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If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: A flor secca - -Author: Manuel Pinheiro Chagas - -Release Date: November 14, 2022 [eBook #69353] - -Language: Portuguese - -Produced by: The Online Distributed Proofreading Team at - https://www.pgdp.net (This file was produced from images - generously made available by The Internet Archive) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A FLOR SECCA *** - - - - - - OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO - -Edição popular das suas principaes obras em 80 volumes in-8.º, de 200 a - 300 paginas impressa em bom papel, typo elzevir - - [Illustração] - - - 1--Coisas espantosas. - 2--As tres irmans. - 3--A engeitada. - 4--Doze casamentos felizes. - 5--O esqueleto. - 6--O bem e o mal. - 7--o senhor do Paço de Ninães. - 8--Anathema. - 9--A mulher fatal. - 10--Cavar em ruinas. - 11 e 12--Correspondencia epistolar. - 13--Divindade de Jesus. - 14--A doida do Candal. - 15--Duas horas de leitura. - 16--Fanny. - 17, 18 e 19--Novellas do Minho. - 20 e 21--Horas de paz. - 22--Agulha em palheiro. - 23--O olho de vidro. - 24--Annos de prosa. - 25--Os brilhantes do brasileiro. - 26--A bruxa do Monte-Cordova. - 27--Carlota Angela. - 28--Quatro horas innocentes. - 29--As virtudes antigas. - 30--A filha do Doutor Negro. - 31--Estrellas propicias. - 32--A filha do regicida. - 33 e 34--O demonio do ouro. - 35--O regicida. - 36--A filha do arcediago. - 37--A neta do arcediago. - 38--Delictos da mocidade. - 39--Onde está a felicidade? - 40--Um homem de brios. - 41--Memorias de Guilherme do Amaral. - 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa. - 45 e 46--Livro negro de padre Diniz. - 47 e 48--O judeu. - 49--Duas épocas da vida. - 50--Estrellas funestas. - 51--Lagrimas abençoadas. - 52--Lucta de gigantes. - 53 e 54--Memorias do carcere. - 55--Mysterios de Fafe. - 56--Coração, cabeça e estomago. - 57--O que fazem mulheres. - 58--O retrato de Ricardina. - 59--O sangue. - 60--O santo da montanha. - 61--Vingança. - 62--Vinte horas de liteira. - 63--A queda d’um anjo. - 64--Scenas da Foz. - 65--Scenas contemporaneas. - 66--O romance d’um rapaz pobre. - 67--Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado. - 68--Noites de Lamego. - 69--Scenas innocentes da comedia humana. - 70 e 71--Os Martyres. - 72--Um livro. - 73--A Sereia. - 74--Esboços de apreciações litterarias. - 75--Cousas leves e pesadas. - 76--THEATRO: I--Agostinho de - Ceuta.--O marquez de - Torres-Novas. - 77--THEATRO: II--Poesia ou dinheiro?--Justiça.--Espinhos - e flôres.--Purgatorio - e Paraizo. - 78--THEATRO: III--O Morgado - de Fafe em Lisboa.--O - Morgado de Fafe amoroso.--O - ultimo acto.--Abençoadas - lagrimas! - 79--THEATRO: IV--O condemnado.--Como - os anjos se - vingam.--Entre a flauta e - a viola. - 80--THEATRO: V--O Lobis-Homem.--A - Morgadinha de Val-d’Amores. - - - - - CAMILLIANA - - -=Camillo Castello Branco=--_Notas á margem em varios livros da sua -biblioteca_, recolhidas por Alvaro Neves.--1 vol. br. 600 rs.; enc. -1$000. - -=Camillo Castello Branco=--_Tipos e episodios da sua galeria_, por -Sergio de Castro.--3 vols., contendo inumeras transcrições da obra de -Camillo, br. 1$800 rs.; enc. 2$800 rs. - -=Poesias dispersas de Camillo Castello Branco=--1 vol. de 247 pag. em -papel de linho nacional. Tiragem 48 ex., br. 6$000 rs. - -=Hosanna!= Por Camillo Castello Branco. Fiel reprodução zincografica da -1.ª edição de 1852, hoje rarissima. Tiragem 60 ex., br. 2$500 rs. - -=Os pundonores desagravados=, por Camillo Castello Branco. Reprodução -como acima da 1.ª edição de 1845. Tambem rarissima. Tiragem 60 ex., br. -1$000. - -=Prefacio da 1.ª edição do Diccionario de Azevedo=, por Camillo -Castello Branco.--Fl. 1$000. - - - - - COLLECÇÃO ECONOMICA - - Volumes in-16.º de 240 a 320 paginas - - ROMANCES DOS MELHORES AUCTORES - - - VOLUMES PUBLICADOS - - 1--Aventuras prodigiosas de Tartarin de Tarascon, seguidas de Tartarin - nos Alpes, por A. Daudet. - - 2--Esgotado. - - 3--Sergio Panine, por Jorge Ohnet. - - 4--Esgotado. - - 5--Soror Philomena, por Edmond e J. Goncourt. - - 6--Esgotado. - - 7--Os milhões vergonhosos, por Heitor Malot. - - 8--Esgotado. - - 9--Esgotado. - - 10--Esgotado. - - 11--Esgotado. - - 12--Esgotado. - - 13--Um coração de mulher, por Paul Bourget. - - 14--Esgotado. - - 15--Esgotado. - - 16--Esgotado. - - 17--Esgotado. - - 18--O ultimo amor, por Ohnet. - - 19--Um bulgaro, por Ivan Tourgueneffe. - - 20--Memorias d’um suicida, por Maxime du Camp. - - 21--Esgotado. - - 22--Esgotado. - - 23--Camilla, por G. Ginisty. - - 24--Trahida, por Maxime Paz. - - 25--Sua Magestade o Amor, por A. Belot. - - 26--Esgotado. - - 27--Os reis no exilio, por A. Daudet. - - 28--Esgotado. - - 29--Mentiras, por Paul Bourget. - - 30--Marinheiro, por Pierre Loti. - - 31--Esgotado. - - 32--A Evangelista, por Daudet. - - 33--Aranha vermelha, por R. de Pent Jest. - - 34 e 35--Esgotado. - - 36--Parisienses!... por H. Davenel. - - 37--Ao entardecer!... por Iveling Rambaud. - - 38--A confissão de Carolina, trad. de J. Sarmento. - - 39--Esgotado. - - 40--Esgotado. - - 41--O abbade de Faviéres, por J. Ohnet. - - 42--Esgotado. - - 43--Esgotado. - - 44--A nihilista, por C. Mendés. - - 45--Esgotado. - - 46--Morta de amor, por Delpit. - - 47--João Sbogar, por C. Nadier. - - 48--Viagem sentimental, por Sterne. - - 49--O milhão do tio Raclot, por Emile Richebourg. - - 50--A confissão de um rapaz do seculo, por Musset. - - 51--Esgotado. - - 52--O castello de Lourps, por J. K. Huysmans. - - 53--Amor de Miss, por J. Blain. - - 54--A sogra, por Laforest. - - 55--Colomba, por P. Merimée. - - 56--Katia, por L. Tolstoï. - - 57--Alma simples, por Dostoiewsky. - - 58--Duplo amor, por Rosny. - - 59--Contos fantasticos, por Hoffmann. - - 60--A princeza Maria, por Lermontoff. - - 61--Rosa de maio, por Armand Silvestre. - - 62--Esgotado. - - 63--O romance do homem amarello, pelo general Tcheng-Ki-Tong. - - 64--A dama das violetas, por F. Guimarães Fonseca. - - 65 & 66--Nemrod & C.ª, por Jorge Ohnet. - - 67--Prisma de amor, por Paul Bonhomme. - - 68--Historia d’uma mulher, por Guy de Maupassant. - - 69 & 70--Educação sentimental, por G. Flaubert. - - 71--Depois do amor, por Ohnet. - - 72--A fava de Santo Ignacio, por Alexandre Pothey. - - 73 & 74--O herdeiro de Redclyffe, por Mrs. Yongue. - - 75--Uma ondina, por Theuriet. - - 76--A familia Laroche, por Marguerite Sevray. - - 77--As grandes lendas da humanidade, por d’Humive. - - 78 & 79--A filha do Dr. Jaufre, por Marcel Prevost. - - 80--A dama das camelias, por A. Dumas, Filho. - - 81--Dezeseis annos..., por F. C. Philips. - - 82 & 83--O Desthronado, por A. Ribeiro. - - 84--Ninho d’amor, por A. Campos. - - 85--Bodas Negras, por Almachio Diniz. - - 86--Do amor ao crime, por Alphonse Karr. - - 87--A ilha revoltada, por Ed. Lockroy. - - [Illustração] - - - - - COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA--51.º Volume - - A FLOR SECCA - - - - - COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA - - - A FLOR SECCA - - ROMANCE - - POR - - M. PINHEIRO CHAGAS - - - SEGUNDA EDIÇÃO - - - LISBOA - PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA - LIVRARIA-EDITORA - _Rua Augusta, 50, 52 e 54_ - 1904 - - - - - LISBOA - OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO - Movidas a vapor - DA - Parceria Antonio Maria Pereira - _Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º_ - 1904 - - - - - A JULIO CESAR MACHADO - - - - - MEU CARO JULIO - - -Aqui vem collocar-se debaixo da tua protecção um livro que te é -offerecido por aquelle timido rapaz, que te foi procurar ha tres -annos, para te ler uns versos, que tu acolheste tão benevolamente, e -a quem fizeste n’um dos teus deliciosos folhetins uns prognosticos -tão lisongeiros. Não sei se a tua prophecia está em caminho de se -realisar; sei que o teu protegido entrou na carreira litteraria, cujas -portas lhe abriste doirando-lh’as com a luz já então prestigiosa da -tua gloria, enflorando-lh’as com as grinaldas sempre viçosas do teu -talento; sei que seguiu essa estrella fatal, a cuja influencia não póde -eximir-se mais quem se deixou arrastar pelo seu magnetico fulgor; sei -que, desejando mostrar-te a sincera amizade que te votou, e a gratidão -que sente pelo benevolo acolhimento que outr’ora lhe fizeste, e pelas -provas de constante estima que lhe tens dado, vem dedicar-te um dos -pobres livros que é agora destino seu arrojar á voragem da publicidade. - -Acolhe-o bem. Elle pouco vale. Sei que te poderia e deveria talvez -offerecer flor mais fragrante do que esta pobre _Flor Secca_, secca e -sem perfume como a phantasia as produz emquanto a mão insaciavel do -jornalismo as arranca sem descançar da hastea. Mas grassa actualmente -na nossa litteratura uma tal epidemia de odiosinhos e invejas, de -cumprimentos feitos cara a cara compensados por insultos escondidos -na sombra, que tive pressa de te dizer bem alto deante de amigos e -inimigos que me ufano de prestar publicamente homenagem ao teu talento, -um dos mais sympathicos da nossa terra, e ao teu caracter, um dos mais -nobres e leaes que tenho encontrado na minha carreira litteraria. - - PINHEIRO CHAGAS. - - - - - I - - -Tinha eu dezoito annos. Estava uma noite n’um baile em casa do conde -de C... Acabara de valsar, e, toda offegante, vermelha e risonha, -sentara-me na primeira cadeira que se me deparara, compondo o cabello, -que se desarranjara no rapido voltear, quando meu pae se approximou de -mim, acompanhado por um rapaz de vinte e cinco para vinte e seis annos. - ---Margarida, disse-me elle, estendendo a mão para o seu companheiro, -que se curvou gravemente deante de mim, tenho a honra de te apresentar -o senhor Claudio da Cunha, proprietario e meu amigo. - -Claudio da Cunha fez-me de novo um grave cumprimento. - ---Senhor Claudio da Cunha, continuou meu pae, voltando-se para elle, e -indicando-me com o gesto, apresento-lhe minha filha, D. Margarida da -Silveira. - -Estendi-lhe com desembaraço a mão encerrada na luva de pellica branca, -e disse-lhe: - ---Estimo immenso conhecel-o; os amigos de meu pae teem sempre direito á -minha affeição. - ---Travem n’esse caso conhecimento mais intimo, acudiu meu pae, -sorrindo-se mysteriosamente e affastando-se. - -Havia ao meu lado uma cadeira vaga. O meu novo conhecido desviou-a um -pouco, porque estava perfeitamente unida á minha cadeira, e sentou-se -n’ella. - -Emquanto fazia tudo isto grave e pausadamente, relanceei os olhos para -elle, e com esta rapidez de observação, que Deus concedeu ás pessoas do -nosso sexo, pude n’esse instante formar tão perfeita idéa d’elle como -se o houvera comtemplado e analysado duas horas. - -Claudio era, o que se póde chamar, um bonito homem. Alto, branco, de -feições extremamente regulares, de olhos rasgados e azues, mas de um -azul frio e sem expressão. Não tinham nem o brilho vivo e intenso -d’esses olhos de um azul faiscante, se assim me posso exprimir, cuja -côr parece o azulado reflexo que scintilla na plumagem negra do corvo, -nem a meiga e melancholica limpidez do colorido dos lagos, que espelham -no seu cristal o azul do firmamento. Tinha os olhos azues, porque as -leis da optica exigem implacavelmente que os olhos tenham uma côr -qualquer, e o acaso fizera que o azul competisse aos de Claudio da -Cunha. Se fosse possivel dispensar-se condição por tal fórma essencial, -estou convencida que aproveitariam com avidez essa isenção, e ficariam -sem côr, como já estavam sem brilho. - -Haviamos apenas trocado algumas banalidades preliminares, quando -romperam na orchestra os primeiros compassos de uma polka ingleza. A -tal convite nunca eu soubera resistir. - -Olhei para Claudio, indicando-lhe claramente n’esse olhar que esperava -que me tirasse para seu par na polka. - -O meu visinho não mostrou comprehender a intenção, que se lia nos meus -olhos. - ---Não dança? aventurei-me eu a dizer, vendo a sua immobilidade. - ---Não, minha senhora, respondeu elle gravemente. - -Encolhi imperceptivelmente os hombros; uma creatura humana, e de mais -a mais na flor da idade, que não dançava, era para mim uma d’estas -monstruosidades incomprehensiveis, que a Providencia ás vezes phantasia -n’uma das suas horas de mau humor. - -Por isso acolhi com jubilo um dos mais infatigaveis dançadores do -baile, que veiu, com o sorriso nos labios, e com o rosto ainda humido -do suor da valsa, convidar-me para uma polka ingleza. - -Levantei-me, puz-lhe logo a mão no hombro, esperei, batendo o compasso -com o meu sapatinho de setim, que a musica nos désse occasião para nos -arrojarmos ao vortice delicioso, e, leve como um passarinho, segura -na cinta pela mão do meu par, comecei a descrever á roda da sala um -d’esses airosos giros que tanto me enlevavam. - -Confesso que nunca mais pensei em Claudio da Cunha. Ás contradanças -succederam as polkas, ás polkas as valsas, e, toda entregue a -tão fervente prazer, esqueci essa especie de visão da prosa, que -interrompera por instantes a delirante poesia do meu baile. - -O que não impediu que, ás tres horas da manhã, depois da mamã me ter -feito signal que se retirava, quando, ao estarmos pondo as capas, veio -Claudio da Cunha pedir as nossas ordens, e sollicitar licença para ir -no dia seguinte a nossa casa apresentar-nos os seus cumprimentos, o que -não impediu, repito, que o recebesse com um sorriso muito amavel, e lhe -apertasse francamente a mão, que elle me estendeu com a sua habitual -gravidade. - ---Que tal te pareceu Claudio da Cunha? perguntou minha mãe sorrindo-se, -quando íamos descendo as escadas do palacio. - ---Pareceu-me bem, respondi eu, porque? - ---É o noivo que te destinâmos, tornou minha mãe, inclinando-se um pouco -para o meu ouvido. - ---Ah! redargui eu distraidamente. - -Foi assim, entre uma polka e uma valsa, que travei conhecimento com meu -marido. - - - - - II - - -Esse _Ah_ indifferente, com que eu acolhi uma noticia tão importante, -merece e vae ter uma explicação. - -Chegára aos dezoito annos, e ainda não conhecera o amor, nem procurara -conhecel-o. Frieza de organisação? perguntam-me. Pelo contrario, -demasiado ardor. - -Imaginem uma creança, cuja phantasia devaneava sempre sonhos de ouro, -terras encantadas das _Mil e uma noites_, choréas de brancas fadas, -vultos ideaes e vaporosos, ignotas melodias, ineffaveis extasis, anjos -de azas candidas, romances impossiveis, poemas maravilhosos. Imaginem -essa creança, educada, rigida, severa, prosaicamente, por um pae, que -franzia o sobr’olho sempre que me via disposta a soltar as rédeas á -imaginação, por uma mãe, que me fazia sentar junto de si, e me dizia: -«Filha, é preciso resignares-te a abandonar essas idéas romanticas, se -quizeres viver tranquilla e feliz. O mundo não é como tu o vês atravez -do prisma da tua infantil imaginação. Os sonhos da phantasia, filha, -são como as andorinhas: só vivem bem entre os effluvios de uma eterna -primavera. A tua idade é a doce primavera da existencia; por ora, podes -acariciar, e reter com roseos laços as andorinhas gentis, que se te -aninharam no coração, todo perfumado de innocencia. Mas é preciso que -te vás costumando a deixal-as partir. Querias entrar com ellas no frio -inverno da sociedade tal como ella é, e não tal como tu a suppões? -Não; bem vês que morreriam geladas, e nem tu sabes o soffrimento que -te causaria então a sua morte. Deixa-as voar, deixa-as ir procurar -outro ninho, tão doce e tão quente como o suave ninho do teu coração -de creança, e tu, filha, prepara-te para affrontares serenamente as -tristezas e amarguras da realidade!» - -Estes conselhos, constantemente repetidos, dados por essa voz, que -eu respeitava, produziram em mim um effeito extravagante. Sceptica -e enthusiastica a um tempo, acreditava firmemente que a poesia -fugira do mundo como a Themis do paganismo, e fôra refugiar-se no -ceu, aonde os meus sonhos a iam procurar, e d’onde voltavam com as -azas impregnadas nas balsamicas fragrancias, que rescendia a casta -divindade. Considerava o mundo real como um inferno de prosa, onde -me via obrigada a viver, sem comtudo poder abstrahir d’essas visões -poeticas e dulcissimas, cujo desapparecimento me tornaria insupportavel -a existencia. - -Transigi então. Agradara-me a figura, de que minha mãe se servira para -me rogar que não entrasse na vida real com idéas romanescas. Jurei que -não exporia as minhas pobres andorinhas a serem mortas pelos gelos da -realidade; mas jurei tambem que lhes havia de conservar n’um canto do -coração, sanctuario bem mysterioso e bem recatado, a eterna primavera -que lhes era indispensavel. Depois de ter affrontado impavida e forte -a prosa da realidade, iria refugiar-me, com prazer e enthusiasmo, no -meu tabernaculo santo, nas minhas Charmettes encantadoras, onde podia -banhar á vontade a minha alma, sequiosa d’esses gosos, no limpido e -sereno lago da poesia, na pura e transparente atmosphera do ideal: -atmosphera onde voejavam as andorinhas gentis dos meus devaneios, lago -onde vogavam os candidos cysnes dos meus sonhos; e assim, repartindo -a minha vida entre as obrigações enfadonhas da sociedade, e as -enthusiasticas devoções do meu templosinho secreto, julgava poder -atravessar a existencia, serena e immaculada, suspensa entre ceu e -terra, como o caixão de Mahomet. - -Com estas disposições é facil de imaginar que me havia de seduzir a -arte, e que estava predestinada a consagrar-lhe um amor ferventissimo. -A arte era a chave de oiro do meu palacio de fadas, o «Abre-te, Sesame» -da caverna d’Ali-Baba, onde estavam encerrados os thesoiros da minha -imaginação. A arte era o manto de Mephistopheles, sobre o qual eu podia -viajar livremente pelas queridas regiões da phantasia. Seduziu-me -essa gentil feiticeira, que me podia transportar n’um vôo para longe -do mundo que me cercava, e interpôr a mim e á sociedade a cortina -magica, por detraz da qual começava para o meu espirito a região dos -encantamentos, dos extasis e das delicias. A melodia, que os meus dedos -despertavam nas teclas de um piano, era como o fumo odorifero de que -se rodeia o turco, ao entregar-se ás perigosas delicias do hatchich. -Por isso eu adorava a musica, e tinha um verdadeiro amor ao meu piano. -Devorava-o com os olhos, quando me via obrigada a fechal-o ou para -receber visitas, ou para obedecer ás ordens de meus paes. Se era o -cofre das minhas riquesas, o corpo que encerrava uma alma irmã da -minha, que só despertava ao evocal-a eu, e que eu bem sabia que ficava -adormecida quando alguem ousava pôr mãos profanadoras nas teclas do -instrumento! - -Quando eu tocava, todos me applaudiam com frenesi; gabavam o meu -talento, a assiduidade do meu estudo, e diziam que, se quizesse -apparecer em publico, offuscaria as glorias dos mais celebres -pianistas. Eu nem lhes ouvia os applausos. Enlevada nas mysteriosas -conversações com a fadasinha do piano, tudo o mais me era indifferente. -Que me importava tocar deante de duas pessoas, ou deante de duas mil? -Entre mim e ellas caía sempre a bemfadada cortina, e o meu espirito, -enlaçado com o espirito da melodia, franqueava as portas d’oiro do -mundo do ideal. - -Por isso tambem adorava a dança, e a valsa principalmente. Apenas -rompiam na orchestra os primeiros compassos da vertiginosa musica, -ahi voava nos braços do meu par, louca, inebriada por esse filtro -ignoto, que distillam as flores, as luzes, as melodias do baile. -Os meus pés mal tocavam no chão; como que a pouco e pouco sentia -emplumarem-se-me os hombros com as azas niveas dos anjos ou das fadas; -via n’essa atmosphera, saturada de férvidas emanações, voejarem as -minhas andorinhas, que me chamavam para a sua região encantada, e tudo -esquecia: o salão, o meu par, a gente que me cercava, para me arrojar -para o mundo dos devaneios, para entrar no casto gyneceu das minhas -formosas visões. - -Com estas idéas, como podia eu procurar o amor? Pensava muito n’elle, -é verdade, mas nem por sombras me lembrava de o buscar na vida real. -O amor, e a realidade eram para mim duas palavras completamente -incompativeis. Quem se lembra de pedir nectar n’um banquete dos homens? -Que mahometano encommenda a um negociante d’escravas que lhe traga uma -huri da Circassia? - -Julgaria até uma profanação collocar um idolo n’esse altar erguido -na minha alma, como altar atheniense, ao _deus desconhecido_. Os -suavissimos aromas, que essa palavra rescendia, não havia flôr da terra -que os exhalasse. - -Mas estas idéas, que eu alimentava, nunca pensára em revelal-as. Não -se esqueçam os leitores da minha dupla existencia: uma toda sujeita ás -leis sociaes, e não tentando por forma alguma rebellar-se contra ellas, -outra completamente fóra do mundo da realidade; existencias diversas, -com as fronteiras escrupulosamente traçadas, e que nunca se invadiam -mutuamente. - -Portanto, o casamento era para mim uma d’essas leis, a que eu estava -prompta a obedecer, comtanto que me ficasse plena liberdade de me -esquivar para a região das andorinhas; liberdade inalienavel como -facilmente se imagina. Não pedindo ao casamento o amor, qualquer marido -me era indifferente. Bastava-me a amizade, porque ouvira dizer a minha -mãe, que no matrimonio é indispensavel esse sentimento. - -Claudio da Cunha não me inspirava repugnancia; por conseguinte estava -perfeitamente disposta a obedecer ás ordens de meus paes. Ouvi a -noticia e não pensei mais em tal. Casar-me tinha para mim tanta -importancia como pagar ou receber uma visita; cumpria uma lei imposta -pela sociedade. Tal noticia merecia mais do que o _Ah_ distrahido com -que eu a acolhera? - - - - - III - - -Confessemos que seria difficil a descripção da nossa vida nos tres -ou quatro mezes que precederam o meu casamento com Claudio da Cunha. -Póde excitar interesse a mulher, que nem caminha para o altar como -victima sacrificada, nem como noiva feliz de ver coroados pelo hymeneu -os votos formados pelo amor para adoptar a linguagem dos venturosos -tempos da Arcadia? Póde chamar a attenção um noivo cortez, vestido -irreprehensivelmente, frio, grave, que vem apresentar-me os seus -cumprimentos sempre á mesma hora sem differença de um minuto, que me -ouve tocar piano, mostrando-se attento quanto baste para satisfazer as -conveniencias, que me applaude depois com as suas mãos enluvadas, de -modo que não faça estalar nem uma costura das luvas preciosas, que em -seguida elogia a minha habilidade e a perfeição do meu methodo, que -tudo isto repete todos os dias, sem alteração de uma syllaba, de um -gesto, de um segundo? - -Comtudo eu não tinha razão de queixa. Claudio era o marido, que -convinha a quem executava fria e indifferentemente um dever, contraindo -os laços do matrimonio. Galanteador, incommodar-me-hia de certo: menos -delicado e exacto, offenderia não a mim, que não repararia em tal, mas -a meus paes. - -D’este modo tudo caminhava ás mil maravilhas. O papá extasiava-se -perante o comedimento, e as maneiras polidas de Claudio; a mamã folgava -de ver o escrupuloso aceio e esmero do seu trajar, o cuidado que tomava -sempre em evitar uma nodoa que lhe maculasse o lustre irreprehensivel -da casaca e do chapeu; eu dava-me perfeitamente com o seu, raras vezes -interrompido, silencio, porque me deixava divagar á vontade e escutar -desafogadamente o chilrear das «minhas andorinhas». - -Chegou emfim o dia do casamento. Foi esse para mim um dia de verdadeiro -jubilo, e de extasi sem igual. Porque? perguntam-me. Transformou-se o -caracter de Claudio, e algum vulcão, fervendo longo espaço de tempo -por baixo dos gelos exteriores, irrompeu e incendiou tambem com as -subitas chammas esse coração tão despresador da vida real, e que se -dizia d’amianto para as prosaicas labaredas do mundo terreno? Folgou -por acaso de se ver senhora, e de se transformar a doce grinalda da -virgindade no diadema de rainha, esplendido mas pungente, que cinge -a fronte das esposas? Não, nada de tudo isso. O motivo do meu jubilo -era apenas o poder cingir o meu veu branco, e a corôa de flores de -larangeira, emblemas nupciaes. - -Oh! como eu contemplei mil vezes ao espelho os graciosos adornos, que -tanto me enlevavam, como deixei cair em torno de mim as graciosas -pregas do meu veu de gase! Como me revi na grinalda de brancas flôres, -que me poisava elegantemente na cabeça, dando um vivo realce aos meus -cabellos castanhos claros! Como olvidei, sósinha, no meu toucador, o -mundo presente, a realidade semsabor, os padrinhos de casaca preta, -os parabens dos convidados, a cerimonia nupcial! Não era Margarida -da Silveira que alli estava mirando-se vaidosamente n’um espelho de -moldura doirada; era a fada Margarita contemplando a sua imagem no -cristal da sua fonte! Rompia a manhã, a fresca manhã de S. João; as -pobres alcachofras queimadas esperavam que o bento orvalho reverdecesse -a corolla crestada, as bilhas d’agua esperavam o encantamento, os ovos -suspensos nos copos esperavam a metamorphose. - -A brisa matinal fluctuava em torno a mim, infunando-me ao de leve -as prégas do meu veu. A luz nascente mal fazia desabrochar rosas -desmaiadas no horisonte. - -Eu erguia-me e o meu debil pésinho, ainda mais leve do que na valsa, -corria sobre a relva sem a fazer vergar sequer! o meu passo mysterioso -fazia brotar rosas e lyrios no seu tapete de veludo! Agitava na mão a -varinha branca, a varinha das feiticeiras! Tocava na triste alcachofra -carbonisada, e, por entre o negrume das suas pobres folhinhas, renascia -a rôxa pétala que ía encher de contentamento um coração virginal! -Soprava nos fios tenues do ovo suspenso n’agua, e os fios, como se os -tecesse mão mysteriosa, bordavam por si mesmos um matiz delicioso! «Oh! -fada Margarita! dizia eu para o meu espelho, como és linda e como és -boa!» - -Depois, não era já a fada, mas sim a muito alta e muito poderosa -senhora D. Margarida, filha do castellão, rico-homem de pendão e -caldeira, senhor de baraço e cutello! Caminhava a furto para a -entrevista aprazada! o coração arfava-me deliciosamente! Eis-me chegada -emfim junto da cruz da ermida, onde me espera o gentil cavalleiro, que -vae para a Palestina! Os loiros cabellos fluctuam-lhe sobre a couraça -brunida; poisa-lhe ao lado o elmo, com as plumas azues ondeantes a -capricho da viração! Troca-se um adeus sentido, derramam-se lagrimas, -fazem-se promessas de amor eterno! Então, desprendo o veu branco, e -dou-lh’o como penhor do meu affecto! Será a protectora charpa do meu -noivo, o talisman que o ha de resguardar dos alfanges dos infieis! Elle -beija mil vezes o candido veu, monta o corcel, que o espera impaciente, -e parte. Sigo-o com os olhos arrasados d’agua até o perder de vista, -e... - -E abre-se a porta e apparece meu pae de luva branca, bota de polimento, -e casaca preta, e atraz d’elle, mas timidamente, como quem receia ser -indiscreto, Claudio da Cunha, de casaca preta, bota de polimento, e -luva branca! - -Adeus! Adeus! Andorinhas gentis! - -Como sempre, baixei, sem protestar, ás regiões da realidade. Acolhi -com um beijo meu pae, com um sorriso o meu noivo, que me pedia mil -desculpas, por ter ousado chegar á porta do meu santuario, mas que fôra -arrastado pelo seu querido sogro, etc.; e, depois de ter acceitado e -dado todas as desculpas, desci para me metter na carruagem, que me -devia conduzir á igreja. - -D’ahi a duas horas, era eu a legitima esposa de Claudio da Cunha, e -tomava posse da casa de meu marido, situada na Cruz das Almas. - -Franqueara estas columnas de Hercules da vida das senhoras, passara do -brando e azul Mediterraneo das solteiras para o verde e tempestuoso -Oceano do matrimonio, e confesso que não sentia o minimo frémito agitar -as brancas velas do baixel do meu destino. - -Se eu tencionava sentar-me, como até ahi, na proa da nau, e -indifferente aos furacões que me rugissem em torno, ás vagas irritadas -que fervessem e se empinassem contra mim, fitar os olhos no cantinho do -ceu azul, onde havia de continuar a brilhar, estava d’isso convencida, -a formosa e radiante constellação dos meus devaneios! - - - - - IV - - -Compunha-se de duas pessoas a minha nova familia: meu marido e uma -tia d’elle, mais velha apenas doze ou quatorze annos, e caminhando -rapidamente, mas com desespero, para o Maelstrom dos quarenta, que -sorve implacavelmente as ultimas esperanças matrimoniaes. - -Vou tentar descrever em rapido bosquejo os companheiros da -peregrinação, que eu ia principiar. - -Claudio da Cunha era um homem de um caracter indeciso e fraco, temendo -duas coisas, e respeitando uma. As que temia eram o ridiculo e a lucta, -a que respeitava era sua tia. - -O ridiculo combatia-o com as frias e graves exterioridades que eu já -fiz notar; á lucta, esquivava-se sempre a todo o custo, obedecia a sua -tia escrupulosamente, mordendo constrangido o freio, mas não ousando -sacudil-o. - -Sua tia D. Antonia possuia um coração, talvez outr’ora bom, mas que se -fôra enchendo de fel, fel que trasbordava sempre na sua conversação -constantemente aggressiva. Seria perigosa manejando a arma do -epigramma, se o seu espirito, descultivado e estreito, lhe permittisse -açacalar as frechas que despedia ao acaso, que feriam ao de leve, mas -que se tornavam incommodas pela quantidade. Então o adversario, que -ella escolhera, devolvia-lhe uma ou outra com mais certeira mão, e o -golpe, que lhe calava bem fundo na alma, fazia-a ter ataques de nervos, -que chamavam logo a sollicitude do sobrinho, o qual vinha escutar com -ouvido attento os seus queixumes ridiculos, e enxugar com mão piedosa -as lagrimas de despeito. - -A sua vaidade era tanto mais insupportavel quanto mais procurava -disfarçar-se. Quando fallava em geral, dizia sempre com louvavel -modestia que era feia, que os meus encantos a offuscavam completamente, -que não aspirava sequer a rivalisar comigo; mas o terreno, que -perdia na generalidade, ia-o sempre recuperando passo a passo nas -particularidades. Quando tinha a minha idade haviam de lhe ficar -larguissimas as minhas botinhas, e agora mesmo, se não quizesse andar a -seu gosto, e se não estivesse já curada d’essas vaidades, estava certa -que lhe haviam de servir maravilhosamente. «Uma coisa que eu sempre -tive foi o pé muito pequeno, concluia ella. Fulano dizia...» E vinha -logo um madrigal, que, pela fórma _moyen-âge_, revelava um adorador dos -bons tempos dos _trovadores_ das _Ellas_, revelação que restabelecia a -verdadeira data da sua certidão de baptismo. - -Não podia comprehender, dizia ella, como eu me apertava tanto sem temer -as consequencias funestas d’essa imprudencia. Por mais que lhe jurasse -e lhe mostrasse que não succedia semelhante coisa, continuava sempre -protestando que estava fazendo uma loucura, que ella nunca andara -assim, o que não impedia que tivesse tido uma cinturinha de sylphide, -que duas mãos unidas podiam facilmente abranger. - -Todos estes ridiculos eram medianamente supportaveis, e de certo nem os -citaria, se não fossem parte essencial de um caracter sêcco, vaidoso -e azedado pelas decepções que a sua vaidade soffrera no campo das -salas. Pouco depois do meu casamento, essas raivas secretas, esses -furores devorados em silencio começaram a traduzir-se na attitude -hostil que tomou para comigo, attitude acobertada por um manto -d’amizade protectora. Usava, dizia ella, do seu privilegio de _velha_, -e carregava intencionalmente no termo, para me dar conselhos, e para -me preservar dos perigos, em que o meu estouvamento juvenil me poderia -fazer cair. Com este admiravel pretexto, houve por bem arvorar-se em -censora constante das minhas acções. - -Se eu por acaso mostrava uma ou outra vez o meu enfado, então -lançava-me um olhar ferino, e dizia, adoçando o som de voz tanto -quanto aguçava os raios das pupillas: «Ai! infelizmente, ninguem gosta -de ouvir as verdades,» como se n’aquella mente acanhada e cheia de -pequeninos sentimentos se abrigasse a resposta ao eterno problema, que -a esphinge dos seculos tem proposto á humanidade, e cuja resolução só -Pilatos ouviu da bôca de Jesus. - -Então passava eu a estar na berlinda, perseguida pela voz melliflua, -e pelos epigrammas embotados de D. Antonia. Á mesa do jantar, onde -todos tres nos reuniamos, choviam sobre mim as allusões ás senhoras que -preferem o piano ao governo da sua casa, ás senhoras casadas que dançam -nos bailes, quando seus maridos não dançam, á corrupção do seculo, -aos maus costumes que importamos de França, á leitura perniciosa dos -romances, tudo isto precedido do inevitavel «Hoje em dia...» _ultima -ratio_ da sua argumentação. Escuso de dizer que as gerações anteriores -á que presenceou a invasão de Junot sumiam-se para ella nas brumas -legendarias da idade de oiro. - -Que havia eu de fazer contra aquella guerra pequenina e intoleravel? A -friesa, que existia entre mim e meu marido, fazia com que o não pudesse -contar como defensor. Bem via que os toscos epigrammas de D. Antonia o -incommodavam tambem, e o irritavam; mas o seu desejo de manter a paz -domestica, a obediencia tradicional que votara a sua tia, obrigavam-no -a conservar-se silencioso em presença da audaz iniciativa da minha -adversaria. - -Demais, eu achava tão mesquinha, tão indigna de mim esta guerra -de palavras, esta escaramuça miseravel, estava tão fóra dos meus -habitos este pelejar quotidiano, que nem sabia, nem podia, nem queria -defender-me. Calada, immovel, fitando olhos espantados, ora em D. -Antonia, ora em meu marido, uma só coisa me fazia scismar, era haver -gente que se occupasse em tão miseraveis coisas, que expuzesse -theorias tão insipidamente banaes, e o ser eu escolhida para victima -expiatoria de crimes que nem sequer chegava a perceber. - -Contra estas amarguras da vida real não me prevenira eu. Julgava-me -invulneravel, e, como o Achilles da _Iliada_, tinha o calcanhar -accessivel a tiros tão rasteiros! Esta queda espantava-me mais do que -outra qualquer. Previra todas as desillusões, todas as torturas da -realidade, vinha prompta para luctar com as serpentes do odio, com as -viboras da calumnia, e por fim de contas succumbia ferida pelo ferrão -d’essa formiga negra e imperceptivel, que se chama mexirico! - -Todas as consolações me faltavam. As minhas andorinhas tinham fugido -para não mais voltarem! Se eu não as podia chamar, atordoada, como -sempre estava, pelas recriminações disfarçadas, pelos epigrammas -adocicados, pelos discursos sem fim da minha implacavel inimiga! Se -lhe não respondia, ia queixar-se brandamente a meu marido, dizendo -que a desprezava do alto do meu orgulho, e insinuando arteiramente -que preferia a conversação dos homens. Se lhe respondia irritada e -fatigada, vinham os espasmos e os ataques nervosos. Se me refugiava -no meu quarto sósinha com o meu piano, ahi vinha ella, allegando que -gostava muito de musica, e perguntando se os seus ouvidos eram indignos -de me escutarem. Então a minha occupação predilecta transformava-se em -tortura insupportavel. Esmagava freneticamente as teclas, as minhas -boas e antigas amigas, todas espantadas do inesperado tratamento. - -Se ás doces horas do crepusculo ia sósinha sentar-me junto da minha -janella, e contemplar o melancolico horisonte dos campos, para me -engolphar no mundo da phantasia, tinha-a a meu lado d’ahi a instantes, -dizendo, que tambem ella possuia um genio muito triste, e que, no -tempo em que tivera um namoro, gostava muito de estar áquellas horas -a pensar n’elle. Depois accrescentava invariavelmente que julgava que -as senhoras casadas eram inacessiveis a essas tristezas e que junto -de seu marido é que deviam estar, em vez de se entregarem sósinhas a -pensamentos talvez perigosos. - -Aquella mulher tinha um genio de inquisidor. - -Se acreditasse na metempsychose, diria que o espirito de Torquemada -fôra, atravessando os seculos, aninhar-se finalmente no coração de D. -Antonia da Cunha. - -Ah! e quando uma solteirona, de quarenta para cincoenta annos, vinha -visital-a, e trazer-lhe o auxilio da sua indole mordaz, e da sua -hypocrisia beata, então é que se entoava um _duetto_, que desbancava -a aria de D. Basilio. Como se entendiam bem a meias palavras! Que -plangentes queixumes não soltava D. Antonia, indicando-me com o olhar -á sua boa amiga D. Simôa dos Anjos, emquanto ambas trabalhavam n’um -enxoval para creanças pobres, trabalho santo, que fôra apregoado em -todos os tons na freguezia e nas parochias visinhas! Que olhares de -compaixão, com que a outra lhe respondia! Que theorias de implacavel -austeridade! Que lamentações! Que moções d’ordem d’uma, acolhidas pelos -apoiados da outra! E quando passavam das generalidades á especialidade, -ah! como as agulhas cosiam e as linguas descosiam! Com que delicioso -tempero de reputações esfaqueadas se apimentava a obra caritativa do -enxoval! Que signaes de piedosa compuncção! Que devotos sarcasmos -se não cuspiam sobre as peccadoras, fulminadas por aquelle augusto -areopago! E a que horrenda verrina me não expunha, quando, cançada, -enojada de tão peçonhenta hypocrisia, exprimia a indignação que já não -podia conter. - ---Quem defende gente assim, expõe-se ás mesmas accusações, dizia uma -das Lucrecias, principiando com a mão direita, sem a esquerda o saber, -uma costura caridosa. - ---Ah! tornava a outra debruando os coeiros da sua beneficencia, essas -é que são felizes! Os homens não querem outra coisa, e, para vergonha -nossa, até no nosso sexo acham advogadas! - -Eu levantava-me com impeto e saía; mas aquellas duas vozes resoavam -sempre ao meu ouvido, e não deixavam que eu tomasse gosto em nenhuma -das minhas outr’ora tão queridas occupações. - - - - - V - - -Assim passei a primavera, o estio e o outono do meu primeiro anno de -casada. Claudio envolvera-se na politica, mais para se distrair do -seu _spleen_ incuravel, do que por gosto ou ambição. Principiara eu a -perceber que a frieza apparente de meu marido provinha de uma educação -acanhada, como o espirito de sua tia, que lhe infligia o respeito das -leis d’aquelle mundo mesquinho, em que ella tanto folgava de viver, e -dos constantes obstaculos, que se tinham opposto ao desenvolvimento -livre e desaffogado do seu espirito. Mostrava-se affectuoso para -comigo, mas affectuoso sem expansão. Aquella mulher interpunha-se -constantemente a nós ambos. Se uma ou outra vez, n’algum dia em que -o sol da primavera despertava dentro em mim os passarinhos mudos, e -aviventava as flôres desbotadas da minha phantasia tentava desabafar -e elevar-me ás regiões serenas, onde desejara viver; se Claudio, -arrastado pelo contagio do meu enthusiasmo, principiava a entrar nas -minhas idéas, vinha logo sua tia, soltando altos gritos, e dizendo -que essas farofias de romance e de musica é que perdiam metade da -humanidade feminina. Claudio retraia-se, e eu ficava de novo sósinha -e desarmada em face d’aquelle demonio do lar, que empolgava o hyssope -furtado n’alguma igreja, e me aspergia de agua benta para me livrar da -influencia diabolica da arte, e dos artistas. - -Chegou o inverno, o inverno, outr’ora para mim a estação querida -dos bailes, de que tambem agora me via privada. Pois como podia eu -apparecer nas salas com aquelle _chaperon_ sempre a meu lado, que me -expunha ás vezes a scenas desagradaveis com as suas phrases acres, -cuja insolencia a muito custo se disfarçava? Depois, as scenas que -se passavam na volta para casa! As insinuações sobre a corrupção dos -homens que procuram de preferencia as senhoras casadas, e sobre a -corrupção das senhoras casadas, que acceitam os rendimentos d’esses -monstros de luvas brancas, e que levam a impudencia a ponto de polkarem -e de valsarem com homens, que visivelmente as preferem ás tias de -quarenta annos! - -Estas insinuações calavam mais ou menos no animo de meu marido, e, -apezar de elle se retirar sempre que principiavam os discursos de D. -Antonia, via-se pela inquietação, que mostrava, que o veneno produzia o -seu effeito. - -Cançada já, abatida por esta lucta ingloria, resolvi encerrar-me em -casa, e abandonar completamente a sociedade. Novos gritos! novas -reclamações! Claramente se via que o meu desejo era prival-a de todos -os divertimentos, etc.; mas resisti intrepidamente, e, apezar dos -clamores, mantive a minha resolução. - -Uma vez tinhamos nós acabado de jantar quasi ao anoitecer. Comtudo, não -se haviam ainda accendido as luzes. O ceu estava nebuloso, e uma chuva -fina começava a bater nas vidraças. Meu marido ficara á mesa tomando -café, D. Antonia baloiçava-se na cadeira, ruminando algum dito azedo. -Eu fôra-me sentar junto da janella, e contemplava os arabescos que a -chuva desenhava nos vidros com as gotinhas que deslisavam lentamente ao -longo da limpida superficie. Embuçara-me n’uma capa, e toda conchegada -no meu cantinho, saboreava aquelle momento de socego, tão raro na minha -vida mesquinhamente agitada. - -Os arabescos da chuva despertavam em mim a um tempo deliciosos e -tristes pensamentos, lembravam-me os sonhos, que eu phantasiaria -um anno antes com essas singelas perolas do pranto das nuvens, e -lastimava com amargura o desprezo que votara á realidade, que se -vingava cruelmente de mim. Percebi então que não bastam os sonhos -para constituirem a ventura, e que o espirito, que se alimenta só com -esses devaneios, acha-se sem forças para combater os mais despreziveis -inimigos. Isolara-me no meu orgulho, e via agora quanto precisava ter -um coração que pulsasse junto com o meu, e quão robusta me sentira, se -o amor me envolvesse na sua tunica luminosa! O amor! - -E, não sei porque, duas lagrimas desprenderam-se-me dos olhos, e -deslisaram-me vagarosamente pelas faces. - -N’este momento tocaram a campainha com força. Olhámos uns para os -outros, como que perguntando quem se affoitaria a affrontar a chuva, -que principiava a cair em torrentes, para vir fazer-nos uma visita. - -N’isto abriu-se a porta e appareceu no limiar um vulto de homem. - ---Claudio! _amice!_ onde estás tu? Vem dar-me um abraço... metaphorico, -porque, se t’o dou na realidade, encharco-te. - ---Alberto! exclamou meu marido levantando-se e correndo para elle de -braços abertos. - ---Sim, eu mesmo, meu velho condiscipulo. Desembarquei hoje. Saí de -Napoles n’um dia de chuva, que ameaçava muito sériamente apagar o -Vesuvio. Não quiz assistir a tamanho desastre, e fugi. A unidade -italiana está matando o _lazzarone_, a chuva mais dia menos dia dá cabo -do Vesuvio, e uma companhia de accionistas inglezes improvisa um vulcão -artificial, com meia duzia de chaminés de Birmingham, transportadas -a bordo de um _steamer_. Fiz a viagem sem apanhar chuva; chego ao -Terreiro do Paço, zás, uma pancada d’agua a ensopar-nos a mim e ás -venerandas bochechas do marquez de Pombal, que se sorria ironicamente -com ar de quem dizia: «Não me quizeram acreditar!» No tempo do grande -marquez não chovia, meu amigo. - ---Alberto, deixa-me... - ---Não chovia não, digo-t’o eu. Quem inventou a chuva foram os inglezes, -só para darem extracção ás galochas de borracha, e aos casacos de -Mackintosh. Ah! o marquez de Pombal bem o sabia, por isso elle nos fez -guerra. Pois que cuidas tu! Sebastião José de Carvalho e Mello foi o -defensor da serenidade metereologica do paiz das larangeiras, e da -inviolabilidade do nosso ceu azul. Curva-te perante o grande homem, -Claudio! - ---Consente, Alberto, que... - ---Foram os inglezes, repito. Em Napoles era desconhecida a chuva, antes -de lord Nelson entrar n’aquella maravilhosa bahia. A chuva portugueza -devemol-a ao Beresford... - -N’este momento entrou um criado com luz. - -Alberto interrompeu-se ao divisar-nos a mim e a D. Antonia. - ---Oh!... senhoras... e tu não me dizias coisa alguma, e deixavas-me -palrar como um idiota que sou... - ---Mas, meu amigo, tornou Claudio rindo, desde que entraste ainda não -fiz senão querer-te apresentar minha mulher, e tu a fallares em Nelson -e no marquez de Pombal... Margarida, continuou elle, dirigindo-se a -mim, tenho a honra de te apresentar o meu bom amigo Alberto Mascarenhas -Corte-Real, que chega, como acabas de ouvir, de uma viagem da Italia. - ---É uma dupla recommendação valiosa, disse eu sorrindo e -comprimentando-o amavelmente; amigo de meu marido e viajante -recemchegado da terra dos prodigios, como não ha de ser recebido -cordial e curiosamente? - -Alberto balbuciou algumas palavras, que eu não percebi, mostrando-se -visivelmente enleiado, talvez por causa da sua palradora entrada, e -voltando-se logo para D. Antonia, apertou-lhe a mão, dizendo-lhe: - ---Ah! é, v. ex.ª! Desculpe, minha senhora, o não a ter reconhecido. Mas -ha de confessar que na escuridão era difficil... - ---Ora, das _velhas_ nunca os senhores fazem caso. - ---Ah! tornou Alberto rindo, já pediu a sua reforma? Pois olhe, -parece-me que a neve, que lhe vejo alvejar nos cabellos, é a neve -perfumada da laranjeira. Vamos, seja sincera. Quando é o casamento? - ---Nunca! Se eu chegava a esta idade sem me casar, para commetter agora -uma loucura d’essas. Os homens... - ---São uns monstros, bem sei. Ainda se não emendaram? E eu que fui á -Italia de proposito para pedir ao Papa a canonisação em massa de todo o -sexo masculino! Mas, segundo vejo, os maganões são incorrigiveis. - ---Olhe, sr. Corte-Real, hoje em dia bem tolo é quem se casa. Os homens -são estouvados, e as senhoras seguem-lhe o exemplo. É moda que veiu -agora de França. - ---Veiu? Ah! e eu que me esqueci de ver os figurinos! - ---Vamos para a sala, Alberto, interrompeu meu marido, que via a -conversação tomar o caminho costumado. Lá podes-te enxugar melhor. - -Levantámo-nos e fomos para a sala. - -Estava o fogão acceso, e o lume derramava no aposento um suave calor. O -guarda luz do candieiro, concentrando o fulgor todo na mesa, á roda da -qual nos sentámos, deixava ficar na penumbra o resto do quarto. A chuva -batia nas vidraças, e o vento zunia com violencia, engolphando-se pelo -tubo do fogão. - ---Ah! disse Alberto, sentando-se n’uma cadeira á Voltaire, venham-me -agora fallar nos prazeres das viagens! Não conheço nada melhor do que -esta deliciosa sensação, que se apodera de nós, n’uma noite bem fria e -bem invernal, ao sentarmo-nos n’uma cadeira macia, junto do bom fogo, -entre duas ou tres pessoas que nos estimem, sentindo o vento sibilar, e -a chuva bater nos vidros. E pensar-se que a estas horas anda um barco -ao longe, no alto mar, affrontando a tempestade, que lhe descose as -pranchas, e lhe açoita a vela, em quanto o pescador, vendo as ondas -embravecidas a rugirem morte por todos os lados, vae scismando como -Victor Hugo, - - _Au vieux anneau de fer du quai plein de soleil!_ - ---Safa, que egoista! exclamou Claudio. - ---Egoista sim. Meu amigo, não ha prazer algum n’este mundo, em que não -entrem tres quartas partes de egoismo. É um prazer egoista? Bem sei: -já Lucrecio o disse antes de ti n’uns versos que não cito por duas -razões: a primeira porque são em latim... - ---E a segunda? perguntei eu. - ---Porque nunca li Lucrecio, minha senhora. - -Desatei a rir. - ---Mas, então, continuei, como é possivel que viajasse tanto, detestando -por essa fórma as viagens? - ---Detestar as viagens! eu, minha senhora! pelo contrario, adoro-as! - ---Mas, parece-me... - ---Perdão. Entendâmo-nos, minha senhora; este prazer, que eu estou -sentindo agora, tambem ás viagens o devo. É o contraste que lhe dá -este sabor tão agradavel e picante. Hontem, sósinho no convez do -paquete, via a solidão immensa dos mares, ouvia os melancholicos -lamentos das ondas, contemplava o ceu toldado, que se desenrolava sobre -a minha cabeça como plumbeo manto; hoje aperto a mão a um amigo de -infancia, tenho a ventura de estar conversando com senhoras amaveis e -espirituosas, sinto-me envolvido por uma atmosphera tepida, perfumada -das fragrancias da terra natal, e, recostando-me voluptuosamente -n’esta cadeira, vendo ali chispar um fogo delicioso na moldura do -fogão, mirando as figuras do guarda-luz do seu candieiro, esfrego as -mãos, como um egoista, e digo: «Como deve estar o mar a estas horas?» -Baloiço-me aqui indolentemente, e continuo: «Como os navios dançam -fóra da barra ao som d’essa valsa tocada pela orchestra das vagas, e -composta por esse Strauss maravilhoso, que se chama Deus!» Este prazer -sou aqui eu só quem o saboreia; digam-me lá se sentem o mesmo que sente -o viajante recem-chegado? - ---Não, acudiu meu marido, mas sinto eu, pelo menos, o prazer tambem -delicioso de tornar a ver um amigo ha dois annos ausente. - ---Meu bom Claudio! respondeu Alberto, pegando na mão de meu marido, e -apertando-lh’a com affecto. Mas, continuou, ainda ha outro prazer, que -eu não mencionava, e que não deixa de ser, comtudo, digno de citar-se. - ---Qual é? perguntou Claudio. - ---O de dizer mal das viagens! Fallar a gente a um amigo sedentario, -que nos tem inveja, e exclamar: «Oh! tu não comprehendes o quanto és -feliz! Não ha tortura maior do que a do Ashaverus da lenda! Percorrer -o mundo, só, vendo-se isolado no meio de uma sociedade differente da -nossa, passando por terras, onde ninguem nos espera, onde não deixamos -nem sequer uma saudade; e a mão da fatalidade a impellir-nos sempre, e -a voz do destino a dizer-nos: «Caminha». E assim atravessamos o mundo, -andorinhas sem ninho, poisando ora no cume inflammado do Vesuvio, ora -na austera cupula de S. Pedro, ora na torre pendida de Pisa, ora na -bronzea juba dos leões de Veneza! Ah! bem louco é quem deixa os lares -para procurar estas commoções de um instante, pagas por amarguras -infinitas.» E o amigo comtempla com certo respeito o homem que falla -com tanto despreso n’essas maravilhas, cujo magico panorama lhe povôa -os sonhos, lhe perturba a existencia. Oh! dizer mal das viagens, depois -de ter viajado muito, não ha prazer que se lhe compare, não acha, sr.ª -D. Antonia? - ---O que? - ---Dizer mal... que é um grande prazer. - ---Não se diz mal senão d’aquillo que merece as nossas censuras, por -exemplo... - ---Immensas coisas... Não me falle n’isso! O mundo vae cada vez peior. -O Anti-Christo não tarda. É pelo menos esse o parecer da sua caridosa -amiga, D. Simôa dos Anjos. É verdade, como está ella? - ---Olhe! essa é que se póde dizer uma santa. - ---Pois não! Santa Bazilia! é uma das santas mais veneradas pela igreja -contemporanea. - ---Bazilia!... - ---Sim, mulher de D. Bazilio. - ---Qual D. Bazilio? - ---Ora, qual D. Bazilio! um santo velhote, que floresceu alli pelos fins -do seculo passado, filho de um sujeito chamado Beaumarchais, e adoptado -depois por outro chamado Rossini! - ---Mas então esse homem, se vive, deve estar decrepito. - ---Como se engana, minha senhora! Está cada vez mais novo! Descobriu a -agua de Juvencio. - ---Alberto! interrompeu Claudio n’um tom meio offendido. - -Seguiu-se um instante de silencio. Eu sorria-me imperceptivelmente, -e saboreava, devo confessal-o, o prazer da vingança. Claudio estava -sombrio. Alberto fitára em mim os olhos por um instante, e caira depois -n’um melancholico scismar. D. Antonia percebera finalmente que tinha -sido _mystificada_, perdoem o gallicismo, e mordia os labios de raivosa. - ---Não nos contas algum incidente das tuas viagens? perguntou meu -marido, para dizer alguma coisa. - ---Que queres que te conte? respondeu Alberto, sacudindo a melancholia -que o envolvera. Imaginas por acaso que ainda existe o pittoresco? -Morreu, morreu de todo! Mataram-no os caminhos de ferro, e os inglezes -principalmente. Os _lazzaroni_ andam de chapeu alto, e o Vesuvio mais -dia menos dia arvora um guarda-chuva. Não se dá um passo em Pompeia, -que se não encontre um inglez passeando no vestibulo da casa de -Demetrio, ou entrando familiarmente no tribunal do edil Pansa. Queres -que te descreva uma Italia prosaica e semsabor, o Colyseu povoado de -casacas pretas, e no castello de Santo Angelo um capitão de zuavos -no sitio onde Benvenuto Cellini apontou, com a mão que fazia brotar -prodigios, a espingarda que dizimava as fileiras hespanholas? - ---Oh! acudi com certa exaltação, não seria eu quem desanimaria tão -facilmente! Nem os zuavos, nem os inglezes conseguiriam despoetisar a -minha Italia, o meu Lacio formoso, a minha Campania feliz. Derribaram -as pedras, sumiram o Mediterraneo, impuzeram silencio ás brisas, -desfloriram as larangeiras? Não! Pois bem; a minha phantasia se -encarregava de povoar essas ruinas solitarias, de evocar as gerações -extinctas, de traduzir a linguagem melodiosa da viração! Eu, se fosse -á Italia, havia de vel-a com os olhos d’alma, ainda mais do que com os -do corpo! Que me importava a prosa moderna, se me fosse dado passear -nas ruas de Pompeia? A mão dos homens levantou a mortalha em que o -Vesuvio a envolvera, a minha phantasia levantaria a mortalha com que a -cingiram os seculos! Doire o sol ainda o marmore branco dos palacios -de Genova, e a sua luz ha de illuminar para mim o mundo risonho da -cidade dos doges, ouvirei as musicas suaves que se espraiavam outr’ora -por sobre as ondas azues do Mediterraneo, a quem ensinavam essa -dulcissima melodia que ainda hoje enleva os ouvidos do viajante! Não a -olvidaram de certo os eccos da _strada Balbi_. Levem-me á Italia, e eu -atravessarei a peninsula sem ver nem zuavos, nem inglezes, percorrerei -á vontade ou a Italia pagã ou a Italia da Renascença, verei Raphael -pintando o maravilhoso retrato da sua Fornarina, debruçar-me-hei sobre -o hombro de Guido, quando o seu pincel esplendido fizer brotar da tela -as feições encantadoras da desgraçada Beatriz. A Italia tem habitantes? -Não sei, nem quero sabel-o; tem cardeaes, tem _bersaglieri_? não sei, -não sei. Sei apenas que tem os quadros de Raphael, as estatuas de -Miguel Angelo, as portas de Ghiberti, e os claustros de Bramante. Quero -engolphar-me n’esse pélago de maravilhas, quero percorrer esse mundo -mysterioso, encerrar-me n’essa Pompeia gigante, e depois quando voltar -á superficie do mundo actual, vire, pallida, mas trazendo na fronte, -não, como o mergulhador de Schiller, a sombra triste projectada pelos -invisiveis horrores do oceano, mas um reflexo d’esse immenso fulgor, -que ha de emanar das perolas e dos diamantes d’essa Golconda da arte! - ---Oh! tem mil vezes razão, tornou Alberto levantando-se com enthusiasmo, -cuida que não senti isso mesmo? Cuida que não tive muita vez essas -visões do passado? Por baixo do palimpsesto banal das modernas idades -sentia eu pullularem as letras de fogo do poema da velha Italia! Á -noite, principalmente, quando se extinguem os vãos ruidos mundanos, e a -meiga fada vem mais uma vez cingir a sua Italia querida, a voluptuosa -Aphrodita dos dois mares, na sua tunica bordada de estrellas, e -perfumada de ignotas fragrancias, então é que se escutam essas vozes -mysteriosas, que não são mais do que a vaga conversação das grandiosas -gerações, que desappareceram umas após outras da face d’aquella terra -abençoada! A mythologia antiga suppunha que eram os titães soterrados -quem abalava as montanhas ao revirarem-se no seu leito de chammas. Não -se enganava; prophetisava! Por baixo d’aquelle solo sagrado arquejam -as gerações de gigantes, que povoaram o velho Lacio dos Cesares e a -Roma dos Raphaeis! Á noite erguem-se todos esses brancos phantasmas -e passam, agitando as azas, na atmosphera transparente. Oh! quantas -vezes não tive eu d’essas visões extaticas, em Roma! Quantas vezes, -passeando, embarcado, por uma noite de luar, na suave bahia de Napoles, -não vi como que em sonhos perpassarem as galeras romanas, todas -illuminadas e deixando apoz si um sulco a um tempo fulgido e melodioso, -como se a ardentia se houvesse transformado em musica! E quando os meus -barqueiros deixavam cair indolentemente os remos na agua, que lhes -respondia com um vago suspiro harmonioso, como uma nota de Cimarosa -ou de Bellini, em quanto as estrellas deviam fulgir n’essas noites -delirantes das saturnaes em quanto a lua illuminava ao longe as casas -brancas de Ischia, de Procida, ou de Capri, eu sentia passar nos meus -cabellos a lasciva brisa de Baia, e via surgirem no horisonte esses -vultos candidos de mulheres, cujos nomes passaram atravez dos seculos -envoltos na purpura, que lhes atirou a realeza do genio, a Lesbia -de Catullo, a Cynthia de Propercio, a Corinna de Ovidio, a Lydia de -Horacio e a Delia de Tibullo. - -Alberto calou-se por um instante, e depois continuou: - ---Outra vez estava eu em Veneza; a minha gondola sulcava -silenciosamente o grande canal. A antiga cidade dos doges parecia -uma cidade morta, e a lua a lampada immensa, suspensa sobre esse -maravilhoso tumulo; nem um murmurio se exhalava do seio da formosa -captiva, apenas de vez em quando o sino da igreja de S. Marcos -soltava lugubremente a voz, como que para entoar o epicedio da -grandeza da republica; mas logo os brados gutturaes das sentinellas -austriacas vinham como que protestar contra o timido queixume do anjo -do campanario. As ondas do Adriatico gemiam brandamente, espantadas -de ouvirem aquella voz allemã quebrar o silencio da natureza -italiana. A pouco e pouco tinha cahido n’uma profunda melancholia, -e comparava involuntariamente a decadencia nobre de Veneza com o -misero esphacelamento da minha patria. Veneza é um gigante, que -desceu ao tumulo, envolto na sua armadura de marmore, e perante -aquella maravilhosa campa descobre-se o mundo com respeito: Portugal, -tambem gigante, mais gigante ainda, arrojou-se á valla commum, e as -nações desviam os olhos com tedio d’esse cadaver putrefacto, coberto -de vermes que o devoram. Subito, d’um d’esses palacios, que miram -nas aguas do canal as suas marmoreas escadarias, jorrou em ondas de -melodia a deliciosa serenata do _Marino Faliero_ de Donizetti. Como por -mysteriosa evocação, tudo se illuminou a meus olhos. Illuminaram-se -os palacios, povoaram-se os canaes de gondolas cheias de mascaras; os -fogos de Bengala tingiram de azul e côr de rosa as fachadas de marmore -branco. Avultou-me ao longe o _Bucentauro_, com o seu magestoso cortejo -de galeotas. Povoaram-se-me os caes de fidalgos venezianos, em cujo -trajar doirado e bordado scintillava a luz projectada pelos fachos. -Desappareceram os austriacos, e a Veneza antiga, a Veneza de Ticiano, a -Veneza do carnaval, surgiu-me de novo das ondas, como a borboleta da -chrysalida, como a Venus da espuma! - ---O que! ouviu em Veneza a serenata do _Marino Faliero_? acudi eu com -jubilo infantil. - -E, correndo ao piano, fiz brotar das teclas a maviosa melodia. - -Havia muito que as teclas me não respondiam tão suavemente. Aquella -doce musica, que suspira brandamente como a brisa nos roseiraes, vago -preludio do rouxinol, harmonia d’anjo, que parece expandir-se do carro -argenteo de Phebe ao rolar no firmamento azul, exhalou-se do teclado, -como um perfume do calice d’uma flor. Enlevada n’esse encantamento que -os meus dedos operavam, transportei-me brandamente ao seio d’uma noite -luminosa como essa em que fallava a letra da canção. Vi-me em Veneza, -reclinada n’uma gondola, cortando as aguas do canal. Involuntariamente -os meus dedos foram affrouxando, até que mal já pesavam nas teclas. O -canto quasi não se ouvia, e parecia apenas um suave murmurio, como o de -harpa eolia suspensa nas franças de pinheiral distante. - -Afinal a harmonia esmoreceu, e esvaiu-se de todo debaixo dos meus -dedos; deixei descair os braços no collo, e fiquei engolfada no meu -scismar. A chuva batia com mais furia nas vidraças, e o vento soprava -rijo, fazendo gemer os postigos. - -Mas eu não ouvia nem vento nem chuva. Esvaíra-se havia muito o ultimo -suspiro da tecla abandonada, e eu escutava ainda o prolongamento -d’essa nota melodiosa, como se ella se repercutisse n’uma atmosphera -de crystal. Por deante dos olhos passava-me lentamente, como em magico -panorama, a luminosa visão das cidades italianas: Veneza com as suas -gondolas, Genova com os seus palacios, Florença com as suas galerias, -Roma com as suas ruinas, Napoles com o seu golpho! E n’essa atmosphera -encantada, n’esse mar limpido e voluptuoso fluctuavam as minhas -andorinhas, vogavam os meus cysnes, doces devaneios que tinham fugido -havia muito com a aza branca magoada! - -Quando levantei a cabeça, estavam todos á roda de mim, D. Antonia -com um sorriso ironico, Claudio triste e inquieto, Alberto como que -entregue a um delicioso extasi. - ---Oh! mais! mais! disse elle pondo as mãos com ar supplicante; mais -alguns minutos d’esse goso infindo! Que mysteriosa intuição de artista -lhe revelou Veneza? É esse o bater da agua nos degraus das escadarias! -são esses os murmurios que fluctuam n’aquella atmosphera abrazadora! -são essas as melodias que deviam resoar n’essas noites ferventes, em -que o mundo inteiro, saindo das brumas da idade-media, não fazia senão -balbuciar, pela voz dos seus poetas, pelos marmoreos labios das suas -estatuas, a palavra «amor» que ia esculpir até nos rendilhados portaes, -nos voluptuosos columnelos dos templos da Divindade! amor sensual, -pagão, lascivo, se quizerem; mas amor immenso e vivificante como o que -os raios do sol entornam no seio da gleba italiana, como as ondas do -Mediterraneo descantam ás plagas sonoras da Ausonia e da Grecia! - ---Ah! tambem sente o mesmo? tornei eu infantilmente, acha tambem que a -musica tem o magico dom de evocar um mundo desconhecido? - ---Se tem! A musica abre-nos de par em par as portas do ideal! S. Pedro -foi destronisado. Os porteiros do céo são Bellini e Donizetti; a -_Lucia_ e a _Norma_ são as duas chaves do Paraizo. - ---E Meyerbeer? perguntei eu, rindo. - ---Oh! esse é o porteiro do inferno. - -Ia protestar, mas elle interrompeu-me, e continuou: - ---Descance, de um inferno onde o ranger dos dentes é harmonioso, e onde -os humanos, criminosos durante a vida terrestre, são condemnados a -darem eternamente o _dó_ do peito. Pois onde queria que eu collocasse -o author do _Roberto do Diabo_? No céo de certo que não. Meyerbeer é -o Satanaz da melodia, é o anjo caido; mas o anjo caido de Milton, e -não o diabo das lendas. Aquelle homem abre-nos um mundo mysterioso e -terrivel, d’onde refugimos com terror, mas para onde nos attrae depois -uma indisivel voluptuosidade. Toda a musica do _Roberto_ é a pavorosa -traducção em notas da apostrophe de Satanaz ao sol no poema do Homero -britannico. Mas d’esse cahos de harmonias tremendas brota ás vezes um -canto d’uma doçura infinita, como o do papel d’Alice, por exemplo. -São as recordações da patria celestial, são as tristezas do Archanjo -soberbo no meio do seu tenebroso exilio. E as notas isoladas da -abertura do _Propheta_! Que vaga melancholia, que tristeza sobrehumana! -Saudade tão profunda só a podem inspirar os campos das eternas -delicias, o Elysio resplandecente, a habitação dos anjos! - -N’este momento entrava o creado com a bandeja do chá. Fomos para a -mesa, e a conversação prolongou-se até á uma hora da manhã. A chuva -cessara, e a noite puzera-se fria mas serena. Alberto despediu-se, e -saiu. - - - - - VI - - -Quando Alberto saiu pareceu que me caia de chofre um peso no peito. -Imaginem Sisypho, a victima infeliz do inferno mythologico, podendo -ver de relance uma nesga dos Elysios, e, quando está enlevado n’esse -delicioso panorama, sentindo de subito rolar pela escarpa da montanha, -e desabar-lhe em cima o rochedo do supplicio! - -Tal era a minha situação. - -Tivera um momento de liberdade; o meu espirito, constrangido, -torturado, voara em extasi para a região luminosa dos meus sonhos, -engolphara-se nos seus fulgores, nadara em pleno ether, ouvira as -harmonias desconhecidas do vulgo; mas as trevas cerravam-se-me de novo, -e as grades da minha gaiola appareciam-me em toda a sua negra hediondez. - -Claudio, pouco depois de sair o seu amigo, pretextou achar-se fatigado, -e retirou-se. Ficámos sós, eu e D. Antonia. - -De bom grado me teria tambem retirado; mas o somno esquivava-se-me ás -palpebras, que em vão o chamavam. Tinha a cabeça cheia de melodias, -pulsava-me nas veias a febre da arte. Decididamente não podia dormir; -levantei-me e approximei-me da janella. - -O vento da meia noite dissipara as nuvens, e descobrira a lua; o céo -estava de uma limpidez magnifica, as poças da agua brilhavam como -diamantes enormes. Deu-me uma tentação de banhar a cabeça escandescente -n’essa athmosphera gelada, e abri a janella. - ---Que capricho tão romanesco, minha sobrinha, acudiu logo D. Antonia. -Demais a mais é escusado! olhe que já o não vê. - ---Já não vejo quem? tornei eu voltando-me espantada. - ---Ora, quem! provavelmente quem saiu d’aqui. - ---Quem saiu d’aqui! repeti eu sem perceber ainda. - ---Ih! Jesus! não se faça desentendida! o senhor Alberto Mascarenhas. - -Ferveu-me nos labios uma resposta indignada; mas, lembrando-me da -discussão que ia provocar, encolhi os hombros, fechei a janella e fui -me sentar ao pé da mesa. - -Seguiu-se um silencio. - -Mas D. Antonia não era pessoa que assim abandonasse o campo de batalha. - ---Eu gosto de ver estas senhoras, que tanto gostam de conversar com -estranhos. Seu marido e a tia de seu marido, segundo parece, não são -dignos de fallarem com s. ex.ª. Pois olhe, se assim pensava, era melhor -que não casasse. Mas estas senhoras afrancezadas querem ter um marido -para gosarem toda a liberdade, e para serem um objecto de escandalo -para as pessoas virtuosas e tementes a Deus. E não desejam conversação -de senhoras, isso não lhes agrada. Não estão satisfeitas senão quando -conversam com homens, e todas se embebem nas suas fallas, sem nem -sequer deitarem uma vista de olhos para o esposo que receberam aos pés -do altar. Com estas doidas é que os homens se entendem bem. Ah! mundo! -mundo! - ---Isso refere-se a mim, senhora D. Antonia? perguntei eu, affectando -socego, mas ralada pela indignação que me fervia no peito. - ---Ah! parece que lhe serve a carapuça? tornou ella, rindo-se com um -riso sarcastico. - ---Eu não entendo muito bem d’essa questão de carapuças; mas, se teve -intenção de me insultar, dir-lhe-hei que meu marido não ha de ficar -satisfeito, sabendo a que improperios estou todos os dias exposta -n’esta casa, que devia ser para mim abrigo inviolavel contra as -injurias de qualquer, muito mais partindo ellas de uma pessoa da sua -familia. - ---Injurias! já se vê! estava á espera d’isso mesmo! Chamam-se injurias -as verdades! - ---As verdades! mas que verdades? tornei eu impaciente! - ---As que devia ouvir com mais attenção, quando lh’as diz uma pessoa, -que só quer o seu bem. Que idéa iria formando o Alberto Mascarenhas -d’uma mulher que esteve, toda a noite, dando-lhe só attenção a elle, e -não dirigindo uma palavra só nem a seu marido, nem a tia de seu marido? - ---Mas eu podia obrigal-os a fallar? tenho porventura culpa se nem uma -vez só entraram na conversação? - ---Ora essa! Pois que havia eu de dizer, n’uma palestra, em que não -ouvia senão heresias! Que S. Pedro não era porteiro do céo, e não -sei que mais! Estava-me causando pasmo vêl-os fallarem com tanto -sangue-frio no demonio. Ah! se eu fosse o Claudio! - -D’esta vez não pude deixar de me rir, o que, como é facil de suppor, -ainda mais augmentou a indignação de D. Antonia. - ---Ria-se, pois não! é o que deve fazer! É o pago que recebemos dos -bons conselhos, que lhes desejamos dar! Mangam comnosco, e entram -affoitamente no caminho da perdição! Ver eu, com estes olhos, uma -senhora, que, para desgraça da nossa familia, é esposa de meu -sobrinho, toda enlevada e requebrada a dar attenção a um petimetre -na minha presença, e em presença de seu homem! É aonde póde chegar o -descaramento. - ---Isto é demais, exclamei eu, erguendo-me com os olhos arrazados de -agua; vejo-me condemnada aqui a ouvir uma linguagem, a que nunca me -acostumaram, e a defender-me de accusações que o meu procedimento nunca -authorisou. Só o ridiculo do insulto póde attenuar a insolencia d’elle. - ---Sim, diga que é ridiculo!... Como logo hoje abriu o piano! como -correu pressurosa para o tocar! Puz as mãos na cabeça. Nunca imaginara -tal. Ver o pudor esquecido áquelle ponto! - ---Mas que idéa forma então de mim? tornei eu com voz tremente, em -que palpitavam os soluços abafados; se me julga capaz de provocar -galanteios de um homem, que vejo pela primeira vez, e que tem -delicadeza bastante para nem por sombras dar mostra de que me deseja -requestar? - ---Ah! já o defende! Descance que ninguem o attaca. E, depois, se o viu -pela primeira vez, é o que resta saber. Hoje em dia as meninas educadas -á moda franceza são capazes do enganar os velhos mais experientes! Os -planos são bem combinados! Commette-se uma _imprudencia_, e depois -apparece um moço inexperto, a quem se acceita por marido, sem ao menos -sequer se lhe dar tempo de fazer a côrte! Esses preliminares são -escusados para se chegar ao fim a que se aspira! Depois, um bello dia, -apparece um moço, _a quem se vê pela primeira vez_, e o moço que se vê -pela primeira vez encontra a imprudencia remediada. - ---Oh! isto é horrivel! respondi, não podendo já suster as lagrimas e -debulhando-me em prantos. - -D. Antonia olhou para mim com um sorriso de triumpho; estava vingada -dos sarcasmos de Alberto, do seu silencio forçado de tres horas. -Estavam suavisadas com esse balsamo das minhas lagrimas as feridas da -sua vaidade, as mordeduras do demonio da inveja. - -Ergueu-se, e lançando-me um ultimo olhar, saiu vagarosamente da sala. - - - - - VII - - -Admiro-me ás vezes agora das torturas que me causavam aquellas -accusações, tão despreziveis e tão absurdas. Mas eu era uma creança, -e não podia conceber que o azedume e o despeito levassem uma mulher, -que vivera toda a sua vida engolphada n’aquellas intrigas pequeninas, -a torturar por divertimento e só por divertimento. Revoltava-me o -absurdo, em vez de me fazer rir, e pungia-me principalmente o proposito -firme que eu vira que D. Antonia formara de contrariar todas as minhas -predilecções, de me obrigar a descer áquella esphera, em que ella vivia -deliciosamente. - -Parecia-lhe impossivel até que houvesse alguem que se occupasse em -outras coisas, ou que n’outras coisas pensasse. Quando expunha alguma -das suas frivolas theorias, queria que todos as acceitassem com muita -reverencia, e, se não manifestavam logo a sua adhesão, recebiam uma -chuva d’epigrammas, porque eram consideradas do partido opposto -ao seu, não podendo D. Antonia perceber que o verdadeiro motivo do -silencio, em que todos ficavam quando ella fallava, era a perfeita -indifferença que inspiravam as suas insipidas e dogmaticas banalidades. - -Se eu fosse capaz de comprehender aquella indole essencialmente -mexeriqueira, teria logo despresado os seus ataques, por mais insolente -que fosse a forma. Mas eu nunca estudara essa variedade da raça humana; -era D. Antonia o primeiro especimen que me apparecia, e só muito depois -vim a conhecer a fundo os usos e costumes d’aquella familia zoologica, -olvidada por Linneu da sua classificação. - -E demais, qual é o espirito, por mais energico, por mais elevado que -seja, que possa affrontar serenamente estas torturas pequenas do lar -domestico? - -Direi mais, quanto mais elevado e mais energico fôr, mais accessivel é -tambem a estas feridas de alfinete. Todos os inimigos são previstos, -menos este, que é o mais despresivel e o mais terrivel tambem. O leão -da fabula despresava o mosquito, e foi o mosquito quem o venceu. - -Depois via-me só! só n’aquelle pelejar incessante, sem ter um peito -amigo que me fosse anteparo, sem ter um coração em que me abrigasse. -Queria a soledade, e a soledade fugia-me! O eterno zumbir d’aquella -vespa afugentava as abelhas dos meus sonhos, que eu julgava que podiam -libar tão doce mel no calice das flores da phantasia! - -A pouco e pouco fôra abandonando as minhas relações; apoderara-se -de mim uma especie de _spleen_, e era-me insupportavel a sociedade, -porque estava sempre n’ella constrangida, exposta como me via a algum -escandalo produzido pela extravasão da bilis de D. Antonia. Nas salas, -onde uma ou outra vez entrava, sentia constantemente aquella espada de -Damocles suspensa sobre a minha cabeça, e bastava isso para envenenar -todo o jubilo que eu poderia ter. - -As minhas amigas de infancia espantavam-se de me verem tão arredia, -e arrastadas tambem pelas suas preoccupações de solteiras, nem se -lembravam de virem visitar a pobre exilada. «Temiam, diziam-me ellas -rindo, quando me encontravam, ser indiscretas, vindo bater á porta do -meu santuario.» E eu sorria-me tambem--que remedio!