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If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: Iracema - com uma noticia biographica do auctor - -Author: José Martiniano de Alencar - -Release Date: March 30, 2022 [eBook #67740] - -Language: Portuguese - -Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by - Hathi Trust Digital Library.) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK IRACEMA *** - - -BIBLIOTHECA UNIVERSAL - -ANTIGA E MODERNA - - - - -IRACEMA - - - - -POR - -JOSÉ DE ALENCAR - - -COM UMA NOTICIA BIOGRAPHICA DO AUCTOR - -13ª SERIE--NUMERO 49 - - - - -LISBOA - -COMPANHIA NACIONAL EDITORA - -Successora de DAVID CCRAZZI e JUSTINO GUEDES - -40--Rua da Atalaya--52 - - -FILIAES: Praça de D. Pedro, 137, 1º andar, PORTO - -38, rua da Quitanda, Rio de Janeiro - - -1890 - - - - -Á TERRA NATAL - -UM FILHO AUSENTE - - - - -INDICE -NOTICIA BIOGRAPHICA -MEU AMIGO -IRACEMA -CAPITULO I -CAPITULO II -CAPITULO III -CAPITULO IV -CAPITULO V -CAPITULO VI -CAPITULO VII -CAPITULO VIII -CAPITULO IX -CAPITULO X -CAPITULO XI -CAPITULO XII -CAPITULO XIII -CAPITULO XIV -CAPITULO XV -CAPITULO XVI -CAPITULO XVII -CAPITULO XVIII -CAPITULO XIX -CAPITULO XX -CAPITULO XXI -CAPITULO XXII -CAPITULO XXIII -CAPITULO XXIV -CAPITULO XXV -CAPITULO XXVI -CAPITULO XXVII -CAPITULO XXVIII -CAPITULO XXIX -CAPITULO XXX -CAPITULO XXXI -CAPITULO XXXII -CAPITULO XXXIII -NOTAS -CARTA AO DR. JAGUARIBE - - - - -NOTICIA BIOGRAPHICA - - -José Martiniano do Alencar. Este grande escriptor brazileiro, mais -conhecido pelo nome de José de Alencar, nasceu no Ceará no dia 1 de -janeiro de 1829, sendo filho, ao que parece, do illustre politico do -mesmo nome. Dizemos "ao que parece" porque nas biographias d'este grande -escriptor, que temos presentes, não se accusa a sua filiação. Pode -ser lapso, pode ser outro motivo qualquer que não precisamos de apurar. -O que é certo é que José Martiniano d'Alencar mostrou desde creança -um grande engenho. Tinha 17 annos quando em 1840 se matriculou na -faculdade de direito de S. Paulo para tomar, como tomou, o grau de -bacharel, tendo ido porém em 1848 concluir os seus estudos juridicos e -formar-se na eschola de Olinda. - -Em S. Paulo começou a manifestar-se o seu talento litterario, -publicando varios artigos n'um periodico intitulado: _Ensaios_, e -redigido pelos estudantes da Faculdade, que appareceu em S. Paulo nos -annos de 1840 a 1848. - -Em 1851 concluiu Alencar o seu curso, e veiu logo para o Rio de Janeiro, -entregando-se então com mais desafogo aos trabalhos litterarios. -Estreiou-se na capital do imperio escrevendo no _Correio Mercantil_ um -artigo de critica acerca das _Poesias_ de Augusto Zaluar. N'esse mesmo -anno, como que para mostrar que as suas preoccupações litterarias o -não desviavam de estudos mais áridos, escreveu alguns artigos sobre a -reforma hypothecaria, e em seguida começou a escrever, sempre no -_Correio Mercantil_ umas revistas semanaes, intituladas: _Ao correr da -penna_ assignadas com a sigla _Al_. - -Em julho de 1855 sahiu da redacção do _Correio Mercantil_, e passou a -collaborar no _Jornal do Commercio_, onde escreveu, entre outros -artigos, um a respeito de Thalberg, outro a respeito do _Othello_ e -outro ácerca do padre Mont'Alverne. Em outubro de 1855 assumiu a -direcção do _Diario do Rio de Janeiro_, que conservou até 1858. - -Em 1856 publicou o seu primeiro folheto, que devia ser seguido por -tamanho numero de volumes. Esse folheto intitulava-se: _Cartas sobre a -confederação dos Tamoyos_, e era uma collecção de folhetins que -haviam sido publicados no _Diario do Rio de Janeiro_, e em que se fazia a -critica do celebre poema de Gonçalves Dias. - -Em 1857, finalmente, sahia o _Guarany_ o famoso romance brazileiro, que -produziu um verdadeiro enthusiasmo, e que deu a José d'Alencar os -fóros, emquanto a nós merecidissimos, de primeiro romancista -brazileiro. Alguns criticos rabujentos notavam que aquelles Indios de -José de Alencar eram _plus beaux que nature_, que eram uns Indios -ideaes, muito diversos das creaturas porcas, rebaixadas e deprimidas que -representam na actual civilisação brazileira o elemento indigena. -Esses criticos porém esqueciam-se de uma cousa: de que os Indios -actuaes não são os Indios que viviam livremente na floresta, na -plenitude da sua força e da sua independencia, e tambem de que, se os -guaranys de Alencar são pelo menos Indios de excepção, Indios de -excepção eram tambem de certo aquelle suave Uncas, o ultimo dos -mohicanos, e o pensativo Chingachgook, que viviam em tão santa harmonia -com o Longa Carabina, aquelle Nathaniel Bempo, personagem querido de -Fennimore Cooper. - -Mas os protestos, se os houve, desappareceram no meio do coro unisono -dos applausos. O Brazil tinha finalmente uma litteratura sua, bem sua, -romances que se não modelavam pelas formas velhas e gastas dos romances -europeus. A America do Sul tinha emfim o seu Cooper. - -Pery, Izabel, Alvaro, Ayres Gomes foram personagens que ficaram, para -sempre gravados no espirito do publico brazileiro, e, para mais se -consagrar a gloria do _Guarany_, até o grande maestro brazileiro Carlos -Gomes escolheu este formoso romance para d'elle se extrahir o _libretto_ -da sua opera o _Guarany_, que é a sua obra prima, a obra prima da -musica brazileira, e uma das notaveis operas do nosso tempo, que já -hoje tem fama universal, e é representada com applauso em todos os -theatros do mundo. - -O que, porém, sobretudo se apreciava no _Guarany_, e a esse respeito -não havia diversidade de opiniões, era a belleza incomparavel do -estylo, a magnificencia das descripções da natureza. - -Ao mesmo tempo tentava José de Alencar o theatro, e, depois de fazer -representar uma comedia de valor secundario _Verso e reverso_, dava ao -theatro a sua obra prima, tambem uma das obras primas do theatro -brazileiro, _O Demonio familiar_. É esta comedia um magnifico estudo -dos costumes brazileiros, e foi decerto um profundo golpe vibrado á -escravatura, porque o seu entrecho se cifra principalmente na -demonstração da influencia nefasta do _moleque_ na familia brazileira. -_O Demonio familiar_ é esse moleque, elemento permanente de discordia e -de desmoralisação. - -O _Guarany_ e o _Demonio familiar_ bastavam para assegurar a gloria de -um escriptor; mas José de Alencar foi sempre consummido por uma sede -insaciavel de escrever. Trabalhava com uma rapidez tal que isso -prejudicava muitas vezes o acabado das suas obras, e impedia-o de lhes -fazer attingir a perfeição, a que poderiam aliás ter chegado tanto -quanto isso é possivel a obras humanas. - -No theatro, pois, ao _Demonio familiar_ e ao _Verso e reverso_ -seguiram-se o _Credito_, e os _Jesuitas_, drama que foi retirado de -scena, porque o publico abandonou por tal forma o theatro em que elle se -representava que diz um critico de Alencar, que talvez no Rio de Janeiro -não fosse visto por um cento de pessoas. Esta ausencia do publico -indignou muito José de Alencar que, publicando o drama, o precedeu de -um prefacio em que diz que dava o drama á luz publica, só para que se -visse que, se o theatro brazileiro não existia, não era por falta de -bons auctores, nem de boas peças, mas sim pelo inqualificavel -retrahimento do publico. Este accesso de vaidade não era permittido a -um homem de tão verdadeiro merecimento como era José de Alencar. -Effectivamente não tinha razão alguma: o drama os _Jesuitas_ era -detestavel, pueril, sem caracteres bem desenhados, sem acção logica, -sem cousa alguma do que constitue verdadeiramente o merito de uma obra -litteraria. - -Não desanimou Alencar, e deu á scena as _Azas de um Anjo_, drama que -se modelava um pouco pela _Dama das Camelias_, com a excepção de que -no fim Margarida Gautier casa com Armand Duval. Um critico brazileiro -muito divertido, que assigna com as iniciaes J. S. uma obra -verdadeiramente inepta intitulada _Manual de litteratura_, diz a respeito -das _Azas de um Anjo_ o seguinte: - -"É uma tocante oração em favor da perdida. - -"No fim, sobretudo, no casamento d'esta com Luiz, nada ha de francez. É -um traço de bondade e abnegação, proprio do caracter brazileiro, que -o francez não approvaria." - -Esperamos ainda assim que no Brazil não sejam extremamente vulgares -esses actos de abnegação e de bondade, porque a geração que -resultasse d'estes actos de bondade podia ser exquisitamente -qualificada. - -Mas o que é curioso é que, apesar d'esta peça ser a apotheose do -caracter brazileiro, a auctoridade prohibiu que se representasse, e -_J.S._ acha muito justa a prohibição. Já se vê que não quer que no -theatro se ponham em relevo para ensinamento do publico a bondade e a -abnegação tão proprias do caracter brazileiro. - -José de Alencar acudiu em defeza da sua peça na imprensa, e outros -escriptores o apoiaram. Effectivamente a pudibunda censura brazileira -mostrou-se muito mais transigente com peças de um valor muito inferior -ao das _Azas de um Anjo_. - -A ultima peça de José de Alencar foi a _Mai_, representada em 1860. - -N'esse mesmo anno era elle nomeado consultor do ministerio da justiça, -e recebia a carta de conselho. - -José de Alencar, ao passo que ia ganhando um brilhante nome litterario, -não abandonava a politica nem descurava as cousas praticas da vida. -Fôra, havia muito, nomeado professor de direito mercantil no _Instituto -Commercial_ do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo entrava como deputado na -camara, pertencendo, porém, ao grupo conservador, em vez de se -enfileirar, como o outro José Martiniano de Alencar, nas phalanges do -partido liberal. Na sua carreira de empregado publico foi tambem, além -de consultor do ministerio da justiça, director de secção. - -A acção da politica no litterato sente-se na _Guerra dos Mascates_, -romance em dois volumes, que elle publicou a bastante distancia de tempo -um do outro, cujo enredo se trava em 1710 no tempo das desavenças dos -moradores de Olinda com os do Recife, mas que tem apenas por intento -fazer retratos contemporaneos com os nomes do seculo XVIII. Esta -intenção era por tal forma transparente que no parlamento lh'o -lançaram em rosto, porque effectivamente Alencar não se contentava com -o desenho moral dos personagens, fazia o retrato physico tanto ao vivo -que ninguem podia deixar de reconhecer o retratado. Assim o governador -de Pernambuco D. Sebastião de Sousa Caldas é evidentemente o imperador -D. Pedro II, o secretario Barbosa Lima é o visconde do Rio Branco, -outro personagem é o marquez de S. Vicente, outro o barão de -Inhomerim, etc., etc. - -O retrato do imperador não está muito lisongeado, e não devia agradar -ao personagem escolhido para modêlo, que se podia até considerar como -injuriado positivamente. Comtudo, isso não obstou a que o imperador, em -1868, quando se formou o ministerio conservador, acceitasse a entrada de -José Martiniano de Alencar para a pasta da justiça. Esteve porém -pouco tempo no ministerio. Uma dissidencia no seio do partido -conservador fêl-o sahir do governo, levando-o a ir sentar-se na camara -ao lado dos dissidentes. - -Continuando, porém, a apreciar o litterato, o romancista, citemos ainda -dois dos seus melhores romances: o _Gaúcho_ e _Iracema_. O caracter do -gaúcho, que adora a sua egua _Morena_, que a entende, que lhe fala e -que a escuta, está traçado com uma rara perfeição. _Iracema_ é -sobretudo um romancinho adoravelmente escripto. Nunca o estylo de -Alencar attingiu tão delicada suavidade. Exhala-se de cada periodo como -que o perfume das flores com que se elabora o mel das suas palavras. O -sr. Pinheiro Chagas teve occasião de prestar a este livro a merecida -homenagem. Fez porém algumas observações relativas á mania que teem -alguns escriptores brazileiros, e um d'elles era Alencar, de pretenderem -modificar as formas grammaticaes da lingua. Alencar entendeu dever -responder na segunda edição do seu romance á critica do escriptor -portuguez. Essa replica parecia-se um pouco com o prefacio dos -_Jesuitas_. Manifestava uma grande vaidade realmente inadmissivel em -escriptor de tão elevado merito, e mostrava um desprêso completo pelas -regras mais elementares da philologia. - -As _Minas de prata_ passam por ser um dos seus menos bons romances; -encerra comtudo algumas scenas primorosas. Queixam-se os paulistas de -que as paizagens da sua provincia descriptas no _Til_, são -perfeitamente phantasistas; _Ubirajara_, _A pata da Gazella_, _O tronco -do ipê_, se não augmentaram a reputação do grande romancista não a -prejudicaram tambem. O _Sertanejo_, muito criticado por alguns, -parece-nos comtudo um dos seus bons romances. As paizagens que elle -descreve são as paizagens da sua provincia natal, que elle conhece -perfeitamente, e o typo do vaqueiro que ama em silencio a filha do seu -patrão e que procura, com uma raiva intima, afastar todos aquelles que -ella possa amar, está traçado com vigor. - -Os seus romances de côrte, se assim nós podemos exprimir, são -inferiores aos seus romances do sertão. Nem firmou alguns d'elles com o -seu nome, _Diva_ e _Luciola_, romances moldados pela comedia _Azas de um -Anjo_ tratam da rehabilitação de peccadoras; _Cinco minutos_, uma das -suas primeiras obras e a _Viuvinha_ são romances ligeirissimos, -graciosamente desenhados; a _Senhora_ encerra uma situação fortemente -dramatica, mas mal desenvolvida. Trata-se de um homem de vis -sentimentos, que despreza uma rapariga pobre que o adorava e despreza-a -por ella ser pobre. Tempos depois, acceita o casamento com uma mulher -deshonrada por outro homem, porque este lhe paga por uma avultada somma -a venda do seu nome. Ora essa mulher é a tal que elle desprezara e que -o seu desprêso arrojara pelo caminho da prostituição. O assumpto -prestava-se, como vêem, ás mais dramaticas situações. - -No genero de pamphletos, e obras politicas, etc., escreveu ainda José -de Alencar, que sempre se mostrou hostil ao imperador, a _imagem -imperial_, e as _Cartas de Erasmo_. Publicou em volume os seus discursos -parlamentares de 1809, e os de 1871. É tambem sua, uma obra intitulada -_Estatistica da provincia do Ceará_. - -José de Alencar veiu á Europa em 1870. Voltando ao Brazil, foi -inesperadamente colhido pela morte no anno de 1877, quando acabava de -completar 48 annos, e quando se achava portanto na força da vida. A sua -morte enluctou a litteratura brazileira e aquelles mesmos que tinham -combatido _Senio_, pseudonymo querido de José de Alencar, foram os -primeiros a render homenagem ao grande vulto, logo que elle desappareceu -da scena publica. - - -(Do _Diccionario Popular_). - - - - -MEU AMIGO - -Este livro vae naturalmente encontral-o no seu pittoresco sitio da -varzea, no doce lar, que povoa a numerosa prole, alegria e esperança -do casal. - -Imagino que é a hora mais ardente da sesta. - -O sol a pino dardeja raios de fogo sobre as areias nataes: as aves -emmudecem; as plantas languem. A natureza soffre a influencia da -poderosa irradiação tropical, que produz o diamante e o genio, as duas -mais sublimes expressões do poder creador. - -Os meninos brincam na sombra do outão, com pequenos ossos de rezes, que -figuram a boiada. Era assim que eu brincava, ha quantos annos, em outro -sitio, não muito distante do seu. A dona da casa terna e incansavel -manda abrir o côco verde, ou prepara o saboroso creme do burity para -refrigerar o esposo, que pouco ha recolheu de sua excursão pelo sitio, -e agora repousa embalando-se na macia e commoda rêde. - -Abra então este livrinho, que lhe chega da côrte imprevisto. Percorra -suas paginas para desenfastiar o espirito das cousas graves que o trazem -occupado. - -Talvez me desvaneça amor do ninho, ou se illudam as reminiscencias da -infancia avivadas recentemente. Senão, creio que ao abrir o pequeno -volume, sentirá uma onda do mesmo aroma silvestre e bravio que lhe vem -da varzea. Derrama-o a briza que perpassou os espathos da carnauba e a -ramagem das aroeiras em flôr. - -Essa onda é a inspiração da patria que volve a ella, agora e sempre, -como volve de continuo o olhar do infante para o materno semblante que -lhe sorri. - -O livro é cearense. Foi imaginado ahi, na limpidez d'esse céo de -cristallino azul, e depois vasado no coração cheio das recordações -vivaces de uma imaginação virgem. Escrevi-o para ser lido lá, na -varanda da casa rustica ou na fresca sombra do pomar, ao doce embalo da -rêde, entre os murmures do vento que crepita na arêa ou farfalha nas -palmas dos coqueiros. - -Para lá, pois, que é o berço seu, o envio. - -Mas assim mandado por um filho ausente, para muitos extranho, esquecido -talvez dos poucos amigos, e só lembrado pela incessante desaffeição, -qual sorte será a do livro? - -Que lhe falte hospitalidade, não ha temer. As auras de nossos campos -parecem tão impregnadas d'essa virtude primitiva, que quantas raças -habitem ahi a inspiram com o halito vital. Receio sim que seja recebido -como extrangeiro e hospede na terra dos meus. - -Se, porém, ao abordar ás plagas do Mocoribe, fôr acolhido pelo bom -cearense, presado de seus irmãos ainda mais na adversidade do que nos -tempos prosperos, estou certo que o filho de minha alma achará na terra -de seu pae, a intimidade e conchego da familia. - -O nome de outros filhos ennobrece nossa provincia na politica e na -sciencia; entre elles o meu, hoje apagado, quando o trazia -brilhantemente aquelle que primeiro o creou. N'este momento mesmo a -espada heroica de muito bravo cearense vae ceifando no campo da batalha -ampla messe de gloria. - -Quem não pode illustrar a terra natal canta as lendas suas, sem metro, -na rude toada de seus antigos filhos. - -Acolha pois a primeira mostra e offereça-a a nossos patricios a quem é -dedicada. - -Este pedido foi um dos motivos de lhe endereçar o livro: o outro lhe -direi depois que o tenha lido. - -Muita cousa me occorre dizer sobre o assumpto, que talvez devera -anticipar á leitura da obra, para prevenir a surpreza de alguns e -responder ás observações ou reparos de outros. - -Mas sempre fui avêsso aos prologos; em meu conceito elles fazem á -obra, o mesmo que o passaro á fructa antes de colhida; roubam as -primicias do sabor litterario. Por isso me reservo para depois. - -Na ultima pagina me encontrará de novo; então conversaremos a gosto, -em mais liberdade do que teriamos n'este portico do livro, onde as -etiquetas mandam receber o publico com a gravidade e reverencia devida a -tão alto senhor. - - -Rio de Janeiro--Maio de 1865. - - - J. de Alencar. - - - - -IRACEMA - - - -I - - -Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas -frondes da carnaúba: - -Verdes mares que brilhaes como liquida esmeralda aos raios do sol -nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros: - -Serenae verdes mares, e alisae docemente a vaga impetuosa para que o -barco aventureiro manso resvalle á flôr das aguas. - -Onde vae a affouta jangada, que deixa rapida a costa cearense, aberta ao -fresco terral a grande vela? - -Onde vae como branca alcyone buscando o rochedo patrio nas solidÕes do -oceano? - -Tres entes respiram sobre o fragil lenho que vae singrando veloce, mar -em fora: - -Um joven guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano: uma -creança e um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam -irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem. - -A lufada intermittente traz da praia um écho vibrante, que resôa entre -o marulho das vagas: - ---Iracema!... - -O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos prêsos na sombra -fugitiva da terra: a espaços o olhar empanado por tenue lagrima cahe -sobre o giráu, onde folgam as duas innocentes creaturas, companheiras -de seu infortunio. - -N'esse momento o labio arranca d'alma um agro sorriso. - -Que deixára elle na terra do exilio? - -Uma historia que me contaram nas lindas varzeas onde nasci, á calada da -noite, quando a lua passeava no céo argenteando os campos, e a brisa -rugitava nos palmares. - -Refresca o vento. - -O rullo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas; desapparece -no horisonte. Abre-se a immensidade dos mares: e a borrasca enverga, -como o condor, as foscas azas sobre o abysmo. - -Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas -revoltas, e te poje n'alguma enseada amiga. Soprem para ti as brandas -auras: e para ti jaspeie a bonança mares de leite. - -Em quanto vogas assim á discripção do vento, airoso barco, volva ás -brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra -onde revoa. - - - - -II - - -Além, muito além d'aquella serra, que ainda azula no horisonte, nasceu -Iracema: - -Iracema, a virgem dos labios de mel, que tinha os cabellos mais negros -que a aza da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. - -O favo da jaty não era doce como seu sorriso; nem a baunilha rescendia -no bosque como seu halito perfumado. - -Mais rapida que a corsa selvagem, a morena virgem corria o sertão e as -matas do Ipú, onde campeava sua guerreira tribu, da grande nação -tabajara. O pé gracil e nú, mal rosçando, alisava apenas a verde -pellucia que vestia a terra com as primeiras aguas. - -Um dia, ao pino do sol, ella repousava em um claro da floresta. -Banhava-lhe o corpo a sombra da oitycica, mais fresca do que o orvalho -da noite. Os ramos da acacia silvestre esparziam flores sobre seus -humidos cabellos. Escondidos na folhagem os passaros ameigavam o canto. - -Iracema sahiu do banho: o aljofar d'agua ainda a roreja, como á dôce -mangaba que córou em manhã de chuva. Emquanto repousa empluma das -pennas do gará as flechas de seu arco; e concerta com o sabiá da mata -pousado no galho proximo, o canto agreste. - -A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto d'ella. Ás vezes -sobe aos ramos da arvore e de lá chama a virgem pelo seu nome; outras -remexe o urú de palha matisada, onde traz a selvagem seus perfumes, os -alvos fios do crautá, as agulhas da jussára com que tece a renda, e as -tintas de que matisa o algodão. - -Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os -olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. - -Deante d'ella e todo a contemplal-a, está um guerreiro extranho, se é -guerreiro e não algum máu espirito da floresta. Tem nas faces o branco -das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das aguas -profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo. - -Foi rapido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco -partiu. Gottas de sangue borbulham na face do desconhecido. - -De primeiro impeto, a mão lesta cahiu sobre a cruz da espada; mas logo -sorrio. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a -mulher é symbolo de ternura e amor. Soffreu mais d'alma, que da ferida. - -O sentimento que elle pôz nos olhos e no rosto, não sei eu. Porem a -virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, -sentida da magoa que causara. A mão que rapida ferira, estancou mais -rapida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a -flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando comsigo a ponta -farpada. - -O guerreiro falou: - ---Quebras commigo a flecha da paz? - ---Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? D'onde -vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu? - ---Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus -irmãos já possuiram, e hoje tem os meus. - ---Bemvindo seja o extrangeiro aos campos dos Tabajaras, senhores das -aldeias, e á cabana de Araken, pae de Iracema. - - - - -III - - -O extrangeiro seguiu a virgem através da floresta. - -Quando o sol descambava sobre a crista dos montes, e a rôla desatava do -fundo da mata os primeiros arrulhos, elles descobriram no valle a grande -taba: e mais longe, pendurada no rochedo, á sombra dos altos joaseiros, -a cabana do Pagé. - -O ancião fumava á porta, sentado na esteira de carnaúba, meditando os -sagrados ritos de Tupan. O tenue sôpro da brisa carmeava, como frocos de -algodão, os compridos e raros cabellos brancos. De immovel que estava, -sumia a vida nos olhos cavos e nas rugas profundas. - -O Pagé lobrigou os dois vultos que avançavam; cuidou vêr a sombra de -uma arvore solitaria que vinha alongando-se pelo valle fora. - -Quando os viajantes entraram na densa penumbra do bosque, então seu -olhar como o do tigre, feito ás trevas, conheceu Iracema, e viu que a -seguia um joven guerreiro, de extranha raça e longes terras. - -As tribus tabajaras, d'além Ibyapaba, falavam de uma nova raça de -guerreiros, alvos como flôres de borrasca, e vindos de remota plaga ás -margens do Mearim. O ancião pensou que fôsse um guerreiro semelhante, -aquelle que pisava os campos nativos. - -Tranquillo, esperou. - -A virgem aponta para o extrangeiro e diz: - ---Elle veiu, pae. - ---Veiu bem. É Tupan que traz o hospede á cabana de Araken. - -Assim dizendo, o Pagé passou o cachimbo ao extrangeiro: e entraram -ambos na cabana. - -O mancebo sentou na rede principal, suspensa no centro da habitação. - -Iracema accendeu o fogo da hospitalidade; e trouxe o que havia de -provisões para satisfazer a fome e a sede: trouxe os restos da caça, a -farinha d'agua, os fructos silvestres, os favos de mel e o vinho de -cajú e ananaz. - -Depois a virgem entrou com a igaçaba, que enchêra na fonte proxima de -agua fresca para lavar o rosto e as mãos do extrangeiro. - -Quando o guerreiro terminou a refeição, o velho Pagé apagou o -cachimbo e falou: - ---Vieste? - ---Vim: respondeu o desconhecido. - ---Bem vieste. O extrangeiro é senhor na cabana de Araken. Os Tabajaras -tem mil guerreiros para defendel-o, e mulheres sem conto para servil-o. -Dize, e todos te obedecerão. - ---Pagé eu te agradeço o agasalho que me déste. Logo que o sol nascer -deixarei tua cabana e teus campos onde vim perdido; mas não devo -deixal-os sem dizer-te quem é o guerreiro, que fizeste amigo. - ---Foi a Tupan que o Pagé serviu: elle te trouxe, elle te levará. -Araken nada fez pelo hospede; não pergunta d'onde vem, e quando vae. Se -queres dormir, desçam sobre ti os sonhos alegres: se queres falar, teu -hospede escuta. - -O extrangeiro disse: - ---Sou dos guerreiros brancos, que levantaram a taba nas margens do -Jaguaribe, perto do mar, onde habitam os Pytiguaras, inimigos de tua -nação. Meu nome é Martim, que na tua lingua diz como filho de -guerreiro; meu sangue o do grande povo que primeiro viu as terras de tua -patria. Já meus destroçados companheiros voltaram por mar ás margens -do Parahyba, de onde vieram: e o chefe, desamparado dos seus, atravessa -agora os vastos sertões do Apody. Só eu de tantos fiquei, porque -estava entre os Pytiguaras de Acaraú, na cabana do bravo Poty, irmão -de Jacaúna, que plantou commigo a arvore da amizade. Ha tres sóes -partimos para a caça; e perdido dos meus vim aos campos dos Tabajaras. - ---Foi algum máu espirito da floresta que cegou o guerreiro branco no -escuro da mata: respondeu o ancião. - -A cauâm piou, além. na extrema do valle. Cahia a noite. - - - - -IV - - -O Pagé vibrou a maracá, e sahiu da cabana: porém, o extrangeiro não -ficou só. - -Iracema voltára com as mulheres chamadas para servir o hospede de -Araken, e os guerreiros vindos para obedecer-lhe. - ---Guerreiro branco, disse a virgem, o prazer emballe a tua rêde durante -a noite; e o sol traga luz aos teus olhos, alegria á tua alma. - -E assim dizendo Iracema tinha o labio tremulo, e humida a palpebra. - ---Tu me deixas? perguntou Martim. - ---As mais bellas mulheres da grande taba comtigo ficam. - ---Para ellas a filha de Araken não devia ter conduzido o hospede á -cabana do Pagé. - ---Extrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ella que guarda o -segredo da jurema e o mysterio do sonho. Sua mão fabrica para o Pagé a -bebida de Tupan. - -O guerreiro christão atravessou a cabana e sumiu-se na treva. - -A grande taba erguia-se no fundo do valle, illuminada pelos faxos da -alegria. Rugia o maracá; ao quebro lento do canto selvagem, batia a -dança em torno a rude cadencia. O Pagé inspirado conduzia o sagrado -tripudio e dizia ao povo crente os segredos de Tupan. - -O maior chefe cia nação tabajara, Irapuam, descêra do mais alto da -serra Ibyapaba, para levar as tribus do sertão contra o inimigo -Pytiguara. Os guerreiros do valle festejam a vinda do chefe e o proximo -combate. - -O mancebo christão viu longe o clarão da festa, e passou além, e -olhou o céo azul sem nuvens. A estrella morta que então brilhava sobre -a cupula da floresta, guiou seu passo firme para as frescas margens do -Acaraú. - -Quando elle transmontou o valle e ia penetrar na matta, o vulto de -Iracema surgiu. A virgem seguira o extrangeiro como a brisa subtil que -resvalla sem murmurejar por entre a ramagem. - ---Porque, disse ella, o extrangeiro abandona a cabana hospedeira sem -levar o presente da volta? Quem fez mal ao guerreiro branco na terra dos -Tabajaras? - -O christão sentiu quanto era justa a queixa, e achou-se ingrato. - ---Ninguem fez mal ao teu hospede, filha de Araken. Era o desejo de vêr -seus amigos que o afastava dos campos dos Tabajaras. Não levava o -presente da volta; mas leva em sua alma a lembrança de Iracema. - ---Se a lembrança de Iracema estivesse na alma do extrangeiro, ella não -o deixaria partir. O vento não leva a areia da varzea, quando a areia -bebe a agua da chuva. - ---A virgem suspirou: - ---Guerreiro branco, espera que Cauby volte da caça. O irmão de Iracema -tem o ouvido subtil que pressente a boicininga entre os rumores da -matta; e o olhar do oitibó que vê melhor na treva. Elle te guiará ás -margens do rio das garças. - ---Quanto tempo se passará antes que o irmão de Iracema esteja de volta -na cabana de Araken? - ---O sol, que vae nascer, tornará com o guerreiro Cauby aos campos do -Ipú. - ---Teu hospede espera, filha de Araken: mas se o sol tornando, não -trouxer o irmão de Iracema, elle levará o guerreiro branco á taba dos -Pytiguaras. - -Martim voltou á cabana do Pagé. - -A alva rêde que Iracema perfumara com a resina do beijoim guardava-lhe -um somno calmo e doce. O christão adormeceu ouvindo suspirar, entre os -murmurios da floresta, o canto mavioso da virgem indiana. - - - - -V - - -O gallo da campina ergue a poupa escarlate fora do ninho. Seu limpido -trinado annuncia a aproximação do dia. - -Ainda a sombra cobre a terra. Já o povo selvagem colhe as redes na -grande taba e caminha para o banho. O velho Pagé que velou toda a -noite, falando ás estrellas, conjurando os máus espiritos da treva, -entra furtivamente na cabana. - -Eis retroa o boré pela amplidão do valle. - -Travam das armas os rapidos guerreiros, e correm ao campo. Quando fôram -todos na vasta ocára circular, Irapuam, o chefe, soltou o grito de -guerra. - ---Tupan deu á grande nação tabajara toda esta terra. Nós guardamos -as serras, que manam os corregos, com os frescos ipús onde cresce a -maniva e o algodão; e abandonamos ao barbaro Potyuara, comedor de -camarão, as areias núas do mar, com os sêccos taboleiros sem agua e -sem florestas. Agora os pescadores da praia, sempre vencidos, deixam vir -pelo mar a raça branca dos guerreiros de fogo, inimigos de Tupan. Já -os emboabas estiveram no Jaguaribe; logo estarão em nossos campos; e -com elles os Potyuaras. Faremos nós, senhores das aldeias, como a -pomba, que se encolhe em seu ninho, quando a serpente enrosca pelos -galhos? - -O irado chefe brande o tacape e o arremessa no meio do campo. Derrubando -a fronte, cobre o rubido olhar: - ---Irapuam falou; disse. - -O mais moço dos guerreiros avança: - ---O gavião paira nos ares. Quando a nambú levanta, elle cae das nuvens -e rasga as entranhas da victima. O guerreiro tabajara, filho da serra, -é como o gavião. - -Troa e retroa a pocema da guerra. - -O joven guerreiro erguera o tacape; e por sua vez o brandio. Girando no -ar, rapida e ameaçadora, a arma do chefe passou de mão em mão. - -O velho Andira, irmão do Pagé, a deixou tombar, e calcou no chão, com -o pé agil ainda e firme. - -Pasma o povo tabajara da acção desusada. Voto de paz em tão provado e -impetuoso guerreiro! É o velho heroe, que cresceu na sanha, crescendo -nos annos, é o feroz Andira quem derrubou o tacape, nuncio da proxima -lucta? - -Incertos todos e mudos escutam: - ---Andira, o velho Andira, bebeu mais sangue na guerra do que já beberam -cauim nas festas de Tupan, todos quantos guerreiros allumia agora a luz -de seus olhos. Elle viu mais combates em sua vida do que luas lhe -despiram a fronte. Quanto craneo de Potyuara escalpellou sua mão -implacavel, antes que o tempo lhe arrancasse o primeiro cabello? E o -velho Andira nunca temeu que o inimigo pisasse a terra de seus paes: mas -alegrava-se quando elle vinha, e sentia com o faro da guerra a juventude -renascer no corpo decrepito, como a arvore sêcca renasce com o sopro do -inverno. A nação tabajara é prudente. Ella deve encostar o tacape da -lucta para tanger o memby da festa. Celebra, Irapuam, a vinda dos -emboabas e deixa que cheguem todos aos nossos campos. Então Andira te -promette o banquete da victoria. - -Desabriu emfim Irapuam a funda colera: - ---Fica tu, escondido entre as igaçabas de vinho, tica, velho morcego, -porque temes a luz do dia, e só bebes o sangue da victima que dorme. -Irapuam leva a guerra no punho de seu tacape. O terror que elle inspira -voa com o rouco som do boré. O Potyuara já tremeu ouvindo rugir na -serra, mais forte que o ribombo do mar. - - - - -VI - - -Martim vae a passo e passo por entre os altos joaseiros que cercam a -cabana do Pagé. - -Era o tempo em que o doce aracaty chega do mar, e derrama a deliciosa -frescura pelo arido sertão. A planta respira; um dôce arrepio irriça -a verde coma da floresta. - -O christão contempla o occaso do sol. A sombra, que desce dos montes e -cobre o valle, penetra sua alma. Lembra-se do lugar onde nasceu, dos -entes queridos que alli deixou. Sabe elle se tornará a vel-os algum -dia? - -Em tôrno carpe a natureza o dia que expira. Soluça a onda trepida e -lacrimosa; geme a brisa na folhagem; o mesmo silencio anhela de -afflicto. - -Iracema parou em face do joven guerreiro: - ---É a presença de Iracema que perturba a serenidade no rosto do -extrangeiro? - -Martim pousou brandos olhos na face da virgem: - ---Não, filha de Araken: tua presença alegra, como a luz da manhã. Foi -a lembrança da patria que trouxe a saudade ao coração presago. - ---Uma noiva te espera? - -O forasteiro desviou os olhos. Iracema dobrou a cabeça sobre a espadua, -como a tenra palma da carnaúba, quando a chuva peneira na varsea. - ---Ella não é mais doce do que Iracema, a virgem dos labios de mel; nem -mais formosa! murmurou o extrangeiro. - ---A flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue, e tronco onde -se enlace. Iracema não vive n'alma de um guerreiro: nunca sentiu a -frescura de seu sorriso. - -Emmudeceram ambos, com os olhos no chão, escutando a palpitação dos -seios que batiam oppressos. - -A virgem falou emfim: - ---A alegria voltará logo á alma do guerreiro branco; porque Iracema -quer que elle veja antes da noite a noiva que o espera. - -Martim sorriu do ingenuo desejo da filha do Pagé. - ---Vem! disse a virgem. - -Atravessaram o bosque e desceram ao valle. Onde morria a falda da -collina o arvoredo era basto: densa abobada de folhagem verde-negra -cobria o adyto agreste, reservado aos mysterios do rito barbaro. - -Era de jurema o bosque sagrado. Em torno corriam os troncos rugosos da -arvore de Tupan; dos galhos pendiam occultos pela rama escura os vasos -do sacrificio: lastravam o chão as cinzas de extincto fogo, que servira -á festa da ultima lua. - -Antes de penetrar o recondito sitio, a virgem que conduzia o guerreiro -pela mão, hesitou, inclinando o ouvido subtil aos suspiros da brisa. -Todos os ligeiros rumores da mata tinham uma voz para a selvagem filha -do sertão. Nada havia porém de suspeito no intenso respiro da -floresta. - -Iracema fez ao extrangeiro um gesto de espera e silencio, e desappareceu -no mais sombrio do bosque. O sol ainda pairava suspenso no viso da -serrania: e já noite profunda enchia aquella solidão. - -Quando a virgem tornou, trazia n'uma folha gottas de verde extranho -licor vasadas da igaçaba, que acabava de tirar do seio da terra. -Apresentou ao guerreiro a taça agreste. - ---Bebe! - -Martim sentiu perpassar nos olhos o somno da morte: porém logo a luz -inundou os seios d'alma: a fôrça exhuberou no coração. Reviveu os -dias passados melhor do que os tinha vivido: fruiu a realidade de suas -mais bellas esperanças. - -Eil-o que volta á terra natal, abraça sua velha mãe, revê mais lindo -e terno o anjo puro dos amores infantis. - -Mas porque, mal de volta ao berço da patria, o joven guerreiro de novo -abandona o tecto paterno e demanda o sertão? - -Já atravessa as florestas; já chega aos campos do Ipú. Busca na selva -a filha do Pagé. Segue o rastro ligeiro da virgem arisca, soltando á -brisa com o crebro suspiro o doce nome: - ---Iracema! Iracema!... - -Já a alcança e cinge-lhe o braço pelo talhe esbelto. - -Cedendo á meiga pressão, a virgem reclinou ao peito do guerreiro, e -ficou alli tremula e palpitante como a timida perdiz, quando o terno -companheiro lhe arrufa com o bico a macia penugem. - -O labio do guerreiro suspirou mais uma vez o doce nome e soluçou, como -se chamara outro labio amante. Iracema sentiu que sua alma se escapava -para embeber-se no osculo ardente. - -E a fronte reclinava, e a flôr do sorriso desabrochava já para -deixar-se colher. - -Subito a virgem tremeu; soltando-se rapida do braço que a cingia, -travou do arco. - - - - -VII - - -Iracema passou entre as arvores, silenciosa como uma sombra: seu olhar -scintillante coava entre as folhas, quaes frouxos raios de estrellas: -ella escutava o silencio profundo da noite e aspirava as auras subtis -que afflavam. - -Parou. Uma sombra resvallava entre as ramas; e nas folhas crepitava um -passo ligeiro, se não era o roer de algum insecto. A pouco e pouco o -tenue rumor foi crescendo e a sombra avultou. - -Era um guerreiro. De um salto a virgem estava em face d'elle, tremula de -susto e mais de colera. - ---Iracema! exclamou o guerreiro recuando. - ---Anhanga turvou sem duvida o somno de Irapuam, que o trouxe perdido ao -bosque da jurema, onde nenhum guerreiro penetra sem a vontade de Araken. - ---Não foi Anhanga, mas a lembrança de Iracema, que turvou o somno do -primeiro guerreiro tabajara. Irapuam desceu de seu ninho de aguia para -seguir na varzea a garça do rio. As vozes da taba contaram ao ouvido do -chefe que um extrangeiro era vindo á cabana de Araken. - -A virgem estremeceu. O guerreiro cravou n'ella o olhar abrazado: - ---O coração aqui no peito de Irapuam, ficou tigre. Pulou de raiva. -Veio farejando a presa. O extrangeiro está no bosque, e Iracema o -acompanhava. Quero beber-lhe o sangue todo: quando o sangue do guerreiro -branco correr nas veias do chefe tabajara, talvez o ame a filha de -Araken. - -A pupilla negra da virgem scintillou na treva, e de seu labio borbulhou -como gottas do leite caustico da euphorbia, um sorriso de despreso: - ---Nunca Iracema daria seu seio, que o espirito de Tupan habita só, ao -guerreiro mais vil dos guerreiros tabajaras! Torpe é o morcego porque -foge da luz e bebe o sangue da victima adormecida!... - ---Filha de Araken! Não assanha o jaguar! O nome de Irapuam voa mais -longe que o goaná do lago, quando sente a chuva além das serras. Que o -guerreiro branco venha, e o seio de Iracema se abra para o vencedor. - ---O guerreiro branco é hospede de Araken. A paz o trouxe aos campos do -Ipú, a paz o guarda. Quem offender o extrangeiro, offende o Pagé. - -Rugiu de sanha o chefe tabajara: - ---A raiva de Irapuam só ouve agora o grito da vingança. O extrangeiro -vae morrer. - ---A filha de Araken é mais forte que o chefe dos guerreiros, disse -Iracema travando da inubia. Ella tem aqui a voz de Tupan, que chama o -seu povo. - ---Mas ella não chamará! respondeu o chefe escarnecendo. - ---Não, porque Irapuam vae ser punido pela mão de Iracema. Seu primeiro -passo, é o passo da morte. - -A virgem retrahiu d'um salto o avanço que tomara, e vibrou o arco. O -chefe cerrou ainda o punho do formidavel tacape; mas pela vez primeira -sentio que pesava ao braço robusto. O golpe que devia ferir Iracema, -ainda não alçado, já lhe trespassava, a elle proprio, o coração. - -Conheceu quanto o varão forte, é pela sua mesma fortaleza, mais -vencido das grandes paixões. - ---A sombra de Iracema não esconderá sempre o extrangeiro á vingança -de Irapuam. Vil é o guerreiro, que se deixa proteger por uma mulher. - -Dizendo estas palavras, o chefe desappareceu entre as arvores. A virgem -sempre alerta volveu para o christão adormecido; e velou o resto da -noite a seu lado. As emoções recentes, que agitaram sua alma, a -abriram inda mais á doce affeição, que iam filtrando n'ella os olhos -do extrangeiro. - -Desejava abrigal-o contra todo o perigo, recolhel-o em si como em um -asylo impenetravel. Acompanhado o pensamento, seus braços cingiam a -cabeça do guerreiro, e a apertavam ao seio. - -Mas quando passou a alegria de vêr o extrangeiro salvo dos perigos da -noite, entrou-a mais viva a inquietação, com a lembrança dos novos -perigos que iam surgir. - ---O amor de Iracema é como o vento dos areaes; mata a flôr das -arvores: suspirou a virgem. - -E afastou-se lentamente. - - - - -VIII - - -A alvorada abriu o dia e os olhos do guerreiro branco. A luz da manhã -dissipou os sonhos da noite: e arrancou de sua alma a lembrança do que -sonhara. Ficou apenas um vago sentir, como fica na moita o perfume do -cacto que o vento da serra desfolha na madrugada. - -Não sabia onde estava. - -Á sahida do bosque sagrado encontrou Iracema: a virgem reclinava n'um -tronco aspero do arvoredo: tinha os olhos no chão: o sangue fugira das -faces; o coração lhe tremia nos labios, como gôtta de orvalho nas -folhas do bambú. - -Não tinha sorrisos, nem cores, a virgem indiana; não tem borbulhas, -nem rosas, a acacia que o sol crestou; não tem azul, nem estrellas, a -noite que enluctam os ventos. - ---As flôres da matta já abriram aos raios do sol; as aves já -cantaram: disse o guerreiro. Porque só Iracema curva a fronte e -emmudece? - -A filha do Pagé estremeceu. Assim estremece a verde palma, quando a -haste fragil foi abalada; rorejam do espato as lagrimas da chuva; e os -leques ciciam brandamente: - ---O guerreiro Cauby vae chegar á taba de seus irmãos. O extrangeiro -poderá partir com o sol que vem nascendo. - ---Iracema quer vêr o extrangeiro fora dos campos dos Tabajaras; então -a alegria voltará ao seu seio. - ---A juruty, quando a arvore secca, abandona o ninho em que nasceu. -Nunca mais a alegria voltará ao seio de Iracema: ella vae ficar, como o -tronco nú, sem ramas, nem sombras. - -Martim amparou o corpo tremulo da virgem; ella reclinou languida sobre o -peito do guerreiro, como o tenro pampano da baunilha que enlaça o rijo -galho do anjico. - -O mancebo murmurou: - ---Teu hospede fica, virgem dos olhos negros: elle fica para ver abrir em -tuas faces a flôr da alegria e para colher, como a abelha, o mel de -teus mimosos labios. - -Iracema soltou-se dos braços do mancebo, e olhou-o com tristeza: - ---Guerreiro branco, Iracema é filha do Pagé, e guarda o segredo da -jurema. O guerreiro que possuisse a virgem de Tupan morreria. - ---E Iracema? - ---Pois que tu morrias! - -Esta palavra foi sopro de tormenta. A cabeça do mancebo vergou e pendeu -sobre o peito: mas logo se ergueu. - ---Os guerreiros de meu sangue trazem a morte comsigo, filha dos -Tabajaras. Não a temem para si, não a poupam para o inimigo. Mas nunca -fóra do combate elles deixaram aberto o camocim da virgem na taba de -seu hospede. A verdade falou pela bôcca de Iracema. O extrangeiro deve -abandonar os campos dos Tabajaras. - ---Deve: respondeu a virgem como um ecco. - -Depois a sua voz suspirou: - ---O mel dos labios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no -tronco da guabiroba: tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azues e -dos cabellos do sol guarda para seu guerreiro na taba dos brancos o mel -da assucena. - -Martim afastou-se rapido, e voltou, mas lentamente, A palavra tremia em -seu labio: - ---O extrangeiro partirá para que o socego volte ao seio da virgem. - ---Tu levas a luz dos olhos de Iracema, e a flôr de sua alma. - -Reboa longe na selva um clamor extranho. Os olhos do mancebo alongam-se. - ---É o grito de alegria do guerreiro Cauby: disse a virgem. O irmão de -Iracema annuncia a sua boa chegada aos campos dos Tabajaras. - ---Filha de Araken, guia teu hospede á cabana. É tempo de partir. - -Elles caminharam par a par como dois jovens cervos ao pôr do sol -atravessam a capoeira recolhendo ao aprisco d'onde lhes traz a brisa um -faro suspeito. - -Quando passavam entre os joazeiros, viram que atravessava além o -guerreiro Cauby, vergando os hombros robustos ao peso da caça. Iracema -caminhou para elle. - -O extrangeiro entrou só na cabana. - - - - -IX - - -O somno da manhã pousava nos olhos do Pagé como nevoas de bonança -pairam ao romper do dia sobre as profundas cavernas da montanha. - -Martim parou indeciso; mas o rumor de seu passo penetrou o ouvido do -ancião, e abalou o corpo decrepito. - ---Araken dorme! murmurou o guerreiro devolvendo o passo. - -O velho ficou immovel: - ---O Pagé dorme porque já Tupan voltou o rosto para a terra e a luz -correu os máus espiritos da treva. Mas o somno é leve nos olhos de -Araken, como o fumo do sapé no cocuruto da serra. Se o extrangeiro veiu -para o Pagé, fale; seu ouvido escuta. - ---O extrangeiro veiu, para te annunciar que parte. - ---O hospede é senhor na cabana de Araken; todos os caminhos estão -abertos para elle. Tupan o leve á taba dos seus. - -Vieram Cauby e Iracema: - ---Cauby voltou; disse o guerreiro tabajara. Traz a Araken o melhor da -sua caça. - ---O guerreiro Cauby é um grande caçador de montes e florestas. Os -olhos de seu pae gostam de vêl-o. - -O velho abriu as palpebras e cerrou-as logo: - ---Filha de Araken, escolhe para teu hospede o presente da volta, e -prepara o moquem da viagem. Se o extrangeiro precisa de guia, o -guerreiro Cauby, senhor do caminho, o acompanhará. - -O somno voltou aos olhos do Pagé. - -Emquanto Cauby pendurava no fumeiro as peças de caça, Iracema colheu a -sua alva rede de algodão com franjas de pennas, e accommodou-a dentro -do urú de palha trançada. - -Martim esperava na porta da cabana. A virgem veiu para elle: - ---Guerreiro, que levas o somno de meus olhos, leva á minha rede tambem. -Quando n'ella dormires, falem em tua alma os sonhos de Iracema. - ---A tua rede, virgem dos Tabajaras, será minha companheira no deserto: -venha embora o vento frio da noite, ella guardará para o extrangeiro o -calor e o perfume do seio de Iracema. - -Cauby sahiu para ir á sua cabana, que ainda não tinha visto depois da -volta. Iracema foi preparar o moquem da viagem. Ficaram sós na cabana o -Pagé que resonava, e o mancebo com a sua tristeza. - -O sol transmontando, já começava a declinar para o occidente, quando o -irmão de Iracema tornou da grande taba. - ---O dia vae ficar triste, disse Cauby. A sombra já caminha para a -noite. É tempo de partir. - -A virgem pousou a mão de leve no punho da rêde de Araken. - ---Elle vae! murmuraram os labios tremulos. - -O Pagé levantou-se em pé no meio da cabana e accendeu o cachimbo. Elle -e o mancebo trocaram a fumaça da despedida: - ---Bem ido seja o hospede, como foi bem vindo á cabana de Araken. - -O velho andou até á porta, para soltar ao vento uma espessa baforada -de tabaco: quando o fumo a dissipou no ar, elle murmurou: - ---Jurupary se esconda para deixar passar o hospede do Pagé. - -Araken voltou á rêde e dormiu de novo. O mancebo tomou as suas armas -mais pesadas que chegando suspendera ás varas da cabana e se dispôz a -partir. - -Adiante seguiu Cauby: a alguma distancia o extrangeiro: logo apóz -d'elle Iracema. - -Desceram a colina e entraram na matta sombria. O sabiá do sertão, -mavioso cantor da tarde, escondido nas moitas espessas da ubaia, soltava -já os preludios da suave endeixa. - -A virgem suspirou: - ---A tarde é a tristeza do sol. Os dias de Iracema vão ser longas -tardes sem manhã, até que venha para ella a grande noite. - -O mancebo voltara-se. Seu labio emmudeceu, mas os olhos falaram. Uma -lagrima correu pela face guerreira, como as humidades que durante os -ardores do estio transudam da escarpa dos rochedos. - -Cauby avançando sempre, sumira-se entre a densa ramagem. - -O seio da filha de Araken arfou, como o ésto da vaga que se franja de -espuma, e soluçou. Mas sua alma, negra de tristura, teve ainda um -pállido reflexo para illuminar a sêcca flôr das faces. Assim em noite -escura vem um fogo fatuo luzir as brancas areias do taboleiro. - ---Extrangeiro, toma o ultimo sorriso de Iracema... e foge! - -A bôcca do guerreiro pousou na bôcca mimosa da virgem. Ficaram ambas -assim unidas como dois fructos gemeos do araçá, que sahiram do seio da -mesma flôr. - -A voz de Cauby chamou o extrangeiro. Iracema abraçou para não cahir o -tronco de uma palmeira. - - - - -X - - -Na cabana silenciosa medita o velho Pagé. - -Iracema está apoiada no tronco rudo, que serve de esteio. Os grandes -olhos negros, fitos nos recortes da floresta e rasos de pranto, parece -estão n'aquelles olhares longos e tremulos enfiando e desfiando os -aljofares das lagrimas, que rorejam as faces. - -A ará, pousada no girau fronteiro, alonga para sua formosa senhora os -verdes tristes olhos. Desde que o guerreiro branco pisou a terra dos -Tabajaras, Iracema a esqueceu. - -Os roseos labios da virgem não se abriram mais para que ella colhesse -entre elles a polpa da fructa ou a papa do milho verde; nem a dôce mão -a affagára uma só vez, alisando a penugem dourada da cabeça. - -Se repetia o mavioso