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-The Project Gutenberg eBook of A flor secca, by Manuel Pinheiro
-Chagas
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: A flor secca
-
-Author: Manuel Pinheiro Chagas
-
-Release Date: November 14, 2022 [eBook #69353]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: The Online Distributed Proofreading Team at
- https://www.pgdp.net (This file was produced from images
- generously made available by The Internet Archive)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A FLOR SECCA ***
-
-
-
-
-
- OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO
-
-Edição popular das suas principaes obras em 80 volumes in-8.º, de 200 a
- 300 paginas impressa em bom papel, typo elzevir
-
- [Illustração]
-
-
- 1--Coisas espantosas.
- 2--As tres irmans.
- 3--A engeitada.
- 4--Doze casamentos felizes.
- 5--O esqueleto.
- 6--O bem e o mal.
- 7--o senhor do Paço de Ninães.
- 8--Anathema.
- 9--A mulher fatal.
- 10--Cavar em ruinas.
- 11 e 12--Correspondencia epistolar.
- 13--Divindade de Jesus.
- 14--A doida do Candal.
- 15--Duas horas de leitura.
- 16--Fanny.
- 17, 18 e 19--Novellas do Minho.
- 20 e 21--Horas de paz.
- 22--Agulha em palheiro.
- 23--O olho de vidro.
- 24--Annos de prosa.
- 25--Os brilhantes do brasileiro.
- 26--A bruxa do Monte-Cordova.
- 27--Carlota Angela.
- 28--Quatro horas innocentes.
- 29--As virtudes antigas.
- 30--A filha do Doutor Negro.
- 31--Estrellas propicias.
- 32--A filha do regicida.
- 33 e 34--O demonio do ouro.
- 35--O regicida.
- 36--A filha do arcediago.
- 37--A neta do arcediago.
- 38--Delictos da mocidade.
- 39--Onde está a felicidade?
- 40--Um homem de brios.
- 41--Memorias de Guilherme do Amaral.
- 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa.
- 45 e 46--Livro negro de padre Diniz.
- 47 e 48--O judeu.
- 49--Duas épocas da vida.
- 50--Estrellas funestas.
- 51--Lagrimas abençoadas.
- 52--Lucta de gigantes.
- 53 e 54--Memorias do carcere.
- 55--Mysterios de Fafe.
- 56--Coração, cabeça e estomago.
- 57--O que fazem mulheres.
- 58--O retrato de Ricardina.
- 59--O sangue.
- 60--O santo da montanha.
- 61--Vingança.
- 62--Vinte horas de liteira.
- 63--A queda d’um anjo.
- 64--Scenas da Foz.
- 65--Scenas contemporaneas.
- 66--O romance d’um rapaz pobre.
- 67--Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado.
- 68--Noites de Lamego.
- 69--Scenas innocentes da comedia humana.
- 70 e 71--Os Martyres.
- 72--Um livro.
- 73--A Sereia.
- 74--Esboços de apreciações litterarias.
- 75--Cousas leves e pesadas.
- 76--THEATRO: I--Agostinho de
- Ceuta.--O marquez de
- Torres-Novas.
- 77--THEATRO: II--Poesia ou dinheiro?--Justiça.--Espinhos
- e flôres.--Purgatorio
- e Paraizo.
- 78--THEATRO: III--O Morgado
- de Fafe em Lisboa.--O
- Morgado de Fafe amoroso.--O
- ultimo acto.--Abençoadas
- lagrimas!
- 79--THEATRO: IV--O condemnado.--Como
- os anjos se
- vingam.--Entre a flauta e
- a viola.
- 80--THEATRO: V--O Lobis-Homem.--A
- Morgadinha de Val-d’Amores.
-
-
-
-
- CAMILLIANA
-
-
-=Camillo Castello Branco=--_Notas á margem em varios livros da sua
-biblioteca_, recolhidas por Alvaro Neves.--1 vol. br. 600 rs.; enc.
-1$000.
-
-=Camillo Castello Branco=--_Tipos e episodios da sua galeria_, por
-Sergio de Castro.--3 vols., contendo inumeras transcrições da obra de
-Camillo, br. 1$800 rs.; enc. 2$800 rs.
-
-=Poesias dispersas de Camillo Castello Branco=--1 vol. de 247 pag. em
-papel de linho nacional. Tiragem 48 ex., br. 6$000 rs.
-
-=Hosanna!= Por Camillo Castello Branco. Fiel reprodução zincografica da
-1.ª edição de 1852, hoje rarissima. Tiragem 60 ex., br. 2$500 rs.
-
-=Os pundonores desagravados=, por Camillo Castello Branco. Reprodução
-como acima da 1.ª edição de 1845. Tambem rarissima. Tiragem 60 ex., br.
-1$000.
-
-=Prefacio da 1.ª edição do Diccionario de Azevedo=, por Camillo
-Castello Branco.--Fl. 1$000.
-
-
-
-
- COLLECÇÃO ECONOMICA
-
- Volumes in-16.º de 240 a 320 paginas
-
- ROMANCES DOS MELHORES AUCTORES
-
-
- VOLUMES PUBLICADOS
-
- 1--Aventuras prodigiosas de Tartarin de Tarascon, seguidas de Tartarin
- nos Alpes, por A. Daudet.
-
- 2--Esgotado.
-
- 3--Sergio Panine, por Jorge Ohnet.
-
- 4--Esgotado.
-
- 5--Soror Philomena, por Edmond e J. Goncourt.
-
- 6--Esgotado.
-
- 7--Os milhões vergonhosos, por Heitor Malot.
-
- 8--Esgotado.
-
- 9--Esgotado.
-
- 10--Esgotado.
-
- 11--Esgotado.
-
- 12--Esgotado.
-
- 13--Um coração de mulher, por Paul Bourget.
-
- 14--Esgotado.
-
- 15--Esgotado.
-
- 16--Esgotado.
-
- 17--Esgotado.
-
- 18--O ultimo amor, por Ohnet.
-
- 19--Um bulgaro, por Ivan Tourgueneffe.
-
- 20--Memorias d’um suicida, por Maxime du Camp.
-
- 21--Esgotado.
-
- 22--Esgotado.
-
- 23--Camilla, por G. Ginisty.
-
- 24--Trahida, por Maxime Paz.
-
- 25--Sua Magestade o Amor, por A. Belot.
-
- 26--Esgotado.
-
- 27--Os reis no exilio, por A. Daudet.
-
- 28--Esgotado.
-
- 29--Mentiras, por Paul Bourget.
-
- 30--Marinheiro, por Pierre Loti.
-
- 31--Esgotado.
-
- 32--A Evangelista, por Daudet.
-
- 33--Aranha vermelha, por R. de Pent Jest.
-
- 34 e 35--Esgotado.
-
- 36--Parisienses!... por H. Davenel.
-
- 37--Ao entardecer!... por Iveling Rambaud.
-
- 38--A confissão de Carolina, trad. de J. Sarmento.
-
- 39--Esgotado.
-
- 40--Esgotado.
-
- 41--O abbade de Faviéres, por J. Ohnet.
-
- 42--Esgotado.
-
- 43--Esgotado.
-
- 44--A nihilista, por C. Mendés.
-
- 45--Esgotado.
-
- 46--Morta de amor, por Delpit.
-
- 47--João Sbogar, por C. Nadier.
-
- 48--Viagem sentimental, por Sterne.
-
- 49--O milhão do tio Raclot, por Emile Richebourg.
-
- 50--A confissão de um rapaz do seculo, por Musset.
-
- 51--Esgotado.
-
- 52--O castello de Lourps, por J. K. Huysmans.
-
- 53--Amor de Miss, por J. Blain.
-
- 54--A sogra, por Laforest.
-
- 55--Colomba, por P. Merimée.
-
- 56--Katia, por L. Tolstoï.
-
- 57--Alma simples, por Dostoiewsky.
-
- 58--Duplo amor, por Rosny.
-
- 59--Contos fantasticos, por Hoffmann.
-
- 60--A princeza Maria, por Lermontoff.
-
- 61--Rosa de maio, por Armand Silvestre.
-
- 62--Esgotado.
-
- 63--O romance do homem amarello, pelo general Tcheng-Ki-Tong.
-
- 64--A dama das violetas, por F. Guimarães Fonseca.
-
- 65 & 66--Nemrod & C.ª, por Jorge Ohnet.
-
- 67--Prisma de amor, por Paul Bonhomme.
-
- 68--Historia d’uma mulher, por Guy de Maupassant.
-
- 69 & 70--Educação sentimental, por G. Flaubert.
-
- 71--Depois do amor, por Ohnet.
-
- 72--A fava de Santo Ignacio, por Alexandre Pothey.
-
- 73 & 74--O herdeiro de Redclyffe, por Mrs. Yongue.
-
- 75--Uma ondina, por Theuriet.
-
- 76--A familia Laroche, por Marguerite Sevray.
-
- 77--As grandes lendas da humanidade, por d’Humive.
-
- 78 & 79--A filha do Dr. Jaufre, por Marcel Prevost.
-
- 80--A dama das camelias, por A. Dumas, Filho.
-
- 81--Dezeseis annos..., por F. C. Philips.
-
- 82 & 83--O Desthronado, por A. Ribeiro.
-
- 84--Ninho d’amor, por A. Campos.
-
- 85--Bodas Negras, por Almachio Diniz.
-
- 86--Do amor ao crime, por Alphonse Karr.
-
- 87--A ilha revoltada, por Ed. Lockroy.
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA--51.º Volume
-
- A FLOR SECCA
-
-
-
-
- COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
-
-
- A FLOR SECCA
-
- ROMANCE
-
- POR
-
- M. PINHEIRO CHAGAS
-
-
- SEGUNDA EDIÇÃO
-
-
- LISBOA
- PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
- LIVRARIA-EDITORA
- _Rua Augusta, 50, 52 e 54_
- 1904
-
-
-
-
- LISBOA
- OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO
- Movidas a vapor
- DA
- Parceria Antonio Maria Pereira
- _Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º_
- 1904
-
-
-
-
- A JULIO CESAR MACHADO
-
-
-
-
- MEU CARO JULIO
-
-
-Aqui vem collocar-se debaixo da tua protecção um livro que te é
-offerecido por aquelle timido rapaz, que te foi procurar ha tres
-annos, para te ler uns versos, que tu acolheste tão benevolamente, e
-a quem fizeste n’um dos teus deliciosos folhetins uns prognosticos
-tão lisongeiros. Não sei se a tua prophecia está em caminho de se
-realisar; sei que o teu protegido entrou na carreira litteraria, cujas
-portas lhe abriste doirando-lh’as com a luz já então prestigiosa da
-tua gloria, enflorando-lh’as com as grinaldas sempre viçosas do teu
-talento; sei que seguiu essa estrella fatal, a cuja influencia não póde
-eximir-se mais quem se deixou arrastar pelo seu magnetico fulgor; sei
-que, desejando mostrar-te a sincera amizade que te votou, e a gratidão
-que sente pelo benevolo acolhimento que outr’ora lhe fizeste, e pelas
-provas de constante estima que lhe tens dado, vem dedicar-te um dos
-pobres livros que é agora destino seu arrojar á voragem da publicidade.
-
-Acolhe-o bem. Elle pouco vale. Sei que te poderia e deveria talvez
-offerecer flor mais fragrante do que esta pobre _Flor Secca_, secca e
-sem perfume como a phantasia as produz emquanto a mão insaciavel do
-jornalismo as arranca sem descançar da hastea. Mas grassa actualmente
-na nossa litteratura uma tal epidemia de odiosinhos e invejas, de
-cumprimentos feitos cara a cara compensados por insultos escondidos
-na sombra, que tive pressa de te dizer bem alto deante de amigos e
-inimigos que me ufano de prestar publicamente homenagem ao teu talento,
-um dos mais sympathicos da nossa terra, e ao teu caracter, um dos mais
-nobres e leaes que tenho encontrado na minha carreira litteraria.
-
- PINHEIRO CHAGAS.
-
-
-
-
- I
-
-
-Tinha eu dezoito annos. Estava uma noite n’um baile em casa do conde
-de C... Acabara de valsar, e, toda offegante, vermelha e risonha,
-sentara-me na primeira cadeira que se me deparara, compondo o cabello,
-que se desarranjara no rapido voltear, quando meu pae se approximou de
-mim, acompanhado por um rapaz de vinte e cinco para vinte e seis annos.
-
---Margarida, disse-me elle, estendendo a mão para o seu companheiro,
-que se curvou gravemente deante de mim, tenho a honra de te apresentar
-o senhor Claudio da Cunha, proprietario e meu amigo.
-
-Claudio da Cunha fez-me de novo um grave cumprimento.
-
---Senhor Claudio da Cunha, continuou meu pae, voltando-se para elle, e
-indicando-me com o gesto, apresento-lhe minha filha, D. Margarida da
-Silveira.
-
-Estendi-lhe com desembaraço a mão encerrada na luva de pellica branca,
-e disse-lhe:
-
---Estimo immenso conhecel-o; os amigos de meu pae teem sempre direito á
-minha affeição.
-
---Travem n’esse caso conhecimento mais intimo, acudiu meu pae,
-sorrindo-se mysteriosamente e affastando-se.
-
-Havia ao meu lado uma cadeira vaga. O meu novo conhecido desviou-a um
-pouco, porque estava perfeitamente unida á minha cadeira, e sentou-se
-n’ella.
-
-Emquanto fazia tudo isto grave e pausadamente, relanceei os olhos para
-elle, e com esta rapidez de observação, que Deus concedeu ás pessoas do
-nosso sexo, pude n’esse instante formar tão perfeita idéa d’elle como
-se o houvera comtemplado e analysado duas horas.
-
-Claudio era, o que se póde chamar, um bonito homem. Alto, branco, de
-feições extremamente regulares, de olhos rasgados e azues, mas de um
-azul frio e sem expressão. Não tinham nem o brilho vivo e intenso
-d’esses olhos de um azul faiscante, se assim me posso exprimir, cuja
-côr parece o azulado reflexo que scintilla na plumagem negra do corvo,
-nem a meiga e melancholica limpidez do colorido dos lagos, que espelham
-no seu cristal o azul do firmamento. Tinha os olhos azues, porque as
-leis da optica exigem implacavelmente que os olhos tenham uma côr
-qualquer, e o acaso fizera que o azul competisse aos de Claudio da
-Cunha. Se fosse possivel dispensar-se condição por tal fórma essencial,
-estou convencida que aproveitariam com avidez essa isenção, e ficariam
-sem côr, como já estavam sem brilho.
-
-Haviamos apenas trocado algumas banalidades preliminares, quando
-romperam na orchestra os primeiros compassos de uma polka ingleza. A
-tal convite nunca eu soubera resistir.
-
-Olhei para Claudio, indicando-lhe claramente n’esse olhar que esperava
-que me tirasse para seu par na polka.
-
-O meu visinho não mostrou comprehender a intenção, que se lia nos meus
-olhos.
-
---Não dança? aventurei-me eu a dizer, vendo a sua immobilidade.
-
---Não, minha senhora, respondeu elle gravemente.
-
-Encolhi imperceptivelmente os hombros; uma creatura humana, e de mais
-a mais na flor da idade, que não dançava, era para mim uma d’estas
-monstruosidades incomprehensiveis, que a Providencia ás vezes phantasia
-n’uma das suas horas de mau humor.
-
-Por isso acolhi com jubilo um dos mais infatigaveis dançadores do
-baile, que veiu, com o sorriso nos labios, e com o rosto ainda humido
-do suor da valsa, convidar-me para uma polka ingleza.
-
-Levantei-me, puz-lhe logo a mão no hombro, esperei, batendo o compasso
-com o meu sapatinho de setim, que a musica nos désse occasião para nos
-arrojarmos ao vortice delicioso, e, leve como um passarinho, segura
-na cinta pela mão do meu par, comecei a descrever á roda da sala um
-d’esses airosos giros que tanto me enlevavam.
-
-Confesso que nunca mais pensei em Claudio da Cunha. Ás contradanças
-succederam as polkas, ás polkas as valsas, e, toda entregue a
-tão fervente prazer, esqueci essa especie de visão da prosa, que
-interrompera por instantes a delirante poesia do meu baile.
-
-O que não impediu que, ás tres horas da manhã, depois da mamã me ter
-feito signal que se retirava, quando, ao estarmos pondo as capas, veio
-Claudio da Cunha pedir as nossas ordens, e sollicitar licença para ir
-no dia seguinte a nossa casa apresentar-nos os seus cumprimentos, o que
-não impediu, repito, que o recebesse com um sorriso muito amavel, e lhe
-apertasse francamente a mão, que elle me estendeu com a sua habitual
-gravidade.
-
---Que tal te pareceu Claudio da Cunha? perguntou minha mãe sorrindo-se,
-quando íamos descendo as escadas do palacio.
-
---Pareceu-me bem, respondi eu, porque?
-
---É o noivo que te destinâmos, tornou minha mãe, inclinando-se um pouco
-para o meu ouvido.
-
---Ah! redargui eu distraidamente.
-
-Foi assim, entre uma polka e uma valsa, que travei conhecimento com meu
-marido.
-
-
-
-
- II
-
-
-Esse _Ah_ indifferente, com que eu acolhi uma noticia tão importante,
-merece e vae ter uma explicação.
-
-Chegára aos dezoito annos, e ainda não conhecera o amor, nem procurara
-conhecel-o. Frieza de organisação? perguntam-me. Pelo contrario,
-demasiado ardor.
-
-Imaginem uma creança, cuja phantasia devaneava sempre sonhos de ouro,
-terras encantadas das _Mil e uma noites_, choréas de brancas fadas,
-vultos ideaes e vaporosos, ignotas melodias, ineffaveis extasis, anjos
-de azas candidas, romances impossiveis, poemas maravilhosos. Imaginem
-essa creança, educada, rigida, severa, prosaicamente, por um pae, que
-franzia o sobr’olho sempre que me via disposta a soltar as rédeas á
-imaginação, por uma mãe, que me fazia sentar junto de si, e me dizia:
-«Filha, é preciso resignares-te a abandonar essas idéas romanticas, se
-quizeres viver tranquilla e feliz. O mundo não é como tu o vês atravez
-do prisma da tua infantil imaginação. Os sonhos da phantasia, filha,
-são como as andorinhas: só vivem bem entre os effluvios de uma eterna
-primavera. A tua idade é a doce primavera da existencia; por ora, podes
-acariciar, e reter com roseos laços as andorinhas gentis, que se te
-aninharam no coração, todo perfumado de innocencia. Mas é preciso que
-te vás costumando a deixal-as partir. Querias entrar com ellas no frio
-inverno da sociedade tal como ella é, e não tal como tu a suppões?
-Não; bem vês que morreriam geladas, e nem tu sabes o soffrimento que
-te causaria então a sua morte. Deixa-as voar, deixa-as ir procurar
-outro ninho, tão doce e tão quente como o suave ninho do teu coração
-de creança, e tu, filha, prepara-te para affrontares serenamente as
-tristezas e amarguras da realidade!»
-
-Estes conselhos, constantemente repetidos, dados por essa voz, que
-eu respeitava, produziram em mim um effeito extravagante. Sceptica
-e enthusiastica a um tempo, acreditava firmemente que a poesia
-fugira do mundo como a Themis do paganismo, e fôra refugiar-se no
-ceu, aonde os meus sonhos a iam procurar, e d’onde voltavam com as
-azas impregnadas nas balsamicas fragrancias, que rescendia a casta
-divindade. Considerava o mundo real como um inferno de prosa, onde
-me via obrigada a viver, sem comtudo poder abstrahir d’essas visões
-poeticas e dulcissimas, cujo desapparecimento me tornaria insupportavel
-a existencia.
-
-Transigi então. Agradara-me a figura, de que minha mãe se servira para
-me rogar que não entrasse na vida real com idéas romanescas. Jurei que
-não exporia as minhas pobres andorinhas a serem mortas pelos gelos da
-realidade; mas jurei tambem que lhes havia de conservar n’um canto do
-coração, sanctuario bem mysterioso e bem recatado, a eterna primavera
-que lhes era indispensavel. Depois de ter affrontado impavida e forte
-a prosa da realidade, iria refugiar-me, com prazer e enthusiasmo, no
-meu tabernaculo santo, nas minhas Charmettes encantadoras, onde podia
-banhar á vontade a minha alma, sequiosa d’esses gosos, no limpido e
-sereno lago da poesia, na pura e transparente atmosphera do ideal:
-atmosphera onde voejavam as andorinhas gentis dos meus devaneios, lago
-onde vogavam os candidos cysnes dos meus sonhos; e assim, repartindo
-a minha vida entre as obrigações enfadonhas da sociedade, e as
-enthusiasticas devoções do meu templosinho secreto, julgava poder
-atravessar a existencia, serena e immaculada, suspensa entre ceu e
-terra, como o caixão de Mahomet.
-
-Com estas disposições é facil de imaginar que me havia de seduzir a
-arte, e que estava predestinada a consagrar-lhe um amor ferventissimo.
-A arte era a chave de oiro do meu palacio de fadas, o «Abre-te, Sesame»
-da caverna d’Ali-Baba, onde estavam encerrados os thesoiros da minha
-imaginação. A arte era o manto de Mephistopheles, sobre o qual eu podia
-viajar livremente pelas queridas regiões da phantasia. Seduziu-me
-essa gentil feiticeira, que me podia transportar n’um vôo para longe
-do mundo que me cercava, e interpôr a mim e á sociedade a cortina
-magica, por detraz da qual começava para o meu espirito a região dos
-encantamentos, dos extasis e das delicias. A melodia, que os meus dedos
-despertavam nas teclas de um piano, era como o fumo odorifero de que
-se rodeia o turco, ao entregar-se ás perigosas delicias do hatchich.
-Por isso eu adorava a musica, e tinha um verdadeiro amor ao meu piano.
-Devorava-o com os olhos, quando me via obrigada a fechal-o ou para
-receber visitas, ou para obedecer ás ordens de meus paes. Se era o
-cofre das minhas riquesas, o corpo que encerrava uma alma irmã da
-minha, que só despertava ao evocal-a eu, e que eu bem sabia que ficava
-adormecida quando alguem ousava pôr mãos profanadoras nas teclas do
-instrumento!
-
-Quando eu tocava, todos me applaudiam com frenesi; gabavam o meu
-talento, a assiduidade do meu estudo, e diziam que, se quizesse
-apparecer em publico, offuscaria as glorias dos mais celebres
-pianistas. Eu nem lhes ouvia os applausos. Enlevada nas mysteriosas
-conversações com a fadasinha do piano, tudo o mais me era indifferente.
-Que me importava tocar deante de duas pessoas, ou deante de duas mil?
-Entre mim e ellas caía sempre a bemfadada cortina, e o meu espirito,
-enlaçado com o espirito da melodia, franqueava as portas d’oiro do
-mundo do ideal.
-
-Por isso tambem adorava a dança, e a valsa principalmente. Apenas
-rompiam na orchestra os primeiros compassos da vertiginosa musica,
-ahi voava nos braços do meu par, louca, inebriada por esse filtro
-ignoto, que distillam as flores, as luzes, as melodias do baile.
-Os meus pés mal tocavam no chão; como que a pouco e pouco sentia
-emplumarem-se-me os hombros com as azas niveas dos anjos ou das fadas;
-via n’essa atmosphera, saturada de férvidas emanações, voejarem as
-minhas andorinhas, que me chamavam para a sua região encantada, e tudo
-esquecia: o salão, o meu par, a gente que me cercava, para me arrojar
-para o mundo dos devaneios, para entrar no casto gyneceu das minhas
-formosas visões.
-
-Com estas idéas, como podia eu procurar o amor? Pensava muito n’elle,
-é verdade, mas nem por sombras me lembrava de o buscar na vida real.
-O amor, e a realidade eram para mim duas palavras completamente
-incompativeis. Quem se lembra de pedir nectar n’um banquete dos homens?
-Que mahometano encommenda a um negociante d’escravas que lhe traga uma
-huri da Circassia?
-
-Julgaria até uma profanação collocar um idolo n’esse altar erguido
-na minha alma, como altar atheniense, ao _deus desconhecido_. Os
-suavissimos aromas, que essa palavra rescendia, não havia flôr da terra
-que os exhalasse.
-
-Mas estas idéas, que eu alimentava, nunca pensára em revelal-as. Não
-se esqueçam os leitores da minha dupla existencia: uma toda sujeita ás
-leis sociaes, e não tentando por forma alguma rebellar-se contra ellas,
-outra completamente fóra do mundo da realidade; existencias diversas,
-com as fronteiras escrupulosamente traçadas, e que nunca se invadiam
-mutuamente.
-
-Portanto, o casamento era para mim uma d’essas leis, a que eu estava
-prompta a obedecer, comtanto que me ficasse plena liberdade de me
-esquivar para a região das andorinhas; liberdade inalienavel como
-facilmente se imagina. Não pedindo ao casamento o amor, qualquer marido
-me era indifferente. Bastava-me a amizade, porque ouvira dizer a minha
-mãe, que no matrimonio é indispensavel esse sentimento.
-
-Claudio da Cunha não me inspirava repugnancia; por conseguinte estava
-perfeitamente disposta a obedecer ás ordens de meus paes. Ouvi a
-noticia e não pensei mais em tal. Casar-me tinha para mim tanta
-importancia como pagar ou receber uma visita; cumpria uma lei imposta
-pela sociedade. Tal noticia merecia mais do que o _Ah_ distrahido com
-que eu a acolhera?
-
-
-
-
- III
-
-
-Confessemos que seria difficil a descripção da nossa vida nos tres
-ou quatro mezes que precederam o meu casamento com Claudio da Cunha.
-Póde excitar interesse a mulher, que nem caminha para o altar como
-victima sacrificada, nem como noiva feliz de ver coroados pelo hymeneu
-os votos formados pelo amor para adoptar a linguagem dos venturosos
-tempos da Arcadia? Póde chamar a attenção um noivo cortez, vestido
-irreprehensivelmente, frio, grave, que vem apresentar-me os seus
-cumprimentos sempre á mesma hora sem differença de um minuto, que me
-ouve tocar piano, mostrando-se attento quanto baste para satisfazer as
-conveniencias, que me applaude depois com as suas mãos enluvadas, de
-modo que não faça estalar nem uma costura das luvas preciosas, que em
-seguida elogia a minha habilidade e a perfeição do meu methodo, que
-tudo isto repete todos os dias, sem alteração de uma syllaba, de um
-gesto, de um segundo?
-
-Comtudo eu não tinha razão de queixa. Claudio era o marido, que
-convinha a quem executava fria e indifferentemente um dever, contraindo
-os laços do matrimonio. Galanteador, incommodar-me-hia de certo: menos
-delicado e exacto, offenderia não a mim, que não repararia em tal, mas
-a meus paes.
-
-D’este modo tudo caminhava ás mil maravilhas. O papá extasiava-se
-perante o comedimento, e as maneiras polidas de Claudio; a mamã folgava
-de ver o escrupuloso aceio e esmero do seu trajar, o cuidado que tomava
-sempre em evitar uma nodoa que lhe maculasse o lustre irreprehensivel
-da casaca e do chapeu; eu dava-me perfeitamente com o seu, raras vezes
-interrompido, silencio, porque me deixava divagar á vontade e escutar
-desafogadamente o chilrear das «minhas andorinhas».
-
-Chegou emfim o dia do casamento. Foi esse para mim um dia de verdadeiro
-jubilo, e de extasi sem igual. Porque? perguntam-me. Transformou-se o
-caracter de Claudio, e algum vulcão, fervendo longo espaço de tempo
-por baixo dos gelos exteriores, irrompeu e incendiou tambem com as
-subitas chammas esse coração tão despresador da vida real, e que se
-dizia d’amianto para as prosaicas labaredas do mundo terreno? Folgou
-por acaso de se ver senhora, e de se transformar a doce grinalda da
-virgindade no diadema de rainha, esplendido mas pungente, que cinge
-a fronte das esposas? Não, nada de tudo isso. O motivo do meu jubilo
-era apenas o poder cingir o meu veu branco, e a corôa de flores de
-larangeira, emblemas nupciaes.
-
-Oh! como eu contemplei mil vezes ao espelho os graciosos adornos, que
-tanto me enlevavam, como deixei cair em torno de mim as graciosas
-pregas do meu veu de gase! Como me revi na grinalda de brancas flôres,
-que me poisava elegantemente na cabeça, dando um vivo realce aos meus
-cabellos castanhos claros! Como olvidei, sósinha, no meu toucador, o
-mundo presente, a realidade semsabor, os padrinhos de casaca preta,
-os parabens dos convidados, a cerimonia nupcial! Não era Margarida
-da Silveira que alli estava mirando-se vaidosamente n’um espelho de
-moldura doirada; era a fada Margarita contemplando a sua imagem no
-cristal da sua fonte! Rompia a manhã, a fresca manhã de S. João; as
-pobres alcachofras queimadas esperavam que o bento orvalho reverdecesse
-a corolla crestada, as bilhas d’agua esperavam o encantamento, os ovos
-suspensos nos copos esperavam a metamorphose.
-
-A brisa matinal fluctuava em torno a mim, infunando-me ao de leve
-as prégas do meu veu. A luz nascente mal fazia desabrochar rosas
-desmaiadas no horisonte.
-
-Eu erguia-me e o meu debil pésinho, ainda mais leve do que na valsa,
-corria sobre a relva sem a fazer vergar sequer! o meu passo mysterioso
-fazia brotar rosas e lyrios no seu tapete de veludo! Agitava na mão a
-varinha branca, a varinha das feiticeiras! Tocava na triste alcachofra
-carbonisada, e, por entre o negrume das suas pobres folhinhas, renascia
-a rôxa pétala que ía encher de contentamento um coração virginal!
-Soprava nos fios tenues do ovo suspenso n’agua, e os fios, como se os
-tecesse mão mysteriosa, bordavam por si mesmos um matiz delicioso! «Oh!
-fada Margarita! dizia eu para o meu espelho, como és linda e como és
-boa!»
-
-Depois, não era já a fada, mas sim a muito alta e muito poderosa
-senhora D. Margarida, filha do castellão, rico-homem de pendão e
-caldeira, senhor de baraço e cutello! Caminhava a furto para a
-entrevista aprazada! o coração arfava-me deliciosamente! Eis-me chegada
-emfim junto da cruz da ermida, onde me espera o gentil cavalleiro, que
-vae para a Palestina! Os loiros cabellos fluctuam-lhe sobre a couraça
-brunida; poisa-lhe ao lado o elmo, com as plumas azues ondeantes a
-capricho da viração! Troca-se um adeus sentido, derramam-se lagrimas,
-fazem-se promessas de amor eterno! Então, desprendo o veu branco, e
-dou-lh’o como penhor do meu affecto! Será a protectora charpa do meu
-noivo, o talisman que o ha de resguardar dos alfanges dos infieis! Elle
-beija mil vezes o candido veu, monta o corcel, que o espera impaciente,
-e parte. Sigo-o com os olhos arrasados d’agua até o perder de vista,
-e...
-
-E abre-se a porta e apparece meu pae de luva branca, bota de polimento,
-e casaca preta, e atraz d’elle, mas timidamente, como quem receia ser
-indiscreto, Claudio da Cunha, de casaca preta, bota de polimento, e
-luva branca!
-
-Adeus! Adeus! Andorinhas gentis!
-
-Como sempre, baixei, sem protestar, ás regiões da realidade. Acolhi
-com um beijo meu pae, com um sorriso o meu noivo, que me pedia mil
-desculpas, por ter ousado chegar á porta do meu santuario, mas que fôra
-arrastado pelo seu querido sogro, etc.; e, depois de ter acceitado e
-dado todas as desculpas, desci para me metter na carruagem, que me
-devia conduzir á igreja.
-
-D’ahi a duas horas, era eu a legitima esposa de Claudio da Cunha, e
-tomava posse da casa de meu marido, situada na Cruz das Almas.
-
-Franqueara estas columnas de Hercules da vida das senhoras, passara do
-brando e azul Mediterraneo das solteiras para o verde e tempestuoso
-Oceano do matrimonio, e confesso que não sentia o minimo frémito agitar
-as brancas velas do baixel do meu destino.
-
-Se eu tencionava sentar-me, como até ahi, na proa da nau, e
-indifferente aos furacões que me rugissem em torno, ás vagas irritadas
-que fervessem e se empinassem contra mim, fitar os olhos no cantinho do
-ceu azul, onde havia de continuar a brilhar, estava d’isso convencida,
-a formosa e radiante constellação dos meus devaneios!
-
-
-
-
- IV
-
-
-Compunha-se de duas pessoas a minha nova familia: meu marido e uma
-tia d’elle, mais velha apenas doze ou quatorze annos, e caminhando
-rapidamente, mas com desespero, para o Maelstrom dos quarenta, que
-sorve implacavelmente as ultimas esperanças matrimoniaes.
-
-Vou tentar descrever em rapido bosquejo os companheiros da
-peregrinação, que eu ia principiar.
-
-Claudio da Cunha era um homem de um caracter indeciso e fraco, temendo
-duas coisas, e respeitando uma. As que temia eram o ridiculo e a lucta,
-a que respeitava era sua tia.
-
-O ridiculo combatia-o com as frias e graves exterioridades que eu já
-fiz notar; á lucta, esquivava-se sempre a todo o custo, obedecia a sua
-tia escrupulosamente, mordendo constrangido o freio, mas não ousando
-sacudil-o.
-
-Sua tia D. Antonia possuia um coração, talvez outr’ora bom, mas que se
-fôra enchendo de fel, fel que trasbordava sempre na sua conversação
-constantemente aggressiva. Seria perigosa manejando a arma do
-epigramma, se o seu espirito, descultivado e estreito, lhe permittisse
-açacalar as frechas que despedia ao acaso, que feriam ao de leve, mas
-que se tornavam incommodas pela quantidade. Então o adversario, que
-ella escolhera, devolvia-lhe uma ou outra com mais certeira mão, e o
-golpe, que lhe calava bem fundo na alma, fazia-a ter ataques de nervos,
-que chamavam logo a sollicitude do sobrinho, o qual vinha escutar com
-ouvido attento os seus queixumes ridiculos, e enxugar com mão piedosa
-as lagrimas de despeito.
-
-A sua vaidade era tanto mais insupportavel quanto mais procurava
-disfarçar-se. Quando fallava em geral, dizia sempre com louvavel
-modestia que era feia, que os meus encantos a offuscavam completamente,
-que não aspirava sequer a rivalisar comigo; mas o terreno, que
-perdia na generalidade, ia-o sempre recuperando passo a passo nas
-particularidades. Quando tinha a minha idade haviam de lhe ficar
-larguissimas as minhas botinhas, e agora mesmo, se não quizesse andar a
-seu gosto, e se não estivesse já curada d’essas vaidades, estava certa
-que lhe haviam de servir maravilhosamente. «Uma coisa que eu sempre
-tive foi o pé muito pequeno, concluia ella. Fulano dizia...» E vinha
-logo um madrigal, que, pela fórma _moyen-âge_, revelava um adorador dos
-bons tempos dos _trovadores_ das _Ellas_, revelação que restabelecia a
-verdadeira data da sua certidão de baptismo.
-
-Não podia comprehender, dizia ella, como eu me apertava tanto sem temer
-as consequencias funestas d’essa imprudencia. Por mais que lhe jurasse
-e lhe mostrasse que não succedia semelhante coisa, continuava sempre
-protestando que estava fazendo uma loucura, que ella nunca andara
-assim, o que não impedia que tivesse tido uma cinturinha de sylphide,
-que duas mãos unidas podiam facilmente abranger.
-
-Todos estes ridiculos eram medianamente supportaveis, e de certo nem os
-citaria, se não fossem parte essencial de um caracter sêcco, vaidoso
-e azedado pelas decepções que a sua vaidade soffrera no campo das
-salas. Pouco depois do meu casamento, essas raivas secretas, esses
-furores devorados em silencio começaram a traduzir-se na attitude
-hostil que tomou para comigo, attitude acobertada por um manto
-d’amizade protectora. Usava, dizia ella, do seu privilegio de _velha_,
-e carregava intencionalmente no termo, para me dar conselhos, e para
-me preservar dos perigos, em que o meu estouvamento juvenil me poderia
-fazer cair. Com este admiravel pretexto, houve por bem arvorar-se em
-censora constante das minhas acções.
-
-Se eu por acaso mostrava uma ou outra vez o meu enfado, então
-lançava-me um olhar ferino, e dizia, adoçando o som de voz tanto
-quanto aguçava os raios das pupillas: «Ai! infelizmente, ninguem gosta
-de ouvir as verdades,» como se n’aquella mente acanhada e cheia de
-pequeninos sentimentos se abrigasse a resposta ao eterno problema, que
-a esphinge dos seculos tem proposto á humanidade, e cuja resolução só
-Pilatos ouviu da bôca de Jesus.
-
-Então passava eu a estar na berlinda, perseguida pela voz melliflua,
-e pelos epigrammas embotados de D. Antonia. Á mesa do jantar, onde
-todos tres nos reuniamos, choviam sobre mim as allusões ás senhoras que
-preferem o piano ao governo da sua casa, ás senhoras casadas que dançam
-nos bailes, quando seus maridos não dançam, á corrupção do seculo,
-aos maus costumes que importamos de França, á leitura perniciosa dos
-romances, tudo isto precedido do inevitavel «Hoje em dia...» _ultima
-ratio_ da sua argumentação. Escuso de dizer que as gerações anteriores
-á que presenceou a invasão de Junot sumiam-se para ella nas brumas
-legendarias da idade de oiro.
-
-Que havia eu de fazer contra aquella guerra pequenina e intoleravel? A
-friesa, que existia entre mim e meu marido, fazia com que o não pudesse
-contar como defensor. Bem via que os toscos epigrammas de D. Antonia o
-incommodavam tambem, e o irritavam; mas o seu desejo de manter a paz
-domestica, a obediencia tradicional que votara a sua tia, obrigavam-no
-a conservar-se silencioso em presença da audaz iniciativa da minha
-adversaria.
-
-Demais, eu achava tão mesquinha, tão indigna de mim esta guerra
-de palavras, esta escaramuça miseravel, estava tão fóra dos meus
-habitos este pelejar quotidiano, que nem sabia, nem podia, nem queria
-defender-me. Calada, immovel, fitando olhos espantados, ora em D.
-Antonia, ora em meu marido, uma só coisa me fazia scismar, era haver
-gente que se occupasse em tão miseraveis coisas, que expuzesse
-theorias tão insipidamente banaes, e o ser eu escolhida para victima
-expiatoria de crimes que nem sequer chegava a perceber.
-
-Contra estas amarguras da vida real não me prevenira eu. Julgava-me
-invulneravel, e, como o Achilles da _Iliada_, tinha o calcanhar
-accessivel a tiros tão rasteiros! Esta queda espantava-me mais do que
-outra qualquer. Previra todas as desillusões, todas as torturas da
-realidade, vinha prompta para luctar com as serpentes do odio, com as
-viboras da calumnia, e por fim de contas succumbia ferida pelo ferrão
-d’essa formiga negra e imperceptivel, que se chama mexirico!
-
-Todas as consolações me faltavam. As minhas andorinhas tinham fugido
-para não mais voltarem! Se eu não as podia chamar, atordoada, como
-sempre estava, pelas recriminações disfarçadas, pelos epigrammas
-adocicados, pelos discursos sem fim da minha implacavel inimiga! Se
-lhe não respondia, ia queixar-se brandamente a meu marido, dizendo
-que a desprezava do alto do meu orgulho, e insinuando arteiramente
-que preferia a conversação dos homens. Se lhe respondia irritada e
-fatigada, vinham os espasmos e os ataques nervosos. Se me refugiava
-no meu quarto sósinha com o meu piano, ahi vinha ella, allegando que
-gostava muito de musica, e perguntando se os seus ouvidos eram indignos
-de me escutarem. Então a minha occupação predilecta transformava-se em
-tortura insupportavel. Esmagava freneticamente as teclas, as minhas
-boas e antigas amigas, todas espantadas do inesperado tratamento.
-
-Se ás doces horas do crepusculo ia sósinha sentar-me junto da minha
-janella, e contemplar o melancolico horisonte dos campos, para me
-engolphar no mundo da phantasia, tinha-a a meu lado d’ahi a instantes,
-dizendo, que tambem ella possuia um genio muito triste, e que, no
-tempo em que tivera um namoro, gostava muito de estar áquellas horas
-a pensar n’elle. Depois accrescentava invariavelmente que julgava que
-as senhoras casadas eram inacessiveis a essas tristezas e que junto
-de seu marido é que deviam estar, em vez de se entregarem sósinhas a
-pensamentos talvez perigosos.
-
-Aquella mulher tinha um genio de inquisidor.
-
-Se acreditasse na metempsychose, diria que o espirito de Torquemada
-fôra, atravessando os seculos, aninhar-se finalmente no coração de D.
-Antonia da Cunha.
-
-Ah! e quando uma solteirona, de quarenta para cincoenta annos, vinha
-visital-a, e trazer-lhe o auxilio da sua indole mordaz, e da sua
-hypocrisia beata, então é que se entoava um _duetto_, que desbancava
-a aria de D. Basilio. Como se entendiam bem a meias palavras! Que
-plangentes queixumes não soltava D. Antonia, indicando-me com o olhar
-á sua boa amiga D. Simôa dos Anjos, emquanto ambas trabalhavam n’um
-enxoval para creanças pobres, trabalho santo, que fôra apregoado em
-todos os tons na freguezia e nas parochias visinhas! Que olhares de
-compaixão, com que a outra lhe respondia! Que theorias de implacavel
-austeridade! Que lamentações! Que moções d’ordem d’uma, acolhidas pelos
-apoiados da outra! E quando passavam das generalidades á especialidade,
-ah! como as agulhas cosiam e as linguas descosiam! Com que delicioso
-tempero de reputações esfaqueadas se apimentava a obra caritativa do
-enxoval! Que signaes de piedosa compuncção! Que devotos sarcasmos
-se não cuspiam sobre as peccadoras, fulminadas por aquelle augusto
-areopago! E a que horrenda verrina me não expunha, quando, cançada,
-enojada de tão peçonhenta hypocrisia, exprimia a indignação que já não
-podia conter.
-
---Quem defende gente assim, expõe-se ás mesmas accusações, dizia uma
-das Lucrecias, principiando com a mão direita, sem a esquerda o saber,
-uma costura caridosa.
-
---Ah! tornava a outra debruando os coeiros da sua beneficencia, essas
-é que são felizes! Os homens não querem outra coisa, e, para vergonha
-nossa, até no nosso sexo acham advogadas!
-
-Eu levantava-me com impeto e saía; mas aquellas duas vozes resoavam
-sempre ao meu ouvido, e não deixavam que eu tomasse gosto em nenhuma
-das minhas outr’ora tão queridas occupações.
-
-
-
-
- V
-
-
-Assim passei a primavera, o estio e o outono do meu primeiro anno de
-casada. Claudio envolvera-se na politica, mais para se distrair do
-seu _spleen_ incuravel, do que por gosto ou ambição. Principiara eu a
-perceber que a frieza apparente de meu marido provinha de uma educação
-acanhada, como o espirito de sua tia, que lhe infligia o respeito das
-leis d’aquelle mundo mesquinho, em que ella tanto folgava de viver, e
-dos constantes obstaculos, que se tinham opposto ao desenvolvimento
-livre e desaffogado do seu espirito. Mostrava-se affectuoso para
-comigo, mas affectuoso sem expansão. Aquella mulher interpunha-se
-constantemente a nós ambos. Se uma ou outra vez, n’algum dia em que
-o sol da primavera despertava dentro em mim os passarinhos mudos, e
-aviventava as flôres desbotadas da minha phantasia tentava desabafar
-e elevar-me ás regiões serenas, onde desejara viver; se Claudio,
-arrastado pelo contagio do meu enthusiasmo, principiava a entrar nas
-minhas idéas, vinha logo sua tia, soltando altos gritos, e dizendo
-que essas farofias de romance e de musica é que perdiam metade da
-humanidade feminina. Claudio retraia-se, e eu ficava de novo sósinha
-e desarmada em face d’aquelle demonio do lar, que empolgava o hyssope
-furtado n’alguma igreja, e me aspergia de agua benta para me livrar da
-influencia diabolica da arte, e dos artistas.
-
-Chegou o inverno, o inverno, outr’ora para mim a estação querida
-dos bailes, de que tambem agora me via privada. Pois como podia eu
-apparecer nas salas com aquelle _chaperon_ sempre a meu lado, que me
-expunha ás vezes a scenas desagradaveis com as suas phrases acres,
-cuja insolencia a muito custo se disfarçava? Depois, as scenas que
-se passavam na volta para casa! As insinuações sobre a corrupção dos
-homens que procuram de preferencia as senhoras casadas, e sobre a
-corrupção das senhoras casadas, que acceitam os rendimentos d’esses
-monstros de luvas brancas, e que levam a impudencia a ponto de polkarem
-e de valsarem com homens, que visivelmente as preferem ás tias de
-quarenta annos!
-
-Estas insinuações calavam mais ou menos no animo de meu marido, e,
-apezar de elle se retirar sempre que principiavam os discursos de D.
-Antonia, via-se pela inquietação, que mostrava, que o veneno produzia o
-seu effeito.
-
-Cançada já, abatida por esta lucta ingloria, resolvi encerrar-me em
-casa, e abandonar completamente a sociedade. Novos gritos! novas
-reclamações! Claramente se via que o meu desejo era prival-a de todos
-os divertimentos, etc.; mas resisti intrepidamente, e, apezar dos
-clamores, mantive a minha resolução.
-
-Uma vez tinhamos nós acabado de jantar quasi ao anoitecer. Comtudo, não
-se haviam ainda accendido as luzes. O ceu estava nebuloso, e uma chuva
-fina começava a bater nas vidraças. Meu marido ficara á mesa tomando
-café, D. Antonia baloiçava-se na cadeira, ruminando algum dito azedo.
-Eu fôra-me sentar junto da janella, e contemplava os arabescos que a
-chuva desenhava nos vidros com as gotinhas que deslisavam lentamente ao
-longo da limpida superficie. Embuçara-me n’uma capa, e toda conchegada
-no meu cantinho, saboreava aquelle momento de socego, tão raro na minha
-vida mesquinhamente agitada.
-
-Os arabescos da chuva despertavam em mim a um tempo deliciosos e
-tristes pensamentos, lembravam-me os sonhos, que eu phantasiaria
-um anno antes com essas singelas perolas do pranto das nuvens, e
-lastimava com amargura o desprezo que votara á realidade, que se
-vingava cruelmente de mim. Percebi então que não bastam os sonhos
-para constituirem a ventura, e que o espirito, que se alimenta só com
-esses devaneios, acha-se sem forças para combater os mais despreziveis
-inimigos. Isolara-me no meu orgulho, e via agora quanto precisava ter
-um coração que pulsasse junto com o meu, e quão robusta me sentira, se
-o amor me envolvesse na sua tunica luminosa! O amor!
-
-E, não sei porque, duas lagrimas desprenderam-se-me dos olhos, e
-deslisaram-me vagarosamente pelas faces.
-
-N’este momento tocaram a campainha com força. Olhámos uns para os
-outros, como que perguntando quem se affoitaria a affrontar a chuva,
-que principiava a cair em torrentes, para vir fazer-nos uma visita.
-
-N’isto abriu-se a porta e appareceu no limiar um vulto de homem.
-
---Claudio! _amice!_ onde estás tu? Vem dar-me um abraço... metaphorico,
-porque, se t’o dou na realidade, encharco-te.
-
---Alberto! exclamou meu marido levantando-se e correndo para elle de
-braços abertos.
-
---Sim, eu mesmo, meu velho condiscipulo. Desembarquei hoje. Saí de
-Napoles n’um dia de chuva, que ameaçava muito sériamente apagar o
-Vesuvio. Não quiz assistir a tamanho desastre, e fugi. A unidade
-italiana está matando o _lazzarone_, a chuva mais dia menos dia dá cabo
-do Vesuvio, e uma companhia de accionistas inglezes improvisa um vulcão
-artificial, com meia duzia de chaminés de Birmingham, transportadas
-a bordo de um _steamer_. Fiz a viagem sem apanhar chuva; chego ao
-Terreiro do Paço, zás, uma pancada d’agua a ensopar-nos a mim e ás
-venerandas bochechas do marquez de Pombal, que se sorria ironicamente
-com ar de quem dizia: «Não me quizeram acreditar!» No tempo do grande
-marquez não chovia, meu amigo.
-
---Alberto, deixa-me...
-
---Não chovia não, digo-t’o eu. Quem inventou a chuva foram os inglezes,
-só para darem extracção ás galochas de borracha, e aos casacos de
-Mackintosh. Ah! o marquez de Pombal bem o sabia, por isso elle nos fez
-guerra. Pois que cuidas tu! Sebastião José de Carvalho e Mello foi o
-defensor da serenidade metereologica do paiz das larangeiras, e da
-inviolabilidade do nosso ceu azul. Curva-te perante o grande homem,
-Claudio!
-
---Consente, Alberto, que...
-
---Foram os inglezes, repito. Em Napoles era desconhecida a chuva, antes
-de lord Nelson entrar n’aquella maravilhosa bahia. A chuva portugueza
-devemol-a ao Beresford...
-
-N’este momento entrou um criado com luz.
-
-Alberto interrompeu-se ao divisar-nos a mim e a D. Antonia.
-
---Oh!... senhoras... e tu não me dizias coisa alguma, e deixavas-me
-palrar como um idiota que sou...
-
---Mas, meu amigo, tornou Claudio rindo, desde que entraste ainda não
-fiz senão querer-te apresentar minha mulher, e tu a fallares em Nelson
-e no marquez de Pombal... Margarida, continuou elle, dirigindo-se a
-mim, tenho a honra de te apresentar o meu bom amigo Alberto Mascarenhas
-Corte-Real, que chega, como acabas de ouvir, de uma viagem da Italia.
-
---É uma dupla recommendação valiosa, disse eu sorrindo e
-comprimentando-o amavelmente; amigo de meu marido e viajante
-recemchegado da terra dos prodigios, como não ha de ser recebido
-cordial e curiosamente?
-
-Alberto balbuciou algumas palavras, que eu não percebi, mostrando-se
-visivelmente enleiado, talvez por causa da sua palradora entrada, e
-voltando-se logo para D. Antonia, apertou-lhe a mão, dizendo-lhe:
-
---Ah! é, v. ex.ª! Desculpe, minha senhora, o não a ter reconhecido. Mas
-ha de confessar que na escuridão era difficil...
-
---Ora, das _velhas_ nunca os senhores fazem caso.
-
---Ah! tornou Alberto rindo, já pediu a sua reforma? Pois olhe,
-parece-me que a neve, que lhe vejo alvejar nos cabellos, é a neve
-perfumada da laranjeira. Vamos, seja sincera. Quando é o casamento?
-
---Nunca! Se eu chegava a esta idade sem me casar, para commetter agora
-uma loucura d’essas. Os homens...
-
---São uns monstros, bem sei. Ainda se não emendaram? E eu que fui á
-Italia de proposito para pedir ao Papa a canonisação em massa de todo o
-sexo masculino! Mas, segundo vejo, os maganões são incorrigiveis.
-
---Olhe, sr. Corte-Real, hoje em dia bem tolo é quem se casa. Os homens
-são estouvados, e as senhoras seguem-lhe o exemplo. É moda que veiu
-agora de França.
-
---Veiu? Ah! e eu que me esqueci de ver os figurinos!
-
---Vamos para a sala, Alberto, interrompeu meu marido, que via a
-conversação tomar o caminho costumado. Lá podes-te enxugar melhor.
-
-Levantámo-nos e fomos para a sala.
-
-Estava o fogão acceso, e o lume derramava no aposento um suave calor. O
-guarda luz do candieiro, concentrando o fulgor todo na mesa, á roda da
-qual nos sentámos, deixava ficar na penumbra o resto do quarto. A chuva
-batia nas vidraças, e o vento zunia com violencia, engolphando-se pelo
-tubo do fogão.
-
---Ah! disse Alberto, sentando-se n’uma cadeira á Voltaire, venham-me
-agora fallar nos prazeres das viagens! Não conheço nada melhor do que
-esta deliciosa sensação, que se apodera de nós, n’uma noite bem fria e
-bem invernal, ao sentarmo-nos n’uma cadeira macia, junto do bom fogo,
-entre duas ou tres pessoas que nos estimem, sentindo o vento sibilar, e
-a chuva bater nos vidros. E pensar-se que a estas horas anda um barco
-ao longe, no alto mar, affrontando a tempestade, que lhe descose as
-pranchas, e lhe açoita a vela, em quanto o pescador, vendo as ondas
-embravecidas a rugirem morte por todos os lados, vae scismando como
-Victor Hugo,
-
- _Au vieux anneau de fer du quai plein de soleil!_
-
---Safa, que egoista! exclamou Claudio.
-
---Egoista sim. Meu amigo, não ha prazer algum n’este mundo, em que não
-entrem tres quartas partes de egoismo. É um prazer egoista? Bem sei:
-já Lucrecio o disse antes de ti n’uns versos que não cito por duas
-razões: a primeira porque são em latim...
-
---E a segunda? perguntei eu.
-
---Porque nunca li Lucrecio, minha senhora.
-
-Desatei a rir.
-
---Mas, então, continuei, como é possivel que viajasse tanto, detestando
-por essa fórma as viagens?
-
---Detestar as viagens! eu, minha senhora! pelo contrario, adoro-as!
-
---Mas, parece-me...
-
---Perdão. Entendâmo-nos, minha senhora; este prazer, que eu estou
-sentindo agora, tambem ás viagens o devo. É o contraste que lhe dá
-este sabor tão agradavel e picante. Hontem, sósinho no convez do
-paquete, via a solidão immensa dos mares, ouvia os melancholicos
-lamentos das ondas, contemplava o ceu toldado, que se desenrolava sobre
-a minha cabeça como plumbeo manto; hoje aperto a mão a um amigo de
-infancia, tenho a ventura de estar conversando com senhoras amaveis e
-espirituosas, sinto-me envolvido por uma atmosphera tepida, perfumada
-das fragrancias da terra natal, e, recostando-me voluptuosamente
-n’esta cadeira, vendo ali chispar um fogo delicioso na moldura do
-fogão, mirando as figuras do guarda-luz do seu candieiro, esfrego as
-mãos, como um egoista, e digo: «Como deve estar o mar a estas horas?»
-Baloiço-me aqui indolentemente, e continuo: «Como os navios dançam
-fóra da barra ao som d’essa valsa tocada pela orchestra das vagas, e
-composta por esse Strauss maravilhoso, que se chama Deus!» Este prazer
-sou aqui eu só quem o saboreia; digam-me lá se sentem o mesmo que sente
-o viajante recem-chegado?
-
---Não, acudiu meu marido, mas sinto eu, pelo menos, o prazer tambem
-delicioso de tornar a ver um amigo ha dois annos ausente.
-
---Meu bom Claudio! respondeu Alberto, pegando na mão de meu marido, e
-apertando-lh’a com affecto. Mas, continuou, ainda ha outro prazer, que
-eu não mencionava, e que não deixa de ser, comtudo, digno de citar-se.
-
---Qual é? perguntou Claudio.
-
---O de dizer mal das viagens! Fallar a gente a um amigo sedentario,
-que nos tem inveja, e exclamar: «Oh! tu não comprehendes o quanto és
-feliz! Não ha tortura maior do que a do Ashaverus da lenda! Percorrer
-o mundo, só, vendo-se isolado no meio de uma sociedade differente da
-nossa, passando por terras, onde ninguem nos espera, onde não deixamos
-nem sequer uma saudade; e a mão da fatalidade a impellir-nos sempre, e
-a voz do destino a dizer-nos: «Caminha». E assim atravessamos o mundo,
-andorinhas sem ninho, poisando ora no cume inflammado do Vesuvio, ora
-na austera cupula de S. Pedro, ora na torre pendida de Pisa, ora na
-bronzea juba dos leões de Veneza! Ah! bem louco é quem deixa os lares
-para procurar estas commoções de um instante, pagas por amarguras
-infinitas.» E o amigo comtempla com certo respeito o homem que falla
-com tanto despreso n’essas maravilhas, cujo magico panorama lhe povôa
-os sonhos, lhe perturba a existencia. Oh! dizer mal das viagens, depois
-de ter viajado muito, não ha prazer que se lhe compare, não acha, sr.ª
-D. Antonia?
-
---O que?
-
---Dizer mal... que é um grande prazer.
-
---Não se diz mal senão d’aquillo que merece as nossas censuras, por
-exemplo...
-
---Immensas coisas... Não me falle n’isso! O mundo vae cada vez peior.
-O Anti-Christo não tarda. É pelo menos esse o parecer da sua caridosa
-amiga, D. Simôa dos Anjos. É verdade, como está ella?
-
---Olhe! essa é que se póde dizer uma santa.
-
---Pois não! Santa Bazilia! é uma das santas mais veneradas pela igreja
-contemporanea.
-
---Bazilia!...
-
---Sim, mulher de D. Bazilio.
-
---Qual D. Bazilio?
-
---Ora, qual D. Bazilio! um santo velhote, que floresceu alli pelos fins
-do seculo passado, filho de um sujeito chamado Beaumarchais, e adoptado
-depois por outro chamado Rossini!
-
---Mas então esse homem, se vive, deve estar decrepito.
-
---Como se engana, minha senhora! Está cada vez mais novo! Descobriu a
-agua de Juvencio.
-
---Alberto! interrompeu Claudio n’um tom meio offendido.
-
-Seguiu-se um instante de silencio. Eu sorria-me imperceptivelmente,
-e saboreava, devo confessal-o, o prazer da vingança. Claudio estava
-sombrio. Alberto fitára em mim os olhos por um instante, e caira depois
-n’um melancholico scismar. D. Antonia percebera finalmente que tinha
-sido _mystificada_, perdoem o gallicismo, e mordia os labios de raivosa.
-
---Não nos contas algum incidente das tuas viagens? perguntou meu
-marido, para dizer alguma coisa.
-
---Que queres que te conte? respondeu Alberto, sacudindo a melancholia
-que o envolvera. Imaginas por acaso que ainda existe o pittoresco?
-Morreu, morreu de todo! Mataram-no os caminhos de ferro, e os inglezes
-principalmente. Os _lazzaroni_ andam de chapeu alto, e o Vesuvio mais
-dia menos dia arvora um guarda-chuva. Não se dá um passo em Pompeia,
-que se não encontre um inglez passeando no vestibulo da casa de
-Demetrio, ou entrando familiarmente no tribunal do edil Pansa. Queres
-que te descreva uma Italia prosaica e semsabor, o Colyseu povoado de
-casacas pretas, e no castello de Santo Angelo um capitão de zuavos
-no sitio onde Benvenuto Cellini apontou, com a mão que fazia brotar
-prodigios, a espingarda que dizimava as fileiras hespanholas?
-
---Oh! acudi com certa exaltação, não seria eu quem desanimaria tão
-facilmente! Nem os zuavos, nem os inglezes conseguiriam despoetisar a
-minha Italia, o meu Lacio formoso, a minha Campania feliz. Derribaram
-as pedras, sumiram o Mediterraneo, impuzeram silencio ás brisas,
-desfloriram as larangeiras? Não! Pois bem; a minha phantasia se
-encarregava de povoar essas ruinas solitarias, de evocar as gerações
-extinctas, de traduzir a linguagem melodiosa da viração! Eu, se fosse
-á Italia, havia de vel-a com os olhos d’alma, ainda mais do que com os
-do corpo! Que me importava a prosa moderna, se me fosse dado passear
-nas ruas de Pompeia? A mão dos homens levantou a mortalha em que o
-Vesuvio a envolvera, a minha phantasia levantaria a mortalha com que a
-cingiram os seculos! Doire o sol ainda o marmore branco dos palacios
-de Genova, e a sua luz ha de illuminar para mim o mundo risonho da
-cidade dos doges, ouvirei as musicas suaves que se espraiavam outr’ora
-por sobre as ondas azues do Mediterraneo, a quem ensinavam essa
-dulcissima melodia que ainda hoje enleva os ouvidos do viajante! Não a
-olvidaram de certo os eccos da _strada Balbi_. Levem-me á Italia, e eu
-atravessarei a peninsula sem ver nem zuavos, nem inglezes, percorrerei
-á vontade ou a Italia pagã ou a Italia da Renascença, verei Raphael
-pintando o maravilhoso retrato da sua Fornarina, debruçar-me-hei sobre
-o hombro de Guido, quando o seu pincel esplendido fizer brotar da tela
-as feições encantadoras da desgraçada Beatriz. A Italia tem habitantes?
-Não sei, nem quero sabel-o; tem cardeaes, tem _bersaglieri_? não sei,
-não sei. Sei apenas que tem os quadros de Raphael, as estatuas de
-Miguel Angelo, as portas de Ghiberti, e os claustros de Bramante. Quero
-engolphar-me n’esse pélago de maravilhas, quero percorrer esse mundo
-mysterioso, encerrar-me n’essa Pompeia gigante, e depois quando voltar
-á superficie do mundo actual, vire, pallida, mas trazendo na fronte,
-não, como o mergulhador de Schiller, a sombra triste projectada pelos
-invisiveis horrores do oceano, mas um reflexo d’esse immenso fulgor,
-que ha de emanar das perolas e dos diamantes d’essa Golconda da arte!
-
---Oh! tem mil vezes razão, tornou Alberto levantando-se com enthusiasmo,
-cuida que não senti isso mesmo? Cuida que não tive muita vez essas
-visões do passado? Por baixo do palimpsesto banal das modernas idades
-sentia eu pullularem as letras de fogo do poema da velha Italia! Á
-noite, principalmente, quando se extinguem os vãos ruidos mundanos, e a
-meiga fada vem mais uma vez cingir a sua Italia querida, a voluptuosa
-Aphrodita dos dois mares, na sua tunica bordada de estrellas, e
-perfumada de ignotas fragrancias, então é que se escutam essas vozes
-mysteriosas, que não são mais do que a vaga conversação das grandiosas
-gerações, que desappareceram umas após outras da face d’aquella terra
-abençoada! A mythologia antiga suppunha que eram os titães soterrados
-quem abalava as montanhas ao revirarem-se no seu leito de chammas. Não
-se enganava; prophetisava! Por baixo d’aquelle solo sagrado arquejam
-as gerações de gigantes, que povoaram o velho Lacio dos Cesares e a
-Roma dos Raphaeis! Á noite erguem-se todos esses brancos phantasmas
-e passam, agitando as azas, na atmosphera transparente. Oh! quantas
-vezes não tive eu d’essas visões extaticas, em Roma! Quantas vezes,
-passeando, embarcado, por uma noite de luar, na suave bahia de Napoles,
-não vi como que em sonhos perpassarem as galeras romanas, todas
-illuminadas e deixando apoz si um sulco a um tempo fulgido e melodioso,
-como se a ardentia se houvesse transformado em musica! E quando os meus
-barqueiros deixavam cair indolentemente os remos na agua, que lhes
-respondia com um vago suspiro harmonioso, como uma nota de Cimarosa
-ou de Bellini, em quanto as estrellas deviam fulgir n’essas noites
-delirantes das saturnaes em quanto a lua illuminava ao longe as casas
-brancas de Ischia, de Procida, ou de Capri, eu sentia passar nos meus
-cabellos a lasciva brisa de Baia, e via surgirem no horisonte esses
-vultos candidos de mulheres, cujos nomes passaram atravez dos seculos
-envoltos na purpura, que lhes atirou a realeza do genio, a Lesbia
-de Catullo, a Cynthia de Propercio, a Corinna de Ovidio, a Lydia de
-Horacio e a Delia de Tibullo.
-
-Alberto calou-se por um instante, e depois continuou:
-
---Outra vez estava eu em Veneza; a minha gondola sulcava
-silenciosamente o grande canal. A antiga cidade dos doges parecia
-uma cidade morta, e a lua a lampada immensa, suspensa sobre esse
-maravilhoso tumulo; nem um murmurio se exhalava do seio da formosa
-captiva, apenas de vez em quando o sino da igreja de S. Marcos
-soltava lugubremente a voz, como que para entoar o epicedio da
-grandeza da republica; mas logo os brados gutturaes das sentinellas
-austriacas vinham como que protestar contra o timido queixume do anjo
-do campanario. As ondas do Adriatico gemiam brandamente, espantadas
-de ouvirem aquella voz allemã quebrar o silencio da natureza
-italiana. A pouco e pouco tinha cahido n’uma profunda melancholia,
-e comparava involuntariamente a decadencia nobre de Veneza com o
-misero esphacelamento da minha patria. Veneza é um gigante, que
-desceu ao tumulo, envolto na sua armadura de marmore, e perante
-aquella maravilhosa campa descobre-se o mundo com respeito: Portugal,
-tambem gigante, mais gigante ainda, arrojou-se á valla commum, e as
-nações desviam os olhos com tedio d’esse cadaver putrefacto, coberto
-de vermes que o devoram. Subito, d’um d’esses palacios, que miram
-nas aguas do canal as suas marmoreas escadarias, jorrou em ondas de
-melodia a deliciosa serenata do _Marino Faliero_ de Donizetti. Como por
-mysteriosa evocação, tudo se illuminou a meus olhos. Illuminaram-se
-os palacios, povoaram-se os canaes de gondolas cheias de mascaras; os
-fogos de Bengala tingiram de azul e côr de rosa as fachadas de marmore
-branco. Avultou-me ao longe o _Bucentauro_, com o seu magestoso cortejo
-de galeotas. Povoaram-se-me os caes de fidalgos venezianos, em cujo
-trajar doirado e bordado scintillava a luz projectada pelos fachos.
-Desappareceram os austriacos, e a Veneza antiga, a Veneza de Ticiano, a
-Veneza do carnaval, surgiu-me de novo das ondas, como a borboleta da
-chrysalida, como a Venus da espuma!
-
---O que! ouviu em Veneza a serenata do _Marino Faliero_? acudi eu com
-jubilo infantil.
-
-E, correndo ao piano, fiz brotar das teclas a maviosa melodia.
-
-Havia muito que as teclas me não respondiam tão suavemente. Aquella
-doce musica, que suspira brandamente como a brisa nos roseiraes, vago
-preludio do rouxinol, harmonia d’anjo, que parece expandir-se do carro
-argenteo de Phebe ao rolar no firmamento azul, exhalou-se do teclado,
-como um perfume do calice d’uma flor. Enlevada n’esse encantamento que
-os meus dedos operavam, transportei-me brandamente ao seio d’uma noite
-luminosa como essa em que fallava a letra da canção. Vi-me em Veneza,
-reclinada n’uma gondola, cortando as aguas do canal. Involuntariamente
-os meus dedos foram affrouxando, até que mal já pesavam nas teclas. O
-canto quasi não se ouvia, e parecia apenas um suave murmurio, como o de
-harpa eolia suspensa nas franças de pinheiral distante.
-
-Afinal a harmonia esmoreceu, e esvaiu-se de todo debaixo dos meus
-dedos; deixei descair os braços no collo, e fiquei engolfada no meu
-scismar. A chuva batia com mais furia nas vidraças, e o vento soprava
-rijo, fazendo gemer os postigos.
-
-Mas eu não ouvia nem vento nem chuva. Esvaíra-se havia muito o ultimo
-suspiro da tecla abandonada, e eu escutava ainda o prolongamento
-d’essa nota melodiosa, como se ella se repercutisse n’uma atmosphera
-de crystal. Por deante dos olhos passava-me lentamente, como em magico
-panorama, a luminosa visão das cidades italianas: Veneza com as suas
-gondolas, Genova com os seus palacios, Florença com as suas galerias,
-Roma com as suas ruinas, Napoles com o seu golpho! E n’essa atmosphera
-encantada, n’esse mar limpido e voluptuoso fluctuavam as minhas
-andorinhas, vogavam os meus cysnes, doces devaneios que tinham fugido
-havia muito com a aza branca magoada!
-
-Quando levantei a cabeça, estavam todos á roda de mim, D. Antonia
-com um sorriso ironico, Claudio triste e inquieto, Alberto como que
-entregue a um delicioso extasi.
-
---Oh! mais! mais! disse elle pondo as mãos com ar supplicante; mais
-alguns minutos d’esse goso infindo! Que mysteriosa intuição de artista
-lhe revelou Veneza? É esse o bater da agua nos degraus das escadarias!
-são esses os murmurios que fluctuam n’aquella atmosphera abrazadora!
-são essas as melodias que deviam resoar n’essas noites ferventes, em
-que o mundo inteiro, saindo das brumas da idade-media, não fazia senão
-balbuciar, pela voz dos seus poetas, pelos marmoreos labios das suas
-estatuas, a palavra «amor» que ia esculpir até nos rendilhados portaes,
-nos voluptuosos columnelos dos templos da Divindade! amor sensual,
-pagão, lascivo, se quizerem; mas amor immenso e vivificante como o que
-os raios do sol entornam no seio da gleba italiana, como as ondas do
-Mediterraneo descantam ás plagas sonoras da Ausonia e da Grecia!
-
---Ah! tambem sente o mesmo? tornei eu infantilmente, acha tambem que a
-musica tem o magico dom de evocar um mundo desconhecido?
-
---Se tem! A musica abre-nos de par em par as portas do ideal! S. Pedro
-foi destronisado. Os porteiros do céo são Bellini e Donizetti; a
-_Lucia_ e a _Norma_ são as duas chaves do Paraizo.
-
---E Meyerbeer? perguntei eu, rindo.
-
---Oh! esse é o porteiro do inferno.
-
-Ia protestar, mas elle interrompeu-me, e continuou:
-
---Descance, de um inferno onde o ranger dos dentes é harmonioso, e onde
-os humanos, criminosos durante a vida terrestre, são condemnados a
-darem eternamente o _dó_ do peito. Pois onde queria que eu collocasse
-o author do _Roberto do Diabo_? No céo de certo que não. Meyerbeer é
-o Satanaz da melodia, é o anjo caido; mas o anjo caido de Milton, e
-não o diabo das lendas. Aquelle homem abre-nos um mundo mysterioso e
-terrivel, d’onde refugimos com terror, mas para onde nos attrae depois
-uma indisivel voluptuosidade. Toda a musica do _Roberto_ é a pavorosa
-traducção em notas da apostrophe de Satanaz ao sol no poema do Homero
-britannico. Mas d’esse cahos de harmonias tremendas brota ás vezes um
-canto d’uma doçura infinita, como o do papel d’Alice, por exemplo.
-São as recordações da patria celestial, são as tristezas do Archanjo
-soberbo no meio do seu tenebroso exilio. E as notas isoladas da
-abertura do _Propheta_! Que vaga melancholia, que tristeza sobrehumana!
-Saudade tão profunda só a podem inspirar os campos das eternas
-delicias, o Elysio resplandecente, a habitação dos anjos!
-
-N’este momento entrava o creado com a bandeja do chá. Fomos para a
-mesa, e a conversação prolongou-se até á uma hora da manhã. A chuva
-cessara, e a noite puzera-se fria mas serena. Alberto despediu-se, e
-saiu.
-
-
-
-
- VI
-
-
-Quando Alberto saiu pareceu que me caia de chofre um peso no peito.
-Imaginem Sisypho, a victima infeliz do inferno mythologico, podendo
-ver de relance uma nesga dos Elysios, e, quando está enlevado n’esse
-delicioso panorama, sentindo de subito rolar pela escarpa da montanha,
-e desabar-lhe em cima o rochedo do supplicio!
-
-Tal era a minha situação.
-
-Tivera um momento de liberdade; o meu espirito, constrangido,
-torturado, voara em extasi para a região luminosa dos meus sonhos,
-engolphara-se nos seus fulgores, nadara em pleno ether, ouvira as
-harmonias desconhecidas do vulgo; mas as trevas cerravam-se-me de novo,
-e as grades da minha gaiola appareciam-me em toda a sua negra hediondez.
-
-Claudio, pouco depois de sair o seu amigo, pretextou achar-se fatigado,
-e retirou-se. Ficámos sós, eu e D. Antonia.
-
-De bom grado me teria tambem retirado; mas o somno esquivava-se-me ás
-palpebras, que em vão o chamavam. Tinha a cabeça cheia de melodias,
-pulsava-me nas veias a febre da arte. Decididamente não podia dormir;
-levantei-me e approximei-me da janella.
-
-O vento da meia noite dissipara as nuvens, e descobrira a lua; o céo
-estava de uma limpidez magnifica, as poças da agua brilhavam como
-diamantes enormes. Deu-me uma tentação de banhar a cabeça escandescente
-n’essa athmosphera gelada, e abri a janella.
-
---Que capricho tão romanesco, minha sobrinha, acudiu logo D. Antonia.
-Demais a mais é escusado! olhe que já o não vê.
-
---Já não vejo quem? tornei eu voltando-me espantada.
-
---Ora, quem! provavelmente quem saiu d’aqui.
-
---Quem saiu d’aqui! repeti eu sem perceber ainda.
-
---Ih! Jesus! não se faça desentendida! o senhor Alberto Mascarenhas.
-
-Ferveu-me nos labios uma resposta indignada; mas, lembrando-me da
-discussão que ia provocar, encolhi os hombros, fechei a janella e fui
-me sentar ao pé da mesa.
-
-Seguiu-se um silencio.
-
-Mas D. Antonia não era pessoa que assim abandonasse o campo de batalha.
-
---Eu gosto de ver estas senhoras, que tanto gostam de conversar com
-estranhos. Seu marido e a tia de seu marido, segundo parece, não são
-dignos de fallarem com s. ex.ª. Pois olhe, se assim pensava, era melhor
-que não casasse. Mas estas senhoras afrancezadas querem ter um marido
-para gosarem toda a liberdade, e para serem um objecto de escandalo
-para as pessoas virtuosas e tementes a Deus. E não desejam conversação
-de senhoras, isso não lhes agrada. Não estão satisfeitas senão quando
-conversam com homens, e todas se embebem nas suas fallas, sem nem
-sequer deitarem uma vista de olhos para o esposo que receberam aos pés
-do altar. Com estas doidas é que os homens se entendem bem. Ah! mundo!
-mundo!
-
---Isso refere-se a mim, senhora D. Antonia? perguntei eu, affectando
-socego, mas ralada pela indignação que me fervia no peito.
-
---Ah! parece que lhe serve a carapuça? tornou ella, rindo-se com um
-riso sarcastico.
-
---Eu não entendo muito bem d’essa questão de carapuças; mas, se teve
-intenção de me insultar, dir-lhe-hei que meu marido não ha de ficar
-satisfeito, sabendo a que improperios estou todos os dias exposta
-n’esta casa, que devia ser para mim abrigo inviolavel contra as
-injurias de qualquer, muito mais partindo ellas de uma pessoa da sua
-familia.
-
---Injurias! já se vê! estava á espera d’isso mesmo! Chamam-se injurias
-as verdades!
-
---As verdades! mas que verdades? tornei eu impaciente!
-
---As que devia ouvir com mais attenção, quando lh’as diz uma pessoa,
-que só quer o seu bem. Que idéa iria formando o Alberto Mascarenhas
-d’uma mulher que esteve, toda a noite, dando-lhe só attenção a elle, e
-não dirigindo uma palavra só nem a seu marido, nem a tia de seu marido?
-
---Mas eu podia obrigal-os a fallar? tenho porventura culpa se nem uma
-vez só entraram na conversação?
-
---Ora essa! Pois que havia eu de dizer, n’uma palestra, em que não
-ouvia senão heresias! Que S. Pedro não era porteiro do céo, e não
-sei que mais! Estava-me causando pasmo vêl-os fallarem com tanto
-sangue-frio no demonio. Ah! se eu fosse o Claudio!
-
-D’esta vez não pude deixar de me rir, o que, como é facil de suppor,
-ainda mais augmentou a indignação de D. Antonia.
-
---Ria-se, pois não! é o que deve fazer! É o pago que recebemos dos
-bons conselhos, que lhes desejamos dar! Mangam comnosco, e entram
-affoitamente no caminho da perdição! Ver eu, com estes olhos, uma
-senhora, que, para desgraça da nossa familia, é esposa de meu
-sobrinho, toda enlevada e requebrada a dar attenção a um petimetre
-na minha presença, e em presença de seu homem! É aonde póde chegar o
-descaramento.
-
---Isto é demais, exclamei eu, erguendo-me com os olhos arrazados de
-agua; vejo-me condemnada aqui a ouvir uma linguagem, a que nunca me
-acostumaram, e a defender-me de accusações que o meu procedimento nunca
-authorisou. Só o ridiculo do insulto póde attenuar a insolencia d’elle.
-
---Sim, diga que é ridiculo!... Como logo hoje abriu o piano! como
-correu pressurosa para o tocar! Puz as mãos na cabeça. Nunca imaginara
-tal. Ver o pudor esquecido áquelle ponto!
-
---Mas que idéa forma então de mim? tornei eu com voz tremente, em
-que palpitavam os soluços abafados; se me julga capaz de provocar
-galanteios de um homem, que vejo pela primeira vez, e que tem
-delicadeza bastante para nem por sombras dar mostra de que me deseja
-requestar?
-
---Ah! já o defende! Descance que ninguem o attaca. E, depois, se o viu
-pela primeira vez, é o que resta saber. Hoje em dia as meninas educadas
-á moda franceza são capazes do enganar os velhos mais experientes! Os
-planos são bem combinados! Commette-se uma _imprudencia_, e depois
-apparece um moço inexperto, a quem se acceita por marido, sem ao menos
-sequer se lhe dar tempo de fazer a côrte! Esses preliminares são
-escusados para se chegar ao fim a que se aspira! Depois, um bello dia,
-apparece um moço, _a quem se vê pela primeira vez_, e o moço que se vê
-pela primeira vez encontra a imprudencia remediada.
-
---Oh! isto é horrivel! respondi, não podendo já suster as lagrimas e
-debulhando-me em prantos.
-
-D. Antonia olhou para mim com um sorriso de triumpho; estava vingada
-dos sarcasmos de Alberto, do seu silencio forçado de tres horas.
-Estavam suavisadas com esse balsamo das minhas lagrimas as feridas da
-sua vaidade, as mordeduras do demonio da inveja.
-
-Ergueu-se, e lançando-me um ultimo olhar, saiu vagarosamente da sala.
-
-
-
-
- VII
-
-
-Admiro-me ás vezes agora das torturas que me causavam aquellas
-accusações, tão despreziveis e tão absurdas. Mas eu era uma creança,
-e não podia conceber que o azedume e o despeito levassem uma mulher,
-que vivera toda a sua vida engolphada n’aquellas intrigas pequeninas,
-a torturar por divertimento e só por divertimento. Revoltava-me o
-absurdo, em vez de me fazer rir, e pungia-me principalmente o proposito
-firme que eu vira que D. Antonia formara de contrariar todas as minhas
-predilecções, de me obrigar a descer áquella esphera, em que ella vivia
-deliciosamente.
-
-Parecia-lhe impossivel até que houvesse alguem que se occupasse em
-outras coisas, ou que n’outras coisas pensasse. Quando expunha alguma
-das suas frivolas theorias, queria que todos as acceitassem com muita
-reverencia, e, se não manifestavam logo a sua adhesão, recebiam uma
-chuva d’epigrammas, porque eram consideradas do partido opposto
-ao seu, não podendo D. Antonia perceber que o verdadeiro motivo do
-silencio, em que todos ficavam quando ella fallava, era a perfeita
-indifferença que inspiravam as suas insipidas e dogmaticas banalidades.
-
-Se eu fosse capaz de comprehender aquella indole essencialmente
-mexeriqueira, teria logo despresado os seus ataques, por mais insolente
-que fosse a forma. Mas eu nunca estudara essa variedade da raça humana;
-era D. Antonia o primeiro especimen que me apparecia, e só muito depois
-vim a conhecer a fundo os usos e costumes d’aquella familia zoologica,
-olvidada por Linneu da sua classificação.
-
-E demais, qual é o espirito, por mais energico, por mais elevado que
-seja, que possa affrontar serenamente estas torturas pequenas do lar
-domestico?
-
-Direi mais, quanto mais elevado e mais energico fôr, mais accessivel é
-tambem a estas feridas de alfinete. Todos os inimigos são previstos,
-menos este, que é o mais despresivel e o mais terrivel tambem. O leão
-da fabula despresava o mosquito, e foi o mosquito quem o venceu.
-
-Depois via-me só! só n’aquelle pelejar incessante, sem ter um peito
-amigo que me fosse anteparo, sem ter um coração em que me abrigasse.
-Queria a soledade, e a soledade fugia-me! O eterno zumbir d’aquella
-vespa afugentava as abelhas dos meus sonhos, que eu julgava que podiam
-libar tão doce mel no calice das flores da phantasia!
-
-A pouco e pouco fôra abandonando as minhas relações; apoderara-se
-de mim uma especie de _spleen_, e era-me insupportavel a sociedade,
-porque estava sempre n’ella constrangida, exposta como me via a algum
-escandalo produzido pela extravasão da bilis de D. Antonia. Nas salas,
-onde uma ou outra vez entrava, sentia constantemente aquella espada de
-Damocles suspensa sobre a minha cabeça, e bastava isso para envenenar
-todo o jubilo que eu poderia ter.
-
-As minhas amigas de infancia espantavam-se de me verem tão arredia,
-e arrastadas tambem pelas suas preoccupações de solteiras, nem se
-lembravam de virem visitar a pobre exilada. «Temiam, diziam-me ellas
-rindo, quando me encontravam, ser indiscretas, vindo bater á porta do
-meu santuario.» E eu sorria-me tambem--que remedio!--sentindo ao meu
-lado, como sentia sempre, o genio mau que se adorava n’aquelle templo
-domestico.
-
-Um dia o acaso fizera-me ter um momento de desafogo, de expansão, de
-contentamento! Essa curta alegria havia de ter inevitavelmente a sua
-expiação: teve-a, e logo em seguida.
-
-Essa suave convivencia que eu esperava que se estabelecesse entre mim
-e Alberto, essas conversações que viessem de vez em quando, como os
-oasis no deserto, offerecer-me um instante de frescura, dessedentar-me
-por um pouco, tudo isso era maculado, ainda antes de nascer, pela baba
-peçonhenta do reptil que me perseguia!
-
-Parecia que um instincto infernal lhe segredava os meios de me
-torturar; havia um demonio invisivel que volteava em torno d’ella, e
-que lhe indicava os pontos vulneraveis da minha epiderme; vinha logo
-a envenenada setta cravar-se, arrojada por mão certeira, no sitio
-doloroso.
-
-Oh! quem fará um dia o poema d’estas agonias mysteriosas, tanto mais
-tristes, tanto mais pavorosas quanto menos lastimadas são quando
-se revelam! Este lento padecer nas trevas mais recatadas do lar da
-familia não tem a poesia augusta dos martyrios, que são bem visiveis,
-e que todos podem facilmente avaliar? Pois estas é que são as dores
-terriveis, porque não matam, mas empeçonham a vida, estiolam-na,
-desenfeitam-na de tudo quanto a poderia tornar agradavel, e quando
-o anjo da morte venha, depois de longos annos d’uma existencia, que
-mão paciente foi descolorindo, colher no seu regaço a nossa alma,
-encontra-a mais gelada, mais fria, mais inerte do que o cadaver, que o
-tumulo reclama.
-
-
-
-
- VIII
-
-
-Passou-se o resto do inverno, sem que successo algum notavel viesse
-perturbar a triste monotonia da minha existencia. Augmentavam a
-cada instante a sombria taciturnidade de meu marido, o intoleravel
-despotismo de D. Antonia.
-
-Alberto vinha de quando em quando visitar-nos, e os poucos momentos,
-que elle passava comnosco, eram para mim de ineffavel jubilo. A sua
-indole viva e amena, a sua conversação sempre colorida e pittoresca, a
-sua palavra eloquente exerciam em mim uma salutar influencia. As suas
-visitas eram como as de um raio de sol ao preso encerrado n’um carcere
-tenebroso.
-
-A nossa ligação, por maior que fosse o desejo que D. Antonia tivesse de
-a envenenar, não lhe dava para isso o minimo pretexto. Era a ligação
-de dois condiscipulos, que se sentem attraidos um para o outro pela
-uniformidade das suas idéas, pela commum predilecção consagrada aos
-mesmos estudos. O franco e aberto sorriso, com que eu o acolhia, O
-amigavel _shake-hands_ que trocavamos á despedida, não explicavam senão
-sincera e cordial sympathia mutua.
-
-Finalmente chegou a primavera. Alberto partira antes de terminar o
-inverno, para a Ericeira, onde tinha parentes que o chamavam. Claudio
-propoz-me irmos passar a primavera e o estio n’umas terras que possuia
-na aldeia de ***, junto de Bellas.
-
-Aceitei, e aceitei com enthusiasmo.
-
-Quando já estava determinada a partida, e tudo preparado, subitos e
-imprevistos negocios obrigaram meu marido a demorar-se em Lisboa. Não
-quiz elle de modo algum que por causa d’isso transtornassemos a viagem
-projectada. Despediu-se de mim affectuosamente, prometteu-nos, que,
-assim que se pudesse desembaraçar, iria ter comnosco; depois viu-nos
-entrar na carruagem, e esteve á janella até nos sumirmos saindo as
-portas da cidade.
-
-Estava um d’estes dias do principio da primavera, em que sopra ainda a
-brisa aguda invernal, e em que o horisonte se cobre com um denso veu de
-neblina. Caía uma chuva miudissima, e a baixa de Campolide apparecia
-emvolta n’um manto de tristeza. O vulto do aqueducto desenhava ao fundo
-os seus arcos magestosos e sombrios.
-
-Envolvi-me na minha capa de viagem, e concheguei-me no fundo do
-_coupé_. O movimento da carruagem era suave bastante, e proprio, a mais
-não poder ser, para acalentar os meus sonhos. Primeiro quiz sustentar
-a palestra com o auxilio de algumas banalidades; mas pouco a pouco
-a minha imaginação não se poude conter, engolphou-se na região dos
-devaneios, emquanto ao meu ouvido, que as sentia vagamente, resoavam as
-palavras de D. Antonia, que me ía recitando, segundo creio, a lista dos
-nossos visinhos do campo.
-
-Eu, entretanto, contemplava a paizagem, que apresentava aspectos
-diversos e pittorescos. De vez em quando um frouxo raio de sol rasgava
-o manto de nevoas, e vinha dar uma certa animação ás campinas.
-Espairecia o firmamento, e a magestosa curva do grande arco do
-aqueducto moldurava ao longe uma vasta nesga de tela azul. A luz
-amarellada do sol doirava os campos, que se apresentavam já cobertos
-com o seu vistoso tapete de malmequeres. Depois corria-se de novo o
-panno, e o scenario desapparecia com os seus explendores de um momento,
-com o seu instantaneo colorido.