--sentindo ao meu -lado, como sentia sempre, o genio mau que se adorava n’aquelle templo -domestico. - -Um dia o acaso fizera-me ter um momento de desafogo, de expansão, de -contentamento! Essa curta alegria havia de ter inevitavelmente a sua -expiação: teve-a, e logo em seguida. - -Essa suave convivencia que eu esperava que se estabelecesse entre mim -e Alberto, essas conversações que viessem de vez em quando, como os -oasis no deserto, offerecer-me um instante de frescura, dessedentar-me -por um pouco, tudo isso era maculado, ainda antes de nascer, pela baba -peçonhenta do reptil que me perseguia! - -Parecia que um instincto infernal lhe segredava os meios de me -torturar; havia um demonio invisivel que volteava em torno d’ella, e -que lhe indicava os pontos vulneraveis da minha epiderme; vinha logo -a envenenada setta cravar-se, arrojada por mão certeira, no sitio -doloroso. - -Oh! quem fará um dia o poema d’estas agonias mysteriosas, tanto mais -tristes, tanto mais pavorosas quanto menos lastimadas são quando -se revelam! Este lento padecer nas trevas mais recatadas do lar da -familia não tem a poesia augusta dos martyrios, que são bem visiveis, -e que todos podem facilmente avaliar? Pois estas é que são as dores -terriveis, porque não matam, mas empeçonham a vida, estiolam-na, -desenfeitam-na de tudo quanto a poderia tornar agradavel, e quando -o anjo da morte venha, depois de longos annos d’uma existencia, que -mão paciente foi descolorindo, colher no seu regaço a nossa alma, -encontra-a mais gelada, mais fria, mais inerte do que o cadaver, que o -tumulo reclama. - - - - - VIII - - -Passou-se o resto do inverno, sem que successo algum notavel viesse -perturbar a triste monotonia da minha existencia. Augmentavam a -cada instante a sombria taciturnidade de meu marido, o intoleravel -despotismo de D. Antonia. - -Alberto vinha de quando em quando visitar-nos, e os poucos momentos, -que elle passava comnosco, eram para mim de ineffavel jubilo. A sua -indole viva e amena, a sua conversação sempre colorida e pittoresca, a -sua palavra eloquente exerciam em mim uma salutar influencia. As suas -visitas eram como as de um raio de sol ao preso encerrado n’um carcere -tenebroso. - -A nossa ligação, por maior que fosse o desejo que D. Antonia tivesse de -a envenenar, não lhe dava para isso o minimo pretexto. Era a ligação -de dois condiscipulos, que se sentem attraidos um para o outro pela -uniformidade das suas idéas, pela commum predilecção consagrada aos -mesmos estudos. O franco e aberto sorriso, com que eu o acolhia, O -amigavel _shake-hands_ que trocavamos á despedida, não explicavam senão -sincera e cordial sympathia mutua. - -Finalmente chegou a primavera. Alberto partira antes de terminar o -inverno, para a Ericeira, onde tinha parentes que o chamavam. Claudio -propoz-me irmos passar a primavera e o estio n’umas terras que possuia -na aldeia de ***, junto de Bellas. - -Aceitei, e aceitei com enthusiasmo. - -Quando já estava determinada a partida, e tudo preparado, subitos e -imprevistos negocios obrigaram meu marido a demorar-se em Lisboa. Não -quiz elle de modo algum que por causa d’isso transtornassemos a viagem -projectada. Despediu-se de mim affectuosamente, prometteu-nos, que, -assim que se pudesse desembaraçar, iria ter comnosco; depois viu-nos -entrar na carruagem, e esteve á janella até nos sumirmos saindo as -portas da cidade. - -Estava um d’estes dias do principio da primavera, em que sopra ainda a -brisa aguda invernal, e em que o horisonte se cobre com um denso veu de -neblina. Caía uma chuva miudissima, e a baixa de Campolide apparecia -emvolta n’um manto de tristeza. O vulto do aqueducto desenhava ao fundo -os seus arcos magestosos e sombrios. - -Envolvi-me na minha capa de viagem, e concheguei-me no fundo do -_coupé_. O movimento da carruagem era suave bastante, e proprio, a mais -não poder ser, para acalentar os meus sonhos. Primeiro quiz sustentar -a palestra com o auxilio de algumas banalidades; mas pouco a pouco -a minha imaginação não se poude conter, engolphou-se na região dos -devaneios, emquanto ao meu ouvido, que as sentia vagamente, resoavam as -palavras de D. Antonia, que me ía recitando, segundo creio, a lista dos -nossos visinhos do campo. - -Eu, entretanto, contemplava a paizagem, que apresentava aspectos -diversos e pittorescos. De vez em quando um frouxo raio de sol rasgava -o manto de nevoas, e vinha dar uma certa animação ás campinas. -Espairecia o firmamento, e a magestosa curva do grande arco do -aqueducto moldurava ao longe uma vasta nesga de tela azul. A luz -amarellada do sol doirava os campos, que se apresentavam já cobertos -com o seu vistoso tapete de malmequeres. Depois corria-se de novo o -panno, e o scenario desapparecia com os seus explendores de um momento, -com o seu instantaneo colorido. - -Involuntariamente comparei a minha vida monotona, e tendo apenas breves -intermittencias de luz, com aquella paizagem da primavera invernosa. - -A imagem de Alberto fluctuou-me por instantes na phantasia. - -Sorri-me ao lembrar-me do que diria a minha companheira de viagem, se -soubesse que vulto eu vira n’aquelle instante com os olhos d’alma. - -Esse sorriso, por mais rapido que fosse, não escapara á vista perspicaz -de D. Antonia. - ---De que se ri? perguntou logo. - -Como que acordei sobresaltada. - ---De nada, retruquei. - ---De nada? Só a pessoas que não teem todo o juizo, acontece semelhante -coisa. É verdade que talvez agora se dê esse caso, accrescentou por -entre os dentes. - -Encolhi os hombros. - ---Pois olhe, continuou ella, que o que eu lhe estava dizendo era muito -sério. Provavelmente nem sabe o que foi. - ---Confesso, respondi eu fazendo-me vermelha, que não percebi bem. - ---Ah! não percebeu? Pois olhe, não era difficil. Por onde andará o seu -pensamento? Não percebe o que eu digo e não sabe de que se ri! Isso ha -de ser nervoso. Talvez precise de tomar banhos de mar... na Ericeira. - -Começara o tiroteio. Já me admirava de que a trégua durasse tanto. - -Conforme o costume, deixei passar a tempestade dos epigrammas, fazendo -porque o meu espirito se isolasse completamente d’este mundo, e voasse -para bem longe d’aquella atmosphera turvada. - -Tinhamos já passado para deante da ponte do Carenque, e entravamos -n’essa estrada arida, núa, monotona, que põe em communicação entre si -Lisboa, a formosa rainha do Tejo, Cintra, a mimosa camponeza das serras. - -O sol, proximo do occaso, conseguiu alfim romper a nebulosa cortina que -o cercava. Como a lampada moribunda projecta, nas vascas da agonia, -mais intenso clarão, assim o rei dos astros, antes de apagar no -horisonte a sua corôa de fogo, quiz inundar o céo com vividos reflexos. - -Então o cerrado esquadrão das nuvens como que se revestiu de luminosas -couraças. Como captivo soberano, a quem a fortuna restitue o throno, -e que vê passar por deante de si humildes e curvados os seus proprios -carcereiros, assim as nuvens desfilavam, impellidas pelo vento, por -deante do sol, immovel no horisonte purpurado, como em vasto solio de -chammas. Aqui semelhavam corceis phantasticos, de arreios de ouro e -xaireis de escarlata, que voavam n’um insano galope; mais além nuvens -distantes, que se tingem de reflexos arroxados, passavam lentamente, -como graves magistrados envoltos nas suas bécas. A illusão chegou a -ponto, que a minha phantasia, começando, segundo o costume, a tomar -gosto n’esses devaneios, deu a cada nuvem um papel, e chegou a vêr bem -vivos, bem claros os vultos que imaginava. - -Este cortejo de nuvens bojudas, que avançava magestosamente, -representava a meus olhos a camara municipal. Ouvia-lhes os discursos, -que o vento vinha indiscretamente segredar ao meu ouvido. - -Aquell’outras que se conservavam fluctuando em torno do sol, e que mais -brilhantes se mostravam com as suas vestes de purpura recamadas de -oiro, eram os cortezãos que cercavam o regio throno. - -As arvores, que fugiam, á medida que ia passando a carruagem, -affiguravam-se-me a plebe, que saudavam com enthusiasmo a cerimonia -celestial. O vento agitava-lhes os braços, que pareciam menear na -atmosphera invisiveis chapeus; dir-se-ia que os murmurios, que se -exhalavam das suas ramas, eram o bramir longinquo e indiscreto dos -vivas de um povo inteiro. - -Era tão comica a attenção que eu prestava a estas cerimonias -phantasiadas, que involuntariamente, caindo em mim, desatei a rir. - -D. Antonia olhou-me com espanto. - ---Estará maluca, minha sobrinha? perguntou ella. - -Eu olhei-a com um embaraço infantil, e balbuciei algumas palavras -inintelligiveis. - ---Em vez de conversar comsigo mesma, teria sido melhor se me -communicasse os seus pensamentos. Não teria d’essa fórma commettido -a indelicadeza de quasi me não dar palavra todo o caminho... porque -estamos em Bellas. - -Tinha razão, e eu não pude fazer mais do que acceitar a reprimenda -e confessar a mim mesma que as imprudencias da minha phantasia de -creança, que estava prompta sempre a lançar mão da _clef de champs_, -eram causa muitas vezes dos meus dissabores. - -Estavamos em Bellas effectivamente. O sol sumira-se de todo, mas o -céo parecia querer-se conservar limpo, e prometter uma noite boa. A -carruagem parou no largo para onde deita a porta da quinta do conde de -Pombeiro. - -O cocheiro tomou informações, e soube que as chuvas dos ultimos dias -tinham transformado as estradas em atoleiros. Veio ter comnosco, e -disse-nos que nos levava, se quizessemos, á aldeia de ***, mas que nos -arriscavamos a fazer uma viagem demorada, ou a ficar atascadas no meio -do campo. - -Como a noite promettia estar serena, e a aldeia não era muito distante, -resolvemos, eu e D. Antonia, ir a cavallo. Por conseguinte despedimos o -cocheiro, depois d’elle nos ter ido alugar uns burros, e, sentadas no -dorso dos pacificos animaes, tomámos o caminho da casa de campo. - -Pouco teriamos andado, quando o céo se principiou a toldar de novo. -Caía a noite, e as nuvens, carregando o firmamento, apagavam os faroes -das estrellas, e desdobravam por cima das nossas cabeças um manto negro -e funebre. O rapaz, que tocava os jumentos, mirou o céo e abanou a -cabeça dizendo: - ---Temos ahi chuva em barda. É irmos mais depressa, minhas senhoras. - -Mas isso era mais facil de se dizer do que de se fazer. As informações -do cocheiro tinham sido exactas, e as estradas eram verdadeiramente -uns lamaçaes quasi impossiveis de atravessar. A chuva já principiara a -cair, o vento zunia com violencia, e os pobres animaesinhos curvavam a -cabeça, e amainavam as longas orelhas, como o barqueiro amaina a vela -quando sopra o temporal furioso. Era necessario avançarmos com muita -cautela, para não tomarmos algum banho n’essas poças que abundavam no -caminho, e que um ou outro relampago, que principiava a fuzilar, nos -mostrava, cercando-nos por todos os lados, como uma rede de paúes. - -Finalmente retumbou um trovão magestoso, e uma tremenda pancada d’agua -desabou em cima de nós. - ---Santa Barbara, e S. Jeronymo nos accudam, murmurou o burriqueiro, que -noite que vamos ter! - ---Ainda fica muito longe a aldeia? perguntei eu. - ---Ainda é um bom pedaço, respondeu o rapaz, atirando uma verdascada ao -jumento para lhe apressar o passo vagaroso. - ---E não ha por aqui alguma aldeia mais proxima? - ---Agora vamos nós atravessar uma. - ---Então, senhora D. Antonia, acudi voltando-me para ella, não acha -que seria melhor recolhermo-nos em alguma casa, emquanto não passa o -temporal? - ---Entrar em casa de um saloio! Deus me livre! A minha sobrinha não -sabe como esta gente é bruta, e porca principalmente. Eu, se me visse -obrigada, por não ter outro remedio, a descançar n’uma casa d’essas, -assim que me visse no palacete, despia-me toda! Captiva! - -Isto era dito em voz bem alta, deante do rapaz que nos acompanhava. -Elle naturalmente não se importou com isso; mas a mim é que se me -confrangeu o coração: nem gosto de humilhar, nem de ver humilhar, os -humildes; impressiona-me sempre desagradavelmente ver alguem, collocado -pela fortuna n’uma posição mais ou menos elevada, fazer sentir á gente -das classes inferiores a distancia que as leis antigamente e agora os -habitos mantém entre os pobres e os ricos, os humildes e os soberbos. - -Por isso, para remediar quanto em mim coubesse a falta de delicadesa -de D. Antonia, dirigi amigavelmente a palavra ao nosso companheiro -saloio. - -D. Antonia nem em tal reparou. Aquellas coisas fazia-as ella -naturalmente, e sem ser por mal. Não tivera intenção de offender o -rapaz, e ficaria espantadissima se soubesse que um saloio podia ter -susceptibilidade e sentimento da dignidade humana. Nunca se constrangia -para fallar deante d’essa gente; no mais não a tratava nem melhor nem -peior do que os outros, e estava convencida que podia ser considerada -como um modelo de affabilidade quando correspondia ao cumprimento de um -homem de baixa esphera, e lhe dizia: - ---Como está _você_? Sua mulher e seus filhos vão bem? Muito estimo! -Beba um copo de vinho á minha saude. Aqui não; vá para a cosinha. Olhe, -lá me sujou a casa com os tamancos! Esta gente não póde entrar em parte -alguma. - -Emquanto eu fazia taes reflexões, não findara a chuva; mas os jumentos, -incitados pela voz e pelas verdascadas do burriqueiro, e por um certo -instincto que lhes dizia que estavam quasi chegados ao termo da sua -jornada, haviam tomado uma andadura mais rapida, de fórma que d’ahi a -um quarto de hora pudemos ver uma casa de boa apparencia, singela, com -pavimento rente do chão, e andar nobre, que D. Antonia me disse ser a -nossa residencia. - -O burriqueiro deitou a correr para ir bater ao portão; quando lá -chegámos, tinham-se já corrido os ferrolhos e destrancado a porta, e -uma criada velha, entre-abrindo-a cautellosamente, apparecia com um -candieiro de tres bicos na mão, e exclamava, ao conhecer D. Antonia: - ---Valha-nos Deus! A Virgem Maria nos acuda! É a senhora D. Antonia! -Ai! a minha santinha, como ha de vir molhada! Ó Zé Caneira! olha que -é a senhora. Ó Annica! Ó mulher, tu não appareces? Diabos te... quero -dizer: Valha-te Deus, rapariga, que tão mollenga me saiste! - - - - - IX - - -Era perfeitamente uma d’aquellas phantasticas velhas dos contos de -Hoffmann essa que nos viera abrir as portas. Nariz adunco, barba -revirada, cabellos grisalhos, despenteados e fluctuando como que -em desordenadas estrigas sobre a testa proeminente, que abrigava, -como uma especie de pala natural, os olhinhos pequenos, pardos, e -encovados! A luz mortiça do candieiro projectava no seu rosto uns vagos -reflexos, que ainda lhe davam um mais estranho realce. Era baixa, um -tanto curvada para diante, e vestia uma especie de casabeque immundo, -apertado na cintura, com umas abas curtas, que cobriam uma pequena -porção da saia de baeta vermelha, que lhe ia poisar em cima dos sapatos -rotos. A boa da velha não se fartava de nos fazer mesuras, em quanto -vinham surgindo de differentes portas os creados, que ella chamara, e -que traziam um supplemento de illuminação. - ---Adeus, Maria do Rosario, disse D. Antonia, ao apear-se da -cavalgadura, como está você? - ---Ai! minha senhora, graças a Deus! antes assim que peior! cá vou -arrastando estes pobres ossos por este mundo de Christo, até Deus -querer... até Deus querer! Ai! minha querida senhora D. Antoninha, -está cada vez mais moça! bonita, guapa! ai! Senhor! quantas meninas de -quinze annos a não hão de invejar? - ---Isso é dos seus olhos, Maria do Rosario, tornou D. Antonia, rindo-se -com certa complacencia, já estou velha e bem velha. O tempo de agora -está para estas, continuou, apontando para mim; olhe, é a mulher de meu -sobrinho. - -Maria do Rosario fez-me uma mesura, a que eu respondi com um sorriso. - ---Ai! Santo Deus! é mesmo uma flor! Deus a fade bem, e lhe dê o juizo -da tia, como lhe deu a belleza d’ella! com que então, é esta a mulher -do seu Claudiosinho? Quem havia de dizer, senhora D. Antonia, quando -nós andavamos com o Claudio ao collo... - ---Andavamos! interrompeu D. Antonia, um tanto espinhada, andaria você, -eu era uma creancinha n’esse tempo! - ---Ora esta! acudiu apressadamente Maria do Rosario, emendando a mão -como boa cortezã que logo vi que ella era, onde teria eu a cabeça? É -verdade que a senhora D. Antonia, desde creança, foi tão espigadinha, -tão airosa! Ai! minha senhora... como é a sua graça? - ---Margarida, respondi, tiritando de frio, porque estava com o fato -ensopado, e ainda não tinhamos passado do fundo da escada, tal era o -enlevo com que D. Antonia escutava a sua lisongeira. - ---Margarida! que bonito nome, benza-a Deus! Pois, senhora D. Margarida, -não póde imaginar que linda creança era aqui a senhora D. Antonia. -Branca de neve, alta, muito rosada! Era mesmo um anjinho do céo! - ---Não diga tal, Maria do Rosario, tornou D. Antonia rindo, eu nunca fui -bonita; era muito branca, isso sim! por esse lado todos me gabavam! -alta sempre fui tambem, e apezar d’isso, tinha um pé tão pequeno, tão -pequeno que todos diziam que parecia impossivel como podia suster o -corpo... mas não é d’isso que se trata agora; estamos ambas ensopadas, -e queremos mudar de fato. Já cá estão as bagagens? - ---As bagagens? não, minha senhora, não estão; nós até nem suspeitavamos -que as senhoras viessem hoje... Ora! valha-me Deus! - ---Pois as bagagens ainda cá não estão!? tornou D. Antonia, desesperada. -E o que havemos de fazer? - ---Que transtorno! que transtorno! mas as senhoras hão de vir cançadas, -e talvez o melhor seja deitarem-se, a não ser que prefiram aquecer-se -aqui ao fogo da lareira! Mas isso não é... - ---O que! ir para a cosinha? Você não está em si, Maria do Rosario. - ---Desculpem, minhas senhoras, isto era por dizer. - ---E eu aproveito a idéa, tornei sorrindo-me; não tenho somno; e o fogo -da lareira está-me convidando. - ---Faça o que quizer, acudiu D. Antonia seccamente. - -E subiu a escada com toda a magestade, seguida por Maria do Rosario, -que lá ia resmungando a continuação do seu panegyrico. - ---Para onde é a cosinha, meus amigos? perguntei eu voltando-me para os -criados, que haviam assistido mudos á precedente scena. - ---P’ra aqui, p’ra aqui, minha senhora, acudiram todos á uma, -apressando-se a mostrarem-me o caminho. - -Desci uns tres degraus que me ficavam á direita, segui um corredor, e -achei-me na cosinha. - -A tempestade redobrara de violencia; sentia-se a chuva bater nos -postigos; de vez em quando uma lufada de vento engolphava-se gemendo -por alguma janella que se abriu com fragor, e uma chapada d’agua -inundava o chão lageado; ao mesmo tempo os aterrados aldeãos viram as -arvores estorcerem lá fóra as suas ramas ainda mal cobertas de folhas -nascentes, benziam-se tres vezes, se um relampago, incendendo a ramaria -no seu clarão azulado, a transformava nos phosphorescentes braços dos -espectros. - -A cosinha era vasta, e o bom fogo que ardia na lareira, e cujos -avermelhados reflexos doidejavam mirando-se nos espelhentos cobres da -bateria culinaria, espalhavam em todos elles não sei que doce encanto, -que suavissima alegria, e que idéas de tranquillidade e conforto que me -fizeram acudir aos labios um jubiloso sorriso. - -A lareira era quasi rente do chão, como todas as lareiras, e á roda -d’ella uns poucos de saloios, em cujas physionomias astuciosas batia -em cheio o clarão do brazido, escutavam attentamente uma boa velha, -a qual, sentada n’uma d’estas cadeiras d’espaldar, forradas de coiro -e cravejadas de pregaria amarella, velhos ornamentos das salas dos -palacios, desterrados agora pelos _fauteuils_, pelos sophás, e pelas -_causeuses_ para as regiões infimas da cosinha, fiava a sua rocada e -contava uma historia qualquer, a que todos prestavam a maior attenção. - -Do outro lado da lareira uma outra cadeira d’espaldar fazia symetria -com esta, e mostrava que fôra occupada, instantes antes talvez, pela -Maria do Rosario, que nos viera receber. - -Em torno de uma vasta mesa de pedra, situada ao meio da cosinha, -reuniam-se uns tres ou quatro saloios, entre os quaes descortinei o -burriqueiro, que estava saboreando as delicias da nossa hospitalidade, -traduzida n’uma respeitavel malga de feijões, e n’um amplo cangirão de -vinho. - -Foi em presença d’este digno congresso que eu appareci, brandamente -impellida pelos meus guias, que me traziam quasi em triumpho, e que já -de longe annunciavam que era eu a nova senhora, a muito alta e muito -poderosa D. Margarida, Castellã de Solar de *** nas proximidades de -Bellas. - -Quando cheguei á porta, estaquei, enlevada n’esse quadro de tão -rustica e pittoresca simplicidade. Ficava-me defronte a lareira, de -fórma que a sua luz dava-me no rosto, scintillava-me nos cabellos, -que chispavam doirados reflexos, e cercava-me emfim de uma certa -auréola sobrenatural, que incutiu, segundo penso, um vago respeito -n’aquella boa e ingenua gente, porque todos se levantaram a um tempo, e -murmuraram ao ouvido uns dos outros: - ---É uma imagem! Parece a Nossa Senhora do altar da ermida. - ---Salve-os Deus, meus amigos, disse eu alegremente, e entrando com -desembaraço pela cosinha, dão-me ahi um cantinho á lareira para me -enxugar? - ---Guarde-a Deus, minha boa senhora, respondeu a velha cortejando-me -respeitosamente, e entrem n’esta casa no seu regaço todas as -felicidades, porque espero em Deus que seja tão bondosa, como é linda, -e tão verdade como ser Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado para nos -remir do peccado original, nunca os meus olhos viram tal perfeição. - ---Muito obrigada, boa tia, respondi eu affectuosamente, forçando a -pobre mulher a sentar-se, e sentando-me tambem na outra cadeira que -logo todos chegaram para ao pé do lume; vejo que entrei n’esta casa com -bem maus agoiros. Que tempestuosa noite! - -Os creados e as criadas, que me tinham guiado, sentaram-se no chão á -roda da minha cadeira e prestaram ouvido attento á palestra, que se -principiara a travar entre a boa Quiteria, oraculo d’aquella tribu, e a -recem-chegada Lisboeta. - -O vento gemia rijo lá fóra, a lenha do lar crepitava, ouvia-se o -monotono canto do grillo, e o fuso sirandava, sirandava nas mãos -ligeiras da velha. - -Reinava silencio profundo. - -Eu sentia coar-se-me nas veias aquelle indizivel bem-estar, que em -moderado calor influe no corpo gelado pelo vento e pela chuva. Passeei -a vista com benevolencia pela assembléa, e não vi senão rostos pasmados -e olhos fitos em mim. - ---Que calada de coelhos! murmurou uma creadita que estava ao meu lado, -ao ouvido de um rapaz seu visinho. - ---Então porque não fallam? respondi com um sorriso. Vamos! em que se -conversava quando eu entrei? - ---Ora, se a senhora soubesse, ria-se de certo, tornou a creada -abaixando os olhos negros e travessos. - ---Que estás tu a dizer, Annica? interrompeu a velha, levando aos -labios, para o molhar, o fio da estriga, tu julgas então que uma -pessoa de juizo se possa rir de um caso que é asseverado por gente de -sabedoria, que lê de fio a pavio todos os livros das estantes? - ---Eu não digo isso, tia Quiteria, mas... - ---Mas és uma tola, Annica; ha alguem que duvide que apparece uma alma -do outro mundo na capella do senhor conde de Pombeiro, em Bellas? - -A velha Quiteria proferiu estas palavras, relanceando em torno de si -um olhar de desafio. Correu um vago frémito no auditorio, e todos se -chegaram mais uns para os outros, ouvindo com inquietação estalar lá -fóra a trovoada. - ---O que a tia Quiteria diz é muito verdade, accudiu o burriqueiro com -a boca cheia; em Bellas não ha cão nem gato que o não saiba. - ---Não é bom fallar n’estas coisas em noites de temporal, interrompeu -um trabalhador velho meneando a cabeça coroada de cabellos brancos. Os -finados sáem do tumulo, quando o trovão os acorda, e vagueiam pelos -campos, penando os seus peccados. Nós ouvimol-os gemer, e dizemos que é -o sussurrar do vento; não é, não é, é o suspirar dos mortos. - -Um lufada de ventania zuniu tristemente, e veio, coando-se pelas fisgas -das portas, fazer vacillar a chamma da lareira. - -Não sei que sombras phantasticas se projectaram no chão lageado da -cosinha. - -O burriqueiro olhou em torno de si um tanto inquieto, e não se julgando -já em segurança, destacado como estava, do grupo principal, veiu, -chegando-se a pouco e pouco, accrescentar a roda. - ---E que penas que elles penam ás vezes! tornou a boa da velha abaixando -a voz, e parando por um instante de trabalhar. Lembram-se do padre fr. -João? - ---Lembramos, lembramos! santo homem! Morreu, ha pouco, em Bellas, -responderam todos com voz unisona. - ---Pois eu conheci aquelle reverendo, que foi pequeno da minha creação, -e que fez por aqui muitas travessuras, quando o pae inda era vivo. O -motivo, porque elle se metteu frade, é um motivo estranho. - ---Conte, conte, tia Quiteria, bradaram todos a uma voz. - ---Se a nossa ama dá licença... - ---Falle, falle, minha boa tia, estou morrendo pela ouvir. - ---Pois o pae de fr. João era aqui um lavrador da terra, que foi pouco -a pouco augmentando as suas fazendas á custa dos visinhos, que, sendo -mais pobres, não o podiam demandar. Todos os annos ia elle chegando o -marco das terras mais para deante, a ponto que um dos seus visinhos -ficou reduzido á miseria. Morreu o usurario, e o pobre filho, que não -sabia d’estas coisas, começou a disfructar socegadamente os bens que -seu pae lhe legara. Alguns boatos lhe tinham chegado aos ouvidos, mas -elle sempre suspeitara que tudo eram calumnias e invejas. - -«A final chegou o tempo das sementeiras, e o nosso João, que morava -em Bellas habitualmente, mas que tinha uma casita terrea nas suas -fazendas, veiu residir aqui para vigiar os trabalhadores. - -«Quando elle chegou encontrou-os a todos enfiados de susto. -Disseram-lhe á uma que não tinham tido um momento de descanço, porque -todas as noites se ouvia um arrastar de cadeias, uns gemidos que -cortavam o coração; e finalmente que um d’elles, mais affoito, que -ousara espreitar para saber qual era a causa d’esse barulho nocturno, -quasi desmaiara de pavor, quando vira o finado, envolto na mortalha -branca, arrastando o marco por todo o campo, e soltando gemidos -lugubres, a que respondia ao longe o funebre piar do mocho...» - ---Credo! murmuraram os assistentes. - -«O João todo se desesperou, e disse que desancaria quem se atrevesse -a repetir semelhantes mentiras, e que, para provar o seu dito, havia -de passar toda a noite sósinho em casa, e que veria se ousava alguem -perturbar-lhe o repouso. - -«Se bem o disse, melhor o fez. Era no verão; mas apezar d’isso estava -tempestuosa a noite como esta de hoje. O trovão ribombava nos ares, e -os relampagos illuminavam os campos inundados de agua. O vento acamava -as espigas de trigo, e fazia-as sussurrar lugubremente. - -«João metteu-se em casa e esperou que soasse a hora fatal. Não direi -que não estivesse um tanto pallido e trémulo, mas continha o receio -involuntario, e estava prompto para affrontar o perigo intrepidamente. - -«Um relogio velho, que elle tinha em casa, fez ouvir aquelle barulho -que precede nos antigos relogios de parede o bater das horas, e logo -depois deu meia noite. A tempestade pareceu suspender-se para escutar o -signal dado pela voz mysteriosa do tempo, mas, apenas vibrou a ultima -pancada, o furor da procella, por um instante refreado, redobrou -de intensidade, e o vento, a chuva e os trovões bramiram com tal -violencia, que tremeu toda a casa como se a sacudissem as garras de -invisiveis demonios. Logo, por entre os rugidos confusos da procella, -sibilar do vento, roncar dos trovões, tintinar da chuva, começou João -a ouvir uns flebeis gemidos, que se prolongavam indefinidamente, um -arrastar de algemas, que de cada vez se approximava mais. - -«João sentiu um calafrio correr-lhe pelas veias; mas tomou animo, e -levantou-se da cadeira onde estivera. Não teve porém tempo de dar um -passo. Abriu-se a porta e...» - -N’este momento abriu-se com estrondo a porta da cosinha. - ---Jesus! bradaram os circumstantes. - - - - - X - - -Todos sentimos como que uma commoção electrica; eu mesma confesso -que estremeci ao dar por tão notavel coincidencia. Mas o nosso susto -mudou-se em espanto, quando vimos apparecer á porta D. Antonia, envolta -n’um chale antiquissimo, que provavelmente descobrira n’algum dos -velhos bahus da residencia. - ---Então aqui não se trata da ceia? perguntou ella, cruzando os braços. -Toca a palrar e a contar historias, e eu e a Maria do Rosario que nos -aguentemos com o trabalho! Fóra mandriões; Annica já, já fazer as -camas; Quiteria veja se nos arranja alguma coisa para cearmos. Nunca se -viu uma coisa assim! Os servos aqui muito bem refestellados, e as donas -da casa tendo de fazer o trabalho se o quizerem ver feito. A pobre -Maria do Rosario é que havia de acudir a tudo. Vamos, minha sobrinha, -venha d’ahi, não se costume a dar confiança a esta gente, senão está -perdida. - -O rubor da vergonha, e da colera subiu-me ás faces e affogueou-m’as. -O que! pois não era eu a dona da casa, não era eu só quem podia dar -essas ordens e essas reprehensões? Mas que havia de fazer? Travar uma -discussão em presença dos criados? Impossivel; a minha indole negava-se -completamente a essas coisas. E por esta fórma conseguia sempre D. -Antonia as victorias, que lhe assegurava a sua impudente iniciativa. - -As criadas andavam já todas azafamadas. Eu ergui-me e saí; passei por -diante de D. Antonia, e vi a Maria do Rosario escondida na sombra. -Percebi que tinha uma nova inimiga. - -Chamei-a, e disse-lhe que me indicasse o meu quarto. Ella veiu logo, -fazendo muitas mesuras, e, pegando no candieiro, caminhou adeante de -mim. Voltei-me e dei as boas noites a D. Antonia. - ---Não ceia, minha sobrinha? perguntou ella. - ---Não, minha senhora, respondi; sinto-me cançada, e prefiro deitar-me. - -Não me respondeu, e limitou-se a encolher os hombros. Eu subi a escada, -seguindo a Maria do Rosario. - -O meu quarto ficava situado n’um dos angulos do edificio. - -Era vasto e frio. Duas janellas de peito, com bambinellas, rasgavam-se -n’uma das paredes. Um leito de cortinas vermelhas, formidavel, macisso, -abrangia uma grande porção da parede fronteira. O quarto fôra forrado -de papel, havia pouco, e o mau gosto de quem presidira a esses arranjos -escolhera o papel entre estes de linhas em zig-zag, parallelas e muito -unidas, que impressionam a vista, e tomam fórmas phantasticas quando a -luz vacillante d’uma vella as faz ondearem e confundirem-se de um modo -aterrador. Duas ou tres cadeiras de espaldar e pregaria e uma commoda -antiquissima completavam a mobilia d’este quarto lugubre. - -A atmosphera frigida d’aquelle aposento, regelando-me os membros, -opprimiu-me o coração. Pareceu-me que entrava n’um sepulchro. - -Em cima da commoda havia dois castiçaes com vellas de stearina. Maria -do Rosario accendeu-as, e perguntou-me se precisava de mais alguma -coisa. - ---De nada, respondi eu seccamente. - -Mas, quando ella se ia a retirar, chamei-a. - ---Aqui n’esta casa não ha alguma livraria? perguntei eu. - ---Ha, sim, minha senhora, respondeu ella. Aqui esta porta deita para um -corredor, que vae ter á casa dos livros. Se a senhora quizer, as portas -estão abertas. - ---Obrigada, tornei eu. - -Maria do Rosario saiu. Senti-a fechar a porta, e depois descer a escada -de vagar, até que esmoreceu ao longe o ecco dos seus passos. Caiu tudo -em silencio. - -Em silencio, não; porque a tempestade não se aplacara. O vento gemia -com mais tristeza, açoitando os postigos das janellas. De quando em -quando ouvia-se a voz magestosa do trovão. A aza doida da procella -batia com furor nos vidros. - -Sentei-me com desalento n’uma cadeira, e deixei pender a cabeça nas -mãos. Senti quanto é horrorosa a soledade quando se tem vinte annos e -um coração ardente. N’essas noites de temporal, em que é tão suave a -reunião familiar, via-me eu só, abandonada, entregue a todos os pavores -que a solidão inspira, n’um aposento, que mais parecia tumulo de mortos -que habitação de vivos. Era esse quarto o symbolo da minha existencia, -tal como o destino m’a fizera, carcere sombrio e lugubre onde eu tinha -que encerrar todas as aspirações da minha juventude, todo o fogo vital -que me incendia o sangue. - -Ergui a cabeça para respirar desafogadamente, porque esses pensamentos -haviam-me opprimido o coração, e dei um grito de terror. Defronte de -mim um vulto pallido mirava-me como que atterrado. Lagrimas silenciosas -deslisavam-lhe pelas faces. - -Era a minha imagem que se reflectia n’um espelho em que eu ainda não -reparara. Sorri-me do engano; ergui-me e dirigi-me ao espelho. «Pois és -tu, Margarida, exclamei eu, és tu a creança descuidosa, que ha pouco -dançavas nos bailes com tão mimoso colorido nas faces? És tu a flor das -salas? Como estás desbotada, rosa das valsas! Definhas á sombra; mas -que sol te poderia reanimar?» - -«O amor!» suspirou uma voz intima, e o quarto illuminou-se com vagos e -ignotos clarões, e a tempestade como que se acalmou por incanto, e a -sua voz expirante balbuciou aos meus ouvidos: «O amor!» E as linhas do -papel arredondaram-se tambem em graciosas curvas, e murmuraram: «Amor! -amor! amor!» Voejaram no quarto invisiveis pombinhas candidas, e eu -ouvia-lhes o harmonioso bater d’azas. O rosto, reflectido no espelho, -desfranziu-se n’um sorriso, e expulsou as nuvens que lhe toldavam a -fronte. - ---Que loucuras! balbuciei. - -E levantei-me, peguei n’um castiçal, e dirigi-me á bibliotheca a -procurar um livro, que me distrahisse o espirito d’estes perigosos -devaneios. - -A livraria era uma casa pequena, toda cercada de estantes, que vergavam -ao peso de formidaveis _infolio_. Tirei ao acaso o primeiro volume -que se me deparou. Era o segundo tomo dos _Trabalhos de Jesus_. Isso -exactamente eu desejava. O titulo promettia-me um admiravel exorcista -contra o demonio côr de rosa que ameaçava perseguir-me. Voltei pé ante -pé, e entrei no quarto. Colloquei o pesado alfarrabio á cabeceira do -meu leito, e principiei a despir-me. - -Já não ouvia gemer o vento, nem estalar a trovoada. Tive curiosidade -de ver o aspecto da atmosphéra e, meio despida, corri á janella e -entreabri um postigo. - -A janella deitava para o jardim. Cessara de chover, e a lua, filtrando -os seus raios por entre as nuvens, banhava os canteiros no seu magico -fulgor. O vento abrandara, e transformara-se n’uma brisa suave, -que agitava as folhas nascentes das arvores. Parecia-me assistir á -transição do inverno para a primavera, e cheguei a pensar que esse -momento era o momento exacto em que findava o reinado dos gelos, e -principiava o das flôres. A natureza, cançada da lucta, deixava-se -embalar no regaço da primavera, que surgia coroada de estrellas, e -scintillante de poesia e de amor! Amor, sim; essa doce palavra vi-a -claramente escripta no vidro em letras de prata por um raio luminoso, -que se desprendeu languidamente do seio da namorada Phebe. - -Cerrei a janella, e corri para o leito. Ao passar por diante do -espelho, relanceei para elle a vista, e divisei um rosto que me sorria -com os olhos banhados em vaga languidez. Involuntariamente escondi o -seio com os braços cruzados, e, toda tremula e risonha, metti-me na -cama, lançando logo a mão ao ponderoso volume de fr. Thomé de Jesus. -Abri ao acaso e li: - -«Ó amor divino, como prendes, quando na alma te accendes; como -captivas, quando á alma descobres alguma parte da formosura de tua face -divina! Sem te ver claramente a alma peregrina, só pelo que de ti da -vida sente, e póde com tua graça experimentar, como fica livre de si e -das prisões da terra, e captiva de ti, e presa de teu amor! Estas tuas -amorosas e suaves prisões tanto a atam e possuem, que até dos corporaes -sentidos lhe mudas o gosto em ti, porque tudo lhe trazes sujeito á -tua mão, e obediencia do teu amor. Se quer dormir, tu a acordas, se -quer descançar, a aguilhôas, se quer comer, lhe tiras o sabor, se quer -conversar, a apartas; toda a prendes, toda a queres, tudo lhe defendes; -sempre amigo, sempre cioso; porque todo te dás, e toda a tomas; todo -te entregas, e toda a prendes.» - -Deixei descair o livro, cujas paginas rescendiam não sei que namorados -effluvios; sentia volitarem em torno de mim sylphos e fadas, que -pareciam, occultos na sombra, segredar uns aos outros dulcissimas -harmonias. O clarão suave da vella parecia oscillar brandamente ao -meigo e perfumado sopro d’esses habitantes dos ares. As letras do -livro eram outras tantas teclas, que suspiravam melodiosamente as mais -voluptuosas arias de Bellini e de Rossini com letra de fr. Thomé de -Jesus. Fui cerrando os olhos, como se o fluido magnetico, que enchia -o quarto, me opprimisse as palpebras. A vela estava quasi expirando, -e, nas vascas da agonia, projectava clarões phantasticos nas cortinas -vermelhas do meu leito. Suspirei brandamente, e fui-me deixando -adormecer, murmurando a palavra: «Amor!... Amor!» - - - - - XI - - -Entrava já o sol claro e alegre pela janella aberta, quando despertei. -Esfreguei os olhos, ainda estonteada, e, levantando-me na cama, dei com -a Maria do Rosario, que andava limpando o pó. - ---Que horas são? perguntei eu. - ---Então como passou a noite, senhora D. Margarida? Ai! cala-te, boca, -não queiras tirar a Deus Nosso Senhor o que a Deus é devido; deixa a -tua ama rezar primeiro as suas orações, e não queiras desvial-a do -caminho da salvação, tentando-a a fallar em coisas d’este mundo. Reze, -reze, senhora D. Margarida. - ---Ó mulher, eu perguntei-lhe que horas eram. - ---Ai! credo! Santo nome de Jesus! Virgem benta! Senhora Nossa! Estas -meninas de agora nada respeitam! Não ha senão hereges! A senhora D. -Margarida não queira ir arder para as labaredas do inferno, e dar -triumphos ao inimigo. Santo Deus! Tome o exemplo da Senhora D. Antonia -e da senhora condessa de *** que ha de cá vir esta noite. - ---Ó senhora! diga-me que horas são, e vá-se embora. - ---Eu já me retiro, minha senhora, que eu não quero perder a minha alma, -tornou ella com voz esganiçada. Graças a Deus, toda a minha vida tenho -feito figas ao demonio. Fui menina e moça, solteira e casada, e sou -agora viuva, e nunca arredei pé do caminho do céo. São nove horas, -minha senhora; soube sempre cumprir os deveres do Santissimo Sacramento -do matrimonio. A senhora D. Antonia já está á sua espera para almoçar. -Cruzes, inimigo; agora que sou velha não me venhas tentar. As bagagens -já chegaram. Ó nossa Senhora do Rosario, minha protectora, livra a tua -fiel serva das unhas de Berzabum. As suas malas estão ao pé da commoda. - -E resmungando, e esconjurando, foi-se approximando da porta e deitou a -correr pela escada abaixo. - -Eu acordara com optimas disposições, de fórma que a insolencia d’essa -mulher não conseguiu turvar-me o espirito. O ridente sol dos fins de -março inundava o quarto com os seus vividos raios, e enchia-o d’essa -luminosa poeira, que tanto espairece a vista. Saltei para baixo da -cama, vesti-me e abri a janella. - -Inebriou-me a bafagem balsamica, que respirei na brisa que doidejava -pelo jardim, e que me saudou com as suas vivificantes emanações. O -jardim era vasto, no gosto do seculo passado, mas inculto. A natureza, -entregue a esta bemaventurada negligencia dos jardineiros, remediara o -risco absurdo do jardim. Os canteiros pautados e regrados escondiam-se -por detraz de espessas moitas de buxo, que viçara á vontade e livre da -tosquiadora thesoura. Os tanques sem agua cobriam-se com esverdeado -musgo, e as estatuas desgraciosas envolviam a sua nudez n’um manto -d’hera, que emendava, com as suas elegantes ondulações, a rigidez das -linhas traçadas na pedra pelo inhabil cinzel do rustico esculptor. A -relva molhada verdejava de um modo deslumbrante, e os passarinhos, -escondidos da ramaria das arvores, cantavam alegremente o hymno da nova -primavera. - -Estive alguns instantes contemplando esse delicioso espectaculo, até -que ouvi a campainha, que nos chamava para o almoço. Desci, encontrei -Anna, a creadita d’olhos pretos, que me foi ensinar onde era a casa de -jantar; entrei, e vi D. Antonia magestosamente recostada n’uma cadeira -de braços, em palestra muito animada com Maria do Rosario. - -Quando appareci, calou-se; fallei-lhe e sentámo-nos á meza, onde nos -esperava o almoço. - -Comtudo, eu via pelo olhar odiento, que D. Antonia me lançava, que se -estava preparando alguma tempestade. Effectivamente, depois de ter -mandado embora a creada, D. Antonia voltou-se para mim, e disse-me, -adoçando hypocritamente a voz: - ---Minha sobrinha. É preciso que tenha mais prudencia. Não sei qual -foi a educação que recebeu, mas sei que em casa de seu marido sempre -reinou o temor de Deus, e o respeito pela religião christã. Não seja -para as creadas um objecto d’escandalo, queira cumprir os seus deveres -religiosos. Desculpe-me estas observações, accrescentou ella, mas, -na ausencia de seu marido, compete-me dirigir a sua inexperiencia, e -dar-lhe os conselhos que uma velha sabe dar. - ---Agradeço tanta bondade, respondi com alguma ironia; mas rogo-lhe que -não authorise as creadas a intervirem nas minhas acções. Queira pensar -tambem, que apesar de ser nova e inexperiente, sou eu a unica dona da -casa, e que não posso consentir que as pessoas que estão ao meu serviço -me faltem ao respeito que me devem. - -E completei este discurso, fazendo uma profunda mesura, e retirando-me. - -D. Antonia fez-se fula de raiva, e tão irada ficou, que não pôde -articular uma palavra. Lançou-me um olhar indignado, e só pôde -dizer-me, quando eu já chegava á porta: - ---Aviso-a que recebemos hoje a visita das nossas visinhas de campo, -a senhora condessa de *** e a senhora baroneza de ***; note que são -senhoras piedosas e de muitas virtudes. Veja o que faz. - -Não lhe respondi e saí do quarto. - -N’essa noite, apenas deram sete horas, appareceu logo D. Antonia, -vestida esplendidamente para receber as nossas aristocraticas visitas. -O meu fato singelissimo contrastava com o seu luxo deslumbrante. Por -isso Maria do Rosario não fez senão extasiar-se perante as fitas -vermelhas, e as pulseiras e broches d’oiro da minha mortal inimiga. - -Ás oito horas sentiu-se parar á porta um churrião puchado a bois. Era -esse o vehiculo que transportava as duas muito nobres senhoras, nossas -visinhas de campo, que moravam a um quarto de legua de distancia. -D. Antonia correu á porta, e chegou a tempo de receber as fidalgas -visitantes. - -Eu fiquei na sala, junto da mesa, folheando distraidamente um livro de -devoção ornado de lindas imagens. - -Levantei-me da cadeira e dei dois passos para a porta, quando vi -assomarem a ella os vultos das duas senhoras. Cumprimentei-as então -respeitosamente. - -Uma d’ellas era alta, elegante, de physionomia austera e altiva fronte. -Devia de ter sido formosa na sua juventude; mas a sua formosura por -força tivera sempre um caracter inflexivel de orgulho indomavel. A -outra era uma senhora quasi decrepita, em cujas feições meio apagadas -se não podia ler outra expressão, que não fosse a d’esse ascetismo -pavido, proprio dos espiritos acanhados, quando os gelos da edade, -accumulando-se-lhes na fronte, lhes phantasiam, para além do tumulo, já -proximo, as chammas atterradoras do inferno. - -A primeira d’estas duas senhoras, que eu soube depois que era a -condessa, cumprimentou-me tambem; e levando a luneta aos olhos, -mirou-me alguns instantes com gélida seriedade. Depois voltou-se para -D. Antonia, e dirigiu-lhe um olhar, que parecia querer dizer: «É esta a -pessoa em quem fallámos?» e D. Antonia respondeu-lhe com um movimento -de cabeça, que significava: É sim, minha senhora, infelizmente.» - -A condessa veio então para mim, e disse com voz secca e vibrante: - ---Folgo muito de conhecel-a, minha senhora. Sou antiga amiga da familia -de seu marido. Estimarei poder consagrar-lhe o mesmo affecto. - ---Se conseguir merecer a affeição de v. ex.ª, respondi inclinando-me, -será isso para mim altissima honra, minha senhora. - -A condessa cumprimentou-me de novo, e foi sentar-se no canapé. A -baroneza, que esbrugava um rosario e resmungava umas orações, sentou-se -ao pé da mesa de jogo, embrulhou-se toda em pelles e tapetes, que a -Maria do Rosario lhe trouxe com a maior promptidão, e ficou immovel, -com os olhos fitos no vago, com os labios em continuado movimento. A -luz do candieiro, batendo-lhe em cheio no rosto escaveirado e livido, -fazia-a parecer uma d’essas figuras dos quadros asceticos da escola -hespanhola, que tivesse descido da tela, obrigada por magica evocação. - ---É muito bonita sua sobrinha, D. Antonia, disse a condessa. Deus -queira que essa bellesa não seja arma que Satanaz queira empregar -contra a salvação da sua alma. - ---Não será, não, minha senhora, se Christo Senhor Nosso ouvir as -orações que todos os dias lhe dirijo fervorosamente. Eu, senhora -condessa, desde que meu sobrinho casou, ainda não tive um só -pensamento, que não fosse para o bem d’esta menina. Assim ella m’o -reconhecesse. - -E suspirou. - ---Bem sei, bem sei que a D. Antonia tem sido sempre um anjo de -caridade. Ponha os olhos em Deus, filha, e não faça caso das -ingratidões do mundo. N’este seculo de impiedade a nossa cruz é bem -pesada. Tomemos o exemplo do Salvador. - ---Amen, concluiu devotamente D. Antonia. Eu bem diligencias faço para -que esta ovelha se me não estramalhe do aprisco, mas é difficil a minha -tarefa. Se eu pudesse ter o auxilio de v. ex.ª... - ---Ai! filha! tambem tenho de cumprir a minha missão. E juro-lhe que ás -vezes desfallecia, se não tivesse os olhos fitos na recompensa do céo. - ---É verdade, é verdade. A senhora condessa entra vestida e calçada no -paraizo. E como vae a sua santa obra? - ---Eu não descanço; mas este anno tem provado mal. Debaixo dos meus -auspicios tem-se feito apenas oito casamentos; é verdade que todos -difficeis. Quatro foram de creadas minhas, que andavam de namoro com -uns valdevinos do sitio; mandei-os chamar e obriguei-os a casarem. -Ellas não queriam de fórma alguma. Tinham tomado informações, e sabiam -que os taes rapazes eram uns bebedos, outros jogadores, outros vadios. -«Porque não indagaram isso antes de os namorarem? disse-lhes eu. Ou -fazerem o que lhes digo; ou sairem de minha casa. Não quero escandalos -das minhas portas a dentro. Quem namora deve ter em vista o sacramento -do matrimonio.» Houve uma que teimou, e saíu da casa; mas não -encontrando arrimo em parte alguma, porque todos sabiam que tinha sido -posta fóra por mal comportada. Andou por ahi a morrer de fome, até que -não teve remedio senão fazer o que eu quiz. Mas custou-me. - ---Que santa! meu Deus! que santa! bradou D. Antonia em extasi, -levantando para o tecto os olhos e os braços. Pessoas como a senhora -condessa são raras n’este seculo. E a sua prima, a senhora marqueza, o -que é feito d’ella? - ---Está em Roma a santinha! Foi beijar o pé a sua santidade! Escreveu-me -de lá. Está louca de contentamento. Já viu tres vezes o vigario de -Christo, e tem conversado com doze cardeaes. Ah! deve ser uma grande -consolação para o padre santo, no meio das amarguras que a impiedade -dos italianos lhe está causando todos os dias, ver que ainda ha fieis -que tem por elle tanto respeito e amor. - -Esta edificante palestra foi interrompida por um grito da senhora -baroneza. Levantou-se, como se obedecesse a um impulso de molas, e -bradou com voz sepulchral: - ---Arreda-te, inimigo... Cruzes, Satanaz... Não me tentas, não, não me -tentas... Sim, meu doce Jesus, sim, bem vos vejo... Chamais a vossa -serva... Ahi vou, ahi vou... Esperai um instante, meu salvador... Não -desvieis a vossa face... Foge, Belzebuth, Asmodeu, Astaroth e Moloch... -Ai! que eu já vejo o inferno... Senhor Jesus, acudi-me! - ---Rezemos, rezemos, exclamou a condessa, caindo de joelhos; são visões -que assaltam aquelle espirito bem-aventurado. É preciso que estejamos -em oração, para que aquella santa vença o inimigo que a tenta. - -D. Antonia caíu de joelhos, e a Maria do Rosario, que apparecera á -porta, fez o mesmo, dando grandes murros no peito. - -Eu olhava estupefacta para aquella scena burlesca. - -Não querendo fazer-me reparada, affastei-me um pouco, e simulei que -ajoelhava. - -Afinal a baroneza caiu prostrada no canapé. Viera-lhe a espuma -aos cantos da boca, como succedia ás pythonisas pagãs. A condessa -levantou-se e disse a D. Antonia: - ---Mande-lhe dar um caldo, que é sempre o que ella toma, depois d’estes -extasis. - ---Um caldo para a senhora baroneza, exclamou D. Antonia, voltando-se -para Maria do Rosario. - -E a Maria do Rosario repetiu, correndo pela escada abaixo: - ---Um caldo para a senhora baroneza, que tem _bisões_. - -D’ahi a pouco voltava trazendo uma chavena de caldo, e dirigia-se á -baroneza. - ---Beba, minha santinha, disse ella, beba, que lhe ha de fazer bem. - -A baroneza levou machinalmente a chavena aos labios, bebeu dois ou tres -golos; mas de repente estacou, perguntando: - ---De que é este caldo? - ---De gallinha, senhora baroneza, de gallinha. Matou-se hoje a mais -gorda da capoeira. - ---De gallinha! repetiu a baroneza. - -E deixou cair a chavena em cima dos pés da Maria do Rosario, entornando -o seu contheudo, e escaldando a creada. - ---Má raios... principiou esta. - -Mas logo atalhou, mastigando em secco: - ---Seja pelo divino amor de Deus! um caldinho tão bom, que os anjos o -podiam beber. - ---De gallinha! continuava a baroneza, plangentemente, e hoje é -sexta-feira! Vão chamar o senhor padre prior. - ---Elle não deve tardar, minha senhora, acudiu D. Antonia, ficou de vir -jogar uma partida de voltarete. - ---Ah! sim! o voltarete! repetiu a baroneza extasiada, n’um tom de -ineffavel jubilo. - -E julguei que ia ter outra visão a proposito do basto e da espadilha. - -Seguiram-se alguns instantes de um silencio, que foi interrompido pelo -tropear de um cavallo na estrada. - ---Ahi vem o senhor padre prior, exclamaram a um tempo D. Antonia e a -condessa. - -D’ahi a pouco, sentiram-se na escada passos pesados, e logo depois -appareceu á porta um homem alto e reforçado, de bota de montar, e -casaco até ao joelho. - ---_Pax Domini!_ exclamou elle ao entrar. - ---É Deus quem o envia, senhor padre prior, acudiu a baroneza. Commetti -um grande peccado, meu padre; venha ouvir-me de confissão. - ---Minhas senhoras, tenho a honra de as cumprimentar. Como está a -senhora condessa? Senhora D. Antonia, Deus a tenha em sua guarda. Viva, -minha menina. Guapa moça! accrescentou voltando-se para a condessa, que -se sorriu com agrado. - ---Senhor padre prior, acuda-me, bradou a baroneza, que já sinto as -garras de Belzebuth. - ---Então que é isso, minha santinha? Então que é isso? disse a final o -padre prior, dirigindo-se para ella, e fazendo tremer a casa a cada -passada que dava. Então que peccado temos? - -Sentou-se, e a baroneza, inclinando-se-lhe ao ouvido, disse-lhe a culpa -que lhe pesava na consciencia. - ---Hum! hum! resmungou o padre, quando ella acabou. Isso não é nada. -Reze duas corôas a Nossa Senhora, e temos tudo acabado. - -Depois, levantando-se e dirigindo-se a D. Antonia, continuou: - ---Então esta é que é a mulher de seu sobrinho? - ---Sim, senhor, respondeu ella. - -O padre fez-me uma festinha na cara, e disse: - ---Estimo conhecel-a! Ande lá que o Claudio não a merecia a Deus. - ---Então, senhor padre José, acudiu a condessa brandamente, não esteja -affagando a vaidade feminil; bem sabe que é essa a mais terrivel arma -de que o demonio dispõe. - -O padre olhou para ella com tão comico espanto, que eu não pude deixar -de desatar a rir. - -O sacerdote olhou-me, sorrindo-se com benevolencia, e offereceu-me uma -pitada. - -Como eu recusei, foi offerecendo á roda, e depois, mettendo os dedos na -caixa, tirou um monte de rapé que sorveu com delicias. - ---Pois aqui onde me vêem, disse elle, por um triz que não parti inda -agora as costellas. - ---Como? acudiu logo o terceto, assustado. - ---É verdade; é a primeira vez que monto no cavallo, que comprei em -Lisboa. Por isso, como não lhe conhecia as manhas, vinha com cautella, -e foi o que me valeu. Aqui ao pé, o demonio assusta-se com um tronco -de arvore, que o vendaval de hontem á noite partira, e deu-me tamanho -galão que eu ia perdendo os estribos. Ora, se a senhora condessa visse! -Prégo-lhe as esporas na barriga, e obriguei-o a vir n’uma galopada até -aqui á porta; assim é que eu os ensino. - ---Graças a Deus, não se magoou? - ---Eu! levava-o a breca, se me megoasse. - ---É verdade, senhor padre José, tornou a condessa, não tem por lá -medalhinhas da Virgem para dar aqui á D. Antonia? - ---Ora, se tenho; é o que por lá falta! Quer algumas? Não faça -cerimonia! E a proposito, não se joga o voltarete? - ---Está-se á espera do _senhor_ Theodoro Leite, acudiu a condessa. -Sempre se ha de fazer esperar. Bem mostra que é herege. - ---Oh! se é, tornou o padre; está já a arder no inferno, o maldito! Pois -então não me deu hontem dois codilhos em casa do escrivão... É verdade, -a mulher do administrador lá offereceu um manto riquissimo á Senhora -das Dores. - -Nos olhos da condessa fuzilou um raio de colera. - ---Offereceu?! logo vi. A filha de um dos meus caseiros, que enriqueceu, -sabe Deus como,--quer saber, D. Antonia? não está agora ao desafio -comigo? A que tempo chegámos, meu Deus! Se eu offereço um resplendor ao -menino Jesus, dá ella um manto de seda a Nossa Senhora. Já se viu uma -coisa assim? Eu sempre queria saber aonde ella vae buscar o dinheiro! - ---Que desaforo! acudiu D. Antonia indignada, e o senhor padre prior -consente semelhante coisa! - ---Então que lhe hei de eu fazer?... - -N’este momento abriu-se a porta, e um homem velho, magro, mal -enroupado, mas de meiga e sympathica physionomia, entrou timidamente. - -Cumprimentou-nos a todos com acanhamento, e só de mim recebeu uma -cortezia amavel. A condessa tratou-o friamente; a baroneza nem deu -pela sua entrada; D. Antonia cumprimentou-o com seccura, dizendo-lhe: -«Julgavamos que não vinha», e o padre prior acolheu-o com brados de -indignação. - -O pobre Theodoro Leite curvou a cabeça, para deixar passar a procella, -e foi, como que arrastado pelo parocho, sentar-se á mesa do voltarete. - -Formamo-nos então em dois grupos distinctos: o prior, a baroneza e -Theodoro entregaram-se ás delicias dos codilhos e das licenças, -emquanto eu, D. Antonia e a condessa ficamos no canapé, conversando -e costurando, duas occupações que me desagradavam bastante. Procurei -vencer a minha repugnancia; mas, apezar dos meus esforços, só de quando -em quando soltava uma palavra, e a agulha ociosa descaía muitas vezes -no meu collo, emquanto o meu pensamento voava para muito longe do sitio -onde estavamos. - -Ainda não acabara o desfilar das pessoas, que nos honravam n’essa noite -com a sua visita. Seriam nove horas, quando se abriu a porta da sala -para dar entrada a dois novos personagens. - -Um homem ainda novo, e uma senhora tambem na flôr da idade foram os -dois actores que entraram em scena. O personagem masculino tinha as -mais visiveis tendencias para uma obesidade precoce, e no seu rosto -cheio, bochechudo, de alvura deslavada, scintillavam dois olhos -pequenos, mas vivos e inquietos, que denunciavam... intelligencia? -intelligencia, de certo; mas uma d’estas intelligencias _praticas_, a -que não escapa uma especulação proveitosa, e para a qual são enigmas -abstrusos as aspirações grandiosas do espirito, e pomo vedado ainda o -fructo da arvore da sciencia. - -A senhora, que o acompanhava, não se podia chamar bonita, porque as -suas feições irregulares protestariam contra a denominação; mas os -seus olhos negros e rasgados tinham um scintillar tão malicioso, tão -provocador, que lhe illuminavam a physionomia, e lhe prestavam, senão -belleza, pelo menos uma certa animação, e um indisivel encanto. - -Estas duas pessoas foram recebidas de um modo que contrastava bastante -com o acolhimento feito a Theodoro Leite. D’esta vez houve apresentação -em regra. A condessa radiante pediu-me licença para me apresentar a sua -afilhada D. Carolina «que ella, condessa, se presava de ter educado nos -principios da mais severa religião e da mais sã moral» e o marido da -sua afilhada «moço de muito merito e virtudes, que (gloriosa excepção -no meio da mocidade depravada e impia do nosso tempo) era um modelo de -devoção, um exemplar de caridade, e um poço de sapiencia ainda por cima -para coroar esta assombrosa pyramide de predicados.» - ---Muito folgarei de as ver amigas, concluiu a condessa, accentuando -cada palavra. Posso dizer sem orgulho, que uma menina da sua idade, -senhora D. Margarida, e da sua educação, permitta-me que accrescente, -lucra muito com o trato intimo de uma senhora de juizo, como é -Carolina, posso affoitamente dizel-o. - -A elogiada Carolina achou modo de conciliar um modesto descer de -palpebras, que lhe serviu para agradecer o retumbante panegyrico, -declamado por sua madrinha, com um olhar malicioso, gaiato, com que me -brindou ao trocarmos o beijo e o abraço fraternaes. - -Jeronymo Freitas, seu esposo, cumprimentou-me, e logo depois, -sentando-se, encetou com a madrinha de sua mulher uma conversação, -que parecia um fogo de vistas, em que estalavam todos os nomes -aristocraticos do partido devoto, e que tinha a dupla vantagem de -incantar a condessa, e de deslumbrar D. Antonia. Eu não tinha a minima -idéa de uma coisa assim. Aquelle homem era ao mesmo tempo um vulcão, -uma torrente, um moinho, e um _Almanach de Gotha_ em folio, mas um -_Almanach de Gotha_, que uma causa desconhecida puzesse em ebullição, -e que arrojasse á atmosphera, como bolhas d’ar, os nomes de quantos -marquezes, condes, duques, principes, reis e imperadores existem por -esse mundo. «E estive com a senhora condessa de tal, e a senhora -marqueza disse-me isto, e á volta encontrei a senhora baroneza, que -accrescentou aquell’outro, e a senhora duqueza recebeu uma carta -de sua santidade, e o senhor marquez, que é um santo, disse-me: «Ó -caro Freitas, você não sabe...?» e sua eminencia o cardeal sicrano -communicou-me confidencialmente as suas afflicções» e... eu sei, estava -atordoada com aquella volubilidade incessante, inexgotavel, incançavel, -que apenas se interrompia uma ou outra vez para deixar passar uma -trovoada de imprecações com que o padre prior fulminava o pobre -Theodoro Leite, que fizera as _cinco primeiras_, provocando por essa -fórma os raios da excommunhão suspensos havia muito sobre a sua calva -heretica. - -D. Antonia estava extasiada, jubilosa como os gaiatos, que andam -apanhando as cannas dos foguetes, em dias de festividade nacional. -Assim ella tambem corria esfalfada atraz da verbosidade do Jeronymo, -para apanhar de relance um nome, que depois de ter estalado nos ares, e -produzido o seu effeito, caía magestosamente, levantal-o, e perguntar -logo: «Pois o senhor Freitas conhece o duque de tal?» - -Não posso calcular até que ponto estariam os meus nervos á prova de -semelhante palestra, porque D. Carolina, que olhara por vezes para mim -sorrindo-se, levantou-se, approximou-se da minha cadeira, e disse-me: - ---Dá-me licença que dê um giro no jardim, e quer-me conceder a honra da -sua companhia? - ---Com todo o gosto, minha senhora, respondi eu, erguendo-me logo, e -acompanhando-a para fóra da sala. - -Descemos ao jardim: a noite estava clara e linda como uma verdadeira -noite de primavera; só a brisa, ainda frigida bastante, lembrava a -proximidade do inverno. - -Carolina passou-me o braço á roda da cintura, e, dando-me um beijo -affectuoso, disse-me, sorrindo: - ---Sabe, minha querida D. Margaridinha, que me estava mettendo compaixão! - ---Eu! respondi sorrindo-me tambem; porque? - ---Porque vi o tédio que lhe causava aquella conversação hypocrita -e fastidiosa. Pobre creança, não está ainda habituada á estranha -sociedade, no meio da qual o accaso a collocou. Tudo aqui é frivolo, -minha querida, e tudo toma uma apparencia grave e pedante, como um -alfarrabio theologico; tudo é immoral; e tudo toma ares austeros. -Mascara, mascara e mascara; nada mais. Se estou bem informada, um -dos artigos do regulamento dos bailes publicos prohibe as mascaras -religiosas, mas não ha lei alguma, que me conste, que as prohiba na -sociedade, onde existem com abundancia, ha-de-se costumar tambem, minha -filha, ha de fazer o que eu faço, envergar um dominó da confraria, e -rir-se dos outros, por baixo da mascara como elles se riem de nós. - ---Nunca, respondi eu com impetuosidade; se a hypocrisia é em todos os -casos um vicio odioso, que proporções não assume quando macula com o -seu bafo pestifero o sentimento mais nobre que existe no coração do -homem, o sentimento da religião! - ---Ai! ai! tornou Carolina desatando a rir, d’onde trouxe essas idéas, -minha querida? de que planeta desconhecido? de que paraiso terrestre, -onde esteja ainda intacta a arvore do bem e do mal? Innocencia digna da -edade de ouro! Virtude bucolica, mais propria para habitar na choupana -classica de Philemon e Baucis, do que n’uma quinta dos arredores de -Bellas! Ah! mas diga-me, a D. Antonia afinal calumniou-a? - ---Não sei o que D. Antonia diria a meu respeito, respondi eu com certa -reserva; mas tenho as minhas razões para suppôr que não entoou o meu -panegyrico. - ---Carolina parou e olhou para mim, franzindo levemente a sobrancelha. - ---Ah! não quer ter franqueza comigo! Está-se mostrando estrategica -habil! Esconde-me o jogo; pois olhe, para lhe provar que póde -depositar plena confiança em mim, vou pôr as minhas cartas em cima da -mesa; queimo os navios, e veremos depois se estará disposta a assignar -comigo um tratado de alliança offensiva e defensiva. - ---Oh! minha querida senhora D. Carolina, tornei eu rindo, estou prompta -já a assignal-o, e affianço-lhe que é injusta, desconfiando da minha -franqueza. Mas o que deseja que eu lhe diga? Nos mais reconditos -refolhos do meu coração não se esconde um pensamento, que eu não possa -confiar-lhe. - ---_Le jour n’est pas plus pur que le fond de mon cœur!_ tornou Carolina -com seriedade comica, já conheço o estribilho. Como prova das boas -relações em que vamos estar, principiemos largando o tratamento -cerimonioso que temos empregado. Queres, Margarida? - ---Com todo o gosto, Carolina. - ---Bom! estamos alliadas! E agora diz-me: que idéa fórmas tu de minha -madrinha, e de meu marido? - ---Como quer... - ---Como quer? repetiu ella, ameaçando-me com um dos dedos levantado. - ---Perdão: como queres que eu tenha uma opinião formada sobre duas -pessoas que vi esta noite pela primeira vez? - ---Ou estes olhos mysteriosos, de um azul tão profundo como o do céo em -noite de verão, me enganam muito, ou a esta cabecinha gentil nem tanto -tempo é necessario para avaliar uma pessoa. Eu mesma vou apostar em -como já estou julgada e condemnada talvez no teu tribunal intimo. - ---Fazes demasiada honra á minha intelligencia, tornei eu rindo, -affirmo-te... - ---Nada affirmes; acceitarei as tuas phrases como versiculos do -Evangelho, e passarei desde já a dizer-te, para poupar trabalho á tua -imaginação, qual é o caracter d’esses dois personagens, com quem me -vejo obrigada a estar sempre em scena n’esta comedia da vida. - ---Falla! - -Sentámo-nos n’um dos bancos do jardim; Carolina alisou com a mão os -cabellos, que a brisa enredara um pouco, e, depois de relancear, com -certa ironia, os negros olhos para a janella da sala, em cujos vidros -illuminados se estampava de vez em quando o vulto quasi dobrado ao meio -de Maria do Rosario, que andava no seu serviço, voltou-se para mim, e -disse: - ---Principiemos por minha madrinha. Aquella senhora austera, que -alli vês, que préga moral rispida, e que é inflexivel em pontos de -pundonor, que, se vivesse no tempo de Jesus, e fosse discipula sua, -duas vezes, pelo menos, o renegaria, a primeira quando elle perdoou -á mulher adultera, a segunda quando enxugou com um raio do seu amor -divino as lagrimas de Magdalena, aquella senhora teve uma juventude -tempestuosa. Não julgues por isso que arredou pé nem uma vez só do -caminho da salvação. Habil como aqueles heroes das lendas antigas, que -aproveitavam os serviços do diabo, e que o logravam depois quando -chegava a occasião do pagamento, fixada no pacto infernal, a condessa -começou desde muito nova a fazer os mais proveitosos enxertos de -ramaria profanissima na arvore divina. Encerrada no templo, curvando -o joelho ao altar, e transformando em alcova a sachristia, zombou das -tolas que peccavam em plena rua, e sobre as quaes os seus labios, -ainda frementes de lascivia, arrojavam com impudencia o sacrilego -anathema. Não julgues comtudo que era a condessa uma excepção no meio -da aristocracia feliz, que pôde receber... nas suas salas a brilhante -juventude monastica. Ai! minha filha, as aventuras fradescas não são -puras invenções dos Rabelais populares, que nol-as transmittiram. O -frade representou um grande papel na chronica escandalosa das gerações -que nos precederam. O devoto habito pendurado á porta de um palacio -era escudo contra a maledicencia, e Cupido, como se dizia n’esse -tempo, podia folgar affoitamente resguardado das vistas curiosas pela -cogulla santa. Cythera chamava-se Thebaida, Paphos era Cartuxo, Gnido -um sagrado mosteiro. Ah! se tu soubesses tudo quanto me revelou a -chronica familiar do palacio, a tradição oral da creadagem! É divertido -e instructivo. - -Carolina calou-se por um instante, e continuou depois, levantando-se e -ficando em pé defronte de mim: - ---Admiras-te provavelmente, como todas nos admiramos, da singular -seducção que a actriz da voga, que a cantora afamada exercem em muitos -homens. Infelizmente, não temos direito de nos admirar. O que a actriz -e a cantora são para elles, foram-n’o os moços prégadores de fama para -as senhoras, que julgariam peccado horrendo entrar no camarote de -um theatro. Oh! quereria poder contar-te o profano ardor com que as -devotas peccadoras corriam a atulhar a egreja do convento no dia em que -subia ao pulpito o Richelieu tonsurado, o monastico Lauzun d’aquella -sociedade licenciosa e beata, quereria poder narrar-te a mystica -voluptuosidade com que muitos olhos fulgurantes se fitavam no rosto -imberbe do homem de Deus. Podia citar-te anecdotas, podia apontar-te -o nome do garrido frade de pé pequeno, que, se fosse como o José da -Biblia, teria de fazer uma despeza enorme em capas; não era. Podia -citar-te os caprichos de alguma senhora, que, rival em extravagancia da -imperatriz Catharina, substituia os granadeiros da amante de Potemkin, -pelos fradalhões mais nojentos dos innumeraveis conventos de Lisboa. -Não cito; dir-te-hei unicamente que a austera condessa foi uma das -heroinas d’esse poema licencioso; e por uma estranha aberração dos -principios de moralidade contempla hoje sem remorso o seu passado -viver, e julga-se com pleno direito de fulminar com o anathema sobre as -peccadoras da actualidade. - -Carolina estava n’esse momento realmente bella; os olhos faiscavam-lhe, -palpitavam-lhe convulsos os labios descorados. Eu mirava-a com espanto. - ---Aqui tens o que é minha madrinha, continuou a minha interlocutora, -sem me deixar sequer interrompel-a. Meu marido avaliaste-o de certo -pelo que lhe ouviste. Homem sem principios nem crenças, tudo tem -sacrificado ás suas conveniencias e á satisfação da sua balofa -vaidade. Fez-se devoto, quando o meu dote se lhe deparou como facil -conquista para que soubesse conciliar a affeição de minha madrinha, -que era tambem minha tutora desde a morte de meus paes. Seria sceptico -ferino, se a condessa fosse discipula do senhor de Voltaire. Além -d’isso o seu ridiculo amor-proprio satisfazia-se com a idéa de ver -descerrarem-se-lhe as portas das salas aristocraticas, onde campeiava -essa sociedade que outr’ora insultara com vehemencia republicana, -quando a julgara tão longe de si e tão alto como as celebradas uvas -estavam na parreira longe da raposa da fabula. Ahi tens quem é meu -marido. - ---Traçaste esses retratos com mão de mestra, mas suspeito que os -fizeste demasiadamente carregados, accudi eu... - ---Não, tornou ella, encolhendo os hombros, disse-te a verdade -francamente, porque soubeste captivar-me as sympathias, e desejo ter-te -por amiga. Desejava tambem explicar-te o meu caracter, que tem duas -faces, a que viste na sala, e a que vês aqui; a complacencia hypocrita, -e a revolta aberta. Aprendi com elles a arte da dissimulação, vi -dos bastidores a comedia que elles representavam, ouvi de boccas -indiscretas os mysterios do camarim emquanto o publico applaudia -e coroava as actrizes e os actores. Convenci-me de que tudo era -hypocrisia; e, passado o primeiro momento de repugnancia, entendi que -devia tambem representar o meu papel n’essa immensa farça. Gosar foi a -minha divisa, lograr esses logradores encartados o meu programma. Ahi -tens o que eu sou. Vamos agora ao que importa. Teu marido é um parvo, e -tu és uma linda e intelligente rapariga. Quem é esse Alberto em quem a -D. Antonia falla com tão devota compuncção? - -Olhei para ella com assombro. - ---Pois já a tia de meu marido, accudi eu, teve tempo de me rodear, de -me enlear com as suas calumnias? Por amor de Deus, senhora D. Carolina, -preste-me justiça maior. - ---É essa a recompensa da minha franqueza, redarguiu ella, sentando-se -ao meu lado; e em vez de uma alliada tenho em ti uma inimiga? -Diriges-me assim uma indirecta reprehensão? - ---Deus me defenda, tornei eu um tanto constrangida, como hei de -arvorar-me em juiz das acções dos outros? O teu procedimento foi-te -dictado por motivos que eu não tenho... desculpas que eu... não poderia -allegar... - ---Não te embaraces mais, tornou ella com certo azedume, só te digo que -fazes mal em ir por esse caminho. És inexperiente, e precisas de quem -te guie na escabrosa estrada da tua rebellião. - ---Mas se eu não tento revoltar-me! - ---Queres persuadir-me que amas teu marido? - -Não respondi. - ---E, não o amando, affirmas que não teem o minimo fundamento as -bisbilhotices d’essa tola da D. Antonia? - ---Juro-o; acudi eu, levantando-me de um impeto; ainda que o amor não -exista na minha ligação com um homem bom e honrado, basta o sentimento -do dever para me impedir de deshonrar o nome, que voluntaria ainda que -irreflectidamente acceitei. Póde acredital-o. - ---Agradeço a lição, tornou Carolina com amarga ironia, e não quero -ficar-lh’a devendo; dar-lhe-hei outra. Saiba pois, pomba innocente que -se julga tão forte, que ha de chegar um momento, em que, perseguida -pela calumnia incessante, abandonada por um esposo indifferente ou -cego, sentindo referver-lhe nas veias o sangue da mocidade, inebriada -pelas tentações que a hão de rodear, se despenhe e macule as azas -brancas n’esse tremedal que despreza. Então ha de lastimar amargamente -o ter repellido a alliança que lhe offereço. Voltemos para a sala. - ---Sinto, senhora D. Carolina, tornei eu gravemente, haver-lhe -desagradado. Mas acredite que, se a fatalidade me levar a esse -aviltamento, não sentirei senão o remorso de ter praticado uma acção -indigna. - ---Veremos, respondeu ella erguendo-se. - -Voltámos para a sala, e pouco depois todas as visitas se retiraram. - - - - - XII - - -Succederam-se com regularidade estes serões do voltarete. Fomos -procuradas pelas notabilidades dos arredores, recebemos e pagamos -visitas, mas o congresso da primeira noite foi que se estabeleceu na -nossa sala de um modo definitivo. - -De todas essas pessoas a que me inspirava sympathia verdadeira era o -Theodoro Leite, o despresado, o tolerado apenas. Gostava de contemplar -aquella meiga physionomia de velho timida como a de uma creança. -Sentada com o meu bordado, olhava de relance para elle, e via-o muitas -vezes distraido das preoccupações banaes do jogo, com os olhos como -que fitos n’um mundo para nós invisivel. Se uma imprecação do padre -prior o avisava de que havia commettido alguma falta ao voltarete, -Theodoro estremecia, e o seu rosto de novo tomava a expressão de timida -deferencia, que habitualmente o caracterisava. Mas na sua triste -fronte via eu distinctamente o reflexo dos orbes luminosos, em cuja -contemplação se embevecera. - -A sua vida era um poema de sacrificios e de infortunios. Entrara na -sociedade com uma instrucção litteraria desenvolvidissima, e por -conseguinte inutil em Portugal... e em toda a parte, parece-me. Quizera -continuar a estudar, haviam-lhe faltado os meios; quizera ensinar o que -já sabia, e por essa forma grangear alguns recursos, vira-se repellido -de toda a parte, porque o seu caracter recto e firme não lhe permittia -que falsificasse a historia, e que deixasse de estampar na fronte da -facção clerical o estygma que ella merece. Por amor da verdade, e não -por paixão partidaria, quiz luctar com a serpente, cujas roscas geladas -tentam de novo cingir e abafar o mundo, e a serpente ergueu-se contra -elle e suffocou-o. Vencido e exhausto, já de cabellos brancos, tomou o -seu bordão de peregrino, e voltou para Bellas, sua terra natal, d’onde -partira, rico de esperanças, de mocidade e de enthusiasmo; onde entrava -opulento de cãs, de desgostos e de fadigas... pobre de tudo o mais. - -Na casa paterna encontrou sua velha irmã entrevada, que lhe pedia pão. -O austero apostolo da verdade, que sacrificara futuro, tranquillidade -e o pão da sua velhice ao seu nobre orgulho, sacrificou isso mesmo, -que era só o que lhe restava, ao bem estar de sua irmã.--Elle, o firme -combatente, o luctador incançavel, foi ajoelhar humilde perante os -implacaveis adversarios. A condessa e outras senhoras do sitio eram -protectoras de uma escola de creanças pobres, fundada na aldeia de ***; -Theodoro Leite foi pedir o logar de professor. A condessa divertiu-se -em lhe fazer sentir bem a humilhação, a que a desgraça o obrigara; e -afinal, movida pela _caridade christã_, concedeu-lhe o que elle pedia. -A verdade era que estavam em grandes embaraços, porque não encontravam -um unico professor capaz, que se quizesse sujeitar a receber o ordenado -fabulosamente exiguo, que a sua economica beneficencia se prestava -generosamente a conceder. - -Theodoro Leite sympathisara comigo, e comigo só fallava -desafogadamente. Nas rapidas palestras, que tinhamos tido, pude -reconhecer a sua vasta erudição, e a bondade quasi angelica do seu -caracter. - -Estavamos uma noite reunidos, segundo o costume: Theodoro, a baroneza, -e o prior no seu eterno voltarete, eu e os outros junto do canapé. A -palestra versara sobre os infortunios do papa. Subito a condessa tira -da algibeira um papel, e diz: - ---Lembrou-me abrir aqui uma subscripção para o dinheiro de S. Pedro. -Estou que ninguem recusará tomar parte n’uma obra tão meritoria. -Reservei para a senhora D. Margarida a honra de abrir a lista dos -subscriptores. - -Todos os olhos se voltaram para mim, com curiosidade. Theodoro Leite -desviou a attenção do jogo, e mirou-me anciosamente. - -Foi no meio de um profundo silencio que eu respondi: - ---Aprecio infinitamente a honra que v. ex.ª me faz; é mais uma prova -da sua benevolencia e da sua amizade. Comtudo permitta-me a senhora -condessa que lhe faça algumas observações. Se eu fosse nimiamente -rica, não teria duvida em dar ao Summo Pontifice essa prova do meu -respeito; mas, não tendo riqueza tanta que me permitta esbanjar assim -os meus rendimentos, prefiro poisar na mão do pobre a esmola destinada -ao erario pontifical. Estou que será por essa forma duplamente -agradavel a Deus e ao vigario de Christo. Esse pouco de oiro, que se -sumiria, parcella minima, no golphão do luxuoso Vaticano, pode só por -si fazer brotar a alegria na misera choupana. Portanto, se v. ex.ª m’o -permitte, darei a minha quota aos pobres; bem sabe que é o mesmo que -emprestal-a a Deus. - ---Muito bem, muito bem! exclamou Theodoro Leite irreflectidamente. - -O pobre homem, deixando-se levar do primeiro impeto, de tudo se -esquecera; mas logo caiu em si, e fez-se pallido como um defuncto. - -A condessa aproveitou o ensejo para desabafar, e fulminou Theodoro com -o peso da sua indignação. - ---Muito bem, o que? exclamou ella. A senhora D. Margarida, tendo -aquellas idéas, só prejudica a salvação da sua alma, porém o senhor -Theodoro é responsavel para comigo das almas dos meus orphãosinhos. -Como quer que eu conserve na minha escola um homem que tão abertamente -professa doutrinas impias e sacrilegas? - -Eu voltara ao meu bordado, e olhava ás furtadellas para o pobre -Theodoro que por minha causa padecia. - -A desgraça abatera completamente a alma varonil. Creio que de relance -viu a imagem de sua pobre irmã supplicando-lhe que a não abandonasse, -e as gottas de um suor de agonia aljofraram-lhe a fronte. Então -respondeu n’um tom aflicto, que me faria rir immenso, se aquelle mesmo -ridiculo não fosse tanto para commover. - ---Mas, minha senhora... eu não applaudo as idéas... foi apenas a... -a... a disposição grammatical do discurso da senhora D. Margarida. -Perfeitamente bem construido... a regencia irreprehensivel... a -syntaxe... - ---A syntaxe o que? interrompeu a condessa lentamente, esmagando-o com o -seu olhar ferino. - -O pobre Theodoro estava cada vez mais pallido; era o naufrago, que vê -fugir-lhe das mãos a derradeira taboa, e que ouve o rugido feroz das -ondas, parecendo motejar do seu infortunio. - ---Dizia eu, minha senhora, que o estylo era muito acceitavel: mas... (e -Theodoro lançou-me um olhar em que implorava a minha indulgencia), mas -só o estylo; as idéas regeito-as. - ---Ah! o estylo! continuava a condessa, implacavel. - -Eu sentia o rubor da indignação na fronte. Era infame aquelle -zombetear, aquelle brincar do tigre com a victima. - -A condessa curvou-se então para o lado de Theodoro, e disse-lhe algumas -palavras em voz baixa. Suspeito que o demittira do seu logar de -professor, porque vi duas lagrimas brilharem nos olhos melancholicos do -pobre velho. - -O que veria elle n’esse tremendo lance? Que sinistras visões lhe -povoariam a mente? O edificio da sua velhice, a tanto custo construido, -e derrubado n’um instante, o pão de sua irmã com tantas lagrimas -amassado, faltando-lhe de subito! O velho pendeu a cabeça, relanceou um -triste olhar para todos os lados, e suspirou. Comtudo ainda não havia -terminado a tortura; não estava acabada a partida, e interrompel-a -seria conciliar para sempre a adimadversão de todos. Theodoro -resignou-se, sentou-se outra vez na cadeira, d’onde se levantara, e -continuou a jogar. - -«Outro martyrio, disse eu comigo, que não tem o prestigio da poesia, e -que ninguem se lembraria de lastimar.» - -Comtudo reinava um certo constrangimento na sala, e tornava-se -impossivel prolongar muito o serão. Antes que saissem as visitas, -entendi que devia, ainda que não fosse senão por descargo de -consciencia, tentar alguma coisa a favor de Theodoro Leite. Baldada -tentativa! A condessa respondeu-me com hypocrita doçura, mas com -inabalavel firmeza. Tambem a advogada era mal escolhida. A devota -senhora, que já pouco sympatisava comigo, ficou sendo desde essa noite -minha inimiga declarada. Declarava-se o _triumfeminato_ adverso: a -condessa, D. Antonia, D. Carolina. - -Ao despedirem-se, vi Theodoro Leite principiar a fazer manobras, cujo -fim não podia adivinhar, approximava-se lentamente da janella, mirava a -a paisagem nocturna, depois encaminhava-se para a mesa, junto da qual -eu estava. - -Afinal, quando viu todos distraidos, travou-me subito da mão, e -apertou-m’a com viveza e enthusiasmo. - -E, dada esta prova de coragem, saiu quasi a correr. - - - - - XIII - - -No dia seguinte, ás tres horas da tarde, saía eu sósinha, e punha-me a -caminho da casa de Theodoro Leite. - -A Annica dera-me as explicações topographicas mais minuciosas para que -me não perdesse. Mas a Annica não contara com as distracções da minha -phantasia, não pensara na influencia d’uma formosa tarde de primavera, -nas tentações de respirar em liberdade esse ar dos campos, tão puro, -tão são, tão fragrante! - -Sentir-me só, livre de todo o constrangimento, de todas as -perseguições, só com a natureza e com Deus, engolphar-me de novo em -pleno ambiente de poesia, depois de me ter encravado até aos joelhos -na lama vil da mais repugnante prosa, tudo isso me enlevava tanto, me -rejubilava por tal forma, que me parecia renascer para a vida, como eu -quizera, como eu comprehendera, para a vida do sonho, para a vida do -ideal. - -Sósinha! Como eu trepava ao cimo da mais pequena elevação de terreno -para descobrir mais largo horisonte, como eu ficava embebida em jubilo -infantil, a contemplar os malmequeres, sobre os quaes a brisa fluctuava -de manso, acamando-os levemente, como se milhões de invisiveis -borboletas poisassem de subito na graciosa cabecinha da flor campestre! -Tanto me enlevei, tanto me extasiei, tanto me deliciei que afinal -perdi-me. Já cançada e offegante, via o sol pender cada vez mais para o -horisonte, e não sabia ainda o caminho que havia de tomar. Valeu-me um -saloio venerando, que encontrei, e que me foi conduzir até á porta de -Theodoro Leite, acceitando, apesar da sua physionomia patriarchal, com -mostras de muito jubilo, a remuneração em dinheiro que lhe offereci. - -A casa do mestre de meninos era modesta, mas aceiada. A sua fachada -branca atapetava-se graciosamente com plantas trepadeiras, que lhe -emolduravam as janellas, em cujos vidros scintillavam os raios do sol -poente. Respirava toda ella pobresa, mas serenidade. - -Bati á porta. Appareceu-me logo Theodoro com um livro na mão. Soltou -uma exclamação de jubilo assim que me viu. - ---Foi a minha casa eleita pelo Senhor? Visitam-me os anjos, como -visitaram outr’ora os patriarchas hebreus? Bemvinda seja a esta -choupana, minha filha! Entre e illumine com o seu meigo sorriso as -trevas precursoras de sepulchro em que estes dois velhos vivem. - ---Que de galanteios, senhor Theodoro! disse eu, entrando alegremente. -Velho que sabe dizer tantas finezas é mais perigoso que um rapaz. - ---_O gioventú, primavera della vita!