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-The Project Gutenberg eBook of A Pata da Gazella:, by José
-Martiniano de Alencar
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: A Pata da Gazella:
- romance brasileiro.
-
-Author: José Martiniano de Alencar
-
-Release Date: April 14, 2022 [eBook #67831]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by
- the Biblioteca Brasiliana USP Digital)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A PATA DA GAZELLA: ***
-
-
-SENIO
-
-
-
-
-A PATA DA GAZELLA
-
-
-
-
-ROMANCE BRASILEIRO
-
-
-
-
-RIO DE JANEIRO
-
-EDITOR PROPRIETARIO
-
-B. L. Garnier.--Rua do Ouvidor n. 6
-
-1870
-
-
-
-
-INDICE
-CAPITULO I
-CAPITULO II
-CAPITULO III
-CAPITULO IV
-CAPITULO V
-CAPITULO VI
-CAPITULO VII
-CAPITULO VIII
-CAPITULO IX
-CAPITULO X
-CAPITULO XI
-CAPITULO XII
-CAPITULO XIII
-CAPITULO XIV
-CAPITULO XV
-CAPITULO XVI
-CAPITULO XVII
-CAPITULO XVIII
-CAPITULO XIX
-
-
-
-
-I
-
-
-Estava parada na rua da Quitanda, proximo a da Assembléa, uma linda
-victoria, puxada por soberbos cavallos do cabo.
-
-Dentro do carro havia duas moças; uma dellas, alta e esbelta, tinha uma
-presença encantadora; a outra, de pequena estatura, muito delicada de
-talhe, era talvez mais linda que sua companheira.
-
-Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a respeito das
-compras que já tinham realizado ou das que ainda pretendiam fazer.
-
---Daqui aonde vamos? perguntou a mais baixa, vestida de roixo claro.
-
---Ao escriptorio de papai: talvez elle queira vir comnosco. Na volta
-passaremos pela rua do Ouvidor: respondeu a mais esbelta, cujo talhe era
-desenhado por um roupão cinzento.
-
-O vestido roixo debruçou-se de modo a olhar para fóra, no sentido
-contrario aquelle em que seguia o carro, emquanto o roupão,
-recostando-se nas almofadas, consultava uma carteirinha de lembranças,
-onde naturalmente escrevêra a nota de suas encommendas.
-
---O lacaio ficou-se de uma vez! disse o vestido roixo com um movimento
-de impaciencia.
-
---É verdade! respondeu distrahidamente a companheira.
-
-Estas palavras confirmavam o que aliás indicava o simples aspecto da
-carruagem: as senhoras estavam á espera do lacaio, mandado a algum
-ponto proximo. A impaciencia da moça de vestido roixo era partilhada
-pelos fogosos cavallos, que difficilmente conseguia soffrear um cocheiro
-agalloado.
-
-Depois de alguns momentos de espera, sobresaltou-se o roupão cinzento,
-e conchegando-se mais ás almofadas, como para occultar-se no fundo da
-carruagem, murmurou:
-
---Laura!... Laura!...
-
-E como sua amiga não a ouvisse, puxou-lhe pela manga.
-
---O que é, Amelia?
-
---Não vês? Aquelle moço que está ali defronte nos olhando.
-
---Que tem isto? disse Laura sorrindo.
-
---Não gósto! replicou Amelia com um movimento de contrariedade. A
-quanto tempo está ali e sem tirar os olhos de mim?
-
---Volta-lhe as costas!
-
---Vamos para diante.
-
---Como quizeres.
-
-Avisado o cocheiro, avançou alguns passos, de modo á tirar ao curioso
-a vista do interior do carro; mas o mancebo não desanimou por isso, e
-passando de uma a outra porta, tomou posição conveniente para
-contemplar a moça com uma admiração franca e apaixonada.
-
-Simples no trajo, e pouco favorecido a respeito de belleza; os dotes
-naturaes que excitavam nesse moço alguma attenção eram uma vasta
-fronte meditativa, e os grandes olhos, pardos, cheios do brilho profundo
-e phosphorescente que naquelle momento derramavam pelo semblante de
-Amelia.
-
-Havia minutos que percorrendo a rua da Quitanda em sentido opposto á
-direcção do carro, avistára a moça recostada nas almofadas, e
-sentira a seu aspecto viva impressão. Sem disfarce ou acanhamento,
-recostando-se a ombreira de uma porta de escriptorio, esqueceu-se
-naquella ardente contemplação.
-
-O coração é um solo. Valle onde brotam as paixões, como os outros
-valles da natureza inanimada, elle tem suas estações, suas quadras de
-aridez ou de seiva, de estirilidade ou de abundancia.
-
-Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol, produzem na
-terra uma fermentação, que fórma o humus; a semente, cahindo ahi,
-brota com rapidez. Depois das grandes dôres e das lagrimas torrenciaes,
-fórma-se tambem no coração do homem um humus poderoso, uma
-exhuberancia de sentimento que precisa de expandir-se. Então um olhar,
-um sorriso, que ahi penetre, é semente de paixão, e pulula com vigôr
-extremo.
-
-O moço parecia estar nessas condições: elle trajava lucto pesado,
-não sómente nas roupas negras, como na côr macilenta das faces nuas,
-e na magoa que lhe escurecia a fronte.
-
-Notando Amelia a insistencia do mancebo, ficou vivamente contrariada.
-Aquelle olhar profundo, que parecia despedir os fogos surdos de uma
-labareda occulta, incutia nella um desassocego intimo. Agitava-se
-impaciente, como uma creatura no meio de um somno inquieto ou mesmo de
-um ligeiro pesadello.
-
-Até que abriu o chapeosinho de sol, para interceptar a contemplação
-apaixonada de que era objecto. Nesta occasião, Laura, que
-frequentemente se debruçava para vêr quando vinha o lacaio, retrahiu o
-corpo com vivacidade:
-
---Emfim; ahi vem!
-
---Felizmente! disse Amelia.
-
-O lacaio aproximava-se á passos medidos; trazia na mão um embrulho de
-papel azul, que o atrito dos dedos e a oscillação dos objectos
-envoltos desfizera, obrigando o portador a apertal-o de vez em quando.
-
-Julgando ao cabo de alguns instantes que o lacaio já tocava o estribo
-da carruagem, Amelia, tomando um tom imperativo, disse para o cocheiro:
-
---Vamos! vamos!
-
-Ao aceno que lhe fez o cocheiro, o lacaio correu, chegando a tempo de
-apanhar o carro, que partia ao trote largo da fogosa parelha. Deitar o
-embrulho na caixa da victoria, rodear em dois saltos e galgar o estribo
-da almofada, foi para o creado, habituado a essa manobra, negocio de um
-instante. Não percebera elle, porém, que abrindo-se o papel com a
-corrida, um dos objectos nelle contidos escorregára e justamente na
-occasião de deitar o embrulho na caixa do carro, cahira na calçada.
-
-Laura, que se inclinara com vivo interesse para tomar o embrulho das
-mãos do lacaio, tivera um presentimento do accidente, ao ver o papel
-desenrolado. Fechando-o rapidamente e escondendo por baixo do assento da
-victoria, ella debruçou-se ainda uma vez para verificar si com effeito
-alguma cousa havia cahido. Ao mesmo tempo acompanhava o movimento com
-estas palavras de contrariedade:
-
---Como elle manda isto? Por mais que se lhe recommende!
-
-Laura nada viu, porque já a victoria rodava ligeiramente sobre os
-parallelepipedos.
-
-Nesse momento, porém, dobrando a rua da Assembléa, se aproximára um
-moço elegante não só no trajo do melhor gosto, como na graça de sua
-pessoa: era sem duvida um dos principes da moda, um dos leões da rua do
-Ouvidor; mas desse podemos assegurar pelo seu parecer distincto, que
-não tinha usurpado o titulo.
-
-O mancebo viu casualmente o lacaio quando passára por elle correndo, e
-percebeu que um objecto cahira do embrulho. Naturalmente não se
-dignaria abaixar para apanhal-o, nem mesmo deitar-lhe um olhar; si não
-visse apparecer ao lado da victoria o rosto de uma senhora, que o
-aspecto da carruagem indicava pertencer á melhor sociedade.
-
-Então, apressou-se, para ter occasião de fazer uma fineza, e pretexto
-de conhecer a senhora, que lhe parecêra bonita. Os leões são
-apaixonadissimos de taes encontros; acham-lhes um sainete que destroe a
-monotonia das relações habituaes.
-
-Quando o moço ergueu-se com o objecto na mão, já o carro dobrava a
-rua Sete de Setembro. Ficou elle um momento indeciso, olhando em tôrno,
-como si esperasse alguma informação á respeito da pessoa á quem
-pertencia o carro. Sem duvida a senhora era conhecida em alguma loja de
-fazendas; talvez tivesse ahi feito compras.
-
-Não obtendo, porém, informações, nem colhendo resultado da pergunta
-que fizera a um caixeiro proximo, resolveu-se á metter o objecto no
-bolso e seguir seu caminho.
-
-
-
-
-II
-
-
-Horacio de Almeida, o nosso leão, voltou á casa á hora do costume,
-quatro da tarde.
-
-Os successivos encontros da rua do Ouvidor; a conversa no Bernardo; a
-visita indispensavel ao alfaiate; as anecdotas do Alcasar na noite
-antecedente; a chronica anacreontica do Rio de Janeiro, chistosamente
-commentada; algumas rajadas de maledicencia, que é a pimenta social;
-todas essas occupações importantes, que absorvem a vida do leão,
-distrahiram Horacio, a ponto de se esquecer elle do objecto guardado no
-bolso do paletot.
-
-Como admittir que um principe da moda não aproveitasse a aventura do
-carro, para sobre ella bordar um romance de rua, com que excitasse a
-curiosidade dos amigos? Realmente é admiravel; e seria incomprehensivel
-si não fosse a circumstancia de ter poucos passos adiante encontrado
-uma das mais ricas herdeiras do Brasil, a quem o nosso leão
-arrastava.... Ia dizer a _aza_, mas isso seria anachronismo; dizia-se no
-tempo em que os leões se chamavam gallos: hoje deve dizer-se _arrastar
-a juba_; é mais bonito e indica mais submissão. Arrastar a aza é
-enfunar-se; arrastar a juba é prostrar-se.
-
-Foi só quando recostado em sua ottomana, descansava para o jantar, que
-Horacio, procurando a carteira de charutos no bolso do fraque,
-lembrou-se do objecto. Teve então curiosidade de examinal-o; sabia o
-que era; na occasião de apanhal-o reconhecêra o pé de uma botina de
-senhora; mas não fizera grande reparo.
-
-Agora, porém, que de novo o tinha diante dos olhos, á sós em seu
-aposento, e despreoccupado da idéa de o restituir, Horacio achou o
-objecto digno de séria attenção; e aproximando-se da janella começou
-um exame consciencioso.
-
-Era uma botina, já o sabemos; mas que botina! Um primor de pellica e
-sêda, a concha mimosa de uma perola, a faceira irmã do lindo chapim de
-ouro da borralheira; em uma palavra a botina desabrochada em flôr, sob
-a inspiração de algum artista ignoto, de algum poeta de ceiró e
-torquez.
-
-Não era, porém, a perfeição da obra, nem mesmo a excessiva
-delicadeza da fôrma, o que seduzia o nosso leão; eram sobretudo os
-debuxos suaves, as ondulações voluptuosas que tinham deixado na
-pellica os contornos do pesinho desconhecido. A botina fora servida, e
-muitas vezes; embora estivesse ainda bem conservada, o desmaio de sua
-primitiva côr bronzeada e o esfrolamento da sola indicavam bastante
-uso.
-
-Si fosse um calçado em folha, sahido da loja, não teria grande valor
-aos olhos do nosso leão, habituado não só a vêr, como a calçar, as
-obras primas de Milliès e Campàs. Talvez reparando muito naquella
-peça que tinha nas mãos, notasse maior elegancia no córte, e um apuro
-escrupuloso na execução; porém mais natural seria escapar-lhe essa
-minima circumstancia.
-
-Mas a botina achada já não era um artigo de loja, e sim o traste
-mimoso de alguma belleza; o gentil companheiro de uma moça formosa, de
-quem ainda guardava a impressão e o perfume. O rosto estufava mostrando
-o firme relevo do pesinho arqueado. Na solla se desenhava a curva
-graciosa da planta subtil, que só nas extremidades beijava o chão,
-como o silpho que frisa a superficie do lago com a ponta das azas.
-
-Ha um aroma, que só tem uma flôr na terra, o aroma da mulher bonita;
-fragancia voluptuosa que se exhala ao mesmo tempo do corpo e da alma;
-perfume inebriante que penetra no coração como o amor valatilisado. A
-botina estava impregnada desse aroma delicioso; o delicado tubo de seda,
-que se elevava como a corolla de um lirio, derramava, como a flôr,
-ondas suaves.
-
-O mancebo collocára longe de si o charuto para não desvanecer com o
-fumo os bafejos daquelle odôr suave. Não havia ahi o menor laivo de
-essencia artificial preparada pela arte do perfumista; era a pura
-exhalação de uma cutis assetinada, esse halito de saude que perspira
-através da fina e macia tez, como através das petalas de uma rosa.
-
-De repente uma idéa perpassou no espirito do moço, que o fez
-estremecer. Essa botina gracil, em que mal caberia sua mão
-aristocratica, essa botina mais mimosa do que sua luva de pellica, não
-podia ter um numero maior do que o de seus annos, _vinte nove_!
-
---Será de uma menina! murmurou elle um tanto desconsolado.
-
-Examinou novamente a obra prima, voltou-a de todos os lados, apalpou
-docemente o salto e o bico, dobrou a orla da haste, sondou o interior da
-concha, que servira de regaço ao feiticeiro pesinho. Depois de alguns
-instantes deste exame profundo e minucioso, um sorriso expandiu o
-semblante de Horacio.
-
---É de moça, é de mulher! murmurou elle. Aqui estão os signaes
-evidentes; não podem falhar. A fabula de Edipo é uma verdade eterna:
-no enigma da esphinge está realmente o mytho da vida. O homem é o
-animal que de manhã anda sobre quatro pés; ao meio dia sobre dois; a
-tarde sobre tres. Na infancia, a creatura, como a planta, conserva-se
-rasteira, brota, pulula, mas conchega-se mais ao solo de que recebe toda
-nutricção; as mãos servem-lhe de pés. Depois da juventude, na época
-da expansão, a creatura se lança para o espaço, exalta-se; é a
-arvore que hastea e procura as nuvens; a planta pede ao céo os orvalhos
-e a luz do sol; a alma pede a crença, a fé, a esperança, de que se
-geram as flôres, que nós chamamos paixões. Na velhice, o homem se
-inclina de novo para a terra, como o tronco carcomido; é o pó, que,
-depois de revoar no espaço, deposita-se outra vez no chão. Então o
-velho precisa do bordão; uma das mãos torna-se pé, e calça esse
-cothurno da mais triste das tragedias humanas, a decrepitude.
-
-Horacio observou de novo attentamente o objecto que tinha entre as
-mãos.
-
---A menina de quinze annos já não é a corsa de quatro patas; não
-está mais na alvorada da vida, na puericia; tambem ainda não chegou ao
-meio dia do qual aproxima-se. Comtudo, seu andar conserva ainda aquella
-attracção para a terra; é pesado; calca o chão com força; tem o
-quer que seja de sacudido, que revella os impulsos da alma para
-desprender-se do pó e elevar-se; assemelha a singradura do batel, que
-ora se levanta, ora submerge-se. Si esta botina fosse de uma menina,
-aqui estariam impressos esses caracteres de sua idade. A sola, em vez de
-levemente triturada nas extremidades, estaria estragada; o salto
-cambado. É uma observação que todo o sapateiro confirmaria; o menino
-gasta o calçado pela sola, o homem pelo couro; a razão, o sapateiro a
-ignora, mas o philosopho a conhece: o menino é o insecto que rasteja, a
-larva; o homem é o insecto que vôa, o besouro; aquelle anda com o
-ventre, este com a aza.
-
-Horacio sorriu.
-
---Esta botina é de moça, e moça em todo o viço da juventude: a sola
-apenas rosçada junto á ponta, o salto quasi intacto, não estão
-descrevendo com a maior eloquencia a subtileza do passo ligeiro? Eu
-sinto, posso dizer eu vejo, esse andar gentil, que manifesta a deusa,
-como disse o poeta; a deusa, a Venus deste olympo em que vivemos, a
-mulher. Só quando toda a seiva se precipita para o coração, quando
-germinam os botões que mais tarde abrirão em flôr, só nesse momento
-de assumpção é que a mulher tem este andar sublime e augusto. É o
-andar do passarinho, que, rosçando a relva, sente o impulso das asas; é
-o andar do astro nascente, caminhando para a ascensão; é o andar do
-anjo, que, mesmo tocando a terra, parece prestes a fugir ao céo; é,
-finalmente, a elação d'alma que aspira de Deus os effluvios do amor,
-do amor unico ambiente do coração!
-
-Nisto o moço descobriu na fivella do laço da botina alguma cousa que
-lhe excitou vivo reparo; chegando-se á luz, viu as voltas de um fio,
-que prendeu entre as brancas unhas afiladas, verdadeiras garras de
-leão da moda. Com alguma paciencia retirou um longo cabello castanho, e
-muito crespo.
-
---Outra prova de que aliás não carecia! Este cabello é de mulher;
-não ha menina que o possa ter. Quatro palmos, além do que se partiu
-naturalmente! Bem se vê que é uma palmeira frondosa, e não um
-arbusto! Tem o cabello castanho e crespo, duas cousas lindas sem duvida,
-embora minha paixão seja a trança basta e lisa, negra como uma asa de
-côrvo. Esse negrume dá á mulher, o quer que seja de satanico; lembra
-que ella tambem gerou-se da terra; não é anjo sómente; não é
-sómente filha do céo. Eu não posso supportar a mulher-seraphim, que
-parece desdenhar do mundo onde vive, e do pó de que é feita.
-
-Horacio voltou a botina.
-
---Mas seja embora castanha, ou mesmo loura, que é uma côr insipida de
-cabello! Que me importa isto? Tenho alguma cousa com seu cabello? O que
-amo nella é o pé; este pé sylpho, este pé anjo, que me fascina, que
-me arrebata, que me enlouquece?...
-
-Horacio, que até então se contentava com olhar e apalpar a botina,
-inclinou-se e beijou-a no rosto; mas timida e respeitosamente. Não era
-essa a imagem do pé seductor, que elle adorava como um idolo?
-
---Mas onde encontral-o? como reconhecêl-o? exclamou dolorosamente
-Horacio, sentindo a realidade da situação.
-
-Nenhum indicio que lhe revellasse o nome da mulher a quem pertencia essa
-gentil botina, ou lhe indicasse ao menos os traços de sua passagem. A
-lembrança vaga da libré de um lacaio era o unico vestigio que restava;
-mas com este dificilmente poderia descobrir o objecto de sua adoração.
-Ha tantos lacaios no Rio de Janeiro; e tantas librés que se confundem!
-Talvez nunca mais encontrasse aquelle que procurava; e encontrando, nem
-o reconhecesse.
-
---Desgraçado! dizia o leão. Quasi nem o olhaste; mas, podias tu
-adivinhar, Horacio, que thesouro deixára cahir aquelle bruto?
-
-O mancebo inclinára ao peito a bella cabeça esmorecida; a ventura lhe
-tinha sorrido de longe, para escarnecer delle, o leão mais querido das
-bellezas fluminenses, o Atyla do Cassino, o Genserico da rua do Ouvidor.
-
-De repente ergueu-se d'um impeto:
-
---Heide possuil-o!... exclamou elle com o tom com que Alexandre se
-prometteu o imperio da Asia.
-
-
-
-
-III
-
-
-Ninguem imagina que bellos talentos sorve essa voragem do mundo, que
-chamam a vida elegante.
-
-São como as arvores luxuriantes que se vestem de linda folhagem, e
-consomem toda a seiva nessa gala esteril e ephemera. Nunca ellas dão
-fructo, nem siquer flôr.
-
-Horacio de Almeida era uma de tantas intelligencias, desperdiçadas no
-incessante bulicio da moda.
-
-Muitos poetas, dos que têm seu nome estampado em rosto de livro, não
-empregaram na fabrica de seus versos o atticismo, a inspiração e a
-graça com que o nosso leão torneava no baile um galanteio, ou aguçava
-um epigramma.
-
-Pintores são festejados, que não sabem o segredo dos toques delicados,
-e do supremo gôsto, que Horacio imprimia no laço de sua gravata, em
-suas maneiras distinctas, nos minimos accidentes de seu trajo apurado.
-
-E a phisiologia?
-
-Poucos homens conheciam como Horacio o coração da mulher; porque bem
-raros o teriam estudado com tanta assiduidade. O mais sabio professor
-ficaria estupefacto da lucidez admiravel, com que o leão costumava lêr
-nesse cahos da paixão, que a anatomia chamou coração de mulher.
-
-A razão é simples. O professor estudou no gabinete; consultou as obras
-dos mestres, colligiu observações alheias, e arranjou um systhema
-sobre o que não soffre regras; sobre a paixão cuja essencia é o
-imprevisto, o anomalo, o indefinivel.
-
-Ao contrario, Horacio tinha estudado na realidade da vida; devassára os
-refolhos do polypo; lhe sentira as pulsações; e fizera experiencias
-_in anima vilis_. Não fatigou sua memoria com a inutil bagagem dos
-termos technicos e das noções scientificas: lia os hierogliphos do
-amor com a linguagem garrida do homem a moda.
-
-A perspicacia do olhar, a profundeza da investigação e a certeza de
-observação, com que o nosso leão sondava o abysmo do coração, e
-rastreava no semblante da mulher os vagos symptomas de uma inclinação
-nascente, ou de uma affeição expirante; só os grandes medicos possuem
-tão altos dotes.
-
-Assim gastava Almeida a mocidade, desfolhando seu bello talento pelas
-sallas e pontos de reunião. As riquezas de sua elevada intelligencia, as
-ia elle esparzindo nas elegantes futilidades de um ocio tão laborioso,
-como é o _far niente_ de um leão.
-
-Consumir o tempo não se apercebendo de sua passagem; livrar-se do fardo
-pesado das horas sem occupação; ha nada mais difficil para o homem que
-ignora o trabalho?
-
-Si o Almeida poupasse desse tempo tão esperdiçado alguns momentos no
-dia para dedical-os a um fim sério e util, á sciencia, á litteratura,
-á arte, que bellos triumphos não obteria sua rica imaginação servida
-por um espirito scintillante?
-
-Mas o nosso leão tinha á este respeito idéas excentricas.
-
---A politica, dizia elle, quando não dá em especulação, passa a
-mistificação. A sciencia, si escapa de mania, torna-se uma gleba em
-que o sabio trabalha para o nescio. Litteratura e arte são plagios;
-quem póde fazer poesia e romance ao vivo, não se dá ao trabalho de
-reproduzil-os; nem contempla estatuas, quem lhes admira os modelos
-animados e palpitantes.
-
-Com taes paradoxos, Horacio não achava emprego mais digno para a
-intelligencia, do que a difficil sciencia de consumir gradualmente a
-vida, e atravessar sem fadiga e sem reflexão por este valle de
-lagrimas, em que todos peregrinamos.
-
-A mulher era para elle a obra suprema, o verbo da creação. Toda
-religião, como toda felicidade; toda sciencia, como toda poesia, Deus
-a tinha encarnado nesse mixto incomprehensivel do sublime e do torpe, do
-celeste e do satanico; amalgama de luz e cinzas; de lodo e nectar.
-
---Amar, é adorar a Deus na sua ara mais santa, a mulher. Amar é
-estudar a lei da creação em seu mais profundo mysterio, a mulher. Amar
-é admirar o bello em sua mais esplendida revelação; é fazer poemas e
-estatuas como nunca as realisou o genio humano.
-
-Mas o que sentia Horacio era apenas o culto da fórma, o fanatismo do
-prazer. O amor, o verdadeiro amor consiste na possessão mutua de duas
-almas; e essa, póde o homem illudir-se alguma vez, mas quando se
-realisa é indissoluvel.
-
-Nada separa duas almas gemeas que prende o vinculo de sua origem divina.
-
-O mancebo admirava na mulher a formosura unicamente: apenas artista,
-elle procurava um typo. Durante dez annos atravessára os sallões, como
-uma galeria de estatuas animadas e vivos paineis, parando um instante em
-face dessas obras primas da natureza.
-
-Vieram uns após outros todos os typos; a belleza ardente das regiões
-tepidas, ou suave gentileza da rosa dos Alpes: o moreno voluptuoso ou a
-alvura do jaspe; a fronte soberana e altiva ou o gesto gracioso e meigo;
-o talhe opulento e garboso ou as fórmas esbeltas e flexiveis.
-
-Seu gôsto foi-se apurando; e ao cabo de algum tempo tornou-se difficil.
-A belleza commum já não o satisfazia; era preciso a obra prima para
-excitar-lhe a attenção e commovel-o.
-
-Mas os sentidos se gastam; os mesmos primores da formosura cahiram na
-monotonia. Já o leão não sentia pela mais bella mulher aquelles
-enthusiasmos ardentes da primeira mocidade. Seu olhar era frio e severo
-como o de um critico.
-
-Então, começou o moço a amar, ou antes a admirar a mulher em detalhe.
-Sua alma embotada carecia de um sainete. Foi a principio uma boca
-bonita, cofre de perolas, de sorrisos, de beijos e harmonias. Veiu
-depois uma trança densa e negra, como a asa da procella que se
-inflamma. Uma cintura de sylphide, um collo de cisne, um requebro
-seductor, um signal da face, uma graça especial, um _não sei que_;
-tudo recebeu culto do nosso leão.
-
-Como um conviva, a quem as iguarias do banquete já não excitam, sua
-alma babujava na salla essas golosinas. Mas afinal embotou-se; e o
-prazer não foi para ella mais do que a vulgar satisfação de um
-habito.
-
-O moço cortejava as senhoras como uma occupação indispensavel á sua
-vida, como o desempenho da tarefa diaria; mas sem a menor commoção.
-
-Amar era um entretenimento do espirito, como passeiar á cavallo,
-frequentar o theatro, jogar uma partida de bilhar.
-
-O amor já não tinha novidades nem segredos para elle, que o gozára em
-todas as fórmas; na comedia e no drama; no idilio e na ode. Como
-Richelieu, diziam até que elle já o havia calcado com o tacão da
-bota.
-
-Nestas circumstancias bem se comprehende a impressão profunda que nelle
-produzia a mimosa botina, achada naquella manhã.
-
-Almeida tinha admirado a mulher em todos os typos e em todos os seus
-encantos; mas nunca a tinha amado sob a fórma seductora de um pésinho
-faceiro. Era realmente para sorprender. Como lhe passára desapercebido
-esse condão magico da mulher, á elle que julgava ter esgotado todas as
-emoções do amor?
-
-Succedeu, como era natural, que uma vez percutidas as energias dessa
-alma ennervada por longa apathia, a reacção foi violenta. Inflammou-se
-a imaginação e especialmente com o toque do mysterio que trazia a
-aventura. Si o dono da botina, o sonhado pésinho, se mostrasse desde
-logo, não produziria o mesmo effeito; não teria o sabor do
-_desconhecido_, que é irmão do prohibido.
-
-Imagine, quem conhecer o coração humano, a vehemencia dessa paixão,
-excitada pelo tédio do passado, e alimentada por uma imaginação
-ociosa. De que loucuras não é capaz o homem que se torna ludibrio de
-sua fantazia?
-
-As extravagancias de Horacio, contemplando a botina, verdadeiras
-infantilidades de homem feito, bem revelavam a agitação dessa
-existencia, embotada para o verdadeiro amor, e gasta pelo prazer.
-
-Não se riam, homens serios e graves, não zombem de semelhantes
-extravagancias; são ellas o delirio da febre do materialismo que ataca
-o seculo.
-
-Essa paixão de Horacio, o que é sinão uma aberração da alma,
-consagrada ao culto da materia? A voracidade insaciavel do desejo vai
-criando dessas monstruosidades incomprehensiveis.
-
-Succede á esta embriaguez do amor o mesmo que á embriaguez do alcool.
-A principio basta-lhe o vinho fino e aristocratico; depois carece da
-aguardente; e por fim já não a satisfaz a infusão de gengibre em
-rhum; isto é, a lava de um volcão preparada á guisa de grogue.
-
-
-
-
-IV
-
-
-Ao mesmo tempo que o nosso leão, entrava Leopoldo de Castro na modesta
-habitação que então occupava na Gloria.
-
-Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e
-com os olhos o carro que levava sua alma presa áquelle rosto
-encantador. O passo era rapido e o olhar ardente; um anciava por chegar;
-o outro quizera attrahir pela força da paixão, pelo iman das centelhas
-magneticas, que desferia a alma.
-
-Fosse illusão dos sentidos perturbados pela commoção interior, ou
-breve e confusa percepção da realidade, julgou o moço vêr, no
-momento de dobrar o carro pela rua Sete de Setembro, um talhe esbelto
-inclinar-se para a frente, e apparecer de relance um rosto alvo, donde
-escapou-se vivo e rapido olhar.
-
-Leopoldo não tinha o intento de alcançar, nem mesmo seguir, o carro
-que fugia com velocidade; mas embalava-o a esperança de que um
-obstaculo qualquer, impedindo por instantes o livre transito, lhe
-permittisse outra vez contemplar a moça. Quando, porém, isso não
-succedesse, consolava-o a idéa de conhecer a direcção que tomaria a
-linda victoria:
-
---Si eu soubesse ao menos para que lado mora ella!... Esse ponto seria
-o meu horizonte, o meu céo. Me voltaria para ali quando adorasse á
-Deus, e quando conversasse com ella. Amaria as estrellas, as nuvens e
-até as borrascas dessa banda do firmamento; amaria as ruas, as
-calçadas e até a poeira desse arrabalde da cidade.
-
-O mancebo vagou assim durante duas horas, percorrendo as ruas sem
-destino. Não era tanto a esperança de vêr a moça ou sómente o
-carro, como a necessidade de occupar seu espirito, o que o impellia
-nessa perseguição de uma sombra.
-
---Eu tornarei a vel-a, pensava elle comsigo; e ella me ha de amar, tenho
-convicção. O amor é um magnetismo; eu acredito que o magnetismo se
-resume nelle; que a lei da attracção não é sinão a lei da
-sympathia; os polos são a cabeça e o coração, na terra, como no
-homem. Si ella fôr a mesma que eu vi com os olhos de minha alma, a
-mesma que se revellou á minha paixão, aquella a que devo unir-me
-eternamente para formar um ser mais perfeito, eu caminharei para ella,
-como ella para mim, impellidos por uma força mysteriosa, por mutua
-aspiração.
-
-Com o animo repousado por essa convicção que nelle se derramára,
-entrou Leopoldo em casa. Ahi o esperava o isolamento em que se ia
-escôando sua vida, depois da perda de uma irmã á quem adorava.
-
-Nessa irmã tinha elle resumido todas as affeições da familia,
-prematuramente arrebatadas á sua ternura; o amor filial, que não
-tivera tempo de expandir-se, a amisade de um irmão, seu companheiro de
-infancia, todos esses sentimentos cortados em flôr, elle os
-transportára para aquelle ente querido, que era a imagem de sua mãi.
-
-Essa perda deixára um vacuo immenso no coração de Leopoldo; a
-principio enchera-o a dôr; depois a saudade; agora essa mesma terna
-saudade sentia-se desamparada na profunda solidão daquelle coração
-ermo. O mancebo carecia de uma affeição para povoar esse deserto de
-sua alma; de uma voz que repercutisse nesse lugubre silencio. É tão
-doce partilhar sua melancholia, ou seu prazer, com um outro eu, com um
-amigo ou uma esposa. São dous hombros para a cruz, e dous peitos para a
-alegria; alliviar-se o peso, mas duplica-se o gozo.
-
-Ao cahir da tarde, quando o crepusculo já desdobrava sobre a cidade o
-véo de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado á janella de peitoril de sua
-casa, fumava um charuto, com os olhos engolphados no azul diaphano do
-céo, onde scintillava a primeira estrella. A seus pés desdobrava-se a
-bahia placida e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de
-montanhas, caprichosamente recortadas.
-
-O espirito do moço não se embebia de certo na perspectiva dessa
-encantadora natureza, sempre admirada, e sempre nova. Ao contrario
-abandonava-se todo ás recordações de seu encontro pela manhã e aos
-enlevos que lhe deixara a contemplação da linda moça. Passava e
-repassava em sua memoria como em um cadinho, todas as circumstancias
-minimas deste grande e importante acontecimento, desde o momento em que
-assomou a visão até que desappareceu por ultimo ao dobrar o canto da
-rua.
-
-Achava nisso o mesmo praser que um menino guloso experimenta em chupar
-novamente os favos já saboreados; lá ficou um raio de mel, que o labio
-avido colhe. Para Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os
-movimentos, os sorrisos da moça, avivados pela maior contensão do
-espirito.
-
-Houve uma occasião em que o mancebo quiz representar em sua lembrança
-a imagem da moça: naturalmente começou interrogando sua memoria á
-respeito dos traços principaes. Como era ella? Alta ou baixa, torneada
-ou esbelta, loura ou morena? Que côr tinhão seus olhos?
-
-A nenhuma dessas interrogações satisfez a memoria; porque não
-recebêra a impressão particular de cada um dos traços da moça. Não
-obstante, a apparição encantadora resurgia dentro de sua alma; elle a
-revia tal como se desenhára a seus olhos algumas horas antes. Era a
-imagem diaphana de um sonho que tomara vulto gracioso de mulher.
-
---Não me lembro de seus traços, não posso lembrar-me!... murmurava no
-intimo. Eu a contemplei, como se contempla uma luz brilhante: ve-se a
-chamma, o esplendor; e nem se repara no espectro que a flamma envolve
-como uma roupagem. Ella é minha luz; não sei a côr e a fórma que
-tem, mas sei que scintilla, que me deslumbra; que innunda meu ser de uma
-aurora celeste. Não poderia descreve-la, como um poeta... Mas que
-importa? Pois que eu a sinto em mim; pois que eu a possuo em meu
-coração?
-
-As palpebras do mancebo cerrarão-se coando apenas uma restea de olhar,
-que se embebia nas alvas espiras da fumaça do charuto. Percebia-se que
-naquella nevoa se debuxava á sua imaginação a seductora imagem,
-deante da qual elle cahia em extases de uma doçura ineffavel.
-
---Quem sabe? Talvez não seja ella o que nos bailes se chama uma moça
-bonita; talvez não tenha as feições lindas e o talhe elegante. Mas eu
-a amo!... O amor é sol do coração; imprime-lhe o brilho e o matiz!
-Venus, a deosa da formosura, surgindo da espuma das ondas, não é outra
-cousa senão o mytho da mulher amada, surgindo d'entre as puras
-illusões do coração! O que eu admiro nella, o que me enleva, é sua
-belleza celeste; é o anjo que transparece atravez do envolucro
-terrestre; é a alma pura e immaculada que se derrama de seus labios em
-sorrisos, e a envolve como a scintillação de uma estrella.
-
-Leopoldo já não estava só na existencia; tinha para acompanha-lo na
-esperança essa doce apparição; como para partilhar a saudade tinha a
-memoria querida de sua irmã. O coração aproximou as duas imagens;
-ligou-as por algum vinculo misterioso; e creou assim uma familia ideal,
-em cujo seio viveu para o futuro, como para o passado.
-
-Nas horas do trabalho, o moço absorvia-se completamente nas
-occupações habituaes e cerrava sua alma para não deixar que as
-miserias do mundo ahi penetrando profanassem o templo de sua adoração;
-o templo da esperança e da saudade. Fora dessas longas horas,
-encerrava-se naquelle asylo e ahi vivia.
-
-Alguns dias depois do encontro da rua da Quitanda, o Castro percorrendo
-distrahidamente os jornaes da manhã, deu com os olhos sobre os
-annuncios de espectaculo, cousa que desde muito tempo não existia para
-elle. Representava-se no theatro lyrico a _Lucia de Lamermoor_, o mais
-sublime poema de melancolia, que já se escreveu na lingua dos anjos.
-
-O mancebo teve um desejo irresistivel de ir aquella noite ao
-espectaculo, apezar de conservar ainda o luto pesado. Não comprehendia
-esse capricho de seu coração; attribuiu ao encanto das reminiscencias
-daquella musica tão triste, e tambem daquelle amor tão estremecido,
-que os homens quizeram romper, mas a fatalidade uniu para sempre no
-tumulo. Elle ia saturar-se de tristeza; não havia, portanto,
-profanação de uma dôr santa.
-
-Eram perto de dez horas: cantava-se o final do segundo acto da opera, e
-Leopoldo, sentado em uma cadeira, do lado direito, estava completamente
-absorvido no canto magistral de Lagrange e Mirate. Um momento, porém,
-ergueu os olhos, e volvendo-os lentamente, fitou-os em um camarote da
-segunda ordem. Estremeceu; o olhar morno e baço que se escapava de sua
-pupilla illuminou-se de fogos sombrios e ardentes.
-
-Vira a mulher amada.
-
-Amelia estava nessa noite em uma de suas horas de inspiração; a mulher
-bella tem, como o homem de intelligencia, em certos momentos,
-influições energicas de poesia; nessas occasiões ambos irradiam; a
-mulher fica esplendida, o homem sublime.
-
-O talhe esbelto da moça desenhava-se através da nivea transparencia de
-um lindo vestido de tarlatana com laivos escarlates. Coroava-lhe a
-fronte o diadema de suas bellas tranças, donde resvalavam dois cachos
-soberbos, que brincavam sobre o collo. Os cabelleireiros chamam esses
-cachos de arrependimentos, _repentirs_. Por que motivo? A alma que se
-arrepende convolve-se daquella fórma; o pezar a confrange. Já se vê
-que os cabelleireiros tambem são poetas.
-
-Não foi, porém, o suave perfil da moça, nem os contornos macios de
-suas fórmas gentis, o que arrebatou o espirito do mancebo. Elle só viu
-a luz, o brilho d'alma, rarejando do sorriso. Contemplava a rosa,
-embebia-se nella, sem contar-lhe as petalas.
-
-Amelia, que apoiava o lindo braço sobre a almofada de velludo da
-ballaustrada, prestava attenção á scena, recolhendo ás vezes a vista
-para discorrel-a vagamente pelos camarotes fronteiros. Depois que o
-panno cahiu, conservou-se na mesma posição, conversando com sua mãi
-e Laura que ali estava de visita. Então voltou rapidamente o rosto, e
-deixou cahir sobre a platéa um olhar subito e vivo. Foi uma centelha
-electrica, listrando no espaço, para logo apagar-se.
-
-Revelou-se no semblante da moça alguma inquietação e visivel
-incommodo. Quiz disfarçar, mas afinal ergueu-se, para occultar-se no
-interior do camarote, por detrás de Laura, a qual occupava o outro
-logar da frente.
-
-O olhar que deitára á platéa encontrou o olhar profundo e ardente de
-Leopoldo; e batendo de encontro a esse raio brilhante, reagiu como
-estylete para feril-a no coração.
-
-Leopoldo notou vagamente esse movimento; mas como entre a columna e o
-busto de Laura elle via a sombra da mulher a quem amava, não se
-interrompeu seu enlevo. De vez emquando passava-lhe pelo rosto um
-lampejo subtil, no qual presentia o olhar furtivo da moça.
-
-
-
-
-V
-
-
-Estava a subir o panno.
-
-Amelia resolvêra ficar onde estava, e não tomar o logar da frente,
-apezar de Laura ter voltado a seu camarote. Mas essa resolução, tão
-solidamente calcada em seu coração, cahiu de repente: bastou um olhar.
-Vira na platéa, encostado á balaustrada da orchestra, um elegante
-cavalheiro.
-
-Era Horacio.
-
-O sorriso brando que manava dos labios da moça, como a onda pura e
-christalina de um ribeiro, desappareceu então sob outro sorriso mais
-brilhante, que borbulhava como a frol da cascata. Era o sorriso da
-vaidade, como o outro era da innocencia.
-
-A moça collocou-se na frente, fazendo realçar com a graça de seus
-movimentos a suprema elegancia do talhe. Demorou-se mais do que era
-preciso nesse acto; e sentando-se, houve em seu corpo um impulso quasi
-imperceptivel de mysteriosa expansão. Dir-se-hia que ella se queria
-debuxar no quadro illuminado do camarote.
-
-A causa desse elance não o adivinham? O leão tinha assestado seu
-binoculo de marfim; e a moça com um irresistivel assomo de faceirice
-abandonava-se ao olhar do mancebo.
-
-Durante o acto, Amelia distrahiu mais a attenção do semblante pallido
-de Leopoldo. Enleiava os olhos na figura elegante de Horacio; prendia-se
-ao fino buço negro que sombreava o labio desdenhoso do leão;
-embebia-se toda na graça de sua attitude: tentando assim resistir a
-curiosidade incommoda que attrahia sua attenção para o importuno
-desconhecido.
-
-Não sei porque, Leopoldo, cuja adoração era infatigavel como a
-emanação de uma chamma perenne, sentia naquella occasião a
-necessidade de dar um repouso a sua contemplação. Então como si a luz
-que o deslumbrava se fosse tornando mais doce, elle pôde vêr
-destacar-se o perfil gracioso da moça.
-
---Tem o cabello castanho! É pena! Acreditava que a mulher a quem amasse
-algum dia, havia de ser loura. É a côr do reflexo da luz, deve ser a
-côr desse véo casto que Deus fez para o pudôr. A madeixa foi dada á
-mulher para recatar a face que enrubece e o seio que palpita; essa gaza
-preciosa deve ser de ouro, ou antes de graça e esplendor.
-
-O moço já não olhava para Amelia; com as palpebras cerradas estava
-agora vendo-a na penumbra d'alma.
-
---Mas para mim é indifferente que tenha o cabello castanho; podia
-têl-o negro como a treva. Eu a amo, amo sua alma, sua essencia pura e
-immaculada! Si Deus me enviou um anjo para consolar-me em minha
-afflicção; para amparar-me em meu isolamento; para encher de
-ineffaveis jubilos meu ser saturado de amarguras; posso eu queixar-me
-porque o Senhor o vestiu de uma simples tunica de lã, e não de um
-sumptuoso manto de ouro? Eu gostava dos cabellos louros: pois agora só
-gosto, só quero, só vejo uns cabellos castanhos, porque pertencem a
-ella, s'impregnam de seu perfume, e respiram seu halito!
-
-Terminára o acto. Leopoldo, contemplando a moça, pela primeira vez
-lembrou-se de saber quem era, na sociedade, aquella mulher que lhe
-pertencia pelo pensamento. Tinha-se habituado a consideral-a como uma
-cousa sua; parecia-lhe que ninguem mais existia sinão elles dois.
-
-Volveu os olhos em busca de algum conhecido, a quem dirigisse a
-pergunta. Não encontrou: mas ao cabo de alguns instantes descobriu o
-leão em seu posto.
-
---Ah! lá está Horacio, que póde me informar. Elle conhece todo o
-mundo! Justamente agora pôz o binoculo para o camarote.
-
-Como desejava sahir, dirigiu-se para aquelle lado; mas o leão, inquieto
-e preoccupado, sahira açodadamente, e subia de um pulo as escadas que
-o separavam da segunda ordem.
-
---Aquella mão é irmã do meu adorado pesinho! Não tem a graça delle,
-sem duvida, nem se compara com aquelle mimo de amor; mas ha um certo ar
-de familia, um quer que seja!...
-
-Assim cogitando, Horacio chegára á porta de um camarote, e pela fresta
-fitára com disfarce o olhar em Laura, cuja mão, excessivamente
-pequena, e calçada por uma luva muito justa, custava a segurar o
-binoculo de madreperola.
-
-O moço, apenas reconheceu o vestido de seda violeta, e a mãosinha que
-lhe servira de phanal, abaixou o olhar para a fimbria do vestido a vêr
-si descobria alguma cousa, o peito, a ponta, a sombra, ao menos, do
-pesinho mimoso, do idolo de sua alma. Mas não foi possivel: o vestido
-arrastava no chão; nenhum movimento fazia ondular a seda; e comtudo o
-mancebo ali ficou immovel, palpitante de emoção, como si esperasse dos
-labios da mulher amada o monosyllabo que devia dicidir de seu destino.
-
-A paixão que o mancebo concebêra pela dona incognita da botina achada,
-longe de se desvanecer, adquirira uma vehemencia extrema. Horacio, o
-feliz conquistador, o coração fogoso e inflammavel, nunca ardêra por
-mulher alguma, como agora ardia por aquelle pesinho idolatrado. Era um
-verdadeiro amor de leão, terrivel e indomito; era um delirio; uma
-raiva.
-
-Seus amigos já não o reconheciam; elle apparecia nos bailes, nos
-theatros, nos pontos de reunião, de relance, como um meteoro, seguindo
-após uma idéa fixa, ou uma sombra que fugia diante de seus passos.
-Conversou-se muito na rua do Ouvidor á este respeito. Uns attribuiam o
-facto inaudito á primeira derrota.
-
---Horacio, dizia um de seus amigos, como Napoleão, só devia ser
-derrotado uma vez. Mas essa vez foi Waterloo!
-
---Que pensa então?
-
---Que o pobre rapaz caminha para o seu rochedo de Santa Helena. Ou casa
-ahi com alguma mulher feia e rica, ou engorda como um cevado.
-
-Outros lembravam-se de algum desarranjo de fortuna, ou de alguma
-velleidade politica, para explicar o mysterio. Mas sabia-se que o moço
-tinha bom e seguro rendimento; e quanto á politica, elle a comparava a
-uma embriaguez causada pela mais ordinaria zurrapa de taberna.
-
-Muitas vezes disse, gracejando, a seus amigos:
-
---Quando me quizer embriagar, em vez de zurrapa, beberei champanhe. É
-mais fino, e tambem mais barato, porque não deixa uma irritação de
-estomago, cujo preço é muito superior ao de uma caixa de melhor
-_cliquot_.
-
-A causa real da mudança do leão ninguem, pois, a sabia, nem a
-suspeitava.
-
-Depois da achada da botina, sua vida tomara um aspecto muito differente.
-Naquella mesma tarde em que o deixamos na sua casa de Botafogo,
-terminado o jantar, mandou apromptar o tilbure e voltou á cidade. Seu
-apparecimento áquella hora na rua do Ouvidor causou extranheza; um
-leão de raça, como elle, não passeia ao escurecer, sobretudo no
-centro do commercio, onde só ficam os que trabalham. Seria misturar-se
-com os leopardos que aproveitam a ausencia dos reis da moda, para
-restolhar alguma caça retardada.
-
-Correu Horacio todas as lojas de calçado á procura de informações.
-Para disfarçar sua paixão, inventou uma aposta, como pretexto á sua
-curiosidade. A um freguez como elle não se recusava tão pequeno favor,
-sobretudo quando levava o sainete de uma anecdota de bom tom. A todos
-elles o leão se dirigia mais ou menos nestes termos:
-
---Fiz uma aposta com uma senhora. Que em todo o Rio de Janeiro não se
-encontram tres moças de 18 annos que calcem n. 29. Tenho todo o empenho
-em ganhar a aposta, não tanto pelos botões de punho, como porque, si
-ella perder, ha de ser obrigada a mostrar-me seu pé, para eu verificar
-si é realmente desse tamanho. Peço-lhe, pois, que me dê uma nota das
-freguezas a quem costuma vender calçado deste numero.
-
-Nesta pesquiza gastou Horacio muitos dias, sem colher o menor resultado.
-Os poucos pares de calçado n. 29, vendidos pelas differentes lojas,
-eram destinados á meninas de doze annos ou a pessoas desconhecidas,
-cuja idade se ignorava. Apezar de tudo o leão não desanimava; todas as
-manhãs, ao acordar, levantava um plano de campanha, que punha em
-pratica durante o dia.
-
-Horacio sentira-se de repente tomado de indefinivel ternura por uma
-classe; de que antes só lembrava-se para amaldiçoal-a: a classe dos
-sapateiros. Quando via um sujeito de avental de couro e sovella, o leão
-sentia-se attrahido para aquelle individuo, que talvez encerrasse o
-segredo de sua felicidade, seu futuro, sua existencia. Outras vezes,
-porém, tinha de repente uns accessos de ciume selvagem. Lembrando-se
-que esse operario talvez já houvesse tomado medida ao adorado pésinho;
-que essas mãos calosas teriam tocado a cutis assetinada do anjo de seus
-pensamentos; o mancebo sentia em si o furor de Othello e procurava um
-punhal no seio; felizmente só achava a carteira, a adaga de ouro com
-que neste seculo se assassina mais cruelmente.
-
-Depois de consumir as horas em suas indagações, ia contemplar a
-botina, prenda querida de seu amor e proseguia á noite sua porfia
-incansavel. Corria os espectaculos e bailes, com o olhar rastejando para
-descobrir por baixo da orla do vestido, o ignoto deus de suas
-adorações. Não dansava para observar melhor o arregaçado dos
-vestidos; de ordinario andava pelas escadas e portas, afim de aproveitar
-o ensejo da subida e descida; muitas vezes ia fumar junto ao logar onde
-se collocavam os lacaios, na esperança de conhecer o portador da
-botina.
-
-Quando as rainhas da moda, as deusas do salão, sorprezas e attonitas o
-viam passar sem distinguil-as com uma palavra ou uma fineza, elle,
-atirando-lhes um olhar de compaixão, dizia comsigo:
-
---Coitadas! não sabem que o leão viu a pata da gazella e fareja-lhe o
-rastro. Que lhe importam as garras da panthera?...
-
-Recolhendo, Horacio accendia duas velas transparentes e collocava-as a
-um e outro lado da almofada de velludo escarlate, sobre uma mesinha de
-charão, embutido de madreperolas. Tirava de um elegante cofre de
-platina a mimosa botina, e com respeitosa delicadeza deitava-a sobre a
-almofada, de modo que se visse perfeitamente a graciosa fórma do pé
-que habitara aquelle ninho de amor.
-
-Então accendia o charuto, sentava-se n'uma cadeira de espreguiçar,
-defronte, porém, distante, para que o fumo não se empregnasse na
-botina, e ficava em muda e arrebatada contemplação até alta noite.
-
-Sobre aquella botina via elevar-se como sobre um pedestal, um vulto de
-estatua, mas vago, indistincto; e comtudo esse esboço sem fórmas
-seductoras, aquella sombra sem alma e sem calôr lhe parecia de uma
-belleza deslumbrante. Não era ella a mulher a que pertencia o mais
-formoso pé do mundo, o mimo, a obra prima da natureza?
-
-Recordava-se das mulheres mais bonitas que tinha visto, das mais lindas
-senhoras a quem amára com paixão, e sua memoria as trazia todas, uma
-após outra, para as collocar ao lado daquella figura vaga e
-desvanecida, que plainava sobre a almofada, como sobre uma nuvem de
-ouro. Como ellas fugiam abatidas e humilhadas diante de seu impetuoso
-desdêm!
-
---Não são dignas, murmurava elle, nem de beijarem o chão pisado pela
-fada desta botina!
-
-Eis qual tinha sido a vida de Horacio até o momento em que o vamos
-encontrar no mesmo logar defronte da porta entreaberta do camarote.
-Laura percebeu-o afinal, e sorriu-lhe com ternura. A attenção do rei
-da moda era uma fineza, um ar de seu real agrado; cumpria-lhe agradecer.
-
-Fitando com mais força o olhar na pupilla da moça como para travar-lhe
-da vontade, Horacio abaixou lentamente esse olhar até a fimbria do
-vestido de chamalote com uma insistencia significativa. Laura fez-se
-escarlate; e a porta do camarote, rapidamente fechada, a subtrahiu ás
-vistas ardentes do leão.
-
---É ella! exclamou o coração do mancebo afogado em jubilo. Não ha
-duvida. Para sentir esse pudor exagerado e incomprehensivel é preciso
-ter ali occulto um pé como aquelle que eu sonhei. Um pé?... Não; um
-mimo, uma maravilha, um thesouro, um céo!... É o pudor da violeta, que
-se esconde na sombra; é o pudor da perola, occulta na concha; é o
-pudor do diamante, sumido no seio da terra; é o pudor da estrella,
-immergindo-se no azul.
-
-O leão desceu as escadas murmurando:
-
---Vêl-o e morrer.
-
-Pouco depois terminou o espectaculo. Amelia com um resaibo de
-melancholia na fronte, embuçou-se na pellissa e desceu. Ella perdêra
-de vista Horacio, e só o tornára a vêr parado em frente á porta do
-camarote de Laura. Desamparada pelo encanto do gentil mancebo, soffrêra
-todo o resto do espectaculo o desassocêgo que lhe incutia o olhar de
-Leopoldo. Por mais que voltasse o rosto sentia a phosphorecencia
-estranha desse olhar repulsivo, que entretanto a prendia, máo grado
-seu.
-
-Leopoldo esperava no corredor da entrada a passagem da moça, quando
-avistou a seu lado Horacio. O leão soffrego e impaciente, volvia o
-olhar em varias direcções; naturalmente procurava alguem, e receiava
-que lhe escapasse.
-
---Adeus, Horacio.
-
---Boa noite, Leopoldo.
-
-Amelia appareceu nesse momento.
-
---Conheces aquella moça, Horacio?
-
---Qual?... Espera!
-
-Horacio tinha avistado Laura, que descia o lanço da escada opposta, e
-corrêra pressuroso, com os olhos fitos na fimbria de sêda. Seu olhar
-tinha tal força que parecia um croque a levantar a orla do vestido.
-Debalde; nem a sombra do pé: o encorpado estôfo arrastava pesadamente
-pelo chão.
-
-Chegou a moça á porta, onde o carro a esperava. Horacio teve um
-vislumbre de esperança; porém nova decepção o esperava. Não viu
-mais do que uma nuvem de sêdas ondular e sumir-se.
-
-O leão fez um movimento de desespero.
-
---Senhor! porque em vez de homem, não me fizeste estribo de um carro!
-Teria a felicidade de ser pisado por aquelle pesinho.
-
-
-
-
-VI
-
-
-Seriam duas horas da tarde.
-
-Durante a manhã tinha cahido sobre a cidade uma forte neblina, que
-molhára as calçadas.
-
-Leopoldo dirigia-se á casa, pela rua dos Ourives. Naturalmente vinha
-pensando na desconhecida, que não vira desde a noite do theatro. Sua
-paixão era intensa e ardente; mas vivia de si mesma, nutria-se da
-propria seiva. Esperava com plena confiança na pureza de seu amor.
-
-Á pequena distancia do canto da rua do Ouvidor, viu elle de repente a
-moça que passava na companhia de outras pessoas. Amelia voltára o
-rosto. Seu olhar cruzou rapidamente com o olhar do mancebo. Ela
-estremeceu com o costumado calafrio, e acelerou o passo.
-
-Vendo-a sumir-se, encoberta pela esquina, o mancebo tambem se apressou
-para acompanhal-a; mas chegou tarde. A moça e as pessoas, que iam em
-sua companhia, acabavam de entrar em um carro: na elegante victoria que
-já conhecemos. Leopoldo apenas vira um pé, que na precipitação de
-subir, levantára demais a saia.
-
-Sem consciencia do que fazia, precipitou-se para a portinhola do carro.
-O lacaio que a fechava nesse momento, embargou-lhe o passo. Quando o
-carro partiu na direção de São Francisco de Paula, Amelia inclinou-se
-e lançou de esguelha um olhar vivo para a esquina.
-
-Leopoldo ficára na calçada immovel e extatico de sorpreza.
-
-O pé que seus olhos descobriram, era uma enormidade, um monstro, um
-aleijão. Ao tamanho descommunal para uma senhora, juntava a
-disformidade. Pesado, chato, sem arqueação e perfil, parecia mais uma
-base, uma prancha, um tronco, do que um pé humano e sobretudo o pé de
-uma moça.
-
-Os traços especiaes da beleza de Amelia não tinham deixado na memoria
-de Leopoldo a minima impressão, da primeira vez que a vira, apesar de
-contemplal-a demoradamente. Entretanto o defeito não lhe escapou,
-embora passasse de relance diante de seus olhos.
-
-Parece uma singularidade; mas não é. Ninguem conta as petalas da flôr
-que admira; ninguem repara na fórma especial de cada uma das partes de
-que se compõe um todo gracioso; porém a menor mácula se destaca
-immediatamente.
-
-É por isso que certos homens, não podendo distinguir-se entre a gente
-sisuda e honesta, fazem-se nodoas da sociedade; tornam-se vicios e
-torpezas. Assim adquirem a celebridade, que não obteriam com sua
-virtude ambigua e seu mesquinho talento.
-
-O Castro, que não admirara o matiz da rosa, notou a mácula e
-desgostou-se della. Elle sentia-se com forças para amar o feio e o
-desgracioso, mas não o disforme, o horrivel. Essa aberração da figura
-humana, embora em um ponto só, lhe parecia o symptoma, senão o
-effeito, de uma monstruosidade moral.
-
-Triste, acabrunhado por pensamentos acerbos, o moço continuou seu
-caminho pela rua dos Ourives em direcção á casa. Mal havia andado
-alguns passos, arrependeu-se; não queria levar á sua habitação esse
-primeiro transbordamento de um dissabor tão profundo; era melhor
-deixal-o escoar-se, antes de recolher á solidão habitual. Si tivesse
-alguma cousa a fazer! Qualquer occupação bem aborrecida e massante,
-que lhe servisse de antidoto ao desgosto intimo!
-
-Excogitou. Havia ali perto, na rua Sete de Setembro, uma pequena loja de
-sapateiro, ou antes uma tenda; porque além do balcão via-se apenas uma
-tosca vidraça, contendo a obra de tres officiaes que ahi trabalhavam.
-
-A loja pertencia a um mestre fluminense, que trabalhára por algum tempo
-na casa do Guilherme e do Campàs, e se iniciára portanto em todos os
-segredos da arte. Ninguem a exercia com mais habilidade, esmero e
-enthusiasmo do que elle; sua obra, quando queria, não tinha que invejar
-ao producto das melhores fabricas de Pariz, si não o excedia na
-elegancia e delicadeza.
-
-A razão cardeal de toda a superioridade humana é sem duvida a vontade.
-O poder nasce do querer. Sempre que o homem applique a vehemencia e
-perseverante energia de sua alma á um fim, elle vencerá os obstaculos,
-e si não attingir o alvo, fará pelo menos cousas admiraveis. Mas para
-que o homem se entregue assim á uma idéa e se captive á um
-pensamento, é necessario ser attrahido irresistivelmente, ser impellido
-pelo enthusiasmo.
-
-É o enthusiasmo que faz o poeta e o artista, o sabio e o guerreiro; é
-o enthusiasmo que faz o homem-idéa differente do homem-machina. A
-fabula de Prometheo não exprime sinão a allegoria desse fogo celeste
-d'alma, que anima as estatuas de Galathea, embora depois dilacere o
-coração como a aguia do rochedo. Uma faisca dessa electricidade moral,
-opera maravilhas iguaes á centelha do raio. O que é o telegrapho a par
-com a eloquencia?
-
-O Mattos tinha o enthusiasmo de sua arte; descobrira nella segredos e
-encantos desconhecidos aos mercenarios. Para elle o calçado era uma
-esculptura; copiava em seda e couro, assim como o cinzel copia em gesso
-e marmore. Os outros artistas da fórma reproduzem todo o vulto humano
-ou pelo menos o busto; elle só tinha um assumpto, o pé. Mas que
-importancia não tomava á seus olhos esta parte do corpo! Era preciso
-ouvil-o, em algum momento de arroubo, para fazer idéa de sua
-admiração por esse membro nobre da creatura racional.
-
-Depois de trabalhar muitos annos em casas francezas, o mestre fluminense
-resolveu estabelecer-se por sua conta. Alugou uma pequena loja de duas
-portas, onde trabalhava com dois officiaes. A necessidade de ganhar o
-pão o obrigava á tornar-se mercenario, fazendo obra de carregação
-para vender barato. Mas no meio dessa tarefa ingrata tinha elle suas
-delicias de artista. Meia duzia de freguezes, conhecedores da habilidade
-do sapateiro, preferiam seu calçado ao melhor de Pariz, e o pagavam
-generosamente. Essas raras encommendas, o Mattos as executava com
-enlevo; revia-se em sua obra, verdadeiro primor.
-
-Leopoldo não era um freguez da ultima classe; elle não conhecia a
-voluptuosidade de um calçado macio, antes luva do que sapato; seu pé
-não era um _enfant gaté_, um benjamim acostumado á essas delicias;
-desde a infancia o habituára á uma vida rude e austera entre a sola
-rija e o bezerro. Além de que seus haveres não chegavam para taes
-prodigalidades.
-
-O moço pertencia á classe dos freguezes da obra de carregação, e
-preferia a loja do Mattos, pela modicidade do preço, e boa qualidade do
-cabedal, como do trabalho.
