedras-verdes</i><a id="Nanchor_29" href="#Note_29" class="fnanchor">[29]</a> por causa de uma -montanha, não muito longe de sua antiga habitação, onde -se acham mui bellas e preciosas <i>pedras verdes</i>, dotadas de -muitas propriedades, especialmente contra doenças do baço, -e frouxo de sangue, e tambem me disseram haver ahi esmeraldas -muito finas: ahi hiam os selvagens buscar estas -pedras verdes tanto para collocal-as em seos labios, como -para negocio com as nações visinhas.</p> - -<p>Os <i>Tupinambás</i> e os <i>Tapuias</i> dão muito apreço a estas -pedras:<a id="Nanchor_30" href="#Note_30" class="fnanchor">[30]</a> vi por uma pedra para o beiço dar o valor de mais -de vinte escudos de mercadorias um <i>Tupinambá</i> á um <i>Miarinense</i>, -em nossa casa de São Francisco, no Maranhão.</p> - -<p>Um certo <i>Cabelo comprido</i> veio ter comnosco, ornado -com seos enfeites mais lindos, que consistiam em dois chifres<span class="pagenum"><a id="Page_37"></a>[37]</span> -de bodes, e quatro dentes de corça, muito cumpridos, -em vez de brincos, de que muito se orgulhava por havel-os -alcançado com industria, ao passo que era commum, especialmente -entre as mulheres, trasel-os de madeira, redondos, -muito toscos, e da grossura de dois dedos: calculae o -buraco, que fazem nas orelhas: a maior porem de suas ostentações -era uma destas pedras verdes, de comprimento, -pelo menos, de quatro dedos, bem redonda, o que me agradou -tanto á ponto de desejar trazel-a para a França. Perguntei-lhe -o que queria que lhe désse por esta pedra: respondeo-me, -«dê-me um Navio de França, carregado de machados, -de foices, de vestidos, de espadas e de arcabuses.»</p> - -<p>Outro Tupinambá, já muito velho, trazia uma pedra destas -em seo labio inferior: era oval e tão larga como o concavo -da mão, e como a tivesse trasido por muito tempo ahi, -sem nunca tiral-a, estava como que encaixilhada no seo -queixo, ja tendo a carne se dobrado sobre os bordos da pedra -e tomado a sua propria forma.</p> - -<p>Narrei tudo isto afim de demonstrar o valor destas pedras -verdes.</p> - -<p>Estes <i>Miarinenses</i> são ordinariamente de boa estatura, -bem conformados, e valentes na guerra: sendo bem guiados -não recuam e nem fogem como os outros Tupinambás, explicando-se -isto pelo facto de serem criados entre os combates, -sempre travados contra os portuguezes, aos quaes -atacaram outr’ora, escalaram suas fortalezas, tomaram suas -bandeiras e nunca mais abandonaram sua primeira habitação, -como nos contou <i>Thion</i>, seo Principal, quando veio do -Forte de São Luiz, se a falta de canhões não obrigasse os -francezes, que estavam com elles, a cederem á força e á superioridade -do numero dos portuguezes.</p> - -<p>Causa gosto ver o zelo e o cuidado, com que trazem as -espadas, que lhes dão os francezes, sempre a seo lado, sem -nunca tiral-as senão quando se deitam, e quando trabalham<span class="pagenum"><a id="Page_38"></a>[38]</span> -em suas roças, penduram-nas junto a si em algum ramo de -arvore, fazendo-me lembrar a historia de Nehemias, na reparação -dos muros de Jerusalem, quando os seos habitantes -trasiam n’uma das mãos as armas e na outra os instrumentos -do trabalho.</p> - -<p>Gostam muito de traser as espadas tão limpas como cristal, -e para isso as esfregam com areia fina e azeite de mamona, -amolam-nas repetidas vezes para estarem sempre cortantes, -aguçam as pontas, quando estão gastas pela ferrugem -muito commum na zona tórrida.</p> - -<p>Acostumam-se a bem manejal-as, fazendo marchas e contra-marchas, -á maneira dos suissos quando esgrimam.</p> - -<p>Alem de serem corajosos e bons soldados, trabalham muito -bem, e antes quero uma hora de tarefa d’elles do que um -dia dos <i>Tupinambás</i>.</p> - -<p>Seos Principaes trabalham tanto quanto os seos subordinados -de menor representação, porem o serviço está bem -regulado, porque ao romper do dia levantam-se, almoçam, -e depois vão elles mulher e filhos, conjunctamente, alegres -risonhos, cantando trabalhar em suas roças, e quando o sol -principia a chegar ao seo maior auge do calor, que é perto -das dez horas, deixam a lida, vão comer e dormir, e duas -horas depois do meio dia, quando o sol principia a declinar -voltam outra vez ao trabalho, onde se conservam até ao anoitecer.</p> - -<p>Os Principaes, que ordinariamente tem mesa franca, para -o que necessitam de roças maiores, preparam um <i>Cauin</i> -geral, e como todos partilham d’elle, se incumbem de cuidar -nas plantações, o que fazem com alegria n’uma ou -duas manhãs, e depois vão beber na casa d’aquelle para -quem trabalharam, bebendo cada um quando chega a sua -vez, e quando o acham bom o gabam com todas as suas -forças, compõem cantigas adequadas, que entoam ao redor -da casa ao som do <i>Maracá</i>, pronunciando estas ou outras -similhantes palavras: «oh! o vinho, o bom vinho, nunca<span class="pagenum"><a id="Page_39"></a>[39]</span> -elle teve igual; oh! o vinho, o bom vinho, nós o beberemos -á vontade, oh! o vinho, o bom vinho, n’elle não acharemos -preguiça.»</p> - -<p>Chamam o vinho preguiçoso quando não tem força bastante -para embriagal-os immediatamente, e que não lhes provocam -o vomito por mais que bebam.</p> - -<p>Tomam as raparigas parte n’esta festa, onde se dança e -canta-se á fartar, deitam-se os que se embriagam logo e raras -vezes apparecem questões: são alegres e agradaveis -n’essa occasião, especialmente as mulheres, que fazem mil -macaquices á ponto de provocarem grande hilaridade, até a -individuos mais tristes e melancolicos. Por mim confesso, -que nunca em minha vida me ri tanto como quando estas -mulheres altercavam umas com as outras, empunhando copos -de madeira cheios de vinho, bebendo ora um, ora outro, -fazendo muitas macaquices e tregeitos.</p> - -<p>Dão com muita facilidade o que mais presam, como sejam -suas filhas e suas mulheres, porque observei quando se cuidou -na segunda viagem do <i>Miary</i> que muitos <i>Tupinambás</i> -tanto da <i>Ilha</i> do Maranhão, como de Tapuitapera, foram de -proposito com os Francezes para pedirem filhas e mulheres -dos Miarinenses, o que facilmente obtiveram, como muitas -outras coisas, que só fazem estes povos, e por isso mesmo -muito caros e preciosos entre os Tupinambás.</p> - -<p>Tambem tem por costume, que igualmente observei entre -os Tupinambás, o trazerem assobios e flautas, feitos dos ossos -das pernas, coxas e braços de seos inimigos, dos quaes -arrancam sons fortes, agudos e claros, e ao som d’elles entoam -seos cantos usuaes, especialmente quando estão nos -<i>Cauins</i>, ou quando vão a guerra.</p> - -<p>As raparigas não se despresam em casar com velhos e -grisalhos, como praticam as dos <i>Tupinambás</i>, e sim antes -querem esposar um velho, especialmente quando é Principal, -e admirei-me, como coisa desagradavel, o vêr muitas -jovens, de quinze a deseseis annos, casadas com velhos, e o -contrario praticam as raparigas dos <i>Tupinambás</i>, as quaes<span class="pagenum"><a id="Page_40"></a>[40]</span> -passam a sua mocidade livremente, e depois acceitam um -marido.</p> - -<p>O que acabei de dizer, só tem por fim o mostrar a cegueira -das almas captivadas pelo espirito immundo, que não -se descuida de perdel-as por meio de suas traças.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XIV">CAPITULO XIV</h3> - -<p class="subhead">Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos -e como escravisam seos inimigos.</p> - -</div> - -<p>Estes povos, e não só elles, porem geralmente todos os -Indios do Brazil, tem por costume cortar o corpo, e recortal-o -tão lindamente, que os costureiros e alfaiates, embora -habeis em sua profissão, buscam imital-os no córte dos seos -vestidos.</p> - -<p>Este costume não é só privativo dos homens, e sim tambem -das mulheres, com a differença unica de que os homens -se cortam por todo o corpo, e as mulheres apenas -desde o umbigo até as coxas, o que praticam por meio de -um dente de <i>Cutia</i>, muito agudo, e uma especie de gomma -queimada, reduzida á carvão, applicada sobre a chaga, e -nunca se apagam os córtes.</p> - -<p>Digo de passagem e não para demorar-me, e sim apenas -para descubrir a origem deste antigo costume, que me parece -ser fundado pela naturesa, visto ser praticado, já ha -muitos annos, por nações civilisadas, cujo conhecimento por -falta de communicação não podia ter esta Nação barbara, -e assim inventou-o e d’elle usou.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_41"></a>[41]</span></p> - -<p>Soube d’estes selvagens, que duas razões os levam a -cortar assim seos corpos, uma significa o pesar e o sentimento, -que tem pela morte de seos paes, assassinados pelos -seos inimigos, e outra representa o protesto de vingança, -que contra estes promettem elles, como valentes e fortes, -parecendo quererem dizer por estes córtes dolorosos, que -não pouparam nem seo sangue e nem sua vida para vingal-os, -e na verdade quanto mais estigmatisados mais valentes -e corajosos são reputados, no que tambem são imitados -pelas mulheres de iguaes qualidades.</p> - -<p>Para mostrar a origem anterior d’este costume, não necessito -remontar-me ás historias profanas, no que seria prolixo, -e sim contentar-me-hei fazendo vêr em diversos trechos -das escripturas sanctas quanto Deos reprova este uso -barbaro e selvagem. No Levitico 19. <i>Super mortuo non incidetis -carnem vestram, nec figuras aliquas, aut stigmatas -facietis vobis.</i> Sobre a vossa carne não fareis incisões, figuras -ou signaes. No cap. 21. <i>Necque in carnibus suis facient -incisuras</i>: e não farão incisões na sua carne. No Deut. 14. -<i>Non vos incidetis, necfacietis calvitiem super mortuo.</i> No -morto não fareis incisões e nem cortareis os cabellos.</p> - -<p>Á respeito d’estas passagens interpretam os Padres, como -fazem os gentios e os idolatras, e de maneira notavel este -trecho—<i>não fareis incisões e nem cortareis os cabellos</i>, por -que se vêem juntas estas duas coisas, que os indios sempre -separam restrictamente: quanto á incisão, já sabeis o que -ella significa, mas quanto ao arrancamento do cabello ficae -sabendo, que apenas as mulheres e as moças sabem do captiveiro -ou morte na guerra dos seos Paes ou maridos, cortam -os cabellos, gritam e lamentam-se horrivelmente, excitando -seos similhantes á vingança, á tomar as armas e a -perseguir seos inimigos, como farei vêr quando narrar a -<i>Historia dos Tremembeses</i>.</p> - -<p>Dos escravos, que me deram n’aquelle paiz para trabalharem -á bem da minha subsistencia soube da maneira como -faziam prisioneiros e escravos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_42"></a>[42]</span></p> - -<p>N’um certo dia reprehendi a preguiça d’um d’elles, fórte -e valente, que me fora dado por um <i>Tupinambá</i>, e elle -para minha advertencia me deo a seguinte resposta, embora -branda (bem sei o que é necessario observar para com -esta nação, que as reprehensões consideram como chagas e -feridas, e aos castigos preferem a morte,<a id="Nanchor_31" href="#Note_31" class="fnanchor">[31]</a> e por esta forma -desejam antes morrer com honra, segundo dizem, no -meio das assembleias, como ja muito bem descreveo o Padre -Claudio d’Abbeville): eil-a «na guerra não me pozeste a -mão sobre a espadua,<a id="Nanchor_32" href="#Note_32" class="fnanchor">[32]</a> como fez aquelle que me deo a ti -para agora me reprehenderes.» Nasceo-me logo a curiosidade -de saber por intermedio do meu interprete o que elle -queria dizer, e então fiquei sciente de ser uma ceremonia -de guerra entre estas nações, quando um é prisioneiro do -outro, bater-lhe este com a mão sobre a espadua e dizer-lhe—faço-te -meo escravo—e desde então este infeliz captivo, -por maior que seja entre os seos, se reconhece escravo -e vencido, acompanha o vencedor, serve-o fielmente sem -que seo senhor ande vigiando-o, tendo liberdade para andar -por onde quiser, só fazendo o que fôr de sua vontade, e de -ordinario casa-se com a filha ou a irmã do seo senhor, e -assim vive até o dia em que deve ser morto e comido, o -que não se pratica mais em <i>Maranhão</i>, <i>Tapuitapera</i> e em -<i>Cumã</i>, e só raras vezes em <i>Caieté</i>.</p> - -<p>Estas nações me despertaram a lembrança do que li outr’ora -nos livros sagrados e na Historia dos Romanos, quando -procediam ao captiveiro dos prisioneiros, e para bem entender-se -bom é notar-se, que foram as ceremonias externas -inventadas para representarem com sinceridade as affeições -do interior: por exemplo, dobrar o joelho, beijar a mão, -descubrir a cabeça, quando saudamos alguem, que estimamos, -são outros tantos testemunhos de apreço interno em -que o temos: outr’ora as espadas tinham hierogliphos representando -o mysterio occulto das acções internas e externas -dos homens.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_43"></a>[43]</span></p> - -<p>Deixando de parte o que não serve ao meo fim contento-me -em referir os dois seguintes casos:—o sceptro apoiado -sobre a espadua significa o poder regio: a alabarda sobre a -espadua declara o poder dos chefes de guerra: as maças de -ouro e prata—o poder dos Senados e dos Pontifices: os machados -com ramos de parreira enroscadas—o poder dos -consulados e dos governadores das provincias. Observe-se o -que foi escripto por Isaias cap. 9. <i>Factus est Principatus -super humerum ejus</i>, seo dominio foi posto sobre sua espadua, -e no cap. 22. <i>Dabo clavem domus Davis super humerum -ejus</i>, e porei a chave da casa de David sobre sua -espadua, quer dizer o—sceptro de David.</p> - -<p>Ao contrario, pôr uma canga, como trazem os bois ou cavallos -quando no trabalho, ou então passar debaixo de uma -lança, atravessada sobre duas outras fixadas perpendicularmente, -ou receber sobre a espadua nua uma vergastada era -o signal da escravidão, como muito bem o patenteiou Isaias, -cap. 9. <i>Jugum oneris ejus et virgam humeris ejus, et sceptrum -exactoris ejus superasti</i>: venceste o jugo do teu fardo -e a vara de sua espada, o sceptro do seu exactor, fallando -do captiveiro da Gentilidade, libertada pelo Salvador: -assim tambem estes selvagens batendo sobre o hombro de -seus prisioneiros, significavam serem elles seos captivos, e -na verdade encontro uma bella profecia, toda litteral, narrando -esta desgraça, á qual estão sujeitos estes pobres selvagens -de Chanaan, por juizo impenetravel da sabedoria divina, -e participação da antiga maldição de Channan, seo Pae: -é em Isaias, cap. 47—<i>Tolle molam, et mole farinam: denuda -turpitudinem tuam, discooperi humerum, revela -crura, transit flumina</i>, toma a mó, e móe a farinha, descobre -tua torpesa e tua espadua, mostra tuas coxas e passa o rio.</p> - -<p>Tomam estes selvagens a mó, e a farinha, não tendo ferramenta -alguma para trabalhar, quer nos bosques quer nas -roças, servem-se unicamente de machados de pedra para -cortar arvores, fazer suas casas e canoas, aguçar paus, cultivar<span class="pagenum"><a id="Page_44"></a>[44]</span> -a terra, semeiar, plantar raizes, e por unica recompensa -de seos trabalhos só comem farinha, e raizes passadas -por um rallador, feito de pedrinhas agudas, engastadas -n’uma taboa da largura de meio pé.</p> - -<p>Cosinham a farinha n’uma grande panella de barro, ao -fogo, como amplamente está escripto na Historia do R. Padre -Claudio d’Abbeville.</p> - -<p>É tão patente sua torpesa, que suas mulheres e filhas, -embora honestas, sentem repugnancia de se vestirem. Trazem -o hombro descuberto, sujeito á este grande captiveiro, -commum a todas as nações. Mostram suas coxas, e a falta -de castidade está em uso entre elles sem reprovação, menos -o adulterio.</p> - -<p>Passam rios buscando ilhas incognitas atraz de segurança.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XV">CAPITULO XV</h3> - -<p class="subhead">Leis do Captiveiro.</p> - -</div> - -<p>Já que estamos fallando dos escravos bom é tratar das -leis do captiveiro, isto é, das que devem guardar os escravos.</p> - -<p>Primeiramente não devem tocar na mulher do seo senhor, -sob pena de serem flexados logo, e a mulher morta ou pelo -menos bem açoitada, e entregue a seos Paes, resultando-lhe -muita vergonha de ser companheira de um dos seos servos.</p> - -<p>Notae, que as raparigas não são despresadas por se entregarem -a quem muito bem lhes parece em quanto solteiras, -logo porem que recebem um marido, si se entregam a<span class="pagenum"><a id="Page_45"></a>[45]</span> -outro, alem da injuria de serem chamadas <i>Patakeres</i>, quer -dizer, prostitutas, tem seos maridos o poder de matal-as, -açoital-as e repudial-as.</p> - -<p>É bem verdade terem os francezes abrandado esta lei tão -rude, não dando permissão aos maridos de matar tanto o escravo -como a mulher adultera, ordenando que fossem conduzidos -ao Forte de São Luiz para vêr punil-as, ou elle mesmo -infringir-lhes o castigo, como vi acontecer, entre outros factos, -no adulterio commettido entre a mulher do Principal <i>Uyrapyran</i>, -e um escravo, bonito rapaz.</p> - -<p>Tinha o referido escravo muito amor a esta mulher, e depois -de ter cogitado todos os meios de gosal-a, vio-a ir um -dia á fonte, muito longe da aldeia, foi logo atraz expôr-lhe -sua vontade, e depois agarrando-a com violencia entranhou-se -com ella n’um bosque, onde saciou seos desejos, e como -ella era de boa familia não quiz gritar para não ser diffamada, -e ainda em cima pedio segredo ao escravo.</p> - -<p>Enfadado o marido com a grande demora da mulher, e -desconfiando de alguma cousa por ser bonita e agradavel, -foi á fonte, onde encontrou junto a borda o pote de sua -mulher cheio d’agoa, e lançando a vista ao redor, como -costumam a praticar os homens ciumentos, vio sahir sua mulher -de um lado do bosque e o escravo de outro. Agarrou -o escravo pelo colleirinho, e confiou-o à guarda dos seos -amigos, e levou sua mulher para casa de seos paes, que se -comprometteram a entregal-a quando pedisse.</p> - -<p>Na manhã seguinte, em companhia dos seos, levou este -escravo á minha casa, expondo-me o facto como acima referi, -acrescentando que si não fosse o respeito ás recommendações -dos Padres e dos Francezes, elle teria matado o -escravo, perdoando comtudo a sua mulher visto ter sido -forçada, a qual ja havia entregado a seos parentes com intenção -de repudial-a.</p> - -<p>Louvei a sua obediencia e respeito: era na verdade um -homem bem feito, de bonito rosto, e bom corpo, fallando<span class="pagenum"><a id="Page_46"></a>[46]</span> -bem e em bons termos, mostrando tanto nas maneiras como -no corpo, generosidade e nobresa de coragem.</p> - -<p>Mandei-o á presença do senhor de Pezieux, loco-tenente -de Sua Magestade na ausencia do Sr. de la Ravardiere, -que tendo ouvido a queixa, mandou carregar de ferros os -pés do escravo, promettendo ao Principal fazer a justiça, -que elle quizesse.</p> - -<p>Replicou-lhe o Principal que desejava vel-o morto como -era costume: respondeo o senhor de Pezieux, que Deos tinha -ordenado em sua lei, que deviam morrer tanto o homem -como a mulher adultera.</p> - -<p>Sim, disse o Principal, porem ella foi constrangida.</p> - -<p>«Não, respondeo o senhor de Pezieux, a mulher não pode -ser forçada por um só homem, ou pelo menos deve gritar, -e não pedir segredo ao selvagem, o que é tacito consentimento:» -dizia tudo isto para salvar o escravo da morte, por -que muito bem sabia não concordar o Principal na morte -de sua mulher visto os muitos parentes que ella tinha.</p> - -<p>Conseguio-o logo, porque elle pedio ao Sr. de Pezieux, -que não matasse o escravo, mas sim que o prendesse na -golilha, e que lhe fosse permittido açoital-o á vontade.</p> - -<p>«Sim, disse-lhe o Sr. de Pezieux, com tanto que dês quatro -açoites com cordas em tua mulher, diante de todas as -mulheres, que se acharem no Forte, e ao som da corneta.»</p> - -<p>Acordes n’isto, na manhã seguinte, foi a mulher conduzida -e confrontada com o escravo, reconheceo-se que o facto -deo-se como ja referi, foram ambos conduzidos á praça publica -do Forte, onde se fincou o esteio e a golilha: ahi o -marido representou o papel de verdugo, escolheo tres ou -quatro cordas bem duras, que enrolou em seo braço, e voltou -em sua mão direita, e com ellas açoitou sua mulher por -quatro vezes, deixando-lhes vergões bem grossos e cumpridos, -impressos sobre seos rins, ventre e costas, não sem -derramar muitas lagrimas, que lhe corriam ao longo das<span class="pagenum"><a id="Page_47"></a>[47]</span> -faces, e sem exhalar profundos suspiros: sua mulher tambem -gemia, com a vista baixa, envergonhada de assim se vêr -rodeiada por tantas mulheres, que, como ella, tambem choravam -tanto por compaixão, como apprehensivas de que para -o futuro não lhes acontecesse o mesmo.</p> - -<p>Os homens ao contrario mostravam-se alegres diante de -tão boa justiça, e gracejando diziam á suas mulheres—<i>ah! -se te pilho!</i></p> - -<p>Durante todo o dia estiveram tristes as mulheres dos Tabajares.</p> - -<p>Depois de haver açoitado sua mulher, este bom marido -lhe disse «eu não tinha desejos de castigar-te, fiz o que -pude perante o Maioral dos Francezes para salvar-te, porem -vae, enchuga tuas lagrimas, e tornar-te hei a tomar por mulher, -e te levarei para casa quando acabar de castigar este -escravo.»</p> - -<p>Sabe Deos, se o pesar que elle teve pelos açoites, que -deo a mulher, melhorou a sorte do pobre escravo, porque -pondo-o na praça ou no largo, fez um circulo do tamanho -do seo chicote, separado todos, um por um.</p> - -<p>Tinha o escravo ferros nos pés, estava em pé, nu como -a palma da mão, e assim soffreu o castigo, sem dizer uma -palavra e sem mecher-se: por tres vezes cansado e sem -poder respirar descançou, depois de fortalecido recommeçou -e de tal maneira, que não poupou uma só parte do -corpo.</p> - -<p>Começou pelos pés, seguio pelas pernas, coxas, partes -naturaes, rins, ventre, espaduas, peito, e acabou pelo rosto -e testa.</p> - -<p>Esteve muito tempo doente por este castigo, sempre com -ferros nos pés, conforme pedio o Principal, porem passado -algum tempo consentio que lhos tirassem, á pedido do senhor -de Pezieux, que desejava satisfazer os desejos dos seos -Principaes para melhor obrigal-os a serem fieis aos Francezes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_48"></a>[48]</span></p> - -<p>Acabado isto, tomou conta da mulher, que já não chorava, -e sim principiava a rir-se, e assim voltaram para casa -como se nada tivesse acontecido.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XVI">CAPITULO XVI</h3> - -<p class="subhead">Outras leis para os escravos.</p> - -</div> - -<p>Consistem as outras leis, em não poderem os escravos, de -ambos os sexos, casarem-se senão á vontade dos seos senhores, -porque tanto uns como outros moram juntos e seos -descendentes pertencem ao mesmo domno.</p> - -<p>Os selvagens <i>Tupinambás</i> tomam ordinariamente para -mulher as raparigas captivas, e dão suas proprias filhas ou -irmans aos mancebos escravos afim de cuidarem no arranjo -da casa e da cozinha.</p> - -<p>Praticam o contrario os francezes, porque compram homens -e mulheres escravas para casal-os, ficando a mulher -com o dever de cuidar no arranjo da casa, e o marido com -o de ir pescar e caçar.</p> - -<p>Se acontece um francez comprar alguma rapariga escrava, -mostra-a a algum joven <i>Tupinambá</i>, que morre de amores -pelas que são bellas, depois promette-lhe que será seo genro -pois ama sua escrava como si fosse sua propria filha para -assim vir o <i>Tupinambá</i> morar com elle, casar com a rapariga, -e por esta forma ter por uma escrava dois escravos, a -quem trata por filha e genro, e elles o chamam seo <i>Cheru</i>, -isto é, seo Pae.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_49"></a>[49]</span></p> - -<p>As raparigas escravas, que não se casão, dispoem de si -como querem, si por ventura seos senhores não lhe prohibem -relações com certos e determinados individuos, porque -então em caso contrario soffrem muito; mas quando seos -senhores lhe impoem completa abstinencia, ellas lhe dizem -bem claramente, que então as tomem por mulheres visto -não querer, que alguem as ame.</p> - -<p>Devem os escravos trazer fielmente o resultado da sua -pescaria e caçada, e depôl-o aos pés do seo senhor ou -senhora, para elles escolherem e depois lhes darem o -resto.</p> - -<p>Não podem trabalhar para outrem sem consentimento do -seo senhor, e nem dar seo rebanho, que lhes deo o senhor, -sem lhe dizerem antes uma palavra, pois de outra forma -pode ser tomado como coisa, que não pertence legitimamente -aos escravos.</p> - -<p>Não devem passar atravez da parede das casas, somente -feita de <i>pindoba</i>, ou de ramos de palmeira, ao contrario -são criminosos de morte, porque devem passar pela porta, -commum, ou atravez da parede de palmas.</p> - -<p>Não devem fugir, porque quando são agarrados, está tudo -perdido, visto que são comidos: n’este caso já não pertencem -ao senhor, e sim a todos, e para este fim quando se -prende um escravo fugido, sahem da aldeia as velhas, vão -ao seu encontro, e gritando dizem «é nosso, entregae-nos, -queremos comel-o», e batendo com a mão na bocca, gritam -uns para os outros com certa expressão «nós o comeremos, -nós o comeremos, é nosso.»</p> - -<p>Vou dar-lhes um exemplo:</p> - -<p>Um guerreiro Principal da ilha do Maranhão, chamado -<i>Ybuira Pointan</i>,<a id="Nanchor_33" href="#Note_33" class="fnanchor">[33]</a> quer dizer, <i>Pau brasil</i>, ao regressar da -guerra trouxe comsigo alguns escravos, dos quaes um procurou -salvar-se pela fuga, porem sendo agarrado, foram as -velhas ao seu encontro batendo na bocca com as mãos, -e dizendo «é nosso, entregae-o, é necessario que seja comido».</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_50"></a>[50]</span></p> - -<p>Houve muita difficuldade em salval-o apezar da prohibição -de não se comerem os escravos, e si não se empregassem -ameaças, elle seria devorado pelas velhas.</p> - -<p>Si acontece morrerem de molestias estes escravos, sendo -assim privados do leito de honra, isto é, de serem mortos -e comidos publicamente, um pouco antes do seo fallecimento -levam-nos para o matto, lá partem-lhe a cabeça, espalham o -cerebro, e deixam o corpo insepulto e entregue a certas -aves grandes, similhantes aos nossos corvos, que comem -os enforcados e os rodados.</p> - -<p>Quando são achados mortos em seos leitos, atiram-nos em -terra, arrastam-nos pelos pés até o matto, onde lhes racham -a cabeça, como acima disse, o que ja não se pratica na Ilha -e nem em suas circumvisinhanças, senão raras vezes e occultamente.</p> - -<p>Gozam tambem de muitos privilegios, que os levam a residir -voluntariamente entre os <i>Tupinambás</i>, sem desejar fugir, -considerando seos senhores e senhoras como paes e -mães, pela docilidade com que os tratam cumprindo assim -seo dever; não ralham com elles e nem os offendem, não -os espancam, desculpam-nos em muita coisa contanto que -não offenda os seos costumes: são muito compadecidos, e -chegam a chorar quando os francezes tratam os seos com -aspereza, e si outros se lastimam do procedimento dos francezes -prestam-lhe todo o credito ao que dizem.</p> - -<p>Quando fogem dos francezes elles os occultam, levam-lhes -o sustento nos mattos, vão vesital-os, as raparigas vão -dormir com elles, contam-lhes o que se passa, aconselham-nos -sobre o que devem fazer, e de tal sorte que é muito -difficil agarral-os, embora vão atraz d’elles uns vinte homens, -e isto não fazem para com os escravos dos seos similhantes.</p> - -<p>Vem a proposito o contar que um dia perguntei a um dos -escravos, que tinha em meu poder, si não estava satisfeito -vivendo commigo, não só porque lhe ensinei a temer a Deos, -como tambem pela certesa, que tinha, de não ser comido,<span class="pagenum"><a id="Page_51"></a>[51]</span> -e que, quando christão, seria livre, morando com os padres -como si fosse filho d’elles.</p> - -<p>Pelo interprete respondeo-me julgar-se feliz por haver -cahido nas mãos dos Padres, tanto por conhecer á Deos -como por viver com elles, e si fosse para o poder de outro -chefe, não estaria socegado e nem descançado de não -ser comido, porque, acrescentava elle, quando se morre, -nada mais se sente, quer elles comam ou não, e o mesmo -para o morto: amofinar-me-ia de morrer na minha cama, -e não á maneira dos grandes no meio das danças e dos -<i>Cauins</i>, afim de vingar-me antes de morrer, dos que iriam -comer-me.</p> - -<p>Quando penso, que sou filho de um dos grandes do meo -paiz, que meo pae é homem moderado, que todos o cercavam -para escutal-o quando elle ia á <i>casa grande</i>,<a id="Nanchor_34" href="#Note_34" class="fnanchor">[34]</a> vendo-me -agora escravo, sem pintura no corpo, sem cocar, sem -enfeites nos braços, e nem nos pulsos, como acontece aos -filhos dos grandes das nossas terras, antes queria ser morto -especialmente quando me lembro, que fui agarrado ainda -menino, com minha mãe, lá na minha terra, e trazido para -<i>Comã</i>, onde vi matar e comer minha mãe, com quem desejei -morrer, porque ella me amava muito, e por isso não -posso senão lamentar minha vida.</p> - -<p>Proferindo estas palavras, chorou muito, a ponto de pungir-me -o coração, visto saber por experiencia quanto são -amorosos estes selvagens, para com seos paes, e estes para -com elles.</p> - -<p>Accrescentou, que depois de ter sido sua mãe morta e -comida, seo senhor e sua senhora o adoptaram por filho, e -elle os tratava por pae e mãe: quando fallava d’elles era -com affeição inexplicavel, embora tivessem comido sua propria -mãe, e ja fosse resolvido o comel-o tambem pouco tempo -antes de chegarmos á Ilha.</p> - -<p>Seo senhor e senhora tomavam o trabalho de vir vel-o -em nossa casa, embora fosse necessario vencer a distancia -de 50 legoas, desde sua aldeia até aqui.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_52"></a>[52]</span></p> - -<p>Gozam ainda de muitos outros privilegios, porque lhes é -permittido o namorar as raparigas livres, sem risco algum, -olhar mesmo para as raparigas de seo senhor e senhora, si -quizerem, e n’isto não ha muita recusa, comtudo ellas buscam -os mattos e em certas cabanazinhas os esperam em hora -marcada, para evitar pequeno remoque que costumam a -fazer das moças de boa raça, quando se entregam a escravos, -o que serve antes de riso do que de deshonra.</p> - -<p>Vão livremente aos <i>Cauins</i>, e dansas publicas, enfeitando -de mil maneiras o seo corpo quer com pinturas, quer com -pennas, quando podem, pois estas são muito caras.</p> - -<p>Vivem com os filhos de seos senhores, como si fossem -irmãos, e em breve tempo gozam muita liberdade no seo -captiveiro.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XVII">CAPITULO XVII</h3> - -<p class="subhead">Quanto são misericordiosos os selvagens para com os -criminosos por acaso e sem malicia.</p> - -</div> - -<p>Entre as perfeições naturaes que a experiencia me tem -mostrado n’estes selvagens, nota-se uma justa misericordia, -isto é, desejam a punição dos maus, quando por maldade -praticam algum crime, e ao contrario são compadecidos e -pedem misericordia para aquelles, que por acaso ou inadvertidamente -incorrem n’alguma falta, e isto vou provar á vista -do seguinte exemplo.</p> - -<p><i>Maioba</i> é uma grande aldeia, distante tres leguas do Forte -de São Luiz: o seo Principal é um bom homem, amado pelos -francezes, e veio fazer a nossa casa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_53"></a>[53]</span></p> - -<p>Tinha dois filhos fortes e robustos, ambos casados, e duas -filhas, uma casada e outra solteira, bonitas e engraçadas, -muito amadas por seo Pae e Mãe, de tal forma que eram -perdidos por ellas e o assumpto predilecto de suas conversações, -e guardavam a solteira para um francez quando voltassem -os navios, diziam elles, e que os francezes se resolvessem -a casar com indias.</p> - -<p>Fundava seos castellos e sua fortuna sobre um fragil barco, -similhante a aquella boa mulher, que tendo em suas -mãos o primeiro ovo de sua gallinha, sua imaginação ia levantando-a -até um principado, que d’ahi ha pouco cahio no -chão e inutilisou-se, e com elle foi-se toda a ventura esperada -por ella.</p> - -<p>Assim este homem não tendo outra consolação senão em -sua filha, poucos dias depois, por uma noite tão triste, <i>Geropary</i> -torceo o collo d’esta plantinha, virando-lhe a bocca -para as costas: coisa terrivel! estava negra como o diabo, -os olhos esbugalhados e revirados, a bocca aberta, a lingua -sahida para fóra, os labios superiores e inferiores revirados -á deixar vêr os dentes e as gengivas, o que poderia pela -tristesa e medo, que causava, matar a seos parentes.</p> - -<p>Nunca pude saber qual foi a causa d’isto, e apenas me -disseram que era infiel, e talvez vivesse deshonestamente, -porem nunca deo escandalo.</p> - -<p>Embora seo pae tivesse vendido sua filha mais velha á -algum francez para d’ella abusar, depois a tirou da companhia -do seo marido.</p> - -<p>Dizem os que se acham em peccado mortal, que elles estão -sob o dominio e posse do diabo, e o mesmo lhes aconteceria, -si Deos quizesse.</p> - -<p>Não foi só esta desgraça, porque uma arrasta outra comsigo, -e a primeira é embaixadora da segunda.</p> - -<p>Pouco tempo depois, este Principal fez uma festa de vinho -publicamente, e para isto convidou não só os habitantes -de sua aldeia, como tambem os da visinhança.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_54"></a>[54]</span></p> - -<p>Quando todos dançavam e cantavam, quando o vinho fervia -e muitos já se achavam embriagados, seos dois filhos, -de que ja fallei, travaram-se de razões, e o autor da questão -querendo agarrar seo irmão, por um acaso ferio-lhe no -ventre com um punhado de flechas, que este trasia pelo que -cahio logo banhado em sangue. Tiraram-se as flexas com -muita dor, como bem se calcula, o soffrimento fez desapparecer -o vinho, a festa ficou perturbada, as cantorias se -mudaram em gritos e lamentos, o vinho em lagrimas, -as dansas em espancamentos proprios e arrancamento de -cabellos.</p> - -<p>O infeliz pae, expectador de similhante tragedia, assentado -n’uma rede d’algodão, teve um desmaio, e cahio para -traz.</p> - -<p>Voltando a si, disse aos que o rodeiavam, que de uma -só vez perdeo seos dois filhos, não fallando na que tinha -perdido antes, um ferido por sua culpa, e o outro que os -francezes mandariam matar; todos se condoeram d’elle.</p> - -<p>Resolveram todos os Principaes da Ilha a virem ao Forte -de São Luiz interceder a favor do vivo.</p> - -<p>Em quanto se passavam estes factos, o ferido contra sua -vontade, aproximava-se da morte, chamou seo irmão, e lhe -disse: sou um grande criminoso, pois de uma só vez matei -muitas pessoas, isto é, a mim, a meo pae, que morrerá de -tristesa e a ti porque os francezes te mandarão matar: elles -são justiceiros em punir os maus: mas sabes tu o que ha? -toma meo conselho, e faze o que te digo.</p> - -<p>Os Padres que vieram com os francezes, são compadecidos, -e nos amam e aos nossos filhos, e pelos seos interpretes -soube que aqui vieram para salvar-nos.</p> - -<p>Já ouvi dizer, n’uma reunião a um dos nossos similhantes, -que os antecessores dos Padres baptisaram antigamente -em quanto com elles estiveram, e que vio os <i>Canibaes</i> se -abrigarem em suas Igrejas, quando faziam alguma maldade, -por terem certesa de que ahi ninguem lhes faria mal.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_55"></a>[55]</span></p> - -<p>Faze o mesmo, quando anoitecer vae com meo Pae procurar -o Padre na sua cabana de <i>Yviret</i>, pede para te pôr -na casa de Deos, que é defronte da residencia d’elle, e ahi -fica, até que meo Pae, conjuntamente com os Principaes, -intercedam por ti, e consigam o teo perdão do Maioral dos -francezes.</p> - -<p>Para mais facilidade, tu sabes que os Francezes necessitam -de canoas e de escravos, offereça pois meo Pae ao chefe -tua canoa e teos escravos, para que não morras.</p> - -<p>Tudo isto foi cumprido pontualmente, porque este velho, -Pae dos dois rapazes, foi procurar-me, rogou-me e instou-me -para que recebesse seo filho na casa de Deos, e intercedesse -para ser perdoado pelo Maioral dos Francezes, buscando -convencer-me, entre outras, com estas razões.</p> - -<p>«Vós outros Padres fazeis regorgitar de povo as nossas <i>Casas -Grandes</i>, quando quereis, desejando vêr ahi grandes e -pequenos, afim de ouvirem a causa, que vos obrigou a deixar -vossas casas e terras, muito melhores do que estas, -para nos ensinarem a naturesa de Deos, que é, como dizeis, -bom, misericordioso, amante da vida e inimigo da morte, e -por isso não quer que ninguem morra assim como elle morreo -n’um madeiro para fazer viver os mortos.</p> - -<p>«Dizeis ainda, que nossos filhos não são mais nossos, o sim -vossos, que Deos vol-os deo, e que d’elles tomaes cuidados -até a morte: mostrae-me hoje, que vossa palavra é verdadeira.</p> - -<p>«Estou velho, perdi todos os meos filhos, só me resta um, -que fez esta casa, que vos estima muito, e a todos os Padres -e quer ser christão.</p> - -<p>«Matou seo irmão sem querer, ou melhor, foi seo irmão -quem se matou a si proprio com as flechas, que -trazia. Rogo-te o recebas na casa de Deos, e vem commigo -fallar ao chefe, porque elle nada te recusará visto -estimar-te muito.</p> - -<p>«Quiz trazer commigo o filho, a favor de quem intercedo -porem elle teme muito a ira dos Francezes: actualmente<span class="pagenum"><a id="Page_56"></a>[56]</span> -anda errante e fugitivo pelos mattos, como si fosse um javaly: -quando ouve o ramalhar das arvores suspeita ser os -Franceses, que armados andam em busca d’elle para prendel-o -e conduzi-lo a <i>Yviret</i>, onde será amarrado á bocca de -uma peça.»</p> - -<p>Respondi pelo meo interprete, asseverando-lhe que empregaria -os meos esforços, que tinha esperança de obter o -que elle desejava porque o chefe me estimava; mas que era -bom, que elle fosse pessoalmente fazer seo pedido, e que eu -iria depois delle.</p> - -<p>Foi immediatamente ao Forte em companhia de um dos -principaes interpretes da Colonia, chamado <i>Migan</i>,<a id="Nanchor_35" href="#Note_35" class="fnanchor">[35]</a> e -expôz suas razões e rogos ao senhor de Pezieux, por esta -fôrma.</p> - -<p>«Sou um Pae muito infeliz, e acabarei minha velhice como -os javalys, vivendo só, comendo raizes amargas e cruas, se -de mim não tiveres piedade.</p> - -<p>«A misericordia muito convem aos grandes, e maiores -não podem ser, quando usam d’ella e de clemencia.</p> - -<p>«É teu rei o maior do Mundo, como nos contam os nossos, -que estiveram em França.</p> - -<p>«Elle para aqui te mandou como um dos Principaes da -sua côrte afim de nos livrares do captiveiro dos <i>Peros</i>: ora -como és grande, e misericordioso, usa de misericordia para -com os infelizes, que são desgraçados por acaso e não por -malicia.</p> - -<p>«Bem conheço, que é preciso ser justo, e indagar o motivo -para se fazer a escolha, e proceder-se a vingança sobre -os maus, o que mui restrictamente observamos entre nós, -desde os nossos paes, mas quando a falta não é originada -por maldade nós perdoamos.</p> - -<p>«Tenho dois filhos, como sabes, os quaes tem vindo trabalhar -no teo Forte, um matou o outro por acaso e sem -maldade, ou para melhor dizer, suicidou-se o mais velho -nas flechas do mais moço, que está vivo, e te peço que não -o persigas e sim o perdôes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_57"></a>[57]</span></p> - -<p>«É elle, que me hade sustentar na velhice: sempre foi -amigo dos francezes, e quando algum vae a minha aldeia, -chama logo os seos cães, e vae caçar cotias e as pacas para -elle comer.</p> - -<p>«Fez a cása dos Padres, e assevera-me que elles o protegem.</p> - -<p>«Sempre foi muito obediente á sua madrasta, que o ama -como si fosse seo proprio filho: seo irmão, que sem querer, -elle matou, era mau, não estimava os Francezes, nunca lhes -deo coisa alguma, não ia á caça para elles, aborrecia sua -madrasta, e muitas vezes a zangava: quando morreo, estava -bebado, e veio tomar a mulher do seo irmão, e arrancando -o filho, que ella tinha ao collo, atirou o menino para -um lado e a mãe para outro, dando-lhe bofetadas, embora -estivesse grávida, na minha presença e á vista do seo marido, -e tudo soffremos com paciencia; porem vindo agarrar -seo irmão para espancal-o, ferio-se no ventre com as flechas, -que elle trasia na mão e assim morreo.</p> - -<p>«Porque perderei eu meos dois filhos, de uma só vez, e -já na minha velhice?</p> - -<p>«Si queres mandar matar o unico que tenho, mata-me -primeiro, e depois a elle. Elle te dá sua canoa para a pescaria -e seos escravos para te servirem.»</p> - -<p>Admirou o Sr. de Pezieux este discurso, como depois me -disse e por muitas vezes, e o referio á diversas pessoas, -admirando-se de ver tão bella Rhetorica na bocca de um selvagem.</p> - -<p>Previno-vos, que represento todos estes discursos e supplicas -o mais sinceramente que me foi possivel, sem o emprego -de artificio algum.</p> - -<p>Respondeo o Sr. de Pezieux dizendo ser grande crime um -irmão matar outro, mas como elle asseverava ter sido antes -por culpa do fallecido do que pela do vivo, perdoava a rogo -dos Padres, a quem nada queria recusar, e assegurou-lhe -logo que seo filho nada soffreria, que acceitava a canoa e -os escravos, porem que tudo isto lhe offerecia para o arrimo<span class="pagenum"><a id="Page_58"></a>[58]</span> -de sua velhice visto ser elle amigo dos Padres e dos -Francezes.</p> - -<p>Alegrou-se muito o bom velho com este acto de misericordia -e liberalidade, e não foi ingrato, não só fazendo conhecido -por toda a Ilha o facto, como tambem offerecendo -ao dito Sr. e a nós tudo quanto elle e seu filho caçavam.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XVIII">CAPITULO XVIII</h3> - -<p class="subhead">Quanto é facil civilizar os selvagens á maneira dos -francezes, e ensinar-lhes os officios, que -temos em França.</p> - -</div> - -<p>No Liv. 2.º, Cap. 1.º, dos Machabeos, lemos, que o fogo -sagrado do altar foi escondido no poço de Nephtar durante -o captiveiro do povo e se transformou em limo.</p> - -<p>Quando o povo regressou, já livre, os Sacerdotes apanharam -este limo, e o deitaram na madeira do altar, levantado -para os sacrificios.</p> - -<p>Apenas o sol, lá de cima, começou a lançar seos raios -sobre o limo, este se transformou em fogo, e devorou os -holocaustos.</p> - -<p>Desejo servir-me d’esta figura para explicar o que tenho -a dizer n’este e nos seguintes Capitulos.</p> - -<p>Convem notar, que por este fogo se deve entender o espirito -humano imitando a naturesa do fogo por sua actividade, -ligeiresa, calôr e claridade, o qual se torna lodo e -limo, escondido n’um centro differente do seo proprio, devido -isto á sua alma captiva pela infidelidade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_59"></a>[59]</span></p> - -<p>Quero dizer, que sendo o espirito do homem creado para -conhecer a Deos, e aprender artes e sciencias, torna-se entorpecido -e obscurecido entre as immundicies, quando sua -alma está presa nas cadeias da infidelidade, sob a tyrannia -de Satanaz, mas quando sua alma desprende-se do captiveiro -pela intenção e guia dos Prophetas de Deos, sahe o -espirito d’esse poço lamacento, e animado pela luz, e conhecimento -de Deos, das artes, e das boas sciencias, torna-se -apto e prompto para executar o que percebe e aprende, -o que farei vêr, e tocar com o dedo a respeito dos nossos -selvagens, e mui principalmente quando de suas perguntas -mais comesinhas nasce a esperança d’elles se civilisarem, -e viverem reunidos n’uma cidade, negociando, aprendendo -officios, estudando, escrevendo e adquirindo sciencia.</p> - -<p>Tenho para mim, que são mais faceis de serem civilisados, -do que os aldeões de França, por ter a novidade não -sei que influencia sobre o espirito afim de excital-o a aprender -o que elle vê de novo, e lhe agrada.</p> - -<p>Os nossos <i>Tupinambás</i> nunca tiveram ideia alguma de -civilisação até hoje; eis a razão porque elles se esforção, por -toda a forma, de imitar os nossos francezes, como depois -direi.</p> - -<p>Ao contrario os aldeões da nossa França estão de tal sorte -enraisados em sua rusticidade, que, em qualquer conversação, -embora nas cidades entre pessoas distinctas, sempre -mostram signaes de camponezes.</p> - -<p>Aos <i>Tupinambás</i>, depois de dois annos de convivencia -com os francezes, estes lhes ensinaram a tirar o chapeu, a -saudar a todos, a beijar as mãos, a comprimentar, a dar os -bons dias, a dizer adeos, a ir á Igreja, a tomar agua benta, -a ajoelhar-se, a pôr as mãos, a fazer o signal da Cruz na -testa e no peito, a bater no peito diante de Deos, a ouvir -missa e sermão, ainda que nada d’isto comprehendam, a -levar o <i>Agnus Dei</i>, a ajudar o sacerdote á missa, a assentar-se -á mesa, a estender a toalha diante de si, a lavar suas -mãos, a pegar na carne com tres dedos, a cortal-a no prato,<span class="pagenum"><a id="Page_60"></a>[60]</span> -e a beber em commum, e breve farão todos os actos de -civilidade e delicadesa, que se costuma a praticar entre -nós, e já se acham tão adiantados a ponto de parecerem -ter sempre vivido entre os francezes.</p> - -<p>Ninguem pois poderá contestar-me, que não sejam estes -factos bastante para convencer-nos do que devemos esperar -e acreditar ser esta nação, com o andar dos tempos, civilisada, -honesta e muito aproveitada.</p> - -<p>Como os exemplos provam mais que outra qualquer especie -de argumentação, vou contar-vos o caso de alguns -selvagens educados em casa de nobres.</p> - -<p>Actualmente ha em Maranhão uma mulher selvagem, de -uma das boas raças da Ilha, que foi antigamente, quando -bem pequena, tomada pelos portuguezes, e vendida como -escrava á D. Catharina de Albuquerque, sobrinha do grande -Albuquerque, Vice-Rei das Indias Orientaes, sob o dominio -do Rei de Portugal, a qual reside presentemente em Pernambuco, -e é Marqueza de Fernando de Noronha, ilha muito -bella e fertil, segundo diz o Revd. Padre Claudio d’Abbeville -na sua Historia.</p> - -<p>Esta rapariga fez-se christã, e se a vestissem á portugueza -não se poderia facilmente dizer qual a sua origem, -se portugueza ou selvagem, mostrando sempre a vergonha -e o pudor, inseparaveis de uma mulher, e occultando com -cuidado a imperfeição do seo sexo.</p> - -<p>Poderia dizer outro tanto de muitos selvagens, educados -entre os portuguezes, e dos quaes alguns foram á França, e -conservam ainda hoje o que aprenderam, e o praticam quando -se acham entre os francezes.</p> - -<p>É novo entre elles o uso da barba e dos bigodes, porem -como vêem esse uso entre os Francezes, tambem deixam -crescer tanto uma como outra coisa.</p> - -<p>Tem incomparavel aptidão para as artes e officios.</p> - -<p>Conheço um selvagem do Miary, chamado <i>Ferrador</i>, por -causa do officio, que aprendeo, vendo somente trabalhar um -ferrador francez que nada lhe explicou.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_61"></a>[61]</span></p> - -<p>Sabia muito bem malhar com os outros uma barra de ferro -encandecida, como se tivesse longa pratica, apesar de ser -coisa muito sabida entre os officiaes do mesmo officio, que -é necessario muito tempo para aprender-se a musica dos -martellos na bigorna do ferrador.</p> - -<p>Achando-se este mesmo selvagem nos desertos do Miary -com seos semelhantes, sem bigorna e martello, limas e tornos, -trabalhava comtudo muito bem fazendo pontas ou lanças -para flechas, harpões e anzóes. Por bigorna tinha uma -pedra muito dura, por martello outra de menor consistencia, -e depois aquecendo ao fogo o ferro, dava-lhe a forma que -queria.</p> - -<p>Os officios mais necessarios entre elles são os de ferreiro, -tanoeiro, carpinteiro, marcineiro, cordoeiro, alfaiate, sapateiro, -tecelão, oleiro, ladrilhador, e agricultor.</p> - -<p>Para todos estes officios são aptos e inclinados pela natureza.</p> - -<p>Para o de ferreiro ou de ferrador ja referimos um exemplo.</p> - -<p>Quanto ao officio de tecelão seria a sua especialidade se -aprendessem; tecem seos leitos muito bem, trabalham em -lã tão perfeitamente como os francezes, embora não empreguem -a lançadeira, e nem a agulha de ferro, e sim pequenos -pausinhos.</p> - -<p>Contarei ainda uma bonita historia.</p> - -<p>Fui um dia visitar o grande <i>Thion</i>, principal dos Pedras-verdes, -<i>Tabajares</i>; quando cheguei a sua casa, e porque -lhe pedisse, uma de suas mulheres me levou para debaixo -de uma bella arvore no fim da sua cabana, que a abrigava -dos ardores do sol, onde estava armado um teiar de faser -redes de algodão, em que elle trabalhava.</p> - -<p>Gostei muito de vêr este grande Capitão, velho Coronel -de sua nação, enobrecido por tantas cicatrises, entregando-se -com praser á este officio, e não podendo conter-me, perguntei-lhe -a razão d’isto, esperando aprender alguma coisa -de novo n’este facto tão particular, que estava vendo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_62"></a>[62]</span></p> - -<p>Pelo meu interprete lhe perguntei a razão, porque se dava -a esse mister.</p> - -<p>Respondeo-me, «porque os rapases observam minhas acções -e praticam o que eu faço; se eu ficasse deitado na rede -e a fumar, elles não quereriam fazer outra coisa: quando me -vêm ir para o campo com o machado no hombro e a fouce -na mão, ou tecer rede, elles se se envergonham de nada -fazer.»</p> - -<p>Eu e os que comigo então se achavam, sentiram muito -prazer ouvindo estas palavras, e desejaria vel-as praticadas -por todos os christãos, porque então a ociosidade, mãe de -todos os vicios, não estaria em França, como actualmente -se vê.</p> - -<p>O officio de carpinteiro não lhes é muito difficil, porque -os vi fazendo suas casas, e as dos Francezes, assentando -seo machado, e repetindo o golpe no mesmo lugar, quatro -ou cinco vezes, com tanta firmeza, como faria qualquer carpinteiro -bem habil.</p> - -<p>A arte de marcineria lhes é facil, porque com suas fouces -aplainam um pedaço de pau, tão liso e tão igual, como se -tivesse passado o raspador por cima d’elle.</p> - -<p>Com o auxilio de suas facas somente, fazem macaquinhos -e outras figuras de madeira.</p> - -<p>Não precisam de serra, e nem de outro qualquer instrumento -para fazer seos arcos, remos e espada de guerra, pois -basta-lhes uma simples machadinha.</p> - -<p>Cavam, arranjam suas canôas, e dão-lhes a forma, que -lhes apraz.</p> - -<p>Brevemente tractarei de outros officios, nos quaes os vi -trabalhar com tal industria a ponto de parecer-me que, com -pouco tempo de ensino, chegaram á perfeição.</p> - -<p>Alem d’isto fazem muito bem vestidos, cubertas de cama, -sobre-céos, sanéfas e cortinados de cama, pennas de diversas -cores, que por sua perfeição se pensa terem vindo de -fóra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_63"></a>[63]</span></p> - -<p>Não fallarei da propensão natural, que elles tem para pintar, -fazer diversas folhagens, e figuras, servindo-se apenas -de uma pequena lasca de pau, ou ponteiro, ao passo que os -nossos pintores necessitam de tantos pinceis, compassos, regoas, -e lapis.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XIX">CAPITULO XIX</h3> - -<p class="subhead">Quanto são aptos os selvagens para aprenderem -sciencias e virtudes.</p> - -</div> - -<p>Quando regressei das Indias para a França, pelas frequentes -e constantes perguntas, feitas pelas pessoas, que -me vinham visitar, reconheci quanto é difficil acreditarem -os Francezes, que os selvagens sejam aptos para aprenderem -sciencia e virtude, e não sei se alguns chegam a ponto -de julgar estes povos antes do genero dos macacos, do que -dos homens.</p> - -<p>Em quanto a mim elles são homens, e provarei, e por -tanto capazes de obterem sciencia e virtude.</p> - -<p>Seneca na sua epistola 110 disse «<i>Omnibus natura dedit -fundamenta semenque virtutum</i>.» A natura deo a todas as -creaturas, sem excepção de uma só, as raizes e as sementes -das virtudes, palavras mui notaveis: assim como as raizes -e as sementes são lançadas na terra e por conseguinte -enterradas em suas entranhas, assim tambem Deos lançou -naturalmente no espirito do homem as raizes e as sementes -da virtude: com taes alicerces pode o homem, ajudado por -Deos, edificar um predio, e extrahir da semente uma bella -arvore carregada de flores e de fructos, doutrina esta muito<span class="pagenum"><a id="Page_64"></a>[64]</span> -bem provada por S. João Chrisostomo, na Homilia 55, ao -povo de Antiochia, e na Homilia 15 á respeito da Epistola -1ª á Thimotheo moralisando esta passagem do Genesis:—<i>Germinet -terra, herbam virentem, e omne lignum pomiferum</i>, -«produsa a terra herva verdejante ou arvore fructifera:» -acrescentou ainda—<i>Dic ut producat ipse terra fructum -proprium et exibit quicquid facere velis</i>, «dize e ordena -á tua propria terra, que produza seo fructo natural, e -verás ella produzir logo o que pedires.»</p> - -<p>São Bernardo, no <i>Tractado da vida solitaria</i>, disse—<i>virtus -vis est quædam ex natura</i>, «a virtude é uma certa força, -que sahe da natureza.»</p> - -<p>Se assim não fôr, quero provar por muitos exemplos, -começando pelas sciencias, para cujo ensino concorrem as -tres faculdades da alma—vontade, intelligencia, e memoria: -a vontade dá ao homem o desejo de aprender, e por ella -vencemos toda a sorte de trabalhos e difficuldades: a intelligencia -dá vivacidade para comprehender, e a memoria -guarda e conserva o que conheceo e aprendeo.</p> - -<p>São mui curiosos os selvagens de saber novidades e para -satisfazer tal desejo, os caminhos e a distancia das terras, -por maiores, que sejam, lhes parecem curtos, não sentem a -fome, porque passam, e os trabalhos como que são descanço -para elles: prestam-vos toda a sua attenção, escutam o -que disserdes durante o tempo que vos parecer, sem enfado -e em silencio, á respeito de Deos, ou de qualquer assumpto, -e se tiverdes paciencia, elles vos farão milhares de -perguntas.</p> - -<p>Lembra-me, que entre as praticas, que eu lhes fazia ordinariamente -por intermedio do meo interprete, eu lhes disse -que apenas chegassem de França os Padres, elles mandariam -edificar casas de pedra ou de madeira, onde seriam -recolhidos seos filhos, aos quaes os Padres ensinariam tudo -o que sabem os <i>Caraibas</i>.</p> - -<p>Responderam-me: oh! quanto são felizes nossos filhos por -aprenderem tão bellas coisas, oh! quanto fomos infelizes nós<span class="pagenum"><a id="Page_65"></a>[65]</span> -e os nossos antepassados por não haverem Principaes n’esse -tempo.</p> - -<p>É viva sua intelligencia como reconhecereis pelo seguinte -facto.</p> - -<p>Não ha estrellas no Ceo, que elles não conheçam e calculam -pouco mais ou menos a vinda das chuvas e as outras -estações do anno.</p> - -<p>Pela phisionomia distinguem um Francez de um Portuguez, -um Tapuyo de um Tupinambá, e assim por diante.</p> - -<p>Nada fazem antes de pensar, e pezam em seu juiso uma -coisa antes de emittir sua opinião. Ficam serios e pensativos, -porem não se precipitam em fallar.</p> - -<p>Mas, dizeis vós, como é possivel que estas pessoas tenham -tal juiso fazendo o que fazem?</p> - -<p>Porque elles dão por uma faca cem escudos de ambar -gris, ou qualquer outra coisa, que apreciamos, como sejam: -ouro, prata e pedras preciosas.</p> - -<p>Eu vos direi a opinião que elles fazem de nós, muito contraria -n’este ponto: julgam-nos loucos e pouco judiciosos em -apreciar mais as coisas, que não servem para o sustento da -vida do que aquellas, que nos proporcionam o viver commodamente.</p> - -<p>Na verdade, quem deixará de confessar, ser uma faca -mais necessaria á vida do homem, do que um diamante de -cem mil escudos, comparando um objecto com outro, e pondo -de parte, a estima que se lhe dá?</p> - -<p>Para provar que não lhes falta juiso afim de avaliar a estima -que fazem os Francezes das coisas existentes em sua -terra, basta dizer, que elles sabem altear muito o preço das -coisas, que julgam ser apreciadas pelos francezes.</p> - -<p>Um dia disseram-me alguns, que era preciso haver muita -falta de madeira em França, e que experimentassemos muito -frio para mandarmos navios de tão longe, a mercê de tantos -perigos, carregarem de paus.<a id="Nanchor_36" href="#Note_36" class="fnanchor">[36]</a></p> - -<p>Respondi-lhes que não era para queimar e sim para tingir -de cores.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_66"></a>[66]</span></p> - -<p>Replicaram-me: porque nos compraes o que cresce em -nosso paiz a troco de vestidos vermelhos, amarellos e verde-gaios? -Eu os satisfiz dizendo ser necessario misturar outras -cores com as do seo paiz para tingir panos.</p> - -<p>Si me disserdes, que elles fazem acções inteiramente -brutaes, como as de comer seos inimigos, e praticar tudo -que os offenda, como seja expol-os em lugares onde ha piolhos, -vermes, espinhos, etc., eu vos responderei não provir -isto de falta de juiso, porem sim de um erro hereditario, -sempre existente entre elles, por pensarem, que sua honra -depende de vingança: parece-me, que tambem não é desculpavel -o erro dos nossos francezes de se matarem em -duello, e comtudo vemos os mais bellos espiritos, e os primeiros -da nobreza concordarem com este erro, despresando -a Lei de Deos, e arriscando a eternidade de sua salvação.</p> - -<p>Quanto a memoria elles a possuem muito feliz, porque -lembram-se sempre do que viram e ouviram com todas as -circumstancias do lugar, do tempo, das pessoas, quando o -caso se disse ou se executou, fazendo uma geographia ou -descripção natural com a ponta de seos dedos na areia, do -que estão contando.</p> - -<p>O que mais me admirou foi vel-os narrar tudo quanto se -ha passado desde tempos immemoriaes, somente por tradicção, -porque tem por costume os velhos contar diante dos -moços quem foram seos avós e antepassados, e o que se -passou no tempo d’elles: fazem isto na <i>casa grande</i>, algumas -vezes nas suas residencias particulares, acordando muito -cedo, e convidando gente para ouvil-os, e o mesmo fazem -quando se vesitam, porque abraçando-se com amisade, -e chorando, contam um ao outro, palavra por palavra quem -foram seos avós e ante-passados, e o que se passou no tempo -em que viveram.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_67"></a>[67]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XX">CAPITULO XX</h3> - -<p class="subhead">Continuação do objecto antecedente.</p> - -</div> - -<p>Concordo que sejam estes povos inclinados pela naturesa -á muitos vicios, porem é necessario lembrar-nos, que elles -são captivos por infidelidade d’estes espiritos rebeldes a Lei -de Deos, e instigadores da sua transgressão.</p> - -<p>São João na sua Epistola 1.ª chama <i>iniquidade</i> ou <i>desigualdade</i> -o desvio ou a digressão do direito, como muito -bem explica o texto Grego<a id="FNanchor_55" href="#Footnote_55" class="fnanchor">[BC]</a> ——————————, assim -traduzido <i>Peccatum est exorbitatio á lege</i>.</p> - -<p>Esta Lei é divina ou humana: aquella dada por escripto -á Moysés, e depois por Jesus Christo aos christãos, e esta -acha-se gravada no intimo d’alma.</p> - -<p>Transgredindo-se estas duas Leis commettem-se dois peccados, -um contra os mandamentos de Deos, e outro contra -a lei natural: por elles serão accusados e condemnados os -incredulos, cada um de per si, alem do peccado commum -da infidelidade.</p> - -<p>Entre todos os vicios a que estão sugeitos estes barbaros, -sobresahe a vingança, que nunca perdoam, e a praticam logo -que podem, embora as boas apparencias com que tratam -seos inimigos reconciliados.</p> - -<p>Não ha a menor duvida que retirando-se os francezes do -Maranhão, todas as nações, antes inimigas, que ahi residem -promiscuamente, por terem a nossa alliança, devorar-se-hão -umas ás outras, embora, o que é para admirar, vivam agora -muito bem sob o dominio dos francezes, e até contrahindo-se -casamentos entre ellas.</p> - -<p>Gostam tanto de vinho a ponto de ser considerada a embriaguez -por elles, e até mesmo pelas mulheres, como uma -grande honra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_68"></a>[68]</span></p> - -<p>São impudicos extraordinariamente, mais as raparigas do -que qualquer outros inventores de noticias falsas, mentirosos, -levianos e inconstantes, vicios mui communs a todos -os incredulos, e por ultimo são extremamente preguiçosos a -ponto de não quererem trabalhar, embora vivam na miseria, -antes do que na opulencia por meio do trabalho.</p> - -<p>Se elles quizessem, não era necessario muito cansaço para -terem em poucas horas muita carne e peixe.</p> - -<p>O que acabo de dizer, refere-se especialmente aos <i>Tupinambás</i>, -porque as outras nações, como sejam os <i>Tabajares</i>, -<i>Cabellos-compridos</i>, <i>Tremembés</i>, <i>Canibaes</i>, <i>Pacajares</i>, -<i>Camarapins</i>, e <i>Pinarienses</i>, e outros trabalham muito para -viver, ajuntar generos, ter boa casa, e todas as commodidades.</p> - -<p>Vou dar-vos um exemplo bem notavel da preguiça dos -nossos <i>Tupinambás</i>.</p> - -<p>Obtendo alguns Francezes do Forte licença para irem passear -ás aldeias, foram á do chefe <i>Vsaap</i>.</p> - -<p>Na entrada da primeira choupana encontraram um grande -fumeiro cheio de caça, e ao lado d’elle um indio, dono da -casa, deitado n’uma rede de algodão, que gemia muito como -se estivesse bastante doente.</p> - -<p>Os nossos Francezes alegres e promptos á festejarem esta -mesa tão bem preparada, lhe perguntaram com brandura e -carinho <i>Dê omano Chetuasap</i>, «está doente meo compadre?» -Sim, respondeo elle. Que tendes, replicaram os Francezes, -quem vos fez mal? Minha mulher, disse elle. Foi para -roça desde pela manhã, e eu ainda não comi. A farinha e -a carne está tão perto de vós, porque não vos levantaes, -para comer, disseram os francezes? Sou preguiçoso, não sei -levantar-me. Quereis, tornaram os francezes, que vos levemos -a farinha e a carne, e comeremos comvosco? Quero, -respondeo elle logo.</p> - -<p>Começaram todos a aliviar o fumeiro, pozeram tudo diante -d’elle, e assentando-se em roda, como é de costume, -excitaram-lhe o apetite pela boa vontade que mostravam, e<span class="pagenum"><a id="Page_69"></a>[69]</span> -o trabalho, que elles tiveram de tirar a comida de cima do -fumeiro, em distancia de tres pés, foi o unico pagamento de -tal companhia na mesa.</p> - -<p>Apesar de suas perversas inclinações, elles tem outras -muito boas, louvaveis e virtuosas.</p> - -<p>Vivem pacificamente com os outros, dividem com elles o -resultado de sua pescaria, caçada e lavoura, e não comem -ás escondidas.</p> - -<p>Um dia na aldeia de Januaran só tinham farinha para -comer. Appareceu um rapaz trazendo uma perdiz morta ha -pouco; sua mãe depennou-a ao fogo, cozinhou-a, deitou-a -n’um pilão, reduzio-a á pó, e juntando-lhe folhas de mandioca, -cujo gosto é similhante ao da chicoria selvagem, fez -ferver tudo, e depois de bem picado ou cortado em pedacinhos, -d’esta mistura fez pequenos bolos, do tamanho de -uma balla, e mandou distribuil-os pela aldeia, um para cada -choupana.</p> - -<p>Vi ainda uma coisa mais admiravel, embora comesinha, e -sem consequencia.</p> - -<p>Appareceram em minha casa muitos selvagens esfaimados, -vindos da pescaria, onde somente apanharam um carangueijo, -que assaram sobre carvões, e pedindo-me farinha, o comeram -todos, fazendo roda, cada um o seo pedacinho: eram -doze ou treze.</p> - -<p>Bem podeis imaginar o que tocaria a cada um, sendo o -carangueijo do tamanho de um ovo de galinha.</p> - -<p>É muito grande a liberalidade entre elles, e desconhecida -a avaresa.</p> - -<p>Si algum delles tiver desejos de possuir uma coisa, que -pertença a outro, elle o diz francamente, e é preciso que o -objecto seja muito estimado para não ser dado logo, embora -o que a pedio fique na obrigação de dar ao outro tambem -o que elle desejar.</p> - -<p>Tornam-se mais liberaes para com os estrangeiros do que -para com seos patricios.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_70"></a>[70]</span></p> - -<p>Ficam reduzidos á pobresa comtanto que bem hospedem -os estrangeiros, que vão visital-os, julgando-se bem recompensados -com a fama de liberaes, espalhada pelos que não -são de sua terra, e julgam chegar ella até aos paizes estrangeiros, -onde serão tidos por grandes e ricos.</p> - -<p>Com taes ideias muitas vezes vão fazer visitas a cem, duzentas -e tresentas legoas afim de serem apreciados por suas -liberalidades.</p> - -<p>Nunca roubam uns aos outros; o que possuem está á vista, -pendurado nas vigas e barrotes de suas casas.</p> - -<p>É bem verdade, que dentro da Ilha actualmente, em Tapuytapera, -e Cumã, elles tem cofres, que lhes deram os -Francezes, onde guardam o que tem de melhor, e, ou excitados -por isto, ou pelo exemplo dos Francezes, muitos d’elles -ja aprenderam a arte de furtar.</p> - -<p>Elles chamam furtar—<i>Mondá</i>, ao ladrão <i>Mondaron</i>, e este -nome é entre elles grande injuria a ponto de mudarem de -côr quando o pronunciam: chamar uma mulher ladra, é -duas vezes prostituta, com o nome de <i>Menondere</i> para differençar -de prostituta simples—<i>Patakuere</i>, é aquelle primeiro -epitheto o mais afrontoso, que se lhe pode dizer.</p> - -<p>Tomareis uma boa vingança chamando-os ladrões, quando -elles vos atirarem ao rosto um bem claro, e expressivo <i>Giriragoy</i>, -que quer dizer <i>mentiste</i>, sem exceptuar pessoa alguma, -e por isto bem podeis avaliar quanto este vicio é -detestado por elles, pois não podem tolerar a injuria.</p> - -<p>Guardam reciproca equidade, não se enganam nem se -illudem: si um offende a outro, segue-se logo a pena de -<i>Talião</i>: são mui tolerantes, respeitam-se reciprocamente, -especialmente os velhos.</p> - -<p>São muito soffredores em suas miserias e fome chegando -até a comer terra,<a id="Nanchor_37" href="#Note_37" class="fnanchor">[37]</a> ao que acostumam seos filhos, o que -vi muitas vezes.</p> - -<p>Vi muitos meninos tendo nas mãos uma bolla de terra, -que ha em sua aldeia como <i>terra siggilada</i>, a qual apreciam<span class="pagenum"><a id="Page_71"></a>[71]</span> -e comem como fazem as crianças, em França com as maçans, -as pêras, e outros fructos que se lhes dá.</p> - -<p>Não se esmeram no preparo da comida, como nós, por -que ou a cozinham ao fogo, ou a fazem ferver n’uma panella -sem sal, ou assam-n’a no fumeiro.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXI">CAPITULO XXI</h3> - -<p class="subhead">Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada -inviolavelmente pela mocidade.</p> - -</div> - -<p>O que mais me impressionou e admirou durante os dois -annos, que estive entre os selvagens, foi a ordem e respeito -observado inviolavelmente pelos moços para com os seos -parentes mais velhos, ou entre elles, fazendo cada um o que -permitte a sua idade sem cuidar do que se acha no mais -alto ou no menor grau.</p> - -<p>Ninguem deixará de admirar-se commigo vendo a naturesa -somente ter n’estes barbaros o poder de fazel-os guardar -o respeito, que os meninos devem a seos maiores, e -fazer conter a estes no que é exigido pela diversidade das -idades.</p> - -<p>Quem não se hade admirar vendo a naturesa somente ter -mais força para fazer observar estas coisas, do que a Lei e -a graça de Jesus-Christo sobre os Christãos, entre os quaes -raras vezes se contem a mocidade nos seos deveres, apesar -de todos os bons ensinos, mestres e pedagogos, apparecendo -sempre confusão e grande presumpção.</p> - -<p>Muito praser terei si o caso seguinte nos der algum remedio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_72"></a>[72]</span></p> - -<p>Distinguem os selvagens suas idades por certos graus, -e cada grau tem no frontespicio de sua entrada, seu -nome proprio, que ensina ao que pretende entrar em -seo palacio os seos jardins e alamedas, a sua occupação, e -isto por enigmas, como eram outr’ora os Hierogliphos dos -Egypcios.</p> - -<p>O primeiro grau é destinado as crianças do sexo masculino -e legitimos e dão-lhe em sua lingua o nome de <i>Peitan</i>, -isto é, «menino sahindo do ventre de sua mãe.»</p> - -<p>Á este primeiro grau da idade do menino é inteiramente -cheio de ignorancia, de fraqueza e de lagrimas, base de todos -os outros graus.</p> - -<p>A natureza, boa mãe d’estes selvagens, quiz que o menino -sahindo do ventre de sua mãe, se achasse em estado -de receber em si as primeiras sementes do natural commum -d’estes selvagens, porque não é afagado, pensado, aquecido, -bem nutrido, bem tratado, nem confiado aos cuidados de -alguma ama, e sim apenas lavado em algum riacho ou n’alguma -vasilha com agua, deitado n’uma redezinha de algodão, -com todos os seos membros em plena liberdade, nus -inteiramente, tendo por unico alimento o leite de sua mãe, -e grãos de milho assados, mastigados por ella até ficarem -reduzidos á farinha, amassados com saliva em forma de -caldo, e postos em sua boquinha como costumam a fazer os -passaros com a sua prole, isto é, passando de bocca para -bocca.</p> - -<p>É bem verdade, que quando o menino é um pouco forte, -por conhecimento e inclinação natural, ri-se, brinca e salta, -nos braços de sua mãe, pensando estar mastigando sua comida, -levando seo bracinho á bocca d’ella, recebendo no concavo -de sua mãosinha este repasto natural, que leva á bocca -e come: quando se sente farto, bota fóra o resto, e virando -a cara, e batendo com as mãos na bocca da mãe, lhe dá a -entender que não quer mais.</p> - -<p>Obedece a mãe promptamente não forçando seo apetite e -nem lhe dando occasião de chorar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_73"></a>[73]</span></p> - -<p>Si o menino tem sêde, por gestos sabe pedir o peito de -sua mãe.</p> - -<p>Em tão tenra idade mostram o respeito e o dever, que a -natureza lhes dá, porque não são gritadores, comtanto que -vejam suas mães, e ficam no lugar onde os deixam.</p> - -<p>Quando vão trabalhar nas roças ellas as assentam nuasinhas -na areia ou na terra, onde ficam caladinhas, ainda -que o ardor do sol lhes dê no rosto ou no corpo.</p> - -<p>Qual seria de nós, que hoje poderia viver soffrendo na primeira -idade tantos encommodos?</p> - -<p>Esperam os nossos paes a retribuição e dever, que principiamos -a pagar-lhes desde a primeira idade, si não estão -cegos pelo amor que nos tem; o mesmo devem esperar nas -outras idades, sendo mais reconhecidos os nossos deveres -para com elles, custe o que custar-nos.</p> - -<p>Começa a segunda idade, quando o menino anima-se a -andar sosinho, e apezar de haver alguma confusão da-se-lhe -o mesmo nome.</p> - -<p>Observei differença na maneira de criar os meninos, -que não sabem andar, e os que se esforçam para o fazer, o -que nos leva a formar outra classe, e dar-lhe nome proprio: -chama-se <i>Kunumy-miry</i>, «rapazinho»<a id="Nanchor_38" href="#Note_38" class="fnanchor">[38]</a> e abrange até 7 a -8 annos.</p> - -<p>Durante este tempo não se separam de suas mães, e nem -acompanham seos Paes, e o que é mais, deixam-nos mamar -até que por si mesmo aborreçam o peito, habituando-se -pouco a pouco ás comidas grosseiras como os grandes e -adultos.</p> - -<p>Dão lhes pequenos arcos e flexas proporcionaes ás suas -forças, reunindo-se uns aos outros plantam e juntam algumas -cabaças, nas quaes fazem alvo para o tiro das suas flechas -adextrando assim bem cêdo seos braços.</p> - -<p>Não açoitam, e nem castigam seos filhos, que obedecem -a seos paes e respeitam os mais velhos.</p> - -<p>È muito agradavel esta idade dos meninos, e n’ella podereis -descobrir a differença existente entre nós pela naturesa<span class="pagenum"><a id="Page_74"></a>[74]</span> -e pela graça: sem fazer comparação, acho-os mimosos, doceis -e affaveis como os meninos francezes, não esquecendo -antes tornando bem saliente a graça do Espirito Santo concedida -pelo baptismo aos filhos dos Christãos.</p> - -<p>Si acontece morrerem os meninos n’esta idade, tem os -paes pesar profundo, e sempre se recordam d’elles, especialmente -nas cerimonias de lagrimas e lamentações, recordações -que fazem uns aos outros, lastimando esta perda e a -morte dos seos filhinhos, dando-lhes o nome de <i>Ykunumirmee-seon</i> -«o menino morto na infancia.»</p> - -<p>Vi mães, quase loucas, no meio de suas roças, ou nas -matas sosinhas, em pé ou agachadas, chorando amargamente, -e quando lhes perguntava para que faziam isto, respondiam-me -«Oh! recordo-me da morte de meos filhinhos, <i>Ché Kunumirmee-seon</i>, -ainda na infancia» e depois continuavam -a chorar e muito.</p> - -<p>È na verdade mui natural o ter pesar da perda e morte -d’estes meninos, que ja haviam custado tantos trabalhos á -seos paes, e que estavam na edade de dar-lhes alguma alegria.</p> - -<p>Acha-se a terceira classe entre estas duas primeiras—infancia -e puericia, e as da adolescencia e virilidade, entre -os 8 a 15 annos, a que chamamos mocidade: appellidam-nos -os selvagens simplesmente por <i>Kunumy</i> sendo a -infancia chamada <i>Kunumy-miry</i>, e a adolescencia <i>Kunumy-uaçu</i>.</p> - -<p>Estes <i>Kunumys</i>, ou rapazes, na idade do 8 a 15 annos, -não ficam mais em casa e nem ao redor de sua mãe, e sim -acompanham seos paes, tomam parte no trabalho d’elles -imitando o que vêem fazer: empregam-se em buscar comida -para a familia, vão as matas caçar aves, e ao mar flechar -peixes e admira vêr a industria com que flecham as vezes -tres a tres peixes juntos, ou agarram em linha feita de <i>tucu</i> -ou em <i>pussars</i>, especie de rêde de pescar, que enchem de -ostras e outros mariscos, e levam para casa. Não se lhes -manda fazer isto, porem elles o fazem por instincto proprio,<span class="pagenum"><a id="Page_75"></a>[75]</span> -como dever de sua idade, e já feito tambem por seos antepassados.</p> - -<p>Este trabalho e exercicio mais agradavel do que penoso, -e proporcional a sua idade, os isenta de muitos vicios, aos -quaes a naturesa corrompida costuma a prestar attenção, e -a ter predilecção por elles.</p> - -<p>Eis a razão porque se facilita á mocidade diversos exercicios -liberaes e mecanicos, para distrahil-a e desvial-a da -má inclinação de cada um, reforçada pelo ocio mormente -n’aquella idade.</p> - -<p>A quarta classe é para os que os selvagens chamam <i>Kunumy-uaçú</i>, -«mancebos»: abrange a idade de 15 a 25 annos, -por nós chamada «adolescencia.»</p> - -<p>Tem outro modo de vida, entregam-se com todo o esforço -ao trabalho, acostumam se a remar, e por isso são escolhidos -para tripularem as canôas quando vão á guerra.</p> - -<p>Applicam-se especialmente a fazer flexas para a guerra, a -caçarem com cães, a flechar e arpoar peixes grandes, não -usam ainda de <i>Karacóbes</i>, isto é, de um pedaço de pano -atado na frente para encobrir suas vergonhas, como fazem -os homens casados, e sim de uma folha de Palmeira.</p> - -<p>Tem o poder de dividir o que possuem com os mais velhos, -reunidos na <i>Casa-grande</i>, onde conversam, e servem -tambem os mais velhos.</p> - -<p>É n’este tempo, diga-se a verdade, que elles mais ajudam -a seos paes e mães, trabalhando, pescando e caçando, antes -de se casarem, e portanto sem obrigação de sustentarem -mulher: eis porque sentem muito seos paes quando elles -morrem n’esta idade, dando-lhes em signal de sua dor o -nome de <i>Ykunumy-uaçú-remee-seon</i>, que quer dizer «o mancebo -morto» ou «o mancebo morto na sua adolescencia.»</p> - -<p>Abrange a quinta classe desde 25 até 40 annos, e se chama -<i>Aua</i> o individuo n’ella comprehendido, vocabulo aplicado -a todas as idades, assim como usamos com o nome <i>homem</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_76"></a>[76]</span></p> - -<p>Apesar d’isto ser privativo d’esta idade, assim como -o homem é pelos Latinos chamado <i>vir</i>, <i>á virtude</i>, e em -Francez idade viril, de virilidade, quer dizer—a força, que -no homem chegou a seu termo: n’esta mesma lingua de selvagens -a palavra <i>Aua</i>, de que procede <i>Auaté</i>, quer dizer -«forte, robusto, valente, audacioso», para significar a 5ª idade -dos seos filhos.</p> - -<p>N’essa occasião como guerreiros são bons para combater, -nunca porem para commandar: buscam casar-se, o que não -é difficil por consistir o enxoval da noiva apenas de algumas -cabaças, que lhes dá sua mãe para principiar sua casa, -vestidos, e roupas, ao contrario em nosso paiz as mães fornecem -enfeites e pedras brancas a suas filhas.</p> - -<p>Os paes dão por dote aos maridos de suas filhas 30 ou 40 -toros de pau de tamanho proprio a poderem ser levados á -casa do noivo, os quaes servem para com elles se accender -o <i>fogo das bodas</i>: o individuo casado de novo não se chama -<i>Aua</i>, e sim <i>Mendar-amo</i>.</p> - -<p>Embora sejam casados o homem e a mulher não ficam livres -da obrigação natural de proteger seos paes e ajudal-os -a fazer suas roças.</p> - -<p>Soube d’isto em minha casa, vendo a filha de <i>Japy-açú</i>, -baptisada e casada á face da Igreja, dizer a um outro selvagem, -seo marido, tambem christão, quando pretendia ir -a <i>Tapuitapera</i> ajudar o Rvd. Padre Arsenio no baptismo de -muitos selvagens, «Onde queres ir? Tu bem sabes que ainda -não se fizeram as roças de meo Pae, e que ha falta de -mantimentos: não sabes, que si elle me deo a ti foi com a -obrigação de o auxiliares na velhice? Si queres abandonal-o -então volto para a casa d’elle.»</p> - -<p>Advertiram-na á respeito d’estas ultimas palavras, fazendo-a -reconhecer o juramento que dera, de nunca abandonal-o -ou separar-se d’elle, louvando-se comtudo muito os -outros sentimentos, que manifestou á favor de seo Pae, e -praza a Deos que todos os christãos a imitassem dando verdadeira<span class="pagenum"><a id="Page_77"></a>[77]</span> -intelligencia a estas palavras formaes do casamento -que o homem e a mulher deixaram seos paes para -viverem juntos—porque de outra fórma seria Deus authorisar -a ingratidão dos filhos casados sob pretexto de terem -filhos, ou poder tel-os e precisar cuidar do seo sustento, -quando ao contrario Deos condemna, como reprobo, o que -abandona seos paes, sem os quaes, não fallando na vontade -de Deos, não viriam ao mundo nem elles, e nem seos -filhos, embora por essas palavras mostre a grande união, -que pelo casamento se faz entre o corpo e o espiríto dos -casados.</p> - -<p>Comprehende a 6ª classe os annos de 40 até a morte: é -a mais honrosa de todas, e cercada de respeito e veneração, -os soldados valentes, e os capitães prudentes.</p> - -<p>Assim como o mez dá a colheita dos trabalhos e a recompensa -da paciencia, com que o lavrador supportou o inverno -e a primavera, lavrando com a sua charrua o campo -em todos os sentidos, sem ser ajudado pela terra, assim -tambem quando chega a estação da velhice são honrados -pelos que tem menos idade.</p> - -<p>O que occupa esta classe chama-se <i>Thuyuae</i>, quer dizer, -«ancião ou velho.»</p> - -<p>Não póde, como os outros, ser assiduo ao trabalho: trabalha -quando quer, e bem a sua vontade, mais para exemplo -da mocidade, respeitando tradicções da sua Nação, do -que por necessidade: é ouvido com todo o silencio na <i>casa-grande</i>, -falla grave e pausadamente usando de gestos, que -bem explicam o que elle quer dizer e o sentimento, com -que falla.</p> - -<p>Todos lhe respondem com brandura e respeito, e ouvem-nos -os mancebos com attenção: quando vae a festa das -<i>Cauinagens</i> é o primeiro, que se assenta e é servido; entre -as moças, que distribuem o vinho pelos convidados, as de -mais consideração o servem, e são as parentas mais proximas -do que fez o convite.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_78"></a>[78]</span></p> - -<p>No meio das danças entoam os cantos; dam-lhe a nota, -principiam pela mais baixa até a mais grave, crescendo -gradualmente até chegar á força da nossa musica.</p> - -<p>Suas mulheres cuidam n’elles, lavam-lhes os pés, apromptam -e trazem-lhe a comida, e se ha alguma difficuldade na -carne, no peixe ou nos mariscos, ellas a tiram, accommodando-a -ás suas forças.</p> - -<p>Quando morrem alguns d’elles os velhos lhe prestam honras, -e o choram como as mulheres, e lhe dam o nome de -<i>thuy-uae-pee-seon</i>: quando morrem na guerra, chamam-no -<i>marate-kuepee-seon</i>, «velho morto no meio das armas», o -que ennobrece tanto seos filhos e parentes, como entre nós -qualquer velho Coronel, que occupou sua vida inteira no -serviço do exercito pelo Rei e pela Patria, e que por corôa -de gloria morreo com as armas na mão, com a frente para -os inimigos, no meio de renhido combate, coisa nunca esquecida -por seos filhos antes considerada como grande herança, -e de que se aproveitam apresentando-os ao Principe -como bons serviços de seo Pae, e pedindo por elles uma -recompensa.</p> - -<p>Não fazendo estes selvagens caso algum de recompensas -humanas, porem empenhando todas as suas forças para conseguirem -essas honras, provam com isto o quanto apreciam -não só os actos de heroismo de seos paes, mas tambem a -serem estimados por causa d’elles.</p> - -<p>Os que morrem nos seos leitos não deixam de ser honrados, -conforme o seo merito, e chamam-no <i>theon-suyee-seon</i>, -«o bom velho que morreo na cama».</p> - -<p>Por isto podeis avaliar como a naturesa por si só nos ensina -a respeitar, a ajudar, e a soccorrer os velhos e anciões -e á refrear com violencia a temeridade e presumpção dos -moços, que sem prevêrem o futuro, não se recordam de -que na sua velhice, se lhes fará justamente o que elles, -quando jovens, fizeram aos mais velhos, dando esse exemplo -á seos filhos, e ensinando-os a serem ingratos.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_79"></a>[79]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXII">CAPITULO XXII</h3> - -<p class="subhead">A mesma ordem e respeito é observada entre as -raparigas e as mulheres.</p> - -</div> - -<p>Encontram-se n’estes selvagens vestigios da naturesa, como -as pedras preciosas se acham nas encostas das montanhas.</p> - -<p>Seria um louco o que quizesse encontrar em seos jazigos -os diamantes tão claros e brilhantes, como quanto lapidados -e engastados n’um anel.</p> - -<p>Provem esta differença de se acharem tão ricas pedras -cubertas de jaça sem mostrar o seo valor de tal sorte, que -muitos passam e tornam a passar por cima d’ellas sem levantal-as -visto não as conhecerem.</p> - -<p>Acontece a mesma coisa na conversação d’estes pobres -selvagens: muitos ignoram e ignorarão ainda o que tenho -narrado e narrarei, e embora tenham conversado com elles -por muito tempo, por falta de conhecimento ou de observação -da boa conducta natural d’estas pessoas fóra da graça -de Deos, passaram por ellas, á similhança das pedras preciosas, -sem tirar o menor proveito, e olhando-as com indifferença.</p> - -<p>A mesma ordem de classes de idade tenho observado entre -as raparigas e as mulheres, como entre os homens.</p> - -<p>A primeira classe é commum á ambos os sexos, cujos individuos, -sahindo immediatamente do ventre de suas mães, -se chama <i>Peitan</i>, como já dissemos no art. antecedente.</p> - -<p>A segunda classe estabelece distinção de idade, de sexo, -e de dever: d’idade de moça para moça, de sexo de moça -para rapaz, e de dever de mais moça para mais velha.</p> - -<p>Comprehende esta classe os sete primeiros annos, e a -rapariga d’esse tempo se chama <i>kugnantin-myri</i>, quer dizer -<i>rapariguinha</i>.</p> - -<p>Reside com sua mãe, mama mais um anno do que os rapazes, -e vi meninas com seis annos d’idade ainda mamando, -embora comam bem, fallem, e corram como as outras.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_80"></a>[80]</span></p> - -<p>Em quanto os rapazes d’esta idade carregam arcos e flexas, -as raparigas se empregam em ajudar suas mães, fiando -algodão como podem, e fazendo uma especie de redesinha -como costumam por brinquedo, e amassando o barro com -que imitam as mais habeis no fabrico de potes e panellas.</p> - -<p>Expliquemos o amor, que o pae e a mãe dedicam a seos -filhos e filhas.</p> - -<p>Pae e mãe consagram todo o seo amor aos filhos, e ás -raparigas apenas accidentalmente, e n’isto acho-lhes razão -natural, nossa luz commum, a qual nos torna mais affeiçoados -aos filhos do que ás filhas, porque aquelles conservam -o tronco e estas o despedaçam.</p> - -<p>Abrangem a terceira classe desde 7 até 15 annos, e a moça -n’esta idade se chama <i>kugnantin</i>, «rapariga»: n’este tempo -ordinariamente perdem, por suas loucas phantasias, o que -este sexo tem de mais charo, e sem o que não podem ser -estimadas nem diante de Deos, nem dos homens; perdoem-me -se digo, que n’esta idade não são prudentes, embora a -honra e a lei de Deos as convidasse á immortalidade da -candura, porque estas pobres raparigas selvagens pensam, -e muito mal, aconselhadas pelo autor de todas as desgraças, -que não devem ser mais puras quando chega esse tempo. -Nada mais direi para não offender o leitor: basta tocar apenas -o fio do meo discurso.</p> - -<p>N’essa idade aprendem todos os deveres de uma mulher: -fiam algodão, tecem redes, trabalham em embiras, semeam -e plantão nas roças, fabricam farinha, fazem vinhos, preparam -a comida, guardam completo silencio quando se acham -em quaesquer reuniões onde ha homens, e em geral fallam -pouco se não estão com outras da mesma idade.</p> - -<p>A quarta classe está entre 15 a 25 annos, e a rapariga n’ella -comprehendida chama-se <i>kugnammucu</i>, «moça ou mulher -completa», o que nós dizemos por «moça boa para casar.»</p> - -<p>Passaremos em silencio o abuso, que se pratica n’estes -annos, devido aos enganos de sua Nação, reputados como -lei por elles.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_81"></a>[81]</span></p> - -<p>São ellas, que cuidam da casa alliviando suas mães, e -tratando das coisas necessarias á vida da familia: cedo são -pedidas em casamento, si seos paes não as destinam para -algum francez afim de terem muitos generos, e no caso -contrario são concedidas, e então se chamam <i>kugnammucu-poare</i>,<a id="Nanchor_39" href="#Note_39" class="fnanchor">[39]</a> -«mulher casada, ou no vigor da idade.»</p> - -<p>D’ahi em diante acompanha seo marido carregando na -cabeça e ás costas todos os utencilios necessarios ao preparo -da comida, as vezes a propria comida, ou os viveres -necessarios á jornada, como fazem os burros de carga com -a bagagem e alimentação dos seos senhores.</p> - -<p>É occasião de dizer, que ambiciosos como os grandes da -Europa, que desejam ostentar sua grandesa apresentando -grande numero de burros, estes selvagens tambem desejam -ter muitas mulheres para acompanhal-os, e levar suas bagagens, -mormente havendo entre elles o costume de serem -estimados e apreciados pelo grande numero de mulheres á -seo cargo.</p> - -<p>Quando grávidas, após o casamento, são chamadas <i>puruabore</i>, -«mulher prenhe», e apezar d’este estado não deixam -de trabalhar até á hora do parto, como si nada tivessem. -Apresentam grande volume, porque ordinariamente parem -meninos grandes e corpolentos.</p> - -<p>Talvez se pense que n’este estado cuidam ellas em cobrir -sua nudez, porem não soffrem a menor alteração o seo modo -de viver.</p> - -<p>Chegado o tempo do parto, si assim se póde chamar, -não procura para esse fim a cama, si as dores não são -fortes: em qualquer dos casos senta-se, é rodeada por suas -visinhas convidadas para assistil-as, pouco antes do apparecimento -das dores, por meio d’estas palavras <i>chemenbuirare-kuritim</i> -«eu vou já partir, ou estou quase a parir»: -corre veloz o boato de casa em casa, que tal e tal mulher -vae parir, dizendo com o nome proprio da parturiente estas -palavras <i>ymen-buirare</i>, que significa «tal mulher pario, ou -está para parir.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_82"></a>[82]</span></p> - -<p>Acha-se ahi o marido com as visinhas, e si ha demora -no parto, elle aperta-lhe o ventre para fazer sahir o menino, -o que acontecido, deita-se para observar o resguardo -em lugar de sua mulher,<a id="Nanchor_40" href="#Note_40" class="fnanchor">[40]</a> a qual continua a fazer o serviço -do costume, e então é vesitado em sua cama por todas -as mulheres da aldeia, que lhe dirigem palavras cheias -de consolação pelo trabalho e dôr, que teve de fazer o menino, -sendo tratado como gravemente doente e muito cançado, -á maneira do que se pratica em identicas circumstancias -com as mulheres de paizes civilisados.</p> - -<p>Comprehende a quinta classe desde 25 até 40 annos, -quando o homem e a mulher attingem ao seo maior vigor.</p> - -<p>Dam-lhe geral e commummente o nome de <i>kugnan</i>, «uma -mulher, ou uma mulher em todo o seo vigor».</p> - -<p>N’essa idade conservam ainda as indias alguns traços de -sua mocidade, e principiam a declinar sensivelmente, sendo -feias e porcas, trazendo as mamas pendentes á similhança -dos cães de caça, o que causa horror: quando jovens, são -bonitas e asseiadas, e tem os peitos em pé.</p> - -<p>Não quero demorar-me muito n’esta materia, e concluo -dizendo, que a recompensa dada n’este mundo á puresa é -a incorruptibilidade e inteiresa acompanhada de bom cheiro, -mui bem representada nas letras santas pela flôr do lyrio -puro, inteiro e cheiroso—<i>sicut lilium inter spinas, sic amia -mea inter filias</i>.</p> - -<p>A sexta e ultima classe está entre os 40 annos e o resto -da vida, e então a mulher se chama <i>Uainuy</i>: n’este tempo -ainda parem.</p> - -<p>Gosam do privilegio da mãe de familia: presidem ao fabrico -dos <i>cauins</i>, e de todas as outras bebidas fermentadas.</p> - -<p>Occupam lugar distincto na <i>casa-grande</i> quando ahi vão -as mulheres conversar, e quando ainda se achava em pleno -vigor o poder de comerem os escravos, eram ellas as incumbidas -de assar bem o corpo d’elles, de guardar a gordura, -que não queriam, para fazer o <i>mingau</i>, de cozinhar as tripas,<span class="pagenum"><a id="Page_83"></a>[83]</span> -e outros intestinos em grandes panellas de barro, de -n’ellas misturar farinha e couves, e dividil-as depois por escudellas -de pau, que mandavam distribuir pelas raparigas.</p> - -<p>Dam principio ás lagrymas e lamentos pelos defunctos, ou -pela boa chegada de suas amigas.</p> - -<p>Ensinam ás moças o que aprenderam.</p> - -<p>Usam de más palavras, e são mais descaradas do que as -raparigas e as moças, e nem me atrevo a dizer o que ellas -são, o que vi e observei, sendo tambem verdade que vi e -conheci muitas boas, honestas e caridosas.</p> - -<p>Existiam no <i>Forte de São Luiz</i> duas boas mulheres <i>Tabajares</i>, -que não se cansavam de trazer-me presentesinhos, -e quando me os offereciam, sempre choravam e desculpavam-se -de não poderem dar melhores.</p> - -<p>Não espero muito d’estas velhas: e o superior nada tem -a fazer senão esperar que a morte o livre d’ellas: quando -morrem não são muito choradas e nem lamentadas, porque -os selvagens gostam muito de ter mulheres moças.</p> - -<p>Os selvagens creem supersticiosamente terem as mulheres, -depois de mortas, muita difficuldade de deparar com o -lugar onde, alem das montanhas, dançam seos ante-passados, -e que muitas ficam pelos caminhos, se é que lá chegam.</p> - -<p>Não guardam asseio algum quando atingem a idade da -decrepitude, e entre os velhos e velhas nota-se a differença -de serem os velhos veneraveis e apresentarem gravidade -e autoridade, e as velhas encolhidas e enrugadas -como pergaminho exposto ao fogo: com tudo isto são respeitadas -por seos maridos e filhos, especialmente pelas -moças e meninas.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_84"></a>[84]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXIII">CAPITULO XXIII</h3> - -<p class="subhead">Da consaguinidade entre os selvagens.</p> - -</div> - -<p>Como entre nós, a consaguinidade entre estes barbaros -tem muitos graus e ramos, e se observa entre todas as familias -com tanto cuidado como fazemos, excepto porem a -castimonia, que tem alguns embaraços entre elles, menos -no primeiro grau—de pae para filha.</p> - -<p>Entre os irmãos e irmans não ha casamentos, mas duvido, -e não sem razão, da regularidade da vida d’elles, e nem -isto merece ser escripto.</p> - -<p>Bróta o primeiro ramo do tronco de seos avós, que elles -chamam <i>Tamoin</i>,<a id="Nanchor_41" href="#Note_41" class="fnanchor">[41]</a> e debaixo desta denominação comprehendem -todos os seos ante-passados desde Nóe até o ultimo -dos seos avós, e admira como se lembram e contam de avô -em avô, seos ante-passados, o que difficilmente fazemos na -Europa podendo remontar-nos, sem esquecer-nos, até o tataravô.</p> - -<p>O segundo ramo nasce e cresce do primeiro e chama-se -<i>Tuue</i>, «pae», e é o que os gera em legitimo casamento, -como acontece entre nós, porque para os bastardos ha outra -Lei, de que fallarei em lugar proprio.</p> - -<p>Este ramo paterno dá outro, que se chama <i>Taire</i>, «filho», -o qual se córta e divide-se em diversos galhos, a que chamam -<i>chéircure</i>, «meo irmão mais velho», um dia—a cumieira -da casa e da familia, e <i>chéubuire</i>, «meo irmãosinho», -que só cuidará da casa, si fallecer seo irmão mais velho.</p> - -<p>Tendo filhos um destes irmãos, qualquer que seja o sexo, -deve chamar o irmão de seo pae <i>chétuteure</i>, «meo tio» e -sua mulher <i>chéaché</i>, «minha tia». Da mesma forma si seo -pae tiver irmans elle as chama <i>chéaché</i>, «minha tia», como -tambem os maridos d’estas <i>chétuteure</i>, «meo tio».</p> - -<p>Os tios e tias chamam os meninos de seos irmãos e irmans -<i>chéyeure</i> «meo sobrinho», e as meninas <i>reindeure</i> ou -<i>chereindeure</i>, «minha sobrinha».</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_85"></a>[85]</span></p> - -<p>Os filhos de dois irmãos, isto é, de um irmão e os de -outra irman se chamam os homens <i>rieure</i> ou <i>cherieure</i>, -«meo primo», e as moças <i>yeipere</i> ou <i>cheitipere</i> «minha -prima.»