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If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: A flor secca - -Author: Manuel Pinheiro Chagas - -Release Date: November 14, 2022 [eBook #69353] - -Language: Portuguese - -Produced by: The Online Distributed Proofreading Team at - https://www.pgdp.net (This file was produced from images - generously made available by The Internet Archive) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A FLOR SECCA *** - - - - - - OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO - -Edição popular das suas principaes obras em 80 volumes in-8.º, de 200 a - 300 paginas impressa em bom papel, typo elzevir - - [Illustração] - - - 1--Coisas espantosas. - 2--As tres irmans. - 3--A engeitada. - 4--Doze casamentos felizes. - 5--O esqueleto. - 6--O bem e o mal. - 7--o senhor do Paço de Ninães. - 8--Anathema. - 9--A mulher fatal. - 10--Cavar em ruinas. - 11 e 12--Correspondencia epistolar. - 13--Divindade de Jesus. - 14--A doida do Candal. - 15--Duas horas de leitura. - 16--Fanny. - 17, 18 e 19--Novellas do Minho. - 20 e 21--Horas de paz. - 22--Agulha em palheiro. - 23--O olho de vidro. - 24--Annos de prosa. - 25--Os brilhantes do brasileiro. - 26--A bruxa do Monte-Cordova. - 27--Carlota Angela. - 28--Quatro horas innocentes. - 29--As virtudes antigas. - 30--A filha do Doutor Negro. - 31--Estrellas propicias. - 32--A filha do regicida. - 33 e 34--O demonio do ouro. - 35--O regicida. - 36--A filha do arcediago. - 37--A neta do arcediago. - 38--Delictos da mocidade. - 39--Onde está a felicidade? - 40--Um homem de brios. - 41--Memorias de Guilherme do Amaral. - 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa. - 45 e 46--Livro negro de padre Diniz. - 47 e 48--O judeu. - 49--Duas épocas da vida. - 50--Estrellas funestas. - 51--Lagrimas abençoadas. - 52--Lucta de gigantes. - 53 e 54--Memorias do carcere. - 55--Mysterios de Fafe. - 56--Coração, cabeça e estomago. - 57--O que fazem mulheres. - 58--O retrato de Ricardina. - 59--O sangue. - 60--O santo da montanha. - 61--Vingança. - 62--Vinte horas de liteira. - 63--A queda d’um anjo. - 64--Scenas da Foz. - 65--Scenas contemporaneas. - 66--O romance d’um rapaz pobre. - 67--Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado. - 68--Noites de Lamego. - 69--Scenas innocentes da comedia humana. - 70 e 71--Os Martyres. - 72--Um livro. - 73--A Sereia. - 74--Esboços de apreciações litterarias. - 75--Cousas leves e pesadas. - 76--THEATRO: I--Agostinho de - Ceuta.--O marquez de - Torres-Novas. - 77--THEATRO: II--Poesia ou dinheiro?--Justiça.--Espinhos - e flôres.--Purgatorio - e Paraizo. - 78--THEATRO: III--O Morgado - de Fafe em Lisboa.--O - Morgado de Fafe amoroso.--O - ultimo acto.--Abençoadas - lagrimas! - 79--THEATRO: IV--O condemnado.--Como - os anjos se - vingam.--Entre a flauta e - a viola. - 80--THEATRO: V--O Lobis-Homem.--A - Morgadinha de Val-d’Amores. - - - - - CAMILLIANA - - -=Camillo Castello Branco=--_Notas á margem em varios livros da sua -biblioteca_, recolhidas por Alvaro Neves.--1 vol. br. 600 rs.; enc. -1$000. - -=Camillo Castello Branco=--_Tipos e episodios da sua galeria_, por -Sergio de Castro.--3 vols., contendo inumeras transcrições da obra de -Camillo, br. 1$800 rs.; enc. 2$800 rs. - -=Poesias dispersas de Camillo Castello Branco=--1 vol. de 247 pag. em -papel de linho nacional. Tiragem 48 ex., br. 6$000 rs. - -=Hosanna!= Por Camillo Castello Branco. Fiel reprodução zincografica da -1.ª edição de 1852, hoje rarissima. Tiragem 60 ex., br. 2$500 rs. - -=Os pundonores desagravados=, por Camillo Castello Branco. Reprodução -como acima da 1.ª edição de 1845. Tambem rarissima. Tiragem 60 ex., br. -1$000. - -=Prefacio da 1.ª edição do Diccionario de Azevedo=, por Camillo -Castello Branco.--Fl. 1$000. - - - - - COLLECÇÃO ECONOMICA - - Volumes in-16.º de 240 a 320 paginas - - ROMANCES DOS MELHORES AUCTORES - - - VOLUMES PUBLICADOS - - 1--Aventuras prodigiosas de Tartarin de Tarascon, seguidas de Tartarin - nos Alpes, por A. Daudet. - - 2--Esgotado. - - 3--Sergio Panine, por Jorge Ohnet. - - 4--Esgotado. - - 5--Soror Philomena, por Edmond e J. Goncourt. - - 6--Esgotado. - - 7--Os milhões vergonhosos, por Heitor Malot. - - 8--Esgotado. - - 9--Esgotado. - - 10--Esgotado. - - 11--Esgotado. - - 12--Esgotado. - - 13--Um coração de mulher, por Paul Bourget. - - 14--Esgotado. - - 15--Esgotado. - - 16--Esgotado. - - 17--Esgotado. - - 18--O ultimo amor, por Ohnet. - - 19--Um bulgaro, por Ivan Tourgueneffe. - - 20--Memorias d’um suicida, por Maxime du Camp. - - 21--Esgotado. - - 22--Esgotado. - - 23--Camilla, por G. Ginisty. - - 24--Trahida, por Maxime Paz. - - 25--Sua Magestade o Amor, por A. Belot. - - 26--Esgotado. - - 27--Os reis no exilio, por A. Daudet. - - 28--Esgotado. - - 29--Mentiras, por Paul Bourget. - - 30--Marinheiro, por Pierre Loti. - - 31--Esgotado. - - 32--A Evangelista, por Daudet. - - 33--Aranha vermelha, por R. de Pent Jest. - - 34 e 35--Esgotado. - - 36--Parisienses!... por H. Davenel. - - 37--Ao entardecer!... por Iveling Rambaud. - - 38--A confissão de Carolina, trad. de J. Sarmento. - - 39--Esgotado. - - 40--Esgotado. - - 41--O abbade de Faviéres, por J. Ohnet. - - 42--Esgotado. - - 43--Esgotado. - - 44--A nihilista, por C. Mendés. - - 45--Esgotado. - - 46--Morta de amor, por Delpit. - - 47--João Sbogar, por C. Nadier. - - 48--Viagem sentimental, por Sterne. - - 49--O milhão do tio Raclot, por Emile Richebourg. - - 50--A confissão de um rapaz do seculo, por Musset. - - 51--Esgotado. - - 52--O castello de Lourps, por J. K. Huysmans. - - 53--Amor de Miss, por J. Blain. - - 54--A sogra, por Laforest. - - 55--Colomba, por P. Merimée. - - 56--Katia, por L. Tolstoï. - - 57--Alma simples, por Dostoiewsky. - - 58--Duplo amor, por Rosny. - - 59--Contos fantasticos, por Hoffmann. - - 60--A princeza Maria, por Lermontoff. - - 61--Rosa de maio, por Armand Silvestre. - - 62--Esgotado. - - 63--O romance do homem amarello, pelo general Tcheng-Ki-Tong. - - 64--A dama das violetas, por F. Guimarães Fonseca. - - 65 & 66--Nemrod & C.ª, por Jorge Ohnet. - - 67--Prisma de amor, por Paul Bonhomme. - - 68--Historia d’uma mulher, por Guy de Maupassant. - - 69 & 70--Educação sentimental, por G. Flaubert. - - 71--Depois do amor, por Ohnet. - - 72--A fava de Santo Ignacio, por Alexandre Pothey. - - 73 & 74--O herdeiro de Redclyffe, por Mrs. Yongue. - - 75--Uma ondina, por Theuriet. - - 76--A familia Laroche, por Marguerite Sevray. - - 77--As grandes lendas da humanidade, por d’Humive. - - 78 & 79--A filha do Dr. Jaufre, por Marcel Prevost. - - 80--A dama das camelias, por A. Dumas, Filho. - - 81--Dezeseis annos..., por F. C. Philips. - - 82 & 83--O Desthronado, por A. Ribeiro. - - 84--Ninho d’amor, por A. Campos. - - 85--Bodas Negras, por Almachio Diniz. - - 86--Do amor ao crime, por Alphonse Karr. - - 87--A ilha revoltada, por Ed. Lockroy. - - [Illustração] - - - - - COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA--51.º Volume - - A FLOR SECCA - - - - - COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA - - - A FLOR SECCA - - ROMANCE - - POR - - M. PINHEIRO CHAGAS - - - SEGUNDA EDIÇÃO - - - LISBOA - PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA - LIVRARIA-EDITORA - _Rua Augusta, 50, 52 e 54_ - 1904 - - - - - LISBOA - OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO - Movidas a vapor - DA - Parceria Antonio Maria Pereira - _Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º_ - 1904 - - - - - A JULIO CESAR MACHADO - - - - - MEU CARO JULIO - - -Aqui vem collocar-se debaixo da tua protecção um livro que te é -offerecido por aquelle timido rapaz, que te foi procurar ha tres -annos, para te ler uns versos, que tu acolheste tão benevolamente, e -a quem fizeste n’um dos teus deliciosos folhetins uns prognosticos -tão lisongeiros. Não sei se a tua prophecia está em caminho de se -realisar; sei que o teu protegido entrou na carreira litteraria, cujas -portas lhe abriste doirando-lh’as com a luz já então prestigiosa da -tua gloria, enflorando-lh’as com as grinaldas sempre viçosas do teu -talento; sei que seguiu essa estrella fatal, a cuja influencia não póde -eximir-se mais quem se deixou arrastar pelo seu magnetico fulgor; sei -que, desejando mostrar-te a sincera amizade que te votou, e a gratidão -que sente pelo benevolo acolhimento que outr’ora lhe fizeste, e pelas -provas de constante estima que lhe tens dado, vem dedicar-te um dos -pobres livros que é agora destino seu arrojar á voragem da publicidade. - -Acolhe-o bem. Elle pouco vale. Sei que te poderia e deveria talvez -offerecer flor mais fragrante do que esta pobre _Flor Secca_, secca e -sem perfume como a phantasia as produz emquanto a mão insaciavel do -jornalismo as arranca sem descançar da hastea. Mas grassa actualmente -na nossa litteratura uma tal epidemia de odiosinhos e invejas, de -cumprimentos feitos cara a cara compensados por insultos escondidos -na sombra, que tive pressa de te dizer bem alto deante de amigos e -inimigos que me ufano de prestar publicamente homenagem ao teu talento, -um dos mais sympathicos da nossa terra, e ao teu caracter, um dos mais -nobres e leaes que tenho encontrado na minha carreira litteraria. - - PINHEIRO CHAGAS. - - - - - I - - -Tinha eu dezoito annos. Estava uma noite n’um baile em casa do conde -de C... Acabara de valsar, e, toda offegante, vermelha e risonha, -sentara-me na primeira cadeira que se me deparara, compondo o cabello, -que se desarranjara no rapido voltear, quando meu pae se approximou de -mim, acompanhado por um rapaz de vinte e cinco para vinte e seis annos. - ---Margarida, disse-me elle, estendendo a mão para o seu companheiro, -que se curvou gravemente deante de mim, tenho a honra de te apresentar -o senhor Claudio da Cunha, proprietario e meu amigo. - -Claudio da Cunha fez-me de novo um grave cumprimento. - ---Senhor Claudio da Cunha, continuou meu pae, voltando-se para elle, e -indicando-me com o gesto, apresento-lhe minha filha, D. Margarida da -Silveira. - -Estendi-lhe com desembaraço a mão encerrada na luva de pellica branca, -e disse-lhe: - ---Estimo immenso conhecel-o; os amigos de meu pae teem sempre direito á -minha affeição. - ---Travem n’esse caso conhecimento mais intimo, acudiu meu pae, -sorrindo-se mysteriosamente e affastando-se. - -Havia ao meu lado uma cadeira vaga. O meu novo conhecido desviou-a um -pouco, porque estava perfeitamente unida á minha cadeira, e sentou-se -n’ella. - -Emquanto fazia tudo isto grave e pausadamente, relanceei os olhos para -elle, e com esta rapidez de observação, que Deus concedeu ás pessoas do -nosso sexo, pude n’esse instante formar tão perfeita idéa d’elle como -se o houvera comtemplado e analysado duas horas. - -Claudio era, o que se póde chamar, um bonito homem. Alto, branco, de -feições extremamente regulares, de olhos rasgados e azues, mas de um -azul frio e sem expressão. Não tinham nem o brilho vivo e intenso -d’esses olhos de um azul faiscante, se assim me posso exprimir, cuja -côr parece o azulado reflexo que scintilla na plumagem negra do corvo, -nem a meiga e melancholica limpidez do colorido dos lagos, que espelham -no seu cristal o azul do firmamento. Tinha os olhos azues, porque as -leis da optica exigem implacavelmente que os olhos tenham uma côr -qualquer, e o acaso fizera que o azul competisse aos de Claudio da -Cunha. Se fosse possivel dispensar-se condição por tal fórma essencial, -estou convencida que aproveitariam com avidez essa isenção, e ficariam -sem côr, como já estavam sem brilho. - -Haviamos apenas trocado algumas banalidades preliminares, quando -romperam na orchestra os primeiros compassos de uma polka ingleza. A -tal convite nunca eu soubera resistir. - -Olhei para Claudio, indicando-lhe claramente n’esse olhar que esperava -que me tirasse para seu par na polka. - -O meu visinho não mostrou comprehender a intenção, que se lia nos meus -olhos. - ---Não dança? aventurei-me eu a dizer, vendo a sua immobilidade. - ---Não, minha senhora, respondeu elle gravemente. - -Encolhi imperceptivelmente os hombros; uma creatura humana, e de mais -a mais na flor da idade, que não dançava, era para mim uma d’estas -monstruosidades incomprehensiveis, que a Providencia ás vezes phantasia -n’uma das suas horas de mau humor. - -Por isso acolhi com jubilo um dos mais infatigaveis dançadores do -baile, que veiu, com o sorriso nos labios, e com o rosto ainda humido -do suor da valsa, convidar-me para uma polka ingleza. - -Levantei-me, puz-lhe logo a mão no hombro, esperei, batendo o compasso -com o meu sapatinho de setim, que a musica nos désse occasião para nos -arrojarmos ao vortice delicioso, e, leve como um passarinho, segura -na cinta pela mão do meu par, comecei a descrever á roda da sala um -d’esses airosos giros que tanto me enlevavam. - -Confesso que nunca mais pensei em Claudio da Cunha. Ás contradanças -succederam as polkas, ás polkas as valsas, e, toda entregue a -tão fervente prazer, esqueci essa especie de visão da prosa, que -interrompera por instantes a delirante poesia do meu baile. - -O que não impediu que, ás tres horas da manhã, depois da mamã me ter -feito signal que se retirava, quando, ao estarmos pondo as capas, veio -Claudio da Cunha pedir as nossas ordens, e sollicitar licença para ir -no dia seguinte a nossa casa apresentar-nos os seus cumprimentos, o que -não impediu, repito, que o recebesse com um sorriso muito amavel, e lhe -apertasse francamente a mão, que elle me estendeu com a sua habitual -gravidade. - ---Que tal te pareceu Claudio da Cunha? perguntou minha mãe sorrindo-se, -quando íamos descendo as escadas do palacio. - ---Pareceu-me bem, respondi eu, porque? - ---É o noivo que te destinâmos, tornou minha mãe, inclinando-se um pouco -para o meu ouvido. - ---Ah! redargui eu distraidamente. - -Foi assim, entre uma polka e uma valsa, que travei conhecimento com meu -marido. - - - - - II - - -Esse _Ah_ indifferente, com que eu acolhi uma noticia tão importante, -merece e vae ter uma explicação. - -Chegára aos dezoito annos, e ainda não conhecera o amor, nem procurara -conhecel-o. Frieza de organisação? perguntam-me. Pelo contrario, -demasiado ardor. - -Imaginem uma creança, cuja phantasia devaneava sempre sonhos de ouro, -terras encantadas das _Mil e uma noites_, choréas de brancas fadas, -vultos ideaes e vaporosos, ignotas melodias, ineffaveis extasis, anjos -de azas candidas, romances impossiveis, poemas maravilhosos. Imaginem -essa creança, educada, rigida, severa, prosaicamente, por um pae, que -franzia o sobr’olho sempre que me via disposta a soltar as rédeas á -imaginação, por uma mãe, que me fazia sentar junto de si, e me dizia: -«Filha, é preciso resignares-te a abandonar essas idéas romanticas, se -quizeres viver tranquilla e feliz. O mundo não é como tu o vês atravez -do prisma da tua infantil imaginação. Os sonhos da phantasia, filha, -são como as andorinhas: só vivem bem entre os effluvios de uma eterna -primavera. A tua idade é a doce primavera da existencia; por ora, podes -acariciar, e reter com roseos laços as andorinhas gentis, que se te -aninharam no coração, todo perfumado de innocencia. Mas é preciso que -te vás costumando a deixal-as partir. Querias entrar com ellas no frio -inverno da sociedade tal como ella é, e não tal como tu a suppões? -Não; bem vês que morreriam geladas, e nem tu sabes o soffrimento que -te causaria então a sua morte. Deixa-as voar, deixa-as ir procurar -outro ninho, tão doce e tão quente como o suave ninho do teu coração -de creança, e tu, filha, prepara-te para affrontares serenamente as -tristezas e amarguras da realidade!» - -Estes conselhos, constantemente repetidos, dados por essa voz, que -eu respeitava, produziram em mim um effeito extravagante. Sceptica -e enthusiastica a um tempo, acreditava firmemente que a poesia -fugira do mundo como a Themis do paganismo, e fôra refugiar-se no -ceu, aonde os meus sonhos a iam procurar, e d’onde voltavam com as -azas impregnadas nas balsamicas fragrancias, que rescendia a casta -divindade. Considerava o mundo real como um inferno de prosa, onde -me via obrigada a viver, sem comtudo poder abstrahir d’essas visões -poeticas e dulcissimas, cujo desapparecimento me tornaria insupportavel -a existencia. - -Transigi então. Agradara-me a figura, de que minha mãe se servira para -me rogar que não entrasse na vida real com idéas romanescas. Jurei que -não exporia as minhas pobres andorinhas a serem mortas pelos gelos da -realidade; mas jurei tambem que lhes havia de conservar n’um canto do -coração, sanctuario bem mysterioso e bem recatado, a eterna primavera -que lhes era indispensavel. Depois de ter affrontado impavida e forte -a prosa da realidade, iria refugiar-me, com prazer e enthusiasmo, no -meu tabernaculo santo, nas minhas Charmettes encantadoras, onde podia -banhar á vontade a minha alma, sequiosa d’esses gosos, no limpido e -sereno lago da poesia, na pura e transparente atmosphera do ideal: -atmosphera onde voejavam as andorinhas gentis dos meus devaneios, lago -onde vogavam os candidos cysnes dos meus sonhos; e assim, repartindo -a minha vida entre as obrigações enfadonhas da sociedade, e as -enthusiasticas devoções do meu templosinho secreto, julgava poder -atravessar a existencia, serena e immaculada, suspensa entre ceu e -terra, como o caixão de Mahomet. - -Com estas disposições é facil de imaginar que me havia de seduzir a -arte, e que estava predestinada a consagrar-lhe um amor ferventissimo. -A arte era a chave de oiro do meu palacio de fadas, o «Abre-te, Sesame» -da caverna d’Ali-Baba, onde estavam encerrados os thesoiros da minha -imaginação. A arte era o manto de Mephistopheles, sobre o qual eu podia -viajar livremente pelas queridas regiões da phantasia. Seduziu-me -essa gentil feiticeira, que me podia transportar n’um vôo para longe -do mundo que me cercava, e interpôr a mim e á sociedade a cortina -magica, por detraz da qual começava para o meu espirito a região dos -encantamentos, dos extasis e das delicias. A melodia, que os meus dedos -despertavam nas teclas de um piano, era como o fumo odorifero de que -se rodeia o turco, ao entregar-se ás perigosas delicias do hatchich. -Por isso eu adorava a musica, e tinha um verdadeiro amor ao meu piano. -Devorava-o com os olhos, quando me via obrigada a fechal-o ou para -receber visitas, ou para obedecer ás ordens de meus paes. Se era o -cofre das minhas riquesas, o corpo que encerrava uma alma irmã da -minha, que só despertava ao evocal-a eu, e que eu bem sabia que ficava -adormecida quando alguem ousava pôr mãos profanadoras nas teclas do -instrumento! - -Quando eu tocava, todos me applaudiam com frenesi; gabavam o meu -talento, a assiduidade do meu estudo, e diziam que, se quizesse -apparecer em publico, offuscaria as glorias dos mais celebres -pianistas. Eu nem lhes ouvia os applausos. Enlevada nas mysteriosas -conversações com a fadasinha do piano, tudo o mais me era indifferente. -Que me importava tocar deante de duas pessoas, ou deante de duas mil? -Entre mim e ellas caía sempre a bemfadada cortina, e o meu espirito, -enlaçado com o espirito da melodia, franqueava as portas d’oiro do -mundo do ideal. - -Por isso tambem adorava a dança, e a valsa principalmente. Apenas -rompiam na orchestra os primeiros compassos da vertiginosa musica, -ahi voava nos braços do meu par, louca, inebriada por esse filtro -ignoto, que distillam as flores, as luzes, as melodias do baile. -Os meus pés mal tocavam no chão; como que a pouco e pouco sentia -emplumarem-se-me os hombros com as azas niveas dos anjos ou das fadas; -via n’essa atmosphera, saturada de férvidas emanações, voejarem as -minhas andorinhas, que me chamavam para a sua região encantada, e tudo -esquecia: o salão, o meu par, a gente que me cercava, para me arrojar -para o mundo dos devaneios, para entrar no casto gyneceu das minhas -formosas visões. - -Com estas idéas, como podia eu procurar o amor? Pensava muito n’elle, -é verdade, mas nem por sombras me lembrava de o buscar na vida real. -O amor, e a realidade eram para mim duas palavras completamente -incompativeis. Quem se lembra de pedir nectar n’um banquete dos homens? -Que mahometano encommenda a um negociante d’escravas que lhe traga uma -huri da Circassia? - -Julgaria até uma profanação collocar um idolo n’esse altar erguido -na minha alma, como altar atheniense, ao _deus desconhecido_. Os -suavissimos aromas, que essa palavra rescendia, não havia flôr da terra -que os exhalasse. - -Mas estas idéas, que eu alimentava, nunca pensára em revelal-as. Não -se esqueçam os leitores da minha dupla existencia: uma toda sujeita ás -leis sociaes, e não tentando por forma alguma rebellar-se contra ellas, -outra completamente fóra do mundo da realidade; existencias diversas, -com as fronteiras escrupulosamente traçadas, e que nunca se invadiam -mutuamente. - -Portanto, o casamento era para mim uma d’essas leis, a que eu estava -prompta a obedecer, comtanto que me ficasse plena liberdade de me -esquivar para a região das andorinhas; liberdade inalienavel como -facilmente se imagina. Não pedindo ao casamento o amor, qualquer marido -me era indifferente. Bastava-me a amizade, porque ouvira dizer a minha -mãe, que no matrimonio é indispensavel esse sentimento. - -Claudio da Cunha não me inspirava repugnancia; por conseguinte estava -perfeitamente disposta a obedecer ás ordens de meus paes. Ouvi a -noticia e não pensei mais em tal. Casar-me tinha para mim tanta -importancia como pagar ou receber uma visita; cumpria uma lei imposta -pela sociedade. Tal noticia merecia mais do que o _Ah_ distrahido com -que eu a acolhera? - - - - - III - - -Confessemos que seria difficil a descripção da nossa vida nos tres -ou quatro mezes que precederam o meu casamento com Claudio da Cunha. -Póde excitar interesse a mulher, que nem caminha para o altar como -victima sacrificada, nem como noiva feliz de ver coroados pelo hymeneu -os votos formados pelo amor para adoptar a linguagem dos venturosos -tempos da Arcadia? Póde chamar a attenção um noivo cortez, vestido -irreprehensivelmente, frio, grave, que vem apresentar-me os seus -cumprimentos sempre á mesma hora sem differença de um minuto, que me -ouve tocar piano, mostrando-se attento quanto baste para satisfazer as -conveniencias, que me applaude depois com as suas mãos enluvadas, de -modo que não faça estalar nem uma costura das luvas preciosas, que em -seguida elogia a minha habilidade e a perfeição do meu methodo, que -tudo isto repete todos os dias, sem alteração de uma syllaba, de um -gesto, de um segundo? - -Comtudo eu não tinha razão de queixa. Claudio era o marido, que -convinha a quem executava fria e indifferentemente um dever, contraindo -os laços do matrimonio. Galanteador, incommodar-me-hia de certo: menos -delicado e exacto, offenderia não a mim, que não repararia em tal, mas -a meus paes. - -D’este modo tudo caminhava ás mil maravilhas. O papá extasiava-se -perante o comedimento, e as maneiras polidas de Claudio; a mamã folgava -de ver o escrupuloso aceio e esmero do seu trajar, o cuidado que tomava -sempre em evitar uma nodoa que lhe maculasse o lustre irreprehensivel -da casaca e do chapeu; eu dava-me perfeitamente com o seu, raras vezes -interrompido, silencio, porque me deixava