-
-Que mysteriosa associação de idéas trouxera á lembrança de Leopoldo
-naquelle momento a tenda do sapateiro; e por que motivo se dirigiu elle
-para ali onde estivera na vespera, e não para qualquer outro logar, em
-que poderia melhor espancar seu dissabor?
-
-O motivo nem elle mesmo o sabia naquelle instante.
-
---Bom dia! As botinas estão promptas? disse entrando.
-
-O Mattos, que attendia á alguns freguezes perto da vidraça, olhou-o
-sorpreso:
-
---Não disse hontem a V. S. que só para o fim da semana?
-
---É verdade!
-
---Tinha entre mãos esta encommenda. Mas já acabei; agora posso ajudar
-os companheiros.
-
-O Mattos indicára alguns pares de calçado que estavam no mostrador
-sobre folhas de papel, e promptos a serem embrulhados.
-
-Leopoldo, chegando-se para o balcão, principiou a examinar a obra
-acabada, com a distrahida curiosidade de quem deseja esperdiçar alguns
-momentos, para escapar a um aborrecimento ou para apressar um prazer.
-Era trabalho fino do mestre, e comtudo não excitaria grande attenção
-da parte do moço, si não fosse um par de botinas de senhora já usadas
-e meio encobertas pelo papel com outra obra. A medida era enorme no
-comprimento e na altura; por isso, como pelo feitio, devia excitar-lhe
-reparo.
-
-Na vespera quando viera á loja, casualmente observára a obra que o
-Mattos estava acabando. Vendo ha pouco na rua do Ouvidor o pé
-monstruoso da moça, tivera uma confusa e tenue reminiscencia das
-botinas da loja. Fora esse o fio mysterioso que o conduzira
-insensivelmente áquella casa. Agora comprehendia a encadeação: a
-botina monstro pertencia sem duvida ao pé aleijão.
-
-Leopoldo depois que entrevira sob a orla do vestido o pé da moça,
-ainda alimentava uma duvida, que pretendia cevar com todas as subtilezas
-e argucias de seu espirito. Talvez elle visse mal; talvez a sombra, o
-estribo do carro, qualquer outro objecto o tivesse illudido. O aleijão
-só existia em sua imaginação; fôra um desvario dos sentidos. Com
-effeito, como suppôr que uma senhora podesse andar graciosamente com
-semelhante pata de elephante?
-
-Mas as botinas ahi estavam sobre o balcão que não lhe deixavam a menor
-duvida. O pé disforme existia; era aquelle o seu molde, o seu corpo de
-delicto, e por elle se podia vêr quanto devia ser horrivel a realidade.
-Agora Leopoldo podia apreciar os traços parciaes que lhe tinham
-escapado pela manhã; esse pé era cheio de bossas como um tuberculo;
-não arremedava nem de longe o contorno dessa parte do corpo humano: era
-uma posta de carne, um cepo!
-
-Junto dessa deformidade morta, inventada para cobrir a deformidade viva,
-havia outra obra que chamára a attenção do mancebo por sua
-singularidade. Á primeira vista, era um volume semelhante ao das
-botinas monstruosas, embora de linhas regulares: parecia uma ligeira
-almofada preta sobre a qual se elevasse uma botina de senhora, muito
-elegante apezar de comprida. O tubo cinzento ficava occulto sob frocos
-de setim escarlate. Do rosto ao bico descia um galho de rosas, cujas
-hastes cingiam graciosamente, como uma grinalda, toda a volta do pé
-até o calcanhar.
-
-Uma das botinas ainda tinha dentro a fôrma; emquanto a outra já estava
-sem ella. Naturalmente o Mattos procedia áquella operação quando foi
-distrahido pelos freguezes e compradores: deixára-a pois em meio,
-deitando em cima da obra, para encobril-a, uma folha de papel.
-
-A fôrma não podia passar desappercebida ao observador. Vendo pouco
-antes a botina disforme, Leopoldo a tinha considerado o modelo exacto do
-pé monstruoso, que elle avistára. Enganara-se; a botina era já o
-disfarce, a mascara do aleijão. Sua cópia ali estava em horrivel
-nudez, no grosseiro tôco de páo, cheio de buracos e protuberancias.
-
-Mas si essa observação acabou de esmagar o coração do mancebo, levou
-insensivelmente seu espirito á apreciar pela primeira vez a
-superioridade do Mattos em sua arte. Ali estava a imagem do aleijão, e
-o calçado que outros sapateiros lhe fariam para cobrir a
-monstruosidade, sem a dissimular. Entretanto o mestre fluminense
-conseguira, por um esforço feliz, desvanecer a deformidade sob a
-apparencia de uma botina elegante.
-
-A almofada sobre que parecia descansar a botina era um solado alto,
-porém occo, onde as carnes molles do pé monstruoso, comprimidas pela
-botina superior, podiam abrigar-se.
-
-Os frocos de setim e as grinaldas de rosas enchiam as covas e
-desvaneciam as protuberancias osseas, com muita delicadeza, sem avolumar
-o tamanho do cothurno. Na sola negra se debuchava, em proporção á
-botina superior, a alva palmilha, com seus contornos harmoniosos; de
-modo que olhando-se andar a pessoa, não se perceberia facilmente o
-tamanho do calçado.
-
-Acabára o Mattos de aviar os freguezes, e chegando-se para o balcão,
-incommodou-se com vêr o moço a observar a obra; ia talvez
-interrompel-o rispidamente, quando percebeu em seu rosto uma expressão
-viva de ardente admiração. O artista ficou lisonjeado com esse elogio
-tão eloquente em sua mudez; e á contrariedade succedeu a satisfação
-do amor proprio.
-
-Foi Leopoldo, que, percebendo junto de si o sapateiro parado, afastou-se
-do balcão, receiando ter sido indiscreto. Ia sahir, quando entrou na
-loja um lacaio de libré azul com vivos de escarlate e branco. O mancebo
-o reconheceu pelas feições; era o mesmo que o impedira de chegar á
-portinhola do carro, na rua do Ouvidor.
-
---Ah! exclamou o Mattos, avistando o criado. Está quasi prompto.
-
---Não posso esperar! replicou o lacaio com a insolencia do rafeiro de
-casa rica.
-
---É só embrulhar.
-
-Leopoldo disfarçava; fingindo olhar o calçado exposto na vidraça, viu
-de esguelha o sapateiro tirar a fôrma da outra botina, bater o ponto e
-dar o ultimo polimento á sua obra; feito o que arranjou o embrulho.
-
---Está bem amarrado? perguntou o lacaio. Olhe que da outra vez já se
-perdeu uma botina por sua causa, e eu é que levei a culpa.
-
---Não tenha susto; desta vez está bem seguro; respondeu o Mattos.
-
-Foi-se o lacaio; e Leopoldo com o semblante carregado de tristeza,
-despediu-se, arrependido de ter ido á loja. Que saudades tinha da sua
-duvida!
-
---A duvida, pensava elle, é ainda um raio de esperança!
-
-
-
-
-VII
-
-
-A esse tempo Horacio, sentado em uma poltrona na casa do Bernardo,
-fumava o seu _conchita_, com o olhar, ora na calçada, ora no espelho
-fronteiro, á espreita do menor vulto de mulher.
-
-O leão pensava:
-
---Choveu; as ruas ainda estão molhadas. Qual é a senhora que tendo um
-pé mimoso e uma perna bonita não aproveita um destes dias para
-atravessar a rua do Ouvidor? Si deixarem escapar estes pretextos de
-mostrar semelhantes maravilhas, morrerão ellas desconhecidas, apenas
-vistas por um dono avaro, mas nunca admiradas, porque a admiração é
-sentimento que precisa da luz plena, da grande expansão. Si a Venus de
-Praxisteles existisse, mas só para mim, palavra de honra que sua
-belleza não excitaria em minha alma o menor enthusiasmo.
-
-Nessa occasião Amelia passava diante da loja, e voltando-se recebeu a
-cortezia do leão, a quem respondeu com um sorriso amavel. Parando na
-vidraça, achou ella pretexto para entrar; e comprou uma galanteria.
-Durante esse tempo Horacio recebeu por diversas vezes o olhar e o
-sorriso da moça.
-
-Acompanhando com a vista o passo airoso e subtil de Amelia, Horacio
-exclamou, dirigindo-se ao caixeiro do Bernardo:
-
---Que passo gracioso! É o andar da garça!
-
-Estas palavras foram ditas em voz bastante alta, para que a moça
-ouvisse; um ligeiro estrecimento que se notou na suave ondulação do
-talhe revelou que o leão lográra seu desejo. A moça ouvira com
-effeito a fineza.
-
-Recostado de novo na poltrona o leão continou a pensar:
-
---Realmente, que elegancia no andar! Eu seria capaz de apostar que esse
-andar era do pésinho, do meu adorado pésinho, si já não tivesse
-descoberto a dona do primor. Mas Laura não vem!... O criado me disse
-que ao meio-dia, e é quasi uma hora! Terá mudado de resolução?...
-Não duvido; com aquelle zêlo feroz que tem por sua joia, talvez não
-quizesse vir para não ser obrigada a mostral-o. Um avaro não fecha com
-mais cuidado a burra, do que ella esconde seu thesouro. Que peccado!
-Subtrahir ao mundo essa maravilha que Deus fez para ser admirada! Ah! eu
-desejava ser uma nação; assim como ha demonios-legiões, por que não
-podem haver homens-povos? Si o fosse, daria um throno á essa mulher,
-sómente para que ella instituisse o _beija-pé_. Como eu seria
-cortezão! Como eu a beijaria por minhas cem bocas de subdito!
-
-O mancebo sobresaltou-se; vira uma sombra que assomava no espelho
-fronteiro. Era Laura.
-
-Que devia fazer? Correr á porta para ser visto pela moça ou deixar-se
-ficar na poltrona para melhor descobrir o pé adorado?
-
-A attitude do leão revelava a hesitação de seu espirito; com o corpo
-lançado á frente parecia fazer um esforço para se conservar sentado.
-Laura, que de seu lado já o tinha avistado no espelho, ficára em um
-estado de perturbação indizivel.
-
---Que tem prima? perguntou-lhe um senhor que a acompanhava.
-
---Nada! balbuciou a moça.
-
-A principio Laura fizera um movimento para recuar, mas arrependendo-se
-avançou com affouteza, e passou rapidamente pela frente da loja, sem
-volver um olhar para dentro. Por mais que o leão se derreasse na
-poltrona, não logrou vêr cousa alguma; a senhora arrastava a fimbria
-do vestido pela calçada coberta de lama, com o mesmo descuido que teria
-si caminhasse sobre rico tapete.
-
---Está zangada commigo; está furiosa! Desde a noite do theatro que
-não me póde vêr; e parece que preparou-se para o assalto, porque
-achei as avenidas da praça já tomadas e vigorosamente defendidas. A
-mucama é uma Gorgona, o porteiro um Cerbero; apenas consegui abrandar o
-moleque, porque é um idiota!... Nunca vi uma ferocidade igual; creio
-que a leôa da floresta não defende seu cachorrinho com sanha igual á
-desta leôa de sala. Parece incrivel; mas eu conheço de quanto é capaz
-a vaidade da mulher. Todo este furor não é mais do que um assomo de
-faceirice; percebeu que estou apaixonado pelo pésinho mimoso, e quer-me
-trazer atado como um captivo á seu carro de triumpho. Realmente uma
-moça bonita não póde ter maior satisfação; vêr-me a mim, Horacio
-de Almeida, o primeiro conquistador do Rio de Janeiro, curvar-se
-humilde, não á seu olhar, á seu sorriso, á belleza de seu rosto, ou
-á graça de seu talhe, mas á planta de seus pés divinos! Fazer-me
-tapete de seus passos!... Que póde mais desejar a rainha dos salões
-fluminenses?
-
-O moço mordeu a ponta do bigode negro, e ficou alguns instantes muito
-pensativo.
-
---É preciso mudar o plano de ataque! Comecei á maneira do Cesar,
-atacando com impetuosidade. Vou contemporisar conforme a escola de
-Fabio; simúlo uma retirada; o inimigo avança, eu o envolvo; corto-lhe
-a retirada, e elle rende-se. Arraso o Humaitá daquelle vestido que
-defende o meu pésinho adorado como uma casamata. A indifferença é a
-serpente tentadora da mulher.
-
-Em consequencia destas reflexões, Horacio deixou-se ficar onde estava,
-e não seguiu a moça. Quando suppôz que ella já ia distante, foi
-procurar algures, em um bilhar o preservativo contra a tentação de
-cortejal-a, ou antes a seu pésinho.
-
---Ella hade reparar no meu eclipse! murmurou com certa confiança.
-
-Entretanto, Laura, descendo a rua do Ouvidor, encontrára pouco adiante,
-na casa do Masset, Amelia em companhia da mãi. As duas amigas não
-podendo vir juntas tinham ajustado seu encontro para aquelle ponto. O
-primo despediu-se, e as senhoras continuaram seu itinerario pelas
-differentes lojas e casas de modas.
-
-Ao cabo de duas ou tres horas, tomaram o carro que estava parado proximo
-á rua dos Ourives e partiram na direcção do Cattete. A poucos passos
-d'ali, Amelia perguntou ao lacaio sentado na almofada:
-
---Trouxe?
-
---Sim, senhora; está ahi dentro.
-
---Bem!
-
-O carro aproximava-se do largo da Lapa, quando Amelia disse:
-
---Podiamos ir agora ao _Passeio Publico_?
-
---Tão tarde! replicou Laura.
-
---Deixa-te disso! observou a mãi da moça.
-
---Porque, mamãi? Ha tanto tempo que lá não vamos.
-
---Não ha nada de novo.
-
---Ora eu queria vêr a garça. Ainda não a vi.
-
---Viste sim!
-
---Mas não reparei n'uma cousa!...
-
---Em que!
-
---Uma cousa. Depois direi.
-
-Tanto insistiu que a mãi cedeu a seu capricho, e deu ordem ao cocheiro
-que chegasse até o portão do _Passeio Publico_. As senhoras
-desappareceram na curva de uma das alamedas do parque, em direcção ao
-lago. Amelia queria vêr o andar da garça, que Horacio tinha comparado
-ao seu.
-
-Nessa occasião passava o tilbure do nosso leão, que vinha do lado da
-Ajuda. Um atropêllo, produzido por uma gondola mal conduzida, ia
-atirando o tilbure sobre o carro parado no portão do _Passeio Publico_.
-Este incidente chamou a attenção do moço para o cocheiro, que
-derreado sobre a almofada não se movêra.
-
-A memoria apresenta ás vezes um phenomeno curioso; conserva por muito
-tempo occulta e sopitada uma impressão de que não temos a menor
-consciencia. De repente, porém, uma circumstancia qualquer evoca essa
-reminiscencia apagada; e ella resurge com vigor e fidelidade.
-
-Foi o que succedeu a Horacio. Minutos antes por maiores esforços que
-fizesse para recordar-se da libré do lacaio, portador da botina
-perdida, não o conseguiria de certo. Entretanto bastou-lhe vêr a roupa
-do cocheiro, para acodir-lhe immediatamente ao espirito a imagem
-desvanecida. Era esse o carro, que vira quinze dias antes na rua da
-Quitanda; não havia duvida.
-
-O leão mandou parar o tilbure e entrou no Passeio Publico; depois de
-percorrer inutilmente varias alamedas, afinal descobriu entre as
-arvores, alem do lago, as ondulações dos vestidos de algumas senhoras
-acompanhadas por um lacaio, e tomou apressadamente aquella direcção.
-
-O terreno estava humido da chuva da manhã; e por isso o pé dos
-passeiadores deixava o rasto impresso na branca e fina areia das
-alamedas. Notando esta circumstancia, Horacio procurou o vestigio de
-alguma botina irmã da que achara, e guardava como uma reliquia; ficou
-ebrio de contentamento reconhecendo entre muitas pegadas o leve debuxo
-que deixara no chão o mimoso pésinho.
-
-Si não fosse o anhelo de alcançar as senhoras e reconhecer a dona
-incognita do thesouro, Horacio se houvera ajoelhado e beijára o rasto
-da fada de seus amores. Mas as senhoras caminhavam rapidamente para o
-portão.
-
-Por mais que se apressasse o leão, chegando á sahida, apenas viu o
-carro que partia. Felizmente adiantando-se pôde reconhecer Amelia, que
-lhe sorriu e inclinou-se para acompanhal-o com os olhos.
-
---É ella! Que pateta sou eu! Devia ter adivinhado. A pouco, vendo-a
-passar pela rua do Ouvidor, tive um presentimento! Aquelle andar cheio
-de graça não podia enganar.
-
-No dia seguinte o leão fez-se apresentar ao pai de Amelia, abastado
-consignatario de café, estabelecido á rua Direita. O encontro deu-se
-na praça do commercio. Horacio ahi foi á pretexto de comprar apolices;
-e um amigo, corretor de fundos, prestou-lhe aquelle serviço. O
-negociante offereceu a casa ao moço que acceitou a fineza com effusão
-de contentamento.
-
-O Sr. Salles Pereira habitava nas Larangeiras uma bella chacara. Amelia
-era filha unica, e seu dote, convertido em cem apolices, só esperava o
-noivo. Quanto á mulher, tinha uma boa pensão instituida no montepio
-geral. Seguro assim o futuro, vivia o negociante com certa largueza,
-economisando pouco ou nada de seus lucros annuaes.
-
-Quando Horacio teve conhecimento destas particularidades domesticas,
-sorriu.
-
---Bem! O meu pésinho tem um dote para seu calçado. Pode andar com
-luxo!
-
-A primeira vez que Horacio visitou a familia de Pereira Salles,
-encontrou Laura na sala; a moça fôra passar a noite com a amiga, e
-conversava jovialmente. Apenas viu o leão, demudou-se; e instantes
-depois, inventou um pretexto para retirar-se, apezar das instancias de
-Amelia.
-
-Horacio pouca ou nenhuma attenção deu á mudança que se tinha operado
-em Laura, e sua retirada repentina. Desde que a moça não era a dona
-feliz do mais lindo pé do mundo, tornava-se para elle uma creatura
-indifferente; tanto mais quanto sua alma estava ali de rojo beijando a
-fimbria de seda, que lhe occultava o tão anciado thesouro.
-
-Em Amelia, varias impressões produziu a apresentação do moço. No
-primeiro momento acreditou que o leão viera attrahido por ella; mais
-tarde, lembrando-se do theatro, suspeitou que fosse apenas um meio de
-aproximar-se de Laura; finalmente occorreu-lhe que podia não passar de
-um encontro casual de seu pai, e de uma delicadeza da parte de Horacio.
-
-Suas duvidas porém se dissiparam poucos dias depois.
-
-Uma noite a moça, impellida por um movimento de faceirice, soltou estas
-palavras, no meio de uma conversa com o leão.
-
---Laura está uma ingrata! Ha tanto tempo que não vem passar uma noite
-commigo.
-
-Ao mesmo tempo fitava os olhos no moço, para vêr a expressão de sua
-physionomia.
-
---É uma fineza de sua amiga, que eu agradeço de coração, respondeu
-Horacio.
-
---Uma fineza?... perguntou Amelia presentindo laivos de ironia.
-
---Quando sua amiga está aqui, a senhora sem duvida não a deixa?
-
---É muito natural.
-
---Já vê pois que eu tenho razão. Si ella viesse...
-
---Diga.
-
---Eu teria ciumes, D. Amelia.
-
-A moça corou.
-
---Pois amanhã Laura ha de passar a noite commigo.
-
-Estas palavras foram ditas com o estouvamento da menina, que procura
-disfarçar um prazer, sob a mascara da contrariedade. Mas a mascara é
-tão risonha, que não illude.
-
---Quer-me tanto mal assim? perguntou Horacio. Não admira; uma paixão
-ardente e impetuosa como eu sinto pela senhora, não devia ter outra
-sorte. O verdadeiro amor foi e será sempre infeliz; não ha mulher que
-o comprehenda.
-
-Amelia com as faces á arder não sabia que fizesse; sua mão tremula
-brincava com as flôres de um vaso, que vacillou sobre o consolo e cahiu
-no chão. O fracasso da porcelana, despedaçando-se, chamou a attenção
-das pessoas que estavam na salla; assim rompeu-se o enleio de Amelia.
-
-A moça retirou-se confusa para o interior da casa. Momentos depois
-entrou de novo na sala, já serena e prazenteira. Seus olhos procuráram
-Horacio, para offerecer-lhe o meigo sorriso que trazia nos labios.
-
-Esse sorriso dizia em sua eloquencia muda o seguinte:
-
---Si nunca a mulher soube comprehender o verdadeira paixão, serei eu a
-primeira.
-
-Foi esta pelo menos a traducção de Horacio, perfeito philologo do
-amor, e habituado a decifrar esses hyeroglyphos dos labios da mulher.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Não abandonemos o pobre Leopoldo á sua amarga decepção.
-
-O moço chegára á casa mergulhado na tristeza profunda, que sobre elle
-derramaram os acontecimentos da manhã. Talvez a morte de Amelia não
-lhe causasse tamanho pezar, como o daquella cruel decepção que estava
-presentemente curtindo.
-
-O aleijão excita geralmente uma invencivel repugnancia, repassada de
-terror. A aberração da fórma humana abate o orgulho do bipede
-implume, fazendo-o descer á baixo do ourangotango. Ao mesmo tempo, é
-ameaça viva á uma das mais caras aspirações do homem; a esperança
-de renascer em outra creatura, gerada de seu ser. Si a fatalidade pezar
-sobre a prole querida?
-
-Imagine-se que dôr era a do mancebo, quando via a deformidade surgir de
-repente para esmagar em seu coração a imagem da mulher amada, da
-virgem de seus castos sonhos?
-
-O contraste sobretudo era terrivel. Si Amelia fosse feia, o senão do
-pé não passára de um defeito; não quebraria a harmonia do todo. Mas
-Amelia era linda, e não sómente linda; tinha a belleza regular, suave
-e pura que se póde chamar a melodia da fórma. A desproporção
-grosseira de um membro tornava-se, pois, nessa estatua perfeita, uma
-verdadeira monstruosidade. Era um bérro no meio de uma symphonia; era
-um disparate da natureza; uma superfetação do horrivel no bello. Fazia
-lembrar os idolos e fetiches do Oriente, onde a imaginação doentia do
-povo reune em uma só imagem o symbolo dos maiores contrastres.
-
-Nessa angustia passou Leopoldo o resto daquelle dia e os que se lhe
-seguiram.
-
---Não amo a sua belleza material, oh, não! pensava o mancebo. O que eu
-adoro nella é a belleza moral, a alma nobre e pura, a creatura celeste,
-a luz, o anjo. Qualquer que fosse o envolucro de seu espirito
-immaculado, creio que havia de adora-la tanto, como a adorei desde o
-momento em que primeiro a vi.
-
-«Fosse ella feia para os outros, que chamam formosura o que lhes
-encanta os sentidos; para mim seria sempre bella, porque meus olhos
-haviam de vê-la através de seu esplendido sorriso. O que é o corpo
-humano no fim de contas? O que é o contorno suave de um talhe elegante,
-e a cutis assetinada de um rosto ou de um collo mimoso? Um pouco de
-materia á que a luz transmitte a côr, o espirito, e a vida. Tirem-lhe
-esses dois alentos; e verão que lôdo impuro e nauseante ficam sendo
-aquellas fórmas seductoras.
-
-«Pois luz e espirito não eram a essencia da alma de Amelia? Quando
-essa alma a vestia com uma tunica resplandecente, que mulher se lhe
-podia comparar em lindeza? Então não era sómente formosa, fluctuava
-em um ether de belleza deslumbrante.
-
-«Mas ella não é feia, é aleijada!...»
-
-Um soluço afogou as tristes locubrações do mancebo. Elle repassou
-outra vez na mente as circumstancias de sua triste descoberta; quiz
-duvidar, combateu pertinazmente sua propria razão que lhe apresentava a
-realidade, e afinal succumbiu, curvando-se á implacavel certeza. Tinha
-visto uma vez, e como essa não bastasse, o acaso lhe offerecera
-occasião de apalpar a verdade, e saciar-se della.
-
---Não se admira a Venus de Milo, uma estatua mutilada? dizia o mancebo
-reluctando contra sua viva repugnancia. Não se admira o primor da arte
-grega, apezar de não restar della mais do que uma cabeça e um torso de
-mulher? Essa bellesa truncada não vale a belleza aleijada? A
-mutilação não repugna tanto ou mais do que a deformidade?
-
-A razão de Leopoldo não o deixava embalar-se muito tempo nesse
-pensamento consolador. Replicava logo, refutando vigorosamente as
-argucias do coração:
-
---A estatua mutilada, que excita a admiração do mundo, não é a copia
-integral da belleza que lhe servia de typo; mas um fragmento apenas
-dessa copia. A alma, que se extasia na contemplação desse fragmento,
-recompõe o ideal do artista. Admira-se a Venus de Milo, como se admira
-um esboço não acabado de Raphael; como se admira a petala de uma rosa,
-arrancada da corolla. Mas, fosse embora aquelle primor da estatuaria a
-reproducção exacta de uma mulher. A mutilação respeita a bellesa; o
-aleijão a deturpa. Si a mulher que se ama perdesse um pé seria
-desgraçada; com um pé monstruoso, é mais do que desgraçada, é
-repulsiva.
-
-Leopoldo deixava-se convencer por estas sugestões:
-
---Infelizmente assim é. Mas por que ha de ser assim? A mutilação é
-um facto humano; o aleijão é um facto natural. Essa aberração do
-principio creador, esse desvio da fórma primitiva, indicam sem duvida
-um vicio na essencia do organismo. Não se tem verificado que nos corpos
-mal conformados de nascença habita sempre uma alma enferma? Nos
-corcundas sobretudo, porque a espinha dorsal é o tronco da
-intelligencia. A deformidade de um membro, de um ramo apenas, não
-denota eiva tão profunda do espirito, é certo, mas revela que a alma
-não é nobre e superior. Não se concebe o anjo dentro de um aleijão.
-
-O resultado destas cogitações era a gotta de fel esprimido, que ia
-filtrando á pouco e pouco no coração e acabaria por saturar todas as
-doces reminiscências dos ultimos dias. Leopoldo convenceu-se que não
-devia amar a desconhecida; mas, ao contrario, arrancar de sua alma os
-germens da paixão nascente.
-
-Tomando esta resolução, o moço, que vivia muito retirado depois de
-suas desgraças de familia, esteve a lembrar-se de algumas antigas
-relações. Veio-lhe o desejo de cultival-as de novo. Um instincto lhe
-dizia que para gastar as primicias de um coração virgem, não ha como
-o attrito do mundo.
-
-Entre as casas que outr'ora frequentava escolheu para a primeira noite a
-de D. Clementina, amiga intima de sua irmã. Era uma senhora já no
-declinio da idade e da formosura; gostava muito de dansar, e por isso
-reunia constantemente em sua sala as moças de sua amizade. Logo que se
-achavam presentes quatro pares, a dona da casa dava o signal, o marido
-arredava a mesa do centro, o filho, menino de quinze annos, sentava-se
-ao piano; e...
-
---_Chassé-croisé_! gritava D. Clementina.
-
-Nesta casa Leopoldo tinha certeza, não só de ser bem recebido, como de
-encontrar bastante arruido para aturdir-se, e abafar uns gemidos que
-sentia ás vezes repercutirem no coração. Tinham decorrido cinco dias
-depois da decepção: ás oito horas da noite entrou o moço na sala de
-D. Clementina, que o recebeu com sorpreza cheia de amabilidades.
-
-Além de estimado, acontecia que elle era justamente o quarto par.
-Tirado o dono da casa, o Sr. Campos, o filho Alfredo, e tres velhas,
-invalidas da dansa, havia na sala cinco senhoras para dois cavalheiros:
-servindo uma senhora de cavalheiro, ainda faltava metade de um par.
-
-Quando a campainha annunciou mais uma visita, D. Clementina de olhos
-fitos na porta da sala, dispoz-se a receber o recem-chegado com o seu
-mais affavel sorriso. Vendo Leopoldo, correu a elle, e desfolhando-lhe
-um ramalhete de amabilidades, trançou-lhe o braço; antes que o moço
-tomasse pé na sala, era arrebatado pela quadrilha, a compasso de
-galope.
-
-Realmente elle não podia escolher melhor. A agitação daquella dansa
-rapida, sem pausa; a confusão que os pares creavam de proposito para
-augmentar a animação; os risos e gracejos que provocavam os menores
-incidentes da quadrilha; todo esse rumor e atropello tinham por tal
-fórma sacudido o espirito de Leopoldo, que as idéas e recordações
-tristes lhe cahiram, como as folhas seccas de uma arvore, abalada pelo
-vento rijo do outono.
-
-Sentiu o coração vazio, porém tranquillo; o prazer vivo e
-scintillante daquella reunião, apenas roçava-lhe pela superficie; não
-penetrava, mas tambem ja não transudavam-lhe do intimo as amarguras de
-que nos ultimos dias se tinha saturado.
-
-De repente operou-se na perspectiva da sala, uma transformação
-inesperada. Amelia entrára; e sua graça diffundiu-se como um influxo
-celeste, no meneio de seu talhe elegante, na suavidade de sua voz, na
-irradiação de seus olhares.
-
-Leopoldo embebeu-se naquella suave apparição, como da primeira vez que
-a vira; mas para percorrer em um apice, as phases de seu amor, e cahir
-de novo na esmagadora decepção.
-
-De repente aquella estatua luminosa escureceu á seus olhos deixando
-apenas um residuo negro; esqueleto calcinado que arrastava uma
-deformidade. Debalde Amelia se ostentava no fulgor de sua belleza,
-toucada pelos primeiros arrebóes do amor; debalde as ondulações de
-seu corpo debuxavam fórmas encantadoras, e o sorriso de seus labios
-destillava uma fragancia mystica de beijos puros; os olhos de Leopoldo
-não viam nenhum desses encantos. Através dos folhos do vestido
-roçagante, sua vista fitava-se implacavel no pé monstruoso que lhe
-esmagava o coração como a pata grosseira de um animal.
-
-Todos os encantos dessa creatura, elle os despia de seu manto seductor,
-e dissecava-os com fria rancor. A inflexão voluptuosa do talhe provinha
-da resistencia que oppunha ao andar o enorme pé; o passo ligeiro era um
-esforço supremo para disfarçar o aleijão; o sorriso gracioso um
-enleio para prender os olhos estranhos, não permittindo que elles se
-abaixassem até á fimbria do vestido.
-
-E por isso mesmo o olhar de Leopoldo, olhar frio, cruel, inexorável, se
-tinha cravado na orla da saia elegante, d'onde não havia forças para
-arrancal-o.
-
-Amelia sentiu esse olhar cruciante, e estremeceu, tomada de um vago
-terror. Immediatamente sentou-se, e arranjando as dobras do vestido,
-procurou disfarçar. Mas em vão; o olhar do moço continuava fito no
-mesmo ponto, e produzia nella uma sensação incommoda.
-
---É D. Amelia, filha de um negociante chamado Salles. Não conhece?
-
-Estas palavras foram dirigidas a Leopoldo por D. Clementina, que
-sentando-se a seu lado, acompanhou-lhe o olhar fito.
-
---Não, minha senhora.
-
---Então vou apresental-o.
-
---Obrigado, D. Clementina; depois.
-
---Não acha muito galante?
-
-Leopoldo hesitou:
-
---Oh! muito!...
-
-Viera-lhe nessa occasião o mesmo impeto que sentem de ordinario os
-amantes em igual situação: o de criticar e desmerecer nas prendas da
-mulher que os faz soffrer. É uma reacção natural do coração.
-Leopoldo, porém, julgou indigno de si tal procedimento; tinha o direito
-de afastar-se, de fugir com horror dessa mulher, mas não o de
-offendel-a. A culpa de amal-a era sua; e não della.
-
-Aproveitou um momento de distracção da dona da casa, para tomar o
-chapéo, e esquivar-se, sem que o percebessem.
-
-Amelia, porém, o viu; seus olhos ficaram por algum tempo presos na
-porta por onde acabava o moço de sahir. Quando, passado um instante,
-cahiu em si, ficou sorprendida. Que tinha ella com aquelle desconhecido?
-
-Ao chegar, vendo o rosto pallido e os olhos profundos, que tão
-desagradavel impressão haviam deixado em seu espirito, a moça havia
-sentido um máo estar intimo. Vinha com a alma cheia das primeiras
-delicias de um amor nascente; com as doces emoções da declaração de
-Horacio. A presença de Leopoldo foi um travo.
-
-Mas tambem para que viera? Por que não ficara em sua casa esperando
-Horacio?
-
-Vão lá sondar o coração feminino. Agora que sabia-se amada, a moça
-queria gozar de seu triumpho, e vêr humilde e abatido a seus pés o rei
-da moda, o soberbo leão. O meio era fazer-se ardentemente desejada,
-tornar-se difficil e esquiva, embora lhe custasse o sacrificio dos
-momentos agradaveis que podia passar junto de Horacio.
-
-A presença de Leopoldo em casa de D. Clementina a incommodára, e
-entretanto seu olhar parecia agora sentir a ausencia do mancebo.
-
-A principio havia ali uma pessoa de mais; agora faltava alguma cousa. Si
-não era um homem; era uma curiosidade, uma emoção.
-
---Amelia!
-
-A moça voltou-se para ouvir D. Clementina que a chamava.
-
---Quero apresentar-lhe um moço, que a acha muito bonita.
-
-Dizendo estas palavras, a dona da casa corria os olhos pela salla á
-busca de alguem.
-
---Não o vejo agora.
-
---Quem é?
-
---O Castro... Conhece?...
-
---Não, senhora.
-
---Querem vêr que já se retirou.
-
-Amelia pôde reter o monosyllabo que ia cahir-lhe do labio, confirmando
-a supposição da dona da casa. Tinha adivinhado que se tratava do seu
-desconhecido.
-
---Então elle me acha bonita?
-
---O Castro?... Muito. Creio que ficou apaixonado! Se visse os olhos que
-lhe deitava quando a senhora chegou!
-
---Então foi de paixão que elle fugiu?
-
---Quem sabe? A paixão é como o vinho que em uns dá para rir, e em
-outros para chorar. Ha namorados que perseguem, e outros que fogem!
-
-Amelia julgou prudente desviar a conversa daquelle assumpto escabroso,
-no qual D. Clementina se comprazia, porque lhe recordava sua mocidade
-já desvanecida.
-
-
-
-
-IX
-
-
-Depois d'aquella noite Leopoldo viu Amelia duas ou tres vezes: e de
-todas sentiu a mesma impressão que lhe causara a presença da moça em
-casa de D. Clementina.
-
-Era o mesmo desencanto; a mesma insistencia de seu espirito para
-enxergar a formosura da donzella através de um prisma deforme e
-caricato. N'essas occasiões elle soffria diante da moça a fascinação
-do horrivel, como o poeta soffre muitas vezes a fascinação do bello em
-face de um objecto desgracioso. Era então um poeta pelo avesso; um vate
-do monstruoso. Tinha na imaginação um gnomo de Victor Hugo: creava
-Quasimodos e Gwynplaines do sexo feminino com uma fecundidade espantosa.
-
-Quando porém a moça desapparecia de seus olhos, operava-se em seu
-espirito completa mutação. Esquecia completamente o aleijão, para só
-lembrar a linda e graciosa figura, que poucos momentos antes sua vista
-repellia. Amelia ausente vingava Amelia presente. O coração do mancebo
-detestava tanto esta, quanto adorava ainda a outra.
-
---Este amor é um inferno; pensava elle; tem um vicio organico. Ha de
-viver de dôres e lagrimas; ha de alimentar-se de minhas tristezas. E
-assim irá definhando até morrer de consumpção, depois que me tiver
-devorado todo o coração. Que importa? Servirei de pasto á este
-abutre. O que somos nós afinal de contas? Uma presa; emquanto vivos, a
-presa das molestias e das paixões proprias ou alheias; depois de
-mortos, a presa dos vermes ou das chammas.
-
-Com tal disposição de espirito voltou elle dias depois á casa de D.
-Clementina. Nesta noite havia uma pequena partida; Leopoldo contava,
-pois, encontrar Amelia.
-
-Ali estava com effeito, vestida de escarlate e branco; e adornada com a
-sua graça arrebatadora. Quando o moço entrou, ella dansava com as
-costas voltadas para a porta e não o viu; porém, momentos depois virou
-o rosto como si obedecesse a um impulso extranho, e encontrou o olhar
-ardente de Leopoldo.
-
-A moça fez insensivelmente um movimento para afastar-se, que entretanto
-a aproximou da porta. Aquelle olhar que a attrahia ao mesmo tempo que a
-repellia, causou-lhe um desvanecimento misturado de terror. Felizmente
-a terceira figura da marca da contradansa começava, e a distrahiu de
-sua emoção.
-
-Estava ella outra vez parada conversando com o par, quando sentiu um
-calafrio; sem vêr, conheceu que o mancebo se aproximava, que seus
-labios se abriam para dirigir-lhe a palavra:
-
---Minha senhora, terei a honra de dansar com V. Ex. a seguinte
-quadrilha...
-
-Continham uma pergunta ou uma asseveração estas palavras? Fôra
-impossivel dizel-o. O tom parecia mais affirmativo do que interrogativo,
-porem o olhar do mancebo esperava, sinão exigia resposta.
-
-A confusão da dansa permittiu á Amelia esquivar-se, sem responder.
-Quando, terminada a quadrilha, voltou a seu logar, ficou perplexa. Tinha
-ella se compromettido ou não a dansar a seguinte quadrilha com
-Leopoldo? Não respondera, é certo; mas recordava-se vagamente de ter
-feito uma leve inclinação com a cabeça. Sem duvida o moço vira esse
-movimento e o tomára por um signal de assentimento.
-
-Quando um de seus innumeros admiradores vinha pedir-lhe a proxima
-quadrilha, ella respondia hesitando que já tinha par; apenas o
-cavalheiro se afastava arrependia-se de não o ter acceitado, rompendo
-assim o compromisso tacito; e ficava anciosa por outro convite.
-Entretanto novo par se apresentava, que recebia a mesma recusa.
-
-N'esse jôgo, muitas vezes repetido, passou o intervallo. O piano deu o
-signal da quadrilha; Leopoldo aproximou-se de Amelia, e se inclinando
-sentiu no seu estremecer o braço tepido de Amelia. A moça não teve
-consciencia do que se passou até o momento em que o moço a conduziu a
-seu logar. Recordava-se apenas de que seu par lhe fallara por muito
-tempo, com a voz baixa, porem palpitante de emoção.
-
-Assim fôra. Passada a primeira confusão da quadrilha, Leopoldo,
-fitando o olhar no semblante da moça, deu expansão aos sentimentos que
-lhe tumultuavam dentro d'alma. Com a fronte baixa e as faces cheias de
-rubôres, Amelia parecia absorvida e reconcentrada emquanto o moço
-fallava. Dir-se-hia que ella não o ouvia.
-
---A senhora acredita, D. Amelia, na attracção irresistivel, que
-impelle duas almas entre si, e as chama fatalmente á se unirem e
-absorverem uma na outra?... Eu acreditava nessa força mysteriosa, mas
-ainda não tinha chegado o momento de experimental-a em mim; de sentir
-em meu ser este elo divino que prende as almas, através do tempo e da
-materia. Senti-o ha vinte dias, quando a vi pela primeira vez, quando a
-senhora se revelou ao meu coração.
-
-Leopoldo referiu as emoções que sentira, na occasião de seu primeiro
-encontro com Amelia; a impressão que ella deixára em seu espirito; e
-os sonhos em que se embalára sua imaginação nos dias seguintes.
-
---Tive então, continuou o mancebo com accento profundo e commovido,
-tive então, e depois, a prova de que esse enlevo de meu ser, essa
-abstracção de minha existencia para absorver-se n'outra, era a
-attracção moral e nada mais. Via, admirava, adorava na senhora uma
-cousa sómente; sua alma. Não sabia, ainda hoje não sei, si a mulher
-que eu amo é bonita para os outros; sei que para mim é de uma belleza
-divina. Perdesse ella a graça e a formosura que aos outros seduz; para
-mim seria a mesma; eu havia de adoral-a com o mesmo ardor. Sua alma é
-filha de Deus, e como elle de uma magnificencia immortal. É uma
-estrella que não tem eclipse.
-
-Leopoldo inclinou a fronte para fallar quasi ao ouvido da moça:
-
---Outr'ora julgava impossivel que se amasse o horrivel. Agora reconheço
-que tudo é possivel ao amor verdadeiro, ao amor puro e immaterial. Não
-só reconheço, mas sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões
-martyres! Oh! sinto-me capaz de amar o anjo ainda mesmo encarnado em um
-aleijão!...
-
-Leopoldo fallou ainda por muito tempo de seu amor a Amelia, sem que ella
-se animasse a interrompel-o. Aquella palavra ardente, impetuosa, embora
-vendada por certo pudor d'alma, a subjugava: ella não tinha coragem,
-nem mesmo vontade de subtrahir-se á sua influencia.
-
-Quando Amelia, conduzida por Leopoldo, se dirigia á uma cadeira, D.
-Clementina aproximou-se:
-
---Ah! Eu queria apresental-o, disse a Leopoldo; mas não teve paciencia
-para esperar.
-
-Depois reclinando ao ouvido de Amelia, perguntou-lhe:
-
---Então? Não lhe disse que a achava muito bonita?
-
---Ao contrario, D. Clementina; deu-me a entender que me acha horrivel.
-
---Ande lá.
-
---Deveras!
-
---É impossivel.
-
-Amelia, sentando-se, evocou a lembrança de Horacio, para fazer no seu
-espirito o parallelo entre o elegante leão e o estranho mancebo com
-quem acabava de dansar. Um tinha todas as prendas que seduzem a
-imaginação; era formoso, trajava com esmero, conversava com muita
-graça. O outro não possuia nenhum desses attractivos; seu exterior
-alheiava as sympathias; quando fallava diffundia a tristesa no espirito
-dos que o escutavam.
-
-A moça não concebia que se preferisse Leopoldo á Horacio; e comtudo
-não podia esquivar-se completamente á influencia daquella imagem
-pallida, que lhe apparecia no meio dos sonhos mais brilhantes.
-
-Muitas vezes, depois de algumas horas agradaveis passadas junto do
-leão, quando a moça, recolhida á sua alcova, repassava na memoria os
-doces protestos de amor que ainda lhe resoavam ao ouvido, de repente
-surgia a lembrança de Leopoldo. Parecia-lhe então que da fronte do
-mancebo se desprendia uma sombra para annuviar seus pensamentos
-risonhos.
-
-Horacio, sabendo onde Amelia passava as noites em que elle não a via,
-mostrara desejos de frequentar a casa de D. Clementina; a moça porém
-oppôz-se. Duas razões actuaram era seu espirito.
-
-Aquella casa servia-lhe de abrigo contra a seducção que exercia em seu
-espirito a elegancia de Horacio. Quando sentia-se vencida, fugia para
-ali, onde recobrava forças para resistir, e domar completamente o
-leão, soberbo de suas conquistas passadas.
-
-Era essa uma das razões; a outra era o receio de achar-se em face dos
-dois moços, repartida entre a seducção de um e a fascinação do
-outro. Presentia que desse conflicto, resultaria alguma cousa, que ella
-não podia definir, mas que a enchia de sustos e inquietações.
-
-Por isso exigiu de Horacio que não fosse á casa de D. Clementina:
-
---Costumam lá ir algumas dessas pessoas que se occupam em inventar
-novidades. Sua apresentação, Sr. Horacio, daria pretexto á algum
-romance.
-
---Mas, por que ainda frequenta semelhante casa?
-
---Pedidos... bem sabe; nem sempre uma pessoa se póde recusar. Mas si o
-senhor apparecer lá, eu deixarei de ir.
-
---Esteja tranquilla.
-
-Amelia continuou a passar de vez em quando uma noite em casa de D.
-Clementina. A principio não tinha dia certo, e succedeu por isso que
-Leopoldo desencontrou-se della duas vezes. Uma noite porém o moço
-perguntou-lhe:
-
---Vem sabbado?
-
---Talvez.
-
-Desde então o dia escolhido era o sabbado, a menos que não precedesse
-aviso especial da dona da casa, para alguma partida. Nunca mais houve
-desencontro; Amelia achava sempre o mancebo no seu posto, defronte da
-porta para vêl-a entrar.
-
-Em uma dessas noites deu-se um incidente, que é preciso referir.
-
-Fallava-se á respeito de uma senhora casada, a quem o marido causava
-serios desgostos. Pessoa que sabia das particularidades dessa familia,
-explicava o facto á sua maneira.
-
---Ella era muito linda, o marido a adorava; casou-se por paixão. Poucos
-dias depois de casada, teve ella uma grave molestia que a reduziu
-aquelle estado. Não ha paixão que resista.
-
---Com effeito sabe ser feia!
-
---Ninguem acreditará que foi bonita.
-
---Pois foi uma belleza.
-
-Leopoldo, que ouvia calado, interveio:
-
---O marido nunca a amou!
-
---Asseguro-lhe que teve uma paixão louca.
-
---E eu affirmo-lhe que não; que elle nunca teve paixão pela mulher. O
-que elle adorava era unicamente a sua belleza, a fórma; isto é, um
-accidente. O homem que ama a mulher destinada a ser a companheira de sua
-existencia, o complemento de seu ser imperfeito, não despreza essa
-mulher, porque a desgraça a feriu no envolucro material de sua alma.
-Elle póde soffrer com aquella desgraça; mas deve redobrar de amor e
-adoração, para que nem seus olhos vejam o defeito, nem ella, a mulher
-amada, se lembre nunca de que o tem para elle, embora o tenha bem claro
-para os indifferentes.
-
---É bonito de dizer! acodiu um apreciador das mulheres formosas.
-
---Todos dizem o mesmo, mas fogem das feias, observou uma senhora idosa,
-talvez por experiencia propria.
-
---O que eu digo, minha senhora, já o experimentei em mim mesmo;
-replicou Leopoldo.
-
---Ah!
-
-O mancebo cravou em Amelia um olhar eloquente, e disse com a palavra
-lenta e calma:
-
---É verdade; já o experimentei em mim. Por que hei de occultal-o?
-Minha alma já passou por esta dura prova, e sahiu triumphante. Hoje sei
-que tenho forças para amar até os defeitos da mulher que Deus me
-destinou.
-
-Amelia perturbou-se com aquellas palavras, e o olhar ardente que parecia
-graval-as em sua alma. Nessa noite retirou-se pensativa; e por muito
-tempo a figura pallida de Leopoldo, esvoaçou na penumbra de seu leito
-de virgem.
-
-
-
-
-X
-
-
-Pela manhã se dissiparam essas nevoas que no espirito de Amelia deixara
-a noite antecedente.
-
-Era domingo. A moça, envolta em seu roupão alvo, com os cabellos
-soltos pelas espaduas, encostou o rosto á vidraça da janella.
-Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar perfeitamente a rua,
-sem que de fóra vissem o seu gracioso desalinho.
-
-Não tardou que se ouvisse um tropel de cavallo. Era o leão que ia dar
-seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina, e desenhar-se no vidro
-a ponta de uns dedos côr de rosa, Horacio cortejou, enviando um sorriso
-á janella.
-
-Á noite o moço dirigiu-se á casa do Salles. Amelia o esperava. A sala
-estava cheia de visitas. Entrando, o olhar de Horacio encontrou um olhar
-terno que o saudava de longe.
-
-Mas o sorriso se desfez com a perturbação que de repente sentiu a
-moça. A vista do leão tinha descido até o tapete, e se fixara com uma
-insistencia visivel na fimbria do vestido, ligeiramente arregaçada.
-Horacio julgou que pudesse lobrigar a ponta do pesinho que idolatrava.
-
-A moça concertou as dobras da saia de modo a interceptar o olhar
-curioso; e disfarçou conversando com uma amiga.
-
-Desde principio notara Amelia aquelle sestro de Horacio. Quando ella o
-suppunha mais embebido em seus encantos, mais rendido á sua belleza,
-sorprendia o olhar do moço a rastejar pelo chão, procurando
-insinuar-se por baixo da orla de seu vestido.
-
-Muitas vezes ella perdia os seus mais ternos sorrisos, porque o moço,
-em vez de procurar lhe no rosto a esperança de ser amado, esquecia-se,
-a catar sobre o tapete alguma idéa que não se animava a revelar. Já
-tinha succedido, durante que ella tocava, distrahir-se o leão, e com a
-attenção presa no pedal, nem ouvir a peça de musica.
-
-Horacio a amava sem duvida; já lhe tinha dado provas de que sentia por
-ella uma paixão vehemente. Elle, o rei da moda, o festejado
-conquistador, para quem todas as portas e todos os corações abriam-se
-como a gruta encantada de Aladino, a uma só palavra; elle ali estava
-captivo da vontade della, e atado a seu carro triumphal. Que prova mais
-eloquente de profundo amor, do que essa submissão espontanea do altivo
-leão?
-
-A força nunca se revela tanto como na posse de si mesma, no vigor com
-que se domina. Hercules, fiando aos pés de Omphale, é o ultimo canto,
-o epilogo sublime da epopéa da força humana. Exterminando a féra, a
-natureza e até os deuses, Hercules foi grande; abatendo a si mesmo, foi
-maior, porque venceu o vencedor.
-
-Amelia comprehendia que homenagem eloquente á sua belleza havia
-naquella adoração do elegante cavalheiro; sentia-se orgulhosa com esse
-amor, que tantas mulheres lhe invejavam; considerava-se rainha, desde
-que via a seus pés subjugado e humilde o rei da moda.
-
-Mas lá no intimo alguma cousa lhe remordia, quando notava a pertinacia
-com que o olhar de Horacio, procurava a fimbria de seu vestido. Nesses
-momentos sentia n'alma um alvoroço; chegava a suspeitar que Horacio
-não lhe tinha amor, e estava escarnecendo della com uma paixão
-fingida.
-
-A verdade, porém, é a que sabemos. Horacio tinha paixão louca pelo
-pésinho de que só conhecia a botina e o rasto; fazendo a côrte a
-Amelia, elle prestava culto ao deus ignoto, que adorava sob aquella
-fórma encantadora. Pelo cuidado que tinha a moça em não desconcertar
-os babados de seu vestido comprido de mais, conheceu elle o zelo com que
-a dona recatava o thesouro. Comtudo não desesperou; o cuidado da moça
-havia de adormecer um momento; podia mesmo sobrevir um accidente
-inesperado que realizasse a sua mais cara esperança.
-
-Até aquella noite todos os esforços se tinham frustrado: á sua
-insistencia a moça tinha opposto a pertinacia do capricho feminino.
-Quanto mais attento elle estava para aproveitar qualquer descuido, mais
-alerta ella ficava para não commetter a minima falta.
-
-Horacio porem resolveu dar o golpe; e com essa intenção, fora á casa
-de Salles, no domingo em que estamos.
-
-Quando se offereceu occasião, travou com Amelia, recostada á janella,
-o seguinte dialogo:
-
---Como é bonita! disse elle contemplando a moça com enlevo.
-
---Ainda não tinha percebido? perguntou ella com ironica faceirice.
-
---Não, D. Amelia, não; porque de cada vez a acho mais bonita: todos os
-dias a senhora muda a meus olhos; torna-se outra, mais linda, mais
-formosa, do que era aquella que eu conhecia anteriormente. Como hoje,
-acredite, nunca a vi.
-
---Que tenho eu de mais?
-
---Não sei; tem uma aureola da belleza! Seus olhos desferem raios de luz
-tão pura; sua boca sorri como a flôr em botão, que abriu com a
-frescura da noite. Os anneis de seus cabellos castanhos parecem
-impregnados de um fluido mysterioso, que se derrama em torno. Mas, de
-toda a sua formosura ha uma cousa sobretudo que eu admiro, que eu adoro.
-Não é, nem seus olhos brilhantes, nem seus labios mimosos, nem seu
-talhe elegante, nem suas tranças tão opulentas; não é nada disto!
-
---O que é então?
-
---Para que dizel-o? Para que revelar a minha paixão, a quem della
-escarnece? Si eu o confessasse, cessariam o supplicio que tenho
-soffrido, as ancias que estou curtindo? Não; haviam de augmentar si
-isso fosse possivel. A senhora teria prazer em torturar-me ainda mais.
-
---Explique-se: confesso que não o entendo. Que supplicio tem o senhor
-soffrido?
-
---A mulher é caprichosa, muitas vezes faz padecer aquelle que a ama
-sinceramente, e só por espirito de contradicção. Uma cousa innocente,
-um favor pequenino... permitte aos estranhos e indifferentes, e
-entretanto recusa ao homem que morre de paixão por ella. Não é uma
-crueldade? A senhora pergunta, D. Amelia, que supplicio tenho eu
-soffrido. Este, de ser consumido á fogo lento por um desejo, que um
-gesto seu podia tornar em gozo infinito!
-
-A moça com as faces incendidas em rubôr, luctava no alvoroço e
-confusão, que iam-se apoderando de toda sua pessoa.
-
---Entende agora, D. Amelia?
-
---Não! murmurou tremula.
-
---Pois não percebeu ainda, que ha uma cousa que eu sobretudo amo na
-senhora? Tanto percebeu, que fez o proposito de escondel-a a meus olhos,
-cançados de a procurarem a cada instante. Não está contente ainda de
-vêr-me arrastando assim a alma pelo pó, no vão intento de entrevêr
-de longe o objecto de minhas adorações?
-
-O leão fitou um olhar fascinador no semblante da moça.
-
---Para que negar, D. Amelia? A senhora o sabe, e finge ignorar para mais
-torturar-me.
-
---Eu não!
-
---A senhora sabe por quem deliro de paixão, por quem darei a minha vida
-sem hesitar. Si não soubesse, já eu teria visto e admirado esse
-pésinho mimoso, que me mata com seu rigor.
-
-Uma visita que entrava na sala, deu a Amelia um pretesto para fugir,
-disfarçando seu rubôr e perturbação, no afan da recepção das
-senhoras que chegavam.
-
-Ao retirar-se, Horacio achou ensejo de trocar uma palavra coma moça,
-emquanto lhe apertava a mão.
-
---Não seja cruel!
-
---Oh, cruel não sou eu; replicou a moça com expressão de
-ressentimento.
-
-Mais tarde em sua alcova, emquanto desfazia o penteado, soltando os
-lindos anneis do cabello castanho, Amelia recordou-se das palavras
-apaixonadas que ouvira de Leopoldo na vespera, e comparou-as com as
-queixas de Horacio. A linguagem do primeiro tinha a eloquencia da
-paixão; parecia vir do intimo, do mais profundo do coração. A
-linguagem do segundo, tinha a graça da seducção; era a vibração
-passageira das cordas d'alma.
-
-Mas a palavra do leão, vinha envolta em um sorriso gracioso, sombreado
-por um bigode fino e elegante!
-
-Durante uma semana, Amelia não viu Horacio; por uma razão muito
-simples. O moço de arrufado, não appareceu durante dois dias; quando
-se resolveu a apparecer, a moça despeitada inventou um incommodo, e
-não desceu á sala de visita, pelo dobro do tempo. Si Horacio
-sustentasse a lucta, podia haver serio rompimento.
-
-O leão, porém, estava domado; tinha achado a sua Diana. No quinto dia
-foi humildemente render preito e homenagem á suzerana de seu coração.
-Amelia o recebeu, como rainha magnanima; e tratou-o nesse dia com
-amabilidade extrema. Pela primeira vez, Horacio pôde beijar-lhe a ponta
-dos dedos.
-
-Animado com esse acolhimento, o leão arriscou de novo a grande
-questão. Fitando o olhar no rosto da moça, e abaixando-o á orla do
-vestido, disse em tom supplicante:
-
---Me deixa vêr?
-
---Não; respondeu a moça com vivacidade, e demudando-se.
-
---Quando cessará este capricho?
-
---Nunca.
-
-Horacio teve um assomo de impaciencia.
-
---Bem. Não me quer mostrar a mim, Horacio de Almeida, pois ha de
-mostral-o a uma pessoa.
-
---A quem? perguntou a moça irritada.
-
---A seu marido.
-
-Amelia tornou-se pallida, e sentiu passar-lhe nos olhos uma vertigem;
-mas recobrou-se logo á idéa, de que as palavras de Horacio não
-passavam de um galanteio.
-
---Si algum dia me casar, replicou ella sorrindo, ha de ser com a
-condição de não mostrar.
-
---Havemos de discutir essa condição.
-
---Vamos mudar de conversa?
-
---Como quizer; temos muito tempo para continual-a.
-
-Emquanto Amelia o olhava sorpresa, Horacio voltando-se para o grupo das
-senhoras, tomou parte na conversação geral.
-
---Já sabem a novidade, minhas senhoras?
-
---Qual dellas? Ha tantas.
-
---A novidade nova, a ultimamente inventada, que eu acabo de receber em
-primeira mão, de caminho para aqui.
-
---Algum casamento, aposto.
-
---E eu sei de quem.
-
---Não adivinhou. Talvez que a novidade de amanhã seja algum casamento;
-quem sabe? respondeu Horacio, relanceando um olhar para Amelia. Mas a
-novidade de hoje, é apenas um baile, um baile de estrondo.
-
---Aonde?
-
---No Cassino?
-
---No Club?
-
---Em casa do Azevedo.
-
---É verdade! Eu já tinha ouvido dizer!
-
---Quer a senhora fazer de velha a minha novidade. O que se dizia era que
-o Azevedo tinha tenção de dar um baile, mas disso á realisação vai
-uma grande distancia. Eu desejo muita cousa que não alcanço, e nem ao
-menos posso vêr. Foi hoje e ao jantar que resolveu-se a grande
-questão, por occasião de uma saude. Um amigo que vinha de lá,
-encontrando-me a dois passos daqui, me deu a noticia do grande
-acontecimento. Portanto, minhas senhoras, preparem-se!
-
---Quando é o dia?
-
---No primeiro do mez proximo. Ponham desde já em contribuição as
-lojas e modistas; eu o que posso é offerecer-me com muito gosto para
-admiral-as a todas, e achar a cada uma de per si, mais elegante do que
-as outras juntas. Si Páris me tivesse ouvido, não haveria guerra de
-Troia.
-
---Nem Homero por conseguinte: replicou um litterato.
-
---Homeros sempre os ha. Quando não encontram os heroes já feitos,
-inventam-n'os, e com tal habilidade, que esses grandes homens postiços,
-parecem verdadeiros, como os dentes de osana, e os coques das moças. O
-mesmo succede com os Anacreontes, cuja raça é muito maior; quando não
-acham nymphas para cantar, qualquer bruxa lhes serve de pretexto ou de
-cabide para pendurarem a lyra.
-
-Amelia ficara triste e preocupada; escutava a palavra voluvel do moço,
-com um sentimento indefinivel de angustia; parecia-lhe que era seu amor
-por ella, que Horacio rasgava aos pedacinhos, como uma pagina querida,
-abandonando-os ao sopro do vento, ao capricho daquella conversa.
-
-Uma amiga reparando na tristeza da filha de Salles, e no olhar que em
-certa occasião lhe deitara Horacio; disse ao ouvido da moça sentada á
-seu lado:
-
---Amelia ficou lograda!
-
---Como?
-
---Creio que Horacio está justo com outra.
-
---Quem lhe disse?
-
---A tristeza de Amelia, e o olhar que o sujeito lhe deitou, quando
-fallava de um casamento que se ha de saber-amanhã.
-
---É verdade. Com quem será?
-
---Naturalmente com alguma fazendeira de mil contos. Depois que sahirem
-da igreja, o marido leva-a para o collegio do Hitchings; e deixa-a lá
-como pensionista, emquanto elle vai a Pariz aperfeiçoar-se na _escola
-dos maridos_.
-
-Esta senhora é uma satira viva; sua conversa parece um fogo de
-artificio; dir-se-hia que o seu gracioso trajo é todo composto de
-alfinetes, que ella vai deixando em sua passagem envoltos em sorrisos
-assucarados, como confeitos do carnaval.
-
-Occulto seu nome porque é muito conhecida na boa sociedade do Rio de
-Janeiro, e não quero compromettel-a com os noivos presentes e futuros
-das fazendeiras ricas.
-
-Depois de ter durante alguns instantes ainda polvilhado a conversa com
-sua palavra elegante e chistosa, Horacio tomou o chapéo e retirou-se.
-Não eram nove horas; esta circumstancia mais entristeceu Amelia, e mais
-excitou a attenção da moça maliciosa.
-
-Á porta da casa de Salles, encontrou Horacio seu tilbure. Mandou o
-cocheiro esperal-o no largo do Machado, e elle, tendo acendido o charuto
-e vestido o sobretudo, seguiu a pé. Queria pensar.