</p> - -<p>Quanto á descendencia do lado das mulheres, a avó é o -tronco, seja paterna ou materna, e chama-se <i>ariy</i> ou <i>cheariy</i>, -«minha avó.»</p> - -<p>A mãe é o segundo ramo, e chama-se <i>Ai</i>, «mãe», ou <i>cheai</i>, -«minha mãe».</p> - -<p>Seguem-se gradualmente a filha, cujo nome é <i>tagyre</i>, filha, -ou <i>cheagyre</i>, «minha filha», a irman <i>teindure</i>, «irman», ou -<i>chéreindure</i>, «minha irman», a tia <i>yaché</i>, «tia», ou <i>chéaché</i>, -«minha tia», a sobrinha <i>reindure</i> ou <i>chereindure</i>, «minha -sobrinha», ou «minha pequena irman», modo de fallar entre -elles, a prima <i>yetipere</i>, «prima», ou <i>cheytipere</i>, «minha -prima.»</p> - -<p>Eis os ramos de consaguinidade entre elles.</p> - -<p>Para os homens.</p> - -<ul> -<li>Avô.</li> -<li>Pae.</li> -<li>Filho.</li> -<li>Irmão.</li> -<li>Tio.</li> -<li>Sobrinho.</li> -<li>Primo.</li> -</ul> - -<p>Traduzido em sua lingua é</p> - -<ul> -<li><i>Chéramoin</i> ou <i>tamoin</i>.</li> -<li><i>Tuue</i> ou <i>chéru</i>.</li> -<li><i>Tayre</i> ou <i>chéayre</i>.</li> -<li><i>Cheircure</i> ou <i>chéubuire</i>.</li> -<li><i>Tuteure</i> ou <i>chétuteure</i>.</li> -<li><i>Yeure</i> ou <i>chéyeure</i>.</li> -<li><i>Rieure</i> ou <i>chérieure</i>.</li> -</ul> - -<p>Para as mulheres.</p> - -<ul> -<li>Avó.</li> -<li>Mãe.<span class="pagenum"><a id="Page_86"></a>[86]</span></li> -<li>Filha.</li> -<li>Irman.</li> -<li>Tia.</li> -<li>Sobrinha.</li> -<li>Prima.</li> -</ul> - -<p>Em sua linguagem.</p> - -<ul> -<li><i>Ariy</i> ou <i>Ché-Ariy</i>.</li> -<li><i>Ai</i> ou <i>Chéai</i>.</li> -<li><i>Tagyre</i> ou <i>Chéagyre</i>.</li> -<li><i>Theindeure</i> ou <i>Chéreindeure</i>.</li> -<li><i>Yaché</i> ou <i>Chéaché</i>.</li> -<li><i>Reindure</i> ou <i>Chéreindure</i>.</li> -<li><i>Yetipere</i> ou <i>Ché-yetipere</i>.</li> -</ul> - -<p>Alem d’estas consaguinidades existem mais duas por contractos -de alliança; uma quando se dá sua filha á um individuo, -ou quando se recebe uma moça para casar-se com -seu filho, e outra quando, por contracto d’alliança com os -francezes, lhes dam suas filhas para concubinas.</p> - -<p>Aos que dam suas filhas chamam <i>taiuuen</i> «genro», ou -<i>Chéraiuuen</i>, «meo genro».</p> - -<p>Á mulher de seo filho chamam <i>Tautateu</i>, «nóra», ou <i>Cherautateu</i>, -«minha nora».</p> - -<p>Chamam os Francezes seos alliados por hospitalidade <i>Tuasap</i>, -«compadre» ou <i>ché-tuasap</i>, «meo compadre» e as -vezes <i>Chéaire</i>, «meo filho,» ou <i>Cheraiuuen</i>, «meu genro,» -quando sua filha é concubina do Francez.</p> - -<p>É este o ramo d’alliança.</p> - -<ul> -<li>Genro.</li> -<li>Nóra.</li> -<li>Compadre.</li> -</ul> - -<p>Em sua linguagem é</p> - -<ul> -<li><i>Taiuuen</i>, ou <i>Ché-raiuuen</i>.</li> -<li><i>Tautateu</i> ou <i>Cherautateu</i>.</li> -<li><i>Tuassap</i> ou <i>Chetuassap</i>, ou então <i>Ché-aire</i>.</li> -</ul> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_87"></a>[87]</span></p> - -<p>São bastardos os filhos, que tem fóra do casamento legitimo -á moda d’elles, e entre estes bastardos ha ainda certa -ordem.</p> - -<p>A primeira é dos que tem pae e mãe, ambos Tupinambás: -a segunda dos que tem por mãe uma india Tupinambá -e por pae um Francez: a terceira dos filhos de um Tupinambá -e de uma escrava: a quarta de uma Tupinambá e de um -escravo: a quinta finalmente de uma escrava e de um Francez.</p> - -<p>A linha dos bastardos é a seguinte:</p> - -<ul> -<li>De um Tupinambá com uma Tupinambá.</li> -<li>De uma india Tupinambá com um Francez.</li> -<li>De um Tupinambá com uma escrava.</li> -<li>De uma india Tupinambá e um escravo.</li> -<li>De uma escrava e de um Francez.</li> -</ul> - -<p>Em sua linguagem chamam estes bastardos <i>Marap</i>, ou -<i>Ché-marap</i>, e aos bastardos dos Francezes <i>Mulatres</i>, «mulatos.»</p> - -<p>São diversas as leis d’estes bastardos conforme sua descendencia, -e antes de tratar d’ellas convem estabelecer a -regra geral para com os bastardos, que é quando...</p> - -<p class="center">(Falta uma folha.)</p> - -<p class="noindent">... elles o chamam <i>Toreuue</i>, «folgasão,» <i>Cheroreuue</i>, «sou divertido, -folgasão:» o que é agradavel e tem para dizer alguma -coisa chama-se <i>aron-ayue</i>.</p> - -<p>Suas saudações, perguntas e respostas, quando juntas, são -o mais amavel que é possivel, mormente quando as fazem -com acento muito longo, brando, e insinuante, especialmente -as mulheres e as moças, e como sei que será agradavel ao -Leitor vou aqui transcrever algumas de suas frazes communs -e ordinarias.<a id="Nanchor_42" href="#Note_42" class="fnanchor">[42]</a></p> - -<p>Quando se levantam pela manhã dizem</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Tyen-de-Koem.</td> - <td>Bom dia.</td> - </tr> - <tr> - <td>Nein Tyen-de-Koem</td> - <td>Para vós tambem.</td> - </tr> -</table> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_88"></a>[88]</span></p> - -<p>A tarde, do regressar do trabalho, quando se despedem</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Tyen de Karuq.</td> - <td>Boa tarde.</td> - </tr> - <tr> - <td>Nein Tyen de Karuq.</td> - <td>Para vós tambem.</td> - </tr> -</table> - -<p>Quando chega a noite, e querem dormir, dizem reciprocamente.</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Tyen-de-potom.</td> - <td>Boa noite.</td> - </tr> - <tr> - <td>Nein-Tyen-de-petom.</td> - <td>Para vós tambem.</td> - </tr> -</table> - -<p>Se alguem se derige a elles, ou passa ao pé d’elles ou se -encontra no caminho, muitas vezes pára um pouco, com expressão -docil e rosto prasenteiro perguntam um ao outro:</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Mamo sui pereiu?</td> - <td>D’onde vindes?</td> - </tr> - <tr> - <td>Mamo peresso?</td> - <td>Onde ides?</td> - </tr> -</table> - -<p>Logo que respondem e dizem d’onde vem e para onde -vão, podeis ficar certo que se trata de uma das coisas seguintes, -constante emprego de sua vida e exercicio, isto é, -da pescaria no mar, da entrada nos bosques, da derrubada -das arvores, da visita de suas roças, da plantação de raizes, -da colheita dos fructos, e dos nabos, da caçada, dos passeios -por varios lugares, da visita das aldeias e das habitações de -uns e outros.</p> - -<p>São estas as respostas d’elles.</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Paranam-sui-kaiut.</td> - <td>Venho do mar.</td> - </tr> - <tr> - <td>Pira-rekie-sui-kaiut.</td> - <td>Venho de pescar.</td> - </tr> - <tr> - <td>Kaa-sui-kaiut.</td> - <td>Venho do matto.</td> - </tr> - <tr> - <td>Ybuira monosoc, ou então ybuira mondoc.</td> - <td>Venho de cortar matto.</td> - </tr> - <tr> - <td>Ko-sui-kaiut.</td> - <td>Venho da roça.</td> - </tr> - <tr> - <td>Ko-piraruer-kaiut.</td> - <td>Venho de roçar.</td> - </tr> - <tr> - <td>Maetum aruere.</td> - <td>Venho de cavar e de plantar.</td> - </tr> - <tr> - <td>Vuapoo-aruere kaiut.</td> - <td>Venho de colher fructos.</td> - </tr> - <tr> - <td>Kaaue-aruere kaiut.</td> - <td>Venho da caça.</td> - </tr> - <tr> - <td>Mosu-aruere-kaiut.</td> - <td>Venho de passeiar.</td> - </tr> - <tr> - <td>Taaue-sui-kaiut.</td> - <td>Venho de tal aldeia.</td> - </tr> - <tr> - <td>Ahere-piac-sui-kaiut.</td> - <td>Venho de ver tal pessoa.</td> - </tr> - <tr> - <td>Chere-suiu então cheretansui.</td> - <td>Venho de minha casa.</td> - </tr> - <tr> - <td>Ne in cheaiurco.</td> - <td>Adeos, vou-me embora.<span class="pagenum"><a id="Page_89"></a>[89]</span></td> - </tr> - <tr> - <td>Ne in oro iurco.</td> - <td>Adeos, vamo-nos embora.</td> - </tr> -</table> - -<p>Quando vae algum visinho procural-os em sua casa, ou -quando sentem falta de alguma coisa, procurando por ahi -algures elles perguntam:</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Que procuraes?</td> - <td>Maeperese-kar?</td> - </tr> - <tr> - <td>Que perguntaes?</td> - <td>Maraereico?</td> - </tr> -</table> - -<p>Então dizem o que procuram, e respondem ás perguntas -mui francamente; por exemplo:</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Quero comêr.</td> - <td>Agerure deué-cheremyuran ressé.</td> - </tr> - <tr> - <td>Quero farinha.</td> - <td>Agerure uiressé.</td> - </tr> - <tr> - <td>Quero carne.</td> - <td>Agerure soo ressé.</td> - </tr> - <tr> - <td>Quero peixe.</td> - <td>Agerure pyra ressé.</td> - </tr> - <tr> - <td>Quero agoa.</td> - <td>Agerure v-ressé.</td> - </tr> - <tr> - <td>Quero fogo.</td> - <td>Agerure tata cheué.</td> - </tr> - <tr> - <td>Quero uma faca.</td> - <td>Agerure xè.</td> - </tr> - <tr> - <td>Um machado.</td> - <td>Iu.</td> - </tr> -</table> - -<p>Se veem alguem pensativo, elles lhe perguntam o que ha -e no que pensam.</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Que pensaes?</td> - <td>Mara-péde-ie-mongueta.</td> - </tr> -</table> - -<p>Elle responde:</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Não penso em coisa alguma.</td> - <td>Ai Kogué.</td> - </tr> - <tr> - <td>Penso em alguma coisa.</td> - <td>Maerssé-kaien-arico.</td> - </tr> - <tr> - <td>Penso em vós.</td> - <td>Dressé kaien-arico.</td> - </tr> -</table> - -<p>Si veem um conversando com outros, tem muita curiosidade -de saber o que dizem, e por isso vão procural-os, e -amigavelmente lhe perguntam:</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Que dizeis? ou então, em que conversavam?</td> - <td>Mára-erepe? Mára-erepipo? Mara-peie-peiupé.</td> - </tr> -</table> - -<p>Respondem elles:</p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>Fallavamos de nossas occupações.</td> - <td>Ore-rei-koran koiomongueta.</td> - </tr> - <tr> - <td>Fallavamos de vós.</td> - <td>Deressé koia-mongueta.</td> - </tr> -</table> - -<p>Assim passavam entre si a vida mui pacifica e familiarmente.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_90"></a>[90]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXV">CAPITULO XXV</h3> - -<p class="subhead">Dos caracteres incompativeis entre os selvagens.</p> - -</div> - -<p>Costumava Socrates dizer, que assim como o vinho aspero -e grosseiro é de digestão má e desagradavel ao paladar, -assim tambem os caracteres rudes, grosseiros e impectuosos -não servem para companheiros de uma conversação entre -homens.</p> - -<p>Escreveo Plutarcho, que assim como o som aspero dos -caldeirões e panellas quebradas encolerisam os tigres a ponto -de fazel-os accommetter desesperadamente e saltar sobre os -que vem fazer perto d’elles tão incommodo e desagradavel -barulho, assim tambem fazem as más inclinações, ou os -maus caracteres entre os homens.</p> - -<p>Aborrecem sobre todas as coisas o companheiro, que -provoca e faz mal ao seo visinho, e chamam-no <i>Moiaron</i>, -e quando se insultam por palavras, chamam-no então <i>Oroacap</i>.</p> - -<p>Quando encontram taes caracteres, fogem d’elles e evitam -iguaes contestações, e ainda fazem mais, previnem os -Francezes seos compadres, afim de que nada peçam á tal -gente.</p> - -<p>Si por ventura teem mulheres com esse genio ficam -muito contrariados, e não necessitam ser muito rogados afim -de livrarem-se d’ellas, ou de consentir que vão para onde -bem lhes parecer.</p> - -<p>Ha em <i>Juniparan</i>, na Ilha, um hermaphrodita, no exterior -mais homem do que mulher, porque tem face e voz de -mulher, cabellos finos, flexiveis, e compridos, e comtudo -casou-se e teve filhos, mas tem um genio tão fórte que vive -porque receiam os selvagens da aldeia trocar palavras com -elle.</p> - -<p>Presenciei a mudança de uma familia inteira somente -para evitar a visinhança de um selvagem de muito máo caracter.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_91"></a>[91]</span></p> - -<p>Escarnecem e despresam o homem, que se accommoda -com as provocações e questões de sua mulher quando ella -tem mau genio.</p> - -<p>Em quanto ahi morei, aconteceo aborrecer-se um selvagem -do mau genio de sua mulher a ponto de empunhar com a -mão direita um cacete, e na esquerda segurar nos cabellos -d’ella querendo experimentar se este oleo e balsamo adoçaria -o azedume de seo mal, porem admirou-se de vêr, que -cahindo o fogo na chaga mais o augmentasse, porque podendo -escapar-se de suas mãos, á vista dos visinhos, tomou -tambem ella outro cacete, quiz fazer o mesmo ao marido, e -depois de se haverem espancado reciprocamente com grande -applauso de todos, ficaram ambos com igualdade de circumstancias -frente a frente um do outro, sendo depois o -marido a fabula e o assumpto de todas as conversas, quer -dos grandes quer dos pequenos. Diziam os antigos nas suas -<i>Casas-grandes</i>, que elle não teve remedio si não ficar com -sua mulher, porque já a conhecia.</p> - -<p>Vi os abandonar e deixar seos generos a quem vendem, -só para evitar questões com o comprador.</p> - -<p>Notareis, que elles só tem—<i>sim</i> e <i>não</i>—quando negociam -juntos, ou com os Francezes, nunca regateando.</p> - -<p>Muitos outros exemplos eu poderia ainda reproduzir, porem -bastam estes.</p> - -<p>Avaliam muito bem as pessoas colericas, a que chamam -<i>Poromotare-vim</i>, e reciprocamente se advertem dizendo—<i>Cheporomatare-vim</i>, -«estou encholerisado,» e então ninguem -lhe diz nada, antes buscam abandonal-o o mais que podem, -o que exprimem por <i>Mogerecoap</i>, «abrandar alguem». <i>Aimogerecoap</i>, -«abrando o que está encolerisado.»</p> - -<p>Observei muitas vezes, quando viam um Francez enraivecido, -ficarem como que fóra de si, mudarem de côr, e fugirem -da vista d’elle, dizendo uns aos outros <i>Ymari turuçu</i> -«está muito zangado, está muito enfurecido.» <i>Ché-assequeié -seta</i>. «Tenho medo d’elle.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_92"></a>[92]</span></p> - -<p>Aconteceu encolerisarem-se muitas vezes duas ou tres pessoas -da nossa equipagem na aldeia, em que estavam. Vieram -por isto os Principaes ao Forte de São Luiz queixarem-se -e pedindo, que lhes tirassem de lá esses Francezes, porque -lhes faziam medo, e especialmente a seos filhos, o que -conseguiram.</p> - -<p>Si as questões de palavras e as raivas são temiveis, muito -mais ainda o são os insultos e as disputas, o que é muito raro, -a ponto de espancarem-se, o que chamam <i>ionupan</i> «espancar-se», -e ainda mais quando se ferem, o que explicam por -<i>iuapichap</i>, «ferir-se,» mormente quando depois de se haverem -maltratado reciprocamente vão por despeito queimar as suas -casas, o que exprimem pela palavra <i>Iuapic</i> «incendiarios» -reciprocos: todos sentem estas coisas, e ninguem se atreve -a metter-se entre elles para aplacal-os: eis como fazem: vae -cada um para seu lado, e tomando uma porção de pindoba -secca, acendem-na, atiram sobre a cobertura de sua propria -casa, dizendo uns aos outros—salve quem poder sua casa, -queimei a minha, ninguem podia oppôr-se a minha vontade, -e assim em poucos momentos a aldeia está queimada e ninguem -lhe diz nada.</p> - -<p>Aconteceria isto muitas vezes na Ilha, se não fosse o receio -que tinham dos Francezes.</p> - -<p>Não gostam de ser injuriados, seja homem ou mulher, e -nem mesmo as publicas consentem que se as chame <i>Pataqueres</i> -«meretrises.»</p> - -<p>Recorda-me que tendo tido uma india escrava um filho -de um Francez, as outras lançaram-lhe isto em rosto chamando-a -<i>Pataquere</i>, «meretriz» com o que se doeu muito, -e disse que, se continuassem, ella mataria seo filho ou o enterraria -vivo.</p> - -<p>Chamam a injuria <i>Curap</i>.</p> - -<p>Ninguem se admire de evitarem estes selvagens a colera -e seos effeitos, por ser esta paixão contraria a natureza -do homem, fazendo-o inteiramente bruto, como disse São<span class="pagenum"><a id="Page_93"></a>[93]</span> -Basilio Magno, na Homilia 10, da ira, e transformar o homem -n’um animal feroz—<i>Hominem penitus in feram converti</i>: -São Gregorio de Nissa, na Oração 2ª sobre a bemaventurança, -compara a colera com esses antigos feiticeiros do -Paganismo, que por encanto mudavam e transformavam o -homem em diversos animaes ferozes como o javaly e a panthera. -A colera faz o mesmo.</p> - -<p>São Gregorio Magno, no 5º livro da sua <i>Moral</i>, cap. 30, -diz ser o cerebro do colerico o buraco, onde se geram as -víboras.—<i>Cogitationes iracundi viperæ sunt generationis</i>.</p> - -<p>Platão contra esta paixão aconselhava, como remedio, aos -seos discipulos, que observassem bem os gestos e as palavras -de um homem colerico, e ou que se mirassem n’um -espelho quando se enraivecessem.</p> - -<p>Não é coisa nova e nem fóra de proposito o temerem e -fugirem estes selvagens quando veem um homem encolerisado, -especialmente um Francez, porque diz o proverbio, -cap. 27—<i>Impetum concitati spiritus ferre quis poterit?</i></p> - -<p>Não é menos difficil de crer-se, que, por despeito, apoz -calorosa ou inconveniente questão, queimem elles suas casas, -porque no <i>Proverbio 26</i> acha-se <i>sicut carbones ad prunas -et ligna ad ignem</i>—assim como o carvão é para o brasieiro, -e a lenha para o fogo, assim tambem a questão de -palavras é para o homem naturalmente colerico, <i>sic homo -iracundus suscitat rixas</i>, e no <i>Ecclesiastico 28</i>, <i>secundum -ligna sylvæ, sic ignis exardescit</i>—tal é a quantidade da lenha -qual a força do fogo, fallando da colera.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_94"></a>[94]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXVI">CAPITULO XXVI</h3> - -<p class="subhead">Da economia dos selvagens.</p> - -</div> - -<p>Dizia Pitacus ser bem regulada a familia quando n’ella -encontram-se duas coisas—falta de superfluidade tanto no -que diz respeito á vida como ao governo da casa, e o que -é necessario para isto.</p> - -<p>Diz Cicero, que perguntando-se a Catão, qual é o melhor -governo de uma casa, elle respondera—onde houver comida, -vestuario e amor ao trabalho.</p> - -<p>Parece-me ser estas sentenças mais applicaveis aos selvagens, -e aos que passam vida frugal do que á outra classe -de individuos.</p> - -<p>São Thomaz definindo a economia concluio dizendo não -ser outra coisa mais do que uma boa ordem domestica, e -para conseguir-se este fim convinha, que a familia tivesse -viveres e tudo o mais necessario a vida, sendo mui essencial -não só uma boa intelligencia, como tambem que cuidassem -todos os membros d’ella em seos deveres.</p> - -<p>A propria natureza, e não qualquer sciencia adquirida, -ensina isto aos selvagens.</p> - -<p>As aldeias são divididas em quatro habitações, sob o governo -de um <i>Muruuichaue</i>, para o temporal, e um <i>Pagy-uaçú</i> -«um feiticeiro» para as molestias e bruxarias.<a id="Nanchor_43" href="#Note_43" class="fnanchor">[43]</a></p> - -<p>Cada habitação tem o seo Principal: estes quatro Principaes -estão sob as ordens do maioral da aldeia, o qual conjunctamente -com outros de varias aldeias obedecem ao Principal -soberano da provincia. Cada...</p> - -<p class="center">(falta uma folha.)</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_95"></a>[95]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXVIII">CAPITULO XXVIII</h3> - -<p class="subhead">Do cuidado que do seo corpo tem os selvagens.</p> - -</div> - -<p>Platão chamava o corpo um privilegio da Naturesa, e Crates, -o philosopho, um reino solitario.</p> - -<p>Mereceriam estas duas sentenças amplo desenvolvimento, -si não nos occupassemos de uma historia, que exige estylo -conciso, sem superfluidade de palavras ou digressões fóra de -proposito.</p> - -<p>Applicamos comtudo o dizer d’estes dois philosophos ao -nosso assumpto para notar, que tendo a naturesa, por longos -annos, recusado vestidos aos corpos dos indios, os compensara -formando-os bellos e agradaveis, sem o menor auxilio -de suas mães, que apenas os lavam e carregam como -si fosse qualquer pedaço de pau.</p> - -<p>Assenta-lhes muito bem a opinião de Crates chamando o -corpo um reino solitario e deserto, porque assim como os -animaes do deserto crescem e ficam vigorosos, em quanto -residem ahi, isto é, em sua plena liberdade, assim tambem -quando sob o dominio do homem e presos, embora no Palacio -dos Reis e principes da terra, para serem vistos e observados -como novidade, principiam logo a emagrecer, a -entristecer-se, a perder o desejo da propagação e de conservação -da especie, somente por terem perdido a liberdade -que outr’ora gosavam no seu reino solitario.</p> - -<p>Negando a natureza á estes selvagens viveres bem preparados, -bebidas bem feitas, vestidos pomposos, leitos macios, -soberbas casas e palacios, compensou-os porem, dando -lhes plena liberdade como aos passarinhos no ar, e as -bestas no campo, sem lastimarem-se, como fazem outros -quando comparam as pretendidas commodidades d’este -Mundo.</p> - -<p>Se o diabo com o fim de roubar-lhes o bem da salvação, -não se metesse entre elles, levantando novas discordias afim -de se matarem e comerem reciprocamente, não haveriam<span class="pagenum"><a id="Page_96"></a>[96]</span> -por certo homens mais felizes no mundo por causa de sua -natural franqueza e liberdade, que, adubando as suas carnes -as transformam em perfeita e saudavel nutrição, e d’ahi -provem a bellesa de seos corpos.</p> - -<p>Espero a objecção para responder—isto é, de se terem -visto muitos indios sordidos e horriveis. Respondo: não é -no rosto, onde se deve observar a forma e a bellesa de um -homem, e eis a razão porque Demostenes zombou, quando -os embaixadores de Athenas regressando de sua commissão -junto a Philippe, Rei de Macedonia, gabavam muito a formosura -d’elle: não, não, disse Demostenes, não é digna de -louvor a belleza do rosto de um homem, tão commum entre -os Cortezãos, porem merece encomios a sua estatura, a proporção -de seos membros, e a sua figura e elegancia.</p> - -<p>Fallo de haver a naturesa dado ordinariamente aos selvagens, -e especialmente aos <i>Tupinambás</i>, corpo bem feito, -bem proporcional e elegante, e quando estragam seos rostos -por incisões, fendas, e extravagancias de pinturas e de ossos, -o fazem pela ideia erronea, que tem, de serem por isto reputados -valentes.</p> - -<p>Tem muito cuidado na limpesa de seos corpos: lavam-se -muitas vezes, e não se passa um só dia, em que não deitem -muita agua sobre si, em que se não esfreguem com -as mãos por todos os lados para tirar o pó e outras immundicies.</p> - -<p>Penteiam-se as mulheres muitas vezes.</p> - -<p>Receiam emmagrecer, o que chamam em sua linguagem -<i>angaiuare</i>, e lastimam-se diante dos seos semelhantes dizendo -<i>Ché-angaiuare</i>, «estou magro,» e todos se compadecem -mormente quando chegam de qualquer viagem abatidos -pelo trabalho: todos o lastimam e o deploram, dizendo -<i>Deangoiuare seta</i>, «ah! quanto está magro, só tem ossos.»</p> - -<p>Eis a causa unica por que não podiam residir comnosco -os rapazes baptisados, visto temerem muito as mães, que -não emagrecessem em poder dos Francezes, os quaes suppunham -ter falta de tudo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_97"></a>[97]</span></p> - -<p>Não consentiam que seos maridos trouxessem comsigo os -filhos para vêr os Padres e as Capellas de Deos, senão á -força, e com vivas recommendações para que voltassem, e -quando se lembravam d’elles grande era a sua tristesa, e -choravam.</p> - -<p>Conservei em minha companhia um rapaz de <i>Tapuitapera</i> -chamado <i>Miguel</i>, já baptisado, e que muito bem -sabia a doutrina christã, afim de ensinal-a aos meos escravos.</p> - -<p>Residio comigo por alguns mezes, porem não poude ficar -mais por causa das importunações de sua mãe, e a dor que -mostrava chorando e lamentando-se constantemente, de maneira -que veio seo pae de proposito para leval-o, dizendo-lhe -que sua mãe o esperava cheia de piedade (modo de fallar -para mostrar compaixão): veio pedir-me licença para o -seo regresso chorando por deixar-me (tanto amam e estimam -seos paes!) dizendo que sua mãe estava magra, e -cheia de tristesa por sua ausencia e pensando tambem que -elle definhava estando comigo, asseverando-me que contaria -á sua mãe o bom tratamento que eu lhe dava, e a licença -que lhe concedi de voltar a sua casa.</p> - -<p>Um de nossos escravos commetteo uma falta, pela qual -ia ser castigado: mal soube elle desta resolução, e quando -ia ser preso, disse que estava magro, e que não o açoitassem -como si fosse gordo, porque a gordura cobre os ossos, -apara os açoites e impede que a dor lhes chegue. «Si me -açoitaes com força me quebraes as veias apenas cobertas -pela pelle», e assim dizia por ser muito magro.</p> - -<p>Para engordarem reuniam-se muitos indios, embarcavam-se -n’uma canoa grande, muniam-se de farinha, de flechas e -de cães, iam á terra firme, onde matavam a caça, que apeteciam, -como veados, onças, capivaras, vaccas bravas, tatùs, -e muitos passaros, e ahi se demorando em quanto havia -farinha, engordavam á farta com estas comidas, e voltavam -depois para a Ilha trasendo muita caça assada.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_98"></a>[98]</span></p> - -<p>Quando á Ilha regressou da guerra do Pará o indio <i>Brasil</i> -julgando-se magro, pedio licença ao Sr. de Ravardiere para -ir á terra firme levando comsigo alguns Francezes afim de -engordar, o que lhe foi permittido.</p> - -<p>Embrenharam-se muito pelo sertão, e quando a felicidade -os encheo de caça, aconteceo-lhes uma desgraça—acabou-se-lhes -a farinha: viram-se obrigados a comer palmito, como si -fosse pão, com a carne que tinham, o que contrariou muito -os Francezes não habituados a esta especie de pão, sentindo -muito que a festa não fosse completa, havendo tanta carne, -sem pão e sem sal.</p> - -<p>Aconteceo-lhes o mesmo, que a Midas, possuidor de muito -ouro, quando sua mulher lhe apresentou na meza muitas -iguarias, todas porem de ouro, ou então á Tantalo morrendo -de sêde apezar de cercado d’agoa: o mesmo lhes aconteceo, -emagreciam em vez de engordarem por não levarem -a farinha necessaria.</p> - -<p>N’este ponto os Francezes imitam os selvagens, e por isso -estes os estimam.</p> - -<p>Os Francezes residentes no Fórte pedem licença para passeiar -e refazerem-se de forças.</p> - -<p>Quando os selvagens sabem d’isto, vão á caça, e mediante -a troca de alguns generos offerecem a estes passeiadores -dois ou tres banquetes: findos estes regressam á sua terra, -e assim vão continuando ora n’uma aldeia, ora n’outra, girando -por toda a Ilha, ou provincia de <i>Tapuitapera</i> e <i>Comã</i> -divertindo-se e engordando.</p> - -<p>Os Francezes hospedados por seos compadres n’estas aldeias -não são muito felizes em seos passeios, porque se ha -então alguma coisa boa não é para elles, e sim para os viandantes.</p> - -<p>Costumam os selvagens dar o melhor, que possuem aos -hospedes, por dois ou tres dias, findos os quaes tratam-nos -com o uso commum e trivial.</p> - -<p>Admire-se, eu vos peço, ainda que ligeiramente, o grande -amor de Deos para com os homens, dando-lhes o sentimento<span class="pagenum"><a id="Page_99"></a>[99]</span> -natural da caridade para com o proximo. O que fazem de -melhor os christãos, ou observam os Religiosos, do que a -caridade puramente natural dos selvagens, que não podem -alcançar a gloria, bem differente do que acontece á caridade -sobre natural dos christãos, que espera a recompensa da -vida eterna?</p> - -<p>O aceio do corpo faz-se por muitas maneiras, e entre ellas -contam-se estas.</p> - -<p>Trazem sempre na bocca a herva do Petun, (tabaco ou -fumo) cujo fumo expellem pela bocca e narinas com intenção -de seccar as humidades do cerebro e as vezes o engolem -para limpar o estomago de cruezas que sahem por meio -do arrôto.</p> - -<p>Apenas acabam de comer fumam o Petun, e o mesmo -praticam pela manhan e a noite, quando se levantam e deitam-se.</p> - -<p>A proposito de Petun devo contar a ideia supersticiosa, -que formam desta herva e do seo fumo.</p> - -<p>Crêem, que esta herva os torna discretos, judiciosos, e -eloquentes, de forma que antes de começarem algum discurso -usam d’ella: não me parece, que seja comtudo muito -supersticiosa, porque ha nisto uma razão natural: eu mesmo -a experimentei, e reconheci, que a sua fumaça exclarece o -entendimento dissipando os vapores dos orgãos do cerebro, -fortalece a voz seccando a humidade e escarros da bocca, -permittindo assim facilidade á lingua para bem exercer suas -funcções.</p> - -<p>É facil experimentar-se isto usando-se d’ella com parcimonia -e em occasião propria, porque o abuso continuado -d’ella não me parece bom e saudavel aos que se alimentam -de bebidas e carnes quentes, porem é util aos que sentem -frios e humidos o estomago e o cerebro.</p> - -<p>Eis a razão porque o selvagem, habitante d’esta zona -humida, e que bebe de ordinario somente agoa, uza -constantemente d’este fumo afim de descarregar o cerebro -de humidades e frialdade, e o estomago de cruezas, o<span class="pagenum"><a id="Page_100"></a>[100]</span> -que tambem praticam os marinheiros e os habitantes das -praias.</p> - -<p>Pondo-se de infusão por espaço de 24 horas esta herva, -presta-se muito para purificar o corpo de infecções. Usa-se -somente do vinho.</p> - -<p>Crêem tambem que, engolindo o fumo, ficam alegres, joviaes -e previnidos contra a tristesa e melancolia.</p> - -<p>Vou referir-vos alguns casos que me contaram:</p> - -<p>Um selvagem que foi morto na bocca de uma peça, e de -quem hei-de fallar no <i>Tratado do Spiritual</i>, antes de se -encaminhar para o supplicio pedio um macinho de <i>Petun</i>, -como ultima consolação d’esta vida afim de morrer com -energia e alegria. Apenas alcançou o que desejava mostrou-se -alegre e sempre cantando até o fim.</p> - -<p>Quando seos companheiros o ataram á bocca da peça, elle -pedio para que não amarrassem o braço direito de fórma -que o embaraçasse de levar á bocca o Petun: quando a bala -dividio o seo corpo em duas partes, uma foi para o mar, e -a outra cahio na base do rochedo, e n’esta achou-se ainda -seguro pela mão direita o mólho de <i>Petun</i>.</p> - -<p>Os selvagens sentenciados á morte não soffrem a pena -sem usarem antes do <i>Petun</i>, conforme o costume da terra, -e não deixavam este habito nem mesmo os doentes.</p> - -<p>Os feiticeiros do paiz servem-se d’esta planta com proveito, -o que agora não refiro, e sim guardo para o fazer mais -adiante, si não me esquecer.</p> - -<p>Empregam ainda outro meio para a conservação da saude.</p> - -<p>Comem muitas vezes e pouco de cada uma: depois que -comem lavam muito bem a bocca, e se tem sêde quando comem, -bebem pouco apenas para apagar a sêde, gargarejam -bem a agua na bocca para aplacar o ardor do paladar.</p> - -<p>Cozinham muito bem suas comidas, e não usam d’ellas -meias cozidas ou aferventadas, sendo n’isto mais cuidadosos -do que os Francezes.</p> - -<p>Untam-se com azeite de palmas, de urucú, e de genipapo,<a id="Nanchor_44" href="#Note_44" class="fnanchor">[44]</a> -o que tem sempre em abundancia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_101"></a>[101]</span></p> - -<p>Estou certo que os meos leitores, pouco conhecedores da -disposição do corpo humano e do regimem necessario á sua -conservação, julgarão que a natureza ensinou a estes homens -o mesmo que a sciencia e a experiencia ensinaram a -outros.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXIX">CAPITULO XXIX</h3> - -<p class="subhead">De algumas indisposições naturaes, a que os selvagens -se acham sugeitos, e quaes os nomes, que -dão aos membros do corpo.</p> - -</div> - -<p>São os selvagens, na verdade, dotados pela naturesa com -boa saude, feliz e agradavel disposição.</p> - -<p>Raras vezes, na proporção de um para cem, encontram-se -entre elles corpos mal feitos e monstruosos.</p> - -<p>Não vi um só cego, apesar de existirem, porque elles o -chamam <i>Thessa-um</i>, «cego,» <i>Cheressa-um</i>, «estou cego,» -e <i>Ressa-um</i> «tu és cego.»</p> - -<p>Notei porem terem alguns a vista curta, especialmente os -velhos, e notavelmente as mulheres, visto que depois de 30 -annos d’idade tem a vista tão curta e fraca a ponto de não -poderem mais tirar dos pés os <i>Thons</i><a id="Nanchor_45" href="#Note_45" class="fnanchor">[45]</a> «bixos» como fazem -os rapazes e as moças.</p> - -<p>A proposito dizia um capitão Francez, não da nossa gente -e pouco crente, que o Papa não tinha poder sobre o mar, -porque Deos havia dito a São Pedro que seo poder estendia-se -somente sobre a terra, e por isso todos os que passam -o mar em busca d’estas terras não são mais sugeitos<span class="pagenum"><a id="Page_102"></a>[102]</span> -aos mandamentos da Igreja, podendo mui livremente tomar -uma rapariga para concubina, visto terem necessidade d’ella -para tirar dos pés d’elle e de outros francezes estes bixos.</p> - -<p>Conto isto para mostrar quanto são perigosos estes paizes -ás almas que tudo envenenam.</p> - -<p>Vi zarolhos, a que chamam <i>Thessaue</i>, porem muito poucos, -e vesgos que denominam <i>Thessauen</i>, «vesgo» <i>Cheressauen</i>, -«estou vesgo,» <i>Deressauen</i> «tu és vesgo.»</p> - -<p>Encontram-se alguns gagos, a que chamam <i>Gningayue</i>, -«gago,» <i>Chegningayue</i>, «estou gago.»</p> - -<p>Os velhos e os meninos são muito ramellosos, a que chamam -<i>Thessau-um</i> «ramelloso» <i>Cheressau-um</i> «estou ramelloso», -<i>Deressau-um</i> «tu és ramelloso»: é o resultado da -grande humidade do paiz, mais predominante nos corpos -dos meninos e dos velhos por causa da fraqueza do calor -natural, que é maior nos corpos d’estes do que nos dos outros, -onde é mais forte e intenso.</p> - -<p>Existem poucos calvos, e se chamam <i>apterep</i> «calvo,» -<i>Cheapterep</i> «estou calvo», e não existem muitos por serem -seos cabellos nutridos com força, e eis a razão porque tem -os cabellos fortes, duros e lisos.</p> - -<p>Encontram-se poucos coxos <i>Parin</i>, poucos manetas <i>Iuuasuc</i>, -e poucos mudos <i>Gneen-eum</i>, alguns gottosos <i>Karuarebore</i>, -de <i>Karuare</i> «gotta.»</p> - -<p>Encontra-se tambem uma especie de sarnentos de raça, -os quaes mudam de pelle annualmente, e comtudo não sentem -molestia alguma, estão sãos, e chamam-nos a todos, -que soffrem este mal <i>Kuruuebore</i>.</p> - -<p>Ha tambem obesos, <i>Timbep</i>, e se diz <i>Chetimbep</i> «estou -obeso,» <i>Detimbep</i> «tu és obeso,» e <i>Ytimbep</i>, «elle é obeso.»</p> - -<p>A todas as partes do corpo dão um nome especial, e particular.</p> - -<p>Chamam a alma <i>an</i>, «minha alma» <i>che-an</i>, «tua alma» -<i>dean</i>, «nossas almas» <i>orean</i>, «vossas almas» <i>pean</i>, «suas -almas» <i>yan</i>, em quanto a alma está unida ao corpo, porque -quando está separada chamam-na <i>anguere</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_103"></a>[103]</span></p> - -<table summary="Traduções de palavras"> - <tr> - <td>A cabeça.</td> - <td><i>Acan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Minha cabeça.</td> - <td><i>Cheacan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Caspa.</td> - <td><i>Kua.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Cabellos.</td> - <td><i>Aue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Meos cabellos.</td> - <td><i>Cheaue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Cerebro.</td> - <td><i>Aputuon.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Rosto.</td> - <td><i>Suua.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Palpebra.</td> - <td><i>Taupepyre.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Cara.</td> - <td><i>Tova.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Meo rosto.</td> - <td><i>Cherova.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Teo rosto.</td> - <td><i>Derova.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Seo rosto.</td> - <td><i>Sova.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Olho.</td> - <td><i>Tessa.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Lagrymas.</td> - <td><i>Thessau.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Meo olho.</td> - <td><i>Cheressa.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Mancha no olho.</td> - <td><i>Tessaton.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Vi uma mancha no olho.</td> - <td><i>Cheressaton.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Piscar os olhos.</td> - <td><i>Sapumi.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Pisco os olhos.</td> - <td><i>Assapumi.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Ouvido.</td> - <td><i>Apuissa.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Ouvir.</td> - <td><i>Sendup.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Ouço.</td> - <td><i>Assendup.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Orelha.</td> - <td><i>Nemby.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Minha orelha.</td> - <td><i>Chénemby.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Nariz.</td> - <td><i>Tin.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Monco.</td> - <td><i>Embuue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Narinas.</td> - <td><i>Apoin-uare.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Paladar da bocca, ou véo do paladar.</td> - <td><i>Konguire.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Bocca.</td> - <td><i>Giuru.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Beiço superior.</td> - <td><i>Apuan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Beiço inferior.</td> - <td><i>Teube.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Garganta.</td> - <td><i>Yasseok.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Escarrar.</td> - <td><i>Gneumon.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Eu escarro.</td> - <td><i>Auendeumon.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Tu escarras.</td> - <td><i>Eveuendeumon.</i><span class="pagenum"><a id="Page_104"></a>[104]</span></td> - </tr> - <tr> - <td>Saliva.</td> - <td><i>Thenduc.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Lingua.</td> - <td><i>Apekon.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Minha lingua.</td> - <td><i>Ché-ape kon.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Fallar.</td> - <td><i>Gneem.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Eu fallo.</td> - <td><i>Aigneem.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Bom fallador.</td> - <td><i>Gneemporam.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Halito.</td> - <td><i>Puitu.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Dentes.</td> - <td><i>Taim.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Doe-me os dentes.</td> - <td><i>Chéréuassu.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Meo dente.</td> - <td><i>Cheraim.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Teo dente.</td> - <td><i>Deraim.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Seo dente.</td> - <td><i>Saim.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Dente maxillar.</td> - <td><i>Taiuue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Mastigar.</td> - <td><i>Chuu.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Eu mastigo.</td> - <td><i>Achuu.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Face.</td> - <td><i>Tovape.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Beijar.</td> - <td><i>Geurupuitare.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Eu beijo.</td> - <td><i>Aigeurupuitare.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Bochechudo.</td> - <td><i>Tovape-uaçu.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Queixo.</td> - <td><i>Tendeuua.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Barba.</td> - <td><i>Tendeuua-aue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Barbudo.</td> - <td><i>Tendeuuaaue-reKuare.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Cachaço.</td> - <td><i>Aiure.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Collo.</td> - <td><i>Aiuripui.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Estrangular.</td> - <td><i>Iubuic.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Peito.</td> - <td><i>Potia.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Espaduas.</td> - <td><i>Atiue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Braços.</td> - <td><i>Iuua.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Cotuvello.</td> - <td><i>Tenuvangan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Punho.</td> - <td><i>Papue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Palma da mão.</td> - <td><i>Papuitare.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Mão.</td> - <td><i>Pó.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Minha mão.</td> - <td><i>Chépo.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Mão direita.</td> - <td><i>Ekatua.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Mão esquerda.</td> - <td><i>Açu.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Dedos.</td> - <td><i>Puan.</i><span class="pagenum"><a id="Page_105"></a>[105]</span></td> - </tr> - <tr> - <td>Unha.</td> - <td><i>Puampé.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Minha unha.</td> - <td><i>Chépuampé.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Mama.</td> - <td><i>Cam.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Coração.</td> - <td><i>Gnaen.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Veias.</td> - <td><i>Taiuc.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Sangue.</td> - <td><i>Tubui.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Baço.</td> - <td><i>Perep.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Tripa.</td> - <td><i>Thyepuy.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Figado.</td> - <td><i>Puya.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Fel.</td> - <td><i>Puya-upiare.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Barriga.</td> - <td><i>Thuye-uaçu.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Ventre.</td> - <td><i>Theic.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Embigo.</td> - <td><i>Puruan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Dorso.</td> - <td><i>Atucupé.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Rins.</td> - <td><i>Puiacoo.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Ilharga.</td> - <td><i>Ké.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Minha ilharga.</td> - <td><i>Ché-ké.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Costella.</td> - <td><i>Aru kan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Minha costella.</td> - <td><i>Ché-aru kan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Quadril.</td> - <td><i>Tenambuik.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Madre.</td> - <td><i>Acaia.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Testiculos.</td> - <td><i>Pere-ketin.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Nadegas.</td> - <td><i>Tevire.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Curva da perna.</td> - <td><i>Ananguire.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Coxas.</td> - <td><i>Uue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Joelhos.</td> - <td><i>Tenupuian.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Pernas.</td> - <td><i>Tuma.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Pé.</td> - <td><i>Pui.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Calcanhar.</td> - <td><i>Puita.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Planta de pé.</td> - <td><i>Puipuitare.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Dedo do pé.</td> - <td><i>Puissan.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Corpo.</td> - <td><i>Tétè.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Meo corpo.</td> - <td><i>Chéreté.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Pello.</td> - <td><i>Pyre.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Suor.</td> - <td><i>Thue.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Gordura.</td> - <td><i>Kaue.</i><span class="pagenum"><a id="Page_106"></a>[106]</span></td> - </tr> - <tr> - <td>Osso.</td> - <td><i>Cam.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Meo osso.</td> - <td><i>Chécam.</i></td> - </tr> - <tr> - <td>Tutano.</td> - <td><i>Camaputuon.</i></td> - </tr> -</table> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXX">CAPITULO XXX</h3> - -<p class="subhead">De algumas molestias particulares a estes paizes -de indios, e de seos remedios.</p> - -</div> - -<p>O Genesis nos ensina, como explicam os doutores haver -Deos dado aos homens contra todos os males o fructo de -uma arvore, a maneira da Theriaga.</p> - -<p>Este mesmo Deos, sempre bom para com todas as creaturas, -embora pequenas e longe d’elle, prevendo que esta -infeliz raça de selvagens viveria, por longos annos, vagabunda -e nua pelas grandes florestas do Brasil, lhes deo muitas -especies de arvores e hervas para o curativo de suas -feridas e molestias.</p> - -<p>Tem este paiz muitas arvores medicinaes, gommas salutiferas, -e excellentes hervas, como não ha em parte alguma.</p> - -<p>O tempo e o estudo hão de fazel-as conhecidas.<a id="Nanchor_46" href="#Note_46" class="fnanchor">[46]</a> Vi tirar-se -da casca de certa arvore uma especie de almecega, -similhante á que cresce nos jardins da Europa, e dizem os -selvagens que serve para toda a molestia, e assim a empregam. -Contam mais, que todos os animaes ferozes quando -se sentem feridos ou doentes, recorrem a esta arvore para -curarem-se, e por isso raras vezes se encontra uma só com -toda a sua casca, por ser roida constantemente por todos -os bixos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_107"></a>[107]</span></p> - -<p>Encontra-se tambem crescida nas folhas das arvores uma -especie de gomma branca, de côr prateada, e que dizem -ser muito boa para certas chagas.</p> - -<p>Ha outra gomma, tambem branca, optima para limpar -chagas e fazer suppurar os abcessos profundos fazendo seo -effeito em 24 horas.</p> - -<p>Vi o seo emprego n’um moço francez, que estava commigo -o qual tinha, por causa dos bixos, os pés e as pernas tão -estragados e inchados a ponto de receiarmos que as perdesse: -coisa horrivel e impossivel de narrar-se bem: fez-se -applicação de emplastos d’esta gomma nas pernas e pés, e -no dia seguinte estava são como si antes não tivesse coisa -alguma, porque puchando os bixos do interior das carnes -onde se achavam á superficie das feridas, ahi pela cabeça -se grudaram os emplastos, e assim morreram todos em numero -consideravel, limpando muito bem a chaga e deixando-a -viva e vermelha.</p> - -<p>Não fallarei de outras hervas e balsamos, e nem d’um milhão -de hervas, das quaes se podem destillar espiritos e essencias, -porque desejo fallar de certas molestias, reinantes -n’este paiz, dos remedios, que contra ellas se applicam, não -porque seja a terra doentia e insalubre, antes muito boa e -saudavel, especialmente de junho a janeiro: durante este -tempo as brisas, isto é, os ventos de Este ou do Oriente -sopram constantemente, livrando o paiz de vapores pestillenciaes, -e por isso raras vezes adoecem os selvagens, e a -fallar a verdade, elles só tem uma molestia, de que morrem.</p> - -<p>São os francezes muito mais sujeitos á doenças, como a -experiencia fez conhecer a mim e a outros, porem creio ser -isto devido ás necessidades e miserias, porque passamos no -principio do estabelecimento ou da fundação e não a outra -causa.</p> - -<p>Tinham então os francezes poucas commodidades, porem -ja começavam a gozal-as quando deixei a Ilha.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_108"></a>[108]</span></p> - -<p>Não desejo a pessoa alguma taes necessidades e molestias, -porem fiquem todos certos e convencidos de que não -soffrerão a centesima parte do que soffremos.</p> - -<p>Das suas molestias a primeira chama-se <i>Pian</i>, que vem -da palavra <i>Pé</i>, que quer dizer «caminho», ou, se quereis, -«pé,» por originar esta molestia do escarro, ou da sanie, -espalhado no chão, por onde se caminha: começa ordinariamente -debaixo dos dedos dos pés, do tamanho de um liard,<a id="FNanchor_56" href="#Footnote_56" class="fnanchor">[BD]</a> -de côr negra: os indios chamam esta mancha <i>Aipian</i>, isto é, -a «Mãe Pian,»<a id="Nanchor_47" href="#Note_47" class="fnanchor">[47]</a> porque d’ella descendem todas as outras -chagas e postemas, que esta horrivel molestia espalha por -todo o corpo á maneira de uma herva ou arbusto, que sahindo -d’esta <i>Mãe Pian</i>, como de uma raiz, fosse sempre -crescendo, subindo, e espalhando, pelo corpo ramos, folhas -e olhos, que enchesse interna e externamente o doente de -crueis dores, e de incrivel putrefacção, das quaes muitos -morrem. Dura pouco mais ou menos dois annos.</p> - -<p>Si um francez soffrer esta molestia deve curar-se perfeitamente -antes de regressar ao seo paiz, porque não ha remedio -no mundo, excepto no Brasil, que a cure, a não ser -o rhuibarbo commum, isto é, a morte, que cura todos os -males.</p> - -<p>Ja disse como esta molestia chega accidentalmente: vejamos -agora sua origem e fonte ordinaria e natural afim de -prevenir os francezes, que la forem.</p> - -<p>Esta molestia ataca os francezes, como o mal de Napoles, -por excessiva communicação com as raparigas indigenas: -para evital-a convem a vida casta, ou então que tragam -suas mulheres, ou que se casem com as indias christãs, visto -ser o casamento poderoso antidoto contra tal veneno, o que -se observa mesmo no casamento natural dos indios, os quaes -não soffrem o <i>grande mal</i>, se não o tem adquirido algures,<span class="pagenum"><a id="Page_109"></a>[109]</span> -e sim o <i>pequeno</i>, que todos soffrem na vida, similhante a -syphilis e a variola na Europa.</p> - -<p>Esta <i>bouba</i> grande excede em dor e sordidez, sem comparação, -ao mal de Napoles, e com razão, porque merece -ser punido n’esta vida o peccado, que commettem os francezes -com as Indias, arrebatando de nossas mãos, estas infelizes -almas quando pretendiamos salval-as, si com seos -maus exemplos não as conduzissem ás fornalhas da lubricidade.</p> - -<p>Meditem bem os que são capazes de commetterem taes -crimes, na conta que darão a Deos por haverem causado o -damno e a perda d’estas pobres almas indigenas.</p> - -<p>Si a vida eterna é somente concedida aos que buscam a -salvação de outrem, que lugar esperarão os que, para satisfação -de brutaes desejos, seduzem essas pobres creaturas -a ponto de fazel-as despresar as prédicas do Evangelho e a -sua propria salvação?</p> - -<p>Tempo e paciencia são os principaes remedios para esta -molestia; os suores aproveitam muito, mitigam e encurtam -o tempo, bem como as dietas e o regimen de vida.</p> - -<p>A experiencia tem mostrado, que para estas molestias a -carne mais propria é a do <i>tubarão</i> (não usada pelos sãos, -por lhes fazer vomitar até sangue, e produzir-lhes grandes -molestias) cozida com hervas duras e amargas, que se encontram -em todo o paiz.</p> - -<p>Por um momento de prazer soffrem mil dores, e o que -para os bons é veneno para elles é carne saudavel, embora -de mau gosto.</p> - -<p>É costume d’este astuto Boticario Satanaz untar o bordo -do copo com mel ou assucar para se beber de um só trago -o veneno, que depois vae roer e encher de dor as entranhas: -quero dizer, que ao peccador apresenta o prazer, e -não o seo castigo, e bem depressa experimenta o desgraçado, -que o prazer vôa, porem a dor é eterna.</p> - -<p>O Sr. de Ravardiere, outros francezes, e eu sobre todos, -soffremos intensas febres quartans, terçans, e incertas, as<span class="pagenum"><a id="Page_110"></a>[110]</span> -quaes depois de haverem mortificado muito o corpo, deixam -dores nos rins, produzem colicas insuportaveis com vomitos -continuos, sempre debilitando o corpo, resfriando e contrahindo -o estomago, acompanhada por continua fluxão do cerebro, -que se espalha pelos braços, coxas, e pernas, tornando-as -sem acção, á similhança de uma estatua ou pedra -immovel.</p> - -<p>Parece-me que é a molestia, que ceifa maior numero de -selvagens tornando-os ethicos e paralyticos.</p> - -<p>Os remedios para estas molestias são—o beber menos -agua que fôr possivel, porque o sabor das aguas alterado -com o calor da febre, faz beber muita agua, perdendo o estomago -seo calor proprio, adquirindo grande crueza e fraqueza, -de que resulta não só a sua constricção, mas tambem -a pituita e outros humores corrompidos: presentemente como -ha cerveja espero que não sejam frequentes estas molestias -e que não chegarão ao excesso, que vi, e cujas consequencias -ainda sinto.</p> - -<p>O vinho e a aguardente são bons para aquecer o estomago, -e por isso aconselho aos que lá forem, que poupem -muito o seo vinho e aguardente para essa e outras necessidades, -e não os gastem prodigamente em deboches, mórmente -sendo a cerveja, ahi feita com milho bom, muito mais saborosa -e saudavel, por causa do continuo calor, do que o -vinho e a aguardente.</p> - -<p>As boas bebidas são o unico remedio, e as aves e ovos -ahi em abundancia são o alimento d’esses doentes.</p> - -<p>As outras molestias são o defluxo e violentas dores de -dentes por causa da humidade da noite nesta Zona tórrida, -como bem notou o jesuita Acosta, na sua <i>Historia dos Indios</i>, -a qual pode recorrer o leitor, visto que nada quero -dizer ou escrever sem sciencia propria.</p> - -<p>É tão forte a humidade da noite, que produz ferrugem nas -espadas, mosquetes, facas, machados e machadinhos, que -corroe e destroe não havendo cuidado de os limpar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_111"></a>[111]</span></p> - -<p>São mui frias as fluxões do cerebro, pois descendo á raiz -dos dentes apodrecem-nos e os fazem cahir.</p> - -<p>São remedios especiaes á estes males a applicação de cauterios -no pescoço e braços, e cobrir bem a cabeça durante -a noite.</p> - -<p>Todos os annos reina doença de olhos, das quaes poucos -escapam especialmente os Franceses, porque dura apenas -oito dias, sendo por sua vehemencia antes furor do que molestia, -e si se não atacar logo corre-se o risco de vêr-se somente -metade do mau tempo.</p> - -<p>È facil o remedio: tome-se um pouco de vitriolo, deite-se -n’uma garrafa cheia d’agoa bem limpa, e d’ella se derrame -um pouco nos olhos bem abertos e fixos, abstendo-se de tocal-os, -tendo-os sempre cobertos, e não os expondo ao vento -e nem ao sol, porque senão o mal redobra visto que sendo -formada esta molestia de uma fluxão quente e acrimoniosa, -si esfregardes os olhos e vos expôrdes a acção do vento e -do sol, mais exacerbareis o vosso mal.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXI">CAPITULO XXXI</h3> - -<p class="subhead">Da morte e dos funeraes dos Indios.</p> - -</div> - -<p>Jacob despresou duas irmans Lya e Rachel, o que é diversamente -explicado por Padres e Doutores. Tomarei somente -o que convem á historia, isto é, que Deos tem duas -filhas a Naturesa e a Graça, que dá por esposa aos seos escolhidos.</p> - -<p>A Naturesa é imperfeita, porem fecunda como Lya: a Graça -é de formosura inexcedivel, porem esteril como Rachel.<span class="pagenum"><a id="Page_112"></a>[112]</span> -Ambas são irmans: basta vel-as para reconhecer-se, e como -taes são seos filhos-irmãos germanos; differençando-se apenas -por linhas diversas, isto é, n’um ponto de ceremonia, -nas ultimas homenagens prestadas a seos parentes, reconhecemos -facilmente a verdadeira religião e os seos herdeiros.</p> - -<p>Acha-se isto tão naturalmente gravado no fundo da alma -das nações as mais barbaras, que serve de argumento mui -positivo para provar acharem-se em verdadeira graça os que -prestam homenagem aos seos defunctos.</p> - -<p>Em caso contrario prova-se que estão em poder do gentilismo, -e em opposição ao instincto puramente natural, imitando -n’este caso os brutos, não fazendo caso dos seos amigos -fallecidos, especialmente da sua alma, melhor parte de -sua composição.</p> - -<p>É a maldição dada por Job, no cap. 18—<i>Memoria illius -pereat de terra, et non celebretur nomem ejus in plateis</i>, -«desappareça da terra a sua memoria, e nem seja seo nome -pronunciado na rua.»</p> - -<p>Symmachus explicando diz <i>Non erit nomem ejus in faciem -fori</i>—não chegará seo nome ao foro dos senadores, e -mais claramente Policronius <i>Nec in amicorum versabitur -memoria</i> «nem seos amigos se recordarão d’elles,» grande -maldição, visto que os povos os mais selvagens do Universo -que são os habitantes do Brasil nada mais receiam, após a -morte, do que não serem chorados e lamentados, isto é, -que para elles, na morte, não hajam da parte dos seos parentes, -lagrymas, lamentações, e outras ceremonias embora -supersticiosas.</p> - -<p>Quando se acham muito doentes estes selvagens, e por -seos parentes julgados em perigo de vida, perguntam-lhes o -que desejam comer antes da morte, e saciam-lhes o desejo.</p> - -<p>Em quanto doentes alimentam-se com farinha de mandioca -e <i>ionker</i> «pimenta da india,» misturada com sal, julgando -com tal dieta, abuso inaudito entre elles, recobrarão a antiga -saude.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_113"></a>[113]</span></p> - -<p>Vi um homem e uma mulher da nação dos <i>Tabajares</i>, que -tinham só pelle e ossos, parecendo-me terem apenas vida -por dois dias, e por isso os baptisei logo, apenas me pediram, -e escaparem da morte tomando taes caldos.</p> - -<p>Quando chega a hora da morte, reunem-se todos os seos -parentes, e geralmente todos os seos concidadãos, cercam-lhe -o leito do moribundo, os parentes mais perto, depois os -velhos e as velhas, e assim de idade em idade: não dizem -uma só palavra, olham-no com toda a attenção, banham-se -de lagrymas constantemente; mas apenas a pobre creatura -exhala o ultimo suspiro, dão berros e gritos, fazem lamentações -compostas por uma musica do vozes fortes, agudas, -baixas, infantis, emfim de todo o genero, que infallivelmente -enternece todos os corações, embora sejam naturaes todas -essas dores e lagrymas, sem conhecimento do bem e do -mal, que poderá gozar esse espirito desprendido do corpo -morto.</p> - -<p>Depois de muitas lamentações, o Principal da aldeia ou o -Principal dos amigos fazia um grande discurso muito commovente, -batendo muitas vezes no peito e nas coxas, e então -contava as façanhas e proesas do morto, dizendo no fim—<i>Ha -quem d’elle se queixe? Não fez em sua vida o que faz um -homem forte e valente?</i></p> - -<p>Conto isto porque presenciei-o tres ou quatro vezes, lembrando-me -de haver lido e notado em Polybio, Livro 6º, e -em Deodoro da Sicilia, Livro 2º, cap. 3º, terem os antigos -Romanos o costume de levarem seos defunctos á Praça publica, -e ahi o filho mais velho da casa, ou o principal herdeiro -em falta de filhos machos e de maior idade, subia á -uma especie de theatro, e desfiando todos os louvores, que -podia fazer ao morto, seo parente, desafiava todos os assistentes -para que o accusassem, si podessem, afim d’elle defendel-o, -e depois convidava-os a acompanharem o corpo até -a sepultura.</p> - -<p>Voltemos aos nossos selvagens. Acabado que seja o choro -e o discurso tomam o corpo, ja cheio de pennas na cabeça<span class="pagenum"><a id="Page_114"></a>[114]</span> -e nos braços, uns o vestem com um capote, outros lhe dão -um chapeo, si o ha, trasem-lhe o massinho de petum<a id="Nanchor_48" href="#Note_48" class="fnanchor">[48]</a>, -seo arco, frexas, machados, foices, fogo, agoa, farinha, carne -e peixe e o que em vida elle mais apreciava.</p> - -<p>Faziam depois um buraco fundo e redondo em fórma de -poço: assentavam o morto sobre seos calcanhares conforme -era o seo costume, e á cova desciam-no de mansinho<a id="Nanchor_49" href="#Note_49" class="fnanchor">[49]</a> accommodando -ao redor d’elle a farinha, a agoa, a carne, o -peixe e ao lado de sua mão direita afim de poder pegar em -tudo com facilidade e na esquerda arrumavam os machados, -as foices, os arcos e as flexas.</p> - -<p>Ao lado d’elle faziam um buraco, onde accendiam fogo -com lenha bem secca afim de não apagar-se, e despedindo-se -d’elle o incumbiam de dar muitas lembranças á seos paes, -avós e amigos, que dançavam nas montanhas, alem dos Andes, -onde julgam ir todos depois de mortos.</p> - -<p>Uns dão-lhe presentes para levarem a seos amigos, e outros -lhe recommendam, entre varias coisas, muito animo no -decorrer da viagem, que não deixem o fogo apagar-se, que -não passem pela terra dos inimigos, e que nunca se esqueçam -de seos machados e foices quando dormirem n’algum -lugar.</p> - -<p>Cobrem-no depois pouco á pouco com terra, e ficam ainda -por algum tempo junto á cova, chorando-o muito e dizendo-lhe -adeos: de vez em quando ahi voltam as mulheres -ora de dia ora de noite, choram muito e perguntam á sepultura, -se elle ja partio.</p> - -<p>A proposito contarei tres historias interessantes.</p> - -<p>Enterraram um bom velho em distancia de 50 passos de -minha casa. Dia e noite consumiam-me as velhas com seos -choros.</p> - -<p>Para adquirir socego lembrei-me de mandar esconder -n’uma moita em caminho, perto da cova, dois rapazes francezes, -que commigo moravam. Mais adiante mandei tambem -esconder dois escravos nossos, a quem ensinei o que deviam -fazer.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_115"></a>[115]</span></p> - -<p>A noite todos occuparam as suas posições, e no fim de um -quarto de hora quando vieram as velhas, todas juntas, e que -principiaram a gritar na cova, responderam os franceses, -imitando <i>Jeropary</i>, e ellas cheias de susto despararam a correr, -e quando no caminho encontraram outros dois <i>Jeropary</i>, -redobraram de esforços, e saltando por abrolhos e espinheiros -chegaram á casa mais mortas do que vivas, e ahi sobresaltando -a todos mandaram fechar as portas para que não -entrasse o tal <i>Jeropary</i>.</p> - -<p>Estava eu perto e muito gostei d’esta comedia por alcançar -socego, visto não regressarem mais as velhas.</p> - -<p>Morreo um selvagem, e foi enterrado na estrada perto de -<i>São Francisco</i>, lugar no <i>Forte de São Luiz</i>.</p> - -<p>Fora baptisado antes da sua morte, e com tudo, sem sciencia -nossa, enterraram-no ahi e com as ceremonias que já -descrevi. Mortifiquei-me muito com isto, ralhei bastante, porem -não pude descobrir o culpado por já haver decorrido -tres ou quatro dias.</p> - -<p>Passando por ahi achei sua mulher, que voltava da roça, -assentada sobre a sepultura, chorando amargamente, e espalhando -n’ella algumas espigas de milho.</p> - -<p>Indagando-lhe o que fazia, respondeo-me estar perguntando -a seo marido si elle ja tinha partido, porque receiava -haverem amarrado muito as suas pernas, e não lhe terem -dado a sua faca, pois havia levado comsigo apenas o seo -machado e sua foice, e que lhe trasia o milho para comer -e partir no caso de já não ter mais provisões.</p> - -<p>Fil-a sahir, mostrando como pude, a sua ignorancia e superstição.</p> - -<p>Falleceo um menino com doença no ventre, de dois annos -de idade, e duas horas depois de baptisado.</p> - -<p>Eu, o Sr. de Pezieux, e outros franceses fomos amortalhal-o -n’um lençol d’algodão.</p> - -<p>Encontramos o corpo cercado por muitas velhas, fazendo -algasarra capaz de quebrar uma cabeça de aço, carregado -de missangas, que trasem para ahi os francezes, e de muitos<span class="pagenum"><a id="Page_116"></a>[116]</span> -busios, de que usam nos seos adornos e enfeites para as -grandes festas.</p> - -<p>Não podemos convencer ás velhas afim de serem tirados -taes enfeites, e sendo assim mesmo conduzido n’uma prancha -por um francez, fizemos o seo funeral a maneira da Europa, -levando o seo corpo á capella do Forte de São Luiz, -onde recitamos as orações prescriptas pela Igreja para esse -fim.</p> - -<p>Seguiram-nos as velhas de bem perto, e não se animando -a entrar, começaram a entoar uma musica tão alta e forte, -que não nos entendiamos dentro da Igreja.</p> - -<p>Imposemos silencio, e foi o corpo enterrado no cemiterio -junto á capella.</p> - -<p>As velhas se metteram entre os francezes, umas trazendo -fogo, agoa, farinha, e outras o mais que ja dissemos para o -caminho, o que mandei deitar fóra fazendo-lhes vêr a asneira -por intermedio do interprete.</p> - -<p>Recolheram-se as suas casas, onde se fartaram de chorar.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXII">CAPITULO XXXII</h3> - -<p class="subhead">Do regresso á Ilha do Sr. de la Ravardiere e de -alguns Principaes, que o seguiram.</p> - -</div> - -<p>Com a chegada da barca portugueza o Sr. de Pezieux escreveo -ao Sr. de la Ravardiere e expedio uma canôa para tal -fim, descrevendo o estado em que nos achavamos e prestes -a sermos sitiados em breve tempo.</p> - -<p>Gastou a canoa tres mezes na viagem, e sciente destas -coisas partio logo que poude em direcção da Ilha, afrontando<span class="pagenum"><a id="Page_117"></a>[117]</span> -perigos, que muitos são n’estes mares; porem de coisa -alguma nos serviria sua actividade, porque se n’esse intervallo -soffressemos o cerco seriamos já então vencedores ou -vencidos.</p> - -<p>Esta interrupção da viagem do Amazonas causou muito -mal a Colonia, porque se teria colhido muitos generos pelas -margens dos rios, muito mais povoados de selvagens -de diversas nações do que a Ilha, Tapuitapera, Comã e -Caieté.<a id="Nanchor_50" href="#Note_50" class="fnanchor">[50]</a></p> - -<p>São mais pacificos, e bem providos de algodão.</p> - -<p>Quanto mais pobres e necessitados de machados, foices, -facas e vestidos, tanto mais facil é a troco de qualquer d’estes -objectos alcançar grandes riquezas.</p> - -<p>Outro prejuiso soffreo a Colonia dos francezes, porque -achando-se muitas nações resolvidas a aproximarem-se da -Ilha, por ahi residirem e fazerem suas roças, vindo com o -Sr. de la Ravardiere, ao saberem taes noticias dos portuguezes, -resolveram suspender a execução do seo plano, e esperar -o resultado dos negocios.</p> - -<p>Chegando o Sr. de la Ravardiere proseguio-se activamente -nas obras dos Fortes das avenidas da Ilha, montando-se-lhes -artilharia e dando-se-lhes guarnição.</p> - -<p>Passados alguns dias achou-se acompanhado por muitos -guerreiros selvagens, que vieram para a Ilha, e entre elles -estava o <i>Arraia grande</i> dos Caietés, selvagem pelos seos -muito estimado, valente, bom conselheiro, e de tal influencia, -que os seos companheiros o seguem, trabalham e abraçam -inteiramente as suas ideias, o que foi muito util aos -francezes visto assim terem muitos homens dedicados, e occupados -no serviço.</p> - -<p>Pouco antes da viagem do Amazonas alguns bregeiros espalharam -entre os <i>Caietés</i> do <i>Pará</i>, que sob o pretexto dessa -viagem iam os francezes captival-os.</p> - -<p>Esta noticia aterrou-os de tal forma, que muitos ja estavam -resolvidos a deixar suas casas, e a buscar outro lugar -quando o <i>Arraia grande</i> por seos discursos lhes fez vêr<span class="pagenum"><a id="Page_118"></a>[118]</span> -quanto era infundado o seo receio, dizendo então muito bem -dos francezes.</p> - -<p>Elle, sua mulher, e alguns parentes acompanharam uma -barca, que ia da Ilha para o Pará em busca dos generos do -paiz, ahi mui preciosos.</p> - -<p>Quiz a infelicidade que, no regresso para a Ilha, naufragasse -a canôa por estar muito pesada duas legoas longe da -terra.</p> - -<p>Despresaram todas as riquezas, procurando salvarem-se -agarrados a um pedaço da escotilha, a uma taboa, ou ao -bote.</p> - -<p>Esperou o <i>Arraia grande</i>, que todos procurassem meios -de salvarem-se, e afinal elle, sua mulher, e um interprete -francez si puzeram a nadar animando elle a todos com estas -palavras—«a morte é invejosa, vêde como atira estas -ondas sobre a nossa cabeça afim de nos arremeçar no abysmo, -mostremos-lhe que somos ainda fortes e valentes, e que -não é chegado o tempo de nos levar.»</p> - -<p>Salvaram-se todos em varias ilhas não habitadas, excepto -um francez, victima de tubarões.<a id="Nanchor_51" href="#Note_51" class="fnanchor">[51]</a></p> - -<p>Vendo o <i>Arraia grande</i> os francezes nús e famintos, em -lugares estereis e cercados de mar, atirou-se ás ondas, a -nado atravessou grande espaço cheio de mangue desembaraçando-se -á muito custo das raizes destas arvores, e do tujuco -onde as vezes se enterrava até o pescoço.</p> - -<p>Chegando a aldeia dos seos similhantes animou-os a virem -com algumas canoas, vestidos e viveres, e depois que -todos regressaram ás aldeias defronte do lugar do naufragio, -elle lhes entregou tudo quanto haviam perdido, e que -o mar tinha atirado ás praias.</p> - -<p>Outr’ora este indio, n’um navio de São Maló, veio a França, -onde se demorou um anno pouco mais ou menos, e em -tão pouco tempo aprendeo a fallar francez, e ainda hoje se -fazia entender bem, embora ja se houvessem passado muitos -annos, e tem tão bom juiso e memoria que ainda hoje -conta varias particularidades, que la existem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_119"></a>[119]</span></p> - -<p>Não trato do estado espiritual, e nem do que me disse -relativamente ao Christianismo, porque deixo isso para o -seo lugar proprio, mas quanto ao temporal muitas vezes o -ouvi dizer aos seos similhantes, e especialmente aos <i>Tabajares</i> -do Forte de São Luiz, «que os francezes eram fortes, -que habitavam um paiz grande, abundante de boas comidas, -de muito vinho, de pão, de boi, de carneiro, de galinhas, -de muitas especies de ovos, e de grande variedade -de peixes: que suas casas eram construidas de pedras, cercadas -de grossos muros, onde estava assestada grossa artilharia, -batendo o mar na base da muralha, ou então sendo -esta circulada de fossos cheios d’agoa.</p> - -<p>«Pelas ruas estão lojas de todos os generos. Andam a cavallo, -e os Grandes, ou melhor os Principaes são acompanhados -por muitas pessoas, como o Sr. de la Ravardiere, -residente perto da cidade, onde cheguei.</p> - -<p>«O Rei de França mora no centro do seo reino, n’uma cidade -chamada Pariz. Os francezes aborrecem, como nós, os -<i>Peros</i>, e lhes fazem guerra por terra e por mar, e sempre -com vantagem, porque são fracos os <i>Peros</i>, valentes e animosos -os francezes como nenhuma outra nação, e eis a razão -porque não devemos temer aquelles visto estes nos defenderem. -Alguns maldizentes de nossa gente espalharam -não terem os francezes podido tomar os <i>Camarapins</i>, porem -isto é falso. Cumpriram seo dever e si os Tupinambás -tivessem querido ajudar-nos, seriam agarrados, porem o -chefe dos franceses condoeo-se d’elles, e não quiz que todos -fossem queimados como aconteceo em parte.»</p> - -<p>Fez este e outros discursos similhantes, e depois percorrendo -a Ilha, em cada aldeia os repetia nas <i>reuniões</i> na -<i>caza grande</i>.</p> - -<p>Procurando imitar a maneira porque entrou na grande -praça de São Luiz, não só para saudar os Tabajaras, como -tambem para ajudar os francezes, dispoz elle a sua gente, -em numero de cem a cento e vinte, um a um, ou um atraz -do outro, e assim por diante.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_120"></a>[120]</span></p> - -<p>A uns deo cabaças, panellas, e rodela, e a outros espadas -e punhaes, a estes arcos e flexas, a aquelles differentes -instrumentos, dividindo os tocadores de Maracá<a id="Nanchor_52" href="#Note_52" class="fnanchor">[52]</a> pelas desenas, -e assim percorreram a habitação dos <i>Tabajaras</i>, e -depois foram á praça grande do Forte, onde estavamos, e -ahi acabaram suas danças, muito similhantes a dos <i>Pantalons</i>, -andando e fazendo mesuras, batendo todos ao mesmo -tempo com o pé em terra, ao som da voz e do Maracá, cujo -compasso todos observavam entoando sempre louvores aos -francezes.</p> - -<p>Mechiam em todos os sentidos a cabeça e as mãos, com -taes gestos que faziam rir as pedras.</p> - -<p>Chamam os Tupinambás a esta dança <i>Porasséu-tapui</i>, -quer dizer, <i>dança dos Tapuias</i>, porque era outra a dança -dos <i>Tupinambás</i>, sempre em roda e nunca mudando de -lugar.</p> - -<p>Acabada a dança, veio saudar-nos, e foi comer e descançar -na casa, que se lhe havia preparado.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXIII">CAPITULO XXXIII</h3> - -<p class="subhead">Viagem do capitão Maillar,<a id="Nanchor_53" href="#Note_53" class="fnanchor">[53]</a> pela terra firme á casa de -um grande feiticeiro. Descripção d’esta terra -e das zombarias d’elle.</p> - -</div> - -<p>É verdade, reconhecida por todos que hão habitado o -Brasil, não ser a terra firme tão bonita e tão fertil como as -Ilhas.</p> - -<p>São as ilhas formadas por areia preta e fina, queimada e -ardente pelo continuo calor, e por isso são ellas mais sujeitas<span class="pagenum"><a id="Page_121"></a>[121]</span> -n’esta Zona tórrida aos calores e ardores, porque o -mar redobra pela reflexão e poder da luz do Sol sobre a capacidade -proxima e concentrica da terra, o que se prova -por meio dos espelhos ardentes, cujos centros sendo opacos, -e mais elevados do que suas circumferencias e bordas, os -raios do sól se reunem e concentram ahi, produzindo fogo e -chama, e assim queimando os objectos convenientemente -dispostos n’esses lugares.</p> - -<p>Ouvindo o Sr. de la Ravardiere os indios fallarem muitas -vezes de uma localidade muito boa, distante 100 ou 150 legoas -do Maranhão, na terra firme para as bandas do rio -Mearim e longe d’elle 40 ou 50 legoas, mandou uma barca -e canoas com o capitão Maillar de São Maló, alguns francezes, -e um cirurgião, todos muito conhecedores da natureza -das hervas e arvores preciosas.</p> - -<p>Ahi vivia, vindo do Maranhão, um dos seos principaes feiticeiros, -com 40 ou 50 selvagens, entre homens e mulheres, -n’uma aldeia, que edificara, cultivando a terra, que tudo -lhe produzia em abundancia, e por isso abusando da credulidade -dos Tupinambás este miseravel lhes dizia possuir um -espirito com o poder de fazer a terra dar-lhe o que quizesse.</p> - -<p>Ahi chegou o capitão com muitas difficuldades, passando -vasta e comprida planicie de juncos e caniços, atravessando -agoa pela cintura, e depois de alguma demora regressou -contando-nos o seguinte.</p> - -<p>A terra d’esta localidade é dura, gorda e negra, boa para -a cultura da canna do assucar, e muito melhor que a de -Pernambuco, o que bem podia avaliar por ter residido por -muitos annos ahi e em outros lugares possuidos pelos portuguezes.</p> - -<p>A terra é cortada por muitos riachos capazes de moverem -engenhos para o fabrico do assucar.</p> - -<p>Ha abundancia de peixes d’agoa doce, grandes e de varias -qualidades; são innumeraveis as tartarugas; existe toda -a qualidade, e em quantidade inexprimivel, de caça, como<span class="pagenum"><a id="Page_122"></a>[122]</span> -sejam viados, corças, javalis, vacas-bravas, e diversas especies -de tatús, muitos coelhos e lebres, iguaes ás de França, -porem mais pequenas, immensa variedade de passaros, como -sejam perdizes, faisões, mutuns,<a id="Nanchor_54" href="#Note_54" class="fnanchor">[54]</a> pombas bravas, trocazes, -rolas, garças-reaes, e outras admiraveis.</p> - -<p>A terra produz raizes tão grossas como a coxa: o tabaco -petum ahi cresce forte e optimo, e dizem que dá duas colheitas -por anno.</p> - -<p>O milho cresce forte, cheio, e dá muitas espigas.</p> - -<p>Ha fructas muito melhores, e em maior quantidade do -que na Ilha, em <i>Tapuitapera</i>, e <i>Comã</i>, papagaios de varias -côres e diversos tamanhos, notando-se entre elles os -<i>Tuins</i>,<a id="Nanchor_55" href="#Note_55" class="fnanchor">[55]</a> do tamanho de pardaes, os quaes aprendem com -facilidade a fallar, porem morrem de mal quando são levados -para a Ilha: vi entre muitos salvarem-se apenas seis, -os quaes comendo, cantando, e dançando em suas gaiolas, -sem apparencia de molestia, davam duas ou tres voltas e -morriam logo.</p> - -<p>Ha tambem muitos macacos e monos barbados, bonitos e -raros, e que seriam muito apreciados em França, se lá chegassem.</p> - -<p>Ahi residia um barbeiro ou feiticeiro muito bem arranjado -e com todas as commodidades.</p> - -<p>Tinha vindo, um pouco antes d’esta viagem, fazer suas -feitiçarias e nigromancias para ganhar o vestuario e a ferramenta -dos selvagens do Maranhão e leval-os comsigo -quando fosse para a sua terra. Estas feitiçarias eram diversas.</p> - -<p>Tinha uma grande boneca, que com artificio se movia, -especialmente com o maxilar inferior; dizia elle ás mulheres -dos selvagens, que si desejavam vêr quadruplicada a sua -colheita de grãos e legumes trouxessem e dessem á ella -alguns d’estes generos, afim de serem mastigados tres ou -quatro vezes, e por esta forma recebendo a força de multiplicação -do seo espirito, que estava na boneca, podiam depois<span class="pagenum"><a id="Page_123"></a>[123]</span> -serem plantados em suas roças, pois já comsigo levavam -a força da multiplicação.</p> - -<p>Gozou de muita influencia por onde passou, muitas foram -as dadivas das mulheres, e mal satisfazia o que promettia, -guardavam ellas com todo o cuidado os legumes e grãos -mastigados.</p> - -<p>Estabeleceo uma dansa ou procissão geral fazendo com -que todos os selvagens levassem na mão um ramo de palmeira -espinhosa,<a id="Nanchor_56" href="#Note_56" class="fnanchor">[56]</a> chamada <i>tucum</i>, e assim andavam ao -redor das casas, cantando e dansando, para animar, dizia -elle, o seo espirito a mandar chuvas, então n’esse anno mui -tardias: depois da procissão <i>cauinavam</i> (bebiam <i>cauim</i>) até -cahir.<a id="Nanchor_57" href="#Note_57" class="fnanchor">[57]</a></p> - -<p>Mandou encher d’agoa muitas vasilhas de barro, e rosnando -em cima d’ella não sei que palavras, ensopava um -ramo de palmeira, e com ella aspergia a cabeça de cada -um d’elles, dizendo «sêde limpos e puros afim de meo espirito -enviar-vos chuva em abundancia.»</p> - -<p>Tomava uma grande tabóca de bambu, enchia-a de <i>petum</i>, -deitava-lhe fogo n’uma das extremidades, e depois -soprava a fumaça sobre os selvagens dizendo «recebei a -força do meo espirito,<a id="Nanchor_58" href="#Note_58" class="fnanchor">[58]</a> e por elle gozareis sempre saude, -e sereis valentes contra vossos inimigos.»</p> - -<p>Plantou no centro d’aldeia uma arvore de maio, carregou-a -de algodão, e depois de haver dado muitas voltas e -vira-voltas em redor, lhes prognosticou grande colheita -n’esse anno.</p> - -<p>Apezar de tudo isto não vindo a chuva, dia e noite fazia -elle dançar e cantar os selvagens, gritando com quanta -força tinham afim de despertar seo espirito, como faziam outr’ora -os sacrificadores de Baal.</p> - -<p>Com tudo isto não choveo.</p> - -<p>Fez acreditar á estes selvagens, que elle bem via o seo -espirito, carregado de chuvas, do lado do mar, porem que -não se animava a vir por causa da <i>Cruz</i>, erguida no centro -da praça, fronteira a Capella de N. S. d’Vsaap, e que se quizessem<span class="pagenum"><a id="Page_124"></a>[124]</span> -ter chuva não havia mais do que deital-a por terra, -e teriam concordado n’isto facilmente, pondo-o logo em execução -se ahi não estivessem os Francezes, e si não temessem -o castigo.</p> - -<p>Chegando estas noticias ao Forte, mandou-se immediatamente -o <i>Cão-grande</i> e alguns Francezes para irem buscar o -feiticeiro afim de vêr si elle poderia dançar no meio d’uma -sala, contra sua vontade, e teria sido preso si, advertido -como foi, não preparasse sua bagagem, e com sua equipagem -não se salvasse n’uma canôa, mandando desculpar-se, -d’ahi ha pouco tempo, por um seo parente trazendo muitos -presentes com o fim de fazer pazes.</p> - -<p>Fez crer aos selvagens da Ilha, que tinha um espirito -muito bom, que era muito amigo de Deos, que não era mau, -e que por tanto só podia fazer bem.</p> - -<p>Dizia elle: «come commigo, dorme, caminha diante de -mim, e muitas vezes vôa diante dos meos olhos, e quando -é tempo de fazer minhas hortas, só tenho o trabalho de -marcal-as com um pau a sua extensão, e no dia seguinte -acho tudo prompto.»</p> - -<p>Sabendo alguns selvagens christãos, que pretendiamos castigar -seo companheiro que d’elles tanto abusou, me pediram, -que me condoesse d’elle e que nada soffresse por não ter -sido mau e nem o seo espirito, visto terem ambos feito -crescer os bens da terra. Ensinei-lhes a este respeito o que -deviam crêr.</p> - -<p>Vede, meos leitores, quanto Satanaz é astucioso: similhante -á um macaco imita as ceremonias da Igreja para -elevar sua superstição, e conservar sob seo dominio as almas -dos infieis por essa procissão de palmas, essa aspersão -d’agoa, esse sopro de fumo para communicar o espirito, -de que fallaremos mais simplesmente no <i>Tratado do -espiritual</i>.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_125"></a>[125]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXIV">CAPITULO XXXIV</h3> - -<p class="subhead">Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos, -suas habitações, e procedimento.</p> - -</div> - -<p>N’esse tempo a nação dos <i>Tremembés</i>, moradora alem -da montanha de <i>Camussy</i>, e nas planicies e areiaes da -banda do rio <i>Tury</i>, não muito distante das Arvores Seccas, -das Areias Brancas, e da pequena Ilha de Santa Anna, sahio, -sem esperar-se, para a floresta, onde se aninham os -passaros vermelhos, e para os areiaes onde se encontra o -ambar gris, e se pesca grande quantidade de peixes, com -intenção, de surprehender os <i>Tupinambás</i>, seos inimigos -irreconciliaveis, o que malogrou-se, visto que muitos <i>Tupinambás</i> -da Ilha tendo ido ahi com o fim especial de pescar, -foram accommettidos pelos <i>Tremembés</i>,<a id="Nanchor_59" href="#Note_59" class="fnanchor">[59]</a> sendo uns -mortos immediatamente, outros captivos sem saber-se o que -d’elles fizeram, e finalmente alguns embarcados n’uma canôa -poderam salvar-se regressando á Ilha do Maranhão, onde -contaram tão tristes casos causando nas aldeias, a que pertenciam -os mortos, tanta indignação, que todos, vóz em -grita e chorando, especialmente as mães e as mulheres, insistiram -pela vingança, ao que acquiesceram os Principaes, -vindo pedir aos francezes um chefe e alguns soldados, no -que foram satisfeitos.</p> - -<p><i>Japy-açú</i> foi o conductor d’este exercito<a id="Nanchor_60" href="#Note_60" class="fnanchor">[60]</a> composto de -grande numero de selvagens, e acompanhado por alguns -francezes.</p> - -<p>Atravessaram o mar entre a ilha e as areias brancas, saltaram -em terra para descançar e passar a noite pescando -uns, caçando outros, e as mulheres e as filhas procurando -agoa pelos areiaes, a qual não podia ser senão salôbra, isto -é, meia doce e meia salgada, armando as redes, fazendo -fogo e preparando a comida.</p> - -<p>Os mancebos <i>Tupinambás</i> fizeram <i>Aiupuues</i>, (choupanas) -tanto para os Principaes como para os Francezes: na melhor<span class="pagenum"><a id="Page_126"></a>[126]</span> -<i>auipaue</i> alojou-se o Coronel, e os Capitães armaram suas -redes ao redor da do Coronel, ceremonia que observam em -todas as suas guerras, especialmente quando se acham perto -do inimigo.</p> - -<p>Escondem o fogo com receio de não serem á noite descubertos -pelos inimigos, por ser costume geral d’elles o fazer -subir no cume de arvores muito altas suas sentinellas -afim de descubrirem fogo ou luz dos inimigos.</p> - -<p>Na manhã seguinte puzeram-se em marcha até um grande -areial cercado de mato por tres lados, e de mar pelo ultimo: -ahi encontraram as choupanas dos <i>Tremembés</i>, uma panella -portugueza, e combinando isto com o que já sabiamos -anteriormente, ficamos sabendo, que os Portuguezes estavam -na <i>Tartaruga</i>, na serra de <i>Camussy</i>, unidos aos <i>Tremembés</i>, -aos <i>Montagnars</i>, tanto de <i>Ybuapap</i> como de <i>Mocuru</i>, -principalmente com <i>Jeropary-uaçu</i>, isto é, com o <i>Grande-diabo</i>, -principe e rei de uma grande nação de Cambaes,<a id="Nanchor_61" href="#Note_61" class="fnanchor">[61]</a> -muito amigo dos francezes, e inimigo natural dos portuguezes, -podendo afiançar-se com certesa, que si os francezes -ahi fossem, elle trahiria os portuguezes e unindo-se a elles, -por ser <i>mulato-francez</i>, isto é, filho de um francez e de -uma india.</p> - -<p>Voltemos ao nosso proposito.</p> - -<p>Encontraram os nossos selvagens ainda vivo um dos seus, -que fugio para o mato, e escondeo-se no concavo de uma -arvore; porem ouvindo o som das trompas de guerra, que -eram feitas de um grosso madeiro cavado, tendo as aberturas -superior e inferior similhantes á uma trombeta, sahio -muito magro, e quase que sem figura humana por não ter -comido durante oito dias senão folhas da arvore, onde escondeo-se: -ensinou, como lhe permittiram suas forças, o lugar -onde jaziam mortos seos companheiros, que foram encontrados -com as cabeças rachadas, e sobre seos corpos os -machados de pedras, instrumentos d’essas atrocidades, por -ser costume entre elles nunca se servirem d’uma arma com -que ja mataram um inimigo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_127"></a>[127]</span></p> - -<p><i>Caruatapyran</i>, um dos Principaes de Comã, trouxe-me -um d’esses machados de pedra, ainda tinto de sangue, com -alguns cabellos adherentes, e com um pouco do cerebro do -Principal <i>Íanuaran</i>, que com elle foi morto, o que se soube -por ser encontrado sobre seo corpo.</p> - -<p><i>Caruatapyran</i> pegando um d’esses machados, feito em -fórma de crescente, ensinou-me o que eu não sabia, dizendo-me -terem os <i>Tremembés</i> o costume mensal de vellar -toda a noite fazendo seos machados até ficarem perfeitos, -em virtude da superstição, que nutriam, de que indo para -a guerra armados com taes instrumentos nunca seriam vencidos, -e sim sempre vencedores.</p> - -<p>Em quanto os homens e as mulheres se entregavam a -este trabalho dançavam as moças e os meninos a frente das -choupanas ao luar do crescente.</p> - -<p>São valentes os <i>Tremembés</i> e temidos pelos <i>Tupinambás</i>; -d’estatura regular, mais vagamundos do que estaveis -em suas moradias: alimentam-se ordinariamente de peixes, -porem vão á caça quando lhes apraz: não gostam de fazer -hortas, e nem casas: moram debaixo das choupanas; preferem -as planicies ás florestas porque com um simples olhar -descobrem tudo quanto está ás suas vistas.</p> - -<p>Não conduzem após si muita bagagem, pois contentam-se -com seos arcos, flexas, machados, um pouco de <i>cauï</i>, algumas -cabaças<a id="Nanchor_62" href="#Note_62" class="fnanchor">[62]</a> para guardar agoa, e umas panellas para -cozinhar a comida: com mais destresa que os Tupinambás -pescam á flexa: são tão robustos a ponto de segurarem pelo -braço um dos seos inimigos e atirarem-no ao chão, como se -fosse um capão. Dormem n’areia ordinariamente.</p> - -<p>Servem-se d’este lugar de areias brancas, e de arvores -seccas para agarrar os <i>Tupinambás</i>, como ratoeira para -pilhar ratos, e isto por tres razões.</p> - -<p>A primeira, por causa da pesca, ahi abundante e variada.</p> - -<p>A segunda, por causa de uma floresta, onde os passaros -vermelhos de todas as partes vem fazer ninho para desovar.<span class="pagenum"><a id="Page_128"></a>[128]</span> -Não deixam de ir ahi em certo tempo os <i>Tupinambás</i> -para tirar do ninho os filhótes e os ovos meios -chocos, havendo abundancia impossivel de descrever-se, levando, -quando regressão á villa, provisão para dois mezes, -preparando antecedentemente uns assados, e outros seccos -e duros como paus, o que nunca me agradou, e a fallar verdade, -nunca pude comel-os, embora sejam para os selvagens -o primeiro prato, e bem delicioso. Logo contarei alguns -uzos particulares, e bem notaveis, d’estes passaros.</p> - -<p>O terceiro motivo é para colher o ambar-gris, chamado -pelos Tupinambás <i>Piraputy</i> «excremento de peixes,»<a id="Nanchor_63" href="#Note_63" class="fnanchor">[63]</a> por -que elles pensam ser o ambar-gris o excremento das baleias, -ou de outros peixes iguaes em corpulencia, o qual -vindo á tona d’agoa, é pelas ondas atirado a essas praias.</p> - -<p>Dizem alguns francezes não ser o ambar-gris outra coisa -mais do que a «flor do mar,» a que os selvagens chamam -<i>Paranampoture</i>, ou uma certa gomma do mar, <i>Paranamussuk</i>.</p> - -<p>Decida o leitor como lhe aprouver.</p> - -<p>N’estas areias encontra-se o ambar-gris em massa, mais -n’um tempo do que n’outro, e algumas vezes chega a massa -a tal tamanho e grossura, que merece ser guardada n’algum -gabinete real, não podendo ser justamente apreçada e vendida. -Acontece as vezes virem poisar sobre ellas todos os -bixos, passaros, carangueijos, lagartos, e outros reptis d’ahi, -das circumvisinhanças, e do mar, e com elles as vêem procurando-as -com cuidado, e por isso são essas grandes massas -partidas em varios pedaços.</p> - -<p>Aconselhei a elles, que ahi fizessem um <i>Forte</i> não só para -impedirem as correrias dos <i>Tremembés</i>, como para tapar -a entrada aos navios, que buscam a Ilha de Sant’Anna afim -de colherem o ambar-gris; não ha duvida, que o mar atira -muitas vezes sobre estas areias o ambar, que por ahi espalhado -é comido por animaes, passaros e reptis, pois os selvagens -da Ilha ahi vão apenas duas ou tres vezes durante -o anno.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_129"></a>[129]</span></p> - -<p>Tenho certesa, que a colheita do ambar chegaria para -pagar as despezas do Forte, da sua guarnição, e do mais -que fosse necessario.</p> - -<p>Os nossos selvagens e francezes depois de muitas indagações -por varios lugares somente acharam os corpos mortos -dos seos, as choupanas, e vestigios de inimigos, e assim regressaram -á Ilha mais famintos do que feridos.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXV">CAPITULO XXXV</h3> - -<p class="subhead">Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuitapera e -da viagem ao Uarpy.</p> - -</div> - -<p>Lá para o lado do Oeste havia uma nação, de que nunca -se fallou, desconhecida por todos os <i>Tupinambás</i>, moradora -nos mattos na distancia de mais de 400 á 500 legoas -da Ilha, sem conhecer a vantagem dos machados e das -foices, pois apenas se serviam dos machados de pedra, e -assim viviam em segredo nas florestas d’essa localidade sob -a obediencia de um Rei.</p> - -<p>Souberam por alguns selvagens, que apresionaram no mar, -da vinda dos francezes á Maranhão, da sua residencia ahi, -trazendo comsigo Padres, que ensinavam qual era o verdadeiro -Deos, e absolviam os selvagens dos seos peccados.</p> - -<p>Levando taes noticias ao seo rei mandou este logo algumas -canoas, e n’uma d’ellas foi o governador, abaixo d’elle, -d’esta nação, acompanhado por duzentos mancebos fortes e -valentes, ageis na natação e no uso da flecha, com instrucção -de chegarem á Ilha, porem não podendo pôr pé em -terra, limitando-se apenas a fallar com os interpretes dos<span class="pagenum"><a id="Page_130"></a>[130]</span> -francezes, e regressando depois á sua terra tomando todo -o cuidado para não ser descoberto o caminho que seguiam.</p> - -<p>Chegaram defronte de <i>Tapuitapera</i>, onde então se achava -o interprete <i>Migam</i>, que apenas soube da chegada d’elles -foi ao seo encontro no mar, e com o seo Principal fallou -por muito tempo.</p> - -<p>Interrogou-o o Principal acerca dos Padres, quem eram, -o que faziam e ensinavam: á respeito dos francezes, quaes -suas forças, e mercadorias, si era certo terem conciliado -os <i>Tupinambás</i> com os <i>Tabajares</i>, e si viviam em paz na -Ilha.</p> - -<p>Respondendo o interprete a tudo isto, como devia, ficou -satisfeito e assim o disse, asseverando que o mesmo aconteceria -a seo Rei e a sua Nação, porque todos desejavam -aproximarem-se dos francezes para conhecerem a Deos, terem -machados e foices de ferro, com que cultivassem suas -roças, e estivessem sempre em guarda contra os seos inimigos, -plantando muito algodão e outros generos para offerecerem, -como recompensa, aos francezes, aos quaes apenas -pediam alliança e protecção.</p> - -<p>Perguntou-lhes o interprete, si era grande sua nação, e -si estava muito longe, ao que respondeo affirmativamente, -marcando a distancia por legoas pouco mais ou menos, que -podiam haver da Ilha á sua terra, mostrando com os dedos -o numero de luas, isto é, de mezes, que eram necessarios -para regressarem ao seo paiz, e accrescentou «não te posso -dizer o logar da nossa habitação, porque meo Rei assim me -prohibio, e tambem porque receiamos, que si nos faça guerra. -D’aqui ha seis mezes regressarei para te dar certas noticias, -e podes dizer ao teo chefe, que sendo verdadeiras as -tuas informações viremos morar por aqui perto.»</p> - -<p>O interprete respondeo—«vem, te rogo, vêr o Fórte, que -fizemos, as grandes peças, que montamos sobre suas muralhas, -e os francezes, que as guarnecem para de tudo dares -noticias á teo Rei.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_131"></a>[131]</span></p> - -<p>«Não, disse elle, eu e os meos recebemos ordem de não -saltar em terra». Tanto porem instaram com elle, quase recebendo -refens, consentio alguns dos seos saltar em <i>Tapuitapera</i>, -onde foram muito bem tratados, e ahi adquirindo, -em troca de generos, que levaram, alguns machados e foices, -regressaram mui contentes.</p> - -<p>Durante essa visita, conservaram-se a nado as canoas, os -remos armados, e tudo prestes se houvesse alguma traição. -Tinham os outros as flechas e os arcos promptos, tanto desconfiam -estas nações umas das outras!</p> - -<p>Apenas chegaram os seos, restituiram os refens, e foram-se -em paz. Deos os guie e os traga ao seo gremio.</p> - -<p>Quanto á viagem ao <i>Uarpy</i>,<a id="Nanchor_64" href="#Note_64" class="fnanchor">[64]</a><a id="FNanchor_57" href="#Footnote_57" class="fnanchor">[BE]</a> rio e região, em distancia -para mais de 120 legoas da Ilha, lá para as bandas -dos Caietés, foi emprehendida pelo Sr. de Pezieux, -com alguns francezes, e duzentos selvagens pelos seguintes -motivos.</p> - -<p>Primeiro: para descobrir uma mina de oiro e prata na distancia -de 100 legoas acima do rio, d’onde os selvagens nos -trouxeram enxofre mineral, muito bom, e por tanto havia -esperança de serem as minas boas e abundantes.</p> - -<p>Tem me esquecido dizer, que ha em toda esta terra grande -numero de minas de oiro, misturado com cobre, de prata -misturada com chumbo,<a id="Nanchor_65" href="#Note_65" class="fnanchor">[65]</a> o que provam as agoas mineraes -que descem dos montes.