divagar á vontade e escutar -desafogadamente o chilrear das «minhas andorinhas». - -Chegou emfim o dia do casamento. Foi esse para mim um dia de verdadeiro -jubilo, e de extasi sem igual. Porque? perguntam-me. Transformou-se o -caracter de Claudio, e algum vulcão, fervendo longo espaço de tempo -por baixo dos gelos exteriores, irrompeu e incendiou tambem com as -subitas chammas esse coração tão despresador da vida real, e que se -dizia d’amianto para as prosaicas labaredas do mundo terreno? Folgou -por acaso de se ver senhora, e de se transformar a doce grinalda da -virgindade no diadema de rainha, esplendido mas pungente, que cinge -a fronte das esposas? Não, nada de tudo isso. O motivo do meu jubilo -era apenas o poder cingir o meu veu branco, e a corôa de flores de -larangeira, emblemas nupciaes. - -Oh! como eu contemplei mil vezes ao espelho os graciosos adornos, que -tanto me enlevavam, como deixei cair em torno de mim as graciosas -pregas do meu veu de gase! Como me revi na grinalda de brancas flôres, -que me poisava elegantemente na cabeça, dando um vivo realce aos meus -cabellos castanhos claros! Como olvidei, sósinha, no meu toucador, o -mundo presente, a realidade semsabor, os padrinhos de casaca preta, -os parabens dos convidados, a cerimonia nupcial! Não era Margarida -da Silveira que alli estava mirando-se vaidosamente n’um espelho de -moldura doirada; era a fada Margarita contemplando a sua imagem no -cristal da sua fonte! Rompia a manhã, a fresca manhã de S. João; as -pobres alcachofras queimadas esperavam que o bento orvalho reverdecesse -a corolla crestada, as bilhas d’agua esperavam o encantamento, os ovos -suspensos nos copos esperavam a metamorphose. - -A brisa matinal fluctuava em torno a mim, infunando-me ao de leve -as prégas do meu veu. A luz nascente mal fazia desabrochar rosas -desmaiadas no horisonte. - -Eu erguia-me e o meu debil pésinho, ainda mais leve do que na valsa, -corria sobre a relva sem a fazer vergar sequer! o meu passo mysterioso -fazia brotar rosas e lyrios no seu tapete de veludo! Agitava na mão a -varinha branca, a varinha das feiticeiras! Tocava na triste alcachofra -carbonisada, e, por entre o negrume das suas pobres folhinhas, renascia -a rôxa pétala que ía encher de contentamento um coração virginal! -Soprava nos fios tenues do ovo suspenso n’agua, e os fios, como se os -tecesse mão mysteriosa, bordavam por si mesmos um matiz delicioso! «Oh! -fada Margarita! dizia eu para o meu espelho, como és linda e como és -boa!» - -Depois, não era já a fada, mas sim a muito alta e muito poderosa -senhora D. Margarida, filha do castellão, rico-homem de pendão e -caldeira, senhor de baraço e cutello! Caminhava a furto para a -entrevista aprazada! o coração arfava-me deliciosamente! Eis-me chegada -emfim junto da cruz da ermida, onde me espera o gentil cavalleiro, que -vae para a Palestina! Os loiros cabellos fluctuam-lhe sobre a couraça -brunida; poisa-lhe ao lado o elmo, com as plumas azues ondeantes a -capricho da viração! Troca-se um adeus sentido, derramam-se lagrimas, -fazem-se promessas de amor eterno! Então, desprendo o veu branco, e -dou-lh’o como penhor do meu affecto! Será a protectora charpa do meu -noivo, o talisman que o ha de resguardar dos alfanges dos infieis! Elle -beija mil vezes o candido veu, monta o corcel, que o espera impaciente, -e parte. Sigo-o com os olhos arrasados d’agua até o perder de vista, -e... - -E abre-se a porta e apparece meu pae de luva branca, bota de polimento, -e casaca preta, e atraz d’elle, mas timidamente, como quem receia ser -indiscreto, Claudio da Cunha, de casaca preta, bota de polimento, e -luva branca! - -Adeus! Adeus! Andorinhas gentis! - -Como sempre, baixei, sem protestar, ás regiões da realidade. Acolhi -com um beijo meu pae, com um sorriso o meu noivo, que me pedia mil -desculpas, por ter ousado chegar á porta do meu santuario, mas que fôra -arrastado pelo seu querido sogro, etc.; e, depois de ter acceitado e -dado todas as desculpas, desci para me metter na carruagem, que me -devia conduzir á igreja. - -D’ahi a duas horas, era eu a legitima esposa de Claudio da Cunha, e -tomava posse da casa de meu marido, situada na Cruz das Almas. - -Franqueara estas columnas de Hercules da vida das senhoras, passara do -brando e azul Mediterraneo das solteiras para o verde e tempestuoso -Oceano do matrimonio, e confesso que não sentia o minimo frémito agitar -as brancas velas do baixel do meu destino. - -Se eu tencionava sentar-me, como até ahi, na proa da nau, e -indifferente aos furacões que me rugissem em torno, ás vagas irritadas -que fervessem e se empinassem contra mim, fitar os olhos no cantinho do -ceu azul, onde havia de continuar a brilhar, estava d’isso convencida, -a formosa e radiante constellação dos meus devaneios! - - - - - IV - - -Compunha-se de duas pessoas a minha nova familia: meu marido e uma -tia d’elle, mais velha apenas doze ou quatorze annos, e caminhando -rapidamente, mas com desespero, para o Maelstrom dos quarenta, que -sorve implacavelmente as ultimas esperanças matrimoniaes. - -Vou tentar descrever em rapido bosquejo os companheiros da -peregrinação, que eu ia principiar. - -Claudio da Cunha era um homem de um caracter indeciso e fraco, temendo -duas coisas, e respeitando uma. As que temia eram o ridiculo e a lucta, -a que respeitava era sua tia. - -O ridiculo combatia-o com as frias e graves exterioridades que eu já -fiz notar; á lucta, esquivava-se sempre a todo o custo, obedecia a sua -tia escrupulosamente, mordendo constrangido o freio, mas não ousando -sacudil-o. - -Sua tia D. Antonia possuia um coração, talvez outr’ora bom, mas que se -fôra enchendo de fel, fel que trasbordava sempre na sua conversação -constantemente aggressiva. Seria perigosa manejando a arma do -epigramma, se o seu espirito, descultivado e estreito, lhe permittisse -açacalar as frechas que despedia ao acaso, que feriam ao de leve, mas -que se tornavam incommodas pela quantidade. Então o adversario, que -ella escolhera, devolvia-lhe uma ou outra com mais certeira mão, e o -golpe, que lhe calava bem fundo na alma, fazia-a ter ataques de nervos, -que chamavam logo a sollicitude do sobrinho, o qual vinha escutar com -ouvido attento os seus queixumes ridiculos, e enxugar com mão piedosa -as lagrimas de despeito. - -A sua vaidade era tanto mais insupportavel quanto mais procurava -disfarçar-se. Quando fallava em geral, dizia sempre com louvavel -modestia que era feia, que os meus encantos a offuscavam completamente, -que não aspirava sequer a rivalisar comigo; mas o terreno, que -perdia na generalidade, ia-o sempre recuperando passo a passo nas -particularidades. Quando tinha a minha idade haviam de lhe ficar -larguissimas as minhas botinhas, e agora mesmo, se não quizesse andar a -seu gosto, e se não estivesse já curada d’essas vaidades, estava certa -que lhe haviam de servir maravilhosamente. «Uma coisa que eu sempre -tive foi o pé muito pequeno, concluia ella. Fulano dizia...» E vinha -logo um madrigal, que, pela fórma _moyen-âge_, revelava um adorador dos -bons tempos dos _trovadores_ das _Ellas_, revelação que restabelecia a -verdadeira data da sua certidão de baptismo. - -Não podia comprehender, dizia ella, como eu me apertava tanto sem temer -as consequencias funestas d’essa imprudencia. Por mais que lhe jurasse -e lhe mostrasse que não succedia semelhante coisa, continuava sempre -protestando que estava fazendo uma loucura, que ella nunca andara -assim, o que não impedia que tivesse tido uma cinturinha de sylphide, -que duas mãos unidas podiam facilmente abranger. - -Todos estes ridiculos eram medianamente supportaveis, e de certo nem os -citaria, se não fossem parte essencial de um caracter sêcco, vaidoso -e azedado pelas decepções que a sua vaidade soffrera no campo das -salas. Pouco depois do meu casamento, essas raivas secretas, esses -furores devorados em silencio começaram a traduzir-se na attitude -hostil que tomou para comigo, attitude acobertada por um manto -d’amizade protectora. Usava, dizia ella, do seu privilegio de _velha_, -e carregava intencionalmente no termo, para me dar conselhos, e para -me preservar dos perigos, em que o meu estouvamento juvenil me poderia -fazer cair. Com este admiravel pretexto, houve por bem arvorar-se em -censora constante das minhas acções. - -Se eu por acaso mostrava uma ou outra vez o meu enfado, então -lançava-me um olhar ferino, e dizia, adoçando o som de voz tanto -quanto aguçava os raios das pupillas: «Ai! infelizmente, ninguem gosta -de ouvir as verdades,» como se n’aquella mente acanhada e cheia de -pequeninos sentimentos se abrigasse a resposta ao eterno problema, que -a esphinge dos seculos tem proposto á humanidade, e cuja resolução só -Pilatos ouviu da bôca de Jesus. - -Então passava eu a estar na berlinda, perseguida pela voz melliflua, -e pelos epigrammas embotados de D. Antonia. Á mesa do jantar, onde -todos tres nos reuniamos, choviam sobre mim as allusões ás senhoras que -preferem o piano ao governo da sua casa, ás senhoras casadas que dançam -nos bailes, quando seus maridos não dançam, á corrupção do seculo, -aos maus costumes que importamos de França, á leitura perniciosa dos -romances, tudo isto precedido do inevitavel «Hoje em dia...» _ultima -ratio_ da sua argumentação. Escuso de dizer que as gerações anteriores -á que presenceou a invasão de Junot sumiam-se para ella nas brumas -legendarias da idade de oiro. - -Que havia eu de fazer contra aquella guerra pequenina e intoleravel? A -friesa, que existia entre mim e meu marido, fazia com que o não pudesse -contar como defensor. Bem via que os toscos epigrammas de D. Antonia o -incommodavam tambem, e o irritavam; mas o seu desejo de manter a paz -domestica, a obediencia tradicional que votara a sua tia, obrigavam-no -a conservar-se silencioso em presença da audaz iniciativa da minha -adversaria. - -Demais, eu achava tão mesquinha, tão indigna de mim esta guerra -de palavras, esta escaramuça miseravel, estava tão fóra dos meus -habitos este pelejar quotidiano, que nem sabia, nem podia, nem queria -defender-me. Calada, immovel, fitando olhos espantados, ora em D. -Antonia, ora em meu marido, uma só coisa me fazia scismar, era haver -gente que se occupasse em tão miseraveis coisas, que expuzesse -theorias tão insipidamente banaes, e o ser eu escolhida para victima -expiatoria de crimes que nem sequer chegava a perceber. - -Contra estas amarguras da vida real não me prevenira eu. Julgava-me -invulneravel, e, como o Achilles da _Iliada_, tinha o calcanhar -accessivel a tiros tão rasteiros! Esta queda espantava-me mais do que -outra qualquer. Previra todas as desillusões, todas as torturas da -realidade, vinha prompta para luctar com as serpentes do odio, com as -viboras da calumnia, e por fim de contas succumbia ferida pelo ferrão -d’essa formiga negra e imperceptivel, que se chama mexirico! - -Todas as consolações me faltavam. As minhas andorinhas tinham fugido -para não mais voltarem! Se eu não as podia chamar, atordoada, como -sempre estava, pelas recriminações disfarçadas, pelos epigrammas -adocicados, pelos discursos sem fim da minha implacavel inimiga! Se -lhe não respondia, ia queixar-se brandamente a meu marido, dizendo -que a desprezava do alto do meu orgulho, e insinuando arteiramente -que preferia a conversação dos homens. Se lhe respondia irritada e -fatigada, vinham os espasmos e os ataques nervosos. Se me refugiava -no meu quarto sósinha com o meu piano, ahi vinha ella, allegando que -gostava muito de musica, e perguntando se os seus ouvidos eram indignos -de me escutarem. Então a minha occupação predilecta transformava-se em -tortura insupportavel. Esmagava freneticamente as teclas, as minhas -boas e antigas amigas, todas espantadas do inesperado tratamento. - -Se ás doces horas do crepusculo ia sósinha sentar-me junto da minha -janella, e contemplar o melancolico horisonte dos campos, para me -engolphar no mundo da phantasia, tinha-a a meu lado d’ahi a instantes, -dizendo, que tambem ella possuia um genio muito triste, e que, no -tempo em que tivera um namoro, gostava muito de estar áquellas horas -a pensar n’elle. Depois accrescentava invariavelmente que julgava que -as senhoras casadas eram inacessiveis a essas tristezas e que junto -de seu marido é que deviam estar, em vez de se entregarem sósinhas a -pensamentos talvez perigosos. - -Aquella mulher tinha um genio de inquisidor. - -Se acreditasse na metempsychose, diria que o espirito de Torquemada -fôra, atravessando os seculos, aninhar-se finalmente no coração de D. -Antonia da Cunha. - -Ah! e quando uma solteirona, de quarenta para cincoenta annos, vinha -visital-a, e trazer-lhe o auxilio da sua indole mordaz, e da sua -hypocrisia beata, então é que se entoava um _duetto_, que desbancava -a aria de D. Basilio. Como se entendiam bem a meias palavras! Que -plangentes queixumes não soltava D. Antonia, indicando-me com o olhar -á sua boa amiga D. Simôa dos Anjos, emquanto ambas trabalhavam n’um -enxoval para creanças pobres, trabalho santo, que fôra apregoado em -todos os tons na freguezia e nas parochias visinhas! Que olhares de -compaixão, com que a outra lhe respondia! Que theorias de implacavel -austeridade! Que lamentações! Que moções d’ordem d’uma, acolhidas pelos -apoiados da outra! E quando passavam das generalidades á especialidade, -ah! como as agulhas cosiam e as linguas descosiam! Com que delicioso -tempero de reputações esfaqueadas se apimentava a obra caritativa do -enxoval! Que signaes de piedosa compuncção! Que devotos sarcasmos -se não cuspiam sobre as peccadoras, fulminadas por aquelle augusto -areopago! E a que horrenda verrina me não expunha, quando, cançada, -enojada de tão peçonhenta hypocrisia, exprimia a indignação que já não -podia conter. - ---Quem defende gente assim, expõe-se ás mesmas accusações, dizia uma -das Lucrecias, principiando com a mão direita, sem a esquerda o saber, -uma costura caridosa. - ---Ah! tornava a outra debruando os coeiros da sua beneficencia, essas -é que são felizes! Os homens não querem outra coisa, e, para vergonha -nossa, até no nosso sexo acham advogadas! - -Eu levantava-me com impeto e saía; mas aquellas duas vozes resoavam -sempre ao meu ouvido, e não deixavam que eu tomasse gosto em nenhuma -das minhas outr’ora tão queridas occupações. - - - - - V - - -Assim passei a primavera, o estio e o outono do meu primeiro anno de -casada. Claudio envolvera-se na politica, mais para se distrair do -seu _spleen_ incuravel, do que por gosto ou ambição. Principiara eu a -perceber que a frieza apparente de meu marido provinha de uma educação -acanhada, como o espirito de sua tia, que lhe infligia o respeito das -leis d’aquelle mundo mesquinho, em que ella tanto folgava de viver, e -dos constantes obstaculos, que se tinham opposto ao desenvolvimento -livre e desaffogado do seu espirito. Mostrava-se affectuoso para -comigo, mas affectuoso sem expansão. Aquella mulher interpunha-se -constantemente a nós ambos. Se uma ou outra vez, n’algum dia em que -o sol da primavera despertava dentro em mim os passarinhos mudos, e -aviventava as flôres desbotadas da minha phantasia tentava desabafar -e elevar-me ás regiões serenas, onde desejara viver; se Claudio, -arrastado pelo contagio do meu enthusiasmo, principiava a entrar nas -minhas idéas, vinha logo sua tia, soltando altos gritos, e dizendo -que essas farofias de romance e de musica é que perdiam metade da -humanidade feminina. Claudio retraia-se, e eu ficava de novo sósinha -e desarmada em face d’aquelle demonio do lar, que empolgava o hyssope -furtado n’alguma igreja, e me aspergia de agua benta para me livrar da -influencia diabolica da arte, e dos artistas. - -Chegou o inverno, o inverno, outr’ora para mim a estação querida -dos bailes, de que tambem agora me via privada. Pois como podia eu -apparecer nas salas com aquelle _chaperon_ sempre a meu lado, que me -expunha ás vezes a scenas desagradaveis com as suas phrases acres, -cuja insolencia a muito custo se disfarçava? Depois, as scenas que -se passavam na volta para casa! As insinuações sobre a corrupção dos -homens que procuram de preferencia as senhoras casadas, e sobre a -corrupção das senhoras casadas, que acceitam os rendimentos d’esses -monstros de luvas brancas, e que levam a impudencia a ponto de polkarem -e de valsarem com homens, que visivelmente as preferem ás tias de -quarenta annos! - -Estas insinuações calavam mais ou menos no animo de meu marido, e, -apezar de elle se retirar sempre que principiavam os discursos de D. -Antonia, via-se pela inquietação, que mostrava, que o veneno produzia o -seu effeito. - -Cançada já, abatida por esta lucta ingloria, resolvi encerrar-me em -casa, e abandonar completamente a sociedade. Novos gritos! novas -reclamações! Claramente se via que o meu desejo era prival-a de todos -os divertimentos, etc.; mas resisti intrepidamente, e, apezar dos -clamores, mantive a minha resolução. - -Uma vez tinhamos nós acabado de jantar quasi ao anoitecer. Comtudo, não -se haviam ainda accendido as luzes. O ceu estava nebuloso, e uma chuva -fina começava a bater nas vidraças. Meu marido ficara á mesa tomando -café, D. Antonia baloiçava-se na cadeira, ruminando algum dito azedo. -Eu fôra-me sentar junto da janella, e contemplava os arabescos que a -chuva desenhava nos vidros com as gotinhas que deslisavam lentamente ao -longo da limpida superficie. Embuçara-me n’uma capa, e toda conchegada -no meu cantinho, saboreava aquelle momento de socego, tão raro na minha -vida mesquinhamente agitada. - -Os arabescos da chuva despertavam em mim a um tempo deliciosos e -tristes pensamentos, lembravam-me os sonhos, que eu phantasiaria -um anno antes com essas singelas perolas do pranto das nuvens, e -lastimava com amargura o desprezo que votara á realidade, que se -vingava cruelmente de mim. Percebi então que não bastam os sonhos -para constituirem a ventura, e que o espirito, que se alimenta só com -esses devaneios, acha-se sem forças para combater os mais despreziveis -inimigos. Isolara-me no meu orgulho, e via agora quanto precisava ter -um coração que pulsasse junto com o meu, e quão robusta me sentira, se -o amor me envolvesse na sua tunica luminosa! O amor! - -E, não sei porque, duas lagrimas desprenderam-se-me dos olhos, e -deslisaram-me vagarosamente pelas faces. - -N’este momento tocaram a campainha com força. Olhámos uns para os -outros, como que perguntando quem se affoitaria a affrontar a chuva, -que principiava a cair em torrentes, para vir fazer-nos uma visita. - -N’isto abriu-se a porta e appareceu no limiar um vulto de homem. - ---Claudio! _amice!_ onde estás tu? Vem dar-me um abraço... metaphorico, -porque, se t’o dou na realidade, encharco-te. - ---Alberto! exclamou meu marido levantando-se e correndo para elle de -braços abertos. - ---Sim, eu mesmo, meu velho condiscipulo. Desembarquei hoje. Saí de -Napoles n’um dia de chuva, que ameaçava muito sériamente apagar o -Vesuvio. Não quiz assistir a tamanho desastre, e fugi. A unidade -italiana está matando o _lazzarone_, a chuva mais dia menos dia dá cabo -do Vesuvio, e uma companhia de accionistas inglezes improvisa um vulcão -artificial, com meia duzia de chaminés de Birmingham, transportadas -a bordo de um _steamer_. Fiz a viagem sem apanhar chuva; chego ao -Terreiro do Paço, zás, uma pancada d’agua a ensopar-nos a mim e ás -venerandas bochechas do marquez de Pombal, que se sorria ironicamente -com ar de quem dizia: «Não me quizeram acreditar!» No tempo do grande -marquez não chovia, meu amigo. - ---Alberto, deixa-me... - ---Não chovia não, digo-t’o eu. Quem inventou a chuva foram os inglezes, -só para darem extracção ás galochas de borracha, e aos casacos de -Mackintosh. Ah! o marquez de Pombal bem o sabia, por isso elle nos fez -guerra. Pois que cuidas tu! Sebastião José de Carvalho e Mello foi o -defensor da serenidade metereologica do paiz das larangeiras, e da -inviolabilidade do nosso ceu azul. Curva-te perante o grande homem, -Claudio! - ---Consente, Alberto, que... - ---Foram os inglezes, repito. Em Napoles era desconhecida a chuva, antes -de lord Nelson entrar n’aquella maravilhosa bahia. A chuva portugueza -devemol-a ao Beresford... - -N’este momento entrou um criado com luz. - -Alberto interrompeu-se ao divisar-nos a mim e a D. Antonia. - ---Oh!... senhoras... e tu não me dizias coisa alguma, e deixavas-me -palrar como um idiota que sou... - ---Mas, meu amigo, tornou Claudio rindo, desde que entraste ainda não -fiz senão querer-te apresentar minha mulher, e tu a fallares em Nelson -e no marquez de Pombal... Margarida, continuou elle, dirigindo-se a -mim, tenho a honra de te apresentar o meu bom amigo Alberto Mascarenhas -Corte-Real, que chega, como acabas de ouvir, de uma viagem da Italia. - ---É uma dupla recommendação valiosa, disse eu sorrindo e -comprimentando-o amavelmente; amigo de meu marido e viajante -recemchegado da terra dos prodigios, como não ha de ser recebido -cordial e curiosamente? - -Alberto balbuciou algumas palavras, que eu não percebi, mostrando-se -visivelmente enleiado, talvez por causa da sua palradora entrada, e -voltando-se logo para D. Antonia, apertou-lhe a mão, dizendo-lhe: - ---Ah! é, v. ex.ª! Desculpe, minha senhora, o não a ter reconhecido. Mas -ha de confessar que na escuridão era difficil... - ---Ora, das _velhas_ nunca os senhores fazem caso. - ---Ah! tornou Alberto rindo, já pediu a sua reforma? Pois olhe, -parece-me que a neve, que lhe vejo alvejar nos cabellos, é a neve -perfumada da laranjeira. Vamos, seja sincera. Quando é o casamento? - ---Nunca! Se eu chegava a esta idade sem me casar, para commetter agora -uma loucura d’essas. Os homens... - ---São uns monstros, bem sei. Ainda se não emendaram? E eu que fui á -Italia de proposito para pedir ao Papa a canonisação em massa de todo o -sexo masculino! Mas, segundo vejo, os maganões são incorrigiveis. - ---Olhe, sr. Corte-Real, hoje em dia bem tolo é quem se casa. Os homens -são estouvados, e as senhoras seguem-lhe o exemplo. É moda que veiu -agora de França. - ---Veiu? Ah! e eu que me esqueci de ver os figurinos! - ---Vamos para a sala, Alberto, interrompeu meu marido, que via a -conversação tomar o caminho costumado. Lá podes-te enxugar melhor. - -Levantámo-nos e fomos para a sala. - -Estava o fogão acceso, e o lume derramava no aposento um suave calor. O -guarda luz do candieiro, concentrando o fulgor todo na mesa, á roda da -qual nos sentámos, deixava ficar na penumbra o resto do quarto. A chuva -batia nas vidraças, e o vento zunia com violencia, engolphando-se pelo -tubo do fogão. - ---Ah! disse Alberto, sentando-se n’uma cadeira á Voltaire, venham-me -agora fallar nos prazeres das viagens! Não conheço nada melhor do que -esta deliciosa sensação, que se apodera de nós, n’uma noite bem fria e -bem invernal, ao sentarmo-nos n’uma cadeira macia, junto do bom fogo, -entre duas ou tres pessoas que nos estimem, sentindo o vento sibilar, e -a chuva bater nos vidros. E pensar-se que a estas horas anda um barco -ao longe, no alto mar, affrontando a tempestade, que lhe descose as -pranchas, e lhe açoita a vela, em quanto o pescador, vendo as ondas -embravecidas a rugirem morte por todos os lados, vae scismando como -Victor Hugo, - - _Au vieux anneau de fer du quai plein de soleil!