-
-Horacio pertencia á escola daquelles que entendem, que nunca é tarde
-para arrepender-se o homem de um compromisso. Elle comprehendia o _jacta
-est alea_ por esta fórma prudente e rasoavel. Cezar, tendo lançado a
-ponte sobre a Rubicon, via de longe em Roma a dictadura, e mais tarde a
-purpura imperial; portanto fez elle muito bem em passar, sobretudo desde
-que o rio já não oppunha obstaculo. Mas se em vez do poder, Cesar
-encontrasse no caminho a derrota; a ponte lançada lhe serviria para
-voltar ás Gallias, e elle teria o cuidado de queimal-a depois que
-tornasse a passar.
-
-Como Cesar, elle tinha lançado a ponte com aquella palavra dita a
-Amelia, em um momento de despeito. Devia porém passar o Rubicon do
-casamento?
-
-Era sobre tão importante questão que o leão queria reflectir, fazendo
-a pé o trajecto entre Larangeiras e largo do Machado.
-
---O casamento é o supplicio de Prometheu, pensava elle; um homem atado
-ao rochedo da familia, com o coração devorado pelo tedio; uma creatura
-dividida em duas metades, que se contrariam á cada instante, porque
-estão ligadas. Em vez do romance, do idilio, do drama, a prosa monotona
-de uma historia que se lê todos os dias. Esse prazer incomparavel de
-sentir-se todo dentro de si, de resumir-se no seu unico eu, de dispôr
-livremente de sua pessoa e vida, não o tem o marido a menos que seja um
-biltre. O casamento dilata a superficie da alma; em vez de soffrer-se no
-seu coração apenas, soffre-se na mulher, no filho, e em cada um dos
-fios dessa grande teia humana que se chama familia.
-
-Horacio recordou-se de alguns de seus amigos que haviam casado, e achou
-nessas reminiscencias a prova de sua opinião.
-
---O casamento é tudo isso, mas que importa, desde que não ha outro
-meio de realisar o meu desejo e satisfazer esta paixão ardente e
-impetuosa? Daria a vida inteira, e sem hesitar pela felicidade que eu
-sonho. Pois si eu a daria de uma vez, por que não a emprestarei sob
-hypotheca?
-
-Tendo chegado ao largo do Machado, o moço, entrou no tilbure, que o
-conduziu á casa.
-
-Ahi, contemplando a mimosa botina, guardada como uma reliquia, encheu-se
-cada vez mais da resolução que havia tomado.
-
-
-
-
-XI
-
-
-Eram onze horas da manhã.
-
-Amelia estudava ao piano os exercicios de Hertz. As janellas cerradas
-deixavam entrar frouxa claridade, coada pela cassa transparente das
-cortinas.
-
-Nesse crepusculo artificial, a belleza da moça tomava uns tons suaves e
-meigos, que mais seduziam.
-
-Os lindos cabellos ainda humidos do banho, cobriam-lhe as espaduas de
-uma tunica de veludo castanho. O bajó de cassa que trazia no seu
-desalinho matutino, conchegado á cutis, coloria-se com os reflexos
-rosados do collo mimoso.
-
-Tanta graça e formosura, realçadas pela singelleza do trajo e pela
-naturalidade da posição, ficavam ali occultas na doce penumbra da
-sala, recatadas á admiração. As duas horas Amelia costumava subir á
-sua alcova para se pentear; e o gracioso desalinho despparecia,
-substituido por um trajo mais apurado e elegante. Era a flôr singella
-que o vento desfolha na mata, e passa ephemera e desconhecida.
-
-Tantas moças despendem um avultado cabedal de sorrisos, de olhares e
-gestos, e põem em contribuição a sêda, a renda e a moda para
-realçarem sua formosura! Mal sabem, entretanto, que nunca são ellas
-tão bonitas e feiticeiras como em certo momento de seductora
-negligencia, quando parece que a belleza desabrocha de seu gracioso
-botão.
-
-A porta da sala abriu-se, e deu entrada ao Sr. Salles Pereira.
-
-O aspecto do negociante era grave; mas da gravidade serena que annuncia
-uma preocupação agradavel. Trazia na mão uma carta aberta.
-
-Amelia assustou-se vendo entrar na sala o pai, que ella suppunha na
-cidade. Como todos os negociantes, o Sr. Salles Pereira passava a manhã
-em seu escriptorio; partia logo depois do almoço e só voltava á hora
-do jantar. A sorpreza da moça era pois natural.
-
---Ah! papai! exclamara ella, voltando-se ao rumor da porta. Já veiu do
-escriptorio?
-
---Ainda não fui; respondeu Salles Pereira sorrindo. Recebi uma carta,
-que me obrigou a demorar-me até agora para conversar com tua mãi e...
-comtigo, a quem o objecto mais interessa.
-
---A mim? O que será, papai? Algum convite de baile?
-
---Lê; disse o negociante apresentando-lhe a carta.
-
-Amelia correu os olhos pelo papel, e seu rosto cobriu-se de vivos
-rubôres. O coração palpitava-lhe com tanta força que debuchava no
-linho o contorno dos lindos seios.
-
-A carta era de Horacio, que pedia ao negociante a mão da filha.
-
-Acabando de a lêr, a moça de olhos baixos e corpo tremulo, parecia
-vendar-se com sua innocencia para subtrahir-se ao olhar terno e curioso
-de seu pai. Nesse momento ella desejava, si possivel fosse, esconder-se
-dentro de si mesma.
-
---Que devo eu responder, Amelia? perguntou o negociante.
-
---O que papai quizer! balbuciou a menina.
-
---Estás bem certa de que meu desejo é o teu? Si eu não acceitar a
-honra que nos quer fazer o Sr. Horacio de Almeida?
-
-As palpebras da moça ergueram-se, desvendando seus olhos limpidos.
-
---Papai não acha bom?
-
---Si elle te for indifferente, eu por mim não tenho grande empenho. É
-um excellente moço; tem alguma cousa de seu; mas anda em certa roda que
-não me agrada.
-
---Que roda papai?
-
---De moços da moda.
-
---Porque é solteiro.
-
---Então o que decides?
-
---Desde que papai e mamãi desejam, eu....
-
---Nós não desejamos cousa alguma; queremos saber tua vontade.
-
-Amelia emmudeceu.
-
---Bem, já vejo que não é de teu gôsto. Vou responder ao homem com um
-_não_.
-
-Salles Pereira encaminhou-se para a porta:
-
---Mas, papai!.... murmurou a moça.
-
---Que temos?... Falla, que já me demorei muito. Quasi meio dia!
-
---Vai responder já?
-
---Já.
-
---Deixe para amanhã.
-
---Nada; são cousas que se decidem logo.
-
---O que vai responder então?
-
---Que não.
-
---Mas eu não disse isto!
-
---Tu nada disseste.
-
---Pois si eu não gostasse diria logo.
-
---Ah! neste caso gostou?
-
-Amelia sorrindo acenou com a cabeça.
-
---Não entendo esta linguagem. Vamos a saber. Amas á Horacio?
-
-A moça fez um supremo esforço:
-
---Amo! disse ella escondendo o rosto no seio do pai.
-
-O negociante beijou-a na fronte com ternura e carinho.
-
---Ah! minha sonsa, não queria confessar o que tinha aqui dentro deste
-coraçãozinho! E eu que pensava que elle só queria bem a mim?
-
---Oh! papai!
-
---Bem, bem, não tenho ciumes! Vai consolar tua mãi, que eu vou
-responder ao homem mais feliz deste Rio de Janeiro.
-
-O negociante voltou ao gabinete; e Amelia dirigiu-se ao interior. Sua
-mãi estava no quarto, com os olhos ainda humidos de lagrimas. Quem não
-conhece essas lagrimas abençoadas, que a mãi derrama pelos filhos; e
-que são balsamos para as afflicções, e orvalhos para as flôres da
-ventura?
-
-D. Leonor beijou a filha e estreitou-a ao seio como receiosa de que lh'a
-arrancassem dos braços. Seu coração ora alegrava-se com a felicidade
-proxima da moça, ora se entristecia com a lembrança da separação.
-
-De repente Amelia sobresaltou-se com uma idéa que lhe acudiu; e
-deixando a mãi, correu ao gabinete do negociante. Achou-o sentado á
-escrevaninha, passando por cima da carta que terminara um rolete de
-mata-borrão.
-
-O pai sorriu vendo entrar a filha.
-
---Curiosa!
-
---Já acabou? disse a moça recostando-se com gentileza á poltrona.
-
---Vê si está de teu gosto; disse o Salles cingindo-lhe a cintura com o
-braço.
-
-Amelia leu a carta rapidamente; ella já sabia de antemão que faltava
-alguma cousa.
-
---Então, que tal? perguntou o negociante com certo desvanecimento.
-
---Está muito boa papai. Só acho uma cousa?
-
---O que?
-
-O negociante soffreu uma decepção. Pensava ter feito uma obra prima
-com aquella carta, escripta em seu mais bello estylo commercial, mas
-recheada de alguns rasgos sentimentaes.
-
---Não acha, papai, que elle ficará todo cheio de si, obtendo logo,
-assim com tanta facilidade, o que deseja? A carta é de hoje; responder
-no mesmo dia.... mostra muita vontade de mais.
-
---Que mal ha nisso? Para que deixal-o na duvida, quando pódes tornal-o
-feliz desde já.
-
---Papai pensa que elle duvida?
-
---Ah! Já sabe então! Muito bem!
-
---Eu não lhe disse nada, papai.
-
---Então como sabe elle? Adivinhou?
-
---Não adivinhou nada. Papai bem sabe como são esses senhores da moda;
-cuidam que todas as moças andam morrendo por elles, e que a dificuldade
-está sómente em escolher. Como eu não quero que o Sr. Horacio me
-julgue uma de suas conquistas, estou resolvida, papai, á pensar bem
-durante quinze dias, antes de dar a resposta.
-
---Portanto esta carta não serve; disse o Salles com um suspiro.
-
---Ha de servir, mas daqui a quinze dias. Agora papai deve dizer
-unicamente, que, tendo me consultado, eu pedi algum tempo para dar a
-resposta.
-
-O negociante escreveu, e Amelia esperou até que partiu a carta,
-confiada a um creado.
-
-Momentos depois, Salles sahia para a cidade; e Amelia entrava em sua
-alcova, descantando trechos de arias e romances. Não se podia dizer que
-estivesse alegre, apezar do tom garrido com que modulava, e do fresco
-riso que trinava em seus labios.
-
-O que ella sentia era um alvoroço intimo, uma soffrega agitação,
-estado indefinivel d'alma prurida por mil desejos, e contida por mil
-receios.
-
-Vejamos si é possivel descobrir o que passava ali, dentro daquelle seio
-mimoso.
-
-Desvanecida a primeira commoção, produzida pela carta de Horacio,
-Amelia recordara-se do que tinha occorrido na vespera, e sobretudo das
-palavras proferidas pelo moço. Sua vaidade revoltou-se como era
-natural.
-
---Hei de mostrar-lhe que não basta querer, para ser meu marido; e que
-não basta ser meu marido para vêr...
-
-Foi então que se dirigiu ao gabinete do pai, e adiou a resposta
-definitiva. Voltando, sentiu lá n'um cantinho do coração uns receios
-que estavam nascendo. Não fosse Horacio zangar-se com a demora, e
-retirar o pedido? Quinze dias talvez fossem de mais.
-
-Eis qual era o estado do animo de Amelia. Orgulho de vêr subjugado á
-seus pés o rei da moda; prazer de o ter captivo de uma palavra sua
-durante muitos dias; arrependimento do que fizera; susto do que podia
-acontecer; goso da ventura que sorria; taes foram os sentimentos
-desencontrados que vibraram na alma da moça.
-
-Nessa tarde Amelia preparou-se com maior esmero do que si fosse a um
-baile. Seu adorno simples, um modesto vestido branco com fitas azues,
-tomou-lhe mais tempo, do que não levaria a compôr um trajo sumptuoso.
-
-Ella esperava Horacio.
-
-Toda a noite passou indo do sofá á janella, e da janella ao consólo,
-onde estava a pendula de alabastro.
-
-As horas se escoaram, sem que o tilbure do moço parasse á porta do
-negociante.
-
-No dia seguinte, Amelia perguntou ao criado, si a carta fôra entregue a
-Horacio:
-
---Entreguei em mão, quando entrava no tilbure.
-
---E que disse elle?
-
---Nada; leu e riu-se.
-
---Ah! elle riu-se; murmurou Amelia comsigo. Pois eu lhe mostrarei.
-
-Desde então, empenhada sua vaidade, os sustos se desvanecêram. Estava
-decidida a não ceder. Horacio depois de vencido tentava ainda
-resistir-lhe? Pois havia de subjugal-o completamente.
-
-Á noite foi á casa de D. Clementina, onde estava reunida a roda do
-costume. Leopoldo ali se achava tambem, e comprimentou-a com um modo
-triste e resignado.
-
-Deve existir uma corrente magnetica entre os homens, um fluido que serve
-de vehiculo ao pensamento recondito e ainda não divulgado. Não se
-explicam de outro modo certas revelações de um facto sómente
-conhecido de poucas pessoas e por estas recatado. A emoção, que
-desperta esse facto n'alma de alguns, repercute n'alma de outros, e
-produz uma especie de intuição.
-
-Na casa de D. Clementina, sabia-se já que Amelia fôra pedida em
-casamento; embora se ignorasse o nome do pretendente, talvez por não
-ser conhecido das pessoas presentes. Salles Pereira, a mulher e a filha
-não tinham dito a menor palavra sobre o objecto da carta de Horacio;
-mas a impressão produzida por essa carta, a precocupação que deixára
-nas pessoas da familia, as conversas intimas e recatadas, não
-escapáram aos escravos.
-
-D'ahi gerou-se o boato, que já tinha passado á casa de D. Clementina.
-
---Ah! chegou a Amelia Salles. Sabia que vai casar-se? Já foi pedida;
-disse uma senhora a Leopoldo.
-
---Não, senhora, não sabia; respondeu o moço com magoa, mas sem
-perturbar-se.
-
---Com quem? perguntou outra moça.
-
---Com um moço bonito e rico. Disseram-me o nome, mas já não me
-lembro.
-
-Nisso Amelia entrou na sala, onde foi muito festejada pelas amigas e
-conhecidas.
-
-As allusões e gracejos a respeito do segredo incommodaram a moça,
-embora por outro lado lhe causassem certo desvanecimento.
-
-Pelo meio da noite, Leopoldo aproximou-se de Amelia para lhe pedir uma
-contradança. Tinham dansado a primeira marca sem trocar palavra: afinal
-o mancebo rompeu o silencio:
-
---É verdade que foi pedida em casamento?
-
-Amelia empallideceu; quiz disfarçar illudindo a pergunta, mas encontrou
-o olhar de Leopoldo, olhar tão doce e sincero, que não se animou a
-enganal-o.
-
---É verdade; murmurou em voz quasi imperceptivel. Mas ainda não
-respondi.
-
---Estimo que seja muito feliz.
-
---Obrigada.
-
-Amelia ficou sorpresa; ella suppunha que Leopoldo tinha-lhe ardente
-paixão; e que portanto sentiria profundo pezar, sinão desespero, com a
-noticia de seu casamento. Em vez disso, o mancebo mostrava uma
-resignação serena.
-
---Quando comecei a amal-a, D. Amelia, disse Leopoldo depois de alguns
-instantes, acreditei na felicidade, e esperei alcançal-a neste mundo.
-Minha alma pressentiu a aproximação da irmã que Deus lhe destinara, e
-cuidou attrahil-a e embebel-a em seu seio. Mas essa illusão se
-desvaneceu logo. Soube qual era sua posição, e comprehendi que a
-senhora não me podia pertencer. Resignei-me, pois, a amar unicamente
-sua alma; essa ninguem me póde roubar, nem mesmo a senhora, porque Deus
-a fez para mim. Eu estava desde muito preparado para a noticia de seu
-casamento; ella não me sorprendeu, embora me entristecesse. Até agora
-adorei sua alma, como se adora a imagem da Virgem no templo; de agora em
-diante terei de adorar essa alma querida, como se adora uma santa no
-sepulchro.
-
-Leopoldo fallou por algum tempo ainda, e a moça, que a principio se
-acanhara com a expansão viva desse amor tão puro, bebia as palavras
-ardentes do mancebo, como fluido que derramava em sua alma suave calor.
-
-Nessa noite, ao recolher-se, ia absorvida neste pensamento:
-
---Por que julgou elle impossivel que eu o amasse? sem duvida não o amo;
-mas talvez... Si eu não conhecesse Horacio... Quem sabe?
-
-Nisto lembrou-se que já se tinham passado dois dias depois do pedido, e
-portanto faltavam treze para a decisão.
-
---Si elle não vier antes disso?... Si não vier... respondo que não.
-Está decidido.
-
-
-
-
-XII
-
-
-Corrêram os dias sem que Horacio apparecesse em casa do Salles Pereira.
-Amelia, apezar de seu esforço, não podia conter a impaciencia. Ella
-adivinhava que o leão estava despeitado com a resposta, e queria
-obriga-la á conceder-lhe immediatamente o que pedira; a sua mão, e com
-a mão o pesinho que elle adorava.
-
-Por vezes a moça foi até á porta do gabinete do pai, na intenção de
-diser-lhe que escrevesse á Horacio enviando-lhe o consentimento. Mas
-voltava envergonhada de sua fraqueza: enxugava algumas lagrimas que lhe
-saltavam dos olhos; e fazia novos protestos de não ceder.
-
-Nestas occaziões ella contemplava a imagem de Horacio com alguma
-severidade. Lembrava-se da volubilidade com que elle fallava-lhe de seu
-amor; do sorriso sempre faceiro que tinha nos labios e servia para
-vestir a palavra alegre ou triste, zombeteira ou commovida; e finalmente
-da insistencia que mostrava em vêr-lhe o pé.
-
-Então acodia a Amelia uma circumstancia que á principio lhe escapára;
-fôra sua recusa á impertinencia do leão, que o obrigára á pedi-la
-em casamento no dia seguinte.
-
---Será apenas um capricho? Não me terá elle verdadeiro amor?... Si
-não me engano, o que elle ama em mim, não sou eu, mas uma mulher que
-imaginou; sirvo-lhe apenas de pretexto, como tantas outras antes de mim.
-
-O resultado destas observações era protestar a moça que daria um não
-ao pedido de Horacio. Mas quando seu pai lhe perguntava sorrindo:
-
---Ainda não?
-
-Ella corava, abanava a cabeça, e fugia, disendo comsigo que ainda
-faltavam alguns dias para o prazo marcado.
-
-Para occupar as noites e distrahir o espirito dessa constante
-preoccupação amiudou as visitas á casa de D. Clementina. Ali com a
-influição do olhar profundo e da palavra eloquente de Leopoldo,
-esquecia as contrariedades e inquietações. Na volta trazia algumas
-dôces reminiscencias, e sobretudo um certo arroubo do coração, que
-durava algum tempo, e a preservava de suas anteriores preoccupações.
-
-Ja haviam passado doze dias depois da carta, e Amelia estava mais que
-nunca resolvida á romper com Horacio, quando se deu entre ambos um
-encontro.
-
-Foi no theatro.
-
-Amelia que á principio evitou as occasiões de encontrar-se com
-Horacio, lembrou-se que sua presença podia provocal-o; e obteve do pai
-que a levasse ao espectaculo. Subindo a escada do Theatro Lyrico,
-avistou Horacio que vinha do lado opposto.
-
-Apezar de estar prevenida a moça teve um sobresalto; mas pôde
-recobrar-se antes que o leão se apercebesse de sua presença. Foi com
-fria altivez e indifferença que ella correspondeu ao comprimento de
-Horacio, sem demorar o passo em quanto elle trocava um aperto de mão
-com o Salles Pereira.
-
-Esta indifferença porém, e sobre tudo o gesto que Amelia fez para
-arregaçar o vestido, quando subia o segundo lanço de escadas, ataram
-de novo o leão ao jugo.
-
---Desta vez, pensou elle, si eu estivesse adiante via ao menos a ponta
-do meu pésinho!
-
-Teria Amelia simulado aquelle gesto de proposito? É natural; ella
-queria subjugar outra vez o captivo que lhe escapara; usava de todos os
-seus recursos.
-
-Vencido, o moço acompanhou a familia até á porta do camarote, e
-demorou-se ahi á conversar com o negociante. Entretanto Amelia, sem
-dar-lhe a minima attenção, percorria com o binoculo os camarotes
-trocando com a mãi observações a respeito das moças e seus lindos
-adereços.
-
-Durante o resto da noite, a moça mostrou a mesma calculada
-indifferença, á ponto de irritar o mancebo. Apezar de se ter rendido,
-sentiu elle um impeto de revolta, e deixou sua cadeira junto á
-orchestra com intenção de visitar um camarote fronteiro ao do Salles
-Pereira. Lá estava uma linda moça de seu conhecimento; uma das
-estrellas de sua coroa de rei da moda.
-
-Sentar-se-hia junto della, e estabeleceria um dialogo entretecido de
-sorrisos, de olhares e meias confidencias como por ahi se dão tantos
-nos bailes e espectaculos: verdadeira scena mimica de amor representada
-perante o publico. Com esse entretenimento, Horacio comprometteria
-seriamente a reputação de uma senhora; mas vingar-se-hia de Amelia,
-excitando-lhe ciumes.
-
-Chegava já o leão á porta do camarote quando occorreu-lhe este
-pensamento.
-
-Faltava apenas um acto para terminar o espectaculo; si elle mostrasse
-afastamento, Amelia irritada persistiria em seu desdem durante o resto
-da noite; e quem sabe que resolução tomaria sob a influencia desse
-despeito?
-
-Horacio teve medo e recuou. Já se tinha submettido no começo da noite,
-o melhor expediente era perseverar. Naturalmente Amelia, no fim do
-espectaculo, abrandaria o seu rigor.
-
-Começára o acto. Horacio deixou passar algum tempo, e dirigiu-se ao
-camarote de Amelia. A moça que já tinha reparado na ausencia do leão,
-cuja cadeira estava desoccupada, adivinhou-lhe a presença, ouvindo
-abrir-se a porta. Seu primeiro movimento foi voltar o rosto; mas
-reprimiu-se a tempo, e disfarçou dirigindo o binoculo para o fundo da
-sala.
-
-Apegar do imperio que tinha sobre si, Amelia estava ao cabo das forças.
-Si naquelle momento Horacio fingisse uma retirada, ella não resistiria.
-Felizmente o leão não se lembrava disso; tinha resolvido esperar a
-sahida para trocar algumas palavras com a moça.
-
-Terminou o espectaculo afinal. Horacio offereceu o braço a Amelia:
-
---Muito lhe offendi com meu pedido, D. Amelia?
-
-A moça calou-se.
-
---Não lhe mereço nem uma palavra!
-
---Parece que o senhor lhe dá bem pouco apreço.
-
---Que injustiça!
-
---Quem passou tantos dias sem ella, póde bem esperar ainda os dous que
-faltam.
-
---Então sou eu o culpado dessa demora! Quem me condemnou a ella?
-
---E o senhor nem ao menos procurou abrevial-a: achou mais commodo
-esperar tranquillamente? Pois continue á esperar.
-
---Mas, D. Amelia! Depois da resposta de seu pai, si eu me apresentasse
-em sua casa, tornar-me-hia importuno. Cuida que não soffri, passando
-tantos dias sem vêl-a? Ingrata! Quantas vezes não podendo resistir fui
-até á porta de sua casa, e passei, impellido pelo receio de indispol-a
-contra mim? Si ella me amasse, pensava eu, teria acceitado logo: não o
-fez; quer refflectir; devo deixal-a tranquilla, e respeitar a sua
-resolução. Que vou eu lá fazer? Obrigal-a á me aborrecer.
-
-Horacio mentia; elle se ausentara da casa do Salles Pereira, sómente
-para vencer a resistencia da moça por uma simulada indifferença.
-
-O carro do negociante aproximou-se:
-
---Vai sem me deixar uma esperança?
-
---Não é aqui o logar de pedil-a.
-
---Então amanhã?
-
---Si quizer!
-
-No dia seguinte á noite o leão estava em casa do negociante. Amelia o
-recebera com um resto de resentimento, que se desfez com os primeiros
-galanteios. Succedeu o que era natural; depois de uma abstinencia de
-tantos dias, esses corações tinham sede de ternura, e beberam um no
-outro á largos sorvos.
-
-Quando o leão se retirou, elle sabia que dois dias depois receberia
-officialmente, por uma carta do negociante, o sim que ouvira naquella
-noite entre um sorriso e um rubor.
-
-Quanto á Amelia, depois que a auzencia do moço rompeu o encanto, e
-deixou-lhe unicamente a consciencia do compromisso tomado, lembrou-se
-involuntariamente de Leopoldo, cuja imagem pallida e triste, desenhou-se
-em sua imaginação.
-
---Elle ha de soffrer muito! pensou a moça suspirando.
-
-No dia seguinte havia reunião em casa de D. Clementina. Amelia
-recordou-se disso, e fez tenção de ir. Naquelle momento julgou-se
-obrigada á communicar sua ultima resolução á Leopoldo. Pareceu-lhe
-que seria uma deslealdade deixal-o na ignorancia de seu casamento, até
-que viesse á sabel-o por algum estranho.
-
-Mais tarde surgiram os escrupulos. Tendo acceitado a mão de Horacio,
-não era bonito animar uma affeição, que deixava de ser innocente.
-Embora nunca retribuisse a paixão de Leopoldo, podiam suppôr que não
-a repellia. Demais sendo natural que Horacio fosse passar a noite em sua
-casa, ella procederia muito mal, trocando sua companhia pela de um
-rival.
-
-Emquanto as horas do dia se escoavam, estas e outras razões disputavam
-no espirito da moça a decisão que ella devia tomar. Afinal interveiu o
-coração!
-
---Tenho pena delle!
-
-E ás oito horas estava em casa de D. Clementina. Nessa noite a moça,
-cujo espirito jovial sympathisava com as côres frescas e risonhas,
-escolheu um vestuario sombrio. Era uma faceirice melancolica. Aquella
-menina de 18 annos, que na vespera, muito espontaneamente se promettera
-á um homem elegante de seu gosto e escolha, afigurava-se agora uma
-victimado dever, sacrificando-se heroicamente ao compromisso contrahido.
-
-Essa convicção dominava Amelia ao entrar na sala, e ressumbrava não
-só nas fitas pretas de seu trajo, como na languida flexão da fronte,
-e no olhar cheio de magoas. Ella se julgava sinceramente coagida por uma
-força irresistivel, que a arrancava á um amor profundo e santo, como a
-flôr que o vento arrebata ao tronco onde se enlaçara.
-
-Leopoldo comprehendeu a melancolia de Amelia, e adivinhou que essa
-mulher estava perdida para elle no mundo; mas que sua essencia divina
-lhe pertencia, para todo o sempre. Sentiu pois a magoa da saudade, que
-precede a longa ausencia. Quando se tornariam a encontrar as duas
-metades dessa alma, separadas por uma contingencia da materia?
-
-Pela noite adiante Leopoldo aproximou-se de Amelia, porem só lhe fallou
-de cousas indifferentes, ao contrario do que ella esperava. Si o moço a
-interrogasse á respeito do casamento, aproveitaria o momento para
-confessar-lhe; mas elle nem de leve tocou nesse ponto.
-
-Na occasião de se despedirem a moça fez um esforço.
-
---Já sabe? perguntou com voz tremula e quasi imperceptivel.
-
---Adivinhei! disse o mancebo fitando nella os olhos tristes.
-
-Amelia ficou um instante indecisa, em face delle, como si esperasse mais
-alguma palavra; Leopoldo dissera tudo naquelle olhar, em que diffundira
-sua alma.
-
---Adeus! murmurou a moça afinal.
-
-
-
-
-XIII
-
-
-A casa nobre de Azevedo resplandecia. A melhor sociedade da côrte
-concorrêra ao sumptuoso baile.
-
-Toda aristocracia, a belleza, o talento, a riqueza, a posição e até a
-decrepita fidalguia, estavam dignamente representadas nas ricas e vastas
-salas, adereçadas com luxo e elegancia; duas cousas que nem sempre se
-encontram reunidas.
-
-Eram nove horas. Ainda o baile não começara; e notava-se na reunião a
-gravidade solemne, o grande ar de ceremonia, que serve de prologo ás
-festas esplendidas. Os cavalheiros percorriam lentamente as salas,
-observando o iris deslumbrante que formavam os lindos vestidos das
-senhoras; mas admirando especialmente as estrellas que brilhavam nessa
-via lactea.
-
-Amelia acabava de sentar-se.
-
-Horacio foi logo saudal-a, e comprimentou-a pelo bom gôsto e delicadeza
-de seu trajo.
-
-Realmente não se podia imaginar um adorno mais gracioso. O vestido era
-de escomilha rubescente, formando regaços onde brilhavam aljofares de
-crystal: nos cabellos castanhos trazia uma grinalda de pequenos botões
-de rosa, borrifados de gôttas de orvalho.
-
-Um poeta diria que a moça tinha cortado seu trajo das finas gazas da
-manhã; ou que a aurora vestindo as nevoas rosadas, descera do céo para
-disputar as admirações da noite.
-
---Dançaremos a primeira: disse Horacio.
-
-A moça corou.
-
---Sim.
-
-Laura passava. Amelia chamou-a, mostrando-lhe um logar á seu lado.
-Horacio afastou-se para deixar as duas amigas em liberdade; mas
-principalmente para poupar a Laura a contrariedade de sua presença.
-Desde a noite do theatro o leão comprehendêra que a moça lhe votava
-antipathia.
-
-Conversando com a amiga, Amelia descobriu defronte, no vão de uma
-janella, o vulto de Leopoldo, absorvido em contemplal-a, com um olhar
-profundo e intenso, que servia de valvula ás exbuberancias de sua alma.
-Sentindo-se sob a influencia desse olhar, a moça inclinou a fronte,
-como um signal de submissão, e abandonou-se á contemplação do
-mancebo.
-
-De vez em quando procurava ler de relance no rosto de Leopoldo, as
-impressões de seu espirito, os movimentos de sua alma. Presentiu que o
-moço desejava aproximar-se della para lhe fallar, mas não se animava;
-a solemnidade da festa, a grande concurrencia, a proximidade de Laura,
-tolhiam o mancebo, cujo caracter fóra da intimidade se confrangia, por
-uma especie de pudor, proprio das almas virgens.
-
-Amelia sentiu um desvanecimento, descobrindo aquella fraqueza no homem
-cujo olhar a dominava, e lembrando-se que ella podia nesse instante
-protegel-o. Não ha para a fragilidade da mulher maior orgulho e prazer,
-do que observar a fragilidade no homem. Vinga-se da tyrannia do sexo
-forte.
-
---Vamos sentar-nos do outro lado, Laura?
-
---Para que? Estamos tão bem aqui.
-
---D'ali vê-se melhor a sala; e deve estar mais fresco.
-
---Como quizeres.
-
-As duas moças atravessaram a sala, e foram tomar logar justamente no
-vão da janella onde Leopoldo se achava. Amelia conservou-se algum tempo
-de pé, com o pretexto de arranjar a cadeira, mas para dar occasião á
-Leopoldo de fallar-lhe. O mancebo adiantou-se com effeito e
-comprimentou.
-
-Amelia estendeu-lhe a mão com interesse, para animal-o.
-
---Terei a felicidade de dansar uma quadrilha....
-
---Qual?
-
---A ultima!
-
---A ultima? repetiu Amelia rindo-se.
-
---Sim; depois que tiver dansado com todos; replicou o moço completando
-seu pensamento com o olhar.
-
---Então a sexta.
-
-A orchestra abriu o baile com uma brilhante symphonia, depois da qual
-deram o signal da primeira quadrilha. Rompeu-se então a symetria, e
-formou-se o turbilhão.
-
-Durante a contradansa, Horacio não se esqueceu do pésinho adorado; e
-procurou todos os meios de o descobrir n'algum momento de confusão ou
-descuido. Chegou até á fingir estouvamento em algumas das marcas com o
-fim de embaraçar o vestido da moça.
-
---Eu me sento! disse-lhe Amelia irritada.
-
---_Barbara, non hai cor_! replicou-lhe Horacio com as palavras do
-romance.
-
---O seu coração está no botim? perguntou-lhe a moça com despeito.
-
---O meu a senhora bem o sabe, já não me pertence, pois lh'o dei a
-muito tempo; e ando-o agora procurando no chão, onde creio que o deixou
-esmagado um tyranno que eu adoro e me repelle. Mas conto com a senhora
-para movel-o em meu favor. Sim?
-
---Não: respondeu a moça agastada.
-
---Realmente eu não comprehendo. Será possivel que a senhora tenha
-ciumes delle? perguntou Horacio gracejando.
-
-A moça olhou-o com expressão.
-
---Tenho sim, tenho ciumes!
-
-Terminada a quadrilha, Horacio, depois de algumas voltas de passeio pela
-sala, deixou a moca no seu logar, e desceu a escada de marmore que
-levava ao jardim, illuminado com lampeões de diversas côres. Havia ao
-lado da casa, e ao longo de uma latada, mesas de ferro para tomar
-sorvetes e refrescos. Horacio, dirigindo-se para esse logar, avistou
-Leopoldo sentado á uma das mesas.
-
---Oh! por cá tambem, Leopoldo?
-
---É verdade; contra meus habitos.
-
---Está esplendido! Não achas?
-
---Sem duvida. Mas parece que não tem grande interesse para ti.
-
---Porque pensas assim?
-
---Vens te esconder aqui, quando se dansa. Devias deixar isso para mim,
-que sou uma especie de misantropo, uma alma errante neste mundo das
-fadas.
-
---Para ser franco, devo-te confessar, que neste baile, onde se acham
-reunidas as mais bonitas mulheres do Rio de Janeiro, onde nada do que
-póde tornar brilhante uma festa, nem o luxo, nem a riqueza, nem a
-concurrencia, nem as notabilidades de toda a especie, neste baile só ha
-uma cousa que me interessa; uma cousa bem pequenina, e por isso mesmo de
-um encanto inexprimivel.
-
---Que condão será esse tão poderoso?
-
---Disseste a palavra. É um condão, um verdadeiro condão de fada, que
-me transformou de repente, e fez do senhor um escravo humilde e
-submisso.
-
---Mas no fim de contas o que é?
-
---Um pésinho!
-
-Tendo proferido esta palavra, Horacio julgou ter dito tudo quanto era
-possivel exprimir na linguagem humana. _Um pésinho_, era aquelle ente
-adorado que elle entrevia nos sonhos dourados de sua imaginação; era o
-primor, que deixara impressa a sua fórma delicada na mimosa botina. O
-moço desenhava na fantasia aquelle idolo de suas adorações; e
-acreditava que Leopoldo devia, como elle, extasiar-se ante a maravilha
-da natureza.
-
-Longe disso, Leopoldo depreendera das palavras do amigo, que elle estava
-sob a influencia de uma paixão materialista; que elle amava a fórma, e
-levava sua idolatria á ponto de adorar não a fórma completa, a imagem
-viva e palpitante da mulher; mas um fragmento, um trecho apenas dessa
-fórma.
-
---Pois para mim tambem, disse Leopoldo, só ha neste baile como neste
-mundo uma cousa que me illumina a existencia.
-
---A gloria?... aposto.
-
---Um sorriso, apenas.
-
-Horacio não pôde reprimir um gesto desdenhoso. O sorriso era para elle
-uma das cousas mais triviaes: tinha-os colhido tantas vezes, e em labios
-tão puros e mimosos, que já não lhe excitavam a attenção. Eram como
-as flôres de um vaso que todos os dias se substituem.
-
---Vais dansar? perguntou o leão.
-
---Agora não.
-
---Pois façamos uma cousa. Conta-me a historia de teu sorriso, que eu te
-contarei a historia de meu pésinho.
-
---Começa então. Cabe-te a preferencia; disse Leopoldo.
-
---Eu a acceito; porque o objecto de meu culto não tem igual no mundo.
-
-Horacio accendeu o charuto. Elle não tinha o menor interesse em saber a
-historia de Leopoldo; o que desejava era um pretexto para fallar do
-objecto de sua adoração, e vasar o que tinha n'alma.
-
---Ha cerca de dous mezes, passando pela rua da Quitanda, achei por acaso
-sobre a calçada um objecto que tinha cahido de um carro. Era uma
-botina, mas que botina!... um mimo, um primor, uma cousa divina!
-
-«Não pódes fazer idéa, não, Leopoldo. Sabes si tenho amado mulheres
-lindas de todos os typos, alvas ou morenas; formozuras de todas as
-raças, desde a loura escosseza até a brazileira de tranças negras;
-adorei-as, umas depois de outras, e ás vezes ao mesmo tempo, essas
-differentes irradiações da belleza. Pois confesso-te que nunca o
-sorriso ou o beijo da mais seductora d'entre ellas me fez palpitar o
-coração, como aquella botina.
-
-«Pensem os phisiologistas como quizerem, o pé é a parte mais
-distincta do corpo humano; sem elle a estatura não teria a nobreza, que
-Deus só concedeu á creatura racional.
-
-«O pé revela o caracter, a raça e a educação. Cada uma das
-feições e dos gestos desse orgão de nossa vontade tem uma expressão
-eloquente. Ha quem não adivinhe em um pé delicado e nervoso a alma de
-fina tempera? Ao contrario um pé chato e pesado é a prova infallivel
-de um genio tardo e paxorrento.
-
-«Virgilio, o poeta mais elegante que tem existido, comprehendeu que
-Venus occultasse aos olhos do filho, na selva lybica, a belleza immortal
-de seus olhos, de seu sorriso, de suas fórmas seductoras; mas não
-aquillo que era sua essencia divina, sua graça olympica. Foi pelo andar
-que ella revelou-se deusa; _et vera incessu patuit dea_.
-
-«Nunca sentiste o doce contacto do pé da mulher amada? É uma
-sensação deliciosa que penetra nos seios d'alma. Podes apertar-lhe a
-mão, cingil-a ao seio, beijal-a. Nada vale aquelle toque subtil que
-abala até a ultima fibra.
-
-«Faze pois idéa do que eu sentia. E a botina não era senão a estatua
-ou a effigie do pé encantador que a havia calçado. Ali estavam
-impressos seus graciosos contornos, sua fórma suave.
-
-«Apaixonei-me por esse pésinho, que eu nunca vira, que não conhecia.
-Sagrei-lhe minha alma como ao _ignoto deo_ de minhas adorações.»
-
-Horacio exagerou então os esforços por elle empregados para descobrir
-o mysterioso idolo de suas adorações, e referiu os factos que já
-conhecemos. Teve porém a discrição, rara em um leão, de não revelar
-os nomes; receiava ainda que lhe arrebatassem a conquista.
-
---Finalmente, concluiu elle, o acaso me fez descobrir a dona do pésinho
-que em vão buscava. Has de crer, Leopoldo? Conhecia essa moça, que é
-realmente encantadora; diversas vezes achei-me com ella em sociedade, e
-nunca sentira á sua vista a menor commoção. Mas quando soube que á
-ella pertencia o thesouro, adorei-a. Para vêr o pésinho que sonhei,
-estou disposto a fazer a maior das loucuras, casar-me!...
-
---É esta a tua historia?
-
---Dize antes meu poema. Sinto não ser poeta para escrevel-o.
-
---Pois si me permittes franqueza, dir-te-hei que realmente o desenlace
-que lhe pretendes dar será uma loucura. O casamento, quando não une
-duas almas irmãs creadas uma para a outra, é uma especie de grilheta
-que prende dois galés; o supplicio de duas existencias condemnadas a se
-arrastarem mutuamente. Tu não amas essa moça, Horacio...
-
---Não a amo?
-
---Não!
-
---Quando lhe vou fazer o sacrificio que nenhuma outra mulher obteve de
-mim?
-
---Não passa de um capricho. Essa moça é para ti um pé e nada mais.
-
---A mulher que amamos tem sempre um encanto, uma graça especial. As
-vezes são os cabellos; outras os olhos; tu amas o sorriso; eu o pé.
-
-Leopoldo levantou os hombros.
-
---Sem duvida. A alma da mulher, como a do homem, se revella em cada
-pessoa por uma feição mais distincta por uma expresão mais eloquente.
-Mas não é isto o que succede comtigo. Tu sentes a idolatria da
-belleza material; procuraste sempre na mulher a fórma, o amor plastico;
-á força de admirar os mais lindos rostos e os talhes mais seductores,
-ficaste com o sentido embotado; precisavas de algum sainete que
-estimulasse teu gosto. Viste ou imaginaste um pésinho mimoso e gentil:
-tornou-se logo para ti o typo, o ideal da belleza material, que te
-habituaste á adorar.
-
-Horacio soltou uma risada:
-
---Olha, Leopoldo, cá para mim o platonismo em amor, seria um absurdo
-incomprehensivel, si não fosse uma refinada hypocrisia. Esses mesmos
-que adoram a mulher como um anjo, de que se nutrem sinão da
-contemplação da belleza material que tratas com tamanho desprezo? É
-possivel que uma mulher feia seja amada por aberração do gôsto; mas
-fazer disso uma regra geral!...
-
---Ninguem pretende semelhante cousa. A belleza é um encanto, uma
-graça, um envolucro da mulher; mas não deve ser exclusivamente a
-mulher, como a petala é a flôr, e a scentelha é a luz.
-
---Sophisma! Tira a belleza á mulher amada e verás o que fica; o mesmo
-que fica da flôr que murcha e da chamma que se apaga; pó ou cinza.
-
---Queres que te prove o contrario? Ouve a minha historia.
-
---Ah! é verdade. A historia de teu sorriso?
-
---Sim.
-
-
-
-
-XIV
-
-
-O Almeida accendeu outro charuto:
-
---«Meu romance, disse Castro, começou como o teu na rua da Quitanda.
-Passando ali uma manhã, vi uma moça, que produziu em mim profunda
-impressão. Parei para contemplal-a; mas o que eu admirava nella, não
-era seu talhe elegante e seu rosto gracioso; era unicamente a emanação
-de sua alma pura, o seu casto e ingenuo sorriso.
-
-«Quando o carro partiu, arrebatando-a á meus olhos, conservei sua
-imagem gravada em minha alma. Não penses, porém, que eu revia a sua
-figura, os seus traços. Não; era uma fórma immaterial, uma visão
-vaga e indistincta. Não me lembrava como eram suas feições; qual era
-a côr de seus olhos ou de seus cabellos; mas parecia-me que eu via sua
-alma reflectida na minha.
-
-«Senti que amava essa moça, e affaguei este sentimento, que enchia meu
-ser de alegrias ineffaveis. Bastava-me vêr de tempos á tempos a minha
-desconhecida, e trocar com ella um olhar ou beber-lhe de longe nos
-labios o sorriso, que era emanação de seu ser.
-
-«Estava-me reservada uma dura provança. Um dia vendo a minha
-desconhecida entrar no carro, descobri que ella tinha um defeito... um
-aleijão, é preciso dizer a palavra. A fimbria do vestido roçagando
-mostrou-me um pé deforme.
-
---Ah! exclamou Horacio, não podendo reprimir um sorriso.
-
---O acaso tornou-se nesse dia de uma previdencia cruel. O que eu tinha
-visto de relance era um vulto confuso, um volume exagerado talvez pela
-imaginação. Podia acariciar essa illusão, e desvanecer a impressão
-desagradavel que soffrêra. Mas o desengano não se demorou. Passando
-nessa mesma hora pela loja onde compro calçado, vi sobre o mostrador
-uma botina, verdadeiro contraste da que tu achaste, Horacio!
-
---É curioso!
-
---Não havia que duvidar; era o molde do pé deforme que eu acabava de
-vêr, mas o molde fiel!... Todos os traços phisionomicos do aleijão
-ali estavam bem debuxados, sobretudo na fôrma que servira para o
-calçado, e que ali se achava ao lado delle. Poupa-me a descripção do
-que vi. Era repulsivo; isto basta.
-
-«Imagina o que devia soffrer! Não era o feio, não; era o horrivel, o
-estupendo, que de repente cahira como um peso enorme sobre meu
-coração, para espremer delle, com o ultimo sôro, um amor profundo e
-vehemente.
-
-«A luta foi terrivel, mas breve. O amor triumphou, porque era o affecto
-d'alma, e não o culto plastico da belleza. Hoje si alguma vez me lembro
-do que vi, entristeço-me pelo desgôsto que ella ha de ter de sua
-deformidade; mas sinto que por isso mesmo a amo, e a devo amar ainda
-mais.
-
-«Compara agora o teu com o meu amor, e dize em consciencia si tenho ou
-não razão. Para anniquilar o teu, não era preciso um aleijão;
-bastava substituir por uma fôrma commum esse primor que tu sonhaste,
-esse pésinho de silpho ou de deosa, que talvez não passe de uma
-illusão.»
-
---Illusão!... Si eu tive a mesma prova que tu! Mas demos a questão por
-finda. Nem tu conseguirás me convencer, nem eu quero reviver
-lembranças que te pezam. Desculpa-me ter fallado nisto. Como podia eu
-imaginar uma tal coincidencia!
-
---É verdade!
-
-Os dois amigos deram algumas voltas no jardim, fallando de cousas
-indifferentes, e entrando nas salas, separaram-se.
-
-Horacio procurou Amelia, durante algum tempo; afinal, passando pela
-porta do toucador, viu a mão da moça que entreabria a cortina de
-velludo verde.
-
---Está triste; disse-lhe o mancebo conduzindo-a ao salão.
-
---Estou fatigada; respondeu a moça com frio desdem.
-
-Horacio conhecia profundamente a physiologia da mulher que ama: tantas
-vezes tinha lido e relido o livro mysterioso do coração feminino, que
-não podia escapar-lhe a menor alteração do texto. O tom de Amelia o
-sorprendeu; alguma cousa havia. O que era? O que podia ser?
-
-Poucos momentos antes elle a deixára amavel e terna; uma hora depois
-vinha encontral-a desdenhosa e fria.
-
---Ciumes, naturalmente! pensou o leão com certo desvanecimento.
-Contaram-lhe alguma ou ella imaginou!
-
-O moço resolveu sondar o coração da noiva:
-
---A senhora tem mais alguma cousa além da fadiga, confesse.
-
---Illude-se!
-
---Talvez! Concordo, para não contrarial-a ainda mais.
-
-Deram alguns passos silenciosos:
-
---Vá amanhã jantar comnosco, sim? disse Amelia voltando-se para o
-cavalheiro com um sorriso ineffavel.
-
-A transicção não podia ser mais brusca: uma aurora no seio da noite,
-tal era aquelle sorriso orvalhado de meiguices e graças encantadoras.
-
-Outro, que não fosse Horacio, teria respondido sem a menor hesitação
-o _sim_, que supplicavam labios tão mimosos. Mas esse astuto Cesar dos
-salões, perito na tactica da guerra á mulher, não era homem que
-perdesse tão bom ensejo de alcançar o triumpho completo. O adversario
-lhe dera a vantagem da posição, cumpria aproveital-a.
-
---Amanhã?...
-
-A moça fez com a cabeça um gentil aceno.
-
---Não irei.
-
---Obrigada.
-
---Não devo ir.
-
---Porque?
-
---Si eu fosse, pediria ainda uma vez aquillo que lhe tenho pedido
-tantas, e que a senhora me tem recusado tão cruelmente.
-
---Ah!
-
---Bem vê!... Iria contrarial-a, aborrecel-a...
-
---Cuida?...
-
-Esta palavra tinha uma reticencia, e essa reticencia era um sorriso que
-entreabria o céo de uma alma candida.
-
---Então amanhã?... disse Horacio.
-
---Vai?
-
---E si eu pedir?
-
---Experimente!
-
-Amelia sentou-se, e Horacio, ebrio de ventura, desceu outra vez ao
-jardim para desafogar as exhuberancias de sua alma. Nunca a primeira
-entrevista da mulher que mais amára produzira nelle tão profunda
-emoção.
-
-Para achar alguma cousa comparavel com o que então sentia fôra
-necessario remontar aos dias da juventude, aos tempos das primeiras
-pulsações de um coração virgem.
-
-Sua paixão por Amelia tinha realmente uma virgindade. O conquistador
-havia amado na mulher todas as graças e encantos, mas nunca até então
-havia adorado um pé. Devia pois experimentar realmente as sensações
-inebriantes de um primeiro amor.
-
-Na sala dansava-se a sexta quadrilha.
-
---Acho-a pensativa, disse Leopoldo reparando que o lindo rosto de seu
-par, ordinariamente animado por uma gentileza vivaz, estava agora
-amortecido pela reflexão.
-
-Amelia fitou nelle seus grandes olhos ingenuos.
-
---E não tenho razão?...
-
-Leopoldo calou-se. Tinha comprehendido o pensamento de Amelia. Na
-vespera de decidir de seu destino, de ligar eternamente sua existencia,
-a mulher deve ter desses instantes de recolhimento intimo. A duvida
-agita-se no seio da fé mais profunda, o receio no amago da esperança
-mais risonha. As flôres do coração, como as da natureza, têm um
-verme, que as babuja.
-
-Que podia Leopoldo dizer á essa alma perplexa? Augmentar-lhe a duvida,
-dar força ás vacillações, não seria digno; parecia-lhe uma
-seducção. Confortal-a em sua fé, animar-lhe a esperança, apontar-lhe
-para um futuro cheio de venturas, fôra nobre e generoso; mas
-faltava-lhe abnegação para tanto.
-
-Terminada a contradansa, Amelia pelo braço do par deu uma volta pela
-sala. A um aceno de seu leque, Horacio, que estava conversando em um
-grupo, chegou-se.
-
---Chame, papai. São horas!
-
-Emquanto o leão procurava o Salles para prevenil-o do desejo de sua
-filha, Amelia dirigiu-se ao toucador.
-
-Leopoldo ficara sorprezo de vêr a moça fallar á Horacio, e com um tom
-bem expressivo de intimidade.
-
---Não pensava que se conhecessem... tanto? disse elle com a voz
-commovida.
-
---Pois é com elle...
-
-O rubor que tingiu as faces da donzella rematou a phrase com a sublime
-eloquencia do pudor.
-
---Não sabia? perguntou a moça para disfarçar.
-
---Não!
-
---Como o Sr. diz este _não_!
-
-Com effeito a voz de Leopoldo tivera uma vibração profunda, quando
-pronunciára aquelle simples monosyllabo.
-
---Desejava que não fosse elle? perguntou a moça com certa ansiedade.
-
---Porque?
-
-Aproximava-se Horacio dando o braço a D. Leonor, e seguido pelo
-negociante. Amelia separou-se de seu cavalheiro, e levantando a cortina
-de velludo do toucador, voltou-se:
-
---Ha de me dizer! insistiu.
-
---É preciso? perguntou Leopoldo, e seu olhar desceu lentamente do rosto
-da moça á fimbria do vestido.
-
-Amelia empallideceu; a cortina, escapando de sua mão tremula,
-occultou-a.
-
---Conhecias, Amelia? perguntou Horacio, em quanto esperava que as
-senhoras sahissem do toucador.
-
---Estás admirado, sem duvida! retorquiu Leopoldo seccamente.
-
-O leão fitou no companheiro um olhar interrogador; mas occorreu-lhe de
-repente uma idéa, que lhe trouxe aos labios um sorriso de ironia.
-Lembrara-se do aleijão.
-
-A mulher amada por Leopoldo, não podia ser Amelia. Mas quem sabe si o
-idealista capaz de adorar uma monstruosidade, o espirito severo que
-desdenhava a belleza material, não soffria a seducção irresistivel do
-mimoso pésinho?
-
---Admirado de que? De te vêr convertido á idolatria da belleza
-material?...
-
-Amelia que sahia do toucador, embuçada em sua capa de cachemira
-escarlate, tomou o braço do noivo e desceu as escadas.
-
-Quando partia o carro do Salles, Leopoldo que tambem se
-retirava, encontrou Horacio na porta.
-
---A illusão é a unica realidade desta vida! disse elle sorrindo.
-
---O que?
-
---Adeus!
-
-
-
-
-XV
-
-
-Seriam quatro horas da tarde.
-
-Amelia já vestida para o jantar, esperava o noivo, trabalhando em um
-bordado de tapessaria. A seu lado em uma linda banca de costura forrada
-de páo setim, havia, além dos utensilios necessarios, uma profusão de
-seda frouxa de varias côres.
-
-No setim branco, estendido pelo elegante bastidor de mogno, via-se o
-risco de um par de sandalias, que pareciam destinadas á alguma fada,
-tão pequena, mimosa e delicada era a fórma do pé.
-
-Um dos esboços estava ainda intacto; no outro porém via-se já um
-florão de rosas bordadas á seda frouxa, e no centro a lettra L., feita
-com torçal de ouro. Era naturalmente a inicial do nome, em cuja
-tenção a moça trabalhava.
-
-Amelia estava nesse dia talvez menos formosa, porém em compensação
-mais seductora. Certa expressão languida, ou de cansaço ou de
-melancolia, embotava a flôr de sua habitual lindeza, desmaiando o matiz
-dos labios e das faces, velando o brilho dos olhos pardos. Seu trajo
-branco ainda mais ameigava a sua phisionomia.
-
-Não ha para arrebatar os sentidos, como essa languidez da mulher amada.
-Parece que ella verga com a exhuberancia do amor, como a planta muito
-viçosa, quando concentra a seiva que não brota em flôr. O homem
-querido se regosija, pensando que suas palavras e suas caricias pódem,
-como os orvalhos celestes, reanimar e expandir o coração da mulher
-amada.
-
-Talvez em Amelia não fosse esse desmaio senão o effeito da fadiga do
-baile, e das scismas da noite mal dormida.
-
-Emquanto bordava, o ouvido da moça attento esperava algum rumor que lhe
-annunciasse a chegada do noivo. Um carro parou á porta; e momentos
-depois soaram na sala de visitas os passos de alguem.
-
-Era Horacio.
-
-Vendo a moça na saleta proxima, o leão dirigiu-se a ella, com a
-familiaridade á que lhe dava direito seu titulo de noivo. Trocados os
-comprimentos usuaes, sentou-se junto ao bastidor.
-
---O que está bordando?
-
-Amelia fez um gesto para cobrir o bordado:
-
---Deixe vêr! insistiu o moço.
-
---Não vale a pena!
-
---Ah!
-
-Esta exclamação desfez-se nos labios do mancebo em um sorriso de
-jubilo.
-
---É um presente de annos para uma amiga! disse Amelia.
-
---Não são para a senhora?
-
---Não; respondeu a moça admirada.
-
---Está zombando commigo!
-
---Veja!
-
-A unha de nacar da moça, mostrou o L. bordado a ouro.
-
---Pois ha quem tenha este pésinho mimoso, a não ser minha noiva? disse
-Horacio rindo-se.
-
---Eu? exclamou Amelia enrubecendo. Pobre de mim!
-
---Lembra-se do que me prometteu hontem á noite?
-
-Uma nuvem de tristeza cobriu o lindo semblante da moça; com a fronte
-pendida e os olhos baixos, parecia contrahida por uma dôr intima.
-
---Amelia!
-
---Hontem... não tive animo de contrarial-o. Fiz mal; desculpe-me.
-
---Então sua promessa? disse o moço com ironia.
-
-Amelia voltou o rosto como para esconder uma lagrima.
-
---Acredite. O que me pede... não posso... não tenho forças para
-fazer. Si o senhor soubesse!... E entretanto deve saber, porque... Eu
-lhe supplico, não fallemos disso agora; depois eu lhe direi.
-Prometto-lhe!
-
---Não se dê a este trabalho. Já sei quanto basta: zombou de mim.
-
-Horacio levantou-se visivelmente despeitado, e volveu os passos pela
-sala. Amelia continuou a bordar, talvez para disfarçar o seu vexame.
-
-Decorridos alguns instantes, Horacio, lançando um olhar para a moça,
-occupada com seu bordado, viu alguma cousa que o sobresaltou. A fimbria
-do vestido, suspensa na travessa do bastidor, devia descobrir o pé da
-moça para quem estivesse sentado á sua esquerda.
-
-O leão aproximou-se na esperança de sorprender o avaro thesouro que se
-roubava á seus olhos.
-
---Não sabia que bordava tão bem!
-
---Ora! Não tenho paciencia para estes trabalhos. Si não fosse uma
-divida...
-
---Como? Não é mais presente de annos?
-
---Uma e outra cousa.
-
---Ou talvez nem uma nem outra; disse Horacio adoçando o tom de ironia.
-
---Que necessidade tinha eu de enganal-o? disse Amelia com um doce
-resentimento. Uma amiga minha...
-
---Cujo nome não consta.
-
---É segredo! atalhou a moça com faceirice.
-
---Ah! É segredo?
-
---Inviolavel. Ella não quer por cousa alguma que saibam nem mesmo
-suspeitem....
-
---Que é sua amiga?
-
---Ora!... Que tem um pé deste tamanho: disse a moça mostrando o
-bordado.
-
---Devéras? acodio Horacio.
-
---Ella pensa que é um aleijão e sente uma tristesa...
-
---Na verdade, possuir um thesouro, um primôr! Admira como sua amiga já
-não morreu de desgôsto.
-
---Mas fallando sério; não é natural que uma moça tenha o pé de uma
-menina de sete annos.
-
---Não sei si é natural; mas sublime, asseguro-lhe que é. Ha certas
-graças na mulher que devem ficar sempre meninas; as huris, as fadas, as
-deusas, são assim.
-
---Com effeito! Si eu fosse ciumenta!
-
---De sua amiga?... De uma amiga tão intima?... Era quasi ter ciumes de
-si mesma! disse Horacio gracejando.
-
---O que o senhor quer sei eu. É vêr se adivinha.
-
-Horacio tinha sustentado esta conversa com interesse extremo; menos
-pelas palavras da moça, do que pelos movimentos da fimbra do vestido.
-A saia, arregaçando gradualmente com a inflexão do talhe gentil da
-moça reclinada sobre o bastidor, promettia brevemente descobrir o
-thesouro, tão estremecido pelo mancebo.
-
-Amelia, occupada com seu trabalho, e distrahida com a conversa, se
-esquecêra daquelle constante cuidado que ella tinha em compôr a orla
-do vestido. Durante a conversa apenas uma vez tirara os olhos do
-bordado, para lançar uma vista furtiva ao leão.
-
---Mas então essa amiga mysteriosa.... A senhora ia contar uma historia,
-si não me engano.
-
---Historia, não senhor. Queria explicar-lhe por que este bordado é o
-pagamento de uma divida.
-
---Justamente.
-
---Pois essa minha amiga, incommodava-se muito quando tinha de comprar
-botinas; custava achar um par que lhe servisse. As de senhora eram muito
-grandes; as de menina eram muito baixas. Afinal encontrou um sapateiro,
-que trabalha tão bem como os melhores de Pariz.
-
---É exacto.
-
---Como exacto? O senhor sabe?
-
---A senhora não falla do Campas? disse Horacio um tanto perturbado.
-
---Não, senhor.
-
---Pensei.
-
---Haverá dois mezes; indo eu a cidade, minha amiga, que tinha feito uma
-encommenda de botinas, pediu-me para vêr si estava prompta. Quando o
-criado a trouxe para o carro onde o esperava, cahiu um pé de botina já
-usado, que fôra para modelo. Minha amiga ficou muito afflicta; e eu fiz
-tenção de dar-lhe no dia de seus annos umas chinellas bordadas por
-mim. Bem vê que não o enganei.
-
-Proferindo as ultimas palavras, Amelia sempre occupada com seu bordado,
-debruçou-se completamente sobre o bastidor para desembaraçar o fio de
-sêda frouxa. Este movimento produziu o que Horacio esperava. A saia,
-retrahida pela travessa do bastidor, descobriu até o artelho o pé da
-moça.
-
-O moço estremeceu com a forte emoção; e fechou os olhos, atordoado.
-
-O que vira era uma cousa indefinivel, estupenda. Era o aleijão, a
-monstruosidade de que lhe fallára Leopoldo. Aquella massa informe;
-aquella enormidade cheia de cavernas e protuberancias, elle a tinha ali
-em face, diante dos olhos, escarnecendo do seu amor, como um desses
-caturras hediondos das lendas da idade media.
-
---Diga-me uma cousa: hontem depois que sahimos o senhor conversou com
-aquelle moço que dansou commigo? O Leopoldo, não é?
-
-Não recebendo resposta, Amelia ergueu a cabeça para interrogar o noivo
-com o olhar. O aspecto demudado de Horacio, o sorriso pungente que
-amarrotava seu bigode artistico, a vista anciada que elle tinha fixa no
-monstro, lhe reveláram subitamente o que succedêra.
-
-Um grito de afflicção escapou-se do peito da moça, que afastou
-violentamente de si o bastidor, causa do accidente, e colheu os largos
-volantes da saia, occultando o que ella por tanto tempo defendêra
-contra a curiosidade soffrega do moço. Por alguns instantes os noivos
-permaneceram mudos e confusos, sentindo-se repellidos um pelo outro, e
-comtudo não ousando affastar-se. É um supplicio cruel esse que
-inflinge a presença de um ente que faz corar de vergonha.