-
-Involuntariamente comparei a minha vida monotona, e tendo apenas breves
-intermittencias de luz, com aquella paizagem da primavera invernosa.
-
-A imagem de Alberto fluctuou-me por instantes na phantasia.
-
-Sorri-me ao lembrar-me do que diria a minha companheira de viagem, se
-soubesse que vulto eu vira n’aquelle instante com os olhos d’alma.
-
-Esse sorriso, por mais rapido que fosse, não escapara á vista perspicaz
-de D. Antonia.
-
---De que se ri? perguntou logo.
-
-Como que acordei sobresaltada.
-
---De nada, retruquei.
-
---De nada? Só a pessoas que não teem todo o juizo, acontece semelhante
-coisa. É verdade que talvez agora se dê esse caso, accrescentou por
-entre os dentes.
-
-Encolhi os hombros.
-
---Pois olhe, continuou ella, que o que eu lhe estava dizendo era muito
-sério. Provavelmente nem sabe o que foi.
-
---Confesso, respondi eu fazendo-me vermelha, que não percebi bem.
-
---Ah! não percebeu? Pois olhe, não era difficil. Por onde andará o seu
-pensamento? Não percebe o que eu digo e não sabe de que se ri! Isso ha
-de ser nervoso. Talvez precise de tomar banhos de mar... na Ericeira.
-
-Começara o tiroteio. Já me admirava de que a trégua durasse tanto.
-
-Conforme o costume, deixei passar a tempestade dos epigrammas, fazendo
-porque o meu espirito se isolasse completamente d’este mundo, e voasse
-para bem longe d’aquella atmosphera turvada.
-
-Tinhamos já passado para deante da ponte do Carenque, e entravamos
-n’essa estrada arida, núa, monotona, que põe em communicação entre si
-Lisboa, a formosa rainha do Tejo, Cintra, a mimosa camponeza das serras.
-
-O sol, proximo do occaso, conseguiu alfim romper a nebulosa cortina que
-o cercava. Como a lampada moribunda projecta, nas vascas da agonia,
-mais intenso clarão, assim o rei dos astros, antes de apagar no
-horisonte a sua corôa de fogo, quiz inundar o céo com vividos reflexos.
-
-Então o cerrado esquadrão das nuvens como que se revestiu de luminosas
-couraças. Como captivo soberano, a quem a fortuna restitue o throno,
-e que vê passar por deante de si humildes e curvados os seus proprios
-carcereiros, assim as nuvens desfilavam, impellidas pelo vento, por
-deante do sol, immovel no horisonte purpurado, como em vasto solio de
-chammas. Aqui semelhavam corceis phantasticos, de arreios de ouro e
-xaireis de escarlata, que voavam n’um insano galope; mais além nuvens
-distantes, que se tingem de reflexos arroxados, passavam lentamente,
-como graves magistrados envoltos nas suas bécas. A illusão chegou a
-ponto, que a minha phantasia, começando, segundo o costume, a tomar
-gosto n’esses devaneios, deu a cada nuvem um papel, e chegou a vêr bem
-vivos, bem claros os vultos que imaginava.
-
-Este cortejo de nuvens bojudas, que avançava magestosamente,
-representava a meus olhos a camara municipal. Ouvia-lhes os discursos,
-que o vento vinha indiscretamente segredar ao meu ouvido.
-
-Aquell’outras que se conservavam fluctuando em torno do sol, e que mais
-brilhantes se mostravam com as suas vestes de purpura recamadas de
-oiro, eram os cortezãos que cercavam o regio throno.
-
-As arvores, que fugiam, á medida que ia passando a carruagem,
-affiguravam-se-me a plebe, que saudavam com enthusiasmo a cerimonia
-celestial. O vento agitava-lhes os braços, que pareciam menear na
-atmosphera invisiveis chapeus; dir-se-ia que os murmurios, que se
-exhalavam das suas ramas, eram o bramir longinquo e indiscreto dos
-vivas de um povo inteiro.
-
-Era tão comica a attenção que eu prestava a estas cerimonias
-phantasiadas, que involuntariamente, caindo em mim, desatei a rir.
-
-D. Antonia olhou-me com espanto.
-
---Estará maluca, minha sobrinha? perguntou ella.
-
-Eu olhei-a com um embaraço infantil, e balbuciei algumas palavras
-inintelligiveis.
-
---Em vez de conversar comsigo mesma, teria sido melhor se me
-communicasse os seus pensamentos. Não teria d’essa fórma commettido
-a indelicadeza de quasi me não dar palavra todo o caminho... porque
-estamos em Bellas.
-
-Tinha razão, e eu não pude fazer mais do que acceitar a reprimenda
-e confessar a mim mesma que as imprudencias da minha phantasia de
-creança, que estava prompta sempre a lançar mão da _clef de champs_,
-eram causa muitas vezes dos meus dissabores.
-
-Estavamos em Bellas effectivamente. O sol sumira-se de todo, mas o
-céo parecia querer-se conservar limpo, e prometter uma noite boa. A
-carruagem parou no largo para onde deita a porta da quinta do conde de
-Pombeiro.
-
-O cocheiro tomou informações, e soube que as chuvas dos ultimos dias
-tinham transformado as estradas em atoleiros. Veio ter comnosco, e
-disse-nos que nos levava, se quizessemos, á aldeia de ***, mas que nos
-arriscavamos a fazer uma viagem demorada, ou a ficar atascadas no meio
-do campo.
-
-Como a noite promettia estar serena, e a aldeia não era muito distante,
-resolvemos, eu e D. Antonia, ir a cavallo. Por conseguinte despedimos o
-cocheiro, depois d’elle nos ter ido alugar uns burros, e, sentadas no
-dorso dos pacificos animaes, tomámos o caminho da casa de campo.
-
-Pouco teriamos andado, quando o céo se principiou a toldar de novo.
-Caía a noite, e as nuvens, carregando o firmamento, apagavam os faroes
-das estrellas, e desdobravam por cima das nossas cabeças um manto negro
-e funebre. O rapaz, que tocava os jumentos, mirou o céo e abanou a
-cabeça dizendo:
-
---Temos ahi chuva em barda. É irmos mais depressa, minhas senhoras.
-
-Mas isso era mais facil de se dizer do que de se fazer. As informações
-do cocheiro tinham sido exactas, e as estradas eram verdadeiramente
-uns lamaçaes quasi impossiveis de atravessar. A chuva já principiara a
-cair, o vento zunia com violencia, e os pobres animaesinhos curvavam a
-cabeça, e amainavam as longas orelhas, como o barqueiro amaina a vela
-quando sopra o temporal furioso. Era necessario avançarmos com muita
-cautela, para não tomarmos algum banho n’essas poças que abundavam no
-caminho, e que um ou outro relampago, que principiava a fuzilar, nos
-mostrava, cercando-nos por todos os lados, como uma rede de paúes.
-
-Finalmente retumbou um trovão magestoso, e uma tremenda pancada d’agua
-desabou em cima de nós.
-
---Santa Barbara, e S. Jeronymo nos accudam, murmurou o burriqueiro, que
-noite que vamos ter!
-
---Ainda fica muito longe a aldeia? perguntei eu.
-
---Ainda é um bom pedaço, respondeu o rapaz, atirando uma verdascada ao
-jumento para lhe apressar o passo vagaroso.
-
---E não ha por aqui alguma aldeia mais proxima?
-
---Agora vamos nós atravessar uma.
-
---Então, senhora D. Antonia, acudi voltando-me para ella, não acha
-que seria melhor recolhermo-nos em alguma casa, emquanto não passa o
-temporal?
-
---Entrar em casa de um saloio! Deus me livre! A minha sobrinha não
-sabe como esta gente é bruta, e porca principalmente. Eu, se me visse
-obrigada, por não ter outro remedio, a descançar n’uma casa d’essas,
-assim que me visse no palacete, despia-me toda! Captiva!
-
-Isto era dito em voz bem alta, deante do rapaz que nos acompanhava.
-Elle naturalmente não se importou com isso; mas a mim é que se me
-confrangeu o coração: nem gosto de humilhar, nem de ver humilhar, os
-humildes; impressiona-me sempre desagradavelmente ver alguem, collocado
-pela fortuna n’uma posição mais ou menos elevada, fazer sentir á gente
-das classes inferiores a distancia que as leis antigamente e agora os
-habitos mantém entre os pobres e os ricos, os humildes e os soberbos.
-
-Por isso, para remediar quanto em mim coubesse a falta de delicadesa
-de D. Antonia, dirigi amigavelmente a palavra ao nosso companheiro
-saloio.
-
-D. Antonia nem em tal reparou. Aquellas coisas fazia-as ella
-naturalmente, e sem ser por mal. Não tivera intenção de offender o
-rapaz, e ficaria espantadissima se soubesse que um saloio podia ter
-susceptibilidade e sentimento da dignidade humana. Nunca se constrangia
-para fallar deante d’essa gente; no mais não a tratava nem melhor nem
-peior do que os outros, e estava convencida que podia ser considerada
-como um modelo de affabilidade quando correspondia ao cumprimento de um
-homem de baixa esphera, e lhe dizia:
-
---Como está _você_? Sua mulher e seus filhos vão bem? Muito estimo!
-Beba um copo de vinho á minha saude. Aqui não; vá para a cosinha. Olhe,
-lá me sujou a casa com os tamancos! Esta gente não póde entrar em parte
-alguma.
-
-Emquanto eu fazia taes reflexões, não findara a chuva; mas os jumentos,
-incitados pela voz e pelas verdascadas do burriqueiro, e por um certo
-instincto que lhes dizia que estavam quasi chegados ao termo da sua
-jornada, haviam tomado uma andadura mais rapida, de fórma que d’ahi a
-um quarto de hora pudemos ver uma casa de boa apparencia, singela, com
-pavimento rente do chão, e andar nobre, que D. Antonia me disse ser a
-nossa residencia.
-
-O burriqueiro deitou a correr para ir bater ao portão; quando lá
-chegámos, tinham-se já corrido os ferrolhos e destrancado a porta, e
-uma criada velha, entre-abrindo-a cautellosamente, apparecia com um
-candieiro de tres bicos na mão, e exclamava, ao conhecer D. Antonia:
-
---Valha-nos Deus! A Virgem Maria nos acuda! É a senhora D. Antonia!
-Ai! a minha santinha, como ha de vir molhada! Ó Zé Caneira! olha que
-é a senhora. Ó Annica! Ó mulher, tu não appareces? Diabos te... quero
-dizer: Valha-te Deus, rapariga, que tão mollenga me saiste!
-
-
-
-
- IX
-
-
-Era perfeitamente uma d’aquellas phantasticas velhas dos contos de
-Hoffmann essa que nos viera abrir as portas. Nariz adunco, barba
-revirada, cabellos grisalhos, despenteados e fluctuando como que
-em desordenadas estrigas sobre a testa proeminente, que abrigava,
-como uma especie de pala natural, os olhinhos pequenos, pardos, e
-encovados! A luz mortiça do candieiro projectava no seu rosto uns vagos
-reflexos, que ainda lhe davam um mais estranho realce. Era baixa, um
-tanto curvada para diante, e vestia uma especie de casabeque immundo,
-apertado na cintura, com umas abas curtas, que cobriam uma pequena
-porção da saia de baeta vermelha, que lhe ia poisar em cima dos sapatos
-rotos. A boa da velha não se fartava de nos fazer mesuras, em quanto
-vinham surgindo de differentes portas os creados, que ella chamara, e
-que traziam um supplemento de illuminação.
-
---Adeus, Maria do Rosario, disse D. Antonia, ao apear-se da
-cavalgadura, como está você?
-
---Ai! minha senhora, graças a Deus! antes assim que peior! cá vou
-arrastando estes pobres ossos por este mundo de Christo, até Deus
-querer... até Deus querer! Ai! minha querida senhora D. Antoninha,
-está cada vez mais moça! bonita, guapa! ai! Senhor! quantas meninas de
-quinze annos a não hão de invejar?
-
---Isso é dos seus olhos, Maria do Rosario, tornou D. Antonia, rindo-se
-com certa complacencia, já estou velha e bem velha. O tempo de agora
-está para estas, continuou, apontando para mim; olhe, é a mulher de meu
-sobrinho.
-
-Maria do Rosario fez-me uma mesura, a que eu respondi com um sorriso.
-
---Ai! Santo Deus! é mesmo uma flor! Deus a fade bem, e lhe dê o juizo
-da tia, como lhe deu a belleza d’ella! com que então, é esta a mulher
-do seu Claudiosinho? Quem havia de dizer, senhora D. Antonia, quando
-nós andavamos com o Claudio ao collo...
-
---Andavamos! interrompeu D. Antonia, um tanto espinhada, andaria você,
-eu era uma creancinha n’esse tempo!
-
---Ora esta! acudiu apressadamente Maria do Rosario, emendando a mão
-como boa cortezã que logo vi que ella era, onde teria eu a cabeça? É
-verdade que a senhora D. Antonia, desde creança, foi tão espigadinha,
-tão airosa! Ai! minha senhora... como é a sua graça?
-
---Margarida, respondi, tiritando de frio, porque estava com o fato
-ensopado, e ainda não tinhamos passado do fundo da escada, tal era o
-enlevo com que D. Antonia escutava a sua lisongeira.
-
---Margarida! que bonito nome, benza-a Deus! Pois, senhora D. Margarida,
-não póde imaginar que linda creança era aqui a senhora D. Antonia.
-Branca de neve, alta, muito rosada! Era mesmo um anjinho do céo!
-
---Não diga tal, Maria do Rosario, tornou D. Antonia rindo, eu nunca fui
-bonita; era muito branca, isso sim! por esse lado todos me gabavam!
-alta sempre fui tambem, e apezar d’isso, tinha um pé tão pequeno, tão
-pequeno que todos diziam que parecia impossivel como podia suster o
-corpo... mas não é d’isso que se trata agora; estamos ambas ensopadas,
-e queremos mudar de fato. Já cá estão as bagagens?
-
---As bagagens? não, minha senhora, não estão; nós até nem suspeitavamos
-que as senhoras viessem hoje... Ora! valha-me Deus!
-
---Pois as bagagens ainda cá não estão!? tornou D. Antonia, desesperada.
-E o que havemos de fazer?
-
---Que transtorno! que transtorno! mas as senhoras hão de vir cançadas,
-e talvez o melhor seja deitarem-se, a não ser que prefiram aquecer-se
-aqui ao fogo da lareira! Mas isso não é...
-
---O que! ir para a cosinha? Você não está em si, Maria do Rosario.
-
---Desculpem, minhas senhoras, isto era por dizer.
-
---E eu aproveito a idéa, tornei sorrindo-me; não tenho somno; e o fogo
-da lareira está-me convidando.
-
---Faça o que quizer, acudiu D. Antonia seccamente.
-
-E subiu a escada com toda a magestade, seguida por Maria do Rosario,
-que lá ia resmungando a continuação do seu panegyrico.
-
---Para onde é a cosinha, meus amigos? perguntei eu voltando-me para os
-criados, que haviam assistido mudos á precedente scena.
-
---P’ra aqui, p’ra aqui, minha senhora, acudiram todos á uma,
-apressando-se a mostrarem-me o caminho.
-
-Desci uns tres degraus que me ficavam á direita, segui um corredor, e
-achei-me na cosinha.
-
-A tempestade redobrara de violencia; sentia-se a chuva bater nos
-postigos; de vez em quando uma lufada de vento engolphava-se gemendo
-por alguma janella que se abriu com fragor, e uma chapada d’agua
-inundava o chão lageado; ao mesmo tempo os aterrados aldeãos viram as
-arvores estorcerem lá fóra as suas ramas ainda mal cobertas de folhas
-nascentes, benziam-se tres vezes, se um relampago, incendendo a ramaria
-no seu clarão azulado, a transformava nos phosphorescentes braços dos
-espectros.
-
-A cosinha era vasta, e o bom fogo que ardia na lareira, e cujos
-avermelhados reflexos doidejavam mirando-se nos espelhentos cobres da
-bateria culinaria, espalhavam em todos elles não sei que doce encanto,
-que suavissima alegria, e que idéas de tranquillidade e conforto que me
-fizeram acudir aos labios um jubiloso sorriso.
-
-A lareira era quasi rente do chão, como todas as lareiras, e á roda
-d’ella uns poucos de saloios, em cujas physionomias astuciosas batia
-em cheio o clarão do brazido, escutavam attentamente uma boa velha,
-a qual, sentada n’uma d’estas cadeiras d’espaldar, forradas de coiro
-e cravejadas de pregaria amarella, velhos ornamentos das salas dos
-palacios, desterrados agora pelos _fauteuils_, pelos sophás, e pelas
-_causeuses_ para as regiões infimas da cosinha, fiava a sua rocada e
-contava uma historia qualquer, a que todos prestavam a maior attenção.
-
-Do outro lado da lareira uma outra cadeira d’espaldar fazia symetria
-com esta, e mostrava que fôra occupada, instantes antes talvez, pela
-Maria do Rosario, que nos viera receber.
-
-Em torno de uma vasta mesa de pedra, situada ao meio da cosinha,
-reuniam-se uns tres ou quatro saloios, entre os quaes descortinei o
-burriqueiro, que estava saboreando as delicias da nossa hospitalidade,
-traduzida n’uma respeitavel malga de feijões, e n’um amplo cangirão de
-vinho.
-
-Foi em presença d’este digno congresso que eu appareci, brandamente
-impellida pelos meus guias, que me traziam quasi em triumpho, e que já
-de longe annunciavam que era eu a nova senhora, a muito alta e muito
-poderosa D. Margarida, Castellã de Solar de *** nas proximidades de
-Bellas.
-
-Quando cheguei á porta, estaquei, enlevada n’esse quadro de tão
-rustica e pittoresca simplicidade. Ficava-me defronte a lareira, de
-fórma que a sua luz dava-me no rosto, scintillava-me nos cabellos,
-que chispavam doirados reflexos, e cercava-me emfim de uma certa
-auréola sobrenatural, que incutiu, segundo penso, um vago respeito
-n’aquella boa e ingenua gente, porque todos se levantaram a um tempo, e
-murmuraram ao ouvido uns dos outros:
-
---É uma imagem! Parece a Nossa Senhora do altar da ermida.
-
---Salve-os Deus, meus amigos, disse eu alegremente, e entrando com
-desembaraço pela cosinha, dão-me ahi um cantinho á lareira para me
-enxugar?
-
---Guarde-a Deus, minha boa senhora, respondeu a velha cortejando-me
-respeitosamente, e entrem n’esta casa no seu regaço todas as
-felicidades, porque espero em Deus que seja tão bondosa, como é linda,
-e tão verdade como ser Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado para nos
-remir do peccado original, nunca os meus olhos viram tal perfeição.
-
---Muito obrigada, boa tia, respondi eu affectuosamente, forçando a
-pobre mulher a sentar-se, e sentando-me tambem na outra cadeira que
-logo todos chegaram para ao pé do lume; vejo que entrei n’esta casa com
-bem maus agoiros. Que tempestuosa noite!
-
-Os creados e as criadas, que me tinham guiado, sentaram-se no chão á
-roda da minha cadeira e prestaram ouvido attento á palestra, que se
-principiara a travar entre a boa Quiteria, oraculo d’aquella tribu, e a
-recem-chegada Lisboeta.
-
-O vento gemia rijo lá fóra, a lenha do lar crepitava, ouvia-se o
-monotono canto do grillo, e o fuso sirandava, sirandava nas mãos
-ligeiras da velha.
-
-Reinava silencio profundo.
-
-Eu sentia coar-se-me nas veias aquelle indizivel bem-estar, que em
-moderado calor influe no corpo gelado pelo vento e pela chuva. Passeei
-a vista com benevolencia pela assembléa, e não vi senão rostos pasmados
-e olhos fitos em mim.
-
---Que calada de coelhos! murmurou uma creadita que estava ao meu lado,
-ao ouvido de um rapaz seu visinho.
-
---Então porque não fallam? respondi com um sorriso. Vamos! em que se
-conversava quando eu entrei?
-
---Ora, se a senhora soubesse, ria-se de certo, tornou a creada
-abaixando os olhos negros e travessos.
-
---Que estás tu a dizer, Annica? interrompeu a velha, levando aos
-labios, para o molhar, o fio da estriga, tu julgas então que uma
-pessoa de juizo se possa rir de um caso que é asseverado por gente de
-sabedoria, que lê de fio a pavio todos os livros das estantes?
-
---Eu não digo isso, tia Quiteria, mas...
-
---Mas és uma tola, Annica; ha alguem que duvide que apparece uma alma
-do outro mundo na capella do senhor conde de Pombeiro, em Bellas?
-
-A velha Quiteria proferiu estas palavras, relanceando em torno de si
-um olhar de desafio. Correu um vago frémito no auditorio, e todos se
-chegaram mais uns para os outros, ouvindo com inquietação estalar lá
-fóra a trovoada.
-
---O que a tia Quiteria diz é muito verdade, accudiu o burriqueiro com
-a boca cheia; em Bellas não ha cão nem gato que o não saiba.
-
---Não é bom fallar n’estas coisas em noites de temporal, interrompeu
-um trabalhador velho meneando a cabeça coroada de cabellos brancos. Os
-finados sáem do tumulo, quando o trovão os acorda, e vagueiam pelos
-campos, penando os seus peccados. Nós ouvimol-os gemer, e dizemos que é
-o sussurrar do vento; não é, não é, é o suspirar dos mortos.
-
-Um lufada de ventania zuniu tristemente, e veio, coando-se pelas fisgas
-das portas, fazer vacillar a chamma da lareira.
-
-Não sei que sombras phantasticas se projectaram no chão lageado da
-cosinha.
-
-O burriqueiro olhou em torno de si um tanto inquieto, e não se julgando
-já em segurança, destacado como estava, do grupo principal, veiu,
-chegando-se a pouco e pouco, accrescentar a roda.
-
---E que penas que elles penam ás vezes! tornou a boa da velha abaixando
-a voz, e parando por um instante de trabalhar. Lembram-se do padre fr.
-João?
-
---Lembramos, lembramos! santo homem! Morreu, ha pouco, em Bellas,
-responderam todos com voz unisona.
-
---Pois eu conheci aquelle reverendo, que foi pequeno da minha creação,
-e que fez por aqui muitas travessuras, quando o pae inda era vivo. O
-motivo, porque elle se metteu frade, é um motivo estranho.
-
---Conte, conte, tia Quiteria, bradaram todos a uma voz.
-
---Se a nossa ama dá licença...
-
---Falle, falle, minha boa tia, estou morrendo pela ouvir.
-
---Pois o pae de fr. João era aqui um lavrador da terra, que foi pouco
-a pouco augmentando as suas fazendas á custa dos visinhos, que, sendo
-mais pobres, não o podiam demandar. Todos os annos ia elle chegando o
-marco das terras mais para deante, a ponto que um dos seus visinhos
-ficou reduzido á miseria. Morreu o usurario, e o pobre filho, que não
-sabia d’estas coisas, começou a disfructar socegadamente os bens que
-seu pae lhe legara. Alguns boatos lhe tinham chegado aos ouvidos, mas
-elle sempre suspeitara que tudo eram calumnias e invejas.
-
-«A final chegou o tempo das sementeiras, e o nosso João, que morava
-em Bellas habitualmente, mas que tinha uma casita terrea nas suas
-fazendas, veiu residir aqui para vigiar os trabalhadores.
-
-«Quando elle chegou encontrou-os a todos enfiados de susto.
-Disseram-lhe á uma que não tinham tido um momento de descanço, porque
-todas as noites se ouvia um arrastar de cadeias, uns gemidos que
-cortavam o coração; e finalmente que um d’elles, mais affoito, que
-ousara espreitar para saber qual era a causa d’esse barulho nocturno,
-quasi desmaiara de pavor, quando vira o finado, envolto na mortalha
-branca, arrastando o marco por todo o campo, e soltando gemidos
-lugubres, a que respondia ao longe o funebre piar do mocho...»
-
---Credo! murmuraram os assistentes.
-
-«O João todo se desesperou, e disse que desancaria quem se atrevesse
-a repetir semelhantes mentiras, e que, para provar o seu dito, havia
-de passar toda a noite sósinho em casa, e que veria se ousava alguem
-perturbar-lhe o repouso.
-
-«Se bem o disse, melhor o fez. Era no verão; mas apezar d’isso estava
-tempestuosa a noite como esta de hoje. O trovão ribombava nos ares, e
-os relampagos illuminavam os campos inundados de agua. O vento acamava
-as espigas de trigo, e fazia-as sussurrar lugubremente.
-
-«João metteu-se em casa e esperou que soasse a hora fatal. Não direi
-que não estivesse um tanto pallido e trémulo, mas continha o receio
-involuntario, e estava prompto para affrontar o perigo intrepidamente.
-
-«Um relogio velho, que elle tinha em casa, fez ouvir aquelle barulho
-que precede nos antigos relogios de parede o bater das horas, e logo
-depois deu meia noite. A tempestade pareceu suspender-se para escutar o
-signal dado pela voz mysteriosa do tempo, mas, apenas vibrou a ultima
-pancada, o furor da procella, por um instante refreado, redobrou
-de intensidade, e o vento, a chuva e os trovões bramiram com tal
-violencia, que tremeu toda a casa como se a sacudissem as garras de
-invisiveis demonios. Logo, por entre os rugidos confusos da procella,
-sibilar do vento, roncar dos trovões, tintinar da chuva, começou João
-a ouvir uns flebeis gemidos, que se prolongavam indefinidamente, um
-arrastar de algemas, que de cada vez se approximava mais.
-
-«João sentiu um calafrio correr-lhe pelas veias; mas tomou animo, e
-levantou-se da cadeira onde estivera. Não teve porém tempo de dar um
-passo. Abriu-se a porta e...»
-
-N’este momento abriu-se com estrondo a porta da cosinha.
-
---Jesus! bradaram os circumstantes.
-
-
-
-
- X
-
-
-Todos sentimos como que uma commoção electrica; eu mesma confesso
-que estremeci ao dar por tão notavel coincidencia. Mas o nosso susto
-mudou-se em espanto, quando vimos apparecer á porta D. Antonia, envolta
-n’um chale antiquissimo, que provavelmente descobrira n’algum dos
-velhos bahus da residencia.
-
---Então aqui não se trata da ceia? perguntou ella, cruzando os braços.
-Toca a palrar e a contar historias, e eu e a Maria do Rosario que nos
-aguentemos com o trabalho! Fóra mandriões; Annica já, já fazer as
-camas; Quiteria veja se nos arranja alguma coisa para cearmos. Nunca se
-viu uma coisa assim! Os servos aqui muito bem refestellados, e as donas
-da casa tendo de fazer o trabalho se o quizerem ver feito. A pobre
-Maria do Rosario é que havia de acudir a tudo. Vamos, minha sobrinha,
-venha d’ahi, não se costume a dar confiança a esta gente, senão está
-perdida.
-
-O rubor da vergonha, e da colera subiu-me ás faces e affogueou-m’as.
-O que! pois não era eu a dona da casa, não era eu só quem podia dar
-essas ordens e essas reprehensões? Mas que havia de fazer? Travar uma
-discussão em presença dos criados? Impossivel; a minha indole negava-se
-completamente a essas coisas. E por esta fórma conseguia sempre D.
-Antonia as victorias, que lhe assegurava a sua impudente iniciativa.
-
-As criadas andavam já todas azafamadas. Eu ergui-me e saí; passei por
-diante de D. Antonia, e vi a Maria do Rosario escondida na sombra.
-Percebi que tinha uma nova inimiga.
-
-Chamei-a, e disse-lhe que me indicasse o meu quarto. Ella veiu logo,
-fazendo muitas mesuras, e, pegando no candieiro, caminhou adeante de
-mim. Voltei-me e dei as boas noites a D. Antonia.
-
---Não ceia, minha sobrinha? perguntou ella.
-
---Não, minha senhora, respondi; sinto-me cançada, e prefiro deitar-me.
-
-Não me respondeu, e limitou-se a encolher os hombros. Eu subi a escada,
-seguindo a Maria do Rosario.
-
-O meu quarto ficava situado n’um dos angulos do edificio.
-
-Era vasto e frio. Duas janellas de peito, com bambinellas, rasgavam-se
-n’uma das paredes. Um leito de cortinas vermelhas, formidavel, macisso,
-abrangia uma grande porção da parede fronteira. O quarto fôra forrado
-de papel, havia pouco, e o mau gosto de quem presidira a esses arranjos
-escolhera o papel entre estes de linhas em zig-zag, parallelas e muito
-unidas, que impressionam a vista, e tomam fórmas phantasticas quando a
-luz vacillante d’uma vella as faz ondearem e confundirem-se de um modo
-aterrador. Duas ou tres cadeiras de espaldar e pregaria e uma commoda
-antiquissima completavam a mobilia d’este quarto lugubre.
-
-A atmosphera frigida d’aquelle aposento, regelando-me os membros,
-opprimiu-me o coração. Pareceu-me que entrava n’um sepulchro.
-
-Em cima da commoda havia dois castiçaes com vellas de stearina. Maria
-do Rosario accendeu-as, e perguntou-me se precisava de mais alguma
-coisa.
-
---De nada, respondi eu seccamente.
-
-Mas, quando ella se ia a retirar, chamei-a.
-
---Aqui n’esta casa não ha alguma livraria? perguntei eu.
-
---Ha, sim, minha senhora, respondeu ella. Aqui esta porta deita para um
-corredor, que vae ter á casa dos livros. Se a senhora quizer, as portas
-estão abertas.
-
---Obrigada, tornei eu.
-
-Maria do Rosario saiu. Senti-a fechar a porta, e depois descer a escada
-de vagar, até que esmoreceu ao longe o ecco dos seus passos. Caiu tudo
-em silencio.
-
-Em silencio, não; porque a tempestade não se aplacara. O vento gemia
-com mais tristeza, açoitando os postigos das janellas. De quando em
-quando ouvia-se a voz magestosa do trovão. A aza doida da procella
-batia com furor nos vidros.
-
-Sentei-me com desalento n’uma cadeira, e deixei pender a cabeça nas
-mãos. Senti quanto é horrorosa a soledade quando se tem vinte annos e
-um coração ardente. N’essas noites de temporal, em que é tão suave a
-reunião familiar, via-me eu só, abandonada, entregue a todos os pavores
-que a solidão inspira, n’um aposento, que mais parecia tumulo de mortos
-que habitação de vivos. Era esse quarto o symbolo da minha existencia,
-tal como o destino m’a fizera, carcere sombrio e lugubre onde eu tinha
-que encerrar todas as aspirações da minha juventude, todo o fogo vital
-que me incendia o sangue.
-
-Ergui a cabeça para respirar desafogadamente, porque esses pensamentos
-haviam-me opprimido o coração, e dei um grito de terror. Defronte de
-mim um vulto pallido mirava-me como que atterrado. Lagrimas silenciosas
-deslisavam-lhe pelas faces.
-
-Era a minha imagem que se reflectia n’um espelho em que eu ainda não
-reparara. Sorri-me do engano; ergui-me e dirigi-me ao espelho. «Pois és
-tu, Margarida, exclamei eu, és tu a creança descuidosa, que ha pouco
-dançavas nos bailes com tão mimoso colorido nas faces? És tu a flor das
-salas? Como estás desbotada, rosa das valsas! Definhas á sombra; mas
-que sol te poderia reanimar?»
-
-«O amor!» suspirou uma voz intima, e o quarto illuminou-se com vagos e
-ignotos clarões, e a tempestade como que se acalmou por incanto, e a
-sua voz expirante balbuciou aos meus ouvidos: «O amor!» E as linhas do
-papel arredondaram-se tambem em graciosas curvas, e murmuraram: «Amor!
-amor! amor!» Voejaram no quarto invisiveis pombinhas candidas, e eu
-ouvia-lhes o harmonioso bater d’azas. O rosto, reflectido no espelho,
-desfranziu-se n’um sorriso, e expulsou as nuvens que lhe toldavam a
-fronte.
-
---Que loucuras! balbuciei.
-
-E levantei-me, peguei n’um castiçal, e dirigi-me á bibliotheca a
-procurar um livro, que me distrahisse o espirito d’estes perigosos
-devaneios.
-
-A livraria era uma casa pequena, toda cercada de estantes, que vergavam
-ao peso de formidaveis _infolio_. Tirei ao acaso o primeiro volume
-que se me deparou. Era o segundo tomo dos _Trabalhos de Jesus_. Isso
-exactamente eu desejava. O titulo promettia-me um admiravel exorcista
-contra o demonio côr de rosa que ameaçava perseguir-me. Voltei pé ante
-pé, e entrei no quarto. Colloquei o pesado alfarrabio á cabeceira do
-meu leito, e principiei a despir-me.
-
-Já não ouvia gemer o vento, nem estalar a trovoada. Tive curiosidade
-de ver o aspecto da atmosphéra e, meio despida, corri á janella e
-entreabri um postigo.
-
-A janella deitava para o jardim. Cessara de chover, e a lua, filtrando
-os seus raios por entre as nuvens, banhava os canteiros no seu magico
-fulgor. O vento abrandara, e transformara-se n’uma brisa suave,
-que agitava as folhas nascentes das arvores. Parecia-me assistir á
-transição do inverno para a primavera, e cheguei a pensar que esse
-momento era o momento exacto em que findava o reinado dos gelos, e
-principiava o das flôres. A natureza, cançada da lucta, deixava-se
-embalar no regaço da primavera, que surgia coroada de estrellas, e
-scintillante de poesia e de amor! Amor, sim; essa doce palavra vi-a
-claramente escripta no vidro em letras de prata por um raio luminoso,
-que se desprendeu languidamente do seio da namorada Phebe.
-
-Cerrei a janella, e corri para o leito. Ao passar por diante do
-espelho, relanceei para elle a vista, e divisei um rosto que me sorria
-com os olhos banhados em vaga languidez. Involuntariamente escondi o
-seio com os braços cruzados, e, toda tremula e risonha, metti-me na
-cama, lançando logo a mão ao ponderoso volume de fr. Thomé de Jesus.
-Abri ao acaso e li:
-
-«Ó amor divino, como prendes, quando na alma te accendes; como
-captivas, quando á alma descobres alguma parte da formosura de tua face
-divina! Sem te ver claramente a alma peregrina, só pelo que de ti da
-vida sente, e póde com tua graça experimentar, como fica livre de si e
-das prisões da terra, e captiva de ti, e presa de teu amor! Estas tuas
-amorosas e suaves prisões tanto a atam e possuem, que até dos corporaes
-sentidos lhe mudas o gosto em ti, porque tudo lhe trazes sujeito á
-tua mão, e obediencia do teu amor. Se quer dormir, tu a acordas, se
-quer descançar, a aguilhôas, se quer comer, lhe tiras o sabor, se quer
-conversar, a apartas; toda a prendes, toda a queres, tudo lhe defendes;
-sempre amigo, sempre cioso; porque todo te dás, e toda a tomas; todo
-te entregas, e toda a prendes.»
-
-Deixei descair o livro, cujas paginas rescendiam não sei que namorados
-effluvios; sentia volitarem em torno de mim sylphos e fadas, que
-pareciam, occultos na sombra, segredar uns aos outros dulcissimas
-harmonias. O clarão suave da vella parecia oscillar brandamente ao
-meigo e perfumado sopro d’esses habitantes dos ares. As letras do
-livro eram outras tantas teclas, que suspiravam melodiosamente as mais
-voluptuosas arias de Bellini e de Rossini com letra de fr. Thomé de
-Jesus. Fui cerrando os olhos, como se o fluido magnetico, que enchia
-o quarto, me opprimisse as palpebras. A vela estava quasi expirando,
-e, nas vascas da agonia, projectava clarões phantasticos nas cortinas
-vermelhas do meu leito. Suspirei brandamente, e fui-me deixando
-adormecer, murmurando a palavra: «Amor!... Amor!»
-
-
-
-
- XI
-
-
-Entrava já o sol claro e alegre pela janella aberta, quando despertei.
-Esfreguei os olhos, ainda estonteada, e, levantando-me na cama, dei com
-a Maria do Rosario, que andava limpando o pó.
-
---Que horas são? perguntei eu.
-
---Então como passou a noite, senhora D. Margarida? Ai! cala-te, boca,
-não queiras tirar a Deus Nosso Senhor o que a Deus é devido; deixa a
-tua ama rezar primeiro as suas orações, e não queiras desvial-a do
-caminho da salvação, tentando-a a fallar em coisas d’este mundo. Reze,
-reze, senhora D. Margarida.
-
---Ó mulher, eu perguntei-lhe que horas eram.
-
---Ai! credo! Santo nome de Jesus! Virgem benta! Senhora Nossa! Estas
-meninas de agora nada respeitam! Não ha senão hereges! A senhora D.
-Margarida não queira ir arder para as labaredas do inferno, e dar
-triumphos ao inimigo. Santo Deus! Tome o exemplo da Senhora D. Antonia
-e da senhora condessa de *** que ha de cá vir esta noite.
-
---Ó senhora! diga-me que horas são, e vá-se embora.
-
---Eu já me retiro, minha senhora, que eu não quero perder a minha alma,
-tornou ella com voz esganiçada. Graças a Deus, toda a minha vida tenho
-feito figas ao demonio. Fui menina e moça, solteira e casada, e sou
-agora viuva, e nunca arredei pé do caminho do céo. São nove horas,
-minha senhora; soube sempre cumprir os deveres do Santissimo Sacramento
-do matrimonio. A senhora D. Antonia já está á sua espera para almoçar.
-Cruzes, inimigo; agora que sou velha não me venhas tentar. As bagagens
-já chegaram. Ó nossa Senhora do Rosario, minha protectora, livra a tua
-fiel serva das unhas de Berzabum. As suas malas estão ao pé da commoda.
-
-E resmungando, e esconjurando, foi-se approximando da porta e deitou a
-correr pela escada abaixo.
-
-Eu acordara com optimas disposições, de fórma que a insolencia d’essa
-mulher não conseguiu turvar-me o espirito. O ridente sol dos fins de
-março inundava o quarto com os seus vividos raios, e enchia-o d’essa
-luminosa poeira, que tanto espairece a vista. Saltei para baixo da
-cama, vesti-me e abri a janella.
-
-Inebriou-me a bafagem balsamica, que respirei na brisa que doidejava
-pelo jardim, e que me saudou com as suas vivificantes emanações. O
-jardim era vasto, no gosto do seculo passado, mas inculto. A natureza,
-entregue a esta bemaventurada negligencia dos jardineiros, remediara o
-risco absurdo do jardim. Os canteiros pautados e regrados escondiam-se
-por detraz de espessas moitas de buxo, que viçara á vontade e livre da
-tosquiadora thesoura. Os tanques sem agua cobriam-se com esverdeado
-musgo, e as estatuas desgraciosas envolviam a sua nudez n’um manto
-d’hera, que emendava, com as suas elegantes ondulações, a rigidez das
-linhas traçadas na pedra pelo inhabil cinzel do rustico esculptor. A
-relva molhada verdejava de um modo deslumbrante, e os passarinhos,
-escondidos da ramaria das arvores, cantavam alegremente o hymno da nova
-primavera.
-
-Estive alguns instantes contemplando esse delicioso espectaculo, até
-que ouvi a campainha, que nos chamava para o almoço. Desci, encontrei
-Anna, a creadita d’olhos pretos, que me foi ensinar onde era a casa de
-jantar; entrei, e vi D. Antonia magestosamente recostada n’uma cadeira
-de braços, em palestra muito animada com Maria do Rosario.
-
-Quando appareci, calou-se; fallei-lhe e sentámo-nos á meza, onde nos
-esperava o almoço.
-
-Comtudo, eu via pelo olhar odiento, que D. Antonia me lançava, que se
-estava preparando alguma tempestade. Effectivamente, depois de ter
-mandado embora a creada, D. Antonia voltou-se para mim, e disse-me,
-adoçando hypocritamente a voz:
-
---Minha sobrinha. É preciso que tenha mais prudencia. Não sei qual
-foi a educação que recebeu, mas sei que em casa de seu marido sempre
-reinou o temor de Deus, e o respeito pela religião christã. Não seja
-para as creadas um objecto d’escandalo, queira cumprir os seus deveres
-religiosos. Desculpe-me estas observações, accrescentou ella, mas,
-na ausencia de seu marido, compete-me dirigir a sua inexperiencia, e
-dar-lhe os conselhos que uma velha sabe dar.
-
---Agradeço tanta bondade, respondi com alguma ironia; mas rogo-lhe que
-não authorise as creadas a intervirem nas minhas acções. Queira pensar
-tambem, que apesar de ser nova e inexperiente, sou eu a unica dona da
-casa, e que não posso consentir que as pessoas que estão ao meu serviço
-me faltem ao respeito que me devem.
-
-E completei este discurso, fazendo uma profunda mesura, e retirando-me.
-
-D. Antonia fez-se fula de raiva, e tão irada ficou, que não pôde
-articular uma palavra. Lançou-me um olhar indignado, e só pôde
-dizer-me, quando eu já chegava á porta:
-
---Aviso-a que recebemos hoje a visita das nossas visinhas de campo,
-a senhora condessa de *** e a senhora baroneza de ***; note que são
-senhoras piedosas e de muitas virtudes. Veja o que faz.
-
-Não lhe respondi e saí do quarto.
-
-N’essa noite, apenas deram sete horas, appareceu logo D. Antonia,
-vestida esplendidamente para receber as nossas aristocraticas visitas.
-O meu fato singelissimo contrastava com o seu luxo deslumbrante. Por
-isso Maria do Rosario não fez senão extasiar-se perante as fitas
-vermelhas, e as pulseiras e broches d’oiro da minha mortal inimiga.
-
-Ás oito horas sentiu-se parar á porta um churrião puchado a bois. Era
-esse o vehiculo que transportava as duas muito nobres senhoras, nossas
-visinhas de campo, que moravam a um quarto de legua de distancia.
-D. Antonia correu á porta, e chegou a tempo de receber as fidalgas
-visitantes.
-
-Eu fiquei na sala, junto da mesa, folheando distraidamente um livro de
-devoção ornado de lindas imagens.
-
-Levantei-me da cadeira e dei dois passos para a porta, quando vi
-assomarem a ella os vultos das duas senhoras. Cumprimentei-as então
-respeitosamente.
-
-Uma d’ellas era alta, elegante, de physionomia austera e altiva fronte.
-Devia de ter sido formosa na sua juventude; mas a sua formosura por
-força tivera sempre um caracter inflexivel de orgulho indomavel. A
-outra era uma senhora quasi decrepita, em cujas feições meio apagadas
-se não podia ler outra expressão, que não fosse a d’esse ascetismo
-pavido, proprio dos espiritos acanhados, quando os gelos da edade,
-accumulando-se-lhes na fronte, lhes phantasiam, para além do tumulo, já
-proximo, as chammas atterradoras do inferno.
-
-A primeira d’estas duas senhoras, que eu soube depois que era a
-condessa, cumprimentou-me tambem; e levando a luneta aos olhos,
-mirou-me alguns instantes com gélida seriedade. Depois voltou-se para
-D. Antonia, e dirigiu-lhe um olhar, que parecia querer dizer: «É esta a
-pessoa em quem fallámos?» e D. Antonia respondeu-lhe com um movimento
-de cabeça, que significava: É sim, minha senhora, infelizmente.»
-
-A condessa veio então para mim, e disse com voz secca e vibrante:
-
---Folgo muito de conhecel-a, minha senhora. Sou antiga amiga da familia
-de seu marido. Estimarei poder consagrar-lhe o mesmo affecto.
-
---Se conseguir merecer a affeição de v. ex.ª, respondi inclinando-me,
-será isso para mim altissima honra, minha senhora.
-
-A condessa cumprimentou-me de novo, e foi sentar-se no canapé. A
-baroneza, que esbrugava um rosario e resmungava umas orações, sentou-se
-ao pé da mesa de jogo, embrulhou-se toda em pelles e tapetes, que a
-Maria do Rosario lhe trouxe com a maior promptidão, e ficou immovel,
-com os olhos fitos no vago, com os labios em continuado movimento. A
-luz do candieiro, batendo-lhe em cheio no rosto escaveirado e livido,
-fazia-a parecer uma d’essas figuras dos quadros asceticos da escola
-hespanhola, que tivesse descido da tela, obrigada por magica evocação.
-
---É muito bonita sua sobrinha, D. Antonia, disse a condessa. Deus
-queira que essa bellesa não seja arma que Satanaz queira empregar
-contra a salvação da sua alma.
-
---Não será, não, minha senhora, se Christo Senhor Nosso ouvir as
-orações que todos os dias lhe dirijo fervorosamente. Eu, senhora
-condessa, desde que meu sobrinho casou, ainda não tive um só
-pensamento, que não fosse para o bem d’esta menina. Assim ella m’o
-reconhecesse.
-
-E suspirou.
-
---Bem sei, bem sei que a D. Antonia tem sido sempre um anjo de
-caridade. Ponha os olhos em Deus, filha, e não faça caso das
-ingratidões do mundo. N’este seculo de impiedade a nossa cruz é bem
-pesada. Tomemos o exemplo do Salvador.
-
---Amen, concluiu devotamente D. Antonia. Eu bem diligencias faço para
-que esta ovelha se me não estramalhe do aprisco, mas é difficil a minha
-tarefa. Se eu pudesse ter o auxilio de v. ex.ª...
-
---Ai! filha! tambem tenho de cumprir a minha missão. E juro-lhe que ás
-vezes desfallecia, se não tivesse os olhos fitos na recompensa do céo.
-
---É verdade, é verdade. A senhora condessa entra vestida e calçada no
-paraizo. E como vae a sua santa obra?
-
---Eu não descanço; mas este anno tem provado mal. Debaixo dos meus
-auspicios tem-se feito apenas oito casamentos; é verdade que todos
-difficeis. Quatro foram de creadas minhas, que andavam de namoro com
-uns valdevinos do sitio; mandei-os chamar e obriguei-os a casarem.
-Ellas não queriam de fórma alguma. Tinham tomado informações, e sabiam
-que os taes rapazes eram uns bebedos, outros jogadores, outros vadios.
-«Porque não indagaram isso antes de os namorarem? disse-lhes eu. Ou
-fazerem o que lhes digo; ou sairem de minha casa. Não quero escandalos
-das minhas portas a dentro. Quem namora deve ter em vista o sacramento
-do matrimonio.» Houve uma que teimou, e saíu da casa; mas não
-encontrando arrimo em parte alguma, porque todos sabiam que tinha sido
-posta fóra por mal comportada. Andou por ahi a morrer de fome, até que
-não teve remedio senão fazer o que eu quiz. Mas custou-me.
-
---Que santa! meu Deus! que santa! bradou D. Antonia em extasi,
-levantando para o tecto os olhos e os braços. Pessoas como a senhora
-condessa são raras n’este seculo. E a sua prima, a senhora marqueza, o
-que é feito d’ella?
-
---Está em Roma a santinha! Foi beijar o pé a sua santidade! Escreveu-me
-de lá. Está louca de contentamento. Já viu tres vezes o vigario de
-Christo, e tem conversado com doze cardeaes. Ah! deve ser uma grande
-consolação para o padre santo, no meio das amarguras que a impiedade
-dos italianos lhe está causando todos os dias, ver que ainda ha fieis
-que tem por elle tanto respeito e amor.
-
-Esta edificante palestra foi interrompida por um grito da senhora
-baroneza. Levantou-se, como se obedecesse a um impulso de molas, e
-bradou com voz sepulchral:
-
---Arreda-te, inimigo... Cruzes, Satanaz... Não me tentas, não, não me
-tentas... Sim, meu doce Jesus, sim, bem vos vejo... Chamais a vossa
-serva... Ahi vou, ahi vou... Esperai um instante, meu salvador... Não
-desvieis a vossa face... Foge, Belzebuth, Asmodeu, Astaroth e Moloch...
-Ai! que eu já vejo o inferno... Senhor Jesus, acudi-me!
-
---Rezemos, rezemos, exclamou a condessa, caindo de joelhos; são visões
-que assaltam aquelle espirito bem-aventurado. É preciso que estejamos
-em oração, para que aquella santa vença o inimigo que a tenta.
-
-D. Antonia caíu de joelhos, e a Maria do Rosario, que apparecera á
-porta, fez o mesmo, dando grandes murros no peito.
-
-Eu olhava estupefacta para aquella scena burlesca.
-
-Não querendo fazer-me reparada, affastei-me um pouco, e simulei que
-ajoelhava.
-
-Afinal a baroneza caiu prostrada no canapé. Viera-lhe a espuma
-aos cantos da boca, como succedia ás pythonisas pagãs. A condessa
-levantou-se e disse a D. Antonia:
-
---Mande-lhe dar um caldo, que é sempre o que ella toma, depois d’estes
-extasis.
-
---Um caldo para a senhora baroneza, exclamou D. Antonia, voltando-se
-para Maria do Rosario.
-
-E a Maria do Rosario repetiu, correndo pela escada abaixo:
-
---Um caldo para a senhora baroneza, que tem _bisões_.
-
-D’ahi a pouco voltava trazendo uma chavena de caldo, e dirigia-se á
-baroneza.
-
---Beba, minha santinha, disse ella, beba, que lhe ha de fazer bem.
-
-A baroneza levou machinalmente a chavena aos labios, bebeu dois ou tres
-golos; mas de repente estacou, perguntando:
-
---De que é este caldo?
-
---De gallinha, senhora baroneza, de gallinha. Matou-se hoje a mais
-gorda da capoeira.
-
---De gallinha! repetiu a baroneza.
-
-E deixou cair a chavena em cima dos pés da Maria do Rosario, entornando
-o seu contheudo, e escaldando a creada.
-
---Má raios... principiou esta.
-
-Mas logo atalhou, mastigando em secco:
-
---Seja pelo divino amor de Deus! um caldinho tão bom, que os anjos o
-podiam beber.
-
---De gallinha! continuava a baroneza, plangentemente, e hoje é
-sexta-feira! Vão chamar o senhor padre prior.
-
---Elle não deve tardar, minha senhora, acudiu D. Antonia, ficou de vir
-jogar uma partida de voltarete.
-
---Ah! sim! o voltarete! repetiu a baroneza extasiada, n’um tom de
-ineffavel jubilo.
-
-E julguei que ia ter outra visão a proposito do basto e da espadilha.
-
-Seguiram-se alguns instantes de um silencio, que foi interrompido pelo
-tropear de um cavallo na estrada.
-
---Ahi vem o senhor padre prior, exclamaram a um tempo D. Antonia e a
-condessa.
-
-D’ahi a pouco, sentiram-se na escada passos pesados, e logo depois
-appareceu á porta um homem alto e reforçado, de bota de montar, e
-casaco até ao joelho.
-
---_Pax Domini!_ exclamou elle ao entrar.
-
---É Deus quem o envia, senhor padre prior, acudiu a baroneza. Commetti
-um grande peccado, meu padre; venha ouvir-me de confissão.
-
---Minhas senhoras, tenho a honra de as cumprimentar. Como está a
-senhora condessa? Senhora D. Antonia, Deus a tenha em sua guarda. Viva,
-minha menina. Guapa moça! accrescentou voltando-se para a condessa, que
-se sorriu com agrado.
-
---Senhor padre prior, acuda-me, bradou a baroneza, que já sinto as
-garras de Belzebuth.
-
---Então que é isso, minha santinha? Então que é isso? disse a final o
-padre prior, dirigindo-se para ella, e fazendo tremer a casa a cada
-passada que dava. Então que peccado temos?
-
-Sentou-se, e a baroneza, inclinando-se-lhe ao ouvido, disse-lhe a culpa
-que lhe pesava na consciencia.
-
---Hum! hum! resmungou o padre, quando ella acabou. Isso não é nada.
-Reze duas corôas a Nossa Senhora, e temos tudo acabado.
-
-Depois, levantando-se e dirigindo-se a D. Antonia, continuou:
-
---Então esta é que é a mulher de seu sobrinho?
-
---Sim, senhor, respondeu ella.
-
-O padre fez-me uma festinha na cara, e disse:
-
---Estimo conhecel-a! Ande lá que o Claudio não a merecia a Deus.
-
---Então, senhor padre José, acudiu a condessa brandamente, não esteja
-affagando a vaidade feminil; bem sabe que é essa a mais terrivel arma
-de que o demonio dispõe.
-
-O padre olhou para ella com tão comico espanto, que eu não pude deixar
-de desatar a rir.
-
-O sacerdote olhou-me, sorrindo-se com benevolencia, e offereceu-me uma
-pitada.
-
-Como eu recusei, foi offerecendo á roda, e depois, mettendo os dedos na
-caixa, tirou um monte de rapé que sorveu com delicias.
-
---Pois aqui onde me vêem, disse elle, por um triz que não parti inda
-agora as costellas.
-
---Como? acudiu logo o terceto, assustado.
-
---É verdade; é a primeira vez que monto no cavallo, que comprei em
-Lisboa. Por isso, como não lhe conhecia as manhas, vinha com cautella,
-e foi o que me valeu. Aqui ao pé, o demonio assusta-se com um tronco
-de arvore, que o vendaval de hontem á noite partira, e deu-me tamanho
-galão que eu ia perdendo os estribos. Ora, se a senhora condessa visse!
-Prégo-lhe as esporas na barriga, e obriguei-o a vir n’uma galopada até
-aqui á porta; assim é que eu os ensino.
-
---Graças a Deus, não se magoou?
-
---Eu! levava-o a breca, se me megoasse.
-
---É verdade, senhor padre José, tornou a condessa, não tem por lá
-medalhinhas da Virgem para dar aqui á D. Antonia?
-
---Ora, se tenho; é o que por lá falta! Quer algumas? Não faça
-cerimonia! E a proposito, não se joga o voltarete?
-
---Está-se á espera do _senhor_ Theodoro Leite, acudiu a condessa.
-Sempre se ha de fazer esperar. Bem mostra que é herege.
-
---Oh! se é, tornou o padre; está já a arder no inferno, o maldito! Pois
-então não me deu hontem dois codilhos em casa do escrivão... É verdade,
-a mulher do administrador lá offereceu um manto riquissimo á Senhora
-das Dores.
-
-Nos olhos da condessa fuzilou um raio de colera.
-
---Offereceu?! logo vi. A filha de um dos meus caseiros, que enriqueceu,
-sabe Deus como,--quer saber, D. Antonia? não está agora ao desafio
-comigo? A que tempo chegámos, meu Deus! Se eu offereço um resplendor ao
-menino Jesus, dá ella um manto de seda a Nossa Senhora. Já se viu uma
-coisa assim? Eu sempre queria saber aonde ella vae buscar o dinheiro!
-
---Que desaforo! acudiu D. Antonia indignada, e o senhor padre prior
-consente semelhante coisa!
-
---Então que lhe hei de eu fazer?...
-
-N’este momento abriu-se a porta, e um homem velho, magro, mal
-enroupado, mas de meiga e sympathica physionomia, entrou timidamente.
-
-Cumprimentou-nos a todos com acanhamento, e só de mim recebeu uma
-cortezia amavel. A condessa tratou-o friamente; a baroneza nem deu
-pela sua entrada; D. Antonia cumprimentou-o com seccura, dizendo-lhe:
-«Julgavamos que não vinha», e o padre prior acolheu-o com brados de
-indignação.
-
-O pobre Theodoro Leite curvou a cabeça, para deixar passar a procella,
-e foi, como que arrastado pelo parocho, sentar-se á mesa do voltarete.
-
-Formamo-nos então em dois grupos distinctos: o prior, a baroneza e
-Theodoro entregaram-se ás delicias dos codilhos e das licenças,
-emquanto eu, D. Antonia e a condessa ficamos no canapé, conversando
-e costurando, duas occupações que me desagradavam bastante. Procurei
-vencer a minha repugnancia; mas, apezar dos meus esforços, só de quando
-em quando soltava uma palavra, e a agulha ociosa descaía muitas vezes
-no meu collo, emquanto o meu pensamento voava para muito longe do sitio
-onde estavamos.
-
-Ainda não acabara o desfilar das pessoas, que nos honravam n’essa noite
-com a sua visita. Seriam nove horas, quando se abriu a porta da sala
-para dar entrada a dois novos personagens.
-
-Um homem ainda novo, e uma senhora tambem na flôr da idade foram os
-dois actores que entraram em scena. O personagem masculino tinha as
-mais visiveis tendencias para uma obesidade precoce, e no seu rosto
-cheio, bochechudo, de alvura deslavada, scintillavam dois olhos
-pequenos, mas vivos e inquietos, que denunciavam... intelligencia?
-intelligencia, de certo; mas uma d’estas intelligencias _praticas_, a
-que não escapa uma especulação proveitosa, e para a qual são enigmas
-abstrusos as aspirações grandiosas do espirito, e pomo vedado ainda o
-fructo da arvore da sciencia.
-
-A senhora, que o acompanhava, não se podia chamar bonita, porque as
-suas feições irregulares protestariam contra a denominação; mas os
-seus olhos negros e rasgados tinham um scintillar tão malicioso, tão
-provocador, que lhe illuminavam a physionomia, e lhe prestavam, senão
-belleza, pelo menos uma certa animação, e um indisivel encanto.
-
-Estas duas pessoas foram recebidas de um modo que contrastava bastante
-com o acolhimento feito a Theodoro Leite. D’esta vez houve apresentação
-em regra. A condessa radiante pediu-me licença para me apresentar a sua
-afilhada D. Carolina «que ella, condessa, se presava de ter educado nos
-principios da mais severa religião e da mais sã moral» e o marido da
-sua afilhada «moço de muito merito e virtudes, que (gloriosa excepção
-no meio da mocidade depravada e impia do nosso tempo) era um modelo de
-devoção, um exemplar de caridade, e um poço de sapiencia ainda por cima
-para coroar esta assombrosa pyramide de predicados.»
-
---Muito folgarei de as ver amigas, concluiu a condessa, accentuando
-cada palavra. Posso dizer sem orgulho, que uma menina da sua idade,
-senhora D. Margarida, e da sua educação, permitta-me que accrescente,
-lucra muito com o trato intimo de uma senhora de juizo, como é
-Carolina, posso affoitamente dizel-o.
-
-A elogiada Carolina achou modo de conciliar um modesto descer de
-palpebras, que lhe serviu para agradecer o retumbante panegyrico,
-declamado por sua madrinha, com um olhar malicioso, gaiato, com que me
-brindou ao trocarmos o beijo e o abraço fraternaes.
-
-Jeronymo Freitas, seu esposo, cumprimentou-me, e logo depois,
-sentando-se, encetou com a madrinha de sua mulher uma conversação,
-que parecia um fogo de vistas, em que estalavam todos os nomes
-aristocraticos do partido devoto, e que tinha a dupla vantagem de
-incantar a condessa, e de deslumbrar D. Antonia. Eu não tinha a minima
-idéa de uma coisa assim. Aquelle homem era ao mesmo tempo um vulcão,
-uma torrente, um moinho, e um _Almanach de Gotha_ em folio, mas um
-_Almanach de Gotha_, que uma causa desconhecida puzesse em ebullição,
-e que arrojasse á atmosphera, como bolhas d’ar, os nomes de quantos
-marquezes, condes, duques, principes, reis e imperadores existem por
-esse mundo. «E estive com a senhora condessa de tal, e a senhora
-marqueza disse-me isto, e á volta encontrei a senhora baroneza, que
-accrescentou aquell’outro, e a senhora duqueza recebeu uma carta
-de sua santidade, e o senhor marquez, que é um santo, disse-me: «Ó
-caro Freitas, você não sabe...?» e sua eminencia o cardeal sicrano
-communicou-me confidencialmente as suas afflicções» e... eu sei, estava
-atordoada com aquella volubilidade incessante, inexgotavel, incançavel,
-que apenas se interrompia uma ou outra vez para deixar passar uma
-trovoada de imprecações com que o padre prior fulminava o pobre
-Theodoro Leite, que fizera as _cinco primeiras_, provocando por essa
-fórma os raios da excommunhão suspensos havia muito sobre a sua calva
-heretica.
-
-D. Antonia estava extasiada, jubilosa como os gaiatos, que andam
-apanhando as cannas dos foguetes, em dias de festividade nacional.
-Assim ella tambem corria esfalfada atraz da verbosidade do Jeronymo,
-para apanhar de relance um nome, que depois de ter estalado nos ares, e
-produzido o seu effeito, caía magestosamente, levantal-o, e perguntar
-logo: «Pois o senhor Freitas conhece o duque de tal?»
-
-Não posso calcular até que ponto estariam os meus nervos á prova de
-semelhante palestra, porque D. Carolina, que olhara por vezes para mim
-sorrindo-se, levantou-se, approximou-se da minha cadeira, e disse-me:
-
---Dá-me licença que dê um giro no jardim, e quer-me conceder a honra da
-sua companhia?
-
---Com todo o gosto, minha senhora, respondi eu, erguendo-me logo, e
-acompanhando-a para fóra da sala.
-
-Descemos ao jardim: a noite estava clara e linda como uma verdadeira
-noite de primavera; só a brisa, ainda frigida bastante, lembrava a
-proximidade do inverno.
-
-Carolina passou-me o braço á roda da cintura, e, dando-me um beijo
-affectuoso, disse-me, sorrindo:
-
---Sabe, minha querida D. Margaridinha, que me estava mettendo compaixão!
-
---Eu! respondi sorrindo-me tambem; porque?
-
---Porque vi o tédio que lhe causava aquella conversação hypocrita
-e fastidiosa. Pobre creança, não está ainda habituada á estranha
-sociedade, no meio da qual o accaso a collocou. Tudo aqui é frivolo,
-minha querida, e tudo toma uma apparencia grave e pedante, como um
-alfarrabio theologico; tudo é immoral; e tudo toma ares austeros.
-Mascara, mascara e mascara; nada mais. Se estou bem informada, um
-dos artigos do regulamento dos bailes publicos prohibe as mascaras
-religiosas, mas não ha lei alguma, que me conste, que as prohiba na
-sociedade, onde existem com abundancia, ha-de-se costumar tambem, minha
-filha, ha de fazer o que eu faço, envergar um dominó da confraria, e
-rir-se dos outros, por baixo da mascara como elles se riem de nós.
-
---Nunca, respondi eu com impetuosidade; se a hypocrisia é em todos os
-casos um vicio odioso, que proporções não assume quando macula com o
-seu bafo pestifero o sentimento mais nobre que existe no coração do
-homem, o sentimento da religião!
-
---Ai! ai! tornou Carolina desatando a rir, d’onde trouxe essas idéas,
-minha querida? de que planeta desconhecido? de que paraiso terrestre,
-onde esteja ainda intacta a arvore do bem e do mal? Innocencia digna da
-edade de ouro! Virtude bucolica, mais propria para habitar na choupana
-classica de Philemon e Baucis, do que n’uma quinta dos arredores de
-Bellas! Ah! mas diga-me, a D. Antonia afinal calumniou-a?
-
---Não sei o que D. Antonia diria a meu respeito, respondi eu com certa
-reserva; mas tenho as minhas razões para suppôr que não entoou o meu
-panegyrico.
-
---Carolina parou e olhou para mim, franzindo levemente a sobrancelha.
-
---Ah! não quer ter franqueza comigo! Está-se mostrando estrategica
-habil! Esconde-me o jogo; pois olhe, para lhe provar que póde
-depositar plena confiança em mim, vou pôr as minhas cartas em cima da
-mesa; queimo os navios, e veremos depois se estará disposta a assignar
-comigo um tratado de alliança offensiva e defensiva.
-
---Oh! minha querida senhora D. Carolina, tornei eu rindo, estou prompta
-já a assignal-o, e affianço-lhe que é injusta, desconfiando da minha
-franqueza. Mas o que deseja que eu lhe diga? Nos mais reconditos
-refolhos do meu coração não se esconde um pensamento, que eu não possa
-confiar-lhe.
-
---_Le jour n’est pas plus pur que le fond de mon cœur!_ tornou Carolina
-com seriedade comica, já conheço o estribilho. Como prova das boas
-relações em que vamos estar, principiemos largando o tratamento
-cerimonioso que temos empregado. Queres, Margarida?
-
---Com todo o gosto, Carolina.
-
---Bom! estamos alliadas! E agora diz-me: que idéa fórmas tu de minha
-madrinha, e de meu marido?
-
---Como quer...
-
---Como quer? repetiu ella, ameaçando-me com um dos dedos levantado.
-
---Perdão: como queres que eu tenha uma opinião formada sobre duas
-pessoas que vi esta noite pela primeira vez?
-
---Ou estes olhos mysteriosos, de um azul tão profundo como o do céo em
-noite de verão, me enganam muito, ou a esta cabecinha gentil nem tanto
-tempo é necessario para avaliar uma pessoa. Eu mesma vou apostar em
-como já estou julgada e condemnada talvez no teu tribunal intimo.
-
---Fazes demasiada honra á minha intelligencia, tornei eu rindo,
-affirmo-te...
-
---Nada affirmes; acceitarei as tuas phrases como versiculos do
-Evangelho, e passarei desde já a dizer-te, para poupar trabalho á tua
-imaginação, qual é o caracter d’esses dois personagens, com quem me
-vejo obrigada a estar sempre em scena n’esta comedia da vida.
-
---Falla!
-
-Sentámo-nos n’um dos bancos do jardim; Carolina alisou com a mão os
-cabellos, que a brisa enredara um pouco, e, depois de relancear, com
-certa ironia, os negros olhos para a janella da sala, em cujos vidros
-illuminados se estampava de vez em quando o vulto quasi dobrado ao meio
-de Maria do Rosario, que andava no seu serviço, voltou-se para mim, e
-disse:
-
---Principiemos por minha madrinha. Aquella senhora austera, que
-alli vês, que préga moral rispida, e que é inflexivel em pontos de
-pundonor, que, se vivesse no tempo de Jesus, e fosse discipula sua,
-duas vezes, pelo menos, o renegaria, a primeira quando elle perdoou
-á mulher adultera, a segunda quando enxugou com um raio do seu amor
-divino as lagrimas de Magdalena, aquella senhora teve uma juventude
-tempestuosa. Não julgues por isso que arredou pé nem uma vez só do
-caminho da salvação. Habil como aqueles heroes das lendas antigas, que
-aproveitavam os serviços do diabo, e que o logravam depois quando
-chegava a occasião do pagamento, fixada no pacto infernal, a condessa
-começou desde muito nova a fazer os mais proveitosos enxertos de
-ramaria profanissima na arvore divina. Encerrada no templo, curvando
-o joelho ao altar, e transformando em alcova a sachristia, zombou das
-tolas que peccavam em plena rua, e sobre as quaes os seus labios,
-ainda frementes de lascivia, arrojavam com impudencia o sacrilego
-anathema. Não julgues comtudo que era a condessa uma excepção no meio
-da aristocracia feliz, que pôde receber... nas suas salas a brilhante
-juventude monastica. Ai! minha filha, as aventuras fradescas não são
-puras invenções dos Rabelais populares, que nol-as transmittiram. O
-frade representou um grande papel na chronica escandalosa das gerações
-que nos precederam. O devoto habito pendurado á porta de um palacio
-era escudo contra a maledicencia, e Cupido, como se dizia n’esse
-tempo, podia folgar affoitamente resguardado das vistas curiosas pela
-cogulla santa. Cythera chamava-se Thebaida, Paphos era Cartuxo, Gnido
-um sagrado mosteiro. Ah! se tu soubesses tudo quanto me revelou a
-chronica familiar do palacio, a tradição oral da creadagem! É divertido
-e instructivo.
-
-Carolina calou-se por um instante, e continuou depois, levantando-se e
-ficando em pé defronte de mim:
-
---Admiras-te provavelmente, como todas nos admiramos, da singular
-seducção que a actriz da voga, que a cantora afamada exercem em muitos
-homens. Infelizmente, não temos direito de nos admirar. O que a actriz
-e a cantora são para elles, foram-n’o os moços prégadores de fama para
-as senhoras, que julgariam peccado horrendo entrar no camarote de
-um theatro. Oh! quereria poder contar-te o profano ardor com que as
-devotas peccadoras corriam a atulhar a egreja do convento no dia em que
-subia ao pulpito o Richelieu tonsurado, o monastico Lauzun d’aquella
-sociedade licenciosa e beata, quereria poder narrar-te a mystica
-voluptuosidade com que muitos olhos fulgurantes se fitavam no rosto
-imberbe do homem de Deus. Podia citar-te anecdotas, podia apontar-te
-o nome do garrido frade de pé pequeno, que, se fosse como o José da
-Biblia, teria de fazer uma despeza enorme em capas; não era. Podia
-citar-te os caprichos de alguma senhora, que, rival em extravagancia da
-imperatriz Catharina, substituia os granadeiros da amante de Potemkin,
-pelos fradalhões mais nojentos dos innumeraveis conventos de Lisboa.
-Não cito; dir-te-hei unicamente que a austera condessa foi uma das
-heroinas d’esse poema licencioso; e por uma estranha aberração dos
-principios de moralidade contempla hoje sem remorso o seu passado
-viver, e julga-se com pleno direito de fulminar com o anathema sobre as
-peccadoras da actualidade.
-
-Carolina estava n’esse momento realmente bella; os olhos faiscavam-lhe,
-palpitavam-lhe convulsos os labios descorados. Eu mirava-a com espanto.
-
---Aqui tens o que é minha madrinha, continuou a minha interlocutora,
-sem me deixar sequer interrompel-a. Meu marido avaliaste-o de certo
-pelo que lhe ouviste. Homem sem principios nem crenças, tudo tem
-sacrificado ás suas conveniencias e á satisfação da sua balofa
-vaidade. Fez-se devoto, quando o meu dote se lhe deparou como facil
-conquista para que soubesse conciliar a affeição de minha madrinha,
-que era tambem minha tutora desde a morte de meus paes. Seria sceptico
-ferino, se a condessa fosse discipula do senhor de Voltaire. Além
-d’isso o seu ridiculo amor-proprio satisfazia-se com a idéa de ver
-descerrarem-se-lhe as portas das salas aristocraticas, onde campeiava
-essa sociedade que outr’ora insultara com vehemencia republicana,
-quando a julgara tão longe de si e tão alto como as celebradas uvas
-estavam na parreira longe da raposa da fabula. Ahi tens quem é meu
-marido.
-
---Traçaste esses retratos com mão de mestra, mas suspeito que os
-fizeste demasiadamente carregados, accudi eu...
-
---Não, tornou ella, encolhendo os hombros, disse-te a verdade
-francamente, porque soubeste captivar-me as sympathias, e desejo ter-te
-por amiga. Desejava tambem explicar-te o meu caracter, que tem duas
-faces, a que viste na sala, e a que vês aqui; a complacencia hypocrita,
-e a revolta aberta. Aprendi com elles a arte da dissimulação, vi
-dos bastidores a comedia que elles representavam, ouvi de boccas
-indiscretas os mysterios do camarim emquanto o publico applaudia
-e coroava as actrizes e os actores. Convenci-me de que tudo era
-hypocrisia; e, passado o primeiro momento de repugnancia, entendi que
-devia tambem representar o meu papel n’essa immensa farça. Gosar foi a
-minha divisa, lograr esses logradores encartados o meu programma. Ahi
-tens o que eu sou. Vamos agora ao que importa. Teu marido é um parvo, e
-tu és uma linda e intelligente rapariga. Quem é esse Alberto em quem a
-D. Antonia falla com tão devota compuncção?
-
-Olhei para ella com assombro.
-
---Pois já a tia de meu marido, accudi eu, teve tempo de me rodear, de
-me enlear com as suas calumnias? Por amor de Deus, senhora D. Carolina,
-preste-me justiça maior.
-
---É essa a recompensa da minha franqueza, redarguiu ella, sentando-se
-ao meu lado; e em vez de uma alliada tenho em ti uma inimiga?
-Diriges-me assim uma indirecta reprehensão?
-
---Deus me defenda, tornei eu um tanto constrangida, como hei de
-arvorar-me em juiz das acções dos outros? O teu procedimento foi-te
-dictado por motivos que eu não tenho... desculpas que eu... não poderia
-allegar...
-
---Não te embaraces mais, tornou ella com certo azedume, só te digo que
-fazes mal em ir por esse caminho. És inexperiente, e precisas de quem
-te guie na escabrosa estrada da tua rebellião.
-
---Mas se eu não tento revoltar-me!
-
---Queres persuadir-me que amas teu marido?
-
-Não respondi.
-
---E, não o amando, affirmas que não teem o minimo fundamento as
-bisbilhotices d’essa tola da D. Antonia?
-
---Juro-o; acudi eu, levantando-me de um impeto; ainda que o amor não
-exista na minha ligação com um homem bom e honrado, basta o sentimento
-do dever para me impedir de deshonrar o nome, que voluntaria ainda que
-irreflectidamente acceitei. Póde acredital-o.
-
---Agradeço a lição, tornou Carolina com amarga ironia, e não quero
-ficar-lh’a devendo; dar-lhe-hei outra. Saiba pois, pomba innocente que
-se julga tão forte, que ha de chegar um momento, em que, perseguida
-pela calumnia incessante, abandonada por um esposo indifferente ou
-cego, sentindo referver-lhe nas veias o sangue da mocidade, inebriada
-pelas tentações que a hão de rodear, se despenhe e macule as azas
-brancas n’esse tremedal que despreza. Então ha de lastimar amargamente
-o ter repellido a alliança que lhe offereço. Voltemos para a sala.
-
---Sinto, senhora D. Carolina, tornei eu gravemente, haver-lhe
-desagradado. Mas acredite que, se a fatalidade me levar a esse
-aviltamento, não sentirei senão o remorso de ter praticado uma acção
-indigna.
-
---Veremos, respondeu ella erguendo-se.
-
-Voltámos para a sala, e pouco depois todas as visitas se retiraram.
-
-
-
-
- XII
-
-
-Succederam-se com regularidade estes serões do voltarete. Fomos
-procuradas pelas notabilidades dos arredores, recebemos e pagamos
-visitas, mas o congresso da primeira noite foi que se estabeleceu na
-nossa sala de um modo definitivo.
-
-De todas essas pessoas a que me inspirava sympathia verdadeira era o
-Theodoro Leite, o despresado, o tolerado apenas. Gostava de contemplar
-aquella meiga physionomia de velho timida como a de uma creança.
-Sentada com o meu bordado, olhava de relance para elle, e via-o muitas
-vezes distraido das preoccupações banaes do jogo, com os olhos como
-que fitos n’um mundo para nós invisivel. Se uma imprecação do padre
-prior o avisava de que havia commettido alguma falta ao voltarete,
-Theodoro estremecia, e o seu rosto de novo tomava a expressão de timida
-deferencia, que habitualmente o caracterisava. Mas na sua triste
-fronte via eu distinctamente o reflexo dos orbes luminosos, em cuja
-contemplação se embevecera.
-
-A sua vida era um poema de sacrificios e de infortunios. Entrara na
-sociedade com uma instrucção litteraria desenvolvidissima, e por
-conseguinte inutil em Portugal... e em toda a parte, parece-me. Quizera
-continuar a estudar, haviam-lhe faltado os meios; quizera ensinar o que
-já sabia, e por essa forma grangear alguns recursos, vira-se repellido
-de toda a parte, porque o seu caracter recto e firme não lhe permittia
-que falsificasse a historia, e que deixasse de estampar na fronte da
-facção clerical o estygma que ella merece. Por amor da verdade, e não
-por paixão partidaria, quiz luctar com a serpente, cujas roscas geladas
-tentam de novo cingir e abafar o mundo, e a serpente ergueu-se contra
-elle e suffocou-o. Vencido e exhausto, já de cabellos brancos, tomou o
-seu bordão de peregrino, e voltou para Bellas, sua terra natal, d’onde
-partira, rico de esperanças, de mocidade e de enthusiasmo; onde entrava
-opulento de cãs, de desgostos e de fadigas... pobre de tudo o mais.
-
-Na casa paterna encontrou sua velha irmã entrevada, que lhe pedia pão.
-O austero apostolo da verdade, que sacrificara futuro, tranquillidade
-e o pão da sua velhice ao seu nobre orgulho, sacrificou isso mesmo,
-que era só o que lhe restava, ao bem estar de sua irmã.--Elle, o firme
-combatente, o luctador incançavel, foi ajoelhar humilde perante os
-implacaveis adversarios. A condessa e outras senhoras do sitio eram
-protectoras de uma escola de creanças pobres, fundada na aldeia de ***;
-Theodoro Leite foi pedir o logar de professor. A condessa divertiu-se
-em lhe fazer sentir bem a humilhação, a que a desgraça o obrigara; e
-afinal, movida pela _caridade christã_, concedeu-lhe o que elle pedia.
-A verdade era que estavam em grandes embaraços, porque não encontravam
-um unico professor capaz, que se quizesse sujeitar a receber o ordenado
-fabulosamente exiguo, que a sua economica beneficencia se prestava
-generosamente a conceder.
-
-Theodoro Leite sympathisara comigo, e comigo só fallava
-desafogadamente. Nas rapidas palestras, que tinhamos tido, pude
-reconhecer a sua vasta erudição, e a bondade quasi angelica do seu
-caracter.
-
-Estavamos uma noite reunidos, segundo o costume: Theodoro, a baroneza,
-e o prior no seu eterno voltarete, eu e os outros junto do canapé. A
-palestra versara sobre os infortunios do papa. Subito a condessa tira
-da algibeira um papel, e diz:
-
---Lembrou-me abrir aqui uma subscripção para o dinheiro de S. Pedro.
-Estou que ninguem recusará tomar parte n’uma obra tão meritoria.
-Reservei para a senhora D. Margarida a honra de abrir a lista dos
-subscriptores.
-
-Todos os olhos se voltaram para mim, com curiosidade. Theodoro Leite
-desviou a attenção do jogo, e mirou-me anciosamente.
-
-Foi no meio de um profundo silencio que eu respondi:
-
---Aprecio infinitamente a honra que v. ex.ª me faz; é mais uma prova
-da sua benevolencia e da sua amizade. Comtudo permitta-me a senhora
-condessa que lhe faça algumas observações. Se eu fosse nimiamente
-rica, não teria duvida em dar ao Summo Pontifice essa prova do meu
-respeito; mas, não tendo riqueza tanta que me permitta esbanjar assim
-os meus rendimentos, prefiro poisar na mão do pobre a esmola destinada
-ao erario pontifical. Estou que será por essa forma duplamente
-agradavel a Deus e ao vigario de Christo. Esse pouco de oiro, que se
-sumiria, parcella minima, no golphão do luxuoso Vaticano, pode só por
-si fazer brotar a alegria na misera choupana. Portanto, se v. ex.ª m’o
-permitte, darei a minha quota aos pobres; bem sabe que é o mesmo que
-emprestal-a a Deus.
-
---Muito bem, muito bem! exclamou Theodoro Leite irreflectidamente.
-
-O pobre homem, deixando-se levar do primeiro impeto, de tudo se
-esquecera; mas logo caiu em si, e fez-se pallido como um defuncto.
-
-A condessa aproveitou o ensejo para desabafar, e fulminou Theodoro com
-o peso da sua indignação.
-
---Muito bem, o que? exclamou ella. A senhora D. Margarida, tendo
-aquellas idéas, só prejudica a salvação da sua alma, porém o senhor
-Theodoro é responsavel para comigo das almas dos meus orphãosinhos.
-Como quer que eu conserve na minha escola um homem que tão abertamente
-professa doutrinas impias e sacrilegas?
-
-Eu voltara ao meu bordado, e olhava ás furtadellas para o pobre
-Theodoro que por minha causa padecia.
-
-A desgraça abatera completamente a alma varonil. Creio que de relance
-viu a imagem de sua pobre irmã supplicando-lhe que a não abandonasse,
-e as gottas de um suor de agonia aljofraram-lhe a fronte. Então
-respondeu n’um tom aflicto, que me faria rir immenso, se aquelle mesmo
-ridiculo não fosse tanto para commover.
-
---Mas, minha senhora... eu não applaudo as idéas... foi apenas a...
-a... a disposição grammatical do discurso da senhora D. Margarida.
-Perfeitamente bem construido... a regencia irreprehensivel... a
-syntaxe...
-
---A syntaxe o que? interrompeu a condessa lentamente, esmagando-o com o
-seu olhar ferino.
-
-O pobre Theodoro estava cada vez mais pallido; era o naufrago, que vê
-fugir-lhe das mãos a derradeira taboa, e que ouve o rugido feroz das
-ondas, parecendo motejar do seu infortunio.
-
---Dizia eu, minha senhora, que o estylo era muito acceitavel: mas... (e
-Theodoro lançou-me um olhar em que implorava a minha indulgencia), mas
-só o estylo; as idéas regeito-as.
-
---Ah! o estylo! continuava a condessa, implacavel.
-
-Eu sentia o rubor da indignação na fronte. Era infame aquelle
-zombetear, aquelle brincar do tigre com a victima.
-
-A condessa curvou-se então para o lado de Theodoro, e disse-lhe algumas
-palavras em voz baixa. Suspeito que o demittira do seu logar de
-professor, porque vi duas lagrimas brilharem nos olhos melancholicos do
-pobre velho.
-
-O que veria elle n’esse tremendo lance? Que sinistras visões lhe
-povoariam a mente? O edificio da sua velhice, a tanto custo construido,
-e derrubado n’um instante, o pão de sua irmã com tantas lagrimas
-amassado, faltando-lhe de subito! O velho pendeu a cabeça, relanceou um
-triste olhar para todos os lados, e suspirou. Comtudo ainda não havia
-terminado a tortura; não estava acabada a partida, e interrompel-a
-seria conciliar para sempre a adimadversão de todos. Theodoro
-resignou-se, sentou-se outra vez na cadeira, d’onde se levantara, e
-continuou a jogar.
-
-«Outro martyrio, disse eu comigo, que não tem o prestigio da poesia, e
-que ninguem se lembraria de lastimar.»
-
-Comtudo reinava um certo constrangimento na sala, e tornava-se
-impossivel prolongar muito o serão. Antes que saissem as visitas,
-entendi que devia, ainda que não fosse senão por descargo de
-consciencia, tentar alguma coisa a favor de Theodoro Leite. Baldada
-tentativa! A condessa respondeu-me com hypocrita doçura, mas com
-inabalavel firmeza. Tambem a advogada era mal escolhida. A devota
-senhora, que já pouco sympatisava comigo, ficou sendo desde essa noite
-minha inimiga declarada. Declarava-se o _triumfeminato_ adverso: a
-condessa, D. Antonia, D. Carolina.
-
-Ao despedirem-se, vi Theodoro Leite principiar a fazer manobras, cujo
-fim não podia adivinhar, approximava-se lentamente da janella, mirava a
-a paisagem nocturna, depois encaminhava-se para a mesa, junto da qual
-eu estava.
-
-Afinal, quando viu todos distraidos, travou-me subito da mão, e
-apertou-m’a com viveza e enthusiasmo.
-
-E, dada esta prova de coragem, saiu quasi a correr.
-
-
-
-
- XIII
-
-
-No dia seguinte, ás tres horas da tarde, saía eu sósinha, e punha-me a
-caminho da casa de Theodoro Leite.
-
-A Annica dera-me as explicações topographicas mais minuciosas para que
-me não perdesse. Mas a Annica não contara com as distracções da minha
-phantasia, não pensara na influencia d’uma formosa tarde de primavera,
-nas tentações de respirar em liberdade esse ar dos campos, tão puro,
-tão são, tão fragrante!
-
-Sentir-me só, livre de todo o constrangimento, de todas as
-perseguições, só com a natureza e com Deus, engolphar-me de novo em
-pleno ambiente de poesia, depois de me ter encravado até aos joelhos
-na lama vil da mais repugnante prosa, tudo isso me enlevava tanto, me
-rejubilava por tal forma, que me parecia renascer para a vida, como eu
-quizera, como eu comprehendera, para a vida do sonho, para a vida do
-ideal.
-
-Sósinha! Como eu trepava ao cimo da mais pequena elevação de terreno
-para descobrir mais largo horisonte, como eu ficava embebida em jubilo
-infantil, a contemplar os malmequeres, sobre os quaes a brisa fluctuava
-de manso, acamando-os levemente, como se milhões de invisiveis
-borboletas poisassem de subito na graciosa cabecinha da flor campestre!
-Tanto me enlevei, tanto me extasiei, tanto me deliciei que afinal
-perdi-me. Já cançada e offegante, via o sol pender cada vez mais para o
-horisonte, e não sabia ainda o caminho que havia de tomar. Valeu-me um
-saloio venerando, que encontrei, e que me foi conduzir até á porta de
-Theodoro Leite, acceitando, apesar da sua physionomia patriarchal, com
-mostras de muito jubilo, a remuneração em dinheiro que lhe offereci.
-
-A casa do mestre de meninos era modesta, mas aceiada. A sua fachada
-branca atapetava-se graciosamente com plantas trepadeiras, que lhe
-emolduravam as janellas, em cujos vidros scintillavam os raios do sol
-poente. Respirava toda ella pobresa, mas serenidade.
-
-Bati á porta. Appareceu-me logo Theodoro com um livro na mão. Soltou
-uma exclamação de jubilo assim que me viu.
-
---Foi a minha casa eleita pelo Senhor? Visitam-me os anjos, como
-visitaram outr’ora os patriarchas hebreus? Bemvinda seja a esta
-choupana, minha filha! Entre e illumine com o seu meigo sorriso as
-trevas precursoras de sepulchro em que estes dois velhos vivem.
-
---Que de galanteios, senhor Theodoro! disse eu, entrando alegremente.
-Velho que sabe dizer tantas finezas é mais perigoso que um rapaz.
-
---_O gioventú, primavera della vita!_ tornou elle, mirando-me com terno
-sorriso. Doce estação da existencia, cujo reflexo até o inverno aclara.
-Aqui tens, Josephina, o anjo em que tantas vezes te fallei, continuou
-voltando-se para sua irmã, palida creatura que jazia n’uma pobre cama.
-
-Approximei-me d’ella com o respeito, que o infortunio inspira.
-Josephina poisou-me na cabeça a mão quasi transparente, murmurando:
-
---Pobre creança! Deus te fade bem, e mude os abrolhos da estrada que
-trilhas em flores suavissimas, o leito de espinhos em leito de rosas,
-as agruras do caminho em aveludado tapete.
-
-Curvei-me respeitosamente, recebendo esta benção maternal.
-
---Sabes, Josephina, acudiu Theodoro, que difficil seria encontrar um
-quadro mais delicioso do que esse que estão agora ambas formando? Os
-teus cabellos brancos de neve confundem-se com as tranças levemente
-aloiradas de D. Margarida. Aqui, do sitio onde estou, vejo desenhar-se
-em graciosa curva o corpo esbelto, ou antes a haste gentil d’esse
-lyrio, que se debruça para o teu leito a perfumal-o de fragrancias,
-a perfumar-te de juventude. Ha um raio do sol poente, que entra pela
-janella, e vae semear de palhetas d’oiro os cabellos d’essa formosa
-menina, e a ti purpureia-te levemente a fronte de marfim. Onde ha
-espectaculo que se possa comparar a este que disfructo agora? Duas
-vidas que se entrelaçam, uma tão pura no seu occaso como a outra na
-sua aurora, duas auréolas, cujos raios de luz se confundem, auréolas
-que não sei dizer qual seja a mais explendente, se a que se fórma de
-infortunio, se a que se compõe de innocencia!