_ - ---Safa, que egoista! exclamou Claudio. - ---Egoista sim. Meu amigo, não ha prazer algum n’este mundo, em que não -entrem tres quartas partes de egoismo. É um prazer egoista? Bem sei: -já Lucrecio o disse antes de ti n’uns versos que não cito por duas -razões: a primeira porque são em latim... - ---E a segunda? perguntei eu. - ---Porque nunca li Lucrecio, minha senhora. - -Desatei a rir. - ---Mas, então, continuei, como é possivel que viajasse tanto, detestando -por essa fórma as viagens? - ---Detestar as viagens! eu, minha senhora! pelo contrario, adoro-as! - ---Mas, parece-me... - ---Perdão. Entendâmo-nos, minha senhora; este prazer, que eu estou -sentindo agora, tambem ás viagens o devo. É o contraste que lhe dá -este sabor tão agradavel e picante. Hontem, sósinho no convez do -paquete, via a solidão immensa dos mares, ouvia os melancholicos -lamentos das ondas, contemplava o ceu toldado, que se desenrolava sobre -a minha cabeça como plumbeo manto; hoje aperto a mão a um amigo de -infancia, tenho a ventura de estar conversando com senhoras amaveis e -espirituosas, sinto-me envolvido por uma atmosphera tepida, perfumada -das fragrancias da terra natal, e, recostando-me voluptuosamente -n’esta cadeira, vendo ali chispar um fogo delicioso na moldura do -fogão, mirando as figuras do guarda-luz do seu candieiro, esfrego as -mãos, como um egoista, e digo: «Como deve estar o mar a estas horas?» -Baloiço-me aqui indolentemente, e continuo: «Como os navios dançam -fóra da barra ao som d’essa valsa tocada pela orchestra das vagas, e -composta por esse Strauss maravilhoso, que se chama Deus!» Este prazer -sou aqui eu só quem o saboreia; digam-me lá se sentem o mesmo que sente -o viajante recem-chegado? - ---Não, acudiu meu marido, mas sinto eu, pelo menos, o prazer tambem -delicioso de tornar a ver um amigo ha dois annos ausente. - ---Meu bom Claudio! respondeu Alberto, pegando na mão de meu marido, e -apertando-lh’a com affecto. Mas, continuou, ainda ha outro prazer, que -eu não mencionava, e que não deixa de ser, comtudo, digno de citar-se. - ---Qual é? perguntou Claudio. - ---O de dizer mal das viagens! Fallar a gente a um amigo sedentario, -que nos tem inveja, e exclamar: «Oh! tu não comprehendes o quanto és -feliz! Não ha tortura maior do que a do Ashaverus da lenda! Percorrer -o mundo, só, vendo-se isolado no meio de uma sociedade differente da -nossa, passando por terras, onde ninguem nos espera, onde não deixamos -nem sequer uma saudade; e a mão da fatalidade a impellir-nos sempre, e -a voz do destino a dizer-nos: «Caminha». E assim atravessamos o mundo, -andorinhas sem ninho, poisando ora no cume inflammado do Vesuvio, ora -na austera cupula de S. Pedro, ora na torre pendida de Pisa, ora na -bronzea juba dos leões de Veneza! Ah! bem louco é quem deixa os lares -para procurar estas commoções de um instante, pagas por amarguras -infinitas.» E o amigo comtempla com certo respeito o homem que falla -com tanto despreso n’essas maravilhas, cujo magico panorama lhe povôa -os sonhos, lhe perturba a existencia. Oh! dizer mal das viagens, depois -de ter viajado muito, não ha prazer que se lhe compare, não acha, sr.ª -D. Antonia? - ---O que? - ---Dizer mal... que é um grande prazer. - ---Não se diz mal senão d’aquillo que merece as nossas censuras, por -exemplo... - ---Immensas coisas... Não me falle n’isso! O mundo vae cada vez peior. -O Anti-Christo não tarda. É pelo menos esse o parecer da sua caridosa -amiga, D. Simôa dos Anjos. É verdade, como está ella? - ---Olhe! essa é que se póde dizer uma santa. - ---Pois não! Santa Bazilia! é uma das santas mais veneradas pela igreja -contemporanea. - ---Bazilia!... - ---Sim, mulher de D. Bazilio. - ---Qual D. Bazilio? - ---Ora, qual D. Bazilio! um santo velhote, que floresceu alli pelos fins -do seculo passado, filho de um sujeito chamado Beaumarchais, e adoptado -depois por outro chamado Rossini! - ---Mas então esse homem, se vive, deve estar decrepito. - ---Como se engana, minha senhora! Está cada vez mais novo! Descobriu a -agua de Juvencio. - ---Alberto! interrompeu Claudio n’um tom meio offendido. - -Seguiu-se um instante de silencio. Eu sorria-me imperceptivelmente, -e saboreava, devo confessal-o, o prazer da vingança. Claudio estava -sombrio. Alberto fitára em mim os olhos por um instante, e caira depois -n’um melancholico scismar. D. Antonia percebera finalmente que tinha -sido _mystificada_, perdoem o gallicismo, e mordia os labios de raivosa. - ---Não nos contas algum incidente das tuas viagens? perguntou meu -marido, para dizer alguma coisa. - ---Que queres que te conte? respondeu Alberto, sacudindo a melancholia -que o envolvera. Imaginas por acaso que ainda existe o pittoresco? -Morreu, morreu de todo! Mataram-no os caminhos de ferro, e os inglezes -principalmente. Os _lazzaroni_ andam de chapeu alto, e o Vesuvio mais -dia menos dia arvora um guarda-chuva. Não se dá um passo em Pompeia, -que se não encontre um inglez passeando no vestibulo da casa de -Demetrio, ou entrando familiarmente no tribunal do edil Pansa. Queres -que te descreva uma Italia prosaica e semsabor, o Colyseu povoado de -casacas pretas, e no castello de Santo Angelo um capitão de zuavos -no sitio onde Benvenuto Cellini apontou, com a mão que fazia brotar -prodigios, a espingarda que dizimava as fileiras hespanholas? - ---Oh! acudi com certa exaltação, não seria eu quem desanimaria tão -facilmente! Nem os zuavos, nem os inglezes conseguiriam despoetisar a -minha Italia, o meu Lacio formoso, a minha Campania feliz. Derribaram -as pedras, sumiram o Mediterraneo, impuzeram silencio ás brisas, -desfloriram as larangeiras? Não! Pois bem; a minha phantasia se -encarregava de povoar essas ruinas solitarias, de evocar as gerações -extinctas, de traduzir a linguagem melodiosa da viração! Eu, se fosse -á Italia, havia de vel-a com os olhos d’alma, ainda mais do que com os -do corpo! Que me importava a prosa moderna, se me fosse dado passear -nas ruas de Pompeia? A mão dos homens levantou a mortalha em que o -Vesuvio a envolvera, a minha phantasia levantaria a mortalha com que a -cingiram os seculos! Doire o sol ainda o marmore branco dos palacios -de Genova, e a sua luz ha de illuminar para mim o mundo risonho da -cidade dos doges, ouvirei as musicas suaves que se espraiavam outr’ora -por sobre as ondas azues do Mediterraneo, a quem ensinavam essa -dulcissima melodia que ainda hoje enleva os ouvidos do viajante! Não a -olvidaram de certo os eccos da _strada Balbi_. Levem-me á Italia, e eu -atravessarei a peninsula sem ver nem zuavos, nem inglezes, percorrerei -á vontade ou a Italia pagã ou a Italia da Renascença, verei Raphael -pintando o maravilhoso retrato da sua Fornarina, debruçar-me-hei sobre -o hombro de Guido, quando o seu pincel esplendido fizer brotar da tela -as feições encantadoras da desgraçada Beatriz. A Italia tem habitantes? -Não sei, nem quero sabel-o; tem cardeaes, tem _bersaglieri_? não sei, -não sei. Sei apenas que tem os quadros de Raphael, as estatuas de -Miguel Angelo, as portas de Ghiberti, e os claustros de Bramante. Quero -engolphar-me n’esse pélago de maravilhas, quero percorrer esse mundo -mysterioso, encerrar-me n’essa Pompeia gigante, e depois quando voltar -á superficie do mundo actual, vire, pallida, mas trazendo na fronte, -não, como o mergulhador de Schiller, a sombra triste projectada pelos -invisiveis horrores do oceano, mas um reflexo d’esse immenso fulgor, -que ha de emanar das perolas e dos diamantes d’essa Golconda da arte! - ---Oh! tem mil vezes razão, tornou Alberto levantando-se com enthusiasmo, -cuida que não senti isso mesmo? Cuida que não tive muita vez essas -visões do passado? Por baixo do palimpsesto banal das modernas idades -sentia eu pullularem as letras de fogo do poema da velha Italia! Á -noite, principalmente, quando se extinguem os vãos ruidos mundanos, e a -meiga fada vem mais uma vez cingir a sua Italia querida, a voluptuosa -Aphrodita dos dois mares, na sua tunica bordada de estrellas, e -perfumada de ignotas fragrancias, então é que se escutam essas vozes -mysteriosas, que não são mais do que a vaga conversação das grandiosas -gerações, que desappareceram umas após outras da face d’aquella terra -abençoada! A mythologia antiga suppunha que eram os titães soterrados -quem abalava as montanhas ao revirarem-se no seu leito de chammas. Não -se enganava; prophetisava! Por baixo d’aquelle solo sagrado arquejam -as gerações de gigantes, que povoaram o velho Lacio dos Cesares e a -Roma dos Raphaeis! Á noite erguem-se todos esses brancos phantasmas -e passam, agitando as azas, na atmosphera transparente. Oh! quantas -vezes não tive eu d’essas visões extaticas, em Roma! Quantas vezes, -passeando, embarcado, por uma noite de luar, na suave bahia de Napoles, -não vi como que em sonhos perpassarem as galeras romanas, todas -illuminadas e deixando apoz si um sulco a um tempo fulgido e melodioso, -como se a ardentia se houvesse transformado em musica! E quando os meus -barqueiros deixavam cair indolentemente os remos na agua, que lhes -respondia com um vago suspiro harmonioso, como uma nota de Cimarosa -ou de Bellini, em quanto as estrellas deviam fulgir n’essas noites -delirantes das saturnaes em quanto a lua illuminava ao longe as casas -brancas de Ischia, de Procida, ou de Capri, eu sentia passar nos meus -cabellos a lasciva brisa de Baia, e via surgirem no horisonte esses -vultos candidos de mulheres, cujos nomes passaram atravez dos seculos -envoltos na purpura, que lhes atirou a realeza do genio, a Lesbia -de Catullo, a Cynthia de Propercio, a Corinna de Ovidio, a Lydia de -Horacio e a Delia de Tibullo. - -Alberto calou-se por um instante, e depois continuou: - ---Outra vez estava eu em Veneza; a minha gondola sulcava -silenciosamente o grande canal. A antiga cidade dos doges parecia -uma cidade morta, e a lua a lampada immensa, suspensa sobre esse -maravilhoso tumulo; nem um murmurio se exhalava do seio da formosa -captiva, apenas de vez em quando o sino da igreja de S. Marcos -soltava lugubremente a voz, como que para entoar o epicedio da -grandeza da republica; mas logo os brados gutturaes das sentinellas -austriacas vinham como que protestar contra o timido queixume do anjo -do campanario. As ondas do Adriatico gemiam brandamente, espantadas -de ouvirem aquella voz allemã quebrar o silencio da natureza -italiana. A pouco e pouco tinha cahido n’uma profunda melancholia, -e comparava involuntariamente a decadencia nobre de Veneza com o -misero esphacelamento da minha patria. Veneza é um gigante, que -desceu ao tumulo, envolto na sua armadura de marmore, e perante -aquella maravilhosa campa descobre-se o mundo com respeito: Portugal, -tambem gigante, mais gigante ainda, arrojou-se á valla commum, e as -nações desviam os olhos com tedio d’esse cadaver putrefacto, coberto -de vermes que o devoram. Subito, d’um d’esses palacios, que miram -nas aguas do canal as suas marmoreas escadarias, jorrou em ondas de -melodia a deliciosa serenata do _Marino Faliero_ de Donizetti. Como por -mysteriosa evocação, tudo se illuminou a meus olhos. Illuminaram-se -os palacios, povoaram-se os canaes de gondolas cheias de mascaras; os -fogos de Bengala tingiram de azul e côr de rosa as fachadas de marmore -branco. Avultou-me ao longe o _Bucentauro_, com o seu magestoso cortejo -de galeotas. Povoaram-se-me os caes de fidalgos venezianos, em cujo -trajar doirado e bordado scintillava a luz projectada pelos fachos. -Desappareceram os austriacos, e a Veneza antiga, a Veneza de Ticiano, a -Veneza do carnaval, surgiu-me de novo das ondas, como a borboleta da -chrysalida, como a Venus da espuma! - ---O que! ouviu em Veneza a serenata do _Marino Faliero_? acudi eu com -jubilo infantil. - -E, correndo ao piano, fiz brotar das teclas a maviosa melodia. - -Havia muito que as teclas me não respondiam tão suavemente. Aquella -doce musica, que suspira brandamente como a brisa nos roseiraes, vago -preludio do rouxinol, harmonia d’anjo, que parece expandir-se do carro -argenteo de Phebe ao rolar no firmamento azul, exhalou-se do teclado, -como um perfume do calice d’uma flor. Enlevada n’esse encantamento que -os meus dedos operavam, transportei-me brandamente ao seio d’uma noite -luminosa como essa em que fallava a letra da canção. Vi-me em Veneza, -reclinada n’uma gondola, cortando as aguas do canal. Involuntariamente -os meus dedos foram affrouxando, até que mal já pesavam nas teclas. O -canto quasi não se ouvia, e parecia apenas um suave murmurio, como o de -harpa eolia suspensa nas franças de pinheiral distante. - -Afinal a harmonia esmoreceu, e esvaiu-se de todo debaixo dos meus -dedos; deixei descair os braços no collo, e fiquei engolfada no meu -scismar. A chuva batia com mais furia nas vidraças, e o vento soprava -rijo, fazendo gemer os postigos. - -Mas eu não ouvia nem vento nem chuva. Esvaíra-se havia muito o ultimo -suspiro da tecla abandonada, e eu escutava ainda o prolongamento -d’essa nota melodiosa, como se ella se repercutisse n’uma atmosphera -de crystal. Por deante dos olhos passava-me lentamente, como em magico -panorama, a luminosa visão das cidades italianas: Veneza com as suas -gondolas, Genova com os seus palacios, Florença com as suas galerias, -Roma com as suas ruinas, Napoles com o seu golpho! E n’essa atmosphera -encantada, n’esse mar limpido e voluptuoso fluctuavam as minhas -andorinhas, vogavam os meus cysnes, doces devaneios que tinham fugido -havia muito com a aza branca magoada! - -Quando levantei a cabeça, estavam todos á roda de mim, D. Antonia -com um sorriso ironico, Claudio triste e inquieto, Alberto como que -entregue a um delicioso extasi. - ---Oh! mais! mais! disse elle pondo as mãos com ar supplicante; mais -alguns minutos d’esse goso infindo! Que mysteriosa intuição de artista -lhe revelou Veneza? É esse o bater da agua nos degraus das escadarias! -são esses os murmurios que fluctuam n’aquella atmosphera abrazadora! -são essas as melodias que deviam resoar n’essas noites ferventes, em -que o mundo inteiro, saindo das brumas da idade-media, não fazia senão -balbuciar, pela voz dos seus poetas, pelos marmoreos labios das suas -estatuas, a palavra «amor» que ia esculpir até nos rendilhados portaes, -nos voluptuosos columnelos dos templos da Divindade! amor sensual, -pagão, lascivo, se quizerem; mas amor immenso e vivificante como o que -os raios do sol entornam no seio da gleba italiana, como as ondas do -Mediterraneo descantam ás plagas sonoras da Ausonia e da Grecia! - ---Ah! tambem sente o mesmo? tornei eu infantilmente, acha tambem que a -musica tem o magico dom de evocar um mundo desconhecido? - ---Se tem! A musica abre-nos de par em par as portas do ideal! S. Pedro -foi destronisado. Os porteiros do céo são Bellini e Donizetti; a -_Lucia_ e a _Norma_ são as duas chaves do Paraizo. - ---E Meyerbeer? perguntei eu, rindo. - ---Oh! esse é o porteiro do inferno. - -Ia protestar, mas elle interrompeu-me, e continuou: - ---Descance, de um inferno onde o ranger dos dentes é harmonioso, e onde -os humanos, criminosos durante a vida terrestre, são condemnados a -darem eternamente o _dó_ do peito. Pois onde queria que eu collocasse -o author do _Roberto do Diabo_? No céo de certo que não. Meyerbeer é -o Satanaz da melodia, é o anjo caido; mas o anjo caido de Milton, e -não o diabo das lendas. Aquelle homem abre-nos um mundo mysterioso e -terrivel, d’onde refugimos com terror, mas para onde nos attrae depois -uma indisivel voluptuosidade. Toda a musica do _Roberto_ é a pavorosa -traducção em notas da apostrophe de Satanaz ao sol no poema do Homero -britannico. Mas d’esse cahos de harmonias tremendas brota ás vezes um -canto d’uma doçura infinita, como o do papel d’Alice, por exemplo. -São as recordações da patria celestial, são as tristezas do Archanjo -soberbo no meio do seu tenebroso exilio. E as notas isoladas da -abertura do _Propheta_! Que vaga melancholia, que tristeza sobrehumana! -Saudade tão profunda só a podem inspirar os campos das eternas -delicias, o Elysio resplandecente, a habitação dos anjos! - -N’este momento entrava o creado com a bandeja do chá. Fomos para a -mesa, e a conversação prolongou-se até á uma hora da manhã. A chuva -cessara, e a noite puzera-se fria mas serena. Alberto despediu-se, e -saiu. - - - - - VI - - -Quando Alberto saiu pareceu que me caia de chofre um peso no peito. -Imaginem Sisypho, a victima infeliz do inferno mythologico, podendo -ver de relance uma nesga dos Elysios, e, quando está enlevado n’esse -delicioso panorama, sentindo de subito rolar pela escarpa da montanha, -e desabar-lhe em cima o rochedo do supplicio! - -Tal era a minha situação. - -Tivera um momento de liberdade; o meu espirito, constrangido, -torturado, voara em extasi para a região luminosa dos meus sonhos, -engolphara-se nos seus fulgores, nadara em pleno ether, ouvira as -harmonias desconhecidas do vulgo; mas as trevas cerravam-se-me de novo, -e as grades da minha gaiola appareciam-me em toda a sua negra hediondez. - -Claudio, pouco depois de sair o seu amigo, pretextou achar-se fatigado, -e retirou-se. Ficámos sós, eu e D. Antonia. - -De bom grado me teria tambem retirado; mas o somno esquivava-se-me ás -palpebras, que em vão o chamavam. Tinha a cabeça cheia de melodias, -pulsava-me nas veias a febre da arte. Decididamente não podia dormir; -levantei-me e approximei-me da janella. - -O vento da meia noite dissipara as nuvens, e descobrira a lua; o céo -estava de uma limpidez magnifica, as poças da agua brilhavam como -diamantes enormes. Deu-me uma tentação de banhar a cabeça escandescente -n’essa athmosphera gelada, e abri a janella. - ---Que capricho tão romanesco, minha sobrinha, acudiu logo D. Antonia. -Demais a mais é escusado! olhe que já o não vê. - ---Já não vejo quem? tornei eu voltando-me espantada. - ---Ora, quem! provavelmente quem saiu d’aqui. - ---Quem saiu d’aqui! repeti eu sem perceber ainda. - ---Ih! Jesus! não se faça desentendida! o senhor Alberto Mascarenhas. - -Ferveu-me nos labios uma resposta indignada; mas, lembrando-me da -discussão que ia provocar, encolhi os hombros, fechei a janella e fui -me sentar ao pé da mesa. - -Seguiu-se um silencio. - -Mas D. Antonia não era pessoa que assim abandonasse o campo de batalha. - ---Eu gosto de ver estas senhoras, que tanto gostam de conversar com -estranhos. Seu marido e a tia de seu marido, segundo parece, não são -dignos de fallarem com s. ex.ª. Pois olhe, se assim pensava, era melhor -que não casasse. Mas estas senhoras afrancezadas querem ter um marido -para gosarem toda a liberdade, e para serem um objecto de escandalo -para as pessoas virtuosas e tementes a Deus. E não desejam conversação -de senhoras, isso não lhes agrada. Não estão satisfeitas senão quando -conversam com homens, e todas se embebem nas suas fallas, sem nem -sequer deitarem uma vista de olhos para o esposo que receberam aos pés -do altar. Com estas doidas é que os homens se entendem bem. Ah! mundo! -mundo! - ---Isso refere-se a mim, senhora D. Antonia? perguntei eu, affectando -socego, mas ralada pela indignação que me fervia no peito. - ---Ah! parece que lhe serve a carapuça? tornou ella, rindo-se com um -riso sarcastico. - ---Eu não entendo muito bem d’essa questão de carapuças; mas, se teve -intenção de me insultar, dir-lhe-hei que meu marido não ha de ficar -satisfeito, sabendo a que improperios estou todos os dias exposta -n’esta casa, que devia ser para mim abrigo inviolavel contra as -injurias de qualquer, muito mais partindo ellas de uma pessoa da sua -familia. - ---Injurias! já se vê! estava á espera d’isso mesmo! Chamam-se injurias -as verdades! - ---As verdades! mas que verdades? tornei eu impaciente! - ---As que devia ouvir com mais attenção, quando lh’as diz uma pessoa, -que só quer o seu bem. Que idéa iria formando o Alberto Mascarenhas -d’uma mulher que esteve, toda a noite, dando-lhe só attenção a elle, e -não dirigindo uma palavra só nem a seu marido, nem a tia de seu marido? - ---Mas eu podia obrigal-os a fallar? tenho porventura culpa se nem uma -vez só entraram na conversação? - ---Ora essa! Pois que havia eu de dizer, n’uma palestra, em que não -ouvia senão heresias! Que S. Pedro não era porteiro do céo, e não -sei que mais! Estava-me causando pasmo vêl-os fallarem com tanto -sangue-frio no demonio. Ah! se eu fosse o Claudio! - -D’esta vez não pude deixar de me rir, o que, como é facil de suppor, -ainda mais augmentou a indignação de D. Antonia. - ---Ria-se, pois não! é o que deve fazer! É o pago que recebemos dos -bons conselhos, que lhes desejamos dar! Mangam comnosco, e entram -affoitamente no caminho da perdição! Ver eu, com estes olhos, uma -senhora, que, para desgraça da nossa familia, é esposa de meu -sobrinho, toda enlevada e requebrada a dar attenção a um petimetre -na minha presença, e em presença de seu homem! É aonde póde chegar o -descaramento. - ---Isto é demais, exclamei eu, erguendo-me com os olhos arrazados de -agua; vejo-me condemnada aqui a ouvir uma linguagem, a que nunca me -acostumaram, e a defender-me de accusações que o meu procedimento nunca -authorisou. Só o ridiculo do insulto póde attenuar a insolencia d’elle. - ---Sim, diga que é ridiculo!... Como logo hoje abriu o piano! como -correu pressurosa para o tocar! Puz as mãos na cabeça. Nunca imaginara -tal. Ver o pudor esquecido áquelle ponto! - ---Mas que idéa forma então de mim? tornei eu com voz tremente, em -que palpitavam os soluços abafados; se me julga capaz de provocar -galanteios de um homem, que vejo pela primeira vez, e que tem -delicadeza bastante para nem por sombras dar mostra de que me deseja -requestar? - ---Ah! já o defende! Descance que ninguem o attaca. E, depois, se o viu -pela primeira vez, é o que resta saber. Hoje em dia as meninas educadas -á moda franceza são capazes do enganar os velhos mais experientes! Os -planos são bem combinados! Commette-se uma _imprudencia_, e depois -apparece um moço inexperto, a quem se acceita por marido, sem ao menos -sequer se lhe dar tempo de fazer a côrte! Esses preliminares são -escusados para se chegar ao fim a que se aspira! Depois, um bello dia, -apparece um moço, _a quem se vê pela primeira vez_, e o moço que se vê -pela primeira vez encontra a imprudencia remediada. - ---Oh! isto é horrivel! respondi, não podendo já suster as lagrimas e -debulhando-me em prantos. - -D. Antonia olhou para mim com um sorriso de triumpho; estava vingada -dos sarcasmos de Alberto, do seu silencio forçado de tres horas. -Estavam suavisadas com esse balsamo das minhas lagrimas as feridas da -sua vaidade, as mordeduras do demonio da inveja. - -Ergueu-se, e lançando-me um ultimo olhar, saiu vagarosamente da sala. - - - - - VII - - -Admiro-me ás vezes agora das torturas que me causavam aquellas -accusações, tão despreziveis e tão absurdas. Mas eu era uma creança, -e não podia conceber que o azedume e o despeito levassem uma mulher, -que vivera toda a sua vida engolphada n’aquellas intrigas pequeninas, -a torturar por divertimento e só por divertimento. Revoltava-me o -absurdo, em vez de me fazer rir, e pungia-me principalmente o proposito -firme que eu vira que D. Antonia formara de contrariar todas as minhas -predilecções, de me obrigar a descer áquella esphera, em que ella vivia -deliciosamente. - -Parecia-lhe impossivel até que houvesse alguem que se occupasse em -outras coisas, ou que n’outras coisas pensasse. Quando expunha alguma -das suas frivolas theorias, queria que todos as acceitassem com muita -reverencia, e, se não manifestavam logo a sua adhesão, recebiam uma -chuva d’epigrammas, porque eram consideradas do partido opposto -ao seu, não podendo D. Antonia perceber que o verdadeiro motivo do -silencio, em que todos ficavam quando ella fallava, era a perfeita -indifferença que inspiravam as suas insipidas e dogmaticas banalidades. - -Se eu fosse capaz de comprehender aquella indole essencialmente -mexeriqueira, teria logo despresado os seus ataques, por mais insolente -que fosse a forma. Mas eu nunca estudara essa variedade da raça humana; -era D. Antonia o primeiro especimen que me apparecia, e só muito depois -vim a conhecer a fundo os usos e costumes d’aquella familia zoologica, -olvidada por Linneu da sua classificação. - -E demais, qual é o espirito, por mais energico, por mais elevado que -seja, que possa affrontar serenamente estas torturas pequenas do lar -domestico? - -Direi mais, quanto mais elevado e mais energico fôr, mais accessivel é -tambem a estas feridas de alfinete. Todos os inimigos são previstos, -menos este, que é o mais despresivel e o mais terrivel tambem. O leão -da fabula despresava o mosquito, e foi o mosquito quem o venceu. - -Depois via-me só! só n’aquelle pelejar incessante, sem ter um peito -amigo que me fosse anteparo, sem ter um coração em que me abrigasse. -Queria a soledade, e a soledade fugia-me! O eterno zumbir d’aquella -vespa afugentava as abelhas dos meus sonhos, que eu julgava que podiam -libar tão doce mel no calice das flores da phantasia! - -A pouco e pouco fôra abandonando as minhas relações; apoderara-se -de mim uma especie de _spleen_, e era-me insupportavel a sociedade, -porque estava sempre n’ella constrangida, exposta como me via a algum -escandalo produzido pela extravasão da bilis de D. Antonia. Nas salas, -onde uma ou outra vez entrava, sentia constantemente aquella espada de -Damocles suspensa sobre a minha cabeça, e bastava isso para envenenar -todo o jubilo que eu poderia ter. - -As minhas amigas de infancia espantavam-se de me verem tão arredia, -e arrastadas tambem pelas suas preoccupações de solteiras, nem se -lembravam de virem visitar a pobre exilada. «Temiam, diziam-me ellas -rindo, quando me encontravam, ser indiscretas, vindo bater á porta do -meu santuario.» E eu sorria-me tambem--que remedio!