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If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: A Pata da Gazella: - romance brasileiro. - -Author: José Martiniano de Alencar - -Release Date: April 14, 2022 [eBook #67831] - -Language: Portuguese - -Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by - the Biblioteca Brasiliana USP Digital) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A PATA DA GAZELLA: *** - - -SENIO - - - - -A PATA DA GAZELLA - - - - -ROMANCE BRASILEIRO - - - - -RIO DE JANEIRO - -EDITOR PROPRIETARIO - -B. L. Garnier.--Rua do Ouvidor n. 6 - -1870 - - - - -INDICE -CAPITULO I -CAPITULO II -CAPITULO III -CAPITULO IV -CAPITULO V -CAPITULO VI -CAPITULO VII -CAPITULO VIII -CAPITULO IX -CAPITULO X -CAPITULO XI -CAPITULO XII -CAPITULO XIII -CAPITULO XIV -CAPITULO XV -CAPITULO XVI -CAPITULO XVII -CAPITULO XVIII -CAPITULO XIX - - - - -I - - -Estava parada na rua da Quitanda, proximo a da Assembléa, uma linda -victoria, puxada por soberbos cavallos do cabo. - -Dentro do carro havia duas moças; uma dellas, alta e esbelta, tinha uma -presença encantadora; a outra, de pequena estatura, muito delicada de -talhe, era talvez mais linda que sua companheira. - -Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a respeito das -compras que já tinham realizado ou das que ainda pretendiam fazer. - ---Daqui aonde vamos? perguntou a mais baixa, vestida de roixo claro. - ---Ao escriptorio de papai: talvez elle queira vir comnosco. Na volta -passaremos pela rua do Ouvidor: respondeu a mais esbelta, cujo talhe era -desenhado por um roupão cinzento. - -O vestido roixo debruçou-se de modo a olhar para fóra, no sentido -contrario aquelle em que seguia o carro, emquanto o roupão, -recostando-se nas almofadas, consultava uma carteirinha de lembranças, -onde naturalmente escrevêra a nota de suas encommendas. - ---O lacaio ficou-se de uma vez! disse o vestido roixo com um movimento -de impaciencia. - ---É verdade! respondeu distrahidamente a companheira. - -Estas palavras confirmavam o que aliás indicava o simples aspecto da -carruagem: as senhoras estavam á espera do lacaio, mandado a algum -ponto proximo. A impaciencia da moça de vestido roixo era partilhada -pelos fogosos cavallos, que difficilmente conseguia soffrear um cocheiro -agalloado. - -Depois de alguns momentos de espera, sobresaltou-se o roupão cinzento, -e conchegando-se mais ás almofadas, como para occultar-se no fundo da -carruagem, murmurou: - ---Laura!... Laura!... - -E como sua amiga não a ouvisse, puxou-lhe pela manga. - ---O que é, Amelia? - ---Não vês? Aquelle moço que está ali defronte nos olhando. - ---Que tem isto? disse Laura sorrindo. - ---Não gósto! replicou Amelia com um movimento de contrariedade. A -quanto tempo está ali e sem tirar os olhos de mim? - ---Volta-lhe as costas! - ---Vamos para diante. - ---Como quizeres. - -Avisado o cocheiro, avançou alguns passos, de modo á tirar ao curioso -a vista do interior do carro; mas o mancebo não desanimou por isso, e -passando de uma a outra porta, tomou posição conveniente para -contemplar a moça com uma admiração franca e apaixonada. - -Simples no trajo, e pouco favorecido a respeito de belleza; os dotes -naturaes que excitavam nesse moço alguma attenção eram uma vasta -fronte meditativa, e os grandes olhos, pardos, cheios do brilho profundo -e phosphorescente que naquelle momento derramavam pelo semblante de -Amelia. - -Havia minutos que percorrendo a rua da Quitanda em sentido opposto á -direcção do carro, avistára a moça recostada nas almofadas, e -sentira a seu aspecto viva impressão. Sem disfarce ou acanhamento, -recostando-se a ombreira de uma porta de escriptorio, esqueceu-se -naquella ardente contemplação. - -O coração é um solo. Valle onde brotam as paixões, como os outros -valles da natureza inanimada, elle tem suas estações, suas quadras de -aridez ou de seiva, de estirilidade ou de abundancia. - -Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol, produzem na -terra uma fermentação, que fórma o humus; a semente, cahindo ahi, -brota com rapidez. Depois das grandes dôres e das lagrimas torrenciaes, -fórma-se tambem no coração do homem um humus poderoso, uma -exhuberancia de sentimento que precisa de expandir-se. Então um olhar, -um sorriso, que ahi penetre, é semente de paixão, e pulula com vigôr -extremo. - -O moço parecia estar nessas condições: elle trajava lucto pesado, -não sómente nas roupas negras, como na côr macilenta das faces nuas, -e na magoa que lhe escurecia a fronte. - -Notando Amelia a insistencia do mancebo, ficou vivamente contrariada. -Aquelle olhar profundo, que parecia despedir os fogos surdos de uma -labareda occulta, incutia nella um desassocego intimo. Agitava-se -impaciente, como uma creatura no meio de um somno inquieto ou mesmo de -um ligeiro pesadello. - -Até que abriu o chapeosinho de sol, para interceptar a contemplação -apaixonada de que era objecto. Nesta occasião, Laura, que -frequentemente se debruçava para vêr quando vinha o lacaio, retrahiu o -corpo com vivacidade: - ---Emfim; ahi vem! - ---Felizmente! disse Amelia. - -O lacaio aproximava-se á passos medidos; trazia na mão um embrulho de -papel azul, que o atrito dos dedos e a oscillação dos objectos -envoltos desfizera, obrigando o portador a apertal-o de vez em quando. - -Julgando ao cabo de alguns instantes que o lacaio já tocava o estribo -da carruagem, Amelia, tomando um tom imperativo, disse para o cocheiro: - ---Vamos! vamos! - -Ao aceno que lhe fez o cocheiro, o lacaio correu, chegando a tempo de -apanhar o carro, que partia ao trote largo da fogosa parelha. Deitar o -embrulho na caixa da victoria, rodear em dois saltos e galgar o estribo -da almofada, foi para o creado, habituado a essa manobra, negocio de um -instante. Não percebera elle, porém, que abrindo-se o papel com a -corrida, um dos objectos nelle contidos escorregára e justamente na -occasião de deitar o embrulho na caixa do carro, cahira na calçada. - -Laura, que se inclinara com vivo interesse para tomar o embrulho das -mãos do lacaio, tivera um presentimento do accidente, ao ver o papel -desenrolado. Fechando-o rapidamente e escondendo por baixo do assento da -victoria, ella debruçou-se ainda uma vez para verificar si com effeito -alguma cousa havia cahido. Ao mesmo tempo acompanhava o movimento com -estas palavras de contrariedade: - ---Como elle manda isto? Por mais que se lhe recommende! - -Laura nada viu, porque já a victoria rodava ligeiramente sobre os -parallelepipedos. - -Nesse momento, porém, dobrando a rua da Assembléa, se aproximára um -moço elegante não só no trajo do melhor gosto, como na graça de sua -pessoa: era sem duvida um dos principes da moda, um dos leões da rua do -Ouvidor; mas desse podemos assegurar pelo seu parecer distincto, que -não tinha usurpado o titulo. - -O mancebo viu casualmente o lacaio quando passára por elle correndo, e -percebeu que um objecto cahira do embrulho. Naturalmente não se -dignaria abaixar para apanhal-o, nem mesmo deitar-lhe um olhar; si não -visse apparecer ao lado da victoria o rosto de uma senhora, que o -aspecto da carruagem indicava pertencer á melhor sociedade. - -Então, apressou-se, para ter occasião de fazer uma fineza, e pretexto -de conhecer a senhora, que lhe parecêra bonita. Os leões são -apaixonadissimos de taes encontros; acham-lhes um sainete que destroe a -monotonia das relações habituaes. - -Quando o moço ergueu-se com o objecto na mão, já o carro dobrava a -rua Sete de Setembro. Ficou elle um momento indeciso, olhando em tôrno, -como si esperasse alguma informação á respeito da pessoa á quem -pertencia o carro. Sem duvida a senhora era conhecida em alguma loja de -fazendas; talvez tivesse ahi feito compras. - -Não obtendo, porém, informações, nem colhendo resultado da pergunta -que fizera a um caixeiro proximo, resolveu-se á metter o objecto no -bolso e seguir seu caminho. - - - - -II - - -Horacio de Almeida, o nosso leão, voltou á casa á hora do costume, -quatro da tarde. - -Os successivos encontros da rua do Ouvidor; a conversa no Bernardo; a -visita indispensavel ao alfaiate; as anecdotas do Alcasar na noite -antecedente; a chronica anacreontica do Rio de Janeiro, chistosamente -commentada; algumas rajadas de maledicencia, que é a pimenta social; -todas essas occupações importantes, que absorvem a vida do leão, -distrahiram Horacio, a ponto de se esquecer elle do objecto guardado no -bolso do paletot. - -Como admittir que um principe da moda não aproveitasse a aventura do -carro, para sobre ella bordar um romance de rua, com que excitasse a -curiosidade dos amigos? Realmente é admiravel; e seria incomprehensivel -si não fosse a circumstancia de ter poucos passos adiante encontrado -uma das mais ricas herdeiras do Brasil, a quem o nosso leão -arrastava.... Ia dizer a _aza_, mas isso seria anachronismo; dizia-se no -tempo em que os leões se chamavam gallos: hoje deve dizer-se _arrastar -a juba_; é mais bonito e indica mais submissão. Arrastar a aza é -enfunar-se; arrastar a juba é prostrar-se. - -Foi só quando recostado em sua ottomana, descansava para o jantar, que -Horacio, procurando a carteira de charutos no bolso do fraque, -lembrou-se do objecto. Teve então curiosidade de examinal-o; sabia o -que era; na occasião de apanhal-o reconhecêra o pé de uma botina de -senhora; mas não fizera grande reparo. - -Agora, porém, que de novo o tinha diante dos olhos, á sós em seu -aposento, e despreoccupado da idéa de o restituir, Horacio achou o -objecto digno de séria attenção; e aproximando-se da janella começou -um exame consciencioso. - -Era uma botina, já o sabemos; mas que botina! Um primor de pellica e -sêda, a concha mimosa de uma perola, a faceira irmã do lindo chapim de -ouro da borralheira; em uma palavra a botina desabrochada em flôr, sob -a inspiração de algum artista ignoto, de algum poeta de ceiró e -torquez. - -Não era, porém, a perfeição da obra, nem mesmo a excessiva -delicadeza da fôrma, o que seduzia o nosso leão; eram sobretudo os -debuxos suaves, as ondulações voluptuosas que tinham deixado na -pellica os contornos do pesinho desconhecido. A botina fora servida, e -muitas vezes; embora estivesse ainda bem conservada, o desmaio de sua -primitiva côr bronzeada e o esfrolamento da sola indicavam bastante -uso. - -Si fosse um calçado em folha, sahido da loja, não teria grande valor -aos olhos do nosso leão, habituado não só a vêr, como a calçar, as -obras primas de Milliès e Campàs. Talvez reparando muito naquella -peça que tinha nas mãos, notasse maior elegancia no córte, e um apuro -escrupuloso na execução; porém mais natural seria escapar-lhe essa -minima circumstancia. - -Mas a botina achada já não era um artigo de loja, e sim o traste -mimoso de alguma belleza; o gentil companheiro de uma moça formosa, de -quem ainda guardava a impressão e o perfume. O rosto estufava mostrando -o firme relevo do pesinho arqueado. Na solla se desenhava a curva -graciosa da planta subtil, que só nas extremidades beijava o chão, -como o silpho que frisa a superficie do lago com a ponta das azas. - -Ha um aroma, que só tem uma flôr na terra, o aroma da mulher bonita; -fragancia voluptuosa que se exhala ao mesmo tempo do corpo e da alma; -perfume inebriante que penetra no coração como o amor valatilisado. A -botina estava impregnada desse aroma delicioso; o delicado tubo de seda, -que se elevava como a corolla de um lirio, derramava, como a flôr, -ondas suaves. - -O mancebo collocára longe de si o charuto para não desvanecer com o -fumo os bafejos daquelle odôr suave. Não havia ahi o menor laivo de -essencia artificial preparada pela arte do perfumista; era a pura -exhalação de uma cutis assetinada, esse halito de saude que perspira -através da fina e macia tez, como através das petalas de uma rosa. - -De repente uma idéa perpassou no espirito do moço, que o fez -estremecer. Essa botina gracil, em que mal caberia sua mão -aristocratica, essa botina mais mimosa do que sua luva de pellica, não -podia ter um numero maior do que o de seus annos, _vinte nove_! - ---Será de uma menina! murmurou elle um tanto desconsolado. - -Examinou novamente a obra prima, voltou-a de todos os lados, apalpou -docemente o salto e o bico, dobrou a orla da haste, sondou o interior da -concha, que servira de regaço ao feiticeiro pesinho. Depois de alguns -instantes deste exame profundo e minucioso, um sorriso expandiu o -semblante de Horacio. - ---É de moça, é de mulher! murmurou elle. Aqui estão os signaes -evidentes; não podem falhar. A fabula de Edipo é uma verdade eterna: -no enigma da esphinge está realmente o mytho da vida. O homem é o -animal que de manhã anda sobre quatro pés; ao meio dia sobre dois; a -tarde sobre tres. Na infancia, a creatura, como a planta, conserva-se -rasteira, brota, pulula, mas conchega-se mais ao solo de que recebe toda -nutricção; as mãos servem-lhe de pés. Depois da juventude, na época -da expansão, a creatura se lança para o espaço, exalta-se; é a -arvore que hastea e procura as nuvens; a planta pede ao céo os orvalhos -e a luz do sol; a alma pede a crença, a fé, a esperança, de que se -geram as flôres, que nós chamamos paixões. Na velhice, o homem se -inclina de novo para a terra, como o tronco carcomido; é o pó, que, -depois de revoar no espaço, deposita-se outra vez no chão. Então o -velho precisa do bordão; uma das mãos torna-se pé, e calça esse -cothurno da mais triste das tragedias humanas, a decrepitude. - -Horacio observou de novo attentamente o objecto que tinha entre as -mãos. - ---A menina de quinze annos já não é a corsa de quatro patas; não -está mais na alvorada da vida, na puericia; tambem ainda não chegou ao -meio dia do qual aproxima-se. Comtudo, seu andar conserva ainda aquella -attracção para a terra; é pesado; calca o chão com força; tem o -quer que seja de sacudido, que revella os impulsos da alma para -desprender-se do pó e elevar-se; assemelha a singradura do batel, que -ora se levanta, ora submerge-se. Si esta botina fosse de uma menina, -aqui estariam impressos esses caracteres de sua idade. A sola, em vez de -levemente triturada nas extremidades, estaria estragada; o salto -cambado. É uma observação que todo o sapateiro confirmaria; o menino -gasta o calçado pela sola, o homem pelo couro; a razão, o sapateiro a -ignora, mas o philosopho a conhece: o menino é o insecto que rasteja, a -larva; o homem é o insecto que vôa, o besouro; aquelle anda com o -ventre, este com a aza. - -Horacio sorriu. - ---Esta botina é de moça, e moça em todo o viço da juventude: a sola -apenas rosçada junto á ponta, o salto quasi intacto, não estão -descrevendo com a maior eloquencia a subtileza do passo ligeiro? Eu -sinto, posso dizer eu vejo, esse andar gentil, que manifesta a deusa, -como disse o poeta; a deusa, a Venus deste olympo em que vivemos, a -mulher. Só quando toda a seiva se precipita para o coração, quando -germinam os botões que mais tarde abrirão em flôr, só nesse momento -de assumpção é que a mulher tem este andar sublime e augusto. É o -andar do passarinho, que, rosçando a relva, sente o impulso das asas; é -o andar do astro nascente, caminhando para a ascensão; é o andar do -anjo, que, mesmo tocando a terra, parece prestes a fugir ao céo; é, -finalmente, a elação d'alma que aspira de Deus os effluvios do amor, -do amor unico ambiente do coração! - -Nisto o moço descobriu na fivella do laço da botina alguma cousa que -lhe excitou vivo reparo; chegando-se á luz, viu as voltas de um fio, -que prendeu entre as brancas unhas afiladas, verdadeiras garras de -leão da moda. Com alguma paciencia retirou um longo cabello castanho, e -muito crespo. - ---Outra prova de que aliás não carecia! Este cabello é de mulher; -não ha menina que o possa ter. Quatro palmos, além do que se partiu -naturalmente! Bem se vê que é uma palmeira frondosa, e não um -arbusto! Tem o cabello castanho e crespo, duas cousas lindas sem duvida, -embora minha paixão seja a trança basta e lisa, negra como uma asa de -côrvo. Esse negrume dá á mulher, o quer que seja de satanico; lembra -que ella tambem gerou-se da terra; não é anjo sómente; não é -sómente filha do céo. Eu não posso supportar a mulher-seraphim, que -parece desdenhar do mundo onde vive, e do pó de que é feita. - -Horacio voltou a botina. - ---Mas seja embora castanha, ou mesmo loura, que é uma côr insipida de -cabello! Que me importa isto? Tenho alguma cousa com seu cabello? O que -amo nella é o pé; este pé sylpho, este pé anjo, que me fascina, que -me arrebata, que me enlouquece?... - -Horacio, que até então se contentava com olhar e apalpar a botina, -inclinou-se e beijou-a no rosto; mas timida e respeitosamente. Não era -essa a imagem do pé seductor, que elle adorava como um idolo? - ---Mas onde encontral-o? como reconhecêl-o? exclamou dolorosamente -Horacio, sentindo a realidade da situação. - -Nenhum indicio que lhe revellasse o nome da mulher a quem pertencia essa -gentil botina, ou lhe indicasse ao menos os traços de sua passagem. A -lembrança vaga da libré de um lacaio era o unico vestigio que restava; -mas com este dificilmente poderia descobrir o objecto de sua adoração. -Ha tantos lacaios no Rio de Janeiro; e tantas librés que se confundem! -Talvez nunca mais encontrasse aquelle que procurava; e encontrando, nem -o reconhecesse. - ---Desgraçado! dizia o leão. Quasi nem o olhaste; mas, podias tu -adivinhar, Horacio, que thesouro deixára cahir aquelle bruto? - -O mancebo inclinára ao peito a bella cabeça esmorecida; a ventura lhe -tinha sorrido de longe, para escarnecer delle, o leão mais querido das -bellezas fluminenses, o Atyla do Cassino, o Genserico da rua do Ouvidor. - -De repente ergueu-se d'um impeto: - ---Heide possuil-o!... exclamou elle com o tom com que Alexandre se -prometteu o imperio da Asia. - - - - -III - - -Ninguem imagina que bellos talentos sorve essa voragem do mundo, que -chamam a vida elegante. - -São como as arvores luxuriantes que se vestem de linda folhagem, e -consomem toda a seiva nessa gala esteril e ephemera. Nunca ellas dão -fructo, nem siquer flôr. - -Horacio de Almeida era uma de tantas intelligencias, desperdiçadas no -incessante bulicio da moda. - -Muitos poetas, dos que têm seu nome estampado em rosto de livro, não -empregaram na fabrica de seus versos o atticismo, a inspiração e a -graça com que o nosso leão torneava no baile um galanteio, ou aguçava -um epigramma. - -Pintores são festejados, que não sabem o segredo dos toques delicados, -e do supremo gôsto, que Horacio imprimia no laço de sua gravata, em -suas maneiras distinctas, nos minimos accidentes de seu trajo apurado. - -E a phisiologia? - -Poucos homens conheciam como Horacio o coração da mulher; porque bem -raros o teriam estudado com tanta assiduidade. O mais sabio professor -ficaria estupefacto da lucidez admiravel, com que o leão costumava lêr -nesse cahos da paixão, que a anatomia chamou coração de mulher. - -A razão é simples. O professor estudou no gabinete; consultou as obras -dos mestres, colligiu observações alheias, e arranjou um systhema -sobre o que não soffre regras; sobre a paixão cuja essencia é o -imprevisto, o anomalo, o indefinivel. - -Ao contrario, Horacio tinha estudado na realidade da vida; devassára os -refolhos do polypo; lhe sentira as pulsações; e fizera experiencias -_in anima vilis_. Não fatigou sua memoria com a inutil bagagem dos -termos technicos e das noções scientificas: lia os hierogliphos do -amor com a linguagem garrida do homem a moda. - -A perspicacia do olhar, a profundeza da investigação e a certeza de -observação, com que o nosso leão sondava o abysmo do coração, e -rastreava no semblante da mulher os vagos symptomas de uma inclinação -nascente, ou de uma affeição expirante; só os grandes medicos possuem -tão altos dotes. - -Assim gastava Almeida a mocidade, desfolhando seu bello talento pelas -sallas e pontos de reunião. As riquezas de sua elevada intelligencia, as -ia elle esparzindo nas elegantes futilidades de um ocio tão laborioso, -como é o _far niente_ de um leão. - -Consumir o tempo não se apercebendo de sua passagem; livrar-se do fardo -pesado das horas sem occupação; ha nada mais difficil para o homem que -ignora o trabalho? - -Si o Almeida poupasse desse tempo tão esperdiçado alguns momentos no -dia para dedical-os a um fim sério e util, á sciencia, á litteratura, -á arte, que bellos triumphos não obteria sua rica imaginação servida -por um espirito scintillante? - -Mas o nosso leão tinha á este respeito idéas excentricas. - ---A politica, dizia elle, quando não dá em especulação, passa a -mistificação. A sciencia, si escapa de mania, torna-se uma gleba em -que o sabio trabalha para o nescio. Litteratura e arte são plagios; -quem póde fazer poesia e romance ao vivo, não se dá ao trabalho de -reproduzil-os; nem contempla estatuas, quem lhes admira os modelos -animados e palpitantes. - -Com taes paradoxos, Horacio não achava emprego mais digno para a -intelligencia, do que a difficil sciencia de consumir gradualmente a -vida, e atravessar sem fadiga e sem reflexão por este valle de -lagrimas, em que todos peregrinamos. - -A mulher era para elle a obra suprema, o verbo da creação. Toda -religião, como toda felicidade; toda sciencia, como toda poesia, Deus -a tinha encarnado nesse mixto incomprehensivel do sublime e do torpe, do -celeste e do satanico; amalgama de luz e cinzas; de lodo e nectar. - ---Amar, é adorar a Deus na sua ara mais santa, a mulher. Amar é -estudar a lei da creação em seu mais profundo mysterio, a mulher. Amar -é admirar o bello em sua mais esplendida revelação; é fazer poemas e -estatuas como nunca as realisou o genio humano. - -Mas o que sentia Horacio era apenas o culto da fórma, o fanatismo do -prazer. O amor, o verdadeiro amor consiste na possessão mutua de duas -almas; e essa, póde o homem illudir-se alguma vez, mas quando se -realisa é indissoluvel. - -Nada separa duas almas gemeas que prende o vinculo de sua origem divina. - -O mancebo admirava na mulher a formosura unicamente: apenas artista, -elle procurava um typo. Durante dez annos atravessára os sallões, como -uma galeria de estatuas animadas e vivos paineis, parando um instante em -face dessas obras primas da natureza. - -Vieram uns após outros todos os typos; a belleza ardente das regiões -tepidas, ou suave gentileza da rosa dos Alpes: o moreno voluptuoso ou a -alvura do jaspe; a fronte soberana e altiva ou o gesto gracioso e meigo; -o talhe opulento e garboso ou as fórmas esbeltas e flexiveis. - -Seu gôsto foi-se apurando; e ao cabo de algum tempo tornou-se difficil. -A belleza commum já não o satisfazia; era preciso a obra prima para -excitar-lhe a attenção e commovel-o. - -Mas os sentidos se gastam; os mesmos primores da formosura cahiram na -monotonia. Já o leão não sentia pela mais bella mulher aquelles -enthusiasmos ardentes da primeira mocidade. Seu olhar era frio e severo -como o de um critico. - -Então, começou o moço a amar, ou antes a admirar a mulher em detalhe. -Sua alma embotada carecia de um sainete. Foi a principio uma boca -bonita, cofre de perolas, de sorrisos, de beijos e harmonias. Veiu -depois uma trança densa e negra, como a asa da procella que se -inflamma. Uma cintura de sylphide, um collo de cisne, um requebro -seductor, um signal da face, uma graça especial, um _não sei que_; -tudo recebeu culto do nosso leão. - -Como um conviva, a quem as iguarias do banquete já não excitam, sua -alma babujava na salla essas golosinas. Mas afinal embotou-se; e o -prazer não foi para ella mais do que a vulgar satisfação de um -habito. - -O moço cortejava as senhoras como uma occupação indispensavel á sua -vida, como o desempenho da tarefa diaria; mas sem a menor commoção. - -Amar era um entretenimento do espirito, como passeiar á cavallo, -frequentar o theatro, jogar uma partida de bilhar. - -O amor já não tinha novidades nem segredos para elle, que o gozára em -todas as fórmas; na comedia e no drama; no idilio e na ode. Como -Richelieu, diziam até que elle já o havia calcado com o tacão da -bota. - -Nestas circumstancias bem se comprehende a impressão profunda que nelle -produzia a mimosa botina, achada naquella manhã. - -Almeida tinha admirado a mulher em todos os typos e em todos os seus -encantos; mas nunca a tinha amado sob a fórma seductora de um pésinho -faceiro. Era realmente para sorprender. Como lhe passára desapercebido -esse condão magico da mulher, á elle que julgava ter esgotado todas as -emoções do amor? - -Succedeu, como era natural, que uma vez percutidas as energias dessa -alma ennervada por longa apathia, a reacção foi violenta. Inflammou-se -a imaginação e especialmente com o toque do mysterio que trazia a -aventura. Si o dono da botina, o sonhado pésinho, se mostrasse desde -logo, não produziria o mesmo effeito; não teria o sabor do -_desconhecido_, que é irmão do prohibido. - -Imagine, quem conhecer o coração humano, a vehemencia dessa paixão, -excitada pelo tédio do passado, e alimentada por uma imaginação -ociosa. De que loucuras não é capaz o homem que se torna ludibrio de -sua fantazia? - -As extravagancias de Horacio, contemplando a botina, verdadeiras -infantilidades de homem feito, bem revelavam a agitação dessa -existencia, embotada para o verdadeiro amor, e gasta pelo prazer. - -Não se riam, homens serios e graves, não zombem de semelhantes -extravagancias; são ellas o delirio da febre do materialismo que ataca -o seculo. - -Essa paixão de Horacio, o que é sinão uma aberração da alma, -consagrada ao culto da materia? A voracidade insaciavel do desejo vai -criando dessas monstruosidades incomprehensiveis. - -Succede á esta embriaguez do amor o mesmo que á embriaguez do alcool. -A principio basta-lhe o vinho fino e aristocratico; depois carece da -aguardente; e por fim já não a satisfaz a infusão de gengibre em -rhum; isto é, a lava de um volcão preparada á guisa de grogue. - - - - -IV - - -Ao mesmo tempo que o nosso leão, entrava Leopoldo de Castro na modesta -habitação que então occupava na Gloria. - -Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e -com os olhos o carro que levava sua alma presa áquelle rosto -encantador. O passo era rapido e o olhar ardente; um anciava por chegar; -o outro quizera attrahir pela força da paixão, pelo iman das centelhas -magneticas, que desferia a alma. - -Fosse illusão dos sentidos perturbados pela commoção interior, ou -breve e confusa percepção da realidade, julgou o moço vêr, no -momento de dobrar o carro pela rua Sete de Setembro, um talhe esbelto -inclinar-se para a frente, e apparecer de relance um rosto alvo, donde -escapou-se vivo e rapido olhar. - -Leopoldo não tinha o intento de alcançar, nem mesmo seguir, o carro -que fugia com velocidade; mas embalava-o a esperança de que um -obstaculo qualquer, impedindo por instantes o livre transito, lhe -permittisse outra vez contemplar a moça. Quando, porém, isso não -succedesse, consolava-o a idéa de conhecer a direcção que tomaria a -linda victoria: - ---Si eu soubesse ao menos para que lado mora ella!... Esse ponto seria -o meu horizonte, o meu céo. Me voltaria para ali quando adorasse á -Deus, e quando conversasse com ella. Amaria as estrellas, as nuvens e -até as borrascas dessa banda do firmamento; amaria as ruas, as -calçadas e até a poeira desse arrabalde da cidade. - -O mancebo vagou assim durante duas horas, percorrendo as ruas sem -destino. Não era tanto a esperança de vêr a moça ou sómente o -carro, como a necessidade de occupar seu espirito, o que o impellia -nessa perseguição de uma sombra. - ---Eu tornarei a vel-a, pensava elle comsigo; e ella me ha de amar, tenho -convicção. O amor é um magnetismo; eu acredito que o magnetismo se -resume nelle; que a lei da attracção não é sinão a lei da -sympathia; os polos são a cabeça e o coração, na terra, como no -homem. Si ella fôr a mesma que eu vi com os olhos de minha alma, a -mesma que se revellou á minha paixão, aquella a que devo unir-me -eternamente para formar um ser mais perfeito, eu caminharei para ella, -como ella para mim, impellidos por uma força mysteriosa, por mutua -aspiração. - -Com o animo repousado por essa convicção que nelle se derramára, -entrou Leopoldo em casa. Ahi o esperava o isolamento em que se ia -escôando sua vida, depois da perda de uma irmã á quem adorava. - -Nessa irmã tinha elle resumido todas as affeições da familia, -prematuramente arrebatadas á sua ternura; o amor filial, que não -tivera tempo de expandir-se, a amisade de um irmão, seu companheiro de -infancia, todos esses sentimentos cortados em flôr, elle os -transportára para aquelle ente querido, que era a imagem de sua mãi. - -Essa perda deixára um vacuo immenso no coração de Leopoldo; a -principio enchera-o a dôr; depois a saudade; agora essa mesma terna -saudade sentia-se desamparada na profunda solidão daquelle coração -ermo. O mancebo carecia de uma affeição para povoar esse deserto de -sua alma; de uma voz que repercutisse nesse lugubre silencio. É tão -doce partilhar sua melancholia, ou seu prazer, com um outro eu, com um -amigo ou uma esposa. São dous hombros para a cruz, e dous peitos para a -alegria; alliviar-se o peso, mas duplica-se o gozo. - -Ao cahir da tarde, quando o crepusculo já desdobrava sobre a cidade o -véo de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado á janella de peitoril de sua -casa, fumava um charuto, com os olhos engolphados no azul diaphano do -céo, onde scintillava a primeira estrella. A seus pés desdobrava-se a -bahia placida e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de -montanhas, caprichosamente recortadas. - -O espirito do moço não se embebia de certo na perspectiva dessa -encantadora natureza, sempre admirada, e sempre nova. Ao contrario -abandonava-se todo ás recordações de seu encontro pela manhã e aos -enlevos que lhe deixara a contemplação da linda moça. Passava e -repassava em sua memoria como em um cadinho, todas as circumstancias -minimas deste grande e importante acontecimento, desde o momento em que -assomou a visão até que desappareceu por ultimo ao dobrar o canto da -rua. - -Achava nisso o mesmo praser que um menino guloso experimenta em chupar -novamente os favos já saboreados; lá ficou um raio de mel, que o labio -avido colhe. Para Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os -movimentos, os sorrisos da moça, avivados pela maior contensão do -espirito. - -Houve uma occasião em que o mancebo quiz representar em sua lembrança -a imagem da moça: naturalmente começou interrogando sua memoria á -respeito dos traços principaes. Como era ella? Alta ou baixa, torneada -ou esbelta, loura ou morena? Que côr tinhão seus olhos? - -A nenhuma dessas interrogações satisfez a memoria; porque não -recebêra a impressão particular de cada um dos traços da moça. Não -obstante, a apparição encantadora resurgia dentro de sua alma; elle a -revia tal como se desenhára a seus olhos algumas horas antes. Era a -imagem diaphana de um sonho que tomara vulto gracioso de mulher. - ---Não me lembro de seus traços, não posso lembrar-me!... murmurava no -intimo. Eu a contemplei, como se contempla uma luz brilhante: ve-se a -chamma, o esplendor; e nem se repara no espectro que a flamma envolve -como uma roupagem. Ella é minha luz; não sei a côr e a fórma que -tem, mas sei que scintilla, que me deslumbra; que innunda meu ser de uma -aurora celeste. Não poderia descreve-la, como um poeta... Mas que -importa? Pois que eu a sinto em mim; pois que eu a possuo em meu -coração? - -As palpebras do mancebo cerrarão-se coando apenas uma restea de olhar, -que se embebia nas alvas espiras da fumaça do charuto. Percebia-se que -naquella nevoa se debuxava á sua imaginação a seductora imagem, -deante da qual elle cahia em extases de uma doçura ineffavel. - ---Quem sabe? Talvez não seja ella o que nos bailes se chama uma moça -bonita; talvez não tenha as feições lindas e o talhe elegante. Mas eu -a amo!... O amor é sol do coração; imprime-lhe o brilho e o matiz! -Venus, a deosa da formosura, surgindo da espuma das ondas, não é outra -cousa senão o mytho da mulher amada, surgindo d'entre as puras -illusões do coração! O que eu admiro nella, o que me enleva, é sua -belleza celeste; é o anjo que transparece atravez do envolucro -terrestre; é a alma pura e immaculada que se derrama de seus labios em -sorrisos, e a envolve como a scintillação de uma estrella. - -Leopoldo já não estava só na existencia; tinha para acompanha-lo na -esperança essa doce apparição; como para partilhar a saudade tinha a -memoria querida de sua irmã. O coração aproximou as duas imagens; -ligou-as por algum vinculo misterioso; e creou assim uma familia ideal, -em cujo seio viveu para o futuro, como para o passado. - -Nas horas do trabalho, o moço absorvia-se completamente nas -occupações habituaes e cerrava sua alma para não deixar que as -miserias do mundo ahi penetrando profanassem o templo de sua adoração; -o templo da esperança e da saudade. Fora dessas longas horas, -encerrava-se naquelle asylo e ahi vivia. - -Alguns dias depois do encontro da rua da Quitanda, o Castro percorrendo -distrahidamente os jornaes da manhã, deu com os olhos sobre os -annuncios de espectaculo, cousa que desde muito tempo não existia para -elle. Representava-se no theatro lyrico a _Lucia de Lamermoor_, o mais -sublime poema de melancolia, que já se escreveu na lingua dos anjos. - -O mancebo teve um desejo irresistivel de ir aquella noite ao -espectaculo, apezar de conservar ainda o luto pesado. Não comprehendia -esse capricho de seu coração; attribuiu ao encanto das reminiscencias -daquella musica tão triste, e tambem daquelle amor tão estremecido, -que os homens quizeram romper, mas a fatalidade uniu para sempre no -tumulo. Elle ia saturar-se de tristeza; não havia, portanto, -profanação de uma dôr santa. - -Eram perto de dez horas: cantava-se o final do segundo acto da opera, e -Leopoldo, sentado em uma cadeira, do lado direito, estava completamente -absorvido no canto magistral de Lagrange e Mirate. Um momento, porém, -ergueu os olhos, e volvendo-os lentamente, fitou-os em um camarote da -segunda ordem. Estremeceu; o olhar morno e baço que se escapava de sua -pupilla illuminou-se de fogos sombrios e ardentes. - -Vira a mulher amada. - -Amelia estava nessa noite em uma de suas horas de inspiração; a mulher -bella tem, como o homem de intelligencia, em certos momentos, -influições energicas de poesia; nessas occasiões ambos irradiam; a -mulher fica esplendida, o homem sublime. - -O talhe esbelto da moça desenhava-se através da nivea transparencia de -um lindo vestido de tarlatana com laivos escarlates. Coroava-lhe a -fronte o diadema de suas bellas tranças, donde resvalavam dois cachos -soberbos, que brincavam sobre o collo. Os cabelleireiros chamam esses -cachos de arrependimentos, _repentirs_. Por que motivo? A alma que se -arrepende convolve-se daquella fórma; o pezar a confrange. Já se vê -que os cabelleireiros tambem são poetas. - -Não foi, porém, o suave perfil da moça, nem os contornos macios de -suas fórmas gentis, o que arrebatou o espirito do mancebo. Elle só viu -a luz, o brilho d'alma, rarejando do sorriso. Contemplava a rosa, -embebia-se nella, sem contar-lhe as petalas. - -Amelia, que apoiava o lindo braço sobre a almofada de velludo da -ballaustrada, prestava attenção á scena, recolhendo ás vezes a vista -para discorrel-a vagamente pelos camarotes fronteiros. Depois que o -panno cahiu, conservou-se na mesma posição, conversando com sua mãi -e Laura que ali estava de visita. Então voltou rapidamente o rosto, e -deixou cahir sobre a platéa um olhar subito e vivo. Foi uma centelha -electrica, listrando no espaço, para logo apagar-se. - -Revelou-se no semblante da moça alguma inquietação e visivel -incommodo. Quiz disfarçar, mas afinal ergueu-se, para occultar-se no -interior do camarote, por detrás de Laura, a qual occupava o outro -logar da frente. - -O olhar que deitára á platéa encontrou o olhar profundo e ardente de -Leopoldo; e batendo de encontro a esse raio brilhante, reagiu como -estylete para feril-a no coração. - -Leopoldo notou vagamente esse movimento; mas como entre a columna e o -busto de Laura elle via a sombra da mulher a quem amava, não se -interrompeu seu enlevo. De vez emquando passava-lhe pelo rosto um -lampejo subtil, no qual presentia o olhar furtivo da moça. - - - - -V - - -Estava a subir o panno. - -Amelia resolvêra ficar onde estava, e não tomar o logar da frente, -apezar de Laura ter voltado a seu camarote. Mas essa resolução, tão -solidamente calcada em seu coração, cahiu de repente: bastou um olhar. -Vira na platéa, encostado á balaustrada da orchestra, um elegante -cavalheiro. - -Era Horacio. - -O sorriso brando que manava dos labios da moça, como a onda pura e -christalina de um ribeiro, desappareceu então sob outro sorriso mais -brilhante, que borbulhava como a frol da cascata. Era o sorriso da -vaidade, como o outro era da innocencia. - -A moça collocou-se na frente, fazendo realçar com a graça de seus -movimentos a suprema elegancia do talhe. Demorou-se mais do que era -preciso nesse acto; e sentando-se, houve em seu corpo um impulso quasi -imperceptivel de mysteriosa expansão. Dir-se-hia que ella se queria -debuxar no quadro illuminado do camarote. - -A causa desse elance não o adivinham? O leão tinha assestado seu -binoculo de marfim; e a moça com um irresistivel assomo de faceirice -abandonava-se ao olhar do mancebo. - -Durante o acto, Amelia distrahiu mais a attenção do semblante pallido -de Leopoldo. Enleiava os olhos na figura elegante de Horacio; prendia-se -ao fino buço negro que sombreava o labio desdenhoso do leão; -embebia-se toda na graça de sua attitude: tentando assim resistir a -curiosidade incommoda que attrahia sua attenção para o importuno -desconhecido. - -Não sei porque, Leopoldo, cuja adoração era infatigavel como a -emanação de uma chamma perenne, sentia naquella occasião a -necessidade de dar um repouso a sua contemplação. Então como si a luz -que o deslumbrava se fosse tornando mais doce, elle pôde vêr -destacar-se o perfil gracioso da moça. - ---Tem o cabello castanho! É pena! Acreditava que a mulher a quem amasse -algum dia, havia de ser loura. É a côr do reflexo da luz, deve ser a -côr desse véo casto que Deus fez para o pudôr. A madeixa foi dada á -mulher para recatar a face que enrubece e o seio que palpita; essa gaza -preciosa deve ser de ouro, ou antes de graça e esplendor. - -O moço já não olhava para Amelia; com as palpebras cerradas estava -agora vendo-a na penumbra d'alma. - ---Mas para mim é indifferente que tenha o cabello castanho; podia -têl-o negro como a treva. Eu a amo, amo sua alma, sua essencia pura e -immaculada! Si Deus me enviou um anjo para consolar-me em minha -afflicção; para amparar-me em meu isolamento; para encher de -ineffaveis jubilos meu ser saturado de amarguras; posso eu queixar-me -porque o Senhor o vestiu de uma simples tunica de lã, e não de um -sumptuoso manto de ouro? Eu gostava dos cabellos louros: pois agora só -gosto, só quero, só vejo uns cabellos castanhos, porque pertencem a -ella, s'impregnam de seu perfume, e respiram seu halito! - -Terminára o acto. Leopoldo, contemplando a moça, pela primeira vez -lembrou-se de saber quem era, na sociedade, aquella mulher que lhe -pertencia pelo pensamento. Tinha-se habituado a consideral-a como uma -cousa sua; parecia-lhe que ninguem mais existia sinão elles dois. - -Volveu os olhos em busca de algum conhecido, a quem dirigisse a -pergunta. Não encontrou: mas ao cabo de alguns instantes descobriu o -leão em seu posto. - ---Ah! lá está Horacio, que póde me informar. Elle conhece todo o -mundo! Justamente agora pôz o binoculo para o camarote. - -Como desejava sahir, dirigiu-se para aquelle lado; mas o leão, inquieto -e preoccupado, sahira açodadamente, e subia de um pulo as escadas que -o separavam da segunda ordem. - ---Aquella mão é irmã do meu adorado pesinho! Não tem a graça delle, -sem duvida, nem se compara com aquelle mimo de amor; mas ha um certo ar -de familia, um quer que seja!... - -Assim cogitando, Horacio chegára á porta de um camarote, e pela fresta -fitára com disfarce o olhar em Laura, cuja mão, excessivamente -pequena, e calçada por uma luva muito justa, custava a segurar o -binoculo de madreperola. - -O moço, apenas reconheceu o vestido de seda violeta, e a mãosinha que -lhe servira de phanal, abaixou o olhar para a fimbria do vestido a vêr -si descobria alguma cousa, o peito, a ponta, a sombra, ao menos, do -pesinho mimoso, do idolo de sua alma. Mas não foi possivel: o vestido -arrastava no chão; nenhum movimento fazia ondular a seda; e comtudo o -mancebo ali ficou immovel, palpitante de emoção, como si esperasse dos -labios da mulher amada o monosyllabo que devia dicidir de seu destino. - -A paixão que o mancebo concebêra pela dona incognita da botina achada, -longe de se desvanecer, adquirira uma vehemencia extrema. Horacio, o -feliz conquistador, o coração fogoso e inflammavel, nunca ardêra por -mulher alguma, como agora ardia por aquelle pesinho idolatrado. Era um -verdadeiro amor de leão, terrivel e indomito; era um delirio; uma -raiva. - -Seus amigos já não o reconheciam; elle apparecia nos bailes, nos -theatros, nos pontos de reunião, de relance, como um meteoro, seguindo -após uma idéa fixa, ou uma sombra que fugia diante de seus passos. -Conversou-se muito na rua do Ouvidor á este respeito. Uns attribuiam o -facto inaudito á primeira derrota. - ---Horacio, dizia um de seus amigos, como Napoleão, só devia ser -derrotado uma vez. Mas essa vez foi Waterloo! - ---Que pensa então? - ---Que o pobre rapaz caminha para o seu rochedo de Santa Helena. Ou casa -ahi com alguma mulher feia e rica, ou engorda como um cevado. - -Outros lembravam-se de algum desarranjo de fortuna, ou de alguma -velleidade politica, para explicar o mysterio. Mas sabia-se que o moço -tinha bom e seguro rendimento; e quanto á politica, elle a comparava a -uma embriaguez causada pela mais ordinaria zurrapa de taberna. - -Muitas vezes disse, gracejando, a seus amigos: - ---Quando me quizer embriagar, em vez de zurrapa, beberei champanhe. É -mais fino, e tambem mais barato, porque não deixa uma irritação de -estomago, cujo preço é muito superior ao de uma caixa de melhor -_cliquot_. - -A causa real da mudança do leão ninguem, pois, a sabia, nem a -suspeitava. - -Depois da achada da botina, sua vida tomara um aspecto muito differente. -Naquella mesma tarde em que o deixamos na sua casa de Botafogo, -terminado o jantar, mandou apromptar o tilbure e voltou á cidade. Seu -apparecimento áquella hora na rua do Ouvidor causou extranheza; um -leão de raça, como elle, não passeia ao escurecer, sobretudo no -centro do commercio, onde só ficam os que trabalham. Seria misturar-se -com os leopardos que aproveitam a ausencia dos reis da moda, para -restolhar alguma caça retardada. - -Correu Horacio todas as lojas de calçado á procura de informações. -Para disfarçar sua paixão, inventou uma aposta, como pretexto á sua -curiosidade. A um freguez como elle não se recusava tão pequeno favor, -sobretudo quando levava o sainete de uma anecdota de bom tom. A todos -elles o leão se dirigia mais ou menos nestes termos: - ---Fiz uma aposta com uma senhora. Que em todo o Rio de Janeiro não se -encontram tres moças de 18 annos que calcem n. 29. Tenho todo o empenho -em ganhar a aposta, não tanto pelos botões de punho, como porque, si -ella perder, ha de ser obrigada a mostrar-me seu pé, para eu verificar -si é realmente desse tamanho. Peço-lhe, pois, que me dê uma nota das -freguezas a quem costuma vender calçado deste numero. - -Nesta pesquiza gastou Horacio muitos dias, sem colher o menor resultado. -Os poucos pares de calçado n. 29, vendidos pelas differentes lojas, -eram destinados á meninas de doze annos ou a pessoas desconhecidas, -cuja idade se ignorava. Apezar de tudo o leão não desanimava; todas as -manhãs, ao acordar, levantava um plano de campanha, que punha em -pratica durante o dia. - -Horacio sentira-se de repente tomado de indefinivel ternura por uma -classe; de que antes só lembrava-se para amaldiçoal-a: a classe dos -sapateiros. Quando via um sujeito de avental de couro e sovella, o leão -sentia-se attrahido para aquelle individuo, que talvez encerrasse o -segredo de sua felicidade, seu futuro, sua existencia. Outras vezes, -porém, tinha de repente uns accessos de ciume selvagem. Lembrando-se -que esse operario talvez já houvesse tomado medida ao adorado pésinho; -que essas mãos calosas teriam tocado a cutis assetinada do anjo de seus -pensamentos; o mancebo sentia em si o furor de Othello e procurava um -punhal no seio; felizmente só achava a carteira, a adaga de ouro com -que neste seculo se assassina mais cruelmente. - -Depois de consumir as horas em suas indagações, ia contemplar a -botina, prenda querida de seu amor e proseguia á noite sua porfia -incansavel. Corria os espectaculos e bailes, com o olhar rastejando para -descobrir por baixo da orla do vestido, o ignoto deus de suas -adorações. Não dansava para observar melhor o arregaçado dos -vestidos; de ordinario andava pelas escadas e portas, afim de aproveitar -o ensejo da subida e descida; muitas vezes ia fumar junto ao logar onde -se collocavam os lacaios, na esperança de conhecer o portador da -botina. - -Quando as rainhas da moda, as deusas do salão, sorprezas e attonitas o -viam passar sem distinguil-as com uma palavra ou uma fineza, elle, -atirando-lhes um olhar de compaixão, dizia comsigo: - ---Coitadas! não sabem que o leão viu a pata da gazella e fareja-lhe o -rastro. Que lhe importam as garras da panthera?... - -Recolhendo, Horacio accendia duas velas transparentes e collocava-as a -um e outro lado da almofada de velludo escarlate, sobre uma mesinha de -charão, embutido de madreperolas. Tirava de um elegante cofre de -platina a mimosa botina, e com respeitosa delicadeza deitava-a sobre a -almofada, de modo que se visse perfeitamente a graciosa fórma do pé -que habitara aquelle ninho de amor. - -Então accendia o charuto, sentava-se n'uma cadeira de espreguiçar, -defronte, porém, distante, para que o fumo não se empregnasse na -botina, e ficava em muda e arrebatada contemplação até alta noite. - -Sobre aquella botina via elevar-se como sobre um pedestal, um vulto de -estatua, mas vago, indistincto; e comtudo esse esboço sem fórmas -seductoras, aquella sombra sem alma e sem calôr lhe parecia de uma -belleza deslumbrante. Não era ella a mulher a que pertencia o mais -formoso pé do mundo, o mimo, a obra prima da natureza? - -Recordava-se das mulheres mais bonitas que tinha visto, das mais lindas -senhoras a quem amára com paixão, e sua memoria as trazia todas, uma -após outra, para as collocar ao lado daquella figura vaga e -desvanecida, que plainava sobre a almofada, como sobre uma nuvem de -ouro. Como ellas fugiam abatidas e humilhadas diante de seu impetuoso -desdêm! - ---Não são dignas, murmurava elle, nem de beijarem o chão pisado pela -fada desta botina! - -Eis qual tinha sido a vida de Horacio até o momento em que o vamos -encontrar no mesmo logar defronte da porta entreaberta do camarote. -Laura percebeu-o afinal, e sorriu-lhe com ternura. A attenção do rei -da moda era uma fineza, um ar de seu real agrado; cumpria-lhe agradecer. - -Fitando com mais força o olhar na pupilla da moça como para travar-lhe -da vontade, Horacio abaixou lentamente esse olhar até a fimbria do -vestido de chamalote com uma insistencia significativa. Laura fez-se -escarlate; e a porta do camarote, rapidamente fechada, a subtrahiu ás -vistas ardentes do leão. - ---É ella! exclamou o coração do mancebo afogado em jubilo. Não ha -duvida. Para sentir esse pudor exagerado e incomprehensivel é preciso -ter ali occulto um pé como aquelle que eu sonhei. Um pé?... Não; um -mimo, uma maravilha, um thesouro, um céo!... É o pudor da violeta, que -se esconde na sombra; é o pudor da perola, occulta na concha; é o -pudor do diamante, sumido no seio da terra; é o pudor da estrella, -immergindo-se no azul. - -O leão desceu as escadas murmurando: - ---Vêl-o e morrer. - -Pouco depois terminou o espectaculo. Amelia com um resaibo de -melancholia na fronte, embuçou-se na pellissa e desceu. Ella perdêra -de vista Horacio, e só o tornára a vêr parado em frente á porta do -camarote de Laura. Desamparada pelo encanto do gentil mancebo, soffrêra -todo o resto do espectaculo o desassocêgo que lhe incutia o olhar de -Leopoldo. Por mais que voltasse o rosto sentia a phosphorecencia -estranha desse olhar repulsivo, que entretanto a prendia, máo grado -seu. - -Leopoldo esperava no corredor da entrada a passagem da moça, quando -avistou a seu lado Horacio. O leão soffrego e impaciente, volvia o -olhar em varias direcções; naturalmente procurava alguem, e receiava -que lhe escapasse. - ---Adeus, Horacio. - ---Boa noite, Leopoldo. - -Amelia appareceu nesse momento. - ---Conheces aquella moça, Horacio? - ---Qual?... Espera! - -Horacio tinha avistado Laura, que descia o lanço da escada opposta, e -corrêra pressuroso, com os olhos fitos na fimbria de sêda. Seu olhar -tinha tal força que parecia um croque a levantar a orla do vestido. -Debalde; nem a sombra do pé: o encorpado estôfo arrastava pesadamente -pelo chão. - -Chegou a moça á porta, onde o carro a esperava. Horacio teve um -vislumbre de esperança; porém nova decepção o esperava. Não viu -mais do que uma nuvem de sêdas ondular e sumir-se. - -O leão fez um movimento de desespero. - ---Senhor! porque em vez de homem, não me fizeste estribo de um carro! -Teria a felicidade de ser pisado por aquelle pesinho. - - - - -VI - - -Seriam duas horas da tarde. - -Durante a manhã tinha cahido sobre a cidade uma forte neblina, que -molhára as calçadas. - -Leopoldo dirigia-se á casa, pela rua dos Ourives. Naturalmente vinha -pensando na desconhecida, que não vira desde a noite do theatro. Sua -paixão era intensa e ardente; mas vivia de si mesma, nutria-se da -propria seiva. Esperava com plena confiança na pureza de seu amor. - -Á pequena distancia do canto da rua do Ouvidor, viu elle de repente a -moça que passava na companhia de outras pessoas. Amelia voltára o -rosto. Seu olhar cruzou rapidamente com o olhar do mancebo. Ela -estremeceu com o costumado calafrio, e acelerou o passo. - -Vendo-a sumir-se, encoberta pela esquina, o mancebo tambem se apressou -para acompanhal-a; mas chegou tarde. A moça e as pessoas, que iam em -sua companhia, acabavam de entrar em um carro: na elegante victoria que -já conhecemos. Leopoldo apenas vira um pé, que na precipitação de -subir, levantára demais a saia. - -Sem consciencia do que fazia, precipitou-se para a portinhola do carro. -O lacaio que a fechava nesse momento, embargou-lhe o passo. Quando o -carro partiu na direção de São Francisco de Paula, Amelia inclinou-se -e lançou de esguelha um olhar vivo para a esquina. - -Leopoldo ficára na calçada immovel e extatico de sorpreza. - -O pé que seus olhos descobriram, era uma enormidade, um monstro, um -aleijão. Ao tamanho descommunal para uma senhora, juntava a -disformidade. Pesado, chato, sem arqueação e perfil, parecia mais uma -base, uma prancha, um tronco, do que um pé humano e sobretudo o pé de -uma moça. - -Os traços especiaes da beleza de Amelia não tinham deixado na memoria -de Leopoldo a minima impressão, da primeira vez que a vira, apesar de -contemplal-a demoradamente. Entretanto o defeito não lhe escapou, -embora passasse de relance diante de seus olhos. - -Parece uma singularidade; mas não é. Ninguem conta as petalas da flôr -que admira; ninguem repara na fórma especial de cada uma das partes de -que se compõe um todo gracioso; porém a menor mácula se destaca -immediatamente. - -É por isso que certos homens, não podendo distinguir-se entre a gente -sisuda e honesta, fazem-se nodoas da sociedade; tornam-se vicios e -torpezas. Assim adquirem a celebridade, que não obteriam com sua -virtude ambigua e seu mesquinho talento. - -O Castro, que não admirara o matiz da rosa, notou a mácula e -desgostou-se della. Elle sentia-se com forças para amar o feio e o -desgracioso, mas não o disforme, o horrivel. Essa aberração da figura -humana, embora em um ponto só, lhe parecia o symptoma, senão o -effeito, de uma monstruosidade moral. - -Triste, acabrunhado por pensamentos acerbos, o moço continuou seu -caminho pela rua dos Ourives em direcção á casa. Mal havia andado -alguns passos, arrependeu-se; não queria levar á sua habitação esse -primeiro transbordamento de um dissabor tão profundo; era melhor -deixal-o escoar-se, antes de recolher á solidão habitual. Si tivesse -alguma cousa a fazer! Qualquer occupação bem aborrecida e massante, -que lhe servisse de antidoto ao desgosto intimo! - -Excogitou. Havia ali perto, na rua Sete de Setembro, uma pequena loja de -sapateiro, ou antes uma tenda; porque além do balcão via-se apenas uma -tosca vidraça, contendo a obra de tres officiaes que ahi trabalhavam. - -A loja pertencia a um mestre fluminense, que trabalhára por algum tempo -na casa do Guilherme e do Campàs, e se iniciára portanto em todos os -segredos da arte. Ninguem a exercia com mais habilidade, esmero e -enthusiasmo do que elle; sua obra, quando queria, não tinha que invejar -ao producto das melhores fabricas de Pariz, si não o excedia na -elegancia e delicadeza. - -A razão cardeal de toda a superioridade humana é sem duvida a vontade. -O poder nasce do querer. Sempre que o homem applique a vehemencia e -perseverante energia de sua alma á um fim, elle vencerá os obstaculos, -e si não attingir o alvo, fará pelo menos cousas admiraveis. Mas para -que o homem se entregue assim á uma idéa e se captive á um -pensamento, é necessario ser attrahido irresistivelmente, ser impellido -pelo enthusiasmo. - -É o enthusiasmo que faz o poeta e o artista, o sabio e o guerreiro; é -o enthusiasmo que faz o homem-idéa differente do homem-machina. A -fabula de Prometheo não exprime sinão a allegoria desse fogo celeste -d'alma, que anima as estatuas de Galathea, embora depois dilacere o -coração como a aguia do rochedo. Uma faisca dessa electricidade moral, -opera maravilhas iguaes á centelha do raio. O que é o telegrapho a par -com a eloquencia? - -O Mattos tinha o enthusiasmo de sua arte; descobrira nella segredos e -encantos desconhecidos aos mercenarios. Para elle o calçado era uma -esculptura; copiava em seda e couro, assim como o cinzel copia em gesso -e marmore. Os outros artistas da fórma reproduzem todo o vulto humano -ou pelo menos o busto; elle só tinha um assumpto, o pé. Mas que -importancia não tomava á seus olhos esta parte do corpo! Era preciso -ouvil-o, em algum momento de arroubo, para fazer idéa de sua -admiração por esse membro nobre da creatura racional. - -Depois de trabalhar muitos annos em casas francezas, o mestre fluminense -resolveu estabelecer-se por sua conta. Alugou uma pequena loja de duas -portas, onde trabalhava com dois officiaes. A necessidade de ganhar o -pão o obrigava á tornar-se mercenario, fazendo obra de carregação -para vender barato. Mas no meio dessa tarefa ingrata tinha elle suas -delicias de artista. Meia duzia de freguezes, conhecedores da habilidade -do sapateiro, preferiam seu calçado ao melhor de Pariz, e o pagavam -generosamente. Essas raras encommendas, o Mattos as executava com -enlevo; revia-se em sua obra, verdadeiro primor. - -Leopoldo não era um freguez da ultima classe; elle não conhecia a -voluptuosidade de um calçado macio, antes luva do que sapato; seu pé -não era um _enfant gaté_, um benjamim acostumado á essas delicias; -desde a infancia o habituára á uma vida rude e austera entre a sola -rija e o bezerro. Além de que seus haveres não chegavam para taes -prodigalidades. - -O moço pertencia á classe dos freguezes da obra de carregação, e -preferia a loja do Mattos, pela modicidade do preço, e boa qualidade do -cabedal, como do trabalho. - -Que mysteriosa associação de idéas trouxera á lembrança de Leopoldo -naquelle momento a tenda do sapateiro; e por que motivo se dirigiu elle -para ali onde estivera na vespera, e não para qualquer outro logar, em -que poderia melhor espancar seu dissabor? - -O motivo nem elle mesmo o sabia naquelle instante. - ---Bom dia! As botinas estão promptas? disse entrando. - -O Mattos, que attendia á alguns freguezes perto da vidraça, olhou-o -sorpreso: - ---Não disse hontem a V. S. que só para o fim da semana? - ---É verdade! - ---Tinha entre mãos esta encommenda. Mas já acabei; agora posso ajudar -os companheiros. - -O Mattos indicára alguns pares de calçado que estavam no mostrador -sobre folhas de papel, e promptos a serem embrulhados. - -Leopoldo, chegando-se para o balcão, principiou a examinar a obra -acabada, com a distrahida curiosidade de quem deseja esperdiçar alguns -momentos, para escapar a um aborrecimento ou para apressar um prazer. -Era trabalho fino do mestre, e comtudo não excitaria grande attenção -da parte do moço, si não fosse um par de botinas de senhora já usadas -e meio encobertas pelo papel com outra obra. A medida era enorme no -comprimento e na altura; por isso, como pelo feitio, devia excitar-lhe -reparo. - -Na vespera quando viera á loja, casualmente observára a obra que o -Mattos estava acabando. Vendo ha pouco na rua do Ouvidor o pé -monstruoso da moça, tivera uma confusa e tenue reminiscencia das -botinas da loja. Fora esse o fio mysterioso que o conduzira -insensivelmente áquella casa. Agora comprehendia a encadeação: a -botina monstro pertencia sem duvida ao pé aleijão. - -Leopoldo depois que entrevira sob a orla do vestido o pé da moça, -ainda alimentava uma duvida, que pretendia cevar com todas as subtilezas -e argucias de seu espirito. Talvez elle visse mal; talvez a sombra, o -estribo do carro, qualquer outro objecto o tivesse illudido. O aleijão -só existia em sua imaginação; fôra um desvario dos sentidos. Com -effeito, como suppôr que uma senhora podesse andar graciosamente com -semelhante pata de elephante? - -Mas as botinas ahi estavam sobre o balcão que não lhe deixavam a menor -duvida. O pé disforme existia; era aquelle o seu molde, o seu corpo de -delicto, e por elle se podia vêr quanto devia ser horrivel a realidade. -Agora Leopoldo podia apreciar os traços parciaes que lhe tinham -escapado pela manhã; esse pé era cheio de bossas como um tuberculo; -não arremedava nem de longe o contorno dessa parte do corpo humano: era -uma posta de carne, um cepo! - -Junto dessa deformidade morta, inventada para cobrir a deformidade viva, -havia outra obra que chamára a attenção do mancebo por sua -singularidade. Á primeira vista, era um volume semelhante ao das -botinas monstruosas, embora de linhas regulares: parecia uma ligeira -almofada preta sobre a qual se elevasse uma botina de senhora, muito -elegante apezar de comprida. O tubo cinzento ficava occulto sob frocos -de setim escarlate. Do rosto ao bico descia um galho de rosas, cujas -hastes cingiam graciosamente, como uma grinalda, toda a volta do pé -até o calcanhar. - -Uma das botinas ainda tinha dentro a fôrma; emquanto a outra já estava -sem ella. Naturalmente o Mattos procedia áquella operação quando foi -distrahido pelos freguezes e compradores: deixára-a pois em meio, -deitando em cima da obra, para encobril-a, uma folha de papel. - -A fôrma não podia passar desappercebida ao observador. Vendo pouco -antes a botina disforme, Leopoldo a tinha considerado o modelo exacto do -pé monstruoso, que elle avistára. Enganara-se; a botina era já o -disfarce, a mascara do aleijão. Sua cópia ali estava em horrivel -nudez, no grosseiro tôco de páo, cheio de buracos e protuberancias. - -Mas si essa observação acabou de esmagar o coração do mancebo, levou -insensivelmente seu espirito á apreciar pela primeira vez a -superioridade do Mattos em sua arte. Ali estava a imagem do aleijão, e -o calçado que outros sapateiros lhe fariam para cobrir a -monstruosidade, sem a dissimular. Entretanto o mestre fluminense -conseguira, por um esforço feliz, desvanecer a deformidade sob a -apparencia de uma botina elegante. - -A almofada sobre que parecia descansar a botina era um solado alto, -porém occo, onde as carnes molles do pé monstruoso, comprimidas pela -botina superior, podiam abrigar-se. - -Os frocos de setim e as grinaldas de rosas enchiam as covas e -desvaneciam as protuberancias osseas, com muita delicadeza, sem avolumar -o tamanho do cothurno. Na sola negra se debuchava, em proporção á -botina superior, a alva palmilha, com seus contornos harmoniosos; de -modo que olhando-se andar a pessoa, não se perceberia facilmente o -tamanho do calçado. - -Acabára o Mattos de aviar os freguezes, e chegando-se para o balcão, -incommodou-se com vêr o moço a observar a obra; ia talvez -interrompel-o rispidamente, quando percebeu em seu rosto uma expressão -viva de ardente admiração. O artista ficou lisonjeado com esse elogio -tão eloquente em sua mudez; e á contrariedade succedeu a satisfação -do amor proprio. - -Foi Leopoldo, que, percebendo junto de si o sapateiro parado, afastou-se -do balcão, receiando ter sido indiscreto. Ia sahir, quando entrou na -loja um lacaio de libré azul com vivos de escarlate e branco. O mancebo -o reconheceu pelas feições; era o mesmo que o impedira de chegar á -portinhola do carro, na rua do Ouvidor. - ---Ah! exclamou o Mattos, avistando o criado. Está quasi prompto. - ---Não posso esperar! replicou o lacaio com a insolencia do rafeiro de -casa rica. - ---É só embrulhar. - -Leopoldo disfarçava; fingindo olhar o calçado exposto na vidraça, viu -de esguelha o sapateiro tirar a fôrma da outra botina, bater o ponto e -dar o ultimo polimento á sua obra; feito o que arranjou o embrulho. - ---Está bem amarrado? perguntou o lacaio. Olhe que da outra vez já se -perdeu uma botina por sua causa, e eu é que levei a culpa. - ---Não tenha susto; desta vez está bem seguro; respondeu o Mattos. - -Foi-se o lacaio; e Leopoldo com o semblante carregado de tristeza, -despediu-se, arrependido de ter ido á loja. Que saudades tinha da sua -duvida! - ---A duvida, pensava elle, é ainda um raio de esperança! - - - - -VII - - -A esse tempo Horacio, sentado em uma poltrona na casa do Bernardo, -fumava o seu _conchita_, com o olhar, ora na calçada, ora no espelho -fronteiro, á espreita do menor vulto de mulher. - -O leão pensava: - ---Choveu; as ruas ainda estão molhadas. Qual é a senhora que tendo um -pé mimoso e uma perna bonita não aproveita um destes dias para -atravessar a rua do Ouvidor? Si deixarem escapar estes pretextos de -mostrar semelhantes maravilhas, morrerão ellas desconhecidas, apenas -vistas por um dono avaro, mas nunca admiradas, porque a admiração é -sentimento que precisa da luz plena, da grande expansão. Si a Venus de -Praxisteles existisse, mas só para mim, palavra de honra que sua -belleza não excitaria em minha alma o menor enthusiasmo. - -Nessa occasião Amelia passava diante da loja, e voltando-se recebeu a -cortezia do leão, a quem respondeu com um sorriso amavel. Parando na -vidraça, achou ella pretexto para entrar; e comprou uma galanteria. -Durante esse tempo Horacio recebeu por diversas vezes o olhar e o -sorriso da moça. - -Acompanhando com a vista o passo airoso e subtil de Amelia, Horacio -exclamou, dirigindo-se ao caixeiro do Bernardo: - ---Que passo gracioso! É o andar da garça! - -Estas palavras foram ditas em voz bastante alta, para que a moça -ouvisse; um ligeiro estrecimento que se notou na suave ondulação do -talhe revelou que o leão lográra seu desejo. A moça ouvira com -effeito a fineza. - -Recostado de novo na poltrona o leão continou a pensar: - ---Realmente, que elegancia no andar! Eu seria capaz de apostar que esse -andar era do pésinho, do meu adorado pésinho, si já não tivesse -descoberto a dona do primor. Mas Laura não vem!... O criado me disse -que ao meio-dia, e é quasi uma hora! Terá mudado de resolução?... -Não duvido; com aquelle zêlo feroz que tem por sua joia, talvez não -quizesse vir para não ser obrigada a mostral-o. Um avaro não fecha com -mais cuidado a burra, do que ella esconde seu thesouro. Que peccado! -Subtrahir ao mundo essa maravilha que Deus fez para ser admirada! Ah! eu -desejava ser uma nação; assim como ha demonios-legiões, por que não -podem haver homens-povos? Si o fosse, daria um throno á essa mulher, -sómente para que ella instituisse o _beija-pé_. Como eu seria -cortezão! Como eu a beijaria por minhas cem bocas de subdito! - -O mancebo sobresaltou-se; vira uma sombra que assomava no espelho -fronteiro. Era Laura. - -Que devia fazer? Correr á porta para ser visto pela moça ou deixar-se -ficar na poltrona para melhor descobrir o pé adorado? - -A attitude do leão revelava a hesitação de seu espirito; com o corpo -lançado á frente parecia fazer um esforço para se conservar sentado. -Laura, que de seu lado já o tinha avistado no espelho, ficára em um -estado de perturbação indizivel. - ---Que tem prima? perguntou-lhe um senhor que a acompanhava. - ---Nada! balbuciou a moça. - -A principio Laura fizera um movimento para recuar, mas arrependendo-se -avançou com affouteza, e passou rapidamente pela frente da loja, sem -volver um olhar para dentro. Por mais que o leão se derreasse na -poltrona, não logrou vêr cousa alguma; a senhora arrastava a fimbria -do vestido pela calçada coberta de lama, com o mesmo descuido que teria -si caminhasse sobre rico tapete. - ---Está zangada commigo; está furiosa! Desde a noite do theatro que -não me póde vêr; e parece que preparou-se para o assalto, porque -achei as avenidas da praça já tomadas e vigorosamente defendidas. A -mucama é uma Gorgona, o porteiro um Cerbero; apenas consegui abrandar o -moleque, porque é um idiota!... Nunca vi uma ferocidade igual; creio -que a leôa da floresta não defende seu cachorrinho com sanha igual á -desta leôa de sala. Parece incrivel; mas eu conheço de quanto é capaz -a vaidade da mulher. Todo este furor não é mais do que um assomo de -faceirice; percebeu que estou apaixonado pelo pésinho mimoso, e quer-me -trazer atado como um captivo á seu carro de triumpho. Realmente uma -moça bonita não póde ter maior satisfação; vêr-me a mim, Horacio -de Almeida, o primeiro conquistador do Rio de Janeiro, curvar-se -humilde, não á seu olhar, á seu sorriso, á belleza de seu rosto, ou -á graça de seu talhe, mas á planta de seus pés divinos! Fazer-me -tapete de seus passos!... Que póde mais desejar a rainha dos salões -fluminenses? - -O moço mordeu a ponta do bigode negro, e ficou alguns instantes muito -pensativo. - ---É preciso mudar o plano de ataque! Comecei á maneira do Cesar, -atacando com impetuosidade. Vou contemporisar conforme a escola de -Fabio; simúlo uma retirada; o inimigo avança, eu o envolvo; corto-lhe -a retirada, e elle rende-se. Arraso o Humaitá daquelle vestido que -defende o meu pésinho adorado como uma casamata. A indifferença é a -serpente tentadora da mulher. - -Em consequencia destas reflexões, Horacio deixou-se ficar onde estava, -e não seguiu a moça. Quando suppôz que ella já ia distante, foi -procurar algures, em um bilhar o preservativo contra a tentação de -cortejal-a, ou antes a seu pésinho. - ---Ella hade reparar no meu eclipse! murmurou com certa confiança. - -Entretanto, Laura, descendo a rua do Ouvidor, encontrára pouco adiante, -na casa do Masset, Amelia em companhia da mãi. As duas amigas não -podendo vir juntas tinham ajustado seu encontro para aquelle ponto. O -primo despediu-se, e as senhoras continuaram seu itinerario pelas -differentes lojas e casas de modas. - -Ao cabo de duas ou tres horas, tomaram o carro que estava parado proximo -á rua dos Ourives e partiram na direcção do Cattete. A poucos passos -d'ali, Amelia perguntou ao lacaio sentado na almofada: - ---Trouxe? - ---Sim, senhora; está ahi dentro. - ---Bem! - -O carro aproximava-se do largo da Lapa, quando Amelia disse: - ---Podiamos ir agora ao _Passeio Publico_? - ---Tão tarde! replicou Laura. - ---Deixa-te disso! observou a mãi da moça. - ---Porque, mamãi? Ha tanto tempo que lá não vamos. - ---Não ha nada de novo. - ---Ora eu queria vêr a garça. Ainda não a vi. - ---Viste sim! - ---Mas não reparei n'uma cousa!... - ---Em que! - ---Uma cousa. Depois direi. - -Tanto insistiu que a mãi cedeu a seu capricho, e deu ordem ao cocheiro -que chegasse até o portão do _Passeio Publico_. As senhoras -desappareceram na curva de uma das alamedas do parque, em direcção ao -lago. Amelia queria vêr o andar da garça, que Horacio tinha comparado -ao seu. - -Nessa occasião passava o tilbure do nosso leão, que vinha do lado da -Ajuda. Um atropêllo, produzido por uma gondola mal conduzida, ia -atirando o tilbure sobre o carro parado no portão do _Passeio Publico_. -Este incidente chamou a attenção do moço para o cocheiro, que -derreado sobre a almofada não se movêra. - -A memoria apresenta ás vezes um phenomeno curioso; conserva por muito -tempo occulta e sopitada uma impressão de que não temos a menor -consciencia. De repente, porém, uma circumstancia qualquer evoca essa -reminiscencia apagada; e ella resurge com vigor e fidelidade. - -Foi o que succedeu a Horacio. Minutos antes por maiores esforços que -fizesse para recordar-se da libré do lacaio, portador da botina -perdida, não o conseguiria de certo. Entretanto bastou-lhe vêr a roupa -do cocheiro, para acodir-lhe immediatamente ao espirito a imagem -desvanecida. Era esse o carro, que vira quinze dias antes na rua da -Quitanda; não havia duvida. - -O leão mandou parar o tilbure e entrou no Passeio Publico; depois de -percorrer inutilmente varias alamedas, afinal descobriu entre as -arvores, alem do lago, as ondulações dos vestidos de algumas senhoras -acompanhadas por um lacaio, e tomou apressadamente aquella direcção. - -O terreno estava humido da chuva da manhã; e por isso o pé dos -passeiadores deixava o rasto impresso na branca e fina areia das -alamedas. Notando esta circumstancia, Horacio procurou o vestigio de -alguma botina irmã da que achara, e guardava como uma reliquia; ficou -ebrio de contentamento reconhecendo entre muitas pegadas o leve debuxo -que deixara no chão o mimoso pésinho. - -Si não fosse o anhelo de alcançar as senhoras e reconhecer a dona -incognita do thesouro, Horacio se houvera ajoelhado e beijára o rasto -da fada de seus amores. Mas as senhoras caminhavam rapidamente para o -portão. - -Por mais que se apressasse o leão, chegando á sahida, apenas viu o -carro que partia. Felizmente adiantando-se pôde reconhecer Amelia, que -lhe sorriu e inclinou-se para acompanhal-o com os olhos. - ---É ella! Que pateta sou eu! Devia ter adivinhado. A pouco, vendo-a -passar pela rua do Ouvidor, tive um presentimento! Aquelle andar cheio -de graça não podia enganar. - -No dia seguinte o leão fez-se apresentar ao pai de Amelia, abastado -consignatario de café, estabelecido á rua Direita. O encontro deu-se -na praça do commercio. Horacio ahi foi á pretexto de comprar apolices; -e um amigo, corretor de fundos, prestou-lhe aquelle serviço. O -negociante offereceu a casa ao moço que acceitou a fineza com effusão -de contentamento. - -O Sr. Salles Pereira habitava nas Larangeiras uma bella chacara. Amelia -era filha unica, e seu dote, convertido em cem apolices, só esperava o -noivo. Quanto á mulher, tinha uma boa pensão instituida no montepio -geral. Seguro assim o futuro, vivia o negociante com certa largueza, -economisando pouco ou nada de seus lucros annuaes. - -Quando Horacio teve conhecimento destas particularidades domesticas, -sorriu. - ---Bem! O meu pésinho tem um dote para seu calçado. Pode andar com -luxo! - -A primeira vez que Horacio visitou a familia de Pereira Salles, -encontrou Laura na sala; a moça fôra passar a noite com a amiga, e -conversava jovialmente. Apenas viu o leão, demudou-se; e instantes -depois, inventou um pretexto para retirar-se, apezar das instancias de -Amelia. - -Horacio pouca ou nenhuma attenção deu á mudança que se tinha operado -em Laura, e sua retirada repentina. Desde que a moça não era a dona -feliz do mais lindo pé do mundo, tornava-se para elle uma creatura -indifferente; tanto mais quanto sua alma estava ali de rojo beijando a -fimbria de seda, que lhe occultava o tão anciado thesouro. - -Em Amelia, varias impressões produziu a apresentação do moço. No -primeiro momento acreditou que o leão viera attrahido por ella; mais -tarde, lembrando-se do theatro, suspeitou que fosse apenas um meio de -aproximar-se de Laura; finalmente occorreu-lhe que podia não passar de -um encontro casual de seu pai, e de uma delicadeza da parte de Horacio. - -Suas duvidas porém se dissiparam poucos dias depois. - -Uma noite a moça, impellida por um movimento de faceirice, soltou estas -palavras, no meio de uma conversa com o leão. - ---Laura está uma ingrata! Ha tanto tempo que não vem passar uma noite -commigo. - -Ao mesmo tempo fitava os olhos no moço, para vêr a expressão de sua -physionomia. - ---É uma fineza de sua amiga, que eu agradeço de coração, respondeu -Horacio. - ---Uma fineza?... perguntou Amelia presentindo laivos de ironia. - ---Quando sua amiga está aqui, a senhora sem duvida não a deixa? - ---É muito natural. - ---Já vê pois que eu tenho razão. Si ella viesse... - ---Diga. - ---Eu teria ciumes, D. Amelia. - -A moça corou. - ---Pois amanhã Laura ha de passar a noite commigo. - -Estas palavras foram ditas com o estouvamento da menina, que procura -disfarçar um prazer, sob a mascara da contrariedade. Mas a mascara é -tão risonha, que não illude. - ---Quer-me tanto mal assim? perguntou Horacio. Não admira; uma paixão -ardente e impetuosa como eu sinto pela senhora, não devia ter outra -sorte. O verdadeiro amor foi e será sempre infeliz; não ha mulher que -o comprehenda. - -Amelia com as faces á arder não sabia que fizesse; sua mão tremula -brincava com as flôres de um vaso, que vacillou sobre o consolo e cahiu -no chão. O fracasso da porcelana, despedaçando-se, chamou a attenção -das pessoas que estavam na salla; assim rompeu-se o enleio de Amelia. - -A moça retirou-se confusa para o interior da casa. Momentos depois -entrou de novo na sala, já serena e prazenteira. Seus olhos procuráram -Horacio, para offerecer-lhe o meigo sorriso que trazia nos labios. - -Esse sorriso dizia em sua eloquencia muda o seguinte: - ---Si nunca a mulher soube comprehender o verdadeira paixão, serei eu a -primeira. - -Foi esta pelo menos a traducção de Horacio, perfeito philologo do -amor, e habituado a decifrar esses hyeroglyphos dos labios da mulher. - - - - -VIII - - -Não abandonemos o pobre Leopoldo á sua amarga decepção. - -O moço chegára á casa mergulhado na tristeza profunda, que sobre elle -derramaram os acontecimentos da manhã. Talvez a morte de Amelia não -lhe causasse tamanho pezar, como o daquella cruel decepção que estava -presentemente curtindo. - -O aleijão excita geralmente uma invencivel repugnancia, repassada de -terror. A aberração da fórma humana abate o orgulho do bipede -implume, fazendo-o descer á baixo do ourangotango. Ao mesmo tempo, é -ameaça viva á uma das mais caras aspirações do homem; a esperança -de renascer em outra creatura, gerada de seu ser. Si a fatalidade pezar -sobre a prole querida? - -Imagine-se que dôr era a do mancebo, quando via a deformidade surgir de -repente para esmagar em seu coração a imagem da mulher amada, da -virgem de seus castos sonhos? - -O contraste sobretudo era terrivel. Si Amelia fosse feia, o senão do -pé não passára de um defeito; não quebraria a harmonia do todo. Mas -Amelia era linda, e não sómente linda; tinha a belleza regular, suave -e pura que se póde chamar a melodia da fórma. A desproporção -grosseira de um membro tornava-se, pois, nessa estatua perfeita, uma -verdadeira monstruosidade. Era um bérro no meio de uma symphonia; era -um disparate da natureza; uma superfetação do horrivel no bello. Fazia -lembrar os idolos e fetiches do Oriente, onde a imaginação doentia do -povo reune em uma só imagem o symbolo dos maiores contrastres. - -Nessa angustia passou Leopoldo o resto daquelle dia e os que se lhe -seguiram. - ---Não amo a sua belleza material, oh, não! pensava o mancebo. O que eu -adoro nella é a belleza moral, a alma nobre e pura, a creatura celeste, -a luz, o anjo. Qualquer que fosse o envolucro de seu espirito -immaculado, creio que havia de adora-la tanto, como a adorei desde o -momento em que primeiro a vi. - -«Fosse ella feia para os outros, que chamam formosura o que lhes -encanta os sentidos; para mim seria sempre bella, porque meus olhos -haviam de vê-la através de seu esplendido sorriso. O que é o corpo -humano no fim de contas? O que é o contorno suave de um talhe elegante, -e a cutis assetinada de um rosto ou de um collo mimoso? Um pouco de -materia á que a luz transmitte a côr, o espirito, e a vida. Tirem-lhe -esses dois alentos; e verão que lôdo impuro e nauseante ficam sendo -aquellas fórmas seductoras. - -«Pois luz e espirito não eram a essencia da alma de Amelia? Quando -essa alma a vestia com uma tunica resplandecente, que mulher se lhe -podia comparar em lindeza? Então não era sómente formosa, fluctuava -em um ether de belleza deslumbrante. - -«Mas ella não é feia, é aleijada!...» - -Um soluço afogou as tristes locubrações do mancebo. Elle repassou -outra vez na mente as circumstancias de sua triste descoberta; quiz -duvidar, combateu pertinazmente sua propria razão que lhe apresentava a -realidade, e afinal succumbiu, curvando-se á implacavel certeza. Tinha -visto uma vez, e como essa não bastasse, o acaso lhe offerecera -occasião de apalpar a verdade, e saciar-se della. - ---Não se admira a Venus de Milo, uma estatua mutilada? dizia o mancebo -reluctando contra sua viva repugnancia. Não se admira o primor da arte -grega, apezar de não restar della mais do que uma cabeça e um torso de -mulher? Essa bellesa truncada não vale a belleza aleijada? A -mutilação não repugna tanto ou mais do que a deformidade? - -A razão de Leopoldo não o deixava embalar-se muito tempo nesse -pensamento consolador. Replicava logo, refutando vigorosamente as -argucias do coração: - ---A estatua mutilada, que excita a admiração do mundo, não é a copia -integral da belleza que lhe servia de typo; mas um fragmento apenas -dessa copia. A alma, que se extasia na contemplação desse fragmento, -recompõe o ideal do artista. Admira-se a Venus de Milo, como se admira -um esboço não acabado de Raphael; como se admira a petala de uma rosa, -arrancada da corolla. Mas, fosse embora aquelle primor da estatuaria a -reproducção exacta de uma mulher. A mutilação respeita a bellesa; o -aleijão a deturpa. Si a mulher que se ama perdesse um pé seria -desgraçada; com um pé monstruoso, é mais do que desgraçada, é -repulsiva. - -Leopoldo deixava-se convencer por estas sugestões: - ---Infelizmente assim é. Mas por que ha de ser assim? A mutilação é -um facto humano; o aleijão é um facto natural. Essa aberração do -principio creador, esse desvio da fórma primitiva, indicam sem duvida -um vicio na essencia do organismo. Não se tem verificado que nos corpos -mal conformados de nascença habita sempre uma alma enferma? Nos -corcundas sobretudo, porque a espinha dorsal é o tronco da -intelligencia. A deformidade de um membro, de um ramo apenas, não -denota eiva tão profunda do espirito, é certo, mas revela que a alma -não é nobre e superior. Não se concebe o anjo dentro de um aleijão. - -O resultado destas cogitações era a gotta de fel esprimido, que ia -filtrando á pouco e pouco no coração e acabaria por saturar todas as -doces reminiscências dos ultimos dias. Leopoldo convenceu-se que não -devia amar a desconhecida; mas, ao contrario, arrancar de sua alma os -germens da paixão nascente. - -Tomando esta resolução, o moço, que vivia muito retirado depois de -suas desgraças de familia, esteve a lembrar-se de algumas antigas -relações. Veio-lhe o desejo de cultival-as de novo. Um instincto lhe -dizia que para gastar as primicias de um coração virgem, não ha como -o attrito do mundo. - -Entre as casas que outr'ora frequentava escolheu para a primeira noite a -de D. Clementina, amiga intima de sua irmã. Era uma senhora já no -declinio da idade e da formosura; gostava muito de dansar, e por isso -reunia constantemente em sua sala as moças de sua amizade. Logo que se -achavam presentes quatro pares, a dona da casa dava o signal, o marido -arredava a mesa do centro, o filho, menino de quinze annos, sentava-se -ao piano; e... - ---_Chassé-croisé_! gritava D. Clementina. - -Nesta casa Leopoldo tinha certeza, não só de ser bem recebido, como de -encontrar bastante arruido para aturdir-se, e abafar uns gemidos que -sentia ás vezes repercutirem no coração. Tinham decorrido cinco dias -depois da decepção: ás oito horas da noite entrou o moço na sala de -D. Clementina, que o recebeu com sorpreza cheia de amabilidades. - -Além de estimado, acontecia que elle era justamente o quarto par. -Tirado o dono da casa, o Sr. Campos, o filho Alfredo, e tres velhas, -invalidas da dansa, havia na sala cinco senhoras para dois cavalheiros: -servindo uma senhora de cavalheiro, ainda faltava metade de um par. - -Quando a campainha annunciou mais uma visita, D. Clementina de olhos -fitos na porta da sala, dispoz-se a receber o recem-chegado com o seu -mais affavel sorriso. Vendo Leopoldo, correu a elle, e desfolhando-lhe -um ramalhete de amabilidades, trançou-lhe o braço; antes que o moço -tomasse pé na sala, era arrebatado pela quadrilha, a compasso de -galope. - -Realmente elle não podia escolher melhor. A agitação daquella dansa -rapida, sem pausa; a confusão que os pares creavam de proposito para -augmentar a animação; os risos e gracejos que provocavam os menores -incidentes da quadrilha; todo esse rumor e atropello tinham por tal -fórma sacudido o espirito de Leopoldo, que as idéas e recordações -tristes lhe cahiram, como as folhas seccas de uma arvore, abalada pelo -vento rijo do outono. - -Sentiu o coração vazio, porém tranquillo; o prazer vivo e -scintillante daquella reunião, apenas roçava-lhe pela superficie; não -penetrava, mas tambem ja não transudavam-lhe do intimo as amarguras de -que nos ultimos dias se tinha saturado. - -De repente operou-se na perspectiva da sala, uma transformação -inesperada. Amelia entrára; e sua graça diffundiu-se como um influxo -celeste, no meneio de seu talhe elegante, na suavidade de sua voz, na -irradiação de seus olhares. - -Leopoldo embebeu-se naquella suave apparição, como da primeira vez que -a vira; mas para percorrer em um apice, as phases de seu amor, e cahir -de novo na esmagadora decepção. - -De repente aquella estatua luminosa escureceu á seus olhos deixando -apenas um residuo negro; esqueleto calcinado que arrastava uma -deformidade. Debalde Amelia se ostentava no fulgor de sua belleza, -toucada pelos primeiros arrebóes do amor; debalde as ondulações de -seu corpo debuxavam fórmas encantadoras, e o sorriso de seus labios -destillava uma fragancia mystica de beijos puros; os olhos de Leopoldo -não viam nenhum desses encantos. Através dos folhos do vestido -roçagante, sua vista fitava-se implacavel no pé monstruoso que lhe -esmagava o coração como a pata grosseira de um animal. - -Todos os encantos dessa creatura, elle os despia de seu manto seductor, -e dissecava-os com fria rancor. A inflexão voluptuosa do talhe provinha -da resistencia que oppunha ao andar o enorme pé; o passo ligeiro era um -esforço supremo para disfarçar o aleijão; o sorriso gracioso um -enleio para prender os olhos estranhos, não permittindo que elles se -abaixassem até á fimbria do vestido. - -E por isso mesmo o olhar de Leopoldo, olhar frio, cruel, inexorável, se -tinha cravado na orla da saia elegante, d'onde não havia forças para -arrancal-o. - -Amelia sentiu esse olhar cruciante, e estremeceu, tomada de um vago -terror. Immediatamente sentou-se, e arranjando as dobras do vestido, -procurou disfarçar. Mas em vão; o olhar do moço continuava fito no -mesmo ponto, e produzia nella uma sensação incommoda. - ---É D. Amelia, filha de um negociante chamado Salles. Não conhece? - -Estas palavras foram dirigidas a Leopoldo por D. Clementina, que -sentando-se a seu lado, acompanhou-lhe o olhar fito. - ---Não, minha senhora. - ---Então vou apresental-o. - ---Obrigado, D. Clementina; depois. - ---Não acha muito galante? - -Leopoldo hesitou: - ---Oh! muito!... - -Viera-lhe nessa occasião o mesmo impeto que sentem de ordinario os -amantes em igual situação: o de criticar e desmerecer nas prendas da -mulher que os faz soffrer. É uma reacção natural do coração. -Leopoldo, porém, julgou indigno de si tal procedimento; tinha o direito -de afastar-se, de fugir com horror dessa mulher, mas não o de -offendel-a. A culpa de amal-a era sua; e não della. - -Aproveitou um momento de distracção da dona da casa, para tomar o -chapéo, e esquivar-se, sem que o percebessem. - -Amelia, porém, o viu; seus olhos ficaram por algum tempo presos na -porta por onde acabava o moço de sahir. Quando, passado um instante, -cahiu em si, ficou sorprendida. Que tinha ella com aquelle desconhecido? - -Ao chegar, vendo o rosto pallido e os olhos profundos, que tão -desagradavel impressão haviam deixado em seu espirito, a moça havia -sentido um máo estar intimo. Vinha com a alma cheia das primeiras -delicias de um amor nascente; com as doces emoções da declaração de -Horacio. A presença de Leopoldo foi um travo. - -Mas tambem para que viera? Por que não ficara em sua casa esperando -Horacio? - -Vão lá sondar o coração feminino. Agora que sabia-se amada, a moça -queria gozar de seu triumpho, e vêr humilde e abatido a seus pés o rei -da moda, o soberbo leão. O meio era fazer-se ardentemente desejada, -tornar-se difficil e esquiva, embora lhe custasse o sacrificio dos -momentos agradaveis que podia passar junto de Horacio. - -A presença de Leopoldo em casa de D. Clementina a incommodára, e -entretanto seu olhar parecia agora sentir a ausencia do mancebo. - -A principio havia ali uma pessoa de mais; agora faltava alguma cousa. Si -não era um homem; era uma curiosidade, uma emoção. - ---Amelia! - -A moça voltou-se para ouvir D. Clementina que a chamava. - ---Quero apresentar-lhe um moço, que a acha muito bonita. - -Dizendo estas palavras, a dona da casa corria os olhos pela salla á -busca de alguem. - ---Não o vejo agora. - ---Quem é? - ---O Castro... Conhece?... - ---Não, senhora. - ---Querem vêr que já se retirou. - -Amelia pôde reter o monosyllabo que ia cahir-lhe do labio, confirmando -a supposição da dona da casa. Tinha adivinhado que se tratava do seu -desconhecido. - ---Então elle me acha bonita? - ---O Castro?... Muito. Creio que ficou apaixonado! Se visse os olhos que -lhe deitava quando a senhora chegou! - ---Então foi de paixão que elle fugiu? - ---Quem sabe? A paixão é como o vinho que em uns dá para rir, e em -outros para chorar. Ha namorados que perseguem, e outros que fogem! - -Amelia julgou prudente desviar a conversa daquelle assumpto escabroso, -no qual D. Clementina se comprazia, porque lhe recordava sua mocidade -já desvanecida. - - - - -IX - - -Depois d'aquella noite Leopoldo viu Amelia duas ou tres vezes: e de -todas sentiu a mesma impressão que lhe causara a presença da moça em -casa de D. Clementina. - -Era o mesmo desencanto; a mesma insistencia de seu espirito para -enxergar a formosura da donzella através de um prisma deforme e -caricato. N'essas occasiões elle soffria diante da moça a fascinação -do horrivel, como o poeta soffre muitas vezes a fascinação do bello em -face de um objecto desgracioso. Era então um poeta pelo avesso; um vate -do monstruoso. Tinha na imaginação um gnomo de Victor Hugo: creava -Quasimodos e Gwynplaines do sexo feminino com uma fecundidade espantosa. - -Quando porém a moça desapparecia de seus olhos, operava-se em seu -espirito completa mutação. Esquecia completamente o aleijão, para só -lembrar a linda e graciosa figura, que poucos momentos antes sua vista -repellia. Amelia ausente vingava Amelia presente. O coração do mancebo -detestava tanto esta, quanto adorava ainda a outra. - ---Este amor é um inferno; pensava elle; tem um vicio organico. Ha de -viver de dôres e lagrimas; ha de alimentar-se de minhas tristezas. E -assim irá definhando até morrer de consumpção, depois que me tiver -devorado todo o coração. Que importa? Servirei de pasto á este -abutre. O que somos nós afinal de contas? Uma presa; emquanto vivos, a -presa das molestias e das paixões proprias ou alheias; depois de -mortos, a presa dos vermes ou das chammas. - -Com tal disposição de espirito voltou elle dias depois á casa de D. -Clementina. Nesta noite havia uma pequena partida; Leopoldo contava, -pois, encontrar Amelia. - -Ali estava com effeito, vestida de escarlate e branco; e adornada com a -sua graça arrebatadora. Quando o moço entrou, ella dansava com as -costas voltadas para a porta e não o viu; porém, momentos depois virou -o rosto como si obedecesse a um impulso extranho, e encontrou o olhar -ardente de Leopoldo. - -A moça fez insensivelmente um movimento para afastar-se, que entretanto -a aproximou da porta. Aquelle olhar que a attrahia ao mesmo tempo que a -repellia, causou-lhe um desvanecimento misturado de terror. Felizmente -a terceira figura da marca da contradansa começava, e a distrahiu de -sua emoção. - -Estava ella outra vez parada conversando com o par, quando sentiu um -calafrio; sem vêr, conheceu que o mancebo se aproximava, que seus -labios se abriam para dirigir-lhe a palavra: - ---Minha senhora, terei a honra de dansar com V. Ex. a seguinte -quadrilha... - -Continham uma pergunta ou uma asseveração estas palavras? Fôra -impossivel dizel-o. O tom parecia mais affirmativo do que interrogativo, -porem o olhar do mancebo esperava, sinão exigia resposta. - -A confusão da dansa permittiu á Amelia esquivar-se, sem responder. -Quando, terminada a quadrilha, voltou a seu logar, ficou perplexa. Tinha -ella se compromettido ou não a dansar a seguinte quadrilha com -Leopoldo? Não respondera, é certo; mas recordava-se vagamente de ter -feito uma leve inclinação com a cabeça. Sem duvida o moço vira esse -movimento e o tomára por um signal de assentimento. - -Quando um de seus innumeros admiradores vinha pedir-lhe a proxima -quadrilha, ella respondia hesitando que já tinha par; apenas o -cavalheiro se afastava arrependia-se de não o ter acceitado, rompendo -assim o compromisso tacito; e ficava anciosa por outro convite. -Entretanto novo par se apresentava, que recebia a mesma recusa. - -N'esse jôgo, muitas vezes repetido, passou o intervallo. O piano deu o -signal da quadrilha; Leopoldo aproximou-se de Amelia, e se inclinando -sentiu no seu estremecer o braço tepido de Amelia. A moça não teve -consciencia do que se passou até o momento em que o moço a conduziu a -seu logar. Recordava-se apenas de que seu par lhe fallara por muito -tempo, com a voz baixa, porem palpitante de emoção. - -Assim fôra. Passada a primeira confusão da quadrilha, Leopoldo, -fitando o olhar no semblante da moça, deu expansão aos sentimentos que -lhe tumultuavam dentro d'alma. Com a fronte baixa e as faces cheias de -rubôres, Amelia parecia absorvida e reconcentrada emquanto o moço -fallava. Dir-se-hia que ella não o ouvia. - ---A senhora acredita, D. Amelia, na attracção irresistivel, que -impelle duas almas entre si, e as chama fatalmente á se unirem e -absorverem uma na outra?... Eu acreditava nessa força mysteriosa, mas -ainda não tinha chegado o momento de experimental-a em mim; de sentir -em meu ser este elo divino que prende as almas, através do tempo e da -materia. Senti-o ha vinte dias, quando a vi pela primeira vez, quando a -senhora se revelou ao meu coração. - -Leopoldo referiu as emoções que sentira, na occasião de seu primeiro -encontro com Amelia; a impressão que ella deixára em seu espirito; e -os sonhos em que se embalára sua imaginação nos dias seguintes. - ---Tive então, continuou o mancebo com accento profundo e commovido, -tive então, e depois, a prova de que esse enlevo de meu ser, essa -abstracção de minha existencia para absorver-se n'outra, era a -attracção moral e nada mais. Via, admirava, adorava na senhora uma -cousa sómente; sua alma. Não sabia, ainda hoje não sei, si a mulher -que eu amo é bonita para os outros; sei que para mim é de uma belleza -divina. Perdesse ella a graça e a formosura que aos outros seduz; para -mim seria a mesma; eu havia de adoral-a com o mesmo ardor. Sua alma é -filha de Deus, e como elle de uma magnificencia immortal. É uma -estrella que não tem eclipse. - -Leopoldo inclinou a fronte para fallar quasi ao ouvido da moça: - ---Outr'ora julgava impossivel que se amasse o horrivel. Agora reconheço -que tudo é possivel ao amor verdadeiro, ao amor puro e immaterial. Não -só reconheço, mas sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões -martyres! Oh! sinto-me capaz de amar o anjo ainda mesmo encarnado em um -aleijão!... - -Leopoldo fallou ainda por muito tempo de seu amor a Amelia, sem que ella -se animasse a interrompel-o. Aquella palavra ardente, impetuosa, embora -vendada por certo pudor d'alma, a subjugava: ella não tinha coragem, -nem mesmo vontade de subtrahir-se á sua influencia. - -Quando Amelia, conduzida por Leopoldo, se dirigia á uma cadeira, D. -Clementina aproximou-se: - ---Ah! Eu queria apresental-o, disse a Leopoldo; mas não teve paciencia -para esperar. - -Depois reclinando ao ouvido de Amelia, perguntou-lhe: - ---Então? Não lhe disse que a achava muito bonita? - ---Ao contrario, D. Clementina; deu-me a entender que me acha horrivel. - ---Ande lá. - ---Deveras! - ---É impossivel. - -Amelia, sentando-se, evocou a lembrança de Horacio, para fazer no seu -espirito o parallelo entre o elegante leão e o estranho mancebo com -quem acabava de dansar. Um tinha todas as prendas que seduzem a -imaginação; era formoso, trajava com esmero, conversava com muita -graça. O outro não possuia nenhum desses attractivos; seu exterior -alheiava as sympathias; quando fallava diffundia a tristesa no espirito -dos que o escutavam. - -A moça não concebia que se preferisse Leopoldo á Horacio; e comtudo -não podia esquivar-se completamente á influencia daquella imagem -pallida, que lhe apparecia no meio dos sonhos mais brilhantes. - -Muitas vezes, depois de algumas horas agradaveis passadas junto do -leão, quando a moça, recolhida á sua alcova, repassava na memoria os -doces protestos de amor que ainda lhe resoavam ao ouvido, de repente -surgia a lembrança de Leopoldo. Parecia-lhe então que da fronte do -mancebo se desprendia uma sombra para annuviar seus pensamentos -risonhos. - -Horacio, sabendo onde Amelia passava as noites em que elle não a via, -mostrara desejos de frequentar a casa de D. Clementina; a moça porém -oppôz-se. Duas razões actuaram era seu espirito. - -Aquella casa servia-lhe de abrigo contra a seducção que exercia em seu -espirito a elegancia de Horacio. Quando sentia-se vencida, fugia para -ali, onde recobrava forças para resistir, e domar completamente o -leão, soberbo de suas conquistas passadas. - -Era essa uma das razões; a outra era o receio de achar-se em face dos -dois moços, repartida entre a seducção de um e a fascinação do -outro. Presentia que desse conflicto, resultaria alguma cousa, que ella -não podia definir, mas que a enchia de sustos e inquietações. - -Por isso exigiu de Horacio que não fosse á casa de D. Clementina: - ---Costumam lá ir algumas dessas pessoas que se occupam em inventar -novidades. Sua apresentação, Sr. Horacio, daria pretexto á algum -romance. - ---Mas, por que ainda frequenta semelhante casa? - ---Pedidos... bem sabe; nem sempre uma pessoa se póde recusar. Mas si o -senhor apparecer lá, eu deixarei de ir. - ---Esteja tranquilla. - -Amelia continuou a passar de vez em quando uma noite em casa de D. -Clementina. A principio não tinha dia certo, e succedeu por isso que -Leopoldo desencontrou-se della duas vezes. Uma noite porém o moço -perguntou-lhe: - ---Vem sabbado? - ---Talvez. - -Desde então o dia escolhido era o sabbado, a menos que não precedesse -aviso especial da dona da casa, para alguma partida. Nunca mais houve -desencontro; Amelia achava sempre o mancebo no seu posto, defronte da -porta para vêl-a entrar. - -Em uma dessas noites deu-se um incidente, que é preciso referir. - -Fallava-se á respeito de uma senhora casada, a quem o marido causava -serios desgostos. Pessoa que sabia das particularidades dessa familia, -explicava o facto á sua maneira. - ---Ella era muito linda, o marido a adorava; casou-se por paixão. Poucos -dias depois de casada, teve ella uma grave molestia que a reduziu -aquelle estado. Não ha paixão que resista. - ---Com effeito sabe ser feia! - ---Ninguem acreditará que foi bonita. - ---Pois foi uma belleza. - -Leopoldo, que ouvia calado, interveio: - ---O marido nunca a amou! - ---Asseguro-lhe que teve uma paixão louca. - ---E eu affirmo-lhe que não; que elle nunca teve paixão pela mulher. O -que elle adorava era unicamente a sua belleza, a fórma; isto é, um -accidente. O homem que ama a mulher destinada a ser a companheira de sua -existencia, o complemento de seu ser imperfeito, não despreza essa -mulher, porque a desgraça a feriu no envolucro material de sua alma. -Elle póde soffrer com aquella desgraça; mas deve redobrar de amor e -adoração, para que nem seus olhos vejam o defeito, nem ella, a mulher -amada, se lembre nunca de que o tem para elle, embora o tenha bem claro -para os indifferentes. - ---É bonito de dizer! acodiu um apreciador das mulheres formosas. - ---Todos dizem o mesmo, mas fogem das feias, observou uma senhora idosa, -talvez por experiencia propria. - ---O que eu digo, minha senhora, já o experimentei em mim mesmo; -replicou Leopoldo. - ---Ah! - -O mancebo cravou em Amelia um olhar eloquente, e disse com a palavra -lenta e calma: - ---É verdade; já o experimentei em mim. Por que hei de occultal-o? -Minha alma já passou por esta dura prova, e sahiu triumphante. Hoje sei -que tenho forças para amar até os defeitos da mulher que Deus me -destinou. - -Amelia perturbou-se com aquellas palavras, e o olhar ardente que parecia -graval-as em sua alma. Nessa noite retirou-se pensativa; e por muito -tempo a figura pallida de Leopoldo, esvoaçou na penumbra de seu leito -de virgem. - - - - -X - - -Pela manhã se dissiparam essas nevoas que no espirito de Amelia deixara -a noite antecedente. - -Era domingo. A moça, envolta em seu roupão alvo, com os cabellos -soltos pelas espaduas, encostou o rosto á vidraça da janella. -Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar perfeitamente a rua, -sem que de fóra vissem o seu gracioso desalinho. - -Não tardou que se ouvisse um tropel de cavallo. Era o leão que ia dar -seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina, e desenhar-se no vidro -a ponta de uns dedos côr de rosa, Horacio cortejou, enviando um sorriso -á janella. - -Á noite o moço dirigiu-se á casa do Salles. Amelia o esperava. A sala -estava cheia de visitas. Entrando, o olhar de Horacio encontrou um olhar -terno que o saudava de longe. - -Mas o sorriso se desfez com a perturbação que de repente sentiu a -moça. A vista do leão tinha descido até o tapete, e se fixara com uma -insistencia visivel na fimbria do vestido, ligeiramente arregaçada. -Horacio julgou que pudesse lobrigar a ponta do pesinho que idolatrava. - -A moça concertou as dobras da saia de modo a interceptar o olhar -curioso; e disfarçou conversando com uma amiga. - -Desde principio notara Amelia aquelle sestro de Horacio. Quando ella o -suppunha mais embebido em seus encantos, mais rendido á sua belleza, -sorprendia o olhar do moço a rastejar pelo chão, procurando -insinuar-se por baixo da orla de seu vestido. - -Muitas vezes ella perdia os seus mais ternos sorrisos, porque o moço, -em vez de procurar lhe no rosto a esperança de ser amado, esquecia-se, -a catar sobre o tapete alguma idéa que não se animava a revelar. Já -tinha succedido, durante que ella tocava, distrahir-se o leão, e com a -attenção presa no pedal, nem ouvir a peça de musica. - -Horacio a amava sem duvida; já lhe tinha dado provas de que sentia por -ella uma paixão vehemente. Elle, o rei da moda, o festejado -conquistador, para quem todas as portas e todos os corações abriam-se -como a gruta encantada de Aladino, a uma só palavra; elle ali estava -captivo da vontade della, e atado a seu carro triumphal. Que prova mais -eloquente de profundo amor, do que essa submissão espontanea do altivo -leão? - -A força nunca se revela tanto como na posse de si mesma, no vigor com -que se domina. Hercules, fiando aos pés de Omphale, é o ultimo canto, -o epilogo sublime da epopéa da força humana. Exterminando a féra, a -natureza e até os deuses, Hercules foi grande; abatendo a si mesmo, foi -maior, porque venceu o vencedor. - -Amelia comprehendia que homenagem eloquente á sua belleza havia -naquella adoração do elegante cavalheiro; sentia-se orgulhosa com esse -amor, que tantas mulheres lhe invejavam; considerava-se rainha, desde -que via a seus pés subjugado e humilde o rei da moda. - -Mas lá no intimo alguma cousa lhe remordia, quando notava a pertinacia -com que o olhar de Horacio, procurava a fimbria de seu vestido. Nesses -momentos sentia n'alma um alvoroço; chegava a suspeitar que Horacio -não lhe tinha amor, e estava escarnecendo della com uma paixão -fingida. - -A verdade, porém, é a que sabemos. Horacio tinha paixão louca pelo -pésinho de que só conhecia a botina e o rasto; fazendo a côrte a -Amelia, elle prestava culto ao deus ignoto, que adorava sob aquella -fórma encantadora. Pelo cuidado que tinha a moça em não desconcertar -os babados de seu vestido comprido de mais, conheceu elle o zelo com que -a dona recatava o thesouro. Comtudo não desesperou; o cuidado da moça -havia de adormecer um momento; podia mesmo sobrevir um accidente -inesperado que realizasse a sua mais cara esperança. - -Até aquella noite todos os esforços se tinham frustrado: á sua -insistencia a moça tinha opposto a pertinacia do capricho feminino. -Quanto mais attento elle estava para aproveitar qualquer descuido, mais -alerta ella ficava para não commetter a minima falta. - -Horacio porem resolveu dar o golpe; e com essa intenção, fora á casa -de Salles, no domingo em que estamos. - -Quando se offereceu occasião, travou com Amelia, recostada á janella, -o seguinte dialogo: - ---Como é bonita! disse elle contemplando a moça com enlevo. - ---Ainda não tinha percebido? perguntou ella com ironica faceirice. - ---Não, D. Amelia, não; porque de cada vez a acho mais bonita: todos os -dias a senhora muda a meus olhos; torna-se outra, mais linda, mais -formosa, do que era aquella que eu conhecia anteriormente. Como hoje, -acredite, nunca a vi. - ---Que tenho eu de mais? - ---Não sei; tem uma aureola da belleza! Seus olhos desferem raios de luz -tão pura; sua boca sorri como a flôr em botão, que abriu com a -frescura da noite. Os anneis de seus cabellos castanhos parecem -impregnados de um fluido mysterioso, que se derrama em torno. Mas, de -toda a sua formosura ha uma cousa sobretudo que eu admiro, que eu adoro. -Não é, nem seus olhos brilhantes, nem seus labios mimosos, nem seu -talhe elegante, nem suas tranças tão opulentas; não é nada disto! - ---O que é então? - ---Para que dizel-o? Para que revelar a minha paixão, a quem della -escarnece? Si eu o confessasse, cessariam o supplicio que tenho -soffrido, as ancias que estou curtindo? Não; haviam de augmentar si -isso fosse possivel. A senhora teria prazer em torturar-me ainda mais. - ---Explique-se: confesso que não o entendo. Que supplicio tem o senhor -soffrido? - ---A mulher é caprichosa, muitas vezes faz padecer aquelle que a ama -sinceramente, e só por espirito de contradicção. Uma cousa innocente, -um favor pequenino... permitte aos estranhos e indifferentes, e -entretanto recusa ao homem que morre de paixão por ella. Não é uma -crueldade? A senhora pergunta, D. Amelia, que supplicio tenho eu -soffrido. Este, de ser consumido á fogo lento por um desejo, que um -gesto seu podia tornar em gozo infinito! - -A moça com as faces incendidas em rubôr, luctava no alvoroço e -confusão, que iam-se apoderando de toda sua pessoa. - ---Entende agora, D. Amelia? - ---Não! murmurou tremula. - ---Pois não percebeu ainda, que ha uma cousa que eu sobretudo amo na -senhora? Tanto percebeu, que fez o proposito de escondel-a a meus olhos, -cançados de a procurarem a cada instante. Não está contente ainda de -vêr-me arrastando assim a alma pelo pó, no vão intento de entrevêr -de longe o objecto de minhas adorações? - -O leão fitou um olhar fascinador no semblante da moça. - ---Para que negar, D. Amelia? A senhora o sabe, e finge ignorar para mais -torturar-me. - ---Eu não! - ---A senhora sabe por quem deliro de paixão, por quem darei a minha vida -sem hesitar. Si não soubesse, já eu teria visto e admirado esse -pésinho mimoso, que me mata com seu rigor. - -Uma visita que entrava na sala, deu a Amelia um pretesto para fugir, -disfarçando seu rubôr e perturbação, no afan da recepção das -senhoras que chegavam. - -Ao retirar-se, Horacio achou ensejo de trocar uma palavra coma moça, -emquanto lhe apertava a mão. - ---Não seja cruel! - ---Oh, cruel não sou eu; replicou a moça com expressão de -ressentimento. - -Mais tarde em sua alcova, emquanto desfazia o penteado, soltando os -lindos anneis do cabello castanho, Amelia recordou-se das palavras -apaixonadas que ouvira de Leopoldo na vespera, e comparou-as com as -queixas de Horacio. A linguagem do primeiro tinha a eloquencia da -paixão; parecia vir do intimo, do mais profundo do coração. A -linguagem do segundo, tinha a graça da seducção; era a vibração -passageira das cordas d'alma. - -Mas a palavra do leão, vinha envolta em um sorriso gracioso, sombreado -por um bigode fino e elegante! - -Durante uma semana, Amelia não viu Horacio; por uma razão muito -simples. O moço de arrufado, não appareceu durante dois dias; quando -se resolveu a apparecer, a moça despeitada inventou um incommodo, e -não desceu á sala de visita, pelo dobro do tempo. Si Horacio -sustentasse a lucta, podia haver serio rompimento. - -O leão, porém, estava domado; tinha achado a sua Diana. No quinto dia -foi humildemente render preito e homenagem á suzerana de seu coração. -Amelia o recebeu, como rainha magnanima; e tratou-o nesse dia com -amabilidade extrema. Pela primeira vez, Horacio pôde beijar-lhe a ponta -dos dedos. - -Animado com esse acolhimento, o leão arriscou de novo a grande -questão. Fitando o olhar no rosto da moça, e abaixando-o á orla do -vestido, disse em tom supplicante: - ---Me deixa vêr? - ---Não; respondeu a moça com vivacidade, e demudando-se. - ---Quando cessará este capricho? - ---Nunca. - -Horacio teve um assomo de impaciencia. - ---Bem. Não me quer mostrar a mim, Horacio de Almeida, pois ha de -mostral-o a uma pessoa. - ---A quem? perguntou a moça irritada. - ---A seu marido. - -Amelia tornou-se pallida, e sentiu passar-lhe nos olhos uma vertigem; -mas recobrou-se logo á idéa, de que as palavras de Horacio não -passavam de um galanteio. - ---Si algum dia me casar, replicou ella sorrindo, ha de ser com a -condição de não mostrar. - ---Havemos de discutir essa condição. - ---Vamos mudar de conversa? - ---Como quizer; temos muito tempo para continual-a. - -Emquanto Amelia o olhava sorpresa, Horacio voltando-se para o grupo das -senhoras, tomou parte na conversação geral. - ---Já sabem a novidade, minhas senhoras? - ---Qual dellas? Ha tantas. - ---A novidade nova, a ultimamente inventada, que eu acabo de receber em -primeira mão, de caminho para aqui. - ---Algum casamento, aposto. - ---E eu sei de quem. - ---Não adivinhou. Talvez que a novidade de amanhã seja algum casamento; -quem sabe? respondeu Horacio, relanceando um olhar para Amelia. Mas a -novidade de hoje, é apenas um baile, um baile de estrondo. - ---Aonde? - ---No Cassino? - ---No Club? - ---Em casa do Azevedo. - ---É verdade! Eu já tinha ouvido dizer! - ---Quer a senhora fazer de velha a minha novidade. O que se dizia era que -o Azevedo tinha tenção de dar um baile, mas disso á realisação vai -uma grande distancia. Eu desejo muita cousa que não alcanço, e nem ao -menos posso vêr. Foi hoje e ao jantar que resolveu-se a grande -questão, por occasião de uma saude. Um amigo que vinha de lá, -encontrando-me a dois passos daqui, me deu a noticia do grande -acontecimento. Portanto, minhas senhoras, preparem-se! - ---Quando é o dia? - ---No primeiro do mez proximo. Ponham desde já em contribuição as -lojas e modistas; eu o que posso é offerecer-me com muito gosto para -admiral-as a todas, e achar a cada uma de per si, mais elegante do que -as outras juntas. Si Páris me tivesse ouvido, não haveria guerra de -Troia. - ---Nem Homero por conseguinte: replicou um litterato. - ---Homeros sempre os ha. Quando não encontram os heroes já feitos, -inventam-n'os, e com tal habilidade, que esses grandes homens postiços, -parecem verdadeiros, como os dentes de osana, e os coques das moças. O -mesmo succede com os Anacreontes, cuja raça é muito maior; quando não -acham nymphas para cantar, qualquer bruxa lhes serve de pretexto ou de -cabide para pendurarem a lyra. - -Amelia ficara triste e preocupada; escutava a palavra voluvel do moço, -com um sentimento indefinivel de angustia; parecia-lhe que era seu amor -por ella, que Horacio rasgava aos pedacinhos, como uma pagina querida, -abandonando-os ao sopro do vento, ao capricho daquella conversa. - -Uma amiga reparando na tristeza da filha de Salles, e no olhar que em -certa occasião lhe deitara Horacio; disse ao ouvido da moça sentada á -seu lado: - ---Amelia ficou lograda! - ---Como? - ---Creio que Horacio está justo com outra. - ---Quem lhe disse? - ---A tristeza de Amelia, e o olhar que o sujeito lhe deitou, quando -fallava de um casamento que se ha de saber-amanhã. - ---É verdade. Com quem será? - ---Naturalmente com alguma fazendeira de mil contos. Depois que sahirem -da igreja, o marido leva-a para o collegio do Hitchings; e deixa-a lá -como pensionista, emquanto elle vai a Pariz aperfeiçoar-se na _escola -dos maridos_. - -Esta senhora é uma satira viva; sua conversa parece um fogo de -artificio; dir-se-hia que o seu gracioso trajo é todo composto de -alfinetes, que ella vai deixando em sua passagem envoltos em sorrisos -assucarados, como confeitos do carnaval. - -Occulto seu nome porque é muito conhecida na boa sociedade do