diff options
Diffstat (limited to 'old/63258-0.txt')
| -rw-r--r-- | old/63258-0.txt | 17485 |
1 files changed, 0 insertions, 17485 deletions
diff --git a/old/63258-0.txt b/old/63258-0.txt deleted file mode 100644 index a0e0437..0000000 --- a/old/63258-0.txt +++ /dev/null @@ -1,17485 +0,0 @@ -The Project Gutenberg EBook of Viagem ao norte do Brazil feita nos annos -1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux, by Ivo D'Evreux - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most -other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux - -Author: Ivo D'Evreux - -Annotator: Ferdinand Diniz - -Translator: Cesar Augusto Marques - -Release Date: September 21, 2020 [EBook #63258] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL *** - - - - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was -produced from images generously made available by Cornell -University Digital Collections) - - - - - - - - - - -VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL PELO PADRE IVO D’EVREUX - - - - - VIAGEM - AO - NORTE DO BRASIL - FEITA NOS ANNOS DE 1613 A 1614, - - PELO PADRE - IVO D’EVREUX - RELIGIOSO CAPUCHINHO - - PUBLICADA CONFORME O EXEMPLAR, UNICO, CONSERVADO NA BIBLIOTHECA - IMPERIAL DE PARIZ - - COM INTRODUCÇÃO E NOTAS - POR - MR. FERDINAND DINIZ, - CONSERVADOR DA BIBLIOTHECA SANTA GENOVEVA - - Traduzida pelo - DR. CEZAR AUGUSTO MARQUES - Cavalleiro da Real e Militar Ordem Portuguesa de Nosso Senhor - Jesus Christo, Cavalleiro e Official da Imperial Ordem da Rosa, - Membro do Instituto Historico, Geographico, e Ethnographico - do Brazil, da Sociedade Geographica de Pariz, e socio - correspondente, effectivo, honorario e benemerito de muitas - outras sociedades litterarias e scientificas, nacionaes e - estrangeiras. - - MARANHÃO—1874. - - Maranhão.—Typ. do Frias, r. da Palma 6. - - - - -Á SAUDOSISSIMA MEMORIA, DE MEU PAE E VERDADEIRO AMIGO - -O Illm. Sr. Augusto José Marques. - - -Á vós, ó meo querido Pae, levanto, dedico e consagro este pequeno, porem -sincero monumento de minha saudade sempre viva, de meo extremecido amor, -de meo eterno reconhecimento, e de minha dôr pungente pela vossa ausencia -d’este Mundo. - -Bem sei que Deos, querendo recompensar vossas virtudes, cêdo vos tirou do -seio dos que muito vos extremeciam; mas essa ideia póde sim consolar-me, -nunca porem mitigar as vivas saudades, que me pungem a alma. - -Aceitae, ó meo bom Pae, estas flores que, ainda uma vez banhadas com -minhas lagrymas, espalho sobre vosso tumulo, a lá do Céo, onde vos -collocaram vossas virtudes e a Misericordia Divina, abençoae o vosso filho - - Cezar. - - - - -AO LEITOR. - - -A introducção, que se vae lêr, escripta pela habil penna de Mr. Ferdinand -Diniz dispensa-me de escrever um prologo, e felizmente sou substituido de -maneira muito vantajosa para os meos leitores. - -Realisei ainda uma vez um dos meos mais ardentes desejos, traduzindo -e entregando á publicidade uma das obras raras a respeito da historia -primitiva do Maranhão, que me tem merecido muitas investigações e aturado -estudo. - -Dou-me por satisfeito d’esta e de outras fadigas, si d’ellas resultar -algum proveito ao publico menos, lido para quem fiz esta traducção. - -Maranhão, 20 de outubro de 1874. - - _Dr. Cesar Augusto Marques._ - - - - -INTRODUCÇÃO. - -O Padre Ivo de Evreux e as primeiras missões do Maranhão. - - -No tempo de Luiz XIII, o magnifico Convento dos Capuchinhos da rua de -Santo Honorato contava entre seos Monges dois religiosos com o mesmo -nome—o Padre Ivo de Paris e o Padre Ivo de Evreux. O primeiro, advogado -antigo, verboso, ardente na discussão, muito versado nas ideias do seu -seculo, gosava pela cidade de alta reputação, e as biographias modernas -confirmão ainda sua fama passada: o segundo, amigo reconcentrado do -estudo, e mais ainda da humanidade, espirito observador, alma apaixonada -pelas bellezas da naturesa, prompto a acudir onde o chamava seo zelo, -não se importando da curiosidade que podia despertar, foi completamente -esquecido, e de tal forma, que, apezar de seo reconhecido merito, -decorreram 250 annos sobre seo humilde tumulo sem que uma voz amiga tenha -para elle despertado a attenção publica. - -Para que se fallasse n’este obscuro Monge foram necessarias duas cousas, -com que não se contava durante sua vida: a transformação em poderoso -Imperio dos desertos, que elle percorreo, e o amor apaixonado por certos -livros velhos, que se rehabilitam e com razão, pois elles, por si só, -narram factos que, sendo desconhecidos, fariam com que a civilisação -crescente de certos paizes caminhasse na ignorancia de sua origem. - -Tinha então o grande Convento de Pariz muitos homens condemnados á -injusto esquecimento. - -Fundado em 1575 por Catharina de Medicis,[A] havia em pouco tempo -adquerido fama de conter monges doutos em theologia, zelosos, cheios de -abnegnação e caritativos nas epidemias, a qual, quasi intacta, conservou -durante o decimo sexto seculo. - -Era n’elle, que o partido, favoravel aos religiosos regulares, vinha -procurar espiritos activos para luctar com o Bispo de Belley. - -Era sobre estes vastos terrenos, possuidos apenas pela Casa de -_Tremouille_, que existia essa immensa officina bem conhecida pelo Corpo -medico de Pariz, onde os cortesãos, assim como os mais humildes burguezes -vinham provêr-se de medicamentos, que só ahi encontravam, ou que se -preparavam com incuria notavel nos outros lugares de tão grande cidade.[B] - -Fallemos francamente: não era nem a sciencia, então incontestavel, -d’esses Religiosos, nem os resultados positivos de sua cuidadosa -administração, nem mesmo os beneficios diarios, pelos quaes eram tão -uteis ás classes necessitadas, que lhes grangearam o credito unisono, -que gosavam em Pariz, pois o deviam sobre tudo as brilhantes conversões, -realisadas recentemente no Mosteiro de Santo Honorato. - -Foi n’este Convento, que um dos maiores senhores do ultimo reinado, o -conde de Bouchage, mais conhecido depois pelo Padre Angelo de Joyeuse, -veio trocar as grandezas da Côrte, onde voluntariamente demittio-se dos -seos cargos militares, pela vida pobre e obscura que ahi se passava. - -Foi n’este sombrio asylo que um dos ramos mais illustres da familia de -Pembroke veio abjurar o calvinismo, e, renunciando vida mais brilhante, -sugeitou-se ás humildes funcções, que desde o principio do seculo lhes -foram impostos, obrigando-se a proseguir sem descanço na missão a que -voluntariamente se impozera. - -Facil nos seria abundar agora na citação de nomes celebres, e de causar -talvez admiração fazendo sobresahir os esquecidos: para ser breve devemos -porem cingir-nos ao objecto em questão.[C] - -O Padre Ivo d’Evreux e o Padre Ivo de Pariz appareceram, como dissemos, -quase ao mesmo tempo; porem a fama, sempre crescente de um, eclypsou -completamente a lembrança mui fugitiva, que o outro deixou, e até em bons -escriptos são elles confundidos. Tiveram, comtudo, bom é repetir, destino -bem differente. - -Ivo de Evreux, como dissemos, fugia em geral do bulicio politico, e -somente tomava parte nas luctas do seculo quando tinha de sustentar -algum ponto de doutrina religiosa: o segundo, muito mais moço na Ordem, -que o seo homonymo, sempre prompto a entrar nos combates, que as Ordens -Regulares sustentavam algumas vezes contra o poder ecclesiastico, tinha -por isto adquirido muita fama, com que bastante se gloriava o Mosteiro. - -Era notado não só como orador eloquente, mas tambem como um dos mais -fecundos do seu tempo. - -A hyperbole do elogio monastico chegou até o ponto de consideral-o como o -engenho mais poderoso de sua Ordem. - -Foi sempre elle quem representou unicamente seos Superiores: eram d’elle -os muitos livros, escriptos quase todos em latim, que foram oppostos, -e victoriosamente, ás publicações violentas atiradas contra as Ordens -mendicantes. - -Da sua antiga occupação de advogado se recordava e se aproveitava das -tricas e desordens, proprias da epocha, e até lançava mão da astrologia -judiciaria, pelo que se lhe attribuio a authoria do _Fatum Mundi_, livro -absurdo, mas que durante algum tempo preoccupou a attenção publica. - -Declarado por unanimidade o oraculo do seu Convento, nem se quer por -um momento houve a ideia de associar-se á sua lembrança o nome d’um -Religioso, igual ao seo, e que apenas sabia sacrificar-se com o fim de -ganhar algumas almas para Deos! O que fazia o nosso modesto amante da -natureza diante de tal personagem, tão cercada de gloria, diante da -_Phenix_ dos theologos francezes, como então por gosto o appelidavam?[D] - -Mas, quem é que se recorda hoje do Padre Ivo de Pariz? Quem cuida hoje -nas discussões, cuja vehemencia lhe attribuiram tão viva admiração? - -Colloquemos os homens e os factos nos lugares, que devem occupar. - -Ivo d’Evreux poude contemplar em sua grandeza primitiva uma terra -exuberante de vida e de mocidade: dois seculos de esquecimento passaram -sobre sua obra, e hoje em dia brilha elle remoçado, cheio de graça, ao -lado de Lery, de Fernando Cardim, de Anchieta, emfim de todas essas almas -privilegiadas, que uniam a faculdade da observação á apreciação apurada -das bellezas da natureza, e que saudaram, poetas desconhecidos, a aurora -de um grande Imperio. - -Ivo d’Evreux, diga-se com pezar, teve o destino de quasi todos os -historiadores primitivos do novo mundo: sua biographia, embora pouco -desenvolvida, ainda está por escrever, e apesar das mais minuciosas e -constantes investigações n’estes ultimos tempos, apenas conhecemos as -circumstancias mais importantes de sua vida, e assim mesmo nada ao certo -saberiamos si não fossem algumas notas colhidas em varios archivos dos -antigos Conventos. Foi geral o esquecimento tanto da sua obra, como do -seo autor. Pensam os escriptores de sua Ordem haverem dito bastante, -lembrando ter elle vivido no seculo XVII, ter sido missionario zeloso, e -autor de um livro, continuação obrigada da viagem do Padre Claudio, e até -se esquecem de mencionar a sua existencia por espaço de dois annos entre -os indios, onde este apenas demorou-se quatro mezes. - -Conforme as inducções, que se podem tirar de um folheto manuscripto, -conservado na bibliotheca _Mazarina_, opusculo cheio de datas precisas, -relativas aos Capuchinhos do Convento da rua de Santo Honorato, o nosso -Missionario devia ter nascido em 1577. - -Indica por certo seu sobrenome a cidade onde elle nasceo, porem ignoramos -qual foi o nome, que teve no seculo, como então se dizia. Á este respeito -os amadores das viagens antigas foram mais bem succedidos quanto ao seo -companheiro, o Padre Claudio, que se sabe pertencera a uma excellente -familia, a dos Foullon.[E] O que ha de bem averiguado é, que os paes do -Padre Ivo o applicaram á estudos excellentes, e que os seus professores -não se contentaram de ensinarem-lhe só o latim e sim tambem o grego, e -até o hebreu, e inspiraram-lhe tal gosto litterario, sem o qual não ha -escriptor habil. - -No convento de Ruão passou o seo noviciado, e ahi entrou em 18 de agosto -de 1595, não existindo a menor duvida a este respeito.[F] - -Depois de ter tomado o habito n’essa Caza, ahi provavelmente demorou-se -alguns annos, e devia prégar na maior parte das cidades da alta Normandia. - -É provavel, que então se achasse em relações de estudo e de sacerdocio -com o joven Francisco de Bourdemare, como elle natural da Normandia, como -elle Prégador em sua Provincia, e mais tarde designado para succedel-o na -missão do Maranhão.[G] - -Distinguido muito cedo pelos seos Superiores, e tendo já o titulo de -Prégador, que então só se dava aos Religiosos notaveis, foi designado o -Padre Ivo para preencher as funcções de Guardião do Convento de Montfort. - -Infelizmente os documentos, que temos á vista e que provam este facto, -não dizem qual foi a Cidade onde se passaram a maior parte dos annos de -estudo do nosso bom Missionario. - -Ha em França mais de treze localidades com este nome e não nos é -possivel, absolutamente fallando, dizer onde o nosso viajante se -fortaleceu em sua carreira religiosa. - -Nos primeiros annos do seculo mudou logo de residencia, e achamol-o no -grande Convento de Santo Honorato, no meiado do anno de 1611, no tempo -em que era Provincial da Ordem o Padre Leonardo de Pariz,[H] quase na -occasião d’este sabio Religioso ter sido pelo Papa nomeado Superior das -missões orientaes. - -Teremos ainda occasião de fallar no movimento politico, dado ás -expedições maritimas, quando ja ia em meio o seculo XVI, e que tinha -por fim fazer com que, o nosso comercio partilhasse das vantagens, que -a Hespanha e Portugal haviam para si monopolisado. Cincoenta annos mais -tarde, embora aproveitando-se das vantagens adquiridas pelas exploraçães -dos Varazano, dos Cartier, dos Roberval, e de tantos outros navegantes, -que nos deram o que n’aquelle tempo se chamava _nova França_, todas as -attenções se fixavam nas regiões mais favorecidas, que então se pretendia -colonisar, e as quaes com enthusiasmo se chamava _França equinoccial_. - -Ja havia desde 1555 uma _França Antarctica_, a qual, apesar de ter este -nome por tão pouco tempo, não deixou comtudo de grangear para nossos -homens do mar as sympathias calorosas e dedicadas dos povos indigenas, -que então em tribus numerosas occupavam o Brazil em varias partes. -Auxiliava tambem estas conquistas pacificas o movimento protestante, bem -que não devesse deixar vestigios duradouros n’America do Sul, porque os -refugiados e os Missionarios subordinavam a si e procuravam á porfia -converter á suas crenças estas nações barbaras.[I] - -Sem tratar dos armadores de Dieppe, cujas primeiras explorações pelas -costas do Maranhão, datam de 1524, sem mencionar as navegações de -Affonso de Xaintongeois até as boccas do Amazonas no anno de 1542, -ser-nos-ia facil provar, que 25 annos mais tarde Henrique IV doara a um -bravo capitão da religião reformada a immensa extensão de territorio, -para a qual devia ir Ivo d’Evreux, sahindo do seu pacifico retiro de -Montfort, afim de cathequisar os selvagens. - -Vemos com effeito Daniel de la Touche, senhor de Ravardiere, de posse -d’essas doações tão vagamente definidas pelas Cartas patentes de julho de -1605.[J] - -Adquirimos tambem a certeza, que depois de dois annos, após duas viagens -successivas ao norte do Brasil, Ravardiere decidio os Tabajaras e -Tupinambás, propriamente ditos, a mandarem uma especie de embaixada -ao Rei Christianissimo com o fim de solicitar sua protecção contra as -invasões dos portuguezes. - -Foi debalde esta missão d’indios, porem como Ravardiere continuasse -a residir por muito tempo entre elles, conseguio em 1610, que lhe -fossem renovadas as doações feitas cinco annos antes, e assim julgou-se -authorisado, logo depois da morte de Henrique IV, a formar uma associação -para a definitiva colonisação d’estas regiões abandonadas.[K] - -Não foi comtudo aos partidistas de sua Religião, que se dirigio -Ravardiere para ser bem succedido n’este empenho: pelo contrario sem -hesitar entrou em conferencia com catholicos proeminentes, cuja lealdade -perfeitamente conhecia, como sejam, o almirante Francisco de Razilly, -uma das mais antigas glorias da França, e Niculau de Harlay, uma de suas -summidades financeiras, e elles se lhe associaram para a exploração -d’este previlegio. - -Em todo o seculo XVII não conhecemos outra transacção, entre catholicos -e protestantes, mais leal e desinteressada: foi na verdade uma empresa, -digna de contar em si o Padre Ivo d’Evreux, tão sincero como justo. - -O titulo de lugar-tenente do Rei, sem a menor questão, foi transferido -á Rasilly, que teve toda a liberdade de acção, não deixando comtudo de -fazer prevalecer as prerogativas da communhão, que professava. - -Em todas as praias onde desembarcassem, devia levantar-se uma cruz com -toda a solemnidade, e bem assim missionarios catholicos seriam condusidos -para propagação da fe entre o gentilismo. - -Estes contractos foram na verdade pontualmente executados, e nem na obra -de Claudio d’Abbeville, e nem na de Ivo de Evreux se encontra uma só -palavra, que faça suspeitar o menor estremecimento entre os chefes da -expedicção. - -Fortalecido com o credito, que de ha muito gosava na Corte, ajudado alem -disto, por soccorros pecuniarios, e pela verdadeira importancia, que lhe -proveio de associar-se com Niculau de Harlay, senhor de Sancy, Barão de -Molle e de Grois Bois, o almirante Razilly com toda a prestesa chegou -ao fim, que tinha em vista, interessando a Regente no bom exito de uma -empreza, ja antecedentemente approvada por Henrique IV. - -Por seos rogos escreveo Maria de Medicis ao Padre Leonardo, que n’esse -tempo era Guardião do grande Convento dos Capuchinhos da rua de Santo -Honorato, pedindo-lhe com toda a instancia quatro religiosos, afim de -fundarem um convento da Ordem na Ilha do Maranhão. - -Diga-se a verdade: o norte do Brazil que actualmente offerece todos os -recursos da civilisação, então se apresentava, até mesmo aos mais doutos -da Universidade de Pariz, como um paiz entregue a todos os horrores -da vida selvagem; os cosmographos francezes quando d’ella tractavam, -exageravam a rusticidade d’esse paiz, deixando comtudo a imaginação o -campo inteiramente livre, não marcando nenhum limite exacto, e era sobre -essas informações inexactas que Raleigh se deleitava de evocar todos os -monstros do mundo antigo. - -Nem um só momento exitaram estes Religiosos quando o Padre Provincial -lhes leo a Carta regia na occasião em que se achavam no refeitorio: -d’entre elles quarenta quizeram ser escolhidos para tão perigosa empresa, -e os documentos officiaes, que temos à vista, nos fizeram até conhecer -a especie de enthusiasmo que d’elles se apoderou quando souberam o -contheudo da mensagem das Tulherias. Offereceram-se a maior parte -dos Padres com expontaneo enthusiasmo para esta nova missão, e sendo -reprimido o zelo dos mais fervorosos, declarou logo o Padre Leonardo, de -accordo com o Definidor da Ordem, que seriam quatro apenas os escolhidos, -de conformidade com o pedido. - -Eis a lista destes nomes pela ordem, que devem guardar entre si, e os -raros historiadores, que d’elles tem tratado teriam evitado alguns erros -se, como nós, tivessem consultado os archivos do Convento. - -O muito veneravel Padre Ivo d’Evreux, superior.[L] - -O muito veneravel Padre Claudio d’Abbeville. - -O muito veneravel Padre Arsenio de Paris. - -O muito veneravel Padre Ambrosio de Amiens. - -Ajoelharam-se os escolhidos diante do Padre Leonardo, e humildemente lhes -agradeceram tal honra; foi-lhes annunciada a proximidade da viagem, e -desde esse momento para ella se acharam promptos. - -Não ha a menor duvida á respeito da qualidade do Religioso, a quem se -confiou a direcção das missões do Maranhão, e não se comprehende como -Berredo, antigo Governador da Provincia, que foi autoridade no Brazil, -deo o titulo de Superior á Claudio d’Abbeville, que occupa na ordem -hierarchica o lugar immediato ao digno Missionario director dos trabalhos. - -Certamente era necessario que o Padre Ivo ja tivesse adquirido na Ordem -credito inabalavel para que fosse preferido aos tres religiosos, seos -adjuntos. Eram sacerdotes todos tres; como elle deram provas de possuirem -solida instrucção, e o terceiro até, ja muito adiántado na carreira, por -varias vezes tinha occupado certos empregos honrosos, signaes evidentes -da consideração de seos superiores. O Padre Ambrosio éra alem d’isto -dedicado com ardor á todas as obras de caridade, durante as calamidades -dos ultimos annos do seculo, sendo muito conhecida sua bondade sempre em -acção: suas prédicas fervorosas, bem acolhidas pelo povo, lhe grangearam -o apellido de «_Apostolo da França_.»[M] - -Tem a data de 12 de agosto de 1611 as _Cartas de obediencia_, que os -Superiores deram ao Padre Ivo d’Evreux, e lhe ordenaram, que fosse -embarcar-se no porto de Caucale n’um navio sob o commando de Rzailly, -lugar-tenente do Rei. - -Não devemos repetir aqui o que em termos percisos e apropriados contou -Claudio d’Abbeville na primeira parte de sua narração a respeito dos -pormenores da longa viagem dos missionarios até o Brazil, da separação -forçada da flotilha, que os conduzia, e das peripecias d’esta navegação, -que durou cinco mezes. O que porem podemos affirmar é que o Padre -Ivo não soffreu somente o aborrecimento de uma viagem maritima, cujas -difficuldades não se pode agora imaginar, e que aos cuidados de uma -installação penosa vieram reunir-se fadigas imprevistas, e depois de -desembarcado, dores pungentes, como fossem as que elle experimentou pela -morte do digno Padre Ambrosio, e em seguida os soffrimentos provenientes -de uma molestia, que o forçou a regressar, e da qual foi victima afinal. - -Tudo isto foi narrado com simplicidade e dignidade por tão zeloso -missionario, e sem duvida muito melhor do que o fariamos. - -O que não disse o pobre Monge, cuja exquisita sensibilidade e admiravel -resignação se revelam tantas vezes, foi o pezar, que experimentou quando -vio, que da coragem imprudente de Pésieux resultou a morte d’este seo -amigo, sem que o valor de Ravardiere podesse ser bastante para sustentar -a Colonia; o que tambem não poude contar foi a perda das funcções de -Superior da missão, que devia assumir antes do triumpho das armas de -Jeronymo d’Albuquerque, e da expulsão definitiva dos francezes. Para -explicar essas circumstancias, não mencionadas de forma alguma pelo digno -missionario, é indispensavel fallar-se da situação administrativa em que -então se achava o grande Convento da rua de Santo Honorato. - -O Padre Leonardo, tão afamado entre seos irmãos de habito, em 1614 -deixou de ser Provincial, e só poderia ser reeleito no anno de 1615. -Foi substituido pelo veneravel Honorato de Champigny,[N] e com razão -elogiam-se os melhoramentos de toda a natureza, a actividade, e -especialmente a distribuição de soccorros caridosos, postos em pratica -durante a sua administração. - -N’esta epocha, um Religioso estrangeiro, natural da Escossia, e -descendente de uma boa familia, attrahia a si os olhares de seos irmãos, -e póde dizer-se até os da propria França, o Padre Archanjo de Pembroke, -que veio substituir de alguma forma o Padre Angelo de Joyeuse. - -Eleito Provincial em 1609, e não deixando depois d’isto d’exercer -importantes encargos, foi este Capuchinho, logo depois da partida -do Padre Ivo, nomeiado director dos missões _nas Indias orientaes e -occidentaes_. Os motivos, que fizeram abandonar mais tarde a missão do -Maranhão, não foram declarados, ou para melhor dizer, não existiam. -Archanjo de Pembroke resolveo ir pessoalmente ao Brasil dar consideravel -impulso á pequena missão, que alguns mezes antes havia sido derigida por -Francisco de Razilly. - -Para este fim escolheo onze religiosos, de cujo zelo podia confiar: -infelizmente ignoram-se os seos nomes, e apenas se sabe que entre elles -havia um historiador, cuja _Narração_, nos parece de facto perdida, por -não ter sido possivel encontral-a, apezar de todas as pesquizas feitas -com constancia e perseverança por muitos mezes em Pariz, Ruão e Madrid.[O] - -O Padre Francisco de Bourdemare pertenceo á classe d’esses ricos -gentis-homens, que após á saciedade de todas as superfluidades da -fortuna, de repente suffocam n’um carcere o que se chama orgulho do -seculo e lembranças mundanas. - -Havia ja alguns annos, que era viuvo: á seo filho entregou todas as suas -herdades, e depois foi sepultar-se nos Mosteiros de Orleans e de Ruão, -e d’ahi mudou-se para o Convento da rua de Santo Honorato em Pariz, onde -exhibio diariamente, dizem, provas de humildade muito alem da exigida -pelos membros da Communidade. - -Gentil-homem notavel, não havia muito, pela sua elegancia, na epocha da -grandeza, anterior ao fausto de Luiz XIV, então somente trazia vestidos -remendados, e ainda á sua pobreza juntava o habito de Capuchinho. - -Completar o seu martyrio dedicando-se fervorosamente á conversão dos -selvagens, pareceo-lhe coisa tão natural como invejavel; este homem, cuja -sociedade tinha sido tão procurada, e cuja instrucção era tão solida -á ponto de poder escrever em latim uma obra volumosa, encarou como -beneficio dos Definidores da sua Ordem o ser mandado a um paiz deserto, -onde faltassem todos os recursos na vida: elle e Archanjo de Pembroke, -cuja existencia tinha sido ainda mais brilhante que a sua, embarcaram-se -com outros dez Monges n’um navio commandado pelo bravo Pratz, que com -tresentos colonos novos ia soccorrer Ravardiere, cuja situação sem duvida -era prevista em Pariz como difficil. - -Cheios de presentes pelos senhores da Córte de Luiz XIII com os quaes -ainda bem recentemente elles entretinham relações diarias, e sobretudo -satisfeitos por levarem ao modesto Convento do Maranhão os bellos -ornamentos feitos pelas proprias mãos da Duqueza de Guise, partiram -do Havre, e pode dizer-se, que para aquelle tempo foi por certo um -phenomeno, pois apenas gastaram dois mezes e meio para chegarem á costa -do norte do Brazil, porem apenas vellejavam ainda na bahia de Guaxenduba -souberam logo do estado lastimoso, em que se achavam os negocios da -França n’aquelles lugares. - -Não ignoravam os Missionarios, que pelo seo Instituto se achavam ao -abrigo das eventualidades politicas, que o resto da expedição podia -temer (por exemplo não podiam ser prisioneiros): foram, como que com -pompa, para o seo Convento em S. Luiz, e comsigo levaram os presentes -da Duqueza de Guise, porem apenas acharam ahi um só religioso, o Padre -Arsenio de Pariz,[P] e esse mesmo muito doente. - -Mais doente ainda, que seo unico companheiro se achava o Padre Ivo -d’Evreux, quando soube, estar substituido como Superior do nascente -Mosteiro, e é provavel, que elle embarcasse a bordo d’algum dos navios da -esquadra. - -Dizem os documentos que temos á vista, que n’esse tempo elle se achava -em inacção, victima d’uma paralysia geral, consequencia provavel das -fadigas, a que diariamente se entregava no _Fórte_. - -Para explicar a invasão lenta, porem continua, de tão triste molestia, -basta recordar agora o que era então a nascente cidade de S. Luiz. - -Embora seja hoje, e com razão, esta risonha Capital considerada uma das -cidades mais saudaveis do Imperio do Brasil, então apenas surgia do seio -das florestas: os miasmas deleterios, que constantemente se desprendiam -dos logares recentemente desbravados, a falta absoluta de certos -medicamentos energicos, apropriados a combater com decidida vantagem -essas influencias paludosas: tudo isto explica como o Padre Ivo d’Evreux -não poude esperar pelo resultado da guerra começada, e como se vio -coagido a regressar para a Europa, receiando ser pesado á missão depois -de haver sido o seu agente mais activo e o seu sustentaculo mais dedicado. - -Não sabemos como se effectuou esta viagem, nem si elle foi para Pariz, e -nem tão pouco si foi em sua terra natal buscar um azylo no Convento dos -Capuchinhos,[Q] fundado apenas alguns mezes depois da sua partida. - -Os archivos da cidade d’Evreux, nada dizem a tal respeito, e nem tambem -relativamente á missão brasileira, parecendo-nos dever esperar-se do -acaso o apparecimento de documentos biographicos, cuja existencia nem se -suspeita. - -O historico da segunda missão dos Capuchinhos franceses em Maranhão, -completamente ignorada por Berredo e outros escriptores portuguezes, não -nos deixa na mesma incertesa quanto aos missionarios, que succederam á -Ivo d’Evreux e aos seos companheiros.[R] - -Sabemos que chegaram em 15 de junho diante da nascente cidade, que -cantaram um _Te-Deum_ no dia 22 do mesmo mez, no rustico Convento -principiado a edificar por seos antecessores, e tambem não ignoramos -hoje, que elles previram o máo exito da missão. - -Ignoramos o que fez o Padre Arcanjo no Convento de São Luiz, porem -quasi que se pode dizer, que não imitou o zelo dos Padres Ivo d’Evreux -e Arsenio de Pariz, sendo tão mal succedido em seos esforços que até -appareceo a desunião «entre as coisas da Colonia, augmentada ainda com a -chegada dos portuguezes, que se assenhorearam do paiz.» - -O piedoso biographo, cuja narração nos serve do guia, diz, que o novo -Superior administrou o baptismo a 650 indios, porem accrescenta logo, -que sem duvida estes pobres selvagens não ficaram por muito tempo fieis -á religião, que abraçaram, voltando a sua antiga idolatria: «não chega -a sessenta os christãos sinceros, e n’esse numero estão incluidos vinte -meninos.» Si se encontrasse uma biographia cheia de particularidades e -de aventuras do Monge escossez, de que tracta o velho historiador da -Ordem, taxando-a de muito exagerada, provavelmente n’ella se encontrariam -narrações minuciosas de sua missão na America. Infelizmente este livro, -se existe em alguma bibliotheca pouco conhecida, é tão raro como o de -Francisco de Bourdemare, e temos sido infelizes nas diversas pesquizas, -que até hoje fizemos com o fim de offerecer aos nossos leitores um -extracto do seo contheudo.[S] - -Suspeitamos que o Padre Arcanjo de Pembroke deixou muitos dos seos -confrades no Convento dos Capuchinhos recentemente edificado, e que -regressou para França ao fim de 1614 no navio do Capitão Pratz, que levou -á Paris Gregorio Fragoso, sobrinho de Jeronymo de Albuquerque, incumbido -d’uma missão diplomatica, que devia discutir-se em Lisboa. - -Recolhido á sua cella no Convento da rua de Santo Honorato, o -Padre Ancanjo facilmente esqueceo-se do Brasil[T], tomou parte nos -acontecimentos politicos do seu tempo, vieram de novo as dignidades -da Ordem procural-o, e viveo no grande mosteiro até o momento, em que -Richelieu chegou ao apogeo do seo poder. - -Os amadores das viagens antigas, aquelles que prescrutam ainda com -interesse as lembranças espalhadas aqui e ali, e com as quaes se deve -compôr a historia das nossas Colonias, mais gloriosa do que se pensa, não -se demoraram n’essas particularidades, e antes desejaram saber como o -Maranhão escapou aos esforços corajosos do bravo Ravardiere. - -A _Historia Geral do Brasil_, publicada ultimamente pelo veridico -Sr. Adolpho de Varnhagem lhe responderá com mais promptidão ainda do -que o poeta laureado Southey. Ahi lerão como as forças portuguezas, -expedidas d’esde outubro de 1612 para expellir os francezes do seu novo -estabelecimento, de que tinha ciumes a Corte de Madrid, ainda em Maio de -1613 foram reforçadas por Jeronymo d’Albuquerque vindo do Ceará, onde -combinou com Martim Soares nos meios de ser bem succedida essa expedição -sob seo commando, a qual se antolhava irriçada de difficuldades. - -De Pernambuco ainda vieram reforços indispensaveis, e por isso em 23 -d’agosto começou o bloqueio das forças francezas, porem no dia 19 de -novembro, Ravardiere á frente de 200 soldados d’infantaria, e de 1500 -indios atacou com energia os sitiadores de sua nascente cidade; perdeo-se -ahi o bravo Pezieux n’uma imprudente tentativa por não ter executado as -ordens do seu chefe mais experiente do que elle. - -Tomaram por sua vez a offensiva os portuguezes, e em pouco tempo, apesar -da sua reconhecida habilidade e do seu notavel valor, foi obrigado -o Chefe da nova Colonia a concordar n’um armisticio, cujo desenlace -seria terminado perante as Cortes de Madrid e de Pariz, para as quaes -appellaram ambas as partes belligerantes. - -Antes de chegar a este ponto vio Ravardiere de seo exercito cem homens -mortos e nove prisioneiros. Pode dizer-se, que si sua resistencia foi -a de um bravo, como tal ja reconhecido, o procedimento, que então -ostentarão seos adversarios, foi em todo o sentido generoso, porem, força -é dizer que depois de convenções tão livremente estipuladas, e quando em -3 de Novembro de 1615 entregou Ravardiere com todas as solemnidades o -_Forte de São Luiz_ á Alexandre de Moura appareceo um acto de deslealdade -manchando esta campanha tão nobremente terminada. Ravardiere deixou o -Maranhão e foi em companhia de Alexandre de Moura para Pernambuco, d’onde -partio em pouco tempo para Lisboa, e ahi no _Forte de Belem_ soffreo -rigorosa prisão, que não durou menos de tres annos.[U] - -Pelo que acabamos de dizer vê-se facilmente, que a Cidade de S. Luiz, a -florescente Capital de uma das mais ricas Provincias do Brasil, é uma -Cidade de origem absolutamente franceza, e a Camara Municipal assim -felizmente o comprehendeo por haver ainda ha pouco tempo feito surgir -das ruinas os modestos edificios, que attestam esta epocha, provando com -isto, e ao mesmo tempo, ausencia de patriotismo mesquinho e sentimento de -bom gosto.[V] - -Mas voltando ao livro, que nos prende a attenção, façamos conhecer a -sorte caprichosa, que o esperava em França. Despertaremos tambem com o -bom Religioso algumas reminicencias, com que se pode enfeitar a poesia. - -Menos infeliz na apparencia que João de Lery, tão bem classificado com o -appellido de «Montaigne dos velhos viajantes,»[W] Ivo d’Evreux durante 15 -annos não vio seo manuscripto, extraviado por um infortunio, que o ferio -completa e absolutamente. - -Enviado aos Superiores da Ordem este livro, complemento do de Claudio -d’Abbeville, foi destruido antes de haver apparecido. Impresso por -Francisco Huby, em cujas officinas já havia sido edictada a obra do seo -companheiro, foi inteiramente dilacerado. - -Francisco Huby, dizemos com pezar, deixou-se n’essa occasião seduzir, e -esquecendo-se dos deveres inherentes á sua profissão, não se importou em -ser o instrumento d’uma vingança politica tão mesquinha. - -É de suppôr, que o motivo, que fez prender Ravardiere no _Forte de -Belem_, levantou tambem mãos sacrilegas para destruir na rua de São -Thiago o precioso volume, no qual se expunham com admiravel sinceridade -as vantagens para a França, provenientes da expedição de 1613. - -Entre a impressão da viagem de Claudio d’Abbeville, e a do livro, que é -sua continuação, deo-se um acontecimento politico d’alto alcance. - -Foi resolvido o casamento de Luiz XIII, ainda menino, com uma princesa -hespanhola[X], e um partido inteiro mostrou muito interesse em dissipar -qualquer sombra, que prejudicasse a casa de Hespanha. - -Os projectos de conquista d’America do Sul não acharam mais apoio, -e desde então empregaram-se todos os meios afim de ser esquecido um -projecto de conquista, com que ja se havia inquietado a Hespanha, -chegando-se até a destruir completamente a simples narração dos -incidentes d’essa missão ja passada ha tanto tempo, embora escripta com -toda a calma e conveniencia. - -Quando se deo este acto arbitrario havia em França um homem, que ligava -muito interesse á obra e ao seo auctor. - -Felizmente Francisco de Razilly não cahio no captiveiro, que paralisava -todos os esforços de Ravardiere, e pode até affirmar-se, que não perdeo -de vista, por um só momento, as vantagens, que seo paiz podia tirar de -uma Colonia, cujos primeiros passos elle tinha dirigido. Sabendo que -hia ser destruido o volume do Padre Ivo d’Evreux, apezar de impresso -inteiramente, foi á imprensa de Huby para vêr se obtinha um exemplar: -ou porque não fosse com toda a promptidão, ou porque ja se tivesse dado -começo a destruição da obra, apenas poude salvar algumas folhas por -si ou por _meios_ subtis de um seo agente, as quaes reunidas mostraram -a lamentavel perda de diversos fragmentos, e com essas lacunas tão -importantes foi impossivel formar um exemplar completo. Mandou o -Almirante imprimir o seu protesto em outra parte, e não nas officinas -da rua de Sam Thiago, juntou-o ao livro, encadernado com todo o luxo, -tendo na frente as armas da casa de França, e foi leval-o, não á Maria de -Medicis, antiga protectora da Colonia do Maranhão, e sim a Luiz XIII. - -O menino rei ainda na anno antecedente tinha brincado muito com tres -pobres selvagens Tupinambás, dos quaes fora padrinho, e suas recordações -eram ainda tam frescas, que de vez em quando esboçava os grotescos -ornatos, com que se enfeitavam os nossos indios:[Y] leo talvez algumas -paginas do bello volume, que Razilly lhe offereceo, e n’isto ficou todo -o seo interesse. Richelieu ainda não era Superintendente da sua marinha, -e ainda dormiram na Corte por muitos annos os projectos de longas -navegações. - -O livro do Padre Ivo, junto ao do Padre Claudio, foi posto nas estantes -da bibliotheca, e ahi todos os deixaram em paz. - -Foi no tempo do digno Van-Praet, no principio de 1835, que o autor d’esta -noticia teve a felicidade de encontral-o. Seria occioso o dizer como o -feliz descubridor ficou surprehendido lendo esta agradavel narração, tão -sincera em suas menores particularidades como preciosa pelas suas uteis -noticias. Para comprehender bem o seo valor basta dizer-se, que o nosso -bom missionario demorou-se dois annos, onde seo veneravel companheiro -apenas demorou-se quatro mezes. Desde então appareceo Ivo d’Evreux n’uma -serie de artigos, que publicava a _Revista de Pariz_ a respeito dos -_antigos viajantes francezes_, e na verdade sem desvantagem, ao lado do -Padre du Tertre, a quem Chateaubriand justamente chamou o Bernardin de -Sant’Pierre do 16º seculo. - -Este artigo, cujo menor defeito era sem duvida alguma o ser pouco -desenvolvido, formou n’esse mesmo anno uma pequena brochura, publicada em -casa de Techener, e immediatamente esgotou-se a edicção. - -Desde essa epocha não foi mais Ivo d’Evreux de todo desconhecido aos -amadores das viagens antigas, aos homens de bom gosto, que buscam avidos -de curiosidade os escriptores esquecidos, percursores do grande seculo. -Preoccupado, mais do que se crê na Europa, de suas tradicções poeticas, -e de suas nascentes glorias, o Brasil saudou o nome do velho viajante, -e lhe deo um lugar entre os homens pouco conhecidos, mas que devem ser -consultados quando se tracta dos tempos primitivos. - -O Imperador D. Pedro, que occupa um lugar entre os bibliographos mais -illustrados, e que tem decidido gosto pelas raridades bibliographicas, -que derramam alguma luz sobre as antiguidades do seo vasto Imperio, -mandou extrahir uma copia, sendo depois imitado seo exemplo! - -O unico exemplar, pertencente á bibliotheca imperial d’ahi em diante foi -lido e relido:[Z] uma phalange de escriptores habeis e zelosos, que -exhumaram do pó a historia do seo bello paiz, o chamaram em testemunho de -suas asserções, Adolpho de Varnhagem, Pereira da Silva, Lisboa o auctor -do _Timon_, e no ultimo lugar o sabio Caetano da Silva, o citaram entre -as melhores autoridades, que se pode invocar sobre as crenças dos indios, -e assim o fizeram sahir da obscuridade, em que jazia. - -Não tinha a França prestado attenção a estes testemunhos de estima -para dar ao Padre Ivo d’Evreux o lugar, que merecia. Se Boucher de la -Richarderie não tivesse pronunciado seo nome, levantando o mais que poude -o de Claudio d’Abbeville, o Sr. Henrique Ternaux Compans não o incluiria -na sua preciosa collecção dos viajantes conhecedores da antiga America. O -Sr. d’Avezac o cita com destincção e faz sobre-sahir suas boas qualidades. - -Todos estes testemunhos de admiração para com o humilde escriptor, que -sem ostentação sacrificou sua obra, infelizmente tem concorrido pouco -para tirar sua vida da obscuridade, e não sabemos em que auctoridade se -baseia um sabio bibliographo para dizer que elle viveo até 1650.[AA] - -Á vista d’um volumoso manuscripto da bibliotheca imperial pensamos -um dia que ião ser esclarecidas todas as nossas duvidas sobre os -principaes pontos da biographia do nosso escriptor, porem assim não -aconteceo. _Os elogios historicos de todos os grandes homens e de todos -os illustres religiosos da Provincia de Pariz_ infelizmente só dão -noticias relativas aos religiosos de Santo Honorato, de Picpus, e de S. -Thiago.[AB] Chegou-se até a dizer na obra, que havendo o Padre Paschoal -d’Abbeville[AC] separado sua Provincia da Normandia em 1629 não devia -procurar-se n’esta compilação o nome dos Religiosos, que não residiram em -Pariz. - -Não se deve esquecer de todo a excitação puramente litteraria, que se -experimentou em França logo depois da chegada dos selvagens brasileiros, -que desembarcaram sessenta annos antes em Ruão ou em Pariz. Estes -apparecimentos successivos d’indios, seguidos sempre de narrações mais -ou menos notaveis, levão evidentemente o espirito a pensar nas bellezas -primitivas da natureza, o que produz encantos e amplidão de ideias. - -D’esta influencia não se livrou o nosso Montaigne, como elle revellou em -algumas palavras espirituosas, que escreveu a proposito d’uma cantiga -brasileira. - -Os dois maiores poetas d’aquelles tempos, tão differentes entre si e -comtudo tão approximados, se abalaram a ponto de dedicarem particular -attenção a esses habitantes das grandes florestas, por acaso misturados -com os cortezãos de França, que invejavam seos gosos pacificos, e a -tranquillidade de suas existencias. - -Ronsard não é de parecer que estes homens, que lembram a origem do Mundo, -percam sua feliz innocencia, e por isso insta com os visitantes para que -não troquem a sua ignorancia pelos cuidados da civilisação.[AD] - -Malherbe tambem a respeito d’elles entreteve por muito tempo o douto -Peiresc, por meio de cartas, onde dizia que a paz e a alegria estava em -imital-os. - -Suas dansas inspiraram os mais delicados cortesãos, e um dos mais habeis -artistas de Pariz fez com as suas arias uma especie de dança muito -agradavel, cuja descripção nos deixou o poeta.[AE] - -Poderiamos ainda citar outros exemplos d’esta subita predilecção pela -independencia dos pobres indios, e especialmente pelo magnifico paiz, que -habitam. - -Conforme estes poetas, a cuja frente deve collocar-se Bartas,[AF] é -n’esta fonte vital, que pode restaurar-se por novas comparações um estro -quasi a exhaurir-se. - -Sem duvida alguma todos estes antigos viajantes, completamente esquecidos -durante um seculo, exerceram real influencia no seo tempo, e ainda mais -alem, como se pode provar á vista dos escriptos de Chateaubriand: a -singelesa de suas narrações e a frescura de suas pinturas inspiraram os -grandes escriptores, já cuidadosos de abandonarem nas suas descripções -os typos ajustados ou estudados, e de influirem ou attrahirem só pela -verdade. - -Ivo d’Evreux não foi somente um pintor habil, um narrador sincero, e sim -tambem um observador perspicaz dos costumes de uma raça, para assim dizer -extincta, e que não se poderia consultar frequentemente. - -Para escolher um só exemplo entre muitos, que elle offerece, basta -dizer-se, que foi o unico, que descreveo os verdadeiros idolos, modelados -em cera, ou esculpidos em madeira pelos indios. - -Hans-Staden, Thevet, Lery e o proprio Gabriel Soares, tão prolixos á -respeito do culto do _maracá_, guardam silencio relativamente ao que -então se rendia á essas estatuasinhas modeladas grosseiramente, sem -duvida, pelos habitantes nomades das grandes florestas, as quaes com tudo -servem para mostrar um principio da pratica nascente da arte: assim elle -o confessa n’estas palavras: «Este mau costume crescia e estendia-se -pelas aldeias proximas de Juniparão.» Depois accrescentou, que seo -companheiro o Revd. Padre Arsenio encontrou estes idolos na visinhança -dos bosques.... Ora, pode-se deduzir d’este trecho curiosa inducção, não -sem interesse para a archeologia futura de um grande Imperio, e vem a -ser, que no começo do XVII seculo notavel mudança se tinha já feito nas -ideias religiosas do grande povo da costa. - -Sem duvida, n’esse tempo ja os Piagas tinham visto imagens nas igrejas, -que se edificavam em varias partes do litoral: com a maravilhosa -facilidade d’imitação, innata nos indios, ja no fim do XVI seculo tinham -representado em estatuas alguns dos numerosos genios de suas florestas. -Estes primeiros idolos foram infelizmente modelados em madeira, e -embora houvesse grande copia d’elles, nenhum, ao menos que o saibamos, -é conservado nos museos ethnographicos do novo Mundo, estabelecidos em -varias localidades. Os Tupinambás, apenas chegaram na visinhança do rio -das Amazonas, receberam ideias mais adiantadas de povos mais civilisados -que elles: a poderosa nação dos Omaguas, por exemplo, cujas tribus vinham -das regiões peruviannas, poderia ter influido sobre a arte grosseira, de -que entre elles encontraram se tão curiosos _especimens_. Note-se, que -estes importantes factos são, em geral, absolutamente despresados pelos -escriptores portuguezes, e por isso não é pequena gloria para a nossa -litteratura antiga, o ter possuido escriptores, dotados de genio tão -observador á ponto de prestarem muita attenção ao estudo d’estes objectos. - -Entre os que se misturaram com estas nações infelizes, no principio -do seculo XVII, não conhecemos, na verdade, senão um unico viajante -portuguez, cuja narração encantadora deve estar ao lado das de João de -Lery e do Padre Ivo d’Evreux.[AG] - -Foi Fernando Cardin, Superior dos Jesuitas ainda em 1609, e que visitou -os indios do Sul depois de haver por muito tempo administrado as -aldeias dos Ilheos e da Bahia. Bem que este Missionario não possa, pela -importancia de documentos, comparar-se a Gabriel Soares,[AH] a quem se -deve recorrer sempre que se queira, ter ideia exacta da nacionalidade dos -indios, e da emigração das suas tribus, comtudo muito se lhe assimelha -pelo seo estylo: como elle despresa os preconceitos, ama os selvagens, -e com animação pinta admiravelmente o indio na sua aldeia, dando-nos a -saber a grandesa, cheia de sinceridade, do seo caracter. - -A descripção do Padre Ivo d’Evreux não é, somente, mais um documento de -grande importancia, que se ajunta á historia do Brasil com o fim de -provar unicamente factos tendentes á fundação da Cidade de S. Luiz e sim -para os francezes tem outro genero de merecimento. - -Pela sincera elegancia de sua dicção, pela cor habilmente destribuida -de seo estylo, pela perspicacia de suas observações, e, pode tambem -dizer-se, pelo sentimento apurado das bellesas da naturesa, que mostra o -seu autor, ella pertence á serie de escriptores francezes, continuadores -da epocha de Montaigne, e prognosticadores do grande seculo. Ivo -d’Evreux, si fosse lido, teria nesse tempo influido, como alguns annos -antes, João de Lery, que descreveo scenas analogas áquellas que elle tão -bem soube pintar. Claudio d’Abbeville, escriptor muito menos habil do que -elle, foi o continuador d’esta influencia litteraria. - -Si no retiro, por elle escolhido, e que cremos, não sem fundamento, ter -sido em Ruão ou Evreux, ou mesmo no arrebalde de Sant’Eloy, soubesse o -Padre Ivo qual foi a sorte definitiva dos seos charos indios, sua alma se -teria entristecido profundamente. - -Depois de expulsos os francezes, foi Jeronymo d’Albuquerque nomeiado -capitão-mór do Maranhão sendo Francisco Caldeira Castello Branco -designado para continuar os descobrimentos e conquistas nas regiões do -Pará. - -Dos esforços combinados destes dois officiaes resultou a fundação da -risonha Cidade de S. Luiz e da de Belem. - -Estas duas Cidades edificaram-se pacificamente, sem opposição alguma da -parte dos indios, que até ajudaram os consideraveis trabalhos, exigidos -para a construcção d’ellas, e muitos d’elles acompanharam até um Official -chamado Bento Maciel ás margens do rio Pindaré em busca de immensas -riquezas metalicas, que se desconfiava existirem por ahi algures: fatal -expedicção, cujo resultado foi somente a destruição dos Guajajaras. - -Os Tupinambás inegavelmente não eram mais hostis aos portuguezes, e -viviam sob a direcção de Mathias d’Albuquerque, filho do governador; -mas nem por isso deixavam elles de lastimar a ausencia de seos antigos -alliados. Ja não residiam nos arrebaldes da cidade nova, e sim no -districto de Cumã em numerosas aldeias. Indo um dia o seo chefe europeo -ter com seo pae, que o mandou chamar, passaram por Tapuitapera alguns -indios vindos do Pará, trasendo cartas para o capitão-mór de S. Luiz. Um -Tupinambá convertido ao christianismo, por nome Amaro, aproveitou-se da -passagem dos seos compatriotas para executar um plano terrivel. - -Tomou uma das cartas, abrio-a, e fingindo lel-a[AI] dirigio-se aos -chefes das aldeias, e declarou-lhes que o fim d’estas missivas era uma -abominavel trahição, urdida pelos portuguezes, que tinham resolvido, -atreveo-se elle a dizer, reduzil-os á condicção d’escravos. - -Terrivel carnificina, onde pereceram todos os brancos, foi o resultado -d’esta astucia do indio, bem facil de ser acreditada á vista dos -acontecimentos precedentes. - -Espalhou-se pelo littoral a noticia d’este facto. Mathias de Albuquerque -promptamente regressou ao campo onde se deram scenas tão tristes, e -vingou seos compatriotas exterminando sem piedade os Tupinambás. - -As tribus, que moravam mais longe, insurgiram-se, e formaram entre si -indissoluvel alliança, animando-as implacavel vingança, apezar de serem á -principio tão pacificas, e de se acharem tão dispostas á abraçar a nova -fé, que lhe tinha prégado o Padre Ivo d’Evreux. Levantaram-se tambem, e -espontaneamente, aldeias mui longinquas. - -Jeronymo d’Albuquerque expedio contra ellas tropas aguerridas, e em -breve o incendio e a morte substituio as festas, que faziam com toda a -segurança e boa fé. - -Tinham apenas passado tres annos depois da partida dos capuchinhos -francezes, e por isso era no principio do anno de 1617. A Cidade de S. -Luiz do Maranhão, activamente edificada, começou a tomar o aspecto de uma -Cidade européa. - -Este progresso inquietava os selvagens, que á custa de seos soffrimentos -tornaram-se previdentes; forçados á deixar o sul do Brazil procuraram -grandes florestas, e abrigados em seos seios esperavam recobrar sua -independencia, e para isto só tinham um pensamento—a destruição completa -de uma raça invasora, que não poude ser expellida pelos seos antepassados. - -Formaram os chefes Tupinambás uma liga desde os desertos de Cumã até ás -margens do Amazonas: pretendiam assaltar de surpreza a nova colonia, -e n’um dia convencionado matariam todos os habitantes. N’esse tempo -não havia quasi indio, que não arrostasse sem medo as descargas de -mosquetaria. - -Em quanto se ouvia este plano, e se trabalhava na sua execução, estava -em Tapuitapera Mathias d’Albuquerque, com pequeno numero de soldados, -descuidado de si e dos seos: entre os indios appareceu um trahidor, que -descobrio o projecto dos chefes dos selvagens ao commandante portuguez, -que não se assustando com o numero dos seos terriveis inimigos, travou-se -com elles no primeiro combate, e levou-os de vencida até á distancia de -50 legoas, ajudado em tão atrevida acção pelo bravo official Manoel Pires. - -Ainda vivia, porem bem proximo do termo de sua existencia o antagonista -de Razilly e de la Ravardière: sem sahir da nova Cidade de S. Luiz muito -ajudou seo filho com seos conselhos e com remessa de soldados que tinha -em reserva. - -Não se assustou Mathias de Albuquerque com as difficuldades de todo o -genero, que encontrava seo pequeno exercito n’esses immensos desertos; -foi batendo os indios pouco á pouco até que em 3 de Fevereiro de 1617 -derrotou-os completamente, e obrigou-os a procurar refugio no seio das -florestas. Só então, depois de exterminadas as tribus mais temiveis, é -que o velho general se recolheo á Cidade de S. Luiz, e o que elle havia -feito nos desertos do Maranhão tinha tambem posto em pratica Francisco -Caldeira nas solidões do Pará, onde se edificava a Cidade de Belem. - -Não eram estes, por certo, os sonhos de Ivo de Evreux e de seos tres -companheiros para com o Maranhão: em suas almas haviam imaginado a -fundação de uma Cidade nova, onde os corações innocentes dos indios se -lhes reuniriam para em commum louvar o Deos da paz. Ordens de exterminio, -em vez de orações, faziam em redor dos colonos um deserto que causava -terror. Seriamos injustos, se não dissesemos, que os Religiosos trasidos -por Jeronimo d’Albuquerque continuaram a missão dos Padres francezes. -Como Ivo d’Evreux e Claudio d’Abbeville, os Padres portuguezes Frei Cosme -de São Damião e Frei Manoel da Piedade, eram da Ordem dos Capuchinhos -desde 1617, isto é, desde o momento em que a guerra se tornou mais -cruel, e Bourdemare publicou seo livro: á Corte de Madrid pediram -religiosos activos, acostumados a todas as fadigas, e por isso capazes -de affrontal-as e de os ajudar. No dia 22 de julho chegaram mais quatro -religiosos a essas terras, não para o pequeno Convento de São Luiz, e sim -foram residir nas circumvisinhanças da Cidade de Belem, e d’ahi começou a -cathequese no Pará.[AJ] - -Não se sabe com certesa, se estes factos historicos, que de ora em diante -terão lugar importante nos _Annaes do Brasil_, chegaram aos ouvidos dos -missionarios dedicados que tantas fadigas soffreram para a conversão -dos indios; a Europa gastou mais de dois seculos olhando para elles -com indifferença, e ainda passaram mais vinte annos depois d’elles -terminados, para então ver-se a continuação corajosa da obra dos seos -antecessores[AK] por alguns Capuchinhos do Convento de Pariz: n’esse -tempo estava Ivo d’Evreux bem proximo do termo de sua existencia, se é -que ja não se tinha acabado tão dura perigrinação para elle. - -Tudo emfim estava acabado para os povos, nossos fieis alliados por algum -tempo, e aos quaes procuramos fazer comprehender as luzes do Evangelho. -Achavam-se ja embrenhados nas margens desertas do Xingù, do Tocantins, e -do Araguaya: ahi, bem longe dos colonos europeos se perpetuaram sob os -nomes de _Apiacas_, de _Gés_ e de _Mundurucus_, outrora tão temidos e -hoje tão pouco, e até pelo contrario favorecidos por uma administração -humana.[AL] - -Estes primitivos senhores do Brasil fallam ainda o idioma puro dos -Tupys, cujos vestigios nos foram conservados por Ivo d’Evreux e Thevet, -e especialmente por João de Lery, antes de ter reunido por meio de -laboriosas fadigas os elementos do seo livro. - -Foi nas margens destes grandes rios, ja citados, que ha quarenta annos o -illustre Martius observou tantas tribus desimadas. - -Ainda agora se lastimaria muito o sabio viajante sabendo, que até hoje -ninguem colheo as ultimas lembranças, guardadas como legado por esses -indios. Quando o governo brasileiro pensou, ha pouco tempo, na creação -d’uma commissão scientifica, composta de sabios nacionaes, encarregada de -visitar os pontos mais longinquos d’esse immenso Imperio, que não conta -menos de 36° do Oriente ao Ocidente, forão o Ceará, o Maranhão, o Pará -e o Rio de Janeiro os primeiros lugares designados para a exploração. -Comprehendeo muito bem, que se havia nestas terras virgens admiraveis -productos da natureza a colher, tambem existia uma mythologia e uma serie -de tradicções historicas á salvar-se do esquecimento, em quanto Freire -Allemão, Capanema e Gabaglia faziam collecções de preciosos materiaes -sobre historia natural, geographia e meteorologia, que formaram o objecto -d’uma vasta publicação.[AM] - -Um poeta historiador, estimado pelo seo paiz, corajosamente embrenhava-se -n’essas solidões incognitas para conhecer os segredos da vida intima -dos indios. Antonio Gonçalves Dias, nascido no interior da provincia do -Maranhão, familiarisado desde a infancia com as legendas americanas, -fallando a _lingoa geral_, incumbia-se de alguma forma da execução do -programma de Martius. - -Bem cedo as legendas americanas, não nos animamos a dizer os mythos -religiosos dos grandes povos do littoral, nos appareceram, taes quaes tem -sido perpetuadas no interior, (graças talvez ao exilio) e quando chegar o -momento de estudar-se com afinco a ethnographia, então se comprehenderá -todo o valor das narrações sinceras de Lery, de Hans Staden, e de Ivo -d’Evreux. - -Seria injustiça muito censuravel o negar-se as antigas tentativas feitas -pelos Religiosos portuguezes para a cathequese dos povos selvagens, -habitantes das regiões do Amazonas: graças a elles, em 1607, principiou -a exploração do Maranhão por essas viagens, corajosamente emprehendidas -por Missionarios vindos dos Conventos de Pernambuco. Estas tentativas -não foram perdidas para a geographia, mas quanto ao proveito do -Christianismo, ellas se terminaram em um martyrio inutil. Mais tarde, sem -duvida, a obra dos Figueiras e dos Pintos produsio seos fructos, assim -como os grandes trabalhos evangelicos suavisaram a posição dos indios do -Maranhão.[AN] - -Foi ainda um escriptor francez, quase desconhecido, contemporaneo dos -nossos bons missionarios, que com muito zelo, e pode até dizer-se com -cuidado verdadeiramente piedoso, traçou o _itinerario_ seguido por estes -homens corajosos, de tempo do Padre Ivo, e sem duvida seos conhecidos, -mas que não possuiam nem a bondade e nem a sinceridade d’elle.[AO] - -Conta-nos Pedro du Jarric como as immensas regiões do Brasil, cubiçadas -pela França, foram percorridas por dois Religiosos de sua Ordem, quase no -mesmo tempo, em que Ravardiere pela primeira vez explorava o littoral. - -N’essa occasião Francisco Pinto e Luiz Figueira tinham grande vantagem -moral sobre os francezes, porque sabiam muito bem a lingoa dos povos, que -buscavam converter. - -Muito mais moço do que o seo companheiro, martyr no apostolado, o Padre -Luiz Figueira iniciou-se, então mais do que nunca, nos segredos de uma -lingoa, já visivelmente alterada no littoral, porem pura no seio das -florestas. - -Cinco annos após a impressão do volume do Padre Ivo, elle publicou a -sua _Arte de Grammatica_, e pela primeira vez depois de alguns ensaios -incompletos do seculo XVI conheceu-se os principios de um idioma, que -ainda fallava um povo corajoso, porem prestes a morrer.[AP] - -Voltemos ao nosso piedoso viajante. - -Se vivesse ainda, como é bem provavel, alem da epocha em que se deram -estes acontecimentos, em 1619 por exemplo, Ivo d’Evreux certamente não -fazia mais parte do grande Mosteiro d’onde outrora sahio com destino ao -novo mundo. - -Póde suppôr-se, que o seo homonimo de Pariz principiava a eclipsal-o, e -por isso vivia elle longe da grande Communidade: se residisse no Convento -da rua de Santo Honorato, não é provavel que fosse de todo esquecido -nas pequenas biographias, escriptas tão liberalmente á respeito de -Religiosos, que nada escreveram, como seja, entre outros, Ivo de Corbeil, -simples irmão leigo, fallescido em 1623, apenas conhecido na Ordem pelo -seo amor á humanidade. - -Temos alem d’isto a certesa de ter se recolhido o Padre Ivo d’Evreux -ao modesto Convento de sua terra natal: em 1620 estava elle em Santo -Eloy,[AQ] e suppomos ter escolhido esta residencia por ser proxima ao -Convento de Andelys. - -N’estas ferteis campinas, onde se despertou o genio de Poussin, ainda o -nosso bom Missionario teve descanço bastante para admirar os risos da -natureza e a frescura das paisagens. - -É possivel que em outra occasião tivesse elle oportunidade para -conservar-nos suas minuciosas observações, que hoje talvez o fizessem -distincto naturalista, mas depois da emoção impressa em seo pensamento -pela magestosa solidão das florestas seculares do Brasil, somente se -deixou captivar pelas calorosas discussões da theologia. - -Um livro ainda difficil de ser obtido (a cada momento topamos com -raridades tão difficeis de serem alcançadas como a _Viagem_) nos prova, -que no seo retiro não poude resistir ao espirito do seculo. - -Não tendo mais indios a converter se pôz a discutir com protestantes, e -coisa estranha, foi um dos seos compatriotas, personagem muito estimado -pelos seos correligionarios, a quem elle atacou ou talvez a quem -respondeu somente. - -Ignoramos o titulo do primeiro opusculo, que elle arremessou ao seu -adversario, porem um sabio bibliographo da Normandia, o Sr. Frére, nos -deo o segundo, para nós uma especie de revelação. - -É este o titulo do folheto «_Supplemento necessario ao escripto que o -Capuchinho Ivo fez imprimir relativamente as conferencias entre elle e -João Maximiliano Delangle_.» Ruão, David Jeuffroy. 1618 em 8.º[AR] - -Este escripto, attribuido pelo douto bibliographo ao nosso missionario, -bem puderia não ser devido á sua propria penna, porem prova o -apparecimento de outra obra mais desenvolvida, e a existencia de serias -discussões oraes entre elle e os dissidentes. Mais agradaveis sem duvida -lhe foram sinceras discussões, que havia pouco tempo teve com Japi-Açu na -Ilha do Maranhão, onde as continuas predicas feitas no Forte de S. Luiz, -em presença de grande assembleia de indios, somente eram interrompidas -pela severa polidez, que lhes prescrevia escutar o orador em quanto -quizessem que elle fallasse, circumstancia, diga-se de passagem, que bem -poderia em algumas occasiões enganar um zeloso missionario sobre o exito -de seos esforços. - -Ivo d’Evreux então achava-se a braços com um dos homens mais firmes e -mais estimados entre os protestantes, e o escripto do Religioso foi -denunciado ao parlamento. - -João Maximiliano de Baux, senhor de Langle, era um ministro, joven, -ardente, natural de Evreux como o Padre Ivo, morador em Quevilly, pequena -Cidade de 1:500 a 1:600 habitantes á pequena distancia de Ruão.[AS] - -Ignoramos qual o objecto da discussão, e embora todas as nossas -deligencias não vimos uma só peça do processo, porem é certo que o ultimo -escripto, revelado pelo Sr. Frère, excitou de maneira notavel a attenção -da autoridade, porque em 8 d’Abril de 1620 proferio o parlamento uma -sentença a esse respeito condemnando David Jeuffroy a pagar uma multa de -50 libras por haver publicado sem licença previa o livro denunciado.[AT] -Como se vê, não alcançou esta decisão o nosso Missionario, e sim -limitou-se ao impressor, por elle escolhido, embora contenha uma censura -indirecta ao livro suppondo-se, que o nosso bom Missionario, pelo ardor -da questão, se deixasse arrebatar a ponto de fazer allusões pessoaes -dignas de censura. - -Á este respeito havia pouco escrupulo em 1618, e afinal se pensava que -seria interrompida a carreira do joven ministro, atacado pelo Padre Ivo: -bem longe d’isto, porque em 1623 foi pelos seos correligionarios nomeado -deputado ao synodo nacional de Charenton, e quatro annos depois tambem -fez parte do da Normandia, na villa de Alençon. - -De 1620 em diante perdemos todos os vestigios do Padre Ivo d’Evreux; -comtudo muitos escriptores ecclesiasticos depois d’isto registaram seo -nome em seos vastos obituarios, multiplicando erros, e assim provando que -nunca viram a obra do Padre Ivo. - -Boverio de Salluzo,[AU] Marcellino de Piza,[AV] Wading,[AW] -ordinariamente tão exacto, o Padre Diniz de Gênes,[AX] ou só dão -particularidades geraes, mui approximadas relativamente á sua obra, sem -mencionar a data d’ella, ou grosseiramente alteram o millesimo do anno da -impressão. Este ultimo, por exemplo, diz que foi em 1654, erro bem claro, -proveniente d’um primeiro erro typographico, repetido por Masseville,[AY] -e até por Moreri Normando.[AZ] O Padre Francisco Martin, da Ordem dos -Franciscanos, cujo manuscripto se guarda em Caen, por seo motu proprio a -colloca no anno de 1659, dando sempre como lugar da impressão a cidade de -Ruão. - -O _Epithome da la bibliotheca oriental y occidental_ de Leon Pinello, -livro reeditado por Barcia no seculo XVIII, é o unico, que n’aquelle -tempo mencionou com exactidão a _Viagem_, que reimprimimos, embora o seo -titulo fosse tão alterado pelo bibliographo hespanhol a ponto de por -elle ser difficil reconhecer-se o habil continuador do Padre Claudio -d’Abbeville, devido isto a influencia de Diniz de Gênes.[BA] - -Quasi que temos certesa, á vista dos manuscriptos doados pelo grande -Convento da rua de Santo Honorato, de ter vivido o Padre Ivo d’Evreux -alem de 1629, já esquecido porque n’aquelle tempo havia firme proposito -de desviar o Rei de Hespanha das tentativas feitas, não havia muito, á -respeito do Maranhão. - -É verdade, que os antigos chefes da expedição não poderam renovar tão -vasta empreza, onde se achavam seos maiores interesses. - -Embora a estima, que parecia gosar na corte o Almirante Rasilly, foi mal -succedido em todos os seos projectos com este fim, e depois que o bravo -Ravardiere, preso no Castello de Belem, recobrou a sua liberdade, nunca -mais regressou á America do sul. - -Apparecem ainda estes dois nomes na historia da nossa marinha[BB] e de -maneira gloriosa, porem na Africa, n’essas praias doentias, onde para -segurança do commercio deviam ser castigados de vez em quando atrevidos -piratas. - -Ravardiere, como acabamos de vêr, empregou gloriosamente os ultimos annos -de sua vida tão activa em favor do Christianismo, assim como já o tinha -feito em prol de sua patria, faltando-lhe apenas tempo para redigir a -Narração de suas viagens pela America do sul. - -Sabemos com certesa ter ordenado, que se escrevesse em 1614 um Relatorio -minucioso de sua expedição pelo Amazonas. Até nós não chegou esta -especie de jornal, que alem de esclarecer muitas coisas, seria tambem de -muito interesse para ser comparado com os documentos fornecidos n’essa -epocha por um francez, cujas viagens mereceo as honras da impressão. - -Na verdade, dez annos antes, no meiado de 1604, João Mocquet, o guarda -das curiosidades de Henrique IV e de Luiz XIII, percorreo as margens do -Amazonas, e exforçou-se para fazer conhecer aos seos compatriotas este -grande rio. Infelizmente este pobre cirurgião d’aldeia tinha mais zelo do -que luzes, e por isso não podiam ser suas observações confrontadas com as -de um homem, tão conhecido pela sua instrucção, como pela sua lealdade. - -A viagem de Ravardiere pelo Amazonas e Maranhão deve estar minuciosamente -descripta na grande chronica dos Padres da Companhia, existente em Evora. - -Consultando os sabios trabalhos bibliographicos do Sr. Rivara, n’elles -adquirimos esta certesa, pois o Cap. 111 d’este vasto _Cathalogo_ tracta -especialmente do dominio dos francezes n’essas regiões. Não podemos -pessoalmente examinal-o. Graças ao espirito investigador de tantos sabios -historiadores, ainda não perdemos de todo a esperança de encontrar o -escripto em questão. - -Diariamente emprega o Brazil os mais louvaveis exforços para colligir -documentos inedictos, fontes da sua historia, e se em alguma livraria por -ahi algures fosse descuberta a _Viagem_ de Ravardiere, serviria, com os -escriptos de Claudio d’Abbeville e de Ivo d’Evreux, de guia seguro para -se consultar relativamente a estas Provincias do norte, das quaes só se -conhecem as explendidas solidões, e cujo passado nos foi, para assim -dizer, revelado pelo nosso Missionario. - - -NOTAS - -[A] A ordem constitutiva do Mosteiro tem a data de 28 de Novembro. O -lugar da escolha foi concedido no anno precedente por Catharina de -Medicis aos Capuchinhos, vindos da Italia, e a doação foi confirmada por -Henrique III em 24 de setembro de 1574. Vide _Boverio_, Annali di Frati -minori. - -[B] O _Mercure-Galant_ deo á luz uma descripção, muito curiosa, da grande -botica do Convento. - -[C] Em 1617 contavam-se 655 Religiosos nas duas Custodias de Pariz e de -Roão, e entre elles 209 clerigos. - -Em 1685 haviam em França 5:681 Capuchinhos. - -[D] Não inventamos: um dos seos mais ardentes admiradores, tambem -Capuchinho, falla d’elle nestes termos: _Tantarum segete scientiarum, -factus est dives ut Galliæ Phœnix hac nostra ætate communiter sit -appelatus_. Vide o vasto Repertorio de Diniz de Gênes. _Bibliotheca -scriptorum ordinis minorum Sancti Francisci capucinorum._ - -Wading, mais moderado, contenta-se em chamar o Padre Ivo de -Pariz—_egregius concinnator, insignis Capuccinus_. - -O autor anonymo dos elogios manuscriptos dos Capuchinhos da Cidade de -Pariz não pôz limites ao seu enthusiasmo, quando disse: «a natureza -parece ter querido exgotar-se, quando cedeo a tão grande personagem tudo -quanto podia dar-lhe com abundancia de grandeza, tão rara quam admiravel.» - -Nasceo em 1590, Ivo de Pariz, tomou o habito religioso em 27 de setembro -de 1620, seis annos depois que o Padre Ivo de Evreux regressou doente do -Brazil, e afinal falleceo em 14 de ouctubro de 1678. - -Este religioso conseguio imprimir vinte e oito obras de sua lavra, cujos -titulos principaes vamos reproduzir seguindo a ordem chronologica de suas -publicações. - -_Os felizes resultados da piedade, ou os triumphos da vida religiosa -sobre o mundo, e contra a heresia._ 4.ª edicção, Pariz 1634. 2 vol. em 12. - -_Da indifferença._ 2.ª edicção. Pariz. 1640. em 8.º - -_A theologia natural._ Pariz. 1640-1643. 4 T. em 4.º - -_Astrologiæ novæ methodus et fatum universi observatum, a Franc Allaeo -Arabe Christiano._ Pariz. 1654. Temeo este Capuchinho, apesar de atrevido -e credulo, publicar este livro com o seo nome, e por isso deo-o á luz sob -o titulo _Fatum Mundi_. - -_Jus naturale rebus creatis á Deo constitutum_ etc. etc. Parisiis. 1658 -in folio. - -O _Fatum Mundi_ foi reimpresso em 1658, e no anno seguinte appareceu esta -obra. - -_Dissertatio de libro præcedenti ad amplissimos viros senatus Britanniæ -Armoricæ._ Parisiis. 1659. in folio. - -_Digestum sapientiæ in quo hebetur scientiarum omnium rerum divinarum -et humanarum nexus_ etc. etc. 1654-1659. 3 vol. in fol, reimpressos com -augmentos em 1661. - -_O Magistrado christão, coordenado pelo Padre Ivo, seo sobrinho._ Pariz. -1688 em 12. - -_As falsas opiniões do Mundo._ Pariz 1688 em 12 etc. etc. - -Vê-se, que não ha analogia alguma entre os estudos d’estes dois -Capuchinhos. - -Uma das obras do Padre Ivo de Pariz foi queimada pela mão do carrasco. - -[E] E não Silvére, como por descuido disse em sua biographia o veneravel -Eyriés. (Vid Mr. Prarond. _Les hommes utiles de l’arrondissement -d’Abbeville._ 1858—in 8.º) - -[F] Vid o Manuscripto da Bibliotheca mazarina, ja citada, que tem este -titulo «_Annales des R. P. Capucins de la Province de Paris, la mer et la -source de toutes celles de ça les monts._» N. 2879 pet in 4.º - -[G] Francisco de Bourdemare, ou Boudemard, natural de Ruão, deixou a -Provincia, onde gosava sua familia de muita consideração para em Orleans -fazer-se Capuchinho. Como noviço entrou no Convento d’esta Cidade, em 2 -de outubro de 1603, porem é muito provavel, que voltasse para a Normandia -antes de ir residir no grande Convento da rua de Santo Honorato. - -[H] O Padre Leonardo morreu em Pariz com 72 annos de idade, no dia 4 de -setembro de 1640. Antonio Fauro, seo pae, era conselheiro do parlamento -de Pariz. - -O livro dos _Elogios-historicos_, manuscripto da Bibliotheca Imperial, -o qualifica como «o maior homem, que ja teve, e que nunca mais terá, a -Religião dos Capuchinhos.» Encontra-se elle outra vez Provincial na rua -de Santo Honorato no anno de 1615. - -[I] Vide à respeito da expedicção protestante do Sr. Villegagnon, as -Relações circunstanciadas de Niculau Barre, de João de Lery e do Anonymo -conhecido por Chrispim. É certo que estabeleceram os Calvinistas seo -predominio na Bahia do Rio de Janeiro, porem á elle se podem oppôr -diversos pamphletos, escriptos por causa do Chefe da empresa. Estas peças -satyricas fazem parte das ricas collecções da _Bibliotheca do Arsenal_. - -[J] Como se verá em outro lugar, logo após a publicação da primeira -parte da viagem, a antiga expedição de Ravardière foi precedida pelas -de Riffault em 1594, e de De-Vaux, o companheiro d’este ultimo, que -misturando-se com os Indios dedicou-se muito ao descobrimento d’este paiz. - -[K] Julgamos dever reproduzir aqui o texto d’esta concessão renovada: não -conhecemos o primeiro. «Luiz, a todos os que virem a presente. Saude. -O defunto Rei Henrique, o grande, nosso muito honrado senhor e pae, a -quem Deos perdoe, tendo por Cartas patentes de julho de 1605 constituido -e estabelecido o Sr. de Revardiere de la Touche, seo lugar-tenente -general na America, desde o rio do Amazonas até a Ilha da Trindade, e -havendo elle feito duas viagens ás Indias para descobrir as enseadas e -rios proprios para o desembarque e estabelecimento de colonias, no que -seria bem succedido, pois apenas chegou n’esse paiz soube predispôr -os habitantes das ilhas do Maranhão e terra firme, os Tupinambás e -Tobajaras, e outros a procurarem nossa protecção e sugeitarem-se á nossa -authoridade, tanto por seo generoso e prudente procedimento, como pela -affeição e inclinação natural, que n’estes povos se encontram para com -a nação franceza, bem conhecida por elles pela remessa que fizeram dos -seos embaixadores, que morreram apenas chegaram ao porto de Caucalle, e -dos quaes teriamos ainda recebido iguaes protestos, segundo as narrações -feitas pelo Sr. de Ravardiere, tudo isto depois nos daria occasião de lhe -fazer expedir nossas Cartas patentes de outubro de 1610 para regressar, -como Chefe, ao dito paiz, continuar seos progressos, como teria feito, e -ahi demorar-se-ia dois annos e meio em paz, e 18 mezes tanto em guerra -como em treguas com os portuguezes etc. etc.» - -Guardamos para a proxima publicação do livro de Claudio d’Abbeville, de -que este é o complemento, todas as occorrencias politicas, relativas -á expedicção, e reservamos tambem para ella os traços biographicos de -Razilly, de Ravardiere e de Pezieux. - -[L] Pode-se ler tudo isto minuciosamente na _Carta de obediencia_ dada ao -Padre Ivo na _Chronologia historica dos Capuchinhos da Cidade de Paris_ -pag. 193. Tem a data de 27 de agosto de 1611, e começa assim: «_Venerando -in Christo Patri Ivoni Ebroiense predicatori ordinis fratrum minorum -Sancti Francisci Capucinorum, frater Leonardus pariensis ejusdem ordinis -in Provincia parisiensi licet immeritus salutem in domino, in eo qui est -nostra salus_». - -[M] Descançam seos restos mortaes no Brazil, pois foi o unico de seos -companheiros, que não voltou á Europa. O padre Ambrosio de Amiens, -pelos seos estudos, tinha-se distinguido na Sorbona, e quando ia -requerer licença para seguir a carreira da magistratura, ou dedicar-se -simplesmente á advocacia, resolveo em 1575 entrar na Ordem dos -Capuchinhos: foi um dos primeiros irmãos, que tomou o habito no Convento -da rua de Santo Honorato, onde por diversas vezes exerceo o cargo de -Guardião. - -Deve-se collocar entre os annos de 1584 e 1586 a epocha das corajosas -dedicações, em que elle afrontou os horrores do contagio para soccorrer -a população parisiense, que então lhe deo o sobrenome pelo qual era -conhecido. A sua idade, ja avançada, devia isental-o d’esta viagem, porem -não foi possivel resistir-se ás suas instancias, e nem a todos os meios, -que empregou para fazer parte d’essa missão, que foi de grande utilidade. - -Vêde o _Manuscripto_ da Bibliotheca Imperial intitulado «_Eloges -historiques de tous les grands hommes, et de tous les illustres religieux -de la Province de Pariz_.» - -[N] O Padre Honorato de Champigny morreo com cheiro de Santidade em 1621. - -[O] Sabemos d’esta obra por Guibert apenas, pois nenhuma outra -bibliographia especial a menciona. Bourdemare publicou suas observações -sob o titulo _Relatio de populis brasiliensibus_. Madrid. 1617 in 4.º -Leon Pinelli falla de Frei J. Francisco de Burdemar (assim escreveo -elle) como falla de Ivo d’Evreux por ouvir dizer. Affirma o _Livro dos -elogios_ ter emprehendido duas viagens á America, e afinal que morrera -como _forasteiro_ n’um dos Conventos da sua Ordem em Hespanha, um anno -antes da publicação do seo livro. Parece-nos, que a expressão pelo -biographo usada da palavra espanhola—_forasteiro_, quer dizer pura e -simplesmente—_estrangeiro_. - -[P] O Padre Arsenio de Pariz tambem não tardou em deixar o Brasil, porem -o triste resultado dos negocios do Maranhão não arrefeceu o seo zelo -pelas missões. Foi para o Canadá onde prégou aos Hurons depois de haver -convertido os Tupinambás. - -Foi Superior das missões da America do Norte por cinco annos e depois -morreo no grande Convento de Pariz, em 20 de Junho de 1645 contando 46 -annos de habito. É muito provavel, que tivesse por successor na America -o Padre Angelo de Luynes, Guardião de Noyon, pois foi Commissario e -Superior das missões do Canadá em 1646. - -[Q] O Convento dos Capuchinhos da Cidade d’Evreux foi edificado em 1612 -«na extremidade de um suburbio da cidade do lado do meio dia, devido -em parte aos cuidados e á liberalidade de João le Jau, então grande -penitenciario e vigario geral da diocese.» Vide _Histoire civile et -ecclesiastique du comté d’Evreux_, pag. 365. O abbade Lebeurier, cujas -luzes e zelo archiologico são conhecidos, prestou-se a fazer a este -respeito todas as pesquizas possiveis, porem, infelizmente, debalde. - -[R] O manuscripto que temos á vista, e que dá conta summaria da viagem -de Arcanjo de Pemuroke, não nos diz claramente o nome da localidade -onde saltaram os Missionarios, e por isso nos limitamos a transcrever a -narração do seo desembarque: «foram alguns soldados á terra, e acharam -diversos obstaculos, que nos pareceram máos prognosticos, como fossem -alguns portuguezes e um sacerdote secular, que assolavão os gentios -contra os francezes, e do _Forte_ souberam nossos soldados, que os -portuguezes projectavam tomar a costa do Maranhão, e d’ella expellir -os francezes, o que fez suspeitar aos Padres que poucos fructos aqui -colheriam:» _Ms. da herdade dos Capuchinhos da rua de Santo Honorato_. - -[S] Circumscripto a um pequeno quadro, apenas podemos dar mui -summariamente a descripção dos acontecimentos, que deram em resultado o -abandono do Maranhão pelos francezes. - -Acabou-se tudo em 21 de novembro de 1614, depois da batalha onde falleceu -o infeliz Pézieux. - -Alem da grande _Memoria_ publicada pela Academia Real das Sciencias de -Lisboa á respeito d’esta expedicção, encontram-se mais amplas informações -sobre este periodo da historia do Maranhão e suas missões pelos Jesuitas -na vasta e preciosa publicação do Dr. A. J. de Mello Moraes, intitulada -«_Corographia historica, chronologica, genealogica, nobiliaria e politica -do Imperio do Brasil_.» (Vide o Tomo 3º, publicado em 1860). - -[T] Sua morte está marcada nos _Obituarios_ da Ordem no dia 29 d’Agosto -de 1632, isto é, no anno em que foi celebrado o tractado de Castelnaudary. - -Contava n’esse tempo 47 annos de Religião, e n’ella sempre foi conhecido -pelo _Religioso escossez_, embora pertencesse realmente a uma familia -gaulesa. - -[U] Ordinariamente calam os historiadores esta ultima circumstancia, e -não se encontra nem se quer referida summariamente e sem commentarios -senão na collecção diplomatica (Quadro elementar) do Visconde de -Santarem. A Carta authographa, que prova o captiveiro de Ravardiere -existe na _Bibliotheca da rua Richelieu_, onde a vimos. Ella contraria, -repita-se, o que se passou um anno antes no campo de Jeronymo -d’Albuquerque. Está escripta com muita moderação, e foi derigida a M. de -Puysieux (Vid _fonds franç._—Nº 228—15 p. 197.) - -[V] Informações inexactas sem duvida fizeram com que Mr. Ferdinand Diniz -mencionasse aqui este facto, nunca acontecido.—Do traductor. - -[W] Lembro-me com prazer duma delicada expressão do sabio Augusto de -Saint Hilaire. - -Lery, como se sabe, viajou pelo Rio de Janeiro no tempo de Villegagnon, -isto é em 1556. A primeira edicção da sua interessante narrativa -somente appareceu em 1571. Nosso Ivo d’Evreux, cujo estylo tem tantos -pontos de contacto com o d’este escriptor, leria seo livro? N’elle nada -encontramos, que nos leve a responder pela afirmativa. Multiplicaram-se -porem as edicções de Lery e a tal ponto, que a quinquagesima e ultima foi -em 1611. - -[X] Este projecto de dupla aliança entre as duas corôas ja era de 1612, -porem foi annunciado officialmente em 25 de Março do mesmo anno, mas só -foi executado d’ahi ha tres annos. - -Partiram os Missionarios a 19 de Março. Os esponsaes do rei de França com -a infanta ainda não preocupavam os espiritos como depois aconteceo, por -exemplo, em 1615. - -Todos os factos relativos aos dois reinados são minuciosamente descriptos -no livro intitulado «_Inventaire generale de l’histoire de France par -Jean de Serre, commençant á Pharamond et finissant á Louis XIII_. Paris, -Mathurin Henault, in 18. (Vid o T. VIII). - -[Y] Podia ainda ver-se, ha alguns mezes atraz, na casa de um vendedor de -curiosidades, da rua do Petit Leon, um desenho attribuido a Luiz XIII, -quando menino, representando muito bem a figura d’um Tupinambá enfeitado -com pinturas exquisitas. - -[Z] Devo ainda a Mr. Ferdinand Diniz a seguinte communicação, feita em -carta, por mim sempre muito presada, de 16 de setembro de 1873. - -«O segundo exemplar conhecido da obra do Padre Ivo d’Evreux pertence ao -Sr. Dr. Court, habil e zeloso bibliographo e possuidor, por sua fortuna, -de grandes raridades. - -«Tive em minhas mãos este precioso exemplar, que custou 800 francos. - -«Tem mais duas ou tres folhas do que o da Bibliotheca Imperial. - -«O feliz possuidor do exemplar conhecido mora em Pariz, _rue du Centre n. -4_; actualmente anda viajando em beneficio da saude alterada de um seo -irmão, porem quando elle voltar, irei de novo visitar seo thesouro.»—Do -traductor. - -[AA] É geral a obscuridade, que reina sobre a biographia d’estes antigos -viajantes, tão importantes debaixo do ponto de vista da historia. O -veneravel Eyriés, que citamos as vezes, é bem pouco baseiado em suas -ideias, por exemplo, quando affirma que Claudio d’Abbeville viveo -até 1632, quando os Manuscriptos da casa de Santo Honorato o dão por -fallecido em Ruão no anno de 1616 com 23 annos de religião. - -Tambem não é exacto o attribuir-se-lhe a _Vida da bemaventurada Coletta_, -virgem da Ordem de Santa Clara, pois appareceo este livro em 1616, em -12, e em 1628 em 8º: as iniciaes, que traz no frontespicio bem poderiam -evitar este engano, na verdade pequeno. - -O opusculo, de que estamos tractando, acha-se na _Bibliotheca do -Arsenal_, onde o examinamos. - -[AB] Essa compilação, verdadeiramente curiosa, começou em 18 de novembro -de 1709, e se compunha outr’ora de 3 vol. em 4.º. O T. 1º, infelizmente -perdido, continha os _Annaes da Provincia_, e provavelmente ficamos -privados de algumas preciosas particularidades sobre a missão do Padre -Ivo: tinha o titulo de—_Capuchinhos da rua de Santo Honorato_, 4.º (Ter.) - -[AC] O Padre Pascoal d’Abbeville foi eleito 19º Provincial do Convento -da rua de Santo Honorato: a divisão havida em 1629 foi provavelmente por -causa do numero sempre crescente de Religiosos nos tres Conventos de -Pariz. - -[AD] Em geral não são conhecidos estes versos de Ronsard, derigidos ao -fundador da França antarctica, a essa personagem voluvel, ora huguenote, -ora fervoroso catholico; cujas severidades excentricas Lery evitou -fugindo para as mais longinquas florestas: - - Douto Villegaignon, como te enganas! - Tu pretendes em vão tornar ameno - D’America o viver estranho e rude... - Acaso não vês tu que a nova gente - Tão nua é no trajar como no peito - É nua de malicia?—que não sabe - Ao vicio e á virtude o nome ao menos? - —Que não sonha com Reis nem com Senados, - E, isenta do temor, das leis ao jugo, - Á mercè das paixões a vida passa? - Ignoras, por ventura, que ahi mostra-se - Cada homem de si livre senhor; - e Leis, Senádos, Reis, em si resume? - Não é a terra e o ar commum a todos? - Vê-se, áquella, cobrir ferro importuno - O seio virginal de longos sulcos?... - Commum é tudo ahi, como dos rios - São as aguas perennes que trasbordam - Sem processo intentar de plena posse. - Oh, não queiras, por isso, dessa gente - O repouso turbar dos velhos usos! - Si ha remorso em tua alma, em paz os deixa; - Não procures, p’ra os campos estenderem. - Ensinar-lhes á terra pôr limites! - Choverão os processos, e a fraude - Á amisáde terá então de unir-se! - Logo após, d’ambição o duro espinho - (Como a nòs acontece, desgraçados!) - Tormento lhes será—negro, incessante. - —Seu repouso não quebres: são felizes; - Elles gosam na terra a edade d’oiro. - - (Traducção do Sr. J. T. de Souza.) - -[AE] Vide a «Correspondencia e a Collecção Peiresc.» - -[AF] Este estimavel escriptor deo d’isto uma prova no seo poema da -primeira semana, somente impresso em 1610 embora fallecesse seo auctor em -1599. - - Ja o ardente Cocuyo á Nova Espanha - Vai nas azas dois fachos conduzindo, - Outros dois flamejando ergue na fronte. - Á luz d’este esplendor de regios leitos - Nos cortinados arabescos pintam-se, - Á luz d’este esplendor em noite negra - O habil artesão o marfim pule, - Conta o avaro, no cofre, seu thesouro, - Veloz o escriptor a penna guia. - - Traducção do Sr. J. T. de Souza. - -[AG] _Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuitica pela Bahia, -Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, etc. escripta -em duas cartas ao Padre Provincial em Portugal_. Lisboa. 1847 em 8.º - -[AH] _Tratado descriptivo do Brasil em 1587_, etc. Rio de Janeiro, 1851 -em 8.º Foram estas duas obras exhumadas pelo Sr. F. A. de Varnhagem, -historiador tão conhecido do Brasil. Esta ultima obra, de que existe um -Manuscripto na _bibliotheca imperial_ de Pariz foi tambem reproduzida -por seo habil edictor na _Revista_ trimensal. Morreo Gabriel Soares em -1591 n’uma praia deserta, após deploravel naufragio: como se vê foi quasi -contemporaneo de Ivo d’Evreux. - -[AI] Affirma Berredo ser este indio um amigo dedicado dos franceses, -porem melhor informado o _Jornal de Timon_ nos deo o nome deste selvagem, -educado nas missões do Sul. Ja se vê, que não podia ter muita affeição -aos francezes. - -Para urdir este horrivel estratagema, basta somente o odio, que nutriam -certos indios contra os dominadores do seo paiz, não sendo necessario ser -filho de Ruão ou de Rochelles. - -[AJ] Vide _Berredo, Annaes historicos do Maranhão_, e tambem o _Jornal de -Timon_ de J. Lisboa, ns. 11 e 12, 1858, Lisboa. Diz este escriptor ter -fallecido Jeronimo d’Albuquerque em 1618 succedendo-lhe no governo seo -filho Antonio d’Albuquerque. - -[AK] Partiram para Goiana em 1635 os Missionarios da Ordem dos -Capuchinhos, cujos trabalhos podem ser vistos nos manuscriptos legados -pelo grande Convento de Pariz. - -[AL] Vide a respeito d’estes povos a rapida visita, que lhes fez -Castelnau em 1851: _Expedicção scientifica nas partes centraes d’America -do Sul_. T. 2º pag. 316. - -[AM] Vide _Trabalhos da Commissão scientifica de exploração_. Rio de -Janeiro. Typ. de Laemmert—1862 in 4.º - -[AN] Na _Corographia historica_ do Dr. Mello Moraes encontram-se noticias -minuciosas sobre as missões dos jesuitas e administração dos indios no -Maranhão. Desde o principio do seo T. 3º teve este escriptor o cuidado -de confessar o immenso auxilio, que lhe prestaram as obras doadas ao -Instituto Historico do Rio de Janeiro pelo conselheiro Antonio de -Vasconcellos de Drumond e Menezes. Em suas longas viagens, o diplomata, a -quem se deve tão preciosas informações sobre a Africa, não se limitou a -estas investigações, pois ainda colheu muitos manuscriptos á respeito do -Brazil, que hoje servem de base ao historiador. - -Cego ha muitos annos, faz ainda muita honra á sua patria. - -[AO] Tres annos antes da partida dos Capuchinhos para Maranhão, o padre -du Jarric dedicava ao Rei menino o seguinte livro: «_Segunda parte -da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas tanto nas indias -orientaes como nos outros paizes descubertos pelos portuguezes, no -estabelecimento e progresso da fé christan e catholica, e principalmente -do que fizeram e soffreram os religiosos da companhia de Jesus para este -fim ate o anno de 1600_» pelo Padre Pedro du Jarric, da mesma companhia -em Bordeaux, Simon Mellange. 1610 em 4.º Tudo quanto diz respeito ao -Brazil acha-se n’este vasto resumo desde pag. 248 até 359, porem deve -procurar-se os factos curiosos, citados n’esta noticia no livro 5º do que -o auctor chamou _Historia das Indias Orientaes_, parte 3ª pag. 490. - -[AP] Desta primeira edicção, publicada em 1621, tornou-se, para assim -dizer, impossivel ser encontrado um sò exemplar. - -A segunda edicção sahio com o titulo _Arte de grammatica da lingua -brasilica do padre Luiz Figueira, Theologo da Companhia de Jesus_. -Lisboa, Miguel Deslande, anno 1687, pet. em 12.º O sabio bibliographo -portuguez o Sr. Innocencio Francisco da Silva não reproduz exactamente -este titulo, porem menciona uma edicção da Bahia em 1851 pelo Sr. João -Joaquim da Silva Guimarães, cujo titulo é muito extenso. - -A grammatica do Padre Anchieta—_Arte da grammatica da lingua mais usada -na costa do Brasil_, appareceo em Coimbra no anno de 1595, em 8º, e -d’ella em Portugal apenas se conhece um exemplar. - -[AQ] Santo Eloy, perto de Gisors, no destricto de Euro, é uma povoação de -381 habitantes, á 25 kil. de Andelys. - -Ha tambem Santo Eloy de Fourques, aldeia do Euro, a 25 kil. de Bernay. - -Estamos propensos a crer, que foi na primeira, onde residio o nosso -Missionario. - -[AR] Vide _Bibliographia Normanda_. - -Derigimo-nos directamente á douta officiosidade do Sr. Frère afim de -obtermos o conhecimento do _Supplemento necessario_, porem apesar de -constantes investigações vio-se na impossibilidade de nos dar outras -noticias alem das que colhemos em sua excellente obra. - -[AS] Quevilly, _Clavilleum_, povoação do Senna inferior, distante de Ruão -apenas 6 kil. e faz parte do districto de Grande Couronne. - -[AT] Mais tarde foi chamado Maximiliano de Baux para encarregar-se -da egreja do culto reformado em Ruão, viveo até a idade de 84 annos, -e falleceo em 1674 deixando reputação de homem recto, e de costumes -austeros. - -Vide os irmãos Haag, a _França protestante_. - -[AU] _Cupucinorum Annales_. Lugduni, 1632, em fol. e depois a traducção -italianna—_Annali di Fratri minori Cappucini_ etc. Venetia 1643 em 4.º - -[AV] _Annales seu sacrarum historiarum ordinis minorum sancti Francisci -qui Capucini nuncupantur_ etc. Lugduni. 1676. - -[AW] _Annales ordinis minorum_. 2.ª edic., Roma, 1731. Depois os -_Scriptores ordinis minorum_. 1650, em fol. - -[AX] _Bibliotheca scriptorum ordinis minorum_, Genova, 1680 em 4.º, -reimp. em 1691 in fol. Este ultimo depois de algumas linhas, em que -fallou do merecimento de _Ivo Ebroycensis, vulgo de Evreux_, dá tambem -noticia do seu livro: _scripsit gallicé Relationem sui itineris et -navigationis sociorum que Capucinorum ad regnum Marangani: cui etiam -adjunxit historiam de moribus illarum nationum_. Rothomagi. 1654. Vid T. -1º em 4.º - -[AY] _Historia da Normandia_. T. VI pag. 414. Masseville prova com toda -a evidencia ter se contentado com traduzir o Padre Diniz de Gênes, pois -disse ter o nosso Missionario, «dado uma Relação geographica das regiões, -por onde se embrenhou, e particularmente do paiz do _Marangan_». _Regni -Marangani_, escreveo seo predecessor. - -[AZ] Vede este precioso manuscripto na Bibliotheca de Caen. Uma -bibliotheca americana organisada pelo coronel Antonio de Alcedo. -Madrid. 1791, 2 vol. em 8º, não menciona o Padre Ivo, causando-nos tal -omissão pouco desgosto, á vista de se dizer ahi haver o Padre Claudio -d’Abbeville, seu companheiro, convertido com infatigavel zelo os -selvagens do Canadá! - -[BA] A primeira edicção do _Epitome_, hoje rarissima por ter sido -suprimida por ordem da Inquisição, só traz no seu titulo aberto a -gravura o anno da impressão 1629 e o nome de _Antonio de Léon_, e -não o de Pinelo. Não falla de Ivo d’Evreux, isto é, deste livro, que -pertence a Bibliotheca de Santa Genoveva. Na edicção em 3 vol. pequenos -em fol., por Barcia, assim menciona invertendo o seu titulo: _Fr. Ivon -d’Evreux, capuchino. Relacion de su viage al Reino de Marangano, com sus -companeros: historia de los costumbres de aquellas naciones_. Imp. em -1654 em 4º francez. - -[BB] Isaac de Razilly, cavalleiro da ordem de São João de Jerusalem, -primeiro capitão do almirantado de França, chefe d’esquadra da armada -real na provincia da Bretanha, foi nomeiado almirante da frota real, -em expedicção nas costas da Barbaria no anno de 1630, e adjunto de -Ravardière: em 3 de septembro d’esse mesmo anno estava elle em Safy -resgatando captivos. - - - - - CONTINUAÇÃO - - DA HISTORIA - - DAS COISAS MAIS MEMORAVEIS - - HAVIDAS EM - - MARANHÃO[1] - - NOS ANNOS DE 1613 A 1614 - - SEGUNDO TRATADO - - PARIZ. - IMPRENSA DE FRANCISCO HUBY - RUA DE SÃO THIAGO, NA BIBLIA DE OIRO, E NA SUA OFFICINA - NO PALACIO DA GALERIA DOS PRESIONEIROS - MDCXV - COM PRIVILEGIO DO REI - - - - -AO REI - - -SENHOR. - -O que eu pude por meios subtis saber á respeito do livro do Rvd. -Padre Ivo d’Evreux, supprimido por fraude e impiedade mediante certa -quantia dada ao impressor Francisco Huby,[2] ponho agora na presença -de V. Magestade, dois annos e meio depois do seu apparecimento, tão -injustamente supprimida apenas veio a luz, afim de que V. M. e a Rainha -sua Mãe, então regente, não visse a verdade tão clara, como ahi estava, e -fosse mais facilmente illudida sua boa fé, por meio de falsas informações -para que, contra suas santas e boas intenções, deixasse morrer a empresa, -mais cheia de piedade e honra, que então se podia executar no novo Mundo, -como se conhecerá tanto pela obra do Padre Claudio d’Abbeville, como por -esta, embora incompleta por faltar a maior parte do Prefacio e alguns -capitulos no fim. - -Praticaram estes actos com intenção de perder V. M. o titulo de Rei -Christianissimo forçando-o a abandonar os sacrificios, e as obrigações -contrahidas para com os novos christãos, a reputação de suas armas e -bandeiras, a utilidade vossa e de vossos subditos, proveniente de um -paiz tão rico e fertil, um porto tão importante como proprio á navegação -de longo curso, hoje deteriorado, e tudo o mais adquerido com muitas -despezas e cuidados. - -Para chegar-se a este ponto necessario foi recorrer á duas imposturas, -muito bem conhecidas por pessoas de bom senso: uma foi de dizer-se que -este paiz nada produzia, e nem tinha riqueza alguma, contra a verdade -geralmente sabida: a outra foi de serem os indios incapazes de receberem -a luz do Christianismo em opposição á palavra de Deos e á doutrina -universal da Igreja. - -Eis como, Senhor, acabou-se esta excellente empresa tão bem começada, -sendo tão triste resultado devido a fraude e a malicia d’aquelles, -que, desejando occultar seos defeitos, os atiravam sobre o paiz, que -por negligencia dos maus francezes, cuidadosos só do seo proveito e -interesse particular, se esqueceram do de V. M., embaraçando perda tão -notavel, ludibrio hoje de todas as nações estrangeiras, menoscabo de -vossa auctoridade real em toda a Europa, e de dôr a todos os vossos bons -subditos. Quando V. M. quizer sahir d’estas illusões, aconselhado por -pessoas honradas, e reconhecidas pelo seu zelo ao augmento da gloria -de Deos, e do vosso reinado, eu vos offereço ainda a minha vida e a de -meus irmãos, fazendo conhecer, com a nossa pouca pratica e experiencia, -por todos os cantos do novo Mundo, que em toda a christandade não ha um -Monarcha tão grande e poderoso, como um Rei de França, quando elle quizer -empregar não seo poder, e sim apenas sua authoridade. - -Eis, Senhor, tudo o que pode um dos vossos mais humildes subditos, que, -embora tenha soffrido, durante vossa minoridade, maos tractos, perda -de bens e de fortuna, ainda tem coragem bastante para vos servir com -dedicação. - -Estou certo de acolherdes meos serviços, e o voto solemne, que faço de -ser até o fim de minha vida, - -Vosso humillissimo e obedientissimo servo e subdito - - _Francisco de Rasilly_. - - - - -AO REI - - -SENHOR. - -A principal razão, que moveo os antigos a collocar entre os Deoses a -maior parte dos seos Imperadores, foi o espirito religioso d’elles -manifestado durante a vida. - -Coisa notavel na historia: ainda que alguns imperadores levantados -da infima classe até ao cume do poder, se tenham mostrado crueis e -sanguinarios para com seos subditos, comtudo alcançaram, após sua morte, -o nome de Deoses, tiveram Templos e altares, sacrificios e sacerdotes, -creados e nomeados pelo senado em virtude da piedade e da religião, que -conservaram inalteraveis no meio dos seos muitos defeitos. - -Estes monarchas, grandes em dominio e pequenos no conhecimento do -verdadeiro Deos, tinham innato em seo coração o amor pela Magestade -divina, de que são viva imagem todos os monarchas, e por isso lhes -pertence estender o reino de Deos como seos Loco-tenentes. - -Com esta intenção espalhavam arcos e tropheos, columnas e imagens para o -ensino da religião, e á posteridade legavam chapas e laminas de metaes -indistructiveis, como sejam o bronze, o ouro, e a prata, onde se viam -gravadas as suas imagens, e com ellas alguns vestigios da sua piedade, -cuja memoria o tempo não póde destruir. - -Antonino, o pio, assim deixou buriladas em bronze e prata, sua caridade -e religião representadas na imagem de uma mulher, vestida como Deosa, -tendo em frente um altar onde se achava um pouco de fogo ardendo -constantemente, e no qual ella derramava á todo o instante, como em -sacrificio, oleos odoriferos, mostrando com isto a Piedade e Religião, -que consagrava aos Deoses. - -Si a inclinação natural, sem o auxilio da graça e da luz sobrenatural, -podesse tanto no coração d’estes monarchas, o que podemos dizer e pensar -quando Deos inspira o coração dos reis illustrados e ricos da verdadeira -religião? - -Luiz 4.º, imperador, principe virtuoso e geralmente estimado á todas -as suas occupações preferia a Religião, e para animar todos os seos -subditos á imital-o, mandou cunhar o dinheiro com a figura de um templo -atravessado por uma cruz, e ao redor lia-se a inscripção—_Christiana -Religio_. - -O que excedeo, Senhor, a todos os Monarchas do Mundo, em piedade, e -religião, foi São Luiz, a honra dos francezes, e de quem herdastes sangue -e sceptro, nome e imitação de suas virtudes, porque não só empregou seos -thesouros e sua nobresa, mas tambem sua pessoa, atravessando mares, -(mares, que, como a morte, não fazem distincção quando querem involver -alguem nas suas ondas) afim de erguer a piedade e a religião, abatidas -pela crueldade dos infieis, e n’esta tarefa morreu. - -Até hoje ainda não houve seculo algum de Rei, tão parecido com o do -bom São Luiz, como o vosso, Senhor, e deixando á parte o que não vem a -proposito, eu tomarei somente este bello feito, com que imitastes sua -piedade e religião, para com esses pobres selvagens, desejosos em extremo -de conhecerem a Deos, e de viverem á sombra de vossas luzes, como sejam -os habitantes de _Maranhão_, de _Tapuytapera_, de _Cumã_, de _Cayté_, do -_Pará_, alem dos _Tabaiares_ e os _Cabellos-compridos_ e muitas outras -Nações, que muito ambicionavam aproximarem-se dos Padres, como direi -adiante. - -Tudo isto, Senhor, só vós podeis, porque os indios naturalmente gostam -dos francezes e aborrecem os portuguezes: os nossos religiosos apenas -podem arriscar suas vidas para convertel-os, porem pouco duraria isto a -não ser a vossa real piedade. - -Não é empresa tão difficil como se calcula, e nem tão cheia de cuidados e -de gostos, como se suppõe: não serão precisos 500 ou 1:000 escudos, pois -basta mediocre liberalidade, porem bem administrada para a sustentação do -seminario, onde se devem educar os filhos dos selvagens, unica esperança -da firmesa da religião n’aquelle paiz. - -Si V. M., Senhor, se resolver a fazer isto, asseguro-vos que o vosso -exemplo será imitado por muitos Principes e Princezas, Senhores e Damas, -que contribuirão com alguma coisa para o augmento da fé n’aquelles -logares. - -Para que eu não canse a V. M. com desagradavel prolixidade, acabarei com -esta historia evangelica da pobre Chananea, reputada como cadella, a qual -pedia, para livrar sua filha do poder do Diabo, apenas as migalhas, que -cahiam da meza real do Redemptor. - -Descende do mesmo Pae de Chananéa esta nação de selvagens, e seos filhos -estão no dominio do diabo, como infieis: ella não pede nem vossos -thesouros, e nem grande quantia, e sim apenas as migalhas superfluas, que -cahem, aqui e ali, da vossa real grandesa. - -Por tudo isto, Senhor, eu humildemente vos supplico, que olheis com bons -olhos para esta pobre Nação, e que recebaes com animo bem disposto este -pequeno _Tratado das coisas mais notaveis acontecidas durante a minha -residencia entre elles por espaço de dois annos_, conforme as ordens da -Rainha vossa Mãe, dadas aos nossos Rvds. Padres, que procurei cumprir -tanto quanto me foi possivel, como vereis quando lerdes essa minha obra, -cujo trabalho, si merecer a vossa approvação, dar-me-hei por muito bem -recompensado em quanto viver, e toda a existencia, que por Deos me fôr -concedida, eu a empregarei em servir fielmente a V. M., como aquelle que -é e sempre será de - - V. M. subdito muito humilde e fiel, - - Frei _Ivo d’Evreux_, Capuchinho. - - - - -ADVERTENCIA AO LEITOR. - - -AMIGO LEITOR. - -Advirto-vos, que não repetirei aqui coisas ja escriptas pelo Padre -Claudio d’Abbeville na sua _Historia_, e somente accrescentarei o que -mais do que elle soube por experiencia, pois eu estive em Maranhão -dois annos completos e elle apenas quatro mezes: verificareis esta -verdade, comparando os nossos escriptos, e facilmente descobrireis o que -augmentei. - - - - -PREFACIO A RESPEITO DOS DOIS SEGUINTES TRATADOS. - - -A _Sapiencia_ nos _Proverbios_ 29, apresenta um ensino allegorico, muito -bonito, n’estas palavras: _pauper et dives obviaverunt sibi, utriusque -illuminator est Dominus_: vi o pobre sahindo do Hospital cuberto de -chagas e ulceras, carregado, e não vestido, de trapos, caminhar pela -praça publica e entrar no Templo do Senhor pela porta do meio-dia: -na mesma occasião vi o rico sahir do seu palacio, vestido de seda e -carregado de ouro, prata, e pedras preciosas, caminhando pela estrada que -vae dar á porta do Tabernaculo pelo lado do Septentrião, tão a proposito, -que um e outro, o pobre e o rico, se encontraram frente a frente, bem no -centro da grande cortina do _Sancta Sanctorum_, onde a face do Senhor -espalha tão bella claridade, que o rosto d’estas duas pessoas brilhavam -com o mesmo esplendor divino. - -Vejamos o que quer dizer a _Sapiencia_ na obscuridade d’estas palavras. - -Deixemos as diversas explicações mysticas e espirituaes, que d’ellas se -podem deduzir, e tomemos somente a que nos pode servir em relação ao que -escrevemos no frontespicio do nosso livro. - -O pobre é o padre São Francisco e os Religiosos da sua Ordem: o rico é -o poder real de Vossa Magestade Christianissima, proveniente do ramo -sagrado do Rei São Luiz. Quando e onde se encontraram este pobre e este -rico? Foi sem a menor duvida na missão evangelica para converter os -indios. Entre os dois estava Deos, o grande illuminador dos peccadores -nas trevas da morte. - -O pobre São Francisco na conversão dos gentios fez nas Indias o que -disse São Paulo:—_ego plantavi_, plantei a fé entre os selvagens do -Maranhão: São Luiz, protector da França, e avô do nosso Rei, quando -nos mettemos n’esta empresa, respondeo—_Rigabo_—eu a regarei, e não -consentirei que ella murche á falta de cuidados. De nada serviria a -planta, si em sua raiz não se deitasse agua para ella florescer, por que -em pouco tempo o rigor do sol a seccaria, e o nosso Deos, que sempre -prescruta a inclinação dos seos subditos, affirma que infalivelmente a -augmentará—_incrementum dabo_: e por uma luz, sempre crescente de dia -para dia, derramada entre os indios á respeito dos mysterios da nossa fé, -espancareis as trevas da ignorancia, porque o Senhor é o illuminador de -ambos, _utriusque illuminator est Dominus_. - -Quem melhor o pode saber que os selvagens aos quaes baptisamos e lhes -promettemos fazel-os christãos? - -Si invocassemos o seo testemunho, elles responderiam—_credimus_. - -Oh! Piedade Real, não perdestes vosso tempo enviando-nos como Mensageiros -do Evangelho. - - - - -Continuação da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas no -Maranhão em 1613 e 1614. - - - - -PRIMEIRO TRATADO. - - - - -CAPITULO I - -Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz do Maranhão.