--sentindo ao meu -lado, como sentia sempre, o genio mau que se adorava n’aquelle templo -domestico. - -Um dia o acaso fizera-me ter um momento de desafogo, de expansão, de -contentamento! Essa curta alegria havia de ter inevitavelmente a sua -expiação: teve-a, e logo em seguida. - -Essa suave convivencia que eu esperava que se estabelecesse entre mim -e Alberto, essas conversações que viessem de vez em quando, como os -oasis no deserto, offerecer-me um instante de frescura, dessedentar-me -por um pouco, tudo isso era maculado, ainda antes de nascer, pela baba -peçonhenta do reptil que me perseguia! - -Parecia que um instincto infernal lhe segredava os meios de me -torturar; havia um demonio invisivel que volteava em torno d’ella, e -que lhe indicava os pontos vulneraveis da minha epiderme; vinha logo -a envenenada setta cravar-se, arrojada por mão certeira, no sitio -doloroso. - -Oh! quem fará um dia o poema d’estas agonias mysteriosas, tanto mais -tristes, tanto mais pavorosas quanto menos lastimadas são quando -se revelam! Este lento padecer nas trevas mais recatadas do lar da -familia não tem a poesia augusta dos martyrios, que são bem visiveis, -e que todos podem facilmente avaliar? Pois estas é que são as dores -terriveis, porque não matam, mas empeçonham a vida, estiolam-na, -desenfeitam-na de tudo quanto a poderia tornar agradavel, e quando -o anjo da morte venha, depois de longos annos d’uma existencia, que -mão paciente foi descolorindo, colher no seu regaço a nossa alma, -encontra-a mais gelada, mais fria, mais inerte do que o cadaver, que o -tumulo reclama. - - - - - VIII - - -Passou-se o resto do inverno, sem que successo algum notavel viesse -perturbar a triste monotonia da minha existencia. Augmentavam a -cada instante a sombria taciturnidade de meu marido, o intoleravel -despotismo de D. Antonia. - -Alberto vinha de quando em quando visitar-nos, e os poucos momentos, -que elle passava comnosco, eram para mim de ineffavel jubilo. A sua -indole viva e amena, a sua conversação sempre colorida e pittoresca, a -sua palavra eloquente exerciam em mim uma salutar influencia. As suas -visitas eram como as de um raio de sol ao preso encerrado n’um carcere -tenebroso. - -A nossa ligação, por maior que fosse o desejo que D. Antonia tivesse de -a envenenar, não lhe dava para isso o minimo pretexto. Era a ligação -de dois condiscipulos, que se sentem attraidos um para o outro pela -uniformidade das suas idéas, pela commum predilecção consagrada aos -mesmos estudos. O franco e aberto sorriso, com que eu o acolhia, O -amigavel _shake-hands_ que trocavamos á despedida, não explicavam senão -sincera e cordial sympathia mutua. - -Finalmente chegou a primavera. Alberto partira antes de terminar o -inverno, para a Ericeira, onde tinha parentes que o chamavam. Claudio -propoz-me irmos passar a primavera e o estio n’umas terras que possuia -na aldeia de ***, junto de Bellas. - -Aceitei, e aceitei com enthusiasmo. - -Quando já estava determinada a partida, e tudo preparado, subitos e -imprevistos negocios obrigaram meu marido a demorar-se em Lisboa. Não -quiz elle de modo algum que por causa d’isso transtornassemos a viagem -projectada. Despediu-se de mim affectuosamente, prometteu-nos, que, -assim que se pudesse desembaraçar, iria ter comnosco; depois viu-nos -entrar na carruagem, e esteve á janella até nos sumirmos saindo as -portas da cidade. - -Estava um d’estes dias do principio da primavera, em que sopra ainda a -brisa aguda invernal, e em que o horisonte se cobre com um denso veu de -neblina. Caía uma chuva miudissima, e a baixa de Campolide apparecia -emvolta n’um manto de tristeza. O vulto do aqueducto desenhava ao fundo -os seus arcos magestosos e sombrios. - -Envolvi-me na minha capa de viagem, e concheguei-me no fundo do -_coupé_. O movimento da carruagem era suave bastante, e proprio, a mais -não poder ser, para acalentar os meus sonhos. Primeiro quiz sustentar -a palestra com o auxilio de algumas banalidades; mas pouco a pouco -a minha imaginação não se poude conter, engolphou-se na região dos -devaneios, emquanto ao meu ouvido, que as sentia vagamente, resoavam as -palavras de D. Antonia, que me ía recitando, segundo creio, a lista dos -nossos visinhos do campo. - -Eu, entretanto, contemplava a paizagem, que apresentava aspectos -diversos e pittorescos. De vez em quando um frouxo raio de sol rasgava -o manto de nevoas, e vinha dar uma certa animação ás campinas. -Espairecia o firmamento, e a magestosa curva do grande arco do -aqueducto moldurava ao longe uma vasta nesga de tela azul. A luz -amarellada do sol doirava os campos, que se apresentavam já cobertos -com o seu vistoso tapete de malmequeres. Depois corria-se de novo o -panno, e o scenario desapparecia com os seus explendores de um momento, -com o seu instantaneo colorido. - -Involuntariamente comparei a minha vida monotona, e tendo apenas breves -intermittencias de luz, com aquella paizagem da primavera invernosa. - -A imagem de Alberto fluctuou-me por instantes na phantasia. - -Sorri-me ao lembrar-me do que diria a minha companheira de viagem, se -soubesse que vulto eu vira n’aquelle instante com os olhos d’alma. - -Esse sorriso, por mais rapido que fosse, não escapara á vista perspicaz -de D. Antonia. - ---De que se ri? perguntou logo. - -Como que acordei sobresaltada. - ---De nada, retruquei. - ---De nada? Só a pessoas que não teem todo o juizo, acontece semelhante -coisa. É verdade que talvez agora se dê esse caso, accrescentou por -entre os dentes. - -Encolhi os hombros. - ---Pois olhe, continuou ella, que o que eu lhe estava dizendo era muito -sério. Provavelmente nem sabe o que foi. - ---Confesso, respondi eu fazendo-me vermelha, que não percebi bem. - ---Ah! não percebeu? Pois olhe, não era difficil. Por onde andará o seu -pensamento? Não percebe o que eu digo e não sabe de que se ri! Isso ha -de ser nervoso. Talvez precise de tomar banhos de mar... na Ericeira. - -Começara o tiroteio. Já me admirava de que a trégua durasse tanto. - -Conforme o costume, deixei passar a tempestade dos epigrammas, fazendo -porque o meu espirito se isolasse completamente d’este mundo, e voasse -para bem longe d’aquella atmosphera turvada. - -Tinhamos já passado para deante da ponte do Carenque, e entravamos -n’essa estrada arida, núa, monotona, que põe em communicação entre si -Lisboa, a formosa rainha do Tejo, Cintra, a mimosa camponeza das serras. - -O sol, proximo do occaso, conseguiu alfim romper a nebulosa cortina que -o cercava. Como a lampada moribunda projecta, nas vascas da agonia, -mais intenso clarão, assim o rei dos astros, antes de apagar no -horisonte a sua corôa de fogo, quiz inundar o céo com vividos reflexos. - -Então o cerrado esquadrão das nuvens como que se revestiu de luminosas -couraças. Como captivo soberano, a quem a fortuna restitue o throno, -e que vê passar por deante de si humildes e curvados os seus proprios -carcereiros, assim as nuvens desfilavam, impellidas pelo vento, por -deante do sol, immovel no horisonte purpurado, como em vasto solio de -chammas. Aqui semelhavam corceis phantasticos, de arreios de ouro e -xaireis de escarlata, que voavam n’um insano galope; mais além nuvens -distantes, que se tingem de reflexos arroxados, passavam lentamente, -como graves magistrados envoltos nas suas bécas. A illusão chegou a -ponto, que a minha phantasia, começando, segundo o costume, a tomar -gosto n’esses devaneios, deu a cada nuvem um papel, e chegou a vêr bem -vivos, bem claros os vultos que imaginava. - -Este cortejo de nuvens bojudas, que avançava magestosamente, -representava a meus olhos a camara municipal. Ouvia-lhes os discursos, -que o vento vinha indiscretamente segredar ao meu ouvido. - -Aquell’outras que se conservavam fluctuando em torno do sol, e que mais -brilhantes se mostravam com as suas vestes de purpura recamadas de -oiro, eram os cortezãos que cercavam o regio throno. - -As arvores, que fugiam, á medida que ia passando a carruagem, -affiguravam-se-me a plebe, que saudavam com enthusiasmo a cerimonia -celestial. O vento agitava-lhes os braços, que pareciam menear na -atmosphera invisiveis chapeus; dir-se-ia que os murmurios, que se -exhalavam das suas ramas, eram o bramir longinquo e indiscreto dos -vivas de um povo inteiro. - -Era tão comica a attenção que eu prestava a estas cerimonias -phantasiadas, que involuntariamente, caindo em mim, desatei a rir. - -D. Antonia olhou-me com espanto. - ---Estará maluca, minha sobrinha? perguntou ella. - -Eu olhei-a com um embaraço infantil, e balbuciei algumas palavras -inintelligiveis. - ---Em vez de conversar comsigo mesma, teria sido melhor se me -communicasse os seus pensamentos. Não teria d’essa fórma commettido -a indelicadeza de quasi me não dar palavra todo o caminho... porque -estamos em Bellas. - -Tinha razão, e eu não pude fazer mais do que acceitar a reprimenda -e confessar a mim mesma que as imprudencias da minha phantasia de -creança, que estava prompta sempre a lançar mão da _clef de champs_, -eram causa muitas vezes dos meus dissabores. - -Estavamos em Bellas effectivamente. O sol sumira-se de todo, mas o -céo parecia querer-se conservar limpo, e prometter uma noite boa. A -carruagem parou no largo para onde deita a porta da quinta do conde de -Pombeiro. - -O cocheiro tomou informações, e soube que as chuvas dos ultimos dias -tinham transformado as estradas em atoleiros. Veio ter comnosco, e -disse-nos que nos levava, se quizessemos, á aldeia de ***, mas que nos -arriscavamos a fazer uma viagem demorada, ou a ficar atascadas no meio -do campo. - -Como a noite promettia estar serena, e a aldeia não era muito distante, -resolvemos, eu e D. Antonia, ir a cavallo. Por conseguinte despedimos o -cocheiro, depois d’elle nos ter ido alugar uns burros, e, sentadas no -dorso dos pacificos animaes, tomámos o caminho da casa de campo. - -Pouco teriamos andado, quando o céo se principiou a toldar de novo. -Caía a noite, e as nuvens, carregando o firmamento, apagavam os faroes -das estrellas, e desdobravam por cima das nossas cabeças um manto negro -e funebre. O rapaz, que tocava os jumentos, mirou o céo e abanou a -cabeça dizendo: - ---Temos ahi chuva em barda. É irmos mais depressa, minhas senhoras. - -Mas isso era mais facil de se dizer do que de se fazer. As informações -do cocheiro tinham sido exactas, e as estradas eram verdadeiramente -uns lamaçaes quasi impossiveis de atravessar. A chuva já principiara a -cair, o vento zunia com violencia, e os pobres animaesinhos curvavam a -cabeça, e amainavam as longas orelhas, como o barqueiro amaina a vela -quando sopra o temporal furioso. Era necessario avançarmos com muita -cautela, para não tomarmos algum banho n’essas poças que abundavam no -caminho, e que um ou outro relampago, que principiava a fuzilar, nos -mostrava, cercando-nos por todos os lados, como uma rede de paúes. - -Finalmente retumbou um trovão magestoso, e uma tremenda pancada d’agua -desabou em cima de nós. - ---Santa Barbara, e S. Jeronymo nos accudam, murmurou o burriqueiro, que -noite que vamos ter! - ---Ainda fica muito longe a aldeia? perguntei eu. - ---Ainda é um bom pedaço, respondeu o rapaz, atirando uma verdascada ao -jumento para lhe apressar o passo vagaroso. - ---E não ha por aqui alguma aldeia mais proxima? - ---Agora vamos nós atravessar uma. - ---Então, senhora D. Antonia, acudi voltando-me para ella, não acha -que seria melhor recolhermo-nos em alguma casa, emquanto não passa o -temporal? - ---Entrar em casa de um saloio! Deus me livre! A minha sobrinha não -sabe como esta gente é bruta, e porca principalmente. Eu, se me visse -obrigada, por não ter outro remedio, a descançar n’uma casa d’essas, -assim que me visse no palacete, despia-me toda! Captiva! - -Isto era dito em voz bem alta, deante do rapaz que nos acompanhava. -Elle naturalmente não se importou com isso; mas a mim é que se me -confrangeu o coração: nem gosto de humilhar, nem de ver humilhar, os -humildes; impressiona-me sempre desagradavelmente ver alguem, collocado -pela fortuna n’uma posição mais ou menos elevada, fazer sentir á gente -das classes inferiores a distancia que as leis antigamente e agora os -habitos mantém entre os pobres e os ricos, os humildes e os soberbos. - -Por isso, para remediar quanto em mim coubesse a falta de delicadesa -de D. Antonia, dirigi amigavelmente a palavra ao nosso companheiro -saloio. - -D. Antonia nem em tal reparou. Aquellas coisas fazia-as ella -naturalmente, e sem ser por mal. Não tivera intenção de offender o -rapaz, e ficaria espantadissima se soubesse que um saloio podia ter -susceptibilidade e sentimento da dignidade humana. Nunca se constrangia -para fallar deante d’essa gente; no mais não a tratava nem melhor nem -peior do que os outros, e estava convencida que podia ser considerada -como um modelo de affabilidade quando correspondia ao cumprimento de um -homem de baixa esphera, e lhe dizia: - ---Como está _você_? Sua mulher e seus filhos vão bem? Muito estimo! -Beba um copo de vinho á minha saude. Aqui não; vá para a cosinha. Olhe, -lá me sujou a casa com os tamancos! Esta gente não póde entrar em parte -alguma. - -Emquanto eu fazia taes reflexões, não findara a chuva; mas os jumentos, -incitados pela voz e pelas verdascadas do burriqueiro, e por um certo -instincto que lhes dizia que estavam quasi chegados ao termo da sua -jornada, haviam tomado uma andadura mais rapida, de fórma que d’ahi a -um quarto de hora pudemos ver uma casa de boa apparencia, singela, com -pavimento rente do chão, e andar nobre, que D. Antonia me disse ser a -nossa residencia. - -O burriqueiro deitou a correr para ir bater ao portão; quando lá -chegámos, tinham-se já corrido os ferrolhos e destrancado a porta, e -uma criada velha, entre-abrindo-a cautellosamente, apparecia com um -candieiro de tres bicos na mão, e exclamava, ao conhecer D. Antonia: - ---Valha-nos Deus! A Virgem Maria nos acuda! É a senhora D. Antonia! -Ai! a minha santinha, como ha de vir molhada! Ó Zé Caneira! olha que -é a senhora. Ó Annica! Ó mulher, tu não appareces? Diabos te... quero -dizer: Valha-te Deus, rapariga, que tão mollenga me saiste! - - - - - IX - - -Era perfeitamente uma d’aquellas phantasticas velhas dos contos de -Hoffmann essa que nos viera abrir as portas. Nariz adunco, barba -revirada, cabellos grisalhos, despenteados e fluctuando como que -em desordenadas estrigas sobre a testa proeminente, que abrigava, -como uma especie de pala natural, os olhinhos pequenos, pardos, e -encovados! A luz mortiça do candieiro projectava no seu rosto uns vagos -reflexos, que ainda lhe davam um mais estranho realce. Era baixa, um -tanto curvada para diante, e vestia uma especie de casabeque immundo, -apertado na cintura, com umas abas curtas, que cobriam uma pequena -porção da saia de baeta vermelha, que lhe ia poisar em cima dos sapatos -rotos. A boa da velha não se fartava de nos fazer mesuras, em quanto -vinham surgindo de differentes portas os creados, que ella chamara, e -que traziam um supplemento de illuminação. - ---Adeus, Maria do Rosario, disse D. Antonia, ao apear-se da -cavalgadura, como está você? - ---Ai! minha senhora, graças a Deus! antes assim que peior! cá vou -arrastando estes pobres ossos por este mundo de Christo, até Deus -querer... até Deus querer! Ai! minha querida senhora D. Antoninha, -está cada vez mais moça! bonita, guapa! ai! Senhor! quantas meninas de -quinze annos a não hão de invejar? - ---Isso é dos seus olhos, Maria do Rosario, tornou D. Antonia, rindo-se -com certa complacencia, já estou velha e bem velha. O tempo de agora -está para estas, continuou, apontando para mim; olhe, é a mulher de meu -sobrinho. - -Maria do Rosario fez-me uma mesura, a que eu respondi com um sorriso. - ---Ai! Santo Deus! é mesmo uma flor! Deus a fade bem, e lhe dê o juizo -da tia, como lhe deu a belleza d’ella! com que então, é esta a mulher -do seu Claudiosinho? Quem havia de dizer, senhora D. Antonia, quando -nós andavamos com o Claudio ao collo... - ---Andavamos! interrompeu D. Antonia, um tanto espinhada, andaria você, -eu era uma creancinha n’esse tempo! - ---Ora esta! acudiu apressadamente Maria do Rosario, emendando a mão -como boa cortezã que logo vi que ella era, onde teria eu a cabeça? É -verdade que a senhora D. Antonia, desde creança, foi tão espigadinha, -tão airosa! Ai! minha senhora... como é a sua graça? - ---Margarida, respondi, tiritando de frio, porque estava com o fato -ensopado, e ainda não tinhamos passado do fundo da escada, tal era o -enlevo com que D. Antonia escutava a sua lisongeira. - ---Margarida! que bonito nome, benza-a Deus! Pois, senhora D. Margarida, -não póde imaginar que linda creança era aqui a senhora D. Antonia. -Branca de neve, alta, muito rosada! Era mesmo um anjinho do céo! - ---Não diga tal, Maria do Rosario, tornou D. Antonia rindo, eu nunca fui -bonita; era muito branca, isso sim! por esse lado todos me gabavam! -alta sempre fui tambem, e apezar d’isso, tinha um pé tão pequeno, tão -pequeno que todos diziam que parecia impossivel como podia suster o -corpo... mas não é d’isso que se trata agora; estamos ambas ensopadas, -e queremos mudar de fato. Já cá estão as bagagens? - ---As bagagens? não, minha senhora, não estão; nós até nem suspeitavamos -que as senhoras viessem hoje... Ora! valha-me Deus! - ---Pois as bagagens ainda cá não estão!? tornou D. Antonia, desesperada. -E o que havemos de fazer? - ---Que transtorno! que transtorno! mas as senhoras hão de vir cançadas, -e talvez o melhor seja deitarem-se, a não ser que prefiram aquecer-se -aqui ao fogo da lareira! Mas isso não é... - ---O que! ir para a cosinha? Você não está em si, Maria do Rosario. - ---Desculpem, minhas senhoras, isto era por dizer. - ---E eu aproveito a idéa, tornei sorrindo-me; não tenho somno; e o fogo -da lareira está-me convidando. - ---Faça o que quizer, acudiu D. Antonia seccamente. - -E subiu a escada com toda a magestade, seguida por Maria do Rosario, -que lá ia resmungando a continuação do seu panegyrico. - ---Para onde é a cosinha, meus amigos? perguntei eu voltando-me para os -criados, que haviam assistido mudos á precedente scena. - ---P’ra aqui, p’ra aqui, minha senhora, acudiram todos á uma, -apressando-se a mostrarem-me o caminho. - -Desci uns tres degraus que me ficavam á direita, segui um corredor, e -achei-me na cosinha. - -A tempestade redobrara de violencia; sentia-se a chuva bater nos -postigos; de vez em quando uma lufada de vento engolphava-se gemendo -por alguma janella que se abriu com fragor, e uma chapada d’agua -inundava o chão lageado; ao mesmo tempo os aterrados aldeãos viram as -arvores estorcerem lá fóra as suas ramas ainda mal cobertas de folhas -nascentes, benziam-se tres vezes, se um relampago, incendendo a ramaria -no seu clarão azulado, a transformava nos phosphorescentes braços dos -espectros. - -A cosinha era vasta, e o bom fogo que ardia na lareira, e cujos -avermelhados reflexos doidejavam mirando-se nos espelhentos cobres da -bateria culinaria, espalhavam em todos elles não sei que doce encanto, -que suavissima alegria, e que idéas de tranquillidade e conforto que me -fizeram acudir aos labios um jubiloso sorriso. - -A lareira era quasi rente do chão, como todas as lareiras, e á roda -d’ella uns poucos de saloios, em cujas physionomias astuciosas batia -em cheio o clarão do brazido, escutavam attentamente uma boa velha, -a qual, sentada n’uma d’estas cadeiras d’espaldar, forradas de coiro -e cravejadas de pregaria amarella, velhos ornamentos das salas dos -palacios, desterrados agora pelos _fauteuils_, pelos sophás, e pelas -_causeuses_ para as regiões infimas da cosinha, fiava a sua rocada e -contava uma historia qualquer, a que todos prestavam a maior attenção. - -Do outro lado da lareira uma outra cadeira d’espaldar fazia symetria -com esta, e mostrava que fôra occupada, instantes antes talvez, pela -Maria do Rosario, que nos viera receber. - -Em torno de uma vasta mesa de pedra, situada ao meio da cosinha, -reuniam-se uns tres ou quatro saloios, entre os quaes descortinei o -burriqueiro, que estava saboreando as delicias da nossa hospitalidade, -traduzida n’uma respeitavel malga de feijões, e n’um amplo cangirão de -vinho. - -Foi em presença d’este digno congresso que eu appareci, brandamente -impellida pelos meus guias, que me traziam quasi em triumpho, e que já -de longe annunciavam que era eu a nova senhora, a muito alta e muito -poderosa D. Margarida, Castellã de Solar de *** nas proximidades de -Bellas. - -Quando cheguei á porta, estaquei, enlevada n’esse quadro de tão -rustica e pittoresca simplicidade. Ficava-me