</p> - -<p>Segundo: para traser comsigo uma nação de Tabajares, -habitante das margens do Rio.</p> - -<p>Terceiro: para procurar uma nação de <i>cabellos compridos</i> -por ahi errante, os quaes são doceis, faceis de serem civilisados, -e que negociam com os <i>Tupinambás</i>.</p> - -<p>Si se realisarem estas coisas, como creio, a Ilha será em -pouco tempo rica de generos cultivados por todos estes selvagens -reunidos, e tornar-se-ha forte contra a invasão dos portuguezes,<span class="pagenum"><a id="Page_132"></a>[132]</span> -e descançando n’esta esperança vou fallar de algumas -raridades, que notei ahi, cortando as difficuldades que -se apresentam á primeira vista por meio de razões boas e -naturaes.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXVI">CAPITULO XXXVI</h3> - -<p class="subhead">Dos astros e do sól.</p> - -</div> - -<p>É bello e magnifico o Ceo, n’esta zona tórrida, embora -pareça muito menos estrellado do que na Europa, isto é, não -apparecem tantas estrellinhas fixadas na abobada azulada d’aquelle -como acontece na do nosso, pois no Maranhão ha estrellas -maiores e brilhantes, e mais luzentes do que aqui.</p> - -<p>Não me convenço de lá não haverem menos estrellas do -que aqui, antes esta falta, que noto, attribuo á minha vista, -e por mais esta razão.</p> - -<p>Todos os que habitam fóra dos dois solsticios, <i>Cancer</i> e -<i>Capricornio</i>, olham obliquamente o centro do ceo, que é a -linha ecliptica ou zona tórrida, onde passa o sol, e por tanto -tem maior horisonte, ou maior espaço do ceo a contemplar, -e menos numero de estrellas a contar.</p> - -<p>É pela experiencia confirmada esta razão, porque nasce e -deita-se o sol, sem preceder aurora, e assim acaba o dia e -começa a noite, e si ha tarde ou manhã é quasi nada.</p> - -<p>Na Europa acontece o contrario, pois algumas vezes temos -mais de duas horas de tarde, e outras tantas de manhã, -antes do nascimento e do occaso do sol, porque os habitantes -da zona tórrida estão na esphéra direita e nós outros -na obliqua.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_133"></a>[133]</span></p> - -<p>Ainda acrescento outra experiencia.</p> - -<p>Quando regressamos de Maranhão para cá, no Polo Septentrional, -descubrimos mais depressa a estrella d’este Polo, -do que quando na nossa viagem para lá descobrimos a estrella -do Cruzeiro embora mais elevada do que o Polo Antarctico -ou Austral.</p> - -<p>Ainda fiz outra observação n’este planeta do Sol, é que -mostra dois meios-dias diversos entre os dois termos do anno, -de sorte que n’uma metade do anno, olhando o Este está á -direita, isto é, na parte austral, e no resto do anno a esquerda, -isto é, na parte septentrional, e em ambos elles ha -pouca sombra. O sol no zenith somente duas vezes no anno -olha para esta terra, como succede a todas as regiões contidas -nos dois solsticios: algumas vezes está tão perto da esphera -direita, que pouco falta para chegar ao meio dia, e -ferir-vos a prumo o cume da cabeça.</p> - -<p>Comtudo isto destinguem-se perfeitamente ambos estes -meios-dias.</p> - -<p>Explica-se isto por ser preciso cortar duas vezes, annualmente, -o sol quando no zenith, a zona tórrida, como já -disse, para fazer os solsticios de Cancer e Capricornio, e -por tanto os habitantes da zona tórrida o vêem fazer o seo -meio-dia ora de um lado, ora de outro: por exemplo: quando -sahe do Capricornio afim de encaminhar-se para Cancer, -os brasileiros habitantes da zona tórrida observam o seo -meio-dia á direita e quando deixa Cancer com direcção á -Capricornio vêem-no á esquerda.</p> - -<p>Abre-se-me vasto campo para descobrir a sabedoria de -Deos na organisação do mundo, tendo por fim apenas escrever -succintamente uma historia, entrego á consideração do -leitor chamando a sua attenção para a maneira como Deos -dividio o curso do sol em duas extremidades e um meio, recebendo -os habitantes de todas estas tres partes a mesma -luz durante o anno, tanto uns como outros, excepto os habitantes -de Cancer, que apenas tem durante o anno tres dias -e algumas horas de sol mais do que os de Capricornio, originando-se<span class="pagenum"><a id="Page_134"></a>[134]</span> -por isso os annos bissextos e a reforma do calendario, -como vamos explicar.</p> - -<p>Principiemos pelo meio-dia, e acabemos pelas extremidades.</p> - -<p>O meio é composto de duas extremidades, equidistantes -uma da outra, porque de outra forma não seria meio.</p> - -<p>O curso do Sol se faz em 24 horas, dia natural, e em 12 -mezes por anno.</p> - -<p>Ora sendo a zona tórrida o meio do curso diario e annual -do sol, é indispensavel, que na sua terceira parte e porção -mostre diaria e annualmente á luz do sol igual a que se -apresenta nas duas extremidades, o que não poderia fazer; -si os dias não fossem iguaes, tendo cada um 12 horas de -Sol, porque, si excedessem ainda que pouco, não seria o -meio do curso do sol, e sim cahiria mais para uma das duas -extremidades, tendo, durante 12 mezes, uns dias maiores -do que outros, compensando n’uns o que n’outros perdia, e -convindo por isso marcar-se outra zona de céo, que fosse o -meio e o centro d’esse curso, sendo o meio a essencia e a -base das duas extremidades.</p> - -<p>É impossivel imaginar-se dois extremos sem meio: como -ja disse, o meio é composto de duas extremidades, e por -isso sendo a zona tórrida o meio da carreira do sol, deve -ter sua porção de luz á custa das duas extremidades, que -são dose e dose, que dá o sol igualmente para os dois solsticios, -entre as duas partes do anno, recompensando n’um -tempo o que n’outro perdeo.</p> - -<p>Consideremos agora uma terceira porção para servir de -meio d’estas duas extremidades, dose á dose.</p> - -<p>Convem tomar 12 de uma parte e 12 de outra para ser -o todo igual: comprehendereis assim facilmente como esta -zona tórrida gosa igualmente com as outras partes do mundo -da luz do sol sem mudar seo numero de seis a seis em -tempo algum, porque partecipa igualmente das duas extremidades, -quer vá o sol visitar Cancer e seos habitantes dando-lhe -com a sua boa chegada mais largura e liberalidade<span class="pagenum"><a id="Page_135"></a>[135]</span> -de luz, quer vá fazer outro tanto no Capricornio, não lhe -sendo por isso de forma alguma importuna a zona tórrida, -e nem alteando o seo imposto ordinario, fazendo-lhe pagar -somente, seis horas da manhã, e seis depois do meio dia, a -luz e calor para a sua passagem da travessia da terra, e -pelo trabalho dos seos habitantes durante a sua vinda.</p> - -<p>Quanto ás terras e aos habitantes inter e extra-tropicaes -dividem entre si igualmente, pouco mais ou menos, em diversos -tempos, a luz do sol, e por compensação mais n’um -tempo do que em outro: no fim do anno acham que cada -um teve 12 horas de luz para um dia natural, e dose mezes -por anno.</p> - -<p>Já disse que os habitantes de Cancer, dentro e fóra do seo -Tropico, gosam mais tres dias do sol do que os outros.</p> - -<p>Dar a razão natural d’isto, e o que dizem os astrologos, -é o mesmo que nada, por ser segredo, que em si guardou -a divina Providencia, e uma honra que deo ao mundo antigo, -composto d’Asia, Africa e Europa, e si basta uma razão -allegorica, sou de opinião que é para fazer sobresahir tres -privilegios especiaes, que sobre o mundo velho alcançou o -novo, e que são—a primeira habitação do homem expellido -do Paraiso Terrestre; dadiva da lei escripta á Moysés; e a -redempção do mundo por Jesus Christo.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXVII">CAPITULO XXXVII</h3> - -<p class="subhead">Ventos, chuvas, trovões, e relampagos em Maranhão e -suas circumvisinhanças.</p> - -</div> - -<p>Alem do que a este respeito disse em sua <i>Historia</i> o padre -Claudio d’Abbeville acrescentarei para satisfação do leitor -o que me fez conhecer a experiencia:</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_136"></a>[136]</span></p> - -<p>1.º Fallando dos ventos, entre os quaes o do Oriente tem -o sceptro e occupa o reino do Brasil, alem das razões dadas -por esse Reverendo Padre, dou outra, que devo aos mathematicos, -que por lá andaram e escreveram sobre a materia.</p> - -<p>Dizem elles, que a constancia d’esse vento soprando por -ahi é devida á disposição das costas do Brasil, em linha -recta de Este a Oeste, porque tendo o sol levantado os vapores -da terra e da agoa e atirando-os apòs si, pela violencia -do seo curso diario encontram as costas do Brasil do -Oriente ao Ocidente sem inflexão ou curva alguma e por -isso seguem por ahi.</p> - -<p>Praticamente observa-se isto com o fumo, que espalha-se -no primeiro corpo solido, que encontra como sustentaculo de -sua fraqueza, e sem elle derrama-se á feição do vento, que -ahi sopra.</p> - -<p>Com quanto o vento das outras tres partes do mundo, a -saber, Oeste, Norte e Sul não reinem no Maranhão e suas -circumvisinhanças em comparação com o de Este, não se -pode comtudo dizer, que não soprem algumas vezes ventos -do Norte e do Sul, e raras vezes o de Oeste.</p> - -<p>Em Maranhão os ventos vão sempre augmentando desde -Agosto até Janeiro, que é propriamente o estio d’esta terra, -e quando o tempo é sempre sereno.</p> - -<p>Explica-se isto pelo curso do sol que regressando do solsticio -de Cancer para o de Capricornio surgem debaixo da -zona tórrida grandes vapores, aquosos e humidos, e quanto -mais se aproxima d’essas terras mais se levanta, e por -tanto mais se reforçam esses ventos, que não são outra -coisa senão esses vapores misturados com o ar.</p> - -<p>2.º A razão porque começam as chuvas em Janeiro ou -em Fevereiro, e vão sempre augmentando até principio de -Junho ou fins de Abril, é porque o Sol volta do solsticio de -Capricornio para o de Cancer, e attrahindo muita humidade -expande-a no ar, e d’ahi cahem as chuvas: quanto mais o -Sol se aproxima do seo termo, mais augmenta sua humidade, -e torna a queda das agoas mais expessa, forte, e rapida,<span class="pagenum"><a id="Page_137"></a>[137]</span> -e por isso vemos no Brazil ser differente a epocha e -a força das chuvas, isto é, mais depressa e mais abundante -n’uma terra do que em outra.</p> - -<p>De ordinario são as chuvas abundantes e frequentes, duradouras -e continuas, mais á noite do que de dia: é o tempo -proprio para semeiar-se, porque tudo nasce, cresce, produz, -e dá colheitas.</p> - -<p>Quando a terra é arenosa, e que está secca pela proximidade -do Sol, ao cahir das chuvas continuas e abundantes, -ella absorve admiravelmente as agoas, muda a sua secura -para uma temperatura humida, que é a mãe das gerações.</p> - -<p>São diversas estas chuvas do orvalho da noite no estio, -porque tem este bom cheiro e aquellas mau, visto que provindo -as chuvas do choque de expessos vapores aerios, trazem -portanto comsigo a qualidade de seos agentes e a sua -causa efficiente: acrescente-se ainda que a queda impetuosa -das agoas sobre a terra, coberta de folhas em putrefacção ou -de cinzas de paus queimados, revolve-a, e d’ella faz desprender-se, -com o seo estado constante de calor natural, mau -cheiro proveniente de taes objectos.</p> - -<p>O orvalho cahindo doce e brandamente em noite serena, -mais fria do que cálida, exhala cheiro agradavel, especialmente -quando se derrama sobre plantas odoriferas.</p> - -<p>É mais doentio o tempo das chuvas do que o das brisas, -ou ventos de Este, porque em primeiro logar não sopram -mais os ventos, e por conseguinte não purificam o ar, e -d’elle não expellem vapores intensos, maritimos e aquosos, -e por isso mui doentios: em segundo logar chocando-se as -nuvens e cahindo as chuvas, apparecem molezas no corpo, -doenças de coração, desarranjos do estomago, enfraquecendo-se -os nervos, e infiltrando-se os ossos de humidade o -que não apparece no tempo das ventanias, que limpam o ar, -o mar, e a terra.</p> - -<p>3.º Os trovões e relampagos são, sem comparação alguma, -mais fortes e frequentes no Brasil do que no mundo velho,<span class="pagenum"><a id="Page_138"></a>[138]</span> -especialmente no tempo das chuvas, são horriveis os -trovões, parecendo abalar-se a terra, e um relampago dura -mais do que dose na Europa.</p> - -<p>Durante esse tempo não sahem de casa os selvagens, e -nem o mais valente se atreve a pôr o nariz fóra da porta, -e eu mesmo, sem ser dos mais timoratos, fartei-me de medo, -embora ninguem visse a queda do raio.</p> - -<p>Eis a razão.</p> - -<p>Emquanto é brando o calor de Agosto á Fevereiro raras -vezes ha trovões; mas quando surge a guerra do frio e do -calor, que é de Fevereiro á Junho, então é necessario que -appareçam escorvas e peças, isto é, raios e trovões.</p> - -<p>N’este tempo reina o calor na zona tórrida com todo o -seo vigor, e o frio então se fortifica pelo regresso do Sol -de Capricornio para Cancer, cheio de humidades do ar, e -por isso é grande o combate, mais frequentes os trovões, e -mais medonhos os relampagos.</p> - -<p>Não se descobre a queda dos raios porque são altas e -vigorosas as arvores do Brazil, e ordinariamente é n’ellas, -como acontece em toda a parte, onde cahem os raios.</p> - -<p>Como é o paiz coberto de florestas, e repleto de arvores -de admiravel altura, é bem facil cahir o raio desapercebidamente.</p> - -<p>Prova-se isto todos os dias com arvores cahidas e queimadas, -que se encontram nas florestas.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_139"></a>[139]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXVIII">CAPITULO XXXVIII</h3> - -<p class="subhead">Mar, agoas, e fontes do Maranhão.</p> - -</div> - -<p>O mar, pelas suas marés, não é o mesmo que o do restante -do Mundo.</p> - -<p>Embora o Occeano acompanhe infallivelmente o crescente, -o plenilunio, e o minguante da Lua, comtudo notaram -nossos marinheiros em um ou dois dias, e algumas -vezes mais, differença e falta de igualdade do que se observa -n’outras marés do Universo.</p> - -<p>Explica-se isto observando-se, que o Brazil está cercado -de milhares de inflexões ou voltas, formadas umas por bancos -e corôas de areia, e outras por voltas de pontas de terra -e bahias.</p> - -<p>Accrescente-se ainda terem todas estas terras as sahidas -mui retalhadas, que impossibilitam o desembocar da maré -com toda a sua força para os rios salgados e portos e barras, -como acontece n’outras partes.</p> - -<p>Reparae por exemplo o fluxo e refluxo do mar no rio -Sena, pois quando o mar no Havre da Graça principia a refluir -já a onda chegou a Ponte de Arche.</p> - -<p>Reparei tambem na seguinte coisa commum ás outras marés, -porem não tanto como as antecedentes.</p> - -<p>O mar no seo fluxo, batendo nas pontas das rochas, deixa -no meio um canal ou rego, que mostra a sua corrente principal, -forrado de excrecencias maritimas, que ahi se amontoam, -e si passar-se uma corda pelo seo nivel poderá servir -de marca aos pilotos para reconhecer o canal no meio -dos recifes.</p> - -<p>Parece-me explicar-se isto pela propriedade da forma circular, -que tem os elementos, a qual lhes permitte expandir-se -até a circumferencia: em virtude d’isto o mar faz no -meio do centro do seo fluxo o rego, ou fio de sua carreira, -depois dispersa-se, e dá a cada ponta de rochedo a sahida -para a maré, e por isso tenho observado algumas vezes<span class="pagenum"><a id="Page_140"></a>[140]</span> -muitos pedaços de pau serem arremeçados em diversos -sentidos contra os rochedos pela violencia e corrente d’essas -differentes marés.</p> - -<p>As agoas do Maranhão são incorruptiveis, e muito melhores -do que as da Europa, como tive occasião de verificar -por espaço de dez semanas na viagem do meo regresso: -eis a razão: quanto mais sugeito está um corpo á transformação -e mudanças de qualidade, mais susceptivel se torna -de ser corrompido e mau por causa das alterações, que soffre, -ora as agoas do Maranhão achando-se sempre no mesmo -estado, são por tanto incorruptiveis e optimas. As agoas da -Europa são pelo contrario ora quentes, ora frias, e por conseguinte -corrompidas e más.</p> - -<p>Não são frias como as da Europa as fontes do Maranhão, -porque sendo baixas as terras do Brazil não póde operar-se -a anteperistase em suas entranhas, especialmente pela proximidade -do sól, que penetra muito bem e com todo o vigor -na terra, que é arenosa e mui susceptivel de calor.</p> - -<p>As agoas da Europa são frias no Estio por causa da grande -anteperistase das terras, d’onde cahem as agoas, que são -altas, muitas vezes fortes e densas, e por isso resistem ao -sol.</p> - -<p>Conservam as fontes do Brazil sempre a mesma temperatura, -porque o sol derrama-se igualmente por cima d’ellas, -que nada tem, que lhes possa imprimir alguma qualidade -fria.</p> - -<p>Entre as fontes do Maranhão umas são melhores do que -outras, e tem até côres diversas: a que nasce da terra é -diversa em gosto e côr, porque sendo a terra baixa, e havendo -muitas arvores, umas com bom gosto e outras com -mau, estendem por ahi suas raizes, e d’ellas os olhos d’agoa, -ou os veios das fontes recebem qualidade boa ou má, tanto -da terra como das arvores.</p> - -<p>Notei n’estas fontes o seccarem umas em setembro, e outras -minguarem muito, porque sendo o terreno do Maranhão -quente, secco, e arenoso consome facilmente as agoas das<span class="pagenum"><a id="Page_141"></a>[141]</span> -chuvas, que por elle corre, e que serve de alimento ás ditas -fontes: achando-se pois os mezes de setembro, outubro, -novembro e dezembro muito longe das chuvas, é natural, -que ás fontes aconteça o que já dissemos.</p> - -<p>Quem quizer beber agoa muito fria, deve expol-a ao sereno, -e na manhã seguinte está tão fria como gêlo, o que -não lhe succederá se n’essa hora for buscal-a á fonte, porque -sendo as noites em Maranhão muito frias, ellas tem muito -mais força sobre uma porção d’agoa guardada n’uma vasilha, -cercada de ar por todos os lados, do que sobre agoas -sempre em movimento pela corrente, contidas em leitos baixos, -cobertas e sombrias por todos os lados, e tendo a superficie -apenas á vista.</p> - -<p>Facilmente observa-se isto na Europa, durante o inverno, -nas fontes e poços situados em lugares retirados e sombrios, -pois nunca suas agoas se gelam, ou pelo menos se -esfriam.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XXXIX">CAPITULO XXXIX</h3> - -<p class="subhead">Singularidades de algumas arvores do Maranhão.<a id="Nanchor_66" href="#Note_66" class="fnanchor">[66]</a></p> - -</div> - -<p>As arvores do Maranhão, em sua maior parte, são duras -e pesadas, porque a solidez nas coisas mixtas provem da -boa cocção da humidade.</p> - -<p>N’este paiz existe em igual abundancia tanto a humidade -como o calor, cada um durante a sua estação: as chuvas tem -seo tempo proprio para alagar a terra, e o calor tambem o -tem para coser e digerir esta humidade, que é nutricção -dos vegetaes, especialmente das arvores, que estendendo<span class="pagenum"><a id="Page_142"></a>[142]</span> -suas raizes dentro e fóra da terra por ahi chupam muita -agoa e sobrevindo o calor transforma a humidade em corpo -solido.</p> - -<p>As arvores estão sempre verdejantes por successão diaria -e continua de folhas novas ás velhas, de fórma que, sahindo -aquellas dos olhos dos ramos vão logo por força propria attrahindo -a seiva, ficando d’ella privada as velhas, que por -isso definham e cahem.</p> - -<p>Observamos isto no nosso corpo quando uma unha nova -vem substituir a velha.</p> - -<p>Por esta renovação de folhas conservam-se as arvores no -mesmo estado, o que não vemos na Europa porque o inverno -retem no interior das arvores o calor natural d’ellas: -é necessario que cáiam as folhas antes da ausencia do calor, -ficando só a humidade, que apodrece o pé da folha em -vez de lhe dar vigor como acontecia no tempo do calor, e -por tanto assim se faz a queda das folhas.</p> - -<p>No Brazil acontece o contrario porque vivendo o calor e -a humidade em boa e perpetua companhia, novas folhas nascem -ao mesmo tempo que as velhas cahem: geralmente, -em todas as coisas notam-se tres estados: 1.º Crescer. 2.º -Permanecer. 3.º Decrescer e assim sempre até morrer: eis -o que observamos nas folhas—teem tempo para crescerem, -ficarem perfeitas, e depois irem definhando até cahirem -seccas.</p> - -<p>Entre estas arvores merecem especial menção em primeiro -lugar os <i>mangues</i>, arvores, que crescem nas barreiras do -mar, e espalham seos ramos, e fibras sobre as areias do -mar, ou entre as pedras que cobrem o limo, ahi se fortificam, -engrossam, e chegando ao seo estado completo, começam -elles mesmos a deitar novas fibras, que tem igual desenvolvimento, -e assim se reproduzem infinitamente, não pelas -raizes, como as outras arvores, e sim pelos seos ramos.</p> - -<p>Não sei o que mais admirar, si a successão perpetua de -pae a filho, ou a geração inteiramente diversa das outras -arvores.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_143"></a>[143]</span></p> - -<p>A razão, porque assim produzem estas arvores, provém -de serem altas, pesadas e em seo principio finas e delgadas -para a raiz, e grossas no centro: se nasciam da raiz de seo -pae, nunca poderiam subir por causa da fraqueza e delicadesa -de seo pé, da grossura e peso do seo meio, e assim -ficam deitadas e rastejando pela areia, a que deo a natureza -o encargo de dar dois nascimentos; um do ramo de seo -pae, onde ficam perpetuamente encorporadas e por conseguinte -bem sustentadas, outro da origem da enseiada do mar, -na qual ellas aprofundam e estendem suas raizes, e d’ahi -extrahem segunda nutrição, e assim sustentadas e nutridas -por cima e por baixo com facilidade crescem.</p> - -<p>Notae de passagem esta bella particularidade de terem -dois nascimentos e duas nutrições: a primeira de cima consubstancial -com o seo gerador, que com elle faz uma mesma -essencia, sendo gerado, sahido d’elle, e sempre com elle -e inseparavelmente vivendo de sua nutrição. O segundo nascimento -e nutrição é debaixo do seio da areia do mar, nutrindo-se -do mesmo mar, chamando para cima esta nutrição -para unil-a com a que recebe de seo Pae: por estas duas -nutrições cresce, estende seos ramos, dos quaes, de novo, -por outro nascimento produz seos fios, que adquirem raizes -dentro do mesmo mar, que o produz.</p> - -<p>D’esta comparação eu me servia para fazer comprehender -aos selvagens o Mysterio da Encarnação do Filho de Deos -dizendo ter elle dois nascimentos, um de cima, eterno e divino, -sahindo de seo Pae sem d’elle sahir, distincto de seo -pae por hypostase como o ramo de mangue, com o filho gerado -d’elle, unico comtudo na essencia e na substancia com -seo gerador, como a fibra com seo ramo, vivendo de uma -mesma nutrição divina e celeste, a saber, o amor do Espirito -Santo, que constitue a terceira pessoa da Trindade: o -outro nascimento é de baixo, temporal e humano, sahido do -seio da Virgem Maria, nutrido com o seo leite sagrado, foi -crescendo homem e Deos ao mesmo tempo, vivendo interiormente -da nutrição divina, e exteriormente da nutrição corporal,<span class="pagenum"><a id="Page_144"></a>[144]</span> -e quando chegou á idade de 33 annos e meio, depois -de haver communicado sua doutrina celeste aos homens, confirmada -por seos milagres, estendeo seos braços, consentindo -que fossem pregados na arvore da Cruz e do meio de suas -chagas sahiram seos escolhidos, que depois tomaram raizes -na Santa Igreja, regenerados pela agoa do baptismo, e nutridos -pelos Sanctos Sacramentos.</p> - -<p>Diziam-me os selvagens, que comprehendiam isto muito -bem e sem a menor difficuldade, porque si Deos deo tal poder -ás arvores, que não sentem, porque não poderia elle -fazer o mesmo a si?</p> - -<p>N’esse paiz existem arvores, que se mostram exteriormente -seccas, sem folha alguma, e comtudo quando chega o tempo -proprio brotam d’ellas em quantidade flores muito bellas e -em cachopas, porem são de diversas cores e ordinariamente -amarellas.</p> - -<p>Encontra-se a razão d’esta particularidade no logar escolhido -pela naturesa para terminar a sua acção: por exemplo; -quando é liberal dando a qualquer membro um excesso de -nutrição, é á custa dos outros: quando estas arvores dão sua -seiva para formar uma casca grossa, verdejante e humida e -cobrir de lindas folhas os seos ramos, não produzem bellas -flores, as quaes naturalmente, em todos os vegetaes, formam-se -de uma seiva bem digerida e subtil, e por tanto -podendo subir facilmente até as extremidades dos ramos, -não cuidando das outras partes da arvore para lhes dar qualquer -nutrição.</p> - -<p>Reconheci isto em França, onde se pódam as cerejeiras -para não dar fructo, afim de com toda a sua seiva produzirem -flores largas e dobradas, como rosas almiscaradas duplas.</p> - -<p>Tambem existem outras arvores, que fecham suas folhas, -e as dobram sobre si, quando o sol está no seo occaso, e -apenas se levanta ellas desdobram-se e expandem, como -acontece em França, ao Girasol.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_145"></a>[145]</span></p> - -<p>Este phenomeno é devido á humidade ou sereno na noite, -que as aperta e fecha porque o frio tem essa qualidade, e -o calor do dia as abre e as expande por ter essa propriedade.</p> - -<p>Com bastante difficuldade pude deparar com as razões -naturaes de muitas singularidades, que vi em Maranhão, porem -confesso com franqueza, que nunca achei a causa natural: -certas arvores d’aquelle paiz, apenas se toca com a mão -o seo tronco, immediatamente fecham todas as suas folhas: -por certo haverá n’estas arvores alguma propriedade sensitiva, -como ha na esponja, a qual apenas sente a mão do -homem, que a pretende cortar, ella se aperta, e occulta-se -no concavo e na fenda da pedra do mar, que a forma.</p> - -<p>Os cajueiros, que produzem uma fructa propria para fazer -vinho, nascem espontaneamente pela costa do mar, e -por isso vivem da seiva maritima e salgada, resultando d’isto -ser o vinho de cajú picante e acre, e produzir no futuro dores -nos rins, e ser prejudicial aos pulmões.</p> - -<p>Por experiencia coei este vinho, e d’elle tirei muito sal.</p> - -<p>Ha espinhos, que dirieis serem creados por Deos para representar -o mysterio da paixão de Jesus Christo,<a id="Nanchor_67" href="#Note_67" class="fnanchor">[67]</a> porque -crescem formando ramilhetes quatro em cima, equidistantes -á maneira de uma Cruz, e um no cume com a ponta virada -para o Ceo, ornado de nove folhas, dispostas como tres raminhos, -cada um com tres espinhos, que em tempo proprio -se transformam em tres flores, ficando o espinho maior no -centro.</p> - -<p>São estes cinco espinhos os instrumentos das cinco chagas -de Jesus-Christo. Cercando a corôa de espinhos seo Chefe, -como o espinho de cima é cercado de folhas, isto é, de peccados -e de vaidades das tres idades do mundo, na lei da -natureza, escripta e de fé, cujos peccados e imperfeições se -transformam, pelo merecimento do sangue de Jesus Christo, -em flores da Graça, em boas obras, e na recompensa da -gloria.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_146"></a>[146]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XL">CAPITULO XL</h3> - -<p class="subhead">Dos peixes, passaros e lagartos, que se encontram -n’esses paizes.</p> - -</div> - -<p>Eis uma questão não pequena, de phisica ou de philosophia -natural—«como pode um animal, vivo e perfeito na -sua especie, formar-se sem progenitores.»</p> - -<p>Alberto, o grande escriptor, vio peixes vivos no meio de -uma grande pedra marmore, tirada da rocha, e rachada no -centro.</p> - -<p>Não é novidade para os que leram este autor, porque -eu vi em Maranhão, nos regatos formados pelas chuvas, e -que pouco duram, muito bons peixes, iguaes em tamanho -e côr aos que vivem em rios permanentes, e que nascem -de ovas.</p> - -<p>Como é possivel, que sem haver ovas, possam estes peixes -nascer, crescer e morrer, com a queda, augmento e ausencia -das chuvas?</p> - -<p>A razão d’isto está na força e influencia dos planetas predominantes -em janeiro e fevereiro, quando nascem estes -peixes, e na conjuncção forte da humidade e do calor e na -disposição do terreno, tudo isto combinado de tal forma, que -dá origem a taes e taes peixes de preferencia aqui do que -em qualquer outra parte; como vemos na Europa em que a -diversidade das terras, por onde passam as chuvas, produz -differentes variedades de peixes.</p> - -<p>Entre os passaros do Maranhão, dos quaes eu diria maravilhas, -si outros ja o não tivessem feito, notei uma especie -singular de aves aquaticas vermelhas,<a id="Nanchor_68" href="#Note_68" class="fnanchor">[68]</a> cuja penna e carne -são de côr escarlate, dando-se a particularidade de serem -brancas quando sahem do ovo, depois com o tempo, quando -podem vôar; são pretos, e assim ficam até chegarem a -sua grandesa e grossura natural, d’ahi vão se tornando meio -pardos e meio vermelhos, e finalmente totalmente rubros, -passando assim por quatro mudanças.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_147"></a>[147]</span></p> - -<p>Não digo isto por ouvir dizer, porem observei nos que se -criam em casa presos. Este phenomeno não se dá sem uma -razão profunda, e fundada na naturesa, e me parece ser -esta: a côr da pelle e das pennas é devida á disposição e -qualidade do alimento, que nutre a ave, porque diz o philosopho, -a pelle e as pennas nascem, crescem e se nutrem -com a superfluidade dos alimentos: ora a côr branca faz suppor -alimentação leve e delicada, e por isso a avesinha ao -sahir da casca do ovo, vivendo somente á custa de moscas -e mosquitos, que vôam ao redor d’elle, é natural que suas -plumas, originadas de tão fraca comida, tenham a côr branca.</p> - -<p>A côr negra porem faz crer em abundancia e superfluidade -de alimentação, porque a intensidade do calor natural -vae sempre excitando o apetite, e empurrando-o para o pasto -e por isso notei, que quando esta ave tem as pennas pretas -é glutão e come constantemente.</p> - -<p>A côr parda e meia vermelha mostra uma tendencia, ou -uma regra, nascida expontaneamente da naturesa para acolher -uma certa alimentação, que lhe é propria, e então observei -escolher esta ave uma comida singular e especial, -isto é—os carangueijos, os quaes consummidos no estomago, -ahi se transformam em chylo vermelho como escarlate, -e este cahindo no figado, se d’elle não receber alguma côr, -como acontece com os outros animaes, tinge-o com sua côr, -e sempre assim passa para as veias, das veias para a carne, -da carne para as pennas, e tão perfeitamente, que si fosse -um mettido dentro de uma panella para cozinhar, podia dizer-se -que havia dentro uma porção de vermelhão.</p> - -<p>Entre milhares de lagartos e reptis do mar, appliquei minha -attenção para uma especie bem monstruosa.</p> - -<p>É um animal que vive umas vezes n’agoa, outras em terra, -e tambem nas arvores, contendo em si as tres espheras -com que vivem todos os animaes do mundo.</p> - -<p>Com os peixes partilha o elemento d’agoa, com os homens -e os quadrupedes o da terra, e com os passaros aninha-se -e repousa nas arvores. Direi ainda que só parece<span class="pagenum"><a id="Page_148"></a>[148]</span> -terem os astros lhe dado sobre os rins, desde a cabeça até -o fim da cauda um reflexo de seos raios e brilhos, porque -notareis no dorso uma bella facha de raios do sol e das estrellas, -similhantes aos que fazem os nossos pintores ao redor -do globo do sol e das estrellas.</p> - -<p>Tem a pelle esmaltada de côr prateiada e azulada, como -a abobada celeste quando serena.</p> - -<p>Quando este animal sente a intensidade do Sol, sahe do -mar, sobe ás arvores visinhas, e escolhendo um ramo para -deitar-se, ahi se estende e descança.</p> - -<p>Põe seos ovos nas arvores maritimas, os quaes aquecidos -pelo calor do Sol deixam sahir os lagartinhos, que apenas -sahem das cascas dos ovos conhecem logo o pae e a mãe, -acompanham-no ao pasto no mar, em terra e nas arvores.</p> - -<p>Explico a rasão d’isto dizendo que quanto mais humido -é o animal, mais somnolento é elle. Entre todas as especies -de animaes esta sorte de lagartos é humida e fria, e por -tanto sujeita ao dormir, e como seja mais agradavel o somno -quando se tem os membros em certo grau de calor, eis por -que elles buscam soalheiros. Reconhecendo pequeno o seo -calor natural, eis porque põem seos ovos em lugar expostos -aos raios do Sol.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLI">CAPITULO XLI</h3> - -<p class="subhead">Da pesca do Piry.</p> - -</div> - -<p>Os selvagens do <i>Maranhão</i>, de <i>Tapuitapera</i>, e de <i>Comã</i> -tem uma pescaria certa e annual, como annualmente a do -bacalhau nos Bancos da Terra Nova.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_149"></a>[149]</span></p> - -<p>Alguns mezes depois das chuvas, quando julgam as agoas -escoadas, muitos embarcam em suas canoas, levando farinha -para alguns mezes ou seis semanas, e assim vão costeando -a terra á um lugar distante da Ilha 40 ou mais legoas: -ahi se arrancham, levantam choupanas, e depois dedicam-se -a pescaria, a caça dos crocodillos, e á procura das tartarugas.</p> - -<p>Ahi se reunem muitos selvagens de diversas aldeias da -Ilha, de Tapuitapera, e de Comã.</p> - -<p>Apanham-se os peixes nas pôças, ou buracos de areia com -pouca agoa, e quando se vae um pouco mais tarde, coagido -pela estação, encontram-se essas pôças seccas e o peixe -morto.</p> - -<p>Sendo impossivel dizer-se o numero ou a quantidade -d’estes peixes, faço porem comprehendel-a asseverando, que -chega para carregar todos os selvagens, e ainda fica muitissimo. -São grossos e curtos, não excedem porem a grossura -e expessura de um braço, tem de comprimento meio -pé entre a cauda e a cabeça, o focinho achatado e muito -similhante ao do tenca, e parecem-se muito com os peixes -maritimos chamados <i>marujos pintados</i>.</p> - -<p>Apanhados nas redes, que levam, chamadas <i>pussars</i>, seguram-nas -pelo meio dose a dose, lançam-nos com entranhas -e tudo ao fumeiro para assal-os, e assim ajuntam muitos, -que levam para suas casas, e com esta comida sustentam-se -um ou dois mezes. Quando querem comer, tiram a pelle -do peixe, seccam-na ao sol, pisam-na em um almofariz, reduzem-na -á pó, com que fazem seos <i>mingaus</i>, isto é, suas -bebidas, como fazem os turcos com o pó dos quartos de boi -cozidos ao forno quando vão para a guerra.</p> - -<p>Dirigindo-me um dia para a Ilha, achei-me em certa aldeia, -onde nada tendo que dar-me para jantar, ferveram alguns -d’estes peixes n’uma panella, do caldo fizeram <i>mingau</i>, -vindo o resto no prato.</p> - -<p>Bem contra minha vontade de nada me servi por causa -do mau gosto da fumaça, porem com muito apetite comeram<span class="pagenum"><a id="Page_150"></a>[150]</span> -de tudo os francezes, que vinham commigo, achando saborosos -os peixes, com grande satisfação dos indios, que os -apreciam tanto á ponto de irem muito longe buscal-os.</p> - -<p>Como se acham em tanta abundancia estes peixes em taes -fóssos ou poços desde o inverno até esse tempo? Se explicações -servem ja as dei no cap. 40, e por isso á ellas me -refiro, acrescentando ainda o seguinte.</p> - -<p>A grande quantidade de chuva faz transbordar os rios, os -regatos, e o proprio mar, de maneira que todos estes campos -ficam innundados até a altura de um homem: assim sahem -os peixes do lugar natural, onde habitavam, ahi regalam-se -com pastos novos a ponto de não se lembrarem de -regressar a Patria, e por isso quando as agoas se abaixam, -ficam presos em fóssos e poços como vimos em todos os lugares -onde se dão estes factos.</p> - -<p>A caça dos jacarés lhes é util e agradavel: são pequenos -crocodillos com 8 ou 10 pés de comprimento, de pelle dura, -ventre molle, sem lingua, com olhos vivos, sempre alerta e -maus: accommettem o homem, cortam e devoram o primeiro -membro que agarram.</p> - -<p>Escondem-se em grotas, á margem dos rios, e sempre -de emboscada, nadam como peixes, arrastam-se ligeira e -brandamente, abrem a bocca, e como que intentam assustar-vos -si vos encontram: põem ovos iguaes aos de galinha, -porem cobertos de protuberancias, como as castanhas; -dizem que são bons para comer, mas eu não affianço porque -nunca os provei, pois sempre tive muito horror á estes -bixos.</p> - -<p>Chocam seos ovos, e d’elles sahem jacarésinhos, gordos, -grandes e compridos, como os lagartos que vemos pelo estio -correr nos muros.</p> - -<p>É para admirar, que de tão pequeno bixo origine-se tão -grande animal, e que apenas sahido da casca do ovo começa -a andar e arrastar-se!</p> - -<p>Sua carne cheira a almiscar, é doce e desagradavel: os -selvagens porem não fazem caso d’isto, apreciam-na muito<span class="pagenum"><a id="Page_151"></a>[151]</span> -quando a encontram, e por isso empregam-se muito em caçal-os.</p> - -<p>O logar <i>Piry</i>, humido e cheio de limo, tem muitos jacarés, -que são perseguidos pelos selvagens por meio de flechas, -atiradas com direcção á garganta ou á barriga, e depois -acabam-nos com uma barra de ferro, escamam-nos, e -cortam-nos em pedaços, que assam.</p> - -<p>Si são pequenos, cozinham-nos com escamas, e assim -preparados acham-nos muito bons e até delicados, porque -assados com sua gordura, dizem elles, nada perdem de sua -substancia.</p> - -<p>Achei melhor crer do que experimentar, embora tivesse -muitas occasiões de o fazer, visto que recebi muitos presentes -d’elles quando voltaram os selvagens do <i>Piry</i>.</p> - -<p>A recordação somente d’estes animaes me fazia nauseas -até o coração, á vista d’esses pedaços.</p> - -<p>Diziam os francezes, que o comeram, ser similhante a -carne fresca de porco, um pouco mais adocicada, oleosa, e -com o cheiro de almiscar.</p> - -<p>He muito perigoso tomar-se banho n’esse paiz, a não ser -em logar descoberto, porque estes despresiveis animaes se -arrastam de mansinho e se atiram sobre vós.</p> - -<p>Contaram-me, que um menino, da aldeia de <i>Rasaiup</i>, -cahindo n’um riacho, onde hia buscar agoa, foi agarrado -e devorado pelos jacarés.</p> - -<p>Quando andei pelas costas do mar, desde <i>Trou</i> até <i>Rasaiup</i>, -em companhia de muitos selvagens, elles me levaram -para beber agoa n’uma grota cheia de sarças e outras -mattas, e me advirtiram, que ahi ninguem se podia demorar -muito por ser o escondrijo dos jacarés.</p> - -<p>Fazem-lhes muita guerra os nossos selvagens, por gosto e -utilidade, e trazem grande provisão d’elles quando voltam -do Piry.</p> - -<p>A razão de não terem lingua, estes animaes é porque segundo -creio, tem a garganta e o pescoço, inteiramente inflexiveis, -a ponto de não poderem olhar nem para traz nem<span class="pagenum"><a id="Page_152"></a>[152]</span> -para o lado sem moverem o corpo todo: alem disso, elles -tem o maxillar inferior duro e immovel, tudo isto contrario -ao uso da lingua, e só mastigam com o maxillar superior.</p> - -<p>Eis porque agarram e devoram a presa de um só jacto, -não precisando viral-a e reviral-a da garganta.</p> - -<p>Disse S. Gregorio, que os crocodillos do Nilo chegavam a -ter até o comprimento de 20 covados, a cor de açafrão, porem -os do Maranhão e de suas circumvisinhanças não iam -alem, como ja disse, de 10 ou 12 pés, com a differença -tambem de habitarem aquelles, durante a noite, a agoa, e -de dia a terra, porque busca o calor, visto serem no Egypto -á noite as agoas quentes e a terra fria, e de dia vice-versa.</p> - -<p>No Maranhão acontece o contrario: de noite ficam em terra, -e de dia n’agoa, porque as agoas são frias á noite e quentes -de dia, e a terra temperada.</p> - -<p>A razão, porque este animal tem medo dos que o perseguem, -e é atrevido contra os que fogem d’elle, é porque facilmente -atira-se sobre este, e só com muita difficuldade se -defende d’aquelles, sendo este procedimento o resultado de -sua naturesa timida e assustada.</p> - -<p>Tem só um intestino, porque não faz a primeira digestão -nas carnes cortadas em bocadinhos.</p> - -<p>Temem mais os selvagens que os francezes, e os do Nilo -receiam mais os egypcios do que os estrangeiros, o que explica -Solinus dizendo reconhecerem elles naturalmente pelo -cheiro os que o guerreiam constantemente.</p> - -<p>Disse um phisiologista, que quando elle devora alguem, -chora a sua desgraça: não sei si será verdade.<a id="Nanchor_69" href="#Note_69" class="fnanchor">[69]</a></p> - -<p>Alem d’estes exercicios, no Piry perseguem os selvagens -as tartarugas, ahi em quantidade incrivel, e trazem-nas vivas -tantas quantas podem.</p> - -<p>Não são avarentos, antes sim por poucos generos alcançareis -muitas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_153"></a>[153]</span></p> - -<p>Lembro-me, que passando algumas canoas pela nossa situação -de São Francisco, por uma faquinha de custo de um -soldo na França, deram-me setenta, e pela farinha, que lhes -offereci para jantar, mimosearam-me com vinte e cinco, que -guardei em lugar humido e fresco, deitando-lhes todos os dias -um pouco d’agoa, e assim se conserváram sem comer por -mais de seis semanas.</p> - -<p>Os selvagens comem-nas com muito gosto, e dizem que -ellas lhes conservam a saude, e lhes fazem bom estomago.</p> - -<p>Cozinham-nas em seos cascos inteirinhas, sem tirar-lhes as -entranhas, e nós as achamos assim preparadas muito melhores -do que de outra fórma.</p> - -<p>Si algum d’elles soffre dos ouvidos por algum defluxo -tiram as mulheres o sangue d’estes reptis, misturam-no com -o leite tirado de suas mamas, e com isto friccionam o fundo -da orelha.</p> - -<p>Quando arrancam o cabello dos seos corpos, com pinças -de ferro, que lhes dão os francezes, esfregam a pelle com...</p> - -<p class="center">(falta uma folha).</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLIII">CAPITULO XLIII</h3> - -<p class="subhead">Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas.</p> - -</div> - -<p>Ha outra caçada de um verme, tão divertida e agradavel -como as precedentes, é a dos ratos domesticos e selvagens.</p> - -<p>Não comem os domesticos, ao menos que eu saiba, porem -caçam-nos cruelmente; porque si entra um rato em qualquer<span class="pagenum"><a id="Page_154"></a>[154]</span> -casa, reunem-se todos os habitantes, uns com arcos, e -outros com flechas e paus, e com o auxilio tambem de alguns -cães não escapa o pobre rato.</p> - -<p>Depois de morto é espetado na ponta de uma vara, fincada -no meio da aldeia, para servir de alvo ao exercicio -das flexas dos meninos.</p> - -<p>As aldeias mais proximas dos portos, onde chegam navios, -tem mais ratos, porque apenas sentem a terra, atiram-se -as ondas, nadam, trocando assim o seo paiz natal, que -é o mar, para ficar n’um paiz mais firme e seguro, que é -a terra.</p> - -<p>Comem os ratos selvagens, que vivem nos bosques e no -dizer d’elles é comida deliciosa.</p> - -<p>Caçam-nos assim: cavam um buraco no meio de um certo -lugar no matto, fazem varias entradas, similhantes ás coelheiras, -ou terreiros de coelhos: reunem-se depois muitos -sujeitos, armados de paus, e vão fazer grande alarido ao -redor d’esse fosso, como se costuma fazer nas caçadas dos -lobos.</p> - -<p>Batem as mattas, e d’ellas fazem sahir os ratos, e elles -fugindo, e encontrando esses buracos tão proprios para se -occultarem, ahi entram, e então aproximando-se os selvagens, -toma cada um conta do seo buraco, e entrando outros -dentro do fosso, á cacete matam os ratos, dividem-nos igualmente, -e regressam para a aldeia trazendo cada um o que -lhe tocou.</p> - -<p>Assam os ratos ao fumeiro ou sobre carvões, abrem-nos -por diante sem lhes tirar a pelle, a qual fazem tostar depois -que o animal está cozido por dentro, para não perder -a gordura, e depois os guardam dentro de uma porção de -farinha.</p> - -<p>São estes ratos assim preparados, guardadas as proporções, -mais apreciados do que os javalys e os viados, e as -vezes trazem os selvagens quantidade incrivel d’elles.</p> - -<p>Caçam as formigas em tempo de chuva, por ser a epocha -propria d’ellas mudarem de habitação.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_155"></a>[155]</span></p> - -<p>As que podem vôar buscam a região do ar, deixando suas -casas, feitas e cavadas na terra.</p> - -<p>As outras, si por instincto natural desconfiam, que podem -as agoas invadir suas grutas, e estragar seos armazens, -celleiros, ou dispensa, pegam na bagagem, com ordem -digna de ser mencionada, e auxiliadas com a experiencia, -como vou contar para servir de modello a todas as outras.</p> - -<p>Na nossa casa de S. Francisco, no principio das chuvas -um milhar de milhões de formigas sahio de uma caverna, -perto d’ahi, e veio tomar posse de um canto do meo quarto, -onde cavou camaras, ante-camaras e celleiros.</p> - -<p>N’uma bella manhã sahiram todas, e trouxeram um alqueire, -talvez, de ovos, indo em diversas estações, isto é, -em distancia de 2 passos uma da outra.</p> - -<p>Cada acervo trazia suas formigas em ordem, vindo descarregar -cada uma o que trazia no montão proximo, e assim -iam fazendo os outros acervos ou companhias.</p> - -<p>Admirei-me de vêr tantas formigas, e tantos ovos, que -deitavam mau cheiro.</p> - -<p>Mandei fazer bom fogo, e atirar sobre estes ovos, e no -caminho por onde passavam estes animaes.</p> - -<p>Puzeram-se em alarme, e cada uma buscou salvar os ovos -que poude, como fez Eneas á Anchises, seo pae na destruição -de Troya.</p> - -<p>Não fui tão bem succedido, porque regressaram ao lugar -que haviam escolhido, não pensando talvez, que me incommodassem, -o que assim não aconteceo, porque reunindo-se -todas por espaço de 2 dias, deliberaram ir a pilhagem fóra -do quarto, mostrando-se contentes com a habitação, que bem -a meo pesar lhes dei.</p> - -<p>Causar-vos-hia satisfação vendo estes animaesinhos, desde -o amanhecer até ao anoitecer, fazer suas provisões, que são -as folhas de uma certa arvore, em cujos ramos, como presenciei, -estavam muitas para cortal-as e deixal-as cahir em -terra, onde cada formiga pegava no que podia e levava para -os armazens.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_156"></a>[156]</span></p> - -<p>Tinham aberto dois caminhos, muito bons para o seo tamanho: -por um iam as carregadas, e por outro as desembaraçadas, -evitando assim a confusão e a mistura, embora -fossem mais de quatrocentas as carregadeiras. O mesmo fazem -as outras especies de formigas.</p> - -<p>É para admirar-se tambem a especie de abobadas, que -com admiravel industria fazem quando querem caminhar -abrigadas.</p> - -<p>Caçam os selvagens somente as formigas grossas como o -dedo pollegar, para o que aballa-se uma aldeia inteira de -homens, mulheres, rapazes e raparigas.</p> - -<p>A primeira vez que vi esta caçada, não sabia o que era, -e nem onde hia tão apressada tanta gente deixando suas casas -para correr após as formigas voadoras, as quaes agarram -mettem-nas n’uma cabaça, tiram-lhes as azas para frital-as e -comel-as.</p> - -<p>Caçam-nas tambem por outra maneira, e são as raparigas -e as mulheres que, sentando-se na bocca da caverna, convidam-nas -a sahir<a id="Nanchor_70" href="#Note_70" class="fnanchor">[70]</a> por meio de uma pequena cantoria, assim -traduzida pelo meo interprete.</p> - -<p>«Vinde, minha amiga, vinde vêr a mulher formosa, ella -vos dará avelans.»</p> - -<p>Repetiam isto á medida que iam sahindo, e que iam sendo -agarradas, tirando-se-lhes as azas e os pés.</p> - -<p>Quando eram duas as mulheres, cantava uma e depois outra, -e as formigas que então sahiam, eram da cantora.</p> - -<p>Causa admiração vendo-se os grandes pedaços de terra, -que tiram de suas cavernas.</p> - -<p>No tempo das chuvas tapam os buracos do lado das enchurradas, -e deixam somente aquelles, por onde pode vir a -chuva raras vezes.</p> - -<p>As formigas do Maranhão tem dois inimigos encarniçados, -especialmente estas alladas: um—certa especie de cães selvagens,<a id="Nanchor_71" href="#Note_71" class="fnanchor">[71]</a> -com pello de lobo, fedorentos o mais que é possivel, -focinho e lingua muito aguda, e que procura o formigueiro -para alimentar-se: outro, uma qualidade de formigas<span class="pagenum"><a id="Page_157"></a>[157]</span> -corpulentas, que de ordinario nascem com as outras, -como o zangão entre as abelhas, e em quanto são pequenas -e fracas, trabalham conjuntamente sem fazerem barulho, e -nem se offenderem.</p> - -<p>Quando grandes e fortes deixam as outras, fazem bando -á parte, só e só, não vivem mais em companhia, e põem se -de embuscada pelo caminho, onde costumam passar suas irmãs -e parentas, como fez antigamente Abimelech, bastardo -de Gedeon, sobre os 70 filhos legitimos de seo pae, seos -proprios irmãos, os quaes matou todos sobre uma pedra em -Ephra.</p> - -<p>Sirva d’isto ao leitor para applicar como julgar acertado.</p> - -<p>Eis como os nossos selvagens se distrahem mais utilmente -com estes animaes, do que os nossos rapazes com as borboletas: -de tudo se aproveitam e nada perdem, reunindo o -util ao agradavel.</p> - -<p>Vejamos o resto.</p> - -<p>A caça dos lagartos, chamados pelos <i>Tupinambás</i>—<i>Tarure</i> -(os grandes) e <i>Toju</i> (os pequenos,) é feita por diverso -modo,<a id="Nanchor_72" href="#Note_72" class="fnanchor">[72]</a> conforme são da terra ou do mar.</p> - -<p>Os maritimos habitam ordinariamente as praias cobertas -de mangues, onde, duas vezes dentro do espaço de 24 horas, -entra o mar.</p> - -<p>Ahi nutrem-se de carangueijos, de mexilhões, e de camarões, -vulgarmente chamados em França—lagostins, e de peixes, -que apanham na enchente.</p> - -<p>Poem seos ovos nos concavos das arvores.</p> - -<p>Os selvagens caçam-nos e flecham-nos na vasante; enterrando-se -pelo tujuco.</p> - -<p>Para comida servem tanto como os coelhos, ou uma grande -lebre, conforme o tamanho do animal.</p> - -<p>Fervem-nos para fazer mingau, ou assam-nos ao fumeiro.</p> - -<p>Os francezes assam-nos ao espeto, bem untado de gordura -de peixe-boi, e a primeira vista pensareis que são coelhos -ou lebres espetadas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_158"></a>[158]</span></p> - -<p>O guisado, que d’elles se faz, é muito parecido com o das -lebres e coelhos, e muitos francezes gostam mais d’elles do -que os nossos coelhos.</p> - -<p>Eu antes quero crêr do que provar.</p> - -<p>A caça dos lagartos terrestres é mais de meninos que de -homens, embora tenha visto alguns homens atraz delles, -como os meninos, e até 20 selvagens, homens e rapazes, -atraz de trez lagartos.</p> - -<p>Apenas os pilham, assam-nos, e toma cada um a parte, -que lhe pertence e acham-na muito boa.</p> - -<p>Os rapazes apenas os veem correr pela casa, nas paredes -ou nas arvores, flecham-nos, porem escolhem os maiores por -que tem mais que comer: alguns tem o comprimento de um -braço e a mesma largura.</p> - -<p>Ha outros vermes, que não sahem das arvores, deitados -sobre folhas, expostos ao sol: dizem os selvagens que são -venenosos, e por isso os deixam: não se assustam com a vossa -presença, si não os perseguirdes.</p> - -<p>Parecem-se com os camaleões, de que ainda fallarei, tem -brilho nos olhos, e a côr de escarlate.</p> - -<p>Costumam estes lagartos domesticos á juntarem-se e unirem-se -em forma de bolla, de tal maneira que a cauda do -macho toca a cabeça da femea, e reciprocamente, e assim -todos curvados, tocam-se as duas cabeças e as duas caudas.</p> - -<p>Tive medo quando vi isto pela primeira vez, porque não -sabia o que seria, e nem si era alguma especie de serpente, -com quatro olhos, e um só corpo enrolado.</p> - -<p>Os lagartos femeas são mais grossos do que os machos.</p> - -<p>Os pequenos lagartos poem ovos, de cinco até sete cada -um do tamanho da cabeça do dedo minimo, n’um buraco, -que cobrem de areia, fazendo o resto o calôr do sol.</p> - -<p>Os lagartos grandes põem ovos maiores, á proporção do -seo corpo, e ordinariamente fazem ninhos nos tectos das -casas, nos bosques, e para ahi levam tudo o que acham ser<span class="pagenum"><a id="Page_159"></a>[159]</span> -molle, como sejam musgos, pennas, algodão, farrapos, e -frequentam muito a casa si não lhes fazem mal.</p> - -<p>Fazem tanto barulho como um cão, quando caminham e -conduzem na bocca o que acham, e é um prazer vel-os em -tal lida.</p> - -<p>Não fazem caminho direito quando construem seo ninho, -e antes usam de muitos rodeios para não serem descobertos.</p> - -<p>O sol chóca e faz abrir seos ovos, porque são muito frios -e não tem calor proprio para isso.</p> - -<p>São caçados por cobras grandes e horriveis, umas brancas -como agoa, outras de côr de violeta, e finalmente algumas -manchadas de diversas côres.</p> - -<p>Invadem até as casas para nos tectos caçarem estes lagartos, -que apenas as presentem ao longe, fogem como se -a casa tivesse pegado fogo.</p> - -<p>Mandei matar tres cobras d’estas n’um domingo, quando -eu e meos companheiros fomos dizer missa na capella de -S. Francisco, onde as achamos perseguindo os lagartos grandes, -dos quaes já tinham matado muitos.</p> - -<p>Pagaram tal temeridade levando cada uma mais de cincoenta -cacetadas, e ainda se salvariam, si eu não as mandasse -cortar em pedaços, que viveram e remecheram-se -por mais de 24 horas procurando reunirem-se o que não conseguiram -por estarem distantes umas das outras, talvez por -quatro ou cinco passos.</p> - -<p>Os selvagens tem muito horror d’estes lagartos, e dizem -ser venenosos.</p> - -<p>Os lagartos, quando velhos, perdem sua cauda, que fica -negra, e por isso mesmo é fragil como vidro, e quebra-se -por qualquer causa.</p> - -<p>Não creio, que ellas renasçam, embora o affirme Aristoteles.</p> - -<p>Fundo-me no que observei n’um lagarto grande, que -estava na nossa casa de S. Francisco, onde se conservou -por dois annos sem cauda, vindo diariamente comer<span class="pagenum"><a id="Page_160"></a>[160]</span> -em nossa presença, com as galinhas com que se familiarisou.</p> - -<p>Dizem, e os francezes o asseveram por experiencia, que -ha uma especie de lagartos grandes que apanham os frangos, -e levam-nos para o matto, onde vão comel-os.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLIV">CAPITULO XLIV</h3> - -<p class="subhead">Das aranhas, cigarras e mosquitos.</p> - -</div> - -<p>A vida do homem é comparada com a da aranha em -muitos lugares da Escriptura Santa, especialmente no Psal. -89. <i>Anni nostri sicut Aranea meditabuntur</i> «nossos annos -se passaram, serão contados e meditados como os da Aranha.»</p> - -<p>Escreveo S. Isidoro, que a aranha é um verme do elemento -do ar, n’elle nutrido, d’onde se deriva a etymologia -do seo nome, nunca descança, sempre trabalha, de si tira -com que formar sua teia, sempre em perigo por se achar -ella, seos bens, e suas riquezas, suspensas n’um fio, mercê -do menor sopro de vento, ou do capricho de um criado ou -de uma camareira, que com um espanador destrua todo o -trabalho.</p> - -<p>Quereis mais bello espelho para considerar as desgraças -e miserias d’esta vida?</p> - -<p>Não perderei tempo referindo o que se sabe acerca da -naturesa d’este verme, e apenas contarei o que achei de curioso -e especial nas formigas do Maranhão, e antes de entrar -na materia fallarei d’uma especie do tamanho de um -punho de braço, e as vezes até maior.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_161"></a>[161]</span></p> - -<p>Encontram-se ordinariamente no tronco das arvores, proximas -ás casas, nas estacas, nos cantos, caminham pouco, -não tem teias, muito venenosas, vermelhas quasi da côr de -borrachos quando sahem do ovo, coisa horrivel e feia!</p> - -<p>Fogem d’ellas os Indios, e julgam mortifera a sua picada. -Nutrem-se da corrupção do ar.</p> - -<p>Existem outras de diversas especies, maiores e menores, -e todas domesticadas, e nos mattos encontram-se grandes, -menores, e pequenas.</p> - -<p>Em todo o tempo produzem e especialmente no inverno.</p> - -<p>Com a frescura da noite juntam-se: deixa o macho a sua -teia para se unir com o seo fio á teia da femea, si ella está -collocada em lugar mais baixo: si porem a teia da femea é -superior á do macho desce ella, vem procural-o, e assim si -juntam.</p> - -<p>É muito facil de vêr-se, pois o praticam todos os dias, no -fim da tarde.</p> - -<p>O macho é pequeno, e a femea é tres vezes maior do -que elle.</p> - -<p>Fazem uma pequena bolça, redonda e chata, muito bem -feita e tecida, parecendo-se com setim branco e a similhança -de um breve de <i>Agnus Dei</i>.</p> - -<p>N’ella deixam apenas um buraquinho, por onde com o pé -introduzem os ovos.</p> - -<p>Quando está fechada a bolça tapam o buraquinho, e carregam-na -junto ao ventre e estomago, aquecendo-a por esta -fórma, e quando presentem estar os filhos em estado de sahir, -rasgam a bolça ao redor, como se faz com a casca da -fava, sahem logo, correm pela teia da mãe, e a noite agasalham-se -debaixo da mãe, como fazem os pintos com as -gallinhas afim de resguardarem-se do frio da noite.</p> - -<p>Quando tem forças, cada uma faz a sua teia, e por sua -industria cuida de si.</p> - -<p>Ha outras, que fazem pequenos pucaros de barro, do tamanho -e feitio de uma ameixa de dama, tão bem feitos,<span class="pagenum"><a id="Page_162"></a>[162]</span> -quanto é possivel, por dentro e por fóra, o que tambem -fazem certas especies de moscas, de que ainda fallarei.</p> - -<p>São as boccas d’estes potes proporcionaes aos seos tamanhos, -com um buraco tão pequeno, em que cabe apenas -um alfinete, por onde sahem os ovos para serem aquecidos -pelo Sol.</p> - -<p>Este pucaro costuma estar junto a uma arvore, ou n’uma -folha de palmeira, e a terra de que é feito, muito se parece -com a de <i>Beauvais</i>.</p> - -<p>Enchem o pucaro de ovos, tapam no, e quando as mães -julgam ja terem os filhos sahido da casca, destapam o buraco, -e então sahem as aranhasinhas e acompanham-nas.</p> - -<p>As aranhas dos mattos procedem de outro modo: roem as -amendoas das nozes das palmeiras espinhosas, pouco a pouco -e deitam fora tudo por meio de tres buracos naturaes, -que tem estes fructos: depois ahi dentro fazem seus ninhos -e depositam seos ovos.</p> - -<p>São differentes as teias destas aranhas quanto a sua posição -por ellas escolhidas.</p> - -<p>As domesticadas armam suas teias nas rachas e entradas -dos buracos, afim de agarrarem moscas e mosquitos.</p> - -<p>Umas estendem suas teias nas arvores, de um ramo a outro, -e de um arbusto a outro para agarrarem borboletas e -outros bichinhos iguaes: outras tecem as teias por cima da -terra para pilharem vermes, como sejam formigas e outros -iguaes.</p> - -<p>Algumas fazem teias tão fortes, que até n’ellas cahem lagartinhas, -e então descem as aranhas, matam-nas por meio -de um aguilhão, que tem em si, e depois chupam-lhe os -miolos e o sangue, e só quando se fartam, é que as deixam.</p> - -<p>Vi aranhas do mar, muito parecidas com as de terra porem -maiores.<a id="Nanchor_73" href="#Note_73" class="fnanchor">[73]</a> Habitam em buracos nas praias, e alimentam-se -de peixinhos.</p> - -<p>Dizem que chupam o sangue e o humor das cobras, iguaes -as que mandei cortar em pedaços, e asseveram os selvagens,<span class="pagenum"><a id="Page_163"></a>[163]</span> -que se morderem a cabeça d’algum individuo, ficará -louco. No Maranhão, como em parte alguma, tem muitas cigarras,<a id="Nanchor_74" href="#Note_74" class="fnanchor">[74]</a> -que fazem em tempo proprio um barulho infernal, -como eu não acreditaria si não ouvisse: ha de diversas variedades, -tamanhos e cantos.</p> - -<p>São umas grossas, tem seis pollegadas de comprimento, -e voz forte e alta a ponto de ferir-vos vivamente os ouvidos. -Não cantam no inverno, e sim no estio, e quando se -aproximam as chuvas gritam tanto a ponto de estalarem pelos -lados, como me contaram os selvagens, sendo isto causado -pelo bater das azas quando si esforçam e se incham para dar -mais harmonia á voz.</p> - -<p>Estudei os usos e costumes destes animaes em alguns, -que conservei entre folhas na nossa casa.</p> - -<p>Reconheci ser seo canto devido a tres coisas.</p> - -<p>1.ª Engolem o ar, enchem o ventre, entumecem-se bem -para estenderem bem os lados, e ficarem sonoras. Ha grande -accordo entre a extensão dos lados, e as azas, por meio -das quaes forma-se o som, que claramente se vê tomarem -ellas folego quando erguem as azas, e quando abaixam, estendem -e dilatam os flancos.</p> - -<p>2.ª As azas são mui finas e diaphanas, e por tanto proprias -para formar o som por serem muito seccas.</p> - -<p>3.ª As azas de cima sendo fortes e massiças, tocando e -batendo as azas do meio contra os lados e com auxilio do -ar, forma o som.</p> - -<p>Vou fazer-vos comprehender isto por meio de comparações -vulgares.</p> - -<p>N’uma cithara ha tres coisas para produzir harmonia—as -costas onde fica o ar, que entra pela rosa do meio, as cordas -tesas, limpas, seccas e bem collocadas, e a mão do tocador: -assim tem estes animaesinhos as costas e as ilhargas -cheias de ar, que entrou pela bocca, as segundas azas são as -cordas, e as grossas a mão do tocador.</p> - -<p>Cantam no estio desde o nascer do sol até meia noite ou -duas horas depois, e se callam por causa do orvalho, que<span class="pagenum"><a id="Page_164"></a>[164]</span> -começa a cahir com frio, e assim ficam até que appareça o -sol e com seos raios extinga as gottas de orvalho, que cahiram -nas folhas, e então vem ellas aquecer suas azas.</p> - -<p>Em quanto guardam silencio, é minha opinião, que ellas -se nutrem com o mesmo orvalho, e não digo isto sem causa -pois quasi sempre ficam no mesmo logar, e quando sentem -algum movimento voam para outra folha.</p> - -<p>Algumas d’ellas, especialmente as todas verdes, não tem -voz, arrastam-se pela terra como os gafanhotos, juntam-se -como as moscas, põem em setembro ovinhos negros nos -buracos dos ramos das arvores, nos quaes se formam os -vermes, ao depois cigarras: vão pouco a pouco se fortificando -afim de passarem a estação invernosa, e substituirem -seos paes e mães que n’esse tempo morrem arrebentados á -força de gritar como ja disse.</p> - -<p>Não tem sangue, ou tem muito menos que as moscas, -porem são organisadas de uma substancia porosa, secca, e -ligeira.</p> - -<p>Matam-nas as gallinhas, porem não as comem, e quando -por acaso o fazem, enfraquecem e emmagrecem.</p> - -<p>Ha n’este paiz diversas especies de mosquitos, porem apenas -tratarei dos que o merecerem pelos seos principios naturaes, -e são os chamados <i>Maringoins</i> pelos selvagens: ha -de diversos tamanhos e grossura, e todos tem a mesma -forma.</p> - -<p>Originam-se de um humor acre, gostam dos sabores picantes -e acidos, e por isso encontram-se muito no mar e -suas praias no tempo do inverno, formados pelo humor e -vapores do mar.</p> - -<p>Incommodam muito os homens picando-lhes a pelle com -seo bico ponteagudo como uma agulha, e sugando assim o -humor salgado, que corre entre a pelle e a carne.</p> - -<p>Gostam da luz porem aborrecem a chama e a fumaça, e -por isso quando anoitece, as que andam por fóra, poisam -nas folhas das arvores, e os que estão dentro de casa nos -tectos, bem a seu pesar, por causa das fogueiras, que<span class="pagenum"><a id="Page_165"></a>[165]</span> -acendem os selvagens ao redor de si, para se livrarem -d’elles.</p> - -<p>Nos lugares mais proximos a agoa, maior abundancia -d’elles existe, visto serem creados por agoas, como ja disse.</p> - -<p>São caçados pelos morcegos, que, buscando-os nos lugares -onde se fixam, involvem-nos com suas azas e depois os -comem.</p> - -<p>São por elles muitissimo perseguidos os nossos francezes, -quando vão á pesca do peixe-boi, e para evital-os armam -suas redes no ramo das arvores, o mais alto que podem, -por ahi soprarem mais o ar e o vento: si se partissem as -cordas dariam bello salto, e não deixam de emballançar-se -para afugental-os.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLV">CAPITULO XLV</h3> - -<p class="subhead">Dos grillos, dos camaleões e das moscas.</p> - -</div> - -<p>De todos os animaes, que fazem companhia ao homem, -no Brasil, nenhum ha que iguale ao grillo, chamado pelos -selvagens <i>Cuju</i><a id="Nanchor_75" href="#Note_75" class="fnanchor">[75]</a>; e por ser tão familiar e domestico pude -á vontade satisfazer minha curiosidade estudando este animalsinho.</p> - -<p>Nasce da corrupção.</p> - -<p>Quando se faz uma casa coberta de palma fresca, apparecem -n’um momento milhões e milhares d’estes grillos ou -<i>Cujus</i>. Virão dos bosques visinhos? não pode ser; porque -nas casas cobertas de palma velha não são encontrados, -logo força é confessar, que formam-se na palma nova com -o auxilio do sol.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_166"></a>[166]</span></p> - -<p>Notei que dois ou tres dias depois de coberta a casa, os -grillos são brancos como neve, signal de nova geração, -pouco a pouco tomam a sua cor ordinaria, amarello-negro.</p> - -<p>Alem d’isto originam-se tambem de ervilhas, e favas podres -o que conheci por experiencia.</p> - -<p>Quanto á producção do pae e da mãe provêm d’uma semente -deixada nas folhas de palma: é pegajosa e fica onde -se colloca, até que d’ella por meio de calor saia outro grillosinho.</p> - -<p>É ardente no seo ajuntamento, e eis porque tanto se multiplicam.</p> - -<p>É muito pequeno, porem astucioso, tem horas para comer -e para cantar: não deixam de procurar comida quando -presentem estarem todos deitados, e então descem do tecto -e correm, por assim dizer, os cantos da casa, onde se aproveitam -de todas as migalhas e restos de comida, e se encontram -restos de carangueijo deixam tudo mais.</p> - -<p>Acabada a comida regressam a seos logares, onde cantam -e passam o resto da noite, e o dia tambem, se o ardor do -sol o não encommodar.</p> - -<p>Não gostam de chuvas, e emquanto está chovendo, não -cantam.</p> - -<p>Gostam portanto do tempo sereno e doce, sem muito calor, -e sem muita chuva. Roem muito os pannos, que encontram, -e se acharem um capote de cem escudos n’uma noite -dão cabo d’elle.</p> - -<p>Não tocam em panno de linho á não estar elle engordurado, -ou com algum liquido, de que gostem, e por isso para -conservar-se alguns vestidos, embrulham-se n’estes pannos.</p> - -<p>Tem quatro inimigos capitaes.</p> - -<p>1.º Os lagartos, que correm apoz elles, como os cães atraz -das lebres.</p> - -<p>É um gosto vêr as voltas e vira-voltas que dá a caça e o -caçador.</p> - -<p>2.º Certos macaquinhos amarellos e verdes a que chamam -os selvagens <i>Sapaius</i>, vivos e ageis como um passaro;<span class="pagenum"><a id="Page_167"></a>[167]</span> -caçam com uma das mãos e na outra guardam os -grillos.</p> - -<p>3.º São as gallinhas, que os devoram com incrivel avidez, -e para isto voam sobre as casas, e não poucas vezes estragam -a cobertura d’ellas.</p> - -<p>4.º São certas formigas grandes, que atacam-os nos buracos -e cavernas, onde se abrigam nas casas: distrahi-me algumas -vezes vendo tão singular combate; a formiga desce -ao buraco, onde tanto faz, que o <i>Cuju</i> sahe á campo, ou então -é puchado pelos pés, e muitas vezes prefere a morte á -perder suas pernas posteriores, que leva a formiga.</p> - -<p>Outras vezes deixa-se o grillo comer dentro do buraco, de -maneira que somente fica a cabeça e as azas, que as formigas -carregam como tropheos.</p> - -<p>Tem os grillos particular malicia, como experimentei, por -que mordem a extremidade dos dedos das pessoas, que dormem, -e carregam o bocadinho de pelle que podem tirar.</p> - -<p>Achei-me por isso muito encommodado do pollegar, a ponto -de não poder escrever por oito dias.</p> - -<p>O Camaleão é um animal do tamanho e da grossura de -um pequeno lagarto, e á elle similhante no rosto, olhos, e -cabeça, tendo nas costas escamas como o crocodillo, e parece -ter a pelle coberta de pelle ou limo.</p> - -<p>Tem a cauda muito comprida, e de ordinario dobrada em -dedalus, diminuindo gradualmente até a ponta.</p> - -<p>Raras vezes se vê o macho com a femea, e por isso não -me atrevo a contar o modo de sua procreação, porque não -pude vel-a, e nem imaginal-a. Contento-me apenas em referir -o que vi.</p> - -<p>É muito demorado no seo andar, está sempre ao sol, deitado -sobre folhas ou ramos, e por isso se pensa que vive só -de orvalho.</p> - -<p>Batem-lhe as ilhargas constantemente, e muito mais quando -receiam alguma coisa, sendo isto motivado pela sua timidez -natural, proveniente de muito humor frio, pelo qual -torna-se venenoso quando é comido por algum animal.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_168"></a>[168]</span></p> - -<p>Nunca se encontra nas arvores fructiferas, prevenção da -naturesa para não envenenar com o seo frio excessivo o -fructo que tocasse, e por isso é visto nos ramos de arvores, -que somente servem para o fogo.</p> - -<p>Como o lagarto tem quatro pés, e muda de côr conforme -o movimento do corpo, e os batimentos das ilhargas.</p> - -<p>São raros em Maranhão, e somente são encontrados em -lugares bem expostos ao meio-dia: deitam-se nas folhas, estendem -as quatro patas, e descançam a cabeça. Não fazem -movimento algum com os olhos, quando estão vendo, e nem -abaixam as palpebras superiores: constantemente bate-lhe o -papo.</p> - -<p>Dizem, que se este animal fosse lançado ao fogo difficilmente -arderia, porem envenenaria pela fumaça as pessoas -presentes.</p> - -<p>Não fiz esta experiencia com o camaleão, e sim com outro -animal mui similhante a elle pela friesa.</p> - -<p>Mandei lançal-o n’um braseiro, que mandei preparar, e -retirando-me para longe, tomei cuidado que ficasse sempre -no fogo, movendo-o constantemente, e depois que morreo, -vio-se que o fogo não poude obrar contra seo corpo, ficando -inteiro e solido, conservando sua figura e pelle: mandei tiral-o -do fogo e enterral-o.</p> - -<p>Ha muitas especies de moscas, umas da noite, outras do -dia.</p> - -<p>As moscas da noite são as que buscam o seo sustento durante -ella agarrando os bichinhos, que voam, onde encontram: -como tem de alimentar-se nas trevas, deo-lhes a -Providencia uma luz,<a id="Nanchor_76" href="#Note_76" class="fnanchor">[76]</a> que trazem adiante e atraz: a luz -dianteira está n’uma placa de forma quadrangular, adherente -ao estomago, sendo os dous angulos, que tocam a sua barba, -muito estreitos, e esta construida de uma pellicula diaphana, -e coberta de um pello mui delicado, com que recebem -a humidade da noite, e por este meio produzem um -brilho de luz. Percebeis bem isto recordando vos do brilho<span class="pagenum"><a id="Page_169"></a>[169]</span> -da pescada á noite, por causa da delicadesa da escama ou -da sua pelle humedecida.</p> - -<p>Acontece o mesmo com certa especie de madeira podre, -ou melhor rarifeita, e tenue, livre de todas as immundicies, -e que tem a propriedade de attrahir a humidade.</p> - -<p>O mesmo tem elles no chato da barriga, onde se encontra -uma pellicula bem lisa, cheia do pello tão fino, de que -acima fallei.</p> - -<p>Quando voam atravez de uma noite escura, parecem ser -grossas faiscas de ardente fornalha de fundir metaes.</p> - -<p>Pertencem ao dia as outras moscas; são infinitas e varias -e por isso somente me demorarei, tratando das que -tiverem alguma coisa digna da consideração do leitor, -como sejam as abelhas, e as vespas, e do mais que fallarei.</p> - -<p>As abelhas do Maranhão, e de suas circumvisinhanças fabricam -suas casas de tres modos: entre os ramos das arvores, -como ja disse, quando escrevi sobre o <i>Meary</i>, ou -no concavo das arvores, isto é, no tronco principal, porque -escolhem uma arvore que tenha uma concavidade no tronco, -sobem pela frente d’elle, e depois descem até a terra, onde -fazem os alicerces dos seos cortiços, e depois fabricam o seo -mel, caminhando sempre para cima. Quando não é assim, -escolhem lugar apropriado, levantam da terra um cortiço -concavo, onde fabricam mel e cera.</p> - -<p>É virgem a sua geração, e creio não haver entre elles -macho e femea, e assim todos trazem comsigo o germen da -futura procreação.</p> - -<p>Dir-vos-hei a razão d’este meu modo de pensar, que formei -observando com attenção um cortiço de abelhas n’uma -grande arvore concava e secca, distante 30 passos de nossa -casa de São Francisco, o que ainda me foi facil, pois estas -moscas não dão ferroadas,<a id="Nanchor_77" href="#Note_77" class="fnanchor">[77]</a> comtanto que não se lhes faça -mal, embora se esteja bem perto d’ellas.</p> - -<p>Fizeram os selvagens um buraco ao pé d’esta arvore, por -onde sahia o mel, e por ahi observei tudo bem a minha<span class="pagenum"><a id="Page_170"></a>[170]</span> -vontade, até mesmo as camarasinhas, em que se achavam -ellas envolvidas.</p> - -<p>Estes casulos eram tapados de todos os lados, embrulhados -n’uma tella bem delicada, e por cima está a cera e o -mel.</p> - -<p>N’algumas camarasinhas d’estas, achei somente algumas -gottas de semente, claras como a agoa da rocha, e soube -ser a materia de que se organisavam as novas moscas.</p> - -<p>N’umas vi o <i>cháos</i>, ainda informe, feito e composto desta -materia prima, a maneira de uma pasta molle, branca como -creme: n’outras vi moscasinhas, perfeitamente formadas, e ja -com movimento, porem envolvidas n’uma tella delicada e -diaphana, que rasguei com cuidado, e vi n’estas moscas todas -as suas partes bem distinctas e conformadas, menos os -pés, por serem os ultimos, que se formam, e ja depois, que -se movem.</p> - -<p>Reconheci ser verdade o que diz S. Isidoro d’estas moscas -«<i>Apes dictæ sunt quia sine pedibus nascutur, nain -postmodum accipiunt</i>:» as <i>abelhas</i>, ou antes os <i>apedes</i>, são -assim chamados porque nascem sem pés, sendo este nome -composto por <i>a</i>, que quer dizer—<i>sem</i>, e <i>pedes</i>—<i>pés</i>. Assim -composta quer dizer—<i>sem pés</i>, mas não se usa em francez, -e sim emprega-se o nome de <i>abelhas</i>.</p> - -<p>Sobre o que eu disse á respeito de sua geração virginal, -alem da experiencia, que eu tive, de que podem duvidar -alguns espiritos, ha uma testemunha irrefragavel, Santo Ambrosio, -Doutor que si dedicou ao estudo dos segredos da -abelha mais do que nenhum outro antes ou depois d’elle.</p> - -<p>Não o fez sem motivo, pois desde o seo berço que estas -moscas se alojaram em seos labios, e depois em toda a sua -bocca, eis suas palavras: <i>Apes nuilo concubitu miscentur, -nec libidine resolvuntur, nec partus doloribus quatiuntur, -sed integritatem corporis virginalem servantes subito -maximum filiorum examen emittunt</i>: «não si misturam as -abelhas por meio de alguma conjuncção, não si entregam -por meio de sensualidade, não soffrem dores de parto, porem<span class="pagenum"><a id="Page_171"></a>[171]</span> -conservam a integridade virginal de seo corpo, e em -pouco tempo produzem grande numero de novas abelhas.»</p> - -<p>Diz o autor do livro da «<i>Naturesa das coisas</i>»—<i>Omnibus -virginalis integritas corporis</i>—«conservam todas a inteiresa -virginal do seo corpo.»</p> - -<p>Ha diversas especies de vespas, tendo uma d’ellas alguma -coisa de novo: esta qualidade é negra, mui delgada no -meio do corpo a ponto de julgar-se estar o ventre unido ao -estomago por um só fio.</p> - -<p>São industriosas o mais, que é possivel.</p> - -<p>Recolhem-se todas á um nicho de terra, no cimo das arvores, -tão bem estocado, que dentro d’elle não cahe uma -só gotta d’agoa; a cobertura ou tecto d’este nicho é em fórma -de zimborio, e apenas cahe a chuva, corre ligeiramente, -e ahi não si demora: n’elle não tem abertura alguma, -e apenas cinco ou seis buracos proporcionaes á grossura -d’ellas.</p> - -<p>No interior fazem accommodações para viver, e fabricam -uma especie de mel bem amargoso, e negro como tinta.</p> - -<p>Cada uma tem sua casa, cavada na espessura do nicho, -á maneira dos buracos de um pombal, onde se agasalham -os seos habitantes.</p> - -<p>É admiravel a sua industria no fabrico d’estes nichos, e -presenciei-a muitas vezes.</p> - -<p>Á margem das fontes fazem argamassa, carregando com -os pés um pouco de terra, que desmancham e amassam -com agoa, que vão buscar, e trazem unido ao pello de suas -coxas. Assim preparado, vão carregando em varias partes -do seo corpo.</p> - -<p>1.º No pescoço.</p> - -<p>2.º Nos pés.</p> - -<p>3.º Na união das coxas contra seo corpo.</p> - -<p>Não deixam seos filhos no nicho commum, porem fabrica -cada uma o seo cubiculo á parte, á imitação da flor de meimendro, -presa ou suspensa á algum pau, ou outra coisa coberta, -longe do perigo de ventos e de chuva.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_172"></a>[172]</span></p> - -<p>Levam muito tempo preparando seo nicho, e o enfeitam -o mais que podem, com o brunidor do seo fucinho.</p> - -<p>Depositam no interior sua semente, como fazem as abelhas, -fecham a entrada, occultam-na, dormem á noite em -commum, e ainda a madrugada está longe, e já ellas se -despertam para montar guarda e fazer sentinella ao redor -de sua habitação, fazendo guerra de morte a quem se lhe -aproximar.</p> - -<p>Posso dar noticias d’isto, porque um dia, indo a um canto -de minha casa arrumar não sei o que, quando passei, bati, -sem querer, com a minha cabeça no nicho, onde estava a -mãe, e ella, julgando mal de minhas intenções, pensou que -eu o fizesse por maldade, e cheia de colera, escolheo a -parte mais delicada do corpo humano, isto é, os olhos, -para vingar-se.</p> - -<p>Permittio Deos porem que em lugar dos olhos me ferisse -as sobrancelhas com o seo aguilhão.</p> - -<p>Foi tão doloroso o golpe, e tão penetrante o veneno, que -cahi por terra, batendo-me extraordinariamente todas as -minhas veias, desde a planta dos pés até o cume da cabeça, -como nunca senti em minha vida.</p> - -<p>Recolhi-me a cama com o coração sobresaltado, inchou -muito a parte offendida, e ardia como brasa.</p> - -<p>Julguei perder o olho, e assim estive por muitos dias, ao -depois fiquei bom.</p> - -<p>Procream ainda de outra forma. Fazem um pequeno pucaro -de barro, arredondado, similhante aos feitos pelas aranhas, -como ja disse, deitam dentro suas sementes, que se -transformam em vermes vermelhos, iguaes aos que se encontram -nas ameixas das damas: adquire depois azas, e fica -vespa.</p> - -<p>Não tem os selvagens cantharidas em seo paiz, porem fazem -muito apreço d’ellas e dão muitos generos para possuil-as. -Trazem-nas os francezes, porque anteriormente já -tinham ensinado aos selvagens as propriedades d’ellas, o que -não se deve escrever: prova isto que os homens viciosos<span class="pagenum"><a id="Page_173"></a>[173]</span> -mais depressa gastariam esta nação do que ella o é por natureza.</p> - -<p>Ha tambem insectos e vermes roedores mui subtis e engenhosos, -com uma capa bonita e inteira, porem passando -uma escova por cima, desapparece até o pello e fica só a -urdidura.</p> - -<p>O mesmo acontece aos vermes roedores dos bosques, que -fazem grande sussurro.</p> - -<p>Deos porem fez passaros que vae tirando das arvores taes -vermes.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLVI">CAPITULO XLVI</h3> - -<p class="subhead">Das onças e dos macacos do Brazil.</p> - -</div> - -<p>A onça é o animal mais furioso do Brazil e é do tamanho -dos galgos da Europa.</p> - -<p>No rosto parece-se muito com o gato, tem bigodes horrivelmente -dispostos, vista perspicaz e aterradora, pelle como -a de lobo, manchada de negro á maneira da do leopardo, -garras muito compridas, patas como de gato, cauda grande -e maior que todo o corpo diminuindo pouco a pouco até a -ponta, e com ella brinca n’um areial voltando-se para apanhal-a, -e correndo para o mesmo fim, como fazem os gatinhos -no meio de uma salla, divertindo-se cada um com o -rabinho.</p> - -<p>Ama a solidão, aborrece a sociedade, habita só nos bosques, -e somente é acompanhada por occasião da sua juncção, -o que feito retira-se a femea.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_174"></a>[174]</span></p> - -<p>Nada receia, nada teme: pára vendo dirigir-vos á ella, ou -fica no fim da estrada, por onde tendes de passar, de forma -que ou voltareis, ou então combatereis porque não -cede.</p> - -<p>É melhor a retirada ainda que com algum vexame, do que -por orgulho arriscar sua vida em luta com tal animal.</p> - -<p>O Rvd. padre Arsenio assim o fez, vindo da aldeia da -<i>Mayoba</i> para a nossa casa de S. Francisco, quando encontrou, -ao meio dia, na estrada uma onça que veio esperal-o. -Regressou para a aldeia, e assim evitou perigo tão proximo.</p> - -<p>Não buscam os homens, e é raro encontral-as, e quando -isto se dá o perigo é certo.</p> - -<p>Não se atiram, e nem correm logo atraz das pessoas que -vêem, antes dão-lhe tempo bastante para fugir, e apenas -agarram um ou outro menino, porem raras vezes.</p> - -<p>Tem muito medo de fogo a ponto de não se approximarem -d’elle, e por isso evitam-nas os indios accendendo -fogueiras em suas casas, sempre abertas quer de dia quer -de noite.</p> - -<p>Fazem guerra desabrida aos cães e macacos, vindo agarrar -aquelles até junto ás aldeias, sem causarem o menor mal -aos selvagens deitados em suas redes, e quando vão estes -á caça, acompanhados por muitos cães, são estes devorados -e comidos pelas onças, que fingem correr diante d’elles, e -quando se acham longe de seos senhores, saltam sobre elles -e facilmente os estrangulam.</p> - -<p>Poucos escapam de suas garras para trazer noticias a seos -senhores, que não os ouvindo ladrar, acreditam que as onças -os comeram.</p> - -<p>Não vão mais alem, e regressam mais depressa a casa -onde suas mulheres e filhos choram a morte do cão, que elles -levaram á caça com intenção de divertirem-se.</p> - -<p>Si é perigoso atacar um soldado furioso, e victorioso de -seos inimigos, ainda muito mais o é apresentando-se em tal -occasião á vista das onças.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_175"></a>[175]</span></p> - -<p>Caçam os macacos desta sorte: batem em circumferencia -o bosque, onde se abrigam os macacos, encurralam-nos n’um -ponto, onde se agrupam: então trepam as onças em varias -arvores, e d’ali se atiram sobre os ramos e hastes de outras -onde estão os macacos, e assim os apanham.</p> - -<p>Empregam tambem outro ardil. Occultam-se debaixo de -folhas n’um lugar, onde ellas sabem, que os macacos vem -beber, ou quando estão pescando mariscos e carangueijos, -então d’um só pulo agarram os que podem.</p> - -<p>Fazem ainda mais.</p> - -<p>Quando vêem ou ouvem que os macacos estão reunidos -em qualquer lugar, vão surrateiramente arrastando a -barriga pelo chão, como fazem os gatos quando querem -agarrar algum ratinho, e depois estendem-se e fingem-se -mortas.</p> - -<p>Chega um macaco, pára, chama outros, que chegam logo, -descem o mais que podem, sempre desconfiados, para verem -e examinarem se na verdade está morto o inimigo: rangem -uns os dentes, e outros como que fazem uma especie de discurso -de congratulação por tal fim: eis senão quando resuscita -o fingido morto, mais depressa do que elles sobe ao -cimo da arvore, onde transforma a vida d’elles em morte, -não simulada e sim real.</p> - -<p>A onça só pare uma vez, e um só filho, como a leôa, e -eis a razão de haverem poucas no Brasil. A onçasinha rasga -o utero de sua mãe, que o nutre mui curiosamente até que -fique em estado de cuidar por si de sua alimentação. Apesar -de tal ruptura, unem-se em tempo proprio, porem não -ha fructos d’esta união.</p> - -<p>As onças são errantes, caminham por diversos logares, -atravessam braços de mar, e quando falta-lhes pasto em -terra, vão ao mar pescar carangueijos e outros iguaes bixos -do mar.</p> - -<p>Existem tambem onças marinhas, como ja disse quando -fallei do Meary, tendo a parte anterior igual a da terra, e -a posterior similhante a cauda de um peixe.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_176"></a>[176]</span></p> - -<p>São tão furiosas, como as terrestres, e saltam da agua -contra seos inimigos.</p> - -<p>Machos e femeas veem-se livres dos filhos que trazem no -ventre, á maneira das baleias, dos golfinhos e de outros peixes -do mar.</p> - -<p>Em Maranhão e seos contornos ha muita variedade de macacos:<a id="Nanchor_78" href="#Note_78" class="fnanchor">[78]</a> -uns grandes, fortes, barbados, e de sexo bem distincto, -especie perigosa, e que nas mattas muito bem se defendem -das invasões dos selvagens.</p> - -<p>Contou-me um interprete que n’um certo dia um selvagem -com uma flecha ferio a espadua de um destes macacos, e -que elle tirou a flecha, arremeçou-a contra o selvagem e o -ferio gravemente.</p> - -<p>Atiram-se sobre as raparigas e mulheres, e forçam-nas si -não são mais fortes do que elle.</p> - -<p>Ha outros barbados, mais pequenos, que trazem mamas -nos seios, e sexo bem visivel em lugar proprio.</p> - -<p>São muito bem tratados pelos francezes: os selvagens os -agarram atirando um projectil qualquer sobre elles, que cahem -atordoados, e são assim amarrados.</p> - -<p>Os triviaes são quasi que similhantes em sexo, e nem -merecem descripção alguma.</p> - -<p>Em geral os monos são agradaveis á vista.</p> - -<p>Caminham um atraz do outro, e com tal cadencia no passo, -que os que vem atraz assentam os pés e as mãos, onde assentaram -os que foram adiante.</p> - -<p>Fazem assim uma corda de duzentos á tresentos, e -diria ainda mais, si não receiasse causar admiração ao -leitor.</p> - -<p>Achei-me muitas vezes nas mattas, onde elles habitavam -e dir-vos-hei, sem precisar o numero, que vi grande quantidade -d’elles na fórma ja dita.</p> - -<p>Cousa agradavel o mais que se pode imaginar.</p> - -<p>Arremeçam-se estes animaes de uma arvore a outra, de -um ramo a outro, como faria um passaro bem voador, e o -fazem com tal prestesa, que mal se vê.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_177"></a>[177]</span></p> - -<p>Si vos descobrem debaixo de alguma arvore, fazem incrivel -matinada, e depois de vos fazerem muitas caretas e -de dizer-vos mil injurias em sua linguagem, embrenham-se -pelos mattos.</p> - -<p>Nunca deixam em hora certa,<a id="Nanchor_79" href="#Note_79" class="fnanchor">[79]</a> á tarde ou noite, de ir -beber agoa, mas sabeis com que subtileza?</p> - -<p>Pára o grosso do exercito na distancia de 300 passos da -fonte, manda espias para examinar a fonte e suas circumvisinhanças, -espreitam si nada ha que os assuste, examinam -com cuidado si ha embuscada de algum inimigo, e apenas -o descobrem gritam com voz forte e correm a reunir-se ao -exercito.</p> - -<p>Voltam depois de algum tempo e praticam o mesmo.</p> - -<p>No caso de segurança gritam e ganem para vir o exercito, -e chegado este ainda usa de outra velhacaria.</p> - -<p>Bebem todos um a um: á medida, que um bebe, passa -alem e trepa n’uma arvore, e assim até o ultimo: assim bebem, -passam para outro lado, por onde não vieram e ahi -acabam a fieira.</p> - -<p>Deixam a fonte e vão em tumulto procurar seos amores, -e n’isto ha ordinariamente grandes gritarias, gemidos, mordiduras -e arranhamentos, porque querem os mais fortes escolher -as damas e serem servidos em primeiro lugar.</p> - -<p>Nada digo sem experiencia e tudo isto presenciei todas as -tardes na nossa fonte de S. Francisco.</p> - -<p>Vão pescar sempre em companhia, carregando ás macacas -ás costas seos filhos.</p> - -<p>Pescam carangueijos e mariscos.</p> - -<p>Antes de agarrarem os carangueijos, quebram-lhe as tezoiras -para livrarem-se das mordidellas, depois quebram-nos -com os dentes, e, se estão rijos, com pedras, e o mesmo -fazem com os mariscos.</p> - -<p>Cuidam muito as mães no sustento dos filhos, antes de -poderem elles por si buscal-o; tiram o marisco e o carangueijo -da concha, limpam-no muito bem, e offerecem ao filho -nas costas, e estes o agarram e comem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_178"></a>[178]</span></p> - -<p>Nunca vão para longe das arvores: é o seo refugio apenas -ouvem algum motim, ou vêem alguem, e por isso para -as suas pescarias escolhem lugares proximos á arvores altas -e copadas.</p> - -<p>Si veêm passar uma canoa de selvagens, muito longe -d’elles, saudam-nos rindo a seu modo, si se aproxima a canoa, -fogem, e ninguem os pilha.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLVII">CAPITULO XLVII</h3> - -<p class="subhead">Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos -d’aquelle paiz.</p> - -</div> - -<p>Na Ilha ordinariamente não se vêem aguias, porem ha -muitas na terra firme, proxima a Maranhão.</p> - -<p>Não são verdadeiramente tão grandes como a do velho -mundo, porem são mais furiosas, atrevidas, e valentes, que -accommettem os homens, e não fazem seos ninhos, sobre rochedos, -como diz Job, <i>Aquilla in petris manet</i> «a aguia -mora nos rochedos» porem entre as arvores.</p> - -<p>Vou contar-vos á este respeito o que ouvi em Maranhão -sobre duas aguias extraordinariamente ferozes, que vieram -aninhar-se nos mangues <i>d’Uy-rapiran</i>, aldeiazinha na costa, -distante legoa e meia do Forte de S. Luiz.</p> - -<p>Mostraram-me o lugar, onde ellas viviam, n’um dia, em -que passeiando pelo mar fui visitar um francez, morador -n’essa aldeia.</p> - -<p>Tinham essas aguias cortado ramos mais grossos do que -uma côxa de homem, e tinham feito tão boas acommodações, -que melhores não fariam doze homens.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_179"></a>[179]</span></p> - -<p>Ahi tinham depositado seos ovos com seos filhinhos, e ninguem -se atrevia a passar por perto.</p> - -<p>Vão caçar cabritos-montezes, matam-nos, espedaçam-nos -com unhas e bicos, e depois trazem alguns boccados a seos -filhos.</p> - -<p>Pescam da mesma fórma arremeçando-se sobre os golphinhos, -pirapamas, e trombudos, e tiram-no do mar com -suas garras, deitam-nos em terra, dividem-nos em pedaços, -que levam a seos filhos.</p> - -<p>Vão ainda mais longe: mataram um homem e uma mulher -<i>Tupinambás</i>, o que lhes causou a sua morte e a do -seos filhos, porque si lhes armou uma cilada tão bem arranjada, -que conseguio-se matar o macho, e a femea achando-se -viuva retirou-se para a terra firme abandonando seos -filhinhos, que foram passados pelas armas dos <i>Tupinambás</i> -em vingança do crime commettido na pessoa dos dois, que -elles mataram, e destruio-se-lhes o ninho.</p> - -<p>A femea é maior que o macho, ambos de côr parda, olhar -vivo e feroz, poupa forte e irriçada no cume da cabeça, -pennas grossas no canudo e grandes como a de um gallo -da India: servem-se d’ellas os <i>Tupinambás</i> para emplumar -suas flexas.</p> - -<p>Nota-se n’estas pennas uma coisa particular e especial: si -os selvagens as misturam com outras pennas, como sejam -de araras, e de outros passaros grandes, são estas roidas e -comidas por aquellas, pelo que são guardadas a parte, e -com outras não as deitam em suas flexas.</p> - -<p>Por maiores, que sejam os outros passaros, é a Aguia o -Senhor e o Rei não por igualdade de forças, mas por subtileza -e ligeireza de vôo, subindo muito alto quando quer -perseguir os passaros grandes, e descendo mui rasteiramente -quando elles tambem descem, e quebram-lhes a cabeça -com o bico.</p> - -<p>Ficam assustados todos os passaros quando ouvem o seo -grito, calam-se e occultam-se entre folhas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_180"></a>[180]</span></p> - -<p>Caçam principalmente os gaviões, parecidos com as pombas -brancas, que vivem nas praias, saltando de ramo em -ramo, esperando a vinda de passarinhos para assaltal-os e -agarral-os. Ahi vão as aguias caçal-os, e despedaçal-os -n’um momento.</p> - -<p>Nutrem-se tambem de tartarugas do mar e de terra, e não -poupam a alguma serpente ou cobra que por ventura encontrem.</p> - -<p>Raras vezes podem os selvagens pilhal-as de geito para -flechal-as.</p> - -<p>Trepam-se no cume das arvores, onde expandem as azas -aos raios do sol, tirando com seo bico as pennas velhas, que -por esse estado ja não servem: ahi vão os selvagens buscar -estas pennas para seo uso.</p> - -<p>Assimelham-se muito na fórma e côr ás pennas dos gallos -da India, e são muito boas para escrever.</p> - -<p>Alem d’estas aguias ha passaros grandes chamados <i>uira -uaçú</i>, quasi do tamanho dos abestruses da Africa,<a id="Nanchor_80" href="#Note_80" class="fnanchor">[80]</a> mais -compridos, porem não tão grossos.</p> - -<p>Os grous de lá parecem-se com os pardaes. Si algum foi -para a França, levado por nossos companheiros, saibam que -ha outros ainda mais grossos.</p> - -<p>Agarram-nos os selvagens quando pequenos, e para isso -procuram a occasião em que os paes vão caçar.</p> - -<p>São brancos quando pequenos, mechem-se pouco a pouco, -e vão mudando até que alcance suas pennas e cor verdadeiras.</p> - -<p>São muito glutões, e parece que não se fartam, porem -quando comem é por muitos dias.</p> - -<p>Si os macacos pudessem persuadir os selvagens a extinguir -essa raça, o fariam indubitavelmente, porque perdem -milhões dos seos para sustento d’ellas.</p> - -<p>Os <i>Tupinambás</i>, que criam estes passaros, conhecem que -a melhor carne, que se lhes pode dar, é a de macacos, e -para isto vão ao matto caçal-os e matal-os.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_181"></a>[181]</span></p> - -<p>Ha outras especies de passaros grandes, porem que não -se comparam com estes, e são as <i>araras</i>, os <i>canindés</i>, e -outros, os quaes são agarrados pelos indios por maneira astuciosa.</p> - -<p>Vão ao matto, escolhem as arvores, onde costumam estes -passaros passar a noite, e onde se recolhem depois de -comer: fazem debaixo d’essas arvores uma casinha redonda, -com capacidade para conter tres homens, e coberta de palhas: -ahi se recolhem e esperam a vinda dos passaros, que -como não desconfiam, aproximam-se muito, e então os selvagens -lhes atiram qualquer projectil, que os atordoa sem -matal-os, cahem em terra onde são facilmente agarrados e -prendem, e com o correr do tempo de tal maneira se domesticam, -que embora os soltem, não deixam a casa do seo -dono: introduzem-se pelos quartos, fazem grande matinada, -com voz similhante a do côrvo, aprendem a fallar como os -papagaios, e dão suas pennas á seos hospedes para com ellas -se adornarem e enfeitarem.