Rio de -Janeiro, e não quero compromettel-a com os noivos presentes e futuros -das fazendeiras ricas. - -Depois de ter durante alguns instantes ainda polvilhado a conversa com -sua palavra elegante e chistosa, Horacio tomou o chapéo e retirou-se. -Não eram nove horas; esta circumstancia mais entristeceu Amelia, e mais -excitou a attenção da moça maliciosa. - -Á porta da casa de Salles, encontrou Horacio seu tilbure. Mandou o -cocheiro esperal-o no largo do Machado, e elle, tendo acendido o charuto -e vestido o sobretudo, seguiu a pé. Queria pensar. - -Horacio pertencia á escola daquelles que entendem, que nunca é tarde -para arrepender-se o homem de um compromisso. Elle comprehendia o _jacta -est alea_ por esta fórma prudente e rasoavel. Cezar, tendo lançado a -ponte sobre a Rubicon, via de longe em Roma a dictadura, e mais tarde a -purpura imperial; portanto fez elle muito bem em passar, sobretudo desde -que o rio já não oppunha obstaculo. Mas se em vez do poder, Cesar -encontrasse no caminho a derrota; a ponte lançada lhe serviria para -voltar ás Gallias, e elle teria o cuidado de queimal-a depois que -tornasse a passar. - -Como Cesar, elle tinha lançado a ponte com aquella palavra dita a -Amelia, em um momento de despeito. Devia porém passar o Rubicon do -casamento? - -Era sobre tão importante questão que o leão queria reflectir, fazendo -a pé o trajecto entre Larangeiras e largo do Machado. - ---O casamento é o supplicio de Prometheu, pensava elle; um homem atado -ao rochedo da familia, com o coração devorado pelo tedio; uma creatura -dividida em duas metades, que se contrariam á cada instante, porque -estão ligadas. Em vez do romance, do idilio, do drama, a prosa monotona -de uma historia que se lê todos os dias. Esse prazer incomparavel de -sentir-se todo dentro de si, de resumir-se no seu unico eu, de dispôr -livremente de sua pessoa e vida, não o tem o marido a menos que seja um -biltre. O casamento dilata a superficie da alma; em vez de soffrer-se no -seu coração apenas, soffre-se na mulher, no filho, e em cada um dos -fios dessa grande teia humana que se chama familia. - -Horacio recordou-se de alguns de seus amigos que haviam casado, e achou -nessas reminiscencias a prova de sua opinião. - ---O casamento é tudo isso, mas que importa, desde que não ha outro -meio de realisar o meu desejo e satisfazer esta paixão ardente e -impetuosa? Daria a vida inteira, e sem hesitar pela felicidade que eu -sonho. Pois si eu a daria de uma vez, por que não a emprestarei sob -hypotheca? - -Tendo chegado ao largo do Machado, o moço, entrou no tilbure, que o -conduziu á casa. - -Ahi, contemplando a mimosa botina, guardada como uma reliquia, encheu-se -cada vez mais da resolução que havia tomado. - - - - -XI - - -Eram onze horas da manhã. - -Amelia estudava ao piano os exercicios de Hertz. As janellas cerradas -deixavam entrar frouxa claridade, coada pela cassa transparente das -cortinas. - -Nesse crepusculo artificial, a belleza da moça tomava uns tons suaves e -meigos, que mais seduziam. - -Os lindos cabellos ainda humidos do banho, cobriam-lhe as espaduas de -uma tunica de veludo castanho. O bajó de cassa que trazia no seu -desalinho matutino, conchegado á cutis, coloria-se com os reflexos -rosados do collo mimoso. - -Tanta graça e formosura, realçadas pela singelleza do trajo e pela -naturalidade da posição, ficavam ali occultas na doce penumbra da -sala, recatadas á admiração. As duas horas Amelia costumava subir á -sua alcova para se pentear; e o gracioso desalinho despparecia, -substituido por um trajo mais apurado e elegante. Era a flôr singella -que o vento desfolha na mata, e passa ephemera e desconhecida. - -Tantas moças despendem um avultado cabedal de sorrisos, de olhares e -gestos, e põem em contribuição a sêda, a renda e a moda para -realçarem sua formosura! Mal sabem, entretanto, que nunca são ellas -tão bonitas e feiticeiras como em certo momento de seductora -negligencia, quando parece que a belleza desabrocha de seu gracioso -botão. - -A porta da sala abriu-se, e deu entrada ao Sr. Salles Pereira. - -O aspecto do negociante era grave; mas da gravidade serena que annuncia -uma preocupação agradavel. Trazia na mão uma carta aberta. - -Amelia assustou-se vendo entrar na sala o pai, que ella suppunha na -cidade. Como todos os negociantes, o Sr. Salles Pereira passava a manhã -em seu escriptorio; partia logo depois do almoço e só voltava á hora -do jantar. A sorpreza da moça era pois natural. - ---Ah! papai! exclamara ella, voltando-se ao rumor da porta. Já veiu do -escriptorio? - ---Ainda não fui; respondeu Salles Pereira sorrindo. Recebi uma carta, -que me obrigou a demorar-me até agora para conversar com tua mãi e... -comtigo, a quem o objecto mais interessa. - ---A mim? O que será, papai? Algum convite de baile? - ---Lê; disse o negociante apresentando-lhe a carta. - -Amelia correu os olhos pelo papel, e seu rosto cobriu-se de vivos -rubôres. O coração palpitava-lhe com tanta força que debuchava no -linho o contorno dos lindos seios. - -A carta era de Horacio, que pedia ao negociante a mão da filha. - -Acabando de a lêr, a moça de olhos baixos e corpo tremulo, parecia -vendar-se com sua innocencia para subtrahir-se ao olhar terno e curioso -de seu pai. Nesse momento ella desejava, si possivel fosse, esconder-se -dentro de si mesma. - ---Que devo eu responder, Amelia? perguntou o negociante. - ---O que papai quizer! balbuciou a menina. - ---Estás bem certa de que meu desejo é o teu? Si eu não acceitar a -honra que nos quer fazer o Sr. Horacio de Almeida? - -As palpebras da moça ergueram-se, desvendando seus olhos limpidos. - ---Papai não acha bom? - ---Si elle te for indifferente, eu por mim não tenho grande empenho. É -um excellente moço; tem alguma cousa de seu; mas anda em certa roda que -não me agrada. - ---Que roda papai? - ---De moços da moda. - ---Porque é solteiro. - ---Então o que decides? - ---Desde que papai e mamãi desejam, eu.... - ---Nós não desejamos cousa alguma; queremos saber tua vontade. - -Amelia emmudeceu. - ---Bem, já vejo que não é de teu gôsto. Vou responder ao homem com um -_não_. - -Salles Pereira encaminhou-se para a porta: - ---Mas, papai!.... murmurou a moça. - ---Que temos?... Falla, que já me demorei muito. Quasi meio dia! - ---Vai responder já? - ---Já. - ---Deixe para amanhã. - ---Nada; são cousas que se decidem logo. - ---O que vai responder então? - ---Que não. - ---Mas eu não disse isto! - ---Tu nada disseste. - ---Pois si eu não gostasse diria logo. - ---Ah! neste caso gostou? - -Amelia sorrindo acenou com a cabeça. - ---Não entendo esta linguagem. Vamos a saber. Amas á Horacio? - -A moça fez um supremo esforço: - ---Amo! disse ella escondendo o rosto no seio do pai. - -O negociante beijou-a na fronte com ternura e carinho. - ---Ah! minha sonsa, não queria confessar o que tinha aqui dentro deste -coraçãozinho! E eu que pensava que elle só queria bem a mim? - ---Oh! papai! - ---Bem, bem, não tenho ciumes! Vai consolar tua mãi, que eu vou -responder ao homem mais feliz deste Rio de Janeiro. - -O negociante voltou ao gabinete; e Amelia dirigiu-se ao interior. Sua -mãi estava no quarto, com os olhos ainda humidos de lagrimas. Quem não -conhece essas lagrimas abençoadas, que a mãi derrama pelos filhos; e -que são balsamos para as afflicções, e orvalhos para as flôres da -ventura? - -D. Leonor beijou a filha e estreitou-a ao seio como receiosa de que lh'a -arrancassem dos braços. Seu coração ora alegrava-se com a felicidade -proxima da moça, ora se entristecia com a lembrança da separação. - -De repente Amelia sobresaltou-se com uma idéa que lhe acudiu; e -deixando a mãi, correu ao gabinete do negociante. Achou-o sentado á -escrevaninha, passando por cima da carta que terminara um rolete de -mata-borrão. - -O pai sorriu vendo entrar a filha. - ---Curiosa! - ---Já acabou? disse a moça recostando-se com gentileza á poltrona. - ---Vê si está de teu gosto; disse o Salles cingindo-lhe a cintura com o -braço. - -Amelia leu a carta rapidamente; ella já sabia de antemão que faltava -alguma cousa. - ---Então, que tal? perguntou o negociante com certo desvanecimento. - ---Está muito boa papai. Só acho uma cousa? - ---O que? - -O negociante soffreu uma decepção. Pensava ter feito uma obra prima -com aquella carta, escripta em seu mais bello estylo commercial, mas -recheada de alguns rasgos sentimentaes. - ---Não acha, papai, que elle ficará todo cheio de si, obtendo logo, -assim com tanta facilidade, o que deseja? A carta é de hoje; responder -no mesmo dia.... mostra muita vontade de mais. - ---Que mal ha nisso? Para que deixal-o na duvida, quando pódes tornal-o -feliz desde já. - ---Papai pensa que elle duvida? - ---Ah! Já sabe então! Muito bem! - ---Eu não lhe disse nada, papai. - ---Então como sabe elle? Adivinhou? - ---Não adivinhou nada. Papai bem sabe como são esses senhores da moda; -cuidam que todas as moças andam morrendo por elles, e que a dificuldade -está sómente em escolher. Como eu não quero que o Sr. Horacio me -julgue uma de suas conquistas, estou resolvida, papai, á pensar bem -durante quinze dias, antes de dar a resposta. - ---Portanto esta carta não serve; disse o Salles com um suspiro. - ---Ha de servir, mas daqui a quinze dias. Agora papai deve dizer -unicamente, que, tendo me consultado, eu pedi algum tempo para dar a -resposta. - -O negociante escreveu, e Amelia esperou até que partiu a carta, -confiada a um creado. - -Momentos depois, Salles sahia para a cidade; e Amelia entrava em sua -alcova, descantando trechos de arias e romances. Não se podia dizer que -estivesse alegre, apezar do tom garrido com que modulava, e do fresco -riso que trinava em seus labios. - -O que ella sentia era um alvoroço intimo, uma soffrega agitação, -estado indefinivel d'alma prurida por mil desejos, e contida por mil -receios. - -Vejamos si é possivel descobrir o que passava ali, dentro daquelle seio -mimoso. - -Desvanecida a primeira commoção, produzida pela carta de Horacio, -Amelia recordara-se do que tinha occorrido na vespera, e sobretudo das -palavras proferidas pelo moço. Sua vaidade revoltou-se como era -natural. - ---Hei de mostrar-lhe que não basta querer, para ser meu marido; e que -não basta ser meu marido para vêr... - -Foi então que se dirigiu ao gabinete do pai, e adiou a resposta -definitiva. Voltando, sentiu lá n'um cantinho do coração uns receios -que estavam nascendo. Não fosse Horacio zangar-se com a demora, e -retirar o pedido? Quinze dias talvez fossem de mais. - -Eis qual era o estado do animo de Amelia. Orgulho de vêr subjugado á -seus pés o rei da moda; prazer de o ter captivo de uma palavra sua -durante muitos dias; arrependimento do que fizera; susto do que podia -acontecer; goso da ventura que sorria; taes foram os sentimentos -desencontrados que vibraram na alma da moça. - -Nessa tarde Amelia preparou-se com maior esmero do que si fosse a um -baile. Seu adorno simples, um modesto vestido branco com fitas azues, -tomou-lhe mais tempo, do que não levaria a compôr um trajo sumptuoso. - -Ella esperava Horacio. - -Toda a noite passou indo do sofá á janella, e da janella ao consólo, -onde estava a pendula de alabastro. - -As horas se escoaram, sem que o tilbure do moço parasse á porta do -negociante. - -No dia seguinte, Amelia perguntou ao criado, si a carta fôra entregue a -Horacio: - ---Entreguei em mão, quando entrava no tilbure. - ---E que disse elle? - ---Nada; leu e riu-se. - ---Ah! elle riu-se; murmurou Amelia comsigo. Pois eu lhe mostrarei. - -Desde então, empenhada sua vaidade, os sustos se desvanecêram. Estava -decidida a não ceder. Horacio depois de vencido tentava ainda -resistir-lhe? Pois havia de subjugal-o completamente. - -Á noite foi á casa de D. Clementina, onde estava reunida a roda do -costume. Leopoldo ali se achava tambem, e comprimentou-a com um modo -triste e resignado. - -Deve existir uma corrente magnetica entre os homens, um fluido que serve -de vehiculo ao pensamento recondito e ainda não divulgado. Não se -explicam de outro modo certas revelações de um facto sómente -conhecido de poucas pessoas e por estas recatado. A emoção, que -desperta esse facto n'alma de alguns, repercute n'alma de outros, e -produz uma especie de intuição. - -Na casa de D. Clementina, sabia-se já que Amelia fôra pedida em -casamento; embora se ignorasse o nome do pretendente, talvez por não -ser conhecido das pessoas presentes. Salles Pereira, a mulher e a filha -não tinham dito a menor palavra sobre o objecto da carta de Horacio; -mas a impressão produzida por essa carta, a precocupação que deixára -nas pessoas da familia, as conversas intimas e recatadas, não -escapáram aos escravos. - -D'ahi gerou-se o boato, que já tinha passado á casa de D. Clementina. - ---Ah! chegou a Amelia Salles. Sabia que vai casar-se? Já foi pedida; -disse uma senhora a Leopoldo. - ---Não, senhora, não sabia; respondeu o moço com magoa, mas sem -perturbar-se. - ---Com quem? perguntou outra moça. - ---Com um moço bonito e rico. Disseram-me o nome, mas já não me -lembro. - -Nisso Amelia entrou na sala, onde foi muito festejada pelas amigas e -conhecidas. - -As allusões e gracejos a respeito do segredo incommodaram a moça, -embora por outro lado lhe causassem certo desvanecimento. - -Pelo meio da noite, Leopoldo aproximou-se de Amelia para lhe pedir uma -contradança. Tinham dansado a primeira marca sem trocar palavra: afinal -o mancebo rompeu o silencio: - ---É verdade que foi pedida em casamento? - -Amelia empallideceu; quiz disfarçar illudindo a pergunta, mas encontrou -o olhar de Leopoldo, olhar tão doce e sincero, que não se animou a -enganal-o. - ---É verdade; murmurou em voz quasi imperceptivel. Mas ainda não -respondi. - ---Estimo que seja muito feliz. - ---Obrigada. - -Amelia ficou sorpresa; ella suppunha que Leopoldo tinha-lhe ardente -paixão; e que portanto sentiria profundo pezar, sinão desespero, com a -noticia de seu casamento. Em vez disso, o mancebo mostrava uma -resignação serena. - ---Quando comecei a amal-a, D. Amelia, disse Leopoldo depois de alguns -instantes, acreditei na felicidade, e esperei alcançal-a neste mundo. -Minha alma pressentiu a aproximação da irmã que Deus lhe destinara, e -cuidou attrahil-a e embebel-a em seu seio. Mas essa illusão se -desvaneceu logo. Soube qual era sua posição, e comprehendi que a -senhora não me podia pertencer. Resignei-me, pois, a amar unicamente -sua alma; essa ninguem me póde roubar, nem mesmo a senhora, porque Deus -a fez para mim. Eu estava desde muito preparado para a noticia de seu -casamento; ella não me sorprendeu, embora me entristecesse. Até agora -adorei sua alma, como se adora a imagem da Virgem no templo; de agora em -diante terei de adorar essa alma querida, como se adora uma santa no -sepulchro. - -Leopoldo fallou por algum tempo ainda, e a moça, que a principio se -acanhara com a expansão viva desse amor tão puro, bebia as palavras -ardentes do mancebo, como fluido que derramava em sua alma suave calor. - -Nessa noite, ao recolher-se, ia absorvida neste pensamento: - ---Por que julgou elle impossivel que eu o amasse? sem duvida não o amo; -mas talvez... Si eu não conhecesse Horacio... Quem sabe? - -Nisto lembrou-se que já se tinham passado dois dias depois do pedido, e -portanto faltavam treze para a decisão. - ---Si elle não vier antes disso?... Si não vier... respondo que não. -Está decidido. - - - - -XII - - -Corrêram os dias sem que Horacio apparecesse em casa do Salles Pereira. -Amelia, apezar de seu esforço, não podia conter a impaciencia. Ella -adivinhava que o leão estava despeitado com a resposta, e queria -obriga-la á conceder-lhe immediatamente o que pedira; a sua mão, e com -a mão o pesinho que elle adorava. - -Por vezes a moça foi até á porta do gabinete do pai, na intenção de -diser-lhe que escrevesse á Horacio enviando-lhe o consentimento. Mas -voltava envergonhada de sua fraqueza: enxugava algumas lagrimas que lhe -saltavam dos olhos; e fazia novos protestos de não ceder. - -Nestas occaziões ella contemplava a imagem de Horacio com alguma -severidade. Lembrava-se da volubilidade com que elle fallava-lhe de seu -amor; do sorriso sempre faceiro que tinha nos labios e servia para -vestir a palavra alegre ou triste, zombeteira ou commovida; e finalmente -da insistencia que mostrava em vêr-lhe o pé. - -Então acodia a Amelia uma circumstancia que á principio lhe escapára; -fôra sua recusa á impertinencia do leão, que o obrigára á pedi-la -em casamento no dia seguinte. - ---Será apenas um capricho? Não me terá elle verdadeiro amor?... Si -não me engano, o que elle ama em mim, não sou eu, mas uma mulher que -imaginou; sirvo-lhe apenas de pretexto, como tantas outras antes de mim. - -O resultado destas observações era protestar a moça que daria um não -ao pedido de Horacio. Mas quando seu pai lhe perguntava sorrindo: - ---Ainda não? - -Ella corava, abanava a cabeça, e fugia, disendo comsigo que ainda -faltavam alguns dias para o prazo marcado. - -Para occupar as noites e distrahir o espirito dessa constante -preoccupação amiudou as visitas á casa de D. Clementina. Ali com a -influição do olhar profundo e da palavra eloquente de Leopoldo, -esquecia as contrariedades e inquietações. Na volta trazia algumas -dôces reminiscencias, e sobretudo um certo arroubo do coração, que -durava algum tempo, e a preservava de suas anteriores preoccupações. - -Ja haviam passado doze dias depois da carta, e Amelia estava mais que -nunca resolvida á romper com Horacio, quando se deu entre ambos um -encontro. - -Foi no theatro. - -Amelia que á principio evitou as occasiões de encontrar-se com -Horacio, lembrou-se que sua presença podia provocal-o; e obteve do pai -que a levasse ao espectaculo. Subindo a escada do Theatro Lyrico, -avistou Horacio que vinha do lado opposto. - -Apezar de estar prevenida a moça teve um sobresalto; mas pôde -recobrar-se antes que o leão se apercebesse de sua presença. Foi com -fria altivez e indifferença que ella correspondeu ao comprimento de -Horacio, sem demorar o passo em quanto elle trocava um aperto de mão -com o Salles Pereira. - -Esta indifferença porém, e sobre tudo o gesto que Amelia fez para -arregaçar o vestido, quando subia o segundo lanço de escadas, ataram -de novo o leão ao jugo. - ---Desta vez, pensou elle, si eu estivesse adiante via ao menos a ponta -do meu pésinho! - -Teria Amelia simulado aquelle gesto de proposito? É natural; ella -queria subjugar outra vez o captivo que lhe escapara; usava de todos os -seus recursos. - -Vencido, o moço acompanhou a familia até á porta do camarote, e -demorou-se ahi á conversar com o negociante. Entretanto Amelia, sem -dar-lhe a minima attenção, percorria com o binoculo os camarotes -trocando com a mãi observações a respeito das moças e seus lindos -adereços. - -Durante o resto da noite, a moça mostrou a mesma calculada -indifferença, á ponto de irritar o mancebo. Apezar de se ter rendido, -sentiu elle um impeto de revolta, e deixou sua cadeira junto á -orchestra com intenção de visitar um camarote fronteiro ao do Salles -Pereira. Lá estava uma linda moça de seu conhecimento; uma das -estrellas de sua coroa de rei da moda. - -Sentar-se-hia junto della, e estabeleceria um dialogo entretecido de -sorrisos, de olhares e meias confidencias como por ahi se dão tantos -nos bailes e espectaculos: verdadeira scena mimica de amor representada -perante o publico. Com esse entretenimento, Horacio comprometteria -seriamente a reputação de uma senhora; mas vingar-se-hia de Amelia, -excitando-lhe ciumes. - -Chegava já o leão á porta do camarote quando occorreu-lhe este -pensamento. - -Faltava apenas um acto para terminar o espectaculo; si elle mostrasse -afastamento, Amelia irritada persistiria em seu desdem durante o resto -da noite; e quem sabe que resolução tomaria sob a influencia desse -despeito? - -Horacio teve medo e recuou. Já se tinha submettido no começo da noite, -o melhor expediente era perseverar. Naturalmente Amelia, no fim do -espectaculo, abrandaria o seu rigor. - -Começára o acto. Horacio deixou passar algum tempo, e dirigiu-se ao -camarote de Amelia. A moça que já tinha reparado na ausencia do leão, -cuja cadeira estava desoccupada, adivinhou-lhe a presença, ouvindo -abrir-se a porta. Seu primeiro movimento foi voltar o rosto; mas -reprimiu-se a tempo, e disfarçou dirigindo o binoculo para o fundo da -sala. - -Apegar do imperio que tinha sobre si, Amelia estava ao cabo das forças. -Si naquelle momento Horacio fingisse uma retirada, ella não resistiria. -Felizmente o leão não se lembrava disso; tinha resolvido esperar a -sahida para trocar algumas palavras com a moça. - -Terminou o espectaculo afinal. Horacio offereceu o braço a Amelia: - ---Muito lhe offendi com meu pedido, D. Amelia? - -A moça calou-se. - ---Não lhe mereço nem uma palavra! - ---Parece que o senhor lhe dá bem pouco apreço. - ---Que injustiça! - ---Quem passou tantos dias sem ella, póde bem esperar ainda os dous que -faltam. - ---Então sou eu o culpado dessa demora! Quem me condemnou a ella? - ---E o senhor nem ao menos procurou abrevial-a: achou mais commodo -esperar tranquillamente? Pois continue á esperar. - ---Mas, D. Amelia! Depois da resposta de seu pai, si eu me apresentasse -em sua casa, tornar-me-hia importuno. Cuida que não soffri, passando -tantos dias sem vêl-a? Ingrata! Quantas vezes não podendo resistir fui -até á porta de sua casa, e passei, impellido pelo receio de indispol-a -contra mim? Si ella me amasse, pensava eu, teria acceitado logo: não o -fez; quer refflectir; devo deixal-a tranquilla, e respeitar a sua -resolução. Que vou eu lá fazer? Obrigal-a á me aborrecer. - -Horacio mentia; elle se ausentara da casa do Salles Pereira, sómente -para vencer a resistencia da moça por uma simulada indifferença. - -O carro do negociante aproximou-se: - ---Vai sem me deixar uma esperança? - ---Não é aqui o logar de pedil-a. - ---Então amanhã? - ---Si quizer! - -No dia seguinte á noite o leão estava em casa do negociante. Amelia o -recebera com um resto de resentimento, que se desfez com os primeiros -galanteios. Succedeu o que era natural; depois de uma abstinencia de -tantos dias, esses corações tinham sede de ternura, e beberam um no -outro á largos sorvos. - -Quando o leão se retirou, elle sabia que dois dias depois receberia -officialmente, por uma carta do negociante, o sim que ouvira naquella -noite entre um sorriso e um rubor. - -Quanto á Amelia, depois que a auzencia do moço rompeu o encanto, e -deixou-lhe unicamente a consciencia do compromisso tomado, lembrou-se -involuntariamente de Leopoldo, cuja imagem pallida e triste, desenhou-se -em sua imaginação. - ---Elle ha de soffrer muito! pensou a moça suspirando. - -No dia seguinte havia reunião em casa de D. Clementina. Amelia -recordou-se disso, e fez tenção de ir. Naquelle momento julgou-se -obrigada á communicar sua ultima resolução á Leopoldo. Pareceu-lhe -que seria uma deslealdade deixal-o na ignorancia de seu casamento, até -que viesse á sabel-o por algum estranho. - -Mais tarde surgiram os escrupulos. Tendo acceitado a mão de Horacio, -não era bonito animar uma affeição, que deixava de ser innocente. -Embora nunca retribuisse a paixão de Leopoldo, podiam suppôr que não -a repellia. Demais sendo natural que Horacio fosse passar a noite em sua -casa, ella procederia muito mal, trocando sua companhia pela de um -rival. - -Emquanto as horas do dia se escoavam, estas e outras razões disputavam -no espirito da moça a decisão que ella devia tomar. Afinal interveiu o -coração! - ---Tenho pena delle! - -E ás oito horas estava em casa de D. Clementina. Nessa noite a moça, -cujo espirito jovial sympathisava com as côres frescas e risonhas, -escolheu um vestuario sombrio. Era uma faceirice melancolica. Aquella -menina de 18 annos, que na vespera, muito espontaneamente se promettera -á um homem elegante de seu gosto e escolha, afigurava-se agora uma -victimado dever, sacrificando-se heroicamente ao compromisso contrahido. - -Essa convicção dominava Amelia ao entrar na sala, e ressumbrava não -só nas fitas pretas de seu trajo, como na languida flexão da fronte, -e no olhar cheio de magoas. Ella se julgava sinceramente coagida por uma -força irresistivel, que a arrancava á um amor profundo e santo, como a -flôr que o vento arrebata ao tronco onde se enlaçara. - -Leopoldo comprehendeu a melancolia de Amelia, e adivinhou que essa -mulher estava perdida para elle no mundo; mas que sua essencia divina -lhe pertencia, para todo o sempre. Sentiu pois a magoa da saudade, que -precede a longa ausencia. Quando se tornariam a encontrar as duas -metades dessa alma, separadas por uma contingencia da materia? - -Pela noite adiante Leopoldo aproximou-se de Amelia, porem só lhe fallou -de cousas indifferentes, ao contrario do que ella esperava. Si o moço a -interrogasse á respeito do casamento, aproveitaria o momento para -confessar-lhe; mas elle nem de leve tocou nesse ponto. - -Na occasião de se despedirem a moça fez um esforço. - ---Já sabe? perguntou com voz tremula e quasi imperceptivel. - ---Adivinhei! disse o mancebo fitando nella os olhos tristes. - -Amelia ficou um instante indecisa, em face delle, como si esperasse mais -alguma palavra; Leopoldo dissera tudo naquelle olhar, em que diffundira -sua alma. - ---Adeus! murmurou a moça afinal. - - - - -XIII - - -A casa nobre de Azevedo resplandecia. A melhor sociedade da côrte -concorrêra ao sumptuoso baile. - -Toda aristocracia, a belleza, o talento, a riqueza, a posição e até a -decrepita fidalguia, estavam dignamente representadas nas ricas e vastas -salas, adereçadas com luxo e elegancia; duas cousas que nem sempre se -encontram reunidas. - -Eram nove horas. Ainda o baile não começara; e notava-se na reunião a -gravidade solemne, o grande ar de ceremonia, que serve de prologo ás -festas esplendidas. Os cavalheiros percorriam lentamente as salas, -observando o iris deslumbrante que formavam os lindos vestidos das -senhoras; mas admirando especialmente as estrellas que brilhavam nessa -via lactea. - -Amelia acabava de sentar-se. - -Horacio foi logo saudal-a, e comprimentou-a pelo bom gôsto e delicadeza -de seu trajo. - -Realmente não se podia imaginar um adorno mais gracioso. O vestido era -de escomilha rubescente, formando regaços onde brilhavam aljofares de -crystal: nos cabellos castanhos trazia uma grinalda de pequenos botões -de rosa, borrifados de gôttas de orvalho. - -Um poeta diria que a moça tinha cortado seu trajo das finas gazas da -manhã; ou que a aurora vestindo as nevoas rosadas, descera do céo para -disputar as admirações da noite. - ---Dançaremos a primeira: disse Horacio. - -A moça corou. - ---Sim. - -Laura passava. Amelia chamou-a, mostrando-lhe um logar á seu lado. -Horacio afastou-se para deixar as duas amigas em liberdade; mas -principalmente para poupar a Laura a contrariedade de sua presença. -Desde a noite do theatro o leão comprehendêra que a moça lhe votava -antipathia. - -Conversando com a amiga, Amelia descobriu defronte, no vão de uma -janella, o vulto de Leopoldo, absorvido em contemplal-a, com um olhar -profundo e intenso, que servia de valvula ás exbuberancias de sua alma. -Sentindo-se sob a influencia desse olhar, a moça inclinou a fronte, -como um signal de submissão, e abandonou-se á contemplação do -mancebo. - -De vez em quando procurava ler de relance no rosto de Leopoldo, as -impressões de seu espirito, os movimentos de sua alma. Presentiu que o -moço desejava aproximar-se della para lhe fallar, mas não se animava; -a solemnidade da festa, a grande concurrencia, a proximidade de Laura, -tolhiam o mancebo, cujo caracter fóra da intimidade se confrangia, por -uma especie de pudor, proprio das almas virgens. - -Amelia sentiu um desvanecimento, descobrindo aquella fraqueza no homem -cujo olhar a dominava, e lembrando-se que ella podia nesse instante -protegel-o. Não ha para a fragilidade da mulher maior orgulho e prazer, -do que observar a fragilidade no homem. Vinga-se da tyrannia do sexo -forte. - ---Vamos sentar-nos do outro lado, Laura? - ---Para que? Estamos tão bem aqui. - ---D'ali vê-se melhor a sala; e deve estar mais fresco. - ---Como quizeres. - -As duas moças atravessaram a sala, e foram tomar logar justamente no -vão da janella onde Leopoldo se achava. Amelia conservou-se algum tempo -de pé, com o pretexto de arranjar a cadeira, mas para dar occasião á -Leopoldo de fallar-lhe. O mancebo adiantou-se com effeito e -comprimentou. - -Amelia estendeu-lhe a mão com interesse, para animal-o. - ---Terei a felicidade de dansar uma quadrilha.... - ---Qual? - ---A ultima! - ---A ultima? repetiu Amelia rindo-se. - ---Sim; depois que tiver dansado com todos; replicou o moço completando -seu pensamento com o olhar. - ---Então a sexta. - -A orchestra abriu o baile com uma brilhante symphonia, depois da qual -deram o signal da primeira quadrilha. Rompeu-se então a symetria, e -formou-se o turbilhão. - -Durante a contradansa, Horacio não se esqueceu do pésinho adorado; e -procurou todos os meios de o descobrir n'algum momento de confusão ou -descuido. Chegou até á fingir estouvamento em algumas das marcas com o -fim de embaraçar o vestido da moça. - ---Eu me sento! disse-lhe Amelia irritada. - ---_Barbara, non hai cor_! replicou-lhe Horacio com as palavras do -romance. - ---O seu coração está no botim? perguntou-lhe a moça com despeito. - ---O meu a senhora bem o sabe, já não me pertence, pois lh'o dei a -muito tempo; e ando-o agora procurando no chão, onde creio que o deixou -esmagado um tyranno que eu adoro e me repelle. Mas conto com a senhora -para movel-o em meu favor. Sim? - ---Não: respondeu a moça agastada. - ---Realmente eu não comprehendo. Será possivel que a senhora tenha -ciumes delle? perguntou Horacio gracejando. - -A moça olhou-o com expressão. - ---Tenho sim, tenho ciumes! - -Terminada a quadrilha, Horacio, depois de algumas voltas de passeio pela -sala, deixou a moca no seu logar, e desceu a escada de marmore que -levava ao jardim, illuminado com lampeões de diversas côres. Havia ao -lado da casa, e ao longo de uma latada, mesas de ferro para tomar -sorvetes e refrescos. Horacio, dirigindo-se para esse logar, avistou -Leopoldo sentado á uma das mesas. - ---Oh! por cá tambem, Leopoldo? - ---É verdade; contra meus habitos. - ---Está esplendido! Não achas? - ---Sem duvida. Mas parece que não tem grande interesse para ti. - ---Porque pensas assim? - ---Vens te esconder aqui, quando se dansa. Devias deixar isso para mim, -que sou uma especie de misantropo, uma alma errante neste mundo das -fadas. - ---Para ser franco, devo-te confessar, que neste baile, onde se acham -reunidas as mais bonitas mulheres do Rio de Janeiro, onde nada do que -póde tornar brilhante uma festa, nem o luxo, nem a riqueza, nem a -concurrencia, nem as notabilidades de toda a especie, neste baile só ha -uma cousa que me interessa; uma cousa bem pequenina, e por isso mesmo de -um encanto inexprimivel. - ---Que condão será esse tão poderoso? - ---Disseste a palavra. É um condão, um verdadeiro condão de fada, que -me transformou de repente, e fez do senhor um escravo humilde e -submisso. - ---Mas no fim de contas o que é? - ---Um pésinho! - -Tendo proferido esta palavra, Horacio julgou ter dito tudo quanto era -possivel exprimir na linguagem humana. _Um pésinho_, era aquelle ente -adorado que elle entrevia nos sonhos dourados de sua imaginação; era o -primor, que deixara impressa a sua fórma delicada na mimosa botina. O -moço desenhava na fantasia aquelle idolo de suas adorações; e -acreditava que Leopoldo devia, como elle, extasiar-se ante a maravilha -da natureza. - -Longe disso, Leopoldo depreendera das palavras do amigo, que elle estava -sob a influencia de uma paixão materialista; que elle amava a fórma, e -levava sua idolatria á ponto de adorar não a fórma completa, a imagem -viva e palpitante da mulher; mas um fragmento, um trecho apenas dessa -fórma. - ---Pois para mim tambem, disse Leopoldo, só ha neste baile como neste -mundo uma cousa que me illumina a existencia. - ---A gloria?... aposto. - ---Um sorriso, apenas. - -Horacio não pôde reprimir um gesto desdenhoso. O sorriso era para elle -uma das cousas mais triviaes: tinha-os colhido tantas vezes, e em labios -tão puros e mimosos, que já não lhe excitavam a attenção. Eram como -as flôres de um vaso que todos os dias se substituem. - ---Vais dansar? perguntou o leão. - ---Agora não. - ---Pois façamos uma cousa. Conta-me a historia de teu sorriso, que eu te -contarei a historia de meu pésinho. - ---Começa então. Cabe-te a preferencia; disse Leopoldo. - ---Eu a acceito; porque o objecto de meu culto não tem igual no mundo. - -Horacio accendeu o charuto. Elle não tinha o menor interesse em saber a -historia de Leopoldo; o que desejava era um pretexto para fallar do -objecto de sua adoração, e vasar o que tinha n'alma. - ---Ha cerca de dous mezes, passando pela rua da Quitanda, achei por acaso -sobre a calçada um objecto que tinha cahido de um carro. Era uma -botina, mas que botina!... um mimo, um primor, uma cousa divina! - -«Não pódes fazer idéa, não, Leopoldo. Sabes si tenho amado mulheres -lindas de todos os typos, alvas ou morenas; formozuras de todas as -raças, desde a loura escosseza até a brazileira de tranças negras; -adorei-as, umas depois de outras, e ás vezes ao mesmo tempo, essas -differentes irradiações da belleza. Pois confesso-te que nunca o -sorriso ou o beijo da mais seductora d'entre ellas me fez palpitar o -coração, como aquella botina. - -«Pensem os phisiologistas como quizerem, o pé é a parte mais -distincta do corpo humano; sem elle a estatura não teria a nobreza, que -Deus só concedeu á creatura racional. - -«O pé revela o caracter, a raça e a educação. Cada uma das -feições e dos gestos desse orgão de nossa vontade tem uma expressão -eloquente. Ha quem não adivinhe em um pé delicado e nervoso a alma de -fina tempera? Ao contrario um pé chato e pesado é a prova infallivel -de um genio tardo e paxorrento. - -«Virgilio, o poeta mais elegante que tem existido, comprehendeu que -Venus occultasse aos olhos do filho, na selva lybica, a belleza immortal -de seus olhos, de seu sorriso, de suas fórmas seductoras; mas não -aquillo que era sua essencia divina, sua graça olympica. Foi pelo andar -que ella revelou-se deusa; _et vera incessu patuit dea_. - -«Nunca sentiste o doce contacto do pé da mulher amada? É uma -sensação deliciosa que penetra nos seios d'alma. Podes apertar-lhe a -mão, cingil-a ao seio, beijal-a. Nada vale aquelle toque subtil que -abala até a ultima fibra. - -«Faze pois idéa do que eu sentia. E a botina não era senão a estatua -ou a effigie do pé encantador que a havia calçado. Ali estavam -impressos seus graciosos contornos, sua fórma suave. - -«Apaixonei-me por esse pésinho, que eu nunca vira, que não conhecia. -Sagrei-lhe minha alma como ao _ignoto deo_ de minhas adorações.» - -Horacio exagerou então os esforços por elle empregados para descobrir -o mysterioso idolo de suas adorações, e referiu os factos que já -conhecemos. Teve porém a discrição, rara em um leão, de não revelar -os nomes; receiava ainda que lhe arrebatassem a conquista. - ---Finalmente, concluiu elle, o acaso me fez descobrir a dona do pésinho -que em vão buscava. Has de crer, Leopoldo? Conhecia essa moça, que é -realmente encantadora; diversas vezes achei-me com ella em sociedade, e -nunca sentira á sua vista a menor commoção. Mas quando soube que á -ella pertencia o thesouro, adorei-a. Para vêr o pésinho que sonhei, -estou disposto a fazer a maior das loucuras, casar-me!... - ---É esta a tua historia? - ---Dize antes meu poema. Sinto não ser poeta para escrevel-o. - ---Pois si me permittes franqueza, dir-te-hei que realmente o desenlace -que lhe pretendes dar será uma loucura. O casamento, quando não une -duas almas irmãs creadas uma para a outra, é uma especie de grilheta -que prende dois galés; o supplicio de duas existencias condemnadas a se -arrastarem mutuamente. Tu não amas essa moça, Horacio... - ---Não a amo? - ---Não! - ---Quando lhe vou fazer o sacrificio que nenhuma outra mulher obteve de -mim? - ---Não passa de um capricho. Essa moça é para ti um pé e nada mais. - ---A mulher que amamos tem sempre um encanto, uma graça especial. As -vezes são os cabellos; outras os olhos; tu amas o sorriso; eu o pé. - -Leopoldo levantou os hombros. - ---Sem duvida. A alma da mulher, como a do homem, se revella em cada -pessoa por uma feição mais distincta por uma expresão mais eloquente. -Mas não é isto o que succede comtigo. Tu sentes a idolatria da -belleza material; procuraste sempre na mulher a fórma, o amor plastico; -á força de admirar os mais lindos rostos e os talhes mais seductores, -ficaste com o sentido embotado; precisavas de algum sainete que -estimulasse teu gosto. Viste ou imaginaste um pésinho mimoso e gentil: -tornou-se logo para ti o typo, o ideal da belleza material, que te -habituaste á adorar. - -Horacio soltou uma risada: - ---Olha, Leopoldo, cá para mim o platonismo em amor, seria um absurdo -incomprehensivel, si não fosse uma refinada hypocrisia. Esses mesmos -que adoram a mulher como um anjo, de que se nutrem sinão da -contemplação da belleza material que tratas com tamanho desprezo? É -possivel que uma mulher feia seja amada por aberração do gôsto; mas -fazer disso uma regra geral!... - ---Ninguem pretende semelhante cousa. A belleza é um encanto, uma -graça, um envolucro da mulher; mas não deve ser exclusivamente a -mulher, como a petala é a flôr, e a scentelha é a luz. - ---Sophisma! Tira a belleza á mulher amada e verás o que fica; o mesmo -que fica da flôr que murcha e da chamma que se apaga; pó ou cinza. - ---Queres que te prove o contrario? Ouve a minha historia. - ---Ah! é verdade. A historia de teu sorriso? - ---Sim. - - - - -XIV - - -O Almeida accendeu outro charuto: - ---«Meu romance, disse Castro, começou como o teu na rua da Quitanda. -Passando ali uma manhã, vi uma moça, que produziu em mim profunda -impressão. Parei para contemplal-a; mas o que eu admirava nella, não -era seu talhe elegante e seu rosto gracioso; era unicamente a emanação -de sua alma pura, o seu casto e ingenuo sorriso. - -«Quando o carro partiu, arrebatando-a á meus olhos, conservei sua -imagem gravada em minha alma. Não penses, porém, que eu revia a sua -figura, os seus traços. Não; era uma fórma immaterial, uma visão -vaga e indistincta. Não me lembrava como eram suas feições; qual era -a côr de seus olhos ou de seus cabellos; mas parecia-me que eu via sua -alma reflectida na minha. - -«Senti que amava essa moça, e affaguei este sentimento, que enchia meu -ser de alegrias ineffaveis. Bastava-me vêr de tempos á tempos a minha -desconhecida, e trocar com ella um olhar ou beber-lhe de longe nos -labios o sorriso, que era emanação de seu ser. - -«Estava-me reservada uma dura provança. Um dia vendo a minha -desconhecida entrar no carro, descobri que ella tinha um defeito... um -aleijão, é preciso dizer a palavra. A fimbria do vestido roçagando -mostrou-me um pé deforme. - ---Ah! exclamou Horacio, não podendo reprimir um sorriso. - ---O acaso tornou-se nesse dia de uma previdencia cruel. O que eu tinha -visto de relance era um vulto confuso, um volume exagerado talvez pela -imaginação. Podia acariciar essa illusão, e desvanecer a impressão -desagradavel que soffrêra. Mas o desengano não se demorou. Passando -nessa mesma hora pela loja onde compro calçado, vi sobre o mostrador -uma botina, verdadeiro contraste da que tu achaste, Horacio! - ---É curioso! - ---Não havia que duvidar; era o molde do pé deforme que eu acabava de -vêr, mas o molde fiel!... Todos os traços phisionomicos do aleijão -ali estavam bem debuxados, sobretudo na fôrma que servira para o -calçado, e que ali se achava ao lado delle. Poupa-me a descripção do -que vi. Era repulsivo; isto basta. - -«Imagina o que devia soffrer! Não era o feio, não; era o horrivel, o -estupendo, que de repente cahira como um peso enorme sobre meu -coração, para espremer delle, com o ultimo sôro, um amor profundo e -vehemente. - -«A luta foi terrivel, mas breve. O amor triumphou, porque era o affecto -d'alma, e não o culto plastico da belleza. Hoje si alguma vez me lembro -do que vi, entristeço-me pelo desgôsto que ella ha de ter de sua -deformidade; mas sinto que por isso mesmo a amo, e a devo amar ainda -mais. - -«Compara agora o teu com o meu amor, e dize em consciencia si tenho ou -não razão. Para anniquilar o teu, não era preciso um aleijão; -bastava substituir por uma fôrma commum esse primor que tu sonhaste, -esse pésinho de silpho ou de deosa, que talvez não passe de uma -illusão.» - ---Illusão!... Si eu tive a mesma prova que tu! Mas demos a questão por -finda. Nem tu conseguirás me convencer, nem eu quero reviver -lembranças que te pezam. Desculpa-me ter fallado nisto. Como podia eu -imaginar uma tal coincidencia! - ---É verdade! - -Os dois amigos deram algumas voltas no jardim, fallando de cousas -indifferentes, e entrando nas salas, separaram-se. - -Horacio procurou Amelia, durante algum tempo; afinal, passando pela -porta do toucador, viu a mão da moça que entreabria a cortina de -velludo verde. - ---Está triste; disse-lhe o mancebo conduzindo-a ao salão. - ---Estou fatigada; respondeu a moça com frio desdem. - -Horacio conhecia profundamente a physiologia da mulher que ama: tantas -vezes tinha lido e relido o livro mysterioso do coração feminino, que -não podia escapar-lhe a menor alteração do texto. O tom de Amelia o -sorprendeu; alguma cousa havia. O que era? O que podia ser? - -Poucos momentos antes elle a deixára amavel e terna; uma hora depois -vinha encontral-a desdenhosa e fria. - ---Ciumes, naturalmente! pensou o leão com certo desvanecimento. -Contaram-lhe alguma ou ella imaginou! - -O moço resolveu sondar o coração da noiva: - ---A senhora tem mais alguma cousa além da fadiga, confesse. - ---Illude-se! - ---Talvez! Concordo, para não contrarial-a ainda mais. - -Deram alguns passos silenciosos: - ---Vá amanhã jantar comnosco, sim? disse Amelia voltando-se para o -cavalheiro com um sorriso ineffavel. - -A transicção não podia ser mais brusca: uma aurora no seio da noite, -tal era aquelle sorriso orvalhado de meiguices e graças encantadoras. - -Outro, que não fosse Horacio, teria respondido sem a menor hesitação -o _sim_, que supplicavam labios tão mimosos. Mas esse astuto Cesar dos -salões, perito na tactica da guerra á mulher, não era homem que -perdesse tão bom ensejo de alcançar o triumpho completo. O adversario -lhe dera a vantagem da posição, cumpria aproveital-a. - ---Amanhã?... - -A moça fez com a cabeça um gentil aceno. - ---Não irei. - ---Obrigada. - ---Não devo ir. - ---Porque? - ---Si eu fosse, pediria ainda uma vez aquillo que lhe tenho pedido -tantas, e que a senhora me tem recusado tão cruelmente. - ---Ah! - ---Bem vê!... Iria contrarial-a, aborrecel-a... - ---Cuida?... - -Esta palavra tinha uma reticencia, e essa reticencia era um sorriso que -entreabria o céo de uma alma candida. - ---Então amanhã?... disse Horacio. - ---Vai? - ---E si eu pedir? - ---Experimente! - -Amelia sentou-se, e Horacio, ebrio de ventura, desceu outra vez ao -jardim para desafogar as exhuberancias de sua alma. Nunca a primeira -entrevista da mulher que mais amára produzira nelle tão profunda -emoção. - -Para achar alguma cousa comparavel com o que então sentia fôra -necessario remontar aos dias da juventude, aos tempos das primeiras -pulsações de um coração virgem. - -Sua paixão por Amelia tinha realmente uma virgindade. O conquistador -havia amado na mulher todas as graças e encantos, mas nunca até então -havia adorado um pé. Devia pois experimentar realmente as sensações -inebriantes de um primeiro amor. - -Na sala dansava-se a sexta quadrilha. - ---Acho-a pensativa, disse Leopoldo reparando que o lindo rosto de seu -par, ordinariamente animado por uma gentileza vivaz, estava agora -amortecido pela reflexão. - -Amelia fitou nelle seus grandes olhos ingenuos. - ---E não tenho razão?... - -Leopoldo calou-se. Tinha comprehendido o pensamento de Amelia. Na -vespera de decidir de seu destino, de ligar eternamente sua existencia, -a mulher deve ter desses instantes de recolhimento intimo. A duvida -agita-se no seio da fé mais profunda, o receio no amago da esperança -mais risonha. As flôres do coração, como as da natureza, têm um -verme, que as babuja. - -Que podia Leopoldo dizer á essa alma perplexa? Augmentar-lhe a duvida, -dar força ás vacillações, não seria digno; parecia-lhe uma -seducção. Confortal-a em sua fé, animar-lhe a esperança, apontar-lhe -para um futuro cheio de venturas, fôra nobre e generoso; mas -faltava-lhe abnegação para tanto. - -Terminada a contradansa, Amelia pelo braço do par deu uma volta pela -sala. A um aceno de seu leque, Horacio, que estava conversando em um -grupo, chegou-se. - ---Chame, papai. São horas! - -Emquanto o leão procurava o Salles para prevenil-o do desejo de sua -filha, Amelia dirigiu-se ao toucador. - -Leopoldo ficara sorprezo de vêr a moça fallar á Horacio, e com um tom -bem expressivo de intimidade. - ---Não pensava que se conhecessem... tanto? disse elle com a voz -commovida. - ---Pois é com elle... - -O rubor que tingiu as faces da donzella rematou a phrase com a sublime -eloquencia do pudor. - ---Não sabia? perguntou a moça para disfarçar. - ---Não! - ---Como o Sr. diz este _não_! - -Com effeito a voz de Leopoldo tivera uma vibração profunda, quando -pronunciára aquelle simples monosyllabo. - ---Desejava que não fosse elle? perguntou a moça com certa ansiedade. - ---Porque? - -Aproximava-se Horacio dando o braço a D. Leonor, e seguido pelo -negociante. Amelia separou-se de seu cavalheiro, e levantando a cortina -de velludo do toucador, voltou-se: - ---Ha de me dizer! insistiu. - ---É preciso? perguntou Leopoldo, e seu olhar desceu lentamente do rosto -da moça á fimbria do vestido. - -Amelia empallideceu; a cortina, escapando de sua mão tremula, -occultou-a. - ---Conhecias, Amelia? perguntou Horacio, em quanto esperava que as -senhoras sahissem do toucador. - ---Estás admirado, sem duvida! retorquiu Leopoldo seccamente. - -O leão fitou no companheiro um olhar interrogador; mas occorreu-lhe de -repente uma idéa, que lhe trouxe aos labios um sorriso de ironia. -Lembrara-se do aleijão. - -A mulher amada por Leopoldo, não podia ser Amelia. Mas quem sabe si o -idealista capaz de adorar uma monstruosidade, o espirito severo que -desdenhava a belleza material, não soffria a seducção irresistivel do -mimoso pésinho? - ---Admirado de que? De te vêr convertido á idolatria da belleza -material?... - -Amelia que sahia do toucador, embuçada em sua capa de cachemira -escarlate, tomou o braço do noivo e desceu as escadas. - -Quando partia o carro do Salles, Leopoldo que tambem se -retirava, encontrou Horacio na porta. - ---A illusão é a unica realidade desta vida! disse elle sorrindo. - ---O que? - ---Adeus! - - - - -XV - - -Seriam quatro horas da tarde. - -Amelia já vestida para o jantar, esperava o noivo, trabalhando em um -bordado de tapessaria. A seu lado em uma linda banca de costura forrada -de páo setim, havia, além dos utensilios necessarios, uma profusão de -seda frouxa de varias côres. - -No setim branco, estendido pelo elegante bastidor de mogno, via-se o -risco de um par de sandalias, que pareciam destinadas á alguma fada, -tão pequena, mimosa e delicada era a fórma do pé. - -Um dos esboços estava ainda intacto; no outro porém via-se já um -florão de rosas bordadas á seda frouxa, e no centro a lettra L., feita -com torçal de ouro. Era naturalmente a inicial do nome, em cuja -tenção a moça trabalhava. - -Amelia estava nesse dia talvez menos formosa, porém em compensação -mais seductora. Certa expressão languida, ou de cansaço ou de -melancolia, embotava a flôr de sua habitual lindeza, desmaiando o matiz -dos labios e das faces, velando o brilho dos olhos pardos. Seu trajo -branco ainda mais ameigava a sua phisionomia. - -Não ha para arrebatar os sentidos, como essa languidez da mulher amada. -Parece que ella verga com a exhuberancia do amor, como a planta muito -viçosa, quando concentra a seiva que não brota em flôr. O homem -querido se regosija, pensando que suas palavras e suas caricias pódem, -como os orvalhos celestes, reanimar e expandir o coração da mulher -amada. - -Talvez em Amelia não fosse esse desmaio senão o effeito da fadiga do -baile, e das scismas da noite mal dormida. - -Emquanto bordava, o ouvido da moça attento esperava algum rumor que lhe -annunciasse a chegada do noivo. Um carro parou á porta; e momentos -depois soaram na sala de visitas os passos de alguem. - -Era Horacio. - -Vendo a moça na saleta proxima, o leão dirigiu-se a ella, com a -familiaridade á que lhe dava direito seu titulo de noivo. Trocados os -comprimentos usuaes, sentou-se junto ao bastidor. - ---O que está bordando? - -Amelia fez um gesto para cobrir o bordado: - ---Deixe vêr! insistiu o moço. - ---Não vale a pena! - ---Ah! - -Esta exclamação desfez-se nos labios do mancebo em um sorriso de -jubilo. - ---É um presente de annos para uma amiga! disse Amelia. - ---Não são para a senhora? - ---Não; respondeu a moça admirada. - ---Está zombando commigo! - ---Veja! - -A unha de nacar da moça, mostrou o L. bordado a ouro. - ---Pois ha quem tenha este pésinho mimoso, a não ser minha noiva? disse -Horacio rindo-se. - ---Eu? exclamou Amelia enrubecendo. Pobre de mim! - ---Lembra-se do que me prometteu hontem á noite? - -Uma nuvem de tristeza cobriu o lindo semblante da moça; com a fronte -pendida e os olhos baixos, parecia contrahida por uma dôr intima. - ---Amelia! - ---Hontem... não tive animo de contrarial-o. Fiz mal; desculpe-me. - ---Então sua promessa? disse o moço com ironia. - -Amelia voltou o rosto como para esconder uma lagrima. - ---Acredite. O que me pede... não posso... não tenho forças para -fazer. Si o senhor soubesse!... E entretanto deve saber, porque... Eu -lhe supplico, não fallemos disso agora; depois eu lhe direi. -Prometto-lhe! - ---Não se dê a este trabalho. Já sei quanto basta: zombou de mim. - -Horacio levantou-se visivelmente despeitado, e volveu os passos pela -sala. Amelia continuou a bordar, talvez para disfarçar o seu vexame. - -Decorridos alguns instantes, Horacio, lançando um olhar para a moça, -occupada com seu bordado, viu alguma cousa que o sobresaltou. A fimbria -do vestido, suspensa na travessa do bastidor, devia descobrir o pé da -moça para quem estivesse sentado á sua esquerda. - -O leão aproximou-se na esperança de sorprender o avaro thesouro que se -roubava á seus olhos. - ---Não sabia que bordava tão bem! - ---Ora! Não tenho paciencia para estes trabalhos. Si não fosse uma -divida... - ---Como? Não é mais presente de annos? - ---Uma e outra cousa. - ---Ou talvez nem uma nem outra; disse Horacio adoçando o tom de ironia. - ---Que necessidade tinha eu de enganal-o? disse Amelia com um doce -resentimento. Uma amiga minha... - ---Cujo nome não consta. - ---É segredo! atalhou a moça com faceirice. - ---Ah! É segredo? - ---Inviolavel. Ella não quer por cousa alguma que saibam nem mesmo -suspeitem.... - ---Que é sua amiga? - ---Ora!... Que tem um pé deste tamanho: disse a moça mostrando o -bordado. - ---Devéras? acodio Horacio. - ---Ella pensa que é um aleijão e sente uma tristesa... - ---Na verdade, possuir um thesouro, um primôr! Admira como sua amiga já -não morreu de desgôsto. - ---Mas fallando sério; não é natural que uma moça tenha o pé de uma -menina de sete annos. - ---Não sei si é natural; mas sublime, asseguro-lhe que é. Ha certas -graças na mulher que devem ficar sempre meninas; as huris, as fadas, as -deusas, são assim. - ---Com effeito! Si eu fosse ciumenta! - ---De sua amiga?... De uma amiga tão intima?... Era quasi ter ciumes de -si mesma! disse Horacio gracejando. - ---O que o senhor quer sei eu. É vêr se adivinha. - -Horacio tinha sustentado esta conversa com interesse extremo; menos -pelas palavras da moça, do que pelos movimentos da fimbra do vestido. -A saia, arregaçando gradualmente com a inflexão do talhe gentil da -moça reclinada sobre o bastidor, promettia brevemente descobrir o -thesouro, tão estremecido pelo mancebo. - -Amelia, occupada com seu trabalho, e distrahida com a conversa, se -esquecêra daquelle constante cuidado que ella tinha em compôr a orla -do vestido. Durante a conversa apenas uma vez tirara os olhos do -bordado, para lançar uma vista furtiva ao leão. - ---Mas então essa amiga mysteriosa.... A senhora ia contar uma historia, -si não me engano. - ---Historia, não senhor. Queria explicar-lhe por que este bordado é o -pagamento de uma divida. - ---Justamente. - ---Pois essa minha amiga, incommodava-se muito quando tinha de comprar -botinas; custava achar um par que lhe servisse. As de senhora eram muito -grandes; as de menina eram muito baixas. Afinal encontrou um sapateiro, -que trabalha tão bem como os melhores de Pariz. - ---É exacto. - ---Como exacto? O senhor sabe? - ---A senhora não falla do Campas? disse Horacio um tanto perturbado. - ---Não, senhor. - ---Pensei. - ---Haverá dois mezes; indo eu a cidade, minha amiga, que tinha feito uma -encommenda de botinas, pediu-me para vêr si estava prompta. Quando o -criado a trouxe para o carro onde o esperava, cahiu um pé de botina já -usado, que fôra para modelo. Minha amiga ficou muito afflicta; e eu fiz -tenção de dar-lhe no dia de seus annos umas chinellas bordadas por -mim. Bem vê que não o enganei. - -Proferindo as ultimas palavras, Amelia sempre occupada com seu bordado, -debruçou-se completamente sobre o bastidor para desembaraçar o fio de -sêda frouxa. Este movimento produziu o que Horacio esperava. A saia, -retrahida pela travessa do bastidor, descobriu até o artelho o pé da -moça. - -O moço estremeceu com a forte emoção; e fechou os olhos, atordoado. - -O que vira era uma cousa indefinivel, estupenda. Era o aleijão, a -monstruosidade de que lhe fallára Leopoldo. Aquella massa informe; -aquella enormidade cheia de cavernas e protuberancias, elle a tinha ali -em face, diante dos olhos, escarnecendo do seu amor, como um desses -caturras hediondos das lendas da idade media. - ---Diga-me uma cousa: hontem depois que sahimos o senhor conversou com -aquelle moço que dansou commigo? O Leopoldo, não é? - -Não recebendo resposta, Amelia ergueu a cabeça para interrogar o noivo -com o olhar. O aspecto demudado de Horacio, o sorriso pungente que -amarrotava seu bigode artistico, a vista anciada que elle tinha fixa no -monstro, lhe reveláram subitamente o que succedêra. - -Um grito de afflicção escapou-se do peito da moça, que afastou -violentamente de si o bastidor, causa do accidente, e colheu os largos -volantes da saia, occultando o que ella por tanto tempo defendêra -contra a curiosidade soffrega do moço. Por alguns instantes os noivos -permaneceram mudos e confusos, sentindo-se repellidos um pelo outro, e -comtudo não ousando affastar-se. É um supplicio cruel esse que -inflinge a presença de um ente que faz corar de vergonha. - -Afinal Horacio levantou-se e deu alguns passos á esmo. Amelia -aproveitou-se desse movimento para fugir da sala. Ficando só, o