-
---Poeta! poeta! disse Josephina, e continuou, voltando-se para mim; foi
-sempre o defeito d’este meu irmão; não sei se elle perpetrou alguns
-versos...
-
---Nunca, Josephina; rima nenhuma tenho a pezar-me na consciencia.
-
---É o mesmo, ou antes é peior. Não desabafa em rimas, entretem-se em
-devaneios, é o que lhe tem feito mal. Era melhor que tu te lembrasses
-de offerecer alguma coisa de comer a esta menina, cujo appetite havia
-de ter sido despertado pela caminhada.
-
---Queres que lhe offereça os alimentos frugaes da nossa Thebaida? Pão
-secco...
-
---E laranjas, desmemoriado. Pois já te esqueceste das que te trouxe o
-pae d’um dos teus discipulos?
-
---Não, não, acudi eu apressadamente, não tenho vontade.
-
-As minhas recusas de nada valeram. D’ahi a pouco apparecia Theodoro com
-um açafate de laranjas magnificas.
-
---Madame de Maintenon, disse elle, quando não tinha assado para dar aos
-hospedes do seu primeiro marido, Scarron, contava-lhes uma historia.
-Aqui, senhora D. Margarida, tem de passar sem assado e sem historia.
-
---Dispenso o primeiro, tornei eu, mas não dispenso a segunda. A sua
-vida passada não contará muitos factos d’util lição para quem entra,
-como eu entro, na estrada da existencia? A sua vida presente não está
-cheia tambem de modesto mas proveitoso ensinamento?
-
-Theodoro abanou a cabeça com melancholia.
-
---O meu passado, filha, é um passado tristemente banal. Ferventes
-illusões, desenganos profundos, n’isso apenas se cifra. Julguei que
-o meu paiz caminhava com o resto da humanidade, e que podia tambem
-eu accender o meu facho modesto para o ajudar a dissipar as sombras.
-Enganei-me. Eram as trevas as vencedoras. Encaneceram-me os cabellos
-n’essa lucta ingloria. Tarde, bem tarde, percebi que, se o meu paiz
-regeitava o meu auxilio, reclamava-o a minha familia. Voltei para o
-lar, como o filho prodigo. Cumpro agora os meus deveres como posso, e
-infelizmente posso pouco. A minha vida presente, senhora D. Margarida,
-tem o seu lado luminoso e o seu lado sombrio. Quando, ao pé do leito
-de minha irmã, contemplo o sol que illumina além o horisonte com as
-derradeiras chammas, quando vejo n’este vasto sanctuario da natureza
-espelhar-se a idéa de Deus, tão clara e tão harmoniosa como a vejo
-obscura e contradictoria na egreja profanada pelos que se dizem seus
-sacerdotes, então sinto-me feliz, e agradeço á Providencia estes
-breves instantes de suave repouso que me concede antes de me abrir as
-portas do tumulo. Outras vezes, quando vejo minha pobre irmã soffrer,
-sem eu lhe poder dar o conforto que o seu estado reclama, sinto as
-ondas da amargura invadirem-me o coração. Sinto o remorso pungir-me...
-
---Theodoro! exclamou a irmã.
-
---Sim, Josephina, o remorso, porque foi o demonio da ambição quem me
-arrastou para longe da familia. Cubiçei o papel de missionario da idéa,
-quando me devia restringir ao dever mil vezes mais santo de consolador,
-de esteio dos que Deus confiou á minha protecção immediata. Pela
-_humanidade_ trabalham muitos, querem todos pôr a mão n’esse trabalho
-glorioso, e esquecem o _homem_, o homem com os seus affectos, com os
-seus deveres modestos, mas augustos, deveres que se resumem no acanhado
-circulo da familia. Acanhado, acanhado como é acanhada a cellula da
-abelha, mas a cellula á cellula se liga, e o seu conjuncto fórma a
-colmeia. O conjuncto das familias, devemos pensal-o, é a humanidade.
-
-Eu ouvia-o com respeito, e contemplava enternecida aquella fronte
-limpida, onde se revia tão doce serenidade, aquelle homem apodado
-de impio, que professava tão nobres principios, emquanto os que se
-presavam de religiosos tinham apenas (e demais a mais só em palavras)
-uma desamoravel e falsa moralidade.
-
-Já vinha caindo a noite, e era tempo de me retirar. Eu fabricara em
-casa uma historia muito complicada, que me authorisasse a soccorrer
-aquella infeliz familia, que ficara ao desamparo por minha causa.
-Mas o nobre vulto de Theodoro por tal fórma me enliara, que não pude
-conseguir dizer duas palavras com algum nexo. Lembra-me que se tratava
-d’um parente meu, que desejava editar traducções do latim, e um
-mistiforio tal, que logo estaquei, fazendo-me muito córada, e só pude
-dizer, pondo as mãos em attitude de supplica:
-
---Por quem é, senhor Theodoro Leite, consinta que eu tome parte no
-tratamento de sua irmã.
-
-Theodoro Leite ouvira a minha historia com um benevolo sorriso; mas
-afinal duas lagrimas lhe marejaram nos olhos, e travando-me das mãos, e
-beijando m’as, disse:
-
---Consinto, sim, filha. Acceito sem vergonha a esmola, que as suas mãos
-santificaram. Quem não acceitaria o orvalho celeste, que as brancas
-azas d’um anjo lhe chovessem sobre a fronte! Que orgulho tão mal
-entendido seria o meu! Deus lhe pague, filha, esse oiro bemdito, em
-rosas no Empyreo, e em venturas na terra.
-
-E as duas lagrimas, que lhe humedeciam os olhos, deslisaram-lhe
-lentamente pelas faces venerandas.
-
-A custo me despedi da pobre entrevadinha. Sentia-me tão bem n’aquella
-humilde casa!
-
-Theodoro quiz por força acompanhar-me. O sol desapparecera já no
-horisonte; as roxas côres do crepusculo iam-se destingindo a pouco e
-pouco, e o azul longinquo das montanhas ia-se esfumando cada vez mais.
-Augmentava o fulgor das estrellas, e a lua, ainda desmaiada, apparecia
-no Oriente.
-
-Puzemo-nos a caminho. Eu dei-lhe o braço, e fomos conversando e
-rindo, calando-nos a espaços para escutarmos o ultimo echo dos ruidos
-expirantes do dia e os primeiros murmurios nocturnos. Separarámo-nos no
-principio da lameda, que ia ter a minha casa.
-
-Entrei jubilosa e satisfeita. Estava já n’essa noite a reunião
-completa, e logo todos repararam na expressão da minha physionomia.
-
---Sabe o que diz o vulgo n’estes casos, minha querida senhora D.
-Margarida? acudiu maliciosamente Carolina, diz assim: «Viu passarinho
-novo!»
-
---Pois olhe, tornei eu rindo, venho de uma gaiola onde não ha senão
-passaros velhos. Venho de casa de Theodoro Leite. Vi a irmã; pobre
-entrevadinha. A senhora condessa por força ha de ter soccorrido aquelle
-infortunio, continuei eu maliciosamente.
-
---Minha filha, respondeu a condessa, não me quero oppôr aos juizos de
-Deus. A minha caridade estende-se a todos os christãos; mas animar os
-impios não entra nos meus principios.
-
---Se Jesus aqui estivesse, minha senhora, acudi eu sorrindo-me,
-parece-me que teria ensejo para repetir a parabola do Samaritano.
-
---Está muito forte em theologia, tornou a condessa.
-
---Não, minha senhora, não sou theologa; mas gosto de ler o Evangelho.
-
---Longe de mim a idéa, redarguiu a devota fidalga, de contestar o
-merecimento dos livros sagrados; mas deixe-me avisal-a que não é bom
-lel-os e commental-os sem ter um guia espiritual. Sabe a que isso nos
-conduz? Ao protestantismo.
-
---Quem diz a vossa excellencia, interrompeu Carolina, que a senhora D.
-Margarida não tenha um guia espiritual? As suas excursões por estes
-campos, tão, desprovidos de attractivos, não podem ter outro fim senão
-o de procurar um... confessor.
-
---Eu bem lhe disse, acudiu D. Antonia com azedume, que não era bonito
-andar sósinha. Podia isso dar logar a mil interpretações, falsas
-decerto, mas que não deixariam de lhe ser desfavoraveis. Não me quiz
-ouvir.
-
---Infelizmente, D. Antonia, exclamou a condessa, é esse o grande
-defeito da mocidade contemporanea. Independencia individual, eis o seu
-_desideratum_. Liberdade de pensamento... para o mal, e liberdade de
-acção, que tambem no mal vae parar. Lerem sós e andarem sós. Pois olhe,
-D. Antonia, quando uma menina lê algum livro muito recatada, e sem
-querer que lh’o expliquem, póde contar que ao seu lado se debruça sobre
-a pagina a cabeça de Satanaz, e quando quer andar só, não será Lucifer
-o companheiro, mas olhe que vem a dar na mesma.
-
-Ia eu a responder indignada a estas malevolas insinuações, porque
-decididamente não me fadara Deus para este genero de luctas, onde
-perdia logo o sangue frio, quando sentimos na estrada o tropear de um
-cavallo, depois passos de homem na escada; e afinal abriu-se a porta,
-e appareceu no humbral um sujeito moço, de figura esbelta, e amavel
-physionomia.
-
-Soltei um grito ao vel-o, e D. Antonia levantou-se com um risinho de
-escarneo.
-
-Esse homem, que surgira á porta, era Alberto Mascarenhas.
-
-
-
-
- XIV
-
-
-Alberto ficou um pouco enleado, ao reparar na impressão que produzira,
-mas logo recuperou o seu habitual desembaraço, e depois de cumprimentar
-todas as pessoas presentes, dirigiu-se para mim e para D. Antonia,
-dizendo:
-
---Desculpem, minhas senhoras, se venho por esta forma surprehendel-as.
-Imaginem vossas excellencias que me vejo obrigado a estabelecer-me
-em Bellas por causa dos negocios de um tio meu, que, sob pretexto de
-que hei de ser o seu herdeiro, houve por bem, emquanto não me lega
-os seus haveres, fazer de mim uma especie de intendente d’elles.
-Meu tio, segundo vêem, é um profundo philosopho, tem feito estudos
-comparativos sobre a probidade dos intendentes considerada debaixo do
-ponto de vista da natureza humana, e concluiu que o melhor gerente de
-quaesquer bens é aquelle que os deve herdar. Debalde protestei contra
-a theoria; fui obrigado a vir até Bellas, onde tenho passado já uns
-tres dias divertidissimos, enterrado até ás orelhas em massos de
-titulos pulverulentos, e embaraçado por todos os Talleyrands saloios,
-que a natureza espalhou com mão prodiga por este sitio. Mas de repente
-lembrou-me que me dissera Claudio que tencionava passar a primavera e
-o verão n’esta sua casa de campo, e resolvi vir ter com elle. Chego,
-dizem-me que ainda está em Lisboa, mas que vossas excellencias estão
-cá; subo e tenho a honra de lhes apresentar os meus respeitos.
-
---É sempre bem vindo, senhor Alberto Mascarenhas, observou D. Antonia.
-
-Ao ouvirem este nome, Carolina sorriu-se com ar malicioso, Jeronimo fez
-um commentario em voz baixa ao ouvido da condessa, e esta franziu o
-sobr’olho.
-
---Nós quasi que o esperavamos, continuou D. Antonia.
-
---A mim? perguntou Alberto. Isso é caso de revelação sobrenatural;
-porque eu posso-lhe jurar que ha tres horas não pensava ainda em vir
-aqui.
-
---São presentimentos, acudiu ironicamente a tia de meu marido.
-
---Extremamente lisongeiros para este seu adorador, tornou Alberto
-rindo; poderei por acaso alimentar esperanças?
-
---Póde... pois não, continuou ella trocando uma vista d’olhos com as
-suas devotas companheiras, póde tel-as e muito bem fundadas.
-
-Alberto ficou um pouco enleado, reparando n’estes mysterios da
-conversação. Eu já os percebia, por isso procurei mudar logo de
-palestra.
-
---Então aborreceu-se muito na Ericeira? perguntei.
-
---Não minha senhora, respondeu Alberto com a facilidade que o
-seu espirito privilegiado tinha em seguir todas as direcções da
-conversação. Eu sou d’aquelles que consagram ao oceano um amor
-desinteressado. Ha immensa gente que diz: «Gosto do mar, mas do mar
-em tempo de banhos» assim como dizem tambem: «Gosto de Cintra, mas
-de Cintra na estação em que a sociedade elegante procura as suas
-frescas sombras e os seus ridentes panoramas.» Eu não; gosto do mar e
-gosto de Cintra sem segunda intenção; do mar no inverno, e de Cintra
-na primavera, do mar sem barracas na praia, de Cintra com Seteais
-deserto. Já vê por conseguinte vossa excellencia que tive este anno o
-supremo goso, que podem ter todos os namorados, o de estarem sós com
-o objecto da sua affeição. Eu e as vagas conversámos sem testemunhas,
-ellas contaram-me historias tão maravilhosas, eu confiei-lhe poemas
-admiraveis, e tanto mais admiraveis quanto eram ineditos, e tanto
-mais ineditos quanto nem chegavam a formular-se em palavras. Quando
-vier o tempo do amor official pelas praias ouvirá o pobre oceano
-tantas apostrophes de poetas, que não tive animo de o torturar
-antecipadamente; pois ainda assim, entendemo-nos e separámo-nos
-saudosos um do outro.
-
-Eu estava prestando attenção ao frivolo palrar de Alberto, sem por
-isso deixar de ouvir a palestra em voz baixa, que se travara entre as
-pessoas presentes.
-
---É uma entrevista em fórma, dizia a condessa.
-
---E que cynismo! accrescentava Jeronymo.
-
---Que falta de habilidade! murmurava Carolina.
-
---Que escandalo! rematava D. Antonia.
-
-O padre prior tomava pitadas.
-
---Desculpe-me, D. Antonia, tornava a condessa, mas não posso continuar
-a ser testemunha de uma scena d’estas.
-
---Tem razão, senhora condessa, dizia a minha inimiga intima, não
-imagina como estou afflicta. Não tenho remedio senão avisar meu
-sobrinho.
-
-Todos se levantaram.
-
---Vou-me retirando, disse a condessa em voz alta.
-
---Nós tambem, continuou Jeronymo. Não achas, Carolina?
-
---Sem duvida, redarguiu esta.
-
---Está tão bonita a noite, continuou D. Antonia fitando os olhos em
-mim e em Alberto, e accentuando muito cada palavra, que me resolvo a
-acompanhal-as um pedaço.
-
-Era o mesmo que despedir Alberto. Percebi a intenção, e fiz-me vermelha
-de colera. Alberto levantou-se e foi para pegar no chapeu.
-
-A condessa e Jeronymo cumprimentaram-me friamente. Eu sentia
-referver-me no peito a indignação, que ia lavrando pouco a pouco, e
-estava quasi chegando ao seu paroxismo. Carolina veio beijar-me e
-disse-me ao ouvido:
-
---Tens bom gosto, mas sempre são ambos uns tontinhos!
-
-Alberto ia a dirigir-se a mim para me cumprimentar; mas eu, sem ter já
-bem a consciencia do que fazia e cedendo só ao irresistivel desejo de
-reagir contra essa authoridade, que todos se arrogavam em minha casa, e
-na minha presença, exclamei:
-
---Perdão, senhor Alberto Mascarenhas, rogo-lhe que fique!
-
-
-
-
- XV
-
-
-Todos olharam para mim com espanto, e Alberto principalmente com
-assombro. Comtudo inclinou-se sem responder, e foi pôr o chapeu no
-sitio d’onde o tirara.
-
-A condessa encolheu os hombros com despreso, Carolina riu-se, D.
-Antonia lançou-me um olhar indignado, e o padre prior tomou uma pitada.
-Depois sairam todos.
-
-Ficamos sós, eu e Alberto.
-
-Fui á janella e abri-a. Estava uma noite linda, a lua campeava serena e
-placida n’um céo d’um azul purissimo, onde se espraiava sem obstaculo
-a candida luz, que lhe fluctuava em torno, como véo de noiva. A brisa
-suspirava brandamente na ramaria das arvores.
-
-Vi sairem as nossas visitas, D. Antonia, e o creado que a devia
-acompanhar na volta. Nem ergueram os olhos para a janella, onde eu
-estava. Afastaram-se vagarosamente, conversando e rindo. A pouco e
-pouco foi esmorecendo ao longe o echo dos seus passos e das suas
-vozes, afinal esvaiu-se de todo, e outra vez reinou em torno de mim
-essa placidez fremente, se assim me posso exprimir, das lindas noites
-de primavera, noites em cujo magico silencio palpitam os canticos
-mysteriosos das fadas, o leve ruido da flôr que desabrocha, o murmurio
-da seiva, que circula no coração da arvore.
-
-Eu sentia o passear agitado de Alberto na sala. A nossa posição era tão
-embaraçosa, que nenhum de nós se atrevia a romper o silencio.
-
-Emfim Alberto parou, e disse-me, tocando-me no hombro, e fazendo assim
-com que eu me voltasse para elle:
-
---O que se passa aqui?
-
---Nada, meu bom amigo, respondi sorrindo-me; ou antes, passa-se uma
-lucta mesquinha, cujas peripecias lhe causariam tedio.
-
---Em que o meu nome entra d’algum modo?
-
---Não, respondi hesitando.
-
-Pois que lhe havia de dizer? Havia de lhe narrar as absurdas
-insinuações de D. Antonia?
-
-Alberto fitou os seus olhos nos meus, depois abanou a cabeça com ar de
-duvida.
-
-Eu larguei a janella, e fui-me sentar ao meu piano, que me chegara de
-Lisboa n’esse mesmo dia.
-
-Abri-o, e deixei correr vagamente os dedos pelo teclado. Alberto
-foi-se encostar ao peitoril da janella. O seu nobre e pallido perfil,
-banhado pelos raios da lua, tomava não sei que vaga expressão austera e
-melancholica.
-
-A doce influencia da musica banira do meu espirito as impressões
-desagradaveis, que a scena antecedente me deixara. As azas brancas da
-melodia arrastavam-me suavemente para os campos ethereos do ideal.
-
-Pouco a pouco as notas que eu fazia brotar ao acaso do teclado foram
-tomando uma fórma determinada, e, quasi sem eu ter consciencia d’isso,
-os meus dedos despertaram no seu leito de marfim a serenata do _Marino
-Faliero_.
-
-Estremeci ouvindo o seu canto, ou antes o seu murmurio erguer-se
-timidamente, e embalar-se na sua cadencia com tanta brandura, como as
-aguas do Adriatico podem embalar no seu dorso uma gondola veneziana.
-
-Cedi ao encanto, e o meu pensamento, que fluctuava incerto, entregou-se
-ás voluptuosas caricias d’essa languida melodia.
-
-Depois a musica expirou como havia começado: sem motivo, sem razão,
-_comme un oiseau se pose_, diz Victor Hugo.
-
-Alberto ouvira a serenata com a cabeça firmada n’uma das mãos. Quando
-a ultima nota se esvaiu no espaço, ergueu a fronte, e dirigiu-se para
-mim. Lampejava-lhe nos olhos um fulgor estranho.
-
---Minha senhora, disse-me elle encostando-se ao piano, sabe quem foi o
-objecto do meu primeiro amor?
-
---Não, redargui espantada da pergunta.
-
---Foi vossa excellencia.
-
---Eu! tornei estupefacta e levantando-me.
-
---Socegue, minha senhora, vossa excellencia tem-me honrado com a sua
-estima, e sabe que nem por sombras sou capaz de a offender. Mas vejo,
-presinto que se está elaborando n’esta casa alguma intriga mysteriosa,
-de que vossa excellencia é victima, e onde me fazem desempenhar um
-papel, seja elle qual fôr. Devo-lhe por conseguinte plena e inteira
-franqueza. Vou-lhe submetter um caso de consciencia. Depois de lhe ter
-feito uma confissão completa e sincera, vossa excellencia dirá se devo
-ou não tornar a pôr os pés n’esta casa.
-
-Alberto calou-se por um instante, passou a mão pela testa, como para
-avivar a memoria do passado, e principiou depois em voz baixa e agitada:
-
---Foi ha tres ou quatro annos, supponho. Entrava eu na vida, e
-relanceava os olhos em torno de mim com a ingenua curiosidade de
-quem tudo vê envolto nos véos seductores do mysterio, e tomando o
-aspecto de risonho enigma de tentadora resolução. Entre todas essas
-miragens de que a nossa vista se namora, quando pomos o pé na orla
-d’este deserto da existencia é a do amor a mais luminosa. As outras
-visões apparecem-nos como simples oasis; esta surge-nos como paiz de
-fadas. As outras serão sombras e frescura; esta, flores e fragrancias.
-Como a todos, foi a canção amorosa a que primeiro despertou no meu
-peito, vago canto sem assumpto, melodia sem letra, que me extasiava
-como o trovar de passarinho invisivel emboscado na ramaria. Uma vez
-encontrei-a a vossa excellencia com sua familia n’uma das quintas de
-Bemfica. Obedecendo ao inexplicavel condão da formosura, os meus olhos
-seguiram, ainda meio distraidos, o seu vulto airoso, que se sumia ao
-longe nos meandros das lamedas. Momentos depois, tornei a encontral-a,
-e a impressão fugitiva, que me produzira, avivou-se e recresceu de
-intensidade quando me achei preso na esphera de fascinação magnetica,
-que os seus olhos sempre possuiram. Vi-a então bem! Que formosa e fina
-cabecinha a sua! Que primoroso oval o do seu rosto! E o aveludado
-da sua tez, e o seu pisar tão gracioso, e mais que tudo a suprema
-elegancia, a suavidade como que aerea das linhas do seu perfil e dos
-contornos do seu corpo, tudo isso me enlevou, me deslumbrou por tal
-forma, que não pensei mais senão em seguil-a e miral-a de longe, com
-medo que essa visão do céo me fugisse de novo, e tornasse, despregando
-as azas brancas, ao Empyreo, d’onde viera.
-
---Senhor Alberto Mascarenhas! interrompi eu, devéras enleada.
-
---Perdão, minha senhora, tornou elle com certa melancholia; não julgue
-que estou evocando o passado, de proposito para lhe fazer uma especie
-de declaração retrospectiva. Prometti-lhe ser franco, e para o ser abri
-o livro da minha memoria, e reli-lhe as paginas taes como as escrevera
-n’esse tempo. Desculpe-me se se encontra n’ellas alguma phrase, que
-fira a sua susceptibilidade.
-
---Continue, murmurei eu com voz que mal se ouvia.
-
---D’esse momento em deante, minha senhora, continuou Alberto,
-consagrei-lhe um amor mysterioso, que me deu infindas alegrias.
-Povoou-se a minha solidão com uma imagem, em que todos os meus sonhos
-se incarnavam. O encontral-a era para mim um prazer immenso; mirar a
-janella cerrada do seu quarto causava-me não sei que doce commoção;
-divisal-a a vossa excellencia encostada ao peitoril, ou devaneando
-vagamente, ou lendo algum livro, era um extasi indisivel. Fugia para
-o meu quarto, levando como thesouro precioso uma das fragrancias, em
-que a flor se desata, um dos raios de luz que a estrella desprende da
-sua fulgida corôa, sem que estrella nem flor tenham consciencia do
-jubilo que inspiram. Encerrava-me sósinho, evocava o seu vulto, via-a
-debruçar-se para mim, sentia-lhe os cabellos roçarem-me ao de leve
-pela fronte, e estremecia como se a impressão ficticia do meu devaneio
-fosse uma impressão verdadeira. Olhe, quer que lhe diga? Tenho saudades
-d’essa loucura, e voltando os olhos para o meu passado, não encontro
-n’elle horas mais suaves do que essas, em que, a sós com uma sombra,
-fui lendo, estrophe a estrophe, o mais lindo poema de amor que nunca se
-escreveu.
-
-Aberto, extraordinariamente agitado, deu um passeio na sala, e foi
-a final encostar-se de novo ao peitoril da janella. Os effluvios da
-primavera adejavam no ambiente, por onde os espalhava a doida brisa
-sacudindo as azas impregnadas n’essas fragrancias. Os raios da lua
-vinham já espraiar-se no chão do aposento. Eu, inclinada para o
-piano, pensava n’esse mundo novo, que se me apresentava, n’esses
-novos horisontes, que se rasgavam deante da minha phantasia. Esse
-amor mysterioso que acompanhara, sem que eu o visse, o meu passado
-esplendido e risonho, illuminava-me agora as trévas do presente com um
-raio d’esse fulgor extincto, como a lua, que, invisivel em quanto o
-sol campeia no firmamento, surge mal assoma a noite, e vem pratear as
-sombras com um reflexo ao clarão diurno.
-
---Se soubesse, tornou Alberto voltando para mim, como a sua imagem me
-acompanhava sempre! como o seu nome, que eu logo soubera, me acudia
-constantemente aos labios! como eu gostava de o pronunciar! como eu
-devorava os romances em que esse nome apparecia! como eu o associava
-a todas as minhas commoções! Se ouvia uma opera predilecta, quando a
-musica me elevava ás regiões do extasi, era o seu nome como a chave de
-oiro que me abria as portas d’esse mundo ideal! «Margarida, amo-te,»
-balbuciava eu, quando Desdemona suspirava a aria do _Salgueiro_; quando
-Violeta gemia o seu adeus ao mundo; quando escutava esse cantico
-sublime de amor e tristeza, que se chama _Lucia_. E se por acaso tinha
-a felicidade de a ver no theatro, como os meus olhos se cravavam no seu
-rosto querido, como eu seguia a impressão que a musica produzia na sua
-alma, e que se espelhava nos seus olhos!
-
-A noite continuava serena, perfumada, voluptuosa, e os raios da lua
-vinham esmorecer languidamente no chão do aposento.
-
-Eu ouvia essas confidencias com um sentimento inexprimivel; doce,
-quando me deixava embalar pela melodia d’essas magicas palavras que
-dizem amor e mocidade; amargo quando pensava na vida tal como o acaso
-m’a fizera, e nas graves consequencias que podia ter para mim essa
-declaração intempestiva.
-
---Durou esse sonho pouco tempo, como todos os sonhos, tornou Alberto;
-mas deixou-me para sempre uma recordação indelevel. Lembro-me, como
-se fôra hoje, da ultima vez que a vi, antes de me ausentar de Lisboa.
-Encontrei-a em casa de um dos velhos amigos do meu pae, o visconde
-de ***, passeava vossa excellencia no jardim, quando eu entrei.
-Acompanhavam-na sua mãe e a viscondessa. Meu pae, o visconde, o
-pae de vossa excellencia e outros amigos estavam tomando café n’um
-dos kiosques. Era em junho, e ao pôr do sol. Succedera a frescura
-do crepusculo ás calmas abrasadoras do dia. Reinava em terra e céo
-perfeita serenidade. O firmamento d’um azul purissimo. O Tejo, ao
-longe, doirado pelos ultimos raios do sol, que se sumiam no occaso.
-Um d’esses raios ficara tambem como preso ás arvores do jardim. Vossa
-excellencia passeava de cabeça descoberta, e a mansa brisa, que se
-erguera, fazia-lhe arfar os cabellos castanhos claros em vagasinhas
-d’oiro, quando o raio de sol alcançava beijal-os. O seu passear
-vagaroso e indolente, as suaves ondulações do seu corpo, o fulgor
-um tanto amortecido dos seus olhos, o frémito dos seus labios, que
-aspiravam a aragem embalsamada, tudo se casava tão bem com a languida
-voluptuosidade da tarde expirante!... Fiquei como deslumbrado por
-tanta formosura, palpitou-me com violencia o coração, e nem tive animo
-nem força para me approximar de vossa excellencia. Infelizmente ou
-felizmente (eu sei?) estava para se retirar. O visconde foi-se despedir
-de vossa excellencia e de sua mamã, e a viscondessa acompanhou-as.
-Vossa excellencia colhera uma rosa, que beijava distrahida, ao
-aspirar-lhe o perfume; affastou-se, fui-a seguindo com os olhos,
-vi-a subir vagarosamente os degraus da escadaria, e quando chegou ao
-terraço para onde deitavam as portas do palacio, vi-a encostar-se á
-balaustrada, e fitar vagamente os olhos no horisonte affogueado, no
-rio onde o oiro se ia transformando em purpura, e nas montanhas cujos
-pincaros se azulavam com a distancia. O seu vulto, estampando-se por
-essa forma na atmosphera transparente, com a fronte cingida por uma
-vaga auréola, tendo por traz de si um foco de chammas em cada vidro,
-que os ultimos raios de sol incendiavam, tomava como que o aspecto
-phantastico de uma d’essas fadas do Rheno, que apparecem ao pôr do
-sol, com a harpa de oiro ao lado, sentadas nos fraguedos do rio.
-Distrahidamente deixou cahir a rosa que tinha na mão; depois desviou-se
-do parapeito, e desappareceu no interior do palacio.
-
---Que memoria a sua! disse-lhe eu, sorrindo-me.
-
---Hesitei um instante, continuou elle sem parecer que reparava na
-minha interrupção; antes de ir levantal-a: depois não me pude conter,
-e fui-me approximando como que distrahidamente do sitio onde estava
-a flor cubiçada. Apanhei-a n’um relance, beijei-a, e guardei-a no
-peito... Nunca mais me separei d’ella, continuou com voz abafada;
-essa visão da minha adolescencia esvaiu-se como se esvaem os sonhos,
-esse louco amor extinguiu-se como era natural, mas a flor secca nunca
-mais me deixou; é o meu talisman, que serve para evocar ás vezes esse
-periodo luminoso da minha vida, esses doces annos que se sumiram para
-sempre no abysmo do passado.
-
-E, tirando do peito uma rosa murcha e amarellecida, passou-a para as
-minhas mãos.
-
-Deslisou-me dos olhos uma lagrima e foi cair nas petalas sem viço da
-pobre flor, sem que esse amargo orvalho lograsse reverdecel-a. Assim
-tambem os meus prantos não poderiam restituir-me alegria descuidosa que
-perdera.
-
-Alberto viu a lagrima, e disse-me:
-
---Comprehendo-a; essa flor, deixada cahir distrahidamente quando não
-havia ainda saudades na sua vida, exerce no seu espirito a mesma
-fascinação que no meu exercia. Guarde-a, dou-lhe n’isso a prova de que
-para sempre quebrei com o meu passado.
-
---Não era necessario, disse eu; aprecio tanto o seu nobre caracter, que
-nem por um instante duvido de que me não teria feito essa confidencia,
-se não consagrasse simplesmente um affecto de irmão á esposa do seu
-amigo.
-
---Ah! isso juro-lh’o, tornou Alberto pondo a mão no peito, se não me
-sentisse completamente livre, e desassombrado, se o meu coração me
-désse inda rebates d’amor, que se devia extinguir, não teria entrado
-n’esta casa. Teria vergonha de mim mesmo, se não pudesse agora fitar os
-meus olhos nos seus com purissima serenidade. Mas se julga que apesar
-d’isso, não devo tornar a vir aqui; se julga que esta memoria d’um amor
-passado, é uma offensa para vossa excellencia, e um acto de deslealdade
-para com o meu amigo, se julga que uma recordação involuntaria,
-espelhando-se no meu rosto, póde dar uma arma aos calumniadores, diga
-uma palavra e estou prompto a retirar-me.
-
---Seria uma vileza aos meus proprios olhos, respondi eu serenamente, o
-rebaixar-me a ponto de transigir com a calumnia. Esta casa está sempre
-aberta ao amigo de meu marido, ao homem leal de quem agora aperto a mão.
-
-E estendi-lhe a minha que apertou commovido.
-
---Bem, disse-me elle rindo, tirou-me um grande peso de cima do peito.
-Agora peço as ordens de vossa excellencia.
-
-Foi pegar no chapéo; e depois, voltando para mim, e apertando-me de
-novo a mão continuou:
-
---Desculpa-me o ter-lhe dito tantas loucuras?
-
---Desculpal-o, porque? redargui eu sorrindo-me. Leu-me um bonito
-romance, ouvi-o com attenção; agora fechamos o livro, e voltamos á
-realidade.
-
-Alberto ficou suspenso por instantes, depois respondeu:
-
---É isso mesmo. Tem vossa excellencia muita razão.
-
-E saíu.
-
-Eu fiquei algum tempo pensativa junto do piano; depois levantei-me,
-soltei um suspiro d’allivio, peguei n’um castiçal e dirigi-me para o
-meu quarto.
-
-Dava meia noite.
-
-
-
-
- XVI
-
-
-Foi só no dia seguinte que reflecti bem no que se passara na vespera.
-Foi então que me espantei de D. Antonia não ter tornado a apparecer
-na sala. Um passeio a pé, por mais que o prolongasse, não podia ter
-durado tanto tempo. Demais lembrou-me então que a tinha sentido voltar
-meia hora ou tres quartos de hora depois de ter saido. Por que motivo
-não viera para a sala? Havia n’isso o projecto de alguma infernal
-armadilha? Ia dentro em pouco sabel-o.
-
-D. Antonia não me deu palavra durante esse dia todo, coisa com que
-eu folgava bastante; mas no outro dia, sem me ter prevenido da sua
-chegada, appareceu meu marido, visivelmente agitado sob a sua mascara
-de gelo.
-
-Acolhi-o com jubilo. Sentia um certo contentamento intimo por ter
-cumprido o meu dever. Estava satisfeita comigo mesma, o que já concorre
-muito para se estar satisfeito com os outros.
-
-Meu marido fallou-me com bastante frieza. Logo depois encerrou-se com
-D. Antonia, e teve com ella uma larga conferencia.
-
-Depois appareceu ainda mais agitado, passeou algum tempo, pegou no
-chapéo e saiu.
-
-D’ahi a pouco, voltou, sempre agitado, e fechou-se no seu quarto.
-
-Á noite appareceram as visitas do costume, coisa que me espantou
-sobremaneira, porque julgava que não voltariam tão breve.
-
-Comtudo a condessa deu bem a entender que vinha a nossa casa em
-attenção a Claudio, e só em attenção a elle.
-
-Pouco me importava; o jubilo da minha consciencia dava-me novas forças
-para luctar com intrepidez.
-
-Alberto appareceu pouco depois. A sua entrada produziu sensação.
-Claudio recebeu-o com uns modos meio frios, meio cordiaes. A condessa
-mostrou-se distraida, D. Antonia ligeiramente motejadora, Carolina
-extremamente amavel.
-
-Alberto esteve perfeitamente senhor de si. Não o traiu o seu espirito
-brilhante e jovial. Esteve desembaraçado no meio de todos aquelles
-constrangimentos. Eu, que tambem não tinha motivo algum para estar
-constrangida, auxiliei-o; a conversação animou-se. A condessa não tomou
-parte n’ella; Claudio muito pouca; D. Antonia aventurou umas poucas
-de insinuações, em que não reparamos; Carolina entrou na palestra
-com finas observações, que se resentiam da sua indole essencialmente
-sarcastica. Assim se passou uma noite muito agradavel.
-
-Claudio que ao principio se mostrara nimiamente reservado, foi-se pouco
-a pouco tornando mais expansivo.
-
-Mas, no dia seguinte uma influencia severa agglomerava-lhe de novo na
-fronte as nuvens, que se haviam por instantes dissipado.
-
-Comtudo comecei a notar uma grande differença no procedimento de D.
-Antonia, a meu respeito. Tantos tinham sido os cuidados, que tivera até
-ahi para que eu não estivesse um instante só com Alberto, quanto era o
-desejo que parecia ter agora de nos proporcionar os mais prolongados
-_tête-à-tête_.
-
-Pedia-lhe a elle muitas vezes que nos acompanhasse n’algumas excursões
-que faziamos pelos arredores. Depois aproveitava um pretexto qualquer
-e eclipsava-se. Ao cabo de uma longa hora de passeio, apparecia-nos
-de subito meu marido, pallido, com o olhar sombrio, com a fronte
-annuviada. A cordialidade serena, o jubilo até com que o acolhiamos
-dissipavam logo todas as nuvens, e voltavamos todos tres para casa,
-rindo e conversando como bons amigos.
-
-Alberto era realmente admiravel. No meio d’aquella rede de intrigas,
-que eu sentia confusamente, caminhava tão desassombrado como se não
-estivesse pisando um terreno perfido, onde o mais leve descuido podia
-perder a sua lealdade, e a minha reputação.
-
-Não se ausentava porque via perfeitamente que a sua retirada daria á
-calumnia o pretexto que ella anciosamente procurava: mas acceitava tão
-desconstrangidamente o papel falsissimo que esta situação lhe impunha,
-que parecia não ter o minimo conhecimento do trabalho subterraneo,
-emprehendido pela devota sociedade de D. Antonia e companhia.
-
-Eu mesma me espantava d’essa tranquilidade inalteravel, e suppunha que
-fôra um sonho a scena que se passara n’essa noite, que tão profunda
-impressão me causara. Precisava de admirar a rosa murcha, que trazia no
-seio, para de novo me convencer da realidade de tudo isso.
-
-Alberto nem parecia reparar na posição em que o tinham collocado, e
-que devia dar em resultado maior intimidade. Era o que fôra sempre:
-um conversador amavel, elegantemente frivolo, que tomava comigo o tom
-d’uma respeitosa familiaridade.
-
-Um dia, obedecendo a essa irresistivel attracção, que nos obriga
-a chegarmo-nos á beira do precipicio, e debruçarmo-nos para elle,
-ainda que saibamos que um momento de vertigem nos póde arrojar ao
-despenhadeiro, ousei alludir á historia do seu passado.
-
-É inconcebivel, mas é certo. Luctei tres dias com a tentação, afinal
-não pude resistir, e aventurei a pergunta.
-
---Acredita na transmigração das almas? disse Alberto, em vez de
-responder.
-
---Porque? tornei eu espantada.
-
---Porque, se acredita, ha de perceber perfeitamente a minha historia.
-Isso em que me falla succedeu, se me não engano, a um Alberto, que
-vivia no tempo de Noé. Depois, como sabe, veiu o diluvio. Affogou-se
-nas grandes aguas o corpo e a memoria. A alma, desprovida d’essa
-faculdade, transmigrou para este corpo, nado e creado em pleno
-seculo XIX. Mas como ha de lembrar-se a coitada dos acontecimentos
-ante-diluvianos?
-
-Eu desatei a rir, mas devo confessar que senti um certo despeito. É
-inexplicavel, não é? É inverosimil? Bem sei. Propuz o enigma, não
-intentei resolvel-o.
-
-Um dia Theodoro Leite mandou-me dizer que me desejava fallar, e com
-muita urgencia.
-
-Fui a casa d’elle. Theodoro e a entrevadinha receberam-me com o jubilo
-habitual. Depois Theodoro acompanhou-me á volta, e pelo caminho foi-me
-contando o que o obrigara a mandar-me chamar.
-
---A Quiteria, disse-me elle, que lhe ficou muito affeiçoada desde
-a primeira noite em que a viu, e em que a minha querida filha
-(permitta-me que lhe dê esse nome) se mostrou tão boa, tão amavel com
-ella e com os outros creados, sentando-se junto d’elles na cosinha,
-conversando com elles, ouvindo-lhes as historias, procedimento esse que
-d’um modo tão notavel contrastava com o orgulho da tia de seu marido, a
-Quiteria, pois, veiu ter comigo, e pediu-me que a avisasse, coisa que
-ella não podia fazer, porque a minha filha está sendo a toda a hora
-espionada pela Maria do Rosario. Disse-me ella que se anda tramando
-lá por casa uma intriga terrivel, que tem unicamente por fim promover
-uma separação entre Claudio e a minha querida menina, separação que hão
-de fazer escandalosa, e cuja vergonha ha de recair toda sobre a sua
-innocente cabeça.
-
-Eu ouvia espantada esta revelação incomprehensivel para mim, porque
-não podia adivinhar que mal teria eu feito áquella gente, para que me
-tivessem declarado uma guerra tão encarniçada. Foi isso mesmo o que eu
-disse a Theodoro, que me respondeu, sorrindo-se:
-
---Que mal lhes fez? Pobre innocente! Um crime imperdoavel, o de ter
-vinte annos, uma formosura esplendida, uma indole boa e sympathica, uma
-alma enthusiastica, e de juntar a tudo isto uma virtude immaculada.
-Que mal fez a rosa ao caracol, para que este lhe entorne nas petalas
-a repugnante baba? A luz, minha filha, não attrae unicamente as
-borboletas, tambem attrae os morcegos, estes para de despeito a
-apagarem, aquellas para se queimarem na chamma, que as enleva.
-Satanaz, ao sair das trevas, vae insultar o sol. Quer viver socegada?
-Não brilhe. Não quer que a mordam no calcanhar? Arraste-se como as
-serpentes. Mas não; soffra antes, e levante a fronte acima d’essa turba
-vil. Tenha sobretudo confiança em seu marido. É um espirito fraco, mas
-um nobre coração. D. Antonia domina-o, porque a minha querida menina
-ainda não tentou rebater-lhe a influencia. Tente-o, combata, seja
-forte. Não permaneça na inacção, desça á liça para onde a chamam, e
-calque aos pés a sua mesquinha adversaria. A sua indifferença anima-a,
-a sua energia dissipar-lhe-ha os brios.
-
---Mas combatel-a, como, de que maneira? perguntei eu.
-
---Olhe, tornou Theodoro meigamente, eu lhe explico o mysterio da sua
-vida. Claudio é um homem timido, acanhado, que precisa que lhe estendam
-a mão para sair da sua habitual reserva; consagrou-lhe um profundo
-amor, e viu coroados os seus votos d’um modo completamente inesperado.
-A minha querida menina, creança que nada comprehende da vida, acceitou
-das mãos de seus paes um marido, como acceitaria um vestido novo.
-Nenhum dos dois deu o primeiro passo para essa intimidade conjugal,
-que funde n’uma só duas almas, duas vontades, dois pensamentos: elle
-porque não ousava, a minha querida menina porque não sabia. D. Antonia
-apossou-se com habilidade d’esse espirito fluctuante, que julgara
-por um momento que lhe escaparia indo-se prender n’outros laços.
-Animada por essa primeira victoria, quiz levar a cabo o seu triumpho.
-N’aquelle coração angustiado e hesitante semeou a duvida; transformou
-em calculo o que era ignorancia da vida. Disse-lhe que a facilidade
-com que a minha filha acceitara o casamento com um homem a quem não
-amava era resultado da corrupção prematura, que despresava os deveres
-do matrimonio. Aproveitou as mais leves circumstancias, desenvolveu
-com uma sagacidade infernal os mais subtis indicios. A entrada em
-scena de Alberto veiu dar-lhe um optimo pretexto. Seu marido resiste
-ás suggestões continuas de D. Antonia, mas ha de chegar um instante
-em que succumba. D. Antonia, combinada tacitamente com as suas boas
-amigas, quer apressar o desenlace, espera que um momento de fraquesa
-leve a minha querida menina a dar um passo errado, que se ha de logo
-aproveitar. Espiam-na constantemente; em casa não faz um movimento só,
-que a Maria do Rosario lh’o não espreite; no campo, nos seus passeios
-com Alberto Mascarenhas, póde estar certa de que por traz de cada sebe
-ha um ouvido á escuta. Seu marido está n’uma posição intoleravel; o
-coração reage-lhe contra a evidencia apparente, que D. Antonia lhe
-mostra; mas, atormentado por uma duvida incessante, vagueia como o
-espectro do ciume procurando uma certesa material, que, ainda que o
-fulmine, o livre d’aquelle estado. Tudo isto eu deduzo facilmente do
-que a boa Quiteria me disse; porque a pobre velha tem praticado por
-sua conta um systema de contra-mina, e, emquanto a Maria do Rosario
-está com o ouvido collado á porta do seu quarto, vae ella escutar as
-palestras de Claudio e de D. Antonia. Desculpe-a, coitada. O que a
-impelle a proceder assim, é a amisade que lhe tem.
-
---E o que me aconselha então? acudi eu baixando a cabeça, que me
-vergava ao peso d’aquellas revelações.
-
---O que lhe aconselho, minha filha? A lealdade e a franquesa. Deixe
-essa gentalha extraviar-se pelos atalhos, e caminhe desassombradamente
-pela estrada real, inunde de luz as suas intrigas tenebrosas, e
-vêl-as-ha fugirem como demonios nocturnos, surprehendidos pela
-alvorada. Entre na intimidade de seu marido, não se envergonhe de
-tomar a iniciativa, conte-lhe com franqueza a historia de todas essas
-intrigas, que a perseguem, faça-o ler na sua purissima consciencia,
-porque assim a tem, não é verdade?
-
---Oh! sim! tornei eu com exaltação.
-
-Mas depois não sei que pensamento importuno me acudiu ao espirito, e me
-incendeu as faces em vivo rubor.
-
---Vamos; seja forte! acudiu Theodoro beijando-me com ternura na fronte.
-Não vacille nem um instante, não vergue ao peso da cruz.
-
---Descance, meu amigo, tornei eu melancholicamente. Não me assusta o
-soffrimento.
-
-E despedi-me d’elle, mais animada do que nunca até ahi estivera. Havia
-alguns dias que uns devaneios indefiniveis me atormentavam. Sentia um
-vago e doloroso prazer em aspirar a brisa embalsamada das noites de
-maio. Os effluvios do jardim coavam-me nas veias não sei que ardor
-incomprehensivel. O meu coração pulsava com violencia quando os raios
-da lua, infiltrando-se voluptuosamente na minha alcova, me vinham
-fallar de ignotos mysterios. Ao cair da noite sentava-me ao piano, e,
-deixando correr os dedos pelas teclas, escutava em extasi a suave e
-mansissima harmonia, que despertava então. Surprehendia-me a mim mesma
-contemplando a flôr secca, a rosa murcha, que me abrazava o seio. Que
-symptomas funestos eram estes? Receava adivinhal-o.
-
-Mas o passo aconselhado por Theodoro ia livrar-me de tão importunos
-pensamentos. Tudo quanto elle me dissera ácerca do caracter de Claudio
-achava-o eu extremamente verdadeiro, agora que reflectia em muitas
-circumstancias, que primeiro me tinham passado despercebidas. Não
-duvidava do bom exito do plano do meu velho amigo. Assim tudo se
-conciliava, e o futuro afinal apparecia-me desassombrado. Ia entrar
-finalmente no porto, depois de tantas tempestades. Ia encontrar no
-amor de meu marido um escudo contra as perseguições mesquinhas de D.
-Antonia, e um asylo contra os estranhos pensamentos, que me perseguiam.
-Ia ser feliz emfim!
-
-Pareceu-me que me tiravam de cima do peito um peso enorme, e respirei
-com desaffogo. Estava ao pé de casa. Subi a escada com pé ligeiro,
-cheguei á porta da sala, e abri-a alegremente.
-
-Mas, assim que entrei, estaquei de subito e senti no peito uma dor
-aguda, como se um ferro m’o atravessasse. No vão d’uma janella um homem
-e uma senhora conversavam intimamente, e com tanta animação que nem
-deram pela minha chegada, nem ouviram a bulha, que eu fizera abrindo a
-porta. Pallida como uma defuncta, fui-me aproximando a pouco e pouco,
-e só quando cheguei a dois passos da janella é que elles repararam em
-mim. A senhora soltou um grito, o homem fez-se levemente corado.
-
-Eram Alberto e Carolina.
-
-
-
-
- XVII
-
-
-Ficámos todos tres por um instante enleados; Alberto foi quem primeiro
-tomou a palavra, com o seu desembaraço habitual; não tardou Carolina a
-imital-o; mas, por maiores que fossem os meus esforços, negaram-se-me
-os labios a articular um som. Percebia que, se tentasse fallar, os
-soluços brotariam d’envolta com as palavras.
-
-Afinal consegui pretextar um ligeiro incommodo, e fugi para o meu
-quarto. Alli chorei á vontade, desabafei. Quando esta dôr inexplicavel
-se acalmou um pouco, perguntei á minha consciencia o motivo d’esses
-prantos.
-
-«Assim, murmurava eu comigo mesma, é Alberto um homem como todos; o
-amor profundo que disse consagrar-me não deixou o mais leve rasto
-na sua memoria. Aquella alma que eu julgava um sanctuario, é um
-prostibulo, aquelle coração tem a porta franca para quaesquer imagens.
-
-«Mas, tornava eu, que me importa isso tudo? Que direito me deu elle
-para fiscalisar as suas acções? Não me disse, não me affirmou, não
-me jurou até que esse amor antigo se dissipara como um devaneio de
-juventude, como um relampago de estio, que brilha e morre no firmamento
-azul? E não me devo eu até rejubilar com este acontecimento que me
-prova a verdade do que elle me dizia? Não contribue isto mesmo para
-dar nova paz á minha consciencia, nova tranquilidade á minha alma? Não
-posso eu agora erguer a fronte bem altiva acima das calumnias de D.
-Antonia e da condessa?
-
-«Não, acudia eu de novo; o motivo da minha afflicção é a amisade
-fraternal, que a Alberto consagrei, é a estima que votei a esse
-espirito nobre! Custa-me o desengano, custa-me o ver descida do seu
-pedestal a alma que eu julgara quasi superior á humanidade. O amor de
-Carolina macula um homem. E demais aquillo não é amor, é um capricho
-dos sentidos, é uma ligação banal e repugnante. O amor não brota assim
-d’um instante para o outro, não viça com tanta facilidade nas cinzas
-d’um affecto extincto.
-
-«Oh! cala-te, cala-te, murmurava a minha consciencia, não queiras
-disfarçar com o vão nome de amisade o sentimento culpado, que se
-te apoderou do coração. Amal-o, infeliz! Amal-o, e para cumulo de
-vergonha, elle nem pensa em ti, para maior opprobrio teu, és tu
-só a culpada; não podes allegar a influencia magnetica de um amor
-constante e vehemente, que actuasse a teu pesar no teu espirito e no
-teu coração. Elle affasta-se de ti, respeita-te, e não mereces ser
-respeitada, porque moralmente já trahiste os teus deveres de esposa, já
-falseaste a fé conjugal.»
-
-E nova torrente de prantos me brotou dos olhos, e me inundou as faces.
-
-Quando desci do meu quarto para a sala notaram todos a minha agitação.
-Alberto mirou-me inquieto, Carolina com um modo de ironia tal, que
-me deu forças para reagir contra o meu vergonhoso tormento. Queria
-soffrer, sim, mas soffrer com dignidade, e sem dar ás minhas inimigas
-motivo para folgarem e triumpharem.
-
-Esta serenidade ficticia tranquilisou Alberto, que tornou a mostrar-se
-todo attencioso e galanteador com a afilhada da condessa.
-
-«Oh! meu Deus, dizia eu, entre mim, tão irresistivel é essa paixão, que
-nem elle tem forças para m’a occultar, e para a occultar aos outros.
-Não se lembra que D. Carolina de Freitas não é uma senhora solteira, a
-quem se possa affoitamente render homenagens?
-
-«Jeronymo, e a condessa e D. Antonia, tão escrupulosos, tão
-inquisidores comigo, estão cegos, ou fingem-se cegos, que não vêem ou
-não querem ver o escandalo, que se está praticando n’esta sala? Que é
-feito da austera moralidade d’esta gente? Onde se aninharam as suas
-severidades?...»
-
-Ai! e não via eu, pobre louquinha, que estava sendo involuntariamente
-mais culpada do que elles? Não via eu que estes assomos de austeridade
-tinham a sua origem n’um sentimento, que devia reprimir com todas as
-forças da minha alma? Era a fatalilade que me impellia. Tranquilla
-vira entrar Alberto em minha casa, sem pensar em o distinguir dos
-outros homens. Accusando-me de um crime, de que nem sequer tivera o
-pensamento, obrigam-me a occupar-me d’elle, collocam sempre a sua
-imagem deante dos meus olhos, fazem com que eu involuntariamente o
-compare ás outras pessoas, que me rodeiam, comparação que não póde
-deixar de lhe ser favoravel, e firmando-me na minha innocencia, caminho
-com desassombro n’essa estrada semeada de perfidias, não vejo o abysmo
-que a pouco e pouco se me vae rasgando aos pés, que cada um dos meus
-passos alarga insensivelmente, abysmo por onde vou resvalando, e em que
-afinal baqueio.
-
-Fui castigada no meu orgulho; desci a uma esphera mil vezes mais
-baixa do que essa onde vivem as minhas accusadoras. A calumnia tinha
-rasão, os calumniadores prophetisavam. Triumphae, hypocritas, folgae,
-Messalinas de sachristia! conseguistes o vosso fim. Enxovalhei-me na
-lama, que tão obstinadamente me arrojastes ás faces! Polluí a corôa
-da innocencia, de que tanto me ufanava; sou adultera no pensamento, e
-isso basta para me julgar mais vil aos meus proprios olhos do que essa
-que alardeava a sua deshonra como um acto de habilidade, e que está
-agora impudentemente demonstrando á minha vista a veracidade das suas
-doutrinas.
-
-«Oh! continuava eu fallando comigo mesma, ao menos não hei de transpor
-os limites que ainda me separam d’uma vergonha completa. Esse amor
-fatal, que me devora, hei de abrigal-o no meu seio, como a áspide que
-me ha de matar, sem que o meu rosto revele os meus tormentos. Deixando
-de parte o mundo da realidade, cujo contacto me foi tão doloroso,
-voarei para as regiões da phantasia, e ahi viverei enlaçada n’um casto
-amor com a sombra pura de Alberto, tal como elle se me afigurou, e
-não tal como eu o vejo agora. Possuil-o-hei a elle mais do que elle
-a si proprio se possue, porque é minha essa flôr secca, symbolo da
-sua poetica existencia, ao passo que elle, afastando-se cada vez mais
-d’esse puro sanctuario, se vae embrenhando nos jardins da torpe Armida,
-que soube, com um olhar provocador, transformar uma alma tão nobre n’um
-espirito vulgar.»
-
-E soffria, soffria como nem eu o posso dizer, soffria e tinha vergonha
-do meu soffrimento, e não ousava erguer os olhos para Claudio, cujo
-rosto sombrio se ia desannuviando e alegrando ao ver Alberto enlevado
-nos seus novos amores.
-
-Os homens são estupidos!
-
-Desde então, a nossa vida tomou um outro aspecto, que inspirava grande
-espanto a D. Antonia. Por mais que ella tentasse renovar as suas
-manobras com o fim de nos deixar sós, rarissimas vezes o conseguia.
-Alberto sempre se lhe esquivava, e Carolina auxiliava-o n’isso,
-reclamando-o a cada instante, ora para a acompanhar n’um passeio a
-cavallo, ora para a ajudar a ler uma nova e difficil musica, que lhe
-chegara de Lisboa; e eu, afflicta, mas valorosa, desviava-me tambem
-de prompto, e entregava-me a longos passeios solitarios, onde me
-comprazia, vagueando pelas aridas planicies d’aquelles sitios, a avivar
-a memoria dos meus passeios e das minhas conversações com Alberto, que
-se me debuxavam na phantasia, sem me esquecer uma só particularidade,
-uma palavra só.
-
-Triste voluptuosidade de quem alarga a ferida com as proprias mãos, de
-quem está saboreando a triaga fatal!
-
-Os meus passeios dirigiam-se quasi sempre para o lado da casa de
-Theodoro Leite. N’aquelle doce asylo, aonde não chegava nem um ecco das
-paixões mundanas, que haviamos transportado comnosco da cidade para
-o campo, n’aquelle sanctuario do infortunio alegremente supportado,
-n’aquelle templo da familia, recuperava eu novas forças para o combate,
-que travara. N’esse ambiente são e perfumado de virtudes hauria as
-emanações do balsamo celeste, que guarece as feridas envenenadas. Um
-beijo da entrevadinha na minha fronte como que a cingia de novo da
-auréola da innocencia; um meigo olhar de Theodoro, calando-me no intimo
-da alma, expulsava a imagem que se obstinava a povoar-m’a. Voltava
-sempre d’essa pobre casa mais em paz com a minha consciencia; mas o
-encontro de Carolina com Alberto, encontro que era inevitavel, outra
-vez m’a turvava, e soltava as tempestades por um instante enfreadas.
-
-Claudio quizera aproveitar esse estado da minha alma, que elle não
-saberia definir, mas que instinctivamente adivinhava, para se
-aproximar de mim, e subtrahir-se ao mesmo tempo ao jugo de D. Antonia.
-Mas as suas timidas tentativas não me encontravam n’essa occasião
-disposta a animal-as. A minha consciencia dizia-me que não podia
-receber essa especie de homenagem, que já me não era devida, acceitar
-uma penitencia, que eu me devia impôr a mim mesma. E, por mais que
-tentasse levantar-me, uma força fatal me impellia cada vez mais
-rapidamente para o abysmo!
-
-Mas emfim, as forças não me trahiam, e quando, saindo do meu quarto,
-onde me ficava muitas vezes depois de jantar, contemplando o horisonte
-purpureado, os effeitos da luz moribunda e das sombras recrescentes nas
-ruas e nas moitas do jardim, as estatuas banhadas pelos ultimos raios
-do sol, que lhes doiravam o manto verde com que o musgo as revestia,
-e que, ao vir do crepusculo, pareciam tremer de frio, e aconchegar
-bem as pregas d’essa tunica ao seu pobre marmore nú; ouvindo os vagos
-murmurios do campo, o melancolico suspirar das fontes, e deixando
-os meus sonhos esvoaçarem livremente n’essa atmosphera de poesia e
-de saudade; quando, saindo pois do meu quarto, e baixando d’essas
-regiões phantasiosas ao mundo real, me via cara a cara com uma atroz
-desillusão, conservava-se-me o rosto impassivel, e nem o mais leve
-franzir dos labios, nem uma só ruga da face denunciavam os tormentos,
-que vinham saltear-me.
-
-Alberto não mostrava perante mim o minimo embaraço. Espantava-me
-esta quasi indelicadesa n’um homem tão delicado. Bem sei que elle
-não tinha nem sequer obrigação moral de submetter á minha opinião
-o seu procedimento. Bem sei que, não tendo commettido culpa alguma
-para comigo, não tinha que se embaraçar em minha presença... mas
-emfim... ha certos escrupulos... exagerados talvez... pontos d’honra
-nimiamente requintados... não digo o contrario... o vulgo, ainda o mais
-escrupuloso rir-se-hia d’esta minha pretenção... mas eu julgava Alberto
-por tal fórma differente do vulgo... achava-o tão capaz de comprehender
-estas coisas...!
-
-Como viram, não era a primeira vez que me illudia nos juizos formados a
-respeito de Alberto.
-
-Uma tarde, mal acabamos de jantar, fomos dar um passeio a cavallo, eu,
-D. Antonia, Carolina, e Jeronymo. Alberto não apparecera; por isso, com
-visivel contrariedade da afilhada da condessa, fomos sem elle.
-
-Comtudo Carolina teve a habilidade de dirigir o passeio de fórma,
-que pudessemos encontrar Alberto no caminho. Propoz que fossemos até
-Bellas, para aproveitarmos o resto da tarde, passeando na quinta
-do conde de Pombeiro. D. Antonia concordou. Jeronymo disse que lhe
-era indifferente ir para um ou para outro lado, e eu, que formava a
-minoria, não tive remedio senão acceder.
-
-Partimos.
-
-Sairam errados os calculos de Carolina. Não encontramos Alberto.
-
-O calor do dia (um dos primeiros de junho) dissipara-se um pouco, sem
-desapparecer de todo. As frescas sombras da quinta do Senhor da Serra
-estavam-nos convidando a irmos deliciar-nos com ellas. Apeamo-nos,
-entregamos os cavallos ao creado, e entramos na quinta.
-
-Carolina estava visivelmente preoccupada, e afastava-se a cada instante
-de nós, para ir espreitar as lamedas transversaes, como se esperasse
-que o acaso a favorecesse mais do que o seu calculo. D. Antonia dera
-o braço a Jeronymo, e conversava com elle. Eu ficara isolada, e,
-procurando completa solidão, fui affrouxando a pouco e pouco o passo,
-até que perdi de vista os meus companheiros. Estava só.
-
-Sempre gostei immenso d’essas lamedas sombrias d’arvores seculares, que
-se encontram n’alguns dos nossos velhos parques. Em Cintra abandonava
-as garridas quintas modernas para passear nas melancholicas devesas
-da Penha Verde, ou nas ruas graves e aristocraticas do Ramalhão. No
-outono principalmente, quando as folhas seccas rangem debaixo dos
-pés dos passeantes, quando os ramos, despojados do seu verde ornato,
-cruzando-se-nos por cima da cabeça, deixam ver o céo pesado e triste,
-não conheço goso comparavel ao de passear e scismar por entre esses
-longos renques d’arvores centenarias, que meneiam, ao sopro da brisa,
-as suas frontes calvas.
-
-Mas não estavamos então no outono, e a ramaria, toda folhuda e
-verdejante, formava sobre mim uma copada abobada, cujo verde se
-esmaltava com o oiro dos raios do sol, que a muito custo se lhe coavam
-pelos intersticios. N’esses estrados de folhagem poisavam-se bandos
-e bandos de passarinhos, cujo alegre chilrear povoava a espessura de
-harmonias, docemente acompanhadas pelo melodioso murmurio da agua das
-fontes.
-
-Expirava aquella solidão não sei que vagos effluvios de tranquilidade
-e remanso. Cedi ao inexprimivel encanto, e fui-me embebendo n’uma
-suave melancholia, que me enliava os sentidos e m’os absorvia todos no
-goso de devaneios, que purificava. Caminhando vagarosamente na extensa
-rua, haurindo os perfumes fortes que o arvoredo exhalava, enlevando-me
-no canto das aves, tirei a flôr secca do peito, e contemplei-a com
-ternura. Creio até que a estava beijando, quando subito, n’um dos
-meandros da lameda, dei de cara com Carolina.
-
-Escondi a flôr com precipitação, e fiz-me toda vermelha.
-
---Oh! temos segredinhos, disse ella desatando a rir, que flôr era essa
-que beijava tão devotamente? Se estivesse fallando com um cavalheiro,
-adivinharia logo que essa rosa caira das tranças da dama dos seus
-pensamentos; mas, fallando com uma senhora, torna-se o caso mais
-difficil de averiguar. Não me ajuda?
-
---Permitta-me que não escolha confidente, respondi eu com frieza.
-Costumo guardar os meus segredos, mesmo quando, como este, nada têem de
-melindroso.
-
---Quem suspeita o contrario? Mas já vê, continuou Carolina, que se me
-não faz confidencias, não é porque não tenha assumpto para ellas;
-apanhei-a em flagrante delicto de diplomacia. Oh! não me zango com
-isso; sempre tive muita consideração pelas pessoas que sabem esconder
-bem o seu jogo. Mas ao mesmo tempo que presto justiça á sua habilidade
-diplomatica, deixe-me tambem prestar justiça á sua veracidade. Eram
-erroneas as minhas supposições ácerca de Alberto Mascarenhas, e
-verdadeiras as suas negativas.
-
---Já o sabe? tornei eu com ironia.
-
---Oh! tenho optimas rasões para o saber, respondeu ella impudentemente.
-
-Appareciam n’este momento D. Antonia, e Jeronymo Freitas.
-
---Já vae caindo o crepusculo, disse a tia de meu marido, e bom será que
-voltemos para casa. Não desejo apanhar n’esta quinta o frio da tarde.
-
-Saimos; o creado estava á nossa espera ao portão. Montamos a cavallo, e
-seguimos pelo caminho da nossa aldeia.
-
-Eu tomara a deanteira, mettendo o cavallo a trote. A agitação, que por
-instantes se acalmara, refervia-me de novo na mente, excitada pelas
-palavras de Carolina.
-
-Esta veio collocar-se-me ao lado, e, obrigando-me a moderar o passo do
-cavallo, continuou a conversação principiada na quinta.
-
---Ora, mas diga-me com sinceridade, tem ciumes?
-
---Ciumes de que? redargui eu, franzindo ligeiramente o sobr’olho.
-
---Da intimidade que existe agora entre mim e Alberto.
-
---Isso assemelha-se a um insulto, minha senhora, respondi, insulto que
-demais a mais não comprehendo, depois do que me disse ainda ha pouco.
-
---Oh! meu Deus, não se zangue; quem lhe falla em amor? A amisade não
-inspira tambem zelos?
-
---A mim não, decerto; estimo até que os meus amigos se liguem com
-pessoas _dignas do seu affecto_.
-
-E involuntariamente accentuei estas ultimas palavras.
-
---O que quer dizer, tornou Carolina serenamente, que me acha
-completamente indigna d’essas affeições. Oh! minha querida, sou
-perfeitamente da sua opinião. Infelizmente Alberto não está de accordo
-comnosco sobre esse ponto importante. Que quer que eu lhe faça?
-
-Não lhe respondi. Caminhamos alguns instantes em silencio.
-
---Alberto, tornou Carolina no tom mais placido d’este mundo, é
-realmente um dos rapazes mais amaveis que tenho encontrado. Associa
-ao caracter nobre espirito a um tempo reflexivo e prompto, e coração
-ardente; raro conjuncto de predicados. A sua voz insinuante exerce
-sobre quem o escuta um dominio incomprehensivel, o seu olhar meigo e
-ardente captiva e abrasa. É um poeta na linguagem, um principe nas
-maneiras, um anjo no sentir. É a realisação d’esse marido ideal, que
-todas nós devaneamos aos quinze annos, antes de descermos á prosa do
-mundo para casarmos com os Jeronymos Freitas, e com os Claudios da
-Cunha.
-
---Tudo isso é amisade?
-
---Não; é amor, bem sei, continuou Carolina no mesmo tom sereno. Olhe,
-eu não sou diplomata senão com a tola da condessa, e com a sua beata
-roda. Mas fico sempre tão fatigada do papel que me vejo obrigada a
-desempenhar todos os dias, que, mal entro nos bastidores, não tenho
-forças para pôr outra vez a mascara, e voltar de novo á scena. Por isso
-lhe fallo tão francamente. Sim; liga-me a Alberto um amor profundo.
-É abominavel? Ora se é! Immoral? d’um modo aterrador. Mas, filha,
-tenciono consagrar a minha velhice a um longo arrependimento. Hei de
-ir a Roma, hei de fundar um convento, dois asylos, tres hospitaes,
-proteger orphãs e fazer meias de lã para as creanças indigentes,
-obras pias de que seria dispensada, se não passasse a minha mocidade
-a commetter alguns peccaditos, que exijam penitencia. Já vê que lucra
-com isto a beneficencia publica. Tive a fraqueza de amar Alberto. Não
-a teria, se suspeitasse que o ia tirar do lanço á minha boa amiga. Mas
-não; soube que era falso tudo quanto a D. Antonia dissera, soube que se
-não amavam, e ficou-me a consciencia tranquilla. Disse-m’o elle mesmo.
-A minha querida Margaridinha, que sabe quanto é poderosa a influencia
-da poesia, pode comprehender o modo como eu cedi aos protestos d’amor
-d’esse gentil moço. Era por uma tarde tão linda como esta; estavamos
-ambos sós na sala, contemplando o horisonte dos campos. Alberto
-murmurava-me ao ouvido essas palavras deliciosas, que sempre eccoam
-n’um coração feminino. A belleza do céu, as harmonias campestres, o
-doce murmurio da sua voz, a poetica auréola com que o sol moribundo lhe
-cingia a fronte, a solidão da sala, tudo conspirava contra mim. Senti-o
-aproximar-se...
-
---Oh! basta! basta! exclamei eu, completamente louca e desvairada, n’um
-paroxismo de dor, sem saber o que dizia, nem o que fazia, não quero
-ouvir mais as suas infames e mentirosas confidencias.
-
-E, fustigando o cavallo com o chicote, parti n’um galope desenfreado,
-soluçando a um tempo de dor, de raiva e de vergonha. A viração da tarde
-trouxe-me ainda ao ouvido uma gargalhada de Carolina, e estas palavras,
-que proferia ironicamente:
-
---E não o amava?
-
-
-
-
- XVIII
-
-
-N’um momento cheguei a casa. Apeei-me, atirei as redeas para cima
-do pescoço do cavallo, e subi a escada impetuosamente. Ia lavada em
-lagrimas; que me importava que me vissem? Estava consummada a minha
-vergonha.
-
-Abri a porta da sala e entrei. Não estava ermo o aposento. Ouvindo
-a bulha dos meus passos, alguem, que se encostava ao peitoril d’uma
-janella, voltou-se para a porta. Era Alberto.
-
-Eu perdera completamente o imperio sobre mim mesma. Corri para elle,
-travei-lhe das mãos, e disse-lhe com a voz entre-cortada pelos soluços:
-
---Não é verdade? Não é verdade que a não ama? Aquella mulher mentiu?
-
---O que é isto, minha senhora? tornou Alberto, no auge da inquietação,
-o que quer isto dizer? Que inexplicavel infortunio...?
-
---Oh! mas diga-me, diga-me que a não ama, tornava eu chorosa e
-supplicante, diga-me que não ama Carolina.
-
---Oh! respondeu elle n’um impeto, e fazendo um gesto de energica
-repugnancia, oh! juro-lh’o.
-
---Obrigada! obrigada! murmurei eu; bem sei que sou uma doida, que me
-estou perdendo, que sou uma mulher vil, indigna da sua estima; porém
-não pude, soffri muito, quando ella me disse que se amavam:--a dôr
-foi... incomportavel.
-
---Soffreu! respondia Alberto com voz tremula, e apertando-me as mãos
-com impeto febril, soffreu, mas então... mas n’esse caso...
-
---Amo-o; não é isso que quer dizer? tornava eu como louca; sim, é a
-verdade, a verdade terrivel, fatal, ignominiosa.
-
---Ama-me! exclamou Alberto.
-
-E, soltando as mãos, levou-as á fronte, como se temesse que lhe
-rebentasse ao impulso da lava, que lhe refervia lá dentro. E, voltando
-a travar-me das mãos, com os olhos incendidos n’um fulgor estranho,
-como se os houvesse abrazado a chamma de loucura que ardia nos meus:
-
---Ama-me! Oh! não me falle! não me falle! deixe-me ouvir os eccos
-innumeraveis que essa palavra magica me desperta no coração! Oh! não
-me acorde d’este sonho! peço-lh’o, deixe-me aqui morrer com os olhos
-enlevados n’esta visão beatifica...
-
---Sonhemos, dizia-lhe eu debulhada em lagrimas, oh! sonhemos depressa,
-porque o despertar vem cedo, e o despertar é o opprobrio.
-
-E caí prostrada n’uma cadeira; elle ajoelhou aos meus pés, beijando-me
-convulso as mãos.
-
---Que importa? E cuidas que este momento de felicidade não paga de
-sobejo todas as amarguras d’uma longa vida? Julgas que esta auréola
-d’amor que nos circunda a fronte, não tenha luz bastante para derrotar
-a sombra do estygma que o mundo nos inflige?
-
---E a consciencia... tornava eu.
-
---Depois, depois, dizia-me elle, não pensemos n’isso agora. Apaguemos
-da nossa vida por um instante só esses longos annos que separaram o meu
-sonho d’adolescente d’esta ineffavel realidade. Por um instante só,
-Margarida... Margarida, Margarida, deixa-me saborear o prazer louco
-de te repetir mil vezes syllaba a syllaba, lettra a lettra, esse nome
-querido, que tantas vezes balbuciei sósinho no segredo do meu quarto.
-Deixa-me impregnar cada uma das suas melodias no amor immenso, que
-represei no coração, e que trasborda afinal. Filha, bem vês, peço-te um
-só instante para me pagar de tantos annos de angustias, de seculos de
-tormentos. Não é muito, não; concedes-m’o? Oh! meu Deus! mas eu tenho
-tanto que te dizer! não posso, não sei, adivinha, sim? Fita os teus
-olhos nos meus, lê n’elles, estrophe a estrophe, o louco poema, que
-uma voz ignota me canta no coração. E lembrar-me eu que pude suspeitar
-um instante que deixara de te amar, e uma palavra tua perturbava-me,
-e um sorriso teu enlouquecia-me, e uma attracção indizivel chamava-me
-para aqui. E pude fingir que fazia a côrte a Carolina, só para ter um
-pretexto de ficar junto de ti, o pretexto de te livrar das suspeitas
-calumniosas! E fingi corresponder ás suas impudentes provocações, para
-te ver sempre, sempre; porque és tu a minha vida, a minha mocidade, a
-estrella da minha noite, a flor do meu deserto, perola do meu sombrio
-occeano, a lampada do meu ermo sanctuario.
-
---Oh! tenha dó de mim, Alberto, salve-me d’esta vergonha, livre-me
-d’esta vertigem; não vê que as suas palavras augmentam cada vez mais
-a incrivel fascinação que me arrasta para o abysmo? E eu não quero
-aviltar-me; ame-me, já que a fatalidade assim o quer, mas com um amor
-de irmão.
-
---Sim, Margarida, sim, de irmão. Não vês como te adoro! Ordena o
-impossivel, e pratical-o-hei. Oh! mas estas louras tranças, que ondeiam
-por deante dos meus labios, deixa-me beijal-as, são estas mesmas as que
-o sol doirava, quando te vi, aéria fada, como que fluctuar entre as
-primeiras sombras do crepusculo. Beijo as minhas recordações.
-
-E beijava-me os cabellos espargidos no collo; mas eu, repellindo-o,
-disse-lhe brandamente:
-
---Alberto!
-
-Elle parou e fitou em mim um olhar submisso.
-
---Deixe-me, continuei eu; saia, que já ouço o tropear dos cavallos.
-
-Alberto travou-me das mãos, contemplou-me um instante, beijou-as com
-fervor, e saiu, dizendo:
-
---Amo-te!
-
-
-
-
- XIX
-
-
-Fiquei longo espaço com o rosto escondido nas mãos; quando ergui a
-cabeça, estava D. Antonia deante de mim.
-
-Fluctuava-lhe nos labios um sorriso de triumpho; lampejava-lhe nos
-olhos um fulgor infernal. Vencera, conseguira o seu fim, colhera o
-fructo dos seus longos esforços; e eu despenhara-me dos pincaros do meu
-orgulho no abysmo para onde me tinham impellido.
-
-Sempre aquelle vulto me apparecia nas horas em que me sentia resvalar
-para a vergonha. Dir-se-hia a imagem de Satanaz, procurando occasião
-propria para me roubar a alma, e levar-m’a para o Barathro. E não era
-um sorriso diabolico o seu?
-
-Senti correr-me um calafrio pelas veias. Mas depois reagi contra esta
-primeira fraqueza, e, colhendo na minha propria exaltação energia
-bastante para affrontar aquella mulher infernal, ergui-me e fitei
-n’ella os olhos scintillantes.
-
---Está tão agitada! exclamou D. Antonia com ironia. Já principia o
-remorso?
-
---Já! disse-lhe eu com intimativa. Está satisfeita? Reveja-se na sua
-obra.
-
---Na minha obra! tornou ella, pondo as mãos, e erguendo-as ao céu! Só
-isto me faltava! Diga antes que se realisa o que eu prophetisei sempre!
-Não querem ouvir as verdades, e aqui está o que succede! Não attendeu
-aos meus conselhos, deixou-se antes levar pelas suggestões do demonio,
-e o resultado foi perder-se sem remissão. Lavo d’ahi as minhas mãos; eu
-avisei-os a todos.
-
-Injuriaram-me, criminaram-me, e a final voltam-se contra mim. Já estou
-costumada a isto. Deus m’o levará em conta.
-
---Mas o que succede? tornei eu indignada. Que supposição está formando?
-
---Oh! tornou ella rindo; não é difficil adivinhal-o. Se já o não
-tivesse sabido por outro lado, a sua agitação tudo me diria. Compete-me
-agora avisar meu sobrinho do perigo em que a sua honra está.
-
---Avise-o, tornei eu; mas diga-lhe tambem que está mais em segurança
-confiada a mim do que se estivesse nas mãos d’uma d’essas hypocritas
-beatas, que tão impudentemente infringem a moral que professam.
-
---Como quer que eu lhe diga semelhante coisa? respondeu ella; quer que
-o illuda ainda, quer que lhe aperte bem a venda que a minha sobrinha
-com tanta habilidade lhe poz nos olhos? Engana-se; não sou para esse
-papel. Julgar-me-hia sua cumplice se assim procedesse. A desculpa do
-vicio é um ultrage á virtude. Quem não quer ser lobo não lhe veste
-a pelle. Deseja ver-me protectora d’essa vergonhosa ligação, que me
-confessou tão descaradamente? Engana-se, minha Philis. Procure outras
-para esse cargo. Ora não ha, hei-de-lhe arrancar a mascara.
-
---Não a tenho, bem vê; mas fite bem os seus olhos no meu rosto, e verá
-que não córo.
-
---Porque não tem vergonha.
-
---Porque não tenho de que me envergonhar, logo que as accusações que
-me são dirigidas tomam esse caracter offensivo. Se uma fatalidade
-inexoravel despertou no meu peito um sentimento que não pude dominar,
-póde estar certa que nunca lhe sacrificarei o meu dever. Combatel-o-hei
-com energia, e hei de arrancar do meu coração essa planta funesta, que
-tanto a meu pesar viçou e cresceu n’este jardim, que se obstinavam em
-conservar deserto. O calice de amargura bebel-o-hei até ás fezes, sem
-que os outros o cheguem sequer aos labios. Soffrerei em silencio, e com
-dignidade. Que mais podem exigir de mim?
-
---Isso é muito poetico effectivamente, respondeu D. Antonia com ironia,
-estou que outros mais justos a adorariam como uma santa, mas duvido que
-o meu sobrinho esteja disposto a admirar e a apreciar estas subtilesas
-com que se disfarça um adulterio parecido com todos os adulterios.
-Eu de mim confesso que não percebo essas bonitas phrases. Uma mulher
-casada não deve pensar senão em seu marido, e tratar da sua casa. Foi
-isto o que toda a vida me ensinaram. Essas frandulagens de romance
-são boas para enganar os parvos. Era melhor que tratasse de cumprir
-fielmente as suas obrigações de esposa e de christã.
-
---Oh! isso é de mais, respondi eu altiva. Exigem de mim o cumprimento
-de um dever, esse dever tenho-o eu cumprido, e hei de cumpril-o sempre
-com inabalavel intrepidez. Sacrificar-lhe-hei a minha vida inteira,
-deixarei fenecer n’essa atmosphera gelada a flor da minha juventude.
-Mas o sanctuario recondito da minha alma não consentirei que m’o
-invadam. N’esse domino eu só, n’esse abrigo os affectos intimos, a que
-presto culto no segredo da minha consciencia. D’essa região sagrada
-defenderei até a morte a inviolabilidade. É o ninho dos meus sonhos, a
-urna do balsamo, que me allivia um pouco as dores lancinantes do meu
-viver atroz. Não lhe toquem, não a profanem. Tudo o mais lhes cedo,
-tudo o mais sujeito á sua despiedosa fiscalisação.
-
-Persigam-me, atormentem-me, analysem cada um dos meus actos,
-interpretem-n’os favoravel ou desfavoravelmente; estou a isso
-resignada. Mas quando a final, depois de haverem saciado o seu odio
-implacavel, me deixarem tranquilla por um instante, não queiram violar
-o meu asylo, não queiram perturbar a paz do meu espirito, não queiram
-envenenar com o seu halito impuro essa atmosphera serena, onde fluctua,
-não queiram macular com a sua baba asquerosa as rosas, em cujo calice
-se baloiçam as minhas brancas borboletas. Esse direito sagrado, essa
-liberdade inalienavel do pensamento serão defendidas por mim ate á
-morte. Só o amor conhece as palavras mysteriosas que descerram as
-portas d’esse tabernaculo; o dever, gélido, frio, insensivel, não
-póde ultrapassar os limites da vida exterior, que está unicamente
-debaixo da sua alçada. Diga isto mesmo a Claudio, já que meu marido
-prefere relacionar-se comigo por via de emissarios a appellar para a
-minha franqueza. A minha vida, as minhas acções pertencem-lhe; não lhe
-pertencem nem o meu coração nem os meus pensamentos. Estampe na minha
-fronte o ferrete da infamia, se alguma vez eu lhe der direito a que
-suspeite que trahi a fé conjugal, e puz em perigo a honra do seu nome.
-Mas se ainda assim tentar arrogar-se sobre mim um direito, que nem os
-mais despoticos tyrannos têem podido reivindicar; se intentar algum
-acto escandaloso, que me deshonre aos olhos do mundo, lembre-se que
-toda a vergonha e toda a responsabilidade cairão sobre a sua cabeça, e
-que os mais severos moralistas não ousarão justificar o procedimento
-de um homem, que, deixando sua esposa entregue a todas as tentações da
-mocidade e a todos os vituperios da calumnia, se acha com direito de
-exigir mais do que o escrupuloso respeito dos deveres do matrimonio,
-e persegue no mais intimo arcano de um coração feminil os timidos
-devaneios de um amor que elle nunca se deu ao trabalho de requestar.
-
-E, deixando ficar D. Antonia estupefacta com a vehemencia do meu
-discurso, saí da sala precipitadamente, e fui-me refugiar no meu
-quarto.
-
-
-
-
- XX
-
-
-Comtudo era impossivel que esta situação falsissima se prolongasse por
-muito tempo. Estavamos todos embaraçados e constrangidos. Alberto,
-passado o primeiro momento de extasi, caira n’um abatimento visivel.
-Acudia-lhe o rubor ás faces sempre que apertava a mão a Claudio;
-e este, inquieto e sombrio, estendia-lhe a mão com repugnancia, e
-mostrava-lhe uma frieza quasi insultante. A partida de Alberto era a
-unica solução possivel; sentia-o elle e não tinha animo para se apartar
-de mim; sentia-o eu tambem e não tinha forças para lhe pedir que o
-fizesse.
-
-Certa da victoria, D. Antonia excitava Claudio a dar um golpe decisivo;
-Carolina, furiosa por se ver burlada quando imaginara burlar-me,
-juntara-se francamente aos meus inimigos, e, fazendo côro com sua
-madrinha e seu marido, bradava que um tal escandalo, se continuasse,
-era capaz de corromper a atmosphera de Bellas por tal fórma, que
-nenhuma senhora honesta se resignaria a habitar n’aquelles arredores,
-com medo de aspirar, nos haustos de um ar até ahi tão puro, pensamentos
-adulteros e criminosas tentações.
-
-O padre prior, que não percebia nada do que lhe diziam, apoiava tudo,
-confirmando os appoiados com estrepitosas pitadas, disfarçando tambem
-d’essa fórma os remorsos que sentia por abandonar assim a causa de
-Alberto, com quem sympathisava desde que este, com generosa abnegação,
-se prestara a substituir uma ou outra vez o proscripto Theodoro Leite
-na mesa do voltarete.
-
-Comtudo, eu e Alberto andavamos sempre arredios um do outro, e não
-davamos o minimo pretexto para que este mysterioso drama tivesse o
-desenlace que os nossos inimigos desejavam. Esta obstinação em não
-favorecermos os seus planos irritava D. Antonia, e fazia-a commetter
-erros de toda a especie. Mostrava-se umas vezes indignada com a
-hypocrisia das pessoas, que sabem disfarçar aos olhos do mundo o
-crime que descaradamente confessam em particular; outras vezes, pelo
-contrario, mostrava-se amabilissima comigo e com Alberto, e por tal
-fórma nos incitava a que passeassemos juntos, que esta insistencia
-chegava a dar-lhe ares de desempenhar um papel pouco em harmonia
-com a dignidade _meticulosa_ de que tanto blasonava. Só emmudecia
-quando o sobr’olho fransido de Claudio, o meio sorriso de Alberto, e
-os multiplicados signaes de Carolina lhe faziam perceber que a sua
-impaciencia a fizera entrar n’um mau caminho.
-
-Principiou então a adoptar um melhor systema; fingiu que se havia
-esquecido de todo das suas suspeitas, e das minhas revelações; fingiu
-confiar plenamente no que lhe eu dissera, e não querer por forma
-alguma intervir no desenlace de tão penosa situação. Cuidou talvez
-que, desassombrada da sua continua vigilancia, e do constante «álerta»
-com que as suas provocações espertavam as minhas suspeitas e me tinham
-sempre preparada para o combate, cederia á fascinação e me deixaria
-indolentemente resvalar para o abysmo.
-
-Enganava-se julgando que a lucta em mim era apenas filha do capricho
-e da necessidade de disfarçar aos olhos de meu marido as minhas
-criminosas relações. Não podia ella comprehender que o amor e a honra
-se combatessem lealmente no meu peito, e que o meu espirito encontrasse
-sempre novas forças no sentimento da propria dignidade para reter as
-perfidas suggestões do coração.
-
-Mas esse pelejar incessante prostrava-me e desfallecia-me. Minguava-me
-não o valor, mas o alento physico para supportar as consequencias
-da victoria. Eram terriveis para mim essas formosas e breves noites
-de estio, passadas a velar na minha alcova solitaria, a ver a lua
-espraiar-se no chão do jardim, e a voluptuosa penumbra a aninhar-se
-nos recantos. Surprehendia-me a alvorada immovel na minha janella,
-assistindo ao esvair da minha mocidade, fada cada vez mais pallida,
-entre os primeiros clarões do horisonte matinal. E esses fugitivos
-poemas, que me tinham consumido as horas nocturnas, murchavam-me a
-flôr da juventude, que toda se desfazia em fragrancias, com que se
-perfumavam essas vagas estrophes, que me voavam nem eu sei para onde,
-nas azas da viração.
-
-Assim passou uma semana.
-
-Jantaram um dia em nossa casa Carolina e Jeronymo. Quando acabamos de
-jantar, fomos tomar café para a sala. Começava a cair o crepusculo,
-um d’esses crepusculos de estio, serenos e harmoniosos. As janellas
-abertas deixavam entrar os longiquos murmurios do campo, o melancholico
-mugido do boi, que volta para o curral, o grito prolongado do pastor,
-o som grave e religioso do sino das Ave-Marias, e d’envolta com estas
-campestres melodias vinham tambem os vagos aromas que as flores das
-noites rescendem n’essa hora mysteriosa.