-
-Afinal Horacio levantou-se e deu alguns passos á esmo. Amelia
-aproveitou-se desse movimento para fugir da sala. Ficando só, o leão
-dardejou para o interior um olhar terrivel; e tomando o chapéo, desceu
-rapidamente as escadas.
-
-Agora elle comprehendia tudo: e as palavras que Leopoldo lhe dissera na
-vespera, ao sahir do baile, lhe repercutiam ao ouvido, como uma
-gargalhada satanica:--«A illusão é a unica realidade deste mundo.»
-
---Como pude eu tanto tempo illudir-me com o excessivo recato de Amelia?
-Como não desconfiei do pudor selvagem que vellava semelhante á um
-dragão sobre o terrivel segredo?
-
-«Não ha moça, seja ella o anjo da pudicicia, que não mostre ao menos
-a pontinha do pé, quando o tem mimoso e gentil. Eu devia saber disso,
-mas estava cégo. Todos cochilamos, sem ser Homeros: eu que me prezo de
-conhecer a mulher, portei-me como um calouro.
-
-«Consumir dois mezes á correr após uma sombra, e quando esperava que
-a sombra tomasse corpo, ella se desvanece... Qual! Antes se
-desvanecesse; mas ao contrario toma um vulto medonho, enorme,
-esqualido. Faz-me quasi lembrar o verso de Camões.»
-
-Horacio soltou uma gargalhada:
-
---Realmente eu não sei qual de nós dois ficou mais corrido. Si ella de
-mostrar a toeza; si eu de a vêr.
-
-«Sonhar uma perola, e encontrar um seixo; imaginar um mimo, e achar uma
-brutalidade; desejar um botão de rosa, e colher uma tubara!
-
-«Si os rapazes souberem disto, estou deshonrado. Como posso eu mais
-apresentar-me na rua do Ouvidor, quando a cousa divulgar-se? Todo o asno
-terá direito de atirar-me o couce, como ao leão moribundo da fabula.»
-
-Horacio começou á reflectir, si fizera bem sahindo tão
-precipitadamente da casa de Salles. Moderou o passo, e olhou o relogio.
-Eram perto de cinco horas. Si voltasse, chegaria tarde; demais, como
-explicar a retirada e a volta?
-
---Em todo o caso, pensou o leão, a fortuna não me desamparou de todo.
-Assim como a illusão durou até hoje, podia prolongar-se mais algumas
-semanas, e... Tremo de horror, quando me lembro que eu podia ser atado
-aquelle mourão, aquelle poste! Ser condemnado a arrastar uma trave por
-toda a vida? Que supplicio!
-
-«Si eu podesse imaginar que o Omnipotente, creador de tantas
-maravilhas, se occupa com a minha ridicula individualidade, e se
-interessa pelos pecados que eu tenho commettido, me ajoelhava aqui mesmo
-na rua, e lhe renderia graças pela minha salvação.»
-
-«Quem se livrasse de ser esmagado por uma rocha, não escaparia de tão
-grande perigo como eu. Casar-se um homem com aquelle pé, seria
-predestinar-se para o homicidio.»
-
-Passava um carro, que parou de repente.
-
---Ainda por aqui, Almeida? disse o Salles deitando a cabeça fóra do
-carro.
-
---É verdade... sahi, mas....
-
---Entre, que hão de estar á nossa espera; São cinco horas, demorei-me
-hoje além do costume; por causa mesmo do senhor, maganão! Certos
-arranjos.
-
-Horacio procurou rir, mas fez uma careta que desculpou com um callo.
-Elle, o leão, sempre elegante, correcto e irreprehensivel no trajo,
-como nas maneiras, tinha perdido completamente a serenidade de espirito.
-
-As senhoras estavam reunidas na saleta. Amelia ficou sorprendida, vendo
-Horacio de volta com seu pai; e reprimiu o contentamento que sentia. Mas
-este durou pouco. Ella conheceu logo que o leão obedecêra mais ás
-conveniencias, do que ao affecto que lhe tinha.
-
-Comtudo essa volta significava alguma cousa. Ella, Amelia, não causava
-horror á seu noivo.
-
-O jantar foi animado pela conversa viva e espirituosa de Horacio, que
-havia recuperado seu sangue frio. Uma circumstancia porém não escapou
-a Amelia, que passou desapercebida ás outras pessoas; o leão, apezar
-de sentado á sua esquerda, não achou um momento para trocar com ella
-uma palavra. Ao contrario, manteve sempre a conversação geral, para
-impedir o dialogo intimo, que elle receiava.
-
-Terminado o jantar, Horacio achou um pretexto para retirar-se logo.
-
---O que se passou D. Amelia, é mais do que um segredo para mim; eu nada
-sei, esqueci; disse elle despedindo-se.
-
-Tocando apenas na mão que a moça lhe estendêra, sahiu.
-
-Amelia deu um passo para chamal-o, mas apoiando-se ao recosto do sofá,
-permaneceu immovel, escutando os passos do noivo até que se perderam ao
-longe.
-
-
-
-
-XVI
-
-
-Fazia uma semana que Horacio não apparecia em casa de Salles.
-
-Amelia tinha por duas vezes mandado saber do noivo. Da primeira
-contentou-se com um recado; da segunda enviou-lhe uma saudade.
-
-O negociante de sua parte havia passado por casa do moço, que pretextou
-um defluxo para justificar sua ausencia; e prometteu apparecer no dia
-seguinte.
-
-Horacio comprehendia a necessidade de sahir da posição difficil em que
-se achava, mas debalde procurava um meio. Cansado de cogitar, entendeu
-que o melhor era confiar-se á inspiração do momento.
-
-No dia seguinte á noite, dirigiu-se á casa do negociante.
-
-As duas senhoras estavam sentadas junto a mesa; a mãi lia, a filha
-pensava. Amelia estava triste, sua mãi suppunha que eram saudades.
-
-Quando Horacio entrou, D. Leonor o festejou com verdadeiro prazer.
-Amelia sentiu um vislumbre de esperança, que illuminou o sorriso de
-seus labios.
-
---Felizmente! exclamou D. Leonor. Esta casa era uma fonte dos suspiros!
-
-A conversação começou friamente, e foi se arrastando por algum tempo.
-
---Não tem sahido? perguntou Horacio depois de uma pausa.
-
---Não; Amelia não tem querido.
-
---Por que? perguntou o moço voltando-se para a noiva.
-
---Então não sabe? acodiu D. Leonor.
-
---Porque não se offereceu occasião; disse Amelia.
-
---Mas tem recebido visitas?
-
---Algumas.
-
---O Leopoldo não appareceu!
-
---Não frequenta nossa casa; respondeu a moça.
-
---Ah! cuidei?
-
---Si elle nos visitasse, o senhor o teria encontrado aqui muitas vezes.
-
---Podiamos nos desencontrar, disse Horacio com um sorriso motejador.
-
-Amelia percebeu que o moço estava procurando um pretexto para
-despeitar-se. D. Leonor tendo continuado a leitura interrompida estava
-alheia a conversação.
-
---Foi em casa do Azevedo que o apresentaram á senhora.
-
---Não; conheço-o de muito tempo; ha perto de dois mezes.
-
---De onde, si não é segredo?
-
---Segredo por que? Elle frequenta a casa de D. Clementina que recebe ás
-quintas-feiras. Constantemente nos encontramos ahi. É uma reunião
-muito agradavel, estamos quasi em familia, sem a menor ceremonia.
-
---Ah! nunca me convidou para essas reuniões; eu teria muito prazer em
-acompanhal-a, mas talvez fosse importuno, como já vou sendo aqui.
-
---O senhor está habituado a viver na alta sociedade; havia de
-aborrecer-se.
-
---Mas a senhora não se aborrecia; ao contrario divertia-se bastante.
-
---Alguma cousa.
-
---E Leopoldo era seu par?
-
---Era.
-
---Par constante?
-
---Não sei si era constante ou não; quasi sempre elle dansava commigo,
-porque lá não ha muito onde escolher; os pares são poucos.
-
---Optimo systema! Assim não se repara?
-
---Em que?
-
---Em certa assiduidade! Ainda mesmo que uma moça já tenha noivo
-arranjado, ha gente que exige da parte dessa moça certa reserva, porque
-emfim o outro póde não querer acceitar a responsabilidade de tudo! É
-uma impertinencia, concordo, mos o mundo tem destes caprichos.
-
---Isso se entende naturalmente com as moças que têm _noivo arranjado_,
-retorquiu Amelia frisando a palavra, e não com aquellas, cuja mão se
-pediu talvez para satisfazer uma simples fantazia.
-
-A moça levantou-se da mesa, lançando ao leão um olhar desdenhoso, e
-foi sentar-se ao piano. Emquanto ella tocava uma variação de Thalberg,
-Horacio para fazer alguma cousa, se entreteve em arranjar as figuras
-chinezas de um jogo de paciencia. Nunca elle precisára tanto de
-provêr-se dessa virtude evangelica.
-
-Decorridos alguns instantes o leão ergueu-se da meza; deu algumas
-voltas pela salla, e aproximou-se do piano, como para vêr a elegancia
-com que a moça dedilhava.
-
---A senhora acha muito natural, D. Amelia, que uma noiva frequente
-assiduamente uma casa onde não tem entrada o homem com quem vai
-casar-se; acha natural que essa moça tenha em taes reuniões um par
-effectivo, que provavelmente cultiva uma dessas amisades candidas dos
-romances de Balsac, verdadeiros _lirios do valle_, que vivem de orvalhos
-e de sombras. Eu, porém, sou um espirito prosaico e material: tenho a
-infelicidade de não acreditar na attracção mysteriosa dos espiritos,
-no consorcio ideal das almas irmãs, nos sonhos ethereos, nos effluvios
-celestes, em toda essa giria sentimental. Para mim, intelligencia
-grosseira, tudo isso não passa de uma hypocrisia do primeiro tartufo
-deste mundo, o amor. É um tyrannete que toma todas as figuras e
-posições; faz-se menino ou velho, anjo ou demonio, poeta ou
-banqueiro... Estou incommodando-a talvez?
-
---Não; acabe.
-
-A moça fazia com uma ligeira surdina o acompanhamento das palavras do
-leão; mas á ultima phrase, ella retirou as mãos do teclado. Foi esse
-o motivo da pergunta de Horacio.
-
---A senhora deve sentir muito, e Leopoldo com maior razão, de serem
-privados de uma distracção que tanto lhes agrada!
-
---Comprehendo, replicou Amelia. O Sr. me prohibe que eu vá á casa de
-D. Clementina?
-
---Que idéa! Não tenho direito de prohibir; ainda não sou seu marido;
-a senhora é completamente livre de suas acções, póde ir á casa de
-D. Clementina, ou onde lhe approuver; assim como eu posso, querendo,
-passar as noites no Club ou no Alcazar.
-
-Amelia soltou uma risada.
-
---Pensava, que os leões estavam isentos dessa fragilidade do ciume.
-
---Perdão; não se trata de ciume, nem sei o que isso é. A questão
-reduz-se á uma antipathia de caracteres, á uma contradicção de
-genios, que deve ter para o futuro graves consequencias. A senhora é
-idealista, eu sou materialista. Um quizera viver no mundo dos sonhos,
-outro neste valle das lagrimas e das realidades. A senhora procurando-me
-no céo entre as estrellas e os anjos, e não me achando ahi, soffreria
-uma cruel decepção; entretanto que eu na terra, ficarei reduzido á
-sombra da mulher que amei.
-
---Não é tão pouco, para quem se contentava com um pé de criança;
-disse Amelia com ironia.
-
---Mas esse pé era a realidade, a expressão a mais sublime della!
-
---Custa-lhe pouco á possuir essa realidade Mande fabrical-a em cêra:
-sahirá ainda mais perfeita.
-
---Ainda não perdi a esperança de encontral-a.
-
-O chá interrompeu o dialogo. Os dous noivos aproximaram-se da meza
-oval, onde o criado acabava de collocar a bandeja.
-
-A phisionomia de Amelia perdêra a expressão de tristeza e desanimo que
-tinha a principio; a conversa lhe deixara no semblante alguns tons
-vivos.
-
-Occupada em dispôr as chicaras para enchel-as; os gestos sempre macios
-da moça revellavam certa crispação nervosa.
-
-Horacio ficára contrariado, porque não tivera tempo de precipitar o
-_casus belli_. Receiava que se demorasse ainda o rompimento que elle
-tanto desejava.
-
---Mamãi, disse Amelia com intenção, amanhã é quinta-feira. Vamos
-passar a noite em casa de D. Clementina?
-
---Si quizeres.
-
---Não devemos faltar; deixámos de ir a semana passada.
-
---Foi logo depois do baile do Azevedo.
-
---Não o convido, disse Amelia voltando-se para Horacio, porque o senhor
-não frequenta essas reuniões de gente pobre.
-
---Sem duvida; tenho medo de evaporar-me em devaneios e suspiros;
-respondeu Horacio, cruzando com a moça um olhar de desafio.
-
-Elle sentiu que Amelia o provocava, e exultou. A moça estava disposta a
-resistir; o rompimento era infallivel e prompto.
-
---Eu gosto bem dessas partidas; a noite passa tão agradavel.
-
-Aproveitando-se de um momento em que D. Leonor se afastou, Horacio
-atirou á moça rapidamente estas palavras:
-
---Pois si a senhora voltar á casa de D. Clementina, eu não voltarei
-mais aqui.
-
-Amelia estremeceu.
-
-Um quarto de hora depois, Horacio retirou-se. Quando se despedia das
-senhoras, disse o leão á moça apertando-lhe a mão:
-
---Desejo que se divirta muito amanhã.
-
---Aonde? perguntou D. Leonor.
-
---Em casa de D. Clementina. Não vai, D. Amelia?
-
-A moça hesitou um instante. O offêgo de seu collo trahiu uma luta
-violenta, mas rapida.
-
-Sua resolução, antes que ella a exprimisse, manifestou-se na altivez
-do porte, que uma vibração intima erigira.
-
---Vou sem falta!
-
-Horacio, soltando a mão da moça, que foi bater inerte nos folhos do
-vestido, cortejou profundamente.
-
---Seja muito feliz.
-
-Apenas o leão desappareceu na porta, Amelia abraçando e beijando a
-mãi, subiu precipitadamente á sua alcova; atirou-se á uma
-conversadeira, e desafogou em pranto e soluços a dôr que tinha
-recalcado desde muitos dias.
-
-A maior parte da noite foi para ella de vigilia. Viu correrem as horas;
-cada momento que se escoava era uma esperança, uma illusão que se
-desfolhava da flôr viçosa de sua alma.
-
-Aquelles que se separam das pessoas ou dos sitios queridos, conhecem bem
-esse travo do coração que chamamos _saudade_ e sabem quanto é cruel o
-momento de separação.
-
-Mas não ha despedida cruciante como seja a da alma pelo amor que nutrio
-durante muito tempo. Ha ahi mais do que uma separação; é quasi a
-mutilação moral.
-
-Amelia comprehendêra que tudo acabara entre Horacio e ella. Desde o dia
-do jantar receiara esse resultado; mas ainda alimentava uma esperança.
-Naquella noite a esperança murchara, si não foi ella propria Amelia,
-quem a desfolhara.
-
-Agora na calada da noite, era sua alcova que lhe parecia um ermo, ella
-tinha medo do isolamento em que se achava. Algumas vezes sua alma
-sentia-se como que asphixiada pelo silencio e pela treva que a
-submergiam.
-
-
-
-
-XVII
-
-
-Como dissera á Amelia, na sua ultima visita, Horacio não tinha perdido
-a esperança de encontrar o que elle chamava a realidade de seu amor; o
-pésinho gentil e mimoso do qual elle possuia a botina.
-
-Illudira-se nas suas investigações; era preciso recomeçar.
-
-Tal era o pensamento que preoccupava o leão, recostado naquella mesma
-poltrona, onde o vimos no primeiro dia. Seu olhar embebido nos frocos da
-fumaça do puro havana, rastreava nas espiraes diaphanas a imagem
-confusa de seus pensamentos.
-
-Tinham decorrido tres dias depois do seu rompimento com Amelia. Logo na
-seguinte manhã, o leão para não dar tempo ao arrependimento da moça,
-escreveu uma carta ao Salles, manifestando seu receio de que a
-antipathia de genios tornasse infeliz uma união que todos ardentemente
-desejavam.
-
-O negociante mostrou a carta á filha, que lhe disse com um sorriso
-forçado:
-
---Elle tem razão!
-
-A carta de Horacio teve resposta no mesmo dia. O Salles encontrando-o na
-rua do Ouvidor recusou-lhe o comprimento.
-
-O leão satisfeito com esse prompto desenlace que evitava longas
-explicações, achou-se á poucos passos de distancia em frente de
-Leopoldo.
-
---Oh! Tu me trazes felicidade! exclamou o leão, apertando-lhe a mão.
-Sempre que nos encontramos ou está para acontecer ou já tem acontecido
-alguma cousa de bom para mim.
-
---Não sabes quanto estimo!... Assim eu sou uma especie de astro
-propicio, sob cuja influencia nasceste.
-
---Queres vêr? Havia muito tempo que não te via, quando nos encontramos
-no baile do Azevedo. Pois nessa noite decidiu-se meu destino.
-
---Ah! e sob o meu influxo benefico?
-
---Está visto. Lembras-te que eu te disse que estava disposto a todos os
-sacrificios até o do casamento para possuir aquelle pézinho!...
-
---Lembro-me.
-
---O unico obstaculo era uma especie de promessa ou arranjo de familia.
-Felizmente a menina, a tal Amelia comprehendeu que perdia seu tempo, e
-arrufou-se na noite do baile por uma ninharia. Eu aproveitei o pretexto;
-escrevi ao pai retirando minha palavra, e agora mesmo elle me acaba de
-responder. Estou livre como o ar, e contente como um rapaz que sahe do
-collegio.
-
---Neste caso dou-te meus parabéns.
-
---E tu como vais com o _sorriso_?
-
---Sem novidade.
-
---Diz-me uma cousa, no dia em que a viste pela primeira vez, ella estava
-só ou com outra moça. Faço te esta pergunta porque foi na rua da
-Quitanda e quasi pelo mesmo tempo que eu achei a botina.
-
---Eram duas; respondeu Leopoldo sorrindo.
-
---Em uma victoria?
-
---Sim.
-
---A outra era mais baixa?
-
---Não affirmo.
-
---Adeus.
-
-O leão separou-se do amigo, e repassando as particularidades de sua
-conversa com Amelia perto do bastedor e no dia do jantar, começou a
-combinal-as com as informações de Leopoldo, e com as circumstancias do
-encontro no _Passeio Publico_, onde vira o signal impresso na arêa pelo
-mimoso pézinho.
-
-Agora, fumando seu charuto depois do jantar, o leão resumia todas as
-suas reflexões, e chegava á este resultado.
-
---Decididamente o pézinho é de uma moça que ia com Amelia, no dia em
-que se perdeu a botina e no dia em que eu a vi de longe no _Passeio
-Publico_. Essa moça, cuja inicial é um L, não é outra senão Laura.
-Aquelle pudor feroz era um indicio infallivel. Amelia procurava imital-o
-por motivo bem diverso; mas não o conseguiu.
-
-O moço chegou-se a banquinha onde estava o cofre de pau rosa e
-contemplou a botina.
-
-A noite o leão foi a uma partida. Sua estrella o favorecia. Laura lá
-estava. Dirigiu-lhe algumas banalidades graciosas, que ella a principio
-recebeu com manifesta esquivança, mas depois com timidez.
-
-Horacio comprehendia a razão do procedimento da moça. Para
-tranquillisal-a, teve o cuidado de nunca abaixar a vista á fimbria do
-vestido, e mostrar-se enlevado pelo collo gracioso da gentil senhora. A
-lição que recebêra anteriormente, o tornou de uma prudencia
-consummada.
-
-No fim da noite o leão conseguira restabellecer a confiança no
-espirito de Laura, desvanecendo-lhe a suspeita deixada pela scena do
-theatro. Era o essencial; com os meios de seducção de que dispunha, e
-a inclinação que a moça revelava por elle, contava certa a conquista.
-A questão era de tempo.
-
-Antes de quinze dias frequentava a casa da moça, e estava na intimidade
-da familia.
-
-Laura perdêra o marido aos 17 annos, pouco tempo depois de casada. Era
-rica; não lhe faltavam pretendentes atrahidos pelo dote e pela belleza;
-mas ella não parecia disposta a tentar segunda vez a felicidade
-conjugal, embora não tivesse passado da lua de mel. É natural que o
-desejo lhe chegasse com o primeiro fio de neve; quando fossem rareando
-os apaixonados que a cercavam.
-
-Uma manhã, Horacio passando á pé, como costumava, pela casa da moça,
-viu-a, por entre as grades, sentada no jardim e occupada em fazer um
-ramo de flôres. Entrou e foi ter com ella, á sombra de uma latada de
-madre-silvas.
-
-Laura deu-lhe logar perto de si; e começaram a conversar sobre flores,
-modas, e mil futilidades.
-
-Eram dez horas do dia. O sol brilhava em céo limpido; uma aragem fresca
-sussurrava entre as folhas; os colleiros trinavam nas ramas das
-larangeiras. Esse concerto de perfumes e harmonias convidava o coração
-á abrir-se e cantar o seu hymno de amor.
-
-Laura reclinou a fronte e emmudeceu, com os olhos embebidos no seio de
-uma rosa, que tinha no regaço. Horacio tomou-lhe a mão, que ella cedeu
-com tenue resistencia.
-
---Sabe desde quando eu a amo, Laura? Desde o dia em que a vi pela
-primeira vez passar em um carro. Foi si não me engano na rua da
-Quitanda; ia com a filha do Salles. Lembra-se?
-
-A moça fez um gesto afirmativo.
-
---Depois encontrei-a no theatro. A principio seus olhos me deixaram
-conceber alguma esperança; mas o desengano foi cruel. Nem imagina como
-soffri! Cuidei que não houvesse mulher capaz de obrigar-me a voltar ás
-ingenuidades dos 18 annos. Um dia ainda me lembro, vi-a de longe entrar
-no Passeio Publico; apressei-me para ter o prazer de cortejal-a e
-receber um olhar. Debalde corri todas as ruas; quando voltei á porta
-fiquei desesperado. A senhora tinha sahido, sempre com a filha do
-Salles. Recorda-se?
-
---Recordo-me; respondeu a moça. Mas era por mim que fazia tudo isso?
-
---Duvida, Laura?
-
---Nega que esteve apaixonado por Amelia Até diziam que já a tinha
-pedido.
-
---Que ingratidão! Não sabe então porque me fiz apresentar em casa do
-Salles? Para vel-a, era preciso procurar um meio; a senhora já não se
-lembra da dureza com que me tratava.
-
---E por isso consolava-se com Amelia?
-
---Si amasse, Laura, havia de saber o que é o ciume, e as loucuras que
-elle nos obriga a fazer! Mas a senhora não ama!
-
---Quem lhe disse!
-
---Essa frieza.
-
---E o que eu soffri?... balbuciou a moça pondo os olhos languidos no
-semblante do mancebo.
-
---Perdão, Laura; exclamou Horacio ajoelhando. Eu era um louco, indigno
-de teu amor; e não mereço tanta felicidade. Mas deixa-me implorar o
-meu perdão; deixa-me beijar teus pés, que...
-
---Ah!...
-
-Horacio proferiu aquellas palavras apaixonadas, de joelhos diante da
-moça que sorria inclinada para elle; de repente abaixou-se para
-beijar-lhe os pés, esse objecto de sua adoração. Foi então que ella
-soltando um grito de espanto, o repelliu para longe de si com horror.
-
-Comtudo, o moço, que preparara toda aquella scena para chegar a
-realisação do desejo por tanto tempo afagado, conseguira vêr... Mas
-não o que esperava; um pésinho mimoso e gentil; e sim dois pés
-inglezes de soffrivel tamanho, que lhe pareciam descansar sobre uma
-almofada preta.
-
-O semblante de Laura se tinha demudado de uma maneira espantosa; em suas
-faces entumecidas respirava uma expressão feroz de odio e vingança.
-
-Horacio comprehendeu que naquelle momento qualquer explicação era
-impossivel. O que tinha de melhor a fazer era eclipsar-se. No fim de
-contas esse desenlace lhe convinha, pois cortava todas as dificuldades
-da retirada.
-
-Cortejou e sahiu.
-
-A alguns passos da casa, o leão não poude conter uma gargalhada, que
-lhe estava a soffocar, e desabafou-a. Realmente havia de que rir; duas
-vezes mistificado em sua paixão, elle o rei da moda, o conquistador
-sempre feliz.
-
-Insensivelmente começou á reflectir sobre o occorrido. Por mais que se
-désse tratos, a imaginação não podia decifrar o enigma. A botina que
-achara fôra perdida por uma das duas moças; mas não pertencia á
-nenhuma. Seria encommenda de outra amiga, e talvez para alguma menina de
-dez annos?
-
-De repente surgiu no espirito de Horacio uma idéa tão original, como a
-situação em que se achava.
-
---Eu vi os dois pés de Laura; mas de Amelia, só vi um; é verdade que
-esse valia por tres. Mas... Não resta duvida. A naturesa tem destes
-caprichos. A maravilha a par do monstro, o mimo em face da deformidade!
-É o principio do contraste, que rege o mundo. Eu vi o direito, o
-aleijão. O esquerdo ficou occulto, como a perola e o diamante.
-
-Compenetrado dessa idéa, de que o pésinho adorado pertencia a Amelia,
-a quem a naturesa em compensação aleijara o outro; Horacio admittiu a
-possibilidade de que sua paixão pela moça revivesse, embora menos
-ardente, ou mais positiva.
-
-Ter aquelle pésinho em suas mãos, sentil-o estremecer e palpitar de
-emoção, cobril-o de beijos, acariciar a rosea cutis diaphana, tecida
-de veias azues; brincar-lhe com as unhas crespas, como conchinhas de
-nacar; cingir ao seio esse gnomo gentil, titilante de amor e volupia!...
-
-Não podia haver para o leão maior delicia neste mundo. Elle daria por
-ella todo o quinhão de prazer que por ventura lhe estava reservado para
-o resto da existencia.
-
-Foi engolphado nestes devaneios que Horacio apeou-se á rua Direita de
-um tilbure, que tomara no largo do Machado.
-
-Seguindo para a rua do Ouvidor, á passo lento e descuidado, o leão
-aspirava o ar da cidade, como o ocioso que não sabe em que ha de
-consumir o dia, e fareja uma aventura qualquer.
-
-De repente avistou cousa que o pôz alerta. Um carro que subia a rua do
-Ouvidor passou por elle; era o _coupé_ do Salles. O rosto encantador de
-Amelia appareceu-lhe á principio de relance na penumbra que azulava o
-acolxoado de damasco, depois em plena luz moldurado pelo quadro do
-postigo.
-
-Acompanhando com o olhar a carruagem, Horacio a viu rodar por algum
-tempo vagarosamente por causa de embaraço no transito e parar proximo
-á esquina da rua dos Ourives. O lacaio, com a mão na aldraba, esperava
-naturalmente ordem para abrir.
-
-Horacio apressou o passo. Por duas vezes avistara a fronte de Amelia
-coroada com um chapeosinho de palha de Italia, assomando no postigo,
-afim de percorrer a rua com o olhar. A idéa de que a moça lhe desejava
-fallar passou pela mente do leão, que a repelliu, sem comtudo
-consideral-a impossivel.
-
-Em todo o caso elle acreditou que mais ou menos tinha parte naquella
-parada do carro, e não se enganava.
-
---Para que mandaste parar? perguntou D. Leonor.
-
---Quero comprar luvas no Masset; respondeu a filha.
-
---Ficou atraz.
-
---Podemos ir a pé.
-
-Quando o leão chegou a dez braças do carro, a portinhola abriu-se e
-Amelia, em companhia de sua mãi, saltou na calçada. A moça tinha um
-roupão côr de café, de extrema simplicidade, porém muito elegante;
-as luvas eram da mesma côr de cinza das fitas do chapéo de palha.
-
-As duas senhoras dirigiram-se para a casa do Masset. Horacio procurou
-cortejal-as na passagem, mas ellas não lhe deram occasião. Comtudo o
-leão reparou que a moça desfarçadamente voltou o rosto para olhal-o.
-
-Emquanto as senhoras compravam luvas, Horacio as esperava em frente da
-casa do Valais, á alguns passos do carro. Pouco tardaram. Amelia vinha
-só na frente. Felizmente o transito pela calçada diminuiu naquelle
-instante, de modo que o conquistador poude vêr a gôsto a moça
-aproximar-se delle. Levados por um impulso irresistivel os olhares do
-mancebo abaixavam-se para os volantes do vestido, e rastejaram no chão
-que a moça pisava.
-
-Amelia percebeu a insistencia do olhar, e um ligeiro sorriso fugiu-lhe
-dos labios. Imaginando que na calçada havia lama, colheu com ambas as
-mãos a frente da saia, e com tanto estouvamento que descobriu os pés
-até o colo da perna.
-
-Horacio ficou fulminado.
-
-Vira pousados na calçada dois pésinhos mimosos que palpitavam dentro
-de botinas de merinó côr de cinza. Pareciam um par de rolinhas,
-arrulhando na praia, e beijando-se com o biquinho rosado. Durante o
-rapido instante, que seus olhos poderam admirar esses primores de graça
-e gentileza, não escaparam a Horacio as ondulações voluptuosas e os
-contornos suaves dos dois silphos. Nunca elle observara no talhe
-elegante da mais formosa mulher, requebros tão avelludados como tinha
-aquelle dorso arqueado, e aquella palmilha subtil.
-
-Tamanho foi o pasmo de Horacio, que só deu por si quando a moça,
-passando por elle, entrou na carruagem. Voltou-se então
-precipitadamente, sem consciencia do que ia fazer; mas a parelha já
-tinha partido a trote largo.
-
-Momentos depois o leão descia a rua do Ouvidor completamente absorto.
-Seu labio distrahido ia debulhando, sem o sentir, alguns trechos dos
-lindos versos do conselheiro José Bonifácio:
-
-«Padres, não me negueis, se estáes em calma, Um coração no pé, na
-perna um'alma!»
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-Laura e Amelia eram primas e amigas de infancia; havia entre ellas
-apenas a differença de dezoito mezes.
-
-Desde a idade de tres ou quatro annos, isto é, desde que deixou as
-faxas, Laura usou sempre de roupas compridas. Isso causava reparo a
-todos que viam a menina trajada como uma senhora. Muitos achavam
-extravagante e ridiculo o capricho e censuravam a mãi.
-
-Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos,
-e calava-se; mas não alterava o vestuario da menina. A ternura e
-piedade materna lhe davam a paciencia necessaria para arrostar com as
-zombarias do mundo.
-
-Laura tinha um aleijão; nascêra com os pés disformes. Para mais
-aggravar o desgôsto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada á uma
-belleza angelica. A senhora avaliou do infortunio de sua filha; e
-preparou-se para todos os sacrificios. Consultas foram dirigidas aos
-melhores medicos da Europa; chegou a emprehender uma viagem para tentar
-os recursos da sciencia; foram todos ineficazes.
-
-Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgraça de sua filha, afim
-de que ella não fosse obrigada á envergonhar-se na sociedade. Durante
-muito tempo Laura não teve outra criada, alem de sua mãi. A custa de
-esforços constantes, de uma vigilancia incessante de cada dia e cada
-hora, conseguiu a senhora manter esse segredo de familia, do qual
-dependia a felicidade da filha.
-
-Attingindo a idade de oito annos, a menina com o instincto da mulher,
-comprehendêra seu infortunio; e desde então descansou a mãi daquelle
-cuidado incessante. Ficando moça casou-se, e seu marido que a amava
-extremecidamente, morreu ignorando o segredo.
-
-Com bastante magoa sua, Amelia sorprendeu o segredo da prima e amiga.
-
-A filha de Salles tinha dois pésinhos de fada, breves, arqueados, com
-uns dedos que pareciam botões de rosa. O desgosto e vexame que isso
-causava á moça, ninguem o imagina. Ella suppunha-se aleijada; apezar
-de seus 18 annos, seus pés eram de menina.
-
-Assim o mesmo cuidado com que Laura escondia a sua monstruosidade, punha
-ella em occultar essa graça e prenda da natureza. Naquelle tempo não
-se tinha introduzido ainda a moda dos vestidos curtos; bem ao contrario
-o tom era arrastar desdenhosamente pelo chão a longa fimbria do
-vestido.
-
-Um dia que Laura passou em sua casa, Amelia teve curiosidade de comparar
-seu pésinho com o da prima, para saber si a differença era excessiva.
-Em quanto a outra endireitava o penteado no toucador, realisou ella seu
-intento.
-
-Avalie-se da vergonha e afflição de Laura; o desespero de Amelia foi
-maior ainda. Não perdoava a si mesma o ter causado tão grande pezar á
-prima, á quem ella queria muito bem. Para mitigar essa dôr profunda,
-Laura esqueceu a sua.
-
-Desde então as duas amigas se consolavam mutuamente. Laura admirava o
-pésinho de Amelia; esta, ou sinceramente, ou para attenuar a magoa da
-prima, chegava a invejar o seu infortunio.
-
-Aborrecida de não encontrar nas lojas calçado que lhe servisse, Amelia
-tinha descoberto por acaso o sapateiro da rua Sete de Setembro.
-Conhecendo a habilidade do Mattos, pensou que elle podesse disfarçar o
-defeito da prima. Não se enganou; o artista realisara a obra-prima de
-paciencia, que Leopoldo tivera occasião de apreciar por um acaso.
-
-Amelia fez á Laura o sacrificio de expôr-se para não comprometter o
-segredo da amiga. O sapateiro não a conhecia, nunca a tinha visto,
-recebia as encommendas por intermedio de um criado que pagava á vista.
-Facil foi portanto illudil-o.
-
-Na occasião em que as duas primas esperavam de carro na rua da
-Quitanda, o lacaio vinha da casa do sapateiro, o qual vexado com a
-pressa, esquecêra as recommendações de fechar bem o embrulho.
-
-As pretenções de Horacio vieram pouco depois arrefecer a amizade das
-duas primas; já não se viam tão a miude; mas não obstante Amelia
-continuou a prestar a Laura o mesmo serviço, e essa, coagida pela
-necessidade, foi obrigada a acceital-o.
-
-Iam as cousas por esse theor, quando teve logar o baile do Azevedo.
-
-Depois da primeira quadrilha, Amelia foi ao toucador. Era este em uma
-sala que dava para o jardim. Aproximando-se de uma janella entreaberta,
-obscurecida pela sombra do cortinado da cama, viu a moça os dois amigos
-no momento em que elles vieram sentar-se no banco, justamente collocado
-por baixo da janella.
-
-A casa era abarracada. Amelia encostada no portal da janella, descobria
-os dois cavalheiros por entre a folhagem, e ouvia distinctamente suas
-palavras.
-
-Ahi, immovel, mas agitada por commoções diversas, escutou ella a
-historia do pé, e a historia do sorriso. Já os dois amigos se tinham
-afastado, e a moça permanecia no mesmo logar, como extatica.
-
-A narração de Horacio, e as observações que fizera Leopoldo a esse
-respeito, revelaram á moça uma cousa que já anteriormente se havia
-apresentado, embora indistincta, vaga e confusa á seu espirito.
-
-O que Horacio amava nella, não era mais do que uma fórma, um capricho,
-um sonho de sua imaginação enferma. Ella comprehendeu essa aberração
-dos sentidos em um homem gasto para o amor e saciado de prazeres. A
-mulher era para o leão uma cousa commum e vulgar, incapaz de
-produzir-lhe emoções fortes. Tinha-as admirado, de todos os typos e de
-todos os caracteres. Seu coração exhausto precisava de alguma cousa
-nova, original e extravagante.
-
-Amelia comprehendeu isto, não por uma analyse, que seu espirito casto
-não poderia fazer; mas por uma intuição d'alma.
-
-Quando de novo encontrou Horacio no baile, suas maneiras não podiam que
-se não resentissem do estado de seu coração. Tratou o leão
-seccamente; mas logo tornou-se amavel; occorreu-lhe uma idéa; quiz pôr
-á prova o amor do noivo, antes de confiar-lhe seu destino.
-
-Foi na sua alcova, durante a insomnia, que ella recordou-se da historia
-de Leopoldo, e comparou seu amor ao de Horacio. Repassando na mente as
-palavras commovidas do primeiro, pensando naquelle affecto tão
-desprendido das miserias humanas, tão d'alma, Amelia sentia-se como
-purificada dos desejos do seductor.
-
-Esse amor puro e immaterial era um baptismo para seu coração virgem.
-
-A moça conheceu que o engano de Leopoldo, provinha de uma illusão da
-vista, no momento de entrar no carro com Laura; illusão confirmada pela
-presença do lacaio na loja do sapateiro. Chegou á estimar esse
-incidente que pôz em relevo a alma nobre e generosa do mancebo.
-
-Acodiu-lhe á lembrança, sua primeira conversa em casa de D.
-Clementina. As palavras que então lhe pareceram inintelligiveis, tinham
-agora um sentido. Comprehendia toda a sublimidade do coração que dizia
-com uma profunda convicção:--«Sinto-me capaz de amar o horrivel,
-sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões martyres, de amar o anjo
-ainda mesmo encarnado no aleijão.»
-
---Esse me ama realmente, a mim, e não a sua fantazia! murmurou a moça
-com tristeza.
-
-No dia seguinte, depois de uma noite de insomnia, preparou-se para
-receber Horacio, e submettel-o á prova. O Mattos conservava um par das
-antigas botinas de Laura, o qual lhe fôra para modelo. Mandou Amelia
-buscal-o; e encheu-o de algodão para acommodar nessa enormidade o seu
-mimoso pésinho.
-
-O bordado do bastidor, foi expressamente inventado. Procurando uma
-lettra para indicar a pessoa a quem destinava o pretendido presente,
-insensivelmente traçou um L. Era a inicial de Laura, que lhe acudira a
-mente, ou era a lembrança de Leopoldo, que lhe esvoaçava ainda na
-imaginação? Foi uma e outra cousa. Serviu-se do pretexto da amiga,
-para evocar o nome do homem, que tão profundamente a amava.
-
-Depois da scena que teve logar na tarde do jantar, Amelia arrependeu-se.
-Receiava ter-se excedido; bastava-lhe matar a illusão do mancebo, não
-devia ter excitado o horror. Mas o affecto de Leopoldo a tornara
-exigente, ella queria ser amada por Horacio da mesma fórma, com aquella
-sublime abnegação.
-
-Durante alguns dias, alimentou a esperança de conservar a affeição do
-noivo, e regosijava-se com a idéa da sorpresa que lhe guardava.
-
-A ausencia do leão a foi desenganando de dia em dia. Travou-se então
-uma luta em seu espirito. Devia esquecer o homem que não amava nella
-sinão uma fantazia?
-
-O tom de Horacio na ultima noite a irritou. Seu amor proprio indignou-se
-com o menoscabo do moço e subita revelação de sua alma lhe advertiu,
-que esse casamento causaria sua desgraça.
-
-No dia seguinte ao do rompimento, Amelia foi como havia dito na vespera
-á casa de D. Clementina. Era a primeira vez que tornava a vêr Leopoldo
-depois do baile.
-
-Estiveram juntos alguns momentos. Como de costume Leopoldo fallou, e a
-moça embebeu-se daquellas palavras apaixonadas como de um effluvio
-suave.
-
-Em um momento de pausa, disse Amelia.
-
---O senhor, passou por nossa casa na terça-feira?
-
---É verdade. Porque pergunta?
-
---Eu estava no jardim. Vi-o quando passava; cuidei que ia entrar.
-
---Não me animava.
-
---Porque?... Mamãi já lhe offereceu nossa casa.
-
---Tenho receio de ser importuno.
-
---Pouco sahimos agora; á excepção das noites que passamos aqui,
-estamos sempre sós; mamãi lendo, e eu tocando ou fazendo algum
-trabalho de lã.
-
---E ninguem mais? perguntou Leopoldo, fitando na moça um olhar
-interrogador.
-
---Ninguem! respondeu Amelia em tom grave.
-
-Leopoldo ficou suspenso, buscando comprehender o pensamento da moça.
-Era magoa do bem perdido, ou temor do mal frustrado, que assim lhe
-annuviara a phisionomia?
-
-Mas o sorriso prasenteiro illuminou o semblante da moça:
-
---Sabe? Naquella noite do baile, me contaram uma historia muito
-interessante? disse ella.
-
---Não se póde saber?
-
---O senhor, póde. Foi a _historia de um sorriso_, disse Amelia
-sublinhando a palavra com um gesto faceiro.
-
---Quem lhe contou? Foi elle...
-
---Foi o senhor.
-
---Eu?
-
---O senhor mesmo. Já não se lembra?
-
---Quer gracejar?
-
---O senhor estava no jardim conversando com seu amigo, e eu na janella
-do toucador.
-
-Leopoldo adivinhou.
-
---Então ouviu tudo?
-
---Tudo!...
-
---E... perdoou-me?
-
---Não; não tinha de que, mas...
-
-E seus bellos olhos limpidos repousaram no semblante do moço.
-
---Mas comprehendi!
-
-Nesse momento D. Leonor chamou Amelia.
-
-
-
-
-XIX
-
-
-Quando recobrou-se da sorpreza era que tinha ficado, Horacio não achou
-em si mais do que o desejo vehemente e irresistivel de possuir o idolo
-por tanto tempo sonhado.
-
---Serão meus! murmurou comsigo. Serão meus á todo preço. Si fôr
-necessario um escandalo, não hesitarei. Mas Amelia não deve ter-se
-esquecido de mim já tão depressa; ella me tinha affeição. Vou
-pedir-lhe perdão de meu engano. Sujeitar-me-hei á todas as
-condições. Que sacrificios são bastantes para pagar a felicidade de
-beijar aquelles dous mimos da natureza!
-
-Instinctivamente Horacio seguiu na direcção da casa do Salles, com
-intenção de restabelecer as relações interrompidas. Não sabia elle
-de que modo se houvesse em tal empenho; fiava da inspiração do
-momento.
-
-Já não estava o negociante no escriptorio, nesse dia se retirára mais
-cedo.
-
-Mallograda sua esperança, o leão foi caminhando pela rua Direita sem
-direcção, como quem não sabe o que fazer. O instincto que no deserto
-guia o rei dos animaes á cebe odorifera onde retoução as gazellas, o
-conduzia naturalmente para a rua do Ouvidor.
-
-Tinha chegado á esquina, quando passou defronte um moço, que seguiu
-pela calçada Carceller. Horacio acompanhou-o com a vista, querendo
-nelle reconhecer seu amigo Leopoldo que havia cerca de um mez não vira.
-
-Si com effeito o moço era Leopoldo, tinha elle soffrido grande
-transformação. Em vez do rapaz descuidado no seu trajo, brusco em suas
-maneiras, sempre de cabellos arripiados e barba revolta; apparecia um
-cavalheiro de bôa presença, com a sobria elegancia que tão bem
-assenta nos homens sisudos. Essa especie de elegancia é apenas um
-ligeiro perfume, e não uma incrustação como a que usam os moços á
-moda.
-
-Com seu fino tacto e longa experiencia, Horacio, reconhecendo o amigo,
-adivinhou o segredo daquella subita methamorphose. Elle sabia que só ha
-um condão capaz de produzir taes encantos; é o olhar da mulher amada e
-amante.
-
-Ame alguém e não saiba si é retribuido. Toda sua existencia se
-projecta nesse impulso d'alma, que se arroja para outro ser, e ancêa
-por nelle infundir-se. Vive-se fóra de si mesmo, alheio á seu proprio
-eu; como o peregrino perdido longe da patria, o homem exilado de sua
-pessoa erra no espaço, em demanda de um abrigo.
-
-Desde, porém, que o homem tem certeza de ser amado, em vez de
-espandir-se recolhe e concentra para saturar-se de felicidade. Já não
-se alheia e esquece de si; ao contrario sente-se elevado acima do que
-era; respeita em sua pessoa o homem amado.
-
-Nessa occasião é natural á cada um observar-se constantemente, e
-julgar de si com extrema severidade. Surgem aspirações extranhas; o
-fraco lembra-se de ser um heróe; o philosopho inveja a belleza do
-casquilho; o espirito positivo habituado a voar terra a terra bate o
-coto das azas para remontar-se ao ideal da poesia.
-
-Não é só no homem que se opera essa methamorphose: mas em toda a
-natureza. Quando se arreiam os passaros de sua mais bella plumagem,
-quando gorgeiam as melodias mais brilhantes, si não é na quadra dos
-amores?
-
-Vendo Leopoldo parado na calçada Carceller, Horacio dirigiu-se com
-disfarce para aquella parte, com intenção de travar conversa e
-esclarecer de todo em todo o mysterio. Foi trabalho perdido; o moço
-acabava de saltar em um tilbure, que rodava já pela praça de Pedro II.
-
-Desapontado, voltou Horacio sobre os passos.
-
---Amelia o ama!... Ou pelo menos elle o acredita!...
-
-Sorriu-se o leão.
-
---Que phenomeno curioso produz o despeito na mulher! É uma semelhança
-da luz reflexa. Irritado pela decepção, humilhado em sua vaidade, o
-amor da mulher desdenhada refrange como o raio do sol repellido por
-corpo brilhante e vai impregnar-se em outro homem. Ella cuida sentir por
-esse plastão uma paixão ardente, que nada mais é do que o impeto de
-seu despeito. Seria capaz de conceder á esse comparsa, o que recusaria
-á affeição mais terna e extremosa. O assomo do ciume, suppõe ella
-ser vehemencia da affeicção; e confunde com os extremos de amor o
-delirio da vingança. Amelia está passando por esta crise naturalmente.
-Leopoldo foi o plastão; ella o ama com todo o furor do odio que me tem.
-
-Outro sorriso frisou o labio do leão.
-
---Ella me odeia! Ora!... O odio o que é senão a effervescencia do
-amor? O affecto suave e terno é como o muscatel de Setubal ou o vinho
-de Constança. O amor fero e irado é como o champanhe que ferve e
-espuma.
-
-Chegando a casa, Horacio escreveu a Amelia uma carta, que apenas
-continha estas palavras:
-
-«Deve estar satisfeita, pois me tem de novo á seus pés, e desta vez
-humilde e supplicante. A melhor corôa do triumpho é o perdão.»
-
-Sahindo o leão á espairecer, dirigiu os passos para a casa do Salles;
-esperava encontrar algum criado que se incumbisse de entregar a carta.
-Quem sabe? Talvez nessa mesma occasião se decidisse de sua sorte. A
-moça lhe permittiria fallar-lhe.
-
-Era noite fechada; o céu, carregado de nuvens, annunciava proxima
-borrasca. A frente da casa do negociante estava ás escuras; comtudo
-quem observasse bem, perceberia a coar-se pelos intersticios das
-janellas um tenue reflexo de luz interior. No portão da chacara á meio
-cerrado, ninguem apparecia.
-
-O leão penetrou no jardim. Nesse momento um carro parou á porta da
-casa: tres pessoas sahiram delle. Em um Horacio viu estremecendo roupas
-de sacerdote. Só então reflectiu o moço no aspecto soturno do
-edificio. Inquieto, sobresaltado, adiantou-se pelo jardim na esperança
-de encontrar pessoa a quem interrogasse.
-
-As janellas lateraes estavam esclarecidas; e pelo jogo das sombras no
-quadro illuminado, conheceu o moço que reinava no interior alguma
-agitação.
-
-Que fazer? Apresentar-se na casa, depois do que passára, e antes de
-qualquer explicação não era rasoavel.
-
-A dois passos ficava uma frondosa mangueira, em cujos galhos tinham
-fabricado uma especie de belveder ou caramanchão. Conduzia ao alto, uma
-escadinha de caracol cingindo o tronco da arvore.
-
-Por acaso avistou o leão a mangueira, e subindo sem hesitar achou-se
-justamente fronteiro ás janellas illuminadas. Em principio a claridade
-subita offuscou-lhe a vista, e não pôde elle distinguir o que passava
-no interior.
-
-Mas afinal o deslumbramento dos olhos cedeu ao deslumbramento d'alma.
-
-Elle via, e duvidava.
-
-Um altar erguido, cirios acesos, o sacerdote officiando, Amelia e
-Leopoldo de joelhos, ao lado Salles, D. Leonor, e dois amigos que
-serviam de testemunhas: eis o quadro que se offereceu aos olhos de
-Horacio. Tinha visto na comedia da vida muitos lances dramaticos, mas
-nenhum tão imprevisto e curioso.
-
-A sorpresa do leão provinha de um engano seu. Elle acreditava que
-Amelia o tinha amado, quando a moça não sentira por elle mais do que
-o desvanecimento de vêr captivo de seus encantos o rei da moda, o feliz
-conquistador dos salões.
-
-Quem Amelia amou desde o principio, foi Leopoldo. A vaidade, o galanteio
-que se nutre de brilhantes futilidades, a seduziam por momentos, e
-rendiam ao capricho de Horacio. Mas passado esse enlevo, sua alma sentia
-a attracção irresistivel que a impellia para o seu pólo.
-
-Disso que durante dois mezes passava na vida intima da moça, ella
-propria não se apercebia; foi depois da scena do baile, que ella entrou
-em si, e comprehendeu as sublevações reconditas de sua alma, e o drama
-que ahi se agitava desde muito.
-
-Leopoldo começara a frequentar a casa de Salles, poucos dias depois da
-partida de D. Clementina. As duas almas por tanto tempo separadas, só
-esperavam o momento de se unirem ou antes de se entranharem uma na
-outra. As tardes, no jardim, entre cortinas de flôres, ellas celebravam
-esse mystico hymeneu do amor, unico eterno e indissoluvel, porque se faz
-no seio do Creador.
-
-Pelo voto de todos se apressou o dia do casamento, que os noivos
-exigiram se fizesse inteiramente á capucha, e sem prévia
-participação. A razão desse empenho, só Amelia a sabia e nunca a
-disse. Era um escrupulo de seu pudor: depois de que tinha acontecido,
-não queria que lhe dessem outra vez o titulo de noiva.
-
-Terminada a ceremonia, e feitas as felicitações do costume, correram
-os minutos em agradavel conversação.
-
-Eram 11 horas, quando Leopoldo entrou no toucador em que sua noiva o
-esperava. Sentado em uma conversadeira, Amelia sorriu para seu marido;
-porém através das largas dobras do roupão de cambraia, percebia-se o
-tremor involuntario que agitava seu lindo talhe.
-
---É meu presente! disse ella com timidez.
-
-E apresentou ao noivo um objecto envolto em papel de seda, atado com
-fita azul.
-
-Abrindo, achou Leopoldo dois mimosos pantufos de setim branco, os mesmos
-que Amelia começara a bordar no dia seguinte ao baile.
-
-O moço enleiado, não comprehendia. Insensivelmente seu olhar desceu á
-fimbria do roupão. Sobre a almofada de velludo e entre os folhos da
-cambraia, appareciam as unhas rosadas de dois pésinhos divinos.
-
-Uma onda de rubor derramou-se pelo semblante da moça, cujos labios
-balbuciaram uma palavra.
-
---Calce!
-
-Leopoldo ajoelhou aos pés da noiva.
-
-O temporal, desabando nesse momento, bateu com violencia nos vidros da
-janella, que fechou-se.
-
-Horacio desceu do seu observatorio, e escalando a grade de ferro do
-jardim, ganhou a casa, onde chegou todo alagado. Emquanto
-philosophicamente esperava que seu criado lhe preparasse uma chicara de
-café, abriu um livro, que acertou ser La Fontaine.
-
-Leu ao acaso; era a fabula do _leão amoroso_.
-
---É verdade! murmurou soltando uma fumaça de charuto. O leão deixou
-que lhe cerceassem as garras; foi esmagado pela pata da gazella.
-
-
-
-
-FIM.
-
-
-N. B.--Escrevo _tilbure_, _champanhe_, etc., porque
-entendo que devemos imprimir certo cunho
-portuguez nas palavras estrangeiras adoptadas
-pelo uso. Assim fizeram nossos antepassados, escrevendo
-_trumo_, _trenó_, _bufete_ e tantas outras palavras de origem franceza.
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A PATA DA GAZELLA: ***
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- The Project Gutenberg eBook of A Pata da Gazella, by José de Alencar.
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-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>A Pata da Gazella:</span>, by José Martiniano de Alencar</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
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-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
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-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>A Pata da Gazella:</span></p>
-<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>romance brasileiro.</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: José Martiniano de Alencar</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: April 14, 2022 [eBook #67831]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by the Biblioteca Brasiliana USP Digital)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A PATA DA GAZELLA:</span> ***</div>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/gazella_cover.jpg" width="500" alt="" />
-</div>
-
-
-<h2>SENIO</h2>
-
-<p><br /></p>
-
-<h1>A PATA DA GAZELLA</h1>
-
-<p><br /></p>
-
-<h3>ROMANCE BRASILEIRO</h3>
-
-<p><br /></p>
-
-<h4>RIO DE JANEIRO</h4>
-
-<h5>EDITOR PROPRIETARIO</h5>
-
-<h5>B. L. Garnier.&mdash;Rua do Ouvidor n. 6</h5>
-
-<h5>1870</h5>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>INDICE</h4>
-<p class="nind">
-CAPITULO <a href="#I">I</a><br />
-CAPITULO <a href="#II">II</a><br />
-CAPITULO <a href="#III">III</a><br />
-CAPITULO <a href="#IV">IV</a><br />
-CAPITULO <a href="#V">V</a><br />
-CAPITULO <a href="#VI">VI</a><br />
-CAPITULO <a href="#VII">VII</a><br />
-CAPITULO <a href="#VIII">VIII</a><br />
-CAPITULO <a href="#IX">IX</a><br />
-CAPITULO <a href="#X">X</a><br />
-CAPITULO <a href="#XI">XI</a><br />
-CAPITULO <a href="#XII">XII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XIII">XIII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XIV">XIV</a><br />
-CAPITULO <a href="#XV">XV</a><br />
-CAPITULO <a href="#XVI">XVI</a><br />
-CAPITULO <a href="#XVII">XVII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XVIII">XVIII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XIX">XIX</a></p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="I">I</a></h4>
-
-<p>
-Estava parada na rua da Quitanda, proximo a da Assembléa, uma linda
-victoria, puxada por soberbos cavallos do cabo.
-</p>
-<p>
-Dentro do carro havia duas moças; uma dellas, alta e esbelta, tinha uma
-presença encantadora; a outra, de pequena estatura, muito delicada de
-talhe, era talvez mais linda que sua companheira.
-</p>
-<p>
-Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a respeito das
-compras que já tinham realizado ou das que ainda pretendiam fazer.
-</p>
-<p>
-&mdash;Daqui aonde vamos? perguntou a mais baixa, vestida de roixo claro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ao escriptorio de papai: talvez elle queira vir comnosco. Na volta
-passaremos pela rua do Ouvidor: respondeu a mais esbelta, cujo talhe era
-desenhado por um roupão cinzento.
-</p>
-<p>
-O vestido roixo debruçou-se de modo a olhar para fóra, no sentido
-contrario aquelle em que seguia o carro, emquanto o roupão,
-recostando-se nas almofadas, consultava uma carteirinha de lembranças,
-onde naturalmente escrevêra a nota de suas encommendas.
-</p>
-<p>
-&mdash;O lacaio ficou-se de uma vez! disse o vestido roixo com um movimento
-de impaciencia.
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade! respondeu distrahidamente a companheira.
-</p>
-<p>
-Estas palavras confirmavam o que aliás indicava o simples aspecto da
-carruagem: as senhoras estavam á espera do lacaio, mandado a algum
-ponto proximo. A impaciencia da moça de vestido roixo era partilhada
-pelos fogosos cavallos, que difficilmente conseguia soffrear um cocheiro
-agalloado.
-</p>
-<p>
-Depois de alguns momentos de espera, sobresaltou-se o roupão cinzento,
-e conchegando-se mais ás almofadas, como para occultar-se no fundo da
-carruagem, murmurou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Laura!... Laura!...
-</p>
-<p>
-E como sua amiga não a ouvisse, puxou-lhe pela manga.
-</p>
-<p>
-&mdash;O que é, Amelia?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não vês? Aquelle moço que está ali defronte nos olhando.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que tem isto? disse Laura sorrindo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não gósto! replicou Amelia com um movimento de contrariedade. A
-quanto tempo está ali e sem tirar os olhos de mim?
-</p>
-<p>
-&mdash;Volta-lhe as costas!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos para diante.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como quizeres.
-</p>
-<p>
-Avisado o cocheiro, avançou alguns passos, de modo á tirar ao curioso
-a vista do interior do carro; mas o mancebo não desanimou por isso, e
-passando de uma a outra porta, tomou posição conveniente para
-contemplar a moça com uma admiração franca e apaixonada.
-</p>
-<p>
-Simples no trajo, e pouco favorecido a respeito de belleza; os dotes
-naturaes que excitavam nesse moço alguma attenção eram uma vasta
-fronte meditativa, e os grandes olhos, pardos, cheios do brilho profundo
-e phosphorescente que naquelle momento derramavam pelo semblante de
-Amelia.
-</p>
-<p>
-Havia minutos que percorrendo a rua da Quitanda em sentido opposto á
-direcção do carro, avistára a moça recostada nas almofadas, e
-sentira a seu aspecto viva impressão. Sem disfarce ou acanhamento,
-recostando-se a ombreira de uma porta de escriptorio, esqueceu-se
-naquella ardente contemplação.
-</p>
-<p>
-O coração é um solo. Valle onde brotam as paixões, como os outros
-valles da natureza inanimada, elle tem suas estações, suas quadras de
-aridez ou de seiva, de estirilidade ou de abundancia.
-</p>
-<p>
-Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol, produzem na
-terra uma fermentação, que fórma o humus; a semente, cahindo ahi,
-brota com rapidez. Depois das grandes dôres e das lagrimas torrenciaes,
-fórma-se tambem no coração do homem um humus poderoso, uma
-exhuberancia de sentimento que precisa de expandir-se. Então um olhar,
-um sorriso, que ahi penetre, é semente de paixão, e pulula com vigôr
-extremo.
-</p>
-<p>
-O moço parecia estar nessas condições: elle trajava lucto pesado,
-não sómente nas roupas negras, como na côr macilenta das faces nuas,
-e na magoa que lhe escurecia a fronte.
-</p>
-<p>
-Notando Amelia a insistencia do mancebo, ficou vivamente contrariada.
-Aquelle olhar profundo, que parecia despedir os fogos surdos de uma
-labareda occulta, incutia nella um desassocego intimo. Agitava-se
-impaciente, como uma creatura no meio de um somno inquieto ou mesmo de
-um ligeiro pesadello.
-</p>
-<p>
-Até que abriu o chapeosinho de sol, para interceptar a contemplação
-apaixonada de que era objecto. Nesta occasião, Laura, que
-frequentemente se debruçava para vêr quando vinha o lacaio, retrahiu o
-corpo com vivacidade:
-</p>
-<p>
-&mdash;Emfim; ahi vem!
-</p>
-<p>
-&mdash;Felizmente! disse Amelia.
-</p>
-<p>
-O lacaio aproximava-se á passos medidos; trazia na mão um embrulho de
-papel azul, que o atrito dos dedos e a oscillação dos objectos
-envoltos desfizera, obrigando o portador a apertal-o de vez em quando.
-</p>
-<p>
-Julgando ao cabo de alguns instantes que o lacaio já tocava o estribo
-da carruagem, Amelia, tomando um tom imperativo, disse para o cocheiro:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos! vamos!
-</p>
-<p>
-Ao aceno que lhe fez o cocheiro, o lacaio correu, chegando a tempo de
-apanhar o carro, que partia ao trote largo da fogosa parelha. Deitar o
-embrulho na caixa da victoria, rodear em dois saltos e galgar o estribo
-da almofada, foi para o creado, habituado a essa manobra, negocio de um
-instante. Não percebera elle, porém, que abrindo-se o papel com a
-corrida, um dos objectos nelle contidos escorregára e justamente na
-occasião de deitar o embrulho na caixa do carro, cahira na calçada.
-</p>
-<p>
-Laura, que se inclinara com vivo interesse para tomar o embrulho das
-mãos do lacaio, tivera um presentimento do accidente, ao ver o papel
-desenrolado. Fechando-o rapidamente e escondendo por baixo do assento da
-victoria, ella debruçou-se ainda uma vez para verificar si com effeito
-alguma cousa havia cahido. Ao mesmo tempo acompanhava o movimento com
-estas palavras de contrariedade:
-</p>
-<p>
-&mdash;Como elle manda isto? Por mais que se lhe recommende!