leão -dardejou para o interior um olhar terrivel; e tomando o chapéo, desceu -rapidamente as escadas. - -Agora elle comprehendia tudo: e as palavras que Leopoldo lhe dissera na -vespera, ao sahir do baile, lhe repercutiam ao ouvido, como uma -gargalhada satanica:--«A illusão é a unica realidade deste mundo.» - ---Como pude eu tanto tempo illudir-me com o excessivo recato de Amelia? -Como não desconfiei do pudor selvagem que vellava semelhante á um -dragão sobre o terrivel segredo? - -«Não ha moça, seja ella o anjo da pudicicia, que não mostre ao menos -a pontinha do pé, quando o tem mimoso e gentil. Eu devia saber disso, -mas estava cégo. Todos cochilamos, sem ser Homeros: eu que me prezo de -conhecer a mulher, portei-me como um calouro. - -«Consumir dois mezes á correr após uma sombra, e quando esperava que -a sombra tomasse corpo, ella se desvanece... Qual! Antes se -desvanecesse; mas ao contrario toma um vulto medonho, enorme, -esqualido. Faz-me quasi lembrar o verso de Camões.» - -Horacio soltou uma gargalhada: - ---Realmente eu não sei qual de nós dois ficou mais corrido. Si ella de -mostrar a toeza; si eu de a vêr. - -«Sonhar uma perola, e encontrar um seixo; imaginar um mimo, e achar uma -brutalidade; desejar um botão de rosa, e colher uma tubara! - -«Si os rapazes souberem disto, estou deshonrado. Como posso eu mais -apresentar-me na rua do Ouvidor, quando a cousa divulgar-se? Todo o asno -terá direito de atirar-me o couce, como ao leão moribundo da fabula.» - -Horacio começou á reflectir, si fizera bem sahindo tão -precipitadamente da casa de Salles. Moderou o passo, e olhou o relogio. -Eram perto de cinco horas. Si voltasse, chegaria tarde; demais, como -explicar a retirada e a volta? - ---Em todo o caso, pensou o leão, a fortuna não me desamparou de todo. -Assim como a illusão durou até hoje, podia prolongar-se mais algumas -semanas, e... Tremo de horror, quando me lembro que eu podia ser atado -aquelle mourão, aquelle poste! Ser condemnado a arrastar uma trave por -toda a vida? Que supplicio! - -«Si eu podesse imaginar que o Omnipotente, creador de tantas -maravilhas, se occupa com a minha ridicula individualidade, e se -interessa pelos pecados que eu tenho commettido, me ajoelhava aqui mesmo -na rua, e lhe renderia graças pela minha salvação.» - -«Quem se livrasse de ser esmagado por uma rocha, não escaparia de tão -grande perigo como eu. Casar-se um homem com aquelle pé, seria -predestinar-se para o homicidio.» - -Passava um carro, que parou de repente. - ---Ainda por aqui, Almeida? disse o Salles deitando a cabeça fóra do -carro. - ---É verdade... sahi, mas.... - ---Entre, que hão de estar á nossa espera; São cinco horas, demorei-me -hoje além do costume; por causa mesmo do senhor, maganão! Certos -arranjos. - -Horacio procurou rir, mas fez uma careta que desculpou com um callo. -Elle, o leão, sempre elegante, correcto e irreprehensivel no trajo, -como nas maneiras, tinha perdido completamente a serenidade de espirito. - -As senhoras estavam reunidas na saleta. Amelia ficou sorprendida, vendo -Horacio de volta com seu pai; e reprimiu o contentamento que sentia. Mas -este durou pouco. Ella conheceu logo que o leão obedecêra mais ás -conveniencias, do que ao affecto que lhe tinha. - -Comtudo essa volta significava alguma cousa. Ella, Amelia, não causava -horror á seu noivo. - -O jantar foi animado pela conversa viva e espirituosa de Horacio, que -havia recuperado seu sangue frio. Uma circumstancia porém não escapou -a Amelia, que passou desapercebida ás outras pessoas; o leão, apezar -de sentado á sua esquerda, não achou um momento para trocar com ella -uma palavra. Ao contrario, manteve sempre a conversação geral, para -impedir o dialogo intimo, que elle receiava. - -Terminado o jantar, Horacio achou um pretexto para retirar-se logo. - ---O que se passou D. Amelia, é mais do que um segredo para mim; eu nada -sei, esqueci; disse elle despedindo-se. - -Tocando apenas na mão que a moça lhe estendêra, sahiu. - -Amelia deu um passo para chamal-o, mas apoiando-se ao recosto do sofá, -permaneceu immovel, escutando os passos do noivo até que se perderam ao -longe. - - - - -XVI - - -Fazia uma semana que Horacio não apparecia em casa de Salles. - -Amelia tinha por duas vezes mandado saber do noivo. Da primeira -contentou-se com um recado; da segunda enviou-lhe uma saudade. - -O negociante de sua parte havia passado por casa do moço, que pretextou -um defluxo para justificar sua ausencia; e prometteu apparecer no dia -seguinte. - -Horacio comprehendia a necessidade de sahir da posição difficil em que -se achava, mas debalde procurava um meio. Cansado de cogitar, entendeu -que o melhor era confiar-se á inspiração do momento. - -No dia seguinte á noite, dirigiu-se á casa do negociante. - -As duas senhoras estavam sentadas junto a mesa; a mãi lia, a filha -pensava. Amelia estava triste, sua mãi suppunha que eram saudades. - -Quando Horacio entrou, D. Leonor o festejou com verdadeiro prazer. -Amelia sentiu um vislumbre de esperança, que illuminou o sorriso de -seus labios. - ---Felizmente! exclamou D. Leonor. Esta casa era uma fonte dos suspiros! - -A conversação começou friamente, e foi se arrastando por algum tempo. - ---Não tem sahido? perguntou Horacio depois de uma pausa. - ---Não; Amelia não tem querido. - ---Por que? perguntou o moço voltando-se para a noiva. - ---Então não sabe? acodiu D. Leonor. - ---Porque não se offereceu occasião; disse Amelia. - ---Mas tem recebido visitas? - ---Algumas. - ---O Leopoldo não appareceu! - ---Não frequenta nossa casa; respondeu a moça. - ---Ah! cuidei? - ---Si elle nos visitasse, o senhor o teria encontrado aqui muitas vezes. - ---Podiamos nos desencontrar, disse Horacio com um sorriso motejador. - -Amelia percebeu que o moço estava procurando um pretexto para -despeitar-se. D. Leonor tendo continuado a leitura interrompida estava -alheia a conversação. - ---Foi em casa do Azevedo que o apresentaram á senhora. - ---Não; conheço-o de muito tempo; ha perto de dois mezes. - ---De onde, si não é segredo? - ---Segredo por que? Elle frequenta a casa de D. Clementina que recebe ás -quintas-feiras. Constantemente nos encontramos ahi. É uma reunião -muito agradavel, estamos quasi em familia, sem a menor ceremonia. - ---Ah! nunca me convidou para essas reuniões; eu teria muito prazer em -acompanhal-a, mas talvez fosse importuno, como já vou sendo aqui. - ---O senhor está habituado a viver na alta sociedade; havia de -aborrecer-se. - ---Mas a senhora não se aborrecia; ao contrario divertia-se bastante. - ---Alguma cousa. - ---E Leopoldo era seu par? - ---Era. - ---Par constante? - ---Não sei si era constante ou não; quasi sempre elle dansava commigo, -porque lá não ha muito onde escolher; os pares são poucos. - ---Optimo systema! Assim não se repara? - ---Em que? - ---Em certa assiduidade! Ainda mesmo que uma moça já tenha noivo -arranjado, ha gente que exige da parte dessa moça certa reserva, porque -emfim o outro póde não querer acceitar a responsabilidade de tudo! É -uma impertinencia, concordo, mos o mundo tem destes caprichos. - ---Isso se entende naturalmente com as moças que têm _noivo arranjado_, -retorquiu Amelia frisando a palavra, e não com aquellas, cuja mão se -pediu talvez para satisfazer uma simples fantazia. - -A moça levantou-se da mesa, lançando ao leão um olhar desdenhoso, e -foi sentar-se ao piano. Emquanto ella tocava uma variação de Thalberg, -Horacio para fazer alguma cousa, se entreteve em arranjar as figuras -chinezas de um jogo de paciencia. Nunca elle precisára tanto de -provêr-se dessa virtude evangelica. - -Decorridos alguns instantes o leão ergueu-se da meza; deu algumas -voltas pela salla, e aproximou-se do piano, como para vêr a elegancia -com que a moça dedilhava. - ---A senhora acha muito natural, D. Amelia, que uma noiva frequente -assiduamente uma casa onde não tem entrada o homem com quem vai -casar-se; acha natural que essa moça tenha em taes reuniões um par -effectivo, que provavelmente cultiva uma dessas amisades candidas dos -romances de Balsac, verdadeiros _lirios do valle_, que vivem de orvalhos -e de sombras. Eu, porém, sou um espirito prosaico e material: tenho a -infelicidade de não acreditar na attracção mysteriosa dos espiritos, -no consorcio ideal das almas irmãs, nos sonhos ethereos, nos effluvios -celestes, em toda essa giria sentimental. Para mim, intelligencia -grosseira, tudo isso não passa de uma hypocrisia do primeiro tartufo -deste mundo, o amor. É um tyrannete que toma todas as figuras e -posições; faz-se menino ou velho, anjo ou demonio, poeta ou -banqueiro... Estou incommodando-a talvez? - ---Não; acabe. - -A moça fazia com uma ligeira surdina o acompanhamento das palavras do -leão; mas á ultima phrase, ella retirou as mãos do teclado. Foi esse -o motivo da pergunta de Horacio. - ---A senhora deve sentir muito, e Leopoldo com maior razão, de serem -privados de uma distracção que tanto lhes agrada! - ---Comprehendo, replicou Amelia. O Sr. me prohibe que eu vá á casa de -D. Clementina? - ---Que idéa! Não tenho direito de prohibir; ainda não sou seu marido; -a senhora é completamente livre de suas acções, póde ir á casa de -D. Clementina, ou onde lhe approuver; assim como eu posso, querendo, -passar as noites no Club ou no Alcazar. - -Amelia soltou uma risada. - ---Pensava, que os leões estavam isentos dessa fragilidade do ciume. - ---Perdão; não se trata de ciume, nem sei o que isso é. A questão -reduz-se á uma antipathia de caracteres, á uma contradicção de -genios, que deve ter para o futuro graves consequencias. A senhora é -idealista, eu sou materialista. Um quizera viver no mundo dos sonhos, -outro neste valle das lagrimas e das realidades. A senhora procurando-me -no céo entre as estrellas e os anjos, e não me achando ahi, soffreria -uma cruel decepção; entretanto que eu na terra, ficarei reduzido á -sombra da mulher que amei. - ---Não é tão pouco, para quem se contentava com um pé de criança; -disse Amelia com ironia. - ---Mas esse pé era a realidade, a expressão a mais sublime della! - ---Custa-lhe pouco á possuir essa realidade Mande fabrical-a em cêra: -sahirá ainda mais perfeita. - ---Ainda não perdi a esperança de encontral-a. - -O chá interrompeu o dialogo. Os dous noivos aproximaram-se da meza -oval, onde o criado acabava de collocar a bandeja. - -A phisionomia de Amelia perdêra a expressão de tristeza e desanimo que -tinha a principio; a conversa lhe deixara no semblante alguns tons -vivos. - -Occupada em dispôr as chicaras para enchel-as; os gestos sempre macios -da moça revellavam certa crispação nervosa. - -Horacio ficára contrariado, porque não tivera tempo de precipitar o -_casus belli_. Receiava que se demorasse ainda o rompimento que elle -tanto desejava. - ---Mamãi, disse Amelia com intenção, amanhã é quinta-feira. Vamos -passar a noite em casa de D. Clementina? - ---Si quizeres. - ---Não devemos faltar; deixámos de ir a semana passada. - ---Foi logo depois do baile do Azevedo. - ---Não o convido, disse Amelia voltando-se para Horacio, porque o senhor -não frequenta essas reuniões de gente pobre. - ---Sem duvida; tenho medo de evaporar-me em devaneios e suspiros; -respondeu Horacio, cruzando com a moça um olhar de desafio. - -Elle sentiu que Amelia o provocava, e exultou. A moça estava disposta a -resistir; o rompimento era infallivel e prompto. - ---Eu gosto bem dessas partidas; a noite passa tão agradavel. - -Aproveitando-se de um momento em que D. Leonor se afastou, Horacio -atirou á moça rapidamente estas palavras: - ---Pois si a senhora voltar á casa de D. Clementina, eu não voltarei -mais aqui. - -Amelia estremeceu. - -Um quarto de hora depois, Horacio retirou-se. Quando se despedia das -senhoras, disse o leão á moça apertando-lhe a mão: - ---Desejo que se divirta muito amanhã. - ---Aonde? perguntou D. Leonor. - ---Em casa de D. Clementina. Não vai, D. Amelia? - -A moça hesitou um instante. O offêgo de seu collo trahiu uma luta -violenta, mas rapida. - -Sua resolução, antes que ella a exprimisse, manifestou-se na altivez -do porte, que uma vibração intima erigira. - ---Vou sem falta! - -Horacio, soltando a mão da moça, que foi bater inerte nos folhos do -vestido, cortejou profundamente. - ---Seja muito feliz. - -Apenas o leão desappareceu na porta, Amelia abraçando e beijando a -mãi, subiu precipitadamente á sua alcova; atirou-se á uma -conversadeira, e desafogou em pranto e soluços a dôr que tinha -recalcado desde muitos dias. - -A maior parte da noite foi para ella de vigilia. Viu correrem as horas; -cada momento que se escoava era uma esperança, uma illusão que se -desfolhava da flôr viçosa de sua alma. - -Aquelles que se separam das pessoas ou dos sitios queridos, conhecem bem -esse travo do coração que chamamos _saudade_ e sabem quanto é cruel o -momento de separação. - -Mas não ha despedida cruciante como seja a da alma pelo amor que nutrio -durante muito tempo. Ha ahi mais do que uma separação; é quasi a -mutilação moral. - -Amelia comprehendêra que tudo acabara entre Horacio e ella. Desde o dia -do jantar receiara esse resultado; mas ainda alimentava uma esperança. -Naquella noite a esperança murchara, si não foi ella propria Amelia, -quem a desfolhara. - -Agora na calada da noite, era sua alcova que lhe parecia um ermo, ella -tinha medo do isolamento em que se achava. Algumas vezes sua alma -sentia-se como que asphixiada pelo silencio e pela treva que a -submergiam. - - - - -XVII - - -Como dissera á Amelia, na sua ultima visita, Horacio não tinha perdido -a esperança de encontrar o que elle chamava a realidade de seu amor; o -pésinho gentil e mimoso do qual elle possuia a botina. - -Illudira-se nas suas investigações; era preciso recomeçar. - -Tal era o pensamento que preoccupava o leão, recostado naquella mesma -poltrona, onde o vimos no primeiro dia. Seu olhar embebido nos frocos da -fumaça do puro havana, rastreava nas espiraes diaphanas a imagem -confusa de seus pensamentos. - -Tinham decorrido tres dias depois do seu rompimento com Amelia. Logo na -seguinte manhã, o leão para não dar tempo ao arrependimento da moça, -escreveu uma carta ao Salles, manifestando seu receio de que a -antipathia de genios tornasse infeliz uma união que todos ardentemente -desejavam. - -O negociante mostrou a carta á filha, que lhe disse com um sorriso -forçado: - ---Elle tem razão! - -A carta de Horacio teve resposta no mesmo dia. O Salles encontrando-o na -rua do Ouvidor recusou-lhe o comprimento. - -O leão satisfeito com esse prompto desenlace que evitava longas -explicações, achou-se á poucos passos de distancia em frente de -Leopoldo. - ---Oh! Tu me trazes felicidade! exclamou o leão, apertando-lhe a mão. -Sempre que nos encontramos ou está para acontecer ou já tem acontecido -alguma cousa de bom para mim. - ---Não sabes quanto estimo!... Assim eu sou uma especie de astro -propicio, sob cuja influencia nasceste. - ---Queres vêr? Havia muito tempo que não te via, quando nos encontramos -no baile do Azevedo. Pois nessa noite decidiu-se meu destino. - ---Ah! e sob o meu influxo benefico? - ---Está visto. Lembras-te que eu te disse que estava disposto a todos os -sacrificios até o do casamento para possuir aquelle pézinho!... - ---Lembro-me. - ---O unico obstaculo era uma especie de promessa ou arranjo de familia. -Felizmente a menina, a tal Amelia comprehendeu que perdia seu tempo, e -arrufou-se na noite do baile por uma ninharia. Eu aproveitei o pretexto; -escrevi ao pai retirando minha palavra, e agora mesmo elle me acaba de -responder. Estou livre como o ar, e contente como um rapaz que sahe do -collegio. - ---Neste caso dou-te meus parabéns. - ---E tu como vais com o _sorriso_? - ---Sem novidade. - ---Diz-me uma cousa, no dia em que a viste pela primeira vez, ella estava -só ou com outra moça. Faço te esta pergunta porque foi na rua da -Quitanda e quasi pelo mesmo tempo que eu achei a botina. - ---Eram duas; respondeu Leopoldo sorrindo. - ---Em uma victoria? - ---Sim. - ---A outra era mais baixa? - ---Não affirmo. - ---Adeus. - -O leão separou-se do amigo, e repassando as particularidades de sua -conversa com Amelia perto do bastedor e no dia do jantar, começou a -combinal-as com as informações de Leopoldo, e com as circumstancias do -encontro no _Passeio Publico_, onde vira o signal impresso na arêa pelo -mimoso pézinho. - -Agora, fumando seu charuto depois do jantar, o leão resumia todas as -suas reflexões, e chegava á este resultado. - ---Decididamente o pézinho é de uma moça que ia com Amelia, no dia em -que se perdeu a botina e no dia em que eu a vi de longe no _Passeio -Publico_. Essa moça, cuja inicial é um L, não é outra senão Laura. -Aquelle pudor feroz era um indicio infallivel. Amelia procurava imital-o -por motivo bem diverso; mas não o conseguiu. - -O moço chegou-se a banquinha onde estava o cofre de pau rosa e -contemplou a botina. - -A noite o leão foi a uma partida. Sua estrella o favorecia. Laura lá -estava. Dirigiu-lhe algumas banalidades graciosas, que ella a principio -recebeu com manifesta esquivança, mas depois com timidez. - -Horacio comprehendia a razão do procedimento da moça. Para -tranquillisal-a, teve o cuidado de nunca abaixar a vista á fimbria do -vestido, e mostrar-se enlevado pelo collo gracioso da gentil senhora. A -lição que recebêra anteriormente, o tornou de uma prudencia -consummada. - -No fim da noite o leão conseguira restabellecer a confiança no -espirito de Laura, desvanecendo-lhe a suspeita deixada pela scena do -theatro. Era o essencial; com os meios de seducção de que dispunha, e -a inclinação que a moça revelava por elle, contava certa a conquista. -A questão era de tempo. - -Antes de quinze dias frequentava a casa da moça, e estava na intimidade -da familia. - -Laura perdêra o marido aos 17 annos, pouco tempo depois de casada. Era -rica; não lhe faltavam pretendentes atrahidos pelo dote e pela belleza; -mas ella não parecia disposta a tentar segunda vez a felicidade -conjugal, embora não tivesse passado da lua de mel. É natural que o -desejo lhe chegasse com o primeiro fio de neve; quando fossem rareando -os apaixonados que a cercavam. - -Uma manhã, Horacio passando á pé, como costumava, pela casa da moça, -viu-a, por entre as grades, sentada no jardim e occupada em fazer um -ramo de flôres. Entrou e foi ter com ella, á sombra de uma latada de -madre-silvas. - -Laura deu-lhe logar perto de si; e começaram a conversar sobre flores, -modas, e mil futilidades. - -Eram dez horas do dia. O sol brilhava em céo limpido; uma aragem fresca -sussurrava entre as folhas; os colleiros trinavam nas ramas das -larangeiras. Esse concerto de perfumes e harmonias convidava o coração -á abrir-se e cantar o seu hymno de amor. - -Laura reclinou a fronte e emmudeceu, com os olhos embebidos no seio de -uma rosa, que tinha no regaço. Horacio tomou-lhe a mão, que ella cedeu -com tenue resistencia. - ---Sabe desde quando eu a amo, Laura? Desde o dia em que a vi pela -primeira vez passar em um carro. Foi si não me engano na rua da -Quitanda; ia com a filha do Salles. Lembra-se? - -A moça fez um gesto afirmativo. - ---Depois encontrei-a no theatro. A principio seus olhos me deixaram -conceber alguma esperança; mas o desengano foi cruel. Nem imagina como -soffri! Cuidei que não houvesse mulher capaz de obrigar-me a voltar ás -ingenuidades dos 18 annos. Um dia ainda me lembro, vi-a de longe entrar -no Passeio Publico; apressei-me para ter o prazer de cortejal-a e -receber um olhar. Debalde corri todas as ruas; quando voltei á porta -fiquei desesperado. A senhora tinha sahido, sempre com a filha do -Salles. Recorda-se? - ---Recordo-me; respondeu a moça. Mas era por mim que fazia tudo isso? - ---Duvida, Laura? - ---Nega que esteve apaixonado por Amelia Até diziam que já a tinha -pedido. - ---Que ingratidão! Não sabe então porque me fiz apresentar em casa do -Salles? Para vel-a, era preciso procurar um meio; a senhora já não se -lembra da dureza com que me tratava. - ---E por isso consolava-se com Amelia? - ---Si amasse, Laura, havia de saber o que é o ciume, e as loucuras que -elle nos obriga a fazer! Mas a senhora não ama! - ---Quem lhe disse! - ---Essa frieza. - ---E o que eu soffri?... balbuciou a moça pondo os olhos languidos no -semblante do mancebo. - ---Perdão, Laura; exclamou Horacio ajoelhando. Eu era um louco, indigno -de teu amor; e não mereço tanta felicidade. Mas deixa-me implorar o -meu perdão; deixa-me beijar teus pés, que... - ---Ah!... - -Horacio proferiu aquellas palavras apaixonadas, de joelhos diante da -moça que sorria inclinada para elle; de repente abaixou-se para -beijar-lhe os pés, esse objecto de sua adoração. Foi então que ella -soltando um grito de espanto, o repelliu para longe de si com horror. - -Comtudo, o moço, que preparara toda aquella scena para chegar a -realisação do desejo por tanto tempo afagado, conseguira vêr... Mas -não o que esperava; um pésinho mimoso e gentil; e sim dois pés -inglezes de soffrivel tamanho, que lhe pareciam descansar sobre uma -almofada preta. - -O semblante de Laura se tinha demudado de uma maneira espantosa; em suas -faces entumecidas respirava uma expressão feroz de odio e vingança. - -Horacio comprehendeu que naquelle momento qualquer explicação era -impossivel. O que tinha de melhor a fazer era eclipsar-se. No fim de -contas esse desenlace lhe convinha, pois cortava todas as dificuldades -da retirada. - -Cortejou e sahiu. - -A alguns passos da casa, o leão não poude conter uma gargalhada, que -lhe estava a soffocar, e desabafou-a. Realmente havia de que rir; duas -vezes mistificado em sua paixão, elle o rei da moda, o conquistador -sempre feliz. - -Insensivelmente começou á reflectir sobre o occorrido. Por mais que se -désse tratos, a imaginação não podia decifrar o enigma. A botina que -achara fôra perdida por uma das duas moças; mas não pertencia á -nenhuma. Seria encommenda de outra amiga, e talvez para alguma menina de -dez annos? - -De repente surgiu no espirito de Horacio uma idéa tão original, como a -situação em que se achava. - ---Eu vi os dois pés de Laura; mas de Amelia, só vi um; é verdade que -esse valia por tres. Mas... Não resta duvida. A naturesa tem destes -caprichos. A maravilha a par do monstro, o mimo em face da deformidade! -É o principio do contraste, que rege o mundo. Eu vi o direito, o -aleijão. O esquerdo ficou occulto, como a perola e o diamante. - -Compenetrado dessa idéa, de que o pésinho adorado pertencia a Amelia, -a quem a naturesa em compensação aleijara o outro; Horacio admittiu a -possibilidade de que sua paixão pela moça revivesse, embora menos -ardente, ou mais positiva. - -Ter aquelle pésinho em suas mãos, sentil-o estremecer e palpitar de -emoção, cobril-o de beijos, acariciar a rosea cutis diaphana, tecida -de veias azues; brincar-lhe com as unhas crespas, como conchinhas de -nacar; cingir ao seio esse gnomo gentil, titilante de amor e volupia!... - -Não podia haver para o leão maior delicia neste mundo. Elle daria por -ella todo o quinhão de prazer que por ventura lhe estava reservado para -o resto da existencia. - -Foi engolphado nestes devaneios que Horacio apeou-se á rua Direita de -um tilbure, que tomara no largo do Machado. - -Seguindo para a rua do Ouvidor, á passo lento e descuidado, o leão -aspirava o ar da cidade, como o ocioso que não sabe em que ha de -consumir o dia, e fareja uma aventura qualquer. - -De repente avistou cousa que o pôz alerta. Um carro que subia a rua do -Ouvidor passou por elle; era o _coupé_ do Salles. O rosto encantador de -Amelia appareceu-lhe á principio de relance na penumbra que azulava o -acolxoado de damasco, depois em plena luz moldurado pelo quadro do -postigo. - -Acompanhando com o olhar a carruagem, Horacio a viu rodar por algum -tempo vagarosamente por causa de embaraço no transito e parar proximo -á esquina da rua dos Ourives. O lacaio, com a mão na aldraba, esperava -naturalmente ordem para abrir. - -Horacio apressou o passo. Por duas vezes avistara a fronte de Amelia -coroada com um chapeosinho de palha de Italia, assomando no postigo, -afim de percorrer a rua com o olhar. A idéa de que a moça lhe desejava -fallar passou pela mente do leão, que a repelliu, sem comtudo -consideral-a impossivel. - -Em todo o caso elle acreditou que mais ou menos tinha parte naquella -parada do carro, e não se enganava. - ---Para que mandaste parar? perguntou D. Leonor. - ---Quero comprar luvas no Masset; respondeu a filha. - ---Ficou atraz. - ---Podemos ir a pé. - -Quando o leão chegou a dez braças do carro, a portinhola abriu-se e -Amelia, em companhia de sua mãi, saltou na calçada. A moça tinha um -roupão côr de café, de extrema simplicidade, porém muito elegante; -as luvas eram da mesma côr de cinza das fitas do chapéo de palha. - -As duas senhoras dirigiram-se para a casa do Masset. Horacio procurou -cortejal-as na passagem, mas ellas não lhe deram occasião. Comtudo o -leão reparou que a moça desfarçadamente voltou o rosto para olhal-o. - -Emquanto as senhoras compravam luvas, Horacio as esperava em frente da -casa do Valais, á alguns passos do carro. Pouco tardaram. Amelia vinha -só na frente. Felizmente o transito pela calçada diminuiu naquelle -instante, de modo que o conquistador poude vêr a gôsto a moça -aproximar-se delle. Levados por um impulso irresistivel os olhares do -mancebo abaixavam-se para os volantes do vestido, e rastejaram no chão -que a moça pisava. - -Amelia percebeu a insistencia do olhar, e um ligeiro sorriso fugiu-lhe -dos labios. Imaginando que na calçada havia lama, colheu com ambas as -mãos a frente da saia, e com tanto estouvamento que descobriu os pés -até o colo da perna. - -Horacio ficou fulminado. - -Vira pousados na calçada dois pésinhos mimosos que palpitavam dentro -de botinas de merinó côr de cinza. Pareciam um par de rolinhas, -arrulhando na praia, e beijando-se com o biquinho rosado. Durante o -rapido instante, que seus olhos poderam admirar esses primores de graça -e gentileza, não escaparam a Horacio as ondulações voluptuosas e os -contornos suaves dos dois silphos. Nunca elle observara no talhe -elegante da mais formosa mulher, requebros tão avelludados como tinha -aquelle dorso arqueado, e aquella palmilha subtil. - -Tamanho foi o pasmo de Horacio, que só deu por si quando a moça, -passando por elle, entrou na carruagem. Voltou-se então -precipitadamente, sem consciencia do que ia fazer; mas a parelha já -tinha partido a trote largo. - -Momentos depois o leão descia a rua do Ouvidor completamente absorto. -Seu labio distrahido ia debulhando, sem o sentir, alguns trechos dos -lindos versos do conselheiro José Bonifácio: - -«Padres, não me negueis, se estáes em calma, Um coração no pé, na -perna um'alma!» - - - - -XVIII - - -Laura e Amelia eram primas e amigas de infancia; havia entre ellas -apenas a differença de dezoito mezes. - -Desde a idade de tres ou quatro annos, isto é, desde que deixou as -faxas, Laura usou sempre de roupas compridas. Isso causava reparo a -todos que viam a menina trajada como uma senhora. Muitos achavam -extravagante e ridiculo o capricho e censuravam a mãi. - -Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos, -e calava-se; mas não alterava o vestuario da menina. A ternura e -piedade materna lhe davam a paciencia necessaria para arrostar com as -zombarias do mundo. - -Laura tinha um aleijão; nascêra com os pés disformes. Para mais -aggravar o desgôsto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada á uma -belleza angelica. A senhora avaliou do infortunio de sua filha; e -preparou-se para todos os sacrificios. Consultas foram dirigidas aos -melhores medicos da Europa; chegou a emprehender uma viagem para tentar -os recursos da sciencia; foram todos ineficazes. - -Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgraça de sua filha, afim -de que ella não fosse obrigada á envergonhar-se na sociedade. Durante -muito tempo Laura não teve outra criada, alem de sua mãi. A custa de -esforços constantes, de uma vigilancia incessante de cada dia e cada -hora, conseguiu a senhora manter esse segredo de familia, do qual -dependia a felicidade da filha. - -Attingindo a idade de oito annos, a menina com o instincto da mulher, -comprehendêra seu infortunio; e desde então descansou a mãi daquelle -cuidado incessante. Ficando moça casou-se, e seu marido que a amava -extremecidamente, morreu ignorando o segredo. - -Com bastante magoa sua, Amelia sorprendeu o segredo da prima e amiga. - -A filha de Salles tinha dois pésinhos de fada, breves, arqueados, com -uns dedos que pareciam botões de rosa. O desgosto e vexame que isso -causava á moça, ninguem o imagina. Ella suppunha-se aleijada; apezar -de seus 18 annos, seus pés eram de menina. - -Assim o mesmo cuidado com que Laura escondia a sua monstruosidade, punha -ella em occultar essa graça e prenda da natureza. Naquelle tempo não -se tinha introduzido ainda a moda dos vestidos curtos; bem ao contrario -o tom era arrastar desdenhosamente pelo chão a longa fimbria do -vestido. - -Um dia que Laura passou em sua casa, Amelia teve curiosidade de comparar -seu pésinho com o da prima, para saber si a differença era excessiva. -Em quanto a outra endireitava o penteado no toucador, realisou ella seu -intento. - -Avalie-se da vergonha e afflição de Laura; o desespero de Amelia foi -maior ainda. Não perdoava a si mesma o ter causado tão grande pezar á -prima, á quem ella queria muito bem. Para mitigar essa dôr profunda, -Laura esqueceu a sua. - -Desde então as duas amigas se consolavam mutuamente. Laura admirava o -pésinho de Amelia; esta, ou sinceramente, ou para attenuar a magoa da -prima, chegava a invejar o seu infortunio. - -Aborrecida de não encontrar nas lojas calçado que lhe servisse, Amelia -tinha descoberto por acaso o sapateiro da rua Sete de Setembro. -Conhecendo a habilidade do Mattos, pensou que elle podesse disfarçar o -defeito da prima. Não se enganou; o artista realisara a obra-prima de -paciencia, que Leopoldo tivera occasião de apreciar por um acaso. - -Amelia fez á Laura o sacrificio de expôr-se para não comprometter o -segredo da amiga. O sapateiro não a conhecia, nunca a tinha visto, -recebia as encommendas por intermedio de um criado que pagava á vista. -Facil foi portanto illudil-o. - -Na occasião em que as duas primas esperavam de carro na rua da -Quitanda, o lacaio vinha da casa do sapateiro, o qual vexado com a -pressa, esquecêra as recommendações de fechar bem o embrulho. - -As pretenções de Horacio vieram pouco depois arrefecer a amizade das -duas primas; já não se viam tão a miude; mas não obstante Amelia -continuou a prestar a Laura o mesmo serviço, e essa, coagida pela -necessidade, foi obrigada a acceital-o. - -Iam as cousas por esse theor, quando teve logar o baile do Azevedo. - -Depois da primeira quadrilha, Amelia foi ao toucador. Era este em uma -sala que dava para o jardim. Aproximando-se de uma janella entreaberta, -obscurecida pela sombra do cortinado da cama, viu a moça os dois amigos -no momento em que elles vieram sentar-se no banco, justamente collocado -por baixo da janella. - -A casa era abarracada. Amelia encostada no portal da janella, descobria -os dois cavalheiros por entre a folhagem, e ouvia distinctamente suas -palavras. - -Ahi, immovel, mas agitada por commoções diversas, escutou ella a -historia do pé, e a historia do sorriso. Já os dois amigos se tinham -afastado, e a moça permanecia no mesmo logar, como extatica. - -A narração de Horacio, e as observações que fizera Leopoldo a esse -respeito, revelaram á moça uma cousa que já anteriormente se havia -apresentado, embora indistincta, vaga e confusa á seu espirito. - -O que Horacio amava nella, não era mais do que uma fórma, um capricho, -um sonho de sua imaginação enferma. Ella comprehendeu essa aberração -dos sentidos em um homem gasto para o amor e saciado de prazeres. A -mulher era para o leão uma cousa commum e vulgar, incapaz de -produzir-lhe emoções fortes. Tinha-as admirado, de todos os typos e de -todos os caracteres. Seu coração exhausto precisava de alguma cousa -nova, original e extravagante. - -Amelia comprehendeu isto, não por uma analyse, que seu espirito casto -não poderia fazer; mas por uma intuição d'alma. - -Quando de novo encontrou Horacio no baile, suas maneiras não podiam que -se não resentissem do estado de seu coração. Tratou o leão -seccamente; mas logo tornou-se amavel; occorreu-lhe uma idéa; quiz pôr -á prova o amor do noivo, antes de confiar-lhe seu destino. - -Foi na sua alcova, durante a insomnia, que ella recordou-se da historia -de Leopoldo, e comparou seu amor ao de Horacio. Repassando na mente as -palavras commovidas do primeiro, pensando naquelle affecto tão -desprendido das miserias humanas, tão d'alma, Amelia sentia-se como -purificada dos desejos do seductor. - -Esse amor puro e immaterial era um baptismo para seu coração virgem. - -A moça conheceu que o engano de Leopoldo, provinha de uma illusão da -vista, no momento de entrar no carro com Laura; illusão confirmada pela -presença do lacaio na loja do sapateiro. Chegou á estimar esse -incidente que pôz em relevo a alma nobre e generosa do mancebo. - -Acodiu-lhe á lembrança, sua primeira conversa em casa de D. -Clementina. As palavras que então lhe pareceram inintelligiveis, tinham -agora um sentido. Comprehendia toda a sublimidade do coração que dizia -com uma profunda convicção:--«Sinto-me capaz de amar o horrivel, -sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões martyres, de amar o anjo -ainda mesmo encarnado no aleijão.» - ---Esse me ama realmente, a mim, e não a sua fantazia! murmurou a moça -com tristeza. - -No dia seguinte, depois de uma noite de insomnia, preparou-se para -receber Horacio, e submettel-o á prova. O Mattos conservava um par das -antigas botinas de Laura, o qual lhe fôra para modelo. Mandou Amelia -buscal-o; e encheu-o de algodão para acommodar nessa enormidade o seu -mimoso pésinho. - -O bordado do bastidor, foi expressamente inventado. Procurando uma -lettra para indicar a pessoa a quem destinava o pretendido presente, -insensivelmente traçou um L. Era a inicial de Laura, que lhe acudira a -mente, ou era a lembrança de Leopoldo, que lhe esvoaçava ainda na -imaginação? Foi uma e outra cousa. Serviu-se do pretexto da amiga, -para evocar o nome do homem, que tão profundamente a amava. - -Depois da scena que teve logar na tarde do jantar, Amelia arrependeu-se. -Receiava ter-se excedido; bastava-lhe matar a illusão do mancebo, não -devia ter excitado o horror. Mas o affecto de Leopoldo a tornara -exigente, ella queria ser amada por Horacio da mesma fórma, com aquella -sublime abnegação. - -Durante alguns dias, alimentou a esperança de conservar a affeição do -noivo, e regosijava-se com a idéa da sorpresa que lhe guardava. - -A ausencia do leão a foi desenganando de dia em dia. Travou-se então -uma luta em seu espirito. Devia esquecer o homem que não amava nella -sinão uma fantazia? - -O tom de Horacio na ultima noite a irritou. Seu amor proprio indignou-se -com o menoscabo do moço e subita revelação de sua alma lhe advertiu, -que esse casamento causaria sua desgraça. - -No dia seguinte ao do rompimento, Amelia foi como havia dito na vespera -á casa de D. Clementina. Era a primeira vez que tornava a vêr Leopoldo -depois do baile. - -Estiveram juntos alguns momentos. Como de costume Leopoldo fallou, e a -moça embebeu-se daquellas palavras apaixonadas como de um effluvio -suave. - -Em um momento de pausa, disse Amelia. - ---O senhor, passou por nossa casa na terça-feira? - ---É verdade. Porque pergunta? - ---Eu estava no jardim. Vi-o quando passava; cuidei que ia entrar. - ---Não me animava. - ---Porque?... Mamãi já lhe offereceu nossa casa. - ---Tenho receio de ser importuno. - ---Pouco sahimos agora; á excepção das noites que passamos aqui, -estamos sempre sós; mamãi lendo, e eu tocando ou fazendo algum -trabalho de lã. - ---E ninguem mais? perguntou Leopoldo, fitando na moça um olhar -interrogador. - ---Ninguem! respondeu Amelia em tom grave. - -Leopoldo ficou suspenso, buscando comprehender o pensamento da moça. -Era magoa do bem perdido, ou temor do mal frustrado, que assim lhe -annuviara a phisionomia? - -Mas o sorriso prasenteiro illuminou o semblante da moça: - ---Sabe? Naquella noite do baile, me contaram uma historia muito -interessante? disse ella. - ---Não se póde saber? - ---O senhor, póde. Foi a _historia de um sorriso_, disse Amelia -sublinhando a palavra com um gesto faceiro. - ---Quem lhe contou? Foi elle... - ---Foi o senhor. - ---Eu? - ---O senhor mesmo. Já não se lembra? - ---Quer gracejar? - ---O senhor estava no jardim conversando com seu amigo, e eu na janella -do toucador. - -Leopoldo adivinhou. - ---Então ouviu tudo? - ---Tudo!... - ---E... perdoou-me? - ---Não; não tinha de que, mas... - -E seus bellos olhos limpidos repousaram no semblante do moço. - ---Mas comprehendi! - -Nesse momento D. Leonor chamou Amelia. - - - - -XIX - - -Quando recobrou-se da sorpreza era que tinha ficado, Horacio não achou -em si mais do que o desejo vehemente e irresistivel de possuir o idolo -por tanto tempo sonhado. - ---Serão meus! murmurou comsigo. Serão meus á todo preço. Si fôr -necessario um escandalo, não hesitarei. Mas Amelia não deve ter-se -esquecido de mim já tão depressa; ella me tinha affeição. Vou -pedir-lhe perdão de meu engano. Sujeitar-me-hei á todas as -condições. Que sacrificios são bastantes para pagar a felicidade de -beijar aquelles dous mimos da natureza! - -Instinctivamente Horacio seguiu na direcção da casa do Salles, com -intenção de restabelecer as relações interrompidas. Não sabia elle -de que modo se houvesse em tal empenho; fiava da inspiração do -momento. - -Já não estava o negociante no escriptorio, nesse dia se retirára mais -cedo. - -Mallograda sua esperança, o leão foi caminhando pela rua Direita sem -direcção, como quem não sabe o que fazer. O instincto que no deserto -guia o rei dos animaes á cebe odorifera onde retoução as gazellas, o -conduzia naturalmente para a rua do Ouvidor. - -Tinha chegado á esquina, quando passou defronte um moço, que seguiu -pela calçada Carceller. Horacio acompanhou-o com a vista, querendo -nelle reconhecer seu amigo Leopoldo que havia cerca de um mez não vira. - -Si com effeito o moço era Leopoldo, tinha elle soffrido grande -transformação. Em vez do rapaz descuidado no seu trajo, brusco em suas -maneiras, sempre de cabellos arripiados e barba revolta; apparecia um -cavalheiro de bôa presença, com a sobria elegancia que tão bem -assenta nos homens sisudos. Essa especie de elegancia é apenas um -ligeiro perfume, e não uma incrustação como a que usam os moços á -moda. - -Com seu fino tacto e longa experiencia, Horacio, reconhecendo o amigo, -adivinhou o segredo daquella subita methamorphose. Elle sabia que só ha -um condão capaz de produzir taes encantos; é o olhar da mulher amada e -amante. - -Ame alguém e não saiba si é retribuido. Toda sua existencia se -projecta nesse impulso d'alma, que se arroja para outro ser, e ancêa -por nelle infundir-se. Vive-se fóra de si mesmo, alheio á seu proprio -eu; como o peregrino perdido longe da patria, o homem exilado de sua -pessoa erra no espaço, em demanda de um abrigo. - -Desde, porém, que o homem tem certeza de ser amado, em vez de -espandir-se recolhe e concentra para saturar-se de felicidade. Já não -se alheia e esquece de si; ao contrario sente-se elevado acima do que -era; respeita em sua pessoa o homem amado. - -Nessa occasião é natural á cada um observar-se constantemente, e -julgar de si com extrema severidade. Surgem aspirações extranhas; o -fraco lembra-se de ser um heróe; o philosopho inveja a belleza do -casquilho; o espirito positivo habituado a voar terra a terra bate o -coto das azas para remontar-se ao ideal da poesia. - -Não é só no homem que se opera essa methamorphose: mas em toda a -natureza. Quando se arreiam os passaros de sua mais bella plumagem, -quando gorgeiam as melodias mais brilhantes, si não é na quadra dos -amores? - -Vendo Leopoldo parado na calçada Carceller, Horacio dirigiu-se com -disfarce para aquella parte, com intenção de travar conversa e -esclarecer de todo em todo o mysterio. Foi trabalho perdido; o moço -acabava de saltar em um tilbure, que rodava já pela praça de Pedro II. - -Desapontado, voltou Horacio sobre os passos. - ---Amelia o ama!... Ou pelo menos elle o acredita!... - -Sorriu-se o leão. - ---Que phenomeno curioso produz o despeito na mulher! É uma semelhança -da luz reflexa. Irritado pela decepção, humilhado em sua vaidade, o -amor da mulher desdenhada refrange como o raio do sol repellido por -corpo brilhante e vai impregnar-se em outro homem. Ella cuida sentir por -esse plastão uma paixão ardente, que nada mais é do que o impeto de -seu despeito. Seria capaz de conceder á esse comparsa, o que recusaria -á affeição mais terna e extremosa. O assomo do ciume, suppõe ella -ser vehemencia da affeicção; e confunde com os extremos de amor o -delirio da vingança. Amelia está passando por esta crise naturalmente. -Leopoldo foi o plastão; ella o ama com todo o furor do odio que me tem. - -Outro sorriso frisou o labio do leão. - ---Ella me odeia! Ora!... O odio o que é senão a effervescencia do -amor? O affecto suave e terno é como o muscatel de Setubal ou o vinho -de Constança. O amor fero e irado é como o champanhe que ferve e -espuma. - -Chegando a casa, Horacio escreveu a Amelia uma carta, que apenas -continha estas palavras: - -«Deve estar satisfeita, pois me tem de novo á seus pés, e desta vez -humilde e supplicante. A melhor corôa do triumpho é o perdão.» - -Sahindo o leão á espairecer, dirigiu os passos para a casa do Salles; -esperava encontrar algum criado que se incumbisse de entregar a carta. -Quem sabe? Talvez nessa mesma occasião se decidisse de sua sorte. A -moça lhe permittiria fallar-lhe. - -Era noite fechada; o céu, carregado de nuvens, annunciava proxima -borrasca. A frente da casa do negociante estava ás escuras; comtudo -quem observasse bem, perceberia a coar-se pelos intersticios das -janellas um tenue reflexo de luz interior. No portão da chacara á meio -cerrado, ninguem apparecia. - -O leão penetrou no jardim. Nesse momento um carro parou á porta da -casa: tres pessoas sahiram delle. Em um Horacio viu estremecendo roupas -de sacerdote. Só então reflectiu o moço no aspecto soturno do -edificio. Inquieto, sobresaltado, adiantou-se pelo jardim na esperança -de encontrar pessoa a quem interrogasse. - -As janellas lateraes estavam esclarecidas; e pelo jogo das sombras no -quadro illuminado, conheceu o moço que reinava no interior alguma -agitação. - -Que fazer? Apresentar-se na casa, depois do que passára, e antes de -qualquer explicação não era rasoavel. - -A dois passos ficava uma frondosa mangueira, em cujos galhos tinham -fabricado uma especie de belveder ou caramanchão. Conduzia ao alto, uma -escadinha de caracol cingindo o tronco da arvore. - -Por acaso avistou o leão a mangueira, e subindo sem hesitar achou-se -justamente fronteiro ás janellas illuminadas. Em principio a claridade -subita offuscou-lhe a vista, e não pôde elle distinguir o que passava -no interior. - -Mas afinal o deslumbramento dos olhos cedeu ao deslumbramento d'alma. - -Elle via, e duvidava. - -Um altar erguido, cirios acesos, o sacerdote officiando, Amelia e -Leopoldo de joelhos, ao lado Salles, D. Leonor, e dois amigos que -serviam de testemunhas: eis o quadro que se offereceu aos olhos de -Horacio. Tinha visto na comedia da vida muitos lances dramaticos, mas -nenhum tão imprevisto e curioso. - -A sorpresa do leão provinha de um engano seu. Elle acreditava que -Amelia o tinha amado, quando a moça não sentira por elle mais do que -o desvanecimento de vêr captivo de seus encantos o rei da moda, o feliz -conquistador dos salões. - -Quem Amelia amou desde o principio, foi Leopoldo. A vaidade, o galanteio -que se nutre de brilhantes futilidades, a seduziam por momentos, e -rendiam ao capricho de Horacio. Mas passado esse enlevo, sua alma sentia -a attracção irresistivel que a impellia para o seu pólo. - -Disso que durante dois mezes passava na vida intima da moça, ella -propria não se apercebia; foi depois da scena do baile, que ella entrou -em si, e comprehendeu as sublevações reconditas de sua alma, e o drama -que ahi se agitava desde muito. - -Leopoldo começara a frequentar a casa de Salles, poucos dias depois da -partida de D. Clementina. As duas almas por tanto tempo separadas, só -esperavam o momento de se unirem ou antes de se entranharem uma na -outra. As tardes, no jardim, entre cortinas de flôres, ellas celebravam -esse mystico hymeneu do amor, unico eterno e indissoluvel, porque se faz -no seio do Creador. - -Pelo voto de todos se apressou o dia do casamento, que os noivos -exigiram se fizesse inteiramente á capucha, e sem prévia -participação. A razão desse empenho, só Amelia a sabia e nunca a -disse. Era um escrupulo de seu pudor: depois de que tinha acontecido, -não queria que lhe dessem outra vez o titulo de noiva. - -Terminada a ceremonia, e feitas as felicitações do costume, correram -os minutos em agradavel conversação. - -Eram 11 horas, quando Leopoldo entrou no toucador em que sua noiva o -esperava. Sentado em uma conversadeira, Amelia sorriu para seu marido; -porém através das largas dobras do roupão de cambraia, percebia-se o -tremor involuntario que agitava seu lindo talhe. - ---É meu presente! disse ella com timidez. - -E apresentou ao noivo um objecto envolto em papel de seda, atado com -fita azul. - -Abrindo, achou Leopoldo dois mimosos pantufos de setim branco, os mesmos -que Amelia começara a bordar no dia seguinte ao baile. - -O moço enleiado, não comprehendia. Insensivelmente seu olhar desceu á -fimbria do roupão. Sobre a almofada de velludo e entre os folhos da -cambraia, appareciam as unhas rosadas de dois pésinhos divinos. - -Uma onda de rubor derramou-se pelo semblante da moça, cujos labios -balbuciaram uma palavra. - ---Calce! - -Leopoldo ajoelhou aos pés da noiva. - -O temporal, desabando nesse momento, bateu com violencia nos vidros da -janella, que fechou-se. - -Horacio desceu do seu observatorio, e escalando a grade de ferro do -jardim, ganhou a casa, onde chegou todo alagado. Emquanto -philosophicamente esperava que seu criado lhe preparasse uma chicara de -café, abriu um livro, que acertou ser La Fontaine. - -Leu ao acaso; era a fabula do _leão amoroso_. - ---É verdade! murmurou soltando uma fumaça de charuto. O leão deixou -que lhe cerceassem as garras; foi esmagado pela pata da gazella. - - - - -FIM. - - -N. B.--Escrevo _tilbure_, _champanhe_, etc., porque -entendo que devemos imprimir certo cunho -portuguez nas palavras estrangeiras adoptadas -pelo uso. Assim fizeram nossos antepassados, escrevendo -_trumo_, _trenó_, _bufete_ e tantas outras palavras de origem franceza. - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A PATA DA GAZELLA: *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. 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Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online -at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you -are not located in the United States, you will have to check the laws of the -country where you are located before using this eBook. -</div> -</div> - -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>A Pata da Gazella:</span></p> -<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>romance brasileiro.</span></p> -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: José Martiniano de Alencar</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: April 14, 2022 [eBook #67831]</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p> - <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by the Biblioteca Brasiliana USP Digital)</p> -<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A PATA DA GAZELLA:</span> ***</div> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/gazella_cover.jpg" width="500" alt="" /> -</div> - - -<h2>SENIO</h2> - -<p><br /></p> - -<h1>A PATA DA GAZELLA</h1> - -<p><br /></p> - -<h3>ROMANCE BRASILEIRO</h3> - -<p><br /></p> - -<h4>RIO DE JANEIRO</h4> - -<h5>EDITOR PROPRIETARIO</h5> - -<h5>B. L. Garnier.—Rua do Ouvidor n. 6</h5> - -<h5>1870</h5> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>INDICE</h4> -<p class="nind"> -CAPITULO <a href="#I">I</a><br /> -CAPITULO <a href="#II">II</a><br /> -CAPITULO <a href="#III">III</a><br /> -CAPITULO <a href="#IV">IV</a><br /> -CAPITULO <a href="#V">V</a><br /> -CAPITULO <a href="#VI">VI</a><br /> -CAPITULO <a href="#VII">VII</a><br /> -CAPITULO <a href="#VIII">VIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#IX">IX</a><br /> -CAPITULO <a href="#X">X</a><br /> -CAPITULO <a href="#XI">XI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XII">XII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIII">XIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIV">XIV</a><br /> -CAPITULO <a href="#XV">XV</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVI">XVI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVII">XVII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVIII">XVIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIX">XIX</a></p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="I">I</a></h4> - -<p> -Estava parada na rua da Quitanda, proximo a da Assembléa, uma linda -victoria, puxada por soberbos cavallos do cabo. -</p> -<p> -Dentro do carro havia duas moças; uma dellas, alta e esbelta, tinha uma -presença encantadora; a outra, de pequena estatura, muito delicada de -talhe, era talvez mais linda que sua companheira. -</p> -<p> -Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a respeito das -compras que já tinham realizado ou das que ainda pretendiam fazer. -</p> -<p> -—Daqui aonde vamos? perguntou a mais baixa, vestida de roixo claro. -</p> -<p> -—Ao escriptorio de papai: talvez elle queira vir comnosco. Na volta -passaremos pela rua do Ouvidor: respondeu a mais esbelta, cujo talhe era -desenhado por um roupão cinzento. -</p> -<p> -O vestido roixo debruçou-se de modo a olhar para fóra, no sentido -contrario aquelle em que seguia o carro, emquanto o roupão, -recostando-se nas almofadas, consultava uma carteirinha de lembranças, -onde naturalmente escrevêra a nota de suas encommendas. -</p> -<p> -—O lacaio ficou-se de uma vez! disse o vestido roixo com um movimento -de impaciencia. -</p> -<p> -—É verdade! respondeu distrahidamente a companheira. -</p> -<p> -Estas palavras confirmavam o que aliás indicava o simples aspecto da -carruagem: as senhoras estavam á espera do lacaio, mandado a algum -ponto proximo. A impaciencia da moça de vestido roixo era partilhada -pelos fogosos cavallos, que difficilmente conseguia soffrear um cocheiro -agalloado. -</p> -<p> -Depois de alguns momentos de espera, sobresaltou-se o roupão cinzento, -e conchegando-se mais ás almofadas, como para occultar-se no fundo da -carruagem, murmurou: -</p> -<p> -—Laura!... Laura!... -</p> -<p> -E como sua amiga não a ouvisse, puxou-lhe pela manga. -</p> -<p> -—O que é, Amelia? -</p> -<p> -—Não vês? Aquelle moço que está ali defronte nos olhando. -</p> -<p> -—Que tem isto? disse Laura sorrindo. -</p> -<p> -—Não gósto! replicou Amelia com um movimento de contrariedade. A -quanto tempo está ali e sem tirar os olhos de mim? -</p> -<p> -—Volta-lhe as costas! -</p> -<p> -—Vamos para diante. -</p> -<p> -—Como quizeres. -</p> -<p> -Avisado o cocheiro, avançou alguns passos, de modo á tirar ao curioso -a vista do interior do carro; mas o mancebo não desanimou por isso, e -passando de uma a outra porta, tomou posição conveniente para -contemplar a moça com uma admiração franca e apaixonada. -</p> -<p> -Simples no trajo, e pouco favorecido a respeito de belleza; os dotes -naturaes que excitavam nesse moço alguma attenção eram uma vasta -fronte meditativa, e os grandes olhos, pardos, cheios do brilho profundo -e phosphorescente que naquelle momento derramavam pelo semblante de -Amelia. -</p> -<p> -Havia minutos que percorrendo a rua da Quitanda em sentido opposto á -direcção do carro, avistára a moça recostada nas almofadas, e -sentira a seu aspecto viva impressão. Sem disfarce ou acanhamento, -recostando-se a ombreira de uma porta de escriptorio, esqueceu-se -naquella ardente contemplação. -</p> -<p> -O coração é um solo. Valle onde brotam as paixões, como os outros -valles da natureza inanimada, elle tem suas estações, suas quadras de -aridez ou de seiva, de estirilidade ou de abundancia. -</p> -<p> -Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol, produzem na -terra uma fermentação, que fórma o humus; a semente, cahindo ahi, -brota com rapidez. Depois das grandes dôres e das lagrimas torrenciaes, -fórma-se tambem no coração do homem um humus poderoso, uma -exhuberancia de sentimento que precisa de expandir-se. Então um olhar, -um sorriso, que ahi penetre, é semente de paixão, e pulula com vigôr -extremo. -</p> -<p> -O moço parecia estar nessas condições: elle trajava lucto pesado, -não sómente nas roupas negras, como na côr macilenta das faces nuas, -e na magoa que lhe escurecia a fronte. -</p> -<p> -Notando Amelia a insistencia do mancebo, ficou vivamente contrariada. -Aquelle olhar profundo, que parecia despedir os fogos surdos de uma -labareda occulta, incutia nella um desassocego intimo. Agitava-se -impaciente, como uma creatura no meio de um somno inquieto ou mesmo de -um ligeiro pesadello. -</p> -<p> -Até que abriu o chapeosinho de sol, para interceptar a contemplação -apaixonada de que era objecto. Nesta occasião, Laura, que -frequentemente se debruçava para vêr quando vinha o lacaio, retrahiu o -corpo com vivacidade: -</p> -<p> -—Emfim; ahi vem! -</p> -<p> -—Felizmente! disse Amelia. -</p> -<p> -O lacaio aproximava-se á passos medidos; trazia na mão um embrulho de -papel azul, que o atrito dos dedos e a oscillação dos objectos -envoltos desfizera, obrigando o portador a apertal-o de vez em quando. -</p> -<p> -Julgando ao cabo de alguns instantes que o lacaio já tocava o estribo -da carruagem, Amelia, tomando um tom imperativo, disse para o cocheiro: -</p> -<p> -—Vamos! vamos! -</p> -<p> -Ao aceno que lhe fez o cocheiro, o lacaio correu, chegando a tempo de -apanhar o carro, que partia ao trote largo da fogosa parelha. Deitar o -embrulho na caixa da victoria, rodear em dois saltos e galgar o estribo -da almofada, foi para o creado, habituado a essa manobra, negocio de um -instante. Não percebera elle, porém, que abrindo-se o papel com a -corrida, um dos objectos nelle contidos escorregára e justamente na -occasião de deitar o embrulho na caixa do carro, cahira na calçada. -</p> -<p> -Laura, que se inclinara com vivo interesse para tomar o embrulho das -mãos do lacaio, tivera um presentimento do accidente, ao ver o papel -desenrolado. Fechando-o rapidamente e escondendo por baixo do assento da -victoria, ella debruçou-se ainda uma vez para verificar si com effeito -alguma cousa havia cahido. Ao mesmo tempo acompanhava o movimento com -estas palavras de contrariedade: -</p> -<p> -—Como elle manda isto? Por mais que se lhe recommende! -</p> -<p> -Laura nada viu, porque já a victoria rodava ligeiramente sobre os -parallelepipedos. -</p> -<p> -Nesse momento, porém, dobrando a rua da Assembléa, se aproximára um -moço elegante não só no trajo do melhor gosto, como na graça de sua -pessoa: era sem duvida um dos principes da moda, um dos leões da rua do -Ouvidor; mas desse podemos assegurar pelo seu parecer distincto, que -não tinha usurpado o titulo. -</p> -<p> -O mancebo viu casualmente o lacaio quando passára por elle correndo, e -percebeu que um objecto cahira do embrulho. Naturalmente não se -dignaria abaixar para apanhal-o, nem mesmo deitar-lhe um olhar; si não -visse apparecer ao lado da victoria o rosto de uma senhora, que o -aspecto da carruagem indicava pertencer á melhor sociedade. -</p> -<p> -Então, apressou-se, para ter occasião de fazer uma fineza, e pretexto -de conhecer a senhora, que lhe parecêra bonita. Os leões são -apaixonadissimos de taes encontros; acham-lhes um sainete que destroe a -monotonia das relações habituaes. -</p> -<p> -Quando o moço ergueu-se com o objecto na mão, já o carro dobrava a -rua Sete de Setembro. Ficou elle um momento indeciso, olhando em tôrno, -como si esperasse alguma informação á respeito da pessoa á quem -pertencia o carro. Sem duvida a senhora era conhecida em alguma loja de -fazendas; talvez tivesse ahi feito compras. -</p> -<p> -Não obtendo, porém, informações, nem colhendo resultado da pergunta -que fizera a um caixeiro proximo, resolveu-se á metter o objecto no -bolso e seguir seu caminho. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="II">II</a></h4> - -<p> -Horacio de Almeida, o nosso leão, voltou á casa á hora do costume, -quatro da tarde. -</p> -<p> -Os successivos encontros da rua do Ouvidor; a conversa no Bernardo; a -visita indispensavel ao alfaiate; as anecdotas do Alcasar na noite -antecedente; a chronica anacreontica do Rio de Janeiro, chistosamente -commentada; algumas rajadas de maledicencia, que é a pimenta social; -todas essas occupações importantes, que absorvem a vida do leão, -distrahiram Horacio, a ponto de se esquecer elle do objecto guardado no -bolso do paletot. -</p> -<p> -Como admittir que um principe da moda não aproveitasse a aventura do -carro, para sobre ella bordar um romance de rua, com que excitasse a -curiosidade dos amigos? Realmente é admiravel; e seria incomprehensivel -si não fosse a circumstancia de ter poucos passos adiante encontrado -uma das mais ricas herdeiras do Brasil, a quem o nosso leão -arrastava.... Ia dizer a <i>aza</i>, mas isso seria anachronismo; dizia-se -no tempo em que os leões se chamavam gallos: hoje deve dizer-se <i>arrastar -a juba</i>; é mais bonito e indica mais submissão. Arrastar a aza é -enfunar-se; arrastar a juba é prostrar-se. -</p> -<p> -Foi só quando recostado em sua ottomana, descansava para o jantar, que -Horacio, procurando a carteira de charutos no bolso do fraque, -lembrou-se do objecto. Teve então curiosidade de examinal-o; sabia o -que era; na occasião de apanhal-o reconhecêra o pé de uma botina de -senhora; mas não fizera grande reparo. -</p> -<p> -Agora, porém, que de novo o tinha diante dos olhos, á sós em seu -aposento, e despreoccupado da idéa de o restituir, Horacio achou o -objecto digno de séria attenção; e aproximando-se da janella começou -um exame consciencioso. -</p> -<p> -Era uma botina, já o sabemos; mas que botina! Um primor de pellica e -sêda, a concha mimosa de uma perola, a faceira irmã do lindo chapim de -ouro da borralheira; em uma palavra a botina desabrochada em flôr, sob -a inspiração de algum artista ignoto, de algum poeta de ceiró e -torquez. -</p> -<p> -Não era, porém, a perfeição da obra, nem mesmo a excessiva -delicadeza da fôrma, o que seduzia o nosso leão; eram sobretudo os -debuxos suaves, as ondulações voluptuosas que tinham deixado na -pellica os contornos do pesinho desconhecido. A botina fora servida, e -muitas vezes; embora estivesse ainda bem conservada, o desmaio de sua -primitiva côr bronzeada e o esfrolamento da sola indicavam bastante -uso. -</p> -<p> -Si fosse um calçado em folha, sahido da loja, não teria grande valor -aos olhos do nosso leão, habituado não só a vêr, como a calçar, as -obras primas de Milliès e Campàs. Talvez reparando muito naquella -peça que tinha nas mãos, notasse maior elegancia no córte, e um apuro -escrupuloso na execução; porém mais natural seria escapar-lhe essa -minima circumstancia. -</p> -<p> -Mas a botina achada já não era um artigo de loja, e sim o traste -mimoso de alguma belleza; o gentil companheiro de uma moça formosa, de -quem ainda guardava a impressão e o perfume. O rosto estufava mostrando -o firme relevo do pesinho arqueado. Na solla se desenhava a curva -graciosa da planta subtil, que só nas extremidades beijava o chão, -como o silpho que frisa a superficie do lago com a ponta das azas. -</p> -<p> -Ha um aroma, que só tem uma flôr na terra, o aroma da mulher bonita; -fragancia voluptuosa que se exhala ao mesmo tempo do corpo e da alma; -perfume inebriante que penetra no coração como o amor valatilisado. A -botina estava impregnada desse aroma delicioso; o delicado tubo de seda, -que se elevava como a corolla de um lirio, derramava, como a flôr, -ondas suaves. -</p> -<p> -O mancebo collocára longe de si o charuto para não desvanecer com o -fumo os bafejos daquelle odôr suave. Não havia ahi o menor laivo de -essencia artificial preparada pela arte do perfumista; era a pura -exhalação de uma cutis assetinada, esse halito de saude que perspira -através da fina e macia tez, como através das petalas de uma rosa. -</p> -<p> -De repente uma idéa perpassou no espirito do moço, que o fez -estremecer. Essa botina gracil, em que mal caberia sua mão -aristocratica, essa botina mais mimosa do que sua luva de pellica, não -podia ter um numero maior do que o de seus annos, <i>vinte nove</i>! -</p> -<p> -—Será de uma menina! murmurou elle um tanto desconsolado. -</p> -<p> -Examinou novamente a obra prima, voltou-a de todos os lados, apalpou -docemente o salto e o bico, dobrou a orla da haste, sondou o interior da -concha, que servira de regaço ao feiticeiro pesinho. Depois de alguns -instantes deste exame profundo e minucioso, um sorriso expandiu o -semblante de Horacio. -</p> -<p> -—É de moça, é de mulher! murmurou elle. Aqui estão os signaes -evidentes; não podem falhar. A fabula de Edipo é uma verdade eterna: -no enigma da esphinge está realmente o mytho da vida. O homem é o -animal que de manhã anda sobre quatro pés; ao meio dia sobre dois; a -tarde sobre tres. Na infancia, a creatura, como a planta, conserva-se -rasteira, brota, pulula, mas conchega-se mais ao solo de que recebe toda -nutricção; as mãos servem-lhe de pés. Depois da juventude, na época -da expansão, a creatura se lança para o espaço, exalta-se; é a -arvore que hastea e procura as nuvens; a planta pede ao céo os orvalhos -e a luz do sol; a alma pede a crença, a fé, a esperança, de que se -geram as flôres, que nós chamamos paixões. Na velhice, o homem se -inclina de novo para a terra, como o tronco carcomido; é o pó, que, -depois de revoar no espaço, deposita-se outra vez no chão. Então o -velho precisa do bordão; uma das mãos torna-se pé, e calça esse -cothurno da mais triste das tragedias humanas, a decrepitude. -</p> -<p> -Horacio observou de novo attentamente o objecto que tinha entre as -mãos. -</p> -<p> -—A menina de quinze annos já não é a corsa de quatro patas; não -está mais na alvorada da vida, na puericia; tambem ainda não chegou ao -meio dia do qual aproxima-se. Comtudo, seu andar conserva ainda aquella -attracção para a terra; é pesado; calca o chão com força; tem o -quer que seja de sacudido, que revella os impulsos da alma para -desprender-se do pó e elevar-se; assemelha a singradura do batel, que -ora se levanta, ora submerge-se. Si esta botina fosse de uma menina, -aqui estariam impressos esses caracteres de sua idade. A sola, em vez de -levemente triturada nas extremidades, estaria estragada; o salto -cambado. É uma observação que todo o sapateiro confirmaria; o menino -gasta o calçado pela sola, o homem pelo couro; a razão, o sapateiro a -ignora, mas o philosopho a conhece: o menino é o insecto que rasteja, a -larva; o homem é o insecto que vôa, o besouro; aquelle anda com o -ventre, este com a aza. -</p> -<p> -Horacio sorriu. -</p> -<p> -—Esta botina é de moça, e moça em todo o viço da juventude: a sola -apenas rosçada junto á ponta, o salto quasi intacto, não estão -descrevendo com a maior eloquencia a subtileza do passo ligeiro? Eu -sinto, posso dizer eu vejo, esse andar gentil, que manifesta a deusa, -como disse o poeta; a deusa, a Venus deste olympo em que vivemos, a -mulher. Só quando toda a seiva se precipita para o coração, quando -germinam os botões que mais tarde abrirão em flôr, só nesse momento -de assumpção é que a mulher tem este andar sublime e augusto. É o -andar do passarinho, que, rosçando a relva, sente o impulso das asas; é -o andar do astro nascente, caminhando para a ascensão; é o andar do -anjo, que, mesmo tocando a terra, parece prestes a fugir ao céo; é, -finalmente, a elação d'alma que aspira de Deus os effluvios do amor, -do amor unico ambiente do coração! -</p> -<p> -Nisto o moço descobriu na fivella do laço da botina alguma cousa que -lhe excitou vivo reparo; chegando-se á luz, viu as voltas de um fio, -que prendeu entre as brancas unhas afiladas, verdadeiras garras de -leão da moda. Com alguma paciencia retirou um longo cabello castanho, e -muito crespo. -</p> -<p> -—Outra prova de que aliás não carecia! Este cabello é de mulher; -não ha menina que o possa ter. Quatro palmos, além do que se partiu -naturalmente! Bem se vê que é uma palmeira frondosa, e não um -arbusto! Tem o cabello castanho e crespo, duas cousas lindas sem duvida, -embora minha paixão seja a trança basta e lisa, negra como uma asa de -côrvo. Esse negrume dá á mulher, o quer que seja de satanico; lembra -que ella tambem gerou-se da terra; não é anjo sómente; não é -sómente filha do céo. Eu não posso supportar a mulher-seraphim, que -parece desdenhar do mundo onde vive, e do pó de que é feita. -</p> -<p> -Horacio voltou a botina. -</p> -<p> -—Mas seja embora castanha, ou mesmo loura, que é uma côr insipida de -cabello! Que me importa isto? Tenho alguma cousa com seu cabello? O que -amo nella é o pé; este pé sylpho, este pé anjo, que me fascina, que -me arrebata, que me enlouquece?... -</p> -<p> -Horacio, que até então se contentava com olhar e apalpar a botina, -inclinou-se e beijou-a no rosto; mas timida e respeitosamente. Não era -essa a imagem do pé seductor, que elle adorava como um idolo? -</p> -<p> -—Mas onde encontral-o? como reconhecêl-o? exclamou dolorosamente -Horacio, sentindo a realidade da situação. -</p> -<p> -Nenhum indicio que lhe revellasse o nome da mulher a quem pertencia essa -gentil botina, ou lhe indicasse ao menos os traços de sua passagem. A -lembrança vaga da libré de um lacaio era o unico vestigio que restava; -mas com este dificilmente poderia descobrir o objecto de sua adoração. -Ha tantos lacaios no Rio de Janeiro; e tantas librés que se confundem! -Talvez nunca mais encontrasse aquelle que procurava; e encontrando, nem -o reconhecesse. -</p> -<p> -—Desgraçado! dizia o leão. Quasi nem o olhaste; mas, podias tu -adivinhar, Horacio, que thesouro deixára cahir aquelle bruto? -</p> -<p> -O mancebo inclinára ao peito a bella cabeça esmorecida; a ventura lhe -tinha sorrido de longe, para escarnecer delle, o leão mais querido das -bellezas fluminenses, o Atyla do Cassino, o Genserico da rua do Ouvidor. -</p> -<p> -De repente ergueu-se d'um impeto: -</p> -<p> -—Heide possuil-o!... exclamou elle com o tom com que Alexandre se -prometteu o imperio da Asia. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="III">III</a></h4> - -<p> -Ninguem imagina que bellos talentos sorve essa voragem do mundo, que -chamam a vida elegante. -</p> -<p> -São como as arvores luxuriantes que se vestem de linda folhagem, e -consomem toda a seiva nessa gala esteril e ephemera. Nunca ellas dão -fructo, nem siquer flôr. -</p> -<p> -Horacio de Almeida era uma de tantas intelligencias, desperdiçadas no -incessante bulicio da moda. -</p> -<p> -Muitos poetas, dos que têm seu nome estampado em rosto de livro, não -empregaram na fabrica de seus versos o atticismo, a inspiração e a -graça com que o nosso leão torneava no baile um galanteio, ou aguçava -um epigramma. -</p> -<p> -Pintores são festejados, que não sabem o segredo dos toques delicados, -e do supremo gôsto, que Horacio imprimia no laço de sua gravata, em -suas maneiras distinctas, nos minimos accidentes de seu trajo apurado. -</p> -<p> -E a phisiologia? -</p> -<p> -Poucos homens conheciam como Horacio o coração da mulher; porque bem -raros o teriam estudado com tanta assiduidade. O mais sabio professor -ficaria estupefacto da lucidez admiravel, com que o leão costumava lêr -nesse cahos da paixão, que a anatomia chamou coração de mulher. -</p> -<p> -A razão é simples. O professor estudou no gabinete; consultou as obras -dos mestres, colligiu observações alheias, e arranjou um systhema -sobre o que não soffre regras; sobre a paixão cuja essencia é o -imprevisto, o anomalo, o indefinivel. -</p> -<p> -Ao contrario, Horacio tinha estudado na realidade da vida; devassára os -refolhos do polypo; lhe sentira as pulsações; e fizera experiencias -<i>in anima vilis</i>. Não fatigou sua memoria com a inutil bagagem dos -termos technicos e das noções scientificas: lia os hierogliphos do -amor com a linguagem garrida do homem a moda. -</p> -<p> -A perspicacia do olhar, a profundeza da investigação e a certeza de -observação, com que o nosso leão sondava o abysmo do coração, e -rastreava no semblante da mulher os vagos symptomas de uma inclinação -nascente, ou de uma affeição expirante; só os grandes medicos possuem -tão altos dotes. -</p> -<p> -Assim gastava Almeida a mocidade, desfolhando seu bello talento pelas -sallas e pontos de reunião. As riquezas de sua elevada intelligencia, as -ia elle esparzindo nas elegantes futilidades de um ocio tão laborioso, -como é o <i>far niente</i> de um leão. -</p> -<p> -Consumir o tempo não se apercebendo de sua passagem; livrar-se do fardo -pesado das horas sem occupação; ha nada mais difficil para o homem que -ignora o trabalho? -</p> -<p> -Si o Almeida poupasse desse tempo tão esperdiçado alguns momentos no -dia para dedical-os a um fim sério e util, á sciencia, á litteratura, -á arte, que bellos triumphos não obteria sua rica imaginação servida -por um espirito scintillante? -</p> -<p> -Mas o nosso leão tinha á este respeito idéas excentricas. -</p> -<p> -—A politica, dizia elle, quando não dá em especulação, passa a -mistificação. A sciencia, si escapa de mania, torna-se uma gleba em -que o sabio trabalha para o nescio. Litteratura e arte são plagios; -quem póde fazer poesia e romance ao vivo, não se dá ao trabalho de -reproduzil-os; nem contempla estatuas, quem lhes admira os modelos -animados e palpitantes. -</p> -<p> -Com taes paradoxos, Horacio não achava emprego mais digno para a -intelligencia, do que a difficil sciencia de consumir gradualmente a -vida, e atravessar sem fadiga e sem reflexão por este valle de -lagrimas, em que todos peregrinamos. -</p> -<p> -A mulher era para elle a obra suprema, o verbo da creação. Toda -religião, como toda felicidade; toda sciencia, como toda poesia, Deus -a tinha encarnado nesse mixto incomprehensivel do sublime e do torpe, do -celeste e do satanico; amalgama de luz e cinzas; de lodo e nectar. -</p> -<p> -—Amar, é adorar a Deus na sua ara mais santa, a mulher. Amar é -estudar a lei da creação em seu mais profundo mysterio, a mulher. Amar -é admirar o bello em sua mais esplendida revelação; é fazer poemas e -estatuas como nunca as realisou o genio humano. -</p> -<p> -Mas o que sentia Horacio era apenas o culto da fórma, o fanatismo do -prazer. O amor, o verdadeiro amor consiste na possessão mutua de duas -almas; e essa, póde o homem illudir-se alguma vez, mas quando se -realisa é indissoluvel. -</p> -<p> -Nada separa duas almas gemeas que prende o vinculo de sua origem divina. -</p> -<p> -O mancebo admirava na mulher a formosura unicamente: apenas artista, -elle procurava um typo. Durante dez annos atravessára os sallões, como -uma galeria de estatuas animadas e vivos paineis, parando um instante em -face dessas obras primas da natureza. -</p> -<p> -Vieram uns após outros todos os typos; a belleza ardente das regiões -tepidas, ou suave gentileza da rosa dos Alpes: o moreno voluptuoso ou a -alvura do jaspe; a fronte soberana e altiva ou o gesto gracioso e meigo; -o talhe opulento e garboso ou as fórmas esbeltas e flexiveis. -</p> -<p> -Seu gôsto foi-se apurando; e ao cabo de algum tempo tornou-se difficil. -A belleza commum já não o satisfazia; era preciso a obra prima para -excitar-lhe a attenção e commovel-o. -</p> -<p> -Mas os sentidos se gastam; os mesmos primores da formosura cahiram na -monotonia. Já o leão não sentia pela mais bella mulher aquelles -enthusiasmos ardentes da primeira mocidade. Seu olhar era frio e severo -como o de um critico. -</p> -<p> -Então, começou o moço a amar, ou antes a admirar a mulher em detalhe. -Sua alma embotada carecia de um sainete. Foi a principio uma boca -bonita, cofre de perolas, de sorrisos, de beijos e harmonias. Veiu -depois uma trança densa e negra, como a asa da procella que se -inflamma. Uma cintura de sylphide, um collo de cisne, um requebro -seductor, um signal da face, uma graça especial, um <i>não sei que</i>; -tudo recebeu culto do nosso leão. -</p> -<p> -Como um conviva, a quem as iguarias do banquete já não excitam, sua -alma babujava na salla essas golosinas. Mas afinal embotou-se; e o -prazer não foi para ella mais do que a vulgar satisfação de um -habito. -</p> -<p> -O moço cortejava as senhoras como uma occupação indispensavel á sua -vida, como o desempenho da tarefa diaria; mas sem a menor commoção. -</p> -<p> -Amar era um entretenimento do espirito, como passeiar á cavallo, -frequentar o theatro, jogar uma partida de bilhar. -</p> -<p> -O amor já não tinha novidades nem segredos para elle, que o gozára em -todas as fórmas; na comedia e no drama; no idilio e na ode. Como -Richelieu, diziam até que elle já o havia calcado com o tacão da -bota. -</p> -<p> -Nestas circumstancias bem se comprehende a impressão profunda que nelle -produzia a mimosa botina, achada naquella manhã. -</p> -<p> -Almeida tinha admirado a mulher em todos os typos e em todos os seus -encantos; mas nunca a tinha amado sob a fórma seductora de um pésinho -faceiro. Era realmente para sorprender. Como lhe passára desapercebido -esse condão magico da mulher, á elle que julgava ter esgotado todas as -emoções do amor? -</p> -<p> -Succedeu, como era natural, que uma vez percutidas as energias dessa -alma ennervada por longa apathia, a reacção foi violenta. Inflammou-se -a imaginação e especialmente com o toque do mysterio que trazia a -aventura. Si o dono da botina, o sonhado pésinho, se mostrasse desde -logo, não produziria o mesmo effeito; não teria o sabor do -<i>desconhecido</i>, que é irmão do prohibido. -</p> -<p> -Imagine, quem conhecer o coração humano, a vehemencia dessa paixão, -excitada pelo tédio do passado, e alimentada por uma imaginação -ociosa. De que loucuras não é capaz o homem que se torna ludibrio de -sua fantazia? -</p> -<p> -As extravagancias de Horacio, contemplando a botina, verdadeiras -infantilidades de homem feito, bem revelavam a agitação dessa -existencia, embotada para o verdadeiro amor, e gasta pelo prazer. -</p> -<p> -Não se riam, homens serios e graves, não zombem de semelhantes -extravagancias; são ellas o delirio da febre do materialismo que ataca -o seculo. -</p> -<p> -Essa paixão de Horacio, o que é sinão uma aberração da alma, -consagrada ao culto da materia? A voracidade insaciavel do desejo vai -criando dessas monstruosidades incomprehensiveis. -</p> -<p> -Succede á esta embriaguez do amor o mesmo que á embriaguez do alcool. -A principio basta-lhe o vinho fino e aristocratico; depois carece da -aguardente; e por fim já não a satisfaz a infusão de gengibre em -rhum; isto é, a lava de um volcão preparada á guisa de grogue. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="IV">IV</a></h4> - -<p> -Ao mesmo tempo que o nosso leão, entrava Leopoldo de Castro na modesta -habitação que então occupava na Gloria. -</p> -<p> -Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e -com os olhos o carro que levava sua alma presa áquelle rosto -encantador. O passo era rapido e o olhar ardente; um anciava por chegar; -o outro quizera attrahir pela força da paixão, pelo iman das centelhas -magneticas, que desferia a alma. -</p> -<p> -Fosse illusão dos sentidos perturbados pela commoção interior, ou -breve e confusa percepção da realidade, julgou o moço vêr, no -momento de dobrar o carro pela rua Sete de Setembro, um talhe esbelto -inclinar-se para a frente, e apparecer de relance um rosto alvo, donde -escapou-se vivo e rapido olhar. -</p> -<p> -Leopoldo não tinha o intento de alcançar, nem mesmo seguir, o carro -que fugia com velocidade; mas embalava-o a esperança de que um -obstaculo qualquer, impedindo por instantes o livre transito, lhe -permittisse outra vez contemplar a moça. Quando, porém, isso não -succedesse, consolava-o a idéa de conhecer a direcção que tomaria a -linda victoria: -</p> -<p> -—Si eu soubesse ao menos para que lado mora ella!... Esse ponto seria -o meu horizonte, o meu céo. Me voltaria para ali quando adorasse á -Deus, e quando conversasse com ella. Amaria as estrellas, as nuvens e -até as borrascas dessa banda do firmamento; amaria as ruas, as -calçadas e até a poeira desse arrabalde da cidade. -</p> -<p> -O mancebo vagou assim durante duas horas, percorrendo as ruas sem -destino. Não era tanto a esperança de vêr a moça ou sómente o -carro, como a necessidade de occupar seu espirito, o que o impellia -nessa perseguição de uma sombra. -</p> -<p> -—Eu tornarei a vel-a, pensava elle comsigo; e ella me ha de amar, -tenho convicção. O amor é um magnetismo; eu acredito que o magnetismo se -resume nelle; que a lei da attracção não é sinão a lei da -sympathia; os polos são a cabeça e o coração, na terra, como no -homem. Si ella fôr a mesma que eu vi com os olhos de minha alma, a -mesma que se revellou á minha paixão, aquella a que devo unir-me -eternamente para formar um ser mais perfeito, eu caminharei para ella, -como ella para mim, impellidos por uma força mysteriosa, por mutua -aspiração. -</p> -<p> -Com o animo repousado por essa convicção que nelle se derramára, -entrou Leopoldo em casa. Ahi o esperava o isolamento em que se ia -escôando sua vida, depois da perda de uma irmã á quem adorava. -</p> -<p> -Nessa irmã tinha elle resumido todas as affeições da familia, -prematuramente arrebatadas á sua ternura; o amor filial, que não -tivera tempo de expandir-se, a amisade de um irmão, seu companheiro de -infancia, todos esses sentimentos cortados em flôr, elle os -transportára para aquelle ente querido, que era a imagem de sua mãi. -</p> -<p> -Essa perda deixára um vacuo immenso no coração de Leopoldo; a -principio enchera-o a dôr; depois a saudade; agora essa mesma terna -saudade sentia-se desamparada na profunda solidão daquelle coração -ermo. O mancebo carecia de uma affeição para povoar esse deserto de -sua alma; de uma voz que repercutisse nesse lugubre silencio. É tão -doce partilhar sua melancholia, ou seu prazer, com um outro eu, com um -amigo ou uma esposa. São dous hombros para a cruz, e dous peitos para a -alegria; alliviar-se o peso, mas duplica-se o gozo. -</p> -<p> -Ao cahir da tarde, quando o crepusculo já desdobrava sobre a cidade o -véo de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado á janella de peitoril de sua -casa, fumava um charuto, com os olhos engolphados no azul diaphano do -céo, onde scintillava a primeira estrella. A seus pés desdobrava-se a -bahia placida e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de -montanhas, caprichosamente recortadas. -</p> -<p> -O espirito do moço não se embebia de certo na perspectiva dessa -encantadora natureza, sempre admirada, e sempre nova. Ao contrario -abandonava-se todo ás recordações de seu encontro pela manhã e aos -enlevos que lhe deixara a contemplação da linda moça. Passava e -repassava em sua memoria como em um cadinho, todas as circumstancias -minimas deste grande e importante acontecimento, desde o momento em que -assomou a visão até que desappareceu por ultimo ao dobrar o canto da -rua. -</p> -<p> -Achava nisso o mesmo praser que um menino guloso experimenta em chupar -novamente os favos já saboreados; lá ficou um raio de mel, que o labio -avido colhe. Para Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os -movimentos, os sorrisos da moça, avivados pela maior contensão do -espirito. -</p> -<p> -Houve uma occasião em que o mancebo quiz representar em sua lembrança -a imagem da moça: naturalmente começou interrogando sua memoria á -respeito dos traços principaes. Como era ella? Alta ou baixa, torneada -ou esbelta, loura ou morena? Que côr tinhão seus olhos? -</p> -<p> -A nenhuma dessas interrogações satisfez a memoria; porque não -recebêra a impressão particular de cada um dos traços da moça. Não -obstante, a apparição encantadora resurgia dentro de sua alma; elle a -revia tal como se desenhára a seus olhos algumas horas antes. Era a -imagem diaphana de um sonho que tomara vulto gracioso de mulher. -</p> -<p> -—Não me lembro de seus traços, não posso lembrar-me!... murmurava no -intimo. Eu a contemplei, como se contempla uma luz brilhante: ve-se a -chamma, o esplendor; e nem se repara no espectro que a flamma envolve -como uma roupagem. Ella é minha luz; não sei a côr e a fórma que -tem, mas sei que scintilla, que me deslumbra; que innunda meu ser de uma -aurora celeste. Não poderia descreve-la, como um poeta... Mas que -importa? Pois que eu a sinto em mim; pois que eu a possuo em meu -coração? -</p> -<p> -As palpebras do mancebo cerrarão-se coando apenas uma restea de olhar, -que se embebia nas alvas espiras da fumaça do charuto. Percebia-se que -naquella nevoa se debuxava á sua imaginação a seductora imagem, -deante da qual elle cahia em extases de uma doçura ineffavel. -</p> -<p> -—Quem sabe? Talvez não seja ella o que nos bailes se chama uma moça -bonita; talvez não tenha as feições lindas e o talhe elegante. Mas eu -a amo!... O amor é sol do coração; imprime-lhe o brilho e o matiz! -Venus, a deosa da formosura, surgindo da espuma das ondas, não é outra -cousa senão o mytho da mulher amada, surgindo d'entre as puras -illusões do coração! O que eu admiro nella, o que me enleva, é sua -belleza celeste; é o anjo que transparece atravez do envolucro -terrestre; é a alma pura e immaculada que se derrama de seus labios em -sorrisos, e a envolve como a scintillação de uma estrella. -</p> -<p> -Leopoldo já não estava só na existencia; tinha para acompanha-lo na -esperança essa doce apparição; como para partilhar a saudade tinha a -memoria querida de sua irmã. O coração aproximou as duas imagens; -ligou-as por algum vinculo misterioso; e creou assim uma familia ideal, -em cujo seio viveu para o futuro, como para o passado. -</p> -<p> -Nas horas do trabalho, o moço absorvia-se completamente nas -occupações habituaes e cerrava sua alma para não deixar que as -miserias do mundo ahi penetrando profanassem o templo de sua adoração; -o templo da esperança e da saudade. Fora dessas longas horas, -encerrava-se naquelle asylo e ahi vivia. -</p> -<p> -Alguns dias depois do encontro da rua da Quitanda, o Castro percorrendo -distrahidamente os jornaes da manhã, deu com os olhos sobre os -annuncios de espectaculo, cousa que desde muito tempo não existia para -elle. Representava-se no theatro lyrico a <i>Lucia de Lamermoor</i>, o mais -sublime poema de melancolia, que já se escreveu na lingua dos anjos. -</p> -<p> -O mancebo teve um desejo irresistivel de ir aquella noite ao -espectaculo, apezar de conservar ainda o luto pesado. Não comprehendia -esse capricho de seu coração; attribuiu ao encanto das reminiscencias -daquella musica tão triste, e tambem daquelle amor tão estremecido, -que os homens quizeram romper, mas a fatalidade uniu para sempre no -tumulo. Elle ia saturar-se de tristeza; não havia, portanto, -profanação de uma dôr santa. -</p> -<p> -Eram perto de dez horas: cantava-se o final do segundo acto da opera, e -Leopoldo, sentado em uma cadeira, do lado direito, estava completamente -absorvido no canto magistral de Lagrange e Mirate. Um momento, porém, -ergueu os olhos, e volvendo-os lentamente, fitou-os em um camarote da -segunda ordem. Estremeceu; o olhar morno e baço que se escapava de sua -pupilla illuminou-se de fogos sombrios e ardentes. -</p> -<p> -Vira a mulher amada. -</p> -<p> -Amelia estava nessa noite em uma de suas horas de inspiração; a mulher -bella tem, como o homem de intelligencia, em certos momentos, -influições energicas de poesia; nessas occasiões ambos irradiam; a -mulher fica esplendida, o homem sublime. -</p> -<p> -O talhe esbelto da moça desenhava-se através da nivea transparencia de -um lindo vestido de tarlatana com laivos escarlates. Coroava-lhe a -fronte o diadema de suas bellas tranças, donde resvalavam dois cachos -soberbos, que brincavam sobre o collo. Os cabelleireiros chamam esses -cachos de arrependimentos, <i>repentirs</i>. Por que motivo? A alma que se -arrepende convolve-se daquella fórma; o pezar a confrange. Já se vê -que os cabelleireiros tambem são poetas. -</p> -<p> -Não foi, porém, o suave perfil da moça, nem os contornos macios de -suas fórmas gentis, o que arrebatou o espirito do mancebo. Elle só viu -a luz, o brilho d'alma, rarejando do sorriso. Contemplava a rosa, -embebia-se nella, sem contar-lhe as petalas. -</p> -<p> -Amelia, que apoiava o lindo braço sobre a almofada de velludo da -ballaustrada, prestava attenção á scena, recolhendo ás vezes a vista -para discorrel-a vagamente pelos camarotes fronteiros. Depois que o -panno cahiu, conservou-se na mesma posição, conversando com sua mãi -e Laura que ali estava de visita. Então voltou rapidamente o rosto, e -deixou cahir sobre a platéa um olhar subito e vivo. Foi uma centelha -electrica, listrando no espaço, para logo apagar-se. -</p> -<p> -Revelou-se no semblante da moça alguma inquietação e visivel -incommodo. Quiz disfarçar, mas afinal ergueu-se, para occultar-se no -interior do camarote, por detrás de Laura, a qual occupava o outro -logar da frente. -</p> -<p> -O olhar que deitára á platéa encontrou o olhar profundo e ardente de -Leopoldo; e batendo de encontro a esse raio brilhante, reagiu como -estylete para feril-a no coração. -</p> -<p> -Leopoldo notou vagamente esse movimento; mas como entre a columna e o -busto de Laura elle via a sombra da mulher a quem amava, não se -interrompeu seu enlevo. De vez emquando passava-lhe pelo rosto um -lampejo subtil, no qual presentia o olhar furtivo da moça. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="V">V</a></h4> - -<p> -Estava a subir o panno. -</p> -<p> -Amelia resolvêra ficar onde estava, e não tomar o logar da frente, -apezar de Laura ter voltado a seu camarote. Mas essa resolução, tão -solidamente calcada em seu coração, cahiu de repente: bastou um olhar. -Vira na platéa, encostado á balaustrada da orchestra, um elegante -cavalheiro. -</p> -<p> -Era Horacio. -</p> -<p> -O sorriso brando que manava dos labios da moça, como a onda pura e -christalina de um ribeiro, desappareceu então sob outro sorriso mais -brilhante, que borbulhava como a frol da cascata. Era o sorriso da -vaidade, como o outro era da innocencia. -</p> -<p> -A moça collocou-se na frente, fazendo realçar com a graça de seus -movimentos a suprema elegancia do talhe. Demorou-se mais do que era -preciso nesse acto; e sentando-se, houve em seu corpo um impulso quasi -imperceptivel de mysteriosa expansão. Dir-se-hia que ella se queria -debuxar no quadro illuminado do camarote. -</p> -<p> -A causa desse elance não o adivinham? O leão tinha assestado seu -binoculo de marfim; e a moça com um irresistivel assomo de faceirice -abandonava-se ao olhar do mancebo. -</p> -<p> -Durante o acto, Amelia distrahiu mais a attenção do semblante pallido -de Leopoldo. Enleiava os olhos na figura elegante de Horacio; prendia-se -ao fino buço negro que sombreava o labio desdenhoso do leão; -embebia-se toda na graça de sua attitude: tentando assim resistir a -curiosidade incommoda que attrahia sua attenção para o importuno -desconhecido. -</p> -<p> -Não sei porque, Leopoldo, cuja adoração era infatigavel como a -emanação de uma chamma perenne, sentia naquella occasião a -necessidade de dar um repouso a sua contemplação. Então como si a luz -que o deslumbrava se fosse tornando mais doce, elle pôde vêr -destacar-se o perfil gracioso da moça. -</p> -<p> -—Tem o cabello castanho! É pena! Acreditava que a mulher a quem -amasse algum dia, havia de ser loura. É a côr do reflexo da luz, deve ser -a côr desse véo casto que Deus fez para o pudôr. A madeixa foi dada á -mulher para recatar a face que enrubece e o seio que palpita; essa gaza -preciosa deve ser de ouro, ou antes de graça e esplendor. -</p> -<p> -O moço já não olhava para Amelia; com as palpebras cerradas estava -agora vendo-a na penumbra d'alma. -</p> -<p> -—Mas para mim é indifferente que tenha o cabello castanho; podia -têl-o negro como a treva. Eu a amo, amo sua alma, sua essencia pura e -immaculada! Si Deus me enviou um anjo para consolar-me em minha -afflicção; para amparar-me em meu isolamento; para encher de -ineffaveis jubilos meu ser saturado de amarguras; posso eu queixar-me -porque o Senhor o vestiu de uma simples tunica de lã, e não de um -sumptuoso manto de ouro? Eu gostava dos cabellos louros: pois agora só -gosto, só quero, só vejo uns cabellos castanhos, porque pertencem a -ella, s'impregnam de seu perfume, e respiram seu halito! -</p> -<p> -Terminára o acto. Leopoldo, contemplando a moça, pela primeira vez -lembrou-se de saber quem era, na sociedade, aquella mulher que lhe -pertencia pelo pensamento. Tinha-se habituado a consideral-a como uma -cousa sua; parecia-lhe que ninguem mais existia sinão elles dois. -</p> -<p> -Volveu os olhos em busca de algum conhecido, a quem dirigisse a -pergunta. Não encontrou: mas ao cabo de alguns instantes descobriu o -leão em seu posto. -</p> -<p> -—Ah! lá está Horacio, que póde me informar. Elle conhece todo o -mundo! Justamente agora pôz o binoculo para o camarote. -</p> -<p> -Como desejava sahir, dirigiu-se para aquelle lado; mas o leão, inquieto -e preoccupado, sahira açodadamente, e subia de um pulo as escadas que -o separavam da segunda ordem. -</p> -<p> -—Aquella mão é irmã do meu adorado pesinho! Não tem a graça delle, -sem duvida, nem se compara com aquelle mimo de amor; mas ha um certo ar -de familia, um quer que seja!... -</p> -<p> -Assim cogitando, Horacio chegára á porta de um camarote, e pela fresta -fitára com disfarce o olhar em Laura, cuja mão, excessivamente -pequena, e calçada por uma luva muito justa, custava a segurar o -binoculo de madreperola. -</p> -<p> -O moço, apenas reconheceu o vestido de seda violeta, e a mãosinha que -lhe servira de phanal, abaixou o olhar para a fimbria do vestido a vêr -si descobria alguma cousa, o peito, a ponta, a sombra, ao menos, do -pesinho mimoso, do idolo de sua alma. Mas não foi possivel: o vestido -arrastava no chão; nenhum movimento fazia ondular a seda; e comtudo o -mancebo ali ficou immovel, palpitante de emoção, como si esperasse dos -labios da mulher amada o monosyllabo que devia dicidir de seu destino. -</p> -<p> -A paixão que o mancebo concebêra pela dona incognita da botina achada, -longe de se desvanecer, adquirira uma vehemencia extrema. Horacio, o -feliz conquistador, o coração fogoso e inflammavel, nunca ardêra por -mulher alguma, como agora ardia por aquelle pesinho idolatrado. Era um -verdadeiro amor de leão, terrivel e indomito; era um delirio; uma -raiva. -</p> -<p> -Seus amigos já não o reconheciam; elle apparecia nos bailes, nos -theatros, nos pontos de reunião, de relance, como um meteoro, seguindo -após uma idéa fixa, ou uma sombra que fugia diante de seus passos. -Conversou-se muito na rua do Ouvidor á este respeito. Uns attribuiam o -facto inaudito á primeira derrota. -</p> -<p> -—Horacio, dizia um de seus amigos, como Napoleão, só devia ser -derrotado uma vez. Mas essa vez foi Waterloo! -</p> -<p> -—Que pensa então? -</p> -<p> -—Que o pobre rapaz caminha para o seu rochedo de Santa Helena. Ou -casa ahi com alguma mulher feia e rica, ou engorda como um cevado. -</p> -<p> -Outros lembravam-se de algum desarranjo de fortuna, ou de alguma -velleidade politica, para explicar o mysterio. Mas sabia-se que o moço -tinha bom e seguro rendimento; e quanto á politica, elle a comparava a -uma embriaguez causada pela mais ordinaria zurrapa de taberna. -</p> -<p> -Muitas vezes disse, gracejando, a seus amigos: -</p> -<p> -—Quando me quizer embriagar, em vez de zurrapa, beberei champanhe. É -mais fino, e tambem mais barato, porque não deixa uma irritação de -estomago, cujo preço é muito superior ao de uma caixa de melhor -<i>cliquot</i>. -</p> -<p> -A causa real da mudança do leão ninguem, pois, a sabia, nem a -suspeitava. -</p> -<p> -Depois da achada da botina, sua vida tomara um aspecto muito differente. -Naquella mesma tarde em que o deixamos na sua casa de Botafogo, -terminado o jantar, mandou apromptar o tilbure e voltou á cidade. Seu -apparecimento áquella hora na rua do Ouvidor causou extranheza; um -leão de raça, como elle, não passeia ao escurecer, sobretudo no -centro do commercio, onde só ficam os que trabalham. Seria misturar-se -com os leopardos que aproveitam a ausencia dos reis da moda, para -restolhar alguma caça retardada. -</p> -<p> -Correu Horacio todas as lojas de calçado á procura de informações. -Para disfarçar sua paixão, inventou uma aposta, como pretexto á sua -curiosidade. A um freguez como elle não se recusava tão pequeno favor, -sobretudo quando levava o sainete de uma anecdota de bom tom. A todos -elles o leão se dirigia mais ou menos nestes termos: -</p> -<p> -—Fiz uma aposta com uma senhora. Que em todo o Rio de Janeiro não se -encontram tres moças de 18 annos que calcem n. 29. Tenho todo o empenho -em ganhar a aposta, não tanto pelos botões de punho, como porque, si -ella perder, ha de ser obrigada a mostrar-me seu pé, para eu verificar -si é realmente desse tamanho. Peço-lhe, pois, que me dê uma nota das -freguezas a quem costuma vender calçado deste numero. -</p> -<p> -Nesta pesquiza gastou Horacio muitos dias, sem colher o menor resultado. -Os poucos pares de calçado n. 29, vendidos pelas differentes lojas, -eram destinados á meninas de doze annos ou a pessoas desconhecidas, -cuja idade se ignorava. Apezar de tudo o leão não desanimava; todas as -manhãs, ao acordar, levantava um plano de campanha, que punha em -pratica durante o dia. -</p> -<p> -Horacio sentira-se de repente tomado de indefinivel ternura por uma -classe; de que antes só lembrava-se para amaldiçoal-a: a classe dos -sapateiros. Quando via um sujeito de avental de couro e sovella, o leão -sentia-se attrahido para aquelle individuo, que talvez encerrasse o -segredo de sua felicidade, seu futuro, sua existencia. Outras vezes, -porém, tinha de repente uns accessos de ciume selvagem. Lembrando-se -que esse operario talvez já houvesse tomado medida ao adorado pésinho; -que essas mãos calosas teriam tocado a cutis assetinada do anjo de seus -pensamentos; o mancebo sentia em si o furor de Othello e procurava um -punhal no seio; felizmente só achava a carteira, a adaga de ouro com -que neste seculo se assassina mais cruelmente. -</p> -<p> -Depois de consumir as horas em suas indagações, ia contemplar a -botina, prenda querida de seu amor e proseguia á noite sua porfia -incansavel. Corria os espectaculos e bailes, com o olhar rastejando para -descobrir por baixo da orla do vestido, o ignoto deus de suas -adorações. Não dansava para observar melhor o arregaçado dos -vestidos; de ordinario andava pelas escadas e portas, afim de aproveitar -o ensejo da subida e descida; muitas vezes ia fumar junto ao logar onde -se collocavam os lacaios, na esperança de conhecer o portador da -botina. -</p> -<p> -Quando as rainhas da moda, as deusas do salão, sorprezas e attonitas o -viam passar sem distinguil-as com uma palavra ou uma fineza, elle, -atirando-lhes um olhar de compaixão, dizia comsigo: -</p> -<p> -—Coitadas! não sabem que o leão viu a pata da gazella e fareja-lhe o -rastro. Que lhe importam as garras da panthera?... -</p> -<p> -Recolhendo, Horacio accendia duas velas transparentes e collocava-as a -um e outro lado da almofada de velludo escarlate, sobre uma mesinha de -charão, embutido de madreperolas. Tirava de um elegante cofre de -platina a mimosa botina, e com respeitosa delicadeza deitava-a sobre a -almofada, de modo que se visse perfeitamente a graciosa fórma do pé -que habitara aquelle ninho de amor. -</p> -<p> -Então accendia o charuto, sentava-se n'uma cadeira de espreguiçar, -defronte, porém, distante, para que o fumo não se empregnasse na -botina, e ficava em muda e arrebatada contemplação até alta noite. -</p> -<p> -Sobre aquella botina via elevar-se como sobre um pedestal, um vulto de -estatua, mas vago, indistincto; e comtudo esse esboço sem fórmas -seductoras, aquella sombra sem alma e sem calôr lhe parecia de uma -belleza deslumbrante. Não era ella a mulher a que pertencia o mais -formoso pé do mundo, o mimo, a obra prima da natureza? -</p> -<p> -Recordava-se das mulheres mais bonitas que tinha visto, das mais lindas -senhoras a quem amára com paixão, e sua memoria as trazia todas, uma -após outra, para as collocar ao lado daquella figura vaga e -desvanecida, que plainava sobre a almofada, como sobre uma nuvem de -ouro. Como ellas fugiam abatidas e humilhadas diante de seu impetuoso -desdêm! -</p> -<p> -—Não são dignas, murmurava elle, nem de beijarem o chão pisado pela -fada desta botina! -</p> -<p> -Eis qual tinha sido a vida de Horacio até o momento em que o vamos -encontrar no mesmo logar defronte da porta entreaberta do camarote. -Laura percebeu-o afinal, e sorriu-lhe com ternura. A attenção do rei -da moda era uma fineza, um ar de seu real agrado; cumpria-lhe agradecer. -</p> -<p> -Fitando com mais força o olhar na pupilla da moça como para travar-lhe -da vontade, Horacio abaixou lentamente esse olhar até a fimbria do -vestido de chamalote com uma insistencia significativa. Laura fez-se -escarlate; e a porta do camarote, rapidamente fechada, a subtrahiu ás -vistas ardentes do leão. -</p> -<p> -—É ella! exclamou o coração do mancebo afogado em jubilo. Não ha -duvida. Para sentir esse pudor exagerado e incomprehensivel é preciso -ter ali occulto um pé como aquelle que eu sonhei. Um pé?... Não; um -mimo, uma maravilha, um thesouro, um céo!... É o pudor da violeta, que -se esconde na sombra; é o pudor da perola, occulta na concha; é o -pudor do diamante, sumido no seio da terra; é o pudor da estrella, -immergindo-se no azul. -</p> -<p> -O leão desceu as escadas murmurando: -</p> -<p> -—Vêl-o e morrer. -</p> -<p> -Pouco depois terminou o espectaculo. Amelia com um resaibo de -melancholia na fronte, embuçou-se na pellissa e desceu. Ella perdêra -de vista Horacio, e só o tornára a vêr parado em frente á porta do -camarote de Laura. Desamparada pelo encanto do gentil mancebo, soffrêra -todo o resto do espectaculo o desassocêgo que lhe incutia o olhar de -Leopoldo. Por mais que voltasse o rosto sentia a phosphorecencia -estranha desse olhar repulsivo, que entretanto a prendia, máo grado -seu. -</p> -<p> -Leopoldo esperava no corredor da entrada a passagem da moça, quando -avistou a seu lado Horacio. O leão soffrego e impaciente, volvia o -olhar em varias direcções; naturalmente procurava alguem, e receiava -que lhe escapasse. -</p> -<p> -—Adeus, Horacio. -</p> -<p> -—Boa noite, Leopoldo. -</p> -<p> -Amelia appareceu nesse momento. -</p> -<p> -—Conheces aquella moça, Horacio? -</p> -<p> -Horacio tinha avistado Laura, que descia o lanço da escada opposta, e -corrêra pressuroso, com os olhos fitos na fimbria de sêda. Seu olhar -tinha tal força que parecia um croque a levantar a orla do vestido. -Debalde; nem a sombra do pé: o encorpado estôfo arrastava pesadamente -pelo chão. -</p> -<p> -Chegou a moça á porta, onde o carro a esperava. Horacio teve um -vislumbre de esperança; porém nova decepção o esperava. Não viu -mais do que uma nuvem de sêdas ondular e sumir-se. -</p> -<p> -O leão fez um movimento de desespero. -</p> -<p> -—Senhor! porque em vez de homem, não me fizeste estribo de um carro! -Teria a felicidade de ser pisado por aquelle pesinho. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="VI">VI</a></h4> - -<p> -Seriam duas horas da tarde. -</p> -<p> -Durante a manhã tinha cahido sobre a cidade uma forte neblina, que -molhára as calçadas. -</p> -<p> -Leopoldo dirigia-se á casa, pela rua dos Ourives. Naturalmente vinha -pensando na desconhecida, que não vira desde a noite do theatro. Sua -paixão era intensa e ardente; mas vivia de si mesma, nutria-se da -propria seiva. Esperava com plena confiança na pureza de seu amor. -</p> -<p> -Á pequena distancia do canto da rua do Ouvidor, viu elle de repente a -moça que passava na companhia de outras pessoas. Amelia voltára o -rosto. Seu olhar cruzou rapidamente com o olhar do mancebo. Ela -estremeceu com o costumado calafrio, e acelerou o passo. -</p> -<p> -Vendo-a sumir-se, encoberta pela esquina, o mancebo tambem se apressou -para acompanhal-a; mas chegou tarde. A moça e as pessoas, que iam em -sua companhia, acabavam de entrar em um carro: na elegante victoria que -já conhecemos. Leopoldo apenas vira um pé, que na precipitação de -subir, levantára demais a saia. -</p> -<p> -Sem consciencia do que fazia, precipitou-se para a portinhola do carro. -O lacaio que a fechava nesse momento, embargou-lhe o passo. Quando o -carro partiu na direção de São Francisco de Paula, Amelia inclinou-se -e lançou de esguelha um olhar vivo para a esquina. -</p> -<p> -Leopoldo ficára na calçada immovel e extatico de sorpreza. -</p> -<p> -O pé que seus olhos descobriram, era uma enormidade, um monstro, um -aleijão. Ao tamanho descommunal para uma senhora, juntava a -disformidade. Pesado, chato, sem arqueação e perfil, parecia mais uma -base, uma prancha, um tronco, do que um pé humano e sobretudo o pé de -uma moça. -</p> -<p> -Os traços especiaes da beleza de Amelia não tinham deixado na memoria -de Leopoldo a minima impressão, da primeira vez que a vira, apesar de -contemplal-a demoradamente. Entretanto o defeito não lhe escapou, -embora passasse de relance diante de seus olhos. -</p> -<p> -Parece uma singularidade; mas não é. Ninguem conta as petalas da flôr -que admira; ninguem repara na fórma especial de cada uma das partes de -que se compõe um todo gracioso; porém a menor mácula se destaca -immediatamente. -</p> -<p> -É por isso que certos homens, não podendo distinguir-se entre a gente -sisuda e honesta, fazem-se nodoas da sociedade; tornam-se vicios e -torpezas. Assim adquirem a celebridade, que não obteriam com sua -virtude ambigua e seu mesquinho talento. -</p> -<p> -O Castro, que não admirara o matiz da rosa, notou a mácula e -desgostou-se della. Elle sentia-se com forças para amar o feio e o -desgracioso, mas não o disforme, o horrivel. Essa aberração da figura -humana, embora em um ponto só, lhe parecia o symptoma, senão o -effeito, de uma monstruosidade moral. -</p> -<p> -Triste, acabrunhado por pensamentos acerbos, o moço continuou seu -caminho pela rua dos Ourives em direcção á casa. Mal havia andado -alguns passos, arrependeu-se; não queria levar á sua habitação esse -primeiro transbordamento de um dissabor tão profundo; era melhor -deixal-o escoar-se, antes de recolher á solidão habitual. Si tivesse -alguma cousa a fazer! Qualquer occupação bem aborrecida e massante, -que lhe servisse de antidoto ao desgosto intimo! -</p> -<p> -Excogitou. Havia ali perto, na rua Sete de Setembro, uma pequena loja de -sapateiro, ou antes uma tenda; porque além do balcão via-se apenas uma -tosca vidraça, contendo a obra de tres officiaes que ahi trabalhavam. -</p> -<p> -A loja pertencia a um mestre fluminense, que trabalhára por algum tempo -na casa do Guilherme e do Campàs, e se iniciára portanto em todos os -segredos da arte. Ninguem a exercia com mais habilidade, esmero e -enthusiasmo do que elle; sua obra, quando queria, não tinha que invejar -ao producto das melhores fabricas de Pariz, si não o excedia na -elegancia e delicadeza. -</p> -<p> -A razão cardeal de toda a superioridade humana é sem duvida a vontade. -O poder nasce do querer. Sempre que o homem applique a vehemencia e -perseverante energia de sua alma á um fim, elle vencerá os obstaculos, -e si não attingir o alvo, fará pelo menos cousas admiraveis. Mas para -que o homem se entregue assim á uma idéa e se captive á um -pensamento, é necessario ser attrahido irresistivelmente, ser impellido -pelo enthusiasmo. -</p> -<p> -É o enthusiasmo que faz o poeta e o artista, o sabio e o guerreiro; é -o enthusiasmo que faz o homem-idéa differente do homem-machina. A -fabula de Prometheo não exprime sinão a allegoria desse fogo celeste -d'alma, que anima as estatuas de Galathea, embora depois dilacere o -coração como a aguia do rochedo. Uma faisca dessa electricidade moral, -opera maravilhas iguaes á centelha do raio. O que é o telegrapho a par -com a eloquencia? -</p> -<p> -O Mattos tinha o enthusiasmo de sua arte; descobrira nella segredos e -encantos desconhecidos aos mercenarios. Para elle o calçado era uma -esculptura; copiava em seda e couro, assim como o cinzel copia em gesso -e marmore. Os outros artistas da fórma reproduzem todo o vulto humano -ou pelo menos o busto; elle só tinha um assumpto, o pé. Mas que -importancia não tomava á seus olhos esta parte do corpo! Era preciso -ouvil-o, em algum momento de arroubo, para fazer idéa de sua -admiração por esse membro nobre da creatura racional. -</p> -<p> -Depois de trabalhar muitos annos em casas francezas, o mestre fluminense -resolveu estabelecer-se por sua conta. Alugou uma pequena loja de duas -portas, onde trabalhava com dois officiaes. A necessidade de ganhar o -pão o obrigava á tornar-se mercenario, fazendo obra de carregação -para vender barato. Mas no meio dessa tarefa ingrata tinha elle suas -delicias de artista. Meia duzia de freguezes, conhecedores da habilidade -do sapateiro, preferiam seu calçado ao melhor de Pariz, e o pagavam -generosamente. Essas raras encommendas, o Mattos as executava com -enlevo; revia-se em sua obra, verdadeiro primor. -</p> -<p> -Leopoldo não era um freguez da ultima classe; elle não conhecia a -voluptuosidade de um calçado macio, antes luva do que sapato; seu pé -não era um <i>enfant gaté</i>, um benjamim acostumado á essas delicias; -desde a infancia o habituára á uma vida rude e austera entre a sola -rija e o bezerro. Além de que seus haveres não chegavam para taes -prodigalidades. -</p> -<p> -O moço pertencia á classe dos freguezes da obra de carregação, e -preferia a loja do Mattos, pela modicidade do preço, e boa qualidade do -cabedal, como do trabalho. -</p> -<p> -Que mysteriosa associação de idéas trouxera á lembrança de Leopoldo -naquelle momento a tenda do sapateiro; e por que motivo se dirigiu elle -para ali onde estivera na vespera, e não para qualquer outro logar, em -que poderia melhor espancar seu dissabor? -</p> -<p> -O motivo nem elle mesmo o sabia naquelle instante. -</p> -<p> -—Bom dia! As botinas estão promptas? disse entrando. -</p> -<p> -O Mattos, que attendia á alguns freguezes perto da vidraça, olhou-o -sorpreso: -</p> -<p> -—Não disse hontem a V. S. que só para o fim da semana? -</p> -<p> -—É verdade! -</p> -<p> -—Tinha entre mãos esta encommenda. Mas já acabei; agora posso ajudar -os companheiros. -</p> -<p> -O Mattos indicára alguns pares de calçado que estavam no mostrador -sobre folhas de papel, e promptos a serem embrulhados. -</p> -<p> -Leopoldo, chegando-se para o balcão, principiou a examinar a obra -acabada, com a distrahida curiosidade de quem deseja esperdiçar alguns -momentos, para escapar a um aborrecimento ou para apressar um prazer. -Era trabalho fino do mestre, e comtudo não excitaria grande attenção -da parte do moço, si não fosse um par de botinas de senhora já usadas -e meio encobertas pelo papel com outra obra. A medida era enorme no -comprimento e na altura; por isso, como pelo feitio, devia excitar-lhe -reparo. -</p> -<p> -Na vespera quando viera á loja, casualmente observára a obra que o -Mattos estava acabando. Vendo ha pouco na rua do Ouvidor o pé -monstruoso da moça, tivera uma confusa e tenue reminiscencia das -botinas da loja. Fora esse o fio mysterioso que o conduzira -insensivelmente áquella casa. Agora comprehendia a encadeação: a -botina monstro pertencia sem duvida ao pé aleijão. -</p> -<p> -Leopoldo depois que entrevira sob a orla do vestido o pé da moça, -ainda alimentava uma duvida, que pretendia cevar com todas as subtilezas -e argucias de seu espirito. Talvez elle visse mal; talvez a sombra, o -estribo do carro, qualquer outro objecto o tivesse illudido. O aleijão -só existia em sua imaginação; fôra um desvario dos sentidos. Com -effeito, como suppôr que uma senhora podesse andar graciosamente com -semelhante pata de elephante? -</p> -<p> -Mas as botinas ahi estavam sobre o balcão que não lhe deixavam a menor -duvida. O pé disforme existia; era aquelle o seu molde, o seu corpo de -delicto, e por elle se podia vêr quanto devia ser horrivel a realidade. -Agora Leopoldo podia apreciar os traços parciaes que lhe tinham -escapado pela manhã; esse pé era cheio de bossas como um tuberculo; -não arremedava nem de longe o contorno dessa parte do corpo humano: era -uma posta de carne, um cepo! -</p> -<p> -Junto dessa deformidade morta, inventada para cobrir a deformidade viva, -havia outra obra que chamára a attenção do mancebo por sua -singularidade. Á primeira vista, era um volume semelhante ao das -botinas monstruosas, embora de linhas regulares: parecia uma ligeira -almofada preta sobre a qual se elevasse uma botina de senhora, muito -elegante apezar de comprida. O tubo cinzento ficava occulto sob frocos -de setim escarlate. Do rosto ao bico descia um galho de rosas, cujas -hastes cingiam graciosamente, como uma grinalda, toda a volta do pé -até o calcanhar. -</p> -<p> -Uma das botinas ainda tinha dentro a fôrma; emquanto a outra já estava -sem ella. Naturalmente o Mattos procedia áquella operação quando foi -distrahido pelos freguezes e compradores: deixára-a pois em meio, -deitando em cima da obra, para encobril-a, uma folha de papel. -</p> -<p> -A fôrma não podia passar desappercebida ao observador. Vendo pouco -antes a botina disforme, Leopoldo a tinha considerado o modelo exacto do -pé monstruoso, que elle avistára. Enganara-se; a botina era já o -disfarce, a mascara do aleijão. Sua cópia ali estava em horrivel -nudez, no grosseiro tôco de páo, cheio de