<a id="Nanchor_81" href="#Note_81" class="fnanchor">[81]</a></p> - -<p>Os habitantes do rio depennam seos gansos para encher -colchões, e os indios tiram as pennas d’estes passaros para -fazer seos enfeites e adornos.</p> - -<p>Ha muitas e diversas qualidades de garças, umas maiores, -e outras mais pequenas.</p> - -<p>Fazem seos ninhos nos mangues á beira do mar, vivem -de peixe, e trazem alguns inteiros a seos filhos que principiam -a comel-os desde os seos primeiros dias.</p> - -<p>Admirei-me de ter sido encontrado um peixe grande, do -tamanho de um arenque, no ventre de uma garça, pouca -implumada.</p> - -<p>Os selvagens vão tirar dos ninhos as garçasinhas, armados -de bons cacetes para se defenderem dos paes e mães, -que em tal caso não deixam de acudir aos que nutrem tão -terna e cuidadosamente afim de estenderem a especie.</p> - -<p>Similhantes as garças ha outros passaros chamados <i>forquilhas</i> -pelos francezes e portuguezes, porque teem a cauda -fendida quando vôãm: fazem seos ninhos nos mangues, em<span class="pagenum"><a id="Page_182"></a>[182]</span> -lugar recondito, e pouco frequentado dos homens o quanto -é possivel: ahi põem, e deixam seos filhos, vão para o -mar, e ahi ficam por todo o dia enchendo de peixe uma -grande bolsa, que trasem debaixo da goela, e que depois -levam a seos filhos: quando está vasia esta bolsa, enche-se -de vento que os alivia e sustenta no meio do ar, quando -passam muitos dias e noites sem ir a terra, e atiram-se -pelo mar em distancia de 50 a 60 legoas procurando alimentos.</p> - -<p>Tem a vista extraordinariamente apurada a ponto de verem -do mais alto lugar, a que sobem, o peixe que náda no -mar, e sobre elle cahem e agarram-no. Tem uma propriedade -muito boa e é que perseguem os peixes, que andam -atraz dos pequenos para devoral-os.</p> - -<p>Aproximam-se d’agoa, e como querem participar da presa, -perseguem-nos o quanto podem.</p> - -<p>Alem destes passaros grandes ha milhares de passarinhos, -entre os quaes merecem especial menção os seguintes.</p> - -<p>As andorinhas do mar em tão grande quantidade, que cobrem -as praias nas vasantes: são boas para se comer, e á -vontade matareis muitas com uma arma, carregada de chumbo -miudo, e sentado n’uma canoa.</p> - -<p>Ha outra qualidade de passaros, que admiram muito a -ponto de não se acreditar, e comtudo é verdade, por mim -experimentada, os quaes tem por bico duas facas, embutidas -em seos cabos, e aos quaes dão o nome de <i>navalhas</i>: -o bico não lhes serve para buscar alimento, e por isso dizem -que elles só vivem de vento, porque essas facas cortantes -não lhes servem senão de passatempo quando passeiam pelas -praias, e encontram outros passaros, que são por elles -cortados pelo meio.</p> - -<p>No dia, em que parti do Maranhão, um mancebo pertencente -ao Sr. de Sam Vicente, que me acompanhou em toda -a minha viagem, matou um, cujo bico guardei e trouxe para -a França.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_183"></a>[183]</span></p> - -<p>Ha melros como os de França, iguaes na plumagem e no -canto, que espandem suas pennas á vontade no fim das chuvas, -quando vem o bom tempo visitar os habitantes da zona -tórrida: no fim do bom tempo e principio das chuvas soltam -um canto triste, como que chorando o passado, e prevendo -as tempestades do inverno, si tal nome merece.</p> - -<p>Ha muitos passarinhos de bellesa incrivel: uns pardos, outros -cor de violeta, azulados, amarellos e mesclados: fazem -os selvagens penachos de suas pennas, que são muito caras -por ser difficil matal-os, porque presentindo o inimigo, que -os busca, trepam-se no cume das arvores mais altas, nas -pontas dos ramos, fazem seos ninhos os quaes amarram com -uma embira muito forte, e na outra extremidade que cahe -no sollo, fabricam uma especie de pote de terra, no qual -criam seos filhos entrando por um só buraco, proporcional -á sua grossura.</p> - -<p>Trouxe para França esses passarinhos, que aqui causaram -muita admiração.</p> - -<p>Possue o Maranhão um genero de passarinhos, que não -excede no corpo á extremidade do pollegar, e acrescento -com todas as suas pennas, e tem canto melodioso, que faz -lembrar o das andorinhas, que imitam quando querem cantar: -levantam o bico, e soltam o canto o mais alto, que podem, -e o sustentam em quanto o permittem suas azas.</p> - -<p>Fazem suas casas junto ás fontes, onde muitas vezes vão -banhar suas azinhas para mais facilmente voarem alto. Ahi -perto fazem seos ninhos, e imaginae o tamanho dos ovos, -que chegam de 5 a 7: seos filhinhos ainda são de mais admiravel -pequenez.</p> - -<p>São tão fecundos, que os meninos enchem cabaças de ovos -d’elles.</p> - -<p>Ha de diversas cores, amarellos, violetas, pardos, etc.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_184"></a>[184]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLVIII">CAPITULO XLVIII</h3> - -<p class="subhead">Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á -respeito das Indias Occidentaes.</p> - -</div> - -<p>Para perfeição d’este primeiro tratado, julguei acertado -responder á todas ás perguntas, que se fazem n’esse paiz.</p> - -<p>1.ª Si esta terra de equinoccio pode ser habitada por francezes -delicados, naturaes de um paiz temperado, criados -com cuidado e bons alimentos, pois não parece poderem -se accommodar n’um paiz agreste, selvagem, cheio de mattas, -entre barbaros, e debaixo da zona tórrida e ardente.</p> - -<p>Respondo, que na verdade todos os principios são difficeis, -porem pouco a pouco apparece a facilidade.</p> - -<p>Não ha no mundo villa ou aldeia, que não cause susto e -encommodo no principio, porem depois de alguns annos tudo -vae bem, e os nossos padres ja ahi deixaram o fructo de -suas fadigas.</p> - -<p>Não eram mui delicados os cidadãos romanos? E comtudo -não deixaram Roma e Italia para plantarem suas colonias -nas florestas gaulezas e allemans?</p> - -<p>O portuguez não é, como nós os francezes, na Europa sugeito -a todas as molestias, trabalhos e fadigas? Sim! porem -é neste ponto mais soffredor do que nós, pois bem sabe ser -necessario primeiro lavrar para depois colher: comtudo estabelece-se -muito bem no Brasil, faz grandes negocios, sendo -a terra bem preparada e cultivada. Havendo dinheiro -ha ahi de tudo, como em Lisboa. Eu vos lembro, que se a -paciencia dos homens tem tornado, dentro de oito mezes, -boas e ferteis as terras crestadas pelo gelo ou congeladas, -uma terra, o coração do mundo, não será habitavel pelos -francezes? É até loucura pensar n’isto, e portanto concluo, -que esta terra é apropriada á naturesa dos francezes como -é a França, si for bem cultivada e provida de viveres necessarios -e acommodados ao gosto francez, como sejam pão -e vinho: quanto á carne, peixe, legumes e raises, ha de tudo<span class="pagenum"><a id="Page_185"></a>[185]</span> -isto incrivel abundancia, tendo apenas o trabalho de colher -e plantar os vegetaes.</p> - -<p>Enganar-se-hia porem quem pensasse, que as arvores produzissem -patinhos assados, as corças, quartos de carneiro, -recentemente tirados do espeto, e o ar andorinhas bem cozidas, -de fórma que não havia mais trabalho do que abrir -a bocca e comer.</p> - -<p>Com tal fantasia, não lhe aconselho, que lá vá, porque -arrepender-se-hia.</p> - -<p>É pois esta terra habitavel pelos francezes, e si ahi não -tiverem commodidades, arrepender-se-hão, porem tarde.</p> - -<p>2.ª Eis o que disse, e basta<a id="Nanchor_82" href="#Note_82" class="fnanchor">[82]</a> a terra é habitavel, e -pode ahi morar-se com algum encommodo durante alguns -annos. Mas será saudavel para os francezes? Os indios ahi -são sadios, e vivem longo tempo, embora selvagens e barbaros, -nascidos n’este clima, e acostumados á tal temperatura. -Não tem os francezes tal privilegio, pois são sujeitos -á muitas febres, que se terminam em paralysia e outros encommodos. -Respondo a isto, que julgamos das substancias -pelos accidentes, e das terras pelos encommodos e enfermidades.</p> - -<p>Comparemos agora a menor aldeia de França com a Colonia -Francesa n’estas terras, e no espaço de um anno achamos -haver na aldeia dez vezes mais doentes do que em dois -no Maranhão.</p> - -<p>Si algumas pessoas se dão mal, não é novidade pois em -toda a parte está a morte: assim são as molestias.</p> - -<p>D’estes males não estão isentos Reis e Principes em paizes -os mais agradaveis e salubres, que se possa imaginar.</p> - -<p>Em dois annos, que lá estive, apenas houve uma morte a -do Rvd. padre Ambrosio:<a id="Nanchor_83" href="#Note_83" class="fnanchor">[83]</a> fallo da morte natural, porque -os devorados pelos peixes, a culpa foi d’elles por se lançarem -ao mar.</p> - -<p>Morreu o Rvd. padre de uma paralysia, porque estando -muito atado a derrubar arvores grandes, e tendo o suor -molhado seo habito, foi assim mesmo celebrar missa, e<span class="pagenum"><a id="Page_186"></a>[186]</span> -apenas sahio da igreja foi acommettido por uma febre, de -que falleceo poucos dias depois.</p> - -<p>Digo isto com certesa, porque o assisti até o fim, achando-se -fóra em serviço de Deos os outros dois padres.</p> - -<p>Á vista d’isto Maranhão e Paris pleiteam entre si.</p> - -<p>Diz Paris—«és má terra, porque mataste um padre capuchinho -que te mandei.»</p> - -<p>Responde Maranhão «por um perdi quatro dos meos.»</p> - -<p>«Tendes rasão para censurar-me?» Assim o deveria ser, si -os meus fossem tratados como principes, e o pobre capuchinho -apenas tivesse farinha, ou pouco mais.</p> - -<p>«Concordemos pois, que o clima é sam e salubre, e que -desperta muito o apetite, e si houvessem muitas gulodices -como em França, para ahi iriam as pressas muitas moças -francezas.»</p> - -<p>3.ª Dizem vae tudo muito bem, porem não ha vinho, e -nem trigo, principaes alimentos, indispensaveis nos melhores -banquetes para as carnes mais delicadas.</p> - -<p>Respondo, que ha milho em grande abundancia, de que -se pode fazer pão, como nós o faziamos, e o achavamos -muito agradavel ao gosto, embora gostassemos mais da farinha -do paiz, especialmente quando fresca, porque não é pesada -ao estomago.</p> - -<p>Este pão de milho serve d’alimento em muitas terras do -velho mundo,<a id="Nanchor_84" href="#Note_84" class="fnanchor">[84]</a> e especialmente na Turquia, onde é chamado -trigo da Turquia.</p> - -<p>Não se perdeo ainda a esperança, que a terra firme do -Brasil, forte e gorda, não possa produzir trigo, com que se -fabrique o pão como na França.</p> - -<p>Os habitantes de Pernambuco ja o fizeram; não estão longe -de nós, porem em terras peiores.</p> - -<p>Quanto a terra firme do Maranhão, melhor seria si o rei -de Hespanha não prohibisse nas Indias Orientaes e Occidentaes -plantação de trigo e de vinhas para tel-as sempre dependentes -de seo soccorro, e de tudo quanto cresce nos seos -Reinos de Hespanha e Portugal.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_187"></a>[187]</span></p> - -<p>Accrescento ainda, que o Perú, que está no mesmo paralello -que a terra firme do Maranhão, é abundante de trigo e -de vinhas. Quem pode impedir, que ahi se produzam estes -generos?</p> - -<p>Quanto ao vinho, não é feito das vinhas do paiz, embora -ahi possam crescer,<a id="Nanchor_85" href="#Note_85" class="fnanchor">[85]</a> e contam-nos, que as trazidas pelos -nossos religiosos na ultima viagem pegaram e produziram -fructos. Quem pode impedir grandes plantações de vinhas, -e que em dois ou tres annos se façam grandes colheitas?</p> - -<p>A França nem sempre tem vinho, actualmente porem tem -muito.</p> - -<p>Os flamengos, os inglezes, os hibernios e dinamarquezes -não fabricam vinho, contentam-se com cerveja, e se querem -beber vinho abrem a bolsa, e ahi vão os melhores vinhos -do Universo.</p> - -<p>O mesmo succede em Maranhão, porque os navios ahi os -levam. É bem verdade, que é um pouco mais caro do que -em França, porem é melhor, segundo pensam alguns francezes, -que avaliam as coisas pelo preço.</p> - -<p>Os mais economicos acostumam-se com a cerveja do paiz -que é muito boa por ser feita de milho, e não é muito cara -por haver muita abundancia deste genero na terra e serem -as agoas boas e puras.</p> - -<p>4.ª Dizem. Si é assim não é máo, porem pode ahi fazer-se -vantagens, visto que, em quanto ahi estive, nunca me animei -a gastar dinheiro. Respondo.</p> - -<p>Se todos soubessem porque se dava essa falta, ficariam -contentes, porem não é cousa que todos devam saber.</p> - -<p>Direi somente, que esta falta não provem da terra, que é -propria a produsir bons generos quando bem cultivada, -como sejam: <i>Algodão</i>, <i>canafistula</i>, <i>madeira de diversas cores</i>, -<i>piteira</i>,<a id="Nanchor_86" href="#Note_86" class="fnanchor">[86]</a> <i>tinturas de urucú</i>, <i>de cramesim</i>, <i>pimentas -longas</i>, <i>lapis-lazuli</i>, <i>cobre</i>, <i>prata</i>, <i>oiro</i>, <i>pedras preciosas</i>, -<i>plumas</i>, <i>passaros de diversas cores</i>, <i>macacos</i>, <i>macacos-monos</i>, -<i>e saguins</i>, e especialmente assucares, quando si levantarem -engenhos e plantarem cannas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_188"></a>[188]</span></p> - -<p>Si nada de lá se trouxer (callando o que si deve dizer -em publico) provem da má direcção dos negocios, cuidando -cada um de si, o que tem feito com que haja pouco sortimento -de mercadorias francezas, necessarias aos selvagens, -e pelas quaes dão algodão, tinturas, pimentas, e outras -coisas similhantes, alem de outros generos, que por si mesmo -possam obter os francezes.</p> - -<p>Vendo os selvagens a pobresa dos armazens, onde apenas -haviam mercadorias para com ellas si comprar farinha, -ficam preguiçosos, nada fazem e nem farão emquanto os -francezes não tiverem coisa alguma a dar-lhes em recompensa: -tal é o seo genio e assim o farão, e por isto não -merecem censura, por que em todo o Christianismo não si -encontra um só homem, que trabalhe de graça.</p> - -<p>Não vos admireis si nada tragam, e sim si na primeira -viagem conduzirem comsigo alguma coisa.</p> - -<p>Não me prendo as rasões ja ditas, e outras, que callo, e -sim no caso de provêr-se á esta falta, como convem, eu -vos asseguro que a Ilha e suas circumvisinhanças ainda produzirão -bons estofos.</p> - -<p>Tendo satisfeito a todas as perguntas e objecções sinto -repugnancia em responder a muitos mancebos, que por bens -de fortuna somente possuem a espada e o punhal, mais que -ricos de coragem cortam muitas vezes a garganta uns dos -outros, e vão em companhia para um paiz bem triste, onde -navio algum vae levar novidades.</p> - -<p>Desejaria perguntar-lhes—que fazeis em França senão esposar -questões de vossos irmãos mais velhos? Porque não -experimentaes fortuna, ou ao menos porque não ides enriquecer -vosso espirito com a vista de coisas novas? Passarieis -assim o vosso tempo, em quanto si aplaca o vosso coração, -e si fortalece o vosso juiso: prestarieis serviço a Deos -e ao vosso Rei visitando esta nova França.</p> - -<p>Ahi descobrireis novas terras, achareis alguma coisa de -valor, como sejam pedras preciosas etc., e quando mais não -fosse, bastaria que, quando voltardes, não ficasseis mudo<span class="pagenum"><a id="Page_189"></a>[189]</span> -nas reuniões, porque aquelle que viaja tem sempre ganho -o seo pão.</p> - -<p>As cinzas e os fogões são para os cazeiros, creados por -Deos para cultivar a terra.</p> - -<p>A nobresa n’este mundo tem outro fim, e qual é elle? -o de empregar vossos esforços e trabalhos para dilatar -o reinado de Deos, ajudar os Apostolos de Jesus Christo -a chegarem aos fins para os quaes são enviados, isto -é, para augmento do sceptro e da corôa de vosso principe, -e morrer por estas duas empresas—é morrer em leito -de honra.</p> - -<p>Vós me respondereis—mas sob que ordens e porque meios? -Minha penna, senhores, não pode ir mais longe. Fiz o que -devia e o resto ignoro.</p> - -<p>Espero portanto, que Deos inspirará aquelles, que tudo -podem, á favor da perfeição de tão alta empresa.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_XLIX">CAPITULO XLIX</h3> - -<p class="subhead">Instrucção para os que vão pela primeira vez ás Indias.</p> - -</div> - -<p>Sabio é aquelle, diz o proverbio, que para seos negocios -se aproveita do exemplo e experiencia dos outros.</p> - -<p>Se os nossos francezes, antes de terem ido á India, soubessem -o que depois conheceram, teriam melhor dirigido os -seos negocios, e nem teriam passado pelos encommodos, -que soffreram: o que resolver ahi ir, calcule quanto tempo -ahi se pode demorar, junte ainda mais um bocado, porque -lá não se tem a commodidade do regresso quando se -quer.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_190"></a>[190]</span></p> - -<p>Faça seo sortimento para esse tempo, e por duas formas, -uma para si e outra para os selvagens afim de obter delles -viveres e outros generos.</p> - -<p>As suas provisões devem consistir de aguardente forte, do -melhor vinho de Canaria, em bons frascos de estanho, bem -arrolhados e acondicionados n’uma frasqueira fechada a chave, -e esta tão bem guardada, como o seo coração, para servir -nas necessidades e nas molestias que podem apparecer.</p> - -<p>Fuja de sucia com pessoa alguma, porque então desapparecem -bem depressa as suas provisões.</p> - -<p>É costume no mar, desde que se suspeita haver vinho ou -agoardente na frasqueira de algum passageiro, o pedir-se de -vez em quando uma vez d’esses espiritos para beber em -companhia, e quando se está em viagem deve-se fazer de -duas coisas uma, ou ser-se liberal e para isso não faltam -instigações, ou então passar-se por velhaco, e soffrer todas -as injurias, que lhe queiram fazer.</p> - -<p>O meio mais seguro para evitar estas coisas é não entrar -em sucias.</p> - -<p>Para a passagem do mar deve surtir-se de algum vinho -tinto, e de coisas iguaes para quando precisar visto o trivial -do navio ser muito mal preparado.</p> - -<p>Deve fornecer-se de um bom numero de camisas, lenços, -e vestidos de fustão, e não de estofos pesados, excepto os -vestuarios para festas, porque n’este paiz não se precisa senão -de pannos leves.</p> - -<p>Leve sabão para o aceio da casa, muitos sapatos porque -lá não achará um só, senão os que para ahi forem levados -e por alto preço, de forma que pelo preço de um par tereis -em França uma duzia, toalhas, guardanapos, lençóes e -um bom colchão, e se quizerdes viver á francesa, isto é, -com limpesa, deveis levar baixela de estanho para quando -estiverdes doentes.</p> - -<p>Devereis levar assucar, boas especiarias, uma porção de -rhuibarbo muito fino, tudo bem acondicionado n’uma caixa -para livrar o assucar das formigas do paiz, porque é impossivel<span class="pagenum"><a id="Page_191"></a>[191]</span> -imaginar-se o que fazem estes animaesinhos, que metem-se -por toda a parte, e tudo trespassam se é de madeira.</p> - -<p>Devem essas caixas ser feitas de ferro branco.</p> - -<p>As mercadorias pelas quaes dos Indios obtereis em -troca viveres e outros generos do paiz, e escravos para servir-vos -e cultivar vossas roças, são as seguintes—facas de -cabo de pau, de que usam os magarefes, e muito apetecidas -pelos selvagens, muitas thesouras de bolsa de couro, -muitos pentes, contas de vidro verde-gaio, a que chamam -missanga, foices,<a id="Nanchor_87" href="#Note_87" class="fnanchor">[87]</a> machados, podões, chapeos de pouco valor, -fraques, camisollas, calções de adellos, espadas velhas, -e arcabuses de pouco preço.</p> - -<p>Dão muito apreço a tudo isto, e assim tereis escravos e -bons generos.</p> - -<p>Não esqueçaes tambem pannos verdes-gaios, e vermelhos -de pouco valor, porque não fazem grande differença dos estofos, -rosetas, assobios, campainhas, anneis de cobre dourado, -anzóes, alicates de latão chatos, com um pé de cumprimento -e meio de largura, tudo isto por elles muito apreciado.</p> - -<p>Assim bem providos destes generos, não duvideis de serdes -bem vindo entre elles: ahi não deveis viver vida folgada, -e muito negocio fareis n’esse paiz pelo qual pouco dareis, -se souberdes guiar-vos.</p> - -<p>Assim preparado, não vos esqueçaes do principal, que é -antes de embarcardes purificar e robustecer vossa alma com -o Santissimo Sacramento da confissão e da communhão, dispondo -todos os vossos negocios como quem não sabe se o -mar lhe permittirá o voltar.</p> - -<p>Apenas embarcado, fazei vossa cama o mais perto, que -fôr possivel, do mastro grande para evitardes o balanço -visto ser ahi o lugar mais quieto do navio.</p> - -<p>Deve-se sempre temer a Deos, porem não receiar os -acasos do mar, sendo melhor mostrar o rosto tranquillo do -que desassocegado, visto de nada servir o medo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_192"></a>[192]</span></p> - -<p>Não vos assusteis senão quando os pilotos implorarem -misericordia, porque então é preciso cuidar da alma, visto -irem mal as cousas.</p> - -<p>Quando virdes o navio navegando de lado, as caixas viradas, -o mar entrando no convez, as vellas molhando-se nas -ondas, os marinheiros jurando e buffando,<a id="Nanchor_88" href="#Note_88" class="fnanchor">[88]</a> não vos assusteis, -mostrae-vos sempre de animo prasenteiro, não vos -descuidando porem da vossa consciencia.</p> - -<p>Não questioneis com algum marinheiro, pois com isso -nada alcançareis.</p> - -<p>Quando chegardes ao porto, não vos apresseis em saltar, -cuidae primeiro nas vossas mercadorias e bagagem, porque -acontece muitas vezes visitarem a bagagem, e serrarem os -caixões, onde vem os generos, de maneira que se possa -introduzir a mão.</p> - -<p>Fazei conduzir tudo em vossa companhia para casa do -vosso Compadre, que deveis escolher com estes predicados -se fôr possivel.</p> - -<p>1.º Que tenha escravos, canôa e cães, para não sentirdes -falta de peixe e de caça, senão raras vezes tereis estes -generos, sendo necessario compral-os aos selvagens, e assim -muito cara vos seria a vida.</p> - -<p>2.º Indagae se elle tem bom genio especialmente a mulher, -porque nada ha peior do que má hospede.</p> - -<p>Se encontrardes bom acolhimento, convem fazer alguns -presentes, e depois deveis trazel-os sempre na esperança de -outros, sem serdes comtudo muito liberal, e por isso todos -os mezes lhe deveis dar alguma coisa afim de não vos chamarem -avarento, e como tal não vos apregoem entre os seos -iguaes, criando assim difficuldades quando quizerdes obter -alguma coisa.</p> - -<p>Não vos deixeis prender pelos affagos das filhas dos vossos -hospedes, ou de outras, pois não vos faltarão caricias se -souberem que tendes mercadorias.</p> - -<p>Em tudo o mais é preciso andar prevenido, tendo sempre -bem presente á memoria o acaso e o perigo, que fazem<span class="pagenum"><a id="Page_193"></a>[193]</span> -contrahir molestias sórdidas áquelles, que de si se esquecem.</p> - -<p>Podeis livrar-vos d’isto com facilidade, mormente se considerardes -o grande peccado, que commeteis.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="I_CAPITULO_L">CAPITULO L</h3> - -<p class="subhead">Do acolhimento, que fazem os selvagens aos francezes -recem-chegados, e como convem proceder para -com elles.</p> - -</div> - -<p>Si ha nação no mundo, que goste de fazer bom acolhimento -aos seos amigos recem-chegados, e que os receba -em suas casas para tratal-os bem o quanto é possivel, sem -duvida alguma os <i>Tupinambás</i> occupam o primeiro lugar á -vista do que fizeram aos francezes.</p> - -<p>Logo que fundeou o navio, que trasiam os francezes, surgiram -de todos os lados selvagens em suas canôas, bem enfeitados -de pennas e preparados segundo sua classe como si -fossem para uma grande festa.</p> - -<p>Apenas descobrem ao longe navios que demandam a terra -corre logo este boato por todas as aldeias <i>Aurt vgar uaçú -Karaibe</i>, ou <i>Aurt Navire suay</i> «ahi vem os grandes navios -de França.»</p> - -<p>Immediatamente tomam os seos vestidos bonitos, si os -tem, e principiam a fallar uns aos outros por esta forma: -«ahi vem navios de França, e eu vou ter um bom compadre, -elle me dará machados, foices, facas, espadas, e roupa: -eu lhe darei minha filha, irei pescar e caçar para elle, plantarei -muito algodão, dar-lhe-hei gaviões e ambar, e ficarei<span class="pagenum"><a id="Page_194"></a>[194]</span> -rico, porque hei de escolher um bom compadre, que tenha -muitas mercadorias.»</p> - -<p>Dizendo isto batem nas pernas e nos peitos em signal de -alegria.</p> - -<p>As mulheres e os rapazes fabricam farinha fresca e nova, -e os homens vão pescar e caçar, e quando a casa está provida -de carnes de diversas qualidades, raizes, peixes, caça, -e farinha, vão todos aos navios.</p> - -<p>Os mais impacientes vão em suas canôas á bordo do navio, -ancorado na enseiada, endagar se vieram os seos velhos -<i>Chetuassaps</i>, e qual é o francez que traz mais generos -para lhe offerecer seo compadresco, sua casa e sua filha.</p> - -<p>Apenas salta o francez é logo rodeiado por elles: homens -e mulheres mostram-se prasenteiros, presenteam-nos com viveres, -convidam-nos para compadre, offerecem-se para levar-lhes -sua bagagem, em fim fazem o que podem para contental-os -e agradal-os.</p> - -<p>Não tem inveja por estar um francez em casa de outro: o -que primeiro se apresenta é que leva o hospede, sem a menor -questão, e nem por isso se insultam.</p> - -<p>Fazem mais ainda: quando um francez muda de compadre, -não questionam por isto, despresam-no, e tem-no por -homem mau, e assim raciocinam.</p> - -<p>«Si não poude viver com aquelle, como viverá commigo?»</p> - -<p>Si o selvagem é genioso, avarento e preguiçoso, quando -o francez o deixa não se zangam os outros, antes dizem «É -bem feito ser elle despresado, é um homem difficil de ser -aturado, avarento e preguiçoso.»</p> - -<p>Escolhendo o francez um compadre, segue-o e vae para -a aldeia,<a id="Nanchor_89" href="#Note_89" class="fnanchor">[89]</a> e então o hospede com certa gravidade, como -si nunca o houvesse visto, lhe estende a mão e lhe diz: -«<i>Ereiup Chetuassap?</i>» «Chegaste meu compadre,»<a id="Nanchor_90" href="#Note_90" class="fnanchor">[90]</a> coisa -digna de vêr-se e de contemplar-se.</p> - -<p>Direis ao vel-os, que sahem á maneira dos imperadores -de um gabinete bem fechado, onde estavam empenhados em -grandes negocios.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_195"></a>[195]</span></p> - -<p>Si querem fazer grande acolhimento a um francez e lhe -mostrar que muito o estimam, antes que o pae de familia -lhe diga <i>Ereiup</i>, as mulheres e as filhas o lamentam e depois -dam-lhe bons dias.</p> - -<p>Responde-lhe o francez <i>Pá</i>, «sim?» resposta que quer dizer -«sim de todo o coração: eu te escolhi para morar comtigo, -e para ser meo compadre, e do numero de tua familia: -te dei a preferencia porque te estimo e por me pareceres -bom homem.»</p> - -<p>Diz-lhe o selvagem—<i>Auge-y-po</i> «muito bem, estou muito -contente, honras-me muito, sêde bem vindo e aqui serás tão -bem acolhido como em parte alguma.»</p> - -<p>Por isto reconhecereis a candura e a simplicidade da naturesa, -que consiste em poucas palavras e muitas obras. O -contrario acontece á corrupção, pois inventa muitos discursos, -muitas palavras adocicadas, cortejo sobre cortejo muitas -vezes só com o chapéo, e não com o coração.</p> - -<p>D’estas duas recepções qual será a melhor e a mais consentanea -com a lei de Deos, e com a simplicidade do christianismo?</p> - -<p>Após aquellas palavras, elle vos diz—<i>Marapé derere?</i> -«Como te chamas? qual é o teu nome? como queres que te -chamemos? que nome queres que se te dê?»</p> - -<p>Convem notar, que si não escolherdes um nome pelo qual -sereis conhecido em toda a parte, elles vos darão um escolhido -entre as coisas naturaes, existentes no seo paiz, e o -mais apropriado á vossa physionomia, genio, ou maneira de -viver, que por ventura descobrirem em vossa pessoa.</p> - -<p>Por exemplo, entre os francezes, um foi chamado <i>beiço -de sargo</i>, porque tinha o beiço inferior puchado para diante -como os peixes chamados <i>sargos</i>.</p> - -<p>Tiveram outros o apellido de <i>garganta grande</i> porque -nada o fartava, de <i>sapo-boi</i>,<a id="Nanchor_91" href="#Note_91" class="fnanchor">[91]</a> por estar sempre entumecido, -de <i>cão pirento</i> pela sua cor má, de <i>piriquito</i> porque levava -só a fallar, de <i>lança grande</i> por ser alto e esguio, e -assim por diante, e ordinariamente fazem estas coisas em<span class="pagenum"><a id="Page_196"></a>[196]</span> -suas <i>casas grandes</i>, e por esta fórma pouco mais ou menos. -«Que nome se ha de dar a teo compadre?»</p> - -<p>—Não sei, é preciso estudar.</p> - -<p>Indica cada um a sua opinião, e o nome que encontra -mais apropriado, e si é bem recebido pela assembléa lhe é -imposto com seo consentimento, si é homem de posição: si -é do vulgo, queira ou não queira, ha de ter o nome, que -lhe der a assembléa.</p> - -<p>Tem tambem outra maneira de impôr nomes: quando elles -vos estimam, e vos dam muito apreço, elles vos dam o seo -proprio nome.</p> - -<p>Depois de saber vosso nome pensam na cozinha dizendo—<i>Demursusen -Chetuasap</i>, ou então <i>Deambuassuk Chetuasap?</i> -«Tem fome, meo compadre? quer comer alguma coisa?»</p> - -<p>A hospede vos escuta e vos attende prompta a servir-vos -si disserdes <i>sim</i> ou <i>não</i>, porque tomarão vossa resposta, -como dinheiro contado, visto que n’essas terras nem se deve -ser vergonhoso, e nem guardar silencio.</p> - -<p>Si tendes fome, direis <i>Pá, chemursusain, Pá, cheambuassuk</i>, -«sim, tenho fome, quero comer.»</p> - -<p>Perguntam elles <i>Maé-pereipotar</i>, «que queres tu comer? -que desejas tu que eu te traga?»</p> - -<p>São mui liberaes no principio, diligentes na caça e na -pesca, afim de contentar-vos e ganhar vossa affeição para -obter generos; mas cuidado, não lhe dês tudo no principio, -conservae-o sempre na esperança, dando-lhe cada mez alguma -coisinha.</p> - -<p>Á sua pergunta dizei, si quereis carne, peixe, passaros, -raizes, ou outra qualquer coisa, e então vossos hospedes, -o marido e a mulher trazem para vós a caça, o <i>Mingau</i>, -que tiverem, podeis comer a vontade e dar a quem -quizerdes.</p> - -<p>Apenas tiverdes comido, arma a sua rede ao pé da vossa, -principia a conversar comvosco, offerece-vos um caximbo -cheio de fumo, que accende, chupa tres fumaças, que expelle -pelas ventas, e depois vos entrega como coisa muito<span class="pagenum"><a id="Page_197"></a>[197]</span> -bôa, e que faz muita estima, como na França se pratica com -as bebidas.</p> - -<p>Accende tambem seo caximbo, e depois de haver tomado -cinco ou seis fumaças diz—<i>Ereia Kasse pipo</i>: «deixaste teo -paiz para vir ver-nos, visitar-nos e trazer-nos generos?»</p> - -<p>Respondei-lhe <i>Pá</i>—«sim, deixei tudo, despresei meos amigos, -e meo paiz para vir aqui vêr-te.»</p> - -<p>Levantando então a cabeça como que admirado, diz <i>Yandé -repiac aut</i>, «compadeceo-se de mim, olhou-nos com piedade: -lembraram-se os francezes de nós, não se esqueceram -de nós.»</p> - -<p>Deixaram sua terra para nos vir ver—<i>Y Katu Karaibe</i>: -«são bons os francezes e muito nossos amigos.»</p> - -<p>Depois pergunta ao francez <i>Mabuype deruuichaue Yrom?</i> -«Comvosco quantos superiores, guerreiros, capitães e principaes -vieram?»</p> - -<p>Responde-lhe elle <i>Seta</i>, «muitos.»</p> - -<p>Replica o selvagem—<i>De Muruuichaue?</i> «Não és d’esse -numero? Não és um dos principaes?»</p> - -<p>Bem podeis pensar, que não ha ninguem, por mais mediocre, -que seja a sua condicção, que de si não diga bem, -e por isso responde o francez <i>Ché Muruuichaue</i> «sim, sou -um dos principaes.»</p> - -<p>Diz o selvagem <i>Teh Augeypo</i> «muito bem, estou muito -contente: basta, fallemos de outra coisa.» <i>Ereru patua? -Ereru de caramemo seta?</i> «Trouxestes muitas caixas e cestas, -cheias de mercadorias?»</p> - -<p>São as melhores noticias, que se lhes pode dar, para as -quaes tem sempre dispostos o animo e o coração, de sorte, -que tudo quanto dizem é somente como que um preambulo -para chegar a este ponto.</p> - -<p>Depois que o francez responde-lhe affirmativamente diz o -selvagem—<i>Mea porerut decarameno pupé?</i> «O que trouxestes -em vossas caixas e coffres de joias? que mercadorias?» -dizem elles com vóz doce e agradavel, pois são muito -curiosos de saber o que trazem comsigo os francezes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_198"></a>[198]</span></p> - -<p>Deve estar prevenido o francez para não dizer e nem -mostrar o que elles desejam, afim de trasel-os sempre na -expectativa, si dos seos serviços quer aproveitar-se.</p> - -<p>Deve responder-lhe—<i>Y Katu paué</i> «trouxe tantas coisas, -cujos nomes nem mesmo sei, são bellas e magnificas.»</p> - -<p>Esta resposta é como agoa lançada na fornalha ardente -do ferreiro, a qual redobra o calor, e activa a chama, e assim -desperta a curiosidade do selvagem, até por meios adulatorios, -expressados por gestos, dizendo <i>Eimonbeu opap-Katu</i> -«eu te peço, não me occultes nada, dize-me.» <i>Yassoi-auok -de Karamemo assepiak demae</i>: «Abre-me tuas caixas, -teos cestos, deixa-me vêr tuas mercadorias, tuas riquezas.»</p> - -<p>Deve responder o francez <i>Aimosanen ressepiak</i> ou <i>Kayren -deué</i> «agora não posso, deixa-me descançar, logo te mostrarei:» -<i>Begoyé sepiak</i> «não duvides, um dia verás á tua vontade.»</p> - -<p>O selvagem entende o que isto quer dizer, e vendo que -perde seo tempo, diz a si mesmo, levantando os hombros, e -como que se lastimando—<i>Augé katut tegné</i>, «pois bem, esperarei.»</p> - -<p>Bem sei que não serei ouvido, porem, diz elle ao francez -<i>Dererupé xeapare amon?</i> «Não trouxestes muitas fouces -e machadinhos de cabo de ferro?»</p> - -<p><i>Dererupé urá sossea-mon?</i> «Trouxestes machados de cabo -de pau?» <i>Ererupé ytaxéamo?</i> «Não trouxestes facas d’aço?» -<i>Ererupé ytaapen?</i> «Trouxestes espadas d’aço?» <i>Ererupé tatau?</i> -«Trouxeste arcabuzes?» <i>Ererupé tatapuy seta?</i> «Trouxeste -muita polvora?»</p> - -<p>Responde o francez a tudo isto <i>Aru seta yagatupé giapareté</i> -«Sim, trouxe muita coisa boa e bonita.» Diz o selvagem -<i>Augé-y-pó</i> «Muito bem.»</p> - -<p><i>Ercipotar turumi? Ercipotar keré?</i> «queres dormir? queres -deitar-te?» Responde o francez <i>Pa che potar</i> «sim, quero -dormir, deixa-me.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_199"></a>[199]</span></p> - -<p>Da-lhe então o selvagem as boas tardes, ou boas noites, -dizendo—<i>Nein tyande karuk tyande petom</i> «boa tarde, boa -noite, descançae á vontade.»</p> - -<p>Deixemol-os em descanço, e passemos á segunda parte -d’esta historia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_200"></a>[200]</span></p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_201"></a>[201]</span></p> - -<p class="center larger">Continuação da historia das coisas mais memoraveis, -acontecidas no Maranhão em 1613 e 1614.</p> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak" id="SEGUNDO_TRATADO">SEGUNDO TRATADO.</h2> - -<h3 id="II_CAPITULO_I">CAPITULO I</h3> - -<p class="subhead">Dos fructos do Evangelho, que appareceram cedo pelo -baptismo de muitos meninos.</p> - -</div> - -<p>O cantico segundo, (representando allegoricamente a origem -da Igreja, em terra nova, ainda não illuminada pelo -conhecimento do verdadeiro Deos) diz: <i>Vox turturis audita -est in terra nostra: ficus protulit grossos suos: vineæ florentes -dederunt odorem suum</i>: «foi ouvida a voz da rolla -em nossa terra: produzio a figueira seos figos verdes, e as -vinhas em florescencia derramaram seo aroma.»</p> - -<p>Interpretando estas palavras Rabbi Jonathas, diz em sua -Paraphrase chaldaica, que a vóz da rolla significa a vóz do -Espirito Santo annunciando a Redempção promettida a Abraham, -pae de todos os crentes: eis suas proprias palavras:—<i>Vox -spiritus sancti et redemptiones quam dixi Abrahæ Patri -vestro</i>: «a vóz do Espirito Santo e da Redempção, que -prometti a Abraham, vosso Pae.»</p> - -<p>Diz mais, que pela figueira deve entender-se a Igreja, e -que pelos figos novos se representa a confissão da fé, que -devem os crentes fazer diante de Deos, e finalmente que -pelas vinhas em flor exhalando bom cheiro são indicados os<span class="pagenum"><a id="Page_202"></a>[202]</span> -meninos louvando o Senhor dos seculos: <i>Cœtus Israel, qui -comparatus est precocibus ficubus aperuit os suum, et etiam -pueri et infantes laudaverunt Dominatorem sæculi</i>: -em nosso tempo vimos isto realisado em Maranhão, e suas -circumvisinhanças, onde depois que á vóz do Espirito Santo, -por meio da prédica do Evangelho, se fez ouvir n’estas terras, -e tocou o coração de muitos, especialmente dos que solicitaram -o baptismo, a bella figueira da Igreja produzio novos -figos, que são as almas sahidas de infidelidade para a -crença do verdadeiro Deos, e então as vinhas em florescencia -exhalaram seo cheiro quando em suas cabeças receberam -os meninos as agoas do baptismo, louvando o Senhor -dos Seculos pela parte que ja tomavam do sangue de Jesus -Christo e da fé da Igreja.</p> - -<p>Coisa admiravel, digna de ser bem pensada e considerada: -apenas a vóz do Evangelho trovejou, e fuzilou por essas -florestas desertas, por estas sarças, cheias de agudos espinhos, -esses pobres bichos (esses selvagens) presos nos laços -do cruel caçador Satanaz, começaram animados pela força e -impetuosidade d’essa vóz a construir seus pequenos templos, -como outr’ora tinha predicto o Propheta Rei David no -Psalmo 28. <i>Vox Domini præparantis Cervos, et revelabit -condensa et in templo ejus omnes dicent gloriam</i>: a vóz -do Senhor amançando os viados, descobrirá o interior das -brenhas e das sarças e no seo Templo todos entoarão louvores -á elle.</p> - -<p>Explicam os doutos, em varias licções, estas palavras dizendo -que á voz do Senhor parem os bichos seos filhos, á -similhança da mão da parteira ou do cirurgião habil, que -serve para tirar do ventre da mulher o menino sam e salvo.</p> - -<p>Esta voz não é outra, a darmos credito aos naturalistas, -senão o ribombo do trovão, e a luz do relampago, que por -um segredo muito intimo da naturesa faz com que param -as femeas dos animaes ferozes.</p> - -<p>O mesmo produz a prédica do Evangelho, animada e vivificada -pelo Espirito Santo, excitando o coração d’estes barbaros,<span class="pagenum"><a id="Page_203"></a>[203]</span> -ha muito tempo internados nas sarças e brenhas da -ignorancia, da infidelidade, e dos maos costumes.</p> - -<p>Nas <i>casas grandes</i> não se falla mais de outra coisa senão -do conhecimento de Deos, contando cada um o que ouvio -de nós quando veio visitar-nos, e terminando essas especies -de conferencias pela manifestação do grande desejo, -que tinham de vêr seos filhos baptisados e elles tambem, -por meio d’estas e outras palavras similhantes.</p> - -<p>Que coisas, diziam elles, são estas, que os Padres -nos contam por meio dos interpretes? Nunca as ouvimos -iguaes.</p> - -<p>Nossos paes, ja por tradicção nos contaram, que outr’ora -veio aqui um grande <i>Maratá de Tupan</i>,<a id="Nanchor_92" href="#Note_92" class="fnanchor">[92]</a> isto é, Apostolo -de Deos nas provincias, onde residiam, e lhes ensinou muitas -coisas de Deos: foi elle quem lhes mostrou a mandioca, -as raizes para fazer pão, porque antes só comiam nossos -paes raizes do matto.</p> - -<p>Vendo este <i>Maratá</i>, que nossos antepassados não faziam -caso do que dizia, resolveo deixal-os, mas antes quiz dar-lhes -um testemunho de sua vinda aqui, esculpindo n’uma -rocha uma especie de mesa, imagens, letras, á fórma de -seos pés, e dos seos companheiros, as patas dos animaes, -que trasiam, os furos dos cajados, a que se arrimavam em -viagem, o que feito passaram o mar, procurando outra -terra.</p> - -<p>Reconhecendo nossos paes sua falta, procuraram-no muito, -porem nunca d’elle tiveram noticias, e até hoje ainda não -veio visitar-nos algum <i>Maratá de Tupan</i>.</p> - -<p>Muito tempo ha, que frequentamos os francezes, e nenhum -d’elles nos trouxe padres, e nem nos contou o que por -seos interpretes nos dizem os padres.</p> - -<p>Por exemplo fazem viver de maneira diversa os <i>Caraibas</i>.</p> - -<p>Prohibem os francezes de tomarem nossas filhas, o que outr’ora -faziam com facilidade, dando-nos em troca algumas -mercadorias.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_204"></a>[204]</span></p> - -<p>Dizem grandes coisas de Deos, e á elle fallam em suas -Igrejas, e para isso fecham as portas, fazem-nos sahir para -que desça <i>Tupan</i> diante d’elles, e então si ajoelham todos -os <i>Caraibas</i>.</p> - -<p>Bebe e come <i>Tupan</i> em bellos vazos de oiro, e em mesa -bem preparada e ornada de bellos estofos, e bonitos pannos -de linho.</p> - -<p>Adornam-se com ricos vestuarios, e quando querem fallar -aos <i>Caraibas</i> assentam-se no meio d’elles, e somente falla -um Padre, que está assentado.</p> - -<p>Escutam-no todos os francezes, falla por muito tempo, -cança-se, ninguem o entende porem todos ahi estão firmes.</p> - -<p>Depois que este falla, cantam uns depois de outros, de -lado a lado, lêem n’um <i>Cotiare</i>, (n’um livro) o que cantam -e dizem elles que assim estão fallando á Deos.</p> - -<p>Julgam nossos paes perdidos com <i>Jeropary</i>, ardendo em -fogos subterraneos, e riem-se de nós quando choramos e -lamentamos nos funeraes de nossos parentes.</p> - -<p>Mandam atirar no matto a comida, a bebida, e o fogo, -que costumamos dar aos nossos parentes defunctos para fazer -a viagem até onde estão nossos avós nas montanhas -dos Andes.</p> - -<p>Elles nos dizem e prégam, que somos muito tollos em -dar credito aos nossos <i>barbeiros</i> e <i>feiticeiros</i>, especialmente -ao seo sopro para o curativo dos infermos.</p> - -<p>Fallam com altivez contra <i>Jeropary</i>, e não o temem de -fórma alguma.</p> - -<p>Promettem aos que crêem em <i>Tupan</i>, e que elles lavam -com suas mãos, de subir ao Céo por cima das estrellas, do -sol e da lua, onde está <i>Tupan</i> sentado, e em roda d’elle os -<i>Maratás</i>, e todos os que acreditam em suas palavras, e são -por elles lavados.</p> - -<p>Regeitam raparigas e mulheres, dizendo que o filho de -<i>Tupan</i> não as teve, sahindo do ventre de uma rapariga -chamada <i>Maria</i> com a qual nunca seo marido teve relações.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_205"></a>[205]</span></p> - -<p>Ha dias nos quaes não comem carne embora lh’a offereçam.</p> - -<p>Não se passam dez dias, contando pelos dedos, que não -mandem os Francezes vestirem-se com roupas bonitas, e -irem a casa de <i>Tupan</i> fallar com elles e escutar a palavra -de Deos.</p> - -<p>Vestem-se de maneira diversa dos outros francezes, caminham -diante d’elles, e todos os saudam. Convivem sempre -com os grandes, que lhes fazem tudo quanto querem, -e dizem até que abandonaram suas riquezas e fazendas para -mais livres conversarem com <i>Tupan</i>, e manifestarem a vontade -d’elle aos francezes.</p> - -<p>Quando vamos vel-os, nos acariciam, especialmente a nossos -filhos dizendo-nos, que já não nos pertencem e sim a -elles, sendo-lhes dados por <i>Tupan</i>.</p> - -<p>Que não nos penalizemos por isso, porque nunca nos -deixarão e nem nossos filhos: que elles são muitos em França, -que todos os annos virão outros, que depois de haverem -educado e ensinado nossos filhos, os farão fallar em -Deos tão familiarmente como elles o fazem: que lhes ensinarão -a <i>rotiarer</i> (a escrever) e a fazer fallar o <i>papere</i> (o -papel) mandado de muito longe aos que estão auzentes.</p> - -<p>Dizem-nos que seo Rei é poderoso, que os ama, e nos -ajudará em quanto elles estiverem comnosco. Ah! porque -não somos mais moços para vêr as grandes coisas, que farão -os Padres em nossas terras! Elles construirão com pedra -grandes Igrejas como ha em França.</p> - -<p>Trarão bellos estofos para ornar o lugar, onde desce <i>Tupan</i>. -Mandarão buscar <i>miengarres</i>, isto é, musicos cantores<a id="Nanchor_93" href="#Note_93" class="fnanchor">[93]</a> -para entoarem as grandezas de <i>Tupan</i>.</p> - -<p>Recolherão todos os nossos filhos n’um lugar, onde alguns -dos Padres cuidarão d’elles. Mandarão buscar de França mulheres -para ensinarem o que sabem á nossas filhas. Não nos -faltarão ferramentas para nossas roças. Ah! diziam alguns -d’elles em continuação, si chegarmos a vêr essas mulheres -em nossas terras, então temos certesa que não nos deixarão<span class="pagenum"><a id="Page_206"></a>[206]</span> -os francezes, e nem os Padres, especialmente si nos derem -mulheres de França. Si eu tivesse, disse um d’elles, uma -mulher franceza não queria outra, e faria tanta roça que -havia de chegar para sustentar tantas francezas, como de -dedos eu tenho nas mãos e nos pés, isto é, vinte, numero -infinido para significar muito, porque depois de terem chegado -a vinte, começam a contar de novo.</p> - -<p>Levantando-se então elle, que era o Principal no meio do -grupo, em que me achava, e batendo nas nadegas com -quanta força tinha, disse <i>Aça-uçu, Kugnan Karaibe, Aça-uçu -seta, &.</i> «Amo uma mulher francesa com todo o meu -coração, amo-a extremosamente.»</p> - -<p>Respondeo o <i>Cão grande</i>, tambem Principal—«prometteram-me -uma mulher francesa, que desposarei na mão dos -padres, e me farei christão como fiz meo filho Luiz-galante, -e quero ter em pouco tempo um filho legitimo. Minha primeira -mulher está velha, e por isso não precisa mais de -marido, e as outras oito, ainda moças, as darei por esposas -a meos parentes, e ficarei só com a mulher de França, e -minha velha mulher para nos servir.»</p> - -<p>Faziam outros iguaes discursos em suas <i>cazas grandes</i> e -na minha residencia, ou quando me viam passar, contentando-me -de referir apenas o que acima escrevi para mostrar -o fervor d’estes barbaros, suscitado pelo Divino Espirito -Santo.</p> - -<p><i>Vox turturis audita est in terra nostra</i>, para produzir de -seo seio fechado e preoccupado por mil infecções estes bellos -e amigaveis viadinhos, <i>vox Domini præparantis Cervos</i>, -e em outro logar <i>Cerva charissima e gratissimus hynnulus</i>, -cap. 5º dos <i>proverbios</i>, «a côrça muito estimada, e o templo -muito lindo.»</p> - -<p>Continuemos.</p> - -<p>A estas palavras seguio-se logo a pratica, porque foram -muitos meninos entregues ao Rvd. padre Arsenio, residente -em <i>Juniparan</i>, e a mim, morador em São Francisco, perto -do Fórte de São Luiz, para acudir aos francezes e receber os<span class="pagenum"><a id="Page_207"></a>[207]</span> -Indios de outras terras, que todos os dias nos vinham vêr -e conhecer, si era verdade o que de nós se dizia em longes -terras.</p> - -<p>Foi esta a divisão, que fizemos, de tantas e tão grandes -terras para cultivar e lavrar o que permittissem nossas forças, -cuidando um de uma parte e outro de outra, excepto -quando houvesse necessidade de sahir da Ilha, porque então -se tomariam providencias adequadas.</p> - -<p>Impossivel é á palavra o pintar o contentamento e a alegria, -que sentiamos vendo estes selvagens trazer-nos seos -filhos, voluntaria e expontaneamente, para serem baptisados, -preparando-os o melhor que podiam com os meios offerecidos -pelos francezes, isto é, vestidos com um pedaço de panno -de algodão, escolhendo padrinhos entre os francezes, contrahindo -assim com elles estreita alliança, especialmente com os -meninos baptisados, si estivessem em idade de o conhecerem, -porque então considerariam seos padrinhos como seos proprios -paes, chamando-lhes pelo nome de <i>cheru</i>, «meo pae» -e sendo pelos francezes chamados os rapazes <i>cheaire</i> «meo -filho,» e as meninas <i>cheagire</i> «minha filha»: vestiam-nos em -summa o melhor, que podiam, e os selvagens, paes dos meninos -baptisados, lhes offereciam todas as commodidades resultantes -de suas roças, de suas pescarias, e caçadas.</p> - -<p>Vendo assim estas cousas, lembrava-me do que diz o cap. -5º dos <i>canticos</i>. <i>Oculi ejus sicut cólombæ super rivulos -aquarum, quæ lactæ sunt lotæ, et resident juxta fluenta -plenissima</i>: «os olhos de Jesus Christo, esposo da Igreja, -parecem-se com os olhos da pomba, orvalhada de leite, que -contempla os regatos das fontes, e faz seo abrigo e morada -nos rochedos, que abrangem rios amplos e espaçosos.»</p> - -<p>Estes olhos de Jesus Christo são as graças do Espirito -Santo, que fazem quebrar seos ovos á maneira das tartarugas, -expostos á mercê das innundações do mar e da frialdade -da areia.</p> - -<p>Tem estes mesmos olhos por plano e fim lavar e purificar -as almas, especialmente as almasinhas rociadas de leite. Assim<span class="pagenum"><a id="Page_208"></a>[208]</span> -como a pomba branca brinca sobre os riachos, e habita -á margem dos grandes rios, assim tambem o Espirito Santo -folga e muito na conversão de uma terra nova, e encara -com bons olhos a sahida d’estas almasinhas do estado geral -d’estas terras barbaras, a saber, da ignorancia de Deos -para chegar a conhecel-o por meio das agoas do baptismo, -partecipantes, como nós, da visão de Deos, porque não fazem -accepção de ninguem, visto que estas almas barbaras lhe -custaram tanto como as nossas.</p> - -<p>Oh! preço infinito! oh! falta de caridade, que não tem -desculpa perante Deos, de se verem tantas almas pedindo -a salvação, sem embaraços e riscos, e em risco de se perderem -por não haver um pequeno auxilio.</p> - -<p>Bom Deos! todos nós acreditamos, e Jesus Christo confirma -esta crença, que uma só alma valle mais que todo o -resto do mundo, isto é, que todos os imperios, e reinados -da terra, que todas as riquezas e thesouros do homem: mais -ah! não temos difficuldade de pôr em execução nossas -crenças.</p> - -<p>Não posso deixar este assumpto sem primeiro declarar a -luta interior, que experimentei, para fazer vêr e descarregar -minha consciencia tanto quanto a julgo compromettida, -parecendo-me bastante para minha justificação e defesa o -que acabo de dizer.</p> - -<p>Li e notei em bons auctores, profundos e perspicases no -conhecimento dos segredos e mysterios da Escriptura, que -as pombas brancas orvalhadas de leite eram certas pombas, -que os Syrios creavam em honra e veneração de sua rainha -Semiramis, sendo prohibido matal-as sob pena de morte.</p> - -<p>Contam-nos os antigos ter-se esta rainha immortalisado -por um acto memoravel, entre seos altos feitos d’armas, o -mais milagroso quanto é possivel á grandesa dos reis, qual -a suspensão entre o Céo e a terra de seos jardins, pomares, -e bosques de recreio.</p> - -<p>Salomão procurou esta comparação entre as coisas profanas -para mostrar uma obra divina notavel entre as outras,<span class="pagenum"><a id="Page_209"></a>[209]</span> -qual a conversão das almas, inteiramente reservada ao poder -de Deos por ser uma segunda creação pela qual assim -como suspendeo a terra no ar, assim tambem suspenderá -jardins, pomares, e florestas de sua igreja com surpresa dos -calculos e juizos humanos, afim do dar lugar aos seos predestinados -e eleitos chamando-os quando lhes apraz, no meio -dos desertos, e do interior das mais vastas e densas florestas.</p> - -<p>Antes de ir adiante, não deixarei escapar a coincidencia -que se nota entre a grande Semiramis e Maria de França, -rainha christianissima.</p> - -<p>Semiramis rainha reinante e tutora do seu filho o rei d’Asyria -emprehendeo grandes coisas, em beneficio e sustentaculo -do imperio de seo filho.</p> - -<p>Igual caso se dá com a nossa rainha, e embora Semiramis -tenha em seo tempo feito muitas obras magnificas, -pelas quaes grangeou o amor e a obediencia de seos subditos -mais do que outra qualquer, sua antecessora, a immortalidade -de seo nome foi devida a seos edificios miraculosos.</p> - -<p>Com igual razão direi, que entre as heroicas acções da -rainha, mãe do rei, que levaram a posteridade seo nome -immortal, conta-se a missão dos padres capuchinhos ás terras -do Brasil para ahi plantar os jardins da igreja, começada -e fundada sob sua authoridade e ordem, e assim será o -Brasil obrigado a sustentar estas pombas brancas em memoria -e lembrança de tão grande Semiramis que tem tanta -piedade como poder para aperfeiçoar esta empresa.</p> - -<p>Ainda vos peço, que em nossas pequenas pombas rociadas -de leite deveis vêr os filhinhos dos selvagens conduzidos -ao gremio do christianismo pelo baptismo.</p> - -<p>Ha cinco annos, pouco mais ou menos, nem havia desejo -de se intentar a cathequese d’esta gente.</p> - -<p>O diabo ahi mandava com imperio, arrastava para si todas -estas almas sem pagar dizimo a Deos, porem presentemente, -em quanto durar e continuar a missão, com o auxilio<span class="pagenum"><a id="Page_210"></a>[210]</span> -de Deos ouvireis dizer quaes os grandes fructos, ja colhidos, -e outros que se colhem todos os dias.</p> - -<p>A nossa maior consolação, a que nos fazia soffrer as amarguras -e as difficuldades dos trabalhos, que ahi não nos faltavam, -era vêr a franqueza e boa vontade, com que os selvagens -nos apresentavam seos filhos para serem baptisados -dizendo então nós, em conversa com elles, que para nós -nada havia mais agradavel do que o trazerem elles seos filhos -á pia baptismal, e sempre que comnosco fallavam era -assumpto da conversa a manifestação de seos desejos por -verem seos filhos por nós baptisados.</p> - -<p>Poderia aqui reproduzir muitos exemplos para confirmar -esta verdade, mas como tenho de referil-os em lugar proprio, -deixo-os agora de mão.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_II">CAPITULO II</h3> - -<p class="subhead">Do baptismo de muitos infermos e velhos, que falleceram -depois de christãos.</p> - -</div> - -<p>Entre os mais bellos enigmas sagrados, que recita Job -no seo livro, está no Cap. XIV a parabola do loureiro dizendo. -<i>Si senuerit in terra radix ejus, et in pulvere mortuus -fuerit truncus illius, ad odorem aquæ germinabit, -et faciet comam quasi cùm primo plantatum est</i>: «Si a -raiz do loureiro se mergulha na terra, e seo tronco morrer -no pó, apenas sentir o cheiro da agoa germinará e produzirá -nova copa de folhas, como si fosse recentemente plantado.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_211"></a>[211]</span></p> - -<p>Os Setenta assim inverteram esta passagem: <i>Si in petra -mortuus fuerit truncus ejus, ab odore aquæ florebit, et -faciet messem, sicut nova plantata</i>: «si o tronco do Loureiro -morrer na pedra, com o cheiro d’agoa florescerá, e -como planta nova mostrará em breve sua copa.»</p> - -<p>Outra versão ha ainda mais bella: <i>Attracto humore -aquæo iterum germinat, exibet quæ fructus decerpendos, -ut plantæ solent</i> «o Loureiro morto chupando a agoa germina -de novo, e como as outras plantas offerece sazonados -fructos.»</p> - -<p>N’estes trez trechos descobrireis muitas coisas, que servem -litteralmente ao nosso fim.</p> - -<p>1.º A raiz do Loureiro dentro da terra.</p> - -<p>2.º Seo tronco morto no pó ou na pedra.</p> - -<p>3.º O cheiro d’agoa, que dá a vida perdida á raiz e ao -tronco fazendo produzir folhas, flores e fructos.</p> - -<p>O Loureiro representa as Nações infieis, conforme a ficção -dos antigos da nympha Daphné, a qual perseguida pelos -demonios com o nome de Appollo foi convertida em Loureiro.</p> - -<p>Sua raiz sepultada no pó ou na rocha representa longa -serie de annos, nos quaes estas Nações barbaras jazeram -entregues aos seos barbaros e inveterados costumes.</p> - -<p>O tronco ja morto representa o fim e terminação d’esta -ignorancia.</p> - -<p>Deos querendo presentemente visitar esta Nação escolheo -os enfermos, os velhos, os caducos e moribundos para fazel-os -renascer em Jesus Christo, levando as folhas verdes -da graça, as flores dos dons do Espirito Santo, e os fructos -dos meritos da paixão de Jesus Christo, e com isto tudo o -cheiro e o atractivo da agoa do baptismo.</p> - -<p>Sentiamos muito consolo quando baptisavamos os doentes -e os velhos, cuja morte era esperada com certeza, por -que receiavamos que por falta de soccorros, nos vissemos -obrigados a deixar e abandonar todos os meninos recentemente<span class="pagenum"><a id="Page_212"></a>[212]</span> -baptisados e os adultos, que constantemente si apresentavam.</p> - -<p>Tinhamos ao menos certeza, que baptisando os que se -achavam proximos da morte, abria-se o Paraizo, e perdia-se -a occasião que lhes faria perder talvez a graça obtida, ficando -sós e longe dos Ministros da Igreja para nutril-os na -graça recebida.</p> - -<p>Alem d’isto o baptismo d’estes velhos fazia muita impressão -no coração das testemunhas vendo a devoção, com que -ordinariamente recebiam o baptismo.</p> - -<p>Vou dar-vos alguns exemplos.</p> - -<p>Na ilha cahiram doentes duas raparigas, uma livre e outra -escrava, sendo aquella casada com um Tupinambá, muito -bom moço, o qual depois da morte de sua mulher, constantemente -nos perseguia para ser baptisado, aprendendo com -muito boa vontade a doutrina christã.</p> - -<p>Esta rapariga, proxima da morte, pedio que lhe dessem -o baptismo, confessando por palavras nascidas do coração a -verdade da nossa religião, mostrando por signaes exteriores -o toque do Espirito Santo no seo coração, banhando-se de -lagrymas de amor e de reconhecimento ao grande <i>Tupan</i>, -que lhe fazia tão assignalada graça de a ter feito nascer neste -seculo para tiral-a do meio de tantas almas perdidas de sua -nação e conceder-lhe o goso do paraizo.</p> - -<p>Fitava com attenção o Ceo, e com palavras doceis e tremulas -recitava o que sabia á respeito da crença de Deos, -repellindo para bem longe <i>Geropary</i> e seos antigos enganos.</p> - -<p>No meio d’este discurso, precursor da morte, lamentava a -condemnação de seos antepassados.</p> - -<p>Fazia exposições muito bellas a seo marido e o animava a -receber quanto antes a purificação de seos peccados.</p> - -<p>Devo dizer d’ella um facto muito particular, qual o de haver -conhecido um só homem, o seo marido, o que é não -pequeno milagre n’aquelle paiz, por causa do mau costume<span class="pagenum"><a id="Page_213"></a>[213]</span> -introdusido pelo diabo no coração das moças, de se honrarem -pela deshonra, e de não apreciarem a castidade ou a -virgindade.</p> - -<p>Bem vêdes por isto, que em todos os escolhidos de Deos -ha sempre alguma virtude natural, que provoque, não por -merecimento e sim pela occasião, a graça de Deos, que similhante -ao sol, com indifferença, está a entrar n’alma de -todos, si houver para isso disposição.</p> - -<p>A <i>Tapuia</i>, ou escrava, atacada por violenta febre, que a -atormentava muito, achava-se em sua rede só e por todos -abandonada, conforme o uso e costumes d’elles, que consideram -grande deshonra cuidar d’uma escrava quando está -a morrer, isto antes da nossa chegada a ilha, quando então -lhes mostrámos o quanto era desagradavel á Deos a crueldade -com que atiravam por terra o escravo moribundo e lhe quebravam -a cabeça como ja disse.</p> - -<p>Esta desgraçada mulher, prisioneira de Satan, e victima -das desgraças communs da natureza, que são as enfermidades -e as doçuras dolorosas e insuportaveis, sem pessoa alguma -junto de si foi então olhada com piedade, e visitada -por seo Creador, animando-a a pedir o baptismo. Oh! juiso -de Deos! Oh! providencia eterna!</p> - -<p>Quem poderá comprehender teos conselhos na vida do homem!</p> - -<p>Esta pobre creatura, dardejada vivamente no coração pelas -flechas das primeiras graças do seo senhor, não merecidas -por alguma obra boa anterior, que houvesse feito, lançava -suas vistas por todo o quarto procurando ver, si alguem -lhe apparecia para mandar chamar os Padres, afim -de ser lavada com as agoas do baptismo, e felizmente lhe -appareceu um francez, a quem expoz seos desejos, e veio -elle logo dizel-os ao padre, indicando a casa d’ella, que era -perto, e elle foi logo visital-a, instruil-a e baptisal-a.</p> - -<p>O francez, que cuidou d’ella, e o padre que a baptisou, -me contaram coisas admiraveis.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_214"></a>[214]</span></p> - -<p>Esta infeliz creatura quanto ao corpo, porem muito feliz -quanto á alma, principiou a experimentar os penhores do -Ceo, e o merecimento do sangue de Jesus Christo que recebeo -pelo baptismo. Tinha sempre os olhos fixos no Ceo, derramava -abundantes lagrymas, e dizia de momento a momento, -estas palavras—<i>Y Katu Tupan, ché arobiar Tupan</i>. Oh! -quanto Deos é bom! Oh! quanto Deos é bom! eu creio n’elle. -Depois por meio de signaes mostrava aos francezes, que -<i>Jiropary</i>, o diabo, andava ao redor de sua rede, e então -dizia <i>Ko Jiropary, Ko y pochu Jiropary</i>: «está ali o diabo, -atirai sobre elle a agoa de <i>Tupan</i>, isto é, agoa benta para -elle fugir.» Fazia-lhe o francez a vontade e dizia ella que o -diabo fugia a toda a pressa, e por isso constantemente pedia -ao francez que derramasse em roda d’ella e de sua rede -muita agoa benta o que fazia, bem como o padre quando -ahi se achava.</p> - -<p>Apenas lhe apparecia uma dor de cabeça, que muito a encommodava, -pedia para que lavassem a testa, as fontes e a -cabeça com agoa benta, com que alliviava muito, a ponto de -não sentir mais doença alguma: pouco depois entregou sua -alma ao Creador.</p> - -<p>Amortalharam e sepultaram seo corpo á maneira dos christãos: -aconteceo porem, que alguns malvados, filhos de <i>Giropary</i>, -que nunca foram descobertos, senão seriam punidos, -foram á noite desenterral-a, quebraram-lhe a cabeça e -roubaram o panno de algodão de sua mortalha: pela manhã -foi outra vez sepultada.</p> - -<p>Ninguem se admire d’isto, pois o diabo reserva sempre -para si alguns bons servos, mesmo nos reinos os mais bem -policiados, afim de executar suas mais detestaveis intenções.</p> - -<p>Sabeis sem duvida, que os <i>Tupinambás</i> aborrecem naturalmente -os que abrem as sepulturas dos mortos e não podem -por isso tolerar, que os francezes abram as covas, onde foram -enterrados seos parentes para lhes tirar os objectos, que -elles cheios de superstição ali deixam.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_215"></a>[215]</span></p> - -<p>Ahi estava a morrer um velho <i>Tabajare</i>, tão magro, que -os ossos lhe furavam a pelle, sem voz, e sem movimentos -na sua rede.</p> - -<p>Julgando-se mais proximo da morte do que da vida, inspirado -por Deos, pedio o baptismo.</p> - -<p>Fomos visital-o e cathequisal-o pedindo-lhe sua opinião a -respeito de todos os pontos e artigos, que lhe propuzemos.</p> - -<p>Com as mãos postas nos disse que acreditava no que lhe -diziamos.</p> - -<p>Demorando-nos nos artigos relativos á crença da Santissima -Trindade, da Incarnação, Morte, e Paixão do Filho de -Deos, do Baptismo, e do Mysterio da Santa Eucharistia, por -que estava proximo da morte, procuramos fazer-lhe entender -estas materias tão altas e profundas por comparações familiares, -a que prestou muita attenção, e dezejando com -todo o fervor o baptismo nós lhe promettemos, que no cazo -de ficar bom elle receberia as ceremonias do baptismo na -capella de S. Luiz, e aprenderia com gosto a doutrina christan, -que ensinavamos aos catecumenos antes de baptisal-os.</p> - -<p>Respondeo-nos, que não era tão longe a Capella de Sam -Luiz, que não podesse ser levado até lá afim de, antes de -morrer, ser baptisado, consolação que muito desejava afim -de ir direito para o Ceo.</p> - -<p>Vendo este fervor e devoção ficamos satisfeitos e concordamos -ser elle carregado n’uma rede até a igreja de Sam -Luiz, e ahi baptisado com toda a solemnidade.</p> - -<p>Alguns dias depois morreo tranquillamente.</p> - -<p>N’esse mesmo tempo cahio doente uma mulher <i>Tabajare</i>, -e tão gravemente, que todos julgavam-na em breve morta: -fomos vel-a e lhe offerecemos o baptismo que aceitou de -muito boa vontade, e com muita attenção escutava o que diziamos, -por intermedio dos interpretes, a respeito das glorias -do Paraizo, das penas do inferno, do que ella devia crer, -antes de receber o baptismo no caso de Deos lhe dar saude, -e que podesse aprender a religião christan, e então na igreja -receberia as ceremonias do baptismo, no que concordou e foi<span class="pagenum"><a id="Page_216"></a>[216]</span> -baptisada: recobrando sua saude, julgou do seu dever cumprir -sua palavra, embaraçando-a porem o facto de ser mulher -de um <i>Tabajare</i>, que tinha mais duas, não podendo -ella continuar a viver com elle casada segundo as leis do -christianismo.</p> - -<p>Removemos este obstaculo seguindo o conselho de Sam -Paulo: <i>si qua mulier fidelis habet virum infidelem et hic -consentit habitare cum illa, non dimitat virum etc quod si -infidelis discedit, discedat</i>: «si alguma mulher fiel estiver -casada com um homem infiel, e que este queira morar com -ella, ella que não o deixe, si o homem infiel a deixar, -ella o deixe tambem.»</p> - -<p>Em virtude d’isto fizemos saber a seo marido, que se quizesse -ter por unica esta mulher christan, deixando as outras, -que ella não o abandonaria, mas que si quizesse viver como -d’antes na qualidade de concubina, que nós e os grandes -dos francezes lhe afiançavamos, que elle seria despresado -como incompativel com o christianismo.</p> - -<p>A principio mostrou repugnancia porem afinal concordou, -vivendo como mulher christan e unica com seo marido.</p> - -<p>Faziamos o mesmo aos meninos pequenos, proximos á -morte, observando porem estas formalidades: pediamos o -consentimento dos paes e mães antes de baptisal-os, embora -não os deixassemos de baptisar, quando os viamos moribundos: -apesar de estarmos certos da boa vontade geral dos -selvagens de apresentarem seos filhos ao baptismo, nós lhes -prestavamos esta homenagem com o fim de attrahil-os á se -converterem.</p> - -<p>Não vem a proposito referir aqui alguns exemplos, porque -nada acho n’isto de extraordinario.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_217"></a>[217]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_III">CAPITULO III</h3> - -<p class="subhead">Do baptismo de muitos adultos, especialmente de um -chamado Martinho.</p> - -</div> - -<p>Antes de tratar d’esta materia, julgo necessario advertir -ao leitor, que no fim da obra do reverendo padre Claudio -achará alguma coisa d’esta e da seguinte historia, tudo extrahido -de uma de minhas cartas, que enviei de Maranhão, -á meos superiores, e como apenas esbocei-as, justo é que eu -as descreva minuciosamente.</p> - -<p>Estas sagradas agoas do baptismo não estagnaram na ilha, -pois atravessando a corrente forte e impetuosa do mar, sem -com elle misturar-se, passaram ás terras firmes de <i>Alcantara</i> -e <i>Comã</i>, que despertadas por seo doce sussurro acolheram -bem os espiritos d’aquelles, que Deos tinha escolhido -para si, e pelo bom gosto d’ellas procuraram indagar-lhes -a origem, maravilha, que não pode ser descripta como -merece, pois á força d’estas agoas venceo incomparavelmente -a actividade do azougue, chamando a si todos os pedaços -de oiro espalhados por diversos lugares, isto é, as almas -inspiradas por Deos em <i>Tapuitapera</i> e <i>Comã</i> vinham á -Maranhão onde tinha assentado seos alicerces a salvação d’este -paiz.</p> - -<p>Quem poderia dizer o grande numero de pessoas, que nos -vinham visitar para aprender alguma coisa dos mysterios da -nossa fé?</p> - -<p>Na verdade ninguem, mas para contentar o leitor e dar-lhe -alguma ideia direi, que não havia um só dia, em que -não recebesse novos visitadores e as vezes chegavam a 100 -e a 120: eis a razão porque não podia deixar facilmente o -Forte, e ir ás aldeias á meo cargo ministrar o pasto espiritual.</p> - -<p>Muitos d’estes selvagens de diversas idades se me apresentaram -pedindo o baptismo, o que eu difficultava, e somente<span class="pagenum"><a id="Page_218"></a>[218]</span> -concedia aos que julgava, por algum acto extraordinario, -enviados por Deos para tal fim.</p> - -<p>A razão porque apresentavamos essas difficuldades ja o -disse, por vir da incertesa do soccorro, e do temor em que -estavamos de baptisar todos os que nos pediam, e depois -deixal-os sem coadjutores, pelo que poderiam cahir em peior -estado do que se achavam anteriormente.</p> - -<p>Não deixavamos comtudo de trazel-os esperançados, e -aproveitavamos a occasião de instruil-os no conhecimento e -amor do Omnipotente até á vinda dos novos padres, que os -acharam promptos para satisfazer suas vontades.</p> - -<p>Entre os que foram inspirados vivamente pelo Espirito -Santo, e que por isso baptisamos havia um indio de <i>Tapuitapera</i>, -principal n’uma aldeia antiga d’esta provincia, chamada -<i>Marentin</i>, sempre grande amigo dos francezes, de -boa indole, modesto, de poucas fallas, olhos sempre voltados -para terra, tido outr’ora entre os seos por afamado barbeiro -ou feiticeiro, tendo n’elle muita fé os doentes.</p> - -<p>Contou-me elle e depois muitos outros, que era christão, -e quando exercia a sua arte de barbeiro era visitado por -muitos espiritos folgazões, que brincavam diante d’elle, -quando embrenhava-se nos mattos, tomando diversas cores, -sem lhes fazer mal algum antes até tornando-se seos intimos: -achavam-se porem na duvida si eram espiritos bons -ou maos: tal era a sua crença n’estes espiritos bons ou -maos.</p> - -<p>Conforme o costume tinha tres mulheres, antes de ser -christão.</p> - -<p>Aconteceo porem, que inexperadamente viesse com muitos -selvagens, seos similhantes, de <i>Tapuitapera</i> para vêr não -só a nós como tambem as ceremonias, com que serviamos -a <i>Tupan</i>.</p> - -<p>Achando-se no <i>Forte de S. Luiz</i>, vio na manhã do dia -seguinte (que era domingo) os francezes vestidos com suas -boas roupas, acompanhando seos chefes em caminho para a<span class="pagenum"><a id="Page_219"></a>[219]</span> -nossa casa de S. Francisco afim de ouvirem missa. Após -estes iam os selvagens, o que o animou a seguir o prestito, -especialmente pelo desejo e intenção, que tinham, ha muitos -annos de aproximar-se de nós.</p> - -<p>A Capella de Sam Francisco encheo-se logo de francezes, -de selvagens christãos, e não christãos, que tinham todos -especial devoção de receber em si algumas gottas de agoa -benta.</p> - -<p><i>Marentin</i>, observando a pressa de todos, alcançou como -poude o canto de uma porta, trepou-se n’um banco, que -ahi achou para ver á sua vontade tudo quanto eu fazia.</p> - -<p>Apenas pisei nos degraos do altar, voltei-me afim de saudar -a todos, e descobrindo este selvagem acudio ao meu espirito -a esperança de salval-o.</p> - -<p>Contou depois, como prestou attenção a todas as ceremonias, -que fiz na celebração do alto e profundo mysterio da -Missa, e desejou saber porque me revesti de alva branca, -liguei a cintura, deitei o manipulo no braço, e a estolla no -pescoço: aproximei-me á direita do altar, onde me apresentaram -um vaso com agoa e sal, sobre o qual pronunciei -algumas palavras fazendo muitos signaes da Cruz; levantaram-se -os francezes, me respondiam cantando, e tendo eu -um ramo de palma na mão o mergulhei n’agoa deitando -algumas gottas no altar, depois sobre mim, e levantando-me -fui aspergir os francezes começando pelos chefes e acabando -pelos que estavam na porta da Igreja, chegando tambem -para esse fim os selvagens não christãos, na convicção de -que lhes serviria contra <i>Jeropary</i>, desceo elle mesmo do -banco, rompeo a multidão para receber tambem algumas -gottas d’agoa benta, o que conseguio.</p> - -<p>Não gosou logo esta gotta de celeste orvalho, porque as -cantharidas peçonhentas e venenosas cahiram sobre as flores -de sua alma entre-abertas, porem as abelhas industriosas -de inspirações divinas vieram reunir ahi o doce mel -da raça christã, porque regressando ao seo lugar agachou-se -atraz dos outros, dormio, e durante o seo somno vio o<span class="pagenum"><a id="Page_220"></a>[220]</span> -Ceo aberto, e para elle irem subindo muitas pessoas vestidas -de branco, e atraz d’ellas muitos <i>Tupinambás</i> a medida, -que eram por nós baptisados.</p> - -<p>Disseram-lhe na visita que as pessoas vestidas de branco -eram <i>Caraybas</i>, isto é, francezes ou christãos,<a id="Nanchor_94" href="#Note_94" class="fnanchor">[94]</a> conhecedores -de Deos e do baptismo desde a mais remota antiguidade, -e que os selvagens, que os acompanham, eram lavados -por nós, e acreditam em Deos, em nossas palavras e de -nossas mãos recebiam o baptismo.</p> - -<p>Despertando, não disse palavra, porem ficou muito pensativo -e melancolico, e assim embarcou, e foi para a sua -terra.</p> - -<p>Chegando a sua casa todos o desconheceram, e lhe perguntaram -o que sentia, e si havia recebido alguma desfeita -dos francezes em <i>Yviret</i>.</p> - -<p>Sem dar resposta alguma de dia para dia mais se entristecia, -fugia da companhia de seos similhantes passeando só -em suas roças e bosques, onde foi accommettido por estes -espiritos loucos, cahindo depois tão gravemente doente a -ponto de chegar ás portas da morte, sempre afflicto pela -visão, que vira em <i>Yviret</i>, e pelos espiritos de que já -fallei.</p> - -<p>Finalmente ouvio uma voz interior dizendo-lhe que se quizesse -livrar-se de tál afflicção e molestia, e ir com Deos para -o Ceo convinha, antes de morrer, lavar-se com essa agoa, -que cahio n’elle quando esteve na casa de <i>Tupan</i> em -<i>Yviret</i>.</p> - -<p>Obedecendo a esta voz, em madrugada alta, mandou um -seo irmão ter comnosco, e pedir-nos por intermedio do chefe -dos francezes, cuja intervenção invocou, um pouco d’agoa de -<i>Tupan</i>, n’uma porção de algodão, guardada n’um <i>caramémo</i>,<a id="Nanchor_95" href="#Note_95" class="fnanchor">[95]</a> -afim de não se perder uma só gotta para lavar sua -cabeça, e ir assim lavado para o Ceo.</p> - -<p>Cumprio a ordem o enviado, dando seo recado ao Sr. de -Pezieux, bom catholico, que se admirou, bem como o Sr. de -Ravardiere e outros.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_221"></a>[221]</span></p> - -<p>O Sr. de Pezieux mandou-me este homem, com um interprete, -para me dizer o fim de sua vinda que muito me maravilhou -vendo n’um selvagem tão grande fé, misturada com -temor, respeito e humildade.</p> - -<p>Quiz ir logo ter com elle, porem não pude, porque, como -ja disse, de todas as partes vinham diariamente muitos selvagens -procurar-me, e nem foi possivel mandar-lhe o Rvd. -padre Arsenio porque estava occupado em outro logar, e -por isso mandei-lhe um francez proprio e capaz para fazer-lhe -companhia, cuidar na sua salvação e baptisal-o, sem ceremonia, -no caso de receio de morte.</p> - -<p>Chegando á sua casa o francez com o irmão de Marentin, -disse-lhe que eu não podia deixar a ilha, e nem o Forte de -Sam Luiz por causa dos muitos selvagens, que me vinham -procurar, mas que elle vinha em meo logar afim de o baptisar, -antes de morrer, no caso d’estar tão doente á ponto -de não poder ir á ilha para ser baptisado por nossas mãos.</p> - -<p>Ouvindo isto recobrou forças e actividade, e disse, «visto -que a coisa é assim, não quero ser baptisado por um <i>Caraiba</i>, -e sim pelas mãos dos padres,» e nem deixou de levantar-se -(embora doente e fraco a ponto de não poder estar -em pé senão com muito custo) na manhã seguinte, de -embarcar-se e vir procurar-me no <i>Forte</i>, expondo-me o seo -grande desejo de ser filho de Deos e baptisado, e de apagar -as visões, que tinha na cabeça.</p> - -<p>Respondi-lhe que era necessario aprender a doutrina christan -o mais cedo que podesse, deixando muitas mulheres, e -contentando-se apenas com uma.</p> - -<p>Eram estas as duas coisas, que, entre outras, exigiamos -dos adultos.</p> - -<p>Replicou-me, que em quanto a pluralidade de mulheres -foi coisa, que nunca approvou, e que achava de razão um -homem ter uma mulher só, mas que em beneficio de sua -casa necessitava de muitas.</p> - -<p>Disse-lhe que podia ter muitas mulheres como servas, e -não como esposas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_222"></a>[222]</span></p> - -<p>Concordou n’isto facilmente, e cheio de bons desejos em -poucos dias aprendeo a doutrina christan e pedio-me, que -eu o instruisse, antes de ser baptisado, das ceremonias que -com tanta attenção vio no primeiro dia, em que foi tocado -pelo espirito de Deos.</p> - -<p>Disse-lhe que Tupan era um grande Senhor, sempre comnosco -embora não seja visto, devendo ser servido com profunda -reverencia, com ornatos e vestidos diversos do ordinario.</p> - -<p>Expliquei-lhe que o primeiro vestido branco, que me vio -tomar, significava tres coisas: 1.º a innocencia e puresa, -com que deviamos apparecer diante d’elle; 2.ª o vestido de -sua humanidade, proveniente do sangue de uma virgem, de -quem fallava com os homens: 3.ª para representar o vestido -de zombaria, que lhe deram seos inimigos quando quiz -por nós soffrer, ameaçando-lhe de o fazer padecer o que quizessem, -embora tivesse elle o poder de impedil-os em suas -intenções.</p> - -<p>Disse-lhe, que a corda com que apertei a cintura, e essas -tiras de seda, que puz no braço e no pescoço representavam -os ornamentos, que deviamos dar á nossa alma para -ser agradavel a Deos: a corda quer dizer—continencia de -mulheres, a tira do braço—o bem, que devemos fazer ao -proximo, e a do pescoço, onde é costume trazer-se collares -e aderesses,—o amor e a perseverança na nossa profissão, -que tudo isto junto faz lembrar as cordas com que foi preso -o Salvador.</p> - -<p>O outro vestido de seda, que puz por cima de tudo isto, -mostra o zelo ou a salvação das almas, que devemos procurar, -não nos contentando só de ir para o Ceo, mas fazendo -tudo quanto pudermos para que nos acompanhem nossos -similhantes.</p> - -<p>Significa tambem o segundo vestido a vestimenta de zombaria, -que foi dado a Nosso Senhor em sua Paixão.</p> - -<p>A respeito da agoa e do sal, sobre que pronunciei algumas -palavras, expliquei-lhe que eu o fiz para dar a agoa o<span class="pagenum"><a id="Page_223"></a>[223]</span> -poder, da parte de Deos, de expellir o diabo do lugar e -das pessoas, em que estivesse, e que a aspersão, que eu -fazia com a palma sobre os francezes era para expellir o -diabo, que andava ao redor d’elles, e que o canto, que -elles entoavam em quanto eu lhes lançava agoa benta, era -uma supplica a Deos para purifical-os de seos peccados.</p> - -<p>Perfeitamente instruido de todas estas coisas, concordamos -baptisal-o no dia da festa da Santissima Trindade.</p> - -<p>Para seo padrinho escolheo o Sr. de Pezieux, e no dia -aprazado vestiram-no com uma roupa de algodão bem alvo -em respeitosa homenagem ao Sacramento, que ia receber, -isto é, a innocencia e candura baptismal conferida sob a -invocação das tres pessoas da Santissima Trindade.</p> - -<p>Grande numero de selvagens, principalmente de <i>Tapuitapera</i>, -assistiram a este baptismo, o que lhes fez grande impressão -no espirito, vendo este homem, seo similhante, respeitado -por elles tanto por suas antigas feitiçarias, como por -sua autoridade e idade, receber, como si fosse menino, sobre -sua cabeça a agoa de Jesus Christo.</p> - -<p>Querendo aproveitar tão boa occasião pedi aos francezes -que abrissem caminho para que de mim se aproximassem -os primeiros e os principaes selvagens, que ahi se -achassem, aos quaes dirigi a palavra por meio do interprete.</p> - -<p>«Todos os dias, meos amigos, vedes em vossa terra os -passaros seguirem uns aos outros, de forma que quando uns -levantam o vôo, todos os outros os acompanham.</p> - -<p>«Sabeis tambem que os javalys caminham em grande companhia, -sem que um só delles se desvie dos passos dos primeiros.</p> - -<p>«Por experiencia conheceis que os <i>Paratins</i>, isto é, os -peixes chamados—sargos—no mar andam sempre em grandes -bandos seguindo seos conductores, de tal fórma que -vindo os primeiros ao encontro de vossas canôas, quando -ides pescar, imitam-nos os outros cahindo dentro dellas e assim -apanhaes vós grande quantidade d’esses peixes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_224"></a>[224]</span></p> - -<p>«O que é isto? O exemplo dos similhantes. A naturesa -implantou em tódas as creaturas vivas e intelligentes o desejo -d’imitação de coisas similhantes, conforme as differentes -especies.</p> - -<p>«Observae agora este homem vosso similhante e principal, -que si fez filho de Deos.</p> - -<p>«Bem sei que trazei-nos vossos filhos, porem pensam alguns -de vós que não são capazes, por velhos, de receberem -o baptismo: é um engano, porque, como vossos filhos, podeis -ser baptisados, e ir para o Ceo. Vêde diante de nós -este homem que vou baptisar, que me prometteo de ensinar -os que o quizessem ouvir. Abri os ouvidos para ouvil-o.»</p> - -<p>Dito isto, mandei ajoelhar-se nos degraus do altar, e recitar -em vóz alta e clara na sua lingua, e de mãos postas a -doutrina christã, que para diante será encontrada em lugar -proprio.</p> - -<p>Comecei depois as ceremonias do baptismo, observadas -com muita attenção por todos os selvagens, recebendo o -nome de Martim Francisco, lembrado por seo padrinho por -tal ou qual semelhança com o seo antigo nome de <i>Marentin</i>, -fazendo assim geralmente conhecido pelos selvagens tal -conversão.</p> - -<p>Acabado isto, mandei-o sentar junto de seo Padrinho, e -comecei a celebração da missa, que ouvio com toda a devoção, -de mãos postas, e na occasião de levantar-se a -Hostia ajoelhou-se, como os outros, recitou a oração dominical -e o credo em quanto vio os francezes tambem de -joelhos.</p> - -<p>Passados alguns dias quiz regressar á sua aldeia, tendo -alcançado a saude do corpo e da alma, e despedindo de -nossos chefes e de mim, nós o mimoseamos com rosarios, -imagens, <i>Agnus Dei</i> e bentinhos.</p> - -<p>Recommendamos muito, que depois de orar a Deos, resasse -tambem para a Virgem Maria, Mãe de Jesus Christo, -recitando em sua lingua <i>Ave Maria</i> tantas vezes quantas<span class="pagenum"><a id="Page_225"></a>[225]</span> -fossem as contas do seo rosario, e a oração dominical tantas -quantas fossem as contas grandes.</p> - -<p>Tomou tal devoção com a Santissima Mãe de Deos que -trazia sempre ao pescoço o seo rosario, que beijava muitas -vezes, e quando queria orar a Deos elle o tirava e fazia o -que lhe ensinamos.</p> - -<p>Antes de partir disse-me que só tinha um filho, que me -traria no seo regresso para eu vel-o, e quando estivesse -instruido na doutrina christã, eu o baptisaria e elle o daria -aos Padres para ficar sempre com elles.</p> - -<p>Prometteo igualmente escolher uma das suas tres mulheres, -com certesa a mãe do seo filho, si ella quizesse ser -christã como elle, conservando as outras como servas.</p> - -<p>Bem compromettido com estas promessas, embarcou para -<i>Tapuitapera</i> em procura de sua aldeia e de sua casa.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_IV">CAPITULO IV</h3> - -<p class="subhead">Do que fez este christão em beneficio da instrucção -e conversão dos seos similhantes.</p> - -</div> - -<p>Nada ha mais bravio e mais difficil para domesticar-se do -que a phanthéra, ainda mais por ser de naturesa furiosa -para com os animaes das florestas, que ella ataca e despedaça -no primeiro encontro.</p> - -<p>Ao contrario, quando se sente grávida, torna-se mais favoravel, -exhala bom cheiro pelos poros do seo corpo, e muda -sua voz de cruel para branda, como que convidando os -outros animaes a seguil-a, o que fazem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_226"></a>[226]</span></p> - -<p>A nação dos <i>Tupinambás</i> era uma verdadeira panthéra, -cruel como nenhuma, segundo mostra o seo procedimento -devorando seos inimigos. Apenas appareceo a graça sobre -estas terras, mudaram em doçura sua crueldade; seos discursos -desesperados em salutares; seos cheiros putridos, -provenientes de seus fumeiros em outros agradaveis, approximando-se -aos de Jesus Christo, transbordando de amor -para com o proximo, desejando-lhe fazer o mesmo que elles -receberam, inspirados pela concepção espiritual das graças -de Deos no fundo de sua alma, como se lê nos <i>Canticos</i> I. -<i>Oleum effusum nomen tuum, idéo adolescentulæ dilexerunt -te nimis</i>: e pouco depois, <i>Trahe me post te, curremus -in odorem unguentorum tuorum</i>: «teo nome, ó -Salvador do Mundo, e o teo conhecimento é um balsamo -derramado, por cuja influencia e cheiro sentem-se as novas -almas cheias de teo amor, e todas se dedicam a adquerir-te.»</p> - -<p>Martinho Francisco entre os outros selvagens executou -esta doutrina, porque apenas chegou a aldeia principiou a -fallar a seos visinhos, e d’ahi caminhando para outras aldeias -da provincia de <i>Tapuitapéra</i>, sempre das grandezas -de Deos e das graças que elle recebeo. Apresentava sempre -aos olhos dos selvagens a desgraça dos seos antepassados, -que tinham fallecido nas crenças de <i>Jeropary</i>, e a felicidade, -que gozavam os que se baptisavam e se faziam filhos de -Deos.</p> - -<p>Taes conversas produziram effeito, muitos procuraram a -fonte de salvação para n’ella beber, e sugar o leite do peito -de Jesus-Christo, como elle o fez e se conta do Unicorne, -que procurando as agoas, distantes do veneno, por acaso foi -tocado até o coração pela suavidade do canto de uma joven -donzella<a id="Nanchor_96" href="#Note_96" class="fnanchor">[96]</a> deitada sob os ramos floridos das arvores da floresta, -o que livrou este animal de sua furia natural e o aproximou -do peito d’aquella que o commoveo.</p> - -<p>O Unicorne, grato e não avaro do bem recebido, desejoso -de que seos similhantes tambem o partilhem, vae procural-os<span class="pagenum"><a id="Page_227"></a>[227]</span> -no centro dos bosques, e por todas as sortes e gestos -convidam-nos a seguil-o afim de tomarem parte na sua felicidade.</p> - -<p>A joven donzella representa a esposa de Jesus Christo, a -santa igreja, seo canto harmonioso a prédica do Evangelho, -seo peito, onde são acolhidos os proprios animaes irracionaes, -a misericordia divina com todo o seo poder, as agoas -sem veneno, os sagrados sacramentos, o feroz Unicorne, os -infieis, e Martinho Francisco, por seos discursos e exemplos, -foi a primeira acquisição, seguida de muitas outras.</p> - -<p>Não se tinham passados seis mezes, e ja se experimentavam -grandes effeitos, porque tendo elle convertido e instruido -muitos habitantes de <i>Tapuitapéra</i> de todas as idades, -mandou-nos os mais instruidos e intelligentes ao Forte -de Sam Luiz para serem baptisados, o que fez, depois de os -reter comigo por algum tempo para experimental-os em -seos desejos.</p> - -<p>Augmentando-se diariamente o numero dos catecumenos -em <i>Tapuitapéra</i> foi necessario ahi ir o Rvd. padre Arsenio -para baptisar muitos d’elles, dignos d’essa graça tanto pelo -seo desejo, como pela sua instrucção christã.</p> - -<p>Tinha Martinho edificado uma Capella, e junto d’ella uma -casa, no meio de sua aldeia, com o auxilio dos outros christãos -e selvagens ahi residentes.</p> - -<p>Benzeo o padre a Capella, e tomou conta da casa, onde -foi vesitado e sustentado em quanto ahi esteve, por christãos -e selvagens.</p> - -<p>Depois que baptisou os que para isso julgou aptos, foi -vêr algumas aldeias da provincia, e o seo principal soberano, -e por toda a parte foi muito bem acolhido, manifestando -todos em geral o desejo de serem christãos, e de terem padres -em suas aldeias.</p> - -<p>Alcançou o bom homem Martinho Francisco nome honroso, -dado pelos habitantes de <i>Tapuitapéra</i> em recompensa -de seos trabalhos e fadigas para fazel-os christãos por ter<span class="pagenum"><a id="Page_228"></a>[228]</span> -sido entre elles o primeiro christão, e por saberem quanto -nós o estimavamos.</p> - -<p>Chamaram-no <i>Pai-miry</i>, «Padre pequeno ou o vigario dos -Padres,» e na verdade bem merecia tal nome, porque desde -que se fez christão nunca mais se descobrio n’elle vestigios -do antigo homem, ou os máos costumes dos selvagens. Era -grave, modesto, pouco fallador e raras vezes ria-se, e nada -fazia que parecesse ser contrario ao christianismo.</p> - -<p>Era este o regimen de vida que observava, e como mais -velho fazia observar aos outros christãos:</p> - -<p>1.º Pela manhã e á tarde reuniam-se todos na Capella: -levantava-se um d’elles, ajoelhavam-se outros, e depois dizia -um em seo idioma «<i>em nome do Pai, do Filho, e do -Espirito Santo</i>» e fazia o signal da Cruz, na testa, na bocca -e nos peitos, no que era pelos outros imitado: punha depois -as mãos, fixava a vista no altar, e recitava pausada e distinctamente -a oração dominical, o symbolo dos Apostolos, os -mandamentos de Deos e da Igreja, o que findo, si tinha alguma -advertencia a fazer aproveitava a occasião, sinão, recolhia-se -cada um á sua casa.</p> - -<p>2.º Viviam em commum quando se achavam juntos, e -para isso traziam o resultado de suas pescarias e caçadas -para serem igualmente dividido entre elles, e antes de comerem, -o mais velho recitava em sua linguagem o <i>Benedicite</i>, -fazendo o signal da Cruz sobre si, e sobre as iguarias: -tiravam todos o chapeo, faziam em si o mesmo signal e ninguem -tocava na comida antes de abençoada.</p> - -<p>Em quanto comiam não contavam coisas más ou que excitasse -o riso, como fazem os Tupinambás; porem o mais -velho dizia alguma coisa á respeito de Deos e da Religião.</p> - -<p>3.º Nunca iam aos <i>cauins</i> e reuniões, conforme costumavam -os <i>Tupinambás</i>: era um dos pontos principaes, que -Martinho Francisco gravava no coração dos convertidos, isto -é, que os <i>cauins</i> eram inventados por <i>Jeropary</i> para semeiar -a discordia entre elles, e fazer com que praticassem<span class="pagenum"><a id="Page_229"></a>[229]</span> -toda a especie de males os que os frequentassem, sendo impossivel -amar a Deos quem gostasse de <i>cauins</i>, porque, dizia -elle, quando descubro, que alguns dos meos similhantes -se retiram das <i>cauinagens</i>, agouro que bem depressa serão -christãos e vou procural-os; mas não tenho animo para -fazer o mesmo aos que frequentam taes orgias.</p> - -<p>O que elle dizia era verdade por ser horrivel espectaculo -vêr essas gentes em reuniões, parecendo antes congresso -nocturno de feiticeiros do que ajuntamento de homens.</p> - -<p>Achei-me apenas uma só vez n’estas reuniões para d’ellas -poder fallar, e nunca mais lá tornei.</p> - -<p>Via aqui uns deitados em suas redes vomitando com muita -força, outro caminhando ou marchando em diversos sentidos -com o juiso perdido pelo vinho, ali outros gritando, fazendo -mil tregeitos, estes dançando ao som do <i>maracá</i>, aquelles -bebendo com muito boa vontade, aquell’outros fumando para -mais se embriagarem, e o que ainda é peior, é estarem mulheres -e moças ahi misturadas parecendo bem difficil a presença -de Bacho sem Venus.</p> - -<p>Por minha vontade os francezes deviam fazer o que fizeram -os portuguezes, isto é, prohibir todas estas <i>cauinagens</i>: -os portuguezes, depois que habitaram algum tempo na India, -reconheceram, que um dos maiores embaraços para a propagação -do christianismo eram essas reuniões diabolicas, de -que procedem todas as discordias e desgraças entre os selvagens.</p> - -<p>4.º Vestem-se estes novos christãos o melhor que podem, -caminham todos juntos, não trazem flechas e nem arcos, -excepto quando vão á caça ou a pesca, contentando-se -em trazer um cacete de uma especie de ebano, negro ou -vermelho, com que se distinguem facilmente dos outros.</p> - -<p>Quando vão a outras aldeias, si encontram algum christão, -recolhem-se á casa d’elle, contentam-se com o que tem -e vivem sóbriamente como tanto convem a um christão.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_230"></a>[230]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_V">CAPITULO V</h3> - -<p class="subhead">De um Indio, condemnado á morte, que pedio o -baptismo antes de morrer.</p> - -</div> - -<p>Não se acreditaria, si a experiencia não o tivesse confirmado, -que vendo-se simplesmente por fora a concha de uma -ostra marinha coberta e suja de lama e lodo, que ella em -si ja tivesse uma perola preciosa digna de ser collocada no -gabinete dos principes.</p> - -<p>Quem poderá crer, que um selvagem iniquo, impuro, e -immundo, como não posso dizer, embora creia que o proprio -diabo, author de taes traças, se envergonhe d’isto, não -tenha inimisade e soberba contra o soberano, que o tira -d’isto?</p> - -<p>Quem poderá, digo eu, crer, que tal individuo, por determinação -da divina Providencia, fosse escolhido para o reino -do Ceo, e tirado d’esses abysmos infernaes, para receber (na -hora da morte, bem merecidas por suas torpezas) o sagrado -baptismo, que o lava de todas as máculas, e lhe proporciona -facil e franca entrada no Paraiso?</p> - -<p>Um pobre indio, bruto, mais cavallo do que homem, fugio -para o matto por ouvir dizer, que os francezes o procuravam -e aos seos similhantes para matal-os e purificar a terra de -suas maldades por meio da santidade do Evangelho, da candura, -da puresa, e da claresa da Religião Catholica Apostolica -Romana.</p> - -<p>Apenas foi apanhado amarraram-no, e trouxeram-no com -segurança ao Forte de Sam Luiz, onde deitaram-lhe ferros -aos pés: vigiaram-no bem até que chegassem os principaes -de outras aldeias para assistirem ao seo processo, e proferirem -sua sentença, como fizeram a final.</p> - -<p>Não esperou o prisioneiro pelo principio do processo, e -elle mesmo sentenciou-se, porque diante de todos disse, «vou -morrer, e bem o mereço, porem desejo que igual fim tenham -os meos cumplices.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_231"></a>[231]</span></p> - -<p>Terminado o processo e proferida a sentença, cuidou-se em -sua alma dizendo-se-lhe, que si elle recebesse o baptismo, -apesar de sua má vida passada, iria direito para o Ceo apenas -sua alma se desprendesse do corpo.