-</p>
-<p>
-Laura nada viu, porque já a victoria rodava ligeiramente sobre os
-parallelepipedos.
-</p>
-<p>
-Nesse momento, porém, dobrando a rua da Assembléa, se aproximára um
-moço elegante não só no trajo do melhor gosto, como na graça de sua
-pessoa: era sem duvida um dos principes da moda, um dos leões da rua do
-Ouvidor; mas desse podemos assegurar pelo seu parecer distincto, que
-não tinha usurpado o titulo.
-</p>
-<p>
-O mancebo viu casualmente o lacaio quando passára por elle correndo, e
-percebeu que um objecto cahira do embrulho. Naturalmente não se
-dignaria abaixar para apanhal-o, nem mesmo deitar-lhe um olhar; si não
-visse apparecer ao lado da victoria o rosto de uma senhora, que o
-aspecto da carruagem indicava pertencer á melhor sociedade.
-</p>
-<p>
-Então, apressou-se, para ter occasião de fazer uma fineza, e pretexto
-de conhecer a senhora, que lhe parecêra bonita. Os leões são
-apaixonadissimos de taes encontros; acham-lhes um sainete que destroe a
-monotonia das relações habituaes.
-</p>
-<p>
-Quando o moço ergueu-se com o objecto na mão, já o carro dobrava a
-rua Sete de Setembro. Ficou elle um momento indeciso, olhando em tôrno,
-como si esperasse alguma informação á respeito da pessoa á quem
-pertencia o carro. Sem duvida a senhora era conhecida em alguma loja de
-fazendas; talvez tivesse ahi feito compras.
-</p>
-<p>
-Não obtendo, porém, informações, nem colhendo resultado da pergunta
-que fizera a um caixeiro proximo, resolveu-se á metter o objecto no
-bolso e seguir seu caminho.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="II">II</a></h4>
-
-<p>
-Horacio de Almeida, o nosso leão, voltou á casa á hora do costume,
-quatro da tarde.
-</p>
-<p>
-Os successivos encontros da rua do Ouvidor; a conversa no Bernardo; a
-visita indispensavel ao alfaiate; as anecdotas do Alcasar na noite
-antecedente; a chronica anacreontica do Rio de Janeiro, chistosamente
-commentada; algumas rajadas de maledicencia, que é a pimenta social;
-todas essas occupações importantes, que absorvem a vida do leão,
-distrahiram Horacio, a ponto de se esquecer elle do objecto guardado no
-bolso do paletot.
-</p>
-<p>
-Como admittir que um principe da moda não aproveitasse a aventura do
-carro, para sobre ella bordar um romance de rua, com que excitasse a
-curiosidade dos amigos? Realmente é admiravel; e seria incomprehensivel
-si não fosse a circumstancia de ter poucos passos adiante encontrado
-uma das mais ricas herdeiras do Brasil, a quem o nosso leão
-arrastava.... Ia dizer a <i>aza</i>, mas isso seria anachronismo; dizia-se
-no tempo em que os leões se chamavam gallos: hoje deve dizer-se <i>arrastar
-a juba</i>; é mais bonito e indica mais submissão. Arrastar a aza é
-enfunar-se; arrastar a juba é prostrar-se.
-</p>
-<p>
-Foi só quando recostado em sua ottomana, descansava para o jantar, que
-Horacio, procurando a carteira de charutos no bolso do fraque,
-lembrou-se do objecto. Teve então curiosidade de examinal-o; sabia o
-que era; na occasião de apanhal-o reconhecêra o pé de uma botina de
-senhora; mas não fizera grande reparo.
-</p>
-<p>
-Agora, porém, que de novo o tinha diante dos olhos, á sós em seu
-aposento, e despreoccupado da idéa de o restituir, Horacio achou o
-objecto digno de séria attenção; e aproximando-se da janella começou
-um exame consciencioso.
-</p>
-<p>
-Era uma botina, já o sabemos; mas que botina! Um primor de pellica e
-sêda, a concha mimosa de uma perola, a faceira irmã do lindo chapim de
-ouro da borralheira; em uma palavra a botina desabrochada em flôr, sob
-a inspiração de algum artista ignoto, de algum poeta de ceiró e
-torquez.
-</p>
-<p>
-Não era, porém, a perfeição da obra, nem mesmo a excessiva
-delicadeza da fôrma, o que seduzia o nosso leão; eram sobretudo os
-debuxos suaves, as ondulações voluptuosas que tinham deixado na
-pellica os contornos do pesinho desconhecido. A botina fora servida, e
-muitas vezes; embora estivesse ainda bem conservada, o desmaio de sua
-primitiva côr bronzeada e o esfrolamento da sola indicavam bastante
-uso.
-</p>
-<p>
-Si fosse um calçado em folha, sahido da loja, não teria grande valor
-aos olhos do nosso leão, habituado não só a vêr, como a calçar, as
-obras primas de Milliès e Campàs. Talvez reparando muito naquella
-peça que tinha nas mãos, notasse maior elegancia no córte, e um apuro
-escrupuloso na execução; porém mais natural seria escapar-lhe essa
-minima circumstancia.
-</p>
-<p>
-Mas a botina achada já não era um artigo de loja, e sim o traste
-mimoso de alguma belleza; o gentil companheiro de uma moça formosa, de
-quem ainda guardava a impressão e o perfume. O rosto estufava mostrando
-o firme relevo do pesinho arqueado. Na solla se desenhava a curva
-graciosa da planta subtil, que só nas extremidades beijava o chão,
-como o silpho que frisa a superficie do lago com a ponta das azas.
-</p>
-<p>
-Ha um aroma, que só tem uma flôr na terra, o aroma da mulher bonita;
-fragancia voluptuosa que se exhala ao mesmo tempo do corpo e da alma;
-perfume inebriante que penetra no coração como o amor valatilisado. A
-botina estava impregnada desse aroma delicioso; o delicado tubo de seda,
-que se elevava como a corolla de um lirio, derramava, como a flôr,
-ondas suaves.
-</p>
-<p>
-O mancebo collocára longe de si o charuto para não desvanecer com o
-fumo os bafejos daquelle odôr suave. Não havia ahi o menor laivo de
-essencia artificial preparada pela arte do perfumista; era a pura
-exhalação de uma cutis assetinada, esse halito de saude que perspira
-através da fina e macia tez, como através das petalas de uma rosa.
-</p>
-<p>
-De repente uma idéa perpassou no espirito do moço, que o fez
-estremecer. Essa botina gracil, em que mal caberia sua mão
-aristocratica, essa botina mais mimosa do que sua luva de pellica, não
-podia ter um numero maior do que o de seus annos, <i>vinte nove</i>!
-</p>
-<p>
-&mdash;Será de uma menina! murmurou elle um tanto desconsolado.
-</p>
-<p>
-Examinou novamente a obra prima, voltou-a de todos os lados, apalpou
-docemente o salto e o bico, dobrou a orla da haste, sondou o interior da
-concha, que servira de regaço ao feiticeiro pesinho. Depois de alguns
-instantes deste exame profundo e minucioso, um sorriso expandiu o
-semblante de Horacio.
-</p>
-<p>
-&mdash;É de moça, é de mulher! murmurou elle. Aqui estão os signaes
-evidentes; não podem falhar. A fabula de Edipo é uma verdade eterna:
-no enigma da esphinge está realmente o mytho da vida. O homem é o
-animal que de manhã anda sobre quatro pés; ao meio dia sobre dois; a
-tarde sobre tres. Na infancia, a creatura, como a planta, conserva-se
-rasteira, brota, pulula, mas conchega-se mais ao solo de que recebe toda
-nutricção; as mãos servem-lhe de pés. Depois da juventude, na época
-da expansão, a creatura se lança para o espaço, exalta-se; é a
-arvore que hastea e procura as nuvens; a planta pede ao céo os orvalhos
-e a luz do sol; a alma pede a crença, a fé, a esperança, de que se
-geram as flôres, que nós chamamos paixões. Na velhice, o homem se
-inclina de novo para a terra, como o tronco carcomido; é o pó, que,
-depois de revoar no espaço, deposita-se outra vez no chão. Então o
-velho precisa do bordão; uma das mãos torna-se pé, e calça esse
-cothurno da mais triste das tragedias humanas, a decrepitude.
-</p>
-<p>
-Horacio observou de novo attentamente o objecto que tinha entre as
-mãos.
-</p>
-<p>
-&mdash;A menina de quinze annos já não é a corsa de quatro patas; não
-está mais na alvorada da vida, na puericia; tambem ainda não chegou ao
-meio dia do qual aproxima-se. Comtudo, seu andar conserva ainda aquella
-attracção para a terra; é pesado; calca o chão com força; tem o
-quer que seja de sacudido, que revella os impulsos da alma para
-desprender-se do pó e elevar-se; assemelha a singradura do batel, que
-ora se levanta, ora submerge-se. Si esta botina fosse de uma menina,
-aqui estariam impressos esses caracteres de sua idade. A sola, em vez de
-levemente triturada nas extremidades, estaria estragada; o salto
-cambado. É uma observação que todo o sapateiro confirmaria; o menino
-gasta o calçado pela sola, o homem pelo couro; a razão, o sapateiro a
-ignora, mas o philosopho a conhece: o menino é o insecto que rasteja, a
-larva; o homem é o insecto que vôa, o besouro; aquelle anda com o
-ventre, este com a aza.
-</p>
-<p>
-Horacio sorriu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Esta botina é de moça, e moça em todo o viço da juventude: a sola
-apenas rosçada junto á ponta, o salto quasi intacto, não estão
-descrevendo com a maior eloquencia a subtileza do passo ligeiro? Eu
-sinto, posso dizer eu vejo, esse andar gentil, que manifesta a deusa,
-como disse o poeta; a deusa, a Venus deste olympo em que vivemos, a
-mulher. Só quando toda a seiva se precipita para o coração, quando
-germinam os botões que mais tarde abrirão em flôr, só nesse momento
-de assumpção é que a mulher tem este andar sublime e augusto. É o
-andar do passarinho, que, rosçando a relva, sente o impulso das asas; é
-o andar do astro nascente, caminhando para a ascensão; é o andar do
-anjo, que, mesmo tocando a terra, parece prestes a fugir ao céo; é,
-finalmente, a elação d'alma que aspira de Deus os effluvios do amor,
-do amor unico ambiente do coração!
-</p>
-<p>
-Nisto o moço descobriu na fivella do laço da botina alguma cousa que
-lhe excitou vivo reparo; chegando-se á luz, viu as voltas de um fio,
-que prendeu entre as brancas unhas afiladas, verdadeiras garras de
-leão da moda. Com alguma paciencia retirou um longo cabello castanho, e
-muito crespo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Outra prova de que aliás não carecia! Este cabello é de mulher;
-não ha menina que o possa ter. Quatro palmos, além do que se partiu
-naturalmente! Bem se vê que é uma palmeira frondosa, e não um
-arbusto! Tem o cabello castanho e crespo, duas cousas lindas sem duvida,
-embora minha paixão seja a trança basta e lisa, negra como uma asa de
-côrvo. Esse negrume dá á mulher, o quer que seja de satanico; lembra
-que ella tambem gerou-se da terra; não é anjo sómente; não é
-sómente filha do céo. Eu não posso supportar a mulher-seraphim, que
-parece desdenhar do mundo onde vive, e do pó de que é feita.
-</p>
-<p>
-Horacio voltou a botina.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas seja embora castanha, ou mesmo loura, que é uma côr insipida de
-cabello! Que me importa isto? Tenho alguma cousa com seu cabello? O que
-amo nella é o pé; este pé sylpho, este pé anjo, que me fascina, que
-me arrebata, que me enlouquece?...
-</p>
-<p>
-Horacio, que até então se contentava com olhar e apalpar a botina,
-inclinou-se e beijou-a no rosto; mas timida e respeitosamente. Não era
-essa a imagem do pé seductor, que elle adorava como um idolo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas onde encontral-o? como reconhecêl-o? exclamou dolorosamente
-Horacio, sentindo a realidade da situação.
-</p>
-<p>
-Nenhum indicio que lhe revellasse o nome da mulher a quem pertencia essa
-gentil botina, ou lhe indicasse ao menos os traços de sua passagem. A
-lembrança vaga da libré de um lacaio era o unico vestigio que restava;
-mas com este dificilmente poderia descobrir o objecto de sua adoração.
-Ha tantos lacaios no Rio de Janeiro; e tantas librés que se confundem!
-Talvez nunca mais encontrasse aquelle que procurava; e encontrando, nem
-o reconhecesse.
-</p>
-<p>
-&mdash;Desgraçado! dizia o leão. Quasi nem o olhaste; mas, podias tu
-adivinhar, Horacio, que thesouro deixára cahir aquelle bruto?
-</p>
-<p>
-O mancebo inclinára ao peito a bella cabeça esmorecida; a ventura lhe
-tinha sorrido de longe, para escarnecer delle, o leão mais querido das
-bellezas fluminenses, o Atyla do Cassino, o Genserico da rua do Ouvidor.
-</p>
-<p>
-De repente ergueu-se d'um impeto:
-</p>
-<p>
-&mdash;Heide possuil-o!... exclamou elle com o tom com que Alexandre se
-prometteu o imperio da Asia.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="III">III</a></h4>
-
-<p>
-Ninguem imagina que bellos talentos sorve essa voragem do mundo, que
-chamam a vida elegante.
-</p>
-<p>
-São como as arvores luxuriantes que se vestem de linda folhagem, e
-consomem toda a seiva nessa gala esteril e ephemera. Nunca ellas dão
-fructo, nem siquer flôr.
-</p>
-<p>
-Horacio de Almeida era uma de tantas intelligencias, desperdiçadas no
-incessante bulicio da moda.
-</p>
-<p>
-Muitos poetas, dos que têm seu nome estampado em rosto de livro, não
-empregaram na fabrica de seus versos o atticismo, a inspiração e a
-graça com que o nosso leão torneava no baile um galanteio, ou aguçava
-um epigramma.
-</p>
-<p>
-Pintores são festejados, que não sabem o segredo dos toques delicados,
-e do supremo gôsto, que Horacio imprimia no laço de sua gravata, em
-suas maneiras distinctas, nos minimos accidentes de seu trajo apurado.
-</p>
-<p>
-E a phisiologia?
-</p>
-<p>
-Poucos homens conheciam como Horacio o coração da mulher; porque bem
-raros o teriam estudado com tanta assiduidade. O mais sabio professor
-ficaria estupefacto da lucidez admiravel, com que o leão costumava lêr
-nesse cahos da paixão, que a anatomia chamou coração de mulher.
-</p>
-<p>
-A razão é simples. O professor estudou no gabinete; consultou as obras
-dos mestres, colligiu observações alheias, e arranjou um systhema
-sobre o que não soffre regras; sobre a paixão cuja essencia é o
-imprevisto, o anomalo, o indefinivel.
-</p>
-<p>
-Ao contrario, Horacio tinha estudado na realidade da vida; devassára os
-refolhos do polypo; lhe sentira as pulsações; e fizera experiencias
-<i>in anima vilis</i>. Não fatigou sua memoria com a inutil bagagem dos
-termos technicos e das noções scientificas: lia os hierogliphos do
-amor com a linguagem garrida do homem a moda.
-</p>
-<p>
-A perspicacia do olhar, a profundeza da investigação e a certeza de
-observação, com que o nosso leão sondava o abysmo do coração, e
-rastreava no semblante da mulher os vagos symptomas de uma inclinação
-nascente, ou de uma affeição expirante; só os grandes medicos possuem
-tão altos dotes.
-</p>
-<p>
-Assim gastava Almeida a mocidade, desfolhando seu bello talento pelas
-sallas e pontos de reunião. As riquezas de sua elevada intelligencia, as
-ia elle esparzindo nas elegantes futilidades de um ocio tão laborioso,
-como é o <i>far niente</i> de um leão.
-</p>
-<p>
-Consumir o tempo não se apercebendo de sua passagem; livrar-se do fardo
-pesado das horas sem occupação; ha nada mais difficil para o homem que
-ignora o trabalho?
-</p>
-<p>
-Si o Almeida poupasse desse tempo tão esperdiçado alguns momentos no
-dia para dedical-os a um fim sério e util, á sciencia, á litteratura,
-á arte, que bellos triumphos não obteria sua rica imaginação servida
-por um espirito scintillante?
-</p>
-<p>
-Mas o nosso leão tinha á este respeito idéas excentricas.
-</p>
-<p>
-&mdash;A politica, dizia elle, quando não dá em especulação, passa a
-mistificação. A sciencia, si escapa de mania, torna-se uma gleba em
-que o sabio trabalha para o nescio. Litteratura e arte são plagios;
-quem póde fazer poesia e romance ao vivo, não se dá ao trabalho de
-reproduzil-os; nem contempla estatuas, quem lhes admira os modelos
-animados e palpitantes.
-</p>
-<p>
-Com taes paradoxos, Horacio não achava emprego mais digno para a
-intelligencia, do que a difficil sciencia de consumir gradualmente a
-vida, e atravessar sem fadiga e sem reflexão por este valle de
-lagrimas, em que todos peregrinamos.
-</p>
-<p>
-A mulher era para elle a obra suprema, o verbo da creação. Toda
-religião, como toda felicidade; toda sciencia, como toda poesia, Deus
-a tinha encarnado nesse mixto incomprehensivel do sublime e do torpe, do
-celeste e do satanico; amalgama de luz e cinzas; de lodo e nectar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Amar, é adorar a Deus na sua ara mais santa, a mulher. Amar é
-estudar a lei da creação em seu mais profundo mysterio, a mulher. Amar
-é admirar o bello em sua mais esplendida revelação; é fazer poemas e
-estatuas como nunca as realisou o genio humano.
-</p>
-<p>
-Mas o que sentia Horacio era apenas o culto da fórma, o fanatismo do
-prazer. O amor, o verdadeiro amor consiste na possessão mutua de duas
-almas; e essa, póde o homem illudir-se alguma vez, mas quando se
-realisa é indissoluvel.
-</p>
-<p>
-Nada separa duas almas gemeas que prende o vinculo de sua origem divina.
-</p>
-<p>
-O mancebo admirava na mulher a formosura unicamente: apenas artista,
-elle procurava um typo. Durante dez annos atravessára os sallões, como
-uma galeria de estatuas animadas e vivos paineis, parando um instante em
-face dessas obras primas da natureza.
-</p>
-<p>
-Vieram uns após outros todos os typos; a belleza ardente das regiões
-tepidas, ou suave gentileza da rosa dos Alpes: o moreno voluptuoso ou a
-alvura do jaspe; a fronte soberana e altiva ou o gesto gracioso e meigo;
-o talhe opulento e garboso ou as fórmas esbeltas e flexiveis.
-</p>
-<p>
-Seu gôsto foi-se apurando; e ao cabo de algum tempo tornou-se difficil.
-A belleza commum já não o satisfazia; era preciso a obra prima para
-excitar-lhe a attenção e commovel-o.
-</p>
-<p>
-Mas os sentidos se gastam; os mesmos primores da formosura cahiram na
-monotonia. Já o leão não sentia pela mais bella mulher aquelles
-enthusiasmos ardentes da primeira mocidade. Seu olhar era frio e severo
-como o de um critico.
-</p>
-<p>
-Então, começou o moço a amar, ou antes a admirar a mulher em detalhe.
-Sua alma embotada carecia de um sainete. Foi a principio uma boca
-bonita, cofre de perolas, de sorrisos, de beijos e harmonias. Veiu
-depois uma trança densa e negra, como a asa da procella que se
-inflamma. Uma cintura de sylphide, um collo de cisne, um requebro
-seductor, um signal da face, uma graça especial, um <i>não sei que</i>;
-tudo recebeu culto do nosso leão.
-</p>
-<p>
-Como um conviva, a quem as iguarias do banquete já não excitam, sua
-alma babujava na salla essas golosinas. Mas afinal embotou-se; e o
-prazer não foi para ella mais do que a vulgar satisfação de um
-habito.
-</p>
-<p>
-O moço cortejava as senhoras como uma occupação indispensavel á sua
-vida, como o desempenho da tarefa diaria; mas sem a menor commoção.
-</p>
-<p>
-Amar era um entretenimento do espirito, como passeiar á cavallo,
-frequentar o theatro, jogar uma partida de bilhar.
-</p>
-<p>
-O amor já não tinha novidades nem segredos para elle, que o gozára em
-todas as fórmas; na comedia e no drama; no idilio e na ode. Como
-Richelieu, diziam até que elle já o havia calcado com o tacão da
-bota.
-</p>
-<p>
-Nestas circumstancias bem se comprehende a impressão profunda que nelle
-produzia a mimosa botina, achada naquella manhã.
-</p>
-<p>
-Almeida tinha admirado a mulher em todos os typos e em todos os seus
-encantos; mas nunca a tinha amado sob a fórma seductora de um pésinho
-faceiro. Era realmente para sorprender. Como lhe passára desapercebido
-esse condão magico da mulher, á elle que julgava ter esgotado todas as
-emoções do amor?
-</p>
-<p>
-Succedeu, como era natural, que uma vez percutidas as energias dessa
-alma ennervada por longa apathia, a reacção foi violenta. Inflammou-se
-a imaginação e especialmente com o toque do mysterio que trazia a
-aventura. Si o dono da botina, o sonhado pésinho, se mostrasse desde
-logo, não produziria o mesmo effeito; não teria o sabor do
-<i>desconhecido</i>, que é irmão do prohibido.
-</p>
-<p>
-Imagine, quem conhecer o coração humano, a vehemencia dessa paixão,
-excitada pelo tédio do passado, e alimentada por uma imaginação
-ociosa. De que loucuras não é capaz o homem que se torna ludibrio de
-sua fantazia?
-</p>
-<p>
-As extravagancias de Horacio, contemplando a botina, verdadeiras
-infantilidades de homem feito, bem revelavam a agitação dessa
-existencia, embotada para o verdadeiro amor, e gasta pelo prazer.
-</p>
-<p>
-Não se riam, homens serios e graves, não zombem de semelhantes
-extravagancias; são ellas o delirio da febre do materialismo que ataca
-o seculo.
-</p>
-<p>
-Essa paixão de Horacio, o que é sinão uma aberração da alma,
-consagrada ao culto da materia? A voracidade insaciavel do desejo vai
-criando dessas monstruosidades incomprehensiveis.
-</p>
-<p>
-Succede á esta embriaguez do amor o mesmo que á embriaguez do alcool.
-A principio basta-lhe o vinho fino e aristocratico; depois carece da
-aguardente; e por fim já não a satisfaz a infusão de gengibre em
-rhum; isto é, a lava de um volcão preparada á guisa de grogue.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="IV">IV</a></h4>
-
-<p>
-Ao mesmo tempo que o nosso leão, entrava Leopoldo de Castro na modesta
-habitação que então occupava na Gloria.
-</p>
-<p>
-Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e
-com os olhos o carro que levava sua alma presa áquelle rosto
-encantador. O passo era rapido e o olhar ardente; um anciava por chegar;
-o outro quizera attrahir pela força da paixão, pelo iman das centelhas
-magneticas, que desferia a alma.
-</p>
-<p>
-Fosse illusão dos sentidos perturbados pela commoção interior, ou
-breve e confusa percepção da realidade, julgou o moço vêr, no
-momento de dobrar o carro pela rua Sete de Setembro, um talhe esbelto
-inclinar-se para a frente, e apparecer de relance um rosto alvo, donde
-escapou-se vivo e rapido olhar.
-</p>
-<p>
-Leopoldo não tinha o intento de alcançar, nem mesmo seguir, o carro
-que fugia com velocidade; mas embalava-o a esperança de que um
-obstaculo qualquer, impedindo por instantes o livre transito, lhe
-permittisse outra vez contemplar a moça. Quando, porém, isso não
-succedesse, consolava-o a idéa de conhecer a direcção que tomaria a
-linda victoria:
-</p>
-<p>
-&mdash;Si eu soubesse ao menos para que lado mora ella!... Esse ponto seria
-o meu horizonte, o meu céo. Me voltaria para ali quando adorasse á
-Deus, e quando conversasse com ella. Amaria as estrellas, as nuvens e
-até as borrascas dessa banda do firmamento; amaria as ruas, as
-calçadas e até a poeira desse arrabalde da cidade.
-</p>
-<p>
-O mancebo vagou assim durante duas horas, percorrendo as ruas sem
-destino. Não era tanto a esperança de vêr a moça ou sómente o
-carro, como a necessidade de occupar seu espirito, o que o impellia
-nessa perseguição de uma sombra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu tornarei a vel-a, pensava elle comsigo; e ella me ha de amar,
-tenho convicção. O amor é um magnetismo; eu acredito que o magnetismo se
-resume nelle; que a lei da attracção não é sinão a lei da
-sympathia; os polos são a cabeça e o coração, na terra, como no
-homem. Si ella fôr a mesma que eu vi com os olhos de minha alma, a
-mesma que se revellou á minha paixão, aquella a que devo unir-me
-eternamente para formar um ser mais perfeito, eu caminharei para ella,
-como ella para mim, impellidos por uma força mysteriosa, por mutua
-aspiração.
-</p>
-<p>
-Com o animo repousado por essa convicção que nelle se derramára,
-entrou Leopoldo em casa. Ahi o esperava o isolamento em que se ia
-escôando sua vida, depois da perda de uma irmã á quem adorava.
-</p>
-<p>
-Nessa irmã tinha elle resumido todas as affeições da familia,
-prematuramente arrebatadas á sua ternura; o amor filial, que não
-tivera tempo de expandir-se, a amisade de um irmão, seu companheiro de
-infancia, todos esses sentimentos cortados em flôr, elle os
-transportára para aquelle ente querido, que era a imagem de sua mãi.
-</p>
-<p>
-Essa perda deixára um vacuo immenso no coração de Leopoldo; a
-principio enchera-o a dôr; depois a saudade; agora essa mesma terna
-saudade sentia-se desamparada na profunda solidão daquelle coração
-ermo. O mancebo carecia de uma affeição para povoar esse deserto de
-sua alma; de uma voz que repercutisse nesse lugubre silencio. É tão
-doce partilhar sua melancholia, ou seu prazer, com um outro eu, com um
-amigo ou uma esposa. São dous hombros para a cruz, e dous peitos para a
-alegria; alliviar-se o peso, mas duplica-se o gozo.
-</p>
-<p>
-Ao cahir da tarde, quando o crepusculo já desdobrava sobre a cidade o
-véo de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado á janella de peitoril de sua
-casa, fumava um charuto, com os olhos engolphados no azul diaphano do
-céo, onde scintillava a primeira estrella. A seus pés desdobrava-se a
-bahia placida e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de
-montanhas, caprichosamente recortadas.
-</p>
-<p>
-O espirito do moço não se embebia de certo na perspectiva dessa
-encantadora natureza, sempre admirada, e sempre nova. Ao contrario
-abandonava-se todo ás recordações de seu encontro pela manhã e aos
-enlevos que lhe deixara a contemplação da linda moça. Passava e
-repassava em sua memoria como em um cadinho, todas as circumstancias
-minimas deste grande e importante acontecimento, desde o momento em que
-assomou a visão até que desappareceu por ultimo ao dobrar o canto da
-rua.
-</p>
-<p>
-Achava nisso o mesmo praser que um menino guloso experimenta em chupar
-novamente os favos já saboreados; lá ficou um raio de mel, que o labio
-avido colhe. Para Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os
-movimentos, os sorrisos da moça, avivados pela maior contensão do
-espirito.
-</p>
-<p>
-Houve uma occasião em que o mancebo quiz representar em sua lembrança
-a imagem da moça: naturalmente começou interrogando sua memoria á
-respeito dos traços principaes. Como era ella? Alta ou baixa, torneada
-ou esbelta, loura ou morena? Que côr tinhão seus olhos?
-</p>
-<p>
-A nenhuma dessas interrogações satisfez a memoria; porque não
-recebêra a impressão particular de cada um dos traços da moça. Não
-obstante, a apparição encantadora resurgia dentro de sua alma; elle a
-revia tal como se desenhára a seus olhos algumas horas antes. Era a
-imagem diaphana de um sonho que tomara vulto gracioso de mulher.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não me lembro de seus traços, não posso lembrar-me!... murmurava no
-intimo. Eu a contemplei, como se contempla uma luz brilhante: ve-se a
-chamma, o esplendor; e nem se repara no espectro que a flamma envolve
-como uma roupagem. Ella é minha luz; não sei a côr e a fórma que
-tem, mas sei que scintilla, que me deslumbra; que innunda meu ser de uma
-aurora celeste. Não poderia descreve-la, como um poeta... Mas que
-importa? Pois que eu a sinto em mim; pois que eu a possuo em meu
-coração?
-</p>
-<p>
-As palpebras do mancebo cerrarão-se coando apenas uma restea de olhar,
-que se embebia nas alvas espiras da fumaça do charuto. Percebia-se que
-naquella nevoa se debuxava á sua imaginação a seductora imagem,
-deante da qual elle cahia em extases de uma doçura ineffavel.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem sabe? Talvez não seja ella o que nos bailes se chama uma moça
-bonita; talvez não tenha as feições lindas e o talhe elegante. Mas eu
-a amo!... O amor é sol do coração; imprime-lhe o brilho e o matiz!
-Venus, a deosa da formosura, surgindo da espuma das ondas, não é outra
-cousa senão o mytho da mulher amada, surgindo d'entre as puras
-illusões do coração! O que eu admiro nella, o que me enleva, é sua
-belleza celeste; é o anjo que transparece atravez do envolucro
-terrestre; é a alma pura e immaculada que se derrama de seus labios em
-sorrisos, e a envolve como a scintillação de uma estrella.
-</p>
-<p>
-Leopoldo já não estava só na existencia; tinha para acompanha-lo na
-esperança essa doce apparição; como para partilhar a saudade tinha a
-memoria querida de sua irmã. O coração aproximou as duas imagens;
-ligou-as por algum vinculo misterioso; e creou assim uma familia ideal,
-em cujo seio viveu para o futuro, como para o passado.
-</p>
-<p>
-Nas horas do trabalho, o moço absorvia-se completamente nas
-occupações habituaes e cerrava sua alma para não deixar que as
-miserias do mundo ahi penetrando profanassem o templo de sua adoração;
-o templo da esperança e da saudade. Fora dessas longas horas,
-encerrava-se naquelle asylo e ahi vivia.
-</p>
-<p>
-Alguns dias depois do encontro da rua da Quitanda, o Castro percorrendo
-distrahidamente os jornaes da manhã, deu com os olhos sobre os
-annuncios de espectaculo, cousa que desde muito tempo não existia para
-elle. Representava-se no theatro lyrico a <i>Lucia de Lamermoor</i>, o mais
-sublime poema de melancolia, que já se escreveu na lingua dos anjos.
-</p>
-<p>
-O mancebo teve um desejo irresistivel de ir aquella noite ao
-espectaculo, apezar de conservar ainda o luto pesado. Não comprehendia
-esse capricho de seu coração; attribuiu ao encanto das reminiscencias
-daquella musica tão triste, e tambem daquelle amor tão estremecido,
-que os homens quizeram romper, mas a fatalidade uniu para sempre no
-tumulo. Elle ia saturar-se de tristeza; não havia, portanto,
-profanação de uma dôr santa.
-</p>
-<p>
-Eram perto de dez horas: cantava-se o final do segundo acto da opera, e
-Leopoldo, sentado em uma cadeira, do lado direito, estava completamente
-absorvido no canto magistral de Lagrange e Mirate. Um momento, porém,
-ergueu os olhos, e volvendo-os lentamente, fitou-os em um camarote da
-segunda ordem. Estremeceu; o olhar morno e baço que se escapava de sua
-pupilla illuminou-se de fogos sombrios e ardentes.
-</p>
-<p>
-Vira a mulher amada.
-</p>
-<p>
-Amelia estava nessa noite em uma de suas horas de inspiração; a mulher
-bella tem, como o homem de intelligencia, em certos momentos,
-influições energicas de poesia; nessas occasiões ambos irradiam; a
-mulher fica esplendida, o homem sublime.
-</p>
-<p>
-O talhe esbelto da moça desenhava-se através da nivea transparencia de
-um lindo vestido de tarlatana com laivos escarlates. Coroava-lhe a
-fronte o diadema de suas bellas tranças, donde resvalavam dois cachos
-soberbos, que brincavam sobre o collo. Os cabelleireiros chamam esses
-cachos de arrependimentos, <i>repentirs</i>. Por que motivo? A alma que se
-arrepende convolve-se daquella fórma; o pezar a confrange. Já se vê
-que os cabelleireiros tambem são poetas.
-</p>
-<p>
-Não foi, porém, o suave perfil da moça, nem os contornos macios de
-suas fórmas gentis, o que arrebatou o espirito do mancebo. Elle só viu
-a luz, o brilho d'alma, rarejando do sorriso. Contemplava a rosa,
-embebia-se nella, sem contar-lhe as petalas.
-</p>
-<p>
-Amelia, que apoiava o lindo braço sobre a almofada de velludo da
-ballaustrada, prestava attenção á scena, recolhendo ás vezes a vista
-para discorrel-a vagamente pelos camarotes fronteiros. Depois que o
-panno cahiu, conservou-se na mesma posição, conversando com sua mãi
-e Laura que ali estava de visita. Então voltou rapidamente o rosto, e
-deixou cahir sobre a platéa um olhar subito e vivo. Foi uma centelha
-electrica, listrando no espaço, para logo apagar-se.
-</p>
-<p>
-Revelou-se no semblante da moça alguma inquietação e visivel
-incommodo. Quiz disfarçar, mas afinal ergueu-se, para occultar-se no
-interior do camarote, por detrás de Laura, a qual occupava o outro
-logar da frente.
-</p>
-<p>
-O olhar que deitára á platéa encontrou o olhar profundo e ardente de
-Leopoldo; e batendo de encontro a esse raio brilhante, reagiu como
-estylete para feril-a no coração.
-</p>
-<p>
-Leopoldo notou vagamente esse movimento; mas como entre a columna e o
-busto de Laura elle via a sombra da mulher a quem amava, não se
-interrompeu seu enlevo. De vez emquando passava-lhe pelo rosto um
-lampejo subtil, no qual presentia o olhar furtivo da moça.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="V">V</a></h4>
-
-<p>
-Estava a subir o panno.
-</p>
-<p>
-Amelia resolvêra ficar onde estava, e não tomar o logar da frente,
-apezar de Laura ter voltado a seu camarote. Mas essa resolução, tão
-solidamente calcada em seu coração, cahiu de repente: bastou um olhar.
-Vira na platéa, encostado á balaustrada da orchestra, um elegante
-cavalheiro.
-</p>
-<p>
-Era Horacio.
-</p>
-<p>
-O sorriso brando que manava dos labios da moça, como a onda pura e
-christalina de um ribeiro, desappareceu então sob outro sorriso mais
-brilhante, que borbulhava como a frol da cascata. Era o sorriso da
-vaidade, como o outro era da innocencia.
-</p>
-<p>
-A moça collocou-se na frente, fazendo realçar com a graça de seus
-movimentos a suprema elegancia do talhe. Demorou-se mais do que era
-preciso nesse acto; e sentando-se, houve em seu corpo um impulso quasi
-imperceptivel de mysteriosa expansão. Dir-se-hia que ella se queria
-debuxar no quadro illuminado do camarote.
-</p>
-<p>
-A causa desse elance não o adivinham? O leão tinha assestado seu
-binoculo de marfim; e a moça com um irresistivel assomo de faceirice
-abandonava-se ao olhar do mancebo.
-</p>
-<p>
-Durante o acto, Amelia distrahiu mais a attenção do semblante pallido
-de Leopoldo. Enleiava os olhos na figura elegante de Horacio; prendia-se
-ao fino buço negro que sombreava o labio desdenhoso do leão;
-embebia-se toda na graça de sua attitude: tentando assim resistir a
-curiosidade incommoda que attrahia sua attenção para o importuno
-desconhecido.
-</p>
-<p>
-Não sei porque, Leopoldo, cuja adoração era infatigavel como a
-emanação de uma chamma perenne, sentia naquella occasião a
-necessidade de dar um repouso a sua contemplação. Então como si a luz
-que o deslumbrava se fosse tornando mais doce, elle pôde vêr
-destacar-se o perfil gracioso da moça.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tem o cabello castanho! É pena! Acreditava que a mulher a quem
-amasse algum dia, havia de ser loura. É a côr do reflexo da luz, deve ser
-a côr desse véo casto que Deus fez para o pudôr. A madeixa foi dada á
-mulher para recatar a face que enrubece e o seio que palpita; essa gaza
-preciosa deve ser de ouro, ou antes de graça e esplendor.
-</p>
-<p>
-O moço já não olhava para Amelia; com as palpebras cerradas estava
-agora vendo-a na penumbra d'alma.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas para mim é indifferente que tenha o cabello castanho; podia
-têl-o negro como a treva. Eu a amo, amo sua alma, sua essencia pura e
-immaculada! Si Deus me enviou um anjo para consolar-me em minha
-afflicção; para amparar-me em meu isolamento; para encher de
-ineffaveis jubilos meu ser saturado de amarguras; posso eu queixar-me
-porque o Senhor o vestiu de uma simples tunica de lã, e não de um
-sumptuoso manto de ouro? Eu gostava dos cabellos louros: pois agora só
-gosto, só quero, só vejo uns cabellos castanhos, porque pertencem a
-ella, s'impregnam de seu perfume, e respiram seu halito!
-</p>
-<p>
-Terminára o acto. Leopoldo, contemplando a moça, pela primeira vez
-lembrou-se de saber quem era, na sociedade, aquella mulher que lhe
-pertencia pelo pensamento. Tinha-se habituado a consideral-a como uma
-cousa sua; parecia-lhe que ninguem mais existia sinão elles dois.
-</p>
-<p>
-Volveu os olhos em busca de algum conhecido, a quem dirigisse a
-pergunta. Não encontrou: mas ao cabo de alguns instantes descobriu o
-leão em seu posto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! lá está Horacio, que póde me informar. Elle conhece todo o
-mundo! Justamente agora pôz o binoculo para o camarote.
-</p>
-<p>
-Como desejava sahir, dirigiu-se para aquelle lado; mas o leão, inquieto
-e preoccupado, sahira açodadamente, e subia de um pulo as escadas que
-o separavam da segunda ordem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aquella mão é irmã do meu adorado pesinho! Não tem a graça delle,
-sem duvida, nem se compara com aquelle mimo de amor; mas ha um certo ar
-de familia, um quer que seja!...
-</p>
-<p>
-Assim cogitando, Horacio chegára á porta de um camarote, e pela fresta
-fitára com disfarce o olhar em Laura, cuja mão, excessivamente
-pequena, e calçada por uma luva muito justa, custava a segurar o
-binoculo de madreperola.
-</p>
-<p>
-O moço, apenas reconheceu o vestido de seda violeta, e a mãosinha que
-lhe servira de phanal, abaixou o olhar para a fimbria do vestido a vêr
-si descobria alguma cousa, o peito, a ponta, a sombra, ao menos, do
-pesinho mimoso, do idolo de sua alma. Mas não foi possivel: o vestido
-arrastava no chão; nenhum movimento fazia ondular a seda; e comtudo o
-mancebo ali ficou immovel, palpitante de emoção, como si esperasse dos
-labios da mulher amada o monosyllabo que devia dicidir de seu destino.
-</p>
-<p>
-A paixão que o mancebo concebêra pela dona incognita da botina achada,
-longe de se desvanecer, adquirira uma vehemencia extrema. Horacio, o
-feliz conquistador, o coração fogoso e inflammavel, nunca ardêra por
-mulher alguma, como agora ardia por aquelle pesinho idolatrado. Era um
-verdadeiro amor de leão, terrivel e indomito; era um delirio; uma
-raiva.
-</p>
-<p>
-Seus amigos já não o reconheciam; elle apparecia nos bailes, nos
-theatros, nos pontos de reunião, de relance, como um meteoro, seguindo
-após uma idéa fixa, ou uma sombra que fugia diante de seus passos.
-Conversou-se muito na rua do Ouvidor á este respeito. Uns attribuiam o
-facto inaudito á primeira derrota.
-</p>
-<p>
-&mdash;Horacio, dizia um de seus amigos, como Napoleão, só devia ser
-derrotado uma vez. Mas essa vez foi Waterloo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Que pensa então?
-</p>
-<p>
-&mdash;Que o pobre rapaz caminha para o seu rochedo de Santa Helena. Ou
-casa ahi com alguma mulher feia e rica, ou engorda como um cevado.
-</p>
-<p>
-Outros lembravam-se de algum desarranjo de fortuna, ou de alguma
-velleidade politica, para explicar o mysterio. Mas sabia-se que o moço
-tinha bom e seguro rendimento; e quanto á politica, elle a comparava a
-uma embriaguez causada pela mais ordinaria zurrapa de taberna.
-</p>
-<p>
-Muitas vezes disse, gracejando, a seus amigos:
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando me quizer embriagar, em vez de zurrapa, beberei champanhe. É
-mais fino, e tambem mais barato, porque não deixa uma irritação de
-estomago, cujo preço é muito superior ao de uma caixa de melhor
-<i>cliquot</i>.
-</p>
-<p>
-A causa real da mudança do leão ninguem, pois, a sabia, nem a
-suspeitava.
-</p>
-<p>
-Depois da achada da botina, sua vida tomara um aspecto muito differente.
-Naquella mesma tarde em que o deixamos na sua casa de Botafogo,
-terminado o jantar, mandou apromptar o tilbure e voltou á cidade. Seu
-apparecimento áquella hora na rua do Ouvidor causou extranheza; um
-leão de raça, como elle, não passeia ao escurecer, sobretudo no
-centro do commercio, onde só ficam os que trabalham. Seria misturar-se
-com os leopardos que aproveitam a ausencia dos reis da moda, para
-restolhar alguma caça retardada.
-</p>
-<p>
-Correu Horacio todas as lojas de calçado á procura de informações.
-Para disfarçar sua paixão, inventou uma aposta, como pretexto á sua
-curiosidade. A um freguez como elle não se recusava tão pequeno favor,
-sobretudo quando levava o sainete de uma anecdota de bom tom. A todos
-elles o leão se dirigia mais ou menos nestes termos:
-</p>
-<p>
-&mdash;Fiz uma aposta com uma senhora. Que em todo o Rio de Janeiro não se
-encontram tres moças de 18 annos que calcem n. 29. Tenho todo o empenho
-em ganhar a aposta, não tanto pelos botões de punho, como porque, si
-ella perder, ha de ser obrigada a mostrar-me seu pé, para eu verificar
-si é realmente desse tamanho. Peço-lhe, pois, que me dê uma nota das
-freguezas a quem costuma vender calçado deste numero.
-</p>
-<p>
-Nesta pesquiza gastou Horacio muitos dias, sem colher o menor resultado.
-Os poucos pares de calçado n. 29, vendidos pelas differentes lojas,
-eram destinados á meninas de doze annos ou a pessoas desconhecidas,
-cuja idade se ignorava. Apezar de tudo o leão não desanimava; todas as
-manhãs, ao acordar, levantava um plano de campanha, que punha em
-pratica durante o dia.
-</p>
-<p>
-Horacio sentira-se de repente tomado de indefinivel ternura por uma
-classe; de que antes só lembrava-se para amaldiçoal-a: a classe dos
-sapateiros. Quando via um sujeito de avental de couro e sovella, o leão
-sentia-se attrahido para aquelle individuo, que talvez encerrasse o
-segredo de sua felicidade, seu futuro, sua existencia. Outras vezes,
-porém, tinha de repente uns accessos de ciume selvagem. Lembrando-se
-que esse operario talvez já houvesse tomado medida ao adorado pésinho;
-que essas mãos calosas teriam tocado a cutis assetinada do anjo de seus
-pensamentos; o mancebo sentia em si o furor de Othello e procurava um
-punhal no seio; felizmente só achava a carteira, a adaga de ouro com
-que neste seculo se assassina mais cruelmente.
-</p>
-<p>
-Depois de consumir as horas em suas indagações, ia contemplar a
-botina, prenda querida de seu amor e proseguia á noite sua porfia
-incansavel. Corria os espectaculos e bailes, com o olhar rastejando para
-descobrir por baixo da orla do vestido, o ignoto deus de suas
-adorações. Não dansava para observar melhor o arregaçado dos
-vestidos; de ordinario andava pelas escadas e portas, afim de aproveitar
-o ensejo da subida e descida; muitas vezes ia fumar junto ao logar onde
-se collocavam os lacaios, na esperança de conhecer o portador da
-botina.
-</p>
-<p>
-Quando as rainhas da moda, as deusas do salão, sorprezas e attonitas o
-viam passar sem distinguil-as com uma palavra ou uma fineza, elle,
-atirando-lhes um olhar de compaixão, dizia comsigo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Coitadas! não sabem que o leão viu a pata da gazella e fareja-lhe o
-rastro. Que lhe importam as garras da panthera?...
-</p>
-<p>
-Recolhendo, Horacio accendia duas velas transparentes e collocava-as a
-um e outro lado da almofada de velludo escarlate, sobre uma mesinha de
-charão, embutido de madreperolas. Tirava de um elegante cofre de
-platina a mimosa botina, e com respeitosa delicadeza deitava-a sobre a
-almofada, de modo que se visse perfeitamente a graciosa fórma do pé
-que habitara aquelle ninho de amor.
-</p>
-<p>
-Então accendia o charuto, sentava-se n'uma cadeira de espreguiçar,
-defronte, porém, distante, para que o fumo não se empregnasse na
-botina, e ficava em muda e arrebatada contemplação até alta noite.
-</p>
-<p>
-Sobre aquella botina via elevar-se como sobre um pedestal, um vulto de
-estatua, mas vago, indistincto; e comtudo esse esboço sem fórmas
-seductoras, aquella sombra sem alma e sem calôr lhe parecia de uma
-belleza deslumbrante. Não era ella a mulher a que pertencia o mais
-formoso pé do mundo, o mimo, a obra prima da natureza?
-</p>
-<p>
-Recordava-se das mulheres mais bonitas que tinha visto, das mais lindas
-senhoras a quem amára com paixão, e sua memoria as trazia todas, uma
-após outra, para as collocar ao lado daquella figura vaga e
-desvanecida, que plainava sobre a almofada, como sobre uma nuvem de
-ouro. Como ellas fugiam abatidas e humilhadas diante de seu impetuoso
-desdêm!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não são dignas, murmurava elle, nem de beijarem o chão pisado pela
-fada desta botina!
-</p>
-<p>
-Eis qual tinha sido a vida de Horacio até o momento em que o vamos
-encontrar no mesmo logar defronte da porta entreaberta do camarote.
-Laura percebeu-o afinal, e sorriu-lhe com ternura. A attenção do rei
-da moda era uma fineza, um ar de seu real agrado; cumpria-lhe agradecer.
-</p>
-<p>
-Fitando com mais força o olhar na pupilla da moça como para travar-lhe
-da vontade, Horacio abaixou lentamente esse olhar até a fimbria do
-vestido de chamalote com uma insistencia significativa. Laura fez-se
-escarlate; e a porta do camarote, rapidamente fechada, a subtrahiu ás
-vistas ardentes do leão.
-</p>
-<p>
-&mdash;É ella! exclamou o coração do mancebo afogado em jubilo. Não ha
-duvida. Para sentir esse pudor exagerado e incomprehensivel é preciso
-ter ali occulto um pé como aquelle que eu sonhei. Um pé?... Não; um
-mimo, uma maravilha, um thesouro, um céo!... É o pudor da violeta, que
-se esconde na sombra; é o pudor da perola, occulta na concha; é o
-pudor do diamante, sumido no seio da terra; é o pudor da estrella,
-immergindo-se no azul.
-</p>
-<p>
-O leão desceu as escadas murmurando:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vêl-o e morrer.
-</p>
-<p>
-Pouco depois terminou o espectaculo. Amelia com um resaibo de
-melancholia na fronte, embuçou-se na pellissa e desceu. Ella perdêra
-de vista Horacio, e só o tornára a vêr parado em frente á porta do
-camarote de Laura. Desamparada pelo encanto do gentil mancebo, soffrêra
-todo o resto do espectaculo o desassocêgo que lhe incutia o olhar de
-Leopoldo. Por mais que voltasse o rosto sentia a phosphorecencia
-estranha desse olhar repulsivo, que entretanto a prendia, máo grado
-seu.
-</p>
-<p>
-Leopoldo esperava no corredor da entrada a passagem da moça, quando
-avistou a seu lado Horacio. O leão soffrego e impaciente, volvia o
-olhar em varias direcções; naturalmente procurava alguem, e receiava
-que lhe escapasse.
-</p>
-<p>
-&mdash;Adeus, Horacio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Boa noite, Leopoldo.
-</p>
-<p>
-Amelia appareceu nesse momento.
-</p>
-<p>
-&mdash;Conheces aquella moça, Horacio?
-</p>
-<p>
-Horacio tinha avistado Laura, que descia o lanço da escada opposta, e
-corrêra pressuroso, com os olhos fitos na fimbria de sêda. Seu olhar
-tinha tal força que parecia um croque a levantar a orla do vestido.
-Debalde; nem a sombra do pé: o encorpado estôfo arrastava pesadamente
-pelo chão.
-</p>
-<p>
-Chegou a moça á porta, onde o carro a esperava. Horacio teve um
-vislumbre de esperança; porém nova decepção o esperava. Não viu
-mais do que uma nuvem de sêdas ondular e sumir-se.
-</p>
-<p>
-O leão fez um movimento de desespero.
-</p>
-<p>
-&mdash;Senhor! porque em vez de homem, não me fizeste estribo de um carro!
-Teria a felicidade de ser pisado por aquelle pesinho.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="VI">VI</a></h4>
-
-<p>
-Seriam duas horas da tarde.
-</p>
-<p>
-Durante a manhã tinha cahido sobre a cidade uma forte neblina, que
-molhára as calçadas.
-</p>
-<p>
-Leopoldo dirigia-se á casa, pela rua dos Ourives. Naturalmente vinha
-pensando na desconhecida, que não vira desde a noite do theatro. Sua
-paixão era intensa e ardente; mas vivia de si mesma, nutria-se da
-propria seiva. Esperava com plena confiança na pureza de seu amor.
-</p>
-<p>
-Á pequena distancia do canto da rua do Ouvidor, viu elle de repente a
-moça que passava na companhia de outras pessoas. Amelia voltára o
-rosto. Seu olhar cruzou rapidamente com o olhar do mancebo. Ela
-estremeceu com o costumado calafrio, e acelerou o passo.
-</p>
-<p>
-Vendo-a sumir-se, encoberta pela esquina, o mancebo tambem se apressou
-para acompanhal-a; mas chegou tarde. A moça e as pessoas, que iam em
-sua companhia, acabavam de entrar em um carro: na elegante victoria que
-já conhecemos. Leopoldo apenas vira um pé, que na precipitação de
-subir, levantára demais a saia.
-</p>
-<p>
-Sem consciencia do que fazia, precipitou-se para a portinhola do carro.
-O lacaio que a fechava nesse momento, embargou-lhe o passo. Quando o
-carro partiu na direção de São Francisco de Paula, Amelia inclinou-se
-e lançou de esguelha um olhar vivo para a esquina.
-</p>
-<p>
-Leopoldo ficára na calçada immovel e extatico de sorpreza.
-</p>
-<p>
-O pé que seus olhos descobriram, era uma enormidade, um monstro, um
-aleijão. Ao tamanho descommunal para uma senhora, juntava a
-disformidade. Pesado, chato, sem arqueação e perfil, parecia mais uma
-base, uma prancha, um tronco, do que um pé humano e sobretudo o pé de
-uma moça.
-</p>
-<p>
-Os traços especiaes da beleza de Amelia não tinham deixado na memoria
-de Leopoldo a minima impressão, da primeira vez que a vira, apesar de
-contemplal-a demoradamente. Entretanto o defeito não lhe escapou,
-embora passasse de relance diante de seus olhos.
-</p>
-<p>
-Parece uma singularidade; mas não é. Ninguem conta as petalas da flôr
-que admira; ninguem repara na fórma especial de cada uma das partes de
-que se compõe um todo gracioso; porém a menor mácula se destaca
-immediatamente.
-</p>
-<p>
-É por isso que certos homens, não podendo distinguir-se entre a gente
-sisuda e honesta, fazem-se nodoas da sociedade; tornam-se vicios e
-torpezas. Assim adquirem a celebridade, que não obteriam com sua
-virtude ambigua e seu mesquinho talento.
-</p>
-<p>
-O Castro, que não admirara o matiz da rosa, notou a mácula e
-desgostou-se della. Elle sentia-se com forças para amar o feio e o
-desgracioso, mas não o disforme, o horrivel. Essa aberração da figura
-humana, embora em um ponto só, lhe parecia o symptoma, senão o
-effeito, de uma monstruosidade moral.
-</p>
-<p>
-Triste, acabrunhado por pensamentos acerbos, o moço continuou seu
-caminho pela rua dos Ourives em direcção á casa. Mal havia andado
-alguns passos, arrependeu-se; não queria levar á sua habitação esse
-primeiro transbordamento de um dissabor tão profundo; era melhor
-deixal-o escoar-se, antes de recolher á solidão habitual. Si tivesse
-alguma cousa a fazer! Qualquer occupação bem aborrecida e massante,
-que lhe servisse de antidoto ao desgosto intimo!
-</p>
-<p>
-Excogitou. Havia ali perto, na rua Sete de Setembro, uma pequena loja de
-sapateiro, ou antes uma tenda; porque além do balcão via-se apenas uma
-tosca vidraça, contendo a obra de tres officiaes que ahi trabalhavam.
-</p>
-<p>
-A loja pertencia a um mestre fluminense, que trabalhára por algum tempo
-na casa do Guilherme e do Campàs, e se iniciára portanto em todos os
-segredos da arte. Ninguem a exercia com mais habilidade, esmero e
-enthusiasmo do que elle; sua obra, quando queria, não tinha que invejar
-ao producto das melhores fabricas de Pariz, si não o excedia na
-elegancia e delicadeza.
-</p>
-<p>
-A razão cardeal de toda a superioridade humana é sem duvida a vontade.
-O poder nasce do querer. Sempre que o homem applique a vehemencia e
-perseverante energia de sua alma á um fim, elle vencerá os obstaculos,
-e si não attingir o alvo, fará pelo menos cousas admiraveis. Mas para
-que o homem se entregue assim á uma idéa e se captive á um
-pensamento, é necessario ser attrahido irresistivelmente, ser impellido
-pelo enthusiasmo.
-</p>
-<p>
-É o enthusiasmo que faz o poeta e o artista, o sabio e o guerreiro; é
-o enthusiasmo que faz o homem-idéa differente do homem-machina. A
-fabula de Prometheo não exprime sinão a allegoria desse fogo celeste
-d'alma, que anima as estatuas de Galathea, embora depois dilacere o
-coração como a aguia do rochedo. Uma faisca dessa electricidade moral,
-opera maravilhas iguaes á centelha do raio. O que é o telegrapho a par
-com a eloquencia?
-</p>
-<p>
-O Mattos tinha o enthusiasmo de sua arte; descobrira nella segredos e
-encantos desconhecidos aos mercenarios. Para elle o calçado era uma
-esculptura; copiava em seda e couro, assim como o cinzel copia em gesso
-e marmore. Os outros artistas da fórma reproduzem todo o vulto humano
-ou pelo menos o busto; elle só tinha um assumpto, o pé. Mas que
-importancia não tomava á seus olhos esta parte do corpo! Era preciso
-ouvil-o, em algum momento de arroubo, para fazer idéa de sua
-admiração por esse membro nobre da creatura racional.
-</p>
-<p>
-Depois de trabalhar muitos annos em casas francezas, o mestre fluminense
-resolveu estabelecer-se por sua conta. Alugou uma pequena loja de duas
-portas, onde trabalhava com dois officiaes. A necessidade de ganhar o
-pão o obrigava á tornar-se mercenario, fazendo obra de carregação
-para vender barato. Mas no meio dessa tarefa ingrata tinha elle suas
-delicias de artista. Meia duzia de freguezes, conhecedores da habilidade
-do sapateiro, preferiam seu calçado ao melhor de Pariz, e o pagavam
-generosamente. Essas raras encommendas, o Mattos as executava com
-enlevo; revia-se em sua obra, verdadeiro primor.
-</p>
-<p>
-Leopoldo não era um freguez da ultima classe; elle não conhecia a
-voluptuosidade de um calçado macio, antes luva do que sapato; seu pé
-não era um <i>enfant gaté</i>, um benjamim acostumado á essas delicias;
-desde a infancia o habituára á uma vida rude e austera entre a sola
-rija e o bezerro. Além de que seus haveres não chegavam para taes
-prodigalidades.
-</p>
-<p>
-O moço pertencia á classe dos freguezes da obra de carregação, e
-preferia a loja do Mattos, pela modicidade do preço, e boa qualidade do
-cabedal, como do trabalho.
-</p>
-<p>
-Que mysteriosa associação de idéas trouxera á lembrança de Leopoldo
-naquelle momento a tenda do sapateiro; e por que motivo se dirigiu elle
-para ali onde estivera na vespera, e não para qualquer outro logar, em
-que poderia melhor espancar seu dissabor?
-</p>
-<p>
-O motivo nem elle mesmo o sabia naquelle instante.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bom dia! As botinas estão promptas? disse entrando.
-</p>
-<p>
-O Mattos, que attendia á alguns freguezes perto da vidraça, olhou-o
-sorpreso:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não disse hontem a V. S. que só para o fim da semana?
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tinha entre mãos esta encommenda. Mas já acabei; agora posso ajudar
-os companheiros.
-</p>
-<p>
-O Mattos indicára alguns pares de calçado que estavam no mostrador
-sobre folhas de papel, e promptos a serem embrulhados.
-</p>
-<p>
-Leopoldo, chegando-se para o balcão, principiou a examinar a obra
-acabada, com a distrahida curiosidade de quem deseja esperdiçar alguns
-momentos, para escapar a um aborrecimento ou para apressar um prazer.
-Era trabalho fino do mestre, e comtudo não excitaria grande attenção
-da parte do moço, si não fosse um par de botinas de senhora já usadas
-e meio encobertas pelo papel com outra obra. A medida era enorme no
-comprimento e na altura; por isso, como pelo feitio, devia excitar-lhe
-reparo.
-</p>
-<p>
-Na vespera quando viera á loja, casualmente observára a obra que o
-Mattos estava acabando. Vendo ha pouco na rua do Ouvidor o pé
-monstruoso da moça, tivera uma confusa e tenue reminiscencia das
-botinas da loja. Fora esse o fio mysterioso que o conduzira
-insensivelmente áquella casa. Agora comprehendia a encadeação: a
-botina monstro pertencia sem duvida ao pé aleijão.
-</p>
-<p>
-Leopoldo depois que entrevira sob a orla do vestido o pé da moça,
-ainda alimentava uma duvida, que pretendia cevar com todas as subtilezas
-e argucias de seu espirito. Talvez elle visse mal; talvez a sombra, o
-estribo do carro, qualquer outro objecto o tivesse illudido. O aleijão
-só existia em sua imaginação; fôra um desvario dos sentidos. Com
-effeito, como suppôr que uma senhora podesse andar graciosamente com
-semelhante pata de elephante?
-</p>
-<p>
-Mas as botinas ahi estavam sobre o balcão que não lhe deixavam a menor
-duvida. O pé disforme existia; era aquelle o seu molde, o seu corpo de
-delicto, e por elle se podia vêr quanto devia ser horrivel a realidade.
-Agora Leopoldo podia apreciar os traços parciaes que lhe tinham
-escapado pela manhã; esse pé era cheio de bossas como um tuberculo;
-não arremedava nem de longe o contorno dessa parte do corpo humano: era
-uma posta de carne, um cepo!
-</p>
-<p>
-Junto dessa deformidade morta, inventada para cobrir a deformidade viva,
-havia outra obra que chamára a attenção do mancebo por sua
-singularidade. Á primeira vista, era um volume semelhante ao das
-botinas monstruosas, embora de linhas regulares: parecia uma ligeira
-almofada preta sobre a qual se elevasse uma botina de senhora, muito
-elegante apezar de comprida. O tubo cinzento ficava occulto sob frocos
-de setim escarlate. Do rosto ao bico descia um galho de rosas, cujas
-hastes cingiam graciosamente, como uma grinalda, toda a volta do pé
-até o calcanhar.
-</p>
-<p>
-Uma das botinas ainda tinha dentro a fôrma; emquanto a outra já estava
-sem ella. Naturalmente o Mattos procedia áquella operação quando foi
-distrahido pelos freguezes e compradores: deixára-a pois em meio,
-deitando em cima da obra, para encobril-a, uma folha de papel.