_ tornou elle, mirando-me com terno -sorriso. Doce estação da existencia, cujo reflexo até o inverno aclara. -Aqui tens, Josephina, o anjo em que tantas vezes te fallei, continuou -voltando-se para sua irmã, palida creatura que jazia n’uma pobre cama. - -Approximei-me d’ella com o respeito, que o infortunio inspira. -Josephina poisou-me na cabeça a mão quasi transparente, murmurando: - ---Pobre creança! Deus te fade bem, e mude os abrolhos da estrada que -trilhas em flores suavissimas, o leito de espinhos em leito de rosas, -as agruras do caminho em aveludado tapete. - -Curvei-me respeitosamente, recebendo esta benção maternal. - ---Sabes, Josephina, acudiu Theodoro, que difficil seria encontrar um -quadro mais delicioso do que esse que estão agora ambas formando? Os -teus cabellos brancos de neve confundem-se com as tranças levemente -aloiradas de D. Margarida. Aqui, do sitio onde estou, vejo desenhar-se -em graciosa curva o corpo esbelto, ou antes a haste gentil d’esse -lyrio, que se debruça para o teu leito a perfumal-o de fragrancias, -a perfumar-te de juventude. Ha um raio do sol poente, que entra pela -janella, e vae semear de palhetas d’oiro os cabellos d’essa formosa -menina, e a ti purpureia-te levemente a fronte de marfim. Onde ha -espectaculo que se possa comparar a este que disfructo agora? Duas -vidas que se entrelaçam, uma tão pura no seu occaso como a outra na -sua aurora, duas auréolas, cujos raios de luz se confundem, auréolas -que não sei dizer qual seja a mais explendente, se a que se fórma de -infortunio, se a que se compõe de innocencia! - ---Poeta! poeta! disse Josephina, e continuou, voltando-se para mim; foi -sempre o defeito d’este meu irmão; não sei se elle perpetrou alguns -versos... - ---Nunca, Josephina; rima nenhuma tenho a pezar-me na consciencia. - ---É o mesmo, ou antes é peior. Não desabafa em rimas, entretem-se em -devaneios, é o que lhe tem feito mal. Era melhor que tu te lembrasses -de offerecer alguma coisa de comer a esta menina, cujo appetite havia -de ter sido despertado pela caminhada. - ---Queres que lhe offereça os alimentos frugaes da nossa Thebaida? Pão -secco... - ---E laranjas, desmemoriado. Pois já te esqueceste das que te trouxe o -pae d’um dos teus discipulos? - ---Não, não, acudi eu apressadamente, não tenho vontade. - -As minhas recusas de nada valeram. D’ahi a pouco apparecia Theodoro com -um açafate de laranjas magnificas. - ---Madame de Maintenon, disse elle, quando não tinha assado para dar aos -hospedes do seu primeiro marido, Scarron, contava-lhes uma historia. -Aqui, senhora D. Margarida, tem de passar sem assado e sem historia. - ---Dispenso o primeiro, tornei eu, mas não dispenso a segunda. A sua -vida passada não contará muitos factos d’util lição para quem entra, -como eu entro, na estrada da existencia? A sua vida presente não está -cheia tambem de modesto mas proveitoso ensinamento? - -Theodoro abanou a cabeça com melancholia. - ---O meu passado, filha, é um passado tristemente banal. Ferventes -illusões, desenganos profundos, n’isso apenas se cifra. Julguei que -o meu paiz caminhava com o resto da humanidade, e que podia tambem -eu accender o meu facho modesto para o ajudar a dissipar as sombras. -Enganei-me. Eram as trevas as vencedoras. Encaneceram-me os cabellos -n’essa lucta ingloria. Tarde, bem tarde, percebi que, se o meu paiz -regeitava o meu auxilio, reclamava-o a minha familia. Voltei para o -lar, como o filho prodigo. Cumpro agora os meus deveres como posso, e -infelizmente posso pouco. A minha vida presente, senhora D. Margarida, -tem o seu lado luminoso e o seu lado sombrio. Quando, ao pé do leito -de minha irmã, contemplo o sol que illumina além o horisonte com as -derradeiras chammas, quando vejo n’este vasto sanctuario da natureza -espelhar-se a idéa de Deus, tão clara e tão harmoniosa como a vejo -obscura e contradictoria na egreja profanada pelos que se dizem seus -sacerdotes, então sinto-me feliz, e agradeço á Providencia estes -breves instantes de suave repouso que me concede antes de me abrir as -portas do tumulo. Outras vezes, quando vejo minha pobre irmã soffrer, -sem eu lhe poder dar o conforto que o seu estado reclama, sinto as -ondas da amargura invadirem-me o coração. Sinto o remorso pungir-me... - ---Theodoro! exclamou a irmã. - ---Sim, Josephina, o remorso, porque foi o demonio da ambição quem me -arrastou para longe da familia. Cubiçei o papel de missionario da idéa, -quando me devia restringir ao dever mil vezes mais santo de consolador, -de esteio dos que Deus confiou á minha protecção immediata. Pela -_humanidade_ trabalham muitos, querem todos pôr a mão n’esse trabalho -glorioso, e esquecem o _homem_, o homem com os seus affectos, com os -seus deveres modestos, mas augustos, deveres que se resumem no acanhado -circulo da familia. Acanhado, acanhado como é acanhada a cellula da -abelha, mas a cellula á cellula se liga, e o seu conjuncto fórma a -colmeia. O conjuncto das familias, devemos pensal-o, é a humanidade. - -Eu ouvia-o com respeito, e contemplava enternecida aquella fronte -limpida, onde se revia tão doce serenidade, aquelle homem apodado -de impio, que professava tão nobres principios, emquanto os que se -presavam de religiosos tinham apenas (e demais a mais só em palavras) -uma desamoravel e falsa moralidade. - -Já vinha caindo a noite, e era tempo de me retirar. Eu fabricara em -casa uma historia muito complicada, que me authorisasse a soccorrer -aquella infeliz familia, que ficara ao desamparo por minha causa. -Mas o nobre vulto de Theodoro por tal fórma me enliara, que não pude -conseguir dizer duas palavras com algum nexo. Lembra-me que se tratava -d’um parente meu, que desejava editar traducções do latim, e um -mistiforio tal, que logo estaquei, fazendo-me muito córada, e só pude -dizer, pondo as mãos em attitude de supplica: - ---Por quem é, senhor Theodoro Leite, consinta que eu tome parte no -tratamento de sua irmã. - -Theodoro Leite ouvira a minha historia com um benevolo sorriso; mas -afinal duas lagrimas lhe marejaram nos olhos, e travando-me das mãos, e -beijando m’as, disse: - ---Consinto, sim, filha. Acceito sem vergonha a esmola, que as suas mãos -santificaram. Quem não acceitaria o orvalho celeste, que as brancas -azas d’um anjo lhe chovessem sobre a fronte! Que orgulho tão mal -entendido seria o meu! Deus lhe pague, filha, esse oiro bemdito, em -rosas no Empyreo, e em venturas na terra. - -E as duas lagrimas, que lhe humedeciam os olhos, deslisaram-lhe -lentamente pelas faces venerandas. - -A custo me despedi da pobre entrevadinha. Sentia-me tão bem n’aquella -humilde casa! - -Theodoro quiz por força acompanhar-me. O sol desapparecera já no -horisonte; as roxas côres do crepusculo iam-se destingindo a pouco e -pouco, e o azul longinquo das montanhas ia-se esfumando cada vez mais. -Augmentava o fulgor das estrellas, e a lua, ainda desmaiada, apparecia -no Oriente. - -Puzemo-nos a caminho. Eu dei-lhe o braço, e fomos conversando e -rindo, calando-nos a espaços para escutarmos o ultimo echo dos ruidos -expirantes do dia e os primeiros murmurios nocturnos. Separarámo-nos no -principio da lameda, que ia ter a minha casa. - -Entrei jubilosa e satisfeita. Estava já n’essa noite a reunião -completa, e logo todos repararam na expressão da minha physionomia. - ---Sabe o que diz o vulgo n’estes casos, minha querida senhora D. -Margarida? acudiu maliciosamente Carolina, diz assim: «Viu passarinho -novo!» - ---Pois olhe, tornei eu rindo, venho de uma gaiola onde não ha senão -passaros velhos. Venho de casa de Theodoro Leite. Vi a irmã; pobre -entrevadinha. A senhora condessa por força ha de ter soccorrido aquelle -infortunio, continuei eu maliciosamente. - ---Minha filha, respondeu a condessa, não me quero oppôr aos juizos de -Deus. A minha caridade estende-se a todos os christãos; mas animar os -impios não entra nos meus principios. - ---Se Jesus aqui estivesse, minha senhora, acudi eu sorrindo-me, -parece-me que teria ensejo para repetir a parabola do Samaritano. - ---Está muito forte em theologia, tornou a condessa. - ---Não, minha senhora, não sou theologa; mas gosto de ler o Evangelho. - ---Longe de mim a idéa, redarguiu a devota fidalga, de contestar o -merecimento dos livros sagrados; mas deixe-me avisal-a que não é bom -lel-os e commental-os sem ter um guia espiritual. Sabe a que isso nos -conduz? Ao protestantismo. - ---Quem diz a vossa excellencia, interrompeu Carolina, que a senhora D. -Margarida não tenha um guia espiritual? As suas excursões por estes -campos, tão, desprovidos de attractivos, não podem ter outro fim senão -o de procurar um... confessor. - ---Eu bem lhe disse, acudiu D. Antonia com azedume, que não era bonito -andar sósinha. Podia isso dar logar a mil interpretações, falsas -decerto, mas que não deixariam de lhe ser desfavoraveis. Não me quiz -ouvir. - ---Infelizmente, D. Antonia, exclamou a condessa, é esse o grande -defeito da mocidade contemporanea. Independencia individual, eis o seu -_desideratum_. Liberdade de pensamento... para o mal, e liberdade de -acção, que tambem no mal vae parar. Lerem sós e andarem sós. Pois olhe, -D. Antonia, quando uma menina lê algum livro muito recatada, e sem -querer que lh’o expliquem, póde contar que ao seu lado se debruça sobre -a pagina a cabeça de Satanaz, e quando quer andar só, não será Lucifer -o companheiro, mas olhe que vem a dar na mesma. - -Ia eu a responder indignada a estas malevolas insinuações, porque -decididamente não me fadara Deus para este genero de luctas, onde -perdia logo o sangue frio, quando sentimos na estrada o tropear de um -cavallo, depois passos de homem na escada; e afinal abriu-se a porta, -e appareceu no humbral um sujeito moço, de figura esbelta, e amavel -physionomia. - -Soltei um grito ao vel-o, e D. Antonia levantou-se com um risinho de -escarneo. - -Esse homem, que surgira á porta, era Alberto Mascarenhas. - - - - - XIV - - -Alberto ficou um pouco enleado, ao reparar na impressão que produzira, -mas logo recuperou o seu habitual desembaraço, e depois de cumprimentar -todas as pessoas presentes, dirigiu-se para mim e para D. Antonia, -dizendo: - ---Desculpem, minhas senhoras, se venho por esta forma surprehendel-as. -Imaginem vossas excellencias que me vejo obrigado a estabelecer-me -em Bellas por causa dos negocios de um tio meu, que, sob pretexto de -que hei de ser o seu herdeiro, houve por bem, emquanto não me lega -os seus haveres, fazer de mim uma especie de intendente d’elles. -Meu tio, segundo vêem, é um profundo philosopho, tem feito estudos -comparativos sobre a probidade dos intendentes considerada debaixo do -ponto de vista da natureza humana, e concluiu que o melhor gerente de -quaesquer bens é aquelle que os deve herdar. Debalde protestei contra -a theoria; fui obrigado a vir até Bellas, onde tenho passado já uns -tres dias divertidissimos, enterrado até ás orelhas em massos de -titulos pulverulentos, e embaraçado por todos os Talleyrands saloios, -que a natureza espalhou com mão prodiga por este sitio. Mas de repente -lembrou-me que me dissera Claudio que tencionava passar a primavera e -o verão n’esta sua casa de campo, e resolvi vir ter com elle. Chego, -dizem-me que ainda está em Lisboa, mas que vossas excellencias estão -cá; subo e tenho a honra de lhes apresentar os meus respeitos. - ---É sempre bem vindo, senhor Alberto Mascarenhas, observou D. Antonia. - -Ao ouvirem este nome, Carolina sorriu-se com ar malicioso, Jeronimo fez -um commentario em voz baixa ao ouvido da condessa, e esta franziu o -sobr’olho. - ---Nós quasi que o esperavamos, continuou D. Antonia. - ---A mim? perguntou Alberto. Isso é caso de revelação sobrenatural; -porque eu posso-lhe jurar que ha tres horas não pensava ainda em vir -aqui. - ---São presentimentos, acudiu ironicamente a tia de meu marido. - ---Extremamente lisongeiros para este seu adorador, tornou Alberto -rindo; poderei por acaso alimentar esperanças? - ---Póde... pois não, continuou ella trocando uma vista d’olhos com as -suas devotas companheiras, póde tel-as e muito bem fundadas. - -Alberto ficou um pouco enleado, reparando n’estes mysterios da -conversação. Eu já os percebia, por isso procurei mudar logo de -palestra. - ---Então aborreceu-se muito na Ericeira? perguntei. - ---Não minha senhora, respondeu Alberto com a facilidade que o -seu espirito privilegiado tinha em seguir todas as direcções da -conversação. Eu sou d’aquelles que consagram ao oceano um amor -desinteressado. Ha immensa gente que diz: «Gosto do mar, mas do mar -em tempo de banhos» assim como dizem tambem: «Gosto de Cintra, mas -de Cintra na estação em que a sociedade elegante procura as suas -frescas sombras e os seus ridentes panoramas.» Eu não; gosto do mar e -gosto de Cintra sem segunda intenção; do mar no inverno, e de Cintra -na primavera, do mar sem barracas na praia, de Cintra com Seteais -deserto. Já vê por conseguinte vossa excellencia que tive este anno o -supremo goso, que podem ter todos os namorados, o de estarem sós com -o objecto da sua affeição. Eu e as vagas conversámos sem testemunhas, -ellas contaram-me historias tão maravilhosas, eu confiei-lhe poemas -admiraveis, e tanto mais admiraveis quanto eram ineditos, e tanto -mais ineditos quanto nem chegavam a formular-se em palavras. Quando -vier o tempo do amor official pelas praias ouvirá o pobre oceano -tantas apostrophes de poetas, que não tive animo de o torturar -antecipadamente; pois ainda assim, entendemo-nos e separámo-nos -saudosos um do outro. - -Eu estava prestando attenção ao frivolo palrar de Alberto, sem por -isso deixar de ouvir a palestra em voz baixa, que se travara entre as -pessoas presentes. - ---É uma entrevista em fórma, dizia a condessa. - ---E que cynismo! accrescentava Jeronymo. - ---Que falta de habilidade! murmurava Carolina. - ---Que escandalo! rematava D. Antonia. - -O padre prior tomava pitadas. - ---Desculpe-me, D. Antonia, tornava a condessa, mas não posso continuar -a ser testemunha de uma scena d’estas. - ---Tem razão, senhora condessa, dizia a minha inimiga intima, não -imagina como estou afflicta. Não tenho remedio senão avisar meu -sobrinho. - -Todos se levantaram. - ---Vou-me retirando, disse a condessa em voz alta. - ---Nós tambem, continuou Jeronymo. Não achas, Carolina? - ---Sem duvida, redarguiu esta. - ---Está tão bonita a noite, continuou D. Antonia fitando os olhos em -mim e em Alberto, e accentuando muito cada palavra, que me resolvo a -acompanhal-as um pedaço. - -Era o mesmo que despedir Alberto. Percebi a intenção, e fiz-me vermelha -de colera. Alberto levantou-se e foi para pegar no chapeu. - -A condessa e Jeronymo cumprimentaram-me friamente. Eu sentia -referver-me no peito a indignação, que ia lavrando pouco a pouco, e -estava quasi chegando ao seu paroxismo. Carolina veio beijar-me e -disse-me ao ouvido: - ---Tens bom gosto, mas sempre são ambos uns tontinhos! - -Alberto ia a dirigir-se a mim para me cumprimentar; mas eu, sem ter já -bem a consciencia do que fazia e cedendo só ao irresistivel desejo de -reagir contra essa authoridade, que todos se arrogavam em minha casa, e -na minha presença, exclamei: - ---Perdão, senhor Alberto Mascarenhas, rogo-lhe que fique! - - - - - XV - - -Todos olharam para mim com espanto, e Alberto principalmente com -assombro. Comtudo inclinou-se sem responder, e foi pôr o chapeu no -sitio d’onde o tirara. - -A condessa encolheu os hombros com despreso, Carolina riu-se, D. -Antonia lançou-me um olhar indignado, e o padre prior tomou uma pitada. -Depois sairam todos. - -Ficamos sós, eu e Alberto. - -Fui á janella e abri-a. Estava uma noite linda, a lua campeava serena e -placida n’um céo d’um azul purissimo, onde se espraiava sem obstaculo -a candida luz, que lhe fluctuava em torno, como véo de noiva. A brisa -suspirava brandamente na ramaria das arvores. - -Vi sairem as nossas visitas, D. Antonia, e o creado que a devia -acompanhar na volta. Nem ergueram os olhos para a janella, onde eu -estava. Afastaram-se vagarosamente, conversando e rindo. A pouco e -pouco foi esmorecendo ao longe o echo dos seus passos e das suas -vozes, afinal esvaiu-se de todo, e outra vez reinou em torno de mim -essa placidez fremente, se assim me posso exprimir, das lindas noites -de primavera, noites em cujo magico silencio palpitam os canticos -mysteriosos das fadas, o leve ruido da flôr que desabrocha, o murmurio -da seiva, que circula no coração da arvore. - -Eu sentia o passear agitado de Alberto na sala. A nossa posição era tão -embaraçosa, que nenhum de nós se atrevia a romper o silencio. - -Emfim Alberto parou, e disse-me, tocando-me no hombro, e fazendo assim -com que eu me voltasse para elle: - ---O que se passa aqui? - ---Nada, meu bom amigo, respondi sorrindo-me; ou antes, passa-se uma -lucta mesquinha, cujas peripecias lhe causariam tedio. - ---Em que o meu nome entra d’algum modo? - ---Não, respondi hesitando. - -Pois que lhe havia de dizer? Havia de lhe narrar as absurdas -insinuações de D. Antonia? - -Alberto fitou os seus olhos nos meus, depois abanou a cabeça com ar de -duvida. - -Eu larguei a janella, e fui-me sentar ao meu piano, que me chegara de -Lisboa n’esse mesmo dia. - -Abri-o, e deixei correr vagamente os dedos pelo teclado. Alberto -foi-se encostar ao peitoril da janella. O seu nobre e pallido perfil, -banhado pelos raios da lua, tomava não sei que vaga expressão austera e -melancholica. - -A doce influencia da musica banira do meu espirito as impressões -desagradaveis, que a scena antecedente me deixara. As azas brancas da -melodia arrastavam-me suavemente para os campos ethereos do ideal. - -Pouco a pouco as notas que eu fazia brotar ao acaso do teclado foram -tomando uma fórma determinada, e, quasi sem eu ter consciencia d’isso, -os meus dedos despertaram no seu leito de marfim a serenata do _Marino -Faliero_. - -Estremeci ouvindo o seu canto, ou antes o seu murmurio erguer-se -timidamente, e embalar-se na sua cadencia com tanta brandura, como as -aguas do Adriatico podem embalar no seu dorso uma gondola veneziana. - -Cedi ao encanto, e o meu pensamento, que fluctuava incerto, entregou-se -ás voluptuosas caricias d’essa languida melodia. - -Depois a musica expirou como havia começado: sem motivo, sem razão, -_comme un oiseau se pose_, diz Victor Hugo. - -Alberto ouvira a serenata com a cabeça firmada n’uma das mãos. Quando -a ultima nota se esvaiu no espaço, ergueu a fronte, e dirigiu-se para -mim. Lampejava-lhe nos olhos um fulgor estranho. - ---Minha senhora, disse-me elle encostando-se ao piano, sabe quem foi o -objecto do meu primeiro amor? - ---Não, redargui espantada da pergunta. - ---Foi vossa excellencia. - ---Eu! tornei estupefacta e levantando-me. - ---Socegue, minha senhora, vossa excellencia tem-me honrado com a sua -estima, e sabe que nem por sombras sou capaz de a offender. Mas vejo, -presinto que se está elaborando n’esta casa alguma intriga mysteriosa, -de que vossa excellencia é victima, e onde me fazem desempenhar um -papel, seja elle qual fôr. Devo-lhe por conseguinte plena e inteira -franqueza. Vou-lhe submetter um caso de consciencia. Depois de lhe ter -feito uma confissão completa e sincera, vossa excellencia dirá se devo -ou não tornar a pôr os pés n’esta casa. - -Alberto calou-se por um instante, passou a mão pela testa, como para -avivar a memoria do passado, e principiou depois em voz baixa e agitada: - ---Foi ha tres ou quatro annos, supponho. Entrava eu na vida, e -relanceava os olhos em torno de mim com a ingenua curiosidade de -quem tudo vê envolto nos véos seductores do mysterio, e tomando o -aspecto de risonho enigma de tentadora resolução. Entre todas essas -miragens de que a nossa vista se namora, quando pomos o pé na orla -d’este deserto da existencia é a do amor a mais luminosa. As outras -visões apparecem-nos como simples oasis; esta surge-nos como paiz de -fadas. As outras serão sombras e frescura; esta, flores e fragrancias. -Como a todos, foi a canção amorosa a que primeiro despertou no meu -peito, vago canto sem assumpto, melodia sem letra, que me extasiava -como o trovar de passarinho invisivel emboscado na ramaria. Uma vez -encontrei-a a vossa excellencia com sua familia n’uma das quintas de -Bemfica. Obedecendo ao inexplicavel condão da formosura, os meus olhos -seguiram, ainda meio distraidos, o seu vulto airoso, que se sumia ao -longe nos meandros das lamedas. Momentos depois, tornei a encontral-a, -e a impressão fugitiva, que me produzira, avivou-se e recresceu de -intensidade quando me achei preso na esphera de fascinação magnetica, -que os seus olhos sempre possuiram. Vi-a então bem! Que formosa e fina -cabecinha a sua! Que primoroso oval o do seu rosto! E o aveludado -da sua tez, e o seu pisar tão gracioso, e mais que tudo a suprema -elegancia, a suavidade como que aerea das linhas do seu perfil e dos -contornos do seu corpo, tudo isso me enlevou, me deslumbrou por tal -forma, que não pensei mais senão em seguil-a e miral-a de longe, com -medo que essa visão do céo me fugisse de novo, e tornasse, despregando -as azas brancas, ao Empyreo, d’onde viera. - ---Senhor Alberto Mascarenhas! interrompi eu, devéras enleada. - ---Perdão, minha senhora, tornou elle com certa melancholia; não julgue -que estou evocando o passado, de proposito para lhe fazer uma especie -de declaração retrospectiva. Prometti-lhe ser franco, e para o ser abri -o livro da minha memoria, e reli-lhe as paginas taes como as escrevera -n’esse tempo. Desculpe-me se se encontra n’ellas alguma phrase, que -fira a sua susceptibilidade. - ---Continue, murmurei eu com voz que mal se ouvia. - ---D’esse momento em deante, minha senhora, continuou Alberto, -consagrei-lhe um amor mysterioso, que me deu infindas alegrias. -Povoou-se a minha solidão com uma imagem, em que todos os meus sonhos -se incarnavam. O encontral-a era para mim um prazer immenso; mirar a -janella cerrada do seu quarto causava-me não sei que doce commoção; -divisal-a a vossa excellencia encostada ao peitoril, ou devaneando -vagamente, ou lendo algum livro, era um extasi indisivel. Fugia para -o meu quarto, levando como thesouro precioso uma das fragrancias, em -que a flor se desata, um dos raios de luz que a estrella desprende da -sua fulgida corôa, sem que estrella nem flor tenham consciencia do -jubilo que inspiram. Encerrava-me sósinho, evocava o seu vulto, via-a -debruçar-se para mim, sentia-lhe os cabellos roçarem-me ao de leve -pela fronte, e estremecia como se a impressão ficticia do meu devaneio -fosse uma impressão verdadeira. Olhe, quer que lhe diga? Tenho saudades -d’essa loucura, e voltando os olhos para o meu passado, não encontro -n’elle horas mais suaves do que essas, em que, a sós com uma sombra, -fui lendo, estrophe a estrophe, o mais lindo poema de amor que nunca se -escreveu. - -Aberto, extraordinariamente agitado, deu um passeio na sala, e foi -a final encostar-se de novo ao peitoril da janella. Os effluvios da -primavera adejavam no ambiente, por onde os espalhava a doida brisa -sacudindo as azas impregnadas n’essas fragrancias. Os raios da lua -vinham já espraiar-se no chão do aposento. Eu, inclinada para o -piano, pensava n’esse mundo novo, que se me apresentava, n’esses -novos horisontes, que se rasgavam deante da minha phantasia. Esse -amor mysterioso que acompanhara, sem que eu o visse, o meu passado -esplendido e risonho, illuminava-me agora as trévas do presente com um -raio d’esse fulgor extincto, como a lua, que, invisivel em quanto o -sol campeia no firmamento, surge mal assoma a noite, e vem pratear as -sombras com um reflexo ao clarão diurno. - ---Se soubesse, tornou Alberto voltando para mim, como a sua imagem me -acompanhava sempre! como o seu nome, que eu logo soubera, me acudia -constantemente aos labios! como eu gostava de o pronunciar! como eu -devorava os romances em que esse nome apparecia! como eu o associava -a todas as minhas commoções! Se ouvia uma opera predilecta, quando a -musica me elevava ás regiões do extasi, era o seu nome como a chave de -oiro que me abria as portas d’esse mundo ideal! «Margarida, amo-te,» -balbuciava eu, quando Desdemona suspirava a aria do _Salgueiro_; quando -Violeta gemia o seu adeus ao mundo; quando escutava esse cantico -sublime de amor e tristeza, que se chama _Lucia_. E se por acaso tinha -a felicidade de a ver no theatro, como os meus olhos se cravavam no seu -rosto querido, como eu seguia a impressão que a musica produzia na sua -alma, e que se espelhava nos seus olhos! - -A noite continuava serena, perfumada, voluptuosa, e os raios da lua -vinham esmorecer languidamente no chão do aposento. - -Eu ouvia essas confidencias com um sentimento inexprimivel; doce, -quando me deixava embalar pela melodia d’essas magicas palavras que -dizem amor e mocidade; amargo quando pensava na vida tal como o acaso -m’a fizera, e nas graves consequencias que podia ter para mim essa -declaração intempestiva. - ---Durou esse sonho pouco tempo, como todos os sonhos, tornou Alberto; -mas deixou-me para sempre uma recordação indelevel. Lembro-me, como -se fôra hoje, da ultima vez que a vi, antes de me ausentar de Lisboa. -Encontrei-a em casa de um dos velhos amigos do meu pae, o visconde -de ***, passeava vossa excellencia no jardim, quando eu entrei. -Acompanhavam-na sua mãe e a viscondessa. Meu pae, o visconde, o -pae de vossa excellencia e outros amigos estavam tomando café n’um -dos kiosques. Era em junho, e ao pôr do sol. Succedera a frescura -do crepusculo ás calmas abrasadoras do dia. Reinava em terra e céo -perfeita serenidade. O firmamento d’um azul purissimo. O Tejo, ao -longe, doirado pelos ultimos raios do sol, que se sumiam no occaso. -Um d’esses raios ficara tambem como preso ás arvores do jardim. Vossa -excellencia passeava de cabeça descoberta, e a mansa brisa, que se -erguera, fazia-lhe arfar os cabellos castanhos claros em vagasinhas -d’oiro, quando o raio de sol alcançava beijal-os. O seu passear -vagaroso e indolente, as suaves ondulações do seu corpo, o fulgor -um tanto amortecido dos seus olhos, o frémito dos seus labios, que -aspiravam a aragem embalsamada, tudo se casava tão bem com a languida -voluptuosidade da tarde expirante!... Fiquei como deslumbrado por -tanta formosura, palpitou-me com violencia o coração, e nem tive animo -nem força para me approximar de vossa excellencia. Infelizmente ou -felizmente (eu sei?) estava para se retirar. O visconde foi-se despedir -de vossa excellencia e de sua mamã, e a viscondessa acompanhou-as. -Vossa excellencia colhera uma rosa, que beijava distrahida, ao -aspirar-lhe o perfume; affastou-se, fui-a seguindo com os olhos, -vi-a subir vagarosamente os degraus da escadaria, e quando chegou ao -terraço para onde deitavam as portas do palacio, vi-a encostar-se á -balaustrada, e fitar vagamente os olhos no horisonte affogueado, no -rio onde o oiro se ia transformando em purpura, e nas montanhas cujos -pincaros se azulavam com a distancia. O seu vulto, estampando-se por -essa forma na atmosphera transparente, com a fronte cingida por uma -vaga auréola, tendo por traz de si um foco de chammas em cada vidro, -que os ultimos raios de sol incendiavam, tomava como que o aspecto -phantastico de uma d’essas fadas do Rheno, que apparecem ao pôr do -sol, com a harpa de oiro ao lado, sentadas nos fraguedos do rio. -Distrahidamente deixou cahir a rosa que tinha na mão; depois desviou-se -do parapeito, e desappareceu no interior do palacio. - ---Que memoria a sua! disse-lhe eu, sorrindo-me. - ---Hesitei um instante, continuou elle sem parecer que reparava na -minha interrupção; antes de ir levantal-a: depois não me pude conter, -e fui-me approximando como que distrahidamente do sitio onde estava -a flor cubiçada. Apanhei-a n’um relance, beijei-a, e guardei-a no -peito... Nunca mais me separei d’ella, continuou com voz abafada; -essa visão da minha adolescencia esvaiu-se como se esvaem os sonhos, -esse louco amor extinguiu-se como era natural, mas a flor secca nunca -mais me deixou; é o meu talisman, que serve para evocar ás vezes esse -periodo luminoso da minha vida, esses doces annos que se sumiram para -sempre no abysmo do passado. - -E, tirando do peito uma rosa murcha e amarellecida, passou-a para as -minhas mãos. - -Deslisou-me dos olhos uma lagrima e foi cair nas petalas sem viço da -pobre flor, sem que esse amargo orvalho lograsse reverdecel-a. Assim -tambem os meus prantos não poderiam restituir-me alegria descuidosa que -perdera. - -Alberto viu a lagrima, e disse-me: - ---Comprehendo-a; essa flor, deixada cahir distrahidamente quando não -havia ainda saudades na sua vida, exerce no seu espirito a mesma -fascinação que no meu exercia. Guarde-a, dou-lhe n’isso a prova de que -para sempre quebrei com o meu passado. - ---Não era necessario, disse eu; aprecio tanto o seu nobre caracter, que -nem por um instante duvido de que me não teria feito essa confidencia, -se não consagrasse simplesmente um affecto de irmão á esposa do seu -amigo. - ---Ah! isso juro-lh’o, tornou Alberto pondo a mão no peito, se não me -sentisse completamente livre, e desassombrado, se o meu coração me -désse inda rebates d’amor, que se devia extinguir, não teria entrado -n’esta casa. Teria vergonha de mim mesmo, se não pudesse agora fitar os -meus olhos nos seus com purissima serenidade. Mas se julga que apesar -d’isso, não devo tornar a vir aqui; se julga que esta memoria d’um amor -passado, é uma offensa para vossa excellencia, e um acto de deslealdade -para com o meu amigo, se julga que uma recordação involuntaria, -espelhando-se no meu rosto, póde dar uma arma aos calumniadores, diga -uma palavra e estou prompto a retirar-me. - ---Seria uma vileza aos meus proprios olhos, respondi eu serenamente, o -rebaixar-me a ponto de transigir com a calumnia. Esta casa está sempre -aberta ao amigo de meu marido, ao homem leal de quem agora aperto a mão. - -E estendi-lhe a minha que apertou commovido. - ---Bem, disse-me elle rindo, tirou-me um grande peso de cima do peito. -Agora peço as ordens de vossa excellencia. - -Foi pegar no chapéo; e depois, voltando para mim, e apertando-me de -novo a mão continuou: - ---Desculpa-me o ter-lhe dito tantas loucuras? - ---Desculpal-o, porque? redargui eu sorrindo-me. Leu-me um bonito -romance, ouvi-o com attenção; agora fechamos o livro, e voltamos á -realidade. - -Alberto ficou suspenso por instantes, depois respondeu: - ---É isso mesmo. Tem vossa excellencia muita razão. - -E saíu. - -Eu fiquei algum tempo pensativa junto do piano; depois levantei-me, -soltei um suspiro d’allivio, peguei n’um castiçal e dirigi-me para o -meu quarto. - -Dava meia noite. - - - - - XVI - - -Foi só no dia seguinte que reflecti bem no que se passara na vespera. -Foi então que me espantei de D. Antonia não ter tornado a apparecer -na sala. Um passeio a pé, por mais que o prolongasse, não podia ter -durado tanto tempo. Demais lembrou-me então que a tinha sentido voltar -meia hora ou tres quartos de hora depois de ter saido. Por que motivo -não viera para a sala? Havia n’isso o projecto de alguma infernal -armadilha? Ia dentro em pouco sabel-o. - -D. Antonia não me deu palavra durante esse dia todo, coisa com que -eu folgava bastante; mas no outro dia, sem me ter prevenido da sua -chegada, appareceu meu marido, visivelmente agitado sob a sua mascara -de gelo. - -Acolhi-o com jubilo. Sentia um certo contentamento intimo por ter -cumprido o meu dever. Estava satisfeita comigo mesma, o que já concorre -muito para se estar satisfeito com os outros. - -Meu marido fallou-me com bastante frieza. Logo depois encerrou-se com -D. Antonia, e teve com ella uma larga conferencia. - -Depois appareceu ainda mais agitado, passeou algum tempo, pegou no -chapéo e saiu. - -D’ahi a pouco, voltou, sempre agitado, e fechou-se no seu quarto. - -Á noite appareceram as visitas do costume, coisa que me espantou -sobremaneira, porque julgava que não voltariam tão breve. - -Comtudo a condessa deu bem a entender que vinha a nossa casa em -attenção a Claudio, e só em attenção a elle. - -Pouco me importava; o jubilo da minha consciencia dava-me novas forças -para luctar com intrepidez. - -Alberto appareceu pouco depois. A sua entrada produziu sensação. -Claudio recebeu-o com uns modos meio frios, meio cordiaes. A condessa -mostrou-se distraida, D. Antonia ligeiramente motejadora, Carolina -extremamente amavel. - -Alberto esteve perfeitamente senhor de si. Não o traiu o seu espirito -brilhante e jovial. Esteve desembaraçado no meio de todos aquelles -constrangimentos. Eu, que tambem não tinha motivo algum para estar -constrangida, auxiliei-o; a conversação animou-se. A condessa não tomou -parte n’ella; Claudio muito pouca; D. Antonia aventurou umas poucas -de insinuações, em que não reparamos; Carolina entrou na palestra -com finas observações, que se resentiam da sua indole essencialmente -sarcastica. Assim se passou uma noite muito agradavel. - -Claudio que ao principio se mostrara nimiamente reservado, foi-se pouco -a pouco tornando mais expansivo. - -Mas, no dia seguinte uma influencia severa agglomerava-lhe de novo na -fronte as nuvens, que se haviam por instantes dissipado. - -Comtudo comecei a notar uma grande differença no procedimento de D. -Antonia, a meu respeito. Tantos tinham sido os cuidados, que tivera até -ahi para que eu não estivesse um instante só com Alberto, quanto era o -desejo que parecia ter agora de nos proporcionar os mais prolongados -_tête-à-tête_. - -Pedia-lhe a elle muitas vezes que nos acompanhasse n’algumas excursões -que faziamos pelos arredores. Depois aproveitava um pretexto qualquer -e eclipsava-se. Ao cabo de uma longa hora de passeio, apparecia-nos -de subito meu marido, pallido, com o olhar sombrio, com a fronte -annuviada. A cordialidade serena, o jubilo até com que o acolhiamos -dissipavam logo todas as nuvens, e voltavamos todos tres para casa, -rindo e conversando como bons amigos. - -Alberto era realmente admiravel. No meio d’aquella rede de intrigas, -que eu sentia confusamente, caminhava tão desassombrado como se não -estivesse pisando um terreno perfido, onde o mais leve descuido podia -perder a sua lealdade, e a minha reputação. - -Não se ausentava porque via perfeitamente que a sua retirada daria á -calumnia o pretexto que ella anciosamente procurava: mas acceitava tão -desconstrangidamente o papel falsissimo que esta situação lhe impunha, -que parecia não ter o minimo conhecimento do trabalho subterraneo, -emprehendido pela devota sociedade de D. Antonia e companhia. - -Eu mesma me espantava d’essa tranquilidade inalteravel, e suppunha que -fôra um sonho a scena que se passara n’essa noite, que tão profunda -impressão me causara. Precisava de admirar a rosa murcha, que trazia no -seio, para de novo me convencer da realidade de tudo isso. - -Alberto nem parecia reparar na posição em que o tinham collocado, e -que devia dar em resultado maior intimidade. Era o que fôra sempre: -um conversador amavel, elegantemente frivolo, que tomava comigo o tom -d’uma respeitosa familiaridade. - -Um dia, obedecendo a essa irresistivel attracção, que nos obriga -a chegarmo-nos á beira do precipicio, e debruçarmo-nos para elle, -ainda que saibamos que um momento de vertigem nos póde arrojar ao -despenhadeiro, ousei alludir á historia do seu passado. - -É inconcebivel, mas é certo. Luctei tres dias com a tentação, afinal -não pude resistir, e aventurei a pergunta. - ---Acredita na transmigração das almas? disse Alberto, em vez de -responder. - ---Porque? tornei eu espantada. - ---Porque, se acredita, ha de perceber perfeitamente a minha historia. -Isso em que me falla succedeu, se me não engano, a um Alberto, que -vivia no tempo de Noé. Depois, como sabe, veiu o diluvio. Affogou-se -nas grandes aguas o corpo e a memoria. A alma, desprovida d’essa -faculdade, transmigrou para este corpo, nado e creado em pleno -seculo XIX. Mas como ha de lembrar-se a coitada dos acontecimentos -ante-diluvianos? - -Eu desatei a rir, mas devo confessar que senti um certo despeito. É -inexplicavel, não é? É inverosimil? Bem sei. Propuz o enigma, não -intentei resolvel-o. - -Um dia Theodoro Leite mandou-me dizer que me desejava fallar, e com -muita urgencia. - -Fui a casa d’elle. Theodoro e a entrevadinha receberam-me com o jubilo -habitual. Depois Theodoro acompanhou-me á volta, e pelo caminho foi-me -contando o que o obrigara a mandar-me chamar. - ---A Quiteria, disse-me elle, que lhe ficou muito affeiçoada desde -a primeira noite em que a viu, e em que a minha querida filha -(permitta-me que lhe dê esse nome) se mostrou tão boa, tão amavel com -ella e com os outros creados, sentando-se junto d’elles na cosinha, -conversando com elles, ouvindo-lhes as historias, procedimento esse que -d’um modo tão notavel contrastava com o orgulho da tia de seu marido, a -Quiteria, pois, veiu ter comigo, e pediu-me que a avisasse, coisa que -ella não podia fazer, porque a minha filha está sendo a toda a hora -espionada pela Maria do Rosario. Disse-me ella que se anda tramando -lá por casa uma intriga terrivel, que tem unicamente por fim promover -uma separação entre Claudio e a minha querida menina, separação que hão -de fazer escandalosa, e cuja vergonha ha de recair toda sobre a sua -innocente cabeça. - -Eu ouvia espantada esta revelação incomprehensivel para mim, porque -não podia adivinhar que mal teria eu feito áquella gente, para que me -tivessem declarado uma guerra tão encarniçada. Foi isso mesmo o que eu -disse a Theodoro, que me respondeu, sorrindo-se: - ---Que mal lhes fez? Pobre innocente! Um crime imperdoavel, o de ter -vinte annos, uma formosura esplendida, uma indole boa e sympathica, uma -alma enthusiastica, e de juntar a tudo isto uma virtude immaculada. -Que mal fez a rosa ao caracol, para que este lhe entorne nas petalas -a repugnante baba? A luz, minha filha, não attrae unicamente as -borboletas, tambem attrae os morcegos, estes para de despeito a -apagarem, aquellas para se queimarem na chamma, que as enleva. -Satanaz, ao sair das trevas, vae insultar o sol. Quer viver socegada? -Não brilhe. Não quer que a mordam no calcanhar? Arraste-se como as -serpentes. Mas não; soffra antes, e levante a fronte acima d’essa turba -vil. Tenha sobretudo confiança em seu marido. É um espirito fraco, mas -um nobre coração. D. Antonia domina-o, porque a minha querida menina -ainda não tentou rebater-lhe a influencia. Tente-o, combata, seja -forte. Não permaneça na inacção, desça á liça para onde a chamam, e -calque aos pés a sua mesquinha adversaria. A sua indifferença anima-a, -a sua energia dissipar-lhe-ha os brios. - ---Mas combatel-a, como, de que maneira? perguntei eu. - ---Olhe, tornou Theodoro meigamente, eu lhe explico o mysterio da sua -vida. Claudio é um homem timido, acanhado, que precisa que lhe estendam -a mão para sair da sua habitual reserva; consagrou-lhe um profundo -amor, e viu coroados os seus votos d’um modo completamente inesperado. -A minha querida menina, creança que nada comprehende da vida, acceitou -das mãos de seus paes um marido, como acceitaria um vestido novo. -Nenhum dos dois deu o primeiro passo para essa intimidade conjugal, -que funde n’uma só duas almas, duas vontades, dois pensamentos: elle -porque não ousava, a minha querida menina porque não sabia. D. Antonia -apossou-se com habilidade d’esse espirito fluctuante, que julgara -por um momento que lhe escaparia indo-se prender n’outros laços. -Animada por essa primeira victoria, quiz levar a cabo o seu triumpho. -N’aquelle coração angustiado e hesitante semeou a duvida; transformou -em calculo o que era ignorancia da vida. Disse-lhe que a facilidade -com que a minha filha acceitara o casamento com um homem a quem não -amava era resultado da corrupção prematura, que despresava os deveres -do matrimonio. Aproveitou as mais leves circumstancias, desenvolveu -com uma sagacidade infernal os mais subtis indicios. A entrada em -scena de Alberto veiu dar-lhe um optimo pretexto. Seu marido resiste -ás suggestões continuas de D. Antonia, mas ha de chegar um instante -em que succumba. D. Antonia, combinada tacitamente com as suas boas -amigas, quer apressar o desenlace, espera que um momento de fraquesa -leve a minha querida menina a dar um passo errado, que se ha de logo -aproveitar. Espiam-na constantemente; em casa não faz um movimento só, -que a Maria do Rosario lh’o não espreite; no campo, nos seus passeios -com Alberto Mascarenhas, póde estar certa de que por traz de cada sebe -ha um ouvido á escuta. Seu marido está n’uma posição intoleravel; o -coração reage-lhe contra a evidencia apparente, que D. Antonia lhe -mostra; mas, atormentado por uma duvida incessante, vagueia como o -espectro do ciume procurando uma certesa material, que, ainda que o -fulmine, o livre d’aquelle estado. Tudo isto eu deduzo facilmente do -que a boa Quiteria me disse; porque a pobre velha tem praticado por -sua conta um systema de contra-mina, e, emquanto a Maria do Rosario -está com o ouvido collado á porta do seu quarto, vae ella escutar as -palestras de Claudio e de D. Antonia. Desculpe-a, coitada. O que a -impelle a proceder assim, é a amisade que lhe tem. - ---E o que me aconselha então? acudi eu baixando a cabeça, que me -vergava ao peso d’aquellas revelações. - ---O que lhe aconselho, minha filha? A lealdade e a franquesa. Deixe -essa gentalha extraviar-se pelos atalhos, e caminhe desassombradamente -pela estrada real, inunde de luz as suas intrigas tenebrosas, e -vêl-as-ha fugirem como demonios nocturnos, surprehendidos pela -alvorada. Entre na intimidade de seu marido, não se envergonhe de -tomar a iniciativa, conte-lhe com franqueza a historia de todas essas -intrigas, que a perseguem, faça-o ler na sua purissima consciencia, -porque assim a tem, não é verdade? - ---Oh! sim! tornei eu com exaltação. - -Mas depois não sei que pensamento importuno me acudiu ao espirito, e me -incendeu as faces em vivo rubor. - ---Vamos; seja forte! acudiu Theodoro beijando-me com ternura na fronte. -Não vacille nem um instante, não vergue ao peso da cruz. - ---Descance, meu amigo, tornei eu melancholicamente. Não me assusta o -soffrimento. - -E despedi-me d’elle, mais animada do que nunca até ahi estivera. Havia -alguns dias que uns devaneios indefiniveis me atormentavam. Sentia um -vago e doloroso prazer em aspirar a brisa embalsamada das noites de -maio. Os effluvios do jardim coavam-me nas veias não sei que ardor -incomprehensivel. O meu coração pulsava com violencia quando os raios -da lua, infiltrando-se voluptuosamente na minha alcova, me vinham -fallar de ignotos mysterios. Ao cair da noite sentava-me ao piano, e, -deixando correr os dedos pelas teclas, escutava em extasi a suave e -mansissima harmonia, que despertava então. Surprehendia-me a mim mesma -contemplando a flôr secca, a rosa murcha, que me abrazava o seio. Que -symptomas funestos eram estes? Receava adivinhal-o. - -Mas o passo aconselhado por Theodoro ia livrar-me de tão importunos -pensamentos. Tudo quanto elle me dissera ácerca do caracter de Claudio -achava-o eu extremamente verdadeiro, agora que reflectia em muitas -circumstancias, que primeiro me tinham passado despercebidas. Não -duvidava do bom exito do plano do meu velho amigo. Assim tudo se -conciliava, e o futuro afinal apparecia-me desassombrado. Ia entrar -finalmente no porto, depois de tantas tempestades. Ia encontrar no -amor de meu marido um escudo contra as perseguições mesquinhas de D. -Antonia, e um asylo contra os estranhos pensamentos, que me perseguiam. -Ia ser feliz emfim! - -Pareceu-me que me tiravam de cima do peito um peso enorme, e respirei -com desaffogo. Estava ao pé de casa. Subi a escada com pé ligeiro, -cheguei á porta da sala, e abri-a alegremente. - -Mas, assim que entrei, estaquei de subito e senti no peito uma dor -aguda, como se um ferro m’o atravessasse. No vão d’uma janella um homem -e uma senhora conversavam intimamente, e com tanta animação que nem -deram pela minha chegada, nem ouviram a bulha, que eu fizera abrindo a -porta. Pallida como uma defuncta, fui-me aproximando a pouco e pouco, -e só quando cheguei a dois passos da janella é que elles repararam em -mim. A senhora soltou um grito, o homem fez-se levemente corado. - -Eram Alberto e Carolina. - - - - - XVII - - -Ficámos todos tres por um instante enleados; Alberto foi quem primeiro -tomou a palavra, com o seu desembaraço habitual; não tardou Carolina a -imital-o; mas, por maiores que fossem os meus esforços, negaram-se-me -os labios a articular um som. Percebia que, se tentasse fallar, os -soluços brotariam d’envolta com as palavras. - -Afinal consegui pretextar um ligeiro incommodo, e fugi para o meu -quarto. Alli chorei á vontade, desabafei. Quando esta dôr inexplicavel -se acalmou um pouco, perguntei á minha consciencia o motivo d’esses -prantos. - -«Assim, murmurava eu comigo mesma, é Alberto um homem como todos; o -amor profundo que disse consagrar-me não deixou o mais leve rasto -na sua memoria. Aquella alma que eu julgava um sanctuario, é um -prostibulo, aquelle coração tem a porta franca para quaesquer imagens. - -«Mas, tornava eu, que me importa isso tudo? Que direito me deu elle -para fiscalisar as suas acções? Não me disse, não me affirmou, não -me jurou até que esse amor antigo se dissipara como um devaneio de -juventude, como um relampago de estio, que brilha e morre no firmamento -azul? E não me devo eu até rejubilar com este acontecimento que me -prova a verdade do que elle me dizia? Não contribue isto mesmo para -dar nova paz á minha consciencia, nova tranquilidade á minha alma? Não -posso eu agora erguer a fronte bem altiva acima das calumnias de D. -Antonia e da condessa? - -«Não, acudia eu de novo; o motivo da minha afflicção é a amisade -fraternal, que a Alberto consagrei, é a estima que votei a esse -espirito nobre! Custa-me o desengano, custa-me o ver descida do seu -pedestal a alma que eu julgara quasi superior á humanidade. O amor de -Carolina macula um homem. E demais aquillo não é amor, é um capricho -dos sentidos, é uma ligação banal e repugnante. O amor não brota assim -d’um instante para o outro, não viça com tanta facilidade nas cinzas -d’um affecto extincto. - -«Oh! cala-te, cala-te, murmurava a minha consciencia, não queiras -disfarçar com o vão nome de amisade o sentimento culpado, que se -te apoderou do coração. Amal-o, infeliz! Amal-o, e para cumulo de -vergonha, elle nem pensa em ti, para maior opprobrio teu, és tu -só a culpada; não podes allegar a influencia magnetica de um amor -constante e vehemente, que actuasse a teu pesar no teu espirito e no -teu coração. Elle affasta-se de ti, respeita-te, e não mereces ser -respeitada, porque moralmente já trahiste os teus deveres de esposa, já -falseaste a fé conjugal.» - -E nova torrente de prantos me brotou dos olhos, e me inundou as faces. - -Quando desci do meu quarto para a sala notaram todos a minha agitação. -Alberto mirou-me inquieto, Carolina com um modo de ironia tal, que -me deu forças para reagir contra o meu vergonhoso tormento. Queria -soffrer, sim, mas soffrer com dignidade, e sem dar ás minhas inimigas -motivo para folgarem e triumpharem. - -Esta serenidade ficticia tranquilisou Alberto, que tornou a mostrar-se -todo attencioso e galanteador com a afilhada da condessa. - -«Oh! meu Deus, dizia eu, entre mim, tão irresistivel é essa paixão, que -nem elle tem forças para m’a occultar, e para a occultar aos outros. -Não se lembra que D. Carolina de Freitas não é uma senhora solteira, a -quem se possa affoitamente render homenagens? - -«Jeronymo, e a condessa e D. Antonia, tão escrupulosos, tão -inquisidores comigo, estão cegos, ou fingem-se cegos, que não vêem ou -não querem ver o escandalo, que se está praticando n’esta sala? Que é -feito da austera moralidade d’esta gente? Onde se aninharam as suas -severidades?...» - -Ai! e não via eu, pobre louquinha, que estava sendo involuntariamente -mais culpada do que elles? Não via eu que estes assomos de austeridade -tinham a sua origem n’um sentimento, que devia reprimir com todas as -forças da minha alma? Era a fatalilade que me impellia. Tranquilla -vira entrar Alberto em minha casa, sem pensar em o distinguir dos -outros homens. Accusando-me de um crime, de que nem sequer tivera o -pensamento, obrigam-me a occupar-me d’elle, collocam sempre a sua -imagem deante dos meus olhos, fazem com que eu involuntariamente o -compare ás outras pessoas, que me rodeiam, comparação que não póde -deixar de lhe ser favoravel, e firmando-me na minha innocencia, caminho -com desassombro n’essa estrada semeada de perfidias, não vejo o abysmo -que a pouco e pouco se me vae rasgando aos pés, que cada um dos meus -passos alarga insensivelmente, abysmo por onde vou resvalando, e em que -afinal baqueio. - -Fui castigada no meu orgulho; desci a uma esphera mil vezes mais -baixa do que essa onde vivem as minhas accusadoras. A calumnia tinha -rasão, os calumniadores prophetisavam. Triumphae, hypocritas, folgae, -Messalinas de sachristia! conseguistes o vosso fim. Enxovalhei-me na -lama, que tão obstinadamente me arrojastes ás faces! Polluí a corôa -da innocencia, de que tanto me ufanava; sou adultera no pensamento, e -isso basta para me julgar mais vil aos meus proprios olhos do que essa -que alardeava a sua deshonra como um acto de habilidade, e que está -agora impudentemente demonstrando á minha vista a veracidade das suas -doutrinas. - -«Oh! continuava eu fallando comigo mesma, ao menos não hei de transpor -os limites que ainda me separam d’uma vergonha completa. Esse amor -fatal, que me devora, hei de abrigal-o no meu seio, como a áspide que -me ha de matar, sem que o meu rosto revele os meus tormentos. Deixando -de parte o mundo da realidade, cujo contacto me foi tão doloroso, -voarei para as regiões da phantasia, e ahi viverei enlaçada n’um casto -amor com a sombra pura de Alberto, tal como elle se me afigurou, e -não tal como eu o vejo agora. Possuil-o-hei a elle mais do que elle -a si proprio se possue, porque é minha essa flôr secca, symbolo da -sua poetica existencia, ao passo que elle, afastando-se cada vez mais -d’esse puro sanctuario, se vae embrenhando nos jardins da torpe Armida, -que soube, com um olhar provocador, transformar uma alma tão nobre n’um -espirito vulgar.» - -E soffria, soffria como nem eu o posso dizer, soffria e tinha vergonha -do meu soffrimento, e não ousava erguer os olhos para Claudio, cujo -rosto sombrio se ia desannuviando e alegrando ao ver Alberto enlevado -nos seus novos amores. - -Os homens são estupidos! - -Desde então, a nossa vida tomou um outro aspecto, que inspirava grande -espanto a D. Antonia. Por mais que ella tentasse renovar as suas -manobras com o fim de nos deixar sós, rarissimas vezes o conseguia. -Alberto sempre se lhe esquivava, e Carolina auxiliava-o n’isso, -reclamando-o a cada instante, ora para a acompanhar n’um passeio a -cavallo, ora para a ajudar a ler uma nova e difficil musica, que lhe -chegara de Lisboa; e eu, afflicta, mas valorosa, desviava-me tambem -de prompto, e entregava-me a longos passeios solitarios, onde me -comprazia, vagueando pelas aridas planicies d’aquelles sitios, a avivar -a memoria dos meus passeios e das minhas conversações com Alberto, que -se me debuxavam na phantasia, sem me esquecer uma só particularidade, -uma palavra só. - -Triste voluptuosidade de quem alarga a ferida com as proprias mãos, de -quem está saboreando a triaga fatal! - -Os meus passeios dirigiam-se quasi sempre para o lado da casa de -Theodoro Leite. N’aquelle doce asylo, aonde não chegava nem um ecco das -paixões mundanas, que haviamos transportado comnosco da cidade para -o campo, n’aquelle sanctuario do infortunio alegremente supportado, -n’aquelle templo da familia, recuperava eu novas forças para o combate, -que travara. N’esse ambiente são e perfumado de virtudes hauria as -emanações do balsamo celeste, que guarece as feridas envenenadas. Um -beijo da entrevadinha na minha fronte como que a cingia de novo da -auréola da innocencia; um meigo olhar de Theodoro, calando-me no intimo -da alma, expulsava a imagem que se obstinava a povoar-m’a. Voltava -sempre d’essa pobre casa mais em paz com a minha consciencia; mas o -encontro de Carolina com Alberto, encontro que era inevitavel, outra -vez m’a turvava, e soltava as tempestades por um instante enfreadas. - -Claudio quizera aproveitar esse estado da minha alma, que elle não -saberia definir, mas que instinctivamente adivinhava, para se -aproximar de mim, e subtrahir-se ao mesmo tempo ao jugo de D. Antonia. -Mas as suas timidas tentativas não me encontravam n’essa occasião -disposta a animal-as. A minha consciencia dizia-me que não podia -receber essa especie de homenagem, que já me não era devida, acceitar -uma penitencia, que eu me devia impôr a mim mesma. E, por mais que -tentasse levantar-me, uma força fatal me impellia cada vez mais -rapidamente para o abysmo! - -Mas emfim, as forças não me trahiam, e quando, saindo do meu quarto, -onde me ficava muitas vezes depois de jantar, contemplando o horisonte -purpureado, os effeitos da luz moribunda e das sombras recrescentes nas -ruas e nas moitas do jardim, as estatuas banhadas pelos ultimos raios -do sol, que lhes doiravam o manto verde com que o musgo as revestia, -e que, ao vir do crepusculo, pareciam tremer de frio, e aconchegar -bem as pregas d’essa tunica ao seu pobre marmore nú; ouvindo os vagos -murmurios do campo, o melancolico suspirar das fontes, e deixando -os meus sonhos esvoaçarem livremente n’essa atmosphera de poesia e -de saudade; quando, saindo pois do meu quarto, e baixando d’essas -regiões phantasiosas ao mundo real, me via cara a cara com uma atroz -desillusão, conservava-se-me o rosto impassivel, e nem o mais leve -franzir dos labios, nem uma só ruga da face denunciavam os tormentos, -que vinham saltear-me. - -Alberto não mostrava perante mim o minimo embaraço. Espantava-me -esta quasi indelicadesa n’um homem tão delicado. Bem sei que elle -não tinha nem sequer obrigação moral de submetter á minha opinião -o seu procedimento. Bem sei que, não tendo commettido culpa alguma -para comigo, não tinha que se embaraçar em minha presença... mas -emfim... ha certos escrupulos... exagerados talvez... pontos d’honra -nimiamente requintados... não digo o contrario... o vulgo, ainda o mais -escrupuloso rir-se-hia d’esta minha pretenção... mas eu julgava Alberto -por tal fórma differente do vulgo... achava-o tão capaz de comprehender -estas coisas...! - -Como viram, não era a primeira vez que me illudia nos juizos formados a -respeito de Alberto. - -Uma tarde, mal acabamos de jantar, fomos dar um passeio a cavallo, eu, -D. Antonia, Carolina, e Jeronymo. Alberto não apparecera; por isso, com -visivel contrariedade da afilhada da condessa, fomos sem elle. - -Comtudo Carolina teve a habilidade de dirigir o passeio de fórma, -que pudessemos encontrar Alberto no caminho. Propoz que fossemos até -Bellas, para aproveitarmos o resto da tarde, passeando na quinta -do conde de Pombeiro. D. Antonia concordou. Jeronymo disse que lhe -era indifferente ir para um ou para outro lado, e eu, que formava a -minoria, não tive remedio senão acceder. - -Partimos. - -Sairam errados os calculos de Carolina. Não encontramos Alberto. - -O calor do dia (um dos primeiros de junho) dissipara-se um pouco, sem -desapparecer de todo. As frescas sombras da quinta do Senhor da Serra -estavam-nos convidando a irmos deliciar-nos com ellas. Apeamo-nos, -entregamos os cavallos ao creado, e entramos na quinta. - -Carolina estava visivelmente preoccupada, e afastava-se a cada instante -de nós, para ir espreitar as lamedas transversaes, como se esperasse -que o acaso a favorecesse mais do que o seu calculo. D. Antonia dera -o braço a Jeronymo, e conversava com elle. Eu ficara isolada, e, -procurando completa solidão, fui affrouxando a pouco e pouco o passo, -até que perdi de vista os meus companheiros. Estava só. - -Sempre gostei immenso d’essas lamedas sombrias d’arvores seculares, que -se encontram n’alguns dos nossos velhos parques. Em Cintra abandonava -as garridas quintas modernas para passear nas melancholicas devesas -da Penha Verde, ou nas ruas graves e aristocraticas do Ramalhão. No -outono principalmente, quando as folhas seccas rangem debaixo dos -pés dos passeantes, quando os ramos, despojados do seu verde ornato, -cruzando-se-nos por cima da cabeça, deixam ver o céo pesado e triste, -não conheço goso comparavel ao de passear e scismar por entre esses -longos renques d’arvores centenarias, que meneiam, ao sopro da brisa, -as suas frontes calvas. - -Mas não estavamos então no outono, e a ramaria, toda folhuda e -verdejante, formava sobre mim uma copada abobada, cujo verde se -esmaltava com o oiro dos raios do sol, que a muito custo se lhe coavam -pelos intersticios. N’esses estrados de folhagem poisavam-se bandos -e bandos de passarinhos, cujo alegre chilrear povoava a espessura de -harmonias, docemente acompanhadas pelo melodioso murmurio da agua das -fontes. - -Expirava aquella solidão não sei que vagos effluvios de tranquilidade -e remanso. Cedi ao inexprimivel encanto, e fui-me embebendo n’uma -suave melancholia, que me enliava os sentidos e m’os absorvia todos no -goso de devaneios, que purificava. Caminhando vagarosamente na extensa -rua, haurindo os perfumes fortes que o arvoredo exhalava, enlevando-me -no canto das aves, tirei a flôr secca do peito, e contemplei-a com -ternura. Creio até que a estava beijando, quando subito, n’um dos -meandros da lameda, dei de cara com Carolina. - -Escondi a flôr com precipitação, e fiz-me toda vermelha. - ---Oh! temos segredinhos, disse ella desatando a rir, que flôr era essa -que beijava tão devotamente? Se estivesse fallando com um cavalheiro, -adivinharia logo que essa rosa caira das tranças da dama dos seus -pensamentos; mas, fallando com uma senhora, torna-se o caso mais -difficil de averiguar. Não me ajuda? - ---Permitta-me que não escolha confidente, respondi eu com frieza. -Costumo guardar os meus segredos, mesmo quando, como este, nada têem de -melindroso. - ---Quem suspeita o contrario? Mas já vê, continuou Carolina, que se me -não faz confidencias, não é porque não tenha assumpto para ellas; -apanhei-a em flagrante delicto de diplomacia. Oh! não me zango com -isso; sempre tive muita consideração pelas pessoas que sabem esconder -bem o seu jogo. Mas ao mesmo tempo que presto justiça á sua habilidade -diplomatica, deixe-me tambem prestar justiça á sua veracidade. Eram -erroneas as minhas supposições ácerca de Alberto Mascarenhas, e -verdadeiras as suas negativas. - ---Já o sabe? tornei eu com ironia. - ---Oh! tenho optimas rasões para o saber, respondeu ella impudentemente. - -Appareciam n’este momento D. Antonia, e Jeronymo Freitas. - ---Já vae caindo o crepusculo, disse a tia de meu marido, e bom será que -voltemos para casa. Não desejo apanhar n’esta quinta o frio da tarde. - -Saimos; o creado estava á nossa espera ao portão. Montamos a cavallo, e -seguimos pelo caminho da nossa aldeia. - -Eu tomara a deanteira, mettendo o cavallo a trote. A agitação, que por -instantes se acalmara, refervia-me de novo na mente, excitada pelas -palavras de Carolina. - -Esta veio collocar-se-me ao lado, e, obrigando-me a moderar o passo do -cavallo, continuou a conversação principiada na quinta. - ---Ora, mas diga-me com sinceridade, tem ciumes? - ---Ciumes de que? redargui eu, franzindo ligeiramente o sobr’olho. - ---Da intimidade que existe agora entre mim e Alberto. - ---Isso assemelha-se a um insulto, minha senhora, respondi, insulto que -demais a mais não comprehendo, depois do que me disse ainda ha pouco. - ---Oh! meu Deus, não se zangue; quem lhe falla em amor? A amisade não -inspira tambem zelos? - ---A mim não, decerto; estimo até que os meus amigos se liguem com -pessoas _dignas do seu affecto_. - -E involuntariamente accentuei estas ultimas palavras. - ---O que quer dizer, tornou Carolina serenamente, que me acha -completamente indigna d’essas affeições. Oh! minha querida, sou -perfeitamente da sua opinião. Infelizmente Alberto não está de accordo -comnosco sobre esse ponto importante. Que quer que eu lhe faça? - -Não lhe respondi. Caminhamos alguns instantes em silencio. - ---Alberto, tornou Carolina no tom mais placido d’este mundo, é -realmente um dos rapazes mais amaveis que tenho encontrado. Associa -ao caracter nobre espirito a um tempo reflexivo e prompto, e coração -ardente; raro conjuncto de predicados. A sua voz insinuante exerce -sobre quem o escuta um dominio incomprehensivel, o seu olhar meigo e -ardente captiva e abrasa. É um poeta na linguagem, um principe nas -maneiras, um anjo no sentir. É a realisação d’esse marido ideal, que -todas nós devaneamos aos quinze annos, antes de descermos á prosa do -mundo para casarmos com os Jeronymos Freitas, e com os Claudios da -Cunha. - ---Tudo isso é amisade? - ---Não; é amor, bem sei, continuou Carolina no mesmo tom sereno. Olhe, -eu não sou diplomata senão com a tola da condessa, e com a sua beata -roda. Mas fico sempre tão fatigada do papel que me vejo obrigada a -desempenhar todos os dias, que, mal entro nos bastidores, não tenho -forças para pôr outra vez a mascara, e voltar de novo á scena. Por isso -lhe fallo tão francamente. Sim; liga-me a Alberto um amor profundo. -É abominavel? Ora se é! Immoral? d’um modo aterrador. Mas, filha, -tenciono consagrar a minha velhice a um longo arrependimento. Hei de -ir a Roma, hei de fundar um convento, dois asylos, tres hospitaes, -proteger orphãs e fazer meias de lã para as creanças indigentes, -obras pias de que seria dispensada, se não passasse a minha mocidade -a commetter alguns peccaditos, que exijam penitencia. Já vê que lucra -com isto a beneficencia publica. Tive a fraqueza de amar Alberto. Não -a teria, se suspeitasse que o ia tirar do lanço á minha boa amiga. Mas -não; soube que era falso tudo quanto a D. Antonia dissera, soube que se -não amavam, e ficou-me a consciencia tranquilla. Disse-m’o elle mesmo. -A minha querida Margaridinha, que sabe quanto é poderosa a influencia -da poesia, pode comprehender o modo como eu cedi aos protestos d’amor -d’esse gentil moço. Era por uma tarde tão linda como esta; estavamos -ambos sós na sala, contemplando o horisonte dos campos. Alberto -murmurava-me ao ouvido essas palavras deliciosas, que sempre eccoam -n’um coração feminino. A belleza do céu, as harmonias campestres, o -doce murmurio da sua voz, a poetica auréola com que o sol moribundo lhe -cingia a fronte, a solidão da sala, tudo conspirava contra mim. Senti-o -aproximar-se... - ---Oh! basta! basta! exclamei eu, completamente louca e desvairada, n’um -paroxismo de dor, sem saber o que dizia, nem o que fazia, não quero -ouvir mais as suas infames e mentirosas confidencias. - -E, fustigando o cavallo com o chicote, parti n’um galope desenfreado, -soluçando a um tempo de dor, de raiva e de vergonha. A viração da tarde -trouxe-me ainda ao ouvido uma gargalhada de Carolina, e estas palavras, -que proferia ironicamente: - ---E não o amava? - - - - - XVIII - - -N’um momento cheguei a casa. Apeei-me, atirei as redeas para cima -do pescoço do cavallo, e subi a escada impetuosamente. Ia lavada em -lagrimas; que me importava que me vissem? Estava consummada a minha -vergonha. - -Abri a porta da sala e entrei. Não estava ermo o aposento. Ouvindo -a bulha dos meus passos, alguem, que se encostava ao peitoril d’uma -janella, voltou-se para a porta. Era Alberto. - -Eu perdera completamente o imperio sobre mim mesma. Corri para elle, -travei-lhe das mãos, e disse-lhe com a voz entre-cortada pelos soluços: - ---Não é verdade? Não é verdade que a não ama? Aquella mulher mentiu? - ---O que é isto, minha senhora? tornou Alberto, no auge da inquietação, -o que quer isto dizer? Que inexplicavel infortunio...? - ---Oh! mas diga-me, diga-me que a não ama, tornava eu chorosa e -supplicante, diga-me que não ama Carolina. - ---Oh! respondeu elle n’um impeto, e fazendo um gesto de energica -repugnancia, oh! juro-lh’o. - ---Obrigada! obrigada! murmurei eu; bem sei que sou uma doida, que me -estou perdendo, que sou uma mulher vil, indigna da sua estima; porém -não pude, soffri muito, quando ella me disse que se amavam:--a dôr -foi... incomportavel. - ---Soffreu! respondia Alberto com voz tremula, e apertando-me as mãos -com impeto febril, soffreu, mas então... mas n’esse caso... - ---Amo-o; não é isso que quer dizer? tornava eu como louca; sim, é a -verdade, a verdade terrivel, fatal, ignominiosa. - ---Ama-me! exclamou Alberto. - -E, soltando as mãos, levou-as á fronte, como se temesse que lhe -rebentasse ao impulso da lava, que lhe refervia lá dentro. E, voltando -a travar-me das mãos, com os olhos incendidos n’um fulgor estranho, -como se os houvesse abrazado a chamma de loucura que ardia nos meus: - ---Ama-me! Oh! não me falle! não me falle! deixe-me ouvir os eccos -innumeraveis que essa palavra magica me desperta no coração! Oh! não -me acorde d’este sonho! peço-lh’o, deixe-me aqui morrer com os olhos -enlevados n’esta visão beatifica... - ---Sonhemos, dizia-lhe eu debulhada em lagrimas, oh! sonhemos depressa, -porque o despertar vem cedo, e o despertar é o opprobrio. - -E caí prostrada n’uma cadeira; elle ajoelhou aos meus pés, beijando-me -convulso as mãos. - ---Que importa? E cuidas que este momento de felicidade não paga de -sobejo todas as amarguras d’uma longa vida? Julgas que esta auréola -d’amor que nos circunda a fronte, não tenha luz bastante para derrotar -a sombra do estygma que o mundo nos inflige? - ---E a consciencia... tornava eu. - ---Depois, depois, dizia-me elle, não pensemos n’isso agora. Apaguemos -da nossa vida por um instante só esses longos annos que separaram o meu -sonho d’adolescente d’esta ineffavel realidade. Por um instante só, -Margarida... Margarida, Margarida, deixa-me saborear o prazer louco -de te repetir mil vezes syllaba a syllaba, lettra a lettra, esse nome -querido, que tantas vezes balbuciei sósinho no segredo do meu quarto. -Deixa-me impregnar cada uma das suas melodias no amor immenso, que -represei no coração, e que trasborda afinal. Filha, bem vês, peço-te um -só instante para me pagar de tantos annos de angustias, de seculos de -tormentos. Não é muito, não; concedes-m’o? Oh! meu Deus! mas eu tenho -tanto que te dizer! não posso, não sei, adivinha, sim? Fita os teus -olhos nos meus, lê n’elles, estrophe a estrophe, o louco poema, que -uma voz ignota me canta no coração. E lembrar-me eu que pude suspeitar -um instante que deixara de te amar, e uma palavra tua perturbava-me, -e um sorriso teu enlouquecia-me, e uma attracção indizivel chamava-me -para aqui. E pude fingir que fazia a côrte a Carolina, só para ter um -pretexto de ficar junto de ti, o pretexto de te livrar das suspeitas -calumniosas! E fingi corresponder ás suas impudentes provocações, para -te ver sempre, sempre; porque és tu a minha vida, a minha mocidade, a -estrella da minha noite, a flor do meu deserto, perola do meu sombrio -occeano, a lampada do meu ermo sanctuario. - ---Oh! tenha dó de mim, Alberto, salve-me d’esta vergonha, livre-me -d’esta vertigem; não vê que as suas palavras augmentam cada vez mais -a incrivel fascinação que me arrasta para o abysmo? E eu não quero -aviltar-me; ame-me, já que a fatalidade assim o quer, mas com um amor -de irmão. - ---Sim, Margarida, sim, de irmão. Não vês como te adoro! Ordena o -impossivel, e pratical-o-hei. Oh! mas estas louras tranças, que ondeiam -por deante dos meus labios, deixa-me beijal-as, são estas mesmas as que -o sol doirava, quando te vi, aéria fada, como que fluctuar entre as -primeiras sombras do crepusculo. Beijo as minhas recordações. - -E beijava-me os cabellos espargidos no collo; mas eu, repellindo-o, -disse-lhe brandamente: - ---Alberto! - -Elle parou e fitou em mim um olhar submisso. - ---Deixe-me, continuei eu; saia, que já ouço o tropear dos cavallos. - -Alberto travou-me das mãos, contemplou-me um instante, beijou-as com -fervor, e saiu, dizendo: - ---Amo-te! - - - - - XIX - - -Fiquei longo espaço com o rosto escondido nas mãos; quando ergui a -cabeça, estava D. Antonia deante de mim. - -Fluctuava-lhe nos labios um sorriso de triumpho; lampejava-lhe nos -olhos um fulgor infernal. Vencera, conseguira o seu fim, colhera o -fructo dos seus longos esforços; e eu despenhara-me dos pincaros do meu -orgulho no abysmo para onde me tinham impellido. - -Sempre aquelle vulto me apparecia nas horas em que me sentia resvalar -para a vergonha. Dir-se-hia a imagem de Satanaz, procurando occasião -propria para me roubar a alma, e levar-m’a para o Barathro. E não era -um sorriso diabolico o seu? - -Senti correr-me um calafrio pelas veias. Mas depois reagi contra esta -primeira fraqueza, e, colhendo na minha propria exaltação energia -bastante para affrontar aquella mulher infernal, ergui-me e fitei -n’ella os olhos scintillantes. - ---Está tão agitada! exclamou D. Antonia com ironia. Já principia o -remorso? - ---Já! disse-lhe eu com intimativa. Está satisfeita? Reveja-se na sua -obra. - ---Na minha obra! tornou ella, pondo as mãos, e erguendo-as ao céu! Só -isto me faltava! Diga antes que se realisa o que eu prophetisei sempre! -Não querem ouvir as verdades, e aqui está o que succede! Não attendeu -aos meus conselhos, deixou-se antes levar pelas suggestões do demonio, -e o resultado foi perder-se sem remissão. Lavo d’ahi as minhas mãos; eu -avisei-os a todos. - -Injuriaram-me, criminaram-me, e a final voltam-se contra mim. Já estou -costumada a isto. Deus m’o levará em conta. - ---Mas o que succede? tornei eu indignada. Que supposição está formando? - ---Oh! tornou ella rindo; não é difficil adivinhal-o. Se já o não -tivesse sabido por outro lado, a sua agitação tudo me diria. Compete-me -agora avisar meu sobrinho do perigo em que a sua honra está. - ---Avise-o, tornei eu; mas diga-lhe tambem que está mais em segurança -confiada a mim do que se estivesse nas mãos d’uma d’essas hypocritas -beatas, que tão impudentemente infringem a moral que professam. - ---Como quer que eu lhe diga semelhante coisa? respondeu ella; quer que -o illuda ainda, quer que lhe aperte bem a venda que a minha sobrinha -com tanta habilidade lhe poz nos olhos? Engana-se; não sou para esse -papel. Julgar-me-hia sua cumplice se assim procedesse. A desculpa do -vicio é um ultrage á virtude. Quem não quer ser lobo não lhe veste -a pelle. Deseja ver-me protectora d’essa vergonhosa ligação, que me -confessou tão descaradamente? Engana-se, minha Philis. Procure outras -para esse cargo. Ora não ha, hei-de-lhe arrancar a mascara. - ---Não a tenho, bem vê; mas fite bem os seus olhos no meu rosto, e verá -que não córo. - ---Porque não tem vergonha. - ---Porque não tenho de que me envergonhar, logo que as accusações que -me são dirigidas tomam esse caracter offensivo. Se uma fatalidade -inexoravel despertou no meu peito um sentimento que não pude dominar, -póde estar certa que nunca lhe sacrificarei o meu dever. Combatel-o-hei -com energia, e hei de arrancar do meu coração essa planta funesta, que -tanto a meu pesar viçou e cresceu n’este jardim, que se obstinavam em -conservar deserto. O calice de amargura bebel-o-hei até ás fezes, sem -que os outros o cheguem sequer aos labios. Soffrerei em silencio, e com -dignidade. Que mais podem exigir de mim? - ---Isso é muito poetico effectivamente, respondeu D. Antonia com ironia, -estou que outros mais justos a adorariam como uma santa, mas duvido que -o meu sobrinho esteja disposto a admirar e a apreciar estas subtilesas -com que se disfarça um adulterio parecido com todos os adulterios. -Eu de mim confesso que não percebo essas bonitas phrases. Uma mulher -casada não deve pensar senão em seu marido, e tratar da sua casa. Foi -isto o que toda a vida me ensinaram. Essas frandulagens de romance -são boas para enganar os parvos. Era melhor que tratasse de cumprir -fielmente as suas obrigações de esposa e de christã. - ---Oh! isso é de mais, respondi eu altiva. Exigem de mim o cumprimento -de um dever, esse dever tenho-o eu cumprido, e hei de cumpril-o sempre -com inabalavel intrepidez. Sacrificar-lhe-hei a minha vida inteira, -deixarei fenecer n’essa atmosphera gelada a flor da minha juventude. -Mas o sanctuario recondito da minha alma não consentirei que m’o -invadam. N’esse domino eu só, n’esse abrigo os affectos intimos, a que -presto culto no segredo da minha consciencia. D’essa região sagrada -defenderei até a morte a inviolabilidade. É o ninho dos meus sonhos, a -urna do balsamo, que me allivia um pouco as dores lancinantes do meu -viver atroz. Não lhe toquem, não a profanem. Tudo o mais lhes cedo, -tudo o mais sujeito á sua despiedosa fiscalisação. - -Persigam-me, atormentem-me, analysem cada um dos meus actos, -interpretem-n’os favoravel ou desfavoravelmente; estou a isso -resignada. Mas quando a final, depois de haverem saciado o seu odio -implacavel, me deixarem tranquilla por um instante, não queiram violar -o meu asylo, não queiram perturbar a paz do meu espirito, não queiram -envenenar com o seu halito impuro essa atmosphera serena, onde fluctua, -não queiram macular com a sua baba asquerosa as rosas, em cujo calice -se baloiçam as minhas brancas borboletas. Esse direito sagrado, essa -liberdade inalienavel do pensamento serão defendidas por mim ate á -morte. Só o amor conhece as palavras mysteriosas que descerram as -portas d’esse tabernaculo; o dever, gélido, frio, insensivel, não -póde ultrapassar os limites da vida exterior, que está unicamente -debaixo da sua alçada. Diga isto mesmo a Claudio, já que meu marido -prefere relacionar-se comigo por via de emissarios a appellar para a -minha franqueza. A minha vida, as minhas acções pertencem-lhe; não lhe -pertencem nem o meu coração nem os meus pensamentos. Estampe na minha -fronte o ferrete da infamia, se alguma vez eu lhe der direito a que -suspeite que trahi a fé conjugal, e puz em perigo a honra do seu nome. -Mas se ainda assim tentar arrogar-se sobre mim um direito, que nem os -mais despoticos tyrannos têem podido reivindicar; se intentar algum -acto escandaloso, que me deshonre aos olhos do mundo, lembre-se que -toda a vergonha e toda a responsabilidade cairão sobre a sua cabeça, e -que os mais severos moralistas não ousarão justificar o procedimento -de um homem, que, deixando sua esposa entregue a todas as tentações da -mocidade e a todos os vituperios da calumnia, se acha com direito de -exigir mais do que o escrupuloso respeito dos deveres do matrimonio, -e persegue no mais intimo arcano de um coração feminil os timidos -devaneios de um amor que elle nunca se deu ao trabalho de requestar. - -E, deixando ficar D. Antonia estupefacta com a vehemencia do meu -discurso, saí da sala precipitadamente, e fui-me refugiar no meu -quarto. - - - - - XX - - -Comtudo era impossivel que esta situação falsissima se prolongasse por -muito tempo. Estavamos todos embaraçados e constrangidos. Alberto, -passado o primeiro momento de extasi, caira n’um abatimento visivel. -Acudia-lhe o rubor ás faces sempre que apertava a mão a Claudio; -e este, inquieto e sombrio, estendia-lhe a mão com repugnancia, e -mostrava-lhe uma frieza quasi insultante. A partida de Alberto era a -unica solução possivel; sentia-o elle e não tinha animo para se apartar -de mim; sentia-o eu tambem e não tinha forças para lhe pedir que o -fizesse. - -Certa da victoria, D. Antonia excitava Claudio a dar um golpe decisivo; -Carolina, furiosa por se ver burlada quando imaginara burlar-me, -juntara-se francamente aos meus inimigos, e, fazendo côro com sua -madrinha e seu marido, bradava que um tal escandalo, se continuasse, -era capaz de corromper a atmosphera de Bellas por tal fórma, que -nenhuma senhora honesta se resignaria a habitar n’aquelles arredores, -com medo de aspirar, nos haustos de um ar até ahi tão puro, pensamentos -adulteros e criminosas tentações. - -O padre prior, que não percebia nada do que lhe diziam, apoiava tudo, -confirmando os appoiados com estrepitosas pitadas, disfarçando tambem -d’essa fórma os remorsos que sentia por abandonar assim a causa de -Alberto, com quem sympathisava desde que este, com generosa abnegação, -se prestara a substituir uma ou outra vez o proscripto Theodoro Leite -na mesa do voltarete. - -Comtudo, eu e Alberto andavamos sempre arredios um do outro, e não -davamos o minimo pretexto para que este mysterioso drama tivesse o -desenlace que os nossos inimigos desejavam. Esta obstinação em não -favorecermos os seus planos irritava D. Antonia, e fazia-a commetter -erros de toda a especie. Mostrava-se umas vezes indignada com a -hypocrisia das pessoas, que sabem disfarçar aos olhos do mundo o -crime que descaradamente confessam em particular; outras vezes, pelo -contrario, mostrava-se amabilissima comigo e com Alberto, e por tal -fórma nos incitava a que passeassemos juntos, que esta insistencia -chegava a dar-lhe ares de desempenhar um papel pouco em harmonia -com a dignidade _meticulosa_ de que tanto blasonava. Só emmudecia -quando o sobr’olho fransido de Claudio, o meio sorriso de Alberto, e -os multiplicados signaes de Carolina lhe faziam perceber que a sua -impaciencia a fizera entrar n’um mau caminho. - -Principiou então a adoptar um melhor systema; fingiu que se havia -esquecido de todo das suas suspeitas, e das minhas revelações; fingiu -confiar plenamente no que lhe eu dissera, e não querer por forma -alguma intervir no desenlace de tão penosa situação. Cuidou talvez -que, desassombrada da sua continua vigilancia, e do constante «álerta» -com que as suas provocações espertavam as minhas suspeitas e me tinham -sempre preparada para o combate, cederia á fascinação e me deixaria -indolentemente resvalar para o abysmo. - -Enganava-se julgando que a lucta