</p> - -<p>Acreditou nossas palavras, e pedio o baptismo: para tal -fim veio o Sr. de Pezieux procurar-me em nossa casa de S. -Francisco em Maranhão, e conversando si devia ser eu quem -o baptisasse, resolvemos negativamente pelas seguintes razões:</p> - -<p>Pensavam os selvagens que nós outros padres eram pessoas -misericordiosas e compassivas, que expontaneamente -empregavamos nossos esforços perante os grandes para alcançar -a vida dos condemnados: que os grandes nos estimavam, -e nada nos negavam, e que, alem d’isto, nós prégavamos, -que Deos não queria a morte e sim a vida do peccador, -e que por isso tinhamos vindo aqui para dar essa -vida de forma que, si eu o baptisasse publicamente, antes -d’elle morrer, teria satisfeito muitos caprichos d’estes espiritos -debeis e incapazes a respeito da opinião, que formavam -de nós e que seria muito prejudicial a nossas intenções -dando alem d’isso causa a varias murmurações dos selvagens, -que diziam—«si os padres gostam da vida, porque -deixam este christão ir morrer? Si amam tanto os christãos -porque não amam este? Si os grandes nada lhes negam, -porque não pedem a vida d’este?»</p> - -<p>Por tudo isto, e por outras razões, que omitto, decidimos -ser conveniente e necessario, que eu não o baptisasse. -Roguei pois ao dito senhor que, depois de instruil-o pelos -interpretes, o baptisasse antes de ir ao supplicio, sem as ceremonias -da igreja o que se prestou e cumprio.</p> - -<p>Recebeo, com tranquilidade e sem tristeza, na presença -dos principaes selvagens o baptismo, depois do que um dos -Principaes, chamado <i>Karuatapiran</i> «Cardo vermelho,» de -quem ainda fallarei, lhe disse estas palavras:</p> - -<p>«Tens agora occasião de estares consolado e de não te -affligires, pois presentemente és filho de Deos pelo baptismo,<span class="pagenum"><a id="Page_232"></a>[232]</span> -que recebeste da mão de <i>Tatu-uaçu</i> (nome do Sr. de Pezieux -em sua lingua) com permissão dos Padres. Morres por -teos crimes, approvamos tua morte, e eu mesmo quero pôr -o fogo na peça para que saibam e vejam os francezes, que -detestamos tuas maldades; mas repara na bondade de Deos -e dos Padres para comtigo, expellindo Jeropary para longe -de ti por meio do baptismo de maneira que apenas tua -alma sahir do corpo vae direita para o Ceo vêr <i>Tupan</i> e -viver com os <i>Caraibas</i>, que o cercam: quando <i>Tupan</i> mandar -alguem tomar teo corpo, si quizeres ter no Ceo os cabellos -compridos e o corpo de mulher antes do que o de -um homem, pede a <i>Tupan</i>, que te dê o corpo de mulher -e resuscitarás mulher, e lá no Ceo ficarás ao lado das mulheres -e não dos homens.»</p> - -<p>Desculpareis este pobre selvagem, não christão e nem cathecumeno, -fallando da Resurreição. Elle nos ouvio ensinar -que n’um dia resuscitariam todos os homens, regressando -cada alma do lugar em que estava para occupar o seo corpo, -acrescentando o que pensou ser indifferente á Resurreição, -isto é, que uma alma recebe um corpo de homem -ou de mulher, no que se enganou não se deixando em pé -tal ideia falsa, pois elle e o paciente foram instruidos da -verdade: julguei acertado referir aqui simplesmente o que -se passou para que o leitor reconheça sempre quanto sou -fiel em minhas descripções, como ja disse, e provarei sempre -nos discursos, que ainda hei de transcrever.</p> - -<p>Este infeliz condemnado recebeo as consolações de muito -boa vontade, e antes de caminhar para o supplicio disse aos -que o acompanhavam: «vou morrer, não mais os verei, não -tenho mais medo de <i>Jeropary</i> pois sou filho de Deos, não -tenho que prover-me de fogo, de farinha, de agoa, e nem -de ferramenta alguma para viajar alem das montanhas, -onde cuidaes que estão dançando vossos paes. Dae-me porem -um pouco de <i>Petum</i> para que eu morra alegremente, -com voz e sem medo.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_233"></a>[233]</span></p> - -<p>Deram-lhe o que elle pedio, á similhança dos que vão -ser justiçados, aos quaes tambem se dá pão e vinho, costume -não d’agora, e sim desde a mais remota antiguidade, -pois então se offerecia aos criminosos vinho com myrrha e -opio para provocar o somno dos pacientes.</p> - -<p>Feito isto, levaram-no para junto da peça montada -na muralha do Forte de S. Luiz, junto ao mar, amarraram-no -pela cintura á bocca da peça, e o <i>Cardo vermelho</i> -lançou fogo á escorva, em presença de todos os -Principaes, dos selvagens e dos francezes, e immediatamente -a bala dividio o corpo em duas porções, cahindo -uma ao pé da muralha, e outra no mar, onde nunca mais -foi encontrada.</p> - -<p>Quanto a sua alma, é de crer que os anjos a levassem -ao Ceo, pois morreo logo depois de haver recebido -as agoas do baptismo, certesa infallivel da salvação d’aquelles, -a quem Deos concedeo tal graça, não pequena -e nem commum, porem tão rara como o arrependimento -do bom ladrão na Cruz, que tendo vivido sempre desregradamente -até chegar áquelle logar, recebeo comtudo -esta promessa de Jesus Christo—<i>Hodie mecum eris in -Paradiso</i>, «hoje estarás commigo no Paraiso»: outro tanto -podemos dizer d’esse infeliz e desgraçado indio, que nos -deo tão bella occasião d’admirar e de adorar os juizos de -Deos.</p> - -<p><i>Karuatapiran</i>, o algoz, com gestos e palavras mostrava -grande contentamento e alegria perante os francezes -por haver recebido tal honra, que apreciava muito -mais do que as que sua Nação cheia de abusos dá aos que -publicamente matam os prisioneiros, sendo essas consideradas -as maiores existentes entre elles, e um favor não -pequeno aos mancebos, quando escolhidos para tal fim, -pois é uma especie de accesso de grandeza para ser um -dia Principal.</p> - -<p>Por tudo isto o grande <i>Karuatapiran</i> exaltava-se d’este -seo feito e d’elle se servia para se fazer timido dizendo<span class="pagenum"><a id="Page_234"></a>[234]</span> -por todas as aldeias por onde andava, o que tinha feito, -asseverando ser irmão dos francezes, seo defensor e exterminador -dos maus e dos rebeldes.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_VI">CAPITULO VI</h3> - -<p class="subhead">Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens, -quando nos vinham vêr, para chamal-os -ao conhecimento de Deos e á obediencia -de nosso Rei.</p> - -</div> - -<p>O meio pelo qual outr’ora os Athenienses chamavam os -povos ao conhecimento da Philosophia, e á obediencia de -uma Republica, era representado pelo simulacro do seo -<i>Palladium</i>, que fingiam ser trazido do Ceo, e por elles collocado -no lugar mais alto de sua cidade.</p> - -<p>Tal era o idolo de Pallas, armado dos pés até a cabeça, -correndo de sua bocca raios de mel, que cahiam sobre seos -ouvintes e expectadores, produzindo-lhes doce somno.</p> - -<p>Ensinaram os Druidas a mesma coisa aos Gaulezes levantando -a estatua de Hercules no frontespicio de seos Templos, -tendo na sua cabeça a cabeça de um leão, e nas espaduas -a clava de suas victorias, sahindo de sua bocca uma -especie de hera, porem de oiro, que prendia pelas orelhas -homens e mulheres, moços e velhos afim de attrahil-os a -si.</p> - -<p>Com isto queriam os Athenienses e os Gaulezes dizer, -que os homens são attrahidos pela doçura e pela razão á -obediencia das leis divinas e humanas, na qual se conservam<span class="pagenum"><a id="Page_235"></a>[235]</span> -por meio das armas, sustentadas pelos soberanos para -a conservação dos seos vassallos.</p> - -<p>O primeiro d’estes dois fins nos pertencia desde que Sua -Magestade e os nossos Padres nos remetteram para cá á fim -de chamarmos ao conhecimento de Deos estas pobres almas -selvagens, que, antes de começarmos a cathequisal-as, reconhecemol-as -anciosas por doçura, e por isso combinamos -pautar por ella nossas palavras e acções, com que sempre -nos démos muito bem.</p> - -<p>Já tinha lido no cantico primeiro, que entre os ornamentos -dados por Jesus Christo á sua Igreja, a mansidão e a -clemencia para com os peccadores e infieis era um dos primeiros -deveres conforme estas palavras: <i>Murenulas aureas -faciemus tibi vermiculatus argento</i> «nós te faremos -collares de oiro, torcidos como pequenas lampreias, esmaltadas -de fios de prata em forma de vermesinho para mais -fazer realçar a bellesa do oiro.»</p> - -<p>Dizem os Septenta—<i>Simulachra auri faciemus tibi, cum -vermiculacionibus argenti</i>; «nós te faremos pequenas estatuas -de oiro fino, esmaltadas de fio de prata do feitio de -vermesinhos.»</p> - -<p>Accrescenta Rabbi Jonathas que taes eram as taboas de -Saphira, em que estavam gravados os mandamentos da lei -de Deos porque a luz da gloria do Doador dava á saphyra -diaphana a côr de oiro, e a escripta gravada em linha pelo -dedo de Deos formava o esmalte em pequenas lampreias -ou vermes da terra.</p> - -<p>Quem não diria que ha intelligencia entre estas ceremonias -divinas e as dos Athenienses e Gaulezes, visto significar-nos -umas e outras, por meio de estatuas e cadeias de -oiro, a força e o poder da doçura para subjugar as almas -mais barbaras á obediencia das leis de Deos.</p> - -<p>Não é sem rasão, que Jesus Christo ornou os collares de -oiro de sua esposa com figuras de vermes da terra, e de -pequenas lampreias, visto que elle mesmo se fez verme<span class="pagenum"><a id="Page_236"></a>[236]</span> -para chamar a si os vermes, e misturou-se com a terra -para se juntar com os vermes, que ahi achasse.</p> - -<p>Assim como as lampreias não repellem as serpentes por -que podem causar medo com o veneno, que estas vomitarem, -assim tambem Jesus Christo não despresa os homens, -pobres serpentes, comtanto que estes se despojem do seo -veneno.</p> - -<p>Si o Mestre fez isto, o que devem fazer os obscuros discipulos -de Sua Magestade?</p> - -<p>Quem se offerece a servir a Deos na conversão dos selvagens -deve modelar suas palavras e acções pela doçura, -de que sempre usou Jesus Christo na terra.</p> - -<p>Eram estes os artigos de nossas conferencias com os selvagens.</p> - -<p>1. Procuravamos convencel-os, que eramos seos amigos, -e amigos fieis, mais que seos paes, mães, e outros parentes, -dizendo-lhes estas e outras palavras <i>pera-uçu</i>, <i>pare koroyco</i> -«somos vossos amigos, vossos intimos.»</p> - -<p>Com taes expressões alegraram-se muito, e cheios de confiança -vinham conversar comnosco a ponto de tornarem-se -importunos, não nos permittindo descanço algum, e só nos -olhando e observando até os nossos menores gestos.</p> - -<p>Vou dar-vos alguns exemplos.</p> - -<p>Um dia de paschoa, depois do serviço, ao qual assistiram -muitos selvagens, tanto de <i>Tapuitapera</i> como da <i>Ilha</i>, quiz -recolher-me para meditar no sermão, que devia prégar depois -do jantar, e para isto mandei fechar as portas de nossa -casa para que ninguem entrasse durante esse pouco tempo -até a hora da prédica, porem os selvagens impacientes, para -entrarem, rodeiaram a casa duas ou tres vezes buscando -uma abertura, e afinal quebraram algumas estacas e por -ahi passaram.</p> - -<p>Mostrei-lhes má cara significando o meo descontentamento -pelo que haviam feito, e lhes perguntei porque eram tão importunos?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_237"></a>[237]</span></p> - -<p>Responderam-me «porque tinhamos vontade de te vêr, e -fallar comtigo livremente, na ausencia dos francezes, e para -esse fim viemos de proposito». Á vista d’isto não tive outro -remedio senão atural-os.</p> - -<p>Quando eu orava sosinho na nossa Capella, com as portas -fechadas, rompiam o panno de Guiné, com que forramos -a Igrejinha para vêr o que fazia eu ajoelhado defronte -do Altar, e diziam uns para os outros <i>ygneém Tupan</i> -«falla com Deos», e d’ahi não sahiam em quanto eu -rezava.</p> - -<p>Para livrar-me d’estas importunações mandei construir -uma cerca ao redor da nossa casa e Capella de S. Francisco, -muito forte, e entremeiada com ramos de palmeira -espinhosa, assim conhecida por ter espinhos maiores do que -o comprimento de um dedo, e embora tudo isto achavam -meios de entrar e de me procurarem.</p> - -<p>Ao escrever isto recorda-me o dito de Antalcide, escripto -por Plutarcho no tratado dos <i>Apophtegmas Laconicos</i>, «quem -quizer ganhar a amisade dos homens, deve ter na lingua um -regato de mel, e nas mãos muitos fructos» isto é—palavras -doces e serviços conforme ás palavras.</p> - -<p>Mais não podiamos fazer para com estes selvagens do que -captarmos sua amisade por palavras doceis, e fazer-lhes conhecer -a Deos e os sacramentos da Igreja, unicos fructos da -Paixão de Jesus Christo.</p> - -<p>Ælian, no livro 14 de suas <i>Historias diversas</i>, disse, que -«Epaminondas se admiraria muito se sahisse do seo palacio -para misturar-se com o povo, e não adquirisse um novo -amigo para juntal-o aos seos amigos.»</p> - -<p>Não nos seria necessario ir a 200 e nem a 300 legoas afim -de conquistar novos amigos para Jesus Christo, porque viriam -por si mesmos offerecer-se para isso.</p> - -<p>Gelius no livro 1º cap. 3º conta, que Pericles, um dos -grandes do Areopago de Athenas, terminava a amisade dos -homens junto aos altares dos Deoses, porem nunca fallou da<span class="pagenum"><a id="Page_238"></a>[238]</span> -amisade divina entre Deos e os homens, estabelecida e enraisada -sobre os altares, porque pagão, como era, não podia -comprehender a força e o vigor de tal amor, similhante -ao do proprio centro, onde cada creatura tem o destino de -viver e descançar.</p> - -<p>O poderoso rei Darius recebeu em presente de um seu -amigo uma bella romã, que partio ao meio, e admirando a -bellesa e o numero dos seos grãosinhos disse aos que com -elle estavam—por minha vontade eu teria tantos Zopiros, -(nome do seo mais intimo amigo) quanto ha de grãos n’esta -romã.</p> - -<p>Não foi pequena graça, e nem pequeno privilegio, que -Deos fez á Ordem Seraphica de São Francisco dando-lhe a -faca da palavra para abrir o pomo ainda inteiro e fechado -das terras de Maranhão afim de apresentar a Jesus Christo -milhões de almas, não só para com Elle se conciliarem, mas -tambem para um dia lhe serem fieis esposas.</p> - -<p>Deos inspirou a Salomão, no liv. 4º dos Reis, cap. 29, -fazer os capiteis das columnas com arame, semeiado de romãs, -indicando assim a missão do Evangelho para com as -nações infieis, servindo para agarrar os peixes fugitivos por -meio de uma eloquencia docil, e as romãs para ligal-os e -unil-os pelo amor de Jesus Christo ao resto dos fieis, não -havendo nada mais forte para obter o accordo que o proprio -amor.</p> - -<p>Eis a razão porque julguei ser absolutamente necessario -fazer conhecer a estes selvagens, que nós os amavamos terna -e infinitamente, que lhes offereciamos nossas pessoas e -bens, dizendo-lhes <i>ore-mae pémareamo</i> «tudo o que temos -é vosso.»</p> - -<p>Por isto quando tinhamos muitos peixes, o que acontecia -ordinariamente, lhes davamos todos, especialmente aos -<i>Tabajares</i>, recem-chegados á <i>Ilha</i>, ainda necessitados de -tudo, por não terem feito roças, especialmente os nossos -visinhos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_239"></a>[239]</span></p> - -<p>2.º Nós lhes expunhamos os fructos e os emolumentos, -que deviam esperar de nossa amisade, isto é, reforma em -sua vida, conhecimento do verdadeiro Deos, defesa do -nosso rei contra seos inimigos, o qual não deixaria de enviar-lhes -homens e armas conforme necessitassem. <i>Pe moé -Koroiut, pere Koramrecé: Tupan mombe-ouane koroiut -peam: yande mogna gare, rhé, opap katu, ahé maé -mognan. Yangaturan: yandé renonde vuac ueriko: ahé -gneem rupi yané rekormé. Pepusurom peamo tareumbare -soiy yauaeté oreru vichaue: Pepusurum okat araia -oboure uaia pepusurô anuam</i>; quer isto dizer—«Nós vos -ensinamos a viver mais para a vossa felicidade: queremos -ensinar-vos o verdadeiro Deos, creador do universo, infinitamente -bom, e que nos prometteo o Ceo si n’esta vida -fizermos o que elle diz. Viemos defender-vos de vossos inimigos. -Nosso rei, que é forte e poderoso, vos dará sempre -soccorro de armas e de homens.»</p> - -<p>Prestavam muita attenção ao que diziamos, e nos respondiam -que os francezes sempre os haviam auxiliado; que tinham -vindo agora por ordem do rei para tiral-os das cadeias -de <i>Jeropary</i>, que não duvidavam aprender grandes -coisas á respeito de Deos, especialmente quando ja soubessemos -sua lingua, porque os interpretes, diziam elles, não -fallam como vós á Deos. Não nos podem dizer outra coisa, -porem se fallasseis comnosco vós nos dirieis o que Deos vos -disser. Nossos filhos serão mais felizes do que nós, porque -comvosco aprenderão a lingua francesa, como nos promettestes, -e assim terão mais conhecimento de Deos do que nós, -que ja somos velhos.</p> - -<p>Nós o que temos feito é correr e andar errantes pelos bosques -adiante dos <i>Peros</i><a id="Nanchor_97" href="#Note_97" class="fnanchor">[97]</a> tendo por alimento apenas raizes -de arvores. Nossos filhos estarão seguros contra seos inimigos, -os francezes se unirão á nossas filhas, e nossos filhos ás -filhas dos francezes, e assim seremos parentes: ficareis comnosco, -em nossas aldeias, e sereis nossos padres <i>Tupan</i> os -amará, e <i>Jeropary</i> nada poderá contra elles. Haverá abundancia<span class="pagenum"><a id="Page_240"></a>[240]</span> -de viveres e nunca se sentirá falta de mercadorias -francezas.</p> - -<p>Oh! quanto serão felizes! porem nós não veremos estas -coisas.</p> - -<p>O imperador Vespasiano e tambem Domiciano, quando entravam -n’um paiz novo para ahi estabelecer Colonias Romanas, -tinham por costume mandar fundir em bronze a Fé e -os seos fructos, que publicamente promettiam a todos, representando -uma dama, que estendia a mão direita, symbolo -da Fé, trazendo na esquerda a cornucopia da abundancia, -cheia de toda a especie de fructos, e tinham este mesmo -carimbo o dinheiro, que ahi faziam correr assegurando por -esta fórma a sua fidelidade para com estes povos, de que -resultaria muitos bens e commodidades á sua nação.</p> - -<p>Tomae, se quizerdes, por esta dama a Santa Igreja entrando -pela primeira vez n’estas terras barbaras, estendendo sua -mão direita para prometter aos seos habitantes a fé de Jesus -Christo, seo esposo, e a fidelidade de seos sectarios, que -não se poupam a trabalhos, e arriscam até a propria vida -para ajudal-a na salvação d’ellas.</p> - -<p>Os fructos, que ella lhes offerecia, eram os sacramentos, -o conhecimento de Deos e das coisas divinas.</p> - -<p>Tomae tambem, si quizerdes, por esta mesma Dama, a -França plantando pela primeira vez seos lyrios n’estas regiões -e paizes do Brazil, dando com a mão direita a segurança -de defender e conservar estes selvagens obedientes á -sua corôa, e com a esquerda os fructos provenientes do -commercio entre ella e o Brazil.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_241"></a>[241]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_VII">CAPITULO VII</h3> - -<p class="subhead">Formulario da doutrina christã, que aprendiam e -recitavam de cór, antes de serem baptisados.</p> - -</div> - -<p>No Levitico 1.º, e em outro lugar lemos, que antes da -victima escolhida ser levada ao altar devia aquelle, que a -apresentava, pôr suas mãos na cabeça entre os cornos.</p> - -<p>Accrescentam outros, que esses cornos eram enfeitados -de flores de junco marinho, (cujos espinhos, e não flores, -foram postos na cabeça de Jesus Christo, offerecido em holocausto -sobre a Cruz) e então os sacerdotes agarravam a -victima, e a lavavam n’um grande vaso de bronze chamado -<i>mar</i>. Representa isto os novos cathecumenos, desejosos de -serem lavados pelo baptismo, e offerecidos diante do altar -do Redemptor.</p> - -<p>A primeira coisa, que se exige d’estes cathecumenos, é -que ponham as mãos sobre a cabeça: as mãos são os hyerogliphos -das obras, e a cabeça a séde do espirito e do entendimento. -A primeira coisa portanto necessaria á estes -noviços da fé christã é a operação do entendimento; quero -com esta expressão dizer, que elles saibam e entendam o -que pretendem crêr e prometter, e torcer os cornos da curiosidade -e o proprio juizo dos orgulhosos possuidores do -Junco marinho, corôa dos deoses, por meio da obediencia -á Revelação divina. É o que pediamos aos adultos antes -de conferir-lhes o baptismo, e nenhum o conseguia sem primeiro -conhecer bem isto, por acto obrigatorio, a que deveriam -tambem assistir os christãos, ignorantes de sua fé e -profissão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_242"></a>[242]</span></p> - -<h4>DOUTRINA CHRISTÃ<br /> -<i>na lingua dos Tupinambás<a id="Nanchor_98" href="#Note_98" class="fnanchor">[98]</a> e em francez, e, em primeiro -lugar a oração dominical</i></h4> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>Ore-ruuc vuac peté cuare,</i></div> - <div class="verse indent0">Padre nosso, que estás no Ceo,</div> - <div class="verse indent0"><i>y moe-tepoire derere-toico</i></div> - <div class="verse indent0">sanctificado seja teo nome,</div> - <div class="verse indent0"><i>to-ure de reigne</i></div> - <div class="verse indent0">venha nós o teo reino,</div> - <div class="verse indent0"><i>teié-mognan deremimotare yboipé vaacpe iémognan eaue,</i></div> - <div class="verse indent0">seja feita a tua vontade assim na terra como no Ceo.</div> - <div class="verse indent0"><i>oreremiu-areduare eimé iury oreue,</i></div> - <div class="verse indent0">dae-nos hoje o pão quotidiano,</div> - <div class="verse indent0"><i>de-eiuru oré yangaypaue reçe,</i></div> - <div class="verse indent0">perdôa nossas offensas,</div> - <div class="verse indent0"><i>ore recome-moçaré supè ore-ieuron eaue</i></div> - <div class="verse indent0">como nós perdoamos aos que nos offendem</div> - <div class="verse indent0"><i>moar-ocar humé yepé tecomemo-pupé</i></div> - <div class="verse indent0">não nos deixeis cahir em tentação</div> - <div class="verse indent0"><i>oré pessuron peyepé mae ayue suy.</i></div> - <div class="verse indent0">mas livrae-nos do mal. Amen Jesus.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p class="center">SAUDAÇÃO ANGELICA.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>Ave Maria gratia, resse tonussen väé,</i></div> - <div class="verse indent0">Eu te saudo Maria, de graça cheia,</div> - <div class="verse indent0"><i>Deyron yandé yaré-reco</i></div> - <div class="verse indent0">o Senhor é comtigo,</div> - <div class="verse indent0"><i>ymonbeu katu poïre aue edereico kugnan suy</i></div> - <div class="verse indent0">benta és tú entre as mulheres.</div> - <div class="verse indent0"><i>ymonbeau katu poïre aue demeinboïre Jesus.</i></div> - <div class="verse indent0">bento é o fructo do teo ventre, Jesus.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_243"></a>[243]</span></p> - -<p class="center">ORAÇÃO A VIRGEM.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>Santa Maria Tupan seu</i></div> - <div class="verse indent0">Santa Maria mãe de Deos</div> - <div class="verse indent0"><i>hé Tupan mongueta ore yangaypaue vaë ressé</i></div> - <div class="verse indent0">rogae a Deos por nós peccadores</div> - <div class="verse indent0"><i>cohu yran ore-requi ore-rumeué</i></div> - <div class="verse indent0">agora, e na hora de nossa morte. Amen Jesus.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p class="center">O SYMBOLO DOS APOSTOLOS.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>Arobiar Tupan</i></div> - <div class="verse indent0">Creio em Deos</div> - <div class="verse indent0"><i>tuue opap katu maeté tiruan</i></div> - <div class="verse indent0">padre todo poderoso</div> - <div class="verse indent0"><i>mognangare vuac</i></div> - <div class="verse indent0">creador do Ceo</div> - <div class="verse indent0"><i>mognangare ybuy</i></div> - <div class="verse indent0">creador da terra</div> - <div class="verse indent0"><i>Jesus-Christo tayre oyepe vac</i></div> - <div class="verse indent0">em Jesus Christo, seo filho unico</div> - <div class="verse indent0"><i>ahe Sainct Esprit, demognan pitan amo</i></div> - <div class="verse indent0">que foi concebido do Espirito Santo</div> - <div class="verse indent0"><i>ahé poïre oart Sainct Marie, suy</i></div> - <div class="verse indent0">e nasceo da Virgem Maria</div> - <div class="verse indent0"><i>Ponce Pilate muruuichaue amoseico sericomemo poïre amo</i></div> - <div class="verse indent0">padeceo sob poder de Poncio Pilatos, presidente</div> - <div class="verse indent0"><i>yiuca poire amo yuira</i></div> - <div class="verse indent0">morreo sobre o madeiro da Cruz</div> - <div class="verse indent0"><i>ioasaue ressé</i></div> - <div class="verse indent0">morreo</div> - <div class="verse indent0"><i>ymoiar ypoire ytemim buire amo</i></div> - <div class="verse indent0">foi amortalhado e enterrado no sepulchro</div> - <div class="verse indent0"><i>ouue ieuue euue apeterpé</i></div> - <div class="verse indent0">desceo aos infernos</div><span class="pagenum"><a id="Page_244"></a>[244]</span> - <div class="verse indent0"><i>ahé sui turiare mossa poire ressé uue ombueue sui. Secobé yereie-buire</i></div> - <div class="verse indent0">ao terceiro dia resurgio dos mortos</div> - <div class="verse indent0"><i>oié upire vuacpé</i></div> - <div class="verse indent0">subio ao Ceo</div> - <div class="verse indent0"><i>Tupan tuue opap-katu maeté tiruan mognangare katu aue cotu seua</i></div> - <div class="verse indent0">está assentado á direita de Deos, seo Pae Omnipotente</div> - <div class="verse indent0"><i>ahé sui turiné ycobé vãe omano vãe poire paué recomognan</i></div> - <div class="verse indent0">de lá virá a julgar vivos e mortos.</div> - <div class="verse indent0"><i>Arobiar Saincte eglise catholique</i></div> - <div class="verse indent0">Creio na Santa Igreja Catholica,</div> - <div class="verse indent0"><i>arobiar Saincte tecokatu demosaoc morupé</i></div> - <div class="verse indent0">creio na communhão dos Santos</div> - <div class="verse indent0"><i>arobiar teco-engay paue ressé morupé Tupan deuron</i></div> - <div class="verse indent0">creio na remissão dos peccados por Deos</div> - <div class="verse indent0"><i>arobiar asé-recobé iebure</i></div> - <div class="verse indent0">creio na resurreição da carne</div> - <div class="verse indent0"><i>arobiar teiubé opauaaerem-eim-rerecoe nuame</i></div> - <div class="verse indent0">creio na vida eterna. Amen Jesus.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p class="center">OS DEZ MANDAMENTOS.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>1.º Ymoeté yepé Tupan.</i></div> - <div class="verse indent0">I Honra um só Deos</div> - <div class="verse indent0"><i>2.º Aytè ereté netieume poire renoy teigné.</i></div> - <div class="verse indent0">II Não jurarás em vão o nome de teo Deos.</div> - <div class="verse indent0"><i>3.º Ymoeté dimanche are maratecuare eum aue.</i></div> - <div class="verse indent0">III Honra e sanctifica o domingo, dia de repouso.</div> - <div class="verse indent0"><i>4.º Ymoeté deruue desseu eaue.</i></div> - <div class="verse indent0">IV Honra teo pae e tua mãe.</div> - <div class="verse indent0"><i>5.º Eparapiti humé.</i></div> - <div class="verse indent0">V Tu não matarás.</div> - <div class="verse indent0"><i>6.º Eporopotare humé.</i></div> - <div class="verse indent0">VI Tu guardarás castidade.</div><span class="pagenum"><a id="Page_245"></a>[245]</span> - <div class="verse indent0"><i>7.º Emonmaron humé.</i></div> - <div class="verse indent0">VII Tu não furtarás.</div> - <div class="verse indent0"><i>8.º Teremoen humé aua ressé.</i></div> - <div class="verse indent0">VIII Tu não levantarás falso testemunho contra teo proximo.</div> - <div class="verse indent0"><i>9.º Yemonmotare humé aua remerico ressé.</i></div> - <div class="verse indent0">IX Tu não conhecerás a mulher de outrem.</div> - <div class="verse indent0"><i>10. Yemonmotare humé aua mae ressé.</i></div> - <div class="verse indent0">X Tu não cubiçarás coisas alheias.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p class="center">RESUMO DOS MANDAMENTOS DE DEOS.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>1.º Opap katu maeté tiruan sosay asé Tupan rausuué.</i></div> - <div class="verse indent0">Sobre todas as cousas amarás a Deos.</div> - <div class="verse indent0"><i>2.º Oie ausuue eaué asé uua pichare raussuue.</i></div> - <div class="verse indent0">Ama teo proximo como a ti mesmo.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p class="center">OS MANDAMENTOS DA SANTA IGREJA.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>1.º Arve maratecuare ehumé messe renduue.</i></div> - <div class="verse indent0">Ouve missa nos dias de festa.</div> - <div class="verse indent0"><i>2.º Sei hu iauion yemonbeu.</i></div> - <div class="verse indent0">Todos os annos ao menos uma vez confessa teos peccados.</div> - <div class="verse indent0"><i>3.º Tupan rare pacques iauion.</i></div> - <div class="verse indent0">Teo Deos pela paschoa commungarás.</div> - <div class="verse indent0"><i>4.º Iecuacuue iauion erecucuue.</i></div> - <div class="verse indent0">Tu guardarás jejuns pela quaresma e vigilias.</div> - <div class="verse indent0"><i>5.º Aiamion asé mae moiaoc.</i></div> - <div class="verse indent0">Pagarás os dizimos.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p class="center">OS SETE SACRAMENTOS.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>1.º Iemongaraiue.</i></div> - <div class="verse indent0">Baptismo.</div> - <div class="verse indent0"><i>2.º Asé seurap aua reu assu yendu karaiue non.</i></div> - <div class="verse indent0">Receberás na testa o santo oleo pela mão do Bispo.</div><span class="pagenum"><a id="Page_246"></a>[246]</span> - <div class="verse indent0"><i>3.º Asé-reon yanondé Tupan rare.</i></div> - <div class="verse indent0">Antes de morrer receberás o corpo de Deos.</div> - <div class="verse indent0"><i>5.º Oyekoacuue, oyemonbeu.</i></div> - <div class="verse indent0">Penitencia, confissão.</div> - <div class="verse indent0"><i>6.º Oyemo-auare.</i></div> - <div class="verse indent0">Ordem.</div> - <div class="verse indent0"><i>7.º Mendar.</i></div> - <div class="verse indent0">Casamento.</div> - </div> -</div> -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_VIII">CAPITULO VIII</h3> - -<p class="subhead">Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos, -dos espiritos e da alma.</p> - -</div> - -<p>O Psalmista Rei David, no Psalmo 101, que é uma supplica -por elle composta para os pobres e infelizes, cheios -de anciedade e oppressão, particularmente os infieis, diz—<i>Placuerunt -servis tuis lapides ejus, et terra ejus miserebuntur.</i> -«As pedras de Syão agradarão a teos servos; e -por esta causa serão misericordiosas para com a terra.»</p> - -<p>S. Jeronymo transforma estas palavras d’esta forma—<i>Quia -placitos fecerunt servi tui lapides ejus, et pulverem ejus -miserabilem</i>. «Teos servos fizeram suas pedras agradaveis -á tua Magestade, até chegar ao pó sem consideração.»</p> - -<p>Apliquemos estas palavras ao nosso objecto, pondo de parte -todos os outros mysterios, e digamos que <i>Placuerunt servis -tuis lapides ejus</i>.</p> - -<p>Em nossa primeira missão achamos estes pobres selvagens -e barbaros como pedras proprias para construir e edificar -a Santa Igreja em paizes desertos, e com o nosso ministerio<span class="pagenum"><a id="Page_247"></a>[247]</span> -demos a misericordia divina á algum punhado de -terra e areia.</p> - -<p>Baptisamos muitos meninos, moribundos e adultos, que -são na verdade tres grãos de areia, á similhança da extenção -e profundidade das areias do mar, isto é, em comparação -da quantidade e multidão das nações immensas pelo seo -numero, na visinhança do Maranhão.</p> - -<p>Digamos depois, com São Jeronymo, <i>quia placitos fecerunt -servi tui lapides ejus, et pulverem ejus miserabilem</i>, que -temos feito vêr a toda a Christandade, e aos seos monarchas, -espirituaes ou temporaes, em desencargo de nossa -consciencia, que á Deos agrada o despertar estes barbaros -do profundo somno de uma crença má, ou si quizerdes, que -á Deos agrada fazer arder e queimar a pequena faisca do -fogo da luz natural, que sob as causas de mil superstições é -sempre guardada entre estas nações desde o naufragio universal -do diluvio.</p> - -<p>Esta faisca, occulta sob as cinsas, entre estes selvagens, é -a crença natural, que sempre tiveram de Deos, dos espiritos -e da immortalidade da alma.</p> - -<p>Quanto á crença de Deos, é impossivel, naturalmente fallando, -que haja no Mundo uma Nação tão rude, estupida e -brutal que não reconheça universalmente uma Magestade -Soberana, porque, como diz Lactancio Firmiano, em suas -Instituições divinas, livro 1.º, cap. 2.º—<i>Nemo est enim -tam rudis, tam feris moribus, qui non oculos suos in -cœlis tollens etc</i>. Não ha homem tão rude, nem tão brutal, -que levantando os olhos para o Ceo, ainda que não possa -comprehender que haja Deos, qual seja a sua providencia, -embora não conheça da grandesa e extenção dos Ceos, do -perpetuo movimento d’elles, da disposição, firmesa, utilidade -e bellesa d’estas abobadas azuladas, que não reconheça -haver um Soberano que tudo isto dirige e com harmonia.</p> - -<p>Boecio, livr. 4º, da <i>Consolação dos sabios</i>. Prosa 6.ª <i>Omnium -generatio rerum</i> etc. «que a geração continua dos -mistos, a diversidade, e ordem das formas, que vestem a<span class="pagenum"><a id="Page_248"></a>[248]</span> -materia primitiva, convence natural e necessariamente, que -ha um primeiro director no movimento uniforme de tantas -coisas de formas contrarias no sentido de aperfeiçoar este -mundo universal.»</p> - -<p>Seneca, na Epistola 92 á seo amigo Lucilio—<i>Quis dubitare -potest mi Lucilli, quin Deorum immortalium munus -sit quod vivimus?</i> «Quem é meu amigo Lucilio, que duvida -não ser sua vida um dom e beneficio dos Deoses immortaes?»</p> - -<p>Aristoteles, Livro II <i>dos animaes</i>, depois que contou muito -bem a perfeição d’elles concluio <i>debemus inspicere formas -et delectari in Artifice qui fecit eas</i>: «devemos contemplar -as formas das creaturas, não para olhal-as só e simplesmente, -e sim para d’ellas passar ao que as fez afim de nos regosijarmos.»</p> - -<p>É facto averiguado sempre terem tido estes selvagens conhecimento -de Deos, porem não da Essencia, Unidade, e -Trindade, materia inteiramente dependente de fé, embora -Deos tenha deixado na naturesa alguns vestigios, pelos quaes -possam os homens formar algumas conjecturas.</p> - -<p>Aristoteles, livro 4º, do <i>Ceo e da terra</i>, depois de ter pensado -muito nas perfeições d’este mundo, disse <i>Nihil est perfectum -nisi Trinitas</i>. «Somente a Trindade é perfeita.»</p> - -<p>Estes selvagens sempre chamaram a Deos—<i>Tupan</i>, nome -que dão ao <i>trovão</i>, a maneira do que se pratica entre os -homens, isto é, terem as obras primas o nome do autor: -Note-se porem que este nome no singular não se applica aos -relampagos e trovões, que rebentam e illuminam todas as partes, -por cima da cabeça dos selvagens, aterrando-os, porque -sabem e reconhecem, que elles são formados pela poderosa -mão d’Aquelle, que habita nos Ceos.</p> - -<p>Por intermedio do interprete informei-me dos velhos do -paiz si elles acreditavam, que este <i>Tupan</i>, autor do trovão, -era homem como elle?</p> - -<p>Responderam-me que não, porque si fosse um homem -como nós, seria um grande senhor, e como poderia elle<span class="pagenum"><a id="Page_249"></a>[249]</span> -correr tão depressa, do Oriente para o Occidente, quando -troveja ao mesmo tempo sobre nós, e nas quatro partes do -mundo, tanto na França, como sobre nós? Demais, si fosse -homem, era necessario, que outro homem o fizesse, porque -todo o homem procede de outro homem. Ainda mais: <i>Jeropary</i> -é o creado de Deos, e nós não o vemos, ao passo que -todo o homem se vê, e por isso não pensamos, que <i>Tupan</i> -seja um homem.</p> - -<p>Mas, repliquei eu, o que pensaes que elle seja?</p> - -<p>Não sabemos, responderam, porem pensamos, que existe -em toda a parte, e que fez tudo quanto existe. Nossos feiticeiros -ainda não fallaram com elle, pois apenas fallam com -os companheiros de <i>Jeropary</i>.</p> - -<p>Eis a crença de Deos, sempre pela naturesa impressa nos -espiritos dos selvagens, que com tudo não o reconheciam -por meio de preces e de supplicios.</p> - -<p>Acreditavam naturalmente nos espiritos bons e maus.</p> - -<p>Chamam os bons espiritos ou anjos <i>Apoiaueué</i>, e os maos -ou diabos <i>Uaiupia</i>.</p> - -<p>Vou contar-vos o que pude colher de suas conversas por -diversas vezes.</p> - -<p>Pensam que os anjos lhes trazem chuva em tempo proprio, -que não fazem mal ás suas roças, que não os castigam -e nem os atormentam, que sobem ao Ceo para contar á Deos -o que se passa aqui na terra, que não causam medo nem á -noite e nem nos bosques, que acompanham e protegem os -francezes.</p> - -<p>Pensam, que os diabos estão sob o dominio de <i>Jeropary</i>, -que era creado de Deos, e que por suas maldades Deos o -despresou, não querendo mais vêl-o e nem aos seos, pelo -que aborrecia os homens e nada valia: que os diabos impedem -as vindas das chuvas em tempo proprio, que os trazem -em guerra com seos inimigos, que os maltrata, e lhes faz -medo, habitando ordinariamente em aldeias abandonadas, -especialmente em logares onde tem sido sepultados os corpos -de seos parentes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_250"></a>[250]</span></p> - -<p>Ouvi tambem dizer a alguns indios, que indo elles apanhar -cajus em algumas aldeias abandonadas, sahio-lhe ao -encontro <i>Jeropary</i> gritando com voz medonha, e chegou até -o ponto de espancar muito alguns dos seos.</p> - -<p>Dizem tambem, que <i>Jeropary</i> e os seos tem certos animaes, -que nunca se vê, que só andam a noite, soltando gritos -horriveis, que abala todo o interior (o que ouvi infinitas -vezes) com os quaes convivem, e por isso os chamam <i>Soo-Jeropary</i> -«animal de Jeropary», e creem que estes animaes -servem aos diabos ora de homens ora de mulheres, e por -isso nós o chamamos <i>Succubes</i> e <i>Incubes</i>, e os selvagens -<i>Kugnan Jeropary</i> «a mulher do diabo» <i>Aua Jeropary</i> «o -homem do diabo.»</p> - -<p>Ha tambem certos passaros noturnos, que não cantam, -mas que tem um piado queixoso, enfadonho, e triste, que -vivem sempre escondidos, não sahindo dos bosques, chamados -pelos indios <i>Uyra Jeropary</i> «passaros do diabo,»<a id="Nanchor_99" href="#Note_99" class="fnanchor">[99]</a> e -dizem que os diabos com elles convivem, que quando põem -é um ovo em cada lugar, e assim por diante, que são cobertos -pelo diabo, e que só comem terra.</p> - -<p>Não exgotando minha curiosidade procurei indagar bem -a verdade d’isto: muitas vezes estes animaes nocturnos vinham -rodear nossa casa de Sam Francisco e soltar seos gritos -medonhos, quando as noites eram sombrias e negras.</p> - -<p>Apromptei-me para com outros francezes investir estes -passaros onde se achassem conforme pudessemos prevêr, -porem nada pudemos conseguir por não vel-os, embora os -ouvissemos gritar em distancia de mais de um quarto de -legoa.</p> - -<p>Disseram-me alguns francezes, que eram uma especie de -gatos bravos, o que não pode ser a vista do som, do sussurro -e do volume do grito, que elle solta.</p> - -<p>Outros disseram ser o vagido de <i>vaccas bravas</i>, o que -negam os selvagens dizendo ser vozes de uma especie de -animaes parecidos com maçaricos, e maiores do que uma -raposa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_251"></a>[251]</span></p> - -<p>Quiz eu mesmo verificar o que eram estes passaros de -<i>Jeropary</i>, e para isto fui caminhando de mansinho até onde -meos ouvidos me levaram a pensar, que lá estavam, pelo piado -melancolico d’elles. Calculado o lugar ahi fui no dia seguinte -á tarde muito cedo occultar-me nos mattos, e d’esta -vez não me enganei porque apenas anoiteceu aproximou-se -este triste passaro de mim e distante apenas dois passos saltando -sobre a areia, e soltou seo canto medonho, o que não -pude aturar. Sahi logo do meo logar e fui onde elle estava -e nada achei: sua configuração e tamanho era de uma coruja -de França e as pennas pardas.</p> - -<p>Tudo o que referi não está longe do senso commum, porque -lemos na Historia, e em diversos autores a união dos -diabos com animaes feios e immundos, e foi elle que desde -o principio do mundo tomou a forma de uma serpente cabelluda -para enganar nossos primeiros paes.</p> - -<p>Creem na immortalidade da alma: quando no corpo chamam-na -<i>An</i>, e quando deixa este para ir ao lugar, que lhe -é destinado, <i>Anguere</i>.</p> - -<p>Creem que só as mulheres virtuosas tem alma immortal, -segundo o que pude comprehender de varios discursos d’elles -e de muitas perguntas que lhes fiz, pensando que estas -mulheres virtuosas devem ser postas ao lado dos homens, -visto terem todos almas immortaes depois da morte.</p> - -<p>Em quanto ás outras mulheres duvidam que ellas tenham -alma.</p> - -<p>Pensam, e muito naturalmente, que as almas dos maus -vão ter com <i>Jeropary</i>, que são ellas que os atormentam de -concomitancia com o proprio diabo, e que vão residir nas -antigas aldeias, onde são enterrados os corpos, que habitaram.</p> - -<p>Pensam, que as almas dos bons, vão para um lugar -de repouso, onde dançam constantemente sem nada lhes -faltar.</p> - -<p>Eis tudo quanto pude saber relativamente a estes tres -pontos de sua crença natural de Deos, dos Espiritos e das<span class="pagenum"><a id="Page_252"></a>[252]</span> -Almas, por meio de cuidadosas indagações entre discursos -communs, que ouvi por dois annos de muitissimos selvagens.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_IX">CAPITULO IX</h3> - -<p class="subhead">Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em -suas cadeias por tão longo tempo estes selvagens.</p> - -</div> - -<p>Adonibesec, um dos maiores tyrannos do mundo, venceo -e subjugou setenta Reis, aos quaes mandou cortar os dedos -das mãos e dos pés, e todas as vezes que queria comer, -mandava buscal-os e pol-os debaixo da mesa como cães -para roerem os ossos, e os boccados de pão, que lhes atirava, -e era com isto unicamente que elles viviam, porque -acabada a refeição do tyranno passavam elles outra vez -para os grilhões.</p> - -<p>Este tyranno representava o diabo, cujo poder sempre -exerceu nas Nações á elle sujeitas pela infidelidade, tendo-as -sempre presas, não lhes consentindo outros viveres alem -dos seos restos, cortando-lhes todos os meios de acção e de -fuga, alterando ou extinguindo os signaes, que Deos naturalmente -imprimio nos homens, pelos quaes podiam inclinar-se -a Deos para d’elles ter piedade, que é o que o diabo mais -teme, o que é facil de vêr-se em nossos selvagens por -longo tempo sem conhecimento algum do Deos Omnipotente, -presos em suas cadeias infernaes pelos abusos e corrupções, -que entre elles lançou o diabo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_253"></a>[253]</span></p> - -<p>Eis porque S. Paulo representava as artimanhas e tricas -de Satanaz em suas...</p> - -<p class="center">(Falta uma folha.)</p> - -<p class="noindent">... esta razão tinhamos nós occasião d’admirar a forma e a maneira -de proceder dos Pagés ou Feiticeiros, que occupam -entre os selvagens o lugar de Mediadores entre os espiritos -e o resto do povo, e são os que hão adquirido maior autoridade -por suas fraudes, subtilezas e abusos, com que tem -subjugado esta gente mui fortemente sob o reinado do inimigo -da salvação, como está escripto no <i>Proverbio 29</i>—<i>Princeps -qui libenter audit verba mendacii, omnes ministros -habet impios</i> «o Principe, que prestar ouvidos á -mentira, é servido por ministros impios e maus.»</p> - -<p>Pondo de parte a explicação litteraria d’esta passagem, -nós a aplicamos ao nosso fim dizendo, que este Principe, -que presta attenção á mentira, ou para melhor dizer, que -é o Pae da mentira, é o diabo inimigo da verdade: seos -officiaes abusam do povo por meio de invenções, subtilesas, -e encantos provenientes da instigação dos demonios, como -são os feiticeiros brazileiros, e com tal autoridade se conservam -sem a menor contestação, embora conheçam os enganos, -que reciprocamente empregam contra seos compatriotas.</p> - -<p>Estes feiticeiros não tem chefes, porem tornam-se taes, -si os favorece a capacidade de seo espirito, de sorte -que os que o possuem melhor, são considerados mais habeis.</p> - -<p>Começam muitos a aprender este officio, convidados pela -honra e lucro, que d’elle colhem os mais espertos, porem -poucos atingem á perfeição.</p> - -<p>Não encontrareis muitas aldeias, onde os principaes e os -velhos não confessem saber alguma coisa d’elle.</p> - -<p>Os noviços d’essa arte estudam muito a merecer elogios, -e d’elles dizer-se maravilhas e fazem alguma subtilesa diante -de seos similhantes para obter fama.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_254"></a>[254]</span></p> - -<p>Depende seo adiantamento d’algum acaso, como por exemplo -se predizem a chuva, e ella apparece, se sopram algum -doente e elles recobram a saude, o que os faz muito estimados -e respeitados como feiticeiros experientes.</p> - -<p>Por exemplo, sem comparação, si algum medico novo ou -cirurgião cuidasse de um doente perdido, ou de alguma chaga -pertinaz, e que apparecesse a saude, não tanto pela industria -do medico, e sim pela boa naturesa coadjuvada por -unguentos communs, não ha duvida que tal cura seria attribuida -á sciencia e experiencia dos curadores, e se aproveitariam -d’isto para fazer voar sua fama entre as boas -cidades, e serem recebidos com muita distincção nas boas -casas.</p> - -<p>O mesmo acontece no Brasil com estes novos feiticeiros, -quando se restabelece o infermo depois dos seos sopros.</p> - -<p>Não receis que isto fique só na casa do doente, porque -sae o feiticeirinho de aldeia em aldeia contando suas proesas, -e triplicando-as.</p> - -<p>O diabo, espirito suberbo, não se communica indifferentemente -a todos os feiticeiros; porem d’entre elles escolhem -os mais bellos espiritos, e lhes infundem suas invenções e -subtilesas.</p> - -<p>Julgae por isto. Nunca vereis os diabos fazerem grandes -operações e communicações aos pequenos feiticeiros, e limitam-se -apenas a dar-lhe malicia conforme o juiso e talento -do seo espirito.</p> - -<p>Si pelo contrario encontram algum bello espirito, elles o -instruem largamente de suas perversas e condemnaveis sciencias, -que são de ordinario as nigromancias, judiarias e -magicas. O mesmo acontece aos feiticeiros: achareis muitos -pequenos, de que não se faz grande caso, e nem se tem -muito medo, valendo-lhes pouco o officio: outros mais instruidos -e mediocres, que occupam o lugar medio entre pequenos -e grandes. Ordinariamente viajam por certas aldeias -importunando os seos habitantes, cuidando de dansas e de -outras coisas, que dependem do seo officio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_255"></a>[255]</span></p> - -<p>Si algum seu collega apparece por ahi, elles não ficam -contentes, mas quando é convidado algum de seos superiores -soffrem-no com paciencia.</p> - -<p>Quanto mais progressos fazem nos abusos, mais graves -se mostram: fallam pouco, buscam a solidão, evitam o mais -que podem as companhias, com o que alcançam mais honra -e respeito, são mais procurados depois dos Principaes, e -estes lhes fallam com attenção ahi usada, e ninguem os -maltrata.</p> - -<p>Para conservar taes honras edificam suas casas á parte, -longe de visinhos.</p> - -<p>O demonio ardiloso ensina o que pratica a disciplina religiosa, -isto é, o necessario para conservar o espirito de -Deos, fazer sua alma capaz das suas visitas e consolações -para o que necessario é amar a solidão e n’ella residir, -evitando cuidadosamente o mais que é possivel a companhia -dos homens, com o que não somente adquirireis favores -espirituaes, mas tambem a honra e o respeito d’aquelles, -que evitaes.</p> - -<p>A compleição dos homens é similhante a da honra e da -sombra: si correis após ellas, ellas fugirão diante de vós, -si as evitaes, ellas vos procurarão.</p> - -<p>Assim são os homens: sê-de com elles familiares, e sereis -despresados; fugi d’elles, sereis respeitados.</p> - -<p>Por similhança este velho doutor da malicia ensina os -seos principaes discipulos a evitar communicações, a fugir -de tristezas e melancolias, a fugir de invenções e fantesias, -a residir sós com suas familias com o fim de poder -melhor imprimir em seos pensamentos os meios, pelos quaes -quer conservar estes povos na ignorancia e superstição -regosijando-se de vêr tantas nações presas em suas cadeias.</p> - -<p>Não é de hoje, e nem n’esta nação somente, que elle inverte -os exercicios da verdadeira Religião, mas de todos os -tempos e em todos os lugares, porque não pode ser autor, -e sim falso imitador do verdadeiro bem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_256"></a>[256]</span></p> - -<p>Assim como a serpente se occulta debaixo das folhas -para picar o segador, assim tambem elle occulta seo veneno -e sua falsa Religião sob apparencia somente de uma imitação -das obras de Deos.</p> - -<p>Dizem Plinio e Solinus, que Cerasto, serpente mortifera, -se cobre d’areia deixando apenas de fóra os cornos afim de -enganar os passaros com a ideia de ser comida, e quando -se approximam, ella sahe da embuscada e os apanha.</p> - -<p>O Genesis compara o diabo com esta serpente <i>Cerastes in -semita</i> «Ceraste no caminho.» Vemos isto em nossos selvagens, -nutridos e entretidos com taes engodos, que eu não -os acreditaria si os não visse, e si o leitor duvidar, peço-lhe -que creia no que vou contar-lhe.</p> - -<p>São tão tolos estes pobres selvagens, que em relação aos -seos feiticeiros, especialmente aos grandes, creem firmemente, -que elles podem enviar-lhes molestias e fomes, e -tirar-lhes tudo o que elles tem, e embora saibam os proprios -feiticeiros, que elles todos são embusteiros, não -julgam poder curar-se sem que passem por mãos de outros.</p> - -<p>Si adoece algum francez nas aldeias, seo Compadre e sua -Comadre lhe pedem permissão para que os feiticeiros o visitem, -o bafejem, e lhe toquem com as mãos.</p> - -<p>O que dirieis vós, si eu vos dissesse, que vindo visitar-me -muitos selvagens, quando adoeci, me pediram muito affectuosamente -licença para me trazerem seos feiticeiros afim -de me bafejarem, e apalparem-me, sem o que, asseguravam-me, -eu não ficaria bom?</p> - -<p>O grande <i>Thion</i> adoecendo apenas chegou do <i>Mearim</i> -ao Fórte de S. Luiz, pensou, e por muito tempo acreditou -ser isto devido a ameaça do Principal-feiticeiro da sua terra, -que pretendia seduzir e impedir esses povos <i>Mearinenses</i> -de virem á Ilha, logrando vêr muitos com elle ficarem nas -florestas do <i>Mearim</i>.</p> - -<p>Tinha ameaçado <i>Thion</i> com a morte apenas aqui chegasse, -o que não aconteceo, porque depois d’uma febre violenta<span class="pagenum"><a id="Page_257"></a>[257]</span> -recobrou sua saude: com tudo, emquanto esteve doente, -pensou morrer, por maiores que fossem as nossas -advertencias de que não devia prestar credito a taes feiticeiras.</p> - -<p>Si estes pequenos e mediocres feiticeiros gozam de autoridade -entre os seos, muito mais aquelles, que se chamam -propriamente <i>Pagy-uaçú</i><a id="Nanchor_100" href="#Note_100" class="fnanchor">[100]</a> «grandes feiticeiros», porque são -como os Soberanos d’uma Provincia, muito temidos, chegando -a tal poder por muitas subtilesas: de ordinario tem communicação -tacita com o diabo. Por onde passam, seguem-nos -os povos; são graves e por isso não se communicam -facilmente com os seos: são muito bem acompanhados quando -vão a qualquer parte, e tem muitas mulheres, não lhes -faltam mercadorias, julgam-se felizes seos similhantes quando -os presenteiam, e com uma feitiçaria tiram aos seos compatriotas -o melhor que possuem em suas caixas.</p> - -<p>Não descobrem suas subtilezas diante dos selvagens, e -pelo contrario zombam delles, e muitos me contaram os -meios, que empregaram para isto, o que ainda direi em -lugar proprio.</p> - -<p><i>Japy-açú</i> e o grande feiticeiro de <i>Tapuitapera</i> tiveram -entre si uma questão, de que resultou reciproca desconfiança.</p> - -<p>O grande feiticeiro mandou dizer-lhe, si elle já não se -lembrava das molestias, que outr’ora lhe enviou, e de que -pensou morrer a ponto de lhe pedir que as removesse, e -si agora já não as temia?</p> - -<p>Estas palavras impressionaram <i>Japy-açú</i>, e julgou-se feliz -de ter sua amisade. A questão foi por causa de uma mulher -retida por força; porem merece ser contada esta historia -por haver relação entre ella e o objecto de que tratamos.</p> - -<p>Adquirio o grande feiticeiro de <i>Tapuitapera</i> em sua Provincia -e circumvisinhança fama e autoridade de um perfeito -Magico, que a seu bel-prazer distribuia molestias e mortes, -curava e dava saude, e por isso alcançou em seo paiz o<span class="pagenum"><a id="Page_258"></a>[258]</span> -grau de Soberano Principal, e dispunha de todos á sua vontade.</p> - -<p><i>Japy-açú</i> mofava e zombava de tudo isto, o que sabido -pelo outro o fez dizer, que em pouco tempo em si mesmo -experimentaria si não tinha o poder de fazer bem ou mal -a quem quizesse.</p> - -<p>Não fez <i>Japy-açú</i> caso d’isto, porem veio a fortuna proteger -ao seo contrario fazendo com que elle cahisse doente -muito naturalmente; pensou ser sua molestia devida ao -feiticeiro de <i>Tapuitapéra</i>, embora a existencia do mar entre -uma e outra Provincia, e pela força de imaginação agravou-se -sua molestia a ponto de o julgarem á morte.</p> - -<p>Todos os feiticeiros e feiticeirinhos da Ilha o visitaram, -porem nenhum lhe deo saude e afinal escolheo as melhores -fazendas que havia e humildemente mandou a esse feiticeiro -seo antagonista, pedindo-lhe pelos mensageiros seos parentes, -que desse ordens á molestia para deixal-o.</p> - -<p>O feiticeiro tomando as mercadorias lhe mandou não sei -que moxinifada para elle tomar, asseverando-lhe cura em -breve tempo. <i>Japy-açu</i> acreditou, principiou pouco a pouco -a passar melhor temendo d’ahi em diante o feiticeiro, que -comtudo entre os seos zombava d’elle, e outras vezes o -apontava para mais firmar sua autoridade.</p> - -<p>Ora como é possivel, direis vós, que appareçam e desappareçam -as molestias por força d’imaginação e apprehensão, -d’estes selvagens a respeito das ameaças ou dos favores de -seos feiticeiros?</p> - -<p>Decida a medicina: comtudo responderei á pergunta com -os exemplos mui communs, dos <i>Hypocondriacos</i>, ou doentes -imaginarios, os quaes embora sãos, e bem conservados, julgam-se -debeis e fracos, pensando cada um soffrer uma molestia -differente.</p> - -<p>Fechando este artigo, eu vos faço notar que se julgam -uns grandes feiticeiros por fazerem mal, e outros por praticarem -o bem.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_259"></a>[259]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XI">CAPITULO XI</h3> - -<p class="subhead">Como falla o diabo aos feiticeiros do Brazil, suas falsas -prophecias, idolos e sacrificios.</p> - -</div> - -<p>Diz Santo Agostinho, que o diabo insuflado por sua soberba -quiz ser obedecido como Deos, imitando com falsidade -em tudo e por tudo o proceder de Deos, especialmente em -seos oraculos—<i>Diabolus est Angelus per superbiam separatus -á Deo, qui in veritate non istetit, et doctor mendacii, etc</i>. -«o diabo é um Anjo separado por sua soberba de Deos, que -não quiz persistir na verdade fazendo-se assim doutor da -mentira.»</p> - -<p>Vendo que Deos fallava outr’ora a seos prophetas por diversos -modos, e a seo povo entre duas figuras de cherubins -postas sobre a arca da alliança, quiz tambem em todos -os tempos ter falsos prophetas, com os quaes consultava -seos desgraçados projectos, e seos falsos oraculos proferidos -entre diversas figuras por meio de demonios escondidos por -ahi ou occultos ora sob a figura de uma serpente, ora de -um touro, ora de um mocho ou gralha, e finalmente de -uma pyramide, estatua e assim por diante.</p> - -<p>Advinhavam estes falsos prophetas o futuro não por espirito -prophetico, visto não ter o diabo tal poder, e sim por -experiencia de muito tempo, junta á subtilesa de seo espirito, -que os faz presagiar coisas futuras pelo que vê nos homens -e nas coisas, como bem diz Isidoro—<i>Dæmones triplici -acumine præscientiæ vigent, scilicet, sublimitate naturæ, -experientia temporum, revelatione superiorum potestatum</i>, -«possuem os demonios tres subtilesas para prevêr o futuro, -finura por naturesa, experiencia de tempo, e revelação de -poderes superiores.»</p> - -<p>Deixando de parte a experiencia tão antiga dos seos procedimentos -para com a Gentilidade, quero fazer-vos vêr o -que ha de verdadeiro a tal respeito, visto que o diabo tem<span class="pagenum"><a id="Page_260"></a>[260]</span> -sempre enganado, e ainda hoje, estes pobres selvagens por -seos oraculos e predicções.</p> - -<p>O feiticeiro, de que ja vos fallei, recolhido ás campinas -do Mearim, tinha em casa diabos sob a figura de pequenos -passaros negros, que o advertiam do que deviam fazer e do -que se passava na ilha e em outros lugares.</p> - -<p>Quando quiz ir a Maranhão revelaram-lhe estes passaros -por occasião de andar passeiando nas suas roças, que cedo -chegariam os Tapuyas, e destruiriam seo milho e suas raizes, -mas que nenhum mal succederia nem a elle, nem aos seos, -e assim aconteceo, porque vindo os Tapuyas de mansinho -para sorprehendel-o, ouviram grande matinada na casa do -feiticeiro, e por isso não se animaram a atacar, receiando -superioridade de defensores, contentando-se com carregar -os milhos e raizes, e assim se foram.</p> - -<p>Estes mesmos passaros, ou os diabos sob tal forma, ordenaram -a este feiticeiro, que fosse á ilha do Maranhão, fazer -suas feitiçarias, e convidar os que quizessem deixar a ilha -para vir ahi residir devendo desembarcar no porto de <i>Taperussu</i>, -isto é, na aldeia dos animaes gordos, n’uma das -extremidades do Maranhão, sendo-lhe absolutamente prohibido -aproximar-se do lugar onde moravam os padres, o que -cumprio pontualmente.</p> - -<p>Nunca poude vir ahi nos vêr, apesar de toda a segurança -que lhe promettiamos. Dizia que seos espiritos nos temiam, -e se lhes desobedecessem, suas roças ficariam por fazer, -não trabalharia mais, e perderia o poder, que tinha entre os -seos, que seos espiritos lhe haviam aconselhado de retirar-se -do Maranhão antes de nós lá chegarmos afim de continuarem -á viver com elle tão pacificamente como até hoje.</p> - -<p>Estes e outros factos contava elle aos habitantes de <i>Taperussu</i>, -que em parte lhe prestavam credito, pois n’essa -occasião muitas mulheres se agarravam ás suas pernas, chorando -e gritando, pedindo-lhe para que não deixasse o seo -paiz, e nem fosse para <i>Yuiret</i>, onde estavamos, principalmente<span class="pagenum"><a id="Page_261"></a>[261]</span> -porque lhe fora isso prohibido pelos espiritos, e se fizesse -o contrario succeder-lhe-hia mal.</p> - -<p>Considerae, leitor, a maldade, e o temor d’estes demonios, -maldade para impedir que se cheguem os homens á -luz da verdade, ficando sempre obedientes ás trevas da infidelidade.</p> - -<p>É proprio da malicia fugir da claridade com medo de serem -descobertas suas maldades, e sua autoridade destruida.</p> - -<p>O temor, que elles tem, dos servos de Deos, em cuja presença -não se podem sustentar, bem como o mocho diante -dos raios do sol, e os sapos á vista da flor e cheiro da vinha, -mostra quam grande é o poder de Deos, dado á sua -igreja contra a potestade do inferno.</p> - -<p>Prosigamos.</p> - -<p>Dois principaes feiticeiros governavam duas nações de <i>Tabajares</i>, -inimigas reciprocas, das quaes abusavam dizendo -que tinham repetidas conferencias com os diabos tomando -a figura de diversos passaros.</p> - -<p>O feiticeiro do lado de Thion, mau e desgraçado (que -nunca quiz vir á ilha, e que della desviava seos similhantes -o mais que podia) criava em sua casa um morcego, a -que chamava <i>Endura</i>, que lhe fallava em voz humana em -lingua dos <i>Tupinambás</i>, algumas vezes tão alto, que podia -ser ouvido á seis passos de distancia, não distincta, porem -confusamente e com timbre infantil.</p> - -<p>Respondia-lhe o selvagem ficando só em sua casa, porque -despedia a todos quando percebia que elle lhe queria -fallar.</p> - -<p>Quando os nossos la foram afim de preparar os selvagens -a sahir do seo paiz para a ilha, instigou-se a curiosidade -de alguns francezes, que tinham ouvido dizer maravilhas -d’este feiticeiro, e pediram a seos compadres que lhes -dissessem o que percebessem do colloquio d’elle com o morcego, -e para isso aproximaram-se de mansinho da morada -d’elle a ponto de ouvirem perfeitamente a voz de ambos, e<span class="pagenum"><a id="Page_262"></a>[262]</span> -querendo chegar mais perto foram descobertos pelo feiticeiro, -e retirou-se o morcego.</p> - -<p>Chamou-os o feiticeiro, sem zangar-se, fel-os entrar em -sua casa, e perguntou-lhes o que queriam e porque estavam -a escutar?</p> - -<p>Responderam-lhes os francezes, que tinham ouvido dizer -aos selvagens seos similhantes, que ahi havia uma communicação -visivel e familiar com <i>Jeropary</i>, que d’ella desejavam -vêr alguma coisa, e eis porque se tinham aproximado, -e ouvido distinctamente duas vozes, a sua e uma outra mais -doce e clara.</p> - -<p>É verdade, disse elle, eu fallava agora com o meo morcego, -que me veio dizer maravilhas e grandes novidades, -como sejam guerra em França, e que os <i>Caraibas</i> do Maranhão -não estavam onde pensavam, que de nada me assustasse, -e ficasse com elle n’esta terra não acompanhando á -ilha meos compatriotas, que aqui não ficariamos muito tempo, -porque os francezes regressariam á sua patria, e que muitos -selvagens de <i>Tapuitapéra</i> tinham fugido para o matto.</p> - -<p>Perguntaram-lhes os francezes como elle criava e sustentava -este morcego?</p> - -<p>Respondeo, que um dia seo espirito, em quanto elle estava -só, lhe disse que de ora em diante lhe fallaria sob a -figura de tão feio animal, e que por isso lhe havia preparado -um quarto em sua casa, onde dormiria e descançaria, -comendo do que elle comesse, e quando quizesse fallar-lhe, -que elle o ouviria e responderia: que este espirito tambem -quando quizesse communicar-lhe alguma coisa de novo o -chamaria por seo nome, e com elle fallaria na casa ou no -bosque, e mandou o feiticeiro fazer-lhe um ninho para recolher-se, -e com elle sempre fallava sob a forma de morcego.</p> - -<p>Dizendo isto mostrou um dos cantos da sua casa, onde -estava o ninho feito de folhas de palmeira: ahi, disse, vem -elle comigo conversar, discorremos como dois iguaes, e come -o que lhe dou.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_263"></a>[263]</span></p> - -<p>Não posso deixar de notar as particularidades seguintes:</p> - -<p>1.ª Porque o diabo antes quiz tomar a forma de um morcego -do que a de outro qualquer passaro.</p> - -<p>2.ª Como o diabo imita a voz humana.</p> - -<p>3.ª Da verdade d’estas novidades em França, e como é -possivel, que saiba o diabo o que se passa no mundo.</p> - -<p>4.ª Porque razão comia carne.</p> - -<p>5.ª Da localidade por elle escolhida para discorrer com o -seo Magico.</p> - -<p>Para satisfazer a primeira, dizemos, que o axioma dos -philosophos—<i>todos procuram seos similhantes</i>, é uma verdade -provada quer nas coisas physicas, quer nas sobrenaturaes, -porque o diabo, que por sua soberba se fez espirito -immundo, busca de ordinario tomar as formas mais horriveis -e immundas, que pode ser, para communicar-se com -seos bons servos e amigos.</p> - -<p>Bem sei o que disse S. Paulo—<i>Ipse enim Sathanas transfigurat -se in Angelum lucis</i> «que Satanaz, transformado em -camaleão, para seduzir os tolos, toma a forma de um Anjo -de luz», isto é, reveste-se de bellas figuras, ou profere boas -palavras para melhor fazer seo jogo.</p> - -<p>As bonitas formas de mulheres e raparigas, que elle toma -para melhor attrahir os homens luxuriosos, não tem outro -motivo senão o desejo de chamar a si os individuos conforme -sua inclinação.</p> - -<p>Diz S. Thomaz, que por este motivo, não pode o diabo -aborrecer naturalmente os Anjos felizes, porque tem parte -na natureza d’elles, sendo impossivel amal-os em relação á -justiça dos Anjos, e injustiça dos diabos.</p> - -<p>D’esta conclusão deduso duas inclinações dos demonios: -uma natural com que amam as coisas boas, ou pelo menos -não as podem aborrecer, e a outra é proveniente da culpa -e da soberba, com que procuram coisas immundas e abominaveis, -e não podem proceder de diverso modo porque -gostam da perversão do appetite, por culpa da natureza.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_264"></a>[264]</span></p> - -<p>Dizemos por isto em lingua vulgar, que o diabo horrorisa-se -das torpesas e maldades, a que leva o homem a praticar -por suas instigações, o que entendereis conforme a distincção -da naturesa e a culpa do diabo.</p> - -<p>Eis uma das principaes causas, porque este cruel Behemot -toma a figura de morcego, a que accrescento outra tirada -de uma propriedade peculiar aos morcegos, qual a destes -maus passaros nocturnos, muito mais horriveis e maiores -do que os de França procurarem as pessoas que estão deitadas -e dormindo,<a id="Nanchor_101" href="#Note_101" class="fnanchor">[101]</a> e lhe arrancarem um pedaço de carne e -depois lhe chuparem muito sangue sem que se desperte a -victima, porque tem a propriedade de conservar o homem -adormecido emquanto lhe chupam o sangue: achando-se fartos -o deixam, continuando o sangue a correr, e por isto -fica debil a pessoa, e por muitos dias anda com difficuldade.</p> - -<p>Melhor escolha não podia fazer Satanaz para representar -sua naturesa e crueldade porque anda a noite, e sob as trevas -da ignorancia procura os homens adormecidos e si delicia -nas suas carnes, tirando-lhe a inclinação natural que -tem para com Deos, e procura meios de sugar á sua vontade -o sangue, instrumento da vida, as affeições e paixões -dos seos captivos para tornal-os fracos e impotentes em fazer -o bem e procurar sua salvação.</p> - -<p>2.º Consiste a 2ª dificuldade na imitação da voz humana -pelo diabo, não tendo orgãos e nem lingua para fazel-o.</p> - -<p>Sua palavra é apenas a manifestação de seo desejo e -vontade quando falla aos outros diabos, seos companheiros, -e aos homens pelas impressões fantasticas, que faz as suas -imaginações.</p> - -<p>Comtudo nos ensina a Santa Escriptura, que elle servio-se -da lingua da serpente para seduzir nossa primeira mãe, permittindo -Deos, porque não tem poder na creatura, em quanto -fraca e indigente, sem licença de Deos, e com ella pode -crear um corpo no ar, e articular em qualquer lingua até -mesmo nas desconhecidas suas affeições e desejos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_265"></a>[265]</span></p> - -<p>Ponho de parte mil outros modos, pelos quaes manifesta -seos desejos aos feiticeiros, por não ser nosso proposito.</p> - -<p>3.º Notamos as noticias, que deo dos motins havidos era -França, isto é, d’esta ultima leva de soldados, e como poude -ser isto.</p> - -<p>Direi com Santo Agostinho, que os demonios excedem -em ligeiresa todo o corpo existente na maquina do mundo, -nada havendo que possa com elles competir em velocidade.</p> - -<p>Em 24 horas fez o primeiro movel este grande curso em -torno das abobadas inferiores, espaço superior aos calculos -dos mathematicos, de tal modo que dentro d’uma hora vence -não sei quantas mil legoas.</p> - -<p>Calculae agora a ligeiresa d’estes espiritos, que em poucos -momentos giram ao redor do universo, sabendo e vendo -o que por elle se passa, e conjecturando o que se pode predizer -das coisas futuras: si tão ligeiros fossem os correios, -á cada hora receberiamos noticias de todas as partes.</p> - -<p>4.º Usava de carne, dado o caso de ser verdadeira a existencia -d’este morcego, de que se servia o diabo, e por tanto -tinha necessidade de nutrir-se, e si fosse apenas parto de -imaginação não tinha precisão de carne para viver.</p> - -<p>Não obstante tudo isto, tem sempre sido costume do demonio -comer e beber apparentemente em companhia do seos -mais dedicados servos, imitando assim o exemplo dos anjos -bons do antigo Testamento, que comiam com Abraham, Loth, -Tobias e outros.</p> - -<p>5.º A situação do logar procurado por este espirito, isto -é, os bosques, o concavo das arvores, ou o recanto de alguma -casa solitaria, nos faz ver a inclinação, que tem estes -espiritos rebeldes a fazerem, como os condemnados, suas moradias -em logares escuros e desertos, tristes e melancolicos, -temendo, se assim se pode dizer, a luz creada, e a doçura -da harmonia.</p> - -<p>Acha-se isto em prova na pessoa de Saul, possesso, sendo -aplacado pelo som da harpa de David.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_266"></a>[266]</span></p> - -<p>Asmodeo foi preso pelo anjo Raphael no fundo do deserto, -e Satanaz pelo anjo do Apocalypse no fundo dos abysmos.</p> - -<p>Este pobre, victima de legiões diabolicas, que Jesus-Christo -livrou, dia e noite morava nos sepulchros dos defuntos.</p> - -<p>Fingiam os antigos, que Cerberas, tirado do inferno, apenas -vio a brilhante luz do sol principiou a vomitar Aconite, -até que lhe foi permittido regressar ás suas cavernas tenebrosas.</p> - -<p>Diga-se isto em relação ao feiticeiro da aldeia do grande -<i>Thion</i>.</p> - -<p>Quanto ao <i>Pagy-uassu</i>, das aldeias de <i>farinha molhada</i>, -prevenio aos seos, alguns mezes antes, da chegada dos francezes, -que breve chegavam os <i>Caraybas</i>, trazendo-lhes mercadorias, -sendo para notar, que ignoravam a estada dos -francezes na <i>Ilha do Maranhão</i>.</p> - -<p>Com tal aviso vestiram-se uns de camisas, e outros de diversos -factos do tempo, que outr’ora com elles moravam os -francezes.</p> - -<p>Assim vestidos foram ter com os habitantes das aldeias -de <i>Thion</i>, e para assustal-os lhes disseram—«entregae-vos -á nós, porque os francezes estão comnosco; olhae as roupas -que nos deram.»</p> - -<p>Estas palavras intimidaram muito a <i>Thion</i> e os seos, e pensavam -em fugir quando chegaram os enviados dos francezes -dizendo-lhes, que estes os veriam ver logo que elles -mandassem suas embaixadas á ilha.</p> - -<p>Por isto podeis ver, quanto o astucioso Satanaz dava poderes -a estes <i>pagys</i>, fazendo-lhes prever coisas futuras.</p> - -<p>Sua astucia porem não é tão grande, relativamente á predicção, -porque via o esforço dos francezes visitando os povos -visinhos, e tambem o desejo e a resolução de ir procurar -essas nações, onde se achassem, e por tanto este bom -criado advertio seo senhor.</p> - -<p>Usam os diabos de outra maneira de fallar e de communicar-se -com os diabos e com os feiticeiros d’este paiz, a saber,<span class="pagenum"><a id="Page_267"></a>[267]</span> -fazem um buraco em terra, dentro de casas longinquas, -deitam-se de bruços os feiticeiros, mettem a cabeça no buraco, -fecham os olhos, perguntam ao demonio o que querem, -e do fundo do buraco estes lhes respondem.</p> - -<p>Este uso era muito trivial na Gentilidade, e deixando as -historias profanas vou referir-me ao que está escripto no livro -1º dos Reys, cap. 28 quando Saul foi consultar a feiticeira -de Endor, a qual curvando-se em terra, metendo a -cabeça e o rosto n’um buraco, fazendo suas invocações, -disse—<i>Deos vidi ascendentes de terra</i>—«vi Deoses subindo -da terra.»</p> - -<p>Não é sem fundamento, que ella escreveo e servio-se -d’estas palavras—<i>vi deoses</i>, a menos, que estas feitiçarias -não tivessem poder e força para fazer apparecer alguns diabos, -mas quiz Deos, que a propria alma de Samuel acudisse -á sua palavra afim de prophetisar a ultima desgraça de -Saul, que em suas necessidades havia recorrido aos adevinhos -e feiticeiros.</p> - -<p>Soube de alguns francezes, moradores na aldeia de <i>Vsaap</i>, -que um feiticeiro d’ahi era mui respeitado e temido -pelos selvagens, por ser geral a crença delle fallar com toda -a liberdade com o diabo, pela maneira ja dita, e por isso -não se atreviam a aproximar-se de sua casa quando viam -a porta fechada receiando tal colloquio.</p> - -<p>Havia tambem na Ilha uma velha feiticeira, que guardava-se -muito em segredo: era mui apreciada pelos selvagens -e procurada especialmente nas molestias incuraveis; quando -todos os feiticeiros já não sabiam o que haviam fazer, então -ella era convidada, e trazida com segurança, porem sempre -occulta.</p> - -<p>N’um dia, segundo o que me disseram alguns francezes, -ella veio a <i>Vsaap</i> para fazer uma cura, já sem esperança, -e, antes de começar fechou-se n’uma casa, isolada no meio -da praça da aldeia, e ahi fez suas invocações e feitiçarias -diabolicas sobre o corpo do infermo, fazendo apparecer visivelmente -o seo demonio.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_268"></a>[268]</span></p> - -<p>Os francezes, que isto me contaram, tiveram desejos de -espiar o que fazia esta feiticeira, porem os selvagens os embaraçaram -o mais que poderam, asseverando-lhes serem perigosos -e maus os espiritos d’esta mulher, de fórma que na -seguinte noite torceriam o pescoço de quem os espiasse.</p> - -<p>Zombaram os francezes, e foram de muito boa vontade á -essa casa, com grande admiração dos selvagens, que os -julgavam atrevidos e presumpçosos, e fazendo um buraco -na parede de palha viram as gesticulações d’essa mulher e -notaram não sei que de monstruoso ao redor d’ella, não podendo -destinguir o que era, e assim se retiraram.</p> - -<p>Em quanto estive doente, muitas pessoas me fallaram d’esta -desgraçada creatura com grandes gabos e estima, como infallivel -em dar saude aos que lh’a pediam. Bem podeis calcular -si me agradavam taes palavras.</p> - -<p>Fallaram-me tambem de certos barbeiros d’aquelles paizes, -que habitavam em choupanas nos bosques, onde iam consultar -seos espiritos.</p> - -<p>Na verdade, é frequente na Ilha e nos paizes visinhos -edificarem os feiticeiros pequenas choupanas de palha em -lugares longinquos nos mattos: ahi collocam pequenos idolos -de cera ou de madeira em forma humana,<a id="Nanchor_102" href="#Note_102" class="fnanchor">[102]</a> uns maiores, -outros menores, porem os maiores não tem mais que um -covado. Ali em certos dias vão elles levando comsigo fogo, -agoa, carne ou peixe, farinha, milho, legumes, pennas de -côr e flôres. D’estas carnes fazem uma especie de sacrificio -a esses idolos queimam resinas cheirosas, enfeitam-nos com -pennas e flores, e ahi se demoram muito tempo sosinhos: -crê-se que era a communicação d’estes espiritos.</p> - -<p>Crescia este mau costume, e estendia-se as aldeias visinhas -de <i>Juniparan</i>, onde morava o Revd. Padre Arsenio -a ponto d’elle encontrar estes idolos de cera na visinhança -dos bosques e algumas vezes nas proprias casas.</p> - -<p>Livrou-se d’elles por meio d’exorcismos, que fez em sua -Capella contra estes diabos tão insolentes como atrevidos, e -depois não ouvi mais fallar n’isto.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_269"></a>[269]</span></p> - -<p>Considerae agora a presumpção de Satanaz, que em todos -os lugares, e em todas as nações, quando póde, se faz conhecido -por alguma especie de adoração e sacrificio por saber, -que nenhuma religião boa ou má, pode existir sem algum -sacrificio e representação da coisa adorada.</p> - -<p>Eis porque elle inventou os idolos em lugar das verdadeiras -imagens, que Deos mandou levantar no tabernaculo, -e depois no templo de Salomão.</p> - -<p>Em vez dos verdadeiros sacrificios, que Deos estabelecia -na sua lei, procurou este espirito soberbo ter altares -e sacrificios de toda a especie de animaes e fructos -da terra.</p> - -<p>Comquanto esta nação de selvagens não tivesse perante -o publico algumas ceremonias de religião, nem préces e nem -orações, comtudo em particular estes feiticeiros serviam ao -diabo, como ja disse.</p> - -<p>Para acabar, direi que acreditavam estas pessoas em espiritos -particulares, até mesmo francezes.</p> - -<p>Vou dar-vos exemplos.</p> - -<p>Quando o Sr. de la Ravardiere, depois da guerra dos <i>Camarapins</i>, -regressava do Pará, advertio-lhe uma mulher -que fora resolvida a sua morte, bem como a de todos os -francezes e <i>Tupinambás</i>, que o acompanhavam, pelos selvagens -d’aldeia, onde estava alojado.</p> - -<p>Fez-se tudo quanto foi possivel para descobrir-se a verdade, -porem todos negaram e nada confessaram.</p> - -<p>Fizeram crer aos selvagens d’aquelles lugares, que no relogio -d’algibeira, que trasia o Sr. de la Ravardiere, havia -um <i>espirito</i> escondido, que dava movimento ao que se via -por dentro e por fóra, e que aos francezes revellava as coisas -mais secretas.</p> - -<p>Fez-se vir ao chefe, ao qual se disse, que se o ponteiro -do relogio chegasse a tal ponto do quadrante, que fallava a -verdade o <i>espirito</i>, e por isso acrescentaram—leva-o comtigo -e guarda-o até ahi chegar o ponteiro, e vem antes do -nosso <i>espirito</i> e conta-nos tudo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_270"></a>[270]</span></p> - -<p>Pegou do relogio e levou-o para sua casa, e vendo que -elle caminhava sempre para diante, acreditou facilmente no -espirito dos francezes, que imprimia tal movimento, e não -esperou que chegasse ao fim prescripto, voltou, declarou tudo -e restituio o relogio.</p> - -<p>O capitão d’um navio de guerra deo-nos uma bella imagem, -tomada de um navio portuguez, que ia para Pernambuco.</p> - -<p>Por acaso mandei guardar essa imagem, na hora em que -a recebi, n’uma das caixas, que tinha em nosso quarto, e -n’esse mesmo momento vieram muitas mulheres indias á -nossa casa, e vendo a imagem muito bem esculpida, pintada -com diversas cores sobre fundo de oiro, admiraram-se e não -queriam entrar, dizendo—<i>Y anaité asse quege seta?</i> «que coisa -nova é esta que nos olha tão vivamente? Ella nos faz medo.» -Fil-os entrar dizendo-lhes que não tivessem medo, e que era -uma imagem dos servos de Deos. Admirei-me de vel-os immediatamente -prostrados a seos pés chorando sua boa vinda, -e depois me perguntaram que carne ella comia para irem -buscal-a. Ri-me de tal simplicidade, e colloquei a imagem na -Capella de Sam Francisco.</p> - -<p>Coisa igual aconteceo a um <i>Tabajare</i>, muito simples, -vendo da porta da Capella de S. Luiz um bello crucifixo, -que dentro estava. Não me foi possivel fazel-o entrar na -Capella, e dizia ao interprete. «Elle me olha vivamente, -está vivo sem duvida, tenho medo d’entrar não sendo baptisado -porque me faz mal.»</p> - -<p>Fizeram o mesmo muitos outros, porem tomando o crucifixo -em meos braços, fiz-lhes vêr que elle era de madeira, -representando com tal forma o que Jesus Christo por nós -soffreo.</p> - -<p>Eis o resultado da superstição, como eu já disse, que entre -elles derramaram seos feiticeiros, tanto á respeito de -seos idolos, como de seos espiritos.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_271"></a>[271]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XII">CAPITULO XII</h3> - -<p class="subhead">De algumas outras ceremonias diabolicas praticadas -pelos feiticeiros do Brazil.</p> - -</div> - -<p>Sentiria muito este Principe se deixasse intacta alguma -coisa no serviço de Deos, sem procurar imital-a falsamente, -e sem buscar introduzil-a no culto supersticioso de sua soberba.</p> - -<p>Outr’ora Deos no Antigo Testamento instituio as agoas da -Purificação, feitas e compostas de diversas materias e differentes -ceremonias, conforme o fim e objecto, a que se -destinavam, tanto para purificar os homens, os vasos, e os -utensilios do Templo, como os vestidos, as casas e todos os -moveis.</p> - -<p>Por imitação instituio este demonio as agoas de lustração, -das quaes se serviam os pagãos para diversos fins, bem -como os judeos, lavando e aspergindo com ellas os homens -antes dos sacrificios, os utencilios dos templos dos idolos, -as casas, os vestidos e moveis dos infieis.</p> - -<p>Vejamos se esqueceo-se esta desgraçada serpente d’illudir -nossos selvagens com taes superstições.</p> - -<p>Quando outros exemplos não podessemos produzir alem -do já referido no <i>Tratado do Temporal</i>, das nigromancias -feitas pelo feiticeiro, vindo dos campos do Mearim, bastava -só esse para demonstrar claramente as loucuras e abusos, -que semeára este antigo enganador entre os povos, em relação -ao nosso fim.</p> - -<p>Como soube, da propria bocca dos feiticeiros, de muitas -particularidades, que faziam para illudir estas gentes, não -quero privar o leitor de as conhecer.</p> - -<p>È costume dos <i>Pagys-uaçus</i> celebrarem, em certa epoca -do anno, lustrações publicas,<a id="Nanchor_103" href="#Note_103" class="fnanchor">[103]</a> isto é, purificações supersticiosas -por aspersão d’agoa sobre os selvagens, e bem que -tudo dependa de sua imaginação, fazendo á capricho taes -oblações, comtudo de ordinario enchem d’agoa grandes potes<span class="pagenum"><a id="Page_272"></a>[272]</span> -de barro, proferindo em segredo algumas palavras sobre -elles, deitando tambem fumaças de <i>Petum</i>, e misturando -tambem um pouco de pó da casa, em que se acham, punham-se -a dançar, e depois o feiticeiro toma um ramo de -palha, mete dentro do pote, e com elle asperge a companhia.</p> - -<p>Feito isto, toma cada um a porção d’agua que quer nas -<i>cuias</i>, ou tigellas de madeira, e com ella lavam a si e a -seos filhos.</p> - -<p><i>Pacamão</i>, grande feiticeiro de <i>Commã</i>,<a id="Nanchor_104" href="#Note_104" class="fnanchor">[104]</a> contou-me um -dia, que faria sahir agoa da terra, com que lavava estas -gentes, com grande admiração de todos os barbaros, que -viam sahir tão fresquinha essa agua do meio de sua casa, -e a tomavam como si fosse milagrosamente enviada pelos -espiritos, mas o astucioso tinha enchido d’agoa um grande -vaso e mettendo-o em terra d’elle fazia sahir agoa por meio -de tubos ou canaes, ou tabocas, que em abundancia se -encontram nas mattas do Brasil, e d’esta forma illudia os -seos.</p> - -<p>Aos gentios tinha o diabo communicado muitas ideias erroneas -á respeito das agoas, das fontes, e dos regatos. N’umas -habitavam Nymphas, e n’outras deosas: estas faziam -uma coisa, e aquellas—outras; umas eram perigosas e enganadoras, -outras agradaveis e sinceras; umas sagradas, e outras -profanas.</p> - -<p>Quando os selvagens vêem certa especie de lagartos, parecidos -com os venenosos de diversas cores, correr para -agoa, pensam supersticiosamente, que essa fonte é prejudicial -ás mulheres, e que d’ella bebe <i>Jeropary</i>.</p> - -<p>Sabendo desta superstição para livrar-me do encommodo -que me davam as mulheres vindo lavar-se na fonte do nosso -logar de Sam Francisco, fiz correr o boato, que lá haviam -sardões, e depois d’isto nenhuma mais se animou a ir ahi -excepto as escravas do Forte, que não tinham licença de -lavar-se na fonte, e d’est’arte tive o prazer de mandar<span class="pagenum"><a id="Page_273"></a>[273]</span> -amural-a e fechar á chave, afim de conservar a agoa sempre -limpa.</p> - -<p>Chega esta superstição a ponto de acreditarem, que estes -lagartos atiram-se ás mulheres, adormecem-nas, e gozam-nas, -ficando grávidas, e parindo lagartos em vez de crianças.</p> - -<p>Eis porque, quando mandei espalhar tal boato, vinham as -escravas do Forte em bandos, armadas de cacetes, de facas, -e de outros instrumentos iguaes para se defenderem, diziam -ellas, d’estes lagartos, o que motivaram muito riso a nós -outros, os francezes.</p> - -<p>Alem das agoas de lustrações, e diabolicas abluções praticadas -por estes feiticeiros tem uma maneira particular de -communicar seo espirito aos outros, isto é, por meio da herva -<i>Petun</i> introdusida n’um caniço, de que elles pucham a -fumaça, lançando-a sobre os circunstantes ou soprando-a -mesmo na canna, exhortando-os a receber seo espirito e sua -virtude.</p> - -<p>Parece que este cautelloso dragão quer com tal ceremonia -falsa imitar Jesus Christo quando deo seo espirito aos -Apostolos, e o seo poder aos seos successores para transmitil-o -aos iniciados nas ordens sagradas. Assim se lê em São -João—<i>Insufflavit et dixit eis, accipite Spiritum Sanctum</i>: -«soprou sobre elles, e lhes disse—Recebei o Espirito Santo.»</p> - -<p>D’onde estes feiticeiros tirariam esta ceremonia satanica, -si o diabo não lh’as tivesse mostrado? Achando-se sempre -fechados n’esta grande e vasta região do Brasil, sem communicação -alguma com o velho mundo, não podiam aprendel-a -de outra nação.</p> - -<p>Estes bafejos lhes são muito particulares, como ceremonia -necessaria para curar os infermos, porque vós os vedes puchar -pela bocca, como podem, o mal, dizem elles, do paciente, -fazendo-o passar para a bocca e garganta d’elle, inchando -muito as bochechas, e deixando d’ellas sahir de um -só jacto o vento ahi contido, causando estampido igual ao -de um tiro de pistola, e escarrando com grande força dizendo<span class="pagenum"><a id="Page_274"></a>[274]</span> -ser o mal, que haviam chupado, e fazendo acreditar ao -doente.</p> - -<p>Á este respeito o Sr. de Pezieux e eu passamos um dia -alegre na aldeia de <i>Vsaap</i>.</p> - -<p>Um pobre moço selvagem estava atacado pela colica do -paiz.</p> - -<p>Veio um d’estes feiticeiros exercer sua attração de espirito -sobre o seo ventre, fazendo muitos tregeitos, e retrahindo-se -por diversas vezes vendo-nos prestar-lhe muita attenção, -e apesar de tudo isto o doente continuava a gritar. -Veio o feiticeiro depois procurar-nos e mostrando-nos dois -outros pregos nos disse—«eis o que lhe tirei do ventre, cujos -intestinos estão cheios d’isto, é preciso tiral-os um por -um. Si eu não os tirasse todos, lhe cravariam as tripas e a -garganta.»</p> - -<p>Imbuio a este moço, sempre gritando, que lhe tinha tirado -do ventre esses pregos.</p> - -<p>Si essas casas fossem cobertas de ardosias, penso que -meteria na cabeça d’esse rapaz ter elle comido as ripas e -os pregos; mas não sendo communs entre elles pregos de -ferro, não sei como poude illudir os assistentes com tal loucura.</p> - -<p>Poderia referir muitos outros exemplos, porem bastam-me -estes ao meo fim.</p> - -<p>Ora si é coisa digna de admiração vêr o Espirito Infernal -em tudo quanto acabamos de dizer até aqui, muito -maior deve ser o nosso espanto pelo que vou dizer, isto é, -pela existencia da confissão auricular entre os selvagens.</p> - -<p>Nada digo que não ouvisse da bocca de <i>Pacamão</i>, de -outros selvagens e dos franceses.</p> - -<p>O grande <i>Pagy</i>, na sua provincia de <i>Commã</i>, ia visitar, -quando lhe aprasia, as aldeias do seo dominio, ordenando -que todos fossem confessar-se com elle, especialmente as -mulheres e as raparigas, e quando encontrava alguma que -se recusava a dizer tudo, elle a ameaçava com o seo <i>espirito</i>, -que as havia de atormentar, e tinha muita finura para<span class="pagenum"><a id="Page_275"></a>[275]</span> -reconhecer si occultavam ou não alguma coisa. Dava-lhes -depois não sei que especie de absolvição, e contava tal feito -d’esta e d’aquella, e apesar de tudo isto sempre exerceo seo -officio de confessar até nossa chegada.</p> - -<p>Pensae, eu vos peço, quem lhe ensinaria esta maneira -de confissão auricular, de ameaçar seos similhantes, no caso -de occultarem alguma coisa com o seo <i>espirito</i>, que os castigaria, -e que os absolveria, se tudo confessassem?</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XIII">CAPITULO XIII</h3> - -<p class="subhead">Claros signaes do reino do diabo no Maranhão.</p> - -</div> - -<p>O Salvador do Mundo em S. Marcos, antes de subir á direita -de seo Pae, encarregou a seos Apostolos e discipulos -de irem pelo universo converter os infieis assegurando-lhes -por certos indicios e signaes a proxima ruina do imperio -dos demonios, a saber—<i>signa eos qui crediderint hæc sequentur: -In nomine meo dæmonia ejicient, linguis loquentur -novis, serpentes tollent, et si mortiferum quid biberint, -non eis nocebit. Super ægros manus imponent et bene habebunt</i>: -«estes signaes seguiram os crentes, em meu nome -expellirão o diabo, fallarão novas lingoas, desviarão as serpentes, -e si beberem algum veneno mortifero nada soffrerão.»</p> - -<p>Para bem entender-se estas palavras, convem notar com -os padres e doutores, que foram postas litteralmente em pratica -pelos primeiros christãos, quando na primeira idade da -igreja era preciso combater a obstinação dos judeos e a -louca sabedoria dos gentios.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_276"></a>[276]</span></p> - -<p>Depois que estendeo-se a fé por todo o universo, que foi -por todos condemnada a pertinacia dos judeos e tida por -vaidade a sabedoria humana, não foi mais necessario observar -litteralmente estes signaes na conversão dos incredulos -e sim unicamente a pratica allegorica e mistica.</p> - -<p>Eis o que desejamos mostrar n’este capitulo ter-se feito -todos os dias em Maranhão.</p> - -<p>Primeiramente elle disse—<i>In nomine meo dæmonia ejicient</i>: -«em meo nome elles expellirão os demonios.»</p> - -<p>Em dois annos que estive em Maranhão, vi isto cumprido -por diversas formas, por que os diabos fizeram apparecer realmente -o medo e o temor que tinham do nome de Deos, -procurando por todos os meios embaraçar nossa missão, já -persuadindo seos feiticeiros, mais fieis, a ordenar as nações -sobre que tinham poder, de não se aproximarem de nós, já -infundindo-lhes terror com o signal da Cruz e excitando-os a -arrancar os que existiam, dando maus exemplos com ridicularisar -o que sanctamente ensinavamos a estes barbaros, -intimidando por muitas vezes os habitantes de <i>Maranhão</i>, -<i>Tapuitapéra</i>, <i>Commã</i>, <i>Caetés</i>, <i>Pará</i> e <i>Mearim</i> e fazendo-os -fugir para os matos e logares desconhecidos com receio de -serem presos e captivados pelos francezes ou pelos portuguezes.</p> - -<p>Finalmente mostrou-se tudo de forma diversa, porque -quando julgavamos tudo perdido, foi quando Deos mostrou -o poder do seo nome, conservando não só estes selvagens -junto de nós, mas tambem fazendo com que despresassem -seos feiticeiros e o poder do diabo, fazendo fugir <i>Jeropary</i>, -com o nome de Deos, e a ablução de Jesus Christo.</p> - -<p>Vou mostrar bons exemplos.</p> - -<p>Lembrar-vos-heis do que acima vos disse tanto dos feiticeiros -dos campos do Mearim e das habitações de <i>Thion</i>, -como da maneira porque os diabos manifestavam o temor, -que tinham das cruzes, que plantavamos em nome de Jesus -Christo, e de nós seos fieis servos: quando alguns de seos -Principaes me diziam, que estes feiticeiros não quiseram vir<span class="pagenum"><a id="Page_277"></a>[277]</span> -com elles, eu lhes perguntava a razão, e elles me respondiam—<i>porque -Jeropary tem medo de Tupan</i>.</p> - -<p><i>Acaiuy</i>, principal do Mearim, de quem fallaremos mais de -espaço, veio me pedir licença para fazer sua casa ao pé da -minha, não querendo ficar com os outros no <i>Forte</i>, dizendo-me -entre outras rasões que tinha para isto, ser porque -<i>Jeropary</i> não se atrevia a aproximar-se do logar, em que -habitavamos visto termos vindo expressamente para repellil-o.</p> - -<p><i>Pedro Cão</i>, selvagem baptisado em Dieppe havia muitos -annos, dizia a mim e aos Srs. de la Ravardiere, de Pezieux, -e a outros quando o interrogavamos á respeito de sua felicidade -na guerra, que Deos sempre o livrára de mil perigos -porque era christão, e fazia fugir o diabo apenas -chegava n’uma aldeia, e que seos similhantes mostravam-se -animados, quando em companhia d’elle, não temendo <i>Jeropary</i>.</p> - -<p>O mesmo pensavam os habitantes de <i>Tapuytapéra</i> á respeito -dos novos christãos, julgando que elles perseguiam e -faziam fugir <i>Jeropary</i>, mostrando-se contentes por isto quando -tinham esses christãos em suas aldeias.</p> - -<p>Servindo-nos d’estas crenças embutiamos no espirito dos -cathecumenos como ponto de fé, que logo que elles fossem -<i>lavados</i>, adquiririam poder contra o diabo, e nunca mais -deviam temel-o.</p> - -<p>Corre voz geral em todas estas terras, que os diabos são -<i>espiritos maus</i>, que temem os <i>Pays</i> e os <i>Caraybas</i>, isto é, -os padres e todos os que são baptisados.</p> - -<p>Recorda-me que fallando mil vezes d’esta materia aos selvagens, -elles me disseram—<i>Jeropary yportassuasseque gésera</i>—«o -diabo está agora pobre e miseravel, tem muito -medo e já não é atrevido como era.» <i>Jeropary ypochu, -Tupan Katu</i> «o diabo é mau, cruel e nada valle, porem -Deos é muito bom.»</p> - -<p>Que desejarieis mais para o complemento d’este primeiro -signal, e segurança da total ruina do diabo?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_278"></a>[278]</span></p> - -<p>São os proprios diabos, que confessam temer o nome de -Jesus Christo, as armas de sua paixão, e até os seos servos, -dissuadindo seos intimos amigos para que de nós se -ausentassem, abalando ceos e terra afim de embaraçar-nos, -e movendo tudo para inutilisar nossos esforços, emfim cahiram -de ventas no chão, e chegaram ao cabo de suas astucias.</p> - -<p>Os que outr’ora os temiam, hoje os despresam; emfim só -nos resta continuar as obras começadas.</p> - -<p><i>Linguis loquentur novis</i>: «fallarão novas linguas». Na -verdade os nossos selvagens do Maranhão fallam uma linguagem -inteiramente nova, visto que, esse <i>Marata</i> antigo, -isto é, um dos Apostolos de Jesus Christo de quem fallarei -mais adiante, não lhes ensinou a fallar como fallam agora, -a saber: na profissão do christianismo recitando o symbolo -dos Apostolos <i>Arobiar Tupan</i> etc. etc., a dirigir-se a Deos -por meio da oração dominical <i>Oreruue</i> etc. a encaminhar -suas vidas e acções segundo os mandamentos da lei de -Deos <i>Ymoeté yepé Tupan</i> etc. etc. conforme os mandamentos -da Igreja. <i>Are maratecuare ehumé</i> etc. «lavar e fortificar -suas almas pelos Santissimos Sacramentos.» <i>Iemongarauiue</i> -etc.