-
-Entrou Alberto, quando eu me fôra sentar ao piano, a pedido de
-Carolina, que instava comigo para que tocasse um trecho da _Luiza
-Miller_, muito da sua predilecção. Era uma das mais suaves e mais
-melancholicas romanzas de tenor, uma das mais mimosas perolas d’esse
-collar de melodias, que, n’uma hora de inspiração, Verdi desfiou sobre
-o publico dilettante. O crepusculo já déra logar ás sombras da noite;
-não havia ainda luar, mas estava tão estrellado o céu, e era tão suave
-aquella penumbra que ninguem se lembrou de pedir luz. Agruparam-se
-todos em torno do piano, e estava eu preludiando, quando entrou
-Alberto, como já disse.
-
-Interrompi-me á sua chegada, mas elle, apenas fallou ás pessoas
-presentes, disse logo:
-
---Oh! minha senhora, teria eu remorso eterno, se por minha causa
-ficassem os rouxinoes do seu jardim privados d’uma nota só d’esse
-cantico delicioso, que lhes ha de ensinar a celebrarem ainda melhor
-do que celebram os encantos d’uma noite estrellada. Continue vossa
-excellencia.
-
---Chegou muito a proposito, senhor Alberto Mascarenhas, acudiu
-Carolina; ia-se tocar a romanza do tenor; commettiamos um sacrilegio
-confiando a um piano, ainda que tocado admiravelmente, o cantico
-sublime, digno só de ser entoado pela voz humana. Valha-nos pois,
-cante-nos a romanza.
-
---Por Deus, senhora D. Carolina, o que diriam os rouxinoes?
-Excommungavam-me de certo, e encarregavam os mochos e as corujas de
-executarem a sentença, poisando todas as noites no tecto da minha
-hospedaria. Posso affiançar a vossa excellencia, que nas pontas dos
-dedos da senhora D. Margarida está escondido um Mongini, que lhe vae
-cantar admiravelmente a aria que me pede.
-
---Não, não, respondi eu rindo, engana-se. Mongini rasgou a escriptura,
-de fórma que os meus dedos declaram positivamente que só estão
-disponiveis para acompanhamentos.
-
---Bem, por minha causa não quero que se feche o theatro. Estou prompto
-a obedecer ás ordens de vossas excellencias.
-
-Alberto possuia uma bonita voz de tenor, pequena sim, mas dramatica,
-se me permittem o termo. Reproduzia admiravelmente cada inflexão da
-melodia, cada intenção do maestro. Identificava-se com a musica, e
-perfumava-se de suave tristeza, ou irrompia em gritos de paixão, ou
-tomava o tom elegante do galanteio frivolo, conforme cantava, ou o _Ah!
-perché non posso odiar-ti_ da _Somnambula_, ou o _Mentré contemplo_ das
-_Vesperas Sicilianas_, ou o _Questa o quella_ do _Rigoletto_.
-
-Corri os dedos pelo teclado, e preludiei depois, fazendo brotar das
-teclas as notas graves da introducção.
-
-A extrema luz crepuscular illuminava escassamente o pallido azul do
-céo, onde palpitavam as estrellas. A placidez da noite proxima, a
-serenidade da atmosphera, o profundo silencio que reinava no aposento,
-silencio quebrado apenas pelos frouxos e derradeiros murmurios do
-dia, predispunham a alma para esse embevecimento mudo e extatico,
-melancholico e religioso, que esse canto grave, simples, e vago como
-uma melodia exhalada espontaneamente da harpa gigante da natureza, é
-tão proprio para inspirar. A voz de Alberto ergueu-se pura, limpida,
-mas levemente commovida. Creio que todos sentimos um inexprimivel
-encanto ao ouvirmos as primeiras notas suaves e serenas, que tão bem se
-casavam pelo tom e pela letra com o espectaculo que nos rodeava:
-
- _Quando le sere, al placido
- Chiarore d’un ciel stellato_
-
-O canto espraiava-se pela planicie, ia expirar ao longe em languido
-murmurio, e acordava milhares de eccos mysteriosos. Os campos,
-adormecidos no voluptuoso regaço d’essa hora magica, despertavam ao
-ouvirem essa harmonia, synthese admiravel das suas vozes confusas. Eu
-estava profundamente commovida, sentia que Alberto cantava para mim
-só, que era para mim que elle deixava expandir-se a sua alma em cada
-uma das notas d’esse cantico. A sua voz era apenas um frémito, quando,
-n’essa doce lingua italiana, recordava as meigas horas em que, de mãos
-enlaçadas, fitavamos o céu onde esmoreciam os ultimos raios do sol.
-Porque eu chegara a convencer-me que tudo aquillo era verdade e não
-ficção, que era eu a heroina da opera, elle o meu apaixonado, e quando,
-todo embevecido n’essas recordações, Alberto, como que esquecendo-se do
-presente, concentrou toda a sua alma, toda a sua paixão n’aquelle grito
-immenso de amor e de jubilo:
-
- _Allor parea l’Empireo
- Aprir-se all’alma mia_
-
-não pude conter mais os sentimentos, que me trasbordavam do peito, e
-deixando cair os braços e interrompendo o acompanhamento, contive a
-custo os soluços e deixei as lagrimas silenciosas golpharem-me dos
-olhos e inundarem-me as faces.
-
-Alberto calou-se de subito, os ouvintes levantaram-se dizendo: «O que é
-isto?» Meu marido approximou-se logo de mim, relanceando para Alberto
-um olhar cheio de odio, e perguntando-me rudemente: «O que tem?»
-
---Nada, nada, respondi eu com voz bastante firme; uma dor violenta que
-me surprehendeu, mas que já me passou.
-
---No coração? perguntou D. Antonia com fingida ingenuidade.
-
---Sim, no coração, respondi eu com altivez; mas comprimi-a já.
-
---Essas dores são muito más, tornou ella, vem quando menos se esperam.
-
---Mas não vencem apesar d’isso, continuei eu.
-
-Claudio ouvia este dialogo com modo sombrio.
-
---A senhora D. Margarida, acudiu Carolina, é muito nervosa, e as
-pessoas nervosas facilmente se deixam impressionar pela musica. Demais
-a mais o senhor Alberto Mascarenhas cantou com tanto ardor, tanto de
-coração, que não admira que produzisse este effeito.
-
---Engana-se, minha senhora, respondi eu; nada tem com este incommodo
-passageiro o canto e a musica; vou-me deitar em cima da minha cama um
-instante, e voltarei restabelecida.
-
---Vá, vá, tornou D. Carolina cariciosamente. Desabafe que lhe ha de
-fazer bem.
-
-Não lhe repliquei, e saí. Quando cheguei ao meu quarto, foram-me
-allivio as lagrimas. Entre a minha afflicção, comtudo, avultava uma
-idéa fixa. «Não, dizia eu comigo mesma, isto não póde durar. Vejo
-dois caminhos abertos deante de mim, o do amor e da perdição, e o da
-salvação e do martyrio. Ou entregar-me á paixão fatal, que me domina,
-fazer a vontade a esta gente e procurar no amor de Alberto consolações,
-que me abafem os remorsos, ou fazer cessar esta lucta perigosa, dizendo
-a Alberto que parta, encerrando as lagrimas no peito, e engolphando-me
-brutalmente n’esta existencia mesquinha, que me ha de assegurar a
-consideração da condessa, a estima de D. Antonia e a tranquillidade
-talvez. A tranquillidade? Palavra d’ora em deante sem sentido para
-mim! Se conquisto a paz exterior, as tempestades nem por isso deixarão
-de me bramir no coração. Mas que importa? O cumprimento de um dever
-nunca deixa de ser acompanhado por intima satisfação, e será esse o
-magico talisman que abrandará o soffrimento, a que a minha vida vae
-ser condemnada. É preciso, é indispensavel que Alberto se ausente.
-Ausentae-vos com elle, sonhos tentadores, perigosos devaneios, frémitos
-da juventude, que se revolta contra o cilicio, aspirações do meu
-espirito para o mundo luminoso, d’onde o dever o repelle.»
-
-Armando-me de coragem, desci á sala, decidida a pedir a Alberto uma
-entrevista, para lhe explicar francamente a minha situação, e rogar-lhe
-que me facilitasse o sair d’ella.
-
-Já lá estavam a condessa, o padre prior e a baroneza.
-
-Como a tactica de D. Antonia consistia em me deixar a maior liberdade,
-julguei que poderia facilmente fallar de relance a Alberto. Mas o ciume
-de Carolina parece que fôra excitado pela scena do piano, de forma que
-não fez senão interpor-se constantemente a nós ambos, e não nos deixou
-sós nem um instante.
-
-Já perdera as esperanças de lhe fallar, e até já me despedira d’elle
-e das outras visitas que se retiravam, quando, ao atravessar a saleta
-para subir para o meu quarto, encontrei Alberto, que subia de novo para
-buscar alguma coisa, que lhe esquecera.
-
-Travei-lhe da mão, e disse-lhe apressadamente:
-
---Preciso muito de lhe fallar: ámanhã, ás duas horas da noite, venha
-ter comigo ao jardim. Enviar-lhe-hei a chave.
-
-Alberto ficou mudo d’assombro. Eu nem lhe dei tempo a responder-me. Saí
-precipitadamente, e, ao abrir a porta, esbarrei n’um vulto.
-
-Era a Maria do Rosario.
-
---Que estava aqui a fazer? perguntei eu com indignação.
-
---Nada, minha senhora, respondeu ella com toda a naturalidade; vinha
-apagar as luzes.
-
-E entrou effectivamente para a sala.
-
-Era possivel que fosse essa a verdade, e, se o não fosse, que me
-importava? Denunciasse-me embora; eu ia jogar a ultima carta, e estava
-disposta a confiar-me cegamente ao destino.
-
-Comtudo, até para dar esse passo, que me devia salvar da vergonha,
-precisava de humilhar o meu orgulho aos pés de uma creada; é verdade
-que essa creada, antes amiga, era a boa Quiteria, a pobre velha,
-que tão desinteressadamente se dedicara a mim. Só d’ella me podia
-valer para conseguir que fosse entregue a Alberto a chave, que era
-indispensavel para a nossa ultima entrevista.
-
-Portanto, no dia seguinte chamei-a ao meu quarto, e como ligava muito
-mais apreço á opinião da boa e pobre Quiteria do que á da altiva D.
-Antonia, e da virtuosa condessa, contei-lhe pela rama a historia das
-minhas relações com Alberto, não lhe fallei em subtilesas de coração,
-mas disse-lhe que, vendo-me calumniada por causa d’aquelle homem,
-queria ter uma conferencia com elle para lhe pedir que se retirasse
-e não me expuzesse mais, ainda que involuntariamente, aos juizos
-desfavoraveis das pessoas com quem estava condemnada a viver. Terminei
-rogando-lhe que se encarregasse da missão que eu desejava confiar-lhe.
-
---Minha boa menina, respondeu-me a Quiteria, tenho dado fé das
-intrigas, que a cercam, e sei perfeitamente que a senhora D. Margarida
-está innocentinha como um anjo do céu. Dá-me vontade ás vezes de
-esganar os seus perseguidores! Já não fallo no senhor Claudio, que
-esse no fundo é muito boa pessoa, assim elle soubesse ser dono da sua
-casa. Mas a senhora D. Antonia, Deus me perdôe, parece mesmo que tem
-o demonio ao lado que lhe está aconselhando a maldade. E a Maria do
-Rosario? Ai! que boa peça! Anda sempre, como o outro que diz, com o
-santo nome de Deus na boca, e o diabo no coração. Aquillo até chega a
-ser heresia. Por isso todos lhe teem raiva, e se não fosse por minha
-causa, o meu Simão já lhe tinha quebrado os ossos, quando a pilhava a
-espreital-a, e a ir metter no bico da senhora D. Antonia tudo quanto a
-menina faz! Mas eu que sou muito sua amiga, porque vejo que é boa com
-a gente pobre, e que não se contenta em lhes dar uma fatia de pão, com
-modos de quem dá uma facada, como fazem essas beatas fingidas; mas que
-é meiga, affavel com elles, que os trata bem, e não lhes faz sentir a
-sua humildade e a sua dependencia, que não ha coisa mais triste, santo
-nome de Jesus. Andar uma pessoa a comer as sopas d’outrem...
-
---Mas o que é que ia a dizer, tia Quiteria? interrompi eu, porque a via
-disposta a amontuar incidentes sobre incidentes, e a perder o fio da
-oração principal.
-
---Ah! é verdade, já me esquecia... Tenha paciencia, minha boa senhora,
-que isto de velhas gostam muito de dar á lingua, e, em ellas começando,
-não ha fazel-as parar. Misturam alhos com bugalhos, e nunca chegam ao
-fim, como succedeu na noite em que a menina chegou, que me enredei por
-tal fórma, que não acabei de contar a historia do fr. João. Que elle
-sempre viu a alma do pae...
-
---Mas vossemecê estava a dizer outra coisa, tornei eu, já impaciente.
-
---Ah! é verdade. Isso é o que importa agora, e não o saber-se que o
-pae de João lhe confessou que fôra a pouco e pouco mudando os marcos
-das terras dos visinhos, e que não teria a sua alma descanço e andaria
-penando por este mundo em quanto essa justiça não fosse reparada.
-
---Sim, sim, tia Quiteria, mas vossemecê dizia...
-
---Ah! é verdade, voltando cá á boa alma de Maria do Rosario, que me
-parece que já está a arder no inferno pelas mexeriquices que tem feito,
-e as desgraças que póde crusar, sempre lhe direi, minha menina, que
-o demonio da mulher ouviu-a hontem dizer ao senhor Alberto que fosse
-ao jardim, e, segundo o seu costume, foi logo dizer tudo á senhora D.
-Antonia. Ouvi-a eu com estes ouvidos, que eu não sou surda, graças a
-Deus, a vista é que se me vae debilitando alguma coisa, e os dentes
-esses viste’-los? Nem eu. Pois ouvi-a estar a contar tudo isso, e ouvi
-tambem a senhora D. Antonia dizer assim: «Ora graças a Deus! vejâmos
-agora se meu sobrinho ainda acha algum pretexto para se esquivar a
-fazer o que deve, e se, depois de ter visto com os seus proprios olhos,
-ainda estiver pouco disposto para isso, nós arranjaremos as coisas de
-maneira que elle não tenha outra saída. O caso é não se ter vossemecê
-enganado nas horas.»--«Não enganei, não, minha senhora, respondia a voz
-de falsete da Maria do Rosario, ás duas horas no jardim.» Mais nada
-ouvi porque senti passos aproximarem-se da porta, e não tive tempo
-senão de me safar. Ora agora veja a menina se não será melhor adiar
-a entrevista para outra occasião. Olhe que ellas estão prevenidas, e
-fazem-lhe alguma.
-
-Reflecti alguns momentos antes de dar uma resposta. Os sentimentos
-do meu coração, vencidos pela idéa do dever, não tinham ficado
-completamente domados, e protestavam ainda contra a oppressão, a
-que os votara. Fugia d’esse vedado paraiso do amor, mas, fugindo,
-relanceava para elle os olhos, como a chorosa Eva ao sair do Eden, se
-voltava a contemplal-o, com o peito a arquejar de saudades. Sorria-me
-tentadora a idéa fatal de esquecer nos braços de Alberto a vida e
-as suas obrigações, o mundo e as suas amarguras, de fugir com elle
-para algum eremiterio arredado do bulicio social, ufanando-me do
-estygma, aceitando o escandalo para conquistar o amor, como se aceita
-o martyrio para se conquistar a palma. Bem sei que seria de pouca
-dura essa felicidade criminosa, que o remorso seria o meu algoz, e o
-enfado, que algumas vezes me entreluzisse nos olhos do meu amante,
-pugentissimo castigo; mas o que era tudo isso em comparação da longa
-vida de estiolamento que eu ia passar n’esse carcere domestico?
-Lembrei-me dos amores de D. Branca e de Aben-Afan. Horas breves de
-felicidade compradas por uma vida inteira de horrido desgosto; e o que
-destruira esses amores tão violentos? Um gesto de fastio do moiro wali,
-saudoso das suas pelejas e do seu poder. Teria eu maior condão que D.
-Branca, Alberto mais desprendimento do mundo, do que Aben-Afan? Não
-lhe leria nunca nos olhos o desgosto de se ter prendido em laços, não
-authorisados pela sociedade, e de se ver privado dos gosos mundanos?
-
-Mas isso que importava? Se a gentil abbadessa, depois de ter visto e
-amado o arabe formoso, se houvesse sepultado logo no gélido mosteiro,
-não seria ainda maior a sua tristeza? Não seria a sua vida uma longa
-noite, em que nem sequer luziria um raio do sol extincto sim, mas que
-por instantes brilhara no horisonte? Longa noite sem o luar d’uma
-recordação? Não seria então que o poeta podia deveras exclamar:
-
- .... Mas é vida
- Esse viver que se alimenta em lagrimas?
-
-Agitada por estes encontrados pensamentos, persisti na idéa de deixar
-ir o batel do nosso destino ao som da agua, para onde o impellisse
-a corrente do acaso, ou antes, o que era mais christão na forma,
-senão no fundo, entreguei á Providencia o cuidado de reger o leme,
-e confiei-me cegamente ás ordens do Divino Piloto. Cumpriria o que
-resolvera, iria pedir a Alberto que se affastasse de mim, porém, se a
-fatalidade interviesse de novo, se a mão implacavel dos que me tinham
-collocado á beira do abysmo me despenhasse n’elle, não opporia a minima
-resistencia, e deixar-me-hia cair nos braços que me recebessem.
-
-Era esta a ultima prova e a mais fatal das indecisões do meu caracter,
-tão pouco proprio para as luctas da existencia.
-
-Por isso respondi á boa mulher:
-
---Embora, tia Quiteria; cumpra-se o meu destino: o que resolvi está
-resolvido. São puras as minhas intenções, mas já não tenho forças para
-luctar com as minhas perseguidoras. Quanto mais depressa isto acabar,
-melhor. Estou anciosa pelo descanço, ainda que seja o repouso do
-tumulo, ou o do opprobrio.
-
---Ah! a minha menina que se deita a perder! tornou a Quiteria com modos
-supplicantes. Pois quer dar essa gloria ás suas inimigas? Não faça tal.
-E demais, continuou ella, desatando a chorar, isso é tentar a Deus, é,
-como quem diz, dar cabo de si com as proprias mãos.
-
-Travei, commovida, das mãos de Quiteria, e disse-lhe:
-
---Obrigada, minha boa amiga, obrigada por essas lagrimas. Ah! se
-as pessoas que a desprezam do alto da sua soberba, tivessem o seu
-coração!... Mas, tia Quiteria, bem vê que uma vida assim não pode
-continuar. Estou cançada, estou prostrada por esta lucta sem treguas
-nem fim. Acarinhada, mimosa em casa de meus paes, vim para esta casa,
-nunca mais tive nem socego nem alegria. As pessoas do meu trato
-quotidiano só tinham para mim rostos severos ou frios. Não tive
-affeições, não tive familia. E, não contentes com isso, isolaram-me
-do mundo, e cercaram-me com uma gélida barreira de desconfianças, de
-suspeitas, e de calumnias. Esforcei-me, luctei por sair d’este circulo
-de ferro; não pude. Já me sinto sem forças nem alento. No tumulo talvez
-me deixem tranquilla, ou, se me expulsarem d’esta casa, talvez encontre
-descanço ahi no fundo de alguma choça abandonada. Não é melhor assim?
-
-E as minhas lagrimas confundiram-se com o pranto da minha humilde amiga.
-
---Pobre senhora! pobre senhora! dizia ella, soluçando; pobre pombinha
-sem ninho! antes Deus a tivesse feito nascer n’uma choupana! viveria
-socegada, e todos a haviam de estimar, como merece.
-
---Antes, antes, Quiteria, respondi eu melancholica, bastantes vezes,
-no silencio da noite, lancei a Deus esse grito de revolta contra o
-martyrio sem causa.
-
---Mas, minha menina, continuou a velhinha limpando as lagrimas, que
-ainda lhe banhavam as faces, se por força quer fallar esta noite ao
-senhor Alberto, ao menos faça-me uma coisa.
-
---Qual é?
-
---Mude a hora da entrevista; mande dizer ao senhor Alberto que venha á
-meia noite.
-
---Á meia-noite, tia Quiteria! Quasi a essa hora se vão as visitas.
-
---Então o que tem? O senhor Alberto que espere. Olhe, a senhora D.
-Antonia, o que deseja é ver se a apanha lá, e por conseguinte esteja a
-minha menina certa que lhe não ha de pôr obstaculos.
-
---Oh! isso sei eu.
-
---Então está combinado?
-
---Pois sim! tornei eu com a indifferença do fatalismo.
-
---Ora bem! disse a Quiteria muito satisfeita. Assim talvez ainda as
-possamos lograr! Deus está por nós. Elle nos ajudará. Fique a menina
-descançada que d’aqui a duas horas está o senhor Alberto avisado.
-
-E, despedindo-se de mim, dirigiu-se para a porta; mas, quando ia a
-levantar o fecho, parou, como se lhe houvesse esquecido alguma coisa,
-e disse:
-
---Ah! já me não lembrava!...
-
---O que é, tia Quiteria? perguntei eu com interesse.
-
---O João...
-
---Qual João? tornei a perguntar, porque já nem pensava na historia do
-frade.
-
---Ora, qual João! o que viu a alma do pae...
-
---Ah! é verdade, interrompi eu rindo, então o que lhe succedeu?
-
---No dia seguinte restituiu as terras furtadas aos seus donos, as
-outras vendeu-as, e foi-se metter n’um convento. E aqui está como fr.
-João vestiu o habito de frade, e foi sempre um homem exemplar.
-
-E muito satisfeita por ter afinal contado a sua historia toda, a tia
-Quiteria abriu a porta e saíu.
-
-
-
-
- XXI
-
-
-Pareceram-me seculos as horas, que decorreram até o cair da noite,
-e comtudo, quando as primeiras sombras do crepusculo principiaram a
-invadir o céu, desejei que retrocedesse o tempo, e tremi de ver tão
-proximo o instante em que se ia decidir a minha sorte.
-
-Chegaram, segundo o costume, as visitas; D. Antonia mostrara-se todo o
-dia affabilissima comigo, tambem a condessa houve por bem mimosear-me
-com alguns dos seus mais amaveis sorrisos, e Carolina abraçou-me e
-beijou-me com extraordinaria affeição.
-
-A tudo correspondi com sereno e melancholico aspecto: causava-me asco
-esse corrilho de Judas.
-
-Ás dez e meia retiraram-se todos; D. Antonia disse estar incommodada, e
-foi-se metter no seu quarto; Claudio apparecera na sala e demorara-se
-instantes apenas, mostrando-se visivelmente inquieto; depois saira.
-
-Á meia noite em ponto, desci do quarto; pulsava-me o coração com
-extraordinaria vehemencia; ia dando um grito, e deixando cair o
-castiçal, que levava na mão, ao deparar-se-me um vulto immovel no fundo
-da escada.
-
-Felizmente logo o conheci: era Quiteria.
-
---Começa o enredo, disse-me ella em voz baixa; a condessa e a D.
-Carolina entraram agora mesmo.
-
---Estão cá? perguntei eu.
-
---Estão; fingiram que se iam embora; mas foram passear, voltaram, e
-metteram-se no quarto de D. Antonia. Lá está tambem a Maria do Rosario.
-
---O que farão ellas?
-
---Não sei, mas não tema. Aproveite este momento, que é favoravel. Deus
-a proteja, filha.
-
-Abri a porta do jardim, e saí. Ainda não campeava no horisonte a lua,
-mas aproximava-se a hora em que havia de surgir o meigo astro. A
-folhagem das arvores meneava-se brandamente ao sopro suave da brisa, e
-por entre a ramaria scintillavam as estrellas.
-
-Atravessei ligeiramente a rua principal do jardim, dirigindo-me á
-porta que deitava para a estrada. Quando cheguei a uma espessa moita
-de buxo não tosquiado, que se erguia a grande altura, ouvi uma voz que
-murmurava muito de manso:
-
---Margarida!
-
-Voltei-me, e vi Alberto.
-
-Parei, e comprimi com a mão o violento arfar do peito. Alberto pegou-me
-na outra mão, e levou-a respeitosamente aos labios.
-
---O que pensou de mim, senhor Mascarenhas, disse-lhe eu, ao receber o
-estranho recado que lhe enviei?
-
---Pensei que vossa excellencia tinha que me dar uma ordem, que eu tinha
-a ventura de poder executar um mandado seu, e vim.
-
---Disposto a obedecer-me?
-
---Em tudo.
-
-Calei-me embaraçada; não sabia como havia de dar o primeiro passo
-n’esse terreno escorregadio. Tinha os olhos baixos, mas como que sentia
-o olhar de Alberto fito no meu rosto com inexprimivel anciedade. As
-nossas respirações oppressas confundiam-se n’um murmurio, que se casava
-com o sussurrar da brisa languida nas folhas do arvoredo.
-
-Formava o buxo uma espessa parede, que nos abrigava do lado de
-casa; corria-lhe fronteiro o muro do jardim, mas a porta ficava-nos
-distante. Um pecegueiro, ainda em flor, estendia por cima de nós a copa
-como um docel perfumado. Uma estatua pagã, meio escondida no buxo,
-espreitava-nos maliciosamente da sua verde alcova.
-
---Senhor Alberto Mascarenhas, disse-lhe eu com voz profundamente
-commovida, poz-nos o acaso n’uma situação falsissima. N’um momento de
-exaltação passageira trocámos palavras fataes, que ainda hoje me soam
-aos ouvidos como um remorso. Justificámos a calumnia, demos rasão aos
-calumniadores. Esse crime só se resgata com a separação. É o allivio
-para os nossos espiritos, a tranquilidade para as nossas consciencias.
-Não podemos viver assim com a recordação d’essa tarde a interpor-se
-constantemente a nós ambos, a pungir-nos sempre como espinho de rosa,
-que nasceu amaldiçoada. Chamei-o aqui para implorar da sua honra,
-do seu cavalheirismo, da sua amisade, do seu amor emfim, se me é
-permittido proferir tal palavra, a esmola de um pouco de socego. Parta,
-rogo-lh’o, ausente-se d’esta casa, d’este sitio, rompa completamente
-as suas relações com a minha familia; só assim poderei recuperar a
-paz, por que almejo tanto, que a acceito, ainda que seja o repouso do
-tumulo, ou a atonia do desespero.
-
---Minha senhora, respondeu Alberto com mal fingida firmesa, obedeço
-a esta ordem de vossa excellencia, como a todas obedeceria. E demais
-vejo, percebo tambem, que é intoleravel a nossa situação. Amigo de seu
-marido, estou representando um papel em que a minha lealdade soffre.
-Não sei se esta consideração bastaria para me arrancar d’aqui; as leis
-da honra ás vezes são frageis diques contra as torrentes de alguns
-affectos. Mas não devo pensar em mim, devo pensar no anjo puro, cuja
-etherea serenidade perturbei, no anjo, em cujo céu immaculado tive a
-audacia de fazer reboar um echo das paixões vis da terra. Possa o meu
-sacrificio restituir-lhe o repouso.
-
-Calou-se um instante, e depois, emquanto eu, sem forças para lhe
-responder, e mal podendo suster-me em pé, me encostava ao pedestal da
-estatua, continuou com voz triste, ainda que serena:
-
---Adeus, Margarida.
-
-E estendeu-me a mão, que eu apertei.
-
---Adeus, Alberto, disse com egual simplicidade e tristeza.
-
-E ficamos assim, com as mãos enlaçadas, e os olhos de um cravados nos
-olhos do outro. A brisa sussurrava no arvoredo, e o primeiro raio da
-lua nascente coava-se a furto por entre os ramos do pecegueiro.
-
---Que sonho tão breve, Margarida! murmurou elle.
-
---Como todos os sonhos, Alberto! respondi eu.
-
---Sim, como todos os sonhos, que descem das regiões da phantasia para
-o mundo da realidade. Dizem as lendas allemãs que os espiritos do
-ar e das aguas podem, pela magia do amor, tomar humana forma e alma
-tambem humana, mas qualquer desgosto os fina, e perdem então de todo a
-immortalidade. Quer-me parecer que os sonhos são como os sylphos e as
-ondinas.
-
---Louco de quem lhes magôa as azas candidas com os attritos da vida!
-
---Bem louco!... Que irresistivel tentação, que absurdo escrupulo me
-impelliu a revelar-lhe n’aquella noite fatal a historia dos meus
-amores! Soltei as avesinhas captivas, julgando que as poderia fazer
-voltar ao ninho...
-
---E ellas foram despertar com os seus cantos as irmãs adormecidas na
-minha alma. Era natural, bem vê.
-
---Como virem os gelos, e matarem-nas. Embora, continuou Alberto um
-tanto exaltado, gosei um instante de suprema ventura. Oh! antes de nos
-separarmos para sempre, diga, Margarida, diga-me que esse momento, em
-que se vae absorver e resumir todo o meu passado, ha de brilhar tambem
-como um ponto luminoso na sua vida.
-
---Sim, digo, tornei eu palpitante de commoção, e não me pejo de o
-dizer, porque vou expiar longamente esse prazer tão rapido. Entrevi de
-relance as doçuras de um vedado paraiso. Bebi com delicia criminosa o
-feiticeiro philtro das suas palavras. Não tardaram as amarguras. Estado
-tão inebriante era como esse mundo de crystal, que a phantasia de não
-sei que romancista povoou de ignotos encantamentos, de esplendidos
-prodigios; mas um bafo annuviava o ridente quadro, qualquer attrito
-o partia. Vivemos instantes no crystal, Alberto; o nosso mundo
-despedaçou-se, e os fragmentos ahi jazem dispersos. Mas crêa: sempre
-que os espinhos da realidade me ferirem em demasia, hei de volver os
-olhos enlevados para a região das fadas, onde enlaçados poisámos.
-
---Oh! não murmure ao meu ouvido, tornou Alberto, essas magicas
-palavras! Quer que nos separemos, e está entrançando de ouro e seda
-o laço, que me ha de reter captivo? A melodia da sua voz é canto
-de sereia, que me arrasta para o abysmo. Sinto que a minha alma se
-prende n’essa ineffavel seducção. Separarmo-nos! separarmo-nos agora,
-repetia elle exaltado, bem vê que é impossivel! Essa palavra destôa
-dos murmurios amorosos d’este jardim, das meigas notas da sua voz. Não
-a profira, não me quebre o encanto, deixe-me viver no crystal, como
-dizia, no crystal onde sinto repercutir-se em eccos deliciosos cada uma
-das estrophes do meu encantador poema. Não, não, não posso.
-
---Alberto, exclamei eu, o que intenta fazer? Lembre-se do que me
-prometteu, lembre-se das desgraças, de que póde ser causa este infausto
-amor.
-
---Sim, Margarida, respondeu elle apertando-me convulso as mãos,
-lembro-me de tudo, e tudo cumprirei. Mas hoje é a ultima noite que me
-resta para te ver. Lembra-te que vou, navegador infeliz, vaguear de
-novo pelo oceano sombrio da existencia, sósinho, sem uma esperança, sem
-uma estrella no céu tenebroso, ludibrio das vagas e das tempestades.
-E quando o vendaval agudo me açoitar alta noite, quando não bruxulear
-para mim no horisonte outro fanal que não seja a triste lampada do
-tumulo, não queres que eu conserve ao menos uma lembrança do radiante
-porto, da afortunada ilha onde pude repoisar por instantes a fronte
-queimada pelo sopro das procellas? Não queres que se me aclarem um
-momento as sombras, e que entre os fulgores da aurora me surja o teu
-vulto angelico, meigo e saudoso como na hora em que para sempre nos
-apartámos?
-
-E a lua, alta no céu, illuminava-lhe o rosto pallido, e incendia-lhe
-vivissimos lampejos nos olhos marejados de lagrimas. A aragem meneava
-a copa do pecegueiro, e desprendia-lhe as flores, que caíam em torno
-de nós em chuva de perfumes. Esse murmurio vago das noites de estio
-expirava ao nosso ouvido em voluptuosa melodia.
-
-Lancei a cabeça para traz, para fugir á magnetica seducção do olhar
-de Alberto. Soltou-se-me então uma trança, que a brisa trouxe logo a
-beijar-me o collo, como essas _boucles folles_ em que os francezes
-fallam.
-
---Mas o que quer? o que exige de mim? disse eu com voz tremula. Oh!
-Alberto, porque se não ausentou já?
-
---Nada quero nada, senão que se deixe estar assim, formosa incarnação
-do meu sonho mais bello! Oh! se um esculptor grego a visse, tomal-a-hia
-pela deusa da caça, nas horas em que desce ao seio dos bosques a
-procurar Endymião. Ha na sua attitude um mixto indizivel de languidez
-e de pudor, um não sei que de casta voluptuosidade, que lhe namoraria
-os olhos, como a mim m’os namora, captivando-me o espirito. És linda,
-Margarida!
-
---Alberto! interrompi eu, escondendo a fronte ruborisada nas mãos
-trementes.
-
-Elle cingiu-me com um braço, e puxando-me para si, e obrigando-me ao
-mesmo tempo com dôce violencia a reclinar o rosto, de fórma que a lua
-m’o illuminava em cheio, continuou:
-
---És linda! és linda! quero gravar bem no coração a tua imagem, as
-linhas do teu semblante, a luz do teu olhar! Quereria até poder
-captivar e reter na urna do meu peito esse perfume inebriante e
-impalpavel, que se exhala dos teus cabellos! E vou perder-te para
-sempre... para sempre... não ver-te mais, senão em sonhos. E hei de
-assim abandonar a ventura, quando a tenho nos meus braços, hei de eu
-mesmo precipitar-me das alturas do céu nas profundesas do inferno? Que
-tortura, não é?
-
---E a minha, Alberto?
-
---A tua ha de ser o desgosto que sentimos ao ver desfazer-se o devaneio
-de um instante, o desgosto da creança, quando desapparece o globo
-de agua de sabão, todo iriado e matisado de brilhantes côres pelos
-raios de sol, globo que um sopro creou e um sopro mata. Mas eu!...
-Este sonho formava parte integrante da minha existencia. Ainda que o
-julgasse irrealisavel, sempre uma vaga esperança me vinha segredar ao
-ouvido ineffaveis consolações. Mas agora, filha, agora nem isso me é
-permittido! morreu para sempre, morreu o pobre sonho, o meu constante
-companheiro, o meigo irmão da minha alma!
-
-E apertava-me convulso ao peito, e embebia nos meus os seus olhos
-desvairados. Afastava-me os cabellos da fronte com os dedos tremulos,
-e o seu bafo acariciava-me os labios, dôce e casto como o beijo de um
-anjo.
-
---E podia comtudo ser feliz, Margarida! Se calcasse aos pés as leis
-do mundo e as da honra, se te pedisse que fugissemos d’aqui para um
-recanto ignorado do mundo, onde houvesse luar, canticos e aromas!
-Para a Italia, para Napoles, á beira d’esse formoso golpho, por baixo
-d’esse céu azul, n’esse solo ardente, requeimado pela lava do Vesuvio,
-como o meu peito pela fervente lava d’este amor. Alli de todos nos
-esqueceriamos; alli podiamos prolongar infinitamente estes rapidos
-instantes. Margarida! tu não podes viver n’esta atmosphera de gelo,
-n’esta casa maldita; o teu destino é o meu, são eguaes os nossos fados.
-Vem, vem comigo, arrojemo-nos cégamente para este pelago de paixões,
-unico elemento onde póde viver o nosso espirito férvido. Vem, devoremos
-em Napoles em alguns annos uma existencia de seculos, até que morrâmos
-juntos sobre o tumulo do poeta de Dido, ou na praia sonora, onde nasceu
-o vate de Armida.
-
-E arrastava-me com impeto febril. E eu dizia-lhe:
-
---Alberto, não queiras macular o nosso tão casto sonho. Estes
-devaneios, que fórmas, bastantes vezes me acariciaram, mas repelli-os
-sempre, mas quero ainda hoje repelli-os. Amo-te, amo-te loucamente,
-hei de amar-te sempre: leva esta confissão minha para consolo dos teus
-dias attribulados. Mas a flor secca, Alberto, a flor que guardo no meu
-seio é o symbolo do nosso amor. Não tentemos dar-lhe novo perfume,
-e viço novo, á custa de um sacrilegio. O tufão da desgraça merecida
-dispersar-lhe-hia as folhas, e que dôr, que immensa dôr não seria-a
-nossa! Amo-te, Alberto, mas deixa-me fugir-te.
-
---Não! não! tornava elle, basta de vãs loucuras, de sacrificios vãos!
-És minha, só minha. Dá-me o amor sobre ti direitos inalienaveis. Se o
-remorso nos saltear, morreremos, mas morreremos juntos. Que importa?
-Morreremos enlaçados, na flôr dos annos. É esse o destino d’aquelles a
-quem ama a céu.
-
---Alberto! Alberto, o teu amor é o louco amor inspirado pelo paganismo,
-e não o que se purifica nas aras de Jesus. O amor, que triumpha sobre
-as ruinas do dever e da honra, não póde ser abençoado por Deus.
-
---Deus! se existe, não póde separar os que se amam.
-
---E o dever, e a amisade que te ligam a Claudio, e a consciencia? Oh!
-se cedesses a esta impia tentação, o teu anjo da guarda velaria com as
-mãos o rosto indignado.
-
---O meu anjo da guarda, Margarida! O meu anjo da guarda és tu!
-
---Não, Alberto, é o espirito de tua mãe!
-
-Elle parou, e soltando as mãos que me cingiam o corpo, levou-as
-aos olhos, d’onde lhe irrompia o pranto; depois, voltando a mim, e
-tomando-me a cabeça nas mãos, beijou-me os labios, dizendo-me:
-
---E tu és o anjo do sacrificio. Adeus. Adeus para sempre!
-
-E fugiu. Eu caí prostrada e soluçando aos pés da estatua. Quando
-levantei a fronte, vi deante de mim um vulto, cujo rosto estava mais
-pallido do que o marmore, que eu regara com as minhas lagrimas.
-
-Era Claudio.
-
-
-
-
- XXII
-
-
-Esta apparição, que n’outro momento me impressionaria immenso, não
-conseguiu tirar-me da lethargia, em que me prostrara a terrivel scena,
-que houvera entre mim e Alberto. Fitei um olhar estupido no rosto de
-meu marido.
-
-Annuviava-lhe a fronte uma profunda tristeza, mas nos seus olhos,
-d’onde desapparecera a vaga desconfiança que era a sua expressão
-habitual, transluzia não sei que meiga bondade, e que suavissima
-ternura.
-
-Curvou-se brandamente para mim, e disse-me com voz cheia de lagrimas:
-
---Quando me perdoará, Margarida?
-
-Eu olhei para elle com indizivel espanto, e murmurei:
-
---Perdoar-lhe eu?
-
---Oh! bem sei que sou indigno de perdão; mas quando souber quanto eu
-soffri, quando souber que diversos e innumeros golpes me alancearam
-por tão longo espaço! quando comprehender bem o meu caracter fraco,
-incerto, impellido por cada sopro extranho, cedendo machinalmente a
-qualquer influencia, talvez me desprese, mas absolva. E depois, muito
-depois, é possivel que um raio de affecto venha doirar a compaixão, que
-eu lhe inspire.
-
---Affecto! exclamei no auge da exaltação, mas não sabe que mesmo agora,
-ha um instante apenas, votei a outro homem um amor immenso e eterno?
-Não sabe que a minha alma voou para bem longe d’aqui, nos labios d’esse
-homem que m’a colheu n’um beijo? não sabe que sou uma mulher adultera,
-indigna de perdão, porque me ufano do meu crime?
-
-Um soluço doloroso, afogado na garganta fez arfar com violencia o peito
-de Claudio. Lagrimas como punhos saltaram-lhe dos olhos, e rolaram-lhe
-pelas faces lividas. Estendeu a mão como para me pedir que não
-continuasse, e esteve um instante sem poder fallar.
-
---Sei; disse por fim, sei tudo. Avisado por minha tia de que se havia
-de realisar esta entrevista, tive a fraqueza de os vir espiar. A
-inquietação e o desasocego fizeram com que me adeantasse ás horas
-marcadas. Esse caso fatal ou feliz proporcionou-me ensejo de assistir
-a uma scena que me fez soffrer o duplo tormento do ciume e do remorso.
-Pude apreciar, n’esta hora de grande provação para o seu espirito, a
-nobreza do seu caracter, de que tão indigno me tenho mostrado. Porque,
-devo confessar-lh’o, amo-a com um amor, bem que menos poetico, pelo
-menos tão grande ou maior do que a paixão, que Alberto lhe consagrou.
-
---Quem o havia de dizer? murmurei eu com dolorosa ironia.
-
---Tem rasão, tem, tornou elle sem reprimir as lagrimas. Esmague-me
-com o peso do seu odio, mas ouça-me: Educado severamente no seio
-d’uma familia de idéas acanhadas, cedo me costumei a esconder no mais
-recondito do peito os meus sentimentos, porque, se os manifestava, ia
-excitar tempestades, que me obrigavam a retratar-me de novo. Todos me
-dominavam; meus paes, e meus tios. Consideravam-me como uma creança,
-cujos maus instinctos deviam ser reprimidos, e as minhas aspirações
-para um mundo mais elevado eram castigadas como crime. Depois da morte
-de meus paes, minha tia, ainda que mais velha do que eu em poucos
-annos, continuou a exercer sobre mim um dominio indisputado. Só uma
-vez me rebellei: foi quando se tratou do meu casamento. O amor que me
-inspirara, foi mais poderoso do que o habito. Casei contra vontade
-d’ella. Vingou-se cruelmente. Preciso de lhe contar as insinuações,
-as calumnias, com que D. Antonia tentou semear a sizania entre nós
-ambos? Não, porque era repetir-lhe a dolorosa historia dos seus e
-dos meus tormentos. A timidez selvagem da minha indole impedia-me de
-provocar uma explicação, que podia pôr termo a este penoso estado. A
-desconfiança augmentava a minha reserva; a sua indifferença excitava-a
-ainda mais. Foi-se envenenando a ferida com as apparencias, cada vez
-mais illusorias. Suppuz que um outro amor lhe vendava os olhos, que não
-viam sob a minha frieza exterior o fogo da paixão. Transformou-se em
-realidade esta minha suspeita. Recresceu a minha dôr, e principalmente
-o meu desalento. Sentia-me culpado, não podia criminar a pomba, a quem
-estramalham o ninho, e que vôa tonta pelos ares e tonta vae poisar n’um
-ramo de arvore estranha. Mas apesar d’isso, uma sombria tristeza se
-apoderara de mim; torturava-me a duvida. «Serão culpados, pensava eu,
-ou resistem ao sentimento, que se lhes está apossando dos corações?»
-Ora pensava que o despeito e o desgosto a teriam levado a esse
-estado, ora acreditava que era esse um amor antigo que habilmente me
-disfarçara. Taes suspeitas alimentava-as minha tia, fazendo sobresair a
-indifferença evidente, com que me aceitara por marido.
-
---E não suspeitava, tornei amargamente, que essa indifferença, não
-era mais do que a despreoccupação da creança, que ainda não sentiu o
-amor, e cuja alma immaculada é como livro branco, prompto a receber
-as primeiras estrophes, que lhe queiram traçar nas folhas! Sempre a
-supposição mais injuriosa!
-
---Oh! perdôe-me, Margarida. Isso que me diz entreluziu-me vagamente,
-como clarão d’aurora por entre as sombras da noite. Pensei no encanto
-que teria para mim esse amor, que fosse brotando a pouco e pouco entre
-as doçuras da intimidade, cada vez mais estreita; mas as insinuações
-de D. Antonia mataram-me o devaneio, e na constrangida ligação que
-tivemos, não encontrei nunca animação para a empreza. Que funestas
-consequencias teve esse engano, em que ambos laboravamos! Os nossos
-dois corações, que talvez voassem um para o outro, assim se conservaram
-isolados, e hoje...
-
-Interrompeu-se tapando com as mãos o rosto inundado de lagrimas.
-Commoveu-me a dôr d’esse homem, que fôra a causa do meu infortunio, mas
-cuja falta era tão nobremente resgatada pela inexcedivel generosidade
-do seu procedimento.
-
---Hoje é tarde, Claudio, disse-lhe eu tomando-lhe as mãos e
-apertando-lh’as brandamente; a ferida do meu coração é muito profunda,
-e receio que nunca cicatrise. Mas descance que o não hei de torturar
-com o espectaculo dos meus tormentos. Viu que tive força bastante para
-lhe salvar a honra, tel-a-hei para lhe não perturbar a tranquillidade.
-Não lhe prometto amor, que seria enganal-o, mas affecto d’irmã, esse já
-m’o conquistou. Bem sei que é estranho este modo de fallar d’uma mulher
-a seu marido, mas á sua franqueza com igual franqueza correspondo. Se
-o destino não consentiu que se formasse entre nós uma ligação mais
-doce, vinguemo-nos dos seus golpes unindo-nos em fraternal alliança.
-Juntos resistiremos melhor aos ataques da vibora, que nos envenenou a
-existencia, e o nosso sanctuario, onde habitarão a paz e a amisade,
-não será ao menos profanado pela intriga e pela calumnia. Acceita esta
-alliança?
-
---Se acceito, Margarida! É esse o meu ideal agora, e não sou tão
-insano que faça voar mais alto a minha ambição. Está feito o mal, e se
-não tem remedio, tenha pelo menos allivio. Que balsamo mais doce podia
-eu desejar do que a sua amisade, e uma esperança... louca talvez, mas
-que lhe imploro que me deixe!
-
-Sorri-me tristemente, e não lhe respondi.
-
---Oh! exclamou elle, dando mostras da mais violenta afflicção, o
-castigo é horrivel, mas é justo. Essa esperança bem vejo que é uma
-loucura; offendi-a cruelmente, e consenti que a offendessem. Deixei
-que lançasse profundas raizes essa planta, que hoje me rouba toda a
-sua vida, todo o seu coração. A lucta é impossivel com um rival, cujo
-prestigio a ausencia augmenta e eternisa. Essa estranha fidelidade a um
-amor impossivel é digna da sua alma, e, fazendo-me soffrer, inspira-me
-admiração! Agora é que eu avalio o thesouro, que perdi, e que perdi por
-minha culpa.
-
---Claudio, meu amigo, dizia-lhe eu embaraçada e tentando acalmar
-a violencia da sua dor, não se afflija assim. É uma desgraça
-irremediavel, e... quem sabe, (se o meu amor tem tanto apreço aos seus
-olhos) quem sabe as mudanças, que o tempo pode produzir? Orgulhosa
-seria se me julgasse isenta de todas as fraquezas da humanidade! Talvez
-eu seja como tantas outras, talvez o que julgo eterno será passageiro.
-
-A custo proferia estas palavras que me saíam dos labios, não do
-coração. Eram uma impiedade, uma blasphemia, mas tambem eu não podia
-deixar soffrer um homem que já tanto soffrera por minha causa, e que
-eu via alli prostrado, desalentado, matando-lhe desapiedadamente a mais
-ligeira esperança, negando-lhe a mais innocente consolação.
-
---Pois bem, disse-me elle erguendo a cabeça, só uma coisa lhe peço, e
-espero que m’a conceda: sei que possue uma flor secca, memoria querida
-d’esse amor que tão animosamente sacrificou. Bem sei que não tenho
-direito de lh’a pedir, mas prometta-me que, no dia em que sentir um
-affecto mais suave succeder á amisade que tão cordealmente me offerece,
-me ha de entregar essa flor. Quando eu a receber saberei que estão
-coroados os meus votos, realisados os meus sonhos. Promette fazer o que
-lhe peço?
-
---Prometto, respondi, estendendo-lhe a mão; mas, meu pobre amigo,
-parece-me que a pobre flor se ha de desfolhar sobre o meu tumulo.
-
---Sobre os nossos tumulos, diga antes. Depois de ter alimentado esta
-esperança, o dia em que ella se desvanecer será o da minha morte.
-
-Emmudeci. Elle cingiu-me, para assim dizer, com um longo, terno e
-doloroso olhar, e depois, sacudindo a cabeça, como para expulsar os
-pensamentos que na mente lhe referviam, tirou o relogio da algibeira, e
-viu ao luar as horas.
-
---Duas! disse elle. Se me não engano, vamos ter novidade. Pelo que
-deduzi de algumas palavras soltas, que minha tia e a condessa trocaram
-esta noite, do facto de terem a condessa e D. Carolina voltado em
-segredo depois de haverem saido ostensivamente, e de vagas ameaças
-que minha tia me fez, quando me deu o ultimo aviso, no caso de eu
-não cumprir o grande desejo d’ella, pareceu-me que essas dignissimas
-pessoas conceberam o projecto de apparecerem de subito no jardim, para
-produzirem um escandalo, que tornasse inevitavel a nossa separação.
-E effectivamente, continuou pondo o ouvido á escuta, creio que ouço
-passos abafados como de quem toma precauções para que o não sintam.
-
-Apurei tambem o ouvido, e percebi com effeito, vagos rumores que mal se
-distinguiam do murmurio da brisa; mas, affastando levemente a cortina
-de buxo, vi scintillarem nas ruas do jardim frouxos clarões, como
-lanternas de furtafogo.
-
---Dê-me o braço, disse-me meu marido, em voz baixa.
-
-Encostei-me ao braço d’elle, e ambos nos dirigimos vagarosamente para
-uma das extremidades da rua, como se andassemos saboreando placidamente
-a frescura da noite.
-
-Tinhamos dado apenas alguns passos, quando subito, e, como se fosse a
-um signal convencionado, appareceram luzes por todas as bandas, e os
-vultos de D. Antonia, de D. Carolina, da condessa e de Maria do Rozario
-surgiram magestosamente, trazendo cada um d’esses quatro personagens um
-candieiro ou um castiçal na mão.
-
-As luzes, que tinham resguardado por baixo das capas ou dos chales,
-inundaram de fulgor a rua escassamente allumiada pelo luar, e, batendo
-em cheio na estatua, cingiram-na com esplendido manto.
-
-Um passarinho, adormecido na espessura, despertou saudando esta
-ficticia aurora. Eu e Claudio parámos tranquillamente relanceando os
-olhos com espanto comico para os quatro actores, que tinham entrado em
-scena, e que nos miravam estupefactos.
-
---O que é isto? perguntou Claudio desfechando uma sonora gargalhada.
-Temos scena final de melodrama? Abre-se a porta do fundo, e apparece o
-tyranno, rodeado de soldados e de luzes?
-
---Caso de grande monta deve ser, acudi eu logo, porque vejo aqui a
-senhora condessa e a senhora D. Carolina, que a estas horas julgava que
-dormiam muito socegadas nas suas camas!
-
-Ellas não diziam palavra, mas voltavam os olhos pasmados, ora umas
-para outras, ora para nós. Era tão comico o seu desapontamento que eu
-desatei a rir.
-
-A D. Antonia parece que trazia o discurso estudado, porque não o quiz
-perder de todo, e ainda principiou:
-
---Minha sobrinha... aqui... a estas horas...
-
---A passear comigo, acudio Claudio, então que tem? A tia parece-me
-somnambula!
-
---E estão sós? exclamou levianamente a condessa.
-
---Pois com quem haviamos de estar? continuou elle. Vossa excellencia
-esperava aqui alguem, ou alguem lhe prometteu vir aqui esperal-a? Nada,
-estamos sós, e devemos confessar que não contavamos ser surprehendidos.
-Andavamo-nos deliciando com as frescas emanações de uma noite de
-estio. N’estas noites foge-nos o somno das palpebras, e reconhece-se a
-verdade do que diz um poeta francez:
-
- _On ne dort qu’à demi d’un sommeil transparent_
-
-D’esta vez todas nós olhámos estupefactas para Claudio; nunca o
-tinhamos visto tão expansivo. Parecia que o jubilo, innundando-lhe o
-coração, lhe trasbordava em torrentes de palavras. O meu amor proprio
-não podia deixar de ser affagado um pouco pela idéa de que só uma
-levissima esperança pudera transformar o caracter de meu marido.
-
-Comtudo a posição estava sendo ridicula para os quatro conspiradores.
-Era preciso sairem d’ella a todo o custo. Encarregou-se de preparar
-uma retirada airosa a fertil imaginação de Carolina. Improvisou
-uma historia de ladrões, que as tinham assustado ao irem para suas
-casas, motivo por que tinham voltado para traz: explicou a sua visita
-ao jardim pelo desejo de lhe explorarem os meandros a fim de se
-certificarem que não havia homens escondidos n’algum canto.
-
-Ouvi esta historia com um sorriso nos labios, Claudio com ironica
-attenção, interrompendo-a a cada passo com exclamações de zombeteiro
-espanto.
-
-Quando ella acabou, não pude deixar de dizer, sorrindo:
-
---São poetas os bandidos! Escolhem noites de luar, claras e
-transparentes, para fazerem as suas excursões! Estou que, antes de nos
-roubarem, não haviam deixar de nos dar uma serenata.
-
---É possivel, respondeu ella amargamente, em todo o caso não seria eu
-quem a ouvisse.
-
---Com muita pena sua, não é verdade, senhora D. Carolina?
-
-Não me respondeu. Entretanto travara-se um dialogo em voz baixa entre
-Claudio e D. Antonia. Só pude perceber as ultimas palavras:
-
---Has de sempre ser um tolo, Claudio, dizia-lhe ella.
-
---Favores, tia, favores seus. Mas olhe que estou sendo agora tolo... e
-teimoso!
-
-D. Antonia ergueu ao céu os olhos lacrymosos, e preparou-se para ter um
-ataque de nervos. Mas lembrou-se que estava o chão do jardim humido com
-o orvalho que principiava a cair, e houve por bem adial-o para outra
-occasião.
-
-Todas quatro se retiraram para casa, justificando um proverbio
-portuguez muito conhecido, que diz respeito aos tosquiadores de lã.
-
-Nós seguimol-as de longe, com passos vagarosos, indo eu encostada ao
-braço de meu marido. A lua brilhava serena e limpida no firmamento
-azul, e a aragem, meneando a copa do pecegueiro e as corollas das
-rosas, colhia perfumes, que pagava com murmurios.
-
- * * * * *
-
-Passado um mez, partiamos, eu e meu marido, para uma viagem na Europa.
-Era este o unico meio de nos esquivarmos ás iras de D. Antonia, e de
-fugirmos ás pungentes recordações que despertava no nosso espirito cada
-sitio onde tinhamos passado uma existencia attribulada.
-
-A imagem pensativa de Alberto não me deixou um instante só, durante
-os dois primeiros annos da nossa excursão. Visitou comigo Pompeia,
-a resurgida cidade; Napoles, a voluptuosa; Palermo, a afortunada;
-a historica Roma; a artistica Florença; a aristocratica Genova; a
-melancholica Veneza; Milão, berço da moderna poesia italiana; Turin,
-berço da liberdade. Saimos da Italia, e percorremos a Allemanha. Ahi
-a imagem de Alberto interpoz-se menos vezes a mim e ás paizagens
-grandiosas, aos castellos gothicos e ás floridas cathedraes do Rheno.
-Muitas vezes, meu marido, quando a conversação entre nós ambos se
-tornava mais expansiva, me perguntava o que era feito da flor secca.
-Mas eu descorava, apertava-lhe a mão e ficava silenciosa. Salteava-o
-então dolorosa melancholia, e estava longas horas sem proferir palavra.
-
-Comtudo haviamos percorrido juntos a Allemanha toda, e passavamos
-a França, quando em Colonia nos vimos forçados a parar por minha
-causa. Ahi dei uma filha a Claudio. Não posso pintar o seu jubilo!
-Eu sentia-me tão feliz por ser mãe, contemplava tão enlevada os
-olhos azues e as faces mimosas da minha filhinha, que, vendo Claudio
-debruçado sobre o berço com o mesmo enlevo, cheguei a pensar que o amor
-antigo desapparecera afinal, e que essa creança fôra o anjo, enviado
-por Deus para enlaçar os nossos dois corações, lacerados por tantos
-martyrios.
-
-Por isso uma noite, em que ambos miravamos a creança, deitada no berço,
-e que olhava para nós com os seus grandes olhos pasmados e vagos, e
-levantava para mim as suas mãosinhas brancas como brancos lyrios,
-pareceu-me ouvir a voz de Deus, que me ordenava que completasse o
-sacrificio, principiado havia tres annos.
-
-Tirei a flor secca do peito, e deixei-a cair no berço da nossa filha.
-Claudio soltou um grito de jubilo, caiu-me aos pés banhado em lagrimas.
-N’esse instante fui verdadeiramente feliz.
-
-Ai! devo confessal-o? passou rapido esse momento. Assomou-me de novo
-na phantasia o vulto de Alberto, chamado pelos remorsos que sentia,
-de ter trahido o juramento que lhe fizera. E depois, meu marido tinha
-um coração excellente... mas aquelle nobre typo de Alberto possuia um
-inexcedivel prestigio.
-
-Voltámos a Portugal. Tornámos a ver a nossa casa da Cruz das Almas, e a
-nossa quinta de Bellas. Em todos esses sitios me esperavam milhares de
-recordações, emboscadas nas ramarias das arvores, aninhadas no teclado
-do piano!
-
-Indaguei por intermedio de Theodoro Leite a quem meu marido, antes de
-se ausentar, assegurara uma posição independente, o que fôra feito de
-Alberto. Soube que partira para as possessões de Africa occidental, com
-um emprego na administração. Póde-se isto considerar um verdadeiro
-suicidio. Resistirá a sua organisação tão delicada áquelle mortifero
-clima?
-
-Redobrou com estas noticias a minha tristesa, tristesa que me vae
-matando, pela necessidade que tenho de a disfarçar. A minha consolação
-unica é minha filha. Vejo crescer aquella formosa flor confiada aos
-meus disvellos, e peço a Deus que a preserve dos ventos frios, e das
-geadas que me mataram o viço.
-
-Ás vezes quando vejo passar D. Antonia com os mesmos modos
-pretenciosos, o mesmo olhar onde transparece a mesma ironia parva,
-fuzila-me nos olhos um sentimento de odio. Não, mil vezes não: nunca
-teria pensado em Alberto, se não fosse a teima de D. Antonia em me
-attribuir maus pensamentos.
-
-Felizmente agora já me não póde fazer mal. A intimidade affectuosa que
-existe entre mim e meu marido é solido broquel, onde se partem todas as
-settas, que ella nos dirige. Mas que importa que se esmague a serpente
-com o pé, se ella já pôde morder, e entornar a peçonha na ferida? A
-victima vae definhando a pouco e pouco, até cair prostrada no regaço
-consolador do anjo da morte.
-
-
- FIM
-
-
-
-
- Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA
-
- VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS
-
- DAS
-
- LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS
-
- Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc.
-
- Volumes in-8.º de 160 a 240 paginas, em corpo 8 ou 10, excellente
- edição, em optimo papel, elegantemente encadernado em percalina.
-
-
- Volumes publicados
-
- 1--Tristezas á beira-mar, por Pinheiro Chagas.
- 2--Contos ao luar, por Julio Cesar Machado.
- 3--Carmen, trad. de M. Level.
- 4--A Feira de Paris, por Iriel.
- 5--O direito dos filhos, por George Ohnet.
- 6--John Bull e a sua ilha, trad. de P. Chagas.
- 7--Esgotado.
- 8--A lenda da meia noite, por M. Pinheiro Chagas.
- 9--A joia do vice-rei, por P. Chagas.
- 10--Vinte annos de vida litteraria, por A. Pimentel.
- 11--Honra d’artista, trad. de P. Chagas.
- 12--Esgotado.
- 13 e 14--A aventura d’um polaco, trad. de Maria A. Vaz de Carvalho.
- 15--Os contos do Tio Joaquim, por R. Paganino.
- 16--Esgotado.
- 17--Noites de Cintra, por Alberto Pimentel.
- 18 e 19--Esgotado.
- 20 e 21--A irmã da caridade, por Emilio Castellar, trad. de L. Q.
- Chaves.
- 22--Migalhas de historia portugueza, por P. Chagas.
- 23--Esgotado.
- 24--Contos, por Affonso Botelho.
- 25--Esgotado.
- 26--O mysterio da estrada de Cintra, por Eça de Queiroz e R. Ortigão.
- 27--O naufragio de Vicente Sodré, por Pinheiro Chagas.
- 28--Vida airada, por Alfredo Mesquita.
- 29--O bacharel Ramires, por Candido de Figueiredo.
- 30 e 31--Amor á antiga, por Caïel.
- 32--As netas do Padre Eterno, por A. Pimentel.
- 33--Contos, por Pedro Ivo.
- 34--O correio de Lyão, por Pierre Zaccone.
- 35--Vida de Lisboa, por Alberto Pimentel.
- 36--Historias de frades, por Lino d’Assumpção.
- 37--Obras primas, por Chateaubriand.
- 38--O exilado, por Mauricia C. de Figueiredo.
- 39--Poema da Mocidade, por Pinheiro Chagas.
- 40 e 41--A vida em Lisboa, por Julio Cesar Machado.
- 42 e 43--Espelho de portuguêses, por Alberto Pimentel.
- 44--A fada d’Auteuil, trad. de Pinheiro Chagas.
- 45--A volta do Chiado, por E. de Barros Lobo.
- 46--Séca e Méca, por Lino d’Assumpção.
- 47--Ninho de guincho, por Alberto Pimentel.
- 48--Vasco, por A. Lobo d’Avila.
- 49--Leituras ao serão, por A. X. Rodrigues Cordeiro.
- 50--Luz coada por ferros, por D. Anna A. Placido.
- 51--A flôr sêcca, por P. Chagas.
- 52--Relampagos, por Armando Ribeiro.
- 53--Historias rusticas, por Virgilio Varzea.
- 54--Figuras humanas, por Alberto Pimentel.
- 55--Dolorosa, por Francisco Acebal, trad. de Caïel.
- 56--Memorias de um fura-vidas, por A. de Mesquita.
- 57--Dramas da côrte, por Alberto de Castro.
- 58--Os mosqueteiros d’Africa, por Mendes Leal.
- 59--A divorciada, por José Augusto Vieira.
- 60--Phototypias do Minho, por J. Augusto Vieira.
- 61--Insulares, por Moniz de Bettencourt.
- 62 e 63--Historia da civilisação na Europa, trad. do Marquez de Sousa
- Holstein.
- 64--Triplice alliança, de Raul de Azevedo.
- 65--Retalhos de verdade, por Caïel.
- 66--A pasta d’um jornalista, pelo Visconde de S. Boaventura.
- 67--Os argonautas, por Virgilio Varzea.
- 68--Fitas de animatographo, por Alberto Pimentel.
- 69 e 70--Poesias do Abbade de Jazente, annotadas por Julio de
- Castilho.
- 71--Aspectos e sensações, de Raul d’Azevedo.
- 72--Contos e narrativas, por P. W. de Brito Aranha.
- 73--Quadros e letras, historias e romancêtes, por Sanches de Frias.
- 74--Individualidades, por Henrique das Neves.
- 75--Alfacinhas, por Alfredo de Mesquita.
- 76--Patria amada, pelo Visconde de S. Boaventura.
- 77--Historias e romancêtes, por Sanches de Frias.
- 78--Esbocetos individuaes, por Henrique das Neves.
- 79--Recordações da mocidade, por Adolpho Loureiro.
- 80--Sorrisos, novellas e chronicas, por A. Campos.
- 81--Lucta de sentimentos, por Maria O’Neill.
- 82--Do Rocio ao Chiado, por P. de Vasconcellos.
- 83--A dança do destino, por Luthgarda de Caires.
- 84--Um drama de ciume, por Maria O’Neill.
- 85 e 86--Resumo da origem de todos os cultos, por C. F. Dupuis.
- 87--Vencido, romance por F. A. M. de Faria e Maia.
- 88--Elogio da loucura, critica de costumes, por Erasmo.
-
-
-
-
- OUTRAS OBRAS
-
-
-Azevedo (Domingos de)
-
- Diccionario (Grande) contemporaneo francez-portuguez e v. v. No prelo
- a 2.ª edição, muito correcta e extremamente augmentada, enc. 12$000 rs.
-
- Grammatica da lingua franceza, enc. 1$200 rs.
-
- Grammatica Nacional, para aprender portuguez sem mestre, enc. 2$000 rs.
-
- Lições praticas de conversação franceza, enc. 500 rs.
-
- Ollendorff aperfeiçoado para aprender francez sem mestre, (2 vol.),
- enc. 3$000 rs.
-
-
-Carvalho (D. Maria Amalia Vaz de)
-
- Ao correr do tempo, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
-
- Arte de viver na sociedade, br. 1$000 rs., enc. 1$800 rs.
-
- Aventura de um polaco, (2 vol.), br. 600 rs., enc. 1$000 rs.
-
- Cartas a uma noiva, br. 900 rs., enc. 1$300 rs.
-
- Cerebros e corações, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
-
- Chronicas de Valentina, br. 900 rs., enc. 1$300 rs.
-
- Coisas d’agora, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
-
- Contos e phantasias, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
-
- Em Portugal e no estrangeiro, br. 1$000 rs., enc. 1$400 rs.
-
- Figuras de hoje e de hontem, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
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- Heroismo do clero, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
-
- Impressões de historia, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
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- No meu cantinho, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
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- Nossas filhas, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
-
- Pelo mundo fóra, br. 650 rs., enc. 1$050 rs.
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- Raphael, trad. de Lamartine, (ed. de luxo), enc. 3$600 rs.
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- Pinto (Silva)
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- (COLLECÇÃO D’ALGIBEIRA)
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-A 650 rs. br. e 1$000 rs. enc.
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- A queimar cartuchos.
- A torto e a direito.
- Ao correr do pello.
- Entre nós.
- Frente a frente.
- Moral de João Braz.
- Mundo (O) furta-côres.
- Na Procella.
- Na travessia.
- N’este valle de lagrimas.
- No colyseu.
- No mar morto.
- Para o fim.
- Philosophia de João Braz.
- Por este mundo.
- Riso amarello.
- Rompendo o fogo.
- Velha historia.
-
-
-Queiroz (Dr. Teixeira de)
-
- Amores... amores..., br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
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- Arvoredos, br. 1$000 rs., enc. 1$300 rs.
-
- Cantadeira (A), br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
-
- Caridade (A) em Lisboa, (2 vol.), br. 1$200 rs., enc. 2$000 rs.
-
- Cartas d’amor, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
-
- D. Agostinho, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
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- Morte de D. Agostinho, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
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- Noivos (Os), (2 vol.), br. 1$200 rs., enc. 2$000 rs.
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- Nossa (A) gente, br. 650 rs., enc. 1$050 rs.
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- Sallustio Nogueira, (2 vol.), br. 1$200 rs., enc. 2$000 rs.
-
- Amor Divino, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
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- Famoso Galrão, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
-
- Ao sol e á chuva, br. 750 rs., enc. 1$150 rs.
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-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A FLOR SECCA ***
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-Archive Foundation
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- A Flor Secca, by M. Pinheiro Chagas—A Project Gutenberg eBook
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-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>A flor secca</span>, by Manuel Pinheiro Chagas</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
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-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
-at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you
-are not located in the United States, you will have to check the laws of the
-country where you are located before using this eBook.
-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>A flor secca</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Manuel Pinheiro Chagas</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: November 14, 2022 [eBook #69353]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: The Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by The Internet Archive)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A FLOR SECCA</span> ***</div>
-
-
-
-
-<h2>OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO</h2>
-<hr class="r5">
-<p class="center">Edição popular das suas principaes obras em 80 volumes
-in-8.º, de 200 a 300 paginas
-impressa em bom papel, typo elzevir</p>
-
-<hr class="r5">
-
-
-<p class="poetry">
-1—Coisas espantosas.<br>
-2—As tres irmans.<br>
-3—A engeitada.<br>
-4—Doze casamentos felizes.<br>
-5—O esqueleto.<br>
-6—O bem e o mal.<br>
-7—o senhor do Paço de Ninães.<br>
-8—Anathema.<br>
-9—A mulher fatal.<br>
-10—Cavar em ruinas.<br>
-11 e 12—Correspondencia epistolar.<br>
-13—Divindade de Jesus.<br>
-14—A doida do Candal.<br>
-15—Duas horas de leitura.<br>
-16—Fanny.<br>
-17, 18 e 19—Novellas do Minho.<br>
-20 e 21—Horas de paz.<br>
-22—Agulha em palheiro.<br>
-23—O olho de vidro.<br>
-24—Annos de prosa.<br>
-25—Os brilhantes do brasileiro.<br>
-26—A bruxa do Monte-Cordova.<br>
-27—Carlota Angela.<br>
-28—Quatro horas innocentes.<br>
-29—As virtudes antigas.<br>
-30—A filha do Doutor Negro.<br>
-31—Estrellas propicias.<br>
-32—A filha do regicida.<br>
-33 e 34—O demonio do ouro.<br>
-35—O regicida.<br>
-36—A filha do arcediago.<br>
-37—A neta do arcediago.<br>
-38—Delictos da mocidade.<br>
-39—Onde está a felicidade?<br>
-40—Um homem de brios.<br>
-41—Memorias de Guilherme do Amaral.<br>
-42, 43 e 44—Mysterios de Lisboa.<br>
-45 e 46—Livro negro de padre Diniz.<br>
-47 e 48—O judeu.<br>
-49—Duas épocas da vida.<br>
-50—Estrellas funestas.<br>
-51—Lagrimas abençoadas.<br>
-52—Lucta de gigantes.<br>
-53 e 54—Memorias do carcere.<br>
-55—Mysterios de Fafe.<br>
-56—Coração, cabeça e estomago.<br>
-57—O que fazem mulheres.<br>
-58—O retrato de Ricardina.<br>
-59—O sangue.<br>
-60—O santo da montanha.<br>
-61—Vingança.<br>
-62—Vinte horas de liteira.<br>
-63—A queda d’um anjo.<br>
-64—Scenas da Foz.<br>
-65—Scenas contemporaneas.<br>
-66—O romance d’um rapaz pobre.<br>
-67—Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado.<br>
-68—Noites de Lamego.<br>
-69—Scenas innocentes da comedia humana.<br>
-70 e 71—Os Martyres.<br>
-72—Um livro.<br>
-73—A Sereia.<br>
-74—Esboços de apreciações litterarias.<br>
-75—Cousas leves e pesadas.<br>
-76—<span class="smcap">Theatro</span>: I—Agostinho de Ceuta.—O marquez de Torres-Novas.<br>
-77—<span class="smcap">Theatro</span>: II—Poesia ou dinheiro?—Justiça.—Espinhos e flôres.—Purgatorio e Paraizo.<br>
-78—<span class="smcap">Theatro</span>: III—O Morgado de Fafe em Lisboa.—O Morgado de Fafe amoroso.—O ultimo acto.—Abençoadas lagrimas!<br>
-79—<span class="smcap">Theatro</span>: IV—O condemnado.—Como os anjos se vingam.—Entre a flauta e a viola.<br>
-80—<span class="smcap">Theatro</span>: V—O Lobis-Homem.—A Morgadinha de Val-d’Amores.<br>
-</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="CAMILLIANA">CAMILLIANA</h2>
-</div>
-
-<hr class="r5">
-<p><b>Camillo Castello Branco</b>—<i>Notas á margem em varios livros
-da sua biblioteca</i>, recolhidas por Alvaro Neves.—1 vol.
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-da 1.ª edição de 1852, hoje rarissima. Tiragem 60 ex.,
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-Reprodução como acima da 1.ª edição de 1845. Tambem rarissima.
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-
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-</div>
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-<p class="center">VOLUMES PUBLICADOS</p>
-
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-<p>1—Aventuras prodigiosas de
-Tartarin de Tarascon, seguidas
-de Tartarin nos Alpes,
-por A. Daudet.</p>
-
-<p>2—Esgotado.</p>
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-<p>3—Sergio Panine, por Jorge
-Ohnet.</p>
-
-<p>4—Esgotado.</p>
-
-<p>5—Soror Philomena, por
-Edmond e J. Goncourt.</p>
-
-<p>6—Esgotado.</p>
-
-<p>7—Os milhões vergonhosos,
-por Heitor Malot.</p>
-
-<p>8—Esgotado.</p>
-
-<p>9—Esgotado.</p>
-
-<p>10—Esgotado.</p>
-
-<p>11—Esgotado.</p>
-
-<p>12—Esgotado.</p>
-
-<p>13—Um coração de mulher, por
-Paul Bourget.</p>
-
-<p>14—Esgotado.</p>
-
-<p>15—Esgotado.</p>
-
-<p>16—Esgotado.</p>
-
-<p>17—Esgotado.</p>
-
-<p>18—O ultimo amor, por Ohnet.</p>
-
-<p>19—Um bulgaro, por Ivan Tourgueneffe.</p>
-
-<p>20—Memorias d’um suicida,
-por Maxime du Camp.</p>
-
-<p>21—Esgotado.</p>
-
-<p>22—Esgotado.</p>
-
-<p>23—Camilla, por G. Ginisty.</p>
-
-<p>24—Trahida, por Maxime Paz.</p>
-
-<p>25—Sua Magestade o Amor,
-por A. Belot.</p>
-
-<p>26—Esgotado.</p>
-
-<p>27—Os reis no exilio, por A.
-Daudet.</p>
-
-<p>28—Esgotado.</p>
-
-<p>29—Mentiras, por Paul Bourget.</p>
-
-<p>30—Marinheiro, por Pierre Loti.</p>
-
-<p>31—Esgotado.</p>
-
-<p>32—A Evangelista, por Daudet.</p>
-
-<p>33—Aranha vermelha, por R.
-de Pent Jest.</p>
-
-<p>34 e 35—Esgotado.</p>
-
-<p>36—Parisienses!... por H. Davenel.</p>
-
-<p>37—Ao entardecer!... por Iveling
-Rambaud.</p>
-
-<p>38—A confissão de Carolina,
-trad. de J. Sarmento.</p>
-
-<p>39—Esgotado.</p>
-
-<p>40—Esgotado.</p>
-
-<p>41—O abbade de Faviéres, por
-J. Ohnet.</p>
-
-<p>42—Esgotado.</p>
-
-<p>43—Esgotado.</p>
-
-<p>44—A nihilista, por C. Mendés.</p>
-
-<p>45—Esgotado.</p>
-
-<p>46—Morta de amor, por Delpit.</p>
-
-<p>47—João Sbogar, por C. Nadier.</p>
-
-<p>48—Viagem sentimental, por
-Sterne.</p>
-
-<p>49—O milhão do tio Raclot,
-por Emile Richebourg.</p>
-
-<p>50—A confissão de um rapaz do
-seculo, por Musset.</p>
-
-<p>51—Esgotado.</p>
-
-<p>52—O castello de Lourps, por
-J. K. Huysmans.</p>
-
-<p>53—Amor de Miss, por J. Blain.</p>
-
-<p>54—A sogra, por Laforest.</p>
-
-<p>55—Colomba, por P. Merimée.</p>
-
-<p>56—Katia, por L. Tolstoï.</p>
-
-<p>57—Alma simples, por Dostoiewsky.</p>
-
-<p>58—Duplo amor, por Rosny.</p>
-
-<p>59—Contos fantasticos, por Hoffmann.</p>
-
-<p>60—A princeza Maria, por Lermontoff.</p>
-
-<p>61—Rosa de maio, por Armand
-Silvestre.</p>
-
-<p>62—Esgotado.</p>
-
-<p>63—O romance do homem amarello,
-pelo general Tcheng-Ki-Tong.</p>
-
-<p>64—A dama das violetas, por
-F. Guimarães Fonseca.</p>
-
-<p>65 &amp; 66—Nemrod &amp; C.ª, por
-Jorge Ohnet.</p>
-
-<p>67—Prisma de amor, por Paul
-Bonhomme.</p>
-
-<p>68—Historia d’uma mulher,
-por Guy de Maupassant.</p>
-
-<p>69 &amp; 70—Educação sentimental,
-por G. Flaubert.</p>
-
-<p>71—Depois do amor, por Ohnet.</p>
-
-<p>72—A fava de Santo Ignacio,
-por Alexandre Pothey.</p>
-
-<p>73 &amp; 74—O herdeiro de Redclyffe,
-por Mrs. Yongue.</p>
-
-<p>75—Uma ondina, por Theuriet.</p>
-
-<p>76—A familia Laroche, por
-Marguerite Sevray.</p>
-
-<p>77—As grandes lendas da humanidade,
-por d’Humive.</p>
-
-<p>78 &amp; 79—A filha do Dr. Jaufre,
-por Marcel Prevost.</p>
-
-<p>80—A dama das camelias, por
-A. Dumas, Filho.</p>
-
-<p>81—Dezeseis annos..., por F.
-C. Philips.</p>
-
-<p>82 &amp; 83—O Desthronado, por
-A. Ribeiro.</p>
-
-<p>84—Ninho d’amor, por A. Campos.</p>
-
-<p>85—Bodas Negras, por Almachio
-Diniz.</p>
-
-<p>86—Do amor ao crime, por Alphonse
-Karr.</p>
-
-<p>87—A ilha revoltada, por Ed.
-Lockroy.</p>
-</div>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img001">
-<img src="images/001.jpg" class="w10" alt="Imagem decorativa">
-</span></p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="COLLECCAO_ANTONIO_MARIA_PEREIRA-51_Volume">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA—51.º Volume</h2>
-</div>
-<hr class="r5">
-<p class="center xbig">A FLOR SECCA</p>
-
-
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p class="center bt bb">
-COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA<br>
-</p>
-<h1>
-A FLOR SECCA</h1>
-<p class="center big">
-ROMANCE<br>
-</p>
-<p class="center small p2">
-POR<br>
-<br>
-<span class="big">M. PINHEIRO CHAGAS</span><br>
-</p><hr class="r5">
-<p class="center">
-SEGUNDA EDIÇÃO<br>
-</p><hr class="r5">
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-<i>Rua Augusta, 50, 52 e 54</i><br>
-1904<br>
-</p>
-</div>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p class="center p4">
-LISBOA<br>
-<span class="smcap">Officinas Typographica e de Encadernação</span><br>
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-1904<br>
-</p>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="A_JULIO_CESAR_MACHADO">A JULIO CESAR MACHADO</h2>
-</div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="MEU_CARO_JULIO">MEU CARO JULIO</h2>
-</div>
-
-
-<p>Aqui vem collocar-se debaixo da tua protecção
-um livro que te é offerecido por aquelle
-timido rapaz, que te foi procurar ha tres annos,
-para te ler uns versos, que tu acolheste
-tão benevolamente, e a quem fizeste n’um dos
-teus deliciosos folhetins uns prognosticos tão
-lisongeiros. Não sei se a tua prophecia está
-em caminho de se realisar; sei que o teu protegido
-entrou na carreira litteraria, cujas portas
-lhe abriste doirando-lh’as com a luz já então
-prestigiosa da tua gloria, enflorando-lh’as
-com as grinaldas sempre viçosas do teu talento;
-sei que seguiu essa estrella fatal, a cuja
-influencia não póde eximir-se mais quem se
-deixou arrastar pelo seu magnetico fulgor; sei
-que, desejando mostrar-te a sincera amizade
-que te votou, e a gratidão que sente pelo benevolo
-acolhimento que outr’ora lhe fizeste, e
-pelas provas de constante estima que lhe tens
-dado, vem dedicar-te um dos pobres livros
-que é agora destino seu arrojar á voragem da
-publicidade.</p>
-
-<p>Acolhe-o bem. Elle pouco vale. Sei que te
-poderia e deveria talvez offerecer flor mais
-fragrante do que esta pobre <i>Flor Secca</i>, secca
-e sem perfume como a phantasia as produz
-emquanto a mão insaciavel do jornalismo as
-arranca sem descançar da hastea. Mas grassa
-actualmente na nossa litteratura uma tal epidemia
-de odiosinhos e invejas, de cumprimentos
-feitos cara a cara compensados por insultos
-escondidos na sombra, que tive pressa de
-te dizer bem alto deante de amigos e inimigos
-que me ufano de prestar publicamente homenagem
-ao teu talento, um dos mais sympathicos
-da nossa terra, e ao teu caracter, um dos
-mais nobres e leaes que tenho encontrado na
-minha carreira litteraria.</p>
-
-<p class="right">
-PINHEIRO CHAGAS.<br>
-</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_9">[Pg 9]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="I">I</h2>
-</div>
-
-
-<p>Tinha eu dezoito annos. Estava uma noite n’um
-baile em casa do conde de C... Acabara de valsar,
-e, toda offegante, vermelha e risonha, sentara-me
-na primeira cadeira que se me deparara, compondo
-o cabello, que se desarranjara no rapido voltear,
-quando meu pae se approximou de mim, acompanhado
-por um rapaz de vinte e cinco para vinte e
-seis annos.</p>
-
-<p>—Margarida, disse-me elle, estendendo a mão
-para o seu companheiro, que se curvou gravemente
-deante de mim, tenho a honra de te apresentar o
-senhor Claudio da Cunha, proprietario e meu amigo.</p>
-
-<p>Claudio da Cunha fez-me de novo um grave cumprimento.</p>
-
-<p>—Senhor Claudio da Cunha, continuou meu pae,
-voltando-se para elle, e indicando-me com o gesto,
-apresento-lhe minha filha, D. Margarida da Silveira.</p>
-
-<p>Estendi-lhe com desembaraço a mão encerrada
-na luva de pellica branca, e disse-lhe:</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_10">[Pg 10]</span></p>
-
-<p>—Estimo immenso conhecel-o; os amigos de
-meu pae teem sempre direito á minha affeição.</p>
-
-<p>—Travem n’esse caso conhecimento mais intimo,
-acudiu meu pae, sorrindo-se mysteriosamente e affastando-se.</p>
-
-<p>Havia ao meu lado uma cadeira vaga. O meu novo
-conhecido desviou-a um pouco, porque estava perfeitamente
-unida á minha cadeira, e sentou-se n’ella.</p>
-
-<p>Emquanto fazia tudo isto grave e pausadamente,
-relanceei os olhos para elle, e com esta rapidez de
-observação, que Deus concedeu ás pessoas do nosso sexo,
-pude n’esse instante formar tão perfeita
-idéa d’elle como se o houvera comtemplado e analysado
-duas horas.</p>
-
-<p>Claudio era, o que se póde chamar, um bonito
-homem. Alto, branco, de feições extremamente regulares,
-de olhos rasgados e azues, mas de um azul
-frio e sem expressão. Não tinham nem o brilho vivo
-e intenso d’esses olhos de um azul faiscante, se
-assim me posso exprimir, cuja côr parece o azulado
-reflexo que scintilla na plumagem negra do corvo,
-nem a meiga e melancholica limpidez do colorido
-dos lagos, que espelham no seu cristal o azul
-do firmamento. Tinha os olhos azues, porque as
-leis da optica exigem implacavelmente que os olhos
-tenham uma côr qualquer, e o acaso fizera que o
-azul competisse aos de Claudio da Cunha. Se fosse
-possivel dispensar-se condição por tal fórma essencial,
-estou convencida que aproveitariam com avidez
-essa isenção, e ficariam sem côr, como já estavam
-sem brilho.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_11">[Pg 11]</span></p>
-
-<p>Haviamos apenas trocado algumas banalidades
-preliminares, quando romperam na orchestra os primeiros
-compassos de uma polka ingleza. A tal convite
-nunca eu soubera resistir.</p>
-
-<p>Olhei para Claudio, indicando-lhe claramente
-n’esse olhar que esperava que me tirasse para seu
-par na polka.</p>
-
-<p>O meu visinho não mostrou comprehender a intenção,
-que se lia nos meus olhos.</p>
-
-<p>—Não dança? aventurei-me eu a dizer, vendo a
-sua immobilidade.</p>
-
-<p>—Não, minha senhora, respondeu elle gravemente.</p>
-
-<p>Encolhi imperceptivelmente os hombros; uma
-creatura humana, e de mais a mais na flor da idade,
-que não dançava, era para mim uma d’estas
-monstruosidades incomprehensiveis, que a Providencia
-ás vezes phantasia n’uma das suas horas de
-mau humor.</p>
-
-<p>Por isso acolhi com jubilo um dos mais infatigaveis
-dançadores do baile, que veiu, com o sorriso
-nos labios, e com o rosto ainda humido do suor da
-valsa, convidar-me para uma polka ingleza.</p>
-
-<p>Levantei-me, puz-lhe logo a mão no hombro, esperei,
-batendo o compasso com o meu sapatinho de
-setim, que a musica nos désse occasião para nos
-arrojarmos ao vortice delicioso, e, leve como um
-passarinho, segura na cinta pela mão do meu par,
-comecei a descrever á roda da sala um d’esses airosos
-giros que tanto me enlevavam.</p>
-
-<p>Confesso que nunca mais pensei em Claudio da<span class="pagenum" id="Page_12">[Pg 12]</span>
-Cunha. Ás contradanças succederam as polkas, ás
-polkas as valsas, e, toda entregue a tão fervente
-prazer, esqueci essa especie de visão da prosa, que
-interrompera por instantes a delirante poesia do meu
-baile.</p>
-
-<p>O que não impediu que, ás tres horas da manhã,
-depois da mamã me ter feito signal que se retirava,
-quando, ao estarmos pondo as capas, veio Claudio
-da Cunha pedir as nossas ordens, e sollicitar licença
-para ir no dia seguinte a nossa casa apresentar-nos
-os seus cumprimentos, o que não impediu, repito,
-que o recebesse com um sorriso muito amavel,
-e lhe apertasse francamente a mão, que elle me
-estendeu com a sua habitual gravidade.</p>
-
-<p>—Que tal te pareceu Claudio da Cunha? perguntou
-minha mãe sorrindo-se, quando íamos descendo
-as escadas do palacio.</p>
-
-<p>—Pareceu-me bem, respondi eu, porque?</p>
-
-<p>—É o noivo que te destinâmos, tornou minha
-mãe, inclinando-se um pouco para o meu ouvido.</p>
-
-<p>—Ah! redargui eu distraidamente.</p>
-
-<p>Foi assim, entre uma polka e uma valsa, que
-travei conhecimento com meu marido.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_13">[Pg 13]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="II">II</h2>
-</div>
-
-
-<p>Esse <i>Ah</i> indifferente, com que eu acolhi uma noticia
-tão importante, merece e vae ter uma explicação.</p>
-
-<p>Chegára aos dezoito annos, e ainda não conhecera
-o amor, nem procurara conhecel-o. Frieza de organisação?
-perguntam-me. Pelo contrario, demasiado
-ardor.</p>
-
-<p>Imaginem uma creança, cuja phantasia devaneava
-sempre sonhos de ouro, terras encantadas das <i>Mil
-e uma noites</i>, choréas de brancas fadas, vultos ideaes
-e vaporosos, ignotas melodias, ineffaveis extasis, anjos
-de azas candidas, romances impossiveis, poemas
-maravilhosos. Imaginem essa creança, educada, rigida,
-severa, prosaicamente, por um pae, que franzia
-o sobr’olho sempre que me via disposta a soltar as
-rédeas á imaginação, por uma mãe, que me fazia
-sentar junto de si, e me dizia: «Filha, é preciso resignares-te
-a abandonar essas idéas romanticas, se
-quizeres viver tranquilla e feliz. O mundo não é como
-tu o vês atravez do prisma da tua infantil imaginação.