em mim era apenas filha do capricho -e da necessidade de disfarçar aos olhos de meu marido as minhas -criminosas relações. Não podia ella comprehender que o amor e a honra -se combatessem lealmente no meu peito, e que o meu espirito encontrasse -sempre novas forças no sentimento da propria dignidade para reter as -perfidas suggestões do coração. - -Mas esse pelejar incessante prostrava-me e desfallecia-me. Minguava-me -não o valor, mas o alento physico para supportar as consequencias -da victoria. Eram terriveis para mim essas formosas e breves noites -de estio, passadas a velar na minha alcova solitaria, a ver a lua -espraiar-se no chão do jardim, e a voluptuosa penumbra a aninhar-se -nos recantos. Surprehendia-me a alvorada immovel na minha janella, -assistindo ao esvair da minha mocidade, fada cada vez mais pallida, -entre os primeiros clarões do horisonte matinal. E esses fugitivos -poemas, que me tinham consumido as horas nocturnas, murchavam-me a -flôr da juventude, que toda se desfazia em fragrancias, com que se -perfumavam essas vagas estrophes, que me voavam nem eu sei para onde, -nas azas da viração. - -Assim passou uma semana. - -Jantaram um dia em nossa casa Carolina e Jeronymo. Quando acabamos de -jantar, fomos tomar café para a sala. Começava a cair o crepusculo, -um d’esses crepusculos de estio, serenos e harmoniosos. As janellas -abertas deixavam entrar os longiquos murmurios do campo, o melancholico -mugido do boi, que volta para o curral, o grito prolongado do pastor, -o som grave e religioso do sino das Ave-Marias, e d’envolta com estas -campestres melodias vinham tambem os vagos aromas que as flores das -noites rescendem n’essa hora mysteriosa. - -Entrou Alberto, quando eu me fôra sentar ao piano, a pedido de -Carolina, que instava comigo para que tocasse um trecho da _Luiza -Miller_, muito da sua predilecção. Era uma das mais suaves e mais -melancholicas romanzas de tenor, uma das mais mimosas perolas d’esse -collar de melodias, que, n’uma hora de inspiração, Verdi desfiou sobre -o publico dilettante. O crepusculo já déra logar ás sombras da noite; -não havia ainda luar, mas estava tão estrellado o céu, e era tão suave -aquella penumbra que ninguem se lembrou de pedir luz. Agruparam-se -todos em torno do piano, e estava eu preludiando, quando entrou -Alberto, como já disse. - -Interrompi-me á sua chegada, mas elle, apenas fallou ás pessoas -presentes, disse logo: - ---Oh! minha senhora, teria eu remorso eterno, se por minha causa -ficassem os rouxinoes do seu jardim privados d’uma nota só d’esse -cantico delicioso, que lhes ha de ensinar a celebrarem ainda melhor -do que celebram os encantos d’uma noite estrellada. Continue vossa -excellencia. - ---Chegou muito a proposito, senhor Alberto Mascarenhas, acudiu -Carolina; ia-se tocar a romanza do tenor; commettiamos um sacrilegio -confiando a um piano, ainda que tocado admiravelmente, o cantico -sublime, digno só de ser entoado pela voz humana. Valha-nos pois, -cante-nos a romanza. - ---Por Deus, senhora D. Carolina, o que diriam os rouxinoes? -Excommungavam-me de certo, e encarregavam os mochos e as corujas de -executarem a sentença, poisando todas as noites no tecto da minha -hospedaria. Posso affiançar a vossa excellencia, que nas pontas dos -dedos da senhora D. Margarida está escondido um Mongini, que lhe vae -cantar admiravelmente a aria que me pede. - ---Não, não, respondi eu rindo, engana-se. Mongini rasgou a escriptura, -de fórma que os meus dedos declaram positivamente que só estão -disponiveis para acompanhamentos. - ---Bem, por minha causa não quero que se feche o theatro. Estou prompto -a obedecer ás ordens de vossas excellencias. - -Alberto possuia uma bonita voz de tenor, pequena sim, mas dramatica, -se me permittem o termo. Reproduzia admiravelmente cada inflexão da -melodia, cada intenção do maestro. Identificava-se com a musica, e -perfumava-se de suave tristeza, ou irrompia em gritos de paixão, ou -tomava o tom elegante do galanteio frivolo, conforme cantava, ou o _Ah! -perché non posso odiar-ti_ da _Somnambula_, ou o _Mentré contemplo_ das -_Vesperas Sicilianas_, ou o _Questa o quella_ do _Rigoletto_. - -Corri os dedos pelo teclado, e preludiei depois, fazendo brotar das -teclas as notas graves da introducção. - -A extrema luz crepuscular illuminava escassamente o pallido azul do -céo, onde palpitavam as estrellas. A placidez da noite proxima, a -serenidade da atmosphera, o profundo silencio que reinava no aposento, -silencio quebrado apenas pelos frouxos e derradeiros murmurios do -dia, predispunham a alma para esse embevecimento mudo e extatico, -melancholico e religioso, que esse canto grave, simples, e vago como -uma melodia exhalada espontaneamente da harpa gigante da natureza, é -tão proprio para inspirar. A voz de Alberto ergueu-se pura, limpida, -mas levemente commovida. Creio que todos sentimos um inexprimivel -encanto ao ouvirmos as primeiras notas suaves e serenas, que tão bem se -casavam pelo tom e pela letra com o espectaculo que nos rodeava: - - _Quando le sere, al placido - Chiarore d’un ciel stellato_ - -O canto espraiava-se pela planicie, ia expirar ao longe em languido -murmurio, e acordava milhares de eccos mysteriosos. Os campos, -adormecidos no voluptuoso regaço d’essa hora magica, despertavam ao -ouvirem essa harmonia, synthese admiravel das suas vozes confusas. Eu -estava profundamente commovida, sentia que Alberto cantava para mim -só, que era para mim que elle deixava expandir-se a sua alma em cada -uma das notas d’esse cantico. A sua voz era apenas um frémito, quando, -n’essa doce lingua italiana, recordava as meigas horas em que, de mãos -enlaçadas, fitavamos o céu onde esmoreciam os ultimos raios do sol. -Porque eu chegara a convencer-me que tudo aquillo era verdade e não -ficção, que era eu a heroina da opera, elle o meu apaixonado, e quando, -todo embevecido n’essas recordações, Alberto, como que esquecendo-se do -presente, concentrou toda a sua alma, toda a sua paixão n’aquelle grito -immenso de amor e de jubilo: - - _Allor parea l’Empireo - Aprir-se all’alma mia_ - -não pude conter mais os sentimentos, que me trasbordavam do peito, e -deixando cair os braços e interrompendo o acompanhamento, contive a -custo os soluços e deixei as lagrimas silenciosas golpharem-me dos -olhos e inundarem-me as faces. - -Alberto calou-se de subito, os ouvintes levantaram-se dizendo: «O que é -isto?» Meu marido approximou-se logo de mim, relanceando para Alberto -um olhar cheio de odio, e perguntando-me rudemente: «O que tem?» - ---Nada, nada, respondi eu com voz bastante firme; uma dor violenta que -me surprehendeu, mas que já me passou. - ---No coração? perguntou D. Antonia com fingida ingenuidade. - ---Sim, no coração, respondi eu com altivez; mas comprimi-a já. - ---Essas dores são muito más, tornou ella, vem quando menos se esperam. - ---Mas não vencem apesar d’isso, continuei eu. - -Claudio ouvia este dialogo com modo sombrio. - ---A senhora D. Margarida, acudiu Carolina, é muito nervosa, e as -pessoas nervosas facilmente se deixam impressionar pela musica. Demais -a mais o senhor Alberto Mascarenhas cantou com tanto ardor, tanto de -coração, que não admira que produzisse este effeito. - ---Engana-se, minha senhora, respondi eu; nada tem com este incommodo -passageiro o canto e a musica; vou-me deitar em cima da minha cama um -instante, e voltarei restabelecida. - ---Vá, vá, tornou D. Carolina cariciosamente. Desabafe que lhe ha de -fazer bem. - -Não lhe repliquei, e saí. Quando cheguei ao meu quarto, foram-me -allivio as lagrimas. Entre a minha afflicção, comtudo, avultava uma -idéa fixa. «Não, dizia eu comigo mesma, isto não póde durar. Vejo -dois caminhos abertos deante de mim, o do amor e da perdição, e o da -salvação e do martyrio. Ou entregar-me á paixão fatal, que me domina, -fazer a vontade a esta gente e procurar no amor de Alberto consolações, -que me abafem os remorsos, ou fazer cessar esta lucta perigosa, dizendo -a Alberto que parta, encerrando as lagrimas no peito, e engolphando-me -brutalmente n’esta existencia mesquinha, que me ha de assegurar a -consideração da condessa, a estima de D. Antonia e a tranquillidade -talvez. A tranquillidade? Palavra d’ora em deante sem sentido para -mim! Se conquisto a paz exterior, as tempestades nem por isso deixarão -de me bramir no coração. Mas que importa? O cumprimento de um dever -nunca deixa de ser acompanhado por intima satisfação, e será esse o -magico talisman que abrandará o soffrimento, a que a minha vida vae -ser condemnada. É preciso, é indispensavel que Alberto se ausente. -Ausentae-vos com elle, sonhos tentadores, perigosos devaneios, frémitos -da juventude, que se revolta contra o cilicio, aspirações do meu -espirito para o mundo luminoso, d’onde o dever o repelle.» - -Armando-me de coragem, desci á sala, decidida a pedir a Alberto uma -entrevista, para lhe explicar francamente a minha situação, e rogar-lhe -que me facilitasse o sair d’ella. - -Já lá estavam a condessa, o padre prior e a baroneza. - -Como a tactica de D. Antonia consistia em me deixar a maior liberdade, -julguei que poderia facilmente fallar de relance a Alberto. Mas o ciume -de Carolina parece que fôra excitado pela scena do piano, de forma que -não fez senão interpor-se constantemente a nós ambos, e não nos deixou -sós nem um instante. - -Já perdera as esperanças de lhe fallar, e até já me despedira d’elle -e das outras visitas que se retiravam, quando, ao atravessar a saleta -para subir para o meu quarto, encontrei Alberto, que subia de novo para -buscar alguma coisa, que lhe esquecera. - -Travei-lhe da mão, e disse-lhe apressadamente: - ---Preciso muito de lhe fallar: ámanhã, ás duas horas da noite, venha -ter comigo ao jardim. Enviar-lhe-hei a chave. - -Alberto ficou mudo d’assombro. Eu nem lhe dei tempo a responder-me. Saí -precipitadamente, e, ao abrir a porta, esbarrei n’um vulto. - -Era a Maria do Rosario. - ---Que estava aqui a fazer? perguntei eu com indignação. - ---Nada, minha senhora, respondeu ella com toda a naturalidade; vinha -apagar as luzes. - -E entrou effectivamente para a sala. - -Era possivel que fosse essa a verdade, e, se o não fosse, que me -importava? Denunciasse-me embora; eu ia jogar a ultima carta, e estava -disposta a confiar-me cegamente ao destino. - -Comtudo, até para dar esse passo, que me devia salvar da vergonha, -precisava de humilhar o meu orgulho aos pés de uma creada; é verdade -que essa creada, antes amiga, era a boa Quiteria, a pobre velha, -que tão desinteressadamente se dedicara a mim. Só d’ella me podia -valer para conseguir que fosse entregue a Alberto a chave, que era -indispensavel para a nossa ultima entrevista. - -Portanto, no dia seguinte chamei-a ao meu quarto, e como ligava muito -mais apreço á opinião da boa e pobre Quiteria do que á da altiva D. -Antonia, e da virtuosa condessa, contei-lhe pela rama a historia das -minhas relações com Alberto, não lhe fallei em subtilesas de coração, -mas disse-lhe que, vendo-me calumniada por causa d’aquelle homem, -queria ter uma conferencia com elle para lhe pedir que se retirasse -e não me expuzesse mais, ainda que involuntariamente, aos juizos -desfavoraveis das pessoas com quem estava condemnada a viver. Terminei -rogando-lhe que se encarregasse da missão que eu desejava confiar-lhe. - ---Minha boa menina, respondeu-me a Quiteria, tenho dado fé das -intrigas, que a cercam, e sei perfeitamente que a senhora D. Margarida -está innocentinha como um anjo do céu. Dá-me vontade ás vezes de -esganar os seus perseguidores! Já não fallo no senhor Claudio, que -esse no fundo é muito boa pessoa, assim elle soubesse ser dono da sua -casa. Mas a senhora D. Antonia, Deus me perdôe, parece mesmo que tem -o demonio ao lado que lhe está aconselhando a maldade. E a Maria do -Rosario? Ai! que boa peça! Anda sempre, como o outro que diz, com o -santo nome de Deus na boca, e o diabo no coração. Aquillo até chega a -ser heresia. Por isso todos lhe teem raiva, e se não fosse por minha -causa, o meu Simão já lhe tinha quebrado os ossos, quando a pilhava a -espreital-a, e a ir metter no bico da senhora D. Antonia tudo quanto a -menina faz! Mas eu que sou muito sua amiga, porque vejo que é boa com -a gente pobre, e que não se contenta em lhes dar uma fatia de pão, com -modos de quem dá uma facada, como fazem essas beatas fingidas; mas que -é meiga, affavel com elles, que os trata bem, e não lhes faz sentir a -sua humildade e a sua dependencia, que não ha coisa mais triste, santo -nome de Jesus. Andar uma pessoa a comer as sopas d’outrem... - ---Mas o que é que ia a dizer, tia Quiteria? interrompi eu, porque a via -disposta a amontuar incidentes sobre incidentes, e a perder o fio da -oração principal. - ---Ah! é verdade, já me esquecia... Tenha paciencia, minha boa senhora, -que isto de velhas gostam muito de dar á lingua, e, em ellas começando, -não ha fazel-as parar. Misturam alhos com bugalhos, e nunca chegam ao -fim, como succedeu na noite em que a menina chegou, que me enredei por -tal fórma, que não acabei de contar a historia do fr. João. Que elle -sempre viu a alma do pae... - ---Mas vossemecê estava a dizer outra coisa, tornei eu, já impaciente. - ---Ah! é verdade. Isso é o que importa agora, e não o saber-se que o -pae de João lhe confessou que fôra a pouco e pouco mudando os marcos -das terras dos visinhos, e que não teria a sua alma descanço e andaria -penando por este mundo em quanto essa justiça não fosse reparada. - ---Sim, sim, tia Quiteria, mas vossemecê dizia... - ---Ah! é verdade, voltando cá á boa alma de Maria do Rosario, que me -parece que já está a arder no inferno pelas mexeriquices que tem feito, -e as desgraças que póde crusar, sempre lhe direi, minha menina, que -o demonio da mulher ouviu-a hontem dizer ao senhor Alberto que fosse -ao jardim, e, segundo o seu costume, foi logo dizer tudo á senhora D. -Antonia. Ouvi-a eu com estes ouvidos, que eu não sou surda, graças a -Deus, a vista é que se me vae debilitando alguma coisa, e os dentes -esses viste’-los? Nem eu. Pois ouvi-a estar a contar tudo isso, e ouvi -tambem a senhora D. Antonia dizer assim: «Ora graças a Deus! vejâmos -agora se meu sobrinho ainda acha algum pretexto para se esquivar a -fazer o que deve, e se, depois de ter visto com os seus proprios olhos, -ainda estiver pouco disposto para isso, nós arranjaremos as coisas de -maneira que elle não tenha outra saída. O caso é não se ter vossemecê -enganado nas horas.»--«Não enganei, não, minha senhora, respondia a voz -de falsete da Maria do Rosario, ás duas horas no jardim.» Mais nada -ouvi porque senti passos aproximarem-se da porta, e não tive tempo -senão de me safar. Ora agora veja a menina se não será melhor adiar -a entrevista para outra occasião. Olhe que ellas estão prevenidas, e -fazem-lhe alguma. - -Reflecti alguns momentos antes de dar uma resposta. Os sentimentos -do meu coração, vencidos pela idéa do dever, não tinham ficado -completamente domados, e protestavam ainda contra a oppressão, a -que os votara. Fugia d’esse vedado paraiso do amor, mas, fugindo, -relanceava para elle os olhos, como a chorosa Eva ao sair do Eden, se -voltava a contemplal-o, com o peito a arquejar de saudades. Sorria-me -tentadora a idéa fatal de esquecer nos braços de Alberto a vida e -as suas obrigações, o mundo e as suas amarguras, de fugir com elle -para algum eremiterio arredado do bulicio social, ufanando-me do -estygma, aceitando o escandalo para conquistar o amor, como se aceita -o martyrio para se conquistar a palma. Bem sei que seria de pouca -dura essa felicidade criminosa, que o remorso seria o meu algoz, e o -enfado, que algumas vezes me entreluzisse nos olhos do meu amante, -pugentissimo castigo; mas o que era tudo isso em comparação da longa -vida de estiolamento que eu ia passar n’esse carcere domestico? -Lembrei-me dos amores de D. Branca e de Aben-Afan. Horas breves de -felicidade compradas por uma vida inteira de horrido desgosto; e o que -destruira esses amores tão violentos? Um gesto de fastio do moiro wali, -saudoso das suas pelejas e do seu poder. Teria eu maior condão que D. -Branca, Alberto mais desprendimento do mundo, do que Aben-Afan? Não -lhe leria nunca nos olhos o desgosto de se ter prendido em laços, não -authorisados pela sociedade, e de se ver privado dos gosos mundanos? - -Mas isso que importava? Se a gentil abbadessa, depois de ter visto e -amado o arabe formoso, se houvesse sepultado logo no gélido mosteiro, -não seria ainda maior a sua tristeza? Não seria a sua vida uma longa -noite, em que nem sequer luziria um raio do sol extincto sim, mas que -por instantes brilhara no horisonte? Longa noite sem o luar d’uma -recordação? Não seria então que o poeta podia deveras exclamar: - - .... Mas é vida - Esse viver que se alimenta em lagrimas? - -Agitada por estes encontrados pensamentos, persisti na idéa de deixar -ir o batel do nosso destino ao som da agua, para onde o impellisse -a corrente do acaso, ou antes, o que era mais christão na forma, -senão no fundo, entreguei á Providencia o cuidado de reger o leme, -e confiei-me cegamente ás ordens do Divino Piloto. Cumpriria o que -resolvera, iria pedir a Alberto que se affastasse de mim, porém, se a -fatalidade interviesse de novo, se a mão implacavel dos que me tinham -collocado á beira do abysmo me despenhasse n’elle, não opporia a minima -resistencia, e deixar-me-hia cair nos braços que me recebessem. - -Era esta a ultima prova e a mais fatal das indecisões do meu caracter, -tão pouco proprio para as luctas da existencia. - -Por isso respondi á boa mulher: - ---Embora, tia Quiteria; cumpra-se o meu destino: o que resolvi está -resolvido. São puras as minhas intenções, mas já não tenho forças para -luctar com as minhas perseguidoras. Quanto mais depressa isto acabar, -melhor. Estou anciosa pelo descanço, ainda que seja o repouso do -tumulo, ou o do opprobrio. - ---Ah! a minha menina que se deita a perder! tornou a Quiteria com modos -supplicantes. Pois quer dar essa gloria ás suas inimigas? Não faça tal. -E demais, continuou ella, desatando a chorar, isso é tentar a Deus, é, -como quem diz, dar cabo de si com as proprias mãos. - -Travei, commovida, das mãos de Quiteria, e disse-lhe: - ---Obrigada, minha boa amiga, obrigada por essas lagrimas. Ah! se -as pessoas que a desprezam do alto da sua soberba, tivessem o seu -coração!... Mas, tia Quiteria, bem vê que uma vida assim não pode -continuar. Estou cançada, estou prostrada por esta lucta sem treguas -nem fim. Acarinhada, mimosa em casa de meus paes, vim para esta casa, -nunca mais tive nem socego nem alegria. As pessoas do meu trato -quotidiano só tinham para mim rostos severos ou frios. Não tive -affeições, não tive familia. E, não contentes com isso, isolaram-me -do mundo, e cercaram-me com uma gélida barreira de desconfianças, de -suspeitas, e de calumnias. Esforcei-me, luctei por sair d’este circulo -de ferro; não pude. Já me sinto sem forças nem alento. No tumulo talvez -me deixem tranquilla, ou, se me expulsarem d’esta casa, talvez encontre -descanço ahi no fundo de alguma choça abandonada. Não é melhor assim? - -E as minhas lagrimas confundiram-se com o pranto da minha humilde amiga. - ---Pobre senhora! pobre senhora! dizia ella, soluçando; pobre pombinha -sem ninho! antes Deus a tivesse feito nascer n’uma choupana! viveria -socegada, e todos a haviam de estimar, como merece. - ---Antes, antes, Quiteria, respondi eu melancholica, bastantes vezes, -no silencio da noite, lancei a Deus esse grito de revolta contra o -martyrio sem causa. - ---Mas, minha menina, continuou a velhinha limpando as lagrimas, que -ainda lhe banhavam as faces, se por força quer fallar esta noite ao -senhor Alberto, ao menos faça-me uma coisa. - ---Qual é? - ---Mude a hora da entrevista; mande dizer ao senhor Alberto que venha á -meia noite. - ---Á meia-noite, tia Quiteria! Quasi a essa hora se vão as visitas. - ---Então o que tem? O senhor Alberto que espere. Olhe, a senhora D. -Antonia, o que deseja é ver se a apanha lá, e por conseguinte esteja a -minha menina certa que lhe não ha de pôr obstaculos. - ---Oh! isso sei eu. - ---Então está combinado? - ---Pois sim! tornei eu com a indifferença do fatalismo. - ---Ora bem! disse a Quiteria muito satisfeita. Assim talvez ainda as -possamos lograr! Deus está por nós. Elle nos ajudará. Fique a menina -descançada que d’aqui a duas horas está o senhor Alberto avisado. - -E, despedindo-se de mim, dirigiu-se para a porta; mas, quando ia a -levantar o fecho, parou, como se lhe houvesse esquecido alguma coisa, -e disse: - ---Ah! já me não lembrava!... - ---O que é, tia Quiteria? perguntei eu com interesse. - ---O João... - ---Qual João? tornei a perguntar, porque já nem pensava na historia do -frade. - ---Ora, qual João! o que viu a alma do pae... - ---Ah! é verdade, interrompi eu rindo, então o que lhe succedeu? - ---No dia seguinte restituiu as terras furtadas aos seus donos, as -outras vendeu-as, e foi-se metter n’um convento. E aqui está como fr. -João vestiu o habito de frade, e foi sempre um homem exemplar. - -E muito satisfeita por ter afinal contado a sua historia toda, a tia -Quiteria abriu a porta e saíu. - - - - - XXI - - -Pareceram-me seculos as horas, que decorreram até o cair da noite, -e comtudo, quando as primeiras sombras do crepusculo principiaram a -invadir o céu, desejei que retrocedesse o tempo, e tremi de ver tão -proximo o instante em que se ia decidir a minha sorte. - -Chegaram, segundo o costume, as visitas; D. Antonia mostrara-se todo o -dia affabilissima comigo, tambem a condessa houve por bem mimosear-me -com alguns dos seus mais amaveis sorrisos, e Carolina abraçou-me e -beijou-me com extraordinaria affeição. - -A tudo correspondi com sereno e melancholico aspecto: causava-me asco -esse corrilho de Judas. - -Ás dez e meia retiraram-se todos; D. Antonia disse estar incommodada, e -foi-se metter no seu quarto; Claudio apparecera na sala e demorara-se -instantes apenas, mostrando-se visivelmente inquieto; depois saira. - -Á meia noite em ponto, desci do quarto; pulsava-me o coração com -extraordinaria vehemencia; ia dando um grito, e deixando cair o -castiçal, que levava na mão, ao deparar-se-me um vulto immovel no fundo -da escada. - -Felizmente logo o conheci: era Quiteria. - ---Começa o enredo, disse-me ella em voz baixa; a condessa e a D. -Carolina entraram agora mesmo. - ---Estão cá? perguntei eu. - ---Estão; fingiram que se iam embora; mas foram passear, voltaram, e -metteram-se no quarto de D. Antonia. Lá está tambem a Maria do Rosario. - ---O que farão ellas? - ---Não sei, mas não tema. Aproveite este momento, que é favoravel. Deus -a proteja, filha. - -Abri a porta do jardim, e saí. Ainda não campeava no horisonte a lua, -mas aproximava-se a hora em que havia de surgir o meigo astro. A -folhagem das arvores meneava-se brandamente ao sopro suave da brisa, e -por entre a ramaria scintillavam as estrellas. - -Atravessei ligeiramente a rua principal do jardim, dirigindo-me á -porta que deitava para a estrada. Quando cheguei a uma espessa moita -de buxo não tosquiado, que se erguia a grande altura, ouvi uma voz que -murmurava muito de manso: - ---Margarida! - -Voltei-me, e vi Alberto. - -Parei, e comprimi com a mão o violento arfar do peito. Alberto pegou-me -na outra mão, e levou-a respeitosamente aos labios. - ---O que pensou de mim, senhor Mascarenhas, disse-lhe eu, ao receber o -estranho recado que lhe enviei? - ---Pensei que vossa excellencia tinha que me dar uma ordem, que eu tinha -a ventura de poder executar um mandado seu, e vim. - ---Disposto a obedecer-me? - ---Em tudo. - -Calei-me embaraçada; não sabia como havia de dar o primeiro passo -n’esse terreno escorregadio. Tinha os olhos baixos, mas como que sentia -o olhar de Alberto fito no meu rosto com inexprimivel anciedade. As -nossas respirações oppressas confundiam-se n’um murmurio, que se casava -com o sussurrar da brisa languida nas folhas do arvoredo. - -Formava o buxo uma espessa parede, que nos abrigava do lado de -casa; corria-lhe fronteiro o muro do jardim, mas a porta ficava-nos -distante. Um pecegueiro, ainda em flor, estendia por cima de nós a copa -como um docel perfumado. Uma estatua pagã, meio escondida no buxo, -espreitava-nos maliciosamente da sua verde alcova. - ---Senhor Alberto Mascarenhas, disse-lhe eu com voz profundamente -commovida, poz-nos o acaso n’uma situação falsissima. N’um momento de -exaltação passageira trocámos palavras fataes, que ainda hoje me soam -aos ouvidos como um remorso. Justificámos a calumnia, demos rasão aos -calumniadores. Esse crime só se resgata com a separação. É o allivio -para os nossos espiritos, a tranquilidade para as nossas consciencias. -Não podemos viver assim com a recordação d’essa tarde a interpor-se -constantemente a nós ambos, a pungir-nos sempre como espinho de rosa, -que nasceu amaldiçoada. Chamei-o aqui para implorar da sua honra, -do seu cavalheirismo, da sua amisade, do seu amor emfim, se me é -permittido proferir tal palavra, a esmola de um pouco de socego. Parta, -rogo-lh’o, ausente-se d’esta casa, d’este sitio, rompa completamente -as suas relações com a minha familia; só assim poderei recuperar a -paz, por que almejo tanto, que a acceito, ainda que seja o repouso do -tumulo, ou a atonia do desespero. - ---Minha senhora, respondeu Alberto com mal fingida firmesa, obedeço -a esta ordem de vossa excellencia, como a todas obedeceria. E demais -vejo, percebo tambem, que é intoleravel a nossa situação. Amigo de seu -marido, estou representando um papel em que a minha lealdade soffre. -Não sei se esta consideração bastaria para me arrancar d’aqui; as leis -da honra ás vezes são frageis diques contra as torrentes de alguns -affectos. Mas não devo pensar em mim, devo pensar no anjo puro, cuja -etherea serenidade perturbei, no anjo, em cujo céu immaculado tive a -audacia de fazer reboar um echo das paixões vis da terra. Possa o meu -sacrificio restituir-lhe o repouso. - -Calou-se um instante, e depois, emquanto eu, sem forças para lhe -responder, e mal podendo suster-me em pé, me encostava ao pedestal da -estatua, continuou com voz triste, ainda que serena: - ---Adeus, Margarida. - -E estendeu-me a mão, que eu apertei. - ---Adeus, Alberto, disse com egual simplicidade e tristeza. - -E ficamos assim, com as mãos enlaçadas, e os olhos de um cravados nos -olhos do outro. A brisa sussurrava no arvoredo, e o primeiro raio da -lua nascente coava-se a furto por entre os ramos do pecegueiro. - ---Que sonho tão breve, Margarida! murmurou elle. - ---Como todos os sonhos, Alberto! respondi eu. - ---Sim, como todos os sonhos, que descem das regiões da phantasia para -o mundo da realidade. Dizem as lendas allemãs que os espiritos do -ar e das aguas podem, pela magia do amor, tomar humana forma e alma -tambem humana, mas qualquer desgosto os fina, e perdem então de todo a -immortalidade. Quer-me parecer que os sonhos são como os sylphos e as -ondinas. - ---Louco de quem lhes magôa as azas candidas com os attritos da vida! - ---Bem louco!... Que irresistivel tentação, que absurdo escrupulo me -impelliu a revelar-lhe n’aquella noite fatal a historia dos meus -amores! Soltei as avesinhas captivas, julgando que as poderia fazer -voltar ao ninho... - ---E ellas foram despertar com os seus cantos as irmãs adormecidas na -minha alma. Era natural, bem vê. - ---Como virem os gelos, e matarem-nas. Embora, continuou Alberto um -tanto exaltado, gosei um instante de suprema ventura. Oh! antes de nos -separarmos para sempre, diga, Margarida, diga-me que esse momento, em -que se vae absorver e resumir todo o meu passado, ha de brilhar tambem -como um ponto luminoso na sua vida. - ---Sim, digo, tornei eu palpitante de commoção, e não me pejo de o -dizer, porque vou expiar longamente esse prazer tão rapido. Entrevi de -relance as doçuras de um vedado paraiso. Bebi com delicia criminosa o -feiticeiro philtro das suas palavras. Não tardaram as amarguras. Estado -tão inebriante era como esse mundo de crystal, que a phantasia de não -sei que romancista povoou de ignotos encantamentos, de esplendidos -prodigios; mas um bafo annuviava o ridente quadro, qualquer attrito -o partia. Vivemos instantes no crystal, Alberto; o nosso mundo -despedaçou-se, e os fragmentos ahi jazem dispersos. Mas crêa: sempre -que os espinhos da realidade me ferirem em demasia, hei de volver os -olhos enlevados para a região das fadas, onde enlaçados poisámos. - ---Oh! não murmure ao meu ouvido, tornou Alberto, essas magicas -palavras! Quer que nos separemos, e está entrançando de ouro e seda -o laço, que me ha de reter captivo? A melodia da sua voz é canto -de sereia, que me arrasta para o abysmo. Sinto que a minha alma se -prende n’essa ineffavel seducção. Separarmo-nos! separarmo-nos agora, -repetia elle exaltado, bem vê que é impossivel! Essa palavra destôa -dos murmurios amorosos d’este jardim, das meigas notas da sua voz. Não -a profira, não me quebre o encanto, deixe-me viver no crystal, como -dizia, no crystal onde sinto repercutir-se em eccos deliciosos cada uma -das estrophes do meu encantador poema. Não, não, não posso. - ---Alberto, exclamei eu, o que intenta fazer? Lembre-se do que me -prometteu, lembre-se das desgraças, de que póde ser causa este infausto -amor. - ---Sim, Margarida, respondeu elle apertando-me convulso as mãos, -lembro-me de tudo, e tudo cumprirei. Mas hoje é a ultima noite que me -resta para te ver. Lembra-te que vou, navegador infeliz, vaguear de -novo pelo oceano sombrio da existencia, sósinho, sem uma esperança, sem -uma estrella no céu tenebroso, ludibrio das vagas e das tempestades. -E quando o vendaval agudo me açoitar alta noite, quando não bruxulear -para mim no horisonte outro fanal que não seja a triste lampada do -tumulo, não queres que eu conserve ao menos uma lembrança do radiante -porto, da afortunada ilha onde pude repoisar por instantes a fronte -queimada pelo sopro das procellas? Não queres que se me aclarem um -momento as sombras, e que entre os fulgores da aurora me surja o teu -vulto angelico, meigo e saudoso como na hora em que para sempre nos -apartámos? - -E a lua, alta no céu, illuminava-lhe o rosto pallido, e incendia-lhe -vivissimos lampejos nos olhos marejados de lagrimas. A aragem meneava -a copa do pecegueiro, e desprendia-lhe as flores, que caíam em torno -de nós em chuva de perfumes. Esse murmurio vago das noites de estio -expirava ao nosso ouvido em voluptuosa melodia. - -Lancei a cabeça para traz, para fugir á magnetica seducção do olhar -de Alberto. Soltou-se-me então uma trança, que a brisa trouxe logo a -beijar-me o collo, como essas _boucles folles_ em que os francezes -fallam. - ---Mas o que quer? o que exige de mim? disse eu com voz tremula. Oh! -Alberto, porque se não ausentou já? - ---Nada quero nada, senão que se deixe estar assim, formosa incarnação -do meu sonho mais bello! Oh! se um esculptor grego a visse, tomal-a-hia -pela deusa da caça, nas horas em que desce ao seio dos bosques a -procurar Endymião. Ha na sua attitude um mixto indizivel de languidez -e de pudor, um não sei que de casta voluptuosidade, que lhe namoraria -os olhos, como a mim m’os namora, captivando-me o espirito. És linda, -Margarida! - ---Alberto! interrompi eu, escondendo a fronte ruborisada nas mãos -trementes. - -Elle cingiu-me com um braço, e puxando-me para si, e obrigando-me ao -mesmo tempo com dôce violencia a reclinar o rosto, de fórma que a lua -m’o illuminava em cheio, continuou: - ---És linda! és linda! quero gravar bem no coração a tua imagem, as -linhas do teu semblante, a luz do teu olhar! Quereria até poder -captivar e reter na urna do meu peito esse perfume inebriante e -impalpavel, que se exhala dos teus cabellos! E vou perder-te para -sempre... para sempre... não ver-te mais, senão em sonhos. E hei de -assim abandonar a ventura, quando a tenho nos meus braços, hei de eu -mesmo precipitar-me das alturas do céu nas profundesas do inferno? Que -tortura, não é? - ---E a minha, Alberto? - ---A tua ha de ser o desgosto que sentimos ao ver desfazer-se o devaneio -de um instante, o desgosto da creança, quando desapparece o globo -de agua de sabão, todo iriado e matisado de brilhantes côres pelos -raios de sol, globo que um sopro creou e um sopro mata. Mas eu!... -Este sonho formava parte integrante da minha existencia. Ainda que o -julgasse irrealisavel, sempre uma vaga esperança me vinha segredar ao -ouvido ineffaveis consolações. Mas agora, filha, agora nem isso me é -permittido! morreu para sempre, morreu o pobre sonho, o meu constante -companheiro, o meigo irmão da minha alma! - -E apertava-me convulso ao peito, e embebia nos meus os seus olhos -desvairados. Afastava-me os cabellos da fronte com os dedos tremulos, -e o seu bafo acariciava-me os labios, dôce e casto como o beijo de um -anjo. - ---E podia comtudo ser feliz, Margarida! Se calcasse aos pés as leis -do mundo e as da honra, se te pedisse que fugissemos d’aqui para um -recanto ignorado do mundo, onde houvesse luar, canticos e aromas! -Para a Italia, para Napoles, á beira d’esse formoso golpho, por baixo -d’esse céu azul, n’esse solo ardente, requeimado pela lava do Vesuvio, -como o meu peito pela fervente lava d’este amor. Alli de todos nos -esqueceriamos; alli podiamos prolongar infinitamente estes rapidos -instantes. Margarida! tu não podes viver n’esta atmosphera de gelo, -n’esta casa maldita; o teu destino é o meu, são eguaes os nossos fados. -Vem, vem comigo, arrojemo-nos cégamente para este pelago de paixões, -unico elemento onde póde viver o nosso espirito férvido. Vem, devoremos -em Napoles em alguns annos uma existencia de seculos, até que morrâmos -juntos sobre o tumulo do poeta de Dido, ou na praia sonora, onde nasceu -o vate de Armida. - -E arrastava-me com impeto febril. E eu dizia-lhe: - ---Alberto, não queiras macular o nosso tão casto sonho. Estes -devaneios, que fórmas, bastantes vezes me acariciaram, mas repelli-os -sempre, mas quero ainda hoje repelli-os. Amo-te, amo-te loucamente, -hei de amar-te sempre: leva esta confissão minha para consolo dos teus -dias attribulados. Mas a flor secca, Alberto, a flor que guardo no meu -seio é o symbolo do nosso amor. Não tentemos dar-lhe novo perfume, -e viço novo, á custa de um sacrilegio. O tufão da desgraça merecida -dispersar-lhe-hia as folhas, e que dôr, que immensa dôr não seria-a -nossa! Amo-te, Alberto, mas deixa-me fugir-te. - ---Não! não! tornava elle, basta de vãs loucuras, de sacrificios vãos! -És minha, só minha. Dá-me o amor sobre ti direitos inalienaveis. Se o -remorso nos saltear, morreremos, mas morreremos juntos. Que importa? -Morreremos enlaçados, na flôr dos annos. É esse o destino d’aquelles a -quem ama a céu. - ---Alberto! Alberto, o teu amor é o louco amor inspirado pelo paganismo, -e não o que se purifica nas aras de Jesus. O amor, que triumpha sobre -as ruinas do dever e da honra, não póde ser abençoado por Deus. - ---Deus! se existe, não póde separar os que se amam. - ---E o dever, e a amisade que te ligam a Claudio, e a consciencia? Oh! -se cedesses a esta impia tentação, o teu anjo da guarda velaria com as -mãos o rosto indignado. - ---O meu anjo da guarda, Margarida! O meu anjo da guarda és tu! - ---Não, Alberto, é o espirito de tua mãe! - -Elle parou, e soltando as mãos que me cingiam o corpo, levou-as -aos olhos, d’onde lhe irrompia o pranto; depois, voltando a mim, e -tomando-me a cabeça nas mãos, beijou-me os labios, dizendo-me: - ---E tu és o anjo do sacrificio. Adeus. Adeus para sempre! - -E fugiu. Eu caí prostrada e soluçando aos pés da estatua. Quando -levantei a fronte, vi deante de mim um vulto, cujo rosto estava mais -pallido do que o marmore, que eu regara com as minhas lagrimas. - -Era Claudio. - - - - - XXII - - -Esta apparição, que n’outro momento me impressionaria immenso, não -conseguiu tirar-me da lethargia, em que me prostrara a terrivel scena, -que houvera entre mim e Alberto. Fitei um olhar estupido no rosto de -meu marido. - -Annuviava-lhe a fronte uma profunda tristeza, mas nos seus olhos, -d’onde desapparecera a vaga desconfiança que era a sua expressão -habitual, transluzia não sei que meiga bondade, e que suavissima -ternura. - -Curvou-se brandamente para mim, e disse-me com voz cheia de lagrimas: - ---Quando me perdoará, Margarida? - -Eu olhei para elle com indizivel espanto, e murmurei: - ---Perdoar-lhe eu? - ---Oh! bem sei que sou indigno de perdão; mas quando souber quanto eu -soffri, quando souber que diversos e innumeros golpes me alancearam -por tão longo espaço! quando comprehender bem o meu caracter fraco, -incerto, impellido por cada sopro extranho, cedendo machinalmente a -qualquer influencia, talvez me desprese, mas absolva. E depois, muito -depois, é possivel que um raio de affecto venha doirar a compaixão, que -eu lhe inspire. - ---Affecto! exclamei no auge da exaltação, mas não sabe que mesmo agora, -ha um instante apenas, votei a outro homem um amor immenso e eterno? -Não sabe que a minha alma voou para bem longe d’aqui, nos labios d’esse -homem que m’a colheu n’um beijo? não sabe que sou uma mulher adultera, -indigna de perdão, porque me ufano do meu crime? - -Um soluço doloroso, afogado na garganta fez arfar com violencia o peito -de Claudio. Lagrimas como punhos saltaram-lhe dos olhos, e rolaram-lhe -pelas faces lividas. Estendeu a mão como para me pedir que não -continuasse, e esteve um instante sem poder fallar. - ---Sei; disse por fim, sei tudo. Avisado por minha tia de que se havia -de realisar esta entrevista, tive a fraqueza de os vir espiar. A -inquietação e o desasocego fizeram com que me adeantasse ás horas -marcadas. Esse caso fatal ou feliz proporcionou-me ensejo de assistir -a uma scena que me fez soffrer o duplo tormento do ciume e do remorso. -Pude apreciar, n’esta hora de grande provação para o seu espirito, a -nobreza do seu caracter, de que tão indigno me tenho mostrado. Porque, -devo confessar-lh’o, amo-a com um amor, bem que menos poetico, pelo -menos tão grande ou maior do que a paixão, que Alberto lhe consagrou. - ---Quem o havia de dizer? murmurei eu com dolorosa ironia. - ---Tem rasão, tem, tornou elle sem reprimir as lagrimas. Esmague-me -com o peso do seu odio, mas ouça-me: Educado severamente no seio -d’uma familia de idéas acanhadas, cedo me costumei a esconder no mais -recondito do peito os meus sentimentos, porque, se os manifestava, ia -excitar tempestades, que me obrigavam a retratar-me de novo. Todos me -dominavam; meus paes, e meus tios. Consideravam-me como uma creança, -cujos maus instinctos deviam ser reprimidos, e as minhas aspirações -para um mundo mais elevado eram castigadas como crime. Depois da morte -de meus paes, minha tia, ainda que mais velha do que eu em poucos -annos, continuou a exercer sobre mim um dominio indisputado. Só uma -vez me rebellei: foi quando se tratou do meu casamento. O amor que me -inspirara, foi mais poderoso do que o habito. Casei contra vontade -d’ella. Vingou-se cruelmente. Preciso de lhe contar as insinuações, -as calumnias, com que D. Antonia tentou semear a sizania entre nós -ambos? Não, porque era repetir-lhe a dolorosa historia dos seus e -dos meus tormentos. A timidez selvagem da minha indole impedia-me de -provocar uma explicação, que podia pôr termo a este penoso estado. A -desconfiança augmentava a minha reserva; a sua indifferença excitava-a -ainda mais. Foi-se envenenando a ferida com as apparencias, cada vez -mais illusorias. Suppuz que um outro amor lhe vendava os olhos, que não -viam sob a minha frieza exterior o fogo da paixão. Transformou-se em -realidade esta minha suspeita. Recresceu a minha dôr, e principalmente -o meu desalento. Sentia-me culpado, não podia criminar a pomba, a quem -estramalham o ninho, e que vôa tonta pelos ares e tonta vae poisar n’um -ramo de arvore estranha. Mas apesar d’isso, uma sombria tristeza se -apoderara de mim; torturava-me a duvida. «Serão culpados, pensava eu, -ou resistem ao sentimento, que se lhes está apossando dos corações?» -Ora pensava que o despeito e o desgosto a teriam levado a esse -estado, ora acreditava que era esse um amor antigo que habilmente me -disfarçara. Taes suspeitas alimentava-as minha tia, fazendo sobresair a -indifferença evidente, com que me aceitara por marido. - ---E não suspeitava, tornei amargamente, que essa indifferença, não -era mais do que a despreoccupação da creança, que ainda não sentiu o -amor, e cuja alma immaculada é como livro branco, prompto a receber -as primeiras estrophes, que lhe queiram traçar nas folhas! Sempre a -supposição mais injuriosa! - ---Oh! perdôe-me, Margarida. Isso que me diz entreluziu-me vagamente, -como clarão d’aurora por entre as sombras da noite. Pensei no encanto -que teria para mim esse amor, que fosse brotando a pouco e pouco entre -as doçuras da intimidade, cada vez mais estreita; mas as insinuações -de D. Antonia mataram-me o devaneio, e na constrangida ligação que -tivemos, não encontrei nunca animação para a empreza. Que funestas -consequencias teve esse engano, em que ambos laboravamos! Os nossos -dois corações, que talvez voassem um para o outro, assim se conservaram -isolados, e hoje... - -Interrompeu-se tapando com as mãos o rosto inundado de lagrimas. -Commoveu-me a dôr d’esse homem, que fôra a causa do meu infortunio, mas -cuja falta era tão nobremente resgatada pela inexcedivel generosidade -do seu procedimento. - ---Hoje é tarde, Claudio, disse-lhe eu tomando-lhe as mãos e -apertando-lh’as brandamente; a ferida do meu coração é muito profunda, -e receio que nunca cicatrise. Mas descance que o não hei de torturar -com o espectaculo dos meus tormentos. Viu que tive força bastante para -lhe salvar a honra, tel-a-hei para lhe não perturbar a tranquillidade. -Não lhe prometto amor, que seria enganal-o, mas affecto d’irmã, esse já -m’o conquistou. Bem sei que é estranho este modo de fallar d’uma mulher -a seu marido, mas á sua franqueza com igual franqueza correspondo. Se -o destino não consentiu que se formasse entre nós uma ligação mais -doce, vinguemo-nos dos seus golpes unindo-nos em fraternal alliança. -Juntos resistiremos melhor aos ataques da vibora, que nos envenenou a -existencia, e o nosso sanctuario, onde habitarão a paz e a amisade, -não será ao menos profanado pela intriga e pela calumnia. Acceita esta -alliança? - ---Se acceito, Margarida! É esse o meu ideal agora, e não sou tão -insano que faça voar mais alto a minha ambição. Está feito o mal, e se -não tem remedio, tenha pelo menos allivio. Que balsamo mais doce podia -eu desejar do que a sua amisade, e uma esperança... louca talvez, mas -que lhe imploro que me deixe! - -Sorri-me tristemente, e não lhe respondi. - ---Oh! exclamou elle, dando mostras da mais violenta afflicção, o -castigo é horrivel, mas é justo. Essa esperança bem vejo que é uma -loucura; offendi-a cruelmente, e consenti que a offendessem. Deixei -que lançasse profundas raizes essa planta, que hoje me rouba toda a -sua vida, todo o seu coração. A lucta é impossivel com um rival, cujo -prestigio a ausencia augmenta e eternisa. Essa estranha fidelidade a um -amor impossivel é digna da sua alma, e, fazendo-me soffrer, inspira-me -admiração! Agora é que eu avalio o thesouro, que perdi, e que perdi por -minha culpa. - ---Claudio, meu amigo, dizia-lhe eu embaraçada e tentando acalmar -a violencia da sua dor, não se afflija assim. É uma desgraça -irremediavel, e... quem sabe, (se o meu amor tem tanto apreço aos seus -olhos) quem sabe as mudanças, que o tempo pode produzir? Orgulhosa -seria se me julgasse isenta de todas as fraquezas da humanidade! Talvez -eu seja como tantas outras, talvez o que julgo eterno será passageiro. - -A custo proferia estas palavras que me saíam dos labios, não do -coração. Eram uma impiedade, uma blasphemia, mas tambem eu não podia -deixar soffrer um homem que já tanto soffrera por minha causa, e que -eu via alli prostrado, desalentado, matando-lhe desapiedadamente a mais -ligeira esperança, negando-lhe a mais innocente consolação. - ---Pois bem, disse-me elle erguendo a cabeça, só uma coisa lhe peço, e -espero que m’a conceda: sei que possue uma flor secca, memoria querida -d’esse amor que tão animosamente sacrificou. Bem sei que não tenho -direito de lh’a pedir, mas prometta-me que, no dia em que sentir um -affecto mais suave succeder á amisade que tão cordealmente me offerece, -me ha de entregar essa flor. Quando eu a receber saberei que estão -coroados os meus votos, realisados os meus sonhos. Promette fazer o que -lhe peço? - ---Prometto, respondi, estendendo-lhe a mão; mas, meu pobre amigo, -parece-me que a pobre flor se ha de desfolhar sobre o meu tumulo. - ---Sobre os nossos tumulos, diga antes. Depois de ter alimentado esta -esperança, o dia em que ella se desvanecer será o da minha morte. - -Emmudeci. Elle cingiu-me, para assim dizer, com um longo, terno e -doloroso olhar, e depois, sacudindo a cabeça, como para expulsar os -pensamentos que na mente lhe referviam, tirou o relogio da algibeira, e -viu ao luar as horas. - ---Duas! disse elle. Se me não engano, vamos ter novidade. Pelo que -deduzi de algumas palavras soltas, que minha tia e a condessa trocaram -esta noite, do facto de terem a condessa e D. Carolina voltado em -segredo depois de haverem saido ostensivamente, e de vagas ameaças -que minha tia me fez, quando me deu o ultimo aviso, no caso de eu -não cumprir o grande desejo d’ella, pareceu-me que essas dignissimas -pessoas conceberam o projecto de apparecerem de subito no jardim, para -produzirem um escandalo, que tornasse inevitavel a nossa separação. -E effectivamente, continuou pondo o ouvido á escuta, creio que ouço -passos abafados como de quem toma precauções para que o não sintam. - -Apurei tambem o ouvido, e percebi com effeito, vagos rumores que mal se -distinguiam do murmurio da brisa; mas, affastando levemente a cortina -de buxo, vi scintillarem nas ruas do jardim frouxos clarões, como -lanternas de furtafogo. - ---Dê-me o braço, disse-me meu marido, em voz baixa. - -Encostei-me ao braço d’elle, e ambos nos dirigimos vagarosamente para -uma das extremidades da rua, como se andassemos saboreando placidamente -a frescura da noite. - -Tinhamos dado apenas alguns passos, quando subito, e, como se fosse a -um signal convencionado, appareceram luzes por todas as bandas, e os -vultos de D. Antonia, de D. Carolina, da condessa e de Maria do Rozario -surgiram magestosamente, trazendo cada um d’esses quatro personagens um -candieiro ou um castiçal na mão. - -As luzes, que tinham resguardado por baixo das capas ou dos chales, -inundaram de fulgor a rua escassamente allumiada pelo luar, e, batendo -em cheio na estatua, cingiram-na com esplendido manto. - -Um passarinho, adormecido na espessura, despertou saudando esta -ficticia aurora. Eu e Claudio parámos tranquillamente relanceando os -olhos com espanto comico para os quatro actores, que tinham entrado em -scena, e que nos miravam estupefactos. - ---O que é isto? perguntou Claudio desfechando uma sonora gargalhada. -Temos scena final de melodrama? Abre-se a porta do fundo, e apparece o -tyranno, rodeado de soldados e de luzes? - ---Caso de grande monta deve ser, acudi eu logo, porque vejo aqui a -senhora condessa e a senhora D. Carolina, que a estas horas julgava que -dormiam muito socegadas nas suas camas! - -Ellas não diziam palavra, mas voltavam os olhos pasmados, ora umas -para outras, ora para nós. Era tão comico o seu desapontamento que eu -desatei a rir. - -A D. Antonia parece que trazia o discurso estudado, porque não o quiz -perder de todo, e ainda principiou: - ---Minha sobrinha... aqui... a estas horas... - ---A passear comigo, acudio Claudio, então que tem? A tia parece-me -somnambula! - ---E estão sós? exclamou levianamente a condessa. - ---Pois com quem haviamos de estar? continuou elle. Vossa excellencia -esperava aqui alguem, ou alguem lhe prometteu vir aqui esperal-a? Nada, -estamos sós, e devemos confessar que não contavamos ser surprehendidos. -Andavamo-nos deliciando com as frescas emanações de uma noite de -estio. N’estas noites foge-nos o somno das palpebras, e reconhece-se a -verdade do que diz um poeta francez: - - _On ne dort qu’à demi d’un sommeil transparent_ - -D’esta vez todas nós olhámos estupefactas para Claudio; nunca o -tinhamos visto tão expansivo. Parecia que o jubilo, innundando-lhe o -coração, lhe trasbordava em torrentes de palavras. O meu amor proprio -não podia deixar de ser affagado um pouco pela idéa de que só uma -levissima esperança pudera transformar o caracter de meu marido. - -Comtudo a posição estava sendo ridicula para os quatro conspiradores. -Era preciso sairem d’ella a todo o custo. Encarregou-se de preparar -uma retirada airosa a fertil imaginação de Carolina. Improvisou -uma historia de ladrões, que as tinham assustado ao irem para suas -casas, motivo por que tinham voltado para traz: explicou a sua visita -ao jardim pelo desejo de lhe explorarem os meandros a fim de se -certificarem que não havia homens escondidos n’algum canto. - -Ouvi esta historia com um sorriso nos labios, Claudio com ironica -attenção, interrompendo-a a cada passo com exclamações de zombeteiro -espanto. - -Quando ella acabou, não pude deixar de dizer, sorrindo: - ---São poetas os bandidos! Escolhem noites de luar, claras e -transparentes, para fazerem as suas excursões! Estou que, antes de nos -roubarem, não haviam deixar de nos dar uma serenata. - ---É possivel, respondeu ella amargamente, em todo o caso não seria eu -quem a ouvisse. - ---Com muita pena sua, não é verdade, senhora D. Carolina? - -Não me respondeu. Entretanto travara-se um dialogo em voz baixa entre -Claudio e D. Antonia. Só pude perceber as ultimas palavras: - ---Has de sempre ser um tolo, Claudio, dizia-lhe ella. - ---Favores, tia, favores seus. Mas olhe que estou sendo agora tolo... e -teimoso! - -D. Antonia ergueu ao céu os olhos lacrymosos, e preparou-se para ter um -ataque de nervos. Mas lembrou-se que estava o chão do jardim humido com -o orvalho que principiava a cair, e houve por bem adial-o para outra -occasião. - -Todas quatro se retiraram para casa, justificando um proverbio -portuguez muito conhecido, que diz respeito aos tosquiadores de lã. - -Nós seguimol-as de longe, com passos vagarosos, indo eu encostada ao -braço de meu marido. A lua brilhava serena e limpida no firmamento -azul, e a aragem, meneando a copa do pecegueiro e as corollas das -rosas, colhia perfumes, que pagava com murmurios. - - * * * * * - -Passado um mez, partiamos, eu e meu marido, para uma viagem na Europa. -Era este o unico meio de nos esquivarmos ás iras de D. Antonia, e de -fugirmos ás pungentes recordações que despertava no nosso espirito cada -sitio onde tinhamos passado uma existencia attribulada. - -A imagem pensativa de Alberto não me deixou um instante só, durante -os dois primeiros annos da nossa excursão. Visitou comigo Pompeia, -a resurgida cidade; Napoles, a voluptuosa; Palermo, a afortunada; -a historica Roma; a artistica Florença; a aristocratica Genova; a -melancholica Veneza; Milão, berço da moderna poesia italiana; Turin, -berço da liberdade. Saimos da Italia, e percorremos a Allemanha. Ahi -a imagem de Alberto interpoz-se menos vezes a mim e ás paizagens -grandiosas, aos castellos gothicos e ás floridas cathedraes do Rheno. -Muitas vezes, meu marido, quando a conversação entre nós ambos se -tornava mais expansiva, me perguntava o que era feito da flor secca. -Mas eu descorava, apertava-lhe a mão e ficava silenciosa. Salteava-o -então dolorosa melancholia, e estava longas horas sem proferir palavra. - -Comtudo haviamos percorrido juntos a Allemanha toda, e passavamos -a França, quando em Colonia nos vimos forçados a parar por minha -causa. Ahi dei uma filha a Claudio. Não posso pintar o seu jubilo! -Eu sentia-me tão feliz por ser mãe, contemplava tão enlevada os -olhos azues e as faces mimosas da minha filhinha, que, vendo Claudio -debruçado sobre o berço com o mesmo enlevo, cheguei a pensar que o amor -antigo desapparecera afinal, e que essa creança fôra o anjo, enviado -por Deus para enlaçar os nossos dois corações, lacerados por tantos -martyrios. - -Por isso uma noite, em que ambos miravamos a creança, deitada no berço, -e que olhava para nós com os seus grandes olhos pasmados e vagos, e -levantava para mim as suas mãosinhas brancas como brancos lyrios, -pareceu-me ouvir a voz de Deus, que me ordenava que completasse o -sacrificio, principiado havia tres annos. - -Tirei a flor secca do peito, e deixei-a cair no berço da nossa filha. -Claudio soltou um grito de jubilo, caiu-me aos pés banhado em lagrimas. -N’esse instante fui verdadeiramente feliz. - -Ai! devo confessal-o? passou rapido esse momento. Assomou-me de novo -na phantasia o vulto de Alberto, chamado pelos remorsos que sentia, -de ter trahido o juramento que lhe fizera. E depois, meu marido tinha -um coração excellente... mas aquelle nobre typo de Alberto possuia um -inexcedivel prestigio. - -Voltámos a Portugal. Tornámos a ver a nossa casa da Cruz das Almas, e a -nossa quinta de Bellas. Em todos esses sitios me esperavam milhares de -recordações, emboscadas nas ramarias das arvores, aninhadas no teclado -do piano! - -Indaguei por intermedio de Theodoro Leite a quem meu marido, antes de -se ausentar, assegurara uma posição independente, o que fôra feito de -Alberto. Soube que partira para as possessões de Africa occidental, com -um emprego na administração. Póde-se isto considerar um verdadeiro -suicidio. Resistirá a sua organisação tão delicada áquelle mortifero -clima? - -Redobrou com estas noticias a minha tristesa, tristesa que me vae -matando, pela necessidade que tenho de a disfarçar. A minha consolação -unica é minha filha. Vejo crescer aquella formosa flor confiada aos -meus disvellos, e peço a Deus que a preserve dos ventos frios, e das -geadas que me mataram o viço. - -Ás vezes quando vejo passar D. Antonia com os mesmos modos -pretenciosos, o mesmo olhar onde transparece a mesma ironia parva, -fuzila-me nos olhos um sentimento de odio. Não, mil vezes não: nunca -teria pensado em Alberto, se não fosse a teima de D. Antonia em me -attribuir maus pensamentos. - -Felizmente agora já me não póde fazer mal. A intimidade affectuosa que -existe entre mim e meu marido é solido broquel, onde se partem todas as -settas, que ella nos dirige. Mas que importa que se esmague a serpente -com o pé, se ella já pôde morder, e entornar a peçonha na ferida? A -victima vae definhando a pouco e pouco, até cair prostrada no regaço -consolador do anjo da morte. - - - FIM - - - - - Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA - - VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS - - DAS - - LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS - - Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc. - - Volumes in-8.º de 160 a 240 paginas, em corpo 8 ou 10, excellente - edição, em optimo papel, elegantemente encadernado em percalina. - - - Volumes publicados - - 1--Tristezas á beira-mar, por Pinheiro Chagas. - 2--Contos ao luar, por Julio Cesar Machado. - 3--Carmen, trad. de M. Level. - 4--A Feira de Paris, por Iriel. - 5--O direito dos filhos, por George Ohnet. - 6--John Bull e a sua ilha, trad. de P. Chagas. - 7--Esgotado. - 8--A lenda da meia noite, por M. Pinheiro Chagas. - 9--A joia do vice-rei, por P. Chagas. - 10--Vinte annos de vida litteraria, por A. Pimentel. - 11--Honra d’artista, trad. de P. Chagas. - 12--Esgotado. - 13 e 14--A aventura d’um polaco, trad. de Maria A. Vaz de Carvalho. - 15--Os contos do Tio Joaquim, por R. Paganino. - 16--Esgotado. - 17--Noites de Cintra, por Alberto Pimentel. - 18 e 19--Esgotado. - 20 e 21--A irmã da caridade, por Emilio Castellar, trad. de L. Q. - Chaves. - 22--Migalhas de historia portugueza, por P. Chagas. - 23--Esgotado. - 24--Contos, por Affonso Botelho. - 25--Esgotado. - 26--O mysterio da estrada de Cintra, por Eça de Queiroz e R. Ortigão. - 27--O naufragio de Vicente Sodré, por Pinheiro Chagas. - 28--Vida airada, por Alfredo Mesquita. - 29--O bacharel Ramires, por Candido de Figueiredo. - 30 e 31--Amor á antiga, por Caïel. - 32--As netas do Padre Eterno, por A. Pimentel. - 33--Contos, por Pedro Ivo. - 34--O correio de Lyão, por Pierre Zaccone. - 35--Vida de Lisboa, por Alberto Pimentel. - 36--Historias de frades, por Lino d’Assumpção. - 37--Obras primas, por Chateaubriand. - 38--O exilado, por Mauricia C. de Figueiredo. - 39--Poema da Mocidade, por Pinheiro Chagas. - 40 e 41--A vida em Lisboa, por Julio Cesar Machado. - 42 e 43--Espelho de portuguêses, por Alberto Pimentel. - 44--A fada d’Auteuil, trad. de Pinheiro Chagas. - 45--A volta do Chiado, por E. de Barros Lobo. - 46--Séca e Méca, por Lino d’Assumpção. - 47--Ninho de guincho, por Alberto Pimentel. - 48--Vasco, por A. Lobo d’Avila. - 49--Leituras ao serão, por A. X. Rodrigues Cordeiro. - 50--Luz coada por ferros, por D. Anna A. Placido. - 51--A flôr sêcca, por P. Chagas. - 52--Relampagos, por Armando Ribeiro. - 53--Historias rusticas, por Virgilio Varzea. - 54--Figuras humanas, por Alberto Pimentel. - 55--Dolorosa, por Francisco Acebal, trad. de Caïel. - 56--Memorias de um fura-vidas, por A. de Mesquita. - 57--Dramas da côrte, por Alberto de Castro. - 58--Os mosqueteiros d’Africa, por Mendes Leal. - 59--A divorciada, por José Augusto Vieira. - 60--Phototypias do Minho, por J. Augusto Vieira. - 61--Insulares, por Moniz de Bettencourt. - 62 e 63--Historia da civilisação na Europa, trad. do Marquez de Sousa - Holstein. - 64--Triplice alliança, de Raul de Azevedo. - 65--Retalhos de verdade, por Caïel. - 66--A pasta d’um jornalista, pelo Visconde de S. Boaventura. - 67--Os argonautas, por Virgilio Varzea. - 68--Fitas de animatographo, por Alberto Pimentel. - 69 e 70--Poesias do Abbade de Jazente, annotadas por Julio de - Castilho. - 71--Aspectos e sensações, de Raul d’Azevedo. - 72--Contos e narrativas, por P. W. de Brito Aranha. - 73--Quadros e letras, historias e romancêtes, por Sanches de Frias. - 74--Individualidades, por Henrique das Neves. - 75--Alfacinhas, por Alfredo de Mesquita. - 76--Patria amada, pelo Visconde de S. Boaventura. - 77--Historias e romancêtes, por Sanches de Frias. - 78--Esbocetos individuaes, por Henrique das Neves. - 79--Recordações da mocidade, por Adolpho Loureiro. - 80--Sorrisos, novellas e chronicas, por A. Campos. - 81--Lucta de sentimentos, por Maria O’Neill. - 82--Do Rocio ao Chiado, por P. de Vasconcellos. - 83--A dança do destino, por Luthgarda de Caires. - 84--Um drama de ciume, por Maria O’Neill. - 85 e 86--Resumo da origem de todos os cultos, por C. F. Dupuis. - 87--Vencido, romance por F. A. M. de Faria e Maia. - 88--Elogio da loucura, critica de costumes, por Erasmo. - - - - - OUTRAS OBRAS - - -Azevedo (Domingos de) - - Diccionario (Grande) contemporaneo francez-portuguez e v. v. No prelo - a 2.ª edição, muito correcta e extremamente augmentada, enc. 12$000 rs. - - Grammatica da lingua franceza, enc. 1$200 rs. - - Grammatica Nacional, para aprender portuguez sem mestre, enc. 2$000 rs. - - Lições praticas de conversação franceza, enc. 500 rs. - - Ollendorff aperfeiçoado para aprender francez sem mestre, (2 vol.), - enc. 3$000 rs. - - -Carvalho (D. Maria Amalia Vaz de) - - Ao correr do tempo, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Arte de viver na sociedade, br. 1$000 rs., enc. 1$800 rs. - - Aventura de um polaco, (2 vol.), br. 600 rs., enc. 1$000 rs. - - Cartas a uma noiva, br. 900 rs., enc. 1$300 rs. - - Cerebros e corações, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Chronicas de Valentina, br. 900 rs., enc. 1$300 rs. - - Coisas d’agora, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Contos e phantasias, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Em Portugal e no estrangeiro, br. 1$000 rs., enc. 1$400 rs. - - Figuras de hoje e de hontem, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Heroismo do clero, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Impressões de historia, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - No meu cantinho, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Nossas filhas, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Pelo mundo fóra, br. 650 rs., enc. 1$050 rs. - - Raphael, trad. de Lamartine, (ed. de luxo), enc. 3$600 rs. - - - Pinto (Silva) - - (COLLECÇÃO D’ALGIBEIRA) - -A 650 rs. br. e 1$000 rs. enc. - - A queimar cartuchos. - A torto e a direito. - Ao correr do pello. - Entre nós. - Frente a frente. - Moral de João Braz. - Mundo (O) furta-côres. - Na Procella. - Na travessia. - N’este valle de lagrimas. - No colyseu. - No mar morto. - Para o fim. - Philosophia de João Braz. - Por este mundo. - Riso amarello. - Rompendo o fogo. - Velha historia. - - -Queiroz (Dr. Teixeira de) - - Amores... amores..., br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Arvoredos, br. 1$000 rs., enc. 1$300 rs. - - Cantadeira (A), br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Caridade (A) em Lisboa, (2 vol.), br. 1$200 rs., enc. 2$000 rs. - - Cartas d’amor, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - D. Agostinho, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Morte de D. Agostinho, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Noivos (Os), (2 vol.), br. 1$200 rs., enc. 2$000 rs. - - Nossa (A) gente, br. 650 rs., enc. 1$050 rs. - - Sallustio Nogueira, (2 vol.), br. 1$200 rs., enc. 2$000 rs. - - Amor Divino, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Famoso Galrão, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Ao sol e á chuva, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A FLOR SECCA *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. 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Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. 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Pinheiro Chagas—A Project Gutenberg eBook - </title> - <link rel="icon" href="images/cover.jpg" type="image/x-cover"> - <style> /* <![CDATA[ */ - -body { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; -} - - h1,h2,h3,h4,h5,h6 { - text-align: center; /* all headings centered */ - clear: both; -} - -p { - margin-top: .51em; - text-align: justify; - margin-bottom: .49em; - text-indent: 1em; -} - -.p2 {margin-top: 2em;} -.p4 {margin-top: 4em;} - -hr { - width: 33%; - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - margin-left: 33.5%; - margin-right: 33.5%; - clear: both; -} - -hr.tb {width: 45%; margin-left: 27.5%; margin-right: 27.5%;} -hr.chap {width: 65%; margin-left: 17.5%; margin-right: 17.5%;} -@media print { hr.chap {display: none; visibility: hidden;} } - -hr.r5 {width: 5%; margin-top: 1em; margin-bottom: 1em; margin-left: 47.5%; margin-right: 47.5%;} - -div.chapter {page-break-before: always;} -h2.nobreak {page-break-before: avoid;} - - - -.pagenum { /* uncomment the next line for invisible page numbers */ - /* visibility: hidden; */ - position: absolute; - left: 92%; - font-size: smaller; - text-align: right; - font-style: normal; - font-weight: normal; - font-variant: normal; - text-indent: 0; -} - -.blockquot { - margin-left: 5%; - margin-right: 5%; -} - -.center {text-align: center; text-indent: 0em;} - -.right {text-align: right; text-indent: 0em;} - -.smcap {font-variant: small-caps;} - -/* Images */ - -img { - max-width: 100%; - height: auto; -} -.w10 {width: 10%;} -.x-ebookmaker .w10 {width: 13%;} - -.bt {border-top: 2px solid;} -.bb {border-bottom: 2px solid;} - -.figcenter { - margin: auto; - text-align: center; - page-break-inside: avoid; - max-width: 100%; -} - -/* Poetry */ -.poetry {text-align: left; margin-left: 25%; margin-right: 5%; text-indent: 0em;} -/* uncomment the next line for centered poetry in browsers */ -/* .poetry {display: inline-block;} */ -/* large inline blocks don't split well on paged devices */ -@media print { .poetry {display: block;} } -.x-ebookmaker .poetry {display: block; margin-left: 5%;} - -.xbig {font-size: 2em;} -.big {font-size: 1.2em;} -.small {font-size: 0.8em;} - -abbr[title] { - text-decoration: none; -} - - /* ]]> */ </style> -</head> -<body> -<div lang='en' xml:lang='en'> -<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>A flor secca</span>, by Manuel Pinheiro Chagas</p> -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online -at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you -are not located in the United States, you will have to check the laws of the -country where you are located before using this eBook. -</div> -</div> - -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>A flor secca</span></p> -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Manuel Pinheiro Chagas</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: November 14, 2022 [eBook #69353]</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p> - <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: The Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by The Internet Archive)</p> -<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A FLOR SECCA</span> ***</div> - - - - -<h2>OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO</h2> -<hr class="r5"> -<p class="center">Edição popular das suas principaes obras em 80 volumes -in-8.º, de 200 a 300 paginas -impressa em bom papel, typo elzevir</p> - -<hr class="r5"> - - -<p class="poetry"> -1—Coisas espantosas.<br> -2—As tres irmans.<br> -3—A engeitada.<br> -4—Doze casamentos felizes.<br> -5—O esqueleto.<br> -6—O bem e o mal.<br> -7—o senhor do Paço de Ninães.<br> -8—Anathema.<br> -9—A mulher fatal.<br> -10—Cavar em ruinas.<br> -11 e 12—Correspondencia epistolar.<br> -13—Divindade de Jesus.<br> -14—A doida do Candal.<br> -15—Duas horas de leitura.<br> -16—Fanny.<br> -17, 18 e 19—Novellas do Minho.<br> -20 e 21—Horas de paz.<br> -22—Agulha em palheiro.<br> -23—O olho de vidro.<br> -24—Annos de prosa.<br> -25—Os brilhantes do brasileiro.<br> -26—A bruxa do Monte-Cordova.<br> -27—Carlota Angela.<br> -28—Quatro horas innocentes.<br> -29—As virtudes antigas.<br> -30—A filha do Doutor Negro.<br> -31—Estrellas propicias.<br> -32—A filha do regicida.<br> -33 e 34—O demonio do ouro.<br> -35—O regicida.<br> -36—A filha do arcediago.<br> -37—A neta do arcediago.<br> -38—Delictos da mocidade.<br> -39—Onde está a felicidade?<br> -40—Um homem de brios.<br> -41—Memorias de Guilherme do Amaral.<br> -42, 43 e 44—Mysterios de Lisboa.<br> -45 e 46—Livro negro de padre Diniz.<br> -47 e 48—O judeu.<br> -49—Duas épocas da vida.<br> -50—Estrellas funestas.<br> -51—Lagrimas abençoadas.<br> -52—Lucta de gigantes.<br> -53 e 54—Memorias do carcere.<br> -55—Mysterios de Fafe.<br> -56—Coração, cabeça e estomago.<br> -57—O que fazem mulheres.<br> -58—O retrato de Ricardina.<br> -59—O sangue.<br> -60—O santo da montanha.<br> -61—Vingança.<br> -62—Vinte horas de liteira.<br> -63—A queda d’um anjo.<br> -64—Scenas da Foz.<br> -65—Scenas contemporaneas.<br> -66—O romance d’um rapaz pobre.<br> -67—Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado.<br> -68—Noites de Lamego.<br> -69—Scenas innocentes da comedia humana.<br> -70 e 71—Os Martyres.<br> -72—Um livro.<br> -73—A Sereia.<br> -74—Esboços de apreciações litterarias.<br> -75—Cousas leves e pesadas.<br> -76—<span class="smcap">Theatro</span>: I—Agostinho de Ceuta.—O marquez de Torres-Novas.<br> -77—<span class="smcap">Theatro</span>: II—Poesia ou dinheiro?—Justiça.—Espinhos e flôres.—Purgatorio e Paraizo.<br> -78—<span class="smcap">Theatro</span>: III—O Morgado de Fafe em Lisboa.—O Morgado de Fafe amoroso.—O ultimo acto.—Abençoadas lagrimas!<br> -79—<span class="smcap">Theatro</span>: IV—O condemnado.—Como os anjos se vingam.—Entre a flauta e a viola.<br> -80—<span class="smcap">Theatro</span>: V—O Lobis-Homem.—A Morgadinha de Val-d’Amores.<br> -</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="CAMILLIANA">CAMILLIANA</h2> -</div> - -<hr class="r5"> -<p><b>Camillo Castello Branco</b>—<i>Notas á margem em varios livros -da sua biblioteca</i>, recolhidas por Alvaro Neves.—1 vol. -br. 600 rs.; enc. 1$000.</p> - -<p><b>Camillo Castello Branco</b>—<i>Tipos e episodios da sua galeria</i>, -por Sergio de Castro.—3 vols., contendo inumeras transcrições -da obra de Camillo, br. 1$800 rs.; enc. 2$800 rs.</p> - -<p><b>Poesias dispersas de Camillo Castello Branco</b>—1 vol. -de 247 pag. em papel de linho nacional. Tiragem 48 ex., br. -6$000 rs.</p> - -<p><b>Hosanna!</b> Por Camillo Castello Branco. Fiel reprodução zincografica -da 1.ª edição de 1852, hoje rarissima. Tiragem 60 ex., -br. 2$500 rs.</p> - -<p><b>Os pundonores desagravados</b>, por Camillo Castello Branco. -Reprodução como acima da 1.ª edição de 1845. Tambem rarissima. -Tiragem 60 ex., br. 1$000.</p> - -<p><b>Prefacio da 1.ª edição do Diccionario de Azevedo</b>, por -Camillo Castello Branco.—Fl. 1$000.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="COLLECCAO_ECONOMICA">COLLECÇÃO ECONOMICA</h2> -</div> - -<p class="center">Volumes in-16.º de 240 a 320 paginas</p> - -<p class="center big">ROMANCES DOS MELHORES AUCTORES</p> -<hr class="r5"> - -<p class="center">VOLUMES PUBLICADOS</p> - -<div class="poetry"> - -<p>1—Aventuras prodigiosas de -Tartarin de Tarascon, seguidas -de Tartarin nos Alpes, -por A. Daudet.</p> - -<p>2—Esgotado.</p> - -<p>3—Sergio Panine, por Jorge -Ohnet.</p> - -<p>4—Esgotado.</p> - -<p>5—Soror Philomena, por -Edmond e J. Goncourt.</p> - -<p>6—Esgotado.</p> - -<p>7—Os milhões vergonhosos, -por Heitor Malot.</p> - -<p>8—Esgotado.</p> - -<p>9—Esgotado.</p> - -<p>10—Esgotado.</p> - -<p>11—Esgotado.</p> - -<p>12—Esgotado.</p> - -<p>13—Um coração de mulher, por -Paul Bourget.</p> - -<p>14—Esgotado.</p> - -<p>15—Esgotado.</p> - -<p>16—Esgotado.</p> - -<p>17—Esgotado.</p> - -<p>18—O ultimo amor, por Ohnet.</p> - -<p>19—Um bulgaro, por Ivan Tourgueneffe.</p> - -<p>20—Memorias d’um suicida, -por Maxime du Camp.</p> - -<p>21—Esgotado.</p> - -<p>22—Esgotado.</p> - -<p>23—Camilla, por G. Ginisty.</p> - -<p>24—Trahida, por Maxime Paz.</p> - -<p>25—Sua Magestade o Amor, -por A. Belot.</p> - -<p>26—Esgotado.</p> - -<p>27—Os reis no exilio, por A. -Daudet.</p> - -<p>28—Esgotado.</p> - -<p>29—Mentiras, por Paul Bourget.</p> - -<p>30—Marinheiro, por Pierre Loti.</p> - -<p>31—Esgotado.</p> - -<p>32—A Evangelista, por Daudet.</p> - -<p>33—Aranha vermelha, por R. -de Pent Jest.</p> - -<p>34 e 35—Esgotado.</p> - -<p>36—Parisienses!... por H. Davenel.</p> - -<p>37—Ao entardecer!... por Iveling -Rambaud.</p> - -<p>38—A confissão de Carolina, -trad. de J. Sarmento.</p> - -<p>39—Esgotado.</p> - -<p>40—Esgotado.</p> - -<p>41—O abbade de Faviéres, por -J. Ohnet.</p> - -<p>42—Esgotado.</p> - -<p>43—Esgotado.</p> - -<p>44—A nihilista, por C. Mendés.</p> - -<p>45—Esgotado.</p> - -<p>46—Morta de amor, por Delpit.</p> - -<p>47—João Sbogar, por C. Nadier.</p> - -<p>48—Viagem sentimental, por -Sterne.</p> - -<p>49—O milhão do tio Raclot, -por Emile Richebourg.</p> - -<p>50—A confissão de um rapaz do -seculo, por Musset.</p> - -<p>51—Esgotado.</p> - -<p>52—O castello de Lourps, por -J. K. Huysmans.</p> - -<p>53—Amor de Miss, por J. Blain.</p> - -<p>54—A sogra, por Laforest.</p> - -<p>55—Colomba, por P. Merimée.</p> - -<p>56—Katia, por L. Tolstoï.</p> - -<p>57—Alma simples, por Dostoiewsky.</p> - -<p>58—Duplo amor, por Rosny.</p> - -<p>59—Contos fantasticos, por Hoffmann.</p> - -<p>60—A princeza Maria, por Lermontoff.</p> - -<p>61—Rosa de maio, por Armand -Silvestre.</p> - -<p>62—Esgotado.</p> - -<p>63—O romance do homem amarello, -pelo general Tcheng-Ki-Tong.</p> - -<p>64—A dama das violetas, por -F. Guimarães Fonseca.</p> - -<p>65 & 66—Nemrod & C.ª, por -Jorge Ohnet.</p> - -<p>67—Prisma de amor, por Paul -Bonhomme.</p> - -<p>68—Historia d’uma mulher, -por Guy de Maupassant.</p> - -<p>69 & 70—Educação sentimental, -por G. Flaubert.</p> - -<p>71—Depois do amor, por Ohnet.</p> - -<p>72—A fava de Santo Ignacio, -por Alexandre Pothey.</p> - -<p>73 & 74—O herdeiro de Redclyffe, -por Mrs. Yongue.</p> - -<p>75—Uma ondina, por Theuriet.</p> - -<p>76—A familia Laroche, por -Marguerite Sevray.</p> - -<p>77—As grandes lendas da humanidade, -por d’Humive.</p> - -<p>78 & 79—A filha do Dr. Jaufre, -por Marcel Prevost.</p> - -<p>80—A dama das camelias, por -A. Dumas, Filho.</p> - -<p>81—Dezeseis annos..., por F. -C. Philips.</p> - -<p>82 & 83—O Desthronado, por -A. Ribeiro.</p> - -<p>84—Ninho d’amor, por A. Campos.</p> - -<p>85—Bodas Negras, por Almachio -Diniz.</p> - -<p>86—Do amor ao crime, por Alphonse -Karr.</p> - -<p>87—A ilha revoltada, por Ed. -Lockroy.</p> -</div> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img001"> -<img src="images/001.jpg" class="w10" alt="Imagem decorativa"> -</span></p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="COLLECCAO_ANTONIO_MARIA_PEREIRA-51_Volume">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA—51.º Volume</h2> -</div> -<hr class="r5"> -<p class="center xbig">A FLOR SECCA</p> - - - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p class="center bt bb"> -COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA<br> -</p> -<h1> -A FLOR SECCA</h1> -<p class="center big"> -ROMANCE<br> -</p> -<p class="center small p2"> -POR<br> -<br> -<span class="big">M. PINHEIRO CHAGAS</span><br> -</p><hr class="r5"> -<p class="center"> -SEGUNDA EDIÇÃO<br> -</p><hr class="r5"> -<p class="center p4"> -LISBOA<br> -<span class="smcap">Parceria</span> ANTONIO MARIA PEREIRA<br> -LIVRARIA-EDITORA<br> -<i>Rua Augusta, 50, 52 e 54</i><br> -1904<br> -</p> -</div> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p class="center p4"> -LISBOA<br> -<span class="smcap">Officinas Typographica e de Encadernação</span><br> -Movidas a vapor<br> -DA<br> -Parceria Antonio Maria Pereira<br> -<i>Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º</i><br> -1904<br> -</p> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="A_JULIO_CESAR_MACHADO">A JULIO CESAR MACHADO</h2> -</div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="MEU_CARO_JULIO">MEU CARO JULIO</h2> -</div> - - -<p>Aqui vem collocar-se debaixo da tua protecção -um livro que te é offerecido por aquelle -timido rapaz, que te foi procurar ha tres annos, -para te ler uns versos, que tu acolheste -tão benevolamente, e a quem fizeste n’um dos -teus deliciosos folhetins uns prognosticos tão -lisongeiros. Não sei se a tua prophecia está -em caminho de se realisar; sei que o teu protegido -entrou na carreira litteraria, cujas portas -lhe abriste doirando-lh’as com a luz já então -prestigiosa da tua gloria, enflorando-lh’as -com as grinaldas sempre viçosas do teu talento; -sei que seguiu essa estrella fatal, a cuja -influencia não póde eximir-se mais quem se -deixou arrastar pelo seu magnetico fulgor; sei -que, desejando mostrar-te a sincera amizade -que te votou, e a gratidão que sente pelo benevolo -acolhimento que outr’ora lhe fizeste, e -pelas provas de constante estima que lhe tens -dado, vem dedicar-te um dos pobres livros -que é agora destino seu arrojar á voragem da -publicidade.</p> - -<p>Acolhe-o bem. Elle pouco vale. Sei que te -poderia e deveria talvez offerecer flor mais -fragrante do que esta pobre <i>Flor Secca</i>, secca -e sem perfume como a phantasia as produz -emquanto a mão insaciavel do jornalismo as -arranca sem descançar da hastea. Mas grassa -actualmente na nossa litteratura uma tal epidemia -de odiosinhos e invejas, de cumprimentos -feitos cara a cara compensados por insultos -escondidos na sombra, que tive pressa de -te dizer bem alto deante de amigos e inimigos -que me ufano de prestar publicamente homenagem -ao teu talento, um dos mais sympathicos -da nossa terra, e ao teu caracter, um dos -mais nobres e leaes que tenho encontrado na -minha carreira litteraria.</p> - -<p class="right"> -PINHEIRO CHAGAS.<br> -</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_9">[Pg 9]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="I">I</h2> -</div> - - -<p>Tinha eu dezoito annos. Estava uma noite n’um -baile em casa do conde de C... Acabara de valsar, -e, toda offegante, vermelha e risonha, sentara-me -na primeira cadeira que se me deparara, compondo -o cabello, que se desarranjara no rapido voltear, -quando meu pae se approximou de mim, acompanhado -por um rapaz de vinte e cinco para vinte e -seis annos.</p> - -<p>—Margarida, disse-me elle, estendendo a mão -para o seu companheiro, que se curvou gravemente -deante de mim, tenho a honra de te apresentar o -senhor Claudio da Cunha, proprietario e meu amigo.</p> - -<p>Claudio da Cunha fez-me de novo um grave cumprimento.</p> - -<p>—Senhor Claudio da Cunha, continuou meu pae, -voltando-se para elle, e indicando-me com o gesto, -apresento-lhe minha filha, D. Margarida da Silveira.</p> - -<p>Estendi-lhe com desembaraço a mão encerrada -na luva de pellica branca, e disse-lhe:</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_10">[Pg 10]</span></p> - -<p>—Estimo immenso conhecel-o; os amigos de -meu pae teem sempre direito á minha affeição.</p> - -<p>—Travem n’esse caso conhecimento mais intimo, -acudiu meu pae, sorrindo-se mysteriosamente e affastando-se.</p> - -<p>Havia ao meu lado uma cadeira vaga. O meu novo -conhecido desviou-a um pouco, porque estava perfeitamente -unida á minha cadeira, e sentou-se n’ella.</p> - -<p>Emquanto fazia tudo isto grave e pausadamente, -relanceei os olhos para elle, e com esta rapidez de -observação, que Deus concedeu ás pessoas do nosso sexo, -pude n’esse instante formar tão perfeita -idéa d’elle como se o houvera comtemplado e analysado -duas horas.