</p> - -<p>É por certo fallar linguagem nova, quando discorrem sobre -os mysterios da nossa fé, como sejam a unidade da essencia -em Deos, e na Trindade das Pessoas; que o Filho de -Deos tomou corpo no ventre da Virgem: que os maus vão -para o inferno, que todos os homens resuscitarão em corpo -e alma, indo depois cada um para o lugar de sua sentença: -são estes com tudo os discursos diarios dos feiticeiros, só -fallando em matar, comer, assar e seccar a carne dos seos -inimigos, e nas suas incontinencias, libertinagens e loucuras.</p> - -<p>Admirar-se-ha muito quem pensar em tal mudança entre -os barbaros, que somente sabem o que lhes ensinou a natureza.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_279"></a>[279]</span></p> - -<p>Creem os judeos, que os Apostolos sahiram d’um tunel, -bem cheio, de vinho e de carne, e viram que os gentios de -diversas nações davam signaes de entender o que prégavam, -e que os Apostolos por sua vez tambem os percebiam.</p> - -<p>Tambem vos disse, que os selvagens ficavam muito admirados -quando viam seos similhantes, baptisados, discorrer -em sua lingua sobre coisas altas, profundas, e tão novas, -como as que conheciamos por seos interpretes, e diziam -uns aos outros—como é que esta gente falla tambem de -<i>Tupan</i>, como os Padres lhes tem ensinado tão bellas coisas, -quaes as que nos contam: como nossos filhos sabem mais -do que nós, nossos Padres, e mais remotos antepassados, -que embora tenham vivido muito nada nos contaram como -estes Padres: por força fallaram com Deos.</p> - -<p><i>Em terceiro lugar.</i> <i>Serpentes tollent</i> «elles desviaram as -serpentes.» Que são essas serpentes do Brazil, que com sua -lingua e cauda envenenam estes povos? Não são todos os -grandes e pequenos feiticeiros, que envenenam suas Nações?</p> - -<p>A fé de Jesus Christo é como a Cegonha, que purifica o -paiz, onde está, das serpentes venenosas.</p> - -<p>S. Paulo, na Ilha de Malta, atirou ao fogo a vibora que -trazia no dedo.</p> - -<p>O dedo dado por Jesus Christo aos Apostolos, é o poder -do Espirito Santo, que de ordinario busca agentes naturaes -docemente, sem constrangimento, para dispôr o objecto a -receber uma nova fórma pelo banimento e ruina de outra -fórma contraria.</p> - -<p>Estas viboras, arremeçadas ao fogo, são os Ministros de -Satanaz, que o Espirito Santo expelle para tornar a Nação -cheia d’abusos susceptivel de acceitar o Evangelho e de conhecer -a Deos.</p> - -<p>Si eu disser, que me parece ter o Espirito Santo, em relação -a estes feiticeiros do Maranhão, feito um grande milagre, -que nunca fez para com os sacrificadores do Paganismo,<span class="pagenum"><a id="Page_280"></a>[280]</span> -creio ser bem recebida a minha opinião, porque, alem -de dois ou tres feiticeiros, todos os grandes só desejam ser -baptisados: ao contrario, raras vezes estes sacrificadores do -diabo, na gentilidade esposavam o christianismo.</p> - -<p>Por isso podiamos dizer, que as serpentes venenosas, que -se arrastam na terra, tornam-se passaros voadores no elemento -do ar, conforme a profecia de Isaias: <i>De radice colubri -egredietur Regulus, et semen ejus absorvens volucrem</i>: -«da raiz da cobra sahirá o Basilico, e a semente do Basilico -engulirá o passaro,» o que Vatable assim interpreta<a id="Nanchor_105" href="#Note_105" class="fnanchor">[105]</a>: <i>De -radice serpentis egredietur Regulos, et fructus ejus, cerestes -volans</i>: «da raiz da serpente sahirá o Basilico, e o seo -fructo será uma cerasta volante.»</p> - -<p>Para entender esta passagem convem recordar-se do que -escrevem os naturalistas, a saber, que as cobras grandes e -grossas geram o Basilico quando comem um sapo; porem o -Basilico procura gallinhas brancas, com quem se unem, -pondo ellas ovos, que enterram n’areia ao ardor do Sol, e -d’elles sahem serpentes, que voam.</p> - -<p>Nada dizem, que eu não visse em Maranhão, conforme -me diziam e pensavam os selvagens, e aconteceo-me por -duas vezes, que uma gallinha branca que eu tinha, pozesse -dois ovosinhos redondos como uma ameixa de dama -e salpicados, e depois ella mudou de cacarejar, e parecia -louca.</p> - -<p>Disseram-me então os selvagens, que infallivelmente o -Basilico nos mattos a tinha coberto, pelo que convinha matar, -quebrar e queimar os ovos, para evitar a morte infallivel -de quem os comêsse: si se deixasse os ovos, sem queimal-os, -d’elles sahiriam serpentes voadoras, que não era a -primeira vez, que isto acontecia, e então todas as gallinhas -mudam de canto, e não param n’um lugar.</p> - -<p>Appliquemos isto ao nosso fim, e digamos que a antiga -cobra é Satanaz, Principe dos Demonios, os Basilicos são os -Diabos destacados nas Provincias por Lucifer para seduzir o -Mundo; as serpentes são seos Ministros, como sejam os <i>Pagys</i><span class="pagenum"><a id="Page_281"></a>[281]</span> -ou feiticeiros do Brazil, que desejam adquerir azas para -mudar de elemento da terra para o do ar, deixar seos velhos -e abominaveis costumes de arrastar o peito em seo -execrando e diabolico serviço, e aproximar-se do Ceo, como -o resto dos indios pela ablução ou lavagem de seos -antigos peccados pelo Sacramento do Baptismo.</p> - -<p>Estas serpentes, tão perseguidas no Brazil, são esses desgraçados -costumes, e abominaveis peccados, como sejam -as vilanias, raivas, e vinganças, já descriptas amplamente -n’outra parte.</p> - -<p><i>Em quarto lugar.</i> <i>Et si mortiferum quid biberint non -eis nocebit</i>: «e si bebem algum veneno mortifero, não lhes -damnificará.» O verdadeiro veneno, que engolem as almas, -é a falsa doutrina, que o Diabo faz suggerir nos ouvidos dos -novos christãos.</p> - -<p>Vós o achareis em muitos exemplos do proprio seculo dos -Apostolos. Certos seductores iam corromper os individuos -sem malicia, e apenas bebiam ellas o <i>Aconito</i>, sentiam-se -afflictos, impressionados em sua alma, e abalados em sua -fé; porem o Espirito Santo mencionado no genesis—<i>Spiritus -Domini, ferebatur super aquas</i> «o Espirito do Senhor é -levado sobre as agoas de Chaos,» isto é, ainda não purificadas -e nem limpidas, ou como querem dizer os outros: <i>Incubabat -aquis</i>, deitava-se sobre as agoas do Chaos para d’elle -tirar as bellas pombas, como fingiam os Poetas, os ovos de -Thetis, cobertos pelo pombo branco, ou o Cysne, de que sahiram -Castor e Pollux, ou então <i>fouebat aquas</i>, aquecia -essas agoas ainda frias.</p> - -<p>O Espirito Santo, digo eu desculpa mais facilmente a fragilidade -e fraquesa d’estes novos christãos, mas não as dos -antigos crentes.</p> - -<p>Assim vae adejando sobre as agoas desviadas do verdadeiro -caminho pelos maus discursos d’aquelles, que tem a -alma mal conformada, vae chocando os ovos abandonados -pelo Pae e Mãe, almas recentemente lavadas, porem separadas -da presença d’aquelles que as tem lavado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_282"></a>[282]</span></p> - -<p>Aquecidas essas agoas geladas pelo sopro do pernicioso -Aquilon, não quer que o veneno bebido lhes dê a morte, -conduzindo-as ao regaço de sua Mãe, e entre os braços dos -que, depois de Deos, os geraram espiritualmente em Jesus -Christo para obrigal-os a vomitar o veneno do seo coração, -e tomar o alimento salutar, pelo qual se fortificaram para -resistir de ora em diante a todos os choques.</p> - -<p>Passou-se isto no Brazil, como aconteceo no tempo dos -Apostolos, onde um certo numero de novos christãos de -<i>Tapuitapéra</i>, seduzidos por más palavras de um certo personagem, -metade d’elles se deshouveram e renunciaram o -Christianismo; porem nós cuidamos d’elles com todo o zelo.</p> - -<p>Assim fizeram os nossos superiores, que redobraram de -cuidados para remediar este mal levando para ahi tudo -quanto julgaram necessario, e por isso essas novas plantas, -fanadas por brisa gelada, adquiriram seo antigo vigor e florescencia, -e tornando a vel-os no Forte de Sam Luiz, procuramos -animal-os a ficarem firmes e constantes na profissão -do Christianismo, e ordenamos-lhes de não se separarem -de Martinho Francisco, ahi nosso suffraganeo.</p> - -<p>Sentia-se o diabo cercado por todos os lados, e peiores os -seos negocios de dia para dia.</p> - -<p>N’esta epocha, em que estou escrevendo, espero que os -padres que por la andam, lhe deem terriveis combates, e -que seo reinado vá de decadencia em decadencia, até total -ruina; porque antes de eu deixar a ilha, via e experimentava -a disposição geral e universal d’estes selvagens,<a id="Nanchor_106" href="#Note_106" class="fnanchor">[106]</a> -especialmente dos meninos, para os converterem.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_283"></a>[283]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XIV">CAPITULO XIV</h3> - -<p class="subhead">Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer, e -começarão a estabelecer o reinado de Jesus Christo.</p> - -</div> - -<p>O psalmista rei David, no seo psalmo 8.º—<i>In finem pro -torcularibus, psalmus David</i>, isto é, o psalmo de David, -que deve ser cantado em acção de graças ao Senhor no -fim das vindimas diz, prevendo a ruina total do imperio de -Lucifer sobre as almas dos infieis, e o estabelecimento do -reinado de Jesus Christo—<i>Ex ore infantium et lactentium -perfecisti laudem propter inimicos tuos, ut destruas inimicum -et ultorem</i>. «Tens apurado teos louvores pela bocca -dos meninos e das crianças de peito á despeito dos teos -inimigos, e por isso tu destroes o adversario e o tyranno -vingativo.»</p> - -<p>Rabbi Jonathas embellezou esta passagem, e esclareceo-a -por esta forma—<i>Fundasti fortitudinem, ut destruas Auctorem -inimicitiarum et ultorem</i> «estabelecestes a força do teo -imperio pela bocca e confissão da Fé dos meninos para mostrar -tua grandesa, e destruir o autor das vinganças e o sanguinario -vingador.»</p> - -<p>Disse São Jeronymo—<i>Quiescat inimicus et ultor</i> «fechaste -a bocca ao seductor inimigo da salvação, e enraivecido contra -os homens pela voz dos meninos.»</p> - -<p>Grande maravilha é o serem os meninos o symbolo da -proxima fundação do reinado de Jesus Christo e a queda do -poder dos demonios.</p> - -<p>Não me demoro em fundamentar com muitos exemplos -este signal da providencia de Deos, e assim limito-me a referir -o que se passou no Triumpho de Jesus Christo antes de -sua Paixão, quando os meninos em alta voz diziam—<i>Hosanna -filio David</i> «seja bem vindo o Filho de Deos,» o que -disse em primeiro logar o santo rei no seo cantico—<i>In finem -pro torcularibus</i>, «no fim pelas pressões,» isto é, no -fim do reinado de Satanaz, e no principio da Paixão de Jesus<span class="pagenum"><a id="Page_284"></a>[284]</span> -Christo, quando era tempo de pagarem os meninos este -tributo de reconhecimento.</p> - -<p>Em segundo lugar, de dia a dia, na continuação, no fim, -e na consummação do captiveiro de Satanaz sobre as almas -infieis, e no principio da Santa Igreja, fundada entre ellas, -principalmente pelos meninos, o que desejo mostrar ter sido -feito pelos filhos do Brasil.</p> - -<p>Estas almas juvenis, ainda não corrompidas por antigos -e maus costumes de seos paes, mostram não sei que disposição -singular e particular para receber, como si fosse uma -taboa rasa, qualquer pintura...</p> - -<p class="center">(Falta uma folha.)</p> - -<p class="noindent">... repugnancia: nós lhe facilitavamos os meios de o entender -comparando com as coisas, que veem diariamente.</p> - -<p>Assim como crescem as ostras sobre os ramos das arvores, -tomando carnes e recebendo vida entre duas conchas, -sem mistura, nem effusão de semente do humor marinho, e -apenas pelo calor do sol, assim tambem o Filho de Deos no -ventre da joven, a Santa Virgem, recebeo seo precioso sangue -da materia, e o Espirito Santo, do calor, e assim tomou -corpo sem alguma outra operação humana.</p> - -<p>Gostavam muito da comparação, e me disseram que em -seo paiz muitas coisas se geravam pela simples influencia -do Sol, como os lagartos, que sahem dos ovos, depois que -recebem a vida do calor do Sol, e por isso não tinham -difficuldade em crer o que nós lhes ensinavamos, e nem que -Deos se fizesse homem para morrer afim de salvar os seos, -porque, diziam elles, <i>Jeropary</i>, apesar de ser espirito mau, -entra no corpo dos monstros para nos amedrontar, espancar -e atormentar.</p> - -<p>Sobre tudo muita admiração nos causava o como facilmente -se convenciam da verdade e da realidade de Jesus -Christo, Filho de Deos, sob as especies de pão e vinho, ao -passo que viamos tantas almas vacillantes n’este ponto, embora -lhes sóbre espirito e comprehensão para outras coisas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_285"></a>[285]</span></p> - -<p>A este respeito não pude dizer outra coisa, senão o que -disse a Escriptura Santa no proverbio 25—<i>Sicut qui mel -multum comedit, non est ei bonun, sic qui scrutator est -magestatis, opprimetur a gloria</i>.—«É coisa tão doce como -o mel, mas quem d’ella comer muito, não pode offender -mais o estomago.»</p> - -<p>Nada ha de mais suave e delicioso do que a contemplação -das obras de Deos e a leitura das letras santas, mas -para aquelle que vae muito alem, e tudo mede pela vara de -seo espirito, impellido pela soberba de seo entendimento.</p> - -<p>Nada ha mais seguro, que não fique opprimido pelos vivos -raios da gloria de Sua Magestade, como se observa nos -mochos cegos, visto quererem olhar e julgar da face do sol, -e da sua luz.</p> - -<p>Ao contrario, os que manejam com temor e humildade os -mysterios de nossa fé, são esclarecidos sem prejuiso de suas -vistas, e docilmente obedecem a vontade e poder do soberano, -que pode o que quer, quer e faz o que diz.</p> - -<p>Estes pobres selvagens, fallo até dos que não são ainda -christãos, apenas se lhes fazia signal de sahirem da igreja, -retiravam-se promptamente, ficando comtudo na porta, que -se conservava fechada em quanto se recitava o canon da -missa, e fazia-se a communhão.</p> - -<p>Diziam elles, em resumo, que n’essa hora descia <i>Tupan</i> -sobre os altares, bebendo e comendo comnosco, que não -tinham merecimento para ficar ahi em frente d’elle senão -quando fossem baptisados, e a maior parte d’elles se ajoelhavam, -imitando os francezes.</p> - -<p>Os Indios christãos ajoelhavam-se apenas ouviam tocar a -campainha, juntavam as mãos e adoravam a Deos.</p> - -<p>Ao mysterio do Sacratissimo Corpo e Precioso Sangue do -Filho de Deos elles chamam <i>Tupan</i>, quer dizer, o proprio -Deos, segundo suas crenças, <i>Aséreu yanondé Tupan rare</i>, -quer dizer, «antes de morrer receberás o corpo de Deos».</p> - -<p>Ainda que eu reconhecesse n’elles facilidade de crer segredo -tão profundo, não me animaria a communicar-lhes senão<span class="pagenum"><a id="Page_286"></a>[286]</span> -em artigo de morte, e antes queria deixar esta tarefa -para os que viessem depois de mim, porque dando n’um -certo dia a communhão a uma India, a quem examinei tanto -quanto pude antes de lhe dar o Precioso Corpo de Jesus -Christo na Paschoa, apenas recebeo a Hostia Consagrada perturbou-se -muito e não a poude engolir a ponto de querer -tiral-a com a mão o que lhe prohibi disendo só poder ser -tocada por sacerdotes, que não tivesse receio, e nem se assustasse -tendo de receber seo Deos, que era de sua vontade, -que ella recebesse a hostia e a engolisse com toda -a confiança, o que fez mediante um pouco de vinho que lhe dei a -beber no calix: tão grande secura da lingoa e bocca proveio -da grande timidez d’ella em receber tão santo manjar, o -que me resolveo de então em diante a deixal-os bem fundamentarem-se -no conhecimento d’este artigo antes de administrar-lhes -o Santo Sacramento, e ainda que muitos me -pedissem o <i>Tupan</i>, eu lhes respondia que esperassem pela -vinda dos nossos padres.</p> - -<p>Não ha grande difficuldade em fazel-os confessar suas -faltas, até mesmo as proprias mulheres, e de coisas que são -difficeis a este sexo declarar aos sacerdotes, representantes -da pessoa de Deos.</p> - -<p>Mui livremente vos dizem sim e não, o tempo, o lugar, a -qualidade das pessoas, o numero de seos peccados, sem algum -vexame tolo e mau como por ahi se observa.</p> - -<p>Não tem a menor hesitação em crer na efficacia do baptismo, -que é o lavamento dos peccados, a filiação de Deos, -e a acquisição do Ceo, tendo como certo que os baptisados -vão para o paraiso gozar da companhia de Deos, com tanto -que não caiam outra vez em peccado mortal.</p> - -<p>Acreditaram sempre, que havia inferno, onde estava <i>Jeropary</i>, -e para onde iam os maus.</p> - -<p>Sabiam ao mesmo tempo por tradicção, que Deos era -muito feliz lá em cima, vivendo com os espiritos bons, e -que seos paes que tinham tido boa vida, iam para um lugar -de delicias, onde nada lhes faltava embora terrestre.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_287"></a>[287]</span></p> - -<p>A vista d’isto facil nos foi fazel-os entender o que deviam -crer do paraiso, do inferno e de um terceiro lugar, onde se -purificam as almas antes de irem para o Ceo, de um quarto -onde os meninos, que não chegaram a receber o baptismo, -morrendo antes do uso da razão, eram recebidos para não -padecerem por nunca poderem vêr a Deos, visto ser o baptismo -a chave do Ceo.</p> - -<p>Não se acreditaria, senão vendo-se, quanto são os selvagens -curiosos por saberem das coisas de Deos. Todos, quando -com elles conversavamos, nos faziam mil perguntas á este -respeito, iguaes á estas:</p> - -<p>Como Deos fez o Mundo?</p> - -<p>Si o fez com suas proprias mãos, ou si ajudado pelos -bons espiritos poude fazer o Ceo, as estrellas, o sol, a lua, -o fogo, o ar, a agoa, a terra, os primeiros homens, os primeiros -passaros, peixes e animaes, reptis, arvores e hervas?</p> - -<p>O que existia antes de feito o mundo, e o que fazia Deos -vivendo sosinho?</p> - -<p>De que forma está no Ceo?</p> - -<p>Como faz rebumbar o trovão, e cahir a chuva?</p> - -<p>Si falla aos homens, si viemos do Ceo, si nascemos de -mulheres, si vimos anjos e diabos?</p> - -<p>Quem nos ensinou tudo quanto ensinavamos, si não morriamos, -e depois da nossa morte como si faziam outros padres?</p> - -<p>Si em França haviam muitos padres, si andam vestidos -como nós, si havia um padre que fosse rei, porque regeitavamos -mulheres e mercadorias?</p> - -<p>Si a Mãe de Deos era uma rapariga como outra qualquer, -si bebia e comia como nós, porque tinha morrido, si não -vinha do Ceo passeiar as vezes na terra e fallar comnosco?</p> - -<p>Si os Apostolos eram padres como nós, quantos tinham -existido, porque os outros <i>Caraibas</i> francezes não eram tambem -padres como nós, si fomos nós mesmos que nos fizemos -Padres, ou si foi outra pessoa?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_288"></a>[288]</span></p> - -<p>A todas estas e a muitas outras perguntas respondiamos -com a verdade, e elles por gestos e palavras demonstravam -seo contentamento.</p> - -<p>Assim corria de maneira agradavel o tempo entre taes -perguntas e entretinimento.</p> - -<p>É por isso que pretendo aqui deixar as diversas e mais -singulares conversações, que tive com os <i>Muruuichaues</i>, -isto é, com os principaes de <i>Maranhão</i>, <i>Tapuitapéra</i>, <i>Commã</i>, -<i>Caietés</i>, <i>Pará</i> e <i>Miary</i>.</p> - -<p>Não quero demorar-me mais fallando em taes perguntas -e respostas, visto que as vereis mais adiante, e espero que -minhas respostas vos contentarão muito, e vos assevero que -serão fielmente transcriptas até na propria linguagem com -que foram proferidas.</p> - -<p>Espero desculpa não só por isso como tambem pelo mais -que ja deixei escripto, mormente não se achando tantos ornatos -n’esta historia como exigia a curiosidade d’este seculo.</p> - -<p>É minha opinião, que a bellesa de uma historia consiste -na verdade do facto e na simplicidade do estylo.</p> - -<p>Si eu não descrever palavra por palavra essas conferencias, -ou si não usar de muitas palavras, basta que não offenda -em coisa alguma a substancia do facto, sendo essa -abundancia de discurso necessaria e requerida para vos fazer -entender bem claramente suas intenções, e as nossas -expressões.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_289"></a>[289]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XVI">CAPITULO XVI</h3> - -<p class="subhead">Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro -de Commã.</p> - -</div> - -<p>Tendo tido muitas conferencias com este principal e -grande feiticeiro, vou narral-as por capitulos: eis o primeiro.</p> - -<p><i>Pacamão</i> é pequeno no corpo, vil e abjecto á tal ponto, -que quem não o conhece, não faria caso d’elle.</p> - -<p>Comtudo isto é o maior e o mais graduado de todos os -principaes do Maranhão, especialmente na provincia de <i>Commã</i>, -uma das mais bellas, fertil e povoada no paiz dos <i>Tupinambás</i>.</p> - -<p>Goza entre elles de tal poder, que somente com sua palavra -tem movido todos os habitantes, sendo extremamente -temído.</p> - -<p>É fino e velhaco tanto quanto pode ser um selvagem, e -por essas qualidades chegou a obter esse poder, grandesa -e prestigio, sendo tido por supremo curandeiro, subtilissimo -feiticeiro, muito familiarisado com os Espiritos, tendo entre -suas mãos e á sua disposição a morte e a vida, concedendo -vida e saude a quem bem lhe aprouver; alem de grande -bafejador entretinha os ingenuos por meio de confissões, de -lustração, incensamento, e muitas outras coisas iguaes como -ja dissemos.</p> - -<p>Não foi dos primeiros a visitar os francezes e fazer-lhes -seos offerecimentos, desejando vêr o que elles queriam, porque -tinham vindo aqui, e como se estabeleceriam.</p> - -<p>Informando-se bem de tudo isto, veio ao Forte de Sam -Luiz, entrou, e saudou agradavelmente o Sr. de la Ravardiere. -Vinha bem acompanhado por indios enfeitados de -pennas, trouxe comsigo a mais vigorosa de todas as suas -mulheres, cujo numero chegava a trinta.</p> - -<p>Chegando a <i>Yuiret</i>, tendo passado o mar em nossa barca, -que tinha ido buscar farinha á sua terra, distante mais de<span class="pagenum"><a id="Page_290"></a>[290]</span> -40 legoas do Forte de Sam Luiz, fez saber ao Sr. de la Ravardiere, -que ia ao seo Forte, e foi esperado.</p> - -<p>Formou sua gente, uns atraz dos outros, e todos o acompanharam.</p> - -<p>Andou ao redor das casas, situadas na grande praça de -Sam Luiz, fallando como era de costume, apregoando sua -grandesa, o seo amor aos francezes, o objecto da sua visita, -e tambem o valor e poder dos francezes.</p> - -<p>Acabado isto, aproximou-se da porta do Forte, perto de um -quartinho, onde estavam alguns francezes observando o que -elle fazia.</p> - -<p>Ordenou á sua mulher, que se prevenisse para carregal-o -até a casa do governador, e foi obedecido promptamente, -escanxando-se na cintura d’ella como usam os indios quando -carregam seos filhos: assim entrou no Forte, e dirigio-se ao -dito senhor: sua mulher era negra como o diabo e pintada -desde a planta dos pés até a cabeça com o succo do genipapo.</p> - -<p>Antes de ir adiante pensae si era possivel conter o riso, -vendo-se um dos Principaes do Brazil montado em tão bello -cavallo.</p> - -<p>Foi comtudo muito bem acolhido, e disse o que lhe veio -á mente para desculpar-se, findo o que, e depois de tratar -dos seos negocios, veio á minha casa, em São Francisco, -acompanhado por gente implumada.</p> - -<p>Mandei logo armar-lhe uma rede de algodão bem alva, -onde assentou-se, e pedindo a um dos seos companheiros o -seo caximbo, este o entregou ja com fogo.</p> - -<p>Depois de ter tomado tres ou quatro caximbadas, exhalando -o fumo pelas ventas começou assim a fallar-me grave -e pausadamente achando-me defronte d’elle n’outra rede:</p> - -<p>«Ha muitas luas, que eu tive vontade de te vir vêr e -aos outros Padres; mas tu, que fallas com Deos sabes, que -não é bom e nem prudente ser-se leviano e facil, mormente -nós outros que fallamos com os Espiritos, e mover-nos -com as primeiras noticias e pôr-nos á caminho, porque<span class="pagenum"><a id="Page_291"></a>[291]</span> -sendo observados pelos nossos similhantes, elles nos -imitarão.</p> - -<p>«O poder, que alcançamos sobre nossa gente, se conserva -por certa gravidade em nossas acções e palavras.</p> - -<p>«Os intromettidos, e os que a primeira noticia apromptam -suas canoas, se emplumam e vão logo vêr o que ha de novo -são pouco estimados, e nunca chegam a ser grandes Principaes.</p> - -<p>«Foi isto o que me impedio e embaraçou de vir logo.</p> - -<p>«Os habitantes de <i>Tapuitapéra</i> e muitos de minha provincia -vieram antes de mim, porem são menos do que eu.</p> - -<p>«Alegro-me com a vossa vinda, porque saberei que ha -Deos: sou mais capaz de o saber do que um só dos meos -similhantes: não desejava que um só d’elles me precedesse -ou que tu o levasses diante de mim, e o fizesses fallar com -Deos.</p> - -<p>«Quando me ensinardes o que é <i>Tupan</i>, terei mais autoridade -e serei mais estimado, do que actualmente, e em -meo paiz occuparei o primeiro logar depois de ti.</p> - -<p>«Dize o que queres que eu faça, e quando meos similhantes -virem, que eu sou filho de Deos e lavado todos desejarão -sel-o, buscando imitar-me.</p> - -<p>«Terei grande pesar, si estimares outro mais do que eu, -porque sempre vizei altas coisas.</p> - -<p>«Tinha muita curiosidade de visitar e de ouvir os Francezes.</p> - -<p>«De meos avós aprendi a historia de Noé, o qual construio -uma barca, pôz dentro sua gente, que Deos fez chuver abundantemente -por muitos dias, que a terra ficou submergida -debaixo d’agoa, invadindo campos, montanhas, valles, mar, -e separando-nos de vós.</p> - -<p>«Noé foi pae de todos.</p> - -<p>«Soube tambem que Maria era Mãe de <i>Tupan</i>, sendo Virgem, -porem Deos mesmo fez corpo para si no ventre d’ella -e quando cresceo mandou <i>Maratás</i>, Apostolos para toda a -parte, nossos paes viram um, cujos vestigios ainda existe.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_292"></a>[292]</span></p> - -<p>«Vós outros padres são mais do que nós, porque fallaes a -<i>Tupan</i>, e sois temídos pelos espiritos: eis porque quero ser -padre.</p> - -<p>«Muito tempo ha, que eu sou <i>pagy</i>, e ninguem é mais do -que eu, porem não faço caso d’isto, porque vejo que meos -similhantes somente vos apreciarão.</p> - -<p>«Desejaria muito que viesses a minha provincia, boa terra, -onde se encontram muitos javalys, viados, e corças, nada -te faltará, e sempre estarei comtigo.»</p> - -<p>Respondi-lhe a tudo isto, dizendo ter muita satisfação de -vel-o, ja tendo muitas vezes ouvido fallar d’elle e do seo poder, -como enganava com certos ardis os indios fazendo-os -acreditar ter em seo poder um espirito familiar, sendo ainda -maior o seo contentamento por vel-o principiar a reconhecer -sua falta, sendo certo que por seo discurso eu bem percebia -que elle não tinha a intenção, que Deos exige, para ser posto -no numero dos seos filhos e lavado com agoa divina.</p> - -<p>Replicou-me assim:</p> - -<p>«Que queres dizer com isto, que eu não procuro Deos -como convem?</p> - -<p>«Será porque desejo ser padre como tu, fazer-me admirar -mais do que nunca entre os meos, persuadil-os a ser filhos -de Deos, a procurar-te para serem baptisados, e fazeres em -minha provincia o que quizeres, que de mim se diga que -eu era o grande <i>Pagy</i>, sendo o primeiro a reconhecer Deos -e vós outros padres.</p> - -<p>«Sendo estimado pelo grande espirito, os outros á minha -sombra procurarão a Deos e farão como eu.</p> - -<p>«Si eu não me fizer lavar, muitos não o farão, e dirão—esperemos -que <i>Pacamão</i> seja <i>Caraiba</i>, e depois nós o seremos, -porque tem melhor espirito e é mais esperto do que -nós.</p> - -<p>«Deves saber que antes de terdes chegado, eu ja lavava -os habitantes do meo paiz, como vós padres fazeis com os -vossos, porem em nome do meo espirito, e vós o praticaes -em nome de <i>Tupan</i>.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_293"></a>[293]</span></p> - -<p>«Eu bafejava os infermos, e elles ficavam bons: elles me -diziam o que fizeram, e eu embaracei <i>Jeropary</i> de fazer-lhes -mal.</p> - -<p>«Fazia apparecer annos bons, e vingava-me dando doenças -aos que me despresavam. Dava-lhes agua que corria do pavimento -de minha casa, o que agora não faço e nem quero -mais fazer, porque era a subtilesa do meo espirito, que me -suggeria todas estas coisas, zombando assim dos meos, que -julgavam, por falta de espirito, ser isto maravilha.</p> - -<p>«Foi um francez que me ensinou a fazer brotar agoa do -soalho de minha casa.»</p> - -<p>Respondi-lhe pelo meu interprete, que na sua réplica descobria -não procurar elle a Deos como era conveniente, por -que pretendia por meio do baptismo fazer-se maior e mais -estimado entre os seos do que era antes por meio de seos -grosseiros embustes, visto que Deos exigia de seos filhos, -que fossem humildes, e que se arrependessem dos peccados -passados: com quanto na verdade Deos não deixe de exaltar -os seos, muito mais do que os diabos fazem com os seos -sectarios, em quanto elle tivesse esse espirito, não esperasse -que os padres o baptisassem, e sim o fariam só quando -elle não fosse soberbo, e estivesse arrependido de suas feitiçarias.</p> - -<p>Em quanto eu dizia estas palavras, chegou o interprete -do Sr. de la Ravardiere por nome <i>Mingan</i>, a quem eu tinha -mandado chamar para conversar com <i>Pacamão</i>, porque é -da indole d’esses selvagens dar mais credito aos interpretes -mais velhos do que aos moços.</p> - -<p>Contei-lhe palavra por palavra toda a nossa conferencia -até aquella hora, e lhe pedi para fallar a elle de conformidade -com os meos e seos pensamentos.</p> - -<p>Eis como elle fallou:</p> - -<p>«Tu bem sabes, que ha muito tempo eu converso comvosco, -e com vossos paes, quando estavamos em <i>Potyiu</i>.</p> - -<p>«Muitas vezes te chamei embusteiro por abusares de teos -similhantes, muito credulos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_294"></a>[294]</span></p> - -<p>«Tu lhes fazias crer tudo quanto querias: teos paes e todos -os não baptisados vão para <i>Jeropary</i> no inferno, e tu irás -com elles si não fizeres o que dizem os padres.</p> - -<p>«Quando estavamos comtigo antes da vinda dos padres, -sempre zombavamos do que faziam vós e os outros <i>pagys</i>: -não diziamos palavra por não ser esse o nosso fim, e sim -colher algodão.</p> - -<p>«Lançavamos mão de vossas filhas, e d’ellas tinhamos filhos, -o que é hoje prohibido pelos Padres, não me atrevendo -por isto nem eu e nem os outros, ir a Igreja, porque os -Padres nos ensinam, que Deos prohibe a deshonestidade.</p> - -<p>«Tens trinta mulheres, deves deixal-as e te contentares -com uma, se desejas ser filho de Deos e receber o baptismo.</p> - -<p>«Pensa bem e sobretudo na felicidade que si te offerece -de poder salvar-te e livrar-te das patas do Diabo.</p> - -<p>«Teos paes não tiveram tal occasião: foi Deos que te inspirou -a vir ter com os Padres e lhes pedir o baptismo.</p> - -<p>«Lembra-te que Deos sabe de tudo e não pode ser enganado, -quer e deseja que todos que o buscam, renunciem o -diabo e suas acções.»</p> - -<p>Respondeo assim <i>Pacamão</i>:</p> - -<p>«Não sabes o que tenho sido entre os meos? Quanto caso -fazem de meos feitiços? Não sabes que sempre tratei os -francezes como pude, e de muito boa vontade?</p> - -<p>«Animei sempre meos similhantes a dar-lhes suas filhas -e seos generos em troco de ferramentas: sentia-me satisfeito -entre elles aprendendo alguma coisa de novo, porque os -francezes tem mais espirito e intelligencia do que nós, e -apenas soube da chegada dos Padres fiquei muito contente, -e disse aos meos similhantes—que felicidade! elles nos ensinaram -a conhecer a Deos, quero ir vel-os. Foi isto que -aqui me trouxe, e é d’isto que nos occupamos.»</p> - -<p>Disse a <i>Migan</i> estar elle repetindo o que eu ja havia -dito, isto é, que era bem vindo, sendo porem necessario -buscar o baptismo com arrependimento e humildade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_295"></a>[295]</span></p> - -<p>Migan explicou-lhe muito bem a grandeza e o poder de -Deos, e a pequenez dos homens, especialmente dos captivos -de Satanaz.</p> - -<p>Mostrou-se satisfeito, e me prometteo vir na manhã seguinte -fallar commigo dos seos negocios.</p> - -<p>Assim finalisou-se esta conferencia, e si retiraram para o -Forte depois de ter cada um bebido um pouco de agoardente.</p> - -<p>Vamos notar muito bellas particularidades n’este discurso, -que não seriam entendidas ou passariam desapercebidas -si não fossem indicadas.</p> - -<p>Em primeiro lugar o falso zelo d’estes selvagens em conservarem -sua autoridade e prestigio entre os seos, não fazendo -acção alguma sem reflectir, pela qual possam ser mal -apreciados pelos seos inferiores, tão levianos e imperfeitos -como elles, e por conseguinte tão incapazes de entretêr os -espiritos familiares como elles: supponhamos que para ter o -gozo dos espiritos é preciso ser constante e grave, e não se -deixar levar pelas primeiras informações. Pensando n’isto, -vêde como os diabos abusam da luz natural do homem, que -claramente nos faz vêr si desejamos conservar em nós o -verdadeiro espirito de Deos, sendo conveniente banir a leviandade -e inconstancia do nosso interior, reconcentrar-nos -com firmesa, e nada fazer ou dizer, que não seja discutido -e decidido pela rasão.</p> - -<p>De outra fórma somos menores em relação a profissão do -Christianismo, do que estes feiticeiros, que se esforçam a ser -graves procurando conquistar a estima de seos similhantes.</p> - -<p>Em segundo lugar notareis os effeitos do espirito diabolico, -que são a soberba e a grande presumpção, que já se -abriga até entre as coisas sagradas: tão grande é o seo veneno -a ponto de querer atacar o seo contrario, visto não -haver maior antagonismo do que entre o Espirito de Deos e -o de Satanaz, a humildade de Jesus Christo e a soberba de -Lucifer, a abnegação do Christão e a presumpção dos filhos -do diabo!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_296"></a>[296]</span></p> - -<p>Assim procedia Simão, o magico, para com S. Pedro, procurando -com seo dinheiro o Espirito de Deos, afim de se fazer -reconhecido como grande por meio do Espirito Santo.</p> - -<p>Que grande cegueira julgar Deos vassallo da vaidade!</p> - -<p>Que desgraça estar uma alma presa por infernaes obscuridades!</p> - -<p>Este pobre feiticeiro do Brazil julgava no principio, que -tinhamos Deos em nossa algibeira para dal-o a quem bem -nos aprouvesse, obedecendo elle a quem o entregassemos.</p> - -<p>Com o fim de se apoderar de sua alma o diabo o escravisa -e o obriga a commetter mil loucuras, inspirando esse -<i>Pagy</i> para isso. Deos nos livre de tal perigo!</p> - -<p>Em terceiro lugar—quanto ao que elle disse de Noé e da -Virgem não ousarei dizer d’onde elle teve essas ideias: -si foi dos francezes, não parece muito, porque os que vieram -antes de nós só lhes fallariam de obscenidade, e concubinatos; -é mais provavel, que fosse de tradicções antigas, -porque apenas chegamos a <i>Yuiret</i>, <i>Japy-açú</i> nos fallou quasi -da mesma maneira do diluvio e de um Apostolo, que por -aqui andou, como se lê na obra do Reverendo Padre Claudio -d’Abbeville.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XVII">CAPITULO XVII</h3> - -<p class="subhead">Segunda conferencia, que tive com Pacamão.</p> - -</div> - -<p>Na manhã seguinte veio vêr-me, como me tinha promettido, -em companhia de sua gente.</p> - -<p>Não quiz assentar-se na rede, e pegando-me na mão disse-me -<i>Ché assepiak ok Tupan</i> «eu te rogo leva-me a vêr a<span class="pagenum"><a id="Page_297"></a>[297]</span> -casa de Deos quero fallar-te conforme teos discursos de hontem -á tarde.»</p> - -<p>Disse-lhe, que me acompanhasse, que satisfaria seos desejos, -e assim o fiz.</p> - -<p>Logo que entraram todos, mandou que ficassem na porta -e proximando-se de mim fallou-me em segredo—aquelles, -nada sabem e nem entendem o que se fallar á respeito de -Deos, por tanto quero que conversemos á vontade.</p> - -<p>Mandei ornar a nossa Capella com os melhores paramentos, -e pôr sobre os degraos do altar muitas e differentes -Imagens.</p> - -<p>Aproximamos-nos do altar sempre acompanhado pelo intreprete.</p> - -<p>Por mais de duas horas indagou de mim tudo quanto via.</p> - -<p>1.º Quiz saber o que significava o Crucifixo dizendo-me—quem -é este morto tão bem feito e tão bem estendido n’este -pau encruzado? Expliquei-lhe que isto representava o Filho -de Deos, feito homem no ventre da Virgem, pregado por -seos inimigos sobre esse madeiro afim de ir ter com seu seo -Pae, felicidade que alcançariam tambem os que fossem lavados -com o sangue, que elle via correr de suas mãos, -pés e lado.</p> - -<p>Conservou-se admirado por algum tempo, olhando com -muita attenção a Imagem do Crucificado: exhalou depois um -suspiro, e soltou estas palavras como <i>omano Tupan?</i> «Que! -será possivel que Deos morresse?»</p> - -<p>Repliquei-lhe não ser necessario, que elle pensasse que -Deos tivesse morrido, porque sempre viveo desde a eternidade, -dando vida aos homens e aos animaes: o que falleceo -foi o corpo somente, que elle tomou da Virgem Santa Maria -para matar <i>Jeropary</i>, como elle via fazer aos meninos quando -querem apanhar um peixe grande no mar, que devora -os pequenos, deitando como isca no anzol de sua linha o -corpo de um d’esses peixinhos, o que sendo visto pelo peixe -grande atira-se sobre elle e vê-se pilhado, puxado, derribado -e morto, em favor e livramento dos pequenos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_298"></a>[298]</span></p> - -<p>Assim tambem este mau <i>Jeropary</i> ia devorando todos -os nossos Paes, porem aprouve a Deos enviar seo Filho -para pescal-o á linha, servindo de haste esta Cruz, de anzol -ou de croquezinho estes cravos e espinhos, e d’isca -seo corpo.</p> - -<p>Mas, respondeo-me elle, porque havia o diabo de ter poder -sobre nossos paes?</p> - -<p>Porque, respondi, elles foram rebeldes á lei de Deos, comendo -do fructo prohibido, e deixaram-se enganar pelo -diabo, debaixo da forma de serpente.</p> - -<p>Com quanto Deos nos podesse salvar por outros meios, -achou mais docil e rasoavel tomar o rapinador em lugar de -suas victimas.</p> - -<p>Mostrou-se contente, e perguntou—o corpo de <i>Tupan</i> está -ainda em França sobre a Cruz, como este que tu me mostras, -e tu o vistes?</p> - -<p>Não, respondi, porem resuscitou pouco depois da sua -morte, levando seo corpo lá para cima, lá para o Ceo, vivendo -e brilhando como o sol, sentado no mais bello lugar -do Paraizo, vindo curvar-se diante d’elle todos os espiritos -e almas de pessoas de bem, e agradecer-lhes a morte do -seo inimigo.</p> - -<p>Com a protecção d’este corpo, os nossos, depois de mortos, -resuscitarão e irão para o Ceo levados pelos Anjos, isto -é, nós que somos lavados com o sangue derramado de suas -chagas.</p> - -<p>Vossos corpos e os de vossos paes irão ter com <i>Jeropary</i> -arder em fogos eternos, si não fordes lavados com este -sangue.</p> - -<p>É necessario, disse elle, correr muito sangue de seo corpo, -e que vós o guardeis com todo o cuidado para lavar -tanta gente.</p> - -<p>Respondi—és ainda muito obtuso para comprehenderes -estes mysterios.</p> - -<p>«Basta ter sido espalhado uma unica vez esse sangue sobre -a terra, e que em memoria e respeito a elle lavemos<span class="pagenum"><a id="Page_299"></a>[299]</span> -espiritualmente as almas com agoa elementar, que derramamos -sobre vossos corpos.</p> - -<p>«Não vês correr sempre uma fonte, ainda que cavada -uma só vez pela mão de Deos?</p> - -<p>«Tu bem sabes, que as constellações sete-estrellas e a ursamenor -foram pregadas uma só vez no Ceo, e com tudo todos -os annos, apenas brilham por cima da tua cabeça, ellas -te mandam chuva, que rega tuas roças.»</p> - -<p>Disse ainda:</p> - -<p>«Eram malvados os que mataram <i>Tupan</i>, porque elle era -bom, eu o amo, e n’elle creio.»</p> - -<p>Respondi-lhe. Foram seduzidos por <i>Jeropary</i>, como tu, -que os animou a perseguil-o, a matal-o, e crucifical-o, -porque elle os censurava por sua maldade, como nós -agora fazemos, seguindo em tudo a lei, que nos deo. Todos -os que obedecem ao diabo são seos inimigos e si elle -hoje voltasse ao Mundo passaria por iguaes soffrimentos, -repetindo os actuaes o mesmo que fizeram os outros antigamente.</p> - -<p>Respondeo-me—desejava que me desses uma Imagem -como esta para levar commigo quando regressasse á minha -provincia. Repetirei palavra por palavra á meos similhantes -o que acabas de dizer-me, e farei para ella melhor casa do -que esta, eu a fecharei muito bem, só eu entrarei ahi, e -algumas pessoas capazes de entenderem as explicações, que -me destes.</p> - -<p>Respondi—quando fores baptisado, nós te daremos licença -para fazeres uma casa, onde levantaremos um Altar igual -á este, com iguaes ornatos, e com Imagens como as que -estás vendo.</p> - -<p>2.º Nos pés do Crucifixo havia uma Imagem de Nossa Senhora, -feita em bordado alto, de extrema belleza, e revestida -de perolas, presente do Sr. de S. Vicente quando regressou -á França: olhando para ella, perguntou-me—quem -é esta mulher tão bonita, e este menino que olha para ella -de mãos postas? Eu lhe disse, que era a figura de Maria,<span class="pagenum"><a id="Page_300"></a>[300]</span> -Mãe de Deos, e este menino é o filho de Deos quando sahio -do ventre d’Ella.</p> - -<p>Repetio estas palavras duas ou tres vezes—<i>Ko ai Tupan -Marie?</i> «Como é Maria Mãe de Deos?» <i>Kugnan Ycatu</i>, «linda -mulher.»</p> - -<p>Respondi, que assim devia ser, pois que Deos a escolheo -para Esposa e Mãe de seu Filho, que era a Princesa de todas -as mulheres, tendo tido por marido Deos unicamente, e -que sendo pura deo á luz o Filho de Deos, que tinha resuscitado -depois da sua morte, como aconteceo a seo Filho, -sendo levada para o Ceo pelos Anjos, onde estava assentada -ao pé do corpo de seo Filho.</p> - -<p>Que grande coisa, disse elle, uma Virgem parir. Como, -respondi eu, não vês crescerem as ôstras nos ramos das arvores, -só e unicamente, sem auxilio algum?</p> - -<p>Deos ama a puresa, porque elle é mais puro do que a luz -do sol.</p> - -<p>È verdade, respondeo, porem vós, e os outros padres, -sabeis grandes coisas, sois mais sabios do que nós, porque -não prestamos attenção ás coisas da nossa terra, que vemos -todos os dias, e vós em tão pouco tempo já as conheceis.</p> - -<p>Ainda não é tudo, disse-lhe, vinde commigo, e prestae attenção -ao que vou dizer-vos por intermedio do meo interprete -para repetirdes tudo, quanto souberdes, aos teos companheiros, -que ficaram na porta por tua ordem, visto ser -da vontade de Deos que todos se salvem grandes e pequenos.</p> - -<p>Dizendo-lhe isto, fiz-lhe vêr todas as peças e quadros da -creação e da redempção, apontando-lhe todas as suas diversas -partes: n’uma, por exemplo, a creação dos Ceos e dos -elementos, n’outra a creação dos peixes e dos passaros, e -n’outra a creação dos animaes, das arvores e das hervas: -causava prazer vel-os olhar com muita attenção para as figuras -dos passaros, dos peixes e dos animaes afim de conhecerem -os da sua terra, e quando descobriam um parecido, -não deixavam de dizer-nos—eis tal passaro, tal peixe, e tal<span class="pagenum"><a id="Page_301"></a>[301]</span> -animal, e os que não conheciam perguntavam si haviam em -França, e como se chamava. Captivou-lhes principalmente a -attenção a figura de Deos, no meio do quadro, com os braços -abertos, soltando da bocca um forte sopro de vento, e me -perguntaram o que isto queria dizer?</p> - -<p>Expliquei-lhes, que isto representava a maneira, como foram -feitas todas as coisas, apenas com a palavra de Deos, -cujo poder e dominio estendia-se ás duas extremidades do -Ceo.</p> - -<p>Admirou-se tambem muito da mulher ter sido formada -pela costella do homem, quando dormia, pedio-me explicações, -e assim o satisfiz dizendo, que Deos quiz com isto que -elle tivesse uma só mulher e não mais de trinta como elle -tinha; porque si Deos quizesse, que tivesse mais de uma, -elle o teria permittido desde o principio, e sendo creado somente -uma e ainda á custa da costella do homem assim demonstrou, -que este só devia ter uma mulher, a quem amasse -e conservasse, e não mudal-a á capricho da vontade, -como fazeis vós outros, sectarios de Jeropary, que vos persuadio -terdes muitas mulheres afim de indispor-vos e estrangular-vos -uns com os outros, visto que costumaes roubal-as -até na casa de seos proprios maridos.</p> - -<p>Na escada do altar estavam as imagens dos doze Apostolos -e o padre Sam Francisco, muito bem feitas e illuminadas.</p> - -<p>Perguntou-me quem eram esses <i>Caraybas</i>?</p> - -<p>Estes doze, respondi, são doze <i>Maratas</i> do filho do <i>Tupan</i>,<a id="Nanchor_107" href="#Note_107" class="fnanchor">[107]</a> -os quaes, depois que subiram ao Ceo, dividiram o -Mundo Universal em doze partes: tomou cada um a sua, onde -foi guerrear <i>Jeropary</i>, e lavar todos os crentes em Deos, deixando -successores, que foram se revesando até nós. Peguei -na imagem de S. Bartholomeo, e lhe disse—Olhae, veio a -vossa terra este grande <i>Marata</i>, e aqui fez muitas maravilhas, -como por tradicção vos contou vossos antepassados. Foi -elle quem fez talhar, á rocha, o altar as imagens, e as inscripções, -que ainda existem actualmente, como tendes visto.<a id="Nanchor_108" href="#Note_108" class="fnanchor">[108]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_302"></a>[302]</span></p> - -<p>Foi elle quem vos deixou a <i>mandióca</i>, e vos ensinou a -fazer pão, pois vossos paes, antes de sua vinda, comiam só -raizes amargas dos mattos.</p> - -<p>Como não quizestes obedecer, elle vos deixou, predizendo -grandes desgraças, e que ficarieis por muito tempo sem -vêr <i>Maratas</i>.</p> - -<p>Tal qual aconteceo, e só agora é que tivestes quem vos -livrasse das mãos do diabo, e vos fizesse filho de Deos.</p> - -<p>Tomae cuidado em não fazerdes o que fizeram vossos -paes.</p> - -<p>Logo que lhes transmitti estas palavras pelo meu interprete, -olhou para a imagem de Sam Francisco e me disse—quem -é aquelle que está vestido como tu?</p> - -<p>É, disse eu, o pae de nós outros padres, que assim se -vestem.</p> - -<p>Vive ainda? replicou, está em França? Foi elle quem te -mandou para cá e aos outros padres?</p> - -<p>Não, respondi, ja não vive, morreo, porque nós todos morremos, -porem deixou successores, que nos mandaram para -cá. Não está mais em França, e sim no Ceo com Deos, onde -esperamos ir vel-o.</p> - -<p>Não tinha mulheres, como vós não tendes? perguntou.</p> - -<p>Não, respondi, porque todos os padres não as tem, imitando -assim o Filho de Deos, seo Rei, que vivendo n’este -mundo não tinha mulher.</p> - -<p>Dizendo isto, olhava o Ceo e as sanefas que cobriam nosso -altar, as quaes eram de bello damasco com grandes folhagens, -agaloadas, e guarnecidas de passamanes e franjas de -prata fina, bem como o frontal do altar.</p> - -<p>Disse depois que tudo era bonito, e que serviamos <i>Tupan</i> -com grande reverencia e pedio-me para baptisal-o antes do -seo regresso, e que lhe desse imagens para leval-as comsigo.</p> - -<p>É preciso, respondi, que saibas antes a doutrina de Deos.</p> - -<p>Não me dissestes ja, replicou elle, tudo quanto era necessario -saber para ser lavado?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_303"></a>[303]</span></p> - -<p>Não, respondi, isto não passou de uma conversa: ha ainda -muito que aprender.</p> - -<p>Que me ensinarás ainda?</p> - -<p>Respondi—si quizeres morar commigo eu te ensinarei, ou -te farei ensinar muita coisa, mas não te posso baptisar ja, -sem primeiro saberes a doutrina de <i>Tupan</i>. Quero experimentar -tua constancia, e esperar nossos padres que não tardam -a chegar conforme me prometteram. Elles te baptisarão, -e irão comtigo fazer a casa de Deos na tua aldeia, e -não te deixaram mais.</p> - -<p>Antes d’isso não deixes de repetir na tua <i>caza grande</i> á -teos similhantes o que sabes: não faças mais feitiçarias, e -assim nós, e todos os francezes, te estimaremos, e sempre -serás bem vindo.</p> - -<p>Prometto, disse elle, e cumprirei minha palavra. Bem desejo -que tu me lavasses agora. Não deixarei de te vir visitar -muitas vezes, porque sempre aprenderei alguma coisa.</p> - -<p>Chamou então seos companheiros, que ficaram por todo -este tempo na porta da igreja.</p> - -<p>Que obediencia e respeito entre os selvagens! Mandou que -se aproximassem ao altar e á elles repetio o que lhe ensinei, -mostrando-lhes as imagens e explicando o que representavam.</p> - -<p>Esta pobre gente estava como que fóra de si, mostrando-se -admirada a seo geito, e depois despedio-se e foi para -o Forte de S. Luiz, onde embarcou e regressou á sua terra.</p> - -<p>Veio depois visitar-me para tratar do mesmo objecto, e -contou-me como cumprio suas promessas, fallando na <i>caza -grande</i>, e repetindo o que lhe ensinei, e affirmou que todos -se fariam christãos logo que elle fosse baptisado, o que me -pedio ainda uma vez.</p> - -<p>Animei-o a continuar a proceder assim, e dei-lhe esperança -de que seria baptisado em pouco tempo, apenas chegassem -os Padres de França.</p> - -<p>Conversamos ainda sobre os objectos, de que já nos tinhamos -occupado da primeira vez, e com avidez recebia<span class="pagenum"><a id="Page_304"></a>[304]</span> -todos os conhecimentos mostrando por seos gestos indizivel -contentamento.</p> - -<p>N’esta segunda visita, veio mais modesto, e acompanhado -por poucas pessoas, sem muitos enfeites de pennas, e fallando -com muito menos arrogancia do que o fez na primeira -vez.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XVIII">CAPITULO XVIII</h3> - -<p class="subhead">Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra.</p> - -</div> - -<p>O grande feiticeiro de <i>Tapuytapéra</i> era homem muito -respeitavel, de boa estatura e bem feito, valente guerreiro, -modesto, grave, e de poucas palavras: era muito amigo dos -francezes, e gozava entre os habitantes do seo paiz do mesmo -poder, que Pacamão em <i>Commã</i>, Japy-açú em <i>Maranhão</i>, -o Arraia-grande entre os <i>Caietés</i>, Thion e Farinha-molhada -entre os <i>Tabajares</i>, rico, e de muito bons filhos, que -são fieis aos francezes e christãos, como d’aqui ha pouco -diremos.</p> - -<p>Veio ao Fórte de S. Luiz seguido por perto de tresentos -a quatrocentos dos seos companheiros para fazel-os trabalhar -nas fortificações, e regressar á seos lares depois de acabarem -seo tempo, revesando-se assim, e nunca menos de dusentos -a tresentos selvagens.</p> - -<p>Durante as horas do trabalho assentava-se elle junto aos -francezes mais graduados, ahi vigiava a sua gente, animava-a, -e recommendava-lhe perfeição de obra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_305"></a>[305]</span></p> - -<p>Fui vêl-o n’essa lida, desculpou-se muito para commigo, -por intermedio do seo interprete, por não me ter vindo vêr -logo que chegou a Ilha, por estas palavras:</p> - -<p>«Não te fui procurar, embora tivesse muito que conversar -comtigo, porem deve ser com descanço.</p> - -<p>«Agora é preciso vigiar minha gente no trabalho, afim de -se empregar com animo na fortificação d’esta praça.</p> - -<p>«Não deixarei de te ir vêr com <i>Migan</i>, que está aqui para -te fazer sabedor do que eu digo, contando-me tambem as -maravilhas, que ensinas aos nossos similhantes.»</p> - -<p>Respondi-lhe, que achava isto bom, e que estava contente -vendo-o assiduo no trabalho para que fóssem bem -feitas as trincheiras e fóssos afim de resistirem a seos inimigos, -e que depois si nos offerecia occasião de conferenciarmos: -que era só isto, que eu desejava, que nós todos o -estimavamos e muito, tanto por sua bondade natural como -porque elle era amigo dos francezes, e sempre fiel.</p> - -<p>Assentamos-nos depois um em frente do outro, conversamos -sobre muitas coisas indifferentes, especialmente do enthusiasmo -de sua gente, e particularmente das crianças, que -carregavam terra, o que causava a elle e á nós muita satisfação, -fazendo-me dizer e a proposito, que bem razão lhes -assistia n’esse trabalho, cheio de fervor e de coragem, pois -era para elles, que se lidava, visto que um dia veriam as -maravilhas feitas pelos francezes n’esta terra.</p> - -<p>«Serão bem differentes do que somos, dizia elle, porque -serão <i>Caraibas</i>, andarão vestidos, e verão as Igrejas de -Deos construidas de pedra.»</p> - -<p>Confirmei em minha resposta a felicidade de seos filhos -no futuro, assegurando-lhes, que d’ella tambem gozariam -porque não haveria muita demora na vinda de soccorros e -navios de França trazendo muitos Padres, muitos francezes -guerreiros, muita ferramenta e generos para elles: que então -se construiriam casas á maneira dos francezes, que seriam -acompanhados por elles quando fossem guerrear seos -inimigos, que viriam os <i>Tupinambás</i> e os outros alliados<span class="pagenum"><a id="Page_306"></a>[306]</span> -cultivar a terra da <i>Ilha</i>, e que tudo isto poderiam vêr antes -de morrerem.</p> - -<p>Ditas estas palavras despedi-me d’elle, e regressei á minha -habitação.</p> - -<p>Quando acabou o tempo do seo trabalho veio visitar-me, -acompanhado pelos principaes da sua Nação, e pelo interprete -<i>Migan</i>.</p> - -<p>Assentou-se, e pedindo fumo, como costumava, me disse -estas palavras:</p> - -<p>—Antigamente usei de muitas feitiçarias para me tornar -grande e authoridade entre os meos.</p> - -<p>Muito tempo ha que conheci este abuso, e que zombo dos -que se empregam n’este officio.</p> - -<p>Não ignoro a existencia de um Deos, porem não sei conhecel-o.</p> - -<p>Seria impossivel o giro annual do sol, a existencia de ventos -e chuvas, e o forte estampido dos trovões si não houvesse -um Deos, autor de tudo isto.</p> - -<p>Temos então homens maus, que vivem livremente sem -temer algum castigo, e pensamos que elles irão ter com -<i>Jeropary</i>.</p> - -<p>Temos outros homens, que são bons, que não matam, que -dão expontaneamente a sua comida, e pensamos serem elles -amados por Deos, e por tanto que não vão cahir no poder -do diabo.</p> - -<p>Alegrei-me muito quando me noticiaram a vinda dos padres, -que faziam conhecer <i>Tupan</i>, e que em seo nome lavavam -os homens: foi este o principal motivo, que aqui me -trouxe para vos vêr, e manifestar-vos o meo desejo de ser -instruido e baptisado, porque ja soube, que dissestes serem -condemnados os não baptisados, e que se perderam -nossos paes.</p> - -<p>Tenho muitos filhos, quero que sejam christãos, como eu -afim de irmos todos para a companhia de Deos.</p> - -<p>Desejo edificar na minha aldeia para elle uma casa, e junto -d’ella outra para vós: eu o sustentarei e nada lhe faltará.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_307"></a>[307]</span></p> - -<p>Os que na minha provincia confiam e tem fé em mim, -serão christãos.—</p> - -<p>Traduzindo-me o interprete tudo quanto acima escrevi, -acrescentou «este homem tem muito amor a Deos, e conhece-o -muito, porque usa das palavras mais expressivas da -sua lingua para melhor exprimir o que sente e conhece, e -tenho muita pena de não poderdes entendel-o e conhecer o -que elle diz. Respondei conforme seos desejos, fazei com -que elle entenda estas palavras, o mais eloquentemente que -puderdes.»</p> - -<p>«Informaram-nos os francezes muito bem de vós e de -vossos filhos, tanto de vossa fidelidade, e amisade, como -de vossa natural bondade: eis o verdadeiro meio de cedo -receberdes o favor de Deos, alcançardes seo conhecimento -e seo baptismo. Tu o vês ordinariamente diante de ti quando -a terra produz facilmente muitos fructos, provenientes da -semente n’ella lançada.</p> - -<p>«O homem é a terra, e o Evangelho a semente: quando -Deos encontra boa terra, sem cardos e nem espinhos, elle -ahi lança sua semente: á vista disto muito espero de ti e de -teos filhos, e te asseguro que si fossemos mais nós os padres, -tu já levavas um comtigo: tende porem paciencia, -breve chegarão outros.</p> - -<p>«Não deixes comtudo de edificar a casa de Deos e a dos -padres, para que apenas cheguem, possas leval-os e acommodal-os.</p> - -<p>«Não podes demorar-te aqui muito tempo em virtude do -teo cargo: nós como somos poucos, não podemos tambem ir -comtigo; conserva teos bons desejos, e Deos te ajudará.</p> - -<p>«Conheci ja que tens muito amor a Deos, que seo espirito -tocou-te o coração, e illuminou-te o entendimento para te -guiar no que me dissestes: é grande bem para ti, não o despreses.»</p> - -<p>Respondeo-me assim:</p> - -<p>—Nunca fui mau, nunca me agradaram as carnificinas dos -nossos escravos. Nunca roubei as mulheres dos outros, contentava-me<span class="pagenum"><a id="Page_308"></a>[308]</span> -com as minhas. É bem verdade, que me fiz temido -ameaçando os que me despresam com molestias, que -contrahiam por medo.</p> - -<p>Nunca fallei com Espiritos, como fazem os outros <i>pagés</i>, e -apenas empreguei a subtilesa da minha intelligencia, e a -grandesa da minha coragem. Minhas feitiçarias concorreram -menos do que a coragem, que muitas vezes hei manifestado -na guerra, para conquistar a authoridade que hoje occupo.</p> - -<p>Estou velho, e só ambiciono paz e tranquilidade.—</p> - -<p>Respondi-lhe haver procedido bem, irritando contra si -muito menos o soberano, á vista do comportamento de outros -feiticeiros, que entretinham relações com o diabo, e que -assim ficasse gosando a tranquillidade de sua consciencia até -o dia do seo baptismo.</p> - -<p>Pedio-me para vêr a Capella, e buscou informar-se de tudo -quanto via—altares, paramentos, e imagens.</p> - -<p>Expliquei-lhe tudo bem á sua vontade, e assim despedio-se -de mim para regressar ao seu paiz, o que fez. Dei-lhe -imagens para levar comsigo, o que recebeo com muita alegria, -e expliquei-lhe o que significavam, e recommendei-lhe -que as guardasse com todo o cuidado para que <i>Jeropary</i> -não as tomasse, visto ter sido vencido antigamente pelo Filho -de Deos, que morreo na Cruz.</p> - -<p>Com taes impressões partio.</p> - -<p>Pouco tempo depois foi convertido Martinho Francisco a -quem permittimos edificar uma Capella na sua aldeia, onde -celebrariamos missa, e baptisariamos quando fossemos a <i>Tapuitapéra</i>.</p> - -<p>Este grande feiticeiro, de quem acabamos de fallar, teve -ciumes, e mandou-me dizer, que muito se admirava de eu -ter dado licença a Martinho Francisco para fazer uma Capella -na sua aldeia antes d’elle construir uma na sua, preferencia -que elle bem merecia pela sua grandesa, tendo -tambem padres comsigo como lhe fôra permittido.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_309"></a>[309]</span></p> - -<p>Aos que me trouxeram o recado respondi não ter ultrapassado -de forma alguma minhas palavras e promessas, que -era elle o primeiro de <i>Tapuitapéra</i>, a quem tinha dado licença -para fazer uma capella, que devia preceder os outros -e em quanto aos padres ainda não tinham chegado: que -quando fossemos a <i>Tapuitapéra</i> não deixariamos de ir vel-o -e visital-o; mas que eu não podia recusar a Martinho Francisco, -ja christão, o ter junto de si uma casa de Deos para -fazer suas orações. Achou boa a resposta.</p> - -<p>Entre os convertidos por Martinho, depois do seo baptismo, -foram dois dos filhos d’este <i>Muruuichaue</i>, e com isto -teve Martinho singular consolação, animando-os a aprender -suas crenças e a doutrina christan; porem aconteceo, infelizmente, -serem elles seduzidos pelas más palavras de um de -nossos interpretes para deixarem o Christianismo.</p> - -<p>Sabendo seo bom pae, que elles para esse fim tinham deixado -seos habitos e vestidos, lhes disse o que ides fazer? -moveis-vos por bem pouco!</p> - -<p>«Porque vos despis, e dissestes, que não querieis mais -ser christãos?</p> - -<p>«Quero agora que torneis a tomar vossos vestidos; ide procurar -Martinho Francisco na sua aldeia, e d’elle recebei a -doutrina, que os padres lhe ensinaram.</p> - -<p>«Não vos separeis d’elle, e nem cá venham senão em sua -companhia.</p> - -<p>«Eu mandarei chamal-o para que vá ter com os padres.»</p> - -<p>Estes rapazes obedeceram a seo pae, tornaram a tomar -seos vestidos, vieram procurar Martinho Francisco, que foi -ter com o grande feiticeiro, e veio depois em companhia de -muitos christãos ao Forte de Sam Luiz para nos declarar, e -aos nossos chefes, como se passaram estas coisas, e a ellas -se deo remedio, conforme a occasião permittio.</p> - -<p>O Revd. Padre Arsenio, acompanhado por muitos christãos, -foi vêl-o em sua aldeia, onde foi muito bem recebido, -notando toda a alegria que póde mostrar no rosto um selvagem, -presenteou-lhe com muita caça, e rogou-lhes que<span class="pagenum"><a id="Page_310"></a>[310]</span> -si quizesse morar em <i>Tapuitapéra</i> que escolhesse para -residencia sua aldeia, e ahi seria bem acommodado, tanto -quanto permitte o paiz.</p> - -<p>Depois d’isto mandou-me seo filho mais velho, chamado -<i>Chenamby</i>, «minha orelha,» com sua mulher, ambos com -carga, e um filho pequeno. Disse <i>Chenamby</i>—Meo pae está -com muito cuidado em ti, receia que não tenhas farinha, e -é isto que aqui me traz. Logo que houver milho elle te mandará -muito. Tem muita vontade de saber logo que aqui cheguem -os Padres, porque immediatamente deixará a sua aldeia, -e atravessará o mar para cumprimental-os, pedir um -d’elles e leval-o comsigo para aprender a sciencia de Deos, -e ser por elle lavado.</p> - -<p>Dois dos meos irmãos são <i>Caraibas</i>, os quaes, como sabes, -se despiram, apesar das observações, que lhe fizeram, -actualmente vão indo bem, e estão sempre com o <i>padre-miry</i>, -«padre pequeno,» (sobrenome que davam a Martinho -Francisco por causa do empenho d’elle em converter as almas): -quero ser christão, conjunctamente com meo pae, minha -mulher, que aqui está, e meo filho pequeno que ella -carrega, o qual chegando á idade propria, darei aos padres -para ser por elles instruido.—</p> - -<p>Este <i>Chenamby</i> balbuciava um pouco o francez, e entendia -tambem alguma coisa, graças ao trabalho e empenho, -que para isso empregava, fallando com os francezes o mais -que podia.</p> - -<p>Respondi-lhe em sua linguagem por meio do interprete, -d’esta forma:</p> - -<p>«Que estava muito contente por seo pae lembrar-se de nós -principalmente pela constancia da boa vontade de seo pae -e de seos irmãos para com o christianismo, e especialmente -vendo elle e sua mulher dispostos a receberem a fé christã, -e a nos offerecerem seos filhos para ensinarmos o que fosse -conveniente quando comnosco estivesse.</p> - -<p>«Exhortei-os por muitas palavras a terem elle e sua mulher -constancia em tal desejo.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_311"></a>[311]</span></p> - -<p>Sua mulher era de agradavel presença, moça, modesta, e -trazia em seos olhos não sei que pudor, não se animando a -olhar-me directamente: alem d’isto occultava com o pé direito -de seo filho sua enfermidade, guardando o respeito natural -de não se apresentar de outra forma diante de mim, -de que tirei boa conclusão agradando-me ainda mais de suas -maneiras e procedimento: achei-a muito boa e caridosa para -com os francezes, humilde e obediente a seo sogro e marido, -virtudes não pequenas n’uma india.</p> - -<p>Antes de partir prometteo-me seo marido, que não casaria -com outra, e nem a abandonaria.</p> - -<p>Respondi-lhe, que se assim fizesse os padres o casariam -á face da igreja, depois de baptisado.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XIX">CAPITULO XIX</h3> - -<p class="subhead">Conferencia com Iacupen.<a id="Nanchor_109" href="#Note_109" class="fnanchor">[109]</a></p> - -</div> - -<p>Era Iacupen um dos principaes da tribu dos <i>canibaleiros</i>, -conduzidos para a ilha pelo Sr. de la Ravardiere, pae de -um mancebo christão, de boa indole, chamado João, e antes -<i>Acaiuy-miry</i>, «cajú pequeno ou cajusinho.» Teve por varias -vezes o trabalho de vir de Juniparan procurar-me e -conversar commigo sobre as coisas divinas, e sobre a vaidade -d’este mundo.</p> - -<p>Um dia veio a minha casa com seo filho, e assim fallou-me:</p> - -<p>—Tenho muito desgosto de não ser baptisado, porque sei -que em quanto estiver assim, o diabo pode perseguir-me e -perder-me.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_312"></a>[312]</span></p> - -<p>Ah! quem pode assegurar-me a vida até a noite?</p> - -<p>Agora volto para minha aldeia, posso encontrar uma onça -furiosa, que me corte a garganta, e me mate sosinho no -bosque.</p> - -<p>Para onde irá meo espirito?</p> - -<p>Não tenho pesar e nem inveja, que meo filho, que aqui -está, se baptisasse primeiro do que eu.</p> - -<p>Mas dize-me: não é coisa notavel, que elle seja Filho de -Deos antes de mim, seo pae, e que eu d’elle aprenda o que -devia ensinar-lhe?</p> - -<p>Penso n’isto, e torno a pensar muitas vezes, principalmente -depois da vossa vinda, e da de outros padres: lembro-me da -crueldade de <i>Jeropary</i> para com a nossa nação, porque tem -feito morrer a todos, e persuadio a nossos feiticeiros de conduzir-nos -ao centro de uma floresta desconhecida, onde dançariamos -constantemente, alimentando-nos somente do amago -das palmeiras e da caça, succumbindo muitos por fraqueza -e debilidade.</p> - -<p>Sahindo nós de lá, e vindo nos navios do <i>Muruuichaue</i> -la Ravardiere para a ilha do Maranhão, armou-nos <i>Jeropary</i> -outra emboscada, instigando por meio de um francez aos -<i>Tupinambás</i> para matarem e comerem muita gente nossa: -si não é a vossa chegada acabariam comnosco.</p> - -<p>Ja vedes, que somos muito infelizes n’esta vida.</p> - -<p>Perseguimos os veados e outros bixos para matal-os e comel-os, -porem elles não necessitam de ferramentas, de fogo -e nem de canoas, pois acham a comida feita: quando perseguidos -n’um lugar, em poucas horas transportam-se para -outro atravessando até braços de mar, sem canôa: nós outros -porem não podemos fazer o mesmo: faltam-nos ferramentas, -fogo e canoas, e o que é mais, vem ainda perseguir-nos -nossos inimigos, ora os <i>Peros</i>, ora os <i>Tupinambás</i>, -e finalmente outras nações adversarias: finalmente a nossa -posição é peior do que a dos animaes da terra.—</p> - -<p>Respondi-lhe: «O que disseste, é bem certo, porque o diabo -o que deseja somente é matar o corpo e perder a alma,<span class="pagenum"><a id="Page_313"></a>[313]</span> -e assim procede sempre com aquelles, com quem tem pouco -a ganhar retendo-os em suas cadeias: é um monsenhor, -e trata cruelmente seos servos.</p> - -<p>«Deos não é recebedor dos velhos, e nem dos moços. Os -primeiros, que se apresentam, são recebidos por elle, comtudo -os ultimos são sempre os primeiros, porque recebem o -christianismo com mais consideração, e o conservam com -mais fervor do que os que o abraçam ligeiramente.</p> - -<p>«Nosso Deos nos fez miseraveis n’este mundo afim de não -olharmos só nas delicias da carne, e sim para preparar-nos -com destino a outra vida alem d’esta.»</p> - -<p>Antes de passar adiante convem explicar o que elle quiz -dizer, quando fallou da desgraça de sua nação, devida aos -conselhos dos seos feiticeiros, e á carnificina feita pelos <i>Tupinambás</i>.</p> - -<p>Havia entre elles um grande feiticeiro, que entretinha com -o diabo visiveis relações, e gozava de tal poder entre elles -que todos lhe obedeciam.</p> - -<p>Aproveitou-se o diabo de tal ensejo para seduzir e enganar -esta populaça, ensinando ao feiticeiro o que devia -dizer-lhe para elle ir tomar posse d’uma terra, onde tudo, -facil e sem trabalho lhe appareceria á medida de seos desejos.</p> - -<p>Esta nação, tão cheia de prejuisos, seguio este desgraçado, -não intermediando muito tempo sem conhecer a zombaria -do espirito do conductor, porque falleceram milhares, e -acharam-se no meio de vasta floresta, dançando constantemente, -como elle lhe ordenou, até que chegasse o Espirito -para lhe indicar o lugar procurado.</p> - -<p>Ahi achou-se o Sr. de la Ravardiere, demonstrou-lhe seo -engano, o que reconhecido, seguiram-no e embarcaram-se -em seos navios com destino á Ilha do Maranhão, onde algum -tempo depois um miseravel francez tendo uma questão -com o Principal d’essa gente, para vingar-se, instigou os -<i>Tupinambás</i> a matal-a, subindo esta carnificina a cem ou á -cento e vinte, entre mortos e prisioneiros.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_314"></a>[314]</span></p> - -<p>Tal barbaridade foi praticada cinco ou seis mezes antes da -nossa chegada.</p> - -<p>Continuemos.</p> - -<p>Depois de minha resposta, disse-me:</p> - -<p>—Tenho bem pesar de não poder obsequiar-vos como -mereceis, porque não tenho meios de ter escravos; outr’ora -fui rico, hoje sou pobre.</p> - -<p>Fiz o que pude ao padre, residente em <i>Juniparan</i>.</p> - -<p>Tenho bem pesar de não traser-te caça sempre que venho -vêr-te.—</p> - -<p>Repliquei-lhe immediatamente:</p> - -<p>«Não é isto que desejo de ti, e estou muito contente de -conhecer tua devoção, e tua boa vontade, porem ambiciono -que sempre progridas de dia á dia, e adquiras novos conhecimentos -á respeito de Deos.</p> - -<p>«Tens um padre na tua aldeia, visita-o sempre, e d’elle -aprende as maravilhas de <i>Tupan</i>.</p> - -<p>«Tens alem d’isto teo filho, que sabe a doutrina christan; -elle que a ensine a ti e a todos de tua casa, o que fará melhor -do que nós, visto pronunciar bem as palavras da tua -lingua.»</p> - -<p>—O que acabas de dizer-me afflige-me muito, respondeo-me -elle, porque meo filho depois de christão, logo no principio, -procedeo bem: ja sabia lêr um pouco no seo <i>Cotiare</i>, -e escrever, estava sempre com o padre, e o seguia por toda -a parte.</p> - -<p>Deixou depois tudo isto, entregou-se á liberdade, esqueceo -o que havia aprendido, e foge para o matto quando o padre -o procura: isto me mata e como nada aproveito em fallar-lhe, -eu te peço que tu lhe mostres, e proves ser elle filho -de Deos, e que <i>Jeropary</i> o quer seduzir: eil-o aqui, falla-lhe.»</p> - -<p>Satisfiz-lhe o desejo, recordando á seo filho o fervor, com -que recebeo o baptismo, admirando-me de vel-o tão mudado -a ponto de fugir dos padres, pelo que eu acreditava andar -o diabo no seo encalço si não regressasse aos seos deveres,<span class="pagenum"><a id="Page_315"></a>[315]</span> -se não frequentasse o padre de <i>Juniparan</i>, e não -abraçasse sua antiga fé.</p> - -<p>Ouvio-me pacientemente, e prometteo-me melhor procedimento.</p> - -<p>Considerae, eu vos peço, o zelo de um verdadeiro pae -para salvar seo filho, como mostrou o grande feiticeiro de -<i>Tapuitapéra</i>: este pae é ainda pagão, e comtudo vós o vedes -solicito, e cuidadoso pela consciencia de seo filho.</p> - -<p>Quantos paes ha em França, que só cuidam dos bens temporaes -de seos filhos, e despresam os espirituaes!</p> - -<p>Veio outra vez visitar-me em companhia de alguns selvagens, -seos visinhos: rolou nossa conversação á respeito da -creação do Mundo, da providencia de Deos para com o procedimento -dos homens, e da vocação singular e particular -de cada um.</p> - -<p>—É preciso, disse, que seja Deos um Espirito poderoso, -incomprehensivel para nós, para crear com uma só palavra, -como ouvimos muitas vezes de vós outros padres, tudo o -que vemos e ouvimos.</p> - -<p>Imagino a immensidade do mar, que ha d’aqui até a França, -tanto assim, que os navios gastam doze luas no trajecto -de ida e volta, e admiro que o sol, que temos, seja tambem -vosso.</p> - -<p>Quantos passaros, peixes, e animaes existe no Mundo, todos -foram feitos por <i>Tupan</i>.—</p> - -<p>O segundo ponto de discussão foi este:</p> - -<p>«Vejo-me embaraçado quando penso nas diversas nações, -que existem no Mundo.</p> - -<p>«Vejo os francezes ricos, valentes, inventando navios para -passarem o mar, canoas, e polvora para matar os homens -insensivelmente, bem vestidos e nutridos, temidos e respeitados.</p> - -<p>«Ao contrario nós vivemos errantes e vagabundos, sem -roupas, machados, fouces, facas e outras ferramentas.</p> - -<p>«De que procede isto?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_316"></a>[316]</span></p> - -<p>«Nascem ao mesmo tempo dois meninos, um francez, e -outro <i>Tupinambá</i>, ambos doentes e fracos, e não obstante -um nasce para gozar de todas as commodidades e o outro -para viver pobremente.</p> - -<p>«Livres nascemos, um não tem mais do que outro, e comtudo -uns são escravos, e outros <i>Muruuicháues</i>.»</p> - -<p>Eis o terceiro ponto de discussão:</p> - -<p>—Não posso tranquilisar o meo espirito quando penso, que -vós outros francezes tendes mais conhecimento de Deos do -que nós. Porque temos vivido tanto tempo na ignorancia? -Dizei-nos, que foi Deos quem vos enviou, e para que não o -fez antes? Nossos paes não se teriam perdido, como succedeo. -Os padres são homens como nós, e porque elles fallam -a Deos, e nós não?—</p> - -<p>Respondi-lhe a tudo isto, dizendo «ser muito pequeno -nosso espirito para conceber coisas tão altas, reservadas por -Deos só para si. Basta saber que elle fez tudo, ama e dá o -necessario a todos.»</p> - -<p>Quando vê um individuo disposto a abraçar suas crenças -não deixa de o mandar vesitar pelos seos Apostolos, que lhe -proporcionam meios de salvar-se, sendo de crer não achar-se -seo coração e espirito, antes da nossa vinda, disposto e -apto para receber tão grande luz, qual a do Evangelho.</p> - -<p>Estes e outros discursos similhantes, que adiante encontrareis, -vos habilitarão a julgar da capacidade de suas -almas para receberem a fé de Jesus Christo, nosso Salvador.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_317"></a>[317]</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XX">CAPITULO XX</h3> - -<p class="subhead">Conferencia com o Principal d’Orobutin.</p> - -</div> - -<p>Era este Principal de alta estatura, muito magro, modesto -e affavel, e tinha estado doente desde a nossa chegada até -quando veio vesitar-nos.</p> - -<p>Entrou em nossa casa acompanhado por alguns dos seos, -com muito respeito e quasi a tremer.</p> - -<p>Acolhendo-o muito bem, mandei sental-o em frente a mim -n’uma rêde de algodão, e logo conforme o costume, principiou -assim a fallar-me:</p> - -<p>«Vim hoje ter comtigo, ó padre, para duas coisas: a primeira -para desculpar-me e pedir-te que não repares o não -me encontrares quando chegaste em <i>Uraparis</i>, como fizeram -<i>Japy-açú</i>, <i>Pira-Juua</i>, <i>Ianuarauaeté</i>, e outros Principaes -da ilha, e não poude tambem vir antes de <i>Pacamão</i>, -de <i>Aua Thion</i>, meo chefe, pois achava-me gravemente doente, -porem no meio de minha molestia sempre tive o desejo -de vêr teo rosto, e ouvir de tua bocca o que meos -companheiros de aldeia me contavam de vós outros padres.</p> - -<p>«A segunda coisa que aqui me traz, é offerecer-te meos -filhos, que t’os dou, quero que sejam teos, e que os faças -<i>Caraibas</i>.</p> - -<p>«Desejo igualmente e peço-te, que venhas tu ou um dos -padres á minha aldeia edificar uma casa para Deos instruir -a mim e a meos similhantes, e declarar-nos o que <i>Tupan</i> -deseja de nós para sermos lavados, como tem sido os outros.</p> - -<p>«Asseguro-te que não faltariam viveres, por ser minha -terra boa e abundante de caça.»</p> - -<p>Advirto ao leitor, que é facil traduzir as palavras e pensamentos -d’este selvagem, porem não os gestos e a vivacidade -do seo espirito ao pronuncial-os: direi apenas que suas -expressões eram acompanhadas de lagrymas e com vóz cheia<span class="pagenum"><a id="Page_318"></a>[318]</span> -de fervor e devoção revelava-me o toque do Espirito Santo, -e o ardente desejo de ser christão.</p> - -<p>Respondi-lhe:</p> - -<p>«Não precisa pedires desculpa pela tua auzencia quando -saltamos na ilha, porque alem de estares doente, muito -longe é d’aqui á tua aldeia, e isto só basta para seres desculpado.</p> - -<p>«Regosijo-me muito vendo em ti tão boa vontade para -comnosco, e tão grande desejo de tua salvação, da de teos -filhos e em geral da de teos similhantes.</p> - -<p>«Si actualmente tivessemos mais padres acredita que eu -iria, ou mandaria outro á tua aldeia, porem não podemos -deixar a ilha por causa dos estrangeiros que nos vem vêr, -e ao que é conveniente corresponder.</p> - -<p>«Logo que chegarem os padres de França asseguro-te -que terás um d’elles, porque reconheço claramente seres -um dos escolhidos por Deos para seo filho.</p> - -<p>«Coragem, e espera o que te digo.»</p> - -<p>Replicou-me:</p> - -<p>«Déste-me muita consolação, porque desde que correo o -boato em nossa terra de dizerdes maravilhas de <i>Tupan</i> e -de tratardes com bondade nossos similhantes, que eu nunca -mais tive socego de espirito.</p> - -<p>«Quando irás procurar os padres, quando da bocca delles -ouvirás o que dizem teos compatriotas? Levanta-te, e faze -esforços para caminhar.</p> - -<p>«Obedecendo muitas vezes a este pensamento, levantei-me -da cama, porem estava tão magro e descarnado, que -nem pude sustentar-me nas pernas: olha para meos braços, -meo corpo, e minhas coxas, que não recobraram ainda a -carne e a gordura, que a molestia me comeo.</p> - -<p>«Admirou-me muito quando soube ter <i>Marentin</i> vindo tão -doente procurar-te, e receber o baptismo.</p> - -<p>«Peço-te encarecidamente, que antes do meo regresso me -ensines alguma coisa de Deos, e acredita, que fixarei em<span class="pagenum"><a id="Page_319"></a>[319]</span> -minha memoria, e não esquecerei uma só palavra, e mui -fielmente o referirei a minha gente e a meos filhos.</p> - -<p>«Tenho tres filhos, sendo o mais velho este que aqui vedes: -quero que fiquem com os padres quando vierem, que -se assentem á seos pés, e que escutem com cuidado o que -elles disserem, e cumpram suas ordens.</p> - -<p>«Elles caçarão e pescarão para os padres.»</p> - -<p>Pelo interprete lhe disse ter elle razão, e que eu não podia -recusal-a, e assim que attendesse bem ao que eu ia ensinar-lhe, -e que chamasse para junto de si seo filho e seos -companheiros, o que feito principiei a explicar-lhes o mysterio -da creação e da redempção por meio de comparações -ordinarias e palpaveis.</p> - -<p>É impossivel descrever-se a attenção e emoção, com que -elle recebia estas agoas sagradas do Redemptor.</p> - -<p>Nunca animal algum foi tão avido e desejoso por uma -fonte clara em pleno estio, do que este saboreando a nova -doutrina.</p> - -<p>Prasa ao Ceos, sem fazer comparação alguma, que os christãos -acolhessem a palavra de Deos com tanta avidez.</p> - -<p>Tinha as espaduas curvadas, em quanto fallei, os olhos -meio baixos, e apenas como que a furto respirava e cuspia, -e n’essa occasião era possivel presentir-se o caminhar de -um rato.</p> - -<p>No fim disse-me—que grandes coisas! nunca ouvi fallar -n’ellas e nem n’outras similhantes, porque Deos não quiz -fallar comnosco, e nem com os nossos antepassados, e nenhum -<i>Caraiba</i> ainda nos entreteve contando-as.</p> - -<p>Acabas de dizer-me que Deos está em toda a parte, que -não póde ser visto, mas vê tudo e nos ouve, acompanhando-nos -por toda a parte, e sempre adiante: que somente os -baptisados podem sentil-o e reconhecel-o, que não tem corpo -como nós, mas sim é um espirito derramado por todo o -universo.</p> - -<p>Ouvi bem, mas difficilmente comprehendo, porque não estamos -costumados a ouvir tão grandes coisas, e sim temos<span class="pagenum"><a id="Page_320"></a>[320]</span> -inclinação natural para pescar, caçar, flechar e fazer muitos -exercicios. Em quanto aos mais entregamo-nos aos nossos -feiticeiros, dotados de animo mais subtil para conversarem -com os espiritos.</p> - -<p>Disseste-me ser Deos como o ar que respiramos constantemente, -pois sem elle morreriamos: que <i>Tupan</i> nos dava -vida e respiração, entrava em nós e nos cercava por toda -a parte como o ar: que assim como o ar existe e vae por -toda a parte, assim tambem Deos entrava e existia em todo -o lugar.</p> - -<p>Entendo bem este ponto, pois si Deos fez o ar, necessariamente -é mais do que elle.</p> - -<p>Estou muito satisfeito por me dizeres, que <i>Jeropary</i> apenas -era criado ou servo de <i>Tupan</i>, que é perseguido pelos -espiritos bons, quando faz ou persegue algum homem ou -mulher sem licença de Deos, e que finalmente não tem poder -sobre os baptisados.</p> - -<p>Bem fez Deos, porque <i>Jeropary</i> é mau, e eu bem desejaria -que elle fosse açoitado até morrer pelos bons Espiritos.</p> - -<p>Apenas eu fôr christão, si elle aproximar-se de minha aldeia, -irei atrevidamente ao seo encontro, e não terei medo -algum.—</p> - -<p>Desculpae as expressões d’este selvagem, não christão.</p> - -<p>Escutae o resto da sua conversação.</p> - -<p>—Era necessario, que a moça, com quem Deos se casou, -fosse muito bonita, riquissima, e a mais poderosa do seo -paiz, por ser <i>Tupan</i> o maior de todos os <i>Muruuichaues</i>: -creio que seo filho tinha grande sequito e muito acompanhamento; -porem os malvados traidores, que o mataram, -eram velhacos e cautellosos porque o fizeram occultamente -pois si sua gente soubesse o teriam defendido.</p> - -<p>Parece-me que ficariam bem admirados quando o viram -sahir vivo de sua sepultura: devia então vingar-se dos que -o fizeram morrer, mas tu me disseste uma coisa admiravel, -isto é, que elle subio para o Ceo, somente em corpo e<span class="pagenum"><a id="Page_321"></a>[321]</span> -alma, que está sentado acima do sól, que tem olhos mais -claros que o sól e a lua, que nada se faz na terra, que elle -não veja e observe tanto na tua patria como na nossa, ouvindo -distinctamente as nossas palavras, as vossas preces -nas Igrejas, escutando-as, e vindo todos os dias sobre os -vossos altares, onde com elle fallaes, bem como todos os -<i>Caraibas</i> com liberdade, até sem abrir a bocca, não deixando -de perceber o que dizeis em vosso coração.</p> - -<p>Disseste tambem, que foi elle quem vos mandou para -cá afim de ensinar-nos estas coisas, a meo vêr muito bellas, -e não me enfadarei de ouvil-as, porem o barco está -prompto para regressar, e estão á minha espera minhas roças, -que deixei boas para a colheita.</p> - -<p>Tudo isto obriga-me a partir, alem de não ter trazido farinha -commigo.—</p> - -<p>Respondi-lhe, que si era só por falta de farinha, que elle -se via constrangido a partir, que eu tinha alguma á sua disposição -e de seos companheiros.</p> - -<p>Agradeceo-me a seo modo, despedimos-nos reciprocamente, -e elle partio.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h3 class="nobreak" id="II_CAPITULO_XXI">CAPITULO XXI</h3> - -<p class="subhead">Conferencia com o Onda, um dos Principaes de Commã.</p> - -</div> - -<p>Este Principal sempre foi o pae commum dos francezes -em <i>Commã</i> honrando-os, respeitando-os, e defendendo-os -contra todas as más indisposições suscitadas, como era costume,<span class="pagenum"><a id="Page_322"></a>[322]</span> -pelos malvados e libertinos, a ponto de ser por elles -aborrecido e ameaçado de ser espancado senão morto a não -ser o receio, que tinham dos francezes.</p> - -<p>Quando foi nossa gente ao Pará, elle a acolheu com toda -a bondade e generosidade, ambicionando ser o <i>chetuasap</i> -ordinario do chefe dos francezes, consistindo toda a sua -fortuna e felicidade em ser amado e apreciado pelos francezes.</p> - -<p>Tinha um filho com 20 annos d’idade, que recommendou -muito ao Sr. de la Ravardiere e a todos nós, pedindo que -o acolhessemos bem, não exigindo outra recompensa de sua -fiel amisade senão a de poder seo filho viver entre os francezes, -n’uma palavra—ser francez.</p> - -<p>N’essa occasião tinha recommendado á seo filho, que se -esforçasse o mais, que podesse, para aprender a lingua -francesa, e para o conseguir com mais facilidade ordenou-lhe -que frequentasse os francezes quanto podesse, estando -sempre entre os residentes em <i>Commã</i>, e de tal fórma se -houve, que aprendeo algumas palavras de nossa lingua.</p> - -<p>Pensou este bom homem ter obtido todas as riquezas do -mundo, quando vio seo filho balbuciar vinte ou trinta palavras -francezas, e julgou ser tempo de trazer este grande -doutor aos <i>pays</i>, isto é, aos padres para ser baptisado, e -depois ser <i>Caraiba</i>, «francez.»</p> - -<p>Tereis sem duvida notado, tanto por este discurso, como -por muitos outros precedentes e subsequentes, que os selvagens -julgavam necessario ser primeiro baptisado para depois -ser francez, sendo manifesta loucura o pensar em contrario -e na verdade não se enganavam.</p> - -<p>O verdadeiro francez é mais francez pela piedade e religião -do que pela origem, visto que Deos o felicitou fazendo-o -vassallo e subdito de um rei christianissimo, primeiro -filho da igreja, e sempre seo fidelissimo protector, como demonstrou -em todo o tempo e em todas as occasiões.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_323"></a>[323]</span></p> - -<p>Si dermos credito a Santo Agostinho, no Tratado do Ante-Christo, -é elle, que deve resistir a este Ante-Christo, como -se vê em mais de um lugar.</p> - -<p>Voltemos ao nosso homem.</p> - -<p>Trouxe seo filho com muito respeito, e assentando-se n’uma -rêde, e o rapaz perto d’elle, desculpou-se de não ter vindo -logo vêr-nos e visitar-nos, assegurando porem ser um dos -nossos melhores amigos, que desejava ter padres com elle -na sua aldeia, que os acolheria muito bem, que nada lhes -faltaria para a vida, nem javalis, veados, e outros bichos -proprios á esse fim.</p> - -<p>É por esta fórma que todos se desculpam.</p> - -<p>Depois d’isto, assim fallou-me:</p> - -<p>«Sou homem de idade, como vedes, porem tenho muita -força, e espero vêr este meo filho, que aqui te trago, bom -<i>Caraiba</i>, como me prometteo o Grande, que sympathisa com -elle, quer vestil-o e tel-o aqui com os francezes.</p> - -<p>Eis porque venho pedir-te para laval-o com agoa de <i>Tupan</i>: -assevero-te, que elle sabe tudo quanto é preciso saber, -e breve o ouvirás porque tive o cuidado que elle fallasse -com os francezes, e todos me dizem que elle entende -muito.</p> - -<p>É bom rapaz e amigo dos francezes.»</p> - -<p>Dizendo isto, fez signal a seo filho para aproximar-se, e -ordenou-lhe que contasse tudo quanto sabia de francez.</p> - -<p>Só com muito custo podia conter o riso, e nem si quer -me era permittido usar do interprete que ria-se a bom rir, -de tal simplicidade; comtudo, eu o tranquilisei pedindo-lhe -desculpa pelas travessuras de um pequeno papagaio, que -eu tinha, a fim de não pensar que era elle o provocador do -riso.</p> - -<p>O rapaz recitou-me a doutrina, que seo pae julgava bastante -para receber o baptismo, e o fez d’esta maneira: <i>bom -dia, senhor, como estaes: Bem, senhor, prompto ao vosso -serviço, quereis comer, sim: pão, peixe, carne, minha cabeça,<span class="pagenum"><a id="Page_324"></a>[324]</span> -eo chapeo, meo gibão, meo borzeguim, minha camisa</i><a id="FNanchor_58" href="#Footnote_58" class="fnanchor">[BF]</a></p> - -<p>Não pude ouvir mais com receio de arrebentar de riso.</p> - -<p>Disse-lhe ser bastante, que só por isto eu fazia ideia d’elle -não ter perdido seo tempo.</p> - -<p>O bom homem pressuroso interrompeo-me dizendo ter -ainda que dizer-me.</p> - -<p>Levantou-se do seo logar, tomou todos os utencilios do -meo quarto, e mostrando-me um apoz outro disse-me, que -elle de tudo sabia o nome em francez.</p> - -<p>Aproximando-se de minha mesa, e agarrando-a com duas -mãos, dizia—elle ainda sabe o nome d’isto em francez.</p> - -<p>Dirigio-se a seu filho, e perguntou-lhe se era verdade o -que dizia. Sim, respondeo-lhe o moço, e ainda mais, pois -chamaria pelo nome tal e tal francez, bem como tambem -sabia a denominação das armas: <i>Um arcabuz, que faz puf, -uma espada, um canhão, que faz pataú</i>.</p> - -<p>Mas, disse-lhe o pae, bem depressa saberás o resto?</p> - -<p>Sim.</p> - -<p>Muito bem, replicou o pae, não deixes de vir todos os -dias recitar tua lição diante do padre.</p> - -<p>Deixando-lhe toda a liberdade de fallar afim d’eu poder -conter o riso, e d’elle dar expansão ao seo fervor, que não -era isto, que eu exigia para conferir-lhe o baptismo, e sim -o conhecimento de Deos e de outras coisas dependentes da -nossa religião.</p> - -<p>Ficou admirado de ouvir-me, reconhecendo inutil a estima -que elle tinha de vêr seo filho, grande doutor, e parecendo -não entender até o que eu lhe dizia.</p> - -<p>Pelo interprete expliquei-lhe o meu pensamento, e elle -respondeo-me não ter ouvido ainda fallar n’isso, mas que<span class="pagenum"><a id="Page_325"></a>[325]</span> -como seo filho era intelligente cedo aprenderia bastando-lhe -apenas uma lua, para o que deixava seo filho no Forte de -Sam Luiz.</p> - -<p>Disse-lhe que elle fazia muito, que eu o trataria o melhor -que me fosse possivel, e sempre seria bem acolhido entre -os francezes.</p> - -<p>Mas, disse eu, porque não procuras para ti o bem, que -desejas a teo filho?</p> - -<p>Ah! respondeo-me, sou muito velho: nada mais poderei -aprender, como esses rapazes, que vão ser <i>Caraibas</i>.</p> - -<p>Como, repliquei, antes queres ir com os diabos queimar-te -no inferno, do que esforçar-te para aprenderes a sciencia de -Deos? Tua velhice não é desculpa aproveitavel.</p> - -<p>Tens eloquencia para fallar um dia inteiro, si quizeres. -Calcula ha quanto tempo fallas, e quantas palavras tens proferido.</p> - -<p>Não precisas aprender a quinta parte das questões, que -me tens proposto, afim de seres christão; nas palavras de -tua lingua, pelas quaes comprehendemos os objectos expressados -na nossa linguagem.</p> - -<p>Aprendeis com muita facilidade cantigas e descantes, tão -compridos sobre feitos de vossos antepassados.</p> - -<p>Poderás assim aprender facilmente o que queres, que saiba -teo filho.</p> - -<p>Pois bem, me disse elle, vou fazel-o.</p> - -<p>Voltando-se para o filho, recommendou-lhe que escutasse -bem tudo quanto lhe ensinassem, que não perdesse uma só -palavra, e que imitasse todas as acções dos francezes, que -viria depois buscal-o para a terra d’elle afim de ensinar-lhe -o que tivesse aprendido.</p> - -<p>Serás bem recebido, todos farão caso de ti, e se reunirão -para te ouvir contar tão boas coisas. Depois viremos procurar -os padres para nos baptisarem.</p> - -<p>Assim fallando, olhou-me a sorrir-se.</p> - -<p>Muito bem, disse elle: Padre, não beberemos bom vinho -de França? ou <i>Cauin</i>, que queima, isto é, aguardente?</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_326"></a>[326]</span></p> - -<p>Não terás d’ella alguma garrafa na tua frasqueira? Dá-me -as chaves d’ella.</p> - -<p>O <i>Muruuichaue</i> me deo em sua casa um pouco, e era -muito boa e muito forte: esfregando seo estomago com a -mão, dizia-me, olha, ainda sinto ella aquecer-me.</p> - -<p>É costume da França tirar da frasqueira a garrafa quando -se recebe visitas de amigos.</p> - -<p>Tenho desejos de vir muitas vezes a <i>Yuiret</i>, quando chegam -navios de França para gozar do seo vinho muito melhor -do que o nosso.</p> - -<p>Vendo finalmente a simplicidade d’este homem, que foi o -primeiro a rir-se, e não tratando nós mais das coisas de Deos, -foi-me necessario rir tambem, dar-lhe agoardente, e depois -de ter bebido um bom copo, pelo interprete notou não ter -eu bebido com elle, que convinha fazel-o, e que depois elle -me acompanharia.</p> - -<p>Assim o fiz para chamar estes homens ao seio de Deos, -tel-os como que obrigados ou agradecidos a nós em tudo quanto -podessemos, conforme sua naturesa, quando n’isto -não ha offensa á Deos.</p> - -<p>Depois de achar-se um pouco enthusiasmado com o segundo -copo começou a pronunciar gutturalmente estas palavras—<i>Goy -y katu de katogne kauin tata</i>, «oh! quanto é bom, -muito bom o vinho de fogo, ou o vinho que arde.»</p> - -<p>Como mau agouro ouvi a palavra <i>Goy</i>, que é o começo -para beber-se muito, e principiei a cogitar na maneira por -que havia de fechar a garrafa, visto não haver necessidade -de tal despesa, então grande pela sua falta.</p> - -<p>Disse ao meu interprete, que a levasse, e este querendo -cumprir a minha determinação, o meo selvagem agarrou a -dizendo não ser costume dos francezes guardarem as garrafas, -tiradas da frasqueira para a meza e que por muitas vezes -se tinha achado entre elles.</p> - -<p>Reconheci que era necessario resgatar a minha prisioneira, -embora ella nada me ficasse a devêr pela sua boa composição.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_327"></a>[327]</span></p> - -<p>Disse-lhe, que <i>cauiu-tata</i> não era similhante ao que tinha -bebido antigamente, que perturbava a cabeça de quem -o bebesse muito, que eu devia cuidar do seo corpo e de -sua saude, mas que eu ainda lhe daria um copinho para dizer-lhe -adeos, e assim foi-se satisfeito.</p> - -<p>Veio visitar-me no dia seguinte. Prevenindo-me e indo ao -encontro dos seos desejos mostrei-lhe uma garrafa quebrada, -igual a do dia antecedente fingindo estar muito triste -pela agoardente que se tinha derramado e perdido: mostrou-me -igual sentimento, e batendo na coxa me disse—Aqui -está, si tivesses permittido, nós a tinhamos bebido, e -nada teria acontecido.</p> - -<p>o...</p> - -<hr class="tb" /> - -<p><i>Faltam as ultimas folhas d’esta narração no exemplar -unico da edicção original, existente na Bibliotheca Imperial -de Pariz.</i> (<a href="#PREFACIO">Vide o Prefacio.</a>)</p> - -<p><i>Suppre-se de alguma forma esta falta, bem sensivel, publicando-se -no fim da obra, curiosissimas cartas, por longo -tempo esquecidas.</i></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_328"></a>[328]</span></p> - -<div class="footnotes"> - -<h3>NOTAS</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_55" href="#FNanchor_55" class="label">[BC]</a> Por falta de typos proprios deixamos em claro este espaço.—Do -traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_56" href="#FNanchor_56" class="label">[BD]</a> Quarta parte de um soldo de França.