nome da senhora, o sorriso de Iracema já não se -voltava para ella, nem o ouvido parecia escutar a voz da companheira e -amiga, que d'antes tão suave era ao seu coração. - -Triste d'ella! A gente tupy a chamava jandaia, porque sempre alegre -estrugia os campos com seu canto fremente. Mas agora, triste e muda, -desdenhada de sua senhora, não parecia mais a linda jandaia, e sim o -feio urutão que sómente sabe gemer. - -O sol remontou a umbria das serras; seus raios douravam apenas o viso -das eminencias. - -A surdina merencoria da tarde, que precede o silencio da noite, -começava de velar os crebros rumores do campo. Uma ave nocturna, talvez -illudida com a sombra mais espessa do bosque, desatou o estridulo. - -O velho ergueu a fronte calva: - ---Foi o canto da inhuma que accordou o ouvido de Araken? disse elle -admirado. - -A virgem estremecêra; já fóra da cabana voltou-se para responder á -pergunta do Pagé: - ---É o grito de guerra do guerreiro Cauby! - -Quando o segundo pio da inhuma resoou, Iracema corria na matta, como a -corça perseguida pelo caçador. Só respirou chegando á campina, que -recortava o bosque, como um grande lago. - -Quem seus olhos primeiro viram, Martim, estava tranquillamente sentado -em uma sapopema, olhando o que passava alli. Contra, cem guerreiros -tabajaras com Irapuam á frente, formavam arco. O bravo Cauby os -affrontava a todos, com o olhar cheio de ira e as armas valentes -empunhadas na mão robusta: - -O chefe exigira a entrega do extrangeiro, e o guia respondera -simplesmente: - ---Matae Cauby, antes. - -A filha do Pagé passara como uma flecha: eil-a deante de Martim oppondo -tambem seu corpo gentil aos golpes dos guerreiros. Irapuam soltou o -bramido da onça atacada na furna. - ---Filha do Pagé, disse Cauby em voz baixa. Conduz o extrangeiro á -cabana: só Araken pode salval-o. - -Iracema voltou-se para o guerreiro branco: - ---Vem! - -Elle ficou immovel. - ---Se tu não vens, disse a virgem, Iracema morrerá comtigo. - -Martim ergueu-se; mas longe de seguir á virgem, caminhou direito a -Irapuam. A sua espada flammejou no ar. - ---Os guerreiros do meu sangue, chefe, jamais recusaram combate. Se -aquelle que tu vês não foi o primeiro a provocal-o, é porque seus -paes lhe ensinaram a não derramar sangue na terra hospedeira. - -O chefe tabajara rugiu de alegria; sua mão possante brandio o tacape. -Mas os dois campeões mal tiveram tempo de medir-se com os olhos; quando -fendiam o primeiro golpe, já Cauby e Iracema estavam entre elles. - -A filha de Araken debalde rogava ao christão, debalde o cingia em seus -braços buscando arrancal-o ao combate. De seu lado Cauby em vão -provocava Irapuam para attrahir a si a raiva do chefe. - -A um gesto de Irapuam, os guerreiros afastaram os dois irmãos; o -combate proseguiu. - -De repente o rouco som da inubia reboou pela matta; os filhos da serra -estremeceram reconhecendo o estridulo do buzio guerreiro dos Pytiguaras, -senhores das praias, encombradas de coqueiros. O ecco vinha da grande -taba, que o inimigo talvez assaltava já. - -Os guerreiros precipitaram-se, levando por deante o chefe. Com o -extrangeiro só ficou a filha de Araken. - - - - -XI - - -Os guerreiros tabajaras, acorridos á taba, esperavam o inimigo deante -da caiçara. - -Não vindo elles sahiram a buscal-o. - -Bateram as matas em tôrno e percorreram os campos; nem vestigios -encontraram da passagem dos Pytiguaras; mas o conhecido fremito do buzio -das praias tinha resoado ao ouvido dos guerreiros da montanha; não -havia duvidar. - -Suspeitou Irapuam que fosse um ardil da filha de Araken para salvar o -extrangeiro; e caminhou direito á cabana do Pagé. Como trota o guará -pela orla da mata, quando vae seguindo o rastro da presa escápula, -assim estugava o passo o sanhudo guerreiro. - -Araken viu entrar em sua cabana o grande chefe da nação tabajara, e -não se moveu. Sentado na rede, com as pernas cruzadas, escutava -Iracema. A virgem referia os successos da tarde: avistando a figura -sinistra de Irapuam saltou sobre o arco, e uniu-se ao flanco do joven -guerreiro branco. - -Martim a affastou docemente de si, e promoveu o passo. - -A protecção, de que o cercava a elle guerreiro a virgem tabajara, o -desgostava. - ---Araken, a vingança dos tabajaras espera o guerreiro branco; Irapuam -veiu buscal-o. - ---O hospede é amigo de Tupan; quem offender o extrangeiro ouvirá o -rugir do trovão. - ---O extrangeiro foi quem offendeu a Tupan, roubando a sua virgem, que -guarda os sonhos da jurema. - ---Tua bôcca mente como o ronco da jiboia: exclamou Iracema. - -Martim disse: - ---Irapuam é vil e indigno de ser chefe de guerreiros valentes! - -O Pagé falou grave e lento: - ---Se a virgem abandonou ao guerreiro branco a flôr de seu corpo, ella -morrerá; mas o hospede de Tupan é sagrado; ninguem lhe tocará, todos -o servirão. - -Irapuam bramio; o grito rouco troou nas arcas do peito, como o fremito -da sucury na profundeza do rio. - ---A raiva de Irapuam não pode mais ouvir-te, velho Pagé! Caia ella -sobre ti, se ousas subtrahir o extrangeiro á vingança dos Tabajaras. - -O velho Andira, irmão do Pagé, entrou na cabana; trazia no punho o -terrivel tacape e nos olhos uma raiva ainda mais terrivel. - ---O morcego vem te chupar o sangue, se é que tens sangue e não mel nas -veias, tu que ameaças em sua cabana o velho Pagé. - -Araken affastou o irmão: - ---Paz e silencio, Andira. - -O Pagé desenvolvera a alta e magra estatura, como a caninana assanhada, -que se enrista sobre a cauda, para affrontar a victima em face. As rugas -affundaram; e repuxando as pelles engelhadas esbugalharam os dentes -alvos e afilados: - ---Ousa um passo mais, e as iras de Tupan te esmagarão sob o peso d'esta -mão sêcca e mirrada! - ---N'este momento, Tupan não é comtigo! replicou o chefe. - -O Pagé rio; e o seu riso sinistro reboou pelo espaço como o regougo da -ariranha. - ---Ouve seu trovão, e treme em teu seio, guerreiro, como a terra em sua -profundeza. - -Araken proferindo essa palavra terrivel, avançou até o meio da cabana; -alli ergueu a grande pedra e calcou o pé com fôrça no chão: subito, -abriu-se a terra. Do antro profundo sahiu um medonho gemido, que parecia -arrancado das entranhas do rochedo. - -Irapuam não tremeu, nem enfiou de susto; mas sentiu turvar-se a luz -nos olhos, e a voz nos labios. - ---O senhor do trovão é por ti; o senhor da guerra será por Irapuam. - -O torvo guerreiro deixou a cabana; em pouco seu grande vulto -mergulhou-se nas sombras do crepusculo. - -O Pagé e seu irmão travaram a pratica na porta da cabana. - -Martim ainda surprêso do que vira, não tirava os olhos da funda cava, -que a planta do velho Pagé abrira no chão da cabana. Um surdo sumor, -como o echo das ondas quebrando nas praias, ruidava alli. - -O guerreiro christão scismava; elle não podia crêr que o Deus dos -Tabajaras desse ao seu sacerdote tamanho poder. - -Araken percebendo o que passava n'alma do extrangeiro, accendeu o -cachimbo e travou do maracá: - ---É tempo de applacar as iras de Tupan, e calar a voz do trovão. - -Disse e partiu da cabana. - -Iracema achegou-se então do mancebo; levava os labios em riso, os olhos -em jubilo: - ---O coração de Iracema está como o abaty n'agua do rio. Ninguem fará -mal ao guerreiro branco na cabana de Araken. - ---Arreda-te do inimigo, virgem dos Tabajaras; respondeu o extrangeiro -com asperesa de voz. - -Voltando brusco para o lado oposto, furtou o semblante aos olhos ternos -e queixosos da virgem. - ---Que fez Iracema, para que o guerreiro branco desvie seus olhos d'ella, -como se fôra o verme da terra? - -As falas da virgem resoaram docemente no coração de Martim. Assim -resoam os murmurios da aragem nas frondes da palmeira. O mancebo sentiu -raiva de si, e pena d'ella: - -Não ouves tu, virgem formosa? exclamou elle apontando para o antro -fremente. - ---É a voz do Tupan! - ---Teu Deus falou pela bôcca do Pagé. Se a virgem de Tupan abandonar ao -extrangeiro a flôr de seu corpo, ella morrerá!... - -Iracema pendeu a fronte abatida: - ---Não é voz de Tupan que ouve teu coração, guerreiro de longes -terras, é o canto da virgem branca que te chama! - -O rumor extranho que sahia das profundezas da terra, apagou-se de -repente: fez-se na cabana tão grande silencio, que ouvia-se pulsar o -sangue na arteria do guerreiro, e tremer o suspiro no labio da virgem. - - - - -XII - - -O dia ennegreceu; era noite já. - -O Pagé tornára á cabana; sopesando de novo a grande lage, fechou com -ella a bôcca do antro. Cauby chegára tambem da grande taba, onde com -seus irmãos guerreiros se recolhera depois que bateram a floresta, em -busca do inimigo Pytiguara. - -No meio da cabana, entre as redes armadas em quadro, extendeu Iracema a -esteira da carnauba, e sobre ella serviu os restos da caça, e a -provisão de vinhos da ultima lua. Sé o guerreiro tabajara achou sabor -na ceia, porque o fel do coração que a tristeza expreme não amargava -seu labio. - -O Pagé bebia no cachimbo o fumo sagrado de Tupan, que lhe enchia as -arcas do peito: o extrangeiro respirava, ar ás golfadas para -refrescar-lhe o sangue effervescente; a virgem distillava sua alma como -o mel de um favo, nos crebros soluços que lhe estalavam entre os labios -tremulos. - -Já partiu Cauby para a grande taba; o Pagé traga as baforadas do fumo, -que prepara o mysterio do sagrado rito. - -Levanta-se no resomno da noite um grito vibrante, que remonta ao céo. - -Martim ergue a fronte e inclina o ouvido. Outro clamor semelhante resoa. -O guerreiro murmura, que o ouça a virgem e só ella: - ---Escutou Iracema, cantar a gaivota? - ---Iracema escutou o grito de uma ave que ella não conhece. - ---É a atyaty, a garça do mar, e tu és a virgem da serra, que nunca -desceu as alvas praias onde arrebentam as vagas. - ---As praias são dos Pytiguaras, senhores das Palmeiras. - -Os guerreiros da grande nação que habitava as bordas do mar, se -chamavam a si mesmos Pytiguaras, senhores dos valles; mas os Tabajaras, -seus inimigos, por escarneo os apellidavam Potyuaras, comedores de -camarão. - -Iracema não quiz offender o guerreiro branco; por isso falando a -respeito dos Pytiguaras, não lhes recusou o nome guerreiro que elles -haviam tomado para si. - -O extrangeiro reteve por um instante a palavra no seu labio prudente, -emquanto reflectia: - ---O canto da gaivota é o grito do guerra do valente Poty, amigo de teu -hospede! - -A virgem estremeceu por seus irmãos. A fama do bravo Poty, irmão de -Jacaúna, subio das ribeiras do mar ás alturas da serra; rara é a -cabana onde já não rugiu contra elle o grito da vingança, porque em -quasi todas o golpe de seu valido tacape deitou um guerreiro tabajara em -seu camocim. - -Iracema cuidou que Poty vinha á frente de seus guerreiros para livrar o -amigo. Era elle sem duvida que fizera retroar o buzio das praias, no -momento do combate. Foi com um tom misturado de doçura e tristeza que -replicou: - ---O extrangeiro está salvo; os irmãos de Iracema vão morrer, porque -ella não falará. - ---Saia essa tristeza de tua alma. O extrangeiro partindo-se de teus -campos, virgem tabajara, não deixará n'elles rasto de sangue, como o -tigre esfaimado. - -Iracema tomou a mão do guerreiro branco e beijou-a. - ---Teu sorriso, continúa elle, apagou a lembrança do mal que elles me -querem. - -Martim ergueu-se e marchou para a porta. - ---Onde vae o guerreiro branco? - ---Adeante de Poty. - ---O hospede de Araken não pode sahir d'esta cabana, porque os -guerreiros de Irapuam o matarão. - ---Um guerreiro só deve protecção a Deus e a suas armas. Não carece -que o defendam os velhos e as mulheres. - ---Não vale um guerreiro só contra mil guerreiros; valente e forte é o -tamanduá, que mordem os gatos selvagens por serem muitos e o acabam. -Tuas armas só chegam até onde mede a sombra de teu corpo; as armas -d'elles voam alto e direitos como o anajê. - ---Todo o guerreiro tem seu dia. - ---Não queres tu que morra Iracema, e queres que ella te deixe morrer! - -Martim ficou perplexo: - ---Iracema irá ao encontro do chefe Pytiguara e trará a seu hospede as -falas do guerreiro amigo. - -O Pagé sahiu emfim de sua contemplação. O maracá rugiu-lhe na -dextra; tiniram os guisos com o passo hirto e lento. - -Chamou elle a filha de parte: - ---Se os guerreiros de Irapuam vierem contra a cabana, levanta a pedra e -esconde o extrangeiro no seio da terra. - ---O hospede não deve ficar só; espera que volte Iracema. Ainda não -cantou a inhuma. - -Tornou a sentar-se na rede o velho. A virgem partiu, cerrando a porta da -cabana. - - - - -XIII - - -Avança a filha de Araken nas trevas; pára e escuta. - -O grito da gaivota terceira vez resôa ao seu ouvido; ella vae direito -ao logar d'onde partiu; chega á borda de um tanque; seu olhar investiga -a escuridão, e nada vê do que busca. - -A voz maviosa, debil como susurro de colibri, resôa no silencio. - ---Guerreiro Poty, teu irmão branco te chama pela bôcca de Iracema. - -Só o ecco lhe respondeu. - ---A filha de teus inimigos vem a ti, porque o extrangeiro te ama, e ella -ama o extrangeiro. - -A lisa lace do lago fendeu-se; e um vulto se mostra, que nada para a -margem, e surge fora. - ---Foi Martim quem te mandou, pois tu sabes o nome de Poty, seu irmão -na guerra. - ---Fala, chefe Pytiguara; o guerreiro branco espera. - ---Torna a elle e diz que Poty é chegado para o salvar. - ---Elle sabe, mandou-me para te ouvir. - ---As falas de Poty sahirão de sua bôcca para o ouvido de seu irmão -branco. - ---Espera então que Araken parta e a cabana fique deserta; eu te guiarei -á presença do extrangeiro. - ---Nunca, filha dos Tabajaras, um guerreiro Pytiguara passou a soleira da -cabana inimiga, se não foi como vencedor. Conduz aqui o guerreiro do -mar. - ---A vingança de Irapuam fareja em roda da cabana de Araken. Trouxe o -irmão do extrangeiro bastantes guerreiros Pytiguaras para o deffender e -salvar? - -Poty reflectiu: - ---Conta, virgem das serras, o que aconteceu em teus campos depois que a -elles chegou o guerreiro do mar. - -Iracema referiu como a colera de Irapuam se havia assanhado contra o -extrangeiro, até que a voz de Tupan, chamada pelo Pagé, tinha -apasiguado seu furor. - ---A raiva de Irapuam é como a andira; foge da luz e voa na treva. - -A mão de Poty cerrou súbito os labios da virgem; sua fala parecia um -sopro. - ---Suspende a voz e o respiro, virgem das florestas; o ouvido inimigo -escuta na sombra. - -As folhas crepitavam de manso, como se por ellas passasse a fragueira -nambú. O rumor partido da orla da matta, vinha discorrendo pelo valle. - -O valente Poty, resvallando pela relva, como o ligeiro camarão. de que -elle tomara o nome e a viveza, desappareceu no lago profundo. A agua -não soltou um murmurio, e cerrou sobre elle sua limpida onda. - -Iracema voltou á cabana; em meio do caminho seus olhos perceberam as -sombras de muitos guerreiros que rojavam pelo chão, como a intanha. - -Araken vendo-a entrar, partiu. - -A virgem tabajara contou a Martim o que ouvira de Poty; o guerreiro -christão ergueu-se de um impeto para correr á defeza de seu irmão -Pytiguara. Cingiu-lhe o collo Iracema com os lindos braços: - ---O chefe não carece de ti; elle é filho das aguas; as aguas o -protegem. Mais tarde o extrangeiro ouvirá em seus ouvidos as falas -amigas. - ---Iracema, é tempo que teu hospede deixe a cabana do Pagé e os campos -dos Tabajaras. Elle não tem medo dos guerreiros de Irapuam, tem medo -dos olhos da virgem de Tupan. - ---Elles fugirão de ti. - ---Fuja d'elles o extrangeiro, como o oitibó da estrella da manhã. - -Martim promoveu o passo. - ---Vae, guerreiro ingrato; vae matar teu irmão primeiro, depois a ti. -Iracema te seguirá até aos campos alegres onde vão as sombras dos que -foram. - ---Matar meu irmão, dizes tu, virgem cruel? - ---Teu rasto guiará o inimigo aonde elle se occulta. - -O christão estacou em meio da cabana; e alli permaneceu mudo e quedo. -Iracema receosa de fital-o, tinha os olhos postos na sombra do -guerreiro, que a chamma do fogo projectava na vetusta parede da cabana. - -O cão felpudo, deitado no borralho, deu signal de que se approximava -gente amiga. A porta entretecida dos talos de carnaúba foi aberta por -fora. Cauby entrou. - ---O cauim perturbou o espirito dos guerreiros; elles vem contra o -extrangeiro. - -A virgem ergue-se de um impeto. - ---Levanta a pedra que fecha a garganta de Tupan, para que ella esconda o -extrangeiro. - -O guerreiro tabajara, sopesando a lage enorme, emborcou-a no chão. - ---Filho de Araken, deita na porta da cabana, e nunca mais te levantes da -terra, se um guerreiro passar por cima do teu corpo. - -Cauby obedeceu: a virgem cerrou a porta. - -Decorreu breve trato. Resoa perto o estrupido dos guerreiros; travam-se -as vozes iradas de Irapuam e Cauby. - ---Elles vêm; mas Tupan salvará seu hospede. - -N'esse instante, como se o Deus do trovão ouvisse as palavras de sua -virgem, o antro mudo em principio retroou surdamente. - ---Ouve! É a voz de Tupan. - -Iracema cerra a mão do guerreiro, e o leva á borda do antro. Somem-se -ambos nas entranhas da terra. - - - - -XIV - - -Os guerreiros tabajaras, excitados com as copiosas libações do -espumante cauim, se inflammam á voz de Irapuam, que tantas vezes os -guiou ao combate, quantas á victoria. - -Aplaca o vinho a sêde do corpo; accende outra sêde maior na alma -feroz. Rugem vingança contra o extrangeiro audaz que affrontando suas -armas offende o Deus de seus paes, e o chefe da guerra, o primeiro -varão tabajara. - -Lá tripudiam de furor, e arremettem pelas sombras; a luz vermelha do -ubiratan, que brilha ao longe, os guia á cabana de Araken. De espaço -em espaço erguem-se do chão os que primeiro vieram para vigiar o -inimigo. - ---O Pagé está na floresta! murmuram elles. - ---O extrangeiro? pergunta Irapuam. - ---Na cabana com Iracema. - -O grande chefe lança o terrivel salto; já é chegado á porta da -cabana, e com elle seus valentes guerreiros. - -O vulto de Cauby enche o vão da porta; suas armas guardam deante d'elle -o espaço de um bote do maracajá. - ---Vis guerreiros são aquelles que atacam em bando como os caetetús. O -jaguar, senhor da floresta, e o anajê, senhor das nuvens, combatem só -o inimigo. - ---Morda o pó a bocca torpe que levanta a voz contra o mais valente -guerreiro dos guerreiros tabajaras. - -Proferidas estas palavras, ergue o braço de Irapuam o rigido tacape, -mas estaca no ar; as entranhas da terra outra vez rugem, como rugiram, -quando Araken accordou a voz tremenda de Tupan. - -Levantam os guerreiros medonho alarido; e cercando seu chefe o arrebatam -ao funesto lugar e á colera de Tupan, contra elles concitado. - -Cauby extende-se de novo na soleira da porta; seus olhos adormecem; mas -seu ouvido vella no somno. - -A voz de Tupan emmudeceu. - -Iracema e o christão perdidos nas entranhas da terra, descem a gruta -profunda. Subito uma voz que vinha reboando pela crasta, encheu seus -ouvidos: - ---O guerreiro do mar escuta a falla de seu irmão? - ---É Poty, o amigo de teu hospede: disse o christão para a virgem. - -Iracema estremeceu: - ---Elle fala pela bôcca de Tupan. - -Martim respondeu emfim ao Pytiguara. - ---As falas de Poty entram n'alma de seu irmão. - ---Nenhum outro ouvido escuta? - ---Os da virgem que duas vezes em um sol defendeu a vida de teu irmão! - ---A mulher é fraca; o tabajara traidor; e o irmão de Jacaúna -prudente. - -Iracema suspirou: e pousou a cabeça no peito do mancebo: - ---Senhor de Iracema, cerra seus ouvidos, para que ella não ouça. - -Martim repelliu docemente a gentil fronte: - ---Falle o chefe Pytiguara; só o escutam ouvidos amigos e fieis. - ---Tu ordenas, Poty fala. Antes que o sol se levante na serra, o -guerreiro do mar deve partir para as margens do ninho das garças; a -estrella morta o guiará ás alvas praias. Nenhum tabajara o seguirá, -porque a inubia dos Pytiguaras rugirá da banda da serra. - ---Quantos guerreiros Pytiguaras acompanham seu chefe valente? - ---Nenhum; Poty veiu só, com suas armas. Quando os espiritos máus da -floresta separaram o guerreiro do mar de seu irmão, Poty veiu em -seguimento do rastro. Seu coração não deixou que voltasse para chamar -os guerreiros da sua taba; mas expediu seu cão fiel ao grande Jacaúna. - ---O chefe Pytiguara está só; não deve rugir a inubia que chamará -contra si todos os guerreiros tabajaras. - ---É preciso para salvar o irmão branco; Poty zombará de Irapuam, como -zombou quando combatiam cem contra ti. - -A filha do Pagé, que ouvira callada, debruçou-se ao ouvido do -christão: - ---Iracema quer-te salvar e a teu irmão; ella tem seu pensamento. O -chefe Pytiguara é valente e audaz; Irapuam é manhoso e traiçoeiro -como a acauan. Antes que chegues á floresta, cahirás; e teu irmão da -outra banda cahirá comtigo. - ---Que fará a virgem tabajara para salvar o extrangeiro e seu irmão? -perguntou Martim. - ---Mais um sol e outro, e a lua das flores vae nascer. É o tempo da -festa, em que os guerreiros tabajaras passam a noite no bosque sagrado, -e recebem do Pagé os sonhos alegres. Quando estiverem todos -adormecidos, o guerreiro branco deixará os campos do Ipú, e os olhos -de Iracema, mas não sua alma. - -Martim estreitou a virgem ao seio; mas logo a repelliu. O toque de seu -corpo, doce como a assucena da mata, e quente como o ninho do beija -flôr, espinhou seu coração; porque lhe recordou as palavras terriveis -do Pagé. - -A voz do christão disse a Poty o pensamento de Iracema; o chefe -Pytiguara, prudente como o tamanduá, pensou e respondeu: - ---A sabedoria fallou pela bôcca da virgem tabajara Poty espera o -nascimento da lua. - - - - -XV - - -Nasceu o dia e expirou. - -Já brilha na cabana de Araken o fogo, companheiro da noite. Correm -lentas e silenciosas no azul do céo, as estrellas, filhas da lua, que -esperam a volta da sua mãe ausente. - -Martim se emballa docemente; e como a alva rêde que vae e vem, sua -vontade oscilla de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura -dos castos affectos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores. - -Iracema recosta-se langue ao punho da rêde; seus olhos negros e -fulgidos, ternos olhos de sabiá, buscam o extrangeiro, e lhe entram -n'alma. O christão sorri; a virgem palpita; como o sahy, fascinado pela -serpente, vae declinando o lascivo talhe, que se prostra sobre o peito -do guerreiro. - -Já o extrangeiro a prime ao seio; e o labio avido busca o labio que o -espera, para celebrar n'esse adyto d'alma, o hymineo do amor. - -No recanto escuro o velho Pagé, immerso em sua contemplação e alheio -ás cousas d'este mundo, soltou um gemido doloroso. Pressentira o -coração o que não viram os olhos? Ou foi algum funesto presagio para -a raça de seus filhos, que assim echoou n'alma de Araken? - -Ninguem o soube. - -O christão repelliu do seio a virgem indiana. Elle não deixará o -rastro da desgraça na cabana hospedeira. Cerra os olhos para não vêr; -e enche sua alma com o nome e a veneração do seu Deus: - ---Christo!... Christo!... - -A serenidade volta ao seio do guerreiro branco, mas todas as vezes que -seu olhar pousa sobre a virgem tabajara, elle sente correr-lhe pelas -veias uma scentelha de ardente chamma. Assim quando a creança -imprudente revolve o brasido de intenso fogo, saltam as faúlhas -inflammadas que lhe queimam o corpo. - -Fecha os olhos o christão, mas na sombra de seu pensamento surge a -imagem da virgem, talvez mais bella. Em balde chama elle o somno ás -palpebras fatigadas; ellas se abrem, máu grado seu. - -Desce-lhe do céo ao atribulado pensamento uma inspiração: - ---Virgem formosa do sertão, esta é a ultima noite que teu hospede -dorme na cabana de Araken, onde nunca viera, para teu bem e seu. Faze -que seu somno seja alegre e feliz. - ---Manda; Iracema te obedece. Que pode ella para tua alegria? - -O christão falou submisso, para que não o ouvisse o velho Pagé: - ---A virgem de Tupan guarda os sonhos da jurema que são doces e -saborosos! - -Um triste sorriso pungiu os labios de Iracema: - ---O extrangeiro vae viver para sempre á cintura da virgem branca; nunca -mais seus olhos verão a filha de Araken; e elle quer que o somno já -feche suas palpebras, e o sonho o leve á terra de seus irmãos! - ---O somno é o descanço do guerreiro, disse Martim; e o sonho a alegria -d'alma. O extrangeiro não quer levar comsigo a tristeza da terra -hospedeira, nem deixal-a no coração de Iracema! - -A virgem ficou immovel. - ---Vae e torna com o vinho de Tupan. - -Quando Iracema foi de volta, já o Pagé não estava na cabana; tirou do -seio o vaso que alli trazia occulto sob a carioba de algodão -entretecida de pennas. Martim lh'o arrebatou das mãos, e libou as -gottas poucas do verde e amargo licor. Não tardou que a rede recebesse -seu corpo desfallecido. - -Agora podia viver com Iracema, e colher nos seus labios o beijo, que -alli viçava entre sorrisos, como o fructo na corolla da flor. Podia -amal-a, e sugar d'esse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno no seio -da virgem. - -O goso era vida, pois o sentia mais vivo e intenso; o mal era sonho e -illusão, que da virgem elle não possuia mais que a imagem. - -Iracema se affastara oppressa e suspirosa. - -Abriram-se os braços do guerreiro e seus labios; o nome da virgem -resoou docemente. - -A juruty, que divaga pela floresta, ouve o terno arrulho do companheiro; -bate as azas e vôa a conchegar-se ao tepido ninho. Assim a virgem do -sertão, aninhou-se nos braços do guerreiro. - -Quando veiu a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta -que dormiu no seio do formoso cacto. Em seu lindo semblante accendia o -pejo vivos rubores; e como entre os arrebões da manhã scintilla o -primeiro raio do sol, em suas faces incendidas rutilava o primeiro -sorriso da esposa, aurora de fruido amor. - -Martim vendo a virgem unida ao seu coração, cuidou que o sonho -continuava; cerrou os olhos para tornal-os a abrir. - -A pocema dos guerreiros, troando pelo valle, o arrancou ao doce engano; -sentiu que já não sonhava, mas vivia. Sua mão cruel abafou nos labios -da virgem o beijo que alli se espanejava. - ---Os beijos de Iracema são doces no sonho; o guerreiro branco encheu -d'elles sua alma. Na vida, os labios da virgem de Tupan, amargam e doem -como o espinho da jurema. - -A filha de Araken escondeu no coração a sua alegria. Ficou timida e -inquieta, como a ave que presente a borrasca no horisonte. Affastou-se -rapida, e partiu. - -As aguas do rio depuraram o corpo casto da recente esposa. - -A jandaia não tornou á cabana. - -Tupan já não tinha sua virgem na terra dos Tabajaras. - - - - -XVI - - -O alvo disco da lua surgiu no horisonte. - -A luz brilhante do sol empallidece a virgem do céo como o amor do -guerreiro desmaia a face da esposa. - ---Jacy!... Mãe nossa!... exclamaram os guerreiros tabajaras. - -E brandindo os arcos lançaram ao céo com a chuva das flechas o canto -da lua nova: - -"Veiu no céo a mãe dos guerreiros; já volta o rosto para vêr seus -filhos. Ella traz as aguas, que enchem os rios e a polpa do cajú. - -"Já veiu a esposa do sol; já sorri ás virgens da terra filhas suas. A -doce luz accende O amor no coração dos guerreiros e fecunda o seio da -joven mãe." - -Cae a tarde. - -Folgam as mulheres e os meninos na vasta ocara; os mancebos, que ainda -não ganharam nome de guerra por algum feito brilhante, discorrem no -valle. - -Os guerreiros seguem Irapuam ao bosque sagrado, onde os espera o Pagé e -sua filha para o mysterio da jurema. Iracema já accendeu os fogos da -alegria. Araken está immovel e extactico no seio de uma nuvem de fumo. - -Cada guerreiro que chega depõe a seus pés uma offerenda a Tupan. Traz -um a succulenta caça; outro a farinha d'agua; aquelle, o saboroso -piracem da trahira. O velho Pagé, para quem são estas dadivas, as -recebe com desdem. - -Quando foram todos sentados em torno do grande fogo, o ministro de Tupan -ordena o silencio com um gesto, e tres vezes clamando o nome terrivel, -enche-se do Deus, que o habita: - ---Tupan!... Tupan!... Tupan!... - -Tres vezes o echo ao longe repercutio. - -Vem Iracema com a igaçaba cheia do verde licor. - -Araken decreta os sonhos a cada guerreiro, e destribue o vinho da -jurema, que transporta ao céo o valente tabajara. - -Este, grande caçador, sonha que os veados e as pacas correm ao deante -de suas flechas paras e traspassarem nellas; fatigado alfim de ferir, -cava na terra o bucan, e assa tamanha quantidade de caça, que mil -guerreiros em um anno não acabarão. - -Outro, fogoso em amores, sonha que as mais bellas virgens dos tabajaras -deixam a cabana de seus paes e o seguem captivas do seu querer. Nunca a -rêde de chefe algum embalou mais voluptuosas caricias, que elle as frue -n'aquelle extase. - -O heroe sonha tremendas lutas, e horriveis combates de que sahe -vencedor, cheio de gloria e fama. O velho renasce, na prole numerosa, e -como o secco tronco donde rebenta nova e robusta sebe, cobre-se ainda de -flôres. - -Todos sentem a felicidade tão viva e continua, que no espaço da noite -cuidam viver muitas luas. As boccas murmuram; o gesto falla; e o Pagé, -que tudo escuta e vê, colhe o segredo das almas desnudas. - -Iracema, depois que offereceu aos guerreiros o licor de Tupan, sahio do -bosque. Não permittia o rito que ella assistisse ao somno dos -guerreiros e ouvisse falar os sonhos. - -Foi d'ali direito á cabana, onde a esperava Martim. - ---Toma as tuas armas, guerreiro branco. É tempo de partir. - ---Leva-me onde está Poty, meu irmão. - -A virgem caminhou para o valle; o christão a seguio. Chegaram á falda -do rochedo, que ia morrer á beira do tanque, em um massiço de verdura. - ---Chama teu irmão! - -Martim soltou o grito da gaivota. A pedra que fechava a entrada da gruta -cahio; e o vulto do guerreiro Poty appareceu na sombra. - -Os dois irmãos encostaram a fronte na fronte e o peito no peito, para -exprimir que não tinham ambos mais que uma cabeça e um coração. - ---Poty está contente porque vê seu irmão, que o máo espirito da -floresta arrebatou de seus olhos. - ---Feliz é o guerreiro que tem ao flanco um amigo como o bravo Poty; -todos os guerreiros o invejarão. - -Iracema suspirou, pensando que a affeição do Pytiguara bastava á -felicidade do extrangeiro: - ---Os guerreiros tabajaras dormem. A filha de Araken vae guiar os -extrangeiros. - -A virgem seguio adeante; os dois guerreiros apóz. Quando tinham andado o -espaço que transpõe a garça de um vôo, o chefe Pytiguara tornou-se -inquieto, e murmurou ao ouvido do christão: - ---Manda á filha do Pagé que volte á cabana de seu pae. Ella demora a -marcha dos guerreiros. - -Martim entristeceu; mas a voz da prudencia e da amizade penetrou em seu -coração. Avançou para Iracema; e tirou do seio uma voz doce para -acalentar a saudade da virgem: - ---Mais affunda a raiz da planta na terra, mais custa arrancal-a. Cada -passo de Iracema no caminho da partida, é uma raiz que lança no -coração de seu hospede. - ---Iracema quer-te acompanhar até onde acabam os campos dos Tabajaras, -para voltar com o socego em seu peito. - -Martim não respondeu. Continuaram a caminhar, e com elles caminhava a -noite; as estrellas desmaiaram e a frescura da alvorada alegrou a -floresta. As roupas da manhã, alvas como o algodão, appareceram no -céo. - -Poty olhou a mata e parou. Martim comprehendeu e disse a Iracema: - ---Teu hospede já não pisa os campos dos Tabajaras. É o instante de -separar-te d'elle. - - - - -XVII - - -Iracema pousou a mão no peito do guerreiro branco: - ---A filha dos Tabajaras já deixou os campos de seus paes; agora pode -falar. - ---Que guardas tu em teu seio, virgem formosa do sertão? - -Ella pôz os olhos cheios no christão: - ---Iracema não pode mais separar-se do extrangeiro. - ---Assim é preciso, filha de Araken. Torna á cabana de teu velho pae, -que te espera. - ---Araken já não tem filha. - -Martim tornou com gesto rudo e severo: - ---Um guerreiro da minha raça jamais deixou a cabana do hospede, viuva -de sua alegria. Araken abraçará sua filha, para não amaldiçoar o -extrangeiro ingrato. - -A virgem pendeu a fronte; velando-se com as longas tranças negras que -se esparziam pelo collo, cruzando ao gremio os lindos braços, recolheu -em seu pudor. Assim o roseo cacto, que já desabrochou em formosa flôr, -cerra em botão o seio perfumado. - ---Tua escrava te acompanhará, guerreiro branco: porque teu sangue dorme -em seu seio. - -Martim estremeceu. - ---Os máos espiritos da noite turbaram o espirito de Iracema. - ---O guerreiro branco sonhava, quando Tupan abandonou sua virgem, porque -ella trahio o segredo da jurema. - -O christão escondeu as faces á luz. - ---Deus!... clamou seu labio tremulo. - -Permaneceram ambos mudos e quedos. - -Afinal disse Poty: - ---Os guerreiros tabajaras despertam. - -O coração da virgem como o do extrangeiro, ficou surdo á voz da -prudencia. O sol levantou-se no horisonte; e seu olhar magestoso desceu -dos montes á floresta. Poty de pé como um tronco decepado esperou que -seu irmão quizesse partir. - -Foi Iracema quem primeiro falou: - ---Vem: emquanto não pisares as praias dos Pytiguaras, tua vida corre -perigo. - -Martim seguiu silencioso a virgem, que fugia entre as arvores, como a -selvagem acoty. A tristeza lhe roia o coração; mas a onda de perfumes -que deixava na brisa a passagem da formosa tabajara, açulava o amor no -seio do guerreiro. Seu passo era tardo, o peito lhe offegava. - -Poty scismava. Em sua cabeça de mancebo morava o espirito de um -abaeté. O chefe pytiguara pensava que o amor é como o cauim, o qual -bebido com moderação fortalece o guerreiro, e tomado em excesso abate -a coragem do heroe. Elle sabia quanto veloz era o pé do tabajara; e -esperava o momento de morrer defendendo o amigo. - -Quando as sombras da tarde entristeciam o dia, o christão parou no meio -da mata. Poty accendeu o fogo da hospitalidade. A virgem desdobrou a -alva rêde de algodão franjada de pennas de tucano e suspendeu-a aos -ramos de arvore. - ---Esposo de Iracema, tua rêde te espera. - -A filha de Araken foi sentar-se longe, na raiz de uma arvore, como a -cerva solitaria, que o ingrato companheiro afugentou do aprisco. O -guerreiro pytiguara desappareceu na espessura da folhagem. - -Martim ficou mudo e triste, semelhante ao tronco d'arvore a que o vento -arrancou o lindo cipó que o entrelaçava. A brisa perpassando levou um -murmurio: - ---Iracema! - -Era o balido do companheiro; a cerva arrufando-se ganhou o doce aprisco. - -A floresta distillava suave fragrancia e exhalava harmoniosos arpejos; -os suspiros do coração se difundiram nos murmures do deserto. Foi a -festa do amor e o canto do hymeneo. - -Já a luz da manhã coou na selva densa. A voz grave e sonora de Poty -repercutio no susurro da mata: - ---O povo tabajara caminha na floresta! - -Iracema arrancou-se dos braços que a cingiam e mais do labio que a -tinha captiva: saltando da rede como a rapida zabelé, travou das armas -do esposo, e levou-o atravez da mata. - -De espaço a espaço o prudente Poty escutava as entranhas da terra; sua -cabeça movia-se pesada de um a outro lado, como a nuvem que se -embalança no cocuruto do rochedo, aos varios lufos da proxima borrasca. - ---O que escuta o ouvido do guerreiro Poty? - ---Escuta o passo veloz do povo tabajara. Elle vem como o tapyr, rompendo -a floresta. - ---O guerreiro pytiguara é a ema que vôa sobre a terra; nós o -seguiremos, como suas azas; disse Iracema. - -O chefe sacudio de novo a fronte: - ---Emquanto o guerreiro do mar dormia, o inimigo correu. Os que primeiro -partiram já avançam além como as pontas do arco. - -A vergonha mordeu o coração de Martim. - ---Fuja o chefe Poty e salve Iracema. Só deve morrer o guerreiro máo, -que não escutou a voz de seu irmão e o pedido de sua esposa. - -Martim arripiou o passo. - ---A alma do guerreiro branco não escutou sua bocca Poty e seu irmão -só tem uma vida. - -O labio de Iracema não fallou: sorrio. - - - - -XVIII - - -Treme a selva com o estrupido da carreira do povo tabajara. - -O grande Irapuam, primeiro, assoma entre as arvores. Seu olhar rubido -viu o guerreiro branco entre nuvens de sangue; o grito rouco do tigre -rompe de seu peito cavernoso. - -O chefe tabajara e seu povo, vão precipitar-se sobre os fugitivos, como -a vaga encapelada que rebenta no Mocoribe. - -Eis late o cão selvagem. - -Poty solta o grito da alegria: - ---O cão de Poty guia os guerreiros de sua taba em soccorro teu. - -O rouco buzio dos Pytiguaras estruge pela floresta. O grande Jacaúna, -senhor das praias do mar, chegava do rio das garças com seus melhores -guerreiros. - -Os Pytiguaras recebem o primeiro impeto do inimigo nas pontas erriçadas -de suas flechas, que elles despedem do arco aos molhos, como o coandú -os espinhos do seu corpo. Logo apóz sôa a pocema, estreita-se o -espaço, e a luta se trava face a face. - -Jacaúna atacou Irapuam. Prosegue o horrivel combate que bastára a dez -bravos, e não esgotou ainda a força dos grandes chefes. Quando os dois -tacapes se encontram, a batalha toda estremece como um só guerreiro -até ás entranhas. - -O irmão de Iracema veio direito ao extrangeiro, que arrancara a filha -de Araken á cabana hospedeira; o faro da vingança o guia; a vista da -irmã assanha a raiva em seu peito. O guerreiro Cauby assalta com furor -o inimigo. - -Iracema, unida ao flanco de seu guerreiro e esposo, vio de longe Cauby e -fallou assim: - ---Senhor de Iracema, ouve o rogo de tua escrava; não derrama o sangue -do filho de Araken. Se o guerreiro Cauby tem de morrer, morra elle por -esta mão, não pela tua. - -Martim pôz no rosto da selvagem olhos de horror: - ---Iracema matará seu irmão? - ---Iracema antes quer que o sangue de Cauby tinja sua mão que a tua; -porque os olhos de Iracema vêem a ti, e a ella não. - -Travam a luta os guerreiros. Cauby combate com furor, o christão -defende-se apenas; mas a seta embebida no arco da esposa guarda a vida -do guerreiro contra os botes do inimigo. - -Poty já prostrou o velho Andira e quantos guerreiros topou na luta seu -valido tacape. Martim lhe abandona o filho de Araken, e corre sobre -Irapuam. - ---Jacaúna é um grande chefe; seu collar de guerra dá tres voltas ao -peito. O tabajara pertence ao guerreiro branco. - ---A vingança é a honra do guerreiro, e Jacaúna ama o amigo de Poty. - -O grande chefe Pytiguara levou além o formidavel tacape. O combate -renhio-se entre Irapuam e Martim. A espada do christão. batendo na -clava do selvagem fez-se pedaços. O chefe tabajara avançou contra o -peito inerme do adversario. - -Iracema silvou como a boicininga, e se arremessou ante a furia do -guerreiro tabajara. A arma rigida tremeu na dextra possante e o braço -cahio desfallecido. - -Soava a pocema da victoria. Os guerreiros pytiguaras conduzidos por -Jacaúna e Poty varriam a floresta. Os tabajaras, fugindo, arrebataram -seu chefe ao odio da filha de Araken que o podia abater, como a jandaia -abate o procero coqueiro roendo-lhe o cerne. - -Os olhos de Iracema estendidos pela floresta, viram o chão juncado de -cadaveres de seus irmãos; e longe o bando dos guerreiros tabajaras que -fugiam em nuvem negra de pó. Aquelle sangue que enrubecia a terra era -o mesmo sangue brioso que lhe ardia as faces de vergonha. - -O pranto orvalhou seu lindo semblante. - -Martim affastou-se para não envergonhar a tristeza de Iracema. Deixou -que sua dor núa se banhasse nas lagrimas. - - - - -XIX - - -Poty voltou de perseguir o inimigo. Seus olhos se encheram de alegria -vendo salvo o guerreiro branco. - -O cão fiel o seguia de perto, lambendo ainda nos pellos do focinho, a -marugem do sangue tabajara de que se fartára; o senhor o acariciava -satisfeito de sua coragem e dedicação. Fora elle quem salvara Martim, -alli trazendo com tanta deligencia os guerreiros de Jacaúna. - ---Os máos espiritos da floresta podem separar outra vez o guerreiro -branco de seu irmão Pytiguara. O cão te seguirá d'aqui em deante, para -que mesmo de longe Poty acuda a teu chamado. - ---Mas o cão é teu companheiro e amigo fiel. - ---Mais amigo e companheiro será de Poty, servindo a seu irmão que a -elle. Tu o chamarás Japy, e elle será o pé ligeiro com que de longe -corramos um para o outro. - -Jacaúna deu o signal da partida. - -Os guerreiros pytiguaras caminharam para as margens alegres do rio onde -bebem as garças: alli se erguia a grande taba dos senhores das varzeas. - -O sol deitou-se, e de novo se levantou no céo. Os guerreiros chegaram -aonde a serra quebrava para o sertão; já tinham passado aquella parte -da montanha, que por ser despida de arvoredo e tosquiada corno a -capivara, a gente de Tupan chamava Ibyapina. - -Poty levou o christão aonde crescia um frondoso jatobá, que affrontava -as arvores do mais alto pincaro da serrania, e quando batido pela rajada -parecia varrer o céo com a immensa copa. - ---N'este logar nasceu teu irmão, disse o pytiguara: Martim estreitou o -peito ao tronco enorme: - ---Jatobá, que viste nascer meu irmão Poty, o extrangeiro te abraça. - ---O raio te decepe arvore do guerreiro Poty, quando seu irmão o -abandonar. - -Depois o chefe assim falou: - ---Ainda Jacaúna não era um guerreiro, Jatobá, o maior chefe, conduzia -os Pytiguaras á victoria. Logo que as grandes aguas correram, elle -caminhou para a serra. Aqui chegando, mandou levantar a taba, para estar -perto do inimigo e vencêl-o mais vezes. A mesma lua que o vio chegar, -alumiou a rêde onde Sahy sua esposa, lhe deu mais um guerreiro de seu -sangue. O luar passava por entre as folhas do jatobá; e o sorriso pelos -labios do varão possante, que tomara seu nome e robustez. - -Iracema aproximou-se. - -A rôla, que marisca na areia, se o companheiro se afasta, adeja -inquieta de ramo em ramo e arrulla para que lhe responda o ausente -amigo. Assim a filha da floresta errara pela encosta, modulando o -singelo canto mavioso. - -Martim a recebeu com a alma no semblante; e levando a esposa do lado do -coração e o amigo do lado da força, voltou ao rancho dos pytiguaras. - - - - -XX - - -A lua cresceu. - -Tres sóes havia que Martim e Iracema estavam nas terras dos Pytiguaras, -senhores das margens do Camocim e Acaraú. Os extrangeiros tinham sua -rêde na vasta cabana do grande Jacaúna. O valente chefe guardou para -si a alegria de hospedar o guerreiro branco. - -Poty abandonou sua taba, para acompanhar seu irmão de guerra na cabana -de seu irmão de sangue, e gosar dos instantes que sobejavam do amor de -Iracema para a amisade, no coração do guerreiro do mar. - -A sombra já se retirou da face da terra: e Martim vio que ella não se -retirara ainda da face da esposa, desde o dia do combate. - ---A tristeza mora na alma de Iracema! - ---A alegria para a esposa só vem de ti; quando teus olhos a deixam as -lagrimas enchem os seus. - ---Porque chora a filha dos Tabajaras? - ---Esta é a taba dos Pytiguaras, inimigos do meu povo. A vista de -Iracema já conheceu o craneo de seus irmãos espetado na caiçara; o -ouvido já escutou o canto de morte dos captivos tabajaras; a mão já -tocou as armas tintas do sangue de seus paes. - -A esposa pousou as duas mãos nos hombros do guerreiro, e reclinou ao -peito d'elle: - ---Iracema tudo soffre por seu guerreiro e senhor. A ata é doce e -saborosa; quando a machucam azeda. Tua esposa não quer que seu amor -azede teu coração; mas que te encha das doçuras do mel. - ---Volte o socego ao seio da filha dos Tabajaras; ella vae deixar a taba -dos inimigos de seu povo. - -O christão caminhou para a cabana de Jacaúna. O grande chefe -alegrou-se vendo chegar seu hospede; mas a alegria fugio logo de sua -fronte guerreira. Martim dissera: - ---O guerreiro branco parte de tua cabana, grande chefe. - ---Alguma cousa te faltou na taba de Jacaúna? - ---Nada faltou a teu hospede. Elle era feliz aqui; mas a voz do coração -o chama a outros sitios. - ---Então parte, e leva o que é preciso para a viagem. Tupan te -fortaleça, e traga outra vez á cabana de Jacaúna, para que elle -festeje tua boa vinda. - -Poty chegou: sabendo que o guerreiro do mar ia partir, falou: - ---Teu irmão te acompanha. - ---Os guerreiros de Poty precisam de seu chefe. - ---Se tu não queres que elles vão com Poty, Jacaúna os conduzira á -victoria. - ---A cabana de Poty ficará deserta e triste. - ---Deserto e triste será o coração de teu irmão longe de ti. - -O guerreiro do mar deixou as margens do rio das garças, e caminhou para -as terras onde o sol se deita. A esposa e o amigo seguem sua marcha. -Passaram além da fertil montanha, onde a abundancia dos fructos creava -grande quantidade de mosca, do que lhe veio o nome de Meruoca. - -Atravessam os corregos que levam suas aguas ao rio das garças, e -avistam longe rio horisonte uma alta serrania. Expira o dia; nuvem negra -voa das bandas do mar: são os urubus que pastam nas praias a carniça -que o oceano arroja, e com a noite tornam ao ninho. - -Os viajantes dormem em Uruburetama. Quando o sol voltou, chegaram ás -margens do rio, que nasce na quebrada da serra e desce a planicie -enroscando-se como uma cobra. Suas voltas continuas enganam a cada passo -o peregrino, que vae seguindo o tortuoso curso: por isso foi chamado -Mundahú. - -Perlongando as frescas margens, viu Martim no seguinte sol os verdes -mares e as alvas praias onde as ondas murmurosas, ás vezes soluçam e -outras raivam de furia, rebentando em frocos de espuma. - -Os olhos do guerreiro branco se dilataram pela vasta immensidade; seu -peito suspirou. Esse mar beijava tambem as brancas areias do Potengi, -seu berço natal, onde elle vira a luz americana. Arrojou-se nas ondas -e pensou banhar seu corpo nas aguas da patria, como banhara sua alma nas -saudades d'ella. - -Iracema sentiu chorar-lhe o coração; mas não tardou que o sorriso de -seu guerreiro o acalentasse. - -Entretanto Poty, do alto do coqueiro, flexava o saboroso camoropim que -brincava na pequena bahia do Mundahú; e preparava o moquem para a -refeição. - - - - -XXI - - -Já descia o sol das alturas do céo. - -Chegam os viajantes á foz do rio onde se criam em grande abundancia as -saborosas trahiras; suas praias são povoadas pela tribu dos pescadores, -da grande nação dos Pytiguaras. - -Elles receberam os extrangeiros com a hospitalidade generosa, que era -uma lei de sua religião; e Poty com o respeito que merecia tão grande -guerreiro, irmão de Jacaúna, maior chefe da forte gente pytiguara. - -Para repousar os viajantes, e acompanhal-os na despedida, o chefe da -tribu recebeu Martim, Iracema e Poty na jangada, e abrindo a vela á -brisa, levou-os até muito longe na costa. Todos os pescadores em suas -jangadas seguiam o chefe e atroavam os ares com o canto de saudade, e os -murmures do uraçá, que imita os soluços do vento. - -Além da tribu dos pescadores estava mais entrada para as serras a tribu -dos caçadores. Elles occupavam as margens do Soipé, cobertas de -matas, onde os veados, as gordas pacas e os macios jacús abundavam. -Assim os habitadores d'essas margens lhe deram o nome de paiz da caça. - -O chefe dos caçadores, Jaguarassú, tinha sua cabana á beira do lago, -que forma o rio perto do mar. Ahi acharam os viajantes o mesmo agasalho -que haviam recebido dos pescadores. - -Depois que partiram do Soipé, os viajantes atravessaram o rio Pacoty, -em cujas margens cresciam as frondosas bananeiras balançando os verdes -pennachos; mais longe o Iguape, onde a agua faz cintura em torno dos -comoros de areia. - -Além assomou no horisonte um alto morro de areia que tinha a alvura da -espuma do mar. O cabo sobranceiro aos coqueiros parece a cabeça calva -do condor, esperando alli a borrasca, que vem dos confins do oceano. - ---Poty conhece o grande morro das areias? perguntou o christão. - ---Poty conhece toda a terra que tem os Pytiguaras desde as margens do -grande rio, que forma um braço do mar, até á margem do rio onde -habita o jaguar. Elle já esteve no alto do Mocoribe, e de lá viu -correr no mar as grandes igaras dos guerreiros brancos, teus inimigos, -que está o no Mearim. - ---Porque chamas tu Mocoribe, o grande morro das areias? - ---O pescador da praia, que vae nas jangadas, lá onde voa a aty, fica -triste, longe da terra e de sua cabana, onde dormem os filhos de seu -sangue. Quando elle volta e que seus olhos primeiro avistam o morro das -areias, a alegria volta ao seio do homem. Então elle diz que o morro -das areias dá alegria! - ---O pescador diz bem; porque teu irmão ficou contente como elle, vendo -o monte das areias. - -Martim subiu com Poty ao cimo do Mocoribe. Iracema seguindo com os olhos -o esposo, divagava como a jaçanan em tôrno do lindo seio, que alli fez -a terra para receber o mar. De passagem ella colhia os doces cajús, que -aplacam a sede aos guerreiros, e apanhava as mimosas conchas para ornar -seu collo. - -Os viajantes estiveram em Mocoribe tres sóes. Depois Martim levou seus -passos além. A esposa e o amigo o seguiram até á embocadura de um rio -cujas margens eram alagadas e cobertas de mangue. O mar entrando por -elle formava uma bacia de agua christalina, que parecia cavada na pedra -como um camocim. - -O guerreiro christão. ao percorrer essa paragem, começou de scismar. -Até alli elle caminhava sem destino, movendo seus passos ao acaso; não -tinha outra intenção mais que affastar-se das tabas dos Pytiguaras -para arrancar a tristeza do coração de Iracema. O christão sabia por -experiencia que a viagem acalenta a saudade, porque a alma pára -emquanto o corpo se move. Agora sentado na praia pensava. - -Poty veiu: - ---O guerreiro branco pensa; o seio do irmão está aberto para receber -seu pensamento. - ---Teu irmão pensa que este lugar é melhor do que as margens do -Jaguaribe para a taba dos guerreiros de sua raça. N'estas aguas as -grandes igaras que vem de longes terras se esconderiam do vento e do -mar; d'aqui ellas iriam ao Mearim destruir os brancos tapuias alliados -dos Tabajaras, inimigos