</p> - -<p>Claudio era, o que se póde chamar, um bonito -homem. Alto, branco, de feições extremamente regulares, -de olhos rasgados e azues, mas de um azul -frio e sem expressão. Não tinham nem o brilho vivo -e intenso d’esses olhos de um azul faiscante, se -assim me posso exprimir, cuja côr parece o azulado -reflexo que scintilla na plumagem negra do corvo, -nem a meiga e melancholica limpidez do colorido -dos lagos, que espelham no seu cristal o azul -do firmamento. Tinha os olhos azues, porque as -leis da optica exigem implacavelmente que os olhos -tenham uma côr qualquer, e o acaso fizera que o -azul competisse aos de Claudio da Cunha. Se fosse -possivel dispensar-se condição por tal fórma essencial, -estou convencida que aproveitariam com avidez -essa isenção, e ficariam sem côr, como já estavam -sem brilho.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_11">[Pg 11]</span></p> - -<p>Haviamos apenas trocado algumas banalidades -preliminares, quando romperam na orchestra os primeiros -compassos de uma polka ingleza. A tal convite -nunca eu soubera resistir.</p> - -<p>Olhei para Claudio, indicando-lhe claramente -n’esse olhar que esperava que me tirasse para seu -par na polka.</p> - -<p>O meu visinho não mostrou comprehender a intenção, -que se lia nos meus olhos.</p> - -<p>—Não dança? aventurei-me eu a dizer, vendo a -sua immobilidade.</p> - -<p>—Não, minha senhora, respondeu elle gravemente.</p> - -<p>Encolhi imperceptivelmente os hombros; uma -creatura humana, e de mais a mais na flor da idade, -que não dançava, era para mim uma d’estas -monstruosidades incomprehensiveis, que a Providencia -ás vezes phantasia n’uma das suas horas de -mau humor.</p> - -<p>Por isso acolhi com jubilo um dos mais infatigaveis -dançadores do baile, que veiu, com o sorriso -nos labios, e com o rosto ainda humido do suor da -valsa, convidar-me para uma polka ingleza.</p> - -<p>Levantei-me, puz-lhe logo a mão no hombro, esperei, -batendo o compasso com o meu sapatinho de -setim, que a musica nos désse occasião para nos -arrojarmos ao vortice delicioso, e, leve como um -passarinho, segura na cinta pela mão do meu par, -comecei a descrever á roda da sala um d’esses airosos -giros que tanto me enlevavam.</p> - -<p>Confesso que nunca mais pensei em Claudio da<span class="pagenum" id="Page_12">[Pg 12]</span> -Cunha. Ás contradanças succederam as polkas, ás -polkas as valsas, e, toda entregue a tão fervente -prazer, esqueci essa especie de visão da prosa, que -interrompera por instantes a delirante poesia do meu -baile.</p> - -<p>O que não impediu que, ás tres horas da manhã, -depois da mamã me ter feito signal que se retirava, -quando, ao estarmos pondo as capas, veio Claudio -da Cunha pedir as nossas ordens, e sollicitar licença -para ir no dia seguinte a nossa casa apresentar-nos -os seus cumprimentos, o que não impediu, repito, -que o recebesse com um sorriso muito amavel, -e lhe apertasse francamente a mão, que elle me -estendeu com a sua habitual gravidade.</p> - -<p>—Que tal te pareceu Claudio da Cunha? perguntou -minha mãe sorrindo-se, quando íamos descendo -as escadas do palacio.</p> - -<p>—Pareceu-me bem, respondi eu, porque?</p> - -<p>—É o noivo que te destinâmos, tornou minha -mãe, inclinando-se um pouco para o meu ouvido.</p> - -<p>—Ah! redargui eu distraidamente.</p> - -<p>Foi assim, entre uma polka e uma valsa, que -travei conhecimento com meu marido.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_13">[Pg 13]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="II">II</h2> -</div> - - -<p>Esse <i>Ah</i> indifferente, com que eu acolhi uma noticia -tão importante, merece e vae ter uma explicação.</p> - -<p>Chegára aos dezoito annos, e ainda não conhecera -o amor, nem procurara conhecel-o. Frieza de organisação? -perguntam-me. Pelo contrario, demasiado -ardor.</p> - -<p>Imaginem uma creança, cuja phantasia devaneava -sempre sonhos de ouro, terras encantadas das <i>Mil -e uma noites</i>, choréas de brancas fadas, vultos ideaes -e vaporosos, ignotas melodias, ineffaveis extasis, anjos -de azas candidas, romances impossiveis, poemas -maravilhosos. Imaginem essa creança, educada, rigida, -severa, prosaicamente, por um pae, que franzia -o sobr’olho sempre que me via disposta a soltar as -rédeas á imaginação, por uma mãe, que me fazia -sentar junto de si, e me dizia: «Filha, é preciso resignares-te -a abandonar essas idéas romanticas, se -quizeres viver tranquilla e feliz. O mundo não é como -tu o vês atravez do prisma da tua infantil imaginação. -Os sonhos da phantasia, filha, são como as<span class="pagenum" id="Page_14">[Pg 14]</span> -andorinhas: só vivem bem entre os effluvios de uma -eterna primavera. A tua idade é a doce primavera -da existencia; por ora, podes acariciar, e reter com -roseos laços as andorinhas gentis, que se te aninharam -no coração, todo perfumado de innocencia. Mas -é preciso que te vás costumando a deixal-as partir. -Querias entrar com ellas no frio inverno da sociedade -tal como ella é, e não tal como tu a suppões? -Não; bem vês que morreriam geladas, e nem tu sabes -o soffrimento que te causaria então a sua morte. -Deixa-as voar, deixa-as ir procurar outro ninho, -tão doce e tão quente como o suave ninho do teu -coração de creança, e tu, filha, prepara-te para affrontares -serenamente as tristezas e amarguras da -realidade!»</p> - -<p>Estes conselhos, constantemente repetidos, dados -por essa voz, que eu respeitava, produziram em -mim um effeito extravagante. Sceptica e enthusiastica -a um tempo, acreditava firmemente que a poesia -fugira do mundo como a Themis do paganismo, -e fôra refugiar-se no ceu, aonde os meus sonhos a -iam procurar, e d’onde voltavam com as azas impregnadas -nas balsamicas fragrancias, que rescendia -a casta divindade. Considerava o mundo real como -um inferno de prosa, onde me via obrigada a viver, -sem comtudo poder abstrahir d’essas visões poeticas -e dulcissimas, cujo desapparecimento me tornaria -insupportavel a existencia.</p> - -<p>Transigi então. Agradara-me a figura, de que minha -mãe se servira para me rogar que não entrasse -na vida real com idéas romanescas. Jurei que não<span class="pagenum" id="Page_15">[Pg 15]</span> -exporia as minhas pobres andorinhas a serem mortas -pelos gelos da realidade; mas jurei tambem que -lhes havia de conservar n’um canto do coração, sanctuario -bem mysterioso e bem recatado, a eterna -primavera que lhes era indispensavel. Depois de ter -affrontado impavida e forte a prosa da realidade, -iria refugiar-me, com prazer e enthusiasmo, no meu -tabernaculo santo, nas minhas Charmettes encantadoras, -onde podia banhar á vontade a minha alma, -sequiosa d’esses gosos, no limpido e sereno lago da -poesia, na pura e transparente atmosphera do ideal: -atmosphera onde voejavam as andorinhas gentis dos -meus devaneios, lago onde vogavam os candidos -cysnes dos meus sonhos; e assim, repartindo a minha -vida entre as obrigações enfadonhas da sociedade, -e as enthusiasticas devoções do meu templosinho -secreto, julgava poder atravessar a existencia, -serena e immaculada, suspensa entre ceu e terra, -como o caixão de Mahomet.</p> - -<p>Com estas disposições é facil de imaginar que me -havia de seduzir a arte, e que estava predestinada -a consagrar-lhe um amor ferventissimo. A arte era -a chave de oiro do meu palacio de fadas, o «Abre-te, -Sesame» da caverna d’Ali-Baba, onde estavam -encerrados os thesoiros da minha imaginação. A arte -era o manto de Mephistopheles, sobre o qual eu -podia viajar livremente pelas queridas regiões da -phantasia. Seduziu-me essa gentil feiticeira, que me -podia transportar n’um vôo para longe do mundo -que me cercava, e interpôr a mim e á sociedade a -cortina magica, por detraz da qual começava para<span class="pagenum" id="Page_16">[Pg 16]</span> -o meu espirito a região dos encantamentos, dos extasis -e das delicias. A melodia, que os meus dedos -despertavam nas teclas de um piano, era como o -fumo odorifero de que se rodeia o turco, ao entregar-se -ás perigosas delicias do hatchich. Por isso eu -adorava a musica, e tinha um verdadeiro amor ao -meu piano. Devorava-o com os olhos, quando me -via obrigada a fechal-o ou para receber visitas, ou -para obedecer ás ordens de meus paes. Se era o cofre -das minhas riquesas, o corpo que encerrava uma -alma irmã da minha, que só despertava ao evocal-a -eu, e que eu bem sabia que ficava adormecida quando -alguem ousava pôr mãos profanadoras nas teclas -do instrumento!</p> - -<p>Quando eu tocava, todos me applaudiam com frenesi; -gabavam o meu talento, a assiduidade do meu -estudo, e diziam que, se quizesse apparecer em publico, -offuscaria as glorias dos mais celebres pianistas. -Eu nem lhes ouvia os applausos. Enlevada nas -mysteriosas conversações com a fadasinha do piano, -tudo o mais me era indifferente. Que me importava -tocar deante de duas pessoas, ou deante de duas -mil? Entre mim e ellas caía sempre a bemfadada -cortina, e o meu espirito, enlaçado com o espirito -da melodia, franqueava as portas d’oiro do mundo -do ideal.</p> - -<p>Por isso tambem adorava a dança, e a valsa principalmente. -Apenas rompiam na orchestra os primeiros -compassos da vertiginosa musica, ahi voava -nos braços do meu par, louca, inebriada por esse -filtro ignoto, que distillam as flores, as luzes, as<span class="pagenum" id="Page_17">[Pg 17]</span> -melodias do baile. Os meus pés mal tocavam no -chão; como que a pouco e pouco sentia emplumarem-se-me -os hombros com as azas niveas dos anjos -ou das fadas; via n’essa atmosphera, saturada -de férvidas emanações, voejarem as minhas andorinhas, -que me chamavam para a sua região encantada, -e tudo esquecia: o salão, o meu par, a gente -que me cercava, para me arrojar para o mundo dos -devaneios, para entrar no casto gyneceu das minhas -formosas visões.</p> - -<p>Com estas idéas, como podia eu procurar o amor? -Pensava muito n’elle, é verdade, mas nem por sombras -me lembrava de o buscar na vida real. O amor, -e a realidade eram para mim duas palavras completamente -incompativeis. Quem se lembra de pedir -nectar n’um banquete dos homens? Que mahometano -encommenda a um negociante d’escravas que -lhe traga uma huri da Circassia?</p> - -<p>Julgaria até uma profanação collocar um idolo -n’esse altar erguido na minha alma, como altar -atheniense, ao <i>deus desconhecido</i>. Os suavissimos -aromas, que essa palavra rescendia, não havia flôr -da terra que os exhalasse.</p> - -<p>Mas estas idéas, que eu alimentava, nunca pensára -em revelal-as. Não se esqueçam os leitores da -minha dupla existencia: uma toda sujeita ás leis sociaes, -e não tentando por forma alguma rebellar-se -contra ellas, outra completamente fóra do mundo -da realidade; existencias diversas, com as fronteiras -escrupulosamente traçadas, e que nunca se invadiam -mutuamente.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_18">[Pg 18]</span></p> - -<p>Portanto, o casamento era para mim uma d’essas -leis, a que eu estava prompta a obedecer, comtanto -que me ficasse plena liberdade de me esquivar para -a região das andorinhas; liberdade inalienavel como -facilmente se imagina. Não pedindo ao casamento -o amor, qualquer marido me era indifferente. Bastava-me -a amizade, porque ouvira dizer a minha -mãe, que no matrimonio é indispensavel esse sentimento.</p> - -<p>Claudio da Cunha não me inspirava repugnancia; -por conseguinte estava perfeitamente disposta a -obedecer ás ordens de meus paes. Ouvi a noticia e -não pensei mais em tal. Casar-me tinha para mim -tanta importancia como pagar ou receber uma visita; -cumpria uma lei imposta pela sociedade. Tal noticia -merecia mais do que o <i>Ah</i> distrahido com que -eu a acolhera?</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_19">[Pg 19]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="III">III</h2> -</div> - - -<p>Confessemos que seria difficil a descripção da -nossa vida nos tres ou quatro mezes que precederam -o meu casamento com Claudio da Cunha. Póde -excitar interesse a mulher, que nem caminha para o -altar como victima sacrificada, nem como noiva feliz -de ver coroados pelo hymeneu os votos formados -pelo amor para adoptar a linguagem dos venturosos -tempos da Arcadia? Póde chamar a attenção -um noivo cortez, vestido irreprehensivelmente, frio, -grave, que vem apresentar-me os seus cumprimentos -sempre á mesma hora sem differença de um -minuto, que me ouve tocar piano, mostrando-se -attento quanto baste para satisfazer as conveniencias, -que me applaude depois com as suas mãos enluvadas, -de modo que não faça estalar nem uma -costura das luvas preciosas, que em seguida elogia -a minha habilidade e a perfeição do meu methodo, -que tudo isto repete todos os dias, sem alteração -de uma syllaba, de um gesto, de um segundo?</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_20">[Pg 20]</span></p> - -<p>Comtudo eu não tinha razão de queixa. Claudio -era o marido, que convinha a quem executava fria -e indifferentemente um dever, contraindo os laços -do matrimonio. Galanteador, incommodar-me-hia de -certo: menos delicado e exacto, offenderia não a -mim, que não repararia em tal, mas a meus paes.</p> - -<p>D’este modo tudo caminhava ás mil maravilhas. -O papá extasiava-se perante o comedimento, e as -maneiras polidas de Claudio; a mamã folgava de -ver o escrupuloso aceio e esmero do seu trajar, o -cuidado que tomava sempre em evitar uma nodoa -que lhe maculasse o lustre irreprehensivel da casaca -e do chapeu; eu dava-me perfeitamente com o seu, -raras vezes interrompido, silencio, porque me deixava -divagar á vontade e escutar desafogadamente -o chilrear das «minhas andorinhas».</p> - -<p>Chegou emfim o dia do casamento. Foi esse para -mim um dia de verdadeiro jubilo, e de extasi sem -igual. Porque? perguntam-me. Transformou-se o caracter -de Claudio, e algum vulcão, fervendo longo -espaço de tempo por baixo dos gelos exteriores, irrompeu -e incendiou tambem com as subitas chammas -esse coração tão despresador da vida real, e -que se dizia d’amianto para as prosaicas labaredas -do mundo terreno? Folgou por acaso de se ver senhora, -e de se transformar a doce grinalda da virgindade -no diadema de rainha, esplendido mas pungente, -que cinge a fronte das esposas? Não, nada -de tudo isso. O motivo do meu jubilo era apenas o -poder cingir o meu veu branco, e a corôa de flores -de larangeira, emblemas nupciaes.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_21">[Pg 21]</span></p> - -<p>Oh! como eu contemplei mil vezes ao espelho os -graciosos adornos, que tanto me enlevavam, como -deixei cair em torno de mim as graciosas pregas do -meu veu de gase! Como me revi na grinalda de -brancas flôres, que me poisava elegantemente na -cabeça, dando um vivo realce aos meus cabellos -castanhos claros! Como olvidei, sósinha, no meu -toucador, o mundo presente, a realidade semsabor, -os padrinhos de casaca preta, os parabens dos convidados, -a cerimonia nupcial! Não era Margarida -da Silveira que alli estava mirando-se vaidosamente -n’um espelho de moldura doirada; era a fada Margarita -contemplando a sua imagem no cristal da -sua fonte! Rompia a manhã, a fresca manhã de -S. João; as pobres alcachofras queimadas esperavam -que o bento orvalho reverdecesse a corolla -crestada, as bilhas d’agua esperavam o encantamento, -os ovos suspensos nos copos esperavam a -metamorphose.</p> - -<p>A brisa matinal fluctuava em torno a mim, infunando-me -ao de leve as prégas do meu veu. A luz -nascente mal fazia desabrochar rosas desmaiadas -no horisonte.</p> - -<p>Eu erguia-me e o meu debil pésinho, ainda mais -leve do que na valsa, corria sobre a relva sem -a fazer vergar sequer! o meu passo mysterioso -fazia brotar rosas e lyrios no seu tapete de veludo! -Agitava na mão a varinha branca, a varinha -das feiticeiras! Tocava na triste alcachofra carbonisada, -e, por entre o negrume das suas pobres -folhinhas, renascia a rôxa pétala que ía encher de<span class="pagenum" id="Page_22">[Pg 22]</span> -contentamento um coração virginal! Soprava nos -fios tenues do ovo suspenso n’agua, e os fios, como -se os tecesse mão mysteriosa, bordavam por si mesmos -um matiz delicioso! «Oh! fada Margarita! dizia -eu para o meu espelho, como és linda e como -és boa!»</p> - -<p>Depois, não era já a fada, mas sim a muito alta -e muito poderosa senhora D. Margarida, filha do -castellão, rico-homem de pendão e caldeira, senhor -de baraço e cutello! Caminhava a furto para a entrevista -aprazada! o coração arfava-me deliciosamente! -Eis-me chegada emfim junto da cruz da ermida, -onde me espera o gentil cavalleiro, que vae -para a Palestina! Os loiros cabellos fluctuam-lhe -sobre a couraça brunida; poisa-lhe ao lado o elmo, -com as plumas azues ondeantes a capricho da viração! -Troca-se um adeus sentido, derramam-se lagrimas, -fazem-se promessas de amor eterno! Então, -desprendo o veu branco, e dou-lh’o como penhor -do meu affecto! Será a protectora charpa do meu -noivo, o talisman que o ha de resguardar dos alfanges -dos infieis! Elle beija mil vezes o candido -veu, monta o corcel, que o espera impaciente, e -parte. Sigo-o com os olhos arrasados d’agua até o -perder de vista, e...</p> - -<p>E abre-se a porta e apparece meu pae de luva -branca, bota de polimento, e casaca preta, e atraz -d’elle, mas timidamente, como quem receia ser indiscreto, -Claudio da Cunha, de casaca preta, bota -de polimento, e luva branca!</p> - -<p>Adeus! Adeus! Andorinhas gentis!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_23">[Pg 23]</span></p> - -<p>Como sempre, baixei, sem protestar, ás regiões -da realidade. Acolhi com um beijo meu pae, com -um sorriso o meu noivo, que me pedia mil desculpas, -por ter ousado chegar á porta do meu santuario, -mas que fôra arrastado pelo seu querido sogro, -etc.; e, depois de ter acceitado e dado todas -as desculpas, desci para me metter na carruagem, -que me devia conduzir á igreja.</p> - -<p>D’ahi a duas horas, era eu a legitima esposa de -Claudio da Cunha, e tomava posse da casa de meu -marido, situada na Cruz das Almas.</p> - -<p>Franqueara estas columnas de Hercules da vida -das senhoras, passara do brando e azul Mediterraneo -das solteiras para o verde e tempestuoso Oceano -do matrimonio, e confesso que não sentia o minimo -frémito agitar as brancas velas do baixel do meu -destino.</p> - -<p>Se eu tencionava sentar-me, como até ahi, na -proa da nau, e indifferente aos furacões que me rugissem -em torno, ás vagas irritadas que fervessem -e se empinassem contra mim, fitar os olhos no cantinho -do ceu azul, onde havia de continuar a brilhar, -estava d’isso convencida, a formosa e radiante -constellação dos meus devaneios!</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_24">[Pg 24]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="IV">IV</h2> -</div> - - -<p>Compunha-se de duas pessoas a minha nova familia: -meu marido e uma tia d’elle, mais velha apenas -doze ou quatorze annos, e caminhando rapidamente, -mas com desespero, para o Maelstrom dos -quarenta, que sorve implacavelmente as ultimas esperanças -matrimoniaes.</p> - -<p>Vou tentar descrever em rapido bosquejo os companheiros -da peregrinação, que eu ia principiar.</p> - -<p>Claudio da Cunha era um homem de um caracter -indeciso e fraco, temendo duas coisas, e respeitando -uma. As que temia eram o ridiculo e a lucta, a -que respeitava era sua tia.</p> - -<p>O ridiculo combatia-o com as frias e graves exterioridades -que eu já fiz notar; á lucta, esquivava-se -sempre a todo o custo, obedecia a sua tia escrupulosamente, -mordendo constrangido o freio, -mas não ousando sacudil-o.</p> - -<p>Sua tia D. Antonia possuia um coração, talvez -outr’ora bom, mas que se fôra enchendo de fel, fel<span class="pagenum" id="Page_25">[Pg 25]</span> -que trasbordava sempre na sua conversação constantemente -aggressiva. Seria perigosa manejando a -arma do epigramma, se o seu espirito, descultivado -e estreito, lhe permittisse açacalar as frechas que -despedia ao acaso, que feriam ao de leve, mas que -se tornavam incommodas pela quantidade. Então o -adversario, que ella escolhera, devolvia-lhe uma ou -outra com mais certeira mão, e o golpe, que lhe -calava bem fundo na alma, fazia-a ter ataques de -nervos, que chamavam logo a sollicitude do sobrinho, -o qual vinha escutar com ouvido attento os -seus queixumes ridiculos, e enxugar com mão piedosa -as lagrimas de despeito.</p> - -<p>A sua vaidade era tanto mais insupportavel quanto -mais procurava disfarçar-se. Quando fallava em geral, -dizia sempre com louvavel modestia que era -feia, que os meus encantos a offuscavam completamente, -que não aspirava sequer a rivalisar comigo; -mas o terreno, que perdia na generalidade, ia-o sempre -recuperando passo a passo nas particularidades. -Quando tinha a minha idade haviam de lhe ficar -larguissimas as minhas botinhas, e agora mesmo, -se não quizesse andar a seu gosto, e se não estivesse -já curada d’essas vaidades, estava certa que -lhe haviam de servir maravilhosamente. «Uma coisa -que eu sempre tive foi o pé muito pequeno, concluia -ella. Fulano dizia...» E vinha logo um madrigal, -que, pela fórma <i>moyen-âge</i>, revelava um adorador -dos bons tempos dos <i>trovadores</i> das <i>Ellas</i>, revelação -que restabelecia a verdadeira data da sua -certidão de baptismo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_26">[Pg 26]</span></p> - -<p>Não podia comprehender, dizia ella, como eu me -apertava tanto sem temer as consequencias funestas -d’essa imprudencia. Por mais que lhe jurasse e -lhe mostrasse que não succedia semelhante coisa, -continuava sempre protestando que estava fazendo -uma loucura, que ella nunca andara assim, o que não -impedia que tivesse tido uma cinturinha de sylphide, -que duas mãos unidas podiam facilmente abranger.</p> - -<p>Todos estes ridiculos eram medianamente supportaveis, -e de certo nem os citaria, se não fossem -parte essencial de um caracter sêcco, vaidoso e azedado -pelas decepções que a sua vaidade soffrera no -campo das salas. Pouco depois do meu casamento, -essas raivas secretas, esses furores devorados em -silencio começaram a traduzir-se na attitude hostil -que tomou para comigo, attitude acobertada por um -manto d’amizade protectora. Usava, dizia ella, do -seu privilegio de <i>velha</i>, e carregava intencionalmente -no termo, para me dar conselhos, e para me preservar -dos perigos, em que o meu estouvamento -juvenil me poderia fazer cair. Com este admiravel -pretexto, houve por bem arvorar-se em censora -constante das minhas acções.</p> - -<p>Se eu por acaso mostrava uma ou outra vez o -meu enfado, então lançava-me um olhar ferino, e dizia, -adoçando o som de voz tanto quanto aguçava -os raios das pupillas: «Ai! infelizmente, ninguem -gosta de ouvir as verdades,» como se n’aquella -mente acanhada e cheia de pequeninos sentimentos -se abrigasse a resposta ao eterno problema, que a -esphinge dos seculos tem proposto á humanidade,<span class="pagenum" id="Page_27">[Pg 27]</span> -e cuja resolução só Pilatos ouviu da bôca de Jesus.</p> - -<p>Então passava eu a estar na berlinda, perseguida -pela voz melliflua, e pelos epigrammas embotados -de D. Antonia. Á mesa do jantar, onde todos tres -nos reuniamos, choviam sobre mim as allusões ás -senhoras que preferem o piano ao governo da sua -casa, ás senhoras casadas que dançam nos bailes, -quando seus maridos não dançam, á corrupção do -seculo, aos maus costumes que importamos de -França, á leitura perniciosa dos romances, tudo isto -precedido do inevitavel «Hoje em dia...» <i>ultima ratio</i> -da sua argumentação. Escuso de dizer que as -gerações anteriores á que presenceou a invasão de -Junot sumiam-se para ella nas brumas legendarias -da idade de oiro.</p> - -<p>Que havia eu de fazer contra aquella guerra pequenina -e intoleravel? A friesa, que existia entre -mim e meu marido, fazia com que o não pudesse -contar como defensor. Bem via que os toscos epigrammas -de D. Antonia o incommodavam tambem, -e o irritavam; mas o seu desejo de manter a paz -domestica, a obediencia tradicional que votara a sua -tia, obrigavam-no a conservar-se silencioso em presença -da audaz iniciativa da minha adversaria.</p> - -<p>Demais, eu achava tão mesquinha, tão indigna de -mim esta guerra de palavras, esta escaramuça miseravel, -estava tão fóra dos meus habitos este pelejar -quotidiano, que nem sabia, nem podia, nem -queria defender-me. Calada, immovel, fitando olhos -espantados, ora em D. Antonia, ora em meu marido, -uma só coisa me fazia scismar, era haver gente<span class="pagenum" id="Page_28">[Pg 28]</span> -que se occupasse em tão miseraveis coisas, que expuzesse -theorias tão insipidamente banaes, e o ser -eu escolhida para victima expiatoria de crimes que -nem sequer chegava a perceber.</p> - -<p>Contra estas amarguras da vida real não me prevenira -eu. Julgava-me invulneravel, e, como o Achilles -da <i>Iliada</i>, tinha o calcanhar accessivel a tiros tão -rasteiros! Esta queda espantava-me mais do que outra -qualquer. Previra todas as desillusões, todas as -torturas da realidade, vinha prompta para luctar -com as serpentes do odio, com as viboras da calumnia, -e por fim de contas succumbia ferida pelo -ferrão d’essa formiga negra e imperceptivel, que se -chama mexirico!</p> - -<p>Todas as consolações me faltavam. As minhas -andorinhas tinham fugido para não mais voltarem! Se -eu não as podia chamar, atordoada, como sempre -estava, pelas recriminações disfarçadas, pelos epigrammas -adocicados, pelos discursos sem fim da -minha implacavel inimiga! Se lhe não respondia, ia -queixar-se brandamente a meu marido, dizendo que -a desprezava do alto do meu orgulho, e insinuando -arteiramente que preferia a conversação dos homens. -Se lhe respondia irritada e fatigada, vinham os espasmos -e os ataques nervosos. Se me refugiava no -meu quarto sósinha com o meu piano, ahi vinha -ella, allegando que gostava muito de musica, e perguntando -se os seus ouvidos eram indignos de me -escutarem. Então a minha occupação predilecta -transformava-se em tortura insupportavel. Esmagava -freneticamente as teclas, as minhas boas e antigas<span class="pagenum" id="Page_29">[Pg 29]</span> -amigas, todas espantadas do inesperado tratamento.</p> - -<p>Se ás doces horas do crepusculo ia sósinha sentar-me -junto da minha janella, e contemplar o melancolico -horisonte dos campos, para me engolphar -no mundo da phantasia, tinha-a a meu lado d’ahi a -instantes, dizendo, que tambem ella possuia um genio -muito triste, e que, no tempo em que tivera um -namoro, gostava muito de estar áquellas horas a -pensar n’elle. Depois accrescentava invariavelmente -que julgava que as senhoras casadas eram inacessiveis -a essas tristezas e que junto de seu marido é -que deviam estar, em vez de se entregarem sósinhas -a pensamentos talvez perigosos.</p> - -<p>Aquella mulher tinha um genio de inquisidor.</p> - -<p>Se acreditasse na metempsychose, diria que o espirito -de Torquemada fôra, atravessando os seculos, -aninhar-se finalmente no coração de D. Antonia da -Cunha.</p> - -<p>Ah! e quando uma solteirona, de quarenta para -cincoenta annos, vinha visital-a, e trazer-lhe o auxilio -da sua indole mordaz, e da sua hypocrisia beata, -então é que se entoava um <i>duetto</i>, que desbancava -a aria de D. Basilio. Como se entendiam bem a meias -palavras! Que plangentes queixumes não soltava D. -Antonia, indicando-me com o olhar á sua boa amiga -D. Simôa dos Anjos, emquanto ambas trabalhavam -n’um enxoval para creanças pobres, trabalho -santo, que fôra apregoado em todos os tons na freguezia -e nas parochias visinhas! Que olhares de -compaixão, com que a outra lhe respondia! Que<span class="pagenum" id="Page_30">[Pg 30]</span> -theorias de implacavel austeridade! Que lamentações! -Que moções d’ordem d’uma, acolhidas pelos -apoiados da outra! E quando passavam das generalidades -á especialidade, ah! como as agulhas cosiam -e as linguas descosiam! Com que delicioso tempero -de reputações esfaqueadas se apimentava a obra caritativa -do enxoval! Que signaes de piedosa compuncção! -Que devotos sarcasmos se não cuspiam -sobre as peccadoras, fulminadas por aquelle augusto -areopago! E a que horrenda verrina me não expunha, -quando, cançada, enojada de tão peçonhenta -hypocrisia, exprimia a indignação que já não podia -conter.</p> - -<p>—Quem defende gente assim, expõe-se ás mesmas -accusações, dizia uma das Lucrecias, principiando -com a mão direita, sem a esquerda o saber, -uma costura caridosa.</p> - -<p>—Ah! tornava a outra debruando os coeiros da -sua beneficencia, essas é que são felizes! Os homens -não querem outra coisa, e, para vergonha nossa, -até no nosso sexo acham advogadas!</p> - -<p>Eu levantava-me com impeto e saía; mas aquellas -duas vozes resoavam sempre ao meu ouvido, e -não deixavam que eu tomasse gosto em nenhuma -das minhas outr’ora tão queridas occupações.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_31">[Pg 31]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="V">V</h2> -</div> - - -<p>Assim passei a primavera, o estio e o outono do -meu primeiro anno de casada. Claudio envolvera-se -na politica, mais para se distrair do seu <i>spleen</i> incuravel, -do que por gosto ou ambição. Principiara -eu a perceber que a frieza apparente de meu marido -provinha de uma educação acanhada, como o -espirito de sua tia, que lhe infligia o respeito das -leis d’aquelle mundo mesquinho, em que ella tanto -folgava de viver, e dos constantes obstaculos, que -se tinham opposto ao desenvolvimento livre e desaffogado -do seu espirito. Mostrava-se affectuoso para -comigo, mas affectuoso sem expansão. Aquella mulher -interpunha-se constantemente a nós ambos. Se -uma ou outra vez, n’algum dia em que o sol da primavera -despertava dentro em mim os passarinhos -mudos, e aviventava as flôres desbotadas da minha -phantasia tentava desabafar e elevar-me ás regiões -serenas, onde desejara viver; se Claudio, arrastado -pelo contagio do meu enthusiasmo, principiava<span class="pagenum" id="Page_32">[Pg 32]</span> -a entrar nas minhas idéas, vinha logo sua tia, -soltando altos gritos, e dizendo que essas farofias -de romance e de musica é que perdiam metade da -humanidade feminina. Claudio retraia-se, e eu ficava -de novo sósinha e desarmada em face d’aquelle demonio -do lar, que empolgava o hyssope furtado n’alguma -igreja, e me aspergia de agua benta para me -livrar da influencia diabolica da arte, e dos artistas.</p> - -<p>Chegou o inverno, o inverno, outr’ora para mim -a estação querida dos bailes, de que tambem agora -me via privada. Pois como podia eu apparecer nas -salas com aquelle <i>chaperon</i> sempre a meu lado, que -me expunha ás vezes a scenas desagradaveis com -as suas phrases acres, cuja insolencia a muito custo -se disfarçava? Depois, as scenas que se passavam -na volta para casa! As insinuações sobre a corrupção -dos homens que procuram de preferencia as -senhoras casadas, e sobre a corrupção das senhoras -casadas, que acceitam os rendimentos d’esses monstros -de luvas brancas, e que levam a impudencia a -ponto de polkarem e de valsarem com homens, -que visivelmente as preferem ás tias de quarenta -annos!</p> - -<p>Estas insinuações calavam mais ou menos no animo -de meu marido, e, apezar de elle se retirar sempre -que principiavam os discursos de D. Antonia, -via-se pela inquietação, que mostrava, que o veneno -produzia o seu effeito.</p> - -<p>Cançada já, abatida por esta lucta ingloria, resolvi -encerrar-me em casa, e abandonar completamente a -sociedade. Novos gritos! novas reclamações! Claramente<span class="pagenum" id="Page_33">[Pg 33]</span> -se via que o meu desejo era prival-a de todos -os divertimentos, etc.; mas resisti intrepidamente, -e, apezar dos clamores, mantive a minha resolução.</p> - -<p>Uma vez tinhamos nós acabado de jantar quasi -ao anoitecer. Comtudo, não se haviam ainda accendido -as luzes. O ceu estava nebuloso, e uma chuva -fina começava a bater nas vidraças. Meu marido -ficara á mesa tomando café, D. Antonia baloiçava-se -na cadeira, ruminando algum dito azedo. Eu fôra-me -sentar junto da janella, e contemplava os arabescos -que a chuva desenhava nos vidros com as -gotinhas que deslisavam lentamente ao longo da limpida -superficie. Embuçara-me n’uma capa, e toda -conchegada no meu cantinho, saboreava aquelle momento -de socego, tão raro na minha vida mesquinhamente -agitada.</p> - -<p>Os arabescos da chuva despertavam em mim a -um tempo deliciosos e tristes pensamentos, lembravam-me -os sonhos, que eu phantasiaria um anno -antes com essas singelas perolas do pranto das nuvens, -e lastimava com amargura o desprezo que votara -á realidade, que se vingava cruelmente de mim. -Percebi então que não bastam os sonhos para constituirem -a ventura, e que o espirito, que se alimenta -só com esses devaneios, acha-se sem forças para -combater os mais despreziveis inimigos. Isolara-me -no meu orgulho, e via agora quanto precisava ter -um coração que pulsasse junto com o meu, e quão -robusta me sentira, se o amor me envolvesse na sua -tunica luminosa! O amor!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_34">[Pg 34]</span></p> - -<p>E, não sei porque, duas lagrimas desprenderam-se-me -dos olhos, e deslisaram-me vagarosamente pelas -faces.</p> - -<p>N’este momento tocaram a campainha com força. -Olhámos uns para os outros, como que perguntando -quem se affoitaria a affrontar a chuva, que principiava -a cair em torrentes, para vir fazer-nos uma -visita.</p> - -<p>N’isto abriu-se a porta e appareceu no limiar um -vulto de homem.</p> - -<p>—Claudio! <i>amice!</i> onde estás tu? Vem dar-me -um abraço... metaphorico, porque, se t’o dou na -realidade, encharco-te.</p> - -<p>—Alberto! exclamou meu marido levantando-se -e correndo para elle de braços abertos.</p> - -<p>—Sim, eu mesmo, meu velho condiscipulo. Desembarquei -hoje. Saí de Napoles n’um dia de chuva, -que ameaçava muito sériamente apagar o Vesuvio. -Não quiz assistir a tamanho desastre, e fugi. A -unidade italiana está matando o <i>lazzarone</i>, a chuva -mais dia menos dia dá cabo do Vesuvio, e uma -companhia de accionistas inglezes improvisa um -vulcão artificial, com meia duzia de chaminés de -Birmingham, transportadas a bordo de um <i>steamer</i>. -Fiz a viagem sem apanhar chuva; chego ao Terreiro -do Paço, zás, uma pancada d’agua a ensopar-nos -a mim e ás venerandas bochechas do marquez -de Pombal, que se sorria ironicamente com ar de -quem dizia: «Não me quizeram acreditar!» No -tempo do grande marquez não chovia, meu amigo.</p> - -<p>—Alberto, deixa-me...</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_35">[Pg 35]</span></p> - -<p>—Não chovia não, digo-t’o eu. Quem inventou a -chuva foram os inglezes, só para darem extracção -ás galochas de borracha, e aos casacos de Mackintosh. -Ah! o marquez de Pombal bem o sabia, por -isso elle nos fez guerra. Pois que cuidas tu! Sebastião -José de Carvalho e Mello foi o defensor da serenidade -metereologica do paiz das larangeiras, e -da inviolabilidade do nosso ceu azul. Curva-te perante -o grande homem, Claudio!</p> - -<p>—Consente, Alberto, que...</p> - -<p>—Foram os inglezes, repito. Em Napoles era -desconhecida a chuva, antes de lord Nelson entrar -n’aquella maravilhosa bahia. A chuva portugueza -devemol-a ao Beresford...</p> - -<p>N’este momento entrou um criado com luz.</p> - -<p>Alberto interrompeu-se ao divisar-nos a mim e a -D. Antonia.</p> - -<p>—Oh!... senhoras... e tu não me dizias coisa -alguma, e deixavas-me palrar como um idiota que -sou...</p> - -<p>—Mas, meu amigo, tornou Claudio rindo, desde -que entraste ainda não fiz senão querer-te apresentar -minha mulher, e tu a fallares em Nelson e no -marquez de Pombal... Margarida, continuou elle, -dirigindo-se a mim, tenho a honra de te apresentar -o meu bom amigo Alberto Mascarenhas Corte-Real, -que chega, como acabas de ouvir, de uma viagem -da Italia.</p> - -<p>—É uma dupla recommendação valiosa, disse eu -sorrindo e comprimentando-o amavelmente; amigo -de meu marido e viajante recemchegado da terra<span class="pagenum" id="Page_36">[Pg 36]</span> -dos prodigios, como não ha de ser recebido cordial -e curiosamente?</p> - -<p>Alberto balbuciou algumas palavras, que eu não -percebi, mostrando-se visivelmente enleiado, talvez -por causa da sua palradora entrada, e voltando-se -logo para D. Antonia, apertou-lhe a mão, dizendo-lhe:</p> - -<p>—Ah! é, v. ex.ª! Desculpe, minha senhora, o -não a ter reconhecido. Mas ha de confessar que na -escuridão era difficil...</p> - -<p>—Ora, das <i>velhas</i> nunca os senhores fazem caso.</p> - -<p>—Ah! tornou Alberto rindo, já pediu a sua reforma? -Pois olhe, parece-me que a neve, que lhe -vejo alvejar nos cabellos, é a neve perfumada da -laranjeira. Vamos, seja sincera. Quando é o casamento?</p> - -<p>—Nunca! Se eu chegava a esta idade sem me -casar, para commetter agora uma loucura d’essas. -Os homens...</p> - -<p>—São uns monstros, bem sei. Ainda se não -emendaram? E eu que fui á Italia de proposito para -pedir ao Papa a canonisação em massa de todo o -sexo masculino! Mas, segundo vejo, os maganões -são incorrigiveis.</p> - -<p>—Olhe, sr. Corte-Real, hoje em dia bem tolo é -quem se casa. Os homens são estouvados, e as senhoras -seguem-lhe o exemplo. É moda que veiu -agora de França.</p> - -<p>—Veiu? Ah! e eu que me esqueci de ver os figurinos!</p> - -<p>—Vamos para a sala, Alberto, interrompeu meu<span class="pagenum" id="Page_37">[Pg 37]</span> -marido, que via a conversação tomar o caminho -costumado. Lá podes-te enxugar melhor.</p> - -<p>Levantámo-nos e fomos para a sala.</p> - -<p>Estava o fogão acceso, e o lume derramava no -aposento um suave calor. O guarda luz do candieiro, -concentrando o fulgor todo na mesa, á roda da qual -nos sentámos, deixava ficar na penumbra o resto -do quarto. A chuva batia nas vidraças, e o vento -zunia com violencia, engolphando-se pelo tubo do -fogão.</p> - -<p>—Ah! disse Alberto, sentando-se n’uma cadeira -á Voltaire, venham-me agora fallar nos prazeres das -viagens! Não conheço nada melhor do que esta deliciosa -sensação, que se apodera de nós, n’uma -noite bem fria e bem invernal, ao sentarmo-nos -n’uma cadeira macia, junto do bom fogo, entre duas -ou tres pessoas que nos estimem, sentindo o vento -sibilar, e a chuva bater nos vidros. E pensar-se que -a estas horas anda um barco ao longe, no alto mar, -affrontando a tempestade, que lhe descose as pranchas, -e lhe açoita a vela, em quanto o pescador, -vendo as ondas embravecidas a rugirem morte por -todos os lados, vae scismando como Victor Hugo,</p> - -<p> -<i>Au vieux anneau de fer du quai plein de soleil!</i><br> -</p> - -<p>—Safa, que egoista! exclamou Claudio.</p> - -<p>—Egoista sim. Meu amigo, não ha prazer algum -n’este mundo, em que não entrem tres quartas partes -de egoismo. É um prazer egoista? Bem sei: -já Lucrecio o disse antes de ti n’uns versos que não<span class="pagenum" id="Page_38">[Pg 38]</span> -cito por duas razões: a primeira porque são em latim...</p> - -<p>—E a segunda? perguntei eu.</p> - -<p>—Porque nunca li Lucrecio, minha senhora.</p> - -<p>Desatei a rir.</p> - -<p>—Mas, então, continuei, como é possivel que -viajasse tanto, detestando por essa fórma as viagens?</p> - -<p>—Detestar as viagens! eu, minha senhora! pelo -contrario, adoro-as!</p> - -<p>—Mas, parece-me...</p> - -<p>—Perdão. Entendâmo-nos, minha senhora; este -prazer, que eu estou sentindo agora, tambem ás -viagens o devo. É o contraste que lhe dá este sabor -tão agradavel e picante. Hontem, sósinho no convez -do paquete, via a solidão immensa dos mares, ouvia -os melancholicos lamentos das ondas, contemplava -o ceu toldado, que se desenrolava sobre a -minha cabeça como plumbeo manto; hoje aperto a -mão a um amigo de infancia, tenho a ventura de -estar conversando com senhoras amaveis e espirituosas, -sinto-me envolvido por uma atmosphera -tepida, perfumada das fragrancias da terra natal, -e, recostando-me voluptuosamente n’esta cadeira, -vendo ali chispar um fogo delicioso na moldura do -fogão, mirando as figuras do guarda-luz do seu -candieiro, esfrego as mãos, como um egoista, e digo: -«Como deve estar o mar a estas horas?» Baloiço-me -aqui indolentemente, e continuo: «Como -os navios dançam fóra da barra ao som d’essa valsa -tocada pela orchestra das vagas, e composta por<span class="pagenum" id="Page_39">[Pg 39]</span> -esse Strauss maravilhoso, que se chama Deus!» -Este prazer sou aqui eu só quem o saboreia; digam-me -lá se sentem o mesmo que sente o viajante -recem-chegado?</p> - -<p>—Não, acudiu meu marido, mas sinto eu, pelo -menos, o prazer tambem delicioso de tornar a ver -um amigo ha dois annos ausente.</p> - -<p>—Meu bom Claudio! respondeu Alberto, pegando -na mão de meu marido, e apertando-lh’a com -affecto. Mas, continuou, ainda ha outro prazer, que -eu não mencionava, e que não deixa de ser, comtudo, -digno de citar-se.</p> - -<p>—Qual é? perguntou Claudio.</p> - -<p>—O de dizer mal das viagens! Fallar a gente a -um amigo sedentario, que nos tem inveja, e exclamar: -«Oh! tu não comprehendes o quanto és feliz! -Não ha tortura maior do que a do Ashaverus -da lenda! Percorrer o mundo, só, vendo-se isolado -no meio de uma sociedade differente da nossa, -passando por terras, onde ninguem nos espera, -onde não deixamos nem sequer uma saudade; e a -mão da fatalidade a impellir-nos sempre, e a voz -do destino a dizer-nos: «Caminha». E assim atravessamos -o mundo, andorinhas sem ninho, poisando -ora no cume inflammado do Vesuvio, ora na -austera cupula de S. Pedro, ora na torre pendida -de Pisa, ora na bronzea juba dos leões de Veneza! -Ah! bem louco é quem deixa os lares para procurar -estas commoções de um instante, pagas por -amarguras infinitas.» E o amigo comtempla com -certo respeito o homem que falla com tanto despreso<span class="pagenum" id="Page_40">[Pg 40]</span> -n’essas maravilhas, cujo magico panorama lhe -povôa os sonhos, lhe perturba a existencia. Oh! -dizer mal das viagens, depois de ter viajado muito, -não ha prazer que se lhe compare, não acha, sr.ª -D. Antonia?</p> - -<p>—O que?</p> - -<p>—Dizer mal... que é um grande prazer.</p> - -<p>—Não se diz mal senão d’aquillo que merece as -nossas censuras, por exemplo...</p> - -<p>—Immensas coisas... Não me falle n’isso! O -mundo vae cada vez peior. O Anti-Christo não tarda. -É pelo menos esse o parecer da sua caridosa -amiga, D. Simôa dos Anjos. É verdade, como está -ella?</p> - -<p>—Olhe! essa é que se póde dizer uma santa.</p> - -<p>—Pois não! Santa Bazilia! é uma das santas -mais veneradas pela igreja contemporanea.</p> - -<p>—Bazilia!...</p> - -<p>—Sim, mulher de D. Bazilio.</p> - -<p>—Qual D. Bazilio?</p> - -<p>—Ora, qual D. Bazilio! um santo velhote, que -floresceu alli pelos fins do seculo passado, filho de -um sujeito chamado Beaumarchais, e adoptado depois -por outro chamado Rossini!</p> - -<p>—Mas então esse homem, se vive, deve estar -decrepito.</p> - -<p>—Como se engana, minha senhora! Está cada -vez mais novo! Descobriu a agua de Juvencio.</p> - -<p>—Alberto! interrompeu Claudio n’um tom meio -offendido.</p> - -<p>Seguiu-se um instante de silencio. Eu sorria-me<span class="pagenum" id="Page_41">[Pg 41]</span> -imperceptivelmente, e saboreava, devo confessal-o, -o prazer da vingança. Claudio estava sombrio. Alberto -fitára em mim os olhos por um instante, e -caira depois n’um melancholico scismar. D. Antonia -percebera finalmente que tinha sido <i>mystificada</i>, -perdoem o gallicismo, e mordia os labios de raivosa.</p> - -<p>—Não nos contas algum incidente das tuas viagens? -perguntou meu marido, para dizer alguma -coisa.</p> - -<p>—Que queres que te conte? respondeu Alberto, -sacudindo a melancholia que o envolvera. Imaginas -por acaso que ainda existe o pittoresco? Morreu, -morreu de todo! Mataram-no os caminhos de ferro, -e os inglezes principalmente. Os <i>lazzaroni</i> andam -de chapeu alto, e o Vesuvio mais dia menos dia arvora -um guarda-chuva. Não se dá um passo em -Pompeia, que se não encontre um inglez passeando -no vestibulo da casa de Demetrio, ou entrando familiarmente -no tribunal do edil Pansa. Queres que -te descreva uma Italia prosaica e semsabor, o Colyseu -povoado de casacas pretas, e no castello de -Santo Angelo um capitão de zuavos no sitio onde -Benvenuto Cellini apontou, com a mão que fazia -brotar prodigios, a espingarda que dizimava as fileiras -hespanholas?</p> - -<p>—Oh! acudi com certa exaltação, não seria eu -quem desanimaria tão facilmente! Nem os zuavos, -nem os inglezes conseguiriam despoetisar a minha -Italia, o meu Lacio formoso, a minha Campania feliz. -Derribaram as pedras, sumiram o Mediterraneo,<span class="pagenum" id="Page_42">[Pg 42]</span> -impuzeram silencio ás brisas, desfloriram as larangeiras? -Não! Pois bem; a minha phantasia se encarregava -de povoar essas ruinas solitarias, de evocar -as gerações extinctas, de traduzir a linguagem -melodiosa da viração! Eu, se fosse á Italia, havia -de vel-a com os olhos d’alma, ainda mais do que -com os do corpo! Que me importava a prosa moderna, -se me fosse dado passear nas ruas de Pompeia? -A mão dos homens levantou a mortalha em -que o Vesuvio a envolvera, a minha phantasia levantaria -a mortalha com que a cingiram os seculos! -Doire o sol ainda o marmore branco dos palacios -de Genova, e a sua luz ha de illuminar para mim -o mundo risonho da cidade dos doges, ouvirei as -musicas suaves que se espraiavam outr’ora por sobre -as ondas azues do Mediterraneo, a quem ensinavam -essa dulcissima melodia que ainda hoje enleva -os ouvidos do viajante! Não a olvidaram de -certo os eccos da <i>strada Balbi</i>. Levem-me á Italia, -e eu atravessarei a peninsula sem ver nem zuavos, -nem inglezes, percorrerei á vontade ou a Italia pagã -ou a Italia da Renascença, verei Raphael pintando -o maravilhoso retrato da sua Fornarina, debruçar-me-hei -sobre o hombro de Guido, quando o seu -pincel esplendido fizer brotar da tela as feições encantadoras -da desgraçada Beatriz. A Italia tem habitantes? -Não sei, nem quero sabel-o; tem cardeaes, -tem <i>bersaglieri</i>? não sei, não sei. Sei apenas que -tem os quadros de Raphael, as estatuas de Miguel -Angelo, as portas de Ghiberti, e os claustros de Bramante. -Quero engolphar-me n’esse pélago de maravilhas,<span class="pagenum" id="Page_43">[Pg 43]</span> -quero percorrer esse mundo mysterioso, -encerrar-me n’essa Pompeia gigante, e depois -quando voltar á superficie do mundo actual, vire, -pallida, mas trazendo na fronte, não, como o mergulhador -de Schiller, a sombra triste projectada -pelos invisiveis horrores do oceano, mas um reflexo -d’esse immenso fulgor, que ha de emanar -das perolas e dos diamantes d’essa Golconda da -arte!</p> - -<p>—Oh! tem mil vezes razão, tornou Alberto levantando-se -com enthusiasmo, cuida que não senti isso -mesmo? Cuida que não tive muita vez essas visões -do passado? Por baixo do palimpsesto banal das -modernas idades sentia eu pullularem as letras de -fogo do poema da velha Italia! Á noite, principalmente, -quando se extinguem os vãos ruidos mundanos, -e a meiga fada vem mais uma vez cingir a -sua Italia querida, a voluptuosa Aphrodita dos dois -mares, na sua tunica bordada de estrellas, e perfumada -de ignotas fragrancias, então é que se escutam -essas vozes mysteriosas, que não são mais do -que a vaga conversação das grandiosas gerações, -que desappareceram umas após outras da face -d’aquella terra abençoada! A mythologia antiga -suppunha que eram os titães soterrados quem abalava -as montanhas ao revirarem-se no seu leito de -chammas. Não se enganava; prophetisava! Por -baixo d’aquelle solo sagrado arquejam as gerações -de gigantes, que povoaram o velho Lacio dos Cesares -e a Roma dos Raphaeis! Á noite erguem-se -todos esses brancos phantasmas e passam, agitando<span class="pagenum" id="Page_44">[Pg 44]</span> -as azas, na atmosphera transparente. Oh! quantas -vezes não tive eu d’essas visões extaticas, em Roma! -Quantas vezes, passeando, embarcado, por uma -noite de luar, na suave bahia de Napoles, não vi -como que em sonhos perpassarem as galeras romanas, -todas illuminadas e deixando apoz si um -sulco a um tempo fulgido e melodioso, como se a -ardentia se houvesse transformado em musica! E -quando os meus barqueiros deixavam cair indolentemente -os remos na agua, que lhes respondia com -um vago suspiro harmonioso, como uma nota de -Cimarosa ou de Bellini, em quanto as estrellas deviam -fulgir n’essas noites delirantes das saturnaes em -quanto a lua illuminava ao longe as casas brancas de -Ischia, de Procida, ou de Capri, eu sentia passar nos -meus cabellos a lasciva brisa de Baia, e via surgirem -no horisonte esses vultos candidos de mulheres, -cujos nomes passaram atravez dos seculos envoltos -na purpura, que lhes atirou a realeza do genio, -a Lesbia de Catullo, a Cynthia de Propercio, -a Corinna de Ovidio, a Lydia de Horacio e a Delia -de Tibullo.</p> - -<p>Alberto calou-se por um instante, e depois continuou:</p> - -<p>—Outra vez estava eu em Veneza; a minha gondola -sulcava silenciosamente o grande canal. A antiga -cidade dos doges parecia uma cidade morta, e -a lua a lampada immensa, suspensa sobre esse maravilhoso -tumulo; nem um murmurio se exhalava -do seio da formosa captiva, apenas de vez em quando -o sino da igreja de S. Marcos soltava lugubremente<span class="pagenum" id="Page_45">[Pg 45]</span> -a voz, como que para entoar o epicedio da -grandeza da republica; mas logo os brados gutturaes -das sentinellas austriacas vinham como que -protestar contra o timido queixume do anjo do campanario. -As ondas do Adriatico gemiam brandamente, -espantadas de ouvirem aquella voz allemã -quebrar o silencio da natureza italiana. A pouco e -pouco tinha cahido n’uma profunda melancholia, e -comparava involuntariamente a decadencia nobre -de Veneza com o misero esphacelamento da minha -patria. Veneza é um gigante, que desceu ao tumulo, -envolto na sua armadura de marmore, e perante -aquella maravilhosa campa descobre-se o mundo -com respeito: Portugal, tambem gigante, mais gigante -ainda, arrojou-se á valla commum, e as nações -desviam os olhos com tedio d’esse cadaver putrefacto, -coberto de vermes que o devoram. Subito, -d’um d’esses palacios, que miram nas aguas do canal -as suas marmoreas escadarias, jorrou em ondas -de melodia a deliciosa serenata do <i>Marino Faliero</i> -de Donizetti. Como por mysteriosa evocação, -tudo se illuminou a meus olhos. Illuminaram-se os -palacios, povoaram-se os canaes de gondolas cheias -de mascaras; os fogos de Bengala tingiram de azul -e côr de rosa as fachadas de marmore branco. -Avultou-me ao longe o <i>Bucentauro</i>, com o seu magestoso -cortejo de galeotas. Povoaram-se-me os -caes de fidalgos venezianos, em cujo trajar doirado -e bordado scintillava a luz projectada pelos fachos. -Desappareceram os austriacos, e a Veneza antiga, -a Veneza de Ticiano, a Veneza do carnaval, surgiu-me<span class="pagenum" id="Page_46">[Pg 46]</span> -de novo das ondas, como a borboleta da chrysalida, -como a Venus da espuma!</p> - -<p>—O que! ouviu em Veneza a serenata do <i>Marino -Faliero</i>? acudi eu com jubilo infantil.</p> - -<p>E, correndo ao piano, fiz brotar das teclas a maviosa -melodia.</p> - -<p>Havia muito que as teclas me não respondiam -tão suavemente. Aquella doce musica, que suspira -brandamente como a brisa nos roseiraes, vago preludio -do rouxinol, harmonia d’anjo, que parece expandir-se -do carro argenteo de Phebe ao rolar no -firmamento azul, exhalou-se do teclado, como um -perfume do calice d’uma flor. Enlevada n’esse encantamento -que os meus dedos operavam, transportei-me -brandamente ao seio d’uma noite luminosa -como essa em que fallava a letra da canção. -Vi-me em Veneza, reclinada n’uma gondola, cortando -as aguas do canal. Involuntariamente os meus -dedos foram affrouxando, até que mal já pesavam -nas teclas. O canto quasi não se ouvia, e parecia -apenas um suave murmurio, como o de harpa -eolia suspensa nas franças de pinheiral distante.</p> - -<p>Afinal a harmonia esmoreceu, e esvaiu-se de todo -debaixo dos meus dedos; deixei descair os braços -no collo, e fiquei engolfada no meu scismar. A -chuva batia com mais furia nas vidraças, e o vento -soprava rijo, fazendo gemer os postigos.</p> - -<p>Mas eu não ouvia nem vento nem chuva. Esvaíra-se -havia muito o ultimo suspiro da tecla abandonada, -e eu escutava ainda o prolongamento d’essa<span class="pagenum" id="Page_47">[Pg 47]</span> -nota melodiosa, como se ella se repercutisse n’uma -atmosphera de crystal. Por deante dos olhos passava-me -lentamente, como em magico panorama, a -luminosa visão das cidades italianas: Veneza com -as suas gondolas, Genova com os seus palacios, -Florença com as suas galerias, Roma com as suas -ruinas, Napoles com o seu golpho! E n’essa atmosphera -encantada, n’esse mar limpido e voluptuoso -fluctuavam as minhas andorinhas, vogavam os meus -cysnes, doces devaneios que tinham fugido havia -muito com a aza branca magoada!</p> - -<p>Quando levantei a cabeça, estavam todos á roda -de mim, D. Antonia com um sorriso ironico, Claudio -triste e inquieto, Alberto como que entregue a -um delicioso extasi.</p> - -<p>—Oh! mais! mais! disse elle pondo as mãos -com ar supplicante; mais alguns minutos d’esse goso -infindo! Que mysteriosa intuição de artista lhe -revelou Veneza? É esse o bater da agua nos degraus -das escadarias! são esses os murmurios que -fluctuam n’aquella atmosphera abrazadora! são essas -as melodias que deviam resoar n’essas noites -ferventes, em que o mundo inteiro, saindo das brumas -da idade-media, não fazia senão balbuciar, pela -voz dos seus poetas, pelos marmoreos labios das -suas estatuas, a palavra «amor» que ia esculpir até -nos rendilhados portaes, nos voluptuosos columnelos -dos templos da Divindade! amor sensual, pagão, -lascivo, se quizerem; mas amor immenso e vivificante -como o que os raios do sol entornam no -seio da gleba italiana, como as ondas do Mediterraneo<span class="pagenum" id="Page_48">[Pg 48]</span> -descantam ás plagas sonoras da Ausonia e -da Grecia!</p> - -<p>—Ah! tambem sente o mesmo? tornei eu infantilmente, -acha tambem que a musica tem o magico -dom de evocar um mundo desconhecido?</p> - -<p>—Se tem! A musica abre-nos de par em par as -portas do ideal! S. Pedro foi destronisado. Os porteiros -do céo são Bellini e Donizetti; a <i>Lucia</i> e a -<i>Norma</i> são as duas chaves do Paraizo.</p> - -<p>—E Meyerbeer? perguntei eu, rindo.</p> - -<p>—Oh! esse é o porteiro do inferno.</p> - -<p>Ia protestar, mas elle interrompeu-me, e continuou:</p> - -<p>—Descance, de um inferno onde o ranger dos -dentes é harmonioso, e onde os humanos, criminosos -durante a vida terrestre, são condemnados a -darem eternamente o <i>dó</i> do peito. Pois onde queria -que eu collocasse o author do <i>Roberto do Diabo</i>? -No céo de certo que não. Meyerbeer é o Satanaz -da melodia, é o anjo caido; mas o anjo caido -de Milton, e não o diabo das lendas. Aquelle homem -abre-nos um mundo mysterioso e terrivel, d’onde -refugimos com terror, mas para onde nos attrae -depois uma indisivel voluptuosidade. Toda a musica -do <i>Roberto</i> é a pavorosa traducção em notas da -apostrophe de Satanaz ao sol no poema do Homero -britannico. Mas d’esse cahos de harmonias tremendas -brota ás vezes um canto d’uma doçura infinita, -como o do papel d’Alice, por exemplo. São as -recordações da patria celestial, são as tristezas do -Archanjo soberbo no meio do seu tenebroso exilio.<span class="pagenum" id="Page_49">[Pg 49]</span> -E as notas isoladas da abertura do <i>Propheta</i>! Que -vaga melancholia, que tristeza sobrehumana! Saudade -tão profunda só a podem inspirar os campos -das eternas delicias, o Elysio resplandecente, a habitação -dos anjos!</p> - -<p>N’este momento entrava o creado com a bandeja -do chá. Fomos para a mesa, e a conversação -prolongou-se até á uma hora da manhã. A chuva -cessara, e a noite puzera-se fria mas serena. Alberto -despediu-se, e saiu.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_50">[Pg 50]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="VI">VI</h2> -</div> - - -<p>Quando Alberto saiu pareceu que me caia de chofre -um peso no peito. Imaginem Sisypho, a victima -infeliz do inferno mythologico, podendo ver de relance -uma nesga dos Elysios, e, quando está enlevado -n’esse delicioso panorama, sentindo de subito -rolar pela escarpa da montanha, e desabar-lhe em -cima o rochedo do supplicio!</p> - -<p>Tal era a minha situação.</p> - -<p>Tivera um momento de liberdade; o meu espirito, -constrangido, torturado, voara em extasi para a região -luminosa dos meus sonhos, engolphara-se nos -seus fulgores, nadara em pleno ether, ouvira as harmonias -desconhecidas do vulgo; mas as trevas cerravam-se-me -de novo, e as grades da minha gaiola -appareciam-me em toda a sua negra hediondez.</p> - -<p>Claudio, pouco depois de sair o seu amigo, pretextou -achar-se fatigado, e retirou-se. Ficámos sós, -eu e D. Antonia.</p> - -<p>De bom grado me teria tambem retirado; mas -o somno esquivava-se-me ás palpebras, que em vão -o chamavam. Tinha a cabeça cheia de melodias, pulsava-me<span class="pagenum" id="Page_51">[Pg 51]</span> -nas veias a febre da arte. Decididamente -não podia dormir; levantei-me e approximei-me da -janella.</p> - -<p>O vento da meia noite dissipara as nuvens, e descobrira -a lua; o céo estava de uma limpidez magnifica, -as poças da agua brilhavam como diamantes -enormes. Deu-me uma tentação de banhar a cabeça -escandescente n’essa athmosphera gelada, e abri a -janella.</p> - -<p>—Que capricho tão romanesco, minha sobrinha, -acudiu logo D. Antonia. Demais a mais é escusado! -olhe que já o não vê.</p> - -<p>—Já não vejo quem? tornei eu voltando-me espantada.</p> - -<p>—Ora, quem! provavelmente quem saiu d’aqui.</p> - -<p>—Quem saiu d’aqui! repeti eu sem perceber -ainda.</p> - -<p>—Ih! Jesus! não se faça desentendida! o senhor -Alberto Mascarenhas.</p> - -<p>Ferveu-me nos labios uma resposta indignada; -mas, lembrando-me da discussão que ia provocar, -encolhi os hombros, fechei a janella e fui me sentar -ao pé da mesa.</p> - -<p>Seguiu-se um silencio.</p> - -<p>Mas D. Antonia não era pessoa que assim abandonasse -o campo de batalha.</p> - -<p>—Eu gosto de ver estas senhoras, que tanto gostam -de conversar com estranhos. Seu marido e a -tia de seu marido, segundo parece, não são dignos -de fallarem com s. ex.ª. Pois olhe, se assim pensava, -era melhor que não casasse. Mas estas senhoras<span class="pagenum" id="Page_52">[Pg 52]</span> -afrancezadas querem ter um marido para gosarem -toda a liberdade, e para serem um objecto de -escandalo para as pessoas virtuosas e tementes a -Deus. E não desejam conversação de senhoras, isso -não lhes agrada. Não estão satisfeitas senão quando -conversam com homens, e todas se embebem nas -suas fallas, sem nem sequer deitarem uma vista -de olhos para o esposo que receberam aos pés do -altar. Com estas doidas é que os homens se entendem -bem. Ah! mundo! mundo!</p> - -<p>—Isso refere-se a mim, senhora D. Antonia? -perguntei eu, affectando socego, mas ralada pela -indignação que me fervia no peito.</p> - -<p>—Ah! parece que lhe serve a carapuça? tornou -ella, rindo-se com um riso sarcastico.</p> - -<p>—Eu não entendo muito bem d’essa questão de -carapuças; mas, se teve intenção de me insultar, -dir-lhe-hei que meu marido não ha de ficar satisfeito, -sabendo a que improperios estou todos os -dias exposta n’esta casa, que devia ser para mim -abrigo inviolavel contra as injurias de qualquer, -muito mais partindo ellas de uma pessoa da sua -familia.</p> - -<p>—Injurias! já se vê! estava á espera d’isso mesmo! -Chamam-se injurias as verdades!</p> - -<p>—As verdades! mas que verdades? tornei eu -impaciente!</p> - -<p>—As que devia ouvir com mais attenção, quando -lh’as diz uma pessoa, que só quer o seu bem. -Que idéa iria formando o Alberto Mascarenhas -d’uma mulher que esteve, toda a noite, dando-lhe<span class="pagenum" id="Page_53">[Pg 53]</span> -só attenção a elle, e não dirigindo uma palavra só -nem a seu marido, nem a tia de seu marido?</p> - -<p>—Mas eu podia obrigal-os a fallar? tenho porventura -culpa se nem uma vez só entraram na -conversação?</p> - -<p>—Ora essa! Pois que havia eu de dizer, n’uma -palestra, em que não ouvia senão heresias! Que -S. Pedro não era porteiro do céo, e não sei que -mais! Estava-me causando pasmo vêl-os fallarem -com tanto sangue-frio no demonio. Ah! se eu fosse -o Claudio!</p> - -<p>D’esta vez não pude deixar de me rir, o que, -como é facil de suppor, ainda mais augmentou a indignação -de D. Antonia.</p> - -<p>—Ria-se, pois não! é o que deve fazer! É o pago -que recebemos dos bons conselhos, que lhes desejamos -dar! Mangam comnosco, e entram affoitamente -no caminho da perdição! Ver eu, com estes olhos, -uma senhora, que, para desgraça da nossa familia, -é esposa de meu sobrinho, toda enlevada e requebrada -a dar attenção a um petimetre na minha presença, -e em presença de seu homem! É aonde póde -chegar o descaramento.</p> - -<p>—Isto é demais, exclamei eu, erguendo-me com -os olhos arrazados de agua; vejo-me condemnada -aqui a ouvir uma linguagem, a que nunca me acostumaram, -e a defender-me de accusações que o meu -procedimento nunca authorisou. Só o ridiculo do -insulto póde attenuar a insolencia d’elle.</p> - -<p>—Sim, diga que é ridiculo!... Como logo hoje -abriu o piano! como correu pressurosa para o tocar!<span class="pagenum" id="Page_54">[Pg 54]</span> -Puz as mãos na cabeça. Nunca imaginara tal. -Ver o pudor esquecido áquelle ponto!</p> - -<p>—Mas que idéa forma então de mim? tornei eu -com voz tremente, em que palpitavam os soluços -abafados; se me julga capaz de provocar galanteios -de um homem, que vejo pela primeira vez, e que -tem delicadeza bastante para nem por sombras dar -mostra de que me deseja requestar?</p> - -<p>—Ah! já o defende! Descance que ninguem o -attaca. E, depois, se o viu pela primeira vez, é o -que resta saber. Hoje em dia as meninas educadas -á moda franceza são capazes do enganar os velhos -mais experientes! Os planos são bem combinados! -Commette-se uma <i>imprudencia</i>, e depois apparece -um moço inexperto, a quem se acceita por marido, -sem ao menos sequer se lhe dar tempo de fazer a -côrte! Esses preliminares são escusados para se -chegar ao fim a que se aspira! Depois, um bello -dia, apparece um moço, <i>a quem se vê pela primeira -vez</i>, e o moço que se vê pela primeira vez encontra -a imprudencia remediada.</p> - -<p>—Oh! isto é horrivel! respondi, não podendo já -suster as lagrimas e debulhando-me em prantos.</p> - -<p>D. Antonia olhou para mim com um sorriso de -triumpho; estava vingada dos sarcasmos de Alberto, -do seu silencio forçado de tres horas. Estavam suavisadas -com esse balsamo das minhas lagrimas as -feridas da sua vaidade, as mordeduras do demonio -da inveja.</p> - -<p>Ergueu-se, e lançando-me um ultimo olhar, saiu -vagarosamente da sala.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_55">[Pg 55]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="VII">VII</h2> -</div> - - -<p>Admiro-me ás vezes agora das torturas que me -causavam aquellas accusações, tão despreziveis e -tão absurdas. Mas eu era uma creança, e não podia -conceber que o azedume e o despeito levassem uma -mulher, que vivera toda a sua vida engolphada -n’aquellas intrigas pequeninas, a torturar por divertimento -e só por divertimento. Revoltava-me o absurdo, -em vez de me fazer rir, e pungia-me principalmente -o proposito firme que eu vira que D. Antonia -formara de contrariar todas as minhas predilecções, -de me obrigar a descer áquella esphera, em -que ella vivia deliciosamente.</p> - -<p>Parecia-lhe impossivel até que houvesse alguem -que se occupasse em outras coisas, ou que n’outras -coisas pensasse. Quando expunha alguma das -suas frivolas theorias, queria que todos as acceitassem -com muita reverencia, e, se não manifestavam -logo a sua adhesão, recebiam uma chuva d’epigrammas, -porque eram consideradas do partido opposto<span class="pagenum" id="Page_56">[Pg 56]</span> -ao seu, não podendo D. Antonia perceber que o -verdadeiro motivo do silencio, em que todos ficavam -quando ella fallava, era a perfeita indifferença -que inspiravam as suas insipidas e dogmaticas banalidades.</p> - -<p>Se eu fosse capaz de comprehender aquella indole -essencialmente mexeriqueira, teria logo despresado -os seus ataques, por mais insolente que fosse a -forma. Mas eu nunca estudara essa variedade da -raça humana; era D. Antonia o primeiro especimen -que me apparecia, e só muito depois vim a -conhecer a fundo os usos e costumes d’aquella -familia zoologica, olvidada por Linneu da sua classificação.</p> - -<p>E demais, qual é o espirito, por mais energico, -por mais elevado que seja, que possa affrontar serenamente -estas torturas pequenas do lar domestico?</p> - -<p>Direi mais, quanto mais elevado e mais energico -fôr, mais accessivel é tambem a estas feridas de alfinete. -Todos os inimigos são previstos, menos este, -que é o mais despresivel e o mais terrivel tambem. -O leão da fabula despresava o mosquito, e foi o -mosquito quem o venceu.</p> - -<p>Depois via-me só! só n’aquelle pelejar incessante, -sem ter um peito amigo que me fosse anteparo, -sem ter um coração em que me abrigasse. Queria -a soledade, e a soledade fugia-me! O eterno zumbir -d’aquella vespa afugentava as abelhas dos meus -sonhos, que eu julgava que podiam libar tão doce -mel no calice das flores da phantasia!</p> - -<p>A pouco e pouco fôra abandonando as minhas relações;<span class="pagenum" id="Page_57">[Pg 57]</span> -apoderara-se de mim uma especie de <i>spleen</i>, -e era-me insupportavel a sociedade, porque estava -sempre n’ella constrangida, exposta como me via a -algum escandalo produzido pela extravasão da bilis -de D. Antonia. Nas salas, onde uma ou outra vez -entrava, sentia constantemente aquella espada de -Damocles suspensa sobre a minha cabeça, e bastava -isso para envenenar todo o jubilo que eu poderia -ter.</p> - -<p>As minhas amigas de infancia espantavam-se de -me verem tão arredia, e arrastadas tambem pelas -suas preoccupações de solteiras, nem se lembravam -de virem visitar a pobre exilada. «Temiam, diziam-me -ellas rindo, quando me encontravam, ser indiscretas, -vindo bater á porta do meu santuario.» E -eu sorria-me tambem—que remedio!—sentindo -ao meu lado, como sentia sempre, o genio mau -que se adorava n’aquelle templo domestico.</p> - -<p>Um dia o acaso fizera-me ter um momento de -desafogo, de expansão, de contentamento! Essa -curta alegria havia de ter inevitavelmente a sua expiação: -teve-a, e logo em seguida.</p> - -<p>Essa suave convivencia que eu esperava que se -estabelecesse entre mim e Alberto, essas conversações -que viessem de vez em quando, como os oasis -no deserto, offerecer-me um instante de frescura, -dessedentar-me por um pouco, tudo isso era maculado, -ainda antes de nascer, pela baba peçonhenta -do reptil que me perseguia!</p> - -<p>Parecia que um instincto infernal lhe segredava -os meios de me torturar; havia um demonio invisivel<span class="pagenum" id="Page_58">[Pg 58]</span> -que volteava em torno d’ella, e que lhe indicava -os pontos vulneraveis da minha epiderme; vinha -logo a envenenada setta cravar-se, arrojada por -mão certeira, no sitio doloroso.</p> - -<p>Oh! quem fará um dia o poema d’estas agonias -mysteriosas, tanto mais tristes, tanto mais pavorosas -quanto menos lastimadas são quando se revelam! -Este lento padecer nas trevas mais recatadas -do lar da familia não tem a poesia augusta dos martyrios, -que são bem visiveis, e que todos podem -facilmente avaliar? Pois estas é que são as dores -terriveis, porque não matam, mas empeçonham a -vida, estiolam-na, desenfeitam-na de tudo quanto -a poderia tornar agradavel, e quando o anjo da -morte venha, depois de longos annos d’uma existencia, -que mão paciente foi descolorindo, colher no -seu regaço a nossa alma, encontra-a mais gelada, -mais fria, mais inerte do que o cadaver, que o tumulo -reclama.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_59">[Pg 59]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="VIII">VIII</h2> -</div> - - -<p>Passou-se o resto do inverno, sem que successo -algum notavel viesse perturbar a triste monotonia -da minha existencia. Augmentavam a cada instante -a sombria taciturnidade de meu marido, o intoleravel -despotismo de D. Antonia.</p> - -<p>Alberto vinha de quando em quando visitar-nos, -e os poucos momentos, que elle passava comnosco, -eram para mim de ineffavel jubilo. A sua indole -viva e amena, a sua conversação sempre colorida e -pittoresca, a sua palavra eloquente exerciam em -mim uma salutar influencia. As suas visitas eram -como as de um raio de sol ao preso encerrado n’um -carcere tenebroso.</p> - -<p>A nossa ligação, por maior que fosse o desejo -que D. Antonia tivesse de a envenenar, não lhe -dava para isso o minimo pretexto. Era a ligação de -dois condiscipulos, que se sentem attraidos um para -o outro pela uniformidade das suas idéas, pela commum -predilecção consagrada aos mesmos estudos. -O franco e aberto sorriso, com que eu o acolhia,<span class="pagenum" id="Page_60">[Pg 60]</span> -O amigavel <i>shake-hands</i> que trocavamos á despedida, -não explicavam senão sincera e cordial sympathia -mutua.</p> - -<p>Finalmente chegou a primavera. Alberto partira -antes de terminar o inverno, para a Ericeira, onde -tinha parentes que o chamavam. Claudio propoz-me -irmos passar a primavera e o estio n’umas terras -que possuia na aldeia de ***, junto de Bellas.</p> - -<p>Aceitei, e aceitei com enthusiasmo.</p> - -<p>Quando já estava determinada a partida, e tudo -preparado, subitos e imprevistos negocios obrigaram -meu marido a demorar-se em Lisboa. Não quiz -elle de modo algum que por causa d’isso transtornassemos -a viagem projectada. Despediu-se de -mim affectuosamente, prometteu-nos, que, assim -que se pudesse desembaraçar, iria ter comnosco; -depois viu-nos entrar na carruagem, e esteve á janella -até nos sumirmos saindo as portas da cidade.</p> - -<p>Estava um d’estes dias do principio da primavera, -em que sopra ainda a brisa aguda invernal, e em -que o horisonte se cobre com um denso veu de neblina. -Caía uma chuva miudissima, e a baixa de -Campolide apparecia emvolta n’um manto de tristeza. -O vulto do aqueducto desenhava ao fundo os -seus arcos magestosos e sombrios.</p> - -<p>Envolvi-me na minha capa de viagem, e concheguei-me -no fundo do <i>coupé</i>. O movimento da carruagem -era suave bastante, e proprio, a mais não -poder ser, para acalentar os meus sonhos. Primeiro -quiz sustentar a palestra com o auxilio de algumas -banalidades; mas pouco a pouco a minha imaginação<span class="pagenum" id="Page_61">[Pg 61]</span> -não se poude conter, engolphou-se na região -dos devaneios, emquanto ao meu ouvido, que -as sentia vagamente, resoavam as palavras de D. Antonia, -que me ía recitando, segundo creio, a lista -dos nossos visinhos do campo.</p> - -<p>Eu, entretanto, contemplava a paizagem, que apresentava -aspectos diversos e pittorescos. De vez em -quando um frouxo raio de sol rasgava o manto de -nevoas, e vinha dar uma certa animação ás campinas. -Espairecia o firmamento, e a magestosa curva -do grande arco do aqueducto moldurava ao longe -uma vasta nesga de tela azul. A luz amarellada do -sol doirava os campos, que se apresentavam já cobertos -com o seu vistoso tapete de malmequeres. Depois -corria-se de novo o panno, e o scenario desapparecia -com os seus explendores de um momento, -com o seu instantaneo colorido.</p> - -<p>Involuntariamente comparei a minha vida monotona, -e tendo apenas breves intermittencias de luz, -com aquella paizagem da primavera invernosa.</p> - -<p>A imagem de Alberto fluctuou-me por instantes -na phantasia.</p> - -<p>Sorri-me ao lembrar-me do que diria a minha -companheira de viagem, se soubesse que vulto eu -vira n’aquelle instante com os olhos d’alma.</p> - -<p>Esse sorriso, por mais rapido que fosse, não escapara -á vista perspicaz de D. Antonia.</p> - -<p>—De que se ri? perguntou logo.</p> - -<p>Como que acordei sobresaltada.</p> - -<p>—De nada, retruquei.</p> - -<p>—De nada? Só a pessoas que não teem todo o<span class="pagenum" id="Page_62">[Pg 62]</span> -juizo, acontece semelhante coisa. É verdade que -talvez agora se dê esse caso, accrescentou por entre -os dentes.</p> - -<p>Encolhi os hombros.</p> - -<p>—Pois olhe, continuou ella, que o que eu lhe estava -dizendo era muito sério. Provavelmente nem -sabe o que foi.</p> - -<p>—Confesso, respondi eu fazendo-me vermelha, -que não percebi bem.</p> - -<p>—Ah! não percebeu? Pois olhe, não era difficil. -Por onde andará o seu pensamento? Não percebe -o que eu digo e não sabe de que se ri! Isso ha de -ser nervoso. Talvez precise de tomar banhos de -mar... na Ericeira.</p> - -<p>Começara o tiroteio. Já me admirava de que a -trégua durasse tanto.</p> - -<p>Conforme o costume, deixei passar a tempestade -dos epigrammas, fazendo porque o meu espirito se -isolasse completamente d’este mundo, e voasse para -bem longe d’aquella atmosphera turvada.</p> - -<p>Tinhamos já passado para deante da ponte do Carenque, -e entravamos n’essa estrada arida, núa, -monotona, que põe em communicação entre si Lisboa, -a formosa rainha do Tejo, Cintra, a mimosa -camponeza das serras.</p> - -<p>O sol, proximo do occaso, conseguiu alfim romper -a nebulosa cortina que o cercava. Como a lampada -moribunda projecta, nas vascas da agonia, -mais intenso clarão, assim o rei dos astros, antes de -apagar no horisonte a sua corôa de fogo, quiz inundar -o céo com vividos reflexos.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_63">[Pg 63]</span></p> - -<p>Então o cerrado esquadrão das nuvens como que -se revestiu de luminosas couraças. Como captivo -soberano, a quem a fortuna restitue o throno, e que -vê passar por deante de si humildes e curvados os -seus proprios carcereiros, assim as nuvens desfilavam, -impellidas pelo vento, por deante do sol, immovel -no horisonte purpurado, como em vasto -solio de chammas. Aqui semelhavam corceis phantasticos, -de arreios de ouro e xaireis de escarlata, -que voavam n’um insano galope; mais além nuvens -distantes, que se tingem de reflexos arroxados, passavam -lentamente, como graves magistrados envoltos -nas suas bécas. A illusão chegou a ponto, que -a minha phantasia, começando, segundo o costume, -a tomar gosto n’esses devaneios, deu a cada nuvem -um papel, e chegou a vêr bem vivos, bem claros os -vultos que imaginava.</p> - -<p>Este cortejo de nuvens bojudas, que avançava -magestosamente, representava a meus olhos a camara -municipal. Ouvia-lhes os discursos, que o vento -vinha indiscretamente segredar ao meu ouvido.</p> - -<p>Aquell’outras que se conservavam fluctuando em -torno do sol, e que mais brilhantes se mostravam -com as suas vestes de purpura recamadas de oiro, -eram os cortezãos que cercavam o regio throno.</p> - -<p>As arvores, que fugiam, á medida que ia passando -a carruagem, affiguravam-se-me a plebe, que -saudavam com enthusiasmo a cerimonia celestial. O -vento agitava-lhes os braços, que pareciam menear -na atmosphera invisiveis chapeus; dir-se-ia que os -murmurios, que se exhalavam das suas ramas, eram<span class="pagenum" id="Page_64">[Pg 64]</span> -o bramir longinquo e indiscreto dos vivas de um povo -inteiro.</p> - -<p>Era tão comica a attenção que eu prestava a estas -cerimonias phantasiadas, que involuntariamente, -caindo em mim, desatei a rir.</p> - -<p>D. Antonia olhou-me com espanto.</p> - -<p>—Estará maluca, minha sobrinha? perguntou ella.</p> - -<p>Eu olhei-a com um embaraço infantil, e balbuciei -algumas palavras inintelligiveis.</p> - -<p>—Em vez de conversar comsigo mesma, teria -sido melhor se me communicasse os seus pensamentos. -Não teria d’essa fórma commettido a indelicadeza -de quasi me não dar palavra todo o caminho... -porque estamos em Bellas.</p> - -<p>Tinha razão, e eu não pude fazer mais do que -acceitar a reprimenda e confessar a mim mesma -que as imprudencias da minha phantasia de creança, -que estava prompta sempre a lançar mão da <i>clef -de champs</i>, eram causa muitas vezes dos meus dissabores.</p> - -<p>Estavamos em Bellas effectivamente. O sol sumira-se -de todo, mas o céo parecia querer-se conservar -limpo, e prometter uma noite boa. A carruagem -parou no largo para onde deita a porta da -quinta do conde de Pombeiro.</p> - -<p>O cocheiro tomou informações, e soube que as -chuvas dos ultimos dias tinham transformado as -estradas em atoleiros. Veio ter comnosco, e disse-nos -que nos levava, se quizessemos, á aldeia de ***, -mas que nos arriscavamos a fazer uma viagem demorada, -ou a ficar atascadas no meio do campo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_65">[Pg 65]</span></p> - -<p>Como a noite promettia estar serena, e a aldeia -não era muito distante, resolvemos, eu e D. Antonia, -ir a cavallo. Por conseguinte despedimos o cocheiro, -depois d’elle nos ter ido alugar uns burros, -e, sentadas no dorso dos pacificos animaes, tomámos -o caminho da casa de campo.