[3] - - -O Psalmista Rei David, no seo Psalmo 28, composto em acção de graças pelo -acabamento do Tabernaculo, disse—_Afferte Domino fili Dei, afferte Domino -filios arietum_. - -«Trazei ao Senhor, ó filhos de Deos, trazei cordeiros ao Senhor,» o -que Rabbi Jonathas assim explicou—_Tribuite coram Domino laudem cœtus -Angelorum, tribuite coram Domino gloriam et fortitudinem_—«dae louvores -ao Senhor, ó choros angelicos, dae ao Senhor gloria e força:» queria elle -dizer, que os Anjos bemaventurados auxiliam os homens em todos os seos -santos projectos, e especialmente quando se trata de procurar a salvação -das almas, porque caminham adiante estes felizes espiritos e rompem a -turba dos diabos, inimigos da salvação afim de soccorrerem os homens -apostolicos, incumbidos de salvarem as almas errantes nos desertos da -infidelidade, ahi comparados aos filhos dos Carneiros que saltam aqui e -ali pelos rochedos da dureza do coração, porem afagados pelas doçuras -do Evangelho se deixam guiar brandamente até a porta do Tabernaculo de -Deos, levados no grande mar do baptismo, e offerecidos á face do _Sancta -Sanctorum_. - -Os primeiros sacrificios, que Deos recebeo do povo de Israel, em procura -da terra da promissão, d’onde expellio a infidelidade, foram sob as -tendas e pavilhões do Tabernaculo, porem depois edificou-se o templo, e -ahi continuaram os mesmos sacrificios. - -Coisa similhante nos aconteceo quando fomos a esse paiz, cheio de -infidelidade e ignorancia de Deos, carregado de demonios, insolentes -tyrannos d’essas pobres almas captivas, levar a luz do Evangelho, banir -as falsas crenças, expellir os demonios, plantar e construir a Igreja de -Deos: durante mais de quatro mezes celebramos os santos sacrificios n’uma -bonita tenda, no meio de arvores verdejantes: partindo depois alguns -da nossa comitiva para a França em busca de auxilio, e ficando o resto -para fundar a Colonia; fizemos edificar a _Capella de São Francisco do -Maranhão_ em um bello e agradavel lugar, junto do mar, proximo de uma -bella e inexgotavel fonte, e ahi escolhi minha moradia, que um dia tinha -de servir de Convento aos Religiosos, que eu esperava para me ajudarem. - -Acabou-se esta Capella na vespera de Natal e muito a proposito pela -devoção, que sempre teve o Seraphico Padre São Francisco, a quem era -dedicada. - -Alem de todas as festas do anno celebrava a noite, estrellada e sem -trevas, do nascimento do verdadeiro Sol, Jesus-Christo, e tinha este -santo Padre o costume de fazer um presepio, a cujo lado passava toda a -noite contemplando o profundo mysterio da Encarnação, e da vinda tão -estranha do Altissimo á terra. - -Na verdade enchia-me de immenso prazer vendo n’esta capellinha, feita -de madeira, coberta de folhas de palmeiras, mais similhante ao presepio -de Belem do que esses grandes e preciosos templos da Europa, os nossos -compatriotas francezes cantarem os psalmos e matinas d’esta noite, e -depois de purificados pelo Sacramento da penitencia receberem o mesmo -Filho de Deos no presepio dos seos corações, envolvido nas faixas do -Santissimo Sacramento do altar. - -Festejamos tambem o dia de natal; a noite prégamos, o que sempre fizemos -depois das festas e nos domingos, e com prazer, embora muito soffressemos -no principio: em quanto durou esta devoção corria o tempo tão depressa, -que o dia parecia ter somente duas horas; e assim achando-se o nosso -espirito preoccupado com obras piedosas sentia a morte vir tão depressa. - -Não fui eu só que senti isto, muitas outras pessoas depois me disseram o -mesmo, e em quanto me permittio a saude, observou-se, e sem enfado, este -uso. - -Augmentou-se ainda mais esta devoção quando se edificou no _Forte_ a -_Capella de São Luiz_,[4] á imitação das Igrejas dos nossos Conventos, -com madeira, cercada e cuberta de ramos fortes, cortados das arvores -chamadas _Acaiukantin_. - -Ahi celebrei missas, cantei vesperas, préguei e baptisei os cathecumenos. - -A tarde tocava o sino, todos se reuniam n’esta capella, onde se cantava a -saudação angelica, implorava-se a graça divina, e depois cada um ia para -onde queria. - - - - -CAPITULO II - -Do estado do poder temporal em sua primitiva. - - -Compõe-se o homem de espirito e corpo; devendo zelar em primeiro lugar -aquelle como mais nobre e depois este; pareceu-nos de muita razão cuidar -a principio nas Capellas para n’ellas abastecer o espirito com a palavra -de Deos, e do SS. Sacramento, e depois no que diz respeito áo temporal. - -Assim como uma terra, ainda inculta não dá grande contentamento á -seu dono, e si elle não tivesse pão, que lhe viesse d’algures, por -certo que morreria de fome, assim tambem era sem commodidades o lugar -escolhido para a edificação da fortaleza de São Luiz, n’uma ponta de -rocha, habitada outr’ora por selvagens, que a cultivaram a seu modo, -ou para melhor dizer a esterilisaram, visto que depois de tres annos -faltaram-lhe forças para produzir couza alguma, alem de matto agreste, -sendo necessario descançar por muitos annos. - -Foi a causa dos nossos soffrimentos no principio, pois apenas tinhamos -farinha de mandioca para fazer _mingau_, isto é, uma especie de papa com -sal, agua e pimenta, chamada pelos indios _Yonker_, e assim passavamos a -vida. - -Quem não podia comer esta farinha secca, desmanchava-a n’agoa, e assim -alimentava-se com ella. - -Os que em França somente usavam de comidas delicadas, n’aquelle paiz -apenas achavam legumes bem agradaveis. - -Conto isto para louvar a paciencia dos francezes em serviço do seo -Rei, para destruir essa macula, que ordinariamente lhes lanção, de -impacientes, imprudentes e desobedientes, porque na verdade eu só vi o -contrario. - -Os que desejarem muito ir para aquelle paiz, não se admirem de ouvir -fallar em tanta pobresa, porque não soffrerão mais do que nós, visto a -terra ir melhorando diariamente, e os viveres se augmentarem gradualmente. - -Para remediar esta falta, resolveo-se mandar pescar peixe-boi[5], á 30 ou -40 legoas distante da ilha: estes peixes tem a testa como os bois, porem -sem cornos, duas patas adiante debaixo das mamas, párem filhos como as -vaccas, nutrem-nos com seo leite, mas a cria tem a propriedade notavel -de abraçar a mãe pelas costas com suas patinhas, e nunca as deixa embora -mortas, pelo que alguns são agarrados vivos, e assim trazidos para a -Ilha: são muito delicados. - -Sirva isto d’instrucção aos meninos, cumprindo a Lei de Deos, que -manda honrar Pae e Mãe, isto é, amar e respeitar, e de advertencia -aos catholicos para ficarem firmes e unidos no seio da Igreja, sua -Mãe, d’onde perseguição alguma as possa arrancar, amando todos os bons -francezes, seo Rei e sua Patria. - -São apanhados estes peixes-bois nos pastos, ou nas hervas que crescem nas -praias. - -Vão os selvagens remando mansamente suas canôas por detraz d’ellas, -atiram-lhe duas ou tres setas, e apenas mortas são puxadas para terra, -retalhadas e salgadas. - -Coisa igual acontece aos glutões, que no meio dos banquetes são -surprehendidos e n’um instante lá vão para o inferno. - -Encontra-se o sal necessario ás commodidades da vida, na distancia de -40 legoas da Ilha, em terrenos arenosos, onde se mostra naturalmente, -em forma de gelo, duro e luzente como cristal, por occasião do fluxo e -refluxo do mar, e quando este se retira o sol o cresta e é melhor que o -sal de França e de Hespanha. - -È necessario apanhal-o antes da estação das chuvas para que ellas lavem o -lugar onde elle estava. - -Chegado a este ponto, dispersou-se uma parte dos francezes pelas aldeias, -conforme o costume do paiz, que é ter _Chetuasaps_, isto é, hospedes ou -compadres, aos quaes por pagamento se dava generos em vez de dinheiro. - -Esta hospitalidade ou compadresco é entre elles muito intima, porque -estimam seos hospedes, como se fossem seos proprios filhos, vão caçar e -pescar para elles e conforme o seo costume entregam-lhes as filhas, que -desde então se chamam _Maria_, e tem por sobrenome o do Francez a quem -se ligam, de sorte que dizendo-se _Maria de tal_ sabe-se logo de quem é -concubina. - -Com certesa não sei porque dão este nome ás concubinas: mostrei um certo -dia a um selvagem um registro da Mãe de Deos, e lhe disse _Koai Tupan -Marie_, «eis a Mãe de Deos,» _ché ai Tupan Arobiar Marie_, «creio e -conheço, que _Maria_ é a Mãe de Deos,» e _Maria_ chamamos nossas filhas -que damos aos _Caraibas_. - -Este costume foi prohibido aos francezes, e si ha alguma falta á este -respeito é occultamente, e os proprios selvagens que no principio d’esta -prohibição desconfiaram da fidelidade e da amisade dos francezes, apenas -souberam, que Deos só permittia a posse da mulher por meio do casamento, -e que os Padres, Missionarios de Deos, assim o prégavam e prohibiam por -ordem do _Maioral_, mostram-se escandalisados quando vêem o contrario, -que denunciam logo a este e a nós, de maneira que qualquer francez deve -fazer seos negocios mui occultamente si não quizer ser conhecido. - - - - -CAPITULO III - -Da construcção do Forte de São Luiz, e do interesse dos selvagens em -carregar terra. - - -Chegado o tempo proprio de trabalhar nas fortificações da praça designada -á defeza dos francezes, fincada a madeira segundo o plano dado para -servir de cercadura ao _Forte_, e de sustentar as terras, mandou-se então -avisar por todas as aldeias da ilha e da provincia de Tapuytapera,[6] -que viessem Indios uns após outros conduzir a terra tirada dos fossos -para os terraços das cortinas, esporões e plata-formas, depois cobertas -por grandes e grossas _Apparituries_, «mangues» arvores duras como ferro -e incorruptiveis; de forma que seria contra ella quasi inutil o tiro do -canhão, e mui difficil a escalada: assim se disse e assim se fez: de -todas as aldeias pouco a pouco vinham os selvagens com suas mulheres -e filhos, trazendo viveres para o tempo, que calculavam demorar-se no -trabalho, e sempre debaixo das ordens dos seos Principaes, costume -que geralmente observam, trazendo-os sempre na frente da Companhia, -fazendo-lhes a natureza conhecer, que o exemplo dos superiores anima -infinitamente os inferiores. - -Mais do que nós são elles fieis á natureza, pois vemos o contrario na -Republica Christã, d’onde provem os erros e a corrupção dos costumes, -porque ainda que devamos prestar attenção somente á doutrina e não -entregarmo-nos a má vida, os fracos fazem o que querem sem cuidar do máo -nome, que adquirem. - -Apenas chegavam estes selvagens entregavam-se ao trabalho com -incomparavel dedicação, mostrando na voz e nos gestos admiravel coragem, -parecendo antes que iam á um festejo de casamento do que para o serviço, -rindo e brincando uns com os outros, correndo dos fossos para os terraços -com uma especie de emulação para vêr quem dava mais caminhadas, e -conduzia maior numero de cestos de terra. - -Notareis agora, que não ha ninguem no mundo mais infatigavel do que -elles, quando de boa vontade trabalham em qualquer coisa; não cuidam em -comer e beber com tanto que tenham á sua frente o seu chefe, e quando -encontram difficuldades, por maiores que sejam, riem, cantam e gritam -para se animarem reciprocamente. - -Se ao contrario o tractardes com asperesa e ameaças, nada farão que -preste, e conhecendo o seo natural nunca constrangem seos filhos e nem -seos escravos, e antes os governam com doçura. - -O francez, especialmente os nobres, tem igual naturesa; não soffrem -constrangimento, porem não duvidam expôr sua vida, afim de comprirem as -doces ordens dos seos Principes: bello argumento para convencer os que -governam, que mais vale a doçura e clemencia do que o rigor e a força, -respeitando assim o natural da Nação francesa. - -Não trabalhavam somente os homens e sim tambem as mulheres e os -filhinhos, aos quaes elles davam pequenos cestos, para carregar terra -conforme suas forças. - -Vi muitos meninos, apenas com dois ou tres annos d’idade, fazer a carga -com suas mãosinhas e não ter força para conduzil-a. - -Perguntei a alguns velhos porque consentiam que trabalhassem os meninos, -servindo isto para distrahir os que os vigiavam, especialmente seos -paes, que assim não podiam adiantar a tarefa, achando-se elles sempre -em perigo, ou por estarem nùs apezar de tenrinhos, ou por poderem ser -feridos pelo desabamento de algum pedaço de terra, ou por alguma pedra, -que se desprendesse do monte. - -Respondeo-me assim o interprete. Temos muito prazer vendo nossos filhos -comnosco trabalhando n’este _Forte_, para que um dia digam á seos filhos -e estes a seos descendentes «eis a Fortalesa, que nós e nossos paes -fizemos para os Francezes, que trouxeram Padres, que levantaram casas a -Deos, e que vieram defender-nos de nossos inimigos.» - -É mui commum esta maneira de communicar á seos filhos o que entre elles -se passa, já que por escriptos não podem fazel-o aos vindouros, e ir -assim á posteridade. - -Para nada esquecer, como que gravam na memoria as occorrencias, e só -d’esta maneira se pode explicar como contam muitas coisas passadas nos -seculos, em que viveram seos avós, ou no tempo da sua mocidade: vão -passando por esta forma o que sabem a seos filhos, como ainda diremos -ádiante. - -Desejaria muito, que nossos Paes assim se empenhassem para gravar no -coração de seos descendentes... - - * * * * * - -... mente e em abundancia, os selvagens lançam fogo nos espinhaes e -moutas, onde se recolhem esses reptis. - -Ha de tres qualidades:[7] uma de terra, que mora nos mattos; outra de -agoa doce, que mora nas margens dos rios e lugares pantanosos: a ultima, -é do mar, e a que vem pôr seos ovos na areia, que fica bem perto, e onde -os occultam com geito. Parece-se muito com os ovos de galinhas, menos na -casca, que não é tão dura, e sim mais flexivel e molle, nem tão grossos -e agudos, e sim mais redondos, porem muito saborosos, quer comidos na -casca, quer de outra qualquer maneira. - -Nas margens d’este rio encontram-se arvores medicinaes, muito melhores do -que as que se achavam commummente, como eu e muitos dos meos companheiros -verificamos: alem d’esta virtude, são mais fortes que as do Levante, -mostrando a experiencia que uma onça d’estas faz tanto effeito como duas -d’aquelle paiz. Sendo bem preparadas certas composições são excellentes -laxantes, e assim conservam o corpo para seo beneficio. Existem bellos -prados, largos e compridos á perder de vista, que produzem herva fina -e macia. Encontra-se a piteira, de cujos productos se fazem na China -muitos tafetás: crescem seos ramos como a cauda de um cavallo, tem a -bellesa da seda e é ainda mais forte. A terra é forte e feraz e produz -com mais certesa, que a do _Maranhão_, ou de suas visinhanças, e dizem-me -que dá duas colheitas annualmente. As florestas são altas, virgens, e -ricas de muitas especies de madeiras, quer proprias á tincturaria, quer -á medicina, e asseguram-nos os selvagens, que lá moram, a existencia ahi -do _pau brazil_. No meio d’estas florestas, ha muitos viados, capivaras, -cabras, vaccas bravas[8] e javalis, e em poucas horas matareis tantas -quantas precisardes, e para que não me accusem de hyperbolico, invoco -o testemunho dos que viajaram pelo _Miary_, e hoje se acham em França: -se lerem isto, dirão que são estas as informações, que me deram, e que -os selvagens, remadores das suas canoas, lhes traziam tanta caça, que -d’ella não sabiam o que fazer. - -Contou-me um fidalgo, que andou n’essa viagem, haver morto com um só tiro -tres javalis,[9] o que não poderia acontecer se estivessem espalhados. - -Ha muitas arvores carregadas de cortiço de mel de abelhas, as quaes são -mais pequenas e franzinas do que as nossas, porem mais industriosas, pois -fabricam mel excellente, liquido, e tão claro como agua potavel pura, -guardado em pequenas celulas de cera da grossura da casca de um ovo, -similhantes na forma á nossas garrafinhas de vidro, e penduradas com -alguma ordem n’uma arvoresinha de cera, que se acha encostada ou presa -pelos ramos ao tronco, ou nas cavidades das arvores das florestas ou dos -prados. - -Com este mel fabrica-se vinho muito forte e quente para o estomago, -similhante na côr e no gosto ao de Canaria. Nossa gente, quando por lá -andou, fez algum vinho, e com elle embebedou-se. - -Existe tambem ahi uma especie de mel, impropriamente, assim chamado, -porque é tão azedo, como vinagre, e fabricado por outra especie de -abelhas. - -Alguns dias depois que ahi chegou nossa gente, procuraram os -_Tabajares_,[10] e suas habitações: encontraram, não os que procuravam, e -sim os _Aiupaues_,[11] e caminhos recentemente abertos. - -Vendo que diminuia a farinha, da qual apenas poderia ter quanto bastasse -para regressar a Maranhão, essa mesma muito pouca, deliberou regressar -com os seos selvagens, deixando ahi somente dois escravos _Tabajares_, -a quem deram farinha para um mez, e diversos generos, promettendo-lhes -liberdade com certesa, e boa recompensa si fossem procurar e achassem -seos similhantes, o que acceitaram e cumpriram aproximando-se das suas -aldeias e gritando para não serem flexados, visto andar esta Nação em -guerra com uma outra visinha. Aos seos gritos accudiram muitos, aos -quaes contaram o que traziam, como estavam em Maranhão os francezes -bem fortificados, que entre elles se achavam os Padres, que os foram -procurar; mas que se viram obrigados a retirar-se por falta de farinha, -sendo elles escolhidos para ir procural-os, e dando-lhes os presentes -fortaleciam mais as suas palavras, mormente sendo proferidas por dois -individuos, seos conhecidos, que foram escravisados na guerra pelos -_Tupinambás_. - -Bem podeis calcular como elles ficaram alegres com as noticias dadas -pelos _Tabajares_. Ahi descançaram por tres ou quatro mezes para contarem -tudo bem a sua vontade, e regressamos com nossa gente para a Ilha. - - - - -CAPITULO VII - -Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem ao Amazonas. - - -Apenas voltou esta expedição do Mearim, fallou-se com enthusiasmo de uma -viagem, em breves dias, ao Amazonas.[12] - -Já antes se havia fallado n’ella, porem com tal friesa, que poucos -acreditavam, não havendo probabilidade de deixar-se a Ilha, sendo nós -tão poucos para defendel a contra as aggressões dos portuguezes, que nos -ameaçavam ha muito tempo. - -Ao divulgar-se esta noticia levantaram-se a ilha e as provincias -visinhas, porque, como é geralmente sabido, não ha no Mundo nação -alguma mais inclinada á guerra e á viagens pelo desconhecido como estes -selvagens brasileiros. - -Quatrocentas ou quinhentas legoas nada são para elles quando vão atacar -seos inimigos e fazel-os escravos. Com quanto sejam por naturesa timidos -e medrosos, nos combates ganham calor, não abandonam o campo, e quando -perdem as armas pelejam com unhas e dentes. - -Suas guerras são feitas, pela maior parte por surpresa e astucias; ao -romper do dia assaltam seos inimigos dentro de suas aldeias: salvam-se -de ordinario os que tem boas pernas, sendo aprisionados os velhos, -as mulheres, e os meninos, e condusidos como escravos para as terras -dos _Tupinambás_. Tambem sob o pretexto de negocio, vão elles pelas -praias, onde moram seos inimigos, promettem-lhes muito, mostram-lhes -suas mercadorias em _caramemos_ ou _paneiros_, onde arranjam o que tem -de melhor, e quando os veem entretidos, lançam-se sobre elles, pobres -ingenuos, matam uns, aprisionam e captivam outros: por este motivo todas -as nações do Brasil, desconfiam d’elles, julgam-nos traidores, e nem -querem sua paz. - -São muito afoitos quando estão com os francezes, e querem que estes -vão sempre adiante, e se acontece voltar um francez para traz, ninguem -corre melhor e mais veloz do que elles. D’isto se conclue quanto valle a -opinião que se forma de certas pessoas, que não passa de uma loucura e -vaidade d’este mundo, acontecendo muitas vezes ficarem atraz os bons e -virtuosos ou serem queridos e levados os viciosos e corrompidos. - -Indaguei e procurei saber muito o modo como se preparavam para a guerra, -não me contentando só com as informações. - -Em primeiro lugar as mulheres e as suas filhas preparam a _farinha de -munição_,[13] e em abundancia, por saberem, naturalmente, que um soldado -bem nutrido valle por dois, que a fome é a coisa mais perigosa n’um -exercito, por transformar os mais valentes em covardes, e fracos, os -quaes em vez de atacarem o inimigo, buscam meios de viver. - -É differente da usual esta farinha de munição, por ser mais bem cozida, -e misturada com _cariman_ para durar mais tempo, embora menos saborosa, -porem mais san e fresca. - -Em segundo lugar empregam-se os homens em fazer canoas, ou concertar as -que já possuem proprias para este fim, por que é necessario, que sejam -compridas e largas para levarem muitas pessoas, suas armas e provisões, e -comtudo são feitas de uma arvore, cortada bem perto da raiz, sem galhos -e ramos, ficando apenas o tronco bem direito em toda a sua extensão, -e então tiram-lhe a casca, e racham n’a dando-lhe meio pé de largura -e profundidade: n’este caso lançam-lhe fogo n’essa fenda por meio de -cavacos bem seccos, e vão queimando pouco a pouco o interior do tronco, -raspam com uma chapa de aço, e assim vão fazendo até que o tronco esteja -todo cavado, deixando apenas duas pollegadas d’espessura, e depois com -alavancas dão-lhe fórma e largura: estas canoas conduzem as vezes 200 -ou 300 pessoas[14] com as suas competentes munições. São conduzidas por -mancebos fortes e robustos, escolhidos de proposito, por meio de remos de -pás de tres pés cada um, que cortam as agoas a pique e não de travessia. - -Em terceiro lugar preparam suas pennas, tanto para a cabeça, braços, e -rins, como para as armas. Para a cabeça usam de uma peruca ou cabelleira -de pennas de cores vermelhas, amarellas, verde-gaio e violetas, que -prendem aos cabellos com uma especie de colla ou grude. - -Enfeitam a testa com grandes pennas de araras, e outros passaros -similhantes, de cores variadas, e dispostas á maneira de mitra, que -amarram atraz da cabeça. - -Nos braços atam braceletes tambem de pennas de diversas cores, tecidas -com fio de algodão, similhante á mitra de que acabamos de fallar. - -Nos rins usam de uma roda de pennas da cauda de ema,[15] presa por dois -fios d’algodão, tinctos de vermelho, cruzando-se pelos hombros a maneira -de suspensorios, de sorte que ao vel-os emplumados, dir-se-hia que são -emas, que só tem pennas nestas tres partes do corpo. - -Na verdade, quando os vejo assim lembro-me do que antigamente disse Job -no cap. 39. _Penna struthionis similis est pennis Erodii et Accipitris_: -a penna de ema é igual a da garça real e do gavião: esta passagem é -claramente explicada por diversas licções ou versões dos Gregos e dos -Romanos, que tinham por costume apresentarem os coroneis aos capitães e -soldados pennas d’ema para collocarem em seos capacetes e morriões afim -de animal-os á guerra. - -Quiz saber por intermedio do meu interprete porque traziam sobre os -rins estas pennas de ema: responderam-me, que seos paes lhes deixaram -este costume para ensinar-lhes como deviam proceder na guerra, imitando -a ema, pois quando ella se sente mais forte ataca atrevidamente o -seo perseguidor, e quando mais fraca abre suas azas, despede o vôo e -arremessa com os pés areia e pedras sobre seos inimigos: assim devemos -fazer, accrescentavam elles. Reconheci este costume da ema, vendo uma -pequena, creada na aldeia de _Vsaap_, que era perseguida diariamente -por todos os rapasinhos do lugar: quando eram só dois ou tres, ella os -accommettia, e dando-lhes com o peito, atirava-os por terra, porem quando -era maior o numero preferia fugir. - -Estou certo, que muitas pessoas se admirarão, não só do que acabo de -dizer, mas tambem como é possivel buscarem estes selvagens, meios de -governarem-se entre as praticas animaes: si se lembrarem porem que o -conhecimento das hervas medicinaes foi ensinado aos homens pela cegonha, -pela pomba; pelo viado e pelo cabrito; que a maneira de fazer a guerra -e postar sentinellas foi colhida das aves chamadas grous; que a bondade -do estado monarchico foi a principio observado entre as abelhas; que os -architectos com as andorinhas aprenderam a fazer abobadas; que o proprio -Jesus-Christo nos mandou observar o milhafre, o abutre, a aguia e o -pardal, desapparecerá a admiração, e especialmente si acreditarem, que -estes selvagens imitam com a maior perfeição possivel os passaros e -animaes do seo paiz, o que elles exaltam nos cantos que recitam em suas -festas. - -Por que nos passaros de sua terra predominam as cores verde-gaio, -vermelho e amarello elles gostam de pannos e vestidos destas tres cores. - -Por que as onças e os javalis são os animaes mais ferozes do mundo, -elles arrancam os seos dentes e os trazem nos labios e orelhas afim de -parecerem mais terriveis. - -As pennas das armas são postas nas extremidades dos arcos e das flexas. - -Assim preparados bebem publicamente o vinho de _muay_, e dizem adeos aos -que ficam. - - - - -CAPITULO VIII - -Partida dos francezes para o Amazonas em companhia dos selvagens. - - -Antes que entre na materia, convem narrar o que me disseram os selvagens -relativamente á verdade da existencia das Amazonas, porque é questão de -todos os dias se n’esses lugares ha Amazonas, e si são similhantes ás -descriptas pelos historiadores? - -É voz geral e commum entre os selvagens, que ha Amazonas, e que habitam -n’uma ilha muito grande, cercada pelo grande rio do _Maranhão_, ou das -_Amazonas_, que desembocca no mar por um espaço de 50 legoas de largura: -que essas Amazonas foram antigamente mulheres e filhas dos _Tupinambás_, -que se retiraram da companhia e do dominio d’elles—seduzidas e guiadas -por uma d’ellas: que internando-se pelo paiz ao longo d’esta costa, -descobriram á final uma linda ilha, ahi se recolheram, e em certas -estações do anno acceitam por companheiros os homens das habitações mais -proximas. - -Si párem um menino pertence ao pae, que d’elle cuida logo depois de -desmamado: si porem é uma menina fica com a mãe em casa. Eis a voz geral -e commum. - -N’um dia, quando os francezes andavam n’esta viagem, fui visitado por -um grande Principal, que morava muito acima n’este rio. Depois dos -seos cumprimentos, que descreverei mais adiante, me disse morar nas -ultimas terras dos Tupinambás, e que só em duas luas podia voltar do rio -_Maranhão_ á sua aldeia, e então lhe respondi admirando-me do trabalho -que tomou vindo de tão longe. Replicou-me «fui ao Pará vêr meos parentes, -quando foram os francezes guerrear nossos inimigos, e ouvindo fallar -de vós e dos outros Padres, quiz vel-os pessoalmente para dar noticias -certas aos meos companheiros.» - -Por intermedio do meo interprete lhe perguntei si sua residencia era -muito longe da das _Amazonas_, e elle respondeo-me «uma lua,» isto é, um -mez para ir. - -Repliquei-lhe, si tinha estado entre ellas, e si as tinha visto, e -respondeu-me «que nem uma coisa nem outra», pois nas canoas de guerra, -onde andou, se desviou da ilha onde ellas residiam. - -Esta palavra _Amasonas_ lhes foi imposta pelos portuguezes e -francezes[16] pela similhança, que ellas tinham com as antigas _Amazonas_ -por causa de sua separação dos homens; porem não cortam a mama direita, -e nem imitam a coragem d’essas afamadas guerreiras, mas vivem como as -outras mulheres selvagens, ageis e dextras no manejo do arco, e nuas se -defendem dos seos inimigos, como podem. - -No dia 8 de julho de 1613 do porto de Santa Maria do Maranhão, partio o -Sr. Ravardiere ao som de muitos tiros de artilharia e mosquetaria, com -que o saudou o Forte de S. Luiz segundo é costume entre os militares. - -Levou em sua companhia 40 soldados valentes, e 10 marinheiros, e por -cautella tambem 20 dos principaes selvagens, tanto da Ilha do Maranhão e -de Tapuytapera, como de Cumã. - -Seguio para Cumã[17] onde o esperavam muitas canoas de indios, e -provendo-se de farinha seguio para _Caieté_ onde haviam 20 aldeias de -_Tupinambás_, e ahi se demorando mais de um mez, reforçou a tripolação de -sua embarcação com mais 60 escravos que lhe deram. - -No dia 17 de agosto partio de _Caieté_ com muitos habitantes d’essa -localidade, e dirigio-se para a aldeia _Meron_, onde em grandes canoas -embarcou selvagens e francezes, e seguio para a embocadura do rio _Pará_: -em viagem morreo afogado um francez por ter se virado a canoa em que elle -ia, porem salvaram-se seos companheiros trepados no dorso da mesma. - -O rio Pará desde a sua emboccadura para cima é muito povoado de -Tupinambás; chegando á ultima aldeia, situada á 60 legoas da sua -emboccadura, todos os principaes d’esses lugares lhe pediram com -instancia, que fosse guerrear os _Camarapins_,[18] os quaes são muito -ferozes, não querem paz, e por isso não poupam seos inimigos, pois quando -os captivam, matam-nos e comem-nos: poucos dias antes tinham matado -tres filhinhos d’um dos principaes dos Tupinambás d’aquellas regiões, e -guardaram os ossos d’elles para mostrar aos paes afim de causar-lhes mais -dó. - -Este exercito de francezes e de Tupinambás, em numero de 1200, -sahio do _Pará_, entrou no rio de _Pacajares_, d’ahi dirigio-se ao -de _Parisop_,[19] onde encontraram _Vuacété_ ou _Vuac-Uaçú_, que -simpathisando com este movimento offereceo para reforçal-o 1200 dos seos -companheiros. - -Acceitou-se apenas um pequeno numero de selvagens, que elle mesmo -acompanhou, e os encaminhou ao lugar, onde residiam os inimigos, o qual -era nas _Iuras_,[20] que são casas feitas á imitação das «_Ponte aux -changes_,» de S. Miguel de Paris, collocadas no cume de grossas arvores -plantadas n’agoa. - -Foram immediatamente cercados pelos nossos, que os saudaram com 1000 -ou 1200 tiros de mosquetaria em tres horas: defenderam-se porem elles -valorosamente de sorte que sobre os nossos cahiam as flexas como chuva ou -saraiva, ferindo alguns francezes e Tupinambás, porem não matando um só. - -Sobre alguns dispararam-se tiros de morteiro, e de canhão, -incendiaram-se-lhes tres _Iuras_ morrendo n’essa occasião 60 indios -d’elles, o que somente servio para mais augmentar-lhes o desespero pois -antes queriam morrer do que cahir nas mãos dos Tupinambás. - -Á vista d’isto resolveo-se abandonal-os com intenção de ver, si n’outra -occasião, tratados com doçura podiam ser domesticados. - -Durante o medonho combate dos mosqueteiros, usaram os selvagens d’uma -traça singular pendurando os seos mortos no parapeito de suas _Iuras_, e -por meio de uma corda de algodão amarrada aos pés faziam com que elles se -mexessem. - -Pelas fendas ou frestas viam os francezes estes corpos, e julgando-os -vivos contra elles faziam fogo tres e quatro vezes a ponto de ficarem -despedaçados, o que provocava os gritos e zombarias d’estes canalhas, e -somente terminou-se esta triste scena quando uma mulher acenando com um -pano branco á maneira dos parlamentares, fez com que cessasse o fogo, e -então ella gritou «_Vuac, Vuac._» Porque trouxeste estas boccas de fogo, -(fallava dos francezes por causa da luz, que sahia das caçoletas de suas -armas) para arruinar-nos, e destruir a terra? - -«Pensas contar-nos no numero dos teos escravos, eis os ossos dos teos -amigos e dos teos alliados, cuja carne comi, e ainda espero comer a tua e -a dos teos.» - -Pelos interpretes se lhe disse, que se entregasse afim de salvar o resto, -que havia. - -Não, não, respondeo ella, nunca nos entregaremos aos _Tupinambás_, -elles são traidores. Eis aqui os nossos principaes, que morreram -victimas d’essas boccas de fogo de gente, que nunca vimos: si fôr -necessario morreremos todos, voluntariamente, como fizeram nossos grandes -guerreiros. Nossa nação é grande, e ahi fica para vingar nossa morte. - -Um dos seos principaes veio n’uma canoa collocar-se á frente do nosso -exercito, trazendo n’uma das mãos um feixe de flexas, e na outra o arco, -disse: «Vinde, vinde ao combate, nada tememos, somos valentes, e eu só -por mim atravessarei a muitos.» - -Chegando-se porem muito perto dos nossos soldados, um d’elles acertou-lhe -com uma balla na testa, que o atirou n’agoa ja morto. - -Eram tão dextros no manejo das flexas, que atirando-as ao ar vinham -cahir na galeota, onde estavam nossos soldados, e nas canoas dos indios, -ferindo muitos. - -Por isto avaliareis a coragem d’estes selvagens, maus somente pela -naturesa. - -O que seriam si fossem policiados, ou conduzidos e instruidos pela -disciplina militar? - - - - -CAPITULO IX - -Do que aconteceu na Ilha durante esta viagem, e principalmente das -astucias de um selvagem chamado Capitão. - - -Em quanto uma parte dos nossos francezes, e muitos dos principaes -selvagens estavam no Pará e em suas circumvisinhanças passaram-se na -Ilha muitas coisas notaveis, que contarei nos seguintes capitulos. - -Tratarei em primeiro lugar de um indio agradavel e astucioso intitulado -Capitão,[21] irmão da mãe de um principal, muito amigo dos francezes, -chamado _Ianuaravaête_, que quer dizer _cão grande_ ou _cão furioso_. - -Este Capitão astuciosamente aproximou-se de nós, dizendo por intermedio -do interprete, que desejava ser christão, aprender a ler, e a escrever, -fallar francez e fazer cortesias, gestos e ceremonias dos francezes. - -Acreditaram nas suas palavras, e alguns até cercaram-lhe de muitas -attenções. - -Passou alguns mezes em nossa visinhança, e mostrando-se com desejos de -ter vestidos como os nossos paramentos sagrados, com os quaes diziamos -missa; por sua mulher nos mandou pedir, o que negamos. - -Não nos deixou por esta recusa, porem algum tempo depois, disfarçando -muito bem seo descontentamento, ia á sua aldeia e voltava, até que poude -espalhar pela _Ilha_ o boato de que os francezes pretendiam escravisar os -Tupinambás, e por tanto que era necessario fugir e abandonal-os. - -Alguns acreditaram, e por isso deixaram suas aldeias e foram para outras, -onde podessem fugir com mais prestesa si assim fosse necessario. - -Julgou chegada a occasião de se fazer valer entre os seos: pois tinha -extremo desejo de ser grande, e não podia chegar a sel-o, porque fogem as -honras d’aquelles que as procuram com methodo, o que vemos em todas as -condicções, e foi este o seo fim e intenção quando de nós se aproximou, -servindo-se de nosso concurso para realisar seo desideratum, visto o -ambicioso nada poupar, nem mesmo as coisas sagradas, para obter o que -deseja. - -Principiou visitando as aldeias da Ilha, onde desconfiava ter -descontentes, e ahi nas cabanas e na _casa-grande_, costumava batendo nas -coxas grandes palmadas, harengar assim—_Ché, Ché, Ché, auaête. Ché, Ché, -Ché. Pagy Uaçú, Ché, Ché, Ché, Aiuka pais &_: quer isto dizer, eu, eu, -eu, sou furioso e valente. Eu, eu, eu, sou um grande feiticeiro. Fui eu, -fui eu, fui eu que matei os Padres, etc. Fiz morrer o Padre, que está -enterrado em _Yuiret_, onde mora o _Pay Uaçú_, o grande Padre a quem -reenviei todos os males, que tem causado,[22] e a quem matarei como o -outro. - -Atormentarei os Francezes com molestias, e lhe darei tantos bixos nas -pernas e nos pés, que elles se verão na necessidade de regressar a sua -patria. Farei morrer suas plantações e assim morrerão de fome: já com -elles morei, comi com elles muitas vezes, e vi o que praticavam quando -serviam a _Tupan_, e reconheci que nada sabiam á vista de nós outros -_Pagés_, feiticeiros. - -Á vista disto não devemos temel-os, saiamos, quero caminhar na frente, -porque sou forte e valente. - -Perto de dois mezes gastou elle percorrendo assim a Ilha sem que de -nada soubessemos, porque quando os negocios são secretos e de interesse -publico, não são descobertos como acontece quando se trata de utilidade -particular. - -_Japy-açú_ o reprehendeo e mui acremente por estes discursos, bem como -_Piraiuua_; porem seo irmão o _Cão-grande_ o denunciou, e alem d’isso -pedio licença para ir em pessoa agarral-o e prendel-o. - -Chegaram promptamente estas noticias aos ouvidos de _Capitão_, que -começou a tremer como si tivesse febre, e não dizia mais _Ché auo-êtê_, -nem _Ché Pagi uaçú_, ou _Ché Aiuca Pay_, porem ao contrario diante dos -seos, tremendo de medo, dizia: «_Ché assequegai seta, ypocku Tupinambo, -ypocku decatugué: giriragoy Topinamho giriragoy seta atupaué: ypocku -ianuara vaeté, ypocku decatugné giriragoy ianuara vaeté giriragoy seta -atupaué_.» - -Ah! que medo tenho, oh! quanto são malvados os Tupinambás, perfeitos -malvados:[23] mentiram os _Tupinambás_, mentiram muito e muito: o _Cão -grande_, é um malvado, malvado completo: mentio o _Cão-grande_, mentio -tambem muito e muito, etc. Nada disto eu disse, não causei a morte do -Padre, não disse que queria fazer morrer o Padre-grande, e nem que lhe -dei molestias. - -Tambem não disse, que quero atormentar os Francezes, e fazer seccar suas -plantas, porque não sou e nem fui feiticeiro, e assim quero ser filho -dos Padres, quero voltar e trabalhar para elles, e si os deixei foi para -colher meo milho: quero ir ja onde está o Padre-Grande, levar-lhe o meo -milho, o meo peixe, e a minha caça, e dar-lhe um dos meos escravos para -apaziguar o chefe dos francezes afim delle não crer no _Cão grande_, que -sempre me quer mal embora eu seja seo irmão: muitas vezes me quiz matar, -e si o _Muruuichaue_, quer dizer o «Principal dos Francezes» lhe der uma -vez ordem de prender-me, elle me matará sem duvida alguma. - -Por estas palavras conhecereis a indole d’estes selvagens, que não dizem -a verdade quando necessitam defender-se. - -Este miseravel _Capitão_, fugio e escondeo-se nos mattos, e depois foi -para uma aldeia chamada _Giroparieta_, quer dizer _aldeia de todos os -diabos_, ao pé da praia, e d’ahi enviou-me um dos seos parentes pedir-me -paz, e que obtivesse do Maioral o seu perdão. - -Mandou-me um seu escravo forte e robusto, bom pescador, e caçador: -elle, sua mulher e mais pessoas da familia, me vieram ver, trazendo-me -milho, peixe, e caça, e tanto elle como sua mulher muito fallaram -para me persuadir de que eu não devia crer o que se dissesse d’elle, -chamando os _Tupinambás_ e o _Cão-grande_,—mentirosos e outros nomes -feios, asseverando que era bom amigo, que desejava ser christão, e que -si o Maioral, e eu tambem nos esquecessemos de tudo, elle e sua mulher -regressariam contentes. - - - - -CAPITULO X - -Da chegada de uma barca portugueza á Maranhão. - - -Quando menos pensavamos, achando-se a Ilha sem indios e sem francezes, -por terem aquelles ido viajar pelo Amazonas, e estes pela segunda vez -ao _Miary_, de que brevemente trataremos, por espaço de um mez fomos -incommodados com mil noticias, ora de selvagens residentes perto do -mar, ora de francezes moradores nos fortes, que diziam ter ouvido tiros -de peça para o lado da costa da pequena _Ilha de Santa Anna_, e da de -_Tabucuru_,[24] e ter visto tres navios velejando ao redor da Ilha, eis -que se apresentou uma barca, commandada por um capitão portuguez, chamado -Martin Soares. - -Vinha da Ilha de Santa Anna, onde tinha desembarcado, tomado posse d’ella -para o Rei Catholico, plantado uma grande Cruz, e levantado um marco com -uma inscripção, de que logo fallaremos. - -Andou este navio por todo o porto de Caurs, saltando sua tripulação -sempre que lhe approuve para vêr e escolher lugares proprios á plantação -de canas e ao fabrico do assucar, especialmente no lugar chamado -_Ianuarapin_, onde foi erguida uma Cruz com o fim de crear-se uma bella -habitação de portuguezes, e construir-se muitos engenhos de assucar. - -Approximaram-se depois da enseiada de Caurs, uma das entradas da Ilha, -onde depois da sua vinda, se edificaram dois bellos fortes afim de -impedir o desembarque. - -Elles davam alguns tiros de peça para chamar os selvagens da Ilha: -nenhum lá foi, menos o Principal de _Itaparis_, suspeito por traidor: -perguntaram-lhe muita coisa, e ignora-se o que respondeo: deram-lhe -machados e fouces, e depois veio para a Ilha. - -Os portuguezes traziam comsigo os indios _Canibaes_,[25] moradores em -_Mocuru_, e parentes de outros do mesmo nome refugiados em Maranhão, os -quaes elles mandaram á terra para tomar conhecimento, e informações, si -na Ilha haviam muitos francezes, si estavam fortificados, e si tinham -canhões. - -Felizmente dirigiram-se aos _Tupinambás_, que lhes disseram não haver -na Ilha um só francez, um só forte, um só navio, barca, nem canhão, -e com tal segurança principiaram a comer, e os Tupinambás mandaram -immediatamente ao forte de S. Luiz contar tudo isto. - -Expedio-se logo uma barca, bem esquipada, com o fim de prender os -portuguezes; porem aconteceo, que um traidor _Canibal_, inimigo rancoroso -dos francezes, e a quem já se tinha muitas vezes perdoado castigos, -em que havia incorrido, sabendo da noticia da vinda dos outros, foi -procural-os furtivamente, e em segredo lhes disse—«que fazeis aqui, fugi -depressa para o mar, regressae ao vosso navio, porque os francezes tem na -Ilha um bello forte, canôas, navios, e canhões.» - -Mal ouviram isto, levantaram-se ás pressas, e disseram aos seos hospedes -_Tupinambás_, que os divertiam—Ah! maus, enganaes vossos camaradas—e -assim dizendo á passos apressados foram com o traidor para a sua canôa, e -em breve chegaram a barca, ancorada n’uma enseiada um pouco adiante. - -Vendo isto os portuguezes, desconfiaram logo que os francezes estavam -na Ilha, e que não deixariam de os perseguir, e apenas tinham levantado -ancoras, descobriram a barca dos francezes, e estes a d’elles, -apressaram-se a tomar a dianteira dos portuguezes, navegando á bolina, -muito bem, quebrando os rolos d’agoa, pelos bancos d’area, pouco pensando -em encalhar comtanto que conseguissem apresional-a do que lhes resultaria -muita commodidade, visto conhecer-se a intenção dos portuguezes, -descoberta pela bôa vontade dos... - - * * * * * - -... todas as Nações, e nós vemos por experiencia em varios lugares da -França, d’onde veio o proverbio—_chorar de alegria_. - -Chegados ao Forte depois de descançarem como poderam, conservaram-se -serios e reservados sem entregarem-se á vivacidade e impulso da -curiosidade, e sendo a imperfeição unica dos francezes o fazer tudo ás -pressas, buscando todos os meios de conseguir seos fins, foram elles ter -com o Maioral, aos quaes assim fallaram: - -«Conforme as noticias que déstes a dois dos nossos, escravos entre os -_Tupinambás_, para nos transmittirem fielmente a respeito da tua vinda -e da dos Padres n’estes lugares afim de defender-nos dos _Peros_, e -ensinar-nos a conhecer o verdadeiro Deos, dar-nos machados e outras -ferramentas para facilitar a nossa vida, fallamos n’isto em muitas -reuniões, e recordando-nos de que os francezes sempre nos fôram fieis, -vivendo em paz comnosco, e acompanhando-nos á guerra, onde alguns -morreram, todos os meos similhantes mostraram-se contentes e resolveram, -de combinação com o nosso chefe, obedecer-te e em tudo fazer-te a -vontade: eis porque me mandaram expressamente afim de pedir-te alguns -francezes para acompanhar-nos e guardar-nos até voltarmos do lugar, por -ti indicado.» - -Respondeo-se-lhe com palavras de amisade, e que se lhes daria os -francezes. - -Sahindo d’ahi foram procurar-me em minha casa, onde tambem me exposeram a -sua missão, de que fallarei quando for occasião. - -Pediram-me o meu pequeno interprete para ir com elles assegurar ao -_Thion_, seo chefe, e a todos os seos companheiros, que eu os receberia -como filhos de Deos, e que podiam vir afoitamente confiados na protecção -dos Padres. - -Acompanhados por muitos francezes e pelo meo interprete, a quem dei -algumas imagens como mimos, a _Thion_, elles embarcaram para o Mearim em -busca de suas casas. - -Foram recebidos com muitos applausos, choros, lagrymas, e danças de dia e -de noite. - -Prepararam vinhos em abundancia, presentearam os francezes com muitos -porcos do matto e outras caças, e offereceram-lhes muitas raparigas das -mais bonitas, o que regeitaram dizendo que Deos não queria, e que os -Padres prohibiam, e se quizessem agradar os Padres, quando fossem para a -Ilha, deviam levar Cruzes para expellir o _Giropary_[26] do meio d’elles: -assim o disseram, assim o fizeram, plantando muitas Cruzes, em varios -lugares na frente de suas casas, como ainda hoje se vê, e que ficaram -como prova de habitação antiga, d’onde foram chamados para ir á outra -terra, já illuminada pelo conhecimento de Deos, e enriquecida com os -Sacrosantos Sacramentos da Igreja, como aconteceo outr’ora com a nação do -povo de Israel, que sahio do Egypto em busca da terra da Promissão. - -Dispostas estas coisas, cada um cuidou em arrumar-se e fazer sua -colheita, destruir as roças, e preparar bom farnél, pois deviam em pouco -tempo deixar e abandonar este lugar: indagavam muito de varias coisas -tendentes á sua salvação, e eram satisfeitas as suas perguntas. - -Aproveitaram-se os Francezes da occasião e facilidade, que lhes offerecia -para conquistar a nação proxima de indios inimigos, da aldeia de Thion, -e causava pena ouvil-os dizer, que haviam comido a muitos, porque eram -mais fortes, tinham maior numero de aldeiamentos e de homens, e o -Principal d’elles, chamado _Farinha-grossa_, valente na guerra, alegre, -e muito propenso ao Christianismo, como fallaremos n’outro lugar, dizia -com garbo, «si eu quizesse comer os inimigos, não ficaria um só, porem -conservei-os para satisfazer minha vontade, uns após outros, entreter -meo apetite, e exercitar diariamente minha gente na guerra: e de que -serviria matal-os todos de uma só vez quando não havia quem os comesse? -Alem d’isto não tendo minha gente com quem bater-se, se desuniriam, e -separar-se-iam como aconteceo á _Thion_.» Assim disse, porque antes estas -duas nações formavam uma só, morando juntas, em lugares longinquos e -distantes dos inimigos, contra os quaes podiam exercitar-se na guerra, e -apezar de tudo atacaram-se reciprocamente. - -Tal proceder confirma a bella maxima do Estado—quem deseja conservar o -interior em paz, deve empregar os sediciosos fóra d’ahi, especialmente -contra os inimigos da fé, e fallando em sentido moral—quem quer salvár o -coração de todo o vicio e imperfeição deve resguardal-o das impressões -exteriores. - -Como condições de paz estabeleceo-se o esquecimento reciproco de todas -as injurias, mortes e banquetes com os corpos dos inimigos: que devia -revestir-se de paciencia quem mais perdesse: que não devia havêr -exprobrações de parte á parte, e quando recolhidos a Ilha, morariam -separados uns dos outros, e todos seriam fieis aos Francezes. - -Chegada a occasião foram enviadas muitas canoas e barcos, nas quaes -vieram para a Ilha. - -Foram bem recebidos, o seo chefe _Thion_ saudado com cinco tiros de peça, -e duas descargas de mosquetaria, passando por meio de soldados francezes, -dispostos conforme as ceremonias da guerra, assim entrou no Forte, onde o -Sr. Pesieux e eu o acolhemos, e o condusimos á sua casa para descançar. - -Em lugar proprio contarei o que elle nos disse. - - - - -CAPITULO XIII - -Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary. - - -Conversando familiarmente com esta nação, descubri muitas de suas -particularidades, e tambem outras, pertencentes tanto á elles como á -todos os _Tupinambás_, ainda não escriptas por pessoa alguma, ou ao menos -mencionadas sufficientemente, e como são bellas e raras tractarei d’ellas -mais detidamente. - -Estes povos, antes de reunidos, eram chamados _Tabajares_ pelos -Tupinambás.[27] - -Este nome é appelativo e commum para designar toda a sorte de inimigos, -e tanto assim é, que esta mesma nação de _Tabajares_ chamava os -_Tupinambás_ da ilha _Tabajares_, _Topinambas_, embora pacificados e -amigos. Os _Topinambas_ os chamavam _Mearinenses_, quer dizer vindos do -_Miary_,[28] ou habitantes do _Miary_, assim como os Dinamarquezes, que -vieram occupar a Neustria, Provincia antiga e dependente da Corôa de -França, foram chamados Normandos, e sendo ella conservada em homenagem -pelos Reis de França, perdeo seo antigo nome, e conservou o de Normandia. - -Os francezes os chamam _Pedras-verdes_[29] por causa de uma montanha, não -muito longe de sua antiga habitação, onde se acham mui bellas e preciosas -_pedras verdes_, dotadas de muitas propriedades, especialmente contra -doenças do baço, e frouxo de sangue, e tambem me disseram haver ahi -esmeraldas muito finas: ahi hiam os selvagens buscar estas pedras verdes -tanto para collocal-as em seos labios, como para negocio com as nações -visinhas. - -Os _Tupinambás_ e os _Tapuias_ dão muito apreço a estas pedras:[30] -vi por uma pedra para o beiço dar o valor de mais de vinte escudos de -mercadorias um _Tupinambá_ á um _Miarinense_, em nossa casa de São -Francisco, no Maranhão. - -Um certo _Cabelo comprido_ veio ter comnosco, ornado com seos enfeites -mais lindos, que consistiam em dois chifres de bodes, e quatro dentes de -corça, muito cumpridos, em vez de brincos, de que muito se orgulhava por -havel-os alcançado com industria, ao passo que era commum, especialmente -entre as mulheres, trasel-os de madeira, redondos, muito toscos, e da -grossura de dois dedos: calculae o buraco, que fazem nas orelhas: a maior -porem de suas ostentações era uma destas pedras verdes, de comprimento, -pelo menos, de quatro dedos, bem redonda, o que me agradou tanto á ponto -de desejar trazel-a para a França. Perguntei-lhe o que queria que lhe -désse por esta pedra: respondeo-me, «dê-me um Navio de França, carregado -de machados, de foices, de vestidos, de espadas e de arcabuses.» - -Outro Tupinambá, já muito velho, trazia uma pedra destas em seo labio -inferior: era oval e tão larga como o concavo da mão, e como a tivesse -trasido por muito tempo ahi, sem nunca tiral-a, estava como que -encaixilhada no seo queixo, ja tendo a carne se dobrado sobre os bordos -da pedra e tomado a sua propria forma. - -Narrei tudo isto afim de demonstrar o valor destas pedras verdes. - -Estes _Miarinenses_ são ordinariamente de boa estatura, bem conformados, -e valentes na guerra: sendo bem guiados não recuam e nem fogem como os -outros Tupinambás, explicando-se isto pelo facto de serem criados entre -os combates, sempre travados contra os portuguezes, aos quaes atacaram -outr’ora, escalaram suas fortalezas, tomaram suas bandeiras e nunca -mais abandonaram sua primeira habitação, como nos contou _Thion_, seo -Principal, quando veio do Forte de São Luiz, se a falta de canhões não -obrigasse os francezes, que estavam com elles, a cederem á força e á -superioridade do numero dos portuguezes. - -Causa gosto ver o zelo e o cuidado, com que trazem as espadas, que lhes -dão os francezes, sempre a seo lado, sem nunca tiral-as senão quando -se deitam, e quando trabalham em suas roças, penduram-nas junto a si -em algum ramo de arvore, fazendo-me lembrar a historia de Nehemias, na -reparação dos muros de Jerusalem, quando os seos habitantes trasiam n’uma -das mãos as armas e na outra os instrumentos do trabalho. - -Gostam muito de traser as espadas tão limpas como cristal, e para isso as -esfregam com areia fina e azeite de mamona, amolam-nas repetidas vezes -para estarem sempre cortantes, aguçam as pontas, quando estão gastas pela -ferrugem muito commum na zona tórrida. - -Acostumam-se a bem manejal-as, fazendo marchas e contra-marchas, á -maneira dos suissos quando esgrimam. - -Alem de serem corajosos e bons soldados, trabalham muito bem, e antes -quero uma hora de tarefa d’elles do que um dia dos _Tupinambás_. - -Seos Principaes trabalham tanto quanto os seos subordinados de menor -representação, porem o serviço está bem regulado, porque ao romper do dia -levantam-se, almoçam, e depois vão elles mulher e filhos, conjunctamente, -alegres risonhos, cantando trabalhar em suas roças, e quando o sol -principia a chegar ao seo maior auge do calor, que é perto das dez horas, -deixam a lida, vão comer e dormir, e duas horas depois do meio dia, -quando o sol principia a declinar voltam outra vez ao trabalho, onde se -conservam até ao anoitecer. - -Os Principaes, que ordinariamente tem mesa franca, para o que necessitam -de roças maiores, preparam um _Cauin_ geral, e como todos partilham -d’elle, se incumbem de cuidar nas plantações, o que fazem com alegria -n’uma ou duas manhãs, e depois vão beber na casa d’aquelle para quem -trabalharam, bebendo cada um quando chega a sua vez, e quando o acham -bom o gabam com todas as suas forças, compõem cantigas adequadas, que -entoam ao redor da casa ao som do _Maracá_, pronunciando estas ou outras -similhantes palavras: «oh! o vinho, o bom vinho, nunca elle teve igual; -oh! o vinho, o bom vinho, nós o beberemos á vontade, oh! o vinho, o bom -vinho, n’elle não acharemos preguiça.» - -Chamam o vinho preguiçoso quando não tem força bastante para embriagal-os -immediatamente, e que não lhes provocam o vomito por mais que bebam. - -Tomam as raparigas parte n’esta festa, onde se dança e canta-se á fartar, -deitam-se os que se embriagam logo e raras vezes apparecem questões: -são alegres e agradaveis n’essa occasião, especialmente as mulheres, -que fazem mil macaquices á ponto de provocarem grande hilaridade, até a -individuos mais tristes e melancolicos. Por mim confesso, que nunca em -minha vida me ri tanto como quando estas mulheres altercavam umas com as -outras, empunhando copos de madeira cheios de vinho, bebendo ora um, ora -outro, fazendo muitas macaquices e tregeitos. - -Dão com muita facilidade o que mais presam, como sejam suas filhas e suas -mulheres, porque observei quando se cuidou na segunda viagem do _Miary_ -que muitos _Tupinambás_ tanto da _Ilha_ do Maranhão, como de Tapuitapera, -foram de proposito com os Francezes para pedirem filhas e mulheres dos -Miarinenses, o que facilmente obtiveram, como muitas outras coisas, que -só fazem estes povos, e por isso mesmo muito caros e preciosos entre os -Tupinambás. - -Tambem tem por costume, que igualmente observei entre os Tupinambás, o -trazerem assobios e flautas, feitos dos ossos das pernas, coxas e braços -de seos inimigos, dos quaes arrancam sons fortes, agudos e claros, e ao -som d’elles entoam seos cantos usuaes, especialmente quando estão nos -_Cauins_, ou quando vão a guerra. - -As raparigas não se despresam em casar com velhos e grisalhos, como -praticam as dos _Tupinambás_, e sim antes querem esposar um velho, -especialmente quando é Principal, e admirei-me, como coisa desagradavel, -o vêr muitas jovens, de quinze a deseseis annos, casadas com velhos, e o -contrario praticam as raparigas dos _Tupinambás_, as quaes passam a sua -mocidade livremente, e depois acceitam um marido. - -O que acabei de dizer, só tem por fim o mostrar a cegueira das almas -captivadas pelo espirito immundo, que não se descuida de perdel-as por -meio de suas traças. - - - - -CAPITULO XIV - -Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos e como escravisam -seos inimigos. - - -Estes povos, e não só elles, porem geralmente todos os Indios do Brazil, -tem por costume cortar o corpo, e recortal-o tão lindamente, que os -costureiros e alfaiates, embora habeis em sua profissão, buscam imital-os -no córte dos seos vestidos. - -Este costume não é só privativo dos homens, e sim tambem das mulheres, -com a differença unica de que os homens se cortam por todo o corpo, e -as mulheres apenas desde o umbigo até as coxas, o que praticam por meio -de um dente de _Cutia_, muito agudo, e uma especie de gomma queimada, -reduzida á carvão, applicada sobre a chaga, e nunca se apagam os córtes. - -Digo de passagem e não para demorar-me, e sim apenas para descubrir a -origem deste antigo costume, que me parece ser fundado pela naturesa, -visto ser praticado, já ha muitos annos, por nações civilisadas, cujo -conhecimento por falta de communicação não podia ter esta Nação barbara, -e assim inventou-o e d’elle usou. - -Soube d’estes selvagens, que duas razões os levam a cortar assim seos -corpos, uma significa o pesar e o sentimento, que tem pela morte de seos -paes, assassinados pelos seos inimigos, e outra representa o protesto -de vingança, que contra estes promettem elles, como valentes e fortes, -parecendo quererem dizer por estes córtes dolorosos, que não pouparam -nem seo sangue e nem sua vida para vingal-os, e na verdade quanto mais -estigmatisados mais valentes e corajosos são reputados, no que tambem são -imitados pelas mulheres de iguaes qualidades. - -Para mostrar a origem anterior d’este costume, não necessito remontar-me -ás historias profanas, no que seria prolixo, e sim contentar-me-hei -fazendo vêr em diversos trechos das escripturas sanctas quanto Deos -reprova este uso barbaro e selvagem. No Levitico 19. _Super mortuo non -incidetis carnem vestram, nec figuras aliquas, aut stigmatas facietis -vobis._ Sobre a vossa carne não fareis incisões, figuras ou signaes. -No cap. 21. _Necque in carnibus suis facient incisuras_: e não farão -incisões na sua carne. No Deut. 14. _Non vos incidetis, necfacietis -calvitiem super mortuo._ No morto não fareis incisões e nem cortareis os -cabellos. - -Á respeito d’estas passagens interpretam os Padres, como fazem os gentios -e os idolatras, e de maneira notavel este trecho—_não fareis incisões e -nem cortareis os cabellos_, por que se vêem juntas estas duas coisas, que -os indios sempre separam restrictamente: quanto á incisão, já sabeis o -que ella significa, mas quanto ao arrancamento do cabello ficae sabendo, -que apenas as mulheres e as moças sabem do captiveiro ou morte na guerra -dos seos Paes ou maridos, cortam os cabellos, gritam e lamentam-se -horrivelmente, excitando seos similhantes á vingança, á tomar as armas e -a perseguir seos inimigos, como farei vêr quando narrar a _Historia dos -Tremembeses_. - -Dos escravos, que me deram n’aquelle paiz para trabalharem á bem da minha -subsistencia soube da maneira como faziam prisioneiros e escravos. - -N’um certo dia reprehendi a preguiça d’um d’elles, fórte e valente, que -me fora dado por um _Tupinambá_, e elle para minha advertencia me deo a -seguinte resposta, embora branda (bem sei o que é necessario observar -para com esta nação, que as reprehensões consideram como chagas e -feridas, e aos castigos preferem a morte,[31] e por esta forma desejam -antes morrer com honra, segundo dizem, no meio das assembleias, como ja -muito bem descreveo o Padre Claudio d’Abbeville): eil-a «na guerra não -me pozeste a mão sobre a espadua,[32] como fez aquelle que me deo a ti -para agora me reprehenderes.» Nasceo-me logo a curiosidade de saber por -intermedio do meu interprete o que elle queria dizer, e então fiquei -sciente de ser uma ceremonia de guerra entre estas nações, quando um -é prisioneiro do outro, bater-lhe este com a mão sobre a espadua e -dizer-lhe—faço-te meo escravo—e desde então este infeliz captivo, por -maior que seja entre os seos, se reconhece escravo e vencido, acompanha -o vencedor, serve-o fielmente sem que seo senhor ande vigiando-o, tendo -liberdade para andar por onde quiser, só fazendo o que fôr de sua -vontade, e de ordinario casa-se com a filha ou a irmã do seo senhor, e -assim vive até o dia em que deve ser morto e comido, o que não se pratica -mais em _Maranhão_, _Tapuitapera_ e em _Cumã_, e só raras vezes em -_Caieté_. - -Estas nações me despertaram a lembrança do que li outr’ora nos livros -sagrados e na Historia dos Romanos, quando procediam ao captiveiro -dos prisioneiros, e para bem entender-se bom é notar-se, que foram as -ceremonias externas inventadas para representarem com sinceridade as -affeições do interior: por exemplo, dobrar o joelho, beijar a mão, -descubrir a cabeça, quando saudamos alguem, que estimamos, são outros -tantos testemunhos de apreço interno em que o temos: outr’ora as espadas -tinham hierogliphos representando o mysterio occulto das acções internas -e externas dos homens. - -Deixando de parte o que não serve ao meo fim contento-me em referir os -dois seguintes casos:—o sceptro apoiado sobre a espadua significa o -poder regio: a alabarda sobre a espadua declara o poder dos chefes de -guerra: as maças de ouro e prata—o poder dos Senados e dos Pontifices: os -machados com ramos de parreira enroscadas—o poder dos consulados e dos -governadores das provincias. Observe-se o que foi escripto por Isaias -cap. 9. _Factus est Principatus super humerum ejus_, seo dominio foi -posto sobre sua espadua, e no cap. 22. _Dabo clavem domus Davis super -humerum ejus_, e porei a chave da casa de David sobre sua espadua, quer -dizer o—sceptro de David. - -Ao contrario, pôr uma canga, como trazem os bois ou cavallos quando -no trabalho, ou então passar debaixo de uma lança, atravessada sobre -duas outras fixadas perpendicularmente, ou receber sobre a espadua nua -uma vergastada era o signal da escravidão, como muito bem o patenteiou -Isaias, cap. 9. _Jugum oneris ejus et virgam humeris ejus, et sceptrum -exactoris ejus superasti_: venceste o jugo do teu fardo e a vara de sua -espada, o sceptro do seu exactor, fallando do captiveiro da Gentilidade, -libertada pelo Salvador: assim tambem estes selvagens batendo sobre o -hombro de seus prisioneiros, significavam serem elles seos captivos, e -na verdade encontro uma bella profecia, toda litteral, narrando esta -desgraça, á qual estão sujeitos estes pobres selvagens de Chanaan, por -juizo impenetravel da sabedoria divina, e participação da antiga maldição -de Channan, seo Pae: é em Isaias, cap. 47—_Tolle molam, et mole farinam: -denuda turpitudinem tuam, discooperi humerum, revela crura, transit -flumina_, toma a mó, e móe a farinha, descobre tua torpesa e tua espadua, -mostra tuas coxas e passa o rio. - -Tomam estes selvagens a mó, e a farinha, não tendo ferramenta alguma -para trabalhar, quer nos bosques quer nas roças, servem-se unicamente de -machados de pedra para cortar arvores, fazer suas casas e canoas, aguçar -paus, cultivar a terra, semeiar, plantar raizes, e por unica recompensa -de seos trabalhos só comem farinha, e raizes passadas por um rallador, -feito de pedrinhas agudas, engastadas n’uma taboa da largura de meio pé. - -Cosinham a farinha n’uma grande panella de barro, ao fogo, como -amplamente está escripto na Historia do R. Padre Claudio d’Abbeville. - -É tão patente sua torpesa, que suas mulheres e filhas, embora honestas, -sentem repugnancia de se vestirem. Trazem o hombro descuberto, sujeito -á este grande captiveiro, commum a todas as nações. Mostram suas coxas, -e a falta de castidade está em uso entre elles sem reprovação, menos o -adulterio. - -Passam rios buscando ilhas incognitas atraz de segurança. - - - - -CAPITULO XV - -Leis do Captiveiro. - - -Já que estamos fallando dos escravos bom é tratar das leis do captiveiro, -isto é, das que devem guardar os escravos. - -Primeiramente não devem tocar na mulher do seo senhor, sob pena de serem -flexados logo, e a mulher morta ou pelo menos bem açoitada, e entregue -a seos Paes, resultando-lhe muita vergonha de ser companheira de um dos -seos servos. - -Notae, que as raparigas não são despresadas por se entregarem a quem -muito bem lhes parece em quanto solteiras, logo porem que recebem um -marido, si se entregam a outro, alem da injuria de serem chamadas -_Patakeres_, quer dizer, prostitutas, tem seos maridos o poder de -matal-as, açoital-as e repudial-as. - -É bem verdade terem os francezes abrandado esta lei tão rude, não dando -permissão aos maridos de matar tanto o escravo como a mulher adultera, -ordenando que fossem conduzidos ao Forte de São Luiz para vêr punil-as, -ou elle mesmo infringir-lhes o castigo, como vi acontecer, entre outros -factos, no adulterio commettido entre a mulher do Principal _Uyrapyran_, -e um escravo, bonito rapaz. - -Tinha o referido escravo muito amor a esta mulher, e depois de ter -cogitado todos os meios de gosal-a, vio-a ir um dia á fonte, muito longe -da aldeia, foi logo atraz expôr-lhe sua vontade, e depois agarrando-a com -violencia entranhou-se com ella n’um bosque, onde saciou seos desejos, e -como ella era de boa familia não quiz gritar para não ser diffamada, e -ainda em cima pedio segredo ao escravo. - -Enfadado o marido com a grande demora da mulher, e desconfiando de alguma -cousa por ser bonita e agradavel, foi á fonte, onde encontrou junto a -borda o pote de sua mulher cheio d’agoa, e lançando a vista ao redor, -como costumam a praticar os homens ciumentos, vio sahir sua mulher de um -lado do bosque e o escravo de outro. Agarrou o escravo pelo colleirinho, -e confiou-o à guarda dos seos amigos, e levou sua mulher para casa de -seos paes, que se comprometteram a entregal-a quando pedisse. - -Na manhã seguinte, em companhia dos seos, levou este escravo á minha -casa, expondo-me o facto como acima referi, acrescentando que si não -fosse o respeito ás recommendações dos Padres e dos Francezes, elle teria -matado o escravo, perdoando comtudo a sua mulher visto ter sido forçada, -a qual ja havia entregado a seos parentes com intenção de repudial-a. - -Louvei a sua obediencia e respeito: era na verdade um homem bem feito, -de bonito rosto, e bom corpo, fallando bem e em bons termos, mostrando -tanto nas maneiras como no corpo, generosidade e nobresa de coragem. - -Mandei-o á presença do senhor de Pezieux, loco-tenente de Sua Magestade -na ausencia do Sr. de la Ravardiere, que tendo ouvido a queixa, mandou -carregar de ferros os pés do escravo, promettendo ao Principal fazer a -justiça, que elle quizesse. - -Replicou-lhe o Principal que desejava vel-o morto como era costume: -respondeo o senhor de Pezieux, que Deos tinha ordenado em sua lei, que -deviam morrer tanto o homem como a mulher adultera. - -Sim, disse o Principal, porem ella foi constrangida. - -«Não, respondeo o senhor de Pezieux, a mulher não pode ser forçada por -um só homem, ou pelo menos deve gritar, e não pedir segredo ao selvagem, -o que é tacito consentimento:» dizia tudo isto para salvar o escravo da -morte, por que muito bem sabia não concordar o Principal na morte de sua -mulher visto os muitos parentes que ella tinha. - -Conseguio-o logo, porque elle pedio ao Sr. de Pezieux, que não matasse o -escravo, mas sim que o prendesse na golilha, e que lhe fosse permittido -açoital-o á vontade. - -«Sim, disse-lhe o Sr. de Pezieux, com tanto que dês quatro açoites com -cordas em tua mulher, diante de todas as mulheres, que se acharem no -Forte, e ao som da corneta.» - -Acordes n’isto, na manhã seguinte, foi a mulher conduzida e confrontada -com o escravo, reconheceo-se que o facto deo-se como ja referi, foram -ambos conduzidos á praça publica do Forte, onde se fincou o esteio e a -golilha: ahi o marido representou o papel de verdugo, escolheo tres ou -quatro cordas bem duras, que enrolou em seo braço, e voltou em sua mão -direita, e com ellas açoitou sua mulher por quatro vezes, deixando-lhes -vergões bem grossos e cumpridos, impressos sobre seos rins, ventre e -costas, não sem derramar muitas lagrimas, que lhe corriam ao longo das -faces, e sem exhalar profundos suspiros: sua mulher tambem gemia, com a -vista baixa, envergonhada de assim se vêr rodeiada por tantas mulheres, -que, como ella, tambem choravam tanto por compaixão, como apprehensivas -de que para o futuro não lhes acontecesse o mesmo. - -Os homens ao contrario mostravam-se alegres diante de tão boa justiça, e -gracejando diziam á suas mulheres—_ah! se te pilho!_ - -Durante todo o dia estiveram tristes as mulheres dos Tabajares. - -Depois de haver açoitado sua mulher, este bom marido lhe disse «eu não -tinha desejos de castigar-te, fiz o que pude perante o Maioral dos -Francezes para salvar-te, porem vae, enchuga tuas lagrimas, e tornar-te -hei a tomar por mulher, e te levarei para casa quando acabar de castigar -este escravo.» - -Sabe Deos, se o pesar que elle teve pelos açoites, que deo a mulher, -melhorou a sorte do pobre escravo, porque pondo-o na praça ou no largo, -fez um circulo do tamanho do seo chicote, separado todos, um por um. - -Tinha o escravo ferros nos pés, estava em pé, nu como a palma da mão, -e assim soffreu o castigo, sem dizer uma palavra e sem mecher-se: por -tres vezes cansado e sem poder respirar descançou, depois de fortalecido -recommeçou e de tal maneira, que não poupou uma só parte do corpo. - -Começou pelos pés, seguio pelas pernas, coxas, partes naturaes, rins, -ventre, espaduas, peito, e acabou pelo rosto e testa. - -Esteve muito tempo doente por este castigo, sempre com ferros nos pés, -conforme pedio o Principal, porem passado algum tempo consentio que -lhos tirassem, á pedido do senhor de Pezieux, que desejava satisfazer -os desejos dos seos Principaes para melhor obrigal-os a serem fieis aos -Francezes. - -Acabado isto, tomou conta da mulher, que já não chorava, e sim -principiava a rir-se, e assim voltaram para casa como se nada tivesse -acontecido. - - - - -CAPITULO XVI - -Outras leis para os escravos. - - -Consistem as outras leis, em não poderem os escravos, de ambos os sexos, -casarem-se senão á vontade dos seos senhores, porque tanto uns como -outros moram juntos e seos descendentes pertencem ao mesmo domno. - -Os selvagens _Tupinambás_ tomam ordinariamente para mulher as raparigas -captivas, e dão suas proprias filhas ou irmans aos mancebos escravos afim -de cuidarem no arranjo da casa e da cozinha. - -Praticam o contrario os francezes, porque compram homens e mulheres -escravas para casal-os, ficando a mulher com o dever de cuidar no arranjo -da casa, e o marido com o de ir pescar e caçar. - -Se acontece um francez comprar alguma rapariga escrava, mostra-a a algum -joven _Tupinambá_, que morre de amores pelas que são bellas, depois -promette-lhe que será seo genro pois ama sua escrava como si fosse sua -propria filha para assim vir o _Tupinambá_ morar com elle, casar com a -rapariga, e por esta forma ter por uma escrava dois escravos, a quem -trata por filha e genro, e elles o chamam seo _Cheru_, isto é, seo Pae. - -As raparigas escravas, que não se casão, dispoem de si como querem, -si por ventura seos senhores não lhe prohibem relações com certos e -determinados individuos, porque então em caso contrario soffrem muito; -mas quando seos senhores lhe impoem completa abstinencia, ellas lhe dizem -bem claramente, que então as tomem por mulheres visto não querer, que -alguem as ame. - -Devem os escravos trazer fielmente o resultado da sua pescaria e caçada, -e depôl-o aos pés do seo senhor ou senhora, para elles escolherem e -depois lhes darem o resto. - -Não podem trabalhar para outrem sem consentimento do seo senhor, e -nem dar seo rebanho, que lhes deo o senhor, sem lhe dizerem antes uma -palavra, pois de outra forma pode ser tomado como coisa, que não pertence -legitimamente aos escravos. - -Não devem passar atravez da parede das casas, somente feita de _pindoba_, -ou de ramos de palmeira, ao contrario são criminosos de morte, porque -devem passar pela porta, commum, ou atravez da parede de palmas. - -Não devem fugir, porque quando são agarrados, está tudo perdido, visto -que são comidos: n’este caso já não pertencem ao senhor, e sim a todos, -e para este fim quando se prende um escravo fugido, sahem da aldeia as -velhas, vão ao seu encontro, e gritando dizem «é nosso, entregae-nos, -queremos comel-o», e batendo com a mão na bocca, gritam uns para os -outros com certa expressão «nós o comeremos, nós o comeremos, é nosso.» - -Vou dar-lhes um exemplo: - -Um guerreiro Principal da ilha do Maranhão, chamado _Ybuira Pointan_,[33] -quer dizer, _Pau brasil_, ao regressar da guerra trouxe comsigo alguns -escravos, dos quaes um procurou salvar-se pela fuga, porem sendo -agarrado, foram as velhas ao seu encontro batendo na bocca com as mãos, e -dizendo «é nosso, entregae-o, é necessario que seja comido». - -Houve muita difficuldade em salval-o apezar da prohibição de não se -comerem os escravos, e si não se empregassem ameaças, elle seria devorado -pelas velhas. - -Si acontece morrerem de molestias estes escravos, sendo assim privados do -leito de honra, isto é, de serem mortos e comidos publicamente, um pouco -antes do seo fallecimento levam-nos para o matto, lá partem-lhe a cabeça, -espalham o cerebro, e deixam o corpo insepulto e entregue a certas aves -grandes, similhantes aos nossos corvos, que comem os enforcados e os -rodados. - -Quando são achados mortos em seos leitos, atiram-nos em terra, -arrastam-nos pelos pés até o matto, onde lhes racham a cabeça, como acima -disse, o que ja não se pratica na Ilha e nem em suas circumvisinhanças, -senão raras vezes e occultamente. - -Gozam tambem de muitos privilegios, que os levam a residir -voluntariamente entre os _Tupinambás_, sem desejar fugir, considerando -seos senhores e senhoras como paes e mães, pela docilidade com que os -tratam cumprindo assim seo dever; não ralham com elles e nem os offendem, -não os espancam, desculpam-nos em muita coisa contanto que não offenda -os seos costumes: são muito compadecidos, e chegam a chorar quando -os francezes tratam os seos com aspereza, e si outros se lastimam do -procedimento dos francezes prestam-lhe todo o credito ao que dizem. - -Quando fogem dos francezes elles os occultam, levam-lhes o sustento nos -mattos, vão vesital-os, as raparigas vão dormir com elles, contam-lhes o -que se passa, aconselham-nos sobre o que devem fazer, e de tal sorte que -é muito difficil agarral-os, embora vão atraz d’elles uns vinte homens, e -isto não fazem para com os escravos dos seos similhantes. - -Vem a proposito o contar que um dia perguntei a um dos escravos, que -tinha em meu poder, si não estava satisfeito vivendo commigo, não só -porque lhe ensinei a temer a Deos, como tambem pela certesa, que tinha, -de não ser comido, e que, quando christão, seria livre, morando com os -padres como si fosse filho d’elles. - -Pelo interprete respondeo-me julgar-se feliz por haver cahido nas mãos -dos Padres, tanto por conhecer á Deos como por viver com elles, e si -fosse para o poder de outro chefe, não estaria socegado e nem descançado -de não ser comido, porque, acrescentava elle, quando se morre, nada mais -se sente, quer elles comam ou não, e o mesmo para o morto: amofinar-me-ia -de morrer na minha cama, e não á maneira dos grandes no meio das danças e -dos _Cauins_, afim de vingar-me antes de morrer, dos que iriam comer-me. - -Quando penso, que sou filho de um dos grandes do meo paiz, que meo -pae é homem moderado, que todos o cercavam para escutal-o quando elle -ia á _casa grande_,[34] vendo-me agora escravo, sem pintura no corpo, -sem cocar, sem enfeites nos braços, e nem nos pulsos, como acontece -aos filhos dos grandes das nossas terras, antes queria ser morto -especialmente quando me lembro, que fui agarrado ainda menino, com minha -mãe, lá na minha terra, e trazido para _Comã_, onde vi matar e comer -minha mãe, com quem desejei morrer, porque ella me amava muito, e por -isso não posso senão lamentar minha vida. - -Proferindo estas palavras, chorou muito, a ponto de pungir-me o coração, -visto saber por experiencia quanto são amorosos estes selvagens, para com -seos paes, e estes para com elles. - -Accrescentou, que depois de ter sido sua mãe morta e comida, seo senhor -e sua senhora o adoptaram por filho, e elle os tratava por pae e mãe: -quando fallava d’elles era com affeição inexplicavel, embora tivessem -comido sua propria mãe, e ja fosse resolvido o comel-o tambem pouco tempo -antes de chegarmos á Ilha. - -Seo senhor e senhora tomavam o trabalho de vir vel-o em nossa casa, -embora fosse necessario vencer a distancia de 50 legoas, desde sua aldeia -até aqui. - -Gozam ainda de muitos outros privilegios, porque lhes é permittido -o namorar as raparigas livres, sem risco algum, olhar mesmo para as -raparigas de seo senhor e senhora, si quizerem, e n’isto não ha muita -recusa, comtudo ellas buscam os mattos e em certas cabanazinhas os -esperam em hora marcada, para evitar pequeno remoque que costumam a fazer -das moças de boa raça, quando se entregam a escravos, o que serve antes -de riso do que de deshonra. - -Vão livremente aos _Cauins_, e dansas publicas, enfeitando de mil -maneiras o seo corpo quer com pinturas, quer com pennas, quando podem, -pois estas são muito caras. - -Vivem com os filhos de seos senhores, como si fossem irmãos, e em breve -tempo gozam muita liberdade no seo captiveiro. - - - - -CAPITULO XVII - -Quanto são misericordiosos os selvagens para com os criminosos por acaso -e sem malicia. - - -Entre as perfeições naturaes que a experiencia me tem mostrado n’estes -selvagens, nota-se uma justa misericordia, isto é, desejam a punição -dos maus, quando por maldade praticam algum crime, e ao contrario são -compadecidos e pedem misericordia para aquelles, que por acaso ou -inadvertidamente incorrem n’alguma falta, e isto vou provar á vista do -seguinte exemplo. - -_Maioba_ é uma grande aldeia, distante tres leguas do Forte de São Luiz: -o seo Principal é um bom homem, amado pelos francezes, e veio fazer a -nossa casa. - -Tinha dois filhos fortes e robustos, ambos casados, e duas filhas, uma -casada e outra solteira, bonitas e engraçadas, muito amadas por seo Pae -e Mãe, de tal forma que eram perdidos por ellas e o assumpto predilecto -de suas conversações, e guardavam a solteira para um francez quando -voltassem os navios, diziam elles, e que os francezes se resolvessem a -casar com indias. - -Fundava seos castellos e sua fortuna sobre um fragil barco, similhante -a aquella boa mulher, que tendo em suas mãos o primeiro ovo de sua -gallinha, sua imaginação ia levantando-a até um principado, que d’ahi ha -pouco cahio no chão e inutilisou-se, e com elle foi-se toda a ventura -esperada por ella. - -Assim este homem não tendo outra consolação senão em sua filha, poucos -dias depois, por uma noite tão triste, _Geropary_ torceo o collo d’esta -plantinha, virando-lhe a bocca para as costas: coisa terrivel! estava -negra como o diabo, os olhos esbugalhados e revirados, a bocca aberta, a -lingua sahida para fóra, os labios superiores e inferiores revirados á -deixar vêr os dentes e as gengivas, o que poderia pela tristesa e medo, -que causava, matar a seos parentes. - -Nunca pude saber qual foi a causa d’isto, e apenas me disseram que era -infiel, e talvez vivesse deshonestamente, porem nunca deo escandalo. - -Embora seo pae tivesse vendido sua filha mais velha á algum francez para -d’ella abusar, depois a tirou da companhia do seo marido. - -Dizem os que se acham em peccado mortal, que elles estão sob o dominio e -posse do diabo, e o mesmo lhes aconteceria, si Deos quizesse. - -Não foi só esta desgraça, porque uma arrasta outra comsigo, e a primeira -é embaixadora da segunda. - -Pouco tempo depois, este Principal fez uma festa de vinho publicamente, e -para isto convidou não só os habitantes de sua aldeia, como tambem os da -visinhança. - -Quando todos dançavam e cantavam, quando o vinho fervia e muitos já se -achavam embriagados, seos dois filhos, de que ja fallei, travaram-se de -razões, e o autor da questão querendo agarrar seo irmão, por um acaso -ferio-lhe no ventre com um punhado de flechas, que este trasia pelo que -cahio logo banhado em sangue. Tiraram-se as flexas com muita dor, como -bem se calcula, o soffrimento fez desapparecer o vinho, a festa ficou -perturbada, as cantorias se mudaram em gritos e lamentos, o vinho em -lagrimas, as dansas em espancamentos proprios e arrancamento de cabellos. - -O infeliz pae, expectador de similhante tragedia, assentado n’uma rede -d’algodão, teve um desmaio, e cahio para traz. - -Voltando a si, disse aos que o rodeiavam, que de uma só vez perdeo seos -dois filhos, não fallando na que tinha perdido antes, um ferido por sua -culpa, e o outro que os francezes mandariam matar; todos se condoeram -d’elle. - -Resolveram todos os Principaes da Ilha a virem ao Forte de São Luiz -interceder a favor do vivo. - -Em quanto se passavam estes factos, o ferido contra sua vontade, -aproximava-se da morte, chamou seo irmão, e lhe disse: sou um grande -criminoso, pois de uma só vez matei muitas pessoas, isto é, a mim, a -meo pae, que morrerá de tristesa e a ti porque os francezes te mandarão -matar: elles são justiceiros em punir os maus: mas sabes tu o que ha? -toma meo conselho, e faze o que te digo. - -Os Padres que vieram com os francezes, são compadecidos, e nos amam e -aos nossos filhos, e pelos seos interpretes soube que aqui vieram para -salvar-nos. - -Já ouvi dizer, n’uma reunião a um dos nossos similhantes, que os -antecessores dos Padres baptisaram antigamente em quanto com elles -estiveram, e que vio os _Canibaes_ se abrigarem em suas Igrejas, quando -faziam alguma maldade, por terem certesa de que ahi ninguem lhes faria -mal. - -Faze o mesmo, quando anoitecer vae com meo Pae procurar o Padre na sua -cabana de _Yviret_, pede para te pôr na casa de Deos, que é defronte da -residencia d’elle, e ahi fica, até que meo Pae, conjuntamente com os -Principaes, intercedam por ti, e consigam o teo perdão do Maioral dos -francezes. - -Para mais facilidade, tu sabes que os Francezes necessitam de canoas e de -escravos, offereça pois meo Pae ao chefe tua canoa e teos escravos, para -que não morras. - -Tudo isto foi cumprido pontualmente, porque este velho, Pae dos dois -rapazes, foi procurar-me, rogou-me e instou-me para que recebesse seo -filho na casa de Deos, e intercedesse para ser perdoado pelo Maioral dos -Francezes, buscando convencer-me, entre outras, com estas razões. - -«Vós outros Padres fazeis regorgitar de povo as nossas _Casas Grandes_, -quando quereis, desejando vêr ahi grandes e pequenos, afim de ouvirem a -causa, que vos obrigou a deixar vossas casas e terras, muito melhores do -que estas, para nos ensinarem a naturesa de Deos, que é, como dizeis, -bom, misericordioso, amante da vida e inimigo da morte, e por isso não -quer que ninguem morra assim como elle morreo n’um madeiro para fazer -viver os mortos. - -«Dizeis ainda, que nossos filhos não são mais nossos, o sim vossos, que -Deos vol-os deo, e que d’elles tomaes cuidados até a morte: mostrae-me -hoje, que vossa palavra é verdadeira. - -«Estou velho, perdi todos os meos filhos, só me resta um, que fez esta -casa, que vos estima muito, e a todos os Padres e quer ser christão. - -«Matou seo irmão sem querer, ou melhor, foi seo irmão quem se matou a -si proprio com as flechas, que trazia. Rogo-te o recebas na casa de -Deos, e vem commigo fallar ao chefe, porque elle nada te recusará visto -estimar-te muito. - -«Quiz trazer commigo o filho, a favor de quem intercedo porem elle teme -muito a ira dos Francezes: actualmente anda errante e fugitivo pelos -mattos, como si fosse um javaly: quando ouve o ramalhar das arvores -suspeita ser os Franceses, que armados andam em busca d’elle para -prendel-o e conduzi-lo a _Yviret_, onde será amarrado á bocca de uma -peça.» - -Respondi pelo meo interprete, asseverando-lhe que empregaria os meos -esforços, que tinha esperança de obter o que elle desejava porque o chefe -me estimava; mas que era bom, que elle fosse pessoalmente fazer seo -pedido, e que eu iria depois delle. - -Foi immediatamente ao Forte em companhia de um dos principaes interpretes -da Colonia, chamado _Migan_,[35] e expôz suas razões e rogos ao senhor de -Pezieux, por esta fôrma. - -«Sou um Pae muito infeliz, e acabarei minha velhice como os javalys, -vivendo só, comendo raizes amargas e cruas, se de mim não tiveres piedade. - -«A misericordia muito convem aos grandes, e maiores não podem ser, quando -usam d’ella e de clemencia. - -«É teu rei o maior do Mundo, como nos contam os nossos, que estiveram em -França. - -«Elle para aqui te mandou como um dos Principaes da sua côrte afim de nos -livrares do captiveiro dos _Peros_: ora como és grande, e misericordioso, -usa de misericordia para com os infelizes, que são desgraçados por acaso -e não por malicia. - -«Bem conheço, que é preciso ser justo, e indagar o motivo para se fazer a -escolha, e proceder-se a vingança sobre os maus, o que mui restrictamente -observamos entre nós, desde os nossos paes, mas quando a falta não é -originada por maldade nós perdoamos. - -«Tenho dois filhos, como sabes, os quaes tem vindo trabalhar no teo -Forte, um matou o outro por acaso e sem maldade, ou para melhor dizer, -suicidou-se o mais velho nas flechas do mais moço, que está vivo, e te -peço que não o persigas e sim o perdôes. - -«É elle, que me hade sustentar na velhice: sempre foi amigo dos -francezes, e quando algum vae a minha aldeia, chama logo os seos cães, e -vae caçar cotias e as pacas para elle comer. - -«Fez a cása dos Padres, e assevera-me que elles o protegem. - -«Sempre foi muito obediente á sua madrasta, que o ama como si fosse -seo proprio filho: seo irmão, que sem querer, elle matou, era mau, não -estimava os Francezes, nunca lhes deo coisa alguma, não ia á caça para -elles, aborrecia sua madrasta, e muitas vezes a zangava: quando morreo, -estava bebado, e veio tomar a mulher do seo irmão, e arrancando o filho, -que ella tinha ao collo, atirou o menino para um lado e a mãe para outro, -dando-lhe bofetadas, embora estivesse grávida, na minha presença e á -vista do seo marido, e tudo soffremos com paciencia; porem vindo agarrar -seo irmão para espancal-o, ferio-se no ventre com as flechas, que elle -trasia na mão e assim morreo. - -«Porque perderei eu meos dois filhos, de uma só vez, e já na minha -velhice? - -«Si queres mandar matar o unico que tenho, mata-me primeiro, e depois -a elle. Elle te dá sua canoa para a pescaria e seos escravos para te -servirem.» - -Admirou o Sr. de Pezieux este discurso, como depois me disse e por muitas -vezes, e o referio á diversas pessoas, admirando-se de ver tão bella -Rhetorica na bocca de um selvagem. - -Previno-vos, que represento todos estes discursos e supplicas o mais -sinceramente que me foi possivel, sem o emprego de artificio algum. - -Respondeo o Sr. de Pezieux dizendo ser grande crime um irmão matar outro, -mas como elle asseverava ter sido antes por culpa do fallecido do que -pela do vivo, perdoava a rogo dos Padres, a quem nada queria recusar, e -assegurou-lhe logo que seo filho nada soffreria, que acceitava a canoa -e os escravos, porem que tudo isto lhe offerecia para o arrimo de sua -velhice visto ser elle amigo dos Padres e dos Francezes. - -Alegrou-se muito o bom velho com este acto de misericordia e -liberalidade, e não foi ingrato, não só fazendo conhecido por toda a Ilha -o facto, como tambem offerecendo ao dito Sr. e a nós tudo quanto elle e -seu filho caçavam. - - - - -CAPITULO XVIII - -Quanto é facil civilizar os selvagens á maneira dos francezes, e -ensinar-lhes os officios, que temos em França. - - -No Liv. 2.º, Cap. 1.º, dos Machabeos, lemos, que o fogo sagrado do altar -foi escondido no poço de Nephtar durante o captiveiro do povo e se -transformou em limo. - -Quando o povo regressou, já livre, os Sacerdotes apanharam este limo, e o -deitaram na madeira do altar, levantado para os sacrificios. - -Apenas o sol, lá de cima, começou a lançar seos raios sobre o limo, este -se transformou em fogo, e devorou os holocaustos. - -Desejo servir-me d’esta figura para explicar o que tenho a dizer n’este e -nos seguintes Capitulos. - -Convem notar, que por este fogo se deve entender o espirito humano -imitando a naturesa do fogo por sua actividade, ligeiresa, calôr e -claridade, o qual se torna lodo e limo, escondido n’um centro differente -do seo proprio, devido isto á sua alma captiva pela infidelidade. - -Quero dizer, que sendo o espirito do homem creado para conhecer a Deos, -e aprender artes e sciencias, torna-se entorpecido e obscurecido entre -as immundicies, quando sua alma está presa nas cadeias da infidelidade, -sob a tyrannia de Satanaz, mas quando sua alma desprende-se do captiveiro -pela intenção e guia dos Prophetas de Deos, sahe o espirito d’esse -poço lamacento, e animado pela luz, e conhecimento de Deos, das artes, -e das boas sciencias, torna-se apto e prompto para executar o que -percebe e aprende, o que farei vêr, e tocar com o dedo a respeito dos -nossos selvagens, e mui principalmente quando de suas perguntas mais -comesinhas nasce a esperança d’elles se civilisarem, e viverem reunidos -n’uma cidade, negociando, aprendendo officios, estudando, escrevendo e -adquirindo sciencia. - -Tenho para mim, que são mais faceis de serem civilisados, do que os -aldeões de França, por ter a novidade não sei que influencia sobre o -espirito afim de excital-o a aprender o que elle vê de novo, e lhe agrada. - -Os nossos _Tupinambás_ nunca tiveram ideia alguma de civilisação até -hoje; eis a razão porque elles se esforção, por toda a forma, de imitar -os nossos francezes, como depois direi. - -Ao contrario os aldeões da nossa França estão de tal sorte enraisados em -sua rusticidade, que, em qualquer conversação, embora nas cidades entre -pessoas distinctas, sempre mostram signaes de camponezes. - -Aos _Tupinambás_, depois de dois annos de convivencia com os francezes, -estes lhes ensinaram a tirar o chapeu, a saudar a todos, a beijar as -mãos, a comprimentar, a dar os bons dias, a dizer adeos, a ir á Igreja, -a tomar agua benta, a ajoelhar-se, a pôr as mãos, a fazer o signal da -Cruz na testa e no peito, a bater no peito diante de Deos, a ouvir missa -e sermão, ainda que nada d’isto comprehendam, a levar o _Agnus Dei_, a -ajudar o sacerdote á missa, a assentar-se á mesa, a estender a toalha -diante de si, a lavar suas mãos, a pegar na carne com tres dedos, a -cortal-a no prato, e a beber em commum, e breve farão todos os actos -de civilidade e delicadesa, que se costuma a praticar entre nós, e já -se acham tão adiantados a ponto de parecerem ter sempre vivido entre os -francezes. - -Ninguem pois poderá contestar-me, que não sejam estes factos bastante -para convencer-nos do que devemos esperar e acreditar ser esta nação, com -o andar dos tempos, civilisada, honesta e muito aproveitada. - -Como os exemplos provam mais que outra qualquer especie de argumentação, -vou contar-vos o caso de alguns selvagens educados em casa de nobres. - -Actualmente ha em Maranhão uma mulher selvagem, de uma das boas raças da -Ilha, que foi antigamente, quando bem pequena, tomada pelos portuguezes, -e vendida como escrava á D. Catharina de Albuquerque, sobrinha do grande -Albuquerque, Vice-Rei das Indias Orientaes, sob o dominio do Rei de -Portugal, a qual reside presentemente em Pernambuco, e é Marqueza de -Fernando de Noronha, ilha muito bella e fertil, segundo diz o Revd. Padre -Claudio d’Abbeville na sua Historia. - -Esta rapariga fez-se christã, e se a vestissem á portugueza não se -poderia facilmente dizer qual a sua origem, se portugueza ou selvagem, -mostrando sempre a vergonha e o pudor, inseparaveis de uma mulher, e -occultando com cuidado a imperfeição do seo sexo. - -Poderia dizer outro tanto de muitos selvagens, educados entre os -portuguezes, e dos quaes alguns foram á França, e conservam ainda hoje o -que aprenderam, e o praticam quando se acham entre os francezes. - -É novo entre elles o uso da barba e dos bigodes, porem como vêem esse uso -entre os Francezes, tambem deixam crescer tanto uma como outra coisa. - -Tem incomparavel aptidão para as artes e officios. - -Conheço um selvagem do Miary, chamado _Ferrador_, por causa do officio, -que aprendeo, vendo somente trabalhar um ferrador francez que nada lhe -explicou. - -Sabia muito bem malhar com os outros uma barra de ferro encandecida, -como se tivesse longa pratica, apesar de ser coisa muito sabida entre os -officiaes do mesmo officio, que é necessario muito tempo para aprender-se -a musica dos martellos na bigorna do ferrador. - -Achando-se este mesmo selvagem nos desertos do Miary com seos -semelhantes, sem bigorna e martello, limas e tornos, trabalhava comtudo -muito bem fazendo pontas ou lanças para flechas, harpões e anzóes. -Por bigorna tinha uma pedra muito dura, por martello outra de menor -consistencia, e depois aquecendo ao fogo o ferro, dava-lhe a forma que -queria. - -Os officios mais necessarios entre elles são os de ferreiro, tanoeiro, -carpinteiro, marcineiro, cordoeiro, alfaiate, sapateiro, tecelão, oleiro, -ladrilhador, e agricultor. - -Para todos estes officios são aptos e inclinados pela natureza. - -Para o de ferreiro ou de ferrador ja referimos um exemplo. - -Quanto ao officio de tecelão seria a sua especialidade se aprendessem; -tecem seos leitos muito bem, trabalham em lã tão perfeitamente como os -francezes, embora não empreguem a lançadeira, e nem a agulha de ferro, e -sim pequenos pausinhos. - -Contarei ainda uma bonita historia. - -Fui um dia visitar o grande _Thion_, principal dos Pedras-verdes, -_Tabajares_; quando cheguei a sua casa, e porque lhe pedisse, uma de suas -mulheres me levou para debaixo de uma bella arvore no fim da sua cabana, -que a abrigava dos ardores do sol, onde estava armado um teiar de faser -redes de algodão, em que elle trabalhava. - -Gostei muito de vêr este grande Capitão, velho Coronel de sua nação, -enobrecido por tantas cicatrises, entregando-se com praser á este -officio, e não podendo conter-me, perguntei-lhe a razão d’isto, esperando -aprender alguma coisa de novo n’este facto tão particular, que estava -vendo. - -Pelo meu interprete lhe perguntei a razão, porque se dava a esse mister. - -Respondeo-me, «porque os rapases observam minhas acções e praticam o que -eu faço; se eu ficasse deitado na rede e a fumar, elles não quereriam -fazer outra coisa: quando me vêm ir para o campo com o machado no hombro -e a fouce na mão, ou tecer rede, elles se se envergonham de nada fazer.» - -Eu e os que comigo então se achavam, sentiram muito prazer ouvindo estas -palavras, e desejaria vel-as praticadas por todos os christãos, porque -então a ociosidade, mãe de todos os vicios, não estaria em França, como -actualmente se vê. - -O officio de carpinteiro não lhes é muito difficil, porque os vi fazendo -suas casas, e as dos Francezes, assentando seo machado, e repetindo o -golpe no mesmo lugar, quatro ou cinco vezes, com tanta firmeza, como -faria qualquer carpinteiro bem habil. - -A arte de marcineria lhes é facil, porque com suas fouces aplainam um -pedaço de pau, tão liso e tão igual, como se tivesse passado o raspador -por cima d’elle. - -Com o auxilio de suas facas somente, fazem macaquinhos e outras figuras -de madeira. - -Não precisam de serra, e nem de outro qualquer instrumento para fazer -seos arcos, remos e espada de guerra, pois basta-lhes uma simples -machadinha. - -Cavam, arranjam suas canôas, e dão-lhes a forma, que lhes apraz. - -Brevemente tractarei de outros officios, nos quaes os vi trabalhar com -tal industria a ponto de parecer-me que, com pouco tempo de ensino, -chegaram á perfeição. - -Alem d’isto fazem muito bem vestidos, cubertas de cama, sobre-céos, -sanéfas e cortinados de cama, pennas de diversas cores, que por sua -perfeição se pensa terem vindo de fóra. - -Não fallarei da propensão natural, que elles tem para pintar, fazer -diversas folhagens, e figuras, servindo-se apenas de uma pequena lasca de -pau, ou ponteiro, ao passo que os nossos pintores necessitam de tantos -pinceis, compassos, regoas, e lapis. - - - - -CAPITULO XIX - -Quanto são aptos os selvagens para aprenderem sciencias e virtudes. - - -Quando regressei das Indias para a França, pelas frequentes e constantes -perguntas, feitas pelas pessoas, que me vinham visitar, reconheci quanto -é difficil acreditarem os Francezes, que os selvagens sejam aptos para -aprenderem sciencia e virtude, e não sei se alguns chegam a ponto de -julgar estes povos antes do genero dos macacos, do que dos homens. - -Em quanto a mim elles são homens, e provarei, e por tanto capazes de -obterem sciencia e virtude. - -Seneca na sua epistola 110 disse «_Omnibus natura dedit fundamenta -semenque virtutum_.» A natura deo a todas as creaturas, sem excepção de -uma só, as raizes e as sementes das virtudes, palavras mui notaveis: -assim como as raizes e as sementes são lançadas na terra e por -conseguinte enterradas em suas entranhas, assim tambem Deos lançou -naturalmente no espirito do homem as raizes e as sementes da virtude: -com taes alicerces pode o homem, ajudado por Deos, edificar um predio, e -extrahir da semente uma bella arvore carregada de flores e de fructos, -doutrina esta muito bem provada por S. João Chrisostomo, na Homilia -55, ao povo de Antiochia, e na Homilia 15 á respeito da Epistola 1ª á -Thimotheo moralisando esta passagem do Genesis:—_Germinet terra, herbam -virentem, e omne lignum pomiferum_, «produsa a terra herva verdejante ou -arvore fructifera:» acrescentou ainda—_Dic ut producat ipse terra fructum -proprium et exibit quicquid facere velis_, «dize e ordena á tua propria -terra, que produza seo fructo natural, e verás ella produzir logo o que -pedires.» - -São Bernardo, no _Tractado da vida solitaria_, disse—_virtus vis est -quædam ex natura_, «a virtude é uma certa força, que sahe da natureza.» - -Se assim não fôr, quero provar por muitos exemplos, começando pelas -sciencias, para cujo ensino concorrem as tres faculdades da alma—vontade, -intelligencia, e memoria: a vontade dá ao homem o desejo de aprender, -e por ella vencemos toda a sorte de trabalhos e difficuldades: a -intelligencia dá vivacidade para comprehender, e a memoria guarda e -conserva o que conheceo e aprendeo. - -São mui curiosos os selvagens de saber novidades e para satisfazer tal -desejo, os caminhos e a distancia das terras, por maiores, que sejam, -lhes parecem curtos, não sentem a fome, porque passam, e os trabalhos -como que são descanço para elles: prestam-vos toda a sua attenção, -escutam o que disserdes durante o tempo que vos parecer, sem enfado e -em silencio, á respeito de Deos, ou de qualquer assumpto, e se tiverdes -paciencia, elles vos farão milhares de perguntas. - -Lembra-me, que entre as praticas, que eu lhes fazia ordinariamente por -intermedio do meo interprete, eu lhes disse que apenas chegassem de -França os Padres, elles mandariam edificar casas de pedra ou de madeira, -onde seriam recolhidos seos filhos, aos quaes os Padres ensinariam tudo o -que sabem os _Caraibas_. - -Responderam-me: oh! quanto são felizes nossos filhos por aprenderem tão -bellas coisas, oh! quanto fomos infelizes nós e os nossos antepassados -por não haverem Principaes n’esse tempo. - -É viva sua intelligencia como reconhecereis pelo seguinte facto. - -Não ha estrellas no Ceo, que elles não conheçam e calculam pouco mais ou -menos a vinda das chuvas e as outras estações do anno. - -Pela phisionomia distinguem um Francez de um Portuguez, um Tapuyo de um -Tupinambá, e assim por diante. - -Nada fazem antes de pensar, e pezam em seu juiso uma coisa antes de -emittir sua opinião. Ficam serios e pensativos, porem não se precipitam -em fallar. - -Mas, dizeis vós, como é possivel que estas pessoas tenham tal juiso -fazendo o que fazem? - -Porque elles dão por uma faca cem escudos de ambar gris, ou qualquer -outra coisa, que apreciamos, como sejam: ouro, prata e pedras preciosas. - -Eu vos direi a opinião que elles fazem de nós, muito contraria n’este -ponto: julgam-nos loucos e pouco judiciosos em apreciar mais as coisas, -que não servem para o sustento da vida do que aquellas, que nos -proporcionam o viver commodamente. - -Na verdade, quem deixará de confessar, ser uma faca mais necessaria á -vida do homem, do que um diamante de cem mil escudos, comparando um -objecto com outro, e pondo de parte, a estima que se lhe dá? - -Para provar que não lhes falta juiso afim de avaliar a estima que fazem -os Francezes das coisas existentes em sua terra, basta dizer, que elles -sabem altear muito o preço das coisas, que julgam ser apreciadas pelos -francezes. - -Um dia disseram-me alguns, que era preciso haver muita falta de madeira -em França, e que experimentassemos muito frio para mandarmos navios de -tão longe, a mercê de tantos perigos, carregarem de paus.