-</p>
-<p>
-A fôrma não podia passar desappercebida ao observador. Vendo pouco
-antes a botina disforme, Leopoldo a tinha considerado o modelo exacto do
-pé monstruoso, que elle avistára. Enganara-se; a botina era já o
-disfarce, a mascara do aleijão. Sua cópia ali estava em horrivel
-nudez, no grosseiro tôco de páo, cheio de buracos e protuberancias.
-</p>
-<p>
-Mas si essa observação acabou de esmagar o coração do mancebo, levou
-insensivelmente seu espirito á apreciar pela primeira vez a
-superioridade do Mattos em sua arte. Ali estava a imagem do aleijão, e
-o calçado que outros sapateiros lhe fariam para cobrir a
-monstruosidade, sem a dissimular. Entretanto o mestre fluminense
-conseguira, por um esforço feliz, desvanecer a deformidade sob a
-apparencia de uma botina elegante.
-</p>
-<p>
-A almofada sobre que parecia descansar a botina era um solado alto,
-porém occo, onde as carnes molles do pé monstruoso, comprimidas pela
-botina superior, podiam abrigar-se.
-</p>
-<p>
-Os frocos de setim e as grinaldas de rosas enchiam as covas e
-desvaneciam as protuberancias osseas, com muita delicadeza, sem avolumar
-o tamanho do cothurno. Na sola negra se debuchava, em proporção á
-botina superior, a alva palmilha, com seus contornos harmoniosos; de
-modo que olhando-se andar a pessoa, não se perceberia facilmente o
-tamanho do calçado.
-</p>
-<p>
-Acabára o Mattos de aviar os freguezes, e chegando-se para o balcão,
-incommodou-se com vêr o moço a observar a obra; ia talvez
-interrompel-o rispidamente, quando percebeu em seu rosto uma expressão
-viva de ardente admiração. O artista ficou lisonjeado com esse elogio
-tão eloquente em sua mudez; e á contrariedade succedeu a satisfação
-do amor proprio.
-</p>
-<p>
-Foi Leopoldo, que, percebendo junto de si o sapateiro parado, afastou-se
-do balcão, receiando ter sido indiscreto. Ia sahir, quando entrou na
-loja um lacaio de libré azul com vivos de escarlate e branco. O mancebo
-o reconheceu pelas feições; era o mesmo que o impedira de chegar á
-portinhola do carro, na rua do Ouvidor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! exclamou o Mattos, avistando o criado. Está quasi prompto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não posso esperar! replicou o lacaio com a insolencia do rafeiro de
-casa rica.
-</p>
-<p>
-&mdash;É só embrulhar.
-</p>
-<p>
-Leopoldo disfarçava; fingindo olhar o calçado exposto na vidraça, viu
-de esguelha o sapateiro tirar a fôrma da outra botina, bater o ponto e
-dar o ultimo polimento á sua obra; feito o que arranjou o embrulho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está bem amarrado? perguntou o lacaio. Olhe que da outra vez já se
-perdeu uma botina por sua causa, e eu é que levei a culpa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tenha susto; desta vez está bem seguro; respondeu o Mattos.
-</p>
-<p>
-Foi-se o lacaio; e Leopoldo com o semblante carregado de tristeza,
-despediu-se, arrependido de ter ido á loja. Que saudades tinha da sua
-duvida!
-</p>
-<p>
-&mdash;A duvida, pensava elle, é ainda um raio de esperança!
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="VII">VII</a></h4>
-
-<p>
-A esse tempo Horacio, sentado em uma poltrona na casa do Bernardo,
-fumava o seu <i>conchita</i>, com o olhar, ora na calçada, ora no espelho
-fronteiro, á espreita do menor vulto de mulher.
-</p>
-<p>
-O leão pensava:
-</p>
-<p>
-&mdash;Choveu; as ruas ainda estão molhadas. Qual é a senhora que tendo um
-pé mimoso e uma perna bonita não aproveita um destes dias para
-atravessar a rua do Ouvidor? Si deixarem escapar estes pretextos de
-mostrar semelhantes maravilhas, morrerão ellas desconhecidas, apenas
-vistas por um dono avaro, mas nunca admiradas, porque a admiração é
-sentimento que precisa da luz plena, da grande expansão. Si a Venus de
-Praxisteles existisse, mas só para mim, palavra de honra que sua
-belleza não excitaria em minha alma o menor enthusiasmo.
-</p>
-<p>
-Nessa occasião Amelia passava diante da loja, e voltando-se recebeu a
-cortezia do leão, a quem respondeu com um sorriso amavel. Parando na
-vidraça, achou ella pretexto para entrar; e comprou uma galanteria.
-Durante esse tempo Horacio recebeu por diversas vezes o olhar e o
-sorriso da moça.
-</p>
-<p>
-Acompanhando com a vista o passo airoso e subtil de Amelia, Horacio
-exclamou, dirigindo-se ao caixeiro do Bernardo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que passo gracioso! É o andar da garça!
-</p>
-<p>
-Estas palavras foram ditas em voz bastante alta, para que a moça
-ouvisse; um ligeiro estrecimento que se notou na suave ondulação do
-talhe revelou que o leão lográra seu desejo. A moça ouvira com
-effeito a fineza.
-</p>
-<p>
-Recostado de novo na poltrona o leão continou a pensar:
-</p>
-<p>
-&mdash;Realmente, que elegancia no andar! Eu seria capaz de apostar que
-esse andar era do pésinho, do meu adorado pésinho, si já não tivesse
-descoberto a dona do primor. Mas Laura não vem!... O criado me disse
-que ao meio-dia, e é quasi uma hora! Terá mudado de resolução?...
-Não duvido; com aquelle zêlo feroz que tem por sua joia, talvez não
-quizesse vir para não ser obrigada a mostral-o. Um avaro não fecha com
-mais cuidado a burra, do que ella esconde seu thesouro. Que peccado!
-Subtrahir ao mundo essa maravilha que Deus fez para ser admirada! Ah! eu
-desejava ser uma nação; assim como ha demonios-legiões, por que não
-podem haver homens-povos? Si o fosse, daria um throno á essa mulher,
-sómente para que ella instituisse o <i>beija-pé</i>. Como eu seria
-cortezão! Como eu a beijaria por minhas cem bocas de subdito!
-</p>
-<p>
-O mancebo sobresaltou-se; vira uma sombra que assomava no espelho
-fronteiro. Era Laura.
-</p>
-<p>
-Que devia fazer? Correr á porta para ser visto pela moça ou deixar-se
-ficar na poltrona para melhor descobrir o pé adorado?
-</p>
-<p>
-A attitude do leão revelava a hesitação de seu espirito; com o corpo
-lançado á frente parecia fazer um esforço para se conservar sentado.
-Laura, que de seu lado já o tinha avistado no espelho, ficára em um
-estado de perturbação indizivel.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que tem prima? perguntou-lhe um senhor que a acompanhava.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nada! balbuciou a moça.
-</p>
-<p>
-A principio Laura fizera um movimento para recuar, mas arrependendo-se
-avançou com affouteza, e passou rapidamente pela frente da loja, sem
-volver um olhar para dentro. Por mais que o leão se derreasse na
-poltrona, não logrou vêr cousa alguma; a senhora arrastava a fimbria
-do vestido pela calçada coberta de lama, com o mesmo descuido que teria
-si caminhasse sobre rico tapete.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está zangada commigo; está furiosa! Desde a noite do theatro que
-não me póde vêr; e parece que preparou-se para o assalto, porque
-achei as avenidas da praça já tomadas e vigorosamente defendidas. A
-mucama é uma Gorgona, o porteiro um Cerbero; apenas consegui abrandar o
-moleque, porque é um idiota!... Nunca vi uma ferocidade igual; creio
-que a leôa da floresta não defende seu cachorrinho com sanha igual á
-desta leôa de sala. Parece incrivel; mas eu conheço de quanto é capaz
-a vaidade da mulher. Todo este furor não é mais do que um assomo de
-faceirice; percebeu que estou apaixonado pelo pésinho mimoso, e quer-me
-trazer atado como um captivo á seu carro de triumpho. Realmente uma
-moça bonita não póde ter maior satisfação; vêr-me a mim, Horacio
-de Almeida, o primeiro conquistador do Rio de Janeiro, curvar-se
-humilde, não á seu olhar, á seu sorriso, á belleza de seu rosto, ou
-á graça de seu talhe, mas á planta de seus pés divinos! Fazer-me
-tapete de seus passos!... Que póde mais desejar a rainha dos salões
-fluminenses?
-</p>
-<p>
-O moço mordeu a ponta do bigode negro, e ficou alguns instantes muito
-pensativo.
-</p>
-<p>
-&mdash;É preciso mudar o plano de ataque! Comecei á maneira do Cesar,
-atacando com impetuosidade. Vou contemporisar conforme a escola de
-Fabio; simúlo uma retirada; o inimigo avança, eu o envolvo; corto-lhe
-a retirada, e elle rende-se. Arraso o Humaitá daquelle vestido que
-defende o meu pésinho adorado como uma casamata. A indifferença é a
-serpente tentadora da mulher.
-</p>
-<p>
-Em consequencia destas reflexões, Horacio deixou-se ficar onde estava,
-e não seguiu a moça. Quando suppôz que ella já ia distante, foi
-procurar algures, em um bilhar o preservativo contra a tentação de
-cortejal-a, ou antes a seu pésinho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella hade reparar no meu eclipse! murmurou com certa confiança.
-</p>
-<p>
-Entretanto, Laura, descendo a rua do Ouvidor, encontrára pouco adiante,
-na casa do Masset, Amelia em companhia da mãi. As duas amigas não
-podendo vir juntas tinham ajustado seu encontro para aquelle ponto. O
-primo despediu-se, e as senhoras continuaram seu itinerario pelas
-differentes lojas e casas de modas.
-</p>
-<p>
-Ao cabo de duas ou tres horas, tomaram o carro que estava parado proximo
-á rua dos Ourives e partiram na direcção do Cattete. A poucos passos
-d'ali, Amelia perguntou ao lacaio sentado na almofada:
-</p>
-<p>
-&mdash;Trouxe?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, senhora; está ahi dentro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem!
-</p>
-<p>
-O carro aproximava-se do largo da Lapa, quando Amelia disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Podiamos ir agora ao <i>Passeio Publico</i>?
-</p>
-<p>
-&mdash;Tão tarde! replicou Laura.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa-te disso! observou a mãi da moça.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque, mamãi? Ha tanto tempo que lá não vamos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não ha nada de novo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora eu queria vêr a garça. Ainda não a vi.
-</p>
-<p>
-&mdash;Viste sim!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas não reparei n'uma cousa!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Em que!
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma cousa. Depois direi.
-</p>
-<p>
-Tanto insistiu que a mãi cedeu a seu capricho, e deu ordem ao cocheiro
-que chegasse até o portão do <i>Passeio Publico</i>. As senhoras
-desappareceram na curva de uma das alamedas do parque, em direcção ao
-lago. Amelia queria vêr o andar da garça, que Horacio tinha comparado
-ao seu.
-</p>
-<p>
-Nessa occasião passava o tilbure do nosso leão, que vinha do lado da
-Ajuda. Um atropêllo, produzido por uma gondola mal conduzida, ia
-atirando o tilbure sobre o carro parado no portão do <i>Passeio
-Publico</i>. Este incidente chamou a attenção do moço para o cocheiro, que
-derreado sobre a almofada não se movêra.
-</p>
-<p>
-A memoria apresenta ás vezes um phenomeno curioso; conserva por muito
-tempo occulta e sopitada uma impressão de que não temos a menor
-consciencia. De repente, porém, uma circumstancia qualquer evoca essa
-reminiscencia apagada; e ella resurge com vigor e fidelidade.
-</p>
-<p>
-Foi o que succedeu a Horacio. Minutos antes por maiores esforços que
-fizesse para recordar-se da libré do lacaio, portador da botina
-perdida, não o conseguiria de certo. Entretanto bastou-lhe vêr a roupa
-do cocheiro, para acodir-lhe immediatamente ao espirito a imagem
-desvanecida. Era esse o carro, que vira quinze dias antes na rua da
-Quitanda; não havia duvida.
-</p>
-<p>
-O leão mandou parar o tilbure e entrou no Passeio Publico; depois de
-percorrer inutilmente varias alamedas, afinal descobriu entre as
-arvores, alem do lago, as ondulações dos vestidos de algumas senhoras
-acompanhadas por um lacaio, e tomou apressadamente aquella direcção.
-</p>
-<p>
-O terreno estava humido da chuva da manhã; e por isso o pé dos
-passeiadores deixava o rasto impresso na branca e fina areia das
-alamedas. Notando esta circumstancia, Horacio procurou o vestigio de
-alguma botina irmã da que achara, e guardava como uma reliquia; ficou
-ebrio de contentamento reconhecendo entre muitas pegadas o leve debuxo
-que deixara no chão o mimoso pésinho.
-</p>
-<p>
-Si não fosse o anhelo de alcançar as senhoras e reconhecer a dona
-incognita do thesouro, Horacio se houvera ajoelhado e beijára o rasto
-da fada de seus amores. Mas as senhoras caminhavam rapidamente para o
-portão.
-</p>
-<p>
-Por mais que se apressasse o leão, chegando á sahida, apenas viu o
-carro que partia. Felizmente adiantando-se pôde reconhecer Amelia, que
-lhe sorriu e inclinou-se para acompanhal-o com os olhos.
-</p>
-<p>
-&mdash;É ella! Que pateta sou eu! Devia ter adivinhado. A pouco, vendo-a
-passar pela rua do Ouvidor, tive um presentimento! Aquelle andar cheio
-de graça não podia enganar.
-</p>
-<p>
-No dia seguinte o leão fez-se apresentar ao pai de Amelia, abastado
-consignatario de café, estabelecido á rua Direita. O encontro deu-se
-na praça do commercio. Horacio ahi foi á pretexto de comprar apolices;
-e um amigo, corretor de fundos, prestou-lhe aquelle serviço. O
-negociante offereceu a casa ao moço que acceitou a fineza com effusão
-de contentamento.
-</p>
-<p>
-O Sr. Salles Pereira habitava nas Larangeiras uma bella chacara. Amelia
-era filha unica, e seu dote, convertido em cem apolices, só esperava o
-noivo. Quanto á mulher, tinha uma boa pensão instituida no montepio
-geral. Seguro assim o futuro, vivia o negociante com certa largueza,
-economisando pouco ou nada de seus lucros annuaes.
-</p>
-<p>
-Quando Horacio teve conhecimento destas particularidades domesticas,
-sorriu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem! O meu pésinho tem um dote para seu calçado. Pode andar com
-luxo!
-</p>
-<p>
-A primeira vez que Horacio visitou a familia de Pereira Salles,
-encontrou Laura na sala; a moça fôra passar a noite com a amiga, e
-conversava jovialmente. Apenas viu o leão, demudou-se; e instantes
-depois, inventou um pretexto para retirar-se, apezar das instancias de
-Amelia.
-</p>
-<p>
-Horacio pouca ou nenhuma attenção deu á mudança que se tinha operado
-em Laura, e sua retirada repentina. Desde que a moça não era a dona
-feliz do mais lindo pé do mundo, tornava-se para elle uma creatura
-indifferente; tanto mais quanto sua alma estava ali de rojo beijando a
-fimbria de seda, que lhe occultava o tão anciado thesouro.
-</p>
-<p>
-Em Amelia, varias impressões produziu a apresentação do moço. No
-primeiro momento acreditou que o leão viera attrahido por ella; mais
-tarde, lembrando-se do theatro, suspeitou que fosse apenas um meio de
-aproximar-se de Laura; finalmente occorreu-lhe que podia não passar de
-um encontro casual de seu pai, e de uma delicadeza da parte de Horacio.
-</p>
-<p>
-Suas duvidas porém se dissiparam poucos dias depois.
-</p>
-<p>
-Uma noite a moça, impellida por um movimento de faceirice, soltou estas
-palavras, no meio de uma conversa com o leão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Laura está uma ingrata! Ha tanto tempo que não vem passar uma noite
-commigo.
-</p>
-<p>
-Ao mesmo tempo fitava os olhos no moço, para vêr a expressão de sua
-physionomia.
-</p>
-<p>
-&mdash;É uma fineza de sua amiga, que eu agradeço de coração, respondeu
-Horacio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma fineza?... perguntou Amelia presentindo laivos de ironia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando sua amiga está aqui, a senhora sem duvida não a deixa?
-</p>
-<p>
-&mdash;É muito natural.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já vê pois que eu tenho razão. Si ella viesse...
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu teria ciumes, D. Amelia.
-</p>
-<p>
-A moça corou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois amanhã Laura ha de passar a noite commigo.
-</p>
-<p>
-Estas palavras foram ditas com o estouvamento da menina, que procura
-disfarçar um prazer, sob a mascara da contrariedade. Mas a mascara é
-tão risonha, que não illude.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quer-me tanto mal assim? perguntou Horacio. Não admira; uma paixão
-ardente e impetuosa como eu sinto pela senhora, não devia ter outra
-sorte. O verdadeiro amor foi e será sempre infeliz; não ha mulher que
-o comprehenda.
-</p>
-<p>
-Amelia com as faces á arder não sabia que fizesse; sua mão tremula
-brincava com as flôres de um vaso, que vacillou sobre o consolo e cahiu
-no chão. O fracasso da porcelana, despedaçando-se, chamou a attenção
-das pessoas que estavam na salla; assim rompeu-se o enleio de Amelia.
-</p>
-<p>
-A moça retirou-se confusa para o interior da casa. Momentos depois
-entrou de novo na sala, já serena e prazenteira. Seus olhos procuráram
-Horacio, para offerecer-lhe o meigo sorriso que trazia nos labios.
-</p>
-<p>
-Esse sorriso dizia em sua eloquencia muda o seguinte:
-</p>
-<p>
-&mdash;Si nunca a mulher soube comprehender o verdadeira paixão, serei eu
-a primeira.
-</p>
-<p>
-Foi esta pelo menos a traducção de Horacio, perfeito philologo do
-amor, e habituado a decifrar esses hyeroglyphos dos labios da mulher.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="VIII">VIII</a></h4>
-
-<p>
-Não abandonemos o pobre Leopoldo á sua amarga decepção.
-</p>
-<p>
-O moço chegára á casa mergulhado na tristeza profunda, que sobre elle
-derramaram os acontecimentos da manhã. Talvez a morte de Amelia não
-lhe causasse tamanho pezar, como o daquella cruel decepção que estava
-presentemente curtindo.
-</p>
-<p>
-O aleijão excita geralmente uma invencivel repugnancia, repassada de
-terror. A aberração da fórma humana abate o orgulho do bipede
-implume, fazendo-o descer á baixo do ourangotango. Ao mesmo tempo, é
-ameaça viva á uma das mais caras aspirações do homem; a esperança
-de renascer em outra creatura, gerada de seu ser. Si a fatalidade pezar
-sobre a prole querida?
-</p>
-<p>
-Imagine-se que dôr era a do mancebo, quando via a deformidade surgir de
-repente para esmagar em seu coração a imagem da mulher amada, da
-virgem de seus castos sonhos?
-</p>
-<p>
-O contraste sobretudo era terrivel. Si Amelia fosse feia, o senão do
-pé não passára de um defeito; não quebraria a harmonia do todo. Mas
-Amelia era linda, e não sómente linda; tinha a belleza regular, suave
-e pura que se póde chamar a melodia da fórma. A desproporção
-grosseira de um membro tornava-se, pois, nessa estatua perfeita, uma
-verdadeira monstruosidade. Era um bérro no meio de uma symphonia; era
-um disparate da natureza; uma superfetação do horrivel no bello. Fazia
-lembrar os idolos e fetiches do Oriente, onde a imaginação doentia do
-povo reune em uma só imagem o symbolo dos maiores contrastres.
-</p>
-<p>
-Nessa angustia passou Leopoldo o resto daquelle dia e os que se lhe
-seguiram.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não amo a sua belleza material, oh, não! pensava o mancebo. O que eu
-adoro nella é a belleza moral, a alma nobre e pura, a creatura celeste,
-a luz, o anjo. Qualquer que fosse o envolucro de seu espirito
-immaculado, creio que havia de adora-la tanto, como a adorei desde o
-momento em que primeiro a vi.
-</p>
-<p>
-«Fosse ella feia para os outros, que chamam formosura o que lhes
-encanta os sentidos; para mim seria sempre bella, porque meus olhos
-haviam de vê-la através de seu esplendido sorriso. O que é o corpo
-humano no fim de contas? O que é o contorno suave de um talhe elegante,
-e a cutis assetinada de um rosto ou de um collo mimoso? Um pouco de
-materia á que a luz transmitte a côr, o espirito, e a vida. Tirem-lhe
-esses dois alentos; e verão que lôdo impuro e nauseante ficam sendo
-aquellas fórmas seductoras.
-</p>
-<p>
-«Pois luz e espirito não eram a essencia da alma de Amelia? Quando
-essa alma a vestia com uma tunica resplandecente, que mulher se lhe
-podia comparar em lindeza? Então não era sómente formosa, fluctuava
-em um ether de belleza deslumbrante.
-</p>
-<p>
-«Mas ella não é feia, é aleijada!...»
-</p>
-<p>
-Um soluço afogou as tristes locubrações do mancebo. Elle repassou
-outra vez na mente as circumstancias de sua triste descoberta; quiz
-duvidar, combateu pertinazmente sua propria razão que lhe apresentava a
-realidade, e afinal succumbiu, curvando-se á implacavel certeza. Tinha
-visto uma vez, e como essa não bastasse, o acaso lhe offerecera
-occasião de apalpar a verdade, e saciar-se della.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não se admira a Venus de Milo, uma estatua mutilada? dizia o mancebo
-reluctando contra sua viva repugnancia. Não se admira o primor da arte
-grega, apezar de não restar della mais do que uma cabeça e um torso de
-mulher? Essa bellesa truncada não vale a belleza aleijada? A
-mutilação não repugna tanto ou mais do que a deformidade?
-</p>
-<p>
-A razão de Leopoldo não o deixava embalar-se muito tempo nesse
-pensamento consolador. Replicava logo, refutando vigorosamente as
-argucias do coração:
-</p>
-<p>
-&mdash;A estatua mutilada, que excita a admiração do mundo, não é a copia
-integral da belleza que lhe servia de typo; mas um fragmento apenas
-dessa copia. A alma, que se extasia na contemplação desse fragmento,
-recompõe o ideal do artista. Admira-se a Venus de Milo, como se admira
-um esboço não acabado de Raphael; como se admira a petala de uma rosa,
-arrancada da corolla. Mas, fosse embora aquelle primor da estatuaria a
-reproducção exacta de uma mulher. A mutilação respeita a bellesa; o
-aleijão a deturpa. Si a mulher que se ama perdesse um pé seria
-desgraçada; com um pé monstruoso, é mais do que desgraçada, é
-repulsiva.
-</p>
-<p>
-Leopoldo deixava-se convencer por estas sugestões:
-</p>
-<p>
-&mdash;Infelizmente assim é. Mas por que ha de ser assim? A mutilação é
-um facto humano; o aleijão é um facto natural. Essa aberração do
-principio creador, esse desvio da fórma primitiva, indicam sem duvida
-um vicio na essencia do organismo. Não se tem verificado que nos corpos
-mal conformados de nascença habita sempre uma alma enferma? Nos
-corcundas sobretudo, porque a espinha dorsal é o tronco da
-intelligencia. A deformidade de um membro, de um ramo apenas, não
-denota eiva tão profunda do espirito, é certo, mas revela que a alma
-não é nobre e superior. Não se concebe o anjo dentro de um aleijão.
-</p>
-<p>
-O resultado destas cogitações era a gotta de fel esprimido, que ia
-filtrando á pouco e pouco no coração e acabaria por saturar todas as
-doces reminiscências dos ultimos dias. Leopoldo convenceu-se que não
-devia amar a desconhecida; mas, ao contrario, arrancar de sua alma os
-germens da paixão nascente.
-</p>
-<p>
-Tomando esta resolução, o moço, que vivia muito retirado depois de
-suas desgraças de familia, esteve a lembrar-se de algumas antigas
-relações. Veio-lhe o desejo de cultival-as de novo. Um instincto lhe
-dizia que para gastar as primicias de um coração virgem, não ha como
-o attrito do mundo.
-</p>
-<p>
-Entre as casas que outr'ora frequentava escolheu para a primeira noite a
-de D. Clementina, amiga intima de sua irmã. Era uma senhora já no
-declinio da idade e da formosura; gostava muito de dansar, e por isso
-reunia constantemente em sua sala as moças de sua amizade. Logo que se
-achavam presentes quatro pares, a dona da casa dava o signal, o marido
-arredava a mesa do centro, o filho, menino de quinze annos, sentava-se
-ao piano; e...
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Chassé-croisé</i>! gritava D. Clementina.
-</p>
-<p>
-Nesta casa Leopoldo tinha certeza, não só de ser bem recebido, como de
-encontrar bastante arruido para aturdir-se, e abafar uns gemidos que
-sentia ás vezes repercutirem no coração. Tinham decorrido cinco dias
-depois da decepção: ás oito horas da noite entrou o moço na sala de
-D. Clementina, que o recebeu com sorpreza cheia de amabilidades.
-</p>
-<p>
-Além de estimado, acontecia que elle era justamente o quarto par.
-Tirado o dono da casa, o Sr. Campos, o filho Alfredo, e tres velhas,
-invalidas da dansa, havia na sala cinco senhoras para dois cavalheiros:
-servindo uma senhora de cavalheiro, ainda faltava metade de um par.
-</p>
-<p>
-Quando a campainha annunciou mais uma visita, D. Clementina de olhos
-fitos na porta da sala, dispoz-se a receber o recem-chegado com o seu
-mais affavel sorriso. Vendo Leopoldo, correu a elle, e desfolhando-lhe
-um ramalhete de amabilidades, trançou-lhe o braço; antes que o moço
-tomasse pé na sala, era arrebatado pela quadrilha, a compasso de
-galope.
-</p>
-<p>
-Realmente elle não podia escolher melhor. A agitação daquella dansa
-rapida, sem pausa; a confusão que os pares creavam de proposito para
-augmentar a animação; os risos e gracejos que provocavam os menores
-incidentes da quadrilha; todo esse rumor e atropello tinham por tal
-fórma sacudido o espirito de Leopoldo, que as idéas e recordações
-tristes lhe cahiram, como as folhas seccas de uma arvore, abalada pelo
-vento rijo do outono.
-</p>
-<p>
-Sentiu o coração vazio, porém tranquillo; o prazer vivo e
-scintillante daquella reunião, apenas roçava-lhe pela superficie; não
-penetrava, mas tambem ja não transudavam-lhe do intimo as amarguras de
-que nos ultimos dias se tinha saturado.
-</p>
-<p>
-De repente operou-se na perspectiva da sala, uma transformação
-inesperada. Amelia entrára; e sua graça diffundiu-se como um influxo
-celeste, no meneio de seu talhe elegante, na suavidade de sua voz, na
-irradiação de seus olhares.
-</p>
-<p>
-Leopoldo embebeu-se naquella suave apparição, como da primeira vez que
-a vira; mas para percorrer em um apice, as phases de seu amor, e cahir
-de novo na esmagadora decepção.
-</p>
-<p>
-De repente aquella estatua luminosa escureceu á seus olhos deixando
-apenas um residuo negro; esqueleto calcinado que arrastava uma
-deformidade. Debalde Amelia se ostentava no fulgor de sua belleza,
-toucada pelos primeiros arrebóes do amor; debalde as ondulações de
-seu corpo debuxavam fórmas encantadoras, e o sorriso de seus labios
-destillava uma fragancia mystica de beijos puros; os olhos de Leopoldo
-não viam nenhum desses encantos. Através dos folhos do vestido
-roçagante, sua vista fitava-se implacavel no pé monstruoso que lhe
-esmagava o coração como a pata grosseira de um animal.
-</p>
-<p>
-Todos os encantos dessa creatura, elle os despia de seu manto seductor,
-e dissecava-os com fria rancor. A inflexão voluptuosa do talhe provinha
-da resistencia que oppunha ao andar o enorme pé; o passo ligeiro era um
-esforço supremo para disfarçar o aleijão; o sorriso gracioso um
-enleio para prender os olhos estranhos, não permittindo que elles se
-abaixassem até á fimbria do vestido.
-</p>
-<p>
-E por isso mesmo o olhar de Leopoldo, olhar frio, cruel, inexorável, se
-tinha cravado na orla da saia elegante, d'onde não havia forças para
-arrancal-o.
-</p>
-<p>
-Amelia sentiu esse olhar cruciante, e estremeceu, tomada de um vago
-terror. Immediatamente sentou-se, e arranjando as dobras do vestido,
-procurou disfarçar. Mas em vão; o olhar do moço continuava fito no
-mesmo ponto, e produzia nella uma sensação incommoda.
-</p>
-<p>
-&mdash;É D. Amelia, filha de um negociante chamado Salles. Não conhece?
-</p>
-<p>
-Estas palavras foram dirigidas a Leopoldo por D. Clementina, que
-sentando-se a seu lado, acompanhou-lhe o olhar fito.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, minha senhora.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então vou apresental-o.
-</p>
-<p>
-&mdash;Obrigado, D. Clementina; depois.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não acha muito galante?
-</p>
-<p>
-Leopoldo hesitou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! muito!...
-</p>
-<p>
-Viera-lhe nessa occasião o mesmo impeto que sentem de ordinario os
-amantes em igual situação: o de criticar e desmerecer nas prendas da
-mulher que os faz soffrer. É uma reacção natural do coração.
-Leopoldo, porém, julgou indigno de si tal procedimento; tinha o direito
-de afastar-se, de fugir com horror dessa mulher, mas não o de
-offendel-a. A culpa de amal-a era sua; e não della.
-</p>
-<p>
-Aproveitou um momento de distracção da dona da casa, para tomar o
-chapéo, e esquivar-se, sem que o percebessem.
-</p>
-<p>
-Amelia, porém, o viu; seus olhos ficaram por algum tempo presos na
-porta por onde acabava o moço de sahir. Quando, passado um instante,
-cahiu em si, ficou sorprendida. Que tinha ella com aquelle desconhecido?
-</p>
-<p>
-Ao chegar, vendo o rosto pallido e os olhos profundos, que tão
-desagradavel impressão haviam deixado em seu espirito, a moça havia
-sentido um máo estar intimo. Vinha com a alma cheia das primeiras
-delicias de um amor nascente; com as doces emoções da declaração de
-Horacio. A presença de Leopoldo foi um travo.
-</p>
-<p>
-Mas tambem para que viera? Por que não ficara em sua casa esperando
-Horacio?
-</p>
-<p>
-Vão lá sondar o coração feminino. Agora que sabia-se amada, a moça
-queria gozar de seu triumpho, e vêr humilde e abatido a seus pés o rei
-da moda, o soberbo leão. O meio era fazer-se ardentemente desejada,
-tornar-se difficil e esquiva, embora lhe custasse o sacrificio dos
-momentos agradaveis que podia passar junto de Horacio.
-</p>
-<p>
-A presença de Leopoldo em casa de D. Clementina a incommodára, e
-entretanto seu olhar parecia agora sentir a ausencia do mancebo.
-</p>
-<p>
-A principio havia ali uma pessoa de mais; agora faltava alguma cousa. Si
-não era um homem; era uma curiosidade, uma emoção.
-</p>
-<p>
-&mdash;Amelia!
-</p>
-<p>
-A moça voltou-se para ouvir D. Clementina que a chamava.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quero apresentar-lhe um moço, que a acha muito bonita.
-</p>
-<p>
-Dizendo estas palavras, a dona da casa corria os olhos pela salla á
-busca de alguem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não o vejo agora.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem é?
-</p>
-<p>
-&mdash;O Castro... Conhece?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, senhora.
-</p>
-<p>
-&mdash;Querem vêr que já se retirou.
-</p>
-<p>
-Amelia pôde reter o monosyllabo que ia cahir-lhe do labio, confirmando
-a supposição da dona da casa. Tinha adivinhado que se tratava do seu
-desconhecido.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então elle me acha bonita?
-</p>
-<p>
-&mdash;O Castro?... Muito. Creio que ficou apaixonado! Se visse os olhos
-que lhe deitava quando a senhora chegou!
-</p>
-<p>
-&mdash;Então foi de paixão que elle fugiu?
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem sabe? A paixão é como o vinho que em uns dá para rir, e em
-outros para chorar. Ha namorados que perseguem, e outros que fogem!
-</p>
-<p>
-Amelia julgou prudente desviar a conversa daquelle assumpto escabroso,
-no qual D. Clementina se comprazia, porque lhe recordava sua mocidade
-já desvanecida.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="IX">IX</a></h4>
-
-<p>
-Depois d'aquella noite Leopoldo viu Amelia duas ou tres vezes: e de
-todas sentiu a mesma impressão que lhe causara a presença da moça em
-casa de D. Clementina.
-</p>
-<p>
-Era o mesmo desencanto; a mesma insistencia de seu espirito para
-enxergar a formosura da donzella através de um prisma deforme e
-caricato. N'essas occasiões elle soffria diante da moça a fascinação
-do horrivel, como o poeta soffre muitas vezes a fascinação do bello em
-face de um objecto desgracioso. Era então um poeta pelo avesso; um vate
-do monstruoso. Tinha na imaginação um gnomo de Victor Hugo: creava
-Quasimodos e Gwynplaines do sexo feminino com uma fecundidade espantosa.
-</p>
-<p>
-Quando porém a moça desapparecia de seus olhos, operava-se em seu
-espirito completa mutação. Esquecia completamente o aleijão, para só
-lembrar a linda e graciosa figura, que poucos momentos antes sua vista
-repellia. Amelia ausente vingava Amelia presente. O coração do mancebo
-detestava tanto esta, quanto adorava ainda a outra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Este amor é um inferno; pensava elle; tem um vicio organico. Ha de
-viver de dôres e lagrimas; ha de alimentar-se de minhas tristezas. E
-assim irá definhando até morrer de consumpção, depois que me tiver
-devorado todo o coração. Que importa? Servirei de pasto á este
-abutre. O que somos nós afinal de contas? Uma presa; emquanto vivos, a
-presa das molestias e das paixões proprias ou alheias; depois de
-mortos, a presa dos vermes ou das chammas.
-</p>
-<p>
-Com tal disposição de espirito voltou elle dias depois á casa de D.
-Clementina. Nesta noite havia uma pequena partida; Leopoldo contava,
-pois, encontrar Amelia.
-</p>
-<p>
-Ali estava com effeito, vestida de escarlate e branco; e adornada com a
-sua graça arrebatadora. Quando o moço entrou, ella dansava com as
-costas voltadas para a porta e não o viu; porém, momentos depois virou
-o rosto como si obedecesse a um impulso extranho, e encontrou o olhar
-ardente de Leopoldo.
-</p>
-<p>
-A moça fez insensivelmente um movimento para afastar-se, que entretanto
-a aproximou da porta. Aquelle olhar que a attrahia ao mesmo tempo que a
-repellia, causou-lhe um desvanecimento misturado de terror. Felizmente
-a terceira figura da marca da contradansa começava, e a distrahiu de
-sua emoção.
-</p>
-<p>
-Estava ella outra vez parada conversando com o par, quando sentiu um
-calafrio; sem vêr, conheceu que o mancebo se aproximava, que seus
-labios se abriam para dirigir-lhe a palavra:
-</p>
-<p>
-&mdash;Minha senhora, terei a honra de dansar com V. Ex. a seguinte
-quadrilha...
-</p>
-<p>
-Continham uma pergunta ou uma asseveração estas palavras? Fôra
-impossivel dizel-o. O tom parecia mais affirmativo do que interrogativo,
-porem o olhar do mancebo esperava, sinão exigia resposta.
-</p>
-<p>
-A confusão da dansa permittiu á Amelia esquivar-se, sem responder.
-Quando, terminada a quadrilha, voltou a seu logar, ficou perplexa. Tinha
-ella se compromettido ou não a dansar a seguinte quadrilha com
-Leopoldo? Não respondera, é certo; mas recordava-se vagamente de ter
-feito uma leve inclinação com a cabeça. Sem duvida o moço vira esse
-movimento e o tomára por um signal de assentimento.
-</p>
-<p>
-Quando um de seus innumeros admiradores vinha pedir-lhe a proxima
-quadrilha, ella respondia hesitando que já tinha par; apenas o
-cavalheiro se afastava arrependia-se de não o ter acceitado, rompendo
-assim o compromisso tacito; e ficava anciosa por outro convite.
-Entretanto novo par se apresentava, que recebia a mesma recusa.
-</p>
-<p>
-N'esse jôgo, muitas vezes repetido, passou o intervallo. O piano deu o
-signal da quadrilha; Leopoldo aproximou-se de Amelia, e se inclinando
-sentiu no seu estremecer o braço tepido de Amelia. A moça não teve
-consciencia do que se passou até o momento em que o moço a conduziu a
-seu logar. Recordava-se apenas de que seu par lhe fallara por muito
-tempo, com a voz baixa, porem palpitante de emoção.
-</p>
-<p>
-Assim fôra. Passada a primeira confusão da quadrilha, Leopoldo,
-fitando o olhar no semblante da moça, deu expansão aos sentimentos que
-lhe tumultuavam dentro d'alma. Com a fronte baixa e as faces cheias de
-rubôres, Amelia parecia absorvida e reconcentrada emquanto o moço
-fallava. Dir-se-hia que ella não o ouvia.
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora acredita, D. Amelia, na attracção irresistivel, que
-impelle duas almas entre si, e as chama fatalmente á se unirem e
-absorverem uma na outra?... Eu acreditava nessa força mysteriosa, mas
-ainda não tinha chegado o momento de experimental-a em mim; de sentir
-em meu ser este elo divino que prende as almas, através do tempo e da
-materia. Senti-o ha vinte dias, quando a vi pela primeira vez, quando a
-senhora se revelou ao meu coração.
-</p>
-<p>
-Leopoldo referiu as emoções que sentira, na occasião de seu primeiro
-encontro com Amelia; a impressão que ella deixára em seu espirito; e
-os sonhos em que se embalára sua imaginação nos dias seguintes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tive então, continuou o mancebo com accento profundo e commovido,
-tive então, e depois, a prova de que esse enlevo de meu ser, essa
-abstracção de minha existencia para absorver-se n'outra, era a
-attracção moral e nada mais. Via, admirava, adorava na senhora uma
-cousa sómente; sua alma. Não sabia, ainda hoje não sei, si a mulher
-que eu amo é bonita para os outros; sei que para mim é de uma belleza
-divina. Perdesse ella a graça e a formosura que aos outros seduz; para
-mim seria a mesma; eu havia de adoral-a com o mesmo ardor. Sua alma é
-filha de Deus, e como elle de uma magnificencia immortal. É uma
-estrella que não tem eclipse.
-</p>
-<p>
-Leopoldo inclinou a fronte para fallar quasi ao ouvido da moça:
-</p>
-<p>
-&mdash;Outr'ora julgava impossivel que se amasse o horrivel. Agora
-reconheço que tudo é possivel ao amor verdadeiro, ao amor puro e
-immaterial. Não só reconheço, mas sinto-me capaz de nutrir uma dessas
-paixões martyres! Oh! sinto-me capaz de amar o anjo ainda mesmo encarnado
-em um aleijão!...
-</p>
-<p>
-Leopoldo fallou ainda por muito tempo de seu amor a Amelia, sem que ella
-se animasse a interrompel-o. Aquella palavra ardente, impetuosa, embora
-vendada por certo pudor d'alma, a subjugava: ella não tinha coragem,
-nem mesmo vontade de subtrahir-se á sua influencia.
-</p>
-<p>
-Quando Amelia, conduzida por Leopoldo, se dirigia á uma cadeira, D.
-Clementina aproximou-se:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! Eu queria apresental-o, disse a Leopoldo; mas não teve paciencia
-para esperar.
-</p>
-<p>
-Depois reclinando ao ouvido de Amelia, perguntou-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Então? Não lhe disse que a achava muito bonita?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ao contrario, D. Clementina; deu-me a entender que me acha horrivel.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ande lá.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deveras!
-</p>
-<p>
-&mdash;É impossivel.
-</p>
-<p>
-Amelia, sentando-se, evocou a lembrança de Horacio, para fazer no seu
-espirito o parallelo entre o elegante leão e o estranho mancebo com
-quem acabava de dansar. Um tinha todas as prendas que seduzem a
-imaginação; era formoso, trajava com esmero, conversava com muita
-graça. O outro não possuia nenhum desses attractivos; seu exterior
-alheiava as sympathias; quando fallava diffundia a tristesa no espirito
-dos que o escutavam.
-</p>
-<p>
-A moça não concebia que se preferisse Leopoldo á Horacio; e comtudo
-não podia esquivar-se completamente á influencia daquella imagem
-pallida, que lhe apparecia no meio dos sonhos mais brilhantes.
-</p>
-<p>
-Muitas vezes, depois de algumas horas agradaveis passadas junto do
-leão, quando a moça, recolhida á sua alcova, repassava na memoria os
-doces protestos de amor que ainda lhe resoavam ao ouvido, de repente
-surgia a lembrança de Leopoldo. Parecia-lhe então que da fronte do
-mancebo se desprendia uma sombra para annuviar seus pensamentos
-risonhos.
-</p>
-<p>
-Horacio, sabendo onde Amelia passava as noites em que elle não a via,
-mostrara desejos de frequentar a casa de D. Clementina; a moça porém
-oppôz-se. Duas razões actuaram era seu espirito.
-</p>
-<p>
-Aquella casa servia-lhe de abrigo contra a seducção que exercia em seu
-espirito a elegancia de Horacio. Quando sentia-se vencida, fugia para
-ali, onde recobrava forças para resistir, e domar completamente o
-leão, soberbo de suas conquistas passadas.
-</p>
-<p>
-Era essa uma das razões; a outra era o receio de achar-se em face dos
-dois moços, repartida entre a seducção de um e a fascinação do
-outro. Presentia que desse conflicto, resultaria alguma cousa, que ella
-não podia definir, mas que a enchia de sustos e inquietações.
-</p>
-<p>
-Por isso exigiu de Horacio que não fosse á casa de D. Clementina:
-</p>
-<p>
-&mdash;Costumam lá ir algumas dessas pessoas que se occupam em inventar
-novidades. Sua apresentação, Sr. Horacio, daria pretexto á algum
-romance.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas, por que ainda frequenta semelhante casa?
-</p>
-<p>
-&mdash;Pedidos... bem sabe; nem sempre uma pessoa se póde recusar. Mas si o
-senhor apparecer lá, eu deixarei de ir.
-</p>
-<p>
-&mdash;Esteja tranquilla.
-</p>
-<p>
-Amelia continuou a passar de vez em quando uma noite em casa de D.
-Clementina. A principio não tinha dia certo, e succedeu por isso que
-Leopoldo desencontrou-se della duas vezes. Uma noite porém o moço
-perguntou-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vem sabbado?
-</p>
-<p>
-&mdash;Talvez.
-</p>
-<p>
-Desde então o dia escolhido era o sabbado, a menos que não precedesse
-aviso especial da dona da casa, para alguma partida. Nunca mais houve
-desencontro; Amelia achava sempre o mancebo no seu posto, defronte da
-porta para vêl-a entrar.
-</p>
-<p>
-Em uma dessas noites deu-se um incidente, que é preciso referir.
-</p>
-<p>
-Fallava-se á respeito de uma senhora casada, a quem o marido causava
-serios desgostos. Pessoa que sabia das particularidades dessa familia,
-explicava o facto á sua maneira.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella era muito linda, o marido a adorava; casou-se por paixão.
-Poucos dias depois de casada, teve ella uma grave molestia que a reduziu
-aquelle estado. Não ha paixão que resista.
-</p>
-<p>
-&mdash;Com effeito sabe ser feia!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ninguem acreditará que foi bonita.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois foi uma belleza.
-</p>
-<p>
-Leopoldo, que ouvia calado, interveio:
-</p>
-<p>
-&mdash;O marido nunca a amou!
-</p>
-<p>
-&mdash;Asseguro-lhe que teve uma paixão louca.
-</p>
-<p>
-&mdash;E eu affirmo-lhe que não; que elle nunca teve paixão pela mulher. O
-que elle adorava era unicamente a sua belleza, a fórma; isto é, um
-accidente. O homem que ama a mulher destinada a ser a companheira de sua
-existencia, o complemento de seu ser imperfeito, não despreza essa
-mulher, porque a desgraça a feriu no envolucro material de sua alma.
-Elle póde soffrer com aquella desgraça; mas deve redobrar de amor e
-adoração, para que nem seus olhos vejam o defeito, nem ella, a mulher
-amada, se lembre nunca de que o tem para elle, embora o tenha bem claro
-para os indifferentes.
-</p>
-<p>
-&mdash;É bonito de dizer! acodiu um apreciador das mulheres formosas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Todos dizem o mesmo, mas fogem das feias, observou uma senhora
-idosa, talvez por experiencia propria.
-</p>
-<p>
-&mdash;O que eu digo, minha senhora, já o experimentei em mim mesmo;
-replicou Leopoldo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah!
-</p>
-<p>
-O mancebo cravou em Amelia um olhar eloquente, e disse com a palavra
-lenta e calma:
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade; já o experimentei em mim. Por que hei de occultal-o?
-Minha alma já passou por esta dura prova, e sahiu triumphante. Hoje sei
-que tenho forças para amar até os defeitos da mulher que Deus me
-destinou.
-</p>
-<p>
-Amelia perturbou-se com aquellas palavras, e o olhar ardente que parecia
-graval-as em sua alma. Nessa noite retirou-se pensativa; e por muito
-tempo a figura pallida de Leopoldo, esvoaçou na penumbra de seu leito
-de virgem.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="X">X</a></h4>
-
-<p>
-Pela manhã se dissiparam essas nevoas que no espirito de Amelia deixara
-a noite antecedente.
-</p>
-<p>
-Era domingo. A moça, envolta em seu roupão alvo, com os cabellos
-soltos pelas espaduas, encostou o rosto á vidraça da janella.
-Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar perfeitamente a rua,
-sem que de fóra vissem o seu gracioso desalinho.
-</p>
-<p>
-Não tardou que se ouvisse um tropel de cavallo. Era o leão que ia dar
-seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina, e desenhar-se no vidro
-a ponta de uns dedos côr de rosa, Horacio cortejou, enviando um sorriso
-á janella.
-</p>
-<p>
-Á noite o moço dirigiu-se á casa do Salles. Amelia o esperava. A sala
-estava cheia de visitas. Entrando, o olhar de Horacio encontrou um olhar
-terno que o saudava de longe.
-</p>
-<p>
-Mas o sorriso se desfez com a perturbação que de repente sentiu a
-moça. A vista do leão tinha descido até o tapete, e se fixara com uma
-insistencia visivel na fimbria do vestido, ligeiramente arregaçada.
-Horacio julgou que pudesse lobrigar a ponta do pesinho que idolatrava.
-</p>
-<p>
-A moça concertou as dobras da saia de modo a interceptar o olhar
-curioso; e disfarçou conversando com uma amiga.
-</p>
-<p>
-Desde principio notara Amelia aquelle sestro de Horacio. Quando ella o
-suppunha mais embebido em seus encantos, mais rendido á sua belleza,
-sorprendia o olhar do moço a rastejar pelo chão, procurando
-insinuar-se por baixo da orla de seu vestido.
-</p>
-<p>
-Muitas vezes ella perdia os seus mais ternos sorrisos, porque o moço,
-em vez de procurar lhe no rosto a esperança de ser amado, esquecia-se,
-a catar sobre o tapete alguma idéa que não se animava a revelar. Já
-tinha succedido, durante que ella tocava, distrahir-se o leão, e com a
-attenção presa no pedal, nem ouvir a peça de musica.
-</p>
-<p>
-Horacio a amava sem duvida; já lhe tinha dado provas de que sentia por
-ella uma paixão vehemente. Elle, o rei da moda, o festejado
-conquistador, para quem todas as portas e todos os corações abriam-se
-como a gruta encantada de Aladino, a uma só palavra; elle ali estava
-captivo da vontade della, e atado a seu carro triumphal. Que prova mais
-eloquente de profundo amor, do que essa submissão espontanea do altivo
-leão?
-</p>
-<p>
-A força nunca se revela tanto como na posse de si mesma, no vigor com
-que se domina. Hercules, fiando aos pés de Omphale, é o ultimo canto,
-o epilogo sublime da epopéa da força humana. Exterminando a féra, a
-natureza e até os deuses, Hercules foi grande; abatendo a si mesmo, foi
-maior, porque venceu o vencedor.
-</p>
-<p>
-Amelia comprehendia que homenagem eloquente á sua belleza havia
-naquella adoração do elegante cavalheiro; sentia-se orgulhosa com esse
-amor, que tantas mulheres lhe invejavam; considerava-se rainha, desde
-que via a seus pés subjugado e humilde o rei da moda.
-</p>
-<p>
-Mas lá no intimo alguma cousa lhe remordia, quando notava a pertinacia
-com que o olhar de Horacio, procurava a fimbria de seu vestido. Nesses
-momentos sentia n'alma um alvoroço; chegava a suspeitar que Horacio
-não lhe tinha amor, e estava escarnecendo della com uma paixão
-fingida.
-</p>
-<p>
-A verdade, porém, é a que sabemos. Horacio tinha paixão louca pelo
-pésinho de que só conhecia a botina e o rasto; fazendo a côrte a
-Amelia, elle prestava culto ao deus ignoto, que adorava sob aquella
-fórma encantadora. Pelo cuidado que tinha a moça em não desconcertar
-os babados de seu vestido comprido de mais, conheceu elle o zelo com que
-a dona recatava o thesouro. Comtudo não desesperou; o cuidado da moça
-havia de adormecer um momento; podia mesmo sobrevir um accidente
-inesperado que realizasse a sua mais cara esperança.
-</p>
-<p>
-Até aquella noite todos os esforços se tinham frustrado: á sua
-insistencia a moça tinha opposto a pertinacia do capricho feminino.
-Quanto mais attento elle estava para aproveitar qualquer descuido, mais
-alerta ella ficava para não commetter a minima falta.
-</p>
-<p>
-Horacio porem resolveu dar o golpe; e com essa intenção, fora á casa
-de Salles, no domingo em que estamos.
-</p>
-<p>
-Quando se offereceu occasião, travou com Amelia, recostada á janella,
-o seguinte dialogo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Como é bonita! disse elle contemplando a moça com enlevo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda não tinha percebido? perguntou ella com ironica faceirice.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, D. Amelia, não; porque de cada vez a acho mais bonita: todos os
-dias a senhora muda a meus olhos; torna-se outra, mais linda, mais
-formosa, do que era aquella que eu conhecia anteriormente. Como hoje,
-acredite, nunca a vi.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que tenho eu de mais?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei; tem uma aureola da belleza! Seus olhos desferem raios de
-luz tão pura; sua boca sorri como a flôr em botão, que abriu com a
-frescura da noite. Os anneis de seus cabellos castanhos parecem
-impregnados de um fluido mysterioso, que se derrama em torno. Mas, de
-toda a sua formosura ha uma cousa sobretudo que eu admiro, que eu adoro.
-Não é, nem seus olhos brilhantes, nem seus labios mimosos, nem seu
-talhe elegante, nem suas tranças tão opulentas; não é nada disto!
-</p>
-<p>
-&mdash;O que é então?
-</p>
-<p>
-&mdash;Para que dizel-o? Para que revelar a minha paixão, a quem della
-escarnece? Si eu o confessasse, cessariam o supplicio que tenho
-soffrido, as ancias que estou curtindo? Não; haviam de augmentar si
-isso fosse possivel. A senhora teria prazer em torturar-me ainda mais.
-</p>
-<p>
-&mdash;Explique-se: confesso que não o entendo. Que supplicio tem o senhor
-soffrido?
-</p>
-<p>
-&mdash;A mulher é caprichosa, muitas vezes faz padecer aquelle que a ama
-sinceramente, e só por espirito de contradicção. Uma cousa innocente,
-um favor pequenino... permitte aos estranhos e indifferentes, e
-entretanto recusa ao homem que morre de paixão por ella. Não é uma
-crueldade? A senhora pergunta, D. Amelia, que supplicio tenho eu
-soffrido. Este, de ser consumido á fogo lento por um desejo, que um
-gesto seu podia tornar em gozo infinito!
-</p>
-<p>
-A moça com as faces incendidas em rubôr, luctava no alvoroço e
-confusão, que iam-se apoderando de toda sua pessoa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Entende agora, D. Amelia?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! murmurou tremula.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois não percebeu ainda, que ha uma cousa que eu sobretudo amo na
-senhora? Tanto percebeu, que fez o proposito de escondel-a a meus olhos,
-cançados de a procurarem a cada instante. Não está contente ainda de
-vêr-me arrastando assim a alma pelo pó, no vão intento de entrevêr
-de longe o objecto de minhas adorações?
-</p>
-<p>
-O leão fitou um olhar fascinador no semblante da moça.
-</p>
-<p>
-&mdash;Para que negar, D. Amelia? A senhora o sabe, e finge ignorar para
-mais torturar-me.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu não!
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora sabe por quem deliro de paixão, por quem darei a minha
-vida sem hesitar. Si não soubesse, já eu teria visto e admirado esse
-pésinho mimoso, que me mata com seu rigor.
-</p>
-<p>
-Uma visita que entrava na sala, deu a Amelia um pretesto para fugir,
-disfarçando seu rubôr e perturbação, no afan da recepção das
-senhoras que chegavam.
-</p>
-<p>
-Ao retirar-se, Horacio achou ensejo de trocar uma palavra coma moça,
-emquanto lhe apertava a mão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não seja cruel!
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh, cruel não sou eu; replicou a moça com expressão de
-ressentimento.
-</p>
-<p>
-Mais tarde em sua alcova, emquanto desfazia o penteado, soltando os
-lindos anneis do cabello castanho, Amelia recordou-se das palavras
-apaixonadas que ouvira de Leopoldo na vespera, e comparou-as com as
-queixas de Horacio. A linguagem do primeiro tinha a eloquencia da
-paixão; parecia vir do intimo, do mais profundo do coração. A
-linguagem do segundo, tinha a graça da seducção; era a vibração
-passageira das cordas d'alma.
-</p>
-<p>
-Mas a palavra do leão, vinha envolta em um sorriso gracioso, sombreado
-por um bigode fino e elegante!
-</p>
-<p>
-Durante uma semana, Amelia não viu Horacio; por uma razão muito
-simples. O moço de arrufado, não appareceu durante dois dias; quando
-se resolveu a apparecer, a moça despeitada inventou um incommodo, e
-não desceu á sala de visita, pelo dobro do tempo. Si Horacio
-sustentasse a lucta, podia haver serio rompimento.
-</p>
-<p>
-O leão, porém, estava domado; tinha achado a sua Diana. No quinto dia
-foi humildemente render preito e homenagem á suzerana de seu coração.
-Amelia o recebeu, como rainha magnanima; e tratou-o nesse dia com
-amabilidade extrema. Pela primeira vez, Horacio pôde beijar-lhe a ponta
-dos dedos.
-</p>
-<p>
-Animado com esse acolhimento, o leão arriscou de novo a grande
-questão. Fitando o olhar no rosto da moça, e abaixando-o á orla do
-vestido, disse em tom supplicante:
-</p>
-<p>
-&mdash;Me deixa vêr?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não; respondeu a moça com vivacidade, e demudando-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando cessará este capricho?
-</p>
-<p>
-&mdash;Nunca.
-</p>
-<p>
-Horacio teve um assomo de impaciencia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem. Não me quer mostrar a mim, Horacio de Almeida, pois ha de
-mostral-o a uma pessoa.
-</p>
-<p>
-&mdash;A quem? perguntou a moça irritada.
-</p>
-<p>
-&mdash;A seu marido.
-</p>
-<p>
-Amelia tornou-se pallida, e sentiu passar-lhe nos olhos uma vertigem;
-mas recobrou-se logo á idéa, de que as palavras de Horacio não
-passavam de um galanteio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Si algum dia me casar, replicou ella sorrindo, ha de ser com a
-condição de não mostrar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Havemos de discutir essa condição.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos mudar de conversa?
-</p>
-<p>
-&mdash;Como quizer; temos muito tempo para continual-a.
-</p>
-<p>
-Emquanto Amelia o olhava sorpresa, Horacio voltando-se para o grupo das
-senhoras, tomou parte na conversação geral.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já sabem a novidade, minhas senhoras?
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual dellas? Ha tantas.
-</p>
-<p>
-&mdash;A novidade nova, a ultimamente inventada, que eu acabo de receber em
-primeira mão, de caminho para aqui.
-</p>
-<p>
-&mdash;Algum casamento, aposto.
-</p>
-<p>
-&mdash;E eu sei de quem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não adivinhou. Talvez que a novidade de amanhã seja algum casamento;
-quem sabe? respondeu Horacio, relanceando um olhar para Amelia. Mas a
-novidade de hoje, é apenas um baile, um baile de estrondo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aonde?
-</p>
-<p>
-&mdash;No Cassino?
-</p>
-<p>
-&mdash;No Club?
-</p>
-<p>
-&mdash;Em casa do Azevedo.
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade! Eu já tinha ouvido dizer!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quer a senhora fazer de velha a minha novidade. O que se dizia era
-que o Azevedo tinha tenção de dar um baile, mas disso á realisação vai
-uma grande distancia. Eu desejo muita cousa que não alcanço, e nem ao
-menos posso vêr. Foi hoje e ao jantar que resolveu-se a grande
-questão, por occasião de uma saude. Um amigo que vinha de lá,
-encontrando-me a dois passos daqui, me deu a noticia do grande
-acontecimento. Portanto, minhas senhoras, preparem-se!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando é o dia?
-</p>
-<p>
-&mdash;No primeiro do mez proximo. Ponham desde já em contribuição as
-lojas e modistas; eu o que posso é offerecer-me com muito gosto para
-admiral-as a todas, e achar a cada uma de per si, mais elegante do que
-as outras juntas. Si Páris me tivesse ouvido, não haveria guerra de
-Troia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nem Homero por conseguinte: replicou um litterato.
-</p>
-<p>
-&mdash;Homeros sempre os ha. Quando não encontram os heroes já feitos,
-inventam-n'os, e com tal habilidade, que esses grandes homens postiços,
-parecem verdadeiros, como os dentes de osana, e os coques das moças. O
-mesmo succede com os Anacreontes, cuja raça é muito maior; quando não
-acham nymphas para cantar, qualquer bruxa lhes serve de pretexto ou de
-cabide para pendurarem a lyra.
-</p>
-<p>
-Amelia ficara triste e preocupada; escutava a palavra voluvel do moço,
-com um sentimento indefinivel de angustia; parecia-lhe que era seu amor
-por ella, que Horacio rasgava aos pedacinhos, como uma pagina querida,
-abandonando-os ao sopro do vento, ao capricho daquella conversa.
-</p>
-<p>
-Uma amiga reparando na tristeza da filha de Salles, e no olhar que em
-certa occasião lhe deitara Horacio; disse ao ouvido da moça sentada á
-seu lado:
-</p>
-<p>
-&mdash;Amelia ficou lograda!
-</p>
-<p>
-&mdash;Como?
-</p>
-<p>
-&mdash;Creio que Horacio está justo com outra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem lhe disse?
-</p>
-<p>
-&mdash;A tristeza de Amelia, e o olhar que o sujeito lhe deitou, quando
-fallava de um casamento que se ha de saber-amanhã.
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade. Com quem será?
-</p>
-<p>
-&mdash;Naturalmente com alguma fazendeira de mil contos. Depois que sahirem
-da igreja, o marido leva-a para o collegio do Hitchings; e deixa-a lá
-como pensionista, emquanto elle vai a Pariz aperfeiçoar-se na <i>escola
-dos maridos</i>.
-</p>
-<p>
-Esta senhora é uma satira viva; sua conversa parece um fogo de
-artificio; dir-se-hia que o seu gracioso trajo é todo composto de
-alfinetes, que ella vai deixando em sua passagem envoltos em sorrisos
-assucarados, como confeitos do carnaval.
-</p>
-<p>
-Occulto seu nome porque é muito conhecida na boa sociedade do Rio de
-Janeiro, e não quero compromettel-a com os noivos presentes e futuros
-das fazendeiras ricas.
-</p>
-<p>
-Depois de ter durante alguns instantes ainda polvilhado a conversa com
-sua palavra elegante e chistosa, Horacio tomou o chapéo e retirou-se.
-Não eram nove horas; esta circumstancia mais entristeceu Amelia, e mais
-excitou a attenção da moça maliciosa.
-</p>
-<p>
-Á porta da casa de Salles, encontrou Horacio seu tilbure. Mandou o
-cocheiro esperal-o no largo do Machado, e elle, tendo acendido o charuto
-e vestido o sobretudo, seguiu a pé. Queria pensar.