</p> - -<p>Pouco teriamos andado, quando o céo se principiou -a toldar de novo. Caía a noite, e as nuvens, -carregando o firmamento, apagavam os faroes das -estrellas, e desdobravam por cima das nossas cabeças -um manto negro e funebre. O rapaz, que -tocava os jumentos, mirou o céo e abanou a cabeça -dizendo:</p> - -<p>—Temos ahi chuva em barda. É irmos mais -depressa, minhas senhoras.</p> - -<p>Mas isso era mais facil de se dizer do que de se -fazer. As informações do cocheiro tinham sido exactas, -e as estradas eram verdadeiramente uns lamaçaes -quasi impossiveis de atravessar. A chuva -já principiara a cair, o vento zunia com violencia, -e os pobres animaesinhos curvavam a cabeça, e -amainavam as longas orelhas, como o barqueiro -amaina a vela quando sopra o temporal furioso. -Era necessario avançarmos com muita cautela, para -não tomarmos algum banho n’essas poças que abundavam -no caminho, e que um ou outro relampago, -que principiava a fuzilar, nos mostrava, cercando-nos -por todos os lados, como uma rede de paúes.</p> - -<p>Finalmente retumbou um trovão magestoso, e -uma tremenda pancada d’agua desabou em cima de -nós.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_66">[Pg 66]</span></p> - -<p>—Santa Barbara, e S. Jeronymo nos accudam, -murmurou o burriqueiro, que noite que vamos ter!</p> - -<p>—Ainda fica muito longe a aldeia? perguntei eu.</p> - -<p>—Ainda é um bom pedaço, respondeu o rapaz, -atirando uma verdascada ao jumento para lhe apressar -o passo vagaroso.</p> - -<p>—E não ha por aqui alguma aldeia mais proxima?</p> - -<p>—Agora vamos nós atravessar uma.</p> - -<p>—Então, senhora D. Antonia, acudi voltando-me -para ella, não acha que seria melhor recolhermo-nos -em alguma casa, emquanto não passa o temporal?</p> - -<p>—Entrar em casa de um saloio! Deus me livre! -A minha sobrinha não sabe como esta gente é bruta, -e porca principalmente. Eu, se me visse obrigada, -por não ter outro remedio, a descançar n’uma casa -d’essas, assim que me visse no palacete, despia-me -toda! Captiva!</p> - -<p>Isto era dito em voz bem alta, deante do rapaz -que nos acompanhava. Elle naturalmente não se -importou com isso; mas a mim é que se me confrangeu -o coração: nem gosto de humilhar, nem -de ver humilhar, os humildes; impressiona-me sempre -desagradavelmente ver alguem, collocado pela -fortuna n’uma posição mais ou menos elevada, fazer -sentir á gente das classes inferiores a distancia -que as leis antigamente e agora os habitos mantém -entre os pobres e os ricos, os humildes e os soberbos.</p> - -<p>Por isso, para remediar quanto em mim coubesse<span class="pagenum" id="Page_67">[Pg 67]</span> -a falta de delicadesa de D. Antonia, dirigi amigavelmente -a palavra ao nosso companheiro saloio.</p> - -<p>D. Antonia nem em tal reparou. Aquellas coisas -fazia-as ella naturalmente, e sem ser por mal. Não -tivera intenção de offender o rapaz, e ficaria espantadissima -se soubesse que um saloio podia ter susceptibilidade -e sentimento da dignidade humana. -Nunca se constrangia para fallar deante d’essa gente; -no mais não a tratava nem melhor nem peior do -que os outros, e estava convencida que podia ser -considerada como um modelo de affabilidade quando -correspondia ao cumprimento de um homem de -baixa esphera, e lhe dizia:</p> - -<p>—Como está <i>você</i>? Sua mulher e seus filhos vão -bem? Muito estimo! Beba um copo de vinho á minha -saude. Aqui não; vá para a cosinha. Olhe, lá -me sujou a casa com os tamancos! Esta gente não -póde entrar em parte alguma.</p> - -<p>Emquanto eu fazia taes reflexões, não findara a -chuva; mas os jumentos, incitados pela voz e pelas -verdascadas do burriqueiro, e por um certo instincto -que lhes dizia que estavam quasi chegados ao -termo da sua jornada, haviam tomado uma andadura -mais rapida, de fórma que d’ahi a um quarto -de hora pudemos ver uma casa de boa apparencia, -singela, com pavimento rente do chão, e andar nobre, -que D. Antonia me disse ser a nossa residencia.</p> - -<p>O burriqueiro deitou a correr para ir bater ao -portão; quando lá chegámos, tinham-se já corrido -os ferrolhos e destrancado a porta, e uma criada<span class="pagenum" id="Page_68">[Pg 68]</span> -velha, entre-abrindo-a cautellosamente, apparecia -com um candieiro de tres bicos na mão, e exclamava, -ao conhecer D. Antonia:</p> - -<p>—Valha-nos Deus! A Virgem Maria nos acuda! -É a senhora D. Antonia! Ai! a minha santinha, -como ha de vir molhada! Ó Zé Caneira! olha que -é a senhora. Ó Annica! Ó mulher, tu não appareces? -Diabos te... quero dizer: Valha-te Deus, rapariga, -que tão mollenga me saiste!</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_69">[Pg 69]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="IX">IX</h2> -</div> - - -<p>Era perfeitamente uma d’aquellas phantasticas -velhas dos contos de Hoffmann essa que nos viera -abrir as portas. Nariz adunco, barba revirada, cabellos -grisalhos, despenteados e fluctuando como -que em desordenadas estrigas sobre a testa proeminente, -que abrigava, como uma especie de pala -natural, os olhinhos pequenos, pardos, e encovados! -A luz mortiça do candieiro projectava no seu rosto -uns vagos reflexos, que ainda lhe davam um mais -estranho realce. Era baixa, um tanto curvada para -diante, e vestia uma especie de casabeque immundo, -apertado na cintura, com umas abas curtas, que -cobriam uma pequena porção da saia de baeta vermelha, -que lhe ia poisar em cima dos sapatos rotos. -A boa da velha não se fartava de nos fazer mesuras, -em quanto vinham surgindo de differentes portas -os creados, que ella chamara, e que traziam um -supplemento de illuminação.</p> - -<p>—Adeus, Maria do Rosario, disse D. Antonia, -ao apear-se da cavalgadura, como está você?</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_70">[Pg 70]</span></p> - -<p>—Ai! minha senhora, graças a Deus! antes assim -que peior! cá vou arrastando estes pobres ossos por -este mundo de Christo, até Deus querer... até Deus -querer! Ai! minha querida senhora D. Antoninha, -está cada vez mais moça! bonita, guapa! ai! Senhor! -quantas meninas de quinze annos a não hão de invejar?</p> - -<p>—Isso é dos seus olhos, Maria do Rosario, tornou -D. Antonia, rindo-se com certa complacencia, -já estou velha e bem velha. O tempo de agora está -para estas, continuou, apontando para mim; olhe, -é a mulher de meu sobrinho.</p> - -<p>Maria do Rosario fez-me uma mesura, a que eu -respondi com um sorriso.</p> - -<p>—Ai! Santo Deus! é mesmo uma flor! Deus a -fade bem, e lhe dê o juizo da tia, como lhe deu a -belleza d’ella! com que então, é esta a mulher do -seu Claudiosinho? Quem havia de dizer, senhora -D. Antonia, quando nós andavamos com o Claudio -ao collo...</p> - -<p>—Andavamos! interrompeu D. Antonia, um tanto -espinhada, andaria você, eu era uma creancinha -n’esse tempo!</p> - -<p>—Ora esta! acudiu apressadamente Maria do -Rosario, emendando a mão como boa cortezã que -logo vi que ella era, onde teria eu a cabeça? É verdade -que a senhora D. Antonia, desde creança, foi -tão espigadinha, tão airosa! Ai! minha senhora... -como é a sua graça?</p> - -<p>—Margarida, respondi, tiritando de frio, porque -estava com o fato ensopado, e ainda não tinhamos<span class="pagenum" id="Page_71">[Pg 71]</span> -passado do fundo da escada, tal era o enlevo com -que D. Antonia escutava a sua lisongeira.</p> - -<p>—Margarida! que bonito nome, benza-a Deus! -Pois, senhora D. Margarida, não póde imaginar que -linda creança era aqui a senhora D. Antonia. Branca -de neve, alta, muito rosada! Era mesmo um anjinho -do céo!</p> - -<p>—Não diga tal, Maria do Rosario, tornou D. Antonia -rindo, eu nunca fui bonita; era muito branca, -isso sim! por esse lado todos me gabavam! alta -sempre fui tambem, e apezar d’isso, tinha um pé -tão pequeno, tão pequeno que todos diziam que parecia -impossivel como podia suster o corpo... mas -não é d’isso que se trata agora; estamos ambas ensopadas, -e queremos mudar de fato. Já cá estão as -bagagens?</p> - -<p>—As bagagens? não, minha senhora, não estão; -nós até nem suspeitavamos que as senhoras viessem -hoje... Ora! valha-me Deus!</p> - -<p>—Pois as bagagens ainda cá não estão!? tornou -D. Antonia, desesperada. E o que havemos de fazer?</p> - -<p>—Que transtorno! que transtorno! mas as senhoras -hão de vir cançadas, e talvez o melhor seja -deitarem-se, a não ser que prefiram aquecer-se aqui -ao fogo da lareira! Mas isso não é...</p> - -<p>—O que! ir para a cosinha? Você não está em -si, Maria do Rosario.</p> - -<p>—Desculpem, minhas senhoras, isto era por dizer.</p> - -<p>—E eu aproveito a idéa, tornei sorrindo-me; -não tenho somno; e o fogo da lareira está-me convidando.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_72">[Pg 72]</span></p> - -<p>—Faça o que quizer, acudiu D. Antonia seccamente.</p> - -<p>E subiu a escada com toda a magestade, seguida -por Maria do Rosario, que lá ia resmungando a -continuação do seu panegyrico.</p> - -<p>—Para onde é a cosinha, meus amigos? perguntei -eu voltando-me para os criados, que haviam assistido -mudos á precedente scena.</p> - -<p>—P’ra aqui, p’ra aqui, minha senhora, acudiram -todos á uma, apressando-se a mostrarem-me o caminho.</p> - -<p>Desci uns tres degraus que me ficavam á direita, -segui um corredor, e achei-me na cosinha.</p> - -<p>A tempestade redobrara de violencia; sentia-se a -chuva bater nos postigos; de vez em quando uma -lufada de vento engolphava-se gemendo por alguma -janella que se abriu com fragor, e uma chapada -d’agua inundava o chão lageado; ao mesmo tempo -os aterrados aldeãos viram as arvores estorcerem -lá fóra as suas ramas ainda mal cobertas de folhas -nascentes, benziam-se tres vezes, se um relampago, -incendendo a ramaria no seu clarão azulado, a -transformava nos phosphorescentes braços dos espectros.</p> - -<p>A cosinha era vasta, e o bom fogo que ardia na -lareira, e cujos avermelhados reflexos doidejavam -mirando-se nos espelhentos cobres da bateria culinaria, -espalhavam em todos elles não sei que doce -encanto, que suavissima alegria, e que idéas de tranquillidade -e conforto que me fizeram acudir aos labios -um jubiloso sorriso.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_73">[Pg 73]</span></p> - -<p>A lareira era quasi rente do chão, como todas as -lareiras, e á roda d’ella uns poucos de saloios, em -cujas physionomias astuciosas batia em cheio o clarão -do brazido, escutavam attentamente uma boa -velha, a qual, sentada n’uma d’estas cadeiras d’espaldar, -forradas de coiro e cravejadas de pregaria -amarella, velhos ornamentos das salas dos palacios, -desterrados agora pelos <i>fauteuils</i>, pelos sophás, e -pelas <i>causeuses</i> para as regiões infimas da cosinha, -fiava a sua rocada e contava uma historia qualquer, -a que todos prestavam a maior attenção.</p> - -<p>Do outro lado da lareira uma outra cadeira d’espaldar -fazia symetria com esta, e mostrava que fôra -occupada, instantes antes talvez, pela Maria do Rosario, -que nos viera receber.</p> - -<p>Em torno de uma vasta mesa de pedra, situada -ao meio da cosinha, reuniam-se uns tres ou quatro -saloios, entre os quaes descortinei o burriqueiro, -que estava saboreando as delicias da nossa hospitalidade, -traduzida n’uma respeitavel malga de feijões, -e n’um amplo cangirão de vinho.</p> - -<p>Foi em presença d’este digno congresso que eu -appareci, brandamente impellida pelos meus guias, -que me traziam quasi em triumpho, e que já de -longe annunciavam que era eu a nova senhora, a -muito alta e muito poderosa D. Margarida, Castellã -de Solar de *** nas proximidades de Bellas.</p> - -<p>Quando cheguei á porta, estaquei, enlevada n’esse -quadro de tão rustica e pittoresca simplicidade. -Ficava-me defronte a lareira, de fórma que a sua -luz dava-me no rosto, scintillava-me nos cabellos,<span class="pagenum" id="Page_74">[Pg 74]</span> -que chispavam doirados reflexos, e cercava-me emfim -de uma certa auréola sobrenatural, que incutiu, -segundo penso, um vago respeito n’aquella boa e -ingenua gente, porque todos se levantaram a um -tempo, e murmuraram ao ouvido uns dos outros:</p> - -<p>—É uma imagem! Parece a Nossa Senhora do -altar da ermida.</p> - -<p>—Salve-os Deus, meus amigos, disse eu alegremente, -e entrando com desembaraço pela cosinha, -dão-me ahi um cantinho á lareira para me enxugar?</p> - -<p>—Guarde-a Deus, minha boa senhora, respondeu -a velha cortejando-me respeitosamente, e entrem -n’esta casa no seu regaço todas as felicidades, -porque espero em Deus que seja tão bondosa, como -é linda, e tão verdade como ser Nosso Senhor Jesus -Cristo crucificado para nos remir do peccado -original, nunca os meus olhos viram tal perfeição.</p> - -<p>—Muito obrigada, boa tia, respondi eu affectuosamente, -forçando a pobre mulher a sentar-se, e -sentando-me tambem na outra cadeira que logo todos -chegaram para ao pé do lume; vejo que entrei -n’esta casa com bem maus agoiros. Que tempestuosa -noite!</p> - -<p>Os creados e as criadas, que me tinham guiado, -sentaram-se no chão á roda da minha cadeira e -prestaram ouvido attento á palestra, que se principiara -a travar entre a boa Quiteria, oraculo d’aquella -tribu, e a recem-chegada Lisboeta.</p> - -<p>O vento gemia rijo lá fóra, a lenha do lar crepitava, -ouvia-se o monotono canto do grillo, e o fuso -sirandava, sirandava nas mãos ligeiras da velha.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_75">[Pg 75]</span></p> - -<p>Reinava silencio profundo.</p> - -<p>Eu sentia coar-se-me nas veias aquelle indizivel -bem-estar, que em moderado calor influe no corpo -gelado pelo vento e pela chuva. Passeei a vista com -benevolencia pela assembléa, e não vi senão rostos -pasmados e olhos fitos em mim.</p> - -<p>—Que calada de coelhos! murmurou uma creadita -que estava ao meu lado, ao ouvido de um rapaz -seu visinho.</p> - -<p>—Então porque não fallam? respondi com um -sorriso. Vamos! em que se conversava quando eu -entrei?</p> - -<p>—Ora, se a senhora soubesse, ria-se de certo, -tornou a creada abaixando os olhos negros e travessos.</p> - -<p>—Que estás tu a dizer, Annica? interrompeu a -velha, levando aos labios, para o molhar, o fio da -estriga, tu julgas então que uma pessoa de juizo se -possa rir de um caso que é asseverado por gente -de sabedoria, que lê de fio a pavio todos os livros das estantes?</p> - -<p>—Eu não digo isso, tia Quiteria, mas...</p> - -<p>—Mas és uma tola, Annica; ha alguem que duvide -que apparece uma alma do outro mundo na -capella do senhor conde de Pombeiro, em Bellas?</p> - -<p>A velha Quiteria proferiu estas palavras, relanceando -em torno de si um olhar de desafio. Correu -um vago frémito no auditorio, e todos se chegaram -mais uns para os outros, ouvindo com inquietação -estalar lá fóra a trovoada.</p> - -<p>—O que a tia Quiteria diz é muito verdade, accudiu<span class="pagenum" id="Page_76">[Pg 76]</span> -o burriqueiro com a boca cheia; em Bellas -não ha cão nem gato que o não saiba.</p> - -<p>—Não é bom fallar n’estas coisas em noites de -temporal, interrompeu um trabalhador velho meneando -a cabeça coroada de cabellos brancos. Os -finados sáem do tumulo, quando o trovão os acorda, -e vagueiam pelos campos, penando os seus peccados. -Nós ouvimol-os gemer, e dizemos que é o -sussurrar do vento; não é, não é, é o suspirar dos -mortos.</p> - -<p>Um lufada de ventania zuniu tristemente, e veio, -coando-se pelas fisgas das portas, fazer vacillar a -chamma da lareira.</p> - -<p>Não sei que sombras phantasticas se projectaram -no chão lageado da cosinha.</p> - -<p>O burriqueiro olhou em torno de si um tanto inquieto, -e não se julgando já em segurança, destacado -como estava, do grupo principal, veiu, chegando-se -a pouco e pouco, accrescentar a roda.</p> - -<p>—E que penas que elles penam ás vezes! tornou -a boa da velha abaixando a voz, e parando por -um instante de trabalhar. Lembram-se do padre fr. -João?</p> - -<p>—Lembramos, lembramos! santo homem! Morreu, -ha pouco, em Bellas, responderam todos com -voz unisona.</p> - -<p>—Pois eu conheci aquelle reverendo, que foi pequeno -da minha creação, e que fez por aqui muitas -travessuras, quando o pae inda era vivo. O motivo, -porque elle se metteu frade, é um motivo estranho.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_77">[Pg 77]</span></p> - -<p>—Conte, conte, tia Quiteria, bradaram todos a -uma voz.</p> - -<p>—Se a nossa ama dá licença...</p> - -<p>—Falle, falle, minha boa tia, estou morrendo pela -ouvir.</p> - -<p>—Pois o pae de fr. João era aqui um lavrador -da terra, que foi pouco a pouco augmentando as suas -fazendas á custa dos visinhos, que, sendo mais pobres, -não o podiam demandar. Todos os annos ia -elle chegando o marco das terras mais para deante, -a ponto que um dos seus visinhos -ficou reduzido á miseria. Morreu o usurario, -e o pobre filho, que não sabia d’estas coisas, começou -a disfructar socegadamente os bens que seu -pae lhe legara. Alguns boatos lhe tinham chegado -aos ouvidos, mas elle sempre suspeitara que tudo -eram calumnias e invejas.</p> - -<p>«A final chegou o tempo das sementeiras, e o -nosso João, que morava em Bellas habitualmente, -mas que tinha uma casita terrea nas suas fazendas, -veiu residir aqui para vigiar os trabalhadores.</p> - -<p>«Quando elle chegou encontrou-os a todos enfiados -de susto. Disseram-lhe á uma que não tinham -tido um momento de descanço, porque todas as noites -se ouvia um arrastar de cadeias, uns gemidos -que cortavam o coração; e finalmente que um d’elles, -mais affoito, que ousara espreitar para saber -qual era a causa d’esse barulho nocturno, quasi -desmaiara de pavor, quando vira o finado, envolto -na mortalha branca, arrastando o marco por todo -o campo, e soltando gemidos lugubres, a que respondia<span class="pagenum" id="Page_78">[Pg 78]</span> -ao longe o funebre piar do mocho...»</p> - -<p>—Credo! murmuraram os assistentes.</p> - -<p>«O João todo se desesperou, e disse que desancaria -quem se atrevesse a repetir semelhantes mentiras, -e que, para provar o seu dito, havia de passar -toda a noite sósinho em casa, e que veria se -ousava alguem perturbar-lhe o repouso.</p> - -<p>«Se bem o disse, melhor o fez. Era no verão; -mas apezar d’isso estava tempestuosa a noite como -esta de hoje. O trovão ribombava nos ares, e os -relampagos illuminavam os campos inundados de -agua. O vento acamava as espigas de trigo, e fazia-as -sussurrar lugubremente.</p> - -<p>«João metteu-se em casa e esperou que soasse a -hora fatal. Não direi que não estivesse um tanto -pallido e trémulo, mas continha o receio involuntario, -e estava prompto para affrontar o perigo intrepidamente.</p> - -<p>«Um relogio velho, que elle tinha em casa, fez -ouvir aquelle barulho que precede nos antigos relogios -de parede o bater das horas, e logo depois -deu meia noite. A tempestade pareceu suspender-se -para escutar o signal dado pela voz mysteriosa -do tempo, mas, apenas vibrou a ultima pancada, o -furor da procella, por um instante refreado, redobrou -de intensidade, e o vento, a chuva e os trovões -bramiram com tal violencia, que tremeu toda -a casa como se a sacudissem as garras de invisiveis -demonios. Logo, por entre os rugidos confusos -da procella, sibilar do vento, roncar dos trovões, tintinar -da chuva, começou João a ouvir uns flebeis<span class="pagenum" id="Page_79">[Pg 79]</span> -gemidos, que se prolongavam indefinidamente, um -arrastar de algemas, que de cada vez se approximava -mais.</p> - -<p>«João sentiu um calafrio correr-lhe pelas veias; -mas tomou animo, e levantou-se da cadeira onde estivera. -Não teve porém tempo de dar um passo. -Abriu-se a porta e...»</p> - -<p>N’este momento abriu-se com estrondo a porta -da cosinha.</p> - -<p>—Jesus! bradaram os circumstantes.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_80">[Pg 80]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="X">X</h2> -</div> - - -<p>Todos sentimos como que uma commoção electrica; -eu mesma confesso que estremeci ao dar por -tão notavel coincidencia. Mas o nosso susto mudou-se -em espanto, quando vimos apparecer á porta -D. Antonia, envolta n’um chale antiquissimo, que -provavelmente descobrira n’algum dos velhos bahus -da residencia.</p> - -<p>—Então aqui não se trata da ceia? perguntou -ella, cruzando os braços. Toca a palrar e a contar -historias, e eu e a Maria do Rosario que nos aguentemos -com o trabalho! Fóra mandriões; Annica já, -já fazer as camas; Quiteria veja se nos arranja alguma -coisa para cearmos. Nunca se viu uma coisa -assim! Os servos aqui muito bem refestellados, e -as donas da casa tendo de fazer o trabalho se o -quizerem ver feito. A pobre Maria do Rosario é que -havia de acudir a tudo. Vamos, minha sobrinha, -venha d’ahi, não se costume a dar confiança a esta -gente, senão está perdida.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_81">[Pg 81]</span></p> - -<p>O rubor da vergonha, e da colera subiu-me ás -faces e affogueou-m’as. O que! pois não era eu a -dona da casa, não era eu só quem podia dar essas -ordens e essas reprehensões? Mas que havia de fazer? -Travar uma discussão em presença dos criados? -Impossivel; a minha indole negava-se completamente -a essas coisas. E por esta fórma conseguia -sempre D. Antonia as victorias, que lhe assegurava -a sua impudente iniciativa.</p> - -<p>As criadas andavam já todas azafamadas. Eu ergui-me -e saí; passei por diante de D. Antonia, e vi -a Maria do Rosario escondida na sombra. Percebi -que tinha uma nova inimiga.</p> - -<p>Chamei-a, e disse-lhe que me indicasse o meu -quarto. Ella veiu logo, fazendo muitas mesuras, e, -pegando no candieiro, caminhou adeante de mim. -Voltei-me e dei as boas noites a D. Antonia.</p> - -<p>—Não ceia, minha sobrinha? perguntou ella.</p> - -<p>—Não, minha senhora, respondi; sinto-me cançada, -e prefiro deitar-me.</p> - -<p>Não me respondeu, e limitou-se a encolher os -hombros. Eu subi a escada, seguindo a Maria do -Rosario.</p> - -<p>O meu quarto ficava situado n’um dos angulos -do edificio.</p> - -<p>Era vasto e frio. Duas janellas de peito, com -bambinellas, rasgavam-se n’uma das paredes. Um -leito de cortinas vermelhas, formidavel, macisso, -abrangia uma grande porção da parede fronteira. -O quarto fôra forrado de papel, havia pouco, e o -mau gosto de quem presidira a esses arranjos escolhera<span class="pagenum" id="Page_82">[Pg 82]</span> -o papel entre estes de linhas em zig-zag, -parallelas e muito unidas, que impressionam a vista, -e tomam fórmas phantasticas quando a luz vacillante -d’uma vella as faz ondearem e confundirem-se -de um modo aterrador. Duas ou tres cadeiras de -espaldar e pregaria e uma commoda antiquissima -completavam a mobilia d’este quarto lugubre.</p> - -<p>A atmosphera frigida d’aquelle aposento, regelando-me -os membros, opprimiu-me o coração. Pareceu-me -que entrava n’um sepulchro.</p> - -<p>Em cima da commoda havia dois castiçaes com -vellas de stearina. Maria do Rosario accendeu-as, e -perguntou-me se precisava de mais alguma coisa.</p> - -<p>—De nada, respondi eu seccamente.</p> - -<p>Mas, quando ella se ia a retirar, chamei-a.</p> - -<p>—Aqui n’esta casa não ha alguma livraria? perguntei -eu.</p> - -<p>—Ha, sim, minha senhora, respondeu ella. Aqui -esta porta deita para um corredor, que vae ter á -casa dos livros. Se a senhora quizer, as portas estão -abertas.</p> - -<p>—Obrigada, tornei eu.</p> - -<p>Maria do Rosario saiu. Senti-a fechar a porta, e -depois descer a escada de vagar, até que esmoreceu -ao longe o ecco dos seus passos. Caiu tudo em silencio.</p> - -<p>Em silencio, não; porque a tempestade não se -aplacara. O vento gemia com mais tristeza, açoitando -os postigos das janellas. De quando em quando -ouvia-se a voz magestosa do trovão. A aza doida -da procella batia com furor nos vidros.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_83">[Pg 83]</span></p> - -<p>Sentei-me com desalento n’uma cadeira, e deixei -pender a cabeça nas mãos. Senti quanto é horrorosa -a soledade quando se tem vinte annos e um coração -ardente. N’essas noites de temporal, em que é -tão suave a reunião familiar, via-me eu só, abandonada, -entregue a todos os pavores que a solidão -inspira, n’um aposento, que mais parecia tumulo -de mortos que habitação de vivos. Era esse quarto -o symbolo da minha existencia, tal como o destino -m’a fizera, carcere sombrio e lugubre onde eu -tinha que encerrar todas as aspirações da minha -juventude, todo o fogo vital que me incendia o -sangue.</p> - -<p>Ergui a cabeça para respirar desafogadamente, -porque esses pensamentos haviam-me opprimido o -coração, e dei um grito de terror. Defronte de mim -um vulto pallido mirava-me como que atterrado. -Lagrimas silenciosas deslisavam-lhe pelas faces.</p> - -<p>Era a minha imagem que se reflectia n’um espelho -em que eu ainda não reparara. Sorri-me do engano; -ergui-me e dirigi-me ao espelho. «Pois és tu, -Margarida, exclamei eu, és tu a creança descuidosa, -que ha pouco dançavas nos bailes com tão -mimoso colorido nas faces? És tu a flor das salas? -Como estás desbotada, rosa das valsas! Definhas á -sombra; mas que sol te poderia reanimar?»</p> - -<p>«O amor!» suspirou uma voz intima, e o quarto -illuminou-se com vagos e ignotos clarões, e a tempestade -como que se acalmou por incanto, e a sua -voz expirante balbuciou aos meus ouvidos: «O -amor!» E as linhas do papel arredondaram-se tambem<span class="pagenum" id="Page_84">[Pg 84]</span> -em graciosas curvas, e murmuraram: «Amor! -amor! amor!» Voejaram no quarto invisiveis pombinhas -candidas, e eu ouvia-lhes o harmonioso bater -d’azas. O rosto, reflectido no espelho, desfranziu-se -n’um sorriso, e expulsou as nuvens que lhe -toldavam a fronte.</p> - -<p>—Que loucuras! balbuciei.</p> - -<p>E levantei-me, peguei n’um castiçal, e dirigi-me -á bibliotheca a procurar um livro, que me distrahisse -o espirito d’estes perigosos devaneios.</p> - -<p>A livraria era uma casa pequena, toda cercada -de estantes, que vergavam ao peso de formidaveis -<i>infolio</i>. Tirei ao acaso o primeiro volume que se -me deparou. Era o segundo tomo dos <i>Trabalhos -de Jesus</i>. Isso exactamente eu desejava. O titulo -promettia-me um admiravel exorcista contra o demonio -côr de rosa que ameaçava perseguir-me. -Voltei pé ante pé, e entrei no quarto. Colloquei o -pesado alfarrabio á cabeceira do meu leito, e principiei -a despir-me.</p> - -<p>Já não ouvia gemer o vento, nem estalar a trovoada. -Tive curiosidade de ver o aspecto da atmosphéra -e, meio despida, corri á janella e entreabri -um postigo.</p> - -<p>A janella deitava para o jardim. Cessara de chover, -e a lua, filtrando os seus raios por entre as nuvens, -banhava os canteiros no seu magico fulgor. -O vento abrandara, e transformara-se n’uma brisa -suave, que agitava as folhas nascentes das arvores. -Parecia-me assistir á transição do inverno para a -primavera, e cheguei a pensar que esse momento<span class="pagenum" id="Page_85">[Pg 85]</span> -era o momento exacto em que findava o reinado -dos gelos, e principiava o das flôres. A natureza, -cançada da lucta, deixava-se embalar no regaço da -primavera, que surgia coroada de estrellas, e scintillante -de poesia e de amor! Amor, sim; essa doce -palavra vi-a claramente escripta no vidro em letras -de prata por um raio luminoso, que se desprendeu -languidamente do seio da namorada Phebe.</p> - -<p>Cerrei a janella, e corri para o leito. Ao passar -por diante do espelho, relanceei para elle a vista, e -divisei um rosto que me sorria com os olhos banhados -em vaga languidez. Involuntariamente escondi -o seio com os braços cruzados, e, toda tremula -e risonha, metti-me na cama, lançando logo -a mão ao ponderoso volume de fr. Thomé de Jesus. -Abri ao acaso e li:</p> - -<p>«Ó amor divino, como prendes, quando na alma -te accendes; como captivas, quando á alma descobres -alguma parte da formosura de tua face divina! -Sem te ver claramente a alma peregrina, só pelo -que de ti da vida sente, e póde com tua graça experimentar, -como fica livre de si e das prisões da -terra, e captiva de ti, e presa de teu amor! Estas -tuas amorosas e suaves prisões tanto a atam e possuem, -que até dos corporaes sentidos lhe mudas o -gosto em ti, porque tudo lhe trazes sujeito á tua -mão, e obediencia do teu amor. Se quer dormir, -tu a acordas, se quer descançar, a aguilhôas, se -quer comer, lhe tiras o sabor, se quer conversar, a -apartas; toda a prendes, toda a queres, tudo lhe -defendes; sempre amigo, sempre cioso; porque<span class="pagenum" id="Page_86">[Pg 86]</span> -todo te dás, e toda a tomas; todo te entregas, e -toda a prendes.»</p> - -<p>Deixei descair o livro, cujas paginas rescendiam -não sei que namorados effluvios; sentia volitarem -em torno de mim sylphos e fadas, que pareciam, -occultos na sombra, segredar uns aos outros dulcissimas -harmonias. O clarão suave da vella parecia -oscillar brandamente ao meigo e perfumado sopro -d’esses habitantes dos ares. As letras do livro -eram outras tantas teclas, que suspiravam melodiosamente -as mais voluptuosas arias de Bellini e de -Rossini com letra de fr. Thomé de Jesus. Fui cerrando -os olhos, como se o fluido magnetico, que -enchia o quarto, me opprimisse as palpebras. A -vela estava quasi expirando, e, nas vascas da agonia, -projectava clarões phantasticos nas cortinas -vermelhas do meu leito. Suspirei brandamente, e -fui-me deixando adormecer, murmurando a palavra: -«Amor!... Amor!»</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_87">[Pg 87]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="XI">XI</h2> -</div> - - -<p>Entrava já o sol claro e alegre pela janella aberta, -quando despertei. Esfreguei os olhos, ainda estonteada, -e, levantando-me na cama, dei com a Maria -do Rosario, que andava limpando o pó.</p> - -<p>—Que horas são? perguntei eu.</p> - -<p>—Então como passou a noite, senhora D. Margarida? -Ai! cala-te, boca, não queiras tirar a Deus -Nosso Senhor o que a Deus é devido; deixa a tua -ama rezar primeiro as suas orações, e não queiras -desvial-a do caminho da salvação, tentando-a a -fallar em coisas d’este mundo. Reze, reze, senhora -D. Margarida.</p> - -<p>—Ó mulher, eu perguntei-lhe que horas eram.</p> - -<p>—Ai! credo! Santo nome de Jesus! Virgem benta! -Senhora Nossa! Estas meninas de agora nada -respeitam! Não ha senão hereges! A senhora D. Margarida -não queira ir arder para as labaredas do inferno, -e dar triumphos ao inimigo. Santo Deus! Tome -o exemplo da Senhora D. Antonia e da senhora<span class="pagenum" id="Page_88">[Pg 88]</span> -condessa de *** que ha de cá vir esta noite.</p> - -<p>—Ó senhora! diga-me que horas são, e vá-se -embora.</p> - -<p>—Eu já me retiro, minha senhora, que eu não -quero perder a minha alma, tornou ella com voz -esganiçada. Graças a Deus, toda a minha vida tenho -feito figas ao demonio. Fui menina e moça, solteira -e casada, e sou agora viuva, e nunca arredei pé do -caminho do céo. São nove horas, minha senhora; -soube sempre cumprir os deveres do Santissimo -Sacramento do matrimonio. A senhora D. Antonia -já está á sua espera para almoçar. Cruzes, inimigo; -agora que sou velha não me venhas tentar. As bagagens -já chegaram. Ó nossa Senhora do Rosario, -minha protectora, livra a tua fiel serva das unhas -de Berzabum. As suas malas estão ao pé da commoda.</p> - -<p>E resmungando, e esconjurando, foi-se approximando -da porta e deitou a correr pela escada -abaixo.</p> - -<p>Eu acordara com optimas disposições, de fórma -que a insolencia d’essa mulher não conseguiu turvar-me -o espirito. O ridente sol dos fins de março -inundava o quarto com os seus vividos raios, e enchia-o -d’essa luminosa poeira, que tanto espairece -a vista. Saltei para baixo da cama, vesti-me e abri -a janella.</p> - -<p>Inebriou-me a bafagem balsamica, que respirei na -brisa que doidejava pelo jardim, e que me saudou -com as suas vivificantes emanações. O jardim era -vasto, no gosto do seculo passado, mas inculto. A<span class="pagenum" id="Page_89">[Pg 89]</span> -natureza, entregue a esta bemaventurada negligencia -dos jardineiros, remediara o risco absurdo do -jardim. Os canteiros pautados e regrados escondiam-se -por detraz de espessas moitas de buxo, que -viçara á vontade e livre da tosquiadora thesoura. -Os tanques sem agua cobriam-se com esverdeado -musgo, e as estatuas desgraciosas envolviam a sua -nudez n’um manto d’hera, que emendava, com as -suas elegantes ondulações, a rigidez das linhas traçadas -na pedra pelo inhabil cinzel do rustico esculptor. -A relva molhada verdejava de um modo -deslumbrante, e os passarinhos, escondidos da ramaria -das arvores, cantavam alegremente o hymno -da nova primavera.</p> - -<p>Estive alguns instantes contemplando esse delicioso -espectaculo, até que ouvi a campainha, que nos -chamava para o almoço. Desci, encontrei Anna, a -creadita d’olhos pretos, que me foi ensinar onde era -a casa de jantar; entrei, e vi D. Antonia magestosamente -recostada n’uma cadeira de braços, em palestra -muito animada com Maria do Rosario.</p> - -<p>Quando appareci, calou-se; fallei-lhe e sentámo-nos -á meza, onde nos esperava o almoço.</p> - -<p>Comtudo, eu via pelo olhar odiento, que D. Antonia -me lançava, que se estava preparando alguma -tempestade. Effectivamente, depois de ter mandado -embora a creada, D. Antonia voltou-se para mim, e -disse-me, adoçando hypocritamente a voz:</p> - -<p>—Minha sobrinha. É preciso que tenha mais prudencia. -Não sei qual foi a educação que recebeu, -mas sei que em casa de seu marido sempre reinou<span class="pagenum" id="Page_90">[Pg 90]</span> -o temor de Deus, e o respeito pela religião christã. -Não seja para as creadas um objecto d’escandalo, -queira cumprir os seus deveres religiosos. Desculpe-me -estas observações, accrescentou ella, mas, na -ausencia de seu marido, compete-me dirigir a sua -inexperiencia, e dar-lhe os conselhos que uma velha -sabe dar.</p> - -<p>—Agradeço tanta bondade, respondi com alguma -ironia; mas rogo-lhe que não authorise as creadas -a intervirem nas minhas acções. Queira pensar -tambem, que apesar de ser nova e inexperiente, sou -eu a unica dona da casa, e que não posso consentir -que as pessoas que estão ao meu serviço me faltem -ao respeito que me devem.</p> - -<p>E completei este discurso, fazendo uma profunda -mesura, e retirando-me.</p> - -<p>D. Antonia fez-se fula de raiva, e tão irada ficou, -que não pôde articular uma palavra. Lançou-me um -olhar indignado, e só pôde dizer-me, quando eu já -chegava á porta:</p> - -<p>—Aviso-a que recebemos hoje a visita das nossas -visinhas de campo, a senhora condessa de *** e -a senhora baroneza de ***; note que são senhoras -piedosas e de muitas virtudes. Veja o que faz.</p> - -<p>Não lhe respondi e saí do quarto.</p> - -<p>N’essa noite, apenas deram sete horas, appareceu -logo D. Antonia, vestida esplendidamente para receber -as nossas aristocraticas visitas. O meu fato -singelissimo contrastava com o seu luxo deslumbrante. -Por isso Maria do Rosario não fez senão -extasiar-se perante as fitas vermelhas, e as pulseiras<span class="pagenum" id="Page_91">[Pg 91]</span> -e broches d’oiro da minha mortal inimiga.</p> - -<p>Ás oito horas sentiu-se parar á porta um churrião -puchado a bois. Era esse o vehiculo que transportava -as duas muito nobres senhoras, nossas visinhas -de campo, que moravam a um quarto de legua -de distancia. D. Antonia correu á porta, e chegou -a tempo de receber as fidalgas visitantes.</p> - -<p>Eu fiquei na sala, junto da mesa, folheando distraidamente -um livro de devoção ornado de lindas -imagens.</p> - -<p>Levantei-me da cadeira e dei dois passos para a -porta, quando vi assomarem a ella os vultos das -duas senhoras. Cumprimentei-as então respeitosamente.</p> - -<p>Uma d’ellas era alta, elegante, de physionomia -austera e altiva fronte. Devia de ter sido formosa -na sua juventude; mas a sua formosura por força -tivera sempre um caracter inflexivel de orgulho indomavel. -A outra era uma senhora quasi decrepita, -em cujas feições meio apagadas se não podia ler outra -expressão, que não fosse a d’esse ascetismo pavido, -proprio dos espiritos acanhados, quando os -gelos da edade, accumulando-se-lhes na fronte, lhes -phantasiam, para além do tumulo, já proximo, as -chammas atterradoras do inferno.</p> - -<p>A primeira d’estas duas senhoras, que eu soube -depois que era a condessa, cumprimentou-me tambem; -e levando a luneta aos olhos, mirou-me alguns -instantes com gélida seriedade. Depois voltou-se -para D. Antonia, e dirigiu-lhe um olhar, que parecia -querer dizer: «É esta a pessoa em quem fallámos?»<span class="pagenum" id="Page_92">[Pg 92]</span> -e D. Antonia respondeu-lhe com um movimento -de cabeça, que significava: É sim, minha -senhora, infelizmente.»</p> - -<p>A condessa veio então para mim, e disse com -voz secca e vibrante:</p> - -<p>—Folgo muito de conhecel-a, minha senhora. -Sou antiga amiga da familia de seu marido. Estimarei -poder consagrar-lhe o mesmo affecto.</p> - -<p>—Se conseguir merecer a affeição de v. ex.ª, -respondi inclinando-me, será isso para mim altissima -honra, minha senhora.</p> - -<p>A condessa cumprimentou-me de novo, e foi sentar-se -no canapé. A baroneza, que esbrugava um -rosario e resmungava umas orações, sentou-se ao pé -da mesa de jogo, embrulhou-se toda em pelles e -tapetes, que a Maria do Rosario lhe trouxe com a -maior promptidão, e ficou immovel, com os olhos -fitos no vago, com os labios em continuado movimento. -A luz do candieiro, batendo-lhe em cheio no -rosto escaveirado e livido, fazia-a parecer uma d’essas -figuras dos quadros asceticos da escola hespanhola, -que tivesse descido da tela, obrigada por -magica evocação.</p> - -<p>—É muito bonita sua sobrinha, D. Antonia, disse -a condessa. Deus queira que essa bellesa não -seja arma que Satanaz queira empregar contra a -salvação da sua alma.</p> - -<p>—Não será, não, minha senhora, se Christo Senhor -Nosso ouvir as orações que todos os dias lhe -dirijo fervorosamente. Eu, senhora condessa, desde -que meu sobrinho casou, ainda não tive um só<span class="pagenum" id="Page_93">[Pg 93]</span> -pensamento, que não fosse para o bem d’esta menina. -Assim ella m’o reconhecesse.</p> - -<p>E suspirou.</p> - -<p>—Bem sei, bem sei que a D. Antonia tem sido -sempre um anjo de caridade. Ponha os olhos em -Deus, filha, e não faça caso das ingratidões do mundo. -N’este seculo de impiedade a nossa cruz é bem -pesada. Tomemos o exemplo do Salvador.</p> - -<p>—Amen, concluiu devotamente D. Antonia. Eu -bem diligencias faço para que esta ovelha se me -não estramalhe do aprisco, mas é difficil a minha -tarefa. Se eu pudesse ter o auxilio de v. ex.ª...</p> - -<p>—Ai! filha! tambem tenho de cumprir a minha -missão. E juro-lhe que ás vezes desfallecia, se não -tivesse os olhos fitos na recompensa do céo.</p> - -<p>—É verdade, é verdade. A senhora condessa -entra vestida e calçada no paraizo. E como vae a -sua santa obra?</p> - -<p>—Eu não descanço; mas este anno tem provado -mal. Debaixo dos meus auspicios tem-se feito apenas -oito casamentos; é verdade que todos difficeis. -Quatro foram de creadas minhas, que andavam de -namoro com uns valdevinos do sitio; mandei-os -chamar e obriguei-os a casarem. Ellas não queriam -de fórma alguma. Tinham tomado informações, e -sabiam que os taes rapazes eram uns bebedos, outros -jogadores, outros vadios. «Porque não indagaram -isso antes de os namorarem? disse-lhes eu. Ou -fazerem o que lhes digo; ou sairem de minha casa. -Não quero escandalos das minhas portas a dentro. -Quem namora deve ter em vista o sacramento do<span class="pagenum" id="Page_94">[Pg 94]</span> -matrimonio.» Houve uma que teimou, e saíu da casa; -mas não encontrando arrimo em parte alguma, -porque todos sabiam que tinha sido posta fóra por -mal comportada. Andou por ahi a morrer de fome, -até que não teve remedio senão fazer o que eu -quiz. Mas custou-me.</p> - -<p>—Que santa! meu Deus! que santa! bradou D. -Antonia em extasi, levantando para o tecto os olhos -e os braços. Pessoas como a senhora condessa são -raras n’este seculo. E a sua prima, a senhora marqueza, -o que é feito d’ella?</p> - -<p>—Está em Roma a santinha! Foi beijar o pé a -sua santidade! Escreveu-me de lá. Está louca de -contentamento. Já viu tres vezes o vigario de Christo, -e tem conversado com doze cardeaes. Ah! deve -ser uma grande consolação para o padre santo, no -meio das amarguras que a impiedade dos italianos -lhe está causando todos os dias, ver que ainda ha -fieis que tem por elle tanto respeito e amor.</p> - -<p>Esta edificante palestra foi interrompida por um -grito da senhora baroneza. Levantou-se, como se -obedecesse a um impulso de molas, e bradou com -voz sepulchral:</p> - -<p>—Arreda-te, inimigo... Cruzes, Satanaz... Não -me tentas, não, não me tentas... Sim, meu doce -Jesus, sim, bem vos vejo... Chamais a vossa serva... -Ahi vou, ahi vou... Esperai um instante, -meu salvador... Não desvieis a vossa face... Foge, -Belzebuth, Asmodeu, Astaroth e Moloch... Ai! -que eu já vejo o inferno... Senhor Jesus, acudi-me!</p> - -<p>—Rezemos, rezemos, exclamou a condessa, caindo<span class="pagenum" id="Page_95">[Pg 95]</span> -de joelhos; são visões que assaltam aquelle espirito -bem-aventurado. É preciso que estejamos -em oração, para que aquella santa vença o inimigo -que a tenta.</p> - -<p>D. Antonia caíu de joelhos, e a Maria do Rosario, -que apparecera á porta, fez o mesmo, dando -grandes murros no peito.</p> - -<p>Eu olhava estupefacta para aquella scena burlesca.</p> - -<p>Não querendo fazer-me reparada, affastei-me um -pouco, e simulei que ajoelhava.</p> - -<p>Afinal a baroneza caiu prostrada no canapé. Viera-lhe -a espuma aos cantos da boca, como succedia -ás pythonisas pagãs. A condessa levantou-se e -disse a D. Antonia:</p> - -<p>—Mande-lhe dar um caldo, que é sempre o que -ella toma, depois d’estes extasis.</p> - -<p>—Um caldo para a senhora baroneza, exclamou -D. Antonia, voltando-se para Maria do Rosario.</p> - -<p>E a Maria do Rosario repetiu, correndo pela escada -abaixo:</p> - -<p>—Um caldo para a senhora baroneza, que tem -<i>bisões</i>.</p> - -<p>D’ahi a pouco voltava trazendo uma chavena de -caldo, e dirigia-se á baroneza.</p> - -<p>—Beba, minha santinha, disse ella, beba, que lhe -ha de fazer bem.</p> - -<p>A baroneza levou machinalmente a chavena aos -labios, bebeu dois ou tres golos; mas de repente -estacou, perguntando:</p> - -<p>—De que é este caldo?</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_96">[Pg 96]</span></p> - -<p>—De gallinha, senhora baroneza, de gallinha. -Matou-se hoje a mais gorda da capoeira.</p> - -<p>—De gallinha! repetiu a baroneza.</p> - -<p>E deixou cair a chavena em cima dos pés da Maria -do Rosario, entornando o seu contheudo, e escaldando -a creada.</p> - -<p>—Má raios... principiou esta.</p> - -<p>Mas logo atalhou, mastigando em secco:</p> - -<p>—Seja pelo divino amor de Deus! um caldinho -tão bom, que os anjos o podiam beber.</p> - -<p>—De gallinha! continuava a baroneza, plangentemente, -e hoje é sexta-feira! Vão chamar o senhor -padre prior.</p> - -<p>—Elle não deve tardar, minha senhora, acudiu -D. Antonia, ficou de vir jogar uma partida de voltarete.</p> - -<p>—Ah! sim! o voltarete! repetiu a baroneza extasiada, -n’um tom de ineffavel jubilo.</p> - -<p>E julguei que ia ter outra visão a proposito do -basto e da espadilha.</p> - -<p>Seguiram-se alguns instantes de um silencio, que -foi interrompido pelo tropear de um cavallo na estrada.</p> - -<p>—Ahi vem o senhor padre prior, exclamaram a -um tempo D. Antonia e a condessa.</p> - -<p>D’ahi a pouco, sentiram-se na escada passos pesados, -e logo depois appareceu á porta um homem -alto e reforçado, de bota de montar, e casaco até -ao joelho.</p> - -<p>—<i>Pax Domini!</i> exclamou elle ao entrar.</p> - -<p>—É Deus quem o envia, senhor padre prior,<span class="pagenum" id="Page_97">[Pg 97]</span> -acudiu a baroneza. Commetti um grande peccado, -meu padre; venha ouvir-me de confissão.</p> - -<p>—Minhas senhoras, tenho a honra de as cumprimentar. -Como está a senhora condessa? Senhora -D. Antonia, Deus a tenha em sua guarda. Viva, minha -menina. Guapa moça! accrescentou voltando-se -para a condessa, que se sorriu com agrado.</p> - -<p>—Senhor padre prior, acuda-me, bradou a baroneza, -que já sinto as garras de Belzebuth.</p> - -<p>—Então que é isso, minha santinha? Então que -é isso? disse a final o padre prior, dirigindo-se para -ella, e fazendo tremer a casa a cada passada que -dava. Então que peccado temos?</p> - -<p>Sentou-se, e a baroneza, inclinando-se-lhe ao ouvido, -disse-lhe a culpa que lhe pesava na consciencia.</p> - -<p>—Hum! hum! resmungou o padre, quando ella -acabou. Isso não é nada. Reze duas corôas a Nossa -Senhora, e temos tudo acabado.</p> - -<p>Depois, levantando-se e dirigindo-se a D. Antonia, -continuou:</p> - -<p>—Então esta é que é a mulher de seu sobrinho?</p> - -<p>—Sim, senhor, respondeu ella.</p> - -<p>O padre fez-me uma festinha na cara, e disse:</p> - -<p>—Estimo conhecel-a! Ande lá que o Claudio não -a merecia a Deus.</p> - -<p>—Então, senhor padre José, acudiu a condessa -brandamente, não esteja affagando a vaidade feminil; -bem sabe que é essa a mais terrivel arma de -que o demonio dispõe.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_98">[Pg 98]</span></p> - -<p>O padre olhou para ella com tão comico espanto, -que eu não pude deixar de desatar a rir.</p> - -<p>O sacerdote olhou-me, sorrindo-se com benevolencia, -e offereceu-me uma pitada.</p> - -<p>Como eu recusei, foi offerecendo á roda, e depois, -mettendo os dedos na caixa, tirou um monte -de rapé que sorveu com delicias.</p> - -<p>—Pois aqui onde me vêem, disse elle, por um -triz que não parti inda agora as costellas.</p> - -<p>—Como? acudiu logo o terceto, assustado.</p> - -<p>—É verdade; é a primeira vez que monto no -cavallo, que comprei em Lisboa. Por isso, como -não lhe conhecia as manhas, vinha com cautella, e -foi o que me valeu. Aqui ao pé, o demonio assusta-se -com um tronco de arvore, que o vendaval de -hontem á noite partira, e deu-me tamanho galão -que eu ia perdendo os estribos. Ora, se a senhora -condessa visse! Prégo-lhe as esporas na barriga, -e obriguei-o a vir n’uma galopada até aqui á porta; -assim é que eu os ensino.</p> - -<p>—Graças a Deus, não se magoou?</p> - -<p>—Eu! levava-o a breca, se me megoasse.</p> - -<p>—É verdade, senhor padre José, tornou a condessa, -não tem por lá medalhinhas da Virgem para -dar aqui á D. Antonia?</p> - -<p>—Ora, se tenho; é o que por lá falta! Quer algumas? -Não faça cerimonia! E a proposito, não -se joga o voltarete?</p> - -<p>—Está-se á espera do <i>senhor</i> Theodoro Leite, -acudiu a condessa. Sempre se ha de fazer esperar. -Bem mostra que é herege.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_99">[Pg 99]</span></p> - -<p>—Oh! se é, tornou o padre; está já a arder no -inferno, o maldito! Pois então não me deu hontem -dois codilhos em casa do escrivão... É verdade, -a mulher do administrador lá offereceu um manto -riquissimo á Senhora das Dores.</p> - -<p>Nos olhos da condessa fuzilou um raio de colera.</p> - -<p>—Offereceu?! logo vi. A filha de um dos meus -caseiros, que enriqueceu, sabe Deus como,—quer -saber, D. Antonia? não está agora ao desafio comigo? -A que tempo chegámos, meu Deus! Se eu offereço -um resplendor ao menino Jesus, dá ella um -manto de seda a Nossa Senhora. Já se viu uma -coisa assim? Eu sempre queria saber aonde ella vae -buscar o dinheiro!</p> - -<p>—Que desaforo! acudiu D. Antonia indignada, e -o senhor padre prior consente semelhante coisa!</p> - -<p>—Então que lhe hei de eu fazer?...</p> - -<p>N’este momento abriu-se a porta, e um homem -velho, magro, mal enroupado, mas de meiga e sympathica -physionomia, entrou timidamente.</p> - -<p>Cumprimentou-nos a todos com acanhamento, e -só de mim recebeu uma cortezia amavel. A condessa -tratou-o friamente; a baroneza nem deu pela sua -entrada; D. Antonia cumprimentou-o com seccura, -dizendo-lhe: «Julgavamos que não vinha», e o padre -prior acolheu-o com brados de indignação.</p> - -<p>O pobre Theodoro Leite curvou a cabeça, para -deixar passar a procella, e foi, como que arrastado -pelo parocho, sentar-se á mesa do voltarete.</p> - -<p>Formamo-nos então em dois grupos distinctos: -o prior, a baroneza e Theodoro entregaram-se ás<span class="pagenum" id="Page_100">[Pg 100]</span> -delicias dos codilhos e das licenças, emquanto eu, -D. Antonia e a condessa ficamos no canapé, conversando -e costurando, duas occupações que me desagradavam -bastante. Procurei vencer a minha repugnancia; -mas, apezar dos meus esforços, só de -quando em quando soltava uma palavra, e a agulha -ociosa descaía muitas vezes no meu collo, emquanto -o meu pensamento voava para muito longe do sitio -onde estavamos.</p> - -<p>Ainda não acabara o desfilar das pessoas, que -nos honravam n’essa noite com a sua visita. Seriam -nove horas, quando se abriu a porta da sala para -dar entrada a dois novos personagens.</p> - -<p>Um homem ainda novo, e uma senhora tambem -na flôr da idade foram os dois actores que entraram -em scena. O personagem masculino tinha as mais -visiveis tendencias para uma obesidade precoce, e -no seu rosto cheio, bochechudo, de alvura deslavada, -scintillavam dois olhos pequenos, mas vivos e -inquietos, que denunciavam... intelligencia? intelligencia, -de certo; mas uma d’estas intelligencias <i>praticas</i>, -a que não escapa uma especulação proveitosa, -e para a qual são enigmas abstrusos as aspirações -grandiosas do espirito, e pomo vedado ainda -o fructo da arvore da sciencia.</p> - -<p>A senhora, que o acompanhava, não se podia -chamar bonita, porque as suas feições irregulares -protestariam contra a denominação; mas os seus -olhos negros e rasgados tinham um scintillar tão -malicioso, tão provocador, que lhe illuminavam a -physionomia, e lhe prestavam, senão belleza, pelo<span class="pagenum" id="Page_101">[Pg 101]</span> -menos uma certa animação, e um indisivel encanto.</p> - -<p>Estas duas pessoas foram recebidas de um modo -que contrastava bastante com o acolhimento feito a -Theodoro Leite. D’esta vez houve apresentação em -regra. A condessa radiante pediu-me licença para -me apresentar a sua afilhada D. Carolina «que ella, -condessa, se presava de ter educado nos principios -da mais severa religião e da mais sã moral» e o -marido da sua afilhada «moço de muito merito e -virtudes, que (gloriosa excepção no meio da mocidade -depravada e impia do nosso tempo) era um -modelo de devoção, um exemplar de caridade, e um -poço de sapiencia ainda por cima para coroar esta -assombrosa pyramide de predicados.»</p> - -<p>—Muito folgarei de as ver amigas, concluiu a -condessa, accentuando cada palavra. Posso dizer -sem orgulho, que uma menina da sua idade, senhora -D. Margarida, e da sua educação, permitta-me que -accrescente, lucra muito com o trato intimo de uma -senhora de juizo, como é Carolina, posso affoitamente -dizel-o.</p> - -<p>A elogiada Carolina achou modo de conciliar um -modesto descer de palpebras, que lhe serviu para -agradecer o retumbante panegyrico, declamado por -sua madrinha, com um olhar malicioso, gaiato, com -que me brindou ao trocarmos o beijo e o abraço -fraternaes.</p> - -<p>Jeronymo Freitas, seu esposo, cumprimentou-me, -e logo depois, sentando-se, encetou com a madrinha -de sua mulher uma conversação, que parecia -um fogo de vistas, em que estalavam todos os nomes<span class="pagenum" id="Page_102">[Pg 102]</span> -aristocraticos do partido devoto, e que tinha a -dupla vantagem de incantar a condessa, e de deslumbrar -D. Antonia. Eu não tinha a minima idéa -de uma coisa assim. Aquelle homem era ao mesmo -tempo um vulcão, uma torrente, um moinho, e um -<i>Almanach de Gotha</i> em folio, mas um <i>Almanach de -Gotha</i>, que uma causa desconhecida puzesse em -ebullição, e que arrojasse á atmosphera, como bolhas -d’ar, os nomes de quantos marquezes, condes, -duques, principes, reis e imperadores existem por -esse mundo. «E estive com a senhora condessa de tal, -e a senhora marqueza disse-me isto, e á volta encontrei -a senhora baroneza, que accrescentou aquell’outro, -e a senhora duqueza recebeu uma carta de sua -santidade, e o senhor marquez, que é um santo, disse-me: -«Ó caro Freitas, você não sabe...?» e sua -eminencia o cardeal sicrano communicou-me confidencialmente -as suas afflicções» e... eu sei, estava -atordoada com aquella volubilidade incessante, inexgotavel, -incançavel, que apenas se interrompia uma -ou outra vez para deixar passar uma trovoada de -imprecações com que o padre prior fulminava o -pobre Theodoro Leite, que fizera as <i>cinco primeiras</i>, -provocando por essa fórma os raios da excommunhão -suspensos havia muito sobre a sua calva heretica.</p> - -<p>D. Antonia estava extasiada, jubilosa como os -gaiatos, que andam apanhando as cannas dos foguetes, -em dias de festividade nacional. Assim ella tambem -corria esfalfada atraz da verbosidade do Jeronymo, -para apanhar de relance um nome, que depois -de ter estalado nos ares, e produzido o seu<span class="pagenum" id="Page_103">[Pg 103]</span> -effeito, caía magestosamente, levantal-o, e perguntar -logo: «Pois o senhor Freitas conhece o duque -de tal?»</p> - -<p>Não posso calcular até que ponto estariam os -meus nervos á prova de semelhante palestra, porque -D. Carolina, que olhara por vezes para mim -sorrindo-se, levantou-se, approximou-se da minha -cadeira, e disse-me:</p> - -<p>—Dá-me licença que dê um giro no jardim, e -quer-me conceder a honra da sua companhia?</p> - -<p>—Com todo o gosto, minha senhora, respondi eu, -erguendo-me logo, e acompanhando-a para fóra da -sala.</p> - -<p>Descemos ao jardim: a noite estava clara e linda -como uma verdadeira noite de primavera; só a brisa, -ainda frigida bastante, lembrava a proximidade -do inverno.</p> - -<p>Carolina passou-me o braço á roda da cintura, -e, dando-me um beijo affectuoso, disse-me, sorrindo:</p> - -<p>—Sabe, minha querida D. Margaridinha, que me -estava mettendo compaixão!</p> - -<p>—Eu! respondi sorrindo-me tambem; porque?</p> - -<p>—Porque vi o tédio que lhe causava aquella -conversação hypocrita e fastidiosa. Pobre creança, -não está ainda habituada á estranha sociedade, no -meio da qual o accaso a collocou. Tudo aqui é frivolo, -minha querida, e tudo toma uma apparencia -grave e pedante, como um alfarrabio theologico; -tudo é immoral; e tudo toma ares austeros. Mascara, -mascara e mascara; nada mais. Se estou bem<span class="pagenum" id="Page_104">[Pg 104]</span> -informada, um dos artigos do regulamento dos bailes -publicos prohibe as mascaras religiosas, mas não -ha lei alguma, que me conste, que as prohiba na sociedade, -onde existem com abundancia, ha-de-se -costumar tambem, minha filha, ha de fazer o que -eu faço, envergar um dominó da confraria, e rir-se -dos outros, por baixo da mascara como elles se riem -de nós.</p> - -<p>—Nunca, respondi eu com impetuosidade; se a -hypocrisia é em todos os casos um vicio odioso, -que proporções não assume quando macula com o -seu bafo pestifero o sentimento mais nobre que -existe no coração do homem, o sentimento da religião!</p> - -<p>—Ai! ai! tornou Carolina desatando a rir, d’onde -trouxe essas idéas, minha querida? de que planeta -desconhecido? de que paraiso terrestre, onde -esteja ainda intacta a arvore do bem e do mal? Innocencia -digna da edade de ouro! Virtude bucolica, -mais propria para habitar na choupana classica de -Philemon e Baucis, do que n’uma quinta dos arredores -de Bellas! Ah! mas diga-me, a D. Antonia -afinal calumniou-a?</p> - -<p>—Não sei o que D. Antonia diria a meu respeito, -respondi eu com certa reserva; mas tenho as minhas -razões para suppôr que não entoou o meu panegyrico.</p> - -<p>—Carolina parou e olhou para mim, franzindo -levemente a sobrancelha.</p> - -<p>—Ah! não quer ter franqueza comigo! Está-se -mostrando estrategica habil! Esconde-me o jogo;<span class="pagenum" id="Page_105">[Pg 105]</span> -pois olhe, para lhe provar que póde depositar plena -confiança em mim, vou pôr as minhas cartas em -cima da mesa; queimo os navios, e veremos depois -se estará disposta a assignar comigo um tratado -de alliança offensiva e defensiva.</p> - -<p>—Oh! minha querida senhora D. Carolina, tornei -eu rindo, estou prompta já a assignal-o, e affianço-lhe -que é injusta, desconfiando da minha franqueza. -Mas o que deseja que eu lhe diga? Nos mais -reconditos refolhos do meu coração não se esconde -um pensamento, que eu não possa confiar-lhe.</p> - -<p>—<i>Le jour n’est pas plus pur que le fond de mon -cœur!</i> tornou Carolina com seriedade comica, já conheço -o estribilho. Como prova das boas relações -em que vamos estar, principiemos largando o tratamento -cerimonioso que temos empregado. Queres, -Margarida?</p> - -<p>—Com todo o gosto, Carolina.</p> - -<p>—Bom! estamos alliadas! E agora diz-me: que -idéa fórmas tu de minha madrinha, e de meu marido?</p> - -<p>—Como quer...</p> - -<p>—Como quer? repetiu ella, ameaçando-me com -um dos dedos levantado.</p> - -<p>—Perdão: como queres que eu tenha uma opinião -formada sobre duas pessoas que vi esta noite -pela primeira vez?</p> - -<p>—Ou estes olhos mysteriosos, de um azul tão -profundo como o do céo em noite de verão, me enganam -muito, ou a esta cabecinha gentil nem tanto -tempo é necessario para avaliar uma pessoa. Eu<span class="pagenum" id="Page_106">[Pg 106]</span> -mesma vou apostar em como já estou julgada e condemnada -talvez no teu tribunal intimo.</p> - -<p>—Fazes demasiada honra á minha intelligencia, -tornei eu rindo, affirmo-te...</p> - -<p>—Nada affirmes; acceitarei as tuas phrases como -versiculos do Evangelho, e passarei desde já a dizer-te, -para poupar trabalho á tua imaginação, qual -é o caracter d’esses dois personagens, com quem -me vejo obrigada a estar sempre em scena n’esta -comedia da vida.</p> - -<p>—Falla!</p> - -<p>Sentámo-nos n’um dos bancos do jardim; Carolina -alisou com a mão os cabellos, que a brisa enredara -um pouco, e, depois de relancear, com certa -ironia, os negros olhos para a janella da sala, em -cujos vidros illuminados se estampava de vez em -quando o vulto quasi dobrado ao meio de Maria do -Rosario, que andava no seu serviço, voltou-se para -mim, e disse:</p> - -<p>—Principiemos por minha madrinha. Aquella senhora -austera, que alli vês, que préga moral rispida, -e que é inflexivel em pontos de pundonor, que, -se vivesse no tempo de Jesus, e fosse discipula -sua, duas vezes, pelo menos, o renegaria, a primeira -quando elle perdoou á mulher adultera, a -segunda quando enxugou com um raio do seu amor -divino as lagrimas de Magdalena, aquella senhora -teve uma juventude tempestuosa. Não julgues por -isso que arredou pé nem uma vez só do caminho -da salvação. Habil como aqueles heroes das lendas -antigas, que aproveitavam os serviços do diabo,<span class="pagenum" id="Page_107">[Pg 107]</span> -e que o logravam depois quando chegava a occasião -do pagamento, fixada no pacto infernal, a -condessa começou desde muito nova a fazer os -mais proveitosos enxertos de ramaria profanissima -na arvore divina. Encerrada no templo, curvando o -joelho ao altar, e transformando em alcova a sachristia, -zombou das tolas que peccavam em plena -rua, e sobre as quaes os seus labios, ainda frementes -de lascivia, arrojavam com impudencia o sacrilego -anathema. Não julgues comtudo que era a -condessa uma excepção no meio da aristocracia feliz, -que pôde receber... nas suas salas a brilhante -juventude monastica. Ai! minha filha, as aventuras -fradescas não são puras invenções dos Rabelais -populares, que nol-as transmittiram. O frade representou -um grande papel na chronica escandalosa -das gerações que nos precederam. O devoto habito -pendurado á porta de um palacio era escudo -contra a maledicencia, e Cupido, como se dizia -n’esse tempo, podia folgar affoitamente resguardado -das vistas curiosas pela cogulla santa. Cythera -chamava-se Thebaida, Paphos era Cartuxo, Gnido -um sagrado mosteiro. Ah! se tu soubesses tudo -quanto me revelou a chronica familiar do palacio, -a tradição oral da creadagem! É divertido e instructivo.</p> - -<p>Carolina calou-se por um instante, e continuou -depois, levantando-se e ficando em pé defronte de -mim:</p> - -<p>—Admiras-te provavelmente, como todas nos admiramos, -da singular seducção que a actriz da voga,<span class="pagenum" id="Page_108">[Pg 108]</span> -que a cantora afamada exercem em muitos homens. -Infelizmente, não temos direito de nos admirar. -O que a actriz e a cantora são para elles, -foram-n’o os moços prégadores de fama para -as senhoras, que julgariam peccado horrendo entrar -no camarote de um theatro. Oh! quereria poder -contar-te o profano ardor com que as devotas -peccadoras corriam a atulhar a egreja do convento -no dia em que subia ao pulpito o Richelieu tonsurado, -o monastico Lauzun d’aquella sociedade licenciosa -e beata, quereria poder narrar-te a mystica -voluptuosidade com que muitos olhos fulgurantes -se fitavam no rosto imberbe do homem de Deus. -Podia citar-te anecdotas, podia apontar-te o nome -do garrido frade de pé pequeno, que, se fosse como -o José da Biblia, teria de fazer uma despeza enorme -em capas; não era. Podia citar-te os caprichos -de alguma senhora, que, rival em extravagancia da -imperatriz Catharina, substituia os granadeiros da -amante de Potemkin, pelos fradalhões mais nojentos -dos innumeraveis conventos de Lisboa. Não cito; -dir-te-hei unicamente que a austera condessa -foi uma das heroinas d’esse poema licencioso; e por -uma estranha aberração dos principios de moralidade -contempla hoje sem remorso o seu passado -viver, e julga-se com pleno direito de fulminar com -o anathema sobre as peccadoras da actualidade.</p> - -<p>Carolina estava n’esse momento realmente bella; -os olhos faiscavam-lhe, palpitavam-lhe convulsos -os labios descorados. Eu mirava-a com espanto.</p> - -<p>—Aqui tens o que é minha madrinha, continuou<span class="pagenum" id="Page_109">[Pg 109]</span> -a minha interlocutora, sem me deixar sequer interrompel-a. -Meu marido avaliaste-o de certo pelo que -lhe ouviste. Homem sem principios nem crenças, -tudo tem sacrificado ás suas conveniencias e á satisfação -da sua balofa vaidade. Fez-se devoto, quando -o meu dote se lhe deparou como facil conquista para -que soubesse conciliar a affeição de minha madrinha, -que era tambem minha tutora desde a morte -de meus paes. Seria sceptico ferino, se a condessa -fosse discipula do senhor de Voltaire. Além d’isso -o seu ridiculo amor-proprio satisfazia-se com a idéa -de ver descerrarem-se-lhe as portas das salas aristocraticas, -onde campeiava essa sociedade que outr’ora -insultara com vehemencia republicana, quando -a julgara tão longe de si e tão alto como as celebradas -uvas estavam na parreira longe da raposa -da fabula. Ahi tens quem é meu marido.</p> - -<p>—Traçaste esses retratos com mão de mestra, -mas suspeito que os fizeste demasiadamente carregados, -accudi eu...</p> - -<p>—Não, tornou ella, encolhendo os hombros, disse-te -a verdade francamente, porque soubeste captivar-me -as sympathias, e desejo ter-te por amiga. -Desejava tambem explicar-te o meu caracter, que -tem duas faces, a que viste na sala, e a que vês -aqui; a complacencia hypocrita, e a revolta aberta. -Aprendi com elles a arte da dissimulação, vi dos -bastidores a comedia que elles representavam, ouvi -de boccas indiscretas os mysterios do camarim emquanto -o publico applaudia e coroava as actrizes e -os actores. Convenci-me de que tudo era hypocrisia;<span class="pagenum" id="Page_110">[Pg 110]</span> -e, passado o primeiro momento de repugnancia, -entendi que devia tambem representar o meu -papel n’essa immensa farça. Gosar foi a minha divisa, -lograr esses logradores encartados o meu programma. -Ahi tens o que eu sou. Vamos agora ao -que importa. Teu marido é um parvo, e tu és uma -linda e intelligente rapariga. Quem é esse Alberto -em quem a D. Antonia falla com tão devota compuncção?</p> - -<p>Olhei para ella com assombro.</p> - -<p>—Pois já a tia de meu marido, accudi eu, teve -tempo de me rodear, de me enlear com as suas calumnias? -Por amor de Deus, senhora D. Carolina, -preste-me justiça maior.</p> - -<p>—É essa a recompensa da minha franqueza, redarguiu -ella, sentando-se ao meu lado; e em vez -de uma alliada tenho em ti uma inimiga? Diriges-me -assim uma indirecta reprehensão?</p> - -<p>—Deus me defenda, tornei eu um tanto constrangida, -como hei de arvorar-me em juiz das acções -dos outros? O teu procedimento foi-te dictado por -motivos que eu não tenho... desculpas que eu... -não poderia allegar...</p> - -<p>—Não te embaraces mais, tornou ella com certo -azedume, só te digo que fazes mal em ir por esse -caminho. És inexperiente, e precisas de quem te -guie na escabrosa estrada da tua rebellião.</p> - -<p>—Mas se eu não tento revoltar-me!</p> - -<p>—Queres persuadir-me que amas teu marido?</p> - -<p>Não respondi.</p> - -<p>—E, não o amando, affirmas que não teem o minimo<span class="pagenum" id="Page_111">[Pg 111]</span> -fundamento as bisbilhotices d’essa tola da D. -Antonia?</p> - -<p>—Juro-o; acudi eu, levantando-me de um impeto; -ainda que o amor não exista na minha ligação -com um homem bom e honrado, basta o sentimento -do dever para me impedir de deshonrar o -nome, que voluntaria ainda que irreflectidamente -acceitei. Póde acredital-o.</p> - -<p>—Agradeço a lição, tornou Carolina com amarga -ironia, e não quero ficar-lh’a devendo; dar-lhe-hei -outra. Saiba pois, pomba innocente que se julga tão -forte, que ha de chegar um momento, em que, perseguida -pela calumnia incessante, abandonada por -um esposo indifferente ou cego, sentindo referver-lhe -nas veias o sangue da mocidade, inebriada pelas -tentações que a hão de rodear, se despenhe e -macule as azas brancas n’esse tremedal que despreza. -Então ha de lastimar amargamente o ter -repellido a alliança que lhe offereço. Voltemos para -a sala.</p> - -<p>—Sinto, senhora D. Carolina, tornei eu gravemente, -haver-lhe desagradado. Mas acredite que, -se a fatalidade me levar a esse aviltamento, não -sentirei senão o remorso de ter praticado uma acção -indigna.</p> - -<p>—Veremos, respondeu ella erguendo-se.</p> - -<p>Voltámos para a sala, e pouco depois todas as -visitas se retiraram.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_112">[Pg 112]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="XII">XII</h2> -</div> - - -<p>Succederam-se com regularidade estes serões do -voltarete. Fomos procuradas pelas notabilidades dos -arredores, recebemos e pagamos visitas, mas o congresso -da primeira noite foi que se estabeleceu na -nossa sala de um modo definitivo.</p> - -<p>De todas essas pessoas a que me inspirava sympathia -verdadeira era o Theodoro Leite, o despresado, -o tolerado apenas. Gostava de contemplar -aquella meiga physionomia de velho timida como a -de uma creança. Sentada com o meu bordado, -olhava de relance para elle, e via-o muitas vezes -distraido das preoccupações banaes do jogo, com -os olhos como que fitos n’um mundo para nós invisivel. -Se uma imprecação do padre prior o avisava -de que havia commettido alguma falta ao voltarete, -Theodoro estremecia, e o seu rosto de novo tomava -a expressão de timida deferencia, que habitualmente -o caracterisava. Mas na sua triste fronte via eu distinctamente -o reflexo dos orbes luminosos, em cuja -contemplação se embevecera.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_113">[Pg 113]</span></p> - -<p>A sua vida era um poema de sacrificios e de infortunios. -Entrara na sociedade com uma instrucção -litteraria desenvolvidissima, e por conseguinte inutil -em Portugal... e em toda a parte, parece-me. Quizera -continuar a estudar, haviam-lhe faltado os meios; -quizera ensinar o que já sabia, e por essa forma -grangear alguns recursos, vira-se repellido de toda -a parte, porque o seu caracter recto e firme não lhe -permittia que falsificasse a historia, e que deixasse -de estampar na fronte da facção clerical o estygma -que ella merece. Por amor da verdade, e não por -paixão partidaria, quiz luctar com a serpente, cujas -roscas geladas tentam de novo cingir e abafar o mundo, -e a serpente ergueu-se contra elle e suffocou-o. -Vencido e exhausto, já de cabellos brancos, tomou -o seu bordão de peregrino, e voltou para Bellas, -sua terra natal, d’onde partira, rico de esperanças, -de mocidade e de enthusiasmo; onde entrava opulento -de cãs, de desgostos e de fadigas... pobre de -tudo o mais.</p> - -<p>Na casa paterna encontrou sua velha irmã entrevada, -que lhe pedia pão. O austero apostolo da -verdade, que sacrificara futuro, tranquillidade e o -pão da sua velhice ao seu nobre orgulho, sacrificou -isso mesmo, que era só o que lhe restava, ao bem -estar de sua irmã.—Elle, o firme combatente, o -luctador incançavel, foi ajoelhar humilde perante -os implacaveis adversarios. A condessa e outras senhoras -do sitio eram protectoras de uma escola de -creanças pobres, fundada na aldeia de ***; Theodoro -Leite foi pedir o logar de professor. A condessa divertiu-se<span class="pagenum" id="Page_114">[Pg 114]</span> -em lhe fazer sentir bem a humilhação, a -que a desgraça o obrigara; e afinal, movida pela -<i>caridade christã</i>, concedeu-lhe o que elle pedia. A -verdade era que estavam em grandes embaraços, -porque não encontravam um unico professor capaz, -que se quizesse sujeitar a receber o ordenado fabulosamente -exiguo, que a sua economica beneficencia -se prestava generosamente a conceder.</p> - -<p>Theodoro Leite sympathisara comigo, e comigo -só fallava desafogadamente. Nas rapidas palestras, -que tinhamos tido, pude reconhecer a sua vasta erudição, -e a bondade quasi angelica do seu caracter.</p> - -<p>Estavamos uma noite reunidos, segundo o costume: -Theodoro, a baroneza, e o prior no seu eterno -voltarete, eu e os outros junto do canapé. A palestra -versara sobre os infortunios do papa. Subito a -condessa tira da algibeira um papel, e diz:</p> - -<p>—Lembrou-me abrir aqui uma subscripção para -o dinheiro de S. Pedro. Estou que ninguem recusará -tomar parte n’uma obra tão meritoria. Reservei -para a senhora D. Margarida a honra de abrir -a lista dos subscriptores.</p> - -<p>Todos os olhos se voltaram para mim, com curiosidade. -Theodoro Leite desviou a attenção do -jogo, e mirou-me anciosamente.</p> - -<p>Foi no meio de um profundo silencio que eu respondi:</p> - -<p>—Aprecio infinitamente a honra que v. ex.ª me -faz; é mais uma prova da sua benevolencia e da sua -amizade. Comtudo permitta-me a senhora condessa -que lhe faça algumas observações. Se eu fosse nimiamente<span class="pagenum" id="Page_115">[Pg 115]</span> -rica, não teria duvida em dar ao Summo Pontifice -essa prova do meu respeito; mas, não tendo -riqueza tanta que me permitta esbanjar assim os -meus rendimentos, prefiro poisar na mão do pobre -a esmola destinada ao erario pontifical. Estou que -será por essa forma duplamente agradavel a Deus e -ao vigario de Christo. Esse pouco de oiro, que se -sumiria, parcella minima, no golphão do luxuoso -Vaticano, pode só por si fazer brotar a alegria na -misera choupana. Portanto, se v. ex.ª m’o permitte, -darei a minha quota aos pobres; bem sabe que é -o mesmo que emprestal-a a Deus.</p> - -<p>—Muito bem, muito bem! exclamou Theodoro -Leite irreflectidamente.</p> - -<p>O pobre homem, deixando-se levar do primeiro -impeto, de tudo se esquecera; mas logo caiu em -si, e fez-se pallido como um defuncto.</p> - -<p>A condessa aproveitou o ensejo para desabafar, e -fulminou Theodoro com o peso da sua indignação.</p> - -<p>—Muito bem, o que? exclamou ella. A senhora -D. Margarida, tendo aquellas idéas, só prejudica a -salvação da sua alma, porém o senhor Theodoro é -responsavel para comigo das almas dos meus orphãosinhos. -Como quer que eu conserve na minha -escola um homem que tão abertamente professa -doutrinas impias e sacrilegas?</p> - -<p>Eu voltara ao meu bordado, e olhava ás furtadellas -para o pobre Theodoro que por minha causa -padecia.</p> - -<p>A desgraça abatera completamente a alma varonil. -Creio que de relance viu a imagem de sua pobre<span class="pagenum" id="Page_116">[Pg 116]</span> -irmã supplicando-lhe que a não abandonasse, -e as gottas de um suor de agonia aljofraram-lhe a -fronte. Então respondeu n’um tom aflicto, que me -faria rir immenso, se aquelle mesmo ridiculo não -fosse tanto para commover.</p> - -<p>—Mas, minha senhora... eu não applaudo as -idéas... foi apenas a... a... a disposição grammatical -do discurso da senhora D. Margarida. Perfeitamente -bem construido... a regencia irreprehensivel... -a syntaxe...</p> - -<p>—A syntaxe o que? interrompeu a condessa lentamente, -esmagando-o com o seu olhar ferino.</p> - -<p>O pobre Theodoro estava cada vez mais pallido; -era o naufrago, que vê fugir-lhe das mãos a -derradeira taboa, e que ouve o rugido feroz das ondas, -parecendo motejar do seu infortunio.</p> - -<p>—Dizia eu, minha senhora, que o estylo era muito -acceitavel: mas... (e Theodoro lançou-me um olhar -em que implorava a minha indulgencia), mas só o -estylo; as idéas regeito-as.</p> - -<p>—Ah! o estylo! continuava a condessa, implacavel.</p> - -<p>Eu sentia o rubor da indignação na fronte. Era -infame aquelle zombetear, aquelle brincar do tigre -com a victima.</p> - -<p>A condessa curvou-se então para o lado de Theodoro, -e disse-lhe algumas palavras em voz baixa. -Suspeito que o demittira do seu logar de professor, -porque vi duas lagrimas brilharem nos olhos -melancholicos do pobre velho.</p> - -<p>O que veria elle n’esse tremendo lance? Que<span class="pagenum" id="Page_117">[Pg 117]</span> -sinistras visões lhe povoariam a mente? O edificio -da sua velhice, a tanto custo construido, e derrubado -n’um instante, o pão de sua irmã com tantas -lagrimas amassado, faltando-lhe de subito! O velho -pendeu a cabeça, relanceou um triste olhar para -todos os lados, e suspirou. Comtudo ainda não havia -terminado a tortura; não estava acabada a partida, -e interrompel-a seria conciliar para sempre a -adimadversão de todos. Theodoro resignou-se, sentou-se -outra vez na cadeira, d’onde se levantara, e -continuou a jogar.</p> - -<p>«Outro martyrio, disse eu comigo, que não tem -o prestigio da poesia, e que ninguem se lembraria -de lastimar.»</p> - -<p>Comtudo reinava um certo constrangimento na -sala, e tornava-se impossivel prolongar muito o serão. -Antes que saissem as visitas, entendi que -devia, ainda que não fosse senão por descargo de -consciencia, tentar alguma coisa a favor de Theodoro -Leite. Baldada tentativa! A condessa respondeu-me -com hypocrita doçura, mas com inabalavel -firmeza. Tambem a advogada era mal escolhida. -A devota senhora, que já pouco sympatisava comigo, -ficou sendo desde essa noite minha inimiga declarada. -Declarava-se o <i>triumfeminato</i> adverso: a -condessa, D. Antonia, D. Carolina.</p> - -<p>Ao despedirem-se, vi Theodoro Leite principiar -a fazer manobras, cujo fim não podia adivinhar, -approximava-se lentamente da janella, mirava a -a paisagem nocturna, depois encaminhava-se para -a mesa, junto da qual eu estava.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_118">[Pg 118]</span></p> - -<p>Afinal, quando viu todos distraidos, travou-me -subito da mão, e apertou-m’a com viveza e enthusiasmo.</p> - -<p>E, dada esta prova de coragem, saiu quasi a -correr.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_119">[Pg 119]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="XIII">XIII</h2> -</div> - - -<p>No dia seguinte, ás tres horas da tarde, saía eu -sósinha, e punha-me a caminho da casa de Theodoro -Leite.</p> - -<p>A Annica dera-me as explicações topographicas -mais minuciosas para que me não perdesse. Mas a -Annica não contara com as distracções da minha -phantasia, não pensara na influencia d’uma formosa -tarde de primavera, nas tentações de respirar em -liberdade esse ar dos campos, tão puro, tão são, -tão fragrante!</p> - -<p>Sentir-me só, livre de todo o constrangimento, de -todas as perseguições, só com a natureza e com -Deus, engolphar-me de novo em pleno ambiente de -poesia, depois de me ter encravado até aos joelhos -na lama vil da mais repugnante prosa, tudo isso me -enlevava tanto, me rejubilava por tal forma, que -me parecia renascer para a vida, como eu quizera, -como eu comprehendera, para a vida do sonho, para -a vida do ideal.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_120">[Pg 120]</span></p> - -<p>Sósinha! Como eu trepava ao cimo da mais pequena -elevação de terreno para descobrir mais largo -horisonte, como eu ficava embebida em jubilo -infantil, a contemplar os malmequeres, sobre os -quaes a brisa fluctuava de manso, acamando-os levemente, -como se milhões de invisiveis borboletas -poisassem de subito na graciosa cabecinha da flor -campestre! Tanto me enlevei, tanto me extasiei, -tanto me deliciei que afinal perdi-me. Já cançada e -offegante, via o sol pender cada vez mais para o -horisonte, e não sabia ainda o caminho que havia -de tomar. Valeu-me um saloio venerando, que encontrei, -e que me foi conduzir até á porta de Theodoro -Leite, acceitando, apesar da sua physionomia -patriarchal, com mostras de muito jubilo, a remuneração -em dinheiro que lhe offereci.</p> - -<p>A casa do mestre de meninos era modesta, mas -aceiada. A sua fachada branca atapetava-se graciosamente -com plantas trepadeiras, que lhe emolduravam -as janellas, em cujos vidros scintillavam os -raios do sol poente. Respirava toda ella pobresa, -mas serenidade.</p> - -<p>Bati á porta. Appareceu-me logo Theodoro com -um livro na mão. Soltou uma exclamação de jubilo -assim que me viu.