[36] - -Respondi-lhes que não era para queimar e sim para tingir de cores. - -Replicaram-me: porque nos compraes o que cresce em nosso paiz a troco de -vestidos vermelhos, amarellos e verde-gaios? Eu os satisfiz dizendo ser -necessario misturar outras cores com as do seo paiz para tingir panos. - -Si me disserdes, que elles fazem acções inteiramente brutaes, como -as de comer seos inimigos, e praticar tudo que os offenda, como seja -expol-os em lugares onde ha piolhos, vermes, espinhos, etc., eu vos -responderei não provir isto de falta de juiso, porem sim de um erro -hereditario, sempre existente entre elles, por pensarem, que sua honra -depende de vingança: parece-me, que tambem não é desculpavel o erro -dos nossos francezes de se matarem em duello, e comtudo vemos os mais -bellos espiritos, e os primeiros da nobreza concordarem com este erro, -despresando a Lei de Deos, e arriscando a eternidade de sua salvação. - -Quanto a memoria elles a possuem muito feliz, porque lembram-se sempre do -que viram e ouviram com todas as circumstancias do lugar, do tempo, das -pessoas, quando o caso se disse ou se executou, fazendo uma geographia -ou descripção natural com a ponta de seos dedos na areia, do que estão -contando. - -O que mais me admirou foi vel-os narrar tudo quanto se ha passado desde -tempos immemoriaes, somente por tradicção, porque tem por costume os -velhos contar diante dos moços quem foram seos avós e antepassados, e -o que se passou no tempo d’elles: fazem isto na _casa grande_, algumas -vezes nas suas residencias particulares, acordando muito cedo, e -convidando gente para ouvil-os, e o mesmo fazem quando se vesitam, porque -abraçando-se com amisade, e chorando, contam um ao outro, palavra por -palavra quem foram seos avós e ante-passados, e o que se passou no tempo -em que viveram. - - - - -CAPITULO XX - -Continuação do objecto antecedente. - - -Concordo que sejam estes povos inclinados pela naturesa á muitos vicios, -porem é necessario lembrar-nos, que elles são captivos por infidelidade -d’estes espiritos rebeldes a Lei de Deos, e instigadores da sua -transgressão. - -São João na sua Epistola 1.ª chama _iniquidade_ ou _desigualdade_ -o desvio ou a digressão do direito, como muito bem explica o texto -Grego[BC] ——————————, assim traduzido _Peccatum est exorbitatio á lege_. - -Esta Lei é divina ou humana: aquella dada por escripto á Moysés, e depois -por Jesus Christo aos christãos, e esta acha-se gravada no intimo d’alma. - -Transgredindo-se estas duas Leis commettem-se dois peccados, um contra -os mandamentos de Deos, e outro contra a lei natural: por elles serão -accusados e condemnados os incredulos, cada um de per si, alem do peccado -commum da infidelidade. - -Entre todos os vicios a que estão sugeitos estes barbaros, sobresahe a -vingança, que nunca perdoam, e a praticam logo que podem, embora as boas -apparencias com que tratam seos inimigos reconciliados. - -Não ha a menor duvida que retirando-se os francezes do Maranhão, todas as -nações, antes inimigas, que ahi residem promiscuamente, por terem a nossa -alliança, devorar-se-hão umas ás outras, embora, o que é para admirar, -vivam agora muito bem sob o dominio dos francezes, e até contrahindo-se -casamentos entre ellas. - -Gostam tanto de vinho a ponto de ser considerada a embriaguez por elles, -e até mesmo pelas mulheres, como uma grande honra. - -São impudicos extraordinariamente, mais as raparigas do que qualquer -outros inventores de noticias falsas, mentirosos, levianos e -inconstantes, vicios mui communs a todos os incredulos, e por ultimo são -extremamente preguiçosos a ponto de não quererem trabalhar, embora vivam -na miseria, antes do que na opulencia por meio do trabalho. - -Se elles quizessem, não era necessario muito cansaço para terem em poucas -horas muita carne e peixe. - -O que acabo de dizer, refere-se especialmente aos _Tupinambás_, porque -as outras nações, como sejam os _Tabajares_, _Cabellos-compridos_, -_Tremembés_, _Canibaes_, _Pacajares_, _Camarapins_, e _Pinarienses_, e -outros trabalham muito para viver, ajuntar generos, ter boa casa, e todas -as commodidades. - -Vou dar-vos um exemplo bem notavel da preguiça dos nossos _Tupinambás_. - -Obtendo alguns Francezes do Forte licença para irem passear ás aldeias, -foram á do chefe _Vsaap_. - -Na entrada da primeira choupana encontraram um grande fumeiro cheio de -caça, e ao lado d’elle um indio, dono da casa, deitado n’uma rede de -algodão, que gemia muito como se estivesse bastante doente. - -Os nossos Francezes alegres e promptos á festejarem esta mesa tão bem -preparada, lhe perguntaram com brandura e carinho _Dê omano Chetuasap_, -«está doente meo compadre?» Sim, respondeo elle. Que tendes, replicaram -os Francezes, quem vos fez mal? Minha mulher, disse elle. Foi para roça -desde pela manhã, e eu ainda não comi. A farinha e a carne está tão perto -de vós, porque não vos levantaes, para comer, disseram os francezes? Sou -preguiçoso, não sei levantar-me. Quereis, tornaram os francezes, que vos -levemos a farinha e a carne, e comeremos comvosco? Quero, respondeo elle -logo. - -Começaram todos a aliviar o fumeiro, pozeram tudo diante d’elle, e -assentando-se em roda, como é de costume, excitaram-lhe o apetite pela -boa vontade que mostravam, e o trabalho, que elles tiveram de tirar -a comida de cima do fumeiro, em distancia de tres pés, foi o unico -pagamento de tal companhia na mesa. - -Apesar de suas perversas inclinações, elles tem outras muito boas, -louvaveis e virtuosas. - -Vivem pacificamente com os outros, dividem com elles o resultado de sua -pescaria, caçada e lavoura, e não comem ás escondidas. - -Um dia na aldeia de Januaran só tinham farinha para comer. Appareceu um -rapaz trazendo uma perdiz morta ha pouco; sua mãe depennou-a ao fogo, -cozinhou-a, deitou-a n’um pilão, reduzio-a á pó, e juntando-lhe folhas -de mandioca, cujo gosto é similhante ao da chicoria selvagem, fez ferver -tudo, e depois de bem picado ou cortado em pedacinhos, d’esta mistura -fez pequenos bolos, do tamanho de uma balla, e mandou distribuil-os pela -aldeia, um para cada choupana. - -Vi ainda uma coisa mais admiravel, embora comesinha, e sem consequencia. - -Appareceram em minha casa muitos selvagens esfaimados, vindos da -pescaria, onde somente apanharam um carangueijo, que assaram sobre -carvões, e pedindo-me farinha, o comeram todos, fazendo roda, cada um o -seo pedacinho: eram doze ou treze. - -Bem podeis imaginar o que tocaria a cada um, sendo o carangueijo do -tamanho de um ovo de galinha. - -É muito grande a liberalidade entre elles, e desconhecida a avaresa. - -Si algum delles tiver desejos de possuir uma coisa, que pertença a outro, -elle o diz francamente, e é preciso que o objecto seja muito estimado -para não ser dado logo, embora o que a pedio fique na obrigação de dar ao -outro tambem o que elle desejar. - -Tornam-se mais liberaes para com os estrangeiros do que para com seos -patricios. - -Ficam reduzidos á pobresa comtanto que bem hospedem os estrangeiros, que -vão visital-os, julgando-se bem recompensados com a fama de liberaes, -espalhada pelos que não são de sua terra, e julgam chegar ella até aos -paizes estrangeiros, onde serão tidos por grandes e ricos. - -Com taes ideias muitas vezes vão fazer visitas a cem, duzentas e -tresentas legoas afim de serem apreciados por suas liberalidades. - -Nunca roubam uns aos outros; o que possuem está á vista, pendurado nas -vigas e barrotes de suas casas. - -É bem verdade, que dentro da Ilha actualmente, em Tapuytapera, e Cumã, -elles tem cofres, que lhes deram os Francezes, onde guardam o que tem de -melhor, e, ou excitados por isto, ou pelo exemplo dos Francezes, muitos -d’elles ja aprenderam a arte de furtar. - -Elles chamam furtar—_Mondá_, ao ladrão _Mondaron_, e este nome é entre -elles grande injuria a ponto de mudarem de côr quando o pronunciam: -chamar uma mulher ladra, é duas vezes prostituta, com o nome de -_Menondere_ para differençar de prostituta simples—_Patakuere_, é aquelle -primeiro epitheto o mais afrontoso, que se lhe pode dizer. - -Tomareis uma boa vingança chamando-os ladrões, quando elles vos atirarem -ao rosto um bem claro, e expressivo _Giriragoy_, que quer dizer -_mentiste_, sem exceptuar pessoa alguma, e por isto bem podeis avaliar -quanto este vicio é detestado por elles, pois não podem tolerar a injuria. - -Guardam reciproca equidade, não se enganam nem se illudem: si um -offende a outro, segue-se logo a pena de _Talião_: são mui tolerantes, -respeitam-se reciprocamente, especialmente os velhos. - -São muito soffredores em suas miserias e fome chegando até a comer -terra,[37] ao que acostumam seos filhos, o que vi muitas vezes. - -Vi muitos meninos tendo nas mãos uma bolla de terra, que ha em sua aldeia -como _terra siggilada_, a qual apreciam e comem como fazem as crianças, -em França com as maçans, as pêras, e outros fructos que se lhes dá. - -Não se esmeram no preparo da comida, como nós, por que ou a cozinham ao -fogo, ou a fazem ferver n’uma panella sem sal, ou assam-n’a no fumeiro. - - - - -CAPITULO XXI - -Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada -inviolavelmente pela mocidade. - - -O que mais me impressionou e admirou durante os dois annos, que estive -entre os selvagens, foi a ordem e respeito observado inviolavelmente -pelos moços para com os seos parentes mais velhos, ou entre elles, -fazendo cada um o que permitte a sua idade sem cuidar do que se acha no -mais alto ou no menor grau. - -Ninguem deixará de admirar-se commigo vendo a naturesa somente ter -n’estes barbaros o poder de fazel-os guardar o respeito, que os meninos -devem a seos maiores, e fazer conter a estes no que é exigido pela -diversidade das idades. - -Quem não se hade admirar vendo a naturesa somente ter mais força para -fazer observar estas coisas, do que a Lei e a graça de Jesus-Christo -sobre os Christãos, entre os quaes raras vezes se contem a mocidade nos -seos deveres, apesar de todos os bons ensinos, mestres e pedagogos, -apparecendo sempre confusão e grande presumpção. - -Muito praser terei si o caso seguinte nos der algum remedio. - -Distinguem os selvagens suas idades por certos graus, e cada grau tem no -frontespicio de sua entrada, seu nome proprio, que ensina ao que pretende -entrar em seo palacio os seos jardins e alamedas, a sua occupação, e isto -por enigmas, como eram outr’ora os Hierogliphos dos Egypcios. - -O primeiro grau é destinado as crianças do sexo masculino e legitimos -e dão-lhe em sua lingua o nome de _Peitan_, isto é, «menino sahindo do -ventre de sua mãe.» - -Á este primeiro grau da idade do menino é inteiramente cheio de -ignorancia, de fraqueza e de lagrimas, base de todos os outros graus. - -A natureza, boa mãe d’estes selvagens, quiz que o menino sahindo do -ventre de sua mãe, se achasse em estado de receber em si as primeiras -sementes do natural commum d’estes selvagens, porque não é afagado, -pensado, aquecido, bem nutrido, bem tratado, nem confiado aos cuidados -de alguma ama, e sim apenas lavado em algum riacho ou n’alguma vasilha -com agua, deitado n’uma redezinha de algodão, com todos os seos membros -em plena liberdade, nus inteiramente, tendo por unico alimento o leite -de sua mãe, e grãos de milho assados, mastigados por ella até ficarem -reduzidos á farinha, amassados com saliva em forma de caldo, e postos em -sua boquinha como costumam a fazer os passaros com a sua prole, isto é, -passando de bocca para bocca. - -É bem verdade, que quando o menino é um pouco forte, por conhecimento -e inclinação natural, ri-se, brinca e salta, nos braços de sua mãe, -pensando estar mastigando sua comida, levando seo bracinho á bocca -d’ella, recebendo no concavo de sua mãosinha este repasto natural, que -leva á bocca e come: quando se sente farto, bota fóra o resto, e virando -a cara, e batendo com as mãos na bocca da mãe, lhe dá a entender que não -quer mais. - -Obedece a mãe promptamente não forçando seo apetite e nem lhe dando -occasião de chorar. - -Si o menino tem sêde, por gestos sabe pedir o peito de sua mãe. - -Em tão tenra idade mostram o respeito e o dever, que a natureza lhes dá, -porque não são gritadores, comtanto que vejam suas mães, e ficam no lugar -onde os deixam. - -Quando vão trabalhar nas roças ellas as assentam nuasinhas na areia ou na -terra, onde ficam caladinhas, ainda que o ardor do sol lhes dê no rosto -ou no corpo. - -Qual seria de nós, que hoje poderia viver soffrendo na primeira idade -tantos encommodos? - -Esperam os nossos paes a retribuição e dever, que principiamos a -pagar-lhes desde a primeira idade, si não estão cegos pelo amor que nos -tem; o mesmo devem esperar nas outras idades, sendo mais reconhecidos os -nossos deveres para com elles, custe o que custar-nos. - -Começa a segunda idade, quando o menino anima-se a andar sosinho, e -apezar de haver alguma confusão da-se-lhe o mesmo nome. - -Observei differença na maneira de criar os meninos, que não sabem andar, -e os que se esforçam para o fazer, o que nos leva a formar outra classe, -e dar-lhe nome proprio: chama-se _Kunumy-miry_, «rapazinho»[38] e abrange -até 7 a 8 annos. - -Durante este tempo não se separam de suas mães, e nem acompanham seos -Paes, e o que é mais, deixam-nos mamar até que por si mesmo aborreçam o -peito, habituando-se pouco a pouco ás comidas grosseiras como os grandes -e adultos. - -Dão lhes pequenos arcos e flexas proporcionaes ás suas forças, -reunindo-se uns aos outros plantam e juntam algumas cabaças, nas quaes -fazem alvo para o tiro das suas flechas adextrando assim bem cêdo seos -braços. - -Não açoitam, e nem castigam seos filhos, que obedecem a seos paes e -respeitam os mais velhos. - -È muito agradavel esta idade dos meninos, e n’ella podereis descobrir a -differença existente entre nós pela naturesa e pela graça: sem fazer -comparação, acho-os mimosos, doceis e affaveis como os meninos francezes, -não esquecendo antes tornando bem saliente a graça do Espirito Santo -concedida pelo baptismo aos filhos dos Christãos. - -Si acontece morrerem os meninos n’esta idade, tem os paes pesar profundo, -e sempre se recordam d’elles, especialmente nas cerimonias de lagrimas e -lamentações, recordações que fazem uns aos outros, lastimando esta perda -e a morte dos seos filhinhos, dando-lhes o nome de _Ykunumirmee-seon_ «o -menino morto na infancia.» - -Vi mães, quase loucas, no meio de suas roças, ou nas matas sosinhas, em -pé ou agachadas, chorando amargamente, e quando lhes perguntava para que -faziam isto, respondiam-me «Oh! recordo-me da morte de meos filhinhos, -_Ché Kunumirmee-seon_, ainda na infancia» e depois continuavam a chorar e -muito. - -È na verdade mui natural o ter pesar da perda e morte d’estes meninos, -que ja haviam custado tantos trabalhos á seos paes, e que estavam na -edade de dar-lhes alguma alegria. - -Acha-se a terceira classe entre estas duas primeiras—infancia e puericia, -e as da adolescencia e virilidade, entre os 8 a 15 annos, a que chamamos -mocidade: appellidam-nos os selvagens simplesmente por _Kunumy_ sendo a -infancia chamada _Kunumy-miry_, e a adolescencia _Kunumy-uaçu_. - -Estes _Kunumys_, ou rapazes, na idade do 8 a 15 annos, não ficam mais -em casa e nem ao redor de sua mãe, e sim acompanham seos paes, tomam -parte no trabalho d’elles imitando o que vêem fazer: empregam-se em -buscar comida para a familia, vão as matas caçar aves, e ao mar flechar -peixes e admira vêr a industria com que flecham as vezes tres a tres -peixes juntos, ou agarram em linha feita de _tucu_ ou em _pussars_, -especie de rêde de pescar, que enchem de ostras e outros mariscos, e -levam para casa. Não se lhes manda fazer isto, porem elles o fazem por -instincto proprio, como dever de sua idade, e já feito tambem por seos -antepassados. - -Este trabalho e exercicio mais agradavel do que penoso, e proporcional a -sua idade, os isenta de muitos vicios, aos quaes a naturesa corrompida -costuma a prestar attenção, e a ter predilecção por elles. - -Eis a razão porque se facilita á mocidade diversos exercicios liberaes -e mecanicos, para distrahil-a e desvial-a da má inclinação de cada um, -reforçada pelo ocio mormente n’aquella idade. - -A quarta classe é para os que os selvagens chamam _Kunumy-uaçú_, -«mancebos»: abrange a idade de 15 a 25 annos, por nós chamada -«adolescencia.» - -Tem outro modo de vida, entregam-se com todo o esforço ao trabalho, -acostumam se a remar, e por isso são escolhidos para tripularem as canôas -quando vão á guerra. - -Applicam-se especialmente a fazer flexas para a guerra, a caçarem com -cães, a flechar e arpoar peixes grandes, não usam ainda de _Karacóbes_, -isto é, de um pedaço de pano atado na frente para encobrir suas -vergonhas, como fazem os homens casados, e sim de uma folha de Palmeira. - -Tem o poder de dividir o que possuem com os mais velhos, reunidos na -_Casa-grande_, onde conversam, e servem tambem os mais velhos. - -É n’este tempo, diga-se a verdade, que elles mais ajudam a seos paes e -mães, trabalhando, pescando e caçando, antes de se casarem, e portanto -sem obrigação de sustentarem mulher: eis porque sentem muito seos paes -quando elles morrem n’esta idade, dando-lhes em signal de sua dor o nome -de _Ykunumy-uaçú-remee-seon_, que quer dizer «o mancebo morto» ou «o -mancebo morto na sua adolescencia.» - -Abrange a quinta classe desde 25 até 40 annos, e se chama _Aua_ o -individuo n’ella comprehendido, vocabulo aplicado a todas as idades, -assim como usamos com o nome _homem_. - -Apesar d’isto ser privativo d’esta idade, assim como o homem é pelos -Latinos chamado _vir_, _á virtude_, e em Francez idade viril, de -virilidade, quer dizer—a força, que no homem chegou a seu termo: n’esta -mesma lingua de selvagens a palavra _Aua_, de que procede _Auaté_, quer -dizer «forte, robusto, valente, audacioso», para significar a 5ª idade -dos seos filhos. - -N’essa occasião como guerreiros são bons para combater, nunca porem para -commandar: buscam casar-se, o que não é difficil por consistir o enxoval -da noiva apenas de algumas cabaças, que lhes dá sua mãe para principiar -sua casa, vestidos, e roupas, ao contrario em nosso paiz as mães fornecem -enfeites e pedras brancas a suas filhas. - -Os paes dão por dote aos maridos de suas filhas 30 ou 40 toros de pau de -tamanho proprio a poderem ser levados á casa do noivo, os quaes servem -para com elles se accender o _fogo das bodas_: o individuo casado de novo -não se chama _Aua_, e sim _Mendar-amo_. - -Embora sejam casados o homem e a mulher não ficam livres da obrigação -natural de proteger seos paes e ajudal-os a fazer suas roças. - -Soube d’isto em minha casa, vendo a filha de _Japy-açú_, baptisada e -casada á face da Igreja, dizer a um outro selvagem, seo marido, tambem -christão, quando pretendia ir a _Tapuitapera_ ajudar o Rvd. Padre Arsenio -no baptismo de muitos selvagens, «Onde queres ir? Tu bem sabes que ainda -não se fizeram as roças de meo Pae, e que ha falta de mantimentos: não -sabes, que si elle me deo a ti foi com a obrigação de o auxiliares na -velhice? Si queres abandonal-o então volto para a casa d’elle.» - -Advertiram-na á respeito d’estas ultimas palavras, fazendo-a reconhecer -o juramento que dera, de nunca abandonal-o ou separar-se d’elle, -louvando-se comtudo muito os outros sentimentos, que manifestou á favor -de seo Pae, e praza a Deos que todos os christãos a imitassem dando -verdadeira intelligencia a estas palavras formaes do casamento que o -homem e a mulher deixaram seos paes para viverem juntos—porque de outra -fórma seria Deus authorisar a ingratidão dos filhos casados sob pretexto -de terem filhos, ou poder tel-os e precisar cuidar do seo sustento, -quando ao contrario Deos condemna, como reprobo, o que abandona seos -paes, sem os quaes, não fallando na vontade de Deos, não viriam ao mundo -nem elles, e nem seos filhos, embora por essas palavras mostre a grande -união, que pelo casamento se faz entre o corpo e o espiríto dos casados. - -Comprehende a 6ª classe os annos de 40 até a morte: é a mais honrosa de -todas, e cercada de respeito e veneração, os soldados valentes, e os -capitães prudentes. - -Assim como o mez dá a colheita dos trabalhos e a recompensa da paciencia, -com que o lavrador supportou o inverno e a primavera, lavrando com a sua -charrua o campo em todos os sentidos, sem ser ajudado pela terra, assim -tambem quando chega a estação da velhice são honrados pelos que tem menos -idade. - -O que occupa esta classe chama-se _Thuyuae_, quer dizer, «ancião ou -velho.» - -Não póde, como os outros, ser assiduo ao trabalho: trabalha quando -quer, e bem a sua vontade, mais para exemplo da mocidade, respeitando -tradicções da sua Nação, do que por necessidade: é ouvido com todo o -silencio na _casa-grande_, falla grave e pausadamente usando de gestos, -que bem explicam o que elle quer dizer e o sentimento, com que falla. - -Todos lhe respondem com brandura e respeito, e ouvem-nos os mancebos -com attenção: quando vae a festa das _Cauinagens_ é o primeiro, que -se assenta e é servido; entre as moças, que distribuem o vinho pelos -convidados, as de mais consideração o servem, e são as parentas mais -proximas do que fez o convite. - -No meio das danças entoam os cantos; dam-lhe a nota, principiam pela mais -baixa até a mais grave, crescendo gradualmente até chegar á força da -nossa musica. - -Suas mulheres cuidam n’elles, lavam-lhes os pés, apromptam e trazem-lhe a -comida, e se ha alguma difficuldade na carne, no peixe ou nos mariscos, -ellas a tiram, accommodando-a ás suas forças. - -Quando morrem alguns d’elles os velhos lhe prestam honras, e o choram -como as mulheres, e lhe dam o nome de _thuy-uae-pee-seon_: quando -morrem na guerra, chamam-no _marate-kuepee-seon_, «velho morto no meio -das armas», o que ennobrece tanto seos filhos e parentes, como entre -nós qualquer velho Coronel, que occupou sua vida inteira no serviço do -exercito pelo Rei e pela Patria, e que por corôa de gloria morreo com as -armas na mão, com a frente para os inimigos, no meio de renhido combate, -coisa nunca esquecida por seos filhos antes considerada como grande -herança, e de que se aproveitam apresentando-os ao Principe como bons -serviços de seo Pae, e pedindo por elles uma recompensa. - -Não fazendo estes selvagens caso algum de recompensas humanas, porem -empenhando todas as suas forças para conseguirem essas honras, provam -com isto o quanto apreciam não só os actos de heroismo de seos paes, mas -tambem a serem estimados por causa d’elles. - -Os que morrem nos seos leitos não deixam de ser honrados, conforme o seo -merito, e chamam-no _theon-suyee-seon_, «o bom velho que morreo na cama». - -Por isto podeis avaliar como a naturesa por si só nos ensina a respeitar, -a ajudar, e a soccorrer os velhos e anciões e á refrear com violencia -a temeridade e presumpção dos moços, que sem prevêrem o futuro, não se -recordam de que na sua velhice, se lhes fará justamente o que elles, -quando jovens, fizeram aos mais velhos, dando esse exemplo á seos filhos, -e ensinando-os a serem ingratos. - - - - -CAPITULO XXII - -A mesma ordem e respeito é observada entre as raparigas e as mulheres. - - -Encontram-se n’estes selvagens vestigios da naturesa, como as pedras -preciosas se acham nas encostas das montanhas. - -Seria um louco o que quizesse encontrar em seos jazigos os diamantes tão -claros e brilhantes, como quanto lapidados e engastados n’um anel. - -Provem esta differença de se acharem tão ricas pedras cubertas de jaça -sem mostrar o seo valor de tal sorte, que muitos passam e tornam a passar -por cima d’ellas sem levantal-as visto não as conhecerem. - -Acontece a mesma coisa na conversação d’estes pobres selvagens: muitos -ignoram e ignorarão ainda o que tenho narrado e narrarei, e embora tenham -conversado com elles por muito tempo, por falta de conhecimento ou de -observação da boa conducta natural d’estas pessoas fóra da graça de Deos, -passaram por ellas, á similhança das pedras preciosas, sem tirar o menor -proveito, e olhando-as com indifferença. - -A mesma ordem de classes de idade tenho observado entre as raparigas e as -mulheres, como entre os homens. - -A primeira classe é commum á ambos os sexos, cujos individuos, sahindo -immediatamente do ventre de suas mães, se chama _Peitan_, como já -dissemos no art. antecedente. - -A segunda classe estabelece distinção de idade, de sexo, e de dever: -d’idade de moça para moça, de sexo de moça para rapaz, e de dever de mais -moça para mais velha. - -Comprehende esta classe os sete primeiros annos, e a rapariga d’esse -tempo se chama _kugnantin-myri_, quer dizer _rapariguinha_. - -Reside com sua mãe, mama mais um anno do que os rapazes, e vi meninas com -seis annos d’idade ainda mamando, embora comam bem, fallem, e corram como -as outras. - -Em quanto os rapazes d’esta idade carregam arcos e flexas, as raparigas -se empregam em ajudar suas mães, fiando algodão como podem, e fazendo uma -especie de redesinha como costumam por brinquedo, e amassando o barro com -que imitam as mais habeis no fabrico de potes e panellas. - -Expliquemos o amor, que o pae e a mãe dedicam a seos filhos e filhas. - -Pae e mãe consagram todo o seo amor aos filhos, e ás raparigas apenas -accidentalmente, e n’isto acho-lhes razão natural, nossa luz commum, -a qual nos torna mais affeiçoados aos filhos do que ás filhas, porque -aquelles conservam o tronco e estas o despedaçam. - -Abrangem a terceira classe desde 7 até 15 annos, e a moça n’esta idade se -chama _kugnantin_, «rapariga»: n’este tempo ordinariamente perdem, por -suas loucas phantasias, o que este sexo tem de mais charo, e sem o que -não podem ser estimadas nem diante de Deos, nem dos homens; perdoem-me -se digo, que n’esta idade não são prudentes, embora a honra e a lei -de Deos as convidasse á immortalidade da candura, porque estas pobres -raparigas selvagens pensam, e muito mal, aconselhadas pelo autor de todas -as desgraças, que não devem ser mais puras quando chega esse tempo. Nada -mais direi para não offender o leitor: basta tocar apenas o fio do meo -discurso. - -N’essa idade aprendem todos os deveres de uma mulher: fiam algodão, -tecem redes, trabalham em embiras, semeam e plantão nas roças, fabricam -farinha, fazem vinhos, preparam a comida, guardam completo silencio -quando se acham em quaesquer reuniões onde ha homens, e em geral fallam -pouco se não estão com outras da mesma idade. - -A quarta classe está entre 15 a 25 annos, e a rapariga n’ella -comprehendida chama-se _kugnammucu_, «moça ou mulher completa», o que nós -dizemos por «moça boa para casar.» - -Passaremos em silencio o abuso, que se pratica n’estes annos, devido aos -enganos de sua Nação, reputados como lei por elles. - -São ellas, que cuidam da casa alliviando suas mães, e tratando das -coisas necessarias á vida da familia: cedo são pedidas em casamento, -si seos paes não as destinam para algum francez afim de terem muitos -generos, e no caso contrario são concedidas, e então se chamam -_kugnammucu-poare_,[39] «mulher casada, ou no vigor da idade.» - -D’ahi em diante acompanha seo marido carregando na cabeça e ás costas -todos os utencilios necessarios ao preparo da comida, as vezes a propria -comida, ou os viveres necessarios á jornada, como fazem os burros de -carga com a bagagem e alimentação dos seos senhores. - -É occasião de dizer, que ambiciosos como os grandes da Europa, que -desejam ostentar sua grandesa apresentando grande numero de burros, estes -selvagens tambem desejam ter muitas mulheres para acompanhal-os, e levar -suas bagagens, mormente havendo entre elles o costume de serem estimados -e apreciados pelo grande numero de mulheres á seo cargo. - -Quando grávidas, após o casamento, são chamadas _puruabore_, «mulher -prenhe», e apezar d’este estado não deixam de trabalhar até á hora -do parto, como si nada tivessem. Apresentam grande volume, porque -ordinariamente parem meninos grandes e corpolentos. - -Talvez se pense que n’este estado cuidam ellas em cobrir sua nudez, porem -não soffrem a menor alteração o seo modo de viver. - -Chegado o tempo do parto, si assim se póde chamar, não procura para -esse fim a cama, si as dores não são fortes: em qualquer dos casos -senta-se, é rodeada por suas visinhas convidadas para assistil-as, -pouco antes do apparecimento das dores, por meio d’estas palavras -_chemenbuirare-kuritim_ «eu vou já partir, ou estou quase a parir»: corre -veloz o boato de casa em casa, que tal e tal mulher vae parir, dizendo -com o nome proprio da parturiente estas palavras _ymen-buirare_, que -significa «tal mulher pario, ou está para parir.» - -Acha-se ahi o marido com as visinhas, e si ha demora no parto, elle -aperta-lhe o ventre para fazer sahir o menino, o que acontecido, deita-se -para observar o resguardo em lugar de sua mulher,[40] a qual continua a -fazer o serviço do costume, e então é vesitado em sua cama por todas as -mulheres da aldeia, que lhe dirigem palavras cheias de consolação pelo -trabalho e dôr, que teve de fazer o menino, sendo tratado como gravemente -doente e muito cançado, á maneira do que se pratica em identicas -circumstancias com as mulheres de paizes civilisados. - -Comprehende a quinta classe desde 25 até 40 annos, quando o homem e a -mulher attingem ao seo maior vigor. - -Dam-lhe geral e commummente o nome de _kugnan_, «uma mulher, ou uma -mulher em todo o seo vigor». - -N’essa idade conservam ainda as indias alguns traços de sua mocidade, e -principiam a declinar sensivelmente, sendo feias e porcas, trazendo as -mamas pendentes á similhança dos cães de caça, o que causa horror: quando -jovens, são bonitas e asseiadas, e tem os peitos em pé. - -Não quero demorar-me muito n’esta materia, e concluo dizendo, que a -recompensa dada n’este mundo á puresa é a incorruptibilidade e inteiresa -acompanhada de bom cheiro, mui bem representada nas letras santas pela -flôr do lyrio puro, inteiro e cheiroso—_sicut lilium inter spinas, sic -amia mea inter filias_. - -A sexta e ultima classe está entre os 40 annos e o resto da vida, e então -a mulher se chama _Uainuy_: n’este tempo ainda parem. - -Gosam do privilegio da mãe de familia: presidem ao fabrico dos _cauins_, -e de todas as outras bebidas fermentadas. - -Occupam lugar distincto na _casa-grande_ quando ahi vão as mulheres -conversar, e quando ainda se achava em pleno vigor o poder de comerem -os escravos, eram ellas as incumbidas de assar bem o corpo d’elles, de -guardar a gordura, que não queriam, para fazer o _mingau_, de cozinhar -as tripas, e outros intestinos em grandes panellas de barro, de n’ellas -misturar farinha e couves, e dividil-as depois por escudellas de pau, que -mandavam distribuir pelas raparigas. - -Dam principio ás lagrymas e lamentos pelos defunctos, ou pela boa chegada -de suas amigas. - -Ensinam ás moças o que aprenderam. - -Usam de más palavras, e são mais descaradas do que as raparigas e as -moças, e nem me atrevo a dizer o que ellas são, o que vi e observei, -sendo tambem verdade que vi e conheci muitas boas, honestas e caridosas. - -Existiam no _Forte de São Luiz_ duas boas mulheres _Tabajares_, que não -se cansavam de trazer-me presentesinhos, e quando me os offereciam, -sempre choravam e desculpavam-se de não poderem dar melhores. - -Não espero muito d’estas velhas: e o superior nada tem a fazer senão -esperar que a morte o livre d’ellas: quando morrem não são muito choradas -e nem lamentadas, porque os selvagens gostam muito de ter mulheres moças. - -Os selvagens creem supersticiosamente terem as mulheres, depois de -mortas, muita difficuldade de deparar com o lugar onde, alem das -montanhas, dançam seos ante-passados, e que muitas ficam pelos caminhos, -se é que lá chegam. - -Não guardam asseio algum quando atingem a idade da decrepitude, e entre -os velhos e velhas nota-se a differença de serem os velhos veneraveis e -apresentarem gravidade e autoridade, e as velhas encolhidas e enrugadas -como pergaminho exposto ao fogo: com tudo isto são respeitadas por seos -maridos e filhos, especialmente pelas moças e meninas. - - - - -CAPITULO XXIII - -Da consaguinidade entre os selvagens. - - -Como entre nós, a consaguinidade entre estes barbaros tem muitos graus -e ramos, e se observa entre todas as familias com tanto cuidado como -fazemos, excepto porem a castimonia, que tem alguns embaraços entre -elles, menos no primeiro grau—de pae para filha. - -Entre os irmãos e irmans não ha casamentos, mas duvido, e não sem razão, -da regularidade da vida d’elles, e nem isto merece ser escripto. - -Bróta o primeiro ramo do tronco de seos avós, que elles chamam -_Tamoin_,[41] e debaixo desta denominação comprehendem todos os seos -ante-passados desde Nóe até o ultimo dos seos avós, e admira como se -lembram e contam de avô em avô, seos ante-passados, o que difficilmente -fazemos na Europa podendo remontar-nos, sem esquecer-nos, até o tataravô. - -O segundo ramo nasce e cresce do primeiro e chama-se _Tuue_, «pae», e é o -que os gera em legitimo casamento, como acontece entre nós, porque para -os bastardos ha outra Lei, de que fallarei em lugar proprio. - -Este ramo paterno dá outro, que se chama _Taire_, «filho», o qual se -córta e divide-se em diversos galhos, a que chamam _chéircure_, «meo -irmão mais velho», um dia—a cumieira da casa e da familia, e _chéubuire_, -«meo irmãosinho», que só cuidará da casa, si fallecer seo irmão mais -velho. - -Tendo filhos um destes irmãos, qualquer que seja o sexo, deve chamar o -irmão de seo pae _chétuteure_, «meo tio» e sua mulher _chéaché_, «minha -tia». Da mesma forma si seo pae tiver irmans elle as chama _chéaché_, -«minha tia», como tambem os maridos d’estas _chétuteure_, «meo tio». - -Os tios e tias chamam os meninos de seos irmãos e irmans _chéyeure_ «meo -sobrinho», e as meninas _reindeure_ ou _chereindeure_, «minha sobrinha». - -Os filhos de dois irmãos, isto é, de um irmão e os de outra irman se -chamam os homens _rieure_ ou _cherieure_, «meo primo», e as moças -_yeipere_ ou _cheitipere_ «minha prima.» - -Quanto á descendencia do lado das mulheres, a avó é o tronco, seja -paterna ou materna, e chama-se _ariy_ ou _cheariy_, «minha avó.» - -A mãe é o segundo ramo, e chama-se _Ai_, «mãe», ou _cheai_, «minha mãe». - -Seguem-se gradualmente a filha, cujo nome é _tagyre_, filha, ou -_cheagyre_, «minha filha», a irman _teindure_, «irman», ou _chéreindure_, -«minha irman», a tia _yaché_, «tia», ou _chéaché_, «minha tia», a -sobrinha _reindure_ ou _chereindure_, «minha sobrinha», ou «minha pequena -irman», modo de fallar entre elles, a prima _yetipere_, «prima», ou -_cheytipere_, «minha prima.» - -Eis os ramos de consaguinidade entre elles. - -Para os homens. - - Avô. - Pae. - Filho. - Irmão. - Tio. - Sobrinho. - Primo. - -Traduzido em sua lingua é - - _Chéramoin_ ou _tamoin_. - _Tuue_ ou _chéru_. - _Tayre_ ou _chéayre_. - _Cheircure_ ou _chéubuire_. - _Tuteure_ ou _chétuteure_. - _Yeure_ ou _chéyeure_. - _Rieure_ ou _chérieure_. - -Para as mulheres. - - Avó. - Mãe. - Filha. - Irman. - Tia. - Sobrinha. - Prima. - -Em sua linguagem. - - _Ariy_ ou _Ché-Ariy_. - _Ai_ ou _Chéai_. - _Tagyre_ ou _Chéagyre_. - _Theindeure_ ou _Chéreindeure_. - _Yaché_ ou _Chéaché_. - _Reindure_ ou _Chéreindure_. - _Yetipere_ ou _Ché-yetipere_. - -Alem d’estas consaguinidades existem mais duas por contractos de -alliança; uma quando se dá sua filha á um individuo, ou quando se recebe -uma moça para casar-se com seu filho, e outra quando, por contracto -d’alliança com os francezes, lhes dam suas filhas para concubinas. - -Aos que dam suas filhas chamam _taiuuen_ «genro», ou _Chéraiuuen_, «meo -genro». - -Á mulher de seo filho chamam _Tautateu_, «nóra», ou _Cherautateu_, «minha -nora». - -Chamam os Francezes seos alliados por hospitalidade _Tuasap_, «compadre» -ou _ché-tuasap_, «meo compadre» e as vezes _Chéaire_, «meo filho,» ou -_Cheraiuuen_, «meu genro,» quando sua filha é concubina do Francez. - -É este o ramo d’alliança. - - Genro. - Nóra. - Compadre. - -Em sua linguagem é - - _Taiuuen_, ou _Ché-raiuuen_. - _Tautateu_ ou _Cherautateu_. - _Tuassap_ ou _Chetuassap_, ou então _Ché-aire_. - -São bastardos os filhos, que tem fóra do casamento legitimo á moda -d’elles, e entre estes bastardos ha ainda certa ordem. - -A primeira é dos que tem pae e mãe, ambos Tupinambás: a segunda dos que -tem por mãe uma india Tupinambá e por pae um Francez: a terceira dos -filhos de um Tupinambá e de uma escrava: a quarta de uma Tupinambá e de -um escravo: a quinta finalmente de uma escrava e de um Francez. - -A linha dos bastardos é a seguinte: - - De um Tupinambá com uma Tupinambá. - De uma india Tupinambá com um Francez. - De um Tupinambá com uma escrava. - De uma india Tupinambá e um escravo. - De uma escrava e de um Francez. - -Em sua linguagem chamam estes bastardos _Marap_, ou _Ché-marap_, e aos -bastardos dos Francezes _Mulatres_, «mulatos.» - -São diversas as leis d’estes bastardos conforme sua descendencia, e antes -de tratar d’ellas convem estabelecer a regra geral para com os bastardos, -que é quando... - - (Falta uma folha.) - -... elles o chamam _Toreuue_, «folgasão,» _Cheroreuue_, «sou divertido, -folgasão:» o que é agradavel e tem para dizer alguma coisa chama-se -_aron-ayue_. - -Suas saudações, perguntas e respostas, quando juntas, são o mais amavel -que é possivel, mormente quando as fazem com acento muito longo, brando, -e insinuante, especialmente as mulheres e as moças, e como sei que será -agradavel ao Leitor vou aqui transcrever algumas de suas frazes communs e -ordinarias.[42] - -Quando se levantam pela manhã dizem - - Tyen-de-Koem. Bom dia. - Nein Tyen-de-Koem Para vós tambem. - -A tarde, do regressar do trabalho, quando se despedem - - Tyen de Karuq. Boa tarde. - Nein Tyen de Karuq. Para vós tambem. - -Quando chega a noite, e querem dormir, dizem reciprocamente. - - Tyen-de-potom. Boa noite. - Nein-Tyen-de-petom. Para vós tambem. - -Se alguem se derige a elles, ou passa ao pé d’elles ou se encontra -no caminho, muitas vezes pára um pouco, com expressão docil e rosto -prasenteiro perguntam um ao outro: - - Mamo sui pereiu? D’onde vindes? - Mamo peresso? Onde ides? - -Logo que respondem e dizem d’onde vem e para onde vão, podeis ficar -certo que se trata de uma das coisas seguintes, constante emprego de sua -vida e exercicio, isto é, da pescaria no mar, da entrada nos bosques, da -derrubada das arvores, da visita de suas roças, da plantação de raizes, -da colheita dos fructos, e dos nabos, da caçada, dos passeios por varios -lugares, da visita das aldeias e das habitações de uns e outros. - -São estas as respostas d’elles. - - Paranam-sui-kaiut. Venho do mar. - Pira-rekie-sui-kaiut. Venho de pescar. - Kaa-sui-kaiut. Venho do matto. - Ybuira monosoc, ou então ybuira mondoc. Venho de cortar matto. - Ko-sui-kaiut. Venho da roça. - Ko-piraruer-kaiut. Venho de roçar. - Maetum aruere. Venho de cavar e de plantar. - Vuapoo-aruere kaiut. Venho de colher fructos. - Kaaue-aruere kaiut. Venho da caça. - Mosu-aruere-kaiut. Venho de passeiar. - Taaue-sui-kaiut. Venho de tal aldeia. - Ahere-piac-sui-kaiut. Venho de ver tal pessoa. - Chere-suiu então cheretansui. Venho de minha casa. - Ne in cheaiurco. Adeos, vou-me embora. - Ne in oro iurco. Adeos, vamo-nos embora. - -Quando vae algum visinho procural-os em sua casa, ou quando sentem falta -de alguma coisa, procurando por ahi algures elles perguntam: - - Que procuraes? Maeperese-kar? - Que perguntaes? Maraereico? - -Então dizem o que procuram, e respondem ás perguntas mui francamente; por -exemplo: - - Quero comêr. Agerure deué-cheremyuran ressé. - Quero farinha. Agerure uiressé. - Quero carne. Agerure soo ressé. - Quero peixe. Agerure pyra ressé. - Quero agoa. Agerure v-ressé. - Quero fogo. Agerure tata cheué. - Quero uma faca. Agerure xè. - Um machado. Iu. - -Se veem alguem pensativo, elles lhe perguntam o que ha e no que pensam. - - Que pensaes? Mara-péde-ie-mongueta. - -Elle responde: - - Não penso em coisa alguma. Ai Kogué. - Penso em alguma coisa. Maerssé-kaien-arico. - Penso em vós. Dressé kaien-arico. - -Si veem um conversando com outros, tem muita curiosidade de saber o que -dizem, e por isso vão procural-os, e amigavelmente lhe perguntam: - - Que dizeis? ou então, em que { Mára-erepe? Mára-erepipo? - conversavam? { Mara-peie-peiupé. - -Respondem elles: - - Fallavamos de nossas occupações. Ore-rei-koran koiomongueta. - Fallavamos de vós. Deressé koia-mongueta. - -Assim passavam entre si a vida mui pacifica e familiarmente. - - - - -CAPITULO XXV - -Dos caracteres incompativeis entre os selvagens. - - -Costumava Socrates dizer, que assim como o vinho aspero e grosseiro é de -digestão má e desagradavel ao paladar, assim tambem os caracteres rudes, -grosseiros e impectuosos não servem para companheiros de uma conversação -entre homens. - -Escreveo Plutarcho, que assim como o som aspero dos caldeirões e -panellas quebradas encolerisam os tigres a ponto de fazel-os accommetter -desesperadamente e saltar sobre os que vem fazer perto d’elles tão -incommodo e desagradavel barulho, assim tambem fazem as más inclinações, -ou os maus caracteres entre os homens. - -Aborrecem sobre todas as coisas o companheiro, que provoca e faz mal ao -seo visinho, e chamam-no _Moiaron_, e quando se insultam por palavras, -chamam-no então _Oroacap_. - -Quando encontram taes caracteres, fogem d’elles e evitam iguaes -contestações, e ainda fazem mais, previnem os Francezes seos compadres, -afim de que nada peçam á tal gente. - -Si por ventura teem mulheres com esse genio ficam muito contrariados, -e não necessitam ser muito rogados afim de livrarem-se d’ellas, ou de -consentir que vão para onde bem lhes parecer. - -Ha em _Juniparan_, na Ilha, um hermaphrodita, no exterior mais homem do -que mulher, porque tem face e voz de mulher, cabellos finos, flexiveis, e -compridos, e comtudo casou-se e teve filhos, mas tem um genio tão fórte -que vive porque receiam os selvagens da aldeia trocar palavras com elle. - -Presenciei a mudança de uma familia inteira somente para evitar a -visinhança de um selvagem de muito máo caracter. - -Escarnecem e despresam o homem, que se accommoda com as provocações e -questões de sua mulher quando ella tem mau genio. - -Em quanto ahi morei, aconteceo aborrecer-se um selvagem do mau genio de -sua mulher a ponto de empunhar com a mão direita um cacete, e na esquerda -segurar nos cabellos d’ella querendo experimentar se este oleo e balsamo -adoçaria o azedume de seo mal, porem admirou-se de vêr, que cahindo o -fogo na chaga mais o augmentasse, porque podendo escapar-se de suas mãos, -á vista dos visinhos, tomou tambem ella outro cacete, quiz fazer o mesmo -ao marido, e depois de se haverem espancado reciprocamente com grande -applauso de todos, ficaram ambos com igualdade de circumstancias frente a -frente um do outro, sendo depois o marido a fabula e o assumpto de todas -as conversas, quer dos grandes quer dos pequenos. Diziam os antigos nas -suas _Casas-grandes_, que elle não teve remedio si não ficar com sua -mulher, porque já a conhecia. - -Vi os abandonar e deixar seos generos a quem vendem, só para evitar -questões com o comprador. - -Notareis, que elles só tem—_sim_ e _não_—quando negociam juntos, ou com -os Francezes, nunca regateando. - -Muitos outros exemplos eu poderia ainda reproduzir, porem bastam estes. - -Avaliam muito bem as pessoas colericas, a que chamam _Poromotare-vim_, -e reciprocamente se advertem dizendo—_Cheporomatare-vim_, «estou -encholerisado,» e então ninguem lhe diz nada, antes buscam abandonal-o -o mais que podem, o que exprimem por _Mogerecoap_, «abrandar alguem». -_Aimogerecoap_, «abrando o que está encolerisado.» - -Observei muitas vezes, quando viam um Francez enraivecido, ficarem como -que fóra de si, mudarem de côr, e fugirem da vista d’elle, dizendo uns -aos outros _Ymari turuçu_ «está muito zangado, está muito enfurecido.» -_Ché-assequeié seta_. «Tenho medo d’elle.» - -Aconteceu encolerisarem-se muitas vezes duas ou tres pessoas da nossa -equipagem na aldeia, em que estavam. Vieram por isto os Principaes ao -Forte de São Luiz queixarem-se e pedindo, que lhes tirassem de lá esses -Francezes, porque lhes faziam medo, e especialmente a seos filhos, o que -conseguiram. - -Si as questões de palavras e as raivas são temiveis, muito mais ainda -o são os insultos e as disputas, o que é muito raro, a ponto de -espancarem-se, o que chamam _ionupan_ «espancar-se», e ainda mais quando -se ferem, o que explicam por _iuapichap_, «ferir-se,» mormente quando -depois de se haverem maltratado reciprocamente vão por despeito queimar -as suas casas, o que exprimem pela palavra _Iuapic_ «incendiarios» -reciprocos: todos sentem estas coisas, e ninguem se atreve a metter-se -entre elles para aplacal-os: eis como fazem: vae cada um para seu lado, e -tomando uma porção de pindoba secca, acendem-na, atiram sobre a cobertura -de sua propria casa, dizendo uns aos outros—salve quem poder sua casa, -queimei a minha, ninguem podia oppôr-se a minha vontade, e assim em -poucos momentos a aldeia está queimada e ninguem lhe diz nada. - -Aconteceria isto muitas vezes na Ilha, se não fosse o receio que tinham -dos Francezes. - -Não gostam de ser injuriados, seja homem ou mulher, e nem mesmo as -publicas consentem que se as chame _Pataqueres_ «meretrises.» - -Recorda-me que tendo tido uma india escrava um filho de um Francez, as -outras lançaram-lhe isto em rosto chamando-a _Pataquere_, «meretriz» com -o que se doeu muito, e disse que, se continuassem, ella mataria seo filho -ou o enterraria vivo. - -Chamam a injuria _Curap_. - -Ninguem se admire de evitarem estes selvagens a colera e seos -effeitos, por ser esta paixão contraria a natureza do homem, fazendo-o -inteiramente bruto, como disse São Basilio Magno, na Homilia 10, da -ira, e transformar o homem n’um animal feroz—_Hominem penitus in feram -converti_: São Gregorio de Nissa, na Oração 2ª sobre a bemaventurança, -compara a colera com esses antigos feiticeiros do Paganismo, que por -encanto mudavam e transformavam o homem em diversos animaes ferozes como -o javaly e a panthera. A colera faz o mesmo. - -São Gregorio Magno, no 5º livro da sua _Moral_, cap. 30, diz ser o -cerebro do colerico o buraco, onde se geram as víboras.—_Cogitationes -iracundi viperæ sunt generationis_. - -Platão contra esta paixão aconselhava, como remedio, aos seos discipulos, -que observassem bem os gestos e as palavras de um homem colerico, e ou -que se mirassem n’um espelho quando se enraivecessem. - -Não é coisa nova e nem fóra de proposito o temerem e fugirem estes -selvagens quando veem um homem encolerisado, especialmente um Francez, -porque diz o proverbio, cap. 27—_Impetum concitati spiritus ferre quis -poterit?_ - -Não é menos difficil de crer-se, que, por despeito, apoz calorosa ou -inconveniente questão, queimem elles suas casas, porque no _Proverbio -26_ acha-se _sicut carbones ad prunas et ligna ad ignem_—assim como o -carvão é para o brasieiro, e a lenha para o fogo, assim tambem a questão -de palavras é para o homem naturalmente colerico, _sic homo iracundus -suscitat rixas_, e no _Ecclesiastico 28_, _secundum ligna sylvæ, sic -ignis exardescit_—tal é a quantidade da lenha qual a força do fogo, -fallando da colera. - - - - -CAPITULO XXVI - -Da economia dos selvagens. - - -Dizia Pitacus ser bem regulada a familia quando n’ella encontram-se duas -coisas—falta de superfluidade tanto no que diz respeito á vida como ao -governo da casa, e o que é necessario para isto. - -Diz Cicero, que perguntando-se a Catão, qual é o melhor governo de uma -casa, elle respondera—onde houver comida, vestuario e amor ao trabalho. - -Parece-me ser estas sentenças mais applicaveis aos selvagens, e aos que -passam vida frugal do que á outra classe de individuos. - -São Thomaz definindo a economia concluio dizendo não ser outra coisa mais -do que uma boa ordem domestica, e para conseguir-se este fim convinha, -que a familia tivesse viveres e tudo o mais necessario a vida, sendo mui -essencial não só uma boa intelligencia, como tambem que cuidassem todos -os membros d’ella em seos deveres. - -A propria natureza, e não qualquer sciencia adquirida, ensina isto aos -selvagens. - -As aldeias são divididas em quatro habitações, sob o governo de um -_Muruuichaue_, para o temporal, e um _Pagy-uaçú_ «um feiticeiro» para as -molestias e bruxarias.[43] - -Cada habitação tem o seo Principal: estes quatro Principaes estão sob as -ordens do maioral da aldeia, o qual conjunctamente com outros de varias -aldeias obedecem ao Principal soberano da provincia. Cada... - - (falta uma folha.) - - - - -CAPITULO XXVIII - -Do cuidado que do seo corpo tem os selvagens. - - -Platão chamava o corpo um privilegio da Naturesa, e Crates, o philosopho, -um reino solitario. - -Mereceriam estas duas sentenças amplo desenvolvimento, si não nos -occupassemos de uma historia, que exige estylo conciso, sem superfluidade -de palavras ou digressões fóra de proposito. - -Applicamos comtudo o dizer d’estes dois philosophos ao nosso assumpto -para notar, que tendo a naturesa, por longos annos, recusado vestidos aos -corpos dos indios, os compensara formando-os bellos e agradaveis, sem o -menor auxilio de suas mães, que apenas os lavam e carregam como si fosse -qualquer pedaço de pau. - -Assenta-lhes muito bem a opinião de Crates chamando o corpo um reino -solitario e deserto, porque assim como os animaes do deserto crescem e -ficam vigorosos, em quanto residem ahi, isto é, em sua plena liberdade, -assim tambem quando sob o dominio do homem e presos, embora no Palacio -dos Reis e principes da terra, para serem vistos e observados como -novidade, principiam logo a emagrecer, a entristecer-se, a perder o -desejo da propagação e de conservação da especie, somente por terem -perdido a liberdade que outr’ora gosavam no seu reino solitario. - -Negando a natureza á estes selvagens viveres bem preparados, bebidas bem -feitas, vestidos pomposos, leitos macios, soberbas casas e palacios, -compensou-os porem, dando lhes plena liberdade como aos passarinhos no -ar, e as bestas no campo, sem lastimarem-se, como fazem outros quando -comparam as pretendidas commodidades d’este Mundo. - -Se o diabo com o fim de roubar-lhes o bem da salvação, não se metesse -entre elles, levantando novas discordias afim de se matarem e comerem -reciprocamente, não haveriam por certo homens mais felizes no mundo por -causa de sua natural franqueza e liberdade, que, adubando as suas carnes -as transformam em perfeita e saudavel nutrição, e d’ahi provem a bellesa -de seos corpos. - -Espero a objecção para responder—isto é, de se terem visto muitos indios -sordidos e horriveis. Respondo: não é no rosto, onde se deve observar a -forma e a bellesa de um homem, e eis a razão porque Demostenes zombou, -quando os embaixadores de Athenas regressando de sua commissão junto a -Philippe, Rei de Macedonia, gabavam muito a formosura d’elle: não, não, -disse Demostenes, não é digna de louvor a belleza do rosto de um homem, -tão commum entre os Cortezãos, porem merece encomios a sua estatura, a -proporção de seos membros, e a sua figura e elegancia. - -Fallo de haver a naturesa dado ordinariamente aos selvagens, e -especialmente aos _Tupinambás_, corpo bem feito, bem proporcional -e elegante, e quando estragam seos rostos por incisões, fendas, e -extravagancias de pinturas e de ossos, o fazem pela ideia erronea, que -tem, de serem por isto reputados valentes. - -Tem muito cuidado na limpesa de seos corpos: lavam-se muitas vezes, e -não se passa um só dia, em que não deitem muita agua sobre si, em que se -não esfreguem com as mãos por todos os lados para tirar o pó e outras -immundicies. - -Penteiam-se as mulheres muitas vezes. - -Receiam emmagrecer, o que chamam em sua linguagem _angaiuare_, e -lastimam-se diante dos seos semelhantes dizendo _Ché-angaiuare_, «estou -magro,» e todos se compadecem mormente quando chegam de qualquer -viagem abatidos pelo trabalho: todos o lastimam e o deploram, dizendo -_Deangoiuare seta_, «ah! quanto está magro, só tem ossos.» - -Eis a causa unica por que não podiam residir comnosco os rapazes -baptisados, visto temerem muito as mães, que não emagrecessem em poder -dos Francezes, os quaes suppunham ter falta de tudo. - -Não consentiam que seos maridos trouxessem comsigo os filhos para vêr os -Padres e as Capellas de Deos, senão á força, e com vivas recommendações -para que voltassem, e quando se lembravam d’elles grande era a sua -tristesa, e choravam. - -Conservei em minha companhia um rapaz de _Tapuitapera_ chamado _Miguel_, -já baptisado, e que muito bem sabia a doutrina christã, afim de ensinal-a -aos meos escravos. - -Residio comigo por alguns mezes, porem não poude ficar mais por causa das -importunações de sua mãe, e a dor que mostrava chorando e lamentando-se -constantemente, de maneira que veio seo pae de proposito para leval-o, -dizendo-lhe que sua mãe o esperava cheia de piedade (modo de fallar para -mostrar compaixão): veio pedir-me licença para o seo regresso chorando -por deixar-me (tanto amam e estimam seos paes!) dizendo que sua mãe -estava magra, e cheia de tristesa por sua ausencia e pensando tambem que -elle definhava estando comigo, asseverando-me que contaria á sua mãe o -bom tratamento que eu lhe dava, e a licença que lhe concedi de voltar a -sua casa. - -Um de nossos escravos commetteo uma falta, pela qual ia ser castigado: -mal soube elle desta resolução, e quando ia ser preso, disse que estava -magro, e que não o açoitassem como si fosse gordo, porque a gordura -cobre os ossos, apara os açoites e impede que a dor lhes chegue. «Si me -açoitaes com força me quebraes as veias apenas cobertas pela pelle», e -assim dizia por ser muito magro. - -Para engordarem reuniam-se muitos indios, embarcavam-se n’uma canoa -grande, muniam-se de farinha, de flechas e de cães, iam á terra firme, -onde matavam a caça, que apeteciam, como veados, onças, capivaras, vaccas -bravas, tatùs, e muitos passaros, e ahi se demorando em quanto havia -farinha, engordavam á farta com estas comidas, e voltavam depois para a -Ilha trasendo muita caça assada. - -Quando á Ilha regressou da guerra do Pará o indio _Brasil_ julgando-se -magro, pedio licença ao Sr. de Ravardiere para ir á terra firme levando -comsigo alguns Francezes afim de engordar, o que lhe foi permittido. - -Embrenharam-se muito pelo sertão, e quando a felicidade os encheo de -caça, aconteceo-lhes uma desgraça—acabou-se-lhes a farinha: viram-se -obrigados a comer palmito, como si fosse pão, com a carne que tinham, o -que contrariou muito os Francezes não habituados a esta especie de pão, -sentindo muito que a festa não fosse completa, havendo tanta carne, sem -pão e sem sal. - -Aconteceo-lhes o mesmo, que a Midas, possuidor de muito ouro, quando sua -mulher lhe apresentou na meza muitas iguarias, todas porem de ouro, ou -então á Tantalo morrendo de sêde apezar de cercado d’agoa: o mesmo lhes -aconteceo, emagreciam em vez de engordarem por não levarem a farinha -necessaria. - -N’este ponto os Francezes imitam os selvagens, e por isso estes os -estimam. - -Os Francezes residentes no Fórte pedem licença para passeiar e -refazerem-se de forças. - -Quando os selvagens sabem d’isto, vão á caça, e mediante a troca de -alguns generos offerecem a estes passeiadores dois ou tres banquetes: -findos estes regressam á sua terra, e assim vão continuando ora -n’uma aldeia, ora n’outra, girando por toda a Ilha, ou provincia de -_Tapuitapera_ e _Comã_ divertindo-se e engordando. - -Os Francezes hospedados por seos compadres n’estas aldeias não são muito -felizes em seos passeios, porque se ha então alguma coisa boa não é para -elles, e sim para os viandantes. - -Costumam os selvagens dar o melhor, que possuem aos hospedes, por dois ou -tres dias, findos os quaes tratam-nos com o uso commum e trivial. - -Admire-se, eu vos peço, ainda que ligeiramente, o grande amor de Deos -para com os homens, dando-lhes o sentimento natural da caridade para com -o proximo. O que fazem de melhor os christãos, ou observam os Religiosos, -do que a caridade puramente natural dos selvagens, que não podem alcançar -a gloria, bem differente do que acontece á caridade sobre natural dos -christãos, que espera a recompensa da vida eterna? - -O aceio do corpo faz-se por muitas maneiras, e entre ellas contam-se -estas. - -Trazem sempre na bocca a herva do Petun, (tabaco ou fumo) cujo fumo -expellem pela bocca e narinas com intenção de seccar as humidades do -cerebro e as vezes o engolem para limpar o estomago de cruezas que sahem -por meio do arrôto. - -Apenas acabam de comer fumam o Petun, e o mesmo praticam pela manhan e a -noite, quando se levantam e deitam-se. - -A proposito de Petun devo contar a ideia supersticiosa, que formam desta -herva e do seo fumo. - -Crêem, que esta herva os torna discretos, judiciosos, e eloquentes, de -forma que antes de começarem algum discurso usam d’ella: não me parece, -que seja comtudo muito supersticiosa, porque ha nisto uma razão natural: -eu mesmo a experimentei, e reconheci, que a sua fumaça exclarece o -entendimento dissipando os vapores dos orgãos do cerebro, fortalece a voz -seccando a humidade e escarros da bocca, permittindo assim facilidade á -lingua para bem exercer suas funcções. - -É facil experimentar-se isto usando-se d’ella com parcimonia e em -occasião propria, porque o abuso continuado d’ella não me parece bom e -saudavel aos que se alimentam de bebidas e carnes quentes, porem é util -aos que sentem frios e humidos o estomago e o cerebro. - -Eis a razão porque o selvagem, habitante d’esta zona humida, e que -bebe de ordinario somente agoa, uza constantemente d’este fumo afim de -descarregar o cerebro de humidades e frialdade, e o estomago de cruezas, -o que tambem praticam os marinheiros e os habitantes das praias. - -Pondo-se de infusão por espaço de 24 horas esta herva, presta-se muito -para purificar o corpo de infecções. Usa-se somente do vinho. - -Crêem tambem que, engolindo o fumo, ficam alegres, joviaes e previnidos -contra a tristesa e melancolia. - -Vou referir-vos alguns casos que me contaram: - -Um selvagem que foi morto na bocca de uma peça, e de quem hei-de fallar -no _Tratado do Spiritual_, antes de se encaminhar para o supplicio pedio -um macinho de _Petun_, como ultima consolação d’esta vida afim de morrer -com energia e alegria. Apenas alcançou o que desejava mostrou-se alegre e -sempre cantando até o fim. - -Quando seos companheiros o ataram á bocca da peça, elle pedio para que -não amarrassem o braço direito de fórma que o embaraçasse de levar á -bocca o Petun: quando a bala dividio o seo corpo em duas partes, uma foi -para o mar, e a outra cahio na base do rochedo, e n’esta achou-se ainda -seguro pela mão direita o mólho de _Petun_. - -Os selvagens sentenciados á morte não soffrem a pena sem usarem antes -do _Petun_, conforme o costume da terra, e não deixavam este habito nem -mesmo os doentes. - -Os feiticeiros do paiz servem-se d’esta planta com proveito, o que agora -não refiro, e sim guardo para o fazer mais adiante, si não me esquecer. - -Empregam ainda outro meio para a conservação da saude. - -Comem muitas vezes e pouco de cada uma: depois que comem lavam muito bem -a bocca, e se tem sêde quando comem, bebem pouco apenas para apagar a -sêde, gargarejam bem a agua na bocca para aplacar o ardor do paladar. - -Cozinham muito bem suas comidas, e não usam d’ellas meias cozidas ou -aferventadas, sendo n’isto mais cuidadosos do que os Francezes. - -Untam-se com azeite de palmas, de urucú, e de genipapo,[44] o que tem -sempre em abundancia. - -Estou certo que os meos leitores, pouco conhecedores da disposição do -corpo humano e do regimem necessario á sua conservação, julgarão que a -natureza ensinou a estes homens o mesmo que a sciencia e a experiencia -ensinaram a outros. - - - - -CAPITULO XXIX - -De algumas indisposições naturaes, a que os selvagens se acham sugeitos, -e quaes os nomes, que dão aos membros do corpo. - - -São os selvagens, na verdade, dotados pela naturesa com boa saude, feliz -e agradavel disposição. - -Raras vezes, na proporção de um para cem, encontram-se entre elles corpos -mal feitos e monstruosos. - -Não vi um só cego, apesar de existirem, porque elles o chamam -_Thessa-um_, «cego,» _Cheressa-um_, «estou cego,» e _Ressa-um_ «tu és -cego.» - -Notei porem terem alguns a vista curta, especialmente os velhos, e -notavelmente as mulheres, visto que depois de 30 annos d’idade tem a -vista tão curta e fraca a ponto de não poderem mais tirar dos pés os -_Thons_[45] «bixos» como fazem os rapazes e as moças. - -A proposito dizia um capitão Francez, não da nossa gente e pouco crente, -que o Papa não tinha poder sobre o mar, porque Deos havia dito a São -Pedro que seo poder estendia-se somente sobre a terra, e por isso todos -os que passam o mar em busca d’estas terras não são mais sugeitos aos -mandamentos da Igreja, podendo mui livremente tomar uma rapariga para -concubina, visto terem necessidade d’ella para tirar dos pés d’elle e de -outros francezes estes bixos. - -Conto isto para mostrar quanto são perigosos estes paizes ás almas que -tudo envenenam. - -Vi zarolhos, a que chamam _Thessaue_, porem muito poucos, e vesgos que -denominam _Thessauen_, «vesgo» _Cheressauen_, «estou vesgo,» _Deressauen_ -«tu és vesgo.» - -Encontram-se alguns gagos, a que chamam _Gningayue_, «gago,» -_Chegningayue_, «estou gago.» - -Os velhos e os meninos são muito ramellosos, a que chamam _Thessau-um_ -«ramelloso» _Cheressau-um_ «estou ramelloso», _Deressau-um_ «tu és -ramelloso»: é o resultado da grande humidade do paiz, mais predominante -nos corpos dos meninos e dos velhos por causa da fraqueza do calor -natural, que é maior nos corpos d’estes do que nos dos outros, onde é -mais forte e intenso. - -Existem poucos calvos, e se chamam _apterep_ «calvo,» _Cheapterep_ «estou -calvo», e não existem muitos por serem seos cabellos nutridos com força, -e eis a razão porque tem os cabellos fortes, duros e lisos. - -Encontram-se poucos coxos _Parin_, poucos manetas _Iuuasuc_, e poucos -mudos _Gneen-eum_, alguns gottosos _Karuarebore_, de _Karuare_ «gotta.» - -Encontra-se tambem uma especie de sarnentos de raça, os quaes mudam de -pelle annualmente, e comtudo não sentem molestia alguma, estão sãos, e -chamam-nos a todos, que soffrem este mal _Kuruuebore_. - -Ha tambem obesos, _Timbep_, e se diz _Chetimbep_ «estou obeso,» -_Detimbep_ «tu és obeso,» e _Ytimbep_, «elle é obeso.» - -A todas as partes do corpo dão um nome especial, e particular. - -Chamam a alma _an_, «minha alma» _che-an_, «tua alma» _dean_, «nossas -almas» _orean_, «vossas almas» _pean_, «suas almas» _yan_, em quanto -a alma está unida ao corpo, porque quando está separada chamam-na -_anguere_. - - A cabeça. _Acan._ - Minha cabeça. _Cheacan._ - Caspa. _Kua._ - Cabellos. _Aue._ - Meos cabellos. _Cheaue._ - Cerebro. _Aputuon._ - Rosto. _Suua._ - Palpebra. _Taupepyre._ - Cara. _Tova._ - Meo rosto. _Cherova._ - Teo rosto. _Derova._ - Seo rosto. _Sova._ - Olho. _Tessa._ - Lagrymas. _Thessau._ - Meo olho. _Cheressa._ - Mancha no olho. _Tessaton._ - Vi uma mancha no olho. _Cheressaton._ - Piscar os olhos. _Sapumi._ - Pisco os olhos. _Assapumi._ - Ouvido. _Apuissa._ - Ouvir. _Sendup._ - Ouço. _Assendup._ - Orelha. _Nemby._ - Minha orelha. _Chénemby._ - Nariz. _Tin._ - Monco. _Embuue._ - Narinas. _Apoin-uare._ - Paladar da bocca, ou véo do paladar. _Konguire._ - Bocca. _Giuru._ - Beiço superior. _Apuan._ - Beiço inferior. _Teube._ - Garganta. _Yasseok._ - Escarrar. _Gneumon._ - Eu escarro. _Auendeumon._ - Tu escarras. _Eveuendeumon._ - Saliva. _Thenduc._ - Lingua. _Apekon._ - Minha lingua. _Ché-ape kon._ - Fallar. _Gneem._ - Eu fallo. _Aigneem._ - Bom fallador. _Gneemporam._ - Halito. _Puitu._ - Dentes. _Taim._ - Doe-me os dentes. _Chéréuassu._ - Meo dente. _Cheraim._ - Teo dente. _Deraim._ - Seo dente. _Saim._ - Dente maxillar. _Taiuue._ - Mastigar. _Chuu._ - Eu mastigo. _Achuu._ - Face. _Tovape._ - Beijar. _Geurupuitare._ - Eu beijo. _Aigeurupuitare._ - Bochechudo. _Tovape-uaçu._ - Queixo. _Tendeuua._ - Barba. _Tendeuua-aue._ - Barbudo. _Tendeuuaaue-reKuare._ - Cachaço. _Aiure._ - Collo. _Aiuripui._ - Estrangular. _Iubuic._ - Peito. _Potia._ - Espaduas. _Atiue._ - Braços. _Iuua._ - Cotuvello. _Tenuvangan._ - Punho. _Papue._ - Palma da mão. _Papuitare._ - Mão. _Pó._ - Minha mão. _Chépo._ - Mão direita. _Ekatua._ - Mão esquerda. _Açu._ - Dedos. _Puan._ - Unha. _Puampé._ - Minha unha. _Chépuampé._ - Mama. _Cam._ - Coração. _Gnaen._ - Veias. _Taiuc._ - Sangue. _Tubui._ - Baço. _Perep._ - Tripa. _Thyepuy._ - Figado. _Puya._ - Fel. _Puya-upiare._ - Barriga. _Thuye-uaçu._ - Ventre. _Theic._ - Embigo. _Puruan._ - Dorso. _Atucupé._ - Rins. _Puiacoo._ - Ilharga. _Ké._ - Minha ilharga. _Ché-ké._ - Costella. _Aru kan._ - Minha costella. _Ché-aru kan._ - Quadril. _Tenambuik._ - Madre. _Acaia._ - Testiculos. _Pere-ketin._ - Nadegas. _Tevire._ - Curva da perna. _Ananguire._ - Coxas. _Uue._ - Joelhos. _Tenupuian._ - Pernas. _Tuma._ - Pé. _Pui._ - Calcanhar. _Puita._ - Planta de pé. _Puipuitare._ - Dedo do pé. _Puissan._ - Corpo. _Tétè._ - Meo corpo. _Chéreté._ - Pello. _Pyre._ - Suor. _Thue._ - Gordura. _Kaue._ - Osso. _Cam._ - Meo osso. _Chécam._ - Tutano. _Camaputuon._ - - - - -CAPITULO XXX - -De algumas molestias particulares a estes paizes de indios, e de seos -remedios. - - -O Genesis nos ensina, como explicam os doutores haver Deos dado aos -homens contra todos os males o fructo de uma arvore, a maneira da -Theriaga. - -Este mesmo Deos, sempre bom para com todas as creaturas, embora pequenas -e longe d’elle, prevendo que esta infeliz raça de selvagens viveria, por -longos annos, vagabunda e nua pelas grandes florestas do Brasil, lhes deo -muitas especies de arvores e hervas para o curativo de suas feridas e -molestias. - -Tem este paiz muitas arvores medicinaes, gommas salutiferas, e -excellentes hervas, como não ha em parte alguma. - -O tempo e o estudo hão de fazel-as conhecidas.[46] Vi tirar-se da casca -de certa arvore uma especie de almecega, similhante á que cresce nos -jardins da Europa, e dizem os selvagens que serve para toda a molestia, -e assim a empregam. Contam mais, que todos os animaes ferozes quando se -sentem feridos ou doentes, recorrem a esta arvore para curarem-se, e por -isso raras vezes se encontra uma só com toda a sua casca, por ser roida -constantemente por todos os bixos. - -Encontra-se tambem crescida nas folhas das arvores uma especie de gomma -branca, de côr prateada, e que dizem ser muito boa para certas chagas. - -Ha outra gomma, tambem branca, optima para limpar chagas e fazer suppurar -os abcessos profundos fazendo seo effeito em 24 horas. - -Vi o seo emprego n’um moço francez, que estava commigo o qual tinha, por -causa dos bixos, os pés e as pernas tão estragados e inchados a ponto -de receiarmos que as perdesse: coisa horrivel e impossivel de narrar-se -bem: fez-se applicação de emplastos d’esta gomma nas pernas e pés, e no -dia seguinte estava são como si antes não tivesse coisa alguma, porque -puchando os bixos do interior das carnes onde se achavam á superficie das -feridas, ahi pela cabeça se grudaram os emplastos, e assim morreram todos -em numero consideravel, limpando muito bem a chaga e deixando-a viva e -vermelha. - -Não fallarei de outras hervas e balsamos, e nem d’um milhão de hervas, -das quaes se podem destillar espiritos e essencias, porque desejo -fallar de certas molestias, reinantes n’este paiz, dos remedios, que -contra ellas se applicam, não porque seja a terra doentia e insalubre, -antes muito boa e saudavel, especialmente de junho a janeiro: durante -este tempo as brisas, isto é, os ventos de Este ou do Oriente sopram -constantemente, livrando o paiz de vapores pestillenciaes, e por isso -raras vezes adoecem os selvagens, e a fallar a verdade, elles só tem uma -molestia, de que morrem. - -São os francezes muito mais sujeitos á doenças, como a experiencia fez -conhecer a mim e a outros, porem creio ser isto devido ás necessidades e -miserias, porque passamos no principio do estabelecimento ou da fundação -e não a outra causa. - -Tinham então os francezes poucas commodidades, porem ja começavam a -gozal-as quando deixei a Ilha. - -Não desejo a pessoa alguma taes necessidades e molestias, porem fiquem -todos certos e convencidos de que não soffrerão a centesima parte do que -soffremos. - -Das suas molestias a primeira chama-se _Pian_, que vem da palavra -_Pé_, que quer dizer «caminho», ou, se quereis, «pé,» por originar -esta molestia do escarro, ou da sanie, espalhado no chão, por onde se -caminha: começa ordinariamente debaixo dos dedos dos pés, do tamanho de -um liard,[BD] de côr negra: os indios chamam esta mancha _Aipian_, isto -é, a «Mãe Pian,»[47] porque d’ella descendem todas as outras chagas e -postemas, que esta horrivel molestia espalha por todo o corpo á maneira -de uma herva ou arbusto, que sahindo d’esta _Mãe Pian_, como de uma raiz, -fosse sempre crescendo, subindo, e espalhando, pelo corpo ramos, folhas e -olhos, que enchesse interna e externamente o doente de crueis dores, e de -incrivel putrefacção, das quaes muitos morrem. Dura pouco mais ou menos -dois annos. - -Si um francez soffrer esta molestia deve curar-se perfeitamente antes de -regressar ao seo paiz, porque não ha remedio no mundo, excepto no Brasil, -que a cure, a não ser o rhuibarbo commum, isto é, a morte, que cura todos -os males. - -Ja disse como esta molestia chega accidentalmente: vejamos agora sua -origem e fonte ordinaria e natural afim de prevenir os francezes, que la -forem. - -Esta molestia ataca os francezes, como o mal de Napoles, por excessiva -communicação com as raparigas indigenas: para evital-a convem a vida -casta, ou então que tragam suas mulheres, ou que se casem com as indias -christãs, visto ser o casamento poderoso antidoto contra tal veneno, -o que se observa mesmo no casamento natural dos indios, os quaes não -soffrem o _grande mal_, se não o tem adquirido algures, e sim o -_pequeno_, que todos soffrem na vida, similhante a syphilis e a variola -na Europa. - -Esta _bouba_ grande excede em dor e sordidez, sem comparação, ao mal de -Napoles, e com razão, porque merece ser punido n’esta vida o peccado, que -commettem os francezes com as Indias, arrebatando de nossas mãos, estas -infelizes almas quando pretendiamos salval-as, si com seos maus exemplos -não as conduzissem ás fornalhas da lubricidade. - -Meditem bem os que são capazes de commetterem taes crimes, na conta que -darão a Deos por haverem causado o damno e a perda d’estas pobres almas -indigenas. - -Si a vida eterna é somente concedida aos que buscam a salvação de outrem, -que lugar esperarão os que, para satisfação de brutaes desejos, seduzem -essas pobres creaturas a ponto de fazel-as despresar as prédicas do -Evangelho e a sua propria salvação? - -Tempo e paciencia são os principaes remedios para esta molestia; os -suores aproveitam muito, mitigam e encurtam o tempo, bem como as dietas e -o regimen de vida. - -A experiencia tem mostrado, que para estas molestias a carne mais propria -é a do _tubarão_ (não usada pelos sãos, por lhes fazer vomitar até -sangue, e produzir-lhes grandes molestias) cozida com hervas duras e -amargas, que se encontram em todo o paiz. - -Por um momento de prazer soffrem mil dores, e o que para os bons é veneno -para elles é carne saudavel, embora de mau gosto. - -É costume d’este astuto Boticario Satanaz untar o bordo do copo com mel -ou assucar para se beber de um só trago o veneno, que depois vae roer -e encher de dor as entranhas: quero dizer, que ao peccador apresenta o -prazer, e não o seo castigo, e bem depressa experimenta o desgraçado, que -o prazer vôa, porem a dor é eterna. - -O Sr. de Ravardiere, outros francezes, e eu sobre todos, soffremos -intensas febres quartans, terçans, e incertas, as quaes depois de -haverem mortificado muito o corpo, deixam dores nos rins, produzem -colicas insuportaveis com vomitos continuos, sempre debilitando o corpo, -resfriando e contrahindo o estomago, acompanhada por continua fluxão do -cerebro, que se espalha pelos braços, coxas, e pernas, tornando-as sem -acção, á similhança de uma estatua ou pedra immovel. - -Parece-me que é a molestia, que ceifa maior numero de selvagens -tornando-os ethicos e paralyticos. - -Os remedios para estas molestias são—o beber menos agua que fôr possivel, -porque o sabor das aguas alterado com o calor da febre, faz beber muita -agua, perdendo o estomago seo calor proprio, adquirindo grande crueza e -fraqueza, de que resulta não só a sua constricção, mas tambem a pituita e -outros humores corrompidos: presentemente como ha cerveja espero que não -sejam frequentes estas molestias e que não chegarão ao excesso, que vi, e -cujas consequencias ainda sinto. - -O vinho e a aguardente são bons para aquecer o estomago, e por isso -aconselho aos que lá forem, que poupem muito o seo vinho e aguardente -para essa e outras necessidades, e não os gastem prodigamente em -deboches, mórmente sendo a cerveja, ahi feita com milho bom, muito mais -saborosa e saudavel, por causa do continuo calor, do que o vinho e a -aguardente. - -As boas bebidas são o unico remedio, e as aves e ovos ahi em abundancia -são o alimento d’esses doentes. - -As outras molestias são o defluxo e violentas dores de dentes por causa -da humidade da noite nesta Zona tórrida, como bem notou o jesuita Acosta, -na sua _Historia dos Indios_, a qual pode recorrer o leitor, visto que -nada quero dizer ou escrever sem sciencia propria. - -É tão forte a humidade da noite, que produz ferrugem nas espadas, -mosquetes, facas, machados e machadinhos, que corroe e destroe não -havendo cuidado de os limpar. - -São mui frias as fluxões do cerebro, pois descendo á raiz dos dentes -apodrecem-nos e os fazem cahir. - -São remedios especiaes á estes males a applicação de cauterios no pescoço -e braços, e cobrir bem a cabeça durante a noite. - -Todos os annos reina doença de olhos, das quaes poucos escapam -especialmente os Franceses, porque dura apenas oito dias, sendo por sua -vehemencia antes furor do que molestia, e si se não atacar logo corre-se -o risco de vêr-se somente metade do mau tempo. - -È facil o remedio: tome-se um pouco de vitriolo, deite-se n’uma garrafa -cheia d’agoa bem limpa, e d’ella se derrame um pouco nos olhos bem -abertos e fixos, abstendo-se de tocal-os, tendo-os sempre cobertos, e -não os expondo ao vento e nem ao sol, porque senão o mal redobra visto -que sendo formada esta molestia de uma fluxão quente e acrimoniosa, si -esfregardes os olhos e vos expôrdes a acção do vento e do sol, mais -exacerbareis o vosso mal. - - - - -CAPITULO XXXI - -Da morte e dos funeraes dos Indios. - - -Jacob despresou duas irmans Lya e Rachel, o que é diversamente explicado -por Padres e Doutores. Tomarei somente o que convem á historia, isto é, -que Deos tem duas filhas a Naturesa e a Graça, que dá por esposa aos seos -escolhidos. - -A Naturesa é imperfeita, porem fecunda como Lya: a Graça é de formosura -inexcedivel, porem esteril como Rachel. Ambas são irmans: basta vel-as -para reconhecer-se, e como taes são seos filhos-irmãos germanos; -differençando-se apenas por linhas diversas, isto é, n’um ponto de -ceremonia, nas ultimas homenagens prestadas a seos parentes, reconhecemos -facilmente a verdadeira religião e os seos herdeiros. - -Acha-se isto tão naturalmente gravado no fundo da alma das nações as mais -barbaras, que serve de argumento mui positivo para provar acharem-se em -verdadeira graça os que prestam homenagem aos seos defunctos. - -Em caso contrario prova-se que estão em poder do gentilismo, e em -opposição ao instincto puramente natural, imitando n’este caso os brutos, -não fazendo caso dos seos amigos fallecidos, especialmente da sua alma, -melhor parte de sua composição. - -É a maldição dada por Job, no cap. 18—_Memoria illius pereat de terra, -et non celebretur nomem ejus in plateis_, «desappareça da terra a sua -memoria, e nem seja seo nome pronunciado na rua.» - -Symmachus explicando diz _Non erit nomem ejus in faciem fori_—não chegará -seo nome ao foro dos senadores, e mais claramente Policronius _Nec in -amicorum versabitur memoria_ «nem seos amigos se recordarão d’elles,» -grande maldição, visto que os povos os mais selvagens do Universo que -são os habitantes do Brasil nada mais receiam, após a morte, do que não -serem chorados e lamentados, isto é, que para elles, na morte, não hajam -da parte dos seos parentes, lagrymas, lamentações, e outras ceremonias -embora supersticiosas. - -Quando se acham muito doentes estes selvagens, e por seos parentes -julgados em perigo de vida, perguntam-lhes o que desejam comer antes da -morte, e saciam-lhes o desejo. - -Em quanto doentes alimentam-se com farinha de mandioca e _ionker_ -«pimenta da india,» misturada com sal, julgando com tal dieta, abuso -inaudito entre elles, recobrarão a antiga saude. - -Vi um homem e uma mulher da nação dos _Tabajares_, que tinham só pelle -e ossos, parecendo-me terem apenas vida por dois dias, e por isso os -baptisei logo, apenas me pediram, e escaparem da morte tomando taes -caldos. - -Quando chega a hora da morte, reunem-se todos os seos parentes, e -geralmente todos os seos concidadãos, cercam-lhe o leito do moribundo, os -parentes mais perto, depois os velhos e as velhas, e assim de idade em -idade: não dizem uma só palavra, olham-no com toda a attenção, banham-se -de lagrymas constantemente; mas apenas a pobre creatura exhala o ultimo -suspiro, dão berros e gritos, fazem lamentações compostas por uma musica -do vozes fortes, agudas, baixas, infantis, emfim de todo o genero, que -infallivelmente enternece todos os corações, embora sejam naturaes todas -essas dores e lagrymas, sem conhecimento do bem e do mal, que poderá -gozar esse espirito desprendido do corpo morto. - -Depois de muitas lamentações, o Principal da aldeia ou o Principal dos -amigos fazia um grande discurso muito commovente, batendo muitas vezes -no peito e nas coxas, e então contava as façanhas e proesas do morto, -dizendo no fim—_Ha quem d’elle se queixe? Não fez em sua vida o que faz -um homem forte e valente?_ - -Conto isto porque presenciei-o tres ou quatro vezes, lembrando-me de -haver lido e notado em Polybio, Livro 6º, e em Deodoro da Sicilia, Livro -2º, cap. 3º, terem os antigos Romanos o costume de levarem seos defunctos -á Praça publica, e ahi o filho mais velho da casa, ou o principal -herdeiro em falta de filhos machos e de maior idade, subia á uma especie -de theatro, e desfiando todos os louvores, que podia fazer ao morto, -seo parente, desafiava todos os assistentes para que o accusassem, si -podessem, afim d’elle defendel-o, e depois convidava-os a acompanharem o -corpo até a sepultura. - -Voltemos aos nossos selvagens. Acabado que seja o choro e o discurso -tomam o corpo, ja cheio de pennas na cabeça e nos braços, uns o vestem -com um capote, outros lhe dão um chapeo, si o ha, trasem-lhe o massinho -de petum[48], seo arco, frexas, machados, foices, fogo, agoa, farinha, -carne e peixe e o que em vida elle mais apreciava. - -Faziam depois um buraco fundo e redondo em fórma de poço: assentavam -o morto sobre seos calcanhares conforme era o seo costume, e á cova -desciam-no de mansinho[49] accommodando ao redor d’elle a farinha, a -agoa, a carne, o peixe e ao lado de sua mão direita afim de poder pegar -em tudo com facilidade e na esquerda arrumavam os machados, as foices, os -arcos e as flexas. - -Ao lado d’elle faziam um buraco, onde accendiam fogo com lenha bem secca -afim de não apagar-se, e despedindo-se d’elle o incumbiam de dar muitas -lembranças á seos paes, avós e amigos, que dançavam nas montanhas, alem -dos Andes, onde julgam ir todos depois de mortos. - -Uns dão-lhe presentes para levarem a seos amigos, e outros lhe -recommendam, entre varias coisas, muito animo no decorrer da viagem, que -não deixem o fogo apagar-se, que não passem pela terra dos inimigos, e -que nunca se esqueçam de seos machados e foices quando dormirem n’algum -lugar. - -Cobrem-no depois pouco á pouco com terra, e ficam ainda por algum tempo -junto á cova, chorando-o muito e dizendo-lhe adeos: de vez em quando ahi -voltam as mulheres ora de dia ora de noite, choram muito e perguntam á -sepultura, se elle ja partio. - -A proposito contarei tres historias interessantes. - -Enterraram um bom velho em distancia de 50 passos de minha casa. Dia e -noite consumiam-me as velhas com seos choros. - -Para adquirir socego lembrei-me de mandar esconder n’uma moita em -caminho, perto da cova, dois rapazes francezes, que commigo moravam. Mais -adiante mandei tambem esconder dois escravos nossos, a quem ensinei o que -deviam fazer. - -A noite todos occuparam as suas posições, e no fim de um quarto de hora -quando vieram as velhas, todas juntas, e que principiaram a gritar na -cova, responderam os franceses, imitando _Jeropary_, e ellas cheias de -susto despararam a correr, e quando no caminho encontraram outros dois -_Jeropary_, redobraram de esforços, e saltando por abrolhos e espinheiros -chegaram á casa mais mortas do que vivas, e ahi sobresaltando a todos -mandaram fechar as portas para que não entrasse o tal _Jeropary_. - -Estava eu perto e muito gostei d’esta comedia por alcançar socego, visto -não regressarem mais as velhas. - -Morreo um selvagem, e foi enterrado na estrada perto de _São Francisco_, -lugar no _Forte de São Luiz_. - -Fora baptisado antes da sua morte, e com tudo, sem sciencia nossa, -enterraram-no ahi e com as ceremonias que já descrevi. Mortifiquei-me -muito com isto, ralhei bastante, porem não pude descobrir o culpado por -já haver decorrido tres ou quatro dias. - -Passando por ahi achei sua mulher, que voltava da roça, assentada sobre a -sepultura, chorando amargamente, e espalhando n’ella algumas espigas de -milho. - -Indagando-lhe o que fazia, respondeo-me estar perguntando a seo marido -si elle ja tinha partido, porque receiava haverem amarrado muito as suas -pernas, e não lhe terem dado a sua faca, pois havia levado comsigo apenas -o seo machado e sua foice, e que lhe trasia o milho para comer e partir -no caso de já não ter mais provisões. - -Fil-a sahir, mostrando como pude, a sua ignorancia e superstição. - -Falleceo um menino com doença no ventre, de dois annos de idade, e duas -horas depois de baptisado. - -Eu, o Sr. de Pezieux, e outros franceses fomos amortalhal-o n’um lençol -d’algodão. - -Encontramos o corpo cercado por muitas velhas, fazendo algasarra capaz de -quebrar uma cabeça de aço, carregado de missangas, que trasem para ahi os -francezes, e de muitos busios, de que usam nos seos adornos e enfeites -para as grandes festas. - -Não podemos convencer ás velhas afim de serem tirados taes enfeites, e -sendo assim mesmo conduzido n’uma prancha por um francez, fizemos o seo -funeral a maneira da Europa, levando o seo corpo á capella do Forte de -São Luiz, onde recitamos as orações prescriptas pela Igreja para esse fim. - -Seguiram-nos as velhas de bem perto, e não se animando a entrar, -começaram a entoar uma musica tão alta e forte, que não nos entendiamos -dentro da Igreja. - -Imposemos silencio, e foi o corpo enterrado no cemiterio junto á capella. - -As velhas se metteram entre os francezes, umas trazendo fogo, agoa, -farinha, e outras o mais que ja dissemos para o caminho, o que mandei -deitar fóra fazendo-lhes vêr a asneira por intermedio do interprete. - -Recolheram-se as suas casas, onde se fartaram de chorar. - - - - -CAPITULO XXXII - -Do regresso á Ilha do Sr. de la Ravardiere e de alguns Principaes, que o -seguiram. - - -Com a chegada da barca portugueza o Sr. de Pezieux escreveo ao Sr. de la -Ravardiere e expedio uma canôa para tal fim, descrevendo o estado em que -nos achavamos e prestes a sermos sitiados em breve tempo. - -Gastou a canoa tres mezes na viagem, e sciente destas coisas partio -logo que poude em direcção da Ilha, afrontando perigos, que muitos são -n’estes mares; porem de coisa alguma nos serviria sua actividade, porque -se n’esse intervallo soffressemos o cerco seriamos já então vencedores ou -vencidos. - -Esta interrupção da viagem do Amazonas causou muito mal a Colonia, porque -se teria colhido muitos generos pelas margens dos rios, muito mais -povoados de selvagens de diversas nações do que a Ilha, Tapuitapera, Comã -e Caieté.[50] - -São mais pacificos, e bem providos de algodão. - -Quanto mais pobres e necessitados de machados, foices, facas e vestidos, -tanto mais facil é a troco de qualquer d’estes objectos alcançar grandes -riquezas. - -Outro prejuiso soffreo a Colonia dos francezes, porque achando-se muitas -nações resolvidas a aproximarem-se da Ilha, por ahi residirem e fazerem -suas roças, vindo com o Sr. de la Ravardiere, ao saberem taes noticias -dos portuguezes, resolveram suspender a execução do seo plano, e esperar -o resultado dos negocios. - -Chegando o Sr. de la Ravardiere proseguio-se activamente nas obras dos -Fortes das avenidas da Ilha, montando-se-lhes artilharia e dando-se-lhes -guarnição. - -Passados alguns dias achou-se acompanhado por muitos guerreiros -selvagens, que vieram para a Ilha, e entre elles estava o _Arraia -grande_ dos Caietés, selvagem pelos seos muito estimado, valente, bom -conselheiro, e de tal influencia, que os seos companheiros o seguem, -trabalham e abraçam inteiramente as suas ideias, o que foi muito util -aos francezes visto assim terem muitos homens dedicados, e occupados no -serviço. - -Pouco antes da viagem do Amazonas alguns bregeiros espalharam entre os -_Caietés_ do _Pará_, que sob o pretexto dessa viagem iam os francezes -captival-os. - -Esta noticia aterrou-os de tal forma, que muitos ja estavam resolvidos a -deixar suas casas, e a buscar outro lugar quando o _Arraia grande_ por -seos discursos lhes fez vêr quanto era infundado o seo receio, dizendo -então muito bem dos francezes. - -Elle, sua mulher, e alguns parentes acompanharam uma barca, que ia da -Ilha para o Pará em busca dos generos do paiz, ahi mui preciosos. - -Quiz a infelicidade que, no regresso para a Ilha, naufragasse a canôa por -estar muito pesada duas legoas longe da terra. - -Despresaram todas as riquezas, procurando salvarem-se agarrados a um -pedaço da escotilha, a uma taboa, ou ao bote. - -Esperou o _Arraia grande_, que todos procurassem meios de salvarem-se, -e afinal elle, sua mulher, e um interprete francez si puzeram a nadar -animando elle a todos com estas palavras—«a morte é invejosa, vêde como -atira estas ondas sobre a nossa cabeça afim de nos arremeçar no abysmo, -mostremos-lhe que somos ainda fortes e valentes, e que não é chegado o -tempo de nos levar.» - -Salvaram-se todos em varias ilhas não habitadas, excepto um francez, -victima de tubarões.[51] - -Vendo o _Arraia grande_ os francezes nús e famintos, em lugares estereis -e cercados de mar, atirou-se ás ondas, a nado atravessou grande espaço -cheio de mangue desembaraçando-se á muito custo das raizes destas -arvores, e do tujuco onde as vezes se enterrava até o pescoço. - -Chegando a aldeia dos seos similhantes animou-os a virem com algumas -canoas, vestidos e viveres, e depois que todos regressaram ás aldeias -defronte do lugar do naufragio, elle lhes entregou tudo quanto haviam -perdido, e que o mar tinha atirado ás praias. - -Outr’ora este indio, n’um navio de São Maló, veio a França, onde se -demorou um anno pouco mais ou menos, e em tão pouco tempo aprendeo -a fallar francez, e ainda hoje se fazia entender bem, embora ja se -houvessem passado muitos annos, e tem tão bom juiso e memoria que ainda -hoje conta varias particularidades, que la existem. - -Não trato do estado espiritual, e nem do que me disse relativamente ao -Christianismo, porque deixo isso para o seo lugar proprio, mas quanto ao -temporal muitas vezes o ouvi dizer aos seos similhantes, e especialmente -aos _Tabajares_ do Forte de São Luiz, «que os francezes eram fortes, que -habitavam um paiz grande, abundante de boas comidas, de muito vinho, de -pão, de boi, de carneiro, de galinhas, de muitas especies de ovos, e de -grande variedade de peixes: que suas casas eram construidas de pedras, -cercadas de grossos muros, onde estava assestada grossa artilharia, -batendo o mar na base da muralha, ou então sendo esta circulada de fossos -cheios d’agoa. - -«Pelas ruas estão lojas de todos os generos. Andam a cavallo, e os -Grandes, ou melhor os Principaes são acompanhados por muitas pessoas, -como o Sr. de la Ravardiere, residente perto da cidade, onde cheguei. - -«O Rei de França mora no centro do seo reino, n’uma cidade chamada Pariz. -Os francezes aborrecem, como nós, os _Peros_, e lhes fazem guerra por -terra e por mar, e sempre com vantagem, porque são fracos os _Peros_, -valentes e animosos os francezes como nenhuma outra nação, e eis a razão -porque não devemos temer aquelles visto estes nos defenderem. Alguns -maldizentes de nossa gente espalharam não terem os francezes podido -tomar os _Camarapins_, porem isto é falso. Cumpriram seo dever e si os -Tupinambás tivessem querido ajudar-nos, seriam agarrados, porem o chefe -dos franceses condoeo-se d’elles, e não quiz que todos fossem queimados -como aconteceo em parte.» - -Fez este e outros discursos similhantes, e depois percorrendo a Ilha, em -cada aldeia os repetia nas _reuniões_ na _caza grande_. - -Procurando imitar a maneira porque entrou na grande praça de São Luiz, -não só para saudar os Tabajaras, como tambem para ajudar os francezes, -dispoz elle a sua gente, em numero de cem a cento e vinte, um a um, ou um -atraz do outro, e assim por diante. - -A uns deo cabaças, panellas, e rodela, e a outros espadas e punhaes, a -estes arcos e flexas, a aquelles differentes instrumentos, dividindo os -tocadores de Maracá[52] pelas desenas, e assim percorreram a habitação -dos _Tabajaras_, e depois foram á praça grande do Forte, onde estavamos, -e ahi acabaram suas danças, muito similhantes a dos _Pantalons_, andando -e fazendo mesuras, batendo todos ao mesmo tempo com o pé em terra, ao -som da voz e do Maracá, cujo compasso todos observavam entoando sempre -louvores aos francezes. - -Mechiam em todos os sentidos a cabeça e as mãos, com taes gestos que -faziam rir as pedras. - -Chamam os Tupinambás a esta dança _Porasséu-tapui_, quer dizer, _dança -dos Tapuias_, porque era outra a dança dos _Tupinambás_, sempre em roda e -nunca mudando de lugar. - -Acabada a dança, veio saudar-nos, e foi comer e descançar na casa, que se -lhe havia preparado. - - - - -CAPITULO XXXIII - -Viagem do capitão Maillar,[53] pela terra firme á casa de um grande -feiticeiro. Descripção d’esta terra e das zombarias d’elle. - - -É verdade, reconhecida por todos que hão habitado o Brasil, não ser a -terra firme tão bonita e tão fertil como as Ilhas. - -São as ilhas formadas por areia preta e fina, queimada e ardente pelo -continuo calor, e por isso são ellas mais sujeitas n’esta Zona tórrida -aos calores e ardores, porque o mar redobra pela reflexão e poder da -luz do Sol sobre a capacidade proxima e concentrica da terra, o que se -prova por meio dos espelhos ardentes, cujos centros sendo opacos, e mais -elevados do que suas circumferencias e bordas, os raios do sól se reunem -e concentram ahi, produzindo fogo e chama, e assim queimando os objectos -convenientemente dispostos n’esses lugares. - -Ouvindo o Sr. de la Ravardiere os indios fallarem muitas vezes de uma -localidade muito boa, distante 100 ou 150 legoas do Maranhão, na terra -firme para as bandas do rio Mearim e longe d’elle 40 ou 50 legoas, mandou -uma barca e canoas com o capitão Maillar de São Maló, alguns francezes, e -um cirurgião, todos muito conhecedores da natureza das hervas e arvores -preciosas. - -Ahi vivia, vindo do Maranhão, um dos seos principaes feiticeiros, com 40 -ou 50 selvagens, entre homens e mulheres, n’uma aldeia, que edificara, -cultivando a terra, que tudo lhe produzia em abundancia, e por isso -abusando da credulidade dos Tupinambás este miseravel lhes dizia possuir -um espirito com o poder de fazer a terra dar-lhe o que quizesse. - -Ahi chegou o capitão com muitas difficuldades, passando vasta e comprida -planicie de juncos e caniços, atravessando agoa pela cintura, e depois de -alguma demora regressou contando-nos o seguinte. - -A terra d’esta localidade é dura, gorda e negra, boa para a cultura da -canna do assucar, e muito melhor que a de Pernambuco, o que bem podia -avaliar por ter residido por muitos annos ahi e em outros lugares -possuidos pelos portuguezes. - -A terra é cortada por muitos riachos capazes de moverem engenhos para o -fabrico do assucar. - -Ha abundancia de peixes d’agoa doce, grandes e de varias qualidades; são -innumeraveis as tartarugas; existe toda a qualidade, e em quantidade -inexprimivel, de caça, como sejam viados, corças, javalis, vacas-bravas, -e diversas especies de tatús, muitos coelhos e lebres, iguaes ás de -França, porem mais pequenas, immensa variedade de passaros, como -sejam perdizes, faisões, mutuns,[54] pombas bravas, trocazes, rolas, -garças-reaes, e outras admiraveis. - -A terra produz raizes tão grossas como a coxa: o tabaco petum ahi cresce -forte e optimo, e dizem que dá duas colheitas por anno. - -O milho cresce forte, cheio, e dá muitas espigas. - -Ha fructas muito melhores, e em maior quantidade do que na Ilha, em -_Tapuitapera_, e _Comã_, papagaios de varias côres e diversos tamanhos, -notando-se entre elles os _Tuins_,[55] do tamanho de pardaes, os quaes -aprendem com facilidade a fallar, porem morrem de mal quando são levados -para a Ilha: vi entre muitos salvarem-se apenas seis, os quaes comendo, -cantando, e dançando em suas gaiolas, sem apparencia de molestia, davam -duas ou tres voltas e morriam logo. - -Ha tambem muitos macacos e monos barbados, bonitos e raros, e que seriam -muito apreciados em França, se lá chegassem. - -Ahi residia um barbeiro ou feiticeiro muito bem arranjado e com todas as -commodidades. - -Tinha vindo, um pouco antes d’esta viagem, fazer suas feitiçarias e -nigromancias para ganhar o vestuario e a ferramenta dos selvagens -do Maranhão e leval-os comsigo quando fosse para a sua terra. Estas -feitiçarias eram diversas. - -Tinha uma grande boneca, que com artificio se movia, especialmente -com o maxilar inferior; dizia elle ás mulheres dos selvagens, que si -desejavam vêr quadruplicada a sua colheita de grãos e legumes trouxessem -e dessem á ella alguns d’estes generos, afim de serem mastigados tres ou -quatro vezes, e por esta forma recebendo a força de multiplicação do seo -espirito, que estava na boneca, podiam depois serem plantados em suas -roças, pois já comsigo levavam a força da multiplicação. - -Gozou de muita influencia por onde passou, muitas foram as dadivas das -mulheres, e mal satisfazia o que promettia, guardavam ellas com todo o -cuidado os legumes e grãos mastigados. - -Estabeleceo uma dansa ou procissão geral fazendo com que todos os -selvagens levassem na mão um ramo de palmeira espinhosa,[56] chamada -_tucum_, e assim andavam ao redor das casas, cantando e dansando, para -animar, dizia elle, o seo espirito a mandar chuvas, então n’esse anno mui -tardias: depois da procissão _cauinavam_ (bebiam _cauim_) até cahir.