-</p>
-<p>
-Horacio pertencia á escola daquelles que entendem, que nunca é tarde
-para arrepender-se o homem de um compromisso. Elle comprehendia o <i>jacta
-est alea</i> por esta fórma prudente e rasoavel. Cezar, tendo lançado a
-ponte sobre a Rubicon, via de longe em Roma a dictadura, e mais tarde a
-purpura imperial; portanto fez elle muito bem em passar, sobretudo desde
-que o rio já não oppunha obstaculo. Mas se em vez do poder, Cesar
-encontrasse no caminho a derrota; a ponte lançada lhe serviria para
-voltar ás Gallias, e elle teria o cuidado de queimal-a depois que
-tornasse a passar.
-</p>
-<p>
-Como Cesar, elle tinha lançado a ponte com aquella palavra dita a
-Amelia, em um momento de despeito. Devia porém passar o Rubicon do
-casamento?
-</p>
-<p>
-Era sobre tão importante questão que o leão queria reflectir, fazendo
-a pé o trajecto entre Larangeiras e largo do Machado.
-</p>
-<p>
-&mdash;O casamento é o supplicio de Prometheu, pensava elle; um homem atado
-ao rochedo da familia, com o coração devorado pelo tedio; uma creatura
-dividida em duas metades, que se contrariam á cada instante, porque
-estão ligadas. Em vez do romance, do idilio, do drama, a prosa monotona
-de uma historia que se lê todos os dias. Esse prazer incomparavel de
-sentir-se todo dentro de si, de resumir-se no seu unico eu, de dispôr
-livremente de sua pessoa e vida, não o tem o marido a menos que seja um
-biltre. O casamento dilata a superficie da alma; em vez de soffrer-se no
-seu coração apenas, soffre-se na mulher, no filho, e em cada um dos
-fios dessa grande teia humana que se chama familia.
-</p>
-<p>
-Horacio recordou-se de alguns de seus amigos que haviam casado, e achou
-nessas reminiscencias a prova de sua opinião.
-</p>
-<p>
-&mdash;O casamento é tudo isso, mas que importa, desde que não ha outro
-meio de realisar o meu desejo e satisfazer esta paixão ardente e
-impetuosa? Daria a vida inteira, e sem hesitar pela felicidade que eu
-sonho. Pois si eu a daria de uma vez, por que não a emprestarei sob
-hypotheca?
-</p>
-<p>
-Tendo chegado ao largo do Machado, o moço, entrou no tilbure, que o
-conduziu á casa.
-</p>
-<p>
-Ahi, contemplando a mimosa botina, guardada como uma reliquia, encheu-se
-cada vez mais da resolução que havia tomado.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XI">XI</a></h4>
-
-<p>
-Eram onze horas da manhã.
-</p>
-<p>
-Amelia estudava ao piano os exercicios de Hertz. As janellas cerradas
-deixavam entrar frouxa claridade, coada pela cassa transparente das
-cortinas.
-</p>
-<p>
-Nesse crepusculo artificial, a belleza da moça tomava uns tons suaves e
-meigos, que mais seduziam.
-</p>
-<p>
-Os lindos cabellos ainda humidos do banho, cobriam-lhe as espaduas de
-uma tunica de veludo castanho. O bajó de cassa que trazia no seu
-desalinho matutino, conchegado á cutis, coloria-se com os reflexos
-rosados do collo mimoso.
-</p>
-<p>
-Tanta graça e formosura, realçadas pela singelleza do trajo e pela
-naturalidade da posição, ficavam ali occultas na doce penumbra da
-sala, recatadas á admiração. As duas horas Amelia costumava subir á
-sua alcova para se pentear; e o gracioso desalinho despparecia,
-substituido por um trajo mais apurado e elegante. Era a flôr singella
-que o vento desfolha na mata, e passa ephemera e desconhecida.
-</p>
-<p>
-Tantas moças despendem um avultado cabedal de sorrisos, de olhares e
-gestos, e põem em contribuição a sêda, a renda e a moda para
-realçarem sua formosura! Mal sabem, entretanto, que nunca são ellas
-tão bonitas e feiticeiras como em certo momento de seductora
-negligencia, quando parece que a belleza desabrocha de seu gracioso
-botão.
-</p>
-<p>
-A porta da sala abriu-se, e deu entrada ao Sr. Salles Pereira.
-</p>
-<p>
-O aspecto do negociante era grave; mas da gravidade serena que annuncia
-uma preocupação agradavel. Trazia na mão uma carta aberta.
-</p>
-<p>
-Amelia assustou-se vendo entrar na sala o pai, que ella suppunha na
-cidade. Como todos os negociantes, o Sr. Salles Pereira passava a manhã
-em seu escriptorio; partia logo depois do almoço e só voltava á hora
-do jantar. A sorpreza da moça era pois natural.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! papai! exclamara ella, voltando-se ao rumor da porta. Já veiu do
-escriptorio?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda não fui; respondeu Salles Pereira sorrindo. Recebi uma carta,
-que me obrigou a demorar-me até agora para conversar com tua mãi e...
-comtigo, a quem o objecto mais interessa.
-</p>
-<p>
-&mdash;A mim? O que será, papai? Algum convite de baile?
-</p>
-<p>
-&mdash;Lê; disse o negociante apresentando-lhe a carta.
-</p>
-<p>
-Amelia correu os olhos pelo papel, e seu rosto cobriu-se de vivos
-rubôres. O coração palpitava-lhe com tanta força que debuchava no
-linho o contorno dos lindos seios.
-</p>
-<p>
-A carta era de Horacio, que pedia ao negociante a mão da filha.
-</p>
-<p>
-Acabando de a lêr, a moça de olhos baixos e corpo tremulo, parecia
-vendar-se com sua innocencia para subtrahir-se ao olhar terno e curioso
-de seu pai. Nesse momento ella desejava, si possivel fosse, esconder-se
-dentro de si mesma.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que devo eu responder, Amelia? perguntou o negociante.
-</p>
-<p>
-&mdash;O que papai quizer! balbuciou a menina.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estás bem certa de que meu desejo é o teu? Si eu não acceitar a
-honra que nos quer fazer o Sr. Horacio de Almeida?
-</p>
-<p>
-As palpebras da moça ergueram-se, desvendando seus olhos limpidos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Papai não acha bom?
-</p>
-<p>
-&mdash;Si elle te for indifferente, eu por mim não tenho grande empenho. É
-um excellente moço; tem alguma cousa de seu; mas anda em certa roda que
-não me agrada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que roda papai?
-</p>
-<p>
-&mdash;De moços da moda.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque é solteiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então o que decides?
-</p>
-<p>
-&mdash;Desde que papai e mamãi desejam, eu....
-</p>
-<p>
-&mdash;Nós não desejamos cousa alguma; queremos saber tua vontade.
-</p>
-<p>
-Amelia emmudeceu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem, já vejo que não é de teu gôsto. Vou responder ao homem com um
-<i>não</i>.
-</p>
-<p>
-Salles Pereira encaminhou-se para a porta:
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas, papai!.... murmurou a moça.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que temos?... Falla, que já me demorei muito. Quasi meio dia!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vai responder já?
-</p>
-<p>
-&mdash;Já.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixe para amanhã.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nada; são cousas que se decidem logo.
-</p>
-<p>
-&mdash;O que vai responder então?
-</p>
-<p>
-&mdash;Que não.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas eu não disse isto!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tu nada disseste.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois si eu não gostasse diria logo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! neste caso gostou?
-</p>
-<p>
-Amelia sorrindo acenou com a cabeça.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não entendo esta linguagem. Vamos a saber. Amas á Horacio?
-</p>
-<p>
-A moça fez um supremo esforço:
-</p>
-<p>
-&mdash;Amo! disse ella escondendo o rosto no seio do pai.
-</p>
-<p>
-O negociante beijou-a na fronte com ternura e carinho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! minha sonsa, não queria confessar o que tinha aqui dentro deste
-coraçãozinho! E eu que pensava que elle só queria bem a mim?
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! papai!
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem, bem, não tenho ciumes! Vai consolar tua mãi, que eu vou
-responder ao homem mais feliz deste Rio de Janeiro.
-</p>
-<p>
-O negociante voltou ao gabinete; e Amelia dirigiu-se ao interior. Sua
-mãi estava no quarto, com os olhos ainda humidos de lagrimas. Quem não
-conhece essas lagrimas abençoadas, que a mãi derrama pelos filhos; e
-que são balsamos para as afflicções, e orvalhos para as flôres da
-ventura?
-</p>
-<p>
-D. Leonor beijou a filha e estreitou-a ao seio como receiosa de que lh'a
-arrancassem dos braços. Seu coração ora alegrava-se com a felicidade
-proxima da moça, ora se entristecia com a lembrança da separação.
-</p>
-<p>
-De repente Amelia sobresaltou-se com uma idéa que lhe acudiu; e
-deixando a mãi, correu ao gabinete do negociante. Achou-o sentado á
-escrevaninha, passando por cima da carta que terminara um rolete de
-mata-borrão.
-</p>
-<p>
-O pai sorriu vendo entrar a filha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Curiosa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Já acabou? disse a moça recostando-se com gentileza á poltrona.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vê si está de teu gosto; disse o Salles cingindo-lhe a cintura com o
-braço.
-</p>
-<p>
-Amelia leu a carta rapidamente; ella já sabia de antemão que faltava
-alguma cousa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, que tal? perguntou o negociante com certo desvanecimento.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está muito boa papai. Só acho uma cousa?
-</p>
-<p>
-&mdash;O que?
-</p>
-<p>
-O negociante soffreu uma decepção. Pensava ter feito uma obra prima
-com aquella carta, escripta em seu mais bello estylo commercial, mas
-recheada de alguns rasgos sentimentaes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não acha, papai, que elle ficará todo cheio de si, obtendo logo,
-assim com tanta facilidade, o que deseja? A carta é de hoje; responder
-no mesmo dia.... mostra muita vontade de mais.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que mal ha nisso? Para que deixal-o na duvida, quando pódes tornal-o
-feliz desde já.
-</p>
-<p>
-&mdash;Papai pensa que elle duvida?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! Já sabe então! Muito bem!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu não lhe disse nada, papai.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então como sabe elle? Adivinhou?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não adivinhou nada. Papai bem sabe como são esses senhores da moda;
-cuidam que todas as moças andam morrendo por elles, e que a dificuldade
-está sómente em escolher. Como eu não quero que o Sr. Horacio me
-julgue uma de suas conquistas, estou resolvida, papai, á pensar bem
-durante quinze dias, antes de dar a resposta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Portanto esta carta não serve; disse o Salles com um suspiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ha de servir, mas daqui a quinze dias. Agora papai deve dizer
-unicamente, que, tendo me consultado, eu pedi algum tempo para dar a
-resposta.
-</p>
-<p>
-O negociante escreveu, e Amelia esperou até que partiu a carta,
-confiada a um creado.
-</p>
-<p>
-Momentos depois, Salles sahia para a cidade; e Amelia entrava em sua
-alcova, descantando trechos de arias e romances. Não se podia dizer que
-estivesse alegre, apezar do tom garrido com que modulava, e do fresco
-riso que trinava em seus labios.
-</p>
-<p>
-O que ella sentia era um alvoroço intimo, uma soffrega agitação,
-estado indefinivel d'alma prurida por mil desejos, e contida por mil
-receios.
-</p>
-<p>
-Vejamos si é possivel descobrir o que passava ali, dentro daquelle seio
-mimoso.
-</p>
-<p>
-Desvanecida a primeira commoção, produzida pela carta de Horacio,
-Amelia recordara-se do que tinha occorrido na vespera, e sobretudo das
-palavras proferidas pelo moço. Sua vaidade revoltou-se como era
-natural.
-</p>
-<p>
-&mdash;Hei de mostrar-lhe que não basta querer, para ser meu marido; e que
-não basta ser meu marido para vêr...
-</p>
-<p>
-Foi então que se dirigiu ao gabinete do pai, e adiou a resposta
-definitiva. Voltando, sentiu lá n'um cantinho do coração uns receios
-que estavam nascendo. Não fosse Horacio zangar-se com a demora, e
-retirar o pedido? Quinze dias talvez fossem de mais.
-</p>
-<p>
-Eis qual era o estado do animo de Amelia. Orgulho de vêr subjugado á
-seus pés o rei da moda; prazer de o ter captivo de uma palavra sua
-durante muitos dias; arrependimento do que fizera; susto do que podia
-acontecer; goso da ventura que sorria; taes foram os sentimentos
-desencontrados que vibraram na alma da moça.
-</p>
-<p>
-Nessa tarde Amelia preparou-se com maior esmero do que si fosse a um
-baile. Seu adorno simples, um modesto vestido branco com fitas azues,
-tomou-lhe mais tempo, do que não levaria a compôr um trajo sumptuoso.
-</p>
-<p>
-Ella esperava Horacio.
-</p>
-<p>
-Toda a noite passou indo do sofá á janella, e da janella ao consólo,
-onde estava a pendula de alabastro.
-</p>
-<p>
-As horas se escoaram, sem que o tilbure do moço parasse á porta do
-negociante.
-</p>
-<p>
-No dia seguinte, Amelia perguntou ao criado, si a carta fôra entregue a
-Horacio:
-</p>
-<p>
-&mdash;Entreguei em mão, quando entrava no tilbure.
-</p>
-<p>
-&mdash;E que disse elle?
-</p>
-<p>
-&mdash;Nada; leu e riu-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! elle riu-se; murmurou Amelia comsigo. Pois eu lhe mostrarei.
-</p>
-<p>
-Desde então, empenhada sua vaidade, os sustos se desvanecêram. Estava
-decidida a não ceder. Horacio depois de vencido tentava ainda
-resistir-lhe? Pois havia de subjugal-o completamente.
-</p>
-<p>
-Á noite foi á casa de D. Clementina, onde estava reunida a roda do
-costume. Leopoldo ali se achava tambem, e comprimentou-a com um modo
-triste e resignado.
-</p>
-<p>
-Deve existir uma corrente magnetica entre os homens, um fluido que serve
-de vehiculo ao pensamento recondito e ainda não divulgado. Não se
-explicam de outro modo certas revelações de um facto sómente
-conhecido de poucas pessoas e por estas recatado. A emoção, que
-desperta esse facto n'alma de alguns, repercute n'alma de outros, e
-produz uma especie de intuição.
-</p>
-<p>
-Na casa de D. Clementina, sabia-se já que Amelia fôra pedida em
-casamento; embora se ignorasse o nome do pretendente, talvez por não
-ser conhecido das pessoas presentes. Salles Pereira, a mulher e a filha
-não tinham dito a menor palavra sobre o objecto da carta de Horacio;
-mas a impressão produzida por essa carta, a precocupação que deixára
-nas pessoas da familia, as conversas intimas e recatadas, não
-escapáram aos escravos.
-</p>
-<p>
-D'ahi gerou-se o boato, que já tinha passado á casa de D. Clementina.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! chegou a Amelia Salles. Sabia que vai casar-se? Já foi pedida;
-disse uma senhora a Leopoldo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, senhora, não sabia; respondeu o moço com magoa, mas sem
-perturbar-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Com quem? perguntou outra moça.
-</p>
-<p>
-&mdash;Com um moço bonito e rico. Disseram-me o nome, mas já não me
-lembro.
-</p>
-<p>
-Nisso Amelia entrou na sala, onde foi muito festejada pelas amigas e
-conhecidas.
-</p>
-<p>
-As allusões e gracejos a respeito do segredo incommodaram a moça,
-embora por outro lado lhe causassem certo desvanecimento.
-</p>
-<p>
-Pelo meio da noite, Leopoldo aproximou-se de Amelia para lhe pedir uma
-contradança. Tinham dansado a primeira marca sem trocar palavra: afinal
-o mancebo rompeu o silencio:
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade que foi pedida em casamento?
-</p>
-<p>
-Amelia empallideceu; quiz disfarçar illudindo a pergunta, mas encontrou
-o olhar de Leopoldo, olhar tão doce e sincero, que não se animou a
-enganal-o.
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade; murmurou em voz quasi imperceptivel. Mas ainda não
-respondi.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estimo que seja muito feliz.
-</p>
-<p>
-&mdash;Obrigada.
-</p>
-<p>
-Amelia ficou sorpresa; ella suppunha que Leopoldo tinha-lhe ardente
-paixão; e que portanto sentiria profundo pezar, sinão desespero, com a
-noticia de seu casamento. Em vez disso, o mancebo mostrava uma
-resignação serena.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando comecei a amal-a, D. Amelia, disse Leopoldo depois de alguns
-instantes, acreditei na felicidade, e esperei alcançal-a neste mundo.
-Minha alma pressentiu a aproximação da irmã que Deus lhe destinara, e
-cuidou attrahil-a e embebel-a em seu seio. Mas essa illusão se
-desvaneceu logo. Soube qual era sua posição, e comprehendi que a
-senhora não me podia pertencer. Resignei-me, pois, a amar unicamente
-sua alma; essa ninguem me póde roubar, nem mesmo a senhora, porque Deus
-a fez para mim. Eu estava desde muito preparado para a noticia de seu
-casamento; ella não me sorprendeu, embora me entristecesse. Até agora
-adorei sua alma, como se adora a imagem da Virgem no templo; de agora em
-diante terei de adorar essa alma querida, como se adora uma santa no
-sepulchro.
-</p>
-<p>
-Leopoldo fallou por algum tempo ainda, e a moça, que a principio se
-acanhara com a expansão viva desse amor tão puro, bebia as palavras
-ardentes do mancebo, como fluido que derramava em sua alma suave calor.
-</p>
-<p>
-Nessa noite, ao recolher-se, ia absorvida neste pensamento:
-</p>
-<p>
-&mdash;Por que julgou elle impossivel que eu o amasse? sem duvida não o
-amo; mas talvez... Si eu não conhecesse Horacio... Quem sabe?
-</p>
-<p>
-Nisto lembrou-se que já se tinham passado dois dias depois do pedido, e
-portanto faltavam treze para a decisão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Si elle não vier antes disso?... Si não vier... respondo que não.
-Está decidido.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XII">XII</a></h4>
-
-<p>
-Corrêram os dias sem que Horacio apparecesse em casa do Salles Pereira.
-Amelia, apezar de seu esforço, não podia conter a impaciencia. Ella
-adivinhava que o leão estava despeitado com a resposta, e queria
-obriga-la á conceder-lhe immediatamente o que pedira; a sua mão, e com
-a mão o pesinho que elle adorava.
-</p>
-<p>
-Por vezes a moça foi até á porta do gabinete do pai, na intenção de
-diser-lhe que escrevesse á Horacio enviando-lhe o consentimento. Mas
-voltava envergonhada de sua fraqueza: enxugava algumas lagrimas que lhe
-saltavam dos olhos; e fazia novos protestos de não ceder.
-</p>
-<p>
-Nestas occaziões ella contemplava a imagem de Horacio com alguma
-severidade. Lembrava-se da volubilidade com que elle fallava-lhe de seu
-amor; do sorriso sempre faceiro que tinha nos labios e servia para
-vestir a palavra alegre ou triste, zombeteira ou commovida; e finalmente
-da insistencia que mostrava em vêr-lhe o pé.
-</p>
-<p>
-Então acodia a Amelia uma circumstancia que á principio lhe escapára;
-fôra sua recusa á impertinencia do leão, que o obrigára á pedi-la
-em casamento no dia seguinte.
-</p>
-<p>
-&mdash;Será apenas um capricho? Não me terá elle verdadeiro amor?... Si
-não me engano, o que elle ama em mim, não sou eu, mas uma mulher que
-imaginou; sirvo-lhe apenas de pretexto, como tantas outras antes de mim.
-</p>
-<p>
-O resultado destas observações era protestar a moça que daria um não
-ao pedido de Horacio. Mas quando seu pai lhe perguntava sorrindo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda não?
-</p>
-<p>
-Ella corava, abanava a cabeça, e fugia, disendo comsigo que ainda
-faltavam alguns dias para o prazo marcado.
-</p>
-<p>
-Para occupar as noites e distrahir o espirito dessa constante
-preoccupação amiudou as visitas á casa de D. Clementina. Ali com a
-influição do olhar profundo e da palavra eloquente de Leopoldo,
-esquecia as contrariedades e inquietações. Na volta trazia algumas
-dôces reminiscencias, e sobretudo um certo arroubo do coração, que
-durava algum tempo, e a preservava de suas anteriores preoccupações.
-</p>
-<p>
-Ja haviam passado doze dias depois da carta, e Amelia estava mais que
-nunca resolvida á romper com Horacio, quando se deu entre ambos um
-encontro.
-</p>
-<p>
-Foi no theatro.
-</p>
-<p>
-Amelia que á principio evitou as occasiões de encontrar-se com
-Horacio, lembrou-se que sua presença podia provocal-o; e obteve do pai
-que a levasse ao espectaculo. Subindo a escada do Theatro Lyrico,
-avistou Horacio que vinha do lado opposto.
-</p>
-<p>
-Apezar de estar prevenida a moça teve um sobresalto; mas pôde
-recobrar-se antes que o leão se apercebesse de sua presença. Foi com
-fria altivez e indifferença que ella correspondeu ao comprimento de
-Horacio, sem demorar o passo em quanto elle trocava um aperto de mão
-com o Salles Pereira.
-</p>
-<p>
-Esta indifferença porém, e sobre tudo o gesto que Amelia fez para
-arregaçar o vestido, quando subia o segundo lanço de escadas, ataram
-de novo o leão ao jugo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Desta vez, pensou elle, si eu estivesse adiante via ao menos a ponta
-do meu pésinho!
-</p>
-<p>
-Teria Amelia simulado aquelle gesto de proposito? É natural; ella
-queria subjugar outra vez o captivo que lhe escapara; usava de todos os
-seus recursos.
-</p>
-<p>
-Vencido, o moço acompanhou a familia até á porta do camarote, e
-demorou-se ahi á conversar com o negociante. Entretanto Amelia, sem
-dar-lhe a minima attenção, percorria com o binoculo os camarotes
-trocando com a mãi observações a respeito das moças e seus lindos
-adereços.
-</p>
-<p>
-Durante o resto da noite, a moça mostrou a mesma calculada
-indifferença, á ponto de irritar o mancebo. Apezar de se ter rendido,
-sentiu elle um impeto de revolta, e deixou sua cadeira junto á
-orchestra com intenção de visitar um camarote fronteiro ao do Salles
-Pereira. Lá estava uma linda moça de seu conhecimento; uma das
-estrellas de sua coroa de rei da moda.
-</p>
-<p>
-Sentar-se-hia junto della, e estabeleceria um dialogo entretecido de
-sorrisos, de olhares e meias confidencias como por ahi se dão tantos
-nos bailes e espectaculos: verdadeira scena mimica de amor representada
-perante o publico. Com esse entretenimento, Horacio comprometteria
-seriamente a reputação de uma senhora; mas vingar-se-hia de Amelia,
-excitando-lhe ciumes.
-</p>
-<p>
-Chegava já o leão á porta do camarote quando occorreu-lhe este
-pensamento.
-</p>
-<p>
-Faltava apenas um acto para terminar o espectaculo; si elle mostrasse
-afastamento, Amelia irritada persistiria em seu desdem durante o resto
-da noite; e quem sabe que resolução tomaria sob a influencia desse
-despeito?
-</p>
-<p>
-Horacio teve medo e recuou. Já se tinha submettido no começo da noite,
-o melhor expediente era perseverar. Naturalmente Amelia, no fim do
-espectaculo, abrandaria o seu rigor.
-</p>
-<p>
-Começára o acto. Horacio deixou passar algum tempo, e dirigiu-se ao
-camarote de Amelia. A moça que já tinha reparado na ausencia do leão,
-cuja cadeira estava desoccupada, adivinhou-lhe a presença, ouvindo
-abrir-se a porta. Seu primeiro movimento foi voltar o rosto; mas
-reprimiu-se a tempo, e disfarçou dirigindo o binoculo para o fundo da
-sala.
-</p>
-<p>
-Apegar do imperio que tinha sobre si, Amelia estava ao cabo das forças.
-Si naquelle momento Horacio fingisse uma retirada, ella não resistiria.
-Felizmente o leão não se lembrava disso; tinha resolvido esperar a
-sahida para trocar algumas palavras com a moça.
-</p>
-<p>
-Terminou o espectaculo afinal. Horacio offereceu o braço a Amelia:
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito lhe offendi com meu pedido, D. Amelia?
-</p>
-<p>
-A moça calou-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não lhe mereço nem uma palavra!
-</p>
-<p>
-&mdash;Parece que o senhor lhe dá bem pouco apreço.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que injustiça!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem passou tantos dias sem ella, póde bem esperar ainda os dous que
-faltam.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então sou eu o culpado dessa demora! Quem me condemnou a ella?
-</p>
-<p>
-&mdash;E o senhor nem ao menos procurou abrevial-a: achou mais commodo
-esperar tranquillamente? Pois continue á esperar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas, D. Amelia! Depois da resposta de seu pai, si eu me apresentasse
-em sua casa, tornar-me-hia importuno. Cuida que não soffri, passando
-tantos dias sem vêl-a? Ingrata! Quantas vezes não podendo resistir fui
-até á porta de sua casa, e passei, impellido pelo receio de indispol-a
-contra mim? Si ella me amasse, pensava eu, teria acceitado logo: não o
-fez; quer refflectir; devo deixal-a tranquilla, e respeitar a sua
-resolução. Que vou eu lá fazer? Obrigal-a á me aborrecer.
-</p>
-<p>
-Horacio mentia; elle se ausentara da casa do Salles Pereira, sómente
-para vencer a resistencia da moça por uma simulada indifferença.
-</p>
-<p>
-O carro do negociante aproximou-se:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vai sem me deixar uma esperança?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é aqui o logar de pedil-a.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então amanhã?
-</p>
-<p>
-&mdash;Si quizer!
-</p>
-<p>
-No dia seguinte á noite o leão estava em casa do negociante. Amelia o
-recebera com um resto de resentimento, que se desfez com os primeiros
-galanteios. Succedeu o que era natural; depois de uma abstinencia de
-tantos dias, esses corações tinham sede de ternura, e beberam um no
-outro á largos sorvos.
-</p>
-<p>
-Quando o leão se retirou, elle sabia que dois dias depois receberia
-officialmente, por uma carta do negociante, o sim que ouvira naquella
-noite entre um sorriso e um rubor.
-</p>
-<p>
-Quanto á Amelia, depois que a auzencia do moço rompeu o encanto, e
-deixou-lhe unicamente a consciencia do compromisso tomado, lembrou-se
-involuntariamente de Leopoldo, cuja imagem pallida e triste, desenhou-se
-em sua imaginação.
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle ha de soffrer muito! pensou a moça suspirando.
-</p>
-<p>
-No dia seguinte havia reunião em casa de D. Clementina. Amelia
-recordou-se disso, e fez tenção de ir. Naquelle momento julgou-se
-obrigada á communicar sua ultima resolução á Leopoldo. Pareceu-lhe
-que seria uma deslealdade deixal-o na ignorancia de seu casamento, até
-que viesse á sabel-o por algum estranho.
-</p>
-<p>
-Mais tarde surgiram os escrupulos. Tendo acceitado a mão de Horacio,
-não era bonito animar uma affeição, que deixava de ser innocente.
-Embora nunca retribuisse a paixão de Leopoldo, podiam suppôr que não
-a repellia. Demais sendo natural que Horacio fosse passar a noite em sua
-casa, ella procederia muito mal, trocando sua companhia pela de um
-rival.
-</p>
-<p>
-Emquanto as horas do dia se escoavam, estas e outras razões disputavam
-no espirito da moça a decisão que ella devia tomar. Afinal interveiu o
-coração!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tenho pena delle!
-</p>
-<p>
-E ás oito horas estava em casa de D. Clementina. Nessa noite a moça,
-cujo espirito jovial sympathisava com as côres frescas e risonhas,
-escolheu um vestuario sombrio. Era uma faceirice melancolica. Aquella
-menina de 18 annos, que na vespera, muito espontaneamente se promettera
-á um homem elegante de seu gosto e escolha, afigurava-se agora uma
-victimado dever, sacrificando-se heroicamente ao compromisso contrahido.
-</p>
-<p>
-Essa convicção dominava Amelia ao entrar na sala, e ressumbrava não
-só nas fitas pretas de seu trajo, como na languida flexão da fronte,
-e no olhar cheio de magoas. Ella se julgava sinceramente coagida por uma
-força irresistivel, que a arrancava á um amor profundo e santo, como a
-flôr que o vento arrebata ao tronco onde se enlaçara.
-</p>
-<p>
-Leopoldo comprehendeu a melancolia de Amelia, e adivinhou que essa
-mulher estava perdida para elle no mundo; mas que sua essencia divina
-lhe pertencia, para todo o sempre. Sentiu pois a magoa da saudade, que
-precede a longa ausencia. Quando se tornariam a encontrar as duas
-metades dessa alma, separadas por uma contingencia da materia?
-</p>
-<p>
-Pela noite adiante Leopoldo aproximou-se de Amelia, porem só lhe fallou
-de cousas indifferentes, ao contrario do que ella esperava. Si o moço a
-interrogasse á respeito do casamento, aproveitaria o momento para
-confessar-lhe; mas elle nem de leve tocou nesse ponto.
-</p>
-<p>
-Na occasião de se despedirem a moça fez um esforço.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já sabe? perguntou com voz tremula e quasi imperceptivel.
-</p>
-<p>
-&mdash;Adivinhei! disse o mancebo fitando nella os olhos tristes.
-</p>
-<p>
-Amelia ficou um instante indecisa, em face delle, como si esperasse mais
-alguma palavra; Leopoldo dissera tudo naquelle olhar, em que diffundira
-sua alma.
-</p>
-<p>
-&mdash;Adeus! murmurou a moça afinal.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XIII">XIII</a></h4>
-
-<p>
-A casa nobre de Azevedo resplandecia. A melhor sociedade da côrte
-concorrêra ao sumptuoso baile.
-</p>
-<p>
-Toda aristocracia, a belleza, o talento, a riqueza, a posição e até a
-decrepita fidalguia, estavam dignamente representadas nas ricas e vastas
-salas, adereçadas com luxo e elegancia; duas cousas que nem sempre se
-encontram reunidas.
-</p>
-<p>
-Eram nove horas. Ainda o baile não começara; e notava-se na reunião a
-gravidade solemne, o grande ar de ceremonia, que serve de prologo ás
-festas esplendidas. Os cavalheiros percorriam lentamente as salas,
-observando o iris deslumbrante que formavam os lindos vestidos das
-senhoras; mas admirando especialmente as estrellas que brilhavam nessa
-via lactea.
-</p>
-<p>
-Amelia acabava de sentar-se.
-</p>
-<p>
-Horacio foi logo saudal-a, e comprimentou-a pelo bom gôsto e delicadeza
-de seu trajo.
-</p>
-<p>
-Realmente não se podia imaginar um adorno mais gracioso. O vestido era
-de escomilha rubescente, formando regaços onde brilhavam aljofares de
-crystal: nos cabellos castanhos trazia uma grinalda de pequenos botões
-de rosa, borrifados de gôttas de orvalho.
-</p>
-<p>
-Um poeta diria que a moça tinha cortado seu trajo das finas gazas da
-manhã; ou que a aurora vestindo as nevoas rosadas, descera do céo para
-disputar as admirações da noite.
-</p>
-<p>
-&mdash;Dançaremos a primeira: disse Horacio.
-</p>
-<p>
-A moça corou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim.
-</p>
-<p>
-Laura passava. Amelia chamou-a, mostrando-lhe um logar á seu lado.
-Horacio afastou-se para deixar as duas amigas em liberdade; mas
-principalmente para poupar a Laura a contrariedade de sua presença.
-Desde a noite do theatro o leão comprehendêra que a moça lhe votava
-antipathia.
-</p>
-<p>
-Conversando com a amiga, Amelia descobriu defronte, no vão de uma
-janella, o vulto de Leopoldo, absorvido em contemplal-a, com um olhar
-profundo e intenso, que servia de valvula ás exbuberancias de sua alma.
-Sentindo-se sob a influencia desse olhar, a moça inclinou a fronte,
-como um signal de submissão, e abandonou-se á contemplação do
-mancebo.
-</p>
-<p>
-De vez em quando procurava ler de relance no rosto de Leopoldo, as
-impressões de seu espirito, os movimentos de sua alma. Presentiu que o
-moço desejava aproximar-se della para lhe fallar, mas não se animava;
-a solemnidade da festa, a grande concurrencia, a proximidade de Laura,
-tolhiam o mancebo, cujo caracter fóra da intimidade se confrangia, por
-uma especie de pudor, proprio das almas virgens.
-</p>
-<p>
-Amelia sentiu um desvanecimento, descobrindo aquella fraqueza no homem
-cujo olhar a dominava, e lembrando-se que ella podia nesse instante
-protegel-o. Não ha para a fragilidade da mulher maior orgulho e prazer,
-do que observar a fragilidade no homem. Vinga-se da tyrannia do sexo
-forte.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos sentar-nos do outro lado, Laura?
-</p>
-<p>
-&mdash;Para que? Estamos tão bem aqui.
-</p>
-<p>
-&mdash;D'ali vê-se melhor a sala; e deve estar mais fresco.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como quizeres.
-</p>
-<p>
-As duas moças atravessaram a sala, e foram tomar logar justamente no
-vão da janella onde Leopoldo se achava. Amelia conservou-se algum tempo
-de pé, com o pretexto de arranjar a cadeira, mas para dar occasião á
-Leopoldo de fallar-lhe. O mancebo adiantou-se com effeito e
-comprimentou.
-</p>
-<p>
-Amelia estendeu-lhe a mão com interesse, para animal-o.
-</p>
-<p>
-&mdash;Terei a felicidade de dansar uma quadrilha....
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual?
-</p>
-<p>
-&mdash;A ultima!
-</p>
-<p>
-&mdash;A ultima? repetiu Amelia rindo-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim; depois que tiver dansado com todos; replicou o moço completando
-seu pensamento com o olhar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então a sexta.
-</p>
-<p>
-A orchestra abriu o baile com uma brilhante symphonia, depois da qual
-deram o signal da primeira quadrilha. Rompeu-se então a symetria, e
-formou-se o turbilhão.
-</p>
-<p>
-Durante a contradansa, Horacio não se esqueceu do pésinho adorado; e
-procurou todos os meios de o descobrir n'algum momento de confusão ou
-descuido. Chegou até á fingir estouvamento em algumas das marcas com o
-fim de embaraçar o vestido da moça.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu me sento! disse-lhe Amelia irritada.
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Barbara, non hai cor</i>! replicou-lhe Horacio com as palavras do
-romance.
-</p>
-<p>
-&mdash;O seu coração está no botim? perguntou-lhe a moça com despeito.
-</p>
-<p>
-&mdash;O meu a senhora bem o sabe, já não me pertence, pois lh'o dei a
-muito tempo; e ando-o agora procurando no chão, onde creio que o deixou
-esmagado um tyranno que eu adoro e me repelle. Mas conto com a senhora
-para movel-o em meu favor. Sim?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não: respondeu a moça agastada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Realmente eu não comprehendo. Será possivel que a senhora tenha
-ciumes delle? perguntou Horacio gracejando.
-</p>
-<p>
-A moça olhou-o com expressão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tenho sim, tenho ciumes!
-</p>
-<p>
-Terminada a quadrilha, Horacio, depois de algumas voltas de passeio pela
-sala, deixou a moca no seu logar, e desceu a escada de marmore que
-levava ao jardim, illuminado com lampeões de diversas côres. Havia ao
-lado da casa, e ao longo de uma latada, mesas de ferro para tomar
-sorvetes e refrescos. Horacio, dirigindo-se para esse logar, avistou
-Leopoldo sentado á uma das mesas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! por cá tambem, Leopoldo?
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade; contra meus habitos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está esplendido! Não achas?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sem duvida. Mas parece que não tem grande interesse para ti.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque pensas assim?
-</p>
-<p>
-&mdash;Vens te esconder aqui, quando se dansa. Devias deixar isso para mim,
-que sou uma especie de misantropo, uma alma errante neste mundo das
-fadas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Para ser franco, devo-te confessar, que neste baile, onde se acham
-reunidas as mais bonitas mulheres do Rio de Janeiro, onde nada do que
-póde tornar brilhante uma festa, nem o luxo, nem a riqueza, nem a
-concurrencia, nem as notabilidades de toda a especie, neste baile só ha
-uma cousa que me interessa; uma cousa bem pequenina, e por isso mesmo de
-um encanto inexprimivel.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que condão será esse tão poderoso?
-</p>
-<p>
-&mdash;Disseste a palavra. É um condão, um verdadeiro condão de fada, que
-me transformou de repente, e fez do senhor um escravo humilde e
-submisso.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas no fim de contas o que é?
-</p>
-<p>
-&mdash;Um pésinho!
-</p>
-<p>
-Tendo proferido esta palavra, Horacio julgou ter dito tudo quanto era
-possivel exprimir na linguagem humana. <i>Um pésinho</i>, era aquelle ente
-adorado que elle entrevia nos sonhos dourados de sua imaginação; era o
-primor, que deixara impressa a sua fórma delicada na mimosa botina. O
-moço desenhava na fantasia aquelle idolo de suas adorações; e
-acreditava que Leopoldo devia, como elle, extasiar-se ante a maravilha
-da natureza.
-</p>
-<p>
-Longe disso, Leopoldo depreendera das palavras do amigo, que elle estava
-sob a influencia de uma paixão materialista; que elle amava a fórma, e
-levava sua idolatria á ponto de adorar não a fórma completa, a imagem
-viva e palpitante da mulher; mas um fragmento, um trecho apenas dessa
-fórma.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois para mim tambem, disse Leopoldo, só ha neste baile como neste
-mundo uma cousa que me illumina a existencia.
-</p>
-<p>
-&mdash;A gloria?... aposto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Um sorriso, apenas.
-</p>
-<p>
-Horacio não pôde reprimir um gesto desdenhoso. O sorriso era para elle
-uma das cousas mais triviaes: tinha-os colhido tantas vezes, e em labios
-tão puros e mimosos, que já não lhe excitavam a attenção. Eram como
-as flôres de um vaso que todos os dias se substituem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vais dansar? perguntou o leão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora não.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois façamos uma cousa. Conta-me a historia de teu sorriso, que eu
-te contarei a historia de meu pésinho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Começa então. Cabe-te a preferencia; disse Leopoldo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu a acceito; porque o objecto de meu culto não tem igual no mundo.
-</p>
-<p>
-Horacio accendeu o charuto. Elle não tinha o menor interesse em saber a
-historia de Leopoldo; o que desejava era um pretexto para fallar do
-objecto de sua adoração, e vasar o que tinha n'alma.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ha cerca de dous mezes, passando pela rua da Quitanda, achei por
-acaso sobre a calçada um objecto que tinha cahido de um carro. Era uma
-botina, mas que botina!... um mimo, um primor, uma cousa divina!
-</p>
-<p>
-«Não pódes fazer idéa, não, Leopoldo. Sabes si tenho amado mulheres
-lindas de todos os typos, alvas ou morenas; formozuras de todas as
-raças, desde a loura escosseza até a brazileira de tranças negras;
-adorei-as, umas depois de outras, e ás vezes ao mesmo tempo, essas
-differentes irradiações da belleza. Pois confesso-te que nunca o
-sorriso ou o beijo da mais seductora d'entre ellas me fez palpitar o
-coração, como aquella botina.
-</p>
-<p>
-«Pensem os phisiologistas como quizerem, o pé é a parte mais
-distincta do corpo humano; sem elle a estatura não teria a nobreza, que
-Deus só concedeu á creatura racional.
-</p>
-<p>
-«O pé revela o caracter, a raça e a educação. Cada uma das
-feições e dos gestos desse orgão de nossa vontade tem uma expressão
-eloquente. Ha quem não adivinhe em um pé delicado e nervoso a alma de
-fina tempera? Ao contrario um pé chato e pesado é a prova infallivel
-de um genio tardo e paxorrento.
-</p>
-<p>
-«Virgilio, o poeta mais elegante que tem existido, comprehendeu que
-Venus occultasse aos olhos do filho, na selva lybica, a belleza immortal
-de seus olhos, de seu sorriso, de suas fórmas seductoras; mas não
-aquillo que era sua essencia divina, sua graça olympica. Foi pelo andar
-que ella revelou-se deusa; <i>et vera incessu patuit dea</i>.
-</p>
-<p>
-«Nunca sentiste o doce contacto do pé da mulher amada? É uma
-sensação deliciosa que penetra nos seios d'alma. Podes apertar-lhe a
-mão, cingil-a ao seio, beijal-a. Nada vale aquelle toque subtil que
-abala até a ultima fibra.
-</p>
-<p>
-«Faze pois idéa do que eu sentia. E a botina não era senão a estatua
-ou a effigie do pé encantador que a havia calçado. Ali estavam
-impressos seus graciosos contornos, sua fórma suave.
-</p>
-<p>
-«Apaixonei-me por esse pésinho, que eu nunca vira, que não conhecia.
-Sagrei-lhe minha alma como ao <i>ignoto deo</i> de minhas adorações.»
-</p>
-<p>
-Horacio exagerou então os esforços por elle empregados para descobrir
-o mysterioso idolo de suas adorações, e referiu os factos que já
-conhecemos. Teve porém a discrição, rara em um leão, de não revelar
-os nomes; receiava ainda que lhe arrebatassem a conquista.
-</p>
-<p>
-&mdash;Finalmente, concluiu elle, o acaso me fez descobrir a dona do
-pésinho que em vão buscava. Has de crer, Leopoldo? Conhecia essa
-moça, que é realmente encantadora; diversas vezes achei-me com ella em
-sociedade, e nunca sentira á sua vista a menor commoção. Mas quando
-soube que á ella pertencia o thesouro, adorei-a. Para vêr o pésinho
-que sonhei, estou disposto a fazer a maior das loucuras, casar-me!...
-</p>
-<p>
-&mdash;É esta a tua historia?
-</p>
-<p>
-&mdash;Dize antes meu poema. Sinto não ser poeta para escrevel-o.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois si me permittes franqueza, dir-te-hei que realmente o desenlace
-que lhe pretendes dar será uma loucura. O casamento, quando não une
-duas almas irmãs creadas uma para a outra, é uma especie de grilheta
-que prende dois galés; o supplicio de duas existencias condemnadas a se
-arrastarem mutuamente. Tu não amas essa moça, Horacio...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não a amo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando lhe vou fazer o sacrificio que nenhuma outra mulher obteve de
-mim?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não passa de um capricho. Essa moça é para ti um pé e nada mais.
-</p>
-<p>
-&mdash;A mulher que amamos tem sempre um encanto, uma graça especial. As
-vezes são os cabellos; outras os olhos; tu amas o sorriso; eu o pé.
-</p>
-<p>
-Leopoldo levantou os hombros.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sem duvida. A alma da mulher, como a do homem, se revella em cada
-pessoa por uma feição mais distincta por uma expresão mais eloquente.
-Mas não é isto o que succede comtigo. Tu sentes a idolatria da
-belleza material; procuraste sempre na mulher a fórma, o amor plastico;
-á força de admirar os mais lindos rostos e os talhes mais seductores,
-ficaste com o sentido embotado; precisavas de algum sainete que
-estimulasse teu gosto. Viste ou imaginaste um pésinho mimoso e gentil:
-tornou-se logo para ti o typo, o ideal da belleza material, que te
-habituaste á adorar.
-</p>
-<p>
-Horacio soltou uma risada:
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha, Leopoldo, cá para mim o platonismo em amor, seria um absurdo
-incomprehensivel, si não fosse uma refinada hypocrisia. Esses mesmos
-que adoram a mulher como um anjo, de que se nutrem sinão da
-contemplação da belleza material que tratas com tamanho desprezo? É
-possivel que uma mulher feia seja amada por aberração do gôsto; mas
-fazer disso uma regra geral!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ninguem pretende semelhante cousa. A belleza é um encanto, uma
-graça, um envolucro da mulher; mas não deve ser exclusivamente a
-mulher, como a petala é a flôr, e a scentelha é a luz.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sophisma! Tira a belleza á mulher amada e verás o que fica; o mesmo
-que fica da flôr que murcha e da chamma que se apaga; pó ou cinza.
-</p>
-<p>
-&mdash;Queres que te prove o contrario? Ouve a minha historia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! é verdade. A historia de teu sorriso?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XIV">XIV</a></h4>
-
-<p>
-O Almeida accendeu outro charuto:
-</p>
-<p>
-&mdash;«Meu romance, disse Castro, começou como o teu na rua da Quitanda.
-Passando ali uma manhã, vi uma moça, que produziu em mim profunda
-impressão. Parei para contemplal-a; mas o que eu admirava nella, não
-era seu talhe elegante e seu rosto gracioso; era unicamente a emanação
-de sua alma pura, o seu casto e ingenuo sorriso.
-</p>
-<p>
-«Quando o carro partiu, arrebatando-a á meus olhos, conservei sua
-imagem gravada em minha alma. Não penses, porém, que eu revia a sua
-figura, os seus traços. Não; era uma fórma immaterial, uma visão
-vaga e indistincta. Não me lembrava como eram suas feições; qual era
-a côr de seus olhos ou de seus cabellos; mas parecia-me que eu via sua
-alma reflectida na minha.
-</p>
-<p>
-«Senti que amava essa moça, e affaguei este sentimento, que enchia meu
-ser de alegrias ineffaveis. Bastava-me vêr de tempos á tempos a minha
-desconhecida, e trocar com ella um olhar ou beber-lhe de longe nos
-labios o sorriso, que era emanação de seu ser.
-</p>
-<p>
-«Estava-me reservada uma dura provança. Um dia vendo a minha
-desconhecida entrar no carro, descobri que ella tinha um defeito... um
-aleijão, é preciso dizer a palavra. A fimbria do vestido roçagando
-mostrou-me um pé deforme.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! exclamou Horacio, não podendo reprimir um sorriso.
-</p>
-<p>
-&mdash;O acaso tornou-se nesse dia de uma previdencia cruel. O que eu tinha
-visto de relance era um vulto confuso, um volume exagerado talvez pela
-imaginação. Podia acariciar essa illusão, e desvanecer a impressão
-desagradavel que soffrêra. Mas o desengano não se demorou. Passando
-nessa mesma hora pela loja onde compro calçado, vi sobre o mostrador
-uma botina, verdadeiro contraste da que tu achaste, Horacio!
-</p>
-<p>
-&mdash;É curioso!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não havia que duvidar; era o molde do pé deforme que eu acabava de
-vêr, mas o molde fiel!... Todos os traços phisionomicos do aleijão
-ali estavam bem debuxados, sobretudo na fôrma que servira para o
-calçado, e que ali se achava ao lado delle. Poupa-me a descripção do
-que vi. Era repulsivo; isto basta.
-</p>
-<p>
-«Imagina o que devia soffrer! Não era o feio, não; era o horrivel, o
-estupendo, que de repente cahira como um peso enorme sobre meu
-coração, para espremer delle, com o ultimo sôro, um amor profundo e
-vehemente.
-</p>
-<p>
-«A luta foi terrivel, mas breve. O amor triumphou, porque era o affecto
-d'alma, e não o culto plastico da belleza. Hoje si alguma vez me lembro
-do que vi, entristeço-me pelo desgôsto que ella ha de ter de sua
-deformidade; mas sinto que por isso mesmo a amo, e a devo amar ainda
-mais.
-</p>
-<p>
-«Compara agora o teu com o meu amor, e dize em consciencia si tenho ou
-não razão. Para anniquilar o teu, não era preciso um aleijão;
-bastava substituir por uma fôrma commum esse primor que tu sonhaste,
-esse pésinho de silpho ou de deosa, que talvez não passe de uma
-illusão.»
-</p>
-<p>
-&mdash;Illusão!... Si eu tive a mesma prova que tu! Mas demos a questão por
-finda. Nem tu conseguirás me convencer, nem eu quero reviver
-lembranças que te pezam. Desculpa-me ter fallado nisto. Como podia eu
-imaginar uma tal coincidencia!
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade!
-</p>
-<p>
-Os dois amigos deram algumas voltas no jardim, fallando de cousas
-indifferentes, e entrando nas salas, separaram-se.
-</p>
-<p>
-Horacio procurou Amelia, durante algum tempo; afinal, passando pela
-porta do toucador, viu a mão da moça que entreabria a cortina de
-velludo verde.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está triste; disse-lhe o mancebo conduzindo-a ao salão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou fatigada; respondeu a moça com frio desdem.
-</p>
-<p>
-Horacio conhecia profundamente a physiologia da mulher que ama: tantas
-vezes tinha lido e relido o livro mysterioso do coração feminino, que
-não podia escapar-lhe a menor alteração do texto. O tom de Amelia o
-sorprendeu; alguma cousa havia. O que era? O que podia ser?
-</p>
-<p>
-Poucos momentos antes elle a deixára amavel e terna; uma hora depois
-vinha encontral-a desdenhosa e fria.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ciumes, naturalmente! pensou o leão com certo desvanecimento.
-Contaram-lhe alguma ou ella imaginou!
-</p>
-<p>
-O moço resolveu sondar o coração da noiva:
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora tem mais alguma cousa além da fadiga, confesse.
-</p>
-<p>
-&mdash;Illude-se!
-</p>
-<p>
-&mdash;Talvez! Concordo, para não contrarial-a ainda mais.
-</p>
-<p>
-Deram alguns passos silenciosos:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá amanhã jantar comnosco, sim? disse Amelia voltando-se para o
-cavalheiro com um sorriso ineffavel.
-</p>
-<p>
-A transicção não podia ser mais brusca: uma aurora no seio da noite,
-tal era aquelle sorriso orvalhado de meiguices e graças encantadoras.
-</p>
-<p>
-Outro, que não fosse Horacio, teria respondido sem a menor hesitação
-o <i>sim</i>, que supplicavam labios tão mimosos. Mas esse astuto Cesar dos
-salões, perito na tactica da guerra á mulher, não era homem que
-perdesse tão bom ensejo de alcançar o triumpho completo. O adversario
-lhe dera a vantagem da posição, cumpria aproveital-a.
-</p>
-<p>
-&mdash;Amanhã?...
-</p>
-<p>
-A moça fez com a cabeça um gentil aceno.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não irei.
-</p>
-<p>
-&mdash;Obrigada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não devo ir.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque?
-</p>
-<p>
-&mdash;Si eu fosse, pediria ainda uma vez aquillo que lhe tenho pedido
-tantas, e que a senhora me tem recusado tão cruelmente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah!
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem vê!... Iria contrarial-a, aborrecel-a...
-</p>
-<p>
-&mdash;Cuida?...
-</p>
-<p>
-Esta palavra tinha uma reticencia, e essa reticencia era um sorriso que
-entreabria o céo de uma alma candida.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então amanhã?... disse Horacio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vai?
-</p>
-<p>
-&mdash;E si eu pedir?
-</p>
-<p>
-&mdash;Experimente!
-</p>
-<p>
-Amelia sentou-se, e Horacio, ebrio de ventura, desceu outra vez ao
-jardim para desafogar as exhuberancias de sua alma. Nunca a primeira
-entrevista da mulher que mais amára produzira nelle tão profunda
-emoção.
-</p>
-<p>
-Para achar alguma cousa comparavel com o que então sentia fôra
-necessario remontar aos dias da juventude, aos tempos das primeiras
-pulsações de um coração virgem.
-</p>
-<p>
-Sua paixão por Amelia tinha realmente uma virgindade. O conquistador
-havia amado na mulher todas as graças e encantos, mas nunca até então
-havia adorado um pé. Devia pois experimentar realmente as sensações
-inebriantes de um primeiro amor.
-</p>
-<p>
-Na sala dansava-se a sexta quadrilha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Acho-a pensativa, disse Leopoldo reparando que o lindo rosto de seu
-par, ordinariamente animado por uma gentileza vivaz, estava agora
-amortecido pela reflexão.
-</p>
-<p>
-Amelia fitou nelle seus grandes olhos ingenuos.
-</p>
-<p>
-&mdash;E não tenho razão?...
-</p>
-<p>
-Leopoldo calou-se. Tinha comprehendido o pensamento de Amelia. Na
-vespera de decidir de seu destino, de ligar eternamente sua existencia,
-a mulher deve ter desses instantes de recolhimento intimo. A duvida
-agita-se no seio da fé mais profunda, o receio no amago da esperança
-mais risonha. As flôres do coração, como as da natureza, têm um
-verme, que as babuja.
-</p>
-<p>
-Que podia Leopoldo dizer á essa alma perplexa? Augmentar-lhe a duvida,
-dar força ás vacillações, não seria digno; parecia-lhe uma
-seducção. Confortal-a em sua fé, animar-lhe a esperança, apontar-lhe
-para um futuro cheio de venturas, fôra nobre e generoso; mas
-faltava-lhe abnegação para tanto.
-</p>
-<p>
-Terminada a contradansa, Amelia pelo braço do par deu uma volta pela
-sala. A um aceno de seu leque, Horacio, que estava conversando em um
-grupo, chegou-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Chame, papai. São horas!
-</p>
-<p>
-Emquanto o leão procurava o Salles para prevenil-o do desejo de sua
-filha, Amelia dirigiu-se ao toucador.
-</p>
-<p>
-Leopoldo ficara sorprezo de vêr a moça fallar á Horacio, e com um tom
-bem expressivo de intimidade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não pensava que se conhecessem... tanto? disse elle com a voz
-commovida.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois é com elle...
-</p>
-<p>
-O rubor que tingiu as faces da donzella rematou a phrase com a sublime
-eloquencia do pudor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sabia? perguntou a moça para disfarçar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não!
-</p>
-<p>
-&mdash;Como o Sr. diz este <i>não</i>!
-</p>
-<p>
-Com effeito a voz de Leopoldo tivera uma vibração profunda, quando
-pronunciára aquelle simples monosyllabo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Desejava que não fosse elle? perguntou a moça com certa ansiedade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque?
-</p>
-<p>
-Aproximava-se Horacio dando o braço a D. Leonor, e seguido pelo
-negociante. Amelia separou-se de seu cavalheiro, e levantando a cortina
-de velludo do toucador, voltou-se:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ha de me dizer! insistiu.
-</p>
-<p>
-&mdash;É preciso? perguntou Leopoldo, e seu olhar desceu lentamente do
-rosto da moça á fimbria do vestido.
-</p>
-<p>
-Amelia empallideceu; a cortina, escapando de sua mão tremula,
-occultou-a.
-</p>
-<p>
-&mdash;Conhecias, Amelia? perguntou Horacio, em quanto esperava que as
-senhoras sahissem do toucador.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estás admirado, sem duvida! retorquiu Leopoldo seccamente.
-</p>
-<p>
-O leão fitou no companheiro um olhar interrogador; mas occorreu-lhe de
-repente uma idéa, que lhe trouxe aos labios um sorriso de ironia.
-Lembrara-se do aleijão.
-</p>
-<p>
-A mulher amada por Leopoldo, não podia ser Amelia. Mas quem sabe si o
-idealista capaz de adorar uma monstruosidade, o espirito severo que
-desdenhava a belleza material, não soffria a seducção irresistivel do
-mimoso pésinho?
-</p>
-<p>
-&mdash;Admirado de que? De te vêr convertido á idolatria da belleza
-material?...
-</p>
-<p>
-Amelia que sahia do toucador, embuçada em sua capa de cachemira
-escarlate, tomou o braço do noivo e desceu as escadas.
-</p>
-<p>
-Quando partia o carro do Salles, Leopoldo que tambem se
-retirava, encontrou Horacio na porta.
-</p>
-<p>
-&mdash;A illusão é a unica realidade desta vida! disse elle sorrindo.
-</p>
-<p>
-&mdash;O que?
-</p>
-<p>
-&mdash;Adeus!
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XV">XV</a></h4>
-
-<p>
-Seriam quatro horas da tarde.
-</p>
-<p>
-Amelia já vestida para o jantar, esperava o noivo, trabalhando em um
-bordado de tapessaria. A seu lado em uma linda banca de costura forrada
-de páo setim, havia, além dos utensilios necessarios, uma profusão de
-seda frouxa de varias côres.
-</p>
-<p>
-No setim branco, estendido pelo elegante bastidor de mogno, via-se o
-risco de um par de sandalias, que pareciam destinadas á alguma fada,
-tão pequena, mimosa e delicada era a fórma do pé.
-</p>
-<p>
-Um dos esboços estava ainda intacto; no outro porém via-se já um
-florão de rosas bordadas á seda frouxa, e no centro a lettra L., feita
-com torçal de ouro. Era naturalmente a inicial do nome, em cuja
-tenção a moça trabalhava.
-</p>
-<p>
-Amelia estava nesse dia talvez menos formosa, porém em compensação
-mais seductora. Certa expressão languida, ou de cansaço ou de
-melancolia, embotava a flôr de sua habitual lindeza, desmaiando o matiz
-dos labios e das faces, velando o brilho dos olhos pardos. Seu trajo
-branco ainda mais ameigava a sua phisionomia.
-</p>
-<p>
-Não ha para arrebatar os sentidos, como essa languidez da mulher amada.
-Parece que ella verga com a exhuberancia do amor, como a planta muito
-viçosa, quando concentra a seiva que não brota em flôr. O homem
-querido se regosija, pensando que suas palavras e suas caricias pódem,
-como os orvalhos celestes, reanimar e expandir o coração da mulher
-amada.
-</p>
-<p>
-Talvez em Amelia não fosse esse desmaio senão o effeito da fadiga do
-baile, e das scismas da noite mal dormida.
-</p>
-<p>
-Emquanto bordava, o ouvido da moça attento esperava algum rumor que lhe
-annunciasse a chegada do noivo. Um carro parou á porta; e momentos
-depois soaram na sala de visitas os passos de alguem.
-</p>
-<p>
-Era Horacio.
-</p>
-<p>
-Vendo a moça na saleta proxima, o leão dirigiu-se a ella, com a
-familiaridade á que lhe dava direito seu titulo de noivo. Trocados os
-comprimentos usuaes, sentou-se junto ao bastidor.
-</p>
-<p>
-&mdash;O que está bordando?
-</p>
-<p>
-Amelia fez um gesto para cobrir o bordado:
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixe vêr! insistiu o moço.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não vale a pena!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah!
-</p>
-<p>
-Esta exclamação desfez-se nos labios do mancebo em um sorriso de
-jubilo.
-</p>
-<p>
-&mdash;É um presente de annos para uma amiga! disse Amelia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não são para a senhora?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não; respondeu a moça admirada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está zombando commigo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Veja!
-</p>
-<p>
-A unha de nacar da moça, mostrou o L. bordado a ouro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois ha quem tenha este pésinho mimoso, a não ser minha noiva? disse
-Horacio rindo-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu? exclamou Amelia enrubecendo. Pobre de mim!
-</p>
-<p>
-&mdash;Lembra-se do que me prometteu hontem á noite?
-</p>
-<p>
-Uma nuvem de tristeza cobriu o lindo semblante da moça; com a fronte
-pendida e os olhos baixos, parecia contrahida por uma dôr intima.
-</p>
-<p>
-&mdash;Amelia!
-</p>
-<p>
-&mdash;Hontem... não tive animo de contrarial-o. Fiz mal; desculpe-me.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então sua promessa? disse o moço com ironia.
-</p>
-<p>
-Amelia voltou o rosto como para esconder uma lagrima.
-</p>
-<p>
-&mdash;Acredite. O que me pede... não posso... não tenho forças para
-fazer. Si o senhor soubesse!... E entretanto deve saber, porque... Eu
-lhe supplico, não fallemos disso agora; depois eu lhe direi.
-Prometto-lhe!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não se dê a este trabalho. Já sei quanto basta: zombou de mim.
-</p>
-<p>
-Horacio levantou-se visivelmente despeitado, e volveu os passos pela
-sala. Amelia continuou a bordar, talvez para disfarçar o seu vexame.
-</p>
-<p>
-Decorridos alguns instantes, Horacio, lançando um olhar para a moça,
-occupada com seu bordado, viu alguma cousa que o sobresaltou. A fimbria
-do vestido, suspensa na travessa do bastidor, devia descobrir o pé da
-moça para quem estivesse sentado á sua esquerda.
-</p>
-<p>
-O leão aproximou-se na esperança de sorprender o avaro thesouro que se
-roubava á seus olhos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sabia que bordava tão bem!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora! Não tenho paciencia para estes trabalhos. Si não fosse uma
-divida...
-</p>
-<p>
-&mdash;Como? Não é mais presente de annos?
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma e outra cousa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ou talvez nem uma nem outra; disse Horacio adoçando o tom de ironia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que necessidade tinha eu de enganal-o? disse Amelia com um doce
-resentimento. Uma amiga minha...
-</p>
-<p>
-&mdash;Cujo nome não consta.
-</p>
-<p>
-&mdash;É segredo! atalhou a moça com faceirice.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! É segredo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Inviolavel. Ella não quer por cousa alguma que saibam nem mesmo
-suspeitem....