</p> - -<p>—Foi a minha casa eleita pelo Senhor? Visitam-me -os anjos, como visitaram outr’ora os patriarchas -hebreus? Bemvinda seja a esta choupana, minha filha! -Entre e illumine com o seu meigo sorriso as -trevas precursoras de sepulchro em que estes dois -velhos vivem.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_121">[Pg 121]</span></p> - -<p>—Que de galanteios, senhor Theodoro! disse eu, -entrando alegremente. Velho que sabe dizer tantas -finezas é mais perigoso que um rapaz.</p> - -<p>—<i>O gioventú, primavera della vita!</i> tornou elle, -mirando-me com terno sorriso. Doce estação da -existencia, cujo reflexo até o inverno aclara. Aqui -tens, Josephina, o anjo em que tantas vezes te fallei, -continuou voltando-se para sua irmã, palida creatura -que jazia n’uma pobre cama.</p> - -<p>Approximei-me d’ella com o respeito, que o infortunio -inspira. Josephina poisou-me na cabeça a -mão quasi transparente, murmurando:</p> - -<p>—Pobre creança! Deus te fade bem, e mude -os abrolhos da estrada que trilhas em flores -suavissimas, o leito de espinhos em leito de rosas, -as agruras do caminho em aveludado tapete.</p> - -<p>Curvei-me respeitosamente, recebendo esta benção -maternal.</p> - -<p>—Sabes, Josephina, acudiu Theodoro, que difficil -seria encontrar um quadro mais delicioso do que -esse que estão agora ambas formando? Os teus -cabellos brancos de neve confundem-se com as -tranças levemente aloiradas de D. Margarida. Aqui, -do sitio onde estou, vejo desenhar-se em graciosa -curva o corpo esbelto, ou antes a haste gentil d’esse -lyrio, que se debruça para o teu leito a perfumal-o -de fragrancias, a perfumar-te de juventude. -Ha um raio do sol poente, que entra pela janella, -e vae semear de palhetas d’oiro os cabellos d’essa -formosa menina, e a ti purpureia-te levemente a -fronte de marfim. Onde ha espectaculo que se possa<span class="pagenum" id="Page_122">[Pg 122]</span> -comparar a este que disfructo agora? Duas vidas -que se entrelaçam, uma tão pura no seu occaso -como a outra na sua aurora, duas auréolas, cujos -raios de luz se confundem, auréolas que não sei -dizer qual seja a mais explendente, se a que se fórma -de infortunio, se a que se compõe de innocencia!</p> - -<p>—Poeta! poeta! disse Josephina, e continuou, -voltando-se para mim; foi sempre o defeito d’este -meu irmão; não sei se elle perpetrou alguns versos...</p> - -<p>—Nunca, Josephina; rima nenhuma tenho a pezar-me -na consciencia.</p> - -<p>—É o mesmo, ou antes é peior. Não desabafa -em rimas, entretem-se em devaneios, é o que lhe -tem feito mal. Era melhor que tu te lembrasses de -offerecer alguma coisa de comer a esta menina, cujo -appetite havia de ter sido despertado pela caminhada.</p> - -<p>—Queres que lhe offereça os alimentos frugaes -da nossa Thebaida? Pão secco...</p> - -<p>—E laranjas, desmemoriado. Pois já te esqueceste -das que te trouxe o pae d’um dos teus discipulos?</p> - -<p>—Não, não, acudi eu apressadamente, não tenho -vontade.</p> - -<p>As minhas recusas de nada valeram. D’ahi a pouco -apparecia Theodoro com um açafate de laranjas -magnificas.</p> - -<p>—Madame de Maintenon, disse elle, quando não -tinha assado para dar aos hospedes do seu primeiro<span class="pagenum" id="Page_123">[Pg 123]</span> -marido, Scarron, contava-lhes uma historia. Aqui, -senhora D. Margarida, tem de passar sem assado -e sem historia.</p> - -<p>—Dispenso o primeiro, tornei eu, mas não dispenso -a segunda. A sua vida passada não contará -muitos factos d’util lição para quem entra, como -eu entro, na estrada da existencia? A sua vida presente -não está cheia tambem de modesto mas proveitoso -ensinamento?</p> - -<p>Theodoro abanou a cabeça com melancholia.</p> - -<p>—O meu passado, filha, é um passado tristemente -banal. Ferventes illusões, desenganos profundos, -n’isso apenas se cifra. Julguei que o meu -paiz caminhava com o resto da humanidade, e que -podia tambem eu accender o meu facho modesto -para o ajudar a dissipar as sombras. Enganei-me. -Eram as trevas as vencedoras. Encaneceram-me os -cabellos n’essa lucta ingloria. Tarde, bem tarde, -percebi que, se o meu paiz regeitava o meu auxilio, -reclamava-o a minha familia. Voltei para o lar, -como o filho prodigo. Cumpro agora os meus deveres -como posso, e infelizmente posso pouco. A -minha vida presente, senhora D. Margarida, tem o -seu lado luminoso e o seu lado sombrio. Quando, -ao pé do leito de minha irmã, contemplo o sol que -illumina além o horisonte com as derradeiras chammas, -quando vejo n’este vasto sanctuario da natureza -espelhar-se a idéa de Deus, tão clara e tão harmoniosa -como a vejo obscura e contradictoria na -egreja profanada pelos que se dizem seus sacerdotes, -então sinto-me feliz, e agradeço á Providencia<span class="pagenum" id="Page_124">[Pg 124]</span> -estes breves instantes de suave repouso que me -concede antes de me abrir as portas do tumulo. Outras -vezes, quando vejo minha pobre irmã soffrer, -sem eu lhe poder dar o conforto que o seu estado -reclama, sinto as ondas da amargura invadirem-me -o coração. Sinto o remorso pungir-me...</p> - -<p>—Theodoro! exclamou a irmã.</p> - -<p>—Sim, Josephina, o remorso, porque foi o demonio -da ambição quem me arrastou para longe -da familia. Cubiçei o papel de missionario da idéa, -quando me devia restringir ao dever mil vezes mais -santo de consolador, de esteio dos que Deus confiou -á minha protecção immediata. Pela <i>humanidade</i> -trabalham muitos, querem todos pôr a mão n’esse -trabalho glorioso, e esquecem o <i>homem</i>, o homem -com os seus affectos, com os seus deveres modestos, -mas augustos, deveres que se resumem no -acanhado circulo da familia. Acanhado, acanhado -como é acanhada a cellula da abelha, mas a cellula -á cellula se liga, e o seu conjuncto fórma a colmeia. -O conjuncto das familias, devemos pensal-o, é a humanidade.</p> - -<p>Eu ouvia-o com respeito, e contemplava enternecida -aquella fronte limpida, onde se revia tão doce -serenidade, aquelle homem apodado de impio, que -professava tão nobres principios, emquanto os que -se presavam de religiosos tinham apenas (e demais -a mais só em palavras) uma desamoravel e falsa -moralidade.</p> - -<p>Já vinha caindo a noite, e era tempo de me retirar. -Eu fabricara em casa uma historia muito complicada,<span class="pagenum" id="Page_125">[Pg 125]</span> -que me authorisasse a soccorrer aquella -infeliz familia, que ficara ao desamparo por minha -causa. Mas o nobre vulto de Theodoro por tal fórma -me enliara, que não pude conseguir dizer duas -palavras com algum nexo. Lembra-me que se tratava -d’um parente meu, que desejava editar traducções -do latim, e um mistiforio tal, que logo estaquei, -fazendo-me muito córada, e só pude dizer, -pondo as mãos em attitude de supplica:</p> - -<p>—Por quem é, senhor Theodoro Leite, consinta -que eu tome parte no tratamento de sua irmã.</p> - -<p>Theodoro Leite ouvira a minha historia com um -benevolo sorriso; mas afinal duas lagrimas lhe marejaram -nos olhos, e travando-me das mãos, e beijando -m’as, disse:</p> - -<p>—Consinto, sim, filha. Acceito sem vergonha a -esmola, que as suas mãos santificaram. Quem não -acceitaria o orvalho celeste, que as brancas azas -d’um anjo lhe chovessem sobre a fronte! Que orgulho -tão mal entendido seria o meu! Deus lhe pague, -filha, esse oiro bemdito, em rosas no Empyreo, -e em venturas na terra.</p> - -<p>E as duas lagrimas, que lhe humedeciam os olhos, -deslisaram-lhe lentamente pelas faces venerandas.</p> - -<p>A custo me despedi da pobre entrevadinha. Sentia-me -tão bem n’aquella humilde casa!</p> - -<p>Theodoro quiz por força acompanhar-me. O sol -desapparecera já no horisonte; as roxas côres do -crepusculo iam-se destingindo a pouco e pouco, e -o azul longinquo das montanhas ia-se esfumando -cada vez mais. Augmentava o fulgor das estrellas,<span class="pagenum" id="Page_126">[Pg 126]</span> -e a lua, ainda desmaiada, apparecia no Oriente.</p> - -<p>Puzemo-nos a caminho. Eu dei-lhe o braço, e fomos -conversando e rindo, calando-nos a espaços -para escutarmos o ultimo echo dos ruidos expirantes -do dia e os primeiros murmurios nocturnos. -Separarámo-nos no principio da lameda, que ia -ter a minha casa.</p> - -<p>Entrei jubilosa e satisfeita. Estava já n’essa noite -a reunião completa, e logo todos repararam na expressão -da minha physionomia.</p> - -<p>—Sabe o que diz o vulgo n’estes casos, minha -querida senhora D. Margarida? acudiu maliciosamente -Carolina, diz assim: «Viu passarinho novo!»</p> - -<p>—Pois olhe, tornei eu rindo, venho de uma gaiola -onde não ha senão passaros velhos. Venho de casa -de Theodoro Leite. Vi a irmã; pobre entrevadinha. -A senhora condessa por força ha de ter soccorrido -aquelle infortunio, continuei eu maliciosamente.</p> - -<p>—Minha filha, respondeu a condessa, não me -quero oppôr aos juizos de Deus. A minha caridade -estende-se a todos os christãos; mas animar os impios -não entra nos meus principios.</p> - -<p>—Se Jesus aqui estivesse, minha senhora, acudi -eu sorrindo-me, parece-me que teria ensejo para -repetir a parabola do Samaritano.</p> - -<p>—Está muito forte em theologia, tornou a condessa.</p> - -<p>—Não, minha senhora, não sou theologa; mas -gosto de ler o Evangelho.</p> - -<p>—Longe de mim a idéa, redarguiu a devota fidalga,<span class="pagenum" id="Page_127">[Pg 127]</span> -de contestar o merecimento dos livros sagrados; -mas deixe-me avisal-a que não é bom lel-os e -commental-os sem ter um guia espiritual. Sabe a -que isso nos conduz? Ao protestantismo.</p> - -<p>—Quem diz a vossa excellencia, interrompeu Carolina, -que a senhora D. Margarida não tenha um -guia espiritual? As suas excursões por estes campos, -tão, desprovidos de attractivos, não podem ter -outro fim senão o de procurar um... confessor.</p> - -<p>—Eu bem lhe disse, acudiu D. Antonia com azedume, -que não era bonito andar sósinha. Podia -isso dar logar a mil interpretações, falsas decerto, -mas que não deixariam de lhe ser desfavoraveis. -Não me quiz ouvir.</p> - -<p>—Infelizmente, D. Antonia, exclamou a condessa, -é esse o grande defeito da mocidade contemporanea. -Independencia individual, eis o seu <i>desideratum</i>. Liberdade -de pensamento... para o mal, e liberdade -de acção, que tambem no mal vae parar. Lerem sós -e andarem sós. Pois olhe, D. Antonia, quando uma -menina lê algum livro muito recatada, e sem querer -que lh’o expliquem, póde contar que ao seu lado -se debruça sobre a pagina a cabeça de Satanaz, e -quando quer andar só, não será Lucifer o companheiro, -mas olhe que vem a dar na mesma.</p> - -<p>Ia eu a responder indignada a estas malevolas insinuações, -porque decididamente não me fadara -Deus para este genero de luctas, onde perdia logo -o sangue frio, quando sentimos na estrada o tropear -de um cavallo, depois passos de homem na escada; -e afinal abriu-se a porta, e appareceu no humbral<span class="pagenum" id="Page_128">[Pg 128]</span> -um sujeito moço, de figura esbelta, e amavel -physionomia.</p> - -<p>Soltei um grito ao vel-o, e D. Antonia levantou-se -com um risinho de escarneo.</p> - -<p>Esse homem, que surgira á porta, era Alberto -Mascarenhas.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_129">[Pg 129]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="XIV">XIV</h2> -</div> - - -<p>Alberto ficou um pouco enleado, ao reparar na -impressão que produzira, mas logo recuperou o seu -habitual desembaraço, e depois de cumprimentar -todas as pessoas presentes, dirigiu-se para mim e -para D. Antonia, dizendo:</p> - -<p>—Desculpem, minhas senhoras, se venho por -esta forma surprehendel-as. Imaginem vossas excellencias -que me vejo obrigado a estabelecer-me -em Bellas por causa dos negocios de um tio meu, -que, sob pretexto de que hei de ser o seu herdeiro, -houve por bem, emquanto não me lega os seus haveres, -fazer de mim uma especie de intendente -d’elles. Meu tio, segundo vêem, é um profundo philosopho, -tem feito estudos comparativos sobre a -probidade dos intendentes considerada debaixo do -ponto de vista da natureza humana, e concluiu que -o melhor gerente de quaesquer bens é aquelle que -os deve herdar. Debalde protestei contra a theoria; -fui obrigado a vir até Bellas, onde tenho passado já -uns tres dias divertidissimos, enterrado até ás orelhas<span class="pagenum" id="Page_130">[Pg 130]</span> -em massos de titulos pulverulentos, e embaraçado -por todos os Talleyrands saloios, que a natureza -espalhou com mão prodiga por este sitio. -Mas de repente lembrou-me que me dissera Claudio -que tencionava passar a primavera e o verão -n’esta sua casa de campo, e resolvi vir ter com -elle. Chego, dizem-me que ainda está em Lisboa, -mas que vossas excellencias estão cá; subo e tenho -a honra de lhes apresentar os meus respeitos.</p> - -<p>—É sempre bem vindo, senhor Alberto Mascarenhas, -observou D. Antonia.</p> - -<p>Ao ouvirem este nome, Carolina sorriu-se com ar -malicioso, Jeronimo fez um commentario em voz -baixa ao ouvido da condessa, e esta franziu o sobr’olho.</p> - -<p>—Nós quasi que o esperavamos, continuou D. -Antonia.</p> - -<p>—A mim? perguntou Alberto. Isso é caso de -revelação sobrenatural; porque eu posso-lhe jurar -que ha tres horas não pensava ainda em vir aqui.</p> - -<p>—São presentimentos, acudiu ironicamente a tia -de meu marido.</p> - -<p>—Extremamente lisongeiros para este seu adorador, -tornou Alberto rindo; poderei por acaso alimentar -esperanças?</p> - -<p>—Póde... pois não, continuou ella trocando uma -vista d’olhos com as suas devotas companheiras, -póde tel-as e muito bem fundadas.</p> - -<p>Alberto ficou um pouco enleado, reparando n’estes -mysterios da conversação. Eu já os percebia, -por isso procurei mudar logo de palestra.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_131">[Pg 131]</span></p> - -<p>—Então aborreceu-se muito na Ericeira? perguntei.</p> - -<p>—Não minha senhora, respondeu Alberto com -a facilidade que o seu espirito privilegiado tinha em -seguir todas as direcções da conversação. Eu sou -d’aquelles que consagram ao oceano um amor desinteressado. -Ha immensa gente que diz: «Gosto -do mar, mas do mar em tempo de banhos» assim -como dizem tambem: «Gosto de Cintra, mas de -Cintra na estação em que a sociedade elegante procura -as suas frescas sombras e os seus ridentes panoramas.» -Eu não; gosto do mar e gosto de Cintra -sem segunda intenção; do mar no inverno, e de -Cintra na primavera, do mar sem barracas na praia, -de Cintra com Seteais deserto. Já vê por conseguinte -vossa excellencia que tive este anno o supremo -goso, que podem ter todos os namorados, o de -estarem sós com o objecto da sua affeição. Eu e as -vagas conversámos sem testemunhas, ellas contaram-me -historias tão maravilhosas, eu confiei-lhe -poemas admiraveis, e tanto mais admiraveis quanto -eram ineditos, e tanto mais ineditos quanto nem -chegavam a formular-se em palavras. Quando vier -o tempo do amor official pelas praias ouvirá o pobre -oceano tantas apostrophes de poetas, que não tive -animo de o torturar antecipadamente; pois ainda assim, -entendemo-nos e separámo-nos saudosos um -do outro.</p> - -<p>Eu estava prestando attenção ao frivolo palrar de -Alberto, sem por isso deixar de ouvir a palestra em -voz baixa, que se travara entre as pessoas presentes.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_132">[Pg 132]</span></p> - -<p>—É uma entrevista em fórma, dizia a condessa.</p> - -<p>—E que cynismo! accrescentava Jeronymo.</p> - -<p>—Que falta de habilidade! murmurava Carolina.</p> - -<p>—Que escandalo! rematava D. Antonia.</p> - -<p>O padre prior tomava pitadas.</p> - -<p>—Desculpe-me, D. Antonia, tornava a condessa, -mas não posso continuar a ser testemunha de uma -scena d’estas.</p> - -<p>—Tem razão, senhora condessa, dizia a minha -inimiga intima, não imagina como estou afflicta. Não -tenho remedio senão avisar meu sobrinho.</p> - -<p>Todos se levantaram.</p> - -<p>—Vou-me retirando, disse a condessa em voz alta.</p> - -<p>—Nós tambem, continuou Jeronymo. Não achas, -Carolina?</p> - -<p>—Sem duvida, redarguiu esta.</p> - -<p>—Está tão bonita a noite, continuou D. Antonia -fitando os olhos em mim e em Alberto, e accentuando -muito cada palavra, que me resolvo a acompanhal-as -um pedaço.</p> - -<p>Era o mesmo que despedir Alberto. Percebi a intenção, -e fiz-me vermelha de colera. Alberto levantou-se -e foi para pegar no chapeu.</p> - -<p>A condessa e Jeronymo cumprimentaram-me friamente. -Eu sentia referver-me no peito a indignação, -que ia lavrando pouco a pouco, e estava quasi -chegando ao seu paroxismo. Carolina veio beijar-me -e disse-me ao ouvido:</p> - -<p>—Tens bom gosto, mas sempre são ambos uns -tontinhos!</p> - -<p>Alberto ia a dirigir-se a mim para me cumprimentar;<span class="pagenum" id="Page_133">[Pg 133]</span> -mas eu, sem ter já bem a consciencia do -que fazia e cedendo só ao irresistivel desejo de reagir -contra essa authoridade, que todos se arrogavam -em minha casa, e na minha presença, exclamei:</p> - -<p>—Perdão, senhor Alberto Mascarenhas, rogo-lhe -que fique!</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_134">[Pg 134]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="XV">XV</h2> -</div> - - -<p>Todos olharam para mim com espanto, e Alberto -principalmente com assombro. Comtudo inclinou-se -sem responder, e foi pôr o chapeu no sitio d’onde -o tirara.</p> - -<p>A condessa encolheu os hombros com despreso, -Carolina riu-se, D. Antonia lançou-me um olhar indignado, -e o padre prior tomou uma pitada. Depois -sairam todos.</p> - -<p>Ficamos sós, eu e Alberto.</p> - -<p>Fui á janella e abri-a. Estava uma noite linda, a -lua campeava serena e placida n’um céo d’um azul -purissimo, onde se espraiava sem obstaculo a candida -luz, que lhe fluctuava em torno, como véo de -noiva. A brisa suspirava brandamente na ramaria -das arvores.</p> - -<p>Vi sairem as nossas visitas, D. Antonia, e o creado -que a devia acompanhar na volta. Nem ergueram -os olhos para a janella, onde eu estava. Afastaram-se -vagarosamente, conversando e rindo. A pouco e<span class="pagenum" id="Page_135">[Pg 135]</span> -pouco foi esmorecendo ao longe o echo dos seus -passos e das suas vozes, afinal esvaiu-se de todo, -e outra vez reinou em torno de mim essa placidez -fremente, se assim me posso exprimir, das lindas -noites de primavera, noites em cujo magico silencio -palpitam os canticos mysteriosos das fadas, o leve -ruido da flôr que desabrocha, o murmurio da seiva, -que circula no coração da arvore.</p> - -<p>Eu sentia o passear agitado de Alberto na sala. -A nossa posição era tão embaraçosa, que nenhum -de nós se atrevia a romper o silencio.</p> - -<p>Emfim Alberto parou, e disse-me, tocando-me no -hombro, e fazendo assim com que eu me voltasse -para elle:</p> - -<p>—O que se passa aqui?</p> - -<p>—Nada, meu bom amigo, respondi sorrindo-me; -ou antes, passa-se uma lucta mesquinha, cujas peripecias -lhe causariam tedio.</p> - -<p>—Em que o meu nome entra d’algum modo?</p> - -<p>—Não, respondi hesitando.</p> - -<p>Pois que lhe havia de dizer? Havia de lhe narrar -as absurdas insinuações de D. Antonia?</p> - -<p>Alberto fitou os seus olhos nos meus, depois -abanou a cabeça com ar de duvida.</p> - -<p>Eu larguei a janella, e fui-me sentar ao meu piano, -que me chegara de Lisboa n’esse mesmo dia.</p> - -<p>Abri-o, e deixei correr vagamente os dedos pelo -teclado. Alberto foi-se encostar ao peitoril da janella. -O seu nobre e pallido perfil, banhado pelos -raios da lua, tomava não sei que vaga expressão -austera e melancholica.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_136">[Pg 136]</span></p> - -<p>A doce influencia da musica banira do meu espirito -as impressões desagradaveis, que a scena antecedente -me deixara. As azas brancas da melodia -arrastavam-me suavemente para os campos ethereos -do ideal.</p> - -<p>Pouco a pouco as notas que eu fazia brotar ao -acaso do teclado foram tomando uma fórma determinada, -e, quasi sem eu ter consciencia d’isso, os -meus dedos despertaram no seu leito de marfim a -serenata do <i>Marino Faliero</i>.</p> - -<p>Estremeci ouvindo o seu canto, ou antes o seu -murmurio erguer-se timidamente, e embalar-se na -sua cadencia com tanta brandura, como as aguas -do Adriatico podem embalar no seu dorso uma -gondola veneziana.</p> - -<p>Cedi ao encanto, e o meu pensamento, que fluctuava -incerto, entregou-se ás voluptuosas caricias -d’essa languida melodia.</p> - -<p>Depois a musica expirou como havia começado: -sem motivo, sem razão, <i>comme un oiseau se pose</i>, -diz Victor Hugo.</p> - -<p>Alberto ouvira a serenata com a cabeça firmada -n’uma das mãos. Quando a ultima nota se esvaiu -no espaço, ergueu a fronte, e dirigiu-se para mim. -Lampejava-lhe nos olhos um fulgor estranho.</p> - -<p>—Minha senhora, disse-me elle encostando-se ao -piano, sabe quem foi o objecto do meu primeiro -amor?</p> - -<p>—Não, redargui espantada da pergunta.</p> - -<p>—Foi vossa excellencia.</p> - -<p>—Eu! tornei estupefacta e levantando-me.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_137">[Pg 137]</span></p> - -<p>—Socegue, minha senhora, vossa excellencia tem-me -honrado com a sua estima, e sabe que nem por -sombras sou capaz de a offender. Mas vejo, presinto -que se está elaborando n’esta casa alguma -intriga mysteriosa, de que vossa excellencia é victima, -e onde me fazem desempenhar um papel, -seja elle qual fôr. Devo-lhe por conseguinte plena -e inteira franqueza. Vou-lhe submetter um caso de -consciencia. Depois de lhe ter feito uma confissão -completa e sincera, vossa excellencia dirá se devo -ou não tornar a pôr os pés n’esta casa.</p> - -<p>Alberto calou-se por um instante, passou a mão -pela testa, como para avivar a memoria do passado, -e principiou depois em voz baixa e agitada:</p> - -<p>—Foi ha tres ou quatro annos, supponho. Entrava -eu na vida, e relanceava os olhos em torno -de mim com a ingenua curiosidade de quem tudo -vê envolto nos véos seductores do mysterio, e tomando -o aspecto de risonho enigma de tentadora -resolução. Entre todas essas miragens de que a nossa -vista se namora, quando pomos o pé na orla d’este -deserto da existencia é a do amor a mais luminosa. -As outras visões apparecem-nos como simples oasis; -esta surge-nos como paiz de fadas. As outras serão -sombras e frescura; esta, flores e fragrancias. -Como a todos, foi a canção amorosa a que primeiro -despertou no meu peito, vago canto sem assumpto, -melodia sem letra, que me extasiava como -o trovar de passarinho invisivel emboscado na ramaria. -Uma vez encontrei-a a vossa excellencia com -sua familia n’uma das quintas de Bemfica. Obedecendo<span class="pagenum" id="Page_138">[Pg 138]</span> -ao inexplicavel condão da formosura, os meus -olhos seguiram, ainda meio distraidos, o seu vulto -airoso, que se sumia ao longe nos meandros das lamedas. -Momentos depois, tornei a encontral-a, e a -impressão fugitiva, que me produzira, avivou-se e -recresceu de intensidade quando me achei preso na -esphera de fascinação magnetica, que os seus olhos -sempre possuiram. Vi-a então bem! Que formosa -e fina cabecinha a sua! Que primoroso oval o do -seu rosto! E o aveludado da sua tez, e o seu pisar -tão gracioso, e mais que tudo a suprema elegancia, -a suavidade como que aerea das linhas do seu perfil -e dos contornos do seu corpo, tudo isso me enlevou, -me deslumbrou por tal forma, que não pensei -mais senão em seguil-a e miral-a de longe, com -medo que essa visão do céo me fugisse de novo, e -tornasse, despregando as azas brancas, ao Empyreo, -d’onde viera.</p> - -<p>—Senhor Alberto Mascarenhas! interrompi eu, -devéras enleada.</p> - -<p>—Perdão, minha senhora, tornou elle com certa -melancholia; não julgue que estou evocando o passado, -de proposito para lhe fazer uma especie de -declaração retrospectiva. Prometti-lhe ser franco, -e para o ser abri o livro da minha memoria, e reli-lhe -as paginas taes como as escrevera n’esse tempo. -Desculpe-me se se encontra n’ellas alguma phrase, -que fira a sua susceptibilidade.</p> - -<p>—Continue, murmurei eu com voz que mal se -ouvia.</p> - -<p>—D’esse momento em deante, minha senhora,<span class="pagenum" id="Page_139">[Pg 139]</span> -continuou Alberto, consagrei-lhe um amor mysterioso, -que me deu infindas alegrias. Povoou-se a -minha solidão com uma imagem, em que todos os -meus sonhos se incarnavam. O encontral-a era para -mim um prazer immenso; mirar a janella cerrada -do seu quarto causava-me não sei que doce commoção; -divisal-a a vossa excellencia encostada ao -peitoril, ou devaneando vagamente, ou lendo algum -livro, era um extasi indisivel. Fugia para o meu -quarto, levando como thesouro precioso uma das -fragrancias, em que a flor se desata, um dos raios de -luz que a estrella desprende da sua fulgida corôa, -sem que estrella nem flor tenham consciencia do -jubilo que inspiram. Encerrava-me sósinho, evocava -o seu vulto, via-a debruçar-se para mim, sentia-lhe -os cabellos roçarem-me ao de leve pela fronte, e -estremecia como se a impressão ficticia do meu -devaneio fosse uma impressão verdadeira. Olhe, -quer que lhe diga? Tenho saudades d’essa loucura, -e voltando os olhos para o meu passado, não encontro -n’elle horas mais suaves do que essas, em -que, a sós com uma sombra, fui lendo, estrophe -a estrophe, o mais lindo poema de amor que nunca -se escreveu.</p> - -<p>Aberto, extraordinariamente agitado, deu um -passeio na sala, e foi a final encostar-se de novo ao -peitoril da janella. Os effluvios da primavera adejavam -no ambiente, por onde os espalhava a doida -brisa sacudindo as azas impregnadas n’essas fragrancias. -Os raios da lua vinham já espraiar-se no -chão do aposento. Eu, inclinada para o piano, pensava<span class="pagenum" id="Page_140">[Pg 140]</span> -n’esse mundo novo, que se me apresentava, -n’esses novos horisontes, que se rasgavam deante -da minha phantasia. Esse amor mysterioso que -acompanhara, sem que eu o visse, o meu passado -esplendido e risonho, illuminava-me agora as trévas -do presente com um raio d’esse fulgor extincto, como -a lua, que, invisivel em quanto o sol campeia -no firmamento, surge mal assoma a noite, e vem pratear -as sombras com um reflexo ao clarão diurno.</p> - -<p>—Se soubesse, tornou Alberto voltando para -mim, como a sua imagem me acompanhava sempre! -como o seu nome, que eu logo soubera, me -acudia constantemente aos labios! como eu gostava -de o pronunciar! como eu devorava os romances -em que esse nome apparecia! como eu o associava -a todas as minhas commoções! Se ouvia uma opera -predilecta, quando a musica me elevava ás regiões -do extasi, era o seu nome como a chave de -oiro que me abria as portas d’esse mundo ideal! -«Margarida, amo-te,» balbuciava eu, quando Desdemona -suspirava a aria do <i>Salgueiro</i>; quando Violeta -gemia o seu adeus ao mundo; quando escutava -esse cantico sublime de amor e tristeza, que se -chama <i>Lucia</i>. E se por acaso tinha a felicidade de -a ver no theatro, como os meus olhos se cravavam -no seu rosto querido, como eu seguia a impressão -que a musica produzia na sua alma, e que se espelhava -nos seus olhos!</p> - -<p>A noite continuava serena, perfumada, voluptuosa, -e os raios da lua vinham esmorecer languidamente -no chão do aposento.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_141">[Pg 141]</span></p> - -<p>Eu ouvia essas confidencias com um sentimento -inexprimivel; doce, quando me deixava embalar pela -melodia d’essas magicas palavras que dizem -amor e mocidade; amargo quando pensava na vida -tal como o acaso m’a fizera, e nas graves consequencias -que podia ter para mim essa declaração -intempestiva.</p> - -<p>—Durou esse sonho pouco tempo, como todos -os sonhos, tornou Alberto; mas deixou-me para -sempre uma recordação indelevel. Lembro-me, como -se fôra hoje, da ultima vez que a vi, antes de -me ausentar de Lisboa. Encontrei-a em casa de um -dos velhos amigos do meu pae, o visconde de ***, -passeava vossa excellencia no jardim, quando eu -entrei. Acompanhavam-na sua mãe e a viscondessa. -Meu pae, o visconde, o pae de vossa excellencia e -outros amigos estavam tomando café n’um dos kiosques. -Era em junho, e ao pôr do sol. Succedera a -frescura do crepusculo ás calmas abrasadoras do -dia. Reinava em terra e céo perfeita serenidade. O -firmamento d’um azul purissimo. O Tejo, ao longe, -doirado pelos ultimos raios do sol, que se sumiam -no occaso. Um d’esses raios ficara tambem como -preso ás arvores do jardim. Vossa excellencia passeava -de cabeça descoberta, e a mansa brisa, que -se erguera, fazia-lhe arfar os cabellos castanhos claros -em vagasinhas d’oiro, quando o raio de sol alcançava -beijal-os. O seu passear vagaroso e indolente, -as suaves ondulações do seu corpo, o fulgor -um tanto amortecido dos seus olhos, o frémito dos -seus labios, que aspiravam a aragem embalsamada,<span class="pagenum" id="Page_142">[Pg 142]</span> -tudo se casava tão bem com a languida voluptuosidade -da tarde expirante!... Fiquei como deslumbrado -por tanta formosura, palpitou-me com violencia o -coração, e nem tive animo nem força para me approximar -de vossa excellencia. Infelizmente ou felizmente -(eu sei?) estava para se retirar. O visconde -foi-se despedir de vossa excellencia e de sua mamã, -e a viscondessa acompanhou-as. Vossa excellencia -colhera uma rosa, que beijava distrahida, ao aspirar-lhe -o perfume; affastou-se, fui-a seguindo com -os olhos, vi-a subir vagarosamente os degraus da escadaria, -e quando chegou ao terraço para onde deitavam -as portas do palacio, vi-a encostar-se á balaustrada, -e fitar vagamente os olhos no horisonte -affogueado, no rio onde o oiro se ia transformando -em purpura, e nas montanhas cujos pincaros se azulavam -com a distancia. O seu vulto, estampando-se -por essa forma na atmosphera transparente, com a -fronte cingida por uma vaga auréola, tendo por traz -de si um foco de chammas em cada vidro, que os -ultimos raios de sol incendiavam, tomava como que -o aspecto phantastico de uma d’essas fadas do Rheno, -que apparecem ao pôr do sol, com a harpa de -oiro ao lado, sentadas nos fraguedos do rio. Distrahidamente -deixou cahir a rosa que tinha na mão; -depois desviou-se do parapeito, e desappareceu no -interior do palacio.</p> - -<p>—Que memoria a sua! disse-lhe eu, sorrindo-me.</p> - -<p>—Hesitei um instante, continuou elle sem parecer -que reparava na minha interrupção; antes de ir -levantal-a: depois não me pude conter, e fui-me approximando<span class="pagenum" id="Page_143">[Pg 143]</span> -como que distrahidamente do sitio onde -estava a flor cubiçada. Apanhei-a n’um relance, -beijei-a, e guardei-a no peito... Nunca mais me separei -d’ella, continuou com voz abafada; essa visão da -minha adolescencia esvaiu-se como se esvaem os -sonhos, esse louco amor extinguiu-se como era natural, -mas a flor secca nunca mais me deixou; é o -meu talisman, que serve para evocar ás vezes esse -periodo luminoso da minha vida, esses doces annos -que se sumiram para sempre no abysmo do passado.</p> - -<p>E, tirando do peito uma rosa murcha e amarellecida, -passou-a para as minhas mãos.</p> - -<p>Deslisou-me dos olhos uma lagrima e foi cair nas -petalas sem viço da pobre flor, sem que esse amargo -orvalho lograsse reverdecel-a. Assim tambem os -meus prantos não poderiam restituir-me alegria descuidosa -que perdera.</p> - -<p>Alberto viu a lagrima, e disse-me:</p> - -<p>—Comprehendo-a; essa flor, deixada cahir distrahidamente -quando não havia ainda saudades na -sua vida, exerce no seu espirito a mesma fascinação -que no meu exercia. Guarde-a, dou-lhe n’isso a -prova de que para sempre quebrei com o meu passado.</p> - -<p>—Não era necessario, disse eu; aprecio tanto o -seu nobre caracter, que nem por um instante duvido -de que me não teria feito essa confidencia, se -não consagrasse simplesmente um affecto de irmão -á esposa do seu amigo.</p> - -<p>—Ah! isso juro-lh’o, tornou Alberto pondo a<span class="pagenum" id="Page_144">[Pg 144]</span> -mão no peito, se não me sentisse completamente -livre, e desassombrado, se o meu coração me désse -inda rebates d’amor, que se devia extinguir, não -teria entrado n’esta casa. Teria vergonha de mim -mesmo, se não pudesse agora fitar os meus olhos -nos seus com purissima serenidade. Mas se julga -que apesar d’isso, não devo tornar a vir aqui; se -julga que esta memoria d’um amor passado, é uma -offensa para vossa excellencia, e um acto de deslealdade -para com o meu amigo, se julga que uma -recordação involuntaria, espelhando-se no meu rosto, -póde dar uma arma aos calumniadores, diga -uma palavra e estou prompto a retirar-me.</p> - -<p>—Seria uma vileza aos meus proprios olhos, respondi -eu serenamente, o rebaixar-me a ponto de -transigir com a calumnia. Esta casa está sempre -aberta ao amigo de meu marido, ao homem leal de -quem agora aperto a mão.</p> - -<p>E estendi-lhe a minha que apertou commovido.</p> - -<p>—Bem, disse-me elle rindo, tirou-me um grande -peso de cima do peito. Agora peço as ordens de -vossa excellencia.</p> - -<p>Foi pegar no chapéo; e depois, voltando para -mim, e apertando-me de novo a mão continuou:</p> - -<p>—Desculpa-me o ter-lhe dito tantas loucuras?</p> - -<p>—Desculpal-o, porque? redargui eu sorrindo-me. -Leu-me um bonito romance, ouvi-o com attenção; -agora fechamos o livro, e voltamos á realidade.</p> - -<p>Alberto ficou suspenso por instantes, depois respondeu:</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_145">[Pg 145]</span></p> - -<p>—É isso mesmo. Tem vossa excellencia muita -razão.</p> - -<p>E saíu.</p> - -<p>Eu fiquei algum tempo pensativa junto do piano; -depois levantei-me, soltei um suspiro d’allivio, peguei -n’um castiçal e dirigi-me para o meu quarto.</p> - -<p>Dava meia noite.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_146">[Pg 146]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="XVI">XVI</h2> -</div> - - -<p>Foi só no dia seguinte que reflecti bem no que -se passara na vespera. Foi então que me espantei -de D. Antonia não ter tornado a apparecer na -sala. Um passeio a pé, por mais que o prolongasse, -não podia ter durado tanto tempo. Demais lembrou-me -então que a tinha sentido voltar meia hora ou -tres quartos de hora depois de ter saido. Por que -motivo não viera para a sala? Havia n’isso o projecto -de alguma infernal armadilha? Ia dentro em -pouco sabel-o.</p> - -<p>D. Antonia não me deu palavra durante esse dia -todo, coisa com que eu folgava bastante; mas no -outro dia, sem me ter prevenido da sua chegada, -appareceu meu marido, visivelmente agitado sob a -sua mascara de gelo.</p> - -<p>Acolhi-o com jubilo. Sentia um certo contentamento -intimo por ter cumprido o meu dever. Estava -satisfeita comigo mesma, o que já concorre muito -para se estar satisfeito com os outros.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_147">[Pg 147]</span></p> - -<p>Meu marido fallou-me com bastante frieza. Logo -depois encerrou-se com D. Antonia, e teve com ella -uma larga conferencia.</p> - -<p>Depois appareceu ainda mais agitado, passeou -algum tempo, pegou no chapéo e saiu.</p> - -<p>D’ahi a pouco, voltou, sempre agitado, e fechou-se -no seu quarto.</p> - -<p>Á noite appareceram as visitas do costume, coisa -que me espantou sobremaneira, porque julgava que -não voltariam tão breve.</p> - -<p>Comtudo a condessa deu bem a entender que vinha -a nossa casa em attenção a Claudio, e só em -attenção a elle.</p> - -<p>Pouco me importava; o jubilo da minha consciencia -dava-me novas forças para luctar com intrepidez.</p> - -<p>Alberto appareceu pouco depois. A sua entrada -produziu sensação. Claudio recebeu-o com uns modos -meio frios, meio cordiaes. A condessa mostrou-se -distraida, D. Antonia ligeiramente motejadora, Carolina -extremamente amavel.</p> - -<p>Alberto esteve perfeitamente senhor de si. Não o -traiu o seu espirito brilhante e jovial. Esteve desembaraçado -no meio de todos aquelles constrangimentos. -Eu, que tambem não tinha motivo algum -para estar constrangida, auxiliei-o; a conversação -animou-se. A condessa não tomou parte n’ella; -Claudio muito pouca; D. Antonia aventurou umas -poucas de insinuações, em que não reparamos; -Carolina entrou na palestra com finas observações, -que se resentiam da sua indole essencialmente sarcastica.<span class="pagenum" id="Page_148">[Pg 148]</span> -Assim se passou uma noite muito agradavel.</p> - -<p>Claudio que ao principio se mostrara nimiamente -reservado, foi-se pouco a pouco tornando mais expansivo.</p> - -<p>Mas, no dia seguinte uma influencia severa agglomerava-lhe -de novo na fronte as nuvens, que se -haviam por instantes dissipado.</p> - -<p>Comtudo comecei a notar uma grande differença -no procedimento de D. Antonia, a meu respeito. -Tantos tinham sido os cuidados, que tivera até ahi -para que eu não estivesse um instante só com Alberto, -quanto era o desejo que parecia ter agora -de nos proporcionar os mais prolongados <i>tête-à-tête</i>.</p> - -<p>Pedia-lhe a elle muitas vezes que nos acompanhasse -n’algumas excursões que faziamos pelos arredores. -Depois aproveitava um pretexto qualquer -e eclipsava-se. Ao cabo de uma longa hora de passeio, -apparecia-nos de subito meu marido, pallido, -com o olhar sombrio, com a fronte annuviada. A -cordialidade serena, o jubilo até com que o acolhiamos -dissipavam logo todas as nuvens, e voltavamos -todos tres para casa, rindo e conversando como -bons amigos.</p> - -<p>Alberto era realmente admiravel. No meio d’aquella -rede de intrigas, que eu sentia confusamente, -caminhava tão desassombrado como se não estivesse -pisando um terreno perfido, onde o mais leve descuido -podia perder a sua lealdade, e a minha reputação.</p> - -<p>Não se ausentava porque via perfeitamente que<span class="pagenum" id="Page_149">[Pg 149]</span> -a sua retirada daria á calumnia o pretexto que ella -anciosamente procurava: mas acceitava tão desconstrangidamente -o papel falsissimo que esta situação -lhe impunha, que parecia não ter o minimo conhecimento -do trabalho subterraneo, emprehendido -pela devota sociedade de D. Antonia e companhia.</p> - -<p>Eu mesma me espantava d’essa tranquilidade -inalteravel, e suppunha que fôra um sonho a scena -que se passara n’essa noite, que tão profunda impressão -me causara. Precisava de admirar a rosa -murcha, que trazia no seio, para de novo me convencer -da realidade de tudo isso.</p> - -<p>Alberto nem parecia reparar na posição em que -o tinham collocado, e que devia dar em resultado -maior intimidade. Era o que fôra sempre: um conversador -amavel, elegantemente frivolo, que tomava -comigo o tom d’uma respeitosa familiaridade.</p> - -<p>Um dia, obedecendo a essa irresistivel attracção, -que nos obriga a chegarmo-nos á beira do precipicio, -e debruçarmo-nos para elle, ainda que saibamos -que um momento de vertigem nos póde arrojar -ao despenhadeiro, ousei alludir á historia do seu -passado.</p> - -<p>É inconcebivel, mas é certo. Luctei tres dias com -a tentação, afinal não pude resistir, e aventurei a -pergunta.</p> - -<p>—Acredita na transmigração das almas? disse -Alberto, em vez de responder.</p> - -<p>—Porque? tornei eu espantada.</p> - -<p>—Porque, se acredita, ha de perceber perfeitamente<span class="pagenum" id="Page_150">[Pg 150]</span> -a minha historia. Isso em que me falla succedeu, -se me não engano, a um Alberto, que vivia -no tempo de Noé. Depois, como sabe, veiu o diluvio. -Affogou-se nas grandes aguas o corpo e a memoria. -A alma, desprovida d’essa faculdade, transmigrou -para este corpo, nado e creado em pleno -seculo XIX. Mas como ha de lembrar-se a coitada -dos acontecimentos ante-diluvianos?</p> - -<p>Eu desatei a rir, mas devo confessar que senti -um certo despeito. É inexplicavel, não é? É inverosimil? -Bem sei. Propuz o enigma, não intentei -resolvel-o.</p> - -<p>Um dia Theodoro Leite mandou-me dizer que -me desejava fallar, e com muita urgencia.</p> - -<p>Fui a casa d’elle. Theodoro e a entrevadinha receberam-me -com o jubilo habitual. Depois Theodoro -acompanhou-me á volta, e pelo caminho foi-me -contando o que o obrigara a mandar-me chamar.</p> - -<p>—A Quiteria, disse-me elle, que lhe ficou muito -affeiçoada desde a primeira noite em que a viu, e -em que a minha querida filha (permitta-me que lhe -dê esse nome) se mostrou tão boa, tão amavel com -ella e com os outros creados, sentando-se junto d’elles -na cosinha, conversando com elles, ouvindo-lhes -as historias, procedimento esse que d’um modo tão -notavel contrastava com o orgulho da tia de seu -marido, a Quiteria, pois, veiu ter comigo, e pediu-me -que a avisasse, coisa que ella não podia fazer, porque -a minha filha está sendo a toda a hora espionada -pela Maria do Rosario. Disse-me ella que se<span class="pagenum" id="Page_151">[Pg 151]</span> -anda tramando lá por casa uma intriga terrivel, que -tem unicamente por fim promover uma separação -entre Claudio e a minha querida menina, separação -que hão de fazer escandalosa, e cuja vergonha -ha de recair toda sobre a sua innocente cabeça.</p> - -<p>Eu ouvia espantada esta revelação incomprehensivel -para mim, porque não podia adivinhar que -mal teria eu feito áquella gente, para que me tivessem -declarado uma guerra tão encarniçada. Foi -isso mesmo o que eu disse a Theodoro, que me -respondeu, sorrindo-se:</p> - -<p>—Que mal lhes fez? Pobre innocente! Um crime -imperdoavel, o de ter vinte annos, uma formosura -esplendida, uma indole boa e sympathica, uma alma -enthusiastica, e de juntar a tudo isto uma virtude -immaculada. Que mal fez a rosa ao caracol, para -que este lhe entorne nas petalas a repugnante baba? -A luz, minha filha, não attrae unicamente as -borboletas, tambem attrae os morcegos, estes para -de despeito a apagarem, aquellas para se queimarem -na chamma, que as enleva. Satanaz, ao sair -das trevas, vae insultar o sol. Quer viver socegada? -Não brilhe. Não quer que a mordam no calcanhar? -Arraste-se como as serpentes. Mas não; soffra -antes, e levante a fronte acima d’essa turba vil. Tenha -sobretudo confiança em seu marido. É um espirito -fraco, mas um nobre coração. D. Antonia -domina-o, porque a minha querida menina ainda -não tentou rebater-lhe a influencia. Tente-o, combata, -seja forte. Não permaneça na inacção, desça -á liça para onde a chamam, e calque aos pés a sua<span class="pagenum" id="Page_152">[Pg 152]</span> -mesquinha adversaria. A sua indifferença anima-a, -a sua energia dissipar-lhe-ha os brios.</p> - -<p>—Mas combatel-a, como, de que maneira? perguntei -eu.</p> - -<p>—Olhe, tornou Theodoro meigamente, eu lhe -explico o mysterio da sua vida. Claudio é um homem -timido, acanhado, que precisa que lhe estendam -a mão para sair da sua habitual reserva; consagrou-lhe -um profundo amor, e viu coroados os -seus votos d’um modo completamente inesperado. -A minha querida menina, creança que nada comprehende -da vida, acceitou das mãos de seus paes -um marido, como acceitaria um vestido novo. Nenhum -dos dois deu o primeiro passo para essa intimidade -conjugal, que funde n’uma só duas almas, -duas vontades, dois pensamentos: elle porque não -ousava, a minha querida menina porque não sabia. -D. Antonia apossou-se com habilidade d’esse espirito -fluctuante, que julgara por um momento que lhe -escaparia indo-se prender n’outros laços. Animada -por essa primeira victoria, quiz levar a cabo o seu -triumpho. N’aquelle coração angustiado e hesitante -semeou a duvida; transformou em calculo o que -era ignorancia da vida. Disse-lhe que a facilidade -com que a minha filha acceitara o casamento com -um homem a quem não amava era resultado da -corrupção prematura, que despresava os deveres -do matrimonio. Aproveitou as mais leves circumstancias, -desenvolveu com uma sagacidade infernal -os mais subtis indicios. A entrada em scena de Alberto -veiu dar-lhe um optimo pretexto. Seu marido<span class="pagenum" id="Page_153">[Pg 153]</span> -resiste ás suggestões continuas de D. Antonia, mas -ha de chegar um instante em que succumba. D. Antonia, -combinada tacitamente com as suas boas -amigas, quer apressar o desenlace, espera que um -momento de fraquesa leve a minha querida menina -a dar um passo errado, que se ha de logo -aproveitar. Espiam-na constantemente; em casa -não faz um movimento só, que a Maria do Rosario -lh’o não espreite; no campo, nos seus passeios com -Alberto Mascarenhas, póde estar certa de que por -traz de cada sebe ha um ouvido á escuta. Seu marido -está n’uma posição intoleravel; o coração reage-lhe -contra a evidencia apparente, que D. Antonia -lhe mostra; mas, atormentado por uma duvida -incessante, vagueia como o espectro do ciume procurando -uma certesa material, que, ainda que o -fulmine, o livre d’aquelle estado. Tudo isto eu deduzo -facilmente do que a boa Quiteria me disse; -porque a pobre velha tem praticado por sua conta -um systema de contra-mina, e, emquanto a Maria -do Rosario está com o ouvido collado á porta do -seu quarto, vae ella escutar as palestras de Claudio -e de D. Antonia. Desculpe-a, coitada. O que -a impelle a proceder assim, é a amisade que lhe -tem.</p> - -<p>—E o que me aconselha então? acudi eu baixando -a cabeça, que me vergava ao peso d’aquellas -revelações.</p> - -<p>—O que lhe aconselho, minha filha? A lealdade -e a franquesa. Deixe essa gentalha extraviar-se pelos -atalhos, e caminhe desassombradamente pela estrada<span class="pagenum" id="Page_154">[Pg 154]</span> -real, inunde de luz as suas intrigas tenebrosas, -e vêl-as-ha fugirem como demonios nocturnos, surprehendidos -pela alvorada. Entre na intimidade de -seu marido, não se envergonhe de tomar a iniciativa, -conte-lhe com franqueza a historia de todas -essas intrigas, que a perseguem, faça-o ler na sua -purissima consciencia, porque assim a tem, não é -verdade?</p> - -<p>—Oh! sim! tornei eu com exaltação.</p> - -<p>Mas depois não sei que pensamento importuno -me acudiu ao espirito, e me incendeu as faces em -vivo rubor.</p> - -<p>—Vamos; seja forte! acudiu Theodoro beijando-me -com ternura na fronte. Não vacille nem um instante, -não vergue ao peso da cruz.</p> - -<p>—Descance, meu amigo, tornei eu melancholicamente. -Não me assusta o soffrimento.</p> - -<p>E despedi-me d’elle, mais animada do que nunca -até ahi estivera. Havia alguns dias que uns devaneios -indefiniveis me atormentavam. Sentia um vago -e doloroso prazer em aspirar a brisa embalsamada -das noites de maio. Os effluvios do jardim coavam-me -nas veias não sei que ardor incomprehensivel. -O meu coração pulsava com violencia quando os -raios da lua, infiltrando-se voluptuosamente na -minha alcova, me vinham fallar de ignotos mysterios. -Ao cair da noite sentava-me ao piano, e, deixando -correr os dedos pelas teclas, escutava em extasi -a suave e mansissima harmonia, que despertava -então. Surprehendia-me a mim mesma contemplando -a flôr secca, a rosa murcha, que me abrazava o seio.<span class="pagenum" id="Page_155">[Pg 155]</span> -Que symptomas funestos eram estes? Receava adivinhal-o.</p> - -<p>Mas o passo aconselhado por Theodoro ia livrar-me -de tão importunos pensamentos. Tudo quanto -elle me dissera ácerca do caracter de Claudio achava-o -eu extremamente verdadeiro, agora que reflectia -em muitas circumstancias, que primeiro me tinham -passado despercebidas. Não duvidava do bom -exito do plano do meu velho amigo. Assim tudo se -conciliava, e o futuro afinal apparecia-me desassombrado. -Ia entrar finalmente no porto, depois de -tantas tempestades. Ia encontrar no amor de meu -marido um escudo contra as perseguições mesquinhas -de D. Antonia, e um asylo contra os estranhos -pensamentos, que me perseguiam. Ia ser feliz emfim!</p> - -<p>Pareceu-me que me tiravam de cima do peito -um peso enorme, e respirei com desaffogo. Estava -ao pé de casa. Subi a escada com pé ligeiro, cheguei -á porta da sala, e abri-a alegremente.</p> - -<p>Mas, assim que entrei, estaquei de subito e senti -no peito uma dor aguda, como se um ferro m’o -atravessasse. No vão d’uma janella um homem e -uma senhora conversavam intimamente, e com tanta -animação que nem deram pela minha chegada, nem -ouviram a bulha, que eu fizera abrindo a porta. -Pallida como uma defuncta, fui-me aproximando a -pouco e pouco, e só quando cheguei a dois passos -da janella é que elles repararam em mim. A senhora -soltou um grito, o homem fez-se levemente corado.</p> - -<p>Eram Alberto e Carolina.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_156">[Pg 156]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="XVII">XVII</h2> -</div> - - -<p>Ficámos todos tres por um instante enleados; -Alberto foi quem primeiro tomou a palavra, com o -seu desembaraço habitual; não tardou Carolina a -imital-o; mas, por maiores que fossem os meus -esforços, negaram-se-me os labios a articular um -som. Percebia que, se tentasse fallar, os soluços -brotariam d’envolta com as palavras.</p> - -<p>Afinal consegui pretextar um ligeiro incommodo, -e fugi para o meu quarto. Alli chorei á vontade, -desabafei. Quando esta dôr inexplicavel se acalmou -um pouco, perguntei á minha consciencia o motivo -d’esses prantos.</p> - -<p>«Assim, murmurava eu comigo mesma, é Alberto -um homem como todos; o amor profundo que disse -consagrar-me não deixou o mais leve rasto na sua -memoria. Aquella alma que eu julgava um sanctuario, -é um prostibulo, aquelle coração tem a porta -franca para quaesquer imagens.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_157">[Pg 157]</span></p> - -<p>«Mas, tornava eu, que me importa isso tudo? -Que direito me deu elle para fiscalisar as suas acções? -Não me disse, não me affirmou, não me jurou -até que esse amor antigo se dissipara como um -devaneio de juventude, como um relampago de estio, -que brilha e morre no firmamento azul? E não -me devo eu até rejubilar com este acontecimento -que me prova a verdade do que elle me dizia? Não -contribue isto mesmo para dar nova paz á minha -consciencia, nova tranquilidade á minha alma? Não -posso eu agora erguer a fronte bem altiva acima das -calumnias de D. Antonia e da condessa?</p> - -<p>«Não, acudia eu de novo; o motivo da minha afflicção -é a amisade fraternal, que a Alberto consagrei, -é a estima que votei a esse espirito nobre! -Custa-me o desengano, custa-me o ver descida do -seu pedestal a alma que eu julgara quasi superior -á humanidade. O amor de Carolina macula um homem. -E demais aquillo não é amor, é um capricho -dos sentidos, é uma ligação banal e repugnante. O -amor não brota assim d’um instante para o outro, -não viça com tanta facilidade nas cinzas d’um affecto -extincto.</p> - -<p>«Oh! cala-te, cala-te, murmurava a minha consciencia, -não queiras disfarçar com o vão nome de -amisade o sentimento culpado, que se te apoderou -do coração. Amal-o, infeliz! Amal-o, e para cumulo -de vergonha, elle nem pensa em ti, para maior opprobrio -teu, és tu só a culpada; não podes allegar -a influencia magnetica de um amor constante e vehemente, -que actuasse a teu pesar no teu espirito<span class="pagenum" id="Page_158">[Pg 158]</span> -e no teu coração. Elle affasta-se de ti, respeita-te, -e não mereces ser respeitada, porque moralmente -já trahiste os teus deveres de esposa, já falseaste -a fé conjugal.»</p> - -<p>E nova torrente de prantos me brotou dos olhos, -e me inundou as faces.</p> - -<p>Quando desci do meu quarto para a sala notaram -todos a minha agitação. Alberto mirou-me inquieto, -Carolina com um modo de ironia tal, que me deu -forças para reagir contra o meu vergonhoso tormento. -Queria soffrer, sim, mas soffrer com dignidade, -e sem dar ás minhas inimigas motivo para -folgarem e triumpharem.</p> - -<p>Esta serenidade ficticia tranquilisou Alberto, que -tornou a mostrar-se todo attencioso e galanteador -com a afilhada da condessa.</p> - -<p>«Oh! meu Deus, dizia eu, entre mim, tão irresistivel -é essa paixão, que nem elle tem forças para -m’a occultar, e para a occultar aos outros. Não se -lembra que D. Carolina de Freitas não é uma senhora -solteira, a quem se possa affoitamente render -homenagens?</p> - -<p>«Jeronymo, e a condessa e D. Antonia, tão escrupulosos, -tão inquisidores comigo, estão cegos, ou -fingem-se cegos, que não vêem ou não querem ver -o escandalo, que se está praticando n’esta sala? -Que é feito da austera moralidade d’esta gente? -Onde se aninharam as suas severidades?...»</p> - -<p>Ai! e não via eu, pobre louquinha, que estava -sendo involuntariamente mais culpada do que elles? -Não via eu que estes assomos de austeridade tinham<span class="pagenum" id="Page_159">[Pg 159]</span> -a sua origem n’um sentimento, que devia reprimir -com todas as forças da minha alma? Era a fatalilade -que me impellia. Tranquilla vira entrar Alberto -em minha casa, sem pensar em o distinguir -dos outros homens. Accusando-me de um crime, de -que nem sequer tivera o pensamento, obrigam-me -a occupar-me d’elle, collocam sempre a sua imagem -deante dos meus olhos, fazem com que eu involuntariamente -o compare ás outras pessoas, que me -rodeiam, comparação que não póde deixar de lhe -ser favoravel, e firmando-me na minha innocencia, -caminho com desassombro n’essa estrada semeada -de perfidias, não vejo o abysmo que a pouco e pouco -se me vae rasgando aos pés, que cada um dos -meus passos alarga insensivelmente, abysmo por -onde vou resvalando, e em que afinal baqueio.</p> - -<p>Fui castigada no meu orgulho; desci a uma esphera -mil vezes mais baixa do que essa onde vivem -as minhas accusadoras. A calumnia tinha rasão, os -calumniadores prophetisavam. Triumphae, hypocritas, -folgae, Messalinas de sachristia! conseguistes -o vosso fim. Enxovalhei-me na lama, que tão obstinadamente -me arrojastes ás faces! Polluí a corôa -da innocencia, de que tanto me ufanava; sou adultera -no pensamento, e isso basta para me julgar -mais vil aos meus proprios olhos do que essa que -alardeava a sua deshonra como um acto de habilidade, -e que está agora impudentemente demonstrando -á minha vista a veracidade das suas doutrinas.</p> - -<p>«Oh! continuava eu fallando comigo mesma, ao -menos não hei de transpor os limites que ainda me<span class="pagenum" id="Page_160">[Pg 160]</span> -separam d’uma vergonha completa. Esse amor fatal, -que me devora, hei de abrigal-o no meu seio, -como a áspide que me ha de matar, sem que o meu -rosto revele os meus tormentos. Deixando de parte -o mundo da realidade, cujo contacto me foi tão doloroso, -voarei para as regiões da phantasia, e ahi -viverei enlaçada n’um casto amor com a sombra -pura de Alberto, tal como elle se me afigurou, -e não tal como eu o vejo agora. Possuil-o-hei a elle -mais do que elle a si proprio se possue, porque é -minha essa flôr secca, symbolo da sua poetica existencia, -ao passo que elle, afastando-se cada vez mais -d’esse puro sanctuario, se vae embrenhando nos jardins -da torpe Armida, que soube, com um olhar -provocador, transformar uma alma tão nobre n’um -espirito vulgar.»</p> - -<p>E soffria, soffria como nem eu o posso dizer, soffria -e tinha vergonha do meu soffrimento, e não -ousava erguer os olhos para Claudio, cujo rosto sombrio -se ia desannuviando e alegrando ao ver Alberto -enlevado nos seus novos amores.</p> - -<p>Os homens são estupidos!</p> - -<p>Desde então, a nossa vida tomou um outro aspecto, -que inspirava grande espanto a D. Antonia. -Por mais que ella tentasse renovar as suas manobras -com o fim de nos deixar sós, rarissimas vezes -o conseguia. Alberto sempre se lhe esquivava, e -Carolina auxiliava-o n’isso, reclamando-o a cada -instante, ora para a acompanhar n’um passeio a -cavallo, ora para a ajudar a ler uma nova e difficil -musica, que lhe chegara de Lisboa; e eu, afflicta,<span class="pagenum" id="Page_161">[Pg 161]</span> -mas valorosa, desviava-me tambem de prompto, e -entregava-me a longos passeios solitarios, onde me -comprazia, vagueando pelas aridas planicies d’aquelles -sitios, a avivar a memoria dos meus passeios e -das minhas conversações com Alberto, que se me -debuxavam na phantasia, sem me esquecer uma só -particularidade, uma palavra só.</p> - -<p>Triste voluptuosidade de quem alarga a ferida -com as proprias mãos, de quem está saboreando a -triaga fatal!</p> - -<p>Os meus passeios dirigiam-se quasi sempre para -o lado da casa de Theodoro Leite. N’aquelle doce -asylo, aonde não chegava nem um ecco das paixões -mundanas, que haviamos transportado comnosco da -cidade para o campo, n’aquelle sanctuario do infortunio -alegremente supportado, n’aquelle templo da -familia, recuperava eu novas forças para o combate, -que travara. N’esse ambiente são e perfumado -de virtudes hauria as emanações do balsamo celeste, -que guarece as feridas envenenadas. Um beijo -da entrevadinha na minha fronte como que a cingia -de novo da auréola da innocencia; um meigo olhar -de Theodoro, calando-me no intimo da alma, expulsava -a imagem que se obstinava a povoar-m’a. -Voltava sempre d’essa pobre casa mais em paz com -a minha consciencia; mas o encontro de Carolina -com Alberto, encontro que era inevitavel, outra vez -m’a turvava, e soltava as tempestades por um instante -enfreadas.</p> - -<p>Claudio quizera aproveitar esse estado da minha -alma, que elle não saberia definir, mas que instinctivamente<span class="pagenum" id="Page_162">[Pg 162]</span> -adivinhava, para se aproximar de mim, -e subtrahir-se ao mesmo tempo ao jugo de D. Antonia. -Mas as suas timidas tentativas não me encontravam -n’essa occasião disposta a animal-as. A minha -consciencia dizia-me que não podia receber essa -especie de homenagem, que já me não era devida, -acceitar uma penitencia, que eu me devia impôr a -mim mesma. E, por mais que tentasse levantar-me, -uma força fatal me impellia cada vez mais rapidamente -para o abysmo!</p> - -<p>Mas emfim, as forças não me trahiam, e quando, -saindo do meu quarto, onde me ficava muitas vezes -depois de jantar, contemplando o horisonte purpureado, -os effeitos da luz moribunda e das sombras -recrescentes nas ruas e nas moitas do jardim, -as estatuas banhadas pelos ultimos raios do sol, que -lhes doiravam o manto verde com que o musgo as -revestia, e que, ao vir do crepusculo, pareciam tremer -de frio, e aconchegar bem as pregas d’essa tunica -ao seu pobre marmore nú; ouvindo os vagos -murmurios do campo, o melancolico suspirar das -fontes, e deixando os meus sonhos esvoaçarem livremente -n’essa atmosphera de poesia e de saudade; -quando, saindo pois do meu quarto, e baixando -d’essas regiões phantasiosas ao mundo real, me -via cara a cara com uma atroz desillusão, conservava-se-me -o rosto impassivel, e nem o mais leve -franzir dos labios, nem uma só ruga da face denunciavam -os tormentos, que vinham saltear-me.</p> - -<p>Alberto não mostrava perante mim o minimo embaraço. -Espantava-me esta quasi indelicadesa n’um<span class="pagenum" id="Page_163">[Pg 163]</span> -homem tão delicado. Bem sei que elle não tinha -nem sequer obrigação moral de submetter á minha -opinião o seu procedimento. Bem sei que, não tendo -commettido culpa alguma para comigo, não tinha -que se embaraçar em minha presença... mas -emfim... ha certos escrupulos... exagerados talvez... -pontos d’honra nimiamente requintados... não digo -o contrario... o vulgo, ainda o mais escrupuloso -rir-se-hia d’esta minha pretenção... mas eu julgava -Alberto por tal fórma differente do vulgo... achava-o -tão capaz de comprehender estas coisas...!</p> - -<p>Como viram, não era a primeira vez que me illudia -nos juizos formados a respeito de Alberto.</p> - -<p>Uma tarde, mal acabamos de jantar, fomos dar -um passeio a cavallo, eu, D. Antonia, Carolina, e -Jeronymo. Alberto não apparecera; por isso, com -visivel contrariedade da afilhada da condessa, fomos -sem elle.</p> - -<p>Comtudo Carolina teve a habilidade de dirigir o -passeio de fórma, que pudessemos encontrar Alberto -no caminho. Propoz que fossemos até Bellas, para -aproveitarmos o resto da tarde, passeando na -quinta do conde de Pombeiro. D. Antonia concordou. -Jeronymo disse que lhe era indifferente ir para -um ou para outro lado, e eu, que formava a minoria, -não tive remedio senão acceder.</p> - -<p>Partimos.</p> - -<p>Sairam errados os calculos de Carolina. Não encontramos -Alberto.</p> - -<p>O calor do dia (um dos primeiros de junho) dissipara-se -um pouco, sem desapparecer de todo. As<span class="pagenum" id="Page_164">[Pg 164]</span> -frescas sombras da quinta do Senhor da Serra estavam-nos -convidando a irmos deliciar-nos com -ellas. Apeamo-nos, entregamos os cavallos ao creado, -e entramos na quinta.</p> - -<p>Carolina estava visivelmente preoccupada, e afastava-se -a cada instante de nós, para ir espreitar as -lamedas transversaes, como se esperasse que o acaso -a favorecesse mais do que o seu calculo. D. Antonia -dera o braço a Jeronymo, e conversava com -elle. Eu ficara isolada, e, procurando completa solidão, -fui affrouxando a pouco e pouco o passo, até -que perdi de vista os meus companheiros. Estava -só.</p> - -<p>Sempre gostei immenso d’essas lamedas sombrias -d’arvores seculares, que se encontram n’alguns dos -nossos velhos parques. Em Cintra abandonava as -garridas quintas modernas para passear nas melancholicas -devesas da Penha Verde, ou nas ruas graves -e aristocraticas do Ramalhão. No outono principalmente, -quando as folhas seccas rangem debaixo -dos pés dos passeantes, quando os ramos, despojados -do seu verde ornato, cruzando-se-nos por -cima da cabeça, deixam ver o céo pesado e triste, -não conheço goso comparavel ao de passear e scismar -por entre esses longos renques d’arvores centenarias, -que meneiam, ao sopro da brisa, as suas -frontes calvas.</p> - -<p>Mas não estavamos então no outono, e a ramaria, -toda folhuda e verdejante, formava sobre mim uma -copada abobada, cujo verde se esmaltava com o -oiro dos raios do sol, que a muito custo se lhe coavam<span class="pagenum" id="Page_165">[Pg 165]</span> -pelos intersticios. N’esses estrados de folhagem -poisavam-se bandos e bandos de passarinhos, -cujo alegre chilrear povoava a espessura de harmonias, -docemente acompanhadas pelo melodioso murmurio -da agua das fontes.</p> - -<p>Expirava aquella solidão não sei que vagos effluvios -de tranquilidade e remanso. Cedi ao inexprimivel -encanto, e fui-me embebendo n’uma suave -melancholia, que me enliava os sentidos e m’os -absorvia todos no goso de devaneios, que purificava. -Caminhando vagarosamente na extensa rua, haurindo -os perfumes fortes que o arvoredo exhalava, -enlevando-me no canto das aves, tirei a flôr secca -do peito, e contemplei-a com ternura. Creio até que -a estava beijando, quando subito, n’um dos meandros -da lameda, dei de cara com Carolina.</p> - -<p>Escondi a flôr com precipitação, e fiz-me toda -vermelha.</p> - -<p>—Oh! temos segredinhos, disse ella desatando a -rir, que flôr era essa que beijava tão devotamente? -Se estivesse fallando com um cavalheiro, adivinharia -logo que essa rosa caira das tranças da dama -dos seus pensamentos; mas, fallando com uma senhora, -torna-se o caso mais difficil de averiguar. Não -me ajuda?</p> - -<p>—Permitta-me que não escolha confidente, respondi -eu com frieza. Costumo guardar os meus segredos, -mesmo quando, como este, nada têem de -melindroso.</p> - -<p>—Quem suspeita o contrario? Mas já vê, continuou -Carolina, que se me não faz confidencias, não<span class="pagenum" id="Page_166">[Pg 166]</span> -é porque não tenha assumpto para ellas; apanhei-a -em flagrante delicto de diplomacia. Oh! não me -zango com isso; sempre tive muita consideração pelas -pessoas que sabem esconder bem o seu jogo. -Mas ao mesmo tempo que presto justiça á sua habilidade -diplomatica, deixe-me tambem prestar justiça -á sua veracidade. Eram erroneas as minhas supposições -ácerca de Alberto Mascarenhas, e verdadeiras -as suas negativas.</p> - -<p>—Já o sabe? tornei eu com ironia.</p> - -<p>—Oh! tenho optimas rasões para o saber, respondeu -ella impudentemente.</p> - -<p>Appareciam n’este momento D. Antonia, e Jeronymo -Freitas.</p> - -<p>—Já vae caindo o crepusculo, disse a tia de meu -marido, e bom será que voltemos para casa. Não -desejo apanhar n’esta quinta o frio da tarde.</p> - -<p>Saimos; o creado estava á nossa espera ao portão. -Montamos a cavallo, e seguimos pelo caminho -da nossa aldeia.</p> - -<p>Eu tomara a deanteira, mettendo o cavallo a trote. -A agitação, que por instantes se acalmara, refervia-me -de novo na mente, excitada pelas palavras -de Carolina.</p> - -<p>Esta veio collocar-se-me ao lado, e, obrigando-me -a moderar o passo do cavallo, continuou a conversação -principiada na quinta.</p> - -<p>—Ora, mas diga-me com sinceridade, tem ciumes?</p> - -<p>—Ciumes de que? redargui eu, franzindo ligeiramente -o sobr’olho.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_167">[Pg 167]</span></p> - -<p>—Da intimidade que existe agora entre mim e -Alberto.</p> - -<p>—Isso assemelha-se a um insulto, minha senhora, -respondi, insulto que demais a mais não comprehendo, -depois do que me disse ainda ha pouco.</p> - -<p>—Oh! meu Deus, não se zangue; quem lhe falla -em amor? A amisade não inspira tambem zelos?</p> - -<p>—A mim não, decerto; estimo até que os meus -amigos se liguem com pessoas <i>dignas do seu affecto</i>.</p> - -<p>E involuntariamente accentuei estas ultimas palavras.</p> - -<p>—O que quer dizer, tornou Carolina serenamente, -que me acha completamente indigna d’essas affeições. -Oh! minha querida, sou perfeitamente da -sua opinião. Infelizmente Alberto não está de accordo -comnosco sobre esse ponto importante. Que -quer que eu lhe faça?</p> - -<p>Não lhe respondi. Caminhamos alguns instantes -em silencio.</p> - -<p>—Alberto, tornou Carolina no tom mais placido -d’este mundo, é realmente um dos rapazes mais -amaveis que tenho encontrado. Associa ao caracter -nobre espirito a um tempo reflexivo e prompto, e -coração ardente; raro conjuncto de predicados. A -sua voz insinuante exerce sobre quem o escuta um -dominio incomprehensivel, o seu olhar meigo e ardente -captiva e abrasa. É um poeta na linguagem, -um principe nas maneiras, um anjo no sentir. É a -realisação d’esse marido ideal, que todas nós devaneamos -aos quinze annos, antes de descermos á<span class="pagenum" id="Page_168">[Pg 168]</span> -prosa do mundo para casarmos com os Jeronymos -Freitas, e com os Claudios da Cunha.</p> - -<p>—Tudo isso é amisade?</p> - -<p>—Não; é amor, bem sei, continuou Carolina no -mesmo tom sereno. Olhe, eu não sou diplomata -senão com a tola da condessa, e com a sua beata -roda. Mas fico sempre tão fatigada do papel que -me vejo obrigada a desempenhar todos os dias, -que, mal entro nos bastidores, não tenho forças -para pôr outra vez a mascara, e voltar de novo á -scena. Por isso lhe fallo tão francamente. Sim; liga-me -a Alberto um amor profundo. É abominavel? -Ora se é! Immoral? d’um modo aterrador. -Mas, filha, tenciono consagrar a minha velhice a -um longo arrependimento. Hei de ir a Roma, hei -de fundar um convento, dois asylos, tres hospitaes, -proteger orphãs e fazer meias de lã para as creanças -indigentes, obras pias de que seria dispensada, -se não passasse a minha mocidade a commetter -alguns peccaditos, que exijam penitencia. Já vê -que lucra com isto a beneficencia publica. Tive a -fraqueza de amar Alberto. Não a teria, se suspeitasse -que o ia tirar do lanço á minha boa amiga. -Mas não; soube que era falso tudo quanto a D. -Antonia dissera, soube que se não amavam, e ficou-me -a consciencia tranquilla. Disse-m’o elle mesmo. -A minha querida Margaridinha, que sabe quanto -é poderosa a influencia da poesia, pode comprehender -o modo como eu cedi aos protestos d’amor -d’esse gentil moço. Era por uma tarde tão linda -como esta; estavamos ambos sós na sala, contemplando<span class="pagenum" id="Page_169">[Pg 169]</span> -o horisonte dos campos. Alberto murmurava-me -ao ouvido essas palavras deliciosas, -que sempre eccoam n’um coração feminino. A belleza -do céu, as harmonias campestres, o doce murmurio -da sua voz, a poetica auréola com que o sol -moribundo lhe cingia a fronte, a solidão da sala, tudo -conspirava contra mim. Senti-o aproximar-se...</p> - -<p>—Oh! basta! basta! exclamei eu, completamente -louca e desvairada, n’um paroxismo de dor, sem -saber o que dizia, nem o que fazia, não quero ouvir -mais as suas infames e mentirosas confidencias.</p> - -<p>E, fustigando o cavallo com o chicote, parti n’um -galope desenfreado, soluçando a um tempo de dor, -de raiva e de vergonha. A viração da tarde trouxe-me -ainda ao ouvido uma gargalhada de Carolina, e -estas palavras, que proferia ironicamente:</p> - -<p>—E não o amava?</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_170">[Pg 170]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="XVIII">XVIII</h2> -</div> - - -<p>N’um momento cheguei a casa. Apeei-me, atirei -as redeas para cima do pescoço do cavallo, e subi -a escada impetuosamente. Ia lavada em lagrimas; -que me importava que me vissem? Estava consummada -a minha vergonha.</p> - -<p>Abri a porta da sala e entrei. Não estava ermo -o aposento. Ouvindo a bulha dos meus passos, alguem, -que se encostava ao peitoril d’uma janella, -voltou-se para a porta. Era Alberto.</p> - -<p>Eu perdera completamente o imperio sobre mim -mesma. Corri para elle, travei-lhe das mãos, e disse-lhe -com a voz entre-cortada pelos soluços:</p> - -<p>—Não é verdade? Não é verdade que a não -ama? Aquella mulher mentiu?</p> - -<p>—O que é isto, minha senhora? tornou Alberto, -no auge da inquietação, o que quer isto dizer? Que -inexplicavel infortunio...?</p> - -<p>—Oh! mas diga-me, diga-me que a não ama,<span class="pagenum" id="Page_171">[Pg 171]</span> -tornava eu chorosa e supplicante, diga-me que não -ama Carolina.</p> - -<p>—Oh! respondeu elle n’um impeto, e fazendo -um gesto de energica repugnancia, oh! juro-lh’o.</p> - -<p>—Obrigada! obrigada! murmurei eu; bem sei -que sou uma doida, que me estou perdendo, que -sou uma mulher vil, indigna da sua estima; porém -não pude, soffri muito, quando ella me disse que -se amavam:—a dôr foi... incomportavel.</p> - -<p>—Soffreu! respondia Alberto com voz tremula, -e apertando-me as mãos com impeto febril, soffreu, -mas então... mas n’esse caso...</p> - -<p>—Amo-o; não é isso que quer dizer? tornava eu -como louca; sim, é a verdade, a verdade terrivel, -fatal, ignominiosa.</p> - -<p>—Ama-me! exclamou Alberto.</p> - -<p>E, soltando as mãos, levou-as á fronte, como se -temesse que lhe rebentasse ao impulso da lava, -que lhe refervia lá dentro. E, voltando a travar-me -das mãos, com os olhos incendidos n’um fulgor estranho, -como se os houvesse abrazado a chamma -de loucura que ardia nos meus:</p> - -<p>—Ama-me! Oh! não me falle! não me falle! -deixe-me ouvir os eccos innumeraveis que essa -palavra magica me desperta no coração! Oh! não -me acorde d’este sonho! peço-lh’o, deixe-me aqui -morrer com os olhos enlevados n’esta visão beatifica...</p> - -<p>—Sonhemos, dizia-lhe eu debulhada em lagrimas, -oh! sonhemos depressa, porque o despertar -vem cedo, e o despertar é o opprobrio.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_172">[Pg 172]</span></p> - -<p>E caí prostrada n’uma cadeira; elle ajoelhou aos -meus pés, beijando-me convulso as mãos.</p> - -<p>—Que importa? E cuidas que este momento de -felicidade não paga de sobejo todas as amarguras -d’uma longa vida? Julgas que esta auréola d’amor -que nos circunda a fronte, não tenha luz bastante -para derrotar a sombra do estygma que o mundo -nos inflige?</p> - -<p>—E a consciencia... tornava eu.</p> - -<p>—Depois, depois, dizia-me elle, não pensemos -n’isso agora. Apaguemos da nossa vida por um instante -só esses longos annos que separaram o meu -sonho d’adolescente d’esta ineffavel realidade. Por -um instante só, Margarida... Margarida, Margarida, -deixa-me saborear o prazer louco de te repetir -mil vezes syllaba a syllaba, lettra a lettra, esse -nome querido, que tantas vezes balbuciei sósinho -no segredo do meu quarto. Deixa-me impregnar -cada uma das suas melodias no amor immenso, -que represei no coração, e que trasborda afinal. -Filha, bem vês, peço-te um só instante para me -pagar de tantos annos de angustias, de seculos de -tormentos. Não é muito, não; concedes-m’o? Oh! -meu Deus! mas eu tenho tanto que te dizer! não -posso, não sei, adivinha, sim? Fita os teus olhos -nos meus, lê n’elles, estrophe a estrophe, o louco -poema, que uma voz ignota me canta no coração. -E lembrar-me eu que pude suspeitar um instante -que deixara de te amar, e uma palavra tua perturbava-me, -e um sorriso teu enlouquecia-me, e uma -attracção indizivel chamava-me para aqui. E pude<span class="pagenum" id="Page_173">[Pg 173]</span> -fingir que fazia a côrte a Carolina, só para ter um -pretexto de ficar junto de ti, o pretexto de te livrar -das suspeitas calumniosas! E fingi corresponder ás -suas impudentes provocações, para te ver sempre, -sempre; porque és tu a minha vida, a minha mocidade, -a estrella da minha noite, a flor do meu deserto, -perola do meu sombrio occeano, a lampada -do meu ermo sanctuario.</p> - -<p>—Oh! tenha dó de mim, Alberto, salve-me d’esta -vergonha, livre-me d’esta vertigem; não vê que as -suas palavras augmentam cada vez mais a incrivel -fascinação que me arrasta para o abysmo? E eu -não quero aviltar-me; ame-me, já que a fatalidade -assim o quer, mas com um amor de irmão.</p> - -<p>—Sim, Margarida, sim, de irmão. Não vês como -te adoro! Ordena o impossivel, e pratical-o-hei. -Oh! mas estas louras tranças, que ondeiam por -deante dos meus labios, deixa-me beijal-as, são estas -mesmas as que o sol doirava, quando te vi, -aéria fada, como que fluctuar entre as primeiras -sombras do crepusculo. Beijo as minhas recordações.</p> - -<p>E beijava-me os cabellos espargidos no collo; mas -eu, repellindo-o, disse-lhe brandamente:</p> - -<p>—Alberto!</p> - -<p>Elle parou e fitou em mim um olhar submisso.</p> - -<p>—Deixe-me, continuei eu; saia, que já ouço o -tropear dos cavallos.</p> - -<p>Alberto travou-me das mãos, contemplou-me um -instante, beijou-as com fervor, e saiu, dizendo:</p> - -<p>—Amo-te!</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_174">[Pg 174]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="XIX">XIX</h2> -</div> - - -<p>Fiquei longo espaço com o rosto escondido nas -mãos; quando ergui a cabeça, estava D. Antonia -deante de mim.</p> - -<p>Fluctuava-lhe nos labios um sorriso de triumpho; -lampejava-lhe nos olhos um fulgor infernal. Vencera, -conseguira o seu fim, colhera o fructo dos seus -longos esforços; e eu despenhara-me dos pincaros -do meu orgulho no abysmo para onde me tinham -impellido.</p> - -<p>Sempre aquelle vulto me apparecia nas horas em -que me sentia resvalar para a vergonha. Dir-se-hia -a imagem de Satanaz, procurando occasião propria -para me roubar a alma, e levar-m’a para o Barathro. -E não era um sorriso diabolico o seu?</p> - -<p>Senti correr-me um calafrio pelas veias. Mas depois -reagi contra esta primeira fraqueza, e, colhendo -na minha propria exaltação energia bastante -para affrontar aquella mulher infernal, ergui-me e -fitei n’ella os olhos scintillantes.</p> - -<p>—Está tão agitada! exclamou D. Antonia com -ironia. Já principia o remorso?</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_175">[Pg 175]</span></p> - -<p>—Já! disse-lhe eu com intimativa. Está satisfeita? -Reveja-se na sua obra.</p> - -<p>—Na minha obra! tornou ella, pondo as mãos, -e erguendo-as ao céu! Só isto me faltava! Diga antes -que se realisa o que eu prophetisei sempre! -Não querem ouvir as verdades, e aqui está o que -succede! Não attendeu aos meus conselhos, deixou-se -antes levar pelas suggestões do demonio, e -o resultado foi perder-se sem remissão. Lavo d’ahi -as minhas mãos; eu avisei-os a todos.</p> - -<p>Injuriaram-me, criminaram-me, e a final voltam-se -contra mim. Já estou costumada a isto. Deus m’o -levará em conta.</p> - -<p>—Mas o que succede? tornei eu indignada. Que -supposição está formando?</p> - -<p>—Oh! tornou ella rindo; não é difficil adivinhal-o. -Se já o não tivesse sabido por outro lado, -a sua agitação tudo me diria. Compete-me agora -avisar meu sobrinho do perigo em que a sua honra -está.</p> - -<p>—Avise-o, tornei eu; mas diga-lhe tambem que -está mais em segurança confiada a mim do que se -estivesse nas mãos d’uma d’essas hypocritas beatas, -que tão impudentemente infringem a moral que -professam.</p> - -<p>—Como quer que eu lhe diga semelhante coisa? -respondeu ella; quer que o illuda ainda, quer que -lhe aperte bem a venda que a minha sobrinha com -tanta habilidade lhe poz nos olhos? Engana-se; não -sou para esse papel. Julgar-me-hia sua cumplice se -assim procedesse. A desculpa do vicio é um ultrage<span class="pagenum" id="Page_176">[Pg 176]</span> -á virtude. Quem não quer ser lobo não lhe veste -a pelle. Deseja ver-me protectora d’essa vergonhosa -ligação, que me confessou tão descaradamente? -Engana-se, minha Philis. Procure outras para esse -cargo. Ora não ha, hei-de-lhe arrancar a mascara.</p> - -<p>—Não a tenho, bem vê; mas fite bem os seus -olhos no meu rosto, e verá que não córo.</p> - -<p>—Porque não tem vergonha.</p> - -<p>—Porque não tenho de que me envergonhar, -logo que as accusações que me são dirigidas tomam -esse caracter offensivo. Se uma fatalidade inexoravel -despertou no meu peito um sentimento que não -pude dominar, póde estar certa que nunca lhe sacrificarei -o meu dever. Combatel-o-hei com energia, -e hei de arrancar do meu coração essa planta funesta, -que tanto a meu pesar viçou e cresceu n’este -jardim, que se obstinavam em conservar deserto. -O calice de amargura bebel-o-hei até ás fezes, sem -que os outros o cheguem sequer aos labios. Soffrerei -em silencio, e com dignidade. Que mais podem -exigir de mim?