[57] - -Mandou encher d’agoa muitas vasilhas de barro, e rosnando em cima d’ella -não sei que palavras, ensopava um ramo de palmeira, e com ella aspergia -a cabeça de cada um d’elles, dizendo «sêde limpos e puros afim de meo -espirito enviar-vos chuva em abundancia.» - -Tomava uma grande tabóca de bambu, enchia-a de _petum_, deitava-lhe fogo -n’uma das extremidades, e depois soprava a fumaça sobre os selvagens -dizendo «recebei a força do meo espirito,[58] e por elle gozareis sempre -saude, e sereis valentes contra vossos inimigos.» - -Plantou no centro d’aldeia uma arvore de maio, carregou-a de algodão, -e depois de haver dado muitas voltas e vira-voltas em redor, lhes -prognosticou grande colheita n’esse anno. - -Apezar de tudo isto não vindo a chuva, dia e noite fazia elle dançar e -cantar os selvagens, gritando com quanta força tinham afim de despertar -seo espirito, como faziam outr’ora os sacrificadores de Baal. - -Com tudo isto não choveo. - -Fez acreditar á estes selvagens, que elle bem via o seo espirito, -carregado de chuvas, do lado do mar, porem que não se animava a vir por -causa da _Cruz_, erguida no centro da praça, fronteira a Capella de N. S. -d’Vsaap, e que se quizessem ter chuva não havia mais do que deital-a por -terra, e teriam concordado n’isto facilmente, pondo-o logo em execução se -ahi não estivessem os Francezes, e si não temessem o castigo. - -Chegando estas noticias ao Forte, mandou-se immediatamente o _Cão-grande_ -e alguns Francezes para irem buscar o feiticeiro afim de vêr si elle -poderia dançar no meio d’uma sala, contra sua vontade, e teria sido preso -si, advertido como foi, não preparasse sua bagagem, e com sua equipagem -não se salvasse n’uma canôa, mandando desculpar-se, d’ahi ha pouco tempo, -por um seo parente trazendo muitos presentes com o fim de fazer pazes. - -Fez crer aos selvagens da Ilha, que tinha um espirito muito bom, que era -muito amigo de Deos, que não era mau, e que por tanto só podia fazer bem. - -Dizia elle: «come commigo, dorme, caminha diante de mim, e muitas vezes -vôa diante dos meos olhos, e quando é tempo de fazer minhas hortas, -só tenho o trabalho de marcal-as com um pau a sua extensão, e no dia -seguinte acho tudo prompto.» - -Sabendo alguns selvagens christãos, que pretendiamos castigar seo -companheiro que d’elles tanto abusou, me pediram, que me condoesse d’elle -e que nada soffresse por não ter sido mau e nem o seo espirito, visto -terem ambos feito crescer os bens da terra. Ensinei-lhes a este respeito -o que deviam crêr. - -Vede, meos leitores, quanto Satanaz é astucioso: similhante á um macaco -imita as ceremonias da Igreja para elevar sua superstição, e conservar -sob seo dominio as almas dos infieis por essa procissão de palmas, essa -aspersão d’agoa, esse sopro de fumo para communicar o espirito, de que -fallaremos mais simplesmente no _Tratado do espiritual_. - - - - -CAPITULO XXXIV - -Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos, suas habitações, e -procedimento. - - -N’esse tempo a nação dos _Tremembés_, moradora alem da montanha de -_Camussy_, e nas planicies e areiaes da banda do rio _Tury_, não muito -distante das Arvores Seccas, das Areias Brancas, e da pequena Ilha de -Santa Anna, sahio, sem esperar-se, para a floresta, onde se aninham os -passaros vermelhos, e para os areiaes onde se encontra o ambar gris, -e se pesca grande quantidade de peixes, com intenção, de surprehender -os _Tupinambás_, seos inimigos irreconciliaveis, o que malogrou-se, -visto que muitos _Tupinambás_ da Ilha tendo ido ahi com o fim especial -de pescar, foram accommettidos pelos _Tremembés_,[59] sendo uns mortos -immediatamente, outros captivos sem saber-se o que d’elles fizeram, e -finalmente alguns embarcados n’uma canôa poderam salvar-se regressando á -Ilha do Maranhão, onde contaram tão tristes casos causando nas aldeias, -a que pertenciam os mortos, tanta indignação, que todos, vóz em grita e -chorando, especialmente as mães e as mulheres, insistiram pela vingança, -ao que acquiesceram os Principaes, vindo pedir aos francezes um chefe e -alguns soldados, no que foram satisfeitos. - -_Japy-açú_ foi o conductor d’este exercito[60] composto de grande numero -de selvagens, e acompanhado por alguns francezes. - -Atravessaram o mar entre a ilha e as areias brancas, saltaram em terra -para descançar e passar a noite pescando uns, caçando outros, e as -mulheres e as filhas procurando agoa pelos areiaes, a qual não podia -ser senão salôbra, isto é, meia doce e meia salgada, armando as redes, -fazendo fogo e preparando a comida. - -Os mancebos _Tupinambás_ fizeram _Aiupuues_, (choupanas) tanto para -os Principaes como para os Francezes: na melhor _auipaue_ alojou-se -o Coronel, e os Capitães armaram suas redes ao redor da do Coronel, -ceremonia que observam em todas as suas guerras, especialmente quando se -acham perto do inimigo. - -Escondem o fogo com receio de não serem á noite descubertos pelos -inimigos, por ser costume geral d’elles o fazer subir no cume de arvores -muito altas suas sentinellas afim de descubrirem fogo ou luz dos inimigos. - -Na manhã seguinte puzeram-se em marcha até um grande areial cercado de -mato por tres lados, e de mar pelo ultimo: ahi encontraram as choupanas -dos _Tremembés_, uma panella portugueza, e combinando isto com o que -já sabiamos anteriormente, ficamos sabendo, que os Portuguezes estavam -na _Tartaruga_, na serra de _Camussy_, unidos aos _Tremembés_, aos -_Montagnars_, tanto de _Ybuapap_ como de _Mocuru_, principalmente com -_Jeropary-uaçu_, isto é, com o _Grande-diabo_, principe e rei de uma -grande nação de Cambaes,[61] muito amigo dos francezes, e inimigo natural -dos portuguezes, podendo afiançar-se com certesa, que si os francezes -ahi fossem, elle trahiria os portuguezes e unindo-se a elles, por ser -_mulato-francez_, isto é, filho de um francez e de uma india. - -Voltemos ao nosso proposito. - -Encontraram os nossos selvagens ainda vivo um dos seus, que fugio para -o mato, e escondeo-se no concavo de uma arvore; porem ouvindo o som das -trompas de guerra, que eram feitas de um grosso madeiro cavado, tendo as -aberturas superior e inferior similhantes á uma trombeta, sahio muito -magro, e quase que sem figura humana por não ter comido durante oito dias -senão folhas da arvore, onde escondeo-se: ensinou, como lhe permittiram -suas forças, o lugar onde jaziam mortos seos companheiros, que foram -encontrados com as cabeças rachadas, e sobre seos corpos os machados de -pedras, instrumentos d’essas atrocidades, por ser costume entre elles -nunca se servirem d’uma arma com que ja mataram um inimigo. - -_Caruatapyran_, um dos Principaes de Comã, trouxe-me um d’esses machados -de pedra, ainda tinto de sangue, com alguns cabellos adherentes, e com um -pouco do cerebro do Principal _Íanuaran_, que com elle foi morto, o que -se soube por ser encontrado sobre seo corpo. - -_Caruatapyran_ pegando um d’esses machados, feito em fórma de crescente, -ensinou-me o que eu não sabia, dizendo-me terem os _Tremembés_ o -costume mensal de vellar toda a noite fazendo seos machados até ficarem -perfeitos, em virtude da superstição, que nutriam, de que indo para a -guerra armados com taes instrumentos nunca seriam vencidos, e sim sempre -vencedores. - -Em quanto os homens e as mulheres se entregavam a este trabalho dançavam -as moças e os meninos a frente das choupanas ao luar do crescente. - -São valentes os _Tremembés_ e temidos pelos _Tupinambás_; d’estatura -regular, mais vagamundos do que estaveis em suas moradias: alimentam-se -ordinariamente de peixes, porem vão á caça quando lhes apraz: não gostam -de fazer hortas, e nem casas: moram debaixo das choupanas; preferem as -planicies ás florestas porque com um simples olhar descobrem tudo quanto -está ás suas vistas. - -Não conduzem após si muita bagagem, pois contentam-se com seos arcos, -flexas, machados, um pouco de _cauï_, algumas cabaças[62] para guardar -agoa, e umas panellas para cozinhar a comida: com mais destresa que os -Tupinambás pescam á flexa: são tão robustos a ponto de segurarem pelo -braço um dos seos inimigos e atirarem-no ao chão, como se fosse um capão. -Dormem n’areia ordinariamente. - -Servem-se d’este lugar de areias brancas, e de arvores seccas para -agarrar os _Tupinambás_, como ratoeira para pilhar ratos, e isto por tres -razões. - -A primeira, por causa da pesca, ahi abundante e variada. - -A segunda, por causa de uma floresta, onde os passaros vermelhos de todas -as partes vem fazer ninho para desovar. Não deixam de ir ahi em certo -tempo os _Tupinambás_ para tirar do ninho os filhótes e os ovos meios -chocos, havendo abundancia impossivel de descrever-se, levando, quando -regressão á villa, provisão para dois mezes, preparando antecedentemente -uns assados, e outros seccos e duros como paus, o que nunca me agradou, e -a fallar verdade, nunca pude comel-os, embora sejam para os selvagens o -primeiro prato, e bem delicioso. Logo contarei alguns uzos particulares, -e bem notaveis, d’estes passaros. - -O terceiro motivo é para colher o ambar-gris, chamado pelos Tupinambás -_Piraputy_ «excremento de peixes,»[63] por que elles pensam ser o -ambar-gris o excremento das baleias, ou de outros peixes iguaes em -corpulencia, o qual vindo á tona d’agoa, é pelas ondas atirado a essas -praias. - -Dizem alguns francezes não ser o ambar-gris outra coisa mais do que a -«flor do mar,» a que os selvagens chamam _Paranampoture_, ou uma certa -gomma do mar, _Paranamussuk_. - -Decida o leitor como lhe aprouver. - -N’estas areias encontra-se o ambar-gris em massa, mais n’um tempo do que -n’outro, e algumas vezes chega a massa a tal tamanho e grossura, que -merece ser guardada n’algum gabinete real, não podendo ser justamente -apreçada e vendida. Acontece as vezes virem poisar sobre ellas todos -os bixos, passaros, carangueijos, lagartos, e outros reptis d’ahi, das -circumvisinhanças, e do mar, e com elles as vêem procurando-as com -cuidado, e por isso são essas grandes massas partidas em varios pedaços. - -Aconselhei a elles, que ahi fizessem um _Forte_ não só para impedirem -as correrias dos _Tremembés_, como para tapar a entrada aos navios, que -buscam a Ilha de Sant’Anna afim de colherem o ambar-gris; não ha duvida, -que o mar atira muitas vezes sobre estas areias o ambar, que por ahi -espalhado é comido por animaes, passaros e reptis, pois os selvagens da -Ilha ahi vão apenas duas ou tres vezes durante o anno. - -Tenho certesa, que a colheita do ambar chegaria para pagar as despezas do -Forte, da sua guarnição, e do mais que fosse necessario. - -Os nossos selvagens e francezes depois de muitas indagações por varios -lugares somente acharam os corpos mortos dos seos, as choupanas, e -vestigios de inimigos, e assim regressaram á Ilha mais famintos do que -feridos. - - - - -CAPITULO XXXV - -Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuitapera e da viagem ao Uarpy. - - -Lá para o lado do Oeste havia uma nação, de que nunca se fallou, -desconhecida por todos os _Tupinambás_, moradora nos mattos na distancia -de mais de 400 á 500 legoas da Ilha, sem conhecer a vantagem dos machados -e das foices, pois apenas se serviam dos machados de pedra, e assim -viviam em segredo nas florestas d’essa localidade sob a obediencia de um -Rei. - -Souberam por alguns selvagens, que apresionaram no mar, da vinda dos -francezes á Maranhão, da sua residencia ahi, trazendo comsigo Padres, que -ensinavam qual era o verdadeiro Deos, e absolviam os selvagens dos seos -peccados. - -Levando taes noticias ao seo rei mandou este logo algumas canoas, e -n’uma d’ellas foi o governador, abaixo d’elle, d’esta nação, acompanhado -por duzentos mancebos fortes e valentes, ageis na natação e no uso da -flecha, com instrucção de chegarem á Ilha, porem não podendo pôr pé em -terra, limitando-se apenas a fallar com os interpretes dos francezes, -e regressando depois á sua terra tomando todo o cuidado para não ser -descoberto o caminho que seguiam. - -Chegaram defronte de _Tapuitapera_, onde então se achava o interprete -_Migam_, que apenas soube da chegada d’elles foi ao seo encontro no mar, -e com o seo Principal fallou por muito tempo. - -Interrogou-o o Principal acerca dos Padres, quem eram, o que faziam e -ensinavam: á respeito dos francezes, quaes suas forças, e mercadorias, -si era certo terem conciliado os _Tupinambás_ com os _Tabajares_, e si -viviam em paz na Ilha. - -Respondendo o interprete a tudo isto, como devia, ficou satisfeito -e assim o disse, asseverando que o mesmo aconteceria a seo Rei e a -sua Nação, porque todos desejavam aproximarem-se dos francezes para -conhecerem a Deos, terem machados e foices de ferro, com que cultivassem -suas roças, e estivessem sempre em guarda contra os seos inimigos, -plantando muito algodão e outros generos para offerecerem, como -recompensa, aos francezes, aos quaes apenas pediam alliança e protecção. - -Perguntou-lhes o interprete, si era grande sua nação, e si estava muito -longe, ao que respondeo affirmativamente, marcando a distancia por legoas -pouco mais ou menos, que podiam haver da Ilha á sua terra, mostrando -com os dedos o numero de luas, isto é, de mezes, que eram necessarios -para regressarem ao seo paiz, e accrescentou «não te posso dizer o logar -da nossa habitação, porque meo Rei assim me prohibio, e tambem porque -receiamos, que si nos faça guerra. D’aqui ha seis mezes regressarei para -te dar certas noticias, e podes dizer ao teo chefe, que sendo verdadeiras -as tuas informações viremos morar por aqui perto.» - -O interprete respondeo—«vem, te rogo, vêr o Fórte, que fizemos, as -grandes peças, que montamos sobre suas muralhas, e os francezes, que as -guarnecem para de tudo dares noticias á teo Rei.» - -«Não, disse elle, eu e os meos recebemos ordem de não saltar em terra». -Tanto porem instaram com elle, quase recebendo refens, consentio alguns -dos seos saltar em _Tapuitapera_, onde foram muito bem tratados, e ahi -adquirindo, em troca de generos, que levaram, alguns machados e foices, -regressaram mui contentes. - -Durante essa visita, conservaram-se a nado as canoas, os remos armados, e -tudo prestes se houvesse alguma traição. Tinham os outros as flechas e os -arcos promptos, tanto desconfiam estas nações umas das outras! - -Apenas chegaram os seos, restituiram os refens, e foram-se em paz. Deos -os guie e os traga ao seo gremio. - -Quanto á viagem ao _Uarpy_,[64][BE] rio e região, em distancia para mais -de 120 legoas da Ilha, lá para as bandas dos Caietés, foi emprehendida -pelo Sr. de Pezieux, com alguns francezes, e duzentos selvagens pelos -seguintes motivos. - -Primeiro: para descobrir uma mina de oiro e prata na distancia de -100 legoas acima do rio, d’onde os selvagens nos trouxeram enxofre -mineral, muito bom, e por tanto havia esperança de serem as minas boas e -abundantes. - -Tem me esquecido dizer, que ha em toda esta terra grande numero de minas -de oiro, misturado com cobre, de prata misturada com chumbo,[65] o que -provam as agoas mineraes que descem dos montes. - -Segundo: para traser comsigo uma nação de Tabajares, habitante das -margens do Rio. - -Terceiro: para procurar uma nação de _cabellos compridos_ por ahi -errante, os quaes são doceis, faceis de serem civilisados, e que negociam -com os _Tupinambás_. - -Si se realisarem estas coisas, como creio, a Ilha será em pouco tempo -rica de generos cultivados por todos estes selvagens reunidos, e -tornar-se-ha forte contra a invasão dos portuguezes, e descançando -n’esta esperança vou fallar de algumas raridades, que notei ahi, cortando -as difficuldades que se apresentam á primeira vista por meio de razões -boas e naturaes. - - - - -CAPITULO XXXVI - -Dos astros e do sól. - - -É bello e magnifico o Ceo, n’esta zona tórrida, embora pareça muito menos -estrellado do que na Europa, isto é, não apparecem tantas estrellinhas -fixadas na abobada azulada d’aquelle como acontece na do nosso, pois no -Maranhão ha estrellas maiores e brilhantes, e mais luzentes do que aqui. - -Não me convenço de lá não haverem menos estrellas do que aqui, antes esta -falta, que noto, attribuo á minha vista, e por mais esta razão. - -Todos os que habitam fóra dos dois solsticios, _Cancer_ e _Capricornio_, -olham obliquamente o centro do ceo, que é a linha ecliptica ou zona -tórrida, onde passa o sol, e por tanto tem maior horisonte, ou maior -espaço do ceo a contemplar, e menos numero de estrellas a contar. - -É pela experiencia confirmada esta razão, porque nasce e deita-se o sol, -sem preceder aurora, e assim acaba o dia e começa a noite, e si ha tarde -ou manhã é quasi nada. - -Na Europa acontece o contrario, pois algumas vezes temos mais de duas -horas de tarde, e outras tantas de manhã, antes do nascimento e do occaso -do sol, porque os habitantes da zona tórrida estão na esphéra direita e -nós outros na obliqua. - -Ainda acrescento outra experiencia. - -Quando regressamos de Maranhão para cá, no Polo Septentrional, -descubrimos mais depressa a estrella d’este Polo, do que quando na nossa -viagem para lá descobrimos a estrella do Cruzeiro embora mais elevada do -que o Polo Antarctico ou Austral. - -Ainda fiz outra observação n’este planeta do Sol, é que mostra dois -meios-dias diversos entre os dois termos do anno, de sorte que n’uma -metade do anno, olhando o Este está á direita, isto é, na parte austral, -e no resto do anno a esquerda, isto é, na parte septentrional, e em -ambos elles ha pouca sombra. O sol no zenith somente duas vezes no anno -olha para esta terra, como succede a todas as regiões contidas nos dois -solsticios: algumas vezes está tão perto da esphera direita, que pouco -falta para chegar ao meio dia, e ferir-vos a prumo o cume da cabeça. - -Comtudo isto destinguem-se perfeitamente ambos estes meios-dias. - -Explica-se isto por ser preciso cortar duas vezes, annualmente, o sol -quando no zenith, a zona tórrida, como já disse, para fazer os solsticios -de Cancer e Capricornio, e por tanto os habitantes da zona tórrida o vêem -fazer o seo meio-dia ora de um lado, ora de outro: por exemplo: quando -sahe do Capricornio afim de encaminhar-se para Cancer, os brasileiros -habitantes da zona tórrida observam o seo meio-dia á direita e quando -deixa Cancer com direcção á Capricornio vêem-no á esquerda. - -Abre-se-me vasto campo para descobrir a sabedoria de Deos na organisação -do mundo, tendo por fim apenas escrever succintamente uma historia, -entrego á consideração do leitor chamando a sua attenção para a maneira -como Deos dividio o curso do sol em duas extremidades e um meio, -recebendo os habitantes de todas estas tres partes a mesma luz durante o -anno, tanto uns como outros, excepto os habitantes de Cancer, que apenas -tem durante o anno tres dias e algumas horas de sol mais do que os de -Capricornio, originando-se por isso os annos bissextos e a reforma do -calendario, como vamos explicar. - -Principiemos pelo meio-dia, e acabemos pelas extremidades. - -O meio é composto de duas extremidades, equidistantes uma da outra, -porque de outra forma não seria meio. - -O curso do Sol se faz em 24 horas, dia natural, e em 12 mezes por anno. - -Ora sendo a zona tórrida o meio do curso diario e annual do sol, é -indispensavel, que na sua terceira parte e porção mostre diaria e -annualmente á luz do sol igual a que se apresenta nas duas extremidades, -o que não poderia fazer; si os dias não fossem iguaes, tendo cada um 12 -horas de Sol, porque, si excedessem ainda que pouco, não seria o meio do -curso do sol, e sim cahiria mais para uma das duas extremidades, tendo, -durante 12 mezes, uns dias maiores do que outros, compensando n’uns o que -n’outros perdia, e convindo por isso marcar-se outra zona de céo, que -fosse o meio e o centro d’esse curso, sendo o meio a essencia e a base -das duas extremidades. - -É impossivel imaginar-se dois extremos sem meio: como ja disse, o meio -é composto de duas extremidades, e por isso sendo a zona tórrida o -meio da carreira do sol, deve ter sua porção de luz á custa das duas -extremidades, que são dose e dose, que dá o sol igualmente para os dois -solsticios, entre as duas partes do anno, recompensando n’um tempo o que -n’outro perdeo. - -Consideremos agora uma terceira porção para servir de meio d’estas duas -extremidades, dose á dose. - -Convem tomar 12 de uma parte e 12 de outra para ser o todo igual: -comprehendereis assim facilmente como esta zona tórrida gosa igualmente -com as outras partes do mundo da luz do sol sem mudar seo numero de seis -a seis em tempo algum, porque partecipa igualmente das duas extremidades, -quer vá o sol visitar Cancer e seos habitantes dando-lhe com a sua boa -chegada mais largura e liberalidade de luz, quer vá fazer outro tanto -no Capricornio, não lhe sendo por isso de forma alguma importuna a zona -tórrida, e nem alteando o seo imposto ordinario, fazendo-lhe pagar -somente, seis horas da manhã, e seis depois do meio dia, a luz e calor -para a sua passagem da travessia da terra, e pelo trabalho dos seos -habitantes durante a sua vinda. - -Quanto ás terras e aos habitantes inter e extra-tropicaes dividem entre -si igualmente, pouco mais ou menos, em diversos tempos, a luz do sol, e -por compensação mais n’um tempo do que em outro: no fim do anno acham que -cada um teve 12 horas de luz para um dia natural, e dose mezes por anno. - -Já disse que os habitantes de Cancer, dentro e fóra do seo Tropico, gosam -mais tres dias do sol do que os outros. - -Dar a razão natural d’isto, e o que dizem os astrologos, é o mesmo que -nada, por ser segredo, que em si guardou a divina Providencia, e uma -honra que deo ao mundo antigo, composto d’Asia, Africa e Europa, e si -basta uma razão allegorica, sou de opinião que é para fazer sobresahir -tres privilegios especiaes, que sobre o mundo velho alcançou o novo, e -que são—a primeira habitação do homem expellido do Paraiso Terrestre; -dadiva da lei escripta á Moysés; e a redempção do mundo por Jesus Christo. - - - - -CAPITULO XXXVII - -Ventos, chuvas, trovões, e relampagos em Maranhão e suas -circumvisinhanças. - - -Alem do que a este respeito disse em sua _Historia_ o padre Claudio -d’Abbeville acrescentarei para satisfação do leitor o que me fez conhecer -a experiencia: - -1.º Fallando dos ventos, entre os quaes o do Oriente tem o sceptro e -occupa o reino do Brasil, alem das razões dadas por esse Reverendo Padre, -dou outra, que devo aos mathematicos, que por lá andaram e escreveram -sobre a materia. - -Dizem elles, que a constancia d’esse vento soprando por ahi é devida á -disposição das costas do Brasil, em linha recta de Este a Oeste, porque -tendo o sol levantado os vapores da terra e da agoa e atirando-os apòs -si, pela violencia do seo curso diario encontram as costas do Brasil do -Oriente ao Ocidente sem inflexão ou curva alguma e por isso seguem por -ahi. - -Praticamente observa-se isto com o fumo, que espalha-se no primeiro -corpo solido, que encontra como sustentaculo de sua fraqueza, e sem elle -derrama-se á feição do vento, que ahi sopra. - -Com quanto o vento das outras tres partes do mundo, a saber, Oeste, Norte -e Sul não reinem no Maranhão e suas circumvisinhanças em comparação com o -de Este, não se pode comtudo dizer, que não soprem algumas vezes ventos -do Norte e do Sul, e raras vezes o de Oeste. - -Em Maranhão os ventos vão sempre augmentando desde Agosto até Janeiro, -que é propriamente o estio d’esta terra, e quando o tempo é sempre sereno. - -Explica-se isto pelo curso do sol que regressando do solsticio de Cancer -para o de Capricornio surgem debaixo da zona tórrida grandes vapores, -aquosos e humidos, e quanto mais se aproxima d’essas terras mais se -levanta, e por tanto mais se reforçam esses ventos, que não são outra -coisa senão esses vapores misturados com o ar. - -2.º A razão porque começam as chuvas em Janeiro ou em Fevereiro, e vão -sempre augmentando até principio de Junho ou fins de Abril, é porque o -Sol volta do solsticio de Capricornio para o de Cancer, e attrahindo -muita humidade expande-a no ar, e d’ahi cahem as chuvas: quanto mais o -Sol se aproxima do seo termo, mais augmenta sua humidade, e torna a queda -das agoas mais expessa, forte, e rapida, e por isso vemos no Brazil ser -differente a epocha e a força das chuvas, isto é, mais depressa e mais -abundante n’uma terra do que em outra. - -De ordinario são as chuvas abundantes e frequentes, duradouras e -continuas, mais á noite do que de dia: é o tempo proprio para semeiar-se, -porque tudo nasce, cresce, produz, e dá colheitas. - -Quando a terra é arenosa, e que está secca pela proximidade do Sol, ao -cahir das chuvas continuas e abundantes, ella absorve admiravelmente as -agoas, muda a sua secura para uma temperatura humida, que é a mãe das -gerações. - -São diversas estas chuvas do orvalho da noite no estio, porque tem -este bom cheiro e aquellas mau, visto que provindo as chuvas do choque -de expessos vapores aerios, trazem portanto comsigo a qualidade de -seos agentes e a sua causa efficiente: acrescente-se ainda que a queda -impetuosa das agoas sobre a terra, coberta de folhas em putrefacção ou -de cinzas de paus queimados, revolve-a, e d’ella faz desprender-se, com -o seo estado constante de calor natural, mau cheiro proveniente de taes -objectos. - -O orvalho cahindo doce e brandamente em noite serena, mais fria do que -cálida, exhala cheiro agradavel, especialmente quando se derrama sobre -plantas odoriferas. - -É mais doentio o tempo das chuvas do que o das brisas, ou ventos de Este, -porque em primeiro logar não sopram mais os ventos, e por conseguinte -não purificam o ar, e d’elle não expellem vapores intensos, maritimos e -aquosos, e por isso mui doentios: em segundo logar chocando-se as nuvens -e cahindo as chuvas, apparecem molezas no corpo, doenças de coração, -desarranjos do estomago, enfraquecendo-se os nervos, e infiltrando-se os -ossos de humidade o que não apparece no tempo das ventanias, que limpam o -ar, o mar, e a terra. - -3.º Os trovões e relampagos são, sem comparação alguma, mais fortes e -frequentes no Brasil do que no mundo velho, especialmente no tempo das -chuvas, são horriveis os trovões, parecendo abalar-se a terra, e um -relampago dura mais do que dose na Europa. - -Durante esse tempo não sahem de casa os selvagens, e nem o mais valente -se atreve a pôr o nariz fóra da porta, e eu mesmo, sem ser dos mais -timoratos, fartei-me de medo, embora ninguem visse a queda do raio. - -Eis a razão. - -Emquanto é brando o calor de Agosto á Fevereiro raras vezes ha trovões; -mas quando surge a guerra do frio e do calor, que é de Fevereiro á Junho, -então é necessario que appareçam escorvas e peças, isto é, raios e -trovões. - -N’este tempo reina o calor na zona tórrida com todo o seo vigor, e o frio -então se fortifica pelo regresso do Sol de Capricornio para Cancer, cheio -de humidades do ar, e por isso é grande o combate, mais frequentes os -trovões, e mais medonhos os relampagos. - -Não se descobre a queda dos raios porque são altas e vigorosas as arvores -do Brazil, e ordinariamente é n’ellas, como acontece em toda a parte, -onde cahem os raios. - -Como é o paiz coberto de florestas, e repleto de arvores de admiravel -altura, é bem facil cahir o raio desapercebidamente. - -Prova-se isto todos os dias com arvores cahidas e queimadas, que se -encontram nas florestas. - - - - -CAPITULO XXXVIII - -Mar, agoas, e fontes do Maranhão. - - -O mar, pelas suas marés, não é o mesmo que o do restante do Mundo. - -Embora o Occeano acompanhe infallivelmente o crescente, o plenilunio, e o -minguante da Lua, comtudo notaram nossos marinheiros em um ou dois dias, -e algumas vezes mais, differença e falta de igualdade do que se observa -n’outras marés do Universo. - -Explica-se isto observando-se, que o Brazil está cercado de milhares de -inflexões ou voltas, formadas umas por bancos e corôas de areia, e outras -por voltas de pontas de terra e bahias. - -Accrescente-se ainda terem todas estas terras as sahidas mui retalhadas, -que impossibilitam o desembocar da maré com toda a sua força para os rios -salgados e portos e barras, como acontece n’outras partes. - -Reparae por exemplo o fluxo e refluxo do mar no rio Sena, pois quando o -mar no Havre da Graça principia a refluir já a onda chegou a Ponte de -Arche. - -Reparei tambem na seguinte coisa commum ás outras marés, porem não tanto -como as antecedentes. - -O mar no seo fluxo, batendo nas pontas das rochas, deixa no meio um canal -ou rego, que mostra a sua corrente principal, forrado de excrecencias -maritimas, que ahi se amontoam, e si passar-se uma corda pelo seo nivel -poderá servir de marca aos pilotos para reconhecer o canal no meio dos -recifes. - -Parece-me explicar-se isto pela propriedade da forma circular, que tem -os elementos, a qual lhes permitte expandir-se até a circumferencia: em -virtude d’isto o mar faz no meio do centro do seo fluxo o rego, ou fio de -sua carreira, depois dispersa-se, e dá a cada ponta de rochedo a sahida -para a maré, e por isso tenho observado algumas vezes muitos pedaços -de pau serem arremeçados em diversos sentidos contra os rochedos pela -violencia e corrente d’essas differentes marés. - -As agoas do Maranhão são incorruptiveis, e muito melhores do que as da -Europa, como tive occasião de verificar por espaço de dez semanas na -viagem do meo regresso: eis a razão: quanto mais sugeito está um corpo á -transformação e mudanças de qualidade, mais susceptivel se torna de ser -corrompido e mau por causa das alterações, que soffre, ora as agoas do -Maranhão achando-se sempre no mesmo estado, são por tanto incorruptiveis -e optimas. As agoas da Europa são pelo contrario ora quentes, ora frias, -e por conseguinte corrompidas e más. - -Não são frias como as da Europa as fontes do Maranhão, porque sendo -baixas as terras do Brazil não póde operar-se a anteperistase em suas -entranhas, especialmente pela proximidade do sól, que penetra muito bem e -com todo o vigor na terra, que é arenosa e mui susceptivel de calor. - -As agoas da Europa são frias no Estio por causa da grande anteperistase -das terras, d’onde cahem as agoas, que são altas, muitas vezes fortes e -densas, e por isso resistem ao sol. - -Conservam as fontes do Brazil sempre a mesma temperatura, porque o sol -derrama-se igualmente por cima d’ellas, que nada tem, que lhes possa -imprimir alguma qualidade fria. - -Entre as fontes do Maranhão umas são melhores do que outras, e tem até -côres diversas: a que nasce da terra é diversa em gosto e côr, porque -sendo a terra baixa, e havendo muitas arvores, umas com bom gosto e -outras com mau, estendem por ahi suas raizes, e d’ellas os olhos d’agoa, -ou os veios das fontes recebem qualidade boa ou má, tanto da terra como -das arvores. - -Notei n’estas fontes o seccarem umas em setembro, e outras minguarem -muito, porque sendo o terreno do Maranhão quente, secco, e arenoso -consome facilmente as agoas das chuvas, que por elle corre, e que serve -de alimento ás ditas fontes: achando-se pois os mezes de setembro, -outubro, novembro e dezembro muito longe das chuvas, é natural, que ás -fontes aconteça o que já dissemos. - -Quem quizer beber agoa muito fria, deve expol-a ao sereno, e na manhã -seguinte está tão fria como gêlo, o que não lhe succederá se n’essa -hora for buscal-a á fonte, porque sendo as noites em Maranhão muito -frias, ellas tem muito mais força sobre uma porção d’agoa guardada n’uma -vasilha, cercada de ar por todos os lados, do que sobre agoas sempre em -movimento pela corrente, contidas em leitos baixos, cobertas e sombrias -por todos os lados, e tendo a superficie apenas á vista. - -Facilmente observa-se isto na Europa, durante o inverno, nas fontes e -poços situados em lugares retirados e sombrios, pois nunca suas agoas se -gelam, ou pelo menos se esfriam. - - - - -CAPITULO XXXIX - -Singularidades de algumas arvores do Maranhão.[66] - - -As arvores do Maranhão, em sua maior parte, são duras e pesadas, porque a -solidez nas coisas mixtas provem da boa cocção da humidade. - -N’este paiz existe em igual abundancia tanto a humidade como o calor, -cada um durante a sua estação: as chuvas tem seo tempo proprio para -alagar a terra, e o calor tambem o tem para coser e digerir esta -humidade, que é nutricção dos vegetaes, especialmente das arvores, que -estendendo suas raizes dentro e fóra da terra por ahi chupam muita agoa -e sobrevindo o calor transforma a humidade em corpo solido. - -As arvores estão sempre verdejantes por successão diaria e continua de -folhas novas ás velhas, de fórma que, sahindo aquellas dos olhos dos -ramos vão logo por força propria attrahindo a seiva, ficando d’ella -privada as velhas, que por isso definham e cahem. - -Observamos isto no nosso corpo quando uma unha nova vem substituir a -velha. - -Por esta renovação de folhas conservam-se as arvores no mesmo estado, o -que não vemos na Europa porque o inverno retem no interior das arvores o -calor natural d’ellas: é necessario que cáiam as folhas antes da ausencia -do calor, ficando só a humidade, que apodrece o pé da folha em vez de lhe -dar vigor como acontecia no tempo do calor, e por tanto assim se faz a -queda das folhas. - -No Brazil acontece o contrario porque vivendo o calor e a humidade em -boa e perpetua companhia, novas folhas nascem ao mesmo tempo que as -velhas cahem: geralmente, em todas as coisas notam-se tres estados: 1.º -Crescer. 2.º Permanecer. 3.º Decrescer e assim sempre até morrer: eis o -que observamos nas folhas—teem tempo para crescerem, ficarem perfeitas, e -depois irem definhando até cahirem seccas. - -Entre estas arvores merecem especial menção em primeiro lugar os -_mangues_, arvores, que crescem nas barreiras do mar, e espalham -seos ramos, e fibras sobre as areias do mar, ou entre as pedras que -cobrem o limo, ahi se fortificam, engrossam, e chegando ao seo estado -completo, começam elles mesmos a deitar novas fibras, que tem igual -desenvolvimento, e assim se reproduzem infinitamente, não pelas raizes, -como as outras arvores, e sim pelos seos ramos. - -Não sei o que mais admirar, si a successão perpetua de pae a filho, ou a -geração inteiramente diversa das outras arvores. - -A razão, porque assim produzem estas arvores, provém de serem altas, -pesadas e em seo principio finas e delgadas para a raiz, e grossas no -centro: se nasciam da raiz de seo pae, nunca poderiam subir por causa da -fraqueza e delicadesa de seo pé, da grossura e peso do seo meio, e assim -ficam deitadas e rastejando pela areia, a que deo a natureza o encargo -de dar dois nascimentos; um do ramo de seo pae, onde ficam perpetuamente -encorporadas e por conseguinte bem sustentadas, outro da origem da -enseiada do mar, na qual ellas aprofundam e estendem suas raizes, e d’ahi -extrahem segunda nutrição, e assim sustentadas e nutridas por cima e por -baixo com facilidade crescem. - -Notae de passagem esta bella particularidade de terem dois nascimentos e -duas nutrições: a primeira de cima consubstancial com o seo gerador, que -com elle faz uma mesma essencia, sendo gerado, sahido d’elle, e sempre -com elle e inseparavelmente vivendo de sua nutrição. O segundo nascimento -e nutrição é debaixo do seio da areia do mar, nutrindo-se do mesmo mar, -chamando para cima esta nutrição para unil-a com a que recebe de seo Pae: -por estas duas nutrições cresce, estende seos ramos, dos quaes, de novo, -por outro nascimento produz seos fios, que adquirem raizes dentro do -mesmo mar, que o produz. - -D’esta comparação eu me servia para fazer comprehender aos selvagens -o Mysterio da Encarnação do Filho de Deos dizendo ter elle dois -nascimentos, um de cima, eterno e divino, sahindo de seo Pae sem d’elle -sahir, distincto de seo pae por hypostase como o ramo de mangue, com o -filho gerado d’elle, unico comtudo na essencia e na substancia com seo -gerador, como a fibra com seo ramo, vivendo de uma mesma nutrição divina -e celeste, a saber, o amor do Espirito Santo, que constitue a terceira -pessoa da Trindade: o outro nascimento é de baixo, temporal e humano, -sahido do seio da Virgem Maria, nutrido com o seo leite sagrado, foi -crescendo homem e Deos ao mesmo tempo, vivendo interiormente da nutrição -divina, e exteriormente da nutrição corporal, e quando chegou á idade -de 33 annos e meio, depois de haver communicado sua doutrina celeste aos -homens, confirmada por seos milagres, estendeo seos braços, consentindo -que fossem pregados na arvore da Cruz e do meio de suas chagas sahiram -seos escolhidos, que depois tomaram raizes na Santa Igreja, regenerados -pela agoa do baptismo, e nutridos pelos Sanctos Sacramentos. - -Diziam-me os selvagens, que comprehendiam isto muito bem e sem a menor -difficuldade, porque si Deos deo tal poder ás arvores, que não sentem, -porque não poderia elle fazer o mesmo a si? - -N’esse paiz existem arvores, que se mostram exteriormente seccas, sem -folha alguma, e comtudo quando chega o tempo proprio brotam d’ellas em -quantidade flores muito bellas e em cachopas, porem são de diversas cores -e ordinariamente amarellas. - -Encontra-se a razão d’esta particularidade no logar escolhido pela -naturesa para terminar a sua acção: por exemplo; quando é liberal dando -a qualquer membro um excesso de nutrição, é á custa dos outros: quando -estas arvores dão sua seiva para formar uma casca grossa, verdejante -e humida e cobrir de lindas folhas os seos ramos, não produzem bellas -flores, as quaes naturalmente, em todos os vegetaes, formam-se de uma -seiva bem digerida e subtil, e por tanto podendo subir facilmente até as -extremidades dos ramos, não cuidando das outras partes da arvore para -lhes dar qualquer nutrição. - -Reconheci isto em França, onde se pódam as cerejeiras para não dar -fructo, afim de com toda a sua seiva produzirem flores largas e dobradas, -como rosas almiscaradas duplas. - -Tambem existem outras arvores, que fecham suas folhas, e as dobram -sobre si, quando o sol está no seo occaso, e apenas se levanta ellas -desdobram-se e expandem, como acontece em França, ao Girasol. - -Este phenomeno é devido á humidade ou sereno na noite, que as aperta e -fecha porque o frio tem essa qualidade, e o calor do dia as abre e as -expande por ter essa propriedade. - -Com bastante difficuldade pude deparar com as razões naturaes de muitas -singularidades, que vi em Maranhão, porem confesso com franqueza, que -nunca achei a causa natural: certas arvores d’aquelle paiz, apenas se -toca com a mão o seo tronco, immediatamente fecham todas as suas folhas: -por certo haverá n’estas arvores alguma propriedade sensitiva, como ha -na esponja, a qual apenas sente a mão do homem, que a pretende cortar, -ella se aperta, e occulta-se no concavo e na fenda da pedra do mar, que a -forma. - -Os cajueiros, que produzem uma fructa propria para fazer vinho, nascem -espontaneamente pela costa do mar, e por isso vivem da seiva maritima e -salgada, resultando d’isto ser o vinho de cajú picante e acre, e produzir -no futuro dores nos rins, e ser prejudicial aos pulmões. - -Por experiencia coei este vinho, e d’elle tirei muito sal. - -Ha espinhos, que dirieis serem creados por Deos para representar o -mysterio da paixão de Jesus Christo,[67] porque crescem formando -ramilhetes quatro em cima, equidistantes á maneira de uma Cruz, e um no -cume com a ponta virada para o Ceo, ornado de nove folhas, dispostas -como tres raminhos, cada um com tres espinhos, que em tempo proprio se -transformam em tres flores, ficando o espinho maior no centro. - -São estes cinco espinhos os instrumentos das cinco chagas de -Jesus-Christo. Cercando a corôa de espinhos seo Chefe, como o espinho -de cima é cercado de folhas, isto é, de peccados e de vaidades das tres -idades do mundo, na lei da natureza, escripta e de fé, cujos peccados e -imperfeições se transformam, pelo merecimento do sangue de Jesus Christo, -em flores da Graça, em boas obras, e na recompensa da gloria. - - - - -CAPITULO XL - -Dos peixes, passaros e lagartos, que se encontram n’esses paizes. - - -Eis uma questão não pequena, de phisica ou de philosophia natural—«como -pode um animal, vivo e perfeito na sua especie, formar-se sem -progenitores.» - -Alberto, o grande escriptor, vio peixes vivos no meio de uma grande pedra -marmore, tirada da rocha, e rachada no centro. - -Não é novidade para os que leram este autor, porque eu vi em Maranhão, -nos regatos formados pelas chuvas, e que pouco duram, muito bons peixes, -iguaes em tamanho e côr aos que vivem em rios permanentes, e que nascem -de ovas. - -Como é possivel, que sem haver ovas, possam estes peixes nascer, crescer -e morrer, com a queda, augmento e ausencia das chuvas? - -A razão d’isto está na força e influencia dos planetas predominantes em -janeiro e fevereiro, quando nascem estes peixes, e na conjuncção forte -da humidade e do calor e na disposição do terreno, tudo isto combinado -de tal forma, que dá origem a taes e taes peixes de preferencia aqui do -que em qualquer outra parte; como vemos na Europa em que a diversidade -das terras, por onde passam as chuvas, produz differentes variedades de -peixes. - -Entre os passaros do Maranhão, dos quaes eu diria maravilhas, si outros -ja o não tivessem feito, notei uma especie singular de aves aquaticas -vermelhas,[68] cuja penna e carne são de côr escarlate, dando-se a -particularidade de serem brancas quando sahem do ovo, depois com o tempo, -quando podem vôar; são pretos, e assim ficam até chegarem a sua grandesa -e grossura natural, d’ahi vão se tornando meio pardos e meio vermelhos, e -finalmente totalmente rubros, passando assim por quatro mudanças. - -Não digo isto por ouvir dizer, porem observei nos que se criam em casa -presos. Este phenomeno não se dá sem uma razão profunda, e fundada na -naturesa, e me parece ser esta: a côr da pelle e das pennas é devida -á disposição e qualidade do alimento, que nutre a ave, porque diz o -philosopho, a pelle e as pennas nascem, crescem e se nutrem com a -superfluidade dos alimentos: ora a côr branca faz suppor alimentação -leve e delicada, e por isso a avesinha ao sahir da casca do ovo, vivendo -somente á custa de moscas e mosquitos, que vôam ao redor d’elle, é -natural que suas plumas, originadas de tão fraca comida, tenham a côr -branca. - -A côr negra porem faz crer em abundancia e superfluidade de alimentação, -porque a intensidade do calor natural vae sempre excitando o apetite, e -empurrando-o para o pasto e por isso notei, que quando esta ave tem as -pennas pretas é glutão e come constantemente. - -A côr parda e meia vermelha mostra uma tendencia, ou uma regra, nascida -expontaneamente da naturesa para acolher uma certa alimentação, que -lhe é propria, e então observei escolher esta ave uma comida singular -e especial, isto é—os carangueijos, os quaes consummidos no estomago, -ahi se transformam em chylo vermelho como escarlate, e este cahindo no -figado, se d’elle não receber alguma côr, como acontece com os outros -animaes, tinge-o com sua côr, e sempre assim passa para as veias, das -veias para a carne, da carne para as pennas, e tão perfeitamente, que si -fosse um mettido dentro de uma panella para cozinhar, podia dizer-se que -havia dentro uma porção de vermelhão. - -Entre milhares de lagartos e reptis do mar, appliquei minha attenção para -uma especie bem monstruosa. - -É um animal que vive umas vezes n’agoa, outras em terra, e tambem nas -arvores, contendo em si as tres espheras com que vivem todos os animaes -do mundo. - -Com os peixes partilha o elemento d’agoa, com os homens e os quadrupedes -o da terra, e com os passaros aninha-se e repousa nas arvores. Direi -ainda que só parece terem os astros lhe dado sobre os rins, desde a -cabeça até o fim da cauda um reflexo de seos raios e brilhos, porque -notareis no dorso uma bella facha de raios do sol e das estrellas, -similhantes aos que fazem os nossos pintores ao redor do globo do sol e -das estrellas. - -Tem a pelle esmaltada de côr prateiada e azulada, como a abobada celeste -quando serena. - -Quando este animal sente a intensidade do Sol, sahe do mar, sobe ás -arvores visinhas, e escolhendo um ramo para deitar-se, ahi se estende e -descança. - -Põe seos ovos nas arvores maritimas, os quaes aquecidos pelo calor do -Sol deixam sahir os lagartinhos, que apenas sahem das cascas dos ovos -conhecem logo o pae e a mãe, acompanham-no ao pasto no mar, em terra e -nas arvores. - -Explico a rasão d’isto dizendo que quanto mais humido é o animal, mais -somnolento é elle. Entre todas as especies de animaes esta sorte de -lagartos é humida e fria, e por tanto sujeita ao dormir, e como seja -mais agradavel o somno quando se tem os membros em certo grau de calor, -eis por que elles buscam soalheiros. Reconhecendo pequeno o seo calor -natural, eis porque põem seos ovos em lugar expostos aos raios do Sol. - - - - -CAPITULO XLI - -Da pesca do Piry. - - -Os selvagens do _Maranhão_, de _Tapuitapera_, e de _Comã_ tem uma -pescaria certa e annual, como annualmente a do bacalhau nos Bancos da -Terra Nova. - -Alguns mezes depois das chuvas, quando julgam as agoas escoadas, muitos -embarcam em suas canoas, levando farinha para alguns mezes ou seis -semanas, e assim vão costeando a terra á um lugar distante da Ilha 40 ou -mais legoas: ahi se arrancham, levantam choupanas, e depois dedicam-se a -pescaria, a caça dos crocodillos, e á procura das tartarugas. - -Ahi se reunem muitos selvagens de diversas aldeias da Ilha, de -Tapuitapera, e de Comã. - -Apanham-se os peixes nas pôças, ou buracos de areia com pouca agoa, e -quando se vae um pouco mais tarde, coagido pela estação, encontram-se -essas pôças seccas e o peixe morto. - -Sendo impossivel dizer-se o numero ou a quantidade d’estes peixes, faço -porem comprehendel-a asseverando, que chega para carregar todos os -selvagens, e ainda fica muitissimo. São grossos e curtos, não excedem -porem a grossura e expessura de um braço, tem de comprimento meio pé -entre a cauda e a cabeça, o focinho achatado e muito similhante ao do -tenca, e parecem-se muito com os peixes maritimos chamados _marujos -pintados_. - -Apanhados nas redes, que levam, chamadas _pussars_, seguram-nas pelo meio -dose a dose, lançam-nos com entranhas e tudo ao fumeiro para assal-os, -e assim ajuntam muitos, que levam para suas casas, e com esta comida -sustentam-se um ou dois mezes. Quando querem comer, tiram a pelle do -peixe, seccam-na ao sol, pisam-na em um almofariz, reduzem-na á pó, com -que fazem seos _mingaus_, isto é, suas bebidas, como fazem os turcos com -o pó dos quartos de boi cozidos ao forno quando vão para a guerra. - -Dirigindo-me um dia para a Ilha, achei-me em certa aldeia, onde nada -tendo que dar-me para jantar, ferveram alguns d’estes peixes n’uma -panella, do caldo fizeram _mingau_, vindo o resto no prato. - -Bem contra minha vontade de nada me servi por causa do mau gosto da -fumaça, porem com muito apetite comeram de tudo os francezes, que vinham -commigo, achando saborosos os peixes, com grande satisfação dos indios, -que os apreciam tanto á ponto de irem muito longe buscal-os. - -Como se acham em tanta abundancia estes peixes em taes fóssos ou poços -desde o inverno até esse tempo? Se explicações servem ja as dei no cap. -40, e por isso á ellas me refiro, acrescentando ainda o seguinte. - -A grande quantidade de chuva faz transbordar os rios, os regatos, e o -proprio mar, de maneira que todos estes campos ficam innundados até -a altura de um homem: assim sahem os peixes do lugar natural, onde -habitavam, ahi regalam-se com pastos novos a ponto de não se lembrarem de -regressar a Patria, e por isso quando as agoas se abaixam, ficam presos -em fóssos e poços como vimos em todos os lugares onde se dão estes factos. - -A caça dos jacarés lhes é util e agradavel: são pequenos crocodillos com -8 ou 10 pés de comprimento, de pelle dura, ventre molle, sem lingua, com -olhos vivos, sempre alerta e maus: accommettem o homem, cortam e devoram -o primeiro membro que agarram. - -Escondem-se em grotas, á margem dos rios, e sempre de emboscada, nadam -como peixes, arrastam-se ligeira e brandamente, abrem a bocca, e como que -intentam assustar-vos si vos encontram: põem ovos iguaes aos de galinha, -porem cobertos de protuberancias, como as castanhas; dizem que são bons -para comer, mas eu não affianço porque nunca os provei, pois sempre tive -muito horror á estes bixos. - -Chocam seos ovos, e d’elles sahem jacarésinhos, gordos, grandes e -compridos, como os lagartos que vemos pelo estio correr nos muros. - -É para admirar, que de tão pequeno bixo origine-se tão grande animal, e -que apenas sahido da casca do ovo começa a andar e arrastar-se! - -Sua carne cheira a almiscar, é doce e desagradavel: os selvagens porem -não fazem caso d’isto, apreciam-na muito quando a encontram, e por isso -empregam-se muito em caçal-os. - -O logar _Piry_, humido e cheio de limo, tem muitos jacarés, que são -perseguidos pelos selvagens por meio de flechas, atiradas com direcção -á garganta ou á barriga, e depois acabam-nos com uma barra de ferro, -escamam-nos, e cortam-nos em pedaços, que assam. - -Si são pequenos, cozinham-nos com escamas, e assim preparados acham-nos -muito bons e até delicados, porque assados com sua gordura, dizem elles, -nada perdem de sua substancia. - -Achei melhor crer do que experimentar, embora tivesse muitas occasiões -de o fazer, visto que recebi muitos presentes d’elles quando voltaram os -selvagens do _Piry_. - -A recordação somente d’estes animaes me fazia nauseas até o coração, á -vista d’esses pedaços. - -Diziam os francezes, que o comeram, ser similhante a carne fresca de -porco, um pouco mais adocicada, oleosa, e com o cheiro de almiscar. - -He muito perigoso tomar-se banho n’esse paiz, a não ser em logar -descoberto, porque estes despresiveis animaes se arrastam de mansinho e -se atiram sobre vós. - -Contaram-me, que um menino, da aldeia de _Rasaiup_, cahindo n’um riacho, -onde hia buscar agoa, foi agarrado e devorado pelos jacarés. - -Quando andei pelas costas do mar, desde _Trou_ até _Rasaiup_, em -companhia de muitos selvagens, elles me levaram para beber agoa n’uma -grota cheia de sarças e outras mattas, e me advirtiram, que ahi ninguem -se podia demorar muito por ser o escondrijo dos jacarés. - -Fazem-lhes muita guerra os nossos selvagens, por gosto e utilidade, e -trazem grande provisão d’elles quando voltam do Piry. - -A razão de não terem lingua, estes animaes é porque segundo creio, tem a -garganta e o pescoço, inteiramente inflexiveis, a ponto de não poderem -olhar nem para traz nem para o lado sem moverem o corpo todo: alem -disso, elles tem o maxillar inferior duro e immovel, tudo isto contrario -ao uso da lingua, e só mastigam com o maxillar superior. - -Eis porque agarram e devoram a presa de um só jacto, não precisando -viral-a e reviral-a da garganta. - -Disse S. Gregorio, que os crocodillos do Nilo chegavam a ter até o -comprimento de 20 covados, a cor de açafrão, porem os do Maranhão e de -suas circumvisinhanças não iam alem, como ja disse, de 10 ou 12 pés, com -a differença tambem de habitarem aquelles, durante a noite, a agoa, e de -dia a terra, porque busca o calor, visto serem no Egypto á noite as agoas -quentes e a terra fria, e de dia vice-versa. - -No Maranhão acontece o contrario: de noite ficam em terra, e de dia -n’agoa, porque as agoas são frias á noite e quentes de dia, e a terra -temperada. - -A razão, porque este animal tem medo dos que o perseguem, e é atrevido -contra os que fogem d’elle, é porque facilmente atira-se sobre este, e só -com muita difficuldade se defende d’aquelles, sendo este procedimento o -resultado de sua naturesa timida e assustada. - -Tem só um intestino, porque não faz a primeira digestão nas carnes -cortadas em bocadinhos. - -Temem mais os selvagens que os francezes, e os do Nilo receiam mais -os egypcios do que os estrangeiros, o que explica Solinus dizendo -reconhecerem elles naturalmente pelo cheiro os que o guerreiam -constantemente. - -Disse um phisiologista, que quando elle devora alguem, chora a sua -desgraça: não sei si será verdade.[69] - -Alem d’estes exercicios, no Piry perseguem os selvagens as tartarugas, -ahi em quantidade incrivel, e trazem-nas vivas tantas quantas podem. - -Não são avarentos, antes sim por poucos generos alcançareis muitas. - -Lembro-me, que passando algumas canoas pela nossa situação de São -Francisco, por uma faquinha de custo de um soldo na França, deram-me -setenta, e pela farinha, que lhes offereci para jantar, mimosearam-me com -vinte e cinco, que guardei em lugar humido e fresco, deitando-lhes todos -os dias um pouco d’agoa, e assim se conserváram sem comer por mais de -seis semanas. - -Os selvagens comem-nas com muito gosto, e dizem que ellas lhes conservam -a saude, e lhes fazem bom estomago. - -Cozinham-nas em seos cascos inteirinhas, sem tirar-lhes as entranhas, e -nós as achamos assim preparadas muito melhores do que de outra fórma. - -Si algum d’elles soffre dos ouvidos por algum defluxo tiram as mulheres -o sangue d’estes reptis, misturam-no com o leite tirado de suas mamas, e -com isto friccionam o fundo da orelha. - -Quando arrancam o cabello dos seos corpos, com pinças de ferro, que lhes -dão os francezes, esfregam a pelle com... - - (falta uma folha). - - - - -CAPITULO XLIII - -Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas. - - -Ha outra caçada de um verme, tão divertida e agradavel como as -precedentes, é a dos ratos domesticos e selvagens. - -Não comem os domesticos, ao menos que eu saiba, porem caçam-nos -cruelmente; porque si entra um rato em qualquer casa, reunem-se todos os -habitantes, uns com arcos, e outros com flechas e paus, e com o auxilio -tambem de alguns cães não escapa o pobre rato. - -Depois de morto é espetado na ponta de uma vara, fincada no meio da -aldeia, para servir de alvo ao exercicio das flexas dos meninos. - -As aldeias mais proximas dos portos, onde chegam navios, tem mais ratos, -porque apenas sentem a terra, atiram-se as ondas, nadam, trocando assim -o seo paiz natal, que é o mar, para ficar n’um paiz mais firme e seguro, -que é a terra. - -Comem os ratos selvagens, que vivem nos bosques e no dizer d’elles é -comida deliciosa. - -Caçam-nos assim: cavam um buraco no meio de um certo lugar no matto, -fazem varias entradas, similhantes ás coelheiras, ou terreiros de -coelhos: reunem-se depois muitos sujeitos, armados de paus, e vão fazer -grande alarido ao redor d’esse fosso, como se costuma fazer nas caçadas -dos lobos. - -Batem as mattas, e d’ellas fazem sahir os ratos, e elles fugindo, e -encontrando esses buracos tão proprios para se occultarem, ahi entram, -e então aproximando-se os selvagens, toma cada um conta do seo buraco, -e entrando outros dentro do fosso, á cacete matam os ratos, dividem-nos -igualmente, e regressam para a aldeia trazendo cada um o que lhe tocou. - -Assam os ratos ao fumeiro ou sobre carvões, abrem-nos por diante sem -lhes tirar a pelle, a qual fazem tostar depois que o animal está cozido -por dentro, para não perder a gordura, e depois os guardam dentro de uma -porção de farinha. - -São estes ratos assim preparados, guardadas as proporções, mais -apreciados do que os javalys e os viados, e as vezes trazem os selvagens -quantidade incrivel d’elles. - -Caçam as formigas em tempo de chuva, por ser a epocha propria d’ellas -mudarem de habitação. - -As que podem vôar buscam a região do ar, deixando suas casas, feitas e -cavadas na terra. - -As outras, si por instincto natural desconfiam, que podem as agoas -invadir suas grutas, e estragar seos armazens, celleiros, ou dispensa, -pegam na bagagem, com ordem digna de ser mencionada, e auxiliadas com a -experiencia, como vou contar para servir de modello a todas as outras. - -Na nossa casa de S. Francisco, no principio das chuvas um milhar de -milhões de formigas sahio de uma caverna, perto d’ahi, e veio tomar posse -de um canto do meo quarto, onde cavou camaras, ante-camaras e celleiros. - -N’uma bella manhã sahiram todas, e trouxeram um alqueire, talvez, de -ovos, indo em diversas estações, isto é, em distancia de 2 passos uma da -outra. - -Cada acervo trazia suas formigas em ordem, vindo descarregar cada uma o -que trazia no montão proximo, e assim iam fazendo os outros acervos ou -companhias. - -Admirei-me de vêr tantas formigas, e tantos ovos, que deitavam mau cheiro. - -Mandei fazer bom fogo, e atirar sobre estes ovos, e no caminho por onde -passavam estes animaes. - -Puzeram-se em alarme, e cada uma buscou salvar os ovos que poude, como -fez Eneas á Anchises, seo pae na destruição de Troya. - -Não fui tão bem succedido, porque regressaram ao lugar que haviam -escolhido, não pensando talvez, que me incommodassem, o que assim não -aconteceo, porque reunindo-se todas por espaço de 2 dias, deliberaram ir -a pilhagem fóra do quarto, mostrando-se contentes com a habitação, que -bem a meo pesar lhes dei. - -Causar-vos-hia satisfação vendo estes animaesinhos, desde o amanhecer -até ao anoitecer, fazer suas provisões, que são as folhas de uma certa -arvore, em cujos ramos, como presenciei, estavam muitas para cortal-as e -deixal-as cahir em terra, onde cada formiga pegava no que podia e levava -para os armazens. - -Tinham aberto dois caminhos, muito bons para o seo tamanho: por um iam as -carregadas, e por outro as desembaraçadas, evitando assim a confusão e -a mistura, embora fossem mais de quatrocentas as carregadeiras. O mesmo -fazem as outras especies de formigas. - -É para admirar-se tambem a especie de abobadas, que com admiravel -industria fazem quando querem caminhar abrigadas. - -Caçam os selvagens somente as formigas grossas como o dedo pollegar, -para o que aballa-se uma aldeia inteira de homens, mulheres, rapazes e -raparigas. - -A primeira vez que vi esta caçada, não sabia o que era, e nem onde -hia tão apressada tanta gente deixando suas casas para correr após as -formigas voadoras, as quaes agarram mettem-nas n’uma cabaça, tiram-lhes -as azas para frital-as e comel-as. - -Caçam-nas tambem por outra maneira, e são as raparigas e as mulheres que, -sentando-se na bocca da caverna, convidam-nas a sahir[70] por meio de uma -pequena cantoria, assim traduzida pelo meo interprete. - -«Vinde, minha amiga, vinde vêr a mulher formosa, ella vos dará avelans.» - -Repetiam isto á medida que iam sahindo, e que iam sendo agarradas, -tirando-se-lhes as azas e os pés. - -Quando eram duas as mulheres, cantava uma e depois outra, e as formigas -que então sahiam, eram da cantora. - -Causa admiração vendo-se os grandes pedaços de terra, que tiram de suas -cavernas. - -No tempo das chuvas tapam os buracos do lado das enchurradas, e deixam -somente aquelles, por onde pode vir a chuva raras vezes. - -As formigas do Maranhão tem dois inimigos encarniçados, especialmente -estas alladas: um—certa especie de cães selvagens,[71] com pello de -lobo, fedorentos o mais que é possivel, focinho e lingua muito aguda, -e que procura o formigueiro para alimentar-se: outro, uma qualidade de -formigas corpulentas, que de ordinario nascem com as outras, como o -zangão entre as abelhas, e em quanto são pequenas e fracas, trabalham -conjuntamente sem fazerem barulho, e nem se offenderem. - -Quando grandes e fortes deixam as outras, fazem bando á parte, só e só, -não vivem mais em companhia, e põem se de embuscada pelo caminho, onde -costumam passar suas irmãs e parentas, como fez antigamente Abimelech, -bastardo de Gedeon, sobre os 70 filhos legitimos de seo pae, seos -proprios irmãos, os quaes matou todos sobre uma pedra em Ephra. - -Sirva d’isto ao leitor para applicar como julgar acertado. - -Eis como os nossos selvagens se distrahem mais utilmente com estes -animaes, do que os nossos rapazes com as borboletas: de tudo se -aproveitam e nada perdem, reunindo o util ao agradavel. - -Vejamos o resto. - -A caça dos lagartos, chamados pelos _Tupinambás_—_Tarure_ (os grandes) e -_Toju_ (os pequenos,) é feita por diverso modo,[72] conforme são da terra -ou do mar. - -Os maritimos habitam ordinariamente as praias cobertas de mangues, onde, -duas vezes dentro do espaço de 24 horas, entra o mar. - -Ahi nutrem-se de carangueijos, de mexilhões, e de camarões, vulgarmente -chamados em França—lagostins, e de peixes, que apanham na enchente. - -Poem seos ovos nos concavos das arvores. - -Os selvagens caçam-nos e flecham-nos na vasante; enterrando-se pelo -tujuco. - -Para comida servem tanto como os coelhos, ou uma grande lebre, conforme o -tamanho do animal. - -Fervem-nos para fazer mingau, ou assam-nos ao fumeiro. - -Os francezes assam-nos ao espeto, bem untado de gordura de peixe-boi, e a -primeira vista pensareis que são coelhos ou lebres espetadas. - -O guisado, que d’elles se faz, é muito parecido com o das lebres e -coelhos, e muitos francezes gostam mais d’elles do que os nossos coelhos. - -Eu antes quero crêr do que provar. - -A caça dos lagartos terrestres é mais de meninos que de homens, embora -tenha visto alguns homens atraz delles, como os meninos, e até 20 -selvagens, homens e rapazes, atraz de trez lagartos. - -Apenas os pilham, assam-nos, e toma cada um a parte, que lhe pertence e -acham-na muito boa. - -Os rapazes apenas os veem correr pela casa, nas paredes ou nas arvores, -flecham-nos, porem escolhem os maiores por que tem mais que comer: alguns -tem o comprimento de um braço e a mesma largura. - -Ha outros vermes, que não sahem das arvores, deitados sobre folhas, -expostos ao sol: dizem os selvagens que são venenosos, e por isso os -deixam: não se assustam com a vossa presença, si não os perseguirdes. - -Parecem-se com os camaleões, de que ainda fallarei, tem brilho nos olhos, -e a côr de escarlate. - -Costumam estes lagartos domesticos á juntarem-se e unirem-se em forma -de bolla, de tal maneira que a cauda do macho toca a cabeça da femea, e -reciprocamente, e assim todos curvados, tocam-se as duas cabeças e as -duas caudas. - -Tive medo quando vi isto pela primeira vez, porque não sabia o que seria, -e nem si era alguma especie de serpente, com quatro olhos, e um só corpo -enrolado. - -Os lagartos femeas são mais grossos do que os machos. - -Os pequenos lagartos poem ovos, de cinco até sete cada um do tamanho da -cabeça do dedo minimo, n’um buraco, que cobrem de areia, fazendo o resto -o calôr do sol. - -Os lagartos grandes põem ovos maiores, á proporção do seo corpo, e -ordinariamente fazem ninhos nos tectos das casas, nos bosques, e para ahi -levam tudo o que acham ser molle, como sejam musgos, pennas, algodão, -farrapos, e frequentam muito a casa si não lhes fazem mal. - -Fazem tanto barulho como um cão, quando caminham e conduzem na bocca o -que acham, e é um prazer vel-os em tal lida. - -Não fazem caminho direito quando construem seo ninho, e antes usam de -muitos rodeios para não serem descobertos. - -O sol chóca e faz abrir seos ovos, porque são muito frios e não tem calor -proprio para isso. - -São caçados por cobras grandes e horriveis, umas brancas como agoa, -outras de côr de violeta, e finalmente algumas manchadas de diversas -côres. - -Invadem até as casas para nos tectos caçarem estes lagartos, que apenas -as presentem ao longe, fogem como se a casa tivesse pegado fogo. - -Mandei matar tres cobras d’estas n’um domingo, quando eu e meos -companheiros fomos dizer missa na capella de S. Francisco, onde as -achamos perseguindo os lagartos grandes, dos quaes já tinham matado -muitos. - -Pagaram tal temeridade levando cada uma mais de cincoenta cacetadas, e -ainda se salvariam, si eu não as mandasse cortar em pedaços, que viveram -e remecheram-se por mais de 24 horas procurando reunirem-se o que não -conseguiram por estarem distantes umas das outras, talvez por quatro ou -cinco passos. - -Os selvagens tem muito horror d’estes lagartos, e dizem ser venenosos. - -Os lagartos, quando velhos, perdem sua cauda, que fica negra, e por isso -mesmo é fragil como vidro, e quebra-se por qualquer causa. - -Não creio, que ellas renasçam, embora o affirme Aristoteles. - -Fundo-me no que observei n’um lagarto grande, que estava na nossa -casa de S. Francisco, onde se conservou por dois annos sem cauda, -vindo diariamente comer em nossa presença, com as galinhas com que se -familiarisou. - -Dizem, e os francezes o asseveram por experiencia, que ha uma especie de -lagartos grandes que apanham os frangos, e levam-nos para o matto, onde -vão comel-os. - - - - -CAPITULO XLIV - -Das aranhas, cigarras e mosquitos. - - -A vida do homem é comparada com a da aranha em muitos lugares da -Escriptura Santa, especialmente no Psal. 89. _Anni nostri sicut Aranea -meditabuntur_ «nossos annos se passaram, serão contados e meditados como -os da Aranha.» - -Escreveo S. Isidoro, que a aranha é um verme do elemento do ar, n’elle -nutrido, d’onde se deriva a etymologia do seo nome, nunca descança, -sempre trabalha, de si tira com que formar sua teia, sempre em perigo por -se achar ella, seos bens, e suas riquezas, suspensas n’um fio, mercê do -menor sopro de vento, ou do capricho de um criado ou de uma camareira, -que com um espanador destrua todo o trabalho. - -Quereis mais bello espelho para considerar as desgraças e miserias d’esta -vida? - -Não perderei tempo referindo o que se sabe acerca da naturesa d’este -verme, e apenas contarei o que achei de curioso e especial nas formigas -do Maranhão, e antes de entrar na materia fallarei d’uma especie do -tamanho de um punho de braço, e as vezes até maior. - -Encontram-se ordinariamente no tronco das arvores, proximas ás casas, -nas estacas, nos cantos, caminham pouco, não tem teias, muito venenosas, -vermelhas quasi da côr de borrachos quando sahem do ovo, coisa horrivel e -feia! - -Fogem d’ellas os Indios, e julgam mortifera a sua picada. Nutrem-se da -corrupção do ar. - -Existem outras de diversas especies, maiores e menores, e todas -domesticadas, e nos mattos encontram-se grandes, menores, e pequenas. - -Em todo o tempo produzem e especialmente no inverno. - -Com a frescura da noite juntam-se: deixa o macho a sua teia para se unir -com o seo fio á teia da femea, si ella está collocada em lugar mais -baixo: si porem a teia da femea é superior á do macho desce ella, vem -procural-o, e assim si juntam. - -É muito facil de vêr-se, pois o praticam todos os dias, no fim da tarde. - -O macho é pequeno, e a femea é tres vezes maior do que elle. - -Fazem uma pequena bolça, redonda e chata, muito bem feita e tecida, -parecendo-se com setim branco e a similhança de um breve de _Agnus Dei_. - -N’ella deixam apenas um buraquinho, por onde com o pé introduzem os ovos. - -Quando está fechada a bolça tapam o buraquinho, e carregam-na junto -ao ventre e estomago, aquecendo-a por esta fórma, e quando presentem -estar os filhos em estado de sahir, rasgam a bolça ao redor, como se -faz com a casca da fava, sahem logo, correm pela teia da mãe, e a noite -agasalham-se debaixo da mãe, como fazem os pintos com as gallinhas afim -de resguardarem-se do frio da noite. - -Quando tem forças, cada uma faz a sua teia, e por sua industria cuida de -si. - -Ha outras, que fazem pequenos pucaros de barro, do tamanho e feitio de -uma ameixa de dama, tão bem feitos, quanto é possivel, por dentro e por -fóra, o que tambem fazem certas especies de moscas, de que ainda fallarei. - -São as boccas d’estes potes proporcionaes aos seos tamanhos, com um -buraco tão pequeno, em que cabe apenas um alfinete, por onde sahem os -ovos para serem aquecidos pelo Sol. - -Este pucaro costuma estar junto a uma arvore, ou n’uma folha de palmeira, -e a terra de que é feito, muito se parece com a de _Beauvais_. - -Enchem o pucaro de ovos, tapam no, e quando as mães julgam ja terem os -filhos sahido da casca, destapam o buraco, e então sahem as aranhasinhas -e acompanham-nas. - -As aranhas dos mattos procedem de outro modo: roem as amendoas das nozes -das palmeiras espinhosas, pouco a pouco e deitam fora tudo por meio de -tres buracos naturaes, que tem estes fructos: depois ahi dentro fazem -seus ninhos e depositam seos ovos. - -São differentes as teias destas aranhas quanto a sua posição por ellas -escolhidas. - -As domesticadas armam suas teias nas rachas e entradas dos buracos, afim -de agarrarem moscas e mosquitos. - -Umas estendem suas teias nas arvores, de um ramo a outro, e de um arbusto -a outro para agarrarem borboletas e outros bichinhos iguaes: outras tecem -as teias por cima da terra para pilharem vermes, como sejam formigas e -outros iguaes. - -Algumas fazem teias tão fortes, que até n’ellas cahem lagartinhas, e -então descem as aranhas, matam-nas por meio de um aguilhão, que tem em -si, e depois chupam-lhe os miolos e o sangue, e só quando se fartam, é -que as deixam. - -Vi aranhas do mar, muito parecidas com as de terra porem maiores.[73] -Habitam em buracos nas praias, e alimentam-se de peixinhos. - -Dizem que chupam o sangue e o humor das cobras, iguaes as que mandei -cortar em pedaços, e asseveram os selvagens, que se morderem a cabeça -d’algum individuo, ficará louco. No Maranhão, como em parte alguma, tem -muitas cigarras,[74] que fazem em tempo proprio um barulho infernal, como -eu não acreditaria si não ouvisse: ha de diversas variedades, tamanhos e -cantos. - -São umas grossas, tem seis pollegadas de comprimento, e voz forte e -alta a ponto de ferir-vos vivamente os ouvidos. Não cantam no inverno, -e sim no estio, e quando se aproximam as chuvas gritam tanto a ponto de -estalarem pelos lados, como me contaram os selvagens, sendo isto causado -pelo bater das azas quando si esforçam e se incham para dar mais harmonia -á voz. - -Estudei os usos e costumes destes animaes em alguns, que conservei entre -folhas na nossa casa. - -Reconheci ser seo canto devido a tres coisas. - -1.ª Engolem o ar, enchem o ventre, entumecem-se bem para estenderem bem -os lados, e ficarem sonoras. Ha grande accordo entre a extensão dos -lados, e as azas, por meio das quaes forma-se o som, que claramente se vê -tomarem ellas folego quando erguem as azas, e quando abaixam, estendem e -dilatam os flancos. - -2.ª As azas são mui finas e diaphanas, e por tanto proprias para formar o -som por serem muito seccas. - -3.ª As azas de cima sendo fortes e massiças, tocando e batendo as azas do -meio contra os lados e com auxilio do ar, forma o som. - -Vou fazer-vos comprehender isto por meio de comparações vulgares. - -N’uma cithara ha tres coisas para produzir harmonia—as costas onde fica -o ar, que entra pela rosa do meio, as cordas tesas, limpas, seccas e bem -collocadas, e a mão do tocador: assim tem estes animaesinhos as costas e -as ilhargas cheias de ar, que entrou pela bocca, as segundas azas são as -cordas, e as grossas a mão do tocador. - -Cantam no estio desde o nascer do sol até meia noite ou duas horas -depois, e se callam por causa do orvalho, que começa a cahir com frio, e -assim ficam até que appareça o sol e com seos raios extinga as gottas de -orvalho, que cahiram nas folhas, e então vem ellas aquecer suas azas. - -Em quanto guardam silencio, é minha opinião, que ellas se nutrem com o -mesmo orvalho, e não digo isto sem causa pois quasi sempre ficam no mesmo -logar, e quando sentem algum movimento voam para outra folha. - -Algumas d’ellas, especialmente as todas verdes, não tem voz, arrastam-se -pela terra como os gafanhotos, juntam-se como as moscas, põem em setembro -ovinhos negros nos buracos dos ramos das arvores, nos quaes se formam os -vermes, ao depois cigarras: vão pouco a pouco se fortificando afim de -passarem a estação invernosa, e substituirem seos paes e mães que n’esse -tempo morrem arrebentados á força de gritar como ja disse. - -Não tem sangue, ou tem muito menos que as moscas, porem são organisadas -de uma substancia porosa, secca, e ligeira. - -Matam-nas as gallinhas, porem não as comem, e quando por acaso o fazem, -enfraquecem e emmagrecem. - -Ha n’este paiz diversas especies de mosquitos, porem apenas tratarei -dos que o merecerem pelos seos principios naturaes, e são os chamados -_Maringoins_ pelos selvagens: ha de diversos tamanhos e grossura, e todos -tem a mesma forma. - -Originam-se de um humor acre, gostam dos sabores picantes e acidos, e -por isso encontram-se muito no mar e suas praias no tempo do inverno, -formados pelo humor e vapores do mar. - -Incommodam muito os homens picando-lhes a pelle com seo bico ponteagudo -como uma agulha, e sugando assim o humor salgado, que corre entre a pelle -e a carne. - -Gostam da luz porem aborrecem a chama e a fumaça, e por isso quando -anoitece, as que andam por fóra, poisam nas folhas das arvores, e os -que estão dentro de casa nos tectos, bem a seu pesar, por causa das -fogueiras, que acendem os selvagens ao redor de si, para se livrarem -d’elles. - -Nos lugares mais proximos a agoa, maior abundancia d’elles existe, visto -serem creados por agoas, como ja disse. - -São caçados pelos morcegos, que, buscando-os nos lugares onde se fixam, -involvem-nos com suas azas e depois os comem. - -São por elles muitissimo perseguidos os nossos francezes, quando vão -á pesca do peixe-boi, e para evital-os armam suas redes no ramo das -arvores, o mais alto que podem, por ahi soprarem mais o ar e o vento: si -se partissem as cordas dariam bello salto, e não deixam de emballançar-se -para afugental-os. - - - - -CAPITULO XLV - -Dos grillos, dos camaleões e das moscas. - - -De todos os animaes, que fazem companhia ao homem, no Brasil, nenhum -ha que iguale ao grillo, chamado pelos selvagens _Cuju_[75]; e por ser -tão familiar e domestico pude á vontade satisfazer minha curiosidade -estudando este animalsinho. - -Nasce da corrupção. - -Quando se faz uma casa coberta de palma fresca, apparecem n’um momento -milhões e milhares d’estes grillos ou _Cujus_. Virão dos bosques -visinhos? não pode ser; porque nas casas cobertas de palma velha não são -encontrados, logo força é confessar, que formam-se na palma nova com o -auxilio do sol. - -Notei que dois ou tres dias depois de coberta a casa, os grillos são -brancos como neve, signal de nova geração, pouco a pouco tomam a sua cor -ordinaria, amarello-negro. - -Alem d’isto originam-se tambem de ervilhas, e favas podres o que conheci -por experiencia. - -Quanto á producção do pae e da mãe provêm d’uma semente deixada nas -folhas de palma: é pegajosa e fica onde se colloca, até que d’ella por -meio de calor saia outro grillosinho. - -É ardente no seo ajuntamento, e eis porque tanto se multiplicam. - -É muito pequeno, porem astucioso, tem horas para comer e para cantar: -não deixam de procurar comida quando presentem estarem todos deitados, e -então descem do tecto e correm, por assim dizer, os cantos da casa, onde -se aproveitam de todas as migalhas e restos de comida, e se encontram -restos de carangueijo deixam tudo mais. - -Acabada a comida regressam a seos logares, onde cantam e passam o resto -da noite, e o dia tambem, se o ardor do sol o não encommodar. - -Não gostam de chuvas, e emquanto está chovendo, não cantam. - -Gostam portanto do tempo sereno e doce, sem muito calor, e sem muita -chuva. Roem muito os pannos, que encontram, e se acharem um capote de cem -escudos n’uma noite dão cabo d’elle. - -Não tocam em panno de linho á não estar elle engordurado, ou com algum -liquido, de que gostem, e por isso para conservar-se alguns vestidos, -embrulham-se n’estes pannos. - -Tem quatro inimigos capitaes. - -1.º Os lagartos, que correm apoz elles, como os cães atraz das lebres. - -É um gosto vêr as voltas e vira-voltas que dá a caça e o caçador. - -2.º Certos macaquinhos amarellos e verdes a que chamam os selvagens -_Sapaius_, vivos e ageis como um passaro; caçam com uma das mãos e na -outra guardam os grillos. - -3.º São as gallinhas, que os devoram com incrivel avidez, e para isto -voam sobre as casas, e não poucas vezes estragam a cobertura d’ellas. - -4.º São certas formigas grandes, que atacam-os nos buracos e cavernas, -onde se abrigam nas casas: distrahi-me algumas vezes vendo tão singular -combate; a formiga desce ao buraco, onde tanto faz, que o _Cuju_ sahe á -campo, ou então é puchado pelos pés, e muitas vezes prefere a morte á -perder suas pernas posteriores, que leva a formiga. - -Outras vezes deixa-se o grillo comer dentro do buraco, de maneira que -somente fica a cabeça e as azas, que as formigas carregam como tropheos. - -Tem os grillos particular malicia, como experimentei, por que mordem a -extremidade dos dedos das pessoas, que dormem, e carregam o bocadinho de -pelle que podem tirar. - -Achei-me por isso muito encommodado do pollegar, a ponto de não poder -escrever por oito dias. - -O Camaleão é um animal do tamanho e da grossura de um pequeno lagarto, -e á elle similhante no rosto, olhos, e cabeça, tendo nas costas escamas -como o crocodillo, e parece ter a pelle coberta de pelle ou limo. - -Tem a cauda muito comprida, e de ordinario dobrada em dedalus, diminuindo -gradualmente até a ponta. - -Raras vezes se vê o macho com a femea, e por isso não me atrevo a contar -o modo de sua procreação, porque não pude vel-a, e nem imaginal-a. -Contento-me apenas em referir o que vi. - -É muito demorado no seo andar, está sempre ao sol, deitado sobre folhas -ou ramos, e por isso se pensa que vive só de orvalho. - -Batem-lhe as ilhargas constantemente, e muito mais quando receiam alguma -coisa, sendo isto motivado pela sua timidez natural, proveniente de muito -humor frio, pelo qual torna-se venenoso quando é comido por algum animal. - -Nunca se encontra nas arvores fructiferas, prevenção da naturesa para não -envenenar com o seo frio excessivo o fructo que tocasse, e por isso é -visto nos ramos de arvores, que somente servem para o fogo. - -Como o lagarto tem quatro pés, e muda de côr conforme o movimento do -corpo, e os batimentos das ilhargas. - -São raros em Maranhão, e somente são encontrados em lugares bem expostos -ao meio-dia: deitam-se nas folhas, estendem as quatro patas, e descançam -a cabeça. Não fazem movimento algum com os olhos, quando estão vendo, e -nem abaixam as palpebras superiores: constantemente bate-lhe o papo. - -Dizem, que se este animal fosse lançado ao fogo difficilmente arderia, -porem envenenaria pela fumaça as pessoas presentes. - -Não fiz esta experiencia com o camaleão, e sim com outro animal mui -similhante a elle pela friesa. - -Mandei lançal-o n’um braseiro, que mandei preparar, e retirando-me -para longe, tomei cuidado que ficasse sempre no fogo, movendo-o -constantemente, e depois que morreo, vio-se que o fogo não poude obrar -contra seo corpo, ficando inteiro e solido, conservando sua figura e -pelle: mandei tiral-o do fogo e enterral-o. - -Ha muitas especies de moscas, umas da noite, outras do dia. - -As moscas da noite são as que buscam o seo sustento durante ella -agarrando os bichinhos, que voam, onde encontram: como tem de -alimentar-se nas trevas, deo-lhes a Providencia uma luz,[76] que trazem -adiante e atraz: a luz dianteira está n’uma placa de forma quadrangular, -adherente ao estomago, sendo os dous angulos, que tocam a sua barba, -muito estreitos, e esta construida de uma pellicula diaphana, e coberta -de um pello mui delicado, com que recebem a humidade da noite, e por este -meio produzem um brilho de luz. Percebeis bem isto recordando vos do -brilho da pescada á noite, por causa da delicadesa da escama ou da sua -pelle humedecida. - -Acontece o mesmo com certa especie de madeira podre, ou melhor rarifeita, -e tenue, livre de todas as immundicies, e que tem a propriedade de -attrahir a humidade. - -O mesmo tem elles no chato da barriga, onde se encontra uma pellicula bem -lisa, cheia do pello tão fino, de que acima fallei. - -Quando voam atravez de uma noite escura, parecem ser grossas faiscas de -ardente fornalha de fundir metaes. - -Pertencem ao dia as outras moscas; são infinitas e varias e por isso -somente me demorarei, tratando das que tiverem alguma coisa digna da -consideração do leitor, como sejam as abelhas, e as vespas, e do mais que -fallarei. - -As abelhas do Maranhão, e de suas circumvisinhanças fabricam suas casas -de tres modos: entre os ramos das arvores, como ja disse, quando escrevi -sobre o _Meary_, ou no concavo das arvores, isto é, no tronco principal, -porque escolhem uma arvore que tenha uma concavidade no tronco, sobem -pela frente d’elle, e depois descem até a terra, onde fazem os alicerces -dos seos cortiços, e depois fabricam o seo mel, caminhando sempre para -cima. Quando não é assim, escolhem lugar apropriado, levantam da terra um -cortiço concavo, onde fabricam mel e cera. - -É virgem a sua geração, e creio não haver entre elles macho e femea, e -assim todos trazem comsigo o germen da futura procreação. - -Dir-vos-hei a razão d’este meu modo de pensar, que formei observando -com attenção um cortiço de abelhas n’uma grande arvore concava e secca, -distante 30 passos de nossa casa de São Francisco, o que ainda me foi -facil, pois estas moscas não dão ferroadas,[77] comtanto que não se lhes -faça mal, embora se esteja bem perto d’ellas. - -Fizeram os selvagens um buraco ao pé d’esta arvore, por onde sahia o mel, -e por ahi observei tudo bem a minha vontade, até mesmo as camarasinhas, -em que se achavam ellas envolvidas. - -Estes casulos eram tapados de todos os lados, embrulhados n’uma tella bem -delicada, e por cima está a cera e o mel. - -N’algumas camarasinhas d’estas, achei somente algumas gottas de semente, -claras como a agoa da rocha, e soube ser a materia de que se organisavam -as novas moscas. - -N’umas vi o _cháos_, ainda informe, feito e composto desta materia prima, -a maneira de uma pasta molle, branca como creme: n’outras vi moscasinhas, -perfeitamente formadas, e ja com movimento, porem envolvidas n’uma tella -delicada e diaphana, que rasguei com cuidado, e vi n’estas moscas todas -as suas partes bem distinctas e conformadas, menos os pés, por serem os -ultimos, que se formam, e ja depois, que se movem. - -Reconheci ser verdade o que diz S. Isidoro d’estas moscas «_Apes -dictæ sunt quia sine pedibus nascutur, nain postmodum accipiunt_:» -as _abelhas_, ou antes os _apedes_, são assim chamados porque nascem -sem pés, sendo este nome composto por _a_, que quer dizer—_sem_, e -_pedes_—_pés_. Assim composta quer dizer—_sem pés_, mas não se usa em -francez, e sim emprega-se o nome de _abelhas_. - -Sobre o que eu disse á respeito de sua geração virginal, alem da -experiencia, que eu tive, de que podem duvidar alguns espiritos, ha uma -testemunha irrefragavel, Santo Ambrosio, Doutor que si dedicou ao estudo -dos segredos da abelha mais do que nenhum outro antes ou depois d’elle. - -Não o fez sem motivo, pois desde o seo berço que estas moscas se alojaram -em seos labios, e depois em toda a sua bocca, eis suas palavras: _Apes -nuilo concubitu miscentur, nec libidine resolvuntur, nec partus doloribus -quatiuntur, sed integritatem corporis virginalem servantes subito maximum -filiorum examen emittunt_: «não si misturam as abelhas por meio de alguma -conjuncção, não si entregam por meio de sensualidade, não soffrem dores -de parto, porem conservam a integridade virginal de seo corpo, e em -pouco tempo produzem grande numero de novas abelhas.» - -Diz o autor do livro da «_Naturesa das coisas_»—_Omnibus virginalis -integritas corporis_—«conservam todas a inteiresa virginal do seo corpo.» - -Ha diversas especies de vespas, tendo uma d’ellas alguma coisa de novo: -esta qualidade é negra, mui delgada no meio do corpo a ponto de julgar-se -estar o ventre unido ao estomago por um só fio. - -São industriosas o mais, que é possivel. - -Recolhem-se todas á um nicho de terra, no cimo das arvores, tão bem -estocado, que dentro d’elle não cahe uma só gotta d’agoa; a cobertura ou -tecto d’este nicho é em fórma de zimborio, e apenas cahe a chuva, corre -ligeiramente, e ahi não si demora: n’elle não tem abertura alguma, e -apenas cinco ou seis buracos proporcionaes á grossura d’ellas. - -No interior fazem accommodações para viver, e fabricam uma especie de mel -bem amargoso, e negro como tinta. - -Cada uma tem sua casa, cavada na espessura do nicho, á maneira dos -buracos de um pombal, onde se agasalham os seos habitantes. - -É admiravel a sua industria no fabrico d’estes nichos, e presenciei-a -muitas vezes. - -Á margem das fontes fazem argamassa, carregando com os pés um pouco de -terra, que desmancham e amassam com agoa, que vão buscar, e trazem unido -ao pello de suas coxas. Assim preparado, vão carregando em varias partes -do seo corpo. - -1.º No pescoço. - -2.º Nos pés. - -3.º Na união das coxas contra seo corpo. - -Não deixam seos filhos no nicho commum, porem fabrica cada uma o seo -cubiculo á parte, á imitação da flor de meimendro, presa ou suspensa á -algum pau, ou outra coisa coberta, longe do perigo de ventos e de chuva. - -Levam muito tempo preparando seo nicho, e o enfeitam o mais que podem, -com o brunidor do seo fucinho. - -Depositam no interior sua semente, como fazem as abelhas, fecham a -entrada, occultam-na, dormem á noite em commum, e ainda a madrugada está -longe, e já ellas se despertam para montar guarda e fazer sentinella ao -redor de sua habitação, fazendo guerra de morte a quem se lhe aproximar. - -Posso dar noticias d’isto, porque um dia, indo a um canto de minha casa -arrumar não sei o que, quando passei, bati, sem querer, com a minha -cabeça no nicho, onde estava a mãe, e ella, julgando mal de minhas -intenções, pensou que eu o fizesse por maldade, e cheia de colera, -escolheo a parte mais delicada do corpo humano, isto é, os olhos, para -vingar-se. - -Permittio Deos porem que em lugar dos olhos me ferisse as sobrancelhas -com o seo aguilhão. - -Foi tão doloroso o golpe, e tão penetrante o veneno, que cahi por terra, -batendo-me extraordinariamente todas as minhas veias, desde a planta dos -pés até o cume da cabeça, como nunca senti em minha vida. - -Recolhi-me a cama com o coração sobresaltado, inchou muito a parte -offendida, e ardia como brasa. - -Julguei perder o olho, e assim estive por muitos dias, ao depois fiquei -bom. - -Procream ainda de outra forma. Fazem um pequeno pucaro de barro, -arredondado, similhante aos feitos pelas aranhas, como ja disse, deitam -dentro suas sementes, que se transformam em vermes vermelhos, iguaes aos -que se encontram nas ameixas das damas: adquire depois azas, e fica vespa. - -Não tem os selvagens cantharidas em seo paiz, porem fazem muito apreço -d’ellas e dão muitos generos para possuil-as. Trazem-nas os francezes, -porque anteriormente já tinham ensinado aos selvagens as propriedades -d’ellas, o que não se deve escrever: prova isto que os homens viciosos -mais depressa gastariam esta nação do que ella o é por natureza. - -Ha tambem insectos e vermes roedores mui subtis e engenhosos, com uma -capa bonita e inteira, porem passando uma escova por cima, desapparece -até o pello e fica só a urdidura. - -O mesmo acontece aos vermes roedores dos bosques, que fazem grande -sussurro. - -Deos porem fez passaros que vae tirando das arvores taes vermes. - - - - -CAPITULO XLVI - -Das onças e dos macacos do Brazil. - - -A onça é o animal mais furioso do Brazil e é do tamanho dos galgos da -Europa. - -No rosto parece-se muito com o gato, tem bigodes horrivelmente dispostos, -vista perspicaz e aterradora, pelle como a de lobo, manchada de negro á -maneira da do leopardo, garras muito compridas, patas como de gato, cauda -grande e maior que todo o corpo diminuindo pouco a pouco até a ponta, e -com ella brinca n’um areial voltando-se para apanhal-a, e correndo para -o mesmo fim, como fazem os gatinhos no meio de uma salla, divertindo-se -cada um com o rabinho. - -Ama a solidão, aborrece a sociedade, habita só nos bosques, e somente é -acompanhada por occasião da sua juncção, o que feito retira-se a femea. - -Nada receia, nada teme: pára vendo dirigir-vos á ella, ou fica no fim da -estrada, por onde tendes de passar, de forma que ou voltareis, ou então -combatereis porque não cede. - -É melhor a retirada ainda que com algum vexame, do que por orgulho -arriscar sua vida em luta com tal animal. - -O Rvd. padre Arsenio assim o fez, vindo da aldeia da _Mayoba_ para a -nossa casa de S. Francisco, quando encontrou, ao meio dia, na estrada uma -onça que veio esperal-o. Regressou para a aldeia, e assim evitou perigo -tão proximo. - -Não buscam os homens, e é raro encontral-as, e quando isto se dá o perigo -é certo. - -Não se atiram, e nem correm logo atraz das pessoas que vêem, antes -dão-lhe tempo bastante para fugir, e apenas agarram um ou outro menino, -porem raras vezes. - -Tem muito medo de fogo a ponto de não se approximarem d’elle, e por isso -evitam-nas os indios accendendo fogueiras em suas casas, sempre abertas -quer de dia quer de noite. - -Fazem guerra desabrida aos cães e macacos, vindo agarrar aquelles até -junto ás aldeias, sem causarem o menor mal aos selvagens deitados em -suas redes, e quando vão estes á caça, acompanhados por muitos cães, são -estes devorados e comidos pelas onças, que fingem correr diante d’elles, -e quando se acham longe de seos senhores, saltam sobre elles e facilmente -os estrangulam. - -Poucos escapam de suas garras para trazer noticias a seos senhores, que -não os ouvindo ladrar, acreditam que as onças os comeram. - -Não vão mais alem, e regressam mais depressa a casa onde suas mulheres e -filhos choram a morte do cão, que elles levaram á caça com intenção de -divertirem-se. - -Si é perigoso atacar um soldado furioso, e victorioso de seos inimigos, -ainda muito mais o é apresentando-se em tal occasião á vista das onças. - -Caçam os macacos desta sorte: batem em circumferencia o bosque, onde se -abrigam os macacos, encurralam-nos n’um ponto, onde se agrupam: então -trepam as onças em varias arvores, e d’ali se atiram sobre os ramos e -hastes de outras onde estão os macacos, e assim os apanham. - -Empregam tambem outro ardil. Occultam-se debaixo de folhas n’um lugar, -onde ellas sabem, que os macacos vem beber, ou quando estão pescando -mariscos e carangueijos, então d’um só pulo agarram os que podem. - -Fazem ainda mais. - -Quando vêem ou ouvem que os macacos estão reunidos em qualquer lugar, -vão surrateiramente arrastando a barriga pelo chão, como fazem os gatos -quando querem agarrar algum ratinho, e depois estendem-se e fingem-se -mortas. - -Chega um macaco, pára, chama outros, que chegam logo, descem o mais -que podem, sempre desconfiados, para verem e examinarem se na verdade -está morto o inimigo: rangem uns os dentes, e outros como que fazem -uma especie de discurso de congratulação por tal fim: eis senão quando -resuscita o fingido morto, mais depressa do que elles sobe ao cimo da -arvore, onde transforma a vida d’elles em morte, não simulada e sim real. - -A onça só pare uma vez, e um só filho, como a leôa, e eis a razão de -haverem poucas no Brasil. A onçasinha rasga o utero de sua mãe, que o -nutre mui curiosamente até que fique em estado de cuidar por si de sua -alimentação. Apesar de tal ruptura, unem-se em tempo proprio, porem não -ha fructos d’esta união. - -As onças são errantes, caminham por diversos logares, atravessam -braços de mar, e quando falta-lhes pasto em terra, vão ao mar pescar -carangueijos e outros iguaes bixos do mar. - -Existem tambem onças marinhas, como ja disse quando fallei do Meary, -tendo a parte anterior igual a da terra, e a posterior similhante a cauda -de um peixe. - -São tão furiosas, como as terrestres, e saltam da agua contra seos -inimigos. - -Machos e femeas veem-se livres dos filhos que trazem no ventre, á maneira -das baleias, dos golfinhos e de outros peixes do mar. - -Em Maranhão e seos contornos ha muita variedade de macacos:[78] uns -grandes, fortes, barbados, e de sexo bem distincto, especie perigosa, e -que nas mattas muito bem se defendem das invasões dos selvagens. - -Contou-me um interprete que n’um certo dia um selvagem com uma flecha -ferio a espadua de um destes macacos, e que elle tirou a flecha, -arremeçou-a contra o selvagem e o ferio gravemente. - -Atiram-se sobre as raparigas e mulheres, e forçam-nas si não são mais -fortes do que elle. - -Ha outros barbados, mais pequenos, que trazem mamas nos seios, e sexo bem -visivel em lugar proprio. - -São muito bem tratados pelos francezes: os selvagens os agarram atirando -um projectil qualquer sobre elles, que cahem atordoados, e são assim -amarrados. - -Os triviaes são quasi que similhantes em sexo, e nem merecem descripção -alguma. - -Em geral os monos são agradaveis á vista. - -Caminham um atraz do outro, e com tal cadencia no passo, que os que vem -atraz assentam os pés e as mãos, onde assentaram os que foram adiante. - -Fazem assim uma corda de duzentos á tresentos, e diria ainda mais, si não -receiasse causar admiração ao leitor. - -Achei-me muitas vezes nas mattas, onde elles habitavam e dir-vos-hei, sem -precisar o numero, que vi grande quantidade d’elles na fórma ja dita. - -Cousa agradavel o mais que se pode imaginar. - -Arremeçam-se estes animaes de uma arvore a outra, de um ramo a outro, -como faria um passaro bem voador, e o fazem com tal prestesa, que mal se -vê. - -Si vos descobrem debaixo de alguma arvore, fazem incrivel matinada, e -depois de vos fazerem muitas caretas e de dizer-vos mil injurias em sua -linguagem, embrenham-se pelos mattos. - -Nunca deixam em hora certa,[79] á tarde ou noite, de ir beber agoa, mas -sabeis com que subtileza? - -Pára o grosso do exercito na distancia de 300 passos da fonte, manda -espias para examinar a fonte e suas circumvisinhanças, espreitam si -nada ha que os assuste, examinam com cuidado si ha embuscada de algum -inimigo, e apenas o descobrem gritam com voz forte e correm a reunir-se -ao exercito. - -Voltam depois de algum tempo e praticam o mesmo. - -No caso de segurança gritam e ganem para vir o exercito, e chegado este -ainda usa de outra velhacaria. - -Bebem todos um a um: á medida, que um bebe, passa alem e trepa n’uma -arvore, e assim até o ultimo: assim bebem, passam para outro lado, por -onde não vieram e ahi acabam a fieira. - -Deixam a fonte e vão em tumulto procurar seos amores, e n’isto ha -ordinariamente grandes gritarias, gemidos, mordiduras e arranhamentos, -porque querem os mais fortes escolher as damas e serem servidos em -primeiro lugar. - -Nada digo sem experiencia e tudo isto presenciei todas as tardes na nossa -fonte de S. Francisco. - -Vão pescar sempre em companhia, carregando ás macacas ás costas seos -filhos. - -Pescam carangueijos e mariscos. - -Antes de agarrarem os carangueijos, quebram-lhe as tezoiras para -livrarem-se das mordidellas, depois quebram-nos com os dentes, e, se -estão rijos, com pedras, e o mesmo fazem com os mariscos. - -Cuidam muito as mães no sustento dos filhos, antes de poderem elles por -si buscal-o; tiram o marisco e o carangueijo da concha, limpam-no muito -bem, e offerecem ao filho nas costas, e estes o agarram e comem. - -Nunca vão para longe das arvores: é o seo refugio apenas ouvem algum -motim, ou vêem alguem, e por isso para as suas pescarias escolhem lugares -proximos á arvores altas e copadas. - -Si veêm passar uma canoa de selvagens, muito longe d’elles, saudam-nos -rindo a seu modo, si se aproxima a canoa, fogem, e ninguem os pilha. - - - - -CAPITULO XLVII - -Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos d’aquelle paiz. - - -Na Ilha ordinariamente não se vêem aguias, porem ha muitas na terra -firme, proxima a Maranhão. - -Não são verdadeiramente tão grandes como a do velho mundo, porem são mais -furiosas, atrevidas, e valentes, que accommettem os homens, e não fazem -seos ninhos, sobre rochedos, como diz Job, _Aquilla in petris manet_ «a -aguia mora nos rochedos» porem entre as arvores. - -Vou contar-vos á este respeito o que ouvi em Maranhão sobre duas -aguias extraordinariamente ferozes, que vieram aninhar-se nos mangues -_d’Uy-rapiran_, aldeiazinha na costa, distante legoa e meia do Forte de -S. Luiz. - -Mostraram-me o lugar, onde ellas viviam, n’um dia, em que passeiando pelo -mar fui visitar um francez, morador n’essa aldeia. - -Tinham essas aguias cortado ramos mais grossos do que uma côxa de homem, -e tinham feito tão boas acommodações, que melhores não fariam doze -homens. - -Ahi tinham depositado seos ovos com seos filhinhos, e ninguem se atrevia -a passar por perto. - -Vão caçar cabritos-montezes, matam-nos, espedaçam-nos com unhas e bicos, -e depois trazem alguns boccados a seos filhos. - -Pescam da mesma fórma arremeçando-se sobre os golphinhos, pirapamas, -e trombudos, e tiram-no do mar com suas garras, deitam-nos em terra, -dividem-nos em pedaços, que levam a seos filhos. - -Vão ainda mais longe: mataram um homem e uma mulher _Tupinambás_, o -que lhes causou a sua morte e a do seos filhos, porque si lhes armou -uma cilada tão bem arranjada, que conseguio-se matar o macho, e a -femea achando-se viuva retirou-se para a terra firme abandonando -seos filhinhos, que foram passados pelas armas dos _Tupinambás_ em -vingança do crime commettido na pessoa dos dois, que elles mataram, e -destruio-se-lhes o ninho. - -A femea é maior que o macho, ambos de côr parda, olhar vivo e feroz, -poupa forte e irriçada no cume da cabeça, pennas grossas no canudo e -grandes como a de um gallo da India: servem-se d’ellas os _Tupinambás_ -para emplumar suas flexas. - -Nota-se n’estas pennas uma coisa particular e especial: si os selvagens -as misturam com outras pennas, como sejam de araras, e de outros passaros -grandes, são estas roidas e comidas por aquellas, pelo que são guardadas -a parte, e com outras não as deitam em suas flexas. - -Por maiores, que sejam os outros passaros, é a Aguia o Senhor e o Rei não -por igualdade de forças, mas por subtileza e ligeireza de vôo, subindo -muito alto quando quer perseguir os passaros grandes, e descendo mui -rasteiramente quando elles tambem descem, e quebram-lhes a cabeça com o -bico. - -Ficam assustados todos os passaros quando ouvem o seo grito, calam-se e -occultam-se entre folhas. - -Caçam principalmente os gaviões, parecidos com as pombas brancas, -que vivem nas praias, saltando de ramo em ramo, esperando a vinda de -passarinhos para assaltal-os e agarral-os. Ahi vão as aguias caçal-os, e -despedaçal-os n’um momento. - -Nutrem-se tambem de tartarugas do mar e de terra, e não poupam a alguma -serpente ou cobra que por ventura encontrem. - -Raras vezes podem os selvagens pilhal-as de geito para flechal-as. - -Trepam-se no cume das arvores, onde expandem as azas aos raios do sol, -tirando com seo bico as pennas velhas, que por esse estado ja não servem: -ahi vão os selvagens buscar estas pennas para seo uso. - -Assimelham-se muito na fórma e côr ás pennas dos gallos da India, e são -muito boas para escrever. - -Alem d’estas aguias ha passaros grandes chamados _uira uaçú_, quasi do -tamanho dos abestruses da Africa,[80] mais compridos, porem não tão -grossos. - -Os grous de lá parecem-se com os pardaes. Si algum foi para a França, -levado por nossos companheiros, saibam que ha outros ainda mais grossos. - -Agarram-nos os selvagens quando pequenos, e para isso procuram a occasião -em que os paes vão caçar. - -São brancos quando pequenos, mechem-se pouco a pouco, e vão mudando até -que alcance suas pennas e cor verdadeiras. - -São muito glutões, e parece que não se fartam, porem quando comem é por -muitos dias. - -Si os macacos pudessem persuadir os selvagens a extinguir essa raça, o -fariam indubitavelmente, porque perdem milhões dos seos para sustento -d’ellas. - -Os _Tupinambás_, que criam estes passaros, conhecem que a melhor carne, -que se lhes pode dar, é a de macacos, e para isto vão ao matto caçal-os e -matal-os. - -Ha outras especies de passaros grandes, porem que não se comparam com -estes, e são as _araras_, os _canindés_, e outros, os quaes são agarrados -pelos indios por maneira astuciosa. - -Vão ao matto, escolhem as arvores, onde costumam estes passaros passar a -noite, e onde se recolhem depois de comer: fazem debaixo d’essas arvores -uma casinha redonda, com capacidade para conter tres homens, e coberta -de palhas: ahi se recolhem e esperam a vinda dos passaros, que como -não desconfiam, aproximam-se muito, e então os selvagens lhes atiram -qualquer projectil, que os atordoa sem matal-os, cahem em terra onde são -facilmente agarrados e prendem, e com o correr do tempo de tal maneira -se domesticam, que embora os soltem, não deixam a casa do seo dono: -introduzem-se pelos quartos, fazem grande matinada, com voz similhante a -do côrvo, aprendem a fallar como os papagaios, e dão suas pennas á seos -hospedes para com ellas se adornarem e enfeitarem.[81] - -Os habitantes do rio depennam seos gansos para encher colchões, e os -indios tiram as pennas d’estes passaros para fazer seos enfeites e -adornos. - -Ha muitas e diversas qualidades de garças, umas maiores, e outras mais -pequenas. - -Fazem seos ninhos nos mangues á beira do mar, vivem de peixe, e trazem -alguns inteiros a seos filhos que principiam a comel-os desde os seos -primeiros dias. - -Admirei-me de ter sido encontrado um peixe grande, do tamanho de um -arenque, no ventre de uma garça, pouca implumada. - -Os selvagens vão tirar dos ninhos as garçasinhas, armados de bons cacetes -para se defenderem dos paes e mães, que em tal caso não deixam de acudir -aos que nutrem tão terna e cuidadosamente afim de estenderem a especie. - -Similhantes as garças ha outros passaros chamados _forquilhas_ pelos -francezes e portuguezes, porque teem a cauda fendida quando vôãm: fazem -seos ninhos nos mangues, em lugar recondito, e pouco frequentado dos -homens o quanto é possivel: ahi põem, e deixam seos filhos, vão para o -mar, e ahi ficam por todo o dia enchendo de peixe uma grande bolsa, que -trasem debaixo da goela, e que depois levam a seos filhos: quando está -vasia esta bolsa, enche-se de vento que os alivia e sustenta no meio do -ar, quando passam muitos dias e noites sem ir a terra, e atiram-se pelo -mar em distancia de 50 a 60 legoas procurando alimentos. - -Tem a vista extraordinariamente apurada a ponto de verem do mais alto -lugar, a que sobem, o peixe que náda no mar, e sobre elle cahem e -agarram-no. Tem uma propriedade muito boa e é que perseguem os peixes, -que andam atraz dos pequenos para devoral-os. - -Aproximam-se d’agoa, e como querem participar da presa, perseguem-nos o -quanto podem. - -Alem destes passaros grandes ha milhares de passarinhos, entre os quaes -merecem especial menção os seguintes. - -As andorinhas do mar em tão grande quantidade, que cobrem as praias nas -vasantes: são boas para se comer, e á vontade matareis muitas com uma -arma, carregada de chumbo miudo, e sentado n’uma canoa. - -Ha outra qualidade de passaros, que admiram muito a ponto de não se -acreditar, e comtudo é verdade, por mim experimentada, os quaes tem por -bico duas facas, embutidas em seos cabos, e aos quaes dão o nome de -_navalhas_: o bico não lhes serve para buscar alimento, e por isso dizem -que elles só vivem de vento, porque essas facas cortantes não lhes servem -senão de passatempo quando passeiam pelas praias, e encontram outros -passaros, que são por elles cortados pelo meio. - -No dia, em que parti do Maranhão, um mancebo pertencente ao Sr. de Sam -Vicente, que me acompanhou em toda a minha viagem, matou um, cujo bico -guardei e trouxe para a França. - -Ha melros como os de França, iguaes na plumagem e no canto, que espandem -suas pennas á vontade no fim das chuvas, quando vem o bom tempo visitar -os habitantes da zona tórrida: no fim do bom tempo e principio das chuvas -soltam um canto triste, como que chorando o passado, e prevendo as -tempestades do inverno, si tal nome merece. - -Ha muitos passarinhos de bellesa incrivel: uns pardos, outros cor de -violeta, azulados, amarellos e mesclados: fazem os selvagens penachos -de suas pennas, que são muito caras por ser difficil matal-os, porque -presentindo o inimigo, que os busca, trepam-se no cume das arvores mais -altas, nas pontas dos ramos, fazem seos ninhos os quaes amarram com uma -embira muito forte, e na outra extremidade que cahe no sollo, fabricam -uma especie de pote de terra, no qual criam seos filhos entrando por um -só buraco, proporcional á sua grossura. - -Trouxe para França esses passarinhos, que aqui causaram muita admiração. - -Possue o Maranhão um genero de passarinhos, que não excede no corpo á -extremidade do pollegar, e acrescento com todas as suas pennas, e tem -canto melodioso, que faz lembrar o das andorinhas, que imitam quando -querem cantar: levantam o bico, e soltam o canto o mais alto, que podem, -e o sustentam em quanto o permittem suas azas. - -Fazem suas casas junto ás fontes, onde muitas vezes vão banhar suas -azinhas para mais facilmente voarem alto. Ahi perto fazem seos ninhos, e -imaginae o tamanho dos ovos, que chegam de 5 a 7: seos filhinhos ainda -são de mais admiravel pequenez. - -São tão fecundos, que os meninos enchem cabaças de ovos d’elles. - -Ha de diversas cores, amarellos, violetas, pardos, etc. - - - - -CAPITULO XLVIII - -Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á respeito das -Indias Occidentaes. - - -Para perfeição d’este primeiro tratado, julguei acertado responder á -todas ás perguntas, que se fazem n’esse paiz. - -1.ª Si esta terra de equinoccio pode ser habitada por francezes -delicados, naturaes de um paiz temperado, criados com cuidado e bons -alimentos, pois não parece poderem se accommodar n’um paiz agreste, -selvagem, cheio de mattas, entre barbaros, e debaixo da zona tórrida e -ardente. - -Respondo, que na verdade todos os principios são difficeis, porem pouco a -pouco apparece a facilidade. - -Não ha no mundo villa ou aldeia, que não cause susto e encommodo no -principio, porem depois de alguns annos tudo vae bem, e os nossos padres -ja ahi deixaram o fructo de suas fadigas. - -Não eram mui delicados os cidadãos romanos? E comtudo não deixaram Roma e -Italia para plantarem suas colonias nas florestas gaulezas e allemans? - -O portuguez não é, como nós os francezes, na Europa sugeito a todas as -molestias, trabalhos e fadigas? Sim! porem é neste ponto mais soffredor -do que nós, pois bem sabe ser necessario primeiro lavrar para depois -colher: comtudo estabelece-se muito bem no Brasil, faz grandes negocios, -sendo a terra bem preparada e cultivada. Havendo dinheiro ha ahi de -tudo, como em Lisboa. Eu vos lembro, que se a paciencia dos homens tem -tornado, dentro de oito mezes, boas e ferteis as terras crestadas pelo -gelo ou congeladas, uma terra, o coração do mundo, não será habitavel -pelos francezes? É até loucura pensar n’isto, e portanto concluo, que -esta terra é apropriada á naturesa dos francezes como é a França, si for -bem cultivada e provida de viveres necessarios e acommodados ao gosto -francez, como sejam pão e vinho: quanto á carne, peixe, legumes e raises, -ha de tudo isto incrivel abundancia, tendo apenas o trabalho de colher e -plantar os vegetaes. - -Enganar-se-hia porem quem pensasse, que as arvores produzissem patinhos -assados, as corças, quartos de carneiro, recentemente tirados do espeto, -e o ar andorinhas bem cozidas, de fórma que não havia mais trabalho do -que abrir a bocca e comer. - -Com tal fantasia, não lhe aconselho, que lá vá, porque arrepender-se-hia. - -É pois esta terra habitavel pelos francezes, e si ahi não tiverem -commodidades, arrepender-se-hão, porem tarde. - -2.