de tua nação. - -O chefe pytiguara meditou e respondeu: - ---Vae buscar teus guerreiros. Poty plantará sua taba junto da mayr de -seu irmão. - -Aproximava-se Iracema. O christão mandou com um gesto o silencio ao -chefe Pytiguara. - ---A voz do esposo se calla, e seus olhos se abaixam quando chega -Iracema. Queres tu que ella se affaste? - ---Quer teu esposo, que chegues mais perto, para que sua voz e seus olhos -penetrem mais dentro de tua alma. - -A formosa selvagem desfez-se em risos como se desfaz a flor do fructo -que desponta, e foi debruçar-se na espadua do guerreiro. - ---Iracema te escuta. - ---Estes campos são alegres, e mais serão quando Iracema n'elles -habitar. Que diz teu coração? - ---O coração da esposa está sempre alegre junto de seu senhor e -guerreiro. - -O christão, seguindo pela margem do rio, escolheu o logar para levantar -a cabana. Poty cortou esteios dos troncos da carnaúba; a filha de -Araken ligava os leques da palmeira para vestir o tecto e as paredes: -Martim cavou a terra com a espada e fabricou a porta das fasquias da -taquára. - -Quando veiu a noite os dois esposos armaram a rede em sua nova cabana; e -o amigo no copiar que olhava para o nascente. - - - - -XXII - - -Poty saudou o amigo e faltou assim: - ---Antes que o pae de Jacaúna e Poty, o valente guerreiro Jatobá, -mandasse a todos os guerreiros pytiguaras, o grande tacape da nação -estava na dextra de Batuireté, o maior chefe, pae de Jatobá. Foi elle -que veiu pelas praias do mar até o rio do jaguar, e expulsou os -tabajaras para dentro das terras, marcando a cada tribu seu logar; -depois entrou pelo sertão até á serra que tomou seu nome. - -Quando suas estrellas eram muitas, e tantas que em seu camocim já não -cabiam as castanhas que marcavam o numero, o corpo vergou para a terra, -o braço endureceu como o galho do ubiratan que não verga; seus olhos -se escureceram. - -Chamou então o guerreiro Jatobá e disse:--Filho, toma o tacape da -nação pytiguara. Tupan não quer que Batuireté o leve mais á guerra, -pois tirou a força de seu corpo, o movimento do seu braço e a luz de -seus olhos. Mas Tupan foi bom para elle, pois lhe deu um filho como o -guerreira Jatobá. - -Jatobá empunhou o tacape dos Pytiguaras. Batuireté tornou o bordão de -sua velhice e caminhou. Foi atravessando os vastos sertões, até os -campos viçosos onde correm as aguas que vem das bandas da noite. Quando -o velho guerreiro arrastava o passo pelas margens, e a sombra de seus -olhos não lhe deixava que visse mais os fructos nas arvores ou os -passaros no ar, elle dizia em sua tristeza:--Ah! meus tempos passados! - -A gente que o ouvia chorava a ruina do grande chefe; e desde então -passando por aquelles logares repetia suas palavras; d'onde veiu -chamar-se o rio e os campos, Quixeramobim. - -Batuireté veiu pelo caminho das garças até áquella serra que tu -vês longe, onde primeiro habitou. Lá no pincaro o velho guerreiro fez -seu ninho alto como o gavião, para encher o resto de seus dias, -conversando com Tupan. Seu filho já dorme embaixo da terra, e elle -ainda na outra lua scismava na porta de sua cabana, esperando a noite -que traz o grande somno. Todos os chefes Pytiguaras, quando acordam á -voz da guerra, vão pedir ao velho que lhes ensine a vencer, porque -nenhum outro guerreiro jamais soube como elle combater. Assim as tribus -não o chamam mais pelo nome, senão o grande sabedor da guerra, -Maranguab. - -O chefe Poty vae á serra vêr seu grande avô; mas antes que o dia -morra elle estará de volta na cabana de teu irmão. Teus tu outra -vontade? - ---O guerreiro branco te acompanha. Elle quer abraçar o grande chefe dos -Pytiguaras, avô de seu irmão; e dizer ao velho que renasce em seu -neto. - -Martim chamou Iracema; e partiram ambos guiados pelo Pytiguara para a -serra, do Maranguab, que se levantava no horisonte. Foram seguindo o -curso do rio até onde n'elle entrava o ribeiro da Pirapora. - -A cabana do velho guerreiro estava junto das formosas cascatas, onde -salta o peixe no meio dos borbotões de espuma. As aguas alli são -frescas e macias, como a brisa do mar, que passa entre as palmas dos -coqueiros, nas horas da calma. - -Batuireté estava sentado sobre uma das lapas da cascata; e o sol -ardente cahia sobre sua cabeça núa de cabellos e cheia de rugas como o -genipapo. Assim dorme o jaburú na borda do lago. - ---Poty é chegado á cabana do grande Maranguab, pae de Jatobá, e -trouxe seu irmão branco para vêr o maior guerreiro das nações. - -O velho soabriu as pesadas palpebras, e passou do neto ao extrangeiro um -olhar baço. Depois o peito arquejou e os labios murmuraram: - ---Tupan quiz que estes olhos vissem antes de se apagarem o gavião -branco junto da narseja. - -O abaeté derrubou a fronte aos peitos, e não falou mais, nem mais se -moveu. - -Poty e Martim julgaram que elle dormia e se afastaram com respeito para -não perturbar o repouso de quem tanto obrára na longa vida. Iracema -que se banhava na proxima cachoeira, veiu-lhes ao encontro, trazendo na -folha da taioba favos do mel purissimo. - -Discorreram os amigos pelas floridas encostas até que as sombras da -montanha se extenderam pelo valle. Tornaram então ao logar onde tinham -deixado o Maranguab. - -O velho ainda lá estava na mesma attitude, com a cabeça derrubada ao -peito e os joelhos encostados á fronte. As formigas subiam pelo seu -corpo; e os tuins adejavam em torno e pousavam-lhe na calva. - -Poty poz a mão no craneo do velho e conheceu que era finado: morrera -de velhice. Então o chefe pytiguara entoou o canto da morte; e depois -foi á cabana buscar o camocim, que transbordava com as castanhas do -cajú. Martim contou cinco vezes cinco mãos. - -Entanto Iracema colhia na floresta a andiroba, de que foi ungido o corpo -do velho no camocim, onde a mão piedosa do neto o encerrou. O vaso -funebre ficou suspenso ao tecto da cabana. - -Depois que plantou ortiga em frente á porta, para deffender contra os -animaes a oca abandonada, Poty despediu-se triste d'aquelles logares, e -tornou com seus companheiros á borda do mar. - - - - -XXIII - - -Quatro luas tinham alumiado o ceu depois que Iracema deixara os campos -do Ipú; e tres depois que ella habitava nas praias do mar a cabana de -seu esposo. - -A alegria morava em sua alma. A filha dos sertões era feliz, como a -andorinha, que abandona o ninho de seus paes, e emigra para fabricar -novo ninho no paiz onde começa a estação das flôres. Tambem Iracema -achara ali nas praias do mar um ninho do amor, nova patria para o -coração. - -Ella discorria as amenas campinas, como o colibri borboleteando entre as -flôres da acacia. A luz da manhã já a encontrava suspensa ao hombro -do esposo e sorrindo, como a enrediça, que entrelaça o tronco e todas -as manhãs o coroa de nova grinalda. - -Martim partia para a caça com Poty. Ella separava-se então d'elle, -para mais sentir o desejo de tornar a elle. - -Perto havia uma formosa lagoa no meio de verde campina. Para lá volvia -a selvagem o ligeiro passo. Era a hora do banho da manhã; atirava-se á -agua, e nadava com as garças brancas e as vermelhas jaçanans. Os -guerreiros pytiguaras, que appareciam por aquellas paragens chamavam -essa lagoa da belleza, porque n'ella se banhava Iracema, a mais bella -filha da raça de Tupan. - -E desde esse tempo as mães vinham de longe mergulhar suas filhas nas -aguas da Porangaba que tinham a virtude de tornar as virgens formosas e -amadas pelos guerreiros. - -Depois do banho Iracema discorria até ás faldas da serra do Maranguab, -onde nascia o ribeiro das marrecas. Ali cresciam na frescura e sombra as -fructas mais saborosas de todo o paiz; d'ellas fazia copiosa provisão, -e esperava, embalando-se nas ramas do maracujá, que Martim tornasse da -caça. - -Outras vezes não era a Jererahú que a levava sua vontade, mas do -opposto lado, junto da lagoa da Sapiranga, cujas aguas diziam que -inflammavam os olhos. Cerca d'ahi havia um bosque frondoso de muritys, -que formavam no meio do taboleiro uma grande ilha de formosas palmeiras. -Iracema gostava do Murityapuá, onde o vento suspirava docemente; ali -espolpava ella o vermelho côco, para fabricar a bebida refrigerante, -endossada com o mel da abelha, que os guerreiros amavam durante a maior -calma do dia. - -Uma manhã Poty guiou Martim á caça. Caminharam para uma serra, que se -levanta ao lado da outra do Maranguab sua irmã. O alto cabeço se curva -á semelhança do bico adunco da arara; pelo que os guerreiros a -chamaram Aratanha. Elles subiram pela encosta da Guaiuba por onde as -aguas descem para o valle, e foram até o corrego habitado pelas pacas. - -Só havia sol no bico da arara quando os caçadores desceram de Pacatuba -ao taboleiro. De longe viram Iracema, que viera esperal-os á margem de -sua lagoa da Porangaba. Caminhou para elles com o passo altivo da garça -que passeia á beira d'agua: por cima da cariola trazia uma cintura das -flores da maniva que era o simbolo da fecundidade. Collar das mesmas -cingia-lhe o collo e ornava os rijos seios palpitantes. - -Travou da mão do esposo, e a impoz no regaço: - ---Teu sangue já vive no seio de Iracema. Ella será mãe de teu filho! - ---Filho, dizes tu? exclamou o christão em jubilo. - -Ajoelhou ali e cingindo-o com os braços, beijou o ventre fecundo da -esposa. - -Quando se ergueu, Poty falou: - -A felicidade do mancebo é a esposa e o amigo, a primeira dá alegria; o -segundo dá força: o guerreiro sem a esposa é como a arvore sem folhas -nem dores; nunca ella verá o fructo: o guerreiro sem amigo é como a -arvore solitaria no meio do campo que o vento embalança; o fructo -d'ella nunca amadura. A felicidade do varão é a prole, que nasce -d'elle e faz seu orgulho; cada guerreiro que sahe de suas veias é mais -um galho que leva seu nome ás nuvens, como a grimpa do cedro. Amado de -Tupan é o guerreiro que tem uma esposa, um amigo e muitos filhos; elle -nada mais deseja senão a morte gloriosa. - -Martim unio o peito ao peito de Poty. - ---O coração do esposo e do amigo falou por tua boca. O guerreiro -branco é feliz, chefe dos Pytiguaras, senhores das praias do mar; e a -felicidade nasceu para elle na terra das palmeiras, onde reacende a -baunilha, e foi gerada do sangue de tua raça, que tem no rosto a côr -do sol. O guerreiro branco não quer mais outra patria, senão a patria -de seu filho e de seu coração. - -Ao romper d'alva Poty partiu para colher as sementes de crajurú que -dão a mais bella tinta vermelha, e a casca do angico de onde sae a cor -negra mais lustrosa. De caminho sua flecha certeira abateu o pato -selvagem que planeava nos ares: e elle arrancou das azas as longas -penas. Subindo ao Mocoribe, rugiu a inubia. A refega que vinha do mar -levou longe o ronco som. O buzio dos pescadores do Trahiry, e a trombeta -dos caçadores do Soipé, responderam. - -Martim banhou-se na agua do rio, e passeou na praia para secar o corpo -ao vento e ao sol. Ao seu lado ia Iracema e apanhava o ambar amarello -que o mar arrojava. Todas as noites a esposa perfumava seu corpo e a -alva rede, para que o amor do guerreiro se deleitasse n'ella. - -Voltou Poty. - - - - -XXIV - - -Foi costume da raça, filha de Tupan, que o guerreiro trouxesse no corpo -as cores de sua nação. Traçavam em principio negras riscas, sobre o -corpo, á semelhança do pello do coaty de onde procedeu o nome d'essa -arte da pintura guerreira. Depois variaram as cores; e muitos e muitos -guerreiros costumaram escrever os emblemas de seus feitos. - -O extrangeiro tendo adoptado a patria da esposa e do amigo, devia passar -por aquella ceremonia, para tornar-se um guerreiro vermelho, filho de -Tupan. N'essa intenção fora Poty prover-se dos objectos necessarios. - -Iracema preparou as tintas. O chefe, embebendo as ramas da pluma, -traçou pelo corpo os riscos vermelhos e pretos, que ornavam a grande -nação pytiguara. Depois pintou na fronte uma flecha e disse: - ---Assim como a seta traspassa o duro tronco, assim o olhar do guerreiro -penetra n'alma dos povos. - -No braço um gavião: - ---Assim como o anajê cahe das nuvens, assim cae o braço do guerreiro -sobre o inimigo. - -No pé esquerdo a raiz do coqueiro. - ---Assim como a pequena raiz agarra na terra o alto coqueiro, o pé firme -do guerreiro sustenta seu corpo. - -No pé direito pintou uma aza: - ---Assim como a aza da majoy rompe os ares o pé veloz do guerreirro não -tem igual na corrida. - -Iracema tomou a rama da penna e pintou uma folha com uma abelha sobre: -sua voz resoou entre sorrisos: - ---Assim como a abelha fabrica mel no coração negro do jacarandá, a -doçura está no peito do mais valente guerreiro. - -Martim abriu os braços e os labios para receber corpo e alma da esposa, - ---Meu irmão é um grande guerreiro da nação pytiguara; elle precisa -de um nome na lingua de sua nação. - ---O nome de teu irmão está em seu corpo, onde o poz tua mão. - ---Coatiyabo! exclamou Iracema. - ---Tu disseste; eu sou o guerreiro pintado; o guerreiro da esposa e do -amigo. - -Poty deu a seu irmão o arco e o tacape, que são as armas nobres do -guerreiro. Iracema havia tecido para ella o cocar e a arassoia, ornatos -dos chefes illustres. - -A filha de Araken foi buscar á cabana as iguarias do festim e os vinhos -de genipapo e mandioca. Os guerreiros beberam copiosamente e trançaram -as dansas alegres. Durante que volviam em torno dos fogos da alegria, -resoavam as canções. - -Poty cantava: - ---Como a cobra que tem duas cabeças em um só corpo, assim é a amisade -de Coatyabo e Poty. - -Acudiu Iracema. - ---Como a ostra que não deixa o rochedo, ainda depois de morta, assim é -Iracema junto a seu esposo. - -Os guerreiros disseram: - ---Como o jatobá na floresta, assim é o guerreiro Coatyabo entre o -irmão e a esposa: seus ramos abraçam os ramos do ubiratan, e sua -sombra protege a relva humilde. - -Os fogos da alegria arderam até que veio a manhã; e com elles durou o -festim dos guerreiros. - - - - -XXV - - -A alegria ainda morou na cabana, todo o tempo que as espigas de milho -levaram a amarellecer. - -Uma alvorada, caminhava o christão pela borda do mar. Sua alma estava -cançada. - -O colibri sacia-se de mel e perfume; depois adormece em seu branco ninho -de cotão até que volta rio outro anno a lua das flores. Como o -colibri, a alma do guerreiro tambem se satura de felicidade, e carece de -somno e repouso. - -A caça e as excursões pelas montanhas em companhia do amigo, as -caricias da terna esposa que o esperavam na volta, o doce carbeto no -copiar da cabana já não acordavam n'elle as emoções d'outrora. Seu -coração resonava. - -Iracema brincava pela praia: os olhos d'elle tiravam-se d'ella para se -estenderem pela immensidade dos mares. - -Viram umas azas brancas, que adejavam pelos campos azues. Conheceu o -christão que era uma grande igara de muitas velas, como construiam seus -irmãos; e a saudade da patria apertou em seu seio. - -Alto ia o sol; e o guerreiro, na praia seguia com os olhos as azas -brancas que fugiam. Debalde a esposa o chamou á cabana, debalde -offereceu a seus olhos, as graças d'ella e os fructos melhores do -campo. Não se moveu o guerreiro, senão quando a vella se sumiu no -horisonte. - -Poty voltou da serra, onde pela vez primeira fora só. Tinha deixado a -serenidade na fronte de seu irmão e achava alli a tristeza. Martim -saiu-lhe ao encontro: - ---A igara grande do branco tapuia passou no mar. Os olhos de teu irmão -a viram voar para as margens do Mearim, alliados dos Tupinambás, -inimigos de tua e minha raça. - ---Poty é senhor de mil arcos; se é teu desejo elle te acompanhará com -seus guerreiros ás margens do Mearim para vencer o Tapuytinga e seu -amigo o traidor Tupinambá. - ---Quando for tempo teu irmão te dirá. - -Os guerreiros entraram na cabana, onde estava Iracema. A maviosa -canção n'esse dia tinha emudecido nos labios da esposa. Ella tecia -suspirando a franja da rede materna, mais larga e espessa que a rede do -hymeneo. - -Poty, que a viu tão occupada, fallou: - ---Quando a sabiá canta é o tempo do amor; quando emmudece, fabrica o -ninho para sua prole; é o tempo do trabalho. - ---Meu irmão falla como a ran quando annuncia a chuva; mas a sabiá que -faz seu ninho, não sabe se dormirá n'elle. - -A voz de Iracema gemia. Seu olhar buscou o esposo. Martim pensava: as -palavras de Iracema passaram por elle, como a brisa pela face lisa da -rocha, sem echo nem rumores. - -O sol brilhava sempre sobre as praias do mar, e as areias reflectiam os -raios ardentes; mas nem a luz que vinha do ceu, nem a luz que ia da -terra, espancaram a sombra n'alma do christão. Cada vez o crepusculo -era maior em sua fronte. - -Chegou das margens do Acaraú um guerreiro pytiguara, mandado por -Jacaúna a seu irmão Poty. Elle veio seguindo o rastro dos viajantes -até o Trahiry, onde os pescadores o guiaram á cabana. - -Poty estava só no copiar; ergueu-se e abaixou a fronte para escutar com -respeito e gravidade as palavras que lhe mandava seu irmão pela boca do -mensageiro. - ---O Tapuytinga, que estava no Mearim, veio pelas matas até o principio -da Ibyapaba, onde fez alliança com Irapuam, para combater a nação -pytiguara. Elles vão descer da serra ás margens do rio em que bebem as -garças, e onde tu levantaste a taba de teus guerreiros. Jacaúna te -chama para deffender os campos de nossos paes: e teu povo carece de seu -maior guerreiro. - ---Volta ás margens do Acaraú o teu pé não descance emquanto não -pisar o chão da cabana de Jacaúna. Quando ahi estiveres dize ao grande -chefe:--"Teu irmão é chegado á taba de seus guerreiros." E tu não -mentirás. - -O mensageiro partiu. - -Poty vestiu suas armas, e caminhou para a varzea, guiado pelo passo de -Coatyabo. Elle o encontrou muito além, vagando entre os canaviaes que -bordam as margens de Jacarehy. - ---O branco tapuia, está na Ibyapaba para ajudar os Tabajaras a combater -contra Jacaúna. Teu irmão corre a deffender a terra de seus filhos, e -a taba onde dormem os camocins de seus paes. Elle saberá vencer -depressa para voltar á tua presença. - ---Teu irmão parte contigo. Nada separa dois guerreiros amigos quando -troa a inubia da guerra. - ---Tu és grande, como o mar e bom como o céo. - -Os dois amigos abraçaram-se; e seguiram com o rosto para as bandas do -nascente. - - - - -XXVI - - -Caminhando, caminhando, chegaram os guerreiros á margem de um lago, que -havia nos taboleiros. - -O christão parou de repente e voltou o rosto para as bandas do mar: a -tristeza sahiu de seu coração e subiu á fronte. - ---Meu irmão, disse o chefe, teu pé creou raiz na terra do amor; fica, -Poty voltará breve. - ---Teu irmão te acompanha; elle disse, e sua palavra é como a seta de -teu arco; quando soa, é chegada. - ---Queres tu que Iracema te acompanhe ás margens do Acaraú? - ---Nós vamos combater seus irmãos. A taba dos Pytiguaras não terá -para ella mais que tristeza e dôr. A filha dos Tabajaras deve ficar. - ---Que esperas tu então? - ---Teu irmão se afflige porque a filha dos Tabajaras pode ficar triste e -abandonar a cabana, sem esperar pela sua volta. Antes de partir elle -queria socegar o espirito da esposa. - -Poty reflectia: - ---As lagrimas da mulher amollecem o coração do guerreiro, como o -orvalho da manhã amollece a terra. - ---Meu irmão é um grande sabedor. O esposo deve partir sem ver Iracema. - -O christão avançou. Poty mandou-lhe que esperasse; da alvaja do setas -que Iracema emplumara de pennas vermelhas e preta e suspendera aos -hombros do esposo, tirou uma. - -O chefe pytiguar vibrou o arco: a seta rapida atravessou um goiamum que -discorria pelas margens do lago, e só parou onde a pluma não a deixou -mais entrar. - -Fincou o guerreiro no chão a flecha, com a presa atravessada e tornou -para Coatyabo. - ---Tu podes partir agora. Iracema seguirá teu rastro; chegando aqui -verá tua seta, e obedecerá á tua vontade. - -Martim sorriu; e quebrando um ramo do maracujá, a flôr da lembrança, -o entrelaçou na haste da seta, e partiu alfim seguido por Poty. - -Breve desappareceram os dois guerreiros entre as arvores. O calor do sol -já tinha seccado seus passos na beira do lago. Iracema inquieta veio -pela varzea seguindo o rastro do esposo até o tabuleiro. As sombras -doces vestiam os campos quando ella chegou á beira do lago. - -Seus olhos viram a seta do esposo fincada no chão, o goiamum -trespassado, o ramo partido, e encheram-se de pranto. - ---Elle manda que Iracema ande para traz, como o goiamum, e guarde sua -lembrança, como o maracujá guarda sua flôr todo o tempo até morrer. - -A filha dos Tabajaras retrahiu os passos lentamente, sem volver o corpo, -nem tirar os olhos da seta de seu esposo, e tornou á cabana. Ahi -sentada á soleira, com a fronte nos joelhos esperou, até que o somno -acalentou a dôr em seu peito. - -Apenas alvorou o dia, ella moveu o passo rapido para a lagoa, e chegou -á margem. A flecha lá estava como na vespera: o esposo não tinha -voltado. - -Desde então á hora do banho, em vez de buscar a lagoa da belleza, onde -outrora tanto gostara de nadar; caminhava para aquella, que vira seu -esposo abandonal-a. Sentava-se junto á flecha, até que descia a noite, -então recolhia á cabana. - -Tão rapida partia de manhã, como lenta voltava á tarde. Os mesmos -guerreiros que a tinham visto alegre nas aguas da Porangaba, agora -encontrando-a triste e só, como a garça viuva, na margem do rio, -chamavam aquelle sitio da Mocejana, a abandonada. - -Uma vez que a formosa filha de Araken se lamentava á beira da lagoa da -Mocejana, uma voz estridente gritou seu nome do alto da carnaúba: - ---Iracema! Iracema!... - -Ergueu ella os olhos e viu entre as folhas da palmeira sua linda -jandaia, que batia as azas, e arrufava as pennas com o prazer de vêl-a. - -A lembrança da patria, apagada pelo amor, resurgiu em seu pensamento. -Viu os formosos campos do Ipú; as encostas da serra onde nascera, a -cabana de Araken; e teve saudades; mas ainda n'aquelle instante, não se -arrependeu de os ter abandonado. - -Seu labio gaseou em canto. A jandaia abrindo as azas, esvoaçou-lhe em -torno e pousou no hombro. Alongando fagueira o collo, com o negro bico -alisou-lhe os cabellos e beliscou a bocca vermelha como uma pitanga. - -Iracema lembrou-se que tinha sido ingrata para a jandaia esquecendo-a no -tempo da felicidade; e agora ella vinha para a consolar no tempo da -desventura. - -Essa tarde não voltou só á cabana. Durante o dia seus dedos ágeis -teceram o formoso urú de palha que forrou da felpa macia da monguba -para agasalhar sua companheira e amiga. - -Na seguinte alvorada foi a voz da jandaia que a despertou. A linda ave -não deixou mais sua senhora; ou porque depois da longa ausencia não se -fartasse de a vêr, ou porque advinhasse que ella tinha necessidade de -quem a acompanhasse em sua triste solidão. - - - - -XXVII - - -Uma tarde Iracema viu de longe dois guerreiros que avançavam pelas -praias do mar. Seu coração palpitou mais apressado. - -Instantes depois ella esquecia nos braços do esposo tantos dias de -saudade, e abandono que passara na solitaria cabana. Outra vez sua -graça encheu os olhos do christão; a alegria voltou a habitar em sua -alma. - -Como a secca varzea, com a vinda do nevoeiro, reverdece e matisa-se de -flôres, a formosa filha do sertão com a volta do esposo reanimou-se; e -sua belleza esmaltou-se de meigos e ternos sorrisos. - -Martim e seu irmão haviam chegado á taba de Jacaúna, quando soava a -inubia; elles guiaram ao combate os mil arcos de Poty. Ainda d'essa vez -os Tabajaras, apesar da alliança dos brancos tapuias do Mearim, foram -levados de vencida pelos valentes Pytiguaras. - -Nunca tão disputada victoria e tão renhida pugna, se pelejou nos -campos que regam o Acaraú e o Camocim; o valor era igual de parte a -parte, e nenhum dos dois povos fora vencido, se o Deus da guerra não -tivesse decidido dar estas plagas á raça do guerreiro branco, alliada -dos Pytiguaras. - -Logo apóz a victoria o christão tornára ás praias do mar, onde -construira sua cabana. De novo sentiu em sua alma a sede do amor; e -tremia de pensar que Iracema houvesse partido, deixando ermo aquelle -sitio tão povoado outrora pela felicidade. - -O christão amou outra vez a filha do sertão, como da primeira vez, -quando parece que o tempo não poderá exhaurir o coração. Mas breves -sóes bastaram para murchar aquellas flôres de um coração exilado da -patria. - -O imbú, filho da serra, se nasceu na varzea porque o vento ou as aves -trouxeram a semente, vingou, achando boa terra e fresca sombra; talvez -um dia copou a verde folhagem e enflorou. Mas basta um sopro do mar, -para tudo murchar. As folhas lastram o chão; as flôres leva-as a -brisa. - -Iracema tambem foge dos olhos do esposo, porque já percebeu que esses -olhos tão amados se turbam com a vista d'ella, e em vez de se encherem -de sua belleza como outrora, a despedem de si. Mas seus olhos d'ella -não se cançam de acompanhar á parte e de longe o guerreiro senhor, -que os fez captivos. - -Ai d'ella!... Sentiu já o golpe no coração e como a copaiba ferida no -amago, distilla lagrimas em fio. - - - - -XXVIII - - -Uma vez o christão ouviu dentro em sua alma o soluço de Iracema: seus -olhos buscaram em torno e não a viram. - -A filha de Araken estava além, entre as verdes moitas de ubaia, sentada -na relva. O pranto desfiava de seu bello semblante; e as gotas que -rolavam a uma e uma cabiam sobre o regaço, onde já palpitava e crescia -o filho do amor. Assim cahem as folhas da arvore viçosa antes que -amadureça o fructo. - ---O que espreme as lagrimas do coração de Iracema! - ---Chora o cajueiro quando fica tronco secco e triste. Iracema perdeu sua -felicidade, depois que te separaste d'ella. - ---Não estou eu junto a ti? - ---Teu corpo está aqui; mas tua alma vôa á terra de teus pais, e busca -a virgem branca, que te espera. - -Martim doeu-se. Os grandes olhos negros que a indiana pousara n'elle o -tinham ferido no amago. - ---O guerreiro branco é teu esposo: elle te pertence. - -A formosa tabajara sorriu em sua tristeza: - ---Quanto tempo ha que retiraste de Iracema teu espirito? Antes teu passo -te guiava para as frescas serras e os alegres taboleiros; teu pé -gostava de pisar a terra da felicidade e seguir o rastro da esposa. -Agora só buscas as praias ardentes, porque o mar que lá murmura vem -dos campos em que nasceste; e o morro das areias, porque do alto se -avista a igara que passa. - ---É a ancia de combater o tupinambá que volve o passo do guerreiro -para as bordas do mar: respondeu o christão. - -Iracema continuou: - ---Teu labio seccou para a esposa, como a canna quando ardem os grandes -sóes; perde o grato mel e as folhas murchas não podem mais brincar -quando passa a brisa. Agora só fallas ao vento da praia para que elle -leve tua voz á cabana de teus paes. - ---A voz do guerreiro branco chama seus irmãos para deffender a cabana de -Iracema e a terra de seu filho, quando o inimigo vier. - -A esposa meneou a cabeça: do fructo do genipapo e buscam a flôr do -espinheiro; a fructa é saborosa, mas tem a côr dos Tabajaras; a flôr -tem a alvura das faces da virgem branca. Se cantam as aves, teu ouvido -não gosta já de escutar o canto mavioso da graúna; mas tua alma se -abre para o grito do japim, porque elle tem as pennas douradas como os -cabellos d'aquella que tu amas! - ---A tristeza escurece a vista de Iracema e amarga seu labio. Mas a -alegria ha de voltar á alma da esposa, como volta á arvore a verde -rama. - ---Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ella morrerá, como o abaty -depois que deu seu fructo. Então o guerreiro branco não terá mais -quem o prenda na terra extrangeira. - ---Tua voz queima, filha de Araken, como o sopro que vem dos sertões do -Icó, no tempo dos grandes calores. Queres tu abandonar teu esposo? - ---Vêem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vae subindo ás nuvens; -a seus pés ainda está a secca raiz da murta frondosa, que todos os -invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para abraçar o tronco -irmão. Se ella não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer -áquella altura. Iracema é a folha escura que faz sombra em tua alma; -deve cahir, para que a alegria alumie teu seio. - -O christão cingio o talhe da formosa indiana e a estreitou ao peito. -Seu labio levou ao labio da esposa um beijo, mas aspero e amargo. - - - - -XXIX - - -Poty voltou do banho. - -Segue na areia o rastro de Coatyabo, e sobe ao alto da Jacarécanga. Ahi -encontra o guerreiro em pé no cabeço do monte com os olhos alongados e -os braços estendidos para os largos mares. - -Volve o Pytiguara as vistas e descobre uma grande igara, que vem -sulcando os verdes mares, impedida pelo vento: - ---É a grande igara dos irmãos de meu irmão que vem buscal-o! - -O christão suspirou: - ---São os guerreiros brancos inimigos de minha raça, que buscam as -praias da valente nação pytiguara, para a guerra da vingança: elles -foram derrotados com os Tabajaras nas margens do Camocim; agora vem com -os seus amigos os Tupinambás pelo caminho do mar. - ---Meu irmão é um grande chefe. Que pensa elle que deve fazer seu -irmão Poty. - ---Chama os caçadores de Soipé e os pescadores do Trahiry. Nós iremos -ao seu encontro. - -Poty accordou a voz da inubia: e os dois guerreiros partiram ambos para -o Mocoribe. Pouco alem viram os guerreiros da Jaguarassú e Camoropim -que corriam ao grito de guerra. O irmão de Jacaúna os avisou da vinda -do inimigo. - -O grande maracatim corre nas ondas, ao longo da terra que se dilata -até ás margens do Parnahyba. A lua começava a crescer quando elle -deixou as aguas do Mearim; ventos contrarios o tinham arrastado para os -altos mares, muito alem do seu destino. - -Os guerreiros pytiguaras, para não espantar o inimigo se occultam entre -os cajueiros; e vão seguindo pela praia a grande igara: durante o dia -avultam as brancas velas; de noite os fogos atravessam a negrura do mar, -como vaga lumes perdidos na mata. - -Muitos sóes caminharam assim. Passam alem do Camocim, e afinal pisam as -lindas ribeiras da enseada dos papagaios. - -Poty manda um guerreiro ao grande Jacaúna e se prepara para o combate. -Martim, que subiu ao morro de areia, conhece que o maracatim vem -recolher no seio da terra; e avisa seu irmão. - -O sol já nasceu; os guerreiros guaraciabas e os tupinambás seus -amigos, correm sobre as ondas nas ligeiras pirogas e pojam na praia. -Formam o grande arco, e avançam como o cardume do peixe quando corta a -correnteza do rio. - -No centro estão os guerreiros do fogo, que trazem o raio; nas azas os -guerreiros do Mearim que brandem o tacape. - -Mas nação alguma jamais vibrou o arco certeiro, como a grande nação -pytiguara; e Poty é o maior chefe, de quantos chefes empunharam a -inubia guerreira. Ao seu lado caminha o irmão, tão grande chefe como -elle, e sabedor das manhas da raça branca dos cabellos do sol. - -Durante a noite os Pytiguaras fincam na praia a forte caiçara de -espinho: e levantam contra ella um muro de areia, onde o raio esfria e -se apaga. Ahi esperam o inimigo. Martim manda que outros guerreiros -subam á copa dos mais altos coqueiros; alli defendidos pelas largas -palmas, esperam o momento do combate. - -A setta de Poty foi a primeira que partiu, e o chefe dos guaraciabas o -primeiro heroe que mordeu o pó da terra extrangeira. Rugem os trovões -na dextra dos guerreiros brancos; mas os raios que desferem mergulham-se -na areia, ou se perdem nos ares. - -As settas dos pytiguaras, já cahem do céo, já voam da terra, e se -embebem todas no seio do inimigo. Cada guerreiro tomba crivado de muitas -flechas, como a presa que as piranhas disputam nas aguas do lago. - -Os inimigos embarcam outra vez nas pirogas, e voltam ao maracatim em -busca dos grandes e pesados trovões, que um homem só, nem dois, podem -manejar. - -Quando voltam, o chefe dos pescadores, que corre nas aguas do mar como o -veloz camoropim, de que tomou o nome, se arroja nas ondas, e mergulha. -Ainda a espuma não se apagára, e já a piroga inimiga se afundou, -parecendo que a tragára uma baleia. - -Veiu a noite, que trouxe o repouso. - -Ao romper d'alva, o maracatim fugia no horisonte para as margens do -Mearim. Jacaúna chegou, não mais para o combate e sim para o festim da -victoria. - -N'essa hora em que o canto guerreiro dos pytiguaras celebrava a derrota -dos guaraciabas, o primeiro filho que o sangue da raça branca gerara -n'essa terra da liberdade, via a luz nos campos da Porangaba. - - - - -XXX - - -Iracema cuidou que o seio se lhe rompia: e buscou a margem do rio, onde -crescia o coqueiro. - -Estreitou-se com a haste da palmeira. A dôr lacerou suas entranhas; -porém logo o choro infantil inundou todo o seu ser de jubilo. - -A joven mãe, orgulhosa de tanta ventura, tomou o tenro filho nos -braços e com elle se arrojou ás aguas limpidas do rio. Depois -suspendeu-o á teta mimosa; seus olhos então o envolviam de tristeza e -amor. - ---Tu és Moacyr, o nascido de meu soffrimento. - -A ará, pousada no olho do coqueiro, repetiu Moacyr; e desde então a -ave amiga em seu canto unia ao nome da mãe, o nome do filho. - -O innocente dormia; Iracema suspirava. - ---A jaty fabrica o mel no tronco cheiroso do assasfraz; toda a lua das -flores vôa de ramo em ramo, colhendo o suco para encher os favos; mas -ella não prova sua doçura, porque a irara devora em uma noite toda a -colmeia. Tua mãe tambem, filho de minha angustia, não beberá em teus -labios o mel do sorriso. - -A joven mãe passou aos hombros a larga faxa de macio algodão, que -fabricara para trazer o filho sempre unido ao flanco; e seguiu pela -areia o rastro do esposo, que ha tres sóes partira. Ella caminhava -docemente para não despertar a creancinha adormecida como o passarinho -sob a aza materna. - -Quando chegou junto ao grande morro das areias, viu que o rastro de -Martim e Poty seguia ao longo da praia; e adivinhou que elles eram -partidos para a guerra. Seu coração suspirou; mas seus olhos sêccos -buscaram o semblante do filho. - -Volve o rosto para o Mocoribe. - ---Tu és o morro da alegria; mas para Iracema tu não tens senão -tristeza. - -Tornando, a recente mãe pousou a creança sempre dormida na rêde de -seu pae, viuva e solitaria em meio da cabana; ella deitou-se ao chão, -na esteira onde repousava, desde que os braços do esposo se não tinham -aberto mais para recebel-a. - -A luz da manhã entrava pela cabana, e Iracema viu entrar com ella a -sombra de um guerreiro. - -Cauby estava em pé na porta. - -A esposa de Martim ergueu-se de um impeto e saltou ávante para proteger -o filho. Seu irmão levantou da rêde a ella uns olhos tristes, e falou -com a voz ainda mais triste: - ---Não foi a vingança que arrancou o guerreiro Cauby aos campos dos -Tabajaras; elle já perdoou. Foi a vontade de ver Iracema, que trouxe -comsigo toda a sua alegria. - ---Então bemvindo seja o guerreiro Cauby na cabana de seu irmão: -respondeu a esposa abraçando-o. - ---O nascido de teu seio dorme n'essa rede; os olhos de Cauby gostariam -de vêl-o. - -Iracema abriu a franja de pennas; e mostrou o lindo semblante da -creança. Cauby depois que o contemplou por muito tempo, entre risos, -disse: - ---Elle chupou tua alma. - -E beijou nos olhos da joven mãe, a imagem da creança, que não se -animava tocar com receio de offender. - -A voz tremula da filha resoou: - ---Ainda vive Araken sobre a terra? - ---Pena ainda; depois que tu o deixaste sua cabeça, vergou para o peito -e não se ergueu mais. - ---Dize-lhe que Iracema é morta já, para que elle se console. - -A irmã de Cauby preparou a refeição para o guerreiro, e armou no -copiar a rêde da hospitalidade para que elle repousasse das fadigas da -jornada. Quando o viajante satisfez o appetite, ergueu-se com estas -palavras: - ---Dize onde está teu esposo e meu irmão, para que o guerreiro Cauby -lhe dê o abraço da amizade. - -Os labios suspirosos da misera esposa moveram-se como as petalas do -cacto que um sopro amarrota, e ficaram mudas. Mas as lagrimas debulharam -dos olhos e cahiram em bagas. - -O rosto de Cauby annuviou-se: - ---Teu irmão pensava que a tristeza ficara nos campos que abandonaste; -porque comtigo trouxeste todo o riso dos que te amavam! - -Iracema seccou os olhos: - ---O esposo de Iracema partiu com o guerreiro Poty para as praias do -Acaraú. Antes que tres sóes tenham allumiado a terra elle voltará e -com elle a alegria á alma da esposa. - ---O guerreiro Cauby o espera para saber o que elle fez do sorriso que -morava em teus labios. - -A voz do tabajara enrouquecera; seu passo inquieto volveu a esmo pela -cabana. - - - - -XXXI - - -Iracema cantava docemente, embalando a rêde para acalentar o filho. - -A areia da praia crepitou sob o pé forte e rijo do guerreiro tabajara, -que vinha das bordas do mar depois da abundante pesca. - -A joven mãe cruzou as franjas da rede, para que as moscas não -inquietassem o filho acalentado, e foi ao encontro do irmão: - ---Cauby vae tornar ás montanhas dos Tabajaras! disse ella com brandura. - -O guerreiro annuviou-se: - ---Tu despedes teu irmão da cabana para que elle não veja a tristeza -que a enche. - ---Araken teve muitos filhos em sua mocidade; uns a guerra levou e -morreram como valentes; outros escolheram uma esposa, e geraram por sua -vez numerosa prole: filhos de sua velhice, Araken só teve dois. Iracema -é para elle como a rôla que o caçador tirou do ninho. Só resta o -guerreiro Cauby ao velho Pagé, para suster seu corpo vergado, e guiar -seu passo tremulo. - ---Cauby partirá quando a sombra deixar o rosto de Iracema. - ---Como vive a estrella da noite, vive Iracema em sua tristeza. Só os -olhos do esposo podem apagar a sombra em seu rosto. Parte, para que -elles não se turvem com tua vista. - ---Teu irmão parte para agradar tua vontade; mas elle voltará todas as -vezes que o cajueiro florescer para sentir em seu coração o filho de -teu ventre. - -Entrou na cabana. Iracema tirou da rêde a creança; e ambos, mãe e -filho, palpitaram sobre o peito do guerreiro tabajara. Depois Cauby -passou a porta, e sumio-se entre as arvores. - -Iracema, arrastando o passo tremulo, o acompanhou de longe até que o -perdeu de vista na orla da mata. Ahi parou: quando o grito da jandaia de -envolta com o choro infantil, a chamou á cabana, a areia fria onde -esteve sentada, guardou o segredo do pranto que em bebera. - -A joven mãe suspendeu o filho á teta; mas a bocca infantil não -emmudeceu. O leite escasso não apojava o peito. - -O sangue da infeliz diluia-se todo nas lagrimas incessantes que não -estancavam dos olhos; nenhum chegava aos seios, onde se forma o primeiro -licor da vida. - -Ella dissolveu a alva cariman e preparou ao fogo o mingáo para nutrir o -filho. Quando o sol dourou a crista dos montes, partiu para a mata, -levando ao collo a creança adormecida. - -Na espessura do bosque está o leito da irara ausente; os tenros -caxorrinhos grunhem enrolando-se uns sobre os outros. A formosa tabajara -approxima-se de manso. Prepara para o filho um berço da macia rama do -maracujá; e senta-se perto. - -Põe no regaço um por um os filhos da irara; e lhes abandona os seios -mimosos, cuja teta rubra como a pitanga ungio do mel da abelha. Os -caxorrinhos famintos precipitam-se gulosos e sugam os peitos avaros de -leite. - -Iracema curte dôr, como nunca sentiu; parece que lhe exhaurem a vida; -mas os seios vão-se entumecendo; apojaram afinal, e o leite, ainda -rubro do sangue, de que se formou, esguicha. - -A feliz mãe arroja de si os caxorrinhos, e cheia de jubilo mata a fome -ao filho. Elle é agora duas vezes filho de sua dôr, nascido d'ella e -tambem nutrido. - -A filha de Araken sentiu afinal que suas veias se estancavam; e comtudo -o labio amargo de tristeza recusava o alimento que devia restaurar-lhe -as forças. O gemido e o suspiro tinham crestado com o sorriso o sabor -em sua bocca formosa. - - - - -XXXII - - -Descamba o sol. - -Japy sae do mato e corre para a porta da cabana. - -Iracema sentada com o filho no collo, banha-se nos raios do sol e -sente o frio arripiar-lhe o corpo. Vendo o animal, fiel mensageiro do -esposo, a esperança reanimou seu coração; quiz erguer-se para ir ao -encontro de seu guerreiro e senhor, mas os membros debeis se recusaram -á sua vontade. - -Cahiu desfallecida contra o esteio. Japy lambia-lhe a mão desfallecida, -e pulava travesso para fazer sorrir a creança, soltando uns doces -latidos de prazer. Por vezes, afastou-se para correr até á orla da -mata, e latir chamando o senhor, logo tornava á cabana para festejar a -mãe e o filho. - -Por esse tempo pisava Martim os campos amarellos do Tauape: seu irmão -Poty, o inseparavel, caminhava a seu lado. - -Oito luas havia que elle deixara as praias da Jacarecanga. Depois de -vencidos os Guaraciabas na bahia dos papagaios, o guerreiro christão -quiz partir para as margens do Mearim, onde habitava o barbaro alliado -dos Tupinambás. - -Poty e seus guerreiros o acompanharam. Depois que transpuzeram o braço -corrente do mar que vem da serra de Tauatinga e banha as varzeas onde se -pesca o piau, viram emfim as praias do Mearim, e a velha taba do barbaro -tapuia. - -A raça dos cabellos do sol cada vez ganhava mais a amizade dos -Tupinambás: crescia o numero dos guerreiros brancos, que já tinham -levantado na ilha a grande itaoca, para despedir o raio. - -Quando Martim viu o que desejava, tornou aos campos da Porangaba, que -elle agora trilha. Já ouve o ronco do mar nas praias do Mocoribe; já -lhe bafeja o rôsto o sopro vivo das vagas do oceano. - -Quanto mais seu passo o aproxima da cabana, mais lento se torna e -pesado. Tem medo de chegar: e sente que sua alma vae soffrer, quando os -olhos tristes e maguados da esposa, entrarem n'ella. - -Ha muito que a palavra desertou seu labio secco; o amigo respeita este -silencio, que elle bem entende. É o silencio do rio quando passa nos -logares profundos e sombrios. - -Tanto que os dois guerreiros tocaram as margens do rio, ouviram o latir -do cão, que os chamava, e o grito da ará, que se lamentava. Eram mui -proximos á cabana, apenas occulta por uma lingua de mato. O christão -parou calcando a mão no peito para soffrear o coração, que saltava -como o poraquê. - ---O latido de Japy é de alegria, disse o chefe. - ---Porque chegou; mas a voz da jandaia é de tristeza. Achará o -guerreiro ausente a paz no seio da esposa solitaria, ou terá a saudado -matado em suas entranhas o fructo do amor? - -O christão moveu o passo vacillante. De repente, entre os ramos das -arvores, seus olhos viram sentada, á porta da cabana, Iracema, com o -filho no regaço e o cão a brincar. Seu coração o arrastou de um -impeto, e toda a alma lhe estalou nos labios.--Iracema!... - -A triste esposa e mãe sôabrio os olhos, ouvindo a voz amada. Com -esforço grande, poude erguer o filho nos braços, e apresental-o ao -pae, que o olhava extactico em seu amor. - ---Recebe o filho de teu sangue. Vieste a tempo; meus seios ingratos já -não tinham alimento para dar-lhe! - -Pousando a creança nos braços paternos, a desventurada mãe -desfalleceu como a jetyca se lhe arrancam o bulbo. O esposo vio então -como a dôr tinha murchado seu bello corpo; mas a formosura ainda morava -n'ella, como o perfume na flôr cabida do manacá. - -Iracema não se ergueu mais da rêde onde a pousaram os afflictos -braços de Martim. O esposo, em quem o amor renascera com o jubilo -paterno, a cercou de caricias que encheram sua alma de alegria, mas não -a poderam tornar á vida; o estame de sua flôr se rompera. - ---Enterra o corpo de tua esposa ao pé do coqueiro que tu amaste. Quando -o vento do mar soprar nas folhas, Iracema pensará que é tua voz que -fala entro seus cabellos. - -O labio emmudeceu para sempre; o ultimo lampejo despediu-se dos olhos -baços. - -Poty amparou o irmão em sua grande dôr. Martim, sentiu que um amigo -verdadeiro é precioso na desventura; é como o outeiro que abriga do -vendaval o tronco forte e robusto do ubiratan, quando o broca o copim. - -O camocim recebeu o corpo de Iracema, embebido de resinas odoriferas; e -foi enterrado ao pé do coqueiro, á borda do rio. Martim quebrou um -ramo de murta, a folha da tristeza, e deitou-o no jazigo de sua esposa. -A jandaia pousada no olho da palmeira repelia tristemente:--Iracema! - -Desde então os guerreiros pytiguaras que passavam perto da cabana -abandonada e ouviam resoar a voz plangente da ave amiga, se afastavam, -com a alma cheia de tristeza, do coqueiro onde cantava a jandaia. E foi -assim que veiu a chamar-se Ceará o rio onde crescia o coqueiro, e os -campos onde serpeia o rio. - - - - -XXXIII - - -O cajueiro floresceu quatro vezes depois que Martim partiu das praias do -Ceará, levando no fragil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não -quiz deixar a terra onde repousava sua amiga e senhora. - -O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da patria. Seria -a predestinação de uma raça? - -Poty com os seus guerreiros esperava na margem do rio. O christão lhe -promettera voltar; todas as manhãs subia ao morro das areias e volvia -os olhos ao mar a vêr se branqueava ao longe a vela amiga. - -Afinal volta Martim de novo ás terras, que foram de sua felicidade, e -são agora de amarga saudade. Quando seu pé sentiu o calor das brancas -areias, derramou-se por todo o seu ser um fogo ardente, que lhe -requeimou o coração: era o fogo das recordações accesas. - -A chamma só applacou quando elle tocou a terra onde dormia sua esposa; -porque n'esse instante seu coração transudou, como o tronco do jetahy -nos ardentes calores, e refrescou sua pena de lagrimas abundantes. - -Muitos guerreiros de sua raça acompanharam o chefe branco, para fundar -com elle a mayri dos christãos. Veio tambem um sacerdote de sua -religião, de negras vestes, para plantar a cruz na terra selvagem. - -Poty foi o primeiro que ajoelhou aos pés do sagrado lenho: não soffria -elle que nada mais o separasse de seu irmão branco; por isso quiz que -tivessem ambos um só Deus, como tinham um só coração. - -Elle recebeu com o baptismo o nome do santo, cujo era o dia; e o do rei, -a quem ia servir, e sobre os dois o seu, na lingua dos novos irmãos. -Sua fama cresceu e ainda hoje é o orgulho da terra, onde elle viu a luz -primeiro. - -A mayri que Martim erguera á margem do rio, nas praias do Ceará, -medrou. A palavra do Deus verdadeiro germinou na terra selvagem; e o -bronze sagrados resoou nos valles onde rugia o maracá. - -Jacaúna veio habitar nos campos da Porangaba para estar perto de seu -amigo branco; Camarão assentou a taba de seus guerreiros nas margens da -Mocejana. - -Tempo depois, quando veiu Albuquerque, o grande chefe dos guerreiros -brancos, Martim e Camarão partiram para as margens do Mearim a castigar -o feroz tupinambá e expulsar o branco tapuia. - -Era sempre com emoção que o esposo de Iracema revia as plagas onde -fora tão feliz, e as verdes folhas a cuja sombra dormia a formosa -tabajara. - -Muitas vezes ia sentar-se n'aquellas doces areias, para scismar e -acalentar no peito a agra saudade. - -As jandaias cantavam ainda no olho do coqueiro; mas não repetiam já o -mavioso nome de Iracema. - -Tudo passa sobre a terra. - - - - -FIM - - - - -NOTAS - - -Pag. 10.--_Argumento historico._--Em 1603, Pero Coelho, homem nobre da -Parahyba, partiu como capitão-mór de descoberta, levando uma força de -80 colonos e 800 indios. Chegou á foz do Jaguaribe e ahi fundou o -povoado que teve nome de _Nova-Lisboa_. - -Foi esse o primeiro estabelecimento colonial do Ceará. - -Como Pero Coelho se visse abandonado dos socios, mandaram-lhe João -Soromenho com soccorros. Esse official, auctorisado a fazer captivos -para indemnisação das despezas, não respeitou os proprios indios do -Jaguaribe, amigos dos Portuguezes. - -Tal foi a causa da ruina do nascente povoado. Retiraram-se os colonos, -pelas hostilidades dos indigenas; e Pero Coelho ficou ao desamparo, -obrigado a voltar a Parahyba por terra, com sua mulher e filhos -pequenos. - -Na primeira expedição foi do Rio-Grande do Norte um moço de nome -Martim Soares Moreno, que se ligou de amizade com Jacaúna, chefe dos -indios do littoral e seu irmão Poty. Em 1608 por ordem de D. Diogo -Menezes voltou a dar principio á regular colonisação d'aquella -capitania: o que levou a effeito fundando o presidio de Nossa Senhora do -Amparo em 1611. - -Jacaúna, que habitava as margens do Acaracú, veiu estabelecer-se com -sua tribu nas proximidades do recente povoado, para o proteger contra os -indios do interior e os francezes que infestavam a costa. - -Poty recebeu no baptismo o nome de Antonio Fillippe Camarão, que -illustrou na guerra hollandeza. Seus serviços foram remunerados com o -foro de fidalgo, a commenda de Christo e o cargo de capitão-mór dos -indios. - -Martim Soares Moreno chegou a mestre de campo e foi um dos excedentes -cabos portuguezes que libertaram o Brazil da invasão hollandeza. O -Ceará deve honrar sua memoria como de um varão prestante e seu -verdadeiro fundador, pois que o primeiro povoado á foz do rio Jaguaribe -foi apenas uma tentativa frustrada. - -Este é o argumento historico da lenda; em notas especiaes se indicarão -alguns outros subsidios recebidos dos chronistas do tempo. - -Ha uma questão historica, relativa a este assumpto; fallo da patria do -Camarão, que um escriptor pernambucano quiz pôr em duvida, tirando a -gloria ao Ceará para a dar á sua provincia. - -Este ponto aliás somente contestado nos tempos modernos pelo Sr. -commendador Mello em suas _Biographias_, me parece sufficientemente -elucidado já, depois da erudita carta do Sr. Basilio Quaresma Torreão, -publicada no Mercantil n.° 26 de 26 de Janeiro de 1860, 2.