</p> - -<p>—Isso é muito poetico effectivamente, respondeu -D. Antonia com ironia, estou que outros mais justos -a adorariam como uma santa, mas duvido que -o meu sobrinho esteja disposto a admirar e a apreciar -estas subtilesas com que se disfarça um adulterio -parecido com todos os adulterios. Eu de mim -confesso que não percebo essas bonitas phrases. -Uma mulher casada não deve pensar senão em seu -marido, e tratar da sua casa. Foi isto o que toda a -vida me ensinaram. Essas frandulagens de romance<span class="pagenum" id="Page_177">[Pg 177]</span> -são boas para enganar os parvos. Era melhor -que tratasse de cumprir fielmente as suas obrigações -de esposa e de christã.</p> - -<p>—Oh! isso é de mais, respondi eu altiva. Exigem -de mim o cumprimento de um dever, esse dever -tenho-o eu cumprido, e hei de cumpril-o sempre -com inabalavel intrepidez. Sacrificar-lhe-hei a minha -vida inteira, deixarei fenecer n’essa atmosphera -gelada a flor da minha juventude. Mas o sanctuario -recondito da minha alma não consentirei que -m’o invadam. N’esse domino eu só, n’esse abrigo -os affectos intimos, a que presto culto no segredo -da minha consciencia. D’essa região sagrada defenderei -até a morte a inviolabilidade. É o ninho dos -meus sonhos, a urna do balsamo, que me allivia um -pouco as dores lancinantes do meu viver atroz. Não -lhe toquem, não a profanem. Tudo o mais lhes cedo, -tudo o mais sujeito á sua despiedosa fiscalisação.</p> - -<p>Persigam-me, atormentem-me, analysem cada um -dos meus actos, interpretem-n’os favoravel ou desfavoravelmente; -estou a isso resignada. Mas quando -a final, depois de haverem saciado o seu odio -implacavel, me deixarem tranquilla por um instante, -não queiram violar o meu asylo, não queiram -perturbar a paz do meu espirito, não queiram -envenenar com o seu halito impuro essa atmosphera -serena, onde fluctua, não queiram macular com -a sua baba asquerosa as rosas, em cujo calice se -baloiçam as minhas brancas borboletas. Esse direito -sagrado, essa liberdade inalienavel do pensamento -serão defendidas por mim ate á morte. Só<span class="pagenum" id="Page_178">[Pg 178]</span> -o amor conhece as palavras mysteriosas que descerram -as portas d’esse tabernaculo; o dever, gélido, -frio, insensivel, não póde ultrapassar os limites -da vida exterior, que está unicamente debaixo -da sua alçada. Diga isto mesmo a Claudio, já que -meu marido prefere relacionar-se comigo por via de -emissarios a appellar para a minha franqueza. -A minha vida, as minhas acções pertencem-lhe; -não lhe pertencem nem o meu coração nem os meus -pensamentos. Estampe na minha fronte o ferrete da -infamia, se alguma vez eu lhe der direito a que suspeite -que trahi a fé conjugal, e puz em perigo a -honra do seu nome. Mas se ainda assim tentar arrogar-se -sobre mim um direito, que nem os mais -despoticos tyrannos têem podido reivindicar; se intentar -algum acto escandaloso, que me deshonre -aos olhos do mundo, lembre-se que toda a vergonha -e toda a responsabilidade cairão sobre a sua -cabeça, e que os mais severos moralistas não ousarão -justificar o procedimento de um homem, que, -deixando sua esposa entregue a todas as tentações -da mocidade e a todos os vituperios da calumnia, -se acha com direito de exigir mais do que o escrupuloso -respeito dos deveres do matrimonio, e persegue -no mais intimo arcano de um coração feminil -os timidos devaneios de um amor que elle nunca -se deu ao trabalho de requestar.</p> - -<p>E, deixando ficar D. Antonia estupefacta com a -vehemencia do meu discurso, saí da sala precipitadamente, -e fui-me refugiar no meu quarto.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_179">[Pg 179]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="XX">XX</h2> -</div> - - -<p>Comtudo era impossivel que esta situação falsissima -se prolongasse por muito tempo. Estavamos -todos embaraçados e constrangidos. Alberto, passado -o primeiro momento de extasi, caira n’um abatimento -visivel. Acudia-lhe o rubor ás faces sempre -que apertava a mão a Claudio; e este, inquieto e -sombrio, estendia-lhe a mão com repugnancia, e -mostrava-lhe uma frieza quasi insultante. A partida -de Alberto era a unica solução possivel; sentia-o -elle e não tinha animo para se apartar de mim; sentia-o -eu tambem e não tinha forças para lhe pedir -que o fizesse.</p> - -<p>Certa da victoria, D. Antonia excitava Claudio a -dar um golpe decisivo; Carolina, furiosa por se ver -burlada quando imaginara burlar-me, juntara-se -francamente aos meus inimigos, e, fazendo côro -com sua madrinha e seu marido, bradava que um -tal escandalo, se continuasse, era capaz de corromper -a atmosphera de Bellas por tal fórma, que nenhuma<span class="pagenum" id="Page_180">[Pg 180]</span> -senhora honesta se resignaria a habitar n’aquelles -arredores, com medo de aspirar, nos haustos -de um ar até ahi tão puro, pensamentos adulteros -e criminosas tentações.</p> - -<p>O padre prior, que não percebia nada do que lhe -diziam, apoiava tudo, confirmando os appoiados -com estrepitosas pitadas, disfarçando tambem d’essa -fórma os remorsos que sentia por abandonar assim -a causa de Alberto, com quem sympathisava -desde que este, com generosa abnegação, se prestara -a substituir uma ou outra vez o proscripto Theodoro -Leite na mesa do voltarete.</p> - -<p>Comtudo, eu e Alberto andavamos sempre arredios -um do outro, e não davamos o minimo pretexto -para que este mysterioso drama tivesse o desenlace -que os nossos inimigos desejavam. Esta obstinação -em não favorecermos os seus planos irritava -D. Antonia, e fazia-a commetter erros de toda -a especie. Mostrava-se umas vezes indignada com -a hypocrisia das pessoas, que sabem disfarçar aos -olhos do mundo o crime que descaradamente confessam -em particular; outras vezes, pelo contrario, -mostrava-se amabilissima comigo e com Alberto, e -por tal fórma nos incitava a que passeassemos juntos, -que esta insistencia chegava a dar-lhe ares de -desempenhar um papel pouco em harmonia com a -dignidade <i>meticulosa</i> de que tanto blasonava. Só -emmudecia quando o sobr’olho fransido de Claudio, -o meio sorriso de Alberto, e os multiplicados signaes -de Carolina lhe faziam perceber que a sua -impaciencia a fizera entrar n’um mau caminho.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_181">[Pg 181]</span></p> - -<p>Principiou então a adoptar um melhor systema; -fingiu que se havia esquecido de todo das suas suspeitas, -e das minhas revelações; fingiu confiar plenamente -no que lhe eu dissera, e não querer por -forma alguma intervir no desenlace de tão penosa -situação. Cuidou talvez que, desassombrada da sua -continua vigilancia, e do constante «álerta» com que -as suas provocações espertavam as minhas suspeitas -e me tinham sempre preparada para o combate, -cederia á fascinação e me deixaria indolentemente -resvalar para o abysmo.</p> - -<p>Enganava-se julgando que a lucta em mim era -apenas filha do capricho e da necessidade de disfarçar -aos olhos de meu marido as minhas criminosas -relações. Não podia ella comprehender que o -amor e a honra se combatessem lealmente no meu -peito, e que o meu espirito encontrasse sempre -novas forças no sentimento da propria dignidade -para reter as perfidas suggestões do coração.</p> - -<p>Mas esse pelejar incessante prostrava-me e desfallecia-me. -Minguava-me não o valor, mas o alento -physico para supportar as consequencias da victoria. -Eram terriveis para mim essas formosas e breves -noites de estio, passadas a velar na minha alcova -solitaria, a ver a lua espraiar-se no chão do jardim, -e a voluptuosa penumbra a aninhar-se nos recantos. -Surprehendia-me a alvorada immovel na minha -janella, assistindo ao esvair da minha mocidade, fada -cada vez mais pallida, entre os primeiros clarões -do horisonte matinal. E esses fugitivos poemas, -que me tinham consumido as horas nocturnas, murchavam-me<span class="pagenum" id="Page_182">[Pg 182]</span> -a flôr da juventude, que toda se desfazia -em fragrancias, com que se perfumavam essas -vagas estrophes, que me voavam nem eu sei para -onde, nas azas da viração.</p> - -<p>Assim passou uma semana.</p> - -<p>Jantaram um dia em nossa casa Carolina e Jeronymo. -Quando acabamos de jantar, fomos tomar -café para a sala. Começava a cair o crepusculo, -um d’esses crepusculos de estio, serenos e harmoniosos. -As janellas abertas deixavam entrar os longiquos -murmurios do campo, o melancholico mugido -do boi, que volta para o curral, o grito prolongado -do pastor, o som grave e religioso do sino -das Ave-Marias, e d’envolta com estas campestres -melodias vinham tambem os vagos aromas que as -flores das noites rescendem n’essa hora mysteriosa.</p> - -<p>Entrou Alberto, quando eu me fôra sentar ao -piano, a pedido de Carolina, que instava comigo -para que tocasse um trecho da <i>Luiza Miller</i>, muito -da sua predilecção. Era uma das mais suaves e mais -melancholicas romanzas de tenor, uma das mais -mimosas perolas d’esse collar de melodias, que, -n’uma hora de inspiração, Verdi desfiou sobre o -publico dilettante. O crepusculo já déra logar ás -sombras da noite; não havia ainda luar, mas estava -tão estrellado o céu, e era tão suave aquella penumbra -que ninguem se lembrou de pedir luz. -Agruparam-se todos em torno do piano, e estava -eu preludiando, quando entrou Alberto, como já -disse.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_183">[Pg 183]</span></p> - -<p>Interrompi-me á sua chegada, mas elle, apenas -fallou ás pessoas presentes, disse logo:</p> - -<p>—Oh! minha senhora, teria eu remorso eterno, -se por minha causa ficassem os rouxinoes do seu -jardim privados d’uma nota só d’esse cantico delicioso, -que lhes ha de ensinar a celebrarem ainda -melhor do que celebram os encantos d’uma noite -estrellada. Continue vossa excellencia.</p> - -<p>—Chegou muito a proposito, senhor Alberto -Mascarenhas, acudiu Carolina; ia-se tocar a romanza -do tenor; commettiamos um sacrilegio confiando -a um piano, ainda que tocado admiravelmente, -o cantico sublime, digno só de ser entoado -pela voz humana. Valha-nos pois, cante-nos a romanza.</p> - -<p>—Por Deus, senhora D. Carolina, o que diriam -os rouxinoes? Excommungavam-me de certo, e -encarregavam os mochos e as corujas de executarem -a sentença, poisando todas as noites no tecto -da minha hospedaria. Posso affiançar a vossa excellencia, -que nas pontas dos dedos da senhora D. -Margarida está escondido um Mongini, que lhe vae -cantar admiravelmente a aria que me pede.</p> - -<p>—Não, não, respondi eu rindo, engana-se. Mongini -rasgou a escriptura, de fórma que os meus dedos -declaram positivamente que só estão disponiveis -para acompanhamentos.</p> - -<p>—Bem, por minha causa não quero que se feche -o theatro. Estou prompto a obedecer ás ordens -de vossas excellencias.</p> - -<p>Alberto possuia uma bonita voz de tenor, pequena<span class="pagenum" id="Page_184">[Pg 184]</span> -sim, mas dramatica, se me permittem o termo. -Reproduzia admiravelmente cada inflexão da melodia, -cada intenção do maestro. Identificava-se com -a musica, e perfumava-se de suave tristeza, ou irrompia -em gritos de paixão, ou tomava o tom elegante -do galanteio frivolo, conforme cantava, ou o -<i>Ah! perché non posso odiar-ti</i> da <i>Somnambula</i>, ou -o <i>Mentré contemplo</i> das <i>Vesperas Sicilianas</i>, ou o -<i>Questa o quella</i> do <i>Rigoletto</i>.</p> - -<p>Corri os dedos pelo teclado, e preludiei depois, -fazendo brotar das teclas as notas graves da introducção.</p> - -<p>A extrema luz crepuscular illuminava escassamente -o pallido azul do céo, onde palpitavam as estrellas. -A placidez da noite proxima, a serenidade da -atmosphera, o profundo silencio que reinava no -aposento, silencio quebrado apenas pelos frouxos -e derradeiros murmurios do dia, predispunham a -alma para esse embevecimento mudo e extatico, -melancholico e religioso, que esse canto grave, simples, -e vago como uma melodia exhalada espontaneamente -da harpa gigante da natureza, é tão proprio -para inspirar. A voz de Alberto ergueu-se pura, -limpida, mas levemente commovida. Creio que todos -sentimos um inexprimivel encanto ao ouvirmos -as primeiras notas suaves e serenas, que tão bem -se casavam pelo tom e pela letra com o espectaculo -que nos rodeava:</p> - -<p class="poetry"> -<i>Quando le sere, al placido<br> -Chiarore d’un ciel stellato</i><br> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_185">[Pg 185]</span></p> - -<p>O canto espraiava-se pela planicie, ia expirar ao -longe em languido murmurio, e acordava milhares -de eccos mysteriosos. Os campos, adormecidos no -voluptuoso regaço d’essa hora magica, despertavam -ao ouvirem essa harmonia, synthese admiravel das -suas vozes confusas. Eu estava profundamente commovida, -sentia que Alberto cantava para mim só, -que era para mim que elle deixava expandir-se a -sua alma em cada uma das notas d’esse cantico. A -sua voz era apenas um frémito, quando, n’essa doce -lingua italiana, recordava as meigas horas em que, -de mãos enlaçadas, fitavamos o céu onde esmoreciam -os ultimos raios do sol. Porque eu chegara a -convencer-me que tudo aquillo era verdade e não -ficção, que era eu a heroina da opera, elle o meu -apaixonado, e quando, todo embevecido n’essas recordações, -Alberto, como que esquecendo-se do -presente, concentrou toda a sua alma, toda a sua -paixão n’aquelle grito immenso de amor e de jubilo:</p> - -<p class="poetry"> -<i>Allor parea l’Empireo<br> -Aprir-se all’alma mia</i><br> -</p> - -<p>não pude conter mais os sentimentos, que me trasbordavam -do peito, e deixando cair os braços e interrompendo -o acompanhamento, contive a custo -os soluços e deixei as lagrimas silenciosas golpharem-me -dos olhos e inundarem-me as faces.</p> - -<p>Alberto calou-se de subito, os ouvintes levantaram-se -dizendo: «O que é isto?» Meu marido approximou-se -logo de mim, relanceando para Alberto<span class="pagenum" id="Page_186">[Pg 186]</span> -um olhar cheio de odio, e perguntando-me rudemente: -«O que tem?»</p> - -<p>—Nada, nada, respondi eu com voz bastante -firme; uma dor violenta que me surprehendeu, mas -que já me passou.</p> - -<p>—No coração? perguntou D. Antonia com fingida -ingenuidade.</p> - -<p>—Sim, no coração, respondi eu com altivez; mas -comprimi-a já.</p> - -<p>—Essas dores são muito más, tornou ella, vem -quando menos se esperam.</p> - -<p>—Mas não vencem apesar d’isso, continuei eu.</p> - -<p>Claudio ouvia este dialogo com modo sombrio.</p> - -<p>—A senhora D. Margarida, acudiu Carolina, é -muito nervosa, e as pessoas nervosas facilmente se -deixam impressionar pela musica. Demais a mais o -senhor Alberto Mascarenhas cantou com tanto ardor, -tanto de coração, que não admira que produzisse -este effeito.</p> - -<p>—Engana-se, minha senhora, respondi eu; nada -tem com este incommodo passageiro o canto e a -musica; vou-me deitar em cima da minha cama um -instante, e voltarei restabelecida.</p> - -<p>—Vá, vá, tornou D. Carolina cariciosamente. Desabafe -que lhe ha de fazer bem.</p> - -<p>Não lhe repliquei, e saí. Quando cheguei ao meu -quarto, foram-me allivio as lagrimas. Entre a minha -afflicção, comtudo, avultava uma idéa fixa. «Não, -dizia eu comigo mesma, isto não póde durar. Vejo -dois caminhos abertos deante de mim, o do amor -e da perdição, e o da salvação e do martyrio. Ou<span class="pagenum" id="Page_187">[Pg 187]</span> -entregar-me á paixão fatal, que me domina, fazer -a vontade a esta gente e procurar no amor de Alberto -consolações, que me abafem os remorsos, -ou fazer cessar esta lucta perigosa, dizendo a Alberto -que parta, encerrando as lagrimas no peito, -e engolphando-me brutalmente n’esta existencia -mesquinha, que me ha de assegurar a consideração -da condessa, a estima de D. Antonia e a tranquillidade -talvez. A tranquillidade? Palavra d’ora em -deante sem sentido para mim! Se conquisto a paz -exterior, as tempestades nem por isso deixarão de -me bramir no coração. Mas que importa? O cumprimento -de um dever nunca deixa de ser acompanhado -por intima satisfação, e será esse o magico -talisman que abrandará o soffrimento, a que a minha -vida vae ser condemnada. É preciso, é indispensavel -que Alberto se ausente. Ausentae-vos com -elle, sonhos tentadores, perigosos devaneios, frémitos -da juventude, que se revolta contra o cilicio, -aspirações do meu espirito para o mundo luminoso, -d’onde o dever o repelle.»</p> - -<p>Armando-me de coragem, desci á sala, decidida -a pedir a Alberto uma entrevista, para lhe explicar -francamente a minha situação, e rogar-lhe que me -facilitasse o sair d’ella.</p> - -<p>Já lá estavam a condessa, o padre prior e a baroneza.</p> - -<p>Como a tactica de D. Antonia consistia em me -deixar a maior liberdade, julguei que poderia facilmente -fallar de relance a Alberto. Mas o ciume de -Carolina parece que fôra excitado pela scena do<span class="pagenum" id="Page_188">[Pg 188]</span> -piano, de forma que não fez senão interpor-se constantemente -a nós ambos, e não nos deixou sós nem -um instante.</p> - -<p>Já perdera as esperanças de lhe fallar, e até já -me despedira d’elle e das outras visitas que se retiravam, -quando, ao atravessar a saleta para subir -para o meu quarto, encontrei Alberto, que subia -de novo para buscar alguma coisa, que lhe esquecera.</p> - -<p>Travei-lhe da mão, e disse-lhe apressadamente:</p> - -<p>—Preciso muito de lhe fallar: ámanhã, ás duas -horas da noite, venha ter comigo ao jardim. Enviar-lhe-hei -a chave.</p> - -<p>Alberto ficou mudo d’assombro. Eu nem lhe dei -tempo a responder-me. Saí precipitadamente, e, ao -abrir a porta, esbarrei n’um vulto.</p> - -<p>Era a Maria do Rosario.</p> - -<p>—Que estava aqui a fazer? perguntei eu com -indignação.</p> - -<p>—Nada, minha senhora, respondeu ella com toda -a naturalidade; vinha apagar as luzes.</p> - -<p>E entrou effectivamente para a sala.</p> - -<p>Era possivel que fosse essa a verdade, e, se o -não fosse, que me importava? Denunciasse-me embora; -eu ia jogar a ultima carta, e estava disposta -a confiar-me cegamente ao destino.</p> - -<p>Comtudo, até para dar esse passo, que me devia -salvar da vergonha, precisava de humilhar o meu -orgulho aos pés de uma creada; é verdade que essa -creada, antes amiga, era a boa Quiteria, a pobre -velha, que tão desinteressadamente se dedicara a<span class="pagenum" id="Page_189">[Pg 189]</span> -mim. Só d’ella me podia valer para conseguir que -fosse entregue a Alberto a chave, que era indispensavel -para a nossa ultima entrevista.</p> - -<p>Portanto, no dia seguinte chamei-a ao meu quarto, -e como ligava muito mais apreço á opinião da -boa e pobre Quiteria do que á da altiva D. Antonia, -e da virtuosa condessa, contei-lhe pela rama a -historia das minhas relações com Alberto, não lhe -fallei em subtilesas de coração, mas disse-lhe que, -vendo-me calumniada por causa d’aquelle homem, -queria ter uma conferencia com elle para lhe pedir -que se retirasse e não me expuzesse mais, ainda -que involuntariamente, aos juizos desfavoraveis das -pessoas com quem estava condemnada a viver. -Terminei rogando-lhe que se encarregasse da missão -que eu desejava confiar-lhe.</p> - -<p>—Minha boa menina, respondeu-me a Quiteria, -tenho dado fé das intrigas, que a cercam, e sei perfeitamente -que a senhora D. Margarida está innocentinha -como um anjo do céu. Dá-me vontade ás -vezes de esganar os seus perseguidores! Já não fallo -no senhor Claudio, que esse no fundo é muito boa -pessoa, assim elle soubesse ser dono da sua casa. -Mas a senhora D. Antonia, Deus me perdôe, parece -mesmo que tem o demonio ao lado que lhe está -aconselhando a maldade. E a Maria do Rosario? -Ai! que boa peça! Anda sempre, como o outro que -diz, com o santo nome de Deus na boca, e o diabo -no coração. Aquillo até chega a ser heresia. Por -isso todos lhe teem raiva, e se não fosse por minha -causa, o meu Simão já lhe tinha quebrado os ossos,<span class="pagenum" id="Page_190">[Pg 190]</span> -quando a pilhava a espreital-a, e a ir metter no -bico da senhora D. Antonia tudo quanto a menina -faz! Mas eu que sou muito sua amiga, porque vejo -que é boa com a gente pobre, e que não se contenta -em lhes dar uma fatia de pão, com modos de -quem dá uma facada, como fazem essas beatas fingidas; -mas que é meiga, affavel com elles, que os -trata bem, e não lhes faz sentir a sua humildade e a -sua dependencia, que não ha coisa mais triste, santo -nome de Jesus. Andar uma pessoa a comer as sopas -d’outrem...</p> - -<p>—Mas o que é que ia a dizer, tia Quiteria? interrompi -eu, porque a via disposta a amontuar incidentes -sobre incidentes, e a perder o fio da oração -principal.</p> - -<p>—Ah! é verdade, já me esquecia... Tenha paciencia, -minha boa senhora, que isto de velhas gostam -muito de dar á lingua, e, em ellas começando, -não ha fazel-as parar. Misturam alhos com bugalhos, -e nunca chegam ao fim, como succedeu na -noite em que a menina chegou, que me enredei por -tal fórma, que não acabei de contar a historia do fr. -João. Que elle sempre viu a alma do pae...</p> - -<p>—Mas vossemecê estava a dizer outra coisa, tornei -eu, já impaciente.</p> - -<p>—Ah! é verdade. Isso é o que importa agora, e -não o saber-se que o pae de João lhe confessou que -fôra a pouco e pouco mudando os marcos das terras -dos visinhos, e que não teria a sua alma descanço -e andaria penando por este mundo em quanto -essa justiça não fosse reparada.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_191">[Pg 191]</span></p> - -<p>—Sim, sim, tia Quiteria, mas vossemecê dizia...</p> - -<p>—Ah! é verdade, voltando cá á boa alma de Maria -do Rosario, que me parece que já está a arder -no inferno pelas mexeriquices que tem feito, e as -desgraças que póde crusar, sempre lhe direi, minha -menina, que o demonio da mulher ouviu-a hontem -dizer ao senhor Alberto que fosse ao jardim, e, segundo -o seu costume, foi logo dizer tudo á senhora -D. Antonia. Ouvi-a eu com estes ouvidos, que eu -não sou surda, graças a Deus, a vista é que se me -vae debilitando alguma coisa, e os dentes esses viste’-los? -Nem eu. Pois ouvi-a estar a contar tudo -isso, e ouvi tambem a senhora D. Antonia dizer assim: -«Ora graças a Deus! vejâmos agora se meu -sobrinho ainda acha algum pretexto para se esquivar -a fazer o que deve, e se, depois de ter visto -com os seus proprios olhos, ainda estiver pouco disposto -para isso, nós arranjaremos as coisas de maneira -que elle não tenha outra saída. O caso é não -se ter vossemecê enganado nas horas.»—«Não enganei, -não, minha senhora, respondia a voz de falsete -da Maria do Rosario, ás duas horas no jardim.» -Mais nada ouvi porque senti passos aproximarem-se -da porta, e não tive tempo senão de me safar. Ora -agora veja a menina se não será melhor adiar a entrevista -para outra occasião. Olhe que ellas estão -prevenidas, e fazem-lhe alguma.</p> - -<p>Reflecti alguns momentos antes de dar uma resposta. -Os sentimentos do meu coração, vencidos -pela idéa do dever, não tinham ficado completamente -domados, e protestavam ainda contra a oppressão,<span class="pagenum" id="Page_192">[Pg 192]</span> -a que os votara. Fugia d’esse vedado paraiso do -amor, mas, fugindo, relanceava para elle os olhos, -como a chorosa Eva ao sair do Eden, se voltava a -contemplal-o, com o peito a arquejar de saudades. -Sorria-me tentadora a idéa fatal de esquecer nos -braços de Alberto a vida e as suas obrigações, o -mundo e as suas amarguras, de fugir com elle para -algum eremiterio arredado do bulicio social, ufanando-me -do estygma, aceitando o escandalo para conquistar -o amor, como se aceita o martyrio para se -conquistar a palma. Bem sei que seria de pouca -dura essa felicidade criminosa, que o remorso seria -o meu algoz, e o enfado, que algumas vezes me entreluzisse -nos olhos do meu amante, pugentissimo -castigo; mas o que era tudo isso em comparação da -longa vida de estiolamento que eu ia passar n’esse -carcere domestico? Lembrei-me dos amores de D. -Branca e de Aben-Afan. Horas breves de felicidade -compradas por uma vida inteira de horrido desgosto; -e o que destruira esses amores tão violentos? -Um gesto de fastio do moiro wali, saudoso das -suas pelejas e do seu poder. Teria eu maior condão -que D. Branca, Alberto mais desprendimento -do mundo, do que Aben-Afan? Não lhe leria nunca -nos olhos o desgosto de se ter prendido em laços, -não authorisados pela sociedade, e de se ver privado -dos gosos mundanos?</p> - -<p>Mas isso que importava? Se a gentil abbadessa, -depois de ter visto e amado o arabe formoso, se -houvesse sepultado logo no gélido mosteiro, não seria -ainda maior a sua tristeza? Não seria a sua vida<span class="pagenum" id="Page_193">[Pg 193]</span> -uma longa noite, em que nem sequer luziria um -raio do sol extincto sim, mas que por instantes brilhara -no horisonte? Longa noite sem o luar d’uma -recordação? Não seria então que o poeta podia deveras -exclamar:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 9em;">.... Mas é vida</span><br> -Esse viver que se alimenta em lagrimas?<br> -</p> - -<p>Agitada por estes encontrados pensamentos, persisti -na idéa de deixar ir o batel do nosso destino -ao som da agua, para onde o impellisse a corrente -do acaso, ou antes, o que era mais christão na forma, -senão no fundo, entreguei á Providencia o cuidado -de reger o leme, e confiei-me cegamente ás -ordens do Divino Piloto. Cumpriria o que resolvera, -iria pedir a Alberto que se affastasse de mim, -porém, se a fatalidade interviesse de novo, se a mão -implacavel dos que me tinham collocado á beira do -abysmo me despenhasse n’elle, não opporia a minima -resistencia, e deixar-me-hia cair nos braços -que me recebessem.</p> - -<p>Era esta a ultima prova e a mais fatal das indecisões -do meu caracter, tão pouco proprio para as -luctas da existencia.</p> - -<p>Por isso respondi á boa mulher:</p> - -<p>—Embora, tia Quiteria; cumpra-se o meu destino: -o que resolvi está resolvido. São puras as minhas -intenções, mas já não tenho forças para luctar -com as minhas perseguidoras. Quanto mais depressa -isto acabar, melhor. Estou anciosa pelo descanço,<span class="pagenum" id="Page_194">[Pg 194]</span> -ainda que seja o repouso do tumulo, ou o do -opprobrio.</p> - -<p>—Ah! a minha menina que se deita a perder! -tornou a Quiteria com modos supplicantes. Pois -quer dar essa gloria ás suas inimigas? Não faça tal. -E demais, continuou ella, desatando a chorar, isso -é tentar a Deus, é, como quem diz, dar cabo de si -com as proprias mãos.</p> - -<p>Travei, commovida, das mãos de Quiteria, e disse-lhe:</p> - -<p>—Obrigada, minha boa amiga, obrigada por essas -lagrimas. Ah! se as pessoas que a desprezam -do alto da sua soberba, tivessem o seu coração!... -Mas, tia Quiteria, bem vê que uma vida assim não -pode continuar. Estou cançada, estou prostrada por -esta lucta sem treguas nem fim. Acarinhada, mimosa -em casa de meus paes, vim para esta casa, nunca -mais tive nem socego nem alegria. As pessoas do meu -trato quotidiano só tinham para mim rostos severos -ou frios. Não tive affeições, não tive familia. E, não -contentes com isso, isolaram-me do mundo, e cercaram-me -com uma gélida barreira de desconfianças, -de suspeitas, e de calumnias. Esforcei-me, luctei -por sair d’este circulo de ferro; não pude. Já me -sinto sem forças nem alento. No tumulo talvez me -deixem tranquilla, ou, se me expulsarem d’esta casa, -talvez encontre descanço ahi no fundo de alguma -choça abandonada. Não é melhor assim?</p> - -<p>E as minhas lagrimas confundiram-se com o pranto -da minha humilde amiga.</p> - -<p>—Pobre senhora! pobre senhora! dizia ella, soluçando;<span class="pagenum" id="Page_195">[Pg 195]</span> -pobre pombinha sem ninho! antes Deus a -tivesse feito nascer n’uma choupana! viveria socegada, -e todos a haviam de estimar, como merece.</p> - -<p>—Antes, antes, Quiteria, respondi eu melancholica, -bastantes vezes, no silencio da noite, lancei a -Deus esse grito de revolta contra o martyrio sem -causa.</p> - -<p>—Mas, minha menina, continuou a velhinha limpando -as lagrimas, que ainda lhe banhavam as faces, -se por força quer fallar esta noite ao senhor -Alberto, ao menos faça-me uma coisa.</p> - -<p>—Qual é?</p> - -<p>—Mude a hora da entrevista; mande dizer ao senhor -Alberto que venha á meia noite.</p> - -<p>—Á meia-noite, tia Quiteria! Quasi a essa hora -se vão as visitas.</p> - -<p>—Então o que tem? O senhor Alberto que espere. -Olhe, a senhora D. Antonia, o que deseja é -ver se a apanha lá, e por conseguinte esteja a minha -menina certa que lhe não ha de pôr obstaculos.</p> - -<p>—Oh! isso sei eu.</p> - -<p>—Então está combinado?</p> - -<p>—Pois sim! tornei eu com a indifferença do fatalismo.</p> - -<p>—Ora bem! disse a Quiteria muito satisfeita. Assim -talvez ainda as possamos lograr! Deus está por -nós. Elle nos ajudará. Fique a menina descançada -que d’aqui a duas horas está o senhor Alberto avisado.</p> - -<p>E, despedindo-se de mim, dirigiu-se para a porta; -mas, quando ia a levantar o fecho, parou, como<span class="pagenum" id="Page_196">[Pg 196]</span> -se lhe houvesse esquecido alguma coisa, e disse:</p> - -<p>—Ah! já me não lembrava!...</p> - -<p>—O que é, tia Quiteria? perguntei eu com interesse.</p> - -<p>—O João...</p> - -<p>—Qual João? tornei a perguntar, porque já nem -pensava na historia do frade.</p> - -<p>—Ora, qual João! o que viu a alma do pae...</p> - -<p>—Ah! é verdade, interrompi eu rindo, então o -que lhe succedeu?</p> - -<p>—No dia seguinte restituiu as terras furtadas aos -seus donos, as outras vendeu-as, e foi-se metter -n’um convento. E aqui está como fr. João vestiu o -habito de frade, e foi sempre um homem exemplar.</p> - -<p>E muito satisfeita por ter afinal contado a sua -historia toda, a tia Quiteria abriu a porta e saíu.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_197">[Pg 197]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="XXI">XXI</h2> -</div> - - -<p>Pareceram-me seculos as horas, que decorreram -até o cair da noite, e comtudo, quando as primeiras -sombras do crepusculo principiaram a invadir o céu, -desejei que retrocedesse o tempo, e tremi de ver -tão proximo o instante em que se ia decidir a minha -sorte.</p> - -<p>Chegaram, segundo o costume, as visitas; D. -Antonia mostrara-se todo o dia affabilissima comigo, -tambem a condessa houve por bem mimosear-me -com alguns dos seus mais amaveis sorrisos, e Carolina -abraçou-me e beijou-me com extraordinaria -affeição.</p> - -<p>A tudo correspondi com sereno e melancholico -aspecto: causava-me asco esse corrilho de Judas.</p> - -<p>Ás dez e meia retiraram-se todos; D. Antonia -disse estar incommodada, e foi-se metter no seu -quarto; Claudio apparecera na sala e demorara-se -instantes apenas, mostrando-se visivelmente inquieto; -depois saira.</p> - -<p>Á meia noite em ponto, desci do quarto; pulsava-me -o coração com extraordinaria vehemencia;<span class="pagenum" id="Page_198">[Pg 198]</span> -ia dando um grito, e deixando cair o castiçal, que -levava na mão, ao deparar-se-me um vulto immovel -no fundo da escada.</p> - -<p>Felizmente logo o conheci: era Quiteria.</p> - -<p>—Começa o enredo, disse-me ella em voz baixa; -a condessa e a D. Carolina entraram agora -mesmo.</p> - -<p>—Estão cá? perguntei eu.</p> - -<p>—Estão; fingiram que se iam embora; mas foram -passear, voltaram, e metteram-se no quarto -de D. Antonia. Lá está tambem a Maria do Rosario.</p> - -<p>—O que farão ellas?</p> - -<p>—Não sei, mas não tema. Aproveite este momento, -que é favoravel. Deus a proteja, filha.</p> - -<p>Abri a porta do jardim, e saí. Ainda não campeava -no horisonte a lua, mas aproximava-se a -hora em que havia de surgir o meigo astro. A folhagem -das arvores meneava-se brandamente ao -sopro suave da brisa, e por entre a ramaria scintillavam -as estrellas.</p> - -<p>Atravessei ligeiramente a rua principal do jardim, -dirigindo-me á porta que deitava para a estrada. -Quando cheguei a uma espessa moita de buxo não -tosquiado, que se erguia a grande altura, ouvi uma -voz que murmurava muito de manso:</p> - -<p>—Margarida!</p> - -<p>Voltei-me, e vi Alberto.</p> - -<p>Parei, e comprimi com a mão o violento arfar -do peito. Alberto pegou-me na outra mão, e levou-a -respeitosamente aos labios.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_199">[Pg 199]</span></p> - -<p>—O que pensou de mim, senhor Mascarenhas, -disse-lhe eu, ao receber o estranho recado que lhe -enviei?</p> - -<p>—Pensei que vossa excellencia tinha que me dar -uma ordem, que eu tinha a ventura de poder executar -um mandado seu, e vim.</p> - -<p>—Disposto a obedecer-me?</p> - -<p>—Em tudo.</p> - -<p>Calei-me embaraçada; não sabia como havia de -dar o primeiro passo n’esse terreno escorregadio. -Tinha os olhos baixos, mas como que sentia o olhar -de Alberto fito no meu rosto com inexprimivel anciedade. -As nossas respirações oppressas confundiam-se -n’um murmurio, que se casava com o sussurrar -da brisa languida nas folhas do arvoredo.</p> - -<p>Formava o buxo uma espessa parede, que nos -abrigava do lado de casa; corria-lhe fronteiro o muro -do jardim, mas a porta ficava-nos distante. Um -pecegueiro, ainda em flor, estendia por cima de nós -a copa como um docel perfumado. Uma estatua -pagã, meio escondida no buxo, espreitava-nos maliciosamente -da sua verde alcova.</p> - -<p>—Senhor Alberto Mascarenhas, disse-lhe eu com -voz profundamente commovida, poz-nos o acaso -n’uma situação falsissima. N’um momento de exaltação -passageira trocámos palavras fataes, que ainda -hoje me soam aos ouvidos como um remorso. Justificámos -a calumnia, demos rasão aos calumniadores. -Esse crime só se resgata com a separação. É -o allivio para os nossos espiritos, a tranquilidade -para as nossas consciencias. Não podemos viver assim<span class="pagenum" id="Page_200">[Pg 200]</span> -com a recordação d’essa tarde a interpor-se -constantemente a nós ambos, a pungir-nos sempre -como espinho de rosa, que nasceu amaldiçoada. -Chamei-o aqui para implorar da sua honra, do seu -cavalheirismo, da sua amisade, do seu amor emfim, -se me é permittido proferir tal palavra, a esmola -de um pouco de socego. Parta, rogo-lh’o, ausente-se -d’esta casa, d’este sitio, rompa completamente as -suas relações com a minha familia; só assim poderei -recuperar a paz, por que almejo tanto, que a -acceito, ainda que seja o repouso do tumulo, ou a -atonia do desespero.</p> - -<p>—Minha senhora, respondeu Alberto com mal -fingida firmesa, obedeço a esta ordem de vossa excellencia, -como a todas obedeceria. E demais vejo, -percebo tambem, que é intoleravel a nossa situação. -Amigo de seu marido, estou representando um papel -em que a minha lealdade soffre. Não sei se esta -consideração bastaria para me arrancar d’aqui; as -leis da honra ás vezes são frageis diques contra as -torrentes de alguns affectos. Mas não devo pensar -em mim, devo pensar no anjo puro, cuja etherea -serenidade perturbei, no anjo, em cujo céu immaculado -tive a audacia de fazer reboar um echo das -paixões vis da terra. Possa o meu sacrificio restituir-lhe -o repouso.</p> - -<p>Calou-se um instante, e depois, emquanto eu, -sem forças para lhe responder, e mal podendo suster-me -em pé, me encostava ao pedestal da estatua, -continuou com voz triste, ainda que serena:</p> - -<p>—Adeus, Margarida.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_201">[Pg 201]</span></p> - -<p>E estendeu-me a mão, que eu apertei.</p> - -<p>—Adeus, Alberto, disse com egual simplicidade -e tristeza.</p> - -<p>E ficamos assim, com as mãos enlaçadas, e os -olhos de um cravados nos olhos do outro. A brisa -sussurrava no arvoredo, e o primeiro raio da lua -nascente coava-se a furto por entre os ramos do pecegueiro.</p> - -<p>—Que sonho tão breve, Margarida! murmurou -elle.</p> - -<p>—Como todos os sonhos, Alberto! respondi eu.</p> - -<p>—Sim, como todos os sonhos, que descem das -regiões da phantasia para o mundo da realidade. -Dizem as lendas allemãs que os espiritos do ar e -das aguas podem, pela magia do amor, tomar humana -forma e alma tambem humana, mas qualquer -desgosto os fina, e perdem então de todo a immortalidade. -Quer-me parecer que os sonhos são como -os sylphos e as ondinas.</p> - -<p>—Louco de quem lhes magôa as azas candidas -com os attritos da vida!</p> - -<p>—Bem louco!... Que irresistivel tentação, que -absurdo escrupulo me impelliu a revelar-lhe n’aquella -noite fatal a historia dos meus amores! Soltei -as avesinhas captivas, julgando que as poderia -fazer voltar ao ninho...</p> - -<p>—E ellas foram despertar com os seus cantos -as irmãs adormecidas na minha alma. Era natural, -bem vê.</p> - -<p>—Como virem os gelos, e matarem-nas. Embora, -continuou Alberto um tanto exaltado, gosei um<span class="pagenum" id="Page_202">[Pg 202]</span> -instante de suprema ventura. Oh! antes de nos separarmos -para sempre, diga, Margarida, diga-me -que esse momento, em que se vae absorver e resumir -todo o meu passado, ha de brilhar tambem -como um ponto luminoso na sua vida.</p> - -<p>—Sim, digo, tornei eu palpitante de commoção, -e não me pejo de o dizer, porque vou expiar longamente -esse prazer tão rapido. Entrevi de relance -as doçuras de um vedado paraiso. Bebi com delicia -criminosa o feiticeiro philtro das suas palavras. -Não tardaram as amarguras. Estado tão inebriante -era como esse mundo de crystal, que a phantasia de -não sei que romancista povoou de ignotos encantamentos, -de esplendidos prodigios; mas um bafo -annuviava o ridente quadro, qualquer attrito o partia. -Vivemos instantes no crystal, Alberto; o nosso -mundo despedaçou-se, e os fragmentos ahi jazem -dispersos. Mas crêa: sempre que os espinhos da -realidade me ferirem em demasia, hei de volver os -olhos enlevados para a região das fadas, onde enlaçados -poisámos.</p> - -<p>—Oh! não murmure ao meu ouvido, tornou Alberto, -essas magicas palavras! Quer que nos separemos, -e está entrançando de ouro e seda o laço, -que me ha de reter captivo? A melodia da sua voz -é canto de sereia, que me arrasta para o abysmo. -Sinto que a minha alma se prende n’essa ineffavel -seducção. Separarmo-nos! separarmo-nos agora, repetia -elle exaltado, bem vê que é impossivel! Essa -palavra destôa dos murmurios amorosos d’este jardim, -das meigas notas da sua voz. Não a profira,<span class="pagenum" id="Page_203">[Pg 203]</span> -não me quebre o encanto, deixe-me viver no crystal, -como dizia, no crystal onde sinto repercutir-se -em eccos deliciosos cada uma das estrophes do meu -encantador poema. Não, não, não posso.</p> - -<p>—Alberto, exclamei eu, o que intenta fazer? -Lembre-se do que me prometteu, lembre-se das -desgraças, de que póde ser causa este infausto -amor.</p> - -<p>—Sim, Margarida, respondeu elle apertando-me -convulso as mãos, lembro-me de tudo, e tudo cumprirei. -Mas hoje é a ultima noite que me resta para -te ver. Lembra-te que vou, navegador infeliz, vaguear -de novo pelo oceano sombrio da existencia, -sósinho, sem uma esperança, sem uma estrella no -céu tenebroso, ludibrio das vagas e das tempestades. -E quando o vendaval agudo me açoitar alta -noite, quando não bruxulear para mim no horisonte -outro fanal que não seja a triste lampada do tumulo, -não queres que eu conserve ao menos uma lembrança -do radiante porto, da afortunada ilha onde -pude repoisar por instantes a fronte queimada pelo -sopro das procellas? Não queres que se me aclarem -um momento as sombras, e que entre os fulgores -da aurora me surja o teu vulto angelico, meigo e -saudoso como na hora em que para sempre nos -apartámos?</p> - -<p>E a lua, alta no céu, illuminava-lhe o rosto pallido, -e incendia-lhe vivissimos lampejos nos olhos -marejados de lagrimas. A aragem meneava a copa -do pecegueiro, e desprendia-lhe as flores, que caíam -em torno de nós em chuva de perfumes. Esse murmurio<span class="pagenum" id="Page_204">[Pg 204]</span> -vago das noites de estio expirava ao nosso -ouvido em voluptuosa melodia.</p> - -<p>Lancei a cabeça para traz, para fugir á magnetica -seducção do olhar de Alberto. Soltou-se-me então -uma trança, que a brisa trouxe logo a beijar-me o -collo, como essas <i>boucles folles</i> em que os francezes -fallam.</p> - -<p>—Mas o que quer? o que exige de mim? disse -eu com voz tremula. Oh! Alberto, porque se não -ausentou já?</p> - -<p>—Nada quero nada, senão que se deixe estar -assim, formosa incarnação do meu sonho mais -bello! Oh! se um esculptor grego a visse, tomal-a-hia -pela deusa da caça, nas horas em que desce ao -seio dos bosques a procurar Endymião. Ha na sua -attitude um mixto indizivel de languidez e de pudor, -um não sei que de casta voluptuosidade, que lhe -namoraria os olhos, como a mim m’os namora, -captivando-me o espirito. És linda, Margarida!</p> - -<p>—Alberto! interrompi eu, escondendo a fronte -ruborisada nas mãos trementes.</p> - -<p>Elle cingiu-me com um braço, e puxando-me para -si, e obrigando-me ao mesmo tempo com dôce -violencia a reclinar o rosto, de fórma que a lua m’o -illuminava em cheio, continuou:</p> - -<p>—És linda! és linda! quero gravar bem no coração -a tua imagem, as linhas do teu semblante, a -luz do teu olhar! Quereria até poder captivar e reter -na urna do meu peito esse perfume inebriante -e impalpavel, que se exhala dos teus cabellos! E -vou perder-te para sempre... para sempre... não<span class="pagenum" id="Page_205">[Pg 205]</span> -ver-te mais, senão em sonhos. E hei de assim abandonar -a ventura, quando a tenho nos meus braços, -hei de eu mesmo precipitar-me das alturas do céu -nas profundesas do inferno? Que tortura, não é?</p> - -<p>—E a minha, Alberto?</p> - -<p>—A tua ha de ser o desgosto que sentimos ao -ver desfazer-se o devaneio de um instante, o desgosto -da creança, quando desapparece o globo de -agua de sabão, todo iriado e matisado de brilhantes -côres pelos raios de sol, globo que um sopro -creou e um sopro mata. Mas eu!... Este sonho formava -parte integrante da minha existencia. Ainda -que o julgasse irrealisavel, sempre uma vaga esperança -me vinha segredar ao ouvido ineffaveis consolações. -Mas agora, filha, agora nem isso me é -permittido! morreu para sempre, morreu o pobre -sonho, o meu constante companheiro, o meigo irmão -da minha alma!</p> - -<p>E apertava-me convulso ao peito, e embebia -nos meus os seus olhos desvairados. Afastava-me -os cabellos da fronte com os dedos tremulos, e o -seu bafo acariciava-me os labios, dôce e casto como -o beijo de um anjo.</p> - -<p>—E podia comtudo ser feliz, Margarida! Se calcasse -aos pés as leis do mundo e as da honra, se -te pedisse que fugissemos d’aqui para um recanto -ignorado do mundo, onde houvesse luar, canticos -e aromas! Para a Italia, para Napoles, á beira d’esse -formoso golpho, por baixo d’esse céu azul, n’esse -solo ardente, requeimado pela lava do Vesuvio, -como o meu peito pela fervente lava d’este amor.<span class="pagenum" id="Page_206">[Pg 206]</span> -Alli de todos nos esqueceriamos; alli podiamos prolongar -infinitamente estes rapidos instantes. Margarida! -tu não podes viver n’esta atmosphera de gelo, -n’esta casa maldita; o teu destino é o meu, são eguaes -os nossos fados. Vem, vem comigo, arrojemo-nos cégamente -para este pelago de paixões, unico elemento -onde póde viver o nosso espirito férvido. Vem, -devoremos em Napoles em alguns annos uma existencia -de seculos, até que morrâmos juntos sobre o -tumulo do poeta de Dido, ou na praia sonora, onde -nasceu o vate de Armida.</p> - -<p>E arrastava-me com impeto febril. E eu dizia-lhe:</p> - -<p>—Alberto, não queiras macular o nosso tão casto -sonho. Estes devaneios, que fórmas, bastantes vezes -me acariciaram, mas repelli-os sempre, mas quero -ainda hoje repelli-os. Amo-te, amo-te loucamente, -hei de amar-te sempre: leva esta confissão minha -para consolo dos teus dias attribulados. Mas a flor -secca, Alberto, a flor que guardo no meu seio é o -symbolo do nosso amor. Não tentemos dar-lhe novo -perfume, e viço novo, á custa de um sacrilegio. O -tufão da desgraça merecida dispersar-lhe-hia as folhas, -e que dôr, que immensa dôr não seria-a nossa! -Amo-te, Alberto, mas deixa-me fugir-te.</p> - -<p>—Não! não! tornava elle, basta de vãs loucuras, -de sacrificios vãos! És minha, só minha. Dá-me o -amor sobre ti direitos inalienaveis. Se o remorso -nos saltear, morreremos, mas morreremos juntos. -Que importa? Morreremos enlaçados, na flôr dos -annos. É esse o destino d’aquelles a quem ama a -céu.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_207">[Pg 207]</span></p> - -<p>—Alberto! Alberto, o teu amor é o louco amor -inspirado pelo paganismo, e não o que se purifica -nas aras de Jesus. O amor, que triumpha sobre as -ruinas do dever e da honra, não póde ser abençoado -por Deus.</p> - -<p>—Deus! se existe, não póde separar os que se -amam.</p> - -<p>—E o dever, e a amisade que te ligam a Claudio, -e a consciencia? Oh! se cedesses a esta impia -tentação, o teu anjo da guarda velaria com as mãos -o rosto indignado.</p> - -<p>—O meu anjo da guarda, Margarida! O meu anjo -da guarda és tu!</p> - -<p>—Não, Alberto, é o espirito de tua mãe!</p> - -<p>Elle parou, e soltando as mãos que me cingiam -o corpo, levou-as aos olhos, d’onde lhe irrompia o -pranto; depois, voltando a mim, e tomando-me a -cabeça nas mãos, beijou-me os labios, dizendo-me:</p> - -<p>—E tu és o anjo do sacrificio. Adeus. Adeus para -sempre!</p> - -<p>E fugiu. Eu caí prostrada e soluçando aos pés da -estatua. Quando levantei a fronte, vi deante de mim -um vulto, cujo rosto estava mais pallido do que o -marmore, que eu regara com as minhas lagrimas.</p> - -<p>Era Claudio.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_208">[Pg 208]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="XXII">XXII</h2> -</div> - - -<p>Esta apparição, que n’outro momento me impressionaria -immenso, não conseguiu tirar-me da lethargia, -em que me prostrara a terrivel scena, que houvera -entre mim e Alberto. Fitei um olhar estupido -no rosto de meu marido.</p> - -<p>Annuviava-lhe a fronte uma profunda tristeza, -mas nos seus olhos, d’onde desapparecera a vaga -desconfiança que era a sua expressão habitual, transluzia -não sei que meiga bondade, e que suavissima -ternura.</p> - -<p>Curvou-se brandamente para mim, e disse-me com -voz cheia de lagrimas:</p> - -<p>—Quando me perdoará, Margarida?</p> - -<p>Eu olhei para elle com indizivel espanto, e murmurei:</p> - -<p>—Perdoar-lhe eu?</p> - -<p>—Oh! bem sei que sou indigno de perdão; mas -quando souber quanto eu soffri, quando souber que -diversos e innumeros golpes me alancearam por tão -longo espaço! quando comprehender bem o meu<span class="pagenum" id="Page_209">[Pg 209]</span> -caracter fraco, incerto, impellido por cada sopro extranho, -cedendo machinalmente a qualquer influencia, -talvez me desprese, mas absolva. E depois, -muito depois, é possivel que um raio de affecto venha -doirar a compaixão, que eu lhe inspire.</p> - -<p>—Affecto! exclamei no auge da exaltação, mas -não sabe que mesmo agora, ha um instante apenas, -votei a outro homem um amor immenso e eterno? -Não sabe que a minha alma voou para bem longe -d’aqui, nos labios d’esse homem que m’a colheu -n’um beijo? não sabe que sou uma mulher adultera, -indigna de perdão, porque me ufano do meu -crime?</p> - -<p>Um soluço doloroso, afogado na garganta fez arfar -com violencia o peito de Claudio. Lagrimas como -punhos saltaram-lhe dos olhos, e rolaram-lhe -pelas faces lividas. Estendeu a mão como para me -pedir que não continuasse, e esteve um instante sem -poder fallar.</p> - -<p>—Sei; disse por fim, sei tudo. Avisado por minha -tia de que se havia de realisar esta entrevista, -tive a fraqueza de os vir espiar. A inquietação e o -desasocego fizeram com que me adeantasse ás horas -marcadas. Esse caso fatal ou feliz proporcionou-me -ensejo de assistir a uma scena que me fez -soffrer o duplo tormento do ciume e do remorso. -Pude apreciar, n’esta hora de grande provação para -o seu espirito, a nobreza do seu caracter, de que -tão indigno me tenho mostrado. Porque, devo confessar-lh’o, -amo-a com um amor, bem que menos<span class="pagenum" id="Page_210">[Pg 210]</span> -poetico, pelo menos tão grande ou maior do que a -paixão, que Alberto lhe consagrou.</p> - -<p>—Quem o havia de dizer? murmurei eu com dolorosa -ironia.</p> - -<p>—Tem rasão, tem, tornou elle sem reprimir as -lagrimas. Esmague-me com o peso do seu odio, -mas ouça-me: Educado severamente no seio d’uma -familia de idéas acanhadas, cedo me costumei a esconder -no mais recondito do peito os meus sentimentos, -porque, se os manifestava, ia excitar tempestades, -que me obrigavam a retratar-me de novo. -Todos me dominavam; meus paes, e meus tios. -Consideravam-me como uma creança, cujos maus -instinctos deviam ser reprimidos, e as minhas aspirações -para um mundo mais elevado eram castigadas -como crime. Depois da morte de meus paes, -minha tia, ainda que mais velha do que eu em poucos -annos, continuou a exercer sobre mim um dominio -indisputado. Só uma vez me rebellei: foi -quando se tratou do meu casamento. O amor que -me inspirara, foi mais poderoso do que o habito. -Casei contra vontade d’ella. Vingou-se cruelmente. -Preciso de lhe contar as insinuações, as calumnias, -com que D. Antonia tentou semear a sizania entre -nós ambos? Não, porque era repetir-lhe a dolorosa -historia dos seus e dos meus tormentos. A timidez -selvagem da minha indole impedia-me de -provocar uma explicação, que podia pôr termo a este -penoso estado. A desconfiança augmentava a minha -reserva; a sua indifferença excitava-a ainda mais. -Foi-se envenenando a ferida com as apparencias,<span class="pagenum" id="Page_211">[Pg 211]</span> -cada vez mais illusorias. Suppuz que um outro amor -lhe vendava os olhos, que não viam sob a minha -frieza exterior o fogo da paixão. Transformou-se em -realidade esta minha suspeita. Recresceu a minha -dôr, e principalmente o meu desalento. Sentia-me -culpado, não podia criminar a pomba, a quem estramalham -o ninho, e que vôa tonta pelos ares e -tonta vae poisar n’um ramo de arvore estranha. -Mas apesar d’isso, uma sombria tristeza se apoderara -de mim; torturava-me a duvida. «Serão culpados, -pensava eu, ou resistem ao sentimento, que -se lhes está apossando dos corações?» Ora pensava -que o despeito e o desgosto a teriam levado a -esse estado, ora acreditava que era esse um amor -antigo que habilmente me disfarçara. Taes suspeitas -alimentava-as minha tia, fazendo sobresair a indifferença -evidente, com que me aceitara por marido.</p> - -<p>—E não suspeitava, tornei amargamente, que essa -indifferença, não era mais do que a despreoccupação -da creança, que ainda não sentiu o amor, e -cuja alma immaculada é como livro branco, prompto -a receber as primeiras estrophes, que lhe queiram -traçar nas folhas! Sempre a supposição mais -injuriosa!</p> - -<p>—Oh! perdôe-me, Margarida. Isso que me diz -entreluziu-me vagamente, como clarão d’aurora por -entre as sombras da noite. Pensei no encanto que -teria para mim esse amor, que fosse brotando a -pouco e pouco entre as doçuras da intimidade, cada -vez mais estreita; mas as insinuações de D. Antonia<span class="pagenum" id="Page_212">[Pg 212]</span> -mataram-me o devaneio, e na constrangida -ligação que tivemos, não encontrei nunca animação -para a empreza. Que funestas consequencias -teve esse engano, em que ambos laboravamos! Os -nossos dois corações, que talvez voassem um para -o outro, assim se conservaram isolados, e hoje...</p> - -<p>Interrompeu-se tapando com as mãos o rosto -inundado de lagrimas. Commoveu-me a dôr d’esse -homem, que fôra a causa do meu infortunio, mas -cuja falta era tão nobremente resgatada pela inexcedivel -generosidade do seu procedimento.</p> - -<p>—Hoje é tarde, Claudio, disse-lhe eu tomando-lhe -as mãos e apertando-lh’as brandamente; a ferida -do meu coração é muito profunda, e receio que -nunca cicatrise. Mas descance que o não hei de torturar -com o espectaculo dos meus tormentos. Viu -que tive força bastante para lhe salvar a honra, tel-a-hei -para lhe não perturbar a tranquillidade. Não -lhe prometto amor, que seria enganal-o, mas affecto -d’irmã, esse já m’o conquistou. Bem sei que é -estranho este modo de fallar d’uma mulher a seu -marido, mas á sua franqueza com igual franqueza -correspondo. Se o destino não consentiu que se formasse -entre nós uma ligação mais doce, vinguemo-nos -dos seus golpes unindo-nos em fraternal alliança. -Juntos resistiremos melhor aos ataques da vibora, -que nos envenenou a existencia, e o nosso sanctuario, -onde habitarão a paz e a amisade, não será -ao menos profanado pela intriga e pela calumnia. -Acceita esta alliança?</p> - -<p>—Se acceito, Margarida! É esse o meu ideal<span class="pagenum" id="Page_213">[Pg 213]</span> -agora, e não sou tão insano que faça voar mais alto -a minha ambição. Está feito o mal, e se não tem remedio, -tenha pelo menos allivio. Que balsamo mais -doce podia eu desejar do que a sua amisade, e uma -esperança... louca talvez, mas que lhe imploro que -me deixe!</p> - -<p>Sorri-me tristemente, e não lhe respondi.</p> - -<p>—Oh! exclamou elle, dando mostras da mais -violenta afflicção, o castigo é horrivel, mas é justo. -Essa esperança bem vejo que é uma loucura; offendi-a -cruelmente, e consenti que a offendessem. Deixei -que lançasse profundas raizes essa planta, que -hoje me rouba toda a sua vida, todo o seu coração. -A lucta é impossivel com um rival, cujo prestigio a -ausencia augmenta e eternisa. Essa estranha fidelidade -a um amor impossivel é digna da sua alma, -e, fazendo-me soffrer, inspira-me admiração! Agora -é que eu avalio o thesouro, que perdi, e que perdi -por minha culpa.</p> - -<p>—Claudio, meu amigo, dizia-lhe eu embaraçada -e tentando acalmar a violencia da sua dor, não se -afflija assim. É uma desgraça irremediavel, e... -quem sabe, (se o meu amor tem tanto apreço aos -seus olhos) quem sabe as mudanças, que o tempo -pode produzir? Orgulhosa seria se me julgasse isenta -de todas as fraquezas da humanidade! Talvez eu -seja como tantas outras, talvez o que julgo eterno -será passageiro.</p> - -<p>A custo proferia estas palavras que me saíam -dos labios, não do coração. Eram uma impiedade, -uma blasphemia, mas tambem eu não podia deixar<span class="pagenum" id="Page_214">[Pg 214]</span> -soffrer um homem que já tanto soffrera por minha -causa, e que eu via alli prostrado, desalentado, matando-lhe -desapiedadamente a mais ligeira esperança, -negando-lhe a mais innocente consolação.</p> - -<p>—Pois bem, disse-me elle erguendo a cabeça, só -uma coisa lhe peço, e espero que m’a conceda: sei -que possue uma flor secca, memoria querida d’esse -amor que tão animosamente sacrificou. Bem sei -que não tenho direito de lh’a pedir, mas prometta-me -que, no dia em que sentir um affecto mais suave -succeder á amisade que tão cordealmente me -offerece, me ha de entregar essa flor. Quando eu a -receber saberei que estão coroados os meus votos, -realisados os meus sonhos. Promette fazer o que -lhe peço?</p> - -<p>—Prometto, respondi, estendendo-lhe a mão; mas, -meu pobre amigo, parece-me que a pobre flor se -ha de desfolhar sobre o meu tumulo.</p> - -<p>—Sobre os nossos tumulos, diga antes. Depois -de ter alimentado esta esperança, o dia em que ella -se desvanecer será o da minha morte.</p> - -<p>Emmudeci. Elle cingiu-me, para assim dizer, com -um longo, terno e doloroso olhar, e depois, sacudindo -a cabeça, como para expulsar os pensamentos -que na mente lhe referviam, tirou o relogio da -algibeira, e viu ao luar as horas.</p> - -<p>—Duas! disse elle. Se me não engano, vamos ter -novidade. Pelo que deduzi de algumas palavras soltas, -que minha tia e a condessa trocaram esta noite, -do facto de terem a condessa e D. Carolina voltado -em segredo depois de haverem saido ostensivamente,<span class="pagenum" id="Page_215">[Pg 215]</span> -e de vagas ameaças que minha tia me fez, -quando me deu o ultimo aviso, no caso de eu não -cumprir o grande desejo d’ella, pareceu-me que essas -dignissimas pessoas conceberam o projecto de -apparecerem de subito no jardim, para produzirem -um escandalo, que tornasse inevitavel a nossa separação. -E effectivamente, continuou pondo o ouvido -á escuta, creio que ouço passos abafados como -de quem toma precauções para que o não sintam.</p> - -<p>Apurei tambem o ouvido, e percebi com effeito, -vagos rumores que mal se distinguiam do murmurio -da brisa; mas, affastando levemente a cortina de -buxo, vi scintillarem nas ruas do jardim frouxos -clarões, como lanternas de furtafogo.</p> - -<p>—Dê-me o braço, disse-me meu marido, em voz -baixa.</p> - -<p>Encostei-me ao braço d’elle, e ambos nos dirigimos -vagarosamente para uma das extremidades da -rua, como se andassemos saboreando placidamente -a frescura da noite.</p> - -<p>Tinhamos dado apenas alguns passos, quando -subito, e, como se fosse a um signal convencionado, -appareceram luzes por todas as bandas, e os vultos -de D. Antonia, de D. Carolina, da condessa e de -Maria do Rozario surgiram magestosamente, trazendo -cada um d’esses quatro personagens um candieiro -ou um castiçal na mão.</p> - -<p>As luzes, que tinham resguardado por baixo das -capas ou dos chales, inundaram de fulgor a rua escassamente -allumiada pelo luar, e, batendo em cheio -na estatua, cingiram-na com esplendido manto.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_216">[Pg 216]</span></p> - -<p>Um passarinho, adormecido na espessura, despertou -saudando esta ficticia aurora. Eu e Claudio -parámos tranquillamente relanceando os olhos com -espanto comico para os quatro actores, que tinham -entrado em scena, e que nos miravam estupefactos.</p> - -<p>—O que é isto? perguntou Claudio desfechando -uma sonora gargalhada. Temos scena final de melodrama? -Abre-se a porta do fundo, e apparece o -tyranno, rodeado de soldados e de luzes?</p> - -<p>—Caso de grande monta deve ser, acudi eu logo, -porque vejo aqui a senhora condessa e a senhora -D. Carolina, que a estas horas julgava que -dormiam muito socegadas nas suas camas!</p> - -<p>Ellas não diziam palavra, mas voltavam os olhos -pasmados, ora umas para outras, ora para nós. Era -tão comico o seu desapontamento que eu desatei -a rir.</p> - -<p>A D. Antonia parece que trazia o discurso estudado, -porque não o quiz perder de todo, e ainda -principiou:</p> - -<p>—Minha sobrinha... aqui... a estas horas...</p> - -<p>—A passear comigo, acudio Claudio, então que -tem? A tia parece-me somnambula!</p> - -<p>—E estão sós? exclamou levianamente a condessa.</p> - -<p>—Pois com quem haviamos de estar? continuou -elle. Vossa excellencia esperava aqui alguem, ou alguem -lhe prometteu vir aqui esperal-a? Nada, estamos -sós, e devemos confessar que não contavamos -ser surprehendidos. Andavamo-nos deliciando<span class="pagenum" id="Page_217">[Pg 217]</span> -com as frescas emanações de uma noite de estio. -N’estas noites foge-nos o somno das palpebras, e -reconhece-se a verdade do que diz um poeta francez:</p> - -<p class="poetry"> -<i>On ne dort qu’ à demi d’un sommeil transparent</i><br> -</p> - -<p>D’esta vez todas nós olhámos estupefactas para -Claudio; nunca o tinhamos visto tão expansivo. Parecia -que o jubilo, innundando-lhe o coração, lhe -trasbordava em torrentes de palavras. O meu amor -proprio não podia deixar de ser affagado um pouco -pela idéa de que só uma levissima esperança pudera -transformar o caracter de meu marido.</p> - -<p>Comtudo a posição estava sendo ridicula para os -quatro conspiradores. Era preciso sairem d’ella a -todo o custo. Encarregou-se de preparar uma retirada -airosa a fertil imaginação de Carolina. Improvisou -uma historia de ladrões, que as tinham assustado -ao irem para suas casas, motivo por que tinham -voltado para traz: explicou a sua visita ao -jardim pelo desejo de lhe explorarem os meandros -a fim de se certificarem que não havia homens escondidos -n’algum canto.</p> - -<p>Ouvi esta historia com um sorriso nos labios, -Claudio com ironica attenção, interrompendo-a a -cada passo com exclamações de zombeteiro espanto.</p> - -<p>Quando ella acabou, não pude deixar de dizer, -sorrindo:</p> - -<p>—São poetas os bandidos! Escolhem noites de<span class="pagenum" id="Page_218">[Pg 218]</span> -luar, claras e transparentes, para fazerem as suas -excursões! Estou que, antes de nos roubarem, não -haviam deixar de nos dar uma serenata.</p> - -<p>—É possivel, respondeu ella amargamente, em -todo o caso não seria eu quem a ouvisse.</p> - -<p>—Com muita pena sua, não é verdade, senhora -D. Carolina?</p> - -<p>Não me respondeu. Entretanto travara-se um dialogo -em voz baixa entre Claudio e D. Antonia. Só -pude perceber as ultimas palavras:</p> - -<p>—Has de sempre ser um tolo, Claudio, dizia-lhe -ella.</p> - -<p>—Favores, tia, favores seus. Mas olhe que estou -sendo agora tolo... e teimoso!</p> - -<p>D. Antonia ergueu ao céu os olhos lacrymosos, -e preparou-se para ter um ataque de nervos. Mas -lembrou-se que estava o chão do jardim humido -com o orvalho que principiava a cair, e houve por -bem adial-o para outra occasião.</p> - -<p>Todas quatro se retiraram para casa, justificando -um proverbio portuguez muito conhecido, que diz -respeito aos tosquiadores de lã.</p> - -<p>Nós seguimol-as de longe, com passos vagarosos, -indo eu encostada ao braço de meu marido. A lua -brilhava serena e limpida no firmamento azul, e a -aragem, meneando a copa do pecegueiro e as corollas -das rosas, colhia perfumes, que pagava com -murmurios.</p> - -<hr class="tb"> - -<p>Passado um mez, partiamos, eu e meu marido,<span class="pagenum" id="Page_219">[Pg 219]</span> -para uma viagem na Europa. Era este o unico meio -de nos esquivarmos ás iras de D. Antonia, e de fugirmos -ás pungentes recordações que despertava no -nosso espirito cada sitio onde tinhamos passado -uma existencia attribulada.</p> - -<p>A imagem pensativa de Alberto não me deixou -um instante só, durante os dois primeiros annos da -nossa excursão. Visitou comigo Pompeia, a resurgida -cidade; Napoles, a voluptuosa; Palermo, a -afortunada; a historica Roma; a artistica Florença; -a aristocratica Genova; a melancholica Veneza; Milão, -berço da moderna poesia italiana; Turin, berço -da liberdade. Saimos da Italia, e percorremos a -Allemanha. Ahi a imagem de Alberto interpoz-se -menos vezes a mim e ás paizagens grandiosas, aos -castellos gothicos e ás floridas cathedraes do Rheno. -Muitas vezes, meu marido, quando a conversação -entre nós ambos se tornava mais expansiva, me -perguntava o que era feito da flor secca. Mas eu -descorava, apertava-lhe a mão e ficava silenciosa. -Salteava-o então dolorosa melancholia, e estava longas -horas sem proferir palavra.</p> - -<p>Comtudo haviamos percorrido juntos a Allemanha -toda, e passavamos a França, quando em Colonia -nos vimos forçados a parar por minha causa. Ahi -dei uma filha a Claudio. Não posso pintar o seu jubilo! -Eu sentia-me tão feliz por ser mãe, contemplava -tão enlevada os olhos azues e as faces mimosas -da minha filhinha, que, vendo Claudio debruçado -sobre o berço com o mesmo enlevo, cheguei a -pensar que o amor antigo desapparecera afinal, e<span class="pagenum" id="Page_220">[Pg 220]</span> -que essa creança fôra o anjo, enviado por Deus para -enlaçar os nossos dois corações, lacerados por tantos -martyrios.</p> - -<p>Por isso uma noite, em que ambos miravamos a -creança, deitada no berço, e que olhava para nós -com os seus grandes olhos pasmados e vagos, e levantava -para mim as suas mãosinhas brancas como -brancos lyrios, pareceu-me ouvir a voz de Deus, -que me ordenava que completasse o sacrificio, principiado -havia tres annos.</p> - -<p>Tirei a flor secca do peito, e deixei-a cair no berço -da nossa filha. Claudio soltou um grito de jubilo, -caiu-me aos pés banhado em lagrimas. N’esse -instante fui verdadeiramente feliz.</p> - -<p>Ai! devo confessal-o? passou rapido esse momento. -Assomou-me de novo na phantasia o vulto -de Alberto, chamado pelos remorsos que sentia, de -ter trahido o juramento que lhe fizera. E depois, -meu marido tinha um coração excellente... mas -aquelle nobre typo de Alberto possuia um inexcedivel -prestigio.</p> - -<p>Voltámos a Portugal. Tornámos a ver a nossa -casa da Cruz das Almas, e a nossa quinta de Bellas. -Em todos esses sitios me esperavam milhares -de recordações, emboscadas nas ramarias das arvores, -aninhadas no teclado do piano!</p> - -<p>Indaguei por intermedio de Theodoro Leite a -quem meu marido, antes de se ausentar, assegurara -uma posição independente, o que fôra feito de Alberto. -Soube que partira para as possessões de -Africa occidental, com um emprego na administração.<span class="pagenum" id="Page_221">[Pg 221]</span> -Póde-se isto considerar um verdadeiro suicidio. -Resistirá a sua organisação tão delicada áquelle -mortifero clima?</p> - -<p>Redobrou com estas noticias a minha tristesa, tristesa -que me vae matando, pela necessidade que tenho -de a disfarçar. A minha consolação unica é minha -filha. Vejo crescer aquella formosa flor confiada -aos meus disvellos, e peço a Deus que a preserve -dos ventos frios, e das geadas que me mataram o -viço.</p> - -<p>Ás vezes quando vejo passar D. Antonia com os -mesmos modos pretenciosos, o mesmo olhar onde -transparece a mesma ironia parva, fuzila-me nos -olhos um sentimento de odio. Não, mil vezes não: -nunca teria pensado em Alberto, se não fosse a -teima de D. Antonia em me attribuir maus pensamentos.</p> - -<p>Felizmente agora já me não póde fazer mal. A -intimidade affectuosa que existe entre mim e meu -marido é solido broquel, onde se partem todas as -settas, que ella nos dirige. Mas que importa que se -esmague a serpente com o pé, se ella já pôde morder, -e entornar a peçonha na ferida? A victima vae -definhando a pouco e pouco, até cair prostrada no -regaço consolador do anjo da morte.</p> - - -<p class="center p4">FIM</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="Colleccao_ANTONIO_MARIA_PEREIRA">Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA</h2> -</div> -<hr class="r5"> - -<p class="center big">VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS</p> - -<p class="center small">DAS</p> - -<p class="center">LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS</p> -<hr class="r5"> -<p class="center">Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc.</p> -<hr class="r5"> -<p class="center">Volumes in-8.º de 160 a 240 paginas, em corpo 8 ou 10, -excellente edição, em optimo papel, -elegantemente encadernado em percalina.</p> -<hr class="r5"> - -<p class="center">Volumes publicados</p> - -<p class="poetry"> -1—Tristezas á beira-mar, por Pinheiro Chagas.<br> -2—Contos ao luar, por Julio Cesar Machado.<br> -3—Carmen, trad. de M. Level.<br> -4—A Feira de Paris, por Iriel.<br> -5—O direito dos filhos, por George Ohnet.<br> -6—John Bull e a sua ilha, trad. de P. Chagas.<br> -7—Esgotado.<br> -8—A lenda da meia noite, por M. Pinheiro Chagas.<br> -9—A joia do vice-rei, por P. Chagas.<br> -10—Vinte annos de vida litteraria, por A. Pimentel.<br> -11—Honra d’artista, trad. de P. Chagas.<br> -12—Esgotado.<br> -13 e 14—A aventura d’um polaco, trad. de Maria A. Vaz de Carvalho.<br> -15—Os contos do Tio Joaquim, por R. Paganino.<br> -16—Esgotado.<br> -17—Noites de Cintra, por Alberto Pimentel.<br> -18 e 19—Esgotado.<br> -20 e 21—A irmã da caridade, por Emilio Castellar, trad. de L. Q. Chaves.<br> -22—Migalhas de historia portugueza, por P. Chagas.<br> -23—Esgotado.<br> -24—Contos, por Affonso Botelho.<br> -25—Esgotado.<br> -26—O mysterio da estrada de Cintra, por Eça de Queiroz e R. Ortigão.<br> -27—O naufragio de Vicente Sodré, por Pinheiro Chagas.<br> -28—Vida airada, por Alfredo Mesquita.<br> -29—O bacharel Ramires, por Candido de Figueiredo.<br> -30 e 31—Amor á antiga, por Caïel.<br> -32—As netas do Padre Eterno, por A. Pimentel.<br> -33—Contos, por Pedro Ivo.<br> -34—O correio de Lyão, por Pierre Zaccone.<br> -35—Vida de Lisboa, por Alberto Pimentel.<br> -36—Historias de frades, por Lino d’Assumpção.<br> -37—Obras primas, por Chateaubriand.<br> -38—O exilado, por Mauricia C. de Figueiredo.<br> -39—Poema da Mocidade, por Pinheiro Chagas.<br> -40 e 41—A vida em Lisboa, por Julio Cesar Machado.<br> -42 e 43—Espelho de portuguêses, por Alberto Pimentel.<br> -44—A fada d’Auteuil, trad. de Pinheiro Chagas.<br> -45—A volta do Chiado, por E. de Barros Lobo.<br> -46—Séca e Méca, por Lino d’Assumpção.<br> -47—Ninho de guincho, por Alberto Pimentel.<br> -48—Vasco, por A. Lobo d’Avila.<br> -49—Leituras ao serão, por A. X. Rodrigues Cordeiro.<br> -50—Luz coada por ferros, por D. Anna A. Placido.<br> -51—A flôr sêcca, por P. Chagas.<br> -52—Relampagos, por Armando Ribeiro.<br> -53—Historias rusticas, por Virgilio Varzea.<br> -54—Figuras humanas, por Alberto Pimentel.<br> -55—Dolorosa, por Francisco Acebal, trad. de Caïel.<br> -56—Memorias de um fura-vidas, por A. de Mesquita.<br> -57—Dramas da côrte, por Alberto de Castro.<br> -58—Os mosqueteiros d’Africa, por Mendes Leal.<br> -59—A divorciada, por José Augusto Vieira.<br> -60—Phototypias do Minho, por J. Augusto Vieira.<br> -61—Insulares, por Moniz de Bettencourt.<br> -62 e 63—Historia da civilisação na Europa, trad. do Marquez de Sousa Holstein.<br> -64—Triplice alliança, de Raul de Azevedo.<br> -65—Retalhos de verdade, por Caïel.<br> -66—A pasta d’um jornalista, pelo Visconde de S. Boaventura.<br> -67—Os argonautas, por Virgilio Varzea.<br> -68—Fitas de animatographo, por Alberto Pimentel.<br> -69 e 70—Poesias do Abbade de Jazente, annotadas por Julio de Castilho.<br> -71—Aspectos e sensações, de Raul d’Azevedo.<br> -72—Contos e narrativas, por P. W. de Brito Aranha.<br> -73—Quadros e letras, historias e romancêtes, por Sanches de Frias.<br> -74—Individualidades, por Henrique das Neves.<br> -75—Alfacinhas, por Alfredo de Mesquita.<br> -76—Patria amada, pelo Visconde de S. Boaventura.<br> -77—Historias e romancêtes, por Sanches de Frias.<br> -78—Esbocetos individuaes, por Henrique das Neves.<br> -79—Recordações da mocidade, por Adolpho Loureiro.<br> -80—Sorrisos, novellas e chronicas, por A. Campos.<br> -81—Lucta de sentimentos, por Maria O’Neill.<br> -82—Do Rocio ao Chiado, por P. de Vasconcellos.<br> -83—A dança do destino, por Luthgarda de Caires.<br> -84—Um drama de ciume, por Maria O’Neill.<br> -85 e 86—Resumo da origem de todos os cultos, por C. F. Dupuis.<br> -87—Vencido, romance por F. A. M. de Faria e Maia.<br> -88—Elogio da loucura, critica de costumes, por Erasmo.<br> -</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="OUTRAS_OBRAS">OUTRAS OBRAS</h2> -</div> - - -<h3>Azevedo (Domingos de)</h3> - -<div class="blockquot"> - -<p>Diccionario (Grande) contemporaneo -francez-portuguez e v. v. -No prelo a 2.ª edição, muito -correcta e extremamente augmentada, -enc. 12$000 rs.</p> - -<p>Grammatica da lingua franceza, -enc. 1$200 rs.</p> - -<p>Grammatica Nacional, para -aprender portuguez sem mestre, -enc. 2$000 rs.</p> - -<p>Lições praticas de conversação -franceza, enc. 500 rs.</p> - -<p>Ollendorff aperfeiçoado para -aprender francez sem mestre, -(2 vol.), enc. 3$000 rs.</p> -</div> - - -<h3>Carvalho (D. Maria Amalia -Vaz de)</h3> - -<div class="blockquot"> - -<p>Ao correr do tempo, br. 750 rs., -enc. 1$150 rs.</p> - -<p>Arte de viver na sociedade, br. -1$000 rs., enc. 1$800 rs.</p> - -<p>Aventura de um polaco, (2 vol.), -br. 600 rs., enc. 1$000 rs.</p> - -<p>Cartas a uma noiva, br. 900 rs., -enc. 1$300 rs.</p> - -<p>Cerebros e corações, br. 750 rs., -enc. 1$150 rs.</p> - -<p>Chronicas de Valentina, br. 900 -rs., enc. 1$300 rs.</p> - -<p>Coisas d’agora, br. 750 rs., enc. -1$150 rs.</p> - -<p>Contos e phantasias, br. 750 rs., -enc. 1$150 rs.</p> - -<p>Em Portugal e no estrangeiro, -br. 1$000 rs., enc. 1$400 rs.</p> - -<p>Figuras de hoje e de hontem, br. -750 rs., enc. 1$150 rs.</p> - -<p>Heroismo do clero, br. 750 rs., -enc. 1$150 rs.</p> - -<p>Impressões de historia, br. 750 -rs., enc. 1$150 rs.</p> - -<p>No meu cantinho, br. 750 rs., enc. -1$150 rs.</p> - -<p>Nossas filhas, br. 750 rs., enc. -1$150 rs.</p> - -<p>Pelo mundo fóra, br. 650 rs., -enc. 1$050 rs.</p> - -<p>Raphael, trad. de Lamartine, -(ed. de luxo), enc. 3$600 rs.</p> -</div> - - -<h3>Pinto (Silva)</h3> - -<p class="center">(<span class="smcap">Collecção d’algibeira</span>)</p> - -<p class="center">A 650 rs. br. e 1$000 rs. enc.</p> -<div class="blockquot"> -<p> -A queimar cartuchos.</p><p> -A torto e a direito.</p><p> -Ao correr do pello.</p><p> -Entre nós.</p><p> -Frente a frente.</p><p> -Moral de João Braz.</p><p> -Mundo (O) furta-côres.</p><p> -Na Procella.</p><p> -Na travessia.</p><p> -N’este valle de lagrimas.</p><p> -No colyseu.</p><p> -No mar morto.</p><p> -Para o fim.</p><p> -Philosophia de João Braz.</p><p> -Por este mundo.</p><p> -Riso amarello.</p><p> -Rompendo o fogo.</p><p> -Velha historia.</p> -</div> - -<h3>Queiroz (Dr. Teixeira de)</h3> - -<div class="blockquot"> - -<p>Amores... amores..., br. 750 rs., -enc. 1$150 rs.</p> - -<p>Arvoredos, br. 1$000 rs., enc. -1$300 rs.</p> - -<p>Cantadeira (A), br. 750 rs., enc. -1$150 rs.</p> - -<p>Caridade (A) em Lisboa, (2 vol.), -br. 1$200 rs., enc. 2$000 rs.</p> - -<p>Cartas d’amor, br. 750 rs., enc. -1$150 rs.</p> - -<p>D. Agostinho, br. 750 rs., enc. -1$150 rs.</p> - -<p>Morte de D. Agostinho, br. 750 -rs., enc. 1$150 rs.</p> - -<p>Noivos (Os), (2 vol.), br. 1$200 -rs., enc. 2$000 rs.</p> - -<p>Nossa (A) gente, br. 650 rs., enc. -1$050 rs.</p> - -<p>Sallustio Nogueira, (2 vol.), br. -1$200 rs., enc. 2$000 rs.</p> - -<p>Amor Divino, br. 750 rs., enc. -1$150 rs.</p> - -<p>Famoso Galrão, br. 750 rs., enc. -1$150 rs.</p> - -<p>Ao sol e á chuva, br. 750 rs., -enc. 1$150 rs.</p> -</div> - -<div lang='en' xml:lang='en'> -<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A FLOR SECCA</span> ***</div> -<div style='text-align:left'> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Updated editions will replace the previous one—the old editions will -be renamed. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. -</div> - -<div style='margin-top:1em; font-size:1.1em; text-align:center'>START: FULL LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase “Project -Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg™ License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg™ -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg™ electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg™ electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the person -or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.B. “Project Gutenberg” is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg™ electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg™ electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg™ -electronic works. See paragraph 1.E below. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation (“the -Foundation” or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg™ electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. 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The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg™ License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg™ work (any work -on which the phrase “Project Gutenberg” appears, or with which the -phrase “Project Gutenberg” is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: -</div> - -<blockquote> - <div style='display:block; margin:1em 0'> - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most - other parts of the world at no cost and with almost no restrictions - whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms - of the Project Gutenberg License included with this eBook or online - at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. 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Information about the Mission of Project Gutenberg™ -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s -goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg™ and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state’s laws. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation’s website -and official page at www.gutenberg.org/contact -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread -public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state -visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Please check the Project Gutenberg web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 5. General Information About Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg™ concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg™ eBooks with only a loose network of -volunteer support. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Most people start at our website which has the main PG search -facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This website includes information about Project Gutenberg™, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. -</div> - -</div> -</div> -</body> -</html> diff --git a/old/69353-h/images/001.jpg b/old/69353-h/images/001.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index ac6c54e..0000000 --- a/old/69353-h/images/001.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69353-h/images/cover.jpg b/old/69353-h/images/cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 02e4a65..0000000 --- a/old/69353-h/images/cover.jpg +++ /dev/null |