ª Eis o que disse, e basta[82] a terra é habitavel, e pode ahi -morar-se com algum encommodo durante alguns annos. Mas será saudavel -para os francezes? Os indios ahi são sadios, e vivem longo tempo, -embora selvagens e barbaros, nascidos n’este clima, e acostumados á tal -temperatura. Não tem os francezes tal privilegio, pois são sujeitos á -muitas febres, que se terminam em paralysia e outros encommodos. Respondo -a isto, que julgamos das substancias pelos accidentes, e das terras pelos -encommodos e enfermidades. - -Comparemos agora a menor aldeia de França com a Colonia Francesa n’estas -terras, e no espaço de um anno achamos haver na aldeia dez vezes mais -doentes do que em dois no Maranhão. - -Si algumas pessoas se dão mal, não é novidade pois em toda a parte está a -morte: assim são as molestias. - -D’estes males não estão isentos Reis e Principes em paizes os mais -agradaveis e salubres, que se possa imaginar. - -Em dois annos, que lá estive, apenas houve uma morte a do Rvd. padre -Ambrosio:[83] fallo da morte natural, porque os devorados pelos peixes, a -culpa foi d’elles por se lançarem ao mar. - -Morreu o Rvd. padre de uma paralysia, porque estando muito atado a -derrubar arvores grandes, e tendo o suor molhado seo habito, foi assim -mesmo celebrar missa, e apenas sahio da igreja foi acommettido por uma -febre, de que falleceo poucos dias depois. - -Digo isto com certesa, porque o assisti até o fim, achando-se fóra em -serviço de Deos os outros dois padres. - -Á vista d’isto Maranhão e Paris pleiteam entre si. - -Diz Paris—«és má terra, porque mataste um padre capuchinho que te mandei.» - -Responde Maranhão «por um perdi quatro dos meos.» - -«Tendes rasão para censurar-me?» Assim o deveria ser, si os meus fossem -tratados como principes, e o pobre capuchinho apenas tivesse farinha, ou -pouco mais. - -«Concordemos pois, que o clima é sam e salubre, e que desperta muito o -apetite, e si houvessem muitas gulodices como em França, para ahi iriam -as pressas muitas moças francezas.» - -3.ª Dizem vae tudo muito bem, porem não ha vinho, e nem trigo, principaes -alimentos, indispensaveis nos melhores banquetes para as carnes mais -delicadas. - -Respondo, que ha milho em grande abundancia, de que se pode fazer pão, -como nós o faziamos, e o achavamos muito agradavel ao gosto, embora -gostassemos mais da farinha do paiz, especialmente quando fresca, porque -não é pesada ao estomago. - -Este pão de milho serve d’alimento em muitas terras do velho mundo,[84] e -especialmente na Turquia, onde é chamado trigo da Turquia. - -Não se perdeo ainda a esperança, que a terra firme do Brasil, forte e -gorda, não possa produzir trigo, com que se fabrique o pão como na França. - -Os habitantes de Pernambuco ja o fizeram; não estão longe de nós, porem -em terras peiores. - -Quanto a terra firme do Maranhão, melhor seria si o rei de Hespanha não -prohibisse nas Indias Orientaes e Occidentaes plantação de trigo e de -vinhas para tel-as sempre dependentes de seo soccorro, e de tudo quanto -cresce nos seos Reinos de Hespanha e Portugal. - -Accrescento ainda, que o Perú, que está no mesmo paralello que a terra -firme do Maranhão, é abundante de trigo e de vinhas. Quem pode impedir, -que ahi se produzam estes generos? - -Quanto ao vinho, não é feito das vinhas do paiz, embora ahi possam -crescer,[85] e contam-nos, que as trazidas pelos nossos religiosos na -ultima viagem pegaram e produziram fructos. Quem pode impedir grandes -plantações de vinhas, e que em dois ou tres annos se façam grandes -colheitas? - -A França nem sempre tem vinho, actualmente porem tem muito. - -Os flamengos, os inglezes, os hibernios e dinamarquezes não fabricam -vinho, contentam-se com cerveja, e se querem beber vinho abrem a bolsa, e -ahi vão os melhores vinhos do Universo. - -O mesmo succede em Maranhão, porque os navios ahi os levam. É bem -verdade, que é um pouco mais caro do que em França, porem é melhor, -segundo pensam alguns francezes, que avaliam as coisas pelo preço. - -Os mais economicos acostumam-se com a cerveja do paiz que é muito boa por -ser feita de milho, e não é muito cara por haver muita abundancia deste -genero na terra e serem as agoas boas e puras. - -4.ª Dizem. Si é assim não é máo, porem pode ahi fazer-se vantagens, visto -que, em quanto ahi estive, nunca me animei a gastar dinheiro. Respondo. - -Se todos soubessem porque se dava essa falta, ficariam contentes, porem -não é cousa que todos devam saber. - -Direi somente, que esta falta não provem da terra, que é propria a -produsir bons generos quando bem cultivada, como sejam: _Algodão_, -_canafistula_, _madeira de diversas cores_, _piteira_,[86] _tinturas -de urucú_, _de cramesim_, _pimentas longas_, _lapis-lazuli_, _cobre_, -_prata_, _oiro_, _pedras preciosas_, _plumas_, _passaros de diversas -cores_, _macacos_, _macacos-monos_, _e saguins_, e especialmente -assucares, quando si levantarem engenhos e plantarem cannas. - -Si nada de lá se trouxer (callando o que si deve dizer em publico) provem -da má direcção dos negocios, cuidando cada um de si, o que tem feito -com que haja pouco sortimento de mercadorias francezas, necessarias aos -selvagens, e pelas quaes dão algodão, tinturas, pimentas, e outras coisas -similhantes, alem de outros generos, que por si mesmo possam obter os -francezes. - -Vendo os selvagens a pobresa dos armazens, onde apenas haviam mercadorias -para com ellas si comprar farinha, ficam preguiçosos, nada fazem e nem -farão emquanto os francezes não tiverem coisa alguma a dar-lhes em -recompensa: tal é o seo genio e assim o farão, e por isto não merecem -censura, por que em todo o Christianismo não si encontra um só homem, que -trabalhe de graça. - -Não vos admireis si nada tragam, e sim si na primeira viagem conduzirem -comsigo alguma coisa. - -Não me prendo as rasões ja ditas, e outras, que callo, e sim no caso de -provêr-se á esta falta, como convem, eu vos asseguro que a Ilha e suas -circumvisinhanças ainda produzirão bons estofos. - -Tendo satisfeito a todas as perguntas e objecções sinto repugnancia em -responder a muitos mancebos, que por bens de fortuna somente possuem -a espada e o punhal, mais que ricos de coragem cortam muitas vezes a -garganta uns dos outros, e vão em companhia para um paiz bem triste, onde -navio algum vae levar novidades. - -Desejaria perguntar-lhes—que fazeis em França senão esposar questões de -vossos irmãos mais velhos? Porque não experimentaes fortuna, ou ao menos -porque não ides enriquecer vosso espirito com a vista de coisas novas? -Passarieis assim o vosso tempo, em quanto si aplaca o vosso coração, e -si fortalece o vosso juiso: prestarieis serviço a Deos e ao vosso Rei -visitando esta nova França. - -Ahi descobrireis novas terras, achareis alguma coisa de valor, como sejam -pedras preciosas etc., e quando mais não fosse, bastaria que, quando -voltardes, não ficasseis mudo nas reuniões, porque aquelle que viaja tem -sempre ganho o seo pão. - -As cinzas e os fogões são para os cazeiros, creados por Deos para -cultivar a terra. - -A nobresa n’este mundo tem outro fim, e qual é elle? o de empregar vossos -esforços e trabalhos para dilatar o reinado de Deos, ajudar os Apostolos -de Jesus Christo a chegarem aos fins para os quaes são enviados, isto é, -para augmento do sceptro e da corôa de vosso principe, e morrer por estas -duas empresas—é morrer em leito de honra. - -Vós me respondereis—mas sob que ordens e porque meios? Minha penna, -senhores, não pode ir mais longe. Fiz o que devia e o resto ignoro. - -Espero portanto, que Deos inspirará aquelles, que tudo podem, á favor da -perfeição de tão alta empresa. - - - - -CAPITULO XLIX - -Instrucção para os que vão pela primeira vez ás Indias. - - -Sabio é aquelle, diz o proverbio, que para seos negocios se aproveita do -exemplo e experiencia dos outros. - -Se os nossos francezes, antes de terem ido á India, soubessem o que -depois conheceram, teriam melhor dirigido os seos negocios, e nem teriam -passado pelos encommodos, que soffreram: o que resolver ahi ir, calcule -quanto tempo ahi se pode demorar, junte ainda mais um bocado, porque lá -não se tem a commodidade do regresso quando se quer. - -Faça seo sortimento para esse tempo, e por duas formas, uma para si e -outra para os selvagens afim de obter delles viveres e outros generos. - -As suas provisões devem consistir de aguardente forte, do melhor vinho -de Canaria, em bons frascos de estanho, bem arrolhados e acondicionados -n’uma frasqueira fechada a chave, e esta tão bem guardada, como o seo -coração, para servir nas necessidades e nas molestias que podem apparecer. - -Fuja de sucia com pessoa alguma, porque então desapparecem bem depressa -as suas provisões. - -É costume no mar, desde que se suspeita haver vinho ou agoardente na -frasqueira de algum passageiro, o pedir-se de vez em quando uma vez -d’esses espiritos para beber em companhia, e quando se está em viagem -deve-se fazer de duas coisas uma, ou ser-se liberal e para isso não -faltam instigações, ou então passar-se por velhaco, e soffrer todas as -injurias, que lhe queiram fazer. - -O meio mais seguro para evitar estas coisas é não entrar em sucias. - -Para a passagem do mar deve surtir-se de algum vinho tinto, e de coisas -iguaes para quando precisar visto o trivial do navio ser muito mal -preparado. - -Deve fornecer-se de um bom numero de camisas, lenços, e vestidos de -fustão, e não de estofos pesados, excepto os vestuarios para festas, -porque n’este paiz não se precisa senão de pannos leves. - -Leve sabão para o aceio da casa, muitos sapatos porque lá não achará um -só, senão os que para ahi forem levados e por alto preço, de forma que -pelo preço de um par tereis em França uma duzia, toalhas, guardanapos, -lençóes e um bom colchão, e se quizerdes viver á francesa, isto é, com -limpesa, deveis levar baixela de estanho para quando estiverdes doentes. - -Devereis levar assucar, boas especiarias, uma porção de rhuibarbo muito -fino, tudo bem acondicionado n’uma caixa para livrar o assucar das -formigas do paiz, porque é impossivel imaginar-se o que fazem estes -animaesinhos, que metem-se por toda a parte, e tudo trespassam se é de -madeira. - -Devem essas caixas ser feitas de ferro branco. - -As mercadorias pelas quaes dos Indios obtereis em troca viveres e outros -generos do paiz, e escravos para servir-vos e cultivar vossas roças, são -as seguintes—facas de cabo de pau, de que usam os magarefes, e muito -apetecidas pelos selvagens, muitas thesouras de bolsa de couro, muitos -pentes, contas de vidro verde-gaio, a que chamam missanga, foices,[87] -machados, podões, chapeos de pouco valor, fraques, camisollas, calções de -adellos, espadas velhas, e arcabuses de pouco preço. - -Dão muito apreço a tudo isto, e assim tereis escravos e bons generos. - -Não esqueçaes tambem pannos verdes-gaios, e vermelhos de pouco valor, -porque não fazem grande differença dos estofos, rosetas, assobios, -campainhas, anneis de cobre dourado, anzóes, alicates de latão chatos, -com um pé de cumprimento e meio de largura, tudo isto por elles muito -apreciado. - -Assim bem providos destes generos, não duvideis de serdes bem vindo entre -elles: ahi não deveis viver vida folgada, e muito negocio fareis n’esse -paiz pelo qual pouco dareis, se souberdes guiar-vos. - -Assim preparado, não vos esqueçaes do principal, que é antes de -embarcardes purificar e robustecer vossa alma com o Santissimo Sacramento -da confissão e da communhão, dispondo todos os vossos negocios como quem -não sabe se o mar lhe permittirá o voltar. - -Apenas embarcado, fazei vossa cama o mais perto, que fôr possivel, do -mastro grande para evitardes o balanço visto ser ahi o lugar mais quieto -do navio. - -Deve-se sempre temer a Deos, porem não receiar os acasos do mar, sendo -melhor mostrar o rosto tranquillo do que desassocegado, visto de nada -servir o medo. - -Não vos assusteis senão quando os pilotos implorarem misericordia, porque -então é preciso cuidar da alma, visto irem mal as cousas. - -Quando virdes o navio navegando de lado, as caixas viradas, o mar -entrando no convez, as vellas molhando-se nas ondas, os marinheiros -jurando e buffando,[88] não vos assusteis, mostrae-vos sempre de animo -prasenteiro, não vos descuidando porem da vossa consciencia. - -Não questioneis com algum marinheiro, pois com isso nada alcançareis. - -Quando chegardes ao porto, não vos apresseis em saltar, cuidae primeiro -nas vossas mercadorias e bagagem, porque acontece muitas vezes visitarem -a bagagem, e serrarem os caixões, onde vem os generos, de maneira que se -possa introduzir a mão. - -Fazei conduzir tudo em vossa companhia para casa do vosso Compadre, que -deveis escolher com estes predicados se fôr possivel. - -1.º Que tenha escravos, canôa e cães, para não sentirdes falta de peixe -e de caça, senão raras vezes tereis estes generos, sendo necessario -compral-os aos selvagens, e assim muito cara vos seria a vida. - -2.º Indagae se elle tem bom genio especialmente a mulher, porque nada ha -peior do que má hospede. - -Se encontrardes bom acolhimento, convem fazer alguns presentes, e depois -deveis trazel-os sempre na esperança de outros, sem serdes comtudo muito -liberal, e por isso todos os mezes lhe deveis dar alguma coisa afim de -não vos chamarem avarento, e como tal não vos apregoem entre os seos -iguaes, criando assim difficuldades quando quizerdes obter alguma coisa. - -Não vos deixeis prender pelos affagos das filhas dos vossos hospedes, -ou de outras, pois não vos faltarão caricias se souberem que tendes -mercadorias. - -Em tudo o mais é preciso andar prevenido, tendo sempre bem presente á -memoria o acaso e o perigo, que fazem contrahir molestias sórdidas -áquelles, que de si se esquecem. - -Podeis livrar-vos d’isto com facilidade, mormente se considerardes o -grande peccado, que commeteis. - - - - -CAPITULO L - -Do acolhimento, que fazem os selvagens aos francezes recem-chegados, e -como convem proceder para com elles. - - -Si ha nação no mundo, que goste de fazer bom acolhimento aos seos amigos -recem-chegados, e que os receba em suas casas para tratal-os bem o quanto -é possivel, sem duvida alguma os _Tupinambás_ occupam o primeiro lugar á -vista do que fizeram aos francezes. - -Logo que fundeou o navio, que trasiam os francezes, surgiram de todos os -lados selvagens em suas canôas, bem enfeitados de pennas e preparados -segundo sua classe como si fossem para uma grande festa. - -Apenas descobrem ao longe navios que demandam a terra corre logo este -boato por todas as aldeias _Aurt vgar uaçú Karaibe_, ou _Aurt Navire -suay_ «ahi vem os grandes navios de França.» - -Immediatamente tomam os seos vestidos bonitos, si os tem, e principiam -a fallar uns aos outros por esta forma: «ahi vem navios de França, e eu -vou ter um bom compadre, elle me dará machados, foices, facas, espadas, e -roupa: eu lhe darei minha filha, irei pescar e caçar para elle, plantarei -muito algodão, dar-lhe-hei gaviões e ambar, e ficarei rico, porque hei -de escolher um bom compadre, que tenha muitas mercadorias.» - -Dizendo isto batem nas pernas e nos peitos em signal de alegria. - -As mulheres e os rapazes fabricam farinha fresca e nova, e os homens -vão pescar e caçar, e quando a casa está provida de carnes de diversas -qualidades, raizes, peixes, caça, e farinha, vão todos aos navios. - -Os mais impacientes vão em suas canôas á bordo do navio, ancorado na -enseiada, endagar se vieram os seos velhos _Chetuassaps_, e qual é o -francez que traz mais generos para lhe offerecer seo compadresco, sua -casa e sua filha. - -Apenas salta o francez é logo rodeiado por elles: homens e mulheres -mostram-se prasenteiros, presenteam-nos com viveres, convidam-nos para -compadre, offerecem-se para levar-lhes sua bagagem, em fim fazem o que -podem para contental-os e agradal-os. - -Não tem inveja por estar um francez em casa de outro: o que primeiro se -apresenta é que leva o hospede, sem a menor questão, e nem por isso se -insultam. - -Fazem mais ainda: quando um francez muda de compadre, não questionam por -isto, despresam-no, e tem-no por homem mau, e assim raciocinam. - -«Si não poude viver com aquelle, como viverá commigo?» - -Si o selvagem é genioso, avarento e preguiçoso, quando o francez o deixa -não se zangam os outros, antes dizem «É bem feito ser elle despresado, é -um homem difficil de ser aturado, avarento e preguiçoso.» - -Escolhendo o francez um compadre, segue-o e vae para a aldeia,[89] e -então o hospede com certa gravidade, como si nunca o houvesse visto, -lhe estende a mão e lhe diz: «_Ereiup Chetuassap?_» «Chegaste meu -compadre,»[90] coisa digna de vêr-se e de contemplar-se. - -Direis ao vel-os, que sahem á maneira dos imperadores de um gabinete bem -fechado, onde estavam empenhados em grandes negocios. - -Si querem fazer grande acolhimento a um francez e lhe mostrar que muito o -estimam, antes que o pae de familia lhe diga _Ereiup_, as mulheres e as -filhas o lamentam e depois dam-lhe bons dias. - -Responde-lhe o francez _Pá_, «sim?» resposta que quer dizer «sim de todo -o coração: eu te escolhi para morar comtigo, e para ser meo compadre, e -do numero de tua familia: te dei a preferencia porque te estimo e por me -pareceres bom homem.» - -Diz-lhe o selvagem—_Auge-y-po_ «muito bem, estou muito contente, -honras-me muito, sêde bem vindo e aqui serás tão bem acolhido como em -parte alguma.» - -Por isto reconhecereis a candura e a simplicidade da naturesa, que -consiste em poucas palavras e muitas obras. O contrario acontece á -corrupção, pois inventa muitos discursos, muitas palavras adocicadas, -cortejo sobre cortejo muitas vezes só com o chapéo, e não com o coração. - -D’estas duas recepções qual será a melhor e a mais consentanea com a lei -de Deos, e com a simplicidade do christianismo? - -Após aquellas palavras, elle vos diz—_Marapé derere?_ «Como te chamas? -qual é o teu nome? como queres que te chamemos? que nome queres que se te -dê?» - -Convem notar, que si não escolherdes um nome pelo qual sereis conhecido -em toda a parte, elles vos darão um escolhido entre as coisas naturaes, -existentes no seo paiz, e o mais apropriado á vossa physionomia, genio, -ou maneira de viver, que por ventura descobrirem em vossa pessoa. - -Por exemplo, entre os francezes, um foi chamado _beiço de sargo_, porque -tinha o beiço inferior puchado para diante como os peixes chamados -_sargos_. - -Tiveram outros o apellido de _garganta grande_ porque nada o fartava, -de _sapo-boi_,[91] por estar sempre entumecido, de _cão pirento_ pela -sua cor má, de _piriquito_ porque levava só a fallar, de _lança grande_ -por ser alto e esguio, e assim por diante, e ordinariamente fazem estas -coisas em suas _casas grandes_, e por esta fórma pouco mais ou menos. -«Que nome se ha de dar a teo compadre?» - -—Não sei, é preciso estudar. - -Indica cada um a sua opinião, e o nome que encontra mais apropriado, e si -é bem recebido pela assembléa lhe é imposto com seo consentimento, si é -homem de posição: si é do vulgo, queira ou não queira, ha de ter o nome, -que lhe der a assembléa. - -Tem tambem outra maneira de impôr nomes: quando elles vos estimam, e vos -dam muito apreço, elles vos dam o seo proprio nome. - -Depois de saber vosso nome pensam na cozinha dizendo—_Demursusen -Chetuasap_, ou então _Deambuassuk Chetuasap?_ «Tem fome, meo compadre? -quer comer alguma coisa?» - -A hospede vos escuta e vos attende prompta a servir-vos si disserdes -_sim_ ou _não_, porque tomarão vossa resposta, como dinheiro contado, -visto que n’essas terras nem se deve ser vergonhoso, e nem guardar -silencio. - -Si tendes fome, direis _Pá, chemursusain, Pá, cheambuassuk_, «sim, tenho -fome, quero comer.» - -Perguntam elles _Maé-pereipotar_, «que queres tu comer? que desejas tu -que eu te traga?» - -São mui liberaes no principio, diligentes na caça e na pesca, afim de -contentar-vos e ganhar vossa affeição para obter generos; mas cuidado, -não lhe dês tudo no principio, conservae-o sempre na esperança, dando-lhe -cada mez alguma coisinha. - -Á sua pergunta dizei, si quereis carne, peixe, passaros, raizes, ou outra -qualquer coisa, e então vossos hospedes, o marido e a mulher trazem para -vós a caça, o _Mingau_, que tiverem, podeis comer a vontade e dar a quem -quizerdes. - -Apenas tiverdes comido, arma a sua rede ao pé da vossa, principia a -conversar comvosco, offerece-vos um caximbo cheio de fumo, que accende, -chupa tres fumaças, que expelle pelas ventas, e depois vos entrega como -coisa muito bôa, e que faz muita estima, como na França se pratica com -as bebidas. - -Accende tambem seo caximbo, e depois de haver tomado cinco ou seis -fumaças diz—_Ereia Kasse pipo_: «deixaste teo paiz para vir ver-nos, -visitar-nos e trazer-nos generos?» - -Respondei-lhe _Pá_—«sim, deixei tudo, despresei meos amigos, e meo paiz -para vir aqui vêr-te.» - -Levantando então a cabeça como que admirado, diz _Yandé repiac aut_, -«compadeceo-se de mim, olhou-nos com piedade: lembraram-se os francezes -de nós, não se esqueceram de nós.» - -Deixaram sua terra para nos vir ver—_Y Katu Karaibe_: «são bons os -francezes e muito nossos amigos.» - -Depois pergunta ao francez _Mabuype deruuichaue Yrom?_ «Comvosco quantos -superiores, guerreiros, capitães e principaes vieram?» - -Responde-lhe elle _Seta_, «muitos.» - -Replica o selvagem—_De Muruuichaue?_ «Não és d’esse numero? Não és um dos -principaes?» - -Bem podeis pensar, que não ha ninguem, por mais mediocre, que seja a sua -condicção, que de si não diga bem, e por isso responde o francez _Ché -Muruuichaue_ «sim, sou um dos principaes.» - -Diz o selvagem _Teh Augeypo_ «muito bem, estou muito contente: basta, -fallemos de outra coisa.» _Ereru patua? Ereru de caramemo seta?_ -«Trouxestes muitas caixas e cestas, cheias de mercadorias?» - -São as melhores noticias, que se lhes pode dar, para as quaes tem sempre -dispostos o animo e o coração, de sorte, que tudo quanto dizem é somente -como que um preambulo para chegar a este ponto. - -Depois que o francez responde-lhe affirmativamente diz o selvagem—_Mea -porerut decarameno pupé?_ «O que trouxestes em vossas caixas e coffres de -joias? que mercadorias?» dizem elles com vóz doce e agradavel, pois são -muito curiosos de saber o que trazem comsigo os francezes. - -Deve estar prevenido o francez para não dizer e nem mostrar o que elles -desejam, afim de trasel-os sempre na expectativa, si dos seos serviços -quer aproveitar-se. - -Deve responder-lhe—_Y Katu paué_ «trouxe tantas coisas, cujos nomes nem -mesmo sei, são bellas e magnificas.» - -Esta resposta é como agoa lançada na fornalha ardente do ferreiro, a -qual redobra o calor, e activa a chama, e assim desperta a curiosidade -do selvagem, até por meios adulatorios, expressados por gestos, dizendo -_Eimonbeu opap-Katu_ «eu te peço, não me occultes nada, dize-me.» -_Yassoi-auok de Karamemo assepiak demae_: «Abre-me tuas caixas, teos -cestos, deixa-me vêr tuas mercadorias, tuas riquezas.» - -Deve responder o francez _Aimosanen ressepiak_ ou _Kayren deué_ «agora -não posso, deixa-me descançar, logo te mostrarei:» _Begoyé sepiak_ «não -duvides, um dia verás á tua vontade.» - -O selvagem entende o que isto quer dizer, e vendo que perde seo tempo, -diz a si mesmo, levantando os hombros, e como que se lastimando—_Augé -katut tegné_, «pois bem, esperarei.» - -Bem sei que não serei ouvido, porem, diz elle ao francez _Dererupé -xeapare amon?_ «Não trouxestes muitas fouces e machadinhos de cabo de -ferro?» - -_Dererupé urá sossea-mon?_ «Trouxestes machados de cabo de pau?» _Ererupé -ytaxéamo?_ «Não trouxestes facas d’aço?» _Ererupé ytaapen?_ «Trouxestes -espadas d’aço?» _Ererupé tatau?_ «Trouxeste arcabuzes?» _Ererupé tatapuy -seta?_ «Trouxeste muita polvora?» - -Responde o francez a tudo isto _Aru seta yagatupé giapareté_ «Sim, trouxe -muita coisa boa e bonita.» Diz o selvagem _Augé-y-pó_ «Muito bem.» - -_Ercipotar turumi? Ercipotar keré?_ «queres dormir? queres deitar-te?» -Responde o francez _Pa che potar_ «sim, quero dormir, deixa-me.» - -Da-lhe então o selvagem as boas tardes, ou boas noites, dizendo—_Nein -tyande karuk tyande petom_ «boa tarde, boa noite, descançae á vontade.» - -Deixemol-os em descanço, e passemos á segunda parte d’esta historia. - - - - -Continuação da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas no -Maranhão em 1613 e 1614. - - - - -SEGUNDO TRATADO. - - - - -CAPITULO I - -Dos fructos do Evangelho, que appareceram cedo pelo baptismo de muitos -meninos. - - -O cantico segundo, (representando allegoricamente a origem da Igreja, em -terra nova, ainda não illuminada pelo conhecimento do verdadeiro Deos) -diz: _Vox turturis audita est in terra nostra: ficus protulit grossos -suos: vineæ florentes dederunt odorem suum_: «foi ouvida a voz da rolla -em nossa terra: produzio a figueira seos figos verdes, e as vinhas em -florescencia derramaram seo aroma.» - -Interpretando estas palavras Rabbi Jonathas, diz em sua Paraphrase -chaldaica, que a vóz da rolla significa a vóz do Espirito Santo -annunciando a Redempção promettida a Abraham, pae de todos os crentes: -eis suas proprias palavras:—_Vox spiritus sancti et redemptiones quam -dixi Abrahæ Patri vestro_: «a vóz do Espirito Santo e da Redempção, que -prometti a Abraham, vosso Pae.» - -Diz mais, que pela figueira deve entender-se a Igreja, e que pelos figos -novos se representa a confissão da fé, que devem os crentes fazer diante -de Deos, e finalmente que pelas vinhas em flor exhalando bom cheiro são -indicados os meninos louvando o Senhor dos seculos: _Cœtus Israel, -qui comparatus est precocibus ficubus aperuit os suum, et etiam pueri -et infantes laudaverunt Dominatorem sæculi_: em nosso tempo vimos isto -realisado em Maranhão, e suas circumvisinhanças, onde depois que á vóz do -Espirito Santo, por meio da prédica do Evangelho, se fez ouvir n’estas -terras, e tocou o coração de muitos, especialmente dos que solicitaram -o baptismo, a bella figueira da Igreja produzio novos figos, que são as -almas sahidas de infidelidade para a crença do verdadeiro Deos, e então -as vinhas em florescencia exhalaram seo cheiro quando em suas cabeças -receberam os meninos as agoas do baptismo, louvando o Senhor dos Seculos -pela parte que ja tomavam do sangue de Jesus Christo e da fé da Igreja. - -Coisa admiravel, digna de ser bem pensada e considerada: apenas a vóz do -Evangelho trovejou, e fuzilou por essas florestas desertas, por estas -sarças, cheias de agudos espinhos, esses pobres bichos (esses selvagens) -presos nos laços do cruel caçador Satanaz, começaram animados pela força -e impetuosidade d’essa vóz a construir seus pequenos templos, como -outr’ora tinha predicto o Propheta Rei David no Psalmo 28. _Vox Domini -præparantis Cervos, et revelabit condensa et in templo ejus omnes dicent -gloriam_: a vóz do Senhor amançando os viados, descobrirá o interior das -brenhas e das sarças e no seo Templo todos entoarão louvores á elle. - -Explicam os doutos, em varias licções, estas palavras dizendo que á voz -do Senhor parem os bichos seos filhos, á similhança da mão da parteira ou -do cirurgião habil, que serve para tirar do ventre da mulher o menino sam -e salvo. - -Esta voz não é outra, a darmos credito aos naturalistas, senão o ribombo -do trovão, e a luz do relampago, que por um segredo muito intimo da -naturesa faz com que param as femeas dos animaes ferozes. - -O mesmo produz a prédica do Evangelho, animada e vivificada pelo Espirito -Santo, excitando o coração d’estes barbaros, ha muito tempo internados -nas sarças e brenhas da ignorancia, da infidelidade, e dos maos costumes. - -Nas _casas grandes_ não se falla mais de outra coisa senão do -conhecimento de Deos, contando cada um o que ouvio de nós quando -veio visitar-nos, e terminando essas especies de conferencias pela -manifestação do grande desejo, que tinham de vêr seos filhos baptisados e -elles tambem, por meio d’estas e outras palavras similhantes. - -Que coisas, diziam elles, são estas, que os Padres nos contam por meio -dos interpretes? Nunca as ouvimos iguaes. - -Nossos paes, ja por tradicção nos contaram, que outr’ora veio aqui um -grande _Maratá de Tupan_,[92] isto é, Apostolo de Deos nas provincias, -onde residiam, e lhes ensinou muitas coisas de Deos: foi elle quem lhes -mostrou a mandioca, as raizes para fazer pão, porque antes só comiam -nossos paes raizes do matto. - -Vendo este _Maratá_, que nossos antepassados não faziam caso do que -dizia, resolveo deixal-os, mas antes quiz dar-lhes um testemunho de sua -vinda aqui, esculpindo n’uma rocha uma especie de mesa, imagens, letras, -á fórma de seos pés, e dos seos companheiros, as patas dos animaes, que -trasiam, os furos dos cajados, a que se arrimavam em viagem, o que feito -passaram o mar, procurando outra terra. - -Reconhecendo nossos paes sua falta, procuraram-no muito, porem nunca -d’elle tiveram noticias, e até hoje ainda não veio visitar-nos algum -_Maratá de Tupan_. - -Muito tempo ha, que frequentamos os francezes, e nenhum d’elles nos -trouxe padres, e nem nos contou o que por seos interpretes nos dizem os -padres. - -Por exemplo fazem viver de maneira diversa os _Caraibas_. - -Prohibem os francezes de tomarem nossas filhas, o que outr’ora faziam com -facilidade, dando-nos em troca algumas mercadorias. - -Dizem grandes coisas de Deos, e á elle fallam em suas Igrejas, e para -isso fecham as portas, fazem-nos sahir para que desça _Tupan_ diante -d’elles, e então si ajoelham todos os _Caraibas_. - -Bebe e come _Tupan_ em bellos vazos de oiro, e em mesa bem preparada e -ornada de bellos estofos, e bonitos pannos de linho. - -Adornam-se com ricos vestuarios, e quando querem fallar aos _Caraibas_ -assentam-se no meio d’elles, e somente falla um Padre, que está assentado. - -Escutam-no todos os francezes, falla por muito tempo, cança-se, ninguem o -entende porem todos ahi estão firmes. - -Depois que este falla, cantam uns depois de outros, de lado a lado, lêem -n’um _Cotiare_, (n’um livro) o que cantam e dizem elles que assim estão -fallando á Deos. - -Julgam nossos paes perdidos com _Jeropary_, ardendo em fogos -subterraneos, e riem-se de nós quando choramos e lamentamos nos funeraes -de nossos parentes. - -Mandam atirar no matto a comida, a bebida, e o fogo, que costumamos dar -aos nossos parentes defunctos para fazer a viagem até onde estão nossos -avós nas montanhas dos Andes. - -Elles nos dizem e prégam, que somos muito tollos em dar credito aos -nossos _barbeiros_ e _feiticeiros_, especialmente ao seo sopro para o -curativo dos infermos. - -Fallam com altivez contra _Jeropary_, e não o temem de fórma alguma. - -Promettem aos que crêem em _Tupan_, e que elles lavam com suas mãos, de -subir ao Céo por cima das estrellas, do sol e da lua, onde está _Tupan_ -sentado, e em roda d’elle os _Maratás_, e todos os que acreditam em suas -palavras, e são por elles lavados. - -Regeitam raparigas e mulheres, dizendo que o filho de _Tupan_ não as -teve, sahindo do ventre de uma rapariga chamada _Maria_ com a qual nunca -seo marido teve relações. - -Ha dias nos quaes não comem carne embora lh’a offereçam. - -Não se passam dez dias, contando pelos dedos, que não mandem os Francezes -vestirem-se com roupas bonitas, e irem a casa de _Tupan_ fallar com elles -e escutar a palavra de Deos. - -Vestem-se de maneira diversa dos outros francezes, caminham diante -d’elles, e todos os saudam. Convivem sempre com os grandes, que lhes -fazem tudo quanto querem, e dizem até que abandonaram suas riquezas e -fazendas para mais livres conversarem com _Tupan_, e manifestarem a -vontade d’elle aos francezes. - -Quando vamos vel-os, nos acariciam, especialmente a nossos filhos -dizendo-nos, que já não nos pertencem e sim a elles, sendo-lhes dados por -_Tupan_. - -Que não nos penalizemos por isso, porque nunca nos deixarão e nem nossos -filhos: que elles são muitos em França, que todos os annos virão outros, -que depois de haverem educado e ensinado nossos filhos, os farão fallar -em Deos tão familiarmente como elles o fazem: que lhes ensinarão a -_rotiarer_ (a escrever) e a fazer fallar o _papere_ (o papel) mandado de -muito longe aos que estão auzentes. - -Dizem-nos que seo Rei é poderoso, que os ama, e nos ajudará em quanto -elles estiverem comnosco. Ah! porque não somos mais moços para vêr as -grandes coisas, que farão os Padres em nossas terras! Elles construirão -com pedra grandes Igrejas como ha em França. - -Trarão bellos estofos para ornar o lugar, onde desce _Tupan_. Mandarão -buscar _miengarres_, isto é, musicos cantores[93] para entoarem as -grandezas de _Tupan_. - -Recolherão todos os nossos filhos n’um lugar, onde alguns dos Padres -cuidarão d’elles. Mandarão buscar de França mulheres para ensinarem o -que sabem á nossas filhas. Não nos faltarão ferramentas para nossas -roças. Ah! diziam alguns d’elles em continuação, si chegarmos a vêr essas -mulheres em nossas terras, então temos certesa que não nos deixarão -os francezes, e nem os Padres, especialmente si nos derem mulheres de -França. Si eu tivesse, disse um d’elles, uma mulher franceza não queria -outra, e faria tanta roça que havia de chegar para sustentar tantas -francezas, como de dedos eu tenho nas mãos e nos pés, isto é, vinte, -numero infinido para significar muito, porque depois de terem chegado a -vinte, começam a contar de novo. - -Levantando-se então elle, que era o Principal no meio do grupo, em que -me achava, e batendo nas nadegas com quanta força tinha, disse _Aça-uçu, -Kugnan Karaibe, Aça-uçu seta, &._ «Amo uma mulher francesa com todo o meu -coração, amo-a extremosamente.» - -Respondeo o _Cão grande_, tambem Principal—«prometteram-me uma mulher -francesa, que desposarei na mão dos padres, e me farei christão como fiz -meo filho Luiz-galante, e quero ter em pouco tempo um filho legitimo. -Minha primeira mulher está velha, e por isso não precisa mais de marido, -e as outras oito, ainda moças, as darei por esposas a meos parentes, e -ficarei só com a mulher de França, e minha velha mulher para nos servir.» - -Faziam outros iguaes discursos em suas _cazas grandes_ e na minha -residencia, ou quando me viam passar, contentando-me de referir apenas o -que acima escrevi para mostrar o fervor d’estes barbaros, suscitado pelo -Divino Espirito Santo. - -_Vox turturis audita est in terra nostra_, para produzir de seo seio -fechado e preoccupado por mil infecções estes bellos e amigaveis -viadinhos, _vox Domini præparantis Cervos_, e em outro logar _Cerva -charissima e gratissimus hynnulus_, cap. 5º dos _proverbios_, «a côrça -muito estimada, e o templo muito lindo.» - -Continuemos. - -A estas palavras seguio-se logo a pratica, porque foram muitos meninos -entregues ao Rvd. padre Arsenio, residente em _Juniparan_, e a mim, -morador em São Francisco, perto do Fórte de São Luiz, para acudir aos -francezes e receber os Indios de outras terras, que todos os dias nos -vinham vêr e conhecer, si era verdade o que de nós se dizia em longes -terras. - -Foi esta a divisão, que fizemos, de tantas e tão grandes terras para -cultivar e lavrar o que permittissem nossas forças, cuidando um de uma -parte e outro de outra, excepto quando houvesse necessidade de sahir da -Ilha, porque então se tomariam providencias adequadas. - -Impossivel é á palavra o pintar o contentamento e a alegria, que -sentiamos vendo estes selvagens trazer-nos seos filhos, voluntaria e -expontaneamente, para serem baptisados, preparando-os o melhor que -podiam com os meios offerecidos pelos francezes, isto é, vestidos com -um pedaço de panno de algodão, escolhendo padrinhos entre os francezes, -contrahindo assim com elles estreita alliança, especialmente com os -meninos baptisados, si estivessem em idade de o conhecerem, porque então -considerariam seos padrinhos como seos proprios paes, chamando-lhes -pelo nome de _cheru_, «meo pae» e sendo pelos francezes chamados os -rapazes _cheaire_ «meo filho,» e as meninas _cheagire_ «minha filha»: -vestiam-nos em summa o melhor, que podiam, e os selvagens, paes dos -meninos baptisados, lhes offereciam todas as commodidades resultantes de -suas roças, de suas pescarias, e caçadas. - -Vendo assim estas cousas, lembrava-me do que diz o cap. 5º dos -_canticos_. _Oculi ejus sicut cólombæ super rivulos aquarum, quæ lactæ -sunt lotæ, et resident juxta fluenta plenissima_: «os olhos de Jesus -Christo, esposo da Igreja, parecem-se com os olhos da pomba, orvalhada de -leite, que contempla os regatos das fontes, e faz seo abrigo e morada nos -rochedos, que abrangem rios amplos e espaçosos.» - -Estes olhos de Jesus Christo são as graças do Espirito Santo, que -fazem quebrar seos ovos á maneira das tartarugas, expostos á mercê das -innundações do mar e da frialdade da areia. - -Tem estes mesmos olhos por plano e fim lavar e purificar as almas, -especialmente as almasinhas rociadas de leite. Assim como a pomba branca -brinca sobre os riachos, e habita á margem dos grandes rios, assim tambem -o Espirito Santo folga e muito na conversão de uma terra nova, e encara -com bons olhos a sahida d’estas almasinhas do estado geral d’estas terras -barbaras, a saber, da ignorancia de Deos para chegar a conhecel-o por -meio das agoas do baptismo, partecipantes, como nós, da visão de Deos, -porque não fazem accepção de ninguem, visto que estas almas barbaras lhe -custaram tanto como as nossas. - -Oh! preço infinito! oh! falta de caridade, que não tem desculpa perante -Deos, de se verem tantas almas pedindo a salvação, sem embaraços e -riscos, e em risco de se perderem por não haver um pequeno auxilio. - -Bom Deos! todos nós acreditamos, e Jesus Christo confirma esta crença, -que uma só alma valle mais que todo o resto do mundo, isto é, que todos -os imperios, e reinados da terra, que todas as riquezas e thesouros do -homem: mais ah! não temos difficuldade de pôr em execução nossas crenças. - -Não posso deixar este assumpto sem primeiro declarar a luta interior, que -experimentei, para fazer vêr e descarregar minha consciencia tanto quanto -a julgo compromettida, parecendo-me bastante para minha justificação e -defesa o que acabo de dizer. - -Li e notei em bons auctores, profundos e perspicases no conhecimento dos -segredos e mysterios da Escriptura, que as pombas brancas orvalhadas de -leite eram certas pombas, que os Syrios creavam em honra e veneração de -sua rainha Semiramis, sendo prohibido matal-as sob pena de morte. - -Contam-nos os antigos ter-se esta rainha immortalisado por um acto -memoravel, entre seos altos feitos d’armas, o mais milagroso quanto é -possivel á grandesa dos reis, qual a suspensão entre o Céo e a terra de -seos jardins, pomares, e bosques de recreio. - -Salomão procurou esta comparação entre as coisas profanas para mostrar -uma obra divina notavel entre as outras, qual a conversão das almas, -inteiramente reservada ao poder de Deos por ser uma segunda creação pela -qual assim como suspendeo a terra no ar, assim tambem suspenderá jardins, -pomares, e florestas de sua igreja com surpresa dos calculos e juizos -humanos, afim do dar lugar aos seos predestinados e eleitos chamando-os -quando lhes apraz, no meio dos desertos, e do interior das mais vastas e -densas florestas. - -Antes de ir adiante, não deixarei escapar a coincidencia que se nota -entre a grande Semiramis e Maria de França, rainha christianissima. - -Semiramis rainha reinante e tutora do seu filho o rei d’Asyria -emprehendeo grandes coisas, em beneficio e sustentaculo do imperio de seo -filho. - -Igual caso se dá com a nossa rainha, e embora Semiramis tenha em seo -tempo feito muitas obras magnificas, pelas quaes grangeou o amor e a -obediencia de seos subditos mais do que outra qualquer, sua antecessora, -a immortalidade de seo nome foi devida a seos edificios miraculosos. - -Com igual razão direi, que entre as heroicas acções da rainha, mãe do -rei, que levaram a posteridade seo nome immortal, conta-se a missão dos -padres capuchinhos ás terras do Brasil para ahi plantar os jardins da -igreja, começada e fundada sob sua authoridade e ordem, e assim será o -Brasil obrigado a sustentar estas pombas brancas em memoria e lembrança -de tão grande Semiramis que tem tanta piedade como poder para aperfeiçoar -esta empresa. - -Ainda vos peço, que em nossas pequenas pombas rociadas de leite deveis -vêr os filhinhos dos selvagens conduzidos ao gremio do christianismo pelo -baptismo. - -Ha cinco annos, pouco mais ou menos, nem havia desejo de se intentar a -cathequese d’esta gente. - -O diabo ahi mandava com imperio, arrastava para si todas estas almas sem -pagar dizimo a Deos, porem presentemente, em quanto durar e continuar a -missão, com o auxilio de Deos ouvireis dizer quaes os grandes fructos, -ja colhidos, e outros que se colhem todos os dias. - -A nossa maior consolação, a que nos fazia soffrer as amarguras e as -difficuldades dos trabalhos, que ahi não nos faltavam, era vêr a -franqueza e boa vontade, com que os selvagens nos apresentavam seos -filhos para serem baptisados dizendo então nós, em conversa com elles, -que para nós nada havia mais agradavel do que o trazerem elles seos -filhos á pia baptismal, e sempre que comnosco fallavam era assumpto da -conversa a manifestação de seos desejos por verem seos filhos por nós -baptisados. - -Poderia aqui reproduzir muitos exemplos para confirmar esta verdade, mas -como tenho de referil-os em lugar proprio, deixo-os agora de mão. - - - - -CAPITULO II - -Do baptismo de muitos infermos e velhos, que falleceram depois de -christãos. - - -Entre os mais bellos enigmas sagrados, que recita Job no seo livro, -está no Cap. XIV a parabola do loureiro dizendo. _Si senuerit in terra -radix ejus, et in pulvere mortuus fuerit truncus illius, ad odorem aquæ -germinabit, et faciet comam quasi cùm primo plantatum est_: «Si a raiz do -loureiro se mergulha na terra, e seo tronco morrer no pó, apenas sentir o -cheiro da agoa germinará e produzirá nova copa de folhas, como si fosse -recentemente plantado.» - -Os Setenta assim inverteram esta passagem: _Si in petra mortuus fuerit -truncus ejus, ab odore aquæ florebit, et faciet messem, sicut nova -plantata_: «si o tronco do Loureiro morrer na pedra, com o cheiro d’agoa -florescerá, e como planta nova mostrará em breve sua copa.» - -Outra versão ha ainda mais bella: _Attracto humore aquæo iterum germinat, -exibet quæ fructus decerpendos, ut plantæ solent_ «o Loureiro morto -chupando a agoa germina de novo, e como as outras plantas offerece -sazonados fructos.» - -N’estes trez trechos descobrireis muitas coisas, que servem litteralmente -ao nosso fim. - -1.º A raiz do Loureiro dentro da terra. - -2.º Seo tronco morto no pó ou na pedra. - -3.º O cheiro d’agoa, que dá a vida perdida á raiz e ao tronco fazendo -produzir folhas, flores e fructos. - -O Loureiro representa as Nações infieis, conforme a ficção dos antigos da -nympha Daphné, a qual perseguida pelos demonios com o nome de Appollo foi -convertida em Loureiro. - -Sua raiz sepultada no pó ou na rocha representa longa serie de annos, -nos quaes estas Nações barbaras jazeram entregues aos seos barbaros e -inveterados costumes. - -O tronco ja morto representa o fim e terminação d’esta ignorancia. - -Deos querendo presentemente visitar esta Nação escolheo os enfermos, os -velhos, os caducos e moribundos para fazel-os renascer em Jesus Christo, -levando as folhas verdes da graça, as flores dos dons do Espirito Santo, -e os fructos dos meritos da paixão de Jesus Christo, e com isto tudo o -cheiro e o atractivo da agoa do baptismo. - -Sentiamos muito consolo quando baptisavamos os doentes e os velhos, cuja -morte era esperada com certeza, por que receiavamos que por falta de -soccorros, nos vissemos obrigados a deixar e abandonar todos os meninos -recentemente baptisados e os adultos, que constantemente si apresentavam. - -Tinhamos ao menos certeza, que baptisando os que se achavam proximos da -morte, abria-se o Paraizo, e perdia-se a occasião que lhes faria perder -talvez a graça obtida, ficando sós e longe dos Ministros da Igreja para -nutril-os na graça recebida. - -Alem d’isto o baptismo d’estes velhos fazia muita impressão no coração -das testemunhas vendo a devoção, com que ordinariamente recebiam o -baptismo. - -Vou dar-vos alguns exemplos. - -Na ilha cahiram doentes duas raparigas, uma livre e outra escrava, -sendo aquella casada com um Tupinambá, muito bom moço, o qual depois da -morte de sua mulher, constantemente nos perseguia para ser baptisado, -aprendendo com muito boa vontade a doutrina christã. - -Esta rapariga, proxima da morte, pedio que lhe dessem o baptismo, -confessando por palavras nascidas do coração a verdade da nossa religião, -mostrando por signaes exteriores o toque do Espirito Santo no seo -coração, banhando-se de lagrymas de amor e de reconhecimento ao grande -_Tupan_, que lhe fazia tão assignalada graça de a ter feito nascer neste -seculo para tiral-a do meio de tantas almas perdidas de sua nação e -conceder-lhe o goso do paraizo. - -Fitava com attenção o Ceo, e com palavras doceis e tremulas recitava -o que sabia á respeito da crença de Deos, repellindo para bem longe -_Geropary_ e seos antigos enganos. - -No meio d’este discurso, precursor da morte, lamentava a condemnação de -seos antepassados. - -Fazia exposições muito bellas a seo marido e o animava a receber quanto -antes a purificação de seos peccados. - -Devo dizer d’ella um facto muito particular, qual o de haver conhecido um -só homem, o seo marido, o que é não pequeno milagre n’aquelle paiz, por -causa do mau costume introdusido pelo diabo no coração das moças, de se -honrarem pela deshonra, e de não apreciarem a castidade ou a virgindade. - -Bem vêdes por isto, que em todos os escolhidos de Deos ha sempre alguma -virtude natural, que provoque, não por merecimento e sim pela occasião, -a graça de Deos, que similhante ao sol, com indifferença, está a entrar -n’alma de todos, si houver para isso disposição. - -A _Tapuia_, ou escrava, atacada por violenta febre, que a atormentava -muito, achava-se em sua rede só e por todos abandonada, conforme o uso -e costumes d’elles, que consideram grande deshonra cuidar d’uma escrava -quando está a morrer, isto antes da nossa chegada a ilha, quando então -lhes mostrámos o quanto era desagradavel á Deos a crueldade com que -atiravam por terra o escravo moribundo e lhe quebravam a cabeça como ja -disse. - -Esta desgraçada mulher, prisioneira de Satan, e victima das desgraças -communs da natureza, que são as enfermidades e as doçuras dolorosas -e insuportaveis, sem pessoa alguma junto de si foi então olhada com -piedade, e visitada por seo Creador, animando-a a pedir o baptismo. Oh! -juiso de Deos! Oh! providencia eterna! - -Quem poderá comprehender teos conselhos na vida do homem! - -Esta pobre creatura, dardejada vivamente no coração pelas flechas das -primeiras graças do seo senhor, não merecidas por alguma obra boa -anterior, que houvesse feito, lançava suas vistas por todo o quarto -procurando ver, si alguem lhe apparecia para mandar chamar os Padres, -afim de ser lavada com as agoas do baptismo, e felizmente lhe appareceu -um francez, a quem expoz seos desejos, e veio elle logo dizel-os ao -padre, indicando a casa d’ella, que era perto, e elle foi logo visital-a, -instruil-a e baptisal-a. - -O francez, que cuidou d’ella, e o padre que a baptisou, me contaram -coisas admiraveis. - -Esta infeliz creatura quanto ao corpo, porem muito feliz quanto á alma, -principiou a experimentar os penhores do Ceo, e o merecimento do sangue -de Jesus Christo que recebeo pelo baptismo. Tinha sempre os olhos fixos -no Ceo, derramava abundantes lagrymas, e dizia de momento a momento, -estas palavras—_Y Katu Tupan, ché arobiar Tupan_. Oh! quanto Deos é -bom! Oh! quanto Deos é bom! eu creio n’elle. Depois por meio de signaes -mostrava aos francezes, que _Jiropary_, o diabo, andava ao redor de sua -rede, e então dizia _Ko Jiropary, Ko y pochu Jiropary_: «está ali o -diabo, atirai sobre elle a agoa de _Tupan_, isto é, agoa benta para elle -fugir.» Fazia-lhe o francez a vontade e dizia ella que o diabo fugia a -toda a pressa, e por isso constantemente pedia ao francez que derramasse -em roda d’ella e de sua rede muita agoa benta o que fazia, bem como o -padre quando ahi se achava. - -Apenas lhe apparecia uma dor de cabeça, que muito a encommodava, pedia -para que lavassem a testa, as fontes e a cabeça com agoa benta, com que -alliviava muito, a ponto de não sentir mais doença alguma: pouco depois -entregou sua alma ao Creador. - -Amortalharam e sepultaram seo corpo á maneira dos christãos: aconteceo -porem, que alguns malvados, filhos de _Giropary_, que nunca foram -descobertos, senão seriam punidos, foram á noite desenterral-a, -quebraram-lhe a cabeça e roubaram o panno de algodão de sua mortalha: -pela manhã foi outra vez sepultada. - -Ninguem se admire d’isto, pois o diabo reserva sempre para si alguns bons -servos, mesmo nos reinos os mais bem policiados, afim de executar suas -mais detestaveis intenções. - -Sabeis sem duvida, que os _Tupinambás_ aborrecem naturalmente os que -abrem as sepulturas dos mortos e não podem por isso tolerar, que os -francezes abram as covas, onde foram enterrados seos parentes para lhes -tirar os objectos, que elles cheios de superstição ali deixam. - -Ahi estava a morrer um velho _Tabajare_, tão magro, que os ossos lhe -furavam a pelle, sem voz, e sem movimentos na sua rede. - -Julgando-se mais proximo da morte do que da vida, inspirado por Deos, -pedio o baptismo. - -Fomos visital-o e cathequisal-o pedindo-lhe sua opinião a respeito de -todos os pontos e artigos, que lhe propuzemos. - -Com as mãos postas nos disse que acreditava no que lhe diziamos. - -Demorando-nos nos artigos relativos á crença da Santissima Trindade, da -Incarnação, Morte, e Paixão do Filho de Deos, do Baptismo, e do Mysterio -da Santa Eucharistia, por que estava proximo da morte, procuramos -fazer-lhe entender estas materias tão altas e profundas por comparações -familiares, a que prestou muita attenção, e dezejando com todo o fervor -o baptismo nós lhe promettemos, que no cazo de ficar bom elle receberia -as ceremonias do baptismo na capella de S. Luiz, e aprenderia com gosto a -doutrina christan, que ensinavamos aos catecumenos antes de baptisal-os. - -Respondeo-nos, que não era tão longe a Capella de Sam Luiz, que não -podesse ser levado até lá afim de, antes de morrer, ser baptisado, -consolação que muito desejava afim de ir direito para o Ceo. - -Vendo este fervor e devoção ficamos satisfeitos e concordamos ser elle -carregado n’uma rede até a igreja de Sam Luiz, e ahi baptisado com toda a -solemnidade. - -Alguns dias depois morreo tranquillamente. - -N’esse mesmo tempo cahio doente uma mulher _Tabajare_, e tão gravemente, -que todos julgavam-na em breve morta: fomos vel-a e lhe offerecemos o -baptismo que aceitou de muito boa vontade, e com muita attenção escutava -o que diziamos, por intermedio dos interpretes, a respeito das glorias do -Paraizo, das penas do inferno, do que ella devia crer, antes de receber o -baptismo no caso de Deos lhe dar saude, e que podesse aprender a religião -christan, e então na igreja receberia as ceremonias do baptismo, no que -concordou e foi baptisada: recobrando sua saude, julgou do seu dever -cumprir sua palavra, embaraçando-a porem o facto de ser mulher de um -_Tabajare_, que tinha mais duas, não podendo ella continuar a viver com -elle casada segundo as leis do christianismo. - -Removemos este obstaculo seguindo o conselho de Sam Paulo: _si qua mulier -fidelis habet virum infidelem et hic consentit habitare cum illa, non -dimitat virum etc quod si infidelis discedit, discedat_: «si alguma -mulher fiel estiver casada com um homem infiel, e que este queira morar -com ella, ella que não o deixe, si o homem infiel a deixar, ella o deixe -tambem.» - -Em virtude d’isto fizemos saber a seo marido, que se quizesse ter -por unica esta mulher christan, deixando as outras, que ella não o -abandonaria, mas que si quizesse viver como d’antes na qualidade de -concubina, que nós e os grandes dos francezes lhe afiançavamos, que elle -seria despresado como incompativel com o christianismo. - -A principio mostrou repugnancia porem afinal concordou, vivendo como -mulher christan e unica com seo marido. - -Faziamos o mesmo aos meninos pequenos, proximos á morte, observando porem -estas formalidades: pediamos o consentimento dos paes e mães antes de -baptisal-os, embora não os deixassemos de baptisar, quando os viamos -moribundos: apesar de estarmos certos da boa vontade geral dos selvagens -de apresentarem seos filhos ao baptismo, nós lhes prestavamos esta -homenagem com o fim de attrahil-os á se converterem. - -Não vem a proposito referir aqui alguns exemplos, porque nada acho n’isto -de extraordinario. - - - - -CAPITULO III - -Do baptismo de muitos adultos, especialmente de um chamado Martinho. - - -Antes de tratar d’esta materia, julgo necessario advertir ao leitor, que -no fim da obra do reverendo padre Claudio achará alguma coisa d’esta e da -seguinte historia, tudo extrahido de uma de minhas cartas, que enviei de -Maranhão, á meos superiores, e como apenas esbocei-as, justo é que eu as -descreva minuciosamente. - -Estas sagradas agoas do baptismo não estagnaram na ilha, pois -atravessando a corrente forte e impetuosa do mar, sem com elle -misturar-se, passaram ás terras firmes de _Alcantara_ e _Comã_, que -despertadas por seo doce sussurro acolheram bem os espiritos d’aquelles, -que Deos tinha escolhido para si, e pelo bom gosto d’ellas procuraram -indagar-lhes a origem, maravilha, que não pode ser descripta como merece, -pois á força d’estas agoas venceo incomparavelmente a actividade do -azougue, chamando a si todos os pedaços de oiro espalhados por diversos -lugares, isto é, as almas inspiradas por Deos em _Tapuitapera_ e _Comã_ -vinham á Maranhão onde tinha assentado seos alicerces a salvação d’este -paiz. - -Quem poderia dizer o grande numero de pessoas, que nos vinham visitar -para aprender alguma coisa dos mysterios da nossa fé? - -Na verdade ninguem, mas para contentar o leitor e dar-lhe alguma ideia -direi, que não havia um só dia, em que não recebesse novos visitadores -e as vezes chegavam a 100 e a 120: eis a razão porque não podia deixar -facilmente o Forte, e ir ás aldeias á meo cargo ministrar o pasto -espiritual. - -Muitos d’estes selvagens de diversas idades se me apresentaram pedindo o -baptismo, o que eu difficultava, e somente concedia aos que julgava, por -algum acto extraordinario, enviados por Deos para tal fim. - -A razão porque apresentavamos essas difficuldades ja o disse, por vir da -incertesa do soccorro, e do temor em que estavamos de baptisar todos os -que nos pediam, e depois deixal-os sem coadjutores, pelo que poderiam -cahir em peior estado do que se achavam anteriormente. - -Não deixavamos comtudo de trazel-os esperançados, e aproveitavamos a -occasião de instruil-os no conhecimento e amor do Omnipotente até á vinda -dos novos padres, que os acharam promptos para satisfazer suas vontades. - -Entre os que foram inspirados vivamente pelo Espirito Santo, e que -por isso baptisamos havia um indio de _Tapuitapera_, principal n’uma -aldeia antiga d’esta provincia, chamada _Marentin_, sempre grande amigo -dos francezes, de boa indole, modesto, de poucas fallas, olhos sempre -voltados para terra, tido outr’ora entre os seos por afamado barbeiro ou -feiticeiro, tendo n’elle muita fé os doentes. - -Contou-me elle e depois muitos outros, que era christão, e quando exercia -a sua arte de barbeiro era visitado por muitos espiritos folgazões, -que brincavam diante d’elle, quando embrenhava-se nos mattos, tomando -diversas cores, sem lhes fazer mal algum antes até tornando-se seos -intimos: achavam-se porem na duvida si eram espiritos bons ou maos: tal -era a sua crença n’estes espiritos bons ou maos. - -Conforme o costume tinha tres mulheres, antes de ser christão. - -Aconteceo porem, que inexperadamente viesse com muitos selvagens, seos -similhantes, de _Tapuitapera_ para vêr não só a nós como tambem as -ceremonias, com que serviamos a _Tupan_. - -Achando-se no _Forte de S. Luiz_, vio na manhã do dia seguinte (que era -domingo) os francezes vestidos com suas boas roupas, acompanhando seos -chefes em caminho para a nossa casa de S. Francisco afim de ouvirem -missa. Após estes iam os selvagens, o que o animou a seguir o prestito, -especialmente pelo desejo e intenção, que tinham, ha muitos annos de -aproximar-se de nós. - -A Capella de Sam Francisco encheo-se logo de francezes, de selvagens -christãos, e não christãos, que tinham todos especial devoção de receber -em si algumas gottas de agoa benta. - -_Marentin_, observando a pressa de todos, alcançou como poude o canto de -uma porta, trepou-se n’um banco, que ahi achou para ver á sua vontade -tudo quanto eu fazia. - -Apenas pisei nos degraos do altar, voltei-me afim de saudar a todos, e -descobrindo este selvagem acudio ao meu espirito a esperança de salval-o. - -Contou depois, como prestou attenção a todas as ceremonias, que fiz -na celebração do alto e profundo mysterio da Missa, e desejou saber -porque me revesti de alva branca, liguei a cintura, deitei o manipulo -no braço, e a estolla no pescoço: aproximei-me á direita do altar, -onde me apresentaram um vaso com agoa e sal, sobre o qual pronunciei -algumas palavras fazendo muitos signaes da Cruz; levantaram-se os -francezes, me respondiam cantando, e tendo eu um ramo de palma na mão o -mergulhei n’agoa deitando algumas gottas no altar, depois sobre mim, e -levantando-me fui aspergir os francezes começando pelos chefes e acabando -pelos que estavam na porta da Igreja, chegando tambem para esse fim -os selvagens não christãos, na convicção de que lhes serviria contra -_Jeropary_, desceo elle mesmo do banco, rompeo a multidão para receber -tambem algumas gottas d’agoa benta, o que conseguio. - -Não gosou logo esta gotta de celeste orvalho, porque as cantharidas -peçonhentas e venenosas cahiram sobre as flores de sua alma -entre-abertas, porem as abelhas industriosas de inspirações divinas -vieram reunir ahi o doce mel da raça christã, porque regressando ao seo -lugar agachou-se atraz dos outros, dormio, e durante o seo somno vio o -Ceo aberto, e para elle irem subindo muitas pessoas vestidas de branco, e -atraz d’ellas muitos _Tupinambás_ a medida, que eram por nós baptisados. - -Disseram-lhe na visita que as pessoas vestidas de branco eram _Caraybas_, -isto é, francezes ou christãos,[94] conhecedores de Deos e do baptismo -desde a mais remota antiguidade, e que os selvagens, que os acompanham, -eram lavados por nós, e acreditam em Deos, em nossas palavras e de nossas -mãos recebiam o baptismo. - -Despertando, não disse palavra, porem ficou muito pensativo e -melancolico, e assim embarcou, e foi para a sua terra. - -Chegando a sua casa todos o desconheceram, e lhe perguntaram o que -sentia, e si havia recebido alguma desfeita dos francezes em _Yviret_. - -Sem dar resposta alguma de dia para dia mais se entristecia, fugia da -companhia de seos similhantes passeando só em suas roças e bosques, -onde foi accommettido por estes espiritos loucos, cahindo depois tão -gravemente doente a ponto de chegar ás portas da morte, sempre afflicto -pela visão, que vira em _Yviret_, e pelos espiritos de que já fallei. - -Finalmente ouvio uma voz interior dizendo-lhe que se quizesse livrar-se -de tál afflicção e molestia, e ir com Deos para o Ceo convinha, antes de -morrer, lavar-se com essa agoa, que cahio n’elle quando esteve na casa de -_Tupan_ em _Yviret_. - -Obedecendo a esta voz, em madrugada alta, mandou um seo irmão ter -comnosco, e pedir-nos por intermedio do chefe dos francezes, cuja -intervenção invocou, um pouco d’agoa de _Tupan_, n’uma porção de algodão, -guardada n’um _caramémo_,[95] afim de não se perder uma só gotta para -lavar sua cabeça, e ir assim lavado para o Ceo. - -Cumprio a ordem o enviado, dando seo recado ao Sr. de Pezieux, bom -catholico, que se admirou, bem como o Sr. de Ravardiere e outros. - -O Sr. de Pezieux mandou-me este homem, com um interprete, para me dizer o -fim de sua vinda que muito me maravilhou vendo n’um selvagem tão grande -fé, misturada com temor, respeito e humildade. - -Quiz ir logo ter com elle, porem não pude, porque, como ja disse, de -todas as partes vinham diariamente muitos selvagens procurar-me, e nem -foi possivel mandar-lhe o Rvd. padre Arsenio porque estava occupado -em outro logar, e por isso mandei-lhe um francez proprio e capaz para -fazer-lhe companhia, cuidar na sua salvação e baptisal-o, sem ceremonia, -no caso de receio de morte. - -Chegando á sua casa o francez com o irmão de Marentin, disse-lhe que eu -não podia deixar a ilha, e nem o Forte de Sam Luiz por causa dos muitos -selvagens, que me vinham procurar, mas que elle vinha em meo logar afim -de o baptisar, antes de morrer, no caso d’estar tão doente á ponto de não -poder ir á ilha para ser baptisado por nossas mãos. - -Ouvindo isto recobrou forças e actividade, e disse, «visto que a coisa -é assim, não quero ser baptisado por um _Caraiba_, e sim pelas mãos dos -padres,» e nem deixou de levantar-se (embora doente e fraco a ponto -de não poder estar em pé senão com muito custo) na manhã seguinte, de -embarcar-se e vir procurar-me no _Forte_, expondo-me o seo grande desejo -de ser filho de Deos e baptisado, e de apagar as visões, que tinha na -cabeça. - -Respondi-lhe que era necessario aprender a doutrina christan o mais cedo -que podesse, deixando muitas mulheres, e contentando-se apenas com uma. - -Eram estas as duas coisas, que, entre outras, exigiamos dos adultos. - -Replicou-me, que em quanto a pluralidade de mulheres foi coisa, que nunca -approvou, e que achava de razão um homem ter uma mulher só, mas que em -beneficio de sua casa necessitava de muitas. - -Disse-lhe que podia ter muitas mulheres como servas, e não como esposas. - -Concordou n’isto facilmente, e cheio de bons desejos em poucos dias -aprendeo a doutrina christan e pedio-me, que eu o instruisse, antes de -ser baptisado, das ceremonias que com tanta attenção vio no primeiro dia, -em que foi tocado pelo espirito de Deos. - -Disse-lhe que Tupan era um grande Senhor, sempre comnosco embora não -seja visto, devendo ser servido com profunda reverencia, com ornatos e -vestidos diversos do ordinario. - -Expliquei-lhe que o primeiro vestido branco, que me vio tomar, -significava tres coisas: 1.º a innocencia e puresa, com que deviamos -apparecer diante d’elle; 2.ª o vestido de sua humanidade, proveniente do -sangue de uma virgem, de quem fallava com os homens: 3.ª para representar -o vestido de zombaria, que lhe deram seos inimigos quando quiz por nós -soffrer, ameaçando-lhe de o fazer padecer o que quizessem, embora tivesse -elle o poder de impedil-os em suas intenções. - -Disse-lhe, que a corda com que apertei a cintura, e essas tiras de -seda, que puz no braço e no pescoço representavam os ornamentos, que -deviamos dar á nossa alma para ser agradavel a Deos: a corda quer -dizer—continencia de mulheres, a tira do braço—o bem, que devemos -fazer ao proximo, e a do pescoço, onde é costume trazer-se collares e -aderesses,—o amor e a perseverança na nossa profissão, que tudo isto -junto faz lembrar as cordas com que foi preso o Salvador. - -O outro vestido de seda, que puz por cima de tudo isto, mostra o zelo ou -a salvação das almas, que devemos procurar, não nos contentando só de -ir para o Ceo, mas fazendo tudo quanto pudermos para que nos acompanhem -nossos similhantes. - -Significa tambem o segundo vestido a vestimenta de zombaria, que foi dado -a Nosso Senhor em sua Paixão. - -A respeito da agoa e do sal, sobre que pronunciei algumas palavras, -expliquei-lhe que eu o fiz para dar a agoa o poder, da parte de Deos, -de expellir o diabo do lugar e das pessoas, em que estivesse, e que a -aspersão, que eu fazia com a palma sobre os francezes era para expellir -o diabo, que andava ao redor d’elles, e que o canto, que elles entoavam -em quanto eu lhes lançava agoa benta, era uma supplica a Deos para -purifical-os de seos peccados. - -Perfeitamente instruido de todas estas coisas, concordamos baptisal-o no -dia da festa da Santissima Trindade. - -Para seo padrinho escolheo o Sr. de Pezieux, e no dia aprazado -vestiram-no com uma roupa de algodão bem alvo em respeitosa homenagem -ao Sacramento, que ia receber, isto é, a innocencia e candura baptismal -conferida sob a invocação das tres pessoas da Santissima Trindade. - -Grande numero de selvagens, principalmente de _Tapuitapera_, assistiram -a este baptismo, o que lhes fez grande impressão no espirito, vendo -este homem, seo similhante, respeitado por elles tanto por suas antigas -feitiçarias, como por sua autoridade e idade, receber, como si fosse -menino, sobre sua cabeça a agoa de Jesus Christo. - -Querendo aproveitar tão boa occasião pedi aos francezes que abrissem -caminho para que de mim se aproximassem os primeiros e os principaes -selvagens, que ahi se achassem, aos quaes dirigi a palavra por meio do -interprete. - -«Todos os dias, meos amigos, vedes em vossa terra os passaros seguirem -uns aos outros, de forma que quando uns levantam o vôo, todos os outros -os acompanham. - -«Sabeis tambem que os javalys caminham em grande companhia, sem que um só -delles se desvie dos passos dos primeiros. - -«Por experiencia conheceis que os _Paratins_, isto é, os peixes -chamados—sargos—no mar andam sempre em grandes bandos seguindo seos -conductores, de tal fórma que vindo os primeiros ao encontro de vossas -canôas, quando ides pescar, imitam-nos os outros cahindo dentro dellas e -assim apanhaes vós grande quantidade d’esses peixes. - -«O que é isto? O exemplo dos similhantes. A naturesa implantou em -tódas as creaturas vivas e intelligentes o desejo d’imitação de coisas -similhantes, conforme as differentes especies. - -«Observae agora este homem vosso similhante e principal, que si fez filho -de Deos. - -«Bem sei que trazei-nos vossos filhos, porem pensam alguns de vós que não -são capazes, por velhos, de receberem o baptismo: é um engano, porque, -como vossos filhos, podeis ser baptisados, e ir para o Ceo. Vêde diante -de nós este homem que vou baptisar, que me prometteo de ensinar os que o -quizessem ouvir. Abri os ouvidos para ouvil-o.» - -Dito isto, mandei ajoelhar-se nos degraus do altar, e recitar em vóz alta -e clara na sua lingua, e de mãos postas a doutrina christã, que para -diante será encontrada em lugar proprio. - -Comecei depois as ceremonias do baptismo, observadas com muita attenção -por todos os selvagens, recebendo o nome de Martim Francisco, lembrado -por seo padrinho por tal ou qual semelhança com o seo antigo nome de -_Marentin_, fazendo assim geralmente conhecido pelos selvagens tal -conversão. - -Acabado isto, mandei-o sentar junto de seo Padrinho, e comecei a -celebração da missa, que ouvio com toda a devoção, de mãos postas, e na -occasião de levantar-se a Hostia ajoelhou-se, como os outros, recitou a -oração dominical e o credo em quanto vio os francezes tambem de joelhos. - -Passados alguns dias quiz regressar á sua aldeia, tendo alcançado a -saude do corpo e da alma, e despedindo de nossos chefes e de mim, nós o -mimoseamos com rosarios, imagens, _Agnus Dei_ e bentinhos. - -Recommendamos muito, que depois de orar a Deos, resasse tambem para a -Virgem Maria, Mãe de Jesus Christo, recitando em sua lingua _Ave Maria_ -tantas vezes quantas fossem as contas do seo rosario, e a oração -dominical tantas quantas fossem as contas grandes. - -Tomou tal devoção com a Santissima Mãe de Deos que trazia sempre ao -pescoço o seo rosario, que beijava muitas vezes, e quando queria orar a -Deos elle o tirava e fazia o que lhe ensinamos. - -Antes de partir disse-me que só tinha um filho, que me traria no seo -regresso para eu vel-o, e quando estivesse instruido na doutrina christã, -eu o baptisaria e elle o daria aos Padres para ficar sempre com elles. - -Prometteo igualmente escolher uma das suas tres mulheres, com certesa a -mãe do seo filho, si ella quizesse ser christã como elle, conservando as -outras como servas. - -Bem compromettido com estas promessas, embarcou para _Tapuitapera_ em -procura de sua aldeia e de sua casa. - - - - -CAPITULO IV - -Do que fez este christão em beneficio da instrucção e conversão dos seos -similhantes. - - -Nada ha mais bravio e mais difficil para domesticar-se do que a -phanthéra, ainda mais por ser de naturesa furiosa para com os animaes das -florestas, que ella ataca e despedaça no primeiro encontro. - -Ao contrario, quando se sente grávida, torna-se mais favoravel, exhala -bom cheiro pelos poros do seo corpo, e muda sua voz de cruel para branda, -como que convidando os outros animaes a seguil-a, o que fazem. - -A nação dos _Tupinambás_ era uma verdadeira panthéra, cruel como nenhuma, -segundo mostra o seo procedimento devorando seos inimigos. Apenas -appareceo a graça sobre estas terras, mudaram em doçura sua crueldade; -seos discursos desesperados em salutares; seos cheiros putridos, -provenientes de seus fumeiros em outros agradaveis, approximando-se aos -de Jesus Christo, transbordando de amor para com o proximo, desejando-lhe -fazer o mesmo que elles receberam, inspirados pela concepção espiritual -das graças de Deos no fundo de sua alma, como se lê nos _Canticos_ I. -_Oleum effusum nomen tuum, idéo adolescentulæ dilexerunt te nimis_: e -pouco depois, _Trahe me post te, curremus in odorem unguentorum tuorum_: -«teo nome, ó Salvador do Mundo, e o teo conhecimento é um balsamo -derramado, por cuja influencia e cheiro sentem-se as novas almas cheias -de teo amor, e todas se dedicam a adquerir-te.» - -Martinho Francisco entre os outros selvagens executou esta doutrina, -porque apenas chegou a aldeia principiou a fallar a seos visinhos, e -d’ahi caminhando para outras aldeias da provincia de _Tapuitapéra_, -sempre das grandezas de Deos e das graças que elle recebeo. Apresentava -sempre aos olhos dos selvagens a desgraça dos seos antepassados, que -tinham fallecido nas crenças de _Jeropary_, e a felicidade, que gozavam -os que se baptisavam e se faziam filhos de Deos. - -Taes conversas produziram effeito, muitos procuraram a fonte de salvação -para n’ella beber, e sugar o leite do peito de Jesus-Christo, como elle o -fez e se conta do Unicorne, que procurando as agoas, distantes do veneno, -por acaso foi tocado até o coração pela suavidade do canto de uma joven -donzella[96] deitada sob os ramos floridos das arvores da floresta, o que -livrou este animal de sua furia natural e o aproximou do peito d’aquella -que o commoveo. - -O Unicorne, grato e não avaro do bem recebido, desejoso de que seos -similhantes tambem o partilhem, vae procural-os no centro dos bosques, -e por todas as sortes e gestos convidam-nos a seguil-o afim de tomarem -parte na sua felicidade. - -A joven donzella representa a esposa de Jesus Christo, a santa igreja, -seo canto harmonioso a prédica do Evangelho, seo peito, onde são -acolhidos os proprios animaes irracionaes, a misericordia divina com -todo o seo poder, as agoas sem veneno, os sagrados sacramentos, o -feroz Unicorne, os infieis, e Martinho Francisco, por seos discursos e -exemplos, foi a primeira acquisição, seguida de muitas outras. - -Não se tinham passados seis mezes, e ja se experimentavam grandes -effeitos, porque tendo elle convertido e instruido muitos habitantes -de _Tapuitapéra_ de todas as idades, mandou-nos os mais instruidos e -intelligentes ao Forte de Sam Luiz para serem baptisados, o que fez, -depois de os reter comigo por algum tempo para experimental-os em seos -desejos. - -Augmentando-se diariamente o numero dos catecumenos em _Tapuitapéra_ foi -necessario ahi ir o Rvd. padre Arsenio para baptisar muitos d’elles, -dignos d’essa graça tanto pelo seo desejo, como pela sua instrucção -christã. - -Tinha Martinho edificado uma Capella, e junto d’ella uma casa, no meio de -sua aldeia, com o auxilio dos outros christãos e selvagens ahi residentes. - -Benzeo o padre a Capella, e tomou conta da casa, onde foi vesitado e -sustentado em quanto ahi esteve, por christãos e selvagens. - -Depois que baptisou os que para isso julgou aptos, foi vêr algumas -aldeias da provincia, e o seo principal soberano, e por toda a parte -foi muito bem acolhido, manifestando todos em geral o desejo de serem -christãos, e de terem padres em suas aldeias. - -Alcançou o bom homem Martinho Francisco nome honroso, dado pelos -habitantes de _Tapuitapéra_ em recompensa de seos trabalhos e fadigas -para fazel-os christãos por ter sido entre elles o primeiro christão, e -por saberem quanto nós o estimavamos. - -Chamaram-no _Pai-miry_, «Padre pequeno ou o vigario dos Padres,» e na -verdade bem merecia tal nome, porque desde que se fez christão nunca mais -se descobrio n’elle vestigios do antigo homem, ou os máos costumes dos -selvagens. Era grave, modesto, pouco fallador e raras vezes ria-se, e -nada fazia que parecesse ser contrario ao christianismo. - -Era este o regimen de vida que observava, e como mais velho fazia -observar aos outros christãos: - -1.º Pela manhã e á tarde reuniam-se todos na Capella: levantava-se um -d’elles, ajoelhavam-se outros, e depois dizia um em seo idioma «_em -nome do Pai, do Filho, e do Espirito Santo_» e fazia o signal da Cruz, -na testa, na bocca e nos peitos, no que era pelos outros imitado: -punha depois as mãos, fixava a vista no altar, e recitava pausada -e distinctamente a oração dominical, o symbolo dos Apostolos, os -mandamentos de Deos e da Igreja, o que findo, si tinha alguma advertencia -a fazer aproveitava a occasião, sinão, recolhia-se cada um á sua casa. - -2.º Viviam em commum quando se achavam juntos, e para isso traziam o -resultado de suas pescarias e caçadas para serem igualmente dividido -entre elles, e antes de comerem, o mais velho recitava em sua linguagem -o _Benedicite_, fazendo o signal da Cruz sobre si, e sobre as iguarias: -tiravam todos o chapeo, faziam em si o mesmo signal e ninguem tocava na -comida antes de abençoada. - -Em quanto comiam não contavam coisas más ou que excitasse o riso, como -fazem os Tupinambás; porem o mais velho dizia alguma coisa á respeito de -Deos e da Religião. - -3.º Nunca iam aos _cauins_ e reuniões, conforme costumavam os -_Tupinambás_: era um dos pontos principaes, que Martinho Francisco -gravava no coração dos convertidos, isto é, que os _cauins_ eram -inventados por _Jeropary_ para semeiar a discordia entre elles, e fazer -com que praticassem toda a especie de males os que os frequentassem, -sendo impossivel amar a Deos quem gostasse de _cauins_, porque, dizia -elle, quando descubro, que alguns dos meos similhantes se retiram das -_cauinagens_, agouro que bem depressa serão christãos e vou procural-os; -mas não tenho animo para fazer o mesmo aos que frequentam taes orgias. - -O que elle dizia era verdade por ser horrivel espectaculo vêr essas -gentes em reuniões, parecendo antes congresso nocturno de feiticeiros do -que ajuntamento de homens. - -Achei-me apenas uma só vez n’estas reuniões para d’ellas poder fallar, e -nunca mais lá tornei. - -Via aqui uns deitados em suas redes vomitando com muita força, outro -caminhando ou marchando em diversos sentidos com o juiso perdido pelo -vinho, ali outros gritando, fazendo mil tregeitos, estes dançando ao -som do _maracá_, aquelles bebendo com muito boa vontade, aquell’outros -fumando para mais se embriagarem, e o que ainda é peior, é estarem -mulheres e moças ahi misturadas parecendo bem difficil a presença de -Bacho sem Venus. - -Por minha vontade os francezes deviam fazer o que fizeram os portuguezes, -isto é, prohibir todas estas _cauinagens_: os portuguezes, depois -que habitaram algum tempo na India, reconheceram, que um dos maiores -embaraços para a propagação do christianismo eram essas reuniões -diabolicas, de que procedem todas as discordias e desgraças entre os -selvagens. - -4.º Vestem-se estes novos christãos o melhor que podem, caminham todos -juntos, não trazem flechas e nem arcos, excepto quando vão á caça ou a -pesca, contentando-se em trazer um cacete de uma especie de ebano, negro -ou vermelho, com que se distinguem facilmente dos outros. - -Quando vão a outras aldeias, si encontram algum christão, recolhem-se á -casa d’elle, contentam-se com o que tem e vivem sóbriamente como tanto -convem a um christão. - - - - -CAPITULO V - -De um Indio, condemnado á morte, que pedio o baptismo antes de morrer. - - -Não se acreditaria, si a experiencia não o tivesse confirmado, que -vendo-se simplesmente por fora a concha de uma ostra marinha coberta e -suja de lama e lodo, que ella em si ja tivesse uma perola preciosa digna -de ser collocada no gabinete dos principes. - -Quem poderá crer, que um selvagem iniquo, impuro, e immundo, como não -posso dizer, embora creia que o proprio diabo, author de taes traças, se -envergonhe d’isto, não tenha inimisade e soberba contra o soberano, que o -tira d’isto? - -Quem poderá, digo eu, crer, que tal individuo, por determinação da divina -Providencia, fosse escolhido para o reino do Ceo, e tirado d’esses -abysmos infernaes, para receber (na hora da morte, bem merecidas por -suas torpezas) o sagrado baptismo, que o lava de todas as máculas, e lhe -proporciona facil e franca entrada no Paraiso? - -Um pobre indio, bruto, mais cavallo do que homem, fugio para o matto por -ouvir dizer, que os francezes o procuravam e aos seos similhantes para -matal-os e purificar a terra de suas maldades por meio da santidade do -Evangelho, da candura, da puresa, e da claresa da Religião Catholica -Apostolica Romana. - -Apenas foi apanhado amarraram-no, e trouxeram-no com segurança ao Forte -de Sam Luiz, onde deitaram-lhe ferros aos pés: vigiaram-no bem até -que chegassem os principaes de outras aldeias para assistirem ao seo -processo, e proferirem sua sentença, como fizeram a final. - -Não esperou o prisioneiro pelo principio do processo, e elle mesmo -sentenciou-se, porque diante de todos disse, «vou morrer, e bem o mereço, -porem desejo que igual fim tenham os meos cumplices.» - -Terminado o processo e proferida a sentença, cuidou-se em sua alma -dizendo-se-lhe, que si elle recebesse o baptismo, apesar de sua má vida -passada, iria direito para o Ceo apenas sua alma se desprendesse do corpo. - -Acreditou nossas palavras, e pedio o baptismo: para tal fim veio o Sr. -de Pezieux procurar-me em nossa casa de S. Francisco em Maranhão, e -conversando si devia ser eu quem o baptisasse, resolvemos negativamente -pelas seguintes razões: - -Pensavam os selvagens que nós outros padres eram pessoas misericordiosas -e compassivas, que expontaneamente empregavamos nossos esforços perante -os grandes para alcançar a vida dos condemnados: que os grandes nos -estimavam, e nada nos negavam, e que, alem d’isto, nós prégavamos, -que Deos não queria a morte e sim a vida do peccador, e que por isso -tinhamos vindo aqui para dar essa vida de forma que, si eu o baptisasse -publicamente, antes d’elle morrer, teria satisfeito muitos caprichos -d’estes espiritos debeis e incapazes a respeito da opinião, que formavam -de nós e que seria muito prejudicial a nossas intenções dando alem d’isso -causa a varias murmurações dos selvagens, que diziam—«si os padres -gostam da vida, porque deixam este christão ir morrer? Si amam tanto os -christãos porque não amam este? Si os grandes nada lhes negam, porque não -pedem a vida d’este?» - -Por tudo isto, e por outras razões, que omitto, decidimos ser conveniente -e necessario, que eu não o baptisasse. Roguei pois ao dito senhor que, -depois de instruil-o pelos interpretes, o baptisasse antes de ir ao -supplicio, sem as ceremonias da igreja o que se prestou e cumprio. - -Recebeo, com tranquilidade e sem tristeza, na presença dos principaes -selvagens o baptismo, depois do que um dos Principaes, chamado -_Karuatapiran_ «Cardo vermelho,» de quem ainda fallarei, lhe disse estas -palavras: - -«Tens agora occasião de estares consolado e de não te affligires, pois -presentemente és filho de Deos pelo baptismo, que recebeste da mão de -_Tatu-uaçu_ (nome do Sr. de Pezieux em sua lingua) com permissão dos -Padres. Morres por teos crimes, approvamos tua morte, e eu mesmo quero -pôr o fogo na peça para que saibam e vejam os francezes, que detestamos -tuas maldades; mas repara na bondade de Deos e dos Padres para comtigo, -expellindo Jeropary para longe de ti por meio do baptismo de maneira que -apenas tua alma sahir do corpo vae direita para o Ceo vêr _Tupan_ e viver -com os _Caraibas_, que o cercam: quando _Tupan_ mandar alguem tomar teo -corpo, si quizeres ter no Ceo os cabellos compridos e o corpo de mulher -antes do que o de um homem, pede a _Tupan_, que te dê o corpo de mulher e -resuscitarás mulher, e lá no Ceo ficarás ao lado das mulheres e não dos -homens.» - -Desculpareis este pobre selvagem, não christão e nem cathecumeno, -fallando da Resurreição. Elle nos ouvio ensinar que n’um dia -resuscitariam todos os homens, regressando cada alma do lugar em -que estava para occupar o seo corpo, acrescentando o que pensou ser -indifferente á Resurreição, isto é, que uma alma recebe um corpo de homem -ou de mulher, no que se enganou não se deixando em pé tal ideia falsa, -pois elle e o paciente foram instruidos da verdade: julguei acertado -referir aqui simplesmente o que se passou para que o leitor reconheça -sempre quanto sou fiel em minhas descripções, como ja disse, e provarei -sempre nos discursos, que ainda hei de transcrever. - -Este infeliz condemnado recebeo as consolações de muito boa vontade, e -antes de caminhar para o supplicio disse aos que o acompanhavam: «vou -morrer, não mais os verei, não tenho mais medo de _Jeropary_ pois sou -filho de Deos, não tenho que prover-me de fogo, de farinha, de agoa, e -nem de ferramenta alguma para viajar alem das montanhas, onde cuidaes que -estão dançando vossos paes. Dae-me porem um pouco de _Petum_ para que eu -morra alegremente, com voz e sem medo.» - -Deram-lhe o que elle pedio, á similhança dos que vão ser justiçados, aos -quaes tambem se dá pão e vinho, costume não d’agora, e sim desde a mais -remota antiguidade, pois então se offerecia aos criminosos vinho com -myrrha e opio para provocar o somno dos pacientes. - -Feito isto, levaram-no para junto da peça montada na muralha do Forte -de S. Luiz, junto ao mar, amarraram-no pela cintura á bocca da peça, -e o _Cardo vermelho_ lançou fogo á escorva, em presença de todos os -Principaes, dos selvagens e dos francezes, e immediatamente a bala -dividio o corpo em duas porções, cahindo uma ao pé da muralha, e outra no -mar, onde nunca mais foi encontrada. - -Quanto a sua alma, é de crer que os anjos a levassem ao Ceo, pois morreo -logo depois de haver recebido as agoas do baptismo, certesa infallivel da -salvação d’aquelles, a quem Deos concedeo tal graça, não pequena e nem -commum, porem tão rara como o arrependimento do bom ladrão na Cruz, que -tendo vivido sempre desregradamente até chegar áquelle logar, recebeo -comtudo esta promessa de Jesus Christo—_Hodie mecum eris in Paradiso_, -«hoje estarás commigo no Paraiso»: outro tanto podemos dizer d’esse -infeliz e desgraçado indio, que nos deo tão bella occasião d’admirar e de -adorar os juizos de Deos. - -_Karuatapiran_, o algoz, com gestos e palavras mostrava grande -contentamento e alegria perante os francezes por haver recebido tal -honra, que apreciava muito mais do que as que sua Nação cheia de abusos -dá aos que publicamente matam os prisioneiros, sendo essas consideradas -as maiores existentes entre elles, e um favor não pequeno aos mancebos, -quando escolhidos para tal fim, pois é uma especie de accesso de grandeza -para ser um dia Principal. - -Por tudo isto o grande _Karuatapiran_ exaltava-se d’este seo feito e -d’elle se servia para se fazer timido dizendo por todas as aldeias por -onde andava, o que tinha feito, asseverando ser irmão dos francezes, seo -defensor e exterminador dos maus e dos rebeldes. - - - - -CAPITULO VI - -Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens, quando nos vinham -vêr, para chamal-os ao conhecimento de Deos e á obediencia de nosso Rei. - - -O meio pelo qual outr’ora os Athenienses chamavam os povos ao -conhecimento da Philosophia, e á obediencia de uma Republica, era -representado pelo simulacro do seo _Palladium_, que fingiam ser trazido -do Ceo, e por elles collocado no lugar mais alto de sua cidade. - -Tal era o idolo de Pallas, armado dos pés até a cabeça, correndo de -sua bocca raios de mel, que cahiam sobre seos ouvintes e expectadores, -produzindo-lhes doce somno. - -Ensinaram os Druidas a mesma coisa aos Gaulezes levantando a estatua de -Hercules no frontespicio de seos Templos, tendo na sua cabeça a cabeça de -um leão, e nas espaduas a clava de suas victorias, sahindo de sua bocca -uma especie de hera, porem de oiro, que prendia pelas orelhas homens e -mulheres, moços e velhos afim de attrahil-os a si. - -Com isto queriam os Athenienses e os Gaulezes dizer, que os homens são -attrahidos pela doçura e pela razão á obediencia das leis divinas e -humanas, na qual se conservam por meio das armas, sustentadas pelos -soberanos para a conservação dos seos vassallos. - -O primeiro d’estes dois fins nos pertencia desde que Sua Magestade e os -nossos Padres nos remetteram para cá á fim de chamarmos ao conhecimento -de Deos estas pobres almas selvagens, que, antes de começarmos a -cathequisal-as, reconhecemol-as anciosas por doçura, e por isso -combinamos pautar por ella nossas palavras e acções, com que sempre nos -démos muito bem. - -Já tinha lido no cantico primeiro, que entre os ornamentos dados -por Jesus Christo á sua Igreja, a mansidão e a clemencia para com -os peccadores e infieis era um dos primeiros deveres conforme estas -palavras: _Murenulas aureas faciemus tibi vermiculatus argento_ «nós te -faremos collares de oiro, torcidos como pequenas lampreias, esmaltadas de -fios de prata em forma de vermesinho para mais fazer realçar a bellesa do -oiro.» - -Dizem os Septenta—_Simulachra auri faciemus tibi, cum vermiculacionibus -argenti_; «nós te faremos pequenas estatuas de oiro fino, esmaltadas de -fio de prata do feitio de vermesinhos.» - -Accrescenta Rabbi Jonathas que taes eram as taboas de Saphira, em que -estavam gravados os mandamentos da lei de Deos porque a luz da gloria do -Doador dava á saphyra diaphana a côr de oiro, e a escripta gravada em -linha pelo dedo de Deos formava o esmalte em pequenas lampreias ou vermes -da terra. - -Quem não diria que ha intelligencia entre estas ceremonias divinas e as -dos Athenienses e Gaulezes, visto significar-nos umas e outras, por meio -de estatuas e cadeias de oiro, a força e o poder da doçura para subjugar -as almas mais barbaras á obediencia das leis de Deos. - -Não é sem rasão, que Jesus Christo ornou os collares de oiro de sua -esposa com figuras de vermes da terra, e de pequenas lampreias, visto que -elle mesmo se fez verme para chamar a si os vermes, e misturou-se com a -terra para se juntar com os vermes, que ahi achasse. - -Assim como as lampreias não repellem as serpentes por que podem causar -medo com o veneno, que estas vomitarem, assim tambem Jesus Christo não -despresa os homens, pobres serpentes, comtanto que estes se despojem do -seo veneno. - -Si o Mestre fez isto, o que devem fazer os obscuros discipulos de Sua -Magestade? - -Quem se offerece a servir a Deos na conversão dos selvagens deve modelar -suas palavras e acções pela doçura, de que sempre usou Jesus Christo na -terra. - -Eram estes os artigos de nossas conferencias com os selvagens. - -1. Procuravamos convencel-os, que eramos seos amigos, e amigos fieis, -mais que seos paes, mães, e outros parentes, dizendo-lhes estas e outras -palavras _pera-uçu_, _pare koroyco_ «somos vossos amigos, vossos intimos.» - -Com taes expressões alegraram-se muito, e cheios de confiança vinham -conversar comnosco a ponto de tornarem-se importunos, não nos permittindo -descanço algum, e só nos olhando e observando até os nossos menores -gestos. - -Vou dar-vos alguns exemplos. - -Um dia de paschoa, depois do serviço, ao qual assistiram muitos -selvagens, tanto de _Tapuitapera_ como da _Ilha_, quiz recolher-me para -meditar no sermão, que devia prégar depois do jantar, e para isto mandei -fechar as portas de nossa casa para que ninguem entrasse durante esse -pouco tempo até a hora da prédica, porem os selvagens impacientes, para -entrarem, rodeiaram a casa duas ou tres vezes buscando uma abertura, e -afinal quebraram algumas estacas e por ahi passaram. - -Mostrei-lhes má cara significando o meo descontentamento pelo que haviam -feito, e lhes perguntei porque eram tão importunos? - -Responderam-me «porque tinhamos vontade de te vêr, e fallar comtigo -livremente, na ausencia dos francezes, e para esse fim viemos de -proposito». Á vista d’isto não tive outro remedio senão atural-os. - -Quando eu orava sosinho na nossa Capella, com as portas fechadas, rompiam -o panno de Guiné, com que forramos a Igrejinha para vêr o que fazia eu -ajoelhado defronte do Altar, e diziam uns para os outros _ygneém Tupan_ -«falla com Deos», e d’ahi não sahiam em quanto eu rezava. - -Para livrar-me d’estas importunações mandei construir uma cerca ao redor -da nossa casa e Capella de S. Francisco, muito forte, e entremeiada com -ramos de palmeira espinhosa, assim conhecida por ter espinhos maiores do -que o comprimento de um dedo, e embora tudo isto achavam meios de entrar -e de me procurarem. - -Ao escrever isto recorda-me o dito de Antalcide, escripto por Plutarcho -no tratado dos _Apophtegmas Laconicos_, «quem quizer ganhar a amisade dos -homens, deve ter na lingua um regato de mel, e nas mãos muitos fructos» -isto é—palavras doces e serviços conforme ás palavras. - -Mais não podiamos fazer para com estes selvagens do que captarmos -sua amisade por palavras doceis, e fazer-lhes conhecer a Deos e os -sacramentos da Igreja, unicos fructos da Paixão de Jesus Christo. - -Ælian, no livro 14 de suas _Historias diversas_, disse, que «Epaminondas -se admiraria muito se sahisse do seo palacio para misturar-se com o povo, -e não adquirisse um novo amigo para juntal-o aos seos amigos.» - -Não nos seria necessario ir a 200 e nem a 300 legoas afim de conquistar -novos amigos para Jesus Christo, porque viriam por si mesmos offerecer-se -para isso. - -Gelius no livro 1º cap. 3º conta, que Pericles, um dos grandes do -Areopago de Athenas, terminava a amisade dos homens junto aos altares dos -Deoses, porem nunca fallou da amisade divina entre Deos e os homens, -estabelecida e enraisada sobre os altares, porque pagão, como era, não -podia comprehender a força e o vigor de tal amor, similhante ao do -proprio centro, onde cada creatura tem o destino de viver e descançar. - -O poderoso rei Darius recebeu em presente de um seu amigo uma bella romã, -que partio ao meio, e admirando a bellesa e o numero dos seos grãosinhos -disse aos que com elle estavam—por minha vontade eu teria tantos Zopiros, -(nome do seo mais intimo amigo) quanto ha de grãos n’esta romã. - -Não foi pequena graça, e nem pequeno privilegio, que Deos fez á Ordem -Seraphica de São Francisco dando-lhe a faca da palavra para abrir o pomo -ainda inteiro e fechado das terras de Maranhão afim de apresentar a Jesus -Christo milhões de almas, não só para com Elle se conciliarem, mas tambem -para um dia lhe serem fieis esposas. - -Deos inspirou a Salomão, no liv. 4º dos Reis, cap. 29, fazer os capiteis -das columnas com arame, semeiado de romãs, indicando assim a missão do -Evangelho para com as nações infieis, servindo para agarrar os peixes -fugitivos por meio de uma eloquencia docil, e as romãs para ligal-os e -unil-os pelo amor de Jesus Christo ao resto dos fieis, não havendo nada -mais forte para obter o accordo que o proprio amor. - -Eis a razão porque julguei ser absolutamente necessario fazer conhecer -a estes selvagens, que nós os amavamos terna e infinitamente, que lhes -offereciamos nossas pessoas e bens, dizendo-lhes _ore-mae pémareamo_ -«tudo o que temos é vosso.» - -Por isto quando tinhamos muitos peixes, o que acontecia ordinariamente, -lhes davamos todos, especialmente aos _Tabajares_, recem-chegados -á _Ilha_, ainda necessitados de tudo, por não terem feito roças, -especialmente os nossos visinhos. - -2.º Nós lhes expunhamos os fructos e os emolumentos, que deviam esperar -de nossa amisade, isto é, reforma em sua vida, conhecimento do verdadeiro -Deos, defesa do nosso rei contra seos inimigos, o qual não deixaria de -enviar-lhes homens e armas conforme necessitassem. _Pe moé Koroiut, -pere Koramrecé: Tupan mombe-ouane koroiut peam: yande mogna gare, rhé, -opap katu, ahé maé mognan. Yangaturan: yandé renonde vuac ueriko: ahé -gneem rupi yané rekormé. Pepusurom peamo tareumbare soiy yauaeté oreru -vichaue: Pepusurum okat araia oboure uaia pepusurô anuam_; quer isto -dizer—«Nós vos ensinamos a viver mais para a vossa felicidade: queremos -ensinar-vos o verdadeiro Deos, creador do universo, infinitamente bom, e -que nos prometteo o Ceo si n’esta vida fizermos o que elle diz. Viemos -defender-vos de vossos inimigos. Nosso rei, que é forte e poderoso, vos -dará sempre soccorro de armas e de homens.» - -Prestavam muita attenção ao que diziamos, e nos respondiam que os -francezes sempre os haviam auxiliado; que tinham vindo agora por ordem do -rei para tiral-os das cadeias de _Jeropary_, que não duvidavam aprender -grandes coisas á respeito de Deos, especialmente quando ja soubessemos -sua lingua, porque os interpretes, diziam elles, não fallam como vós -á Deos. Não nos podem dizer outra coisa, porem se fallasseis comnosco -vós nos dirieis o que Deos vos disser. Nossos filhos serão mais felizes -do que nós, porque comvosco aprenderão a lingua francesa, como nos -promettestes, e assim terão mais conhecimento de Deos do que nós, que ja -somos velhos. - -Nós o que temos feito é correr e andar errantes pelos bosques adiante -dos _Peros_[97] tendo por alimento apenas raizes de arvores. Nossos -filhos estarão seguros contra seos inimigos, os francezes se unirão -á nossas filhas, e nossos filhos ás filhas dos francezes, e assim -seremos parentes: ficareis comnosco, em nossas aldeias, e sereis nossos -padres _Tupan_ os amará, e _Jeropary_ nada poderá contra elles. Haverá -abundancia de viveres e nunca se sentirá falta de mercadorias francezas. - -Oh! quanto serão felizes! porem nós não veremos estas coisas. - -O imperador Vespasiano e tambem Domiciano, quando entravam n’um paiz -novo para ahi estabelecer Colonias Romanas, tinham por costume mandar -fundir em bronze a Fé e os seos fructos, que publicamente promettiam a -todos, representando uma dama, que estendia a mão direita, symbolo da Fé, -trazendo na esquerda a cornucopia da abundancia, cheia de toda a especie -de fructos, e tinham este mesmo carimbo o dinheiro, que ahi faziam correr -assegurando por esta fórma a sua fidelidade para com estes povos, de que -resultaria muitos bens e commodidades á sua nação. - -Tomae, se quizerdes, por esta dama a Santa Igreja entrando pela primeira -vez n’estas terras barbaras, estendendo sua mão direita para prometter -aos seos habitantes a fé de Jesus Christo, seo esposo, e a fidelidade de -seos sectarios, que não se poupam a trabalhos, e arriscam até a propria -vida para ajudal-a na salvação d’ellas. - -Os fructos, que ella lhes offerecia, eram os sacramentos, o conhecimento -de Deos e das coisas divinas. - -Tomae tambem, si quizerdes, por esta mesma Dama, a França plantando -pela primeira vez seos lyrios n’estas regiões e paizes do Brazil, dando -com a mão direita a segurança de defender e conservar estes selvagens -obedientes á sua corôa, e com a esquerda os fructos provenientes do -commercio entre ella e o Brazil. - - - - -CAPITULO VII - -Formulario da doutrina christã, que aprendiam e recitavam de cór, antes -de serem baptisados. - - -No Levitico 1.º, e em outro lugar lemos, que antes da victima escolhida -ser levada ao altar devia aquelle, que a apresentava, pôr suas mãos na -cabeça entre os cornos. - -Accrescentam outros, que esses cornos eram enfeitados de flores de junco -marinho, (cujos espinhos, e não flores, foram postos na cabeça de Jesus -Christo, offerecido em holocausto sobre a Cruz) e então os sacerdotes -agarravam a victima, e a lavavam n’um grande vaso de bronze chamado -_mar_. Representa isto os novos cathecumenos, desejosos de serem lavados -pelo baptismo, e offerecidos diante do altar do Redemptor. - -A primeira coisa, que se exige d’estes cathecumenos, é que ponham as -mãos sobre a cabeça: as mãos são os hyerogliphos das obras, e a cabeça a -séde do espirito e do entendimento. A primeira coisa portanto necessaria -á estes noviços da fé christã é a operação do entendimento; quero com -esta expressão dizer, que elles saibam e entendam o que pretendem crêr -e prometter, e torcer os cornos da curiosidade e o proprio juizo dos -orgulhosos possuidores do Junco marinho, corôa dos deoses, por meio da -obediencia á Revelação divina. É o que pediamos aos adultos antes de -conferir-lhes o baptismo, e nenhum o conseguia sem primeiro conhecer bem -isto, por acto obrigatorio, a que deveriam tambem assistir os christãos, -ignorantes de sua fé e profissão. - - -DOUTRINA CHRISTÃ - -_na lingua dos Tupinambás[98] e em francez, e, em primeiro lugar a oração -dominical_ - - _Ore-ruuc vuac peté cuare,_ - Padre nosso, que estás no Ceo, - _y moe-tepoire derere-toico_ - sanctificado seja teo nome, - _to-ure de reigne_ - venha nós o teo reino, - _teié-mognan deremimotare yboipé vaacpe iémognan eaue,_ - seja feita a tua vontade assim na terra como no Ceo. - _oreremiu-areduare eimé iury oreue,_ - dae-nos hoje o pão quotidiano, - _de-eiuru oré yangaypaue reçe,_ - perdôa nossas offensas, - _ore recome-moçaré supè ore-ieuron eaue_ - como nós perdoamos aos que nos offendem - _moar-ocar humé yepé tecomemo-pupé_ - não nos deixeis cahir em tentação - _oré pessuron peyepé mae ayue suy._ - mas livrae-nos do mal. Amen Jesus. - -SAUDAÇÃO ANGELICA. - - _Ave Maria gratia, resse tonussen väé,_ - Eu te saudo Maria, de graça cheia, - _Deyron yandé yaré-reco_ - o Senhor é comtigo, - _ymonbeu katu poïre aue edereico kugnan suy_ - benta és tú entre as mulheres. - _ymonbeau katu poïre aue demeinboïre Jesus._ - bento é o fructo do teo ventre, Jesus. - -ORAÇÃO A VIRGEM. - - _Santa Maria Tupan seu_ - Santa Maria mãe de Deos - _hé Tupan mongueta ore yangaypaue vaë ressé_ - rogae a Deos por nós peccadores - _cohu yran ore-requi ore-rumeué_ - agora, e na hora de nossa morte. Amen Jesus. - -O SYMBOLO DOS APOSTOLOS. - - _Arobiar Tupan_ - Creio em Deos - _tuue opap katu maeté tiruan_ - padre todo poderoso - _mognangare vuac_ - creador do Ceo - _mognangare ybuy_ - creador da terra - _Jesus-Christo tayre oyepe vac_ - em Jesus Christo, seo filho unico - _ahe Sainct Esprit, demognan pitan amo_ - que foi concebido do Espirito Santo - _ahé poïre oart Sainct Marie, suy_ - e nasceo da Virgem Maria - _Ponce Pilate muruuichaue amoseico sericomemo poïre amo_ - padeceo sob poder de Poncio Pilatos, presidente - _yiuca poire amo yuira_ - morreo sobre o madeiro da Cruz - _ioasaue ressé_ - morreo - _ymoiar ypoire ytemim buire amo_ - foi amortalhado e enterrado no sepulchro - _ouue ieuue euue apeterpé_ - desceo aos infernos - _ahé sui turiare mossa poire ressé uue ombueue sui. Secobé yereie-buire_ - ao terceiro dia resurgio dos mortos - _oié upire vuacpé_ - subio ao Ceo - _Tupan tuue opap-katu maeté tiruan mognangare katu aue cotu seua_ - está assentado á direita de Deos, seo Pae Omnipotente - _ahé sui turiné ycobé vãe omano vãe poire paué recomognan_ - de lá virá a julgar vivos e mortos. - _Arobiar Saincte eglise catholique_ - Creio na Santa Igreja Catholica, - _arobiar Saincte tecokatu demosaoc morupé_ - creio na communhão dos Santos - _arobiar teco-engay paue ressé morupé Tupan deuron_ - creio na remissão dos peccados por Deos - _arobiar asé-recobé iebure_ - creio na resurreição da carne - _arobiar teiubé opauaaerem-eim-rerecoe nuame_ - creio na vida eterna. Amen Jesus. - -OS DEZ MANDAMENTOS. - - _1.º Ymoeté yepé Tupan._ - I Honra um só Deos - _2.º Aytè ereté netieume poire renoy teigné._ - II Não jurarás em vão o nome de teo Deos. - _3.º Ymoeté dimanche are maratecuare eum aue._ - III Honra e sanctifica o domingo, dia de repouso. - _4.º Ymoeté deruue desseu eaue._ - IV Honra teo pae e tua mãe. - _5.º Eparapiti humé._ - V Tu não matarás. - _6.º Eporopotare humé._ - VI Tu guardarás castidade. - _7.º Emonmaron humé._ - VII Tu não furtarás. - _8.º Teremoen humé aua ressé._ - VIII Tu não levantarás falso testemunho contra teo proximo. - _9.º Yemonmotare humé aua remerico ressé._ - IX Tu não conhecerás a mulher de outrem. - _10. Yemonmotare humé aua mae ressé._ - X Tu não cubiçarás coisas alheias. - -RESUMO DOS MANDAMENTOS DE DEOS. - - _1.º Opap katu maeté tiruan sosay asé Tupan rausuué._ - Sobre todas as cousas amarás a Deos. - _2.º Oie ausuue eaué asé uua pichare raussuue._ - Ama teo proximo como a ti mesmo. - -OS MANDAMENTOS DA SANTA IGREJA. - - _1.º Arve maratecuare ehumé messe renduue._ - Ouve missa nos dias de festa. - _2.º Sei hu iauion yemonbeu._ - Todos os annos ao menos uma vez confessa teos peccados. - _3.º Tupan rare pacques iauion._ - Teo Deos pela paschoa commungarás. - _4.º Iecuacuue iauion erecucuue._ - Tu guardarás jejuns pela quaresma e vigilias. - _5.º Aiamion asé mae moiaoc._ - Pagarás os dizimos. - -OS SETE SACRAMENTOS. - - _1.º Iemongaraiue._ - Baptismo. - _2.º Asé seurap aua reu assu yendu karaiue non._ - Receberás na testa o santo oleo pela mão do Bispo. - _3.º Asé-reon yanondé Tupan rare._ - Antes de morrer receberás o corpo de Deos. - _5.º Oyekoacuue, oyemonbeu._ - Penitencia, confissão. - _6.º Oyemo-auare._ - Ordem. - _7.