-Os sonhos da phantasia, filha, são como as<span class="pagenum" id="Page_14">[Pg 14]</span>
-andorinhas: só vivem bem entre os effluvios de uma
-eterna primavera. A tua idade é a doce primavera
-da existencia; por ora, podes acariciar, e reter com
-roseos laços as andorinhas gentis, que se te aninharam
-no coração, todo perfumado de innocencia. Mas
-é preciso que te vás costumando a deixal-as partir.
-Querias entrar com ellas no frio inverno da sociedade
-tal como ella é, e não tal como tu a suppões?
-Não; bem vês que morreriam geladas, e nem tu sabes
-o soffrimento que te causaria então a sua morte.
-Deixa-as voar, deixa-as ir procurar outro ninho,
-tão doce e tão quente como o suave ninho do teu
-coração de creança, e tu, filha, prepara-te para affrontares
-serenamente as tristezas e amarguras da
-realidade!»</p>
-
-<p>Estes conselhos, constantemente repetidos, dados
-por essa voz, que eu respeitava, produziram em
-mim um effeito extravagante. Sceptica e enthusiastica
-a um tempo, acreditava firmemente que a poesia
-fugira do mundo como a Themis do paganismo,
-e fôra refugiar-se no ceu, aonde os meus sonhos a
-iam procurar, e d’onde voltavam com as azas impregnadas
-nas balsamicas fragrancias, que rescendia
-a casta divindade. Considerava o mundo real como
-um inferno de prosa, onde me via obrigada a viver,
-sem comtudo poder abstrahir d’essas visões poeticas
-e dulcissimas, cujo desapparecimento me tornaria
-insupportavel a existencia.</p>
-
-<p>Transigi então. Agradara-me a figura, de que minha
-mãe se servira para me rogar que não entrasse
-na vida real com idéas romanescas. Jurei que não<span class="pagenum" id="Page_15">[Pg 15]</span>
-exporia as minhas pobres andorinhas a serem mortas
-pelos gelos da realidade; mas jurei tambem que
-lhes havia de conservar n’um canto do coração, sanctuario
-bem mysterioso e bem recatado, a eterna
-primavera que lhes era indispensavel. Depois de ter
-affrontado impavida e forte a prosa da realidade,
-iria refugiar-me, com prazer e enthusiasmo, no meu
-tabernaculo santo, nas minhas Charmettes encantadoras,
-onde podia banhar á vontade a minha alma,
-sequiosa d’esses gosos, no limpido e sereno lago da
-poesia, na pura e transparente atmosphera do ideal:
-atmosphera onde voejavam as andorinhas gentis dos
-meus devaneios, lago onde vogavam os candidos
-cysnes dos meus sonhos; e assim, repartindo a minha
-vida entre as obrigações enfadonhas da sociedade,
-e as enthusiasticas devoções do meu templosinho
-secreto, julgava poder atravessar a existencia,
-serena e immaculada, suspensa entre ceu e terra,
-como o caixão de Mahomet.</p>
-
-<p>Com estas disposições é facil de imaginar que me
-havia de seduzir a arte, e que estava predestinada
-a consagrar-lhe um amor ferventissimo. A arte era
-a chave de oiro do meu palacio de fadas, o «Abre-te,
-Sesame» da caverna d’Ali-Baba, onde estavam
-encerrados os thesoiros da minha imaginação. A arte
-era o manto de Mephistopheles, sobre o qual eu
-podia viajar livremente pelas queridas regiões da
-phantasia. Seduziu-me essa gentil feiticeira, que me
-podia transportar n’um vôo para longe do mundo
-que me cercava, e interpôr a mim e á sociedade a
-cortina magica, por detraz da qual começava para<span class="pagenum" id="Page_16">[Pg 16]</span>
-o meu espirito a região dos encantamentos, dos extasis
-e das delicias. A melodia, que os meus dedos
-despertavam nas teclas de um piano, era como o
-fumo odorifero de que se rodeia o turco, ao entregar-se
-ás perigosas delicias do hatchich. Por isso eu
-adorava a musica, e tinha um verdadeiro amor ao
-meu piano. Devorava-o com os olhos, quando me
-via obrigada a fechal-o ou para receber visitas, ou
-para obedecer ás ordens de meus paes. Se era o cofre
-das minhas riquesas, o corpo que encerrava uma
-alma irmã da minha, que só despertava ao evocal-a
-eu, e que eu bem sabia que ficava adormecida quando
-alguem ousava pôr mãos profanadoras nas teclas
-do instrumento!</p>
-
-<p>Quando eu tocava, todos me applaudiam com frenesi;
-gabavam o meu talento, a assiduidade do meu
-estudo, e diziam que, se quizesse apparecer em publico,
-offuscaria as glorias dos mais celebres pianistas.
-Eu nem lhes ouvia os applausos. Enlevada nas
-mysteriosas conversações com a fadasinha do piano,
-tudo o mais me era indifferente. Que me importava
-tocar deante de duas pessoas, ou deante de duas
-mil? Entre mim e ellas caía sempre a bemfadada
-cortina, e o meu espirito, enlaçado com o espirito
-da melodia, franqueava as portas d’oiro do mundo
-do ideal.</p>
-
-<p>Por isso tambem adorava a dança, e a valsa principalmente.
-Apenas rompiam na orchestra os primeiros
-compassos da vertiginosa musica, ahi voava
-nos braços do meu par, louca, inebriada por esse
-filtro ignoto, que distillam as flores, as luzes, as<span class="pagenum" id="Page_17">[Pg 17]</span>
-melodias do baile. Os meus pés mal tocavam no
-chão; como que a pouco e pouco sentia emplumarem-se-me
-os hombros com as azas niveas dos anjos
-ou das fadas; via n’essa atmosphera, saturada
-de férvidas emanações, voejarem as minhas andorinhas,
-que me chamavam para a sua região encantada,
-e tudo esquecia: o salão, o meu par, a gente
-que me cercava, para me arrojar para o mundo dos
-devaneios, para entrar no casto gyneceu das minhas
-formosas visões.</p>
-
-<p>Com estas idéas, como podia eu procurar o amor?
-Pensava muito n’elle, é verdade, mas nem por sombras
-me lembrava de o buscar na vida real. O amor,
-e a realidade eram para mim duas palavras completamente
-incompativeis. Quem se lembra de pedir
-nectar n’um banquete dos homens? Que mahometano
-encommenda a um negociante d’escravas que
-lhe traga uma huri da Circassia?</p>
-
-<p>Julgaria até uma profanação collocar um idolo
-n’esse altar erguido na minha alma, como altar
-atheniense, ao <i>deus desconhecido</i>. Os suavissimos
-aromas, que essa palavra rescendia, não havia flôr
-da terra que os exhalasse.</p>
-
-<p>Mas estas idéas, que eu alimentava, nunca pensára
-em revelal-as. Não se esqueçam os leitores da
-minha dupla existencia: uma toda sujeita ás leis sociaes,
-e não tentando por forma alguma rebellar-se
-contra ellas, outra completamente fóra do mundo
-da realidade; existencias diversas, com as fronteiras
-escrupulosamente traçadas, e que nunca se invadiam
-mutuamente.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_18">[Pg 18]</span></p>
-
-<p>Portanto, o casamento era para mim uma d’essas
-leis, a que eu estava prompta a obedecer, comtanto
-que me ficasse plena liberdade de me esquivar para
-a região das andorinhas; liberdade inalienavel como
-facilmente se imagina. Não pedindo ao casamento
-o amor, qualquer marido me era indifferente. Bastava-me
-a amizade, porque ouvira dizer a minha
-mãe, que no matrimonio é indispensavel esse sentimento.</p>
-
-<p>Claudio da Cunha não me inspirava repugnancia;
-por conseguinte estava perfeitamente disposta a
-obedecer ás ordens de meus paes. Ouvi a noticia e
-não pensei mais em tal. Casar-me tinha para mim
-tanta importancia como pagar ou receber uma visita;
-cumpria uma lei imposta pela sociedade. Tal noticia
-merecia mais do que o <i>Ah</i> distrahido com que
-eu a acolhera?</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_19">[Pg 19]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="III">III</h2>
-</div>
-
-
-<p>Confessemos que seria difficil a descripção da
-nossa vida nos tres ou quatro mezes que precederam
-o meu casamento com Claudio da Cunha. Póde
-excitar interesse a mulher, que nem caminha para o
-altar como victima sacrificada, nem como noiva feliz
-de ver coroados pelo hymeneu os votos formados
-pelo amor para adoptar a linguagem dos venturosos
-tempos da Arcadia? Póde chamar a attenção
-um noivo cortez, vestido irreprehensivelmente, frio,
-grave, que vem apresentar-me os seus cumprimentos
-sempre á mesma hora sem differença de um
-minuto, que me ouve tocar piano, mostrando-se
-attento quanto baste para satisfazer as conveniencias,
-que me applaude depois com as suas mãos enluvadas,
-de modo que não faça estalar nem uma
-costura das luvas preciosas, que em seguida elogia
-a minha habilidade e a perfeição do meu methodo,
-que tudo isto repete todos os dias, sem alteração
-de uma syllaba, de um gesto, de um segundo?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_20">[Pg 20]</span></p>
-
-<p>Comtudo eu não tinha razão de queixa. Claudio
-era o marido, que convinha a quem executava fria
-e indifferentemente um dever, contraindo os laços
-do matrimonio. Galanteador, incommodar-me-hia de
-certo: menos delicado e exacto, offenderia não a
-mim, que não repararia em tal, mas a meus paes.</p>
-
-<p>D’este modo tudo caminhava ás mil maravilhas.
-O papá extasiava-se perante o comedimento, e as
-maneiras polidas de Claudio; a mamã folgava de
-ver o escrupuloso aceio e esmero do seu trajar, o
-cuidado que tomava sempre em evitar uma nodoa
-que lhe maculasse o lustre irreprehensivel da casaca
-e do chapeu; eu dava-me perfeitamente com o seu,
-raras vezes interrompido, silencio, porque me deixava
-divagar á vontade e escutar desafogadamente
-o chilrear das «minhas andorinhas».</p>
-
-<p>Chegou emfim o dia do casamento. Foi esse para
-mim um dia de verdadeiro jubilo, e de extasi sem
-igual. Porque? perguntam-me. Transformou-se o caracter
-de Claudio, e algum vulcão, fervendo longo
-espaço de tempo por baixo dos gelos exteriores, irrompeu
-e incendiou tambem com as subitas chammas
-esse coração tão despresador da vida real, e
-que se dizia d’amianto para as prosaicas labaredas
-do mundo terreno? Folgou por acaso de se ver senhora,
-e de se transformar a doce grinalda da virgindade
-no diadema de rainha, esplendido mas pungente,
-que cinge a fronte das esposas? Não, nada
-de tudo isso. O motivo do meu jubilo era apenas o
-poder cingir o meu veu branco, e a corôa de flores
-de larangeira, emblemas nupciaes.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_21">[Pg 21]</span></p>
-
-<p>Oh! como eu contemplei mil vezes ao espelho os
-graciosos adornos, que tanto me enlevavam, como
-deixei cair em torno de mim as graciosas pregas do
-meu veu de gase! Como me revi na grinalda de
-brancas flôres, que me poisava elegantemente na
-cabeça, dando um vivo realce aos meus cabellos
-castanhos claros! Como olvidei, sósinha, no meu
-toucador, o mundo presente, a realidade semsabor,
-os padrinhos de casaca preta, os parabens dos convidados,
-a cerimonia nupcial! Não era Margarida
-da Silveira que alli estava mirando-se vaidosamente
-n’um espelho de moldura doirada; era a fada Margarita
-contemplando a sua imagem no cristal da
-sua fonte! Rompia a manhã, a fresca manhã de
-S. João; as pobres alcachofras queimadas esperavam
-que o bento orvalho reverdecesse a corolla
-crestada, as bilhas d’agua esperavam o encantamento,
-os ovos suspensos nos copos esperavam a
-metamorphose.</p>
-
-<p>A brisa matinal fluctuava em torno a mim, infunando-me
-ao de leve as prégas do meu veu. A luz
-nascente mal fazia desabrochar rosas desmaiadas
-no horisonte.</p>
-
-<p>Eu erguia-me e o meu debil pésinho, ainda mais
-leve do que na valsa, corria sobre a relva sem
-a fazer vergar sequer! o meu passo mysterioso
-fazia brotar rosas e lyrios no seu tapete de veludo!
-Agitava na mão a varinha branca, a varinha
-das feiticeiras! Tocava na triste alcachofra carbonisada,
-e, por entre o negrume das suas pobres
-folhinhas, renascia a rôxa pétala que ía encher de<span class="pagenum" id="Page_22">[Pg 22]</span>
-contentamento um coração virginal! Soprava nos
-fios tenues do ovo suspenso n’agua, e os fios, como
-se os tecesse mão mysteriosa, bordavam por si mesmos
-um matiz delicioso! «Oh! fada Margarita! dizia
-eu para o meu espelho, como és linda e como
-és boa!»</p>
-
-<p>Depois, não era já a fada, mas sim a muito alta
-e muito poderosa senhora D. Margarida, filha do
-castellão, rico-homem de pendão e caldeira, senhor
-de baraço e cutello! Caminhava a furto para a entrevista
-aprazada! o coração arfava-me deliciosamente!
-Eis-me chegada emfim junto da cruz da ermida,
-onde me espera o gentil cavalleiro, que vae
-para a Palestina! Os loiros cabellos fluctuam-lhe
-sobre a couraça brunida; poisa-lhe ao lado o elmo,
-com as plumas azues ondeantes a capricho da viração!
-Troca-se um adeus sentido, derramam-se lagrimas,
-fazem-se promessas de amor eterno! Então,
-desprendo o veu branco, e dou-lh’o como penhor
-do meu affecto! Será a protectora charpa do meu
-noivo, o talisman que o ha de resguardar dos alfanges
-dos infieis! Elle beija mil vezes o candido
-veu, monta o corcel, que o espera impaciente, e
-parte. Sigo-o com os olhos arrasados d’agua até o
-perder de vista, e...</p>
-
-<p>E abre-se a porta e apparece meu pae de luva
-branca, bota de polimento, e casaca preta, e atraz
-d’elle, mas timidamente, como quem receia ser indiscreto,
-Claudio da Cunha, de casaca preta, bota
-de polimento, e luva branca!</p>
-
-<p>Adeus! Adeus! Andorinhas gentis!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_23">[Pg 23]</span></p>
-
-<p>Como sempre, baixei, sem protestar, ás regiões
-da realidade. Acolhi com um beijo meu pae, com
-um sorriso o meu noivo, que me pedia mil desculpas,
-por ter ousado chegar á porta do meu santuario,
-mas que fôra arrastado pelo seu querido sogro,
-etc.; e, depois de ter acceitado e dado todas
-as desculpas, desci para me metter na carruagem,
-que me devia conduzir á igreja.</p>
-
-<p>D’ahi a duas horas, era eu a legitima esposa de
-Claudio da Cunha, e tomava posse da casa de meu
-marido, situada na Cruz das Almas.</p>
-
-<p>Franqueara estas columnas de Hercules da vida
-das senhoras, passara do brando e azul Mediterraneo
-das solteiras para o verde e tempestuoso Oceano
-do matrimonio, e confesso que não sentia o minimo
-frémito agitar as brancas velas do baixel do meu
-destino.</p>
-
-<p>Se eu tencionava sentar-me, como até ahi, na
-proa da nau, e indifferente aos furacões que me rugissem
-em torno, ás vagas irritadas que fervessem
-e se empinassem contra mim, fitar os olhos no cantinho
-do ceu azul, onde havia de continuar a brilhar,
-estava d’isso convencida, a formosa e radiante
-constellação dos meus devaneios!</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_24">[Pg 24]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="IV">IV</h2>
-</div>
-
-
-<p>Compunha-se de duas pessoas a minha nova familia:
-meu marido e uma tia d’elle, mais velha apenas
-doze ou quatorze annos, e caminhando rapidamente,
-mas com desespero, para o Maelstrom dos
-quarenta, que sorve implacavelmente as ultimas esperanças
-matrimoniaes.</p>
-
-<p>Vou tentar descrever em rapido bosquejo os companheiros
-da peregrinação, que eu ia principiar.</p>
-
-<p>Claudio da Cunha era um homem de um caracter
-indeciso e fraco, temendo duas coisas, e respeitando
-uma. As que temia eram o ridiculo e a lucta, a
-que respeitava era sua tia.</p>
-
-<p>O ridiculo combatia-o com as frias e graves exterioridades
-que eu já fiz notar; á lucta, esquivava-se
-sempre a todo o custo, obedecia a sua tia escrupulosamente,
-mordendo constrangido o freio,
-mas não ousando sacudil-o.</p>
-
-<p>Sua tia D. Antonia possuia um coração, talvez
-outr’ora bom, mas que se fôra enchendo de fel, fel<span class="pagenum" id="Page_25">[Pg 25]</span>
-que trasbordava sempre na sua conversação constantemente
-aggressiva. Seria perigosa manejando a
-arma do epigramma, se o seu espirito, descultivado
-e estreito, lhe permittisse açacalar as frechas que
-despedia ao acaso, que feriam ao de leve, mas que
-se tornavam incommodas pela quantidade. Então o
-adversario, que ella escolhera, devolvia-lhe uma ou
-outra com mais certeira mão, e o golpe, que lhe
-calava bem fundo na alma, fazia-a ter ataques de
-nervos, que chamavam logo a sollicitude do sobrinho,
-o qual vinha escutar com ouvido attento os
-seus queixumes ridiculos, e enxugar com mão piedosa
-as lagrimas de despeito.</p>
-
-<p>A sua vaidade era tanto mais insupportavel quanto
-mais procurava disfarçar-se. Quando fallava em geral,
-dizia sempre com louvavel modestia que era
-feia, que os meus encantos a offuscavam completamente,
-que não aspirava sequer a rivalisar comigo;
-mas o terreno, que perdia na generalidade, ia-o sempre
-recuperando passo a passo nas particularidades.
-Quando tinha a minha idade haviam de lhe ficar
-larguissimas as minhas botinhas, e agora mesmo,
-se não quizesse andar a seu gosto, e se não estivesse
-já curada d’essas vaidades, estava certa que
-lhe haviam de servir maravilhosamente. «Uma coisa
-que eu sempre tive foi o pé muito pequeno, concluia
-ella. Fulano dizia...» E vinha logo um madrigal,
-que, pela fórma <i>moyen-âge</i>, revelava um adorador
-dos bons tempos dos <i>trovadores</i> das <i>Ellas</i>, revelação
-que restabelecia a verdadeira data da sua
-certidão de baptismo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_26">[Pg 26]</span></p>
-
-<p>Não podia comprehender, dizia ella, como eu me
-apertava tanto sem temer as consequencias funestas
-d’essa imprudencia. Por mais que lhe jurasse e
-lhe mostrasse que não succedia semelhante coisa,
-continuava sempre protestando que estava fazendo
-uma loucura, que ella nunca andara assim, o que não
-impedia que tivesse tido uma cinturinha de sylphide,
-que duas mãos unidas podiam facilmente abranger.</p>
-
-<p>Todos estes ridiculos eram medianamente supportaveis,
-e de certo nem os citaria, se não fossem
-parte essencial de um caracter sêcco, vaidoso e azedado
-pelas decepções que a sua vaidade soffrera no
-campo das salas. Pouco depois do meu casamento,
-essas raivas secretas, esses furores devorados em
-silencio começaram a traduzir-se na attitude hostil
-que tomou para comigo, attitude acobertada por um
-manto d’amizade protectora. Usava, dizia ella, do
-seu privilegio de <i>velha</i>, e carregava intencionalmente
-no termo, para me dar conselhos, e para me preservar
-dos perigos, em que o meu estouvamento
-juvenil me poderia fazer cair. Com este admiravel
-pretexto, houve por bem arvorar-se em censora
-constante das minhas acções.</p>
-
-<p>Se eu por acaso mostrava uma ou outra vez o
-meu enfado, então lançava-me um olhar ferino, e dizia,
-adoçando o som de voz tanto quanto aguçava
-os raios das pupillas: «Ai! infelizmente, ninguem
-gosta de ouvir as verdades,» como se n’aquella
-mente acanhada e cheia de pequeninos sentimentos
-se abrigasse a resposta ao eterno problema, que a
-esphinge dos seculos tem proposto á humanidade,<span class="pagenum" id="Page_27">[Pg 27]</span>
-e cuja resolução só Pilatos ouviu da bôca de Jesus.</p>
-
-<p>Então passava eu a estar na berlinda, perseguida
-pela voz melliflua, e pelos epigrammas embotados
-de D. Antonia. Á mesa do jantar, onde todos tres
-nos reuniamos, choviam sobre mim as allusões ás
-senhoras que preferem o piano ao governo da sua
-casa, ás senhoras casadas que dançam nos bailes,
-quando seus maridos não dançam, á corrupção do
-seculo, aos maus costumes que importamos de
-França, á leitura perniciosa dos romances, tudo isto
-precedido do inevitavel «Hoje em dia...» <i>ultima ratio</i>
-da sua argumentação. Escuso de dizer que as
-gerações anteriores á que presenceou a invasão de
-Junot sumiam-se para ella nas brumas legendarias
-da idade de oiro.</p>
-
-<p>Que havia eu de fazer contra aquella guerra pequenina
-e intoleravel? A friesa, que existia entre
-mim e meu marido, fazia com que o não pudesse
-contar como defensor. Bem via que os toscos epigrammas
-de D. Antonia o incommodavam tambem,
-e o irritavam; mas o seu desejo de manter a paz
-domestica, a obediencia tradicional que votara a sua
-tia, obrigavam-no a conservar-se silencioso em presença
-da audaz iniciativa da minha adversaria.</p>
-
-<p>Demais, eu achava tão mesquinha, tão indigna de
-mim esta guerra de palavras, esta escaramuça miseravel,
-estava tão fóra dos meus habitos este pelejar
-quotidiano, que nem sabia, nem podia, nem
-queria defender-me. Calada, immovel, fitando olhos
-espantados, ora em D. Antonia, ora em meu marido,
-uma só coisa me fazia scismar, era haver gente<span class="pagenum" id="Page_28">[Pg 28]</span>
-que se occupasse em tão miseraveis coisas, que expuzesse
-theorias tão insipidamente banaes, e o ser
-eu escolhida para victima expiatoria de crimes que
-nem sequer chegava a perceber.</p>
-
-<p>Contra estas amarguras da vida real não me prevenira
-eu. Julgava-me invulneravel, e, como o Achilles
-da <i>Iliada</i>, tinha o calcanhar accessivel a tiros tão
-rasteiros! Esta queda espantava-me mais do que outra
-qualquer. Previra todas as desillusões, todas as
-torturas da realidade, vinha prompta para luctar
-com as serpentes do odio, com as viboras da calumnia,
-e por fim de contas succumbia ferida pelo
-ferrão d’essa formiga negra e imperceptivel, que se
-chama mexirico!</p>
-
-<p>Todas as consolações me faltavam. As minhas
-andorinhas tinham fugido para não mais voltarem! Se
-eu não as podia chamar, atordoada, como sempre
-estava, pelas recriminações disfarçadas, pelos epigrammas
-adocicados, pelos discursos sem fim da
-minha implacavel inimiga! Se lhe não respondia, ia
-queixar-se brandamente a meu marido, dizendo que
-a desprezava do alto do meu orgulho, e insinuando
-arteiramente que preferia a conversação dos homens.
-Se lhe respondia irritada e fatigada, vinham os espasmos
-e os ataques nervosos. Se me refugiava no
-meu quarto sósinha com o meu piano, ahi vinha
-ella, allegando que gostava muito de musica, e perguntando
-se os seus ouvidos eram indignos de me
-escutarem. Então a minha occupação predilecta
-transformava-se em tortura insupportavel. Esmagava
-freneticamente as teclas, as minhas boas e antigas<span class="pagenum" id="Page_29">[Pg 29]</span>
-amigas, todas espantadas do inesperado tratamento.</p>
-
-<p>Se ás doces horas do crepusculo ia sósinha sentar-me
-junto da minha janella, e contemplar o melancolico
-horisonte dos campos, para me engolphar
-no mundo da phantasia, tinha-a a meu lado d’ahi a
-instantes, dizendo, que tambem ella possuia um genio
-muito triste, e que, no tempo em que tivera um
-namoro, gostava muito de estar áquellas horas a
-pensar n’elle. Depois accrescentava invariavelmente
-que julgava que as senhoras casadas eram inacessiveis
-a essas tristezas e que junto de seu marido é
-que deviam estar, em vez de se entregarem sósinhas
-a pensamentos talvez perigosos.</p>
-
-<p>Aquella mulher tinha um genio de inquisidor.</p>
-
-<p>Se acreditasse na metempsychose, diria que o espirito
-de Torquemada fôra, atravessando os seculos,
-aninhar-se finalmente no coração de D. Antonia da
-Cunha.</p>
-
-<p>Ah! e quando uma solteirona, de quarenta para
-cincoenta annos, vinha visital-a, e trazer-lhe o auxilio
-da sua indole mordaz, e da sua hypocrisia beata,
-então é que se entoava um <i>duetto</i>, que desbancava
-a aria de D. Basilio. Como se entendiam bem a meias
-palavras! Que plangentes queixumes não soltava D.
-Antonia, indicando-me com o olhar á sua boa amiga
-D. Simôa dos Anjos, emquanto ambas trabalhavam
-n’um enxoval para creanças pobres, trabalho
-santo, que fôra apregoado em todos os tons na freguezia
-e nas parochias visinhas! Que olhares de
-compaixão, com que a outra lhe respondia! Que<span class="pagenum" id="Page_30">[Pg 30]</span>
-theorias de implacavel austeridade! Que lamentações!
-Que moções d’ordem d’uma, acolhidas pelos
-apoiados da outra! E quando passavam das generalidades
-á especialidade, ah! como as agulhas cosiam
-e as linguas descosiam! Com que delicioso tempero
-de reputações esfaqueadas se apimentava a obra caritativa
-do enxoval! Que signaes de piedosa compuncção!
-Que devotos sarcasmos se não cuspiam
-sobre as peccadoras, fulminadas por aquelle augusto
-areopago! E a que horrenda verrina me não expunha,
-quando, cançada, enojada de tão peçonhenta
-hypocrisia, exprimia a indignação que já não podia
-conter.</p>
-
-<p>—Quem defende gente assim, expõe-se ás mesmas
-accusações, dizia uma das Lucrecias, principiando
-com a mão direita, sem a esquerda o saber,
-uma costura caridosa.</p>
-
-<p>—Ah! tornava a outra debruando os coeiros da
-sua beneficencia, essas é que são felizes! Os homens
-não querem outra coisa, e, para vergonha nossa,
-até no nosso sexo acham advogadas!</p>
-
-<p>Eu levantava-me com impeto e saía; mas aquellas
-duas vozes resoavam sempre ao meu ouvido, e
-não deixavam que eu tomasse gosto em nenhuma
-das minhas outr’ora tão queridas occupações.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_31">[Pg 31]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="V">V</h2>
-</div>
-
-
-<p>Assim passei a primavera, o estio e o outono do
-meu primeiro anno de casada. Claudio envolvera-se
-na politica, mais para se distrair do seu <i>spleen</i> incuravel,
-do que por gosto ou ambição. Principiara
-eu a perceber que a frieza apparente de meu marido
-provinha de uma educação acanhada, como o
-espirito de sua tia, que lhe infligia o respeito das
-leis d’aquelle mundo mesquinho, em que ella tanto
-folgava de viver, e dos constantes obstaculos, que
-se tinham opposto ao desenvolvimento livre e desaffogado
-do seu espirito. Mostrava-se affectuoso para
-comigo, mas affectuoso sem expansão. Aquella mulher
-interpunha-se constantemente a nós ambos. Se
-uma ou outra vez, n’algum dia em que o sol da primavera
-despertava dentro em mim os passarinhos
-mudos, e aviventava as flôres desbotadas da minha
-phantasia tentava desabafar e elevar-me ás regiões
-serenas, onde desejara viver; se Claudio, arrastado
-pelo contagio do meu enthusiasmo, principiava<span class="pagenum" id="Page_32">[Pg 32]</span>
-a entrar nas minhas idéas, vinha logo sua tia,
-soltando altos gritos, e dizendo que essas farofias
-de romance e de musica é que perdiam metade da
-humanidade feminina. Claudio retraia-se, e eu ficava
-de novo sósinha e desarmada em face d’aquelle demonio
-do lar, que empolgava o hyssope furtado n’alguma
-igreja, e me aspergia de agua benta para me
-livrar da influencia diabolica da arte, e dos artistas.</p>
-
-<p>Chegou o inverno, o inverno, outr’ora para mim
-a estação querida dos bailes, de que tambem agora
-me via privada. Pois como podia eu apparecer nas
-salas com aquelle <i>chaperon</i> sempre a meu lado, que
-me expunha ás vezes a scenas desagradaveis com
-as suas phrases acres, cuja insolencia a muito custo
-se disfarçava? Depois, as scenas que se passavam
-na volta para casa! As insinuações sobre a corrupção
-dos homens que procuram de preferencia as
-senhoras casadas, e sobre a corrupção das senhoras
-casadas, que acceitam os rendimentos d’esses monstros
-de luvas brancas, e que levam a impudencia a
-ponto de polkarem e de valsarem com homens,
-que visivelmente as preferem ás tias de quarenta
-annos!</p>
-
-<p>Estas insinuações calavam mais ou menos no animo
-de meu marido, e, apezar de elle se retirar sempre
-que principiavam os discursos de D. Antonia,
-via-se pela inquietação, que mostrava, que o veneno
-produzia o seu effeito.</p>
-
-<p>Cançada já, abatida por esta lucta ingloria, resolvi
-encerrar-me em casa, e abandonar completamente a
-sociedade. Novos gritos! novas reclamações! Claramente<span class="pagenum" id="Page_33">[Pg 33]</span>
-se via que o meu desejo era prival-a de todos
-os divertimentos, etc.; mas resisti intrepidamente,
-e, apezar dos clamores, mantive a minha resolução.</p>
-
-<p>Uma vez tinhamos nós acabado de jantar quasi
-ao anoitecer. Comtudo, não se haviam ainda accendido
-as luzes. O ceu estava nebuloso, e uma chuva
-fina começava a bater nas vidraças. Meu marido
-ficara á mesa tomando café, D. Antonia baloiçava-se
-na cadeira, ruminando algum dito azedo. Eu fôra-me
-sentar junto da janella, e contemplava os arabescos
-que a chuva desenhava nos vidros com as
-gotinhas que deslisavam lentamente ao longo da limpida
-superficie. Embuçara-me n’uma capa, e toda
-conchegada no meu cantinho, saboreava aquelle momento
-de socego, tão raro na minha vida mesquinhamente
-agitada.</p>
-
-<p>Os arabescos da chuva despertavam em mim a
-um tempo deliciosos e tristes pensamentos, lembravam-me
-os sonhos, que eu phantasiaria um anno
-antes com essas singelas perolas do pranto das nuvens,
-e lastimava com amargura o desprezo que votara
-á realidade, que se vingava cruelmente de mim.
-Percebi então que não bastam os sonhos para constituirem
-a ventura, e que o espirito, que se alimenta
-só com esses devaneios, acha-se sem forças para
-combater os mais despreziveis inimigos. Isolara-me
-no meu orgulho, e via agora quanto precisava ter
-um coração que pulsasse junto com o meu, e quão
-robusta me sentira, se o amor me envolvesse na sua
-tunica luminosa! O amor!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_34">[Pg 34]</span></p>
-
-<p>E, não sei porque, duas lagrimas desprenderam-se-me
-dos olhos, e deslisaram-me vagarosamente pelas
-faces.</p>
-
-<p>N’este momento tocaram a campainha com força.
-Olhámos uns para os outros, como que perguntando
-quem se affoitaria a affrontar a chuva, que principiava
-a cair em torrentes, para vir fazer-nos uma
-visita.</p>
-
-<p>N’isto abriu-se a porta e appareceu no limiar um
-vulto de homem.</p>
-
-<p>—Claudio! <i>amice!</i> onde estás tu? Vem dar-me
-um abraço... metaphorico, porque, se t’o dou na
-realidade, encharco-te.</p>
-
-<p>—Alberto! exclamou meu marido levantando-se
-e correndo para elle de braços abertos.</p>
-
-<p>—Sim, eu mesmo, meu velho condiscipulo. Desembarquei
-hoje. Saí de Napoles n’um dia de chuva,
-que ameaçava muito sériamente apagar o Vesuvio.
-Não quiz assistir a tamanho desastre, e fugi. A
-unidade italiana está matando o <i>lazzarone</i>, a chuva
-mais dia menos dia dá cabo do Vesuvio, e uma
-companhia de accionistas inglezes improvisa um
-vulcão artificial, com meia duzia de chaminés de
-Birmingham, transportadas a bordo de um <i>steamer</i>.
-Fiz a viagem sem apanhar chuva; chego ao Terreiro
-do Paço, zás, uma pancada d’agua a ensopar-nos
-a mim e ás venerandas bochechas do marquez
-de Pombal, que se sorria ironicamente com ar de
-quem dizia: «Não me quizeram acreditar!» No
-tempo do grande marquez não chovia, meu amigo.</p>
-
-<p>—Alberto, deixa-me...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_35">[Pg 35]</span></p>
-
-<p>—Não chovia não, digo-t’o eu. Quem inventou a
-chuva foram os inglezes, só para darem extracção
-ás galochas de borracha, e aos casacos de Mackintosh.
-Ah! o marquez de Pombal bem o sabia, por
-isso elle nos fez guerra. Pois que cuidas tu! Sebastião
-José de Carvalho e Mello foi o defensor da serenidade
-metereologica do paiz das larangeiras, e
-da inviolabilidade do nosso ceu azul. Curva-te perante
-o grande homem, Claudio!</p>
-
-<p>—Consente, Alberto, que...</p>
-
-<p>—Foram os inglezes, repito. Em Napoles era
-desconhecida a chuva, antes de lord Nelson entrar
-n’aquella maravilhosa bahia. A chuva portugueza
-devemol-a ao Beresford...</p>
-
-<p>N’este momento entrou um criado com luz.</p>
-
-<p>Alberto interrompeu-se ao divisar-nos a mim e a
-D. Antonia.</p>
-
-<p>—Oh!... senhoras... e tu não me dizias coisa
-alguma, e deixavas-me palrar como um idiota que
-sou...</p>
-
-<p>—Mas, meu amigo, tornou Claudio rindo, desde
-que entraste ainda não fiz senão querer-te apresentar
-minha mulher, e tu a fallares em Nelson e no
-marquez de Pombal... Margarida, continuou elle,
-dirigindo-se a mim, tenho a honra de te apresentar
-o meu bom amigo Alberto Mascarenhas Corte-Real,
-que chega, como acabas de ouvir, de uma viagem
-da Italia.</p>
-
-<p>—É uma dupla recommendação valiosa, disse eu
-sorrindo e comprimentando-o amavelmente; amigo
-de meu marido e viajante recemchegado da terra<span class="pagenum" id="Page_36">[Pg 36]</span>
-dos prodigios, como não ha de ser recebido cordial
-e curiosamente?</p>
-
-<p>Alberto balbuciou algumas palavras, que eu não
-percebi, mostrando-se visivelmente enleiado, talvez
-por causa da sua palradora entrada, e voltando-se
-logo para D. Antonia, apertou-lhe a mão, dizendo-lhe:</p>
-
-<p>—Ah! é, v. ex.ª! Desculpe, minha senhora, o
-não a ter reconhecido. Mas ha de confessar que na
-escuridão era difficil...</p>
-
-<p>—Ora, das <i>velhas</i> nunca os senhores fazem caso.</p>
-
-<p>—Ah! tornou Alberto rindo, já pediu a sua reforma?
-Pois olhe, parece-me que a neve, que lhe
-vejo alvejar nos cabellos, é a neve perfumada da
-laranjeira. Vamos, seja sincera. Quando é o casamento?</p>
-
-<p>—Nunca! Se eu chegava a esta idade sem me
-casar, para commetter agora uma loucura d’essas.
-Os homens...</p>
-
-<p>—São uns monstros, bem sei. Ainda se não
-emendaram? E eu que fui á Italia de proposito para
-pedir ao Papa a canonisação em massa de todo o
-sexo masculino! Mas, segundo vejo, os maganões
-são incorrigiveis.</p>
-
-<p>—Olhe, sr. Corte-Real, hoje em dia bem tolo é
-quem se casa. Os homens são estouvados, e as senhoras
-seguem-lhe o exemplo. É moda que veiu
-agora de França.</p>
-
-<p>—Veiu? Ah! e eu que me esqueci de ver os figurinos!</p>
-
-<p>—Vamos para a sala, Alberto, interrompeu meu<span class="pagenum" id="Page_37">[Pg 37]</span>
-marido, que via a conversação tomar o caminho
-costumado. Lá podes-te enxugar melhor.</p>
-
-<p>Levantámo-nos e fomos para a sala.</p>
-
-<p>Estava o fogão acceso, e o lume derramava no
-aposento um suave calor. O guarda luz do candieiro,
-concentrando o fulgor todo na mesa, á roda da qual
-nos sentámos, deixava ficar na penumbra o resto
-do quarto. A chuva batia nas vidraças, e o vento
-zunia com violencia, engolphando-se pelo tubo do
-fogão.</p>
-
-<p>—Ah! disse Alberto, sentando-se n’uma cadeira
-á Voltaire, venham-me agora fallar nos prazeres das
-viagens! Não conheço nada melhor do que esta deliciosa
-sensação, que se apodera de nós, n’uma
-noite bem fria e bem invernal, ao sentarmo-nos
-n’uma cadeira macia, junto do bom fogo, entre duas
-ou tres pessoas que nos estimem, sentindo o vento
-sibilar, e a chuva bater nos vidros. E pensar-se que
-a estas horas anda um barco ao longe, no alto mar,
-affrontando a tempestade, que lhe descose as pranchas,
-e lhe açoita a vela, em quanto o pescador,
-vendo as ondas embravecidas a rugirem morte por
-todos os lados, vae scismando como Victor Hugo,</p>
-
-<p>
-<i>Au vieux anneau de fer du quai plein de soleil!</i><br>
-</p>
-
-<p>—Safa, que egoista! exclamou Claudio.</p>
-
-<p>—Egoista sim. Meu amigo, não ha prazer algum
-n’este mundo, em que não entrem tres quartas partes
-de egoismo. É um prazer egoista? Bem sei:
-já Lucrecio o disse antes de ti n’uns versos que não<span class="pagenum" id="Page_38">[Pg 38]</span>
-cito por duas razões: a primeira porque são em latim...</p>
-
-<p>—E a segunda? perguntei eu.</p>
-
-<p>—Porque nunca li Lucrecio, minha senhora.</p>
-
-<p>Desatei a rir.</p>
-
-<p>—Mas, então, continuei, como é possivel que
-viajasse tanto, detestando por essa fórma as viagens?</p>
-
-<p>—Detestar as viagens! eu, minha senhora! pelo
-contrario, adoro-as!</p>
-
-<p>—Mas, parece-me...</p>
-
-<p>—Perdão. Entendâmo-nos, minha senhora; este
-prazer, que eu estou sentindo agora, tambem ás
-viagens o devo. É o contraste que lhe dá este sabor
-tão agradavel e picante. Hontem, sósinho no convez
-do paquete, via a solidão immensa dos mares, ouvia
-os melancholicos lamentos das ondas, contemplava
-o ceu toldado, que se desenrolava sobre a
-minha cabeça como plumbeo manto; hoje aperto a
-mão a um amigo de infancia, tenho a ventura de
-estar conversando com senhoras amaveis e espirituosas,
-sinto-me envolvido por uma atmosphera
-tepida, perfumada das fragrancias da terra natal,
-e, recostando-me voluptuosamente n’esta cadeira,
-vendo ali chispar um fogo delicioso na moldura do
-fogão, mirando as figuras do guarda-luz do seu
-candieiro, esfrego as mãos, como um egoista, e digo:
-«Como deve estar o mar a estas horas?» Baloiço-me
-aqui indolentemente, e continuo: «Como
-os navios dançam fóra da barra ao som d’essa valsa
-tocada pela orchestra das vagas, e composta por<span class="pagenum" id="Page_39">[Pg 39]</span>
-esse Strauss maravilhoso, que se chama Deus!»
-Este prazer sou aqui eu só quem o saboreia; digam-me
-lá se sentem o mesmo que sente o viajante
-recem-chegado?</p>
-
-<p>—Não, acudiu meu marido, mas sinto eu, pelo
-menos, o prazer tambem delicioso de tornar a ver
-um amigo ha dois annos ausente.</p>
-
-<p>—Meu bom Claudio! respondeu Alberto, pegando
-na mão de meu marido, e apertando-lh’a com
-affecto. Mas, continuou, ainda ha outro prazer, que
-eu não mencionava, e que não deixa de ser, comtudo,
-digno de citar-se.</p>
-
-<p>—Qual é? perguntou Claudio.</p>
-
-<p>—O de dizer mal das viagens! Fallar a gente a
-um amigo sedentario, que nos tem inveja, e exclamar:
-«Oh! tu não comprehendes o quanto és feliz!
-Não ha tortura maior do que a do Ashaverus
-da lenda! Percorrer o mundo, só, vendo-se isolado
-no meio de uma sociedade differente da nossa,
-passando por terras, onde ninguem nos espera,
-onde não deixamos nem sequer uma saudade; e a
-mão da fatalidade a impellir-nos sempre, e a voz
-do destino a dizer-nos: «Caminha». E assim atravessamos
-o mundo, andorinhas sem ninho, poisando
-ora no cume inflammado do Vesuvio, ora na
-austera cupula de S. Pedro, ora na torre pendida
-de Pisa, ora na bronzea juba dos leões de Veneza!
-Ah! bem louco é quem deixa os lares para procurar
-estas commoções de um instante, pagas por
-amarguras infinitas.» E o amigo comtempla com
-certo respeito o homem que falla com tanto despreso<span class="pagenum" id="Page_40">[Pg 40]</span>
-n’essas maravilhas, cujo magico panorama lhe
-povôa os sonhos, lhe perturba a existencia. Oh!
-dizer mal das viagens, depois de ter viajado muito,
-não ha prazer que se lhe compare, não acha, sr.ª
-D. Antonia?</p>
-
-<p>—O que?</p>
-
-<p>—Dizer mal... que é um grande prazer.</p>
-
-<p>—Não se diz mal senão d’aquillo que merece as
-nossas censuras, por exemplo...</p>
-
-<p>—Immensas coisas... Não me falle n’isso! O
-mundo vae cada vez peior. O Anti-Christo não tarda.
-É pelo menos esse o parecer da sua caridosa
-amiga, D. Simôa dos Anjos. É verdade, como está
-ella?</p>
-
-<p>—Olhe! essa é que se póde dizer uma santa.</p>
-
-<p>—Pois não! Santa Bazilia! é uma das santas
-mais veneradas pela igreja contemporanea.</p>
-
-<p>—Bazilia!...</p>
-
-<p>—Sim, mulher de D. Bazilio.</p>
-
-<p>—Qual D. Bazilio?</p>
-
-<p>—Ora, qual D. Bazilio! um santo velhote, que
-floresceu alli pelos fins do seculo passado, filho de
-um sujeito chamado Beaumarchais, e adoptado depois
-por outro chamado Rossini!</p>
-
-<p>—Mas então esse homem, se vive, deve estar
-decrepito.</p>
-
-<p>—Como se engana, minha senhora! Está cada
-vez mais novo! Descobriu a agua de Juvencio.</p>
-
-<p>—Alberto! interrompeu Claudio n’um tom meio
-offendido.</p>
-
-<p>Seguiu-se um instante de silencio. Eu sorria-me<span class="pagenum" id="Page_41">[Pg 41]</span>
-imperceptivelmente, e saboreava, devo confessal-o,
-o prazer da vingança. Claudio estava sombrio. Alberto
-fitára em mim os olhos por um instante, e
-caira depois n’um melancholico scismar. D. Antonia
-percebera finalmente que tinha sido <i>mystificada</i>,
-perdoem o gallicismo, e mordia os labios de raivosa.</p>
-
-<p>—Não nos contas algum incidente das tuas viagens?
-perguntou meu marido, para dizer alguma
-coisa.</p>
-
-<p>—Que queres que te conte? respondeu Alberto,
-sacudindo a melancholia que o envolvera. Imaginas
-por acaso que ainda existe o pittoresco? Morreu,
-morreu de todo! Mataram-no os caminhos de ferro,
-e os inglezes principalmente. Os <i>lazzaroni</i> andam
-de chapeu alto, e o Vesuvio mais dia menos dia arvora
-um guarda-chuva. Não se dá um passo em
-Pompeia, que se não encontre um inglez passeando
-no vestibulo da casa de Demetrio, ou entrando familiarmente
-no tribunal do edil Pansa. Queres que
-te descreva uma Italia prosaica e semsabor, o Colyseu
-povoado de casacas pretas, e no castello de
-Santo Angelo um capitão de zuavos no sitio onde
-Benvenuto Cellini apontou, com a mão que fazia
-brotar prodigios, a espingarda que dizimava as fileiras
-hespanholas?</p>
-
-<p>—Oh! acudi com certa exaltação, não seria eu
-quem desanimaria tão facilmente! Nem os zuavos,
-nem os inglezes conseguiriam despoetisar a minha
-Italia, o meu Lacio formoso, a minha Campania feliz.
-Derribaram as pedras, sumiram o Mediterraneo,<span class="pagenum" id="Page_42">[Pg 42]</span>
-impuzeram silencio ás brisas, desfloriram as larangeiras?
-Não! Pois bem; a minha phantasia se encarregava
-de povoar essas ruinas solitarias, de evocar
-as gerações extinctas, de traduzir a linguagem
-melodiosa da viração! Eu, se fosse á Italia, havia
-de vel-a com os olhos d’alma, ainda mais do que
-com os do corpo! Que me importava a prosa moderna,
-se me fosse dado passear nas ruas de Pompeia?
-A mão dos homens levantou a mortalha em
-que o Vesuvio a envolvera, a minha phantasia levantaria
-a mortalha com que a cingiram os seculos!
-Doire o sol ainda o marmore branco dos palacios
-de Genova, e a sua luz ha de illuminar para mim
-o mundo risonho da cidade dos doges, ouvirei as
-musicas suaves que se espraiavam outr’ora por sobre
-as ondas azues do Mediterraneo, a quem ensinavam
-essa dulcissima melodia que ainda hoje enleva
-os ouvidos do viajante! Não a olvidaram de
-certo os eccos da <i>strada Balbi</i>. Levem-me á Italia,
-e eu atravessarei a peninsula sem ver nem zuavos,
-nem inglezes, percorrerei á vontade ou a Italia pagã
-ou a Italia da Renascença, verei Raphael pintando
-o maravilhoso retrato da sua Fornarina, debruçar-me-hei
-sobre o hombro de Guido, quando o seu
-pincel esplendido fizer brotar da tela as feições encantadoras
-da desgraçada Beatriz. A Italia tem habitantes?
-Não sei, nem quero sabel-o; tem cardeaes,
-tem <i>bersaglieri</i>? não sei, não sei. Sei apenas que
-tem os quadros de Raphael, as estatuas de Miguel
-Angelo, as portas de Ghiberti, e os claustros de Bramante.
-Quero engolphar-me n’esse pélago de maravilhas,<span class="pagenum" id="Page_43">[Pg 43]</span>
-quero percorrer esse mundo mysterioso,
-encerrar-me n’essa Pompeia gigante, e depois
-quando voltar á superficie do mundo actual, vire,
-pallida, mas trazendo na fronte, não, como o mergulhador
-de Schiller, a sombra triste projectada
-pelos invisiveis horrores do oceano, mas um reflexo
-d’esse immenso fulgor, que ha de emanar
-das perolas e dos diamantes d’essa Golconda da
-arte!</p>
-
-<p>—Oh! tem mil vezes razão, tornou Alberto levantando-se
-com enthusiasmo, cuida que não senti isso
-mesmo? Cuida que não tive muita vez essas visões
-do passado? Por baixo do palimpsesto banal das
-modernas idades sentia eu pullularem as letras de
-fogo do poema da velha Italia! Á noite, principalmente,
-quando se extinguem os vãos ruidos mundanos,
-e a meiga fada vem mais uma vez cingir a
-sua Italia querida, a voluptuosa Aphrodita dos dois
-mares, na sua tunica bordada de estrellas, e perfumada
-de ignotas fragrancias, então é que se escutam
-essas vozes mysteriosas, que não são mais do
-que a vaga conversação das grandiosas gerações,
-que desappareceram umas após outras da face
-d’aquella terra abençoada! A mythologia antiga
-suppunha que eram os titães soterrados quem abalava
-as montanhas ao revirarem-se no seu leito de
-chammas. Não se enganava; prophetisava! Por
-baixo d’aquelle solo sagrado arquejam as gerações
-de gigantes, que povoaram o velho Lacio dos Cesares
-e a Roma dos Raphaeis! Á noite erguem-se
-todos esses brancos phantasmas e passam, agitando<span class="pagenum" id="Page_44">[Pg 44]</span>
-as azas, na atmosphera transparente. Oh! quantas
-vezes não tive eu d’essas visões extaticas, em Roma!
-Quantas vezes, passeando, embarcado, por uma
-noite de luar, na suave bahia de Napoles, não vi
-como que em sonhos perpassarem as galeras romanas,
-todas illuminadas e deixando apoz si um
-sulco a um tempo fulgido e melodioso, como se a
-ardentia se houvesse transformado em musica! E
-quando os meus barqueiros deixavam cair indolentemente
-os remos na agua, que lhes respondia com
-um vago suspiro harmonioso, como uma nota de
-Cimarosa ou de Bellini, em quanto as estrellas deviam
-fulgir n’essas noites delirantes das saturnaes em
-quanto a lua illuminava ao longe as casas brancas de
-Ischia, de Procida, ou de Capri, eu sentia passar nos
-meus cabellos a lasciva brisa de Baia, e via surgirem
-no horisonte esses vultos candidos de mulheres,
-cujos nomes passaram atravez dos seculos envoltos
-na purpura, que lhes atirou a realeza do genio,
-a Lesbia de Catullo, a Cynthia de Propercio,
-a Corinna de Ovidio, a Lydia de Horacio e a Delia
-de Tibullo.</p>
-
-<p>Alberto calou-se por um instante, e depois continuou:</p>
-
-<p>—Outra vez estava eu em Veneza; a minha gondola
-sulcava silenciosamente o grande canal. A antiga
-cidade dos doges parecia uma cidade morta, e
-a lua a lampada immensa, suspensa sobre esse maravilhoso
-tumulo; nem um murmurio se exhalava
-do seio da formosa captiva, apenas de vez em quando
-o sino da igreja de S. Marcos soltava lugubremente<span class="pagenum" id="Page_45">[Pg 45]</span>
-a voz, como que para entoar o epicedio da
-grandeza da republica; mas logo os brados gutturaes
-das sentinellas austriacas vinham como que
-protestar contra o timido queixume do anjo do campanario.
-As ondas do Adriatico gemiam brandamente,
-espantadas de ouvirem aquella voz allemã
-quebrar o silencio da natureza italiana. A pouco e
-pouco tinha cahido n’uma profunda melancholia, e
-comparava involuntariamente a decadencia nobre
-de Veneza com o misero esphacelamento da minha
-patria. Veneza é um gigante, que desceu ao tumulo,
-envolto na sua armadura de marmore, e perante
-aquella maravilhosa campa descobre-se o mundo
-com respeito: Portugal, tambem gigante, mais gigante
-ainda, arrojou-se á valla commum, e as nações
-desviam os olhos com tedio d’esse cadaver putrefacto,
-coberto de vermes que o devoram. Subito,
-d’um d’esses palacios, que miram nas aguas do canal
-as suas marmoreas escadarias, jorrou em ondas
-de melodia a deliciosa serenata do <i>Marino Faliero</i>
-de Donizetti. Como por mysteriosa evocação,
-tudo se illuminou a meus olhos. Illuminaram-se os
-palacios, povoaram-se os canaes de gondolas cheias
-de mascaras; os fogos de Bengala tingiram de azul
-e côr de rosa as fachadas de marmore branco.
-Avultou-me ao longe o <i>Bucentauro</i>, com o seu magestoso
-cortejo de galeotas. Povoaram-se-me os
-caes de fidalgos venezianos, em cujo trajar doirado
-e bordado scintillava a luz projectada pelos fachos.
-Desappareceram os austriacos, e a Veneza antiga,
-a Veneza de Ticiano, a Veneza do carnaval, surgiu-me<span class="pagenum" id="Page_46">[Pg 46]</span>
-de novo das ondas, como a borboleta da chrysalida,
-como a Venus da espuma!</p>
-
-<p>—O que! ouviu em Veneza a serenata do <i>Marino
-Faliero</i>? acudi eu com jubilo infantil.</p>
-
-<p>E, correndo ao piano, fiz brotar das teclas a maviosa
-melodia.</p>
-
-<p>Havia muito que as teclas me não respondiam
-tão suavemente. Aquella doce musica, que suspira
-brandamente como a brisa nos roseiraes, vago preludio
-do rouxinol, harmonia d’anjo, que parece expandir-se
-do carro argenteo de Phebe ao rolar no
-firmamento azul, exhalou-se do teclado, como um
-perfume do calice d’uma flor. Enlevada n’esse encantamento
-que os meus dedos operavam, transportei-me
-brandamente ao seio d’uma noite luminosa
-como essa em que fallava a letra da canção.
-Vi-me em Veneza, reclinada n’uma gondola, cortando
-as aguas do canal. Involuntariamente os meus
-dedos foram affrouxando, até que mal já pesavam
-nas teclas. O canto quasi não se ouvia, e parecia
-apenas um suave murmurio, como o de harpa
-eolia suspensa nas franças de pinheiral distante.</p>
-
-<p>Afinal a harmonia esmoreceu, e esvaiu-se de todo
-debaixo dos meus dedos; deixei descair os braços
-no collo, e fiquei engolfada no meu scismar. A
-chuva batia com mais furia nas vidraças, e o vento
-soprava rijo, fazendo gemer os postigos.</p>
-
-<p>Mas eu não ouvia nem vento nem chuva. Esvaíra-se
-havia muito o ultimo suspiro da tecla abandonada,
-e eu escutava ainda o prolongamento d’essa<span class="pagenum" id="Page_47">[Pg 47]</span>
-nota melodiosa, como se ella se repercutisse n’uma
-atmosphera de crystal. Por deante dos olhos passava-me
-lentamente, como em magico panorama, a
-luminosa visão das cidades italianas: Veneza com
-as suas gondolas, Genova com os seus palacios,
-Florença com as suas galerias, Roma com as suas
-ruinas, Napoles com o seu golpho! E n’essa atmosphera
-encantada, n’esse mar limpido e voluptuoso
-fluctuavam as minhas andorinhas, vogavam os meus
-cysnes, doces devaneios que tinham fugido havia
-muito com a aza branca magoada!</p>
-
-<p>Quando levantei a cabeça, estavam todos á roda
-de mim, D. Antonia com um sorriso ironico, Claudio
-triste e inquieto, Alberto como que entregue a
-um delicioso extasi.</p>
-
-<p>—Oh! mais! mais! disse elle pondo as mãos
-com ar supplicante; mais alguns minutos d’esse goso
-infindo! Que mysteriosa intuição de artista lhe
-revelou Veneza? É esse o bater da agua nos degraus
-das escadarias! são esses os murmurios que
-fluctuam n’aquella atmosphera abrazadora! são essas
-as melodias que deviam resoar n’essas noites
-ferventes, em que o mundo inteiro, saindo das brumas
-da idade-media, não fazia senão balbuciar, pela
-voz dos seus poetas, pelos marmoreos labios das
-suas estatuas, a palavra «amor» que ia esculpir até
-nos rendilhados portaes, nos voluptuosos columnelos
-dos templos da Divindade! amor sensual, pagão,
-lascivo, se quizerem; mas amor immenso e vivificante
-como o que os raios do sol entornam no
-seio da gleba italiana, como as ondas do Mediterraneo<span class="pagenum" id="Page_48">[Pg 48]</span>
-descantam ás plagas sonoras da Ausonia e
-da Grecia!</p>
-
-<p>—Ah! tambem sente o mesmo? tornei eu infantilmente,
-acha tambem que a musica tem o magico
-dom de evocar um mundo desconhecido?</p>
-
-<p>—Se tem! A musica abre-nos de par em par as
-portas do ideal! S. Pedro foi destronisado. Os porteiros
-do céo são Bellini e Donizetti; a <i>Lucia</i> e a
-<i>Norma</i> são as duas chaves do Paraizo.</p>
-
-<p>—E Meyerbeer? perguntei eu, rindo.</p>
-
-<p>—Oh! esse é o porteiro do inferno.</p>
-
-<p>Ia protestar, mas elle interrompeu-me, e continuou:</p>
-
-<p>—Descance, de um inferno onde o ranger dos
-dentes é harmonioso, e onde os humanos, criminosos
-durante a vida terrestre, são condemnados a
-darem eternamente o <i>dó</i> do peito. Pois onde queria
-que eu collocasse o author do <i>Roberto do Diabo</i>?
-No céo de certo que não. Meyerbeer é o Satanaz
-da melodia, é o anjo caido; mas o anjo caido
-de Milton, e não o diabo das lendas. Aquelle homem
-abre-nos um mundo mysterioso e terrivel, d’onde
-refugimos com terror, mas para onde nos attrae
-depois uma indisivel voluptuosidade. Toda a musica
-do <i>Roberto</i> é a pavorosa traducção em notas da
-apostrophe de Satanaz ao sol no poema do Homero
-britannico. Mas d’esse cahos de harmonias tremendas
-brota ás vezes um canto d’uma doçura infinita,
-como o do papel d’Alice, por exemplo. São as
-recordações da patria celestial, são as tristezas do
-Archanjo soberbo no meio do seu tenebroso exilio.<span class="pagenum" id="Page_49">[Pg 49]</span>
-E as notas isoladas da abertura do <i>Propheta</i>! Que
-vaga melancholia, que tristeza sobrehumana! Saudade
-tão profunda só a podem inspirar os campos
-das eternas delicias, o Elysio resplandecente, a habitação
-dos anjos!</p>
-
-<p>N’este momento entrava o creado com a bandeja
-do chá. Fomos para a mesa, e a conversação
-prolongou-se até á uma hora da manhã. A chuva
-cessara, e a noite puzera-se fria mas serena. Alberto
-despediu-se, e saiu.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_50">[Pg 50]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="VI">VI</h2>
-</div>
-
-
-<p>Quando Alberto saiu pareceu que me caia de chofre
-um peso no peito. Imaginem Sisypho, a victima
-infeliz do inferno mythologico, podendo ver de relance
-uma nesga dos Elysios, e, quando está enlevado
-n’esse delicioso panorama, sentindo de subito
-rolar pela escarpa da montanha, e desabar-lhe em
-cima o rochedo do supplicio!</p>
-
-<p>Tal era a minha situação.</p>
-
-<p>Tivera um momento de liberdade; o meu espirito,
-constrangido, torturado, voara em extasi para a região
-luminosa dos meus sonhos, engolphara-se nos
-seus fulgores, nadara em pleno ether, ouvira as harmonias
-desconhecidas do vulgo; mas as trevas cerravam-se-me
-de novo, e as grades da minha gaiola
-appareciam-me em toda a sua negra hediondez.</p>
-
-<p>Claudio, pouco depois de sair o seu amigo, pretextou
-achar-se fatigado, e retirou-se. Ficámos sós,
-eu e D. Antonia.</p>
-
-<p>De bom grado me teria tambem retirado; mas
-o somno esquivava-se-me ás palpebras, que em vão
-o chamavam. Tinha a cabeça cheia de melodias, pulsava-me<span class="pagenum" id="Page_51">[Pg 51]</span>
-nas veias a febre da arte. Decididamente
-não podia dormir; levantei-me e approximei-me da
-janella.</p>
-
-<p>O vento da meia noite dissipara as nuvens, e descobrira
-a lua; o céo estava de uma limpidez magnifica,
-as poças da agua brilhavam como diamantes
-enormes. Deu-me uma tentação de banhar a cabeça
-escandescente n’essa athmosphera gelada, e abri a
-janella.</p>
-
-<p>—Que capricho tão romanesco, minha sobrinha,
-acudiu logo D. Antonia. Demais a mais é escusado!
-olhe que já o não vê.</p>
-
-<p>—Já não vejo quem? tornei eu voltando-me espantada.</p>
-
-<p>—Ora, quem! provavelmente quem saiu d’aqui.</p>
-
-<p>—Quem saiu d’aqui! repeti eu sem perceber
-ainda.</p>
-
-<p>—Ih! Jesus! não se faça desentendida! o senhor
-Alberto Mascarenhas.</p>
-
-<p>Ferveu-me nos labios uma resposta indignada;
-mas, lembrando-me da discussão que ia provocar,
-encolhi os hombros, fechei a janella e fui me sentar
-ao pé da mesa.</p>
-
-<p>Seguiu-se um silencio.</p>
-
-<p>Mas D. Antonia não era pessoa que assim abandonasse
-o campo de batalha.</p>
-
-<p>—Eu gosto de ver estas senhoras, que tanto gostam
-de conversar com estranhos. Seu marido e a
-tia de seu marido, segundo parece, não são dignos
-de fallarem com s. ex.ª. Pois olhe, se assim pensava,
-era melhor que não casasse. Mas estas senhoras<span class="pagenum" id="Page_52">[Pg 52]</span>
-afrancezadas querem ter um marido para gosarem
-toda a liberdade, e para serem um objecto de
-escandalo para as pessoas virtuosas e tementes a
-Deus. E não desejam conversação de senhoras, isso
-não lhes agrada. Não estão satisfeitas senão quando
-conversam com homens, e todas se embebem nas
-suas fallas, sem nem sequer deitarem uma vista
-de olhos para o esposo que receberam aos pés do
-altar. Com estas doidas é que os homens se entendem
-bem. Ah! mundo! mundo!</p>
-
-<p>—Isso refere-se a mim, senhora D. Antonia?
-perguntei eu, affectando socego, mas ralada pela
-indignação que me fervia no peito.</p>
-
-<p>—Ah! parece que lhe serve a carapuça? tornou
-ella, rindo-se com um riso sarcastico.</p>
-
-<p>—Eu não entendo muito bem d’essa questão de
-carapuças; mas, se teve intenção de me insultar,
-dir-lhe-hei que meu marido não ha de ficar satisfeito,
-sabendo a que improperios estou todos os
-dias exposta n’esta casa, que devia ser para mim
-abrigo inviolavel contra as injurias de qualquer,
-muito mais partindo ellas de uma pessoa da sua
-familia.</p>
-
-<p>—Injurias! já se vê! estava á espera d’isso mesmo!
-Chamam-se injurias as verdades!</p>
-
-<p>—As verdades! mas que verdades? tornei eu
-impaciente!</p>
-
-<p>—As que devia ouvir com mais attenção, quando
-lh’as diz uma pessoa, que só quer o seu bem.
-Que idéa iria formando o Alberto Mascarenhas
-d’uma mulher que esteve, toda a noite, dando-lhe<span class="pagenum" id="Page_53">[Pg 53]</span>
-só attenção a elle, e não dirigindo uma palavra só
-nem a seu marido, nem a tia de seu marido?</p>
-
-<p>—Mas eu podia obrigal-os a fallar? tenho porventura
-culpa se nem uma vez só entraram na
-conversação?</p>
-
-<p>—Ora essa! Pois que havia eu de dizer, n’uma
-palestra, em que não ouvia senão heresias! Que
-S. Pedro não era porteiro do céo, e não sei que
-mais! Estava-me causando pasmo vêl-os fallarem
-com tanto sangue-frio no demonio. Ah! se eu fosse
-o Claudio!</p>
-
-<p>D’esta vez não pude deixar de me rir, o que,
-como é facil de suppor, ainda mais augmentou a indignação
-de D. Antonia.</p>
-
-<p>—Ria-se, pois não! é o que deve fazer! É o pago
-que recebemos dos bons conselhos, que lhes desejamos
-dar! Mangam comnosco, e entram affoitamente
-no caminho da perdição! Ver eu, com estes olhos,
-uma senhora, que, para desgraça da nossa familia,
-é esposa de meu sobrinho, toda enlevada e requebrada
-a dar attenção a um petimetre na minha presença,
-e em presença de seu homem! É aonde póde
-chegar o descaramento.</p>
-
-<p>—Isto é demais, exclamei eu, erguendo-me com
-os olhos arrazados de agua; vejo-me condemnada
-aqui a ouvir uma linguagem, a que nunca me acostumaram,
-e a defender-me de accusações que o meu
-procedimento nunca authorisou. Só o ridiculo do
-insulto póde attenuar a insolencia d’elle.</p>
-
-<p>—Sim, diga que é ridiculo!... Como logo hoje
-abriu o piano! como correu pressurosa para o tocar!<span class="pagenum" id="Page_54">[Pg 54]</span>
-Puz as mãos na cabeça. Nunca imaginara tal.
-Ver o pudor esquecido áquelle ponto!</p>
-
-<p>—Mas que idéa forma então de mim? tornei eu
-com voz tremente, em que palpitavam os soluços
-abafados; se me julga capaz de provocar galanteios
-de um homem, que vejo pela primeira vez, e que
-tem delicadeza bastante para nem por sombras dar
-mostra de que me deseja requestar?</p>
-
-<p>—Ah! já o defende! Descance que ninguem o
-attaca. E, depois, se o viu pela primeira vez, é o
-que resta saber. Hoje em dia as meninas educadas
-á moda franceza são capazes do enganar os velhos
-mais experientes! Os planos são bem combinados!
-Commette-se uma <i>imprudencia</i>, e depois apparece
-um moço inexperto, a quem se acceita por marido,
-sem ao menos sequer se lhe dar tempo de fazer a
-côrte! Esses preliminares são escusados para se
-chegar ao fim a que se aspira! Depois, um bello
-dia, apparece um moço, <i>a quem se vê pela primeira
-vez</i>, e o moço que se vê pela primeira vez encontra
-a imprudencia remediada.</p>
-
-<p>—Oh! isto é horrivel! respondi, não podendo já
-suster as lagrimas e debulhando-me em prantos.</p>
-
-<p>D. Antonia olhou para mim com um sorriso de
-triumpho; estava vingada dos sarcasmos de Alberto,
-do seu silencio forçado de tres horas. Estavam suavisadas
-com esse balsamo das minhas lagrimas as
-feridas da sua vaidade, as mordeduras do demonio
-da inveja.</p>
-
-<p>Ergueu-se, e lançando-me um ultimo olhar, saiu
-vagarosamente da sala.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_55">[Pg 55]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="VII">VII</h2>
-</div>
-
-
-<p>Admiro-me ás vezes agora das torturas que me
-causavam aquellas accusações, tão despreziveis e
-tão absurdas. Mas eu era uma creança, e não podia
-conceber que o azedume e o despeito levassem uma
-mulher, que vivera toda a sua vida engolphada
-n’aquellas intrigas pequeninas, a torturar por divertimento
-e só por divertimento. Revoltava-me o absurdo,
-em vez de me fazer rir, e pungia-me principalmente
-o proposito firme que eu vira que D. Antonia
-formara de contrariar todas as minhas predilecções,
-de me obrigar a descer áquella esphera, em
-que ella vivia deliciosamente.</p>
-
-<p>Parecia-lhe impossivel até que houvesse alguem
-que se occupasse em outras coisas, ou que n’outras
-coisas pensasse. Quando expunha alguma das
-suas frivolas theorias, queria que todos as acceitassem
-com muita reverencia, e, se não manifestavam
-logo a sua adhesão, recebiam uma chuva d’epigrammas,
-porque eram consideradas do partido opposto<span class="pagenum" id="Page_56">[Pg 56]</span>
-ao seu, não podendo D. Antonia perceber que o
-verdadeiro motivo do silencio, em que todos ficavam
-quando ella fallava, era a perfeita indifferença
-que inspiravam as suas insipidas e dogmaticas banalidades.</p>
-
-<p>Se eu fosse capaz de comprehender aquella indole
-essencialmente mexeriqueira, teria logo despresado
-os seus ataques, por mais insolente que fosse a
-forma. Mas eu nunca estudara essa variedade da
-raça humana; era D. Antonia o primeiro especimen
-que me apparecia, e só muito depois vim a
-conhecer a fundo os usos e costumes d’aquella
-familia zoologica, olvidada por Linneu da sua classificação.</p>
-
-<p>E demais, qual é o espirito, por mais energico,
-por mais elevado que seja, que possa affrontar serenamente
-estas torturas pequenas do lar domestico?</p>
-
-<p>Direi mais, quanto mais elevado e mais energico
-fôr, mais accessivel é tambem a estas feridas de alfinete.
-Todos os inimigos são previstos, menos este,
-que é o mais despresivel e o mais terrivel tambem.
-O leão da fabula despresava o mosquito, e foi o
-mosquito quem o venceu.</p>
-
-<p>Depois via-me só! só n’aquelle pelejar incessante,
-sem ter um peito amigo que me fosse anteparo,
-sem ter um coração em que me abrigasse. Queria
-a soledade, e a soledade fugia-me! O eterno zumbir
-d’aquella vespa afugentava as abelhas dos meus
-sonhos, que eu julgava que podiam libar tão doce
-mel no calice das flores da phantasia!</p>
-
-<p>A pouco e pouco fôra abandonando as minhas relações;<span class="pagenum" id="Page_57">[Pg 57]</span>
-apoderara-se de mim uma especie de <i>spleen</i>,
-e era-me insupportavel a sociedade, porque estava
-sempre n’ella constrangida, exposta como me via a
-algum escandalo produzido pela extravasão da bilis
-de D. Antonia. Nas salas, onde uma ou outra vez
-entrava, sentia constantemente aquella espada de
-Damocles suspensa sobre a minha cabeça, e bastava
-isso para envenenar todo o jubilo que eu poderia
-ter.</p>
-
-<p>As minhas amigas de infancia espantavam-se de
-me verem tão arredia, e arrastadas tambem pelas
-suas preoccupações de solteiras, nem se lembravam
-de virem visitar a pobre exilada. «Temiam, diziam-me
-ellas rindo, quando me encontravam, ser indiscretas,
-vindo bater á porta do meu santuario.» E
-eu sorria-me tambem—que remedio!—sentindo
-ao meu lado, como sentia sempre, o genio mau
-que se adorava n’aquelle templo domestico.</p>
-
-<p>Um dia o acaso fizera-me ter um momento de
-desafogo, de expansão, de contentamento! Essa
-curta alegria havia de ter inevitavelmente a sua expiação:
-teve-a, e logo em seguida.</p>
-
-<p>Essa suave convivencia que eu esperava que se
-estabelecesse entre mim e Alberto, essas conversações
-que viessem de vez em quando, como os oasis
-no deserto, offerecer-me um instante de frescura,
-dessedentar-me por um pouco, tudo isso era maculado,
-ainda antes de nascer, pela baba peçonhenta
-do reptil que me perseguia!</p>
-
-<p>Parecia que um instincto infernal lhe segredava
-os meios de me torturar; havia um demonio invisivel<span class="pagenum" id="Page_58">[Pg 58]</span>
-que volteava em torno d’ella, e que lhe indicava
-os pontos vulneraveis da minha epiderme; vinha
-logo a envenenada setta cravar-se, arrojada por
-mão certeira, no sitio doloroso.</p>
-
-<p>Oh! quem fará um dia o poema d’estas agonias
-mysteriosas, tanto mais tristes, tanto mais pavorosas
-quanto menos lastimadas são quando se revelam!
-Este lento padecer nas trevas mais recatadas
-do lar da familia não tem a poesia augusta dos martyrios,
-que são bem visiveis, e que todos podem
-facilmente avaliar? Pois estas é que são as dores
-terriveis, porque não matam, mas empeçonham a
-vida, estiolam-na, desenfeitam-na de tudo quanto
-a poderia tornar agradavel, e quando o anjo da
-morte venha, depois de longos annos d’uma existencia,
-que mão paciente foi descolorindo, colher no
-seu regaço a nossa alma, encontra-a mais gelada,
-mais fria, mais inerte do que o cadaver, que o tumulo
-reclama.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_59">[Pg 59]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="VIII">VIII</h2>
-</div>
-
-
-<p>Passou-se o resto do inverno, sem que successo
-algum notavel viesse perturbar a triste monotonia
-da minha existencia. Augmentavam a cada instante
-a sombria taciturnidade de meu marido, o intoleravel
-despotismo de D. Antonia.</p>
-
-<p>Alberto vinha de quando em quando visitar-nos,
-e os poucos momentos, que elle passava comnosco,
-eram para mim de ineffavel jubilo. A sua indole
-viva e amena, a sua conversação sempre colorida e
-pittoresca, a sua palavra eloquente exerciam em
-mim uma salutar influencia. As suas visitas eram
-como as de um raio de sol ao preso encerrado n’um
-carcere tenebroso.</p>
-
-<p>A nossa ligação, por maior que fosse o desejo
-que D. Antonia tivesse de a envenenar, não lhe
-dava para isso o minimo pretexto. Era a ligação de
-dois condiscipulos, que se sentem attraidos um para
-o outro pela uniformidade das suas idéas, pela commum
-predilecção consagrada aos mesmos estudos.
-O franco e aberto sorriso, com que eu o acolhia,<span class="pagenum" id="Page_60">[Pg 60]</span>
-O amigavel <i>shake-hands</i> que trocavamos á despedida,
-não explicavam senão sincera e cordial sympathia
-mutua.</p>
-
-<p>Finalmente chegou a primavera. Alberto partira
-antes de terminar o inverno, para a Ericeira, onde
-tinha parentes que o chamavam. Claudio propoz-me
-irmos passar a primavera e o estio n’umas terras
-que possuia na aldeia de ***, junto de Bellas.</p>
-
-<p>Aceitei, e aceitei com enthusiasmo.</p>
-
-<p>Quando já estava determinada a partida, e tudo
-preparado, subitos e imprevistos negocios obrigaram
-meu marido a demorar-se em Lisboa. Não quiz
-elle de modo algum que por causa d’isso transtornassemos
-a viagem projectada. Despediu-se de
-mim affectuosamente, prometteu-nos, que, assim
-que se pudesse desembaraçar, iria ter comnosco;
-depois viu-nos entrar na carruagem, e esteve á janella
-até nos sumirmos saindo as portas da cidade.</p>
-
-<p>Estava um d’estes dias do principio da primavera,
-em que sopra ainda a brisa aguda invernal, e em
-que o horisonte se cobre com um denso veu de neblina.
-Caía uma chuva miudissima, e a baixa de
-Campolide apparecia emvolta n’um manto de tristeza.
-O vulto do aqueducto desenhava ao fundo os
-seus arcos magestosos e sombrios.</p>
-
-<p>Envolvi-me na minha capa de viagem, e concheguei-me
-no fundo do <i>coupé</i>. O movimento da carruagem
-era suave bastante, e proprio, a mais não
-poder ser, para acalentar os meus sonhos. Primeiro
-quiz sustentar a palestra com o auxilio de algumas
-banalidades; mas pouco a pouco a minha imaginação<span class="pagenum" id="Page_61">[Pg 61]</span>
-não se poude conter, engolphou-se na região
-dos devaneios, emquanto ao meu ouvido, que
-as sentia vagamente, resoavam as palavras de D. Antonia,
-que me ía recitando, segundo creio, a lista
-dos nossos visinhos do campo.</p>
-
-<p>Eu, entretanto, contemplava a paizagem, que apresentava
-aspectos diversos e pittorescos. De vez em
-quando um frouxo raio de sol rasgava o manto de
-nevoas, e vinha dar uma certa animação ás campinas.
-Espairecia o firmamento, e a magestosa curva
-do grande arco do aqueducto moldurava ao longe
-uma vasta nesga de tela azul. A luz amarellada do
-sol doirava os campos, que se apresentavam já cobertos
-com o seu vistoso tapete de malmequeres. Depois
-corria-se de novo o panno, e o scenario desapparecia
-com os seus explendores de um momento,
-com o seu instantaneo colorido.</p>
-
-<p>Involuntariamente comparei a minha vida monotona,
-e tendo apenas breves intermittencias de luz,
-com aquella paizagem da primavera invernosa.</p>
-
-<p>A imagem de Alberto fluctuou-me por instantes
-na phantasia.</p>
-
-<p>Sorri-me ao lembrar-me do que diria a minha
-companheira de viagem, se soubesse que vulto eu
-vira n’aquelle instante com os olhos d’alma.</p>
-
-<p>Esse sorriso, por mais rapido que fosse, não escapara
-á vista perspicaz de D. Antonia.</p>
-
-<p>—De que se ri? perguntou logo.</p>
-
-<p>Como que acordei sobresaltada.</p>
-
-<p>—De nada, retruquei.</p>
-
-<p>—De nada? Só a pessoas que não teem todo o<span class="pagenum" id="Page_62">[Pg 62]</span>
-juizo, acontece semelhante coisa. É verdade que
-talvez agora se dê esse caso, accrescentou por entre
-os dentes.</p>
-
-<p>Encolhi os hombros.</p>
-
-<p>—Pois olhe, continuou ella, que o que eu lhe estava
-dizendo era muito sério. Provavelmente nem
-sabe o que foi.</p>
-
-<p>—Confesso, respondi eu fazendo-me vermelha,
-que não percebi bem.</p>
-
-<p>—Ah! não percebeu? Pois olhe, não era difficil.
-Por onde andará o seu pensamento? Não percebe
-o que eu digo e não sabe de que se ri! Isso ha de
-ser nervoso. Talvez precise de tomar banhos de
-mar... na Ericeira.</p>
-
-<p>Começara o tiroteio. Já me admirava de que a
-trégua durasse tanto.</p>
-
-<p>Conforme o costume, deixei passar a tempestade
-dos epigrammas, fazendo porque o meu espirito se
-isolasse completamente d’este mundo, e voasse para
-bem longe d’aquella atmosphera turvada.</p>
-
-<p>Tinhamos já passado para deante da ponte do Carenque,
-e entravamos n’essa estrada arida, núa,
-monotona, que põe em communicação entre si Lisboa,
-a formosa rainha do Tejo, Cintra, a mimosa
-camponeza das serras.</p>
-
-<p>O sol, proximo do occaso, conseguiu alfim romper
-a nebulosa cortina que o cercava. Como a lampada
-moribunda projecta, nas vascas da agonia,
-mais intenso clarão, assim o rei dos astros, antes de
-apagar no horisonte a sua corôa de fogo, quiz inundar
-o céo com vividos reflexos.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_63">[Pg 63]</span></p>
-
-<p>Então o cerrado esquadrão das nuvens como que
-se revestiu de luminosas couraças. Como captivo
-soberano, a quem a fortuna restitue o throno, e que
-vê passar por deante de si humildes e curvados os
-seus proprios carcereiros, assim as nuvens desfilavam,
-impellidas pelo vento, por deante do sol, immovel
-no horisonte purpurado, como em vasto
-solio de chammas. Aqui semelhavam corceis phantasticos,
-de arreios de ouro e xaireis de escarlata,
-que voavam n’um insano galope; mais além nuvens
-distantes, que se tingem de reflexos arroxados, passavam
-lentamente, como graves magistrados envoltos
-nas suas bécas. A illusão chegou a ponto, que
-a minha phantasia, começando, segundo o costume,
-a tomar gosto n’esses devaneios, deu a cada nuvem
-um papel, e chegou a vêr bem vivos, bem claros os
-vultos que imaginava.</p>
-
-<p>Este cortejo de nuvens bojudas, que avançava
-magestosamente, representava a meus olhos a camara
-municipal. Ouvia-lhes os discursos, que o vento
-vinha indiscretamente segredar ao meu ouvido.</p>
-
-<p>Aquell’outras que se conservavam fluctuando em
-torno do sol, e que mais brilhantes se mostravam
-com as suas vestes de purpura recamadas de oiro,
-eram os cortezãos que cercavam o regio throno.</p>
-
-<p>As arvores, que fugiam, á medida que ia passando
-a carruagem, affiguravam-se-me a plebe, que
-saudavam com enthusiasmo a cerimonia celestial. O
-vento agitava-lhes os braços, que pareciam menear
-na atmosphera invisiveis chapeus; dir-se-ia que os
-murmurios, que se exhalavam das suas ramas, eram<span class="pagenum" id="Page_64">[Pg 64]</span>
-o bramir longinquo e indiscreto dos vivas de um povo
-inteiro.</p>
-
-<p>Era tão comica a attenção que eu prestava a estas
-cerimonias phantasiadas, que involuntariamente,
-caindo em mim, desatei a rir.</p>
-
-<p>D. Antonia olhou-me com espanto.</p>
-
-<p>—Estará maluca, minha sobrinha? perguntou ella.</p>
-
-<p>Eu olhei-a com um embaraço infantil, e balbuciei
-algumas palavras inintelligiveis.</p>
-
-<p>—Em vez de conversar comsigo mesma, teria
-sido melhor se me communicasse os seus pensamentos.
-Não teria d’essa fórma commettido a indelicadeza
-de quasi me não dar palavra todo o caminho...
-porque estamos em Bellas.</p>
-
-<p>Tinha razão, e eu não pude fazer mais do que
-acceitar a reprimenda e confessar a mim mesma
-que as imprudencias da minha phantasia de creança,
-que estava prompta sempre a lançar mão da <i>clef
-de champs</i>, eram causa muitas vezes dos meus dissabores.</p>
-
-<p>Estavamos em Bellas effectivamente. O sol sumira-se
-de todo, mas o céo parecia querer-se conservar
-limpo, e prometter uma noite boa. A carruagem
-parou no largo para onde deita a porta da
-quinta do conde de Pombeiro.</p>
-
-<p>O cocheiro tomou informações, e soube que as
-chuvas dos ultimos dias tinham transformado as
-estradas em atoleiros. Veio ter comnosco, e disse-nos
-que nos levava, se quizessemos, á aldeia de ***,
-mas que nos arriscavamos a fazer uma viagem demorada,
-ou a ficar atascadas no meio do campo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_65">[Pg 65]</span></p>
-
-<p>Como a noite promettia estar serena, e a aldeia
-não era muito distante, resolvemos, eu e D. Antonia,
-ir a cavallo. Por conseguinte despedimos o cocheiro,
-depois d’elle nos ter ido alugar uns burros,
-e, sentadas no dorso dos pacificos animaes, tomámos
-o caminho da casa de campo.</p>
-
-<p>Pouco teriamos andado, quando o céo se principiou
-a toldar de novo. Caía a noite, e as nuvens,
-carregando o firmamento, apagavam os faroes das
-estrellas, e desdobravam por cima das nossas cabeças
-um manto negro e funebre. O rapaz, que
-tocava os jumentos, mirou o céo e abanou a cabeça
-dizendo:</p>
-
-<p>—Temos ahi chuva em barda. É irmos mais
-depressa, minhas senhoras.</p>
-
-<p>Mas isso era mais facil de se dizer do que de se
-fazer. As informações do cocheiro tinham sido exactas,
-e as estradas eram verdadeiramente uns lamaçaes
-quasi impossiveis de atravessar. A chuva
-já principiara a cair, o vento zunia com violencia,
-e os pobres animaesinhos curvavam a cabeça, e
-amainavam as longas orelhas, como o barqueiro
-amaina a vela quando sopra o temporal furioso.
-Era necessario avançarmos com muita cautela, para
-não tomarmos algum banho n’essas poças que abundavam
-no caminho, e que um ou outro relampago,
-que principiava a fuzilar, nos mostrava, cercando-nos
-por todos os lados, como uma rede de paúes.</p>
-
-<p>Finalmente retumbou um trovão magestoso, e
-uma tremenda pancada d’agua desabou em cima de
-nós.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_66">[Pg 66]</span></p>
-
-<p>—Santa Barbara, e S. Jeronymo nos accudam,
-murmurou o burriqueiro, que noite que vamos ter!</p>
-
-<p>—Ainda fica muito longe a aldeia? perguntei eu.</p>
-
-<p>—Ainda é um bom pedaço, respondeu o rapaz,
-atirando uma verdascada ao jumento para lhe apressar
-o passo vagaroso.</p>
-
-<p>—E não ha por aqui alguma aldeia mais proxima?</p>
-
-<p>—Agora vamos nós atravessar uma.</p>
-
-<p>—Então, senhora D. Antonia, acudi voltando-me
-para ella, não acha que seria melhor recolhermo-nos
-em alguma casa, emquanto não passa o temporal?</p>
-
-<p>—Entrar em casa de um saloio! Deus me livre!
-A minha sobrinha não sabe como esta gente é bruta,
-e porca principalmente. Eu, se me visse obrigada,
-por não ter outro remedio, a descançar n’uma casa
-d’essas, assim que me visse no palacete, despia-me
-toda! Captiva!</p>
-
-<p>Isto era dito em voz bem alta, deante do rapaz
-que nos acompanhava. Elle naturalmente não se
-importou com isso; mas a mim é que se me confrangeu
-o coração: nem gosto de humilhar, nem
-de ver humilhar, os humildes; impressiona-me sempre
-desagradavelmente ver alguem, collocado pela
-fortuna n’uma posição mais ou menos elevada, fazer
-sentir á gente das classes inferiores a distancia
-que as leis antigamente e agora os habitos mantém
-entre os pobres e os ricos, os humildes e os soberbos.</p>
-
-<p>Por isso, para remediar quanto em mim coubesse<span class="pagenum" id="Page_67">[Pg 67]</span>
-a falta de delicadesa de D. Antonia, dirigi amigavelmente
-a palavra ao nosso companheiro saloio.</p>
-
-<p>D. Antonia nem em tal reparou. Aquellas coisas
-fazia-as ella naturalmente, e sem ser por mal. Não
-tivera intenção de offender o rapaz, e ficaria espantadissima
-se soubesse que um saloio podia ter susceptibilidade
-e sentimento da dignidade humana.