—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_57" href="#FNanchor_57" class="label">[BE]</a> Gurupy.—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_58" href="#FNanchor_58" class="label">[BF]</a> Em francez muito mal escripto estão estas palavras, é impossivel -traduzil-as com taes erros.—Do traductor.</p> - -</div> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_329"></a>[329]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="ADDENDUM">ADDENDUM.</h2> - -</div> - -<h3>Congratulação á França pela chegada dos Padres -Capuchinhos á nova India da America Meridional -do Brazil.</h3> - -<p>Grande reino, e povo francez, tens razão de louvar a Deos: -Christianissimo Reinado, de dia para dia crescem tuas alegrias, -dando sempre de ti boas novidades: sól dos reinos, -flor dos povos do Universo, és notavel por todas as maneiras.</p> - -<p>Por tua antiguidade na fé catholica, religião christã, devoção -aos altares divinos, e fervor em ouvir a palavra de -Deos.</p> - -<p>Pelo amor e dedicação a teo Principe natural, por tua -honesta sinceridade, ou sincera franqueza, na conversação, -qualidades, que nenhuma outra nação possue como tu.</p> - -<p>Esplendido, magnifico, e magnanimo reino sobre todos os -reinos da terra.</p> - -<p>Pela magestade da tua corôa, a bella e antiga serie de -teos monarchas até o numero de sessenta e quatro Reis, -dos quaes foram uns Imperadores, outros Santos canonisados -no Ceo: e tambem pelo valor e proezas na guerra, praticada -por tua gente valerosa, liberal nobresa de gravata -branca como leite.</p> - -<p>Pela sapiencia de tuas universidades em todas as especies -de sciencias e faculdades, pela amplidão de teos magistrados, -pela prudencia de teos respeitaveis parlamentos,<span class="pagenum"><a id="Page_330"></a>[330]</span> -pela serenidade de teos conselhos, e pelas bellas leis de tua -politica.</p> - -<p>Que digo eu?</p> - -<p>Povo sabio, intelligente, grande nação, illustre reino, ceo -estrellado de tão bellos espiritos delicados, parabens: és na -verdade maravilhosamente illustre!</p> - -<p>Pela multidão de tantos prelados veneraveis, grandes bispos, -ricos abbades, e chefes de ordens.</p> - -<p>Pelo crescido numero de tantos homens santos, notaveis -pela bondade, famosos pela sciencia, e nobres pela progenie, -illustres pelos milagres que hão florescido e brilhado dentro -e fora dos teos mosteiros.</p> - -<p>Pela tua posição entre dois grandes mares, onde por meio -de teos dois braços exerces piedade e justiça em villas tão -grandes e bellas, ricas, afamadas e populosas, n’um paiz tão -abundante, e em provincias tão amplas e copiosas, e em tão -grande numero.</p> - -<p>O que te falta para chegares ao cumulo de tua felicidade?</p> - -<p>O que pode accrescentar-se ao ramalhete de teos louvores, -á grinalda de tuas honras, á corôa de tuas glorias, tecida -em ternario, symbolisado pelos teos tres lyzes, em -campo de oiro, a não ser que hoje enriquecido pelo Rei -Luiz, o rei dos lyzes, alcances, sob sua authoridade, o cheiro -de Jesus no Ceo, e ao longe a salvação dos povos selvagens -mergulhados em trevas, e nas sombras da morte d’infidelidade, -de incivilidade, e de barbaridade.</p> - -<p>Foste por Deos escolhido para tão grande honra, satisfação -e alegria para levar ahi, o suave nome do Redemptor, -estabelecer o imperial sceptro de sua cruz triumphante, signal -sagrado, signal do Filho do Homem, e estandarte do -grande rei dos reis, sob o qual se devem reunir todos os -povos, que se desejam salvar, e então ahi semear a boa -nova do seo Evangelho, salvador dos crentes.</p> - -<p>Outr’ora até o occidente buscando para o meio-dia pelo -grande Carlos Magno, com a sua espada de ferro, mostraste<span class="pagenum"><a id="Page_331"></a>[331]</span> -o teu valor contra os serracenos, importunos á Hespanha.</p> - -<p>Até ao oriente pelo grande São Luiz, uma, duas vezes, -fizeste sentir á impiedade turca, a força de teo braço, e erguido -na Palestina, esse bello estandarte da Santa Cruz por -um duque de Boillon, por um duque de Mercœur, e um duque -de Nevers.</p> - -<p>Tremeram ao ouvir o nome da França, tão fatal a elles, -a quem mostraste tua coragem com o cutello na mão.</p> - -<p>Mas agora—<i>Nova bella eligit Dominus, Clypeus, et hasta -si apparuerint</i>, novas guerras, conquistas impertinentes, escudos -e lanças, ahi se verão? Nada d’isto, e sim a Cruz de -Jesus, o altar do grande rei, exercitos com seu augustissimo -Missah, espada de Deos e de Gedeon, d’aquelle que é -Deos e homem ao mesmo tempo, agoa benta para expellir -os diabos, a conquista dos corações antropophagos ou comedores -de homens pelo meio simples da palavra de Deos, -que fará despil-os de crueldade, e de então em diante amarem -o proximo como a si mesmo, abandonarem a imprudencia -e o impudor, revestirem-se com o branco da innocencia -e da honestidade: oh! quanta brutalidade adquirirá -o uso da razão, e tu, ó França, foste escolhida para fazer -tal guerra? Em tua consciencia, dize-me, não é esta uma -guerra, com sceptro de liz, de rosas e de flores?</p> - -<p>Quem ouvio jamais coisas similhantes nas batalhas do -mundo? porem estas são guerras do amantissimo Jesus.</p> - -<p>Nada mais te falta agora depois dos teos combates de outras -eras, senão o alegrar-te de plantar a fé e a lei entre -gente de ferozes costumes, e de barbaros feitos, porem mui -facil em supportar o jugo do teu humano concurso, o que não -tem podido conseguir o soberbo ou rustico portuguez.</p> - -<p>Regosija-te pois, principe dos lyzes, por ser a tua maior -gloria o servir ao grande Rei do Ceo e da terra, de legado -e de embaixada de suas maravilhas e grandezas em ilhas -remotas, e em partes longinquas da Região Austral.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_332"></a>[332]</span></p> - -<p>Esta sabia Princesa christianissima, muito catholica, e de -magnanima coragem, qual outra Judith, nossa grande rainha, -a Regente nossa senhora fez esta exigencia por cartas -dirigidas aos Reverendissimos Padres Superiores dos Capuchinhos -da provincia de França, e de Pariz, seos humildes -servos.</p> - -<p>Reuniram-se em capitulo para conceder ao Sr. de Rasily, -loco-tenente-general de Sua Magestade n’aquellas terras tão -remotas um certo numero de religiosos, que deviam ser -consagrados á uma empresa tão sancta como perigosa.</p> - -<p>Sendo este desejo acolhido livremente, em lugar de quatro, -que hoje lá se acham como exploradores da terra, todos -quatro sacerdotes e prégadores, o padre Ivo d’Evreux, -o padre Claudio d’Abbeville, o padre Ambrosio de Amiens, o -padre Arsenio de Paris, todos em numero de cincoenta e quatro, -presentes ao capitulo, se inscreveram e offereceram-se -cordialmente para arriscar sua vida, tão nobremente, afim -de salvar esses pobres pagés, esses pobres selvagens, esses -infelizes atormentados pela tempestade do diabo sem consolador -e sem pae.</p> - -<p>Ainda agora, para maior gloria do Salvador, foi a narração -augmentada por tres pares de cartas, mais recentes -do que as precedentes. Narram ellas a sua partida, a sua -navegação, ora calma, ora tempestuosa, a sua feliz chegada, -e tantos beneficios, que Sua Magestade, por intermedio -d’elles, tem já feito, e com taes particularidades, -como nunca se vio impresso.</p> - -<p>Lêde pois.</p> - -<p>Mas antes d’isto, para que o Deista, o Censor mundano, -e o zombador heretico não se ria de projectos tão honrosos, -vindos do Ceo, convem saber-se, que ha longo tempo fôra -tudo isto prophetisado por santos inspirados pelo Espirito -Santo.</p> - -<p>Disse o Propheta Isaias—<i>propter hoc in doctrinis glorificate -Dominum, in insulis maris nomen Domini Dei Israel</i>:<span class="pagenum"><a id="Page_333"></a>[333]</span> -pelo que eu fizer no meio da terra glorificae o Senhor -por doutrinas, pregae essas doutrinas por todas as ilhas do -mar, annunciae, e glorificae o nome do Senhor, Deos d’Israel.</p> - -<p>Alem d’isso, eis meo Salvador, eu o unirei a mim, meo -escolhido, minha alma n’elle se completa e elle dará juiso -aos gentios etc. etc.</p> - -<p>E as ilhas esperaram attentas a lei, e eu t’a daria em alliança -do povo como luz aos gentios afim de abrires os olhos -aos cegos, e tirares os prisioneiros dos calabouços, das prisões -e das densas trevas.</p> - -<p>Louvae ao Senhor por meio de canticos por toda a terra, -mares, ilhas, e seos habitantes—<i>ponent Domino gloriam et -laudem ejus in insulis numciabunt</i>: glorificarão ao Senhor -e o louvarão nas ilhas.</p> - -<p>Prophetisa o mesmo, que ellas receberão sua lei: meo Justo -está perto, sahio meo Salvador (Deos é o Pae) meos braços -julgarão os povos, as ilhas me esperarão e sustentarão meo -braço, isto é, receberão meo filho.</p> - -<p>N’outro lugar fallando á sua igreja, que é a Romana (n’outra -taes factos nunca appareceram) diz—por que as ilhas -me esperam, e no começo os navios do mar, para que eu -conduza teos filhos de bem longe.</p> - -<p>No Capitulo 66 Deos disse pelo mesmo Propheta:</p> - -<p>«Porei n’elles o signal, mandarei os que ja se salvaram -aos gentios no mar, na Africa, em Lidia que atiram a flecha, -á Italia, a Grecia e as ilhas longinquas, aos que não ouvirão -fallar de mim e não presenciarão minha gloria, e -elles annunciarão minha gloria aos gentios, e os conduzirão -como dadiva ou offerenda ao Senhor, ricos presentes e perolas -preciosas a Deos.»</p> - -<p>O propheta Sophonias:</p> - -<p>«Os homens illustres o adorarão em qualquer parte e em -todas as ilhas dos gentios.»</p> - -<p>O grande inspirador dos Prophetas por seo Espirito, Jesus -Christo tambem disse e prophetisou taes coisas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_334"></a>[334]</span></p> - -<p>E este Evangelho do Reino será prégado pelo Universo, -como testemunho a todos os gentios, e então virá a consummação -do Mundo.</p> - -<p>Nós outros catholicos devemos sentir grande alegria vendo -cumprir-se todos os dias a palavra de Deos tão fielmente, -não por meio de uma Assembléa reunida com tal fim, e -sim pela Santa Igreja Romana, e deve em particular este -grande reino agradecer a Deos por d’elle servir-se para levar -tão longe a gloria dos seos tropheos.</p> - -<p>O seguinte trecho vos convencerá d’esta verdade, extrahida -de quatro cartas, que d’aquelle paiz escreveo o Padre -Arsenio, um dos quatro, a saber, uma ao Revd. Padre Commissario -Provincial, uma ao Revd. Padre Custodio da custodia -de Pariz, uma ao Revd. Padre Vigario de Pariz, e -uma a seo irmão, todas datadas em 27 de Agosto, e dizendo -mais que a sua quarta carta de 20. Outra carta do Revd. -Padre Claudio a seos dois irmãos, o Sr. Foulon, e o Padre -Marçal,<a id="Nanchor_110" href="#Note_110" class="fnanchor">[110]</a> e uma para dois Padres já mencionados, escripta -ao Sr. Fermanet, e para vos ser agradavel e não repetir as -mesmas, foi tudo reunido n’uma só carta, como vereis, mui -fielmente, e com suas proprias palavras.</p> - -<p>Lêde em nome de Deos.</p> - -<h3 id="Fidelissima"><i>Fidelissima narração, extrahida de seis pares de cartas dos Revds. -Padres Claudio d’Abbeville e Arsenio, Prégadores Capuchinhos, -escriptas aos Padres da sua Ordem de Pariz, e a outras -pessoas do seculo, sendo quatro do Revd. Padre Arsenio, -uma do Padre Claudio, e uma para -duas pessoas.</i></h3> - -<p><i>Meos Reverendos e carissimos Padres.</i>—A paz do Senhor -seja comvosco. Nós vos dirigimos esta pequena carta para -dar-vos noticias acerca da nossa viagem, e como chegamos, -mercê de Deos, felizmente a esta terra do Brazil na Ilha do -Maranhão, entre os povos <i>Tupinambás</i>, não sem grandes -fadigas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_335"></a>[335]</span></p> - -<p>Cinco mezes estivemos no mar soffrendo encommodos, que -só podem avaliar os que por elles já passaram, e como o -Sr. de Rasilly, por estes dois ou tres mezes, regressa á -França afim de trazer-nos novos auxilios, reservamos-nos -para n’essa occasião descrevermos mais amplamente o resultado -da nossa viagem, tanto no mar como em terra, n’este -novo Mundo.</p> - -<p>Aproveitamos agora a occasião para dizer-vos e muito ás -pressas, que para aqui chegarmos foi necessario partir de -Caucale, porto da Bretanha, e já estando d’elle distante dusentas -legoas do mar levantou-se grande tempestade, que -separou os nossos tres navios, uns dos outros, causando -admiração, até mesmo aos nossos melhores pilotos, o não -ter algum d’elles naufragado.</p> - -<p>Quiz Deos porem livrar-nos d’esta desgraça, e encontramos -dois de nossos navios, arribados em Inglaterra, d’onde -vos escrevemos, e creio que já estareis de posse das nossas -cartas.</p> - -<p>Na segunda-feira de Paschoa partimos de Plymouth,<a id="Nanchor_111" href="#Note_111" class="fnanchor">[111]</a> na -Inglaterra, e navegamos sempre com bom tempo, menos -alguns dias na costa de Guiné, mui perigosa pelas molestias -do paiz.</p> - -<p>Sahindo de Plymouth auxiliou-nos vento tão favoravel, -que em pouco tempo passamos as Ilhas Canarias, por entre -as ilhas <i>Boa Ventura</i> e <i>Canaria grande</i>, vistas por nós perfeitamente.</p> - -<p>Das Canarias ganhamos a Costa d’Africa no Cabo do Bajador, -sempre navegando pela Barbaria: de Bajador desviamos-nos -da Costa d’Africa até o rio chamado <i>Lore</i> pelos hespanhoes,<a id="Nanchor_112" href="#Note_112" class="fnanchor">[112]</a> -e perto d’elle fundeamos: sahindo d’ahi ainda -nos desviamos da Costa d’Africa até o Cabo branco, lugar -bem debaixo do tropico de Cancer.</p> - -<p>D’este Cabo procuramos a Costa de Guiné, passando entre -as ilhas do Cabo verde, o proprio Cabo verde lugar perigosissimo -pelas molestias contagiosas, ahi reinantes em certas -estações do anno: esta molestia ataca as gengivas de tal<span class="pagenum"><a id="Page_336"></a>[336]</span> -sorte, que a carne cobre os dentes, e os faz cahir com grande -perda de sangue a ponto de não se poder estancar, sobrevindo -tambem os encommodos de estomago e inchação, e -d’isto tudo resulta a morte escapando poucos: mercê de -Deos ninguem morreo durante a nossa viagem, porem apenas -entramos na terra, falleceram tres, e ahi ficaram sepultados.</p> - -<p>De Guiné viemos-nos aproximando da linha equinoccial, que -passamos bem difficilmente, coisa ja por nós esperada á vista -da estação em que estavamos.</p> - -<p>Soprou vento contrario por quinze dias causando-nos -grandes sustos, e receios de que não apparecessem calmarias -antes de passarmos a linha: graças a Deos, pouco a pouco, -embora o vento contrario, tanto bordo demos, que quando -mal pensamos, estavamos no hemispherio do meio dia.</p> - -<p>Passando a linha, avistamos e afinal chegamos a uma pequena -ilha chamada Fernando de la Roque,<a id="Nanchor_113" href="#Note_113" class="fnanchor">[113]</a> situada a quatro -graus de altura para o meio dia, e a cinco para seis legoas -de circumferencia, ilha bella e agradavel, cujas propriedades, -querendo Deos, havemos de descrever na primeira -opportunidade: é na verdade um verdadeiro paraisosinho -terreste.</p> - -<p>Saltamos n’esta ilha, onde apenas achamos 17 ou 18 indios -selvagens, em companhia de um portuguez, todos escravos -e ahi postos por determinação da gente de Pernambuco: -d’estes indios baptisamos cinco.</p> - -<p>Depois de havermos plantado a Cruz n’esta ilha, no centro -de uma capella, feita por nós para celebração da santa -missa, e de abençoado o logar onde residimos por 15 dias, -casamos dois destes selvagens, um indio com uma india, depois -de baptisados.</p> - -<p>Não quizemos baptisar o resto aqui, porem achamos bom -addiar o baptismo até chegarmos ao lugar do nosso destino, -si bem que libertassemos todos esses selvagens tirando-os -do captiveiro, e fazendo-os livres com muita satisfação d’elles,<span class="pagenum"><a id="Page_337"></a>[337]</span> -depois do que manifestaram ardente desejo de nos -acompanharem até Maranhão, como de facto aconteceo.</p> - -<p>Vieram comnosco trazendo muito algodão, e outros generos, -que possuiam.</p> - -<p>De Fernando de la Roque ganhamos a Costa do Brasil, caminhando -até o <i>cabo da tartaruga</i>, terra firme no paiz dos -<i>canibaes</i>, onde, diz Euzebio, na sua <i>Historia</i>, passara o Apostolo -Sam Matheus á vista d’esta Costa do Brasil: imaginae a -nossa alegria vendo terras tão desejadas após cinco mezes -de navegação.</p> - -<p>Depois de 15 dias de demora no <i>cabo das tartarugas</i>, -continuamos a navegar, e chegamos á ilha do Maranhão, -onde fundeamos no dia da gloriosa Santa Anna, Mãe da Sagrada -Virgem Maria, com que muito me alegrei, (disse o -padre Claudio) por termos tido n’esse dia, que eu tanto amo, -a felicidade de chegarmos ao lugar tão desejado.</p> - -<p>No domingo seguinte saltamos todos em terra, levando -agoa benta, cantando o <i>Te-Deum laudamus</i>, o <i>Veni Creator</i>, -a ladainha de Nossa Senhora, e depois caminhamos em -procissão desde o porto atê ao lugar escolhido para levantar -se uma Cruz, a qual foi carregada pelo Sr. de Rasilly e -todos os Principaes da nossa Companhia.</p> - -<p>Depois de benzida esta ilha, até então <i>Ilhasinha</i>, foi pelos -Srs. de Rasilly e la Ravardière chamada <i>Ilha de Santa Anna</i>, -não só por termos ahi chegado n’esse dia, como tambem -porque chamava-se Anna a Condessa de Soissons, parenta -do Sr. de Rasilly.<a id="Nanchor_114" href="#Note_114" class="fnanchor">[114]</a></p> - -<p>Depois plantamos a Cruz: ao pé d’ella, estando todo o -largo abençoado, enterramos um pobre homem, tanoeiro, -que vinha comnosco.</p> - -<p>Fêz-se tudo isto com geral contentamento e demoramo-nos -ahi oito dias.</p> - -<p>Deixamos esta pequena ilha e fomos procurar a ilha grande -do Maranhão, habitada por selvagens (que são as pedras preciosas -que cobiçamos) e graças a Deos chegamos bons e bem -dispostos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_338"></a>[338]</span></p> - -<p>Vestidos com os nossos habitos de sarja fina por causa do -calor da zona tórrida e revestidos de uma bonita sobrepelliz -branca, empunhando nossos bastões, e em cima de tudo a -Cruz com o Crucificado, descemos do navio para uma canôa, -especie de batel construido pelos indios de um só tronco de -pau, onde estavam todos os selvagens, que ja tinham estado -na praia com o Sr. de Rasilly, e muitos francezes ja dos que -vieram comnosco e ja dos pertencentes á equipagem do Sr. -de Manoir, e do Capitão Geraldo, todos francezes, que aqui -achamos: muitos d’estes selvagens atiraram-se ao mar e nadaram -afim de chegarem primeiro do que nós.</p> - -<p>Assim conduzidos saltamos em terra, onde se ajoelhou o -Sr. de Rasilly e todos os francezes para nos receberem (honra -não commum) e como nos achassemos embaraçados com -tal sorpresa, eu tive (disse o padre Claudio) a feliz lembrança -de entoar o <i>Te-Deum laudamus</i> conforme o cantico -da igreja, e assim caminhamos em procissão entre lagrymas -de alegria de muitos francezes, e seguidos pelos indios.</p> - -<p>Assim tomamos posse d’esta terra e novo mundo para -Jesus Christo, e em seo nome, esperando abençôar o lugar, -e n’elle plantar a Cruz em qualquer dia para isso designado.</p> - -<p>Deixo as outras particularidades para contar-vos quando -escrever mais de espaço sobre esta nossa viagem.</p> - -<p>Somente vos digo que no domingo 12 de agosto, dia de -Santa Clara, celebramos todos quatro as primeiras missas, -que aqui se disseram.</p> - -<p>Com bem razão ordenou Deos que o dia de uma Santa -Virgem da nossa Ordem, que deo nova luz ao mundo, fosse -escolhido para fazer brilhar a nova luz do seo Evangelho -n’este novo mundo.</p> - -<p>Não é possivel descrever-vos o grande contentamento, -que mostraram estes pobres selvagens com a nossa -vinda.</p> - -<p>É um povo conquistado e ganhado, povo grande, que na -verdade nos ama, e nos dedica affeição, e chama-nos grandes<span class="pagenum"><a id="Page_339"></a>[339]</span> -prophetas de Deos e de Tupan, e em sua linguagem padres -Carribain, Matarata.<a id="Nanchor_115" href="#Note_115" class="fnanchor">[115]</a></p> - -<p>Depois que aqui chegamos temos tido muito boas noticias.</p> - -<p>Os indios do Pará, outro povo, de um lado visinho do -Amazonas, e do outro d’este povo, onde existem somente -cem mil homens, desejam muito que lá vamos instruil-os.</p> - -<p>Embora <i>messis multa, operarii autem pauci</i> «seja grande -a colheita, são poucos os operarios.» Si quizessemos -desde ja se baptisaria grande parte.</p> - -<p>É certo que «<i>regiones albescunt ad messem</i>,» estas regiões -aqui enbranquecem mostrando a necessidade de ceifa, -felizmente chegou o tempo de ser Deos aqui adorado e reconhecido.</p> - -<p>Agora estamos procurando lugar para nos acommodar e -fazer uma Capella, até que cheguem de França pedreiros para -edificarem uma Igreja.</p> - -<p>Existem muitas mattas virgens, que convem arrotear -antes.</p> - -<p>Não posso descrever-vos agora o grande contentamento -dos selvagens pela nossa chegada.</p> - -<p>Dão-nos boa esperança de se converterem. Todo este povo -ainda que bruto e selvagem mostrou-se contente com a nossa -chegada, tem vindo vêr-nos com muita alegria, manifestando -grande desejo de instruir-se no christianismo.</p> - -<p>Creio que quando soubermos a lingua d’elles haverá muito -que colher, com grande satisfação para os que tem zelo -pelas coisas de Deos e pela salvação das almas.</p> - -<p>Preparam todos os seos filhos para nos trazerem afim de -serem por nós instruidos, e ja nos prometteram não mais -comer carne humana. São muito bonachãos, e não maliciosos. -Por unica religião apenas creem em Deos, que chamam -<i>Tupan</i>, e na immortalidade da alma.</p> - -<p>Quanto ao paiz é terra fertil e muito boa, onde não ha -frio, e sim estio constante; ninguem conhece o que é frio, -e as arvores estão sempre verdes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_340"></a>[340]</span></p> - -<p>Os dias e as noites são sempre do mesmo tamanho: nasce -o sol as 6 horas da manhã e encerra-se as 6 da tarde.</p> - -<p>Estamos apenas a dois graos e meio da linha equinoccial -ou do Equador.</p> - -<p>É voz geral haver n’este paiz muitas riquezas, como sejam -minas de oiro, de pedras preciosas, de perolas, de ambar-gris, -alem de muitas pimenteiras, muito algodão, muita herva -da rainha, ou petum, e muito assucar.</p> - -<p>Brevemente, quando nos estabelecermos bem, nós vos asseguramos -ser isto aqui um pequeno paraiso terreste, com -todas as commodidades e alegrias.</p> - -<p>Não posso ir mais longe: fica o resto para quando fôr o -Sr. de Rasilly, e então hei-de dizer-vos outras coisas em particular.</p> - -<p>Quanto a minha saude nunca passei tão bem como agora, -graças a Deos e só bebendo agoa, (palavras do padre Claudio.)</p> - -<p>Si na França me fosse preciso fazer a millesima parte do que -aqui faço, mil vezes teria morrido, e n’isto reconheço, -que <i>non in solo pane vivit homo</i>, «o homem não vive só -de pão.»</p> - -<p>Convem que para cá venham os delicados de França.</p> - -<p>Louvo a Deos por nunca ter enjoado, com grande admiração -de todos.</p> - -<p>Quando chegamos no paiz dos calores, justamente quando -estavamos sob o tropico de Cancer, quando o sol estava subindo, -tive apenas dois ou tres pequenos accessos de febre -passageira, graças a Deos.</p> - -<p>Deixo o mais para outra occasião, pois agora falta-nos tempo, -e sobram-nos trabalhos.</p> - -<p>Rogae a Deos por nós, e pelos nossos companheiros, o -mais que poderdes, pois agora, mais do que nunca necessitamos -da graça de Deos, sem as quaes nada se consegue.</p> - -<p>O que n’este sentido fizerdes, Deos vos compensará.</p> - -</div> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_341"></a>[341]</span></p> - -<h3><i>Summario de algumas coisas mais particulares, referidas -vocalmente aos Padres Capuchinhos de Pariz pelo -Sr. de Manoir.</i></h3> - -<p>O Sr. de Manoir,<a id="Nanchor_116" href="#Note_116" class="fnanchor">[116]</a> (um dos capitães, de que se fallou -na carta precedente, que fôra encontrado n’aquelle paiz com -o capitão Geraldo) chegando ultimamente á França, e sendo -portador da carta, ja transcripta e de muitas outras (algumas -das quaes bem desejariamos aqui publicar para que não -ficassem sepultadas no esquecimento as maravilhosas obras -de Deos, de que ellas fallam, como que para despertarem -os homens afim de louvarem a sabedoria, providencia, e -bondade do Creador) contou muitas particularidades dos padres, -não referidas em suas cartas.</p> - -<p>Disse, que os padres chegando ahi começaram a edificar -sua morada, construindo uma Capella para celebração da -missa, e algumas cellas pequenas para residencia, sendo coadjuvados -por alguns selvagens com alguns pannos e ramos -de arvores.</p> - -<p>N’um certo dia, quando um padre celebrava missa, chegou -um selvagem dos mais velhos, (que elles consideram -seos governadores, honrando-os e respeitando-os por causa -da sua idade avançada) em companhia de trinta selvagens -para ouvirem missa, o que fizeram, admirando com grande -surpresa tão bellas ceremonias, e tão lindos ornatos, por elles -nunca visto (pois que homens e mulheres andam todos -nús.)</p> - -<p>Quando o sacerdote chegou á consagração e ao offertorio, -desceo um véo entre elle e o povo, de forma que este não -poude ver aquelle, e nem o que se fazia por detraz d’esse -véo.</p> - -<p>Julgaram isto uma affronta e mostraram-se offendidos, e -por isso, finda a missa, foram perguntar a causa de tal offensa.</p> - -<p>Responderam os padres que n’isto não havia offensa, e -que assim se fez por serem elles ainda pagãos, não podendo<span class="pagenum"><a id="Page_342"></a>[342]</span> -ser a Missa celebrada em suas presenças embora estando na -Igreja.</p> - -<p>Deram-se por satisfeitos e mostraram-se tranquillos, e foram -contar o occorrido ás suas mulheres, que se mostraram -desejosas de vêr os grandes Prophetas de Deos e de Tupan, -e se reuniram em grande numero para tal fim.</p> - -<p>Não quizeram porem os padres abrir-lhes a porta de sua -pequena choupana porque estavam núas, mas ellas não esperaram -por segunda recusa e metteram a porta dentro, o -que não lhes foi difficil praticar, entraram e não se cançaram -de olhar e contemplar os Padres, embora se demorassem -pouco tempo, por lhes pedirem os Padres que se retirassem, -o que cumpriram.</p> - -<p>Depois desta visita, reuniram-se os velhos em grande numero -e combinaram entre si qual devia ser o presente que -offerecessem a esses Prophetas, como demonstração de sua -benevolencia e regosijo pela sua chegada.</p> - -<p>Finalmente concordaram, visto dormirem os Padres no -chão duro, que se désse a cada um o seo colchão de algodão, -que ahi floresce, e uma das mais bellas raparigas, o -maior presente que costumam fazer.</p> - -<p>Trouxeram quatro colchões e quatro raparigas, e offereceram -aos Padres, que rindo-se aceitaram aquelles e recusaram -estas com palavras de agradecimento.</p> - -<p>Admirados com tal procedimento, diziam uns aos outros. -O que é isto? Estes Prophetas não são homens como -nós? Porque não acceitam estas raparigas, sendo impossivel -o passar um homem sem ellas? Porque nos fazem tal -offensa?</p> - -<p>Responderam os Padres, que assim procediam, não por -que reprovassem o casamento, quando conforme ás leis de -Deos, visto que até elles o louvavam, mas como Deos havia -outhorgado graças mui particulares a elles, e não aos outros -homens, porque o serviam com mais perfeição, podiam -passar sem mulheres por meio dessas graças.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_343"></a>[343]</span></p> - -<p>Ouvindo esta pobre gente taes palavras ficaram admirados -e como que fóra de si, contemplando a santidade destes -Prophetas, e d’ahi em diante os veneraram mais, julgando-se -felizes quando lhes entregavam seos filhos para serem -educados em nossa santa fé, e afinal baptisados.</p> - -<p>Tudo isto se poderá vêr na seguinte carta, escripta por -esses Padres á um honrado mercador de Ruão chamado Fermanet, -um dos seos maiores bemfeitores, para que se veja -que nada acrescentamos, e que apenas narramos os factos -pura e simplesmente colhidos n’essas cartas e em informações -de pessoas fidedignas, testemunhas occulares, e por -que n’ella se encontram particularidades não mencionados -nos outros.</p> - -<p>Eil-a:</p> - -<h3><i>Carta escripta pelos Padres Capuchinhos ao Sr. Fermanet.</i></h3> - -<p>A paz do Senhor Deos esteja comvosco.</p> - -<p>Depois de tantas recommendações, que nos fizestes quando -partimos para vos escrever, seriamos culpados si não vos -dessemos noticias de paiz tão bom, graças á Deos.</p> - -<p>Depois de 4 a 5 mezes de viagem ahi chegamos felizmente, -sendo bem recebidos pelos Indios, conforme sua rusticidade, -não nos importando o modo e sim a demonstração -do seo contentamento então e ainda agora diariamente, trazendo-nos -seos filhos para instruil-os o que faremos mediante -a graça de Deos.</p> - -<p>Quando voltar o Sr. de Rasilly, por estes 2 ou 3 mezes, -nós vos mandaremos o numero dos convertidos e dos baptisados.</p> - -<p>O paiz é muito bom, e ha esperança de produzir muito -tabaco Petum, e Urucú, havendo ja muito assucar, bellas -pedras, ambar-gris, e dizem-nos, que distante d’aqui 20 legoas -ha uma mina de oiro.</p> - -<p>Si não fosse grande a nossa pressa, nós vos dariamos -mais algumas noticias, porem não podemos alongar-nos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_344"></a>[344]</span></p> - -<p>Beijando humildemente vossas mãos, e recommendando-nos -á senhora vossa mulher, somos de vós e d’ella</p> - -<p class="center">Vossos humillissimos servos em Nosso Senhor.</p> - -<p class="right">Frei <i>Claudio d’Abbeville</i>.<br /> -Frei <i>Arsenio de Pariz</i>.</p> - -<h3 id="marinheiro"><i>Narração de um marinheiro, vindo do mesmo paiz, feita ao -Revd. padre Guardião do Havre da Grace, e por este communicada -ao Revd. padre Commissario.</i></h3> - -<p>Revd. Padre, eu vos saúdo humildemente em Nosso Senhor.</p> - -<p>O fim d’esta é communicar-vos, que veio hoje procurar-me -um marinheiro, que vio e fallou com os nossos Irmãos, -que estão em Maranhão com os Tupinambás, onde felizmente -chegaram no dia 8 de Julho.</p> - -<p>Este marinheiro ahi ouvio missa, e á ella assistio com -muito respeito um velho selvagem do paiz, acompanhado -por 25 ou 30 indios.</p> - -<p>Quando chegou o tempo de consagrar-se e elevar-se a -santa hostia, desceo um véo, causando-lhes isto admiração.</p> - -<p>Recebida a explicação mostraram-se satisfeitos, e logo começaram -a contar por toda a parte o que viram, e por isso -vieram muitos ajudal-os a edificar sua habitação e Forte, ja -em principio.</p> - -<p>Veio o marinheiro em 22 de Agosto no navio de Moisset, -recommendado ao Sr. de Manoir, a quem, segundo pensa, -terão nossos Irmãos entregado suas cartas, ou a algum outro -official de navio, o que me dispensa de contar-vos outras -particularidades.</p> - -<p>Não mudaram, e nem mudarão a côr dos seos habitos, -usando apenas de um tecido mais leve do que o nosso, por -causa do calor.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_345"></a>[345]</span></p> - -<p>Deos seja louvado por tudo, e lhes conceda a graça de -ahi apparecerem muitos fructos para a gloria do seo Santissimo -Nome, e exaltação da Santa Fé da sua Igreja.</p> - -<p class="center">Sou de vossa Reverendissima o menor servo em Jesus Christo</p> - -<p>Havre, 12 de Novembro de 1612.</p> - -<p class="right">Frei <i>Theophilo</i>, indigno Capuchinho.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_346"></a>[346]</span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_347"></a>[347]</span></p> - -<div class="tp"> - -<p class="titlepage"><span class="larger">NOTAS</span><br /> -CRITICAS E HISTORICAS<br /> -<span class="smaller">SOBRE A VIAGEM DO</span><br /> -PADRE IVO DE EVREUX<br /> -<span class="smaller">POR</span><br /> -MR. FERDINAND DINIZ.</p> - -</div> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_348"></a>[348]</span></p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_349"></a>[349]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="NOTAS">NOTAS.</h2> - -</div> - -<h3><a id="Note_1" href="#Nanchor_1">1</a> (frontespicio).</h3> - -<p>Esta vasta provincia, uma das mais florescentes do Brazil, -antes da chegada dos missionarios francezes não teve estabelecimento -algum importante. Eram arbitrarios os seos limites, -convindo não esquecer que a immensa capitania do -Piauhy fez parte d’ella até 1811. Presentemente tem 186 -legoas, de 20 ao gráo, de comprimento, 140 de largura, e -nunca menos de 20,000 legoas quadradas de superficie. -Fica entre 1° 16′ e 7° 35′ de lat. merid. Confina ao N O -com o Pará, servindo de linha divisoria o Gurupy, á N E é -banhada pelo Occeano Atlantico, a S E com o Piauhy, separando-a -d’elle o rio Parnahyba, e finalmente a S com a provincia -de Goyaz pelo rio Tocantins.<a id="FNanchor_59" href="#Footnote_59" class="fnanchor">[BG]</a></p> - -<p>Ainda que seja quente e humido o clima do Maranhão é -sadio. As chuvas que fertilisam este rico territorio principiam -regularmente em outubro.</p> - -<p>O aspecto geral do paiz offerece por toda a parte ondulações -do terreno, mas em nenhuma offerece elevações consideraveis, -exceptuando-se d’estas asserções geraes e por -força mui summarias a comarca de Pastos-bons, onde se encontram -montanhas como sejam Alpercatas, Valentim, Negro -etc. É regada por 14 correntes d’agoa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_350"></a>[350]</span></p> - -<p>De todos estes rios é o <i>Parnahyba</i> o mais considerável: -infelizmente suas margens não são totalmente sadias, pois -em varios pontos, como em quasi toda a provincia, reinam -as febres intermitentes. Avalia-se seo curso em 240 legoas. -O <i>Itapecurú</i>, seo immediato, e de que falla constantemente -o Padre Ivo d’Evreux, banha apenas 150 legoas de terreno, -o Mearim 78 legoas, sendo ainda menos consideraveis o -<i>Pindaré</i>, o <i>Tury-assú</i>, o <i>Gurupy</i>, e o <i>Manoel Alves -Grande</i>. Julga-se que é de 462,000 pessoas a população -de toda a provincia, embora diga o relatorio official da presidencia, -com data de 3 de julho de 1862, que esta cifra -é apenas de 312,628 almas, sendo 227,873 livres e 84,755 -escravos. Convem observar, que o recenseamento geral da -população do Imperio, feito em 1825, dava apenas 165,020 -almas, sendo esta cifra muito inferior á realidade, porque -recusaram muitos Srs. dizer com certesa o numero dos seos -escravos.</p> - -<p>Nada se sabe, e nem será possivel saber-se exactamente, -a respeito da povoação nomade dos indios, isto é, d’aquella -cujo conhecimento seria muito curioso afim de apreciar-se -as mudanças, que houveram nas aldeias depois do que escreveo -o Padre Ivo, podendo apenas dizer-se que é maior -no Maranhão, no Pará, e na nova provincia do Rio Negro, -do que n’outra qualquer parte.</p> - -<p>Em summa o governo só tem dados mui imperfeitos e -raros sobre estas infelizes hordas, das quaes se occupa actualmente.</p> - -<p>Os cuidados tardios, embora caridosos, da administração -provincial, tem que acabar muitos males afim de que seja -completa a reparação.</p> - -<p>Tudo ainda está por fazer relativamente aos Indios.</p> - -<p>Não souberam estas tribus conservar nem a dignidade -que dá completa liberdade aos habitantes das florestas, e -nem os principios de civilisação, que se intentou incutir-lhes -no seculo XVII.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_351"></a>[351]</span></p> - -<p>Reconcentradas no interior por Mathias de Albuquerque, -dizimadas pela variola, hoje são apenas a sombra do que -foram sob o dominio dos seos chefes independentes.</p> - -<p>Esta população indigena é comtudo maior nos desertos -do Maranhão, e embora d’ella não tratem certas estatisticas, -é avaliada em 5,000 o numero dos indigenas reunidos em -aldeias.</p> - -<p>Si dermos credito á um intelligente militar, que viveo em -constantes relações com elles por espaço de 20 annos, a sua -decadencia physica é menor que a moral, pois perderam até -a reminiscencia de suas tradicções théogonicas, ainda mal, -visto ser muito curioso o comparal-as com a narração dos -antigos viajantes francezes.</p> - -<p>Sob este ponto são elles menos favorecidos que os Guarayos, -visitados por Orbigny, os quaes ainda hoje repetem -em seos canticos as legendas cosmogonicas do seculo XVI.</p> - -<p>Os indios do Maranhão, entre os quaes se contam os Timbyras, -os Gés, os Krans, e os Cherentes não podem fornecer -ao historiador senão informações mui incompletas, pois que -ha perto de 40 annos já o major Francisco de Paula Ribeiro -se queixava do immenso esquecimento d’elles, (vide <i>Revista -Trimensal</i>, tomo 3.º, pag. 311) esquecimento fatal de grandes -tradicções, pelo que se tornam hoje preciosos certos livros, -como sejam os dos nossos velhos missionarios, onde -pelo menos se encontram os mythos antigos, ahi escriptos -para serem combatidos.</p> - -<p>De vez em quando entre estes indios degenerados apresentam-se -alguns homens energicos, que comprehendem o -abatimento de sua raça, e que desejariam vel-a progredir, -porem são mui raros, pouco comprehendidos, e demais só -olham para o futuro, e não experimentam amor algum por -sua antiga nacionalidade.</p> - -<p>Seos compatriotas longe de ajudal-os nos trabalhos emprehendidos -para melhorar seo futuro, ainda os amesquinham -com o seo odio tão irreflectido quam brutal.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_352"></a>[352]</span></p> - -<p>Foi o que aconteceo a <i>Tempe</i> e a <i>Kocril</i>, chefes conhecidos -pelo major Ribeiro. Trabalharam inutilmente para chamar -ao caminho da civilisação as tribus, cujo governo lhe -foi confiado, e a final foram victimas do seo zelo.</p> - -<p>Vide «<i>Memoria sobre as nações gentias, que presentemente -habitam o continente do Maranhão escripta no anno -de 1819 pelo major graduado Francisco de Paula Ribeiro</i>, -<i>Revista Trimensal</i>, T. 3º pag. 184.»</p> - -<p>De passagem disemos, que não deixaram descendentes, -pelo menos conhecidos, os Tupinambás cathequisados pelos -missionarios francezes, suppondo-se apenas, que um ramo -d’esta grande nação ainda hoje povôa <i>Vinhaes</i> e <i>Villa do -Paço do Lumiar</i>, achando-se no mesmo caso <i>S. Miguel</i> e -<i>Tresidélla</i>, a margem do rio Itapecurú, e <i>Vianna</i>, no Pindaré.</p> - -<p>Com mais probabilidade ainda confundiram-se os Tupinambás -com as tribus do inferior, tomando os nomes de Timbyras -e Gamellas. São tambem subdivisões dos Timbyras os -<i>Sakamecrans</i>, os <i>Kapiekrans</i> ou <i>Canellas-finas</i>, e os Gés, -que vagam pelas grandes florestas á Oeste do Itapecurú. Nega -o major Ribeiro, que ainda sejam antropóphagos estas diversas -tribus. N’este escriptor imparcial, e que reconhece a -ferocidade dos Timbyras, é que se deve estudar as horriveis -represalias, de que tem sido elles os indios, sendo a escravidão -a menos sanguinolenta. Elle avaliou em 80:000 o -numero d’indios selvagens, embrenhados nos mattos em -1819, hoje sem duvida consideravelmente diminuido.</p> - -<h3><a id="Note_2" href="#Nanchor_2">2</a> (pag. 1).</h3> - -<p>Francisco Huby era tambem livreiro e tinha sua loja n’uma -praça entre os mais afreguezados armazens na galeria dos -prisioneiros em Palacio, e soffrera-a como os outros no grande -incendio de 1618.</p> - -<p>Quatro annos antes d’elle encarregar-se da publicação do -livro de Claudio d’Abbeville, de que este é continuação,<span class="pagenum"><a id="Page_353"></a>[353]</span> -morava na rua de Sam Thiago no <i>Folle de oiro</i>, e não na -<i>Biblia de oiro</i>, que depois tomou por divisa.</p> - -<p>Si foi ferido na prosperidade, foi justamente por haver -permittido, que mão impia privasse a França por mais de dois -seculos do livro precioso, de que tinha sido edictor, e que -hoje entregamos a publicidade, graças a uma d’essas empresas -litterarias tão raras em nossos dias, onde a honra das -letras é o pensamento dominante e superior a todas as considerações.</p> - -<p>O volume, que servio para a nossa reimpressão é encadernado -em marroquim encarnado, semeiado do flores de -lys de oiro, e com as armas de Luiz XIII. Faz parte da reserva -sob n.º 01766 da Bibliotheca Imperial de Pariz.</p> - -<h3><a id="Note_3" href="#Nanchor_3">3</a> (pag. 9).</h3> - -<p>A capital do Maranhão occupa ainda hoje o mesmo lugar -escolhido por seos antigos fundadores. Está situada a 2° 30′ -e 44″ lat. austral e 1° 6′ e 24″ de long. oriental do meridiano -do Forte de Villegagnon, na bahia do Rio de Janeiro.</p> - -<p>La Ravardiere e Rasilly escolheram para edifical-a a ponta -de terra O d’uma pequena peninsula, ligada á ilha do Maranhão -pela calçada do <i>Caminho grande</i>.</p> - -<p>Os rios <i>Anil</i> e <i>Bacanga</i>, vindos de diversos pontos da ilha -confundem suas agoas na mesma embocadura e formam vasta -bahia. A elevação, que se apresenta ao S do <i>Anil</i>, á E e ao -N. do <i>Bacanga</i> (lugar onde se confundem as agoas d’estes -dois pequenos rios) é o lugar primitivo onde se levantou a -cidade nascente collocada sob o patrocinio de Sam Luiz.</p> - -<p>A cidade de Sam Luiz, elevada em 1676 á dignidade episcopal -por uma Bulla de Innocencio XI, conta nunca menos -de 30 mil habitantes, e está situada em terreno docemente -ondulado, sempre, em todas as estações, carregado de rica -vegetação, e assim offerecendo aos viajantes panorama encantador. -(Vide <i>Corographia Brasilica</i>, <i>Will. Hadfield</i>, <i>Milliet -de St. Adolphe</i>, e principalmente os <i>Apontamentos estatisticos<span class="pagenum"><a id="Page_354"></a>[354]</span> -da provincia do Maranhão</i>, annexos ao <i>Almanack</i> -de 1860 publicado por B. de Mattos.)</p> - -<p>Esta linda cidade é naturalmente dividida pela espinha -dorsal da peninsula, que separa as duas bacias dos rios na -direcção de E. O.</p> - -<p>Seo ponto mais elevado é o <i>Campo d’Ourique</i>, onde apresenta -32m 692c de elevação acima do nivel medio do mar.</p> - -<p>É dividida em tres parochias: <i>N. S. da Victoria</i>, <i>S. João</i>, -e <i>N. S. da Conceição</i>, tem 72 ruas, 19 becos, 10 praças, -55 edificios publicos, e 2,764 casas, das quaes 450 tem um -só pavimento.</p> - -<p>Para utilidade dos habitantes podem ser maiores e mais -regulares as praças, e embora sejam as ruas cortadas em angulo -recto, podiam ser mais largas e melhor dispostas sendo -observadas as regras da hygiene.</p> - -<p>Não são más suas calçadas, e tem declive bastante em relação -aos dois rios que banham a cidade. Em resumo é a -Capital do Maranhão saudavel e limpa.</p> - -<p>«O navio que demandar o porto, toma por marca o Palacio -do governo, assentado n’uma eminencia que domina o -porto.</p> - -<p>Este edificio tem a seos pés o Forte de Sam Luiz, e de -suas janellas percorrendo-se com os olhos uma extensa bahia -avista-se ao longe as costas e a cidade de Alcantara: -mais perto da barra está o pequeno <i>Forte da Ponta d’areia</i>, -e dentro do porto na margem opposta do Bacanga a pequena -<i>ermida do Bomfim</i>, muito arruinada, e na frente do Anil -a <i>Ponta de Sam Francisco</i>, onde segundo a noticia que nos -dirige, entregou la Ravardiere ao commandante portuguez a -cidade nascente e a fortalesa de Sam Luiz, nunca se podendo -assas louvar n’essa occasião o procedimento inteiramente -nobre do commandante francez e de Alexandre de Moura por -parte da Hespanha.</p> - -<p>O joven cirurgião de Pariz que foi com tanto zelo pensar -os feridos dos dois partidos, e que recebeo tão penhorador -acolhimento no campo inimigo poude d’elle dar somente uma<span class="pagenum"><a id="Page_355"></a>[355]</span> -ideia, por sua narração sincera e franca, da cordialidade, -que appareceu entre os francezes e os portuguezes depois do -combate. (Vide <i>Archivos das viagens publicadas</i> por M. Ternaux -Compans.)</p> - -<p>Em distancia de alguns metros pelo Anil acima está o -convento e Igreja de Santo Antonio, construidos no proprio -lugar onde em 1612 Ivo d’Evreux, ajudado pelos padres -Arsenio e Claudio d’Abbeville, edificou seo conventosinho -sob a invocação de Sam Francisco. Soffreo depois d’isto varios -concertos e augmentos este mosteiro dos Capuchinhos -francezes, achando-se hoje uma parte do edificio moderno -occupado pelo Seminario Episcopal, e a Igreja, hoje em -construcção, levanta-se com architectura gothica simples.» -Pelo que nos dizem será a igreja mais bonita do Maranhão.</p> - -<p>Não é esta a unica construcção digna de mencionar-se na -cidade, porem é a unica que nos interessa directamente.</p> - -<p>Mencionamos apenas o <i>Caes da Sagração</i>, assim chamado -em memoria da coroação e sagração do Sr. D. Pedro 2.º, e -da vasta bahia, onde agora se escava para poder n’ella fundear -uma fragata a vapor da primeira ordem, e apenas citamos -a dóca que se projecta fazer nas <i>enseiadas das Pedras</i>.<a id="FNanchor_60" href="#Footnote_60" class="fnanchor">[BH]</a></p> - -<p>Contam-se muitas construcções monumentaes, como sejam -a igreja do Carmo, a Cathedral, o quartel do Campo de Ourique, -o Theatro, e mais outras que força é omittir, pois -apenas n’uma ligeira nota desejamos mostrar englobadamente -o que em 250 annos se tornou isto fundação francesa.</p> - -<p>William Hadfield, um dos mais modernos viajantes, que -tratou d’este paiz, observou que é na cidade de Sam Luiz, -onde no Brasil se falla o portuguez com mais pureza. É a -patria de dois escriptores mui estimados no Imperio, Odorico -Mendes e João Francisco Lisboa, fallecido ha pouco.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_356"></a>[356]</span></p> - -<p>Depois de haver traduzido com superioridade de estylo, -que causaria inveja aos contemporaneos de Camões, occupa-se -actualmente Odorico Mendes na traducção em verso -das obras de Homero, onde a sciencia do rythmo disputa -com a inspiração.</p> - -<p>Quanto ao poeta das legendas nacionaes, cujos cantos são -geralmente repetidos no Brasil (queremos fallar de Gonçalves -Dias) pertence tambem á provincia do Maranhão, por -elle explorada como sabio e como viajante intrepido, porem -nasceu em Caxias.</p> - -<p>As obras d’esses tres escriptores honram ao paiz, são tambem -a honra da bibliotheca publica; porem este estabelecimento, -creado n’uma cidade eminentemente litteraria, não -está em relação com as necessidades crescentes de outras -instituições suas, relativas á instrucção publica. Ha tres annos -contava apenas 1031 volumes.</p> - -<p>Prasa aos Ceos, que o livro, que agora réproduzimos, o -primeiro que, com o de Claudio d’Abbeville, foi escripto na -Cidade nascente, marque o principio de uma era nova para -estabelecimento tão indispensavel n’uma Capital, já florescente. -Muitas outras instituições supprem esta deficiencia, -publica-se na Capital diversos jornaes, taes como o <i>Publicador -Maranhense</i>, a <i>Imprensa</i>, o <i>Jornal do Commercio</i> -etc. etc., e tambem ha uma <i>Associação typographica</i>, um -<i>Gabinete de leitura</i>, e a sociedade litteraria <i>Atheneo Maranhense</i>.</p> - -<p>Tudo isto na verdade é mui differente do tempo, em que -o Padre Arsenio de Pariz com muita difficuldade achava apenas -uma folha de papel para escrevêr á seos Superiores.</p> - -<h3><a id="Note_4" href="#Nanchor_4">4</a> (pag. 11).</h3> - -<p>A Cathedral de <i>São Luiz</i> ou do <i>Maranhão</i>, (assim com -estes dois nomes se designa a Cidade) deixou a invocação -de São Luiz de França. É a antiga Igreja do Convento dos -Jesuitas a actual cathedral sob a invocação de N. S. da<span class="pagenum"><a id="Page_357"></a>[357]</span> -Victoria. (Vide Ayres do Cazal—<i>Corographia Brazilica</i>. Rio -de Janeiro 1817. T. 1.º pag. 166).</p> - -<p>Parece-nos, que nas grandes construcções, que actualmente -se estão trabalhando para o augmento do Convento -de S. Antonio, respeitou-se a pequena Capella feita pelos -francezes. São tres os frades d’esta Ordem, Frei Vicente de -Jesus, guardião; Frei Ricardo do Sepulchro e Frei Joaquim -de S. Francisco, todos sacerdotes.</p> - -<h3><a id="Note_5" href="#Nanchor_5">5</a> (pag. 12).</h3> - -<p>Ao norte do Brazil e no interior da Goyanna havia então -prodigiosa abundancia d’esta especie de fóca, cuja carne -era muito saborosa: chamam-na os portuguezes <i>peixe-boi</i>, e -os indios <i>manati</i>. Ainda hoje os habitantes ribeirinhos do -Amazonas e do Tocantins nutrem-se com a excellente carne -d’este peixe. (Vide Osculati, <i>America equatoriale</i>). Claudio -d’Abbeville lhe deo o nome de <i>Uraraura</i>.</p> - -<h3><a id="Note_6" href="#Nanchor_6">6</a> (pag. 14).</h3> - -<p>Esta localidade, ja citada, ainda o será muitas vezes.</p> - -<p>O vasto territorio, ainda hoje conhecido em Maranhão pelo -nome de <i>Tapuitapéra</i>, está hoje dividido pelas comarcas de -Alcantara e de Guimarães. Antigamente foi occupado por -onze aldeias de indios, das quaes a maior era Cumã. <i>Tapuitapéra</i> -dista 40 legoas de Maranhão.<a id="FNanchor_61" href="#Footnote_61" class="fnanchor">[BI]</a> Pensa <i>Martius</i> que -esta palavra quer dizer—habitação de indios inimigos. Vide -<i>Glossaria linguarum brasilensium</i>. Erlanguem. 1863, -em 8.º</p> - -<p>N’esta obra acham-se tambem os nomes dos lugares, dos -vegetaes e dos animaes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_358"></a>[358]</span></p> - -<p>O <i>Aparaturier</i>, que deo tão felizes comparações ao padre -Ivo, é simplesmente o mangue (<i>Rhyzophora.</i> Lin.) Esta arvore -das praias americanas tão util á industria, forma vastas -florestas maritimas, e em roda da costa do Brasil e de -Venezuela. Com muita frequencia se tem destruido estas arvores, -em varios lugares, e temos ouvido até attribuir-se a -invasão recente da febre amarella á destruição systematica -d’este bonito vegetal, que aformosêa com sua verdura todas -as praias brasileiras. Cahindo sob o ferro do cultivador deixa -á descoberto praias cheias de lôdo, habitadas por myriades -de carangueijos, formando assim pantanos d’onde se -desprendem miasmas de especie muito perigosa.</p> - -<p>No Brasil conhece-se duas qualidades de mangue, o <i>branco</i> -e o <i>vermelho</i>, e para a descripção scientifica d’elles enviamos -nossos leitores para Aug. de St. Hilaire. Julgamos que -a palavra antiga, ahi empregada pelo padre Ivo, vem do -verbo <i>parere</i>, parir, porque esta arvore se reproduz pelas -raizes, que, como arcadas, espalham ao redor de si. (Vide -<i>Nossas scenas da naturesa sob os tropicos</i>,) e ahi achareis o -effeito do mangue nas paisagens.</p> - -<h3><a id="Note_7" href="#Nanchor_7">7</a> (pag. 17).</h3> - -<p>É lamentavel esta lacuna, porem deixa comtudo perceber, -que se trata das tartarugas do Maranhão.</p> - -<p>Com os ovos d’este chelidoniano prepara-se no Pará o que -se chama—<i>manteiga de tartaruga</i>, de que se exporta prodigiosa -quantidade.</p> - -<h3><a id="Note_8" href="#Nanchor_8">8</a> (pag. 17).</h3> - -<p>N’esta enumeração mui completa de quadrupedes que se -podem caçar, um nome desperta naturalmente a attenção -do leitor, e é <i>vacca brava</i>. É bem possivel, rigorosamente -fallando, que os campos do Mearim ja tivessem algum individuo -da raça bovina, ja ha muito tempo introduzida em<span class="pagenum"><a id="Page_359"></a>[359]</span> -Pernambuco: Claudio d’Abbeville é muito explicito n’este -ponto.</p> - -<p>Mas não é d’isto que quiz tratar o nosso bom missionario: -a vacca brava, ou <i>bragua</i>, como chama em outro lugar, -é o <i>Tapir</i> ou <i>Tapié</i>, conforme Montoya, animal muito commum -em todo o Brasil.</p> - -<p>Para denominal-o serviram-se os hespanhoes e portuguezes -d’um nome pedido por emprestimo aos Mouros. Chamavam-no -tambem <i>Anta</i> ou <i>Danta</i>, que significa, dizem, bufalo. -Quando chegou aos americanos a sua vez de dar nome -ao boi, chamaram-no <i>Tapir-açù</i>.</p> - -<p>Martius observa com razão, que esta palavra na lingua -geral se applica a todo o mamifero corpulento. Sendo este -pachyderma o animal mais corpulento conhecido na America -do Sul, foi sua caça procurada de preferencia pelos Europeos, -e assim desappareceo, ou pelo menos tornou-se mais -rara nos lugares onde outr’ora era abundante. Em certos -paizes da America era um animal sagrado, e assim figura em -diversos monumentos.</p> - -<p>No Brasil procuravam os indigenas este animal, tanto por -ser boa caça como pela espessura de seo couro, de que faziam -escudos impenetraveis ás flexas, pela maior parte armadas -de uma ponta aguda de madeira ou de cana.</p> - -<p>João de Lery trouxe do Brasil para França alguns d’esses -broqueis, porem não chegaram á Europa, porque uma terrivel -fome devida á longa viagem de 5 mezes obrigou o pobre -viajante a comel-as, depois de amolecidas por meio -d’agoa.</p> - -<p>Os nossos leitores que desejarem conhecer minuciosamente -o Tapir americano, consultem uma excellente dissertação, -dedicada especialmente á este animal, escripta pelo -Dr. Roulin, Bibliothecario do Instituto.</p> - -<p>No <i>Glossario</i> de Martius lê-se uma extensa synonimia relativa -ao Tapir. (Vide pag. 479.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_360"></a>[360]</span></p> - -<h3><a id="Note_9" href="#Nanchor_9">9</a> (pag. 18)</h3> - -<p>É certo que os indios d’esta tribu foram contrarios aos -francezes.</p> - -<p>Ha na historia d’esta expedição um ponto, que não foi -ainda bem esclarecido: o mais afamado capitão de indios de -que se recorda o Brasil fez suas primeiras campanhas durante -o dominio dos francezes.</p> - -<p>O celebre Camarão, o grande chefe ou <i>Morubixaba</i> dos -Tabajares, commandava 30 frecheiros na lucta entre la Ravardiere -e Jeronymo de Albuquerque.</p> - -<p>Convidado pelo governo portuguez para tomar parte n’esta -guerra, partio de sua aldeia, no <i>Rio Grande do Norte</i>, e foi -para o <i>Presidio de N. S. do Amparo</i>, no Maranhão, em 6 -de setembro de 1614: seguio-o seo irmão <i>Jacauna</i> com um -filho de igual nome, e de 18 annos de idade.</p> - -<p>Depois de muitos annos Camarão, que teve tão boa escola, -adquirio fama immortal nos fastos do Brasil por occasião -da expulsão dos hollandezes. (Vide <i>Memorias para a -historia da Capitania do Maranhão, impressa nas Noticias -para a historia e geographia das Nações ultramarinas</i>.)</p> - -<h3><a id="Note_10" href="#Nanchor_10">10</a> (pag. 18).</h3> - -<p>No Brasil não ha verdadeiros javalys, e nem este nome se -pode dar aos <i>Pecoris</i> ou <i>Tajassus</i>, ou <i>Porcos do Matto</i> na -linguagem dos naturaes. Não é extraordinaria a proesa do -fidalgo, porque andando os <i>pecaris</i> sempre em bando basta -chumbo grosso para matal-os. Martius deo a synomimia completa -d’este animal no <i>Glossaria linguarum brasiliensium</i>. -(Vide a divisão <i>Animalia cum Synonimis</i>, pag. 477.)</p> - -<h3><a id="Note_11" href="#Nanchor_11">11</a> (pag. 18).</h3> - -<p>Um <i>ajoupa</i> é uma pequena cabana coberta de folhas e -abertas por todos os lados.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_361"></a>[361]</span></p> - -<p>Esta palavra é muito usada nos nossos estabelecimentos -de Guyana. Vê-se estampas de <i>ajoupas</i> em Barrére.</p> - -<h3><a id="Note_12" href="#Nanchor_12">12</a> (pag. 19).</h3> - -<p>Em 1542 a fóz do grande rio foi explorada por Aphonso -de Xaintongeois. (Vide o <i>Manuscripto original de sua viagem</i> -na Bibliotheca Imperial de Pariz.)</p> - -<p>João Mocquet, cirurgião francez, guarda das curiosidades -de Henrique IV, visitou suas praias. (Vide o <i>Manuscripto</i> do -seo <i>Relatorio</i> na <i>Bibliotheca de Santa Genoveva</i>.)</p> - -<p>Finalmente la Ravardiere fez até lá um reconhecimento.</p> - -<p>João Mocquet foi muito explicito quando tratou do mytho -das Amasonas, que tanto occupou Condamine e o illustre -Humboldt. Tudo quanto elle referio d’estas guerreiras soube -do chefe <i>Anacaiury</i>, cujo personagem, ou seo homonymo, -encontra-se nas obras de Ivo d’Evreux.</p> - -<p>Governava uma nação no Oyapok ou do Yapoco.</p> - -<p>Mocquet disse a seos leitores, que não poude visitar, como -desejava, o Amasonas «por serem violentas as correntes -para os navios, e mesmo para o seo patacho que ja fazia -muita agoa.»</p> - -<p>Todas estas narrações a respeito do grande rio deixou em -França impressões tão duradouras, que o Conde de Pagan, -quarenta annos depois, convidou a Mararin a reerguer projectos -esquecidos. Para a conquista da Amasonia elle queria -união com os indios, e por sua vontade devia o Cardeal ligar-se -«aos illustres <i>Homagues</i> (Omaguas) aos generosos <i>Yorimanes</i> -e aos valentes <i>Tupinambás</i>.» Nunca certamente os -selvagens receberam tão pomposos nomes!</p> - -<p>Seria mui curiosa, si se achasse, a narração da expedição -pelas margens do Amasonas em 1613, feita por ordem -de la Ravardiere e ainda no tempo de Luiz XIII existia uma -copia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_362"></a>[362]</span></p> - -<h3><a id="Note_13" href="#Nanchor_13">13</a> (pag. 20).</h3> - -<p>Entra Gabriel Soares em minuciosas descripções do fabrico -d’esta farinha, de que os indios fazem grandes provisões.</p> - -<p>A especie de mandioca, conhecida pelo nome de <i>Carimã</i>, -serve de base.</p> - -<p>Esta raiz a principio dissecada a fogo brando, depois ralada, -é pisada n’um almofariz, peneirada e misturada com -certa quantidade de outra qualidade de mandióca na occasião -de ser torrada, o que se faz até ficar muito secca, e -n’esse estado é conservada por muito tempo.</p> - -<p>Encontram-se sobre esta industria agricola do Brasil todos -os esclarecimentos necessarios no <i>Tratado descriptivo do -Brasil</i>, pag. 167.</p> - -<p>Augusto Saint-Hilaire disse com rasão, que a cultura da -mandióca tirou a maior parte dos seos processos da economia -domestica dos Tupis, e resumio concisa e habilmente -tudo que ha a dizer-se relativamente ao cultivo da planta. -(<i>Voyage dans le district des Diamants et sur le littoral du -Brésil</i>. T. 2—pag. 263 e seguintes.)</p> - -<h3><a id="Note_14" href="#Nanchor_14">14</a> (pag. 21).</h3> - -<p>Gabriel Soares está aqui inteiramente de accordo com o -nosso Missionario.</p> - -<p>Estas grandes canoas chamavam-se <i>Maracatim</i>, por causa -do <i>Maracá</i>, que, como protector, trasiam na prôa. <i>Iga</i> chamava-se -uma canôa pequena, e <i>Igaripé</i> uma canoa de cortiça -ou casca de arvores, etc. etc. (Vide <i>Ruiz de Montoya</i>, -<i>Tesoro</i>, na pag. 173.)</p> - -<h3><a id="Note_15" href="#Nanchor_15">15</a> (pag. 21).</h3> - -<p>André Thevet, e depois d’elle João de Lery descreveram -com exactidão este genero de ornato, chamado <i>Araroye</i> -pelo ultimo d’estes viajantes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_363"></a>[363]</span></p> - -<p>Coube ao padre Ivo fazer-nos conhecer seo valor symbolico.</p> - -<h3><a id="Note_16" href="#Nanchor_16">16</a> (pag. 24).</h3> - -<p>A curiosa narração do indio confirma a opinião de Humboldt, -e bem pode ser que antigamente se encontrassem algumas -mulheres cansadas do jugo dos homens, e por isso -entregues á vida guerreira.</p> - -<p>Combina igualmente com as tradicções colhidas por Condamine -e sessenta annos antes do Padre Ivo o franciscano. -André Thevet não esteve longe de vêr n’estes selvagens -americanos descendentes directos do exercito feminino commandado -por Pentisilée.</p> - -<p>Humbold disse com rasão, que o mytho das Amasonas -era de todos os seculos e de todos os periodos da civilisação.</p> - -<h3><a id="Note_17" href="#Nanchor_17">17</a> (pag. 25).</h3> - -<p>Esta nação não é indicada no <i>Diccionario topographico, -historico, descriptivo da Comarca do Alto Amasonas</i>. Recife. -1852—1 vol. em 12.</p> - -<p>Tambem não a encontramos na longa nomenclatura da -<i>Corographia Paraense</i> de Ignacio Accioli de Cerqueira e -Silva. Deve estar extincta, e Martius tambem não a cita no -seo <i>Glossaria</i>, publicado ultimamente.</p> - -<h3><a id="Note_18" href="#Nanchor_18">18</a> (pag. 25).</h3> - -<p>Por este nome, aqui tão frequente, designa-se uma grande -aldeia alem de Tapuitapéra.</p> - -<p>Era tambem o nome de um vasto territorio e de um rio.</p> - -<p>Segundo o padre Claudio—<i>Cumã</i> significa <i>proprio para -pesca</i>, porem duvidamos que seja exacta a explicação.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_364"></a>[364]</span></p> - -<p>Debalde procura-se esta palavra no <i>Glossaria</i> de Martius -publicado em 1863.</p> - -<h3><a id="Note_19" href="#Nanchor_19">19</a> (pag. 25).</h3> - -<p><i>Cazal</i>, o <i>Diccionario do Alto Amasonas</i>, e <i>Accioli</i> nada -dizem a respeito d’estes rios, onde comtudo esteve um exercito -de 2,000 homens! Martius trata de uma nação de -<i>Pacajaz</i> ou <i>Pacayá</i>, no Pará. (Vide <i>Glossaria linguarum</i>. -pag. 519.)</p> - -<h3><a id="Note_20" href="#Nanchor_20">20</a> (pag. 25).</h3> - -<p>Esta ligeira descripção das casas aereas construidas sobre -mangues e troncos das palmeiras <i>muritis</i> lembra um facto -bem curioso, classificado outr’ora como fabula, e descripto -na Relação de Walther Ralegh.</p> - -<p>É bem possivel que haja alguma exageração, porem o -facto é authentico, e deo-se na foz do Orenoco.</p> - -<p>Os <i>Waraons</i> visitados ha perto de um seculo pelo Dr. Leblond, -os <i>Guaraunos</i> descriptos pelo sabio Codazzi, são um -e o mesmo povo, salvos de inteira destruição por sua maneira -de viver.</p> - -<p>Os <i>Camarapins</i>, cujo desaparecimento acabamos de provar, -foram menos felises.</p> - -<p>Á respeito dos indios das <i>Iouras</i> consulte-se o resumo, -que outr’ora fizemos, dos manuscriptos, por onde o Medico -francez provou sua moradia entre os Waraons. (Vide <i>Guyana</i>, -1828, em 18.)</p> - -<p>Codazzi, cujos bellos trabalhos geographicos são conhecidos, -citava em 1841, os Guaraunos, como não tendo ainda -abandonado suas casas aereas.</p> - -<p>Ha trinta annos, quando muito, vinham elles negociar com -os habitantes da Trindade. (Vide o <i>Resumen de la Geographia -de Venezuela</i>. Pariz. 1841—em 8.)</p> - -<p>Agostinho Codazzi morreo ultimamente.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_365"></a>[365]</span></p> - -<p>Quanto aos manuscriptos de Leblond, que ja tivemos á -nossa disposição, pertenciam á collecção das viagens, possuida -em 1824 pelo edictor Nepveu.</p> - -<h3><a id="Note_21" href="#Nanchor_21">21</a> (pag. 28).</h3> - -<p>Este personagem tinha um nome todo portuguez, e era -muito dedicado á nação, a cujos interesses servia.</p> - -<p>O titulo de <i>Capitão</i> afinal estendeo-se a todos os chefes da -raça indigena.</p> - -<h3><a id="Note_22" href="#Nanchor_22">22</a> (pag. 29).</h3> - -<p>Este selvagem fanfarrão gabava-se de ter feito morrer o -padre Ambrosio, residente em <i>Iuiret</i>, cuja pronuncia segundo -Claudio d’Abbeville, é <i>Jeuiree</i>, e ella indica a estranha -significação d’este nome.</p> - -<p>O <i>Pay açu</i>, o grande padre é Ivo d’Evreux. A palavra -<i>Pay</i> quer dizer em portuguez <i>Padre</i>. Pay-<i>guaçu</i>, diz Ruiz -de Montoya significar Bispo ou Prelado em Guarany.</p> - -<p>O nome de <i>Pay</i> foi mais facilmente adoptado pelos indigenas -pela sua analogia em designar pessoas graves. Os -feiticeiros eram chamados—<i>hechizeros</i>—para servir-nos da -propria expressão do lexicographo hespanhol.</p> - -<p>Da <i>lingua geral</i>, modificação do Guarany, <i>Pay</i> significa -padre, monge e senhor. <i>Pay Abaré Guaçu</i> era a designação -dos prelados e dos jesuitas. Os indios ainda chamavam -o papa <i>Pay aboré oçu eté</i>.</p> - -<h3><a id="Note_23" href="#Nanchor_23">23</a> (pag. 29).</h3> - -<p>Não sabemos porque o missionario modifica a orthographia -do nome de um povo, que elle ja escreveo muitas vezes de -forma diversa.</p> - -<p>Claudio d’Abbeville escreve <i>Topinambás</i>, o author da -sumptuosa entrada <i>Tupinabaulx</i>, Hans Staden <i>Topinembas</i>,<span class="pagenum"><a id="Page_366"></a>[366]</span> -e emfim João de Lery <i>Tuupinambaults</i>. Malherbe suavisando -a expressão escreve <i>Topinambus</i>. Foi esta ultima orthographia -a que prevaleceo no tempo de Luiz XIV, porem preferimos -a que é adoptada pelos brasileiros.</p> - -<h3><a id="Note_24" href="#Nanchor_24">24</a> (pag. 31).</h3> - -<p>Por esta palavra tão vaga, aqui empregada pelo padre -Ivo, suppomos que elle pretende designar os povos mais -selvagens ainda que os Tupinambás, ou então que se entregavam -mais especialmente a anthropophagia.</p> - -<p>Nas obras de Humboldt encontra-se uma curiosa definição -da palavra <i>Canibal</i>. Notaremos apenas, que 50 annos antes -do tempo, em que escreveo o padre Ivo, designavam-se assim, -quasi que exclusivamente, os indios mais proximos do -Equador.</p> - -<p>Na historia da França antarctica por André Thevet, á proposito -da madeira de tincturaria, lê-se o seguinte: «o da costa -do rio de Ianaire é melhor que o da costa de Canibaes e de -toda a costa do Maranhão,» (pag. 116 verso), e mais adiante: -«visto que chegamos a estes Canibaes, d’elles diremos -apenas, que este povo, depois do cabo de Santo Agostinho, -e alem até o Maranhão, é o mais cruel e deshumano que -em qualquer outra parte da America. Esta canalha come -ordinariamente carne humana, como nós comemos carneiro.» -(pag. 119.)</p> - -<h3><a id="Note_25" href="#Nanchor_25">25</a> (pag. 31.)</h3> - -<p>Foi com effeito nas margens do Itapecurú, que se apresentaram -os portuguezes.</p> - -<p>Claudio d’Abbeville disse algumas palavras sobre este bello -rio, porem exagerou o seo curso.</p> - -<p>Nós estamos tão pouco ao facto da geographia d’esse paiz, -que Adriano Balbi se contentou em mencionar seo nome apenas -no quadro, que traçou, dos rios do Maranhão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_367"></a>[367]</span></p> - -<p>Que prodigiosas mudanças não se terão operado sobre suas -margens desde o tempo, em que o nosso bom frade assim o -chamava alterando-lhe o nome!</p> - -<p>Em lugar d’estas florestas, onde andavam errantes os -Timbyras, cultiva-se milho, mandióca, canna de assucar, -fumo e algodão, e a producção ultima d’este genero foi tão -abundante, que subio a 35,000 saccas.</p> - -<p>Em França não se conhece o nome das cidades mais importantes, -assentadas á margem d’este rio, e apenas se encontram -em nossos livros de geographia.</p> - -<p>Quem já ouvio fallar da pequena cidade de Caxias, a risonha -patria de Gonçalves Dias? Comtudo é uma cidade -rica, commercial, banhada pelo Itapecurú, e distante da capital -sessenta legoas.</p> - -<p>Em 1821 era apenas um povoado de 2,400 almas, e hoje -este numero elevou-se a 6,000 habitantes.</p> - -<p>Caxias é o centro do commercio entretido com o Piauhy, -e com immensas solidões de campos de criação de gado, -conhecidas pelo nome de <i>sertão</i>.</p> - -<p>Edificada para assim dizer no deserto, tem escolas florescentes, -um theatro, estabelecimentos de utilidade publica, -que nem sempre se encontra em cidades mais consideraveis.</p> - -<p>O nome de <i>Caxias</i> tem no Brazil significação politica, porque, -em 1832, travou-se no <i>Morro do Alecrim</i> uma batalha, -cujo resultado consolidou a Independencia da Provincia. -Mais tarde, na propria colina, chamada das <i>Tabócas</i> -deo-se o sanguinolento combate, onde foi vencido<a id="FNanchor_62" href="#Footnote_62" class="fnanchor">[BJ]</a> <i>Fidié</i>, -e que inspirou a Gonçalves Dias tão energicos versos.</p> - -<p>Seriam necessarios volumes para narrar, ainda que summariamente, -as perturbações, que se seguiram a este acontecimento,<span class="pagenum"><a id="Page_368"></a>[368]</span> -e as luctas tempestuosas, que houveram neste -canto ignorado do mundo até 1848, quando o Dr. Furtado -conseguio reprimir a horda, que assolava esta cidade nascente.<a id="FNanchor_63" href="#Footnote_63" class="fnanchor">[BK]</a></p> - -<p>A propria naturesa, por si só, é grande n’estas regiões: -20 mil habitantes formam a população d’este vasto municipio, -empregado superficialmente na agricultura.</p> - -<p>Na distancia, em que nos achamos, estas revoluções tão -cumpridas para serem contadas, assimilham-se ás da idade -media, que a historia local as vezes registra, mas que facilmente -esquece visto não ligar-se á algum dos grandes interesses, -que prende a attenção do mundo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_369"></a>[369]</span></p> - -<p>Com mais justa rasão pode applicar-se isto a villa do Codó, -a mais florescente após Caxias, como ella banhada pelo Itapicurú, -e como ella separada da Capital por um espaço de -60 legoas.</p> - -<h3><a id="Note_26" href="#Nanchor_26">26</a> (pag. 34).</h3> - -<p>Este nome do principio do mal, acceito em toda a obra -pelo Padre Ivo d’Evreux e por Claudio d’Abbeville parece -ser mais particular ao Norte do Brazil.</p> - -<p>Martius escreve <i>Jurupari</i>, ou <i>Jerupari</i>. <i>Anhagá</i> parece -ser mais uzado ao Sul. Não se acha a significação desta palavra -no <i>Tesoro de la lingua Guarani</i>. <i>Angai</i> neste precioso -Diccionario significa espirito mau. <i>Anhanga</i> significa -hoje apenas um <i>phantasma</i>. (Vide Gonçalves Dias, <i>Diccionario -da lingua Tupy</i>.)</p> - -<h3><a id="Note_27" href="#Nanchor_27">27</a> (pag. 36).</h3> - -<p>Estes povos, antes de reunidos, eram chamados Tabaiares -pelos Tupinambás. Pag. 36.</p> - -<p>Tabajares não significa de maneira alguma <i>inimigo</i>, e sim -senhores da Aldeia. (Vide Adolpho de Varnhagem, <i>Historia -geral do Brazil</i>. T. 1.º Accioli. <i>Revista do Instituto</i>.)</p> - -<h3><a id="Note_28" href="#Nanchor_28">28</a> (pag. 36).</h3> - -<p>A denominação, adoptada no Seculo XVII por nossos compatriotas, -veio sem duvida alguma do costume que tinham -estes indios de furar o labio inferior, e mesmo as faces para -n’ellas introduzir discos de uma especie de esmeralda, feitos -com muita paciencia, e apreciados como joias estimaveis. -(Vide <i>Sur l’usage de se percer la lévre inferieure -chez les Américains du sud</i>, a serie de nossos artigos, inserida -com muitas gravuras no <i>Magasin pittoresque</i>. T. 18 -pag. 138, 183, 239. 338, 350 e 390.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_370"></a>[370]</span></p> - -<h3><a id="Note_29" href="#Nanchor_29">29</a> (pag. 36).</h3> - -<p><i>Mearinense</i> é evidentemente um nome creado pelo nosso -bom Missionario, e melhor não o inventaria Rabelais.</p> - -<p>Os Mearinenses eram os proprios Tupinambás que residiam -nas ferteis margens do Meary, d’onde proveio o nome -á provincia, no pensar de Cazal. O Mearim, que offerece -um curso de 166 legoas, só é navegavel no inverno, e as -canoas grandes sobem unicamente até 60 legoas. Nasce na -<i>Serra do Negro e Canella</i> aos 8° 2′ e 23″ de lat. e 2° 21′ -de long. contados da Ilha de Villegagnon na bahia do Rio -de Janeiro.</p> - -<h3><a id="Note_30" href="#Nanchor_30">30</a> (pag. 36).</h3> - -<p>A palavra <i>Tapuya</i> ou <i>Tapuy</i> tem levantado grandes discussões: -será o nome de um povo? (Vide o <i>Diccionario de -Gonçalves Dias</i>).</p> - -<p>Significará inimigo? Ruiz de Montoya nada diz a tal respeito. -Será preciso crear uma nação distincta da dos Tupys, -a qual estes deram tal nome. Um escriptor, authoridade na -materia, Ignacio Accioli não hesita a tal respeito.</p> - -<p>Quando enumera as principaes divisões da raça Tupica, -elle diz: «outra nação geral, a dos Tapuias, divide-se, como -pensam muitos, em pequenas tribus fallando perto de cem -dialectos, e são os <i>Aymorés</i>, os <i>Potentus</i>, os <i>Guaitacás</i>, os -<i>Guaramonis</i>, os <i>Guaregores</i>, os <i>Jaçarussus</i>, os <i>Amanipaqués</i>, -os <i>Payeias</i> e grande numero de outras.» (Vide T. XII -da <i>Revista Trimensal—Dissertação historica, ethnographica -e politica sobre quaes eram as tribus aborigenes</i>, etc., etc., -pag. 143.)</p> - -<h3><a id="Note_31" href="#Nanchor_31">31</a> (pag. 42).</h3> - -<p>Este pensamento passou como proverbio na ilha e em -Goyana.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_371"></a>[371]</span></p> - -<h3><a id="Note_32" href="#Nanchor_32">32</a> (pag. 42).</h3> - -<p>Hans Staden prisioneiro, pelos Tupinambás em 1550, ao -sahir do Forte da Bertioga suscitou grande discussão para -saber-se com certeza, quem foi o primeiro que o tocou. -(Vide <i>la Collection. Ternaux Compans</i>.)</p> - -<h3><a id="Note_33" href="#Nanchor_33">33</a> (pag. 49).</h3> - -<p>Nada tem de extraordinario o nome d’este chefe, porem -é necessario escrevel-o assim com mais exactidão, <i>Ibira Pitanga</i>. -(Vide <i>Ruiz de Montoya</i>.) Lery escreveo <i>Araboutan</i>, -Thevet <i>Oraboutan</i>. Desapparece esta celebre madeira cada -vez mais das grandes florestas, onde íam buscal-os os nossos -antepassados.</p> - -<h3><a id="Note_34" href="#Nanchor_34">34</a> (pag. 51).</h3> - -<p>É um Tabajara quem falla, porem observamos, que a palavra -<i>Carbet</i> não pertence á <i>lingua geral</i>.</p> - -<p>O padre Ruiz de Montoya não a inserio no seo precioso -<i>Tesoro de la lingua Guarany</i>.</p> - -<p>É usado mais particularmente entre os Galibis e os outros -povos de Guyana.</p> - -<p>Resente-se esta expressão da visinhança da nossa colonia.</p> - -<p>Convem fazer certa differenca entre os <i>Carbets</i>, ou <i>casa -grande</i>, e as <i>Ocas</i> ou <i>Tabas</i>, que formavam a architectura -rudimentar dos outros povos do Brasil.</p> - -<p>Ouçamos a este respeito o Padre <i>du Tertre</i>. «No meio de -todas estas casas, fazem uma grande, commum, a que chamam -<i>Carbet</i>, a qual tem ordinariamente 60 ou 80 pés de -comprimento, e é formada de grandes forquilhas de 12 a 20 -pés de altura, infincadas na terra: sobre ellas collocam uma -palmeira, ou outro tronco de arvore muito direito, que serve -de cumieira, e n’ella ajustam caibros, que descem até tocar<span class="pagenum"><a id="Page_372"></a>[372]</span> -em terra, e cobrem-nos com ramos ou folhas de palmeiras, -ficando muito escuro o interior da casa, pois a claridade só -entra pela porta, e esta é tão baixa, que para entrar-se é -necessario curvar-se.»</p> - -<p>Estas particularidades pedimos emprestadas a uma obra -do anno de 1643, e se referem especialmente a architectura -rustica dos Caraibas insulares.</p> - -<p>Escolhemos este exemplo quasi contemporaneo do livro -publicado pelo nosso autor, porque na realidade não ha grande -differença entre os <i>Carbets</i> das ilhas e os dos continentes.</p> - -<p>Si se escrevesse uma historia d’essas casas de folhas tão -rapidamente construidas, apresentar-se-iam certas variedades -conforme os usos e fins para que se destinam. (Vide a -este respeito <i>Le voyage pittoresque au Bresil de Debet</i>, depois -as gravuras do livro de <i>André Thevet</i>, publicado em -1558.)</p> - -<p>Haviam pequenos e grandes <i>Carbets</i>, aquelles onde os -Piagas faziam suas charlatanerias, e estes onde se formavam -os grandes conselhos.</p> - -<p>Tinham estes ultimos a configuração de um dos nossos -vastos alpendres, tendo lugar para 150 ou 200 guerreiros.</p> - -<p>No XVII seculo, na linguagem de nossas colonias, nas -ilhas ou no continente, formar um conselho qualquer era -<i>Carbeter</i>; o termo era proprio e acha-se usado por todos os -viajantes. (Vide entre outros Biet, <i>Voyage de la France équinoxiale</i>. -Paris. 1654, em 4.º)</p> - -<h3><a id="Note_35" href="#Nanchor_35">35</a> (pag. 56).</h3> - -<p>David Migan era natural de Dieppe, e como fizeram tantos -outros naturaes da Normandia no fim do seculo XVI, veio -tentar fortuna entre os selvagens do Brasil.</p> - -<p>Encontraram-no os chefes da opposição estabelecido havia -muitos annos em Jupinaram, na ilha do Maranhão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_373"></a>[373]</span></p> - -<p>Era em toda a extensão da palavra um interprete da Normandia, -e sabe Deos de que reputação gozavam estes interpretes -no que dizia respeito ao que então se chamava mundo -civilisado.</p> - -<p>Comparavam-nos até aos selvagens, cujos odiosos festins, -dizia-se, que elles partilhavam.</p> - -<p>David Migan teve as honras do Mercurio francez. (Vide T. -3, pag. 164)</p> - -<p>Regressou á França com Rasilly a quem era muito affeiçoado, -e assim foi bom por ser o unico capaz de traduzir -para a Rainha, a longa exposição de Itapucu.</p> - -<p>De passagem lembramos ter elle tambem assignado o termo -de cessão, que la Ravardiere fez de seos direitos a Francisco -de Rasilly, o que indica, sem duvida alguma, o gozar -de consideração excepcional.</p> - -<p>O nome de Migan nos parece ser <i>nome de guerra</i>, pois -esta palavra na lingua <i>tupy</i>, significa o caldo grosso, que se -fazia com a farinha de mandioca.</p> - -<p>Malherbe, que estava nas Tulherias, quando se apresentaram -os indios, notou a habilidade d’este homem.</p> - -<p>Havia outro interprete chamado Sebastião, muito affeiçoado -a Ivo d’Evreux.</p> - -<h3><a id="Note_36" href="#Nanchor_36">36</a> (pag. 65).</h3> - -<p>É mui curioso o achar-se em Maranhão, no anno de 1612, -um selvagem fazendo ao padre Ivo o mesmo raciocinio, a -que foi obrigado á responder João de Lery em 1556: «o que -quer dizer vós <i>Mair</i> e <i>Peros</i>, (francezes e portuguezes) virdes -de tão longe buscar madeira para vos aquecer? Lá não -a tendes?» (Vide <i>Histoire d’un voyage en la terre du Bresil</i>, -Rouen 1578 em 8.º)</p> - -<h3><a id="Note_37" href="#Nanchor_37">37</a> (pag. 70).</h3> - -<p>Largamente descreveo Mr. Humboldt a região dos Otomanos, -e as porções immensas de terra, que reunem estes indios -para comer quando lhes falta a caça e a pesca.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_374"></a>[374]</span></p> - -<p>Pensa o grande viajante, que esta terra secca ao sol, formando -tulhas de bolasinhas, dispostas symetricamente, é -procurada pelos selvagens por conterem particulas animalisadas -e que a fazem nutritiva.</p> - -<p>Prova o padre du Tertre, que tanto os indios das ilhas -como os do continente comem terra, embora pense que seja -por aberração de gosto.</p> - -<p>«Todos comem terra, mães e filhos, diz elle, e a causa de -tão grande aberração de gosto não pode proceder, penso eu, -senão de um excesso de melancolia.» (<i>Hist. nat. das Antilhas, -habitadas pelos francezes</i>. T. 2º, pag. 375.)</p> - -<p>Não longe das regiões descriptas pelo padre Ivo, á margem -do rio Ucayale, encontram-se ainda os indios <i>Pinacos</i>, -cujo nome verdadeiro é <i>Puynagas</i>. Estes indios despresados -por seos compatriotas, são afamados comedores de terra. -A este respeito, entre outros, foi publicado um curioso opusculo -de Mr. Moreau de Jonnès com o titulo de <i>Observations -sur les Geophages des Antilles</i>. Paris. An. VI. Tem somente -11 paginas.</p> - -<h3><a id="Note_38" href="#Nanchor_38">38</a> (pag. 73).</h3> - -<p>Na enumeração das diversas classes da infancia achamos -ainda exactidão no padre Ivo, embora confundisse a letra N -com a R: a palavra <i>menino</i> escreve-se <i>Curumim</i> nos Glossarios -brasileiros. (Vide Gonçalves Dias, <i>Diccionario da lingua -Tupy</i>. Leipzig, 1858 em 12.)</p> - -<h3><a id="Note_39" href="#Nanchor_39">39</a> (pag. 81).</h3> - -<p>Gonçalves Dias chama a virgem <i>Cunhã mucu</i>. (Vide <i>Diccionario</i>.)</p> - -<h3><a id="Note_40" href="#Nanchor_40">40</a> (pag. 82).</h3> - -<p>Este singular uso, fallado por todos os viajantes do XVI -seculo, como acaba de ver-se ainda não estava modificado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_375"></a>[375]</span></p> - -<p>Não se encontra somente entre os Caraibas das ilhas, e -sim tambem em pleno vigor na Europa, e especialmente -entre os Bascos, e era então chamado a «encubação.»</p> - -<p>As «<i>Miscellanias historicas</i>,» publicadas em Orange em -1675, contem interessantes observações á tal respeito. «Nota-se, -diz elle, um admiravel costume em Bearn. Quando -pare uma mulher, anda á pé e o marido deita-se para guardar -o resguardo. Creio que os Bearnenses tomaram este costume -dos hespanhoes, de quem Strabon disse a mesma coisa -no livro 3º da sua <i>Geographia</i>.»</p> - -<p>O mesmo faziam os Tibarénienses, como refere Nimphodore, -na excellente obra de Apollonio de Rhodes, livro 2, -e os Tartaros segundo o testemunho de Marco Paulo, cap. 41. -livro 2.º</p> - -<p>Esto uso, tão exquisito, e só explicavel si se podesse descer -até o recondito mais intimo do caracter indiano, era religiosamente -observado pelos mais valentes e afamados guerreiros -Tupinambás, e provocaria o riso do homem civilisado, -si indagasse a sua origem natural. Torna-se porem admiravel, -para assim dizer, quando se sabe ser tal costume acompanhado -de mui crueis privações, porque o indio, que acaba -de ser pae, e que se condemna a tão ridiculo repouso, não -só priva-se de alimentos, como ainda se entrega a outros -supplicios com intenção de evitar que soffra o filhinho certos -males, que elle receia.</p> - -<p>Pela sua ignorancia e superstição julga-se com grande influencia -phisiologica sobre o menino, e muito soffre e com -stoicismo afim de poupar algumas dores ao recem-nascido.</p> - -<p>O homem civilisado das cidades, embora mediocremente -intelligente, abstem-se de esquadrinhar estas ideias cheias -de dedicação, embora inconstantes dos selvagens, e ri-se -antes de proferir seo juiso.</p> - -<p>A companheira do indio tambem supersticiosa, approva o -que faz seo marido: soffre, sem queixar-se, verdadeiras dores -e entrega-se a um novo trabalho ainda mais pesado, -porque todo o serviço da casa cahe sobre ella.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_376"></a>[376]</span></p> - -<p>No modo de pensar desta pobre mulher a salvação do recem-nascido -depende do procedimento stoico de seo marido. -Nunca podemos saber qual era o motivo, que obrigava os -antigos a entregarem-se a este repouso tão exquisito, não -differente provavelmente do concedido aos americanos. Carli, -cuja engenhosa erudicção explica tantas coisas antigas da -America, não procurou mesmo uma hypothese para descobrir -motivo tão ridiculo. Enganou-se por certo, quando disse -serem elles alimentados abundantemente. (Vide <i>Lettres Américaines</i>. -Boston et Pariz, 1788, T. 1 pag. 114.)</p> - -<p>É bom ler-se com cuidado a versão francesa d’esta curiosa -passagem.</p> - -<p>Não soube o traductor francez, Febvre de Villebrune, dar -real valor ás palavras <i>italianisadas</i> pelo autor.</p> - -<p>Antonio Biet, é mais justo para com os indios, e menos -inclinado á zombaria do que os seos predecessores, quando -descreve a «incubação» entre os Galibis.</p> - -<p>«O pobre indio, diz elle, soffre muito durante seis semanas, -come pouco, e quando acaba o resguardo, está tão magro -como um esqueleto.»</p> - -<p>O mesmo viajante nos mostra o Galibi, sempre paciente, -não deixando a <i>casa grande</i>, e nem se animando a levantar -os olhos para os que o rodeiam. (<i>Voyage de la France -equinoccial</i>, Livro 3.º pag. 390.)</p> - -<p>Descrevendo os costumes de certos Caraibas, não podia -o autor da historia moral das Antilhas esquecer a incubação.</p> - -<p>Rochefort conta as particularidades e especifica sua analogia -com uma ceremonia identica, que vio n’uma provincia -de França.</p> - -<p>Este repouso forçado do indio pareceo-lhe muito absurdo, -porem não nega ao pobre paciente o merito do jejum, antes -confessa, que durante sua reclusão apenas lhe dão um pouco -de farinha e agoa. (Vide <i>Historia moral</i> pag. 494.)</p> - -<p>Não proseguiremos n’estas citações, bastando dizer que -entre os povos do Brasil os Tupiniquins, os Tupinacs, os Tabajares,<span class="pagenum"><a id="Page_377"></a>[377]</span> -os Petiguaras, e muitas outras tribus imitam os Tupis, -e estes nomes nada mais adiantam.</p> - -<p>Convem comtudo fazer bem saliente o amor paterno entre -os indios, dando-se assim ao mais extravagante dos costumes -a sua origem verdadeira.</p> - -<h3><a id="Note_41" href="#Nanchor_41">41</a> (pag. 84).</h3> - -<p><i>Tamoi</i> quer dizer avô na lingua dos Tupinambás: aqui -ha alteração de palavra, proveniente por differença de pronuncia.</p> - -<p>Lê-se no <i>Tesoro de la lingua Guarany</i>, base da lexicographia -brasileira <i>Tamôi</i>, <i>abuelo</i>, <i>Cheramòi</i>, <i>mi abuelo</i>, -<i>Cherúramôîruba</i>, <i>mi bisabuelo</i>, <i>Cherúramôî</i>, <i>el abuelo de -mi padre</i>, etc.</p> - -<p>Por sua origem tinham os Tamoyos real proeminencia sobre -as outras tribus da mesma raça.</p> - -<p>No meiado do Seculo XVI habitavam as circumvisinhanças -de <i>Nicteroy</i>, ou antes do Rio de Janeiro: como alliados fieis -dos franceses foram expellidos d’esse bello territorio por Salema, -e os restos de suas tribus desceram para as regiões -do Norte, onde encontraram seos antigos amigos, que se haviam -refugiado especialmente nos campos de Maranhão.</p> - -<h3><a id="Note_42" href="#Nanchor_42">42</a> (pag. 87).</h3> - -<p>Não é de mediocre importancia a especie de vocabulario, -aqui offerecida pelo nosso missionario.</p> - -<p>Os leitores francezes, pouco familiarisados com a philologia -americana, despresaram sem duvida esta collecção de -frases, provenientes d’uma lingua, que comtudo servio de -recreiação á Boileau: o mesmo não acontecerá n’um vasto -Imperio, onde as letras são hoje tão honradas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_378"></a>[378]</span></p> - -<p>Ha muitos annos já, que o Autor da <i>Historia Geral do -Brazil</i> provou a importancia do estudo das linguas indigenas -n’uma <i>Memoria</i> impressa entre as actas do <i>Instituto -Historico do Rio de Janeiro</i>. (Agosto 1840.)</p> - -<p>O padre Anchieta, a quem se deve a composição da primeira -grammatica, conhecida, da lingua geral, não fallava o -Tupy sem uma especie de enthusiasmo; o padre Figueira o -imitou em sua sincera admiração; Laet, com quanto não -manifestasse admiração gabou sua abundancia e doçura, e -nisto foi seguido por Bettendorf.</p> - -<p>Pode dizer-se, que entre todos estes foi o padre Araujo -quem melhor fez sobresahir sua importancia debaixo do ponto -de vista philosophico.</p> - -<p>«Como foi, disse algures esse Religioso, que os povos, que -a fallaram, tendo suas ideias limitadas em estreito circulo de -objectos, todos necessarios embora á seo modo de vida, podessem -conceber signaes representando idéas, capazes de -indicar o objecto, que não conheciam antes, e isto não de -qualquer forma, e sim com propriedade, energia e elegancia», -accrescentando «sem ter ideia alguma da religião, a -não ser da natural, encontraram em sua propria lingua expressão -para patenteiar toda a sublimidade dos mysterios da -religião, e da Graça, sem pedir emprestado coisa alguma aos -outros idiomas.»</p> - -<p>Enganar-se-ia completamente quem julgasse estar hoje -esquecida a lingua usada entre tribus numerosas quando em -1500 Pedro Alvares Cabral descobrio o Brasil.</p> - -<p>Deixou não só vestigios na Geographia do Brazil, mais -tambem ainda hoje se falla n’algumas aldeias, tendo -estreita affinidade com o <i>Guarany</i>, lingua usada na mór -parte do Paraguay. Comtudo não é a mesma do seculo -XVI.</p> - -<p>Modificam-se os idiomas dos povos selvagens á similhança -dos idiomas dos povos civilisados, e ainda mais talvez -quando uma corrente de ideias novas vem desvial-os da -liberdade do seo andar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_379"></a>[379]</span></p> - -<p>O <i>Maya</i>, o <i>Quiché</i>, o <i>Aztéco</i>, o <i>Quichua</i>, o <i>Aymara</i> não -são o que foram no tempo de Cortez, de Alvarado, e de Pizarro.</p> - -<p>Si o sabio Veytia podesse, ha perto de um seculo, -confrontar a differença enorme, que apresenta o Nahuatl -antigo com o que fallavam muitas pessoas do seo tempo, -imagine-se o que não succederia quando se fizesse a -mesma confrontação entre a lingua Tupy, e o moderno -Guarany.</p> - -<p>Esta ultima lingua, tão em uso no Paraguay, não é mais -fallada com a pureza da sua origem, segundo diz o Sr. -Beaurepaire de Rohan, si não pelos <i>Cayuas</i>, das nascentes -de Iguatiny.</p> - -<p>São pois mui preciosos todos os livros, que tratam da -lingua antiga debaixo do ponto de vista grammatical.</p> - -<p>Debaixo d’este ponto de vista, as viagens d’Hans Staden, -de Thevet, e de Lery tem mais valor do que as Relações de -Claudio d’Abbeville e Ivo d’Evreux.</p> - -<p>Acham-se todos os promenores apreciaveis á este respeito -no nosso opusculo publicado sob este titulo—<i>Une fête bresilienne -célébrée á Rouen en 1550. Suivie d’un fragment -du XVI siécle roulant sur la Théogonie des anciens peuples -du Brésil e des poésies en langue Tupique de Christovam -Valente</i>. Pariz, Techener, 1850, gr. em 8.º</p> - -<p>O sabio Hermann E. Ludewig não conheceo o vocabulario -apresentado pelo padre Ivo, ou pelo menos não tratou d’elle. -(Vide <i>The literature of American aboriginal languages</i>. London, -1857, in 8.)</p> - -<p>Finalmente tem se feito n’estes ultimos tempos trabalhos -de tanto folego, merecendo o primeiro lugar os do illustre -<i>Martius</i>.</p> - -<p>Um distincto litterato brazileiro, o Dr. Gonçalves Dias, -que já publicou em <i>Leipzig</i> o <i>Diccionario da lingua Tupy</i> -(1858) foi de novo estudal-o nas profundas florestas do -Amazonas.</p> - -<p>A philologia brasileira ainda fará grandes progressos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_380"></a>[380]</span></p> - -<h3><a id="Note_43" href="#Nanchor_43">43</a> (pag. 94).</h3> - -<p>Aqui ha falta sensivel em nosso texto, por ter indubitavel -o nosso viajante occupar-se largamente d’uma raça, -que com os <i>Morobixabas</i> representam o papel principal na -vida civil e politica dos Brasileiros.</p> - -<p>Simão de Vasconcellos nas suas—<i>Noticias do Brasil</i>—nada -deixa a desejar a tal respeito, e para elle enviamos -nossos leitores, observando apenas que os <i>Piayes</i>, os <i>Pagé</i> -ou <i>Pagy</i> somente alcançavam a prodigiosa influencia, que -gozavam, submettendo-se á experiencias e a jejuns tão rigorosos -a ponto de arriscarem sua vida, obtendo finalmente o -titulo, que tanto ambicionavam.</p> - -<p>São as mesmas essas provas ou experiencias desde a embocadura -do Orenoco até as do Rio da Prata.</p> - -<p>Quando o candidato estava ja muito enfraquecido pelo jejum, -entregavam-no ás mordiduras das formigas, abarrotavam-no -de bebidas asquerosas, cuja base era o succo do tabaco, -e algumas vezes defumavam-no a ponto de perder os -sentidos.</p> - -<p>Si resistia a taes supplicios, era igual senão superior aos -guerreiros.</p> - -<p>Deixou-nos Vasconcellos a respeito do que se pode chamar -<i>Collegio dos Piagas</i>, á similhança do <i>Collegio dos Druidas</i>, -certas particularidades muito minuciosas, applicaveis -principalmente ás Provincias do Sul.</p> - -<p>No Norte os <i>Pages Aybas</i> eram os feiticeiros afamados astrologos, -ou melhor <i>tempestuosos</i>, a que nada podia resistir. -Sob sua dependencia estavam os astros, e sob sua obediencia -o sol e a lua para cumprir suas ordens: desencadeiavam -os ventos e levantavam tempestades. Os mais ferozes animaes, -como as onças e jacarés, obedeciam-no.</p> - -<p>Para alcançar aos olhos do publico tal poder recorria o -Pagé Aybas a um meio, que nunca falhou, isto, é a <i>herva -dos feiticeiros</i> ainda mais poderosa do que a da Europa, o -<i>Paricá</i>, cujos effeitos terriveis foram descriptos pelo Dr. Rodrigues<span class="pagenum"><a id="Page_381"></a>[381]</span> -Ferreira. (Vide <i>Memorias das Academias das Sciencias -de Lisboa</i>.)</p> - -<p>Mastigava-se o <i>Paricá</i>, e com isto fazia-se um unguento, -uzado para uncturas.</p> - -<h3><a id="Note_44" href="#Nanchor_44">44</a> (pag. 100).</h3> - -<p>Ha aqui um pequeno erro typographico, que convem corrigir: -leia-se pois <i>rocou</i>.</p> - -<p>Em toda a America Meridional costumavam os selvagens -tingir a pelle de vermelho alaranjado, ou de negro azulado -por meio do <i>rocou</i>, <i>Bixia Orellana</i>, ou <i>Genipapeiro</i> (<i>Genipa Americana</i>.)</p> - -<p>O Padre Ivo descrevendo com exactidão o fructo d’esta -arvore, em abundancia no Maranhão, diz—o summo claro, -e limpido que se extrahe della, fica muito negro logo depois -da sua applicação, e assim conserva-se por 9 dias (Vide -a este respeito <i>Humboldt</i>, <i>Voyage aux régions équinoxiales</i>.)</p> - -<h3><a id="Note_45" href="#Nanchor_45">45</a> (pag. 101).</h3> - -<p>Serve-se aqui Ivo d’Evreux de uma expressão impropria -designando pela palavra <i>Thon</i> o que se chama <i>bicho -de pé</i>, <i>niga</i>, <i>pulex penetrans</i>, dos entomologistas. Bem -pode ser que a palavra seja da <i>lingua geral</i>. Encontra-se -com a mesma accepção em Thevet, que a escreveo em 1558 -(Vide <i>France antarctique</i>. pag. 90). È muito conhecido -este insecto, e por isso desnecessario é demorarmo-nos descrevendo -os males, que produz. (Vide entre outros Naturalistas, -o veridico Auguste de Saint-Hilaire, <i>Voyage dans l’interieur -du Brésil</i>. T. 1.º pag. 35 e 36).</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_382"></a>[382]</span></p> - -<h3><a id="Note_46" href="#Nanchor_46">46</a> (pag. 106).</h3> - -<p>Realisou-se completamente a prophecia do bom Padre.</p> - -<p>Poucas são as regiões do mundo, que, como esta, tenham -sido exploradas em beneficio da sciencia.</p> - -<p>Alem das <i>Plantas uteis do Brazil</i>, devidas ao nunca assás -chorado Augusto de St. Hilaire, ha hoje a <i>Flora brasiliensis</i> -do illustre Martius, tambem autor da <i>Materia-medica</i> -deste paiz.</p> - -<p>Não desejamos cançar o espirito do leitor com uma arida -nomenclatura de livros especiaes.</p> - -<p>Contentamos-nos apenas dizendo, que muito tem os brazileiros -concorrido para estes trabalhos scientificos, citando -somente as <i>Memorias</i> do Dr. Freire Allemão, recentemente -publicadas, e a grande collecção, infelizmente não acabada, -da <i>Flora Fluminensis</i>.</p> - -<h3><a id="Note_47" href="#Nanchor_47">47</a> (pag. 108).