º Mendar._ - Casamento. - - - - -CAPITULO VIII - -Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos, dos espiritos e -da alma. - - -O Psalmista Rei David, no Psalmo 101, que é uma supplica por elle -composta para os pobres e infelizes, cheios de anciedade e oppressão, -particularmente os infieis, diz—_Placuerunt servis tuis lapides ejus, et -terra ejus miserebuntur._ «As pedras de Syão agradarão a teos servos; e -por esta causa serão misericordiosas para com a terra.» - -S. Jeronymo transforma estas palavras d’esta forma—_Quia placitos -fecerunt servi tui lapides ejus, et pulverem ejus miserabilem_. «Teos -servos fizeram suas pedras agradaveis á tua Magestade, até chegar ao pó -sem consideração.» - -Apliquemos estas palavras ao nosso objecto, pondo de parte todos os -outros mysterios, e digamos que _Placuerunt servis tuis lapides ejus_. - -Em nossa primeira missão achamos estes pobres selvagens e barbaros como -pedras proprias para construir e edificar a Santa Igreja em paizes -desertos, e com o nosso ministerio demos a misericordia divina á algum -punhado de terra e areia. - -Baptisamos muitos meninos, moribundos e adultos, que são na verdade tres -grãos de areia, á similhança da extenção e profundidade das areias do -mar, isto é, em comparação da quantidade e multidão das nações immensas -pelo seo numero, na visinhança do Maranhão. - -Digamos depois, com São Jeronymo, _quia placitos fecerunt servi tui -lapides ejus, et pulverem ejus miserabilem_, que temos feito vêr a toda -a Christandade, e aos seos monarchas, espirituaes ou temporaes, em -desencargo de nossa consciencia, que á Deos agrada o despertar estes -barbaros do profundo somno de uma crença má, ou si quizerdes, que á Deos -agrada fazer arder e queimar a pequena faisca do fogo da luz natural, que -sob as causas de mil superstições é sempre guardada entre estas nações -desde o naufragio universal do diluvio. - -Esta faisca, occulta sob as cinsas, entre estes selvagens, é a crença -natural, que sempre tiveram de Deos, dos espiritos e da immortalidade da -alma. - -Quanto á crença de Deos, é impossivel, naturalmente fallando, que -haja no Mundo uma Nação tão rude, estupida e brutal que não reconheça -universalmente uma Magestade Soberana, porque, como diz Lactancio -Firmiano, em suas Instituições divinas, livro 1.º, cap. 2.º—_Nemo est -enim tam rudis, tam feris moribus, qui non oculos suos in cœlis tollens -etc_. Não ha homem tão rude, nem tão brutal, que levantando os olhos -para o Ceo, ainda que não possa comprehender que haja Deos, qual seja a -sua providencia, embora não conheça da grandesa e extenção dos Ceos, do -perpetuo movimento d’elles, da disposição, firmesa, utilidade e bellesa -d’estas abobadas azuladas, que não reconheça haver um Soberano que tudo -isto dirige e com harmonia. - -Boecio, livr. 4º, da _Consolação dos sabios_. Prosa 6.ª _Omnium generatio -rerum_ etc. «que a geração continua dos mistos, a diversidade, e -ordem das formas, que vestem a materia primitiva, convence natural e -necessariamente, que ha um primeiro director no movimento uniforme de -tantas coisas de formas contrarias no sentido de aperfeiçoar este mundo -universal.» - -Seneca, na Epistola 92 á seo amigo Lucilio—_Quis dubitare potest mi -Lucilli, quin Deorum immortalium munus sit quod vivimus?_ «Quem é meu -amigo Lucilio, que duvida não ser sua vida um dom e beneficio dos Deoses -immortaes?» - -Aristoteles, Livro II _dos animaes_, depois que contou muito bem a -perfeição d’elles concluio _debemus inspicere formas et delectari in -Artifice qui fecit eas_: «devemos contemplar as formas das creaturas, não -para olhal-as só e simplesmente, e sim para d’ellas passar ao que as fez -afim de nos regosijarmos.» - -É facto averiguado sempre terem tido estes selvagens conhecimento de -Deos, porem não da Essencia, Unidade, e Trindade, materia inteiramente -dependente de fé, embora Deos tenha deixado na naturesa alguns vestigios, -pelos quaes possam os homens formar algumas conjecturas. - -Aristoteles, livro 4º, do _Ceo e da terra_, depois de ter pensado muito -nas perfeições d’este mundo, disse _Nihil est perfectum nisi Trinitas_. -«Somente a Trindade é perfeita.» - -Estes selvagens sempre chamaram a Deos—_Tupan_, nome que dão ao _trovão_, -a maneira do que se pratica entre os homens, isto é, terem as obras -primas o nome do autor: Note-se porem que este nome no singular não se -applica aos relampagos e trovões, que rebentam e illuminam todas as -partes, por cima da cabeça dos selvagens, aterrando-os, porque sabem -e reconhecem, que elles são formados pela poderosa mão d’Aquelle, que -habita nos Ceos. - -Por intermedio do interprete informei-me dos velhos do paiz si elles -acreditavam, que este _Tupan_, autor do trovão, era homem como elle? - -Responderam-me que não, porque si fosse um homem como nós, seria um -grande senhor, e como poderia elle correr tão depressa, do Oriente -para o Occidente, quando troveja ao mesmo tempo sobre nós, e nas quatro -partes do mundo, tanto na França, como sobre nós? Demais, si fosse homem, -era necessario, que outro homem o fizesse, porque todo o homem procede -de outro homem. Ainda mais: _Jeropary_ é o creado de Deos, e nós não o -vemos, ao passo que todo o homem se vê, e por isso não pensamos, que -_Tupan_ seja um homem. - -Mas, repliquei eu, o que pensaes que elle seja? - -Não sabemos, responderam, porem pensamos, que existe em toda a parte, e -que fez tudo quanto existe. Nossos feiticeiros ainda não fallaram com -elle, pois apenas fallam com os companheiros de _Jeropary_. - -Eis a crença de Deos, sempre pela naturesa impressa nos espiritos dos -selvagens, que com tudo não o reconheciam por meio de preces e de -supplicios. - -Acreditavam naturalmente nos espiritos bons e maus. - -Chamam os bons espiritos ou anjos _Apoiaueué_, e os maos ou diabos -_Uaiupia_. - -Vou contar-vos o que pude colher de suas conversas por diversas vezes. - -Pensam que os anjos lhes trazem chuva em tempo proprio, que não fazem mal -ás suas roças, que não os castigam e nem os atormentam, que sobem ao Ceo -para contar á Deos o que se passa aqui na terra, que não causam medo nem -á noite e nem nos bosques, que acompanham e protegem os francezes. - -Pensam, que os diabos estão sob o dominio de _Jeropary_, que era creado -de Deos, e que por suas maldades Deos o despresou, não querendo mais -vêl-o e nem aos seos, pelo que aborrecia os homens e nada valia: que os -diabos impedem as vindas das chuvas em tempo proprio, que os trazem em -guerra com seos inimigos, que os maltrata, e lhes faz medo, habitando -ordinariamente em aldeias abandonadas, especialmente em logares onde tem -sido sepultados os corpos de seos parentes. - -Ouvi tambem dizer a alguns indios, que indo elles apanhar cajus em -algumas aldeias abandonadas, sahio-lhe ao encontro _Jeropary_ gritando -com voz medonha, e chegou até o ponto de espancar muito alguns dos seos. - -Dizem tambem, que _Jeropary_ e os seos tem certos animaes, que nunca -se vê, que só andam a noite, soltando gritos horriveis, que abala todo -o interior (o que ouvi infinitas vezes) com os quaes convivem, e por -isso os chamam _Soo-Jeropary_ «animal de Jeropary», e creem que estes -animaes servem aos diabos ora de homens ora de mulheres, e por isso nós -o chamamos _Succubes_ e _Incubes_, e os selvagens _Kugnan Jeropary_ «a -mulher do diabo» _Aua Jeropary_ «o homem do diabo.» - -Ha tambem certos passaros noturnos, que não cantam, mas que tem um -piado queixoso, enfadonho, e triste, que vivem sempre escondidos, não -sahindo dos bosques, chamados pelos indios _Uyra Jeropary_ «passaros do -diabo,»[99] e dizem que os diabos com elles convivem, que quando põem é -um ovo em cada lugar, e assim por diante, que são cobertos pelo diabo, e -que só comem terra. - -Não exgotando minha curiosidade procurei indagar bem a verdade d’isto: -muitas vezes estes animaes nocturnos vinham rodear nossa casa de Sam -Francisco e soltar seos gritos medonhos, quando as noites eram sombrias e -negras. - -Apromptei-me para com outros francezes investir estes passaros onde se -achassem conforme pudessemos prevêr, porem nada pudemos conseguir por não -vel-os, embora os ouvissemos gritar em distancia de mais de um quarto de -legoa. - -Disseram-me alguns francezes, que eram uma especie de gatos bravos, o que -não pode ser a vista do som, do sussurro e do volume do grito, que elle -solta. - -Outros disseram ser o vagido de _vaccas bravas_, o que negam os selvagens -dizendo ser vozes de uma especie de animaes parecidos com maçaricos, e -maiores do que uma raposa. - -Quiz eu mesmo verificar o que eram estes passaros de _Jeropary_, e -para isto fui caminhando de mansinho até onde meos ouvidos me levaram -a pensar, que lá estavam, pelo piado melancolico d’elles. Calculado o -lugar ahi fui no dia seguinte á tarde muito cedo occultar-me nos mattos, -e d’esta vez não me enganei porque apenas anoiteceu aproximou-se este -triste passaro de mim e distante apenas dois passos saltando sobre a -areia, e soltou seo canto medonho, o que não pude aturar. Sahi logo do -meo logar e fui onde elle estava e nada achei: sua configuração e tamanho -era de uma coruja de França e as pennas pardas. - -Tudo o que referi não está longe do senso commum, porque lemos na -Historia, e em diversos autores a união dos diabos com animaes feios e -immundos, e foi elle que desde o principio do mundo tomou a forma de uma -serpente cabelluda para enganar nossos primeiros paes. - -Creem na immortalidade da alma: quando no corpo chamam-na _An_, e quando -deixa este para ir ao lugar, que lhe é destinado, _Anguere_. - -Creem que só as mulheres virtuosas tem alma immortal, segundo o que pude -comprehender de varios discursos d’elles e de muitas perguntas que lhes -fiz, pensando que estas mulheres virtuosas devem ser postas ao lado dos -homens, visto terem todos almas immortaes depois da morte. - -Em quanto ás outras mulheres duvidam que ellas tenham alma. - -Pensam, e muito naturalmente, que as almas dos maus vão ter com -_Jeropary_, que são ellas que os atormentam de concomitancia com o -proprio diabo, e que vão residir nas antigas aldeias, onde são enterrados -os corpos, que habitaram. - -Pensam, que as almas dos bons, vão para um lugar de repouso, onde dançam -constantemente sem nada lhes faltar. - -Eis tudo quanto pude saber relativamente a estes tres pontos de sua -crença natural de Deos, dos Espiritos e das Almas, por meio de -cuidadosas indagações entre discursos communs, que ouvi por dois annos de -muitissimos selvagens. - - - - -CAPITULO IX - -Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em suas cadeias por -tão longo tempo estes selvagens. - - -Adonibesec, um dos maiores tyrannos do mundo, venceo e subjugou setenta -Reis, aos quaes mandou cortar os dedos das mãos e dos pés, e todas as -vezes que queria comer, mandava buscal-os e pol-os debaixo da mesa como -cães para roerem os ossos, e os boccados de pão, que lhes atirava, e -era com isto unicamente que elles viviam, porque acabada a refeição do -tyranno passavam elles outra vez para os grilhões. - -Este tyranno representava o diabo, cujo poder sempre exerceu nas Nações -á elle sujeitas pela infidelidade, tendo-as sempre presas, não lhes -consentindo outros viveres alem dos seos restos, cortando-lhes todos os -meios de acção e de fuga, alterando ou extinguindo os signaes, que Deos -naturalmente imprimio nos homens, pelos quaes podiam inclinar-se a Deos -para d’elles ter piedade, que é o que o diabo mais teme, o que é facil de -vêr-se em nossos selvagens por longo tempo sem conhecimento algum do Deos -Omnipotente, presos em suas cadeias infernaes pelos abusos e corrupções, -que entre elles lançou o diabo. - -Eis porque S. Paulo representava as artimanhas e tricas de Satanaz em -suas... - - (Falta uma folha.) - -... esta razão tinhamos nós occasião d’admirar a forma e a maneira de -proceder dos Pagés ou Feiticeiros, que occupam entre os selvagens o lugar -de Mediadores entre os espiritos e o resto do povo, e são os que hão -adquirido maior autoridade por suas fraudes, subtilezas e abusos, com -que tem subjugado esta gente mui fortemente sob o reinado do inimigo da -salvação, como está escripto no _Proverbio 29_—_Princeps qui libenter -audit verba mendacii, omnes ministros habet impios_ «o Principe, que -prestar ouvidos á mentira, é servido por ministros impios e maus.» - -Pondo de parte a explicação litteraria d’esta passagem, nós a aplicamos -ao nosso fim dizendo, que este Principe, que presta attenção á mentira, -ou para melhor dizer, que é o Pae da mentira, é o diabo inimigo da -verdade: seos officiaes abusam do povo por meio de invenções, subtilesas, -e encantos provenientes da instigação dos demonios, como são os -feiticeiros brazileiros, e com tal autoridade se conservam sem a menor -contestação, embora conheçam os enganos, que reciprocamente empregam -contra seos compatriotas. - -Estes feiticeiros não tem chefes, porem tornam-se taes, si os favorece -a capacidade de seo espirito, de sorte que os que o possuem melhor, são -considerados mais habeis. - -Começam muitos a aprender este officio, convidados pela honra e lucro, -que d’elle colhem os mais espertos, porem poucos atingem á perfeição. - -Não encontrareis muitas aldeias, onde os principaes e os velhos não -confessem saber alguma coisa d’elle. - -Os noviços d’essa arte estudam muito a merecer elogios, e d’elles -dizer-se maravilhas e fazem alguma subtilesa diante de seos similhantes -para obter fama. - -Depende seo adiantamento d’algum acaso, como por exemplo se predizem a -chuva, e ella apparece, se sopram algum doente e elles recobram a saude, -o que os faz muito estimados e respeitados como feiticeiros experientes. - -Por exemplo, sem comparação, si algum medico novo ou cirurgião cuidasse -de um doente perdido, ou de alguma chaga pertinaz, e que apparecesse -a saude, não tanto pela industria do medico, e sim pela boa naturesa -coadjuvada por unguentos communs, não ha duvida que tal cura seria -attribuida á sciencia e experiencia dos curadores, e se aproveitariam -d’isto para fazer voar sua fama entre as boas cidades, e serem recebidos -com muita distincção nas boas casas. - -O mesmo acontece no Brasil com estes novos feiticeiros, quando se -restabelece o infermo depois dos seos sopros. - -Não receis que isto fique só na casa do doente, porque sae o -feiticeirinho de aldeia em aldeia contando suas proesas, e triplicando-as. - -O diabo, espirito suberbo, não se communica indifferentemente a todos os -feiticeiros; porem d’entre elles escolhem os mais bellos espiritos, e -lhes infundem suas invenções e subtilesas. - -Julgae por isto. Nunca vereis os diabos fazerem grandes operações e -communicações aos pequenos feiticeiros, e limitam-se apenas a dar-lhe -malicia conforme o juiso e talento do seo espirito. - -Si pelo contrario encontram algum bello espirito, elles o instruem -largamente de suas perversas e condemnaveis sciencias, que são de -ordinario as nigromancias, judiarias e magicas. O mesmo acontece aos -feiticeiros: achareis muitos pequenos, de que não se faz grande caso, -e nem se tem muito medo, valendo-lhes pouco o officio: outros mais -instruidos e mediocres, que occupam o lugar medio entre pequenos e -grandes. Ordinariamente viajam por certas aldeias importunando os seos -habitantes, cuidando de dansas e de outras coisas, que dependem do seo -officio. - -Si algum seu collega apparece por ahi, elles não ficam contentes, mas -quando é convidado algum de seos superiores soffrem-no com paciencia. - -Quanto mais progressos fazem nos abusos, mais graves se mostram: fallam -pouco, buscam a solidão, evitam o mais que podem as companhias, com -o que alcançam mais honra e respeito, são mais procurados depois dos -Principaes, e estes lhes fallam com attenção ahi usada, e ninguem os -maltrata. - -Para conservar taes honras edificam suas casas á parte, longe de visinhos. - -O demonio ardiloso ensina o que pratica a disciplina religiosa, isto é, -o necessario para conservar o espirito de Deos, fazer sua alma capaz -das suas visitas e consolações para o que necessario é amar a solidão e -n’ella residir, evitando cuidadosamente o mais que é possivel a companhia -dos homens, com o que não somente adquirireis favores espirituaes, mas -tambem a honra e o respeito d’aquelles, que evitaes. - -A compleição dos homens é similhante a da honra e da sombra: si correis -após ellas, ellas fugirão diante de vós, si as evitaes, ellas vos -procurarão. - -Assim são os homens: sê-de com elles familiares, e sereis despresados; -fugi d’elles, sereis respeitados. - -Por similhança este velho doutor da malicia ensina os seos principaes -discipulos a evitar communicações, a fugir de tristezas e melancolias, a -fugir de invenções e fantesias, a residir sós com suas familias com o fim -de poder melhor imprimir em seos pensamentos os meios, pelos quaes quer -conservar estes povos na ignorancia e superstição regosijando-se de vêr -tantas nações presas em suas cadeias. - -Não é de hoje, e nem n’esta nação somente, que elle inverte os exercicios -da verdadeira Religião, mas de todos os tempos e em todos os lugares, -porque não pode ser autor, e sim falso imitador do verdadeiro bem. - -Assim como a serpente se occulta debaixo das folhas para picar o segador, -assim tambem elle occulta seo veneno e sua falsa Religião sob apparencia -somente de uma imitação das obras de Deos. - -Dizem Plinio e Solinus, que Cerasto, serpente mortifera, se cobre d’areia -deixando apenas de fóra os cornos afim de enganar os passaros com a ideia -de ser comida, e quando se approximam, ella sahe da embuscada e os apanha. - -O Genesis compara o diabo com esta serpente _Cerastes in semita_ «Ceraste -no caminho.» Vemos isto em nossos selvagens, nutridos e entretidos com -taes engodos, que eu não os acreditaria si os não visse, e si o leitor -duvidar, peço-lhe que creia no que vou contar-lhe. - -São tão tolos estes pobres selvagens, que em relação aos seos -feiticeiros, especialmente aos grandes, creem firmemente, que elles podem -enviar-lhes molestias e fomes, e tirar-lhes tudo o que elles tem, e -embora saibam os proprios feiticeiros, que elles todos são embusteiros, -não julgam poder curar-se sem que passem por mãos de outros. - -Si adoece algum francez nas aldeias, seo Compadre e sua Comadre lhe pedem -permissão para que os feiticeiros o visitem, o bafejem, e lhe toquem com -as mãos. - -O que dirieis vós, si eu vos dissesse, que vindo visitar-me muitos -selvagens, quando adoeci, me pediram muito affectuosamente licença para -me trazerem seos feiticeiros afim de me bafejarem, e apalparem-me, sem o -que, asseguravam-me, eu não ficaria bom? - -O grande _Thion_ adoecendo apenas chegou do _Mearim_ ao Fórte de S. -Luiz, pensou, e por muito tempo acreditou ser isto devido a ameaça do -Principal-feiticeiro da sua terra, que pretendia seduzir e impedir esses -povos _Mearinenses_ de virem á Ilha, logrando vêr muitos com elle ficarem -nas florestas do _Mearim_. - -Tinha ameaçado _Thion_ com a morte apenas aqui chegasse, o que não -aconteceo, porque depois d’uma febre violenta recobrou sua saude: com -tudo, emquanto esteve doente, pensou morrer, por maiores que fossem as -nossas advertencias de que não devia prestar credito a taes feiticeiras. - -Si estes pequenos e mediocres feiticeiros gozam de autoridade entre os -seos, muito mais aquelles, que se chamam propriamente _Pagy-uaçú_[100] -«grandes feiticeiros», porque são como os Soberanos d’uma Provincia, -muito temidos, chegando a tal poder por muitas subtilesas: de ordinario -tem communicação tacita com o diabo. Por onde passam, seguem-nos os -povos; são graves e por isso não se communicam facilmente com os seos: -são muito bem acompanhados quando vão a qualquer parte, e tem muitas -mulheres, não lhes faltam mercadorias, julgam-se felizes seos similhantes -quando os presenteiam, e com uma feitiçaria tiram aos seos compatriotas o -melhor que possuem em suas caixas. - -Não descobrem suas subtilezas diante dos selvagens, e pelo contrario -zombam delles, e muitos me contaram os meios, que empregaram para isto, o -que ainda direi em lugar proprio. - -_Japy-açú_ e o grande feiticeiro de _Tapuitapera_ tiveram entre si uma -questão, de que resultou reciproca desconfiança. - -O grande feiticeiro mandou dizer-lhe, si elle já não se lembrava das -molestias, que outr’ora lhe enviou, e de que pensou morrer a ponto de lhe -pedir que as removesse, e si agora já não as temia? - -Estas palavras impressionaram _Japy-açú_, e julgou-se feliz de ter sua -amisade. A questão foi por causa de uma mulher retida por força; porem -merece ser contada esta historia por haver relação entre ella e o objecto -de que tratamos. - -Adquirio o grande feiticeiro de _Tapuitapera_ em sua Provincia e -circumvisinhança fama e autoridade de um perfeito Magico, que a seu -bel-prazer distribuia molestias e mortes, curava e dava saude, e por isso -alcançou em seo paiz o grau de Soberano Principal, e dispunha de todos á -sua vontade. - -_Japy-açú_ mofava e zombava de tudo isto, o que sabido pelo outro o fez -dizer, que em pouco tempo em si mesmo experimentaria si não tinha o poder -de fazer bem ou mal a quem quizesse. - -Não fez _Japy-açú_ caso d’isto, porem veio a fortuna proteger ao seo -contrario fazendo com que elle cahisse doente muito naturalmente; -pensou ser sua molestia devida ao feiticeiro de _Tapuitapéra_, embora a -existencia do mar entre uma e outra Provincia, e pela força de imaginação -agravou-se sua molestia a ponto de o julgarem á morte. - -Todos os feiticeiros e feiticeirinhos da Ilha o visitaram, porem nenhum -lhe deo saude e afinal escolheo as melhores fazendas que havia e -humildemente mandou a esse feiticeiro seo antagonista, pedindo-lhe pelos -mensageiros seos parentes, que desse ordens á molestia para deixal-o. - -O feiticeiro tomando as mercadorias lhe mandou não sei que moxinifada -para elle tomar, asseverando-lhe cura em breve tempo. _Japy-açu_ -acreditou, principiou pouco a pouco a passar melhor temendo d’ahi em -diante o feiticeiro, que comtudo entre os seos zombava d’elle, e outras -vezes o apontava para mais firmar sua autoridade. - -Ora como é possivel, direis vós, que appareçam e desappareçam as -molestias por força d’imaginação e apprehensão, d’estes selvagens a -respeito das ameaças ou dos favores de seos feiticeiros? - -Decida a medicina: comtudo responderei á pergunta com os exemplos mui -communs, dos _Hypocondriacos_, ou doentes imaginarios, os quaes embora -sãos, e bem conservados, julgam-se debeis e fracos, pensando cada um -soffrer uma molestia differente. - -Fechando este artigo, eu vos faço notar que se julgam uns grandes -feiticeiros por fazerem mal, e outros por praticarem o bem. - - - - -CAPITULO XI - -Como falla o diabo aos feiticeiros do Brazil, suas falsas prophecias, -idolos e sacrificios. - - -Diz Santo Agostinho, que o diabo insuflado por sua soberba quiz ser -obedecido como Deos, imitando com falsidade em tudo e por tudo o -proceder de Deos, especialmente em seos oraculos—_Diabolus est Angelus -per superbiam separatus á Deo, qui in veritate non istetit, et doctor -mendacii, etc_. «o diabo é um Anjo separado por sua soberba de Deos, que -não quiz persistir na verdade fazendo-se assim doutor da mentira.» - -Vendo que Deos fallava outr’ora a seos prophetas por diversos modos, -e a seo povo entre duas figuras de cherubins postas sobre a arca da -alliança, quiz tambem em todos os tempos ter falsos prophetas, com os -quaes consultava seos desgraçados projectos, e seos falsos oraculos -proferidos entre diversas figuras por meio de demonios escondidos por ahi -ou occultos ora sob a figura de uma serpente, ora de um touro, ora de um -mocho ou gralha, e finalmente de uma pyramide, estatua e assim por diante. - -Advinhavam estes falsos prophetas o futuro não por espirito prophetico, -visto não ter o diabo tal poder, e sim por experiencia de muito tempo, -junta á subtilesa de seo espirito, que os faz presagiar coisas futuras -pelo que vê nos homens e nas coisas, como bem diz Isidoro—_Dæmones -triplici acumine præscientiæ vigent, scilicet, sublimitate naturæ, -experientia temporum, revelatione superiorum potestatum_, «possuem os -demonios tres subtilesas para prevêr o futuro, finura por naturesa, -experiencia de tempo, e revelação de poderes superiores.» - -Deixando de parte a experiencia tão antiga dos seos procedimentos para -com a Gentilidade, quero fazer-vos vêr o que ha de verdadeiro a tal -respeito, visto que o diabo tem sempre enganado, e ainda hoje, estes -pobres selvagens por seos oraculos e predicções. - -O feiticeiro, de que ja vos fallei, recolhido ás campinas do Mearim, -tinha em casa diabos sob a figura de pequenos passaros negros, que o -advertiam do que deviam fazer e do que se passava na ilha e em outros -lugares. - -Quando quiz ir a Maranhão revelaram-lhe estes passaros por occasião -de andar passeiando nas suas roças, que cedo chegariam os Tapuyas, e -destruiriam seo milho e suas raizes, mas que nenhum mal succederia -nem a elle, nem aos seos, e assim aconteceo, porque vindo os Tapuyas -de mansinho para sorprehendel-o, ouviram grande matinada na casa do -feiticeiro, e por isso não se animaram a atacar, receiando superioridade -de defensores, contentando-se com carregar os milhos e raizes, e assim se -foram. - -Estes mesmos passaros, ou os diabos sob tal forma, ordenaram a este -feiticeiro, que fosse á ilha do Maranhão, fazer suas feitiçarias, e -convidar os que quizessem deixar a ilha para vir ahi residir devendo -desembarcar no porto de _Taperussu_, isto é, na aldeia dos animaes -gordos, n’uma das extremidades do Maranhão, sendo-lhe absolutamente -prohibido aproximar-se do lugar onde moravam os padres, o que cumprio -pontualmente. - -Nunca poude vir ahi nos vêr, apesar de toda a segurança que lhe -promettiamos. Dizia que seos espiritos nos temiam, e se lhes -desobedecessem, suas roças ficariam por fazer, não trabalharia mais, e -perderia o poder, que tinha entre os seos, que seos espiritos lhe haviam -aconselhado de retirar-se do Maranhão antes de nós lá chegarmos afim de -continuarem á viver com elle tão pacificamente como até hoje. - -Estes e outros factos contava elle aos habitantes de _Taperussu_, que -em parte lhe prestavam credito, pois n’essa occasião muitas mulheres -se agarravam ás suas pernas, chorando e gritando, pedindo-lhe para que -não deixasse o seo paiz, e nem fosse para _Yuiret_, onde estavamos, -principalmente porque lhe fora isso prohibido pelos espiritos, e se -fizesse o contrario succeder-lhe-hia mal. - -Considerae, leitor, a maldade, e o temor d’estes demonios, maldade -para impedir que se cheguem os homens á luz da verdade, ficando sempre -obedientes ás trevas da infidelidade. - -É proprio da malicia fugir da claridade com medo de serem descobertas -suas maldades, e sua autoridade destruida. - -O temor, que elles tem, dos servos de Deos, em cuja presença não se podem -sustentar, bem como o mocho diante dos raios do sol, e os sapos á vista -da flor e cheiro da vinha, mostra quam grande é o poder de Deos, dado á -sua igreja contra a potestade do inferno. - -Prosigamos. - -Dois principaes feiticeiros governavam duas nações de _Tabajares_, -inimigas reciprocas, das quaes abusavam dizendo que tinham repetidas -conferencias com os diabos tomando a figura de diversos passaros. - -O feiticeiro do lado de Thion, mau e desgraçado (que nunca quiz vir á -ilha, e que della desviava seos similhantes o mais que podia) criava -em sua casa um morcego, a que chamava _Endura_, que lhe fallava em voz -humana em lingua dos _Tupinambás_, algumas vezes tão alto, que podia ser -ouvido á seis passos de distancia, não distincta, porem confusamente e -com timbre infantil. - -Respondia-lhe o selvagem ficando só em sua casa, porque despedia a todos -quando percebia que elle lhe queria fallar. - -Quando os nossos la foram afim de preparar os selvagens a sahir do seo -paiz para a ilha, instigou-se a curiosidade de alguns francezes, que -tinham ouvido dizer maravilhas d’este feiticeiro, e pediram a seos -compadres que lhes dissessem o que percebessem do colloquio d’elle com o -morcego, e para isso aproximaram-se de mansinho da morada d’elle a ponto -de ouvirem perfeitamente a voz de ambos, e querendo chegar mais perto -foram descobertos pelo feiticeiro, e retirou-se o morcego. - -Chamou-os o feiticeiro, sem zangar-se, fel-os entrar em sua casa, e -perguntou-lhes o que queriam e porque estavam a escutar? - -Responderam-lhes os francezes, que tinham ouvido dizer aos selvagens -seos similhantes, que ahi havia uma communicação visivel e familiar com -_Jeropary_, que d’ella desejavam vêr alguma coisa, e eis porque se tinham -aproximado, e ouvido distinctamente duas vozes, a sua e uma outra mais -doce e clara. - -É verdade, disse elle, eu fallava agora com o meo morcego, que me veio -dizer maravilhas e grandes novidades, como sejam guerra em França, e -que os _Caraibas_ do Maranhão não estavam onde pensavam, que de nada me -assustasse, e ficasse com elle n’esta terra não acompanhando á ilha meos -compatriotas, que aqui não ficariamos muito tempo, porque os francezes -regressariam á sua patria, e que muitos selvagens de _Tapuitapéra_ tinham -fugido para o matto. - -Perguntaram-lhes os francezes como elle criava e sustentava este morcego? - -Respondeo, que um dia seo espirito, em quanto elle estava só, lhe disse -que de ora em diante lhe fallaria sob a figura de tão feio animal, e -que por isso lhe havia preparado um quarto em sua casa, onde dormiria e -descançaria, comendo do que elle comesse, e quando quizesse fallar-lhe, -que elle o ouviria e responderia: que este espirito tambem quando -quizesse communicar-lhe alguma coisa de novo o chamaria por seo nome, e -com elle fallaria na casa ou no bosque, e mandou o feiticeiro fazer-lhe -um ninho para recolher-se, e com elle sempre fallava sob a forma de -morcego. - -Dizendo isto mostrou um dos cantos da sua casa, onde estava o ninho feito -de folhas de palmeira: ahi, disse, vem elle comigo conversar, discorremos -como dois iguaes, e come o que lhe dou. - -Não posso deixar de notar as particularidades seguintes: - -1.ª Porque o diabo antes quiz tomar a forma de um morcego do que a de -outro qualquer passaro. - -2.ª Como o diabo imita a voz humana. - -3.ª Da verdade d’estas novidades em França, e como é possivel, que saiba -o diabo o que se passa no mundo. - -4.ª Porque razão comia carne. - -5.ª Da localidade por elle escolhida para discorrer com o seo Magico. - -Para satisfazer a primeira, dizemos, que o axioma dos philosophos—_todos -procuram seos similhantes_, é uma verdade provada quer nas coisas -physicas, quer nas sobrenaturaes, porque o diabo, que por sua soberba se -fez espirito immundo, busca de ordinario tomar as formas mais horriveis e -immundas, que pode ser, para communicar-se com seos bons servos e amigos. - -Bem sei o que disse S. Paulo—_Ipse enim Sathanas transfigurat se in -Angelum lucis_ «que Satanaz, transformado em camaleão, para seduzir os -tolos, toma a forma de um Anjo de luz», isto é, reveste-se de bellas -figuras, ou profere boas palavras para melhor fazer seo jogo. - -As bonitas formas de mulheres e raparigas, que elle toma para melhor -attrahir os homens luxuriosos, não tem outro motivo senão o desejo de -chamar a si os individuos conforme sua inclinação. - -Diz S. Thomaz, que por este motivo, não pode o diabo aborrecer -naturalmente os Anjos felizes, porque tem parte na natureza d’elles, -sendo impossivel amal-os em relação á justiça dos Anjos, e injustiça dos -diabos. - -D’esta conclusão deduso duas inclinações dos demonios: uma natural com -que amam as coisas boas, ou pelo menos não as podem aborrecer, e a outra -é proveniente da culpa e da soberba, com que procuram coisas immundas -e abominaveis, e não podem proceder de diverso modo porque gostam da -perversão do appetite, por culpa da natureza. - -Dizemos por isto em lingua vulgar, que o diabo horrorisa-se das torpesas -e maldades, a que leva o homem a praticar por suas instigações, o que -entendereis conforme a distincção da naturesa e a culpa do diabo. - -Eis uma das principaes causas, porque este cruel Behemot toma a figura de -morcego, a que accrescento outra tirada de uma propriedade peculiar aos -morcegos, qual a destes maus passaros nocturnos, muito mais horriveis e -maiores do que os de França procurarem as pessoas que estão deitadas e -dormindo,[101] e lhe arrancarem um pedaço de carne e depois lhe chuparem -muito sangue sem que se desperte a victima, porque tem a propriedade de -conservar o homem adormecido emquanto lhe chupam o sangue: achando-se -fartos o deixam, continuando o sangue a correr, e por isto fica debil a -pessoa, e por muitos dias anda com difficuldade. - -Melhor escolha não podia fazer Satanaz para representar sua naturesa e -crueldade porque anda a noite, e sob as trevas da ignorancia procura os -homens adormecidos e si delicia nas suas carnes, tirando-lhe a inclinação -natural que tem para com Deos, e procura meios de sugar á sua vontade o -sangue, instrumento da vida, as affeições e paixões dos seos captivos -para tornal-os fracos e impotentes em fazer o bem e procurar sua salvação. - -2.º Consiste a 2ª dificuldade na imitação da voz humana pelo diabo, não -tendo orgãos e nem lingua para fazel-o. - -Sua palavra é apenas a manifestação de seo desejo e vontade quando falla -aos outros diabos, seos companheiros, e aos homens pelas impressões -fantasticas, que faz as suas imaginações. - -Comtudo nos ensina a Santa Escriptura, que elle servio-se da lingua da -serpente para seduzir nossa primeira mãe, permittindo Deos, porque não -tem poder na creatura, em quanto fraca e indigente, sem licença de Deos, -e com ella pode crear um corpo no ar, e articular em qualquer lingua até -mesmo nas desconhecidas suas affeições e desejos. - -Ponho de parte mil outros modos, pelos quaes manifesta seos desejos aos -feiticeiros, por não ser nosso proposito. - -3.º Notamos as noticias, que deo dos motins havidos era França, isto é, -d’esta ultima leva de soldados, e como poude ser isto. - -Direi com Santo Agostinho, que os demonios excedem em ligeiresa todo o -corpo existente na maquina do mundo, nada havendo que possa com elles -competir em velocidade. - -Em 24 horas fez o primeiro movel este grande curso em torno das abobadas -inferiores, espaço superior aos calculos dos mathematicos, de tal modo -que dentro d’uma hora vence não sei quantas mil legoas. - -Calculae agora a ligeiresa d’estes espiritos, que em poucos momentos -giram ao redor do universo, sabendo e vendo o que por elle se passa, e -conjecturando o que se pode predizer das coisas futuras: si tão ligeiros -fossem os correios, á cada hora receberiamos noticias de todas as partes. - -4.º Usava de carne, dado o caso de ser verdadeira a existencia d’este -morcego, de que se servia o diabo, e por tanto tinha necessidade de -nutrir-se, e si fosse apenas parto de imaginação não tinha precisão de -carne para viver. - -Não obstante tudo isto, tem sempre sido costume do demonio comer e beber -apparentemente em companhia do seos mais dedicados servos, imitando assim -o exemplo dos anjos bons do antigo Testamento, que comiam com Abraham, -Loth, Tobias e outros. - -5.º A situação do logar procurado por este espirito, isto é, os bosques, -o concavo das arvores, ou o recanto de alguma casa solitaria, nos faz -ver a inclinação, que tem estes espiritos rebeldes a fazerem, como os -condemnados, suas moradias em logares escuros e desertos, tristes e -melancolicos, temendo, se assim se pode dizer, a luz creada, e a doçura -da harmonia. - -Acha-se isto em prova na pessoa de Saul, possesso, sendo aplacado pelo -som da harpa de David. - -Asmodeo foi preso pelo anjo Raphael no fundo do deserto, e Satanaz pelo -anjo do Apocalypse no fundo dos abysmos. - -Este pobre, victima de legiões diabolicas, que Jesus-Christo livrou, dia -e noite morava nos sepulchros dos defuntos. - -Fingiam os antigos, que Cerberas, tirado do inferno, apenas vio a -brilhante luz do sol principiou a vomitar Aconite, até que lhe foi -permittido regressar ás suas cavernas tenebrosas. - -Diga-se isto em relação ao feiticeiro da aldeia do grande _Thion_. - -Quanto ao _Pagy-uassu_, das aldeias de _farinha molhada_, prevenio aos -seos, alguns mezes antes, da chegada dos francezes, que breve chegavam os -_Caraybas_, trazendo-lhes mercadorias, sendo para notar, que ignoravam a -estada dos francezes na _Ilha do Maranhão_. - -Com tal aviso vestiram-se uns de camisas, e outros de diversos factos do -tempo, que outr’ora com elles moravam os francezes. - -Assim vestidos foram ter com os habitantes das aldeias de _Thion_, e para -assustal-os lhes disseram—«entregae-vos á nós, porque os francezes estão -comnosco; olhae as roupas que nos deram.» - -Estas palavras intimidaram muito a _Thion_ e os seos, e pensavam em fugir -quando chegaram os enviados dos francezes dizendo-lhes, que estes os -veriam ver logo que elles mandassem suas embaixadas á ilha. - -Por isto podeis ver, quanto o astucioso Satanaz dava poderes a estes -_pagys_, fazendo-lhes prever coisas futuras. - -Sua astucia porem não é tão grande, relativamente á predicção, porque via -o esforço dos francezes visitando os povos visinhos, e tambem o desejo e -a resolução de ir procurar essas nações, onde se achassem, e por tanto -este bom criado advertio seo senhor. - -Usam os diabos de outra maneira de fallar e de communicar-se com os -diabos e com os feiticeiros d’este paiz, a saber, fazem um buraco em -terra, dentro de casas longinquas, deitam-se de bruços os feiticeiros, -mettem a cabeça no buraco, fecham os olhos, perguntam ao demonio o que -querem, e do fundo do buraco estes lhes respondem. - -Este uso era muito trivial na Gentilidade, e deixando as historias -profanas vou referir-me ao que está escripto no livro 1º dos Reys, cap. -28 quando Saul foi consultar a feiticeira de Endor, a qual curvando-se em -terra, metendo a cabeça e o rosto n’um buraco, fazendo suas invocações, -disse—_Deos vidi ascendentes de terra_—«vi Deoses subindo da terra.» - -Não é sem fundamento, que ella escreveo e servio-se d’estas palavras—_vi -deoses_, a menos, que estas feitiçarias não tivessem poder e força -para fazer apparecer alguns diabos, mas quiz Deos, que a propria alma -de Samuel acudisse á sua palavra afim de prophetisar a ultima desgraça -de Saul, que em suas necessidades havia recorrido aos adevinhos e -feiticeiros. - -Soube de alguns francezes, moradores na aldeia de _Vsaap_, que um -feiticeiro d’ahi era mui respeitado e temido pelos selvagens, por ser -geral a crença delle fallar com toda a liberdade com o diabo, pela -maneira ja dita, e por isso não se atreviam a aproximar-se de sua casa -quando viam a porta fechada receiando tal colloquio. - -Havia tambem na Ilha uma velha feiticeira, que guardava-se muito em -segredo: era mui apreciada pelos selvagens e procurada especialmente nas -molestias incuraveis; quando todos os feiticeiros já não sabiam o que -haviam fazer, então ella era convidada, e trazida com segurança, porem -sempre occulta. - -N’um dia, segundo o que me disseram alguns francezes, ella veio a _Vsaap_ -para fazer uma cura, já sem esperança, e, antes de começar fechou-se -n’uma casa, isolada no meio da praça da aldeia, e ahi fez suas invocações -e feitiçarias diabolicas sobre o corpo do infermo, fazendo apparecer -visivelmente o seo demonio. - -Os francezes, que isto me contaram, tiveram desejos de espiar o que fazia -esta feiticeira, porem os selvagens os embaraçaram o mais que poderam, -asseverando-lhes serem perigosos e maus os espiritos d’esta mulher, de -fórma que na seguinte noite torceriam o pescoço de quem os espiasse. - -Zombaram os francezes, e foram de muito boa vontade á essa casa, com -grande admiração dos selvagens, que os julgavam atrevidos e presumpçosos, -e fazendo um buraco na parede de palha viram as gesticulações d’essa -mulher e notaram não sei que de monstruoso ao redor d’ella, não podendo -destinguir o que era, e assim se retiraram. - -Em quanto estive doente, muitas pessoas me fallaram d’esta desgraçada -creatura com grandes gabos e estima, como infallivel em dar saude aos que -lh’a pediam. Bem podeis calcular si me agradavam taes palavras. - -Fallaram-me tambem de certos barbeiros d’aquelles paizes, que habitavam -em choupanas nos bosques, onde iam consultar seos espiritos. - -Na verdade, é frequente na Ilha e nos paizes visinhos edificarem os -feiticeiros pequenas choupanas de palha em lugares longinquos nos mattos: -ahi collocam pequenos idolos de cera ou de madeira em forma humana,[102] -uns maiores, outros menores, porem os maiores não tem mais que um covado. -Ali em certos dias vão elles levando comsigo fogo, agoa, carne ou peixe, -farinha, milho, legumes, pennas de côr e flôres. D’estas carnes fazem -uma especie de sacrificio a esses idolos queimam resinas cheirosas, -enfeitam-nos com pennas e flores, e ahi se demoram muito tempo sosinhos: -crê-se que era a communicação d’estes espiritos. - -Crescia este mau costume, e estendia-se as aldeias visinhas de -_Juniparan_, onde morava o Revd. Padre Arsenio a ponto d’elle encontrar -estes idolos de cera na visinhança dos bosques e algumas vezes nas -proprias casas. - -Livrou-se d’elles por meio d’exorcismos, que fez em sua Capella contra -estes diabos tão insolentes como atrevidos, e depois não ouvi mais fallar -n’isto. - -Considerae agora a presumpção de Satanaz, que em todos os lugares, e em -todas as nações, quando póde, se faz conhecido por alguma especie de -adoração e sacrificio por saber, que nenhuma religião boa ou má, pode -existir sem algum sacrificio e representação da coisa adorada. - -Eis porque elle inventou os idolos em lugar das verdadeiras imagens, que -Deos mandou levantar no tabernaculo, e depois no templo de Salomão. - -Em vez dos verdadeiros sacrificios, que Deos estabelecia na sua lei, -procurou este espirito soberbo ter altares e sacrificios de toda a -especie de animaes e fructos da terra. - -Comquanto esta nação de selvagens não tivesse perante o publico algumas -ceremonias de religião, nem préces e nem orações, comtudo em particular -estes feiticeiros serviam ao diabo, como ja disse. - -Para acabar, direi que acreditavam estas pessoas em espiritos -particulares, até mesmo francezes. - -Vou dar-vos exemplos. - -Quando o Sr. de la Ravardiere, depois da guerra dos _Camarapins_, -regressava do Pará, advertio-lhe uma mulher que fora resolvida a -sua morte, bem como a de todos os francezes e _Tupinambás_, que o -acompanhavam, pelos selvagens d’aldeia, onde estava alojado. - -Fez-se tudo quanto foi possivel para descobrir-se a verdade, porem todos -negaram e nada confessaram. - -Fizeram crer aos selvagens d’aquelles lugares, que no relogio -d’algibeira, que trasia o Sr. de la Ravardiere, havia um _espirito_ -escondido, que dava movimento ao que se via por dentro e por fóra, e que -aos francezes revellava as coisas mais secretas. - -Fez-se vir ao chefe, ao qual se disse, que se o ponteiro do relogio -chegasse a tal ponto do quadrante, que fallava a verdade o _espirito_, -e por isso acrescentaram—leva-o comtigo e guarda-o até ahi chegar o -ponteiro, e vem antes do nosso _espirito_ e conta-nos tudo. - -Pegou do relogio e levou-o para sua casa, e vendo que elle caminhava -sempre para diante, acreditou facilmente no espirito dos francezes, que -imprimia tal movimento, e não esperou que chegasse ao fim prescripto, -voltou, declarou tudo e restituio o relogio. - -O capitão d’um navio de guerra deo-nos uma bella imagem, tomada de um -navio portuguez, que ia para Pernambuco. - -Por acaso mandei guardar essa imagem, na hora em que a recebi, n’uma das -caixas, que tinha em nosso quarto, e n’esse mesmo momento vieram muitas -mulheres indias á nossa casa, e vendo a imagem muito bem esculpida, -pintada com diversas cores sobre fundo de oiro, admiraram-se e não -queriam entrar, dizendo—_Y anaité asse quege seta?_ «que coisa nova -é esta que nos olha tão vivamente? Ella nos faz medo.» Fil-os entrar -dizendo-lhes que não tivessem medo, e que era uma imagem dos servos de -Deos. Admirei-me de vel-os immediatamente prostrados a seos pés chorando -sua boa vinda, e depois me perguntaram que carne ella comia para irem -buscal-a. Ri-me de tal simplicidade, e colloquei a imagem na Capella de -Sam Francisco. - -Coisa igual aconteceo a um _Tabajare_, muito simples, vendo da porta da -Capella de S. Luiz um bello crucifixo, que dentro estava. Não me foi -possivel fazel-o entrar na Capella, e dizia ao interprete. «Elle me olha -vivamente, está vivo sem duvida, tenho medo d’entrar não sendo baptisado -porque me faz mal.» - -Fizeram o mesmo muitos outros, porem tomando o crucifixo em meos braços, -fiz-lhes vêr que elle era de madeira, representando com tal forma o que -Jesus Christo por nós soffreo. - -Eis o resultado da superstição, como eu já disse, que entre elles -derramaram seos feiticeiros, tanto á respeito de seos idolos, como de -seos espiritos. - - - - -CAPITULO XII - -De algumas outras ceremonias diabolicas praticadas pelos feiticeiros do -Brazil. - - -Sentiria muito este Principe se deixasse intacta alguma coisa no serviço -de Deos, sem procurar imital-a falsamente, e sem buscar introduzil-a no -culto supersticioso de sua soberba. - -Outr’ora Deos no Antigo Testamento instituio as agoas da Purificação, -feitas e compostas de diversas materias e differentes ceremonias, -conforme o fim e objecto, a que se destinavam, tanto para purificar os -homens, os vasos, e os utensilios do Templo, como os vestidos, as casas e -todos os moveis. - -Por imitação instituio este demonio as agoas de lustração, das quaes -se serviam os pagãos para diversos fins, bem como os judeos, lavando e -aspergindo com ellas os homens antes dos sacrificios, os utencilios dos -templos dos idolos, as casas, os vestidos e moveis dos infieis. - -Vejamos se esqueceo-se esta desgraçada serpente d’illudir nossos -selvagens com taes superstições. - -Quando outros exemplos não podessemos produzir alem do já referido no -_Tratado do Temporal_, das nigromancias feitas pelo feiticeiro, vindo dos -campos do Mearim, bastava só esse para demonstrar claramente as loucuras -e abusos, que semeára este antigo enganador entre os povos, em relação ao -nosso fim. - -Como soube, da propria bocca dos feiticeiros, de muitas particularidades, -que faziam para illudir estas gentes, não quero privar o leitor de as -conhecer. - -È costume dos _Pagys-uaçus_ celebrarem, em certa epoca do anno, -lustrações publicas,[103] isto é, purificações supersticiosas por -aspersão d’agoa sobre os selvagens, e bem que tudo dependa de sua -imaginação, fazendo á capricho taes oblações, comtudo de ordinario enchem -d’agoa grandes potes de barro, proferindo em segredo algumas palavras -sobre elles, deitando tambem fumaças de _Petum_, e misturando tambem um -pouco de pó da casa, em que se acham, punham-se a dançar, e depois o -feiticeiro toma um ramo de palha, mete dentro do pote, e com elle asperge -a companhia. - -Feito isto, toma cada um a porção d’agua que quer nas _cuias_, ou -tigellas de madeira, e com ella lavam a si e a seos filhos. - -_Pacamão_, grande feiticeiro de _Commã_,[104] contou-me um dia, que faria -sahir agoa da terra, com que lavava estas gentes, com grande admiração de -todos os barbaros, que viam sahir tão fresquinha essa agua do meio de sua -casa, e a tomavam como si fosse milagrosamente enviada pelos espiritos, -mas o astucioso tinha enchido d’agoa um grande vaso e mettendo-o em terra -d’elle fazia sahir agoa por meio de tubos ou canaes, ou tabocas, que em -abundancia se encontram nas mattas do Brasil, e d’esta forma illudia os -seos. - -Aos gentios tinha o diabo communicado muitas ideias erroneas á respeito -das agoas, das fontes, e dos regatos. N’umas habitavam Nymphas, e -n’outras deosas: estas faziam uma coisa, e aquellas—outras; umas eram -perigosas e enganadoras, outras agradaveis e sinceras; umas sagradas, e -outras profanas. - -Quando os selvagens vêem certa especie de lagartos, parecidos com os -venenosos de diversas cores, correr para agoa, pensam supersticiosamente, -que essa fonte é prejudicial ás mulheres, e que d’ella bebe _Jeropary_. - -Sabendo desta superstição para livrar-me do encommodo que me davam as -mulheres vindo lavar-se na fonte do nosso logar de Sam Francisco, fiz -correr o boato, que lá haviam sardões, e depois d’isto nenhuma mais se -animou a ir ahi excepto as escravas do Forte, que não tinham licença -de lavar-se na fonte, e d’est’arte tive o prazer de mandar amural-a e -fechar á chave, afim de conservar a agoa sempre limpa. - -Chega esta superstição a ponto de acreditarem, que estes lagartos -atiram-se ás mulheres, adormecem-nas, e gozam-nas, ficando grávidas, e -parindo lagartos em vez de crianças. - -Eis porque, quando mandei espalhar tal boato, vinham as escravas do Forte -em bandos, armadas de cacetes, de facas, e de outros instrumentos iguaes -para se defenderem, diziam ellas, d’estes lagartos, o que motivaram muito -riso a nós outros, os francezes. - -Alem das agoas de lustrações, e diabolicas abluções praticadas por estes -feiticeiros tem uma maneira particular de communicar seo espirito aos -outros, isto é, por meio da herva _Petun_ introdusida n’um caniço, de que -elles pucham a fumaça, lançando-a sobre os circunstantes ou soprando-a -mesmo na canna, exhortando-os a receber seo espirito e sua virtude. - -Parece que este cautelloso dragão quer com tal ceremonia falsa imitar -Jesus Christo quando deo seo espirito aos Apostolos, e o seo poder aos -seos successores para transmitil-o aos iniciados nas ordens sagradas. -Assim se lê em São João—_Insufflavit et dixit eis, accipite Spiritum -Sanctum_: «soprou sobre elles, e lhes disse—Recebei o Espirito Santo.» - -D’onde estes feiticeiros tirariam esta ceremonia satanica, si o diabo não -lh’as tivesse mostrado? Achando-se sempre fechados n’esta grande e vasta -região do Brasil, sem communicação alguma com o velho mundo, não podiam -aprendel-a de outra nação. - -Estes bafejos lhes são muito particulares, como ceremonia necessaria para -curar os infermos, porque vós os vedes puchar pela bocca, como podem, o -mal, dizem elles, do paciente, fazendo-o passar para a bocca e garganta -d’elle, inchando muito as bochechas, e deixando d’ellas sahir de um só -jacto o vento ahi contido, causando estampido igual ao de um tiro de -pistola, e escarrando com grande força dizendo ser o mal, que haviam -chupado, e fazendo acreditar ao doente. - -Á este respeito o Sr. de Pezieux e eu passamos um dia alegre na aldeia de -_Vsaap_. - -Um pobre moço selvagem estava atacado pela colica do paiz. - -Veio um d’estes feiticeiros exercer sua attração de espirito sobre o -seo ventre, fazendo muitos tregeitos, e retrahindo-se por diversas -vezes vendo-nos prestar-lhe muita attenção, e apesar de tudo isto o -doente continuava a gritar. Veio o feiticeiro depois procurar-nos e -mostrando-nos dois outros pregos nos disse—«eis o que lhe tirei do -ventre, cujos intestinos estão cheios d’isto, é preciso tiral-os um por -um. Si eu não os tirasse todos, lhe cravariam as tripas e a garganta.» - -Imbuio a este moço, sempre gritando, que lhe tinha tirado do ventre esses -pregos. - -Si essas casas fossem cobertas de ardosias, penso que meteria na cabeça -d’esse rapaz ter elle comido as ripas e os pregos; mas não sendo communs -entre elles pregos de ferro, não sei como poude illudir os assistentes -com tal loucura. - -Poderia referir muitos outros exemplos, porem bastam-me estes ao meo fim. - -Ora si é coisa digna de admiração vêr o Espirito Infernal em tudo quanto -acabamos de dizer até aqui, muito maior deve ser o nosso espanto pelo -que vou dizer, isto é, pela existencia da confissão auricular entre os -selvagens. - -Nada digo que não ouvisse da bocca de _Pacamão_, de outros selvagens e -dos franceses. - -O grande _Pagy_, na sua provincia de _Commã_, ia visitar, quando -lhe aprasia, as aldeias do seo dominio, ordenando que todos fossem -confessar-se com elle, especialmente as mulheres e as raparigas, e quando -encontrava alguma que se recusava a dizer tudo, elle a ameaçava com o -seo _espirito_, que as havia de atormentar, e tinha muita finura para -reconhecer si occultavam ou não alguma coisa. Dava-lhes depois não sei -que especie de absolvição, e contava tal feito d’esta e d’aquella, e -apesar de tudo isto sempre exerceo seo officio de confessar até nossa -chegada. - -Pensae, eu vos peço, quem lhe ensinaria esta maneira de confissão -auricular, de ameaçar seos similhantes, no caso de occultarem alguma -coisa com o seo _espirito_, que os castigaria, e que os absolveria, se -tudo confessassem? - - - - -CAPITULO XIII - -Claros signaes do reino do diabo no Maranhão. - - -O Salvador do Mundo em S. Marcos, antes de subir á direita de seo Pae, -encarregou a seos Apostolos e discipulos de irem pelo universo converter -os infieis assegurando-lhes por certos indicios e signaes a proxima -ruina do imperio dos demonios, a saber—_signa eos qui crediderint hæc -sequentur: In nomine meo dæmonia ejicient, linguis loquentur novis, -serpentes tollent, et si mortiferum quid biberint, non eis nocebit. -Super ægros manus imponent et bene habebunt_: «estes signaes seguiram -os crentes, em meu nome expellirão o diabo, fallarão novas lingoas, -desviarão as serpentes, e si beberem algum veneno mortifero nada -soffrerão.» - -Para bem entender-se estas palavras, convem notar com os padres e -doutores, que foram postas litteralmente em pratica pelos primeiros -christãos, quando na primeira idade da igreja era preciso combater a -obstinação dos judeos e a louca sabedoria dos gentios. - -Depois que estendeo-se a fé por todo o universo, que foi por todos -condemnada a pertinacia dos judeos e tida por vaidade a sabedoria humana, -não foi mais necessario observar litteralmente estes signaes na conversão -dos incredulos e sim unicamente a pratica allegorica e mistica. - -Eis o que desejamos mostrar n’este capitulo ter-se feito todos os dias em -Maranhão. - -Primeiramente elle disse—_In nomine meo dæmonia ejicient_: «em meo nome -elles expellirão os demonios.» - -Em dois annos que estive em Maranhão, vi isto cumprido por diversas -formas, por que os diabos fizeram apparecer realmente o medo e o temor -que tinham do nome de Deos, procurando por todos os meios embaraçar nossa -missão, já persuadindo seos feiticeiros, mais fieis, a ordenar as nações -sobre que tinham poder, de não se aproximarem de nós, já infundindo-lhes -terror com o signal da Cruz e excitando-os a arrancar os que existiam, -dando maus exemplos com ridicularisar o que sanctamente ensinavamos a -estes barbaros, intimidando por muitas vezes os habitantes de _Maranhão_, -_Tapuitapéra_, _Commã_, _Caetés_, _Pará_ e _Mearim_ e fazendo-os fugir -para os matos e logares desconhecidos com receio de serem presos e -captivados pelos francezes ou pelos portuguezes. - -Finalmente mostrou-se tudo de forma diversa, porque quando julgavamos -tudo perdido, foi quando Deos mostrou o poder do seo nome, conservando -não só estes selvagens junto de nós, mas tambem fazendo com que -despresassem seos feiticeiros e o poder do diabo, fazendo fugir -_Jeropary_, com o nome de Deos, e a ablução de Jesus Christo. - -Vou mostrar bons exemplos. - -Lembrar-vos-heis do que acima vos disse tanto dos feiticeiros dos campos -do Mearim e das habitações de _Thion_, como da maneira porque os diabos -manifestavam o temor, que tinham das cruzes, que plantavamos em nome -de Jesus Christo, e de nós seos fieis servos: quando alguns de seos -Principaes me diziam, que estes feiticeiros não quiseram vir com elles, -eu lhes perguntava a razão, e elles me respondiam—_porque Jeropary tem -medo de Tupan_. - -_Acaiuy_, principal do Mearim, de quem fallaremos mais de espaço, veio -me pedir licença para fazer sua casa ao pé da minha, não querendo ficar -com os outros no _Forte_, dizendo-me entre outras rasões que tinha para -isto, ser porque _Jeropary_ não se atrevia a aproximar-se do logar, em -que habitavamos visto termos vindo expressamente para repellil-o. - -_Pedro Cão_, selvagem baptisado em Dieppe havia muitos annos, dizia -a mim e aos Srs. de la Ravardiere, de Pezieux, e a outros quando o -interrogavamos á respeito de sua felicidade na guerra, que Deos sempre o -livrára de mil perigos porque era christão, e fazia fugir o diabo apenas -chegava n’uma aldeia, e que seos similhantes mostravam-se animados, -quando em companhia d’elle, não temendo _Jeropary_. - -O mesmo pensavam os habitantes de _Tapuytapéra_ á respeito dos novos -christãos, julgando que elles perseguiam e faziam fugir _Jeropary_, -mostrando-se contentes por isto quando tinham esses christãos em suas -aldeias. - -Servindo-nos d’estas crenças embutiamos no espirito dos cathecumenos -como ponto de fé, que logo que elles fossem _lavados_, adquiririam poder -contra o diabo, e nunca mais deviam temel-o. - -Corre voz geral em todas estas terras, que os diabos são _espiritos -maus_, que temem os _Pays_ e os _Caraybas_, isto é, os padres e todos os -que são baptisados. - -Recorda-me que fallando mil vezes d’esta materia aos selvagens, elles me -disseram—_Jeropary yportassuasseque gésera_—«o diabo está agora pobre -e miseravel, tem muito medo e já não é atrevido como era.» _Jeropary -ypochu, Tupan Katu_ «o diabo é mau, cruel e nada valle, porem Deos é -muito bom.» - -Que desejarieis mais para o complemento d’este primeiro signal, e -segurança da total ruina do diabo? - -São os proprios diabos, que confessam temer o nome de Jesus Christo, -as armas de sua paixão, e até os seos servos, dissuadindo seos intimos -amigos para que de nós se ausentassem, abalando ceos e terra afim de -embaraçar-nos, e movendo tudo para inutilisar nossos esforços, emfim -cahiram de ventas no chão, e chegaram ao cabo de suas astucias. - -Os que outr’ora os temiam, hoje os despresam; emfim só nos resta -continuar as obras começadas. - -_Linguis loquentur novis_: «fallarão novas linguas». Na verdade os nossos -selvagens do Maranhão fallam uma linguagem inteiramente nova, visto -que, esse _Marata_ antigo, isto é, um dos Apostolos de Jesus Christo -de quem fallarei mais adiante, não lhes ensinou a fallar como fallam -agora, a saber: na profissão do christianismo recitando o symbolo dos -Apostolos _Arobiar Tupan_ etc. etc., a dirigir-se a Deos por meio da -oração dominical _Oreruue_ etc. a encaminhar suas vidas e acções segundo -os mandamentos da lei de Deos _Ymoeté yepé Tupan_ etc. etc. conforme os -mandamentos da Igreja. _Are maratecuare ehumé_ etc. «lavar e fortificar -suas almas pelos Santissimos Sacramentos.» _Iemongarauiue_ etc. - -É por certo fallar linguagem nova, quando discorrem sobre os mysterios -da nossa fé, como sejam a unidade da essencia em Deos, e na Trindade -das Pessoas; que o Filho de Deos tomou corpo no ventre da Virgem: que -os maus vão para o inferno, que todos os homens resuscitarão em corpo e -alma, indo depois cada um para o lugar de sua sentença: são estes com -tudo os discursos diarios dos feiticeiros, só fallando em matar, comer, -assar e seccar a carne dos seos inimigos, e nas suas incontinencias, -libertinagens e loucuras. - -Admirar-se-ha muito quem pensar em tal mudança entre os barbaros, que -somente sabem o que lhes ensinou a natureza. - -Creem os judeos, que os Apostolos sahiram d’um tunel, bem cheio, de vinho -e de carne, e viram que os gentios de diversas nações davam signaes -de entender o que prégavam, e que os Apostolos por sua vez tambem os -percebiam. - -Tambem vos disse, que os selvagens ficavam muito admirados quando viam -seos similhantes, baptisados, discorrer em sua lingua sobre coisas altas, -profundas, e tão novas, como as que conheciamos por seos interpretes, e -diziam uns aos outros—como é que esta gente falla tambem de _Tupan_, como -os Padres lhes tem ensinado tão bellas coisas, quaes as que nos contam: -como nossos filhos sabem mais do que nós, nossos Padres, e mais remotos -antepassados, que embora tenham vivido muito nada nos contaram como estes -Padres: por força fallaram com Deos. - -_Em terceiro lugar._ _Serpentes tollent_ «elles desviaram as serpentes.» -Que são essas serpentes do Brazil, que com sua lingua e cauda envenenam -estes povos? Não são todos os grandes e pequenos feiticeiros, que -envenenam suas Nações? - -A fé de Jesus Christo é como a Cegonha, que purifica o paiz, onde está, -das serpentes venenosas. - -S. Paulo, na Ilha de Malta, atirou ao fogo a vibora que trazia no dedo. - -O dedo dado por Jesus Christo aos Apostolos, é o poder do Espirito Santo, -que de ordinario busca agentes naturaes docemente, sem constrangimento, -para dispôr o objecto a receber uma nova fórma pelo banimento e ruina de -outra fórma contraria. - -Estas viboras, arremeçadas ao fogo, são os Ministros de Satanaz, que o -Espirito Santo expelle para tornar a Nação cheia d’abusos susceptivel de -acceitar o Evangelho e de conhecer a Deos. - -Si eu disser, que me parece ter o Espirito Santo, em relação a estes -feiticeiros do Maranhão, feito um grande milagre, que nunca fez para com -os sacrificadores do Paganismo, creio ser bem recebida a minha opinião, -porque, alem de dois ou tres feiticeiros, todos os grandes só desejam ser -baptisados: ao contrario, raras vezes estes sacrificadores do diabo, na -gentilidade esposavam o christianismo. - -Por isso podiamos dizer, que as serpentes venenosas, que se arrastam na -terra, tornam-se passaros voadores no elemento do ar, conforme a profecia -de Isaias: _De radice colubri egredietur Regulus, et semen ejus absorvens -volucrem_: «da raiz da cobra sahirá o Basilico, e a semente do Basilico -engulirá o passaro,» o que Vatable assim interpreta[105]: _De radice -serpentis egredietur Regulos, et fructus ejus, cerestes volans_: «da raiz -da serpente sahirá o Basilico, e o seo fructo será uma cerasta volante.» - -Para entender esta passagem convem recordar-se do que escrevem os -naturalistas, a saber, que as cobras grandes e grossas geram o Basilico -quando comem um sapo; porem o Basilico procura gallinhas brancas, com -quem se unem, pondo ellas ovos, que enterram n’areia ao ardor do Sol, e -d’elles sahem serpentes, que voam. - -Nada dizem, que eu não visse em Maranhão, conforme me diziam e pensavam -os selvagens, e aconteceo-me por duas vezes, que uma gallinha branca -que eu tinha, pozesse dois ovosinhos redondos como uma ameixa de dama e -salpicados, e depois ella mudou de cacarejar, e parecia louca. - -Disseram-me então os selvagens, que infallivelmente o Basilico nos mattos -a tinha coberto, pelo que convinha matar, quebrar e queimar os ovos, para -evitar a morte infallivel de quem os comêsse: si se deixasse os ovos, sem -queimal-os, d’elles sahiriam serpentes voadoras, que não era a primeira -vez, que isto acontecia, e então todas as gallinhas mudam de canto, e não -param n’um lugar. - -Appliquemos isto ao nosso fim, e digamos que a antiga cobra é Satanaz, -Principe dos Demonios, os Basilicos são os Diabos destacados nas -Provincias por Lucifer para seduzir o Mundo; as serpentes são seos -Ministros, como sejam os _Pagys_ ou feiticeiros do Brazil, que desejam -adquerir azas para mudar de elemento da terra para o do ar, deixar seos -velhos e abominaveis costumes de arrastar o peito em seo execrando e -diabolico serviço, e aproximar-se do Ceo, como o resto dos indios pela -ablução ou lavagem de seos antigos peccados pelo Sacramento do Baptismo. - -Estas serpentes, tão perseguidas no Brazil, são esses desgraçados -costumes, e abominaveis peccados, como sejam as vilanias, raivas, e -vinganças, já descriptas amplamente n’outra parte. - -_Em quarto lugar._ _Et si mortiferum quid biberint non eis nocebit_: «e -si bebem algum veneno mortifero, não lhes damnificará.» O verdadeiro -veneno, que engolem as almas, é a falsa doutrina, que o Diabo faz -suggerir nos ouvidos dos novos christãos. - -Vós o achareis em muitos exemplos do proprio seculo dos Apostolos. Certos -seductores iam corromper os individuos sem malicia, e apenas bebiam ellas -o _Aconito_, sentiam-se afflictos, impressionados em sua alma, e abalados -em sua fé; porem o Espirito Santo mencionado no genesis—_Spiritus Domini, -ferebatur super aquas_ «o Espirito do Senhor é levado sobre as agoas de -Chaos,» isto é, ainda não purificadas e nem limpidas, ou como querem -dizer os outros: _Incubabat aquis_, deitava-se sobre as agoas do Chaos -para d’elle tirar as bellas pombas, como fingiam os Poetas, os ovos de -Thetis, cobertos pelo pombo branco, ou o Cysne, de que sahiram Castor e -Pollux, ou então _fouebat aquas_, aquecia essas agoas ainda frias. - -O Espirito Santo, digo eu desculpa mais facilmente a fragilidade e -fraquesa d’estes novos christãos, mas não as dos antigos crentes. - -Assim vae adejando sobre as agoas desviadas do verdadeiro caminho pelos -maus discursos d’aquelles, que tem a alma mal conformada, vae chocando -os ovos abandonados pelo Pae e Mãe, almas recentemente lavadas, porem -separadas da presença d’aquelles que as tem lavado. - -Aquecidas essas agoas geladas pelo sopro do pernicioso Aquilon, não quer -que o veneno bebido lhes dê a morte, conduzindo-as ao regaço de sua Mãe, -e entre os braços dos que, depois de Deos, os geraram espiritualmente em -Jesus Christo para obrigal-os a vomitar o veneno do seo coração, e tomar -o alimento salutar, pelo qual se fortificaram para resistir de ora em -diante a todos os choques. - -Passou-se isto no Brazil, como aconteceo no tempo dos Apostolos, onde -um certo numero de novos christãos de _Tapuitapéra_, seduzidos por -más palavras de um certo personagem, metade d’elles se deshouveram e -renunciaram o Christianismo; porem nós cuidamos d’elles com todo o zelo. - -Assim fizeram os nossos superiores, que redobraram de cuidados para -remediar este mal levando para ahi tudo quanto julgaram necessario, -e por isso essas novas plantas, fanadas por brisa gelada, adquiriram -seo antigo vigor e florescencia, e tornando a vel-os no Forte de Sam -Luiz, procuramos animal-os a ficarem firmes e constantes na profissão -do Christianismo, e ordenamos-lhes de não se separarem de Martinho -Francisco, ahi nosso suffraganeo. - -Sentia-se o diabo cercado por todos os lados, e peiores os seos negocios -de dia para dia. - -N’esta epocha, em que estou escrevendo, espero que os padres que por la -andam, lhe deem terriveis combates, e que seo reinado vá de decadencia -em decadencia, até total ruina; porque antes de eu deixar a ilha, via -e experimentava a disposição geral e universal d’estes selvagens,[106] -especialmente dos meninos, para os converterem. - - - - -CAPITULO XIV - -Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer, e começarão a -estabelecer o reinado de Jesus Christo. - - -O psalmista rei David, no seo psalmo 8.º—_In finem pro torcularibus, -psalmus David_, isto é, o psalmo de David, que deve ser cantado em acção -de graças ao Senhor no fim das vindimas diz, prevendo a ruina total do -imperio de Lucifer sobre as almas dos infieis, e o estabelecimento do -reinado de Jesus Christo—_Ex ore infantium et lactentium perfecisti -laudem propter inimicos tuos, ut destruas inimicum et ultorem_. «Tens -apurado teos louvores pela bocca dos meninos e das crianças de peito -á despeito dos teos inimigos, e por isso tu destroes o adversario e o -tyranno vingativo.» - -Rabbi Jonathas embellezou esta passagem, e esclareceo-a por esta -forma—_Fundasti fortitudinem, ut destruas Auctorem inimicitiarum et -ultorem_ «estabelecestes a força do teo imperio pela bocca e confissão -da Fé dos meninos para mostrar tua grandesa, e destruir o autor das -vinganças e o sanguinario vingador.» - -Disse São Jeronymo—_Quiescat inimicus et ultor_ «fechaste a bocca ao -seductor inimigo da salvação, e enraivecido contra os homens pela voz dos -meninos.» - -Grande maravilha é o serem os meninos o symbolo da proxima fundação do -reinado de Jesus Christo e a queda do poder dos demonios. - -Não me demoro em fundamentar com muitos exemplos este signal da -providencia de Deos, e assim limito-me a referir o que se passou no -Triumpho de Jesus Christo antes de sua Paixão, quando os meninos em -alta voz diziam—_Hosanna filio David_ «seja bem vindo o Filho de Deos,» -o que disse em primeiro logar o santo rei no seo cantico—_In finem pro -torcularibus_, «no fim pelas pressões,» isto é, no fim do reinado de -Satanaz, e no principio da Paixão de Jesus Christo, quando era tempo de -pagarem os meninos este tributo de reconhecimento. - -Em segundo lugar, de dia a dia, na continuação, no fim, e na consummação -do captiveiro de Satanaz sobre as almas infieis, e no principio da Santa -Igreja, fundada entre ellas, principalmente pelos meninos, o que desejo -mostrar ter sido feito pelos filhos do Brasil. - -Estas almas juvenis, ainda não corrompidas por antigos e maus costumes -de seos paes, mostram não sei que disposição singular e particular para -receber, como si fosse uma taboa rasa, qualquer pintura... - - (Falta uma folha.) - -... repugnancia: nós lhe facilitavamos os meios de o entender comparando -com as coisas, que veem diariamente. - -Assim como crescem as ostras sobre os ramos das arvores, tomando carnes -e recebendo vida entre duas conchas, sem mistura, nem effusão de semente -do humor marinho, e apenas pelo calor do sol, assim tambem o Filho de -Deos no ventre da joven, a Santa Virgem, recebeo seo precioso sangue da -materia, e o Espirito Santo, do calor, e assim tomou corpo sem alguma -outra operação humana. - -Gostavam muito da comparação, e me disseram que em seo paiz muitas coisas -se geravam pela simples influencia do Sol, como os lagartos, que sahem -dos ovos, depois que recebem a vida do calor do Sol, e por isso não -tinham difficuldade em crer o que nós lhes ensinavamos, e nem que Deos se -fizesse homem para morrer afim de salvar os seos, porque, diziam elles, -_Jeropary_, apesar de ser espirito mau, entra no corpo dos monstros para -nos amedrontar, espancar e atormentar. - -Sobre tudo muita admiração nos causava o como facilmente se convenciam da -verdade e da realidade de Jesus Christo, Filho de Deos, sob as especies -de pão e vinho, ao passo que viamos tantas almas vacillantes n’este -ponto, embora lhes sóbre espirito e comprehensão para outras coisas. - -A este respeito não pude dizer outra coisa, senão o que disse a -Escriptura Santa no proverbio 25—_Sicut qui mel multum comedit, non est -ei bonun, sic qui scrutator est magestatis, opprimetur a gloria_.—«É -coisa tão doce como o mel, mas quem d’ella comer muito, não pode offender -mais o estomago.» - -Nada ha de mais suave e delicioso do que a contemplação das obras de -Deos e a leitura das letras santas, mas para aquelle que vae muito alem, -e tudo mede pela vara de seo espirito, impellido pela soberba de seo -entendimento. - -Nada ha mais seguro, que não fique opprimido pelos vivos raios da gloria -de Sua Magestade, como se observa nos mochos cegos, visto quererem olhar -e julgar da face do sol, e da sua luz. - -Ao contrario, os que manejam com temor e humildade os mysterios de nossa -fé, são esclarecidos sem prejuiso de suas vistas, e docilmente obedecem a -vontade e poder do soberano, que pode o que quer, quer e faz o que diz. - -Estes pobres selvagens, fallo até dos que não são ainda christãos, apenas -se lhes fazia signal de sahirem da igreja, retiravam-se promptamente, -ficando comtudo na porta, que se conservava fechada em quanto se recitava -o canon da missa, e fazia-se a communhão. - -Diziam elles, em resumo, que n’essa hora descia _Tupan_ sobre os altares, -bebendo e comendo comnosco, que não tinham merecimento para ficar ahi em -frente d’elle senão quando fossem baptisados, e a maior parte d’elles se -ajoelhavam, imitando os francezes. - -Os Indios christãos ajoelhavam-se apenas ouviam tocar a campainha, -juntavam as mãos e adoravam a Deos. - -Ao mysterio do Sacratissimo Corpo e Precioso Sangue do Filho de Deos -elles chamam _Tupan_, quer dizer, o proprio Deos, segundo suas crenças, -_Aséreu yanondé Tupan rare_, quer dizer, «antes de morrer receberás o -corpo de Deos». - -Ainda que eu reconhecesse n’elles facilidade de crer segredo tão -profundo, não me animaria a communicar-lhes senão em artigo de morte, -e antes queria deixar esta tarefa para os que viessem depois de mim, -porque dando n’um certo dia a communhão a uma India, a quem examinei -tanto quanto pude antes de lhe dar o Precioso Corpo de Jesus Christo na -Paschoa, apenas recebeo a Hostia Consagrada perturbou-se muito e não -a poude engolir a ponto de querer tiral-a com a mão o que lhe prohibi -disendo só poder ser tocada por sacerdotes, que não tivesse receio, e -nem se assustasse tendo de receber seo Deos, que era de sua vontade, -que ella recebesse a hostia e a engolisse com toda a confiança, o que -fez mediante um pouco de vinho que lhe dei a beber no calix: tão grande -secura da lingoa e bocca proveio da grande timidez d’ella em receber -tão santo manjar, o que me resolveo de então em diante a deixal-os bem -fundamentarem-se no conhecimento d’este artigo antes de administrar-lhes -o Santo Sacramento, e ainda que muitos me pedissem o _Tupan_, eu lhes -respondia que esperassem pela vinda dos nossos padres. - -Não ha grande difficuldade em fazel-os confessar suas faltas, até mesmo -as proprias mulheres, e de coisas que são difficeis a este sexo declarar -aos sacerdotes, representantes da pessoa de Deos. - -Mui livremente vos dizem sim e não, o tempo, o lugar, a qualidade das -pessoas, o numero de seos peccados, sem algum vexame tolo e mau como por -ahi se observa. - -Não tem a menor hesitação em crer na efficacia do baptismo, que é o -lavamento dos peccados, a filiação de Deos, e a acquisição do Ceo, tendo -como certo que os baptisados vão para o paraiso gozar da companhia de -Deos, com tanto que não caiam outra vez em peccado mortal. - -Acreditaram sempre, que havia inferno, onde estava _Jeropary_, e para -onde iam os maus. - -Sabiam ao mesmo tempo por tradicção, que Deos era muito feliz lá em cima, -vivendo com os espiritos bons, e que seos paes que tinham tido boa vida, -iam para um lugar de delicias, onde nada lhes faltava embora terrestre. - -A vista d’isto facil nos foi fazel-os entender o que deviam crer do -paraiso, do inferno e de um terceiro lugar, onde se purificam as almas -antes de irem para o Ceo, de um quarto onde os meninos, que não chegaram -a receber o baptismo, morrendo antes do uso da razão, eram recebidos para -não padecerem por nunca poderem vêr a Deos, visto ser o baptismo a chave -do Ceo. - -Não se acreditaria, senão vendo-se, quanto são os selvagens curiosos por -saberem das coisas de Deos. Todos, quando com elles conversavamos, nos -faziam mil perguntas á este respeito, iguaes á estas: - -Como Deos fez o Mundo? - -Si o fez com suas proprias mãos, ou si ajudado pelos bons espiritos poude -fazer o Ceo, as estrellas, o sol, a lua, o fogo, o ar, a agoa, a terra, -os primeiros homens, os primeiros passaros, peixes e animaes, reptis, -arvores e hervas? - -O que existia antes de feito o mundo, e o que fazia Deos vivendo sosinho? - -De que forma está no Ceo? - -Como faz rebumbar o trovão, e cahir a chuva? - -Si falla aos homens, si viemos do Ceo, si nascemos de mulheres, si vimos -anjos e diabos? - -Quem nos ensinou tudo quanto ensinavamos, si não morriamos, e depois da -nossa morte como si faziam outros padres? - -Si em França haviam muitos padres, si andam vestidos como nós, si havia -um padre que fosse rei, porque regeitavamos mulheres e mercadorias? - -Si a Mãe de Deos era uma rapariga como outra qualquer, si bebia e comia -como nós, porque tinha morrido, si não vinha do Ceo passeiar as vezes na -terra e fallar comnosco? - -Si os Apostolos eram padres como nós, quantos tinham existido, porque os -outros _Caraibas_ francezes não eram tambem padres como nós, si fomos nós -mesmos que nos fizemos Padres, ou si foi outra pessoa? - -A todas estas e a muitas outras perguntas respondiamos com a verdade, e -elles por gestos e palavras demonstravam seo contentamento. - -Assim corria de maneira agradavel o tempo entre taes perguntas e -entretinimento. - -É por isso que pretendo aqui deixar as diversas e mais singulares -conversações, que tive com os _Muruuichaues_, isto é, com os principaes -de _Maranhão_, _Tapuitapéra_, _Commã_, _Caietés_, _Pará_ e _Miary_. - -Não quero demorar-me mais fallando em taes perguntas e respostas, visto -que as vereis mais adiante, e espero que minhas respostas vos contentarão -muito, e vos assevero que serão fielmente transcriptas até na propria -linguagem com que foram proferidas. - -Espero desculpa não só por isso como tambem pelo mais que ja deixei -escripto, mormente não se achando tantos ornatos n’esta historia como -exigia a curiosidade d’este seculo. - -É minha opinião, que a bellesa de uma historia consiste na verdade do -facto e na simplicidade do estylo. - -Si eu não descrever palavra por palavra essas conferencias, ou si -não usar de muitas palavras, basta que não offenda em coisa alguma a -substancia do facto, sendo essa abundancia de discurso necessaria e -requerida para vos fazer entender bem claramente suas intenções, e as -nossas expressões. - - - - -CAPITULO XVI - -Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro de Commã. - - -Tendo tido muitas conferencias com este principal e grande feiticeiro, -vou narral-as por capitulos: eis o primeiro. - -_Pacamão_ é pequeno no corpo, vil e abjecto á tal ponto, que quem não o -conhece, não faria caso d’elle. - -Comtudo isto é o maior e o mais graduado de todos os principaes do -Maranhão, especialmente na provincia de _Commã_, uma das mais bellas, -fertil e povoada no paiz dos _Tupinambás_. - -Goza entre elles de tal poder, que somente com sua palavra tem movido -todos os habitantes, sendo extremamente temído. - -É fino e velhaco tanto quanto pode ser um selvagem, e por essas -qualidades chegou a obter esse poder, grandesa e prestigio, sendo tido -por supremo curandeiro, subtilissimo feiticeiro, muito familiarisado -com os Espiritos, tendo entre suas mãos e á sua disposição a morte e a -vida, concedendo vida e saude a quem bem lhe aprouver; alem de grande -bafejador entretinha os ingenuos por meio de confissões, de lustração, -incensamento, e muitas outras coisas iguaes como ja dissemos. - -Não foi dos primeiros a visitar os francezes e fazer-lhes seos -offerecimentos, desejando vêr o que elles queriam, porque tinham vindo -aqui, e como se estabeleceriam. - -Informando-se bem de tudo isto, veio ao Forte de Sam Luiz, entrou, e -saudou agradavelmente o Sr. de la Ravardiere. Vinha bem acompanhado por -indios enfeitados de pennas, trouxe comsigo a mais vigorosa de todas as -suas mulheres, cujo numero chegava a trinta. - -Chegando a _Yuiret_, tendo passado o mar em nossa barca, que tinha ido -buscar farinha á sua terra, distante mais de 40 legoas do Forte de Sam -Luiz, fez saber ao Sr. de la Ravardiere, que ia ao seo Forte, e foi -esperado. - -Formou sua gente, uns atraz dos outros, e todos o acompanharam. - -Andou ao redor das casas, situadas na grande praça de Sam Luiz, fallando -como era de costume, apregoando sua grandesa, o seo amor aos francezes, o -objecto da sua visita, e tambem o valor e poder dos francezes. - -Acabado isto, aproximou-se da porta do Forte, perto de um quartinho, onde -estavam alguns francezes observando o que elle fazia. - -Ordenou á sua mulher, que se prevenisse para carregal-o até a casa do -governador, e foi obedecido promptamente, escanxando-se na cintura d’ella -como usam os indios quando carregam seos filhos: assim entrou no Forte, -e dirigio-se ao dito senhor: sua mulher era negra como o diabo e pintada -desde a planta dos pés até a cabeça com o succo do genipapo. - -Antes de ir adiante pensae si era possivel conter o riso, vendo-se um dos -Principaes do Brazil montado em tão bello cavallo. - -Foi comtudo muito bem acolhido, e disse o que lhe veio á mente para -desculpar-se, findo o que, e depois de tratar dos seos negocios, veio á -minha casa, em São Francisco, acompanhado por gente implumada. - -Mandei logo armar-lhe uma rede de algodão bem alva, onde assentou-se, e -pedindo a um dos seos companheiros o seo caximbo, este o entregou ja com -fogo. - -Depois de ter tomado tres ou quatro caximbadas, exhalando o fumo pelas -ventas começou assim a fallar-me grave e pausadamente achando-me defronte -d’elle n’outra rede: - -«Ha muitas luas, que eu tive vontade de te vir vêr e aos outros Padres; -mas tu, que fallas com Deos sabes, que não é bom e nem prudente ser-se -leviano e facil, mormente nós outros que fallamos com os Espiritos, e -mover-nos com as primeiras noticias e pôr-nos á caminho, porque sendo -observados pelos nossos similhantes, elles nos imitarão. - -«O poder, que alcançamos sobre nossa gente, se conserva por certa -gravidade em nossas acções e palavras. - -«Os intromettidos, e os que a primeira noticia apromptam suas canoas, se -emplumam e vão logo vêr o que ha de novo são pouco estimados, e nunca -chegam a ser grandes Principaes. - -«Foi isto o que me impedio e embaraçou de vir logo. - -«Os habitantes de _Tapuitapéra_ e muitos de minha provincia vieram antes -de mim, porem são menos do que eu. - -«Alegro-me com a vossa vinda, porque saberei que ha Deos: sou mais capaz -de o saber do que um só dos meos similhantes: não desejava que um só -d’elles me precedesse ou que tu o levasses diante de mim, e o fizesses -fallar com Deos. - -«Quando me ensinardes o que é _Tupan_, terei mais autoridade e serei mais -estimado, do que actualmente, e em meo paiz occuparei o primeiro logar -depois de ti. - -«Dize o que queres que eu faça, e quando meos similhantes virem, que eu -sou filho de Deos e lavado todos desejarão sel-o, buscando imitar-me. - -«Terei grande pesar, si estimares outro mais do que eu, porque sempre -vizei altas coisas. - -«Tinha muita curiosidade de visitar e de ouvir os Francezes. - -«De meos avós aprendi a historia de Noé, o qual construio uma barca, pôz -dentro sua gente, que Deos fez chuver abundantemente por muitos dias, que -a terra ficou submergida debaixo d’agoa, invadindo campos, montanhas, -valles, mar, e separando-nos de vós. - -«Noé foi pae de todos. - -«Soube tambem que Maria era Mãe de _Tupan_, sendo Virgem, porem Deos -mesmo fez corpo para si no ventre d’ella e quando cresceo mandou -_Maratás_, Apostolos para toda a parte, nossos paes viram um, cujos -vestigios ainda existe. - -«Vós outros padres são mais do que nós, porque fallaes a _Tupan_, e sois -temídos pelos espiritos: eis porque quero ser padre. - -«Muito tempo ha, que eu sou _pagy_, e ninguem é mais do que eu, porem não -faço caso d’isto, porque vejo que meos similhantes somente vos apreciarão. - -«Desejaria muito que viesses a minha provincia, boa terra, onde se -encontram muitos javalys, viados, e corças, nada te faltará, e sempre -estarei comtigo.» - -Respondi-lhe a tudo isto, dizendo ter muita satisfação de vel-o, ja tendo -muitas vezes ouvido fallar d’elle e do seo poder, como enganava com -certos ardis os indios fazendo-os acreditar ter em seo poder um espirito -familiar, sendo ainda maior o seo contentamento por vel-o principiar a -reconhecer sua falta, sendo certo que por seo discurso eu bem percebia -que elle não tinha a intenção, que Deos exige, para ser posto no numero -dos seos filhos e lavado com agoa divina. - -Replicou-me assim: - -«Que queres dizer com isto, que eu não procuro Deos como convem? - -«Será porque desejo ser padre como tu, fazer-me admirar mais do que nunca -entre os meos, persuadil-os a ser filhos de Deos, a procurar-te para -serem baptisados, e fazeres em minha provincia o que quizeres, que de mim -se diga que eu era o grande _Pagy_, sendo o primeiro a reconhecer Deos e -vós outros padres. - -«Sendo estimado pelo grande espirito, os outros á minha sombra procurarão -a Deos e farão como eu. - -«Si eu não me fizer lavar, muitos não o farão, e dirão—esperemos que -_Pacamão_ seja _Caraiba_, e depois nós o seremos, porque tem melhor -espirito e é mais esperto do que nós. - -«Deves saber que antes de terdes chegado, eu ja lavava os habitantes do -meo paiz, como vós padres fazeis com os vossos, porem em nome do meo -espirito, e vós o praticaes em nome de _Tupan_. - -«Eu bafejava os infermos, e elles ficavam bons: elles me diziam o que -fizeram, e eu embaracei _Jeropary_ de fazer-lhes mal. - -«Fazia apparecer annos bons, e vingava-me dando doenças aos que me -despresavam. Dava-lhes agua que corria do pavimento de minha casa, o que -agora não faço e nem quero mais fazer, porque era a subtilesa do meo -espirito, que me suggeria todas estas coisas, zombando assim dos meos, -que julgavam, por falta de espirito, ser isto maravilha. - -«Foi um francez que me ensinou a fazer brotar agoa do soalho de minha -casa.» - -Respondi-lhe pelo meu interprete, que na sua réplica descobria não -procurar elle a Deos como era conveniente, por que pretendia por meio -do baptismo fazer-se maior e mais estimado entre os seos do que era -antes por meio de seos grosseiros embustes, visto que Deos exigia de -seos filhos, que fossem humildes, e que se arrependessem dos peccados -passados: com quanto na verdade Deos não deixe de exaltar os seos, -muito mais do que os diabos fazem com os seos sectarios, em quanto elle -tivesse esse espirito, não esperasse que os padres o baptisassem, e sim o -fariam só quando elle não fosse soberbo, e estivesse arrependido de suas -feitiçarias. - -Em quanto eu dizia estas palavras, chegou o interprete do Sr. de la -Ravardiere por nome _Mingan_, a quem eu tinha mandado chamar para -conversar com _Pacamão_, porque é da indole d’esses selvagens dar mais -credito aos interpretes mais velhos do que aos moços. - -Contei-lhe palavra por palavra toda a nossa conferencia até aquella -hora, e lhe pedi para fallar a elle de conformidade com os meos e seos -pensamentos. - -Eis como elle fallou: - -«Tu bem sabes, que ha muito tempo eu converso comvosco, e com vossos -paes, quando estavamos em _Potyiu_. - -«Muitas vezes te chamei embusteiro por abusares de teos similhantes, -muito credulos. - -«Tu lhes fazias crer tudo quanto querias: teos paes e todos os não -baptisados vão para _Jeropary_ no inferno, e tu irás com elles si não -fizeres o que dizem os padres. - -«Quando estavamos comtigo antes da vinda dos padres, sempre zombavamos do -que faziam vós e os outros _pagys_: não diziamos palavra por não ser esse -o nosso fim, e sim colher algodão. - -«Lançavamos mão de vossas filhas, e d’ellas tinhamos filhos, o que é -hoje prohibido pelos Padres, não me atrevendo por isto nem eu e nem os -outros, ir a Igreja, porque os Padres nos ensinam, que Deos prohibe a -deshonestidade. - -«Tens trinta mulheres, deves deixal-as e te contentares com uma, se -desejas ser filho de Deos e receber o baptismo. - -«Pensa bem e sobretudo na felicidade que si te offerece de poder -salvar-te e livrar-te das patas do Diabo. - -«Teos paes não tiveram tal occasião: foi Deos que te inspirou a vir ter -com os Padres e lhes pedir o baptismo. - -«Lembra-te que Deos sabe de tudo e não pode ser enganado, quer e deseja -que todos que o buscam, renunciem o diabo e suas acções.» - -Respondeo assim _Pacamão_: - -«Não sabes o que tenho sido entre os meos? Quanto caso fazem de meos -feitiços? Não sabes que sempre tratei os francezes como pude, e de muito -boa vontade? - -«Animei sempre meos similhantes a dar-lhes suas filhas e seos generos em -troco de ferramentas: sentia-me satisfeito entre elles aprendendo alguma -coisa de novo, porque os francezes tem mais espirito e intelligencia do -que nós, e apenas soube da chegada dos Padres fiquei muito contente, e -disse aos meos similhantes—que felicidade! elles nos ensinaram a conhecer -a Deos, quero ir vel-os. Foi isto que aqui me trouxe, e é d’isto que nos -occupamos.» - -Disse a _Migan_ estar elle repetindo o que eu ja havia dito, isto -é, que era bem vindo, sendo porem necessario buscar o baptismo com -arrependimento e humildade. - -Migan explicou-lhe muito bem a grandeza e o poder de Deos, e a pequenez -dos homens, especialmente dos captivos de Satanaz. - -Mostrou-se satisfeito, e me prometteo vir na manhã seguinte fallar -commigo dos seos negocios. - -Assim finalisou-se esta conferencia, e si retiraram para o Forte depois -de ter cada um bebido um pouco de agoardente. - -Vamos notar muito bellas particularidades n’este discurso, que não seriam -entendidas ou passariam desapercebidas si não fossem indicadas. - -Em primeiro lugar o falso zelo d’estes selvagens em conservarem sua -autoridade e prestigio entre os seos, não fazendo acção alguma sem -reflectir, pela qual possam ser mal apreciados pelos seos inferiores, -tão levianos e imperfeitos como elles, e por conseguinte tão incapazes -de entretêr os espiritos familiares como elles: supponhamos que para ter -o gozo dos espiritos é preciso ser constante e grave, e não se deixar -levar pelas primeiras informações. Pensando n’isto, vêde como os diabos -abusam da luz natural do homem, que claramente nos faz vêr si desejamos -conservar em nós o verdadeiro espirito de Deos, sendo conveniente banir -a leviandade e inconstancia do nosso interior, reconcentrar-nos com -firmesa, e nada fazer ou dizer, que não seja discutido e decidido pela -rasão. - -De outra fórma somos menores em relação a profissão do Christianismo, do -que estes feiticeiros, que se esforçam a ser graves procurando conquistar -a estima de seos similhantes. - -Em segundo lugar notareis os effeitos do espirito diabolico, que são -a soberba e a grande presumpção, que já se abriga até entre as coisas -sagradas: tão grande é o seo veneno a ponto de querer atacar o seo -contrario, visto não haver maior antagonismo do que entre o Espirito de -Deos e o de Satanaz, a humildade de Jesus Christo e a soberba de Lucifer, -a abnegação do Christão e a presumpção dos filhos do diabo! - -Assim procedia Simão, o magico, para com S. Pedro, procurando com seo -dinheiro o Espirito de Deos, afim de se fazer reconhecido como grande por -meio do Espirito Santo. - -Que grande cegueira julgar Deos vassallo da vaidade! - -Que desgraça estar uma alma presa por infernaes obscuridades! - -Este pobre feiticeiro do Brazil julgava no principio, que tinhamos Deos -em nossa algibeira para dal-o a quem bem nos aprouvesse, obedecendo elle -a quem o entregassemos. - -Com o fim de se apoderar de sua alma o diabo o escravisa e o obriga a -commetter mil loucuras, inspirando esse _Pagy_ para isso. Deos nos livre -de tal perigo! - -Em terceiro lugar—quanto ao que elle disse de Noé e da Virgem não -ousarei dizer d’onde elle teve essas ideias: si foi dos francezes, não -parece muito, porque os que vieram antes de nós só lhes fallariam de -obscenidade, e concubinatos; é mais provavel, que fosse de tradicções -antigas, porque apenas chegamos a _Yuiret_, _Japy-açú_ nos fallou quasi -da mesma maneira do diluvio e de um Apostolo, que por aqui andou, como se -lê na obra do Reverendo Padre Claudio d’Abbeville. - - - - -CAPITULO XVII - -Segunda conferencia, que tive com Pacamão. - - -Na manhã seguinte veio vêr-me, como me tinha promettido, em companhia de -sua gente. - -Não quiz assentar-se na rede, e pegando-me na mão disse-me _Ché assepiak -ok Tupan_ «eu te rogo leva-me a vêr a casa de Deos quero fallar-te -conforme teos discursos de hontem á tarde.» - -Disse-lhe, que me acompanhasse, que satisfaria seos desejos, e assim o -fiz. - -Logo que entraram todos, mandou que ficassem na porta e proximando-se de -mim fallou-me em segredo—aquelles, nada sabem e nem entendem o que se -fallar á respeito de Deos, por tanto quero que conversemos á vontade. - -Mandei ornar a nossa Capella com os melhores paramentos, e pôr sobre os -degraos do altar muitas e differentes Imagens. - -Aproximamos-nos do altar sempre acompanhado pelo intreprete. - -Por mais de duas horas indagou de mim tudo quanto via. - -1.º Quiz saber o que significava o Crucifixo dizendo-me—quem é este morto -tão bem feito e tão bem estendido n’este pau encruzado? Expliquei-lhe -que isto representava o Filho de Deos, feito homem no ventre da Virgem, -pregado por seos inimigos sobre esse madeiro afim de ir ter com seu -seo Pae, felicidade que alcançariam tambem os que fossem lavados com o -sangue, que elle via correr de suas mãos, pés e lado. - -Conservou-se admirado por algum tempo, olhando com muita attenção a -Imagem do Crucificado: exhalou depois um suspiro, e soltou estas palavras -como _omano Tupan?_ «Que! será possivel que Deos morresse?» - -Repliquei-lhe não ser necessario, que elle pensasse que Deos tivesse -morrido, porque sempre viveo desde a eternidade, dando vida aos homens -e aos animaes: o que falleceo foi o corpo somente, que elle tomou da -Virgem Santa Maria para matar _Jeropary_, como elle via fazer aos meninos -quando querem apanhar um peixe grande no mar, que devora os pequenos, -deitando como isca no anzol de sua linha o corpo de um d’esses peixinhos, -o que sendo visto pelo peixe grande atira-se sobre elle e vê-se pilhado, -puxado, derribado e morto, em favor e livramento dos pequenos. - -Assim tambem este mau _Jeropary_ ia devorando todos os nossos Paes, porem -aprouve a Deos enviar seo Filho para pescal-o á linha, servindo de haste -esta Cruz, de anzol ou de croquezinho estes cravos e espinhos, e d’isca -seo corpo. - -Mas, respondeo-me elle, porque havia o diabo de ter poder sobre nossos -paes? - -Porque, respondi, elles foram rebeldes á lei de Deos, comendo do fructo -prohibido, e deixaram-se enganar pelo diabo, debaixo da forma de serpente. - -Com quanto Deos nos podesse salvar por outros meios, achou mais docil e -rasoavel tomar o rapinador em lugar de suas victimas. - -Mostrou-se contente, e perguntou—o corpo de _Tupan_ está ainda em França -sobre a Cruz, como este que tu me mostras, e tu o vistes? - -Não, respondi, porem resuscitou pouco depois da sua morte, levando seo -corpo lá para cima, lá para o Ceo, vivendo e brilhando como o sol, -sentado no mais bello lugar do Paraizo, vindo curvar-se diante d’elle -todos os espiritos e almas de pessoas de bem, e agradecer-lhes a morte do -seo inimigo. - -Com a protecção d’este corpo, os nossos, depois de mortos, resuscitarão e -irão para o Ceo levados pelos Anjos, isto é, nós que somos lavados com o -sangue derramado de suas chagas. - -Vossos corpos e os de vossos paes irão ter com _Jeropary_ arder em fogos -eternos, si não fordes lavados com este sangue. - -É necessario, disse elle, correr muito sangue de seo corpo, e que vós o -guardeis com todo o cuidado para lavar tanta gente. - -Respondi—és ainda muito obtuso para comprehenderes estes mysterios. - -«Basta ter sido espalhado uma unica vez esse sangue sobre a terra, e que -em memoria e respeito a elle lavemos espiritualmente as almas com agoa -elementar, que derramamos sobre vossos corpos. - -«Não vês correr sempre uma fonte, ainda que cavada uma só vez pela mão de -Deos? - -«Tu bem sabes, que as constellações sete-estrellas e a ursamenor foram -pregadas uma só vez no Ceo, e com tudo todos os annos, apenas brilham por -cima da tua cabeça, ellas te mandam chuva, que rega tuas roças.» - -Disse ainda: - -«Eram malvados os que mataram _Tupan_, porque elle era bom, eu o amo, e -n’elle creio.» - -Respondi-lhe. Foram seduzidos por _Jeropary_, como tu, que os animou a -perseguil-o, a matal-o, e crucifical-o, porque elle os censurava por sua -maldade, como nós agora fazemos, seguindo em tudo a lei, que nos deo. -Todos os que obedecem ao diabo são seos inimigos e si elle hoje voltasse -ao Mundo passaria por iguaes soffrimentos, repetindo os actuaes o mesmo -que fizeram os outros antigamente. - -Respondeo-me—desejava que me desses uma Imagem como esta para levar -commigo quando regressasse á minha provincia. Repetirei palavra por -palavra á meos similhantes o que acabas de dizer-me, e farei para ella -melhor casa do que esta, eu a fecharei muito bem, só eu entrarei ahi, e -algumas pessoas capazes de entenderem as explicações, que me destes. - -Respondi—quando fores baptisado, nós te daremos licença para fazeres uma -casa, onde levantaremos um Altar igual á este, com iguaes ornatos, e com -Imagens como as que estás vendo. - -2.º Nos pés do Crucifixo havia uma Imagem de Nossa Senhora, feita em -bordado alto, de extrema belleza, e revestida de perolas, presente -do Sr. de S. Vicente quando regressou á França: olhando para ella, -perguntou-me—quem é esta mulher tão bonita, e este menino que olha para -ella de mãos postas? Eu lhe disse, que era a figura de Maria, Mãe de -Deos, e este menino é o filho de Deos quando sahio do ventre d’Ella. - -Repetio estas palavras duas ou tres vezes—_Ko ai Tupan Marie?_ «Como é -Maria Mãe de Deos?» _Kugnan Ycatu_, «linda mulher.» - -Respondi, que assim devia ser, pois que Deos a escolheo para Esposa e Mãe -de seu Filho, que era a Princesa de todas as mulheres, tendo tido por -marido Deos unicamente, e que sendo pura deo á luz o Filho de Deos, que -tinha resuscitado depois da sua morte, como aconteceo a seo Filho, sendo -levada para o Ceo pelos Anjos, onde estava assentada ao pé do corpo de -seo Filho. - -Que grande coisa, disse elle, uma Virgem parir. Como, respondi eu, não -vês crescerem as ôstras nos ramos das arvores, só e unicamente, sem -auxilio algum? - -Deos ama a puresa, porque elle é mais puro do que a luz do sol. - -È verdade, respondeo, porem vós, e os outros padres, sabeis grandes -coisas, sois mais sabios do que nós, porque não prestamos attenção ás -coisas da nossa terra, que vemos todos os dias, e vós em tão pouco tempo -já as conheceis. - -Ainda não é tudo, disse-lhe, vinde commigo, e prestae attenção ao que vou -dizer-vos por intermedio do meo interprete para repetirdes tudo, quanto -souberdes, aos teos companheiros, que ficaram na porta por tua ordem, -visto ser da vontade de Deos que todos se salvem grandes e pequenos. - -Dizendo-lhe isto, fiz-lhe vêr todas as peças e quadros da creação e -da redempção, apontando-lhe todas as suas diversas partes: n’uma, por -exemplo, a creação dos Ceos e dos elementos, n’outra a creação dos peixes -e dos passaros, e n’outra a creação dos animaes, das arvores e das -hervas: causava prazer vel-os olhar com muita attenção para as figuras -dos passaros, dos peixes e dos animaes afim de conhecerem os da sua -terra, e quando descobriam um parecido, não deixavam de dizer-nos—eis tal -passaro, tal peixe, e tal animal, e os que não conheciam perguntavam -si haviam em França, e como se chamava. Captivou-lhes principalmente a -attenção a figura de Deos, no meio do quadro, com os braços abertos, -soltando da bocca um forte sopro de vento, e me perguntaram o que isto -queria dizer? - -Expliquei-lhes, que isto representava a maneira, como foram feitas todas -as coisas, apenas com a palavra de Deos, cujo poder e dominio estendia-se -ás duas extremidades do Ceo. - -Admirou-se tambem muito da mulher ter sido formada pela costella do -homem, quando dormia, pedio-me explicações, e assim o satisfiz dizendo, -que Deos quiz com isto que elle tivesse uma só mulher e não mais de -trinta como elle tinha; porque si Deos quizesse, que tivesse mais de uma, -elle o teria permittido desde o principio, e sendo creado somente uma e -ainda á custa da costella do homem assim demonstrou, que este só devia -ter uma mulher, a quem amasse e conservasse, e não mudal-a á capricho da -vontade, como fazeis vós outros, sectarios de Jeropary, que vos persuadio -terdes muitas mulheres afim de indispor-vos e estrangular-vos uns com -os outros, visto que costumaes roubal-as até na casa de seos proprios -maridos. - -Na escada do altar estavam as imagens dos doze Apostolos e o padre Sam -Francisco, muito bem feitas e illuminadas. - -Perguntou-me quem eram esses _Caraybas_? - -Estes doze, respondi, são doze _Maratas_ do filho do _Tupan_,[107] os -quaes, depois que subiram ao Ceo, dividiram o Mundo Universal em doze -partes: tomou cada um a sua, onde foi guerrear _Jeropary_, e lavar todos -os crentes em Deos, deixando successores, que foram se revesando até nós. -Peguei na imagem de S. Bartholomeo, e lhe disse—Olhae, veio a vossa terra -este grande _Marata_, e aqui fez muitas maravilhas, como por tradicção -vos contou vossos antepassados. Foi elle quem fez talhar, á rocha, o -altar as imagens, e as inscripções, que ainda existem actualmente, como -tendes visto.