defronte a lareira, de -fórma que a sua luz dava-me no rosto, scintillava-me nos cabellos, -que chispavam doirados reflexos, e cercava-me emfim de uma certa -auréola sobrenatural, que incutiu, segundo penso, um vago respeito -n’aquella boa e ingenua gente, porque todos se levantaram a um tempo, e -murmuraram ao ouvido uns dos outros: - ---É uma imagem! Parece a Nossa Senhora do altar da ermida. - ---Salve-os Deus, meus amigos, disse eu alegremente, e entrando com -desembaraço pela cosinha, dão-me ahi um cantinho á lareira para me -enxugar? - ---Guarde-a Deus, minha boa senhora, respondeu a velha cortejando-me -respeitosamente, e entrem n’esta casa no seu regaço todas as -felicidades, porque espero em Deus que seja tão bondosa, como é linda, -e tão verdade como ser Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado para nos -remir do peccado original, nunca os meus olhos viram tal perfeição. - ---Muito obrigada, boa tia, respondi eu affectuosamente, forçando a -pobre mulher a sentar-se, e sentando-me tambem na outra cadeira que -logo todos chegaram para ao pé do lume; vejo que entrei n’esta casa com -bem maus agoiros. Que tempestuosa noite! - -Os creados e as criadas, que me tinham guiado, sentaram-se no chão á -roda da minha cadeira e prestaram ouvido attento á palestra, que se -principiara a travar entre a boa Quiteria, oraculo d’aquella tribu, e a -recem-chegada Lisboeta. - -O vento gemia rijo lá fóra, a lenha do lar crepitava, ouvia-se o -monotono canto do grillo, e o fuso sirandava, sirandava nas mãos -ligeiras da velha. - -Reinava silencio profundo. - -Eu sentia coar-se-me nas veias aquelle indizivel bem-estar, que em -moderado calor influe no corpo gelado pelo vento e pela chuva. Passeei -a vista com benevolencia pela assembléa, e não vi senão rostos pasmados -e olhos fitos em mim. - ---Que calada de coelhos! murmurou uma creadita que estava ao meu lado, -ao ouvido de um rapaz seu visinho. - ---Então porque não fallam? respondi com um sorriso. Vamos! em que se -conversava quando eu entrei? - ---Ora, se a senhora soubesse, ria-se de certo, tornou a creada -abaixando os olhos negros e travessos. - ---Que estás tu a dizer, Annica? interrompeu a velha, levando aos -labios, para o molhar, o fio da estriga, tu julgas então que uma -pessoa de juizo se possa rir de um caso que é asseverado por gente de -sabedoria, que lê de fio a pavio todos os livros das estantes? - ---Eu não digo isso, tia Quiteria, mas... - ---Mas és uma tola, Annica; ha alguem que duvide que apparece uma alma -do outro mundo na capella do senhor conde de Pombeiro, em Bellas? - -A velha Quiteria proferiu estas palavras, relanceando em torno de si -um olhar de desafio. Correu um vago frémito no auditorio, e todos se -chegaram mais uns para os outros, ouvindo com inquietação estalar lá -fóra a trovoada. - ---O que a tia Quiteria diz é muito verdade, accudiu o burriqueiro com -a boca cheia; em Bellas não ha cão nem gato que o não saiba. - ---Não é bom fallar n’estas coisas em noites de temporal, interrompeu -um trabalhador velho meneando a cabeça coroada de cabellos brancos. Os -finados sáem do tumulo, quando o trovão os acorda, e vagueiam pelos -campos, penando os seus peccados. Nós ouvimol-os gemer, e dizemos que é -o sussurrar do vento; não é, não é, é o suspirar dos mortos. - -Um lufada de ventania zuniu tristemente, e veio, coando-se pelas fisgas -das portas, fazer vacillar a chamma da lareira. - -Não sei que sombras phantasticas se projectaram no chão lageado da -cosinha. - -O burriqueiro olhou em torno de si um tanto inquieto, e não se julgando -já em segurança, destacado como estava, do grupo principal, veiu, -chegando-se a pouco e pouco, accrescentar a roda. - ---E que penas que elles penam ás vezes! tornou a boa da velha abaixando -a voz, e parando por um instante de trabalhar. Lembram-se do padre fr. -João? - ---Lembramos, lembramos! santo homem! Morreu, ha pouco, em Bellas, -responderam todos com voz unisona. - ---Pois eu conheci aquelle reverendo, que foi pequeno da minha creação, -e que fez por aqui muitas travessuras, quando o pae inda era vivo. O -motivo, porque elle se metteu frade, é um motivo estranho. - ---Conte, conte, tia Quiteria, bradaram todos a uma voz. - ---Se a nossa ama dá licença... - ---Falle, falle, minha boa tia, estou morrendo pela ouvir. - ---Pois o pae de fr. João era aqui um lavrador da terra, que foi pouco -a pouco augmentando as suas fazendas á custa dos visinhos, que, sendo -mais pobres, não o podiam demandar. Todos os annos ia elle chegando o -marco das terras mais para deante, a ponto que um dos seus visinhos -ficou reduzido á miseria. Morreu o usurario, e o pobre filho, que não -sabia d’estas coisas, começou a disfructar socegadamente os bens que -seu pae lhe legara. Alguns boatos lhe tinham chegado aos ouvidos, mas -elle sempre suspeitara que tudo eram calumnias e invejas. - -«A final chegou o tempo das sementeiras, e o nosso João, que morava -em Bellas habitualmente, mas que tinha uma casita terrea nas suas -fazendas, veiu residir aqui para vigiar os trabalhadores. - -«Quando elle chegou encontrou-os a todos enfiados de susto. -Disseram-lhe á uma que não tinham tido um momento de descanço, porque -todas as noites se ouvia um arrastar de cadeias, uns gemidos que -cortavam o coração; e finalmente que um d’elles, mais affoito, que -ousara espreitar para saber qual era a causa d’esse barulho nocturno, -quasi desmaiara de pavor, quando vira o finado, envolto na mortalha -branca, arrastando o marco por todo o campo, e soltando gemidos -lugubres, a que respondia ao longe o funebre piar do mocho...» - ---Credo! murmuraram os assistentes. - -«O João todo se desesperou, e disse que desancaria quem se atrevesse -a repetir semelhantes mentiras, e que, para provar o seu dito, havia -de passar toda a noite sósinho em casa, e que veria se ousava alguem -perturbar-lhe o repouso. - -«Se bem o disse, melhor o fez. Era no verão; mas apezar d’isso estava -tempestuosa a noite como esta de hoje. O trovão ribombava nos ares, e -os relampagos illuminavam os campos inundados de agua. O vento acamava -as espigas de trigo, e fazia-as sussurrar lugubremente. - -«João metteu-se em casa e esperou que soasse a hora fatal. Não direi -que não estivesse um tanto pallido e trémulo, mas continha o receio -involuntario, e estava prompto para affrontar o perigo intrepidamente. - -«Um relogio velho, que elle tinha em casa, fez ouvir aquelle barulho -que precede nos antigos relogios de parede o bater das horas, e logo -depois deu meia noite. A tempestade pareceu suspender-se para escutar o -signal dado pela voz mysteriosa do tempo, mas, apenas vibrou a ultima -pancada, o furor da procella, por um instante refreado, redobrou -de intensidade, e o vento, a chuva e os trovões bramiram com tal -violencia, que tremeu toda a casa como se a sacudissem as garras de -invisiveis demonios. Logo, por entre os rugidos confusos da procella, -sibilar do vento, roncar dos trovões, tintinar da chuva, começou João -a ouvir uns flebeis gemidos, que se prolongavam indefinidamente, um -arrastar de algemas, que de cada vez se approximava mais. - -«João sentiu um calafrio correr-lhe pelas veias; mas tomou animo, e -levantou-se da cadeira onde estivera. Não teve porém tempo de dar um -passo. Abriu-se a porta e...» - -N’este momento abriu-se com estrondo a porta da cosinha. - ---Jesus! bradaram os circumstantes. - - - - - X - - -Todos sentimos como que uma commoção electrica; eu mesma confesso -que estremeci ao dar por tão notavel coincidencia. Mas o nosso susto -mudou-se em espanto, quando vimos apparecer á porta D. Antonia, envolta -n’um chale antiquissimo, que provavelmente descobrira n’algum dos -velhos bahus da residencia. - ---Então aqui não se trata da ceia? perguntou ella, cruzando os braços. -Toca a palrar e a contar historias, e eu e a Maria do Rosario que nos -aguentemos com o trabalho! Fóra mandriões; Annica já, já fazer as -camas; Quiteria veja se nos arranja alguma coisa para cearmos. Nunca se -viu uma coisa assim! Os servos aqui muito bem refestellados, e as donas -da casa tendo de fazer o trabalho se o quizerem ver feito. A pobre -Maria do Rosario é que havia de acudir a tudo. Vamos, minha sobrinha, -venha d’ahi, não se costume a dar confiança a esta gente, senão está -perdida. - -O rubor da vergonha, e da colera subiu-me ás faces e affogueou-m’as. -O que! pois não era eu a dona da casa, não era eu só quem podia dar -essas ordens e essas reprehensões? Mas que havia de fazer? Travar uma -discussão em presença dos criados? Impossivel; a minha indole negava-se -completamente a essas coisas. E por esta fórma conseguia sempre D. -Antonia as victorias, que lhe assegurava a sua impudente iniciativa. - -As criadas andavam já todas azafamadas. Eu ergui-me e saí; passei por -diante de D. Antonia, e vi a Maria do Rosario escondida na sombra. -Percebi que tinha uma nova inimiga. - -Chamei-a, e disse-lhe que me indicasse o meu quarto. Ella veiu logo, -fazendo muitas mesuras, e, pegando no candieiro, caminhou adeante de -mim. Voltei-me e dei as boas noites a D. Antonia. - ---Não ceia, minha sobrinha? perguntou ella. - ---Não, minha senhora, respondi; sinto-me cançada, e prefiro deitar-me. - -Não me respondeu, e limitou-se a encolher os hombros. Eu subi a escada, -seguindo a Maria do Rosario. - -O meu quarto ficava situado n’um dos angulos do edificio. - -Era vasto e frio. Duas janellas de peito, com bambinellas, rasgavam-se -n’uma das paredes. Um leito de cortinas vermelhas, formidavel, macisso, -abrangia uma grande porção da parede fronteira. O quarto fôra forrado -de papel, havia pouco, e o mau gosto de quem presidira a esses arranjos -escolhera o papel entre estes de linhas em zig-zag, parallelas e muito -unidas, que impressionam a vista, e tomam fórmas phantasticas quando a -luz vacillante d’uma vella as faz ondearem e confundirem-se de um modo -aterrador. Duas ou tres cadeiras de espaldar e pregaria e uma commoda -antiquissima completavam a mobilia d’este quarto lugubre. - -A atmosphera frigida d’aquelle aposento, regelando-me os membros, -opprimiu-me o coração. Pareceu-me que entrava n’um sepulchro. - -Em cima da commoda havia dois castiçaes com vellas de stearina. Maria -do Rosario accendeu-as, e perguntou-me se precisava de mais alguma -coisa. - ---De nada, respondi eu seccamente. - -Mas, quando ella se ia a retirar, chamei-a. - ---Aqui n’esta casa não ha alguma livraria? perguntei eu. - ---Ha, sim, minha senhora, respondeu ella. Aqui esta porta deita para um -corredor, que vae ter á casa dos livros. Se a senhora quizer, as portas -estão abertas. - ---Obrigada, tornei eu. - -Maria do Rosario saiu. Senti-a fechar a porta, e depois descer a escada -de vagar, até que esmoreceu ao longe o ecco dos seus passos. Caiu tudo -em silencio. - -Em silencio, não; porque a tempestade não se aplacara. O vento gemia -com mais tristeza, açoitando os postigos das janellas. De quando em -quando ouvia-se a voz magestosa do trovão. A aza doida da procella -batia com furor nos vidros. - -Sentei-me com desalento n’uma cadeira, e deixei pender a cabeça nas -mãos. Senti quanto é horrorosa a soledade quando se tem vinte annos e -um coração ardente. N’essas noites de temporal, em que é tão suave a -reunião familiar, via-me eu só, abandonada, entregue a todos os pavores -que a solidão inspira, n’um aposento, que mais parecia tumulo de mortos -que habitação de vivos. Era esse quarto o symbolo da minha existencia, -tal como o destino m’a fizera, carcere sombrio e lugubre onde eu tinha -que encerrar todas as aspirações da minha juventude, todo o fogo vital -que me incendia o sangue. - -Ergui a cabeça para respirar desafogadamente, porque esses pensamentos -haviam-me opprimido o coração, e dei um grito de terror. Defronte de -mim um vulto pallido mirava-me como que atterrado. Lagrimas silenciosas -deslisavam-lhe pelas faces. - -Era a minha imagem que se reflectia n’um espelho em que eu ainda não -reparara. Sorri-me do engano; ergui-me e dirigi-me ao espelho. «Pois és -tu, Margarida, exclamei eu, és tu a creança descuidosa, que ha pouco -dançavas nos bailes com tão mimoso colorido nas faces? És tu a flor das -salas? Como estás desbotada, rosa das valsas! Definhas á sombra; mas -que sol te poderia reanimar?» - -«O amor!» suspirou uma voz intima, e o quarto illuminou-se com vagos e -ignotos clarões, e a tempestade como que se acalmou por incanto, e a -sua voz expirante balbuciou aos meus ouvidos: «O amor!» E as linhas do -papel arredondaram-se tambem em graciosas curvas, e murmuraram: «Amor! -amor! amor!» Voejaram no quarto invisiveis pombinhas candidas, e eu -ouvia-lhes o harmonioso bater d’azas. O rosto, reflectido no espelho, -desfranziu-se n’um sorriso, e expulsou as nuvens que lhe toldavam a -fronte. - ---Que loucuras! balbuciei. - -E levantei-me, peguei n’um castiçal, e dirigi-me á bibliotheca a -procurar um livro, que me distrahisse o espirito d’estes perigosos -devaneios. - -A livraria era uma casa pequena, toda cercada de estantes, que vergavam -ao peso de formidaveis _infolio_. Tirei ao acaso o primeiro volume -que se me deparou. Era o segundo tomo dos _Trabalhos de Jesus_. Isso -exactamente eu desejava. O titulo promettia-me um admiravel exorcista -contra o demonio côr de rosa que ameaçava perseguir-me. Voltei pé ante -pé, e entrei no quarto. Colloquei o pesado alfarrabio á cabeceira do -meu leito, e principiei a despir-me. - -Já não ouvia gemer o vento, nem estalar a trovoada. Tive curiosidade -de ver o aspecto da atmosphéra e, meio despida, corri á janella e -entreabri um postigo. - -A janella deitava para o jardim. Cessara de chover, e a lua, filtrando -os seus raios por entre as nuvens, banhava os canteiros no seu magico -fulgor. O vento abrandara, e transformara-se n’uma brisa suave, -que agitava as folhas nascentes das arvores. Parecia-me assistir á -transição do inverno para a primavera, e cheguei a pensar que esse -momento era o momento exacto em que findava o reinado dos gelos, e -principiava o das flôres. A natureza, cançada da lucta, deixava-se -embalar no regaço da primavera, que surgia coroada de estrellas, e -scintillante de poesia e de amor! Amor, sim; essa doce palavra vi-a -claramente escripta no vidro em letras de prata por um raio luminoso, -que se desprendeu languidamente do seio da namorada Phebe. - -Cerrei a janella, e corri para o leito. Ao passar por diante do -espelho, relanceei para elle a vista, e divisei um rosto que me sorria -com os olhos banhados em vaga languidez. Involuntariamente escondi o -seio com os braços cruzados, e, toda tremula e risonha, metti-me na -cama, lançando logo a mão ao ponderoso volume de fr. Thomé de Jesus. -Abri ao acaso e li: - -«Ó amor divino, como prendes, quando na alma te accendes; como -captivas, quando á alma descobres alguma parte da formosura de tua face -divina! Sem te ver claramente a alma peregrina, só pelo que de ti da -vida sente, e póde com tua graça experimentar, como fica livre de si e -das prisões da terra, e captiva de ti, e presa de teu amor! Estas tuas -amorosas e suaves prisões tanto a atam e possuem, que até dos corporaes -sentidos lhe mudas o gosto em ti, porque tudo lhe trazes sujeito á -tua mão, e obediencia do teu amor. Se quer dormir, tu a acordas, se -quer descançar, a aguilhôas, se quer comer, lhe tiras o sabor, se quer -conversar, a apartas; toda a prendes, toda a queres, tudo lhe defendes; -sempre amigo, sempre cioso; porque todo te dás, e toda a tomas; todo -te entregas, e toda a prendes.» - -Deixei descair o livro, cujas paginas rescendiam não sei que namorados -effluvios; sentia volitarem em torno de mim sylphos e fadas, que -pareciam, occultos na sombra, segredar uns aos outros dulcissimas -harmonias. O clarão suave da vella parecia oscillar brandamente ao -meigo e perfumado sopro d’esses habitantes dos ares. As letras do -livro eram outras tantas teclas, que suspiravam melodiosamente as mais -voluptuosas arias de Bellini e de Rossini com letra de fr. Thomé de -Jesus. Fui cerrando os olhos, como se o fluido magnetico, que enchia -o quarto, me opprimisse as palpebras. A vela estava quasi expirando, -e, nas vascas da agonia, projectava clarões phantasticos nas cortinas -vermelhas do meu leito. Suspirei brandamente, e fui-me deixando -adormecer, murmurando a palavra: «Amor!... Amor!» - - - - - XI - - -Entrava já o sol claro e alegre pela janella aberta, quando despertei. -Esfreguei os olhos, ainda estonteada, e, levantando-me na cama, dei com -a Maria do Rosario, que andava limpando o pó. - ---Que horas são? perguntei eu. - ---Então como passou a noite, senhora D. Margarida? Ai! cala-te, boca, -não queiras tirar a Deus Nosso Senhor o que a Deus é devido; deixa a -tua ama rezar primeiro as suas orações, e não queiras desvial-a do -caminho da salvação, tentando-a a fallar em coisas d’este mundo. Reze, -reze, senhora D. Margarida. - ---Ó mulher, eu perguntei-lhe que horas eram. - ---Ai! credo! Santo nome de Jesus! Virgem benta! Senhora Nossa! Estas -meninas de agora nada respeitam! Não ha senão hereges! A senhora D. -Margarida não queira ir arder para as labaredas do inferno, e dar -triumphos ao inimigo. Santo Deus! Tome o exemplo da Senhora D. Antonia -e da senhora condessa de *** que ha de cá vir esta noite. - ---Ó senhora! diga-me que horas são, e vá-se embora. - ---Eu já me retiro, minha senhora, que eu não quero perder a minha alma, -tornou ella com voz esganiçada. Graças a Deus, toda a minha vida tenho -feito figas ao demonio. Fui menina e moça, solteira e casada, e sou -agora viuva, e nunca arredei pé do caminho do céo. São nove horas, -minha senhora; soube sempre cumprir os deveres do Santissimo Sacramento -do matrimonio. A senhora D. Antonia já está á sua espera para almoçar. -Cruzes, inimigo; agora que sou velha não me venhas tentar. As bagagens -já chegaram. Ó nossa Senhora do Rosario, minha protectora, livra a tua -fiel serva das unhas de Berzabum. As suas malas estão ao pé da commoda. - -E resmungando, e esconjurando, foi-se approximando da porta e deitou a -correr pela escada abaixo. - -Eu acordara com optimas disposições, de fórma que a insolencia d’essa -mulher não conseguiu turvar-me o espirito. O ridente sol dos fins de -março inundava o quarto com os seus vividos raios, e enchia-o d’essa -luminosa poeira, que tanto espairece a vista. Saltei para baixo da -cama, vesti-me e abri a janella. - -Inebriou-me a bafagem balsamica, que respirei na brisa que doidejava -pelo jardim, e que me saudou com as suas vivificantes emanações. O -jardim era vasto, no gosto do seculo passado, mas inculto. A natureza, -entregue a esta bemaventurada negligencia dos jardineiros, remediara o -risco absurdo do jardim. Os canteiros pautados e regrados escondiam-se -por detraz de espessas moitas de buxo, que viçara á vontade e livre da -tosquiadora thesoura. Os tanques sem agua cobriam-se com esverdeado -musgo, e as estatuas desgraciosas envolviam a sua nudez n’um manto -d’hera, que emendava, com as suas elegantes ondulações, a rigidez das -linhas traçadas na pedra pelo inhabil cinzel do rustico esculptor. A -relva molhada verdejava de um modo deslumbrante, e os passarinhos, -escondidos da ramaria das arvores, cantavam alegremente o hymno da nova -primavera. - -Estive alguns instantes contemplando esse delicioso espectaculo, até -que ouvi a campainha, que nos chamava para o almoço. Desci, encontrei -Anna, a creadita d’olhos pretos, que me foi ensinar onde era a casa de -jantar; entrei, e vi D. Antonia magestosamente recostada n’uma cadeira -de braços, em palestra muito animada com Maria do Rosario. - -Quando appareci, calou-se; fallei-lhe e sentámo-nos á meza, onde nos -esperava o almoço. - -Comtudo, eu via pelo olhar odiento, que D. Antonia me lançava, que se -estava preparando alguma tempestade. Effectivamente, depois de ter -mandado embora a creada, D. Antonia voltou-se para mim, e disse-me, -adoçando hypocritamente a voz: - ---Minha sobrinha. É preciso que tenha mais prudencia. Não sei qual -foi a educação que recebeu, mas sei que em casa de seu marido sempre -reinou o temor de Deus, e o respeito pela religião christã. Não seja -para as creadas um objecto d’escandalo, queira cumprir os seus deveres -religiosos. Desculpe-me estas observações, accrescentou ella, mas, -na ausencia de seu marido, compete-me dirigir a sua inexperiencia, e -dar-lhe os conselhos que uma velha sabe dar. - ---Agradeço tanta bondade, respondi com alguma ironia; mas rogo-lhe que -não authorise as creadas a intervirem nas minhas acções. Queira pensar -tambem, que apesar de ser nova e inexperiente, sou eu a unica dona da -casa, e que não posso consentir que as pessoas que estão ao meu serviço -me faltem ao respeito que me devem. - -E completei este discurso, fazendo uma profunda mesura, e retirando-me. - -D. Antonia fez-se fula de raiva, e tão irada ficou, que não pôde -articular uma palavra. Lançou-me um olhar indignado, e só pôde -dizer-me, quando eu já chegava á porta: - ---Aviso-a que recebemos hoje a visita das nossas visinhas de campo, -a senhora condessa de *** e a senhora baroneza de ***; note que são -senhoras piedosas e de muitas virtudes. Veja o que faz. - -Não lhe respondi e saí do quarto. - -N’essa noite, apenas deram sete horas, appareceu logo D. Antonia, -vestida esplendidamente para receber as nossas aristocraticas visitas. -O meu fato singelissimo contrastava com o seu luxo deslumbrante. Por -isso Maria do Rosario não fez senão extasiar-se perante as fitas -vermelhas, e as pulseiras e broches d’oiro da minha mortal inimiga. - -Ás oito horas sentiu-se parar á porta um churrião puchado a bois. Era -esse o vehiculo que transportava as duas muito nobres senhoras, nossas -visinhas de campo, que moravam a um quarto de legua de distancia. -D. Antonia correu á porta, e chegou a tempo de receber as fidalgas -visitantes. - -Eu fiquei na sala, junto da mesa, folheando distraidamente um livro de -devoção ornado de lindas imagens. - -Levantei-me da cadeira e dei dois passos para a porta, quando vi -assomarem a ella os vultos das duas senhoras. Cumprimentei-as então -respeitosamente. - -Uma d’ellas era alta, elegante, de physionomia austera e altiva fronte. -Devia de ter sido formosa na sua juventude; mas a sua formosura por -força tivera sempre um caracter inflexivel de orgulho indomavel. A -outra era uma senhora quasi decrepita, em cujas feições meio apagadas -se não podia ler outra expressão, que não fosse a d’esse ascetismo -pavido, proprio dos espiritos acanhados, quando os gelos da edade, -accumulando-se-lhes na fronte, lhes phantasiam, para além do tumulo, já -proximo, as chammas atterradoras do inferno. - -A primeira d’estas duas senhoras, que eu soube depois que era a -condessa, cumprimentou-me tambem; e levando a luneta aos olhos, -mirou-me alguns instantes com gélida seriedade. Depois voltou-se para -D. Antonia, e dirigiu-lhe um olhar, que parecia querer dizer: «É esta a -pessoa em quem fallámos?» e D. Antonia respondeu-lhe com um movimento -de cabeça, que significava: É sim, minha senhora, infelizmente.» - -A condessa veio então para mim, e disse com voz secca e vibrante: - ---Folgo muito de conhecel-a, minha senhora. Sou antiga amiga da familia -de seu marido. Estimarei poder consagrar-lhe o mesmo affecto. - ---Se conseguir merecer a affeição de v. ex.