ª pagina. - -Entretanto farei sempre uma observação. - -Em primeiro logar a tradicção oral é uma fonte importante da -historia, e ás vezes a mais pura e verdadeira. Ora na provincia de -Ceará em Sobral não só se referiam entre gente do povo noticias do -Camarão, como existia lima velha mulher que se dizia d'elle sobrinha. -Essa tradicção foi colhida por diversos escriptores, entre elles o -conspicuo auctor da _Corographia Brasilica_. - -O auctor do Valoroso Lucideno é dos antigos o unico que positivamente -affirma ser Camarão filho de Pernambuco; mas além de encontrar essa -asserção a versão de outros escriptores de nota, accresce que Berredo -explica perfeitamente o dito d'aquelle escriptor, quando falla da -expedição de Pero Coelho de Souza a Jaguaribe, _sitio d'aquelle tempo -e tambem no de hoje da jurisdicção de Pernambuco_. - -Outro ponto é necessario esclarecer para que não me censurem de infiel -á verdade historica. É a nação de Jacaúna e Camarão que alguns -pretendem ter sido a tabajara. Ha n'isso manifesto engano. - -Em todas as chronicas se falla das tribus de Jacaúna e Camarão, como -habitantes do littoral, e tanto que auxiliam a fundação do Ceará, -como já haviam auxiliado a da Nova-Lisboa em Jaguaribe. Ora a nação, -que habitava o littoral entre o Parnahyba e o Jaguaribe ou Rio-Grande, -era a dos Pytiguaras, como attesta Gabriel Soares. Os Tabajaras. -habitavam a serra de Ibyapa, e portanto o interior. - -Como chefes dos Tabajaras são mencionados Mel Redondo no Ceará e Grão -Deabo em Piauhy. Esses chefes foram sempre inimigos irreconciliaveis e -rancorosos dos portuguezes, e alliados dos francezes do Maranhão, que -penetraram até Ibyapaba. Jacaúna e Camarão são conhecidos pela sua -alliança firme com os portuguezes. - -Mas o que solve a questão é o seguinte texto. Lê-se nas _memorias -diarias_ da guerra brasilica do conde de Pernambuco:--1834, Janeiro, 18: -"Pelo bom procedimento com que havia servido A. Ph. Camarão o fez -El-rei capitão-mór de todos os indios não somente de sua nação, que -era _Pytiguar_, mas das outras residentes em varias aldeias." - -Esta auctoridade, além de contemporanea, testemunhal, não pode ser -recusada, especialmente quando se exprime tão positiva e -intencionalmente a respeito do ponto duvidoso. - -Pag. 19.--_Onde canta a jandaia._--Diz a tradicção que Ceará -significa na lingua indigena--_canto de jandaia_. - -Ayres do Casal, Corographia Brasilica, refere essa tradicção. O -senador Pompêo, em seu excellente diccionario topographico, menciona -uma opinião, nova para mim, que pretende vir _Siará_ da palavra -_saia_-caça, em virtude da abundancia de caça que se encontrava nas -margens do rio. Essa etymologia é forçada. Para designar quantidade, -usava a lingua tupy da desinencia _iba_; a desinencia _ára_ junta aos -verbos designa o sujeito que exercita a acção actual; junta aos nomes -o que tem actualmente o objecto--exp. _Coatyara_--o que -pinta.--_Jussara_--o que tem espinho. - -Ceará é nome composto de _cemo_--cantar forte, clamar, e _ará_, -pequena arara ou periquito. Essa é a etymologia verdadeira, e não só -conforme com a tradicção, mas com as regras da lingua. - -Pag. 20.--I. _Giráu._--Na jangada é uma especie de estrado onde -accommodam os passageiros: e ás vezes o cobrem de palha. Em geral é -qualquer estiva elevada do solo e suspensa em forquilhas. - -II. _Iracema._--Em guarany significa labios de mel--de _ira_--mel e -_tembe_ labios. _Tembe_ na composição altera-se em _ceme_, como na -palavra _ceme-yba_. - -III. _Graúna_ é o passaro conhecido de cor negra luzidia.--Seu nome -vem por corrupção de _guira_ passaro e _una_, abreviação de _pixuna_ -de preto. - -IV. _Jaty._--Pequena abelha que fabrica delicioso mel. - -Pag. 21.--I. _Ipú._--Chamam ainda hoje no Ceará certa qualidade de -terra muito fertil, que fórma grandes corôas ou ilhas no meio dos -taboleiros e sertões, e é de preferencia procurada para a cultura. -D'ahi se deriva o nome d'essa comarca da provincia. - -II. _Tabajaras._--Senhores das aldeias--de -_taba_--aldeia--e--_jara_--senhor. Essa nação dominava o interior da -provincia, especialmente a Serra da _Ibyapaba_. - -III. _Oitycica._--Arvore frondosa, apreciada pela deliciosa frescura que -derrama sua sombra. - -IV. _Gará._--Ave palludal, muito conhecida pelo nome de _guará_. Penso -eu que esse nome anda corrompido de sua verdadeira origem, que é--_ig_, -agua e _ará_, arara; arara d'agua, pela bella côr vermelha. - -V. _Ará._--periquito. Os indigenas como augmentativo usavam repetir a -ultima sillaba da palavra e ás vezes toda a palavra--como _murémuré_. -_Muré_, frauta--_murémuré_, grande frauta. _Arára_ vinha a ser pois -o augmentativo de _ará_, e significaria a especie maior do genero. - -VI. _Urú._--Cestinho que servia de cofre ás selvagens para guardar -seus objectos de mais preço e estimação. - -VII. _Crautá._--Bromelia vulgar, de que se tiram fibras tão ou mais -finas que as do linho. - -VIII. _Jussara._--Palmeira de grandes espinhos, das quaes se servem -ainda hoje para dividir os fios da renda. - -Pag. 22.--I. _Uiraçaba._--aljava--de _uira_ seta e a -desinencia--_caba_--cousa propria. - -II. _Quebrar a flecha._--Era entre os indigenas a maneira symbolica de -estabelecerem a paz entre as diversas tribus, ou mesmo entre dois -guerreiros inimigos. Desde já advertimos que não se extranhe a maneira -porque o extrangeiro se exprime falando com os selvagens: ao seu -perfeito conhecimento dos usos e lingua dos indigenas, e sobretudo a -ter-se conformado com elles a ponto de deixar os trajos europeus e -pintar-se, deveu Martim Soares Moreno a influencia que adquiriu entre os -indios do Ceará. - -Pag. 23.--I. _Ibyapaba._--Grande serra que se prolonga ao norte da -provincia e a extrema com Piauhy. Significa terra aparada. O Dr. Martins -em seu _glossario_ lhe attribue outra etymologia. _Iby_-terra--e -_pabe_--tudo. A primeira porém tem a auctoridade de Vieira. - -II. _Igaçaba._--de _ig_--agua e a desinencia _çaba_--cousa propria. - -Pag. 24.--I. _Vieste._--A saudação usual da hospitalidade era -esta:--_Erc ioubé_--tu vieste? _pa-aiotu_, vim sim. _Auge-be_, bem -dito. Veja-se Lery, pag. 286. - -II. _Jaguaribe._--maior rio da provincia; tirou o nome da quantidade de -onças que povoavam suas margens. _Jaguar_--onça--_iba_--desinencia -para exprimir copia, abundancia. - -III. _Martim._--Da origem latina de seu nome, procedente de Marte, deduz -o extrangeiro a significação que lhe dá. - -IV. _Pytiguaras._--Grande nação de indios que habitava o littoral da -provincia e estendia-se desde o Parnahyba até o Rio Grande do Norte. A -orthographia do nome anda mui viciada nas differentes versões, pelo que -se tornou difficil conhecer a etymologia. - -_Iby_ significava terra; _iby-tira_ veiu a significar serra, ou terra -alta. Aos valles chamavam os indigenas _iby-tira-cua_--cintura das -montanhas. A desinencia _jara_ senhor, accrescentada, formou a palavra -_Ibyticuara_--que por corrupção deu _Pytiguara_--senhores dos valles. - -V. _Mau espirito da floresta._--Os indigenas chamavam a esses espiritos -_caa-pora_, habitantes da mata, d'onde por corrupção veiu a palavra -caipora, introduzida na lingua portugueza em sentido figurado. - -Pag. 25.--I. _As mais bellas mulheres._--Este costume da hospitalidade -americana é attestado pelos chronistas. A elle se attribue o bello -rasgo de virtude de Anchieta, que para fortalecer a sua castidade, -compunha nas praias de Iperoig o poema da _Virgindade de Maria_, cujos -versos escrevia nas areias humidas, para melhor os polir. - -II. _Jurema._--Arvore mean, de folhagem espessa; dá um fructo -excessivamente amargo, de cheiro acre, do qual juntamente com as folhas -e outros ingredientes preparavam os selvagens uma bebida, que tinha o -effeito do hatchis, de produzir sonhos tão vivos e intensos, que a -pessoa fruia n'elles melhor do que na realidade. A fabricação d'esse -licor era um segredo, explorado pelos Pagés, em proveito de sua -influencia. _Jurema_ é composto de _ju_-espinho e _rema_ cheiro -desagradavel. - -Pag. 26.--I. _Irapuam._--de _ira_-mel e _apuam_ redondo: é o nome dado -a uma abelha virulenta e brava, por causa da forma redonda de sua -colmeia. Por corrupção reduziu-se esse nome actualmente a _arapuá_. O -guerreiro de que se trata aqui é o celebre Mel-redondo, assim chamado -pelos chronistas do tempo, que traduziam seu nome ao pé da lettra. -Mel-redondo, chefe dos Tabajaras da serra Ibyapaba, foi encarniçado -inimigo dos portuguezes, e amigo dos francezes. - -II. _Acaracú._--O nome do rio é _Acaracú_--de _acará_ -garça--_co_--buraco, toca, ninho, e _y_--som dubio entre _i_ e _u_, que -os portuguezes, ora exprimiam de um, ora de outro modo, significando -_agua_. Rio do ninho das garças é pois a traducção de _Acaracú_; e -o rio das garças a de _Acaraú_. Usou-se aqui da liberdade horaciana -para evitar em uma obra litteraria, obra de gosto e artistica, um som -aspero e ingrato. De resto quem sabe se o nome primitivo não foi -realmente _Acaraú_, que se alterou como tantos outros, pela -introducção da consoante? - -III. _Estrella morta._--A estrella polar, por causa da sua immobilidade; -orientavam-se por ella os selvagens durante a noite. - -IV. _Boicininga._--é a cobra cascavel--de _boia_, cobra e _cininga_ -chocalho. - -V. _Oitibó._--é uma ave nocturna, especie de coruja. - -Pag. 27.--I. _Espiritos da treva._--A esses espiritos chamavam os -selvagens _curupira_, meninos máus--de _curumim_, menino, e _pira_ -máu. - -II. _Boré._--frauta de bambú,--o mesmo que muré. - -III. _Ocara._--praça circular que ficava no centro da taba, cercada -pela estacada, e para a qual abriam todas as casas. Composto de _oca_, -casa e a desinencia _ara_, que tem; aquillo que tem a casa, ou onde a -casa está. - -IV. _Potyuara._--comedor de camarão; de _poty_--e _uara_. Nome que por -desprêso davam os inimigos aos Pytiguaras, que habitavam as praias e -viviam em grande parte de pesca. - -Este nome dão alguns escriptores aos Pytiguaras. porque o receberam de -seus inimigos. - -Pag. 28.--I. _Pocema._--grande alarido que faziam os selvagens nas -occasiões solemnes, como em começo de batalha, ou nas expansões da -alegria; é palavra adoptada já na lingua portugueza e inserida no -diccionario de Moraes. Vem de _po_-mão e _cemo_ clamar; clamor das -mãos, porque os selvagens acompanhavam o vozear com o bater das palmas -e das armas. - -II. _Andira._--morcego: é em allusão a seu nome que Irapuam dirige -logo palavras de despreso ao velho guerreiro. - -Pag. 29.--_Aracaty._--Significava este nome bom tempo de _ara_ e -_catú_. Os selvagens do sertão assim chamavam as brisas do mar que -sopram regularmente ao cahir da tarde, e correndo pelo valle do -Jaguaribe se derramam pelo interior e refrigeram da calma abrasadora do -verão. D'ahi resultou chamar-se _Aracaty_ o logar de onde vinha a -monção. Ainda hoje no Icó o nome é conservado á brisa da tarde, que -sopra do mar. - -Pag. 32.--I. _Afflar._--Sobre este verbo que introduzi na lingua -portugueza do latim _afflo_, já escrevi o que entendi em nota de uma -segunda edição da _Diva_ que brevemente ha de vir á luz. - -II. _Anhanga._--Davam os indigenas este nome ao espirito do mal; -compõe-se de _anho_ atrito, só e _anga_ alma. Espirito só, privado do -corpo, phantasma. - -Pag. 36.--I. _Camocim._--vaso onde encerravam os indigenas os corpos dos -mortos e lhes servia de tumulo; outros dizem _camotim_, e talvez com -melhor orthographia, porque se não me engano o nome corrupção da -phrase _co_ buraco, _ambyra_ defuncto, _anhotim_ enterrar--buraco para -enterrar o defuncto--_c'am'otim_. O nome dava-se tambem a qualquer pote. - -II. _Guabiroba._--Deve ler-se _Andiroba_. Arvore que dá um azeite -amargo. - -III. _Cabellos do sol._--Em tupy _guaraciaba_. Assim chamavam aos -europeus que tinham os cabellos louros. - -Pag. 38.--I. _Moquem._--Do verbo _mocaém_ assar na labareda. Era a -maneira por que os indigenas conservavam a caça para não apodrecer, -quando a levavam em viagem. Nas cabanas a tinham ao fumeiro. - -II. _Senhor do caminho._--assim chamavam os indigenas ao guia--de -_py_, caminho e _guara_, senhor. - -Pag. 39.--I. _O dia vae ficar triste._--Os tupys chamavam a tarde -_carúca_, segundo o diccionario: Segundo Lery, _che caruc -acy_, significa--"estou triste." Qual d'estes era o sentido figurado da -palavra? Tiraram a imagem da tristeza, da sombra da tarde, ou a imagem -do crepusculo do torvamento do espirito? - -II. _Jurupary._--demonio; de _juroboca_ e _apara_ torto, aleijado. O -bocca torta. - -III. _Ubaia._--fructa conhecida da especie engenia. Significa fructa -saudavel, de _uba_-fructa e _aia_ saudavel. - -Pag. 41.--I. _Jandaia._--Este nome que anda escripto por diversas -maneiras _nhendaia_, _nhandaia_ e em todas alterado é apenas um -adjectivo qualificativo do substantivo _ará_. Deriva-se elle das -palavras _nheng_--falar--_antan_, duro, forte, aspero, e _ara_ -desinencia verbal que exprime o agente--_nh' ant' ara_; substituido o -_t_ por _d_--e o _r_ por _i_, tornou-se nhandaia, d'onde jandaia, que se -traduzirá por periquito grasnador. - -Do canto d'esta ave, como se viu, é que vem o nome de Ceará, segundo a -etymologia que lhe dá a tradicção. - -II. _Inhuma._--Ave nocturna palamedea. A especie de que se fala aqui é -a palamedea chavaria, que canta regularmente á meia noite. A -orthographia melhor creio ser _anhuma_, talvez de _anho_, só, e _anum_, -ave agoureira conhecida. Significaria então assim _anum solitario_, -assim chamado pela tal ou qual semelhança do grito desagradavel. - -Pag. 42.--_Inubia._--Trombeta de guerra. Os indigenas, segundo Lery, as -tinham tão grandes que mediam um diametro na abertura. - -Pag. 43.--_Guará._--Cão selvagem, lobo brazileiro. Provêm esta -palavra do verbo _u_ comer, do qual se forma com o relativo _G_ e a -desinencia _ara_ o verbal _g-u-ára_ comedor. A syllaba final longa é a -particula propositiva _ã_ que serve para dar fôrça á palavra. - -_G-u-ára-ã_ realmente comedor, voraz. - -Pag. 44.--I. _Jiboia._--Cobra conhecida: de _gi_ machado e _boia_ cobra. -O nome foi tirado da maneira porque a serpente lança o bote, semelhante -ao golpe do machado; pode traduzir-se bem cobra de arremesso. - -II. _Sucury._--A serpente gigante que habita nos grandes rios e engole -um boi. De _Suu_, animal e _cury_ ou _curu_ roncador. Animal roncador, -porque de feito o rouco da sucury é medonho. - -III. _Se é que tens sangue e não mel._--Allusão que faz o velho -Andira ao nome de Irapuam, o qual como se disse significa mel redondo. - -IV. _Ouve seu trovão._--Todo esse episodio do rugido da terra é uma -astucia, como usavam os pagés e os sacerdotes de toda a nação -selvagem para imporem á imaginação do povo. A cabana estava assentada -sobre um rochedo, onde havia uma galeria subterranea que communicava com -a varzea por estreita abertura; Araken tivera o cuidado de tapar com -grandes pedras as duas aberturas, para occultar a gruta dos guerreiros. -N'essa occasião a fenda inferior estava aberta e o Pagé o sabia; -abrindo a fenda superior, o ar encanou-se pelo antro espiral com -estridor medonho, e de que pode dar uma idéa o sussurro dos -caramujos.--O facto é pois natural; a apparencia sim maravilhosa. - -Pag. 45.--_Abaty n'agua._--Abaty--arroz; Iracema serve-se da imagem do -arroz que só viça no alagado, para exprimir sua alegria. - -Pag. 53.--I. _Ubiratan._--Páo ferro, de _ubira_--páo e _antan_ duro. - -II. _Maracajá._--Gato selvagem. - -III. _Caetetus._--Porco do mato, especie de javali brazileiro. Do -_caeté_--mato grande e virgem--e _suu_ caça, mudado o _s_ em _t_ na -composição pela euphonia da lingua. Caça do mato virgem. - -IV. _Jaguar._--Vimos que guará significa voraz. Jaguar tem -inquestionavelmente a mesma etymologia; é o verbal _guara_ e o pronome -_ja_ nós. Jaguar era pois para os indigenas todos os animaes que os -devoravam. _Jaguareté_ o grande devorador. - -V. _Anajê._--Gavião. - -Pag. 55.--_Acauan_, ave inimiga das cobras--de _caa_ pão e _uan_--do -verbo _u_, que come pão. - -Pag. 56.--_Sahy._--Lindo passaro azul. - -Pag. 57.--I. _Carioba._--Camisa de algodão, de _cary_ branco e _oba_ -roupa. Tinham tambem a _arassoia_ de _arára_, e _oba_, vestido de -pennas de arara. - -II. _Á cintura da virgem._--Os indigenas chamavam a amante possuida -_aguaçaba_, de _aba_, homem, _cua_, cintura, _çaba_ cousa propria; a -mulher que o homem cinge, ou traz á cintura. Fica pois claro o -pensamento de Iracema. - -Pag. 59.--I. _Jacy._--A lua. De _já_--pronome, nós, e _cy_--mãe.--A -lua exprimia o mez para os selvagens; e seu nascimento era sempre por -elles festejado. - -II. _Fogos da alegria._--Chamavam os selvagens _tory_, os fachos ou fogos; -e _toryba_, a alegria, a festa, a grande copia dos fachos. - -Pag. 60.--_Bucan._--Significa uma especie de grelha que os selvagens -faziam para assar a caça; d'ahi vem o verbo francez _boucaner_. A -palavra é da lingua tupy. - -Pag. 63.--I. _Acoty._--cotia. - -II. _Abaeté._--varão abalisado; de _aba_--homem e _eté_--forte, -egregio. - -Pag. 66.--I. _Jacaúna._--jacarandá preto--de _jaca_, abreviação de -jacarandá, e _una_, preto. Este Jacaúna é o celebre chefe, amigo de -Martim Soares Moreno. - -II. _Coandú._--porco espinho. - -III. _Seu collar de guerra._--O collar que os selvagens faziam dos -dentes dos inimigos vencidos era um brazão e tropheu de valentia. - -Pag. 68.--I. _Japy._--significa, nosso pé, de _ja_--pronome, nós e -_py_ pé. - -II. _Ibyapina._--De _Iby_-terra, e _apino_, tosquiar. - -III. _Jatobá._--grande arvore real. O logar da scena é o sitio da hoje -Villa Viçosa, onde diz a tradição ter nascido Camarão. - -Pag. 71.--I. _Meruoca._ De _mera_, mosca, e _oca_, casa. Serra junto do -Sobral, fertil em mantimentos. - -II. _Uruburetama._--patria ou ninho de urubus: serra bastante alta. - -III. _Mundahú._--rio muito tortuoso, que nasce na serra de Uruburetama. -_Mandé_, cilada, e _hu_ rio. - -IV. _Potengi._--rio que rega a cidade do Natal, d'onde era filho Soares -Moreno. - -Pag. 72.--I. _As saborosas trahiras._--É o rio Trahiry trinta leguas ao -norte da capital. De _trahira_, peixe e _y_, rio. Hoje é povoação e -districto de paz. - -II. _Soipé._--paiz da caça. De _Sôo_ caça, e _ipé_ lugar onde. -Diz-se hoje Siupé, rio e povoação pertencente a freguezia e termo da -Fortaleza, situada á margem dos alagados chamados Jaguarassú na -embocadura do rio. - -III. _Pacoty._--Rio das pacobas. Nasce na serra de Baturité e lança-se -no Oceano duas leguas ao norte de Aquirás. - -IV. _Iguape._--Enseada distante duas leguas de Aquirás. De _Ig_, agua, -_cua_, cintura e _ipé_, onde. - -Pag. 73--I. _Mocoribe._--morro de areia na enseada do mesmo nome a uma -legua da Fortaleza; diz-se hoje Mucuripe. Vem de _Corib_ alegrar e _mo_, -particula ou abreviatura do verbo _monhang_ fazer, que se junta aos -verbos neutros e mesmo activos para dar-lhes significação -passiva--exp. _caneon_ affligir-se, _mocaneon_ fazer alguem afflicto. - -II. _Rio que forma um braço de mar._--É o _Parnahyba_, rio de Piauhy. -Vem de Pará. mar, _nhanhe_, correr e _hyba_, braço; braço corrente do -mar. Geralmente se diz que _Pará_ significa rio e _Paraná_ mar; é -inteiramente o contrario. - -Pag. 74.--I. _Mayr._--cidade. Talvez provenha o nome de _mayr_ -extrangeiro, e fosse applicado aos povoados dos brancos em opposição -ás tabas dos indios. - -II. _Brancos tapuias._--em tupy, _tapuitinga_. Nome que os Pytiguaras -davam aos francezes para differença-los dos Tupinambás. _Tapuia_, -significa barbaro, inimigo. De _taba_, aldeia e _puyr_, fugir,--os -fugidos da aldeia. - -Pag. 75.--I. _Batuireté._--narseja illustre, de _batuira_ e _eté_. -Appellido que tomara o chefe pytiguara, e que na linguagem figurada -valia tanto como valente nadador. É o nome de uma serra fertilissima e -da comarca que ella occupa. - -II. _Suas estrellas eram muitas._--Contavam os indigenas os annos pelo -nascimento das pleiades no oriente; e tambem costumavam guardar uma -castanha de cada estação de cajú. para marcar a idade. - -III. _Jatobá._--arvore frondosa, talvez de _jetahy_, _oba_, folha e -_a_, augmentativo; jetahy de grande copa. É nome de um rio e de uma -serra em S. Quiteria. - -Pag. 76.--I. _Quixeramobim._--segundo o Dr. Martins traduz-se por essa -exclamação de saudade. Compõe-se de _Qui_, ah! _xere_, meus, -_amôbinhé_, outros tempos. - -II. _Caminho das garças._--Em tupy _Acarape_, povoação na freguezia -de Baturité a nove leguas da capital. - -III. _Maranguab._--A serra de Maranguape distante cinco leguas da -capital, e notavel pela sua fertilidade e formosura. O nome indigena -compõe-se de _maran_ guerrear e _coaub_ sabedor; _maran_ talvez seja -abreviação de _maramonhang_, fazer guerra, se não é, como eu penso, -o substantivo simples guerrear, de que se fez o verbo composto. O Dr. -Martins traz etymologia diversa. _Mara_, arvore, _angai_, de nenhuma -maneira, _guabe_, comer. Esta etymologia nem me parece propria ao -objecto, que é uma serra, nem conforme com os preceitos da lingua. - -IV. _Pirapora._--Rio do Maranguape, notavel pela frescura do suas aguas -e excellencia dos banhos chamados da Pirapora, no lugar das cachoeiras. -Provem o nome de _Pira_, peixe, pore, salto: salto do peixe. - -Pag. 78.--_O gavião branco_--Batuireté chama assim o guerreiro branco, -ao passo que trata o neto por narseja: elle prophetisa n'esse parallelo -a destruição de sua raça pela raça branca. - -Pag. 79. II. _Porangaba._--significa belleza. É uma lagoa distante da -cidade uma legua em sitio aprasivel. Hoje a chamam Arronches: e nas suas -margens está a decadente povoação de mesmo nome. - -II. _Jererahu._--rio das marrecas; de _jerere_--ou irêrê, marreca, e -_hu_ agua. Este lugar ainda hoje é notavel pela excellencia da fructa, -com especialidade as bellas laranjas conhecidas por _laranjas de -Jererahu_. - -III. _Sapiranga._--lagoa no sitio Alagadiço Novo, a cerca de 2 leguas -da capital. O nome indigena significa olhos vermelhos, de _ceça_, olhos -e _piranga_ vermelhos. Esse mesmo nome dão usualmente no norte a certa -ophtalmia. - -IV. _Murytiapuá._--de _murity_--nome da palmeira mais vulgarmente -conhecida por burity, e _apuam_, ilha. Logarejo no mesmo sitio referido. - -V. _Aratanha._--de _arára_, ave e _tanha_, dente. Serra mui fertil e -cultivada em continuação da de Maranguape. - -VI. _Pacatuba._--de _paca_ e _tuba_, leito ou couto das pacas. Recente, -mas importante povoação, em um bello valle da serra da Aratanha. - -VII. _Guayúba._--De _goaia_, valle, _y_, agua, _jur_, vir, _be_ por -onde; por onde vem as aguas do valle. Rio que nasce na serra da Aratanha -e corta a povoação do mesmo nome a seis leguas da capital. - -Pag. 81.--I. _Ambar._ As praias do Ceará eram n'esse tempo muito -abundantes de ambar que o mar arrojava. Chamavam-lhe os indigenas, _Pira -repoti_ esterco de peixe. - -II. _Coatyá._--pintar. A historia menciona esse facto de Martim Soares -Moreno se ter coatyado quando vivia entre os selvagens do Ceará. - -Pag. 82.--_Coatyabo._--A desinencia _abo_ significa o objecto que -soffreu a acção do verbo, e talvez provenha de _aba_, gente, creatura. - -Pag. 90.--_Imbú._--Fructa da Serra do Araripe que não vem do littoral. -É saborosa e semelhante ao cajá. - -Pag. 93.--I. _Tupinambás._--Nação formidavel, ramo primitivo da -grande raça tupy. Depois de uma resistencia heroica, não podendo -expulsar os portuguezes da Bahia emigraram até o Maranhão onde fizeram -alliança com os francezes que já então infestavam aquellas paragens. -O nome que elles se davam significava--gente parente dos Tupys--de -_Tupy_--_anama_--ba. - -II. _Maracatim._--Grande barco que levava na proa _tim_--um _maracá_. -Aos barcos menores ou canoas chamavam _igara_--de _ig_--agua--e _jara_, -senhor; senhora d'agua. - -Pag. 95.--_Moacyir._--Filho do soffrimento--de _moacy_, dôr e _ira_, -desinencia, que significa sahido de. - -Pag. 96.--_Faxa._--É o que chamam vulgarmente _typoia_; rejeitou-se o -termo proprio do texto por andar degradado no estylo chulo. - -Pag. 97.--_Chupou tua alma._--Creança em tupy é _pitanga_, de _piter_ -chupar e _anga_ alma; chupa alma. Seria porque as creanças attrahem e -deleitam aos que as vêem; ou porque absorvem uma porção d'alma dos -paes? Cauby fala n'esse ultimo sentido. - -Pag. 99.--_Cariman._--Uma conhecida preparação de mandioca. _Caric_, -correr, _mani_, mandioca. Mandioca escorrida. - -Pag. 100.--_Tauape_, lugar de barro amarello, de _tauá_ e _ipé_. Fica -no caminho de Maranguape. - -Pag. 103.--_Copim._--Insecto conhecido. O nome compõe-se de _co_ buraco -e _pim_ ferrão. - -Pag. 104.--_Albuquerque._--Jeronymo d'Albuquerque chefe da expedição -do Maranhão em 1612. - -Pag. 117.--_Colibri._--D'esse lethargo do colibri no inverno fala Simão -de Vasconcellos. - -Pag. 125--_Mocejana._--Lagoa e povoação a 2 leguas da capital. O verbo -_cejar_ significa--abandonar; a desinencia _ana_ indica a pessoa que -exercita a acção do verbo. _Cejana_--significa o que abandona. Junta a -particula _mo_ do verbo _monhang_, fazer, vem a palavra a significar o -que fez abandonar ou que foi lugar e occasião de abandonar. - - - - -CARTA -AO DR. JAGUARIBE - - -Eis-me de novo, conforme o promettido. - -Já leu o livro e as notas que o acompanham; conversemos pois. - -Conversemos sem cerimonia, em toda a familiaridade, como se cada um -estivesse recostado em sua rede, ao vaivem do languido balanço, que -convida á doce pratica. - -Se algum leitor curioso se puzer á escuta, deixal-o. Não havemos por -isso de mudar o tom rasteiro da intimidade pela phrase garrida das -salas. - -Sem mais. - -Ha de recordar-se você de uma noite que entrando em minha casa, quatro -annos a esta parte, achou-me rabiscando um livro. Era isso em uma quadra -importante, pois que uma nova legislatura, filha de nova lei, fazia sua -primeira sessão; e o paiz tinha os olhos n'ella, de quem esperava -iniciativa generosa para melhor situação. - -Já estava eu meio descrido das cousas, e mais dos homens; e por isso -buscava na litteratura diversão á tristeza que me infundia o estado da -patria entorpecida pela indifferença. Cuidava eu porém que você, -politico de antiga e melhor tempera, pouco se preoccupava com as cousas -litterarias, não por menos preço, sim por vocação. - -A conversa que tivemos então revelou meu engano; achei um cultor e -amigo da litteratura amena; e juntos lemos alguns trechos da obra, que -tinha, e ainda não perdeu, pretenções a um poema. - -É, como viu o como então lhe esbocei a largos traços, uma heroida que -tem por assumpto as tradicções dos indigenas brazileiros e seus -costumes. Nunca me lembrara eu de dedicar-me a esse genero de -litteratura, de que me abstive sempre, passados que foram os primeiros e -fugaces arroubos da juventude. Supporta-se uma prosa mediocre, e -estima-se pelo quilate da idéa; mas o verso mediocre é a peor triaga -que se possa impingir ao pio leitor. - -Commetti a imprudencia quando escrevi algumas cartas sobre a -_Confederação dos Tamoyos_ dizer: "as tradições dos indigenas dão -materia para um grande poema que talvez um dia alguem apresente sem -ruido nem apparato, como modesto fructo de suas vigilias." - -Tanto bastou para que suppozessem que o escriptor se referia a si, e -tinha já o poema em mão; varias pessoas perguntaram-me por elle. -Metteu-me isto em brios litterarios; sem calcular das forças minimas -para empresa tão grande, que assoberbou dois illustres poetas, tracei o -plano da obra, e comecei-a com tal vigor que a levei quasi de um folego -ao quarto canto. - -Esse folego susteve-se cêrca de cinco mezes, mas amorteceu; e vou-lhe -confessar o motivo. - -Desde cedo, quando começaram os primeiros pruridos litterarios, uma -especie de instincto me impellia a imaginação para a raça selvagem -indigena. Digo instincto, porque não tinha eu então estudos bastantes -para apreciar devidamente a nacionalidade de uma litteratura; era -simples prazer que me deleitava na leitura das chronicas e memorias -antigas. - -Mais tarde, discernindo melhor as cousas, lia as producções que se -publicavam sobre o thema indigena; não realisavam ellas a poesia -nacional, tal como me apparecia no estudo da vida selvagem dos -autoctonos brazileiros. Muitas pecavam pelo abuso dos termos indigenas -accumulados uns sobre outros, o que não só quebrava a harmonia da -lingua portugueza, como perturbava a intelligencia do texto. Outras eram -primorosas no estylo e ricas de bellas imagens; porém certa rudez -ingenua de pensamento e expressão, que devia ser a linguagem dos -indigenas, não se encontrava ali. - -Gonçalves Dias é o poeta nacional por excellencia ninguem lhe disputa -na opulencia da imaginação, no fino lavor do verso, no conhecimento da -natureza brazileira e dos costumes selvagens. Em suas poesias americanas -aproveitou muitas das mais lindas tradicções dos indigenas; e em seu -poema não concluido dos _Timbiras_, propoz-se a descrever a epopea -brazileira. - -Entretanto, os selvagens de seu poema falam uma linguagem classica, o -que lhe foi censurado por outro poeta de grande estro, o dr. Bernardo -Guimarães; elles exprimem idéas proprias do homem civilisado, e que -não é verosimil tivessem no estado da natureza. - -Sem duvida que o poeta brazileiro tem de traduzir em sua lingua as -idéas, embora rudes e grosseiras, dos indios; mas n'essa traducção -está a grande difficuldade; é preciso que a lingua civilisada se molde -quanto possa á singeleza primitiva da lingua barbara; e não represente -as imagens e pensamentos indigenas senão por termos e phrases que ao -leitor pareçam naturaes na bôcca do selvagem. - -O conhecimento da lingua indigena é o melhor criterio para a -nacionalidade da litteratura. Elle nos dá não só o verdadeiro estylo, -como as imagens poeticas do selvagem, os modos de seu pensamento, as -tendencias de seu espirito, e até as menores particularidades de sua -vida. É n'essa fonte que deve beber o poeta brazileiro; é d'ella que -ha de sahir o verdadeiro poema nacional, tal como eu o imagino. - -Commettendo portanto o grande arrojo, aproveitei o ensejo de realisar as -idéas que me vagueavam no espirito, e não eram ainda plano fixo; a -reflexão consolidou-as e robusteceu. - -Na parte escripta da obra foram ellas vasadas em grande copia. Se a -investigação laboriosa das bellezas nativas feita sobre imperfeitos e -espurios diccionarios exhauria o espirito; a satisfação de cultivar -essas flores agrestes da poesia brazileira, deleitava. Um dia porém -fatigado da constante e aturada meditação ou analyse para descobrir a -etymologia d'algum vocabulo, assaltou-me um receio. - -Todo este improbo trabalho que ás vezes custava uma só palavra, me -seria levado á conta? Saberiam que esse escropulo de ouro fino, tinha -sido desentranhado da profunda camada, onde dorme uma raça extincta? Ou -pensariam que fôra achado na superficie e trazido ao vento da facil -inspiração? - -E sobre esse, logo outro receio. - -A imagem ou pensamento com tanta fadiga esmerilhados, seriam apreciados -em seu justo valor, pela maioria dos leitores? Não os julgariam -inferiores a qualquer das imagens em voga, usadas na litteratura -moderna? - -Occorre-me um exemplo tirado d'este livro. Guia chamavam os indigenas, -senhor do caminho, _pyguara_. A belleza da expressão selvagem em sua -traducção litteral e etymologica, me parece bem saliente. Não diziam -sabedor do caminho, embora tivessem termo proprio, _coaub_, porque essa -phrase não exprimiria a energia de seu pensamento. O caminho no estado -selvagem não existe; não é cousa de saber. O caminho faz-se na -occasião da marcha atravez da floresta ou do campo, e em certa -direcção: aquelle que o tem e o dá, é realmente senhor do caminho. - -Não é bonito? Não está ahi uma joia da poesia nacional? - -Pois talvez haja quem prefira a expressão rei do caminho, embora os -brasis não tivessem rei, nem idéa de tal instituição. Outros se -inclinarão á palavra guia, como mais simples e natural em portuguez, -embora não corresponda ao pensamento do selvagem. - -Ora escrever um poema que devia alongar-se para correr o risco de não -ser entendido, e quando entendido não apreciado, era para desanimar o -mais robusto talento, quanto mais a minha mediocridade. Que fazer? -Encher o livro de gryphos que o tornariam mais confuso e de notas que -ninguem lê? Publicar a obra parcialmente para que os entendidos -proferissem o veredicto litterario? Dar leitura d'ella a um circulo -escolhido, que emittisse juizo illustrado? - -Todos estes meios tinham seu inconveniente, e todos foram repellidos: o -primeiro afeiava o livro; o segundo o truncava em pedaços; o terceiro -não lhe aproveitaria pela ceremoniosa benevolencia dos censores. O que -pareceu melhor e mais acertado foi desviar o espirito d'essa obra e -dar-lhe novos rumos. - -Mas não se abandona assim um livro começado, por peor que elle seja; -ahi n'essas paginas cheias de rasuras e borrões dorme a larva do -pensamento, que pode ser nympha de azas douradas, se a inspiração -fecundar o grosseiro casulo. Nas diversas pausas de suas preoccupações -o espirito volvia pois ao album, onde estão ainda incubados e estarão -cerca de dois mil versos heroicos. - -Conforme a benevolencia ou severidade de minha consciencia ás vezes os -acho bonitos e dignos de verem a luz; outras me parecem vulgares, -monotonos, e somenos a quanta prosa charra tenho eu estendido sobre o -papel. Se o amor de pae abranda afinal esse rigor, não desvanece porem -nunca o receio de "perder inutilmente meu tempo a fazer versos para -cabocolos." - -Em um d'esses volveres do espirito á obra começada, lembrou-me da -experiencia _in anima prosaico_. O verso pela sua dignidade e nobreza -não comporta certa flexibilidade de expressão, que entretanto não vae -mal á prosa mais elevada. A elasticidade da phrase permittiria então -que se empregassem com mais careza as imagens indigenas, de modo a não -passarem desapercebidas. Por outro lado conhecer-se-hia o effeito que -havia de ter o verso pelo effeito que tivesse a prosa. - -O assumpto para a experiencia, de antemão estava achado. Quando em 1848 -revi a nossa terra natal, tive a idéa de aproveitar suas lendas e -tradições em alguma obra litteraria. Já em S. Paulo tinha começado -uma biographia do Camarão. A mocidade d'elle, a amisade heroica que o -ligava a Soares Moreno, a bravura e lealdade de Jacaúna, alliado dos -portuguezes, e suas guerras contra o celebre Mel Redondo; ahi estava o -thema. Faltava-lhe o perfume que derrama sobre as paixões do homem a -belleza da mulher. - -Sabe você agora o outro motivo que eu tinha de lhe endereçar o livro; -precisava dizer todas estas cousas, contar o como e porque escrevi -_Iracema_. E com quem melhor conversaria sobre isso do que com uma -testemunha de meu trabalho, a unica, das poucas, que respira agora as -auras cearenses? - -Este livro é pois um ensaio ou antes amostra. Verá realisadas n'elles -as minhas idéas a respeito da litteratura nacional; e achará ahi -poesia inteiramente brazileira, haurida na lingua dos selvagens. A -etymologia dos nomes das diversas localidades, e certos modos de dizer -tirados da composição das palavras, são de cunho original. - -Comprehende você que não podia eu derramar em abundancia essa riqueza -no livrinho agora publicado, porque ellas ficariam desfloradas na obra -de maior vulto, a qual só teria a novidade da fabula. Entretanto ha ahi -de sobra para dar materia á critica, e servir de base ao juizo dos -entendidos. - -Se o publico ledor gostar d'essa forma litteraria, que me parece ter -algum attractivo e novidade, então se fará um esforço para levar ao -cabo o começado poema, embora o verso pareça na época actual ter -perdido a sua influencia e prestigio. Se porém o livro fôr acoimado de -serdiço e tedioso, ou se Iracema encontrar a usual indifferença, que -vae acolhendo o bom e o mau com a mesma complacencia, quando não é o -silencio desdenhoso e ingrato; então o auctor se desenganará de mais -esse genero de litteratura, como já se desenganou do theatro; e os -versos como as comedias passarão para a gaveta dos papeis velhos, -reliquias autobiographicas. - -Depois de concluido o livro e quando o reli apurado na estampa, conheci -me tinham escapado senões que poderia corrigir se não fosse a pressa -com que o fiz editar; noto algum excesso de comparações, certa -semelhança entre algumas imagens, e talvez desalinho no estylo dos -ultimos capitulos que desmerecem dos primeiros. Tambem me parece devia -conservar aos nomes das localidades sua actual versão, embora -corrompida. Se a obra tiver segunda edição será escoimada d'estes e -de outros defeitos, que lhe descubram os entendidos. - - Agosto de 1995. - - J. DE ALENCAR. - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK IRACEMA *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for -copies of this eBook, complying with the trademark license is very -easy. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online -at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. 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Pedro, 137, 1º andar, PORTO</h5> - -<h5>38, rua da Quitanda, Rio de Janeiro</h5> - -<h5>1890</h5> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>Á TERRA NATAL</h4> - -<h5>UM FILHO AUSENTE</h5> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>INDICE</h4> -<p class="nind"><a href="#NOTICIA">NOTICIA BIOGRAPHICA</a><br /> -<a href="#AMIGO">MEU AMIGO</a><br /> -<a href="#IRACEMA">IRACEMA</a><br /> -CAPITULO <a href="#I">I</a><br /> -CAPITULO <a href="#II">II</a><br /> -CAPITULO <a href="#III">III</a><br /> -CAPITULO <a href="#IV">IV</a><br /> -CAPITULO <a href="#V">V</a><br /> -CAPITULO <a href="#VI">VI</a><br /> -CAPITULO <a href="#VII">VII</a><br /> -CAPITULO <a href="#VIII">VIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#IX">IX</a><br /> -CAPITULO <a href="#X">X</a><br /> -CAPITULO <a href="#XI">XI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XII">XII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIII">XIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIV">XIV</a><br /> -CAPITULO <a href="#XV">XV</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVI">XVI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVII">XVII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVIII">XVIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIX">XIX</a><br /> -CAPITULO <a href="#XX">XX</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXI">XXI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXII">XXII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXIII">XXIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXIV">XXIV</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXV">XXV</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXVI">XXVI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXVII">XXVII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXVIII">XXVIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXIX">XXIX</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXX">XXX</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXXI">XXXI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXXII">XXXII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXXIII">XXXIII</a><br /> -<a href="#NOTAS">NOTAS</a><br /> -<a href="#CARTA">CARTA AO DR. JAGUARIBE</a></p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="NOTICIA">NOTICIA BIOGRAPHICA</a></h4> - -<p> -José Martiniano do Alencar. Este grande escriptor brazileiro, mais -conhecido pelo nome de José de Alencar, nasceu no Ceará no dia 1 de -janeiro de 1829, sendo filho, ao que parece, do illustre politico do -mesmo nome. Dizemos "ao que parece" porque nas biographias d'este grande -escriptor, que temos presentes, não se accusa a sua filiação. Pode -ser lapso, pode ser outro motivo qualquer que não precisamos de apurar. -O que é certo é que José Martiniano d'Alencar mostrou desde creança -um grande engenho. Tinha 17 annos quando em 1840 se matriculou na -faculdade de direito de S. Paulo para tomar, como tomou, o grau de -bacharel, tendo ido porém em 1848 concluir os seus estudos juridicos e -formar-se na eschola de Olinda. -</p> - -<p> -Em S. Paulo começou a manifestar-se o seu talento litterario, -publicando varios artigos n'um periodico intitulado: <i>Ensaios</i>, e -redigido pelos estudantes da Faculdade, que appareceu em S. Paulo nos -annos de 1840 a 1848. -</p> - -<p> -Em 1851 concluiu Alencar o seu curso, e veiu logo para o Rio de Janeiro, -entregando-se então com mais desafogo aos trabalhos litterarios. -Estreiou-se na capital do imperio escrevendo no <i>Correio Mercantil</i> um -artigo de critica acerca das <i>Poesias</i> de Augusto Zaluar. N'esse mesmo -anno, como que para mostrar que as suas preoccupações litterarias o -não desviavam de estudos mais áridos, escreveu alguns artigos sobre a -reforma hypothecaria, e em seguida começou a escrever, sempre no -<i>Correio Mercantil</i> umas revistas semanaes, intituladas: <i>Ao correr -da penna</i> assignadas com a sigla <i>Al</i>. -</p> - -<p> -Em julho de 1855 sahiu da redacção do <i>Correio Mercantil</i>, e passou a -collaborar no <i>Jornal do Commercio</i>, onde escreveu, entre outros -artigos, um a respeito de Thalberg, outro a respeito do <i>Othello</i> e -outro ácerca do padre Mont'Alverne. Em outubro de 1855 assumiu a -direcção do <i>Diario do Rio de Janeiro</i>, que conservou até 1858. -</p> - -<p> -Em 1856 publicou o seu primeiro folheto, que devia ser seguido por -tamanho numero de volumes. Esse folheto intitulava-se: <i>Cartas sobre a -confederação dos Tamoyos</i>, e era uma collecção de folhetins que -haviam sido publicados no <i>Diario do Rio de Janeiro</i>, e em que se -fazia a critica do celebre poema de Gonçalves Dias. -</p> - -<p> -Em 1857, finalmente, sahia o <i>Guarany</i> o famoso romance brazileiro, -que produziu um verdadeiro enthusiasmo, e que deu a José d'Alencar os -fóros, emquanto a nós merecidissimos, de primeiro romancista -brazileiro. Alguns criticos rabujentos notavam que aquelles Indios de -José de Alencar eram <i>plus beaux que nature</i>, que eram uns Indios -ideaes, muito diversos das creaturas porcas, rebaixadas e deprimidas que -representam na actual civilisação brazileira o elemento indigena. -Esses criticos porém esqueciam-se de uma cousa: de que os Indios -actuaes não são os Indios que viviam livremente na floresta, na -plenitude da sua força e da sua independencia, e tambem de que, se os -guaranys de Alencar são pelo menos Indios de excepção, Indios de -excepção eram tambem de certo aquelle suave Uncas, o ultimo dos -mohicanos, e o pensativo Chingachgook, que viviam em tão santa harmonia -com o Longa Carabina, aquelle Nathaniel Bempo, personagem querido de -Fennimore Cooper. -</p> - -<p> -Mas os protestos, se os houve, desappareceram no meio do coro unisono -dos applausos. O Brazil tinha finalmente uma litteratura sua, bem sua, -romances que se não modelavam pelas formas velhas e gastas dos romances -europeus. A America do Sul tinha emfim o seu Cooper. -</p> - -<p> -Pery, Izabel, Alvaro, Ayres Gomes foram personagens que ficaram, para -sempre gravados no espirito do publico brazileiro, e, para mais se -consagrar a gloria do <i>Guarany</i>, até o grande maestro brazileiro -Carlos Gomes escolheu este formoso romance para d'elle se extrahir o -<i>libretto</i> da sua opera o <i>Guarany</i>, que é a sua obra prima, -a obra prima da musica brazileira, e uma das notaveis operas do nosso -tempo, que já hoje tem fama universal, e é representada com applauso -em todos os theatros do mundo. -</p> - -<p> -O que, porém, sobretudo se apreciava no <i>Guarany</i>, e a esse respeito -não havia diversidade de opiniões, era a belleza incomparavel do -estylo, a magnificencia das descripções da natureza. -</p> - -<p> -Ao mesmo tempo tentava José de Alencar o theatro, e, depois de fazer -representar uma comedia de valor secundario <i>Verso e reverso</i>, dava ao -theatro a sua obra prima, tambem uma das obras primas do theatro -brazileiro, <i>O Demonio familiar</i>. É esta comedia um magnifico estudo -dos costumes brazileiros, e foi decerto um profundo golpe vibrado á -escravatura, porque o seu entrecho se cifra principalmente na -demonstração da influencia nefasta do <i>moleque</i> na familia brazileira. -<i>O Demonio familiar</i> é esse moleque, elemento permanente de discordia -e de desmoralisação. -</p> - -<p> -O <i>Guarany</i> e o <i>Demonio familiar</i> bastavam para assegurar a -gloria de um escriptor; mas José de Alencar foi sempre consummido por uma -sede insaciavel de escrever. Trabalhava com uma rapidez tal que isso -prejudicava muitas vezes o acabado das suas obras, e impedia-o de lhes -fazer attingir a perfeição, a que poderiam aliás ter chegado tanto -quanto isso é possivel a obras humanas. -</p> - -<p> -No theatro, pois, ao <i>Demonio familiar</i> e ao <i>Verso e reverso</i> -seguiram-se o <i>Credito</i>, e os <i>Jesuitas</i>, drama que foi retirado -de scena, porque o publico abandonou por tal forma o theatro em que elle se -representava que diz um critico de Alencar, que talvez no Rio de Janeiro -não fosse visto por um cento de pessoas. Esta ausencia do publico -indignou muito José de Alencar que, publicando o drama, o precedeu de -um prefacio em que diz que dava o drama á luz publica, só para que se -visse que, se o theatro brazileiro não existia, não era por falta de -bons auctores, nem de boas peças, mas sim pelo inqualificavel -retrahimento do publico. Este accesso de vaidade não era permittido a -um homem de tão verdadeiro merecimento como era José de Alencar. -Effectivamente não tinha razão alguma: o drama os <i>Jesuitas</i> era -detestavel, pueril, sem caracteres bem desenhados, sem acção logica, -sem cousa alguma do que constitue verdadeiramente o merito de uma obra -litteraria. -</p> - -<p> -Não desanimou Alencar, e deu á scena as <i>Azas de um Anjo</i>, drama que -se modelava um pouco pela <i>Dama das Camelias</i>, com a excepção de que -no fim Margarida Gautier casa com Armand Duval. Um critico brazileiro -muito divertido, que assigna com as iniciaes J. S. uma obra -verdadeiramente inepta intitulada <i>Manual de litteratura</i>, diz a -respeito das <i>Azas de um Anjo</i> o seguinte: -</p> - -<p> -"É uma tocante oração em favor da perdida. -</p> - -<p> -"No fim, sobretudo, no casamento d'esta com Luiz, nada ha de francez. É -um traço de bondade e abnegação, proprio do caracter brazileiro, que -o francez não approvaria." -</p> - -<p> -Esperamos ainda assim que no Brazil não sejam extremamente vulgares -esses actos de abnegação e de bondade, porque a geração que -resultasse d'estes actos de bondade podia ser exquisitamente -qualificada. -</p> - -<p> -Mas o que é curioso é que, apesar d'esta peça ser a apotheose do -caracter brazileiro, a auctoridade prohibiu que se representasse, e -<i>J.S.