-Nunca se constrangia para fallar deante d’essa gente;
-no mais não a tratava nem melhor nem peior do
-que os outros, e estava convencida que podia ser
-considerada como um modelo de affabilidade quando
-correspondia ao cumprimento de um homem de
-baixa esphera, e lhe dizia:</p>
-
-<p>—Como está <i>você</i>? Sua mulher e seus filhos vão
-bem? Muito estimo! Beba um copo de vinho á minha
-saude. Aqui não; vá para a cosinha. Olhe, lá
-me sujou a casa com os tamancos! Esta gente não
-póde entrar em parte alguma.</p>
-
-<p>Emquanto eu fazia taes reflexões, não findara a
-chuva; mas os jumentos, incitados pela voz e pelas
-verdascadas do burriqueiro, e por um certo instincto
-que lhes dizia que estavam quasi chegados ao
-termo da sua jornada, haviam tomado uma andadura
-mais rapida, de fórma que d’ahi a um quarto
-de hora pudemos ver uma casa de boa apparencia,
-singela, com pavimento rente do chão, e andar nobre,
-que D. Antonia me disse ser a nossa residencia.</p>
-
-<p>O burriqueiro deitou a correr para ir bater ao
-portão; quando lá chegámos, tinham-se já corrido
-os ferrolhos e destrancado a porta, e uma criada<span class="pagenum" id="Page_68">[Pg 68]</span>
-velha, entre-abrindo-a cautellosamente, apparecia
-com um candieiro de tres bicos na mão, e exclamava,
-ao conhecer D. Antonia:</p>
-
-<p>—Valha-nos Deus! A Virgem Maria nos acuda!
-É a senhora D. Antonia! Ai! a minha santinha,
-como ha de vir molhada! Ó Zé Caneira! olha que
-é a senhora. Ó Annica! Ó mulher, tu não appareces?
-Diabos te... quero dizer: Valha-te Deus, rapariga,
-que tão mollenga me saiste!</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_69">[Pg 69]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="IX">IX</h2>
-</div>
-
-
-<p>Era perfeitamente uma d’aquellas phantasticas
-velhas dos contos de Hoffmann essa que nos viera
-abrir as portas. Nariz adunco, barba revirada, cabellos
-grisalhos, despenteados e fluctuando como
-que em desordenadas estrigas sobre a testa proeminente,
-que abrigava, como uma especie de pala
-natural, os olhinhos pequenos, pardos, e encovados!
-A luz mortiça do candieiro projectava no seu rosto
-uns vagos reflexos, que ainda lhe davam um mais
-estranho realce. Era baixa, um tanto curvada para
-diante, e vestia uma especie de casabeque immundo,
-apertado na cintura, com umas abas curtas, que
-cobriam uma pequena porção da saia de baeta vermelha,
-que lhe ia poisar em cima dos sapatos rotos.
-A boa da velha não se fartava de nos fazer mesuras,
-em quanto vinham surgindo de differentes portas
-os creados, que ella chamara, e que traziam um
-supplemento de illuminação.</p>
-
-<p>—Adeus, Maria do Rosario, disse D. Antonia,
-ao apear-se da cavalgadura, como está você?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_70">[Pg 70]</span></p>
-
-<p>—Ai! minha senhora, graças a Deus! antes assim
-que peior! cá vou arrastando estes pobres ossos por
-este mundo de Christo, até Deus querer... até Deus
-querer! Ai! minha querida senhora D. Antoninha,
-está cada vez mais moça! bonita, guapa! ai! Senhor!
-quantas meninas de quinze annos a não hão de invejar?</p>
-
-<p>—Isso é dos seus olhos, Maria do Rosario, tornou
-D. Antonia, rindo-se com certa complacencia,
-já estou velha e bem velha. O tempo de agora está
-para estas, continuou, apontando para mim; olhe,
-é a mulher de meu sobrinho.</p>
-
-<p>Maria do Rosario fez-me uma mesura, a que eu
-respondi com um sorriso.</p>
-
-<p>—Ai! Santo Deus! é mesmo uma flor! Deus a
-fade bem, e lhe dê o juizo da tia, como lhe deu a
-belleza d’ella! com que então, é esta a mulher do
-seu Claudiosinho? Quem havia de dizer, senhora
-D. Antonia, quando nós andavamos com o Claudio
-ao collo...</p>
-
-<p>—Andavamos! interrompeu D. Antonia, um tanto
-espinhada, andaria você, eu era uma creancinha
-n’esse tempo!</p>
-
-<p>—Ora esta! acudiu apressadamente Maria do
-Rosario, emendando a mão como boa cortezã que
-logo vi que ella era, onde teria eu a cabeça? É verdade
-que a senhora D. Antonia, desde creança, foi
-tão espigadinha, tão airosa! Ai! minha senhora...
-como é a sua graça?</p>
-
-<p>—Margarida, respondi, tiritando de frio, porque
-estava com o fato ensopado, e ainda não tinhamos<span class="pagenum" id="Page_71">[Pg 71]</span>
-passado do fundo da escada, tal era o enlevo com
-que D. Antonia escutava a sua lisongeira.</p>
-
-<p>—Margarida! que bonito nome, benza-a Deus!
-Pois, senhora D. Margarida, não póde imaginar que
-linda creança era aqui a senhora D. Antonia. Branca
-de neve, alta, muito rosada! Era mesmo um anjinho
-do céo!</p>
-
-<p>—Não diga tal, Maria do Rosario, tornou D. Antonia
-rindo, eu nunca fui bonita; era muito branca,
-isso sim! por esse lado todos me gabavam! alta
-sempre fui tambem, e apezar d’isso, tinha um pé
-tão pequeno, tão pequeno que todos diziam que parecia
-impossivel como podia suster o corpo... mas
-não é d’isso que se trata agora; estamos ambas ensopadas,
-e queremos mudar de fato. Já cá estão as
-bagagens?</p>
-
-<p>—As bagagens? não, minha senhora, não estão;
-nós até nem suspeitavamos que as senhoras viessem
-hoje... Ora! valha-me Deus!</p>
-
-<p>—Pois as bagagens ainda cá não estão!? tornou
-D. Antonia, desesperada. E o que havemos de fazer?</p>
-
-<p>—Que transtorno! que transtorno! mas as senhoras
-hão de vir cançadas, e talvez o melhor seja
-deitarem-se, a não ser que prefiram aquecer-se aqui
-ao fogo da lareira! Mas isso não é...</p>
-
-<p>—O que! ir para a cosinha? Você não está em
-si, Maria do Rosario.</p>
-
-<p>—Desculpem, minhas senhoras, isto era por dizer.</p>
-
-<p>—E eu aproveito a idéa, tornei sorrindo-me;
-não tenho somno; e o fogo da lareira está-me convidando.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_72">[Pg 72]</span></p>
-
-<p>—Faça o que quizer, acudiu D. Antonia seccamente.</p>
-
-<p>E subiu a escada com toda a magestade, seguida
-por Maria do Rosario, que lá ia resmungando a
-continuação do seu panegyrico.</p>
-
-<p>—Para onde é a cosinha, meus amigos? perguntei
-eu voltando-me para os criados, que haviam assistido
-mudos á precedente scena.</p>
-
-<p>—P’ra aqui, p’ra aqui, minha senhora, acudiram
-todos á uma, apressando-se a mostrarem-me o caminho.</p>
-
-<p>Desci uns tres degraus que me ficavam á direita,
-segui um corredor, e achei-me na cosinha.</p>
-
-<p>A tempestade redobrara de violencia; sentia-se a
-chuva bater nos postigos; de vez em quando uma
-lufada de vento engolphava-se gemendo por alguma
-janella que se abriu com fragor, e uma chapada
-d’agua inundava o chão lageado; ao mesmo tempo
-os aterrados aldeãos viram as arvores estorcerem
-lá fóra as suas ramas ainda mal cobertas de folhas
-nascentes, benziam-se tres vezes, se um relampago,
-incendendo a ramaria no seu clarão azulado, a
-transformava nos phosphorescentes braços dos espectros.</p>
-
-<p>A cosinha era vasta, e o bom fogo que ardia na
-lareira, e cujos avermelhados reflexos doidejavam
-mirando-se nos espelhentos cobres da bateria culinaria,
-espalhavam em todos elles não sei que doce
-encanto, que suavissima alegria, e que idéas de tranquillidade
-e conforto que me fizeram acudir aos labios
-um jubiloso sorriso.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_73">[Pg 73]</span></p>
-
-<p>A lareira era quasi rente do chão, como todas as
-lareiras, e á roda d’ella uns poucos de saloios, em
-cujas physionomias astuciosas batia em cheio o clarão
-do brazido, escutavam attentamente uma boa
-velha, a qual, sentada n’uma d’estas cadeiras d’espaldar,
-forradas de coiro e cravejadas de pregaria
-amarella, velhos ornamentos das salas dos palacios,
-desterrados agora pelos <i>fauteuils</i>, pelos sophás, e
-pelas <i>causeuses</i> para as regiões infimas da cosinha,
-fiava a sua rocada e contava uma historia qualquer,
-a que todos prestavam a maior attenção.</p>
-
-<p>Do outro lado da lareira uma outra cadeira d’espaldar
-fazia symetria com esta, e mostrava que fôra
-occupada, instantes antes talvez, pela Maria do Rosario,
-que nos viera receber.</p>
-
-<p>Em torno de uma vasta mesa de pedra, situada
-ao meio da cosinha, reuniam-se uns tres ou quatro
-saloios, entre os quaes descortinei o burriqueiro,
-que estava saboreando as delicias da nossa hospitalidade,
-traduzida n’uma respeitavel malga de feijões,
-e n’um amplo cangirão de vinho.</p>
-
-<p>Foi em presença d’este digno congresso que eu
-appareci, brandamente impellida pelos meus guias,
-que me traziam quasi em triumpho, e que já de
-longe annunciavam que era eu a nova senhora, a
-muito alta e muito poderosa D. Margarida, Castellã
-de Solar de *** nas proximidades de Bellas.</p>
-
-<p>Quando cheguei á porta, estaquei, enlevada n’esse
-quadro de tão rustica e pittoresca simplicidade.
-Ficava-me defronte a lareira, de fórma que a sua
-luz dava-me no rosto, scintillava-me nos cabellos,<span class="pagenum" id="Page_74">[Pg 74]</span>
-que chispavam doirados reflexos, e cercava-me emfim
-de uma certa auréola sobrenatural, que incutiu,
-segundo penso, um vago respeito n’aquella boa e
-ingenua gente, porque todos se levantaram a um
-tempo, e murmuraram ao ouvido uns dos outros:</p>
-
-<p>—É uma imagem! Parece a Nossa Senhora do
-altar da ermida.</p>
-
-<p>—Salve-os Deus, meus amigos, disse eu alegremente,
-e entrando com desembaraço pela cosinha,
-dão-me ahi um cantinho á lareira para me enxugar?</p>
-
-<p>—Guarde-a Deus, minha boa senhora, respondeu
-a velha cortejando-me respeitosamente, e entrem
-n’esta casa no seu regaço todas as felicidades,
-porque espero em Deus que seja tão bondosa, como
-é linda, e tão verdade como ser Nosso Senhor Jesus
-Cristo crucificado para nos remir do peccado
-original, nunca os meus olhos viram tal perfeição.</p>
-
-<p>—Muito obrigada, boa tia, respondi eu affectuosamente,
-forçando a pobre mulher a sentar-se, e
-sentando-me tambem na outra cadeira que logo todos
-chegaram para ao pé do lume; vejo que entrei
-n’esta casa com bem maus agoiros. Que tempestuosa
-noite!</p>
-
-<p>Os creados e as criadas, que me tinham guiado,
-sentaram-se no chão á roda da minha cadeira e
-prestaram ouvido attento á palestra, que se principiara
-a travar entre a boa Quiteria, oraculo d’aquella
-tribu, e a recem-chegada Lisboeta.</p>
-
-<p>O vento gemia rijo lá fóra, a lenha do lar crepitava,
-ouvia-se o monotono canto do grillo, e o fuso
-sirandava, sirandava nas mãos ligeiras da velha.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_75">[Pg 75]</span></p>
-
-<p>Reinava silencio profundo.</p>
-
-<p>Eu sentia coar-se-me nas veias aquelle indizivel
-bem-estar, que em moderado calor influe no corpo
-gelado pelo vento e pela chuva. Passeei a vista com
-benevolencia pela assembléa, e não vi senão rostos
-pasmados e olhos fitos em mim.</p>
-
-<p>—Que calada de coelhos! murmurou uma creadita
-que estava ao meu lado, ao ouvido de um rapaz
-seu visinho.</p>
-
-<p>—Então porque não fallam? respondi com um
-sorriso. Vamos! em que se conversava quando eu
-entrei?</p>
-
-<p>—Ora, se a senhora soubesse, ria-se de certo,
-tornou a creada abaixando os olhos negros e travessos.</p>
-
-<p>—Que estás tu a dizer, Annica? interrompeu a
-velha, levando aos labios, para o molhar, o fio da
-estriga, tu julgas então que uma pessoa de juizo se
-possa rir de um caso que é asseverado por gente
-de sabedoria, que lê de fio a pavio todos os livros das estantes?</p>
-
-<p>—Eu não digo isso, tia Quiteria, mas...</p>
-
-<p>—Mas és uma tola, Annica; ha alguem que duvide
-que apparece uma alma do outro mundo na
-capella do senhor conde de Pombeiro, em Bellas?</p>
-
-<p>A velha Quiteria proferiu estas palavras, relanceando
-em torno de si um olhar de desafio. Correu
-um vago frémito no auditorio, e todos se chegaram
-mais uns para os outros, ouvindo com inquietação
-estalar lá fóra a trovoada.</p>
-
-<p>—O que a tia Quiteria diz é muito verdade, accudiu<span class="pagenum" id="Page_76">[Pg 76]</span>
-o burriqueiro com a boca cheia; em Bellas
-não ha cão nem gato que o não saiba.</p>
-
-<p>—Não é bom fallar n’estas coisas em noites de
-temporal, interrompeu um trabalhador velho meneando
-a cabeça coroada de cabellos brancos. Os
-finados sáem do tumulo, quando o trovão os acorda,
-e vagueiam pelos campos, penando os seus peccados.
-Nós ouvimol-os gemer, e dizemos que é o
-sussurrar do vento; não é, não é, é o suspirar dos
-mortos.</p>
-
-<p>Um lufada de ventania zuniu tristemente, e veio,
-coando-se pelas fisgas das portas, fazer vacillar a
-chamma da lareira.</p>
-
-<p>Não sei que sombras phantasticas se projectaram
-no chão lageado da cosinha.</p>
-
-<p>O burriqueiro olhou em torno de si um tanto inquieto,
-e não se julgando já em segurança, destacado
-como estava, do grupo principal, veiu, chegando-se
-a pouco e pouco, accrescentar a roda.</p>
-
-<p>—E que penas que elles penam ás vezes! tornou
-a boa da velha abaixando a voz, e parando por
-um instante de trabalhar. Lembram-se do padre fr.
-João?</p>
-
-<p>—Lembramos, lembramos! santo homem! Morreu,
-ha pouco, em Bellas, responderam todos com
-voz unisona.</p>
-
-<p>—Pois eu conheci aquelle reverendo, que foi pequeno
-da minha creação, e que fez por aqui muitas
-travessuras, quando o pae inda era vivo. O motivo,
-porque elle se metteu frade, é um motivo estranho.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_77">[Pg 77]</span></p>
-
-<p>—Conte, conte, tia Quiteria, bradaram todos a
-uma voz.</p>
-
-<p>—Se a nossa ama dá licença...</p>
-
-<p>—Falle, falle, minha boa tia, estou morrendo pela
-ouvir.</p>
-
-<p>—Pois o pae de fr. João era aqui um lavrador
-da terra, que foi pouco a pouco augmentando as suas
-fazendas á custa dos visinhos, que, sendo mais pobres,
-não o podiam demandar. Todos os annos ia
-elle chegando o marco das terras mais para deante,
-a ponto que um dos seus visinhos
-ficou reduzido á miseria. Morreu o usurario,
-e o pobre filho, que não sabia d’estas coisas, começou
-a disfructar socegadamente os bens que seu
-pae lhe legara. Alguns boatos lhe tinham chegado
-aos ouvidos, mas elle sempre suspeitara que tudo
-eram calumnias e invejas.</p>
-
-<p>«A final chegou o tempo das sementeiras, e o
-nosso João, que morava em Bellas habitualmente,
-mas que tinha uma casita terrea nas suas fazendas,
-veiu residir aqui para vigiar os trabalhadores.</p>
-
-<p>«Quando elle chegou encontrou-os a todos enfiados
-de susto. Disseram-lhe á uma que não tinham
-tido um momento de descanço, porque todas as noites
-se ouvia um arrastar de cadeias, uns gemidos
-que cortavam o coração; e finalmente que um d’elles,
-mais affoito, que ousara espreitar para saber
-qual era a causa d’esse barulho nocturno, quasi
-desmaiara de pavor, quando vira o finado, envolto
-na mortalha branca, arrastando o marco por todo
-o campo, e soltando gemidos lugubres, a que respondia<span class="pagenum" id="Page_78">[Pg 78]</span>
-ao longe o funebre piar do mocho...»</p>
-
-<p>—Credo! murmuraram os assistentes.</p>
-
-<p>«O João todo se desesperou, e disse que desancaria
-quem se atrevesse a repetir semelhantes mentiras,
-e que, para provar o seu dito, havia de passar
-toda a noite sósinho em casa, e que veria se
-ousava alguem perturbar-lhe o repouso.</p>
-
-<p>«Se bem o disse, melhor o fez. Era no verão;
-mas apezar d’isso estava tempestuosa a noite como
-esta de hoje. O trovão ribombava nos ares, e os
-relampagos illuminavam os campos inundados de
-agua. O vento acamava as espigas de trigo, e fazia-as
-sussurrar lugubremente.</p>
-
-<p>«João metteu-se em casa e esperou que soasse a
-hora fatal. Não direi que não estivesse um tanto
-pallido e trémulo, mas continha o receio involuntario,
-e estava prompto para affrontar o perigo intrepidamente.</p>
-
-<p>«Um relogio velho, que elle tinha em casa, fez
-ouvir aquelle barulho que precede nos antigos relogios
-de parede o bater das horas, e logo depois
-deu meia noite. A tempestade pareceu suspender-se
-para escutar o signal dado pela voz mysteriosa
-do tempo, mas, apenas vibrou a ultima pancada, o
-furor da procella, por um instante refreado, redobrou
-de intensidade, e o vento, a chuva e os trovões
-bramiram com tal violencia, que tremeu toda
-a casa como se a sacudissem as garras de invisiveis
-demonios. Logo, por entre os rugidos confusos
-da procella, sibilar do vento, roncar dos trovões, tintinar
-da chuva, começou João a ouvir uns flebeis<span class="pagenum" id="Page_79">[Pg 79]</span>
-gemidos, que se prolongavam indefinidamente, um
-arrastar de algemas, que de cada vez se approximava
-mais.</p>
-
-<p>«João sentiu um calafrio correr-lhe pelas veias;
-mas tomou animo, e levantou-se da cadeira onde estivera.
-Não teve porém tempo de dar um passo.
-Abriu-se a porta e...»</p>
-
-<p>N’este momento abriu-se com estrondo a porta
-da cosinha.</p>
-
-<p>—Jesus! bradaram os circumstantes.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_80">[Pg 80]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="X">X</h2>
-</div>
-
-
-<p>Todos sentimos como que uma commoção electrica;
-eu mesma confesso que estremeci ao dar por
-tão notavel coincidencia. Mas o nosso susto mudou-se
-em espanto, quando vimos apparecer á porta
-D. Antonia, envolta n’um chale antiquissimo, que
-provavelmente descobrira n’algum dos velhos bahus
-da residencia.</p>
-
-<p>—Então aqui não se trata da ceia? perguntou
-ella, cruzando os braços. Toca a palrar e a contar
-historias, e eu e a Maria do Rosario que nos aguentemos
-com o trabalho! Fóra mandriões; Annica já,
-já fazer as camas; Quiteria veja se nos arranja alguma
-coisa para cearmos. Nunca se viu uma coisa
-assim! Os servos aqui muito bem refestellados, e
-as donas da casa tendo de fazer o trabalho se o
-quizerem ver feito. A pobre Maria do Rosario é que
-havia de acudir a tudo. Vamos, minha sobrinha,
-venha d’ahi, não se costume a dar confiança a esta
-gente, senão está perdida.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_81">[Pg 81]</span></p>
-
-<p>O rubor da vergonha, e da colera subiu-me ás
-faces e affogueou-m’as. O que! pois não era eu a
-dona da casa, não era eu só quem podia dar essas
-ordens e essas reprehensões? Mas que havia de fazer?
-Travar uma discussão em presença dos criados?
-Impossivel; a minha indole negava-se completamente
-a essas coisas. E por esta fórma conseguia
-sempre D. Antonia as victorias, que lhe assegurava
-a sua impudente iniciativa.</p>
-
-<p>As criadas andavam já todas azafamadas. Eu ergui-me
-e saí; passei por diante de D. Antonia, e vi
-a Maria do Rosario escondida na sombra. Percebi
-que tinha uma nova inimiga.</p>
-
-<p>Chamei-a, e disse-lhe que me indicasse o meu
-quarto. Ella veiu logo, fazendo muitas mesuras, e,
-pegando no candieiro, caminhou adeante de mim.
-Voltei-me e dei as boas noites a D. Antonia.</p>
-
-<p>—Não ceia, minha sobrinha? perguntou ella.</p>
-
-<p>—Não, minha senhora, respondi; sinto-me cançada,
-e prefiro deitar-me.</p>
-
-<p>Não me respondeu, e limitou-se a encolher os
-hombros. Eu subi a escada, seguindo a Maria do
-Rosario.</p>
-
-<p>O meu quarto ficava situado n’um dos angulos
-do edificio.</p>
-
-<p>Era vasto e frio. Duas janellas de peito, com
-bambinellas, rasgavam-se n’uma das paredes. Um
-leito de cortinas vermelhas, formidavel, macisso,
-abrangia uma grande porção da parede fronteira.
-O quarto fôra forrado de papel, havia pouco, e o
-mau gosto de quem presidira a esses arranjos escolhera<span class="pagenum" id="Page_82">[Pg 82]</span>
-o papel entre estes de linhas em zig-zag,
-parallelas e muito unidas, que impressionam a vista,
-e tomam fórmas phantasticas quando a luz vacillante
-d’uma vella as faz ondearem e confundirem-se
-de um modo aterrador. Duas ou tres cadeiras de
-espaldar e pregaria e uma commoda antiquissima
-completavam a mobilia d’este quarto lugubre.</p>
-
-<p>A atmosphera frigida d’aquelle aposento, regelando-me
-os membros, opprimiu-me o coração. Pareceu-me
-que entrava n’um sepulchro.</p>
-
-<p>Em cima da commoda havia dois castiçaes com
-vellas de stearina. Maria do Rosario accendeu-as, e
-perguntou-me se precisava de mais alguma coisa.</p>
-
-<p>—De nada, respondi eu seccamente.</p>
-
-<p>Mas, quando ella se ia a retirar, chamei-a.</p>
-
-<p>—Aqui n’esta casa não ha alguma livraria? perguntei
-eu.</p>
-
-<p>—Ha, sim, minha senhora, respondeu ella. Aqui
-esta porta deita para um corredor, que vae ter á
-casa dos livros. Se a senhora quizer, as portas estão
-abertas.</p>
-
-<p>—Obrigada, tornei eu.</p>
-
-<p>Maria do Rosario saiu. Senti-a fechar a porta, e
-depois descer a escada de vagar, até que esmoreceu
-ao longe o ecco dos seus passos. Caiu tudo em silencio.</p>
-
-<p>Em silencio, não; porque a tempestade não se
-aplacara. O vento gemia com mais tristeza, açoitando
-os postigos das janellas. De quando em quando
-ouvia-se a voz magestosa do trovão. A aza doida
-da procella batia com furor nos vidros.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_83">[Pg 83]</span></p>
-
-<p>Sentei-me com desalento n’uma cadeira, e deixei
-pender a cabeça nas mãos. Senti quanto é horrorosa
-a soledade quando se tem vinte annos e um coração
-ardente. N’essas noites de temporal, em que é
-tão suave a reunião familiar, via-me eu só, abandonada,
-entregue a todos os pavores que a solidão
-inspira, n’um aposento, que mais parecia tumulo
-de mortos que habitação de vivos. Era esse quarto
-o symbolo da minha existencia, tal como o destino
-m’a fizera, carcere sombrio e lugubre onde eu
-tinha que encerrar todas as aspirações da minha
-juventude, todo o fogo vital que me incendia o
-sangue.</p>
-
-<p>Ergui a cabeça para respirar desafogadamente,
-porque esses pensamentos haviam-me opprimido o
-coração, e dei um grito de terror. Defronte de mim
-um vulto pallido mirava-me como que atterrado.
-Lagrimas silenciosas deslisavam-lhe pelas faces.</p>
-
-<p>Era a minha imagem que se reflectia n’um espelho
-em que eu ainda não reparara. Sorri-me do engano;
-ergui-me e dirigi-me ao espelho. «Pois és tu,
-Margarida, exclamei eu, és tu a creança descuidosa,
-que ha pouco dançavas nos bailes com tão
-mimoso colorido nas faces? És tu a flor das salas?
-Como estás desbotada, rosa das valsas! Definhas á
-sombra; mas que sol te poderia reanimar?»</p>
-
-<p>«O amor!» suspirou uma voz intima, e o quarto
-illuminou-se com vagos e ignotos clarões, e a tempestade
-como que se acalmou por incanto, e a sua
-voz expirante balbuciou aos meus ouvidos: «O
-amor!» E as linhas do papel arredondaram-se tambem<span class="pagenum" id="Page_84">[Pg 84]</span>
-em graciosas curvas, e murmuraram: «Amor!
-amor! amor!» Voejaram no quarto invisiveis pombinhas
-candidas, e eu ouvia-lhes o harmonioso bater
-d’azas. O rosto, reflectido no espelho, desfranziu-se
-n’um sorriso, e expulsou as nuvens que lhe
-toldavam a fronte.</p>
-
-<p>—Que loucuras! balbuciei.</p>
-
-<p>E levantei-me, peguei n’um castiçal, e dirigi-me
-á bibliotheca a procurar um livro, que me distrahisse
-o espirito d’estes perigosos devaneios.</p>
-
-<p>A livraria era uma casa pequena, toda cercada
-de estantes, que vergavam ao peso de formidaveis
-<i>infolio</i>. Tirei ao acaso o primeiro volume que se
-me deparou. Era o segundo tomo dos <i>Trabalhos
-de Jesus</i>. Isso exactamente eu desejava. O titulo
-promettia-me um admiravel exorcista contra o demonio
-côr de rosa que ameaçava perseguir-me.
-Voltei pé ante pé, e entrei no quarto. Colloquei o
-pesado alfarrabio á cabeceira do meu leito, e principiei
-a despir-me.</p>
-
-<p>Já não ouvia gemer o vento, nem estalar a trovoada.
-Tive curiosidade de ver o aspecto da atmosphéra
-e, meio despida, corri á janella e entreabri
-um postigo.</p>
-
-<p>A janella deitava para o jardim. Cessara de chover,
-e a lua, filtrando os seus raios por entre as nuvens,
-banhava os canteiros no seu magico fulgor.
-O vento abrandara, e transformara-se n’uma brisa
-suave, que agitava as folhas nascentes das arvores.
-Parecia-me assistir á transição do inverno para a
-primavera, e cheguei a pensar que esse momento<span class="pagenum" id="Page_85">[Pg 85]</span>
-era o momento exacto em que findava o reinado
-dos gelos, e principiava o das flôres. A natureza,
-cançada da lucta, deixava-se embalar no regaço da
-primavera, que surgia coroada de estrellas, e scintillante
-de poesia e de amor! Amor, sim; essa doce
-palavra vi-a claramente escripta no vidro em letras
-de prata por um raio luminoso, que se desprendeu
-languidamente do seio da namorada Phebe.</p>
-
-<p>Cerrei a janella, e corri para o leito. Ao passar
-por diante do espelho, relanceei para elle a vista, e
-divisei um rosto que me sorria com os olhos banhados
-em vaga languidez. Involuntariamente escondi
-o seio com os braços cruzados, e, toda tremula
-e risonha, metti-me na cama, lançando logo
-a mão ao ponderoso volume de fr. Thomé de Jesus.
-Abri ao acaso e li:</p>
-
-<p>«Ó amor divino, como prendes, quando na alma
-te accendes; como captivas, quando á alma descobres
-alguma parte da formosura de tua face divina!
-Sem te ver claramente a alma peregrina, só pelo
-que de ti da vida sente, e póde com tua graça experimentar,
-como fica livre de si e das prisões da
-terra, e captiva de ti, e presa de teu amor! Estas
-tuas amorosas e suaves prisões tanto a atam e possuem,
-que até dos corporaes sentidos lhe mudas o
-gosto em ti, porque tudo lhe trazes sujeito á tua
-mão, e obediencia do teu amor. Se quer dormir,
-tu a acordas, se quer descançar, a aguilhôas, se
-quer comer, lhe tiras o sabor, se quer conversar, a
-apartas; toda a prendes, toda a queres, tudo lhe
-defendes; sempre amigo, sempre cioso; porque<span class="pagenum" id="Page_86">[Pg 86]</span>
-todo te dás, e toda a tomas; todo te entregas, e
-toda a prendes.»</p>
-
-<p>Deixei descair o livro, cujas paginas rescendiam
-não sei que namorados effluvios; sentia volitarem
-em torno de mim sylphos e fadas, que pareciam,
-occultos na sombra, segredar uns aos outros dulcissimas
-harmonias. O clarão suave da vella parecia
-oscillar brandamente ao meigo e perfumado sopro
-d’esses habitantes dos ares. As letras do livro
-eram outras tantas teclas, que suspiravam melodiosamente
-as mais voluptuosas arias de Bellini e de
-Rossini com letra de fr. Thomé de Jesus. Fui cerrando
-os olhos, como se o fluido magnetico, que
-enchia o quarto, me opprimisse as palpebras. A
-vela estava quasi expirando, e, nas vascas da agonia,
-projectava clarões phantasticos nas cortinas
-vermelhas do meu leito. Suspirei brandamente, e
-fui-me deixando adormecer, murmurando a palavra:
-«Amor!... Amor!»</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_87">[Pg 87]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="XI">XI</h2>
-</div>
-
-
-<p>Entrava já o sol claro e alegre pela janella aberta,
-quando despertei. Esfreguei os olhos, ainda estonteada,
-e, levantando-me na cama, dei com a Maria
-do Rosario, que andava limpando o pó.</p>
-
-<p>—Que horas são? perguntei eu.</p>
-
-<p>—Então como passou a noite, senhora D. Margarida?
-Ai! cala-te, boca, não queiras tirar a Deus
-Nosso Senhor o que a Deus é devido; deixa a tua
-ama rezar primeiro as suas orações, e não queiras
-desvial-a do caminho da salvação, tentando-a a
-fallar em coisas d’este mundo. Reze, reze, senhora
-D. Margarida.</p>
-
-<p>—Ó mulher, eu perguntei-lhe que horas eram.</p>
-
-<p>—Ai! credo! Santo nome de Jesus! Virgem benta!
-Senhora Nossa! Estas meninas de agora nada
-respeitam! Não ha senão hereges! A senhora D. Margarida
-não queira ir arder para as labaredas do inferno,
-e dar triumphos ao inimigo. Santo Deus! Tome
-o exemplo da Senhora D. Antonia e da senhora<span class="pagenum" id="Page_88">[Pg 88]</span>
-condessa de *** que ha de cá vir esta noite.</p>
-
-<p>—Ó senhora! diga-me que horas são, e vá-se
-embora.</p>
-
-<p>—Eu já me retiro, minha senhora, que eu não
-quero perder a minha alma, tornou ella com voz
-esganiçada. Graças a Deus, toda a minha vida tenho
-feito figas ao demonio. Fui menina e moça, solteira
-e casada, e sou agora viuva, e nunca arredei pé do
-caminho do céo. São nove horas, minha senhora;
-soube sempre cumprir os deveres do Santissimo
-Sacramento do matrimonio. A senhora D. Antonia
-já está á sua espera para almoçar. Cruzes, inimigo;
-agora que sou velha não me venhas tentar. As bagagens
-já chegaram. Ó nossa Senhora do Rosario,
-minha protectora, livra a tua fiel serva das unhas
-de Berzabum. As suas malas estão ao pé da commoda.</p>
-
-<p>E resmungando, e esconjurando, foi-se approximando
-da porta e deitou a correr pela escada
-abaixo.</p>
-
-<p>Eu acordara com optimas disposições, de fórma
-que a insolencia d’essa mulher não conseguiu turvar-me
-o espirito. O ridente sol dos fins de março
-inundava o quarto com os seus vividos raios, e enchia-o
-d’essa luminosa poeira, que tanto espairece
-a vista. Saltei para baixo da cama, vesti-me e abri
-a janella.</p>
-
-<p>Inebriou-me a bafagem balsamica, que respirei na
-brisa que doidejava pelo jardim, e que me saudou
-com as suas vivificantes emanações. O jardim era
-vasto, no gosto do seculo passado, mas inculto. A<span class="pagenum" id="Page_89">[Pg 89]</span>
-natureza, entregue a esta bemaventurada negligencia
-dos jardineiros, remediara o risco absurdo do
-jardim. Os canteiros pautados e regrados escondiam-se
-por detraz de espessas moitas de buxo, que
-viçara á vontade e livre da tosquiadora thesoura.
-Os tanques sem agua cobriam-se com esverdeado
-musgo, e as estatuas desgraciosas envolviam a sua
-nudez n’um manto d’hera, que emendava, com as
-suas elegantes ondulações, a rigidez das linhas traçadas
-na pedra pelo inhabil cinzel do rustico esculptor.
-A relva molhada verdejava de um modo
-deslumbrante, e os passarinhos, escondidos da ramaria
-das arvores, cantavam alegremente o hymno
-da nova primavera.</p>
-
-<p>Estive alguns instantes contemplando esse delicioso
-espectaculo, até que ouvi a campainha, que nos
-chamava para o almoço. Desci, encontrei Anna, a
-creadita d’olhos pretos, que me foi ensinar onde era
-a casa de jantar; entrei, e vi D. Antonia magestosamente
-recostada n’uma cadeira de braços, em palestra
-muito animada com Maria do Rosario.</p>
-
-<p>Quando appareci, calou-se; fallei-lhe e sentámo-nos
-á meza, onde nos esperava o almoço.</p>
-
-<p>Comtudo, eu via pelo olhar odiento, que D. Antonia
-me lançava, que se estava preparando alguma
-tempestade. Effectivamente, depois de ter mandado
-embora a creada, D. Antonia voltou-se para mim, e
-disse-me, adoçando hypocritamente a voz:</p>
-
-<p>—Minha sobrinha. É preciso que tenha mais prudencia.
-Não sei qual foi a educação que recebeu,
-mas sei que em casa de seu marido sempre reinou<span class="pagenum" id="Page_90">[Pg 90]</span>
-o temor de Deus, e o respeito pela religião christã.
-Não seja para as creadas um objecto d’escandalo,
-queira cumprir os seus deveres religiosos. Desculpe-me
-estas observações, accrescentou ella, mas, na
-ausencia de seu marido, compete-me dirigir a sua
-inexperiencia, e dar-lhe os conselhos que uma velha
-sabe dar.</p>
-
-<p>—Agradeço tanta bondade, respondi com alguma
-ironia; mas rogo-lhe que não authorise as creadas
-a intervirem nas minhas acções. Queira pensar
-tambem, que apesar de ser nova e inexperiente, sou
-eu a unica dona da casa, e que não posso consentir
-que as pessoas que estão ao meu serviço me faltem
-ao respeito que me devem.</p>
-
-<p>E completei este discurso, fazendo uma profunda
-mesura, e retirando-me.</p>
-
-<p>D. Antonia fez-se fula de raiva, e tão irada ficou,
-que não pôde articular uma palavra. Lançou-me um
-olhar indignado, e só pôde dizer-me, quando eu já
-chegava á porta:</p>
-
-<p>—Aviso-a que recebemos hoje a visita das nossas
-visinhas de campo, a senhora condessa de *** e
-a senhora baroneza de ***; note que são senhoras
-piedosas e de muitas virtudes. Veja o que faz.</p>
-
-<p>Não lhe respondi e saí do quarto.</p>
-
-<p>N’essa noite, apenas deram sete horas, appareceu
-logo D. Antonia, vestida esplendidamente para receber
-as nossas aristocraticas visitas. O meu fato
-singelissimo contrastava com o seu luxo deslumbrante.
-Por isso Maria do Rosario não fez senão
-extasiar-se perante as fitas vermelhas, e as pulseiras<span class="pagenum" id="Page_91">[Pg 91]</span>
-e broches d’oiro da minha mortal inimiga.</p>
-
-<p>Ás oito horas sentiu-se parar á porta um churrião
-puchado a bois. Era esse o vehiculo que transportava
-as duas muito nobres senhoras, nossas visinhas
-de campo, que moravam a um quarto de legua
-de distancia. D. Antonia correu á porta, e chegou
-a tempo de receber as fidalgas visitantes.</p>
-
-<p>Eu fiquei na sala, junto da mesa, folheando distraidamente
-um livro de devoção ornado de lindas
-imagens.</p>
-
-<p>Levantei-me da cadeira e dei dois passos para a
-porta, quando vi assomarem a ella os vultos das
-duas senhoras. Cumprimentei-as então respeitosamente.</p>
-
-<p>Uma d’ellas era alta, elegante, de physionomia
-austera e altiva fronte. Devia de ter sido formosa
-na sua juventude; mas a sua formosura por força
-tivera sempre um caracter inflexivel de orgulho indomavel.
-A outra era uma senhora quasi decrepita,
-em cujas feições meio apagadas se não podia ler outra
-expressão, que não fosse a d’esse ascetismo pavido,
-proprio dos espiritos acanhados, quando os
-gelos da edade, accumulando-se-lhes na fronte, lhes
-phantasiam, para além do tumulo, já proximo, as
-chammas atterradoras do inferno.</p>
-
-<p>A primeira d’estas duas senhoras, que eu soube
-depois que era a condessa, cumprimentou-me tambem;
-e levando a luneta aos olhos, mirou-me alguns
-instantes com gélida seriedade. Depois voltou-se
-para D. Antonia, e dirigiu-lhe um olhar, que parecia
-querer dizer: «É esta a pessoa em quem fallámos?»<span class="pagenum" id="Page_92">[Pg 92]</span>
-e D. Antonia respondeu-lhe com um movimento
-de cabeça, que significava: É sim, minha
-senhora, infelizmente.»</p>
-
-<p>A condessa veio então para mim, e disse com
-voz secca e vibrante:</p>
-
-<p>—Folgo muito de conhecel-a, minha senhora.
-Sou antiga amiga da familia de seu marido. Estimarei
-poder consagrar-lhe o mesmo affecto.</p>
-
-<p>—Se conseguir merecer a affeição de v. ex.ª,
-respondi inclinando-me, será isso para mim altissima
-honra, minha senhora.</p>
-
-<p>A condessa cumprimentou-me de novo, e foi sentar-se
-no canapé. A baroneza, que esbrugava um
-rosario e resmungava umas orações, sentou-se ao pé
-da mesa de jogo, embrulhou-se toda em pelles e
-tapetes, que a Maria do Rosario lhe trouxe com a
-maior promptidão, e ficou immovel, com os olhos
-fitos no vago, com os labios em continuado movimento.
-A luz do candieiro, batendo-lhe em cheio no
-rosto escaveirado e livido, fazia-a parecer uma d’essas
-figuras dos quadros asceticos da escola hespanhola,
-que tivesse descido da tela, obrigada por
-magica evocação.</p>
-
-<p>—É muito bonita sua sobrinha, D. Antonia, disse
-a condessa. Deus queira que essa bellesa não
-seja arma que Satanaz queira empregar contra a
-salvação da sua alma.</p>
-
-<p>—Não será, não, minha senhora, se Christo Senhor
-Nosso ouvir as orações que todos os dias lhe
-dirijo fervorosamente. Eu, senhora condessa, desde
-que meu sobrinho casou, ainda não tive um só<span class="pagenum" id="Page_93">[Pg 93]</span>
-pensamento, que não fosse para o bem d’esta menina.
-Assim ella m’o reconhecesse.</p>
-
-<p>E suspirou.</p>
-
-<p>—Bem sei, bem sei que a D. Antonia tem sido
-sempre um anjo de caridade. Ponha os olhos em
-Deus, filha, e não faça caso das ingratidões do mundo.
-N’este seculo de impiedade a nossa cruz é bem
-pesada. Tomemos o exemplo do Salvador.</p>
-
-<p>—Amen, concluiu devotamente D. Antonia. Eu
-bem diligencias faço para que esta ovelha se me
-não estramalhe do aprisco, mas é difficil a minha
-tarefa. Se eu pudesse ter o auxilio de v. ex.ª...</p>
-
-<p>—Ai! filha! tambem tenho de cumprir a minha
-missão. E juro-lhe que ás vezes desfallecia, se não
-tivesse os olhos fitos na recompensa do céo.</p>
-
-<p>—É verdade, é verdade. A senhora condessa
-entra vestida e calçada no paraizo. E como vae a
-sua santa obra?</p>
-
-<p>—Eu não descanço; mas este anno tem provado
-mal. Debaixo dos meus auspicios tem-se feito apenas
-oito casamentos; é verdade que todos difficeis.
-Quatro foram de creadas minhas, que andavam de
-namoro com uns valdevinos do sitio; mandei-os
-chamar e obriguei-os a casarem. Ellas não queriam
-de fórma alguma. Tinham tomado informações, e
-sabiam que os taes rapazes eram uns bebedos, outros
-jogadores, outros vadios. «Porque não indagaram
-isso antes de os namorarem? disse-lhes eu. Ou
-fazerem o que lhes digo; ou sairem de minha casa.
-Não quero escandalos das minhas portas a dentro.
-Quem namora deve ter em vista o sacramento do<span class="pagenum" id="Page_94">[Pg 94]</span>
-matrimonio.» Houve uma que teimou, e saíu da casa;
-mas não encontrando arrimo em parte alguma,
-porque todos sabiam que tinha sido posta fóra por
-mal comportada. Andou por ahi a morrer de fome,
-até que não teve remedio senão fazer o que eu
-quiz. Mas custou-me.</p>
-
-<p>—Que santa! meu Deus! que santa! bradou D.
-Antonia em extasi, levantando para o tecto os olhos
-e os braços. Pessoas como a senhora condessa são
-raras n’este seculo. E a sua prima, a senhora marqueza,
-o que é feito d’ella?</p>
-
-<p>—Está em Roma a santinha! Foi beijar o pé a
-sua santidade! Escreveu-me de lá. Está louca de
-contentamento. Já viu tres vezes o vigario de Christo,
-e tem conversado com doze cardeaes. Ah! deve
-ser uma grande consolação para o padre santo, no
-meio das amarguras que a impiedade dos italianos
-lhe está causando todos os dias, ver que ainda ha
-fieis que tem por elle tanto respeito e amor.</p>
-
-<p>Esta edificante palestra foi interrompida por um
-grito da senhora baroneza. Levantou-se, como se
-obedecesse a um impulso de molas, e bradou com
-voz sepulchral:</p>
-
-<p>—Arreda-te, inimigo... Cruzes, Satanaz... Não
-me tentas, não, não me tentas... Sim, meu doce
-Jesus, sim, bem vos vejo... Chamais a vossa serva...
-Ahi vou, ahi vou... Esperai um instante,
-meu salvador... Não desvieis a vossa face... Foge,
-Belzebuth, Asmodeu, Astaroth e Moloch... Ai!
-que eu já vejo o inferno... Senhor Jesus, acudi-me!</p>
-
-<p>—Rezemos, rezemos, exclamou a condessa, caindo<span class="pagenum" id="Page_95">[Pg 95]</span>
-de joelhos; são visões que assaltam aquelle espirito
-bem-aventurado. É preciso que estejamos
-em oração, para que aquella santa vença o inimigo
-que a tenta.</p>
-
-<p>D. Antonia caíu de joelhos, e a Maria do Rosario,
-que apparecera á porta, fez o mesmo, dando
-grandes murros no peito.</p>
-
-<p>Eu olhava estupefacta para aquella scena burlesca.</p>
-
-<p>Não querendo fazer-me reparada, affastei-me um
-pouco, e simulei que ajoelhava.</p>
-
-<p>Afinal a baroneza caiu prostrada no canapé. Viera-lhe
-a espuma aos cantos da boca, como succedia
-ás pythonisas pagãs. A condessa levantou-se e
-disse a D. Antonia:</p>
-
-<p>—Mande-lhe dar um caldo, que é sempre o que
-ella toma, depois d’estes extasis.</p>
-
-<p>—Um caldo para a senhora baroneza, exclamou
-D. Antonia, voltando-se para Maria do Rosario.</p>
-
-<p>E a Maria do Rosario repetiu, correndo pela escada
-abaixo:</p>
-
-<p>—Um caldo para a senhora baroneza, que tem
-<i>bisões</i>.</p>
-
-<p>D’ahi a pouco voltava trazendo uma chavena de
-caldo, e dirigia-se á baroneza.</p>
-
-<p>—Beba, minha santinha, disse ella, beba, que lhe
-ha de fazer bem.</p>
-
-<p>A baroneza levou machinalmente a chavena aos
-labios, bebeu dois ou tres golos; mas de repente
-estacou, perguntando:</p>
-
-<p>—De que é este caldo?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_96">[Pg 96]</span></p>
-
-<p>—De gallinha, senhora baroneza, de gallinha.
-Matou-se hoje a mais gorda da capoeira.</p>
-
-<p>—De gallinha! repetiu a baroneza.</p>
-
-<p>E deixou cair a chavena em cima dos pés da Maria
-do Rosario, entornando o seu contheudo, e escaldando
-a creada.</p>
-
-<p>—Má raios... principiou esta.</p>
-
-<p>Mas logo atalhou, mastigando em secco:</p>
-
-<p>—Seja pelo divino amor de Deus! um caldinho
-tão bom, que os anjos o podiam beber.</p>
-
-<p>—De gallinha! continuava a baroneza, plangentemente,
-e hoje é sexta-feira! Vão chamar o senhor
-padre prior.</p>
-
-<p>—Elle não deve tardar, minha senhora, acudiu
-D. Antonia, ficou de vir jogar uma partida de voltarete.</p>
-
-<p>—Ah! sim! o voltarete! repetiu a baroneza extasiada,
-n’um tom de ineffavel jubilo.</p>
-
-<p>E julguei que ia ter outra visão a proposito do
-basto e da espadilha.</p>
-
-<p>Seguiram-se alguns instantes de um silencio, que
-foi interrompido pelo tropear de um cavallo na estrada.</p>
-
-<p>—Ahi vem o senhor padre prior, exclamaram a
-um tempo D. Antonia e a condessa.</p>
-
-<p>D’ahi a pouco, sentiram-se na escada passos pesados,
-e logo depois appareceu á porta um homem
-alto e reforçado, de bota de montar, e casaco até
-ao joelho.</p>
-
-<p>—<i>Pax Domini!</i> exclamou elle ao entrar.</p>
-
-<p>—É Deus quem o envia, senhor padre prior,<span class="pagenum" id="Page_97">[Pg 97]</span>
-acudiu a baroneza. Commetti um grande peccado,
-meu padre; venha ouvir-me de confissão.</p>
-
-<p>—Minhas senhoras, tenho a honra de as cumprimentar.
-Como está a senhora condessa? Senhora
-D. Antonia, Deus a tenha em sua guarda. Viva, minha
-menina. Guapa moça! accrescentou voltando-se
-para a condessa, que se sorriu com agrado.</p>
-
-<p>—Senhor padre prior, acuda-me, bradou a baroneza,
-que já sinto as garras de Belzebuth.</p>
-
-<p>—Então que é isso, minha santinha? Então que
-é isso? disse a final o padre prior, dirigindo-se para
-ella, e fazendo tremer a casa a cada passada que
-dava. Então que peccado temos?</p>
-
-<p>Sentou-se, e a baroneza, inclinando-se-lhe ao ouvido,
-disse-lhe a culpa que lhe pesava na consciencia.</p>
-
-<p>—Hum! hum! resmungou o padre, quando ella
-acabou. Isso não é nada. Reze duas corôas a Nossa
-Senhora, e temos tudo acabado.</p>
-
-<p>Depois, levantando-se e dirigindo-se a D. Antonia,
-continuou:</p>
-
-<p>—Então esta é que é a mulher de seu sobrinho?</p>
-
-<p>—Sim, senhor, respondeu ella.</p>
-
-<p>O padre fez-me uma festinha na cara, e disse:</p>
-
-<p>—Estimo conhecel-a! Ande lá que o Claudio não
-a merecia a Deus.</p>
-
-<p>—Então, senhor padre José, acudiu a condessa
-brandamente, não esteja affagando a vaidade feminil;
-bem sabe que é essa a mais terrivel arma de
-que o demonio dispõe.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_98">[Pg 98]</span></p>
-
-<p>O padre olhou para ella com tão comico espanto,
-que eu não pude deixar de desatar a rir.</p>
-
-<p>O sacerdote olhou-me, sorrindo-se com benevolencia,
-e offereceu-me uma pitada.</p>
-
-<p>Como eu recusei, foi offerecendo á roda, e depois,
-mettendo os dedos na caixa, tirou um monte
-de rapé que sorveu com delicias.</p>
-
-<p>—Pois aqui onde me vêem, disse elle, por um
-triz que não parti inda agora as costellas.</p>
-
-<p>—Como? acudiu logo o terceto, assustado.</p>
-
-<p>—É verdade; é a primeira vez que monto no
-cavallo, que comprei em Lisboa. Por isso, como
-não lhe conhecia as manhas, vinha com cautella, e
-foi o que me valeu. Aqui ao pé, o demonio assusta-se
-com um tronco de arvore, que o vendaval de
-hontem á noite partira, e deu-me tamanho galão
-que eu ia perdendo os estribos. Ora, se a senhora
-condessa visse! Prégo-lhe as esporas na barriga,
-e obriguei-o a vir n’uma galopada até aqui á porta;
-assim é que eu os ensino.</p>
-
-<p>—Graças a Deus, não se magoou?</p>
-
-<p>—Eu! levava-o a breca, se me megoasse.</p>
-
-<p>—É verdade, senhor padre José, tornou a condessa,
-não tem por lá medalhinhas da Virgem para
-dar aqui á D. Antonia?</p>
-
-<p>—Ora, se tenho; é o que por lá falta! Quer algumas?
-Não faça cerimonia! E a proposito, não
-se joga o voltarete?</p>
-
-<p>—Está-se á espera do <i>senhor</i> Theodoro Leite,
-acudiu a condessa. Sempre se ha de fazer esperar.
-Bem mostra que é herege.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_99">[Pg 99]</span></p>
-
-<p>—Oh! se é, tornou o padre; está já a arder no
-inferno, o maldito! Pois então não me deu hontem
-dois codilhos em casa do escrivão... É verdade,
-a mulher do administrador lá offereceu um manto
-riquissimo á Senhora das Dores.</p>
-
-<p>Nos olhos da condessa fuzilou um raio de colera.</p>
-
-<p>—Offereceu?! logo vi. A filha de um dos meus
-caseiros, que enriqueceu, sabe Deus como,—quer
-saber, D. Antonia? não está agora ao desafio comigo?
-A que tempo chegámos, meu Deus! Se eu offereço
-um resplendor ao menino Jesus, dá ella um
-manto de seda a Nossa Senhora. Já se viu uma
-coisa assim? Eu sempre queria saber aonde ella vae
-buscar o dinheiro!</p>
-
-<p>—Que desaforo! acudiu D. Antonia indignada, e
-o senhor padre prior consente semelhante coisa!</p>
-
-<p>—Então que lhe hei de eu fazer?...</p>
-
-<p>N’este momento abriu-se a porta, e um homem
-velho, magro, mal enroupado, mas de meiga e sympathica
-physionomia, entrou timidamente.</p>
-
-<p>Cumprimentou-nos a todos com acanhamento, e
-só de mim recebeu uma cortezia amavel. A condessa
-tratou-o friamente; a baroneza nem deu pela sua
-entrada; D. Antonia cumprimentou-o com seccura,
-dizendo-lhe: «Julgavamos que não vinha», e o padre
-prior acolheu-o com brados de indignação.</p>
-
-<p>O pobre Theodoro Leite curvou a cabeça, para
-deixar passar a procella, e foi, como que arrastado
-pelo parocho, sentar-se á mesa do voltarete.</p>
-
-<p>Formamo-nos então em dois grupos distinctos:
-o prior, a baroneza e Theodoro entregaram-se ás<span class="pagenum" id="Page_100">[Pg 100]</span>
-delicias dos codilhos e das licenças, emquanto eu,
-D. Antonia e a condessa ficamos no canapé, conversando
-e costurando, duas occupações que me desagradavam
-bastante. Procurei vencer a minha repugnancia;
-mas, apezar dos meus esforços, só de
-quando em quando soltava uma palavra, e a agulha
-ociosa descaía muitas vezes no meu collo, emquanto
-o meu pensamento voava para muito longe do sitio
-onde estavamos.</p>
-
-<p>Ainda não acabara o desfilar das pessoas, que
-nos honravam n’essa noite com a sua visita. Seriam
-nove horas, quando se abriu a porta da sala para
-dar entrada a dois novos personagens.</p>
-
-<p>Um homem ainda novo, e uma senhora tambem
-na flôr da idade foram os dois actores que entraram
-em scena. O personagem masculino tinha as mais
-visiveis tendencias para uma obesidade precoce, e
-no seu rosto cheio, bochechudo, de alvura deslavada,
-scintillavam dois olhos pequenos, mas vivos e
-inquietos, que denunciavam... intelligencia? intelligencia,
-de certo; mas uma d’estas intelligencias <i>praticas</i>,
-a que não escapa uma especulação proveitosa,
-e para a qual são enigmas abstrusos as aspirações
-grandiosas do espirito, e pomo vedado ainda
-o fructo da arvore da sciencia.</p>
-
-<p>A senhora, que o acompanhava, não se podia
-chamar bonita, porque as suas feições irregulares
-protestariam contra a denominação; mas os seus
-olhos negros e rasgados tinham um scintillar tão
-malicioso, tão provocador, que lhe illuminavam a
-physionomia, e lhe prestavam, senão belleza, pelo<span class="pagenum" id="Page_101">[Pg 101]</span>
-menos uma certa animação, e um indisivel encanto.</p>
-
-<p>Estas duas pessoas foram recebidas de um modo
-que contrastava bastante com o acolhimento feito a
-Theodoro Leite. D’esta vez houve apresentação em
-regra. A condessa radiante pediu-me licença para
-me apresentar a sua afilhada D. Carolina «que ella,
-condessa, se presava de ter educado nos principios
-da mais severa religião e da mais sã moral» e o
-marido da sua afilhada «moço de muito merito e
-virtudes, que (gloriosa excepção no meio da mocidade
-depravada e impia do nosso tempo) era um
-modelo de devoção, um exemplar de caridade, e um
-poço de sapiencia ainda por cima para coroar esta
-assombrosa pyramide de predicados.»</p>
-
-<p>—Muito folgarei de as ver amigas, concluiu a
-condessa, accentuando cada palavra. Posso dizer
-sem orgulho, que uma menina da sua idade, senhora
-D. Margarida, e da sua educação, permitta-me que
-accrescente, lucra muito com o trato intimo de uma
-senhora de juizo, como é Carolina, posso affoitamente
-dizel-o.</p>
-
-<p>A elogiada Carolina achou modo de conciliar um
-modesto descer de palpebras, que lhe serviu para
-agradecer o retumbante panegyrico, declamado por
-sua madrinha, com um olhar malicioso, gaiato, com
-que me brindou ao trocarmos o beijo e o abraço
-fraternaes.</p>
-
-<p>Jeronymo Freitas, seu esposo, cumprimentou-me,
-e logo depois, sentando-se, encetou com a madrinha
-de sua mulher uma conversação, que parecia
-um fogo de vistas, em que estalavam todos os nomes<span class="pagenum" id="Page_102">[Pg 102]</span>
-aristocraticos do partido devoto, e que tinha a
-dupla vantagem de incantar a condessa, e de deslumbrar
-D. Antonia. Eu não tinha a minima idéa
-de uma coisa assim. Aquelle homem era ao mesmo
-tempo um vulcão, uma torrente, um moinho, e um
-<i>Almanach de Gotha</i> em folio, mas um <i>Almanach de
-Gotha</i>, que uma causa desconhecida puzesse em
-ebullição, e que arrojasse á atmosphera, como bolhas
-d’ar, os nomes de quantos marquezes, condes,
-duques, principes, reis e imperadores existem por
-esse mundo. «E estive com a senhora condessa de tal,
-e a senhora marqueza disse-me isto, e á volta encontrei
-a senhora baroneza, que accrescentou aquell’outro,
-e a senhora duqueza recebeu uma carta de sua
-santidade, e o senhor marquez, que é um santo, disse-me:
-«Ó caro Freitas, você não sabe...?» e sua
-eminencia o cardeal sicrano communicou-me confidencialmente
-as suas afflicções» e... eu sei, estava
-atordoada com aquella volubilidade incessante, inexgotavel,
-incançavel, que apenas se interrompia uma
-ou outra vez para deixar passar uma trovoada de
-imprecações com que o padre prior fulminava o
-pobre Theodoro Leite, que fizera as <i>cinco primeiras</i>,
-provocando por essa fórma os raios da excommunhão
-suspensos havia muito sobre a sua calva heretica.</p>
-
-<p>D. Antonia estava extasiada, jubilosa como os
-gaiatos, que andam apanhando as cannas dos foguetes,
-em dias de festividade nacional. Assim ella tambem
-corria esfalfada atraz da verbosidade do Jeronymo,
-para apanhar de relance um nome, que depois
-de ter estalado nos ares, e produzido o seu<span class="pagenum" id="Page_103">[Pg 103]</span>
-effeito, caía magestosamente, levantal-o, e perguntar
-logo: «Pois o senhor Freitas conhece o duque
-de tal?»</p>
-
-<p>Não posso calcular até que ponto estariam os
-meus nervos á prova de semelhante palestra, porque
-D. Carolina, que olhara por vezes para mim
-sorrindo-se, levantou-se, approximou-se da minha
-cadeira, e disse-me:</p>
-
-<p>—Dá-me licença que dê um giro no jardim, e
-quer-me conceder a honra da sua companhia?</p>
-
-<p>—Com todo o gosto, minha senhora, respondi eu,
-erguendo-me logo, e acompanhando-a para fóra da
-sala.</p>
-
-<p>Descemos ao jardim: a noite estava clara e linda
-como uma verdadeira noite de primavera; só a brisa,
-ainda frigida bastante, lembrava a proximidade
-do inverno.</p>
-
-<p>Carolina passou-me o braço á roda da cintura,
-e, dando-me um beijo affectuoso, disse-me, sorrindo:</p>
-
-<p>—Sabe, minha querida D. Margaridinha, que me
-estava mettendo compaixão!</p>
-
-<p>—Eu! respondi sorrindo-me tambem; porque?</p>
-
-<p>—Porque vi o tédio que lhe causava aquella
-conversação hypocrita e fastidiosa. Pobre creança,
-não está ainda habituada á estranha sociedade, no
-meio da qual o accaso a collocou. Tudo aqui é frivolo,
-minha querida, e tudo toma uma apparencia
-grave e pedante, como um alfarrabio theologico;
-tudo é immoral; e tudo toma ares austeros. Mascara,
-mascara e mascara; nada mais. Se estou bem<span class="pagenum" id="Page_104">[Pg 104]</span>
-informada, um dos artigos do regulamento dos bailes
-publicos prohibe as mascaras religiosas, mas não
-ha lei alguma, que me conste, que as prohiba na sociedade,
-onde existem com abundancia, ha-de-se
-costumar tambem, minha filha, ha de fazer o que
-eu faço, envergar um dominó da confraria, e rir-se
-dos outros, por baixo da mascara como elles se riem
-de nós.</p>
-
-<p>—Nunca, respondi eu com impetuosidade; se a
-hypocrisia é em todos os casos um vicio odioso,
-que proporções não assume quando macula com o
-seu bafo pestifero o sentimento mais nobre que
-existe no coração do homem, o sentimento da religião!</p>
-
-<p>—Ai! ai! tornou Carolina desatando a rir, d’onde
-trouxe essas idéas, minha querida? de que planeta
-desconhecido? de que paraiso terrestre, onde
-esteja ainda intacta a arvore do bem e do mal? Innocencia
-digna da edade de ouro! Virtude bucolica,
-mais propria para habitar na choupana classica de
-Philemon e Baucis, do que n’uma quinta dos arredores
-de Bellas! Ah! mas diga-me, a D. Antonia
-afinal calumniou-a?</p>
-
-<p>—Não sei o que D. Antonia diria a meu respeito,
-respondi eu com certa reserva; mas tenho as minhas
-razões para suppôr que não entoou o meu panegyrico.</p>
-
-<p>—Carolina parou e olhou para mim, franzindo
-levemente a sobrancelha.</p>
-
-<p>—Ah! não quer ter franqueza comigo! Está-se
-mostrando estrategica habil! Esconde-me o jogo;<span class="pagenum" id="Page_105">[Pg 105]</span>
-pois olhe, para lhe provar que póde depositar plena
-confiança em mim, vou pôr as minhas cartas em
-cima da mesa; queimo os navios, e veremos depois
-se estará disposta a assignar comigo um tratado
-de alliança offensiva e defensiva.</p>
-
-<p>—Oh! minha querida senhora D. Carolina, tornei
-eu rindo, estou prompta já a assignal-o, e affianço-lhe
-que é injusta, desconfiando da minha franqueza.
-Mas o que deseja que eu lhe diga? Nos mais
-reconditos refolhos do meu coração não se esconde
-um pensamento, que eu não possa confiar-lhe.</p>
-
-<p>—<i>Le jour n’est pas plus pur que le fond de mon
-cœur!</i> tornou Carolina com seriedade comica, já conheço
-o estribilho. Como prova das boas relações
-em que vamos estar, principiemos largando o tratamento
-cerimonioso que temos empregado. Queres,
-Margarida?</p>
-
-<p>—Com todo o gosto, Carolina.</p>
-
-<p>—Bom! estamos alliadas! E agora diz-me: que
-idéa fórmas tu de minha madrinha, e de meu marido?</p>
-
-<p>—Como quer...</p>
-
-<p>—Como quer? repetiu ella, ameaçando-me com
-um dos dedos levantado.</p>
-
-<p>—Perdão: como queres que eu tenha uma opinião
-formada sobre duas pessoas que vi esta noite
-pela primeira vez?</p>
-
-<p>—Ou estes olhos mysteriosos, de um azul tão
-profundo como o do céo em noite de verão, me enganam
-muito, ou a esta cabecinha gentil nem tanto
-tempo é necessario para avaliar uma pessoa. Eu<span class="pagenum" id="Page_106">[Pg 106]</span>
-mesma vou apostar em como já estou julgada e condemnada
-talvez no teu tribunal intimo.</p>
-
-<p>—Fazes demasiada honra á minha intelligencia,
-tornei eu rindo, affirmo-te...</p>
-
-<p>—Nada affirmes; acceitarei as tuas phrases como
-versiculos do Evangelho, e passarei desde já a dizer-te,
-para poupar trabalho á tua imaginação, qual
-é o caracter d’esses dois personagens, com quem
-me vejo obrigada a estar sempre em scena n’esta
-comedia da vida.</p>
-
-<p>—Falla!</p>
-
-<p>Sentámo-nos n’um dos bancos do jardim; Carolina
-alisou com a mão os cabellos, que a brisa enredara
-um pouco, e, depois de relancear, com certa
-ironia, os negros olhos para a janella da sala, em
-cujos vidros illuminados se estampava de vez em
-quando o vulto quasi dobrado ao meio de Maria do
-Rosario, que andava no seu serviço, voltou-se para
-mim, e disse:</p>
-
-<p>—Principiemos por minha madrinha. Aquella senhora
-austera, que alli vês, que préga moral rispida,
-e que é inflexivel em pontos de pundonor, que,
-se vivesse no tempo de Jesus, e fosse discipula
-sua, duas vezes, pelo menos, o renegaria, a primeira
-quando elle perdoou á mulher adultera, a
-segunda quando enxugou com um raio do seu amor
-divino as lagrimas de Magdalena, aquella senhora
-teve uma juventude tempestuosa. Não julgues por
-isso que arredou pé nem uma vez só do caminho
-da salvação. Habil como aqueles heroes das lendas
-antigas, que aproveitavam os serviços do diabo,<span class="pagenum" id="Page_107">[Pg 107]</span>
-e que o logravam depois quando chegava a occasião
-do pagamento, fixada no pacto infernal, a
-condessa começou desde muito nova a fazer os
-mais proveitosos enxertos de ramaria profanissima
-na arvore divina. Encerrada no templo, curvando o
-joelho ao altar, e transformando em alcova a sachristia,
-zombou das tolas que peccavam em plena
-rua, e sobre as quaes os seus labios, ainda frementes
-de lascivia, arrojavam com impudencia o sacrilego
-anathema. Não julgues comtudo que era a
-condessa uma excepção no meio da aristocracia feliz,
-que pôde receber... nas suas salas a brilhante
-juventude monastica. Ai! minha filha, as aventuras
-fradescas não são puras invenções dos Rabelais
-populares, que nol-as transmittiram. O frade representou
-um grande papel na chronica escandalosa
-das gerações que nos precederam. O devoto habito
-pendurado á porta de um palacio era escudo
-contra a maledicencia, e Cupido, como se dizia
-n’esse tempo, podia folgar affoitamente resguardado
-das vistas curiosas pela cogulla santa. Cythera
-chamava-se Thebaida, Paphos era Cartuxo, Gnido
-um sagrado mosteiro. Ah! se tu soubesses tudo
-quanto me revelou a chronica familiar do palacio,
-a tradição oral da creadagem! É divertido e instructivo.</p>
-
-<p>Carolina calou-se por um instante, e continuou
-depois, levantando-se e ficando em pé defronte de
-mim:</p>
-
-<p>—Admiras-te provavelmente, como todas nos admiramos,
-da singular seducção que a actriz da voga,<span class="pagenum" id="Page_108">[Pg 108]</span>
-que a cantora afamada exercem em muitos homens.
-Infelizmente, não temos direito de nos admirar.
-O que a actriz e a cantora são para elles,
-foram-n’o os moços prégadores de fama para
-as senhoras, que julgariam peccado horrendo entrar
-no camarote de um theatro. Oh! quereria poder
-contar-te o profano ardor com que as devotas
-peccadoras corriam a atulhar a egreja do convento
-no dia em que subia ao pulpito o Richelieu tonsurado,
-o monastico Lauzun d’aquella sociedade licenciosa
-e beata, quereria poder narrar-te a mystica
-voluptuosidade com que muitos olhos fulgurantes
-se fitavam no rosto imberbe do homem de Deus.
-Podia citar-te anecdotas, podia apontar-te o nome
-do garrido frade de pé pequeno, que, se fosse como
-o José da Biblia, teria de fazer uma despeza enorme
-em capas; não era. Podia citar-te os caprichos
-de alguma senhora, que, rival em extravagancia da
-imperatriz Catharina, substituia os granadeiros da
-amante de Potemkin, pelos fradalhões mais nojentos
-dos innumeraveis conventos de Lisboa. Não cito;
-dir-te-hei unicamente que a austera condessa
-foi uma das heroinas d’esse poema licencioso; e por
-uma estranha aberração dos principios de moralidade
-contempla hoje sem remorso o seu passado
-viver, e julga-se com pleno direito de fulminar com
-o anathema sobre as peccadoras da actualidade.</p>
-
-<p>Carolina estava n’esse momento realmente bella;
-os olhos faiscavam-lhe, palpitavam-lhe convulsos
-os labios descorados. Eu mirava-a com espanto.</p>
-
-<p>—Aqui tens o que é minha madrinha, continuou<span class="pagenum" id="Page_109">[Pg 109]</span>
-a minha interlocutora, sem me deixar sequer interrompel-a.
-Meu marido avaliaste-o de certo pelo que
-lhe ouviste. Homem sem principios nem crenças,
-tudo tem sacrificado ás suas conveniencias e á satisfação
-da sua balofa vaidade. Fez-se devoto, quando
-o meu dote se lhe deparou como facil conquista para
-que soubesse conciliar a affeição de minha madrinha,
-que era tambem minha tutora desde a morte
-de meus paes. Seria sceptico ferino, se a condessa
-fosse discipula do senhor de Voltaire. Além d’isso
-o seu ridiculo amor-proprio satisfazia-se com a idéa
-de ver descerrarem-se-lhe as portas das salas aristocraticas,
-onde campeiava essa sociedade que outr’ora
-insultara com vehemencia republicana, quando
-a julgara tão longe de si e tão alto como as celebradas
-uvas estavam na parreira longe da raposa
-da fabula. Ahi tens quem é meu marido.</p>
-
-<p>—Traçaste esses retratos com mão de mestra,
-mas suspeito que os fizeste demasiadamente carregados,
-accudi eu...</p>
-
-<p>—Não, tornou ella, encolhendo os hombros, disse-te
-a verdade francamente, porque soubeste captivar-me
-as sympathias, e desejo ter-te por amiga.
-Desejava tambem explicar-te o meu caracter, que
-tem duas faces, a que viste na sala, e a que vês
-aqui; a complacencia hypocrita, e a revolta aberta.
-Aprendi com elles a arte da dissimulação, vi dos
-bastidores a comedia que elles representavam, ouvi
-de boccas indiscretas os mysterios do camarim emquanto
-o publico applaudia e coroava as actrizes e
-os actores. Convenci-me de que tudo era hypocrisia;<span class="pagenum" id="Page_110">[Pg 110]</span>
-e, passado o primeiro momento de repugnancia,
-entendi que devia tambem representar o meu
-papel n’essa immensa farça. Gosar foi a minha divisa,
-lograr esses logradores encartados o meu programma.
-Ahi tens o que eu sou. Vamos agora ao
-que importa. Teu marido é um parvo, e tu és uma
-linda e intelligente rapariga. Quem é esse Alberto
-em quem a D. Antonia falla com tão devota compuncção?</p>
-
-<p>Olhei para ella com assombro.</p>
-
-<p>—Pois já a tia de meu marido, accudi eu, teve
-tempo de me rodear, de me enlear com as suas calumnias?
-Por amor de Deus, senhora D. Carolina,
-preste-me justiça maior.</p>
-
-<p>—É essa a recompensa da minha franqueza, redarguiu
-ella, sentando-se ao meu lado; e em vez
-de uma alliada tenho em ti uma inimiga? Diriges-me
-assim uma indirecta reprehensão?</p>
-
-<p>—Deus me defenda, tornei eu um tanto constrangida,
-como hei de arvorar-me em juiz das acções
-dos outros? O teu procedimento foi-te dictado por
-motivos que eu não tenho... desculpas que eu...
-não poderia allegar...</p>
-
-<p>—Não te embaraces mais, tornou ella com certo
-azedume, só te digo que fazes mal em ir por esse
-caminho. És inexperiente, e precisas de quem te
-guie na escabrosa estrada da tua rebellião.</p>
-
-<p>—Mas se eu não tento revoltar-me!</p>
-
-<p>—Queres persuadir-me que amas teu marido?</p>
-
-<p>Não respondi.</p>
-
-<p>—E, não o amando, affirmas que não teem o minimo<span class="pagenum" id="Page_111">[Pg 111]</span>
-fundamento as bisbilhotices d’essa tola da D.
-Antonia?</p>
-
-<p>—Juro-o; acudi eu, levantando-me de um impeto;
-ainda que o amor não exista na minha ligação
-com um homem bom e honrado, basta o sentimento
-do dever para me impedir de deshonrar o
-nome, que voluntaria ainda que irreflectidamente
-acceitei. Póde acredital-o.</p>
-
-<p>—Agradeço a lição, tornou Carolina com amarga
-ironia, e não quero ficar-lh’a devendo; dar-lhe-hei
-outra. Saiba pois, pomba innocente que se julga tão
-forte, que ha de chegar um momento, em que, perseguida
-pela calumnia incessante, abandonada por
-um esposo indifferente ou cego, sentindo referver-lhe
-nas veias o sangue da mocidade, inebriada pelas
-tentações que a hão de rodear, se despenhe e
-macule as azas brancas n’esse tremedal que despreza.
-Então ha de lastimar amargamente o ter
-repellido a alliança que lhe offereço. Voltemos para
-a sala.</p>
-
-<p>—Sinto, senhora D. Carolina, tornei eu gravemente,
-haver-lhe desagradado. Mas acredite que,
-se a fatalidade me levar a esse aviltamento, não
-sentirei senão o remorso de ter praticado uma acção
-indigna.</p>
-
-<p>—Veremos, respondeu ella erguendo-se.</p>
-
-<p>Voltámos para a sala, e pouco depois todas as
-visitas se retiraram.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_112">[Pg 112]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="XII">XII</h2>
-</div>
-
-
-<p>Succederam-se com regularidade estes serões do
-voltarete. Fomos procuradas pelas notabilidades dos
-arredores, recebemos e pagamos visitas, mas o congresso
-da primeira noite foi que se estabeleceu na
-nossa sala de um modo definitivo.</p>
-
-<p>De todas essas pessoas a que me inspirava sympathia
-verdadeira era o Theodoro Leite, o despresado,
-o tolerado apenas. Gostava de contemplar
-aquella meiga physionomia de velho timida como a
-de uma creança. Sentada com o meu bordado,
-olhava de relance para elle, e via-o muitas vezes
-distraido das preoccupações banaes do jogo, com
-os olhos como que fitos n’um mundo para nós invisivel.
-Se uma imprecação do padre prior o avisava
-de que havia commettido alguma falta ao voltarete,
-Theodoro estremecia, e o seu rosto de novo tomava
-a expressão de timida deferencia, que habitualmente
-o caracterisava. Mas na sua triste fronte via eu distinctamente
-o reflexo dos orbes luminosos, em cuja
-contemplação se embevecera.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_113">[Pg 113]</span></p>
-
-<p>A sua vida era um poema de sacrificios e de infortunios.
-Entrara na sociedade com uma instrucção
-litteraria desenvolvidissima, e por conseguinte inutil
-em Portugal... e em toda a parte, parece-me. Quizera
-continuar a estudar, haviam-lhe faltado os meios;
-quizera ensinar o que já sabia, e por essa forma
-grangear alguns recursos, vira-se repellido de toda
-a parte, porque o seu caracter recto e firme não lhe
-permittia que falsificasse a historia, e que deixasse
-de estampar na fronte da facção clerical o estygma
-que ella merece. Por amor da verdade, e não por
-paixão partidaria, quiz luctar com a serpente, cujas
-roscas geladas tentam de novo cingir e abafar o mundo,
-e a serpente ergueu-se contra elle e suffocou-o.
-Vencido e exhausto, já de cabellos brancos, tomou
-o seu bordão de peregrino, e voltou para Bellas,
-sua terra natal, d’onde partira, rico de esperanças,
-de mocidade e de enthusiasmo; onde entrava opulento
-de cãs, de desgostos e de fadigas... pobre de
-tudo o mais.</p>
-
-<p>Na casa paterna encontrou sua velha irmã entrevada,
-que lhe pedia pão. O austero apostolo da
-verdade, que sacrificara futuro, tranquillidade e o
-pão da sua velhice ao seu nobre orgulho, sacrificou
-isso mesmo, que era só o que lhe restava, ao bem
-estar de sua irmã.—Elle, o firme combatente, o
-luctador incançavel, foi ajoelhar humilde perante
-os implacaveis adversarios. A condessa e outras senhoras
-do sitio eram protectoras de uma escola de
-creanças pobres, fundada na aldeia de ***; Theodoro
-Leite foi pedir o logar de professor. A condessa divertiu-se<span class="pagenum" id="Page_114">[Pg 114]</span>
-em lhe fazer sentir bem a humilhação, a
-que a desgraça o obrigara; e afinal, movida pela
-<i>caridade christã</i>, concedeu-lhe o que elle pedia. A
-verdade era que estavam em grandes embaraços,
-porque não encontravam um unico professor capaz,
-que se quizesse sujeitar a receber o ordenado fabulosamente
-exiguo, que a sua economica beneficencia
-se prestava generosamente a conceder.</p>
-
-<p>Theodoro Leite sympathisara comigo, e comigo
-só fallava desafogadamente. Nas rapidas palestras,
-que tinhamos tido, pude reconhecer a sua vasta erudição,
-e a bondade quasi angelica do seu caracter.</p>
-
-<p>Estavamos uma noite reunidos, segundo o costume:
-Theodoro, a baroneza, e o prior no seu eterno
-voltarete, eu e os outros junto do canapé. A palestra
-versara sobre os infortunios do papa. Subito a
-condessa tira da algibeira um papel, e diz:</p>
-
-<p>—Lembrou-me abrir aqui uma subscripção para
-o dinheiro de S. Pedro. Estou que ninguem recusará
-tomar parte n’uma obra tão meritoria. Reservei
-para a senhora D. Margarida a honra de abrir
-a lista dos subscriptores.</p>
-
-<p>Todos os olhos se voltaram para mim, com curiosidade.
-Theodoro Leite desviou a attenção do
-jogo, e mirou-me anciosamente.</p>
-
-<p>Foi no meio de um profundo silencio que eu respondi:</p>
-
-<p>—Aprecio infinitamente a honra que v. ex.ª me
-faz; é mais uma prova da sua benevolencia e da sua
-amizade. Comtudo permitta-me a senhora condessa
-que lhe faça algumas observações. Se eu fosse nimiamente<span class="pagenum" id="Page_115">[Pg 115]</span>
-rica, não teria duvida em dar ao Summo Pontifice
-essa prova do meu respeito; mas, não tendo
-riqueza tanta que me permitta esbanjar assim os
-meus rendimentos, prefiro poisar na mão do pobre
-a esmola destinada ao erario pontifical. Estou que
-será por essa forma duplamente agradavel a Deus e
-ao vigario de Christo. Esse pouco de oiro, que se
-sumiria, parcella minima, no golphão do luxuoso
-Vaticano, pode só por si fazer brotar a alegria na
-misera choupana. Portanto, se v. ex.ª m’o permitte,
-darei a minha quota aos pobres; bem sabe que é
-o mesmo que emprestal-a a Deus.</p>
-
-<p>—Muito bem, muito bem! exclamou Theodoro
-Leite irreflectidamente.</p>
-
-<p>O pobre homem, deixando-se levar do primeiro
-impeto, de tudo se esquecera; mas logo caiu em
-si, e fez-se pallido como um defuncto.</p>
-
-<p>A condessa aproveitou o ensejo para desabafar, e
-fulminou Theodoro com o peso da sua indignação.</p>
-
-<p>—Muito bem, o que? exclamou ella. A senhora
-D. Margarida, tendo aquellas idéas, só prejudica a
-salvação da sua alma, porém o senhor Theodoro é
-responsavel para comigo das almas dos meus orphãosinhos.
-Como quer que eu conserve na minha
-escola um homem que tão abertamente professa
-doutrinas impias e sacrilegas?</p>
-
-<p>Eu voltara ao meu bordado, e olhava ás furtadellas
-para o pobre Theodoro que por minha causa
-padecia.</p>
-
-<p>A desgraça abatera completamente a alma varonil.
-Creio que de relance viu a imagem de sua pobre<span class="pagenum" id="Page_116">[Pg 116]</span>
-irmã supplicando-lhe que a não abandonasse,
-e as gottas de um suor de agonia aljofraram-lhe a
-fronte. Então respondeu n’um tom aflicto, que me
-faria rir immenso, se aquelle mesmo ridiculo não
-fosse tanto para commover.</p>
-
-<p>—Mas, minha senhora... eu não applaudo as
-idéas... foi apenas a... a... a disposição grammatical
-do discurso da senhora D. Margarida. Perfeitamente
-bem construido... a regencia irreprehensivel...
-a syntaxe...</p>
-
-<p>—A syntaxe o que? interrompeu a condessa lentamente,
-esmagando-o com o seu olhar ferino.</p>
-
-<p>O pobre Theodoro estava cada vez mais pallido;
-era o naufrago, que vê fugir-lhe das mãos a
-derradeira taboa, e que ouve o rugido feroz das ondas,
-parecendo motejar do seu infortunio.</p>
-
-<p>—Dizia eu, minha senhora, que o estylo era muito
-acceitavel: mas... (e Theodoro lançou-me um olhar
-em que implorava a minha indulgencia), mas só o
-estylo; as idéas regeito-as.</p>
-
-<p>—Ah! o estylo! continuava a condessa, implacavel.</p>
-
-<p>Eu sentia o rubor da indignação na fronte. Era
-infame aquelle zombetear, aquelle brincar do tigre
-com a victima.</p>
-
-<p>A condessa curvou-se então para o lado de Theodoro,
-e disse-lhe algumas palavras em voz baixa.
-Suspeito que o demittira do seu logar de professor,
-porque vi duas lagrimas brilharem nos olhos
-melancholicos do pobre velho.</p>
-
-<p>O que veria elle n’esse tremendo lance? Que<span class="pagenum" id="Page_117">[Pg 117]</span>
-sinistras visões lhe povoariam a mente? O edificio
-da sua velhice, a tanto custo construido, e derrubado
-n’um instante, o pão de sua irmã com tantas
-lagrimas amassado, faltando-lhe de subito! O velho
-pendeu a cabeça, relanceou um triste olhar para
-todos os lados, e suspirou. Comtudo ainda não havia
-terminado a tortura; não estava acabada a partida,
-e interrompel-a seria conciliar para sempre a
-adimadversão de todos. Theodoro resignou-se, sentou-se
-outra vez na cadeira, d’onde se levantara, e
-continuou a jogar.</p>
-
-<p>«Outro martyrio, disse eu comigo, que não tem
-o prestigio da poesia, e que ninguem se lembraria
-de lastimar.»</p>
-
-<p>Comtudo reinava um certo constrangimento na
-sala, e tornava-se impossivel prolongar muito o serão.
-Antes que saissem as visitas, entendi que
-devia, ainda que não fosse senão por descargo de
-consciencia, tentar alguma coisa a favor de Theodoro
-Leite. Baldada tentativa! A condessa respondeu-me
-com hypocrita doçura, mas com inabalavel
-firmeza. Tambem a advogada era mal escolhida.
-A devota senhora, que já pouco sympatisava comigo,
-ficou sendo desde essa noite minha inimiga declarada.
-Declarava-se o <i>triumfeminato</i> adverso: a
-condessa, D. Antonia, D. Carolina.</p>
-
-<p>Ao despedirem-se, vi Theodoro Leite principiar
-a fazer manobras, cujo fim não podia adivinhar,
-approximava-se lentamente da janella, mirava a
-a paisagem nocturna, depois encaminhava-se para
-a mesa, junto da qual eu estava.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_118">[Pg 118]</span></p>
-
-<p>Afinal, quando viu todos distraidos, travou-me
-subito da mão, e apertou-m’a com viveza e enthusiasmo.</p>
-
-<p>E, dada esta prova de coragem, saiu quasi a
-correr.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_119">[Pg 119]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="XIII">XIII</h2>
-</div>
-
-
-<p>No dia seguinte, ás tres horas da tarde, saía eu
-sósinha, e punha-me a caminho da casa de Theodoro
-Leite.</p>
-
-<p>A Annica dera-me as explicações topographicas
-mais minuciosas para que me não perdesse. Mas a
-Annica não contara com as distracções da minha
-phantasia, não pensara na influencia d’uma formosa
-tarde de primavera, nas tentações de respirar em
-liberdade esse ar dos campos, tão puro, tão são,
-tão fragrante!</p>
-
-<p>Sentir-me só, livre de todo o constrangimento, de
-todas as perseguições, só com a natureza e com
-Deus, engolphar-me de novo em pleno ambiente de
-poesia, depois de me ter encravado até aos joelhos
-na lama vil da mais repugnante prosa, tudo isso me
-enlevava tanto, me rejubilava por tal forma, que
-me parecia renascer para a vida, como eu quizera,
-como eu comprehendera, para a vida do sonho, para
-a vida do ideal.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_120">[Pg 120]</span></p>
-
-<p>Sósinha! Como eu trepava ao cimo da mais pequena
-elevação de terreno para descobrir mais largo
-horisonte, como eu ficava embebida em jubilo
-infantil, a contemplar os malmequeres, sobre os
-quaes a brisa fluctuava de manso, acamando-os levemente,
-como se milhões de invisiveis borboletas
-poisassem de subito na graciosa cabecinha da flor
-campestre! Tanto me enlevei, tanto me extasiei,
-tanto me deliciei que afinal perdi-me. Já cançada e
-offegante, via o sol pender cada vez mais para o
-horisonte, e não sabia ainda o caminho que havia
-de tomar. Valeu-me um saloio venerando, que encontrei,
-e que me foi conduzir até á porta de Theodoro
-Leite, acceitando, apesar da sua physionomia
-patriarchal, com mostras de muito jubilo, a remuneração
-em dinheiro que lhe offereci.</p>
-
-<p>A casa do mestre de meninos era modesta, mas
-aceiada. A sua fachada branca atapetava-se graciosamente
-com plantas trepadeiras, que lhe emolduravam
-as janellas, em cujos vidros scintillavam os
-raios do sol poente. Respirava toda ella pobresa,
-mas serenidade.</p>
-
-<p>Bati á porta. Appareceu-me logo Theodoro com
-um livro na mão. Soltou uma exclamação de jubilo
-assim que me viu.</p>
-
-<p>—Foi a minha casa eleita pelo Senhor? Visitam-me
-os anjos, como visitaram outr’ora os patriarchas
-hebreus? Bemvinda seja a esta choupana, minha filha!
-Entre e illumine com o seu meigo sorriso as
-trevas precursoras de sepulchro em que estes dois
-velhos vivem.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_121">[Pg 121]</span></p>
-
-<p>—Que de galanteios, senhor Theodoro! disse eu,
-entrando alegremente. Velho que sabe dizer tantas
-finezas é mais perigoso que um rapaz.</p>
-
-<p>—<i>O gioventú, primavera della vita!</i> tornou elle,
-mirando-me com terno sorriso. Doce estação da
-existencia, cujo reflexo até o inverno aclara. Aqui
-tens, Josephina, o anjo em que tantas vezes te fallei,
-continuou voltando-se para sua irmã, palida creatura
-que jazia n’uma pobre cama.</p>
-
-<p>Approximei-me d’ella com o respeito, que o infortunio
-inspira. Josephina poisou-me na cabeça a
-mão quasi transparente, murmurando:</p>
-
-<p>—Pobre creança! Deus te fade bem, e mude
-os abrolhos da estrada que trilhas em flores
-suavissimas, o leito de espinhos em leito de rosas,
-as agruras do caminho em aveludado tapete.</p>
-
-<p>Curvei-me respeitosamente, recebendo esta benção
-maternal.</p>
-
-<p>—Sabes, Josephina, acudiu Theodoro, que difficil
-seria encontrar um quadro mais delicioso do que
-esse que estão agora ambas formando? Os teus
-cabellos brancos de neve confundem-se com as
-tranças levemente aloiradas de D. Margarida. Aqui,
-do sitio onde estou, vejo desenhar-se em graciosa
-curva o corpo esbelto, ou antes a haste gentil d’esse
-lyrio, que se debruça para o teu leito a perfumal-o
-de fragrancias, a perfumar-te de juventude.