[108] - -Foi elle quem vos deixou a _mandióca_, e vos ensinou a fazer pão, pois -vossos paes, antes de sua vinda, comiam só raizes amargas dos mattos. - -Como não quizestes obedecer, elle vos deixou, predizendo grandes -desgraças, e que ficarieis por muito tempo sem vêr _Maratas_. - -Tal qual aconteceo, e só agora é que tivestes quem vos livrasse das mãos -do diabo, e vos fizesse filho de Deos. - -Tomae cuidado em não fazerdes o que fizeram vossos paes. - -Logo que lhes transmitti estas palavras pelo meu interprete, olhou para a -imagem de Sam Francisco e me disse—quem é aquelle que está vestido como -tu? - -É, disse eu, o pae de nós outros padres, que assim se vestem. - -Vive ainda? replicou, está em França? Foi elle quem te mandou para cá e -aos outros padres? - -Não, respondi, ja não vive, morreo, porque nós todos morremos, porem -deixou successores, que nos mandaram para cá. Não está mais em França, e -sim no Ceo com Deos, onde esperamos ir vel-o. - -Não tinha mulheres, como vós não tendes? perguntou. - -Não, respondi, porque todos os padres não as tem, imitando assim o Filho -de Deos, seo Rei, que vivendo n’este mundo não tinha mulher. - -Dizendo isto, olhava o Ceo e as sanefas que cobriam nosso altar, as quaes -eram de bello damasco com grandes folhagens, agaloadas, e guarnecidas de -passamanes e franjas de prata fina, bem como o frontal do altar. - -Disse depois que tudo era bonito, e que serviamos _Tupan_ com grande -reverencia e pedio-me para baptisal-o antes do seo regresso, e que lhe -desse imagens para leval-as comsigo. - -É preciso, respondi, que saibas antes a doutrina de Deos. - -Não me dissestes ja, replicou elle, tudo quanto era necessario saber para -ser lavado? - -Não, respondi, isto não passou de uma conversa: ha ainda muito que -aprender. - -Que me ensinarás ainda? - -Respondi—si quizeres morar commigo eu te ensinarei, ou te farei ensinar -muita coisa, mas não te posso baptisar ja, sem primeiro saberes a -doutrina de _Tupan_. Quero experimentar tua constancia, e esperar -nossos padres que não tardam a chegar conforme me prometteram. Elles te -baptisarão, e irão comtigo fazer a casa de Deos na tua aldeia, e não te -deixaram mais. - -Antes d’isso não deixes de repetir na tua _caza grande_ á teos -similhantes o que sabes: não faças mais feitiçarias, e assim nós, e todos -os francezes, te estimaremos, e sempre serás bem vindo. - -Prometto, disse elle, e cumprirei minha palavra. Bem desejo que tu me -lavasses agora. Não deixarei de te vir visitar muitas vezes, porque -sempre aprenderei alguma coisa. - -Chamou então seos companheiros, que ficaram por todo este tempo na porta -da igreja. - -Que obediencia e respeito entre os selvagens! Mandou que se aproximassem -ao altar e á elles repetio o que lhe ensinei, mostrando-lhes as imagens e -explicando o que representavam. - -Esta pobre gente estava como que fóra de si, mostrando-se admirada a seo -geito, e depois despedio-se e foi para o Forte de S. Luiz, onde embarcou -e regressou á sua terra. - -Veio depois visitar-me para tratar do mesmo objecto, e contou-me como -cumprio suas promessas, fallando na _caza grande_, e repetindo o que lhe -ensinei, e affirmou que todos se fariam christãos logo que elle fosse -baptisado, o que me pedio ainda uma vez. - -Animei-o a continuar a proceder assim, e dei-lhe esperança de que seria -baptisado em pouco tempo, apenas chegassem os Padres de França. - -Conversamos ainda sobre os objectos, de que já nos tinhamos occupado da -primeira vez, e com avidez recebia todos os conhecimentos mostrando por -seos gestos indizivel contentamento. - -N’esta segunda visita, veio mais modesto, e acompanhado por poucas -pessoas, sem muitos enfeites de pennas, e fallando com muito menos -arrogancia do que o fez na primeira vez. - - - - -CAPITULO XVIII - -Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra. - - -O grande feiticeiro de _Tapuytapéra_ era homem muito respeitavel, de boa -estatura e bem feito, valente guerreiro, modesto, grave, e de poucas -palavras: era muito amigo dos francezes, e gozava entre os habitantes do -seo paiz do mesmo poder, que Pacamão em _Commã_, Japy-açú em _Maranhão_, -o Arraia-grande entre os _Caietés_, Thion e Farinha-molhada entre os -_Tabajares_, rico, e de muito bons filhos, que são fieis aos francezes e -christãos, como d’aqui ha pouco diremos. - -Veio ao Fórte de S. Luiz seguido por perto de tresentos a quatrocentos -dos seos companheiros para fazel-os trabalhar nas fortificações, e -regressar á seos lares depois de acabarem seo tempo, revesando-se assim, -e nunca menos de dusentos a tresentos selvagens. - -Durante as horas do trabalho assentava-se elle junto aos francezes -mais graduados, ahi vigiava a sua gente, animava-a, e recommendava-lhe -perfeição de obra. - -Fui vêl-o n’essa lida, desculpou-se muito para commigo, por intermedio -do seo interprete, por não me ter vindo vêr logo que chegou a Ilha, por -estas palavras: - -«Não te fui procurar, embora tivesse muito que conversar comtigo, porem -deve ser com descanço. - -«Agora é preciso vigiar minha gente no trabalho, afim de se empregar com -animo na fortificação d’esta praça. - -«Não deixarei de te ir vêr com _Migan_, que está aqui para te fazer -sabedor do que eu digo, contando-me tambem as maravilhas, que ensinas aos -nossos similhantes.» - -Respondi-lhe, que achava isto bom, e que estava contente vendo-o assiduo -no trabalho para que fóssem bem feitas as trincheiras e fóssos afim -de resistirem a seos inimigos, e que depois si nos offerecia occasião -de conferenciarmos: que era só isto, que eu desejava, que nós todos o -estimavamos e muito, tanto por sua bondade natural como porque elle era -amigo dos francezes, e sempre fiel. - -Assentamos-nos depois um em frente do outro, conversamos sobre muitas -coisas indifferentes, especialmente do enthusiasmo de sua gente, e -particularmente das crianças, que carregavam terra, o que causava a elle -e á nós muita satisfação, fazendo-me dizer e a proposito, que bem razão -lhes assistia n’esse trabalho, cheio de fervor e de coragem, pois era -para elles, que se lidava, visto que um dia veriam as maravilhas feitas -pelos francezes n’esta terra. - -«Serão bem differentes do que somos, dizia elle, porque serão _Caraibas_, -andarão vestidos, e verão as Igrejas de Deos construidas de pedra.» - -Confirmei em minha resposta a felicidade de seos filhos no futuro, -assegurando-lhes, que d’ella tambem gozariam porque não haveria muita -demora na vinda de soccorros e navios de França trazendo muitos Padres, -muitos francezes guerreiros, muita ferramenta e generos para elles: -que então se construiriam casas á maneira dos francezes, que seriam -acompanhados por elles quando fossem guerrear seos inimigos, que viriam -os _Tupinambás_ e os outros alliados cultivar a terra da _Ilha_, e que -tudo isto poderiam vêr antes de morrerem. - -Ditas estas palavras despedi-me d’elle, e regressei á minha habitação. - -Quando acabou o tempo do seo trabalho veio visitar-me, acompanhado pelos -principaes da sua Nação, e pelo interprete _Migan_. - -Assentou-se, e pedindo fumo, como costumava, me disse estas palavras: - -—Antigamente usei de muitas feitiçarias para me tornar grande e -authoridade entre os meos. - -Muito tempo ha que conheci este abuso, e que zombo dos que se empregam -n’este officio. - -Não ignoro a existencia de um Deos, porem não sei conhecel-o. - -Seria impossivel o giro annual do sol, a existencia de ventos e chuvas, e -o forte estampido dos trovões si não houvesse um Deos, autor de tudo isto. - -Temos então homens maus, que vivem livremente sem temer algum castigo, e -pensamos que elles irão ter com _Jeropary_. - -Temos outros homens, que são bons, que não matam, que dão expontaneamente -a sua comida, e pensamos serem elles amados por Deos, e por tanto que não -vão cahir no poder do diabo. - -Alegrei-me muito quando me noticiaram a vinda dos padres, que faziam -conhecer _Tupan_, e que em seo nome lavavam os homens: foi este o -principal motivo, que aqui me trouxe para vos vêr, e manifestar-vos o meo -desejo de ser instruido e baptisado, porque ja soube, que dissestes serem -condemnados os não baptisados, e que se perderam nossos paes. - -Tenho muitos filhos, quero que sejam christãos, como eu afim de irmos -todos para a companhia de Deos. - -Desejo edificar na minha aldeia para elle uma casa, e junto d’ella outra -para vós: eu o sustentarei e nada lhe faltará. - -Os que na minha provincia confiam e tem fé em mim, serão christãos.— - -Traduzindo-me o interprete tudo quanto acima escrevi, acrescentou «este -homem tem muito amor a Deos, e conhece-o muito, porque usa das palavras -mais expressivas da sua lingua para melhor exprimir o que sente e -conhece, e tenho muita pena de não poderdes entendel-o e conhecer o que -elle diz. Respondei conforme seos desejos, fazei com que elle entenda -estas palavras, o mais eloquentemente que puderdes.» - -«Informaram-nos os francezes muito bem de vós e de vossos filhos, tanto -de vossa fidelidade, e amisade, como de vossa natural bondade: eis o -verdadeiro meio de cedo receberdes o favor de Deos, alcançardes seo -conhecimento e seo baptismo. Tu o vês ordinariamente diante de ti quando -a terra produz facilmente muitos fructos, provenientes da semente n’ella -lançada. - -«O homem é a terra, e o Evangelho a semente: quando Deos encontra boa -terra, sem cardos e nem espinhos, elle ahi lança sua semente: á vista -disto muito espero de ti e de teos filhos, e te asseguro que si fossemos -mais nós os padres, tu já levavas um comtigo: tende porem paciencia, -breve chegarão outros. - -«Não deixes comtudo de edificar a casa de Deos e a dos padres, para que -apenas cheguem, possas leval-os e acommodal-os. - -«Não podes demorar-te aqui muito tempo em virtude do teo cargo: nós como -somos poucos, não podemos tambem ir comtigo; conserva teos bons desejos, -e Deos te ajudará. - -«Conheci ja que tens muito amor a Deos, que seo espirito tocou-te o -coração, e illuminou-te o entendimento para te guiar no que me dissestes: -é grande bem para ti, não o despreses.» - -Respondeo-me assim: - -—Nunca fui mau, nunca me agradaram as carnificinas dos nossos escravos. -Nunca roubei as mulheres dos outros, contentava-me com as minhas. É bem -verdade, que me fiz temido ameaçando os que me despresam com molestias, -que contrahiam por medo. - -Nunca fallei com Espiritos, como fazem os outros _pagés_, e apenas -empreguei a subtilesa da minha intelligencia, e a grandesa da minha -coragem. Minhas feitiçarias concorreram menos do que a coragem, que -muitas vezes hei manifestado na guerra, para conquistar a authoridade que -hoje occupo. - -Estou velho, e só ambiciono paz e tranquilidade.— - -Respondi-lhe haver procedido bem, irritando contra si muito menos o -soberano, á vista do comportamento de outros feiticeiros, que entretinham -relações com o diabo, e que assim ficasse gosando a tranquillidade de sua -consciencia até o dia do seo baptismo. - -Pedio-me para vêr a Capella, e buscou informar-se de tudo quanto -via—altares, paramentos, e imagens. - -Expliquei-lhe tudo bem á sua vontade, e assim despedio-se de mim para -regressar ao seu paiz, o que fez. Dei-lhe imagens para levar comsigo, -o que recebeo com muita alegria, e expliquei-lhe o que significavam, e -recommendei-lhe que as guardasse com todo o cuidado para que _Jeropary_ -não as tomasse, visto ter sido vencido antigamente pelo Filho de Deos, -que morreo na Cruz. - -Com taes impressões partio. - -Pouco tempo depois foi convertido Martinho Francisco a quem permittimos -edificar uma Capella na sua aldeia, onde celebrariamos missa, e -baptisariamos quando fossemos a _Tapuitapéra_. - -Este grande feiticeiro, de quem acabamos de fallar, teve ciumes, e -mandou-me dizer, que muito se admirava de eu ter dado licença a Martinho -Francisco para fazer uma Capella na sua aldeia antes d’elle construir uma -na sua, preferencia que elle bem merecia pela sua grandesa, tendo tambem -padres comsigo como lhe fôra permittido. - -Aos que me trouxeram o recado respondi não ter ultrapassado de -forma alguma minhas palavras e promessas, que era elle o primeiro -de _Tapuitapéra_, a quem tinha dado licença para fazer uma capella, -que devia preceder os outros e em quanto aos padres ainda não tinham -chegado: que quando fossemos a _Tapuitapéra_ não deixariamos de ir vel-o -e visital-o; mas que eu não podia recusar a Martinho Francisco, ja -christão, o ter junto de si uma casa de Deos para fazer suas orações. -Achou boa a resposta. - -Entre os convertidos por Martinho, depois do seo baptismo, foram dois -dos filhos d’este _Muruuichaue_, e com isto teve Martinho singular -consolação, animando-os a aprender suas crenças e a doutrina christan; -porem aconteceo, infelizmente, serem elles seduzidos pelas más palavras -de um de nossos interpretes para deixarem o Christianismo. - -Sabendo seo bom pae, que elles para esse fim tinham deixado seos habitos -e vestidos, lhes disse o que ides fazer? moveis-vos por bem pouco! - -«Porque vos despis, e dissestes, que não querieis mais ser christãos? - -«Quero agora que torneis a tomar vossos vestidos; ide procurar Martinho -Francisco na sua aldeia, e d’elle recebei a doutrina, que os padres lhe -ensinaram. - -«Não vos separeis d’elle, e nem cá venham senão em sua companhia. - -«Eu mandarei chamal-o para que vá ter com os padres.» - -Estes rapazes obedeceram a seo pae, tornaram a tomar seos vestidos, -vieram procurar Martinho Francisco, que foi ter com o grande feiticeiro, -e veio depois em companhia de muitos christãos ao Forte de Sam Luiz para -nos declarar, e aos nossos chefes, como se passaram estas coisas, e a -ellas se deo remedio, conforme a occasião permittio. - -O Revd. Padre Arsenio, acompanhado por muitos christãos, foi vêl-o em -sua aldeia, onde foi muito bem recebido, notando toda a alegria que póde -mostrar no rosto um selvagem, presenteou-lhe com muita caça, e rogou-lhes -que si quizesse morar em _Tapuitapéra_ que escolhesse para residencia -sua aldeia, e ahi seria bem acommodado, tanto quanto permitte o paiz. - -Depois d’isto mandou-me seo filho mais velho, chamado _Chenamby_, -«minha orelha,» com sua mulher, ambos com carga, e um filho pequeno. -Disse _Chenamby_—Meo pae está com muito cuidado em ti, receia que não -tenhas farinha, e é isto que aqui me traz. Logo que houver milho elle -te mandará muito. Tem muita vontade de saber logo que aqui cheguem os -Padres, porque immediatamente deixará a sua aldeia, e atravessará o mar -para cumprimental-os, pedir um d’elles e leval-o comsigo para aprender a -sciencia de Deos, e ser por elle lavado. - -Dois dos meos irmãos são _Caraibas_, os quaes, como sabes, se despiram, -apesar das observações, que lhe fizeram, actualmente vão indo bem, e -estão sempre com o _padre-miry_, «padre pequeno,» (sobrenome que davam a -Martinho Francisco por causa do empenho d’elle em converter as almas): -quero ser christão, conjunctamente com meo pae, minha mulher, que aqui -está, e meo filho pequeno que ella carrega, o qual chegando á idade -propria, darei aos padres para ser por elles instruido.— - -Este _Chenamby_ balbuciava um pouco o francez, e entendia tambem alguma -coisa, graças ao trabalho e empenho, que para isso empregava, fallando -com os francezes o mais que podia. - -Respondi-lhe em sua linguagem por meio do interprete, d’esta forma: - -«Que estava muito contente por seo pae lembrar-se de nós principalmente -pela constancia da boa vontade de seo pae e de seos irmãos para com -o christianismo, e especialmente vendo elle e sua mulher dispostos a -receberem a fé christã, e a nos offerecerem seos filhos para ensinarmos o -que fosse conveniente quando comnosco estivesse. - -«Exhortei-os por muitas palavras a terem elle e sua mulher constancia em -tal desejo.» - -Sua mulher era de agradavel presença, moça, modesta, e trazia em seos -olhos não sei que pudor, não se animando a olhar-me directamente: alem -d’isto occultava com o pé direito de seo filho sua enfermidade, guardando -o respeito natural de não se apresentar de outra forma diante de mim, -de que tirei boa conclusão agradando-me ainda mais de suas maneiras e -procedimento: achei-a muito boa e caridosa para com os francezes, humilde -e obediente a seo sogro e marido, virtudes não pequenas n’uma india. - -Antes de partir prometteo-me seo marido, que não casaria com outra, e nem -a abandonaria. - -Respondi-lhe, que se assim fizesse os padres o casariam á face da igreja, -depois de baptisado. - - - - -CAPITULO XIX - -Conferencia com Iacupen.[109] - - -Era Iacupen um dos principaes da tribu dos _canibaleiros_, conduzidos -para a ilha pelo Sr. de la Ravardiere, pae de um mancebo christão, de boa -indole, chamado João, e antes _Acaiuy-miry_, «cajú pequeno ou cajusinho.» -Teve por varias vezes o trabalho de vir de Juniparan procurar-me e -conversar commigo sobre as coisas divinas, e sobre a vaidade d’este mundo. - -Um dia veio a minha casa com seo filho, e assim fallou-me: - -—Tenho muito desgosto de não ser baptisado, porque sei que em quanto -estiver assim, o diabo pode perseguir-me e perder-me. - -Ah! quem pode assegurar-me a vida até a noite? - -Agora volto para minha aldeia, posso encontrar uma onça furiosa, que me -corte a garganta, e me mate sosinho no bosque. - -Para onde irá meo espirito? - -Não tenho pesar e nem inveja, que meo filho, que aqui está, se baptisasse -primeiro do que eu. - -Mas dize-me: não é coisa notavel, que elle seja Filho de Deos antes de -mim, seo pae, e que eu d’elle aprenda o que devia ensinar-lhe? - -Penso n’isto, e torno a pensar muitas vezes, principalmente depois -da vossa vinda, e da de outros padres: lembro-me da crueldade de -_Jeropary_ para com a nossa nação, porque tem feito morrer a todos, e -persuadio a nossos feiticeiros de conduzir-nos ao centro de uma floresta -desconhecida, onde dançariamos constantemente, alimentando-nos somente -do amago das palmeiras e da caça, succumbindo muitos por fraqueza e -debilidade. - -Sahindo nós de lá, e vindo nos navios do _Muruuichaue_ la Ravardiere para -a ilha do Maranhão, armou-nos _Jeropary_ outra emboscada, instigando por -meio de um francez aos _Tupinambás_ para matarem e comerem muita gente -nossa: si não é a vossa chegada acabariam comnosco. - -Ja vedes, que somos muito infelizes n’esta vida. - -Perseguimos os veados e outros bixos para matal-os e comel-os, porem -elles não necessitam de ferramentas, de fogo e nem de canoas, pois -acham a comida feita: quando perseguidos n’um lugar, em poucas horas -transportam-se para outro atravessando até braços de mar, sem canôa: nós -outros porem não podemos fazer o mesmo: faltam-nos ferramentas, fogo e -canoas, e o que é mais, vem ainda perseguir-nos nossos inimigos, ora os -_Peros_, ora os _Tupinambás_, e finalmente outras nações adversarias: -finalmente a nossa posição é peior do que a dos animaes da terra.— - -Respondi-lhe: «O que disseste, é bem certo, porque o diabo o que deseja -somente é matar o corpo e perder a alma, e assim procede sempre com -aquelles, com quem tem pouco a ganhar retendo-os em suas cadeias: é um -monsenhor, e trata cruelmente seos servos. - -«Deos não é recebedor dos velhos, e nem dos moços. Os primeiros, que se -apresentam, são recebidos por elle, comtudo os ultimos são sempre os -primeiros, porque recebem o christianismo com mais consideração, e o -conservam com mais fervor do que os que o abraçam ligeiramente. - -«Nosso Deos nos fez miseraveis n’este mundo afim de não olharmos só nas -delicias da carne, e sim para preparar-nos com destino a outra vida alem -d’esta.» - -Antes de passar adiante convem explicar o que elle quiz dizer, quando -fallou da desgraça de sua nação, devida aos conselhos dos seos -feiticeiros, e á carnificina feita pelos _Tupinambás_. - -Havia entre elles um grande feiticeiro, que entretinha com o diabo -visiveis relações, e gozava de tal poder entre elles que todos lhe -obedeciam. - -Aproveitou-se o diabo de tal ensejo para seduzir e enganar esta populaça, -ensinando ao feiticeiro o que devia dizer-lhe para elle ir tomar posse -d’uma terra, onde tudo, facil e sem trabalho lhe appareceria á medida de -seos desejos. - -Esta nação, tão cheia de prejuisos, seguio este desgraçado, não -intermediando muito tempo sem conhecer a zombaria do espirito do -conductor, porque falleceram milhares, e acharam-se no meio de vasta -floresta, dançando constantemente, como elle lhe ordenou, até que -chegasse o Espirito para lhe indicar o lugar procurado. - -Ahi achou-se o Sr. de la Ravardiere, demonstrou-lhe seo engano, o que -reconhecido, seguiram-no e embarcaram-se em seos navios com destino á -Ilha do Maranhão, onde algum tempo depois um miseravel francez tendo -uma questão com o Principal d’essa gente, para vingar-se, instigou os -_Tupinambás_ a matal-a, subindo esta carnificina a cem ou á cento e -vinte, entre mortos e prisioneiros. - -Tal barbaridade foi praticada cinco ou seis mezes antes da nossa chegada. - -Continuemos. - -Depois de minha resposta, disse-me: - -—Tenho bem pesar de não poder obsequiar-vos como mereceis, porque não -tenho meios de ter escravos; outr’ora fui rico, hoje sou pobre. - -Fiz o que pude ao padre, residente em _Juniparan_. - -Tenho bem pesar de não traser-te caça sempre que venho vêr-te.— - -Repliquei-lhe immediatamente: - -«Não é isto que desejo de ti, e estou muito contente de conhecer tua -devoção, e tua boa vontade, porem ambiciono que sempre progridas de dia á -dia, e adquiras novos conhecimentos á respeito de Deos. - -«Tens um padre na tua aldeia, visita-o sempre, e d’elle aprende as -maravilhas de _Tupan_. - -«Tens alem d’isto teo filho, que sabe a doutrina christan; elle que a -ensine a ti e a todos de tua casa, o que fará melhor do que nós, visto -pronunciar bem as palavras da tua lingua.» - -—O que acabas de dizer-me afflige-me muito, respondeo-me elle, porque meo -filho depois de christão, logo no principio, procedeo bem: ja sabia lêr -um pouco no seo _Cotiare_, e escrever, estava sempre com o padre, e o -seguia por toda a parte. - -Deixou depois tudo isto, entregou-se á liberdade, esqueceo o que havia -aprendido, e foge para o matto quando o padre o procura: isto me mata -e como nada aproveito em fallar-lhe, eu te peço que tu lhe mostres, e -proves ser elle filho de Deos, e que _Jeropary_ o quer seduzir: eil-o -aqui, falla-lhe.» - -Satisfiz-lhe o desejo, recordando á seo filho o fervor, com que recebeo o -baptismo, admirando-me de vel-o tão mudado a ponto de fugir dos padres, -pelo que eu acreditava andar o diabo no seo encalço si não regressasse -aos seos deveres, se não frequentasse o padre de _Juniparan_, e não -abraçasse sua antiga fé. - -Ouvio-me pacientemente, e prometteo-me melhor procedimento. - -Considerae, eu vos peço, o zelo de um verdadeiro pae para salvar seo -filho, como mostrou o grande feiticeiro de _Tapuitapéra_: este pae é -ainda pagão, e comtudo vós o vedes solicito, e cuidadoso pela consciencia -de seo filho. - -Quantos paes ha em França, que só cuidam dos bens temporaes de seos -filhos, e despresam os espirituaes! - -Veio outra vez visitar-me em companhia de alguns selvagens, seos -visinhos: rolou nossa conversação á respeito da creação do Mundo, da -providencia de Deos para com o procedimento dos homens, e da vocação -singular e particular de cada um. - -—É preciso, disse, que seja Deos um Espirito poderoso, incomprehensivel -para nós, para crear com uma só palavra, como ouvimos muitas vezes de vós -outros padres, tudo o que vemos e ouvimos. - -Imagino a immensidade do mar, que ha d’aqui até a França, tanto assim, -que os navios gastam doze luas no trajecto de ida e volta, e admiro que o -sol, que temos, seja tambem vosso. - -Quantos passaros, peixes, e animaes existe no Mundo, todos foram feitos -por _Tupan_.— - -O segundo ponto de discussão foi este: - -«Vejo-me embaraçado quando penso nas diversas nações, que existem no -Mundo. - -«Vejo os francezes ricos, valentes, inventando navios para passarem o -mar, canoas, e polvora para matar os homens insensivelmente, bem vestidos -e nutridos, temidos e respeitados. - -«Ao contrario nós vivemos errantes e vagabundos, sem roupas, machados, -fouces, facas e outras ferramentas. - -«De que procede isto? - -«Nascem ao mesmo tempo dois meninos, um francez, e outro _Tupinambá_, -ambos doentes e fracos, e não obstante um nasce para gozar de todas as -commodidades e o outro para viver pobremente. - -«Livres nascemos, um não tem mais do que outro, e comtudo uns são -escravos, e outros _Muruuicháues_.» - -Eis o terceiro ponto de discussão: - -—Não posso tranquilisar o meo espirito quando penso, que vós outros -francezes tendes mais conhecimento de Deos do que nós. Porque temos -vivido tanto tempo na ignorancia? Dizei-nos, que foi Deos quem vos -enviou, e para que não o fez antes? Nossos paes não se teriam perdido, -como succedeo. Os padres são homens como nós, e porque elles fallam a -Deos, e nós não?— - -Respondi-lhe a tudo isto, dizendo «ser muito pequeno nosso espirito para -conceber coisas tão altas, reservadas por Deos só para si. Basta saber -que elle fez tudo, ama e dá o necessario a todos.» - -Quando vê um individuo disposto a abraçar suas crenças não deixa de -o mandar vesitar pelos seos Apostolos, que lhe proporcionam meios de -salvar-se, sendo de crer não achar-se seo coração e espirito, antes da -nossa vinda, disposto e apto para receber tão grande luz, qual a do -Evangelho. - -Estes e outros discursos similhantes, que adiante encontrareis, vos -habilitarão a julgar da capacidade de suas almas para receberem a fé de -Jesus Christo, nosso Salvador. - - - - -CAPITULO XX - -Conferencia com o Principal d’Orobutin. - - -Era este Principal de alta estatura, muito magro, modesto e affavel, e -tinha estado doente desde a nossa chegada até quando veio vesitar-nos. - -Entrou em nossa casa acompanhado por alguns dos seos, com muito respeito -e quasi a tremer. - -Acolhendo-o muito bem, mandei sental-o em frente a mim n’uma rêde de -algodão, e logo conforme o costume, principiou assim a fallar-me: - -«Vim hoje ter comtigo, ó padre, para duas coisas: a primeira para -desculpar-me e pedir-te que não repares o não me encontrares quando -chegaste em _Uraparis_, como fizeram _Japy-açú_, _Pira-Juua_, -_Ianuarauaeté_, e outros Principaes da ilha, e não poude tambem vir -antes de _Pacamão_, de _Aua Thion_, meo chefe, pois achava-me gravemente -doente, porem no meio de minha molestia sempre tive o desejo de vêr teo -rosto, e ouvir de tua bocca o que meos companheiros de aldeia me contavam -de vós outros padres. - -«A segunda coisa que aqui me traz, é offerecer-te meos filhos, que t’os -dou, quero que sejam teos, e que os faças _Caraibas_. - -«Desejo igualmente e peço-te, que venhas tu ou um dos padres á minha -aldeia edificar uma casa para Deos instruir a mim e a meos similhantes, -e declarar-nos o que _Tupan_ deseja de nós para sermos lavados, como tem -sido os outros. - -«Asseguro-te que não faltariam viveres, por ser minha terra boa e -abundante de caça.» - -Advirto ao leitor, que é facil traduzir as palavras e pensamentos -d’este selvagem, porem não os gestos e a vivacidade do seo espirito ao -pronuncial-os: direi apenas que suas expressões eram acompanhadas de -lagrymas e com vóz cheia de fervor e devoção revelava-me o toque do -Espirito Santo, e o ardente desejo de ser christão. - -Respondi-lhe: - -«Não precisa pedires desculpa pela tua auzencia quando saltamos na ilha, -porque alem de estares doente, muito longe é d’aqui á tua aldeia, e isto -só basta para seres desculpado. - -«Regosijo-me muito vendo em ti tão boa vontade para comnosco, e tão -grande desejo de tua salvação, da de teos filhos e em geral da de teos -similhantes. - -«Si actualmente tivessemos mais padres acredita que eu iria, ou mandaria -outro á tua aldeia, porem não podemos deixar a ilha por causa dos -estrangeiros que nos vem vêr, e ao que é conveniente corresponder. - -«Logo que chegarem os padres de França asseguro-te que terás um d’elles, -porque reconheço claramente seres um dos escolhidos por Deos para seo -filho. - -«Coragem, e espera o que te digo.» - -Replicou-me: - -«Déste-me muita consolação, porque desde que correo o boato em nossa -terra de dizerdes maravilhas de _Tupan_ e de tratardes com bondade nossos -similhantes, que eu nunca mais tive socego de espirito. - -«Quando irás procurar os padres, quando da bocca delles ouvirás o que -dizem teos compatriotas? Levanta-te, e faze esforços para caminhar. - -«Obedecendo muitas vezes a este pensamento, levantei-me da cama, porem -estava tão magro e descarnado, que nem pude sustentar-me nas pernas: olha -para meos braços, meo corpo, e minhas coxas, que não recobraram ainda a -carne e a gordura, que a molestia me comeo. - -«Admirou-me muito quando soube ter _Marentin_ vindo tão doente -procurar-te, e receber o baptismo. - -«Peço-te encarecidamente, que antes do meo regresso me ensines alguma -coisa de Deos, e acredita, que fixarei em minha memoria, e não -esquecerei uma só palavra, e mui fielmente o referirei a minha gente e a -meos filhos. - -«Tenho tres filhos, sendo o mais velho este que aqui vedes: quero que -fiquem com os padres quando vierem, que se assentem á seos pés, e que -escutem com cuidado o que elles disserem, e cumpram suas ordens. - -«Elles caçarão e pescarão para os padres.» - -Pelo interprete lhe disse ter elle razão, e que eu não podia recusal-a, -e assim que attendesse bem ao que eu ia ensinar-lhe, e que chamasse -para junto de si seo filho e seos companheiros, o que feito principiei -a explicar-lhes o mysterio da creação e da redempção por meio de -comparações ordinarias e palpaveis. - -É impossivel descrever-se a attenção e emoção, com que elle recebia estas -agoas sagradas do Redemptor. - -Nunca animal algum foi tão avido e desejoso por uma fonte clara em pleno -estio, do que este saboreando a nova doutrina. - -Prasa ao Ceos, sem fazer comparação alguma, que os christãos acolhessem a -palavra de Deos com tanta avidez. - -Tinha as espaduas curvadas, em quanto fallei, os olhos meio baixos, -e apenas como que a furto respirava e cuspia, e n’essa occasião era -possivel presentir-se o caminhar de um rato. - -No fim disse-me—que grandes coisas! nunca ouvi fallar n’ellas e nem -n’outras similhantes, porque Deos não quiz fallar comnosco, e nem com os -nossos antepassados, e nenhum _Caraiba_ ainda nos entreteve contando-as. - -Acabas de dizer-me que Deos está em toda a parte, que não póde ser visto, -mas vê tudo e nos ouve, acompanhando-nos por toda a parte, e sempre -adiante: que somente os baptisados podem sentil-o e reconhecel-o, que não -tem corpo como nós, mas sim é um espirito derramado por todo o universo. - -Ouvi bem, mas difficilmente comprehendo, porque não estamos costumados -a ouvir tão grandes coisas, e sim temos inclinação natural para -pescar, caçar, flechar e fazer muitos exercicios. Em quanto aos mais -entregamo-nos aos nossos feiticeiros, dotados de animo mais subtil para -conversarem com os espiritos. - -Disseste-me ser Deos como o ar que respiramos constantemente, pois sem -elle morreriamos: que _Tupan_ nos dava vida e respiração, entrava em nós -e nos cercava por toda a parte como o ar: que assim como o ar existe e -vae por toda a parte, assim tambem Deos entrava e existia em todo o lugar. - -Entendo bem este ponto, pois si Deos fez o ar, necessariamente é mais do -que elle. - -Estou muito satisfeito por me dizeres, que _Jeropary_ apenas era criado -ou servo de _Tupan_, que é perseguido pelos espiritos bons, quando faz ou -persegue algum homem ou mulher sem licença de Deos, e que finalmente não -tem poder sobre os baptisados. - -Bem fez Deos, porque _Jeropary_ é mau, e eu bem desejaria que elle fosse -açoitado até morrer pelos bons Espiritos. - -Apenas eu fôr christão, si elle aproximar-se de minha aldeia, irei -atrevidamente ao seo encontro, e não terei medo algum.— - -Desculpae as expressões d’este selvagem, não christão. - -Escutae o resto da sua conversação. - -—Era necessario, que a moça, com quem Deos se casou, fosse muito bonita, -riquissima, e a mais poderosa do seo paiz, por ser _Tupan_ o maior de -todos os _Muruuichaues_: creio que seo filho tinha grande sequito e muito -acompanhamento; porem os malvados traidores, que o mataram, eram velhacos -e cautellosos porque o fizeram occultamente pois si sua gente soubesse o -teriam defendido. - -Parece-me que ficariam bem admirados quando o viram sahir vivo de sua -sepultura: devia então vingar-se dos que o fizeram morrer, mas tu me -disseste uma coisa admiravel, isto é, que elle subio para o Ceo, somente -em corpo e alma, que está sentado acima do sól, que tem olhos mais -claros que o sól e a lua, que nada se faz na terra, que elle não veja -e observe tanto na tua patria como na nossa, ouvindo distinctamente as -nossas palavras, as vossas preces nas Igrejas, escutando-as, e vindo -todos os dias sobre os vossos altares, onde com elle fallaes, bem como -todos os _Caraibas_ com liberdade, até sem abrir a bocca, não deixando de -perceber o que dizeis em vosso coração. - -Disseste tambem, que foi elle quem vos mandou para cá afim de ensinar-nos -estas coisas, a meo vêr muito bellas, e não me enfadarei de ouvil-as, -porem o barco está prompto para regressar, e estão á minha espera minhas -roças, que deixei boas para a colheita. - -Tudo isto obriga-me a partir, alem de não ter trazido farinha commigo.— - -Respondi-lhe, que si era só por falta de farinha, que elle se via -constrangido a partir, que eu tinha alguma á sua disposição e de seos -companheiros. - -Agradeceo-me a seo modo, despedimos-nos reciprocamente, e elle partio. - - - - -CAPITULO XXI - -Conferencia com o Onda, um dos Principaes de Commã. - - -Este Principal sempre foi o pae commum dos francezes em _Commã_ -honrando-os, respeitando-os, e defendendo-os contra todas as más -indisposições suscitadas, como era costume, pelos malvados e libertinos, -a ponto de ser por elles aborrecido e ameaçado de ser espancado senão -morto a não ser o receio, que tinham dos francezes. - -Quando foi nossa gente ao Pará, elle a acolheu com toda a bondade e -generosidade, ambicionando ser o _chetuasap_ ordinario do chefe dos -francezes, consistindo toda a sua fortuna e felicidade em ser amado e -apreciado pelos francezes. - -Tinha um filho com 20 annos d’idade, que recommendou muito ao Sr. de la -Ravardiere e a todos nós, pedindo que o acolhessemos bem, não exigindo -outra recompensa de sua fiel amisade senão a de poder seo filho viver -entre os francezes, n’uma palavra—ser francez. - -N’essa occasião tinha recommendado á seo filho, que se esforçasse o mais, -que podesse, para aprender a lingua francesa, e para o conseguir com mais -facilidade ordenou-lhe que frequentasse os francezes quanto podesse, -estando sempre entre os residentes em _Commã_, e de tal fórma se houve, -que aprendeo algumas palavras de nossa lingua. - -Pensou este bom homem ter obtido todas as riquezas do mundo, quando vio -seo filho balbuciar vinte ou trinta palavras francezas, e julgou ser -tempo de trazer este grande doutor aos _pays_, isto é, aos padres para -ser baptisado, e depois ser _Caraiba_, «francez.» - -Tereis sem duvida notado, tanto por este discurso, como por muitos outros -precedentes e subsequentes, que os selvagens julgavam necessario ser -primeiro baptisado para depois ser francez, sendo manifesta loucura o -pensar em contrario e na verdade não se enganavam. - -O verdadeiro francez é mais francez pela piedade e religião do que pela -origem, visto que Deos o felicitou fazendo-o vassallo e subdito de um -rei christianissimo, primeiro filho da igreja, e sempre seo fidelissimo -protector, como demonstrou em todo o tempo e em todas as occasiões. - -Si dermos credito a Santo Agostinho, no Tratado do Ante-Christo, é elle, -que deve resistir a este Ante-Christo, como se vê em mais de um lugar. - -Voltemos ao nosso homem. - -Trouxe seo filho com muito respeito, e assentando-se n’uma rêde, e -o rapaz perto d’elle, desculpou-se de não ter vindo logo vêr-nos e -visitar-nos, assegurando porem ser um dos nossos melhores amigos, que -desejava ter padres com elle na sua aldeia, que os acolheria muito bem, -que nada lhes faltaria para a vida, nem javalis, veados, e outros bichos -proprios á esse fim. - -É por esta fórma que todos se desculpam. - -Depois d’isto, assim fallou-me: - -«Sou homem de idade, como vedes, porem tenho muita força, e espero vêr -este meo filho, que aqui te trago, bom _Caraiba_, como me prometteo -o Grande, que sympathisa com elle, quer vestil-o e tel-o aqui com os -francezes. - -Eis porque venho pedir-te para laval-o com agoa de _Tupan_: assevero-te, -que elle sabe tudo quanto é preciso saber, e breve o ouvirás porque tive -o cuidado que elle fallasse com os francezes, e todos me dizem que elle -entende muito. - -É bom rapaz e amigo dos francezes.» - -Dizendo isto, fez signal a seo filho para aproximar-se, e ordenou-lhe que -contasse tudo quanto sabia de francez. - -Só com muito custo podia conter o riso, e nem si quer me era permittido -usar do interprete que ria-se a bom rir, de tal simplicidade; comtudo, -eu o tranquilisei pedindo-lhe desculpa pelas travessuras de um pequeno -papagaio, que eu tinha, a fim de não pensar que era elle o provocador do -riso. - -O rapaz recitou-me a doutrina, que seo pae julgava bastante para receber -o baptismo, e o fez d’esta maneira: _bom dia, senhor, como estaes: Bem, -senhor, prompto ao vosso serviço, quereis comer, sim: pão, peixe, carne, -minha cabeça, eo chapeo, meo gibão, meo borzeguim, minha camisa_[BF] - -Não pude ouvir mais com receio de arrebentar de riso. - -Disse-lhe ser bastante, que só por isto eu fazia ideia d’elle não ter -perdido seo tempo. - -O bom homem pressuroso interrompeo-me dizendo ter ainda que dizer-me. - -Levantou-se do seo logar, tomou todos os utencilios do meo quarto, e -mostrando-me um apoz outro disse-me, que elle de tudo sabia o nome em -francez. - -Aproximando-se de minha mesa, e agarrando-a com duas mãos, dizia—elle -ainda sabe o nome d’isto em francez. - -Dirigio-se a seu filho, e perguntou-lhe se era verdade o que dizia. Sim, -respondeo-lhe o moço, e ainda mais, pois chamaria pelo nome tal e tal -francez, bem como tambem sabia a denominação das armas: _Um arcabuz, que -faz puf, uma espada, um canhão, que faz pataú_. - -Mas, disse-lhe o pae, bem depressa saberás o resto? - -Sim. - -Muito bem, replicou o pae, não deixes de vir todos os dias recitar tua -lição diante do padre. - -Deixando-lhe toda a liberdade de fallar afim d’eu poder conter o riso, e -d’elle dar expansão ao seo fervor, que não era isto, que eu exigia para -conferir-lhe o baptismo, e sim o conhecimento de Deos e de outras coisas -dependentes da nossa religião. - -Ficou admirado de ouvir-me, reconhecendo inutil a estima que elle tinha -de vêr seo filho, grande doutor, e parecendo não entender até o que eu -lhe dizia. - -Pelo interprete expliquei-lhe o meu pensamento, e elle respondeo-me não -ter ouvido ainda fallar n’isso, mas que como seo filho era intelligente -cedo aprenderia bastando-lhe apenas uma lua, para o que deixava seo filho -no Forte de Sam Luiz. - -Disse-lhe que elle fazia muito, que eu o trataria o melhor que me fosse -possivel, e sempre seria bem acolhido entre os francezes. - -Mas, disse eu, porque não procuras para ti o bem, que desejas a teo filho? - -Ah! respondeo-me, sou muito velho: nada mais poderei aprender, como esses -rapazes, que vão ser _Caraibas_. - -Como, repliquei, antes queres ir com os diabos queimar-te no inferno, do -que esforçar-te para aprenderes a sciencia de Deos? Tua velhice não é -desculpa aproveitavel. - -Tens eloquencia para fallar um dia inteiro, si quizeres. Calcula ha -quanto tempo fallas, e quantas palavras tens proferido. - -Não precisas aprender a quinta parte das questões, que me tens proposto, -afim de seres christão; nas palavras de tua lingua, pelas quaes -comprehendemos os objectos expressados na nossa linguagem. - -Aprendeis com muita facilidade cantigas e descantes, tão compridos sobre -feitos de vossos antepassados. - -Poderás assim aprender facilmente o que queres, que saiba teo filho. - -Pois bem, me disse elle, vou fazel-o. - -Voltando-se para o filho, recommendou-lhe que escutasse bem tudo quanto -lhe ensinassem, que não perdesse uma só palavra, e que imitasse todas as -acções dos francezes, que viria depois buscal-o para a terra d’elle afim -de ensinar-lhe o que tivesse aprendido. - -Serás bem recebido, todos farão caso de ti, e se reunirão para te ouvir -contar tão boas coisas. Depois viremos procurar os padres para nos -baptisarem. - -Assim fallando, olhou-me a sorrir-se. - -Muito bem, disse elle: Padre, não beberemos bom vinho de França? ou -_Cauin_, que queima, isto é, aguardente? - -Não terás d’ella alguma garrafa na tua frasqueira? Dá-me as chaves d’ella. - -O _Muruuichaue_ me deo em sua casa um pouco, e era muito boa e muito -forte: esfregando seo estomago com a mão, dizia-me, olha, ainda sinto -ella aquecer-me. - -É costume da França tirar da frasqueira a garrafa quando se recebe -visitas de amigos. - -Tenho desejos de vir muitas vezes a _Yuiret_, quando chegam navios de -França para gozar do seo vinho muito melhor do que o nosso. - -Vendo finalmente a simplicidade d’este homem, que foi o primeiro a -rir-se, e não tratando nós mais das coisas de Deos, foi-me necessario -rir tambem, dar-lhe agoardente, e depois de ter bebido um bom copo, pelo -interprete notou não ter eu bebido com elle, que convinha fazel-o, e que -depois elle me acompanharia. - -Assim o fiz para chamar estes homens ao seio de Deos, tel-os como que -obrigados ou agradecidos a nós em tudo quanto podessemos, conforme sua -naturesa, quando n’isto não ha offensa á Deos. - -Depois de achar-se um pouco enthusiasmado com o segundo copo começou a -pronunciar gutturalmente estas palavras—_Goy y katu de katogne kauin -tata_, «oh! quanto é bom, muito bom o vinho de fogo, ou o vinho que arde.» - -Como mau agouro ouvi a palavra _Goy_, que é o começo para beber-se muito, -e principiei a cogitar na maneira por que havia de fechar a garrafa, -visto não haver necessidade de tal despesa, então grande pela sua falta. - -Disse ao meu interprete, que a levasse, e este querendo cumprir a minha -determinação, o meo selvagem agarrou a dizendo não ser costume dos -francezes guardarem as garrafas, tiradas da frasqueira para a meza e que -por muitas vezes se tinha achado entre elles. - -Reconheci que era necessario resgatar a minha prisioneira, embora ella -nada me ficasse a devêr pela sua boa composição. - -Disse-lhe, que _cauiu-tata_ não era similhante ao que tinha bebido -antigamente, que perturbava a cabeça de quem o bebesse muito, que eu -devia cuidar do seo corpo e de sua saude, mas que eu ainda lhe daria um -copinho para dizer-lhe adeos, e assim foi-se satisfeito. - -Veio visitar-me no dia seguinte. Prevenindo-me e indo ao encontro dos -seos desejos mostrei-lhe uma garrafa quebrada, igual a do dia antecedente -fingindo estar muito triste pela agoardente que se tinha derramado e -perdido: mostrou-me igual sentimento, e batendo na coxa me disse—Aqui -está, si tivesses permittido, nós a tinhamos bebido, e nada teria -acontecido. - -o... - - * * * * * - -_Faltam as ultimas folhas d’esta narração no exemplar unico da edicção -original, existente na Bibliotheca Imperial de Pariz._ (Vide o Prefacio.) - -_Suppre-se de alguma forma esta falta, bem sensivel, publicando-se no fim -da obra, curiosissimas cartas, por longo tempo esquecidas._ - - -NOTAS - -[BC] Por falta de typos proprios deixamos em claro este espaço.—Do -traductor. - -[BD] Quarta parte de um soldo de França.—Do traductor. - -[BE] Gurupy.—Do traductor. - -[BF] Em francez muito mal escripto estão estas palavras, é impossivel -traduzil-as com taes erros.—Do traductor. - - - - -ADDENDUM. - - -Congratulação á França pela chegada dos Padres Capuchinhos á nova India -da America Meridional do Brazil. - -Grande reino, e povo francez, tens razão de louvar a Deos: -Christianissimo Reinado, de dia para dia crescem tuas alegrias, dando -sempre de ti boas novidades: sól dos reinos, flor dos povos do Universo, -és notavel por todas as maneiras. - -Por tua antiguidade na fé catholica, religião christã, devoção aos -altares divinos, e fervor em ouvir a palavra de Deos. - -Pelo amor e dedicação a teo Principe natural, por tua honesta -sinceridade, ou sincera franqueza, na conversação, qualidades, que -nenhuma outra nação possue como tu. - -Esplendido, magnifico, e magnanimo reino sobre todos os reinos da terra. - -Pela magestade da tua corôa, a bella e antiga serie de teos monarchas -até o numero de sessenta e quatro Reis, dos quaes foram uns Imperadores, -outros Santos canonisados no Ceo: e tambem pelo valor e proezas na -guerra, praticada por tua gente valerosa, liberal nobresa de gravata -branca como leite. - -Pela sapiencia de tuas universidades em todas as especies de sciencias -e faculdades, pela amplidão de teos magistrados, pela prudencia de teos -respeitaveis parlamentos, pela serenidade de teos conselhos, e pelas -bellas leis de tua politica. - -Que digo eu? - -Povo sabio, intelligente, grande nação, illustre reino, ceo estrellado de -tão bellos espiritos delicados, parabens: és na verdade maravilhosamente -illustre! - -Pela multidão de tantos prelados veneraveis, grandes bispos, ricos -abbades, e chefes de ordens. - -Pelo crescido numero de tantos homens santos, notaveis pela bondade, -famosos pela sciencia, e nobres pela progenie, illustres pelos milagres -que hão florescido e brilhado dentro e fora dos teos mosteiros. - -Pela tua posição entre dois grandes mares, onde por meio de teos dois -braços exerces piedade e justiça em villas tão grandes e bellas, ricas, -afamadas e populosas, n’um paiz tão abundante, e em provincias tão amplas -e copiosas, e em tão grande numero. - -O que te falta para chegares ao cumulo de tua felicidade? - -O que pode accrescentar-se ao ramalhete de teos louvores, á grinalda de -tuas honras, á corôa de tuas glorias, tecida em ternario, symbolisado -pelos teos tres lyzes, em campo de oiro, a não ser que hoje enriquecido -pelo Rei Luiz, o rei dos lyzes, alcances, sob sua authoridade, o cheiro -de Jesus no Ceo, e ao longe a salvação dos povos selvagens mergulhados -em trevas, e nas sombras da morte d’infidelidade, de incivilidade, e de -barbaridade. - -Foste por Deos escolhido para tão grande honra, satisfação e alegria para -levar ahi, o suave nome do Redemptor, estabelecer o imperial sceptro -de sua cruz triumphante, signal sagrado, signal do Filho do Homem, e -estandarte do grande rei dos reis, sob o qual se devem reunir todos -os povos, que se desejam salvar, e então ahi semear a boa nova do seo -Evangelho, salvador dos crentes. - -Outr’ora até o occidente buscando para o meio-dia pelo grande Carlos -Magno, com a sua espada de ferro, mostraste o teu valor contra os -serracenos, importunos á Hespanha. - -Até ao oriente pelo grande São Luiz, uma, duas vezes, fizeste sentir -á impiedade turca, a força de teo braço, e erguido na Palestina, esse -bello estandarte da Santa Cruz por um duque de Boillon, por um duque de -Mercœur, e um duque de Nevers. - -Tremeram ao ouvir o nome da França, tão fatal a elles, a quem mostraste -tua coragem com o cutello na mão. - -Mas agora—_Nova bella eligit Dominus, Clypeus, et hasta si apparuerint_, -novas guerras, conquistas impertinentes, escudos e lanças, ahi se verão? -Nada d’isto, e sim a Cruz de Jesus, o altar do grande rei, exercitos com -seu augustissimo Missah, espada de Deos e de Gedeon, d’aquelle que é Deos -e homem ao mesmo tempo, agoa benta para expellir os diabos, a conquista -dos corações antropophagos ou comedores de homens pelo meio simples da -palavra de Deos, que fará despil-os de crueldade, e de então em diante -amarem o proximo como a si mesmo, abandonarem a imprudencia e o impudor, -revestirem-se com o branco da innocencia e da honestidade: oh! quanta -brutalidade adquirirá o uso da razão, e tu, ó França, foste escolhida -para fazer tal guerra? Em tua consciencia, dize-me, não é esta uma -guerra, com sceptro de liz, de rosas e de flores? - -Quem ouvio jamais coisas similhantes nas batalhas do mundo? porem estas -são guerras do amantissimo Jesus. - -Nada mais te falta agora depois dos teos combates de outras eras, senão -o alegrar-te de plantar a fé e a lei entre gente de ferozes costumes, e -de barbaros feitos, porem mui facil em supportar o jugo do teu humano -concurso, o que não tem podido conseguir o soberbo ou rustico portuguez. - -Regosija-te pois, principe dos lyzes, por ser a tua maior gloria o -servir ao grande Rei do Ceo e da terra, de legado e de embaixada de suas -maravilhas e grandezas em ilhas remotas, e em partes longinquas da Região -Austral. - -Esta sabia Princesa christianissima, muito catholica, e de magnanima -coragem, qual outra Judith, nossa grande rainha, a Regente nossa senhora -fez esta exigencia por cartas dirigidas aos Reverendissimos Padres -Superiores dos Capuchinhos da provincia de França, e de Pariz, seos -humildes servos. - -Reuniram-se em capitulo para conceder ao Sr. de Rasily, -loco-tenente-general de Sua Magestade n’aquellas terras tão remotas um -certo numero de religiosos, que deviam ser consagrados á uma empresa tão -sancta como perigosa. - -Sendo este desejo acolhido livremente, em lugar de quatro, que hoje lá se -acham como exploradores da terra, todos quatro sacerdotes e prégadores, -o padre Ivo d’Evreux, o padre Claudio d’Abbeville, o padre Ambrosio de -Amiens, o padre Arsenio de Paris, todos em numero de cincoenta e quatro, -presentes ao capitulo, se inscreveram e offereceram-se cordialmente para -arriscar sua vida, tão nobremente, afim de salvar esses pobres pagés, -esses pobres selvagens, esses infelizes atormentados pela tempestade do -diabo sem consolador e sem pae. - -Ainda agora, para maior gloria do Salvador, foi a narração augmentada por -tres pares de cartas, mais recentes do que as precedentes. Narram ellas -a sua partida, a sua navegação, ora calma, ora tempestuosa, a sua feliz -chegada, e tantos beneficios, que Sua Magestade, por intermedio d’elles, -tem já feito, e com taes particularidades, como nunca se vio impresso. - -Lêde pois. - -Mas antes d’isto, para que o Deista, o Censor mundano, e o zombador -heretico não se ria de projectos tão honrosos, vindos do Ceo, convem -saber-se, que ha longo tempo fôra tudo isto prophetisado por santos -inspirados pelo Espirito Santo. - -Disse o Propheta Isaias—_propter hoc in doctrinis glorificate Dominum, -in insulis maris nomen Domini Dei Israel_: pelo que eu fizer no meio da -terra glorificae o Senhor por doutrinas, pregae essas doutrinas por todas -as ilhas do mar, annunciae, e glorificae o nome do Senhor, Deos d’Israel. - -Alem d’isso, eis meo Salvador, eu o unirei a mim, meo escolhido, minha -alma n’elle se completa e elle dará juiso aos gentios etc. etc. - -E as ilhas esperaram attentas a lei, e eu t’a daria em alliança do povo -como luz aos gentios afim de abrires os olhos aos cegos, e tirares os -prisioneiros dos calabouços, das prisões e das densas trevas. - -Louvae ao Senhor por meio de canticos por toda a terra, mares, ilhas, -e seos habitantes—_ponent Domino gloriam et laudem ejus in insulis -numciabunt_: glorificarão ao Senhor e o louvarão nas ilhas. - -Prophetisa o mesmo, que ellas receberão sua lei: meo Justo está perto, -sahio meo Salvador (Deos é o Pae) meos braços julgarão os povos, as ilhas -me esperarão e sustentarão meo braço, isto é, receberão meo filho. - -N’outro lugar fallando á sua igreja, que é a Romana (n’outra taes factos -nunca appareceram) diz—por que as ilhas me esperam, e no começo os navios -do mar, para que eu conduza teos filhos de bem longe. - -No Capitulo 66 Deos disse pelo mesmo Propheta: - -«Porei n’elles o signal, mandarei os que ja se salvaram aos gentios no -mar, na Africa, em Lidia que atiram a flecha, á Italia, a Grecia e as -ilhas longinquas, aos que não ouvirão fallar de mim e não presenciarão -minha gloria, e elles annunciarão minha gloria aos gentios, e os -conduzirão como dadiva ou offerenda ao Senhor, ricos presentes e perolas -preciosas a Deos.» - -O propheta Sophonias: - -«Os homens illustres o adorarão em qualquer parte e em todas as ilhas dos -gentios.» - -O grande inspirador dos Prophetas por seo Espirito, Jesus Christo tambem -disse e prophetisou taes coisas. - -E este Evangelho do Reino será prégado pelo Universo, como testemunho a -todos os gentios, e então virá a consummação do Mundo. - -Nós outros catholicos devemos sentir grande alegria vendo cumprir-se -todos os dias a palavra de Deos tão fielmente, não por meio de uma -Assembléa reunida com tal fim, e sim pela Santa Igreja Romana, e deve em -particular este grande reino agradecer a Deos por d’elle servir-se para -levar tão longe a gloria dos seos tropheos. - -O seguinte trecho vos convencerá d’esta verdade, extrahida de quatro -cartas, que d’aquelle paiz escreveo o Padre Arsenio, um dos quatro, a -saber, uma ao Revd. Padre Commissario Provincial, uma ao Revd. Padre -Custodio da custodia de Pariz, uma ao Revd. Padre Vigario de Pariz, e -uma a seo irmão, todas datadas em 27 de Agosto, e dizendo mais que a -sua quarta carta de 20. Outra carta do Revd. Padre Claudio a seos dois -irmãos, o Sr. Foulon, e o Padre Marçal,[110] e uma para dois Padres já -mencionados, escripta ao Sr. Fermanet, e para vos ser agradavel e não -repetir as mesmas, foi tudo reunido n’uma só carta, como vereis, mui -fielmente, e com suas proprias palavras. - -Lêde em nome de Deos. - - -_Fidelissima narração, extrahida de seis pares de cartas dos Revds. -Padres Claudio d’Abbeville e Arsenio, Prégadores Capuchinhos, escriptas -aos Padres da sua Ordem de Pariz, e a outras pessoas do seculo, sendo -quatro do Revd. Padre Arsenio, uma do Padre Claudio, e uma para duas -pessoas._ - -_Meos Reverendos e carissimos Padres._—A paz do Senhor seja comvosco. -Nós vos dirigimos esta pequena carta para dar-vos noticias acerca da -nossa viagem, e como chegamos, mercê de Deos, felizmente a esta terra do -Brazil na Ilha do Maranhão, entre os povos _Tupinambás_, não sem grandes -fadigas. - -Cinco mezes estivemos no mar soffrendo encommodos, que só podem avaliar -os que por elles já passaram, e como o Sr. de Rasilly, por estes dois -ou tres mezes, regressa á França afim de trazer-nos novos auxilios, -reservamos-nos para n’essa occasião descrevermos mais amplamente o -resultado da nossa viagem, tanto no mar como em terra, n’este novo Mundo. - -Aproveitamos agora a occasião para dizer-vos e muito ás pressas, que -para aqui chegarmos foi necessario partir de Caucale, porto da Bretanha, -e já estando d’elle distante dusentas legoas do mar levantou-se grande -tempestade, que separou os nossos tres navios, uns dos outros, causando -admiração, até mesmo aos nossos melhores pilotos, o não ter algum d’elles -naufragado. - -Quiz Deos porem livrar-nos d’esta desgraça, e encontramos dois de nossos -navios, arribados em Inglaterra, d’onde vos escrevemos, e creio que já -estareis de posse das nossas cartas. - -Na segunda-feira de Paschoa partimos de Plymouth,[111] na Inglaterra, e -navegamos sempre com bom tempo, menos alguns dias na costa de Guiné, mui -perigosa pelas molestias do paiz. - -Sahindo de Plymouth auxiliou-nos vento tão favoravel, que em pouco tempo -passamos as Ilhas Canarias, por entre as ilhas _Boa Ventura_ e _Canaria -grande_, vistas por nós perfeitamente. - -Das Canarias ganhamos a Costa d’Africa no Cabo do Bajador, sempre -navegando pela Barbaria: de Bajador desviamos-nos da Costa d’Africa até -o rio chamado _Lore_ pelos hespanhoes,[112] e perto d’elle fundeamos: -sahindo d’ahi ainda nos desviamos da Costa d’Africa até o Cabo branco, -lugar bem debaixo do tropico de Cancer. - -D’este Cabo procuramos a Costa de Guiné, passando entre as ilhas do -Cabo verde, o proprio Cabo verde lugar perigosissimo pelas molestias -contagiosas, ahi reinantes em certas estações do anno: esta molestia -ataca as gengivas de tal sorte, que a carne cobre os dentes, e os faz -cahir com grande perda de sangue a ponto de não se poder estancar, -sobrevindo tambem os encommodos de estomago e inchação, e d’isto tudo -resulta a morte escapando poucos: mercê de Deos ninguem morreo durante -a nossa viagem, porem apenas entramos na terra, falleceram tres, e ahi -ficaram sepultados. - -De Guiné viemos-nos aproximando da linha equinoccial, que passamos bem -difficilmente, coisa ja por nós esperada á vista da estação em que -estavamos. - -Soprou vento contrario por quinze dias causando-nos grandes sustos, e -receios de que não apparecessem calmarias antes de passarmos a linha: -graças a Deos, pouco a pouco, embora o vento contrario, tanto bordo -demos, que quando mal pensamos, estavamos no hemispherio do meio dia. - -Passando a linha, avistamos e afinal chegamos a uma pequena ilha chamada -Fernando de la Roque,[113] situada a quatro graus de altura para o -meio dia, e a cinco para seis legoas de circumferencia, ilha bella e -agradavel, cujas propriedades, querendo Deos, havemos de descrever na -primeira opportunidade: é na verdade um verdadeiro paraisosinho terreste. - -Saltamos n’esta ilha, onde apenas achamos 17 ou 18 indios selvagens, em -companhia de um portuguez, todos escravos e ahi postos por determinação -da gente de Pernambuco: d’estes indios baptisamos cinco. - -Depois de havermos plantado a Cruz n’esta ilha, no centro de uma capella, -feita por nós para celebração da santa missa, e de abençoado o logar onde -residimos por 15 dias, casamos dois destes selvagens, um indio com uma -india, depois de baptisados. - -Não quizemos baptisar o resto aqui, porem achamos bom addiar o baptismo -até chegarmos ao lugar do nosso destino, si bem que libertassemos todos -esses selvagens tirando-os do captiveiro, e fazendo-os livres com muita -satisfação d’elles, depois do que manifestaram ardente desejo de nos -acompanharem até Maranhão, como de facto aconteceo. - -Vieram comnosco trazendo muito algodão, e outros generos, que possuiam. - -De Fernando de la Roque ganhamos a Costa do Brasil, caminhando até o -_cabo da tartaruga_, terra firme no paiz dos _canibaes_, onde, diz -Euzebio, na sua _Historia_, passara o Apostolo Sam Matheus á vista d’esta -Costa do Brasil: imaginae a nossa alegria vendo terras tão desejadas após -cinco mezes de navegação. - -Depois de 15 dias de demora no _cabo das tartarugas_, continuamos a -navegar, e chegamos á ilha do Maranhão, onde fundeamos no dia da gloriosa -Santa Anna, Mãe da Sagrada Virgem Maria, com que muito me alegrei, -(disse o padre Claudio) por termos tido n’esse dia, que eu tanto amo, a -felicidade de chegarmos ao lugar tão desejado. - -No domingo seguinte saltamos todos em terra, levando agoa benta, cantando -o _Te-Deum laudamus_, o _Veni Creator_, a ladainha de Nossa Senhora, e -depois caminhamos em procissão desde o porto atê ao lugar escolhido para -levantar se uma Cruz, a qual foi carregada pelo Sr. de Rasilly e todos os -Principaes da nossa Companhia. - -Depois de benzida esta ilha, até então _Ilhasinha_, foi pelos Srs. de -Rasilly e la Ravardière chamada _Ilha de Santa Anna_, não só por termos -ahi chegado n’esse dia, como tambem porque chamava-se Anna a Condessa de -Soissons, parenta do Sr. de Rasilly.[114] - -Depois plantamos a Cruz: ao pé d’ella, estando todo o largo abençoado, -enterramos um pobre homem, tanoeiro, que vinha comnosco. - -Fêz-se tudo isto com geral contentamento e demoramo-nos ahi oito dias. - -Deixamos esta pequena ilha e fomos procurar a ilha grande do Maranhão, -habitada por selvagens (que são as pedras preciosas que cobiçamos) e -graças a Deos chegamos bons e bem dispostos. - -Vestidos com os nossos habitos de sarja fina por causa do calor da zona -tórrida e revestidos de uma bonita sobrepelliz branca, empunhando nossos -bastões, e em cima de tudo a Cruz com o Crucificado, descemos do navio -para uma canôa, especie de batel construido pelos indios de um só tronco -de pau, onde estavam todos os selvagens, que ja tinham estado na praia -com o Sr. de Rasilly, e muitos francezes ja dos que vieram comnosco e -ja dos pertencentes á equipagem do Sr. de Manoir, e do Capitão Geraldo, -todos francezes, que aqui achamos: muitos d’estes selvagens atiraram-se -ao mar e nadaram afim de chegarem primeiro do que nós. - -Assim conduzidos saltamos em terra, onde se ajoelhou o Sr. de Rasilly -e todos os francezes para nos receberem (honra não commum) e como nos -achassemos embaraçados com tal sorpresa, eu tive (disse o padre Claudio) -a feliz lembrança de entoar o _Te-Deum laudamus_ conforme o cantico da -igreja, e assim caminhamos em procissão entre lagrymas de alegria de -muitos francezes, e seguidos pelos indios. - -Assim tomamos posse d’esta terra e novo mundo para Jesus Christo, e em -seo nome, esperando abençôar o lugar, e n’elle plantar a Cruz em qualquer -dia para isso designado. - -Deixo as outras particularidades para contar-vos quando escrever mais de -espaço sobre esta nossa viagem. - -Somente vos digo que no domingo 12 de agosto, dia de Santa Clara, -celebramos todos quatro as primeiras missas, que aqui se disseram. - -Com bem razão ordenou Deos que o dia de uma Santa Virgem da nossa Ordem, -que deo nova luz ao mundo, fosse escolhido para fazer brilhar a nova luz -do seo Evangelho n’este novo mundo. - -Não é possivel descrever-vos o grande contentamento, que mostraram estes -pobres selvagens com a nossa vinda. - -É um povo conquistado e ganhado, povo grande, que na verdade nos ama, e -nos dedica affeição, e chama-nos grandes prophetas de Deos e de Tupan, e -em sua linguagem padres Carribain, Matarata.[115] - -Depois que aqui chegamos temos tido muito boas noticias. - -Os indios do Pará, outro povo, de um lado visinho do Amazonas, e do outro -d’este povo, onde existem somente cem mil homens, desejam muito que lá -vamos instruil-os. - -Embora _messis multa, operarii autem pauci_ «seja grande a colheita, são -poucos os operarios.» Si quizessemos desde ja se baptisaria grande parte. - -É certo que «_regiones albescunt ad messem_,» estas regiões aqui -enbranquecem mostrando a necessidade de ceifa, felizmente chegou o tempo -de ser Deos aqui adorado e reconhecido. - -Agora estamos procurando lugar para nos acommodar e fazer uma Capella, -até que cheguem de França pedreiros para edificarem uma Igreja. - -Existem muitas mattas virgens, que convem arrotear antes. - -Não posso descrever-vos agora o grande contentamento dos selvagens pela -nossa chegada. - -Dão-nos boa esperança de se converterem. Todo este povo ainda que bruto e -selvagem mostrou-se contente com a nossa chegada, tem vindo vêr-nos com -muita alegria, manifestando grande desejo de instruir-se no christianismo. - -Creio que quando soubermos a lingua d’elles haverá muito que colher, -com grande satisfação para os que tem zelo pelas coisas de Deos e pela -salvação das almas. - -Preparam todos os seos filhos para nos trazerem afim de serem por nós -instruidos, e ja nos prometteram não mais comer carne humana. São muito -bonachãos, e não maliciosos. Por unica religião apenas creem em Deos, que -chamam _Tupan_, e na immortalidade da alma. - -Quanto ao paiz é terra fertil e muito boa, onde não ha frio, e sim estio -constante; ninguem conhece o que é frio, e as arvores estão sempre -verdes. - -Os dias e as noites são sempre do mesmo tamanho: nasce o sol as 6 horas -da manhã e encerra-se as 6 da tarde. - -Estamos apenas a dois graos e meio da linha equinoccial ou do Equador. - -É voz geral haver n’este paiz muitas riquezas, como sejam minas de -oiro, de pedras preciosas, de perolas, de ambar-gris, alem de muitas -pimenteiras, muito algodão, muita herva da rainha, ou petum, e muito -assucar. - -Brevemente, quando nos estabelecermos bem, nós vos asseguramos ser isto -aqui um pequeno paraiso terreste, com todas as commodidades e alegrias. - -Não posso ir mais longe: fica o resto para quando fôr o Sr. de Rasilly, e -então hei-de dizer-vos outras coisas em particular. - -Quanto a minha saude nunca passei tão bem como agora, graças a Deos e só -bebendo agoa, (palavras do padre Claudio.) - -Si na França me fosse preciso fazer a millesima parte do que aqui faço, -mil vezes teria morrido, e n’isto reconheço, que _non in solo pane vivit -homo_, «o homem não vive só de pão.» - -Convem que para cá venham os delicados de França. - -Louvo a Deos por nunca ter enjoado, com grande admiração de todos. - -Quando chegamos no paiz dos calores, justamente quando estavamos sob o -tropico de Cancer, quando o sol estava subindo, tive apenas dois ou tres -pequenos accessos de febre passageira, graças a Deos. - -Deixo o mais para outra occasião, pois agora falta-nos tempo, e -sobram-nos trabalhos. - -Rogae a Deos por nós, e pelos nossos companheiros, o mais que poderdes, -pois agora, mais do que nunca necessitamos da graça de Deos, sem as quaes -nada se consegue. - -O que n’este sentido fizerdes, Deos vos compensará. - - -_Summario de algumas coisas mais particulares, referidas vocalmente aos -Padres Capuchinhos de Pariz pelo Sr. de Manoir._ - -O Sr. de Manoir,[116] (um dos capitães, de que se fallou na carta -precedente, que fôra encontrado n’aquelle paiz com o capitão Geraldo) -chegando ultimamente á França, e sendo portador da carta, ja transcripta -e de muitas outras (algumas das quaes bem desejariamos aqui publicar para -que não ficassem sepultadas no esquecimento as maravilhosas obras de -Deos, de que ellas fallam, como que para despertarem os homens afim de -louvarem a sabedoria, providencia, e bondade do Creador) contou muitas -particularidades dos padres, não referidas em suas cartas. - -Disse, que os padres chegando ahi começaram a edificar sua morada, -construindo uma Capella para celebração da missa, e algumas cellas -pequenas para residencia, sendo coadjuvados por alguns selvagens com -alguns pannos e ramos de arvores. - -N’um certo dia, quando um padre celebrava missa, chegou um selvagem dos -mais velhos, (que elles consideram seos governadores, honrando-os e -respeitando-os por causa da sua idade avançada) em companhia de trinta -selvagens para ouvirem missa, o que fizeram, admirando com grande -surpresa tão bellas ceremonias, e tão lindos ornatos, por elles nunca -visto (pois que homens e mulheres andam todos nús.) - -Quando o sacerdote chegou á consagração e ao offertorio, desceo um véo -entre elle e o povo, de forma que este não poude ver aquelle, e nem o que -se fazia por detraz d’esse véo. - -Julgaram isto uma affronta e mostraram-se offendidos, e por isso, finda a -missa, foram perguntar a causa de tal offensa. - -Responderam os padres que n’isto não havia offensa, e que assim se fez -por serem elles ainda pagãos, não podendo ser a Missa celebrada em suas -presenças embora estando na Igreja. - -Deram-se por satisfeitos e mostraram-se tranquillos, e foram contar o -occorrido ás suas mulheres, que se mostraram desejosas de vêr os grandes -Prophetas de Deos e de Tupan, e se reuniram em grande numero para tal fim. - -Não quizeram porem os padres abrir-lhes a porta de sua pequena choupana -porque estavam núas, mas ellas não esperaram por segunda recusa e -metteram a porta dentro, o que não lhes foi difficil praticar, entraram -e não se cançaram de olhar e contemplar os Padres, embora se demorassem -pouco tempo, por lhes pedirem os Padres que se retirassem, o que -cumpriram. - -Depois desta visita, reuniram-se os velhos em grande numero e combinaram -entre si qual devia ser o presente que offerecessem a esses Prophetas, -como demonstração de sua benevolencia e regosijo pela sua chegada. - -Finalmente concordaram, visto dormirem os Padres no chão duro, que se -désse a cada um o seo colchão de algodão, que ahi floresce, e uma das -mais bellas raparigas, o maior presente que costumam fazer. - -Trouxeram quatro colchões e quatro raparigas, e offereceram aos Padres, -que rindo-se aceitaram aquelles e recusaram estas com palavras de -agradecimento. - -Admirados com tal procedimento, diziam uns aos outros. O que é isto? -Estes Prophetas não são homens como nós? Porque não acceitam estas -raparigas, sendo impossivel o passar um homem sem ellas? Porque nos fazem -tal offensa? - -Responderam os Padres, que assim procediam, não por que reprovassem -o casamento, quando conforme ás leis de Deos, visto que até elles o -louvavam, mas como Deos havia outhorgado graças mui particulares a elles, -e não aos outros homens, porque o serviam com mais perfeição, podiam -passar sem mulheres por meio dessas graças. - -Ouvindo esta pobre gente taes palavras ficaram admirados e como que fóra -de si, contemplando a santidade destes Prophetas, e d’ahi em diante os -veneraram mais, julgando-se felizes quando lhes entregavam seos filhos -para serem educados em nossa santa fé, e afinal baptisados. - -Tudo isto se poderá vêr na seguinte carta, escripta por esses Padres -á um honrado mercador de Ruão chamado Fermanet, um dos seos maiores -bemfeitores, para que se veja que nada acrescentamos, e que apenas -narramos os factos pura e simplesmente colhidos n’essas cartas e em -informações de pessoas fidedignas, testemunhas occulares, e por que -n’ella se encontram particularidades não mencionados nos outros. - -Eil-a: - - -_Carta escripta pelos Padres Capuchinhos ao Sr. Fermanet._ - -A paz do Senhor Deos esteja comvosco. - -Depois de tantas recommendações, que nos fizestes quando partimos para -vos escrever, seriamos culpados si não vos dessemos noticias de paiz tão -bom, graças á Deos. - -Depois de 4 a 5 mezes de viagem ahi chegamos felizmente, sendo bem -recebidos pelos Indios, conforme sua rusticidade, não nos importando -o modo e sim a demonstração do seo contentamento então e ainda agora -diariamente, trazendo-nos seos filhos para instruil-os o que faremos -mediante a graça de Deos. - -Quando voltar o Sr. de Rasilly, por estes 2 ou 3 mezes, nós vos -mandaremos o numero dos convertidos e dos baptisados. - -O paiz é muito bom, e ha esperança de produzir muito tabaco Petum, e -Urucú, havendo ja muito assucar, bellas pedras, ambar-gris, e dizem-nos, -que distante d’aqui 20 legoas ha uma mina de oiro. - -Si não fosse grande a nossa pressa, nós vos dariamos mais algumas -noticias, porem não podemos alongar-nos. - -Beijando humildemente vossas mãos, e recommendando-nos á senhora vossa -mulher, somos de vós e d’ella - - Vossos humillissimos servos em Nosso Senhor. - - Frei _Claudio d’Abbeville_. - Frei _Arsenio de Pariz_. - - -_Narração de um marinheiro, vindo do mesmo paiz, feita ao Revd. padre -Guardião do Havre da Grace, e por este communicada ao Revd. padre -Commissario._ - -Revd. Padre, eu vos saúdo humildemente em Nosso Senhor. - -O fim d’esta é communicar-vos, que veio hoje procurar-me um marinheiro, -que vio e fallou com os nossos Irmãos, que estão em Maranhão com os -Tupinambás, onde felizmente chegaram no dia 8 de Julho. - -Este marinheiro ahi ouvio missa, e á ella assistio com muito respeito um -velho selvagem do paiz, acompanhado por 25 ou 30 indios. - -Quando chegou o tempo de consagrar-se e elevar-se a santa hostia, desceo -um véo, causando-lhes isto admiração. - -Recebida a explicação mostraram-se satisfeitos, e logo começaram a contar -por toda a parte o que viram, e por isso vieram muitos ajudal-os a -edificar sua habitação e Forte, ja em principio. - -Veio o marinheiro em 22 de Agosto no navio de Moisset, recommendado ao -Sr. de Manoir, a quem, segundo pensa, terão nossos Irmãos entregado -suas cartas, ou a algum outro official de navio, o que me dispensa de -contar-vos outras particularidades. - -Não mudaram, e nem mudarão a côr dos seos habitos, usando apenas de um -tecido mais leve do que o nosso, por causa do calor. - -Deos seja louvado por tudo, e lhes conceda a graça de ahi apparecerem -muitos fructos para a gloria do seo Santissimo Nome, e exaltação da Santa -Fé da sua Igreja. - -Sou de vossa Reverendissima o menor servo em Jesus Christo - -Havre, 12 de Novembro de 1612. - - Frei _Theophilo_, indigno Capuchinho. - - - - - NOTAS - - CRITICAS E HISTORICAS - - SOBRE A VIAGEM DO - - PADRE IVO DE EVREUX - - POR - - MR. FERDINAND DINIZ. - - - - -NOTAS. - - -1 (frontespicio). - -Esta vasta provincia, uma das mais florescentes do Brazil, antes da -chegada dos missionarios francezes não teve estabelecimento algum -importante. Eram arbitrarios os seos limites, convindo não esquecer que -a immensa capitania do Piauhy fez parte d’ella até 1811. Presentemente -tem 186 legoas, de 20 ao gráo, de comprimento, 140 de largura, e nunca -menos de 20,000 legoas quadradas de superficie. Fica entre 1° 16′ e 7° -35′ de lat. merid. Confina ao N O com o Pará, servindo de linha divisoria -o Gurupy, á N E é banhada pelo Occeano Atlantico, a S E com o Piauhy, -separando-a d’elle o rio Parnahyba, e finalmente a S com a provincia de -Goyaz pelo rio Tocantins.[BG] - -Ainda que seja quente e humido o clima do Maranhão é sadio. As chuvas que -fertilisam este rico territorio principiam regularmente em outubro. - -O aspecto geral do paiz offerece por toda a parte ondulações do terreno, -mas em nenhuma offerece elevações consideraveis, exceptuando-se d’estas -asserções geraes e por força mui summarias a comarca de Pastos-bons, onde -se encontram montanhas como sejam Alpercatas, Valentim, Negro etc. É -regada por 14 correntes d’agoa. - -De todos estes rios é o _Parnahyba_ o mais considerável: infelizmente -suas margens não são totalmente sadias, pois em varios pontos, como -em quasi toda a provincia, reinam as febres intermitentes. Avalia-se -seo curso em 240 legoas. O _Itapecurú_, seo immediato, e de que falla -constantemente o Padre Ivo d’Evreux, banha apenas 150 legoas de terreno, -o Mearim 78 legoas, sendo ainda menos consideraveis o _Pindaré_, o -_Tury-assú_, o _Gurupy_, e o _Manoel Alves Grande_. Julga-se que é de -462,000 pessoas a população de toda a provincia, embora diga o relatorio -official da presidencia, com data de 3 de julho de 1862, que esta cifra é -apenas de 312,628 almas, sendo 227,873 livres e 84,755 escravos. Convem -observar, que o recenseamento geral da população do Imperio, feito em -1825, dava apenas 165,020 almas, sendo esta cifra muito inferior á -realidade, porque recusaram muitos Srs. dizer com certesa o numero dos -seos escravos. - -Nada se sabe, e nem será possivel saber-se exactamente, a respeito da -povoação nomade dos indios, isto é, d’aquella cujo conhecimento seria -muito curioso afim de apreciar-se as mudanças, que houveram nas aldeias -depois do que escreveo o Padre Ivo, podendo apenas dizer-se que é maior -no Maranhão, no Pará, e na nova provincia do Rio Negro, do que n’outra -qualquer parte. - -Em summa o governo só tem dados mui imperfeitos e raros sobre estas -infelizes hordas, das quaes se occupa actualmente. - -Os cuidados tardios, embora caridosos, da administração provincial, tem -que acabar muitos males afim de que seja completa a reparação. - -Tudo ainda está por fazer relativamente aos Indios. - -Não souberam estas tribus conservar nem a dignidade que dá completa -liberdade aos habitantes das florestas, e nem os principios de -civilisação, que se intentou incutir-lhes no seculo XVII. - -Reconcentradas no interior por Mathias de Albuquerque, dizimadas pela -variola, hoje são apenas a sombra do que foram sob o dominio dos seos -chefes independentes. - -Esta população indigena é comtudo maior nos desertos do Maranhão, e -embora d’ella não tratem certas estatisticas, é avaliada em 5,000 o -numero dos indigenas reunidos em aldeias. - -Si dermos credito á um intelligente militar, que viveo em constantes -relações com elles por espaço de 20 annos, a sua decadencia physica é -menor que a moral, pois perderam até a reminiscencia de suas tradicções -théogonicas, ainda mal, visto ser muito curioso o comparal-as com a -narração dos antigos viajantes francezes. - -Sob este ponto são elles menos favorecidos que os Guarayos, visitados -por Orbigny, os quaes ainda hoje repetem em seos canticos as legendas -cosmogonicas do seculo XVI. - -Os indios do Maranhão, entre os quaes se contam os Timbyras, os Gés, os -Krans, e os Cherentes não podem fornecer ao historiador senão informações -mui incompletas, pois que ha perto de 40 annos já o major Francisco de -Paula Ribeiro se queixava do immenso esquecimento d’elles, (vide _Revista -Trimensal_, tomo 3.º, pag. 311) esquecimento fatal de grandes tradicções, -pelo que se tornam hoje preciosos certos livros, como sejam os dos nossos -velhos missionarios, onde pelo menos se encontram os mythos antigos, ahi -escriptos para serem combatidos. - -De vez em quando entre estes indios degenerados apresentam-se alguns -homens energicos, que comprehendem o abatimento de sua raça, e que -desejariam vel-a progredir, porem são mui raros, pouco comprehendidos, -e demais só olham para o futuro, e não experimentam amor algum por sua -antiga nacionalidade. - -Seos compatriotas longe de ajudal-os nos trabalhos emprehendidos para -melhorar seo futuro, ainda os amesquinham com o seo odio tão irreflectido -quam brutal. - -Foi o que aconteceo a _Tempe_ e a _Kocril_, chefes conhecidos pelo major -Ribeiro. Trabalharam inutilmente para chamar ao caminho da civilisação as -tribus, cujo governo lhe foi confiado, e a final foram victimas do seo -zelo. - -Vide «_Memoria sobre as nações gentias, que presentemente habitam o -continente do Maranhão escripta no anno de 1819 pelo major graduado -Francisco de Paula Ribeiro_, _Revista Trimensal_, T. 3º pag. 184.» - -De passagem disemos, que não deixaram descendentes, pelo menos -conhecidos, os Tupinambás cathequisados pelos missionarios francezes, -suppondo-se apenas, que um ramo d’esta grande nação ainda hoje povôa -_Vinhaes_ e _Villa do Paço do Lumiar_, achando-se no mesmo caso _S. -Miguel_ e _Tresidélla_, a margem do rio Itapecurú, e _Vianna_, no Pindaré. - -Com mais probabilidade ainda confundiram-se os Tupinambás com as -tribus do inferior, tomando os nomes de Timbyras e Gamellas. São -tambem subdivisões dos Timbyras os _Sakamecrans_, os _Kapiekrans_ ou -_Canellas-finas_, e os Gés, que vagam pelas grandes florestas á Oeste -do Itapecurú. Nega o major Ribeiro, que ainda sejam antropóphagos estas -diversas tribus. N’este escriptor imparcial, e que reconhece a ferocidade -dos Timbyras, é que se deve estudar as horriveis represalias, de que tem -sido elles os indios, sendo a escravidão a menos sanguinolenta. Elle -avaliou em 80:000 o numero d’indios selvagens, embrenhados nos mattos em -1819, hoje sem duvida consideravelmente diminuido. - - -2 (pag. 1). - -Francisco Huby era tambem livreiro e tinha sua loja n’uma praça entre -os mais afreguezados armazens na galeria dos prisioneiros em Palacio, e -soffrera-a como os outros no grande incendio de 1618. - -Quatro annos antes d’elle encarregar-se da publicação do livro de Claudio -d’Abbeville, de que este é continuação, morava na rua de Sam Thiago no -_Folle de oiro_, e não na _Biblia de oiro_, que depois tomou por divisa. - -Si foi ferido na prosperidade, foi justamente por haver permittido, que -mão impia privasse a França por mais de dois seculos do livro precioso, -de que tinha sido edictor, e que hoje entregamos a publicidade, graças a -uma d’essas empresas litterarias tão raras em nossos dias, onde a honra -das letras é o pensamento dominante e superior a todas as considerações. - -O volume, que servio para a nossa reimpressão é encadernado em marroquim -encarnado, semeiado do flores de lys de oiro, e com as armas de Luiz -XIII. Faz parte da reserva sob n.º 01766 da Bibliotheca Imperial de Pariz. - - -3 (pag. 9). - -A capital do Maranhão occupa ainda hoje o mesmo lugar escolhido por seos -antigos fundadores. Está situada a 2° 30′ e 44″ lat. austral e 1° 6′ e -24″ de long. oriental do meridiano do Forte de Villegagnon, na bahia do -Rio de Janeiro. - -La Ravardiere e Rasilly escolheram para edifical-a a ponta de terra -O d’uma pequena peninsula, ligada á ilha do Maranhão pela calçada do -_Caminho grande_. - -Os rios _Anil_ e _Bacanga_, vindos de diversos pontos da ilha confundem -suas agoas na mesma embocadura e formam vasta bahia. A elevação, que -se apresenta ao S do _Anil_, á E e ao N. do _Bacanga_ (lugar onde se -confundem as agoas d’estes dois pequenos rios) é o lugar primitivo onde -se levantou a cidade nascente collocada sob o patrocinio de Sam Luiz. - -A cidade de Sam Luiz, elevada em 1676 á dignidade episcopal por uma Bulla -de Innocencio XI, conta nunca menos de 30 mil habitantes, e está situada -em terreno docemente ondulado, sempre, em todas as estações, carregado de -rica vegetação, e assim offerecendo aos viajantes panorama encantador. -(Vide _Corographia Brasilica_, _Will. Hadfield_, _Milliet de St. -Adolphe_, e principalmente os _Apontamentos estatisticos da provincia do -Maranhão_, annexos ao _Almanack_ de 1860 publicado por B. de Mattos.) - -Esta linda cidade é naturalmente dividida pela espinha dorsal da -peninsula, que separa as duas bacias dos rios na direcção de E. O. - -Seo ponto mais elevado é o _Campo d’Ourique_, onde apresenta 32m 692c de -elevação acima do nivel medio do mar. - -É dividida em tres parochias: _N. S. da Victoria_, _S. João_, e _N. S. da -Conceição_, tem 72 ruas, 19 becos, 10 praças, 55 edificios publicos, e -2,764 casas, das quaes 450 tem um só pavimento. - -Para utilidade dos habitantes podem ser maiores e mais regulares as -praças, e embora sejam as ruas cortadas em angulo recto, podiam ser mais -largas e melhor dispostas sendo observadas as regras da hygiene. - -Não são más suas calçadas, e tem declive bastante em relação aos dois -rios que banham a cidade. Em resumo é a Capital do Maranhão saudavel e -limpa. - -«O navio que demandar o porto, toma por marca o Palacio do governo, -assentado n’uma eminencia que domina o porto. - -Este edificio tem a seos pés o Forte de Sam Luiz, e de suas janellas -percorrendo-se com os olhos uma extensa bahia avista-se ao longe as -costas e a cidade de Alcantara: mais perto da barra está o pequeno _Forte -da Ponta d’areia_, e dentro do porto na margem opposta do Bacanga a -pequena _ermida do Bomfim_, muito arruinada, e na frente do Anil a _Ponta -de Sam Francisco_, onde segundo a noticia que nos dirige, entregou la -Ravardiere ao commandante portuguez a cidade nascente e a fortalesa de -Sam Luiz, nunca se podendo assas louvar n’essa occasião o procedimento -inteiramente nobre do commandante francez e de Alexandre de Moura por -parte da Hespanha. - -O joven cirurgião de Pariz que foi com tanto zelo pensar os feridos dos -dois partidos, e que recebeo tão penhorador acolhimento no campo inimigo -poude d’elle dar somente uma ideia, por sua narração sincera e franca, -da cordialidade, que appareceu entre os francezes e os portuguezes depois -do combate. (Vide _Archivos das viagens publicadas_ por M. Ternaux -Compans.) - -Em distancia de alguns metros pelo Anil acima está o convento e Igreja de -Santo Antonio, construidos no proprio lugar onde em 1612 Ivo d’Evreux, -ajudado pelos padres Arsenio e Claudio d’Abbeville, edificou seo -conventosinho sob a invocação de Sam Francisco. Soffreo depois d’isto -varios concertos e augmentos este mosteiro dos Capuchinhos francezes, -achando-se hoje uma parte do edificio moderno occupado pelo Seminario -Episcopal, e a Igreja, hoje em construcção, levanta-se com architectura -gothica simples.» Pelo que nos dizem será a igreja mais bonita do -Maranhão. - -Não é esta a unica construcção digna de mencionar-se na cidade, porem é a -unica que nos interessa directamente. - -Mencionamos apenas o _Caes da Sagração_, assim chamado em memoria da -coroação e sagração do Sr. D. Pedro 2.º, e da vasta bahia, onde agora -se escava para poder n’ella fundear uma fragata a vapor da primeira -ordem, e apenas citamos a dóca que se projecta fazer nas _enseiadas das -Pedras_.[BH] - -Contam-se muitas construcções monumentaes, como sejam a igreja do Carmo, -a Cathedral, o quartel do Campo de Ourique, o Theatro, e mais outras -que força é omittir, pois apenas n’uma ligeira nota desejamos mostrar -englobadamente o que em 250 annos se tornou isto fundação francesa. - -William Hadfield, um dos mais modernos viajantes, que tratou d’este paiz, -observou que é na cidade de Sam Luiz, onde no Brasil se falla o portuguez -com mais pureza. É a patria de dois escriptores mui estimados no Imperio, -Odorico Mendes e João Francisco Lisboa, fallecido ha pouco. - -Depois de haver traduzido com superioridade de estylo, que causaria -inveja aos contemporaneos de Camões, occupa-se actualmente Odorico Mendes -na traducção em verso das obras de Homero, onde a sciencia do rythmo -disputa com a inspiração. - -Quanto ao poeta das legendas nacionaes, cujos cantos são geralmente -repetidos no Brasil (queremos fallar de Gonçalves Dias) pertence tambem -á provincia do Maranhão, por elle explorada como sabio e como viajante -intrepido, porem nasceu em Caxias. - -As obras d’esses tres escriptores honram ao paiz, são tambem a honra da -bibliotheca publica; porem este estabelecimento, creado n’uma cidade -eminentemente litteraria, não está em relação com as necessidades -crescentes de outras instituições suas, relativas á instrucção publica. -Ha tres annos contava apenas 1031 volumes. - -Prasa aos Ceos, que o livro, que agora réproduzimos, o primeiro que, -com o de Claudio d’Abbeville, foi escripto na Cidade nascente, marque -o principio de uma era nova para estabelecimento tão indispensavel -n’uma Capital, já florescente. Muitas outras instituições supprem -esta deficiencia, publica-se na Capital diversos jornaes, taes como o -_Publicador Maranhense_, a _Imprensa_, o _Jornal do Commercio_ etc. etc., -e tambem ha uma _Associação typographica_, um _Gabinete de leitura_, e a -sociedade litteraria _Atheneo Maranhense_. - -Tudo isto na verdade é mui differente do tempo, em que o Padre Arsenio -de Pariz com muita difficuldade achava apenas uma folha de papel para -escrevêr á seos Superiores. - - -4 (pag. 11). - -A Cathedral de _São Luiz_ ou do _Maranhão_, (assim com estes dois nomes -se designa a Cidade) deixou a invocação de São Luiz de França. É a antiga -Igreja do Convento dos Jesuitas a actual cathedral sob a invocação de N. -S. da Victoria. (Vide Ayres do Cazal—_Corographia Brazilica_. Rio de -Janeiro 1817. T. 1.º pag. 166). - -Parece-nos, que nas grandes construcções, que actualmente se estão -trabalhando para o augmento do Convento de S. Antonio, respeitou-se a -pequena Capella feita pelos francezes. São tres os frades d’esta Ordem, -Frei Vicente de Jesus, guardião; Frei Ricardo do Sepulchro e Frei Joaquim -de S. Francisco, todos sacerdotes. - - -5 (pag. 12). - -Ao norte do Brazil e no interior da Goyanna havia então prodigiosa -abundancia d’esta especie de fóca, cuja carne era muito saborosa: -chamam-na os portuguezes _peixe-boi_, e os indios _manati_. Ainda hoje -os habitantes ribeirinhos do Amazonas e do Tocantins nutrem-se com a -excellente carne d’este peixe. (Vide Osculati, _America equatoriale_). -Claudio d’Abbeville lhe deo o nome de _Uraraura_. - - -6 (pag. 14). - -Esta localidade, ja citada, ainda o será muitas vezes. - -O vasto territorio, ainda hoje conhecido em Maranhão pelo nome de -_Tapuitapéra_, está hoje dividido pelas comarcas de Alcantara e de -Guimarães. Antigamente foi occupado por onze aldeias de indios, das quaes -a maior era Cumã. _Tapuitapéra_ dista 40 legoas de Maranhão.[BI] Pensa -_Martius_ que esta palavra quer dizer—habitação de indios inimigos. Vide -_Glossaria linguarum brasilensium_. Erlanguem. 1863, em 8.º - -N’esta obra acham-se tambem os nomes dos lugares, dos vegetaes e dos -animaes. - -O _Aparaturier_, que deo tão felizes comparações ao padre Ivo, é -simplesmente o mangue (_Rhyzophora._ Lin.) Esta arvore das praias -americanas tão util á industria, forma vastas florestas maritimas, e -em roda da costa do Brasil e de Venezuela. Com muita frequencia se -tem destruido estas arvores, em varios lugares, e temos ouvido até -attribuir-se a invasão recente da febre amarella á destruição systematica -d’este bonito vegetal, que aformosêa com sua verdura todas as praias -brasileiras. Cahindo sob o ferro do cultivador deixa á descoberto praias -cheias de lôdo, habitadas por myriades de carangueijos, formando assim -pantanos d’onde se desprendem miasmas de especie muito perigosa. - -No Brasil conhece-se duas qualidades de mangue, o _branco_ e o -_vermelho_, e para a descripção scientifica d’elles enviamos nossos -leitores para Aug. de St. Hilaire. Julgamos que a palavra antiga, ahi -empregada pelo padre Ivo, vem do verbo _parere_, parir, porque esta -arvore se reproduz pelas raizes, que, como arcadas, espalham ao redor de -si. (Vide _Nossas scenas da naturesa sob os tropicos_,) e ahi achareis o -effeito do mangue nas paisagens. - - -7 (pag. 17). - -É lamentavel esta lacuna, porem deixa comtudo perceber, que se trata das -tartarugas do Maranhão. - -Com os ovos d’este chelidoniano prepara-se no Pará o que se -chama—_manteiga de tartaruga_, de que se exporta prodigiosa quantidade. - - -8 (pag. 17). - -N’esta enumeração mui completa de quadrupedes que se podem caçar, um nome -desperta naturalmente a attenção do leitor, e é _vacca brava_. É bem -possivel, rigorosamente fallando, que os campos do Mearim ja tivessem -algum individuo da raça bovina, ja ha muito tempo introduzida em -Pernambuco: Claudio d’Abbeville é muito explicito n’este ponto. - -Mas não é d’isto que quiz tratar o nosso bom missionario: a vacca brava, -ou _bragua_, como chama em outro lugar, é o _Tapir_ ou _Tapié_, conforme -Montoya, animal muito commum em todo o Brasil. - -Para denominal-o serviram-se os hespanhoes e portuguezes d’um nome pedido -por emprestimo aos Mouros. Chamavam-no tambem _Anta_ ou _Danta_, que -significa, dizem, bufalo. Quando chegou aos americanos a sua vez de dar -nome ao boi, chamaram-no _Tapir-açù_. - -Martius observa com razão, que esta palavra na lingua geral se applica -a todo o mamifero corpulento. Sendo este pachyderma o animal mais -corpulento conhecido na America do Sul, foi sua caça procurada de -preferencia pelos Europeos, e assim desappareceo, ou pelo menos tornou-se -mais rara nos lugares onde outr’ora era abundante. Em certos paizes da -America era um animal sagrado, e assim figura em diversos monumentos. - -No Brasil procuravam os indigenas este animal, tanto por ser boa caça -como pela espessura de seo couro, de que faziam escudos impenetraveis ás -flexas, pela maior parte armadas de uma ponta aguda de madeira ou de cana. - -João de Lery trouxe do Brasil para França alguns d’esses broqueis, porem -não chegaram á Europa, porque uma terrivel fome devida á longa viagem de -5 mezes obrigou o pobre viajante a comel-as, depois de amolecidas por -meio d’agoa. - -Os nossos leitores que desejarem conhecer minuciosamente o Tapir -americano, consultem uma excellente dissertação, dedicada especialmente á -este animal, escripta pelo Dr. Roulin, Bibliothecario do Instituto. - -No _Glossario_ de Martius lê-se uma extensa synonimia relativa ao Tapir. -(Vide pag. 479.) - - -9 (pag. 18) - -É certo que os indios d’esta tribu foram contrarios aos francezes. - -Ha na historia d’esta expedição um ponto, que não foi ainda bem -esclarecido: o mais afamado capitão de indios de que se recorda o Brasil -fez suas primeiras campanhas durante o dominio dos francezes. - -O celebre Camarão, o grande chefe ou _Morubixaba_ dos Tabajares, -commandava 30 frecheiros na lucta entre la Ravardiere e Jeronymo de -Albuquerque. - -Convidado pelo governo portuguez para tomar parte n’esta guerra, partio -de sua aldeia, no _Rio Grande do Norte_, e foi para o _Presidio de N. S. -do Amparo_, no Maranhão, em 6 de setembro de 1614: seguio-o seo irmão -_Jacauna_ com um filho de igual nome, e de 18 annos de idade. - -Depois de muitos annos Camarão, que teve tão boa escola, adquirio fama -immortal nos fastos do Brasil por occasião da expulsão dos hollandezes. -(Vide _Memorias para a historia da Capitania do Maranhão, impressa nas -Noticias para a historia e geographia das Nações ultramarinas_.) - - -10 (pag. 18). - -No Brasil não ha verdadeiros javalys, e nem este nome se pode dar aos -_Pecoris_ ou _Tajassus_, ou _Porcos do Matto_ na linguagem dos naturaes. -Não é extraordinaria a proesa do fidalgo, porque andando os _pecaris_ -sempre em bando basta chumbo grosso para matal-os. Martius deo a -synomimia completa d’este animal no _Glossaria linguarum brasiliensium_. -(Vide a divisão _Animalia cum Synonimis_, pag. 477.) - - -11 (pag. 18). - -Um _ajoupa_ é uma pequena cabana coberta de folhas e abertas por todos os -lados. - -Esta palavra é muito usada nos nossos estabelecimentos de Guyana. Vê-se -estampas de _ajoupas_ em Barrére. - - -12 (pag. 19). - -Em 1542 a fóz do grande rio foi explorada por Aphonso de Xaintongeois. -(Vide o _Manuscripto original de sua viagem_ na Bibliotheca Imperial de -Pariz.) - -João Mocquet, cirurgião francez, guarda das curiosidades de Henrique -IV, visitou suas praias. (Vide o _Manuscripto_ do seo _Relatorio_ na -_Bibliotheca de Santa Genoveva_.) - -Finalmente la Ravardiere fez até lá um reconhecimento. - -João Mocquet foi muito explicito quando tratou do mytho das Amasonas, que -tanto occupou Condamine e o illustre Humboldt. Tudo quanto elle referio -d’estas guerreiras soube do chefe _Anacaiury_, cujo personagem, ou seo -homonymo, encontra-se nas obras de Ivo d’Evreux. - -Governava uma nação no Oyapok ou do Yapoco. - -Mocquet disse a seos leitores, que não poude visitar, como desejava, o -Amasonas «por serem violentas as correntes para os navios, e mesmo para o -seo patacho que ja fazia muita agoa.» - -Todas estas narrações a respeito do grande rio deixou em França -impressões tão duradouras, que o Conde de Pagan, quarenta annos depois, -convidou a Mararin a reerguer projectos esquecidos. Para a conquista -da Amasonia elle queria união com os indios, e por sua vontade devia -o Cardeal ligar-se «aos illustres _Homagues_ (Omaguas) aos generosos -_Yorimanes_ e aos valentes _Tupinambás_.» Nunca certamente os selvagens -receberam tão pomposos nomes! - -Seria mui curiosa, si se achasse, a narração da expedição pelas margens -do Amasonas em 1613, feita por ordem de la Ravardiere e ainda no tempo de -Luiz XIII existia uma copia. - - -13 (pag. 20). - -Entra Gabriel Soares em minuciosas descripções do fabrico d’esta farinha, -de que os indios fazem grandes provisões. - -A especie de mandioca, conhecida pelo nome de _Carimã_, serve de base. - -Esta raiz a principio dissecada a fogo brando, depois ralada, é pisada -n’um almofariz, peneirada e misturada com certa quantidade de outra -qualidade de mandióca na occasião de ser torrada, o que se faz até ficar -muito secca, e n’esse estado é conservada por muito tempo. - -Encontram-se sobre esta industria agricola do Brasil todos os -esclarecimentos necessarios no _Tratado descriptivo do Brasil_, pag. 167. - -Augusto Saint-Hilaire disse com rasão, que a cultura da mandióca tirou a -maior parte dos seos processos da economia domestica dos Tupis, e resumio -concisa e habilmente tudo que ha a dizer-se relativamente ao cultivo da -planta. (_Voyage dans le district des Diamants et sur le littoral du -Brésil_. T. 2—pag. 263 e seguintes.) - - -14 (pag. 21). - -Gabriel Soares está aqui inteiramente de accordo com o nosso Missionario. - -Estas grandes canoas chamavam-se _Maracatim_, por causa do _Maracá_, que, -como protector, trasiam na prôa. _Iga_ chamava-se uma canôa pequena, e -_Igaripé_ uma canoa de cortiça ou casca de arvores, etc. etc. (Vide _Ruiz -de Montoya_, _Tesoro_, na pag. 173.) - - -15 (pag. 21). - -André Thevet, e depois d’elle João de Lery descreveram com exactidão este -genero de ornato, chamado _Araroye_ pelo ultimo d’estes viajantes. - -Coube ao padre Ivo fazer-nos conhecer seo valor symbolico. - - -16 (pag. 24). - -A curiosa narração do indio confirma a opinião de Humboldt, e bem pode -ser que antigamente se encontrassem algumas mulheres cansadas do jugo dos -homens, e por isso entregues á vida guerreira. - -Combina igualmente com as tradicções colhidas por Condamine e sessenta -annos antes do Padre Ivo o franciscano. André Thevet não esteve longe -de vêr n’estes selvagens americanos descendentes directos do exercito -feminino commandado por Pentisilée. - -Humbold disse com rasão, que o mytho das Amasonas era de todos os seculos -e de todos os periodos da civilisação. - - -17 (pag. 25). - -Esta nação não é indicada no _Diccionario topographico, historico, -descriptivo da Comarca do Alto Amasonas_. Recife. 1852—1 vol. em 12. - -Tambem não a encontramos na longa nomenclatura da _Corographia Paraense_ -de Ignacio Accioli de Cerqueira e Silva. Deve estar extincta, e Martius -tambem não a cita no seo _Glossaria_, publicado ultimamente. - - -18 (pag. 25). - -Por este nome, aqui tão frequente, designa-se uma grande aldeia alem de -Tapuitapéra. - -Era tambem o nome de um vasto territorio e de um rio. - -Segundo o padre Claudio—_Cumã_ significa _proprio para pesca_, porem -duvidamos que seja exacta a explicação. - -Debalde procura-se esta palavra no _Glossaria_ de Martius publicado em -1863. - - -19 (pag. 25). - -_Cazal_, o _Diccionario do Alto Amasonas_, e _Accioli_ nada dizem a -respeito d’estes rios, onde comtudo esteve um exercito de 2,000 homens! -Martius trata de uma nação de _Pacajaz_ ou _Pacayá_, no Pará. (Vide -_Glossaria linguarum_. pag. 519.) - - -20 (pag. 25). - -Esta ligeira descripção das casas aereas construidas sobre mangues e -troncos das palmeiras _muritis_ lembra um facto bem curioso, classificado -outr’ora como fabula, e descripto na Relação de Walther Ralegh. - -É bem possivel que haja alguma exageração, porem o facto é authentico, e -deo-se na foz do Orenoco. - -Os _Waraons_ visitados ha perto de um seculo pelo Dr. Leblond, os -_Guaraunos_ descriptos pelo sabio Codazzi, são um e o mesmo povo, salvos -de inteira destruição por sua maneira de viver. - -Os _Camarapins_, cujo desaparecimento acabamos de provar, foram menos -felises. - -Á respeito dos indios das _Iouras_ consulte-se o resumo, que outr’ora -fizemos, dos manuscriptos, por onde o Medico francez provou sua moradia -entre os Waraons. (Vide _Guyana_, 1828, em 18.) - -Codazzi, cujos bellos trabalhos geographicos são conhecidos, citava em -1841, os Guaraunos, como não tendo ainda abandonado suas casas aereas. - -Ha trinta annos, quando muito, vinham elles negociar com os habitantes da -Trindade. (Vide o _Resumen de la Geographia de Venezuela_. Pariz. 1841—em -8.) - -Agostinho Codazzi morreo ultimamente. - -Quanto aos manuscriptos de Leblond, que ja tivemos á nossa disposição, -pertenciam á collecção das viagens, possuida em 1824 pelo edictor Nepveu. - - -21 (pag. 28). - -Este personagem tinha um nome todo portuguez, e era muito dedicado á -nação, a cujos interesses servia. - -O titulo de _Capitão_ afinal estendeo-se a todos os chefes da raça -indigena. - - -22 (pag. 29). - -Este selvagem fanfarrão gabava-se de ter feito morrer o padre Ambrosio, -residente em _Iuiret_, cuja pronuncia segundo Claudio d’Abbeville, é -_Jeuiree_, e ella indica a estranha significação d’este nome. - -O _Pay açu_, o grande padre é Ivo d’Evreux. A palavra _Pay_ quer dizer em -portuguez _Padre_. Pay-_guaçu_, diz Ruiz de Montoya significar Bispo ou -Prelado em Guarany. - -O nome de _Pay_ foi mais facilmente adoptado pelos indigenas pela -sua analogia em designar pessoas graves. Os feiticeiros eram -chamados—_hechizeros_—para servir-nos da propria expressão do -lexicographo hespanhol. - -Da _lingua geral_, modificação do Guarany, _Pay_ significa padre, monge e -senhor. _Pay Abaré Guaçu_ era a designação dos prelados e dos jesuitas. -Os indios ainda chamavam o papa _Pay aboré oçu eté_. - - -23 (pag. 29). - -Não sabemos porque o missionario modifica a orthographia do nome de um -povo, que elle ja escreveo muitas vezes de forma diversa. - -Claudio d’Abbeville escreve _Topinambás_, o author da sumptuosa -entrada _Tupinabaulx_, Hans Staden _Topinembas_, e emfim João de Lery -_Tuupinambaults_. Malherbe suavisando a expressão escreve _Topinambus_. -Foi esta ultima orthographia a que prevaleceo no tempo de Luiz XIV, porem -preferimos a que é adoptada pelos brasileiros. - - -24 (pag. 31). - -Por esta palavra tão vaga, aqui empregada pelo padre Ivo, suppomos que -elle pretende designar os povos mais selvagens ainda que os Tupinambás, -ou então que se entregavam mais especialmente a anthropophagia. - -Nas obras de Humboldt encontra-se uma curiosa definição da palavra -_Canibal_. Notaremos apenas, que 50 annos antes do tempo, em que escreveo -o padre Ivo, designavam-se assim, quasi que exclusivamente, os indios -mais proximos do Equador. - -Na historia da França antarctica por André Thevet, á proposito da madeira -de tincturaria, lê-se o seguinte: «o da costa do rio de Ianaire é melhor -que o da costa de Canibaes e de toda a costa do Maranhão,» (pag. 116 -verso), e mais adiante: «visto que chegamos a estes Canibaes, d’elles -diremos apenas, que este povo, depois do cabo de Santo Agostinho, e alem -até o Maranhão, é o mais cruel e deshumano que em qualquer outra parte da -America. Esta canalha come ordinariamente carne humana, como nós comemos -carneiro.» (pag. 119.) - - -25 (pag. 31.) - -Foi com effeito nas margens do Itapecurú, que se apresentaram os -portuguezes. - -Claudio d’Abbeville disse algumas palavras sobre este bello rio, porem -exagerou o seo curso. - -Nós estamos tão pouco ao facto da geographia d’esse paiz, que Adriano -Balbi se contentou em mencionar seo nome apenas no quadro, que traçou, -dos rios do Maranhão. - -Que prodigiosas mudanças não se terão operado sobre suas margens desde o -tempo, em que o nosso bom frade assim o chamava alterando-lhe o nome! - -Em lugar d’estas florestas, onde andavam errantes os Timbyras, cultiva-se -milho, mandióca, canna de assucar, fumo e algodão, e a producção ultima -d’este genero foi tão abundante, que subio a 35,000 saccas. - -Em França não se conhece o nome das cidades mais importantes, assentadas -á margem d’este rio, e apenas se encontram em nossos livros de geographia. - -Quem já ouvio fallar da pequena cidade de Caxias, a risonha patria de -Gonçalves Dias? Comtudo é uma cidade rica, commercial, banhada pelo -Itapecurú, e distante da capital sessenta legoas. - -Em 1821 era apenas um povoado de 2,400 almas, e hoje este numero -elevou-se a 6,000 habitantes. - -Caxias é o centro do commercio entretido com o Piauhy, e com immensas -solidões de campos de criação de gado, conhecidas pelo nome de _sertão_. - -Edificada para assim dizer no deserto, tem escolas florescentes, um -theatro, estabelecimentos de utilidade publica, que nem sempre se -encontra em cidades mais consideraveis. - -O nome de _Caxias_ tem no Brazil significação politica, porque, em 1832, -travou-se no _Morro do Alecrim_ uma batalha, cujo resultado consolidou a -Independencia da Provincia. Mais tarde, na propria colina, chamada das -_Tabócas_ deo-se o sanguinolento combate, onde foi vencido[BJ] _Fidié_, e -que inspirou a Gonçalves Dias tão energicos versos. - -Seriam necessarios volumes para narrar, ainda que summariamente, as -perturbações, que se seguiram a este acontecimento, e as luctas -tempestuosas, que houveram neste canto ignorado do mundo até 1848, quando -o Dr. Furtado conseguio reprimir a horda, que assolava esta cidade -nascente.