</h3> - -<p>Esta molestia, tão cruel e tão similhante á syphilis, se -não é a propria syphilis, tambem acha-se descripta na <i>France -antarctique</i> de André Thevet, livro publicado em 1558 (vide -pag. 86). João de Lery tambem descreveo seos symptomas. -Está claro, que não se pode attribuir aos negros de Guiné -molestia tão geral entre os Americanos.</p> - -<h3><a id="Note_48" href="#Nanchor_48">48</a> (pag. 114).</h3> - -<p>O Padre Ivo é rigorosamente exacto no que diz á respeito -dos funeraes dos Indios, e com elle concordam em tudo Lery -e Thevet, dando este ultimo uma excellente estampa representando -um Indio prestes a ser sepultado. (Vide pag. -82 v.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_383"></a>[383]</span></p> - -<h3><a id="Note_49" href="#Nanchor_49">49</a> (pag. 114).</h3> - -<p>Não se esqueciam os Tupinambás de collocar, entre as suas -singulares previsões para o morto, um pouco de tabaco, carne, -peixe, raizes de cará e de farinha de mandióca. É rigorosamente -verdadeiro tudo o que o padre Ivo conta n’este capitulo, -como se pode vêr nas estampas que apresentam Thevèt -na <i>France antarctique</i>, e Lery na sua <i>voyage</i>.</p> - -<h3><a id="Note_50" href="#Nanchor_50">50</a> (pag. 117).</h3> - -<p>Os Tapuytapéras, cujo nome deviam á uma localidade do -Maranhão, tinham cabellos cumpridos. Pertenciam á raça -Tupy, pois que <i>Migan</i>, o interprete natural de Dieppe, entendia -sua linguagem, e o mesmo succedia aos de Commã, -cuja aldeia tinha indios com este nome.</p> - -<p>Os Cahetés, no seculo XVI, constituiam uma nação essencialmente -bellicosa occupando a maior parte do territorio de -Pernambuco. Fallavam a lingua Tupica, ou <i>lingua geral</i>. Encontram-se -as mais curiosas particularidades á respeito de sua -organisação interna no <i>Roteiro do Brasil</i>, manuscripto existente -na Bibliotheca Imperial de Pariz.</p> - -<p>Hoje está sabido, que este livro, tão notavel, composto -em 1587 por Gabriel Soares, é o trabalho mais completo, -que existe sobre as diversas tribus do Brasil existentes no -tempo do padre Ivo.</p> - -<p>Passados muitos annos a Academia Real das Sciencias de -Lisboa, reconhecendo a sua importancia, imprimio-a nas suas -<i>Noticias das nações ultramarinas</i>, e depois o Sr. Francisco -Adolpho de Varnhagem, colleccionando todas as copias -d’esta mesma obra, embora sob diversos titulos, publicou -uma nova edicção superior á todas, sob o titulo de <i>Tratado -descriptivo do Brasil em 1587, obra de Gabriel Soares de -Sousa, senhor de engenho na Bahia, nella residente dezesete -annos, seo vereador da Camara</i>. <i>Rio de Janeiro.</i>—1851 -em 8.º</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_384"></a>[384]</span></p> - -<h3><a id="Note_51" href="#Nanchor_51">51</a> (pag. 118).</h3> - -<p>O padre Ivo quando quer designar o tubarão, escreve impropriamente -<i>requin</i>, quando na primitiva era <i>requiem</i>. -Pode bem ser, que o nome imposto a este peixe tão voraz -provenha da rapidez com que mata.</p> - -<h3><a id="Note_52" href="#Nanchor_52">52</a> (pag. 120).</h3> - -<p>O <i>Maracá</i> era um instrumento symbolico, usado tanto nas -festas religiosas como nas profanas. Thevet, o guarda das -curiosidades do Rei, o descreveo muito bem em seos manuscriptos, -inedictos, e como sei que não será desagradavel -para aqui transcrevo as suas palavras:</p> - -<p>Tendo nas mãos um ou dois <i>maracás</i>, que é um fructo -grande, de forma oval, similhante ao ovo de abestruz, e -da grossura de uma abobora, mais agradavel á vista do que -ao paladar, pelo que ninguem o come, fazem com elles -muitos mysterios e superstições tão extravagantes como incriveis. -Cavam o fructo, enchem-no de milho graudo, amarram-no -a ponta de uma haste, enfeitam-no com pennas e -enterrando a outra ponta, fica ella em pé. Cada casa tem -um ou dois Maracás, que respeitam como si fosse <i>Tupan</i>, -trazendo-o sempre na mão, quando dançam e fazendo chocalhar.</p> - -<p>Pensam que é <i>Tupan</i> que lhes falla (Manuscripto de André -Thevet, conservado na Bibliotheca Imperial de Pariz.)</p> - -<p>Hans Staden e Lery, Roulox Baro escreveram largas paginas -a respeito do Maracá, e o proprio Malherbe falla dos que -ouvio em Paris por occasião do baptismo de tres indios sendo -padrinho Luiz XIII.</p> - -<p>Chegando a Pariz, e residindo no Convento dos seos protectores, -os indios revestidos dos seos bellos adornos, e com -o <i>maracá</i> em punho, excitaram muito enthusiasmo, a ponto -de haver muita paixão pela sua dança e pela sua propria -musica.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_385"></a>[385]</span></p> - -<p>Seria muito curioso si hoje se achasse a Sarabanda composta -em honra d’elles pelo famoso Gauthier. Malherbe escreveo -ao celebre Peirese dizendo tel-a mandado á Marco -Antonio «como excellente peça digna de ouvir-se» (Vide -<i>Correspondance</i>, pag. 285, antiga edicção.)</p> - -<p>Ainda, passadas 12 paginas Malherbe tratou da musica -então em voga, e do seo auctor, dizendo «ser Gauthier considerado -o primeiro no officio, ignorando porem si sahira -bem, e si o gosto da Provincia se conformará com o da -Côrte.»</p> - -<p>Não se contentaram somente de proporcionar aos pobres -selvagens distracções ligeiras, pois procuraram obrigal-os a -residir em França.</p> - -<p>Diz o poeta pag. 275 «os Capuchinhos, para obsequiarem -completamente estes pobres selvagens, resolveram algumas -beatas a casarem-se com elles, e ja deram começo a excursão -d’este plano.»</p> - -<p>Emquanto porem eram bem acolhidos os guerreiros do -Maranhão, suas mulheres não gozavam iguaes favores.</p> - -<p>Uma certa Princesa cujo nome calla o poeta, manifestando -opinião singular, dizia «que para elles tinha muita satisfação -de dar-lhes casa e comida, mas que ás senhoras, suas -mulheres, não podiam ser senão...» bem me entendeis, e -por isso não podia recebel-as em sua casa.</p> - -<h3><a id="Note_53" href="#Nanchor_53">53</a> (pag. 120).</h3> - -<p>É mui curioso o saber-se, que esta expedição exploradora -ás margens do Mearim, reconheceo logo serem essas -terras essencialmente proprias para a plantação da -canna de assucar, a que se empregam todos os braços de -15 annos para cá, sendo esta revolução agricola devida -á influencia do Dr. Joaquim Franco de Sá. A charrua despresada -por tão longos annos hoje sulca este solo admiravel.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_386"></a>[386]</span></p> - -<h3><a id="Note_54" href="#Nanchor_54">54</a> (pag. 122).</h3> - -<p>Deve lêr-se <i>Mutum</i> sendo a especie mais pequena designada -pelo nome de <i>Mutum Pinima</i>. (Vide <i>Diccionario -Tupy</i> de Gonçalves Dias.)</p> - -<p>Trata-se aqui de Hocco <i>Crax Alector</i>, caça mui procurada.</p> - -<p>A imperial sociedade de acclimatação emprega actualmente -louvaveis exforços para naturalisar em França este passaro -do Brasil e da Goyana.</p> - -<h3><a id="Note_55" href="#Nanchor_55">55</a> (pag. 122).</h3> - -<p>É uma linda especie de periquito, conhecida no Brasil pelo -nome de <i>Tui</i>.</p> - -<p>Forma ás vezes bandos tão grandes a ponto de ser um -dos flagellos da agricultura.</p> - -<h3><a id="Note_56" href="#Nanchor_56">56</a> (pag. 123).</h3> - -<p>É a palmeira chamada—<i>Tucum</i>—pelos brasileiros.</p> - -<p>Consulte-se a magnifica <i>Monographia das palmeiras</i> por -Martius. O <i>Tucum</i> tem fibras verdes e macias, das quaes se -faz excellente fio, proprio para cordas.</p> - -<h3><a id="Note_57" href="#Nanchor_57">57</a> (pag. 123).</h3> - -<p>Ivo d’Evreux não hesita com sua sinceridade habitual a -formar um verbo derivado da lingua indigena.</p> - -<p>Desde as margens do Orenoco até as do Rio da Prata era -o <i>Cauim</i> preparado em grande quantidade.</p> - -<p>Tinha o mesmo nome em toda a parte esta especie de cerveja, -ou talvez melhor de cidra, quer fosse preparada com -milho mastigado pelas mulheres, quer com mandióca cajú -ou jabuticaba.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_387"></a>[387]</span></p> - -<p>Encontramos este fabrico e nome até entre os Araucans. -(Vide a importante obra, do Chili, do Sr. Claudio Gay.)</p> - -<p>A palavra <i>cauin</i> atravessou espaços immensos, são os -mesmos em toda a parte os processos para o seu fabrico, o -que prova estreito parentesco entre os povos mais distantes, -uns dos outros.</p> - -<p>Hans Staden, Lery, Thevet tem apontado seos abusos, e -chamamos a attenção dos nossos leitores para as suas curiosas -narrativas.</p> - -<p>O que os nossos antigos viajantes chamavam <i>Cauinage</i> -era afinal uma solemnidade, cujo sentido religioso não conhecemos.</p> - -<p>Precediam ou succediam estas orgias ás grandes expedicções.</p> - -<p>O «vinho da Europa» se chama hoje <i>Cauin Pyranga</i>, e -a aguardente tão fatal aos indios, <i>Cauin Tata</i>, «bebida de -fogo.»</p> - -<h3><a id="Note_58" href="#Nanchor_58">58</a> (pag. 123).</h3> - -<p>Descreve com minuciosa curiosidade João de Lery esta -festa solemne, na qual se infiltrava o <i>espirito de coragem</i>, -aos guerreiros prestes a partirem para uma expedição.</p> - -<p>Uma das estampas do seo livro representa até esta ceremonia.</p> - -<p>Entre todas as tribus da raça tupy o tabaco é considerado -como planta sagrada.</p> - -<p>Reunimos tudo que se sabia ha alguns annos á respeito -da origem do <i>Petum</i> na carta, que dirigimos a Mr. Alfredo -Demersay, sobre a introducção do tabaco em França, (Vide -<i>Etudes economiques sur l’Amerique meridionale. Du Tabac -du Paraguay</i>. Pariz. Guillamin. 1851 em 8.º)</p> - -<h3><a id="Note_59" href="#Nanchor_59">59</a> (pag. 125).</h3> - -<p>O nome d’esta nação tão pouco conhecida, e que se apresenta -á penna do padre Ivo, é uma garantia da exactidão -das suas narrações.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_388"></a>[388]</span></p> - -<p>Ainda em 1817 existiam alguns <i>Tramembez</i> entre os trabalhadores -brancos do Ceará: cultivavam mandióca e residiam -na villa de <i>Nossa Senhora da Conceição d’Almofalla</i>, -onde haviam muitas salinas. (Vide Ayres Casal, <i>Corographia -Brasilica</i>, T. 2º, pag. 235.)</p> - -<p>Gaba o padre Ivo o valor e a industria d’estes indios, inimigos -encarniçados dos Tupinambás.</p> - -<h3><a id="Note_60" href="#Nanchor_60">60</a> (pag. 125).</h3> - -<p>Tratamos d’este famoso indio quando elle se revestio do -commando.</p> - -<p>É a figura indigena mais predominante nas duas obras do -padre Claudio d’Abbeville e padre Ivo.</p> - -<p>Na <i>lingua geral</i> a palavra <i>japim</i> é o nome de um lindo -passaro, de pennas amarellas e negras, que anda em numerosos -bandos e que em toda a parte faz tão lindos ninhos.</p> - -<p>Pode tambem dar-se-lhe outra significação. <i>Japy</i> significa -na lingua indigena do Maranhão, «o choque, o golpe.» (Vide -Gonçalves Dias, <i>Diccionario</i>.) A primeira explicação é a -unica adoptada. Japy-uaçú era o que se chamava um <i>Mitagaya</i>, -um grande guerreiro.</p> - -<h3><a id="Note_61" href="#Nanchor_61">61</a> (pag. 126).</h3> - -<p>Deixa-se o padre Ivo levar muito pelas recordações da -Europa.</p> - -<p><i>Jeropary-açú</i>, de que tratam escriptores portuguezes, -nada tem de commum com um principe ou um rei, taes -como eram representados no novo-mundo por convenção hierarchica.</p> - -<p>Este erro ja havia sido anteriormente commettido por André -Thevèt na sua <i>França antartica</i> e na sua <i>Cosmographia</i>. -O historiador de Portugal, La Clede, que vivia no seculo -XVIII foi mais longe ainda na enumeração dos pomposos titulos, -que dá a alguns pobres chefes de tribus.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_389"></a>[389]</span></p> - -<h3><a id="Note_62" href="#Nanchor_62">62</a> (pag. 127).</h3> - -<p>Com o nome de <i>cabaças</i> conhece-se geralmente no Brasil -vasilhas ordinarias, feitas com o fructo da cabeceira.</p> - -<p>Em Venezuella chama-se <i>Tutumas</i>.</p> - -<p>Algumas destas vasilhas naturaes mostram delicados ornatos, -cores inalteraveis pela agua e grande brilho. (Vide a -este respeito Claudio d’Abbeville, <i>Histoire de la mission -des péres Capucins</i>.)</p> - -<h3><a id="Note_63" href="#Nanchor_63">63</a> (pag. 128).</h3> - -<p>É isto confirmado por Magalhães de Gandavo, o primeiro -escriptor portuguez, que escreveo uma historia regular do -Brasil em 1576.</p> - -<p>Este amigo de Camões recorda a expressão indigena de -que se serve o padre Ivo, porem não partilha sua opinião, -antes crê ser o ambar um producto vegetal formado no fundo -do mar. O que é certo é, que nos seculos XVI e XVII o encontro, -quasi sempre casual, de enormes pedaços de ambar, -arremeçados pelas ondas em praias não exploradas, -enriqueceo muita gente.</p> - -<h3><a id="Note_64" href="#Nanchor_64">64</a> (pag. 131).</h3> - -<p>Debalde procuramos este nome no livro de Ayres do Casal, -e no Diccionario de Milliet de Saint Adolphe.</p> - -<p>A região habitada pelos Cahetés de que trata, sabemos -com certesa ser na provincia de Pernambuco.</p> - -<p>A palavra <i>Cahetés</i> significa <i>floresta grande</i>, e se applica a -diversas localidades.</p> - -<p>Foram os <i>Cahetés</i>, que em 1556 mataram e devoraram o -primeiro Bispo do Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha.</p> - -<p>Este sabio prelado, natural de Setubal, e educado na universidade -de Pariz, regressava á Lisboa, onde ia queixar-se -do governador da Bahia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_390"></a>[390]</span></p> - -<p>Mostra-se ainda hoje a colina, onde elle morreu, e não -cresce ahi planta alguma, segundo a crença do povo. (Vide -Adolpho de Varnhagem—<i>Historia Geral do Brazil</i>.)</p> - -<p>O livro de Gabriel Soares contem tudo quanto se deseja á -respeito dos Cahetés, indios considerados geralmente como -invensiveis guerreiros, e que se gabavam de habeis musicos.</p> - -<p>A exploração do <i>Uarpy</i>, de que aqui se trata, e emprehendida -pelo Sr. de Pezieux é uma prova evidente do cuidado, -que havia de explorar-se esta região, percorrendo-se -de N. a S.</p> - -<h3><a id="Note_65" href="#Nanchor_65">65</a> (pag. 131).</h3> - -<p>Estas minas de oiro, que se esperava encontrar no Maranhão -em 1613, existem hoje na serra de <i>Maracassumé</i>.</p> - -<p>Encontra-se o metal precioso sobre tudo em <i>Piranhas</i>, -(districto de <i>Santa Helena</i>) nas cabeceiras dos rios Pindaré, -Gurupy, Cabello de Velha (<i>Cururupu</i>) Prata (Santa Helena) -na Revirada, nas margens do Tomatahy, etc., etc., porem -em pequena porção.</p> - -<p>Existe cobre na Chapada no lugar <i>Fazendinha</i> e no Alto -Pindaré.</p> - -<p>Ferro existe em mais lugares, nos montes de Tirocambo -e em Pastos-Bons.</p> - -<p>Suppõe-se haverem minas de estanho, porem ainda não -se sabe com certesa.</p> - -<p>Encontra-se tambem o carvão de pedra, precioso mineral -no estado actual da industria: depararam-se ja com alguns -indicios no canal do Arapapahy, e affirma-se haver uma mina -na distancia de meia legoa do Codó, na fazenda de Santo -Antonio, cujas amostras provam ser de superior qualidade. -Dizem haver tambem em Vinhaes.</p> - -<p>Em Sam José dos Mattões encontram-se cristaes de rocha -e pedras semi-preciosas, e saphiras em Sam Bernardo da -Parnahyba.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_391"></a>[391]</span></p> - -<p>De passagem lembramos que as primeiras minas de ouro, -ou para melhor dizer, os primeiros veios de ouro, destinados -a enriquecerem o Brasil, somente foram descobertos em -Minas-Geraes, no anno de 1595.</p> - -<p>Pelas Provincias do norte não conheceo a Metropole as -riquezas metalicas d’este vasto territorio, onde desemboccam -o <i>Rio doce</i>, e o <i>Jequitinhonha</i>.</p> - -<p>Sabe-se que este ultimo rio que toma o nome de Belmonte -na occasião em que se lança no mar, pouco distante do primeiro, -com o andar dos tempos deo á corôa enorme quantidade -de diamantes.</p> - -<p>Estas pedras, encontradas em 1729, principalmente no -valle cercado de alcantiladas rochas, chamado pelos indios—<i>Ivitur</i>, -e pelos portuguezes—<i>Serro do Frio</i>, não eram -completamente despresadas pelos indios, pois seos filhos as -ajuntavam, e com ellas brincavam.</p> - -<p>No Maranhão não ha diamantes.</p> - -<h3><a id="Note_66" href="#Nanchor_66">66</a> (pag. 141).</h3> - -<p>Mostra-se o padre Ivo aqui mui parco em suas descripções, -porem deve-se desculpal-o por não ser naturalista como um -theologo do seo tempo. Foi ainda mais parco o seo predecessor.</p> - -<p>O que disse de algumas plantas do genero <i>mimosa</i> indica -a sua preoccupação á respeito de certos phenomenos naturaes.</p> - -<p>As qualidades maleficas, que reconhece no succo do Cajú, -de que se fabrica uma especie de cidra, são mui exageradas.</p> - -<p>Diremos de passagem, que a palavra <i>Cauin</i> deriva-se -do nome indigena d’esta arvore. <i>Caju-y</i>, licor de <i>Caju</i>.</p> - -<h3><a id="Note_67" href="#Nanchor_67">67</a> (pag. 145).</h3> - -<p>Á flor da paixão (<i>Grenadilla cœrulea</i>) na qual a imaginação -prevenida encontra santos attributos, gozava então de<span class="pagenum"><a id="Page_392"></a>[392]</span> -prodigioso favor. Foi descripta em varias obras, e gravada -exagerando-se os pontos de similhança, que podia ter com -os instrumentos do supplicio de Jesus Christo.</p> - -<p>Ivo d’Evreux encontrou nos campos do Brasil magnificas -flores d’estas, e mostrou-as aos amadores. Alguns annos -depois elle se teria aproveitado da descripção poetica, que -d’ella fez o poeta popular Santa Rita Durão no poema intitulado -<i>Caramuru</i>.</p> - -<p>Lembramos aos amadores de flores phantasticas uma gravura -do seculo XVII, mui curiosa, mostrando a planta com -o seo tamanho natural na obra <i>Antonii Possevini Mantuani -Societatis, Jesu cultura ingeniorum, examen ingeniorum -Joannis Huartis. Expenditur Coloniæ Agrippinæ</i>. 1610 -em 12.</p> - -<h3><a id="Note_68" href="#Nanchor_68">68</a> (pag. 146).</h3> - -<p>O guará (<i>Ibis rubra</i>, ou <i>Tantalus ruber</i>) desappareceo -em parte de varias localidades do littoral, onde costumava -expandir sua brilhante plumagem, sujeita, conforme a idade, -a diversas modificações.</p> - -<p>Na obra curiosa de Hans Staden, publicada na Allemanha -em 1557, vê-se qual é o papel, que representa esta ave na -industria indigena.</p> - -<p>Formavam os Tupinambás em tempo certo verdadeiras expedições -para procurar as pennas d’ellas, sempre raras, afim -de servirem nas festas com que as tribus se obsequiavam -reciprocamente.</p> - -<p>Em caso de necessidade eram substituidas por pennas de -gallinhas, tinctas com uma preparação vermelha de <i>Ibirapitanga</i>, -ou pau-brasil.</p> - -<p>Actualmente refugiou-se o guará nas margens, pouco frequentadas, -do rio de Sam Francisco, e principalmente nas -desertas regiões do Rio Negro. Ainda tambem encontram-se -algumas na <i>lagoa dos patos</i>, e em <i>Guaratuba</i>. (Vide <i>le second -voyage d’Aug. St. Hilaire</i>. T. 2º, pag. 222.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_393"></a>[393]</span></p> - -<h3><a id="Note_69" href="#Nanchor_69">69</a> (pag. 152).</h3> - -<p>É impossivel aos que não leram as obras da idade media -interpretar bem o sentido d’esta frase.</p> - -<p>O livro conhecido sob o nome de <i>Phisiologus</i> gozava ainda -de certo credito no tempo do padre Ivo de Evreux. Quem -quizer informar-se d’isto minuciosamente leia o precioso resumo -d’esta curiosa obra, publicada pelos Rvds. padres Cahier -e Martin, sob o titulo <i>Melanges d’Archéologie, d’histoire -et de litterature</i>. 4 vol. in-fol.</p> - -<h3><a id="Note_70" href="#Nanchor_70">70</a> (pag. 156).</h3> - -<p>As mulheres Tupinambás, que assim cantavam para attrahir -as formigas, e activar a caça d’estes insectos, não o faziam -somente para destruil-as, ou para resguardar suas plantações -de milho de uma invasão invencivel.</p> - -<p>As formigas grandes torradas eram consideradas como -uma das golodices mais preciosas, cuja receita foi por ellas -ensinada a alguns colonos do Sul, e sem duvida não será -desputada pelos nossos modernos Brillat Savarin.</p> - -<p>Assim como os Arabes comem ainda hoje gafanhotos, conservados -em sal ou pela dissecação, e os Guaraons das margens -do Orénoco apreciam muito as larvas da palmeira Muriti -(não fallando de outra comida da terra do mesmo genero), -assim tambem os nossos selvagens guardam grandes -provisões d’estes insectos para sua nutrição.</p> - -<p>Augusto de Saint-Hilaire, o mais verdadeiro viajante, que -percorreo o Brasil, achou ainda em vigor o costume de se -comer formigas assadas.</p> - -<p>Depois de ter affirmado ser muito apreciado esse manjar -no Espirito Santo, pelo que os habitantes de Campos, sempre -rivaes dos da Cidade da Victoria, os chamavam <i>Tata -Tanajuras</i>, «comedores de formigas», accrescentou «eu -mesmo comi um prato d’estes animaes, preparados por uma<span class="pagenum"><a id="Page_394"></a>[394]</span> -mulher Paulista, e não lhes achei mau gosto.» (Vide <i>Le second -voyage au Brésil</i>. T. 2.º pag. 181).</p> - -<p>Martim Soares de Souza, com rasão chamado o Gregorio -de Tours dos Brasileiros, é mais claro a respeito do proveito -que os indios tiravam das formigas como alimento.</p> - -<p>Copiamos aqui o que elle tão curiosamente disse. Depois -de haver fallado da especie grande, a que chamam Içans, -escreveo—«<i>E estas formigas comem os indios, torradas sobre -o fogo, e fazem-lhe muita festa; e alguns homens brancos -andam entre elles, e os mistiços as tem por bom jantar, -e o gabam de saboroso, dizendo que sabem a passas -de Alicante: e torradas são brancas dentro.</i>»</p> - -<h3><a id="Note_71" href="#Nanchor_71">71</a> (pag. 156).</h3> - -<p>O pretendido cão, de que aqui falla o nosso Missionario, -está muito longe da raça canina: é apenas o <i>papa-formigas</i>, -chamado pelos indigenas <i>tamanduá</i>, e pela sciencia <i>Myrmecophaga -jubata</i>.</p> - -<p>O naturalista Waterton, que com tanta curiosidade estudou -os quadrupedes do novo mundo nos proprios lugares, -onde com plena liberdade se entregam aos seos instinctos, -fez excellente descripção d’este animal.</p> - -<p>Ha no Brasil muitas especies de papa-formigas, sendo rarissima -a chamada pelos portuguezes <i>Tamanduà-cavallo</i>: -parece ter sido este sobrenome o causador de haver o padre -Claudio d’Abbeville errado, quando disse ser o <i>papa-formigas</i> -do tamanho de um cavallo.</p> - -<p>A palavra india, que designa este curioso animal, é composta -de duas Tupis—<i>taixi</i>, «formiga,» e <i>mondê</i> ou <i>mondâ</i>, -«tomar.»</p> - -<h3><a id="Note_72" href="#Nanchor_72">72</a> (pag. 157).</h3> - -<p>Deve escrever-se <i>Taranyra</i>, cujo nome pertence a um -pequeno lagarto. Falla-se aqui do <i>Tiú</i> (<i>Tupinambis monitor</i>).</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_395"></a>[395]</span></p> - -<p>É excellente a carne d’este reptil, e muito havia de concorrer -para tornal-a saborosa a preparação culinaria tão gabada -pelo Padre Ivo d’Evreux.</p> - -<p>A repugnancia d’esse bom Padre para taes comidas, não -é de fórma alguma partilhada pelos descendentes dos Europeos, -acostumados ás melhores mezas.</p> - -<p>A carne de Tui pela sua côr e maciesa muito assimilha-se -á da gallinha mais preciosa, e por isso apparece nas melhores -mezas do Brasil.</p> - -<h3><a id="Note_73" href="#Nanchor_73">73</a> (pag. 162).</h3> - -<p>O nosso autor quer fallar da <i>Aranha caranguejeira</i>, (<i>Aranea -avicularia</i>) porem aqui enganou-se. Exagera muito as -dimensões d’este insecto, na verdade nojento, como se pode -vêr em todas as collecções de entomologia. Não é verdade -dizer-se que não fabricam fios para suas teias: a sua picada -não mata, porem envenena. Na lingua Tupy chama-se <i>Nhandu-Guaçu</i> -ou de <i>Jandu</i>.</p> - -<h3><a id="Note_74" href="#Nanchor_74">74</a> (pag. 163).</h3> - -<p>O que nos diz o bom Religioso do barulho da cigarra denota -gosto de observação na historia natural, muito raro n’aquella -epoca, mas convem não confundir a cigarra brasileira -com o insecto assim chamado na Europa.</p> - -<h3><a id="Note_75" href="#Nanchor_75">75</a> (pag. 165).</h3> - -<p>Na lingua <i>Tupi</i> escreve-se <i>Okiju</i>. (Vide <i>Martius</i>, <i>Glossaria -ling. bras.</i> pag. 465).</p> - -<h3><a id="Note_76" href="#Nanchor_76">76</a> (pag. 168).</h3> - -<p>Ivo d’Evreux confesse-se, está aqui muito inferior á seo -contemporaneo o Padre du Tertre.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_396"></a>[396]</span></p> - -<p>É verdade porem tudo quanto elle diz da luz dos <i>pyrilampos</i>.</p> - -<p>A entomologia estava então muito pouco adiantada para -que houvesse uma classificação entre os insectos, e não temos habilitações para preencher esta falta. Actualmente conhece-se -no Brazil oito especies de pyrilampos a saber:</p> - -<ul> -<li><i>Lampyris crassicornis</i>,</li> -<li><i><span class="ditto">«</span> signaticollis</i>,</li> -<li><i><span class="ditto">«</span> concoloripennis</i>,</li> -<li><i><span class="ditto">«</span> fulvipes</i>,</li> -<li><i><span class="ditto">«</span> diaphana</i>,</li> -<li><i><span class="ditto">«</span> hespera</i>,</li> -<li><i><span class="ditto">«</span> nigra</i>,</li> -<li><i><span class="ditto">«</span> maculata</i>.</li> -</ul> - -<p>Pode tambem juntar-se a estes lindos insectos a <i>lucidota -thoraxica</i>.</p> - -<h3><a id="Note_77" href="#Nanchor_77">77</a> (pag. 169).</h3> - -<p>É muito exacto, e as abelhas do Brazil não tem aguilhão: -eis o que diz um observador sabio e veridico.</p> - -<p>Depois de haver affirmado, como o Padre Ivo, que as -abelhas não picavam, disse Augusto de Saint Hilaire «uma -especie chamada <i>tataira</i> deixa, segundo dizem, escapar pelo -anus um liquido ardente; e por isso é só á noite que se colhe -o seo mel.»</p> - -<p>As especies chamadas <i>uruçú-boi</i>, <i>sanharó</i>, <i>burá</i>, <i>bravo</i>, -<i>chupé</i>, <i>arapua</i> e <i>tupi</i> se defendem, quando são atacadas, -mas parece não terem aguilhão, limitando-se a morderem -como fazem as outras.</p> - -<p>É muito liquido o mel das diversas especies, e a cera -tem a côr parda muito carregada, não se podendo até hoje -conseguir tornal-a branca, como a da Europa.</p> - -<p>Spix e Martius dão curiosas informações a respeito d’estes -uteis insectos, que completam as do nosso grande botanico.<span class="pagenum"><a id="Page_397"></a>[397]</span> -(Vide <i>Voyage dans les provinces do Rio de Janeiro e de -Minas Geraes</i>. T. 2.º, pag. 371 e seguintes.)</p> - -<h3><a id="Note_78" href="#Nanchor_78">78</a> (pag. 176).</h3> - -<p>Não ha talvez no mundo região alguma, que tenha maior -variedade de macacos do que o Brazil.</p> - -<p>Creio que aqui se trata primeiro da <i>guariba</i>, ou <i>mycetes -ursinus</i>, e depois do macaquinho <i>stentor</i>, que intentou descrevêr -o nosso bom Missionario.</p> - -<p>É provavelmente d’esta especie a descripção tão agradavel -e tão animada, feita pelo nosso velho escriptor.</p> - -<p>Convem observar porem que o Padre Ivo fez-se echo de -uma crença popular muito vulgar no seculo XVI.</p> - -<p>Esta especie de legenda das florestas, muito mais applicavel -aos macacos da Africa e da Asia do que aos do novo-mundo, -não se extinguio ainda de todo nos campos da America -Meridional, e mostraram a M. Castelnau uma india, que -julgava ter escolhido seo marido entre os macacos das florestas -(Vide <i>Expedition dans les parties centrales de l’Amérique -du sud, de Rio de Janeiro á Lima et de Lima au -Pará, exécutée par ordre du governement français</i>. Paris -1851, <i>partie historique</i>. 5 vol. in 8.º)</p> - -<h3><a id="Note_79" href="#Nanchor_79">79</a> (pag. 177).</h3> - -<p>Basta ter-se vivido nas florestas habitadas por macacos -para conhecer-se a exactidão do que escreveo o Padre Ivo.</p> - -<h3><a id="Note_80" href="#Nanchor_80">80</a> (pag. 180).</h3> - -<p>Ha aqui com certesa erro, ou então exageração.</p> - -<p>O Padre Claudio d’Abbeville, que descreve a mesma ave -de rapina (pag. 232) julga ser elle «duas vezes mais corpolento -do que a aguia, ter a perna da grossura de um braço, -e a pata em fórma de unhada.»</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_398"></a>[398]</span></p> - -<p>Poderia ser esta descripção do Condor, porem não existe -esta ave na America do Sul.</p> - -<p>Diz o Coronel Ignacio Accioli ter o <i>gavião real</i> tanta força -a ponto de fazer parar em sua carreira um viado por mais -forte que seja.</p> - -<p>É tão phantastica a descripção do Padre Ivo, que á primeira -vista se pode applical-a ao abestruz americano de -<i>Nandú</i>, que se encontra somente no Ceará e Piauhy.</p> - -<p>Um escriptor contemporaneo, Gabriel Soares, tantas vezes -citado, restabelece a verdade fallando do <i>Ura-açu</i> disse -«são passaros, como os milhafres de Portugal, sem differença -alguma, negros e de azas grandes, de cujas pennas -utilisam-se os indios para emplumarem suas flexas, e vivem -de rapina.» (Vide <i>Tratado descriptivo do Brasil em 1587</i>. -Rio de Janeiro.—1851 1.º vol. in 8.º pag. 232.)</p> - -<p>Lembramos de passagem, que debaixo do ponto de vista -scientifico a parte ornithologica é muito imperfeita, embora -a bellesa do estylo do nosso velho viajante.</p> - -<p>O que diz, por exemplo, o Padre Ivo do passaro mosca, -ou do colibri, é inteiramente inexacto, pois elle não tem o -tal canto agudo, que faz lembrar o grito da cotovia.</p> - -<p>Confundiram-se as recordações com a distancia.</p> - -<h3><a id="Note_81" href="#Nanchor_81">81</a> (pag. 181).</h3> - -<p>Ivo de Evreux quer dizer, que os Indios se <i>fazem galans</i>, -preparando-se com pennas de papagaios.</p> - -<p>Faziam os Tupinambás com estas pennas não só mantos, -diademas e perneiras, mas tambem cortavam bem miudinhas -as pennas pequenas e coloridas d’estes passaros, e -cobriam com esta pennugem o corpo, e n’elle grudavam-na -com certa gomma.</p> - -<p>Este enfeite selvagem e singularmente original ainda é -muito usado e apreciado em certas tribus.</p> - -<p>Segundo conta João de Lery durou mais de tres seculos.</p> - -<p>A viagem pittoresca de Debret apresenta uma amostra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_399"></a>[399]</span></p> - -<h3><a id="Note_82" href="#Nanchor_82">82</a> (pag. 185).</h3> - -<p>Basta, é bastante. Os hespanhóes e os portuguezes conservaram -a palavra <i>bastar</i>.</p> - -<h3><a id="Note_83" href="#Nanchor_83">83</a> (pag. 185).</h3> - -<p>Já pagamos justo tributo de saudade a este Religioso, tão -cheio de bondade como de zelo, cuja sepultura no antigo -cemiterio do pequeno Convento não é sabida em Maranhão.</p> - -<p>Como indica o seo sobrenome de Religião, nasceo o Padre -Ambrosio na Capital da Picardia, «de parentes abastados, -diz o manuscripto dos elogios, e que lhe deram educação -conforme permittiam seos negocios.»</p> - -<p>Depois de haver estudado na Sorbona, quando estava -prestes a receber a sua carta de licenciado, foi abalado -pelas prédicas do Padre Pacifico de São Gervasio, e entrou -no Convento em 1575, quasi no tempo da fundação do Mosteiro -de Santo Honorato.</p> - -<p>Em 1599 acabou seo noviciado, e com satisfação começou -a preencher as obrigações de irmão leigo.</p> - -<p>Cedo passou a prégador, e então adquirio essa fama de -caridoso, que o fez tão popular.</p> - -<p>Aspirava a mais do que isto, «porque queria converter -todas as Indias», diz a noticia a elle dedicada.</p> - -<p>O Padre Ivo cercava de todos os cuidados os seos confrades -quando emprehendiam viagens tão incommodas principalmente -n’aquelle tempo.</p> - -<p>Estava já muito enfraquecido, e sem forças, quando em -26 de setembro de 1612 cahio doente, em sua pobre cabana -de pindoba.</p> - -<p>Ardente febre o devorava, e comtudo, ainda depois de -receber a extrema uncção, conservou em bom estado e sempre -firme o uso de suas faculdades intellectuaes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_400"></a>[400]</span></p> - -<p>Transcrevamos aqui algumas palavras, que mostram qual -foi o fim de tão bom velho.</p> - -<p>Claudio d’Abbeville assim o conta:</p> - -<p>«Cahindo sobre elle um pequeno painel da Imagem de S. -Pedro, pendurado por cima de sua cama, e a que dedicava -profunda devoção, elle disse—vamos, grande Santo, partamos, -ja que vieste buscar-me.—</p> - -<p>«Dizendo isto olhou para o Crucifixo e após curta agonia -restituio ao Creador sua alma tão bôa em 9 de Outubro de -1612, dia da festividade do Glorioso Apostolo de França, S. -Diniz, Bispo de Pariz:</p> - -<p>«Foi sepultado no lugar chamado S. Francisco, consagrado -ao nosso Patriarcha, como premicias dos Capuchinhos -Francezes.» (Vide tambem «<i>Éloges historiques de tous les -illustres religieux capucins de la ville de Paris, les uns -par la prédication, les autres par les vertus et sainteté -de leurs œuvres, les autres par les missions parmy les -infidelles etc. etc.</i> sob numero <i>Capucin</i> Saint Honoré 4 -(ter).)»</p> - -<p>É para sentir-se e muito que se tenha perdido ha alguns -annos o 1.º vol. d’esta importante collecção, contendo os -Annaes da Provincia.</p> - -<h3><a id="Note_84" href="#Nanchor_84">84</a> (pag. 186).</h3> - -<p>Prova esta phrase tão rigorosa do velho missionario a rapidez, -com que se espalhou na Europa o <i>avati</i>, dos brasileiros, -o <i>milho</i> dos ilheos visto, bem como o tabaco, por -Christovão Colombo na primeira viagem em 1493.</p> - -<p>Levantaram os botanicos grande questão, ainda não resolvida, -sobre a origem primitiva do milho.</p> - -<p>Pelo que diz respeito ao Brasil citamos a opinião d’um -viajante, que por seu saber pode passar por authoridade.</p> - -<p>Augusto de St. Hilaire pensa ter nascido no Paraguay, -onde o vio em estado inculto.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_401"></a>[401]</span></p> - -<p>A cultura do milho é ao Sul d’America a planta nutritiva -por excellencia, e prepara-se sua farinha por processos simples, -e que dão optimo gosto.</p> - -<p>Enviamos nossos leitores, que desejam instruir-se de tudo -quanto se refere á esta graminea para o precioso livro do -Dr. Duchesne—<i>Traité complet du maüs ou blé de Turquie</i>. -Paris. Renouard, 1833 em 8º, e para a grande obra de M. -Bonafous.</p> - -<h3><a id="Note_85" href="#Nanchor_85">85</a> (pag. 187).</h3> - -<p>Falla aqui verdade o padre Ivo, porem não se segue que -ao norte do Brasil se possa fazer vinho.</p> - -<p>O maior obstaculo, que encontra este fabrico, está no amadurecimento -do fructo sob os tropicos.</p> - -<p>No mesmo cacho ao lado de muitas uvas maduras encontra-se -grande numero de verdes.</p> - -<p>È voz corrente ter-se feito algum vinho na visinhança da -Bahia.</p> - -<p>Caminhando-se para o sul, na região temperada de Mendoza, -a uva amadurece perfeitamente, e dá vinho precioso. -(Vide, entre outras viagens a respeito d’este ponto curioso de -agricultura americana—<i>Sallusti</i>, <i>Storia delle missione del -Chile</i>. 4. vol. em 8.º Padre Barrére. <i>Nouvelle Relation de -la France equinoxiale</i>. Paris, 1743. 1º vol. em 12, pags. -53 e 54.)</p> - -<h3><a id="Note_86" href="#Nanchor_86">86</a> (pag. 187).</h3> - -<p>Trata-se aqui do fio que se extrahe com abundancia de -uma especie de Ananaz. (<i>Ananas non aculeatus</i>, <i>Pitta dictus -Plum</i>.)</p> - -<p>Com elle os portuguezes faziam meias, quasi tão procuradas -como as de seda.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_402"></a>[402]</span></p> - -<h3><a id="Note_87" href="#Nanchor_87">87</a> (pag. 191).</h3> - -<p>Não se encontra esta palavra no Diccionario de Nicot, irmão -de Villemain.</p> - -<p>Podemos affirmar, que se deve escrever <i>hansares</i>—que -significa—uma foice de grande tamanho.</p> - -<h3><a id="Note_88" href="#Nanchor_88">88</a> (pag. 192).</h3> - -<p>Fazer certo sussurro expellindo com força o ar pelo nariz. -É expressão do povo, confundida no Diccionario da Academia -com a palavra—<i>renâcler</i> «roncar» usada trivialmente -no stylo familiar.</p> - -<h3><a id="Note_89" href="#Nanchor_89">89</a> (pag. 194).</h3> - -<p>São por Cardim muito bem pintadas essas recepções de -indios.</p> - -<p>Os brasileiros não podem preferir, na bellesa da narração -e no encanto das particularidades, senão um só viajante portuguez -á Ivo d’Evreux e á Claudio d’Abbeville, e é aquelle -cujo nome acabamos de proferir.</p> - -<p>Este escriptor agradavel porem muito conciso, pertence á -ordem dos jesuitas.</p> - -<p>Foi para o Brasil em 1583, e ahi ficou revestido de todas -as dignidades até o fim de 1618: soube portanto do estabelecimento -dos francezes ao Norte do Brasil, e certamente na -Bahia soube de sua expulsão, e sobre isto infelizmente nada -disse.</p> - -<p>Fernão Cardim estava em posição bem diversa da do padre -Ivo d’Evreux.</p> - -<p>Pelas costas do Brasil, onde elle se apresentava, submettiam-se -os indios ao christianismo, perdendo sua grandeza -primitiva e conservando a maior parte dos seos usos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_403"></a>[403]</span></p> - -<p>O Missionario francez ao contrario cathequisa os indigenas, -que combatem pela sua independencia contra seos conquistadores.</p> - -<p>Os dois bons missionarios tiveram ambos a mesma sincera -indulgencia e admiração para com os povos ainda na infancia, -aos quaes pregaram, e cuja prévidencia é o seo maior -e mais terrivel defeito.</p> - -<p>As cartas de Fernão Cardim foram felizmente descobertas -pelo incansavel autor da <i>Historia geral do Brasil</i>.</p> - -<p>O Sr. Francisco Adolpho de Varnhagem não pôz seo nome -n’esta preciosa publicação, honra que aqui lhe restituimos, -e a que tem direito como homem de saber e gosto.</p> - -<p>O opusculo de Fernão Cardim tem o titulo de <i>Narrativa -epistolar de uma viagem e missão jesuitica pela Bahia, -Ilheos etc etc.</i>—<i>Lisboa</i>, 1847, em 8.º de 123 paginas.</p> - -<p>Parece-me que o sabio edictor não se lembrou de haverem -preciosas informações á respeito de Cardim e dos missionarios -contemporaneos do Brasil n’um escriptor de Toulon -por nome Jarric. (Vide <i>La 2me partie des choses plus -memorables advenues tant aux Indes orientales que autres -pays de la découverte des Portugais en l’establissement de -la foi chrestienne et catholique etc. Bordeaux 1610</i> em 4.º -É dedicado a Luiz XIII. O que n’este livro se refere ao Brasil, -e particularmente ás regiões visinhas do Maranhão, -acha-se na pag. 248 até 359.)</p> - -<p>Morreo o padre du Jarric em 1609.</p> - -<p>Foi sua obra traduzida em latim, e impressa na Colonia -em 1615.</p> - -<p>Esta traducção, augmentada em alguns lugares, foi publicada -em 4 vol. em 8.º</p> - -<h3><a id="Note_90" href="#Nanchor_90">90</a> (pag. 194).</h3> - -<p>Ha quasi certesa de não ter o nosso bom missionario lido -a narração de André Thevet, publicada em 1558, e nem a<span class="pagenum"><a id="Page_404"></a>[404]</span> -viagem mais recente de João de Lery, cujas opiniões religiosas -deviam afastal-o d’essas obras.</p> - -<p>Comparando-se estes velhos viajantes entre si, facilmente -nota-se a similhança das narrativas.</p> - -<p>Eis o que disse João de Lery á respeito da recepção, que -lhe fizeram os Tupinambás.</p> - -<p>Descrevendo as ceremonias, que fazem os <i>Tuupinambaults</i> -para receberem seos amigos, que os vem visitar, -merece dizer-se em primeiro lugar, que apenas chega o viajante -a casa do <i>Mussacat</i>, isto é, do bom pae de familia, dá -de comer aos que por ahi passam, e que elle escolher para -seo hospede, facto que se hade praticar em toda e qualquer -aldeia, por onde se transitar, sob pena de cauzar enfado se -não é procurado immediatamente. Assenta-se depois n’uma -rede onde fica por algum tempo em silencio. Vêm depois as -mulheres, sentam-se no chão, tapam os olhos com as mãos -deplorando a bôa vinda d’aquelle, cujos louvores farão em -occasião apropriada.</p> - -<p>Por exemplo:—tiveste tanto trabalho para nos vêr; tu és -bom, e valente: si é um francez, ou outro qualquer estrangeiro, -accrescentam—trouxestes para nós tão bellas obras, -como aqui não temos, e immediatamente derramam muitas -lagrymas, e assim aplaudem e lisongeam.</p> - -<p>Si o recem-chegado assentado em seo leito quer pagar-lhes as -finezas, dizendo de sua parte coisas agradaveis, não -querendo porem chorar, (como eu sei alguns dos nossos, -que vendo as maneiras d’essas mulheres perante elles, foram -tão nescios, que as imitaram) devem ao menos por fingimento -exhalar alguns suspiros.</p> - -<p>Feitos assim estes primeiros cumprimentos pelas mulheres, -entra depois o <i>mussacat</i>, isto é, o velho dono da casa, que -fingirá durante um quarto d’hora não vos vêr (caricia mui opposta -ás nossas embaixadas, cumprimentos e apertos de mão á -chegada dos nossos amigos). Chega-se depois onde estaes, e -diz <i>ereiubé</i>, isto é, chegaste? etc. etc. (vide <i>Jean de Lery,<span class="pagenum"><a id="Page_405"></a>[405]</span> -istoire d’un voyage en la terre du Brésil</i>. Rouen, 1578, -em 8º, 1ª edicção.)</p> - -<h3><a id="Note_91" href="#Nanchor_91">91</a> (pag. 195).</h3> - -<p>Ha no Brasil um sapo de grande tamanho, a que se deo -o nome de «<i>sapo boi</i>.»</p> - -<p>Claudio d’Abbeville diz—«n’aquelle paiz encontram-se -uns sapos muito grandes a que chamam <i>cururu</i>. Alguns ha -que tem mais de um pé ou pé e meio de diametro: quando -são esfolados, é impossivel dizer-se quam branca é a sua -carne, e como são bons para comer-se. Vi alguns fidalgos -francezes comel-a com apetite.</p> - -<h3><a id="Note_92" href="#Nanchor_92">92</a> (pag. 203).</h3> - -<p>Mui visivelmente falla-se aqui da lenda brasileira relativa -a <i>Sumé</i>, o legislador dos Tupys.</p> - -<p>No curioso opusculo, que a respeito d’este personagem -publicou o Sr. Adolpho de Varnhagem, conta a sua chegada -á Ilha do Maranhão, e como desappareceo na occasião, em -que se preparavam todos para sacrifical-o.</p> - -<p>A palavra—<i>Maratá</i>—nos põe em embaraços, pois debalde -a procuramos em Ruiz de Montoya: é alteração da palavra -<i>Mair</i> ou <i>Maïr</i>, tantas vezes empregada por Lery e Thevèt, -para mostrar ou indicar um estrangeiro, ou uma pessoa extraordinaria. -Não podemos dar uma resposta satisfatoria. O -Sumé, que propaga a cultura da mandióca, é barbado.</p> - -<p>Diz-se com razão ser personagem analoga a Manco Capac -dos peruanos, e ao Quetzalcoalt dos Azetecas, e ao Zamma -da America Central. (Vide Adolpho de Varnhagem, <i>Historia -geral do Brasil</i>. T. 1º pag. 136, e <i>Sumé. Lenda mytho-religiosa -americana etc. agora traduzida por um Paulista de -Sorocaba</i>. Madrid, 1855, broch. in 8 de 39 pag.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_406"></a>[406]</span></p> - -<h3><a id="Note_93" href="#Nanchor_93">93</a> (pag. 205).</h3> - -<p>O verbo <i>cantar</i> na linguagem tupy é <i>Nheengar</i>. Um <i>Nheengaçara</i> -é um cantor propriamente dito.</p> - -<h3><a id="Note_94" href="#Nanchor_94">94</a> (pag. 220).</h3> - -<p>Parecerá estranho ao leitor serem os francezes comparados -n’este lugar aos Caraibas.</p> - -<p>Os que lerem com attenção as obras de Humboldt acharão -a chave d’este enigma. Os Caraibas do continente americano, -nação immensa, eram notaveis em toda a America -pelo seo valor e penetração. Seos piayas, ou antes seos feiticeiros -os elevavam acima de todas as outras nações: eram -no Novo Mundo o mesmo que os Chaldeos no velho. Simão -de Vasconcellos nos dá a prova d’esta supremacia intellectual: -no sul do Brasil os <i>Caraibe-bébé</i>, eram feiticeiros ou advinhadores -notaveis: assim se chamavam os homens intelligentes, -os espiritos, e os anjos, e depois tambem os estrangeiros. -O Sr. Adolpho de Varnhagem fez notar, que o nome -de <i>Carayba</i> foi em seo principio dado aos Europeos, sendo -todos os Christãos assim chamados. (Historia geral, pag. -312.)</p> - -<h3><a id="Note_95" href="#Nanchor_95">95</a> (pag. 220).</h3> - -<p>Um <i>Caramémo</i> é que se chama em Guyana um <i>Pagará</i>, -isto é, um paneiro leve, feito com folhas de certa palmeira -e ás vezes com bonita forma.</p> - -<p>Claudio d’Abbeville assim tambem o chama, quando descreveo -os utensilios de uma casa indigena. Barrère fez desenhar -este lindo <i>Specimen</i>.</p> - -<h3><a id="Note_96" href="#Nanchor_96">96</a> (pag. 226).</h3> - -<p>Ivo d’Evreux, familiarisado com todos os symbolos em -voga no seo tempo, não se esqueceo de uma graciosa alegoria<span class="pagenum"><a id="Page_407"></a>[407]</span> -na qual figura o Unicornio. Vide <i>Le Monde enchantée</i>, e -especialmente a dissertação intitulada <i>Revue de l’histoire de -la Licorne par un naturaliste de Montpellier</i>. (P. J. Amoreu.) -Montpellier Durville, 1818, em 8.º 47 pags.</p> - -<h3><a id="Note_97" href="#Nanchor_97">97</a> (pag. 239).</h3> - -<p>É sabido ser esse o nome, que aos portuguezes davam -os Tupinambás.</p> - -<p><i>Pero</i> quer dizer <i>cão</i> na lingua de Camões, mas suppõe-se -que o nome—<i>Pedro</i>—muito usado no Brazil, provinha de -tão estranha designação.</p> - -<p>Ayres Casal conta até á este respeito uma historiasinha, -recorrendo á tradicção, de como um serralheiro, chamado -Pedro, fôra arremeçado pelas ondas, após um naufragio, ás -praias do Maranhão. Graças a sua habilidade no trabalho do -ferro fez-se este homem agradavel aos indios, e seo nome -com pequena modificação servio d’ahi em diante para fazer -conhecidos os individuos, que se julgavam ser da sua raça.</p> - -<p>Em sua <i>Corographia</i> o Dr. Mello Moraes escreveo esta <i>legenda</i> -muito mais completa.</p> - -<h3><a id="Note_98" href="#Nanchor_98">98</a> (pag. 242).</h3> - -<p>Não se tem procurado esclarecer por meio de uma discussão -grammatical—esta parte do livro.</p> - -<p>Differenças mui sensiveis, produzidas pelo tempo e sobre -tudo pela pronuncia, fizeram este lugar para assim dizer indicifravel. -Nada é mais dificil do que traduzir pelos caracteres -da nossa escripta os sons das linguas indigenas. Essas -inflexões tão delicadas, e as vezes tão fugitivas, em sua apparente -rudeza são dificultosamente ffixadas no papel. Notou -Humboldt pertencerem ellas algumas vezes á certos caracteres -physicos das raças.</p> - -<p>As nações européas, as mais habituadas á estes estudos, -não percebiam da mesma fórma os sons, e nem os escreviam<span class="pagenum"><a id="Page_408"></a>[408]</span> -da mesma maneira: quando os portuguezes ouvem <i>Oca</i>, -por exemplo, ou então <i>Toba</i>, o francez percebe <i>Oc</i> e <i>Tob</i>, e -quando aquelle ouve <i>Murubixaba</i> este percebe <i>Muruvichave</i>. -Deixa a differença de ser grande quando são as palavras -pronunciadas conforme o genio de cada lingua.</p> - -<p>A palavra <i>Tupinambás</i>, como se acha escripta no principio -d’esta nota, (<i>Tobinambos</i>) equivale absolutamente pelo -som na lingua portuguesa á palavra <i>Tupinambus</i>, como a -pronunciavam os contemporaneos de Malherbe.</p> - -<p>Para a historia da linguistica não é sem interesse esta -curta doutrina christã, podendo ser comparada com certas -obras do mesmo genero, escriptas por penna portuguesa, -estando n’este caso, entre outras, os canticos religiosos em -lingua tupy por Christovão Valente, os quaes incluí no -opusculo—<i>Une fête brésilienne</i>. Pariz. Techener, 1850.</p> - -<p>Não se póde achar o livro que os contem, e talvez só -exista na Bibliotheca Imperial.</p> - -<p>Reproduzimos aqui seo nome—<i>Cathecismo brasilico da -doutrina christã, com o ceremonial dos sacramentos e mais -actos parochiaes. Composto por padres doutos da Companhia -de Jesus, aperfeiçoado e dado á luz pelo padre Antonio -de Araujo da mesma Companhia, emendado nesta segunda -impressão pelo padre Bertholomeu de Lean da mesma -Companhia</i>, Lisboa, na officina de Miguel Deslandes 1861, -em 8.º pequeno. A primeira edicção foi em 1618.</p> - -<p>Si se quizesse, poder-se-ía completar este estudo comparativo -procurando os seguintes manuscriptos, citados por -Barbosa Machado, e que seria coisa curiosa si fossem publicados.</p> - -<p>Ludewig os ommittio em seo importante trabalho, completado -por Mr. Trubener. O Padre João de Jesus <i>explicação -dos mysterios da fé</i>. O Padre Manoel da Veiga <i>Cathecismo</i>. -F. Pedro de Santa Rosa <i>Confessionario</i>. André Thevèt -nos seos manuscriptos conservados na Bibliotheca Imperial -de Pariz, dá o <i>Pater</i> e o <i>Credo</i> em lingua <i>tupy</i>, depois -reproduzidos em sua grande <i>Cosmographia</i>. São preciosos<span class="pagenum"><a id="Page_409"></a>[409]</span> -estes dois documentos especialmente por sua antiguidade, -pois datam de 1556.</p> - -<p>Entre os livros d’este genero um dos mais modernos e -dos mais curiosos é o do Padre Marcos Antonio, intitulado: -<i>Doutrina e perguntas dos mysterios principaes de nossa -santa fé na lingua Brasila</i>. Foi composto em 1750 e Ludewig -menciona-o como fazendo parte das collecções do -<i>British Museum</i>.</p> - -<h3><a id="Note_99" href="#Nanchor_99">99</a> (pag. 250).</h3> - -<p>Lery ja tinha asseverado o effeito, que faz nos indios o -canto melancolico do Macauhan. A crença nos mensageiros -das almas, nos passaros propheticos ainda não se extinguio -de todo, pois ainda existe na poderosa nação dos Guayacurus, -depois de haver exercido antigamente sua poderosa -influencia em todas as tribus dos Tupys, porem o padre Ivo -deo-lhe extensão que nunca teve, visivel alteração nas antigas -ideias mythologicas.</p> - -<p>O nome d’este passaro respeitado é escripto em portuguez -<i>Acaúan</i>, e tambem <i>Macauan</i>: nutre-se de reptis, e -não tem esse aspecto sinistro, que lhe dá o nosso bom Missionario.</p> - -<p>Tem a cabeça muito grossa em relação ao corpo, é côr de -cinza, o peito e o ventre vermelhos, azas e cauda negras com -pintas brancas. Pensa hoje em dia a maior parte dos indios, -que a missão deste passaro é annunciar-lhe a chegada de algum -hospede. Consulte-se sobre o Acaúan, Accioli, <i>Corographia -Paraense</i>, e Gonçalves Dias, <i>Diccionario da lingua Tupy</i>. -Martius na palavra <i>Oacaoam</i> diz ser o Macagua de Felix -de Azara. Falco (herpethocheres).</p> - -<h3><a id="Note_100" href="#Nanchor_100">100</a> (pag. 257).</h3> - -<p>No tempo de Ivo d’Evreux, eram chamados <i>Barbeiros</i>, -os cirurgiões mais habeis, e alguns annos antes até o illustre -Ambrosio Paré era assim conhecido.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_410"></a>[410]</span></p> - -<p>Como os <i>Piayes</i>, <i>Pagé</i>, <i>Pagy</i>, <i>Boyés</i> ou <i>Piaches</i> (por todos -estes nomes são conhecidos) cuidam de curar feridas e molestias.</p> - -<p>O padre Ivo, como se verá adiante, os compára por despreso -aos barbeiros, mas entenda-se, aos barbeiros das aldeias.</p> - -<p>Este capitulo é por certo um dos mais curiosos do livro, -e deve ser com todo o cuidado comparado com o que escreveo -Simão de Vasconcellos, (<i>Chronica da Companhia de -Jesus</i>, in fol.) e com todas as <i>Memorias</i> publicadas pelo Instituto -Historico do Rio de Janeiro sobre a religião primitiva -dos indigenas, achando-se ahi bem claramente definidos os -attributos de Jeropary.</p> - -<p>É na verdade para sentir-se a falta de uma folha, porque -nos trouxe a perda de preciosos documentos de homens praticos -e habeis, que entre si conservavam as tradicções.</p> - -<h3><a id="Note_101" href="#Nanchor_101">101</a> (pag. 264).</h3> - -<p>No tempo d’esta narração eram ainda os morcegos classificados -como passaros.</p> - -<p>O que aqui diz o nosso viajante sobre os vampyros não é -exageração.</p> - -<p>Consulte-se a este respeito Ch. Watterten (<i>Excursions dans -l’Amerique meridionale</i>, p. 15 e 389.)</p> - -<p>Este sabio naturalista descreveo com minucioso cuidado o -genero da ferida, que produz o morcego americano nas pessoas, -que dormem. Matou um vampyro, que tinha 32 pollegadas -de extensão de azas abertas. Em geral são muito menores.</p> - -<h3><a id="Note_102" href="#Nanchor_102">102</a> (pag. 268).</h3> - -<p>Entre os antigos viajantes do seculo XVII é Ivo d’Evreux -o unico, como notamos, que menciona entre os Tupinambás<span class="pagenum"><a id="Page_411"></a>[411]</span> -os rudimentos de estatuaria (imperfeita sem duvida) com -applicação á mythologia d’estes povos.</p> - -<p>D’estas coisas nada escreveram Thevèt, Hans Stadens, e -Lery, Vasconcellos, Cardin e Jaboatão.</p> - -<p>Eram os Tupys unicamente caçadores, e só per accidens -se entregavam á vida agricola. Os unicos vestigios de cultura, -que d’elles conhecemos, se referem aos seos <i>Macanas</i>, -ou a sua <i>Lyvera-péme</i>, especie de armas pesadas, que elles -enfeitavam á capricho.</p> - -<p>Tinham por costume pôr um Maracá, enfeitado de bonitas -pennas na prôa de suas canôas de guerra, tão esguias como -elegantes, e será bem possivel, que a base d’esse instrumento -seja ornado de sculpturas similhantes ás que se observam -entre os insulares da Polynesia. É provavel que multiplicando-se -suas relações com os Europeos, tenham os Tupinambás -bebido entre elles ideias de sculptura rudimentar -que applicam á suas divindades grosseiras.</p> - -<p>O veridico Barrére, que escreveo mais de um seculo depois -de Ivo d’Evreux, falla de um piaya fazendo uma estatueta -de <i>Anaanh</i>, genio do mal, que não é senão o <i>Anhanga</i> -do padre Nobrega e de Anchieta, cuja terrivel missão -sobre a terra foi tão bem descripta por João de Lery, que -sempre o chamou <i>Aignan</i>.</p> - -<p>Dêem-lhe nas ilhas ou nos continentes os nomes de <i>Uracan</i>, -de <i>Hyorocan</i>, de <i>Jeropary</i>, de <i>Maboya</i>, de <i>Amignao</i>, -reconheçam-se os genios secundarios, como seos mensageiros -(apenas citarei um, o malicioso <i>Chinay</i>, que faz emmagrecer -os pobres indios sugando-lhes seo sangue.) Anhanga -teve sempre fama terrivel nos seculos XVII e XVIII.</p> - -<p>Este typo primitivo da sculptura religiosa dos Tupys foi -infelizmente aberto em madeira muito molle, e por isso não -poude resistir á acção do tempo, ou á invasão das formigas: -duvidamos que se encontre um só <i>specimen</i> de dois seculos -atraz.</p> - -<p>Eis finalmente a passagem tão curiosa de Barrére que confirma -as palavras do padre Ivo. «Tem os indios outra sorte<span class="pagenum"><a id="Page_412"></a>[412]</span> -de feitiçaria, que os singularisa. Fazem uma figura do diabo -n’um pedaço de madeira molle e sonora: esta estatua do tamanho -de tres a quatro pés é muito feia pela sua immensa -cauda, e grandes lanhos.</p> - -<p>«Chamam-na <i>Anaantanha</i> que parece dizer—<i>imagem do -diabo</i>, porque <i>Tanha</i> significa figura, e <i>Anaan-diabo</i>. Depois -de haverem soprado sobre os enfermos, trazem os <i>Piayas</i> -esta figura para fóra da <i>casa-grande</i>:</p> - -<p>«Ahi elles o interrogam, esbordoam-na á cacete, como -para obrigar o diabo, bem a seu pesar, a deixar o enfermo.» -(Vide <i>Nouvelle Relation de la France équinoxiale, contenant -la description des côtes de la Guiane, de l’isle de Cayenne, -le commerce de cette colonie, les divers changements -arrivés dans ce pays</i> etc. etc. Paris. 1743, em 12 gr.)</p> - -<p>N’um capitulo precedente Ivo d’Evreux ja fallou de uma -boneca que tinha uma especie de mecanismo, que servia -para as nigromancias do Piaya.</p> - -<p>É para sentir-se, que não se encontrasse um só d’estes -idolos nas collecções etnographicas, que então começou-se a -fazer.</p> - -<p>Poucos annos antes de haver la Ravardiere explorado o rio -do Amasonas, João Mocquet, o guarda das curiosidades do -Rei, percorreo essas praias, e seria de rara felicidade para -a archeologia americana si elle encontrasse alguns dos idolos -de que falla o padre Ivo.</p> - -<h3><a id="Note_103" href="#Nanchor_103">103</a> (pag. 271).</h3> - -<p>É mui provavel, que estas lustrações sejam feitas á imitação -das ceremonias, que entre os christãos viram os <i>Tupinambás</i>.</p> - -<p>Pode bem ser, que o mesmo aconteça á respeito da pretendida -confissão auricular de que falla o autor um pouco -mais adiante.</p> - -<p>Os antigos viajantes, Hans Staden, Lery e Thevèt nada dizem, -que tenha relação com tal costume.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_413"></a>[413]</span></p> - -<h3><a id="Note_104" href="#Nanchor_104">104</a> (pag. 272).</h3> - -<p>Parece á primeira vista ter recebido este <i>piaga</i>, tão influente, -um nome francez: assim porem não aconteceu.</p> - -<p>Havia n’esse tempo um poderoso Chefe, chamado <i>Pacquara-behu</i> -«barriga d’uma paca cheia d’agoa». <i>Pacamont</i> -pode significar a «paca agarrada na armadilha», (<i>Pacamondé</i>).</p> - -<p>O nome da terra, onde tinha influencia, significa a «região -das plantas leitosas», e escreve-se <i>Cumá</i>.</p> - -<h3><a id="Note_105" href="#Nanchor_105">105</a> (pag. 280).</h3> - -<p>Vatable ou Vateblé era um celebre sabio na lingua hebraica, -no seculo XVI, restaurador na França dos estudos -orientaes.</p> - -<p>Morreo em 1547.</p> - -<p>Suas notas sobre o antigo testamento acham-se na Biblia -de Robert Etienne.</p> - -<h3><a id="Note_106" href="#Nanchor_106">106</a> (pag. 282).</h3> - -<p>Prova-nos esta phrase ter o Padre Ivo escripto sua obra -na Europa, e saber da missão dirigida pelo Padre Archangelo.</p> - -<p>Affirma Marcellino de Piza terem 565 indios recebido o -baptismo n’esta segunda expedição religiosa. (Vide <i>Annales -historiarum ordinis minorum</i>. Lugd. 1676 in fol.)</p> - -<p>O Padre Archangelo, acompanhado por 12 confrades, portador -de magnificos ornamentos bordados pela Duqueza de -Guize devia por certo cercar-se de outra pompa, que não -tiveram os quatro Geraes Capuchinhos, que deram principio -á missão.</p> - -<p>Graças aos documentos, que nos são proporcionados pela -marinha, e que devemos ao obsequio do Sr. P. Margry, -soubemos por uma carta inedicta do Sr. de Beaulieu a Mr.<span class="pagenum"><a id="Page_414"></a>[414]</span> -de Razilly, que o Padre Archangelo, muito conhecedor do -valor do dinheiro abstrahindo o seo voto de pobresa, não -quiz embarcar-se antes de lhe haverem dado a esperança -de conseguir subsidios.</p> - -<p>Apesar dos recursos, de que dispunha o seo chefe espiritual, -ainda está por fazer a historia d’esta segunda missão: -não deixou até vestigios, e ficará para sempre ignorada em -quanto não descobrirmos o livro de Francisco de Bourdenare.</p> - -<p>Sabemos apenas que muito mais favorecido, que Ivo d’Evreux, -por seos superiores, recebeo, graças ás suas cartas -de obediencia, o direito de admittir noviços em seo Convento.</p> - -<p>Não teve tempo de utilisar-se de tal privilegio, mas quando -regressou á Europa, em recompensa do seo zelo foi em -1615 nomeado Guardião do grande Convento da rua de Santo -Honorato.</p> - -<p>Todos estes factos, omittidos naturalmente pelos historiadores -do Maranhão, acham-se referidos nos <i>Éloges historiques</i>, -manuscripto da Bibliotheca Imperial, e seria injustiça -esquecer serem elles tambem narrados pelo Padre Marcellino -de Piza.</p> - -<p>Depois de haver contado como o Geral dos Capuchinhos -Paulo de Caesena deo licença á Honorato de Pariz, então -Provincial, para mandar á America uma segunda missão, -disse:—«<i>Ille nihil cunctatus, duodecim fratres ad hanc -expeditionem, aptos elegit quorum animosa phalanx navem -conscençâ secedens in Indiam, a barbara illa natione jam -capucinorum placidis moribus assueta per humaniter fuit -excepta</i>.»</p> - -<p>Na entrada dos portuguezes o Padre Archangelo de Pembroke -retirou-se com os Capuchinhos francezes ficando em -lugar d’elles os Franciscanos, que em numero de vinte se -recolheram ao Mosteiro.</p> - -<p>Sob a direcção de Frei Christovão Severino teve então o -Convento nova regra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_415"></a>[415]</span></p> - -<p>Foram as bases lançadas em 1624 porem só foram cumpridas -pontualmente em 4 de Agosto do anno seguinte.</p> - -<p>Abstemos-nos porem de offerecer ás vistas do leitor as desgraçadas -peripecias, porque passou este Mosteiro durante -225 annos: basta dizer, que no fim de um seculo estava -quasi reduzido a ruinas.</p> - -<p>Em 1860 o actual Guardião, que tinha sob seo governo -somente dois franciscanos, mas que soube felizmente captar -as sympathias dos habitantes de São Luiz, recorreo á caridade -publica afim de concertar-se como merece este edificio, -a que se ligam interessantes recordações do paiz.</p> - -<p>A Ordem é actualmente muito pobre, porem offerece -grande contraste, segundo é voz geral, quando em seo zelo -é comparada com outros Conventos<a id="FNanchor_64" href="#Footnote_64" class="fnanchor">[BL]</a> opulentos da Cidade, -que estão se arruinando.</p> - -<p>Não foram em vão as supplicas de Frei Vicente de Jesus, -pois elle arrecadou grandes quantias, que chegaram para -reparar os estragos do tempo.</p> - -<p>Conservando a humilde Capella, onde orou o Padre Ivo -d’Evreux, fizeram-se novas edificações que tornaram a Igreja -de Santo Antonio a mais linda de tão bella Cidade.</p> - -<h3><a id="Note_107" href="#Nanchor_107">107</a> (pag. 301).</h3> - -<p>É mui curioso vêr aqui o Padre Ivo d’Evreux fazer uma -especie de allusão á antigas crenças d’esses povos, as quaes -Thevet, ou talvez o Cavalheiro de Villegagnon tinham guardado -desde 1555, e que parece ser ignoradas pelos nossos -viajantes do Seculo XVI, pois não tratam d’ellas em suas -narrações.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_416"></a>[416]</span></p> - -<p>Uma nota, mesmo concisa nos levaria muito longe, e vêr-nos-iamos -forçados a chamar a attenção do leitor para um -opusculo, no qual reunimos tudo o que podemos encontrar -á respeito das ideias mythologicas dos Tamoyos e dos Tupinambás. -(Vide sobre os <i>Maraïta—Une fête bresilienne célébrée -à Rouen em 1550 suivie d’un fragment du XVIme siécle -roulant sur la Théogonie des anciens peuples du Brésil</i>. -Paris, Techener, 1850 gr. in 8.º)</p> - -<h3><a id="Note_108" href="#Nanchor_108">108</a> (pag. 301).</h3> - -<p>A legenda brazileira de geração em geração transmittio a -narração das perigrinações de dois prophetas, bem distinctos, -igualmente estimados por esses selvagens, que os -chamou <i>Tamandaré</i> e <i>Sumé</i>.</p> - -<p>Como Boudaha, deixou o ultimo impressas as suas pegadas -sobre a rocha viva, quando deixou a terra.</p> - -<p>O mytho de Tamandaré, que se lê na descripção do diluvio -americano, é contado extensamente por Vasconcellos -nas suas <i>Noticias do Brazil</i>, pag. 47 e 48.</p> - -<p>Ahi se lerá como o Noé americano subindo ao cume de -uma palmeira, que tocava com o seo vertice o Ceo, e agarrando -d’ahi sua Familia poude salval-a, e com ella repovoou -a terra.</p> - -<p>Na phrase aqui citada, Ivo d’Evreux alludio ao legislador -mais moderno, Sumé, este Triptolémio brazileiro, que ensinou -a cultura da mandióca aos descendentes de Tamandaré.</p> - -<p>Simão de Vasconcellos diz mui positivamente, que «havia -entre elles tradicção muito antiga, transmittida de paes a -filhos, dizendo haverem apparecido, muitos seculos depois -do diluvio, homens brancos n’estas terras, que fallavam aos -povos de um só Deos e de outra vida. Um d’elles chamava-se -<i>Sumé</i>, que parece quer dizer <i>Thomé</i>.»</p> - -<p>Preferindo a tradicção, que dá a São Bartholameu a honra -de haver evangelisado os povos longiquos, provou com isto -o Padre Ivo o seo conhecimento das origens.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_417"></a>[417]</span></p> - -<p>Com effeito, segundo diz Eusebio, chegou este Apostolo -viajante até a extremidade das Indias, São Pantene percorreo -o interior da Asia desde o III seculo, e ahi já achou -vestigios do christianismo, que bem se podiam attribuir ás -prédicas de Sam Bartholameo.</p> - -<p>Prevaleceo comtudo no Brasil a legenda em contrario, -como a outra na India. (Vide <i>Jornada do Arcebispo de Goa -dom Frei Aleixo de Menezes, quando foi ás serras de Malauare, -lugares em que moram os antiguos christãos de S. -Thomé</i>. Coimbra, 1606, in fol.)</p> - -<p>No tempo de Vasconcellos bem visiveis eram os signaes -dos pés de S. Thomé, ao norte do porto de S. Vicente, perto -da Villa.</p> - -<p>Estes signaes de dois pes nùs por maravilha impressos na -rocha (<i>tão vivos e expressos, como si em um mesmo tempo -juntamente se fizeram</i>) não eram vistos debaixo d’agoa.</p> - -<p>O religioso franciscano Jaboatam achou no Recife, em Pernambuco, -pegàdas santas.</p> - -<p>N’esta segunda edicção da legenda, somente apparece um -pé como o de um menino de 5 annos, que suppõe ser o -piedoso narrador o de um jovem companheiro do Apostolo. -(Vide <i>Novo Orbe Serafico</i>, reimpresso ultimamente pelos esforços -do <i>Instituto Historico e Geoqraphico do Rio de Janeiro</i>.)</p> - -<p>Não se encontram esses afamados signaes somente em -diversos pontos do littoral, e sim em outros lugares, o que -seria enfadonho enumerar.</p> - -<p>Não contentes ainda com isto fizeram com que o santo -viajante se embrenhasse corajosamente pelo interior do Brasil, -onde em caracteres gigantescos sobre pedras ou rochas -escreveo a historia da sua missão.</p> - -<p>Ha em Minas uma aldeia, a que se deo o nome chamando-a -<i>Sam Thomé das Lettras</i>.</p> - -<p>Um observador circumspecto, o general Cunha Mattos, -não vio taes inscripções, e combateo a tradicção dizendo -que esses traços phantasticos, que se observam n’um dos<span class="pagenum"><a id="Page_418"></a>[418]</span> -lados da <i>Serra das lettras</i> foram formados por accidentes -de terreno, isto é, por dendrites, para servir-me de suas -expressões. (Vide <i>Itinerario do Rio de Janeiro ao Pará e -Maranhão</i>. Rio de Janeiro. 1836. 2 vol. em 8.º T. 1.º -pag. 63).</p> - -<p>Dura até hoje esta opinião sobre a gigantesca inscripção -da <i>Serra das lettras</i>, e acredita-se actualmente serem devidos -a infiltração de particulas ferruginosas obrando sobre -o grão da serra, e por est’arte simulando caracteres escriptos.</p> - -<p>No Brasil são muitos os hieroglyphos grosseiramente embutidos, -e ninguem duvida serem devidos á origem indigena. -Muitas obras nos mostram os seos <i>fac-simile</i>.</p> - -<p>A grande viagem pitoresca de Mr. Debret tem dois, que -não deixam de ter interesse.</p> - -<p>Fallamos da inscripção do monte de <i>Anastabia</i>, e das -esculpturas embutidas n’uma rocha, que se encontra perto -das margens do rio Yapurá, na provincia do Pará, bem -pode ser que as palavras do Padre Ivo se refiram á este -monumento, grosseiramente trabalhado, e de que trata Mr. -Debret na pag. 46 do seo T. 1º, porem em alguns não acha -a mais prevenida imaginação bases para assentar uma opinião -historica ou religiosa.</p> - -<p>Pelo que se refere <i>ás rochas incisadas</i>, de que falla o -nosso bom frade, é tradicção geral em toda a America, que -estes accidentes, resultados de grandes commoções da natureza, -são sempre explicados pela legenda indigena, que os -attribue ao supremo poder de um semi-Deos, que, a sua vontade, -quebra as montanhas mais resistentes ao trabalho do -homem e, algumas vezes, até os mais gigantescos.</p> - -<p>Em Nova-Granada o salto de Tequendama não teve outra -origem, pois foi feito, como se sabe, pelo grande Bochica: -poderiamos tambem citar a abertura feita no <i>recife</i>, que -margina o littoral de Pernambuco, e que se attribue ao -grande Sumé, ou ao seu representante christão, o Apostolo -viajante. (Vide Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão, <i>Novo<span class="pagenum"><a id="Page_419"></a>[419]</span> -Orbe Serafico Brasilico</i>, ou <i>Chronica dos frades menores -da provincia do Brasil</i>. 2.ª edicç. Rio de Janeiro. 1858.)</p> - -<p>Jaboatão escreveu em 1761.</p> - -<h3><a id="Note_109" href="#Nanchor_109">109</a> (pag. 311).</h3> - -<p>Tinha este chefe indigena um nome bem conhecido na -ornithologia do Brasil. O <i>Jacupema</i> é o <i>Penelopsupereiliaris</i> -uma das melhores caças do Brasil.</p> - -<h3><a id="Note_110" href="#Nanchor_110">110</a> (pag. 334.)</h3> - -<p>Na familia dos Foulon, de que gozava muita consideração em -Abbeville, tinham muitos dos seos membros se dedicado á -vida monastica.</p> - -<p>O padre Marçal esteve em Pariz com seo irmão o padre -Claudio; este ultimo, cujo artigo está tão cheio de erros na -biographia universal, era ja guardião do convento na sua -patria desde 1608, mas, como o padre Ivo, começou o seo -noviciado em 9 de junho de 1595.</p> - -<p>A bibliotheca do Arsenal possue um opusculo, hoje raro, -do padre Claudio, cujo titulo é—<i>L’arrivée des Pêres Capucins -et la conversion des sauvages a nostre sainte Foy déclarés -par le R. P. Claude d’Abbeville, prédicateur capucin -à Paris</i>, chez Jean Nigaut, rue de St. Jean de Latran, em -1613. Pode comparar-se este escripto com o artigo intitulado—<i>Retour -du sieur de Rasilly en France et des -Toupinambous qu’il amena á Paris.</i> <i>Mercure française</i>. T. 3, -pag. 164. <i>L’histoire chronologique de la bienheureuse Colette, -réformatrice des trois ordres du Seraphique Pere St. -François.</i> Paris. Nicolas Buon, 1628, em 12: não é do padre -Claudio, como suppõe Eyriés. A dedicatoria tem a assignatura -de Fr. S. d’A, indigno capuchinho. Já tinha morrido -Claudio d’Abbeville quando appareceo esta obra. Depois de -ter 23 annos de religião, falleceo em Ruão em 1616 e não -em 1632.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_420"></a>[420]</span></p> - -<h3><a id="Note_111" href="#Nanchor_111">111</a> (pag. 335).</h3> - -<p>Leia-se <i>Plymouth</i>: Claudio d’Abbeville escreve <i>Pleme</i>.</p> - -<h3><a id="Note_112" href="#Nanchor_112">112</a> (pag. 335).</h3> - -<p>Trata-se aqui do <i>Rio do Ouro</i>.</p> - -<h3><a id="Note_113" href="#Nanchor_113">113</a> (pag. 336).</h3> - -<p>Difficilmente por este nome se sabe ser a <i>Ilha de Fernão -de Noronha</i>, e não <i>Fernando de Noronha</i>, como escreve -alguns geographos.</p> - -<p>Está a 75° long. E. N. E. do Cabo de Sam Roque, e na -lat. de 3° 48, á 52′. Explica-se esta alteração de nome pela -sua visinhança do Cabo de Sam Roque.</p> - -<p>Alguns viajantes antigos escreveram <i>Fernando de la Rogne</i>: -n’esse caso está o padre Claudio.</p> - -<h3><a id="Note_114" href="#Nanchor_114">114</a> (pag. 337).</h3> - -<p>Omittio o padre Claudio d’Abbeville esta ultima circumstancia.</p> - -<h3><a id="Note_115" href="#Nanchor_115">115</a> (pag. 339).</h3> - -<p>Leia-se <i>Tupan</i> em vez de <i>Iupan</i>. Quanto a palavra Matarata, -que ahi se lê, não se pode entender pelo adjectivo -<i>Mbaraeté</i>, que significa—<i>forte</i>. Parece estar sob esta significação -no <i>Tesoro de la lingua Guarany</i>, do padre Ruiz de -Montoya.</p> - -<h3><a id="Note_116" href="#Nanchor_116">116</a> (pag. 341).</h3> - -<p>O capitão du Manoir estava ha muito tempo estabelecido -na Ilha, onde tinha muitas relações.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_421"></a>[421]</span></p> - -<p>Foi elle quem hospedou os Missionarios, e lhes offereceo -uma festa «tão magnifica como podia ser em França» disse -o padre Claudio, a qual assistiram os Srs. de Rasilly e Pezieux. -Foi da sua habitação que partiram os nossos para tomar -posse do lugar, onde se edificou o <i>Forte de Sam Luiz</i>. -Regressou á França antes de ser o Maranhão tomado pelos -portuguezes.</p> - -<p>Quando evacuaram as nossas forças navaes o porto do Maranhão, -muitos francezes não seguiram o exemplo de Manoir, -e se estabeleceram na nova Colonia, onde só foram permittidos -artistas.</p> - -<p>Erraria quem suppozesse ter sido abandonada a missão -fundada com tanto zelo pelos nossos Religiosos: sem a menor -alteração foram incumbidos d’ellas os Franciscanos: a -este respeito achou-se tudo quanto podia desejar-se no <i>Orbe -Seraphico</i> do padre Jaboatão.</p> - -<p>Contem este resumo uma longa biographia de Frei Francisco -do Rosario, frade celebre na Ordem de Sam Francisco, -que tomou posse do Convento dos Capuchinhos perto de dez -annos depois, que estes o abandonaram de todo.</p> - -<p>Embrenhava-se muitas vezes este zeloso Missionario nos -desertos desconhecidos do Maranhão, onde ia cathequisar -os indios.</p> - -<p>Em 1630 compôz uma obra aproveitavel sobre as tribus -que visitou. Infelizmente nunca foi publicada, e o seria se -fosse encontrada, como precioso commentario á obra do -padre Ivo.</p> - -<p>Cansado por seos trabalhos, cuja multiplicidade espanta -até a imaginação, foi para a Bahia, onde revestido das dignidades -da ordem falleceo com cheiro de santidade em 24 -de fevereiro de 1650.</p> - -<p>Afirma-se haver elle predicto muitos annos antes os grandes -acontecimentos politicos, que, produzindo a expulsão da -Hespanha, dava independencia ao Brasil.</p> - -<p>Parece que vio-se obrigado a reconstruir em 1625 os edificios -que deixaram em começo os nossos Religiosos, e por<span class="pagenum"><a id="Page_422"></a>[422]</span> -isso foi elle em Sam Luiz julgado como o primeiro fundador -do Convento da sua Ordem.</p> - -<p>Vamos ainda dizer uma palavra para acabar estas notas. -Serão ellas ainda um dia completadas pelo trabalho, que ha -de preceder a <i>Relação do Padre Claudio d’Abbeville</i>, e si se -quizer, o podem ser ja, consultando se varias obras francezas -contemporaneas, absolutamente despresadas, sob este -ponto de vista, pelos historiadores da America. N’este caso, -entre outros, está o padre Pedro du Jarric, pois, na verdade, -ninguem pensaria achar n’uma <i>Historia das Indias orientaes</i> -todos os factos religiosos, acontecidos em Maranhão antes de -1607.</p> - -<p>Consultando-se o 5.º volume d’esta volumosa obra, encontra-se -a tragica historia dos padres Francisco Pinto e -Luiz Figueira, jesuitas portuguezes, os primeiros que visitaram -os desertos desconhecidos, cujo littoral occuparam os -francezes.</p> - -<p>Francisco Pyrard, o viajante Belga, residente na pequena -cidade de Laval, nos contou tambem na sua <i>Relação das -Indias e especialmente das Ilhas Maldivas</i>, o que na Europa -se pensava do Brasil no tempo, em que viveo o padre -Ivo. Não trata do Maranhão, e bem o podia fazer.</p> - -<p>Deve ainda dizer-se que esta bella provincia, conhecida -mais pela obra de Mr. Herald do que por outras antigas, -ficou por muito tempo fóra da toda a vida politica.</p> - -<p>Doada a principio aos filhos de José de Barros, o famoso -historiador das Indias, só foi conhecida na Europa por uma -lastimavel catastrophe, pois era esquecida apesar da fertilidade -e da magnificencia da sua vegetação.</p> - -<p>Apparece comtudo n’um dos monumentos geographicos mais -importantes, onde se verificou o que era o Brasil no seculo -XVI: queremos fallar da bella <i>Carta</i> de Gaspar Viegas, que -tem a data de outubro de 1534, hoje na Bibliotheca Imperial -de Paris.</p> - -<p>Nenhum historiador até hoje ainda a mencionou, apezar de -sua exactidão tão admiravel para aquelles tempos e ainda<span class="pagenum"><a id="Page_423"></a>[423]</span> -continuaria a ser esquecida se o Sr. de Cortambert não nos -fizesse o favor de communicar-nos a sua existencia.</p> - -<p>Sentimos muito praser recordando-nos, que este bello trabalho -do desconhecido geographo vae de hora em diante -ligar-se ao mais vasto e ao mais exacto reconhecimento das -costas do Brasil, que tem podido obter a sciencia n’estes ultimos -tempos, e d’ella fará objecto de especial estudo o Sr. -capitão da fragata Mouchez na sua grande obra nautica a -respeito do littoral do Brasil.</p> - -<p>Deviam acabar aqui as notas indispensaveis para conhecer-se -na França e mesmo na America o texto do nosso velho -viajante.</p> - -<p>Accrescentaremos apenas uma palavra, talvez indispensavel -para comprehender-se o valor do documento por nós -exhumado.</p> - -<p>O padre Arsenio de Pariz, o fiel companheiro do padre -Ivo d’Evreux, disse em 1613 ao Superior do seo Mosteiro -á proposito das regiões, por onde evangelisou, o seguinte:</p> - -<p>«Eu vos asseguro, meo padre, que quando estiver um -pouco estabelecido, será um verdadeiro paraiso terrestre.»</p> - -<p>A esperança do bom Religioso não era das que se podem -realisar completamente: não caminham assim as coisas neste -mundo, porem não sendo o paraiso, é o Maranhão uma das provincias -de um vasto Imperio, que vae progredindo.</p> - -<p>No meio de prosperidades reaes, e apezar dos esforços de -espiritos felizmente bem intencionados, o progresso intelletual -do paiz está muito longe do que devia ser.</p> - -<p>As recordações do passado, que tanto desenvolvem as -populações, ahi não existem.</p> - -<p>Não ha archivos, bibliothecas publicas, e nem instituições -litterarias, e tanto é verdade isto, que o Imperador, o Sr. -D. Pedro 2º, ha dez annos incumbio um dos homens mais -activos e eminentes d’este paiz para examinar na Cidade de -Sam Luiz o estado real dos depositos litterarios da Capital -do Maranhão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_424"></a>[424]</span></p> - -<p>Não reproduziremos aqui as queixas judiciosas e bem fundadas -do Sr. Gonçalves Dias sobre o lamentavel estado dos -estabelecimentos, objecto de suas investigações.</p> - -<p>Pode lêr-se o seo <i>Relatorio</i> escripto em bom estylo na -<i>Revista Trimensal</i> publicada com tanto zelo pelo Instituto -Historico do Rio de Janeiro.</p> - -<p>Citaremos apenas, que ha dez annos, Gonçalves Dias achou -2:000 volumes na Bibliotheca Publica e no Almanach de -1860, edictado pelo Sr. B. de Mattos, apparecem 1:030 em -deploravel estado!</p> - -<p>Possa a reimpressão da obra do padre Ivo d’Evreux marcar -uma nova era na patria de Odorico Mendes, de Gonçalves -Dias, e de João Lisboa.</p> - -<p class="titlepage">FIM.</p> - -<div class="footnotes"> - -<h3>NOTAS</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_59" href="#FNanchor_59" class="label">[BG]</a> Consulte-se a respeito de todos estes assumptos o meo <i>Diccionario -historico e geographico do Maranhão</i>. Iria longe se eu -quizesse acompanhar <i>parí passu</i> esta publicação, onde não poucas -vezes foi illudida a bôa fé de Mr. Ferdinand Diniz.—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_60" href="#FNanchor_60" class="label">[BH]</a> Outro engano. Aqui não se conhece esta dóca.—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_61" href="#FNanchor_61" class="label">[BI]</a> 40 leguas? Não, e sim 4 leguas. Vide art. <i>Alcantara</i> no -meo <i>Diccionario</i>.—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_62" href="#FNanchor_62" class="label">[BJ]</a> É engano. O major Fidié não foi vencido, e sim capitulou -honrosamente em 1.º de Agosto de 1823. (Vide <i>Historia da Independencia -do Maranhão</i> (1822 a 1823) pelo Dr. Luiz Antonio -Vieira da Silva, hoje Senador do Imperio, pag. 109 a 127.)—Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_63" href="#FNanchor_63" class="label">[BK]</a> Mr. Ferdinand Diniz foi illudido por escriptos politicos, embora -habilmente manejados porem sempre com paixão.</p> - -<p>Não foi o Conselheiro Furtado a quem se deve esse estado de -paz, e sim a outro cidadão como ja disse no meo <i>Diccionario</i> -neste trecho que para aqui transcrevo.</p> - -<p>—Durou este triste e lamentavel estado de ferocidade ou dezespero -até o tempo, em que o fallescido Dr. Eduardo Olympio -Machado perante os escolhidos da Provincia em 1851 recitou -estas palavras:</p> - -<p>«A febre homicida, que ía lavrando pelo municipio de Caxias, -tem feito, vae para tres mezes, prolongada remissão. E qual o -reagente que conseguio acalmar seos lugubres accessos? A -energia e actividade do actual delegado de policia o Dr. João -de Carvalho Fernandes Vieira, o qual, formando culpa aos delinquentes, -perseguindo-os com incansavel zelo, devassando as -casas de certos individuos, que até então contavam, senão com -acquiescencia, com o silencio da auctoridade publica, tem conseguido -restituir á tranquilidade o districto de sua jurisdicção.»</p> - -<p>Foram estes valiosos e importantes serviços apreciados pelo -Governo Central, pois mandou por mais de um Aviso louvar o -Dr. João de Carvalho.</p> - -<p>D’ahi a poucos annos houve quem intentasse arrancar esses -louros da fronte do energico e activo ex-juiz municipal e delegado -de policia de Caxias para offerecer a outro, que nada fez, -não cuidando da historia que tudo registra e a todos faz justiça!</p> - -<p>Esta acção, por demais injusta, nos faz lembrar estes versos do -poeta de Mantua:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0">Hos ego versiculos feci: tulit alter honores</div> - <div class="verse indent0">Sic vas non vobis, nidificates, aves etc etc.</div> - </div> -</div> -</div> - -<p>Do traductor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_64" href="#FNanchor_64" class="label">[BL]</a> É injustiça confundir-se nesta censura o Convento do Carmo, -graças ao zelo do seo benemerito Provincial o Revd. Frei -Caetano de Santa Rita Serejo.—Do traductor.</p> - -</div> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak" id="INDICE">INDICE.</h2> - -</div> - -<table summary="Indice"> - <tr> - <td><a href="#AO_LEITOR">Ao leitor</a></td> - <td class="tdpg"></td> - </tr> - <tr> - <td>Introducção</td> - <td class="tdpg"><a href="#INTRODUCCAO">1</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Ao Rei</td> - <td class="tdpg"><a href="#AO_REI_I">1</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Ao Rei</td> - <td class="tdpg"><a href="#AO_REI_II">3</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Prefacio</td> - <td class="tdpg"><a href="#PREFACIO">7</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz do - Maranhão</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_I">9</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do estado do poder temporal em sua primitiva</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_II">11</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da construcção do Forte de S. Luiz, e do interesse dos - selvagens em carregar terra</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_III">14</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem ao - Amazonas</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_VII">19</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Partida dos francezes para o Amazonas em companhia dos - selvagens</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_VIII">23</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do que aconteceo na Ilha durante esta viagem, e principalmente - das astucias de um selvagem chamado Capitão</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_IX">27</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da chegada de uma barca portugueza a Maranhão</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_X">31</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XIII">36</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos e - como escravisam seos inimigos</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XIV">40</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Leis do captiveiro</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XV">44</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Outras leis para os escravos</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XVI">48</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Quanto são misericordiosos os selvagens para com os criminosos - por acaso e sem malicia</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XVII">52</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Quanto é facil civilisar os selvagens á maneira dos francezes - e ensinar-lhes os officios que temos em França</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XVIII">58</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Quanto são aptos os selvagens para aprenderem sciencias - e virtudes</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XIX">63</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Continuação do objecto antecedente</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XX">67</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada - inviolavelmente pela mocidade</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXI">71</a></td> - </tr> - <tr> - <td>A mesma ordem e respeito é observada entre as raparigas - e as mulheres</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXII">79</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da consaguinidade entre os selvagens</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXIII">84</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dos caracteres incompativeis entre os selvagens</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXV">90</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da economia dos selvagens</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXVI">94</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do cuidado que do seo corpo tem os selvagens</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXVIII">95</a></td> - </tr> - <tr> - <td>De algumas indisposições naturaes, a que os selvagens se - acham sujeitos, e quaes os nomes que dão aos membros - do corpo</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXIX">101</a></td> - </tr> - <tr> - <td>De algumas molestias particulares á estes paizes de indios - e de seos remedios</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXX">106</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da morte e dos funeraes dos indios</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXI">111</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do regresso á ilha do Sr. de la Ravardiere e de alguns - Principaes, que o seguiram</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXII">116</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Viagem do capitão Maillar pela terra firme á casa de um - grande feiticeiro. Descripção desta terra e das zombarias - d’elle</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXII">120</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos, suas - habitações e procedimento</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXIV">125</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuytapéra e da - viagem ao Uarpy</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXV">129</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dos astros e do sol </td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXVI">132</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Ventos, chuvas, trovões e relampagos em Maranhão e suas - circumvisinhanças </td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXVII">135</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Mar, agoas e fontes do Maranhão </td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXVIII">139</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Singularidades de algumas arvores do Maranhão </td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XXXIX">141</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dos peixes, passaros e lagartos, que se encontram n’estes - paizes </td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XL">146</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da pesca do Pery </td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLI">148</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLIII">153</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Das aranhas, cigarras e mosquitos</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLIV">165</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dos grilos, dos camaleões e das moscas</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLV">160</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Das onças e dos macacos do Brazil</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLVI">173</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos d’aquelle - paiz</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLVII">178</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á - respeito das Indias Occidentaes </td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLVIII">184</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Instrucção para os que vão pela primeira vez ás Indias</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_XLIX">189</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do acolhimento, que fazem os selvagens aos francezes recem-chegados, - e como convem proceder para com elles</td> - <td class="tdpg"><a href="#I_CAPITULO_L">193</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dos fructos do Evangelho, que appareceram cedo pelo baptismo - de muitos meninos</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_I">201</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do baptismo de muitos enfermos e velhos, que falleceram - depois de christãos</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_II">210</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do baptismo de muitos adultos, especialmente d’um chamado - Martinho</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_III">217</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Do que fez este christão em beneficio da instrucção e conversão - dos seos similhantes</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_IV">225</a></td> - </tr> - <tr> - <td>De um Indio condemnado á morte, que pedio o baptismo - antes de morrer</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_V">230</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens - quando nos vinham vêr, para chamal-os ao conhecimento - de Deos e á obediencia de nosso Rei</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_VI">234</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Formulario da doutrina christã, que aprendiam e recitavam - de cór, antes de serem baptisados</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_VII">241</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos, - dos espiritos e da alma </td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_VIII">246</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em - suas cadeias por tão longo tempo estes selvagens</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_IX">252</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Como falla o diabo aos feiticeiros do Brasil, suas falsas - profecias, idolos e sacrificios</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XI">259</a></td> - </tr> - <tr> - <td>De algumas outras ceremonias diabolicas praticadas pelos - feiticeiros do Brasil</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XII">271</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Claros signaes do reino do diabo em Maranhão</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XIII">275</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer e começarão - a restabelecer o reinado de Jesus Christo</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XIV">283</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro de - Commã</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XVI">289</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Segunda conferencia que tive com Pacamão</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XVII">296</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XVIII">304</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Conferencia com Jacupen</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XIX">311</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Conferencia com o principal de Orubutin</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XX">317</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Conferencia com o Onda, um dos principaes de Commã</td> - <td class="tdpg"><a href="#II_CAPITULO_XXI">321</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Congratulação á França etc. etc.</td> - <td class="tdpg"><a href="#ADDENDUM">329</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Fidelissima narração etc. etc.</td> - <td class="tdpg"><a href="#Fidelissima">334</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Narração d’um marinheiro</td> - <td class="tdpg"><a href="#marinheiro">344</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Notas criticas e historicas por Mr. Ferdinand Diniz</td> - <td class="tdpg"><a href="#NOTAS">347</a></td> - </tr> -</table> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Viagem ao norte do Brazil feita nos -annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D, by Ivo D'Evreux - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL *** - -***** This file should be named 63258-h.htm or 63258-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - 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Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our Web site which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. - - - -</pre> - -</body> -</html> diff --git a/old/63258-h/images/cover.jpg b/old/63258-h/images/cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 3a0626a..0000000 --- a/old/63258-h/images/cover.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/63258-h/images/footer1.jpg b/old/63258-h/images/footer1.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 8fe598e..0000000 --- a/old/63258-h/images/footer1.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/63258-h/images/footer2.jpg b/old/63258-h/images/footer2.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 3b25a5a..0000000 --- a/old/63258-h/images/footer2.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/63258-h/images/footer3.jpg b/old/63258-h/images/footer3.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index e63e56e..0000000 --- a/old/63258-h/images/footer3.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/63258-h/images/footer4.jpg b/old/63258-h/images/footer4.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 823bb27..0000000 --- a/old/63258-h/images/footer4.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/63258-h/images/tp-deco.jpg b/old/63258-h/images/tp-deco.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index dda26ea..0000000 --- a/old/63258-h/images/tp-deco.jpg +++ /dev/null |