ª, respondi inclinando-me, -será isso para mim altissima honra, minha senhora. - -A condessa cumprimentou-me de novo, e foi sentar-se no canapé. A -baroneza, que esbrugava um rosario e resmungava umas orações, sentou-se -ao pé da mesa de jogo, embrulhou-se toda em pelles e tapetes, que a -Maria do Rosario lhe trouxe com a maior promptidão, e ficou immovel, -com os olhos fitos no vago, com os labios em continuado movimento. A -luz do candieiro, batendo-lhe em cheio no rosto escaveirado e livido, -fazia-a parecer uma d’essas figuras dos quadros asceticos da escola -hespanhola, que tivesse descido da tela, obrigada por magica evocação. - ---É muito bonita sua sobrinha, D. Antonia, disse a condessa. Deus -queira que essa bellesa não seja arma que Satanaz queira empregar -contra a salvação da sua alma. - ---Não será, não, minha senhora, se Christo Senhor Nosso ouvir as -orações que todos os dias lhe dirijo fervorosamente. Eu, senhora -condessa, desde que meu sobrinho casou, ainda não tive um só -pensamento, que não fosse para o bem d’esta menina. Assim ella m’o -reconhecesse. - -E suspirou. - ---Bem sei, bem sei que a D. Antonia tem sido sempre um anjo de -caridade. Ponha os olhos em Deus, filha, e não faça caso das -ingratidões do mundo. N’este seculo de impiedade a nossa cruz é bem -pesada. Tomemos o exemplo do Salvador. - ---Amen, concluiu devotamente D. Antonia. Eu bem diligencias faço para -que esta ovelha se me não estramalhe do aprisco, mas é difficil a minha -tarefa. Se eu pudesse ter o auxilio de v. ex.ª... - ---Ai! filha! tambem tenho de cumprir a minha missão. E juro-lhe que ás -vezes desfallecia, se não tivesse os olhos fitos na recompensa do céo. - ---É verdade, é verdade. A senhora condessa entra vestida e calçada no -paraizo. E como vae a sua santa obra? - ---Eu não descanço; mas este anno tem provado mal. Debaixo dos meus -auspicios tem-se feito apenas oito casamentos; é verdade que todos -difficeis. Quatro foram de creadas minhas, que andavam de namoro com -uns valdevinos do sitio; mandei-os chamar e obriguei-os a casarem. -Ellas não queriam de fórma alguma. Tinham tomado informações, e sabiam -que os taes rapazes eram uns bebedos, outros jogadores, outros vadios. -«Porque não indagaram isso antes de os namorarem? disse-lhes eu. Ou -fazerem o que lhes digo; ou sairem de minha casa. Não quero escandalos -das minhas portas a dentro. Quem namora deve ter em vista o sacramento -do matrimonio.» Houve uma que teimou, e saíu da casa; mas não -encontrando arrimo em parte alguma, porque todos sabiam que tinha sido -posta fóra por mal comportada. Andou por ahi a morrer de fome, até que -não teve remedio senão fazer o que eu quiz. Mas custou-me. - ---Que santa! meu Deus! que santa! bradou D. Antonia em extasi, -levantando para o tecto os olhos e os braços. Pessoas como a senhora -condessa são raras n’este seculo. E a sua prima, a senhora marqueza, o -que é feito d’ella? - ---Está em Roma a santinha! Foi beijar o pé a sua santidade! Escreveu-me -de lá. Está louca de contentamento. Já viu tres vezes o vigario de -Christo, e tem conversado com doze cardeaes. Ah! deve ser uma grande -consolação para o padre santo, no meio das amarguras que a impiedade -dos italianos lhe está causando todos os dias, ver que ainda ha fieis -que tem por elle tanto respeito e amor. - -Esta edificante palestra foi interrompida por um grito da senhora -baroneza. Levantou-se, como se obedecesse a um impulso de molas, e -bradou com voz sepulchral: - ---Arreda-te, inimigo... Cruzes, Satanaz... Não me tentas, não, não me -tentas... Sim, meu doce Jesus, sim, bem vos vejo... Chamais a vossa -serva... Ahi vou, ahi vou... Esperai um instante, meu salvador... Não -desvieis a vossa face... Foge, Belzebuth, Asmodeu, Astaroth e Moloch... -Ai! que eu já vejo o inferno... Senhor Jesus, acudi-me! - ---Rezemos, rezemos, exclamou a condessa, caindo de joelhos; são visões -que assaltam aquelle espirito bem-aventurado. É preciso que estejamos -em oração, para que aquella santa vença o inimigo que a tenta. - -D. Antonia caíu de joelhos, e a Maria do Rosario, que apparecera á -porta, fez o mesmo, dando grandes murros no peito. - -Eu olhava estupefacta para aquella scena burlesca. - -Não querendo fazer-me reparada, affastei-me um pouco, e simulei que -ajoelhava. - -Afinal a baroneza caiu prostrada no canapé. Viera-lhe a espuma -aos cantos da boca, como succedia ás pythonisas pagãs. A condessa -levantou-se e disse a D. Antonia: - ---Mande-lhe dar um caldo, que é sempre o que ella toma, depois d’estes -extasis. - ---Um caldo para a senhora baroneza, exclamou D. Antonia, voltando-se -para Maria do Rosario. - -E a Maria do Rosario repetiu, correndo pela escada abaixo: - ---Um caldo para a senhora baroneza, que tem _bisões_. - -D’ahi a pouco voltava trazendo uma chavena de caldo, e dirigia-se á -baroneza. - ---Beba, minha santinha, disse ella, beba, que lhe ha de fazer bem. - -A baroneza levou machinalmente a chavena aos labios, bebeu dois ou tres -golos; mas de repente estacou, perguntando: - ---De que é este caldo? - ---De gallinha, senhora baroneza, de gallinha. Matou-se hoje a mais -gorda da capoeira. - ---De gallinha! repetiu a baroneza. - -E deixou cair a chavena em cima dos pés da Maria do Rosario, entornando -o seu contheudo, e escaldando a creada. - ---Má raios... principiou esta. - -Mas logo atalhou, mastigando em secco: - ---Seja pelo divino amor de Deus! um caldinho tão bom, que os anjos o -podiam beber. - ---De gallinha! continuava a baroneza, plangentemente, e hoje é -sexta-feira! Vão chamar o senhor padre prior. - ---Elle não deve tardar, minha senhora, acudiu D. Antonia, ficou de vir -jogar uma partida de voltarete. - ---Ah! sim! o voltarete! repetiu a baroneza extasiada, n’um tom de -ineffavel jubilo. - -E julguei que ia ter outra visão a proposito do basto e da espadilha. - -Seguiram-se alguns instantes de um silencio, que foi interrompido pelo -tropear de um cavallo na estrada. - ---Ahi vem o senhor padre prior, exclamaram a um tempo D. Antonia e a -condessa. - -D’ahi a pouco, sentiram-se na escada passos pesados, e logo depois -appareceu á porta um homem alto e reforçado, de bota de montar, e -casaco até ao joelho. - ---_Pax Domini!_ exclamou elle ao entrar. - ---É Deus quem o envia, senhor padre prior, acudiu a baroneza. Commetti -um grande peccado, meu padre; venha ouvir-me de confissão. - ---Minhas senhoras, tenho a honra de as cumprimentar. Como está a -senhora condessa? Senhora D. Antonia, Deus a tenha em sua guarda. Viva, -minha menina. Guapa moça! accrescentou voltando-se para a condessa, que -se sorriu com agrado. - ---Senhor padre prior, acuda-me, bradou a baroneza, que já sinto as -garras de Belzebuth. - ---Então que é isso, minha santinha? Então que é isso? disse a final o -padre prior, dirigindo-se para ella, e fazendo tremer a casa a cada -passada que dava. Então que peccado temos? - -Sentou-se, e a baroneza, inclinando-se-lhe ao ouvido, disse-lhe a culpa -que lhe pesava na consciencia. - ---Hum! hum! resmungou o padre, quando ella acabou. Isso não é nada. -Reze duas corôas a Nossa Senhora, e temos tudo acabado. - -Depois, levantando-se e dirigindo-se a D. Antonia, continuou: - ---Então esta é que é a mulher de seu sobrinho? - ---Sim, senhor, respondeu ella. - -O padre fez-me uma festinha na cara, e disse: - ---Estimo conhecel-a! Ande lá que o Claudio não a merecia a Deus. - ---Então, senhor padre José, acudiu a condessa brandamente, não esteja -affagando a vaidade feminil; bem sabe que é essa a mais terrivel arma -de que o demonio dispõe. - -O padre olhou para ella com tão comico espanto, que eu não pude deixar -de desatar a rir. - -O sacerdote olhou-me, sorrindo-se com benevolencia, e offereceu-me uma -pitada. - -Como eu recusei, foi offerecendo á roda, e depois, mettendo os dedos na -caixa, tirou um monte de rapé que sorveu com delicias. - ---Pois aqui onde me vêem, disse elle, por um triz que não parti inda -agora as costellas. - ---Como? acudiu logo o terceto, assustado. - ---É verdade; é a primeira vez que monto no cavallo, que comprei em -Lisboa. Por isso, como não lhe conhecia as manhas, vinha com cautella, -e foi o que me valeu. Aqui ao pé, o demonio assusta-se com um tronco -de arvore, que o vendaval de hontem á noite partira, e deu-me tamanho -galão que eu ia perdendo os estribos. Ora, se a senhora condessa visse! -Prégo-lhe as esporas na barriga, e obriguei-o a vir n’uma galopada até -aqui á porta; assim é que eu os ensino. - ---Graças a Deus, não se magoou? - ---Eu! levava-o a breca, se me megoasse. - ---É verdade, senhor padre José, tornou a condessa, não tem por lá -medalhinhas da Virgem para dar aqui á D. Antonia? - ---Ora, se tenho; é o que por lá falta! Quer algumas? Não faça -cerimonia! E a proposito, não se joga o voltarete? - ---Está-se á espera do _senhor_ Theodoro Leite, acudiu a condessa. -Sempre se ha de fazer esperar. Bem mostra que é herege. - ---Oh! se é, tornou o padre; está já a arder no inferno, o maldito! Pois -então não me deu hontem dois codilhos em casa do escrivão... É verdade, -a mulher do administrador lá offereceu um manto riquissimo á Senhora -das Dores. - -Nos olhos da condessa fuzilou um raio de colera. - ---Offereceu?! logo vi. A filha de um dos meus caseiros, que enriqueceu, -sabe Deus como,--quer saber, D. Antonia? não está agora ao desafio -comigo? A que tempo chegámos, meu Deus! Se eu offereço um resplendor ao -menino Jesus, dá ella um manto de seda a Nossa Senhora. Já se viu uma -coisa assim? Eu sempre queria saber aonde ella vae buscar o dinheiro! - ---Que desaforo! acudiu D. Antonia indignada, e o senhor padre prior -consente semelhante coisa! - ---Então que lhe hei de eu fazer?... - -N’este momento abriu-se a porta, e um homem velho, magro, mal -enroupado, mas de meiga e sympathica physionomia, entrou timidamente. - -Cumprimentou-nos a todos com acanhamento, e só de mim recebeu uma -cortezia amavel. A condessa tratou-o friamente; a baroneza nem deu -pela sua entrada; D. Antonia cumprimentou-o com seccura, dizendo-lhe: -«Julgavamos que não vinha», e o padre prior acolheu-o com brados de -indignação. - -O pobre Theodoro Leite curvou a cabeça, para deixar passar a procella, -e foi, como que arrastado pelo parocho, sentar-se á mesa do voltarete. - -Formamo-nos então em dois grupos distinctos: o prior, a baroneza e -Theodoro entregaram-se ás delicias dos codilhos e das licenças, -emquanto eu, D. Antonia e a condessa ficamos no canapé, conversando -e costurando, duas occupações que me desagradavam bastante. Procurei -vencer a minha repugnancia; mas, apezar dos meus esforços, só de quando -em quando soltava uma palavra, e a agulha ociosa descaía muitas vezes -no meu collo, emquanto o meu pensamento voava para muito longe do sitio -onde estavamos. - -Ainda não acabara o desfilar das pessoas, que nos honravam n’essa noite -com a sua visita. Seriam nove horas, quando se abriu a porta da sala -para dar entrada a dois novos personagens. - -Um homem ainda novo, e uma senhora tambem na flôr da idade foram os -dois actores que entraram em scena. O personagem masculino tinha as -mais visiveis tendencias para uma obesidade precoce, e no seu rosto -cheio, bochechudo, de alvura deslavada, scintillavam dois olhos -pequenos, mas vivos e inquietos, que denunciavam... intelligencia? -intelligencia, de certo; mas uma d’estas intelligencias _praticas_, a -que não escapa uma especulação proveitosa, e para a qual são enigmas -abstrusos as aspirações grandiosas do espirito, e pomo vedado ainda o -fructo da arvore da sciencia. - -A senhora, que o acompanhava, não se podia chamar bonita, porque as -suas feições irregulares protestariam contra a denominação; mas os -seus olhos negros e rasgados tinham um scintillar tão malicioso, tão -provocador, que lhe illuminavam a physionomia, e lhe prestavam, senão -belleza, pelo menos uma certa animação, e um indisivel encanto. - -Estas duas pessoas foram recebidas de um modo que contrastava bastante -com o acolhimento feito a Theodoro Leite. D’esta vez houve apresentação -em regra. A condessa radiante pediu-me licença para me apresentar a sua -afilhada D. Carolina «que ella, condessa, se presava de ter educado nos -principios da mais severa religião e da mais sã moral» e o marido da -sua afilhada «moço de muito merito e virtudes, que (gloriosa excepção -no meio da mocidade depravada e impia do nosso tempo) era um modelo de -devoção, um exemplar de caridade, e um poço de sapiencia ainda por cima -para coroar esta assombrosa pyramide de predicados.» - ---Muito folgarei de as ver amigas, concluiu a condessa, accentuando -cada palavra. Posso dizer sem orgulho, que uma menina da sua idade, -senhora D. Margarida, e da sua educação, permitta-me que accrescente, -lucra muito com o trato intimo de uma senhora de juizo, como é -Carolina, posso affoitamente dizel-o. - -A elogiada Carolina achou modo de conciliar um modesto descer de -palpebras, que lhe serviu para agradecer o retumbante panegyrico, -declamado por sua madrinha, com um olhar malicioso, gaiato, com que me -brindou ao trocarmos o beijo e o abraço fraternaes. - -Jeronymo Freitas, seu esposo, cumprimentou-me, e logo depois, -sentando-se, encetou com a madrinha de sua mulher uma conversação, -que parecia um fogo de vistas, em que estalavam todos os nomes -aristocraticos do partido devoto, e que tinha a dupla vantagem de -incantar a condessa, e de deslumbrar D. Antonia. Eu não tinha a minima -idéa de uma coisa assim. Aquelle homem era ao mesmo tempo um vulcão, -uma torrente, um moinho, e um _Almanach de Gotha_ em folio, mas um -_Almanach de Gotha_, que uma causa desconhecida puzesse em ebullição, -e que arrojasse á atmosphera, como bolhas d’ar, os nomes de quantos -marquezes, condes, duques, principes, reis e imperadores existem por -esse mundo. «E estive com a senhora condessa de tal, e a senhora -marqueza disse-me isto, e á volta encontrei a senhora baroneza, que -accrescentou aquell’outro, e a senhora duqueza recebeu uma carta -de sua santidade, e o senhor marquez, que é um santo, disse-me: «Ó -caro Freitas, você não sabe...?» e sua eminencia o cardeal sicrano -communicou-me confidencialmente as suas afflicções» e... eu sei, estava -atordoada com aquella volubilidade incessante, inexgotavel, incançavel, -que apenas se interrompia uma ou outra vez para deixar passar uma -trovoada de imprecações com que o padre prior fulminava o pobre -Theodoro Leite, que fizera as _cinco primeiras_, provocando por essa -fórma os raios da excommunhão suspensos havia muito sobre a sua calva -heretica. - -D. Antonia estava extasiada, jubilosa como os gaiatos, que andam -apanhando as cannas dos foguetes, em dias de festividade nacional. -Assim ella tambem corria esfalfada atraz da verbosidade do Jeronymo, -para apanhar de relance um nome, que depois de ter estalado nos ares, e -produzido o seu effeito, caía magestosamente, levantal-o, e perguntar -logo: «Pois o senhor Freitas conhece o duque de tal?» - -Não posso calcular até que ponto estariam os meus nervos á prova de -semelhante palestra, porque D. Carolina, que olhara por vezes para mim -sorrindo-se, levantou-se, approximou-se da minha cadeira, e disse-me: - ---Dá-me licença que dê um giro no jardim, e quer-me conceder a honra da -sua companhia? - ---Com todo o gosto, minha senhora, respondi eu, erguendo-me logo, e -acompanhando-a para fóra da sala. - -Descemos ao jardim: a noite estava clara e linda como uma verdadeira -noite de primavera; só a brisa, ainda frigida bastante, lembrava a -proximidade do inverno. - -Carolina passou-me o braço á roda da cintura, e, dando-me um beijo -affectuoso, disse-me, sorrindo: - ---Sabe, minha querida D. Margaridinha, que me estava mettendo compaixão! - ---Eu! respondi sorrindo-me tambem; porque? - ---Porque vi o tédio que lhe causava aquella conversação hypocrita -e fastidiosa. Pobre creança, não está ainda habituada á estranha -sociedade, no meio da qual o accaso a collocou. Tudo aqui é frivolo, -minha querida, e tudo toma uma apparencia grave e pedante, como um -alfarrabio theologico; tudo é immoral; e tudo toma ares austeros. -Mascara, mascara e mascara; nada mais. Se estou bem informada, um -dos artigos do regulamento dos bailes publicos prohibe as mascaras -religiosas, mas não ha lei alguma, que me conste, que as prohiba na -sociedade, onde existem com abundancia, ha-de-se costumar tambem, minha -filha, ha de fazer o que eu faço, envergar um dominó da confraria, e -rir-se dos outros, por baixo da mascara como elles se riem de nós. - ---Nunca, respondi eu com impetuosidade; se a hypocrisia é em todos os -casos um vicio odioso, que proporções não assume quando macula com o -seu bafo pestifero o sentimento mais nobre que existe no coração do -homem, o sentimento da religião! - ---Ai! ai! tornou Carolina desatando a rir, d’onde trouxe essas idéas, -minha querida? de que planeta desconhecido? de que paraiso terrestre, -onde esteja ainda intacta a arvore do bem e do mal? Innocencia digna da -edade de ouro! Virtude bucolica, mais propria para habitar na choupana -classica de Philemon e Baucis, do que n’uma quinta dos arredores de -Bellas! Ah! mas diga-me, a D. Antonia afinal calumniou-a? - ---Não sei o que D. Antonia diria a meu respeito, respondi eu com certa -reserva; mas tenho as minhas razões para suppôr que não entoou o meu -panegyrico. - ---Carolina parou e olhou para mim, franzindo levemente a sobrancelha. - ---Ah! não quer ter franqueza comigo! Está-se mostrando estrategica -habil! Esconde-me o jogo; pois olhe, para lhe provar que póde -depositar plena confiança em mim, vou pôr as minhas cartas em cima da -mesa; queimo os navios, e veremos depois se estará disposta a assignar -comigo um tratado de alliança offensiva e defensiva. - ---Oh! minha querida senhora D. Carolina, tornei eu rindo, estou prompta -já a assignal-o, e affianço-lhe que é injusta, desconfiando da minha -franqueza. Mas o que deseja que eu lhe diga? Nos mais reconditos -refolhos do meu coração não se esconde um pensamento, que eu não possa -confiar-lhe. - ---_Le jour n’est pas plus pur que le fond de mon cœur!_ tornou Carolina -com seriedade comica, já conheço o estribilho. Como prova das boas -relações em que vamos estar, principiemos largando o tratamento -cerimonioso que temos empregado. Queres, Margarida? - ---Com todo o gosto, Carolina. - ---Bom! estamos alliadas! E agora diz-me: que idéa fórmas tu de minha -madrinha, e de meu marido? - ---Como quer... - ---Como quer? repetiu ella, ameaçando-me com um dos dedos levantado. - ---Perdão: como queres que eu tenha uma opinião formada sobre duas -pessoas que vi esta noite pela primeira vez? - ---Ou estes olhos mysteriosos, de um azul tão profundo como o do céo em -noite de verão, me enganam muito, ou a esta cabecinha gentil nem tanto -tempo é necessario para avaliar uma pessoa. Eu mesma vou apostar em -como já estou julgada e condemnada talvez no teu tribunal intimo. - ---Fazes demasiada honra á minha intelligencia, tornei eu rindo, -affirmo-te... - ---Nada affirmes; acceitarei as tuas phrases como versiculos do -Evangelho, e passarei desde já a dizer-te, para poupar trabalho á tua -imaginação, qual é o caracter d’esses dois personagens, com quem me -vejo obrigada a estar sempre em scena n’esta comedia da vida. - ---Falla! - -Sentámo-nos n’um dos bancos do jardim; Carolina alisou com a mão os -cabellos, que a brisa enredara um pouco, e, depois de relancear, com -certa ironia, os negros olhos para a janella da sala, em cujos vidros -illuminados se estampava de vez em quando o vulto quasi dobrado ao meio -de Maria do Rosario, que andava no seu serviço, voltou-se para mim, e -disse: - ---Principiemos por minha madrinha. Aquella senhora austera, que -alli vês, que préga moral rispida, e que é inflexivel em pontos de -pundonor, que, se vivesse no tempo de Jesus, e fosse discipula sua, -duas vezes, pelo menos, o renegaria, a primeira quando elle perdoou -á mulher adultera, a segunda quando enxugou com um raio do seu amor -divino as lagrimas de Magdalena, aquella senhora teve uma juventude -tempestuosa. Não julgues por isso que arredou pé nem uma vez só do -caminho da salvação. Habil como aqueles heroes das lendas antigas, que -aproveitavam os serviços do diabo, e que o logravam depois quando -chegava a occasião do pagamento, fixada no pacto infernal, a condessa -começou desde muito nova a fazer os mais proveitosos enxertos de -ramaria profanissima na arvore divina. Encerrada no templo, curvando -o joelho ao altar, e transformando em alcova a sachristia, zombou das -tolas que peccavam em plena rua, e sobre as quaes os seus labios, -ainda frementes de lascivia, arrojavam com impudencia o sacrilego -anathema. Não julgues comtudo que era a condessa uma excepção no meio -da aristocracia feliz, que pôde receber... nas suas salas a brilhante -juventude monastica. Ai! minha filha, as aventuras fradescas não são -puras invenções dos Rabelais populares, que nol-as transmittiram. O -frade representou um grande papel na chronica escandalosa das gerações -que nos precederam. O devoto habito pendurado á porta de um palacio -era escudo contra a maledicencia, e Cupido, como se dizia n’esse -tempo, podia folgar affoitamente resguardado das vistas curiosas pela -cogulla santa. Cythera chamava-se Thebaida, Paphos era Cartuxo, Gnido -um sagrado mosteiro. Ah! se tu soubesses tudo quanto me revelou a -chronica familiar do palacio, a tradição oral da creadagem! É divertido -e instructivo. - -Carolina calou-se por um instante, e continuou depois, levantando-se e -ficando em pé defronte de mim: - ---Admiras-te provavelmente, como todas nos admiramos, da singular -seducção que a actriz da voga, que a cantora afamada exercem em muitos -homens. Infelizmente, não temos direito de nos admirar. O que a actriz -e a cantora são para elles, foram-n’o os moços prégadores de fama para -as senhoras, que julgariam peccado horrendo entrar no camarote de -um theatro. Oh! quereria poder contar-te o profano ardor com que as -devotas peccadoras corriam a atulhar a egreja do convento no dia em que -subia ao pulpito o Richelieu tonsurado, o monastico Lauzun d’aquella -sociedade licenciosa e beata, quereria poder narrar-te a mystica -voluptuosidade com que muitos olhos fulgurantes se fitavam no rosto -imberbe do homem de Deus. Podia citar-te anecdotas, podia apontar-te -o nome do garrido frade de pé pequeno, que, se fosse como o José da -Biblia, teria de fazer uma despeza enorme em capas; não era. Podia -citar-te os caprichos de alguma senhora, que, rival em extravagancia da -imperatriz Catharina, substituia os granadeiros da amante de Potemkin, -pelos fradalhões mais nojentos dos innumeraveis conventos de Lisboa. -Não cito; dir-te-hei unicamente que a austera condessa foi uma das -heroinas d’esse poema licencioso; e por uma estranha aberração dos -principios de moralidade contempla hoje sem remorso o seu passado -viver, e julga-se com pleno direito de fulminar com o anathema sobre as -peccadoras da actualidade. - -Carolina estava n’esse momento realmente bella; os olhos faiscavam-lhe, -palpitavam-lhe convulsos os labios descorados. Eu mirava-a com espanto. - ---Aqui tens o que é minha madrinha, continuou