</i> acha muito justa a prohibição. Já se vê que não quer que no -theatro se ponham em relevo para ensinamento do publico a bondade e a -abnegação tão proprias do caracter brazileiro. -</p> - -<p> -José de Alencar acudiu em defeza da sua peça na imprensa, e outros -escriptores o apoiaram. Effectivamente a pudibunda censura brazileira -mostrou-se muito mais transigente com peças de um valor muito inferior -ao das <i>Azas de um Anjo</i>. -</p> - -<p> -A ultima peça de José de Alencar foi a <i>Mai</i>, representada em 1860. -</p> - -<p> -N'esse mesmo anno era elle nomeado consultor do ministerio da justiça, -e recebia a carta de conselho. -</p> - -<p> -José de Alencar, ao passo que ia ganhando um brilhante nome litterario, -não abandonava a politica nem descurava as cousas praticas da vida. -Fôra, havia muito, nomeado professor de direito mercantil no <i>Instituto -Commercial</i> do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo entrava como deputado na -camara, pertencendo, porém, ao grupo conservador, em vez de se -enfileirar, como o outro José Martiniano de Alencar, nas phalanges do -partido liberal. Na sua carreira de empregado publico foi tambem, além -de consultor do ministerio da justiça, director de secção. -</p> - -<p> -A acção da politica no litterato sente-se na <i>Guerra dos Mascates</i>, -romance em dois volumes, que elle publicou a bastante distancia de tempo -um do outro, cujo enredo se trava em 1710 no tempo das desavenças dos -moradores de Olinda com os do Recife, mas que tem apenas por intento -fazer retratos contemporaneos com os nomes do seculo XVIII. Esta -intenção era por tal forma transparente que no parlamento lh'o -lançaram em rosto, porque effectivamente Alencar não se contentava com -o desenho moral dos personagens, fazia o retrato physico tanto ao vivo -que ninguem podia deixar de reconhecer o retratado. Assim o governador -de Pernambuco D. Sebastião de Sousa Caldas é evidentemente o imperador -D. Pedro II, o secretario Barbosa Lima é o visconde do Rio Branco, -outro personagem é o marquez de S. Vicente, outro o barão de -Inhomerim, etc., etc. -</p> - -<p> -O retrato do imperador não está muito lisongeado, e não devia agradar -ao personagem escolhido para modêlo, que se podia até considerar como -injuriado positivamente. Comtudo, isso não obstou a que o imperador, em -1868, quando se formou o ministerio conservador, acceitasse a entrada de -José Martiniano de Alencar para a pasta da justiça. Esteve porém -pouco tempo no ministerio. Uma dissidencia no seio do partido -conservador fêl-o sahir do governo, levando-o a ir sentar-se na camara -ao lado dos dissidentes. -</p> - -<p> -Continuando, porém, a apreciar o litterato, o romancista, citemos ainda -dois dos seus melhores romances: o <i>Gaúcho</i> e <i>Iracema</i>. O -caracter do gaúcho, que adora a sua egua <i>Morena</i>, que a entende, que -lhe fala e que a escuta, está traçado com uma rara perfeição. <i>Iracema</i> -é sobretudo um romancinho adoravelmente escripto. Nunca o estylo de -Alencar attingiu tão delicada suavidade. Exhala-se de cada periodo como -que o perfume das flores com que se elabora o mel das suas palavras. O -sr. Pinheiro Chagas teve occasião de prestar a este livro a merecida -homenagem. Fez porém algumas observações relativas á mania que teem -alguns escriptores brazileiros, e um d'elles era Alencar, de pretenderem -modificar as formas grammaticaes da lingua. Alencar entendeu dever -responder na segunda edição do seu romance á critica do escriptor -portuguez. Essa replica parecia-se um pouco com o prefacio dos -<i>Jesuitas</i>. Manifestava uma grande vaidade realmente inadmissivel em -escriptor de tão elevado merito, e mostrava um desprêso completo pelas -regras mais elementares da philologia. -</p> - -<p> -As <i>Minas de prata</i> passam por ser um dos seus menos bons romances; -encerra comtudo algumas scenas primorosas. Queixam-se os paulistas de -que as paizagens da sua provincia descriptas no <i>Til</i>, são -perfeitamente phantasistas; <i>Ubirajara</i>, <i>A pata da Gazella</i>, -<i>O tronco do ipê</i>, se não augmentaram a reputação do grande -romancista não a prejudicaram tambem. O <i>Sertanejo</i>, muito -criticado por alguns, parece-nos comtudo um dos seus bons romances. As -paizagens que elle descreve são as paizagens da sua provincia natal, -que elle conhece perfeitamente, e o typo do vaqueiro que ama em silencio -a filha do seu patrão e que procura, com uma raiva intima, afastar -todos aquelles que ella possa amar, está traçado com vigor. -</p> - -<p> -Os seus romances de côrte, se assim nós podemos exprimir, são -inferiores aos seus romances do sertão. Nem firmou alguns d'elles com o -seu nome, <i>Diva</i> e <i>Luciola</i>, romances moldados pela comedia -<i>Azas de um Anjo</i> tratam da rehabilitação de peccadoras; <i>Cinco -minutos</i>, uma das suas primeiras obras e a <i>Viuvinha</i> são -romances ligeirissimos, graciosamente desenhados; a <i>Senhora</i> -encerra uma situação fortemente dramatica, mas mal desenvolvida. -Trata-se de um homem de vis sentimentos, que despreza uma rapariga pobre -que o adorava e despreza-a por ella ser pobre. Tempos depois, acceita o -casamento com uma mulher deshonrada por outro homem, porque este lhe -paga por uma avultada somma a venda do seu nome. Ora essa mulher é a -tal que elle desprezara e que o seu desprêso arrojara pelo caminho da -prostituição. O assumpto prestava-se, como vêem, ás mais dramaticas -situações. -</p> - -<p> -No genero de pamphletos, e obras politicas, etc., escreveu ainda José -de Alencar, que sempre se mostrou hostil ao imperador, a <i>imagem -imperial</i>, e as <i>Cartas de Erasmo</i>. Publicou em volume os seus -discursos parlamentares de 1809, e os de 1871. É tambem sua, uma obra -intitulada <i>Estatistica da provincia do Ceará</i>. -</p> - -<p> -José de Alencar veiu á Europa em 1870. Voltando ao Brazil, foi -inesperadamente colhido pela morte no anno de 1877, quando acabava de -completar 48 annos, e quando se achava portanto na força da vida. A sua -morte enluctou a litteratura brazileira e aquelles mesmos que tinham -combatido <i>Senio</i>, pseudonymo querido de José de Alencar, foram os -primeiros a render homenagem ao grande vulto, logo que elle desappareceu -da scena publica. -</p> - - -<p style="margin-left: 50%;"> -(Do <i>Diccionario Popular</i>). -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="AMIGO">MEU AMIGO</a></h4> - -<p> -Este livro vae naturalmente encontral-o no seu pittoresco sitio da -varzea, no doce lar, que povoa a numerosa prole, alegria e esperança -do casal. -</p> - -<p> -Imagino que é a hora mais ardente da sesta. -</p> - -<p> -O sol a pino dardeja raios de fogo sobre as areias nataes: as aves -emmudecem; as plantas languem. A natureza soffre a influencia da -poderosa irradiação tropical, que produz o diamante e o genio, as duas -mais sublimes expressões do poder creador. -</p> - -<p> -Os meninos brincam na sombra do outão, com pequenos ossos de rezes, que -figuram a boiada. Era assim que eu brincava, ha quantos annos, em outro -sitio, não muito distante do seu. A dona da casa terna e incansavel -manda abrir o côco verde, ou prepara o saboroso creme do burity para -refrigerar o esposo, que pouco ha recolheu de sua excursão pelo sitio, -e agora repousa embalando-se na macia e commoda rêde. -</p> - -<p> -Abra então este livrinho, que lhe chega da côrte imprevisto. Percorra -suas paginas para desenfastiar o espirito das cousas graves que o trazem -occupado. -</p> - -<p> -Talvez me desvaneça amor do ninho, ou se illudam as reminiscencias da -infancia avivadas recentemente. Senão, creio que ao abrir o pequeno -volume, sentirá uma onda do mesmo aroma silvestre e bravio que lhe vem -da varzea. Derrama-o a briza que perpassou os espathos da carnauba e a -ramagem das aroeiras em flôr. -</p> - -<p> -Essa onda é a inspiração da patria que volve a ella, agora e sempre, -como volve de continuo o olhar do infante para o materno semblante que -lhe sorri. -</p> - -<p> -O livro é cearense. Foi imaginado ahi, na limpidez d'esse céo de -cristallino azul, e depois vasado no coração cheio das recordações -vivaces de uma imaginação virgem. Escrevi-o para ser lido lá, na -varanda da casa rustica ou na fresca sombra do pomar, ao doce embalo da -rêde, entre os murmures do vento que crepita na arêa ou farfalha nas -palmas dos coqueiros. -</p> - -<p> -Para lá, pois, que é o berço seu, o envio. -</p> - -<p> -Mas assim mandado por um filho ausente, para muitos extranho, esquecido -talvez dos poucos amigos, e só lembrado pela incessante desaffeição, -qual sorte será a do livro? -</p> - -<p> -Que lhe falte hospitalidade, não ha temer. As auras de nossos campos -parecem tão impregnadas d'essa virtude primitiva, que quantas raças -habitem ahi a inspiram com o halito vital. Receio sim que seja recebido -como extrangeiro e hospede na terra dos meus. -</p> - -<p> -Se, porém, ao abordar ás plagas do Mocoribe, fôr acolhido pelo bom -cearense, presado de seus irmãos ainda mais na adversidade do que nos -tempos prosperos, estou certo que o filho de minha alma achará na terra -de seu pae, a intimidade e conchego da familia. -</p> - -<p> -O nome de outros filhos ennobrece nossa provincia na politica e na -sciencia; entre elles o meu, hoje apagado, quando o trazia -brilhantemente aquelle que primeiro o creou. N'este momento mesmo a -espada heroica de muito bravo cearense vae ceifando no campo da batalha -ampla messe de gloria. -</p> - -<p> -Quem não pode illustrar a terra natal canta as lendas suas, sem metro, -na rude toada de seus antigos filhos. -</p> - -<p> -Acolha pois a primeira mostra e offereça-a a nossos patricios a quem é -dedicada. -</p> - -<p> -Este pedido foi um dos motivos de lhe endereçar o livro: o outro lhe -direi depois que o tenha lido. -</p> - -<p> -Muita cousa me occorre dizer sobre o assumpto, que talvez devera -anticipar á leitura da obra, para prevenir a surpreza de alguns e -responder ás observações ou reparos de outros. -</p> - -<p> -Mas sempre fui avêsso aos prologos; em meu conceito elles fazem á -obra, o mesmo que o passaro á fructa antes de colhida; roubam as -primicias do sabor litterario. Por isso me reservo para depois. -</p> - -<p> -Na ultima pagina me encontrará de novo; então conversaremos a gosto, -em mais liberdade do que teriamos n'este portico do livro, onde as -etiquetas mandam receber o publico com a gravidade e reverencia devida a -tão alto senhor. -</p> - -<p style="margin-left: 5%;"> -Rio de Janeiro—Maio de 1865. -</p> - -<p style="margin-left: 60%;">J. de Alencar. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="IRACEMA">IRACEMA</a></h4> - -<p><br /><br /></p> - -<h4><a id="I">I</a></h4> - -<p><span id="Nota1"> -Verdes mares bravios</span> de minha terra natal, <span id="Nota2">onde -canta a jandaia</span> nas frondes da carnaúba: -</p> - -<p> -Verdes mares que brilhaes como liquida esmeralda aos raios do sol -nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros: -</p> - -<p> -Serenae verdes mares, e alisae docemente a vaga impetuosa para que o -barco aventureiro manso resvalle á flôr das aguas. -</p> - -<p> -Onde vae a affouta jangada, que deixa rapida a costa cearense, aberta ao -fresco terral a grande vela? -</p> - -<p> -Onde vae como branca alcyone buscando o rochedo patrio nas solidÕes do -oceano? -</p> - -<p> -Tres entes respiram sobre o fragil lenho que vae singrando veloce, mar -em fora: -</p> - -<p> -Um joven guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano: uma -creança e um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam -irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem. -</p> - -<p> -A lufada intermittente traz da praia um écho vibrante, que resôa entre -o marulho das vagas: -</p> - -<p> -—Iracema!... -</p> - -<p> -O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos prêsos na sombra -fugitiva da terra: a espaços o olhar empanado por tenue lagrima cahe -sobre o <span id="Nota3">giráu</span>, onde folgam as duas innocentes -creaturas, companheiras de seu infortunio. -</p> - -<p> -N'esse momento o labio arranca d'alma um agro sorriso. -</p> - -<p> -Que deixára elle na terra do exilio? -</p> - -<p> -Uma historia que me contaram nas lindas varzeas onde nasci, á calada da -noite, quando a lua passeava no céo argenteando os campos, e a brisa -rugitava nos palmares. -</p> - -<p> -Refresca o vento. -</p> - -<p> -O rullo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas; desapparece -no horisonte. Abre-se a immensidade dos mares: e a borrasca enverga, -como o condor, as foscas azas sobre o abysmo. -</p> - -<p> -Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas -revoltas, e te poje n'alguma enseada amiga. Soprem para ti as brandas -auras: e para ti jaspeie a bonança mares de leite. -</p> - -<p> -Em quanto vogas assim á discripção do vento, airoso barco, volva ás -brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra -onde revoa. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="II">II</a></h4> - -<p> -Além, muito além d'aquella serra, que ainda azula no horisonte, nasceu -<span id="Nota4">Iracema</span>: -</p> - -<p> -Iracema, a virgem dos labios de mel, que tinha os cabellos mais negros -que a aza da <span id="Nota5">graúna</span>, e mais longos que seu talhe -de palmeira. -</p> - -<p> -O favo da <span id="Nota6">jaty</span> não era doce como seu sorriso; nem -a baunilha rescendia no bosque como seu halito perfumado. -</p> - -<p> -Mais rapida que a corsa selvagem, a morena virgem corria o sertão e as -matas do <span id="Nota7">Ipú</span>, onde campeava sua guerreira tribu, da -grande nação <span id="Nota8">tabajara</span>. O pé gracil e nú, mal -rosçando, alisava apenas a verde pellucia que vestia a terra com as -primeiras aguas. -</p> - -<p> -Um dia, ao pino do sol, ella repousava em um claro da floresta. -Banhava-lhe o corpo a sombra da <span id="Nota9">oitycica</span>, mais -fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acacia silvestre esparziam -flores sobre seus humidos cabellos. Escondidos na folhagem os passaros -ameigavam o canto. -</p> - -<p> -Iracema sahiu do banho: o aljofar d'agua ainda a roreja, como á dôce -mangaba que córou em manhã de chuva. Emquanto repousa empluma das -pennas do <span id="Nota10">gará</span> as flechas de seu arco; e concerta -com o sabiá da mata pousado no galho proximo, o canto agreste. -</p> - -<p> -A graciosa <span id="Nota11">ará</span>, sua companheira e amiga, -brinca junto d'ella. Ás vezes sobe aos ramos da arvore e de lá chama a -virgem pelo seu nome; outras remexe o <span id="Nota12">urú</span> de -palha matisada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do -<span id="Nota13">crautá</span>, as agulhas da <span -id="Nota14">jussára</span> com que tece a renda, e as tintas de que -matisa o algodão. -</p> - -<p> -Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os -olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. -</p> - -<p> -Deante d'ella e todo a contemplal-a, está um guerreiro extranho, se é -guerreiro e não algum máu espirito da floresta. Tem nas faces o branco -das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das aguas -profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo. -</p> - -<p> -Foi rapido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco -partiu. Gottas de sangue borbulham na face do desconhecido. -</p> - -<p> -De primeiro impeto, a mão lesta cahiu sobre a cruz da espada; mas logo -sorrio. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a -mulher é symbolo de ternura e amor. Soffreu mais d'alma, que da ferida. -</p> - -<p> -O sentimento que elle pôz nos olhos e no rosto, não sei eu. Porem a -virgem lançou de si o arco e a <span id="Nota15">uiraçaba</span>, e -correu para o guerreiro, sentida da magoa que causara. A mão que rapida -ferira, estancou mais rapida e compassiva o sangue que gotejava. Depois -Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, -guardando comsigo a ponta farpada. -</p> - -<p> -O guerreiro falou: -</p> - -<p> -—<span id="Nota16">Quebras commigo a flecha</span> da paz? -</p> - -<p> -—Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? -D'onde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu? -</p> - -<p> -—Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus -irmãos já possuiram, e hoje tem os meus. -</p> - -<p> -—Bemvindo seja o extrangeiro aos campos dos Tabajaras, senhores das -aldeias, e á cabana de Araken, pae de Iracema. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="III">III</a></h4> - -<p> -O extrangeiro seguiu a virgem através da floresta. -</p> - -<p> -Quando o sol descambava sobre a crista dos montes, e a rôla desatava do -fundo da mata os primeiros arrulhos, elles descobriram no valle a grande -taba: e mais longe, pendurada no rochedo, á sombra dos altos joaseiros, -a cabana do Pagé. -</p> - -<p> -O ancião fumava á porta, sentado na esteira de carnaúba, meditando os -sagrados ritos de Tupan. O tenue sôpro da brisa carmeava, como frocos de -algodão, os compridos e raros cabellos brancos. De immovel que estava, -sumia a vida nos olhos cavos e nas rugas profundas. -</p> - -<p> -O Pagé lobrigou os dois vultos que avançavam; cuidou vêr a sombra de -uma arvore solitaria que vinha alongando-se pelo valle fora. -</p> - -<p> -Quando os viajantes entraram na densa penumbra do bosque, então seu -olhar como o do tigre, feito ás trevas, conheceu Iracema, e viu que a -seguia um joven guerreiro, de extranha raça e longes terras. -</p> - -<p> -As tribus tabajaras, d'além <span id="Nota17">Ibyapaba</span>, falavam -de uma nova raça de guerreiros, alvos como flôres de borrasca, e -vindos de remota plaga ás margens do Mearim. O ancião pensou que -fôsse um guerreiro semelhante, aquelle que pisava os campos nativos. -</p> - -<p> -Tranquillo, esperou. -</p> - -<p> -A virgem aponta para o extrangeiro e diz: -</p> - -<p> -—Elle veiu, pae. -</p> - -<p> -—Veiu bem. É Tupan que traz o hospede á cabana de Araken. -</p> - -<p> -Assim dizendo, o Pagé passou o cachimbo ao extrangeiro: e entraram -ambos na cabana. -</p> - -<p> -O mancebo sentou na rede principal, suspensa no centro da habitação. -</p> - -<p> -Iracema accendeu o fogo da hospitalidade; e trouxe o que havia de -provisões para satisfazer a fome e a sede: trouxe os restos da caça, a -farinha d'agua, os fructos silvestres, os favos de mel e o vinho de -cajú e ananaz. -</p> - -<p> -Depois a virgem entrou com a <span id="Nota18">igaçaba</span>, que -enchêra na fonte proxima de agua fresca para lavar o rosto e as mãos -do extrangeiro. -</p> - -<p> -Quando o guerreiro terminou a refeição, o velho Pagé apagou o -cachimbo e falou: -</p> - -<p> -—<span id="Nota19">Vieste</span>? -</p> - -<p> -—Vim: respondeu o desconhecido. -</p> - -<p> -—Bem vieste. O extrangeiro é senhor na cabana de Araken. Os Tabajaras -tem mil guerreiros para defendel-o, e mulheres sem conto para servil-o. -Dize, e todos te obedecerão. -</p> - -<p> -—Pagé eu te agradeço o agasalho que me déste. Logo que o sol nascer -deixarei tua cabana e teus campos onde vim perdido; mas não devo -deixal-os sem dizer-te quem é o guerreiro, que fizeste amigo. -</p> - -<p> -—Foi a Tupan que o Pagé serviu: elle te trouxe, elle te levará. -Arake -n nada fez pelo hospede; não pergunta d'onde vem, e quando vae. Se -queres dormir, desçam sobre ti os sonhos alegres: se queres falar, teu -hospede escuta. -</p> - -<p> -O extrangeiro disse: -</p> - -<p> -—Sou dos guerreiros brancos, que levantaram a taba nas margens do -<span id="Nota20">Jaguaribe</span>, perto do mar, onde habitam os <span -id="Nota21">Pytiguaras</span>, inimigos de tua nação. Meu nome é -<span id="Nota22">Martim</span>, que na tua lingua diz como filho de -guerreiro; meu sangue o do grande povo que primeiro viu as terras de tua -patria. Já meus destroçados companheiros voltaram por mar ás margens -do Parahyba, de onde vieram: e o chefe, desamparado dos seus, atravessa -agora os vastos sertões do Apody. Só eu de tantos fiquei, porque -estava entre os <span id="Nota23">Pytiguaras</span> de Acaraú, na -cabana do bravo Poty, irmão de Jacaúna, que plantou commigo a arvore -da amizade. Ha tres sóes partimos para a caça; e perdido dos meus vim -aos campos dos Tabajaras. -</p> - -<p> -—Foi algum <span id="Nota24">máu espirito da floresta</span> que -cegou o guerreiro branco no escuro da mata: respondeu o ancião. -</p> - -<p> -A cauâm piou, além. na extrema do valle. Cahia a noite. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="IV">IV</a></h4> - -<p> -O Pagé vibrou a maracá, e sahiu da cabana: porém, o extrangeiro não -ficou só. -</p> - -<p> -Iracema voltára com as mulheres chamadas para servir o hospede de -Araken, e os guerreiros vindos para obedecer-lhe. -</p> - -<p> -—Guerreiro branco, disse a virgem, o prazer emballe a tua rêde -durante a noite; e o sol traga luz aos teus olhos, alegria á tua alma. -</p> - -<p> -E assim dizendo Iracema tinha o labio tremulo, e humida a palpebra. -</p> - -<p> -—Tu me deixas? perguntou Martim. -</p> - -<p> -—<span id="Nota25">As mais bellas mulheres</span> da grande taba -comtigo ficam. -</p> - -<p> -—Para ellas a filha de Araken não devia ter conduzido o hospede á -cabana do Pagé. -</p> - -<p> -—Extrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ella que guarda o -segredo da <span id="Nota26">jurema</span> e o mysterio do sonho. Sua mão -fabrica para o Pagé a bebida de Tupan. -</p> - -<p> -O guerreiro christão atravessou a cabana e sumiu-se na treva. -</p> - -<p> -A grande taba erguia-se no fundo do valle, illuminada pelos faxos da -alegria. Rugia o maracá; ao quebro lento do canto selvagem, batia a -dança em torno a rude cadencia. O Pagé inspirado conduzia o sagrado -tripudio e dizia ao povo crente os segredos de Tupan. -</p> - -<p> -O maior chefe cia nação tabajara, <span id="Nota27">Irapuam</span>, -descêra do mais alto da serra Ibyapaba, para levar as tribus do sertão -contra o inimigo Pytiguara. Os guerreiros do valle festejam a vinda do -chefe e o proximo combate. -</p> - -<p> -O mancebo christão viu longe o clarão da festa, e passou além, e -olhou o céo azul sem nuvens. A <span id="Nota29">estrella morta</span> que -então brilhava sobre a cupula da floresta, guiou seu passo firme para as -frescas margens do <span id="Nota28">Acaraú</span>. -</p> - -<p> -Quando elle transmontou o valle e ia penetrar na matta, o vulto de -Iracema surgiu. A virgem seguira o extrangeiro como a brisa subtil que -resvalla sem murmurejar por entre a ramagem. -</p> - -<p> -—Porque, disse ella, o extrangeiro abandona a cabana hospedeira sem -levar o presente da volta? Quem fez mal ao guerreiro branco na terra dos -Tabajaras? -</p> - -<p> -O christão sentiu quanto era justa a queixa, e achou-se ingrato. -</p> - -<p> -—Ninguem fez mal ao teu hospede, filha de Araken. Era o desejo de vêr -seus amigos que o afastava dos campos dos Tabajaras. Não levava o -presente da volta; mas leva em sua alma a lembrança de Iracema. -</p> - -<p> -—Se a lembrança de Iracema estivesse na alma do extrangeiro, ella não -o deixaria partir. O vento não leva a areia da varzea, quando a areia -bebe a agua da chuva. -</p> - -<p> -—A virgem suspirou: -</p> - -<p> -—Guerreiro branco, espera que Cauby volte da caça. O irmão de Iracema -tem o ouvido subtil que pressente a <span id="Nota30">boicininga</span> -entre os rumores da matta; e o olhar do <span id="Nota31">oitibó</span> -que vê melhor na treva. Elle te guiará ás margens do rio das garças. -</p> - -<p> -—Quanto tempo se passará antes que o irmão de Iracema esteja de volta -na cabana de Araken? -</p> - -<p> -—O sol, que vae nascer, tornará com o guerreiro Cauby aos campos do -Ipú. -</p> - -<p> -—Teu hospede espera, filha de Araken: mas se o sol tornando, não -trouxer o irmão de Iracema, elle levará o guerreiro branco á taba dos -Pytiguaras. -</p> - -<p> -Martim voltou á cabana do Pagé. -</p> - -<p> -A alva rêde que Iracema perfumara com a resina do beijoim guardava-lhe -um somno calmo e doce. O christão adormeceu ouvindo suspirar, entre os -murmurios da floresta, o canto mavioso da virgem indiana. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="V">V</a></h4> - -<p> -O gallo da campina ergue a poupa escarlate fora do ninho. Seu limpido -trinado annuncia a aproximação do dia. -</p> - -<p> -Ainda a sombra cobre a terra. Já o povo selvagem colhe as redes na -grande taba e caminha para o banho. O velho Pagé que velou toda a -noite, falando ás estrellas, conjurando os máus <span id="Nota32">espiritos -da treva</span>, entra furtivamente na cabana. -</p> - -<p> -Eis retroa o <span id="Nota33">boré</span> pela amplidão do valle. -</p> - -<p> -Travam das armas os rapidos guerreiros, e correm ao campo. Quando fôram -todos na vasta <span id="Nota34">ocára</span> circular, Irapuam, o chefe, -soltou o grito de guerra. -</p> - -<p> -—Tupan deu á grande nação tabajara toda esta terra. Nós -guardamos as serras, que manam os corregos, com os frescos ipús onde -cresce a maniva e o algodão; e abandonamos ao barbaro -<span id="Nota35">Potyuara</span>, comedor de camarão, as areias núas do -mar, com os sêccos taboleiros sem agua e sem florestas. Agora os -pescadores da praia, sempre vencidos, deixam vir pelo mar a raça branca -dos guerreiros de fogo, inimigos de Tupan. Já os emboabas estiveram no -Jaguaribe; logo estarão em nossos campos; e com elles os Potyuaras. -Faremos nós, senhores das aldeias, como a pomba, que se encolhe em seu -ninho, quando a serpente enrosca pelos galhos? - - -</p> - -<p> -O irado chefe brande o tacape e o arremessa no meio do campo. Derrubando -a fronte, cobre o rubido olhar: -</p> - -<p> -—Irapuam falou; disse. -</p> - -<p> -O mais moço dos guerreiros avança: -</p> - -<p> -—O gavião paira nos ares. Quando a nambú levanta, elle cae das nuvens -e rasga as entranhas da victima. O guerreiro tabajara, filho da serra, -é como o gavião. -</p> - -<p> -Troa e retroa a <span id="Nota36">pocema</span> da guerra. -</p> - -<p> -O joven guerreiro erguera o tacape; e por sua vez o brandio. Girando no -ar, rapida e ameaçadora, a arma do chefe passou de mão em mão. -</p> - -<p> -O velho <span id="Nota37">Andira</span>, irmão do Pagé, a deixou tombar, e -calcou no chão, com o pé agil ainda e firme. -</p> - -<p> -Pasma o povo tabajara da acção desusada. Voto de paz em tão provado e -impetuoso guerreiro! É o velho heroe, que cresceu na sanha, crescendo -nos annos, é o feroz Andira quem derrubou o tacape, nuncio da proxima -lucta? -</p> - -<p> -Incertos todos e mudos escutam: -</p> - -<p> -—Andira, o velho Andira, bebeu mais sangue na guerra do que já -beberam cauim nas festas de Tupan, todos quantos guerreiros allumia agora -a luz de seus olhos. Elle viu mais combates em sua vida do que luas lhe -despiram a fronte. Quanto craneo de Potyuara escalpellou sua mão -implacavel, antes que o tempo lhe arrancasse o primeiro cabello? E o -velho Andira nunca temeu que o inimigo pisasse a terra de seus paes: mas -alegrava-se quando elle vinha, e sentia com o faro da guerra a juventude -renascer no corpo decrepito, como a arvore sêcca renasce com o sopro do -inverno. A nação tabajara é prudente. Ella deve encostar o tacape da -lucta para tanger o memby da festa. Celebra, Irapuam, a vinda dos -emboabas e deixa que cheguem todos aos nossos campos. Então Andira te -promette o banquete da victoria. -</p> - -<p> -Desabriu emfim Irapuam a funda colera: -</p> - -<p> -—Fica tu, escondido entre as igaçabas de vinho, tica, velho morcego, -porque temes a luz do dia, e só bebes o sangue da victima que dorme. -Irapuam leva a guerra no punho de seu tacape. O terror que elle inspira -voa com o rouco som do boré. O Potyuara já tremeu ouvindo rugir na -serra, mais forte que o ribombo do mar. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="VI">VI</a></h4> - -<p> -Martim vae a passo e passo por entre os altos joaseiros que cercam a -cabana do Pagé. -</p> - -<p> -Era o tempo em que o doce <span id="Nota38">aracaty</span> chega do mar, e -derrama a deliciosa frescura pelo arido sertão. A planta respira; um dôce -arrepio irriça a verde coma da floresta. -</p> - -<p> -O christão contempla o occaso do sol. A sombra, que desce dos montes e -cobre o valle, penetra sua alma. Lembra-se do lugar onde nasceu, dos -entes queridos que alli deixou. Sabe elle se tornará a vel-os algum -dia? -</p> - -<p> -Em tôrno carpe a natureza o dia que expira. Soluça a onda trepida e -lacrimosa; geme a brisa na folhagem; o mesmo silencio anhela de -afflicto. -</p> - -<p> -Iracema parou em face do joven guerreiro: -</p> - -<p> -—É a presença de Iracema que perturba a serenidade no rosto do -extrangeiro? -</p> - -<p> -Martim pousou brandos olhos na face da virgem: -</p> - -<p> -—Não, filha de Araken: tua presença alegra, como a luz da manhã. Foi -a lembrança da patria que trouxe a saudade ao coração presago. -</p> - -<p> -—Uma noiva te espera? -</p> - -<p> -O forasteiro desviou os olhos. Iracema dobrou a cabeça sobre a espadua, -como a tenra palma da carnaúba, quando a chuva peneira na varsea. -</p> - -<p> -—Ella não é mais doce do que Iracema, a virgem dos labios de mel; nem -mais formosa! murmurou o extrangeiro. -</p> - -<p> -—A flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue, e tronco -onde se enlace. Iracema não vive n'alma de um guerreiro: nunca sentiu a -frescura de seu sorriso. -</p> - -<p> -Emmudeceram ambos, com os olhos no chão, escutando a palpitação dos -seios que batiam oppressos. -</p> - -<p> -A virgem falou emfim: -</p> - -<p> -—A alegria voltará logo á alma do guerreiro branco; porque Iracema -quer que elle veja antes da noite a noiva que o espera. -</p> - -<p> -Martim sorriu do ingenuo desejo da filha do Pagé. -</p> - -<p> -—Vem! disse a virgem. -</p> - -<p> -Atravessaram o bosque e desceram ao valle. Onde morria a falda da -collina o arvoredo era basto: densa abobada de folhagem verde-negra -cobria o adyto agreste, reservado aos mysterios do rito barbaro. -</p> - -<p> -Era de jurema o bosque sagrado. Em torno corriam os troncos rugosos da -arvore de Tupan; dos galhos pendiam occultos pela rama escura os vasos -do sacrificio: lastravam o chão as cinzas de extincto fogo, que servira -á festa da ultima lua. -</p> - -<p> -Antes de penetrar o recondito sitio, a virgem que conduzia o guerreiro -pela mão, hesitou, inclinando o ouvido subtil aos suspiros da brisa. -Todos os ligeiros rumores da mata tinham uma voz para a selvagem filha -do sertão. Nada havia porém de suspeito no intenso respiro da -floresta. -</p> - -<p> -Iracema fez ao extrangeiro um gesto de espera e silencio, e desappareceu -no mais sombrio do bosque. O sol ainda pairava suspenso no viso da -serrania: e já noite profunda enchia aquella solidão. -</p> - -<p> -Quando a virgem tornou, trazia n'uma folha gottas de verde extranho -licor vasadas da igaçaba, que acabava de tirar do seio da terra. -Apresentou ao guerreiro a taça agreste. -</p> - -<p> -—Bebe! -</p> - -<p> -Martim sentiu perpassar nos olhos o somno da morte: porém logo a luz -inundou os seios d'alma: a fôrça exhuberou no coração. Reviveu os -dias passados melhor do que os tinha vivido: fruiu a realidade de suas -mais bellas esperanças. -</p> - -<p> -Eil-o que volta á terra natal, abraça sua velha mãe, revê mais lindo -e terno o anjo puro dos amores infantis. -</p> - -<p> -Mas porque, mal de volta ao berço da patria, o joven guerreiro de novo -abandona o tecto paterno e demanda o sertão? -</p> - -<p> -Já atravessa as florestas; já chega aos campos do Ipú. Busca na selva -a filha do Pagé. Segue o rastro ligeiro da virgem arisca, soltando á -brisa com o crebro suspiro o doce nome: -</p> - -<p> -—Iracema! Iracema!... -</p> - -<p> -Já a alcança e cinge-lhe o braço pelo talhe esbelto. -</p> - -<p> -Cedendo á meiga pressão, a virgem reclinou ao peito do guerreiro, e -ficou alli tremula e palpitante como a timida perdiz, quando o terno -companheiro lhe arrufa com o bico a macia penugem. -</p> - -<p> -O labio do guerreiro suspirou mais uma vez o doce nome e soluçou, como -se chamara outro labio amante. Iracema sentiu que sua alma se escapava -para embeber-se no osculo ardente. -</p> - -<p> -E a fronte reclinava, e a flôr do sorriso desabrochava já para -deixar-se colher. -</p> - -<p> -Subito a virgem tremeu; soltando-se rapida do braço que a cingia, -travou do arco. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="VII">VII</a></h4> - -<p> -Iracema passou entre as arvores, silenciosa como uma sombra: seu olhar -scintillante coava entre as folhas, quaes frouxos raios de estrellas: -ella escutava o silencio profundo da noite e aspirava as auras subtis -que <span id="Nota39">afflavam</span>. -</p> - -<p> -Parou. Uma sombra resvallava entre as ramas; e nas folhas crepitava um -passo ligeiro, se não era o roer de algum insecto. A pouco e pouco o -tenue rumor foi crescendo e a sombra avultou. -</p> - -<p> -Era um guerreiro. De um salto a virgem estava em face d'elle, tremula de -susto e mais de colera. -</p> - -<p> -—Iracema! exclamou o guerreiro recuando. -</p> - -<p> -—<span id="Nota40">Anhanga</span> turvou sem duvida o somno de -Irapuam, que o trouxe perdido ao bosque da jurema, onde nenhum guerreiro -penetra sem a vontade de Araken. -</p> - -<p> -—Não foi Anhanga, mas a lembrança de Iracema, que turvou o somno do -primeiro guerreiro tabajara. Irapuam desceu de seu ninho de aguia para -seguir na varzea a garça do rio. As vozes da taba contaram ao ouvido do -chefe que um extrangeiro era vindo á cabana de Araken. -</p> - -<p> -A virgem estremeceu. O guerreiro cravou n'ella o olhar abrazado: -</p> - -<p> -—O coração aqui no peito de Irapuam, ficou tigre. Pulou de raiva. -Veio farejando a presa. O extrangeiro está no bosque, e Iracema o -acompanhava. Quero beber-lhe o sangue todo: quando o sangue do guerreiro -branco correr nas veias do chefe tabajara, talvez o ame a filha de -Araken. -</p> - -<p> -A pupilla negra da virgem scintillou na treva, e de seu labio borbulhou -como gottas do leite caustico da euphorbia, um sorriso de despreso: -</p> - -<p> -—Nunca Iracema daria seu seio, que o espirito de Tupan habita só, ao -guerreiro mais vil dos guerreiros tabajaras! Torpe é o morcego porque -foge da luz e bebe o sangue da victima adormecida!... -</p> - -<p> -—Filha de Araken! Não assanha o jaguar! O nome de Irapuam voa mais -longe que o goaná do lago, quando sente a chuva além das serras. Que o -guerreiro branco venha, e o seio de Iracema se abra para o vencedor. -</p> - -<p> -—O guerreiro branco é hospede de Araken. A paz o trouxe aos campos do -Ipú, a paz o guarda. Quem offender o extrangeiro, offende o Pagé. -</p> - -<p> -Rugiu de sanha o chefe tabajara: -</p> - -<p> -—A raiva de Irapuam só ouve agora o grito da vingança. O extrangeiro -vae morrer. -</p> - -<p> -—A filha de Araken é mais forte que o chefe dos guerreiros, disse -Iracema travando da inubia. Ella tem aqui a voz de Tupan, que chama o -seu povo. -</p> - -<p> -—Mas ella não chamará! respondeu o chefe escarnecendo. -</p> - -<p> -—Não, porque Irapuam vae ser punido pela mão de Iracema. Seu primeiro -passo, é o passo da morte. -</p> - -<p> -A virgem retrahiu d'um salto o avanço que tomara, e vibrou o arco. O -chefe cerrou ainda o punho do formidavel tacape; mas pela vez primeira -sentio que pesava ao braço robusto. O golpe que devia ferir Iracema, -ainda não alçado, já lhe trespassava, a elle proprio, o coração. -</p> - -<p> -Conheceu quanto o varão forte, é pela sua mesma fortaleza, mais -vencido das grandes paixões. -</p> - -<p> -—A sombra de Iracema não esconderá sempre o extrangeiro á vingança -de Irapuam. Vil é o guerreiro, que se deixa proteger por uma mulher. -</p> - -<p> -Dizendo estas palavras, o chefe desappareceu entre as arvores. A virgem -sempre alerta volveu para o christão adormecido; e velou o resto da -noite a seu lado. As emoções recentes, que agitaram sua alma, a -abriram inda mais á doce affeição, que iam filtrando n'ella os olhos -do extrangeiro. -</p> - -<p> -Desejava abrigal-o contra todo o perigo, recolhel-o em si como em um -asylo impenetravel. Acompanhado o pensamento, seus braços cingiam a -cabeça do guerreiro, e a apertavam ao seio. -</p> - -<p> -Mas quando passou a alegria de vêr o extrangeiro salvo dos perigos da -noite, entrou-a mais viva a inquietação, com a lembrança dos novos -perigos que iam surgir. -</p> - -<p> -—O amor de Iracema é como o vento dos areaes; mata a flôr das -arvores: suspirou a virgem. -</p> - -<p> -E afastou-se lentamente. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="VIII">VIII</a></h4> - -<p> -A alvorada abriu o dia e os olhos do guerreiro branco. A luz da manhã -dissipou os sonhos da noite: e arrancou de sua alma a lembrança do que -sonhara. Ficou apenas um vago sentir, como fica na moita o perfume do -cacto que o vento da serra desfolha na madrugada. -</p> - -<p> -Não sabia onde estava. -</p> - -<p> -Á sahida do bosque sagrado encontrou Iracema: a virgem reclinava n'um -tronco aspero do arvoredo: tinha os olhos no chão: o sangue fugira das -faces; o coração lhe tremia nos labios, como gôtta de orvalho nas -folhas do bambú. -</p> - -<p> -Não tinha sorrisos, nem cores, a virgem indiana; não tem borbulhas, -nem rosas, a acacia que o sol crestou; não tem azul, nem estrellas, a -noite que enluctam os ventos. -</p> - -<p> -—As flôres da matta já abriram aos raios do sol; as aves já -cantaram: disse o guerreiro. Porque só Iracema curva a fronte e -emmudece? -</p> - -<p> -A filha do Pagé estremeceu. Assim estremece a verde palma, quando a -haste fragil foi abalada; rorejam do espato as lagrimas da chuva; e os -leques ciciam brandamente: -</p> - -<p> -—O guerreiro Cauby vae chegar á taba de seus irmãos. O extrangeiro -poderá partir com o sol que vem nascendo. -</p> - -<p> -—Iracema quer vêr o extrangeiro fora dos campos dos Tabajaras; então -a alegria voltará ao seu seio. -</p> - -<p> -—A juruty, quando a arvore secca, abandona o ninho em que nasceu. -Nunca mais a alegria voltará ao seio de Iracema: ella vae ficar, como o -tronco nú, sem ramas, nem sombras. -</p> - -<p> -Martim amparou o corpo tremulo da virgem; ella reclinou languida sobre o -peito do guerreiro, como o tenro pampano da baunilha que enlaça o rijo -galho do anjico. -</p> - -<p> -O mancebo murmurou: -</p> - -<p> -—Teu hospede fica, virgem dos olhos negros: elle fica para ver abrir -em tuas faces a flôr da alegria e para colher, como a abelha, o mel de -teus mimosos labios. -</p> - -<p> -Iracema soltou-se dos braços do mancebo, e olhou-o com tristeza: -</p> - -<p> -—Guerreiro branco, Iracema é filha do Pagé, e guarda o segredo da -jurema. O guerreiro que possuisse a virgem de Tupan morreria. -</p> - -<p> -—E Iracema? -</p> - -<p> -—Pois que tu morrias! -</p> - -<p> -Esta palavra foi sopro de tormenta. A cabeça do mancebo vergou e pendeu -sobre o peito: mas logo se ergueu. -</p> - -<p> -—Os guerreiros de meu sangue trazem a morte comsigo, filha dos -Tabajaras. Não a temem para si, não a poupam para o inimigo. Mas nunca -fóra do combate elles deixaram aberto o <span id="Nota41">camocim</span> da -virgem na taba de seu hospede. A verdade falou pela bôcca de Iracema. -O extrangeiro deve abandonar os campos dos Tabajaras. -</p> - -<p> -—Deve: respondeu a virgem como um ecco. -</p> - -<p> -Depois a sua voz suspirou: -</p> - -<p> -—O mel dos labios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no -tronco da <span id="Nota42">guabiroba</span>: tem na doçura o veneno. A -virgem dos olhos azues e dos <span id="Nota43">cabellos do sol</span> -guarda para seu guerreiro na taba dos brancos o mel da assucena. -</p> - -<p> -Martim afastou-se rapido, e voltou, mas lentamente, A palavra tremia em -seu labio: -</p> - -<p> -—O extrangeiro partirá para que o socego volte ao seio da virgem. -</p> - -<p> -—Tu levas a luz dos olhos de Iracema, e a flôr de sua alma. -</p> - -<p> -Reboa longe na selva um clamor extranho. Os olhos do mancebo alongam-se. -</p> - -<p> -—É o grito de alegria do guerreiro Cauby: disse a virgem. O irmão de -Iracema annuncia a sua boa chegada aos campos dos Tabajaras. -</p> - -<p> -—Filha de Araken, guia teu hospede á cabana. É tempo de partir. -</p> - -<p> -Elles caminharam par a par como dois jovens cervos ao pôr do sol -atravessam a capoeira recolhendo ao aprisco d'onde lhes traz a brisa um -faro suspeito. -</p> - -<p> -Quando passavam entre os joazeiros, viram que atravessava além o -guerreiro Cauby, vergando os hombros robustos ao peso da caça. Iracema -caminhou para elle. -</p> - -<p> -O extrangeiro entrou só na cabana. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="IX">IX</a></h4> - -<p> -O somno da manhã pousava nos olhos do Pagé como nevoas de bonança -pairam ao romper do dia sobre as profundas cavernas da montanha. -</p> - -<p> -Martim parou indeciso; mas o rumor de seu passo penetrou o ouvido do -ancião, e abalou o corpo decrepito. -</p> - -<p> -—Araken dorme! murmurou o guerreiro devolvendo o passo. -</p> - -<p> -O velho ficou immovel: -</p> - -<p> -—O Pagé dorme porque já Tupan voltou o rosto para a terra e a luz -correu os máus espiritos da treva. Mas o somno é leve nos olhos de -Araken, como o fumo do sapé no cocuruto da serra. Se o extrangeiro veiu -para o Pagé, fale; seu ouvido escuta. -</p> - -<p> -—O extrangeiro veiu, para te annunciar que parte. -</p> - -<p> -—O hospede é senhor na cabana de Araken; todos os caminhos estão -abertos para elle. Tupan o leve á taba dos seus. -</p> - -<p> -Vieram Cauby e Iracema: -</p> - -<p> -—Cauby voltou; disse o guerreiro tabajara. Traz a Araken o melhor da -sua caça. -</p> - -<p> -—O guerreiro Cauby é um grande caçador de montes e florestas. Os -olhos de seu pae gostam de vêl-o. -</p> - -<p> -O velho abriu as palpebras e cerrou-as logo: -</p> - -<p> -—Filha de Araken, escolhe para teu hospede o presente da volta, e -prepara o <span id="Nota44">moquem</span> da viagem. Se o extrangeiro -precisa de guia, o guerreiro Cauby, <span id="Nota45">senhor do caminho</span>, -o acompanhará. -</p> - -<p> -O somno voltou aos olhos do Pagé. -</p> - -<p> -Emquanto Cauby pendurava no fumeiro as peças de caça, Iracema colheu a -sua alva rede de algodão com franjas de pennas, e accommodou-a dentro -do urú de palha trançada. -</p> - -<p> -Martim esperava na porta da cabana. A virgem veiu para elle: -</p> - -<p> -—Guerreiro, que levas o somno de meus olhos, leva á minha rede -tambem. Quando n'ella dormires, falem em tua alma os sonhos de Iracema. -</p> - -<p> -—A tua rede, virgem dos Tabajaras, será minha companheira no deserto: -venha embora o vento frio da noite, ella guardará para o extrangeiro o -calor e o perfume do seio de Iracema. -</p> - -<p> -Cauby sahiu para ir á sua cabana, que ainda não tinha visto depois da -volta. Iracema foi preparar o moquem da viagem. Ficaram sós na cabana o -Pagé que resonava, e o mancebo com a sua tristeza. -</p> - -<p> -O sol transmontando, já começava a declinar para o occidente, quando o -irmão de Iracema tornou da grande taba. -</p> - -<p> -—<span id="Nota46">O dia vae ficar triste</span>, disse Cauby. A -sombra já caminha para a noite. É tempo de partir. -</p> - -<p> -A virgem pousou a mão de leve no punho da rêde de Araken. -</p> - -<p> -—Elle vae! murmuraram os labios tremulos. -</p> - -<p> -O Pagé levantou-se em pé no meio da cabana e accendeu o cachimbo. Elle -e o mancebo trocaram a fumaça da despedida: -</p> - -<p> -—Bem ido seja o hospede, como foi bem vindo á cabana de Araken. -</p> - -<p> -O velho andou até á porta, para soltar ao vento uma espessa baforada -de tabaco: quando o fumo a dissipou no ar, elle murmurou: -</p> - -<p> -—<span id="Nota47">Jurupary</span> se esconda para deixar passar o -hospede do Pagé. -</p> - -<p> -Araken voltou á rêde e dormiu de novo. O mancebo tomou as suas armas -mais pesadas que chegando suspendera ás varas da cabana e se dispôz a -partir. -</p> - -<p> -Adiante seguiu Cauby: a alguma distancia o extrangeiro: logo apóz -d'elle Iracema. -</p> - -<p> -Desceram a colina e entraram na matta sombria. O sabiá do sertão, -mavioso cantor da tarde, escondido nas moitas espessas da -<span id="Nota48">ubaia</span>, soltava já os preludios da suave endeixa. -</p> - -<p> -A virgem suspirou: -</p> - -<p> -—A tarde é a tristeza do sol. Os dias de Iracema vão ser longas -tardes sem manhã, até que venha para ella a grande noite. -</p> - -<p> -O mancebo voltara-se. Seu labio emmudeceu, mas os olhos falaram. Uma -lagrima correu pela face guerreira, como as humidades que durante os -ardores do estio transudam da escarpa dos rochedos. -</p> - -<p> -Cauby avançando sempre, sumira-se entre a densa ramagem. -</p> - -<p> -O seio da filha de Araken arfou, como o ésto da vaga que se franja de -espuma, e soluçou. Mas sua alma, negra de tristura, teve ainda um -pállido reflexo para illuminar a sêcca flôr das faces. Assim em noite -escura vem um fogo fatuo luzir as brancas areias do taboleiro. -</p> - -<p> -—Extrangeiro, toma o ultimo sorriso de Iracema... e foge! -</p> - -<p> -A bôcca do guerreiro pousou na bôcca mimosa da virgem. Ficaram ambas -assim unidas como dois fructos gemeos do araçá, que sahiram do seio da -mesma flôr. -</p> - -<p> -A voz de Cauby chamou o extrangeiro. Iracema abraçou para não cahir o -tronco de uma palmeira. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="X">X</a></h4> - -<p> -Na cabana silenciosa medita o velho Pagé. -</p> - -<p> -Iracema está apoiada no tronco rudo, que serve de esteio. Os grandes -olhos negros, fitos nos recortes da floresta e rasos de pranto, parece -estão n'aquelles olhares longos e tremulos enfiando e desfiando os -aljofares das lagrimas, que rorejam as faces. -</p> - -<p> -A ará, pousada no girau fronteiro, alonga para sua formosa senhora os -verdes tristes olhos. Desde que o guerreiro branco pisou a terra dos -Tabajaras, Iracema a esqueceu. -</p> - -<p> -Os roseos labios da virgem não se abriram mais para que ella colhesse -entre elles a polpa da fructa ou a papa do milho verde; nem a dôce mão -a affagára uma só vez, alisando a penugem dourada da cabeça. -</p> - -<p> -Se repetia o mavioso nome da senhora, o sorriso de Iracema já não se -voltava para ella, nem o ouvido parecia escutar a voz da companheira e -amiga, que d'antes tão suave era ao seu coração. -</p> - -<p> -Triste d'ella! A gente tupy a chamava <span id="Nota49">jandaia</span>, -porque sempre alegre estrugia os campos com seu canto fremente. Mas agora, -triste e muda, desdenhada de sua senhora, não parecia mais a linda jandaia, -e sim o feio urutão que sómente sabe gemer. -</p> - -<p> -O sol remontou a umbria das serras; seus raios douravam apenas o viso -das eminencias. -</p> - -<p> -A surdina merencoria da tarde, que precede o silencio da noite, -começava de velar os crebros rumores do campo. Uma ave nocturna, talvez -illudida com a sombra mais espessa do bosque, desatou o estridulo. -</p> - -<p> -O velho ergueu a fronte calva: -</p> - -<p> -—Foi o canto da inhuma que accordou o ouvido de Araken? disse elle -admirado. -</p> - -<p> -A virgem estremecêra; já fóra da cabana voltou-se para responder á -pergunta do Pagé: -</p> - -<p> -—É o grito de guerra do guerreiro Cauby! -</p> - -<p> -Quando o segundo pio da <span id="Nota50">inhuma</span> resoou, Iracema -corria na matta, como a corça perseguida pelo caçador. Só respirou chegando -á campina, que recortava o bosque, como um grande lago. -</p> - -<p> -Quem seus olhos primeiro viram, Martim, estava tranquillamente sentado -em uma sapopema, olhando o que passava alli. Contra, cem guerreiros -tabajaras com Irapuam á frente, formavam arco. O bravo Cauby os -affrontava a todos, com o olhar cheio de ira e as armas valentes -empunhadas na mão robusta: -</p> - -<p> -O chefe exigira a entrega do extrangeiro, e o guia respondera -simplesmente: -</p> - -<p> -—Matae Cauby, antes. -</p> - -<p> -A filha do Pagé passara como uma flecha: eil-a deante de Martim oppondo -tambem seu corpo gentil aos golpes dos guerreiros. Irapuam soltou o -bramido da onça atacada na furna. -</p> - -<p> -—Filha do Pagé, disse Cauby em voz baixa. Conduz o extrangeiro á -cabana: só Araken pode salval-o. -</p> - -<p> -Iracema voltou-se para o guerreiro branco: -</p> - -<p> -—Vem! -</p> - -<p> -Elle ficou immovel. -</p> - -<p> -—Se tu não vens, disse a virgem, Iracema morrerá comtigo. -</p> - -<p> -Martim ergueu-se; mas longe de seguir á virgem, caminhou direito a -Irapuam. A sua espada flammejou no ar. -</p> - -<p> -—Os guerreiros do meu sangue, chefe, jamais recusaram combate. Se -aquelle que tu vês não foi o primeiro a provocal-o, é porque seus -paes lhe ensinaram a não derramar sangue na terra hospedeira. -</p> - -<p> -O chefe tabajara rugiu de alegria; sua mão possante brandio o tacape. -Mas os dois campeões mal tiveram tempo de medir-se com os olhos; quando -fendiam o primeiro golpe, já Cauby e Iracema estavam entre elles. -</p> - -<p> -A filha de Araken debalde rogava ao christão, debalde o cingia em seus -braços buscando arrancal-o ao combate. De seu lado Cauby em vão -provocava Irapuam para attrahir a si a raiva do chefe. -</p> - -<p> -A um gesto de Irapuam, os guerreiros afastaram os dois irmãos; o -combate proseguiu. -</p> - -<p> -De repente o rouco som da <span id="Nota51">inubia</span> reboou pela -matta; os filhos da serra estremeceram reconhecendo o estridulo do buzio -guerreiro dos Pytiguaras, senhores das praias, encombradas de coqueiros. O -ecco vinha da grande taba, que o inimigo talvez assaltava já. -</p> - -<p> -Os guerreiros precipitaram-se, levando por deante o chefe. Com o -extrangeiro só ficou a filha de Araken. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XI">XI</a></h4> - -<p> -Os guerreiros tabajaras, acorridos á taba, esperavam o inimigo deante -da caiçara. -</p> - -<p> -Não vindo elles sahiram a buscal-o. -</p> - -<p> -Bateram as matas em tôrno e percorreram os campos; nem vestigios -encontraram da passagem dos Pytiguaras; mas o conhecido fremito do buzio -das praias tinha resoado ao ouvido dos guerreiros da montanha; não -havia duvidar. -</p> - -<p> -Suspeitou Irapuam que fosse um ardil da filha de Araken para salvar o -extrangeiro; e caminhou direito á cabana do Pagé. Como trota o -<span id="Nota52">guará</span> pela orla da mata, quando vae seguindo o -rastro da presa escápula, assim estugava o passo o sanhudo guerreiro. -</p> - -<p> -Araken viu entrar em sua cabana o grande chefe da nação tabajara, e -não se moveu. Sentado na rede, com as pernas cruzadas, escutava -Iracema. A virgem referia os successos da tarde: avistando a figura -sinistra de Irapuam saltou sobre o arco, e uniu-se ao flanco do joven -guerreiro branco. -</p> - -<p> -Martim a affastou docemente de si, e promoveu o passo. -</p> - -<p> -A protecção, de que o cercava a elle guerreiro a virgem tabajara, o -desgostava. -</p> - -<p> -—Araken, a vingança dos tabajaras espera o guerreiro branco; Irapuam -veiu buscal-o. -</p> - -<p> -—O hospede é amigo de Tupan; quem offender o extrangeiro ouvirá o -rugir do trovão. -</p> - -<p> -—O extrangeiro foi quem offendeu a Tupan, roubando a sua virgem, que -guarda os sonhos da jurema. -</p> - -<p> -—Tua bôcca mente como o ronco da <span id="Nota53">jiboia</span>: -exclamou Iracema. -</p> - -<p> -Martim disse: -</p> - -<p> -—Irapuam é vil e indigno de ser chefe de guerreiros valentes! -</p> - -<p> -O Pagé falou grave e lento: -</p> - -<p> -—Se a virgem abandonou ao guerreiro branco a flôr de seu corpo, ella -morrerá; mas o hospede de Tupan é sagrado; ninguem lhe tocará, todos -o servirão. -</p> - -<p> -Irapuam bramio; o grito rouco troou nas arcas do peito, como o fremito -da <span id="Nota54">sucury</span> na profundeza do rio. -</p> - -<p> -—A raiva de Irapuam não pode mais ouvir-te, velho Pagé! Caia ella -sobre ti, se ousas subtrahir o extrangeiro á vingança dos Tabajaras. -</p> - -<p> -O velho Andira, irmão do Pagé, entrou na cabana; trazia no punho o -terrivel tacape e nos olhos uma raiva ainda mais terrivel. -</p> - -<p> -—O morcego vem te chupar o sangue, <span id="Nota55">se é que tens -sangue e não mel</span> nas veias, tu que ameaças em sua cabana o velho -Pagé. -</p> - -<p> -Araken affastou o irmão: -</p> - -<p> -—Paz e silencio, Andira. -</p> - -<p> -O Pagé desenvolvera a alta e magra estatura, como a caninana assanhada, -que se enrista sobre a cauda, para affrontar a victima em face. As rugas -affundaram; e repuxando as pelles engelhadas esbugalharam os dentes -alvos e afilados: -</p> - -<p> -—Ousa um passo mais, e as iras de Tupan te esmagarão sob o peso -d'esta mão sêcca e mirrada! -</p> - -<p> -—N'este momento, Tupan não é comtigo! replicou o chefe. -</p> - -<p> -O Pagé rio; e o seu riso sinistro reboou pelo espaço como o regougo da -ariranha. -</p> - -<p> -—<span id="Nota56">Ouve seu trovão</span>, e treme em teu seio, -guerreiro, como a terra em sua profundeza. -</p> - -<p> -Araken proferindo essa palavra terrivel, avançou até o meio da cabana; -alli ergueu a grande pedra e calcou o pé com fôrça no chão: subito, -abriu-se a terra. Do antro profundo sahiu um medonho gemido, que parecia -arrancado das entranhas do rochedo. -</p> - -<p> -Irapuam não tremeu, nem enfiou de susto; mas sentiu turvar-se a luz -nos olhos, e a voz nos labios. -</p> - -<p> -—O senhor do trovão é por ti; o senhor da guerra será por Irapuam. -</p> - -<p> -O torvo guerreiro deixou a cabana; em pouco seu grande vulto -mergulhou-se nas sombras do crepusculo. -</p> - -<p> -O Pagé e seu irmão travaram a pratica na porta da cabana. -</p> - -<p> -Martim ainda surprêso do que vira, não tirava os olhos da funda cava, -que a planta do velho Pagé abrira no chão da cabana. Um surdo sumor, -como o echo das ondas quebrando nas praias, ruidava alli. -</p> - -<p> -O guerreiro christão scismava; elle não podia crêr que o Deus dos -Tabajaras desse ao seu sacerdote tamanho poder. -</p> - -<p> -Araken percebendo o que passava n'alma do extrangeiro, accendeu o -cachimbo e travou do maracá: -</p> - -<p> -—É tempo de applacar as iras de Tupan, e calar a voz do trovão. -</p> - -<p> -Disse e partiu da cabana. -</p> - -<p> -Iracema achegou-se então do mancebo; levava os labios em riso, os olhos -em jubilo: -</p> - -<p> -—O coração de Iracema está como o <span id="Nota57">abaty n'agua</span> -do rio. Ninguem fará mal ao guerreiro branco na cabana de Araken. -</p> - -<p> -—Arreda-te do inimigo, virgem dos Tabajaras; respondeu o extrangeiro -com asperesa de voz. -</p> - -<p> -Voltando brusco para o lado oposto, furtou o semblante aos olhos ternos -e queixosos da virgem. -</p> - -<p> -—Que fez Iracema, para que o guerreiro branco desvie seus olhos -d'ella, como se fôra o verme da terra? -</p> - -<p> -As falas da virgem resoaram docemente no coração de Martim. Assim -resoam os murmurios da aragem nas frondes da palmeira. O mancebo sentiu -raiva de si, e pena d'ella: -</p> - -<p> -Não ouves tu, virgem formosa? exclamou elle apontando para o antro -fremente. -</p> - -<p> -—É a voz do Tupan! -</p> - -<p> -—Teu Deus falou pela bôcca do Pagé. Se a virgem de Tupan abandonar ao -extrangeiro a flôr de seu corpo, ella morrerá!... -</p> - -<p> -Iracema pendeu a fronte abatida: -</p> - -<p> -—Não é voz de Tupan que ouve teu coração, guerreiro de longes -terras, é o canto da virgem branca que te chama! -</p> - -<p> -O rumor extranho que sahia das profundezas da terra, apagou-se de -repente: fez-se na cabana tão grande silencio, que ouvia-se pulsar o -sangue na arteria do guerreiro, e tremer o suspiro no labio da virgem. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XII">XII</a></h4> - -<p> -O dia ennegreceu; era noite já. -</p> - -<p> -O Pagé tornára á cabana; sopesando de novo a grande lage, fechou com -ella a bôcca do antro. Cauby chegára tambem da grande taba, onde com -seus irmãos guerreiros se recolhera depois que bateram a floresta, em -busca do inimigo Pytiguara. -</p> - -<p> -No meio da cabana, entre as redes armadas em quadro, extendeu Iracema a -esteira da carnauba, e sobre ella serviu os restos da caça, e a -provisão de vinhos da ultima lua. Sé o guerreiro tabajara achou sabor -na ceia, porque o fel do coração que a tristeza expreme não amargava -seu labio. -</p> - -<p> -O Pagé bebia no cachimbo o fumo sagrado de Tupan, que lhe enchia as -arcas do peito: o extrangeiro respirava, ar ás golfadas para -refrescar-lhe o sangue effervescente; a virgem distillava sua alma como -o mel de um favo, nos crebros soluços que lhe estalavam entre os labios -tremulos. -</p> - -<p> -Já partiu Cauby para a grande taba; o Pagé traga as baforadas do fumo, -que prepara o mysterio do sagrado rito. -</p> - -<p> -Levanta-se no resomno da noite um grito vibrante, que remonta ao céo. -</p> - -<p> -Martim ergue a fronte e inclina o ouvido. Outro clamor semelhante resoa. -O guerreiro murmura, que o ouça a virgem e só ella: -</p> - -<p> -—Escutou Iracema, cantar a gaivota? -</p> - -<p> -—Iracema escutou o grito de uma ave que ella não conhece. -</p> - -<p> -—É a atyaty, a garça do mar, e tu és a virgem da serra, que nunca -desceu as alvas praias onde arrebentam as vagas. -</p> - -<p> -—As praias são dos Pytiguaras, senhores das Palmeiras. -</p> - -<p> -Os guerreiros da grande nação que habitava as bordas do mar, se -chamavam a si mesmos Pytiguaras, senhores dos valles; mas os Tabajaras, -seus inimigos, por escarneo os apellidavam Potyuaras, comedores de -camarão. -</p> - -<p> -Iracema não quiz offender o guerreiro branco; por isso falando a -respeito dos Pytiguaras, não lhes recusou o nome guerreiro que elles -haviam tomado para si. -</p> - -<p> -O extrangeiro reteve por um instante a palavra no seu labio prudente, -emquanto reflectia: -</p> - -<p> -—O canto da gaivota é o grito do guerra do valente Poty, amigo de teu -hospede! -</p> - -<p> -A virgem estremeceu por seus irmãos. A fama do bravo Poty, irmão de -Jacaúna, subio das ribeiras do mar ás alturas da serra; rara é a -cabana onde já não rugiu contra elle o grito da vingança, porque em -quasi todas o golpe de seu valido tacape deitou um guerreiro tabajara em -seu camocim. -</p> - -<p> -Iracema cuidou que Poty vinha á frente de seus guerreiros para livrar o -amigo. Era elle sem duvida que fizera retroar o buzio das praias, no -momento do combate. Foi com um tom misturado de doçura e tristeza que -replicou: -</p> - -<p> -—O extrangeiro está salvo; os irmãos de Iracema vão morrer, porque -ella não falará. -</p> - -<p> -—Saia essa tristeza de tua alma. O extrangeiro partindo-se de teus -campos, virgem tabajara, não deixará n'elles rasto de sangue, como o -tigre esfaimado. -</p> - -<p> -Iracema tomou a mão do guerreiro branco e beijou-a. -</p> - -<p> -—Teu sorriso, continúa elle, apagou a lembrança do mal que elles me -querem. -</p> - -<p> -Martim ergueu-se e marchou para a porta. -</p> - -<p> -—Onde vae o guerreiro branco? -</p> - -<p> -—Adeante de Poty. -</p> - -<p> -—O hospede de Araken não pode sahir d'esta cabana, porque os -guerreiros de Irapuam o matarão. -</p> - -<p> -—Um guerreiro só deve protecção a Deus e a suas armas. Não carece -que o defendam os velhos e as mulheres. -</p> - -<p> -—Não vale um guerreiro só contra mil guerreiros; valente e forte é o -tamanduá, que mordem os gatos selvagens por serem muitos e o acabam. -Tuas armas só chegam até onde mede a sombra de teu corpo; as armas -d'elles voam alto e direitos como o anajê. -</p> - -<p> -—Todo o guerreiro tem seu dia. -</p> - -<p> -—Não queres tu que morra Iracema, e queres que ella te deixe morrer! -</p> - -<p> -Martim ficou perplexo: -</p> - -<p> -—Iracema irá ao encontro do chefe Pytiguara e trará a seu hospede as -falas do guerreiro amigo. -</p> - -<p> -O Pagé sahiu emfim de sua contemplação. O maracá rugiu-lhe na -dextra; tiniram os guisos com o passo hirto e lento. -</p> - -<p> -Chamou elle a filha de parte: -</p> - -<p> -—Se os guerreiros de Irapuam vierem contra a cabana, levanta a pedra -e esconde o extrangeiro no seio da terra. -</p> - -<p> -—O hospede não deve ficar só; espera que volte Iracema. Ainda não -cantou a inhuma. -</p> - -<p> -Tornou a sentar-se na rede o velho. A virgem partiu, cerrando a porta da -cabana. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XIII">XIII</a></h4> - -<p> -Avança a filha de Araken nas trevas; pára e escuta. -</p> - -<p> -O grito da gaivota terceira vez resôa ao seu ouvido; ella vae direito -ao logar d'onde partiu; chega á borda de um tanque; seu olhar investiga -a escuridão, e nada vê do que busca. -</p> - -<p> -A voz maviosa, debil como susurro de colibri, resôa no silencio. -</p> - -<p> -—Guerreiro Poty, teu irmão branco te chama pela bôcca de Iracema. -</p> - -<p> -Só o ecco lhe respondeu. -</p> - -<p> -—A filha de teus inimigos vem a ti, porque o extrangeiro te ama, e -ella ama o extrangeiro. -</p> - -<p> -A lisa lace do lago fendeu-se; e um vulto se mostra, que nada para a -margem, e surge fora. -</p> - -<p> -—Foi Martim quem te mandou, pois tu sabes o nome de Poty, seu irmão -na guerra. -</p> - -<p> -—Fala, chefe Pytiguara; o guerreiro branco espera. -</p> - -<p> -—Torna a elle e diz que Poty é chegado para o salvar. -</p> - -<p> -—Elle sabe, mandou-me para te ouvir. -</p> - -<p> -—As falas de Poty sahirão de sua bôcca para o ouvido de seu irmão -branco. -</p> - -<p> -—Espera então que Araken parta e a cabana fique deserta; eu te -guiarei á presença do extrangeiro. -</p> - -<p> -—Nunca, filha dos Tabajaras, um guerreiro Pytiguara passou a soleira -da cabana inimiga, se não foi como vencedor. Conduz aqui o guerreiro do -mar. -</p> - -<p> -—A vingança de Irapuam fareja em roda da cabana de Araken. Trouxe o -irmão do extrangeiro bastantes guerreiros Pytiguaras para o deffender e -salvar? -</p> - -<p> -Poty reflectiu: -</p> - -<p> -—Conta, virgem das serras, o que aconteceu em teus campos depois que -a elles chegou o guerreiro do mar. -</p> - -<p> -Iracema referiu como a colera de Irapuam se havia assanhado contra o -extrangeiro, até que a voz de Tupan, chamada pelo Pagé, tinha -apasiguado seu furor. -</p> - -<p> -—A raiva de Irapuam é como a andira; foge da luz e voa na treva. -</p> - -<p> -A mão de Poty cerrou súbito os labios da virgem; sua fala parecia um -sopro. -</p> - -<p> -—Suspende a voz e o respiro, virgem das florestas; o ouvido inimigo -escuta na sombra. -</p> - -<p> -As folhas crepitavam de manso, como se por ellas passasse a fragueira -nambú. O rumor partido da orla da matta, vinha discorrendo pelo valle. -</p> - -<p> -O valente Poty, resvallando pela relva, como o ligeiro camarão. de que -elle tomara o nome e a viveza, desappareceu no lago profundo. A agua -não soltou um murmurio, e cerrou sobre elle sua limpida onda. -</p> - -<p> -Iracema voltou á cabana; em meio do caminho seus olhos perceberam as -sombras de muitos guerreiros que rojavam pelo chão, como a intanha. -</p> - -<p> -Araken vendo-a entrar, partiu. -</p> - -<p> -A virgem tabajara contou a Martim o que ouvira de Poty; o guerreiro -christão ergueu-se de um impeto para correr á defeza de seu irmão -Pytiguara. Cingiu-lhe o collo Iracema com os lindos braços: -</p> - -<p> -—O chefe não carece de ti; elle é filho das aguas; as aguas o -protegem. Mais tarde o extrangeiro ouvirá em seus ouvidos as falas -amigas. -</p> - -<p> -—Iracema, é tempo que teu hospede deixe a cabana do Pagé e os campos -dos Tabajaras. Elle não tem medo dos guerreiros de Irapuam, tem medo -dos olhos da virgem de Tupan. -</p> - -<p> -—Elles fugirão de ti. -</p> - -<p> -—Fuja d'elles o extrangeiro, como o oitibó da estrella da manhã. -</p> - -<p> -Martim promoveu o passo. -</p> - -<p> -—Vae, guerreiro ingrato; vae matar teu irmão primeiro, depois a ti. -Iracema te seguirá até aos campos alegres onde vão as sombras dos que -foram. -</p> - -<p> -—Matar meu irmão, dizes tu, virgem cruel? -</p> - -<p> -—Teu rasto guiará o inimigo aonde elle se occulta. -</p> - -<p> -O christão estacou em meio da cabana; e alli permaneceu mudo e quedo. -Iracema receosa de fital-o, tinha os olhos postos na sombra do -guerreiro, que a chamma do fogo projectava na vetusta parede da cabana. -</p> - -<p> -O cão felpudo, deitado no borralho, deu signal de que se approximava -gente amiga. A porta entretecida dos talos de carnaúba foi aberta por -fora. Cauby entrou. -</p> - -<p> -—O cauim perturbou o espirito dos guerreiros; elles vem contra o -extrangeiro. -</p> - -<p> -A virgem ergue-se de um impeto. -</p> - -<p> -—Levanta a pedra que fecha a garganta de Tupan, para que ella esconda -o extrangeiro. -</p> - -<p> -O guerreiro tabajara, sopesando a lage enorme, emborcou-a no chão. -</p> - -<p> -—Filho de Araken, deita na porta da cabana, e nunca mais te levantes -da terra, se um guerreiro passar por cima do teu corpo. -</p> - -<p> -Cauby obedeceu: a virgem cerrou a porta. -</p> - -<p> -Decorreu breve trato. Resoa perto o estrupido dos guerreiros; travam-se -as vozes iradas de Irapuam e Cauby. -</p> - -<p> -—Elles vêm; mas Tupan salvará seu hospede. -</p> - -<p> -N'esse instante, como se o Deus do trovão ouvisse as palavras de sua -virgem, o antro mudo em principio retroou surdamente. -</p> - -<p> -—Ouve! É a voz de Tupan. -</p> - -<p> -Iracema cerra a mão do guerreiro, e o leva á borda do antro. Somem-se -ambos nas entranhas da terra. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XIV">XIV</a></h4> - -<p> -Os guerreiros tabajaras, excitados com as copiosas libações do -espumante cauim, se inflammam á voz de Irapuam, que tantas vezes os -guiou ao combate, quantas á victoria. -</p> - -<p> -Aplaca o vinho a sêde do corpo; accende outra sêde maior na alma -feroz. Rugem vingança contra o extrangeiro audaz que affrontando suas -armas offende o Deus de seus paes, e o chefe da guerra, o primeiro -varão tabajara. -</p> - -<p> -Lá tripudiam de furor, e arremettem pelas sombras; a luz vermelha do -<span id="Nota58">ubiratan</span>, que brilha ao longe, os guia á cabana de -Araken. De espaço em espaço erguem-se do chão os que primeiro vieram para -vigiar o inimigo. -</p> - -<p> -—O Pagé está na floresta! murmuram elles. -</p> - -<p> -—O extrangeiro? pergunta Irapuam. -</p> - -<p> -—Na cabana com Iracema. -</p> - -<p> -O grande chefe lança o terrivel salto; já é chegado á porta da -cabana, e com elle seus valentes guerreiros. -</p> - -<p> -O vulto de Cauby enche o vão da porta; suas armas guardam deante d'elle -o espaço de um bote do <span id="Nota59">maracajá</span>. -</p> - -<p> -—Vis guerreiros são aquelles que atacam em bando como os -<span id="Nota60">caetetús</span>. O <span id="Nota61">jaguar</span>, senhor -da floresta, e o <span id="Nota62">anajê</span>, senhor das nuvens, -combatem só o inimigo. -</p> - -<p> -—Morda o pó a bocca torpe que levanta a voz contra o mais valente -guerreiro dos guerreiros tabajaras. -</p> - -<p> -Proferidas estas palavras, ergue o braço de Irapuam o rigido tacape, -mas estaca no ar; as entranhas da terra outra vez rugem, como rugiram, -quando Araken accordou a voz tremenda de Tupan. -</p> - -<p> -Levantam os guerreiros medonho alarido; e cercando seu chefe o arrebatam -ao funesto lugar e á colera de Tupan, contra elles concitado. -</p> - -<p> -Cauby extende-se de novo na soleira da porta; seus olhos adormecem; mas -seu ouvido vella no somno. -</p> - -<p> -A voz de Tupan emmudeceu. -</p> - -<p> -Iracema e o christão perdidos nas entranhas da terra, descem a gruta -profunda. Subito uma voz que vinha reboando pela crasta, encheu seus -ouvidos: -</p> - -<p> -—O guerreiro do mar escuta a falla de seu irmão? -</p> - -<p> -—É Poty, o amigo de teu hospede: disse o christão para a virgem. -</p> - -<p> -Iracema estremeceu: -</p> - -<p> -—Elle fala pela bôcca de Tupan. -</p> - -<p> -Martim respondeu emfim ao Pytiguara. -</p> - -<p> -—As falas de Poty entram n'alma de seu irmão. -</p> - -<p> -—Nenhum outro ouvido escuta? -</p> - -<p> -—Os da virgem que duas vezes em um sol defendeu a vida de teu irmão! -</p> - -<p> -—A mulher é fraca; o tabajara traidor; e o irmão de Jacaúna -prudente. -</p> - -<p> -Iracema suspirou: e pousou a cabeça no peito do mancebo: -</p> - -<p> -—Senhor de Iracema, cerra seus ouvidos, para que ella não ouça. -</p> - -<p> -Martim repelliu docemente a gentil fronte: -</p> - -<p> -—Falle o chefe Pytiguara; só o escutam ouvidos amigos e fieis. -</p> - -<p> -—Tu ordenas, Poty fala. Antes que o sol se levante na serra, o -guerreiro do mar deve partir para as margens do ninho das garças; a -estrella morta o guiará ás alvas praias. Nenhum tabajara o seguirá, -porque a inubia dos Pytiguaras rugirá da banda da serra. -</p> - -<p> -—Quantos guerreiros Pytiguaras acompanham seu chefe valente? -</p> - -<p> -—Nenhum; Poty veiu só, com suas armas. Quando os espiritos máus da -floresta separaram o guerreiro do mar de seu irmão, Poty veiu em -seguimento do rastro. Seu coração não deixou que voltasse para chamar -os guerreiros da sua taba; mas expediu seu cão fiel ao grande Jacaúna. -</p> - -<p> -—O chefe Pytiguara está só; não deve rugir a inubia que chamará -contra si todos os guerreiros tabajaras. -</p> - -<p> -—É preciso para salvar o irmão branco; Poty zombará de Irapuam, como -zombou quando combatiam cem contra ti. -</p> - -<p> -A filha do Pagé, que ouvira callada, debruçou-se ao ouvido do -christão: -</p> - -<p> -—Iracema quer-te salvar e a teu irmão; ella tem seu pensamento. O -chefe Pytiguara é valente e audaz; Irapuam é manhoso e traiçoeiro -como a <span id="Nota63">acauan</span>. Antes que chegues á floresta, -cahirás; e teu irmão da outra banda cahirá comtigo. -</p> - -<p> -—Que fará a virgem tabajara para salvar o extrangeiro e seu irmão? -perguntou Martim. -</p> - -<p> -—Mais um sol e outro, e a lua das flores vae nascer. É o tempo da -festa, em que os guerreiros tabajaras passam a noite no bosque sagrado, -e recebem do Pagé os sonhos alegres. Quando estiverem todos -adormecidos, o guerreiro branco deixará os campos do Ipú, e os olhos -de Iracema, mas não sua alma. -</p> - -<p> -Martim estreitou a virgem ao seio; mas logo a repelliu. O toque de seu -corpo, doce como a assucena da mata, e quente como o ninho do beija -flôr, espinhou seu coração; porque lhe recordou as palavras terriveis -do Pagé. -</p> - -<p> -A voz do christão disse a Poty o pensamento de Iracema; o chefe -Pytiguara, prudente como o tamanduá, pensou e respondeu: -</p> - -<p> -—A sabedoria fallou pela bôcca da virgem tabajara Poty espera o -nascimento da lua. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XV">XV</a></h4> - -<p> -Nasceu o dia e expirou. -</p> - -<p> -Já brilha na cabana de Araken o fogo, companheiro da noite. Correm -lentas e silenciosas no azul do céo, as estrellas, filhas da lua, que -esperam a volta da sua mãe ausente. -</p> - -<p> -Martim se emballa docemente; e como a alva rêde que vae e vem, sua -vontade oscilla de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura -dos castos affectos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores. -</p> - -<p> -Iracema recosta-se langue ao punho da rêde; seus olhos negros e -fulgidos, ternos olhos de sabiá, buscam o extrangeiro, e lhe entram n'alma. -O christão sorri; a virgem palpita; como o <span id="Nota64">sahy</span>, -fascinado pela serpente, vae declinando o lascivo talhe, que se prostra -sobre o peito do guerreiro. -</p> - -<p> -Já o extrangeiro a prime ao seio; e o labio avido busca o labio que o -espera, para celebrar n'esse adyto d'alma, o hymineo do amor. -</p> - -<p> -No recanto escuro o velho Pagé, immerso em sua contemplação e alheio -ás cousas d'este mundo, soltou um gemido doloroso. Pressentira o -coração o que não viram os olhos? Ou foi algum funesto presagio para -a raça de seus filhos, que assim echoou n'alma de Araken? -</p> - -<p> -Ninguem o soube. -</p> - -<p> -O christão repelliu do seio a virgem indiana. Elle não deixará o -rastro da desgraça na cabana hospedeira. Cerra os olhos para não vêr; -e enche sua alma com o nome e a veneração do seu Deus: -</p> - -<p> -—Christo!... Christo!... -</p> - -<p> -A serenidade volta ao seio do guerreiro branco, mas todas as vezes que -seu olhar pousa sobre a virgem tabajara, elle sente correr-lhe pelas -veias uma scentelha de ardente chamma. Assim quando a creança -imprudente revolve o brasido de intenso fogo, saltam as faúlhas -inflammadas que lhe queimam o corpo. -</p> - -<p> -Fecha os olhos o christão, mas na sombra de seu pensamento surge a -imagem da virgem, talvez mais bella. Em balde chama elle o somno ás -palpebras fatigadas; ellas se abrem, máu grado seu. -</p> - -<p> -Desce-lhe do céo ao atribulado pensamento uma inspiração: -</p> - -<p> -—Virgem formosa do sertão, esta é a ultima noite que teu hospede -dorme na cabana de Araken, onde nunca viera, para teu bem e seu. Faze -que seu somno seja alegre e feliz. -</p> - -<p> -—Manda; Iracema te obedece. Que pode ella para tua alegria? -</p> - -<p> -O christão falou submisso, para que não o ouvisse o velho Pagé: -</p> - -<p> -—A virgem de Tupan guarda os sonhos da jurema que são doces e -saborosos! -</p> - -<p> -Um triste sorriso pungiu os labios de Iracema: -</p> - -<p> -—O extrangeiro vae viver para sempre á <span id="Nota66">cintura da -virgem</span> branca; nunca mais seus olhos verão a filha de Araken; e elle -quer que o somno já feche suas palpebras, e o sonho o leve á terra de seus -irmãos! -</p> - -<p> -—O somno é o descanço do guerreiro, disse Martim; e o sonho a alegria -d'alma. O extrangeiro não quer levar comsigo a tristeza da terra -hospedeira, nem deixal-a no coração de Iracema! -</p> - -<p> -A virgem ficou immovel. -</p> - -<p> -—Vae e torna com o vinho de Tupan. -</p> - -<p> -Quando Iracema foi de volta, já o Pagé não estava na cabana; tirou do -seio o vaso que alli trazia occulto sob a <span id="Nota65">carioba</span> -de algodão entretecida de pennas. Martim lh'o arrebatou das mãos, e libou -as gottas poucas do verde e amargo licor. Não tardou que a rede recebesse -seu corpo desfallecido. -</p> - -<p> -Agora podia viver com Iracema, e colher nos seus labios o beijo, que -alli viçava entre sorrisos, como o fructo na corolla da flor. Podia -amal-a, e sugar d'esse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno no seio -da virgem. -</p> - -<p> -O goso era vida, pois o sentia mais vivo e intenso; o mal era sonho e -illusão, que da virgem elle não possuia mais que a imagem. -</p> - -<p> -Iracema se affastara oppressa e suspirosa. -</p> - -<p> -Abriram-se os braços do guerreiro e seus labios; o nome da virgem -resoou docemente. -</p> - -<p> -A juruty, que divaga pela floresta, ouve o terno arrulho do companheiro; -bate as azas e vôa a conchegar-se ao tepido ninho. Assim a virgem do -sertão, aninhou-se nos braços do guerreiro. -</p> - -<p> -Quando veiu a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta -que dormiu no seio do formoso cacto. Em seu lindo semblante accendia o -pejo vivos rubores; e como entre os arrebões da manhã scintilla o -primeiro raio do sol, em suas faces incendidas rutilava o primeiro -sorriso da esposa, aurora de fruido amor. -</p> - -<p> -Martim vendo a virgem unida ao seu coração, cuidou que o sonho -continuava; cerrou os olhos para tornal-os a abrir. -</p> - -<p> -A pocema dos guerreiros, troando pelo valle, o arrancou ao doce engano; -sentiu que já não sonhava, mas vivia. Sua mão cruel abafou nos labios -da virgem o beijo que alli se espanejava. -</p> - -<p> -—Os beijos de Iracema são doces no sonho; o guerreiro branco encheu -d'elles sua alma. Na vida, os labios da virgem de Tupan, amargam e doem -como o espinho da jurema. -</p> - -<p> -A filha de Araken escondeu no coração a sua alegria. Ficou timida e -inquieta, como a ave que presente a borrasca no horisonte. Affastou-se -rapida, e partiu. -</p> - -<p> -As aguas do rio depuraram o corpo casto da recente esposa. -</p> - -<p> -A jandaia não tornou á cabana. -</p> - -<p> -Tupan já não tinha sua virgem na terra dos Tabajaras. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XVI">XVI</a></h4> - -<p> -O alvo disco da lua surgiu no horisonte. -</p> - -<p> -A luz brilhante do sol empallidece a virgem do céo como o amor do -guerreiro desmaia a face da esposa. -</p> - -<p> -—<span id="Nota67">Jacy</span>!... Mãe nossa!... exclamaram os -guerreiros tabajaras. -</p> - -<p> -E brandindo os arcos lançaram ao céo com a chuva das flechas o canto -da lua nova: -</p> - -<p> -"Veiu no céo a mãe dos guerreiros; já volta o rosto para vêr seus -filhos. Ella traz as aguas, que enchem os rios e a polpa do cajú. -</p> - -<p> -"Já veiu a esposa do sol; já sorri ás virgens da terra filhas suas. A -doce luz accende O amor no coração dos guerreiros e fecunda o seio da -joven mãe." -</p> - -<p> -Cae a tarde. -</p> - -<p> -Folgam as mulheres e os meninos na vasta ocara; os mancebos, que ainda -não ganharam nome de guerra por algum feito brilhante, discorrem no -valle. -</p> - -<p> -Os guerreiros seguem Irapuam ao bosque sagrado, onde os espera o Pagé e -sua filha para o mysterio da jurema. Iracema já accendeu os -<span id="Nota68">fogos da alegria</span>. Araken está immovel e extactico -no seio de uma nuvem de fumo. -</p> - -<p> -Cada guerreiro que chega depõe a seus pés uma offerenda a Tupan. Traz -um a succulenta caça; outro a farinha d'agua; aquelle, o saboroso -piracem da trahira. O velho Pagé, para quem são estas dadivas, as -recebe com desdem. -</p> - -<p> -Quando foram todos sentados em torno do grande fogo, o ministro de Tupan -ordena o silencio com um gesto, e tres vezes clamando o nome terrivel, -enche-se do Deus, que o habita: -</p> - -<p> -—Tupan!... Tupan!... Tupan!... -</p> - -<p> -Tres vezes o echo ao longe repercutio. -</p> - -<p> -Vem Iracema com a igaçaba cheia do verde licor. -</p> - -<p> -Araken decreta os sonhos a cada guerreiro, e destribue o vinho da -jurema, que transporta ao céo o valente tabajara. -</p> - -<p> -Este, grande caçador, sonha que os veados e as pacas correm ao deante -de suas flechas paras e traspassarem nellas; fatigado alfim de ferir, -cava na terra o <span id="Nota69">bucan</span>, e assa tamanha quantidade -de caça, que mil guerreiros em um anno não acabarão. -</p> - -<p> -Outro, fogoso em amores, sonha que as mais bellas virgens dos tabajaras -deixam a cabana de seus paes e o seguem captivas do seu querer. Nunca a -rêde de chefe algum embalou mais voluptuosas caricias, que elle as frue -n'aquelle extase. -</p> - -<p> -O heroe sonha tremendas lutas, e horriveis combates de que sahe -vencedor, cheio de gloria e fama. O velho renasce, na prole numerosa, e -como o secco tronco donde rebenta nova e robusta sebe, cobre-se ainda de -flôres. -</p> - -<p> -Todos sentem a felicidade tão viva e continua, que no espaço da noite -cuidam viver muitas luas. As boccas murmuram; o gesto falla; e o Pagé, -que tudo escuta e vê, colhe o segredo das almas desnudas. -</p> - -<p> -Iracema, depois que offereceu aos guerreiros o licor de Tupan, sahio do -bosque. Não permittia o rito que ella assistisse ao somno dos -guerreiros e ouvisse falar os sonhos. -</p> - -<p> -Foi d'ali direito á cabana, onde a esperava Martim. -</p> - -<p> -—Toma as tuas armas, guerreiro branco. É tempo de partir. -</p> - -<p> -—Leva-me onde está Poty, meu irmão. -</p> - -<p> -A virgem caminhou para o valle; o christão a seguio. Chegaram á falda -do rochedo, que ia morrer á beira do tanque, em um massiço de verdura. -</p> - -<p> -—Chama teu irmão! -</p> - -<p> -Martim soltou o grito da gaivota. A pedra que fechava a entrada da gruta -cahio; e o vulto do guerreiro Poty appareceu na sombra. -</p> - -<p> -Os dois irmãos encostaram a fronte na fronte e o peito no peito, para -exprimir que não tinham ambos mais que uma cabeça e um coração. -</p> - -<p> -—Poty está contente porque vê seu irmão, que o máo espirito da -floresta arrebatou de seus olhos. -</p> - -<p> -—Feliz é o guerreiro que tem ao flanco um amigo como o bravo Poty; -todos os guerreiros o invejarão. -</p> - -<p> -Iracema suspirou, pensando que a affeição do Pytiguara bastava á -felicidade do extrangeiro: -</p> - -<p> -—Os guerreiros tabajaras dormem. A filha de Araken vae guiar os -extrangeiros. -</p> - -<p> -A virgem seguio adeante; os dois guerreiros apóz. Quando tinham andado o -espaço que transpõe a garça de um vôo, o chefe Pytiguara tornou-se -inquieto, e murmurou ao ouvido do christão: -</p> - -<p> -—Manda á filha do Pagé que volte á cabana de seu pae. Ella demora a -marcha dos guerreiros. -</p> - -<p> -Martim entristeceu; mas a voz da prudencia e da amizade penetrou em seu -coração. Avançou para Iracema; e tirou do seio uma voz doce para -acalentar a saudade da virgem: -</p> - -<p> -—Mais affunda a raiz da planta na terra, mais custa arrancal-a. Cada -passo de Iracema no caminho da partida, é uma raiz que lança no -coração de seu hospede. -</p> - -<p> -—Iracema quer-te acompanhar até onde acabam os campos dos Tabajaras, -para voltar com o socego em seu peito. -</p> - -<p> -Martim não respondeu. Continuaram a caminhar, e com elles caminhava a -noite; as estrellas desmaiaram e a frescura da alvorada alegrou a -floresta. As roupas da manhã, alvas como o algodão, appareceram no -céo. -</p> - -<p> -Poty olhou a mata e parou. Martim comprehendeu e disse a Iracema: -</p> - -<p> -—Teu hospede já não pisa os campos dos Tabajaras. É o instante de -separar-te d'elle. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XVII">XVII</a></h4> - -<p> -Iracema pousou a mão no peito do guerreiro branco: -</p> - -<p> -—A filha dos Tabajaras já deixou os campos de seus paes; agora pode -falar. -</p> - -<p> -—Que guardas tu em teu seio, virgem formosa do sertão? -</p> - -<p> -Ella pôz os olhos cheios no christão: -</p> - -<p> -—Iracema não pode mais separar-se do extrangeiro. -</p> - -<p> -—Assim é preciso, filha de Araken. Torna á cabana de teu velho pae, -que te espera. -</p> - -<p> -—Araken já não tem filha. -</p> - -<p> -Martim tornou com gesto rudo e severo: -</p> - -<p> -—Um guerreiro da minha raça jamais deixou a cabana do hospede, viuva -de sua alegria. Araken abraçará sua filha, para não amaldiçoar o -extrangeiro ingrato. -</p> - -<p> -A virgem pendeu a fronte; velando-se com as longas tranças negras que -se esparziam pelo collo, cruzando ao gremio os lindos braços, recolheu -em seu pudor. Assim o roseo cacto, que já desabrochou em formosa flôr, -cerra em botão o seio perfumado. -</p> - -<p> -—Tua escrava te acompanhará, guerreiro branco: porque teu sangue -dorme em seu seio. -</p> - -<p> -Martim estremeceu. -</p> - -<p> -—Os máos espiritos da noite turbaram o espirito de Iracema. -</p> - -<p> -—O guerreiro branco sonhava, quando Tupan abandonou sua virgem, -porque ella trahio o segredo da jurema. -</p> - -<p> -O christão escondeu as faces á luz. -</p> - -<p> -—Deus!... clamou seu labio tremulo. -</p> - -<p> -Permaneceram ambos mudos e quedos. -</p> - -<p> -Afinal disse Poty: -</p> - -<p> -—Os guerreiros tabajaras despertam. -</p> - -<p> -O coração da virgem como o do extrangeiro, ficou surdo á voz da -prudencia. O sol levantou-se no horisonte; e seu olhar magestoso desceu -dos montes á floresta. Poty de pé como um tronco decepado esperou que -seu irmão quizesse partir. -</p> - -<p> -Foi Iracema quem primeiro falou: -</p> - -<p> -—Vem: emquanto não pisares as praias dos Pytiguaras, tua vida corre -perigo. -</p> - -<p> -Martim seguiu silencioso a virgem, que fugia entre as arvores, como a -selvagem <span id="Nota70">acoty</span>. A tristeza lhe roia o coração; mas -a onda de perfumes que deixava na brisa a passagem da formosa tabajara, -açulava o amor no seio do guerreiro. Seu passo era tardo, o peito lhe -offegava. -</p> - -<p> -Poty scismava. Em sua cabeça de mancebo morava o espirito de um -<span id="Nota71">abaeté</span>. O chefe pytiguara pensava que o amor é -como o cauim, o qual bebido com moderação fortalece o guerreiro, e tomado -em excesso abate a coragem do heroe. Elle sabia quanto veloz era o pé -do tabajara; e esperava o momento de morrer defendendo o amigo. -</p> - -<p> -Quando as sombras da tarde entristeciam o dia, o christão parou no meio -da mata. Poty accendeu o fogo da hospitalidade. A virgem desdobrou a -alva rêde de algodão franjada de pennas de tucano e suspendeu-a aos -ramos de arvore. -</p> - -<p> -—Esposo de Iracema, tua rêde te espera. -</p> - -<p> -A filha de Araken foi sentar-se longe, na raiz de uma arvore, como a -cerva solitaria, que o ingrato companheiro afugentou do aprisco. O -guerreiro pytiguara desappareceu na espessura da folhagem. -</p> - -<p> -Martim ficou mudo e triste, semelhante ao tronco d'arvore a que o vento -arrancou o lindo cipó que o entrelaçava. A brisa perpassando levou um -murmurio: -</p> - -<p> -—Iracema! -</p> - -<p> -Era o balido do companheiro; a cerva arrufando-se ganhou o doce aprisco. -</p> - -<p> -A floresta distillava suave fragrancia e exhalava harmoniosos arpejos; -os suspiros do coração se difundiram nos murmures do deserto. Foi a -festa do amor e o canto do hymeneo. -</p> - -<p> -Já a luz da manhã coou na selva densa. A voz grave e sonora de Poty -repercutio no susurro da mata: -</p> - -<p> -—O povo tabajara caminha na floresta! -</p> - -<p> -Iracema arrancou-se dos braços que a cingiam e mais do labio que a -tinha captiva: saltando da rede como a rapida zabelé, travou das armas -do esposo, e levou-o atravez da mata. -</p> - -<p> -De espaço a espaço o prudente Poty escutava as entranhas da terra; sua -cabeça movia-se pesada de um a outro lado, como a nuvem que se -embalança no cocuruto do rochedo, aos varios lufos da proxima borrasca. -</p> - -<p> -—O que escuta o ouvido do guerreiro Poty? -</p> - -<p> -—Escuta o passo veloz do povo tabajara. Elle vem como o tapyr, -rompendo a floresta. -</p> - -<p> -—O guerreiro pytiguara é a ema que vôa sobre a terra; nós o -seguiremos, como suas azas; disse Iracema. -</p> - -<p> -O chefe sacudio de novo a fronte: -</p> - -<p> -—Emquanto o guerreiro do mar dormia, o inimigo correu. Os que -primeiro partiram já avançam além como as pontas do arco. -</p> - -<p> -A vergonha mordeu o coração de Martim. -</p> - -<p> -—Fuja o chefe Poty e salve Iracema. Só deve morrer o guerreiro máo, -que não escutou a voz de seu irmão e o pedido de sua esposa. -</p> - -<p> -Martim arripiou o passo. -</p> - -<p> -—A alma do guerreiro branco não escutou sua bocca Poty e seu irmão -só tem uma vida. -</p> - -<p> -O labio de Iracema não fallou: sorrio. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XVIII">XVIII</a></h4> - -<p> -Treme a selva com o estrupido da carreira do povo tabajara. -</p> - -<p> -O grande Irapuam, primeiro, assoma entre as arvores. Seu olhar rubido -viu o guerreiro branco entre nuvens de sangue; o grito rouco do tigre -rompe de seu peito cavernoso. - -O chefe tabajara e seu povo, vão precipitar-se sobre os fugitivos, como -a vaga encapelada que rebenta no Mocoribe. -</p> - -<p> -Eis late o cão selvagem. -</p> - -<p> -Poty solta o grito da alegria: -</p> - -<p> -—O cão de Poty guia os guerreiros de sua taba em soccorro teu. -</p> - -<p> -O rouco buzio dos Pytiguaras estruge pela floresta. O grande Jacaúna, -senhor das praias do mar, chegava do rio das garças com seus melhores -guerreiros. -</p> - -<p> -Os Pytiguaras recebem o primeiro impeto do inimigo nas pontas erriçadas -de suas flechas, que elles despedem do arco aos molhos, como o -<span id="Nota72">coandú</span> os espinhos do seu corpo. Logo apóz sôa a -pocema, estreita-se o espaço, e a luta se trava face a face. -</p> - -<p> -Jacaúna atacou Irapuam. Prosegue o horrivel combate que bastára a dez -bravos, e não esgotou ainda a força dos grandes chefes. Quando os dois -tacapes se encontram, a batalha toda estremece como um só guerreiro -até ás entranhas. -</p> - -<p> -O irmão de Iracema veio direito ao extrangeiro, que arrancara a filha -de Araken á cabana hospedeira; o faro da vingança o guia; a vista da -irmã assanha a raiva em seu peito. O guerreiro Cauby assalta com furor -o inimigo. -</p> - -<p> -Iracema, unida ao flanco de seu guerreiro e esposo, vio de longe Cauby e -fallou assim: -</p> - -<p> -—Senhor de Iracema, ouve o rogo de tua escrava; não derrama o sangue -do filho de Araken. Se o guerreiro Cauby tem de morrer, morra elle por -esta mão, não pela tua. -</p> - -<p> -Martim pôz no rosto da selvagem olhos de horror: -</p> - -<p> -—Iracema matará seu irmão? -</p> - -<p> -—Iracema antes quer que o sangue de Cauby tinja sua mão que a tua; -porque os olhos de Iracema vêem a ti, e a ella não. -</p> - -<p> -Travam a luta os guerreiros. Cauby combate com furor, o christão -defende-se apenas; mas a seta embebida no arco da esposa guarda a vida -do guerreiro contra os botes do inimigo. -</p> - -<p> -Poty já prostrou o velho Andira e quantos guerreiros topou na luta seu -valido tacape. Martim lhe abandona o filho de Araken, e corre sobre -Irapuam. -</p> - -<p> -—<span id="Nota73">Jacaúna</span> é um grande chefe; seu -<span id="Nota74">collar de guerra</span> dá tres voltas ao peito. O -tabajara pertence ao guerreiro branco. -</p> - -<p> -—A vingança é a honra do guerreiro, e Jacaúna ama o amigo de Poty. -</p> - -<p> -O grande chefe Pytiguara levou além o formidavel tacape. O combate -renhio-se entre Irapuam e Martim. A espada do christão. batendo na -clava do selvagem fez-se pedaços. O chefe tabajara avançou contra o -peito inerme do adversario. -</p> - -<p> -Iracema silvou como a boicininga, e se arremessou ante a furia do -guerreiro tabajara. A arma rigida tremeu na dextra possante e o braço -cahio desfallecido. -</p> - -<p> -Soava a pocema da victoria. Os guerreiros pytiguaras conduzidos por -Jacaúna e Poty varriam a floresta. Os tabajaras, fugindo, arrebataram -seu chefe ao odio da filha de Araken que o podia abater, como a jandaia -abate o procero coqueiro roendo-lhe o cerne. -</p> - -<p> -Os olhos de Iracema estendidos pela floresta, viram o chão juncado de -cadaveres de seus irmãos; e longe o bando dos guerreiros tabajaras que -fugiam em nuvem negra de pó. Aquelle sangue que enrubecia a terra era -o mesmo sangue brioso que lhe ardia as faces de vergonha. -</p> - -<p> -O pranto orvalhou seu lindo semblante. -</p> - -<p> -Martim affastou-se para não envergonhar a tristeza de Iracema. Deixou -que sua dor núa se banhasse nas lagrimas. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XIX">XIX</a></h4> - -<p> -Poty voltou de perseguir o inimigo. Seus olhos se encheram de alegria -vendo salvo o guerreiro branco. -</p> - -<p> -O cão fiel o seguia de perto, lambendo ainda nos pellos do focinho, a -marugem do sangue tabajara de que se fartára; o senhor o acariciava -satisfeito de sua coragem e dedicação. Fora elle quem salvara Martim, -alli trazendo com tanta deligencia os guerreiros de Jacaúna. -</p> - -<p> -—Os máos espiritos da floresta podem separar outra vez o guerreiro -branco de seu irmão Pytiguara. O cão te seguirá d'aqui em deante, para -que mesmo de longe Poty acuda a teu chamado. -</p> - -<p> -—Mas o cão é teu companheiro e amigo fiel. -</p> - -<p> -—Mais amigo e companheiro será de Poty, servindo a seu irmão que a -elle. Tu o chamarás <span id="Nota75">Japy</span>, e elle será o pé ligeiro -com que de longe corramos um para o outro. -</p> - -<p> -Jacaúna deu o signal da partida. -</p> - -<p> -Os guerreiros pytiguaras caminharam para as margens alegres do rio onde -bebem as garças: alli se erguia a grande taba dos senhores das varzeas. -</p> - -<p> -O sol deitou-se, e de novo se levantou no céo. Os guerreiros chegaram -aonde a serra quebrava para o sertão; já tinham passado aquella parte -da montanha, que por ser despida de arvoredo e tosquiada corno a -capivara, a gente de Tupan chamava <span id="Nota76">Ibyapina</span>. -</p> - -<p> -Poty levou o christão aonde crescia um frondoso jatobá, que affrontava -as arvores do mais alto pincaro da serrania, e quando batido pela rajada -parecia varrer o céo com a immensa copa. -</p> - -<p> -—N'este logar nasceu teu irmão, disse o pytiguara: Martim estreitou o -peito ao tronco enorme: -</p> - -<p> -—<span id="Nota77">Jatobá</span>, que viste nascer meu irmão Poty, o -extrangeiro te abraça. -</p> - -<p> -—O raio te decepe arvore do guerreiro Poty, quando seu irmão o -abandonar. -</p> - -<p> -Depois o chefe assim falou: -</p> - -<p> -—Ainda Jacaúna não era um guerreiro, Jatobá, o maior chefe, conduzia -os Pytiguaras á victoria. Logo que as grandes aguas correram, elle -caminhou para a serra. Aqui chegando, mandou levantar a taba, para estar -perto do inimigo e vencêl-o mais vezes. A mesma lua que o vio chegar, -alumiou a rêde onde Sahy sua esposa, lhe deu mais um guerreiro de seu -sangue. O luar passava por entre as folhas do jatobá; e o sorriso pelos -labios do varão possante, que tomara seu nome e robustez. -</p> - -<p> -Iracema aproximou-se. -</p> - -<p> -A rôla, que marisca na areia, se o companheiro se afasta, adeja -inquieta de ramo em ramo e arrulla para que lhe responda o ausente -amigo. Assim a filha da floresta errara pela encosta, modulando o -singelo canto mavioso. -</p> - -<p> -Martim a recebeu com a alma no semblante; e levando a esposa do lado do -coração e o amigo do lado da força, voltou ao rancho dos pytiguaras. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XX">XX</a></h4> - -<p> -A lua cresceu. -</p> - -<p> -Tres sóes havia que Martim e Iracema estavam nas terras dos Pytiguaras, -senhores das margens do Camocim e Acaraú. Os extrangeiros tinham sua -rêde na vasta cabana do grande Jacaúna. O valente chefe guardou para -si a alegria de hospedar o guerreiro branco. -</p> - -<p> -Poty abandonou sua taba, para acompanhar seu irmão de guerra na cabana -de seu irmão de sangue, e gosar dos instantes que sobejavam do amor de -Iracema para a amisade, no coração do guerreiro do mar. -</p> - -<p> -A sombra já se retirou da face da terra: e Martim vio que ella não se -retirara ainda da face da esposa, desde o dia do combate. -</p> - -<p> -—A tristeza mora na alma de Iracema! -</p> - -<p> -—A alegria para a esposa só vem de ti; quando teus olhos a deixam as -lagrimas enchem os seus. -</p> - -<p> -—Porque chora a filha dos Tabajaras? -</p> - -<p> -—Esta é a taba dos Pytiguaras, inimigos do meu povo. A vista de -Iracema já conheceu o craneo de seus irmãos espetado na caiçara; o -ouvido já escutou o canto de morte dos captivos tabajaras; a mão já -tocou as armas tintas do sangue de seus paes. -</p> - -<p> -A esposa pousou as duas mãos nos hombros do guerreiro, e reclinou ao -peito d'elle: -</p> - -<p> -—Iracema tudo soffre por seu guerreiro e senhor. A ata é doce e -saborosa; quando a machucam azeda. Tua esposa não quer que seu amor -azede teu coração; mas que te encha das doçuras do mel. -</p> - -<p> -—Volte o socego ao seio da filha dos Tabajaras; ella vae deixar a -taba dos inimigos de seu povo. -</p> - -<p> -O christão caminhou para a cabana de Jacaúna. O grande chefe -alegrou-se vendo chegar seu hospede; mas a alegria fugio logo de sua -fronte guerreira. Martim dissera: -</p> - -<p> -—O guerreiro branco parte de tua cabana, grande chefe. -</p> - -<p> -—Alguma cousa te faltou na taba de Jacaúna? -</p> - -<p> -—Nada faltou a teu hospede. Elle era feliz aqui; mas a voz do coração -o chama a outros sitios. -</p> - -<p> -—Então parte, e leva o que é preciso para a viagem. Tupan te -fortaleça, e traga outra vez á cabana de Jacaúna, para que elle -festeje tua boa vinda. -</p> - -<p> -Poty chegou: sabendo que o guerreiro do mar ia partir, falou: -</p> - -<p> -—Teu irmão te acompanha. -</p> - -<p> -—Os guerreiros de Poty precisam de seu chefe. -</p> - -<p> -—Se tu não queres que elles vão com Poty, Jacaúna os conduzira á -victoria. -</p> - -<p> -—A cabana de Poty ficará deserta e triste. -</p> - -<p> -—Deserto e triste será o coração de teu irmão longe de ti. -</p> - -<p> -O guerreiro do mar deixou as margens do rio das garças, e caminhou para -as terras onde o sol se deita. A esposa e o amigo seguem sua marcha. -Passaram além da fertil montanha, onde a abundancia dos fructos creava -grande quantidade de mosca, do que lhe veio o nome de -<span id="Nota78">Meruoca</span>. -</p> - -<p> -Atravessam os corregos que levam suas aguas ao rio das garças, e -avistam longe rio horisonte uma alta serrania. Expira o dia; nuvem negra -voa das bandas do mar: são os urubus que pastam nas praias a carniça -que o oceano arroja, e com a noite tornam ao ninho. -</p> - -<p> -Os viajantes dormem em <span id="Nota79">Uruburetama</span>. Quando o sol -voltou, chegaram ás margens do rio, que nasce na quebrada da serra e desce -a planicie enroscando-se como uma cobra. Suas voltas continuas enganam a -cada passo o peregrino, que vae seguindo o tortuoso curso: por isso foi -chamado <span id="Nota80">Mundahú</span>. -</p> - -<p> -Perlongando as frescas margens, viu Martim no seguinte sol os verdes -mares e as alvas praias onde as ondas murmurosas, ás vezes soluçam e -outras raivam de furia, rebentando em frocos de espuma. -</p> - -<p> -Os olhos do guerreiro branco se dilataram pela vasta immensidade; seu peito -suspirou. Esse mar beijava tambem as brancas areias do -<span id="Nota81">Potengi</span>, seu berço natal, onde elle vira a luz -americana. Arrojou-se nas ondas e pensou banhar seu corpo nas aguas da -patria, como banhara sua alma nas saudades d'ella. -</p> - -<p> -Iracema sentiu chorar-lhe o coração; mas não tardou que o sorriso de -seu guerreiro o acalentasse. -</p> - -<p> -Entretanto Poty, do alto do coqueiro, flexava o saboroso camoropim que -brincava na pequena bahia do Mundahú; e preparava o moquem para a -refeição. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXI">XXI</a></h4> - -<p> -Já descia o sol das alturas do céo. -</p> - -<p> -Chegam os viajantes á foz do rio onde se criam em grande abundancia -<span id="Nota82">as saborosas trahiras</span>; suas praias são povoadas -pela tribu dos pescadores, da grande nação dos Pytiguaras. -</p> - -<p> -Elles receberam os extrangeiros com a hospitalidade generosa, que era -uma lei de sua religião; e Poty com o respeito que merecia tão grande -guerreiro, irmão de Jacaúna, maior chefe da forte gente pytiguara. -</p> - -<p> -Para repousar os viajantes, e acompanhal-os na despedida, o chefe da -tribu recebeu Martim, Iracema e Poty na jangada, e abrindo a vela á -brisa, levou-os até muito longe na costa. Todos os pescadores em suas -jangadas seguiam o chefe e atroavam os ares com o canto de saudade, e os -murmures do uraçá, que imita os soluços do vento. -</p> - -<p> -Além da tribu dos pescadores estava mais entrada para as serras a tribu dos -caçadores. Elles occupavam as margens do <span id="Nota83">Soipé</span>, -cobertas de matas, onde os veados, as gordas pacas e os macios jacús -abundavam. Assim os habitadores d'essas margens lhe deram o nome de paiz -da caça. -</p> - -<p> -O chefe dos caçadores, Jaguarassú, tinha sua cabana á beira do lago, -que forma o rio perto do mar. Ahi acharam os viajantes o mesmo agasalho -que haviam recebido dos pescadores. -</p> - -<p> -Depois que partiram do Soipé, os viajantes atravessaram o rio -<span id="Nota84">Pacoty</span>, em cujas margens cresciam as frondosas -bananeiras balançando os verdes pennachos; mais longe o -<span id="Nota85">Iguape</span>, onde a agua faz cintura em torno dos -comoros de areia. -</p> - -<p> -Além assomou no horisonte um alto morro de areia que tinha a alvura da -espuma do mar. O cabo sobranceiro aos coqueiros parece a cabeça calva -do condor, esperando alli a borrasca, que vem dos confins do oceano. -</p> - -<p> -—Poty conhece o grande morro das areias? perguntou o christão. -</p> - -<p> -—Poty conhece toda a terra que tem os Pytiguaras desde as margens -do grande <span id="Nota86">rio, que forma um braço do mar</span>, até -á margem do rio onde habita o jaguar. Elle já esteve no alto do -<span id="Nota87">Mocoribe</span>, e de lá viu correr no mar as grandes -igaras dos guerreiros brancos, teus inimigos, que está o no Mearim. - - -</p> - -<p> -—Porque chamas tu Mocoribe, o grande morro das areias? -</p> - -<p> -—O pescador da praia, que vae nas jangadas, lá onde voa a aty, fica -triste, longe da terra e de sua cabana, onde dormem os filhos de seu -sangue. Quando elle volta e que seus olhos primeiro avistam o morro das -areias, a alegria volta ao seio do homem. Então elle diz que o morro -das areias dá alegria! -</p> - -<p> -—O pescador diz bem; porque teu irmão ficou contente como elle, vendo -o monte das areias. -</p> - -<p> -Martim subiu com Poty ao cimo do Mocoribe. Iracema seguindo com os olhos -o esposo, divagava como a jaçanan em tôrno do lindo seio, que alli fez -a terra para receber o mar. De passagem ella colhia os doces cajús, que -aplacam a sede aos guerreiros, e apanhava as mimosas conchas para ornar -seu collo. -</p> - -<p> -Os viajantes estiveram em Mocoribe tres sóes. Depois Martim levou seus -passos além. A esposa e o amigo o seguiram até á embocadura de um rio -cujas margens eram alagadas e cobertas de mangue. O mar entrando por -elle formava uma bacia de agua christalina, que parecia cavada na pedra -como um camocim. -</p> - -<p> -O guerreiro christão. ao percorrer essa paragem, começou de scismar. -Até alli elle caminhava sem destino, movendo seus passos ao acaso; não -tinha outra intenção mais que affastar-se das tabas dos Pytiguaras -para arrancar a tristeza do coração de Iracema. O christão sabia por -experiencia que a viagem acalenta a saudade, porque a alma pára -emquanto o corpo se move. Agora sentado na praia pensava. -</p> - -<p> -Poty veiu: -</p> - -<p> -—O guerreiro branco pensa; o seio do irmão está aberto para receber -seu pensamento. -</p> - -<p> -—Teu irmão pensa que este lugar é melhor do que as margens do -Jaguaribe para a taba dos guerreiros de sua raça. N'estas aguas as -grandes igaras que vem de longes terras se esconderiam do vento e do -mar; d'aqui ellas iriam ao Mearim destruir os <span id="Nota89">brancos -tapuias</span> alliados dos Tabajaras, inimigos de tua nação. -</p> - -<p> -O chefe pytiguara meditou e respondeu: -</p> - -<p> -—Vae buscar teus guerreiros. Poty plantará sua taba junto da -<span id="Nota88">mayr</span> de seu irmão. -</p> - -<p> -Aproximava-se Iracema. O christão mandou com um gesto o silencio ao -chefe Pytiguara. -</p> - -<p> -—A voz do esposo se calla, e seus olhos se abaixam quando chega -Iracema. Queres tu que ella se affaste? -</p> - -<p> -—Quer teu esposo, que chegues mais perto, para que sua voz e seus -olhos penetrem mais dentro de tua alma. -</p> - -<p> -A formosa selvagem desfez-se em risos como se desfaz a flor do fructo -que desponta, e foi debruçar-se na espadua do guerreiro. -</p> - -<p> -—Iracema te escuta. -</p> - -<p> -—Estes campos são alegres, e mais serão quando Iracema n'elles -habitar. Que diz teu coração? -</p> - -<p> -—O coração da esposa está sempre alegre junto de seu senhor e -guerreiro. -</p> - -<p> -O christão, seguindo pela margem do rio, escolheu o logar para levantar -a cabana. Poty cortou esteios dos troncos da carnaúba; a filha de -Araken ligava os leques da palmeira para vestir o tecto e as paredes: -Martim cavou a terra com a espada e fabricou a porta das fasquias da -taquára. -</p> - -<p> -Quando veiu a noite os dois esposos armaram a rede em sua nova cabana; e -o amigo no copiar que olhava para o nascente. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXII">XXII</a></h4> - -<p> -Poty saudou o amigo e faltou assim: -</p> - -<p> -—Antes que o pae de Jacaúna e Poty, o valente guerreiro Jatobá, -mandasse a todos os guerreiros pytiguaras, o grande tacape da nação -estava na dextra de <span id="Nota90">Batuireté</span>, o maior chefe, -pae de Jatobá. Foi elle que veiu pelas praias do mar até o rio do -jaguar, e expulsou os tabajaras para dentro das terras, marcando a cada -tribu seu logar; depois entrou pelo sertão até á serra que tomou seu -nome. -</p> - -<p> -Quando <span id="Nota91">suas estrellas eram muitas</span>, e tantas que -em seu camocim já não cabiam as castanhas que marcavam o numero, o -corpo vergou para a terra, o braço endureceu como o galho do ubiratan -que não verga; seus olhos se escureceram. -</p> - -<p> -Chamou então o guerreiro <span id="Nota92">Jatobá</span> e -disse:—Filho, toma o tacape da nação pytiguara. Tupan não quer -que Batuireté o leve mais á guerra, pois tirou a força de seu corpo, -o movimento do seu braço e a luz de seus olhos. Mas Tupan foi bom para -elle, pois lhe deu um filho como o guerreira Jatobá. -</p> - -<p> -Jatobá empunhou o tacape dos Pytiguaras. Batuireté tornou o bordão de -sua velhice e caminhou. Foi atravessando os vastos sertões, até os -campos viçosos onde correm as aguas que vem das bandas da noite. Quando -o velho guerreiro arrastava o passo pelas margens, e a sombra de seus -olhos não lhe deixava que visse mais os fructos nas arvores ou os -passaros no ar, elle dizia em sua tristeza:—Ah! meus tempos passados! -</p> - -<p> -A gente que o ouvia chorava a ruina do grande chefe; e desde então -passando por aquelles logares repetia suas palavras; d'onde veiu -chamar-se o rio e os campos, <span id="Nota93">Quixeramobim</span>. -</p> - -<p> -Batuireté veiu pelo <span id="Nota94">caminho das garças</span> até -áquella serra que tu vês longe, onde primeiro habitou. Lá no pincaro -o velho guerreiro fez seu ninho alto como o gavião, para encher o resto -de seus dias, conversando com Tupan. Seu filho já dorme embaixo da -terra, e elle ainda na outra lua scismava na porta de sua cabana, -esperando a noite que traz o grande somno. Todos os chefes Pytiguaras, -quando acordam á voz da guerra, vão pedir ao velho que lhes ensine a -vencer, porque nenhum outro guerreiro jamais soube como elle combater. -Assim as tribus não o chamam mais pelo nome, senão o grande sabedor da -guerra, <span id="Nota95">Maranguab</span>. -</p> - -<p> -O chefe Poty vae á serra vêr seu grande avô; mas antes que o dia -morra elle estará de volta na cabana de teu irmão. Teus tu outra -vontade? -</p> - -<p> -—O guerreiro branco te acompanha. Elle quer abraçar o grande chefe -dos Pytiguaras, avô de seu irmão; e dizer ao velho que renasce em seu -neto. -</p> - -<p> -Martim chamou Iracema; e partiram ambos guiados pelo Pytiguara para a -serra, do Maranguab, que se levantava no horisonte. Foram seguindo o curso -do rio até onde n'elle entrava o ribeiro da <span id="Nota96">Pirapora</span>. -</p> - -<p> -A cabana do velho guerreiro estava junto das formosas cascatas, onde -salta o peixe no meio dos borbotões de espuma. As aguas alli são -frescas e macias, como a brisa do mar, que passa entre as palmas dos -coqueiros, nas horas da calma. -</p> - -<p> -Batuireté estava sentado sobre uma das lapas da cascata; e o sol -ardente cahia sobre sua cabeça núa de cabellos e cheia de rugas como o -genipapo. Assim dorme o jaburú na borda do lago. -</p> - -<p> -—Poty é chegado á cabana do grande Maranguab, pae de Jatobá, e -trouxe seu irmão branco para vêr o maior guerreiro das nações. -</p> - -<p> -O velho soabriu as pesadas palpebras, e passou do neto ao extrangeiro um -olhar baço. Depois o peito arquejou e os labios murmuraram: -</p> - -<p> -—Tupan quiz que estes olhos vissem antes de se apagarem o -<span id="Nota97">gavião branco</span> junto da narseja. -</p> - -<p> -O abaeté derrubou a fronte aos peitos, e não falou mais, nem mais se -moveu. -</p> - -<p> -Poty e Martim julgaram que elle dormia e se afastaram com respeito para -não perturbar o repouso de quem tanto obrára na longa vida. Iracema -que se banhava na proxima cachoeira, veiu-lhes ao encontro, trazendo na -folha da taioba favos do mel purissimo. -</p> - -<p> -Discorreram os amigos pelas floridas encostas até que as sombras da -montanha se extenderam pelo valle. Tornaram então ao logar onde tinham -deixado o Maranguab. -</p> - -<p> -O velho ainda lá estava na mesma attitude, com a cabeça derrubada ao -peito e os joelhos encostados á fronte. As formigas subiam pelo seu -corpo; e os tuins adejavam em torno e pousavam-lhe na calva. -</p> - -<p> -Poty poz a mão no craneo do velho e conheceu que era finado: morrera -de velhice. Então o chefe pytiguara entoou o canto da morte; e depois -foi á cabana buscar o camocim, que transbordava com as castanhas do -cajú. Martim contou cinco vezes cinco mãos. -</p> - -<p> -Entanto Iracema colhia na floresta a andiroba, de que foi ungido o corpo -do velho no camocim, onde a mão piedosa do neto o encerrou. O vaso -funebre ficou suspenso ao tecto da cabana. -</p> - -<p> -Depois que plantou ortiga em frente á porta, para deffender contra os -animaes a oca abandonada, Poty despediu-se triste d'aquelles logares, e -tornou com seus companheiros á borda do mar. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXIII">XXIII</a></h4> - -<p> -Quatro luas tinham alumiado o ceu depois que Iracema deixara os campos -do Ipú; e tres depois que ella habitava nas praias do mar a cabana de -seu esposo. -</p> - -<p> -A alegria morava em sua alma. A filha dos sertões era feliz, como a -andorinha, que abandona o ninho de seus paes, e emigra para fabricar -novo ninho no paiz onde começa a estação das flôres. Tambem Iracema -achara ali nas praias do mar um ninho do amor, nova patria para o -coração. - -Ella discorria as amenas campinas, como o colibri borboleteando entre as -flôres da acacia. A luz da manhã já a encontrava suspensa ao hombro -do esposo e sorrindo, como a enrediça, que entrelaça o tronco e todas -as manhãs o coroa de nova grinalda. -</p> - -<p> -Martim partia para a caça com Poty. Ella separava-se então d'elle, -para mais sentir o desejo de tornar a elle. -</p> - -<p> -Perto havia uma formosa lagoa no meio de verde campina. Para lá volvia -a selvagem o ligeiro passo. Era a hora do banho da manhã; atirava-se á -agua, e nadava com as garças brancas e as vermelhas jaçanans. Os -guerreiros pytiguaras, que appareciam por aquellas paragens chamavam -essa lagoa da belleza, porque n'ella se banhava Iracema, a mais bella -filha da raça de Tupan. -</p> - -<p> -E desde esse tempo as mães vinham de longe mergulhar suas filhas nas -aguas da <span id="Nota98">Porangaba</span> que tinham a virtude de tornar -as virgens formosas e amadas pelos guerreiros. -</p> - -<p> -Depois do banho Iracema discorria até ás faldas da serra do Maranguab, -onde nascia o ribeiro das marrecas. Ali cresciam na frescura e sombra as -fructas mais saborosas de todo o paiz; d'ellas fazia copiosa provisão, -e esperava, embalando-se nas ramas do maracujá, que Martim tornasse da -caça. -</p> - -<p> -Outras vezes não era a <span id="Nota99">Jererahú</span> que a levava -sua vontade, mas do opposto lado, junto da lagoa da <span -id="Nota100">Sapiranga</span>, cujas aguas diziam que inflammavam os -olhos. Cerca d'ahi havia um bosque frondoso de muritys, que formavam no -meio do taboleiro uma grande ilha de formosas palmeiras. Iracema gostava -do <span id="Nota101">Murityapuá</span>, onde o vento suspirava -docemente; ali espolpava ella o vermelho côco, para fabricar a bebida -refrigerante, endossada com o mel da abelha, que os guerreiros amavam -durante a maior calma do dia. -</p> - -<p> -Uma manhã Poty guiou Martim á caça. Caminharam para uma serra, que se -levanta ao lado da outra do Maranguab sua irmã. O alto cabeço se curva -á semelhança do bico adunco da arara; pelo que os guerreiros a -chamaram <span id="Nota102">Aratanha</span>. Elles subiram pela encosta da -<span id="Nota104">Guaiuba</span> por onde as aguas descem para o valle, e -foram até o corrego habitado pelas pacas. -</p> - -<p> -Só havia sol no bico da arara quando os caçadores desceram de -<span id="Nota103">Pacatuba</span> ao taboleiro. De longe viram Iracema, -que viera esperal-os á margem de sua lagoa da Porangaba. Caminhou para -elles com o passo altivo da garça que passeia á beira d'agua: por cima -da cariola trazia uma cintura das flores da maniva que era o simbolo da -fecundidade. Collar das mesmas cingia-lhe o collo e ornava os rijos -seios palpitantes. - - -</p> - -<p> -Travou da mão do esposo, e a impoz no regaço: -</p> - -<p> -—Teu sangue já vive no seio de Iracema. Ella será mãe de teu filho! -</p> - -<p> -—Filho, dizes tu? exclamou o christão em jubilo. -</p> - -<p> -Ajoelhou ali e cingindo-o com os braços, beijou o ventre fecundo da -esposa. -</p> - -<p> -Quando se ergueu, Poty falou: -</p> - -<p> -A felicidade do mancebo é a esposa e o amigo, a primeira dá alegria; o -segundo dá força: o guerreiro sem a esposa é como a arvore sem folhas -nem dores; nunca ella verá o fructo: o guerreiro sem amigo é como a -arvore solitaria no meio do campo que o vento embalança; o fructo -d'ella nunca amadura. A felicidade do varão é a prole, que nasce -d'elle e faz seu orgulho; cada guerreiro que sahe de suas veias é mais -um galho que leva seu nome ás nuvens, como a grimpa do cedro. Amado de -Tupan é o guerreiro que tem uma esposa, um amigo e muitos filhos; elle -nada mais deseja senão a morte gloriosa. -</p> - -<p> -Martim unio o peito ao peito de Poty. -</p> - -<p> -—O coração do esposo e do amigo falou por tua boca. O guerreiro -branco é feliz, chefe dos Pytiguaras, senhores das praias do mar; e a -felicidade nasceu para elle na terra das palmeiras, onde reacende a -baunilha, e foi gerada do sangue de tua raça, que tem no rosto a côr -do sol. O guerreiro branco não quer mais outra patria, senão a patria -de seu filho e de seu coração. -</p> - -<p> -Ao romper d'alva Poty partiu para colher as sementes de crajurú que -dão a mais bella tinta vermelha, e a casca do angico de onde sae a cor -negra mais lustrosa. De caminho sua flecha certeira abateu o pato -selvagem que planeava nos ares: e elle arrancou das azas as longas -penas. Subindo ao Mocoribe, rugiu a inubia. A refega que vinha do mar -levou longe o ronco som. O buzio dos pescadores do Trahiry, e a trombeta -dos caçadores do Soipé, responderam. -</p> - -<p> -Martim banhou-se na agua do rio, e passeou na praia para secar o corpo ao -vento e ao sol. Ao seu lado ia Iracema e apanhava o -<span id="Nota105">ambar</span> amarello que o mar arrojava. Todas as -noites a esposa perfumava seu corpo e a alva rede, para que o amor do -guerreiro se deleitasse n'ella. -</p> - -<p> -Voltou Poty. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXIV">XXIV</a></h4> - -<p> -Foi costume da raça, filha de Tupan, que o guerreiro trouxesse no corpo -as cores de sua nação. Traçavam em principio negras riscas, sobre o -corpo, á semelhança do pello do <span id="Nota106">coaty</span> de -onde procedeu o nome d'essa arte da pintura guerreira. Depois variaram -as cores; e muitos e muitos guerreiros costumaram escrever os emblemas -de seus feitos. -</p> - -<p> -O extrangeiro tendo adoptado a patria da esposa e do amigo, devia passar -por aquella ceremonia, para tornar-se um guerreiro vermelho, filho de -Tupan. N'essa intenção fora Poty prover-se dos objectos necessarios. -</p> - -<p> -Iracema preparou as tintas. O chefe, embebendo as ramas da pluma, -traçou pelo corpo os riscos vermelhos e pretos, que ornavam a grande -nação pytiguara. Depois pintou na fronte uma flecha e disse: -</p> - -<p> -—Assim como a seta traspassa o duro tronco, assim o olhar do -guerreiro penetra n'alma dos povos. -</p> - -<p> -No braço um gavião: -</p> - -<p> -—Assim como o anajê cahe das nuvens, assim cae o braço do guerreiro -sobre o inimigo. -</p> - -<p> -No pé esquerdo a raiz do coqueiro. -</p> - -<p> -—Assim como a pequena raiz agarra na terra o alto coqueiro, o pé -firme do guerreiro sustenta seu corpo. -</p> - -<p> -No pé direito pintou uma aza: -</p> - -<p> -—Assim como a aza da majoy rompe os ares o pé veloz do guerreirro não -tem igual na corrida. -</p> - -<p> -Iracema tomou a rama da penna e pintou uma folha com uma abelha sobre: -sua voz resoou entre sorrisos: -</p> - -<p> -—Assim como a abelha fabrica mel no coração negro do jacarandá, a -doçura está no peito do mais valente guerreiro. -</p> - -<p> -Martim abriu os braços e os labios para receber corpo e alma da esposa, -</p> - -<p> -—Meu irmão é um grande guerreiro da nação pytiguara; elle precisa -de um nome na lingua de sua nação. -</p> - -<p> -—O nome de teu irmão está em seu corpo, onde o poz tua mão. -</p> - -<p> -—Coatiyabo! exclamou Iracema. -</p> - -<p> -—Tu disseste; eu sou o guerreiro pintado; o guerreiro da esposa e do -amigo. -</p> - -<p> -Poty deu a seu irmão o arco e o tacape, que são as armas nobres do -guerreiro. Iracema havia tecido para ella o cocar e a arassoia, ornatos -dos chefes illustres. -</p> - -<p> -A filha de Araken foi buscar á cabana as iguarias do festim e os vinhos -de genipapo e mandioca. Os guerreiros beberam copiosamente e trançaram -as dansas alegres. Durante que volviam em torno dos fogos da alegria, -resoavam as canções. -</p> - -<p> -Poty cantava: -</p> - -<p> -—Como a cobra que tem duas cabeças em um só corpo, assim é a amisade -de <span id="Nota107">Coatyabo</span> e Poty. -</p> - -<p> -Acudiu Iracema. -</p> - -<p> -—Como a ostra que não deixa o rochedo, ainda depois de morta, assim é -Iracema junto a seu esposo. -</p> - -<p> -Os guerreiros disseram: -</p> - -<p> -—Como o jatobá na floresta, assim é o guerreiro Coatyabo entre o -irmão e a esposa: seus ramos abraçam os ramos do ubiratan, e sua -sombra protege a relva humilde. -</p> - -<p> -Os fogos da alegria arderam até que veio a manhã; e com elles durou o -festim dos guerreiros. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXV">XXV</a></h4> - -<p> -A alegria ainda morou na cabana, todo o tempo que as espigas de milho -levaram a amarellecer. -</p> - -<p> -Uma alvorada, caminhava o christão pela borda do mar. Sua alma estava -cançada. -</p> - -<p> -O <span id="Nota118">colibri</span> sacia-se de mel e perfume; depois -adormece em seu branco ninho de cotão até que volta rio outro anno a lua -das flores. Como o colibri, a alma do guerreiro tambem se satura de -felicidade, e carece de somno e repouso. -</p> - -<p> -A caça e as excursões pelas montanhas em companhia do amigo, as -caricias da terna esposa que o esperavam na volta, o doce carbeto no -copiar da cabana já não acordavam n'elle as emoções d'outrora. Seu -coração resonava. -</p> - -<p> -Iracema brincava pela praia: os olhos d'elle tiravam-se d'ella para se -estenderem pela immensidade dos mares. -</p> - -<p> -Viram umas azas brancas, que adejavam pelos campos azues. Conheceu o -christão que era uma grande igara de muitas velas, como construiam seus -irmãos; e a saudade da patria apertou em seu seio. -</p> - -<p> -Alto ia o sol; e o guerreiro, na praia seguia com os olhos as azas -brancas que fugiam. Debalde a esposa o chamou á cabana, debalde -offereceu a seus olhos, as graças d'ella e os fructos melhores do -campo. Não se moveu o guerreiro, senão quando a vella se sumiu no -horisonte. -</p> - -<p> -Poty voltou da serra, onde pela vez primeira fora só. Tinha deixado a -serenidade na fronte de seu irmão e achava alli a tristeza. Martim -saiu-lhe ao encontro: -</p> - -<p> -—A igara grande do branco tapuia passou no mar. Os olhos de teu irmão -a viram voar para as margens do Mearim, alliados dos -<span id="Nota109">Tupinambás</span>, inimigos de tua e minha raça. -</p> - -<p> -—Poty é senhor de mil arcos; se é teu desejo elle te acompanhará com -seus guerreiros ás margens do Mearim para vencer o Tapuytinga e seu -amigo o traidor Tupinambá. -</p> - -<p> -—Quando for tempo teu irmão te dirá. -</p> - -<p> -Os guerreiros entraram na cabana, onde estava Iracema. A maviosa -canção n'esse dia tinha emudecido nos labios da esposa. Ella tecia -suspirando a franja da rede materna, mais larga e espessa que a rede do -hymeneo. -</p> - -<p> -Poty, que a viu tão occupada, fallou: -</p> - -<p> -—Quando a sabiá canta é o tempo do amor; quando emmudece, fabrica o -ninho para sua prole; é o tempo do trabalho. -</p> - -<p> -—Meu irmão falla como a ran quando annuncia a chuva; mas a sabiá que -faz seu ninho, não sabe se dormirá n'elle. -</p> - -<p> -A voz de Iracema gemia. Seu olhar buscou o esposo. Martim pensava: as -palavras de Iracema passaram por elle, como a brisa pela face lisa da -rocha, sem echo nem rumores. -</p> - -<p> -O sol brilhava sempre sobre as praias do mar, e as areias reflectiam os -raios ardentes; mas nem a luz que vinha do ceu, nem a luz que ia da -terra, espancaram a sombra n'alma do christão. Cada vez o crepusculo -era maior em sua fronte. -</p> - -<p> -Chegou das margens do Acaraú um guerreiro pytiguara, mandado por -Jacaúna a seu irmão Poty. Elle veio seguindo o rastro dos viajantes -até o Trahiry, onde os pescadores o guiaram á cabana. -</p> - -<p> -Poty estava só no copiar; ergueu-se e abaixou a fronte para escutar com -respeito e gravidade as palavras que lhe mandava seu irmão pela boca do -mensageiro. -</p> - -<p> -—O Tapuytinga, que estava no Mearim, veio pelas matas até o principio -da Ibyapaba, onde fez alliança com Irapuam, para combater a nação -pytiguara. Elles vão descer da serra ás margens do rio em que bebem as -garças, e onde tu levantaste a taba de teus guerreiros. Jacaúna te -chama para deffender os campos de nossos paes: e teu povo carece de seu -maior guerreiro. -</p> - -<p> -—Volta ás margens do Acaraú o teu pé não descance emquanto não -pisar o chão da cabana de Jacaúna. Quando ahi estiveres dize ao grande -chefe:—"Teu irmão é chegado á taba de seus guerreiros." E tu não -mentirás. -</p> - -<p> -O mensageiro partiu. -</p> - -<p> -Poty vestiu suas armas, e caminhou para a varzea, guiado pelo passo de -Coatyabo. Elle o encontrou muito além, vagando entre os canaviaes que -bordam as margens de Jacarehy. -</p> - -<p> -—O branco tapuia, está na Ibyapaba para ajudar os Tabajaras a -combater contra Jacaúna. Teu irmão corre a deffender a terra de seus -filhos, e a taba onde dormem os camocins de seus paes. Elle saberá vencer -depressa para voltar á tua presença. -</p> - -<p> -—Teu irmão parte contigo. Nada separa dois guerreiros amigos quando -troa a inubia da guerra. -</p> - -<p> -—Tu és grande, como o mar e bom como o céo. -</p> - -<p> -Os dois amigos abraçaram-se; e seguiram com o rosto para as bandas do -nascente. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXVI">XXVI</a></h4> - -<p> -Caminhando, caminhando, chegaram os guerreiros á margem de um lago, que -havia nos taboleiros. -</p> - -<p> -O christão parou de repente e voltou o rosto para as bandas do mar: a -tristeza sahiu de seu coração e subiu á fronte. -</p> - -<p> -—Meu irmão, disse o chefe, teu pé creou raiz na terra do amor; fica, -Poty voltará breve. -</p> - -<p> -—Teu irmão te acompanha; elle disse, e sua palavra é como a seta de -teu arco; quando soa, é chegada. -</p> - -<p> -—Queres tu que Iracema te acompanhe ás margens do Acaraú? -</p> - -<p> -—Nós vamos combater seus irmãos. A taba dos Pytiguaras não terá -para ella mais que tristeza e dôr. A filha dos Tabajaras deve ficar. -</p> - -<p> -—Que esperas tu então? -</p> - -<p> -—Teu irmão se afflige porque a filha dos Tabajaras pode ficar triste -e abandonar a cabana, sem esperar pela sua volta. Antes de partir elle -queria socegar o espirito da esposa. -</p> - -<p> -Poty reflectia: -</p> - -<p> -—As lagrimas da mulher amollecem o coração do guerreiro, como o -orvalho da manhã amollece a terra. -</p> - -<p> -—Meu irmão é um grande sabedor. O esposo deve partir sem ver Iracema. -</p> - -<p> -O christão avançou. Poty mandou-lhe que esperasse; da alvaja do setas -que Iracema emplumara de pennas vermelhas e preta e suspendera aos -hombros do esposo, tirou uma. -</p> - -<p> -O chefe pytiguar vibrou o arco: a seta rapida atravessou um goiamum que -discorria pelas margens do lago, e só parou onde a pluma não a deixou -mais entrar. -</p> - -<p> -Fincou o guerreiro no chão a flecha, com a presa atravessada e tornou -para Coatyabo. -</p> - -<p> -—Tu podes partir agora. Iracema seguirá teu rastro; chegando aqui -verá tua seta, e obedecerá á tua vontade. -</p> - -<p> -Martim sorriu; e quebrando um ramo do maracujá, a flôr da lembrança, -o entrelaçou na haste da seta, e partiu alfim seguido por Poty. -</p> - -<p> -Breve desappareceram os dois guerreiros entre as arvores. O calor do sol -já tinha seccado seus passos na beira do lago. Iracema inquieta veio -pela varzea seguindo o rastro do esposo até o tabuleiro. As sombras -doces vestiam os campos quando ella chegou á beira do lago. -</p> - -<p> -Seus olhos viram a seta do esposo fincada no chão, o goiamum -trespassado, o ramo partido, e encheram-se de pranto. -</p> - -<p> -—Elle manda que Iracema ande para traz, como o goiamum, e guarde sua -lembrança, como o maracujá guarda sua flôr todo o tempo até morrer. -</p> - -<p> -A filha dos Tabajaras retrahiu os passos lentamente, sem volver o corpo, -nem tirar os olhos da seta de seu esposo, e tornou á cabana. Ahi -sentada á soleira, com a fronte nos joelhos esperou, até que o somno -acalentou a dôr em seu peito. -</p> - -<p> -Apenas alvorou o dia, ella moveu o passo rapido para a lagoa, e chegou -á margem. A flecha lá estava como na vespera: o esposo não tinha -voltado. -</p> - -<p> -Desde então á hora do banho, em vez de buscar a lagoa da belleza, onde -outrora tanto gostara de nadar; caminhava para aquella, que vira seu -esposo abandonal-a. Sentava-se junto á flecha, até que descia a noite, -então recolhia á cabana. -</p> - -<p> -Tão rapida partia de manhã, como lenta voltava á tarde. Os mesmos -guerreiros que a tinham visto alegre nas aguas da Porangaba, agora -encontrando-a triste e só, como a garça viuva, na margem do rio, -chamavam aquelle sitio da Mocejana, a abandonada. -</p> - -<p> -Uma vez que a formosa filha de Araken se lamentava á beira da lagoa da -Mocejana, uma voz estridente gritou seu nome do alto da carnaúba: -</p> - -<p> -—Iracema! Iracema!... -</p> - -<p> -Ergueu ella os olhos e viu entre as folhas da palmeira sua linda -jandaia, que batia as azas, e arrufava as pennas com o prazer de vêl-a. -</p> - -<p> -A lembrança da patria, apagada pelo amor, resurgiu em seu pensamento. -Viu os formosos campos do Ipú; as encostas da serra onde nascera, a -cabana de Araken; e teve saudades; mas ainda n'aquelle instante, não se -arrependeu de os ter abandonado. -</p> - -<p> -Seu labio gaseou em canto. A jandaia abrindo as azas, esvoaçou-lhe em -torno e pousou no hombro. Alongando fagueira o collo, com o negro bico -alisou-lhe os cabellos e beliscou a bocca vermelha como uma pitanga. -</p> - -<p> -Iracema lembrou-se que tinha sido ingrata para a jandaia esquecendo-a no -tempo da felicidade; e agora ella vinha para a consolar no tempo da -desventura. -</p> - -<p> -Essa tarde não voltou só á cabana. Durante o dia seus dedos ágeis -teceram o formoso urú de palha que forrou da felpa macia da monguba -para agasalhar sua companheira e amiga. -</p> - -<p> -Na seguinte alvorada foi a voz da jandaia que a despertou. A linda ave -não deixou mais sua senhora; ou porque depois da longa ausencia não se -fartasse de a vêr, ou porque advinhasse que ella tinha necessidade de -quem a acompanhasse em sua triste solidão. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXVII">XXVII</a></h4> - -<p> -Uma tarde Iracema viu de longe dois guerreiros que avançavam pelas -praias do mar. Seu coração palpitou mais apressado. -</p> - -<p> -Instantes depois ella esquecia nos braços do esposo tantos dias de -saudade, e abandono que passara na solitaria cabana. Outra vez sua -graça encheu os olhos do christão; a alegria voltou a habitar em sua -alma. -</p> - -<p> -Como a secca varzea, com a vinda do nevoeiro, reverdece e matisa-se de -flôres, a formosa filha do sertão com a volta do esposo reanimou-se; e -sua belleza esmaltou-se de meigos e ternos sorrisos. -</p> - -<p> -Martim e seu irmão haviam chegado á taba de Jacaúna, quando soava a -inubia; elles guiaram ao combate os mil arcos de Poty. Ainda d'essa vez -os Tabajaras, apesar da alliança dos brancos tapuias do Mearim, foram -levados de vencida pelos valentes Pytiguaras. -</p> - -<p> -Nunca tão disputada victoria e tão renhida pugna, se pelejou nos -campos que regam o Acaraú e o Camocim; o valor era igual de parte a -parte, e nenhum dos dois povos fora vencido, se o Deus da guerra não -tivesse decidido dar estas plagas á raça do guerreiro branco, alliada -dos Pytiguaras. -</p> - -<p> -Logo apóz a victoria o christão tornára ás praias do mar, onde -construira sua cabana. De novo sentiu em sua alma a sede do amor; e -tremia de pensar que Iracema houvesse partido, deixando ermo aquelle -sitio tão povoado outrora pela felicidade. -</p> - -<p> -O christão amou outra vez a filha do sertão, como da primeira vez, -quando parece que o tempo não poderá exhaurir o coração. Mas breves -sóes bastaram para murchar aquellas flôres de um coração exilado da -patria. -</p> - -<p> -O <span id="Nota108">imbú</span>, filho da serra, se nasceu na varzea -porque o vento ou as aves trouxeram a semente, vingou, achando boa terra -e fresca sombra; talvez um dia copou a verde folhagem e enflorou. Mas -basta um sopro do mar, para tudo murchar. As folhas lastram o chão; as -flôres leva-as a brisa. -</p> - -<p> -Iracema tambem foge dos olhos do esposo, porque já percebeu que esses -olhos tão amados se turbam com a vista d'ella, e em vez de se encherem -de sua belleza como outrora, a despedem de si. Mas seus olhos d'ella -não se cançam de acompanhar á parte e de longe o guerreiro senhor, -que os fez captivos. -</p> - -<p> -Ai d'ella!... Sentiu já o golpe no coração e como a copaiba ferida no -amago, distilla lagrimas em fio. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXVIII">XXVIII</a></h4> - -<p> -Uma vez o christão ouviu dentro em sua alma o soluço de Iracema: seus -olhos buscaram em torno e não a viram. -</p> - -<p> -A filha de Araken estava além, entre as verdes moitas de ubaia, sentada -na relva. O pranto desfiava de seu bello semblante; e as gotas que -rolavam a uma e uma cabiam sobre o regaço, onde já palpitava e crescia -o filho do amor. Assim cahem as folhas da arvore viçosa antes que -amadureça o fructo. -</p> - -<p> -—O que espreme as lagrimas do coração de Iracema! -</p> - -<p> -—Chora o cajueiro quando fica tronco secco e triste. Iracema perdeu -sua felicidade, depois que te separaste d'ella. -</p> - -<p> -—Não estou eu junto a ti? -</p> - -<p> -—Teu corpo está aqui; mas tua alma vôa á terra de teus pais, e busca -a virgem branca, que te espera. -</p> - -<p> -Martim doeu-se. Os grandes olhos negros que a indiana pousara n'elle o -tinham ferido no amago. -</p> - -<p> -—O guerreiro branco é teu esposo: elle te pertence. -</p> - -<p> -A formosa tabajara sorriu em sua tristeza: -</p> - -<p> -—Quanto tempo ha que retiraste de Iracema teu espirito? Antes teu -passo te guiava para as frescas serras e os alegres taboleiros; teu pé -gostava de pisar a terra da felicidade e seguir o rastro da esposa. -Agora só buscas as praias ardentes, porque o mar que lá murmura vem -dos campos em que nasceste; e o morro das areias, porque do alto se -avista a igara que passa. -</p> - -<p> -—É a ancia de combater o tupinambá que volve o passo do guerreiro -para as bordas do mar: respondeu o christão. -</p> - -<p> -Iracema continuou: -</p> - -<p> -—Teu labio seccou para a esposa, como a canna quando ardem os grandes -sóes; perde o grato mel e as folhas murchas não podem mais brincar -quando passa a brisa. Agora só fallas ao vento da praia para que elle -leve tua voz á cabana de teus paes. -</p> - -<p> -—A voz do guerreiro branco chama seus irmãos para deffender a cabana -de Iracema e a terra de seu filho, quando o inimigo vier. -</p> - -<p> -A esposa meneou a cabeça: do fructo do genipapo e buscam a flôr do -espinheiro; a fructa é saborosa, mas tem a côr dos Tabajaras; a flôr -tem a alvura das faces da virgem branca. Se cantam as aves, teu ouvido -não gosta já de escutar o canto mavioso da graúna; mas tua alma se -abre para o grito do japim, porque elle tem as pennas douradas como os -cabellos d'aquella que tu amas! -</p> - -<p> -—A tristeza escurece a vista de Iracema e amarga seu labio. Mas a -alegria ha de voltar á alma da esposa, como volta á arvore a verde -rama. -</p> - -<p> -—Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ella morrerá, como o -abaty depois que deu seu fructo. Então o guerreiro branco não terá mais -quem o prenda na terra extrangeira. -</p> - -<p> -—Tua voz queima, filha de Araken, como o sopro que vem dos sertões do -Icó, no tempo dos grandes calores. Queres tu abandonar teu esposo? -</p> - -<p> -—Vêem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vae subindo ás nuvens; -a seus pés ainda está a secca raiz da murta frondosa, que todos os -invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para abraçar o tronco -irmão. Se ella não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer -áquella altura. Iracema é a folha escura que faz sombra em tua alma; -deve cahir, para que a alegria alumie teu seio. -</p> - -<p> -O christão cingio o talhe da formosa indiana e a estreitou ao peito. -Seu labio levou ao labio da esposa um beijo, mas aspero e amargo. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXIX">XXIX</a></h4> - -<p> -Poty voltou do banho. -</p> - -<p> -Segue na areia o rastro de Coatyabo, e sobe ao alto da Jacarécanga. Ahi -encontra o guerreiro em pé no cabeço do monte com os olhos alongados e -os braços estendidos para os largos mares. -</p> - -<p> -Volve o Pytiguara as vistas e descobre uma grande igara, que vem -sulcando os verdes mares, impedida pelo vento: -</p> - -<p> -—É a grande igara dos irmãos de meu irmão que vem buscal-o! -</p> - -<p> -O christão suspirou: -</p> - -<p> -—São os guerreiros brancos inimigos de minha raça, que buscam as -praias da valente nação pytiguara, para a guerra da vingança: elles -foram derrotados com os Tabajaras nas margens do Camocim; agora vem com -os seus amigos os Tupinambás pelo caminho do mar. -</p> - -<p> -—Meu irmão é um grande chefe. Que pensa elle que deve fazer seu -irmão Poty. -</p> - -<p> -—Chama os caçadores de Soipé e os pescadores do Trahiry. Nós iremos -ao seu encontro. -</p> - -<p> -Poty accordou a voz da inubia: e os dois guerreiros partiram ambos para -o Mocoribe. Pouco alem viram os guerreiros da Jaguarassú e Camoropim -que corriam ao grito de guerra. O irmão de Jacaúna os avisou da vinda -do inimigo. -</p> - -<p> -O grande <span id="Nota110">maracatim</span> corre nas ondas, ao longo da -terra que se dilata até ás margens do Parnahyba. A lua começava a crescer -quando elle deixou as aguas do Mearim; ventos contrarios o tinham arrastado -para os altos mares, muito alem do seu destino. -</p> - -<p> -Os guerreiros pytiguaras, para não espantar o inimigo se occultam entre -os cajueiros; e vão seguindo pela praia a grande igara: durante o dia -avultam as brancas velas; de noite os fogos atravessam a negrura do mar, -como vaga lumes perdidos na mata. -</p> - -<p> -Muitos sóes caminharam assim. Passam alem do Camocim, e afinal pisam as -lindas ribeiras da enseada dos papagaios. -</p> - -<p> -Poty manda um guerreiro ao grande Jacaúna e se prepara para o combate. -Martim, que subiu ao morro de areia, conhece que o maracatim vem -recolher no seio da terra; e avisa seu irmão. -</p> - -<p> -O sol já nasceu; os guerreiros guaraciabas e os tupinambás seus -amigos, correm sobre as ondas nas ligeiras pirogas e pojam na praia. -Formam o grande arco, e avançam como o cardume do peixe quando corta a -correnteza do rio. -</p> - -<p> -No centro estão os guerreiros do fogo, que trazem o raio; nas azas os -guerreiros do Mearim que brandem o tacape. -</p> - -<p> -Mas nação alguma jamais vibrou o arco certeiro, como a grande nação -pytiguara; e Poty é o maior chefe, de quantos chefes empunharam a -inubia guerreira. Ao seu lado caminha o irmão, tão grande chefe como -elle, e sabedor das manhas da raça branca dos cabellos do sol. -</p> - -<p> -Durante a noite os Pytiguaras fincam na praia a forte caiçara de -espinho: e levantam contra ella um muro de areia, onde o raio esfria e -se apaga. Ahi esperam o inimigo. Martim manda que outros guerreiros -subam á copa dos mais altos coqueiros; alli defendidos pelas largas -palmas, esperam o momento do combate. -</p> - -<p> -A setta de Poty foi a primeira que partiu, e o chefe dos guaraciabas o -primeiro heroe que mordeu o pó da terra extrangeira. Rugem os trovões -na dextra dos guerreiros brancos; mas os raios que desferem mergulham-se -na areia, ou se perdem nos ares. -</p> - -<p> -As settas dos pytiguaras, já cahem do céo, já voam da terra, e se -embebem todas no seio do inimigo. Cada guerreiro tomba crivado de muitas -flechas, como a presa que as piranhas disputam nas aguas do lago. -</p> - -<p> -Os inimigos embarcam outra vez nas pirogas, e voltam ao maracatim em -busca dos grandes e pesados trovões, que um homem só, nem dois, podem -manejar. -</p> - -<p> -Quando voltam, o chefe dos pescadores, que corre nas aguas do mar como o -veloz camoropim, de que tomou o nome, se arroja nas ondas, e mergulha. -Ainda a espuma não se apagára, e já a piroga inimiga se afundou, -parecendo que a tragára uma baleia. -</p> - -<p> -Veiu a noite, que trouxe o repouso. -</p> - -<p> -Ao romper d'alva, o maracatim fugia no horisonte para as margens do -Mearim. Jacaúna chegou, não mais para o combate e sim para o festim da -victoria. -</p> - -<p> -N'essa hora em que o canto guerreiro dos pytiguaras celebrava a derrota -dos guaraciabas, o primeiro filho que o sangue da raça branca gerara -n'essa terra da liberdade, via a luz nos campos da Porangaba. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXX">XXX</a></h4> - -<p> -Iracema cuidou que o seio se lhe rompia: e buscou a margem do rio, onde -crescia o coqueiro. -</p> - -<p> -Estreitou-se com a haste da palmeira. A dôr lacerou suas entranhas; -porém logo o choro infantil inundou todo o seu ser de jubilo. -</p> - -<p> -A joven mãe, orgulhosa de tanta ventura, tomou o tenro filho nos -braços e com elle se arrojou ás aguas limpidas do rio. Depois -suspendeu-o á teta mimosa; seus olhos então o envolviam de tristeza e -amor. -</p> - -<p> -—Tu és <span id="Nota111">Moacyr</span>, o nascido de meu -soffrimento. -</p> - -<p> -A ará, pousada no olho do coqueiro, repetiu Moacyr; e desde então a -ave amiga em seu canto unia ao nome da mãe, o nome do filho. -</p> - -<p> -O innocente dormia; Iracema suspirava. -</p> - -<p> -—A jaty fabrica o mel no tronco cheiroso do assasfraz; toda a lua das -flores vôa de ramo em ramo, colhendo o suco para encher os favos; mas -ella não prova sua doçura, porque a irara devora em uma noite toda a -colmeia. Tua mãe tambem, filho de minha angustia, não beberá em teus -labios o mel do sorriso. -</p> - -<p> -A joven mãe passou aos hombros a larga <span id="Nota112">faxa</span> de -macio algodão, que fabricara para trazer o filho sempre unido ao flanco; e -seguiu pela areia o rastro do esposo, que ha tres sóes partira. Ella -caminhava docemente para não despertar a creancinha adormecida como o -passarinho sob a aza materna. -</p> - -<p> -Quando chegou junto ao grande morro das areias, viu que o rastro de -Martim e Poty seguia ao longo da praia; e adivinhou que elles eram -partidos para a guerra. Seu coração suspirou; mas seus olhos sêccos -buscaram o semblante do filho. -</p> - -<p> -Volve o rosto para o Mocoribe. -</p> - -<p> -—Tu és o morro da alegria; mas para Iracema tu não tens senão -tristeza. -</p> - -<p> -Tornando, a recente mãe pousou a creança sempre dormida na rêde de -seu pae, viuva e solitaria em meio da cabana; ella deitou-se ao chão, -na esteira onde repousava, desde que os braços do esposo se não tinham -aberto mais para recebel-a. -</p> - -<p> -A luz da manhã entrava pela cabana, e Iracema viu entrar com ella a -sombra de um guerreiro. -</p> - -<p> -Cauby estava em pé na porta. -</p> - -<p> -A esposa de Martim ergueu-se de um impeto e saltou ávante para proteger -o filho. Seu irmão levantou da rêde a ella uns olhos tristes, e falou -com a voz ainda mais triste: -</p> - -<p> -—Não foi a vingança que arrancou o guerreiro Cauby aos campos dos -Tabajaras; elle já perdoou. Foi a vontade de ver Iracema, que trouxe -comsigo toda a sua alegria. -</p> - -<p> -—Então bemvindo seja o guerreiro Cauby na cabana de seu irmão: -respondeu a esposa abraçando-o. -</p> - -<p> -—O nascido de teu seio dorme n'essa rede; os olhos de Cauby gostariam -de vêl-o. -</p> - -<p> -Iracema abriu a franja de pennas; e mostrou o lindo semblante da -creança. Cauby depois que o contemplou por muito tempo, entre risos, -disse: -</p> - -<p> -—Elle <span id="Nota113">chupou tua alma</span>. -</p> - -<p> -E beijou nos olhos da joven mãe, a imagem da creança, que não se -animava tocar com receio de offender. -</p> - -<p> -A voz tremula da filha resoou: -</p> - -<p> -—Ainda vive Araken sobre a terra? -</p> - -<p> -—Pena ainda; depois que tu o deixaste sua cabeça, vergou para o peito -e não se ergueu mais. -</p> - -<p> -—Dize-lhe que Iracema é morta já, para que elle se console. -</p> - -<p> -A irmã de Cauby preparou a refeição para o guerreiro, e armou no -copiar a rêde da hospitalidade para que elle repousasse das fadigas da -jornada. Quando o viajante satisfez o appetite, ergueu-se com estas -palavras: -</p> - -<p> -—Dize onde está teu esposo e meu irmão, para que o guerreiro Cauby -lhe dê o abraço da amizade. -</p> - -<p> -Os labios suspirosos da misera esposa moveram-se como as petalas do -cacto que um sopro amarrota, e ficaram mudas. Mas as lagrimas debulharam -dos olhos e cahiram em bagas. -</p> - -<p> -O rosto de Cauby annuviou-se: -</p> - -<p> -—Teu irmão pensava que a tristeza ficara nos campos que abandonaste; -porque comtigo trouxeste todo o riso dos que te amavam! -</p> - -<p> -Iracema seccou os olhos: -</p> - -<p> -—O esposo de Iracema partiu com o guerreiro Poty para as praias do -Acaraú. Antes que tres sóes tenham allumiado a terra elle voltará e -com elle a alegria á alma da esposa. -</p> - -<p> -—O guerreiro Cauby o espera para saber o que elle fez do sorriso que -morava em teus labios. -</p> - -<p> -A voz do tabajara enrouquecera; seu passo inquieto volveu a esmo pela -cabana. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXXI">XXXI</a></h4> - -<p> -Iracema cantava docemente, embalando a rêde para acalentar o filho. -</p> - -<p> -A areia da praia crepitou sob o pé forte e rijo do guerreiro tabajara, -que vinha das bordas do mar depois da abundante pesca. -</p> - -<p> -A joven mãe cruzou as franjas da rede, para que as moscas não -inquietassem o filho acalentado, e foi ao encontro do irmão: -</p> - -<p> -—Cauby vae tornar ás montanhas dos Tabajaras! disse ella com -brandura. -</p> - -<p> -O guerreiro annuviou-se: -</p> - -<p> -—Tu despedes teu irmão da cabana para que elle não veja a tristeza -que a enche. -</p> - -<p> -—Araken teve muitos filhos em sua mocidade; uns a guerra levou e -morreram como valentes; outros escolheram uma esposa, e geraram por sua -vez numerosa prole: filhos de sua velhice, Araken só teve dois. Iracema -é para elle como a rôla que o caçador tirou do ninho. Só resta o -guerreiro Cauby ao velho Pagé, para suster seu corpo vergado, e guiar -seu passo tremulo. -</p> - -<p> -—Cauby partirá quando a sombra deixar o rosto de Iracema. -</p> - -<p> -—Como vive a estrella da noite, vive Iracema em sua tristeza. Só os -olhos do esposo podem apagar a sombra em seu rosto. Parte, para que -elles não se turvem com tua vista. -</p> - -<p> -—Teu irmão parte para agradar tua vontade; mas elle voltará todas as -vezes que o cajueiro florescer para sentir em seu coração o filho de -teu ventre. -</p> - -<p> -Entrou na cabana. Iracema tirou da rêde a creança; e ambos, mãe e -filho, palpitaram sobre o peito do guerreiro tabajara. Depois Cauby -passou a porta, e sumio-se entre as arvores. -</p> - -<p> -Iracema, arrastando o passo tremulo, o acompanhou de longe até que o -perdeu de vista na orla da mata. Ahi parou: quando o grito da jandaia de -envolta com o choro infantil, a chamou á cabana, a areia fria onde -esteve sentada, guardou o segredo do pranto que em bebera. -</p> - -<p> -A joven mãe suspendeu o filho á teta; mas a bocca infantil não -emmudeceu. O leite escasso não apojava o peito. -</p> - -<p> -O sangue da infeliz diluia-se todo nas lagrimas incessantes que não -estancavam dos olhos; nenhum chegava aos seios, onde se forma o primeiro -licor da vida. -</p> - -<p> -Ella dissolveu a alva <span id="Nota114">cariman</span> e preparou ao fogo -o mingáo para nutrir o filho. Quando o sol dourou a crista dos montes, -partiu para a mata, levando ao collo a creança adormecida. -</p> - -<p> -Na espessura do bosque está o leito da irara ausente; os tenros -caxorrinhos grunhem enrolando-se uns sobre os outros. A formosa tabajara -approxima-se de manso. Prepara para o filho um berço da macia rama do -maracujá; e senta-se perto. -</p> - -<p> -Põe no regaço um por um os filhos da irara; e lhes abandona os seios -mimosos, cuja teta rubra como a pitanga ungio do mel da abelha. Os -caxorrinhos famintos precipitam-se gulosos e sugam os peitos avaros de -leite. -</p> - -<p> -Iracema curte dôr, como nunca sentiu; parece que lhe exhaurem a vida; -mas os seios vão-se entumecendo; apojaram afinal, e o leite, ainda -rubro do sangue, de que se formou, esguicha. -</p> - -<p> -A feliz mãe arroja de si os caxorrinhos, e cheia de jubilo mata a fome -ao filho. Elle é agora duas vezes filho de sua dôr, nascido d'ella e -tambem nutrido. -</p> - -<p> -A filha de Araken sentiu afinal que suas veias se estancavam; e comtudo -o labio amargo de tristeza recusava o alimento que devia restaurar-lhe -as forças. O gemido e o suspiro tinham crestado com o sorriso o sabor -em sua bocca formosa. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXXII">XXXII</a></h4> - -<p> -Descamba o sol. -</p> - -<p> -Japy sae do mato e corre para a porta da cabana. -</p> - -<p> -Iracema sentada com o filho no collo, banha-se nos raios do sol e -sente o frio arripiar-lhe o corpo. Vendo o animal, fiel mensageiro do -esposo, a esperança reanimou seu coração; quiz erguer-se para ir ao -encontro de seu guerreiro e senhor, mas os membros debeis se recusaram -á sua vontade. -</p> - -<p> -Cahiu desfallecida contra o esteio. Japy lambia-lhe a mão desfallecida, -e pulava travesso para fazer sorrir a creança, soltando uns doces -latidos de prazer. Por vezes, afastou-se para correr até á orla da -mata, e latir chamando o senhor, logo tornava á cabana para festejar a -mãe e o filho. -</p> - -<p> -Por esse tempo pisava Martim os campos amarellos do -<span id="Nota115">Tauape</span>: seu irmão Poty, o inseparavel, caminhava -a seu lado. -</p> - -<p> -Oito luas havia que elle deixara as praias da Jacarecanga. Depois de -vencidos os Guaraciabas na bahia dos papagaios, o guerreiro christão -quiz partir para as margens do Mearim, onde habitava o barbaro alliado -dos Tupinambás. -</p> - -<p> -Poty e seus guerreiros o acompanharam. Depois que transpuzeram o braço -corrente do mar que vem da serra de Tauatinga e banha as varzeas onde se -pesca o piau, viram emfim as praias do Mearim, e a velha taba do barbaro -tapuia. -</p> - -<p> -A raça dos cabellos do sol cada vez ganhava mais a amizade dos -Tupinambás: crescia o numero dos guerreiros brancos, que já tinham -levantado na ilha a grande itaoca, para despedir o raio. -</p> - -<p> -Quando Martim viu o que desejava, tornou aos campos da Porangaba, que -elle agora trilha. Já ouve o ronco do mar nas praias do Mocoribe; já -lhe bafeja o rôsto o sopro vivo das vagas do oceano. -</p> - -<p> -Quanto mais seu passo o aproxima da cabana, mais lento se torna e -pesado. Tem medo de chegar: e sente que sua alma vae soffrer, quando os -olhos tristes e maguados da esposa, entrarem n'ella. -</p> - -<p> -Ha muito que a palavra desertou seu labio secco; o amigo respeita este -silencio, que elle bem entende. É o silencio do rio quando passa nos -logares profundos e sombrios. -</p> - -<p> -Tanto que os dois guerreiros tocaram as margens do rio, ouviram o latir -do cão, que os chamava, e o grito da ará, que se lamentava. Eram mui -proximos á cabana, apenas occulta por uma lingua de mato. O christão -parou calcando a mão no peito para soffrear o coração, que saltava -como o poraquê. -</p> - -<p> -—O latido de Japy é de alegria, disse o chefe. -</p> - -<p> -—Porque chegou; mas a voz da jandaia é de tristeza. Achará o -guerreiro ausente a paz no seio da esposa solitaria, ou terá a saudado -matado em suas entranhas o fructo do amor? -</p> - -<p> -O christão moveu o passo vacillante. De repente, entre os ramos das -arvores, seus olhos viram sentada, á porta da cabana, Iracema, com o -filho no regaço e o cão a brincar. Seu coração o arrastou de um -impeto, e toda a alma lhe estalou nos labios.—Iracema!... -</p> - -<p> -A triste esposa e mãe sôabrio os olhos, ouvindo a voz amada. Com -esforço grande, poude erguer o filho nos braços, e apresental-o ao -pae, que o olhava extactico em seu amor. -</p> - -<p> -—Recebe o filho de teu sangue. Vieste a tempo; meus seios ingratos já -não tinham alimento para dar-lhe! -</p> - -<p> -Pousando a creança nos braços paternos, a desventurada mãe -desfalleceu como a jetyca se lhe arrancam o bulbo. O esposo vio então -como a dôr tinha murchado seu bello corpo; mas a formosura ainda morava -n'ella, como o perfume na flôr cabida do manacá. -</p> - -<p> -Iracema não se ergueu mais da rêde onde a pousaram os afflictos -braços de Martim. O esposo, em quem o amor renascera com o jubilo -paterno, a cercou de caricias que encheram sua alma de alegria, mas não -a poderam tornar á vida; o estame de sua flôr se rompera. -</p> - -<p> -—Enterra o corpo de tua esposa ao pé do coqueiro que tu amaste. -Quando o vento do mar soprar nas folhas, Iracema pensará que é tua voz que -fala entro seus cabellos. -</p> - -<p> -O labio emmudeceu para sempre; o ultimo lampejo despediu-se dos olhos -baços. -</p> - -<p> -Poty amparou o irmão em sua grande dôr. Martim, sentiu que um amigo -verdadeiro é precioso na desventura; é como o outeiro que abriga do -vendaval o tronco forte e robusto do ubiratan, quando o broca o -<span id="Nota116">copim</span>. -</p> - -<p> -O camocim recebeu o corpo de Iracema, embebido de resinas odoriferas; e -foi enterrado ao pé do coqueiro, á borda do rio. Martim quebrou um -ramo de murta, a folha da tristeza, e deitou-o no jazigo de sua esposa. -A jandaia pousada no olho da palmeira repelia tristemente:—Iracema! -</p> - -<p> -Desde então os guerreiros pytiguaras que passavam perto da cabana -abandonada e ouviam resoar a voz plangente da ave amiga, se afastavam, -com a alma cheia de tristeza, do coqueiro onde cantava a jandaia. E foi -assim que veiu a chamar-se Ceará o rio onde crescia o coqueiro, e os -campos onde serpeia o rio. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXXIII">XXXIII</a></h4> - -<p> -O cajueiro floresceu quatro vezes depois que Martim partiu das praias do -Ceará, levando no fragil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não -quiz deixar a terra onde repousava sua amiga e senhora. -</p> - -<p> -O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da patria. Seria -a predestinação de uma raça? -</p> - -<p> -Poty com os seus guerreiros esperava na margem do rio. O christão lhe -promettera voltar; todas as manhãs subia ao morro das areias e volvia -os olhos ao mar a vêr se branqueava ao longe a vela amiga. -</p> - -<p> -Afinal volta Martim de novo ás terras, que foram de sua felicidade, e -são agora de amarga saudade. Quando seu pé sentiu o calor das brancas -areias, derramou-se por todo o seu ser um fogo ardente, que lhe -requeimou o coração: era o fogo das recordações accesas. -</p> - -<p> -A chamma só applacou quando elle tocou a terra onde dormia sua esposa; -porque n'esse instante seu coração transudou, como o tronco do jetahy -nos ardentes calores, e refrescou sua pena de lagrimas abundantes. -</p> - -<p> -Muitos guerreiros de sua raça acompanharam o chefe branco, para fundar -com elle a mayri dos christãos. Veio tambem um sacerdote de sua -religião, de negras vestes, para plantar a cruz na terra selvagem. -</p> - -<p> -Poty foi o primeiro que ajoelhou aos pés do sagrado lenho: não soffria -elle que nada mais o separasse de seu irmão branco; por isso quiz que -tivessem ambos um só Deus, como tinham um só coração. -</p> - -<p> -Elle recebeu com o baptismo o nome do santo, cujo era o dia; e o do rei, -a quem ia servir, e sobre os dois o seu, na lingua dos novos irmãos. -Sua fama cresceu e ainda hoje é o orgulho da terra, onde elle viu a luz -primeiro. -</p> - -<p> -A mayri que Martim erguera á margem do rio, nas praias do Ceará, -medrou. A palavra do Deus verdadeiro germinou na terra selvagem; e o -bronze sagrados resoou nos valles onde rugia o maracá. -</p> - -<p> -Jacaúna veio habitar nos campos da Porangaba para estar perto de seu -amigo branco; Camarão assentou a taba de seus guerreiros nas margens da -<span id="Nota119">Mocejana</span>. -</p> - -<p> -Tempo depois, quando veiu <span id="Nota117">Albuquerque</span>, o grande -chefe dos guerreiros brancos, Martim e Camarão partiram para as margens do -Mearim a castigar o feroz tupinambá e expulsar o branco tapuia. -</p> - -<p> -Era sempre com emoção que o esposo de Iracema revia as plagas onde -fora tão feliz, e as verdes folhas a cuja sombra dormia a formosa -tabajara. -</p> - -<p> -Muitas vezes ia sentar-se n'aquellas doces areias, para scismar e -acalentar no peito a agra saudade. -</p> - -<p> -As jandaias cantavam ainda no olho do coqueiro; mas não repetiam já o -mavioso nome de Iracema. -</p> - -<p> -Tudo passa sobre a terra. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>FIM</h4> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="NOTAS">NOTAS</a></h4> - -<p> -Pag. 10.—<a href="#Nota1"><i>Argumento historico.</i></a>—Em -1603, Pero Coelho, homem nobre da Parahyba, partiu como capitão-mór de -descoberta, levando uma força de 80 colonos e 800 indios. Chegou á foz do -Jaguaribe e ahi fundou o povoado que teve nome de <i>Nova-Lisboa</i>. -</p> - -<p> -Foi esse o primeiro estabelecimento colonial do Ceará. -</p> - -<p> -Como Pero Coelho se visse abandonado dos socios, mandaram-lhe João -Soromenho com soccorros. Esse official, auctorisado a fazer captivos -para indemnisação das despezas, não respeitou os proprios indios do -Jaguaribe, amigos dos Portuguezes. -</p> - -<p> -Tal foi a causa da ruina do nascente povoado. Retiraram-se os colonos, -pelas hostilidades dos indigenas; e Pero Coelho ficou ao desamparo, -obrigado a voltar a Parahyba por terra, com sua mulher e filhos -pequenos. -</p> - -<p> -Na primeira expedição foi do Rio-Grande do Norte um moço de nome -Martim Soares Moreno, que se ligou de amizade com Jacaúna, chefe dos -indios do littoral e seu irmão Poty. Em 1608 por ordem de D. Diogo -Menezes voltou a dar principio á regular colonisação d'aquella -capitania: o que levou a effeito fundando o presidio de Nossa Senhora do -Amparo em 1611. -</p> - -<p> -Jacaúna, que habitava as margens do Acaracú, veiu estabelecer-se com -sua tribu nas proximidades do recente povoado, para o proteger contra os -indios do interior e os francezes que infestavam a costa. -</p> - -<p> -Poty recebeu no baptismo o nome de Antonio Fillippe Camarão, que -illustrou na guerra hollandeza. Seus serviços foram remunerados com o -foro de fidalgo, a commenda de Christo e o cargo de capitão-mór dos -indios. -</p> - -<p> -Martim Soares Moreno chegou a mestre de campo e foi um dos excedentes -cabos portuguezes que libertaram o Brazil da invasão hollandeza. O -Ceará deve honrar sua memoria como de um varão prestante e seu -verdadeiro fundador, pois que o primeiro povoado á foz do rio Jaguaribe -foi apenas uma tentativa frustrada. -</p> - -<p> -Este é o argumento historico da lenda; em notas especiaes se indicarão -alguns outros subsidios recebidos dos chronistas do tempo. -</p> - -<p> -Ha uma questão historica, relativa a este assumpto; fallo da patria do -Camarão, que um escriptor pernambucano quiz pôr em duvida, tirando a -gloria ao Ceará para a dar á sua provincia. -</p> - -<p> -Este ponto aliás somente contestado nos tempos modernos pelo Sr. -commendador Mello em suas <i>Biographias</i>, me parece sufficientemente -elucidado já, depois da erudita carta do Sr. Basilio Quaresma Torreão, -publicada no Mercantil n.° 26 de 26 de Janeiro de 1860, 2.ª pagina. -</p> - -<p> -Entretanto farei sempre uma observação. -</p> - -<p> -Em primeiro logar a tradicção oral é uma fonte importante da -historia, e ás vezes a mais pura e verdadeira. Ora na provincia de -Ceará em Sobral não só se referiam entre gente do povo noticias do -Camarão, como existia lima velha mulher que se dizia d'elle sobrinha. -Essa tradicção foi colhida por diversos escriptores, entre elles o -conspicuo auctor da <i>Corographia Brasilica</i>. -</p> - -<p> -O auctor do Valoroso Lucideno é dos antigos o unico que positivamente -affirma ser Camarão filho de Pernambuco; mas além de encontrar essa -asserção a versão de outros escriptores de nota, accresce que Berredo -explica perfeitamente o dito d'aquelle escriptor, quando falla da -expedição de Pero Coelho de Souza a Jaguaribe, <i>sitio d'aquelle tempo -e tambem no de hoje da jurisdicção de Pernambuco</i>. -</p> - -<p> -Outro ponto é necessario esclarecer para que não me censurem de infiel -á verdade historica. É a nação de Jacaúna e Camarão que alguns -pretendem ter sido a tabajara. Ha n'isso manifesto engano. -</p> - -<p> -Em todas as chronicas se falla das tribus de Jacaúna e Camarão, como -habitantes do littoral, e tanto que auxiliam a fundação do Ceará, -como já haviam auxiliado a da Nova-Lisboa em Jaguaribe. Ora a nação, -que habitava o littoral entre o Parnahyba e o Jaguaribe ou Rio-Grande, -era a dos Pytiguaras, como attesta Gabriel Soares. Os Tabajaras. -habitavam a serra de Ibyapa, e portanto o interior. -</p> - -<p> -Como chefes dos Tabajaras são mencionados Mel Redondo no Ceará e Grão -Deabo em Piauhy. Esses chefes foram sempre inimigos irreconciliaveis e -rancorosos dos portuguezes, e alliados dos francezes do Maranhão, que -penetraram até Ibyapaba. Jacaúna e Camarão são conhecidos pela sua -alliança firme com os portuguezes. -</p> - -<p> -Mas o que solve a questão é o seguinte texto. Lê-se nas <i>memorias -diarias</i> da guerra brasilica do conde de Pernambuco:—1834, -Janeiro, 18: "Pelo bom procedimento com que havia servido A. Ph. Camarão o -fez El-rei capitão-mór de todos os indios não somente de sua nação, que -era <i>Pytiguar</i>, mas das outras residentes em varias aldeias." -</p> - -<p> -Esta auctoridade, além de contemporanea, testemunhal, não pode ser -recusada, especialmente quando se exprime tão positiva e -intencionalmente a respeito do ponto duvidoso. -</p> - -<p> -Pag. 19.—<a href="#Nota2"><i>Onde canta a jandaia.</i></a>—Diz -a tradicção que Ceará significa na lingua indigena—<i>canto de -jandaia</i>. -</p> - -<p> -Ayres do Casal, Corographia Brasilica, refere essa tradicção. O -senador Pompêo, em seu excellente diccionario topographico, menciona -uma opinião, nova para mim, que pretende vir <i>Siará</i> da palavra -<i>saia</i>-caça, em virtude da abundancia de caça que se encontrava nas -margens do rio. Essa etymologia é forçada. Para designar quantidade, -usava a lingua tupy da desinencia <i>iba</i>; a desinencia <i>ára</i> junta -aos verbos designa o sujeito que exercita a acção actual; junta aos nomes -o que tem actualmente o objecto—exp. <i>Coatyara</i>—o que -pinta.—<i>Jussara</i>—o que tem espinho. -</p> - -<p> -Ceará é nome composto de <i>cemo</i>—cantar forte, clamar, e -<i>ará</i>, pequena arara ou periquito. Essa é a etymologia verdadeira, e -não só conforme com a tradicção, mas com as regras da lingua. -</p> - -<p> -Pag. 20.—I. <a href="#Nota3"><i>Giráu.</i></a>—Na jangada é uma -especie de estrado onde accommodam os passageiros: e ás vezes o cobrem de -palha. Em geral é qualquer estiva elevada do solo e suspensa em forquilhas. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota4"><i>Iracema.</i></a>—Em guarany significa labios -de mel—de <i>ira</i>—mel e <i>tembe</i> labios. <i>Tembe</i> na -composição altera-se em <i>ceme</i>, como na palavra <i>ceme-yba</i>. -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota5"><i>Graúna</i></a> é o passaro conhecido de cor -negra luzidia.—Seu nome vem por corrupção de <i>guira</i> -passaro e <i>una</i>, abreviação de <i>pixuna</i> de preto. -</p> - -<p> -IV. <a href="#Nota6"><i>Jaty.</i></a>—Pequena abelha que fabrica -delicioso mel. -</p> - -<p> -Pag. 21.—I. <a href="#Nota7"><i>Ipú.</i></a>—Chamam ainda -hoje no Ceará certa qualidade de terra muito fertil, que fórma grandes -corôas ou ilhas no meio dos taboleiros e sertões, e é de preferencia -procurada para a cultura. D'ahi se deriva o nome d'essa comarca da -provincia. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota8"><i>Tabajaras.</i></a>—Senhores das -aldeias—de <i>taba</i>—aldeia—e—<i>jara</i>—senhor. -Essa nação dominava o interior da provincia, especialmente a Serra da -<i>Ibyapaba</i>. - - -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota9"><i>Oitycica.</i></a>—Arvore frondosa, apreciada -pela deliciosa frescura que derrama sua sombra. -</p> - -<p> -IV. <a href="#Nota10"><i>Gará.</i></a>—Ave palludal, muito -conhecida pelo nome de <i>guará</i>. Penso eu que esse nome anda -corrompido de sua verdadeira origem, que é—<i>ig</i>, agua e -<i>ará</i>, arara; arara d'agua, pela bella côr vermelha. -</p> - -<p> -V. <a href="#Nota11"><i>Ará.</i></a>—periquito. Os indigenas como -augmentativo usavam repetir a ultima sillaba da palavra e ás vezes toda -a palavra—como <i>murémuré</i>. <i>Muré</i>, -frauta—<i>murémuré</i>, grande frauta. <i>Arára</i> vinha a ser -pois o augmentativo de <i>ará</i>, e significaria a especie maior do -genero. -</p> - -<p> -VI. <a href="#Nota12"><i>Urú.</i></a>—Cestinho que servia de cofre -ás selvagens para guardar seus objectos de mais preço e estimação. -</p> - -<p> -VII. <a href="#Nota13"><i>Crautá.</i></a>—Bromelia vulgar, de que se -tiram fibras tão ou mais finas que as do linho. -</p> - -<p> -VIII. <a href="#Nota14"><i>Jussara.</i></a>—Palmeira de grandes -espinhos, das quaes se servem ainda hoje para dividir os fios da renda. -</p> - -<p> -Pag. 22.—I. <a href="#Nota15"><i>Uiraçaba.</i></a>—aljava—de -<i>uira</i> seta e a desinencia—<i>caba</i>—cousa propria. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota16"><i>Quebrar a flecha.</i></a>—Era entre os -indigenas a maneira symbolica de estabelecerem a paz entre as diversas -tribus, ou mesmo entre dois guerreiros inimigos. Desde já advertimos -que não se extranhe a maneira porque o extrangeiro se exprime falando -com os selvagens: ao seu perfeito conhecimento dos usos e lingua dos -indigenas, e sobretudo a ter-se conformado com elles a ponto de deixar -os trajos europeus e pintar-se, deveu Martim Soares Moreno a influencia -que adquiriu entre os indios do Ceará. -</p> - -<p> -Pag. 23.—I. <a href="#Nota17"><i>Ibyapaba.</i></a>—Grande -serra que se prolonga ao norte da provincia e a extrema com Piauhy. -Significa terra aparada. O Dr. Martins em seu <i>glossario</i> lhe -attribue outra etymologia. <i>Iby</i>-terra—e -<i>pabe</i>—tudo. A primeira porém tem a auctoridade de Vieira. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota18"><i>Igaçaba.</i></a>—de <i>ig</i>—agua e -a desinencia <i>çaba</i>—cousa propria. -</p> - -<p> -Pag. 24.—I. <a href="#Nota19"><i>Vieste.</i></a>—A -saudação usual da hospitalidade era esta:—<i>Erc -ioubé</i>—tu vieste? <i>pa-aiotu</i>, vim sim. <i>Auge-be</i>, -bem dito. Veja-se Lery, pag. 286. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota20"><i>Jaguaribe.</i></a>—maior rio da -provincia; tirou o nome da quantidade de onças que povoavam suas -margens. <i>Jaguar</i>—onça—<i>iba</i>—desinencia -para exprimir copia, abundancia. -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota21"><i>Martim.</i></a>—Da origem latina de seu -nome, procedente de Marte, deduz o extrangeiro a significação que lhe dá. -</p> - -<p> -IV. <a href="#Nota22"><i>Pytiguaras.</i></a>—Grande nação de -indios que habitava o littoral da provincia e estendia-se desde o -Parnahyba até o Rio Grande do Norte. A orthographia do nome anda mui -viciada nas differentes versões, pelo que se tornou difficil conhecer a -etymologia. -</p> - -<p> -<a href="#Nota23"><i>Iby</i></a> significava terra; <i>iby-tira</i> -veiu a significar serra, ou terra alta. Aos valles chamavam -os indigenas <i>iby-tira-cua</i>—cintura das montanhas. -A desinencia <i>jara</i> senhor, accrescentada, formou a palavra -<i>Ibyticuara</i>—que por corrupção deu -<i>Pytiguara</i>—senhores dos valles. - - -</p> - -<p> -V. <a href="#Nota24"><i>Mau espirito da floresta.</i></a>—Os -indigenas chamavam a esses espiritos <i>caa-pora</i>, habitantes da -mata, d'onde por corrupção veiu a palavra caipora, introduzida na -lingua portugueza em sentido figurado. -</p> - -<p> -Pag. 25.—I. <a href="#Nota25"><i>As mais bellas mulheres.</i></a>—Este costume da hospitalidade -americana é attestado pelos chronistas. A elle se attribue o bello -rasgo de virtude de Anchieta, que para fortalecer a sua castidade, -compunha nas praias de Iperoig o poema da <i>Virgindade de Maria</i>, cujos -versos escrevia nas areias humidas, para melhor os polir. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota26"><i>Jurema.</i></a>—Arvore mean, de folhagem -espessa; dá um fructo excessivamente amargo, de cheiro acre, do qual -juntamente com as folhas e outros ingredientes preparavam os selvagens -uma bebida, que tinha o effeito do hatchis, de produzir sonhos tão -vivos e intensos, que a pessoa fruia n'elles melhor do que na realidade. -A fabricação d'esse licor era um segredo, explorado pelos Pagés, em -proveito de sua influencia. <i>Jurema</i> é composto de -<i>ju</i>-espinho e <i>rema</i> cheiro desagradavel. -</p> - -<p> -Pag. 26.—I. <a href="#Nota27"><i>Irapuam.</i></a>—de -<i>ira</i>-mel e <i>apuam</i> redondo: é o nome dado a uma abelha -virulenta e brava, por causa da forma redonda de sua colmeia. Por -corrupção reduziu-se esse nome actualmente a <i>arapuá</i>. O -guerreiro de que se trata aqui é o celebre Mel-redondo, assim chamado -pelos chronistas do tempo, que traduziam seu nome ao pé da lettra. -Mel-redondo, chefe dos Tabajaras da serra Ibyapaba, foi encarniçado -inimigo dos portuguezes, e amigo dos francezes. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota28"><i>Acaracú.</i></a>—O nome do -rio é <i>Acaracú</i>—de <i>acará</i> -garça—<i>co</i>—buraco, toca, ninho, e <i>y</i>—som -dubio entre <i>i</i> e <i>u</i>, que os portuguezes, ora exprimiam de -um, ora de outro modo, significando <i>agua</i>. Rio do ninho das -garças é pois a traducção de <i>Acaracú</i>; e o rio das garças a -de <i>Acaraú</i>. Usou-se aqui da liberdade horaciana para evitar em -uma obra litteraria, obra de gosto e artistica, um som aspero e ingrato. -De resto quem sabe se o nome primitivo não foi realmente -<i>Acaraú</i>, que se alterou como tantos outros, pela introducção da -consoante? -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota29"><i>Estrella morta.</i></a>—A estrella polar, -por causa da sua immobilidade; orientavam-se por ella os selvagens durante -a noite. -</p> - -<p> -IV. <a href="#Nota30"><i>Boicininga.</i></a>—é a cobra -cascavel—de <i>boia</i>, cobra e <i>cininga</i> chocalho. -</p> - -<p> -V. <a href="#Nota31"><i>Oitibó.</i></a>—é uma ave nocturna, especie -de coruja. -</p> - -<p> -Pag. 27.—I. <a href="#Nota32"><i>Espiritos da -treva.</i></a>—A esses espiritos chamavam os selvagens -<i>curupira</i>, meninos máus—de <i>curumim</i>, menino, e -<i>pira</i> máu. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota33"><i>Boré.</i></a>—frauta de bambú,—o mesmo -que muré. -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota34"><i>Ocara.</i></a>—praça circular que -ficava no centro da taba, cercada pela estacada, e para a qual abriam -todas as casas. Composto de <i>oca</i>, casa e a desinencia <i>ara</i>, -que tem; aquillo que tem a casa, ou onde a casa está. -</p> - -<p> -IV. <a href="#Nota35"><i>Potyuara.</i></a>—comedor de camarão; de -<i>poty</i>—e <i>uara</i>. Nome que por desprêso davam os -inimigos aos Pytiguaras, que habitavam as praias e viviam em grande -parte de pesca. -</p> - -<p> -Este nome dão alguns escriptores aos Pytiguaras. porque o receberam de -seus inimigos. -</p> - -<p> -Pag. 28.—I. <a href="#Nota36"><i>Pocema.</i></a>—grande -alarido que faziam os selvagens nas occasiões solemnes, como em começo -de batalha, ou nas expansões da alegria; é palavra adoptada já na -lingua portugueza e inserida no diccionario de Moraes. Vem de -<i>po</i>-mão e <i>cemo</i> clamar; clamor das mãos, porque os -selvagens acompanhavam o vozear com o bater das palmas e das armas. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota37"><i>Andira.</i></a>—morcego: é em allusão a seu -nome que Irapuam dirige logo palavras de despreso ao velho guerreiro. -</p> - -<p> -Pag. 29.—<a href="#Nota38"><i>Aracaty.</i></a>—Significava -este nome bom tempo de <i>ara</i> e <i>catú</i>. Os selvagens do -sertão assim chamavam as brisas do mar que sopram regularmente ao cahir -da tarde, e correndo pelo valle do Jaguaribe se derramam pelo interior e -refrigeram da calma abrasadora do verão. D'ahi resultou chamar-se -<i>Aracaty</i> o logar de onde vinha a monção. Ainda hoje no Icó o -nome é conservado á brisa da tarde, que sopra do mar. -</p> - -<p> -Pag. 32.—I. <a href="#Nota39"><i>Afflar.</i></a>—Sobre este -verbo que introduzi na lingua portugueza do latim <i>afflo</i>, já -escrevi o que entendi em nota de uma segunda edição da <i>Diva</i> que -brevemente ha de vir á luz. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota40"><i>Anhanga.</i></a>—Davam os indigenas este -nome ao espirito do mal; compõe-se de <i>anho</i> atrito, só e -<i>anga</i> alma. Espirito só, privado do corpo, phantasma. -</p> - -<p> -Pag. 36.—I. <a href="#Nota41"><i>Camocim.</i></a>—vaso onde -encerravam os indigenas os corpos dos mortos e lhes servia de tumulo; -outros dizem <i>camotim</i>, e talvez com melhor orthographia, porque se -não me engano o nome corrupção da phrase <i>co</i> buraco, -<i>ambyra</i> defuncto, <i>anhotim</i> enterrar—buraco para -enterrar o defuncto—<i>c'am'otim</i>. O nome dava-se tambem a -qualquer pote. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota42"><i>Guabiroba.</i></a>—Deve ler-se -<i>Andiroba</i>. Arvore que dá um azeite amargo. -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota43"><i>Cabellos do sol.</i></a>—Em tupy -<i>guaraciaba</i>. Assim chamavam aos europeus que tinham os cabellos -louros. -</p> - -<p> -Pag. 38.—I. <a href="#Nota44"><i>Moquem.</i></a>—Do verbo -<i>mocaém</i> assar na labareda. Era a maneira por que os indigenas -conservavam a caça para não apodrecer, quando a levavam em viagem. Nas -cabanas a tinham ao fumeiro. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota45"><i>Senhor do caminho.</i></a>—assim chamavam -os indigenas ao guia—de <i>py</i>, caminho e <i>guara</i>, senhor. -</p> - -<p> -Pag. 39.—I. <a href="#Nota46"><i>O dia vae ficar -triste.</i></a>—Os tupys chamavam a tarde <i>carúca</i>, segundo -o diccionario: Segundo Lery, <i>che caruc acy</i>, -significa—"estou triste." Qual d'estes era o sentido figurado da -palavra? Tiraram a imagem da tristeza, da sombra da tarde, ou a imagem -do crepusculo do torvamento do espirito? -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota47"><i>Jurupary.</i></a>—demonio; de -<i>juroboca</i> e <i>apara</i> torto, aleijado. O bocca torta. -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota48"><i>Ubaia.</i></a>—fructa conhecida da especie -engenia. Significa fructa saudavel, de <i>uba</i>-fructa e <i>aia</i> -saudavel. -</p> - -<p> -Pag. 41.—I. <a href="#Nota49"><i>Jandaia.</i></a>—Este nome -que anda escripto por diversas maneiras <i>nhendaia</i>, <i>nhandaia</i> -e em todas alterado é apenas um adjectivo qualificativo -do substantivo <i>ará</i>. Deriva-se elle das palavras -<i>nheng</i>—falar—<i>antan</i>, duro, forte, aspero, e -<i>ara</i> desinencia verbal que exprime o agente—<i>nh' ant' -ara</i>; substituido o <i>t</i> por <i>d</i>—e o <i>r</i> por -<i>i</i>, tornou-se nhandaia, d'onde jandaia, que se traduzirá por -periquito grasnador. -</p> - -<p> -Do canto d'esta ave, como se viu, é que vem o nome de Ceará, segundo a -etymologia que lhe dá a tradicção. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota50"><i>Inhuma.</i></a>—Ave nocturna palamedea. A -especie de que se fala aqui é a palamedea chavaria, que canta -regularmente á meia noite. A orthographia melhor creio ser -<i>anhuma</i>, talvez de <i>anho</i>, só, e <i>anum</i>, ave agoureira -conhecida. Significaria então assim <i>anum solitario</i>, assim -chamado pela tal ou qual semelhança do grito desagradavel. -</p> - -<p> -Pag. 42.—<a href="#Nota51"><i>Inubia.</i></a>—Trombeta de -guerra. Os indigenas, segundo Lery, as tinham tão grandes que mediam um -diametro na abertura. -</p> - -<p> -Pag. 43.—<a href="#Nota52"><i>Guará.</i></a>—Cão selvagem, -lobo brazileiro. Provêm esta palavra do verbo <i>u</i> comer, do qual -se forma com o relativo <i>G</i> e a desinencia <i>ara</i> o verbal -<i>g-u-ára</i> comedor. A syllaba final longa é a particula -propositiva <i>ã</i> que serve para dar fôrça á palavra. -</p> - -<p> -<i>G-u-ára-ã</i> realmente comedor, voraz. -</p> - -<p> -Pag. 44.—I. <a href="#Nota53"><i>Jiboia.</i></a>—Cobra -conhecida: de <i>gi</i> machado e <i>boia</i> cobra. O nome foi tirado -da maneira porque a serpente lança o bote, semelhante ao golpe do -machado; pode traduzir-se bem cobra de arremesso. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota54"><i>Sucury.</i></a>—A serpente gigante que -habita nos grandes rios e engole um boi. De <i>Suu</i>, animal e -<i>cury</i> ou <i>curu</i> roncador. Animal roncador, porque de feito o -rouco da sucury é medonho. -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota55"><i>Se é que tens sangue e não -mel.</i></a>—Allusão que faz o velho Andira ao nome de Irapuam, o -qual como se disse significa mel redondo. -</p> - -<p> -IV. <a href="#Nota56"><i>Ouve seu trovão.</i></a>—Todo esse -episodio do rugido da terra é uma astucia, como usavam os pagés e os -sacerdotes de toda a nação selvagem para imporem á imaginação do -povo. A cabana estava assentada sobre um rochedo, onde havia uma galeria -subterranea que communicava com a varzea por estreita abertura; Araken -tivera o cuidado de tapar com grandes pedras as duas aberturas, para -occultar a gruta dos guerreiros. N'essa occasião a fenda inferior -estava aberta e o Pagé o sabia; abrindo a fenda superior, o ar -encanou-se pelo antro espiral com estridor medonho, e de que pode dar -uma idéa o sussurro dos caramujos.—O facto é pois natural; a -apparencia sim maravilhosa. -</p> - -<p> -Pag. 45.—<a href="#Nota57"><i>Abaty -n'agua.</i></a>—Abaty—arroz; Iracema serve-se da imagem do -arroz que só viça no alagado, para exprimir sua alegria. -</p> - -<p> -Pag. 53.—I. <a href="#Nota58"><i>Ubiratan.</i></a>—Páo ferro, -de <i>ubira</i>—páo e <i>antan</i> duro. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota59"><i>Maracajá.</i></a>—Gato selvagem. -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota60"><i>Caetetus.</i></a>—Porco do mato, especie -de javali brazileiro. Do <i>caeté</i>—mato grande e -virgem—e <i>suu</i> caça, mudado o <i>s</i> em <i>t</i> na -composição pela euphonia da lingua. Caça do mato virgem. -</p> - -<p> -IV. <a href="#Nota61"><i>Jaguar.</i></a>—Vimos que guará -significa voraz. Jaguar tem inquestionavelmente a mesma etymologia; é o -verbal <i>guara</i> e o pronome <i>ja</i> nós. Jaguar era pois para os -indigenas todos os animaes que os devoravam. <i>Jaguareté</i> o grande -devorador. -</p> - -<p> -V. <a href="#Nota62"><i>Anajê.</i></a>—Gavião. -</p> - -<p> -Pag. 55.—<a href="#Nota63"><i>Acauan</i></a>, ave inimiga das -cobras—de <i>caa</i> pão e <i>uan</i>—do verbo <i>u</i>, -que come pão. -</p> - -<p> -Pag. 56.—<a href="#Nota64"><i>Sahy.</i></a>—Lindo passaro azul. -</p> - -<p> -Pag. 57.—I. <a href="#Nota65"><i>Carioba.</i></a>—Camisa de -algodão, de <i>cary</i> branco e <i>oba</i> roupa. Tinham tambem a -<i>arassoia</i> de <i>arára</i>, e <i>oba</i>, vestido de pennas de -arara. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota66"><i>Á cintura da virgem.</i></a>—Os -indigenas chamavam a amante possuida <i>aguaçaba</i>, de <i>aba</i>, -homem, <i>cua</i>, cintura, <i>çaba</i> cousa propria; a mulher que o -homem cinge, ou traz á cintura. Fica pois claro o pensamento de -Iracema. -</p> - -<p> -Pag. 59.—I. <a href="#Nota67"><i>Jacy.</i></a>—A lua. De -<i>já</i>—pronome, nós, e <i>cy</i>—mãe.—A lua -exprimia o mez para os selvagens; e seu nascimento era sempre por elles -festejado. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota68"><i>Fogos da alegria.</i></a>—Chamavam os -selvagens <i>tory</i>, os fachos ou fogos; e <i>toryba</i>, a alegria, a -festa, a grande copia dos fachos. -</p> - -<p> -Pag. 60.—<a href="#Nota69"><i>Bucan.</i></a>—Significa uma -especie de grelha que os selvagens faziam para assar a caça; d'ahi vem -o verbo francez <i>boucaner</i>. A palavra é da lingua tupy. -</p> - -<p> -Pag. 63.—I. <a href="#Nota70"><i>Acoty.</i></a>—cotia. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota71"><i>Abaeté.</i></a>—varão abalisado; de -<i>aba</i>—homem e <i>eté</i>—forte, egregio. -</p> - -<p> -Pag. 66.—I. <a -href="#Nota72"><i>Jacaúna.</i></a>—jacarandá preto—de -<i>jaca</i>, abreviação de jacarandá, e <i>una</i>, preto. Este -Jacaúna é o celebre chefe, amigo de Martim Soares Moreno. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota73"><i>Coandú.</i></a>—porco espinho. -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota74"><i>Seu collar de guerra.</i></a>—O collar que -os selvagens faziam dos dentes dos inimigos vencidos era um brazão e -tropheu de valentia. -</p> - -<p> -Pag. 68.—I. <a href="#Nota75"><i>Japy.</i></a>—significa, -nosso pé, de <i>ja</i>—pronome, nós e <i>py</i> pé. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota76"><i>Ibyapina.</i></a>—De <i>Iby</i>-terra, e -<i>apino</i>, tosquiar. -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota77"><i>Jatobá.</i></a>—grande arvore real. O logar -da scena é o sitio da hoje Villa Viçosa, onde diz a tradição ter nascido -Camarão. -</p> - -<p> -Pag. 71.—I. <a href="#Nota78"><i>Meruoca.</i></a> De <i>mera</i>, -mosca, e <i>oca</i>, casa. Serra junto do Sobral, fertil em mantimentos. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota79"><i>Uruburetama.</i></a>—patria ou ninho de -urubus: serra bastante alta. -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota80"><i>Mundahú.</i></a>—rio muito tortuoso, que -nasce na serra de Uruburetama. <i>Mandé</i>, cilada, e <i>hu</i> rio. -</p> - -<p> -IV. <a href="#Nota81"><i>Potengi.</i></a>—rio que rega a cidade do -Natal, d'onde era filho Soares Moreno. -</p> - -<p> -Pag. 72.—I. <a href="#Nota82"><i>As saborosas -trahiras.</i></a>—É o rio Trahiry trinta leguas ao norte da -capital. De <i>trahira</i>, peixe e <i>y</i>, rio. Hoje é povoação e -districto de paz. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota83"><i>Soipé.</i></a>—paiz da caça. De -<i>Sôo</i> caça, e <i>ipé</i> lugar onde. Diz-se hoje Siupé, rio e -povoação pertencente a freguezia e termo da Fortaleza, situada á -margem dos alagados chamados Jaguarassú na embocadura do rio. -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota84"><i>Pacoty.</i></a>—Rio das pacobas. Nasce na -serra de Baturité e lança-se no Oceano duas leguas ao norte de Aquirás. -</p> - -<p> -IV. <a href="#Nota85"><i>Iguape.</i></a>—Enseada distante duas leguas -de Aquirás. De <i>Ig</i>, agua, <i>cua</i>, cintura e <i>ipé</i>, onde. -</p> - -<p> -Pag. 73—I. <a href="#Nota86"><i>Mocoribe.</i></a>—morro de -areia na enseada do mesmo nome a uma legua da Fortaleza; diz-se hoje -Mucuripe. Vem de <i>Corib</i> alegrar e <i>mo</i>, particula ou -abreviatura do verbo <i>monhang</i> fazer, que se junta aos verbos -neutros e mesmo activos para dar-lhes significação -passiva—exp.<i>caneon</i> affligir-se, <i>mocaneon</i> fazer -alguem afflicto. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota87"><i>Rio que forma um braço de -mar.</i></a>—É o <i>Parnahyba</i>, rio de Piauhy. Vem de Pará. -mar, <i>nhanhe</i>, correr e <i>hyba</i>, braço; braço corrente do -mar. Geralmente se diz que <i>Pará</i> significa rio e <i>Paraná</i> -mar; é inteiramente o contrario. -</p> - -<p> -Pag. 74.—I. <a href="#Nota88"><i>Mayr.</i></a>—cidade. Talvez -provenha o nome de <i>mayr</i> extrangeiro, e fosse applicado aos povoados -dos brancos em opposição ás tabas dos indios. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota89"><i>Brancos tapuias.</i></a>—em tupy, -<i>tapuitinga</i>. Nome que os Pytiguaras davam aos francezes para -differença-los dos Tupinambás. <i>Tapuia</i>, significa barbaro, -inimigo. De <i>taba</i>, aldeia e <i>puyr</i>, fugir,—os fugidos -da aldeia. -</p> - -<p> -Pag. 75.—I. <a href="#Nota90"><i>Batuireté.</i></a>—narseja -illustre, de <i>batuira</i> e <i>eté</i>. Appellido que tomara o chefe -pytiguara, e que na linguagem figurada valia tanto como valente nadador. -É o nome de uma serra fertilissima e da comarca que ella occupa. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota91"><i>Suas estrellas eram -muitas.</i></a>—Contavam os indigenas os annos pelo nascimento das -pleiades no oriente; e tambem costumavam guardar uma castanha de cada -estação de cajú. para marcar a idade. -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota92"><i>Jatobá.</i></a>—arvore frondosa, talvez de -<i>jetahy</i>, <i>oba</i>, folha e <i>a</i>, augmentativo; jetahy de grande -copa. É nome de um rio e de uma serra em S. Quiteria. -</p> - -<p> -Pag. 76.—I. <a href="#Nota93"><i>Quixeramobim.</i></a>—segundo -o Dr. Martins traduz-se por essa exclamação de saudade. Compõe-se de -<i>Qui</i>, ah! <i>xere</i>, meus, <i>amôbinhé</i>, outros tempos. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota94"><i>Caminho das garças.</i></a>—Em tupy -<i>Acarape</i>, povoação na freguezia de Baturité a nove leguas da capital. -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota95"><i>Maranguab.</i></a>—A serra de Maranguape -distante cinco leguas da capital, e notavel pela sua fertilidade e -formosura. O nome indigena compõe-se de <i>maran</i> guerrear e -<i>coaub</i> sabedor; <i>maran</i> talvez seja abreviação de -<i>maramonhang</i>, fazer guerra, se não é, como eu penso, o -substantivo simples guerrear, de que se fez o verbo composto. O Dr. -Martins traz etymologia diversa. <i>Mara</i>, arvore, <i>angai</i>, de -nenhuma maneira, <i>guabe</i>, comer. Esta etymologia nem me parece -propria ao objecto, que é uma serra, nem conforme com os preceitos da -lingua. -</p> - -<p> -IV. <a href="#Nota96"><i>Pirapora.</i></a>—Rio do Maranguape, -notavel pela frescura do suas aguas e excellencia dos banhos chamados da -Pirapora, no lugar das cachoeiras. Provem o nome de <i>Pira</i>, peixe, -pore, salto: salto do peixe. -</p> - -<p> -Pag. 78.—<a href="#Nota97"><i>O gavião -branco</i></a>—Batuireté chama assim o guerreiro branco, ao passo -que trata o neto por narseja: elle prophetisa n'esse parallelo a -destruição de sua raça pela raça branca. -</p> - -<p> -Pag. 79. II. <a href="#Nota98"><i>Porangaba.</i></a>—significa -belleza. É uma lagoa distante da cidade uma legua em sitio aprasivel. -Hoje a chamam Arronches: e nas suas margens está a decadente povoação -de mesmo nome. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota99"><i>Jererahu.</i></a>—rio das marrecas; de -<i>jerere</i>—ou irêrê, marreca, e <i>hu</i> agua. Este lugar -ainda hoje é notavel pela excellencia da fructa, com especialidade as -bellas laranjas conhecidas por <i>laranjas de Jererahu</i>. -</p> - -<p> -III. <a href="#Nota100"><i>Sapiranga.</i></a>—lagoa no sitio -Alagadiço Novo, a cerca de 2 leguas da capital. O nome indigena -significa olhos vermelhos, de <i>ceça</i>, olhos e <i>piranga</i> -vermelhos. Esse mesmo nome dão usualmente no norte a certa ophtalmia. -</p> - -<p> -IV. <a href="#Nota101"><i>Murytiapuá.</i></a>—de -<i>murity</i>—nome da palmeira mais vulgarmente conhecida por -burity, e <i>apuam</i>, ilha. Logarejo no mesmo sitio referido. -</p> - -<p> -V. <a href="#Nota102"><i>Aratanha.</i></a>—de <i>arára</i>, ave e -<i>tanha</i>, dente. Serra mui fertil e cultivada em continuação da de -Maranguape. -</p> - -<p> -VI. <a href="#Nota103"><i>Pacatuba.</i></a>—de <i>paca</i> e -<i>tuba</i>, leito ou couto das pacas. Recente, mas importante -povoação, em um bello valle da serra da Aratanha. -</p> - -<p> -VII. <a href="#Nota104"><i>Guayúba.</i></a>—De <i>goaia</i>, -valle, <i>y</i>, agua, <i>jur</i>, vir, <i>be</i> por onde; por onde vem -as aguas do valle. Rio que nasce na serra da Aratanha e corta a -povoação do mesmo nome a seis leguas da capital. -</p> - -<p> -Pag. 81.—I. <a href="#Nota105"><i>Ambar.</i></a> As praias do -Ceará eram n'esse tempo muito abundantes de ambar que o mar arrojava. -Chamavam-lhe os indigenas, <i>Pira repoti</i> esterco de peixe. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota106"><i>Coatyá.</i></a>—pintar. A historia -menciona esse facto de Martim Soares Moreno se ter coatyado quando vivia -entre os selvagens do Ceará. -</p> - -<p> -Pag. 82.—<a href="#Nota107"><i>Coatyabo.</i></a>—A -desinencia <i>abo</i> significa o objecto que soffreu a acção do -verbo, e talvez provenha de <i>aba</i>, gente, creatura. -</p> - -<p> -Pag. 90.—<a href="#Nota108"><i>Imbú.</i></a>—Fructa da Serra -do Araripe que não vem do littoral. É saborosa e semelhante ao cajá. -</p> - -<p> -Pag. 93.—I. <a -href="#Nota109"><i>Tupinambás.</i></a>—Nação formidavel, ramo -primitivo da grande raça tupy. Depois de uma resistencia heroica, não -podendo expulsar os portuguezes da Bahia emigraram até o Maranhão onde -fizeram alliança com os francezes que já então infestavam aquellas -paragens. O nome que elles se davam significava—gente parente dos -Tupys—de <i>Tupy</i>—<i>anama</i>—ba. -</p> - -<p> -II. <a href="#Nota110"><i>Maracatim.</i></a>—Grande barco que -levava na proa <i>tim</i>—um <i>maracá</i>. Aos barcos menores ou -canoas chamavam <i>igara</i>—de <i>ig</i>—agua—e -<i>jara</i>, senhor; senhora d'agua. -</p> - -<p> -Pag. 95.—<a href="#Nota111"><i>Moacyir.</i></a>—Filho do -soffrimento—de <i>moacy</i>, dôr e <i>ira</i>, desinencia, que -significa sahido de. -</p> - -<p> -Pag. 96.—<a href="#Nota112"><i>Faxa.</i></a>—É o que chamam -vulgarmente <i>typoia</i>; rejeitou-se o termo proprio do texto por andar -degradado no estylo chulo. -</p> - -<p> -Pag. 97.—<a href="#Nota113"><i>Chupou tua -alma.</i></a>—Creança em tupy é <i>pitanga</i>, de <i>piter</i> -chupar e <i>anga</i> alma; chupa alma. Seria porque as creanças -attrahem e deleitam aos que as vêem; ou porque absorvem uma porção -d'alma dos paes? Cauby fala n'esse ultimo sentido. -</p> - -<p> -Pag. 99.—<a href="#Nota114"><i>Cariman.</i></a>—Uma conhecida -preparação de mandioca. <i>Caric</i>, correr, <i>mani</i>, mandioca. -Mandioca escorrida. -</p> - -<p> -Pag. 100.—<a href="#Nota115"><i>Tauape</i></a>, lugar de barro -amarello, de <i>tauá</i> e <i>ipé</i>. Fica no caminho de Maranguape. -</p> - -<p> -Pag. 103.—<a href="#Nota116"><i>Copim.</i></a>—Insecto -conhecido. O nome compõe-se de <i>co</i> buraco e <i>pim</i> ferrão. -</p> - -<p> -Pag. 104.—<a href="#Nota117"><i>Albuquerque.</i></a>—Jeronymo -d'Albuquerque chefe da expedição do Maranhão em 1612. -</p> - -<p> -Pag. 117.—<a href="#Nota118"><i>Colibri.</i></a>—D'esse -lethargo do colibri no inverno fala Simão de Vasconcellos. -</p> - -<p> -Pag. 125—<a href="#Nota119"><i>Mocejana.</i></a>—Lagoa e -povoação a 2 leguas da capital. O verbo <i>cejar</i> -significa—abandonar; a desinencia <i>ana</i> indica a pessoa que -exercita a acção do verbo. <i>Cejana</i>—significa o que -abandona. Junta a particula <i>mo</i> do verbo <i>monhang</i>, fazer, -vem a palavra a significar o que fez abandonar ou que foi lugar e -occasião de abandonar. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="CARTA">CARTA<br /> -AO DR. JAGUARIBE</a></h4> - -<p> -Eis-me de novo, conforme o promettido. -</p> - -<p> -Já leu o livro e as notas que o acompanham; conversemos pois. -</p> - -<p> -Conversemos sem cerimonia, em toda a familiaridade, como se cada um -estivesse recostado em sua rede, ao vaivem do languido balanço, que -convida á doce pratica. -</p> - -<p> -Se algum leitor curioso se puzer á escuta, deixal-o. Não havemos por -isso de mudar o tom rasteiro da intimidade pela phrase garrida das -salas. -</p> - -<p> -Sem mais. -</p> - -<p> -Ha de recordar-se você de uma noite que entrando em minha casa, quatro -annos a esta parte, achou-me rabiscando um livro. Era isso em uma quadra -importante, pois que uma nova legislatura, filha de nova lei, fazia sua -primeira sessão; e o paiz tinha os olhos n'ella, de quem esperava -iniciativa generosa para melhor situação. -</p> - -<p> -Já estava eu meio descrido das cousas, e mais dos homens; e por isso -buscava na litteratura diversão á tristeza que me infundia o estado da -patria entorpecida pela indifferença. Cuidava eu porém que você, -politico de antiga e melhor tempera, pouco se preoccupava com as cousas -litterarias, não por menos preço, sim por vocação. -</p> - -<p> -A conversa que tivemos então revelou meu engano; achei um cultor e -amigo da litteratura amena; e juntos lemos alguns trechos da obra, que -tinha, e ainda não perdeu, pretenções a um poema. -</p> - -<p> -É, como viu o como então lhe esbocei a largos traços, uma heroida que -tem por assumpto as tradicções dos indigenas brazileiros e seus -costumes. Nunca me lembrara eu de dedicar-me a esse genero de -litteratura, de que me abstive sempre, passados que foram os primeiros e -fugaces arroubos da juventude. Supporta-se uma prosa mediocre, e -estima-se pelo quilate da idéa; mas o verso mediocre é a peor triaga -que se possa impingir ao pio leitor. -</p> - -<p> -Commetti a imprudencia quando escrevi algumas cartas sobre a -<i>Confederação dos Tamoyos</i> dizer: "as tradições dos indigenas dão -materia para um grande poema que talvez um dia alguem apresente sem -ruido nem apparato, como modesto fructo de suas vigilias." -</p> - -<p> -Tanto bastou para que suppozessem que o escriptor se referia a si, e -tinha já o poema em mão; varias pessoas perguntaram-me por elle. -Metteu-me isto em brios litterarios; sem calcular das forças minimas -para empresa tão grande, que assoberbou dois illustres poetas, tracei o -plano da obra, e comecei-a com tal vigor que a levei quasi de um folego -ao quarto canto. -</p> - -<p> -Esse folego susteve-se cêrca de cinco mezes, mas amorteceu; e vou-lhe -confessar o motivo. -</p> - -<p> -Desde cedo, quando começaram os primeiros pruridos litterarios, uma -especie de instincto me impellia a imaginação para a raça selvagem -indigena. Digo instincto, porque não tinha eu então estudos bastantes -para apreciar devidamente a nacionalidade de uma litteratura; era -simples prazer que me deleitava na leitura das chronicas e memorias -antigas. -</p> - -<p> -Mais tarde, discernindo melhor as cousas, lia as producções que se -publicavam sobre o thema indigena; não realisavam ellas a poesia -nacional, tal como me apparecia no estudo da vida selvagem dos -autoctonos brazileiros. Muitas pecavam pelo abuso dos termos indigenas -accumulados uns sobre outros, o que não só quebrava a harmonia da -lingua portugueza, como perturbava a intelligencia do texto. Outras eram -primorosas no estylo e ricas de bellas imagens; porém certa rudez -ingenua de pensamento e expressão, que devia ser a linguagem dos -indigenas, não se encontrava ali. -</p> - -<p> -Gonçalves Dias é o poeta nacional por excellencia ninguem lhe disputa -na opulencia da imaginação, no fino lavor do verso, no conhecimento da -natureza brazileira e dos costumes selvagens. Em suas poesias americanas -aproveitou muitas das mais lindas tradicções dos indigenas; e em seu -poema não concluido dos <i>Timbiras</i>, propoz-se a descrever a epopea -brazileira. -</p> - -<p> -Entretanto, os selvagens de seu poema falam uma linguagem classica, o -que lhe foi censurado por outro poeta de grande estro, o dr. Bernardo -Guimarães; elles exprimem idéas proprias do homem civilisado, e que -não é verosimil tivessem no estado da natureza. -</p> - -<p> -Sem duvida que o poeta brazileiro tem de traduzir em sua lingua as -idéas, embora rudes e grosseiras, dos indios; mas n'essa traducção -está a grande difficuldade; é preciso que a lingua civilisada se molde -quanto possa á singeleza primitiva da lingua barbara; e não represente -as imagens e pensamentos indigenas senão por termos e phrases que ao -leitor pareçam naturaes na bôcca do selvagem. -</p> - -<p> -O conhecimento da lingua indigena é o melhor criterio para a -nacionalidade da litteratura. Elle nos dá não só o verdadeiro estylo, -como as imagens poeticas do selvagem, os modos de seu pensamento, as -tendencias de seu espirito, e até as menores particularidades de sua -vida. É n'essa fonte que deve beber o poeta brazileiro; é d'ella que -ha de sahir o verdadeiro poema nacional, tal como eu o imagino. -</p> - -<p> -Commettendo portanto o grande arrojo, aproveitei o ensejo de realisar as -idéas que me vagueavam no espirito, e não eram ainda plano fixo; a -reflexão consolidou-as e robusteceu. -</p> - -<p> -Na parte escripta da obra foram ellas vasadas em grande copia. Se a -investigação laboriosa das bellezas nativas feita sobre imperfeitos e -espurios diccionarios exhauria o espirito; a satisfação de cultivar -essas flores agrestes da poesia brazileira, deleitava. Um dia porém -fatigado da constante e aturada meditação ou analyse para descobrir a -etymologia d'algum vocabulo, assaltou-me um receio. -</p> - -<p> -Todo este improbo trabalho que ás vezes custava uma só palavra, me -seria levado á conta? Saberiam que esse escropulo de ouro fino, tinha -sido desentranhado da profunda camada, onde dorme uma raça extincta? Ou -pensariam que fôra achado na superficie e trazido ao vento da facil -inspiração? -</p> - -<p> -E sobre esse, logo outro receio. -</p> - -<p> -A imagem ou pensamento com tanta fadiga esmerilhados, seriam apreciados -em seu justo valor, pela maioria dos leitores? Não os julgariam -inferiores a qualquer das imagens em voga, usadas na litteratura -moderna? -</p> - -<p> -Occorre-me um exemplo tirado d'este livro. Guia chamavam os indigenas, -senhor do caminho, <i>pyguara</i>. A belleza da expressão selvagem em sua -traducção litteral e etymologica, me parece bem saliente. Não diziam -sabedor do caminho, embora tivessem termo proprio, <i>coaub</i>, porque -essa phrase não exprimiria a energia de seu pensamento. O caminho no estado -selvagem não existe; não é cousa de saber. O caminho faz-se na -occasião da marcha atravez da floresta ou do campo, e em certa -direcção: aquelle que o tem e o dá, é realmente senhor do caminho. -</p> - -<p> -Não é bonito? Não está ahi uma joia da poesia nacional? -</p> - -<p> -Pois talvez haja quem prefira a expressão rei do caminho, embora os -brasis não tivessem rei, nem idéa de tal instituição. Outros se -inclinarão á palavra guia, como mais simples e natural em portuguez, -embora não corresponda ao pensamento do selvagem. -</p> - -<p> -Ora escrever um poema que devia alongar-se para correr o risco de não -ser entendido, e quando entendido não apreciado, era para desanimar o -mais robusto talento, quanto mais a minha mediocridade. Que fazer? -Encher o livro de gryphos que o tornariam mais confuso e de notas que -ninguem lê? Publicar a obra parcialmente para que os entendidos -proferissem o veredicto litterario? Dar leitura d'ella a um circulo -escolhido, que emittisse juizo illustrado? -</p> - -<p> -Todos estes meios tinham seu inconveniente, e todos foram repellidos: o -primeiro afeiava o livro; o segundo o truncava em pedaços; o terceiro -não lhe aproveitaria pela ceremoniosa benevolencia dos censores. O que -pareceu melhor e mais acertado foi desviar o espirito d'essa obra e -dar-lhe novos rumos. -</p> - -<p> -Mas não se abandona assim um livro começado, por peor que elle seja; -ahi n'essas paginas cheias de rasuras e borrões dorme a larva do -pensamento, que pode ser nympha de azas douradas, se a inspiração -fecundar o grosseiro casulo. Nas diversas pausas de suas preoccupações -o espirito volvia pois ao album, onde estão ainda incubados e estarão -cerca de dois mil versos heroicos. -</p> - -<p> -Conforme a benevolencia ou severidade de minha consciencia ás vezes os -acho bonitos e dignos de verem a luz; outras me parecem vulgares, -monotonos, e somenos a quanta prosa charra tenho eu estendido sobre o -papel. Se o amor de pae abranda afinal esse rigor, não desvanece porem -nunca o receio de "perder inutilmente meu tempo a fazer versos para -cabocolos." -</p> - -<p> -Em um d'esses volveres do espirito á obra começada, lembrou-me da -experiencia <i>in anima prosaico</i>. O verso pela sua dignidade e nobreza -não comporta certa flexibilidade de expressão, que entretanto não vae -mal á prosa mais elevada. A elasticidade da phrase permittiria então -que se empregassem com mais careza as imagens indigenas, de modo a não -passarem desapercebidas. Por outro lado conhecer-se-hia o effeito que -havia de ter o verso pelo effeito que tivesse a prosa. -</p> - -<p> -O assumpto para a experiencia, de antemão estava achado. Quando em 1848 -revi a nossa terra natal, tive a idéa de aproveitar suas lendas e -tradições em alguma obra litteraria. Já em S. Paulo tinha começado -uma biographia do Camarão. A mocidade d'elle, a amisade heroica que o -ligava a Soares Moreno, a bravura e lealdade de Jacaúna, alliado dos -portuguezes, e suas guerras contra o celebre Mel Redondo; ahi estava o -thema. Faltava-lhe o perfume que derrama sobre as paixões do homem a -belleza da mulher. -</p> - -<p> -Sabe você agora o outro motivo que eu tinha de lhe endereçar o livro; -precisava dizer todas estas cousas, contar o como e porque escrevi -<i>Iracema</i>. E com quem melhor conversaria sobre isso do que com uma -testemunha de meu trabalho, a unica, das poucas, que respira agora as -auras cearenses? -</p> - -<p> -Este livro é pois um ensaio ou antes amostra. Verá realisadas n'elles -as minhas idéas a respeito da litteratura nacional; e achará ahi -poesia inteiramente brazileira, haurida na lingua dos selvagens. A -etymologia dos nomes das diversas localidades, e certos modos de dizer -tirados da composição das palavras, são de cunho original. -</p> - -<p> -Comprehende você que não podia eu derramar em abundancia essa riqueza -no livrinho agora publicado, porque ellas ficariam desfloradas na obra -de maior vulto, a qual só teria a novidade da fabula. Entretanto ha ahi -de sobra para dar materia á critica, e servir de base ao juizo dos -entendidos. -</p> - -<p> -Se o publico ledor gostar d'essa forma litteraria, que me parece ter -algum attractivo e novidade, então se fará um esforço para levar ao -cabo o começado poema, embora o verso pareça na época actual ter -perdido a sua influencia e prestigio. Se porém o livro fôr acoimado de -serdiço e tedioso, ou se Iracema encontrar a usual indifferença, que -vae acolhendo o bom e o mau com a mesma complacencia, quando não é o -silencio desdenhoso e ingrato; então o auctor se desenganará de mais -esse genero de litteratura, como já se desenganou do theatro; e os -versos como as comedias passarão para a gaveta dos papeis velhos, -reliquias autobiographicas. -</p> - -<p> -Depois de concluido o livro e quando o reli apurado na estampa, conheci -me tinham escapado senões que poderia corrigir se não fosse a pressa -com que o fiz editar; noto algum excesso de comparações, certa -semelhança entre algumas imagens, e talvez desalinho no estylo dos -ultimos capitulos que desmerecem dos primeiros. Tambem me parece devia -conservar aos nomes das localidades sua actual versão, embora -corrompida. Se a obra tiver segunda edição será escoimada d'estes e -de outros defeitos, que lhe descubram os entendidos. -</p> - -<p style="margin-left: 5%;">Agosto de 1995.</p> - -<p style="margin-left: 60%;">J. DE ALENCAR.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div lang='en' xml:lang='en'> -<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>IRACEMA</span> ***</div> -<div style='text-align:left'> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Updated editions will replace the previous one—the old editions will -be renamed. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. -</div> - -<div style='margin:0.83em 0; font-size:1.1em; text-align:center'>START: FULL LICENSE<br /> -<span style='font-size:smaller'>THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE<br /> -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK</span> -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase “Project -Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg™ License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.A. 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To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state’s laws. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation’s website -and official page at www.gutenberg.org/contact -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread -public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state -visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Please check the Project Gutenberg web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 5. General Information About Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg™ concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg™ eBooks with only a loose network of -volunteer support. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Most people start at our website which has the main PG search -facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This website includes information about Project Gutenberg™, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. -</div> - -</div> -</div> -</body> - -</html> diff --git a/old/67740-h/images/iracema_cover.jpg b/old/67740-h/images/iracema_cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index b2c0939..0000000 --- a/old/67740-h/images/iracema_cover.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/67740-h/images/iracema_frontispiece.jpg b/old/67740-h/images/iracema_frontispiece.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 1d90527..0000000 --- a/old/67740-h/images/iracema_frontispiece.jpg +++ /dev/null |