-Ha um raio do sol poente, que entra pela janella,
-e vae semear de palhetas d’oiro os cabellos d’essa
-formosa menina, e a ti purpureia-te levemente a
-fronte de marfim. Onde ha espectaculo que se possa<span class="pagenum" id="Page_122">[Pg 122]</span>
-comparar a este que disfructo agora? Duas vidas
-que se entrelaçam, uma tão pura no seu occaso
-como a outra na sua aurora, duas auréolas, cujos
-raios de luz se confundem, auréolas que não sei
-dizer qual seja a mais explendente, se a que se fórma
-de infortunio, se a que se compõe de innocencia!</p>
-
-<p>—Poeta! poeta! disse Josephina, e continuou,
-voltando-se para mim; foi sempre o defeito d’este
-meu irmão; não sei se elle perpetrou alguns versos...</p>
-
-<p>—Nunca, Josephina; rima nenhuma tenho a pezar-me
-na consciencia.</p>
-
-<p>—É o mesmo, ou antes é peior. Não desabafa
-em rimas, entretem-se em devaneios, é o que lhe
-tem feito mal. Era melhor que tu te lembrasses de
-offerecer alguma coisa de comer a esta menina, cujo
-appetite havia de ter sido despertado pela caminhada.</p>
-
-<p>—Queres que lhe offereça os alimentos frugaes
-da nossa Thebaida? Pão secco...</p>
-
-<p>—E laranjas, desmemoriado. Pois já te esqueceste
-das que te trouxe o pae d’um dos teus discipulos?</p>
-
-<p>—Não, não, acudi eu apressadamente, não tenho
-vontade.</p>
-
-<p>As minhas recusas de nada valeram. D’ahi a pouco
-apparecia Theodoro com um açafate de laranjas
-magnificas.</p>
-
-<p>—Madame de Maintenon, disse elle, quando não
-tinha assado para dar aos hospedes do seu primeiro<span class="pagenum" id="Page_123">[Pg 123]</span>
-marido, Scarron, contava-lhes uma historia. Aqui,
-senhora D. Margarida, tem de passar sem assado
-e sem historia.</p>
-
-<p>—Dispenso o primeiro, tornei eu, mas não dispenso
-a segunda. A sua vida passada não contará
-muitos factos d’util lição para quem entra, como
-eu entro, na estrada da existencia? A sua vida presente
-não está cheia tambem de modesto mas proveitoso
-ensinamento?</p>
-
-<p>Theodoro abanou a cabeça com melancholia.</p>
-
-<p>—O meu passado, filha, é um passado tristemente
-banal. Ferventes illusões, desenganos profundos,
-n’isso apenas se cifra. Julguei que o meu
-paiz caminhava com o resto da humanidade, e que
-podia tambem eu accender o meu facho modesto
-para o ajudar a dissipar as sombras. Enganei-me.
-Eram as trevas as vencedoras. Encaneceram-me os
-cabellos n’essa lucta ingloria. Tarde, bem tarde,
-percebi que, se o meu paiz regeitava o meu auxilio,
-reclamava-o a minha familia. Voltei para o lar,
-como o filho prodigo. Cumpro agora os meus deveres
-como posso, e infelizmente posso pouco. A
-minha vida presente, senhora D. Margarida, tem o
-seu lado luminoso e o seu lado sombrio. Quando,
-ao pé do leito de minha irmã, contemplo o sol que
-illumina além o horisonte com as derradeiras chammas,
-quando vejo n’este vasto sanctuario da natureza
-espelhar-se a idéa de Deus, tão clara e tão harmoniosa
-como a vejo obscura e contradictoria na
-egreja profanada pelos que se dizem seus sacerdotes,
-então sinto-me feliz, e agradeço á Providencia<span class="pagenum" id="Page_124">[Pg 124]</span>
-estes breves instantes de suave repouso que me
-concede antes de me abrir as portas do tumulo. Outras
-vezes, quando vejo minha pobre irmã soffrer,
-sem eu lhe poder dar o conforto que o seu estado
-reclama, sinto as ondas da amargura invadirem-me
-o coração. Sinto o remorso pungir-me...</p>
-
-<p>—Theodoro! exclamou a irmã.</p>
-
-<p>—Sim, Josephina, o remorso, porque foi o demonio
-da ambição quem me arrastou para longe
-da familia. Cubiçei o papel de missionario da idéa,
-quando me devia restringir ao dever mil vezes mais
-santo de consolador, de esteio dos que Deus confiou
-á minha protecção immediata. Pela <i>humanidade</i>
-trabalham muitos, querem todos pôr a mão n’esse
-trabalho glorioso, e esquecem o <i>homem</i>, o homem
-com os seus affectos, com os seus deveres modestos,
-mas augustos, deveres que se resumem no
-acanhado circulo da familia. Acanhado, acanhado
-como é acanhada a cellula da abelha, mas a cellula
-á cellula se liga, e o seu conjuncto fórma a colmeia.
-O conjuncto das familias, devemos pensal-o, é a humanidade.</p>
-
-<p>Eu ouvia-o com respeito, e contemplava enternecida
-aquella fronte limpida, onde se revia tão doce
-serenidade, aquelle homem apodado de impio, que
-professava tão nobres principios, emquanto os que
-se presavam de religiosos tinham apenas (e demais
-a mais só em palavras) uma desamoravel e falsa
-moralidade.</p>
-
-<p>Já vinha caindo a noite, e era tempo de me retirar.
-Eu fabricara em casa uma historia muito complicada,<span class="pagenum" id="Page_125">[Pg 125]</span>
-que me authorisasse a soccorrer aquella
-infeliz familia, que ficara ao desamparo por minha
-causa. Mas o nobre vulto de Theodoro por tal fórma
-me enliara, que não pude conseguir dizer duas
-palavras com algum nexo. Lembra-me que se tratava
-d’um parente meu, que desejava editar traducções
-do latim, e um mistiforio tal, que logo estaquei,
-fazendo-me muito córada, e só pude dizer,
-pondo as mãos em attitude de supplica:</p>
-
-<p>—Por quem é, senhor Theodoro Leite, consinta
-que eu tome parte no tratamento de sua irmã.</p>
-
-<p>Theodoro Leite ouvira a minha historia com um
-benevolo sorriso; mas afinal duas lagrimas lhe marejaram
-nos olhos, e travando-me das mãos, e beijando
-m’as, disse:</p>
-
-<p>—Consinto, sim, filha. Acceito sem vergonha a
-esmola, que as suas mãos santificaram. Quem não
-acceitaria o orvalho celeste, que as brancas azas
-d’um anjo lhe chovessem sobre a fronte! Que orgulho
-tão mal entendido seria o meu! Deus lhe pague,
-filha, esse oiro bemdito, em rosas no Empyreo,
-e em venturas na terra.</p>
-
-<p>E as duas lagrimas, que lhe humedeciam os olhos,
-deslisaram-lhe lentamente pelas faces venerandas.</p>
-
-<p>A custo me despedi da pobre entrevadinha. Sentia-me
-tão bem n’aquella humilde casa!</p>
-
-<p>Theodoro quiz por força acompanhar-me. O sol
-desapparecera já no horisonte; as roxas côres do
-crepusculo iam-se destingindo a pouco e pouco, e
-o azul longinquo das montanhas ia-se esfumando
-cada vez mais. Augmentava o fulgor das estrellas,<span class="pagenum" id="Page_126">[Pg 126]</span>
-e a lua, ainda desmaiada, apparecia no Oriente.</p>
-
-<p>Puzemo-nos a caminho. Eu dei-lhe o braço, e fomos
-conversando e rindo, calando-nos a espaços
-para escutarmos o ultimo echo dos ruidos expirantes
-do dia e os primeiros murmurios nocturnos.
-Separarámo-nos no principio da lameda, que ia
-ter a minha casa.</p>
-
-<p>Entrei jubilosa e satisfeita. Estava já n’essa noite
-a reunião completa, e logo todos repararam na expressão
-da minha physionomia.</p>
-
-<p>—Sabe o que diz o vulgo n’estes casos, minha
-querida senhora D. Margarida? acudiu maliciosamente
-Carolina, diz assim: «Viu passarinho novo!»</p>
-
-<p>—Pois olhe, tornei eu rindo, venho de uma gaiola
-onde não ha senão passaros velhos. Venho de casa
-de Theodoro Leite. Vi a irmã; pobre entrevadinha.
-A senhora condessa por força ha de ter soccorrido
-aquelle infortunio, continuei eu maliciosamente.</p>
-
-<p>—Minha filha, respondeu a condessa, não me
-quero oppôr aos juizos de Deus. A minha caridade
-estende-se a todos os christãos; mas animar os impios
-não entra nos meus principios.</p>
-
-<p>—Se Jesus aqui estivesse, minha senhora, acudi
-eu sorrindo-me, parece-me que teria ensejo para
-repetir a parabola do Samaritano.</p>
-
-<p>—Está muito forte em theologia, tornou a condessa.</p>
-
-<p>—Não, minha senhora, não sou theologa; mas
-gosto de ler o Evangelho.</p>
-
-<p>—Longe de mim a idéa, redarguiu a devota fidalga,<span class="pagenum" id="Page_127">[Pg 127]</span>
-de contestar o merecimento dos livros sagrados;
-mas deixe-me avisal-a que não é bom lel-os e
-commental-os sem ter um guia espiritual. Sabe a
-que isso nos conduz? Ao protestantismo.</p>
-
-<p>—Quem diz a vossa excellencia, interrompeu Carolina,
-que a senhora D. Margarida não tenha um
-guia espiritual? As suas excursões por estes campos,
-tão, desprovidos de attractivos, não podem ter
-outro fim senão o de procurar um... confessor.</p>
-
-<p>—Eu bem lhe disse, acudiu D. Antonia com azedume,
-que não era bonito andar sósinha. Podia
-isso dar logar a mil interpretações, falsas decerto,
-mas que não deixariam de lhe ser desfavoraveis.
-Não me quiz ouvir.</p>
-
-<p>—Infelizmente, D. Antonia, exclamou a condessa,
-é esse o grande defeito da mocidade contemporanea.
-Independencia individual, eis o seu <i>desideratum</i>. Liberdade
-de pensamento... para o mal, e liberdade
-de acção, que tambem no mal vae parar. Lerem sós
-e andarem sós. Pois olhe, D. Antonia, quando uma
-menina lê algum livro muito recatada, e sem querer
-que lh’o expliquem, póde contar que ao seu lado
-se debruça sobre a pagina a cabeça de Satanaz, e
-quando quer andar só, não será Lucifer o companheiro,
-mas olhe que vem a dar na mesma.</p>
-
-<p>Ia eu a responder indignada a estas malevolas insinuações,
-porque decididamente não me fadara
-Deus para este genero de luctas, onde perdia logo
-o sangue frio, quando sentimos na estrada o tropear
-de um cavallo, depois passos de homem na escada;
-e afinal abriu-se a porta, e appareceu no humbral<span class="pagenum" id="Page_128">[Pg 128]</span>
-um sujeito moço, de figura esbelta, e amavel
-physionomia.</p>
-
-<p>Soltei um grito ao vel-o, e D. Antonia levantou-se
-com um risinho de escarneo.</p>
-
-<p>Esse homem, que surgira á porta, era Alberto
-Mascarenhas.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_129">[Pg 129]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="XIV">XIV</h2>
-</div>
-
-
-<p>Alberto ficou um pouco enleado, ao reparar na
-impressão que produzira, mas logo recuperou o seu
-habitual desembaraço, e depois de cumprimentar
-todas as pessoas presentes, dirigiu-se para mim e
-para D. Antonia, dizendo:</p>
-
-<p>—Desculpem, minhas senhoras, se venho por
-esta forma surprehendel-as. Imaginem vossas excellencias
-que me vejo obrigado a estabelecer-me
-em Bellas por causa dos negocios de um tio meu,
-que, sob pretexto de que hei de ser o seu herdeiro,
-houve por bem, emquanto não me lega os seus haveres,
-fazer de mim uma especie de intendente
-d’elles. Meu tio, segundo vêem, é um profundo philosopho,
-tem feito estudos comparativos sobre a
-probidade dos intendentes considerada debaixo do
-ponto de vista da natureza humana, e concluiu que
-o melhor gerente de quaesquer bens é aquelle que
-os deve herdar. Debalde protestei contra a theoria;
-fui obrigado a vir até Bellas, onde tenho passado já
-uns tres dias divertidissimos, enterrado até ás orelhas<span class="pagenum" id="Page_130">[Pg 130]</span>
-em massos de titulos pulverulentos, e embaraçado
-por todos os Talleyrands saloios, que a natureza
-espalhou com mão prodiga por este sitio.
-Mas de repente lembrou-me que me dissera Claudio
-que tencionava passar a primavera e o verão
-n’esta sua casa de campo, e resolvi vir ter com
-elle. Chego, dizem-me que ainda está em Lisboa,
-mas que vossas excellencias estão cá; subo e tenho
-a honra de lhes apresentar os meus respeitos.</p>
-
-<p>—É sempre bem vindo, senhor Alberto Mascarenhas,
-observou D. Antonia.</p>
-
-<p>Ao ouvirem este nome, Carolina sorriu-se com ar
-malicioso, Jeronimo fez um commentario em voz
-baixa ao ouvido da condessa, e esta franziu o sobr’olho.</p>
-
-<p>—Nós quasi que o esperavamos, continuou D.
-Antonia.</p>
-
-<p>—A mim? perguntou Alberto. Isso é caso de
-revelação sobrenatural; porque eu posso-lhe jurar
-que ha tres horas não pensava ainda em vir aqui.</p>
-
-<p>—São presentimentos, acudiu ironicamente a tia
-de meu marido.</p>
-
-<p>—Extremamente lisongeiros para este seu adorador,
-tornou Alberto rindo; poderei por acaso alimentar
-esperanças?</p>
-
-<p>—Póde... pois não, continuou ella trocando uma
-vista d’olhos com as suas devotas companheiras,
-póde tel-as e muito bem fundadas.</p>
-
-<p>Alberto ficou um pouco enleado, reparando n’estes
-mysterios da conversação. Eu já os percebia,
-por isso procurei mudar logo de palestra.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_131">[Pg 131]</span></p>
-
-<p>—Então aborreceu-se muito na Ericeira? perguntei.</p>
-
-<p>—Não minha senhora, respondeu Alberto com
-a facilidade que o seu espirito privilegiado tinha em
-seguir todas as direcções da conversação. Eu sou
-d’aquelles que consagram ao oceano um amor desinteressado.
-Ha immensa gente que diz: «Gosto
-do mar, mas do mar em tempo de banhos» assim
-como dizem tambem: «Gosto de Cintra, mas de
-Cintra na estação em que a sociedade elegante procura
-as suas frescas sombras e os seus ridentes panoramas.»
-Eu não; gosto do mar e gosto de Cintra
-sem segunda intenção; do mar no inverno, e de
-Cintra na primavera, do mar sem barracas na praia,
-de Cintra com Seteais deserto. Já vê por conseguinte
-vossa excellencia que tive este anno o supremo
-goso, que podem ter todos os namorados, o de
-estarem sós com o objecto da sua affeição. Eu e as
-vagas conversámos sem testemunhas, ellas contaram-me
-historias tão maravilhosas, eu confiei-lhe
-poemas admiraveis, e tanto mais admiraveis quanto
-eram ineditos, e tanto mais ineditos quanto nem
-chegavam a formular-se em palavras. Quando vier
-o tempo do amor official pelas praias ouvirá o pobre
-oceano tantas apostrophes de poetas, que não tive
-animo de o torturar antecipadamente; pois ainda assim,
-entendemo-nos e separámo-nos saudosos um
-do outro.</p>
-
-<p>Eu estava prestando attenção ao frivolo palrar de
-Alberto, sem por isso deixar de ouvir a palestra em
-voz baixa, que se travara entre as pessoas presentes.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_132">[Pg 132]</span></p>
-
-<p>—É uma entrevista em fórma, dizia a condessa.</p>
-
-<p>—E que cynismo! accrescentava Jeronymo.</p>
-
-<p>—Que falta de habilidade! murmurava Carolina.</p>
-
-<p>—Que escandalo! rematava D. Antonia.</p>
-
-<p>O padre prior tomava pitadas.</p>
-
-<p>—Desculpe-me, D. Antonia, tornava a condessa,
-mas não posso continuar a ser testemunha de uma
-scena d’estas.</p>
-
-<p>—Tem razão, senhora condessa, dizia a minha
-inimiga intima, não imagina como estou afflicta. Não
-tenho remedio senão avisar meu sobrinho.</p>
-
-<p>Todos se levantaram.</p>
-
-<p>—Vou-me retirando, disse a condessa em voz alta.</p>
-
-<p>—Nós tambem, continuou Jeronymo. Não achas,
-Carolina?</p>
-
-<p>—Sem duvida, redarguiu esta.</p>
-
-<p>—Está tão bonita a noite, continuou D. Antonia
-fitando os olhos em mim e em Alberto, e accentuando
-muito cada palavra, que me resolvo a acompanhal-as
-um pedaço.</p>
-
-<p>Era o mesmo que despedir Alberto. Percebi a intenção,
-e fiz-me vermelha de colera. Alberto levantou-se
-e foi para pegar no chapeu.</p>
-
-<p>A condessa e Jeronymo cumprimentaram-me friamente.
-Eu sentia referver-me no peito a indignação,
-que ia lavrando pouco a pouco, e estava quasi
-chegando ao seu paroxismo. Carolina veio beijar-me
-e disse-me ao ouvido:</p>
-
-<p>—Tens bom gosto, mas sempre são ambos uns
-tontinhos!</p>
-
-<p>Alberto ia a dirigir-se a mim para me cumprimentar;<span class="pagenum" id="Page_133">[Pg 133]</span>
-mas eu, sem ter já bem a consciencia do
-que fazia e cedendo só ao irresistivel desejo de reagir
-contra essa authoridade, que todos se arrogavam
-em minha casa, e na minha presença, exclamei:</p>
-
-<p>—Perdão, senhor Alberto Mascarenhas, rogo-lhe
-que fique!</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_134">[Pg 134]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="XV">XV</h2>
-</div>
-
-
-<p>Todos olharam para mim com espanto, e Alberto
-principalmente com assombro. Comtudo inclinou-se
-sem responder, e foi pôr o chapeu no sitio d’onde
-o tirara.</p>
-
-<p>A condessa encolheu os hombros com despreso,
-Carolina riu-se, D. Antonia lançou-me um olhar indignado,
-e o padre prior tomou uma pitada. Depois
-sairam todos.</p>
-
-<p>Ficamos sós, eu e Alberto.</p>
-
-<p>Fui á janella e abri-a. Estava uma noite linda, a
-lua campeava serena e placida n’um céo d’um azul
-purissimo, onde se espraiava sem obstaculo a candida
-luz, que lhe fluctuava em torno, como véo de
-noiva. A brisa suspirava brandamente na ramaria
-das arvores.</p>
-
-<p>Vi sairem as nossas visitas, D. Antonia, e o creado
-que a devia acompanhar na volta. Nem ergueram
-os olhos para a janella, onde eu estava. Afastaram-se
-vagarosamente, conversando e rindo. A pouco e<span class="pagenum" id="Page_135">[Pg 135]</span>
-pouco foi esmorecendo ao longe o echo dos seus
-passos e das suas vozes, afinal esvaiu-se de todo,
-e outra vez reinou em torno de mim essa placidez
-fremente, se assim me posso exprimir, das lindas
-noites de primavera, noites em cujo magico silencio
-palpitam os canticos mysteriosos das fadas, o leve
-ruido da flôr que desabrocha, o murmurio da seiva,
-que circula no coração da arvore.</p>
-
-<p>Eu sentia o passear agitado de Alberto na sala.
-A nossa posição era tão embaraçosa, que nenhum
-de nós se atrevia a romper o silencio.</p>
-
-<p>Emfim Alberto parou, e disse-me, tocando-me no
-hombro, e fazendo assim com que eu me voltasse
-para elle:</p>
-
-<p>—O que se passa aqui?</p>
-
-<p>—Nada, meu bom amigo, respondi sorrindo-me;
-ou antes, passa-se uma lucta mesquinha, cujas peripecias
-lhe causariam tedio.</p>
-
-<p>—Em que o meu nome entra d’algum modo?</p>
-
-<p>—Não, respondi hesitando.</p>
-
-<p>Pois que lhe havia de dizer? Havia de lhe narrar
-as absurdas insinuações de D. Antonia?</p>
-
-<p>Alberto fitou os seus olhos nos meus, depois
-abanou a cabeça com ar de duvida.</p>
-
-<p>Eu larguei a janella, e fui-me sentar ao meu piano,
-que me chegara de Lisboa n’esse mesmo dia.</p>
-
-<p>Abri-o, e deixei correr vagamente os dedos pelo
-teclado. Alberto foi-se encostar ao peitoril da janella.
-O seu nobre e pallido perfil, banhado pelos
-raios da lua, tomava não sei que vaga expressão
-austera e melancholica.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_136">[Pg 136]</span></p>
-
-<p>A doce influencia da musica banira do meu espirito
-as impressões desagradaveis, que a scena antecedente
-me deixara. As azas brancas da melodia
-arrastavam-me suavemente para os campos ethereos
-do ideal.</p>
-
-<p>Pouco a pouco as notas que eu fazia brotar ao
-acaso do teclado foram tomando uma fórma determinada,
-e, quasi sem eu ter consciencia d’isso, os
-meus dedos despertaram no seu leito de marfim a
-serenata do <i>Marino Faliero</i>.</p>
-
-<p>Estremeci ouvindo o seu canto, ou antes o seu
-murmurio erguer-se timidamente, e embalar-se na
-sua cadencia com tanta brandura, como as aguas
-do Adriatico podem embalar no seu dorso uma
-gondola veneziana.</p>
-
-<p>Cedi ao encanto, e o meu pensamento, que fluctuava
-incerto, entregou-se ás voluptuosas caricias
-d’essa languida melodia.</p>
-
-<p>Depois a musica expirou como havia começado:
-sem motivo, sem razão, <i>comme un oiseau se pose</i>,
-diz Victor Hugo.</p>
-
-<p>Alberto ouvira a serenata com a cabeça firmada
-n’uma das mãos. Quando a ultima nota se esvaiu
-no espaço, ergueu a fronte, e dirigiu-se para mim.
-Lampejava-lhe nos olhos um fulgor estranho.</p>
-
-<p>—Minha senhora, disse-me elle encostando-se ao
-piano, sabe quem foi o objecto do meu primeiro
-amor?</p>
-
-<p>—Não, redargui espantada da pergunta.</p>
-
-<p>—Foi vossa excellencia.</p>
-
-<p>—Eu! tornei estupefacta e levantando-me.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_137">[Pg 137]</span></p>
-
-<p>—Socegue, minha senhora, vossa excellencia tem-me
-honrado com a sua estima, e sabe que nem por
-sombras sou capaz de a offender. Mas vejo, presinto
-que se está elaborando n’esta casa alguma
-intriga mysteriosa, de que vossa excellencia é victima,
-e onde me fazem desempenhar um papel,
-seja elle qual fôr. Devo-lhe por conseguinte plena
-e inteira franqueza. Vou-lhe submetter um caso de
-consciencia. Depois de lhe ter feito uma confissão
-completa e sincera, vossa excellencia dirá se devo
-ou não tornar a pôr os pés n’esta casa.</p>
-
-<p>Alberto calou-se por um instante, passou a mão
-pela testa, como para avivar a memoria do passado,
-e principiou depois em voz baixa e agitada:</p>
-
-<p>—Foi ha tres ou quatro annos, supponho. Entrava
-eu na vida, e relanceava os olhos em torno
-de mim com a ingenua curiosidade de quem tudo
-vê envolto nos véos seductores do mysterio, e tomando
-o aspecto de risonho enigma de tentadora
-resolução. Entre todas essas miragens de que a nossa
-vista se namora, quando pomos o pé na orla d’este
-deserto da existencia é a do amor a mais luminosa.
-As outras visões apparecem-nos como simples oasis;
-esta surge-nos como paiz de fadas. As outras serão
-sombras e frescura; esta, flores e fragrancias.
-Como a todos, foi a canção amorosa a que primeiro
-despertou no meu peito, vago canto sem assumpto,
-melodia sem letra, que me extasiava como
-o trovar de passarinho invisivel emboscado na ramaria.
-Uma vez encontrei-a a vossa excellencia com
-sua familia n’uma das quintas de Bemfica. Obedecendo<span class="pagenum" id="Page_138">[Pg 138]</span>
-ao inexplicavel condão da formosura, os meus
-olhos seguiram, ainda meio distraidos, o seu vulto
-airoso, que se sumia ao longe nos meandros das lamedas.
-Momentos depois, tornei a encontral-a, e a
-impressão fugitiva, que me produzira, avivou-se e
-recresceu de intensidade quando me achei preso na
-esphera de fascinação magnetica, que os seus olhos
-sempre possuiram. Vi-a então bem! Que formosa
-e fina cabecinha a sua! Que primoroso oval o do
-seu rosto! E o aveludado da sua tez, e o seu pisar
-tão gracioso, e mais que tudo a suprema elegancia,
-a suavidade como que aerea das linhas do seu perfil
-e dos contornos do seu corpo, tudo isso me enlevou,
-me deslumbrou por tal forma, que não pensei
-mais senão em seguil-a e miral-a de longe, com
-medo que essa visão do céo me fugisse de novo, e
-tornasse, despregando as azas brancas, ao Empyreo,
-d’onde viera.</p>
-
-<p>—Senhor Alberto Mascarenhas! interrompi eu,
-devéras enleada.</p>
-
-<p>—Perdão, minha senhora, tornou elle com certa
-melancholia; não julgue que estou evocando o passado,
-de proposito para lhe fazer uma especie de
-declaração retrospectiva. Prometti-lhe ser franco,
-e para o ser abri o livro da minha memoria, e reli-lhe
-as paginas taes como as escrevera n’esse tempo.
-Desculpe-me se se encontra n’ellas alguma phrase,
-que fira a sua susceptibilidade.</p>
-
-<p>—Continue, murmurei eu com voz que mal se
-ouvia.</p>
-
-<p>—D’esse momento em deante, minha senhora,<span class="pagenum" id="Page_139">[Pg 139]</span>
-continuou Alberto, consagrei-lhe um amor mysterioso,
-que me deu infindas alegrias. Povoou-se a
-minha solidão com uma imagem, em que todos os
-meus sonhos se incarnavam. O encontral-a era para
-mim um prazer immenso; mirar a janella cerrada
-do seu quarto causava-me não sei que doce commoção;
-divisal-a a vossa excellencia encostada ao
-peitoril, ou devaneando vagamente, ou lendo algum
-livro, era um extasi indisivel. Fugia para o meu
-quarto, levando como thesouro precioso uma das
-fragrancias, em que a flor se desata, um dos raios de
-luz que a estrella desprende da sua fulgida corôa,
-sem que estrella nem flor tenham consciencia do
-jubilo que inspiram. Encerrava-me sósinho, evocava
-o seu vulto, via-a debruçar-se para mim, sentia-lhe
-os cabellos roçarem-me ao de leve pela fronte, e
-estremecia como se a impressão ficticia do meu
-devaneio fosse uma impressão verdadeira. Olhe,
-quer que lhe diga? Tenho saudades d’essa loucura,
-e voltando os olhos para o meu passado, não encontro
-n’elle horas mais suaves do que essas, em
-que, a sós com uma sombra, fui lendo, estrophe
-a estrophe, o mais lindo poema de amor que nunca
-se escreveu.</p>
-
-<p>Aberto, extraordinariamente agitado, deu um
-passeio na sala, e foi a final encostar-se de novo ao
-peitoril da janella. Os effluvios da primavera adejavam
-no ambiente, por onde os espalhava a doida
-brisa sacudindo as azas impregnadas n’essas fragrancias.
-Os raios da lua vinham já espraiar-se no
-chão do aposento. Eu, inclinada para o piano, pensava<span class="pagenum" id="Page_140">[Pg 140]</span>
-n’esse mundo novo, que se me apresentava,
-n’esses novos horisontes, que se rasgavam deante
-da minha phantasia. Esse amor mysterioso que
-acompanhara, sem que eu o visse, o meu passado
-esplendido e risonho, illuminava-me agora as trévas
-do presente com um raio d’esse fulgor extincto, como
-a lua, que, invisivel em quanto o sol campeia
-no firmamento, surge mal assoma a noite, e vem pratear
-as sombras com um reflexo ao clarão diurno.</p>
-
-<p>—Se soubesse, tornou Alberto voltando para
-mim, como a sua imagem me acompanhava sempre!
-como o seu nome, que eu logo soubera, me
-acudia constantemente aos labios! como eu gostava
-de o pronunciar! como eu devorava os romances
-em que esse nome apparecia! como eu o associava
-a todas as minhas commoções! Se ouvia uma opera
-predilecta, quando a musica me elevava ás regiões
-do extasi, era o seu nome como a chave de
-oiro que me abria as portas d’esse mundo ideal!
-«Margarida, amo-te,» balbuciava eu, quando Desdemona
-suspirava a aria do <i>Salgueiro</i>; quando Violeta
-gemia o seu adeus ao mundo; quando escutava
-esse cantico sublime de amor e tristeza, que se
-chama <i>Lucia</i>. E se por acaso tinha a felicidade de
-a ver no theatro, como os meus olhos se cravavam
-no seu rosto querido, como eu seguia a impressão
-que a musica produzia na sua alma, e que se espelhava
-nos seus olhos!</p>
-
-<p>A noite continuava serena, perfumada, voluptuosa,
-e os raios da lua vinham esmorecer languidamente
-no chão do aposento.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_141">[Pg 141]</span></p>
-
-<p>Eu ouvia essas confidencias com um sentimento
-inexprimivel; doce, quando me deixava embalar pela
-melodia d’essas magicas palavras que dizem
-amor e mocidade; amargo quando pensava na vida
-tal como o acaso m’a fizera, e nas graves consequencias
-que podia ter para mim essa declaração
-intempestiva.</p>
-
-<p>—Durou esse sonho pouco tempo, como todos
-os sonhos, tornou Alberto; mas deixou-me para
-sempre uma recordação indelevel. Lembro-me, como
-se fôra hoje, da ultima vez que a vi, antes de
-me ausentar de Lisboa. Encontrei-a em casa de um
-dos velhos amigos do meu pae, o visconde de ***,
-passeava vossa excellencia no jardim, quando eu
-entrei. Acompanhavam-na sua mãe e a viscondessa.
-Meu pae, o visconde, o pae de vossa excellencia e
-outros amigos estavam tomando café n’um dos kiosques.
-Era em junho, e ao pôr do sol. Succedera a
-frescura do crepusculo ás calmas abrasadoras do
-dia. Reinava em terra e céo perfeita serenidade. O
-firmamento d’um azul purissimo. O Tejo, ao longe,
-doirado pelos ultimos raios do sol, que se sumiam
-no occaso. Um d’esses raios ficara tambem como
-preso ás arvores do jardim. Vossa excellencia passeava
-de cabeça descoberta, e a mansa brisa, que
-se erguera, fazia-lhe arfar os cabellos castanhos claros
-em vagasinhas d’oiro, quando o raio de sol alcançava
-beijal-os. O seu passear vagaroso e indolente,
-as suaves ondulações do seu corpo, o fulgor
-um tanto amortecido dos seus olhos, o frémito dos
-seus labios, que aspiravam a aragem embalsamada,<span class="pagenum" id="Page_142">[Pg 142]</span>
-tudo se casava tão bem com a languida voluptuosidade
-da tarde expirante!... Fiquei como deslumbrado
-por tanta formosura, palpitou-me com violencia o
-coração, e nem tive animo nem força para me approximar
-de vossa excellencia. Infelizmente ou felizmente
-(eu sei?) estava para se retirar. O visconde
-foi-se despedir de vossa excellencia e de sua mamã,
-e a viscondessa acompanhou-as. Vossa excellencia
-colhera uma rosa, que beijava distrahida, ao aspirar-lhe
-o perfume; affastou-se, fui-a seguindo com
-os olhos, vi-a subir vagarosamente os degraus da escadaria,
-e quando chegou ao terraço para onde deitavam
-as portas do palacio, vi-a encostar-se á balaustrada,
-e fitar vagamente os olhos no horisonte
-affogueado, no rio onde o oiro se ia transformando
-em purpura, e nas montanhas cujos pincaros se azulavam
-com a distancia. O seu vulto, estampando-se
-por essa forma na atmosphera transparente, com a
-fronte cingida por uma vaga auréola, tendo por traz
-de si um foco de chammas em cada vidro, que os
-ultimos raios de sol incendiavam, tomava como que
-o aspecto phantastico de uma d’essas fadas do Rheno,
-que apparecem ao pôr do sol, com a harpa de
-oiro ao lado, sentadas nos fraguedos do rio. Distrahidamente
-deixou cahir a rosa que tinha na mão;
-depois desviou-se do parapeito, e desappareceu no
-interior do palacio.</p>
-
-<p>—Que memoria a sua! disse-lhe eu, sorrindo-me.</p>
-
-<p>—Hesitei um instante, continuou elle sem parecer
-que reparava na minha interrupção; antes de ir
-levantal-a: depois não me pude conter, e fui-me approximando<span class="pagenum" id="Page_143">[Pg 143]</span>
-como que distrahidamente do sitio onde
-estava a flor cubiçada. Apanhei-a n’um relance,
-beijei-a, e guardei-a no peito... Nunca mais me separei
-d’ella, continuou com voz abafada; essa visão da
-minha adolescencia esvaiu-se como se esvaem os
-sonhos, esse louco amor extinguiu-se como era natural,
-mas a flor secca nunca mais me deixou; é o
-meu talisman, que serve para evocar ás vezes esse
-periodo luminoso da minha vida, esses doces annos
-que se sumiram para sempre no abysmo do passado.</p>
-
-<p>E, tirando do peito uma rosa murcha e amarellecida,
-passou-a para as minhas mãos.</p>
-
-<p>Deslisou-me dos olhos uma lagrima e foi cair nas
-petalas sem viço da pobre flor, sem que esse amargo
-orvalho lograsse reverdecel-a. Assim tambem os
-meus prantos não poderiam restituir-me alegria descuidosa
-que perdera.</p>
-
-<p>Alberto viu a lagrima, e disse-me:</p>
-
-<p>—Comprehendo-a; essa flor, deixada cahir distrahidamente
-quando não havia ainda saudades na
-sua vida, exerce no seu espirito a mesma fascinação
-que no meu exercia. Guarde-a, dou-lhe n’isso a
-prova de que para sempre quebrei com o meu passado.</p>
-
-<p>—Não era necessario, disse eu; aprecio tanto o
-seu nobre caracter, que nem por um instante duvido
-de que me não teria feito essa confidencia, se
-não consagrasse simplesmente um affecto de irmão
-á esposa do seu amigo.</p>
-
-<p>—Ah! isso juro-lh’o, tornou Alberto pondo a<span class="pagenum" id="Page_144">[Pg 144]</span>
-mão no peito, se não me sentisse completamente
-livre, e desassombrado, se o meu coração me désse
-inda rebates d’amor, que se devia extinguir, não
-teria entrado n’esta casa. Teria vergonha de mim
-mesmo, se não pudesse agora fitar os meus olhos
-nos seus com purissima serenidade. Mas se julga
-que apesar d’isso, não devo tornar a vir aqui; se
-julga que esta memoria d’um amor passado, é uma
-offensa para vossa excellencia, e um acto de deslealdade
-para com o meu amigo, se julga que uma
-recordação involuntaria, espelhando-se no meu rosto,
-póde dar uma arma aos calumniadores, diga
-uma palavra e estou prompto a retirar-me.</p>
-
-<p>—Seria uma vileza aos meus proprios olhos, respondi
-eu serenamente, o rebaixar-me a ponto de
-transigir com a calumnia. Esta casa está sempre
-aberta ao amigo de meu marido, ao homem leal de
-quem agora aperto a mão.</p>
-
-<p>E estendi-lhe a minha que apertou commovido.</p>
-
-<p>—Bem, disse-me elle rindo, tirou-me um grande
-peso de cima do peito. Agora peço as ordens de
-vossa excellencia.</p>
-
-<p>Foi pegar no chapéo; e depois, voltando para
-mim, e apertando-me de novo a mão continuou:</p>
-
-<p>—Desculpa-me o ter-lhe dito tantas loucuras?</p>
-
-<p>—Desculpal-o, porque? redargui eu sorrindo-me.
-Leu-me um bonito romance, ouvi-o com attenção;
-agora fechamos o livro, e voltamos á realidade.</p>
-
-<p>Alberto ficou suspenso por instantes, depois respondeu:</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_145">[Pg 145]</span></p>
-
-<p>—É isso mesmo. Tem vossa excellencia muita
-razão.</p>
-
-<p>E saíu.</p>
-
-<p>Eu fiquei algum tempo pensativa junto do piano;
-depois levantei-me, soltei um suspiro d’allivio, peguei
-n’um castiçal e dirigi-me para o meu quarto.</p>
-
-<p>Dava meia noite.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_146">[Pg 146]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="XVI">XVI</h2>
-</div>
-
-
-<p>Foi só no dia seguinte que reflecti bem no que
-se passara na vespera. Foi então que me espantei
-de D. Antonia não ter tornado a apparecer na
-sala. Um passeio a pé, por mais que o prolongasse,
-não podia ter durado tanto tempo. Demais lembrou-me
-então que a tinha sentido voltar meia hora ou
-tres quartos de hora depois de ter saido. Por que
-motivo não viera para a sala? Havia n’isso o projecto
-de alguma infernal armadilha? Ia dentro em
-pouco sabel-o.</p>
-
-<p>D. Antonia não me deu palavra durante esse dia
-todo, coisa com que eu folgava bastante; mas no
-outro dia, sem me ter prevenido da sua chegada,
-appareceu meu marido, visivelmente agitado sob a
-sua mascara de gelo.</p>
-
-<p>Acolhi-o com jubilo. Sentia um certo contentamento
-intimo por ter cumprido o meu dever. Estava
-satisfeita comigo mesma, o que já concorre muito
-para se estar satisfeito com os outros.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_147">[Pg 147]</span></p>
-
-<p>Meu marido fallou-me com bastante frieza. Logo
-depois encerrou-se com D. Antonia, e teve com ella
-uma larga conferencia.</p>
-
-<p>Depois appareceu ainda mais agitado, passeou
-algum tempo, pegou no chapéo e saiu.</p>
-
-<p>D’ahi a pouco, voltou, sempre agitado, e fechou-se
-no seu quarto.</p>
-
-<p>Á noite appareceram as visitas do costume, coisa
-que me espantou sobremaneira, porque julgava que
-não voltariam tão breve.</p>
-
-<p>Comtudo a condessa deu bem a entender que vinha
-a nossa casa em attenção a Claudio, e só em
-attenção a elle.</p>
-
-<p>Pouco me importava; o jubilo da minha consciencia
-dava-me novas forças para luctar com intrepidez.</p>
-
-<p>Alberto appareceu pouco depois. A sua entrada
-produziu sensação. Claudio recebeu-o com uns modos
-meio frios, meio cordiaes. A condessa mostrou-se
-distraida, D. Antonia ligeiramente motejadora, Carolina
-extremamente amavel.</p>
-
-<p>Alberto esteve perfeitamente senhor de si. Não o
-traiu o seu espirito brilhante e jovial. Esteve desembaraçado
-no meio de todos aquelles constrangimentos.
-Eu, que tambem não tinha motivo algum
-para estar constrangida, auxiliei-o; a conversação
-animou-se. A condessa não tomou parte n’ella;
-Claudio muito pouca; D. Antonia aventurou umas
-poucas de insinuações, em que não reparamos;
-Carolina entrou na palestra com finas observações,
-que se resentiam da sua indole essencialmente sarcastica.<span class="pagenum" id="Page_148">[Pg 148]</span>
-Assim se passou uma noite muito agradavel.</p>
-
-<p>Claudio que ao principio se mostrara nimiamente
-reservado, foi-se pouco a pouco tornando mais expansivo.</p>
-
-<p>Mas, no dia seguinte uma influencia severa agglomerava-lhe
-de novo na fronte as nuvens, que se
-haviam por instantes dissipado.</p>
-
-<p>Comtudo comecei a notar uma grande differença
-no procedimento de D. Antonia, a meu respeito.
-Tantos tinham sido os cuidados, que tivera até ahi
-para que eu não estivesse um instante só com Alberto,
-quanto era o desejo que parecia ter agora
-de nos proporcionar os mais prolongados <i>tête-à-tête</i>.</p>
-
-<p>Pedia-lhe a elle muitas vezes que nos acompanhasse
-n’algumas excursões que faziamos pelos arredores.
-Depois aproveitava um pretexto qualquer
-e eclipsava-se. Ao cabo de uma longa hora de passeio,
-apparecia-nos de subito meu marido, pallido,
-com o olhar sombrio, com a fronte annuviada. A
-cordialidade serena, o jubilo até com que o acolhiamos
-dissipavam logo todas as nuvens, e voltavamos
-todos tres para casa, rindo e conversando como
-bons amigos.</p>
-
-<p>Alberto era realmente admiravel. No meio d’aquella
-rede de intrigas, que eu sentia confusamente,
-caminhava tão desassombrado como se não estivesse
-pisando um terreno perfido, onde o mais leve descuido
-podia perder a sua lealdade, e a minha reputação.</p>
-
-<p>Não se ausentava porque via perfeitamente que<span class="pagenum" id="Page_149">[Pg 149]</span>
-a sua retirada daria á calumnia o pretexto que ella
-anciosamente procurava: mas acceitava tão desconstrangidamente
-o papel falsissimo que esta situação
-lhe impunha, que parecia não ter o minimo conhecimento
-do trabalho subterraneo, emprehendido
-pela devota sociedade de D. Antonia e companhia.</p>
-
-<p>Eu mesma me espantava d’essa tranquilidade
-inalteravel, e suppunha que fôra um sonho a scena
-que se passara n’essa noite, que tão profunda impressão
-me causara. Precisava de admirar a rosa
-murcha, que trazia no seio, para de novo me convencer
-da realidade de tudo isso.</p>
-
-<p>Alberto nem parecia reparar na posição em que
-o tinham collocado, e que devia dar em resultado
-maior intimidade. Era o que fôra sempre: um conversador
-amavel, elegantemente frivolo, que tomava
-comigo o tom d’uma respeitosa familiaridade.</p>
-
-<p>Um dia, obedecendo a essa irresistivel attracção,
-que nos obriga a chegarmo-nos á beira do precipicio,
-e debruçarmo-nos para elle, ainda que saibamos
-que um momento de vertigem nos póde arrojar
-ao despenhadeiro, ousei alludir á historia do seu
-passado.</p>
-
-<p>É inconcebivel, mas é certo. Luctei tres dias com
-a tentação, afinal não pude resistir, e aventurei a
-pergunta.</p>
-
-<p>—Acredita na transmigração das almas? disse
-Alberto, em vez de responder.</p>
-
-<p>—Porque? tornei eu espantada.</p>
-
-<p>—Porque, se acredita, ha de perceber perfeitamente<span class="pagenum" id="Page_150">[Pg 150]</span>
-a minha historia. Isso em que me falla succedeu,
-se me não engano, a um Alberto, que vivia
-no tempo de Noé. Depois, como sabe, veiu o diluvio.
-Affogou-se nas grandes aguas o corpo e a memoria.
-A alma, desprovida d’essa faculdade, transmigrou
-para este corpo, nado e creado em pleno
-seculo XIX. Mas como ha de lembrar-se a coitada
-dos acontecimentos ante-diluvianos?</p>
-
-<p>Eu desatei a rir, mas devo confessar que senti
-um certo despeito. É inexplicavel, não é? É inverosimil?
-Bem sei. Propuz o enigma, não intentei
-resolvel-o.</p>
-
-<p>Um dia Theodoro Leite mandou-me dizer que
-me desejava fallar, e com muita urgencia.</p>
-
-<p>Fui a casa d’elle. Theodoro e a entrevadinha receberam-me
-com o jubilo habitual. Depois Theodoro
-acompanhou-me á volta, e pelo caminho foi-me
-contando o que o obrigara a mandar-me chamar.</p>
-
-<p>—A Quiteria, disse-me elle, que lhe ficou muito
-affeiçoada desde a primeira noite em que a viu, e
-em que a minha querida filha (permitta-me que lhe
-dê esse nome) se mostrou tão boa, tão amavel com
-ella e com os outros creados, sentando-se junto d’elles
-na cosinha, conversando com elles, ouvindo-lhes
-as historias, procedimento esse que d’um modo tão
-notavel contrastava com o orgulho da tia de seu
-marido, a Quiteria, pois, veiu ter comigo, e pediu-me
-que a avisasse, coisa que ella não podia fazer, porque
-a minha filha está sendo a toda a hora espionada
-pela Maria do Rosario. Disse-me ella que se<span class="pagenum" id="Page_151">[Pg 151]</span>
-anda tramando lá por casa uma intriga terrivel, que
-tem unicamente por fim promover uma separação
-entre Claudio e a minha querida menina, separação
-que hão de fazer escandalosa, e cuja vergonha
-ha de recair toda sobre a sua innocente cabeça.</p>
-
-<p>Eu ouvia espantada esta revelação incomprehensivel
-para mim, porque não podia adivinhar que
-mal teria eu feito áquella gente, para que me tivessem
-declarado uma guerra tão encarniçada. Foi
-isso mesmo o que eu disse a Theodoro, que me
-respondeu, sorrindo-se:</p>
-
-<p>—Que mal lhes fez? Pobre innocente! Um crime
-imperdoavel, o de ter vinte annos, uma formosura
-esplendida, uma indole boa e sympathica, uma alma
-enthusiastica, e de juntar a tudo isto uma virtude
-immaculada. Que mal fez a rosa ao caracol, para
-que este lhe entorne nas petalas a repugnante baba?
-A luz, minha filha, não attrae unicamente as
-borboletas, tambem attrae os morcegos, estes para
-de despeito a apagarem, aquellas para se queimarem
-na chamma, que as enleva. Satanaz, ao sair
-das trevas, vae insultar o sol. Quer viver socegada?
-Não brilhe. Não quer que a mordam no calcanhar?
-Arraste-se como as serpentes. Mas não; soffra
-antes, e levante a fronte acima d’essa turba vil. Tenha
-sobretudo confiança em seu marido. É um espirito
-fraco, mas um nobre coração. D. Antonia
-domina-o, porque a minha querida menina ainda
-não tentou rebater-lhe a influencia. Tente-o, combata,
-seja forte. Não permaneça na inacção, desça
-á liça para onde a chamam, e calque aos pés a sua<span class="pagenum" id="Page_152">[Pg 152]</span>
-mesquinha adversaria. A sua indifferença anima-a,
-a sua energia dissipar-lhe-ha os brios.</p>
-
-<p>—Mas combatel-a, como, de que maneira? perguntei
-eu.</p>
-
-<p>—Olhe, tornou Theodoro meigamente, eu lhe
-explico o mysterio da sua vida. Claudio é um homem
-timido, acanhado, que precisa que lhe estendam
-a mão para sair da sua habitual reserva; consagrou-lhe
-um profundo amor, e viu coroados os
-seus votos d’um modo completamente inesperado.
-A minha querida menina, creança que nada comprehende
-da vida, acceitou das mãos de seus paes
-um marido, como acceitaria um vestido novo. Nenhum
-dos dois deu o primeiro passo para essa intimidade
-conjugal, que funde n’uma só duas almas,
-duas vontades, dois pensamentos: elle porque não
-ousava, a minha querida menina porque não sabia.
-D. Antonia apossou-se com habilidade d’esse espirito
-fluctuante, que julgara por um momento que lhe
-escaparia indo-se prender n’outros laços. Animada
-por essa primeira victoria, quiz levar a cabo o seu
-triumpho. N’aquelle coração angustiado e hesitante
-semeou a duvida; transformou em calculo o que
-era ignorancia da vida. Disse-lhe que a facilidade
-com que a minha filha acceitara o casamento com
-um homem a quem não amava era resultado da
-corrupção prematura, que despresava os deveres
-do matrimonio. Aproveitou as mais leves circumstancias,
-desenvolveu com uma sagacidade infernal
-os mais subtis indicios. A entrada em scena de Alberto
-veiu dar-lhe um optimo pretexto. Seu marido<span class="pagenum" id="Page_153">[Pg 153]</span>
-resiste ás suggestões continuas de D. Antonia, mas
-ha de chegar um instante em que succumba. D. Antonia,
-combinada tacitamente com as suas boas
-amigas, quer apressar o desenlace, espera que um
-momento de fraquesa leve a minha querida menina
-a dar um passo errado, que se ha de logo
-aproveitar. Espiam-na constantemente; em casa
-não faz um movimento só, que a Maria do Rosario
-lh’o não espreite; no campo, nos seus passeios com
-Alberto Mascarenhas, póde estar certa de que por
-traz de cada sebe ha um ouvido á escuta. Seu marido
-está n’uma posição intoleravel; o coração reage-lhe
-contra a evidencia apparente, que D. Antonia
-lhe mostra; mas, atormentado por uma duvida
-incessante, vagueia como o espectro do ciume procurando
-uma certesa material, que, ainda que o
-fulmine, o livre d’aquelle estado. Tudo isto eu deduzo
-facilmente do que a boa Quiteria me disse;
-porque a pobre velha tem praticado por sua conta
-um systema de contra-mina, e, emquanto a Maria
-do Rosario está com o ouvido collado á porta do
-seu quarto, vae ella escutar as palestras de Claudio
-e de D. Antonia. Desculpe-a, coitada. O que
-a impelle a proceder assim, é a amisade que lhe
-tem.</p>
-
-<p>—E o que me aconselha então? acudi eu baixando
-a cabeça, que me vergava ao peso d’aquellas
-revelações.</p>
-
-<p>—O que lhe aconselho, minha filha? A lealdade
-e a franquesa. Deixe essa gentalha extraviar-se pelos
-atalhos, e caminhe desassombradamente pela estrada<span class="pagenum" id="Page_154">[Pg 154]</span>
-real, inunde de luz as suas intrigas tenebrosas,
-e vêl-as-ha fugirem como demonios nocturnos, surprehendidos
-pela alvorada. Entre na intimidade de
-seu marido, não se envergonhe de tomar a iniciativa,
-conte-lhe com franqueza a historia de todas
-essas intrigas, que a perseguem, faça-o ler na sua
-purissima consciencia, porque assim a tem, não é
-verdade?</p>
-
-<p>—Oh! sim! tornei eu com exaltação.</p>
-
-<p>Mas depois não sei que pensamento importuno
-me acudiu ao espirito, e me incendeu as faces em
-vivo rubor.</p>
-
-<p>—Vamos; seja forte! acudiu Theodoro beijando-me
-com ternura na fronte. Não vacille nem um instante,
-não vergue ao peso da cruz.</p>
-
-<p>—Descance, meu amigo, tornei eu melancholicamente.
-Não me assusta o soffrimento.</p>
-
-<p>E despedi-me d’elle, mais animada do que nunca
-até ahi estivera. Havia alguns dias que uns devaneios
-indefiniveis me atormentavam. Sentia um vago
-e doloroso prazer em aspirar a brisa embalsamada
-das noites de maio. Os effluvios do jardim coavam-me
-nas veias não sei que ardor incomprehensivel.
-O meu coração pulsava com violencia quando os
-raios da lua, infiltrando-se voluptuosamente na
-minha alcova, me vinham fallar de ignotos mysterios.
-Ao cair da noite sentava-me ao piano, e, deixando
-correr os dedos pelas teclas, escutava em extasi
-a suave e mansissima harmonia, que despertava
-então. Surprehendia-me a mim mesma contemplando
-a flôr secca, a rosa murcha, que me abrazava o seio.<span class="pagenum" id="Page_155">[Pg 155]</span>
-Que symptomas funestos eram estes? Receava adivinhal-o.</p>
-
-<p>Mas o passo aconselhado por Theodoro ia livrar-me
-de tão importunos pensamentos. Tudo quanto
-elle me dissera ácerca do caracter de Claudio achava-o
-eu extremamente verdadeiro, agora que reflectia
-em muitas circumstancias, que primeiro me tinham
-passado despercebidas. Não duvidava do bom
-exito do plano do meu velho amigo. Assim tudo se
-conciliava, e o futuro afinal apparecia-me desassombrado.
-Ia entrar finalmente no porto, depois de
-tantas tempestades. Ia encontrar no amor de meu
-marido um escudo contra as perseguições mesquinhas
-de D. Antonia, e um asylo contra os estranhos
-pensamentos, que me perseguiam. Ia ser feliz emfim!</p>
-
-<p>Pareceu-me que me tiravam de cima do peito
-um peso enorme, e respirei com desaffogo. Estava
-ao pé de casa. Subi a escada com pé ligeiro, cheguei
-á porta da sala, e abri-a alegremente.</p>
-
-<p>Mas, assim que entrei, estaquei de subito e senti
-no peito uma dor aguda, como se um ferro m’o
-atravessasse. No vão d’uma janella um homem e
-uma senhora conversavam intimamente, e com tanta
-animação que nem deram pela minha chegada, nem
-ouviram a bulha, que eu fizera abrindo a porta.
-Pallida como uma defuncta, fui-me aproximando a
-pouco e pouco, e só quando cheguei a dois passos
-da janella é que elles repararam em mim. A senhora
-soltou um grito, o homem fez-se levemente corado.</p>
-
-<p>Eram Alberto e Carolina.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_156">[Pg 156]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="XVII">XVII</h2>
-</div>
-
-
-<p>Ficámos todos tres por um instante enleados;
-Alberto foi quem primeiro tomou a palavra, com o
-seu desembaraço habitual; não tardou Carolina a
-imital-o; mas, por maiores que fossem os meus
-esforços, negaram-se-me os labios a articular um
-som. Percebia que, se tentasse fallar, os soluços
-brotariam d’envolta com as palavras.</p>
-
-<p>Afinal consegui pretextar um ligeiro incommodo,
-e fugi para o meu quarto. Alli chorei á vontade,
-desabafei. Quando esta dôr inexplicavel se acalmou
-um pouco, perguntei á minha consciencia o motivo
-d’esses prantos.</p>
-
-<p>«Assim, murmurava eu comigo mesma, é Alberto
-um homem como todos; o amor profundo que disse
-consagrar-me não deixou o mais leve rasto na sua
-memoria. Aquella alma que eu julgava um sanctuario,
-é um prostibulo, aquelle coração tem a porta
-franca para quaesquer imagens.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_157">[Pg 157]</span></p>
-
-<p>«Mas, tornava eu, que me importa isso tudo?
-Que direito me deu elle para fiscalisar as suas acções?
-Não me disse, não me affirmou, não me jurou
-até que esse amor antigo se dissipara como um
-devaneio de juventude, como um relampago de estio,
-que brilha e morre no firmamento azul? E não
-me devo eu até rejubilar com este acontecimento
-que me prova a verdade do que elle me dizia? Não
-contribue isto mesmo para dar nova paz á minha
-consciencia, nova tranquilidade á minha alma? Não
-posso eu agora erguer a fronte bem altiva acima das
-calumnias de D. Antonia e da condessa?</p>
-
-<p>«Não, acudia eu de novo; o motivo da minha afflicção
-é a amisade fraternal, que a Alberto consagrei,
-é a estima que votei a esse espirito nobre!
-Custa-me o desengano, custa-me o ver descida do
-seu pedestal a alma que eu julgara quasi superior
-á humanidade. O amor de Carolina macula um homem.
-E demais aquillo não é amor, é um capricho
-dos sentidos, é uma ligação banal e repugnante. O
-amor não brota assim d’um instante para o outro,
-não viça com tanta facilidade nas cinzas d’um affecto
-extincto.</p>
-
-<p>«Oh! cala-te, cala-te, murmurava a minha consciencia,
-não queiras disfarçar com o vão nome de
-amisade o sentimento culpado, que se te apoderou
-do coração. Amal-o, infeliz! Amal-o, e para cumulo
-de vergonha, elle nem pensa em ti, para maior opprobrio
-teu, és tu só a culpada; não podes allegar
-a influencia magnetica de um amor constante e vehemente,
-que actuasse a teu pesar no teu espirito<span class="pagenum" id="Page_158">[Pg 158]</span>
-e no teu coração. Elle affasta-se de ti, respeita-te,
-e não mereces ser respeitada, porque moralmente
-já trahiste os teus deveres de esposa, já falseaste
-a fé conjugal.»</p>
-
-<p>E nova torrente de prantos me brotou dos olhos,
-e me inundou as faces.</p>
-
-<p>Quando desci do meu quarto para a sala notaram
-todos a minha agitação. Alberto mirou-me inquieto,
-Carolina com um modo de ironia tal, que me deu
-forças para reagir contra o meu vergonhoso tormento.
-Queria soffrer, sim, mas soffrer com dignidade,
-e sem dar ás minhas inimigas motivo para
-folgarem e triumpharem.</p>
-
-<p>Esta serenidade ficticia tranquilisou Alberto, que
-tornou a mostrar-se todo attencioso e galanteador
-com a afilhada da condessa.</p>
-
-<p>«Oh! meu Deus, dizia eu, entre mim, tão irresistivel
-é essa paixão, que nem elle tem forças para
-m’a occultar, e para a occultar aos outros. Não se
-lembra que D. Carolina de Freitas não é uma senhora
-solteira, a quem se possa affoitamente render
-homenagens?</p>
-
-<p>«Jeronymo, e a condessa e D. Antonia, tão escrupulosos,
-tão inquisidores comigo, estão cegos, ou
-fingem-se cegos, que não vêem ou não querem ver
-o escandalo, que se está praticando n’esta sala?
-Que é feito da austera moralidade d’esta gente?
-Onde se aninharam as suas severidades?...»</p>
-
-<p>Ai! e não via eu, pobre louquinha, que estava
-sendo involuntariamente mais culpada do que elles?
-Não via eu que estes assomos de austeridade tinham<span class="pagenum" id="Page_159">[Pg 159]</span>
-a sua origem n’um sentimento, que devia reprimir
-com todas as forças da minha alma? Era a fatalilade
-que me impellia. Tranquilla vira entrar Alberto
-em minha casa, sem pensar em o distinguir
-dos outros homens. Accusando-me de um crime, de
-que nem sequer tivera o pensamento, obrigam-me
-a occupar-me d’elle, collocam sempre a sua imagem
-deante dos meus olhos, fazem com que eu involuntariamente
-o compare ás outras pessoas, que me
-rodeiam, comparação que não póde deixar de lhe
-ser favoravel, e firmando-me na minha innocencia,
-caminho com desassombro n’essa estrada semeada
-de perfidias, não vejo o abysmo que a pouco e pouco
-se me vae rasgando aos pés, que cada um dos
-meus passos alarga insensivelmente, abysmo por
-onde vou resvalando, e em que afinal baqueio.</p>
-
-<p>Fui castigada no meu orgulho; desci a uma esphera
-mil vezes mais baixa do que essa onde vivem
-as minhas accusadoras. A calumnia tinha rasão, os
-calumniadores prophetisavam. Triumphae, hypocritas,
-folgae, Messalinas de sachristia! conseguistes
-o vosso fim. Enxovalhei-me na lama, que tão obstinadamente
-me arrojastes ás faces! Polluí a corôa
-da innocencia, de que tanto me ufanava; sou adultera
-no pensamento, e isso basta para me julgar
-mais vil aos meus proprios olhos do que essa que
-alardeava a sua deshonra como um acto de habilidade,
-e que está agora impudentemente demonstrando
-á minha vista a veracidade das suas doutrinas.</p>
-
-<p>«Oh! continuava eu fallando comigo mesma, ao
-menos não hei de transpor os limites que ainda me<span class="pagenum" id="Page_160">[Pg 160]</span>
-separam d’uma vergonha completa. Esse amor fatal,
-que me devora, hei de abrigal-o no meu seio,
-como a áspide que me ha de matar, sem que o meu
-rosto revele os meus tormentos. Deixando de parte
-o mundo da realidade, cujo contacto me foi tão doloroso,
-voarei para as regiões da phantasia, e ahi
-viverei enlaçada n’um casto amor com a sombra
-pura de Alberto, tal como elle se me afigurou,
-e não tal como eu o vejo agora. Possuil-o-hei a elle
-mais do que elle a si proprio se possue, porque é
-minha essa flôr secca, symbolo da sua poetica existencia,
-ao passo que elle, afastando-se cada vez mais
-d’esse puro sanctuario, se vae embrenhando nos jardins
-da torpe Armida, que soube, com um olhar
-provocador, transformar uma alma tão nobre n’um
-espirito vulgar.»</p>
-
-<p>E soffria, soffria como nem eu o posso dizer, soffria
-e tinha vergonha do meu soffrimento, e não
-ousava erguer os olhos para Claudio, cujo rosto sombrio
-se ia desannuviando e alegrando ao ver Alberto
-enlevado nos seus novos amores.</p>
-
-<p>Os homens são estupidos!</p>
-
-<p>Desde então, a nossa vida tomou um outro aspecto,
-que inspirava grande espanto a D. Antonia.
-Por mais que ella tentasse renovar as suas manobras
-com o fim de nos deixar sós, rarissimas vezes
-o conseguia. Alberto sempre se lhe esquivava, e
-Carolina auxiliava-o n’isso, reclamando-o a cada
-instante, ora para a acompanhar n’um passeio a
-cavallo, ora para a ajudar a ler uma nova e difficil
-musica, que lhe chegara de Lisboa; e eu, afflicta,<span class="pagenum" id="Page_161">[Pg 161]</span>
-mas valorosa, desviava-me tambem de prompto, e
-entregava-me a longos passeios solitarios, onde me
-comprazia, vagueando pelas aridas planicies d’aquelles
-sitios, a avivar a memoria dos meus passeios e
-das minhas conversações com Alberto, que se me
-debuxavam na phantasia, sem me esquecer uma só
-particularidade, uma palavra só.</p>
-
-<p>Triste voluptuosidade de quem alarga a ferida
-com as proprias mãos, de quem está saboreando a
-triaga fatal!</p>
-
-<p>Os meus passeios dirigiam-se quasi sempre para
-o lado da casa de Theodoro Leite. N’aquelle doce
-asylo, aonde não chegava nem um ecco das paixões
-mundanas, que haviamos transportado comnosco da
-cidade para o campo, n’aquelle sanctuario do infortunio
-alegremente supportado, n’aquelle templo da
-familia, recuperava eu novas forças para o combate,
-que travara. N’esse ambiente são e perfumado
-de virtudes hauria as emanações do balsamo celeste,
-que guarece as feridas envenenadas. Um beijo
-da entrevadinha na minha fronte como que a cingia
-de novo da auréola da innocencia; um meigo olhar
-de Theodoro, calando-me no intimo da alma, expulsava
-a imagem que se obstinava a povoar-m’a.
-Voltava sempre d’essa pobre casa mais em paz com
-a minha consciencia; mas o encontro de Carolina
-com Alberto, encontro que era inevitavel, outra vez
-m’a turvava, e soltava as tempestades por um instante
-enfreadas.</p>
-
-<p>Claudio quizera aproveitar esse estado da minha
-alma, que elle não saberia definir, mas que instinctivamente<span class="pagenum" id="Page_162">[Pg 162]</span>
-adivinhava, para se aproximar de mim,
-e subtrahir-se ao mesmo tempo ao jugo de D. Antonia.
-Mas as suas timidas tentativas não me encontravam
-n’essa occasião disposta a animal-as. A minha
-consciencia dizia-me que não podia receber essa
-especie de homenagem, que já me não era devida,
-acceitar uma penitencia, que eu me devia impôr a
-mim mesma. E, por mais que tentasse levantar-me,
-uma força fatal me impellia cada vez mais rapidamente
-para o abysmo!</p>
-
-<p>Mas emfim, as forças não me trahiam, e quando,
-saindo do meu quarto, onde me ficava muitas vezes
-depois de jantar, contemplando o horisonte purpureado,
-os effeitos da luz moribunda e das sombras
-recrescentes nas ruas e nas moitas do jardim,
-as estatuas banhadas pelos ultimos raios do sol, que
-lhes doiravam o manto verde com que o musgo as
-revestia, e que, ao vir do crepusculo, pareciam tremer
-de frio, e aconchegar bem as pregas d’essa tunica
-ao seu pobre marmore nú; ouvindo os vagos
-murmurios do campo, o melancolico suspirar das
-fontes, e deixando os meus sonhos esvoaçarem livremente
-n’essa atmosphera de poesia e de saudade;
-quando, saindo pois do meu quarto, e baixando
-d’essas regiões phantasiosas ao mundo real, me
-via cara a cara com uma atroz desillusão, conservava-se-me
-o rosto impassivel, e nem o mais leve
-franzir dos labios, nem uma só ruga da face denunciavam
-os tormentos, que vinham saltear-me.</p>
-
-<p>Alberto não mostrava perante mim o minimo embaraço.
-Espantava-me esta quasi indelicadesa n’um<span class="pagenum" id="Page_163">[Pg 163]</span>
-homem tão delicado. Bem sei que elle não tinha
-nem sequer obrigação moral de submetter á minha
-opinião o seu procedimento. Bem sei que, não tendo
-commettido culpa alguma para comigo, não tinha
-que se embaraçar em minha presença... mas
-emfim... ha certos escrupulos... exagerados talvez...
-pontos d’honra nimiamente requintados... não digo
-o contrario... o vulgo, ainda o mais escrupuloso
-rir-se-hia d’esta minha pretenção... mas eu julgava
-Alberto por tal fórma differente do vulgo... achava-o
-tão capaz de comprehender estas coisas...!</p>
-
-<p>Como viram, não era a primeira vez que me illudia
-nos juizos formados a respeito de Alberto.</p>
-
-<p>Uma tarde, mal acabamos de jantar, fomos dar
-um passeio a cavallo, eu, D. Antonia, Carolina, e
-Jeronymo. Alberto não apparecera; por isso, com
-visivel contrariedade da afilhada da condessa, fomos
-sem elle.</p>
-
-<p>Comtudo Carolina teve a habilidade de dirigir o
-passeio de fórma, que pudessemos encontrar Alberto
-no caminho. Propoz que fossemos até Bellas, para
-aproveitarmos o resto da tarde, passeando na
-quinta do conde de Pombeiro. D. Antonia concordou.
-Jeronymo disse que lhe era indifferente ir para
-um ou para outro lado, e eu, que formava a minoria,
-não tive remedio senão acceder.</p>
-
-<p>Partimos.</p>
-
-<p>Sairam errados os calculos de Carolina. Não encontramos
-Alberto.</p>
-
-<p>O calor do dia (um dos primeiros de junho) dissipara-se
-um pouco, sem desapparecer de todo. As<span class="pagenum" id="Page_164">[Pg 164]</span>
-frescas sombras da quinta do Senhor da Serra estavam-nos
-convidando a irmos deliciar-nos com
-ellas. Apeamo-nos, entregamos os cavallos ao creado,
-e entramos na quinta.</p>
-
-<p>Carolina estava visivelmente preoccupada, e afastava-se
-a cada instante de nós, para ir espreitar as
-lamedas transversaes, como se esperasse que o acaso
-a favorecesse mais do que o seu calculo. D. Antonia
-dera o braço a Jeronymo, e conversava com
-elle. Eu ficara isolada, e, procurando completa solidão,
-fui affrouxando a pouco e pouco o passo, até
-que perdi de vista os meus companheiros. Estava
-só.</p>
-
-<p>Sempre gostei immenso d’essas lamedas sombrias
-d’arvores seculares, que se encontram n’alguns dos
-nossos velhos parques. Em Cintra abandonava as
-garridas quintas modernas para passear nas melancholicas
-devesas da Penha Verde, ou nas ruas graves
-e aristocraticas do Ramalhão. No outono principalmente,
-quando as folhas seccas rangem debaixo
-dos pés dos passeantes, quando os ramos, despojados
-do seu verde ornato, cruzando-se-nos por
-cima da cabeça, deixam ver o céo pesado e triste,
-não conheço goso comparavel ao de passear e scismar
-por entre esses longos renques d’arvores centenarias,
-que meneiam, ao sopro da brisa, as suas
-frontes calvas.</p>
-
-<p>Mas não estavamos então no outono, e a ramaria,
-toda folhuda e verdejante, formava sobre mim uma
-copada abobada, cujo verde se esmaltava com o
-oiro dos raios do sol, que a muito custo se lhe coavam<span class="pagenum" id="Page_165">[Pg 165]</span>
-pelos intersticios. N’esses estrados de folhagem
-poisavam-se bandos e bandos de passarinhos,
-cujo alegre chilrear povoava a espessura de harmonias,
-docemente acompanhadas pelo melodioso murmurio
-da agua das fontes.</p>
-
-<p>Expirava aquella solidão não sei que vagos effluvios
-de tranquilidade e remanso. Cedi ao inexprimivel
-encanto, e fui-me embebendo n’uma suave
-melancholia, que me enliava os sentidos e m’os
-absorvia todos no goso de devaneios, que purificava.
-Caminhando vagarosamente na extensa rua, haurindo
-os perfumes fortes que o arvoredo exhalava,
-enlevando-me no canto das aves, tirei a flôr secca
-do peito, e contemplei-a com ternura. Creio até que
-a estava beijando, quando subito, n’um dos meandros
-da lameda, dei de cara com Carolina.</p>
-
-<p>Escondi a flôr com precipitação, e fiz-me toda
-vermelha.</p>
-
-<p>—Oh! temos segredinhos, disse ella desatando a
-rir, que flôr era essa que beijava tão devotamente?
-Se estivesse fallando com um cavalheiro, adivinharia
-logo que essa rosa caira das tranças da dama
-dos seus pensamentos; mas, fallando com uma senhora,
-torna-se o caso mais difficil de averiguar. Não
-me ajuda?</p>
-
-<p>—Permitta-me que não escolha confidente, respondi
-eu com frieza. Costumo guardar os meus segredos,
-mesmo quando, como este, nada têem de
-melindroso.</p>
-
-<p>—Quem suspeita o contrario? Mas já vê, continuou
-Carolina, que se me não faz confidencias, não<span class="pagenum" id="Page_166">[Pg 166]</span>
-é porque não tenha assumpto para ellas; apanhei-a
-em flagrante delicto de diplomacia. Oh! não me
-zango com isso; sempre tive muita consideração pelas
-pessoas que sabem esconder bem o seu jogo.
-Mas ao mesmo tempo que presto justiça á sua habilidade
-diplomatica, deixe-me tambem prestar justiça
-á sua veracidade. Eram erroneas as minhas supposições
-ácerca de Alberto Mascarenhas, e verdadeiras
-as suas negativas.</p>
-
-<p>—Já o sabe? tornei eu com ironia.</p>
-
-<p>—Oh! tenho optimas rasões para o saber, respondeu
-ella impudentemente.</p>
-
-<p>Appareciam n’este momento D. Antonia, e Jeronymo
-Freitas.</p>
-
-<p>—Já vae caindo o crepusculo, disse a tia de meu
-marido, e bom será que voltemos para casa. Não
-desejo apanhar n’esta quinta o frio da tarde.</p>
-
-<p>Saimos; o creado estava á nossa espera ao portão.
-Montamos a cavallo, e seguimos pelo caminho
-da nossa aldeia.</p>
-
-<p>Eu tomara a deanteira, mettendo o cavallo a trote.
-A agitação, que por instantes se acalmara, refervia-me
-de novo na mente, excitada pelas palavras
-de Carolina.</p>
-
-<p>Esta veio collocar-se-me ao lado, e, obrigando-me
-a moderar o passo do cavallo, continuou a conversação
-principiada na quinta.</p>
-
-<p>—Ora, mas diga-me com sinceridade, tem ciumes?</p>
-
-<p>—Ciumes de que? redargui eu, franzindo ligeiramente
-o sobr’olho.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_167">[Pg 167]</span></p>
-
-<p>—Da intimidade que existe agora entre mim e
-Alberto.</p>
-
-<p>—Isso assemelha-se a um insulto, minha senhora,
-respondi, insulto que demais a mais não comprehendo,
-depois do que me disse ainda ha pouco.</p>
-
-<p>—Oh! meu Deus, não se zangue; quem lhe falla
-em amor? A amisade não inspira tambem zelos?</p>
-
-<p>—A mim não, decerto; estimo até que os meus
-amigos se liguem com pessoas <i>dignas do seu affecto</i>.</p>
-
-<p>E involuntariamente accentuei estas ultimas palavras.</p>
-
-<p>—O que quer dizer, tornou Carolina serenamente,
-que me acha completamente indigna d’essas affeições.
-Oh! minha querida, sou perfeitamente da
-sua opinião. Infelizmente Alberto não está de accordo
-comnosco sobre esse ponto importante. Que
-quer que eu lhe faça?</p>
-
-<p>Não lhe respondi. Caminhamos alguns instantes
-em silencio.</p>
-
-<p>—Alberto, tornou Carolina no tom mais placido
-d’este mundo, é realmente um dos rapazes mais
-amaveis que tenho encontrado. Associa ao caracter
-nobre espirito a um tempo reflexivo e prompto, e
-coração ardente; raro conjuncto de predicados. A
-sua voz insinuante exerce sobre quem o escuta um
-dominio incomprehensivel, o seu olhar meigo e ardente
-captiva e abrasa. É um poeta na linguagem,
-um principe nas maneiras, um anjo no sentir. É a
-realisação d’esse marido ideal, que todas nós devaneamos
-aos quinze annos, antes de descermos á<span class="pagenum" id="Page_168">[Pg 168]</span>
-prosa do mundo para casarmos com os Jeronymos
-Freitas, e com os Claudios da Cunha.</p>
-
-<p>—Tudo isso é amisade?</p>
-
-<p>—Não; é amor, bem sei, continuou Carolina no
-mesmo tom sereno. Olhe, eu não sou diplomata
-senão com a tola da condessa, e com a sua beata
-roda. Mas fico sempre tão fatigada do papel que
-me vejo obrigada a desempenhar todos os dias,
-que, mal entro nos bastidores, não tenho forças
-para pôr outra vez a mascara, e voltar de novo á
-scena. Por isso lhe fallo tão francamente. Sim; liga-me
-a Alberto um amor profundo. É abominavel?
-Ora se é! Immoral? d’um modo aterrador.
-Mas, filha, tenciono consagrar a minha velhice a
-um longo arrependimento. Hei de ir a Roma, hei
-de fundar um convento, dois asylos, tres hospitaes,
-proteger orphãs e fazer meias de lã para as creanças
-indigentes, obras pias de que seria dispensada,
-se não passasse a minha mocidade a commetter
-alguns peccaditos, que exijam penitencia. Já vê
-que lucra com isto a beneficencia publica. Tive a
-fraqueza de amar Alberto. Não a teria, se suspeitasse
-que o ia tirar do lanço á minha boa amiga.
-Mas não; soube que era falso tudo quanto a D.
-Antonia dissera, soube que se não amavam, e ficou-me
-a consciencia tranquilla. Disse-m’o elle mesmo.
-A minha querida Margaridinha, que sabe quanto
-é poderosa a influencia da poesia, pode comprehender
-o modo como eu cedi aos protestos d’amor
-d’esse gentil moço. Era por uma tarde tão linda
-como esta; estavamos ambos sós na sala, contemplando<span class="pagenum" id="Page_169">[Pg 169]</span>
-o horisonte dos campos. Alberto murmurava-me
-ao ouvido essas palavras deliciosas,
-que sempre eccoam n’um coração feminino. A belleza
-do céu, as harmonias campestres, o doce murmurio
-da sua voz, a poetica auréola com que o sol
-moribundo lhe cingia a fronte, a solidão da sala, tudo
-conspirava contra mim. Senti-o aproximar-se...</p>
-
-<p>—Oh! basta! basta! exclamei eu, completamente
-louca e desvairada, n’um paroxismo de dor, sem
-saber o que dizia, nem o que fazia, não quero ouvir
-mais as suas infames e mentirosas confidencias.</p>
-
-<p>E, fustigando o cavallo com o chicote, parti n’um
-galope desenfreado, soluçando a um tempo de dor,
-de raiva e de vergonha. A viração da tarde trouxe-me
-ainda ao ouvido uma gargalhada de Carolina, e
-estas palavras, que proferia ironicamente:</p>
-
-<p>—E não o amava?</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_170">[Pg 170]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="XVIII">XVIII</h2>
-</div>
-
-
-<p>N’um momento cheguei a casa. Apeei-me, atirei
-as redeas para cima do pescoço do cavallo, e subi
-a escada impetuosamente. Ia lavada em lagrimas;
-que me importava que me vissem? Estava consummada
-a minha vergonha.</p>
-
-<p>Abri a porta da sala e entrei. Não estava ermo
-o aposento. Ouvindo a bulha dos meus passos, alguem,
-que se encostava ao peitoril d’uma janella,
-voltou-se para a porta. Era Alberto.</p>
-
-<p>Eu perdera completamente o imperio sobre mim
-mesma. Corri para elle, travei-lhe das mãos, e disse-lhe
-com a voz entre-cortada pelos soluços:</p>
-
-<p>—Não é verdade? Não é verdade que a não
-ama? Aquella mulher mentiu?</p>
-
-<p>—O que é isto, minha senhora? tornou Alberto,
-no auge da inquietação, o que quer isto dizer? Que
-inexplicavel infortunio...?</p>
-
-<p>—Oh! mas diga-me, diga-me que a não ama,<span class="pagenum" id="Page_171">[Pg 171]</span>
-tornava eu chorosa e supplicante, diga-me que não
-ama Carolina.</p>
-
-<p>—Oh! respondeu elle n’um impeto, e fazendo
-um gesto de energica repugnancia, oh! juro-lh’o.</p>
-
-<p>—Obrigada! obrigada! murmurei eu; bem sei
-que sou uma doida, que me estou perdendo, que
-sou uma mulher vil, indigna da sua estima; porém
-não pude, soffri muito, quando ella me disse que
-se amavam:—a dôr foi... incomportavel.</p>
-
-<p>—Soffreu! respondia Alberto com voz tremula,
-e apertando-me as mãos com impeto febril, soffreu,
-mas então... mas n’esse caso...</p>
-
-<p>—Amo-o; não é isso que quer dizer? tornava eu
-como louca; sim, é a verdade, a verdade terrivel,
-fatal, ignominiosa.</p>
-
-<p>—Ama-me! exclamou Alberto.</p>
-
-<p>E, soltando as mãos, levou-as á fronte, como se
-temesse que lhe rebentasse ao impulso da lava,
-que lhe refervia lá dentro. E, voltando a travar-me
-das mãos, com os olhos incendidos n’um fulgor estranho,
-como se os houvesse abrazado a chamma
-de loucura que ardia nos meus:</p>
-
-<p>—Ama-me! Oh! não me falle! não me falle!
-deixe-me ouvir os eccos innumeraveis que essa
-palavra magica me desperta no coração! Oh! não
-me acorde d’este sonho! peço-lh’o, deixe-me aqui
-morrer com os olhos enlevados n’esta visão beatifica...</p>
-
-<p>—Sonhemos, dizia-lhe eu debulhada em lagrimas,
-oh! sonhemos depressa, porque o despertar
-vem cedo, e o despertar é o opprobrio.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_172">[Pg 172]</span></p>
-
-<p>E caí prostrada n’uma cadeira; elle ajoelhou aos
-meus pés, beijando-me convulso as mãos.</p>
-
-<p>—Que importa? E cuidas que este momento de
-felicidade não paga de sobejo todas as amarguras
-d’uma longa vida? Julgas que esta auréola d’amor
-que nos circunda a fronte, não tenha luz bastante
-para derrotar a sombra do estygma que o mundo
-nos inflige?</p>
-
-<p>—E a consciencia... tornava eu.</p>
-
-<p>—Depois, depois, dizia-me elle, não pensemos
-n’isso agora. Apaguemos da nossa vida por um instante
-só esses longos annos que separaram o meu
-sonho d’adolescente d’esta ineffavel realidade. Por
-um instante só, Margarida... Margarida, Margarida,
-deixa-me saborear o prazer louco de te repetir
-mil vezes syllaba a syllaba, lettra a lettra, esse
-nome querido, que tantas vezes balbuciei sósinho
-no segredo do meu quarto. Deixa-me impregnar
-cada uma das suas melodias no amor immenso,
-que represei no coração, e que trasborda afinal.
-Filha, bem vês, peço-te um só instante para me
-pagar de tantos annos de angustias, de seculos de
-tormentos. Não é muito, não; concedes-m’o? Oh!
-meu Deus! mas eu tenho tanto que te dizer! não
-posso, não sei, adivinha, sim? Fita os teus olhos
-nos meus, lê n’elles, estrophe a estrophe, o louco
-poema, que uma voz ignota me canta no coração.
-E lembrar-me eu que pude suspeitar um instante
-que deixara de te amar, e uma palavra tua perturbava-me,
-e um sorriso teu enlouquecia-me, e uma
-attracção indizivel chamava-me para aqui. E pude<span class="pagenum" id="Page_173">[Pg 173]</span>
-fingir que fazia a côrte a Carolina, só para ter um
-pretexto de ficar junto de ti, o pretexto de te livrar
-das suspeitas calumniosas! E fingi corresponder ás
-suas impudentes provocações, para te ver sempre,
-sempre; porque és tu a minha vida, a minha mocidade,
-a estrella da minha noite, a flor do meu deserto,
-perola do meu sombrio occeano, a lampada
-do meu ermo sanctuario.</p>
-
-<p>—Oh! tenha dó de mim, Alberto, salve-me d’esta
-vergonha, livre-me d’esta vertigem; não vê que as
-suas palavras augmentam cada vez mais a incrivel
-fascinação que me arrasta para o abysmo? E eu
-não quero aviltar-me; ame-me, já que a fatalidade
-assim o quer, mas com um amor de irmão.</p>
-
-<p>—Sim, Margarida, sim, de irmão. Não vês como
-te adoro! Ordena o impossivel, e pratical-o-hei.
-Oh! mas estas louras tranças, que ondeiam por
-deante dos meus labios, deixa-me beijal-as, são estas
-mesmas as que o sol doirava, quando te vi,
-aéria fada, como que fluctuar entre as primeiras
-sombras do crepusculo. Beijo as minhas recordações.</p>
-
-<p>E beijava-me os cabellos espargidos no collo; mas
-eu, repellindo-o, disse-lhe brandamente:</p>
-
-<p>—Alberto!</p>
-
-<p>Elle parou e fitou em mim um olhar submisso.</p>
-
-<p>—Deixe-me, continuei eu; saia, que já ouço o
-tropear dos cavallos.</p>
-
-<p>Alberto travou-me das mãos, contemplou-me um
-instante, beijou-as com fervor, e saiu, dizendo:</p>
-
-<p>—Amo-te!</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_174">[Pg 174]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="XIX">XIX</h2>
-</div>
-
-
-<p>Fiquei longo espaço com o rosto escondido nas
-mãos; quando ergui a cabeça, estava D. Antonia
-deante de mim.</p>
-
-<p>Fluctuava-lhe nos labios um sorriso de triumpho;
-lampejava-lhe nos olhos um fulgor infernal. Vencera,
-conseguira o seu fim, colhera o fructo dos seus
-longos esforços; e eu despenhara-me dos pincaros
-do meu orgulho no abysmo para onde me tinham
-impellido.</p>
-
-<p>Sempre aquelle vulto me apparecia nas horas em
-que me sentia resvalar para a vergonha. Dir-se-hia
-a imagem de Satanaz, procurando occasião propria
-para me roubar a alma, e levar-m’a para o Barathro.
-E não era um sorriso diabolico o seu?</p>
-
-<p>Senti correr-me um calafrio pelas veias. Mas depois
-reagi contra esta primeira fraqueza, e, colhendo
-na minha propria exaltação energia bastante
-para affrontar aquella mulher infernal, ergui-me e
-fitei n’ella os olhos scintillantes.</p>
-
-<p>—Está tão agitada! exclamou D. Antonia com
-ironia. Já principia o remorso?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_175">[Pg 175]</span></p>
-
-<p>—Já! disse-lhe eu com intimativa. Está satisfeita?
-Reveja-se na sua obra.</p>
-
-<p>—Na minha obra! tornou ella, pondo as mãos,
-e erguendo-as ao céu! Só isto me faltava! Diga antes
-que se realisa o que eu prophetisei sempre!
-Não querem ouvir as verdades, e aqui está o que
-succede! Não attendeu aos meus conselhos, deixou-se
-antes levar pelas suggestões do demonio, e
-o resultado foi perder-se sem remissão. Lavo d’ahi
-as minhas mãos; eu avisei-os a todos.</p>
-
-<p>Injuriaram-me, criminaram-me, e a final voltam-se
-contra mim. Já estou costumada a isto. Deus m’o
-levará em conta.</p>
-
-<p>—Mas o que succede? tornei eu indignada. Que
-supposição está formando?</p>
-
-<p>—Oh! tornou ella rindo; não é difficil adivinhal-o.
-Se já o não tivesse sabido por outro lado,
-a sua agitação tudo me diria. Compete-me agora
-avisar meu sobrinho do perigo em que a sua honra
-está.</p>
-
-<p>—Avise-o, tornei eu; mas diga-lhe tambem que
-está mais em segurança confiada a mim do que se
-estivesse nas mãos d’uma d’essas hypocritas beatas,
-que tão impudentemente infringem a moral que
-professam.</p>
-
-<p>—Como quer que eu lhe diga semelhante coisa?
-respondeu ella; quer que o illuda ainda, quer que
-lhe aperte bem a venda que a minha sobrinha com
-tanta habilidade lhe poz nos olhos? Engana-se; não
-sou para esse papel. Julgar-me-hia sua cumplice se
-assim procedesse. A desculpa do vicio é um ultrage<span class="pagenum" id="Page_176">[Pg 176]</span>
-á virtude. Quem não quer ser lobo não lhe veste
-a pelle. Deseja ver-me protectora d’essa vergonhosa
-ligação, que me confessou tão descaradamente?
-Engana-se, minha Philis. Procure outras para esse
-cargo. Ora não ha, hei-de-lhe arrancar a mascara.</p>
-
-<p>—Não a tenho, bem vê; mas fite bem os seus
-olhos no meu rosto, e verá que não córo.</p>
-
-<p>—Porque não tem vergonha.</p>
-
-<p>—Porque não tenho de que me envergonhar,
-logo que as accusações que me são dirigidas tomam
-esse caracter offensivo. Se uma fatalidade inexoravel
-despertou no meu peito um sentimento que não
-pude dominar, póde estar certa que nunca lhe sacrificarei
-o meu dever. Combatel-o-hei com energia,
-e hei de arrancar do meu coração essa planta funesta,
-que tanto a meu pesar viçou e cresceu n’este
-jardim, que se obstinavam em conservar deserto.