buracos e protuberancias. -</p> -<p> -Mas si essa observação acabou de esmagar o coração do mancebo, levou -insensivelmente seu espirito á apreciar pela primeira vez a -superioridade do Mattos em sua arte. Ali estava a imagem do aleijão, e -o calçado que outros sapateiros lhe fariam para cobrir a -monstruosidade, sem a dissimular. Entretanto o mestre fluminense -conseguira, por um esforço feliz, desvanecer a deformidade sob a -apparencia de uma botina elegante. -</p> -<p> -A almofada sobre que parecia descansar a botina era um solado alto, -porém occo, onde as carnes molles do pé monstruoso, comprimidas pela -botina superior, podiam abrigar-se. -</p> -<p> -Os frocos de setim e as grinaldas de rosas enchiam as covas e -desvaneciam as protuberancias osseas, com muita delicadeza, sem avolumar -o tamanho do cothurno. Na sola negra se debuchava, em proporção á -botina superior, a alva palmilha, com seus contornos harmoniosos; de -modo que olhando-se andar a pessoa, não se perceberia facilmente o -tamanho do calçado. -</p> -<p> -Acabára o Mattos de aviar os freguezes, e chegando-se para o balcão, -incommodou-se com vêr o moço a observar a obra; ia talvez -interrompel-o rispidamente, quando percebeu em seu rosto uma expressão -viva de ardente admiração. O artista ficou lisonjeado com esse elogio -tão eloquente em sua mudez; e á contrariedade succedeu a satisfação -do amor proprio. -</p> -<p> -Foi Leopoldo, que, percebendo junto de si o sapateiro parado, afastou-se -do balcão, receiando ter sido indiscreto. Ia sahir, quando entrou na -loja um lacaio de libré azul com vivos de escarlate e branco. O mancebo -o reconheceu pelas feições; era o mesmo que o impedira de chegar á -portinhola do carro, na rua do Ouvidor. -</p> -<p> -—Ah! exclamou o Mattos, avistando o criado. Está quasi prompto. -</p> -<p> -—Não posso esperar! replicou o lacaio com a insolencia do rafeiro de -casa rica. -</p> -<p> -—É só embrulhar. -</p> -<p> -Leopoldo disfarçava; fingindo olhar o calçado exposto na vidraça, viu -de esguelha o sapateiro tirar a fôrma da outra botina, bater o ponto e -dar o ultimo polimento á sua obra; feito o que arranjou o embrulho. -</p> -<p> -—Está bem amarrado? perguntou o lacaio. Olhe que da outra vez já se -perdeu uma botina por sua causa, e eu é que levei a culpa. -</p> -<p> -—Não tenha susto; desta vez está bem seguro; respondeu o Mattos. -</p> -<p> -Foi-se o lacaio; e Leopoldo com o semblante carregado de tristeza, -despediu-se, arrependido de ter ido á loja. Que saudades tinha da sua -duvida! -</p> -<p> -—A duvida, pensava elle, é ainda um raio de esperança! -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="VII">VII</a></h4> - -<p> -A esse tempo Horacio, sentado em uma poltrona na casa do Bernardo, -fumava o seu <i>conchita</i>, com o olhar, ora na calçada, ora no espelho -fronteiro, á espreita do menor vulto de mulher. -</p> -<p> -O leão pensava: -</p> -<p> -—Choveu; as ruas ainda estão molhadas. Qual é a senhora que tendo um -pé mimoso e uma perna bonita não aproveita um destes dias para -atravessar a rua do Ouvidor? Si deixarem escapar estes pretextos de -mostrar semelhantes maravilhas, morrerão ellas desconhecidas, apenas -vistas por um dono avaro, mas nunca admiradas, porque a admiração é -sentimento que precisa da luz plena, da grande expansão. Si a Venus de -Praxisteles existisse, mas só para mim, palavra de honra que sua -belleza não excitaria em minha alma o menor enthusiasmo. -</p> -<p> -Nessa occasião Amelia passava diante da loja, e voltando-se recebeu a -cortezia do leão, a quem respondeu com um sorriso amavel. Parando na -vidraça, achou ella pretexto para entrar; e comprou uma galanteria. -Durante esse tempo Horacio recebeu por diversas vezes o olhar e o -sorriso da moça. -</p> -<p> -Acompanhando com a vista o passo airoso e subtil de Amelia, Horacio -exclamou, dirigindo-se ao caixeiro do Bernardo: -</p> -<p> -—Que passo gracioso! É o andar da garça! -</p> -<p> -Estas palavras foram ditas em voz bastante alta, para que a moça -ouvisse; um ligeiro estrecimento que se notou na suave ondulação do -talhe revelou que o leão lográra seu desejo. A moça ouvira com -effeito a fineza. -</p> -<p> -Recostado de novo na poltrona o leão continou a pensar: -</p> -<p> -—Realmente, que elegancia no andar! Eu seria capaz de apostar que -esse andar era do pésinho, do meu adorado pésinho, si já não tivesse -descoberto a dona do primor. Mas Laura não vem!... O criado me disse -que ao meio-dia, e é quasi uma hora! Terá mudado de resolução?... -Não duvido; com aquelle zêlo feroz que tem por sua joia, talvez não -quizesse vir para não ser obrigada a mostral-o. Um avaro não fecha com -mais cuidado a burra, do que ella esconde seu thesouro. Que peccado! -Subtrahir ao mundo essa maravilha que Deus fez para ser admirada! Ah! eu -desejava ser uma nação; assim como ha demonios-legiões, por que não -podem haver homens-povos? Si o fosse, daria um throno á essa mulher, -sómente para que ella instituisse o <i>beija-pé</i>. Como eu seria -cortezão! Como eu a beijaria por minhas cem bocas de subdito! -</p> -<p> -O mancebo sobresaltou-se; vira uma sombra que assomava no espelho -fronteiro. Era Laura. -</p> -<p> -Que devia fazer? Correr á porta para ser visto pela moça ou deixar-se -ficar na poltrona para melhor descobrir o pé adorado? -</p> -<p> -A attitude do leão revelava a hesitação de seu espirito; com o corpo -lançado á frente parecia fazer um esforço para se conservar sentado. -Laura, que de seu lado já o tinha avistado no espelho, ficára em um -estado de perturbação indizivel. -</p> -<p> -—Que tem prima? perguntou-lhe um senhor que a acompanhava. -</p> -<p> -—Nada! balbuciou a moça. -</p> -<p> -A principio Laura fizera um movimento para recuar, mas arrependendo-se -avançou com affouteza, e passou rapidamente pela frente da loja, sem -volver um olhar para dentro. Por mais que o leão se derreasse na -poltrona, não logrou vêr cousa alguma; a senhora arrastava a fimbria -do vestido pela calçada coberta de lama, com o mesmo descuido que teria -si caminhasse sobre rico tapete. -</p> -<p> -—Está zangada commigo; está furiosa! Desde a noite do theatro que -não me póde vêr; e parece que preparou-se para o assalto, porque -achei as avenidas da praça já tomadas e vigorosamente defendidas. A -mucama é uma Gorgona, o porteiro um Cerbero; apenas consegui abrandar o -moleque, porque é um idiota!... Nunca vi uma ferocidade igual; creio -que a leôa da floresta não defende seu cachorrinho com sanha igual á -desta leôa de sala. Parece incrivel; mas eu conheço de quanto é capaz -a vaidade da mulher. Todo este furor não é mais do que um assomo de -faceirice; percebeu que estou apaixonado pelo pésinho mimoso, e quer-me -trazer atado como um captivo á seu carro de triumpho. Realmente uma -moça bonita não póde ter maior satisfação; vêr-me a mim, Horacio -de Almeida, o primeiro conquistador do Rio de Janeiro, curvar-se -humilde, não á seu olhar, á seu sorriso, á belleza de seu rosto, ou -á graça de seu talhe, mas á planta de seus pés divinos! Fazer-me -tapete de seus passos!... Que póde mais desejar a rainha dos salões -fluminenses? -</p> -<p> -O moço mordeu a ponta do bigode negro, e ficou alguns instantes muito -pensativo. -</p> -<p> -—É preciso mudar o plano de ataque! Comecei á maneira do Cesar, -atacando com impetuosidade. Vou contemporisar conforme a escola de -Fabio; simúlo uma retirada; o inimigo avança, eu o envolvo; corto-lhe -a retirada, e elle rende-se. Arraso o Humaitá daquelle vestido que -defende o meu pésinho adorado como uma casamata. A indifferença é a -serpente tentadora da mulher. -</p> -<p> -Em consequencia destas reflexões, Horacio deixou-se ficar onde estava, -e não seguiu a moça. Quando suppôz que ella já ia distante, foi -procurar algures, em um bilhar o preservativo contra a tentação de -cortejal-a, ou antes a seu pésinho. -</p> -<p> -—Ella hade reparar no meu eclipse! murmurou com certa confiança. -</p> -<p> -Entretanto, Laura, descendo a rua do Ouvidor, encontrára pouco adiante, -na casa do Masset, Amelia em companhia da mãi. As duas amigas não -podendo vir juntas tinham ajustado seu encontro para aquelle ponto. O -primo despediu-se, e as senhoras continuaram seu itinerario pelas -differentes lojas e casas de modas. -</p> -<p> -Ao cabo de duas ou tres horas, tomaram o carro que estava parado proximo -á rua dos Ourives e partiram na direcção do Cattete. A poucos passos -d'ali, Amelia perguntou ao lacaio sentado na almofada: -</p> -<p> -—Trouxe? -</p> -<p> -—Sim, senhora; está ahi dentro. -</p> -<p> -—Bem! -</p> -<p> -O carro aproximava-se do largo da Lapa, quando Amelia disse: -</p> -<p> -—Podiamos ir agora ao <i>Passeio Publico</i>? -</p> -<p> -—Tão tarde! replicou Laura. -</p> -<p> -—Deixa-te disso! observou a mãi da moça. -</p> -<p> -—Porque, mamãi? Ha tanto tempo que lá não vamos. -</p> -<p> -—Não ha nada de novo. -</p> -<p> -—Ora eu queria vêr a garça. Ainda não a vi. -</p> -<p> -—Viste sim! -</p> -<p> -—Mas não reparei n'uma cousa!... -</p> -<p> -—Em que! -</p> -<p> -—Uma cousa. Depois direi. -</p> -<p> -Tanto insistiu que a mãi cedeu a seu capricho, e deu ordem ao cocheiro -que chegasse até o portão do <i>Passeio Publico</i>. As senhoras -desappareceram na curva de uma das alamedas do parque, em direcção ao -lago. Amelia queria vêr o andar da garça, que Horacio tinha comparado -ao seu. -</p> -<p> -Nessa occasião passava o tilbure do nosso leão, que vinha do lado da -Ajuda. Um atropêllo, produzido por uma gondola mal conduzida, ia -atirando o tilbure sobre o carro parado no portão do <i>Passeio -Publico</i>. Este incidente chamou a attenção do moço para o cocheiro, que -derreado sobre a almofada não se movêra. -</p> -<p> -A memoria apresenta ás vezes um phenomeno curioso; conserva por muito -tempo occulta e sopitada uma impressão de que não temos a menor -consciencia. De repente, porém, uma circumstancia qualquer evoca essa -reminiscencia apagada; e ella resurge com vigor e fidelidade. -</p> -<p> -Foi o que succedeu a Horacio. Minutos antes por maiores esforços que -fizesse para recordar-se da libré do lacaio, portador da botina -perdida, não o conseguiria de certo. Entretanto bastou-lhe vêr a roupa -do cocheiro, para acodir-lhe immediatamente ao espirito a imagem -desvanecida. Era esse o carro, que vira quinze dias antes na rua da -Quitanda; não havia duvida. -</p> -<p> -O leão mandou parar o tilbure e entrou no Passeio Publico; depois de -percorrer inutilmente varias alamedas, afinal descobriu entre as -arvores, alem do lago, as ondulações dos vestidos de algumas senhoras -acompanhadas por um lacaio, e tomou apressadamente aquella direcção. -</p> -<p> -O terreno estava humido da chuva da manhã; e por isso o pé dos -passeiadores deixava o rasto impresso na branca e fina areia das -alamedas. Notando esta circumstancia, Horacio procurou o vestigio de -alguma botina irmã da que achara, e guardava como uma reliquia; ficou -ebrio de contentamento reconhecendo entre muitas pegadas o leve debuxo -que deixara no chão o mimoso pésinho. -</p> -<p> -Si não fosse o anhelo de alcançar as senhoras e reconhecer a dona -incognita do thesouro, Horacio se houvera ajoelhado e beijára o rasto -da fada de seus amores. Mas as senhoras caminhavam rapidamente para o -portão. -</p> -<p> -Por mais que se apressasse o leão, chegando á sahida, apenas viu o -carro que partia. Felizmente adiantando-se pôde reconhecer Amelia, que -lhe sorriu e inclinou-se para acompanhal-o com os olhos. -</p> -<p> -—É ella! Que pateta sou eu! Devia ter adivinhado. A pouco, vendo-a -passar pela rua do Ouvidor, tive um presentimento! Aquelle andar cheio -de graça não podia enganar. -</p> -<p> -No dia seguinte o leão fez-se apresentar ao pai de Amelia, abastado -consignatario de café, estabelecido á rua Direita. O encontro deu-se -na praça do commercio. Horacio ahi foi á pretexto de comprar apolices; -e um amigo, corretor de fundos, prestou-lhe aquelle serviço. O -negociante offereceu a casa ao moço que acceitou a fineza com effusão -de contentamento. -</p> -<p> -O Sr. Salles Pereira habitava nas Larangeiras uma bella chacara. Amelia -era filha unica, e seu dote, convertido em cem apolices, só esperava o -noivo. Quanto á mulher, tinha uma boa pensão instituida no montepio -geral. Seguro assim o futuro, vivia o negociante com certa largueza, -economisando pouco ou nada de seus lucros annuaes. -</p> -<p> -Quando Horacio teve conhecimento destas particularidades domesticas, -sorriu. -</p> -<p> -—Bem! O meu pésinho tem um dote para seu calçado. Pode andar com -luxo! -</p> -<p> -A primeira vez que Horacio visitou a familia de Pereira Salles, -encontrou Laura na sala; a moça fôra passar a noite com a amiga, e -conversava jovialmente. Apenas viu o leão, demudou-se; e instantes -depois, inventou um pretexto para retirar-se, apezar das instancias de -Amelia. -</p> -<p> -Horacio pouca ou nenhuma attenção deu á mudança que se tinha operado -em Laura, e sua retirada repentina. Desde que a moça não era a dona -feliz do mais lindo pé do mundo, tornava-se para elle uma creatura -indifferente; tanto mais quanto sua alma estava ali de rojo beijando a -fimbria de seda, que lhe occultava o tão anciado thesouro. -</p> -<p> -Em Amelia, varias impressões produziu a apresentação do moço. No -primeiro momento acreditou que o leão viera attrahido por ella; mais -tarde, lembrando-se do theatro, suspeitou que fosse apenas um meio de -aproximar-se de Laura; finalmente occorreu-lhe que podia não passar de -um encontro casual de seu pai, e de uma delicadeza da parte de Horacio. -</p> -<p> -Suas duvidas porém se dissiparam poucos dias depois. -</p> -<p> -Uma noite a moça, impellida por um movimento de faceirice, soltou estas -palavras, no meio de uma conversa com o leão. -</p> -<p> -—Laura está uma ingrata! Ha tanto tempo que não vem passar uma noite -commigo. -</p> -<p> -Ao mesmo tempo fitava os olhos no moço, para vêr a expressão de sua -physionomia. -</p> -<p> -—É uma fineza de sua amiga, que eu agradeço de coração, respondeu -Horacio. -</p> -<p> -—Uma fineza?... perguntou Amelia presentindo laivos de ironia. -</p> -<p> -—Quando sua amiga está aqui, a senhora sem duvida não a deixa? -</p> -<p> -—É muito natural. -</p> -<p> -—Já vê pois que eu tenho razão. Si ella viesse... -</p> -<p> -—Diga. -</p> -<p> -—Eu teria ciumes, D. Amelia. -</p> -<p> -A moça corou. -</p> -<p> -—Pois amanhã Laura ha de passar a noite commigo. -</p> -<p> -Estas palavras foram ditas com o estouvamento da menina, que procura -disfarçar um prazer, sob a mascara da contrariedade. Mas a mascara é -tão risonha, que não illude. -</p> -<p> -—Quer-me tanto mal assim? perguntou Horacio. Não admira; uma paixão -ardente e impetuosa como eu sinto pela senhora, não devia ter outra -sorte. O verdadeiro amor foi e será sempre infeliz; não ha mulher que -o comprehenda. -</p> -<p> -Amelia com as faces á arder não sabia que fizesse; sua mão tremula -brincava com as flôres de um vaso, que vacillou sobre o consolo e cahiu -no chão. O fracasso da porcelana, despedaçando-se, chamou a attenção -das pessoas que estavam na salla; assim rompeu-se o enleio de Amelia. -</p> -<p> -A moça retirou-se confusa para o interior da casa. Momentos depois -entrou de novo na sala, já serena e prazenteira. Seus olhos procuráram -Horacio, para offerecer-lhe o meigo sorriso que trazia nos labios. -</p> -<p> -Esse sorriso dizia em sua eloquencia muda o seguinte: -</p> -<p> -—Si nunca a mulher soube comprehender o verdadeira paixão, serei eu -a primeira. -</p> -<p> -Foi esta pelo menos a traducção de Horacio, perfeito philologo do -amor, e habituado a decifrar esses hyeroglyphos dos labios da mulher. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="VIII">VIII</a></h4> - -<p> -Não abandonemos o pobre Leopoldo á sua amarga decepção. -</p> -<p> -O moço chegára á casa mergulhado na tristeza profunda, que sobre elle -derramaram os acontecimentos da manhã. Talvez a morte de Amelia não -lhe causasse tamanho pezar, como o daquella cruel decepção que estava -presentemente curtindo. -</p> -<p> -O aleijão excita geralmente uma invencivel repugnancia, repassada de -terror. A aberração da fórma humana abate o orgulho do bipede -implume, fazendo-o descer á baixo do ourangotango. Ao mesmo tempo, é -ameaça viva á uma das mais caras aspirações do homem; a esperança -de renascer em outra creatura, gerada de seu ser. Si a fatalidade pezar -sobre a prole querida? -</p> -<p> -Imagine-se que dôr era a do mancebo, quando via a deformidade surgir de -repente para esmagar em seu coração a imagem da mulher amada, da -virgem de seus castos sonhos? -</p> -<p> -O contraste sobretudo era terrivel. Si Amelia fosse feia, o senão do -pé não passára de um defeito; não quebraria a harmonia do todo. Mas -Amelia era linda, e não sómente linda; tinha a belleza regular, suave -e pura que se póde chamar a melodia da fórma. A desproporção -grosseira de um membro tornava-se, pois, nessa estatua perfeita, uma -verdadeira monstruosidade. Era um bérro no meio de uma symphonia; era -um disparate da natureza; uma superfetação do horrivel no bello. Fazia -lembrar os idolos e fetiches do Oriente, onde a imaginação doentia do -povo reune em uma só imagem o symbolo dos maiores contrastres. -</p> -<p> -Nessa angustia passou Leopoldo o resto daquelle dia e os que se lhe -seguiram. -</p> -<p> -—Não amo a sua belleza material, oh, não! pensava o mancebo. O que eu -adoro nella é a belleza moral, a alma nobre e pura, a creatura celeste, -a luz, o anjo. Qualquer que fosse o envolucro de seu espirito -immaculado, creio que havia de adora-la tanto, como a adorei desde o -momento em que primeiro a vi. -</p> -<p> -«Fosse ella feia para os outros, que chamam formosura o que lhes -encanta os sentidos; para mim seria sempre bella, porque meus olhos -haviam de vê-la através de seu esplendido sorriso. O que é o corpo -humano no fim de contas? O que é o contorno suave de um talhe elegante, -e a cutis assetinada de um rosto ou de um collo mimoso? Um pouco de -materia á que a luz transmitte a côr, o espirito, e a vida. Tirem-lhe -esses dois alentos; e verão que lôdo impuro e nauseante ficam sendo -aquellas fórmas seductoras. -</p> -<p> -«Pois luz e espirito não eram a essencia da alma de Amelia? Quando -essa alma a vestia com uma tunica resplandecente, que mulher se lhe -podia comparar em lindeza? Então não era sómente formosa, fluctuava -em um ether de belleza deslumbrante. -</p> -<p> -«Mas ella não é feia, é aleijada!...» -</p> -<p> -Um soluço afogou as tristes locubrações do mancebo. Elle repassou -outra vez na mente as circumstancias de sua triste descoberta; quiz -duvidar, combateu pertinazmente sua propria razão que lhe apresentava a -realidade, e afinal succumbiu, curvando-se á implacavel certeza. Tinha -visto uma vez, e como essa não bastasse, o acaso lhe offerecera -occasião de apalpar a verdade, e saciar-se della. -</p> -<p> -—Não se admira a Venus de Milo, uma estatua mutilada? dizia o mancebo -reluctando contra sua viva repugnancia. Não se admira o primor da arte -grega, apezar de não restar della mais do que uma cabeça e um torso de -mulher? Essa bellesa truncada não vale a belleza aleijada? A -mutilação não repugna tanto ou mais do que a deformidade? -</p> -<p> -A razão de Leopoldo não o deixava embalar-se muito tempo nesse -pensamento consolador. Replicava logo, refutando vigorosamente as -argucias do coração: -</p> -<p> -—A estatua mutilada, que excita a admiração do mundo, não é a copia -integral da belleza que lhe servia de typo; mas um fragmento apenas -dessa copia. A alma, que se extasia na contemplação desse fragmento, -recompõe o ideal do artista. Admira-se a Venus de Milo, como se admira -um esboço não acabado de Raphael; como se admira a petala de uma rosa, -arrancada da corolla. Mas, fosse embora aquelle primor da estatuaria a -reproducção exacta de uma mulher. A mutilação respeita a bellesa; o -aleijão a deturpa. Si a mulher que se ama perdesse um pé seria -desgraçada; com um pé monstruoso, é mais do que desgraçada, é -repulsiva. -</p> -<p> -Leopoldo deixava-se convencer por estas sugestões: -</p> -<p> -—Infelizmente assim é. Mas por que ha de ser assim? A mutilação é -um facto humano; o aleijão é um facto natural. Essa aberração do -principio creador, esse desvio da fórma primitiva, indicam sem duvida -um vicio na essencia do organismo. Não se tem verificado que nos corpos -mal conformados de nascença habita sempre uma alma enferma? Nos -corcundas sobretudo, porque a espinha dorsal é o tronco da -intelligencia. A deformidade de um membro, de um ramo apenas, não -denota eiva tão profunda do espirito, é certo, mas revela que a alma -não é nobre e superior. Não se concebe o anjo dentro de um aleijão. -</p> -<p> -O resultado destas cogitações era a gotta de fel esprimido, que ia -filtrando á pouco e pouco no coração e acabaria por saturar todas as -doces reminiscências dos ultimos dias. Leopoldo convenceu-se que não -devia amar a desconhecida; mas, ao contrario, arrancar de sua alma os -germens da paixão nascente. -</p> -<p> -Tomando esta resolução, o moço, que vivia muito retirado depois de -suas desgraças de familia, esteve a lembrar-se de algumas antigas -relações. Veio-lhe o desejo de cultival-as de novo. Um instincto lhe -dizia que para gastar as primicias de um coração virgem, não ha como -o attrito do mundo. -</p> -<p> -Entre as casas que outr'ora frequentava escolheu para a primeira noite a -de D. Clementina, amiga intima de sua irmã. Era uma senhora já no -declinio da idade e da formosura; gostava muito de dansar, e por isso -reunia constantemente em sua sala as moças de sua amizade. Logo que se -achavam presentes quatro pares, a dona da casa dava o signal, o marido -arredava a mesa do centro, o filho, menino de quinze annos, sentava-se -ao piano; e... -</p> -<p> -—<i>Chassé-croisé</i>! gritava D. Clementina. -</p> -<p> -Nesta casa Leopoldo tinha certeza, não só de ser bem recebido, como de -encontrar bastante arruido para aturdir-se, e abafar uns gemidos que -sentia ás vezes repercutirem no coração. Tinham decorrido cinco dias -depois da decepção: ás oito horas da noite entrou o moço na sala de -D. Clementina, que o recebeu com sorpreza cheia de amabilidades. -</p> -<p> -Além de estimado, acontecia que elle era justamente o quarto par. -Tirado o dono da casa, o Sr. Campos, o filho Alfredo, e tres velhas, -invalidas da dansa, havia na sala cinco senhoras para dois cavalheiros: -servindo uma senhora de cavalheiro, ainda faltava metade de um par. -</p> -<p> -Quando a campainha annunciou mais uma visita, D. Clementina de olhos -fitos na porta da sala, dispoz-se a receber o recem-chegado com o seu -mais affavel sorriso. Vendo Leopoldo, correu a elle, e desfolhando-lhe -um ramalhete de amabilidades, trançou-lhe o braço; antes que o moço -tomasse pé na sala, era arrebatado pela quadrilha, a compasso de -galope. -</p> -<p> -Realmente elle não podia escolher melhor. A agitação daquella dansa -rapida, sem pausa; a confusão que os pares creavam de proposito para -augmentar a animação; os risos e gracejos que provocavam os menores -incidentes da quadrilha; todo esse rumor e atropello tinham por tal -fórma sacudido o espirito de Leopoldo, que as idéas e recordações -tristes lhe cahiram, como as folhas seccas de uma arvore, abalada pelo -vento rijo do outono. -</p> -<p> -Sentiu o coração vazio, porém tranquillo; o prazer vivo e -scintillante daquella reunião, apenas roçava-lhe pela superficie; não -penetrava, mas tambem ja não transudavam-lhe do intimo as amarguras de -que nos ultimos dias se tinha saturado. -</p> -<p> -De repente operou-se na perspectiva da sala, uma transformação -inesperada. Amelia entrára; e sua graça diffundiu-se como um influxo -celeste, no meneio de seu talhe elegante, na suavidade de sua voz, na -irradiação de seus olhares. -</p> -<p> -Leopoldo embebeu-se naquella suave apparição, como da primeira vez que -a vira; mas para percorrer em um apice, as phases de seu amor, e cahir -de novo na esmagadora decepção. -</p> -<p> -De repente aquella estatua luminosa escureceu á seus olhos deixando -apenas um residuo negro; esqueleto calcinado que arrastava uma -deformidade. Debalde Amelia se ostentava no fulgor de sua belleza, -toucada pelos primeiros arrebóes do amor; debalde as ondulações de -seu corpo debuxavam fórmas encantadoras, e o sorriso de seus labios -destillava uma fragancia mystica de beijos puros; os olhos de Leopoldo -não viam nenhum desses encantos. Através dos folhos do vestido -roçagante, sua vista fitava-se implacavel no pé monstruoso que lhe -esmagava o coração como a pata grosseira de um animal. -</p> -<p> -Todos os encantos dessa creatura, elle os despia de seu manto seductor, -e dissecava-os com fria rancor. A inflexão voluptuosa do talhe provinha -da resistencia que oppunha ao andar o enorme pé; o passo ligeiro era um -esforço supremo para disfarçar o aleijão; o sorriso gracioso um -enleio para prender os olhos estranhos, não permittindo que elles se -abaixassem até á fimbria do vestido. -</p> -<p> -E por isso mesmo o olhar de Leopoldo, olhar frio, cruel, inexorável, se -tinha cravado na orla da saia elegante, d'onde não havia forças para -arrancal-o. -</p> -<p> -Amelia sentiu esse olhar cruciante, e estremeceu, tomada de um vago -terror. Immediatamente sentou-se, e arranjando as dobras do vestido, -procurou disfarçar. Mas em vão; o olhar do moço continuava fito no -mesmo ponto, e produzia nella uma sensação incommoda. -</p> -<p> -—É D. Amelia, filha de um negociante chamado Salles. Não conhece? -</p> -<p> -Estas palavras foram dirigidas a Leopoldo por D. Clementina, que -sentando-se a seu lado, acompanhou-lhe o olhar fito. -</p> -<p> -—Não, minha senhora. -</p> -<p> -—Então vou apresental-o. -</p> -<p> -—Obrigado, D. Clementina; depois. -</p> -<p> -—Não acha muito galante? -</p> -<p> -Leopoldo hesitou: -</p> -<p> -—Oh! muito!... -</p> -<p> -Viera-lhe nessa occasião o mesmo impeto que sentem de ordinario os -amantes em igual situação: o de criticar e desmerecer nas prendas da -mulher que os faz soffrer. É uma reacção natural do coração. -Leopoldo, porém, julgou indigno de si tal procedimento; tinha o direito -de afastar-se, de fugir com horror dessa mulher, mas não o de -offendel-a. A culpa de amal-a era sua; e não della. -</p> -<p> -Aproveitou um momento de distracção da dona da casa, para tomar o -chapéo, e esquivar-se, sem que o percebessem. -</p> -<p> -Amelia, porém, o viu; seus olhos ficaram por algum tempo presos na -porta por onde acabava o moço de sahir. Quando, passado um instante, -cahiu em si, ficou sorprendida. Que tinha ella com aquelle desconhecido? -</p> -<p> -Ao chegar, vendo o rosto pallido e os olhos profundos, que tão -desagradavel impressão haviam deixado em seu espirito, a moça havia -sentido um máo estar intimo. Vinha com a alma cheia das primeiras -delicias de um amor nascente; com as doces emoções da declaração de -Horacio. A presença de Leopoldo foi um travo. -</p> -<p> -Mas tambem para que viera? Por que não ficara em sua casa esperando -Horacio? -</p> -<p> -Vão lá sondar o coração feminino. Agora que sabia-se amada, a moça -queria gozar de seu triumpho, e vêr humilde e abatido a seus pés o rei -da moda, o soberbo leão. O meio era fazer-se ardentemente desejada, -tornar-se difficil e esquiva, embora lhe custasse o sacrificio dos -momentos agradaveis que podia passar junto de Horacio. -</p> -<p> -A presença de Leopoldo em casa de D. Clementina a incommodára, e -entretanto seu olhar parecia agora sentir a ausencia do mancebo. -</p> -<p> -A principio havia ali uma pessoa de mais; agora faltava alguma cousa. Si -não era um homem; era uma curiosidade, uma emoção. -</p> -<p> -—Amelia! -</p> -<p> -A moça voltou-se para ouvir D. Clementina que a chamava. -</p> -<p> -—Quero apresentar-lhe um moço, que a acha muito bonita. -</p> -<p> -Dizendo estas palavras, a dona da casa corria os olhos pela salla á -busca de alguem. -</p> -<p> -—Não o vejo agora. -</p> -<p> -—Quem é? -</p> -<p> -—O Castro... Conhece?... -</p> -<p> -—Não, senhora. -</p> -<p> -—Querem vêr que já se retirou. -</p> -<p> -Amelia pôde reter o monosyllabo que ia cahir-lhe do labio, confirmando -a supposição da dona da casa. Tinha adivinhado que se tratava do seu -desconhecido. -</p> -<p> -—Então elle me acha bonita? -</p> -<p> -—O Castro?... Muito. Creio que ficou apaixonado! Se visse os olhos -que lhe deitava quando a senhora chegou! -</p> -<p> -—Então foi de paixão que elle fugiu? -</p> -<p> -—Quem sabe? A paixão é como o vinho que em uns dá para rir, e em -outros para chorar. Ha namorados que perseguem, e outros que fogem! -</p> -<p> -Amelia julgou prudente desviar a conversa daquelle assumpto escabroso, -no qual D. Clementina se comprazia, porque lhe recordava sua mocidade -já desvanecida. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="IX">IX</a></h4> - -<p> -Depois d'aquella noite Leopoldo viu Amelia duas ou tres vezes: e de -todas sentiu a mesma impressão que lhe causara a presença da moça em -casa de D. Clementina. -</p> -<p> -Era o mesmo desencanto; a mesma insistencia de seu espirito para -enxergar a formosura da donzella através de um prisma deforme e -caricato. N'essas occasiões elle soffria diante da moça a fascinação -do horrivel, como o poeta soffre muitas vezes a fascinação do bello em -face de um objecto desgracioso. Era então um poeta pelo avesso; um vate -do monstruoso. Tinha na imaginação um gnomo de Victor Hugo: creava -Quasimodos e Gwynplaines do sexo feminino com uma fecundidade espantosa. -</p> -<p> -Quando porém a moça desapparecia de seus olhos, operava-se em seu -espirito completa mutação. Esquecia completamente o aleijão, para só -lembrar a linda e graciosa figura, que poucos momentos antes sua vista -repellia. Amelia ausente vingava Amelia presente. O coração do mancebo -detestava tanto esta, quanto adorava ainda a outra. -</p> -<p> -—Este amor é um inferno; pensava elle; tem um vicio organico. Ha de -viver de dôres e lagrimas; ha de alimentar-se de minhas tristezas. E -assim irá definhando até morrer de consumpção, depois que me tiver -devorado todo o coração. Que importa? Servirei de pasto á este -abutre. O que somos nós afinal de contas? Uma presa; emquanto vivos, a -presa das molestias e das paixões proprias ou alheias; depois de -mortos, a presa dos vermes ou das chammas. -</p> -<p> -Com tal disposição de espirito voltou elle dias depois á casa de D. -Clementina. Nesta noite havia uma pequena partida; Leopoldo contava, -pois, encontrar Amelia. -</p> -<p> -Ali estava com effeito, vestida de escarlate e branco; e adornada com a -sua graça arrebatadora. Quando o moço entrou, ella dansava com as -costas voltadas para a porta e não o viu; porém, momentos depois virou -o rosto como si obedecesse a um impulso extranho, e encontrou o olhar -ardente de Leopoldo. -</p> -<p> -A moça fez insensivelmente um movimento para afastar-se, que entretanto -a aproximou da porta. Aquelle olhar que a attrahia ao mesmo tempo que a -repellia, causou-lhe um desvanecimento misturado de terror. Felizmente -a terceira figura da marca da contradansa começava, e a distrahiu de -sua emoção. -</p> -<p> -Estava ella outra vez parada conversando com o par, quando sentiu um -calafrio; sem vêr, conheceu que o mancebo se aproximava, que seus -labios se abriam para dirigir-lhe a palavra: -</p> -<p> -—Minha senhora, terei a honra de dansar com V. Ex. a seguinte -quadrilha... -</p> -<p> -Continham uma pergunta ou uma asseveração estas palavras? Fôra -impossivel dizel-o. O tom parecia mais affirmativo do que interrogativo, -porem o olhar do mancebo esperava, sinão exigia resposta. -</p> -<p> -A confusão da dansa permittiu á Amelia esquivar-se, sem responder. -Quando, terminada a quadrilha, voltou a seu logar, ficou perplexa. Tinha -ella se compromettido ou não a dansar a seguinte quadrilha com -Leopoldo? Não respondera, é certo; mas recordava-se vagamente de ter -feito uma leve inclinação com a cabeça. Sem duvida o moço vira esse -movimento e o tomára por um signal de assentimento. -</p> -<p> -Quando um de seus innumeros admiradores vinha pedir-lhe a proxima -quadrilha, ella respondia hesitando que já tinha par; apenas o -cavalheiro se afastava arrependia-se de não o ter acceitado, rompendo -assim o compromisso tacito; e ficava anciosa por outro convite. -Entretanto novo par se apresentava, que recebia a mesma recusa. -</p> -<p> -N'esse jôgo, muitas vezes repetido, passou o intervallo. O piano deu o -signal da quadrilha; Leopoldo aproximou-se de Amelia, e se inclinando -sentiu no seu estremecer o braço tepido de Amelia. A moça não teve -consciencia do que se passou até o momento em que o moço a conduziu a -seu logar. Recordava-se apenas de que seu par lhe fallara por muito -tempo, com a voz baixa, porem palpitante de emoção. -</p> -<p> -Assim fôra. Passada a primeira confusão da quadrilha, Leopoldo, -fitando o olhar no semblante da moça, deu expansão aos sentimentos que -lhe tumultuavam dentro d'alma. Com a fronte baixa e as faces cheias de -rubôres, Amelia parecia absorvida e reconcentrada emquanto o moço -fallava. Dir-se-hia que ella não o ouvia. -</p> -<p> -—A senhora acredita, D. Amelia, na attracção irresistivel, que -impelle duas almas entre si, e as chama fatalmente á se unirem e -absorverem uma na outra?... Eu acreditava nessa força mysteriosa, mas -ainda não tinha chegado o momento de experimental-a em mim; de sentir -em meu ser este elo divino que prende as almas, através do tempo e da -materia. Senti-o ha vinte dias, quando a vi pela primeira vez, quando a -senhora se revelou ao meu coração. -</p> -<p> -Leopoldo referiu as emoções que sentira, na occasião de seu primeiro -encontro com Amelia; a impressão que ella deixára em seu espirito; e -os sonhos em que se embalára sua imaginação nos dias seguintes. -</p> -<p> -—Tive então, continuou o mancebo com accento profundo e commovido, -tive então, e depois, a prova de que esse enlevo de meu ser, essa -abstracção de minha existencia para absorver-se n'outra, era a -attracção moral e nada mais. Via, admirava, adorava na senhora uma -cousa sómente; sua alma. Não sabia, ainda hoje não sei, si a mulher -que eu amo é bonita para os outros; sei que para mim é de uma belleza -divina. Perdesse ella a graça e a formosura que aos outros seduz; para -mim seria a mesma; eu havia de adoral-a com o mesmo ardor. Sua alma é -filha de Deus, e como elle de uma magnificencia immortal. É uma -estrella que não tem eclipse. -</p> -<p> -Leopoldo inclinou a fronte para fallar quasi ao ouvido da moça: -</p> -<p> -—Outr'ora julgava impossivel que se amasse o horrivel. Agora -reconheço que tudo é possivel ao amor verdadeiro, ao amor puro e -immaterial. Não só reconheço, mas sinto-me capaz de nutrir uma dessas -paixões martyres! Oh! sinto-me capaz de amar o anjo ainda mesmo encarnado -em um aleijão!... -</p> -<p> -Leopoldo fallou ainda por muito tempo de seu amor a Amelia, sem que ella -se animasse a interrompel-o. Aquella palavra ardente, impetuosa, embora -vendada por certo pudor d'alma, a subjugava: ella não tinha coragem, -nem mesmo vontade de subtrahir-se á sua influencia. -</p> -<p> -Quando Amelia, conduzida por Leopoldo, se dirigia á uma cadeira, D. -Clementina aproximou-se: -</p> -<p> -—Ah! Eu queria apresental-o, disse a Leopoldo; mas não teve paciencia -para esperar. -</p> -<p> -Depois reclinando ao ouvido de Amelia, perguntou-lhe: -</p> -<p> -—Então? Não lhe disse que a achava muito bonita? -</p> -<p> -—Ao contrario, D. Clementina; deu-me a entender que me acha horrivel. -</p> -<p> -—Ande lá. -</p> -<p> -—Deveras! -</p> -<p> -—É impossivel. -</p> -<p> -Amelia, sentando-se, evocou a lembrança de Horacio, para fazer no seu -espirito o parallelo entre o elegante leão e o estranho mancebo com -quem acabava de dansar. Um tinha todas as prendas que seduzem a -imaginação; era formoso, trajava com esmero, conversava com muita -graça. O outro não possuia nenhum desses attractivos; seu exterior -alheiava as sympathias; quando fallava diffundia a tristesa no espirito -dos que o escutavam. -</p> -<p> -A moça não concebia que se preferisse Leopoldo á Horacio; e comtudo -não podia esquivar-se completamente á influencia daquella imagem -pallida, que lhe apparecia no meio dos sonhos mais brilhantes. -</p> -<p> -Muitas vezes, depois de algumas horas agradaveis passadas junto do -leão, quando a moça, recolhida á sua alcova, repassava na memoria os -doces protestos de amor que ainda lhe resoavam ao ouvido, de repente -surgia a lembrança de Leopoldo. Parecia-lhe então que da fronte do -mancebo se desprendia uma sombra para annuviar seus pensamentos -risonhos. -</p> -<p> -Horacio, sabendo onde Amelia passava as noites em que elle não a via, -mostrara desejos de frequentar a casa de D. Clementina; a moça porém -oppôz-se. Duas razões actuaram era seu espirito. -</p> -<p> -Aquella casa servia-lhe de abrigo contra a seducção que exercia em seu -espirito a elegancia de Horacio. Quando sentia-se vencida, fugia para -ali, onde recobrava forças para resistir, e domar completamente o -leão, soberbo de suas conquistas passadas. -</p> -<p> -Era essa uma das razões; a outra era o receio de achar-se em face dos -dois moços, repartida entre a seducção de um e a fascinação do -outro. Presentia que desse conflicto, resultaria alguma cousa, que ella -não podia definir, mas que a enchia de sustos e inquietações. -</p> -<p> -Por isso exigiu de Horacio que não fosse á casa de D. Clementina: -</p> -<p> -—Costumam lá ir algumas dessas pessoas que se occupam em inventar -novidades. Sua apresentação, Sr. Horacio, daria pretexto á algum -romance. -</p> -<p> -—Mas, por que ainda frequenta semelhante casa? -</p> -<p> -—Pedidos... bem sabe; nem sempre uma pessoa se póde recusar. Mas si o -senhor apparecer lá, eu deixarei de ir. -</p> -<p> -—Esteja tranquilla. -</p> -<p> -Amelia continuou a passar de vez em quando uma noite em casa de D. -Clementina. A principio não tinha dia certo, e succedeu por isso que -Leopoldo desencontrou-se della duas vezes. Uma noite porém o moço -perguntou-lhe: -</p> -<p> -—Vem sabbado? -</p> -<p> -—Talvez. -</p> -<p> -Desde então o dia escolhido era o sabbado, a menos que não precedesse -aviso especial da dona da casa, para alguma partida. Nunca mais houve -desencontro; Amelia achava sempre o mancebo no seu posto, defronte da -porta para vêl-a entrar. -</p> -<p> -Em uma dessas noites deu-se um incidente, que é preciso referir. -</p> -<p> -Fallava-se á respeito de uma senhora casada, a quem o marido causava -serios desgostos. Pessoa que sabia das particularidades dessa familia, -explicava o facto á sua maneira. -</p> -<p> -—Ella era muito linda, o marido a adorava; casou-se por paixão. -Poucos dias depois de casada, teve ella uma grave molestia que a reduziu -aquelle estado. Não ha paixão que resista. -</p> -<p> -—Com effeito sabe ser feia! -</p> -<p> -—Ninguem acreditará que foi bonita. -</p> -<p> -—Pois foi uma belleza. -</p> -<p> -Leopoldo, que ouvia calado, interveio: -</p> -<p> -—O marido nunca a amou! -</p> -<p> -—Asseguro-lhe que teve uma paixão louca. -</p> -<p> -—E eu affirmo-lhe que não; que elle nunca teve paixão pela mulher. O -que elle adorava era unicamente a sua belleza, a fórma; isto é, um -accidente. O homem que ama a mulher destinada a ser a companheira de sua -existencia, o complemento de seu ser imperfeito, não despreza essa -mulher, porque a desgraça a feriu no envolucro material de sua alma. -Elle póde soffrer com aquella desgraça; mas deve redobrar de amor e -adoração, para que nem seus olhos vejam o defeito, nem ella, a mulher -amada, se lembre nunca de que o tem para elle, embora o tenha bem claro -para os indifferentes. -</p> -<p> -—É bonito de dizer! acodiu um apreciador das mulheres formosas. -</p> -<p> -—Todos dizem o mesmo, mas fogem das feias, observou uma senhora -idosa, talvez por experiencia propria. -</p> -<p> -—O que eu digo, minha senhora, já o experimentei em mim mesmo; -replicou Leopoldo. -</p> -<p> -—Ah! -</p> -<p> -O mancebo cravou em Amelia um olhar eloquente, e disse com a palavra -lenta e calma: -</p> -<p> -—É verdade; já o experimentei em mim. Por que hei de occultal-o? -Minha alma já passou por esta dura prova, e sahiu triumphante. Hoje sei -que tenho forças para amar até os defeitos da mulher que Deus me -destinou. -</p> -<p> -Amelia perturbou-se com aquellas palavras, e o olhar ardente que parecia -graval-as em sua alma. Nessa noite retirou-se pensativa; e por muito -tempo a figura pallida de Leopoldo, esvoaçou na penumbra de seu leito -de virgem. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="X">X</a></h4> - -<p> -Pela manhã se dissiparam essas nevoas que no espirito de Amelia deixara -a noite antecedente. -</p> -<p> -Era domingo. A moça, envolta em seu roupão alvo, com os cabellos -soltos pelas espaduas, encostou o rosto á vidraça da janella. -Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar perfeitamente a rua, -sem que de fóra vissem o seu gracioso desalinho. -</p> -<p> -Não tardou que se ouvisse um tropel de cavallo. Era o leão que ia dar -seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina, e desenhar-se no vidro -a ponta de uns dedos côr de rosa, Horacio cortejou, enviando um sorriso -á janella. -</p> -<p> -Á noite o moço dirigiu-se á casa do Salles. Amelia o esperava. A sala -estava cheia de visitas. Entrando, o olhar de Horacio encontrou um olhar -terno que o saudava de longe. -</p> -<p> -Mas o sorriso se desfez com a perturbação que de repente sentiu a -moça. A vista do leão tinha descido até o tapete, e se fixara com uma -insistencia visivel na fimbria do vestido, ligeiramente arregaçada. -Horacio julgou que pudesse lobrigar a ponta do pesinho que idolatrava. -</p> -<p> -A moça concertou as dobras da saia de modo a interceptar o olhar -curioso; e disfarçou conversando com uma amiga. -</p> -<p> -Desde principio notara Amelia aquelle sestro de Horacio. Quando ella o -suppunha mais embebido em seus encantos, mais rendido á sua belleza, -sorprendia o olhar do moço a rastejar pelo chão, procurando -insinuar-se por baixo da orla de seu vestido. -</p> -<p> -Muitas vezes ella perdia os seus mais ternos sorrisos, porque o moço, -em vez de procurar lhe no rosto a esperança de ser amado, esquecia-se, -a catar sobre o tapete alguma idéa que não se animava a revelar. Já -tinha succedido, durante que ella tocava, distrahir-se o leão, e com a -attenção presa no pedal, nem ouvir a peça de musica. -</p> -<p> -Horacio a amava sem duvida; já lhe tinha dado provas de que sentia por -ella uma paixão vehemente. Elle, o rei da moda, o festejado -conquistador, para quem todas as portas e todos os corações abriam-se -como a gruta encantada de Aladino, a uma só palavra; elle ali estava -captivo da vontade della, e atado a seu carro triumphal. Que prova mais -eloquente de profundo amor, do que essa submissão espontanea do altivo -leão? -</p> -<p> -A força nunca se revela tanto como na posse de si mesma, no vigor com -que se domina. Hercules, fiando aos pés de Omphale, é o ultimo canto, -o epilogo sublime da epopéa da força humana. Exterminando a féra, a -natureza e até os deuses, Hercules foi grande; abatendo a si mesmo, foi -maior, porque venceu o vencedor. -</p> -<p> -Amelia comprehendia que homenagem eloquente á sua belleza havia -naquella adoração do elegante cavalheiro; sentia-se orgulhosa com esse -amor, que tantas mulheres lhe invejavam; considerava-se rainha, desde -que via a seus pés subjugado e humilde o rei da moda. -</p> -<p> -Mas lá no intimo alguma cousa lhe remordia, quando notava a pertinacia -com que o olhar de Horacio, procurava a fimbria de seu vestido. Nesses -momentos sentia n'alma um alvoroço; chegava a suspeitar que Horacio -não lhe tinha amor, e estava escarnecendo della com uma paixão -fingida. -</p> -<p> -A verdade, porém, é a que sabemos. Horacio tinha paixão louca pelo -pésinho de que só conhecia a botina e o rasto; fazendo a côrte a -Amelia, elle prestava culto ao deus ignoto, que adorava sob aquella -fórma encantadora. Pelo cuidado que tinha a moça em não desconcertar -os babados de seu vestido comprido de mais, conheceu elle o zelo com que -a dona recatava o thesouro. Comtudo não desesperou; o cuidado da moça -havia de adormecer um momento; podia mesmo sobrevir um accidente -inesperado que realizasse a sua mais cara esperança. -</p> -<p> -Até aquella noite todos os esforços se tinham frustrado: á sua -insistencia a moça tinha opposto a pertinacia do capricho feminino. -Quanto mais attento elle estava para aproveitar qualquer descuido, mais -alerta ella ficava para não commetter a minima falta. -</p> -<p> -Horacio porem resolveu dar o golpe; e com essa intenção, fora á casa -de Salles, no domingo em que estamos. -</p> -<p> -Quando se offereceu occasião, travou com Amelia, recostada á janella, -o seguinte dialogo: -</p> -<p> -—Como é bonita! disse elle contemplando a moça com enlevo. -</p> -<p> -—Ainda não tinha percebido? perguntou ella com ironica faceirice. -</p> -<p> -—Não, D. Amelia, não; porque de cada vez a acho mais bonita: todos os -dias a senhora muda a meus olhos; torna-se outra, mais linda, mais -formosa, do que era aquella que eu conhecia anteriormente. Como hoje, -acredite, nunca a vi. -</p> -<p> -—Que tenho eu de mais? -</p> -<p> -—Não sei; tem uma aureola da belleza! Seus olhos desferem raios de -luz tão pura; sua boca sorri como a flôr em botão, que abriu com a -frescura da noite. Os anneis de seus cabellos castanhos parecem -impregnados de um fluido mysterioso, que se derrama em torno. Mas, de -toda a sua formosura ha uma cousa sobretudo que eu admiro, que eu adoro. -Não é, nem seus olhos brilhantes, nem seus labios mimosos, nem seu -talhe elegante, nem suas tranças tão opulentas; não é nada disto! -</p> -<p> -—O que é então? -</p> -<p> -—Para que dizel-o? Para que revelar a minha paixão, a quem della -escarnece? Si eu o confessasse, cessariam o supplicio que tenho -soffrido, as ancias que estou curtindo? Não; haviam de augmentar si -isso fosse possivel. A senhora teria prazer em torturar-me ainda mais. -</p> -<p> -—Explique-se: confesso que não o entendo. Que supplicio tem o senhor -soffrido? -</p> -<p> -—A mulher é caprichosa, muitas vezes faz padecer aquelle que a ama -sinceramente, e só por espirito de contradicção. Uma cousa innocente, -um favor pequenino... permitte aos estranhos e indifferentes, e -entretanto recusa ao homem que morre de paixão por ella. Não é uma -crueldade? A senhora pergunta, D. Amelia, que supplicio tenho eu -soffrido. Este, de ser consumido á fogo lento por um desejo, que um -gesto seu podia tornar em gozo infinito! -</p> -<p> -A moça com as faces incendidas em rubôr, luctava no alvoroço e -confusão, que iam-se apoderando de toda sua pessoa. -</p> -<p> -—Entende agora, D. Amelia? -</p> -<p> -—Não! murmurou tremula. -</p> -<p> -—Pois não percebeu ainda, que ha uma cousa que eu sobretudo amo na -senhora? Tanto percebeu, que fez o proposito de escondel-a a meus olhos, -cançados de a procurarem a cada instante. Não está contente ainda de -vêr-me arrastando assim a alma pelo pó, no vão intento de entrevêr -de longe o objecto de minhas adorações? -</p> -<p> -O leão fitou um olhar fascinador no semblante da moça. -</p> -<p> -—Para que negar, D. Amelia? A senhora o sabe, e finge ignorar para -mais torturar-me. -</p> -<p> -—Eu não! -</p> -<p> -—A senhora sabe por quem deliro de paixão, por quem darei a minha -vida sem hesitar. Si não soubesse, já eu teria visto e admirado esse -pésinho mimoso, que me mata com seu rigor. -</p> -<p> -Uma visita que entrava na sala, deu a Amelia um pretesto para fugir, -disfarçando seu rubôr e perturbação, no afan da recepção das -senhoras que chegavam. -</p> -<p> -Ao retirar-se, Horacio achou ensejo de trocar uma palavra coma moça, -emquanto lhe apertava a mão. -</p> -<p> -—Não seja cruel! -</p> -<p> -—Oh, cruel não sou eu; replicou a moça com expressão de -ressentimento. -</p> -<p> -Mais tarde em sua alcova, emquanto desfazia o penteado, soltando os -lindos anneis do cabello castanho, Amelia recordou-se das palavras -apaixonadas que ouvira de Leopoldo na vespera, e comparou-as com as -queixas de Horacio. A linguagem do primeiro tinha a eloquencia da -paixão; parecia vir do intimo, do mais profundo do coração. A -linguagem do segundo, tinha a graça da seducção; era a vibração -passageira das cordas d'alma. -</p> -<p> -Mas a palavra do leão, vinha envolta em um sorriso gracioso, sombreado -por um bigode fino e elegante! -</p> -<p> -Durante uma semana, Amelia não viu Horacio; por uma razão muito -simples. O moço de arrufado, não appareceu durante dois dias; quando -se resolveu a apparecer, a moça despeitada inventou um incommodo, e -não desceu á sala de visita, pelo dobro do tempo. Si Horacio -sustentasse a lucta, podia haver serio rompimento. -</p> -<p> -O leão, porém, estava domado; tinha achado a sua Diana. No quinto dia -foi humildemente render preito e homenagem á suzerana de seu coração. -Amelia o recebeu, como rainha magnanima; e tratou-o nesse dia com -amabilidade extrema. Pela primeira vez, Horacio pôde beijar-lhe a ponta -dos dedos. -</p> -<p> -Animado com esse acolhimento, o leão arriscou de novo a grande -questão. Fitando o olhar no rosto da moça, e abaixando-o á orla do -vestido, disse em tom supplicante: -</p> -<p> -—Me deixa vêr? -</p> -<p> -—Não; respondeu a moça com vivacidade, e demudando-se. -</p> -<p> -—Quando cessará este capricho? -</p> -<p> -—Nunca. -</p> -<p> -Horacio teve um assomo de impaciencia. -</p> -<p> -—Bem. Não me quer mostrar a mim, Horacio de Almeida, pois ha de -mostral-o a uma pessoa. -</p> -<p> -—A quem? perguntou a moça irritada. -</p> -<p> -—A seu marido. -</p> -<p> -Amelia tornou-se pallida, e sentiu passar-lhe nos olhos uma vertigem; -mas recobrou-se logo á idéa, de que as palavras de Horacio não -passavam de um galanteio. -</p> -<p> -—Si algum dia me casar, replicou ella sorrindo, ha de ser com a -condição de não mostrar. -</p> -<p> -—Havemos de discutir essa condição. -</p> -<p> -—Vamos mudar de conversa? -</p> -<p> -—Como quizer; temos muito tempo para continual-a. -</p> -<p> -Emquanto Amelia o olhava sorpresa, Horacio voltando-se para o grupo das -senhoras, tomou parte na conversação geral. -</p> -<p> -—Já sabem a novidade, minhas senhoras? -</p> -<p> -—Qual dellas? Ha tantas. -</p> -<p> -—A novidade nova, a ultimamente inventada, que eu acabo de receber em -primeira mão, de caminho para aqui. -</p> -<p> -—Algum casamento, aposto. -</p> -<p> -—E eu sei de quem. -</p> -<p> -—Não adivinhou. Talvez que a novidade de amanhã seja algum casamento; -quem sabe? respondeu Horacio, relanceando um olhar para Amelia. Mas a -novidade de hoje, é apenas um baile, um baile de estrondo. -</p> -<p> -—Aonde? -</p> -<p> -—No Cassino? -</p> -<p> -—No Club? -</p> -<p> -—Em casa do Azevedo. -</p> -<p> -—É verdade! Eu já tinha ouvido dizer! -</p> -<p> -—Quer a senhora fazer de velha a minha novidade. O que se dizia era -que o Azevedo tinha tenção de dar um baile, mas disso á realisação vai -uma grande distancia. Eu desejo muita cousa que não alcanço, e nem ao -menos posso vêr. Foi hoje e ao jantar que resolveu-se a grande -questão, por occasião de uma saude. Um amigo que vinha de lá, -encontrando-me a dois passos daqui, me deu a noticia do grande -acontecimento. Portanto, minhas senhoras, preparem-se! -</p> -<p> -—Quando é o dia? -</p> -<p> -—No primeiro do mez proximo. Ponham desde já em contribuição as -lojas e modistas; eu o que posso é offerecer-me com muito gosto para -admiral-as a todas, e achar a cada uma de per si, mais elegante do que -as outras juntas. Si Páris me tivesse ouvido, não haveria guerra de -Troia. -</p> -<p> -—Nem Homero por conseguinte: replicou um litterato. -</p> -<p> -—Homeros sempre os ha. Quando não encontram os heroes já feitos, -inventam-n'os, e com tal habilidade, que esses grandes homens postiços, -parecem verdadeiros, como os dentes de osana, e os coques das moças. O -mesmo succede com os Anacreontes, cuja raça é muito maior; quando não -acham nymphas para cantar, qualquer bruxa lhes serve de pretexto ou de -cabide para pendurarem a lyra. -</p> -<p> -Amelia ficara triste e preocupada; escutava a palavra voluvel do moço, -com um sentimento indefinivel de angustia; parecia-lhe que era seu amor -por ella, que Horacio rasgava aos pedacinhos, como uma pagina querida, -abandonando-os ao sopro do vento, ao capricho daquella conversa. -</p> -<p> -Uma amiga reparando na tristeza da filha de Salles, e no olhar que em -certa occasião lhe deitara Horacio; disse ao ouvido da moça sentada á -seu lado: -</p> -<p> -—Amelia ficou lograda! -</p> -<p> -—Como? -</p> -<p> -—Creio que Horacio está justo com outra. -</p> -<p> -—Quem lhe disse? -</p> -<p> -—A tristeza de Amelia, e o olhar que o sujeito lhe deitou, quando -fallava de um casamento que se ha de saber-amanhã. -</p> -<p> -—É verdade. Com quem será? -</p> -<p> -—Naturalmente com alguma fazendeira de mil contos. Depois que sahirem -da igreja, o marido leva-a para o collegio do Hitchings; e deixa-a lá -como pensionista, emquanto elle vai a Pariz aperfeiçoar-se na <i>escola -dos maridos</i>. -</p> -<p> -Esta senhora é uma satira viva; sua conversa parece um fogo de -artificio; dir-se-hia que o seu gracioso trajo é todo composto de -alfinetes, que ella vai deixando em sua passagem envoltos em sorrisos -assucarados, como confeitos do carnaval. -</p> -<p> -Occulto seu nome porque é muito conhecida na boa sociedade do Rio de -Janeiro, e não quero compromettel-a com os noivos presentes e futuros -das fazendeiras ricas. -</p> -<p> -Depois de ter durante alguns instantes ainda polvilhado a conversa com -sua palavra elegante e chistosa, Horacio tomou o chapéo e retirou-se. -Não eram nove horas; esta circumstancia mais entristeceu Amelia, e mais -excitou a attenção da moça maliciosa. -</p> -<p> -Á porta da casa de Salles, encontrou Horacio seu tilbure. Mandou o -cocheiro esperal-o no largo do Machado, e elle, tendo acendido o charuto -e vestido o sobretudo, seguiu a pé. Queria pensar. -</p> -<p> -Horacio pertencia á escola daquelles que entendem, que nunca é tarde -para arrepender-se o homem de um compromisso. Elle comprehendia o <i>jacta -est alea</i> por esta fórma prudente e rasoavel. Cezar, tendo lançado a -ponte sobre a Rubicon, via de longe em Roma a dictadura, e mais tarde a -purpura imperial; portanto fez elle muito bem em passar, sobretudo desde -que o rio já não oppunha obstaculo. Mas se em vez do poder, Cesar -encontrasse no caminho a derrota; a ponte lançada lhe serviria para -voltar ás Gallias, e elle teria o cuidado de queimal-a depois que -tornasse a passar. -</p> -<p> -Como Cesar, elle tinha lançado a ponte com aquella palavra dita a -Amelia, em um momento de despeito. Devia porém passar o Rubicon do -casamento? -</p> -<p> -Era sobre tão importante questão que o leão queria reflectir, fazendo -a pé o trajecto entre Larangeiras e largo do Machado. -</p> -<p> -—O casamento é o supplicio de Prometheu, pensava elle; um homem atado -ao rochedo da familia, com o coração devorado pelo tedio; uma creatura -dividida em duas metades, que se contrariam á cada instante, porque -estão ligadas. Em vez do romance, do idilio, do drama, a prosa monotona -de uma historia que se lê todos os dias. Esse prazer incomparavel de -sentir-se todo dentro de si, de resumir-se no seu unico eu, de dispôr -livremente de sua pessoa e vida, não o tem o marido a menos que seja um -biltre. O casamento dilata a superficie da alma; em vez de soffrer-se no -seu coração apenas, soffre-se na mulher, no filho, e em cada um dos -fios dessa grande teia humana que se chama familia. -</p> -<p> -Horacio recordou-se de alguns de seus amigos que haviam casado, e achou -nessas reminiscencias a prova de sua opinião. -</p> -<p> -—O casamento é tudo isso, mas que importa, desde que não ha outro -meio de realisar o meu desejo e satisfazer esta paixão ardente e -impetuosa? Daria a vida inteira, e sem hesitar pela felicidade que eu -sonho. Pois si eu a daria de uma vez, por que não a emprestarei sob -hypotheca? -</p> -<p> -Tendo chegado ao largo do Machado, o moço, entrou no tilbure, que o -conduziu á casa. -</p> -<p> -Ahi, contemplando a mimosa botina, guardada como uma reliquia, encheu-se -cada vez mais da resolução que havia tomado. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XI">XI</a></h4> - -<p> -Eram onze horas da manhã. -</p> -<p> -Amelia estudava ao piano os exercicios de Hertz. As janellas cerradas -deixavam entrar frouxa claridade, coada pela cassa transparente das -cortinas. -</p> -<p> -Nesse crepusculo artificial, a belleza da moça tomava uns tons suaves e -meigos, que mais seduziam. -</p> -<p> -Os lindos cabellos ainda humidos do banho, cobriam-lhe as espaduas de -uma tunica de veludo castanho. O bajó de cassa que trazia no seu -desalinho matutino, conchegado á cutis, coloria-se com os reflexos -rosados do collo mimoso. -</p> -<p> -Tanta graça e formosura, realçadas pela singelleza do trajo e pela -naturalidade da posição, ficavam ali occultas na doce penumbra da -sala, recatadas á admiração. As duas horas Amelia costumava subir á -sua alcova para se pentear; e o gracioso desalinho despparecia, -substituido por um trajo mais apurado e elegante. Era a flôr singella -que o vento desfolha na mata, e passa ephemera e desconhecida. -</p> -<p> -Tantas moças despendem um avultado cabedal de sorrisos, de olhares e -gestos, e põem em contribuição a sêda, a renda e a moda para -realçarem sua formosura! Mal sabem, entretanto, que nunca são ellas -tão bonitas e feiticeiras como em certo momento de seductora -negligencia, quando parece que a belleza desabrocha de seu gracioso -botão. -</p> -<p> -A porta da sala abriu-se, e deu entrada ao Sr. Salles Pereira. -</p> -<p> -O aspecto do negociante era grave; mas da gravidade serena que annuncia -uma preocupação agradavel. Trazia na mão uma carta aberta. -</p> -<p> -Amelia assustou-se vendo entrar na sala o pai, que ella suppunha na -cidade. Como todos os negociantes, o Sr. Salles Pereira passava a manhã -em seu escriptorio; partia logo depois do almoço e só voltava á hora -do jantar. A sorpreza da moça era pois natural. -</p> -<p> -—Ah! papai! exclamara ella, voltando-se ao rumor da porta. Já veiu do -escriptorio? -</p> -<p> -—Ainda não fui; respondeu Salles Pereira sorrindo. Recebi uma carta, -que me obrigou a demorar-me até agora para conversar com tua mãi e... -comtigo, a quem o objecto mais interessa. -</p> -<p> -—A mim? O que será, papai? Algum convite de baile? -</p> -<p> -—Lê; disse o negociante apresentando-lhe a carta. -</p> -<p> -Amelia correu os olhos pelo papel, e seu rosto cobriu-se de vivos -rubôres. O coração palpitava-lhe com tanta força que debuchava no -linho o contorno dos lindos seios. -</p> -<p> -A carta era de Horacio, que pedia ao negociante a mão da filha. -</p> -<p> -Acabando de a lêr, a moça de olhos baixos e corpo tremulo, parecia -vendar-se com sua innocencia para subtrahir-se ao olhar terno e curioso -de seu pai. Nesse momento ella desejava, si possivel fosse, esconder-se -dentro de si mesma. -</p> -<p> -—Que devo eu responder, Amelia? perguntou o negociante. -</p> -<p> -—O que papai quizer! balbuciou a menina. -</p> -<p> -—Estás bem certa de que meu desejo é o teu? Si eu não acceitar a -honra que nos quer fazer o Sr. Horacio de Almeida? -</p> -<p> -As palpebras da moça ergueram-se, desvendando seus olhos limpidos. -</p> -<p> -—Papai não acha bom? -</p> -<p> -—Si elle te for indifferente, eu por mim não tenho grande empenho. É -um excellente moço; tem alguma cousa de seu; mas anda em certa roda que -não me agrada. -</p> -<p> -—Que roda papai? -</p> -<p> -—De moços da moda. -</p> -<p> -—Porque é solteiro. -</p> -<p> -—Então o que decides? -</p> -<p> -—Desde que papai e mamãi desejam, eu.... -</p> -<p> -—Nós não desejamos cousa alguma; queremos saber tua vontade. -</p> -<p> -Amelia emmudeceu. -</p> -<p> -—Bem, já vejo que não é de teu gôsto. Vou responder ao homem com um -<i>não</i>. -</p> -<p> -Salles Pereira encaminhou-se para a porta: -</p> -<p> -—Mas, papai!.... murmurou a moça. -</p> -<p> -—Que temos?... Falla, que já me demorei muito. Quasi meio dia! -</p> -<p> -—Vai responder já? -</p> -<p> -—Já. -</p> -<p> -—Deixe para amanhã. -</p> -<p> -—Nada; são cousas que se decidem logo. -</p> -<p> -—O que vai responder então? -</p> -<p> -—Que não. -</p> -<p> -—Mas eu não disse isto! -</p> -<p> -—Tu nada disseste. -</p> -<p> -—Pois si eu não gostasse diria logo. -</p> -<p> -—Ah! neste caso gostou? -</p> -<p> -Amelia sorrindo acenou com a cabeça. -</p> -<p> -—Não entendo esta linguagem. Vamos a saber. Amas á Horacio? -</p> -<p> -A moça fez um supremo esforço: -</p> -<p> -—Amo! disse ella escondendo o rosto no seio do pai. -</p> -<p> -O negociante beijou-a na fronte com ternura e carinho. -</p> -<p> -—Ah! minha sonsa, não queria confessar o que tinha aqui dentro deste -coraçãozinho! E eu que pensava que elle só queria bem a mim? -</p> -<p> -—Oh! papai! -</p> -<p> -—Bem, bem, não tenho ciumes! Vai consolar tua mãi, que eu vou -responder ao homem mais feliz deste Rio de Janeiro. -</p> -<p> -O negociante voltou ao gabinete; e Amelia dirigiu-se ao interior. Sua -mãi estava no quarto, com os olhos ainda humidos de lagrimas. Quem não -conhece essas lagrimas abençoadas, que a mãi derrama pelos filhos; e -que são balsamos para as afflicções, e orvalhos para as flôres da -ventura? -</p> -<p> -D. Leonor beijou a filha e estreitou-a ao seio como receiosa de que lh'a -arrancassem dos braços. Seu coração ora alegrava-se com a felicidade -proxima da moça, ora se entristecia com a lembrança da separação. -</p> -<p> -De repente Amelia sobresaltou-se com uma idéa que lhe acudiu; e -deixando a mãi, correu ao gabinete do negociante. Achou-o sentado á -escrevaninha, passando por cima da carta que terminara um rolete de -mata-borrão. -</p> -<p> -O pai sorriu vendo entrar a filha. -</p> -<p> -—Curiosa! -</p> -<p> -—Já acabou? disse a moça recostando-se com gentileza á poltrona. -</p> -<p> -—Vê si está de teu gosto; disse o Salles cingindo-lhe a cintura com o -braço. -</p> -<p> -Amelia leu a carta rapidamente; ella já sabia de antemão que faltava -alguma cousa. -</p> -<p> -—Então, que tal? perguntou o negociante com certo desvanecimento. -</p> -<p> -—Está muito boa papai. Só acho uma cousa? -</p> -<p> -—O que? -</p> -<p> -O negociante soffreu uma decepção. Pensava ter feito uma obra prima -com aquella carta, escripta em seu mais bello estylo commercial, mas -recheada de alguns rasgos sentimentaes. -</p> -<p> -—Não acha, papai, que elle ficará todo cheio de si, obtendo logo, -assim com tanta facilidade, o que deseja? A carta é de hoje; responder -no mesmo dia.... mostra muita vontade de mais. -</p> -<p> -—Que mal ha nisso? Para que deixal-o na duvida, quando pódes tornal-o -feliz desde já. -</p> -<p> -—Papai pensa que elle duvida? -</p> -<p> -—Ah! Já sabe então! Muito bem! -</p> -<p> -—Eu não lhe disse nada, papai. -</p> -<p> -—Então como sabe elle? Adivinhou? -</p> -<p> -—Não adivinhou nada. Papai bem sabe como são esses senhores da moda; -cuidam que todas as moças andam morrendo por elles, e que a dificuldade -está sómente em escolher. Como eu não quero que o Sr. Horacio me -julgue uma de suas conquistas, estou resolvida, papai, á pensar bem -durante quinze dias, antes de dar a resposta. -</p> -<p> -—Portanto esta carta não serve; disse o Salles com um suspiro. -</p> -<p> -—Ha de servir, mas daqui a quinze dias. Agora papai deve dizer -unicamente, que, tendo me consultado, eu pedi algum tempo para dar a -resposta. -</p> -<p> -O negociante escreveu, e Amelia esperou até que partiu a carta, -confiada a um creado. -</p> -<p> -Momentos depois, Salles sahia para a cidade; e Amelia entrava em sua -alcova, descantando trechos de arias e romances. Não se podia dizer que -estivesse alegre, apezar do tom garrido com que modulava, e do fresco -riso que trinava em seus labios. -</p> -<p> -O que ella sentia era um alvoroço intimo, uma soffrega agitação, -estado indefinivel d'alma prurida por mil desejos, e contida por mil -receios. -</p> -<p> -Vejamos si é possivel descobrir o que passava ali, dentro daquelle seio -mimoso. -</p> -<p> -Desvanecida a primeira commoção, produzida pela carta de Horacio, -Amelia recordara-se do que tinha occorrido na vespera, e sobretudo das -palavras proferidas pelo moço. Sua vaidade revoltou-se como era -natural. -</p> -<p> -—Hei de mostrar-lhe que não basta querer, para ser meu marido; e que -não basta ser meu marido para vêr... -</p> -<p> -Foi então que se dirigiu ao gabinete do pai, e adiou a resposta -definitiva. Voltando, sentiu lá n'um cantinho do coração uns receios -que estavam nascendo. Não fosse Horacio zangar-se com a demora, e -retirar o pedido? Quinze dias talvez fossem de mais. -</p> -<p> -Eis qual era o estado do animo de Amelia. Orgulho de vêr subjugado á -seus pés o rei da moda; prazer de o ter captivo de uma palavra sua -durante muitos dias; arrependimento do que fizera; susto do que podia -acontecer; goso da ventura que sorria; taes foram os sentimentos -desencontrados que vibraram na alma da moça. -</p> -<p> -Nessa tarde Amelia preparou-se com maior esmero do que si fosse a um -baile. Seu adorno simples, um modesto vestido branco com fitas azues, -tomou-lhe mais tempo, do que não levaria a compôr um trajo sumptuoso. -</p> -<p> -Ella esperava Horacio. -</p> -<p> -Toda a noite passou indo do sofá á janella, e da janella ao consólo, -onde estava a pendula de alabastro. -</p> -<p> -As horas se escoaram, sem que o tilbure do moço parasse á porta do -negociante. -</p> -<p> -No dia seguinte, Amelia perguntou ao criado, si a carta fôra entregue a -Horacio: -</p> -<p> -—Entreguei em mão, quando entrava no tilbure. -</p> -<p> -—E que disse elle? -</p> -<p> -—Nada; leu e riu-se. -</p> -<p> -—Ah! elle riu-se; murmurou Amelia comsigo. Pois eu lhe mostrarei. -</p> -<p> -Desde então, empenhada sua vaidade, os sustos se desvanecêram. Estava -decidida a não ceder. Horacio depois de vencido tentava ainda -resistir-lhe? Pois havia de subjugal-o completamente. -</p> -<p> -Á noite foi á casa de D. Clementina, onde estava reunida a roda do -costume. Leopoldo ali se achava tambem, e comprimentou-a com um modo -triste e resignado. -</p> -<p> -Deve existir uma corrente magnetica entre os homens, um fluido que serve -de vehiculo ao pensamento recondito e ainda não divulgado. Não se -explicam de outro modo certas revelações de um facto sómente -conhecido de poucas pessoas e por estas recatado. A emoção, que -desperta esse facto n'alma de alguns, repercute n'alma de outros, e -produz uma especie de intuição. -</p> -<p> -Na casa de D. Clementina, sabia-se já que Amelia fôra pedida em -casamento; embora se ignorasse o nome do pretendente, talvez por não -ser conhecido das pessoas presentes. Salles Pereira, a mulher e a filha -não tinham dito a menor palavra sobre o objecto da carta de Horacio; -mas a impressão produzida por essa carta, a precocupação que deixára -nas pessoas da familia, as conversas intimas e recatadas, não -escapáram aos escravos. -</p> -<p> -D'ahi gerou-se o boato, que já tinha passado á casa de D. Clementina. -</p> -<p> -—Ah! chegou a Amelia Salles. Sabia que vai casar-se? Já foi pedida; -disse uma senhora a Leopoldo. -</p> -<p> -—Não, senhora, não sabia; respondeu o moço com magoa, mas sem -perturbar-se. -</p> -<p> -—Com quem? perguntou outra moça. -</p> -<p> -—Com um moço bonito e rico. Disseram-me o nome, mas já não me -lembro. -</p> -<p> -Nisso Amelia entrou na sala, onde foi muito festejada pelas amigas e -conhecidas. -</p> -<p> -As allusões e gracejos a respeito do segredo incommodaram a moça, -embora por outro lado lhe causassem certo desvanecimento. -</p> -<p> -Pelo meio da noite, Leopoldo aproximou-se de Amelia para lhe pedir uma -contradança. Tinham dansado a primeira marca sem trocar palavra: afinal -o mancebo rompeu o silencio: -</p> -<p> -—É verdade que foi pedida em casamento? -</p> -<p> -Amelia empallideceu; quiz disfarçar illudindo a pergunta, mas encontrou -o olhar de Leopoldo, olhar tão doce e sincero, que não se animou a -enganal-o. -</p> -<p> -—É verdade; murmurou em voz quasi imperceptivel. Mas ainda não -respondi. -</p> -<p> -—Estimo que seja muito feliz. -</p> -<p> -—Obrigada. -</p> -<p> -Amelia ficou sorpresa; ella suppunha que Leopoldo tinha-lhe ardente -paixão; e que portanto sentiria profundo pezar, sinão desespero, com a -noticia de seu casamento. Em vez disso, o mancebo mostrava uma -resignação serena. -</p> -<p> -—Quando comecei a amal-a, D. Amelia, disse Leopoldo depois de alguns -instantes, acreditei na felicidade, e esperei alcançal-a neste mundo. -Minha alma pressentiu a aproximação da irmã que Deus lhe destinara, e -cuidou attrahil-a e embebel-a em seu seio. Mas essa illusão se -desvaneceu logo. Soube qual era sua posição, e comprehendi que a -senhora não me podia pertencer. Resignei-me, pois, a amar unicamente -sua alma; essa ninguem me póde roubar, nem mesmo a senhora, porque Deus -a fez para mim. Eu estava desde muito preparado para a noticia de seu -casamento; ella não me sorprendeu, embora me entristecesse. Até agora -adorei sua alma, como se adora a imagem da Virgem no templo; de agora em -diante terei de adorar essa alma querida, como se adora uma santa no -sepulchro. -</p> -<p> -Leopoldo fallou por algum tempo ainda, e a moça, que a principio se -acanhara com a expansão viva desse amor tão puro, bebia as palavras -ardentes do mancebo, como fluido que derramava em sua alma suave calor. -</p> -<p> -Nessa noite, ao recolher-se, ia absorvida neste pensamento: -</p> -<p> -—Por que julgou elle impossivel que eu o amasse? sem duvida não o -amo; mas talvez... Si eu não conhecesse Horacio... Quem sabe? -</p> -<p> -Nisto lembrou-se que já se tinham passado dois dias depois do pedido, e -portanto faltavam treze para a decisão. -</p> -<p> -—Si elle não vier antes disso?... Si não vier... respondo que não. -Está decidido. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XII">XII</a></h4> - -<p> -Corrêram os dias sem que Horacio apparecesse em casa do Salles Pereira. -Amelia, apezar de seu esforço, não podia conter a impaciencia. Ella -adivinhava que o leão estava despeitado com a resposta, e queria -obriga-la á conceder-lhe immediatamente o que pedira; a sua mão, e com -a mão o pesinho que elle adorava. -</p> -<p> -Por vezes a moça foi até á porta do gabinete do pai, na intenção de -diser-lhe que escrevesse á Horacio enviando-lhe o consentimento. Mas -voltava envergonhada de sua fraqueza: enxugava algumas lagrimas que lhe -saltavam dos olhos; e fazia novos protestos de não ceder. -</p> -<p> -Nestas occaziões ella contemplava a imagem de Horacio com alguma -severidade. Lembrava-se da volubilidade com que elle fallava-lhe de seu -amor; do sorriso sempre faceiro que tinha nos labios e servia para -vestir a palavra alegre ou triste, zombeteira ou commovida; e finalmente -da insistencia que mostrava em vêr-lhe o pé. -</p> -<p> -Então acodia a Amelia uma circumstancia que á principio lhe escapára; -fôra sua recusa á impertinencia do leão, que o obrigára á pedi-la -em casamento no dia seguinte. -</p> -<p> -—Será apenas um capricho? Não me terá elle verdadeiro amor?... Si -não me engano, o que elle ama em mim, não sou eu, mas uma mulher que -imaginou; sirvo-lhe apenas de pretexto, como tantas outras antes de mim. -</p> -<p> -O resultado destas observações era protestar a moça que daria um não -ao pedido de Horacio. Mas quando seu pai lhe perguntava sorrindo: -</p> -<p> -—Ainda não? -</p> -<p> -Ella corava, abanava a cabeça, e fugia, disendo comsigo que ainda -faltavam alguns dias para o prazo marcado. -</p> -<p> -Para occupar as noites e distrahir o espirito dessa constante -preoccupação amiudou as visitas á casa de D. Clementina. Ali com a -influição do olhar profundo e da palavra eloquente de Leopoldo, -esquecia as contrariedades e inquietações. Na volta trazia algumas -dôces reminiscencias, e sobretudo um certo arroubo do coração, que -durava algum tempo, e a preservava de suas anteriores preoccupações. -</p> -<p> -Ja haviam passado doze dias depois da carta, e Amelia estava mais que -nunca resolvida á romper com Horacio, quando se deu entre ambos um -encontro. -</p> -<p> -Foi no theatro. -</p> -<p> -Amelia que á principio evitou as occasiões de encontrar-se com -Horacio, lembrou-se que sua presença podia provocal-o; e obteve do pai -que a levasse ao espectaculo. Subindo a escada do Theatro Lyrico, -avistou Horacio que vinha do lado opposto. -</p> -<p> -Apezar de estar prevenida a moça teve um sobresalto; mas pôde -recobrar-se antes que o leão se apercebesse de sua presença. Foi com -fria altivez e indifferença que ella correspondeu ao comprimento de -Horacio, sem demorar o passo em quanto elle trocava um aperto de mão -com o Salles Pereira. -</p> -<p> -Esta indifferença porém, e sobre tudo o gesto que Amelia fez para -arregaçar o vestido, quando subia o segundo lanço de escadas, ataram -de novo o leão ao jugo. -</p> -<p> -—Desta vez, pensou elle, si eu estivesse adiante via ao menos a ponta -do meu pésinho! -</p> -<p> -Teria Amelia simulado aquelle gesto de proposito? É natural; ella -queria subjugar outra vez o captivo que lhe escapara; usava de todos os -seus recursos. -</p> -<p> -Vencido, o moço acompanhou a familia até á porta do camarote, e -demorou-se ahi á conversar com o negociante. Entretanto Amelia, sem -dar-lhe a minima attenção, percorria com o binoculo os camarotes -trocando com a mãi observações a respeito das moças e seus lindos -adereços. -</p> -<p> -Durante o resto da noite, a moça mostrou a mesma calculada -indifferença, á ponto de irritar o mancebo. Apezar de se ter rendido, -sentiu elle um impeto de revolta, e deixou sua cadeira junto á -orchestra com intenção de visitar um camarote fronteiro ao do Salles -Pereira. Lá estava uma linda moça de seu conhecimento; uma das -estrellas de sua coroa de rei da moda. -</p> -<p> -Sentar-se-hia junto della, e estabeleceria um dialogo entretecido de -sorrisos, de olhares e meias confidencias como por ahi se dão tantos -nos bailes e espectaculos: verdadeira scena mimica de amor representada -perante o publico. Com esse entretenimento, Horacio comprometteria -seriamente a reputação de uma senhora; mas vingar-se-hia de Amelia, -excitando-lhe ciumes. -</p> -<p> -Chegava já o leão á porta do camarote quando occorreu-lhe este -pensamento. -</p> -<p> -Faltava apenas um acto para terminar o espectaculo; si elle mostrasse -afastamento, Amelia irritada persistiria em seu desdem durante o resto -da noite; e quem sabe que resolução tomaria sob a influencia desse -despeito? -</p> -<p> -Horacio teve medo e recuou. Já se tinha submettido no começo da noite, -o melhor expediente era perseverar. Naturalmente Amelia, no fim do -espectaculo, abrandaria o seu rigor. -</p> -<p> -Começára o acto. Horacio deixou passar algum tempo, e dirigiu-se ao -camarote de Amelia. A moça que já tinha reparado na ausencia do leão, -cuja cadeira estava desoccupada, adivinhou-lhe a presença, ouvindo -abrir-se a porta. Seu primeiro movimento foi voltar o rosto; mas -reprimiu-se a tempo, e disfarçou dirigindo o binoculo para o fundo da -sala. -</p> -<p> -Apegar do imperio que tinha sobre si, Amelia estava ao cabo das forças. -Si naquelle momento Horacio fingisse uma retirada, ella não resistiria. -Felizmente o leão não se lembrava disso; tinha resolvido esperar a -sahida para trocar algumas palavras com a moça. -</p> -<p> -Terminou o espectaculo afinal. Horacio offereceu o braço a Amelia: -</p> -<p> -—Muito lhe offendi com meu pedido, D. Amelia? -</p> -<p> -A moça calou-se. -</p> -<p> -—Não lhe mereço nem uma palavra! -</p> -<p> -—Parece que o senhor lhe dá bem pouco apreço. -</p> -<p> -—Que injustiça! -</p> -<p> -—Quem passou tantos dias sem ella, póde bem esperar ainda os dous que -faltam. -</p> -<p> -—Então sou eu o culpado dessa demora! Quem me condemnou a ella? -</p> -<p> -—E o senhor nem ao menos procurou abrevial-a: achou mais commodo -esperar tranquillamente? Pois continue á esperar. -</p> -<p> -—Mas, D. Amelia! Depois da resposta de seu pai, si eu me apresentasse -em sua casa, tornar-me-hia importuno. Cuida que não soffri, passando -tantos dias sem vêl-a? Ingrata! Quantas vezes não podendo resistir fui -até á porta de sua casa, e passei, impellido pelo receio de indispol-a -contra mim? Si ella me amasse, pensava eu, teria acceitado logo: não o -fez; quer refflectir; devo deixal-a tranquilla, e respeitar a sua -resolução. Que vou eu lá fazer? Obrigal-a á me aborrecer. -</p> -<p> -Horacio mentia; elle se ausentara da casa do Salles Pereira, sómente -para vencer a resistencia da moça por uma simulada indifferença. -</p> -<p> -O carro do negociante aproximou-se: -</p> -<p> -—Vai sem me deixar uma esperança? -</p> -<p> -—Não é aqui o logar de pedil-a. -</p> -<p> -—Então amanhã? -</p> -<p> -—Si quizer! -</p> -<p> -No dia seguinte á noite o leão estava em casa do negociante. Amelia o -recebera com um resto de resentimento, que se desfez com os primeiros -galanteios. Succedeu o que era natural; depois de uma abstinencia de -tantos dias, esses corações tinham sede de ternura, e beberam um no -outro á largos sorvos. -</p> -<p> -Quando o leão se retirou, elle sabia que dois dias depois receberia -officialmente, por uma carta do negociante, o sim que ouvira naquella -noite entre um sorriso e um rubor. -</p> -<p> -Quanto á Amelia, depois que a auzencia do moço rompeu o encanto, e -deixou-lhe unicamente a consciencia do compromisso tomado, lembrou-se -involuntariamente de Leopoldo, cuja imagem pallida e triste, desenhou-se -em sua imaginação. -</p> -<p> -—Elle ha de soffrer muito! pensou a moça suspirando. -</p> -<p> -No dia seguinte havia reunião em casa de D. Clementina. Amelia -recordou-se disso, e fez tenção de ir. Naquelle momento julgou-se -obrigada á communicar sua ultima resolução á Leopoldo. Pareceu-lhe -que seria uma deslealdade deixal-o na ignorancia de seu casamento, até -que viesse á sabel-o por algum estranho. -</p> -<p> -Mais tarde surgiram os escrupulos. Tendo acceitado a mão de Horacio, -não era bonito animar uma affeição, que deixava de ser innocente. -Embora nunca retribuisse a paixão de Leopoldo, podiam suppôr que não -a repellia. Demais sendo natural que Horacio fosse passar a noite em sua -casa, ella procederia muito mal, trocando sua companhia pela de um -rival. -</p> -<p> -Emquanto as horas do dia se escoavam, estas e outras razões disputavam -no espirito da moça a decisão que ella devia tomar. Afinal interveiu o -coração! -</p> -<p> -—Tenho pena delle! -</p> -<p> -E ás oito horas estava em casa de D. Clementina. Nessa noite a moça, -cujo espirito jovial sympathisava com as côres frescas e risonhas, -escolheu um vestuario sombrio. Era uma faceirice melancolica. Aquella -menina de 18 annos, que na vespera, muito espontaneamente se promettera -á um homem elegante de seu gosto e escolha, afigurava-se agora uma -victimado dever, sacrificando-se heroicamente ao compromisso contrahido. -</p> -<p> -Essa convicção dominava Amelia ao entrar na sala, e ressumbrava não -só nas fitas pretas de seu trajo, como na languida flexão da fronte, -e no olhar cheio de magoas. Ella se julgava sinceramente coagida por uma -força irresistivel, que a arrancava á um amor profundo e santo, como a -flôr que o vento arrebata ao tronco onde se enlaçara. -</p> -<p> -Leopoldo comprehendeu a melancolia de Amelia, e adivinhou que essa -mulher estava perdida para elle no mundo; mas que sua essencia divina -lhe pertencia, para todo o sempre. Sentiu pois a magoa da saudade, que -precede a longa ausencia. Quando se tornariam a encontrar as duas -metades dessa alma, separadas por uma contingencia da materia? -</p> -<p> -Pela noite adiante Leopoldo aproximou-se de Amelia, porem só lhe fallou -de cousas indifferentes, ao contrario do que ella esperava. Si o moço a -interrogasse á respeito do casamento, aproveitaria o momento para -confessar-lhe; mas elle nem de leve tocou nesse ponto. -</p> -<p> -Na occasião de se despedirem a moça fez um esforço. -</p> -<p> -—Já sabe? perguntou com voz tremula e quasi imperceptivel. -</p> -<p> -—Adivinhei! disse o mancebo fitando nella os olhos tristes. -</p> -<p> -Amelia ficou um instante indecisa, em face delle, como si esperasse mais -alguma palavra; Leopoldo dissera tudo naquelle olhar, em que diffundira -sua alma. -</p> -<p> -—Adeus! murmurou a moça afinal. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XIII">XIII</a></h4> - -<p> -A casa nobre de Azevedo resplandecia. A melhor sociedade da côrte -concorrêra ao sumptuoso baile. -</p> -<p> -Toda aristocracia, a belleza, o talento, a riqueza, a posição e até a -decrepita fidalguia, estavam dignamente representadas nas ricas e vastas -salas, adereçadas com luxo e elegancia; duas cousas que nem sempre se -encontram reunidas. -</p> -<p> -Eram nove horas. Ainda o baile não começara; e notava-se na reunião a -gravidade solemne, o grande ar de ceremonia, que serve de prologo ás -festas esplendidas. Os cavalheiros percorriam lentamente as salas, -observando o iris deslumbrante que formavam os lindos vestidos das -senhoras; mas admirando especialmente as estrellas que brilhavam nessa -via lactea. -</p> -<p> -Amelia acabava de sentar-se. -</p> -<p> -Horacio foi logo saudal-a, e comprimentou-a pelo bom gôsto e delicadeza -de seu trajo. -</p> -<p> -Realmente não se podia imaginar um adorno mais gracioso. O vestido era -de escomilha rubescente, formando regaços onde brilhavam aljofares de -crystal: nos cabellos castanhos trazia uma grinalda de pequenos botões -de rosa, borrifados de gôttas de orvalho. -</p> -<p> -Um poeta diria que a moça tinha cortado seu trajo das finas gazas da -manhã; ou que a aurora vestindo as nevoas rosadas, descera do céo para -disputar as admirações da noite. -</p> -<p> -—Dançaremos a primeira: disse Horacio. -</p> -<p> -A moça corou. -</p> -<p> -—Sim. -</p> -<p> -Laura passava. Amelia chamou-a, mostrando-lhe um logar á seu lado. -Horacio afastou-se para deixar as duas amigas em liberdade; mas -principalmente para poupar a Laura a contrariedade de sua presença. -Desde a noite do theatro o leão comprehendêra que a moça lhe votava -antipathia. -</p> -<p> -Conversando com a amiga, Amelia descobriu defronte, no vão de uma -janella, o vulto de Leopoldo, absorvido em contemplal-a, com um olhar -profundo e intenso, que servia de valvula ás exbuberancias de sua alma. -Sentindo-se sob a influencia desse olhar, a moça inclinou a fronte, -como um signal de submissão, e abandonou-se á contemplação do -mancebo. -</p> -<p> -De vez em quando procurava ler de relance no rosto de Leopoldo, as -impressões de seu espirito, os movimentos de sua alma. Presentiu que o -moço desejava aproximar-se della para lhe fallar, mas não se animava; -a solemnidade da festa, a grande concurrencia, a proximidade de Laura, -tolhiam o mancebo, cujo caracter fóra da intimidade se confrangia, por -uma especie de pudor, proprio das almas virgens. -</p> -<p> -Amelia sentiu um desvanecimento, descobrindo aquella fraqueza no homem -cujo olhar a dominava, e lembrando-se que ella podia nesse instante -protegel-o. Não ha para a fragilidade da mulher maior orgulho e prazer, -do que observar a fragilidade no homem. Vinga-se da tyrannia do sexo -forte. -</p> -<p> -—Vamos sentar-nos do outro lado, Laura? -</p> -<p> -—Para que? Estamos tão bem aqui. -</p> -<p> -—D'ali vê-se melhor a sala; e deve estar mais fresco. -</p> -<p> -—Como quizeres. -</p> -<p> -As duas moças atravessaram a sala, e foram tomar logar justamente no -vão da janella onde Leopoldo se achava. Amelia conservou-se algum tempo -de pé, com o pretexto de arranjar a cadeira, mas para dar occasião á -Leopoldo de fallar-lhe. O mancebo adiantou-se com effeito e -comprimentou. -</p> -<p> -Amelia estendeu-lhe a mão com interesse, para animal-o. -</p> -<p> -—Terei a felicidade de dansar uma quadrilha.... -</p> -<p> -—Qual? -</p> -<p> -—A ultima! -</p> -<p> -—A ultima? repetiu Amelia rindo-se. -</p> -<p> -—Sim; depois que tiver dansado com todos; replicou o moço completando -seu pensamento com o olhar. -</p> -<p> -—Então a sexta. -</p> -<p> -A orchestra abriu o baile com uma brilhante symphonia, depois da qual -deram o signal da primeira quadrilha. Rompeu-se então a symetria, e -formou-se o turbilhão. -</p> -<p> -Durante a contradansa, Horacio não se esqueceu do pésinho adorado; e -procurou todos os meios de o descobrir n'algum momento de confusão ou -descuido. Chegou até á fingir estouvamento em algumas das marcas com o -fim de embaraçar o vestido da moça. -</p> -<p> -—Eu me sento! disse-lhe Amelia irritada. -</p> -<p> -—<i>Barbara, non hai cor</i>! replicou-lhe Horacio com as palavras do -romance. -</p> -<p> -—O seu coração está no botim? perguntou-lhe a moça com despeito. -</p> -<p> -—O meu a senhora bem o sabe, já não me pertence, pois lh'o dei a -muito tempo; e ando-o agora procurando no chão, onde creio que o deixou -esmagado um tyranno que eu adoro e me repelle. Mas conto com a senhora -para movel-o em meu favor. Sim? -</p> -<p> -—Não: respondeu a moça agastada. -</p> -<p> -—Realmente eu não comprehendo. Será possivel que a senhora tenha -ciumes delle? perguntou Horacio gracejando. -</p> -<p> -A moça olhou-o com expressão. -</p> -<p> -—Tenho sim, tenho ciumes! -</p> -<p> -Terminada a quadrilha, Horacio, depois de algumas voltas de passeio pela -sala, deixou a moca no seu logar, e desceu a escada de marmore que -levava ao jardim, illuminado com lampeões de diversas côres. Havia ao -lado da casa, e ao longo de uma latada, mesas de ferro para tomar -sorvetes e refrescos. Horacio, dirigindo-se para esse logar, avistou -Leopoldo sentado á uma das mesas. -</p> -<p> -—Oh! por cá tambem, Leopoldo? -</p> -<p> -—É verdade; contra meus habitos. -</p> -<p> -—Está esplendido! Não achas? -</p> -<p> -—Sem duvida. Mas parece que não tem grande interesse para ti. -</p> -<p> -—Porque pensas assim? -</p> -<p> -—Vens te esconder aqui, quando se dansa. Devias deixar isso para mim, -que sou uma especie de misantropo, uma alma errante neste mundo das -fadas. -</p> -<p> -—Para ser franco, devo-te confessar, que neste baile, onde se acham -reunidas as mais bonitas mulheres do Rio de Janeiro, onde nada do que -póde tornar brilhante uma festa, nem o luxo, nem a riqueza, nem a -concurrencia, nem as notabilidades de toda a especie, neste baile só ha -uma cousa que me interessa; uma cousa bem pequenina, e por isso mesmo de -um encanto inexprimivel. -</p> -<p> -—Que condão será esse tão poderoso? -</p> -<p> -—Disseste a palavra. É um condão, um verdadeiro condão de fada, que -me transformou de repente, e fez do senhor um escravo humilde e -submisso. -</p> -<p> -—Mas no fim de contas o que é? -</p> -<p> -—Um pésinho! -</p> -<p> -Tendo proferido esta palavra, Horacio julgou ter dito tudo quanto era -possivel exprimir na linguagem humana. <i>Um pésinho</i>, era aquelle ente -adorado que elle entrevia nos sonhos dourados de sua imaginação; era o -primor, que deixara impressa a sua fórma delicada na mimosa botina. O -moço desenhava na fantasia aquelle idolo de suas adorações; e -acreditava que Leopoldo devia, como elle, extasiar-se ante a maravilha -da natureza. -</p> -<p> -Longe disso, Leopoldo depreendera das palavras do amigo, que elle estava -sob a influencia de uma paixão materialista; que elle amava a fórma, e -levava sua idolatria á ponto de adorar não a fórma completa, a imagem -viva e palpitante da mulher; mas um fragmento, um trecho apenas dessa -fórma. -</p> -<p> -—Pois para mim tambem, disse Leopoldo, só ha neste baile como neste -mundo uma cousa que me illumina a existencia. -</p> -<p> -—A gloria?... aposto. -</p> -<p> -—Um sorriso, apenas. -</p> -<p> -Horacio não pôde reprimir um gesto desdenhoso. O sorriso era para elle -uma das cousas mais triviaes: tinha-os colhido tantas vezes, e em labios -tão puros e mimosos, que já não lhe excitavam a attenção. Eram como -as flôres de um vaso que todos os dias se substituem. -</p> -<p> -—Vais dansar? perguntou o leão. -</p> -<p> -—Agora não. -</p> -<p> -—Pois façamos uma cousa. Conta-me a historia de teu sorriso, que eu -te contarei a historia de meu pésinho. -</p> -<p> -—Começa então. Cabe-te a preferencia; disse Leopoldo. -</p> -<p> -—Eu a acceito; porque o objecto de meu culto não tem igual no mundo. -</p> -<p> -Horacio accendeu o charuto. Elle não tinha o menor interesse em saber a -historia de Leopoldo; o que desejava era um pretexto para fallar do -objecto de sua adoração, e vasar o que tinha n'alma. -</p> -<p> -—Ha cerca de dous mezes, passando pela rua da Quitanda, achei por -acaso sobre a calçada um objecto que tinha cahido de um carro. Era uma -botina, mas que botina!... um mimo, um primor, uma cousa divina! -</p> -<p> -«Não pódes fazer idéa, não, Leopoldo. Sabes si tenho amado mulheres -lindas de todos os typos, alvas ou morenas; formozuras de todas as -raças, desde a loura escosseza até a brazileira de tranças negras; -adorei-as, umas depois de outras, e ás vezes ao mesmo tempo, essas -differentes irradiações da belleza. Pois confesso-te que nunca o -sorriso ou o beijo da mais seductora d'entre ellas me fez palpitar o -coração, como aquella botina. -</p> -<p> -«Pensem os phisiologistas como quizerem, o pé é a parte mais -distincta do corpo humano; sem elle a estatura não teria a nobreza, que -Deus só concedeu á creatura racional. -</p> -<p> -«O pé revela o caracter, a raça e a educação. Cada uma das -feições e dos gestos desse orgão de nossa vontade tem uma expressão -eloquente. Ha quem não adivinhe em um pé delicado e nervoso a alma de -fina tempera? Ao contrario um pé chato e pesado é a prova infallivel -de um genio tardo e paxorrento. -</p> -<p> -«Virgilio, o poeta mais elegante que tem existido, comprehendeu que -Venus occultasse aos olhos do filho, na selva lybica, a belleza immortal -de seus olhos, de seu sorriso, de suas fórmas seductoras; mas não -aquillo que era sua essencia divina, sua graça olympica. Foi pelo andar -que ella revelou-se deusa; <i>et vera incessu patuit dea</i>. -</p> -<p> -«Nunca sentiste o doce contacto do pé da mulher amada? É uma -sensação deliciosa que penetra nos seios d'alma. Podes apertar-lhe a -mão, cingil-a ao seio, beijal-a. Nada vale aquelle toque subtil que -abala até a ultima fibra. -</p> -<p> -«Faze pois idéa do que eu sentia. E a botina não era senão a estatua -ou a effigie do pé encantador que a havia calçado. Ali estavam -impressos seus graciosos contornos, sua fórma suave. -</p> -<p> -«Apaixonei-me por esse pésinho, que eu nunca vira, que não conhecia. -Sagrei-lhe minha alma como ao <i>ignoto deo</i> de minhas adorações.» -</p> -<p> -Horacio exagerou então os esforços por elle empregados para descobrir -o mysterioso idolo de suas adorações, e referiu os factos que já -conhecemos. Teve porém a discrição, rara em um leão, de não revelar -os nomes; receiava ainda que lhe arrebatassem a conquista. -</p> -<p> -—Finalmente, concluiu elle, o acaso me fez descobrir a dona do -pésinho que em vão buscava. Has de crer, Leopoldo? Conhecia essa -moça, que é realmente encantadora; diversas vezes achei-me com ella em -sociedade, e nunca sentira á sua vista a menor commoção. Mas quando -soube que á ella pertencia o thesouro, adorei-a. Para vêr o pésinho -que sonhei, estou disposto a fazer a maior das loucuras, casar-me!... -</p> -<p> -—É esta a tua historia? -</p> -<p> -—Dize antes meu poema. Sinto não ser poeta para escrevel-o. -</p> -<p> -—Pois si me permittes franqueza, dir-te-hei que realmente o desenlace -que lhe pretendes dar será uma loucura. O casamento, quando não une -duas almas irmãs creadas uma para a outra, é uma especie de grilheta -que prende dois galés; o supplicio de duas existencias condemnadas a se -arrastarem mutuamente. Tu não amas essa moça, Horacio... -</p> -<p> -—Não a amo? -</p> -<p> -—Não! -</p> -<p> -—Quando lhe vou fazer o sacrificio que nenhuma outra mulher obteve de -mim? -</p> -<p> -—Não passa de um capricho. Essa moça é para ti um pé e nada mais. -</p> -<p> -—A mulher que amamos tem sempre um encanto, uma graça especial. As -vezes são os cabellos; outras os olhos; tu amas o sorriso; eu o pé. -</p> -<p> -Leopoldo levantou os hombros. -</p> -<p> -—Sem duvida. A alma da mulher, como a do homem, se revella em cada -pessoa por uma feição mais distincta por uma expresão mais eloquente. -Mas não é isto o que succede comtigo. Tu sentes a idolatria da -belleza material; procuraste sempre na mulher a fórma, o amor plastico; -á força de admirar os mais lindos rostos e os talhes mais seductores, -ficaste com o sentido embotado; precisavas de algum sainete que -estimulasse teu gosto. Viste ou imaginaste um pésinho mimoso e gentil: -tornou-se logo para ti o typo, o ideal da belleza material, que te -habituaste á adorar. -</p> -<p> -Horacio soltou uma risada: -</p> -<p> -—Olha, Leopoldo, cá para mim o platonismo em amor, seria um absurdo -incomprehensivel, si não fosse uma refinada hypocrisia. Esses mesmos -que adoram a mulher como um anjo, de que se nutrem sinão da -contemplação da belleza material que tratas com tamanho desprezo? É -possivel que uma mulher feia seja amada por aberração do gôsto; mas -fazer disso uma regra geral!... -</p> -<p> -—Ninguem pretende semelhante cousa. A belleza é um encanto, uma -graça, um envolucro da mulher; mas não deve ser exclusivamente a -mulher, como a petala é a flôr, e a scentelha é a luz. -</p> -<p> -—Sophisma! Tira a belleza á mulher amada e verás o que fica; o mesmo -que fica da flôr que murcha e da chamma que se apaga; pó ou cinza. -</p> -<p> -—Queres que te prove o contrario? Ouve a minha historia. -</p> -<p> -—Ah! é verdade. A historia de teu sorriso? -</p> -<p> -—Sim. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XIV">XIV</a></h4> - -<p> -O Almeida accendeu outro charuto: -</p> -<p> -—«Meu romance, disse Castro, começou como o teu na rua da Quitanda. -Passando ali uma manhã, vi uma moça, que produziu em mim profunda -impressão. Parei para contemplal-a; mas o que eu admirava nella, não -era seu talhe elegante e seu rosto gracioso; era unicamente a emanação -de sua alma pura, o seu casto e ingenuo sorriso. -</p> -<p> -«Quando o carro partiu, arrebatando-a á meus olhos, conservei sua -imagem gravada em minha alma. Não penses, porém, que eu revia a sua -figura, os seus traços. Não; era uma fórma immaterial, uma visão -vaga e indistincta. Não me lembrava como eram suas feições; qual era -a côr de seus olhos ou de seus cabellos; mas parecia-me que eu via sua -alma reflectida na minha. -</p> -<p> -«Senti que amava essa moça, e affaguei este sentimento, que enchia meu -ser de alegrias ineffaveis. Bastava-me vêr de tempos á tempos a minha -desconhecida, e trocar com ella um olhar ou beber-lhe de longe nos -labios o sorriso, que era emanação de seu ser. -</p> -<p> -«Estava-me reservada uma dura provança. Um dia vendo a minha -desconhecida entrar no carro, descobri que ella tinha um defeito... um -aleijão, é preciso dizer a palavra. A fimbria do vestido roçagando -mostrou-me um pé deforme. -</p> -<p> -—Ah! exclamou Horacio, não podendo reprimir um sorriso. -</p> -<p> -—O acaso tornou-se nesse dia de uma previdencia cruel. O que eu tinha -visto de relance era um vulto confuso, um volume exagerado talvez pela -imaginação. Podia acariciar essa illusão, e desvanecer a impressão -desagradavel que soffrêra. Mas o desengano não se demorou. Passando -nessa mesma hora pela loja onde compro calçado, vi sobre o mostrador -uma botina, verdadeiro contraste da que tu achaste, Horacio! -</p> -<p> -—É curioso! -</p> -<p> -—Não havia que duvidar; era o molde do pé deforme que eu acabava de -vêr, mas o molde fiel!... Todos os traços phisionomicos do aleijão -ali estavam bem debuxados, sobretudo na fôrma que servira para o -calçado, e que ali se achava ao lado delle. Poupa-me a descripção do -que vi. Era repulsivo; isto basta. -</p> -<p> -«Imagina o que devia soffrer! Não era o feio, não; era o horrivel, o -estupendo, que de repente cahira como um peso enorme sobre meu -coração, para espremer delle, com o ultimo sôro, um amor profundo e -vehemente. -</p> -<p> -«A luta foi terrivel, mas breve. O amor triumphou, porque era o affecto -d'alma, e não o culto plastico da belleza. Hoje si alguma vez me lembro -do que vi, entristeço-me pelo desgôsto que ella ha de ter de sua -deformidade; mas sinto que por isso mesmo a amo, e a devo amar ainda -mais. -</p> -<p> -«Compara agora o teu com o meu amor, e dize em consciencia si tenho ou -não razão. Para anniquilar o teu, não era preciso um aleijão; -bastava substituir por uma fôrma commum esse primor que tu sonhaste, -esse pésinho de silpho ou de deosa, que talvez não passe de uma -illusão.» -</p> -<p> -—Illusão!... Si eu tive a mesma prova que tu! Mas demos a questão por -finda. Nem tu conseguirás me convencer, nem eu quero reviver -lembranças que te pezam. Desculpa-me ter fallado nisto. Como podia eu -imaginar uma tal coincidencia! -</p> -<p> -—É verdade! -</p> -<p> -Os dois amigos deram algumas voltas no jardim, fallando de cousas -indifferentes, e entrando nas salas, separaram-se. -</p> -<p> -Horacio procurou Amelia, durante algum tempo; afinal, passando pela -porta do toucador, viu a mão da moça que entreabria a cortina de -velludo verde. -</p> -<p> -—Está triste; disse-lhe o mancebo conduzindo-a ao salão. -</p> -<p> -—Estou fatigada; respondeu a moça com frio desdem. -</p> -<p> -Horacio conhecia profundamente a physiologia da mulher que ama: tantas -vezes tinha lido e relido o livro mysterioso do coração feminino, que -não podia escapar-lhe a menor alteração do texto. O tom de Amelia o -sorprendeu; alguma cousa havia. O que era? O que podia ser? -</p> -<p> -Poucos momentos antes elle a deixára amavel e terna; uma hora depois -vinha encontral-a desdenhosa e fria. -</p> -<p> -—Ciumes, naturalmente! pensou o leão com certo desvanecimento. -Contaram-lhe alguma ou ella imaginou! -</p> -<p> -O moço resolveu sondar o coração da noiva: -</p> -<p> -—A senhora tem mais alguma cousa além da fadiga, confesse. -</p> -<p> -—Illude-se! -</p> -<p> -—Talvez! Concordo, para não contrarial-a ainda mais. -</p> -<p> -Deram alguns passos silenciosos: -</p> -<p> -—Vá amanhã jantar comnosco, sim? disse Amelia voltando-se para o -cavalheiro com um sorriso ineffavel. -</p> -<p> -A transicção não podia ser mais brusca: uma aurora no seio da noite, -tal era aquelle sorriso orvalhado de meiguices e graças encantadoras. -</p> -<p> -Outro, que não fosse Horacio, teria respondido sem a menor hesitação -o <i>sim</i>, que supplicavam labios tão mimosos. Mas esse astuto Cesar dos -salões, perito na tactica da guerra á mulher, não era homem que -perdesse tão bom ensejo de alcançar o triumpho completo. O adversario -lhe dera a vantagem da posição, cumpria aproveital-a. -</p> -<p> -—Amanhã?... -</p> -<p> -A moça fez com a cabeça um gentil aceno. -</p> -<p> -—Não irei. -</p> -<p> -—Obrigada. -</p> -<p> -—Não devo ir. -</p> -<p> -—Porque? -</p> -<p> -—Si eu fosse, pediria ainda uma vez aquillo que lhe tenho pedido -tantas, e que a senhora me tem recusado tão cruelmente. -</p> -<p> -—Ah! -</p> -<p> -—Bem vê!... Iria contrarial-a, aborrecel-a... -</p> -<p> -—Cuida?... -</p> -<p> -Esta palavra tinha uma reticencia, e essa reticencia era um sorriso que -entreabria o céo de uma alma candida. -</p> -<p> -—Então amanhã?... disse Horacio. -</p> -<p> -—Vai? -</p> -<p> -—E si eu pedir? -</p> -<p> -—Experimente! -</p> -<p> -Amelia sentou-se, e Horacio, ebrio de ventura, desceu outra vez ao -jardim para desafogar as exhuberancias de sua alma. Nunca a primeira -entrevista da mulher que mais amára produzira nelle tão profunda -emoção. -</p> -<p> -Para achar alguma cousa comparavel com o que então sentia fôra -necessario remontar aos dias da juventude, aos tempos das primeiras -pulsações de um coração virgem. -</p> -<p> -Sua paixão por Amelia tinha realmente uma virgindade. O conquistador -havia amado na mulher todas as graças e encantos, mas nunca até então -havia adorado um pé. Devia pois experimentar realmente as sensações -inebriantes de um primeiro amor. -</p> -<p> -Na sala dansava-se a sexta quadrilha. -</p> -<p> -—Acho-a pensativa, disse Leopoldo reparando que o lindo rosto de seu -par, ordinariamente animado por uma gentileza vivaz, estava agora -amortecido pela reflexão. -</p> -<p> -Amelia fitou nelle seus grandes olhos ingenuos. -</p> -<p> -—E não tenho razão?... -</p> -<p> -Leopoldo calou-se. Tinha comprehendido o pensamento de Amelia. Na -vespera de decidir de seu destino, de ligar eternamente sua existencia, -a mulher deve ter desses instantes de recolhimento intimo. A duvida -agita-se no seio da fé mais profunda, o receio no amago da esperança -mais risonha. As flôres do coração, como as da natureza, têm um -verme, que as babuja. -</p> -<p> -Que podia Leopoldo dizer á essa alma perplexa? Augmentar-lhe a duvida, -dar força ás vacillações, não seria digno; parecia-lhe uma -seducção. Confortal-a em sua fé, animar-lhe a esperança, apontar-lhe -para um futuro cheio de venturas, fôra nobre e generoso; mas -faltava-lhe abnegação para tanto. -</p> -<p> -Terminada a contradansa, Amelia pelo braço do par deu uma volta pela -sala. A um aceno de seu leque, Horacio, que estava conversando em um -grupo, chegou-se. -</p> -<p> -—Chame, papai. São horas! -</p> -<p> -Emquanto o leão procurava o Salles para prevenil-o do desejo de sua -filha, Amelia dirigiu-se ao toucador. -</p> -<p> -Leopoldo ficara sorprezo de vêr a moça fallar á Horacio, e com um tom -bem expressivo de intimidade. -</p> -<p> -—Não pensava que se conhecessem... tanto? disse elle com a voz -commovida. -</p> -<p> -—Pois é com elle... -</p> -<p> -O rubor que tingiu as faces da donzella rematou a phrase com a sublime -eloquencia do pudor. -</p> -<p> -—Não sabia? perguntou a moça para disfarçar. -</p> -<p> -—Não! -</p> -<p> -—Como o Sr. diz este <i>não</i>! -</p> -<p> -Com effeito a voz de Leopoldo tivera uma vibração profunda, quando -pronunciára aquelle simples monosyllabo. -</p> -<p> -—Desejava que não fosse elle? perguntou a moça com certa ansiedade. -</p> -<p> -—Porque? -</p> -<p> -Aproximava-se Horacio dando o braço a D. Leonor, e seguido pelo -negociante. Amelia separou-se de seu cavalheiro, e levantando a cortina -de velludo do toucador, voltou-se: -</p> -<p> -—Ha de me dizer! insistiu. -</p> -<p> -—É preciso? perguntou Leopoldo, e seu olhar desceu lentamente do -rosto da moça á fimbria do vestido. -</p> -<p> -Amelia empallideceu; a cortina, escapando de sua mão tremula, -occultou-a. -</p> -<p> -—Conhecias, Amelia? perguntou Horacio, em quanto esperava que as -senhoras sahissem do toucador. -</p> -<p> -—Estás admirado, sem duvida! retorquiu Leopoldo seccamente. -</p> -<p> -O leão fitou no companheiro um olhar interrogador; mas occorreu-lhe de -repente uma idéa, que lhe trouxe aos labios um sorriso de ironia. -Lembrara-se do aleijão. -</p> -<p> -A mulher amada por Leopoldo, não podia ser Amelia. Mas quem sabe si o -idealista capaz de adorar uma monstruosidade, o espirito severo que -desdenhava a belleza material, não soffria a seducção irresistivel do -mimoso pésinho? -</p> -<p> -—Admirado de que? De te vêr convertido á idolatria da belleza -material?... -</p> -<p> -Amelia que sahia do toucador, embuçada em sua capa de cachemira -escarlate, tomou o braço do noivo e desceu as escadas. -</p> -<p> -Quando partia o carro do Salles, Leopoldo que tambem se -retirava, encontrou Horacio na porta. -</p> -<p> -—A illusão é a unica realidade desta vida! disse elle sorrindo. -</p> -<p> -—O que? -</p> -<p> -—Adeus! -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XV">XV</a></h4> - -<p> -Seriam quatro horas da tarde. -</p> -<p> -Amelia já vestida para o jantar, esperava o noivo, trabalhando em um -bordado de tapessaria. A seu lado em uma linda banca de costura forrada -de páo setim, havia, além dos utensilios necessarios, uma profusão de -seda frouxa de varias côres. -</p> -<p> -No setim branco, estendido pelo elegante bastidor de mogno, via-se o -risco de um par de sandalias, que pareciam destinadas á alguma fada, -tão pequena, mimosa e delicada era a fórma do pé. -</p> -<p> -Um dos esboços estava ainda intacto; no outro porém via-se já um -florão de rosas bordadas á seda frouxa, e no centro a lettra L., feita -com torçal de ouro. Era naturalmente a inicial do nome, em cuja -tenção a moça trabalhava. -</p> -<p> -Amelia estava nesse dia talvez menos formosa, porém em compensação -mais seductora. Certa expressão languida, ou de cansaço ou de -melancolia, embotava a flôr de sua habitual lindeza, desmaiando o matiz -dos labios e das faces, velando o brilho dos olhos pardos. Seu trajo -branco ainda mais ameigava a sua phisionomia. -</p> -<p> -Não ha para arrebatar os sentidos, como essa languidez da mulher amada. -Parece que ella verga com a exhuberancia do amor, como a planta muito -viçosa, quando concentra a seiva que não brota em flôr. O homem -querido se regosija, pensando que suas palavras e suas caricias pódem, -como os orvalhos celestes, reanimar e expandir o coração da mulher -amada. -</p> -<p> -Talvez em Amelia não fosse esse desmaio senão o effeito da fadiga do -baile, e das scismas da noite mal dormida. -</p> -<p> -Emquanto bordava, o ouvido da moça attento esperava algum rumor que lhe -annunciasse a chegada do noivo. Um carro parou á porta; e momentos -depois soaram na sala de visitas os passos de alguem. -</p> -<p> -Era Horacio. -</p> -<p> -Vendo a moça na saleta proxima, o leão dirigiu-se a ella, com a -familiaridade á que lhe dava direito seu titulo de noivo. Trocados os -comprimentos usuaes, sentou-se junto ao bastidor. -</p> -<p> -—O que está bordando? -</p> -<p> -Amelia fez um gesto para cobrir o bordado: -</p> -<p> -—Deixe vêr! insistiu o moço. -</p> -<p> -—Não vale a pena! -</p> -<p> -—Ah! -</p> -<p> -Esta exclamação desfez-se nos labios do mancebo em um sorriso de -jubilo. -</p> -<p> -—É um presente de annos para uma amiga! disse Amelia. -</p> -<p> -—Não são para a senhora? -</p> -<p> -—Não; respondeu a moça admirada. -</p> -<p> -—Está zombando commigo! -</p> -<p> -—Veja! -</p> -<p> -A unha de nacar da moça, mostrou o L. bordado a ouro. -</p> -<p> -—Pois ha quem tenha este pésinho mimoso, a não ser minha noiva? disse -Horacio rindo-se. -</p> -<p> -—Eu? exclamou Amelia enrubecendo. Pobre de mim! -</p> -<p> -—Lembra-se do que me prometteu hontem á noite? -</p> -<p> -Uma nuvem de tristeza cobriu o lindo semblante da moça; com a fronte -pendida e os olhos baixos, parecia contrahida por uma dôr intima. -</p> -<p> -—Amelia! -</p> -<p> -—Hontem... não tive animo de contrarial-o. Fiz mal; desculpe-me. -</p> -<p> -—Então sua promessa? disse o moço com ironia. -</p> -<p> -Amelia voltou o rosto como para esconder uma lagrima. -</p> -<p> -—Acredite. O que me pede... não posso... não tenho forças para -fazer. Si o senhor soubesse!... E entretanto deve saber, porque... Eu -lhe supplico, não fallemos disso agora; depois eu lhe direi. -Prometto-lhe! -</p> -<p> -—Não se dê a este trabalho. Já sei quanto basta: zombou de mim. -</p> -<p> -Horacio levantou-se visivelmente despeitado, e volveu os passos pela -sala. Amelia continuou a bordar, talvez para disfarçar o seu vexame. -</p> -<p> -Decorridos alguns instantes, Horacio, lançando um olhar para a moça, -occupada com seu bordado, viu alguma cousa que o sobresaltou. A fimbria -do vestido, suspensa na travessa do bastidor, devia descobrir o pé da -moça para quem estivesse sentado á sua esquerda. -</p> -<p> -O leão aproximou-se na esperança de sorprender o avaro thesouro que se -roubava á seus olhos. -</p> -<p> -—Não sabia que bordava tão bem! -</p> -<p> -—Ora! Não tenho paciencia para estes trabalhos. Si não fosse uma -divida... -</p> -<p> -—Como? Não é mais presente de annos? -</p> -<p> -—Uma e outra cousa. -</p> -<p> -—Ou talvez nem uma nem outra; disse Horacio adoçando o tom de ironia. -</p> -<p> -—Que necessidade tinha eu de enganal-o? disse Amelia com um doce -resentimento. Uma amiga minha... -</p> -<p> -—Cujo nome não consta. -</p> -<p> -—É segredo! atalhou a moça com faceirice. -</p> -<p> -—Ah! É segredo? -</p> -<p> -—Inviolavel. Ella não quer por cousa alguma que saibam nem mesmo -suspeitem.... -</p> -<p> -—Que é sua amiga? -</p> -<p> -—Ora!... Que tem um pé deste tamanho: disse a moça mostrando o -bordado. -</p> -<p> -—Devéras? acodio Horacio. -</p> -<p> -—Ella pensa que é um aleijão e sente uma tristesa... -</p> -<p> -—Na verdade, possuir um thesouro, um primôr! Admira como sua amiga já -não morreu de desgôsto. -</p> -<p> -—Mas fallando sério; não é natural que uma moça tenha o pé de uma -menina de sete annos. -</p> -<p> -—Não sei si é natural; mas sublime, asseguro-lhe que é. Ha certas -graças na mulher que devem ficar sempre meninas; as huris, as fadas, as -deusas, são assim. -</p> -<p> -—Com effeito! Si eu fosse ciumenta! -</p> -<p> -—De sua amiga?... De uma amiga tão intima?... Era quasi ter ciumes de -si mesma! disse Horacio gracejando. -</p> -<p> -—O que o senhor quer sei eu. É vêr se adivinha. -</p> -<p> -Horacio tinha sustentado esta conversa com interesse extremo; menos -pelas palavras da moça, do que pelos movimentos da fimbra do vestido. -A saia, arregaçando gradualmente com a inflexão do talhe gentil da -moça reclinada sobre o bastidor, promettia brevemente descobrir o -thesouro, tão estremecido pelo mancebo. -</p> -<p> -Amelia, occupada com seu trabalho, e distrahida com a conversa, se -esquecêra daquelle constante cuidado que ella tinha em compôr a orla -do vestido. Durante a conversa apenas uma vez tirara os olhos do -bordado, para lançar uma vista furtiva ao leão. -</p> -<p> -—Mas então essa amiga mysteriosa.... A senhora ia contar uma -historia, si não me engano. -</p> -<p> -—Historia, não senhor. Queria explicar-lhe por que este bordado é o -pagamento de uma divida. -</p> -<p> -—Justamente. -</p> -<p> -—Pois essa minha amiga, incommodava-se muito quando tinha de comprar -botinas; custava achar um par que lhe servisse. As de senhora eram muito -grandes; as de menina eram muito baixas. Afinal encontrou um sapateiro, -que trabalha tão bem como os melhores de Pariz. -</p> -<p> -—É exacto. -</p> -<p> -—Como exacto? O senhor sabe? -</p> -<p> -—A senhora não falla do Campas? disse Horacio um tanto perturbado. -</p> -<p> -—Não, senhor. -</p> -<p> -—Pensei. -</p> -<p> -—Haverá dois mezes; indo eu a cidade, minha amiga, que tinha feito -uma encommenda de botinas, pediu-me para vêr si estava prompta. Quando o -criado a trouxe para o carro onde o esperava, cahiu um pé de botina já -usado, que fôra para modelo. Minha amiga ficou muito afflicta; e eu fiz -tenção de dar-lhe no dia de seus annos umas chinellas bordadas por -mim. Bem vê que não o enganei. -</p> -<p> -Proferindo as ultimas palavras, Amelia sempre occupada com seu bordado, -debruçou-se completamente sobre o bastidor para desembaraçar o fio de -sêda frouxa. Este movimento produziu o que Horacio esperava. A saia, -retrahida pela travessa do bastidor, descobriu até o artelho o pé da -moça. -</p> -<p> -O moço estremeceu com a forte emoção; e fechou os olhos, atordoado. -</p> -<p> -O que vira era uma cousa indefinivel, estupenda. Era o aleijão, a -monstruosidade de que lhe fallára Leopoldo. Aquella massa informe; -aquella enormidade cheia de cavernas e protuberancias, elle a tinha ali -em face, diante dos olhos, escarnecendo do seu amor, como um desses -caturras hediondos das lendas da idade media. -</p> -<p> -—Diga-me uma cousa: hontem depois que sahimos o senhor conversou com -aquelle moço que dansou commigo? O Leopoldo, não é? -</p> -<p> -Não recebendo resposta, Amelia ergueu a cabeça para interrogar o noivo -com o olhar. O aspecto demudado de Horacio, o sorriso pungente que -amarrotava seu bigode artistico, a vista anciada que elle tinha fixa no -monstro, lhe reveláram subitamente o que succedêra. -</p> -<p> -Um grito de afflicção escapou-se do peito da moça, que afastou -violentamente de si o bastidor, causa do accidente, e colheu os largos -volantes da saia, occultando o que ella por tanto tempo defendêra -contra a curiosidade soffrega do moço. Por alguns instantes os noivos -permaneceram mudos e confusos, sentindo-se repellidos um pelo outro, e -comtudo não ousando affastar-se. É um supplicio cruel esse que -inflinge a presença de um ente que faz corar de vergonha. -</p> -<p> -Afinal Horacio levantou-se e deu alguns passos á esmo. Amelia -aproveitou-se desse movimento para fugir da sala. Ficando só, o leão -dardejou para o interior um olhar terrivel; e tomando o chapéo, desceu -rapidamente as escadas. -</p> -<p> -Agora elle comprehendia tudo: e as palavras que Leopoldo lhe dissera na -vespera, ao sahir do baile, lhe repercutiam ao ouvido, como uma -gargalhada satanica:—«A illusão é a unica realidade deste mundo.» -</p> -<p> -—Como pude eu tanto tempo illudir-me com o excessivo recato de -Amelia? Como não desconfiei do pudor selvagem que vellava semelhante á um -dragão sobre o terrivel segredo? -</p> -<p> -«Não ha moça, seja ella o anjo da pudicicia, que não mostre ao menos -a pontinha do pé, quando o tem mimoso e gentil. Eu devia saber disso, -mas estava cégo. Todos cochilamos, sem ser Homeros: eu que me prezo de -conhecer a mulher, portei-me como um calouro. -</p> -<p> -«Consumir dois mezes á correr após uma sombra, e quando esperava que -a sombra tomasse corpo, ella se desvanece... Qual! Antes se -desvanecesse; mas ao contrario toma um vulto medonho, enorme, -esqualido. Faz-me quasi lembrar o verso de Camões.» -</p> -<p> -Horacio soltou uma gargalhada: -</p> -<p> -—Realmente eu não sei qual de nós dois ficou mais corrido. Si ella de -mostrar a toeza; si eu de a vêr. -</p> -<p> -«Sonhar uma perola, e encontrar um seixo; imaginar um mimo, e achar uma -brutalidade; desejar um botão de rosa, e colher uma tubara! -</p> -<p> -«Si os rapazes souberem disto, estou deshonrado. Como posso eu mais -apresentar-me na rua do Ouvidor, quando a cousa divulgar-se? Todo o asno -terá direito de atirar-me o couce, como ao leão moribundo da fabula.» -</p> -<p> -Horacio começou á reflectir, si fizera bem sahindo tão -precipitadamente da casa de Salles. Moderou o passo, e olhou o relogio. -Eram perto de cinco horas. Si voltasse, chegaria tarde; demais, como -explicar a retirada e a volta? -</p> -<p> -—Em todo o caso, pensou o leão, a fortuna não me desamparou de todo. -Assim como a illusão durou até hoje, podia prolongar-se mais algumas -semanas, e... Tremo de horror, quando me lembro que eu podia ser atado -aquelle mourão, aquelle poste! Ser condemnado a arrastar uma trave por -toda a vida? Que supplicio! -</p> -<p> -«Si eu podesse imaginar que o Omnipotente, creador de tantas -maravilhas, se occupa com a minha ridicula individualidade, e se -interessa pelos pecados que eu tenho commettido, me ajoelhava aqui mesmo -na rua, e lhe renderia graças pela minha salvação.» -</p> -<p> -«Quem se livrasse de ser esmagado por uma rocha, não escaparia de tão -grande perigo como eu. Casar-se um homem com aquelle pé, seria -predestinar-se para o homicidio.» -</p> -<p> -Passava um carro, que parou de repente. -</p> -<p> -—Ainda por aqui, Almeida? disse o Salles deitando a cabeça fóra do -carro. -</p> -<p> -—É verdade... sahi, mas.... -</p> -<p> -—Entre, que hão de estar á nossa espera; São cinco horas, demorei-me -hoje além do costume; por causa mesmo do senhor, maganão! Certos -arranjos. -</p> -<p> -Horacio procurou rir, mas fez uma careta que desculpou com um callo. -Elle, o leão, sempre elegante, correcto e irreprehensivel no trajo, -como nas maneiras, tinha perdido completamente a serenidade de espirito. -</p> -<p> -As senhoras estavam reunidas na saleta. Amelia ficou sorprendida, vendo -Horacio de volta com seu pai; e reprimiu o contentamento que sentia. Mas -este durou pouco. Ella conheceu logo que o leão obedecêra mais ás -conveniencias, do que ao affecto que lhe tinha. -</p> -<p> -Comtudo essa volta significava alguma cousa. Ella, Amelia, não causava -horror á seu noivo. -</p> -<p> -O jantar foi animado pela conversa viva e espirituosa de Horacio, que -havia recuperado seu sangue frio. Uma circumstancia porém não escapou -a Amelia, que passou desapercebida ás outras pessoas; o leão, apezar -de sentado á sua esquerda, não achou um momento para trocar com ella -uma palavra. Ao contrario, manteve sempre a conversação geral, para -impedir o dialogo intimo, que elle receiava. -</p> -<p> -Terminado o jantar, Horacio achou um pretexto para retirar-se logo. -</p> -<p> -—O que se passou D. Amelia, é mais do que um segredo para mim; eu -nada sei, esqueci; disse elle despedindo-se. -</p> -<p> -Tocando apenas na mão que a moça lhe estendêra, sahiu. -</p> -<p> -Amelia deu um passo para chamal-o, mas apoiando-se ao recosto do sofá, -permaneceu immovel, escutando os passos do noivo até que se perderam ao -longe. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XVI">XVI</a></h4> - -<p> -Fazia uma semana que Horacio não apparecia em casa de Salles. -</p> -<p> -Amelia tinha por duas vezes mandado saber do noivo. Da primeira -contentou-se com um recado; da segunda enviou-lhe uma saudade. -</p> -<p> -O negociante de sua parte havia passado por casa do moço, que pretextou -um defluxo para justificar sua ausencia; e prometteu apparecer no dia -seguinte. -</p> -<p> -Horacio comprehendia a necessidade de sahir da posição difficil em que -se achava, mas debalde procurava um meio. Cansado de cogitar, entendeu -que o melhor era confiar-se á inspiração do momento. -</p> -<p> -No dia seguinte á noite, dirigiu-se á casa do negociante. -</p> -<p> -As duas senhoras estavam sentadas junto a mesa; a mãi lia, a filha -pensava. Amelia estava triste, sua mãi suppunha que eram saudades. -</p> -<p> -Quando Horacio entrou, D. Leonor o festejou com verdadeiro prazer. -Amelia sentiu um vislumbre de esperança, que illuminou o sorriso de -seus labios. -</p> -<p> -—Felizmente! exclamou D. Leonor. Esta casa era uma fonte dos -suspiros! -</p> -<p> -A conversação começou friamente, e foi se arrastando por algum tempo. -</p> -<p> -—Não tem sahido? perguntou Horacio depois de uma pausa. -</p> -<p> -—Não; Amelia não tem querido. -</p> -<p> -—Por que? perguntou o moço voltando-se para a noiva. -</p> -<p> -—Então não sabe? acodiu D. Leonor. -</p> -<p> -—Porque não se offereceu occasião; disse Amelia. -</p> -<p> -—Mas tem recebido visitas? -</p> -<p> -—Algumas. -</p> -<p> -—O Leopoldo não appareceu! -</p> -<p> -—Não frequenta nossa casa; respondeu a moça. -</p> -<p> -—Ah! cuidei? -</p> -<p> -—Si elle nos visitasse, o senhor o teria encontrado aqui muitas -vezes. -</p> -<p> -—Podiamos nos desencontrar, disse Horacio com um sorriso motejador. -</p> -<p> -Amelia percebeu que o moço estava procurando um pretexto para -despeitar-se. D. Leonor tendo continuado a leitura interrompida estava -alheia a conversação. -</p> -<p> -—Foi em casa do Azevedo que o apresentaram á senhora. -</p> -<p> -—Não; conheço-o de muito tempo; ha perto de dois mezes. -</p> -<p> -—De onde, si não é segredo? -</p> -<p> -—Segredo por que? Elle frequenta a casa de D. Clementina que recebe -ás quintas-feiras. Constantemente nos encontramos ahi. É uma reunião -muito agradavel, estamos quasi em familia, sem a menor ceremonia. -</p> -<p> -—Ah! nunca me convidou para essas reuniões; eu teria muito prazer em -acompanhal-a, mas talvez fosse importuno, como já vou sendo aqui. -</p> -<p> -—O senhor está habituado a viver na alta sociedade; havia de -aborrecer-se. -</p> -<p> -—Mas a senhora não se aborrecia; ao contrario divertia-se bastante. -</p> -<p> -—Alguma cousa. -</p> -<p> -—E Leopoldo era seu par? -</p> -<p> -—Era. -</p> -<p> -—Par constante? -</p> -<p> -—Não sei si era constante ou não; quasi sempre elle dansava commigo, -porque lá não ha muito onde escolher; os pares são poucos. -</p> -<p> -—Optimo systema! Assim não se repara? -</p> -<p> -—Em que? -</p> -<p> -—Em certa assiduidade! Ainda mesmo que uma moça já tenha noivo -arranjado, ha gente que exige da parte dessa moça certa reserva, porque -emfim o outro póde não querer acceitar a responsabilidade de tudo! É -uma impertinencia, concordo, mos o mundo tem destes caprichos. -</p> -<p> -—Isso se entende naturalmente com as moças que têm <i>noivo -arranjado</i>, retorquiu Amelia frisando a palavra, e não com aquellas, -cuja mão se pediu talvez para satisfazer uma simples fantazia. -</p> -<p> -A moça levantou-se da mesa, lançando ao leão um olhar desdenhoso, e -foi sentar-se ao piano. Emquanto ella tocava uma variação de Thalberg, -Horacio para fazer alguma cousa, se entreteve em arranjar as figuras -chinezas de um jogo de paciencia. Nunca elle precisára tanto de -provêr-se dessa virtude evangelica. -</p> -<p> -Decorridos alguns instantes o leão ergueu-se da meza; deu algumas -voltas pela salla, e aproximou-se do piano, como para vêr a elegancia -com que a moça dedilhava. -</p> -<p> -—A senhora acha muito natural, D. Amelia, que uma noiva frequente -assiduamente uma casa onde não tem entrada o homem com quem vai -casar-se; acha natural que essa moça tenha em taes reuniões um par -effectivo, que provavelmente cultiva uma dessas amisades candidas dos -romances de Balsac, verdadeiros <i>lirios do valle</i>, que vivem de -orvalhos e de sombras. Eu, porém, sou um espirito prosaico e material: -tenho a infelicidade de não acreditar na attracção mysteriosa dos -espiritos, no consorcio ideal das almas irmãs, nos sonhos ethereos, nos -effluvios celestes, em toda essa giria sentimental. Para mim, -intelligencia grosseira, tudo isso não passa de uma hypocrisia do -primeiro tartufo deste mundo, o amor. É um tyrannete que toma todas as -figuras e posições; faz-se menino ou velho, anjo ou demonio, poeta ou -banqueiro... Estou incommodando-a talvez? -</p> -<p> -—Não; acabe. -</p> -<p> -A moça fazia com uma ligeira surdina o acompanhamento das palavras do -leão; mas á ultima phrase, ella retirou as mãos do teclado. Foi esse -o motivo da pergunta de Horacio. -</p> -<p> -—A senhora deve sentir muito, e Leopoldo com maior razão, de serem -privados de uma distracção que tanto lhes agrada! -</p> -<p> -—Comprehendo, replicou Amelia. O Sr. me prohibe que eu vá á casa de -D. Clementina? -</p> -<p> -—Que idéa! Não tenho direito de prohibir; ainda não sou seu marido; -a senhora é completamente livre de suas acções, póde ir á casa de -D. Clementina, ou onde lhe approuver; assim como eu posso, querendo, -passar as noites no Club ou no Alcazar. -</p> -<p> -Amelia soltou uma risada. -</p> -<p> -—Pensava, que os leões estavam isentos dessa fragilidade do ciume. -</p> -<p> -—Perdão; não se trata de ciume, nem sei o que isso é. A questão -reduz-se á uma antipathia de caracteres, á uma contradicção de -genios, que deve ter para o futuro graves consequencias. A senhora é -idealista, eu sou materialista. Um quizera viver no mundo dos sonhos, -outro neste valle das lagrimas e das realidades. A senhora procurando-me -no céo entre as estrellas e os anjos, e não me achando ahi, soffreria -uma cruel decepção; entretanto que eu na terra, ficarei reduzido á -sombra da mulher que amei. -</p> -<p> -—Não é tão pouco, para quem se contentava com um pé de criança; -disse Amelia com ironia. -</p> -<p> -—Mas esse pé era a realidade, a expressão a mais sublime della! -</p> -<p> -—Custa-lhe pouco á possuir essa realidade Mande fabrical-a em cêra: -sahirá ainda mais perfeita. -</p> -<p> -—Ainda não perdi a esperança de encontral-a. -</p> -<p> -O chá interrompeu o dialogo. Os dous noivos aproximaram-se da meza -oval, onde o criado acabava de collocar a bandeja. -</p> -<p> -A phisionomia de Amelia perdêra a expressão de tristeza e desanimo que -tinha a principio; a conversa lhe deixara no semblante alguns tons -vivos. -</p> -<p> -Occupada em dispôr as chicaras para enchel-as; os gestos sempre macios -da moça revellavam certa crispação nervosa. -</p> -<p> -Horacio ficára contrariado, porque não tivera tempo de precipitar o -<i>casus belli</i>. Receiava que se demorasse ainda o rompimento que elle -tanto desejava. -</p> -<p> -—Mamãi, disse Amelia com intenção, amanhã é quinta-feira. Vamos -passar a noite em casa de D. Clementina? -</p> -<p> -—Si quizeres. -</p> -<p> -—Não devemos faltar; deixámos de ir a semana passada. -</p> -<p> -—Foi logo depois do baile do Azevedo. -</p> -<p> -—Não o convido, disse Amelia voltando-se para Horacio, porque o -senhor não frequenta essas reuniões de gente pobre. -</p> -<p> -—Sem duvida; tenho medo de evaporar-me em devaneios e suspiros; -respondeu Horacio, cruzando com a moça um olhar de desafio. -</p> -<p> -Elle sentiu que Amelia o provocava, e exultou. A moça estava disposta a -resistir; o rompimento era infallivel e prompto. -</p> -<p> -—Eu gosto bem dessas partidas; a noite passa tão agradavel. -</p> -<p> -Aproveitando-se de um momento em que D. Leonor se afastou, Horacio -atirou á moça rapidamente estas palavras: -</p> -<p> -—Pois si a senhora voltar á casa de D. Clementina, eu não voltarei -mais aqui. -</p> -<p> -Amelia estremeceu. -</p> -<p> -Um quarto de hora depois, Horacio retirou-se. Quando se despedia das -senhoras, disse o leão á moça apertando-lhe a mão: -</p> -<p> -—Desejo que se divirta muito amanhã. -</p> -<p> -—Aonde? perguntou D. Leonor. -</p> -<p> -—Em casa de D. Clementina. Não vai, D. Amelia? -</p> -<p> -A moça hesitou um instante. O offêgo de seu collo trahiu uma luta -violenta, mas rapida. -</p> -<p> -Sua resolução, antes que ella a exprimisse, manifestou-se na altivez -do porte, que uma vibração intima erigira. -</p> -<p> -—Vou sem falta! -</p> -<p> -Horacio, soltando a mão da moça, que foi bater inerte nos folhos do -vestido, cortejou profundamente. -</p> -<p> -—Seja muito feliz. -</p> -<p> -Apenas o leão desappareceu na porta, Amelia abraçando e beijando a -mãi, subiu precipitadamente á sua alcova; atirou-se á uma -conversadeira, e desafogou em pranto e soluços a dôr que tinha -recalcado desde muitos dias. -</p> -<p> -A maior parte da noite foi para ella de vigilia. Viu correrem as horas; -cada momento que se escoava era uma esperança, uma illusão que se -desfolhava da flôr viçosa de sua alma. -</p> -<p> -Aquelles que se separam das pessoas ou dos sitios queridos, conhecem bem -esse travo do coração que chamamos <i>saudade</i> e sabem quanto é cruel o -momento de separação. -</p> -<p> -Mas não ha despedida cruciante como seja a da alma pelo amor que nutrio -durante muito tempo. Ha ahi mais do que uma separação; é quasi a -mutilação moral. -</p> -<p> -Amelia comprehendêra que tudo acabara entre Horacio e ella. Desde o dia -do jantar receiara esse resultado; mas ainda alimentava uma esperança. -Naquella noite a esperança murchara, si não foi ella propria Amelia, -quem a desfolhara. -</p> -<p> -Agora na calada da noite, era sua alcova que lhe parecia um ermo, ella -tinha medo do isolamento em que se achava. Algumas vezes sua alma -sentia-se como que asphixiada pelo silencio e pela treva que a -submergiam. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XVII">XVII</a></h4> - -<p> -Como dissera á Amelia, na sua ultima visita, Horacio não tinha perdido -a esperança de encontrar o que elle chamava a realidade de seu amor; o -pésinho gentil e mimoso do qual elle possuia a botina. -</p> -<p> -Illudira-se nas suas investigações; era preciso recomeçar. -</p> -<p> -Tal era o pensamento que preoccupava o leão, recostado naquella mesma -poltrona, onde o vimos no primeiro dia. Seu olhar embebido nos frocos da -fumaça do puro havana, rastreava nas espiraes diaphanas a imagem -confusa de seus pensamentos. -</p> -<p> -Tinham decorrido tres dias depois do seu rompimento com Amelia. Logo na -seguinte manhã, o leão para não dar tempo ao arrependimento da moça, -escreveu uma carta ao Salles, manifestando seu receio de que a -antipathia de genios tornasse infeliz uma união que todos ardentemente -desejavam. -</p> -<p> -O negociante mostrou a carta á filha, que lhe disse com um sorriso -forçado: -</p> -<p> -—Elle tem razão! -</p> -<p> -A carta de Horacio teve resposta no mesmo dia. O Salles encontrando-o na -rua do Ouvidor recusou-lhe o comprimento. -</p> -<p> -O leão satisfeito com esse prompto desenlace que evitava longas -explicações, achou-se á poucos passos de distancia em frente de -Leopoldo. -</p> -<p> -—Oh! Tu me trazes felicidade! exclamou o leão, apertando-lhe a mão. -Sempre que nos encontramos ou está para acontecer ou já tem acontecido -alguma cousa de bom para mim. -</p> -<p> -—Não sabes quanto estimo!... Assim eu sou uma especie de astro -propicio, sob cuja influencia nasceste. -</p> -<p> -—Queres vêr? Havia muito tempo que não te via, quando nos encontramos -no baile do Azevedo. Pois nessa noite decidiu-se meu destino. -</p> -<p> -—Ah! e sob o meu influxo benefico? -</p> -<p> -—Está visto. Lembras-te que eu te disse que estava disposto a todos -os sacrificios até o do casamento para possuir aquelle pézinho!... -</p> -<p> -—Lembro-me. -</p> -<p> -—O unico obstaculo era uma especie de promessa ou arranjo de familia. -Felizmente a menina, a tal Amelia comprehendeu que perdia seu tempo, e -arrufou-se na noite do baile por uma ninharia. Eu aproveitei o pretexto; -escrevi ao pai retirando minha palavra, e agora mesmo elle me acaba de -responder. Estou livre como o ar, e contente como um rapaz que sahe do -collegio. -</p> -<p> -—Neste caso dou-te meus parabéns. -</p> -<p> -—E tu como vais com o <i>sorriso</i>? -</p> -<p> -—Sem novidade. -</p> -<p> -—Diz-me uma cousa, no dia em que a viste pela primeira vez, ella -estava só ou com outra moça. Faço te esta pergunta porque foi na rua da -Quitanda e quasi pelo mesmo tempo que eu achei a botina. -</p> -<p> -—Eram duas; respondeu Leopoldo sorrindo. -</p> -<p> -—Em uma victoria? -</p> -<p> -—Sim. -</p> -<p> -—A outra era mais baixa? -</p> -<p> -—Não affirmo. -</p> -<p> -—Adeus. -</p> -<p> -O leão separou-se do amigo, e repassando as particularidades de sua -conversa com Amelia perto do bastedor e no dia do jantar, começou a -combinal-as com as informações de Leopoldo, e com as circumstancias do -encontro no <i>Passeio Publico</i>, onde vira o signal impresso na arêa -pelo mimoso pézinho. -</p> -<p> -Agora, fumando seu charuto depois do jantar, o leão resumia todas as -suas reflexões, e chegava á este resultado. -</p> -<p> -—Decididamente o pézinho é de uma moça que ia com Amelia, no dia em -que se perdeu a botina e no dia em que eu a vi de longe no <i>Passeio -Publico</i>. Essa moça, cuja inicial é um L, não é outra senão Laura. -Aquelle pudor feroz era um indicio infallivel. Amelia procurava imital-o -por motivo bem diverso; mas não o conseguiu. -</p> -<p> -O moço chegou-se a banquinha onde estava o cofre de pau rosa e -contemplou a botina. -</p> -<p> -A noite o leão foi a uma partida. Sua estrella o favorecia. Laura lá -estava. Dirigiu-lhe algumas banalidades graciosas, que ella a principio -recebeu com manifesta esquivança, mas depois com timidez. -</p> -<p> -Horacio comprehendia a razão do procedimento da moça. Para -tranquillisal-a, teve o cuidado de nunca abaixar a vista á fimbria do -vestido, e mostrar-se enlevado pelo collo gracioso da gentil senhora. A -lição que recebêra anteriormente, o tornou de uma prudencia -consummada. -</p> -<p> -No fim da noite o leão conseguira restabellecer a confiança no -espirito de Laura, desvanecendo-lhe a suspeita deixada pela scena do -theatro. Era o essencial; com os meios de seducção de que dispunha, e -a inclinação que a moça revelava por elle, contava certa a conquista. -A questão era de tempo. -</p> -<p> -Antes de quinze dias frequentava a casa da moça, e estava na intimidade -da familia. -</p> -<p> -Laura perdêra o marido aos 17 annos, pouco tempo depois de casada. Era -rica; não lhe faltavam pretendentes atrahidos pelo dote e pela belleza; -mas ella não parecia disposta a tentar segunda vez a felicidade -conjugal, embora não tivesse passado da lua de mel. É natural que o -desejo lhe chegasse com o primeiro fio de neve; quando fossem rareando -os apaixonados que a cercavam. -</p> -<p> -Uma manhã, Horacio passando á pé, como costumava, pela casa da moça, -viu-a, por entre as grades, sentada no jardim e occupada em fazer um -ramo de flôres. Entrou e foi ter com ella, á sombra de uma latada de -madre-silvas. -</p> -<p> -Laura deu-lhe logar perto de si; e começaram a conversar sobre flores, -modas, e mil futilidades. -</p> -<p> -Eram dez horas do dia. O sol brilhava em céo limpido; uma aragem fresca -sussurrava entre as folhas; os colleiros trinavam nas ramas das -larangeiras. Esse concerto de perfumes e harmonias convidava o coração -á abrir-se e cantar o seu hymno de amor. -</p> -<p> -Laura reclinou a fronte e emmudeceu, com os olhos embebidos no seio de -uma rosa, que tinha no regaço. Horacio tomou-lhe a mão, que ella cedeu -com tenue resistencia. -</p> -<p> -—Sabe desde quando eu a amo, Laura? Desde o dia em que a vi pela -primeira vez passar em um carro. Foi si não me engano na rua da -Quitanda; ia com a filha do Salles. Lembra-se? -</p> -<p> -A moça fez um gesto afirmativo. -</p> -<p> -—Depois encontrei-a no theatro. A principio seus olhos me deixaram -conceber alguma esperança; mas o desengano foi cruel. Nem imagina como -soffri! Cuidei que não houvesse mulher capaz de obrigar-me a voltar ás -ingenuidades dos 18 annos. Um dia ainda me lembro, vi-a de longe entrar -no Passeio Publico; apressei-me para ter o prazer de cortejal-a e -receber um olhar. Debalde corri todas as ruas; quando voltei á porta -fiquei desesperado. A senhora tinha sahido, sempre com a filha do -Salles. Recorda-se? -</p> -<p> -—Recordo-me; respondeu a moça. Mas era por mim que fazia tudo isso? -</p> -<p> -—Duvida, Laura? -</p> -<p> -—Nega que esteve apaixonado por Amelia Até diziam que já a tinha -pedido. -</p> -<p> -—Que ingratidão! Não sabe então porque me fiz apresentar em casa do -Salles? Para vel-a, era preciso procurar um meio; a senhora já não se -lembra da dureza com que me tratava. -</p> -<p> -—E por isso consolava-se com Amelia? -</p> -<p> -—Si amasse, Laura, havia de saber o que é o ciume, e as loucuras que -elle nos obriga a fazer! Mas a senhora não ama! -</p> -<p> -—Quem lhe disse! -</p> -<p> -—Essa frieza. -</p> -<p> -—E o que eu soffri?... balbuciou a moça pondo os olhos languidos no -semblante do mancebo. -</p> -<p> -—Perdão, Laura; exclamou Horacio ajoelhando. Eu era um louco, indigno -de teu amor; e não mereço tanta felicidade. Mas deixa-me implorar o -meu perdão; deixa-me beijar teus pés, que... -</p> -<p> -—Ah!... -</p> -<p> -Horacio proferiu aquellas palavras apaixonadas, de joelhos diante da -moça que sorria inclinada para elle; de repente abaixou-se para -beijar-lhe os pés, esse objecto de sua adoração. Foi então que ella -soltando um grito de espanto, o repelliu para longe de si com horror. -</p> -<p> -Comtudo, o moço, que preparara toda aquella scena para chegar a -realisação do desejo por tanto tempo afagado, conseguira vêr... Mas -não o que esperava; um pésinho mimoso e gentil; e sim dois pés -inglezes de soffrivel tamanho, que lhe pareciam descansar sobre uma -almofada preta. -</p> -<p> -O semblante de Laura se tinha demudado de uma maneira espantosa; em suas -faces entumecidas respirava uma expressão feroz de odio e vingança. -</p> -<p> -Horacio comprehendeu que naquelle momento qualquer explicação era -impossivel. O que tinha de melhor a fazer era eclipsar-se. No fim de -contas esse desenlace lhe convinha, pois cortava todas as dificuldades -da retirada. -</p> -<p> -Cortejou e sahiu. -</p> -<p> -A alguns passos da casa, o leão não poude conter uma gargalhada, que -lhe estava a soffocar, e desabafou-a. Realmente havia de que rir; duas -vezes mistificado em sua paixão, elle o rei da moda, o conquistador -sempre feliz. -</p> -<p> -Insensivelmente começou á reflectir sobre o occorrido. Por mais que se -désse tratos, a imaginação não podia decifrar o enigma. A botina que -achara fôra perdida por uma das duas moças; mas não pertencia á -nenhuma. Seria encommenda de outra amiga, e talvez para alguma menina de -dez annos? -</p> -<p> -De repente surgiu no espirito de Horacio uma idéa tão original, como a -situação em que se achava. -</p> -<p> -—Eu vi os dois pés de Laura; mas de Amelia, só vi um; é verdade que -esse valia por tres. Mas... Não resta duvida. A naturesa tem destes -caprichos. A maravilha a par do monstro, o mimo em face da deformidade! -É o principio do contraste, que rege o mundo. Eu vi o direito, o -aleijão. O esquerdo ficou occulto, como a perola e o diamante. -</p> -<p> -Compenetrado dessa idéa, de que o pésinho adorado pertencia a Amelia, -a quem a naturesa em compensação aleijara o outro; Horacio admittiu a -possibilidade de que sua paixão pela moça revivesse, embora menos -ardente, ou mais positiva. -</p> -<p> -Ter aquelle pésinho em suas mãos, sentil-o estremecer e palpitar de -emoção, cobril-o de beijos, acariciar a rosea cutis diaphana, tecida -de veias azues; brincar-lhe com as unhas crespas, como conchinhas de -nacar; cingir ao seio esse gnomo gentil, titilante de amor e volupia!... -</p> -<p> -Não podia haver para o leão maior delicia neste mundo. Elle daria por -ella todo o quinhão de prazer que por ventura lhe estava reservado para -o resto da existencia. -</p> -<p> -Foi engolphado nestes devaneios que Horacio apeou-se á rua Direita de -um tilbure, que tomara no largo do Machado. -</p> -<p> -Seguindo para a rua do Ouvidor, á passo lento e descuidado, o leão -aspirava o ar da cidade, como o ocioso que não sabe em que ha de -consumir o dia, e fareja uma aventura qualquer. -</p> -<p> -De repente avistou cousa que o pôz alerta. Um carro que subia a rua do -Ouvidor passou por elle; era o <i>coupé</i> do Salles. O rosto encantador -de Amelia appareceu-lhe á principio de relance na penumbra que azulava o -acolxoado de damasco, depois em plena luz moldurado pelo quadro do -postigo. -</p> -<p> -Acompanhando com o olhar a carruagem, Horacio a viu rodar por algum -tempo vagarosamente por causa de embaraço no transito e parar proximo -á esquina da rua dos Ourives. O lacaio, com a mão na aldraba, esperava -naturalmente ordem para abrir. -</p> -<p> -Horacio apressou o passo. Por duas vezes avistara a fronte de Amelia -coroada com um chapeosinho de palha de Italia, assomando no postigo, -afim de percorrer a rua com o olhar. A idéa de que a moça lhe desejava -fallar passou pela mente do leão, que a repelliu, sem comtudo -consideral-a impossivel. -</p> -<p> -Em todo o caso elle acreditou que mais ou menos tinha parte naquella -parada do carro, e não se enganava. -</p> -<p> -—Para que mandaste parar? perguntou D. Leonor. -</p> -<p> -—Quero comprar luvas no Masset; respondeu a filha. -</p> -<p> -—Ficou atraz. -</p> -<p> -—Podemos ir a pé. -</p> -<p> -Quando o leão chegou a dez braças do carro, a portinhola abriu-se e -Amelia, em companhia de sua mãi, saltou na calçada. A moça tinha um -roupão côr de café, de extrema simplicidade, porém muito elegante; -as luvas eram da mesma côr de cinza das fitas do chapéo de palha. -</p> -<p> -As duas senhoras dirigiram-se para a casa do Masset. Horacio procurou -cortejal-as na passagem, mas ellas não lhe deram occasião. Comtudo o -leão reparou que a moça desfarçadamente voltou o rosto para olhal-o. -</p> -<p> -Emquanto as senhoras compravam luvas, Horacio as esperava em frente da -casa do Valais, á alguns passos do carro. Pouco tardaram. Amelia vinha -só na frente. Felizmente o transito pela calçada diminuiu naquelle -instante, de modo que o conquistador poude vêr a gôsto a moça -aproximar-se delle. Levados por um impulso irresistivel os olhares do -mancebo abaixavam-se para os volantes do vestido, e rastejaram no chão -que a moça pisava. -</p> -<p> -Amelia percebeu a insistencia do olhar, e um ligeiro sorriso fugiu-lhe -dos labios. Imaginando que na calçada havia lama, colheu com ambas as -mãos a frente da saia, e com tanto estouvamento que descobriu os pés -até o colo da perna. -</p> -<p> -Horacio ficou fulminado. -</p> -<p> -Vira pousados na calçada dois pésinhos mimosos que palpitavam dentro -de botinas de merinó côr de cinza. Pareciam um par de rolinhas, -arrulhando na praia, e beijando-se com o biquinho rosado. Durante o -rapido instante, que seus olhos poderam admirar esses primores de graça -e gentileza, não escaparam a Horacio as ondulações voluptuosas e os -contornos suaves dos dois silphos. Nunca elle observara no talhe -elegante da mais formosa mulher, requebros tão avelludados como tinha -aquelle dorso arqueado, e aquella palmilha subtil. -</p> -<p> -Tamanho foi o pasmo de Horacio, que só deu por si quando a moça, -passando por elle, entrou na carruagem. Voltou-se então -precipitadamente, sem consciencia do que ia fazer; mas a parelha já -tinha partido a trote largo. -</p> -<p> -Momentos depois o leão descia a rua do Ouvidor completamente absorto. -Seu labio distrahido ia debulhando, sem o sentir, alguns trechos dos -lindos versos do conselheiro José Bonifácio: -</p> -<p> -«Padres, não me negueis, se estáes em calma, Um coração no pé, na -perna um'alma!» -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XVIII">XVIII</a></h4> - -<p> -Laura e Amelia eram primas e amigas de infancia; havia entre ellas -apenas a differença de dezoito mezes. -</p> -<p> -Desde a idade de tres ou quatro annos, isto é, desde que deixou as -faxas, Laura usou sempre de roupas compridas. Isso causava reparo a -todos que viam a menina trajada como uma senhora. Muitos achavam -extravagante e ridiculo o capricho e censuravam a mãi. -</p> -<p> -Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos, -e calava-se; mas não alterava o vestuario da menina. A ternura e -piedade materna lhe davam a paciencia necessaria para arrostar com as -zombarias do mundo. -</p> -<p> -Laura tinha um aleijão; nascêra com os pés disformes. Para mais -aggravar o desgôsto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada á uma -belleza angelica. A senhora avaliou do infortunio de sua filha; e -preparou-se para todos os sacrificios. Consultas foram dirigidas aos -melhores medicos da Europa; chegou a emprehender uma viagem para tentar -os recursos da sciencia; foram todos ineficazes. -</p> -<p> -Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgraça de sua filha, afim -de que ella não fosse obrigada á envergonhar-se na sociedade. Durante -muito tempo Laura não teve outra criada, alem de sua mãi. A custa de -esforços constantes, de uma vigilancia incessante de cada dia e cada -hora, conseguiu a senhora manter esse segredo de familia, do qual -dependia a felicidade da filha. -</p> -<p> -Attingindo a idade de oito annos, a menina com o instincto da mulher, -comprehendêra seu infortunio; e desde então descansou a mãi daquelle -cuidado incessante. Ficando moça casou-se, e seu marido que a amava -extremecidamente, morreu ignorando o segredo. -</p> -<p> -Com bastante magoa sua, Amelia sorprendeu o segredo da prima e amiga. -</p> -<p> -A filha de Salles tinha dois pésinhos de fada, breves, arqueados, com -uns dedos que pareciam botões de rosa. O desgosto e vexame que isso -causava á moça, ninguem o imagina. Ella suppunha-se aleijada; apezar -de seus 18 annos, seus pés eram de menina. -</p> -<p> -Assim o mesmo cuidado com que Laura escondia a sua monstruosidade, punha -ella em occultar essa graça e prenda da natureza. Naquelle tempo não -se tinha introduzido ainda a moda dos vestidos curtos; bem ao contrario -o tom era arrastar desdenhosamente pelo chão a longa fimbria do -vestido. -</p> -<p> -Um dia que Laura passou em sua casa, Amelia teve curiosidade de comparar -seu pésinho com o da prima, para saber si a differença era excessiva. -Em quanto a outra endireitava o penteado no toucador, realisou ella seu -intento. -</p> -<p> -Avalie-se da vergonha e afflição de Laura; o desespero de Amelia foi -maior ainda. Não perdoava a si mesma o ter causado tão grande pezar á -prima, á quem ella queria muito bem. Para mitigar essa dôr profunda, -Laura esqueceu a sua. -</p> -<p> -Desde então as duas amigas se consolavam mutuamente. Laura admirava o -pésinho de Amelia; esta, ou sinceramente, ou para attenuar a magoa da -prima, chegava a invejar o seu infortunio. -</p> -<p> -Aborrecida de não encontrar nas lojas calçado que lhe servisse, Amelia -tinha descoberto por acaso o sapateiro da rua Sete de Setembro. -Conhecendo a habilidade do Mattos, pensou que elle podesse disfarçar o -defeito da prima. Não se enganou; o artista realisara a obra-prima de -paciencia, que Leopoldo tivera occasião de apreciar por um acaso. -</p> -<p> -Amelia fez á Laura o sacrificio de expôr-se para não comprometter o -segredo da amiga. O sapateiro não a conhecia, nunca a tinha visto, -recebia as encommendas por intermedio de um criado que pagava á vista. -Facil foi portanto illudil-o. -</p> -<p> -Na occasião em que as duas primas esperavam de carro na rua da -Quitanda, o lacaio vinha da casa do sapateiro, o qual vexado com a -pressa, esquecêra as recommendações de fechar bem o embrulho. -</p> -<p> -As pretenções de Horacio vieram pouco depois arrefecer a amizade das -duas primas; já não se viam tão a miude; mas não obstante Amelia -continuou a prestar a Laura o mesmo serviço, e essa, coagida pela -necessidade, foi obrigada a acceital-o. -</p> -<p> -Iam as cousas por esse theor, quando teve logar o baile do Azevedo. -</p> -<p> -Depois da primeira quadrilha, Amelia foi ao toucador. Era este em uma -sala que dava para o jardim. Aproximando-se de uma janella entreaberta, -obscurecida pela sombra do cortinado da cama, viu a moça os dois amigos -no momento em que elles vieram sentar-se no banco, justamente collocado -por baixo da janella. -</p> -<p> -A casa era abarracada. Amelia encostada no portal da janella, descobria -os dois cavalheiros por entre a folhagem, e ouvia distinctamente suas -palavras. -</p> -<p> -Ahi, immovel, mas agitada por commoções diversas, escutou ella a -historia do pé, e a historia do sorriso. Já os dois amigos se tinham -afastado, e a moça permanecia no mesmo logar, como extatica. -</p> -<p> -A narração de Horacio, e as observações que fizera Leopoldo a esse -respeito, revelaram á moça uma cousa que já anteriormente se havia -apresentado, embora indistincta, vaga e confusa á seu espirito. -</p> -<p> -O que Horacio amava nella, não era mais do que uma fórma, um capricho, -um sonho de sua imaginação enferma. Ella comprehendeu essa aberração -dos sentidos em um homem gasto para o amor e saciado de prazeres. A -mulher era para o leão uma cousa commum e vulgar, incapaz de -produzir-lhe emoções fortes. Tinha-as admirado, de todos os typos e de -todos os caracteres. Seu coração exhausto precisava de alguma cousa -nova, original e extravagante. -</p> -<p> -Amelia comprehendeu isto, não por uma analyse, que seu espirito casto -não poderia fazer; mas por uma intuição d'alma. -</p> -<p> -Quando de novo encontrou Horacio no baile, suas maneiras não podiam que -se não resentissem do estado de seu coração. Tratou o leão -seccamente; mas logo tornou-se amavel; occorreu-lhe uma idéa; quiz pôr -á prova o amor do noivo, antes de confiar-lhe seu destino. -</p> -<p> -Foi na sua alcova, durante a insomnia, que ella recordou-se da historia -de Leopoldo, e comparou seu amor ao de Horacio. Repassando na mente as -palavras commovidas do primeiro, pensando naquelle affecto tão -desprendido das miserias humanas, tão d'alma, Amelia sentia-se como -purificada dos desejos do seductor. -</p> -<p> -Esse amor puro e immaterial era um baptismo para seu coração virgem. -</p> -<p> -A moça conheceu que o engano de Leopoldo, provinha de uma illusão da -vista, no momento de entrar no carro com Laura; illusão confirmada pela -presença do lacaio na loja do sapateiro. Chegou á estimar esse -incidente que pôz em relevo a alma nobre e generosa do mancebo. -</p> -<p> -Acodiu-lhe á lembrança, sua primeira conversa em casa de D. -Clementina. As palavras que então lhe pareceram inintelligiveis, tinham -agora um sentido. Comprehendia toda a sublimidade do coração que dizia -com uma profunda convicção:—«Sinto-me capaz de amar o horrivel, -sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões martyres, de amar o anjo -ainda mesmo encarnado no aleijão.» -</p> -<p> -—Esse me ama realmente, a mim, e não a sua fantazia! murmurou a moça -com tristeza. -</p> -<p> -No dia seguinte, depois de uma noite de insomnia, preparou-se para -receber Horacio, e submettel-o á prova. O Mattos conservava um par das -antigas botinas de Laura, o qual lhe fôra para modelo. Mandou Amelia -buscal-o; e encheu-o de algodão para acommodar nessa enormidade o seu -mimoso pésinho. -</p> -<p> -O bordado do bastidor, foi expressamente inventado. Procurando uma -lettra para indicar a pessoa a quem destinava o pretendido presente, -insensivelmente traçou um L. Era a inicial de Laura, que lhe acudira a -mente, ou era a lembrança de Leopoldo, que lhe esvoaçava ainda na -imaginação? Foi uma e outra cousa. Serviu-se do pretexto da amiga, -para evocar o nome do homem, que tão profundamente a amava. -</p> -<p> -Depois da scena que teve logar na tarde do jantar, Amelia arrependeu-se. -Receiava ter-se excedido; bastava-lhe matar a illusão do mancebo, não -devia ter excitado o horror. Mas o affecto de Leopoldo a tornara -exigente, ella queria ser amada por Horacio da mesma fórma, com aquella -sublime abnegação. -</p> -<p> -Durante alguns dias, alimentou a esperança de conservar a affeição do -noivo, e regosijava-se com a idéa da sorpresa que lhe guardava. -</p> -<p> -A ausencia do leão a foi desenganando de dia em dia. Travou-se então -uma luta em seu espirito. Devia esquecer o homem que não amava nella -sinão uma fantazia? -</p> -<p> -O tom de Horacio na ultima noite a irritou. Seu amor proprio indignou-se -com o menoscabo do moço e subita revelação de sua alma lhe advertiu, -</p> -<p> -No dia seguinte ao do rompimento, Amelia foi como havia dito na vespera -á casa de D. Clementina. Era a primeira vez que tornava a vêr Leopoldo -depois do baile. -</p> -<p> -Estiveram juntos alguns momentos. Como de costume Leopoldo fallou, e a -moça embebeu-se daquellas palavras apaixonadas como de um effluvio -suave. -</p> -<p> -Em um momento de pausa, disse Amelia. -</p> -<p> -—O senhor, passou por nossa casa na terça-feira? -</p> -<p> -—É verdade. Porque pergunta? -</p> -<p> -—Eu estava no jardim. Vi-o quando passava; cuidei que ia entrar. -</p> -<p> -—Não me animava. -</p> -<p> -—Porque?... Mamãi já lhe offereceu nossa casa. -</p> -<p> -—Tenho receio de ser importuno. -</p> -<p> -—Pouco sahimos agora; á excepção das noites que passamos aqui, -estamos sempre sós; mamãi lendo, e eu tocando ou fazendo algum -trabalho de lã. -</p> -<p> -—E ninguem mais? perguntou Leopoldo, fitando na moça um olhar -interrogador. -</p> -<p> -—Ninguem! respondeu Amelia em tom grave. -</p> -<p> -Leopoldo ficou suspenso, buscando comprehender o pensamento da moça. -Era magoa do bem perdido, ou temor do mal frustrado, que assim lhe -annuviara a phisionomia? -</p> -<p> -Mas o sorriso prasenteiro illuminou o semblante da moça: -</p> -<p> -—Sabe? Naquella noite do baile, me contaram uma historia muito -interessante? disse ella. -</p> -<p> -—Não se póde saber? -</p> -<p> -—O senhor, póde. Foi a <i>historia de um sorriso</i>, disse Amelia -sublinhando a palavra com um gesto faceiro. -</p> -<p> -—Quem lhe contou? Foi elle... -</p> -<p> -—Foi o senhor. -</p> -<p> -—Eu? -</p> -<p> -—O senhor mesmo. Já não se lembra? -</p> -<p> -—Quer gracejar? -</p> -<p> -—O senhor estava no jardim conversando com seu amigo, e eu na janella -do toucador. -</p> -<p> -Leopoldo adivinhou. -</p> -<p> -—Então ouviu tudo? -</p> -<p> -—Tudo!... -</p> -<p> -—E... perdoou-me? -</p> -<p> -—Não; não tinha de que, mas... -</p> -<p> -E seus bellos olhos limpidos repousaram no semblante do moço. -</p> -<p> -—Mas comprehendi! -</p> -<p> -Nesse momento D. Leonor chamou Amelia. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XIX">XIX</a></h4> - -<p> -Quando recobrou-se da sorpreza era que tinha ficado, Horacio não achou -em si mais do que o desejo vehemente e irresistivel de possuir o idolo -por tanto tempo sonhado. -</p> -<p> -—Serão meus! murmurou comsigo. Serão meus á todo preço. Si fôr -necessario um escandalo, não hesitarei. Mas Amelia não deve ter-se -esquecido de mim já tão depressa; ella me tinha affeição. Vou -pedir-lhe perdão de meu engano. Sujeitar-me-hei á todas as -condições. Que sacrificios são bastantes para pagar a felicidade de -beijar aquelles dous mimos da natureza! -</p> -<p> -Instinctivamente Horacio seguiu na direcção da casa do Salles, com -intenção de restabelecer as relações interrompidas. Não sabia elle -de que modo se houvesse em tal empenho; fiava da inspiração do -momento. -</p> -<p> -Já não estava o negociante no escriptorio, nesse dia se retirára mais -cedo. -</p> -<p> -Mallograda sua esperança, o leão foi caminhando pela rua Direita sem -direcção, como quem não sabe o que fazer. O instincto que no deserto -guia o rei dos animaes á cebe odorifera onde retoução as gazellas, o -conduzia naturalmente para a rua do Ouvidor. -</p> -<p> -Tinha chegado á esquina, quando passou defronte um moço, que seguiu -pela calçada Carceller. Horacio acompanhou-o com a vista, querendo -nelle reconhecer seu amigo Leopoldo que havia cerca de um mez não vira. -</p> -<p> -Si com effeito o moço era Leopoldo, tinha elle soffrido grande -transformação. Em vez do rapaz descuidado no seu trajo, brusco em suas -maneiras, sempre de cabellos arripiados e barba revolta; apparecia um -cavalheiro de bôa presença, com a sobria elegancia que tão bem -assenta nos homens sisudos. Essa especie de elegancia é apenas um -ligeiro perfume, e não uma incrustação como a que usam os moços á -moda. -</p> -<p> -Com seu fino tacto e longa experiencia, Horacio, reconhecendo o amigo, -adivinhou o segredo daquella subita methamorphose. Elle sabia que só ha -um condão capaz de produzir taes encantos; é o olhar da mulher amada e -amante. -</p> -<p> -Ame alguém e não saiba si é retribuido. Toda sua existencia se -projecta nesse impulso d'alma, que se arroja para outro ser, e ancêa -por nelle infundir-se. Vive-se fóra de si mesmo, alheio á seu proprio -eu; como o peregrino perdido longe da patria, o homem exilado de sua -pessoa erra no espaço, em demanda de um abrigo. -</p> -<p> -Desde, porém, que o homem tem certeza de ser amado, em vez de -espandir-se recolhe e concentra para saturar-se de felicidade. Já não -se alheia e esquece de si; ao contrario sente-se elevado acima do que -era; respeita em sua pessoa o homem amado. -</p> -<p> -Nessa occasião é natural á cada um observar-se constantemente, e -julgar de si com extrema severidade. Surgem aspirações extranhas; o -fraco lembra-se de ser um heróe; o philosopho inveja a belleza do -casquilho; o espirito positivo habituado a voar terra a terra bate o -coto das azas para remontar-se ao ideal da poesia. -</p> -<p> -Não é só no homem que se opera essa methamorphose: mas em toda a -natureza. Quando se arreiam os passaros de sua mais bella plumagem, -quando gorgeiam as melodias mais brilhantes, si não é na quadra dos -amores? -</p> -<p> -Vendo Leopoldo parado na calçada Carceller, Horacio dirigiu-se com -disfarce para aquella parte, com intenção de travar conversa e -esclarecer de todo em todo o mysterio. Foi trabalho perdido; o moço -acabava de saltar em um tilbure, que rodava já pela praça de Pedro II. -</p> -<p> -Desapontado, voltou Horacio sobre os passos. -</p> -<p> -—Amelia o ama!... Ou pelo menos elle o acredita!... -</p> -<p> -Sorriu-se o leão. -</p> -<p> -—Que phenomeno curioso produz o despeito na mulher! É uma semelhança -da luz reflexa. Irritado pela decepção, humilhado em sua vaidade, o -amor da mulher desdenhada refrange como o raio do sol repellido por -corpo brilhante e vai impregnar-se em outro homem. Ella cuida sentir por -esse plastão uma paixão ardente, que nada mais é do que o impeto de -seu despeito. Seria capaz de conceder á esse comparsa, o que recusaria -á affeição mais terna e extremosa. O assomo do ciume, suppõe ella -ser vehemencia da affeicção; e confunde com os extremos de amor o -delirio da vingança. Amelia está passando por esta crise naturalmente. -Leopoldo foi o plastão; ella o ama com todo o furor do odio que me tem. -</p> -<p> -Outro sorriso frisou o labio do leão. -</p> -<p> -—Ella me odeia! Ora!... O odio o que é senão a effervescencia do -amor? O affecto suave e terno é como o muscatel de Setubal ou o vinho -de Constança. O amor fero e irado é como o champanhe que ferve e -espuma. -</p> -<p> -Chegando a casa, Horacio escreveu a Amelia uma carta, que apenas -continha estas palavras: -</p> -<p> -«Deve estar satisfeita, pois me tem de novo á seus pés, e desta vez -humilde e supplicante. A melhor corôa do triumpho é o perdão.» -</p> -<p> -Sahindo o leão á espairecer, dirigiu os passos para a casa do Salles; -esperava encontrar algum criado que se incumbisse de entregar a carta. -Quem sabe? Talvez nessa mesma occasião se decidisse de sua sorte. A -moça lhe permittiria fallar-lhe. -</p> -<p> -Era noite fechada; o céu, carregado de nuvens, annunciava proxima -borrasca. A frente da casa do negociante estava ás escuras; comtudo -quem observasse bem, perceberia a coar-se pelos intersticios das -janellas um tenue reflexo de luz interior. No portão da chacara á meio -cerrado, ninguem apparecia. -</p> -<p> -O leão penetrou no jardim. Nesse momento um carro parou á porta da -casa: tres pessoas sahiram delle. Em um Horacio viu estremecendo roupas -de sacerdote. Só então reflectiu o moço no aspecto soturno do -edificio. Inquieto, sobresaltado, adiantou-se pelo jardim na esperança -de encontrar pessoa a quem interrogasse. -</p> -<p> -As janellas lateraes estavam esclarecidas; e pelo jogo das sombras no -quadro illuminado, conheceu o moço que reinava no interior alguma -agitação. -</p> -<p> -Que fazer? Apresentar-se na casa, depois do que passára, e antes de -qualquer explicação não era rasoavel. -</p> -<p> -A dois passos ficava uma frondosa mangueira, em cujos galhos tinham -fabricado uma especie de belveder ou caramanchão. Conduzia ao alto, uma -escadinha de caracol cingindo o tronco da arvore. -</p> -<p> -Por acaso avistou o leão a mangueira, e subindo sem hesitar achou-se -justamente fronteiro ás janellas illuminadas. Em principio a claridade -subita offuscou-lhe a vista, e não pôde elle distinguir o que passava -no interior. -</p> -<p> -Mas afinal o deslumbramento dos olhos cedeu ao deslumbramento d'alma. -</p> -<p> -Elle via, e duvidava. -</p> -<p> -Um altar erguido, cirios acesos, o sacerdote officiando, Amelia e -Leopoldo de joelhos, ao lado Salles, D. Leonor, e dois amigos que -serviam de testemunhas: eis o quadro que se offereceu aos olhos de -Horacio. Tinha visto na comedia da vida muitos lances dramaticos, mas -nenhum tão imprevisto e curioso. -</p> -<p> -A sorpresa do leão provinha de um engano seu. Elle acreditava que -Amelia o tinha amado, quando a moça não sentira por elle mais do que -o desvanecimento de vêr captivo de seus encantos o rei da moda, o feliz -conquistador dos salões. -</p> -<p> -Quem Amelia amou desde o principio, foi Leopoldo. A vaidade, o galanteio -que se nutre de brilhantes futilidades, a seduziam por momentos, e -rendiam ao capricho de Horacio. Mas passado esse enlevo, sua alma sentia -a attracção irresistivel que a impellia para o seu pólo. -</p> -<p> -Disso que durante dois mezes passava na vida intima da moça, ella -propria não se apercebia; foi depois da scena do baile, que ella entrou -em si, e comprehendeu as sublevações reconditas de sua alma, e o drama -que ahi se agitava desde muito. -</p> -<p> -Leopoldo começara a frequentar a casa de Salles, poucos dias depois da -partida de D. Clementina. As duas almas por tanto tempo separadas, só -esperavam o momento de se unirem ou antes de se entranharem uma na -outra. As tardes, no jardim, entre cortinas de flôres, ellas celebravam -esse mystico hymeneu do amor, unico eterno e indissoluvel, porque se faz -no seio do Creador. -</p> -<p> -Pelo voto de todos se apressou o dia do casamento, que os noivos -exigiram se fizesse inteiramente á capucha, e sem prévia -participação. A razão desse empenho, só Amelia a sabia e nunca a -disse. Era um escrupulo de seu pudor: depois de que tinha acontecido, -não queria que lhe dessem outra vez o titulo de noiva. -</p> -<p> -Terminada a ceremonia, e feitas as felicitações do costume, correram -os minutos em agradavel conversação. -</p> -<p> -Eram 11 horas, quando Leopoldo entrou no toucador em que sua noiva o -esperava. Sentado em uma conversadeira, Amelia sorriu para seu marido; -porém através das largas dobras do roupão de cambraia, percebia-se o -tremor involuntario que agitava seu lindo talhe. -</p> -<p> -—É meu presente! disse ella com timidez. -</p> -<p> -E apresentou ao noivo um objecto envolto em papel de seda, atado com -fita azul. -</p> -<p> -Abrindo, achou Leopoldo dois mimosos pantufos de setim branco, os mesmos -que Amelia começara a bordar no dia seguinte ao baile. -</p> -<p> -O moço enleiado, não comprehendia. Insensivelmente seu olhar desceu á -fimbria do roupão. Sobre a almofada de velludo e entre os folhos da -cambraia, appareciam as unhas rosadas de dois pésinhos divinos. -</p> -<p> -Uma onda de rubor derramou-se pelo semblante da moça, cujos labios -balbuciaram uma palavra. -</p> -<p> -—Calce! -</p> -<p> -Leopoldo ajoelhou aos pés da noiva. -</p> -<p> -O temporal, desabando nesse momento, bateu com violencia nos vidros da -janella, que fechou-se. -</p> -<p> -Horacio desceu do seu observatorio, e escalando a grade de ferro do -jardim, ganhou a casa, onde chegou todo alagado. Emquanto -philosophicamente esperava que seu criado lhe preparasse uma chicara de -café, abriu um livro, que acertou ser La Fontaine. -</p> -<p> -Leu ao acaso; era a fabula do <i>leão amoroso</i>. -</p> -<p> -—É verdade! murmurou soltando uma fumaça de charuto. O leão deixou -que lhe cerceassem as garras; foi esmagado pela pata da gazella. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>FIM.</h4> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<p> -N. B.—Escrevo <i>tilbure</i>, <i>champanhe</i>, etc., porque -entendo que devemos imprimir certo cunho portuguez nas palavras -estrangeiras adoptadas pelo uso. Assim fizeram nossos antepassados, -escrevendo <i>trumo</i>, <i>trenó</i>, <i>bufete</i> e tantas outras -palavras de origem franceza. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div lang='en' xml:lang='en'> -<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A PATA DA GAZELLA:</span> ***</div> -<div style='text-align:left'> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Updated editions will replace the previous one—the old editions will -be renamed. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg™ electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg™ electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg™ -electronic works. See paragraph 1.E below. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation (“the -Foundation” or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg™ electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. 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Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg™ work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country other than the United States. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg™ License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg™ work (any work -on which the phrase “Project Gutenberg” appears, or with which the -phrase “Project Gutenberg” is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: -</div> - -<blockquote> - <div style='display:block; margin:1em 0'> - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most - other parts of the world at no cost and with almost no restrictions - whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms - of the Project Gutenberg License included with this eBook or online - at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. 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If an individual Project Gutenberg™ electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg™ License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg™ -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg™. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.5. 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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.6. 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Information about the Mission of Project Gutenberg™ -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s -goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg™ and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state’s laws. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation’s website -and official page at www.gutenberg.org/contact -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread -public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. 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Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Most people start at our website which has the main PG search -facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This website includes information about Project Gutenberg™, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. -</div> - -</div> -</div> -</body> - -</html> - diff --git a/old/67831-h/images/gazella_cover.jpg b/old/67831-h/images/gazella_cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index f70dfbd..0000000 --- a/old/67831-h/images/gazella_cover.jpg +++ /dev/null |