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é sua amiga?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora!... Que tem um pé deste tamanho: disse a moça mostrando o
-bordado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Devéras? acodio Horacio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella pensa que é um aleijão e sente uma tristesa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Na verdade, possuir um thesouro, um primôr! Admira como sua amiga já
-não morreu de desgôsto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas fallando sério; não é natural que uma moça tenha o pé de uma
-menina de sete annos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei si é natural; mas sublime, asseguro-lhe que é. Ha certas
-graças na mulher que devem ficar sempre meninas; as huris, as fadas, as
-deusas, são assim.
-</p>
-<p>
-&mdash;Com effeito! Si eu fosse ciumenta!
-</p>
-<p>
-&mdash;De sua amiga?... De uma amiga tão intima?... Era quasi ter ciumes de
-si mesma! disse Horacio gracejando.
-</p>
-<p>
-&mdash;O que o senhor quer sei eu. É vêr se adivinha.
-</p>
-<p>
-Horacio tinha sustentado esta conversa com interesse extremo; menos
-pelas palavras da moça, do que pelos movimentos da fimbra do vestido.
-A saia, arregaçando gradualmente com a inflexão do talhe gentil da
-moça reclinada sobre o bastidor, promettia brevemente descobrir o
-thesouro, tão estremecido pelo mancebo.
-</p>
-<p>
-Amelia, occupada com seu trabalho, e distrahida com a conversa, se
-esquecêra daquelle constante cuidado que ella tinha em compôr a orla
-do vestido. Durante a conversa apenas uma vez tirara os olhos do
-bordado, para lançar uma vista furtiva ao leão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas então essa amiga mysteriosa.... A senhora ia contar uma
-historia, si não me engano.
-</p>
-<p>
-&mdash;Historia, não senhor. Queria explicar-lhe por que este bordado é o
-pagamento de uma divida.
-</p>
-<p>
-&mdash;Justamente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois essa minha amiga, incommodava-se muito quando tinha de comprar
-botinas; custava achar um par que lhe servisse. As de senhora eram muito
-grandes; as de menina eram muito baixas. Afinal encontrou um sapateiro,
-que trabalha tão bem como os melhores de Pariz.
-</p>
-<p>
-&mdash;É exacto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como exacto? O senhor sabe?
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora não falla do Campas? disse Horacio um tanto perturbado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, senhor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pensei.
-</p>
-<p>
-&mdash;Haverá dois mezes; indo eu a cidade, minha amiga, que tinha feito
-uma encommenda de botinas, pediu-me para vêr si estava prompta. Quando o
-criado a trouxe para o carro onde o esperava, cahiu um pé de botina já
-usado, que fôra para modelo. Minha amiga ficou muito afflicta; e eu fiz
-tenção de dar-lhe no dia de seus annos umas chinellas bordadas por
-mim. Bem vê que não o enganei.
-</p>
-<p>
-Proferindo as ultimas palavras, Amelia sempre occupada com seu bordado,
-debruçou-se completamente sobre o bastidor para desembaraçar o fio de
-sêda frouxa. Este movimento produziu o que Horacio esperava. A saia,
-retrahida pela travessa do bastidor, descobriu até o artelho o pé da
-moça.
-</p>
-<p>
-O moço estremeceu com a forte emoção; e fechou os olhos, atordoado.
-</p>
-<p>
-O que vira era uma cousa indefinivel, estupenda. Era o aleijão, a
-monstruosidade de que lhe fallára Leopoldo. Aquella massa informe;
-aquella enormidade cheia de cavernas e protuberancias, elle a tinha ali
-em face, diante dos olhos, escarnecendo do seu amor, como um desses
-caturras hediondos das lendas da idade media.
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga-me uma cousa: hontem depois que sahimos o senhor conversou com
-aquelle moço que dansou commigo? O Leopoldo, não é?
-</p>
-<p>
-Não recebendo resposta, Amelia ergueu a cabeça para interrogar o noivo
-com o olhar. O aspecto demudado de Horacio, o sorriso pungente que
-amarrotava seu bigode artistico, a vista anciada que elle tinha fixa no
-monstro, lhe reveláram subitamente o que succedêra.
-</p>
-<p>
-Um grito de afflicção escapou-se do peito da moça, que afastou
-violentamente de si o bastidor, causa do accidente, e colheu os largos
-volantes da saia, occultando o que ella por tanto tempo defendêra
-contra a curiosidade soffrega do moço. Por alguns instantes os noivos
-permaneceram mudos e confusos, sentindo-se repellidos um pelo outro, e
-comtudo não ousando affastar-se. É um supplicio cruel esse que
-inflinge a presença de um ente que faz corar de vergonha.
-</p>
-<p>
-Afinal Horacio levantou-se e deu alguns passos á esmo. Amelia
-aproveitou-se desse movimento para fugir da sala. Ficando só, o leão
-dardejou para o interior um olhar terrivel; e tomando o chapéo, desceu
-rapidamente as escadas.
-</p>
-<p>
-Agora elle comprehendia tudo: e as palavras que Leopoldo lhe dissera na
-vespera, ao sahir do baile, lhe repercutiam ao ouvido, como uma
-gargalhada satanica:&mdash;«A illusão é a unica realidade deste mundo.»
-</p>
-<p>
-&mdash;Como pude eu tanto tempo illudir-me com o excessivo recato de
-Amelia? Como não desconfiei do pudor selvagem que vellava semelhante á um
-dragão sobre o terrivel segredo?
-</p>
-<p>
-«Não ha moça, seja ella o anjo da pudicicia, que não mostre ao menos
-a pontinha do pé, quando o tem mimoso e gentil. Eu devia saber disso,
-mas estava cégo. Todos cochilamos, sem ser Homeros: eu que me prezo de
-conhecer a mulher, portei-me como um calouro.
-</p>
-<p>
-«Consumir dois mezes á correr após uma sombra, e quando esperava que
-a sombra tomasse corpo, ella se desvanece... Qual! Antes se
-desvanecesse; mas ao contrario toma um vulto medonho, enorme,
-esqualido. Faz-me quasi lembrar o verso de Camões.»
-</p>
-<p>
-Horacio soltou uma gargalhada:
-</p>
-<p>
-&mdash;Realmente eu não sei qual de nós dois ficou mais corrido. Si ella de
-mostrar a toeza; si eu de a vêr.
-</p>
-<p>
-«Sonhar uma perola, e encontrar um seixo; imaginar um mimo, e achar uma
-brutalidade; desejar um botão de rosa, e colher uma tubara!
-</p>
-<p>
-«Si os rapazes souberem disto, estou deshonrado. Como posso eu mais
-apresentar-me na rua do Ouvidor, quando a cousa divulgar-se? Todo o asno
-terá direito de atirar-me o couce, como ao leão moribundo da fabula.»
-</p>
-<p>
-Horacio começou á reflectir, si fizera bem sahindo tão
-precipitadamente da casa de Salles. Moderou o passo, e olhou o relogio.
-Eram perto de cinco horas. Si voltasse, chegaria tarde; demais, como
-explicar a retirada e a volta?
-</p>
-<p>
-&mdash;Em todo o caso, pensou o leão, a fortuna não me desamparou de todo.
-Assim como a illusão durou até hoje, podia prolongar-se mais algumas
-semanas, e... Tremo de horror, quando me lembro que eu podia ser atado
-aquelle mourão, aquelle poste! Ser condemnado a arrastar uma trave por
-toda a vida? Que supplicio!
-</p>
-<p>
-«Si eu podesse imaginar que o Omnipotente, creador de tantas
-maravilhas, se occupa com a minha ridicula individualidade, e se
-interessa pelos pecados que eu tenho commettido, me ajoelhava aqui mesmo
-na rua, e lhe renderia graças pela minha salvação.»
-</p>
-<p>
-«Quem se livrasse de ser esmagado por uma rocha, não escaparia de tão
-grande perigo como eu. Casar-se um homem com aquelle pé, seria
-predestinar-se para o homicidio.»
-</p>
-<p>
-Passava um carro, que parou de repente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda por aqui, Almeida? disse o Salles deitando a cabeça fóra do
-carro.
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade... sahi, mas....
-</p>
-<p>
-&mdash;Entre, que hão de estar á nossa espera; São cinco horas, demorei-me
-hoje além do costume; por causa mesmo do senhor, maganão! Certos
-arranjos.
-</p>
-<p>
-Horacio procurou rir, mas fez uma careta que desculpou com um callo.
-Elle, o leão, sempre elegante, correcto e irreprehensivel no trajo,
-como nas maneiras, tinha perdido completamente a serenidade de espirito.
-</p>
-<p>
-As senhoras estavam reunidas na saleta. Amelia ficou sorprendida, vendo
-Horacio de volta com seu pai; e reprimiu o contentamento que sentia. Mas
-este durou pouco. Ella conheceu logo que o leão obedecêra mais ás
-conveniencias, do que ao affecto que lhe tinha.
-</p>
-<p>
-Comtudo essa volta significava alguma cousa. Ella, Amelia, não causava
-horror á seu noivo.
-</p>
-<p>
-O jantar foi animado pela conversa viva e espirituosa de Horacio, que
-havia recuperado seu sangue frio. Uma circumstancia porém não escapou
-a Amelia, que passou desapercebida ás outras pessoas; o leão, apezar
-de sentado á sua esquerda, não achou um momento para trocar com ella
-uma palavra. Ao contrario, manteve sempre a conversação geral, para
-impedir o dialogo intimo, que elle receiava.
-</p>
-<p>
-Terminado o jantar, Horacio achou um pretexto para retirar-se logo.
-</p>
-<p>
-&mdash;O que se passou D. Amelia, é mais do que um segredo para mim; eu
-nada sei, esqueci; disse elle despedindo-se.
-</p>
-<p>
-Tocando apenas na mão que a moça lhe estendêra, sahiu.
-</p>
-<p>
-Amelia deu um passo para chamal-o, mas apoiando-se ao recosto do sofá,
-permaneceu immovel, escutando os passos do noivo até que se perderam ao
-longe.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XVI">XVI</a></h4>
-
-<p>
-Fazia uma semana que Horacio não apparecia em casa de Salles.
-</p>
-<p>
-Amelia tinha por duas vezes mandado saber do noivo. Da primeira
-contentou-se com um recado; da segunda enviou-lhe uma saudade.
-</p>
-<p>
-O negociante de sua parte havia passado por casa do moço, que pretextou
-um defluxo para justificar sua ausencia; e prometteu apparecer no dia
-seguinte.
-</p>
-<p>
-Horacio comprehendia a necessidade de sahir da posição difficil em que
-se achava, mas debalde procurava um meio. Cansado de cogitar, entendeu
-que o melhor era confiar-se á inspiração do momento.
-</p>
-<p>
-No dia seguinte á noite, dirigiu-se á casa do negociante.
-</p>
-<p>
-As duas senhoras estavam sentadas junto a mesa; a mãi lia, a filha
-pensava. Amelia estava triste, sua mãi suppunha que eram saudades.
-</p>
-<p>
-Quando Horacio entrou, D. Leonor o festejou com verdadeiro prazer.
-Amelia sentiu um vislumbre de esperança, que illuminou o sorriso de
-seus labios.
-</p>
-<p>
-&mdash;Felizmente! exclamou D. Leonor. Esta casa era uma fonte dos
-suspiros!
-</p>
-<p>
-A conversação começou friamente, e foi se arrastando por algum tempo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tem sahido? perguntou Horacio depois de uma pausa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não; Amelia não tem querido.
-</p>
-<p>
-&mdash;Por que? perguntou o moço voltando-se para a noiva.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então não sabe? acodiu D. Leonor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque não se offereceu occasião; disse Amelia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas tem recebido visitas?
-</p>
-<p>
-&mdash;Algumas.
-</p>
-<p>
-&mdash;O Leopoldo não appareceu!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não frequenta nossa casa; respondeu a moça.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! cuidei?
-</p>
-<p>
-&mdash;Si elle nos visitasse, o senhor o teria encontrado aqui muitas
-vezes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Podiamos nos desencontrar, disse Horacio com um sorriso motejador.
-</p>
-<p>
-Amelia percebeu que o moço estava procurando um pretexto para
-despeitar-se. D. Leonor tendo continuado a leitura interrompida estava
-alheia a conversação.
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi em casa do Azevedo que o apresentaram á senhora.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não; conheço-o de muito tempo; ha perto de dois mezes.
-</p>
-<p>
-&mdash;De onde, si não é segredo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Segredo por que? Elle frequenta a casa de D. Clementina que recebe
-ás quintas-feiras. Constantemente nos encontramos ahi. É uma reunião
-muito agradavel, estamos quasi em familia, sem a menor ceremonia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! nunca me convidou para essas reuniões; eu teria muito prazer em
-acompanhal-a, mas talvez fosse importuno, como já vou sendo aqui.
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor está habituado a viver na alta sociedade; havia de
-aborrecer-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas a senhora não se aborrecia; ao contrario divertia-se bastante.
-</p>
-<p>
-&mdash;Alguma cousa.
-</p>
-<p>
-&mdash;E Leopoldo era seu par?
-</p>
-<p>
-&mdash;Era.
-</p>
-<p>
-&mdash;Par constante?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei si era constante ou não; quasi sempre elle dansava commigo,
-porque lá não ha muito onde escolher; os pares são poucos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Optimo systema! Assim não se repara?
-</p>
-<p>
-&mdash;Em que?
-</p>
-<p>
-&mdash;Em certa assiduidade! Ainda mesmo que uma moça já tenha noivo
-arranjado, ha gente que exige da parte dessa moça certa reserva, porque
-emfim o outro póde não querer acceitar a responsabilidade de tudo! É
-uma impertinencia, concordo, mos o mundo tem destes caprichos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso se entende naturalmente com as moças que têm <i>noivo
-arranjado</i>, retorquiu Amelia frisando a palavra, e não com aquellas,
-cuja mão se pediu talvez para satisfazer uma simples fantazia.
-</p>
-<p>
-A moça levantou-se da mesa, lançando ao leão um olhar desdenhoso, e
-foi sentar-se ao piano. Emquanto ella tocava uma variação de Thalberg,
-Horacio para fazer alguma cousa, se entreteve em arranjar as figuras
-chinezas de um jogo de paciencia. Nunca elle precisára tanto de
-provêr-se dessa virtude evangelica.
-</p>
-<p>
-Decorridos alguns instantes o leão ergueu-se da meza; deu algumas
-voltas pela salla, e aproximou-se do piano, como para vêr a elegancia
-com que a moça dedilhava.
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora acha muito natural, D. Amelia, que uma noiva frequente
-assiduamente uma casa onde não tem entrada o homem com quem vai
-casar-se; acha natural que essa moça tenha em taes reuniões um par
-effectivo, que provavelmente cultiva uma dessas amisades candidas dos
-romances de Balsac, verdadeiros <i>lirios do valle</i>, que vivem de
-orvalhos e de sombras. Eu, porém, sou um espirito prosaico e material:
-tenho a infelicidade de não acreditar na attracção mysteriosa dos
-espiritos, no consorcio ideal das almas irmãs, nos sonhos ethereos, nos
-effluvios celestes, em toda essa giria sentimental. Para mim,
-intelligencia grosseira, tudo isso não passa de uma hypocrisia do
-primeiro tartufo deste mundo, o amor. É um tyrannete que toma todas as
-figuras e posições; faz-se menino ou velho, anjo ou demonio, poeta ou
-banqueiro... Estou incommodando-a talvez?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não; acabe.
-</p>
-<p>
-A moça fazia com uma ligeira surdina o acompanhamento das palavras do
-leão; mas á ultima phrase, ella retirou as mãos do teclado. Foi esse
-o motivo da pergunta de Horacio.
-</p>
-<p>
-&mdash;A senhora deve sentir muito, e Leopoldo com maior razão, de serem
-privados de uma distracção que tanto lhes agrada!
-</p>
-<p>
-&mdash;Comprehendo, replicou Amelia. O Sr. me prohibe que eu vá á casa de
-D. Clementina?
-</p>
-<p>
-&mdash;Que idéa! Não tenho direito de prohibir; ainda não sou seu marido;
-a senhora é completamente livre de suas acções, póde ir á casa de
-D. Clementina, ou onde lhe approuver; assim como eu posso, querendo,
-passar as noites no Club ou no Alcazar.
-</p>
-<p>
-Amelia soltou uma risada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pensava, que os leões estavam isentos dessa fragilidade do ciume.
-</p>
-<p>
-&mdash;Perdão; não se trata de ciume, nem sei o que isso é. A questão
-reduz-se á uma antipathia de caracteres, á uma contradicção de
-genios, que deve ter para o futuro graves consequencias. A senhora é
-idealista, eu sou materialista. Um quizera viver no mundo dos sonhos,
-outro neste valle das lagrimas e das realidades. A senhora procurando-me
-no céo entre as estrellas e os anjos, e não me achando ahi, soffreria
-uma cruel decepção; entretanto que eu na terra, ficarei reduzido á
-sombra da mulher que amei.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é tão pouco, para quem se contentava com um pé de criança;
-disse Amelia com ironia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas esse pé era a realidade, a expressão a mais sublime della!
-</p>
-<p>
-&mdash;Custa-lhe pouco á possuir essa realidade Mande fabrical-a em cêra:
-sahirá ainda mais perfeita.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda não perdi a esperança de encontral-a.
-</p>
-<p>
-O chá interrompeu o dialogo. Os dous noivos aproximaram-se da meza
-oval, onde o criado acabava de collocar a bandeja.
-</p>
-<p>
-A phisionomia de Amelia perdêra a expressão de tristeza e desanimo que
-tinha a principio; a conversa lhe deixara no semblante alguns tons
-vivos.
-</p>
-<p>
-Occupada em dispôr as chicaras para enchel-as; os gestos sempre macios
-da moça revellavam certa crispação nervosa.
-</p>
-<p>
-Horacio ficára contrariado, porque não tivera tempo de precipitar o
-<i>casus belli</i>. Receiava que se demorasse ainda o rompimento que elle
-tanto desejava.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mamãi, disse Amelia com intenção, amanhã é quinta-feira. Vamos
-passar a noite em casa de D. Clementina?
-</p>
-<p>
-&mdash;Si quizeres.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não devemos faltar; deixámos de ir a semana passada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi logo depois do baile do Azevedo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não o convido, disse Amelia voltando-se para Horacio, porque o
-senhor não frequenta essas reuniões de gente pobre.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sem duvida; tenho medo de evaporar-me em devaneios e suspiros;
-respondeu Horacio, cruzando com a moça um olhar de desafio.
-</p>
-<p>
-Elle sentiu que Amelia o provocava, e exultou. A moça estava disposta a
-resistir; o rompimento era infallivel e prompto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu gosto bem dessas partidas; a noite passa tão agradavel.
-</p>
-<p>
-Aproveitando-se de um momento em que D. Leonor se afastou, Horacio
-atirou á moça rapidamente estas palavras:
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois si a senhora voltar á casa de D. Clementina, eu não voltarei
-mais aqui.
-</p>
-<p>
-Amelia estremeceu.
-</p>
-<p>
-Um quarto de hora depois, Horacio retirou-se. Quando se despedia das
-senhoras, disse o leão á moça apertando-lhe a mão:
-</p>
-<p>
-&mdash;Desejo que se divirta muito amanhã.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aonde? perguntou D. Leonor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Em casa de D. Clementina. Não vai, D. Amelia?
-</p>
-<p>
-A moça hesitou um instante. O offêgo de seu collo trahiu uma luta
-violenta, mas rapida.
-</p>
-<p>
-Sua resolução, antes que ella a exprimisse, manifestou-se na altivez
-do porte, que uma vibração intima erigira.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vou sem falta!
-</p>
-<p>
-Horacio, soltando a mão da moça, que foi bater inerte nos folhos do
-vestido, cortejou profundamente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Seja muito feliz.
-</p>
-<p>
-Apenas o leão desappareceu na porta, Amelia abraçando e beijando a
-mãi, subiu precipitadamente á sua alcova; atirou-se á uma
-conversadeira, e desafogou em pranto e soluços a dôr que tinha
-recalcado desde muitos dias.
-</p>
-<p>
-A maior parte da noite foi para ella de vigilia. Viu correrem as horas;
-cada momento que se escoava era uma esperança, uma illusão que se
-desfolhava da flôr viçosa de sua alma.
-</p>
-<p>
-Aquelles que se separam das pessoas ou dos sitios queridos, conhecem bem
-esse travo do coração que chamamos <i>saudade</i> e sabem quanto é cruel o
-momento de separação.
-</p>
-<p>
-Mas não ha despedida cruciante como seja a da alma pelo amor que nutrio
-durante muito tempo. Ha ahi mais do que uma separação; é quasi a
-mutilação moral.
-</p>
-<p>
-Amelia comprehendêra que tudo acabara entre Horacio e ella. Desde o dia
-do jantar receiara esse resultado; mas ainda alimentava uma esperança.
-Naquella noite a esperança murchara, si não foi ella propria Amelia,
-quem a desfolhara.
-</p>
-<p>
-Agora na calada da noite, era sua alcova que lhe parecia um ermo, ella
-tinha medo do isolamento em que se achava. Algumas vezes sua alma
-sentia-se como que asphixiada pelo silencio e pela treva que a
-submergiam.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XVII">XVII</a></h4>
-
-<p>
-Como dissera á Amelia, na sua ultima visita, Horacio não tinha perdido
-a esperança de encontrar o que elle chamava a realidade de seu amor; o
-pésinho gentil e mimoso do qual elle possuia a botina.
-</p>
-<p>
-Illudira-se nas suas investigações; era preciso recomeçar.
-</p>
-<p>
-Tal era o pensamento que preoccupava o leão, recostado naquella mesma
-poltrona, onde o vimos no primeiro dia. Seu olhar embebido nos frocos da
-fumaça do puro havana, rastreava nas espiraes diaphanas a imagem
-confusa de seus pensamentos.
-</p>
-<p>
-Tinham decorrido tres dias depois do seu rompimento com Amelia. Logo na
-seguinte manhã, o leão para não dar tempo ao arrependimento da moça,
-escreveu uma carta ao Salles, manifestando seu receio de que a
-antipathia de genios tornasse infeliz uma união que todos ardentemente
-desejavam.
-</p>
-<p>
-O negociante mostrou a carta á filha, que lhe disse com um sorriso
-forçado:
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle tem razão!
-</p>
-<p>
-A carta de Horacio teve resposta no mesmo dia. O Salles encontrando-o na
-rua do Ouvidor recusou-lhe o comprimento.
-</p>
-<p>
-O leão satisfeito com esse prompto desenlace que evitava longas
-explicações, achou-se á poucos passos de distancia em frente de
-Leopoldo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! Tu me trazes felicidade! exclamou o leão, apertando-lhe a mão.
-Sempre que nos encontramos ou está para acontecer ou já tem acontecido
-alguma cousa de bom para mim.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sabes quanto estimo!... Assim eu sou uma especie de astro
-propicio, sob cuja influencia nasceste.
-</p>
-<p>
-&mdash;Queres vêr? Havia muito tempo que não te via, quando nos encontramos
-no baile do Azevedo. Pois nessa noite decidiu-se meu destino.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! e sob o meu influxo benefico?
-</p>
-<p>
-&mdash;Está visto. Lembras-te que eu te disse que estava disposto a todos
-os sacrificios até o do casamento para possuir aquelle pézinho!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Lembro-me.
-</p>
-<p>
-&mdash;O unico obstaculo era uma especie de promessa ou arranjo de familia.
-Felizmente a menina, a tal Amelia comprehendeu que perdia seu tempo, e
-arrufou-se na noite do baile por uma ninharia. Eu aproveitei o pretexto;
-escrevi ao pai retirando minha palavra, e agora mesmo elle me acaba de
-responder. Estou livre como o ar, e contente como um rapaz que sahe do
-collegio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Neste caso dou-te meus parabéns.
-</p>
-<p>
-&mdash;E tu como vais com o <i>sorriso</i>?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sem novidade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Diz-me uma cousa, no dia em que a viste pela primeira vez, ella
-estava só ou com outra moça. Faço te esta pergunta porque foi na rua da
-Quitanda e quasi pelo mesmo tempo que eu achei a botina.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eram duas; respondeu Leopoldo sorrindo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Em uma victoria?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim.
-</p>
-<p>
-&mdash;A outra era mais baixa?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não affirmo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Adeus.
-</p>
-<p>
-O leão separou-se do amigo, e repassando as particularidades de sua
-conversa com Amelia perto do bastedor e no dia do jantar, começou a
-combinal-as com as informações de Leopoldo, e com as circumstancias do
-encontro no <i>Passeio Publico</i>, onde vira o signal impresso na arêa
-pelo mimoso pézinho.
-</p>
-<p>
-Agora, fumando seu charuto depois do jantar, o leão resumia todas as
-suas reflexões, e chegava á este resultado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Decididamente o pézinho é de uma moça que ia com Amelia, no dia em
-que se perdeu a botina e no dia em que eu a vi de longe no <i>Passeio
-Publico</i>. Essa moça, cuja inicial é um L, não é outra senão Laura.
-Aquelle pudor feroz era um indicio infallivel. Amelia procurava imital-o
-por motivo bem diverso; mas não o conseguiu.
-</p>
-<p>
-O moço chegou-se a banquinha onde estava o cofre de pau rosa e
-contemplou a botina.
-</p>
-<p>
-A noite o leão foi a uma partida. Sua estrella o favorecia. Laura lá
-estava. Dirigiu-lhe algumas banalidades graciosas, que ella a principio
-recebeu com manifesta esquivança, mas depois com timidez.
-</p>
-<p>
-Horacio comprehendia a razão do procedimento da moça. Para
-tranquillisal-a, teve o cuidado de nunca abaixar a vista á fimbria do
-vestido, e mostrar-se enlevado pelo collo gracioso da gentil senhora. A
-lição que recebêra anteriormente, o tornou de uma prudencia
-consummada.
-</p>
-<p>
-No fim da noite o leão conseguira restabellecer a confiança no
-espirito de Laura, desvanecendo-lhe a suspeita deixada pela scena do
-theatro. Era o essencial; com os meios de seducção de que dispunha, e
-a inclinação que a moça revelava por elle, contava certa a conquista.
-A questão era de tempo.
-</p>
-<p>
-Antes de quinze dias frequentava a casa da moça, e estava na intimidade
-da familia.
-</p>
-<p>
-Laura perdêra o marido aos 17 annos, pouco tempo depois de casada. Era
-rica; não lhe faltavam pretendentes atrahidos pelo dote e pela belleza;
-mas ella não parecia disposta a tentar segunda vez a felicidade
-conjugal, embora não tivesse passado da lua de mel. É natural que o
-desejo lhe chegasse com o primeiro fio de neve; quando fossem rareando
-os apaixonados que a cercavam.
-</p>
-<p>
-Uma manhã, Horacio passando á pé, como costumava, pela casa da moça,
-viu-a, por entre as grades, sentada no jardim e occupada em fazer um
-ramo de flôres. Entrou e foi ter com ella, á sombra de uma latada de
-madre-silvas.
-</p>
-<p>
-Laura deu-lhe logar perto de si; e começaram a conversar sobre flores,
-modas, e mil futilidades.
-</p>
-<p>
-Eram dez horas do dia. O sol brilhava em céo limpido; uma aragem fresca
-sussurrava entre as folhas; os colleiros trinavam nas ramas das
-larangeiras. Esse concerto de perfumes e harmonias convidava o coração
-á abrir-se e cantar o seu hymno de amor.
-</p>
-<p>
-Laura reclinou a fronte e emmudeceu, com os olhos embebidos no seio de
-uma rosa, que tinha no regaço. Horacio tomou-lhe a mão, que ella cedeu
-com tenue resistencia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sabe desde quando eu a amo, Laura? Desde o dia em que a vi pela
-primeira vez passar em um carro. Foi si não me engano na rua da
-Quitanda; ia com a filha do Salles. Lembra-se?
-</p>
-<p>
-A moça fez um gesto afirmativo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Depois encontrei-a no theatro. A principio seus olhos me deixaram
-conceber alguma esperança; mas o desengano foi cruel. Nem imagina como
-soffri! Cuidei que não houvesse mulher capaz de obrigar-me a voltar ás
-ingenuidades dos 18 annos. Um dia ainda me lembro, vi-a de longe entrar
-no Passeio Publico; apressei-me para ter o prazer de cortejal-a e
-receber um olhar. Debalde corri todas as ruas; quando voltei á porta
-fiquei desesperado. A senhora tinha sahido, sempre com a filha do
-Salles. Recorda-se?
-</p>
-<p>
-&mdash;Recordo-me; respondeu a moça. Mas era por mim que fazia tudo isso?
-</p>
-<p>
-&mdash;Duvida, Laura?
-</p>
-<p>
-&mdash;Nega que esteve apaixonado por Amelia Até diziam que já a tinha
-pedido.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que ingratidão! Não sabe então porque me fiz apresentar em casa do
-Salles? Para vel-a, era preciso procurar um meio; a senhora já não se
-lembra da dureza com que me tratava.
-</p>
-<p>
-&mdash;E por isso consolava-se com Amelia?
-</p>
-<p>
-&mdash;Si amasse, Laura, havia de saber o que é o ciume, e as loucuras que
-elle nos obriga a fazer! Mas a senhora não ama!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem lhe disse!
-</p>
-<p>
-&mdash;Essa frieza.
-</p>
-<p>
-&mdash;E o que eu soffri?... balbuciou a moça pondo os olhos languidos no
-semblante do mancebo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Perdão, Laura; exclamou Horacio ajoelhando. Eu era um louco, indigno
-de teu amor; e não mereço tanta felicidade. Mas deixa-me implorar o
-meu perdão; deixa-me beijar teus pés, que...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah!...
-</p>
-<p>
-Horacio proferiu aquellas palavras apaixonadas, de joelhos diante da
-moça que sorria inclinada para elle; de repente abaixou-se para
-beijar-lhe os pés, esse objecto de sua adoração. Foi então que ella
-soltando um grito de espanto, o repelliu para longe de si com horror.
-</p>
-<p>
-Comtudo, o moço, que preparara toda aquella scena para chegar a
-realisação do desejo por tanto tempo afagado, conseguira vêr... Mas
-não o que esperava; um pésinho mimoso e gentil; e sim dois pés
-inglezes de soffrivel tamanho, que lhe pareciam descansar sobre uma
-almofada preta.
-</p>
-<p>
-O semblante de Laura se tinha demudado de uma maneira espantosa; em suas
-faces entumecidas respirava uma expressão feroz de odio e vingança.
-</p>
-<p>
-Horacio comprehendeu que naquelle momento qualquer explicação era
-impossivel. O que tinha de melhor a fazer era eclipsar-se. No fim de
-contas esse desenlace lhe convinha, pois cortava todas as dificuldades
-da retirada.
-</p>
-<p>
-Cortejou e sahiu.
-</p>
-<p>
-A alguns passos da casa, o leão não poude conter uma gargalhada, que
-lhe estava a soffocar, e desabafou-a. Realmente havia de que rir; duas
-vezes mistificado em sua paixão, elle o rei da moda, o conquistador
-sempre feliz.
-</p>
-<p>
-Insensivelmente começou á reflectir sobre o occorrido. Por mais que se
-désse tratos, a imaginação não podia decifrar o enigma. A botina que
-achara fôra perdida por uma das duas moças; mas não pertencia á
-nenhuma. Seria encommenda de outra amiga, e talvez para alguma menina de
-dez annos?
-</p>
-<p>
-De repente surgiu no espirito de Horacio uma idéa tão original, como a
-situação em que se achava.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu vi os dois pés de Laura; mas de Amelia, só vi um; é verdade que
-esse valia por tres. Mas... Não resta duvida. A naturesa tem destes
-caprichos. A maravilha a par do monstro, o mimo em face da deformidade!
-É o principio do contraste, que rege o mundo. Eu vi o direito, o
-aleijão. O esquerdo ficou occulto, como a perola e o diamante.
-</p>
-<p>
-Compenetrado dessa idéa, de que o pésinho adorado pertencia a Amelia,
-a quem a naturesa em compensação aleijara o outro; Horacio admittiu a
-possibilidade de que sua paixão pela moça revivesse, embora menos
-ardente, ou mais positiva.
-</p>
-<p>
-Ter aquelle pésinho em suas mãos, sentil-o estremecer e palpitar de
-emoção, cobril-o de beijos, acariciar a rosea cutis diaphana, tecida
-de veias azues; brincar-lhe com as unhas crespas, como conchinhas de
-nacar; cingir ao seio esse gnomo gentil, titilante de amor e volupia!...
-</p>
-<p>
-Não podia haver para o leão maior delicia neste mundo. Elle daria por
-ella todo o quinhão de prazer que por ventura lhe estava reservado para
-o resto da existencia.
-</p>
-<p>
-Foi engolphado nestes devaneios que Horacio apeou-se á rua Direita de
-um tilbure, que tomara no largo do Machado.
-</p>
-<p>
-Seguindo para a rua do Ouvidor, á passo lento e descuidado, o leão
-aspirava o ar da cidade, como o ocioso que não sabe em que ha de
-consumir o dia, e fareja uma aventura qualquer.
-</p>
-<p>
-De repente avistou cousa que o pôz alerta. Um carro que subia a rua do
-Ouvidor passou por elle; era o <i>coupé</i> do Salles. O rosto encantador
-de Amelia appareceu-lhe á principio de relance na penumbra que azulava o
-acolxoado de damasco, depois em plena luz moldurado pelo quadro do
-postigo.
-</p>
-<p>
-Acompanhando com o olhar a carruagem, Horacio a viu rodar por algum
-tempo vagarosamente por causa de embaraço no transito e parar proximo
-á esquina da rua dos Ourives. O lacaio, com a mão na aldraba, esperava
-naturalmente ordem para abrir.
-</p>
-<p>
-Horacio apressou o passo. Por duas vezes avistara a fronte de Amelia
-coroada com um chapeosinho de palha de Italia, assomando no postigo,
-afim de percorrer a rua com o olhar. A idéa de que a moça lhe desejava
-fallar passou pela mente do leão, que a repelliu, sem comtudo
-consideral-a impossivel.
-</p>
-<p>
-Em todo o caso elle acreditou que mais ou menos tinha parte naquella
-parada do carro, e não se enganava.
-</p>
-<p>
-&mdash;Para que mandaste parar? perguntou D. Leonor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quero comprar luvas no Masset; respondeu a filha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ficou atraz.
-</p>
-<p>
-&mdash;Podemos ir a pé.
-</p>
-<p>
-Quando o leão chegou a dez braças do carro, a portinhola abriu-se e
-Amelia, em companhia de sua mãi, saltou na calçada. A moça tinha um
-roupão côr de café, de extrema simplicidade, porém muito elegante;
-as luvas eram da mesma côr de cinza das fitas do chapéo de palha.
-</p>
-<p>
-As duas senhoras dirigiram-se para a casa do Masset. Horacio procurou
-cortejal-as na passagem, mas ellas não lhe deram occasião. Comtudo o
-leão reparou que a moça desfarçadamente voltou o rosto para olhal-o.
-</p>
-<p>
-Emquanto as senhoras compravam luvas, Horacio as esperava em frente da
-casa do Valais, á alguns passos do carro. Pouco tardaram. Amelia vinha
-só na frente. Felizmente o transito pela calçada diminuiu naquelle
-instante, de modo que o conquistador poude vêr a gôsto a moça
-aproximar-se delle. Levados por um impulso irresistivel os olhares do
-mancebo abaixavam-se para os volantes do vestido, e rastejaram no chão
-que a moça pisava.
-</p>
-<p>
-Amelia percebeu a insistencia do olhar, e um ligeiro sorriso fugiu-lhe
-dos labios. Imaginando que na calçada havia lama, colheu com ambas as
-mãos a frente da saia, e com tanto estouvamento que descobriu os pés
-até o colo da perna.
-</p>
-<p>
-Horacio ficou fulminado.
-</p>
-<p>
-Vira pousados na calçada dois pésinhos mimosos que palpitavam dentro
-de botinas de merinó côr de cinza. Pareciam um par de rolinhas,
-arrulhando na praia, e beijando-se com o biquinho rosado. Durante o
-rapido instante, que seus olhos poderam admirar esses primores de graça
-e gentileza, não escaparam a Horacio as ondulações voluptuosas e os
-contornos suaves dos dois silphos. Nunca elle observara no talhe
-elegante da mais formosa mulher, requebros tão avelludados como tinha
-aquelle dorso arqueado, e aquella palmilha subtil.
-</p>
-<p>
-Tamanho foi o pasmo de Horacio, que só deu por si quando a moça,
-passando por elle, entrou na carruagem. Voltou-se então
-precipitadamente, sem consciencia do que ia fazer; mas a parelha já
-tinha partido a trote largo.
-</p>
-<p>
-Momentos depois o leão descia a rua do Ouvidor completamente absorto.
-Seu labio distrahido ia debulhando, sem o sentir, alguns trechos dos
-lindos versos do conselheiro José Bonifácio:
-</p>
-<p>
-«Padres, não me negueis, se estáes em calma, Um coração no pé, na
-perna um'alma!»
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XVIII">XVIII</a></h4>
-
-<p>
-Laura e Amelia eram primas e amigas de infancia; havia entre ellas
-apenas a differença de dezoito mezes.
-</p>
-<p>
-Desde a idade de tres ou quatro annos, isto é, desde que deixou as
-faxas, Laura usou sempre de roupas compridas. Isso causava reparo a
-todos que viam a menina trajada como uma senhora. Muitos achavam
-extravagante e ridiculo o capricho e censuravam a mãi.
-</p>
-<p>
-Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos,
-e calava-se; mas não alterava o vestuario da menina. A ternura e
-piedade materna lhe davam a paciencia necessaria para arrostar com as
-zombarias do mundo.
-</p>
-<p>
-Laura tinha um aleijão; nascêra com os pés disformes. Para mais
-aggravar o desgôsto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada á uma
-belleza angelica. A senhora avaliou do infortunio de sua filha; e
-preparou-se para todos os sacrificios. Consultas foram dirigidas aos
-melhores medicos da Europa; chegou a emprehender uma viagem para tentar
-os recursos da sciencia; foram todos ineficazes.
-</p>
-<p>
-Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgraça de sua filha, afim
-de que ella não fosse obrigada á envergonhar-se na sociedade. Durante
-muito tempo Laura não teve outra criada, alem de sua mãi. A custa de
-esforços constantes, de uma vigilancia incessante de cada dia e cada
-hora, conseguiu a senhora manter esse segredo de familia, do qual
-dependia a felicidade da filha.
-</p>
-<p>
-Attingindo a idade de oito annos, a menina com o instincto da mulher,
-comprehendêra seu infortunio; e desde então descansou a mãi daquelle
-cuidado incessante. Ficando moça casou-se, e seu marido que a amava
-extremecidamente, morreu ignorando o segredo.
-</p>
-<p>
-Com bastante magoa sua, Amelia sorprendeu o segredo da prima e amiga.
-</p>
-<p>
-A filha de Salles tinha dois pésinhos de fada, breves, arqueados, com
-uns dedos que pareciam botões de rosa. O desgosto e vexame que isso
-causava á moça, ninguem o imagina. Ella suppunha-se aleijada; apezar
-de seus 18 annos, seus pés eram de menina.
-</p>
-<p>
-Assim o mesmo cuidado com que Laura escondia a sua monstruosidade, punha
-ella em occultar essa graça e prenda da natureza. Naquelle tempo não
-se tinha introduzido ainda a moda dos vestidos curtos; bem ao contrario
-o tom era arrastar desdenhosamente pelo chão a longa fimbria do
-vestido.
-</p>
-<p>
-Um dia que Laura passou em sua casa, Amelia teve curiosidade de comparar
-seu pésinho com o da prima, para saber si a differença era excessiva.
-Em quanto a outra endireitava o penteado no toucador, realisou ella seu
-intento.
-</p>
-<p>
-Avalie-se da vergonha e afflição de Laura; o desespero de Amelia foi
-maior ainda. Não perdoava a si mesma o ter causado tão grande pezar á
-prima, á quem ella queria muito bem. Para mitigar essa dôr profunda,
-Laura esqueceu a sua.
-</p>
-<p>
-Desde então as duas amigas se consolavam mutuamente. Laura admirava o
-pésinho de Amelia; esta, ou sinceramente, ou para attenuar a magoa da
-prima, chegava a invejar o seu infortunio.
-</p>
-<p>
-Aborrecida de não encontrar nas lojas calçado que lhe servisse, Amelia
-tinha descoberto por acaso o sapateiro da rua Sete de Setembro.
-Conhecendo a habilidade do Mattos, pensou que elle podesse disfarçar o
-defeito da prima. Não se enganou; o artista realisara a obra-prima de
-paciencia, que Leopoldo tivera occasião de apreciar por um acaso.
-</p>
-<p>
-Amelia fez á Laura o sacrificio de expôr-se para não comprometter o
-segredo da amiga. O sapateiro não a conhecia, nunca a tinha visto,
-recebia as encommendas por intermedio de um criado que pagava á vista.
-Facil foi portanto illudil-o.
-</p>
-<p>
-Na occasião em que as duas primas esperavam de carro na rua da
-Quitanda, o lacaio vinha da casa do sapateiro, o qual vexado com a
-pressa, esquecêra as recommendações de fechar bem o embrulho.
-</p>
-<p>
-As pretenções de Horacio vieram pouco depois arrefecer a amizade das
-duas primas; já não se viam tão a miude; mas não obstante Amelia
-continuou a prestar a Laura o mesmo serviço, e essa, coagida pela
-necessidade, foi obrigada a acceital-o.
-</p>
-<p>
-Iam as cousas por esse theor, quando teve logar o baile do Azevedo.
-</p>
-<p>
-Depois da primeira quadrilha, Amelia foi ao toucador. Era este em uma
-sala que dava para o jardim. Aproximando-se de uma janella entreaberta,
-obscurecida pela sombra do cortinado da cama, viu a moça os dois amigos
-no momento em que elles vieram sentar-se no banco, justamente collocado
-por baixo da janella.
-</p>
-<p>
-A casa era abarracada. Amelia encostada no portal da janella, descobria
-os dois cavalheiros por entre a folhagem, e ouvia distinctamente suas
-palavras.
-</p>
-<p>
-Ahi, immovel, mas agitada por commoções diversas, escutou ella a
-historia do pé, e a historia do sorriso. Já os dois amigos se tinham
-afastado, e a moça permanecia no mesmo logar, como extatica.
-</p>
-<p>
-A narração de Horacio, e as observações que fizera Leopoldo a esse
-respeito, revelaram á moça uma cousa que já anteriormente se havia
-apresentado, embora indistincta, vaga e confusa á seu espirito.
-</p>
-<p>
-O que Horacio amava nella, não era mais do que uma fórma, um capricho,
-um sonho de sua imaginação enferma. Ella comprehendeu essa aberração
-dos sentidos em um homem gasto para o amor e saciado de prazeres. A
-mulher era para o leão uma cousa commum e vulgar, incapaz de
-produzir-lhe emoções fortes. Tinha-as admirado, de todos os typos e de
-todos os caracteres. Seu coração exhausto precisava de alguma cousa
-nova, original e extravagante.
-</p>
-<p>
-Amelia comprehendeu isto, não por uma analyse, que seu espirito casto
-não poderia fazer; mas por uma intuição d'alma.
-</p>
-<p>
-Quando de novo encontrou Horacio no baile, suas maneiras não podiam que
-se não resentissem do estado de seu coração. Tratou o leão
-seccamente; mas logo tornou-se amavel; occorreu-lhe uma idéa; quiz pôr
-á prova o amor do noivo, antes de confiar-lhe seu destino.
-</p>
-<p>
-Foi na sua alcova, durante a insomnia, que ella recordou-se da historia
-de Leopoldo, e comparou seu amor ao de Horacio. Repassando na mente as
-palavras commovidas do primeiro, pensando naquelle affecto tão
-desprendido das miserias humanas, tão d'alma, Amelia sentia-se como
-purificada dos desejos do seductor.
-</p>
-<p>
-Esse amor puro e immaterial era um baptismo para seu coração virgem.
-</p>
-<p>
-A moça conheceu que o engano de Leopoldo, provinha de uma illusão da
-vista, no momento de entrar no carro com Laura; illusão confirmada pela
-presença do lacaio na loja do sapateiro. Chegou á estimar esse
-incidente que pôz em relevo a alma nobre e generosa do mancebo.
-</p>
-<p>
-Acodiu-lhe á lembrança, sua primeira conversa em casa de D.
-Clementina. As palavras que então lhe pareceram inintelligiveis, tinham
-agora um sentido. Comprehendia toda a sublimidade do coração que dizia
-com uma profunda convicção:&mdash;«Sinto-me capaz de amar o horrivel,
-sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões martyres, de amar o anjo
-ainda mesmo encarnado no aleijão.»
-</p>
-<p>
-&mdash;Esse me ama realmente, a mim, e não a sua fantazia! murmurou a moça
-com tristeza.
-</p>
-<p>
-No dia seguinte, depois de uma noite de insomnia, preparou-se para
-receber Horacio, e submettel-o á prova. O Mattos conservava um par das
-antigas botinas de Laura, o qual lhe fôra para modelo. Mandou Amelia
-buscal-o; e encheu-o de algodão para acommodar nessa enormidade o seu
-mimoso pésinho.
-</p>
-<p>
-O bordado do bastidor, foi expressamente inventado. Procurando uma
-lettra para indicar a pessoa a quem destinava o pretendido presente,
-insensivelmente traçou um L. Era a inicial de Laura, que lhe acudira a
-mente, ou era a lembrança de Leopoldo, que lhe esvoaçava ainda na
-imaginação? Foi uma e outra cousa. Serviu-se do pretexto da amiga,
-para evocar o nome do homem, que tão profundamente a amava.
-</p>
-<p>
-Depois da scena que teve logar na tarde do jantar, Amelia arrependeu-se.
-Receiava ter-se excedido; bastava-lhe matar a illusão do mancebo, não
-devia ter excitado o horror. Mas o affecto de Leopoldo a tornara
-exigente, ella queria ser amada por Horacio da mesma fórma, com aquella
-sublime abnegação.
-</p>
-<p>
-Durante alguns dias, alimentou a esperança de conservar a affeição do
-noivo, e regosijava-se com a idéa da sorpresa que lhe guardava.
-</p>
-<p>
-A ausencia do leão a foi desenganando de dia em dia. Travou-se então
-uma luta em seu espirito. Devia esquecer o homem que não amava nella
-sinão uma fantazia?
-</p>
-<p>
-O tom de Horacio na ultima noite a irritou. Seu amor proprio indignou-se
-com o menoscabo do moço e subita revelação de sua alma lhe advertiu,
-</p>
-<p>
-No dia seguinte ao do rompimento, Amelia foi como havia dito na vespera
-á casa de D. Clementina. Era a primeira vez que tornava a vêr Leopoldo
-depois do baile.
-</p>
-<p>
-Estiveram juntos alguns momentos. Como de costume Leopoldo fallou, e a
-moça embebeu-se daquellas palavras apaixonadas como de um effluvio
-suave.
-</p>
-<p>
-Em um momento de pausa, disse Amelia.
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor, passou por nossa casa na terça-feira?
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade. Porque pergunta?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu estava no jardim. Vi-o quando passava; cuidei que ia entrar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não me animava.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque?... Mamãi já lhe offereceu nossa casa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tenho receio de ser importuno.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pouco sahimos agora; á excepção das noites que passamos aqui,
-estamos sempre sós; mamãi lendo, e eu tocando ou fazendo algum
-trabalho de lã.
-</p>
-<p>
-&mdash;E ninguem mais? perguntou Leopoldo, fitando na moça um olhar
-interrogador.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ninguem! respondeu Amelia em tom grave.
-</p>
-<p>
-Leopoldo ficou suspenso, buscando comprehender o pensamento da moça.
-Era magoa do bem perdido, ou temor do mal frustrado, que assim lhe
-annuviara a phisionomia?
-</p>
-<p>
-Mas o sorriso prasenteiro illuminou o semblante da moça:
-</p>
-<p>
-&mdash;Sabe? Naquella noite do baile, me contaram uma historia muito
-interessante? disse ella.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não se póde saber?
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor, póde. Foi a <i>historia de um sorriso</i>, disse Amelia
-sublinhando a palavra com um gesto faceiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem lhe contou? Foi elle...
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi o senhor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu?
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor mesmo. Já não se lembra?
-</p>
-<p>
-&mdash;Quer gracejar?
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor estava no jardim conversando com seu amigo, e eu na janella
-do toucador.
-</p>
-<p>
-Leopoldo adivinhou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então ouviu tudo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Tudo!...
-</p>
-<p>
-&mdash;E... perdoou-me?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não; não tinha de que, mas...
-</p>
-<p>
-E seus bellos olhos limpidos repousaram no semblante do moço.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas comprehendi!
-</p>
-<p>
-Nesse momento D. Leonor chamou Amelia.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XIX">XIX</a></h4>
-
-<p>
-Quando recobrou-se da sorpreza era que tinha ficado, Horacio não achou
-em si mais do que o desejo vehemente e irresistivel de possuir o idolo
-por tanto tempo sonhado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Serão meus! murmurou comsigo. Serão meus á todo preço. Si fôr
-necessario um escandalo, não hesitarei. Mas Amelia não deve ter-se
-esquecido de mim já tão depressa; ella me tinha affeição. Vou
-pedir-lhe perdão de meu engano. Sujeitar-me-hei á todas as
-condições. Que sacrificios são bastantes para pagar a felicidade de
-beijar aquelles dous mimos da natureza!
-</p>
-<p>
-Instinctivamente Horacio seguiu na direcção da casa do Salles, com
-intenção de restabelecer as relações interrompidas. Não sabia elle
-de que modo se houvesse em tal empenho; fiava da inspiração do
-momento.
-</p>
-<p>
-Já não estava o negociante no escriptorio, nesse dia se retirára mais
-cedo.
-</p>
-<p>
-Mallograda sua esperança, o leão foi caminhando pela rua Direita sem
-direcção, como quem não sabe o que fazer. O instincto que no deserto
-guia o rei dos animaes á cebe odorifera onde retoução as gazellas, o
-conduzia naturalmente para a rua do Ouvidor.
-</p>
-<p>
-Tinha chegado á esquina, quando passou defronte um moço, que seguiu
-pela calçada Carceller. Horacio acompanhou-o com a vista, querendo
-nelle reconhecer seu amigo Leopoldo que havia cerca de um mez não vira.
-</p>
-<p>
-Si com effeito o moço era Leopoldo, tinha elle soffrido grande
-transformação. Em vez do rapaz descuidado no seu trajo, brusco em suas
-maneiras, sempre de cabellos arripiados e barba revolta; apparecia um
-cavalheiro de bôa presença, com a sobria elegancia que tão bem
-assenta nos homens sisudos. Essa especie de elegancia é apenas um
-ligeiro perfume, e não uma incrustação como a que usam os moços á
-moda.
-</p>
-<p>
-Com seu fino tacto e longa experiencia, Horacio, reconhecendo o amigo,
-adivinhou o segredo daquella subita methamorphose. Elle sabia que só ha
-um condão capaz de produzir taes encantos; é o olhar da mulher amada e
-amante.
-</p>
-<p>
-Ame alguém e não saiba si é retribuido. Toda sua existencia se
-projecta nesse impulso d'alma, que se arroja para outro ser, e ancêa
-por nelle infundir-se. Vive-se fóra de si mesmo, alheio á seu proprio
-eu; como o peregrino perdido longe da patria, o homem exilado de sua
-pessoa erra no espaço, em demanda de um abrigo.
-</p>
-<p>
-Desde, porém, que o homem tem certeza de ser amado, em vez de
-espandir-se recolhe e concentra para saturar-se de felicidade. Já não
-se alheia e esquece de si; ao contrario sente-se elevado acima do que
-era; respeita em sua pessoa o homem amado.
-</p>
-<p>
-Nessa occasião é natural á cada um observar-se constantemente, e
-julgar de si com extrema severidade. Surgem aspirações extranhas; o
-fraco lembra-se de ser um heróe; o philosopho inveja a belleza do
-casquilho; o espirito positivo habituado a voar terra a terra bate o
-coto das azas para remontar-se ao ideal da poesia.
-</p>
-<p>
-Não é só no homem que se opera essa methamorphose: mas em toda a
-natureza. Quando se arreiam os passaros de sua mais bella plumagem,
-quando gorgeiam as melodias mais brilhantes, si não é na quadra dos
-amores?
-</p>
-<p>
-Vendo Leopoldo parado na calçada Carceller, Horacio dirigiu-se com
-disfarce para aquella parte, com intenção de travar conversa e
-esclarecer de todo em todo o mysterio. Foi trabalho perdido; o moço
-acabava de saltar em um tilbure, que rodava já pela praça de Pedro II.
-</p>
-<p>
-Desapontado, voltou Horacio sobre os passos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Amelia o ama!... Ou pelo menos elle o acredita!...
-</p>
-<p>
-Sorriu-se o leão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que phenomeno curioso produz o despeito na mulher! É uma semelhança
-da luz reflexa. Irritado pela decepção, humilhado em sua vaidade, o
-amor da mulher desdenhada refrange como o raio do sol repellido por
-corpo brilhante e vai impregnar-se em outro homem. Ella cuida sentir por
-esse plastão uma paixão ardente, que nada mais é do que o impeto de
-seu despeito. Seria capaz de conceder á esse comparsa, o que recusaria
-á affeição mais terna e extremosa. O assomo do ciume, suppõe ella
-ser vehemencia da affeicção; e confunde com os extremos de amor o
-delirio da vingança. Amelia está passando por esta crise naturalmente.
-Leopoldo foi o plastão; ella o ama com todo o furor do odio que me tem.
-</p>
-<p>
-Outro sorriso frisou o labio do leão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella me odeia! Ora!... O odio o que é senão a effervescencia do
-amor? O affecto suave e terno é como o muscatel de Setubal ou o vinho
-de Constança. O amor fero e irado é como o champanhe que ferve e
-espuma.
-</p>
-<p>
-Chegando a casa, Horacio escreveu a Amelia uma carta, que apenas
-continha estas palavras:
-</p>
-<p>
-«Deve estar satisfeita, pois me tem de novo á seus pés, e desta vez
-humilde e supplicante. A melhor corôa do triumpho é o perdão.»
-</p>
-<p>
-Sahindo o leão á espairecer, dirigiu os passos para a casa do Salles;
-esperava encontrar algum criado que se incumbisse de entregar a carta.
-Quem sabe? Talvez nessa mesma occasião se decidisse de sua sorte. A
-moça lhe permittiria fallar-lhe.
-</p>
-<p>
-Era noite fechada; o céu, carregado de nuvens, annunciava proxima
-borrasca. A frente da casa do negociante estava ás escuras; comtudo
-quem observasse bem, perceberia a coar-se pelos intersticios das
-janellas um tenue reflexo de luz interior. No portão da chacara á meio
-cerrado, ninguem apparecia.
-</p>
-<p>
-O leão penetrou no jardim. Nesse momento um carro parou á porta da
-casa: tres pessoas sahiram delle. Em um Horacio viu estremecendo roupas
-de sacerdote. Só então reflectiu o moço no aspecto soturno do
-edificio. Inquieto, sobresaltado, adiantou-se pelo jardim na esperança
-de encontrar pessoa a quem interrogasse.
-</p>
-<p>
-As janellas lateraes estavam esclarecidas; e pelo jogo das sombras no
-quadro illuminado, conheceu o moço que reinava no interior alguma
-agitação.
-</p>
-<p>
-Que fazer? Apresentar-se na casa, depois do que passára, e antes de
-qualquer explicação não era rasoavel.
-</p>
-<p>
-A dois passos ficava uma frondosa mangueira, em cujos galhos tinham
-fabricado uma especie de belveder ou caramanchão. Conduzia ao alto, uma
-escadinha de caracol cingindo o tronco da arvore.
-</p>
-<p>
-Por acaso avistou o leão a mangueira, e subindo sem hesitar achou-se
-justamente fronteiro ás janellas illuminadas. Em principio a claridade
-subita offuscou-lhe a vista, e não pôde elle distinguir o que passava
-no interior.
-</p>
-<p>
-Mas afinal o deslumbramento dos olhos cedeu ao deslumbramento d'alma.
-</p>
-<p>
-Elle via, e duvidava.
-</p>
-<p>
-Um altar erguido, cirios acesos, o sacerdote officiando, Amelia e
-Leopoldo de joelhos, ao lado Salles, D. Leonor, e dois amigos que
-serviam de testemunhas: eis o quadro que se offereceu aos olhos de
-Horacio. Tinha visto na comedia da vida muitos lances dramaticos, mas
-nenhum tão imprevisto e curioso.
-</p>
-<p>
-A sorpresa do leão provinha de um engano seu. Elle acreditava que
-Amelia o tinha amado, quando a moça não sentira por elle mais do que
-o desvanecimento de vêr captivo de seus encantos o rei da moda, o feliz
-conquistador dos salões.
-</p>
-<p>
-Quem Amelia amou desde o principio, foi Leopoldo. A vaidade, o galanteio
-que se nutre de brilhantes futilidades, a seduziam por momentos, e
-rendiam ao capricho de Horacio. Mas passado esse enlevo, sua alma sentia
-a attracção irresistivel que a impellia para o seu pólo.
-</p>
-<p>
-Disso que durante dois mezes passava na vida intima da moça, ella
-propria não se apercebia; foi depois da scena do baile, que ella entrou
-em si, e comprehendeu as sublevações reconditas de sua alma, e o drama
-que ahi se agitava desde muito.
-</p>
-<p>
-Leopoldo começara a frequentar a casa de Salles, poucos dias depois da
-partida de D. Clementina. As duas almas por tanto tempo separadas, só
-esperavam o momento de se unirem ou antes de se entranharem uma na
-outra. As tardes, no jardim, entre cortinas de flôres, ellas celebravam
-esse mystico hymeneu do amor, unico eterno e indissoluvel, porque se faz
-no seio do Creador.
-</p>
-<p>
-Pelo voto de todos se apressou o dia do casamento, que os noivos
-exigiram se fizesse inteiramente á capucha, e sem prévia
-participação. A razão desse empenho, só Amelia a sabia e nunca a
-disse. Era um escrupulo de seu pudor: depois de que tinha acontecido,
-não queria que lhe dessem outra vez o titulo de noiva.
-</p>
-<p>
-Terminada a ceremonia, e feitas as felicitações do costume, correram
-os minutos em agradavel conversação.
-</p>
-<p>
-Eram 11 horas, quando Leopoldo entrou no toucador em que sua noiva o
-esperava. Sentado em uma conversadeira, Amelia sorriu para seu marido;
-porém através das largas dobras do roupão de cambraia, percebia-se o
-tremor involuntario que agitava seu lindo talhe.
-</p>
-<p>
-&mdash;É meu presente! disse ella com timidez.
-</p>
-<p>
-E apresentou ao noivo um objecto envolto em papel de seda, atado com
-fita azul.
-</p>
-<p>
-Abrindo, achou Leopoldo dois mimosos pantufos de setim branco, os mesmos
-que Amelia começara a bordar no dia seguinte ao baile.
-</p>
-<p>
-O moço enleiado, não comprehendia. Insensivelmente seu olhar desceu á
-fimbria do roupão. Sobre a almofada de velludo e entre os folhos da
-cambraia, appareciam as unhas rosadas de dois pésinhos divinos.
-</p>
-<p>
-Uma onda de rubor derramou-se pelo semblante da moça, cujos labios
-balbuciaram uma palavra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Calce!
-</p>
-<p>
-Leopoldo ajoelhou aos pés da noiva.
-</p>
-<p>
-O temporal, desabando nesse momento, bateu com violencia nos vidros da
-janella, que fechou-se.
-</p>
-<p>
-Horacio desceu do seu observatorio, e escalando a grade de ferro do
-jardim, ganhou a casa, onde chegou todo alagado. Emquanto
-philosophicamente esperava que seu criado lhe preparasse uma chicara de
-café, abriu um livro, que acertou ser La Fontaine.
-</p>
-<p>
-Leu ao acaso; era a fabula do <i>leão amoroso</i>.
-</p>
-<p>
-&mdash;É verdade! murmurou soltando uma fumaça de charuto. O leão deixou
-que lhe cerceassem as garras; foi esmagado pela pata da gazella.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>FIM.</h4>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<p>
-N. B.&mdash;Escrevo <i>tilbure</i>, <i>champanhe</i>, etc., porque
-entendo que devemos imprimir certo cunho portuguez nas palavras
-estrangeiras adoptadas pelo uso. Assim fizeram nossos antepassados,
-escrevendo <i>trumo</i>, <i>trenó</i>, <i>bufete</i> e tantas outras
-palavras de origem franceza.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A PATA DA GAZELLA:</span> ***</div>
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