-O calice de amargura bebel-o-hei até ás fezes, sem
-que os outros o cheguem sequer aos labios. Soffrerei
-em silencio, e com dignidade. Que mais podem
-exigir de mim?</p>
-
-<p>—Isso é muito poetico effectivamente, respondeu
-D. Antonia com ironia, estou que outros mais justos
-a adorariam como uma santa, mas duvido que
-o meu sobrinho esteja disposto a admirar e a apreciar
-estas subtilesas com que se disfarça um adulterio
-parecido com todos os adulterios. Eu de mim
-confesso que não percebo essas bonitas phrases.
-Uma mulher casada não deve pensar senão em seu
-marido, e tratar da sua casa. Foi isto o que toda a
-vida me ensinaram. Essas frandulagens de romance<span class="pagenum" id="Page_177">[Pg 177]</span>
-são boas para enganar os parvos. Era melhor
-que tratasse de cumprir fielmente as suas obrigações
-de esposa e de christã.</p>
-
-<p>—Oh! isso é de mais, respondi eu altiva. Exigem
-de mim o cumprimento de um dever, esse dever
-tenho-o eu cumprido, e hei de cumpril-o sempre
-com inabalavel intrepidez. Sacrificar-lhe-hei a minha
-vida inteira, deixarei fenecer n’essa atmosphera
-gelada a flor da minha juventude. Mas o sanctuario
-recondito da minha alma não consentirei que
-m’o invadam. N’esse domino eu só, n’esse abrigo
-os affectos intimos, a que presto culto no segredo
-da minha consciencia. D’essa região sagrada defenderei
-até a morte a inviolabilidade. É o ninho dos
-meus sonhos, a urna do balsamo, que me allivia um
-pouco as dores lancinantes do meu viver atroz. Não
-lhe toquem, não a profanem. Tudo o mais lhes cedo,
-tudo o mais sujeito á sua despiedosa fiscalisação.</p>
-
-<p>Persigam-me, atormentem-me, analysem cada um
-dos meus actos, interpretem-n’os favoravel ou desfavoravelmente;
-estou a isso resignada. Mas quando
-a final, depois de haverem saciado o seu odio
-implacavel, me deixarem tranquilla por um instante,
-não queiram violar o meu asylo, não queiram
-perturbar a paz do meu espirito, não queiram
-envenenar com o seu halito impuro essa atmosphera
-serena, onde fluctua, não queiram macular com
-a sua baba asquerosa as rosas, em cujo calice se
-baloiçam as minhas brancas borboletas. Esse direito
-sagrado, essa liberdade inalienavel do pensamento
-serão defendidas por mim ate á morte. Só<span class="pagenum" id="Page_178">[Pg 178]</span>
-o amor conhece as palavras mysteriosas que descerram
-as portas d’esse tabernaculo; o dever, gélido,
-frio, insensivel, não póde ultrapassar os limites
-da vida exterior, que está unicamente debaixo
-da sua alçada. Diga isto mesmo a Claudio, já que
-meu marido prefere relacionar-se comigo por via de
-emissarios a appellar para a minha franqueza.
-A minha vida, as minhas acções pertencem-lhe;
-não lhe pertencem nem o meu coração nem os meus
-pensamentos. Estampe na minha fronte o ferrete da
-infamia, se alguma vez eu lhe der direito a que suspeite
-que trahi a fé conjugal, e puz em perigo a
-honra do seu nome. Mas se ainda assim tentar arrogar-se
-sobre mim um direito, que nem os mais
-despoticos tyrannos têem podido reivindicar; se intentar
-algum acto escandaloso, que me deshonre
-aos olhos do mundo, lembre-se que toda a vergonha
-e toda a responsabilidade cairão sobre a sua
-cabeça, e que os mais severos moralistas não ousarão
-justificar o procedimento de um homem, que,
-deixando sua esposa entregue a todas as tentações
-da mocidade e a todos os vituperios da calumnia,
-se acha com direito de exigir mais do que o escrupuloso
-respeito dos deveres do matrimonio, e persegue
-no mais intimo arcano de um coração feminil
-os timidos devaneios de um amor que elle nunca
-se deu ao trabalho de requestar.</p>
-
-<p>E, deixando ficar D. Antonia estupefacta com a
-vehemencia do meu discurso, saí da sala precipitadamente,
-e fui-me refugiar no meu quarto.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_179">[Pg 179]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="XX">XX</h2>
-</div>
-
-
-<p>Comtudo era impossivel que esta situação falsissima
-se prolongasse por muito tempo. Estavamos
-todos embaraçados e constrangidos. Alberto, passado
-o primeiro momento de extasi, caira n’um abatimento
-visivel. Acudia-lhe o rubor ás faces sempre
-que apertava a mão a Claudio; e este, inquieto e
-sombrio, estendia-lhe a mão com repugnancia, e
-mostrava-lhe uma frieza quasi insultante. A partida
-de Alberto era a unica solução possivel; sentia-o
-elle e não tinha animo para se apartar de mim; sentia-o
-eu tambem e não tinha forças para lhe pedir
-que o fizesse.</p>
-
-<p>Certa da victoria, D. Antonia excitava Claudio a
-dar um golpe decisivo; Carolina, furiosa por se ver
-burlada quando imaginara burlar-me, juntara-se
-francamente aos meus inimigos, e, fazendo côro
-com sua madrinha e seu marido, bradava que um
-tal escandalo, se continuasse, era capaz de corromper
-a atmosphera de Bellas por tal fórma, que nenhuma<span class="pagenum" id="Page_180">[Pg 180]</span>
-senhora honesta se resignaria a habitar n’aquelles
-arredores, com medo de aspirar, nos haustos
-de um ar até ahi tão puro, pensamentos adulteros
-e criminosas tentações.</p>
-
-<p>O padre prior, que não percebia nada do que lhe
-diziam, apoiava tudo, confirmando os appoiados
-com estrepitosas pitadas, disfarçando tambem d’essa
-fórma os remorsos que sentia por abandonar assim
-a causa de Alberto, com quem sympathisava
-desde que este, com generosa abnegação, se prestara
-a substituir uma ou outra vez o proscripto Theodoro
-Leite na mesa do voltarete.</p>
-
-<p>Comtudo, eu e Alberto andavamos sempre arredios
-um do outro, e não davamos o minimo pretexto
-para que este mysterioso drama tivesse o desenlace
-que os nossos inimigos desejavam. Esta obstinação
-em não favorecermos os seus planos irritava
-D. Antonia, e fazia-a commetter erros de toda
-a especie. Mostrava-se umas vezes indignada com
-a hypocrisia das pessoas, que sabem disfarçar aos
-olhos do mundo o crime que descaradamente confessam
-em particular; outras vezes, pelo contrario,
-mostrava-se amabilissima comigo e com Alberto, e
-por tal fórma nos incitava a que passeassemos juntos,
-que esta insistencia chegava a dar-lhe ares de
-desempenhar um papel pouco em harmonia com a
-dignidade <i>meticulosa</i> de que tanto blasonava. Só
-emmudecia quando o sobr’olho fransido de Claudio,
-o meio sorriso de Alberto, e os multiplicados signaes
-de Carolina lhe faziam perceber que a sua
-impaciencia a fizera entrar n’um mau caminho.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_181">[Pg 181]</span></p>
-
-<p>Principiou então a adoptar um melhor systema;
-fingiu que se havia esquecido de todo das suas suspeitas,
-e das minhas revelações; fingiu confiar plenamente
-no que lhe eu dissera, e não querer por
-forma alguma intervir no desenlace de tão penosa
-situação. Cuidou talvez que, desassombrada da sua
-continua vigilancia, e do constante «álerta» com que
-as suas provocações espertavam as minhas suspeitas
-e me tinham sempre preparada para o combate,
-cederia á fascinação e me deixaria indolentemente
-resvalar para o abysmo.</p>
-
-<p>Enganava-se julgando que a lucta em mim era
-apenas filha do capricho e da necessidade de disfarçar
-aos olhos de meu marido as minhas criminosas
-relações. Não podia ella comprehender que o
-amor e a honra se combatessem lealmente no meu
-peito, e que o meu espirito encontrasse sempre
-novas forças no sentimento da propria dignidade
-para reter as perfidas suggestões do coração.</p>
-
-<p>Mas esse pelejar incessante prostrava-me e desfallecia-me.
-Minguava-me não o valor, mas o alento
-physico para supportar as consequencias da victoria.
-Eram terriveis para mim essas formosas e breves
-noites de estio, passadas a velar na minha alcova
-solitaria, a ver a lua espraiar-se no chão do jardim,
-e a voluptuosa penumbra a aninhar-se nos recantos.
-Surprehendia-me a alvorada immovel na minha
-janella, assistindo ao esvair da minha mocidade, fada
-cada vez mais pallida, entre os primeiros clarões
-do horisonte matinal. E esses fugitivos poemas,
-que me tinham consumido as horas nocturnas, murchavam-me<span class="pagenum" id="Page_182">[Pg 182]</span>
-a flôr da juventude, que toda se desfazia
-em fragrancias, com que se perfumavam essas
-vagas estrophes, que me voavam nem eu sei para
-onde, nas azas da viração.</p>
-
-<p>Assim passou uma semana.</p>
-
-<p>Jantaram um dia em nossa casa Carolina e Jeronymo.
-Quando acabamos de jantar, fomos tomar
-café para a sala. Começava a cair o crepusculo,
-um d’esses crepusculos de estio, serenos e harmoniosos.
-As janellas abertas deixavam entrar os longiquos
-murmurios do campo, o melancholico mugido
-do boi, que volta para o curral, o grito prolongado
-do pastor, o som grave e religioso do sino
-das Ave-Marias, e d’envolta com estas campestres
-melodias vinham tambem os vagos aromas que as
-flores das noites rescendem n’essa hora mysteriosa.</p>
-
-<p>Entrou Alberto, quando eu me fôra sentar ao
-piano, a pedido de Carolina, que instava comigo
-para que tocasse um trecho da <i>Luiza Miller</i>, muito
-da sua predilecção. Era uma das mais suaves e mais
-melancholicas romanzas de tenor, uma das mais
-mimosas perolas d’esse collar de melodias, que,
-n’uma hora de inspiração, Verdi desfiou sobre o
-publico dilettante. O crepusculo já déra logar ás
-sombras da noite; não havia ainda luar, mas estava
-tão estrellado o céu, e era tão suave aquella penumbra
-que ninguem se lembrou de pedir luz.
-Agruparam-se todos em torno do piano, e estava
-eu preludiando, quando entrou Alberto, como já
-disse.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_183">[Pg 183]</span></p>
-
-<p>Interrompi-me á sua chegada, mas elle, apenas
-fallou ás pessoas presentes, disse logo:</p>
-
-<p>—Oh! minha senhora, teria eu remorso eterno,
-se por minha causa ficassem os rouxinoes do seu
-jardim privados d’uma nota só d’esse cantico delicioso,
-que lhes ha de ensinar a celebrarem ainda
-melhor do que celebram os encantos d’uma noite
-estrellada. Continue vossa excellencia.</p>
-
-<p>—Chegou muito a proposito, senhor Alberto
-Mascarenhas, acudiu Carolina; ia-se tocar a romanza
-do tenor; commettiamos um sacrilegio confiando
-a um piano, ainda que tocado admiravelmente,
-o cantico sublime, digno só de ser entoado
-pela voz humana. Valha-nos pois, cante-nos a romanza.</p>
-
-<p>—Por Deus, senhora D. Carolina, o que diriam
-os rouxinoes? Excommungavam-me de certo, e
-encarregavam os mochos e as corujas de executarem
-a sentença, poisando todas as noites no tecto
-da minha hospedaria. Posso affiançar a vossa excellencia,
-que nas pontas dos dedos da senhora D.
-Margarida está escondido um Mongini, que lhe vae
-cantar admiravelmente a aria que me pede.</p>
-
-<p>—Não, não, respondi eu rindo, engana-se. Mongini
-rasgou a escriptura, de fórma que os meus dedos
-declaram positivamente que só estão disponiveis
-para acompanhamentos.</p>
-
-<p>—Bem, por minha causa não quero que se feche
-o theatro. Estou prompto a obedecer ás ordens
-de vossas excellencias.</p>
-
-<p>Alberto possuia uma bonita voz de tenor, pequena<span class="pagenum" id="Page_184">[Pg 184]</span>
-sim, mas dramatica, se me permittem o termo.
-Reproduzia admiravelmente cada inflexão da melodia,
-cada intenção do maestro. Identificava-se com
-a musica, e perfumava-se de suave tristeza, ou irrompia
-em gritos de paixão, ou tomava o tom elegante
-do galanteio frivolo, conforme cantava, ou o
-<i>Ah! perché non posso odiar-ti</i> da <i>Somnambula</i>, ou
-o <i>Mentré contemplo</i> das <i>Vesperas Sicilianas</i>, ou o
-<i>Questa o quella</i> do <i>Rigoletto</i>.</p>
-
-<p>Corri os dedos pelo teclado, e preludiei depois,
-fazendo brotar das teclas as notas graves da introducção.</p>
-
-<p>A extrema luz crepuscular illuminava escassamente
-o pallido azul do céo, onde palpitavam as estrellas.
-A placidez da noite proxima, a serenidade da
-atmosphera, o profundo silencio que reinava no
-aposento, silencio quebrado apenas pelos frouxos
-e derradeiros murmurios do dia, predispunham a
-alma para esse embevecimento mudo e extatico,
-melancholico e religioso, que esse canto grave, simples,
-e vago como uma melodia exhalada espontaneamente
-da harpa gigante da natureza, é tão proprio
-para inspirar. A voz de Alberto ergueu-se pura,
-limpida, mas levemente commovida. Creio que todos
-sentimos um inexprimivel encanto ao ouvirmos
-as primeiras notas suaves e serenas, que tão bem
-se casavam pelo tom e pela letra com o espectaculo
-que nos rodeava:</p>
-
-<p class="poetry">
-<i>Quando le sere, al placido<br>
-Chiarore d’un ciel stellato</i><br>
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_185">[Pg 185]</span></p>
-
-<p>O canto espraiava-se pela planicie, ia expirar ao
-longe em languido murmurio, e acordava milhares
-de eccos mysteriosos. Os campos, adormecidos no
-voluptuoso regaço d’essa hora magica, despertavam
-ao ouvirem essa harmonia, synthese admiravel das
-suas vozes confusas. Eu estava profundamente commovida,
-sentia que Alberto cantava para mim só,
-que era para mim que elle deixava expandir-se a
-sua alma em cada uma das notas d’esse cantico. A
-sua voz era apenas um frémito, quando, n’essa doce
-lingua italiana, recordava as meigas horas em que,
-de mãos enlaçadas, fitavamos o céu onde esmoreciam
-os ultimos raios do sol. Porque eu chegara a
-convencer-me que tudo aquillo era verdade e não
-ficção, que era eu a heroina da opera, elle o meu
-apaixonado, e quando, todo embevecido n’essas recordações,
-Alberto, como que esquecendo-se do
-presente, concentrou toda a sua alma, toda a sua
-paixão n’aquelle grito immenso de amor e de jubilo:</p>
-
-<p class="poetry">
-<i>Allor parea l’Empireo<br>
-Aprir-se all’alma mia</i><br>
-</p>
-
-<p>não pude conter mais os sentimentos, que me trasbordavam
-do peito, e deixando cair os braços e interrompendo
-o acompanhamento, contive a custo
-os soluços e deixei as lagrimas silenciosas golpharem-me
-dos olhos e inundarem-me as faces.</p>
-
-<p>Alberto calou-se de subito, os ouvintes levantaram-se
-dizendo: «O que é isto?» Meu marido approximou-se
-logo de mim, relanceando para Alberto<span class="pagenum" id="Page_186">[Pg 186]</span>
-um olhar cheio de odio, e perguntando-me rudemente:
-«O que tem?»</p>
-
-<p>—Nada, nada, respondi eu com voz bastante
-firme; uma dor violenta que me surprehendeu, mas
-que já me passou.</p>
-
-<p>—No coração? perguntou D. Antonia com fingida
-ingenuidade.</p>
-
-<p>—Sim, no coração, respondi eu com altivez; mas
-comprimi-a já.</p>
-
-<p>—Essas dores são muito más, tornou ella, vem
-quando menos se esperam.</p>
-
-<p>—Mas não vencem apesar d’isso, continuei eu.</p>
-
-<p>Claudio ouvia este dialogo com modo sombrio.</p>
-
-<p>—A senhora D. Margarida, acudiu Carolina, é
-muito nervosa, e as pessoas nervosas facilmente se
-deixam impressionar pela musica. Demais a mais o
-senhor Alberto Mascarenhas cantou com tanto ardor,
-tanto de coração, que não admira que produzisse
-este effeito.</p>
-
-<p>—Engana-se, minha senhora, respondi eu; nada
-tem com este incommodo passageiro o canto e a
-musica; vou-me deitar em cima da minha cama um
-instante, e voltarei restabelecida.</p>
-
-<p>—Vá, vá, tornou D. Carolina cariciosamente. Desabafe
-que lhe ha de fazer bem.</p>
-
-<p>Não lhe repliquei, e saí. Quando cheguei ao meu
-quarto, foram-me allivio as lagrimas. Entre a minha
-afflicção, comtudo, avultava uma idéa fixa. «Não,
-dizia eu comigo mesma, isto não póde durar. Vejo
-dois caminhos abertos deante de mim, o do amor
-e da perdição, e o da salvação e do martyrio. Ou<span class="pagenum" id="Page_187">[Pg 187]</span>
-entregar-me á paixão fatal, que me domina, fazer
-a vontade a esta gente e procurar no amor de Alberto
-consolações, que me abafem os remorsos,
-ou fazer cessar esta lucta perigosa, dizendo a Alberto
-que parta, encerrando as lagrimas no peito,
-e engolphando-me brutalmente n’esta existencia
-mesquinha, que me ha de assegurar a consideração
-da condessa, a estima de D. Antonia e a tranquillidade
-talvez. A tranquillidade? Palavra d’ora em
-deante sem sentido para mim! Se conquisto a paz
-exterior, as tempestades nem por isso deixarão de
-me bramir no coração. Mas que importa? O cumprimento
-de um dever nunca deixa de ser acompanhado
-por intima satisfação, e será esse o magico
-talisman que abrandará o soffrimento, a que a minha
-vida vae ser condemnada. É preciso, é indispensavel
-que Alberto se ausente. Ausentae-vos com
-elle, sonhos tentadores, perigosos devaneios, frémitos
-da juventude, que se revolta contra o cilicio,
-aspirações do meu espirito para o mundo luminoso,
-d’onde o dever o repelle.»</p>
-
-<p>Armando-me de coragem, desci á sala, decidida
-a pedir a Alberto uma entrevista, para lhe explicar
-francamente a minha situação, e rogar-lhe que me
-facilitasse o sair d’ella.</p>
-
-<p>Já lá estavam a condessa, o padre prior e a baroneza.</p>
-
-<p>Como a tactica de D. Antonia consistia em me
-deixar a maior liberdade, julguei que poderia facilmente
-fallar de relance a Alberto. Mas o ciume de
-Carolina parece que fôra excitado pela scena do<span class="pagenum" id="Page_188">[Pg 188]</span>
-piano, de forma que não fez senão interpor-se constantemente
-a nós ambos, e não nos deixou sós nem
-um instante.</p>
-
-<p>Já perdera as esperanças de lhe fallar, e até já
-me despedira d’elle e das outras visitas que se retiravam,
-quando, ao atravessar a saleta para subir
-para o meu quarto, encontrei Alberto, que subia
-de novo para buscar alguma coisa, que lhe esquecera.</p>
-
-<p>Travei-lhe da mão, e disse-lhe apressadamente:</p>
-
-<p>—Preciso muito de lhe fallar: ámanhã, ás duas
-horas da noite, venha ter comigo ao jardim. Enviar-lhe-hei
-a chave.</p>
-
-<p>Alberto ficou mudo d’assombro. Eu nem lhe dei
-tempo a responder-me. Saí precipitadamente, e, ao
-abrir a porta, esbarrei n’um vulto.</p>
-
-<p>Era a Maria do Rosario.</p>
-
-<p>—Que estava aqui a fazer? perguntei eu com
-indignação.</p>
-
-<p>—Nada, minha senhora, respondeu ella com toda
-a naturalidade; vinha apagar as luzes.</p>
-
-<p>E entrou effectivamente para a sala.</p>
-
-<p>Era possivel que fosse essa a verdade, e, se o
-não fosse, que me importava? Denunciasse-me embora;
-eu ia jogar a ultima carta, e estava disposta
-a confiar-me cegamente ao destino.</p>
-
-<p>Comtudo, até para dar esse passo, que me devia
-salvar da vergonha, precisava de humilhar o meu
-orgulho aos pés de uma creada; é verdade que essa
-creada, antes amiga, era a boa Quiteria, a pobre
-velha, que tão desinteressadamente se dedicara a<span class="pagenum" id="Page_189">[Pg 189]</span>
-mim. Só d’ella me podia valer para conseguir que
-fosse entregue a Alberto a chave, que era indispensavel
-para a nossa ultima entrevista.</p>
-
-<p>Portanto, no dia seguinte chamei-a ao meu quarto,
-e como ligava muito mais apreço á opinião da
-boa e pobre Quiteria do que á da altiva D. Antonia,
-e da virtuosa condessa, contei-lhe pela rama a
-historia das minhas relações com Alberto, não lhe
-fallei em subtilesas de coração, mas disse-lhe que,
-vendo-me calumniada por causa d’aquelle homem,
-queria ter uma conferencia com elle para lhe pedir
-que se retirasse e não me expuzesse mais, ainda
-que involuntariamente, aos juizos desfavoraveis das
-pessoas com quem estava condemnada a viver.
-Terminei rogando-lhe que se encarregasse da missão
-que eu desejava confiar-lhe.</p>
-
-<p>—Minha boa menina, respondeu-me a Quiteria,
-tenho dado fé das intrigas, que a cercam, e sei perfeitamente
-que a senhora D. Margarida está innocentinha
-como um anjo do céu. Dá-me vontade ás
-vezes de esganar os seus perseguidores! Já não fallo
-no senhor Claudio, que esse no fundo é muito boa
-pessoa, assim elle soubesse ser dono da sua casa.
-Mas a senhora D. Antonia, Deus me perdôe, parece
-mesmo que tem o demonio ao lado que lhe está
-aconselhando a maldade. E a Maria do Rosario?
-Ai! que boa peça! Anda sempre, como o outro que
-diz, com o santo nome de Deus na boca, e o diabo
-no coração. Aquillo até chega a ser heresia. Por
-isso todos lhe teem raiva, e se não fosse por minha
-causa, o meu Simão já lhe tinha quebrado os ossos,<span class="pagenum" id="Page_190">[Pg 190]</span>
-quando a pilhava a espreital-a, e a ir metter no
-bico da senhora D. Antonia tudo quanto a menina
-faz! Mas eu que sou muito sua amiga, porque vejo
-que é boa com a gente pobre, e que não se contenta
-em lhes dar uma fatia de pão, com modos de
-quem dá uma facada, como fazem essas beatas fingidas;
-mas que é meiga, affavel com elles, que os
-trata bem, e não lhes faz sentir a sua humildade e a
-sua dependencia, que não ha coisa mais triste, santo
-nome de Jesus. Andar uma pessoa a comer as sopas
-d’outrem...</p>
-
-<p>—Mas o que é que ia a dizer, tia Quiteria? interrompi
-eu, porque a via disposta a amontuar incidentes
-sobre incidentes, e a perder o fio da oração
-principal.</p>
-
-<p>—Ah! é verdade, já me esquecia... Tenha paciencia,
-minha boa senhora, que isto de velhas gostam
-muito de dar á lingua, e, em ellas começando,
-não ha fazel-as parar. Misturam alhos com bugalhos,
-e nunca chegam ao fim, como succedeu na
-noite em que a menina chegou, que me enredei por
-tal fórma, que não acabei de contar a historia do fr.
-João. Que elle sempre viu a alma do pae...</p>
-
-<p>—Mas vossemecê estava a dizer outra coisa, tornei
-eu, já impaciente.</p>
-
-<p>—Ah! é verdade. Isso é o que importa agora, e
-não o saber-se que o pae de João lhe confessou que
-fôra a pouco e pouco mudando os marcos das terras
-dos visinhos, e que não teria a sua alma descanço
-e andaria penando por este mundo em quanto
-essa justiça não fosse reparada.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_191">[Pg 191]</span></p>
-
-<p>—Sim, sim, tia Quiteria, mas vossemecê dizia...</p>
-
-<p>—Ah! é verdade, voltando cá á boa alma de Maria
-do Rosario, que me parece que já está a arder
-no inferno pelas mexeriquices que tem feito, e as
-desgraças que póde crusar, sempre lhe direi, minha
-menina, que o demonio da mulher ouviu-a hontem
-dizer ao senhor Alberto que fosse ao jardim, e, segundo
-o seu costume, foi logo dizer tudo á senhora
-D. Antonia. Ouvi-a eu com estes ouvidos, que eu
-não sou surda, graças a Deus, a vista é que se me
-vae debilitando alguma coisa, e os dentes esses viste’-los?
-Nem eu. Pois ouvi-a estar a contar tudo
-isso, e ouvi tambem a senhora D. Antonia dizer assim:
-«Ora graças a Deus! vejâmos agora se meu
-sobrinho ainda acha algum pretexto para se esquivar
-a fazer o que deve, e se, depois de ter visto
-com os seus proprios olhos, ainda estiver pouco disposto
-para isso, nós arranjaremos as coisas de maneira
-que elle não tenha outra saída. O caso é não
-se ter vossemecê enganado nas horas.»—«Não enganei,
-não, minha senhora, respondia a voz de falsete
-da Maria do Rosario, ás duas horas no jardim.»
-Mais nada ouvi porque senti passos aproximarem-se
-da porta, e não tive tempo senão de me safar. Ora
-agora veja a menina se não será melhor adiar a entrevista
-para outra occasião. Olhe que ellas estão
-prevenidas, e fazem-lhe alguma.</p>
-
-<p>Reflecti alguns momentos antes de dar uma resposta.
-Os sentimentos do meu coração, vencidos
-pela idéa do dever, não tinham ficado completamente
-domados, e protestavam ainda contra a oppressão,<span class="pagenum" id="Page_192">[Pg 192]</span>
-a que os votara. Fugia d’esse vedado paraiso do
-amor, mas, fugindo, relanceava para elle os olhos,
-como a chorosa Eva ao sair do Eden, se voltava a
-contemplal-o, com o peito a arquejar de saudades.
-Sorria-me tentadora a idéa fatal de esquecer nos
-braços de Alberto a vida e as suas obrigações, o
-mundo e as suas amarguras, de fugir com elle para
-algum eremiterio arredado do bulicio social, ufanando-me
-do estygma, aceitando o escandalo para conquistar
-o amor, como se aceita o martyrio para se
-conquistar a palma. Bem sei que seria de pouca
-dura essa felicidade criminosa, que o remorso seria
-o meu algoz, e o enfado, que algumas vezes me entreluzisse
-nos olhos do meu amante, pugentissimo
-castigo; mas o que era tudo isso em comparação da
-longa vida de estiolamento que eu ia passar n’esse
-carcere domestico? Lembrei-me dos amores de D.
-Branca e de Aben-Afan. Horas breves de felicidade
-compradas por uma vida inteira de horrido desgosto;
-e o que destruira esses amores tão violentos?
-Um gesto de fastio do moiro wali, saudoso das
-suas pelejas e do seu poder. Teria eu maior condão
-que D. Branca, Alberto mais desprendimento
-do mundo, do que Aben-Afan? Não lhe leria nunca
-nos olhos o desgosto de se ter prendido em laços,
-não authorisados pela sociedade, e de se ver privado
-dos gosos mundanos?</p>
-
-<p>Mas isso que importava? Se a gentil abbadessa,
-depois de ter visto e amado o arabe formoso, se
-houvesse sepultado logo no gélido mosteiro, não seria
-ainda maior a sua tristeza? Não seria a sua vida<span class="pagenum" id="Page_193">[Pg 193]</span>
-uma longa noite, em que nem sequer luziria um
-raio do sol extincto sim, mas que por instantes brilhara
-no horisonte? Longa noite sem o luar d’uma
-recordação? Não seria então que o poeta podia deveras
-exclamar:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 9em;">.... Mas é vida</span><br>
-Esse viver que se alimenta em lagrimas?<br>
-</p>
-
-<p>Agitada por estes encontrados pensamentos, persisti
-na idéa de deixar ir o batel do nosso destino
-ao som da agua, para onde o impellisse a corrente
-do acaso, ou antes, o que era mais christão na forma,
-senão no fundo, entreguei á Providencia o cuidado
-de reger o leme, e confiei-me cegamente ás
-ordens do Divino Piloto. Cumpriria o que resolvera,
-iria pedir a Alberto que se affastasse de mim,
-porém, se a fatalidade interviesse de novo, se a mão
-implacavel dos que me tinham collocado á beira do
-abysmo me despenhasse n’elle, não opporia a minima
-resistencia, e deixar-me-hia cair nos braços
-que me recebessem.</p>
-
-<p>Era esta a ultima prova e a mais fatal das indecisões
-do meu caracter, tão pouco proprio para as
-luctas da existencia.</p>
-
-<p>Por isso respondi á boa mulher:</p>
-
-<p>—Embora, tia Quiteria; cumpra-se o meu destino:
-o que resolvi está resolvido. São puras as minhas
-intenções, mas já não tenho forças para luctar
-com as minhas perseguidoras. Quanto mais depressa
-isto acabar, melhor. Estou anciosa pelo descanço,<span class="pagenum" id="Page_194">[Pg 194]</span>
-ainda que seja o repouso do tumulo, ou o do
-opprobrio.</p>
-
-<p>—Ah! a minha menina que se deita a perder!
-tornou a Quiteria com modos supplicantes. Pois
-quer dar essa gloria ás suas inimigas? Não faça tal.
-E demais, continuou ella, desatando a chorar, isso
-é tentar a Deus, é, como quem diz, dar cabo de si
-com as proprias mãos.</p>
-
-<p>Travei, commovida, das mãos de Quiteria, e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Obrigada, minha boa amiga, obrigada por essas
-lagrimas. Ah! se as pessoas que a desprezam
-do alto da sua soberba, tivessem o seu coração!...
-Mas, tia Quiteria, bem vê que uma vida assim não
-pode continuar. Estou cançada, estou prostrada por
-esta lucta sem treguas nem fim. Acarinhada, mimosa
-em casa de meus paes, vim para esta casa, nunca
-mais tive nem socego nem alegria. As pessoas do meu
-trato quotidiano só tinham para mim rostos severos
-ou frios. Não tive affeições, não tive familia. E, não
-contentes com isso, isolaram-me do mundo, e cercaram-me
-com uma gélida barreira de desconfianças,
-de suspeitas, e de calumnias. Esforcei-me, luctei
-por sair d’este circulo de ferro; não pude. Já me
-sinto sem forças nem alento. No tumulo talvez me
-deixem tranquilla, ou, se me expulsarem d’esta casa,
-talvez encontre descanço ahi no fundo de alguma
-choça abandonada. Não é melhor assim?</p>
-
-<p>E as minhas lagrimas confundiram-se com o pranto
-da minha humilde amiga.</p>
-
-<p>—Pobre senhora! pobre senhora! dizia ella, soluçando;<span class="pagenum" id="Page_195">[Pg 195]</span>
-pobre pombinha sem ninho! antes Deus a
-tivesse feito nascer n’uma choupana! viveria socegada,
-e todos a haviam de estimar, como merece.</p>
-
-<p>—Antes, antes, Quiteria, respondi eu melancholica,
-bastantes vezes, no silencio da noite, lancei a
-Deus esse grito de revolta contra o martyrio sem
-causa.</p>
-
-<p>—Mas, minha menina, continuou a velhinha limpando
-as lagrimas, que ainda lhe banhavam as faces,
-se por força quer fallar esta noite ao senhor
-Alberto, ao menos faça-me uma coisa.</p>
-
-<p>—Qual é?</p>
-
-<p>—Mude a hora da entrevista; mande dizer ao senhor
-Alberto que venha á meia noite.</p>
-
-<p>—Á meia-noite, tia Quiteria! Quasi a essa hora
-se vão as visitas.</p>
-
-<p>—Então o que tem? O senhor Alberto que espere.
-Olhe, a senhora D. Antonia, o que deseja é
-ver se a apanha lá, e por conseguinte esteja a minha
-menina certa que lhe não ha de pôr obstaculos.</p>
-
-<p>—Oh! isso sei eu.</p>
-
-<p>—Então está combinado?</p>
-
-<p>—Pois sim! tornei eu com a indifferença do fatalismo.</p>
-
-<p>—Ora bem! disse a Quiteria muito satisfeita. Assim
-talvez ainda as possamos lograr! Deus está por
-nós. Elle nos ajudará. Fique a menina descançada
-que d’aqui a duas horas está o senhor Alberto avisado.</p>
-
-<p>E, despedindo-se de mim, dirigiu-se para a porta;
-mas, quando ia a levantar o fecho, parou, como<span class="pagenum" id="Page_196">[Pg 196]</span>
-se lhe houvesse esquecido alguma coisa, e disse:</p>
-
-<p>—Ah! já me não lembrava!...</p>
-
-<p>—O que é, tia Quiteria? perguntei eu com interesse.</p>
-
-<p>—O João...</p>
-
-<p>—Qual João? tornei a perguntar, porque já nem
-pensava na historia do frade.</p>
-
-<p>—Ora, qual João! o que viu a alma do pae...</p>
-
-<p>—Ah! é verdade, interrompi eu rindo, então o
-que lhe succedeu?</p>
-
-<p>—No dia seguinte restituiu as terras furtadas aos
-seus donos, as outras vendeu-as, e foi-se metter
-n’um convento. E aqui está como fr. João vestiu o
-habito de frade, e foi sempre um homem exemplar.</p>
-
-<p>E muito satisfeita por ter afinal contado a sua
-historia toda, a tia Quiteria abriu a porta e saíu.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_197">[Pg 197]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="XXI">XXI</h2>
-</div>
-
-
-<p>Pareceram-me seculos as horas, que decorreram
-até o cair da noite, e comtudo, quando as primeiras
-sombras do crepusculo principiaram a invadir o céu,
-desejei que retrocedesse o tempo, e tremi de ver
-tão proximo o instante em que se ia decidir a minha
-sorte.</p>
-
-<p>Chegaram, segundo o costume, as visitas; D.
-Antonia mostrara-se todo o dia affabilissima comigo,
-tambem a condessa houve por bem mimosear-me
-com alguns dos seus mais amaveis sorrisos, e Carolina
-abraçou-me e beijou-me com extraordinaria
-affeição.</p>
-
-<p>A tudo correspondi com sereno e melancholico
-aspecto: causava-me asco esse corrilho de Judas.</p>
-
-<p>Ás dez e meia retiraram-se todos; D. Antonia
-disse estar incommodada, e foi-se metter no seu
-quarto; Claudio apparecera na sala e demorara-se
-instantes apenas, mostrando-se visivelmente inquieto;
-depois saira.</p>
-
-<p>Á meia noite em ponto, desci do quarto; pulsava-me
-o coração com extraordinaria vehemencia;<span class="pagenum" id="Page_198">[Pg 198]</span>
-ia dando um grito, e deixando cair o castiçal, que
-levava na mão, ao deparar-se-me um vulto immovel
-no fundo da escada.</p>
-
-<p>Felizmente logo o conheci: era Quiteria.</p>
-
-<p>—Começa o enredo, disse-me ella em voz baixa;
-a condessa e a D. Carolina entraram agora
-mesmo.</p>
-
-<p>—Estão cá? perguntei eu.</p>
-
-<p>—Estão; fingiram que se iam embora; mas foram
-passear, voltaram, e metteram-se no quarto
-de D. Antonia. Lá está tambem a Maria do Rosario.</p>
-
-<p>—O que farão ellas?</p>
-
-<p>—Não sei, mas não tema. Aproveite este momento,
-que é favoravel. Deus a proteja, filha.</p>
-
-<p>Abri a porta do jardim, e saí. Ainda não campeava
-no horisonte a lua, mas aproximava-se a
-hora em que havia de surgir o meigo astro. A folhagem
-das arvores meneava-se brandamente ao
-sopro suave da brisa, e por entre a ramaria scintillavam
-as estrellas.</p>
-
-<p>Atravessei ligeiramente a rua principal do jardim,
-dirigindo-me á porta que deitava para a estrada.
-Quando cheguei a uma espessa moita de buxo não
-tosquiado, que se erguia a grande altura, ouvi uma
-voz que murmurava muito de manso:</p>
-
-<p>—Margarida!</p>
-
-<p>Voltei-me, e vi Alberto.</p>
-
-<p>Parei, e comprimi com a mão o violento arfar
-do peito. Alberto pegou-me na outra mão, e levou-a
-respeitosamente aos labios.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_199">[Pg 199]</span></p>
-
-<p>—O que pensou de mim, senhor Mascarenhas,
-disse-lhe eu, ao receber o estranho recado que lhe
-enviei?</p>
-
-<p>—Pensei que vossa excellencia tinha que me dar
-uma ordem, que eu tinha a ventura de poder executar
-um mandado seu, e vim.</p>
-
-<p>—Disposto a obedecer-me?</p>
-
-<p>—Em tudo.</p>
-
-<p>Calei-me embaraçada; não sabia como havia de
-dar o primeiro passo n’esse terreno escorregadio.
-Tinha os olhos baixos, mas como que sentia o olhar
-de Alberto fito no meu rosto com inexprimivel anciedade.
-As nossas respirações oppressas confundiam-se
-n’um murmurio, que se casava com o sussurrar
-da brisa languida nas folhas do arvoredo.</p>
-
-<p>Formava o buxo uma espessa parede, que nos
-abrigava do lado de casa; corria-lhe fronteiro o muro
-do jardim, mas a porta ficava-nos distante. Um
-pecegueiro, ainda em flor, estendia por cima de nós
-a copa como um docel perfumado. Uma estatua
-pagã, meio escondida no buxo, espreitava-nos maliciosamente
-da sua verde alcova.</p>
-
-<p>—Senhor Alberto Mascarenhas, disse-lhe eu com
-voz profundamente commovida, poz-nos o acaso
-n’uma situação falsissima. N’um momento de exaltação
-passageira trocámos palavras fataes, que ainda
-hoje me soam aos ouvidos como um remorso. Justificámos
-a calumnia, demos rasão aos calumniadores.
-Esse crime só se resgata com a separação. É
-o allivio para os nossos espiritos, a tranquilidade
-para as nossas consciencias. Não podemos viver assim<span class="pagenum" id="Page_200">[Pg 200]</span>
-com a recordação d’essa tarde a interpor-se
-constantemente a nós ambos, a pungir-nos sempre
-como espinho de rosa, que nasceu amaldiçoada.
-Chamei-o aqui para implorar da sua honra, do seu
-cavalheirismo, da sua amisade, do seu amor emfim,
-se me é permittido proferir tal palavra, a esmola
-de um pouco de socego. Parta, rogo-lh’o, ausente-se
-d’esta casa, d’este sitio, rompa completamente as
-suas relações com a minha familia; só assim poderei
-recuperar a paz, por que almejo tanto, que a
-acceito, ainda que seja o repouso do tumulo, ou a
-atonia do desespero.</p>
-
-<p>—Minha senhora, respondeu Alberto com mal
-fingida firmesa, obedeço a esta ordem de vossa excellencia,
-como a todas obedeceria. E demais vejo,
-percebo tambem, que é intoleravel a nossa situação.
-Amigo de seu marido, estou representando um papel
-em que a minha lealdade soffre. Não sei se esta
-consideração bastaria para me arrancar d’aqui; as
-leis da honra ás vezes são frageis diques contra as
-torrentes de alguns affectos. Mas não devo pensar
-em mim, devo pensar no anjo puro, cuja etherea
-serenidade perturbei, no anjo, em cujo céu immaculado
-tive a audacia de fazer reboar um echo das
-paixões vis da terra. Possa o meu sacrificio restituir-lhe
-o repouso.</p>
-
-<p>Calou-se um instante, e depois, emquanto eu,
-sem forças para lhe responder, e mal podendo suster-me
-em pé, me encostava ao pedestal da estatua,
-continuou com voz triste, ainda que serena:</p>
-
-<p>—Adeus, Margarida.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_201">[Pg 201]</span></p>
-
-<p>E estendeu-me a mão, que eu apertei.</p>
-
-<p>—Adeus, Alberto, disse com egual simplicidade
-e tristeza.</p>
-
-<p>E ficamos assim, com as mãos enlaçadas, e os
-olhos de um cravados nos olhos do outro. A brisa
-sussurrava no arvoredo, e o primeiro raio da lua
-nascente coava-se a furto por entre os ramos do pecegueiro.</p>
-
-<p>—Que sonho tão breve, Margarida! murmurou
-elle.</p>
-
-<p>—Como todos os sonhos, Alberto! respondi eu.</p>
-
-<p>—Sim, como todos os sonhos, que descem das
-regiões da phantasia para o mundo da realidade.
-Dizem as lendas allemãs que os espiritos do ar e
-das aguas podem, pela magia do amor, tomar humana
-forma e alma tambem humana, mas qualquer
-desgosto os fina, e perdem então de todo a immortalidade.
-Quer-me parecer que os sonhos são como
-os sylphos e as ondinas.</p>
-
-<p>—Louco de quem lhes magôa as azas candidas
-com os attritos da vida!</p>
-
-<p>—Bem louco!... Que irresistivel tentação, que
-absurdo escrupulo me impelliu a revelar-lhe n’aquella
-noite fatal a historia dos meus amores! Soltei
-as avesinhas captivas, julgando que as poderia
-fazer voltar ao ninho...</p>
-
-<p>—E ellas foram despertar com os seus cantos
-as irmãs adormecidas na minha alma. Era natural,
-bem vê.</p>
-
-<p>—Como virem os gelos, e matarem-nas. Embora,
-continuou Alberto um tanto exaltado, gosei um<span class="pagenum" id="Page_202">[Pg 202]</span>
-instante de suprema ventura. Oh! antes de nos separarmos
-para sempre, diga, Margarida, diga-me
-que esse momento, em que se vae absorver e resumir
-todo o meu passado, ha de brilhar tambem
-como um ponto luminoso na sua vida.</p>
-
-<p>—Sim, digo, tornei eu palpitante de commoção,
-e não me pejo de o dizer, porque vou expiar longamente
-esse prazer tão rapido. Entrevi de relance
-as doçuras de um vedado paraiso. Bebi com delicia
-criminosa o feiticeiro philtro das suas palavras.
-Não tardaram as amarguras. Estado tão inebriante
-era como esse mundo de crystal, que a phantasia de
-não sei que romancista povoou de ignotos encantamentos,
-de esplendidos prodigios; mas um bafo
-annuviava o ridente quadro, qualquer attrito o partia.
-Vivemos instantes no crystal, Alberto; o nosso
-mundo despedaçou-se, e os fragmentos ahi jazem
-dispersos. Mas crêa: sempre que os espinhos da
-realidade me ferirem em demasia, hei de volver os
-olhos enlevados para a região das fadas, onde enlaçados
-poisámos.</p>
-
-<p>—Oh! não murmure ao meu ouvido, tornou Alberto,
-essas magicas palavras! Quer que nos separemos,
-e está entrançando de ouro e seda o laço,
-que me ha de reter captivo? A melodia da sua voz
-é canto de sereia, que me arrasta para o abysmo.
-Sinto que a minha alma se prende n’essa ineffavel
-seducção. Separarmo-nos! separarmo-nos agora, repetia
-elle exaltado, bem vê que é impossivel! Essa
-palavra destôa dos murmurios amorosos d’este jardim,
-das meigas notas da sua voz. Não a profira,<span class="pagenum" id="Page_203">[Pg 203]</span>
-não me quebre o encanto, deixe-me viver no crystal,
-como dizia, no crystal onde sinto repercutir-se
-em eccos deliciosos cada uma das estrophes do meu
-encantador poema. Não, não, não posso.</p>
-
-<p>—Alberto, exclamei eu, o que intenta fazer?
-Lembre-se do que me prometteu, lembre-se das
-desgraças, de que póde ser causa este infausto
-amor.</p>
-
-<p>—Sim, Margarida, respondeu elle apertando-me
-convulso as mãos, lembro-me de tudo, e tudo cumprirei.
-Mas hoje é a ultima noite que me resta para
-te ver. Lembra-te que vou, navegador infeliz, vaguear
-de novo pelo oceano sombrio da existencia,
-sósinho, sem uma esperança, sem uma estrella no
-céu tenebroso, ludibrio das vagas e das tempestades.
-E quando o vendaval agudo me açoitar alta
-noite, quando não bruxulear para mim no horisonte
-outro fanal que não seja a triste lampada do tumulo,
-não queres que eu conserve ao menos uma lembrança
-do radiante porto, da afortunada ilha onde
-pude repoisar por instantes a fronte queimada pelo
-sopro das procellas? Não queres que se me aclarem
-um momento as sombras, e que entre os fulgores
-da aurora me surja o teu vulto angelico, meigo e
-saudoso como na hora em que para sempre nos
-apartámos?</p>
-
-<p>E a lua, alta no céu, illuminava-lhe o rosto pallido,
-e incendia-lhe vivissimos lampejos nos olhos
-marejados de lagrimas. A aragem meneava a copa
-do pecegueiro, e desprendia-lhe as flores, que caíam
-em torno de nós em chuva de perfumes. Esse murmurio<span class="pagenum" id="Page_204">[Pg 204]</span>
-vago das noites de estio expirava ao nosso
-ouvido em voluptuosa melodia.</p>
-
-<p>Lancei a cabeça para traz, para fugir á magnetica
-seducção do olhar de Alberto. Soltou-se-me então
-uma trança, que a brisa trouxe logo a beijar-me o
-collo, como essas <i>boucles folles</i> em que os francezes
-fallam.</p>
-
-<p>—Mas o que quer? o que exige de mim? disse
-eu com voz tremula. Oh! Alberto, porque se não
-ausentou já?</p>
-
-<p>—Nada quero nada, senão que se deixe estar
-assim, formosa incarnação do meu sonho mais
-bello! Oh! se um esculptor grego a visse, tomal-a-hia
-pela deusa da caça, nas horas em que desce ao
-seio dos bosques a procurar Endymião. Ha na sua
-attitude um mixto indizivel de languidez e de pudor,
-um não sei que de casta voluptuosidade, que lhe
-namoraria os olhos, como a mim m’os namora,
-captivando-me o espirito. És linda, Margarida!</p>
-
-<p>—Alberto! interrompi eu, escondendo a fronte
-ruborisada nas mãos trementes.</p>
-
-<p>Elle cingiu-me com um braço, e puxando-me para
-si, e obrigando-me ao mesmo tempo com dôce
-violencia a reclinar o rosto, de fórma que a lua m’o
-illuminava em cheio, continuou:</p>
-
-<p>—És linda! és linda! quero gravar bem no coração
-a tua imagem, as linhas do teu semblante, a
-luz do teu olhar! Quereria até poder captivar e reter
-na urna do meu peito esse perfume inebriante
-e impalpavel, que se exhala dos teus cabellos! E
-vou perder-te para sempre... para sempre... não<span class="pagenum" id="Page_205">[Pg 205]</span>
-ver-te mais, senão em sonhos. E hei de assim abandonar
-a ventura, quando a tenho nos meus braços,
-hei de eu mesmo precipitar-me das alturas do céu
-nas profundesas do inferno? Que tortura, não é?</p>
-
-<p>—E a minha, Alberto?</p>
-
-<p>—A tua ha de ser o desgosto que sentimos ao
-ver desfazer-se o devaneio de um instante, o desgosto
-da creança, quando desapparece o globo de
-agua de sabão, todo iriado e matisado de brilhantes
-côres pelos raios de sol, globo que um sopro
-creou e um sopro mata. Mas eu!... Este sonho formava
-parte integrante da minha existencia. Ainda
-que o julgasse irrealisavel, sempre uma vaga esperança
-me vinha segredar ao ouvido ineffaveis consolações.
-Mas agora, filha, agora nem isso me é
-permittido! morreu para sempre, morreu o pobre
-sonho, o meu constante companheiro, o meigo irmão
-da minha alma!</p>
-
-<p>E apertava-me convulso ao peito, e embebia
-nos meus os seus olhos desvairados. Afastava-me
-os cabellos da fronte com os dedos tremulos, e o
-seu bafo acariciava-me os labios, dôce e casto como
-o beijo de um anjo.</p>
-
-<p>—E podia comtudo ser feliz, Margarida! Se calcasse
-aos pés as leis do mundo e as da honra, se
-te pedisse que fugissemos d’aqui para um recanto
-ignorado do mundo, onde houvesse luar, canticos
-e aromas! Para a Italia, para Napoles, á beira d’esse
-formoso golpho, por baixo d’esse céu azul, n’esse
-solo ardente, requeimado pela lava do Vesuvio,
-como o meu peito pela fervente lava d’este amor.<span class="pagenum" id="Page_206">[Pg 206]</span>
-Alli de todos nos esqueceriamos; alli podiamos prolongar
-infinitamente estes rapidos instantes. Margarida!
-tu não podes viver n’esta atmosphera de gelo,
-n’esta casa maldita; o teu destino é o meu, são eguaes
-os nossos fados. Vem, vem comigo, arrojemo-nos cégamente
-para este pelago de paixões, unico elemento
-onde póde viver o nosso espirito férvido. Vem,
-devoremos em Napoles em alguns annos uma existencia
-de seculos, até que morrâmos juntos sobre o
-tumulo do poeta de Dido, ou na praia sonora, onde
-nasceu o vate de Armida.</p>
-
-<p>E arrastava-me com impeto febril. E eu dizia-lhe:</p>
-
-<p>—Alberto, não queiras macular o nosso tão casto
-sonho. Estes devaneios, que fórmas, bastantes vezes
-me acariciaram, mas repelli-os sempre, mas quero
-ainda hoje repelli-os. Amo-te, amo-te loucamente,
-hei de amar-te sempre: leva esta confissão minha
-para consolo dos teus dias attribulados. Mas a flor
-secca, Alberto, a flor que guardo no meu seio é o
-symbolo do nosso amor. Não tentemos dar-lhe novo
-perfume, e viço novo, á custa de um sacrilegio. O
-tufão da desgraça merecida dispersar-lhe-hia as folhas,
-e que dôr, que immensa dôr não seria-a nossa!
-Amo-te, Alberto, mas deixa-me fugir-te.</p>
-
-<p>—Não! não! tornava elle, basta de vãs loucuras,
-de sacrificios vãos! És minha, só minha. Dá-me o
-amor sobre ti direitos inalienaveis. Se o remorso
-nos saltear, morreremos, mas morreremos juntos.
-Que importa? Morreremos enlaçados, na flôr dos
-annos. É esse o destino d’aquelles a quem ama a
-céu.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_207">[Pg 207]</span></p>
-
-<p>—Alberto! Alberto, o teu amor é o louco amor
-inspirado pelo paganismo, e não o que se purifica
-nas aras de Jesus. O amor, que triumpha sobre as
-ruinas do dever e da honra, não póde ser abençoado
-por Deus.</p>
-
-<p>—Deus! se existe, não póde separar os que se
-amam.</p>
-
-<p>—E o dever, e a amisade que te ligam a Claudio,
-e a consciencia? Oh! se cedesses a esta impia
-tentação, o teu anjo da guarda velaria com as mãos
-o rosto indignado.</p>
-
-<p>—O meu anjo da guarda, Margarida! O meu anjo
-da guarda és tu!</p>
-
-<p>—Não, Alberto, é o espirito de tua mãe!</p>
-
-<p>Elle parou, e soltando as mãos que me cingiam
-o corpo, levou-as aos olhos, d’onde lhe irrompia o
-pranto; depois, voltando a mim, e tomando-me a
-cabeça nas mãos, beijou-me os labios, dizendo-me:</p>
-
-<p>—E tu és o anjo do sacrificio. Adeus. Adeus para
-sempre!</p>
-
-<p>E fugiu. Eu caí prostrada e soluçando aos pés da
-estatua. Quando levantei a fronte, vi deante de mim
-um vulto, cujo rosto estava mais pallido do que o
-marmore, que eu regara com as minhas lagrimas.</p>
-
-<p>Era Claudio.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_208">[Pg 208]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="XXII">XXII</h2>
-</div>
-
-
-<p>Esta apparição, que n’outro momento me impressionaria
-immenso, não conseguiu tirar-me da lethargia,
-em que me prostrara a terrivel scena, que houvera
-entre mim e Alberto. Fitei um olhar estupido
-no rosto de meu marido.</p>
-
-<p>Annuviava-lhe a fronte uma profunda tristeza,
-mas nos seus olhos, d’onde desapparecera a vaga
-desconfiança que era a sua expressão habitual, transluzia
-não sei que meiga bondade, e que suavissima
-ternura.</p>
-
-<p>Curvou-se brandamente para mim, e disse-me com
-voz cheia de lagrimas:</p>
-
-<p>—Quando me perdoará, Margarida?</p>
-
-<p>Eu olhei para elle com indizivel espanto, e murmurei:</p>
-
-<p>—Perdoar-lhe eu?</p>
-
-<p>—Oh! bem sei que sou indigno de perdão; mas
-quando souber quanto eu soffri, quando souber que
-diversos e innumeros golpes me alancearam por tão
-longo espaço! quando comprehender bem o meu<span class="pagenum" id="Page_209">[Pg 209]</span>
-caracter fraco, incerto, impellido por cada sopro extranho,
-cedendo machinalmente a qualquer influencia,
-talvez me desprese, mas absolva. E depois,
-muito depois, é possivel que um raio de affecto venha
-doirar a compaixão, que eu lhe inspire.</p>
-
-<p>—Affecto! exclamei no auge da exaltação, mas
-não sabe que mesmo agora, ha um instante apenas,
-votei a outro homem um amor immenso e eterno?
-Não sabe que a minha alma voou para bem longe
-d’aqui, nos labios d’esse homem que m’a colheu
-n’um beijo? não sabe que sou uma mulher adultera,
-indigna de perdão, porque me ufano do meu
-crime?</p>
-
-<p>Um soluço doloroso, afogado na garganta fez arfar
-com violencia o peito de Claudio. Lagrimas como
-punhos saltaram-lhe dos olhos, e rolaram-lhe
-pelas faces lividas. Estendeu a mão como para me
-pedir que não continuasse, e esteve um instante sem
-poder fallar.</p>
-
-<p>—Sei; disse por fim, sei tudo. Avisado por minha
-tia de que se havia de realisar esta entrevista,
-tive a fraqueza de os vir espiar. A inquietação e o
-desasocego fizeram com que me adeantasse ás horas
-marcadas. Esse caso fatal ou feliz proporcionou-me
-ensejo de assistir a uma scena que me fez
-soffrer o duplo tormento do ciume e do remorso.
-Pude apreciar, n’esta hora de grande provação para
-o seu espirito, a nobreza do seu caracter, de que
-tão indigno me tenho mostrado. Porque, devo confessar-lh’o,
-amo-a com um amor, bem que menos<span class="pagenum" id="Page_210">[Pg 210]</span>
-poetico, pelo menos tão grande ou maior do que a
-paixão, que Alberto lhe consagrou.</p>
-
-<p>—Quem o havia de dizer? murmurei eu com dolorosa
-ironia.</p>
-
-<p>—Tem rasão, tem, tornou elle sem reprimir as
-lagrimas. Esmague-me com o peso do seu odio,
-mas ouça-me: Educado severamente no seio d’uma
-familia de idéas acanhadas, cedo me costumei a esconder
-no mais recondito do peito os meus sentimentos,
-porque, se os manifestava, ia excitar tempestades,
-que me obrigavam a retratar-me de novo.
-Todos me dominavam; meus paes, e meus tios.
-Consideravam-me como uma creança, cujos maus
-instinctos deviam ser reprimidos, e as minhas aspirações
-para um mundo mais elevado eram castigadas
-como crime. Depois da morte de meus paes,
-minha tia, ainda que mais velha do que eu em poucos
-annos, continuou a exercer sobre mim um dominio
-indisputado. Só uma vez me rebellei: foi
-quando se tratou do meu casamento. O amor que
-me inspirara, foi mais poderoso do que o habito.
-Casei contra vontade d’ella. Vingou-se cruelmente.
-Preciso de lhe contar as insinuações, as calumnias,
-com que D. Antonia tentou semear a sizania entre
-nós ambos? Não, porque era repetir-lhe a dolorosa
-historia dos seus e dos meus tormentos. A timidez
-selvagem da minha indole impedia-me de
-provocar uma explicação, que podia pôr termo a este
-penoso estado. A desconfiança augmentava a minha
-reserva; a sua indifferença excitava-a ainda mais.
-Foi-se envenenando a ferida com as apparencias,<span class="pagenum" id="Page_211">[Pg 211]</span>
-cada vez mais illusorias. Suppuz que um outro amor
-lhe vendava os olhos, que não viam sob a minha
-frieza exterior o fogo da paixão. Transformou-se em
-realidade esta minha suspeita. Recresceu a minha
-dôr, e principalmente o meu desalento. Sentia-me
-culpado, não podia criminar a pomba, a quem estramalham
-o ninho, e que vôa tonta pelos ares e
-tonta vae poisar n’um ramo de arvore estranha.
-Mas apesar d’isso, uma sombria tristeza se apoderara
-de mim; torturava-me a duvida. «Serão culpados,
-pensava eu, ou resistem ao sentimento, que
-se lhes está apossando dos corações?» Ora pensava
-que o despeito e o desgosto a teriam levado a
-esse estado, ora acreditava que era esse um amor
-antigo que habilmente me disfarçara. Taes suspeitas
-alimentava-as minha tia, fazendo sobresair a indifferença
-evidente, com que me aceitara por marido.</p>
-
-<p>—E não suspeitava, tornei amargamente, que essa
-indifferença, não era mais do que a despreoccupação
-da creança, que ainda não sentiu o amor, e
-cuja alma immaculada é como livro branco, prompto
-a receber as primeiras estrophes, que lhe queiram
-traçar nas folhas! Sempre a supposição mais
-injuriosa!</p>
-
-<p>—Oh! perdôe-me, Margarida. Isso que me diz
-entreluziu-me vagamente, como clarão d’aurora por
-entre as sombras da noite. Pensei no encanto que
-teria para mim esse amor, que fosse brotando a
-pouco e pouco entre as doçuras da intimidade, cada
-vez mais estreita; mas as insinuações de D. Antonia<span class="pagenum" id="Page_212">[Pg 212]</span>
-mataram-me o devaneio, e na constrangida
-ligação que tivemos, não encontrei nunca animação
-para a empreza. Que funestas consequencias
-teve esse engano, em que ambos laboravamos! Os
-nossos dois corações, que talvez voassem um para
-o outro, assim se conservaram isolados, e hoje...</p>
-
-<p>Interrompeu-se tapando com as mãos o rosto
-inundado de lagrimas. Commoveu-me a dôr d’esse
-homem, que fôra a causa do meu infortunio, mas
-cuja falta era tão nobremente resgatada pela inexcedivel
-generosidade do seu procedimento.</p>
-
-<p>—Hoje é tarde, Claudio, disse-lhe eu tomando-lhe
-as mãos e apertando-lh’as brandamente; a ferida
-do meu coração é muito profunda, e receio que
-nunca cicatrise. Mas descance que o não hei de torturar
-com o espectaculo dos meus tormentos. Viu
-que tive força bastante para lhe salvar a honra, tel-a-hei
-para lhe não perturbar a tranquillidade. Não
-lhe prometto amor, que seria enganal-o, mas affecto
-d’irmã, esse já m’o conquistou. Bem sei que é
-estranho este modo de fallar d’uma mulher a seu
-marido, mas á sua franqueza com igual franqueza
-correspondo. Se o destino não consentiu que se formasse
-entre nós uma ligação mais doce, vinguemo-nos
-dos seus golpes unindo-nos em fraternal alliança.
-Juntos resistiremos melhor aos ataques da vibora,
-que nos envenenou a existencia, e o nosso sanctuario,
-onde habitarão a paz e a amisade, não será
-ao menos profanado pela intriga e pela calumnia.
-Acceita esta alliança?</p>
-
-<p>—Se acceito, Margarida! É esse o meu ideal<span class="pagenum" id="Page_213">[Pg 213]</span>
-agora, e não sou tão insano que faça voar mais alto
-a minha ambição. Está feito o mal, e se não tem remedio,
-tenha pelo menos allivio. Que balsamo mais
-doce podia eu desejar do que a sua amisade, e uma
-esperança... louca talvez, mas que lhe imploro que
-me deixe!</p>
-
-<p>Sorri-me tristemente, e não lhe respondi.</p>
-
-<p>—Oh! exclamou elle, dando mostras da mais
-violenta afflicção, o castigo é horrivel, mas é justo.
-Essa esperança bem vejo que é uma loucura; offendi-a
-cruelmente, e consenti que a offendessem. Deixei
-que lançasse profundas raizes essa planta, que
-hoje me rouba toda a sua vida, todo o seu coração.
-A lucta é impossivel com um rival, cujo prestigio a
-ausencia augmenta e eternisa. Essa estranha fidelidade
-a um amor impossivel é digna da sua alma,
-e, fazendo-me soffrer, inspira-me admiração! Agora
-é que eu avalio o thesouro, que perdi, e que perdi
-por minha culpa.</p>
-
-<p>—Claudio, meu amigo, dizia-lhe eu embaraçada
-e tentando acalmar a violencia da sua dor, não se
-afflija assim. É uma desgraça irremediavel, e...
-quem sabe, (se o meu amor tem tanto apreço aos
-seus olhos) quem sabe as mudanças, que o tempo
-pode produzir? Orgulhosa seria se me julgasse isenta
-de todas as fraquezas da humanidade! Talvez eu
-seja como tantas outras, talvez o que julgo eterno
-será passageiro.</p>
-
-<p>A custo proferia estas palavras que me saíam
-dos labios, não do coração. Eram uma impiedade,
-uma blasphemia, mas tambem eu não podia deixar<span class="pagenum" id="Page_214">[Pg 214]</span>
-soffrer um homem que já tanto soffrera por minha
-causa, e que eu via alli prostrado, desalentado, matando-lhe
-desapiedadamente a mais ligeira esperança,
-negando-lhe a mais innocente consolação.</p>
-
-<p>—Pois bem, disse-me elle erguendo a cabeça, só
-uma coisa lhe peço, e espero que m’a conceda: sei
-que possue uma flor secca, memoria querida d’esse
-amor que tão animosamente sacrificou. Bem sei
-que não tenho direito de lh’a pedir, mas prometta-me
-que, no dia em que sentir um affecto mais suave
-succeder á amisade que tão cordealmente me
-offerece, me ha de entregar essa flor. Quando eu a
-receber saberei que estão coroados os meus votos,
-realisados os meus sonhos. Promette fazer o que
-lhe peço?</p>
-
-<p>—Prometto, respondi, estendendo-lhe a mão; mas,
-meu pobre amigo, parece-me que a pobre flor se
-ha de desfolhar sobre o meu tumulo.</p>
-
-<p>—Sobre os nossos tumulos, diga antes. Depois
-de ter alimentado esta esperança, o dia em que ella
-se desvanecer será o da minha morte.</p>
-
-<p>Emmudeci. Elle cingiu-me, para assim dizer, com
-um longo, terno e doloroso olhar, e depois, sacudindo
-a cabeça, como para expulsar os pensamentos
-que na mente lhe referviam, tirou o relogio da
-algibeira, e viu ao luar as horas.</p>
-
-<p>—Duas! disse elle. Se me não engano, vamos ter
-novidade. Pelo que deduzi de algumas palavras soltas,
-que minha tia e a condessa trocaram esta noite,
-do facto de terem a condessa e D. Carolina voltado
-em segredo depois de haverem saido ostensivamente,<span class="pagenum" id="Page_215">[Pg 215]</span>
-e de vagas ameaças que minha tia me fez,
-quando me deu o ultimo aviso, no caso de eu não
-cumprir o grande desejo d’ella, pareceu-me que essas
-dignissimas pessoas conceberam o projecto de
-apparecerem de subito no jardim, para produzirem
-um escandalo, que tornasse inevitavel a nossa separação.
-E effectivamente, continuou pondo o ouvido
-á escuta, creio que ouço passos abafados como
-de quem toma precauções para que o não sintam.</p>
-
-<p>Apurei tambem o ouvido, e percebi com effeito,
-vagos rumores que mal se distinguiam do murmurio
-da brisa; mas, affastando levemente a cortina de
-buxo, vi scintillarem nas ruas do jardim frouxos
-clarões, como lanternas de furtafogo.</p>
-
-<p>—Dê-me o braço, disse-me meu marido, em voz
-baixa.</p>
-
-<p>Encostei-me ao braço d’elle, e ambos nos dirigimos
-vagarosamente para uma das extremidades da
-rua, como se andassemos saboreando placidamente
-a frescura da noite.</p>
-
-<p>Tinhamos dado apenas alguns passos, quando
-subito, e, como se fosse a um signal convencionado,
-appareceram luzes por todas as bandas, e os vultos
-de D. Antonia, de D. Carolina, da condessa e de
-Maria do Rozario surgiram magestosamente, trazendo
-cada um d’esses quatro personagens um candieiro
-ou um castiçal na mão.</p>
-
-<p>As luzes, que tinham resguardado por baixo das
-capas ou dos chales, inundaram de fulgor a rua escassamente
-allumiada pelo luar, e, batendo em cheio
-na estatua, cingiram-na com esplendido manto.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_216">[Pg 216]</span></p>
-
-<p>Um passarinho, adormecido na espessura, despertou
-saudando esta ficticia aurora. Eu e Claudio
-parámos tranquillamente relanceando os olhos com
-espanto comico para os quatro actores, que tinham
-entrado em scena, e que nos miravam estupefactos.</p>
-
-<p>—O que é isto? perguntou Claudio desfechando
-uma sonora gargalhada. Temos scena final de melodrama?
-Abre-se a porta do fundo, e apparece o
-tyranno, rodeado de soldados e de luzes?</p>
-
-<p>—Caso de grande monta deve ser, acudi eu logo,
-porque vejo aqui a senhora condessa e a senhora
-D. Carolina, que a estas horas julgava que
-dormiam muito socegadas nas suas camas!</p>
-
-<p>Ellas não diziam palavra, mas voltavam os olhos
-pasmados, ora umas para outras, ora para nós. Era
-tão comico o seu desapontamento que eu desatei
-a rir.</p>
-
-<p>A D. Antonia parece que trazia o discurso estudado,
-porque não o quiz perder de todo, e ainda
-principiou:</p>
-
-<p>—Minha sobrinha... aqui... a estas horas...</p>
-
-<p>—A passear comigo, acudio Claudio, então que
-tem? A tia parece-me somnambula!</p>
-
-<p>—E estão sós? exclamou levianamente a condessa.</p>
-
-<p>—Pois com quem haviamos de estar? continuou
-elle. Vossa excellencia esperava aqui alguem, ou alguem
-lhe prometteu vir aqui esperal-a? Nada, estamos
-sós, e devemos confessar que não contavamos
-ser surprehendidos. Andavamo-nos deliciando<span class="pagenum" id="Page_217">[Pg 217]</span>
-com as frescas emanações de uma noite de estio.
-N’estas noites foge-nos o somno das palpebras, e
-reconhece-se a verdade do que diz um poeta francez:</p>
-
-<p class="poetry">
-<i>On ne dort qu’ à demi d’un sommeil transparent</i><br>
-</p>
-
-<p>D’esta vez todas nós olhámos estupefactas para
-Claudio; nunca o tinhamos visto tão expansivo. Parecia
-que o jubilo, innundando-lhe o coração, lhe
-trasbordava em torrentes de palavras. O meu amor
-proprio não podia deixar de ser affagado um pouco
-pela idéa de que só uma levissima esperança pudera
-transformar o caracter de meu marido.</p>
-
-<p>Comtudo a posição estava sendo ridicula para os
-quatro conspiradores. Era preciso sairem d’ella a
-todo o custo. Encarregou-se de preparar uma retirada
-airosa a fertil imaginação de Carolina. Improvisou
-uma historia de ladrões, que as tinham assustado
-ao irem para suas casas, motivo por que tinham
-voltado para traz: explicou a sua visita ao
-jardim pelo desejo de lhe explorarem os meandros
-a fim de se certificarem que não havia homens escondidos
-n’algum canto.</p>
-
-<p>Ouvi esta historia com um sorriso nos labios,
-Claudio com ironica attenção, interrompendo-a a
-cada passo com exclamações de zombeteiro espanto.</p>
-
-<p>Quando ella acabou, não pude deixar de dizer,
-sorrindo:</p>
-
-<p>—São poetas os bandidos! Escolhem noites de<span class="pagenum" id="Page_218">[Pg 218]</span>
-luar, claras e transparentes, para fazerem as suas
-excursões! Estou que, antes de nos roubarem, não
-haviam deixar de nos dar uma serenata.</p>
-
-<p>—É possivel, respondeu ella amargamente, em
-todo o caso não seria eu quem a ouvisse.</p>
-
-<p>—Com muita pena sua, não é verdade, senhora
-D. Carolina?</p>
-
-<p>Não me respondeu. Entretanto travara-se um dialogo
-em voz baixa entre Claudio e D. Antonia. Só
-pude perceber as ultimas palavras:</p>
-
-<p>—Has de sempre ser um tolo, Claudio, dizia-lhe
-ella.</p>
-
-<p>—Favores, tia, favores seus. Mas olhe que estou
-sendo agora tolo... e teimoso!</p>
-
-<p>D. Antonia ergueu ao céu os olhos lacrymosos,
-e preparou-se para ter um ataque de nervos. Mas
-lembrou-se que estava o chão do jardim humido
-com o orvalho que principiava a cair, e houve por
-bem adial-o para outra occasião.</p>
-
-<p>Todas quatro se retiraram para casa, justificando
-um proverbio portuguez muito conhecido, que diz
-respeito aos tosquiadores de lã.</p>
-
-<p>Nós seguimol-as de longe, com passos vagarosos,
-indo eu encostada ao braço de meu marido. A lua
-brilhava serena e limpida no firmamento azul, e a
-aragem, meneando a copa do pecegueiro e as corollas
-das rosas, colhia perfumes, que pagava com
-murmurios.</p>
-
-<hr class="tb">
-
-<p>Passado um mez, partiamos, eu e meu marido,<span class="pagenum" id="Page_219">[Pg 219]</span>
-para uma viagem na Europa. Era este o unico meio
-de nos esquivarmos ás iras de D. Antonia, e de fugirmos
-ás pungentes recordações que despertava no
-nosso espirito cada sitio onde tinhamos passado
-uma existencia attribulada.</p>
-
-<p>A imagem pensativa de Alberto não me deixou
-um instante só, durante os dois primeiros annos da
-nossa excursão. Visitou comigo Pompeia, a resurgida
-cidade; Napoles, a voluptuosa; Palermo, a
-afortunada; a historica Roma; a artistica Florença;
-a aristocratica Genova; a melancholica Veneza; Milão,
-berço da moderna poesia italiana; Turin, berço
-da liberdade. Saimos da Italia, e percorremos a
-Allemanha. Ahi a imagem de Alberto interpoz-se
-menos vezes a mim e ás paizagens grandiosas, aos
-castellos gothicos e ás floridas cathedraes do Rheno.
-Muitas vezes, meu marido, quando a conversação
-entre nós ambos se tornava mais expansiva, me
-perguntava o que era feito da flor secca. Mas eu
-descorava, apertava-lhe a mão e ficava silenciosa.
-Salteava-o então dolorosa melancholia, e estava longas
-horas sem proferir palavra.</p>
-
-<p>Comtudo haviamos percorrido juntos a Allemanha
-toda, e passavamos a França, quando em Colonia
-nos vimos forçados a parar por minha causa. Ahi
-dei uma filha a Claudio. Não posso pintar o seu jubilo!
-Eu sentia-me tão feliz por ser mãe, contemplava
-tão enlevada os olhos azues e as faces mimosas
-da minha filhinha, que, vendo Claudio debruçado
-sobre o berço com o mesmo enlevo, cheguei a
-pensar que o amor antigo desapparecera afinal, e<span class="pagenum" id="Page_220">[Pg 220]</span>
-que essa creança fôra o anjo, enviado por Deus para
-enlaçar os nossos dois corações, lacerados por tantos
-martyrios.</p>
-
-<p>Por isso uma noite, em que ambos miravamos a
-creança, deitada no berço, e que olhava para nós
-com os seus grandes olhos pasmados e vagos, e levantava
-para mim as suas mãosinhas brancas como
-brancos lyrios, pareceu-me ouvir a voz de Deus,
-que me ordenava que completasse o sacrificio, principiado
-havia tres annos.</p>
-
-<p>Tirei a flor secca do peito, e deixei-a cair no berço
-da nossa filha. Claudio soltou um grito de jubilo,
-caiu-me aos pés banhado em lagrimas. N’esse
-instante fui verdadeiramente feliz.</p>
-
-<p>Ai! devo confessal-o? passou rapido esse momento.
-Assomou-me de novo na phantasia o vulto
-de Alberto, chamado pelos remorsos que sentia, de
-ter trahido o juramento que lhe fizera. E depois,
-meu marido tinha um coração excellente... mas
-aquelle nobre typo de Alberto possuia um inexcedivel
-prestigio.</p>
-
-<p>Voltámos a Portugal. Tornámos a ver a nossa
-casa da Cruz das Almas, e a nossa quinta de Bellas.
-Em todos esses sitios me esperavam milhares
-de recordações, emboscadas nas ramarias das arvores,
-aninhadas no teclado do piano!</p>
-
-<p>Indaguei por intermedio de Theodoro Leite a
-quem meu marido, antes de se ausentar, assegurara
-uma posição independente, o que fôra feito de Alberto.
-Soube que partira para as possessões de
-Africa occidental, com um emprego na administração.<span class="pagenum" id="Page_221">[Pg 221]</span>
-Póde-se isto considerar um verdadeiro suicidio.
-Resistirá a sua organisação tão delicada áquelle
-mortifero clima?</p>
-
-<p>Redobrou com estas noticias a minha tristesa, tristesa
-que me vae matando, pela necessidade que tenho
-de a disfarçar. A minha consolação unica é minha
-filha. Vejo crescer aquella formosa flor confiada
-aos meus disvellos, e peço a Deus que a preserve
-dos ventos frios, e das geadas que me mataram o
-viço.</p>
-
-<p>Ás vezes quando vejo passar D. Antonia com os
-mesmos modos pretenciosos, o mesmo olhar onde
-transparece a mesma ironia parva, fuzila-me nos
-olhos um sentimento de odio. Não, mil vezes não:
-nunca teria pensado em Alberto, se não fosse a
-teima de D. Antonia em me attribuir maus pensamentos.</p>
-
-<p>Felizmente agora já me não póde fazer mal. A
-intimidade affectuosa que existe entre mim e meu
-marido é solido broquel, onde se partem todas as
-settas, que ella nos dirige. Mas que importa que se
-esmague a serpente com o pé, se ella já pôde morder,
-e entornar a peçonha na ferida? A victima vae
-definhando a pouco e pouco, até cair prostrada no
-regaço consolador do anjo da morte.</p>
-
-
-<p class="center p4">FIM</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="Colleccao_ANTONIO_MARIA_PEREIRA">Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA</h2>
-</div>
-<hr class="r5">
-
-<p class="center big">VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS</p>
-
-<p class="center small">DAS</p>
-
-<p class="center">LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS</p>
-<hr class="r5">
-<p class="center">Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc.</p>
-<hr class="r5">
-<p class="center">Volumes in-8.º de 160 a 240 paginas, em corpo 8 ou 10,
-excellente edição, em optimo papel,
-elegantemente encadernado em percalina.</p>
-<hr class="r5">
-
-<p class="center">Volumes publicados</p>
-
-<p class="poetry">
-1—Tristezas á beira-mar, por Pinheiro Chagas.<br>
-2—Contos ao luar, por Julio Cesar Machado.<br>
-3—Carmen, trad. de M. Level.<br>
-4—A Feira de Paris, por Iriel.<br>
-5—O direito dos filhos, por George Ohnet.<br>
-6—John Bull e a sua ilha, trad. de P. Chagas.<br>
-7—Esgotado.<br>
-8—A lenda da meia noite, por M. Pinheiro Chagas.<br>
-9—A joia do vice-rei, por P. Chagas.<br>
-10—Vinte annos de vida litteraria, por A. Pimentel.<br>
-11—Honra d’artista, trad. de P. Chagas.<br>
-12—Esgotado.<br>
-13 e 14—A aventura d’um polaco, trad. de Maria A. Vaz de Carvalho.<br>
-15—Os contos do Tio Joaquim, por R. Paganino.<br>
-16—Esgotado.<br>
-17—Noites de Cintra, por Alberto Pimentel.<br>
-18 e 19—Esgotado.<br>
-20 e 21—A irmã da caridade, por Emilio Castellar, trad. de L. Q. Chaves.<br>
-22—Migalhas de historia portugueza, por P. Chagas.<br>
-23—Esgotado.<br>
-24—Contos, por Affonso Botelho.<br>
-25—Esgotado.<br>
-26—O mysterio da estrada de Cintra, por Eça de Queiroz e R. Ortigão.<br>
-27—O naufragio de Vicente Sodré, por Pinheiro Chagas.<br>
-28—Vida airada, por Alfredo Mesquita.<br>
-29—O bacharel Ramires, por Candido de Figueiredo.<br>
-30 e 31—Amor á antiga, por Caïel.<br>
-32—As netas do Padre Eterno, por A. Pimentel.<br>
-33—Contos, por Pedro Ivo.<br>
-34—O correio de Lyão, por Pierre Zaccone.<br>
-35—Vida de Lisboa, por Alberto Pimentel.<br>
-36—Historias de frades, por Lino d’Assumpção.<br>
-37—Obras primas, por Chateaubriand.<br>
-38—O exilado, por Mauricia C. de Figueiredo.<br>
-39—Poema da Mocidade, por Pinheiro Chagas.<br>
-40 e 41—A vida em Lisboa, por Julio Cesar Machado.<br>
-42 e 43—Espelho de portuguêses, por Alberto Pimentel.<br>
-44—A fada d’Auteuil, trad. de Pinheiro Chagas.<br>
-45—A volta do Chiado, por E. de Barros Lobo.<br>
-46—Séca e Méca, por Lino d’Assumpção.<br>
-47—Ninho de guincho, por Alberto Pimentel.<br>
-48—Vasco, por A. Lobo d’Avila.<br>
-49—Leituras ao serão, por A. X. Rodrigues Cordeiro.<br>
-50—Luz coada por ferros, por D. Anna A. Placido.<br>
-51—A flôr sêcca, por P. Chagas.<br>
-52—Relampagos, por Armando Ribeiro.<br>
-53—Historias rusticas, por Virgilio Varzea.<br>
-54—Figuras humanas, por Alberto Pimentel.<br>
-55—Dolorosa, por Francisco Acebal, trad. de Caïel.<br>
-56—Memorias de um fura-vidas, por A. de Mesquita.<br>
-57—Dramas da côrte, por Alberto de Castro.<br>
-58—Os mosqueteiros d’Africa, por Mendes Leal.<br>
-59—A divorciada, por José Augusto Vieira.<br>
-60—Phototypias do Minho, por J. Augusto Vieira.<br>
-61—Insulares, por Moniz de Bettencourt.<br>
-62 e 63—Historia da civilisação na Europa, trad. do Marquez de Sousa Holstein.<br>
-64—Triplice alliança, de Raul de Azevedo.<br>
-65—Retalhos de verdade, por Caïel.<br>
-66—A pasta d’um jornalista, pelo Visconde de S. Boaventura.<br>
-67—Os argonautas, por Virgilio Varzea.<br>
-68—Fitas de animatographo, por Alberto Pimentel.<br>
-69 e 70—Poesias do Abbade de Jazente, annotadas por Julio de Castilho.<br>
-71—Aspectos e sensações, de Raul d’Azevedo.<br>
-72—Contos e narrativas, por P. W. de Brito Aranha.<br>
-73—Quadros e letras, historias e romancêtes, por Sanches de Frias.<br>
-74—Individualidades, por Henrique das Neves.<br>
-75—Alfacinhas, por Alfredo de Mesquita.<br>
-76—Patria amada, pelo Visconde de S. Boaventura.<br>
-77—Historias e romancêtes, por Sanches de Frias.<br>
-78—Esbocetos individuaes, por Henrique das Neves.<br>
-79—Recordações da mocidade, por Adolpho Loureiro.<br>
-80—Sorrisos, novellas e chronicas, por A. Campos.<br>
-81—Lucta de sentimentos, por Maria O’Neill.<br>
-82—Do Rocio ao Chiado, por P. de Vasconcellos.<br>
-83—A dança do destino, por Luthgarda de Caires.<br>
-84—Um drama de ciume, por Maria O’Neill.<br>
-85 e 86—Resumo da origem de todos os cultos, por C. F. Dupuis.<br>
-87—Vencido, romance por F. A. M. de Faria e Maia.<br>
-88—Elogio da loucura, critica de costumes, por Erasmo.<br>
-</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="OUTRAS_OBRAS">OUTRAS OBRAS</h2>
-</div>
-
-
-<h3>Azevedo (Domingos de)</h3>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>Diccionario (Grande) contemporaneo
-francez-portuguez e v. v.
-No prelo a 2.ª edição, muito
-correcta e extremamente augmentada,
-enc. 12$000 rs.</p>
-
-<p>Grammatica da lingua franceza,
-enc. 1$200 rs.</p>
-
-<p>Grammatica Nacional, para
-aprender portuguez sem mestre,
-enc. 2$000 rs.</p>
-
-<p>Lições praticas de conversação
-franceza, enc. 500 rs.</p>
-
-<p>Ollendorff aperfeiçoado para
-aprender francez sem mestre,
-(2 vol.), enc. 3$000 rs.</p>
-</div>
-
-
-<h3>Carvalho (D. Maria Amalia
-Vaz de)</h3>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>Ao correr do tempo, br. 750 rs.,
-enc. 1$150 rs.</p>
-
-<p>Arte de viver na sociedade, br.
-1$000 rs., enc. 1$800 rs.</p>
-
-<p>Aventura de um polaco, (2 vol.),
-br. 600 rs., enc. 1$000 rs.</p>
-
-<p>Cartas a uma noiva, br. 900 rs.,
-enc. 1$300 rs.</p>
-
-<p>Cerebros e corações, br. 750 rs.,
-enc. 1$150 rs.</p>
-
-<p>Chronicas de Valentina, br. 900
-rs., enc. 1$300 rs.</p>
-
-<p>Coisas d’agora, br. 750 rs., enc.
-1$150 rs.</p>
-
-<p>Contos e phantasias, br. 750 rs.,
-enc. 1$150 rs.</p>
-
-<p>Em Portugal e no estrangeiro,
-br. 1$000 rs., enc. 1$400 rs.</p>
-
-<p>Figuras de hoje e de hontem, br.
-750 rs., enc. 1$150 rs.</p>
-
-<p>Heroismo do clero, br. 750 rs.,
-enc. 1$150 rs.</p>
-
-<p>Impressões de historia, br. 750
-rs., enc. 1$150 rs.</p>
-
-<p>No meu cantinho, br. 750 rs., enc.
-1$150 rs.</p>
-
-<p>Nossas filhas, br. 750 rs., enc.
-1$150 rs.</p>
-
-<p>Pelo mundo fóra, br. 650 rs.,
-enc. 1$050 rs.</p>
-
-<p>Raphael, trad. de Lamartine,
-(ed. de luxo), enc. 3$600 rs.</p>
-</div>
-
-
-<h3>Pinto (Silva)</h3>
-
-<p class="center">(<span class="smcap">Collecção d’algibeira</span>)</p>
-
-<p class="center">A 650 rs. br. e 1$000 rs. enc.</p>
-<div class="blockquot">
-<p>
-A queimar cartuchos.</p><p>
-A torto e a direito.</p><p>
-Ao correr do pello.</p><p>
-Entre nós.</p><p>
-Frente a frente.</p><p>
-Moral de João Braz.</p><p>
-Mundo (O) furta-côres.</p><p>
-Na Procella.</p><p>
-Na travessia.</p><p>
-N’este valle de lagrimas.</p><p>
-No colyseu.</p><p>
-No mar morto.</p><p>
-Para o fim.</p><p>
-Philosophia de João Braz.</p><p>
-Por este mundo.</p><p>
-Riso amarello.</p><p>
-Rompendo o fogo.</p><p>
-Velha historia.</p>
-</div>
-
-<h3>Queiroz (Dr. Teixeira de)</h3>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>Amores... amores..., br. 750 rs.,
-enc. 1$150 rs.</p>
-
-<p>Arvoredos, br. 1$000 rs., enc.
-1$300 rs.</p>
-
-<p>Cantadeira (A), br. 750 rs., enc.
-1$150 rs.</p>
-
-<p>Caridade (A) em Lisboa, (2 vol.),
-br. 1$200 rs., enc. 2$000 rs.</p>
-
-<p>Cartas d’amor, br. 750 rs., enc.
-1$150 rs.</p>
-
-<p>D. Agostinho, br. 750 rs., enc.
-1$150 rs.</p>
-
-<p>Morte de D. Agostinho, br. 750
-rs., enc. 1$150 rs.</p>
-
-<p>Noivos (Os), (2 vol.), br. 1$200
-rs., enc. 2$000 rs.</p>
-
-<p>Nossa (A) gente, br. 650 rs., enc.
-1$050 rs.</p>
-
-<p>Sallustio Nogueira, (2 vol.), br.
-1$200 rs., enc. 2$000 rs.</p>
-
-<p>Amor Divino, br. 750 rs., enc.
-1$150 rs.</p>
-
-<p>Famoso Galrão, br. 750 rs., enc.
-1$150 rs.</p>
-
-<p>Ao sol e á chuva, br. 750 rs.,
-enc. 1$150 rs.</p>
-</div>
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-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A FLOR SECCA</span> ***</div>
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-Defect you cause.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg&#8482;&#8217;s
-goals and ensuring that the Project Gutenberg&#8482; collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg&#8482; and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state&#8217;s laws.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
-public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state
-visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Please check the Project Gutenberg web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg&#8482; eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This website includes information about Project Gutenberg&#8482;,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-</div>
-
-</div>
-</div>
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