[BK] - -A propria naturesa, por si só, é grande n’estas regiões: 20 mil -habitantes formam a população d’este vasto municipio, empregado -superficialmente na agricultura. - -Na distancia, em que nos achamos, estas revoluções tão cumpridas para -serem contadas, assimilham-se ás da idade media, que a historia local as -vezes registra, mas que facilmente esquece visto não ligar-se á algum dos -grandes interesses, que prende a attenção do mundo. - -Com mais justa rasão pode applicar-se isto a villa do Codó, a mais -florescente após Caxias, como ella banhada pelo Itapicurú, e como ella -separada da Capital por um espaço de 60 legoas. - - -26 (pag. 34). - -Este nome do principio do mal, acceito em toda a obra pelo Padre Ivo -d’Evreux e por Claudio d’Abbeville parece ser mais particular ao Norte do -Brazil. - -Martius escreve _Jurupari_, ou _Jerupari_. _Anhagá_ parece ser mais uzado -ao Sul. Não se acha a significação desta palavra no _Tesoro de la lingua -Guarani_. _Angai_ neste precioso Diccionario significa espirito mau. -_Anhanga_ significa hoje apenas um _phantasma_. (Vide Gonçalves Dias, -_Diccionario da lingua Tupy_.) - - -27 (pag. 36). - -Estes povos, antes de reunidos, eram chamados Tabaiares pelos Tupinambás. -Pag. 36. - -Tabajares não significa de maneira alguma _inimigo_, e sim senhores da -Aldeia. (Vide Adolpho de Varnhagem, _Historia geral do Brazil_. T. 1.º -Accioli. _Revista do Instituto_.) - - -28 (pag. 36). - -A denominação, adoptada no Seculo XVII por nossos compatriotas, veio -sem duvida alguma do costume que tinham estes indios de furar o labio -inferior, e mesmo as faces para n’ellas introduzir discos de uma especie -de esmeralda, feitos com muita paciencia, e apreciados como joias -estimaveis. (Vide _Sur l’usage de se percer la lévre inferieure chez -les Américains du sud_, a serie de nossos artigos, inserida com muitas -gravuras no _Magasin pittoresque_. T. 18 pag. 138, 183, 239. 338, 350 e -390.) - - -29 (pag. 36). - -_Mearinense_ é evidentemente um nome creado pelo nosso bom Missionario, e -melhor não o inventaria Rabelais. - -Os Mearinenses eram os proprios Tupinambás que residiam nas ferteis -margens do Meary, d’onde proveio o nome á provincia, no pensar de Cazal. -O Mearim, que offerece um curso de 166 legoas, só é navegavel no inverno, -e as canoas grandes sobem unicamente até 60 legoas. Nasce na _Serra do -Negro e Canella_ aos 8° 2′ e 23″ de lat. e 2° 21′ de long. contados da -Ilha de Villegagnon na bahia do Rio de Janeiro. - - -30 (pag. 36). - -A palavra _Tapuya_ ou _Tapuy_ tem levantado grandes discussões: será o -nome de um povo? (Vide o _Diccionario de Gonçalves Dias_). - -Significará inimigo? Ruiz de Montoya nada diz a tal respeito. Será -preciso crear uma nação distincta da dos Tupys, a qual estes deram tal -nome. Um escriptor, authoridade na materia, Ignacio Accioli não hesita a -tal respeito. - -Quando enumera as principaes divisões da raça Tupica, elle diz: -«outra nação geral, a dos Tapuias, divide-se, como pensam muitos, em -pequenas tribus fallando perto de cem dialectos, e são os _Aymorés_, -os _Potentus_, os _Guaitacás_, os _Guaramonis_, os _Guaregores_, os -_Jaçarussus_, os _Amanipaqués_, os _Payeias_ e grande numero de outras.» -(Vide T. XII da _Revista Trimensal—Dissertação historica, ethnographica e -politica sobre quaes eram as tribus aborigenes_, etc., etc., pag. 143.) - - -31 (pag. 42). - -Este pensamento passou como proverbio na ilha e em Goyana. - - -32 (pag. 42). - -Hans Staden prisioneiro, pelos Tupinambás em 1550, ao sahir do Forte da -Bertioga suscitou grande discussão para saber-se com certeza, quem foi o -primeiro que o tocou. (Vide _la Collection. Ternaux Compans_.) - - -33 (pag. 49). - -Nada tem de extraordinario o nome d’este chefe, porem é necessario -escrevel-o assim com mais exactidão, _Ibira Pitanga_. (Vide _Ruiz de -Montoya_.) Lery escreveo _Araboutan_, Thevet _Oraboutan_. Desapparece -esta celebre madeira cada vez mais das grandes florestas, onde íam -buscal-os os nossos antepassados. - - -34 (pag. 51). - -É um Tabajara quem falla, porem observamos, que a palavra _Carbet_ não -pertence á _lingua geral_. - -O padre Ruiz de Montoya não a inserio no seo precioso _Tesoro de la -lingua Guarany_. - -É usado mais particularmente entre os Galibis e os outros povos de Guyana. - -Resente-se esta expressão da visinhança da nossa colonia. - -Convem fazer certa differenca entre os _Carbets_, ou _casa grande_, e -as _Ocas_ ou _Tabas_, que formavam a architectura rudimentar dos outros -povos do Brasil. - -Ouçamos a este respeito o Padre _du Tertre_. «No meio de todas estas -casas, fazem uma grande, commum, a que chamam _Carbet_, a qual tem -ordinariamente 60 ou 80 pés de comprimento, e é formada de grandes -forquilhas de 12 a 20 pés de altura, infincadas na terra: sobre ellas -collocam uma palmeira, ou outro tronco de arvore muito direito, que serve -de cumieira, e n’ella ajustam caibros, que descem até tocar em terra, -e cobrem-nos com ramos ou folhas de palmeiras, ficando muito escuro o -interior da casa, pois a claridade só entra pela porta, e esta é tão -baixa, que para entrar-se é necessario curvar-se.» - -Estas particularidades pedimos emprestadas a uma obra do anno de 1643, e -se referem especialmente a architectura rustica dos Caraibas insulares. - -Escolhemos este exemplo quasi contemporaneo do livro publicado pelo nosso -autor, porque na realidade não ha grande differença entre os _Carbets_ -das ilhas e os dos continentes. - -Si se escrevesse uma historia d’essas casas de folhas tão rapidamente -construidas, apresentar-se-iam certas variedades conforme os usos e -fins para que se destinam. (Vide a este respeito _Le voyage pittoresque -au Bresil de Debet_, depois as gravuras do livro de _André Thevet_, -publicado em 1558.) - -Haviam pequenos e grandes _Carbets_, aquelles onde os Piagas faziam suas -charlatanerias, e estes onde se formavam os grandes conselhos. - -Tinham estes ultimos a configuração de um dos nossos vastos alpendres, -tendo lugar para 150 ou 200 guerreiros. - -No XVII seculo, na linguagem de nossas colonias, nas ilhas ou no -continente, formar um conselho qualquer era _Carbeter_; o termo era -proprio e acha-se usado por todos os viajantes. (Vide entre outros Biet, -_Voyage de la France équinoxiale_. Paris. 1654, em 4.º) - - -35 (pag. 56). - -David Migan era natural de Dieppe, e como fizeram tantos outros naturaes -da Normandia no fim do seculo XVI, veio tentar fortuna entre os selvagens -do Brasil. - -Encontraram-no os chefes da opposição estabelecido havia muitos annos em -Jupinaram, na ilha do Maranhão. - -Era em toda a extensão da palavra um interprete da Normandia, e sabe Deos -de que reputação gozavam estes interpretes no que dizia respeito ao que -então se chamava mundo civilisado. - -Comparavam-nos até aos selvagens, cujos odiosos festins, dizia-se, que -elles partilhavam. - -David Migan teve as honras do Mercurio francez. (Vide T. 3, pag. 164) - -Regressou á França com Rasilly a quem era muito affeiçoado, e assim foi -bom por ser o unico capaz de traduzir para a Rainha, a longa exposição de -Itapucu. - -De passagem lembramos ter elle tambem assignado o termo de cessão, que la -Ravardiere fez de seos direitos a Francisco de Rasilly, o que indica, sem -duvida alguma, o gozar de consideração excepcional. - -O nome de Migan nos parece ser _nome de guerra_, pois esta palavra na -lingua _tupy_, significa o caldo grosso, que se fazia com a farinha de -mandioca. - -Malherbe, que estava nas Tulherias, quando se apresentaram os indios, -notou a habilidade d’este homem. - -Havia outro interprete chamado Sebastião, muito affeiçoado a Ivo d’Evreux. - - -36 (pag. 65). - -É mui curioso o achar-se em Maranhão, no anno de 1612, um selvagem -fazendo ao padre Ivo o mesmo raciocinio, a que foi obrigado á responder -João de Lery em 1556: «o que quer dizer vós _Mair_ e _Peros_, (francezes -e portuguezes) virdes de tão longe buscar madeira para vos aquecer? Lá -não a tendes?» (Vide _Histoire d’un voyage en la terre du Bresil_, Rouen -1578 em 8.º) - - -37 (pag. 70). - -Largamente descreveo Mr. Humboldt a região dos Otomanos, e as porções -immensas de terra, que reunem estes indios para comer quando lhes falta a -caça e a pesca. - -Pensa o grande viajante, que esta terra secca ao sol, formando tulhas de -bolasinhas, dispostas symetricamente, é procurada pelos selvagens por -conterem particulas animalisadas e que a fazem nutritiva. - -Prova o padre du Tertre, que tanto os indios das ilhas como os do -continente comem terra, embora pense que seja por aberração de gosto. - -«Todos comem terra, mães e filhos, diz elle, e a causa de tão grande -aberração de gosto não pode proceder, penso eu, senão de um excesso de -melancolia.» (_Hist. nat. das Antilhas, habitadas pelos francezes_. T. -2º, pag. 375.) - -Não longe das regiões descriptas pelo padre Ivo, á margem do rio -Ucayale, encontram-se ainda os indios _Pinacos_, cujo nome verdadeiro é -_Puynagas_. Estes indios despresados por seos compatriotas, são afamados -comedores de terra. A este respeito, entre outros, foi publicado um -curioso opusculo de Mr. Moreau de Jonnès com o titulo de _Observations -sur les Geophages des Antilles_. Paris. An. VI. Tem somente 11 paginas. - - -38 (pag. 73). - -Na enumeração das diversas classes da infancia achamos ainda exactidão -no padre Ivo, embora confundisse a letra N com a R: a palavra _menino_ -escreve-se _Curumim_ nos Glossarios brasileiros. (Vide Gonçalves Dias, -_Diccionario da lingua Tupy_. Leipzig, 1858 em 12.) - - -39 (pag. 81). - -Gonçalves Dias chama a virgem _Cunhã mucu_. (Vide _Diccionario_.) - - -40 (pag. 82). - -Este singular uso, fallado por todos os viajantes do XVI seculo, como -acaba de ver-se ainda não estava modificado. - -Não se encontra somente entre os Caraibas das ilhas, e sim tambem em -pleno vigor na Europa, e especialmente entre os Bascos, e era então -chamado a «encubação.» - -As «_Miscellanias historicas_,» publicadas em Orange em 1675, contem -interessantes observações á tal respeito. «Nota-se, diz elle, um -admiravel costume em Bearn. Quando pare uma mulher, anda á pé e o marido -deita-se para guardar o resguardo. Creio que os Bearnenses tomaram este -costume dos hespanhoes, de quem Strabon disse a mesma coisa no livro 3º -da sua _Geographia_.» - -O mesmo faziam os Tibarénienses, como refere Nimphodore, na excellente -obra de Apollonio de Rhodes, livro 2, e os Tartaros segundo o testemunho -de Marco Paulo, cap. 41. livro 2.º - -Esto uso, tão exquisito, e só explicavel si se podesse descer até o -recondito mais intimo do caracter indiano, era religiosamente observado -pelos mais valentes e afamados guerreiros Tupinambás, e provocaria o riso -do homem civilisado, si indagasse a sua origem natural. Torna-se porem -admiravel, para assim dizer, quando se sabe ser tal costume acompanhado -de mui crueis privações, porque o indio, que acaba de ser pae, e que -se condemna a tão ridiculo repouso, não só priva-se de alimentos, como -ainda se entrega a outros supplicios com intenção de evitar que soffra o -filhinho certos males, que elle receia. - -Pela sua ignorancia e superstição julga-se com grande influencia -phisiologica sobre o menino, e muito soffre e com stoicismo afim de -poupar algumas dores ao recem-nascido. - -O homem civilisado das cidades, embora mediocremente intelligente, -abstem-se de esquadrinhar estas ideias cheias de dedicação, embora -inconstantes dos selvagens, e ri-se antes de proferir seo juiso. - -A companheira do indio tambem supersticiosa, approva o que faz seo -marido: soffre, sem queixar-se, verdadeiras dores e entrega-se a um novo -trabalho ainda mais pesado, porque todo o serviço da casa cahe sobre -ella. - -No modo de pensar desta pobre mulher a salvação do recem-nascido depende -do procedimento stoico de seo marido. Nunca podemos saber qual era o -motivo, que obrigava os antigos a entregarem-se a este repouso tão -exquisito, não differente provavelmente do concedido aos americanos. -Carli, cuja engenhosa erudicção explica tantas coisas antigas da -America, não procurou mesmo uma hypothese para descobrir motivo tão -ridiculo. Enganou-se por certo, quando disse serem elles alimentados -abundantemente. (Vide _Lettres Américaines_. Boston et Pariz, 1788, T. 1 -pag. 114.) - -É bom ler-se com cuidado a versão francesa d’esta curiosa passagem. - -Não soube o traductor francez, Febvre de Villebrune, dar real valor ás -palavras _italianisadas_ pelo autor. - -Antonio Biet, é mais justo para com os indios, e menos inclinado á -zombaria do que os seos predecessores, quando descreve a «incubação» -entre os Galibis. - -«O pobre indio, diz elle, soffre muito durante seis semanas, come pouco, -e quando acaba o resguardo, está tão magro como um esqueleto.» - -O mesmo viajante nos mostra o Galibi, sempre paciente, não deixando -a _casa grande_, e nem se animando a levantar os olhos para os que o -rodeiam. (_Voyage de la France equinoccial_, Livro 3.º pag. 390.) - -Descrevendo os costumes de certos Caraibas, não podia o autor da historia -moral das Antilhas esquecer a incubação. - -Rochefort conta as particularidades e especifica sua analogia com uma -ceremonia identica, que vio n’uma provincia de França. - -Este repouso forçado do indio pareceo-lhe muito absurdo, porem não nega -ao pobre paciente o merito do jejum, antes confessa, que durante sua -reclusão apenas lhe dão um pouco de farinha e agoa. (Vide _Historia -moral_ pag. 494.) - -Não proseguiremos n’estas citações, bastando dizer que entre os povos -do Brasil os Tupiniquins, os Tupinacs, os Tabajares, os Petiguaras, e -muitas outras tribus imitam os Tupis, e estes nomes nada mais adiantam. - -Convem comtudo fazer bem saliente o amor paterno entre os indios, -dando-se assim ao mais extravagante dos costumes a sua origem verdadeira. - - -41 (pag. 84). - -_Tamoi_ quer dizer avô na lingua dos Tupinambás: aqui ha alteração de -palavra, proveniente por differença de pronuncia. - -Lê-se no _Tesoro de la lingua Guarany_, base da lexicographia brasileira -_Tamôi_, _abuelo_, _Cheramòi_, _mi abuelo_, _Cherúramôîruba_, _mi -bisabuelo_, _Cherúramôî_, _el abuelo de mi padre_, etc. - -Por sua origem tinham os Tamoyos real proeminencia sobre as outras tribus -da mesma raça. - -No meiado do Seculo XVI habitavam as circumvisinhanças de _Nicteroy_, -ou antes do Rio de Janeiro: como alliados fieis dos franceses foram -expellidos d’esse bello territorio por Salema, e os restos de suas tribus -desceram para as regiões do Norte, onde encontraram seos antigos amigos, -que se haviam refugiado especialmente nos campos de Maranhão. - - -42 (pag. 87). - -Não é de mediocre importancia a especie de vocabulario, aqui offerecida -pelo nosso missionario. - -Os leitores francezes, pouco familiarisados com a philologia americana, -despresaram sem duvida esta collecção de frases, provenientes d’uma -lingua, que comtudo servio de recreiação á Boileau: o mesmo não -acontecerá n’um vasto Imperio, onde as letras são hoje tão honradas. - -Ha muitos annos já, que o Autor da _Historia Geral do Brazil_ provou a -importancia do estudo das linguas indigenas n’uma _Memoria_ impressa -entre as actas do _Instituto Historico do Rio de Janeiro_. (Agosto 1840.) - -O padre Anchieta, a quem se deve a composição da primeira grammatica, -conhecida, da lingua geral, não fallava o Tupy sem uma especie de -enthusiasmo; o padre Figueira o imitou em sua sincera admiração; Laet, -com quanto não manifestasse admiração gabou sua abundancia e doçura, e -nisto foi seguido por Bettendorf. - -Pode dizer-se, que entre todos estes foi o padre Araujo quem melhor fez -sobresahir sua importancia debaixo do ponto de vista philosophico. - -«Como foi, disse algures esse Religioso, que os povos, que a fallaram, -tendo suas ideias limitadas em estreito circulo de objectos, todos -necessarios embora á seo modo de vida, podessem conceber signaes -representando idéas, capazes de indicar o objecto, que não conheciam -antes, e isto não de qualquer forma, e sim com propriedade, energia e -elegancia», accrescentando «sem ter ideia alguma da religião, a não ser -da natural, encontraram em sua propria lingua expressão para patenteiar -toda a sublimidade dos mysterios da religião, e da Graça, sem pedir -emprestado coisa alguma aos outros idiomas.» - -Enganar-se-ia completamente quem julgasse estar hoje esquecida a lingua -usada entre tribus numerosas quando em 1500 Pedro Alvares Cabral -descobrio o Brasil. - -Deixou não só vestigios na Geographia do Brazil, mais tambem ainda hoje -se falla n’algumas aldeias, tendo estreita affinidade com o _Guarany_, -lingua usada na mór parte do Paraguay. Comtudo não é a mesma do seculo -XVI. - -Modificam-se os idiomas dos povos selvagens á similhança dos idiomas dos -povos civilisados, e ainda mais talvez quando uma corrente de ideias -novas vem desvial-os da liberdade do seo andar. - -O _Maya_, o _Quiché_, o _Aztéco_, o _Quichua_, o _Aymara_ não são o que -foram no tempo de Cortez, de Alvarado, e de Pizarro. - -Si o sabio Veytia podesse, ha perto de um seculo, confrontar a differença -enorme, que apresenta o Nahuatl antigo com o que fallavam muitas pessoas -do seo tempo, imagine-se o que não succederia quando se fizesse a mesma -confrontação entre a lingua Tupy, e o moderno Guarany. - -Esta ultima lingua, tão em uso no Paraguay, não é mais fallada com a -pureza da sua origem, segundo diz o Sr. Beaurepaire de Rohan, si não -pelos _Cayuas_, das nascentes de Iguatiny. - -São pois mui preciosos todos os livros, que tratam da lingua antiga -debaixo do ponto de vista grammatical. - -Debaixo d’este ponto de vista, as viagens d’Hans Staden, de Thevet, e -de Lery tem mais valor do que as Relações de Claudio d’Abbeville e Ivo -d’Evreux. - -Acham-se todos os promenores apreciaveis á este respeito no nosso -opusculo publicado sob este titulo—_Une fête bresilienne célébrée á Rouen -en 1550. Suivie d’un fragment du XVI siécle roulant sur la Théogonie des -anciens peuples du Brésil e des poésies en langue Tupique de Christovam -Valente_. Pariz, Techener, 1850, gr. em 8.º - -O sabio Hermann E. Ludewig não conheceo o vocabulario apresentado pelo -padre Ivo, ou pelo menos não tratou d’elle. (Vide _The literature of -American aboriginal languages_. London, 1857, in 8.) - -Finalmente tem se feito n’estes ultimos tempos trabalhos de tanto folego, -merecendo o primeiro lugar os do illustre _Martius_. - -Um distincto litterato brazileiro, o Dr. Gonçalves Dias, que já publicou -em _Leipzig_ o _Diccionario da lingua Tupy_ (1858) foi de novo estudal-o -nas profundas florestas do Amazonas. - -A philologia brasileira ainda fará grandes progressos. - - -43 (pag. 94). - -Aqui ha falta sensivel em nosso texto, por ter indubitavel o nosso -viajante occupar-se largamente d’uma raça, que com os _Morobixabas_ -representam o papel principal na vida civil e politica dos Brasileiros. - -Simão de Vasconcellos nas suas—_Noticias do Brasil_—nada deixa a desejar -a tal respeito, e para elle enviamos nossos leitores, observando apenas -que os _Piayes_, os _Pagé_ ou _Pagy_ somente alcançavam a prodigiosa -influencia, que gozavam, submettendo-se á experiencias e a jejuns tão -rigorosos a ponto de arriscarem sua vida, obtendo finalmente o titulo, -que tanto ambicionavam. - -São as mesmas essas provas ou experiencias desde a embocadura do Orenoco -até as do Rio da Prata. - -Quando o candidato estava ja muito enfraquecido pelo jejum, entregavam-no -ás mordiduras das formigas, abarrotavam-no de bebidas asquerosas, cuja -base era o succo do tabaco, e algumas vezes defumavam-no a ponto de -perder os sentidos. - -Si resistia a taes supplicios, era igual senão superior aos guerreiros. - -Deixou-nos Vasconcellos a respeito do que se pode chamar _Collegio dos -Piagas_, á similhança do _Collegio dos Druidas_, certas particularidades -muito minuciosas, applicaveis principalmente ás Provincias do Sul. - -No Norte os _Pages Aybas_ eram os feiticeiros afamados astrologos, ou -melhor _tempestuosos_, a que nada podia resistir. Sob sua dependencia -estavam os astros, e sob sua obediencia o sol e a lua para cumprir suas -ordens: desencadeiavam os ventos e levantavam tempestades. Os mais -ferozes animaes, como as onças e jacarés, obedeciam-no. - -Para alcançar aos olhos do publico tal poder recorria o Pagé Aybas a um -meio, que nunca falhou, isto, é a _herva dos feiticeiros_ ainda mais -poderosa do que a da Europa, o _Paricá_, cujos effeitos terriveis foram -descriptos pelo Dr. Rodrigues Ferreira. (Vide _Memorias das Academias -das Sciencias de Lisboa_.) - -Mastigava-se o _Paricá_, e com isto fazia-se um unguento, uzado para -uncturas. - - -44 (pag. 100). - -Ha aqui um pequeno erro typographico, que convem corrigir: leia-se pois -_rocou_. - -Em toda a America Meridional costumavam os selvagens tingir a pelle de -vermelho alaranjado, ou de negro azulado por meio do _rocou_, _Bixia -Orellana_, ou _Genipapeiro_ (_Genipa Americana_.) - -O Padre Ivo descrevendo com exactidão o fructo d’esta arvore, em -abundancia no Maranhão, diz—o summo claro, e limpido que se extrahe -della, fica muito negro logo depois da sua applicação, e assim -conserva-se por 9 dias (Vide a este respeito _Humboldt_, _Voyage aux -régions équinoxiales_.) - - -45 (pag. 101). - -Serve-se aqui Ivo d’Evreux de uma expressão impropria designando pela -palavra _Thon_ o que se chama _bicho de pé_, _niga_, _pulex penetrans_, -dos entomologistas. Bem pode ser que a palavra seja da _lingua geral_. -Encontra-se com a mesma accepção em Thevet, que a escreveo em 1558 (Vide -_France antarctique_. pag. 90). È muito conhecido este insecto, e por -isso desnecessario é demorarmo-nos descrevendo os males, que produz. -(Vide entre outros Naturalistas, o veridico Auguste de Saint-Hilaire, -_Voyage dans l’interieur du Brésil_. T. 1.º pag. 35 e 36). - - -46 (pag. 106). - -Realisou-se completamente a prophecia do bom Padre. - -Poucas são as regiões do mundo, que, como esta, tenham sido exploradas em -beneficio da sciencia. - -Alem das _Plantas uteis do Brazil_, devidas ao nunca assás chorado -Augusto de St. Hilaire, ha hoje a _Flora brasiliensis_ do illustre -Martius, tambem autor da _Materia-medica_ deste paiz. - -Não desejamos cançar o espirito do leitor com uma arida nomenclatura de -livros especiaes. - -Contentamos-nos apenas dizendo, que muito tem os brazileiros concorrido -para estes trabalhos scientificos, citando somente as _Memorias_ do -Dr. Freire Allemão, recentemente publicadas, e a grande collecção, -infelizmente não acabada, da _Flora Fluminensis_. - - -47 (pag. 108). - -Esta molestia, tão cruel e tão similhante á syphilis, se não é a propria -syphilis, tambem acha-se descripta na _France antarctique_ de André -Thevet, livro publicado em 1558 (vide pag. 86). João de Lery tambem -descreveo seos symptomas. Está claro, que não se pode attribuir aos -negros de Guiné molestia tão geral entre os Americanos. - - -48 (pag. 114). - -O Padre Ivo é rigorosamente exacto no que diz á respeito dos funeraes dos -Indios, e com elle concordam em tudo Lery e Thevet, dando este ultimo uma -excellente estampa representando um Indio prestes a ser sepultado. (Vide -pag. 82 v.) - - -49 (pag. 114). - -Não se esqueciam os Tupinambás de collocar, entre as suas singulares -previsões para o morto, um pouco de tabaco, carne, peixe, raizes de cará -e de farinha de mandióca. É rigorosamente verdadeiro tudo o que o padre -Ivo conta n’este capitulo, como se pode vêr nas estampas que apresentam -Thevèt na _France antarctique_, e Lery na sua _voyage_. - - -50 (pag. 117). - -Os Tapuytapéras, cujo nome deviam á uma localidade do Maranhão, tinham -cabellos cumpridos. Pertenciam á raça Tupy, pois que _Migan_, o -interprete natural de Dieppe, entendia sua linguagem, e o mesmo succedia -aos de Commã, cuja aldeia tinha indios com este nome. - -Os Cahetés, no seculo XVI, constituiam uma nação essencialmente bellicosa -occupando a maior parte do territorio de Pernambuco. Fallavam a lingua -Tupica, ou _lingua geral_. Encontram-se as mais curiosas particularidades -á respeito de sua organisação interna no _Roteiro do Brasil_, manuscripto -existente na Bibliotheca Imperial de Pariz. - -Hoje está sabido, que este livro, tão notavel, composto em 1587 por -Gabriel Soares, é o trabalho mais completo, que existe sobre as diversas -tribus do Brasil existentes no tempo do padre Ivo. - -Passados muitos annos a Academia Real das Sciencias de Lisboa, -reconhecendo a sua importancia, imprimio-a nas suas _Noticias das -nações ultramarinas_, e depois o Sr. Francisco Adolpho de Varnhagem, -colleccionando todas as copias d’esta mesma obra, embora sob diversos -titulos, publicou uma nova edicção superior á todas, sob o titulo de -_Tratado descriptivo do Brasil em 1587, obra de Gabriel Soares de Sousa, -senhor de engenho na Bahia, nella residente dezesete annos, seo vereador -da Camara_. _Rio de Janeiro._—1851 em 8.º - - -51 (pag. 118). - -O padre Ivo quando quer designar o tubarão, escreve impropriamente -_requin_, quando na primitiva era _requiem_. Pode bem ser, que o nome -imposto a este peixe tão voraz provenha da rapidez com que mata. - - -52 (pag. 120). - -O _Maracá_ era um instrumento symbolico, usado tanto nas festas -religiosas como nas profanas. Thevet, o guarda das curiosidades do Rei, o -descreveo muito bem em seos manuscriptos, inedictos, e como sei que não -será desagradavel para aqui transcrevo as suas palavras: - -Tendo nas mãos um ou dois _maracás_, que é um fructo grande, de forma -oval, similhante ao ovo de abestruz, e da grossura de uma abobora, mais -agradavel á vista do que ao paladar, pelo que ninguem o come, fazem com -elles muitos mysterios e superstições tão extravagantes como incriveis. -Cavam o fructo, enchem-no de milho graudo, amarram-no a ponta de uma -haste, enfeitam-no com pennas e enterrando a outra ponta, fica ella -em pé. Cada casa tem um ou dois Maracás, que respeitam como si fosse -_Tupan_, trazendo-o sempre na mão, quando dançam e fazendo chocalhar. - -Pensam que é _Tupan_ que lhes falla (Manuscripto de André Thevet, -conservado na Bibliotheca Imperial de Pariz.) - -Hans Staden e Lery, Roulox Baro escreveram largas paginas a respeito do -Maracá, e o proprio Malherbe falla dos que ouvio em Paris por occasião do -baptismo de tres indios sendo padrinho Luiz XIII. - -Chegando a Pariz, e residindo no Convento dos seos protectores, os indios -revestidos dos seos bellos adornos, e com o _maracá_ em punho, excitaram -muito enthusiasmo, a ponto de haver muita paixão pela sua dança e pela -sua propria musica. - -Seria muito curioso si hoje se achasse a Sarabanda composta em honra -d’elles pelo famoso Gauthier. Malherbe escreveo ao celebre Peirese -dizendo tel-a mandado á Marco Antonio «como excellente peça digna de -ouvir-se» (Vide _Correspondance_, pag. 285, antiga edicção.) - -Ainda, passadas 12 paginas Malherbe tratou da musica então em voga, e -do seo auctor, dizendo «ser Gauthier considerado o primeiro no officio, -ignorando porem si sahira bem, e si o gosto da Provincia se conformará -com o da Côrte.» - -Não se contentaram somente de proporcionar aos pobres selvagens -distracções ligeiras, pois procuraram obrigal-os a residir em França. - -Diz o poeta pag. 275 «os Capuchinhos, para obsequiarem completamente -estes pobres selvagens, resolveram algumas beatas a casarem-se com elles, -e ja deram começo a excursão d’este plano.» - -Emquanto porem eram bem acolhidos os guerreiros do Maranhão, suas -mulheres não gozavam iguaes favores. - -Uma certa Princesa cujo nome calla o poeta, manifestando opinião -singular, dizia «que para elles tinha muita satisfação de dar-lhes casa e -comida, mas que ás senhoras, suas mulheres, não podiam ser senão...» bem -me entendeis, e por isso não podia recebel-as em sua casa. - - -53 (pag. 120). - -É mui curioso o saber-se, que esta expedição exploradora ás margens do -Mearim, reconheceo logo serem essas terras essencialmente proprias para -a plantação da canna de assucar, a que se empregam todos os braços de -15 annos para cá, sendo esta revolução agricola devida á influencia do -Dr. Joaquim Franco de Sá. A charrua despresada por tão longos annos hoje -sulca este solo admiravel. - - -54 (pag. 122). - -Deve lêr-se _Mutum_ sendo a especie mais pequena designada pelo nome de -_Mutum Pinima_. (Vide _Diccionario Tupy_ de Gonçalves Dias.) - -Trata-se aqui de Hocco _Crax Alector_, caça mui procurada. - -A imperial sociedade de acclimatação emprega actualmente louvaveis -exforços para naturalisar em França este passaro do Brasil e da Goyana. - - -55 (pag. 122). - -É uma linda especie de periquito, conhecida no Brasil pelo nome de _Tui_. - -Forma ás vezes bandos tão grandes a ponto de ser um dos flagellos da -agricultura. - - -56 (pag. 123). - -É a palmeira chamada—_Tucum_—pelos brasileiros. - -Consulte-se a magnifica _Monographia das palmeiras_ por Martius. O -_Tucum_ tem fibras verdes e macias, das quaes se faz excellente fio, -proprio para cordas. - - -57 (pag. 123). - -Ivo d’Evreux não hesita com sua sinceridade habitual a formar um verbo -derivado da lingua indigena. - -Desde as margens do Orenoco até as do Rio da Prata era o _Cauim_ -preparado em grande quantidade. - -Tinha o mesmo nome em toda a parte esta especie de cerveja, ou talvez -melhor de cidra, quer fosse preparada com milho mastigado pelas mulheres, -quer com mandióca cajú ou jabuticaba. - -Encontramos este fabrico e nome até entre os Araucans. (Vide a importante -obra, do Chili, do Sr. Claudio Gay.) - -A palavra _cauin_ atravessou espaços immensos, são os mesmos em toda a -parte os processos para o seu fabrico, o que prova estreito parentesco -entre os povos mais distantes, uns dos outros. - -Hans Staden, Lery, Thevet tem apontado seos abusos, e chamamos a attenção -dos nossos leitores para as suas curiosas narrativas. - -O que os nossos antigos viajantes chamavam _Cauinage_ era afinal uma -solemnidade, cujo sentido religioso não conhecemos. - -Precediam ou succediam estas orgias ás grandes expedicções. - -O «vinho da Europa» se chama hoje _Cauin Pyranga_, e a aguardente tão -fatal aos indios, _Cauin Tata_, «bebida de fogo.» - - -58 (pag. 123). - -Descreve com minuciosa curiosidade João de Lery esta festa solemne, na -qual se infiltrava o _espirito de coragem_, aos guerreiros prestes a -partirem para uma expedição. - -Uma das estampas do seo livro representa até esta ceremonia. - -Entre todas as tribus da raça tupy o tabaco é considerado como planta -sagrada. - -Reunimos tudo que se sabia ha alguns annos á respeito da origem do -_Petum_ na carta, que dirigimos a Mr. Alfredo Demersay, sobre a -introducção do tabaco em França, (Vide _Etudes economiques sur l’Amerique -meridionale. Du Tabac du Paraguay_. Pariz. Guillamin. 1851 em 8.º) - - -59 (pag. 125). - -O nome d’esta nação tão pouco conhecida, e que se apresenta á penna do -padre Ivo, é uma garantia da exactidão das suas narrações. - -Ainda em 1817 existiam alguns _Tramembez_ entre os trabalhadores brancos -do Ceará: cultivavam mandióca e residiam na villa de _Nossa Senhora da -Conceição d’Almofalla_, onde haviam muitas salinas. (Vide Ayres Casal, -_Corographia Brasilica_, T. 2º, pag. 235.) - -Gaba o padre Ivo o valor e a industria d’estes indios, inimigos -encarniçados dos Tupinambás. - - -60 (pag. 125). - -Tratamos d’este famoso indio quando elle se revestio do commando. - -É a figura indigena mais predominante nas duas obras do padre Claudio -d’Abbeville e padre Ivo. - -Na _lingua geral_ a palavra _japim_ é o nome de um lindo passaro, de -pennas amarellas e negras, que anda em numerosos bandos e que em toda a -parte faz tão lindos ninhos. - -Pode tambem dar-se-lhe outra significação. _Japy_ significa na lingua -indigena do Maranhão, «o choque, o golpe.» (Vide Gonçalves Dias, -_Diccionario_.) A primeira explicação é a unica adoptada. Japy-uaçú era o -que se chamava um _Mitagaya_, um grande guerreiro. - - -61 (pag. 126). - -Deixa-se o padre Ivo levar muito pelas recordações da Europa. - -_Jeropary-açú_, de que tratam escriptores portuguezes, nada tem de commum -com um principe ou um rei, taes como eram representados no novo-mundo por -convenção hierarchica. - -Este erro ja havia sido anteriormente commettido por André Thevèt na sua -_França antartica_ e na sua _Cosmographia_. O historiador de Portugal, La -Clede, que vivia no seculo XVIII foi mais longe ainda na enumeração dos -pomposos titulos, que dá a alguns pobres chefes de tribus. - - -62 (pag. 127). - -Com o nome de _cabaças_ conhece-se geralmente no Brasil vasilhas -ordinarias, feitas com o fructo da cabeceira. - -Em Venezuella chama-se _Tutumas_. - -Algumas destas vasilhas naturaes mostram delicados ornatos, cores -inalteraveis pela agua e grande brilho. (Vide a este respeito Claudio -d’Abbeville, _Histoire de la mission des péres Capucins_.) - - -63 (pag. 128). - -É isto confirmado por Magalhães de Gandavo, o primeiro escriptor -portuguez, que escreveo uma historia regular do Brasil em 1576. - -Este amigo de Camões recorda a expressão indigena de que se serve o padre -Ivo, porem não partilha sua opinião, antes crê ser o ambar um producto -vegetal formado no fundo do mar. O que é certo é, que nos seculos XVI -e XVII o encontro, quasi sempre casual, de enormes pedaços de ambar, -arremeçados pelas ondas em praias não exploradas, enriqueceo muita gente. - - -64 (pag. 131). - -Debalde procuramos este nome no livro de Ayres do Casal, e no Diccionario -de Milliet de Saint Adolphe. - -A região habitada pelos Cahetés de que trata, sabemos com certesa ser na -provincia de Pernambuco. - -A palavra _Cahetés_ significa _floresta grande_, e se applica a diversas -localidades. - -Foram os _Cahetés_, que em 1556 mataram e devoraram o primeiro Bispo do -Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha. - -Este sabio prelado, natural de Setubal, e educado na universidade de -Pariz, regressava á Lisboa, onde ia queixar-se do governador da Bahia. - -Mostra-se ainda hoje a colina, onde elle morreu, e não cresce ahi planta -alguma, segundo a crença do povo. (Vide Adolpho de Varnhagem—_Historia -Geral do Brazil_.) - -O livro de Gabriel Soares contem tudo quanto se deseja á respeito dos -Cahetés, indios considerados geralmente como invensiveis guerreiros, e -que se gabavam de habeis musicos. - -A exploração do _Uarpy_, de que aqui se trata, e emprehendida pelo Sr. de -Pezieux é uma prova evidente do cuidado, que havia de explorar-se esta -região, percorrendo-se de N. a S. - - -65 (pag. 131). - -Estas minas de oiro, que se esperava encontrar no Maranhão em 1613, -existem hoje na serra de _Maracassumé_. - -Encontra-se o metal precioso sobre tudo em _Piranhas_, (districto de -_Santa Helena_) nas cabeceiras dos rios Pindaré, Gurupy, Cabello de Velha -(_Cururupu_) Prata (Santa Helena) na Revirada, nas margens do Tomatahy, -etc., etc., porem em pequena porção. - -Existe cobre na Chapada no lugar _Fazendinha_ e no Alto Pindaré. - -Ferro existe em mais lugares, nos montes de Tirocambo e em Pastos-Bons. - -Suppõe-se haverem minas de estanho, porem ainda não se sabe com certesa. - -Encontra-se tambem o carvão de pedra, precioso mineral no estado -actual da industria: depararam-se ja com alguns indicios no canal do -Arapapahy, e affirma-se haver uma mina na distancia de meia legoa do -Codó, na fazenda de Santo Antonio, cujas amostras provam ser de superior -qualidade. Dizem haver tambem em Vinhaes. - -Em Sam José dos Mattões encontram-se cristaes de rocha e pedras -semi-preciosas, e saphiras em Sam Bernardo da Parnahyba. - -De passagem lembramos que as primeiras minas de ouro, ou para melhor -dizer, os primeiros veios de ouro, destinados a enriquecerem o Brasil, -somente foram descobertos em Minas-Geraes, no anno de 1595. - -Pelas Provincias do norte não conheceo a Metropole as riquezas -metalicas d’este vasto territorio, onde desemboccam o _Rio doce_, e o -_Jequitinhonha_. - -Sabe-se que este ultimo rio que toma o nome de Belmonte na occasião em -que se lança no mar, pouco distante do primeiro, com o andar dos tempos -deo á corôa enorme quantidade de diamantes. - -Estas pedras, encontradas em 1729, principalmente no valle cercado -de alcantiladas rochas, chamado pelos indios—_Ivitur_, e pelos -portuguezes—_Serro do Frio_, não eram completamente despresadas pelos -indios, pois seos filhos as ajuntavam, e com ellas brincavam. - -No Maranhão não ha diamantes. - - -66 (pag. 141). - -Mostra-se o padre Ivo aqui mui parco em suas descripções, porem deve-se -desculpal-o por não ser naturalista como um theologo do seo tempo. Foi -ainda mais parco o seo predecessor. - -O que disse de algumas plantas do genero _mimosa_ indica a sua -preoccupação á respeito de certos phenomenos naturaes. - -As qualidades maleficas, que reconhece no succo do Cajú, de que se -fabrica uma especie de cidra, são mui exageradas. - -Diremos de passagem, que a palavra _Cauin_ deriva-se do nome indigena -d’esta arvore. _Caju-y_, licor de _Caju_. - - -67 (pag. 145). - -Á flor da paixão (_Grenadilla cœrulea_) na qual a imaginação prevenida -encontra santos attributos, gozava então de prodigioso favor. Foi -descripta em varias obras, e gravada exagerando-se os pontos de -similhança, que podia ter com os instrumentos do supplicio de Jesus -Christo. - -Ivo d’Evreux encontrou nos campos do Brasil magnificas flores d’estas, e -mostrou-as aos amadores. Alguns annos depois elle se teria aproveitado da -descripção poetica, que d’ella fez o poeta popular Santa Rita Durão no -poema intitulado _Caramuru_. - -Lembramos aos amadores de flores phantasticas uma gravura do seculo -XVII, mui curiosa, mostrando a planta com o seo tamanho natural na obra -_Antonii Possevini Mantuani Societatis, Jesu cultura ingeniorum, examen -ingeniorum Joannis Huartis. Expenditur Coloniæ Agrippinæ_. 1610 em 12. - - -68 (pag. 146). - -O guará (_Ibis rubra_, ou _Tantalus ruber_) desappareceo em parte de -varias localidades do littoral, onde costumava expandir sua brilhante -plumagem, sujeita, conforme a idade, a diversas modificações. - -Na obra curiosa de Hans Staden, publicada na Allemanha em 1557, vê-se -qual é o papel, que representa esta ave na industria indigena. - -Formavam os Tupinambás em tempo certo verdadeiras expedições para -procurar as pennas d’ellas, sempre raras, afim de servirem nas festas com -que as tribus se obsequiavam reciprocamente. - -Em caso de necessidade eram substituidas por pennas de gallinhas, tinctas -com uma preparação vermelha de _Ibirapitanga_, ou pau-brasil. - -Actualmente refugiou-se o guará nas margens, pouco frequentadas, do rio -de Sam Francisco, e principalmente nas desertas regiões do Rio Negro. -Ainda tambem encontram-se algumas na _lagoa dos patos_, e em _Guaratuba_. -(Vide _le second voyage d’Aug. St. Hilaire_. T. 2º, pag. 222.) - - -69 (pag. 152). - -É impossivel aos que não leram as obras da idade media interpretar bem o -sentido d’esta frase. - -O livro conhecido sob o nome de _Phisiologus_ gozava ainda de certo -credito no tempo do padre Ivo de Evreux. Quem quizer informar-se d’isto -minuciosamente leia o precioso resumo d’esta curiosa obra, publicada -pelos Rvds. padres Cahier e Martin, sob o titulo _Melanges d’Archéologie, -d’histoire et de litterature_. 4 vol. in-fol. - - -70 (pag. 156). - -As mulheres Tupinambás, que assim cantavam para attrahir as formigas, e -activar a caça d’estes insectos, não o faziam somente para destruil-as, -ou para resguardar suas plantações de milho de uma invasão invencivel. - -As formigas grandes torradas eram consideradas como uma das golodices -mais preciosas, cuja receita foi por ellas ensinada a alguns colonos -do Sul, e sem duvida não será desputada pelos nossos modernos Brillat -Savarin. - -Assim como os Arabes comem ainda hoje gafanhotos, conservados em sal ou -pela dissecação, e os Guaraons das margens do Orénoco apreciam muito -as larvas da palmeira Muriti (não fallando de outra comida da terra do -mesmo genero), assim tambem os nossos selvagens guardam grandes provisões -d’estes insectos para sua nutrição. - -Augusto de Saint-Hilaire, o mais verdadeiro viajante, que percorreo o -Brasil, achou ainda em vigor o costume de se comer formigas assadas. - -Depois de ter affirmado ser muito apreciado esse manjar no Espirito -Santo, pelo que os habitantes de Campos, sempre rivaes dos da Cidade -da Victoria, os chamavam _Tata Tanajuras_, «comedores de formigas», -accrescentou «eu mesmo comi um prato d’estes animaes, preparados por uma -mulher Paulista, e não lhes achei mau gosto.» (Vide _Le second voyage au -Brésil_. T. 2.º pag. 181). - -Martim Soares de Souza, com rasão chamado o Gregorio de Tours dos -Brasileiros, é mais claro a respeito do proveito que os indios tiravam -das formigas como alimento. - -Copiamos aqui o que elle tão curiosamente disse. Depois de haver fallado -da especie grande, a que chamam Içans, escreveo—«_E estas formigas comem -os indios, torradas sobre o fogo, e fazem-lhe muita festa; e alguns -homens brancos andam entre elles, e os mistiços as tem por bom jantar, e -o gabam de saboroso, dizendo que sabem a passas de Alicante: e torradas -são brancas dentro._» - - -71 (pag. 156). - -O pretendido cão, de que aqui falla o nosso Missionario, está muito longe -da raça canina: é apenas o _papa-formigas_, chamado pelos indigenas -_tamanduá_, e pela sciencia _Myrmecophaga jubata_. - -O naturalista Waterton, que com tanta curiosidade estudou os quadrupedes -do novo mundo nos proprios lugares, onde com plena liberdade se entregam -aos seos instinctos, fez excellente descripção d’este animal. - -Ha no Brasil muitas especies de papa-formigas, sendo rarissima a chamada -pelos portuguezes _Tamanduà-cavallo_: parece ter sido este sobrenome o -causador de haver o padre Claudio d’Abbeville errado, quando disse ser o -_papa-formigas_ do tamanho de um cavallo. - -A palavra india, que designa este curioso animal, é composta de duas -Tupis—_taixi_, «formiga,» e _mondê_ ou _mondâ_, «tomar.» - - -72 (pag. 157). - -Deve escrever-se _Taranyra_, cujo nome pertence a um pequeno lagarto. -Falla-se aqui do _Tiú_ (_Tupinambis monitor_). - -É excellente a carne d’este reptil, e muito havia de concorrer para -tornal-a saborosa a preparação culinaria tão gabada pelo Padre Ivo -d’Evreux. - -A repugnancia d’esse bom Padre para taes comidas, não é de fórma alguma -partilhada pelos descendentes dos Europeos, acostumados ás melhores mezas. - -A carne de Tui pela sua côr e maciesa muito assimilha-se á da gallinha -mais preciosa, e por isso apparece nas melhores mezas do Brasil. - - -73 (pag. 162). - -O nosso autor quer fallar da _Aranha caranguejeira_, (_Aranea -avicularia_) porem aqui enganou-se. Exagera muito as dimensões d’este -insecto, na verdade nojento, como se pode vêr em todas as collecções -de entomologia. Não é verdade dizer-se que não fabricam fios para suas -teias: a sua picada não mata, porem envenena. Na lingua Tupy chama-se -_Nhandu-Guaçu_ ou de _Jandu_. - - -74 (pag. 163). - -O que nos diz o bom Religioso do barulho da cigarra denota gosto de -observação na historia natural, muito raro n’aquella epoca, mas convem -não confundir a cigarra brasileira com o insecto assim chamado na Europa. - - -75 (pag. 165). - -Na lingua _Tupi_ escreve-se _Okiju_. (Vide _Martius_, _Glossaria ling. -bras._ pag. 465). - - -76 (pag. 168). - -Ivo d’Evreux confesse-se, está aqui muito inferior á seo contemporaneo o -Padre du Tertre. - -É verdade porem tudo quanto elle diz da luz dos _pyrilampos_. - -A entomologia estava então muito pouco adiantada para que houvesse uma -classificação entre os insectos, e não temos habilitações para preencher -esta falta. Actualmente conhece-se no Brazil oito especies de pyrilampos -a saber: - - _Lampyris crassicornis_, - _ « signaticollis_, - _ « concoloripennis_, - _ « fulvipes_, - _ « diaphana_, - _ « hespera_, - _ « nigra_, - _ « maculata_. - -Pode tambem juntar-se a estes lindos insectos a _lucidota thoraxica_. - - -77 (pag. 169). - -É muito exacto, e as abelhas do Brazil não tem aguilhão: eis o que diz um -observador sabio e veridico. - -Depois de haver affirmado, como o Padre Ivo, que as abelhas não picavam, -disse Augusto de Saint Hilaire «uma especie chamada _tataira_ deixa, -segundo dizem, escapar pelo anus um liquido ardente; e por isso é só á -noite que se colhe o seo mel.» - -As especies chamadas _uruçú-boi_, _sanharó_, _burá_, _bravo_, _chupé_, -_arapua_ e _tupi_ se defendem, quando são atacadas, mas parece não terem -aguilhão, limitando-se a morderem como fazem as outras. - -É muito liquido o mel das diversas especies, e a cera tem a côr parda -muito carregada, não se podendo até hoje conseguir tornal-a branca, como -a da Europa. - -Spix e Martius dão curiosas informações a respeito d’estes uteis -insectos, que completam as do nosso grande botanico. (Vide _Voyage dans -les provinces do Rio de Janeiro e de Minas Geraes_. T. 2.º, pag. 371 e -seguintes.) - - -78 (pag. 176). - -Não ha talvez no mundo região alguma, que tenha maior variedade de -macacos do que o Brazil. - -Creio que aqui se trata primeiro da _guariba_, ou _mycetes ursinus_, -e depois do macaquinho _stentor_, que intentou descrevêr o nosso bom -Missionario. - -É provavelmente d’esta especie a descripção tão agradavel e tão animada, -feita pelo nosso velho escriptor. - -Convem observar porem que o Padre Ivo fez-se echo de uma crença popular -muito vulgar no seculo XVI. - -Esta especie de legenda das florestas, muito mais applicavel aos macacos -da Africa e da Asia do que aos do novo-mundo, não se extinguio ainda -de todo nos campos da America Meridional, e mostraram a M. Castelnau -uma india, que julgava ter escolhido seo marido entre os macacos das -florestas (Vide _Expedition dans les parties centrales de l’Amérique du -sud, de Rio de Janeiro á Lima et de Lima au Pará, exécutée par ordre du -governement français_. Paris 1851, _partie historique_. 5 vol. in 8.º) - - -79 (pag. 177). - -Basta ter-se vivido nas florestas habitadas por macacos para conhecer-se -a exactidão do que escreveo o Padre Ivo. - - -80 (pag. 180). - -Ha aqui com certesa erro, ou então exageração. - -O Padre Claudio d’Abbeville, que descreve a mesma ave de rapina (pag. -232) julga ser elle «duas vezes mais corpolento do que a aguia, ter a -perna da grossura de um braço, e a pata em fórma de unhada.» - -Poderia ser esta descripção do Condor, porem não existe esta ave na -America do Sul. - -Diz o Coronel Ignacio Accioli ter o _gavião real_ tanta força a ponto de -fazer parar em sua carreira um viado por mais forte que seja. - -É tão phantastica a descripção do Padre Ivo, que á primeira vista se pode -applical-a ao abestruz americano de _Nandú_, que se encontra somente no -Ceará e Piauhy. - -Um escriptor contemporaneo, Gabriel Soares, tantas vezes citado, -restabelece a verdade fallando do _Ura-açu_ disse «são passaros, como os -milhafres de Portugal, sem differença alguma, negros e de azas grandes, -de cujas pennas utilisam-se os indios para emplumarem suas flexas, e -vivem de rapina.» (Vide _Tratado descriptivo do Brasil em 1587_. Rio de -Janeiro.—1851 1.º vol. in 8.º pag. 232.) - -Lembramos de passagem, que debaixo do ponto de vista scientifico a parte -ornithologica é muito imperfeita, embora a bellesa do estylo do nosso -velho viajante. - -O que diz, por exemplo, o Padre Ivo do passaro mosca, ou do colibri, -é inteiramente inexacto, pois elle não tem o tal canto agudo, que faz -lembrar o grito da cotovia. - -Confundiram-se as recordações com a distancia. - - -81 (pag. 181). - -Ivo de Evreux quer dizer, que os Indios se _fazem galans_, preparando-se -com pennas de papagaios. - -Faziam os Tupinambás com estas pennas não só mantos, diademas e -perneiras, mas tambem cortavam bem miudinhas as pennas pequenas e -coloridas d’estes passaros, e cobriam com esta pennugem o corpo, e n’elle -grudavam-na com certa gomma. - -Este enfeite selvagem e singularmente original ainda é muito usado e -apreciado em certas tribus. - -Segundo conta João de Lery durou mais de tres seculos. - -A viagem pittoresca de Debret apresenta uma amostra. - - -82 (pag. 185). - -Basta, é bastante. Os hespanhóes e os portuguezes conservaram a palavra -_bastar_. - - -83 (pag. 185). - -Já pagamos justo tributo de saudade a este Religioso, tão cheio de -bondade como de zelo, cuja sepultura no antigo cemiterio do pequeno -Convento não é sabida em Maranhão. - -Como indica o seo sobrenome de Religião, nasceo o Padre Ambrosio na -Capital da Picardia, «de parentes abastados, diz o manuscripto dos -elogios, e que lhe deram educação conforme permittiam seos negocios.» - -Depois de haver estudado na Sorbona, quando estava prestes a receber a -sua carta de licenciado, foi abalado pelas prédicas do Padre Pacifico de -São Gervasio, e entrou no Convento em 1575, quasi no tempo da fundação do -Mosteiro de Santo Honorato. - -Em 1599 acabou seo noviciado, e com satisfação começou a preencher as -obrigações de irmão leigo. - -Cedo passou a prégador, e então adquirio essa fama de caridoso, que o fez -tão popular. - -Aspirava a mais do que isto, «porque queria converter todas as Indias», -diz a noticia a elle dedicada. - -O Padre Ivo cercava de todos os cuidados os seos confrades quando -emprehendiam viagens tão incommodas principalmente n’aquelle tempo. - -Estava já muito enfraquecido, e sem forças, quando em 26 de setembro de -1612 cahio doente, em sua pobre cabana de pindoba. - -Ardente febre o devorava, e comtudo, ainda depois de receber a extrema -uncção, conservou em bom estado e sempre firme o uso de suas faculdades -intellectuaes. - -Transcrevamos aqui algumas palavras, que mostram qual foi o fim de tão -bom velho. - -Claudio d’Abbeville assim o conta: - -«Cahindo sobre elle um pequeno painel da Imagem de S. Pedro, pendurado -por cima de sua cama, e a que dedicava profunda devoção, elle -disse—vamos, grande Santo, partamos, ja que vieste buscar-me.— - -«Dizendo isto olhou para o Crucifixo e após curta agonia restituio ao -Creador sua alma tão bôa em 9 de Outubro de 1612, dia da festividade do -Glorioso Apostolo de França, S. Diniz, Bispo de Pariz: - -«Foi sepultado no lugar chamado S. Francisco, consagrado ao nosso -Patriarcha, como premicias dos Capuchinhos Francezes.» (Vide tambem -«_Éloges historiques de tous les illustres religieux capucins de la -ville de Paris, les uns par la prédication, les autres par les vertus -et sainteté de leurs œuvres, les autres par les missions parmy les -infidelles etc. etc._ sob numero _Capucin_ Saint Honoré 4 (ter).)» - -É para sentir-se e muito que se tenha perdido ha alguns annos o 1.º vol. -d’esta importante collecção, contendo os Annaes da Provincia. - - -84 (pag. 186). - -Prova esta phrase tão rigorosa do velho missionario a rapidez, com que -se espalhou na Europa o _avati_, dos brasileiros, o _milho_ dos ilheos -visto, bem como o tabaco, por Christovão Colombo na primeira viagem em -1493. - -Levantaram os botanicos grande questão, ainda não resolvida, sobre a -origem primitiva do milho. - -Pelo que diz respeito ao Brasil citamos a opinião d’um viajante, que por -seu saber pode passar por authoridade. - -Augusto de St. Hilaire pensa ter nascido no Paraguay, onde o vio em -estado inculto. - -A cultura do milho é ao Sul d’America a planta nutritiva por excellencia, -e prepara-se sua farinha por processos simples, e que dão optimo gosto. - -Enviamos nossos leitores, que desejam instruir-se de tudo quanto se -refere á esta graminea para o precioso livro do Dr. Duchesne—_Traité -complet du maüs ou blé de Turquie_. Paris. Renouard, 1833 em 8º, e para a -grande obra de M. Bonafous. - - -85 (pag. 187). - -Falla aqui verdade o padre Ivo, porem não se segue que ao norte do Brasil -se possa fazer vinho. - -O maior obstaculo, que encontra este fabrico, está no amadurecimento do -fructo sob os tropicos. - -No mesmo cacho ao lado de muitas uvas maduras encontra-se grande numero -de verdes. - -È voz corrente ter-se feito algum vinho na visinhança da Bahia. - -Caminhando-se para o sul, na região temperada de Mendoza, a uva amadurece -perfeitamente, e dá vinho precioso. (Vide, entre outras viagens a -respeito d’este ponto curioso de agricultura americana—_Sallusti_, -_Storia delle missione del Chile_. 4. vol. em 8.º Padre Barrére. -_Nouvelle Relation de la France equinoxiale_. Paris, 1743. 1º vol. em 12, -pags. 53 e 54.) - - -86 (pag. 187). - -Trata-se aqui do fio que se extrahe com abundancia de uma especie de -Ananaz. (_Ananas non aculeatus_, _Pitta dictus Plum_.) - -Com elle os portuguezes faziam meias, quasi tão procuradas como as de -seda. - - -87 (pag. 191). - -Não se encontra esta palavra no Diccionario de Nicot, irmão de Villemain. - -Podemos affirmar, que se deve escrever _hansares_—que significa—uma foice -de grande tamanho. - - -88 (pag. 192). - -Fazer certo sussurro expellindo com força o ar pelo nariz. É expressão -do povo, confundida no Diccionario da Academia com a palavra—_renâcler_ -«roncar» usada trivialmente no stylo familiar. - - -89 (pag. 194). - -São por Cardim muito bem pintadas essas recepções de indios. - -Os brasileiros não podem preferir, na bellesa da narração e no encanto -das particularidades, senão um só viajante portuguez á Ivo d’Evreux e á -Claudio d’Abbeville, e é aquelle cujo nome acabamos de proferir. - -Este escriptor agradavel porem muito conciso, pertence á ordem dos -jesuitas. - -Foi para o Brasil em 1583, e ahi ficou revestido de todas as dignidades -até o fim de 1618: soube portanto do estabelecimento dos francezes ao -Norte do Brasil, e certamente na Bahia soube de sua expulsão, e sobre -isto infelizmente nada disse. - -Fernão Cardim estava em posição bem diversa da do padre Ivo d’Evreux. - -Pelas costas do Brasil, onde elle se apresentava, submettiam-se os indios -ao christianismo, perdendo sua grandeza primitiva e conservando a maior -parte dos seos usos. - -O Missionario francez ao contrario cathequisa os indigenas, que combatem -pela sua independencia contra seos conquistadores. - -Os dois bons missionarios tiveram ambos a mesma sincera indulgencia e -admiração para com os povos ainda na infancia, aos quaes pregaram, e cuja -prévidencia é o seo maior e mais terrivel defeito. - -As cartas de Fernão Cardim foram felizmente descobertas pelo incansavel -autor da _Historia geral do Brasil_. - -O Sr. Francisco Adolpho de Varnhagem não pôz seo nome n’esta preciosa -publicação, honra que aqui lhe restituimos, e a que tem direito como -homem de saber e gosto. - -O opusculo de Fernão Cardim tem o titulo de _Narrativa epistolar de uma -viagem e missão jesuitica pela Bahia, Ilheos etc etc._—_Lisboa_, 1847, em -8.º de 123 paginas. - -Parece-me que o sabio edictor não se lembrou de haverem preciosas -informações á respeito de Cardim e dos missionarios contemporaneos do -Brasil n’um escriptor de Toulon por nome Jarric. (Vide _La 2me partie des -choses plus memorables advenues tant aux Indes orientales que autres pays -de la découverte des Portugais en l’establissement de la foi chrestienne -et catholique etc. Bordeaux 1610_ em 4.º É dedicado a Luiz XIII. O que -n’este livro se refere ao Brasil, e particularmente ás regiões visinhas -do Maranhão, acha-se na pag. 248 até 359.) - -Morreo o padre du Jarric em 1609. - -Foi sua obra traduzida em latim, e impressa na Colonia em 1615. - -Esta traducção, augmentada em alguns lugares, foi publicada em 4 vol. em -8.º - - -90 (pag. 194). - -Ha quasi certesa de não ter o nosso bom missionario lido a narração de -André Thevet, publicada em 1558, e nem a viagem mais recente de João de -Lery, cujas opiniões religiosas deviam afastal-o d’essas obras. - -Comparando-se estes velhos viajantes entre si, facilmente nota-se a -similhança das narrativas. - -Eis o que disse João de Lery á respeito da recepção, que lhe fizeram os -Tupinambás. - -Descrevendo as ceremonias, que fazem os _Tuupinambaults_ para receberem -seos amigos, que os vem visitar, merece dizer-se em primeiro lugar, -que apenas chega o viajante a casa do _Mussacat_, isto é, do bom pae -de familia, dá de comer aos que por ahi passam, e que elle escolher -para seo hospede, facto que se hade praticar em toda e qualquer aldeia, -por onde se transitar, sob pena de cauzar enfado se não é procurado -immediatamente. Assenta-se depois n’uma rede onde fica por algum tempo -em silencio. Vêm depois as mulheres, sentam-se no chão, tapam os olhos -com as mãos deplorando a bôa vinda d’aquelle, cujos louvores farão em -occasião apropriada. - -Por exemplo:—tiveste tanto trabalho para nos vêr; tu és bom, e valente: -si é um francez, ou outro qualquer estrangeiro, accrescentam—trouxestes -para nós tão bellas obras, como aqui não temos, e immediatamente derramam -muitas lagrymas, e assim aplaudem e lisongeam. - -Si o recem-chegado assentado em seo leito quer pagar-lhes as finezas, -dizendo de sua parte coisas agradaveis, não querendo porem chorar, (como -eu sei alguns dos nossos, que vendo as maneiras d’essas mulheres perante -elles, foram tão nescios, que as imitaram) devem ao menos por fingimento -exhalar alguns suspiros. - -Feitos assim estes primeiros cumprimentos pelas mulheres, entra depois -o _mussacat_, isto é, o velho dono da casa, que fingirá durante um -quarto d’hora não vos vêr (caricia mui opposta ás nossas embaixadas, -cumprimentos e apertos de mão á chegada dos nossos amigos). Chega-se -depois onde estaes, e diz _ereiubé_, isto é, chegaste? etc. etc. (vide -_Jean de Lery, istoire d’un voyage en la terre du Brésil_. Rouen, 1578, -em 8º, 1ª edicção.) - - -91 (pag. 195). - -Ha no Brasil um sapo de grande tamanho, a que se deo o nome de «_sapo -boi_.» - -Claudio d’Abbeville diz—«n’aquelle paiz encontram-se uns sapos muito -grandes a que chamam _cururu_. Alguns ha que tem mais de um pé ou pé -e meio de diametro: quando são esfolados, é impossivel dizer-se quam -branca é a sua carne, e como são bons para comer-se. Vi alguns fidalgos -francezes comel-a com apetite. - - -92 (pag. 203). - -Mui visivelmente falla-se aqui da lenda brasileira relativa a _Sumé_, o -legislador dos Tupys. - -No curioso opusculo, que a respeito d’este personagem publicou o Sr. -Adolpho de Varnhagem, conta a sua chegada á Ilha do Maranhão, e como -desappareceo na occasião, em que se preparavam todos para sacrifical-o. - -A palavra—_Maratá_—nos põe em embaraços, pois debalde a procuramos em -Ruiz de Montoya: é alteração da palavra _Mair_ ou _Maïr_, tantas vezes -empregada por Lery e Thevèt, para mostrar ou indicar um estrangeiro, ou -uma pessoa extraordinaria. Não podemos dar uma resposta satisfatoria. O -Sumé, que propaga a cultura da mandióca, é barbado. - -Diz-se com razão ser personagem analoga a Manco Capac dos peruanos, e ao -Quetzalcoalt dos Azetecas, e ao Zamma da America Central. (Vide Adolpho -de Varnhagem, _Historia geral do Brasil_. T. 1º pag. 136, e _Sumé. -Lenda mytho-religiosa americana etc. agora traduzida por um Paulista de -Sorocaba_. Madrid, 1855, broch. in 8 de 39 pag.) - - -93 (pag. 205). - -O verbo _cantar_ na linguagem tupy é _Nheengar_. Um _Nheengaçara_ é um -cantor propriamente dito. - - -94 (pag. 220). - -Parecerá estranho ao leitor serem os francezes comparados n’este lugar -aos Caraibas. - -Os que lerem com attenção as obras de Humboldt acharão a chave d’este -enigma. Os Caraibas do continente americano, nação immensa, eram notaveis -em toda a America pelo seo valor e penetração. Seos piayas, ou antes seos -feiticeiros os elevavam acima de todas as outras nações: eram no Novo -Mundo o mesmo que os Chaldeos no velho. Simão de Vasconcellos nos dá a -prova d’esta supremacia intellectual: no sul do Brasil os _Caraibe-bébé_, -eram feiticeiros ou advinhadores notaveis: assim se chamavam os homens -intelligentes, os espiritos, e os anjos, e depois tambem os estrangeiros. -O Sr. Adolpho de Varnhagem fez notar, que o nome de _Carayba_ foi em seo -principio dado aos Europeos, sendo todos os Christãos assim chamados. -(Historia geral, pag. 312.) - - -95 (pag. 220). - -Um _Caramémo_ é que se chama em Guyana um _Pagará_, isto é, um paneiro -leve, feito com folhas de certa palmeira e ás vezes com bonita forma. - -Claudio d’Abbeville assim tambem o chama, quando descreveo os utensilios -de uma casa indigena. Barrère fez desenhar este lindo _Specimen_. - - -96 (pag. 226). - -Ivo d’Evreux, familiarisado com todos os symbolos em voga no seo tempo, -não se esqueceo de uma graciosa alegoria na qual figura o Unicornio. -Vide _Le Monde enchantée_, e especialmente a dissertação intitulada -_Revue de l’histoire de la Licorne par un naturaliste de Montpellier_. -(P. J. Amoreu.) Montpellier Durville, 1818, em 8.º 47 pags. - - -97 (pag. 239). - -É sabido ser esse o nome, que aos portuguezes davam os Tupinambás. - -_Pero_ quer dizer _cão_ na lingua de Camões, mas suppõe-se que o -nome—_Pedro_—muito usado no Brazil, provinha de tão estranha designação. - -Ayres Casal conta até á este respeito uma historiasinha, recorrendo á -tradicção, de como um serralheiro, chamado Pedro, fôra arremeçado pelas -ondas, após um naufragio, ás praias do Maranhão. Graças a sua habilidade -no trabalho do ferro fez-se este homem agradavel aos indios, e seo nome -com pequena modificação servio d’ahi em diante para fazer conhecidos os -individuos, que se julgavam ser da sua raça. - -Em sua _Corographia_ o Dr. Mello Moraes escreveo esta _legenda_ muito -mais completa. - - -98 (pag. 242). - -Não se tem procurado esclarecer por meio de uma discussão -grammatical—esta parte do livro. - -Differenças mui sensiveis, produzidas pelo tempo e sobre tudo pela -pronuncia, fizeram este lugar para assim dizer indicifravel. Nada é -mais dificil do que traduzir pelos caracteres da nossa escripta os sons -das linguas indigenas. Essas inflexões tão delicadas, e as vezes tão -fugitivas, em sua apparente rudeza são dificultosamente ffixadas no -papel. Notou Humboldt pertencerem ellas algumas vezes á certos caracteres -physicos das raças. - -As nações européas, as mais habituadas á estes estudos, não percebiam -da mesma fórma os sons, e nem os escreviam da mesma maneira: quando -os portuguezes ouvem _Oca_, por exemplo, ou então _Toba_, o francez -percebe _Oc_ e _Tob_, e quando aquelle ouve _Murubixaba_ este percebe -_Muruvichave_. Deixa a differença de ser grande quando são as palavras -pronunciadas conforme o genio de cada lingua. - -A palavra _Tupinambás_, como se acha escripta no principio d’esta nota, -(_Tobinambos_) equivale absolutamente pelo som na lingua portuguesa á -palavra _Tupinambus_, como a pronunciavam os contemporaneos de Malherbe. - -Para a historia da linguistica não é sem interesse esta curta doutrina -christã, podendo ser comparada com certas obras do mesmo genero, -escriptas por penna portuguesa, estando n’este caso, entre outras, os -canticos religiosos em lingua tupy por Christovão Valente, os quaes -incluí no opusculo—_Une fête brésilienne_. Pariz. Techener, 1850. - -Não se póde achar o livro que os contem, e talvez só exista na -Bibliotheca Imperial. - -Reproduzimos aqui seo nome—_Cathecismo brasilico da doutrina christã, -com o ceremonial dos sacramentos e mais actos parochiaes. Composto por -padres doutos da Companhia de Jesus, aperfeiçoado e dado á luz pelo padre -Antonio de Araujo da mesma Companhia, emendado nesta segunda impressão -pelo padre Bertholomeu de Lean da mesma Companhia_, Lisboa, na officina -de Miguel Deslandes 1861, em 8.º pequeno. A primeira edicção foi em 1618. - -Si se quizesse, poder-se-ía completar este estudo comparativo procurando -os seguintes manuscriptos, citados por Barbosa Machado, e que seria coisa -curiosa si fossem publicados. - -Ludewig os ommittio em seo importante trabalho, completado por Mr. -Trubener. O Padre João de Jesus _explicação dos mysterios da fé_. O Padre -Manoel da Veiga _Cathecismo_. F. Pedro de Santa Rosa _Confessionario_. -André Thevèt nos seos manuscriptos conservados na Bibliotheca Imperial -de Pariz, dá o _Pater_ e o _Credo_ em lingua _tupy_, depois reproduzidos -em sua grande _Cosmographia_. São preciosos estes dois documentos -especialmente por sua antiguidade, pois datam de 1556. - -Entre os livros d’este genero um dos mais modernos e dos mais curiosos -é o do Padre Marcos Antonio, intitulado: _Doutrina e perguntas dos -mysterios principaes de nossa santa fé na lingua Brasila_. Foi composto -em 1750 e Ludewig menciona-o como fazendo parte das collecções do -_British Museum_. - - -99 (pag. 250). - -Lery ja tinha asseverado o effeito, que faz nos indios o canto -melancolico do Macauhan. A crença nos mensageiros das almas, nos -passaros propheticos ainda não se extinguio de todo, pois ainda existe -na poderosa nação dos Guayacurus, depois de haver exercido antigamente -sua poderosa influencia em todas as tribus dos Tupys, porem o padre Ivo -deo-lhe extensão que nunca teve, visivel alteração nas antigas ideias -mythologicas. - -O nome d’este passaro respeitado é escripto em portuguez _Acaúan_, e -tambem _Macauan_: nutre-se de reptis, e não tem esse aspecto sinistro, -que lhe dá o nosso bom Missionario. - -Tem a cabeça muito grossa em relação ao corpo, é côr de cinza, o peito e -o ventre vermelhos, azas e cauda negras com pintas brancas. Pensa hoje em -dia a maior parte dos indios, que a missão deste passaro é annunciar-lhe -a chegada de algum hospede. Consulte-se sobre o Acaúan, Accioli, -_Corographia Paraense_, e Gonçalves Dias, _Diccionario da lingua Tupy_. -Martius na palavra _Oacaoam_ diz ser o Macagua de Felix de Azara. Falco -(herpethocheres). - - -100 (pag. 257). - -No tempo de Ivo d’Evreux, eram chamados _Barbeiros_, os cirurgiões mais -habeis, e alguns annos antes até o illustre Ambrosio Paré era assim -conhecido. - -Como os _Piayes_, _Pagé_, _Pagy_, _Boyés_ ou _Piaches_ (por todos estes -nomes são conhecidos) cuidam de curar feridas e molestias. - -O padre Ivo, como se verá adiante, os compára por despreso aos barbeiros, -mas entenda-se, aos barbeiros das aldeias. - -Este capitulo é por certo um dos mais curiosos do livro, e deve ser -com todo o cuidado comparado com o que escreveo Simão de Vasconcellos, -(_Chronica da Companhia de Jesus_, in fol.) e com todas as _Memorias_ -publicadas pelo Instituto Historico do Rio de Janeiro sobre a religião -primitiva dos indigenas, achando-se ahi bem claramente definidos os -attributos de Jeropary. - -É na verdade para sentir-se a falta de uma folha, porque nos trouxe a -perda de preciosos documentos de homens praticos e habeis, que entre si -conservavam as tradicções. - - -101 (pag. 264). - -No tempo d’esta narração eram ainda os morcegos classificados como -passaros. - -O que aqui diz o nosso viajante sobre os vampyros não é exageração. - -Consulte-se a este respeito Ch. Watterten (_Excursions dans l’Amerique -meridionale_, p. 15 e 389.) - -Este sabio naturalista descreveo com minucioso cuidado o genero da -ferida, que produz o morcego americano nas pessoas, que dormem. Matou um -vampyro, que tinha 32 pollegadas de extensão de azas abertas. Em geral -são muito menores. - - -102 (pag. 268). - -Entre os antigos viajantes do seculo XVII é Ivo d’Evreux o unico, como -notamos, que menciona entre os Tupinambás os rudimentos de estatuaria -(imperfeita sem duvida) com applicação á mythologia d’estes povos. - -D’estas coisas nada escreveram Thevèt, Hans Stadens, e Lery, -Vasconcellos, Cardin e Jaboatão. - -Eram os Tupys unicamente caçadores, e só per accidens se entregavam á -vida agricola. Os unicos vestigios de cultura, que d’elles conhecemos, -se referem aos seos _Macanas_, ou a sua _Lyvera-péme_, especie de armas -pesadas, que elles enfeitavam á capricho. - -Tinham por costume pôr um Maracá, enfeitado de bonitas pennas na prôa de -suas canôas de guerra, tão esguias como elegantes, e será bem possivel, -que a base d’esse instrumento seja ornado de sculpturas similhantes -ás que se observam entre os insulares da Polynesia. É provavel que -multiplicando-se suas relações com os Europeos, tenham os Tupinambás -bebido entre elles ideias de sculptura rudimentar que applicam á suas -divindades grosseiras. - -O veridico Barrére, que escreveo mais de um seculo depois de Ivo -d’Evreux, falla de um piaya fazendo uma estatueta de _Anaanh_, genio do -mal, que não é senão o _Anhanga_ do padre Nobrega e de Anchieta, cuja -terrivel missão sobre a terra foi tão bem descripta por João de Lery, que -sempre o chamou _Aignan_. - -Dêem-lhe nas ilhas ou nos continentes os nomes de _Uracan_, de -_Hyorocan_, de _Jeropary_, de _Maboya_, de _Amignao_, reconheçam-se os -genios secundarios, como seos mensageiros (apenas citarei um, o malicioso -_Chinay_, que faz emmagrecer os pobres indios sugando-lhes seo sangue.) -Anhanga teve sempre fama terrivel nos seculos XVII e XVIII. - -Este typo primitivo da sculptura religiosa dos Tupys foi infelizmente -aberto em madeira muito molle, e por isso não poude resistir á acção -do tempo, ou á invasão das formigas: duvidamos que se encontre um só -_specimen_ de dois seculos atraz. - -Eis finalmente a passagem tão curiosa de Barrére que confirma as -palavras do padre Ivo. «Tem os indios outra sorte de feitiçaria, que os -singularisa. Fazem uma figura do diabo n’um pedaço de madeira molle e -sonora: esta estatua do tamanho de tres a quatro pés é muito feia pela -sua immensa cauda, e grandes lanhos. - -«Chamam-na _Anaantanha_ que parece dizer—_imagem do diabo_, porque -_Tanha_ significa figura, e _Anaan-diabo_. Depois de haverem soprado -sobre os enfermos, trazem os _Piayas_ esta figura para fóra da -_casa-grande_: - -«Ahi elles o interrogam, esbordoam-na á cacete, como para obrigar o -diabo, bem a seu pesar, a deixar o enfermo.» (Vide _Nouvelle Relation -de la France équinoxiale, contenant la description des côtes de la -Guiane, de l’isle de Cayenne, le commerce de cette colonie, les divers -changements arrivés dans ce pays_ etc. etc. Paris. 1743, em 12 gr.) - -N’um capitulo precedente Ivo d’Evreux ja fallou de uma boneca que tinha -uma especie de mecanismo, que servia para as nigromancias do Piaya. - -É para sentir-se, que não se encontrasse um só d’estes idolos nas -collecções etnographicas, que então começou-se a fazer. - -Poucos annos antes de haver la Ravardiere explorado o rio do Amasonas, -João Mocquet, o guarda das curiosidades do Rei, percorreo essas praias, e -seria de rara felicidade para a archeologia americana si elle encontrasse -alguns dos idolos de que falla o padre Ivo. - - -103 (pag. 271). - -É mui provavel, que estas lustrações sejam feitas á imitação das -ceremonias, que entre os christãos viram os _Tupinambás_. - -Pode bem ser, que o mesmo aconteça á respeito da pretendida confissão -auricular de que falla o autor um pouco mais adiante. - -Os antigos viajantes, Hans Staden, Lery e Thevèt nada dizem, que tenha -relação com tal costume. - - -104 (pag. 272). - -Parece á primeira vista ter recebido este _piaga_, tão influente, um nome -francez: assim porem não aconteceu. - -Havia n’esse tempo um poderoso Chefe, chamado _Pacquara-behu_ «barriga -d’uma paca cheia d’agoa». _Pacamont_ pode significar a «paca agarrada na -armadilha», (_Pacamondé_). - -O nome da terra, onde tinha influencia, significa a «região das plantas -leitosas», e escreve-se _Cumá_. - - -105 (pag. 280). - -Vatable ou Vateblé era um celebre sabio na lingua hebraica, no seculo -XVI, restaurador na França dos estudos orientaes. - -Morreo em 1547. - -Suas notas sobre o antigo testamento acham-se na Biblia de Robert Etienne. - - -106 (pag. 282). - -Prova-nos esta phrase ter o Padre Ivo escripto sua obra na Europa, e -saber da missão dirigida pelo Padre Archangelo. - -Affirma Marcellino de Piza terem 565 indios recebido o baptismo n’esta -segunda expedição religiosa. (Vide _Annales historiarum ordinis minorum_. -Lugd. 1676 in fol.) - -O Padre Archangelo, acompanhado por 12 confrades, portador de magnificos -ornamentos bordados pela Duqueza de Guize devia por certo cercar-se de -outra pompa, que não tiveram os quatro Geraes Capuchinhos, que deram -principio á missão. - -Graças aos documentos, que nos são proporcionados pela marinha, e que -devemos ao obsequio do Sr. P. Margry, soubemos por uma carta inedicta -do Sr. de Beaulieu a Mr. de Razilly, que o Padre Archangelo, muito -conhecedor do valor do dinheiro abstrahindo o seo voto de pobresa, não -quiz embarcar-se antes de lhe haverem dado a esperança de conseguir -subsidios. - -Apesar dos recursos, de que dispunha o seo chefe espiritual, ainda está -por fazer a historia d’esta segunda missão: não deixou até vestigios, -e ficará para sempre ignorada em quanto não descobrirmos o livro de -Francisco de Bourdenare. - -Sabemos apenas que muito mais favorecido, que Ivo d’Evreux, por seos -superiores, recebeo, graças ás suas cartas de obediencia, o direito de -admittir noviços em seo Convento. - -Não teve tempo de utilisar-se de tal privilegio, mas quando regressou á -Europa, em recompensa do seo zelo foi em 1615 nomeado Guardião do grande -Convento da rua de Santo Honorato. - -Todos estes factos, omittidos naturalmente pelos historiadores do -Maranhão, acham-se referidos nos _Éloges historiques_, manuscripto da -Bibliotheca Imperial, e seria injustiça esquecer serem elles tambem -narrados pelo Padre Marcellino de Piza. - -Depois de haver contado como o Geral dos Capuchinhos Paulo de Caesena -deo licença á Honorato de Pariz, então Provincial, para mandar á America -uma segunda missão, disse:—«_Ille nihil cunctatus, duodecim fratres ad -hanc expeditionem, aptos elegit quorum animosa phalanx navem conscençâ -secedens in Indiam, a barbara illa natione jam capucinorum placidis -moribus assueta per humaniter fuit excepta_.» - -Na entrada dos portuguezes o Padre Archangelo de Pembroke retirou-se com -os Capuchinhos francezes ficando em lugar d’elles os Franciscanos, que em -numero de vinte se recolheram ao Mosteiro. - -Sob a direcção de Frei Christovão Severino teve então o Convento nova -regra. - -Foram as bases lançadas em 1624 porem só foram cumpridas pontualmente em -4 de Agosto do anno seguinte. - -Abstemos-nos porem de offerecer ás vistas do leitor as desgraçadas -peripecias, porque passou este Mosteiro durante 225 annos: basta dizer, -que no fim de um seculo estava quasi reduzido a ruinas. - -Em 1860 o actual Guardião, que tinha sob seo governo somente dois -franciscanos, mas que soube felizmente captar as sympathias dos -habitantes de São Luiz, recorreo á caridade publica afim de concertar-se -como merece este edificio, a que se ligam interessantes recordações do -paiz. - -A Ordem é actualmente muito pobre, porem offerece grande contraste, -segundo é voz geral, quando em seo zelo é comparada com outros -Conventos[BL] opulentos da Cidade, que estão se arruinando. - -Não foram em vão as supplicas de Frei Vicente de Jesus, pois elle -arrecadou grandes quantias, que chegaram para reparar os estragos do -tempo. - -Conservando a humilde Capella, onde orou o Padre Ivo d’Evreux, fizeram-se -novas edificações que tornaram a Igreja de Santo Antonio a mais linda de -tão bella Cidade. - - -107 (pag. 301). - -É mui curioso vêr aqui o Padre Ivo d’Evreux fazer uma especie de allusão -á antigas crenças d’esses povos, as quaes Thevet, ou talvez o Cavalheiro -de Villegagnon tinham guardado desde 1555, e que parece ser ignoradas -pelos nossos viajantes do Seculo XVI, pois não tratam d’ellas em suas -narrações. - -Uma nota, mesmo concisa nos levaria muito longe, e vêr-nos-iamos forçados -a chamar a attenção do leitor para um opusculo, no qual reunimos tudo o -que podemos encontrar á respeito das ideias mythologicas dos Tamoyos e -dos Tupinambás. (Vide sobre os _Maraïta—Une fête bresilienne célébrée -à Rouen em 1550 suivie d’un fragment du XVIme siécle roulant sur la -Théogonie des anciens peuples du Brésil_. Paris, Techener, 1850 gr. in -8.º) - - -108 (pag. 301). - -A legenda brazileira de geração em geração transmittio a narração das -perigrinações de dois prophetas, bem distinctos, igualmente estimados por -esses selvagens, que os chamou _Tamandaré_ e _Sumé_. - -Como Boudaha, deixou o ultimo impressas as suas pegadas sobre a rocha -viva, quando deixou a terra. - -O mytho de Tamandaré, que se lê na descripção do diluvio americano, é -contado extensamente por Vasconcellos nas suas _Noticias do Brazil_, pag. -47 e 48. - -Ahi se lerá como o Noé americano subindo ao cume de uma palmeira, que -tocava com o seo vertice o Ceo, e agarrando d’ahi sua Familia poude -salval-a, e com ella repovoou a terra. - -Na phrase aqui citada, Ivo d’Evreux alludio ao legislador mais moderno, -Sumé, este Triptolémio brazileiro, que ensinou a cultura da mandióca aos -descendentes de Tamandaré. - -Simão de Vasconcellos diz mui positivamente, que «havia entre elles -tradicção muito antiga, transmittida de paes a filhos, dizendo haverem -apparecido, muitos seculos depois do diluvio, homens brancos n’estas -terras, que fallavam aos povos de um só Deos e de outra vida. Um d’elles -chamava-se _Sumé_, que parece quer dizer _Thomé_.» - -Preferindo a tradicção, que dá a São Bartholameu a honra de haver -evangelisado os povos longiquos, provou com isto o Padre Ivo o seo -conhecimento das origens. - -Com effeito, segundo diz Eusebio, chegou este Apostolo viajante até a -extremidade das Indias, São Pantene percorreo o interior da Asia desde o -III seculo, e ahi já achou vestigios do christianismo, que bem se podiam -attribuir ás prédicas de Sam Bartholameo. - -Prevaleceo comtudo no Brasil a legenda em contrario, como a outra na -India. (Vide _Jornada do Arcebispo de Goa dom Frei Aleixo de Menezes, -quando foi ás serras de Malauare, lugares em que moram os antiguos -christãos de S. Thomé_. Coimbra, 1606, in fol.) - -No tempo de Vasconcellos bem visiveis eram os signaes dos pés de S. -Thomé, ao norte do porto de S. Vicente, perto da Villa. - -Estes signaes de dois pes nùs por maravilha impressos na rocha (_tão -vivos e expressos, como si em um mesmo tempo juntamente se fizeram_) não -eram vistos debaixo d’agoa. - -O religioso franciscano Jaboatam achou no Recife, em Pernambuco, pegàdas -santas. - -N’esta segunda edicção da legenda, somente apparece um pé como o -de um menino de 5 annos, que suppõe ser o piedoso narrador o de um -jovem companheiro do Apostolo. (Vide _Novo Orbe Serafico_, reimpresso -ultimamente pelos esforços do _Instituto Historico e Geoqraphico do Rio -de Janeiro_.) - -Não se encontram esses afamados signaes somente em diversos pontos do -littoral, e sim em outros lugares, o que seria enfadonho enumerar. - -Não contentes ainda com isto fizeram com que o santo viajante se -embrenhasse corajosamente pelo interior do Brasil, onde em caracteres -gigantescos sobre pedras ou rochas escreveo a historia da sua missão. - -Ha em Minas uma aldeia, a que se deo o nome chamando-a _Sam Thomé das -Lettras_. - -Um observador circumspecto, o general Cunha Mattos, não vio taes -inscripções, e combateo a tradicção dizendo que esses traços -phantasticos, que se observam n’um dos lados da _Serra das lettras_ -foram formados por accidentes de terreno, isto é, por dendrites, para -servir-me de suas expressões. (Vide _Itinerario do Rio de Janeiro ao Pará -e Maranhão_. Rio de Janeiro. 1836. 2 vol. em 8.º T. 1.º pag. 63). - -Dura até hoje esta opinião sobre a gigantesca inscripção da _Serra das -lettras_, e acredita-se actualmente serem devidos a infiltração de -particulas ferruginosas obrando sobre o grão da serra, e por est’arte -simulando caracteres escriptos. - -No Brasil são muitos os hieroglyphos grosseiramente embutidos, e ninguem -duvida serem devidos á origem indigena. Muitas obras nos mostram os seos -_fac-simile_. - -A grande viagem pitoresca de Mr. Debret tem dois, que não deixam de ter -interesse. - -Fallamos da inscripção do monte de _Anastabia_, e das esculpturas -embutidas n’uma rocha, que se encontra perto das margens do rio Yapurá, -na provincia do Pará, bem pode ser que as palavras do Padre Ivo se -refiram á este monumento, grosseiramente trabalhado, e de que trata Mr. -Debret na pag. 46 do seo T. 1º, porem em alguns não acha a mais prevenida -imaginação bases para assentar uma opinião historica ou religiosa. - -Pelo que se refere _ás rochas incisadas_, de que falla o nosso bom frade, -é tradicção geral em toda a America, que estes accidentes, resultados -de grandes commoções da natureza, são sempre explicados pela legenda -indigena, que os attribue ao supremo poder de um semi-Deos, que, a sua -vontade, quebra as montanhas mais resistentes ao trabalho do homem e, -algumas vezes, até os mais gigantescos. - -Em Nova-Granada o salto de Tequendama não teve outra origem, pois foi -feito, como se sabe, pelo grande Bochica: poderiamos tambem citar a -abertura feita no _recife_, que margina o littoral de Pernambuco, e -que se attribue ao grande Sumé, ou ao seu representante christão, o -Apostolo viajante. (Vide Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão, _Novo -Orbe Serafico Brasilico_, ou _Chronica dos frades menores da provincia do -Brasil_. 2.ª edicç. Rio de Janeiro. 1858.) - -Jaboatão escreveu em 1761. - - -109 (pag. 311). - -Tinha este chefe indigena um nome bem conhecido na ornithologia do -Brasil. O _Jacupema_ é o _Penelopsupereiliaris_ uma das melhores caças do -Brasil. - - -110 (pag. 334.) - -Na familia dos Foulon, de que gozava muita consideração em Abbeville, -tinham muitos dos seos membros se dedicado á vida monastica. - -O padre Marçal esteve em Pariz com seo irmão o padre Claudio; este -ultimo, cujo artigo está tão cheio de erros na biographia universal, era -ja guardião do convento na sua patria desde 1608, mas, como o padre Ivo, -começou o seo noviciado em 9 de junho de 1595. - -A bibliotheca do Arsenal possue um opusculo, hoje raro, do padre Claudio, -cujo titulo é—_L’arrivée des Pêres Capucins et la conversion des sauvages -a nostre sainte Foy déclarés par le R. P. Claude d’Abbeville, prédicateur -capucin à Paris_, chez Jean Nigaut, rue de St. Jean de Latran, em 1613. -Pode comparar-se este escripto com o artigo intitulado—_Retour du sieur -de Rasilly en France et des Toupinambous qu’il amena á Paris._ _Mercure -française_. T. 3, pag. 164. _L’histoire chronologique de la bienheureuse -Colette, réformatrice des trois ordres du Seraphique Pere St. François._ -Paris. Nicolas Buon, 1628, em 12: não é do padre Claudio, como suppõe -Eyriés. A dedicatoria tem a assignatura de Fr. S. d’A, indigno -capuchinho. Já tinha morrido Claudio d’Abbeville quando appareceo esta -obra. Depois de ter 23 annos de religião, falleceo em Ruão em 1616 e não -em 1632. - - -111 (pag. 335). - -Leia-se _Plymouth_: Claudio d’Abbeville escreve _Pleme_. - - -112 (pag. 335). - -Trata-se aqui do _Rio do Ouro_. - - -113 (pag. 336). - -Difficilmente por este nome se sabe ser a _Ilha de Fernão de Noronha_, e -não _Fernando de Noronha_, como escreve alguns geographos. - -Está a 75° long. E. N. E. do Cabo de Sam Roque, e na lat. de 3° 48, á -52′. Explica-se esta alteração de nome pela sua visinhança do Cabo de Sam -Roque. - -Alguns viajantes antigos escreveram _Fernando de la Rogne_: n’esse caso -está o padre Claudio. - - -114 (pag. 337). - -Omittio o padre Claudio d’Abbeville esta ultima circumstancia. - - -115 (pag. 339). - -Leia-se _Tupan_ em vez de _Iupan_. Quanto a palavra Matarata, que -ahi se lê, não se pode entender pelo adjectivo _Mbaraeté_, que -significa—_forte_. Parece estar sob esta significação no _Tesoro de la -lingua Guarany_, do padre Ruiz de Montoya. - - -116 (pag. 341). - -O capitão du Manoir estava ha muito tempo estabelecido na Ilha, onde -tinha muitas relações. - -Foi elle quem hospedou os Missionarios, e lhes offereceo uma festa -«tão magnifica como podia ser em França» disse o padre Claudio, a qual -assistiram os Srs. de Rasilly e Pezieux. Foi da sua habitação que -partiram os nossos para tomar posse do lugar, onde se edificou o _Forte -de Sam Luiz_. Regressou á França antes de ser o Maranhão tomado pelos -portuguezes. - -Quando evacuaram as nossas forças navaes o porto do Maranhão, muitos -francezes não seguiram o exemplo de Manoir, e se estabeleceram na nova -Colonia, onde só foram permittidos artistas. - -Erraria quem suppozesse ter sido abandonada a missão fundada com tanto -zelo pelos nossos Religiosos: sem a menor alteração foram incumbidos -d’ellas os Franciscanos: a este respeito achou-se tudo quanto podia -desejar-se no _Orbe Seraphico_ do padre Jaboatão. - -Contem este resumo uma longa biographia de Frei Francisco do Rosario, -frade celebre na Ordem de Sam Francisco, que tomou posse do Convento dos -Capuchinhos perto de dez annos depois, que estes o abandonaram de todo. - -Embrenhava-se muitas vezes este zeloso Missionario nos desertos -desconhecidos do Maranhão, onde ia cathequisar os indios. - -Em 1630 compôz uma obra aproveitavel sobre as tribus que visitou. -Infelizmente nunca foi publicada, e o seria se fosse encontrada, como -precioso commentario á obra do padre Ivo. - -Cansado por seos trabalhos, cuja multiplicidade espanta até a imaginação, -foi para a Bahia, onde revestido das dignidades da ordem falleceo com -cheiro de santidade em 24 de fevereiro de 1650. - -Afirma-se haver elle predicto muitos annos antes os grandes -acontecimentos politicos, que, produzindo a expulsão da Hespanha, dava -independencia ao Brasil. - -Parece que vio-se obrigado a reconstruir em 1625 os edificios que -deixaram em começo os nossos Religiosos, e por isso foi elle em Sam Luiz -julgado como o primeiro fundador do Convento da sua Ordem. - -Vamos ainda dizer uma palavra para acabar estas notas. Serão ellas ainda -um dia completadas pelo trabalho, que ha de preceder a _Relação do Padre -Claudio d’Abbeville_, e si se quizer, o podem ser ja, consultando se -varias obras francezas contemporaneas, absolutamente despresadas, sob -este ponto de vista, pelos historiadores da America. N’este caso, entre -outros, está o padre Pedro du Jarric, pois, na verdade, ninguem pensaria -achar n’uma _Historia das Indias orientaes_ todos os factos religiosos, -acontecidos em Maranhão antes de 1607. - -Consultando-se o 5.º volume d’esta volumosa obra, encontra-se a -tragica historia dos padres Francisco Pinto e Luiz Figueira, jesuitas -portuguezes, os primeiros que visitaram os desertos desconhecidos, cujo -littoral occuparam os francezes. - -Francisco Pyrard, o viajante Belga, residente na pequena cidade de Laval, -nos contou tambem na sua _Relação das Indias e especialmente das Ilhas -Maldivas_, o que na Europa se pensava do Brasil no tempo, em que viveo o -padre Ivo. Não trata do Maranhão, e bem o podia fazer. - -Deve ainda dizer-se que esta bella provincia, conhecida mais pela obra de -Mr. Herald do que por outras antigas, ficou por muito tempo fóra da toda -a vida politica. - -Doada a principio aos filhos de José de Barros, o famoso historiador das -Indias, só foi conhecida na Europa por uma lastimavel catastrophe, pois -era esquecida apesar da fertilidade e da magnificencia da sua vegetação. - -Apparece comtudo n’um dos monumentos geographicos mais importantes, onde -se verificou o que era o Brasil no seculo XVI: queremos fallar da bella -_Carta_ de Gaspar Viegas, que tem a data de outubro de 1534, hoje na -Bibliotheca Imperial de Paris. - -Nenhum historiador até hoje ainda a mencionou, apezar de sua exactidão -tão admiravel para aquelles tempos e ainda continuaria a ser esquecida -se o Sr. de Cortambert não nos fizesse o favor de communicar-nos a sua -existencia. - -Sentimos muito praser recordando-nos, que este bello trabalho do -desconhecido geographo vae de hora em diante ligar-se ao mais vasto e ao -mais exacto reconhecimento das costas do Brasil, que tem podido obter a -sciencia n’estes ultimos tempos, e d’ella fará objecto de especial estudo -o Sr. capitão da fragata Mouchez na sua grande obra nautica a respeito do -littoral do Brasil. - -Deviam acabar aqui as notas indispensaveis para conhecer-se na França e -mesmo na America o texto do nosso velho viajante. - -Accrescentaremos apenas uma palavra, talvez indispensavel para -comprehender-se o valor do documento por nós exhumado. - -O padre Arsenio de Pariz, o fiel companheiro do padre Ivo d’Evreux, disse -em 1613 ao Superior do seo Mosteiro á proposito das regiões, por onde -evangelisou, o seguinte: - -«Eu vos asseguro, meo padre, que quando estiver um pouco estabelecido, -será um verdadeiro paraiso terrestre.» - -A esperança do bom Religioso não era das que se podem realisar -completamente: não caminham assim as coisas neste mundo, porem não sendo -o paraiso, é o Maranhão uma das provincias de um vasto Imperio, que vae -progredindo. - -No meio de prosperidades reaes, e apezar dos esforços de espiritos -felizmente bem intencionados, o progresso intelletual do paiz está muito -longe do que devia ser. - -As recordações do passado, que tanto desenvolvem as populações, ahi não -existem. - -Não ha archivos, bibliothecas publicas, e nem instituições litterarias, -e tanto é verdade isto, que o Imperador, o Sr. D. Pedro 2º, ha dez annos -incumbio um dos homens mais activos e eminentes d’este paiz para examinar -na Cidade de Sam Luiz o estado real dos depositos litterarios da Capital -do Maranhão. - -Não reproduziremos aqui as queixas judiciosas e bem fundadas do Sr. -Gonçalves Dias sobre o lamentavel estado dos estabelecimentos, objecto de -suas investigações. - -Pode lêr-se o seo _Relatorio_ escripto em bom estylo na _Revista -Trimensal_ publicada com tanto zelo pelo Instituto Historico do Rio de -Janeiro. - -Citaremos apenas, que ha dez annos, Gonçalves Dias achou 2:000 volumes -na Bibliotheca Publica e no Almanach de 1860, edictado pelo Sr. B. de -Mattos, apparecem 1:030 em deploravel estado! - -Possa a reimpressão da obra do padre Ivo d’Evreux marcar uma nova era na -patria de Odorico Mendes, de Gonçalves Dias, e de João Lisboa. - - -FIM. - - -NOTAS - -[BG] Consulte-se a respeito de todos estes assumptos o meo _Diccionario -historico e geographico do Maranhão_. Iria longe se eu quizesse -acompanhar _parí passu_ esta publicação, onde não poucas vezes foi -illudida a bôa fé de Mr. Ferdinand Diniz.—Do traductor. - -[BH] Outro engano. Aqui não se conhece esta dóca.—Do traductor. - -[BI] 40 leguas? Não, e sim 4 leguas. Vide art. _Alcantara_ no meo -_Diccionario_.—Do traductor. - -[BJ] É engano. O major Fidié não foi vencido, e sim capitulou -honrosamente em 1.º de Agosto de 1823. (Vide _Historia da Independencia -do Maranhão_ (1822 a 1823) pelo Dr. Luiz Antonio Vieira da Silva, hoje -Senador do Imperio, pag. 109 a 127.)—Do traductor. - -[BK] Mr. Ferdinand Diniz foi illudido por escriptos politicos, embora -habilmente manejados porem sempre com paixão. - -Não foi o Conselheiro Furtado a quem se deve esse estado de paz, e sim a -outro cidadão como ja disse no meo _Diccionario_ neste trecho que para -aqui transcrevo. - -—Durou este triste e lamentavel estado de ferocidade ou dezespero até -o tempo, em que o fallescido Dr. Eduardo Olympio Machado perante os -escolhidos da Provincia em 1851 recitou estas palavras: - -«A febre homicida, que ía lavrando pelo municipio de Caxias, tem feito, -vae para tres mezes, prolongada remissão. E qual o reagente que conseguio -acalmar seos lugubres accessos? A energia e actividade do actual -delegado de policia o Dr. João de Carvalho Fernandes Vieira, o qual, -formando culpa aos delinquentes, perseguindo-os com incansavel zelo, -devassando as casas de certos individuos, que até então contavam, senão -com acquiescencia, com o silencio da auctoridade publica, tem conseguido -restituir á tranquilidade o districto de sua jurisdicção.» - -Foram estes valiosos e importantes serviços apreciados pelo Governo -Central, pois mandou por mais de um Aviso louvar o Dr. João de Carvalho. - -D’ahi a poucos annos houve quem intentasse arrancar esses louros da -fronte do energico e activo ex-juiz municipal e delegado de policia de -Caxias para offerecer a outro, que nada fez, não cuidando da historia que -tudo registra e a todos faz justiça! - -Esta acção, por demais injusta, nos faz lembrar estes versos do poeta de -Mantua: - - Hos ego versiculos feci: tulit alter honores - Sic vas non vobis, nidificates, aves etc etc. - -Do traductor. - -[BL] É injustiça confundir-se nesta censura o Convento do Carmo, graças -ao zelo do seo benemerito Provincial o Revd. Frei Caetano de Santa Rita -Serejo.—Do traductor. - - - - -INDICE. - - - Ao leitor - - Introducção 1 - - Ao Rei 1 - - Ao Rei 3 - - Prefacio 7 - - Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz do - Maranhão 9 - - Do estado do poder temporal em sua primitiva 11 - - Da construcção do Forte de S. Luiz, e do interesse dos - selvagens em carregar terra 14 - - Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem ao Amazonas 19 - - Partida dos francezes para o Amazonas em companhia dos - selvagens 23 - - Do que aconteceo na Ilha durante esta viagem, e principalmente - das astucias de um selvagem chamado Capitão 27 - - Da chegada de uma barca portugueza a Maranhão 31 - - Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary 36 - - Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos e como - escravisam seos inimigos 40 - - Leis do captiveiro 44 - - Outras leis para os escravos 48 - - Quanto são misericordiosos os selvagens para com os criminosos - por acaso e sem malicia 52 - - Quanto é facil civilisar os selvagens á maneira dos francezes e - ensinar-lhes os officios que temos em França 58 - - Quanto são aptos os selvagens para aprenderem sciencias e - virtudes 63 - - Continuação do objecto antecedente 67 - - Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada - inviolavelmente pela mocidade 71 - - A mesma ordem e respeito é observada entre as raparigas e as - mulheres 79 - - Da consaguinidade entre os selvagens 84 - - Dos caracteres incompativeis entre os selvagens 90 - - Da economia dos selvagens 94 - - Do cuidado que do seo corpo tem os selvagens 95 - - De algumas indisposições naturaes, a que os selvagens se acham - sujeitos, e quaes os nomes que dão aos membros do corpo 101 - - De algumas molestias particulares á estes paizes de indios e de - seos remedios 106 - - Da morte e dos funeraes dos indios 111 - - Do regresso á ilha do Sr. de la Ravardiere e de alguns - Principaes, que o seguiram 116 - - Viagem do capitão Maillar pela terra firme á casa de um grande - feiticeiro. Descripção desta terra e das zombarias d’elle 120 - - Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos, suas habitações - e procedimento 125 - - Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuytapéra e da viagem ao - Uarpy 129 - - Dos astros e do sol 132 - - Ventos, chuvas, trovões e relampagos em Maranhão e suas - circumvisinhanças 135 - - Mar, agoas e fontes do Maranhão 139 - - Singularidades de algumas arvores do Maranhão 141 - - Dos peixes, passaros e lagartos, que se encontram n’estes - paizes 146 - - Da pesca do Pery 148 - - Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas 153 - - Das aranhas, cigarras e mosquitos 165 - - Dos grilos, dos camaleões e das moscas 160 - - Das onças e dos macacos do Brazil 173 - - Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos d’aquelle - paiz 178 - - Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á - respeito das Indias Occidentaes 184 - - Instrucção para os que vão pela primeira vez ás Indias 189 - - Do acolhimento, que fazem os selvagens aos francezes - recem-chegados, e como convem proceder para com elles 193 - - Dos fructos do Evangelho, que appareceram cedo pelo baptismo de - muitos meninos 201 - - Do baptismo de muitos enfermos e velhos, que falleceram depois - de christãos 210 - - Do baptismo de muitos adultos, especialmente d’um chamado - Martinho 217 - - Do que fez este christão em beneficio da instrucção e conversão - dos seos similhantes 225 - - De um Indio condemnado á morte, que pedio o baptismo antes de - morrer 230 - - Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens quando - nos vinham vêr, para chamal-os ao conhecimento de Deos e á - obediencia de nosso Rei 234 - - Formulario da doutrina christã, que aprendiam e recitavam de - cór, antes de serem baptisados 241 - - Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos, dos - espiritos e da alma 246 - - Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em suas - cadeias por tão longo tempo estes selvagens 252 - - Como falla o diabo aos feiticeiros do Brasil, suas falsas - profecias, idolos e sacrificios 259 - - De algumas outras ceremonias diabolicas praticadas pelos - feiticeiros do Brasil 271 - - Claros signaes do reino do diabo em Maranhão 275 - - Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer e - começarão a restabelecer o reinado de Jesus Christo 283 - - Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro de Commã 289 - - Segunda conferencia que tive com Pacamão 296 - - Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra 304 - - Conferencia com Jacupen 311 - - Conferencia com o principal de Orubutin 317 - - Conferencia com o Onda, um dos principaes de Commã 321 - - Congratulação á França etc. etc. 329 - - Fidelissima narração etc. etc. 334 - - Narração d’um marinheiro 344 - - Notas criticas e historicas por Mr. Ferdinand Diniz 347 - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Viagem ao norte do Brazil feita nos -annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D, by Ivo D'Evreux - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGEM AO NORTE DO BRAZIL *** - -***** This file should be named 63258-0.txt or 63258-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/2/5/63258/ - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was -produced from images generously made available by Cornell -University Digital Collections) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive -specific permission. If you do not charge anything for copies of this -eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook -for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports, -performances and research. They may be modified and printed and given -away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks -not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the -trademark license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm -electronic works. See paragraph 1.E below. - -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the -Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when -you share it without charge with others. - -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country outside the United States. - -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: - -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work -on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the -phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: - - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and - most other parts of the world at no cost and with almost no - restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it - under the terms of the Project Gutenberg License included with this - eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the - United States, you'll have to check the laws of the country where you - are located before using this ebook. - -1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase "Project -Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. - -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. - -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg-tm License. - -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format -other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg-tm web site -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain -Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1. - -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works -provided that - -* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation." - -* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm - works. - -* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - -* You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg-tm works. - -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The -Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm -trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below. - -1.F. - -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. - -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right -of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. - -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. - -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. - -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. - -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any -Defect you cause. - -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm - -Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at -www.gutenberg.org - - - -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the -mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its -volunteers and employees are scattered throughout numerous -locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt -Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular -state visit www.gutenberg.org/donate - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate - -Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works. - -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our Web site which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. - |