a minha interlocutora, -sem me deixar sequer interrompel-a. Meu marido avaliaste-o de certo -pelo que lhe ouviste. Homem sem principios nem crenças, tudo tem -sacrificado ás suas conveniencias e á satisfação da sua balofa -vaidade. Fez-se devoto, quando o meu dote se lhe deparou como facil -conquista para que soubesse conciliar a affeição de minha madrinha, -que era tambem minha tutora desde a morte de meus paes. Seria sceptico -ferino, se a condessa fosse discipula do senhor de Voltaire. Além -d’isso o seu ridiculo amor-proprio satisfazia-se com a idéa de ver -descerrarem-se-lhe as portas das salas aristocraticas, onde campeiava -essa sociedade que outr’ora insultara com vehemencia republicana, -quando a julgara tão longe de si e tão alto como as celebradas uvas -estavam na parreira longe da raposa da fabula. Ahi tens quem é meu -marido. - ---Traçaste esses retratos com mão de mestra, mas suspeito que os -fizeste demasiadamente carregados, accudi eu... - ---Não, tornou ella, encolhendo os hombros, disse-te a verdade -francamente, porque soubeste captivar-me as sympathias, e desejo ter-te -por amiga. Desejava tambem explicar-te o meu caracter, que tem duas -faces, a que viste na sala, e a que vês aqui; a complacencia hypocrita, -e a revolta aberta. Aprendi com elles a arte da dissimulação, vi -dos bastidores a comedia que elles representavam, ouvi de boccas -indiscretas os mysterios do camarim emquanto o publico applaudia -e coroava as actrizes e os actores. Convenci-me de que tudo era -hypocrisia; e, passado o primeiro momento de repugnancia, entendi que -devia tambem representar o meu papel n’essa immensa farça. Gosar foi a -minha divisa, lograr esses logradores encartados o meu programma. Ahi -tens o que eu sou. Vamos agora ao que importa. Teu marido é um parvo, e -tu és uma linda e intelligente rapariga. Quem é esse Alberto em quem a -D. Antonia falla com tão devota compuncção? - -Olhei para ella com assombro. - ---Pois já a tia de meu marido, accudi eu, teve tempo de me rodear, de -me enlear com as suas calumnias? Por amor de Deus, senhora D. Carolina, -preste-me justiça maior. - ---É essa a recompensa da minha franqueza, redarguiu ella, sentando-se -ao meu lado; e em vez de uma alliada tenho em ti uma inimiga? -Diriges-me assim uma indirecta reprehensão? - ---Deus me defenda, tornei eu um tanto constrangida, como hei de -arvorar-me em juiz das acções dos outros? O teu procedimento foi-te -dictado por motivos que eu não tenho... desculpas que eu... não poderia -allegar... - ---Não te embaraces mais, tornou ella com certo azedume, só te digo que -fazes mal em ir por esse caminho. És inexperiente, e precisas de quem -te guie na escabrosa estrada da tua rebellião. - ---Mas se eu não tento revoltar-me! - ---Queres persuadir-me que amas teu marido? - -Não respondi. - ---E, não o amando, affirmas que não teem o minimo fundamento as -bisbilhotices d’essa tola da D. Antonia? - ---Juro-o; acudi eu, levantando-me de um impeto; ainda que o amor não -exista na minha ligação com um homem bom e honrado, basta o sentimento -do dever para me impedir de deshonrar o nome, que voluntaria ainda que -irreflectidamente acceitei. Póde acredital-o. - ---Agradeço a lição, tornou Carolina com amarga ironia, e não quero -ficar-lh’a devendo; dar-lhe-hei outra. Saiba pois, pomba innocente que -se julga tão forte, que ha de chegar um momento, em que, perseguida -pela calumnia incessante, abandonada por um esposo indifferente ou -cego, sentindo referver-lhe nas veias o sangue da mocidade, inebriada -pelas tentações que a hão de rodear, se despenhe e macule as azas -brancas n’esse tremedal que despreza. Então ha de lastimar amargamente -o ter repellido a alliança que lhe offereço. Voltemos para a sala. - ---Sinto, senhora D. Carolina, tornei eu gravemente, haver-lhe -desagradado. Mas acredite que, se a fatalidade me levar a esse -aviltamento, não sentirei senão o remorso de ter praticado uma acção -indigna. - ---Veremos, respondeu ella erguendo-se. - -Voltámos para a sala, e pouco depois todas as visitas se retiraram. - - - - - XII - - -Succederam-se com regularidade estes serões do voltarete. Fomos -procuradas pelas notabilidades dos arredores, recebemos e pagamos -visitas, mas o congresso da primeira noite foi que se estabeleceu na -nossa sala de um modo definitivo. - -De todas essas pessoas a que me inspirava sympathia verdadeira era o -Theodoro Leite, o despresado, o tolerado apenas. Gostava de contemplar -aquella meiga physionomia de velho timida como a de uma creança. -Sentada com o meu bordado, olhava de relance para elle, e via-o muitas -vezes distraido das preoccupações banaes do jogo, com os olhos como -que fitos n’um mundo para nós invisivel. Se uma imprecação do padre -prior o avisava de que havia commettido alguma falta ao voltarete, -Theodoro estremecia, e o seu rosto de novo tomava a expressão de timida -deferencia, que habitualmente o caracterisava. Mas na sua triste -fronte via eu distinctamente o reflexo dos orbes luminosos, em cuja -contemplação se embevecera. - -A sua vida era um poema de sacrificios e de infortunios. Entrara na -sociedade com uma instrucção litteraria desenvolvidissima, e por -conseguinte inutil em Portugal... e em toda a parte, parece-me. Quizera -continuar a estudar, haviam-lhe faltado os meios; quizera ensinar o que -já sabia, e por essa forma grangear alguns recursos, vira-se repellido -de toda a parte, porque o seu caracter recto e firme não lhe permittia -que falsificasse a historia, e que deixasse de estampar na fronte da -facção clerical o estygma que ella merece. Por amor da verdade, e não -por paixão partidaria, quiz luctar com a serpente, cujas roscas geladas -tentam de novo cingir e abafar o mundo, e a serpente ergueu-se contra -elle e suffocou-o. Vencido e exhausto, já de cabellos brancos, tomou o -seu bordão de peregrino, e voltou para Bellas, sua terra natal, d’onde -partira, rico de esperanças, de mocidade e de enthusiasmo; onde entrava -opulento de cãs, de desgostos e de fadigas... pobre de tudo o mais. - -Na casa paterna encontrou sua velha irmã entrevada, que lhe pedia pão. -O austero apostolo da verdade, que sacrificara futuro, tranquillidade -e o pão da sua velhice ao seu nobre orgulho, sacrificou isso mesmo, -que era só o que lhe restava, ao bem estar de sua irmã.--Elle, o firme -combatente, o luctador incançavel, foi ajoelhar humilde perante os -implacaveis adversarios. A condessa e outras senhoras do sitio eram -protectoras de uma escola de creanças pobres, fundada na aldeia de ***; -Theodoro Leite foi pedir o logar de professor. A condessa divertiu-se -em lhe fazer sentir bem a humilhação, a que a desgraça o obrigara; e -afinal, movida pela _caridade christã_, concedeu-lhe o que elle pedia. -A verdade era que estavam em grandes embaraços, porque não encontravam -um unico professor capaz, que se quizesse sujeitar a receber o ordenado -fabulosamente exiguo, que a sua economica beneficencia se prestava -generosamente a conceder. - -Theodoro Leite sympathisara comigo, e comigo só fallava -desafogadamente. Nas rapidas palestras, que tinhamos tido, pude -reconhecer a sua vasta erudição, e a bondade quasi angelica do seu -caracter. - -Estavamos uma noite reunidos, segundo o costume: Theodoro, a baroneza, -e o prior no seu eterno voltarete, eu e os outros junto do canapé. A -palestra versara sobre os infortunios do papa. Subito a condessa tira -da algibeira um papel, e diz: - ---Lembrou-me abrir aqui uma subscripção para o dinheiro de S. Pedro. -Estou que ninguem recusará tomar parte n’uma obra tão meritoria. -Reservei para a senhora D. Margarida a honra de abrir a lista dos -subscriptores. - -Todos os olhos se voltaram para mim, com curiosidade. Theodoro Leite -desviou a attenção do jogo, e mirou-me anciosamente. - -Foi no meio de um profundo silencio que eu respondi: - ---Aprecio infinitamente a honra que v. ex.ª me faz; é mais uma prova -da sua benevolencia e da sua amizade. Comtudo permitta-me a senhora -condessa que lhe faça algumas observações. Se eu fosse nimiamente -rica, não teria duvida em dar ao Summo Pontifice essa prova do meu -respeito; mas, não tendo riqueza tanta que me permitta esbanjar assim -os meus rendimentos, prefiro poisar na mão do pobre a esmola destinada -ao erario pontifical. Estou que será por essa forma duplamente -agradavel a Deus e ao vigario de Christo. Esse pouco de oiro, que se -sumiria, parcella minima, no golphão do luxuoso Vaticano, pode só por -si fazer brotar a alegria na misera choupana. Portanto, se v. ex.ª m’o -permitte, darei a minha quota aos pobres; bem sabe que é o mesmo que -emprestal-a a Deus. - ---Muito bem, muito bem! exclamou Theodoro Leite irreflectidamente. - -O pobre homem, deixando-se levar do primeiro impeto, de tudo se -esquecera; mas logo caiu em si, e fez-se pallido como um defuncto. - -A condessa aproveitou o ensejo para desabafar, e fulminou Theodoro com -o peso da sua indignação. - ---Muito bem, o que? exclamou ella. A senhora D. Margarida, tendo -aquellas idéas, só prejudica a salvação da sua alma, porém o senhor -Theodoro é responsavel para comigo das almas dos meus orphãosinhos. -Como quer que eu conserve na minha escola um homem que tão abertamente -professa doutrinas impias e sacrilegas? - -Eu voltara ao meu bordado, e olhava ás furtadellas para o pobre -Theodoro que por minha causa padecia. - -A desgraça abatera completamente a alma varonil. Creio que de relance -viu a imagem de sua pobre irmã supplicando-lhe que a não abandonasse, -e as gottas de um suor de agonia aljofraram-lhe a fronte. Então -respondeu n’um tom aflicto, que me faria rir immenso, se aquelle mesmo -ridiculo não fosse tanto para commover. - ---Mas, minha senhora... eu não applaudo as idéas... foi apenas a... -a... a disposição grammatical do discurso da senhora D. Margarida. -Perfeitamente bem construido... a regencia irreprehensivel... a -syntaxe... - ---A syntaxe o que? interrompeu a condessa lentamente, esmagando-o com o -seu olhar ferino. - -O pobre Theodoro estava cada vez mais pallido; era o naufrago, que vê -fugir-lhe das mãos a derradeira taboa, e que ouve o rugido feroz das -ondas, parecendo motejar do seu infortunio. - ---Dizia eu, minha senhora, que o estylo era muito acceitavel: mas... (e -Theodoro lançou-me um olhar em que implorava a minha indulgencia), mas -só o estylo; as idéas regeito-as. - ---Ah! o estylo! continuava a condessa, implacavel. - -Eu sentia o rubor da indignação na fronte. Era infame aquelle -zombetear, aquelle brincar do tigre com a victima. - -A condessa curvou-se então para o lado de Theodoro, e disse-lhe algumas -palavras em voz baixa. Suspeito que o demittira do seu logar de -professor, porque vi duas lagrimas brilharem nos olhos melancholicos do -pobre velho. - -O que veria elle n’esse tremendo lance? Que sinistras visões lhe -povoariam a mente? O edificio da sua velhice, a tanto custo construido, -e derrubado n’um instante, o pão de sua irmã com tantas lagrimas -amassado, faltando-lhe de subito! O velho pendeu a cabeça, relanceou um -triste olhar para todos os lados, e suspirou. Comtudo ainda não havia -terminado a tortura; não estava acabada a partida, e interrompel-a -seria conciliar para sempre a adimadversão de todos. Theodoro -resignou-se, sentou-se outra vez na cadeira, d’onde se levantara, e -continuou a jogar. - -«Outro martyrio, disse eu comigo, que não tem o prestigio da poesia, e -que ninguem se lembraria de lastimar.» - -Comtudo reinava um certo constrangimento na sala, e tornava-se -impossivel prolongar muito o serão. Antes que saissem as visitas, -entendi que devia, ainda que não fosse senão por descargo de -consciencia, tentar alguma coisa a favor de Theodoro Leite. Baldada -tentativa! A condessa respondeu-me com hypocrita doçura, mas com -inabalavel firmeza. Tambem a advogada era mal escolhida. A devota -senhora, que já pouco sympatisava comigo, ficou sendo desde essa noite -minha inimiga declarada. Declarava-se o _triumfeminato_ adverso: a -condessa, D. Antonia, D. Carolina. - -Ao despedirem-se, vi Theodoro Leite principiar a fazer manobras, cujo -fim não podia adivinhar, approximava-se lentamente da janella, mirava a -a paisagem nocturna, depois encaminhava-se para a mesa, junto da qual -eu estava. - -Afinal, quando viu todos distraidos, travou-me subito da mão, e -apertou-m’a com viveza e enthusiasmo. - -E, dada esta prova de coragem, saiu quasi a correr. - - - - - XIII - - -No dia seguinte, ás tres horas da tarde, saía eu sósinha, e punha-me a -caminho da casa de Theodoro Leite. - -A Annica dera-me as explicações topographicas mais minuciosas para que -me não perdesse. Mas a Annica não contara com as distracções da minha -phantasia, não pensara na influencia d’uma formosa tarde de primavera, -nas tentações de respirar em liberdade esse ar dos campos, tão puro, -tão são, tão fragrante! - -Sentir-me só, livre de todo o constrangimento, de todas as -perseguições, só com a natureza e com Deus, engolphar-me de novo em -pleno ambiente de poesia, depois de me ter encravado até aos joelhos -na lama vil da mais repugnante prosa, tudo isso me enlevava tanto, me -rejubilava por tal forma, que me parecia renascer para a vida, como eu -quizera, como eu comprehendera, para a vida do sonho, para a vida do -ideal. - -Sósinha! Como eu trepava ao cimo da mais pequena elevação de terreno -para descobrir mais largo horisonte, como eu ficava embebida em jubilo -infantil, a contemplar os malmequeres, sobre os quaes a brisa fluctuava -de manso, acamando-os levemente, como se milhões de invisiveis -borboletas poisassem de subito na graciosa cabecinha da flor campestre! -Tanto me enlevei, tanto me extasiei, tanto me deliciei que afinal -perdi-me. Já cançada e offegante, via o sol pender cada vez mais para o -horisonte, e não sabia ainda o caminho que havia de tomar. Valeu-me um -saloio venerando, que encontrei, e que me foi conduzir até á porta de -Theodoro Leite, acceitando, apesar da sua physionomia patriarchal, com -mostras de muito jubilo, a remuneração em dinheiro que lhe offereci. - -A casa do mestre de meninos era modesta, mas aceiada. A sua fachada -branca atapetava-se graciosamente com plantas trepadeiras, que lhe -emolduravam as janellas, em cujos vidros scintillavam os raios do sol -poente. Respirava toda ella pobresa, mas serenidade. - -Bati á porta. Appareceu-me logo Theodoro com um livro na mão. Soltou -uma exclamação de jubilo assim que me viu. - ---Foi a minha casa eleita pelo Senhor? Visitam-me os anjos, como -visitaram outr’ora os patriarchas hebreus? Bemvinda seja a esta -choupana, minha filha! Entre e illumine com o seu meigo sorriso as -trevas precursoras de sepulchro em que estes dois velhos vivem. - ---Que de galanteios, senhor Theodoro! disse eu, entrando alegremente. -Velho que sabe dizer tantas finezas é mais perigoso que um rapaz. - ---_O gioventú, primavera della vita!_ tornou elle, mirando-me com terno -sorriso. Doce estação da existencia, cujo reflexo até o inverno aclara. -Aqui tens, Josephina, o anjo em que tantas vezes te fallei, continuou -voltando-se para sua irmã, palida creatura que jazia n’uma pobre cama. - -Approximei-me d’ella com o respeito, que o infortunio inspira. -Josephina poisou-me na cabeça a mão quasi transparente, murmurando: - ---Pobre creança! Deus te fade bem, e mude os abrolhos da estrada que -trilhas em flores suavissimas, o leito de espinhos em leito de rosas, -as agruras do caminho em aveludado tapete. - -Curvei-me respeitosamente, recebendo esta benção maternal. - ---Sabes, Josephina, acudiu Theodoro, que difficil seria encontrar um -quadro mais delicioso do que esse que estão agora ambas formando? Os -teus cabellos brancos de neve confundem-se com as tranças levemente -aloiradas de D. Margarida. Aqui, do sitio onde estou, vejo desenhar-se -em graciosa curva o corpo esbelto, ou antes a haste gentil d’esse -lyrio, que se debruça para o teu leito a perfumal-o de fragrancias, -a perfumar-te de juventude. Ha um raio do sol poente, que entra pela -janella, e vae semear de palhetas d’oiro os cabellos d’essa formosa -menina, e a ti purpureia-te levemente a fronte de marfim. Onde ha -espectaculo que se possa comparar a este que disfructo agora? Duas -vidas que se entrelaçam, uma tão pura no seu occaso como a outra na -sua aurora, duas auréolas, cujos raios de luz se confundem, auréolas -que não sei dizer qual seja a mais explendente, se a que se fórma de -infortunio, se a que se compõe de innocencia! - ---Poeta! poeta! disse Josephina, e continuou, voltando-se para mim; foi -sempre o defeito d’este meu irmão; não sei se elle perpetrou alguns -versos... - ---Nunca, Josephina; rima nenhuma tenho a pezar-me na consciencia. - ---É o mesmo, ou antes é peior. Não desabafa em rimas, entretem-se em -devaneios, é o que lhe tem feito mal. Era melhor que tu te lembrasses -de offerecer alguma coisa de comer a esta menina, cujo appetite havia -de ter sido despertado pela caminhada. - ---Queres que lhe offereça os alimentos frugaes da nossa Thebaida? Pão -secco... - ---E laranjas, desmemoriado. Pois já te esqueceste das que te trouxe o -pae d’um dos teus discipulos? - ---Não, não, acudi eu apressadamente, não tenho vontade. - -As minhas recusas de nada valeram. D’ahi a pouco apparecia Theodoro com -um açafate de laranjas magnificas. - ---Madame de Maintenon, disse elle, quando não tinha assado para dar aos -hospedes do seu primeiro marido, Scarron, contava-lhes uma historia. -Aqui, senhora D. Margarida, tem de passar sem assado e sem historia. - ---Dispenso o primeiro, tornei eu, mas não dispenso a segunda. A sua -vida passada não contará muitos factos d’util lição para quem entra, -como eu entro, na estrada da existencia? A sua vida presente não está -cheia tambem de modesto mas proveitoso ensinamento? - -Theodoro abanou a cabeça com melancholia. - ---O meu passado, filha, é um passado tristemente banal. Ferventes -illusões, desenganos profundos, n’isso apenas se cifra. Julguei que -o meu paiz caminhava com o resto da humanidade, e que podia tambem -eu accender o meu facho modesto para o ajudar a dissipar as sombras. -Enganei-me. Eram as trevas as vencedoras. Encaneceram-me os cabellos -n’essa lucta ingloria. Tarde, bem tarde, percebi que, se o meu paiz -regeitava o meu auxilio, reclamava-o a minha familia. Voltei para o -lar, como o filho prodigo. Cumpro agora os meus deveres como posso, e -infelizmente posso pouco. A minha vida presente, senhora D. Margarida, -tem o seu lado luminoso e o seu lado sombrio. Quando, ao pé do leito -de minha irmã, contemplo o sol que illumina além o horisonte com as -derradeiras chammas, quando vejo n’este vasto sanctuario da natureza -espelhar-se a idéa de Deus, tão clara e tão harmoniosa como a vejo -obscura e contradictoria na egreja profanada pelos que se dizem seus -sacerdotes, então sinto-me feliz, e agradeço á Providencia estes -breves instantes de suave repouso que me concede antes de me abrir as -portas do tumulo. Outras vezes, quando vejo minha pobre irmã soffrer, -sem eu lhe poder dar o conforto que o seu estado reclama, sinto as -ondas da amargura invadirem-me o coração. Sinto o remorso pungir-me... - ---Theodoro! exclamou a irmã. - ---Sim, Josephina, o remorso, porque foi o demonio da ambição quem me -arrastou para longe da familia. Cubiçei o papel de missionario da idéa, -quando me devia restringir ao dever mil vezes mais santo de consolador, -de esteio dos que Deus confiou á minha protecção immediata. Pela -_humanidade_ trabalham muitos, querem todos pôr a mão n’esse trabalho -glorioso, e esquecem o _homem_, o homem com os seus affectos, com os -seus deveres modestos, mas augustos, deveres que se resumem no acanhado -circulo da familia. Acanhado, acanhado como é acanhada a cellula da -abelha, mas a cellula á cellula se liga, e o seu conjuncto fórma a -colmeia. O conjuncto das familias, devemos pensal-o, é a humanidade. - -Eu ouvia-o com respeito, e contemplava enternecida aquella fronte -limpida, onde se revia tão doce serenidade, aquelle homem apodado -de impio, que professava tão nobres principios, emquanto os que se -presavam de religiosos tinham apenas (e demais a mais só em palavras) -uma desamoravel e falsa moralidade. - -Já vinha caindo a noite, e era tempo de me retirar. Eu fabricara em -casa uma historia muito complicada, que me authorisasse a soccorrer -aquella infeliz familia, que ficara ao desamparo por minha causa. -Mas o nobre vulto de Theodoro por tal fórma me enliara, que não pude -conseguir dizer duas palavras com algum nexo. Lembra-me que se tratava -d’um parente meu, que desejava editar traducções do latim, e um -mistiforio tal, que logo estaquei, fazendo-me muito córada, e só pude -dizer, pondo as mãos em attitude de supplica: - ---Por quem é, senhor Theodoro Leite, consinta que eu tome parte no -tratamento de sua irmã. - -Theodoro Leite ouvira a minha historia com um benevolo sorriso; mas -afinal duas lagrimas lhe marejaram nos olhos, e travando-me das mãos, e -beijando m’as, disse: - ---Consinto, sim, filha. Acceito sem vergonha a esmola, que as suas mãos -santificaram. Quem não acceitaria o orvalho celeste, que as brancas -azas d’um anjo lhe chovessem sobre a fronte! Que orgulho tão mal -entendido seria o meu! Deus lhe pague, filha, esse oiro bemdito, em -rosas no Empyreo, e em venturas na terra. - -E as duas lagrimas, que lhe humedeciam os olhos, deslisaram-lhe -lentamente pelas faces venerandas. - -A custo me despedi da pobre entrevadinha. Sentia-me tão bem n’aquella -humilde casa! - -Theodoro quiz por força acompanhar-me. O sol desapparecera já no -horisonte; as roxas côres do crepusculo iam-se destingindo a pouco e -pouco, e o azul longinquo das montanhas ia-se esfumando cada vez mais. -Augmentava o fulgor das estrellas, e a lua, ainda desmaiada, apparecia -no Oriente. - -Puzemo-nos a caminho. Eu dei-lhe o braço, e fomos conversando e -rindo, calando-nos a espaços para escutarmos o ultimo echo dos ruidos -expirantes do dia e os primeiros murmurios nocturnos. Separarámo-nos no -principio da lameda, que ia ter a minha casa. - -Entrei jubilosa e satisfeita. Estava já n’essa noite a reunião -completa, e logo todos repararam na expressão da minha physionomia. - ---Sabe o que diz o vulgo n’estes casos, minha querida senhora D. -Margarida? acudiu maliciosamente Carolina, diz assim: «Viu passarinho -novo!» - ---Pois olhe, tornei eu rindo, venho de uma gaiola onde não ha senão -passaros velhos. Venho de casa de Theodoro Leite. Vi a irmã; pobre -entrevadinha. A senhora condessa por força ha de ter soccorrido aquelle -infortunio, continuei eu maliciosamente. - ---Minha filha, respondeu a condessa, não me quero oppôr aos juizos de -Deus. A minha caridade estende-se a todos os christãos; mas animar os -impios não entra nos meus principios. - ---Se Jesus aqui estivesse, minha senhora, acudi eu sorrindo-me, -parece-me que teria ensejo para repetir a parabola do Samaritano. - ---Está muito forte em theologia, tornou a condessa. - ---Não, minha senhora, não sou theologa; mas gosto de ler o Evangelho. - ---Longe de mim a idéa, redarguiu a devota fidalga, de contestar o -merecimento dos livros sagrados; mas deixe-me avisal-a que não é bom -lel-os e commental-os sem ter um guia espiritual. Sabe a que isso nos -conduz? Ao protestantismo. - ---Quem diz a vossa excellencia, interrompeu Carolina, que a senhora D. -Margarida não tenha um guia espiritual? As suas excursões por estes -campos, tão, desprovidos de attractivos, não podem ter outro fim senão -o de procurar um... confessor. - ---Eu bem lhe disse, acudiu D. Antonia com azedume, que não era bonito -andar sósinha. Podia isso dar logar a mil interpretações, falsas -decerto, mas que não deixariam de lhe ser desfavoraveis. Não me quiz -ouvir. - ---Infelizmente, D. Antonia, exclamou a condessa, é esse o grande -defeito da mocidade contemporanea. Independencia individual, eis o seu -_desideratum_. Liberdade de pensamento... para o mal, e liberdade de -acção, que tambem no mal vae parar. Lerem sós e andarem sós. Pois olhe, -D. Antonia, quando uma menina lê algum livro muito recatada, e sem -querer que lh’o expliquem, póde contar que ao seu lado se debruça sobre -a pagina a cabeça de Satanaz, e quando quer andar só, não será Lucifer -o companheiro, mas olhe que vem a dar na mesma. - -Ia eu a responder indignada a estas malevolas insinuações, porque -decididamente não me fadara Deus para este genero de luctas, onde -perdia logo o sangue frio, quando sentimos na estrada o tropear de um -cavallo, depois passos de homem na escada; e afinal abriu-se a porta, -e appareceu no humbral um sujeito moço, de figura esbelta, e amavel -physionomia. - -Soltei um grito ao vel-o, e D. Antonia levantou-se com um risinho de -escarneo. - -Esse homem, que surgira á porta, era Alberto Mascarenhas. - - - - - XIV - - -Alberto ficou um pouco enleado, ao reparar na impressão que produzira, -mas logo recuperou o seu habitual desembaraço, e depois de cumprimentar -todas as pessoas presentes, dirigiu-se para mim e para D. Antonia, -dizendo: - ---Desculpem, minhas senhoras, se venho por esta forma surprehendel-as. -Imaginem vossas excellencias que me vejo obrigado a estabelecer-me -em Bellas por causa dos negocios de um tio meu, que, sob pretexto de -que hei de ser o seu herdeiro, houve por bem, emquanto não me lega -os seus haveres, fazer de mim uma especie de intendente d’elles. -Meu tio, segundo vêem, é um profundo philosopho, tem feito estudos -comparativos sobre a probidade dos intendentes considerada debaixo do -ponto de vista da natureza humana, e concluiu que o melhor gerente de -quaesquer bens é aquelle que os deve herdar. Debalde protestei contra -a theoria; fui obrigado a vir até Bellas, onde tenho passado já uns -tres dias divertidissimos, enterrado até ás orelhas em massos de -titulos pulverulentos, e embaraçado por todos os Talleyrands saloios, -que a natureza espalhou com mão prodiga por este sitio. Mas de repente -lembrou-me que me dissera Claudio que tencionava passar a primavera e -o verão n’esta sua casa de campo, e resolvi vir ter com elle. Chego, -dizem-me que ainda está em Lisboa, mas que vossas excellencias estão -cá; subo e tenho a honra de lhes apresentar os meus respeitos. - ---É sempre bem vindo, senhor Alberto Mascarenhas, observou D. Antonia. - -Ao ouvirem este nome, Carolina sorriu-se com ar malicioso, Jeronimo fez -um commentario em voz baixa ao ouvido da condessa, e esta franziu o -sobr’olho. - ---Nós quasi que o esperavamos, continuou D. Antonia. - ---A mim? perguntou Alberto. Isso é caso de revelação sobrenatural; -porque eu posso-lhe jurar que ha tres horas não pensava ainda em vir -aqui. - ---São presentimentos, acudiu ironicamente a tia de meu marido. - ---Extremamente lisongeiros para este seu adorador, tornou Alberto -rindo; poderei por acaso alimentar esperanças? - ---Póde... pois não, continuou ella trocando uma vista d’olhos com as -suas devotas companheiras, póde tel-as e muito bem fundadas. - -Alberto ficou um pouco enleado, reparando n’estes mysterios da -conversação. Eu já os percebia, por isso procurei mudar logo de -palestra. - ---Então aborreceu-se muito na Ericeira? perguntei. - ---Não minha senhora, respondeu Alberto com a facilidade que o -seu espirito privilegiado tinha em seguir todas as direcções da -conversação. Eu sou d’aquelles que consagram ao oceano um amor -desinteressado. Ha immensa gente que diz: «Gosto do mar, mas do mar -em tempo de banhos» assim como dizem tambem: «Gosto de Cintra, mas -de Cintra na estação em que a sociedade elegante procura as suas -frescas sombras e os seus ridentes panoramas.» Eu não; gosto do mar e -gosto de Cintra sem segunda intenção; do mar no inverno, e de Cintra -na primavera, do mar sem barracas na praia, de Cintra com Seteais -deserto. Já vê por conseguinte vossa excellencia que tive este anno o -supremo goso, que podem ter todos os namorados, o de estarem sós com -o objecto da sua affeição. Eu e as vagas conversámos sem testemunhas, -ellas contaram-me historias tão maravilhosas, eu confiei-lhe poemas -admiraveis, e tanto mais admiraveis quanto eram ineditos, e tanto -mais ineditos quanto nem chegavam a formular-se em palavras. Quando -vier o tempo do amor official pelas praias ouvirá o pobre oceano -tantas apostrophes de poetas, que não tive animo de o torturar -antecipadamente; pois ainda assim, entendemo-nos e separámo-nos -saudosos um do outro. - -Eu estava prestando attenção ao frivolo palrar de Alberto, sem por -isso deixar de ouvir a palestra em voz baixa, que se travara entre as -pessoas presentes. - ---É uma entrevista em fórma, dizia a condessa. - ---E que cynismo! accrescentava Jeronymo. - ---Que falta de habilidade! murmurava Carolina. - ---Que escandalo! rematava D. Antonia. - -O padre prior tomava pitadas. - ---Desculpe-me, D. Antonia, tornava a condessa, mas não posso continuar -a ser testemunha de uma scena d’estas. - ---Tem razão, senhora condessa, dizia a minha inimiga intima, não -imagina como estou afflicta. Não tenho remedio senão avisar meu -sobrinho. - -Todos se levantaram. - ---Vou-me retirando, disse a condessa em voz alta. - ---Nós tambem, continuou Jeronymo. Não achas, Carolina? - ---Sem duvida, redarguiu esta. - ---Está tão bonita a noite, continuou D. Antonia fitando os olhos em -mim e em Alberto, e accentuando muito cada palavra, que me resolvo a -acompanhal-as um pedaço. - -Era o mesmo que despedir Alberto. Percebi a intenção, e fiz-me vermelha -de colera. Alberto levantou-se e foi para pegar no chapeu. - -A condessa e Jeronymo cumprimentaram-me friamente. Eu sentia -referver-me no peito a indignação, que ia lavrando pouco a pouco, e -estava quasi chegando ao seu paroxismo. Carolina veio beijar-me e -disse-me ao ouvido: - ---Tens bom gosto, mas sempre são ambos uns tontinhos! - -Alberto ia a dirigir-se a mim para me cumprimentar; mas eu, sem ter já -bem a consciencia do que fazia e cedendo só ao irresistivel desejo de -reagir contra essa authoridade, que todos se arrogavam em minha casa, e -na minha presença, exclamei: - ---Perdão, senhor Alberto Mascarenhas, rogo-lhe que fique! - - - - - XV - - -Todos olharam para mim com espanto, e Alberto principalmente com -assombro. Comtudo inclinou-se sem responder, e foi pôr o chapeu no -sitio d’onde o tirara. - -A condessa encolheu os hombros com despreso, Carolina riu-se, D. -Antonia lançou-me um olhar indignado, e o padre prior tomou uma pitada. -Depois sairam todos. - -Ficamos sós, eu e Alberto. - -Fui á janella e abri-a. Estava uma noite linda, a lua campeava serena e -placida n’um céo d’um azul purissimo, onde se espraiava sem obstaculo -a candida luz, que lhe fluctuava em torno, como véo de noiva. A brisa -suspirava brandamente na ramaria das arvores. - -Vi sairem as nossas visitas, D. Antonia, e o creado que a devia -acompanhar na volta. Nem ergueram os olhos para a janella, onde eu -estava. Afastaram-se vagarosamente, conversando e rindo. A pouco e -pouco foi esmorecendo ao longe o echo dos seus passos e das suas -vozes, afinal esvaiu-se de todo, e outra vez reinou em torno de mim -essa placidez fremente, se assim me posso exprimir, das lindas noites -de primavera, noites em cujo magico silencio palpitam os canticos -mysteriosos das fadas, o leve ruido da flôr que desabrocha, o murmurio -da seiva, que circula no coração da arvore. - -Eu sentia o passear agitado de Alberto na sala. A nossa posição era tão -embaraçosa, que nenhum de nós se atrevia a romper o silencio. - -Emfim Alberto parou, e disse-me, tocando-me no hombro, e fazendo assim -com que eu me voltasse para elle: - ---O que se passa aqui? - ---Nada, meu bom amigo, respondi sorrindo-me; ou antes, passa-se uma -lucta mesquinha, cujas peripecias lhe causariam tedio. - ---Em que o meu nome entra d’algum modo? - ---Não, respondi hesitando. - -Pois que lhe havia de dizer? Havia de lhe narrar as absurdas -insinuações de D. Antonia? - -Alberto fitou os seus olhos nos meus, depois abanou a cabeça com ar de -duvida. - -Eu larguei a janella, e fui-me sentar ao meu piano, que me chegara de -Lisboa n’esse mesmo dia. - -Abri-o, e deixei correr vagamente os dedos pelo teclado. Alberto -foi-se encostar ao peitoril da janella. O seu nobre e pallido perfil, -banhado pelos raios da lua, tomava não sei que vaga expressão austera e -melancholica. - -A doce influencia da musica banira do meu espirito as impressões -desagradaveis, que a scena antecedente me deixara. As azas brancas da -melodia arrastavam-me suavemente para os campos ethereos do ideal. - -Pouco a pouco as notas que eu fazia brotar ao acaso do teclado foram -tomando uma fórma determinada, e, quasi sem eu ter consciencia d’isso, -os meus dedos despertaram no seu leito de marfim a serenata do _Marino -Faliero_. - -Estremeci ouvindo o seu canto, ou antes o seu murmurio erguer-se -timidamente, e embalar-se na sua cadencia com tanta brandura, como as -aguas do Adriatico podem embalar no seu dorso uma gondola veneziana. - -Cedi ao encanto, e o meu pensamento, que fluctuava incerto, entregou-se -ás voluptuosas caricias d’essa languida melodia. - -Depois a musica expirou como havia começado: sem motivo, sem razão, -_comme un oiseau se pose_, diz Victor Hugo. - -Alberto ouvira a serenata com a cabeça firmada n’uma das mãos. Quando -a ultima nota se esvaiu no espaço, ergueu a fronte, e dirigiu-se para -mim. Lampejava-lhe nos olhos um fulgor estranho. - ---Minha senhora, disse-me elle encostando-se ao piano, sabe quem foi o -objecto do meu primeiro amor? - ---Não, redargui espantada da pergunta. - ---Foi vossa excellencia. - ---Eu! tornei estupefacta e levantando-me. - ---Socegue, minha senhora, vossa excellencia tem-me honrado com a sua -estima, e sabe que nem por sombras sou capaz de a offender. Mas vejo, -presinto que se está elaborando n’esta casa alguma intriga mysteriosa, -de que vossa excellencia é victima, e onde me fazem desempenhar um -papel, seja elle qual fôr. Devo-lhe por conseguinte plena e inteira -franqueza. Vou-lhe submetter um caso de consciencia. Depois de lhe ter -feito uma confissão completa e sincera, vossa excellencia dirá se devo -ou não tornar a pôr os pés n’esta casa. - -Alberto calou-se por um instante, passou a mão pela testa, como para -avivar a memoria do passado, e principiou depois em voz baixa e agitada: - ---Foi ha tres ou quatro annos, supponho. Entrava eu na vida, e -relanceava os olhos em torno de mim com a ingenua curiosidade de -quem tudo vê envolto nos véos seductores do mysterio, e tomando o -aspecto de risonho enigma de tentadora resolução. Entre todas essas -miragens de que a nossa vista se namora, quando pomos o pé na orla -d’este deserto da existencia é a do amor a mais luminosa. As outras -visões apparecem-nos como simples oasis; esta surge-nos como paiz de -fadas. As outras serão sombras e frescura; esta, flores e fragrancias. -Como a todos, foi a canção amorosa a que primeiro despertou no meu -peito, vago canto sem assumpto, melodia sem letra, que me extasiava -como o trovar de passarinho invisivel emboscado na ramaria. Uma vez -encontrei-a a vossa excellencia com sua familia n’uma das quintas de -Bemfica. Obedecendo ao inexplicavel condão da formosura, os meus olhos -seguiram, ainda meio distraidos, o seu vulto airoso, que se sumia ao -longe nos meandros das lamedas. Momentos depois, tornei a encontral-a, -e a impressão fugitiva, que me produzira, avivou-se e recresceu de -intensidade quando me achei preso na esphera de fascinação magnetica, -que os seus olhos sempre possuiram. Vi-a então bem! Que formosa e fina -cabecinha a sua! Que primoroso oval o do seu rosto! E o aveludado -da sua tez, e o seu pisar tão gracioso, e mais que tudo a suprema -elegancia, a suavidade como que aerea das linhas do seu perfil e dos -contornos do seu corpo, tudo isso me enlevou, me deslumbrou por tal -forma, que não pensei mais senão em seguil-a e miral-a de longe, com -medo que essa visão do céo me fugisse de novo, e tornasse, despregando -as azas brancas, ao Empyreo, d’onde viera. - ---Senhor Alberto Mascarenhas! interrompi eu, devéras enleada. - ---Perdão, minha senhora, tornou elle com certa melancholia; não julgue -que estou evocando o passado, de proposito para lhe fazer uma especie -de declaração retrospectiva. Prometti-lhe ser franco, e para o ser abri -o livro da minha memoria, e reli-lhe as paginas taes como as escrevera -n’esse tempo. Desculpe-me se se encontra n’ellas alguma phrase, que -fira a sua susceptibilidade. - ---Continue, murmurei eu com voz que mal se ouvia. - ---D’esse momento em deante, minha senhora, continuou Alberto, -consagrei-lhe um amor mysterioso, que me deu infindas alegrias. -Povoou-se a minha solidão com uma imagem, em que todos os meus sonhos -se incarnavam. O encontral-a era para mim um prazer immenso; mirar a -janella cerrada do seu quarto causava-me não sei que doce commoção; -divisal-a a vossa excellencia encostada ao peitoril, ou devaneando -vagamente, ou lendo algum livro, era um extasi indisivel. Fugia para -o meu quarto, levando como thesouro precioso uma das fragrancias, em -que a flor se desata, um dos raios de luz que a estrella desprende da -sua fulgida corôa, sem que estrella nem flor tenham consciencia do -jubilo que inspiram. Encerrava-me sósinho, evocava o seu vulto, via-a -debruçar-se para mim, sentia-lhe os cabellos roçarem-me ao de leve -pela fronte, e estremecia como se a impressão ficticia do meu devaneio -fosse uma impressão verdadeira. Olhe, quer que lhe diga? Tenho saudades -d’essa loucura, e voltando os olhos para o meu passado, não encontro -n’elle horas mais suaves do que essas, em que, a sós com uma sombra, -fui lendo, estrophe a estrophe, o mais lindo poema de amor que nunca se -escreveu. - -Aberto, extraordinariamente agitado, deu um passeio na sala, e foi -a final encostar-se de novo ao peitoril da janella. Os effluvios da -primavera adejavam no ambiente, por onde os espalhava a doida brisa -sacudindo as azas impregnadas n’essas fragrancias. Os raios da lua -vinham já espraiar-se no chão do aposento. Eu, inclinada para o -piano, pensava n’esse mundo novo, que se me apresentava, n’esses -novos horisontes, que se rasgavam deante da minha phantasia. Esse -amor mysterioso que acompanhara, sem que eu o visse, o meu passado -esplendido e risonho, illuminava-me agora as trévas do presente com um -raio d’esse fulgor extincto, como a lua, que, invisivel em quanto o -sol campeia no firmamento, surge mal assoma a noite, e vem pratear as -sombras com um reflexo ao clarão diurno. - ---Se soubesse, tornou Alberto voltando para mim, como a sua imagem me -acompanhava sempre! como o seu nome, que eu logo soubera, me acudia -constantemente aos labios! como eu gostava de o pronunciar! como eu -devorava os romances em que esse nome apparecia! como eu o associava -a todas as minhas commoções! Se ouvia uma opera predilecta, quando a -musica me elevava ás regiões do extasi, era o seu nome como a chave de -oiro que me abria as portas d’esse mundo ideal! «Margarida, amo-te,» -balbuciava eu, quando Desdemona suspirava a aria do _Salgueiro_; quando -Violeta gemia o seu adeus ao mundo; quando escutava esse cantico -sublime de amor e tristeza, que se chama _Lucia_. E se por acaso tinha -a felicidade de a ver no theatro, como os meus olhos se cravavam no seu -rosto querido, como eu seguia a impressão que a musica produzia na sua -alma, e que se espelhava nos seus olhos! - -A noite continuava serena, perfumada, voluptuosa, e os raios da lua -vinham esmorecer languidamente no chão do aposento. - -Eu ouvia essas confidencias com um sentimento inexprimivel; doce, -quando me deixava embalar pela melodia d’essas magicas palavras que -dizem amor e mocidade; amargo quando pensava na vida tal como o acaso -m’a fizera, e nas graves consequencias que podia ter para mim essa -declaração intempestiva. - ---Durou esse sonho pouco tempo, como todos os sonhos, tornou Alberto; -mas deixou-me para sempre uma recordação indelevel. Lembro-me, como -se fôra hoje, da ultima vez que a vi, antes de me ausentar de Lisboa. -Encontrei-a em casa de um dos velhos amigos do meu pae, o visconde -de ***, passeava vossa excellencia no jardim, quando eu entrei. -Acompanhavam-na sua mãe e a viscondessa. Meu pae, o visconde, o -pae de vossa excellencia e outros amigos estavam tomando café n’um -dos kiosques. Era em junho, e ao pôr do sol. Succedera a frescura -do crepusculo ás calmas abrasadoras do dia. Reinava em terra e céo -perfeita serenidade. O firmamento d’um azul purissimo. O Tejo, ao -longe, doirado pelos ultimos raios do sol, que se sumiam no occaso. -Um d’esses raios ficara tambem como preso ás arvores do jardim. Vossa -excellencia passeava de cabeça descoberta, e a mansa brisa, que se -erguera, fazia-lhe arfar os cabellos castanhos claros em vagasinhas -d’oiro, quando o raio de sol alcançava beijal-os. O seu passear -vagaroso e indolente, as suaves ondulações do seu corpo, o fulgor -um tanto amortecido dos seus olhos, o frémito dos seus labios, que -aspiravam a aragem embalsamada, tudo se casava tão bem com a languida -voluptuosidade da tarde expirante!... Fiquei como deslumbrado por -tanta formosura, palpitou-me com violencia o coração, e nem tive animo -nem força para me approximar de vossa excellencia. Infelizmente ou -felizmente (eu sei?) estava para se retirar. O visconde foi-se despedir -de vossa excellencia e de sua mamã, e a viscondessa acompanhou-as. -Vossa excellencia colhera uma rosa, que beijava distrahida, ao -aspirar-lhe o perfume; affastou-se, fui-a seguindo com os olhos, -vi-a subir vagarosamente os degraus da escadaria, e quando chegou ao -terraço para onde deitavam as portas do palacio, vi-a encostar-se á -balaustrada, e fitar vagamente os olhos no horisonte affogueado, no -rio onde o oiro se ia transformando em purpura, e nas montanhas cujos -pincaros se azulavam com a distancia. O seu vulto, estampando-se por -essa forma na atmosphera transparente, com a fronte cingida por uma -vaga auréola, tendo por traz de si um foco de chammas em cada vidro, -que os ultimos raios de sol incendiavam, tomava como que o aspecto -phantastico de uma d’essas fadas do Rheno, que apparecem ao pôr do -sol, com a harpa de oiro ao lado, sentadas nos fraguedos do rio. -Distrahidamente deixou cahir a rosa que tinha na mão; depois desviou-se -do parapeito, e desappareceu no interior do palacio. - ---Que memoria a sua! disse-lhe eu, sorrindo-me. - ---Hesitei um instante, continuou elle sem parecer que reparava na -minha interrupção; antes de ir levantal-a: depois não me pude conter, -e fui-me approximando como que distrahidamente do sitio onde estava -a flor cubiçada. Apanhei-a n’um relance, beijei-a, e guardei-a no -peito... Nunca mais me separei d’ella, continuou com voz abafada; -essa visão da minha adolescencia esvaiu-se como se esvaem os sonhos, -esse louco amor extinguiu-se como era natural, mas a flor secca nunca -mais me deixou; é o meu talisman, que serve para evocar ás vezes esse -periodo luminoso da minha vida, esses doces annos que se sumiram para -sempre no abysmo do passado. - -E, tirando do peito uma rosa murcha e amarellecida, passou-a para as -minhas mãos. - -Deslisou-me dos olhos uma lagrima e foi cair nas petalas sem viço da -pobre flor, sem que esse amargo orvalho lograsse reverdecel-a. Assim -tambem os meus prantos não poderiam restituir-me alegria descuidosa que -perdera. - -Alberto viu a lagrima, e disse-me: - ---Comprehendo-a; essa flor, deixada cahir distrahidamente quando não -havia ainda saudades na sua vida, exerce no seu espirito a mesma -fascinação que no meu exercia. Guarde-a, dou-lhe n’isso a prova de que -para sempre quebrei com o meu passado. - ---Não era necessario, disse eu; aprecio tanto o seu nobre caracter, que -nem por um instante duvido de que me não teria feito essa confidencia, -se não consagrasse simplesmente um affecto de irmão á esposa do seu -amigo. - ---Ah! isso juro-lh’o, tornou Alberto pondo a mão no peito, se não me -sentisse completamente livre, e desassombrado, se o meu coração me -désse inda rebates d’amor, que se devia extinguir, não teria entrado -n’esta casa. Teria vergonha de mim mesmo, se não pudesse agora fitar os -meus olhos nos seus com purissima serenidade. Mas se julga que apesar -d’isso, não devo tornar a vir aqui; se julga que esta memoria d’um amor -passado, é uma offensa para vossa excellencia, e um acto de deslealdade -para com o meu amigo, se julga que uma recordação involuntaria, -espelhando-se no meu rosto, póde dar uma arma aos calumniadores, diga -uma palavra e estou prompto a retirar-me. - ---Seria uma vileza aos meus proprios olhos, respondi eu serenamente, o -rebaixar-me a ponto de transigir com a calumnia. Esta casa está sempre -aberta ao amigo de meu marido, ao homem leal de quem agora aperto a mão. - -E estendi-lhe a minha que apertou commovido. - ---Bem, disse-me elle rindo, tirou-me um grande peso de cima do peito. -Agora peço as ordens de vossa excellencia. - -Foi pegar no chapéo; e depois, voltando para mim, e apertando-me de -novo a mão continuou: - ---Desculpa-me o ter-lhe dito tantas loucuras? - ---Desculpal-o, porque? redargui eu sorrindo-me. Leu-me um bonito -romance, ouvi-o com attenção; agora fechamos o livro, e voltamos á -realidade. - -Alberto ficou suspenso por instantes, depois respondeu: - ---É isso mesmo. Tem vossa excellencia muita razão. - -E saíu. - -Eu fiquei algum tempo pensativa junto do piano; depois levantei-me, -soltei um suspiro d’allivio, peguei n’um castiçal e dirigi-me para o -meu quarto. - -Dava meia noite. - - - - - XVI - - -Foi só no dia seguinte que reflecti bem no que se passara na vespera. -Foi então que me espantei de D. Antonia não ter tornado a apparecer -na sala. Um passeio a pé, por mais que o prolongasse, não podia ter -durado tanto tempo. Demais lembrou-me então que a tinha sentido voltar -meia hora ou tres quartos de hora depois de ter saido. Por que motivo -não viera para a sala? Havia n’isso o projecto de alguma infernal -armadilha? Ia dentro em pouco sabel-o. - -D. Antonia não me deu palavra durante esse dia todo, coisa com que -eu folgava bastante; mas no outro dia, sem me ter prevenido da sua -chegada, appareceu meu marido, visivelmente agitado sob a sua mascara -de gelo. - -Acolhi-o com jubilo. Sentia um certo contentamento intimo por ter -cumprido o meu dever. Estava satisfeita comigo mesma, o que já concorre -muito para se estar satisfeito com os outros. - -Meu marido fallou-me com bastante frieza. Logo depois encerrou-se com -D. Antonia, e teve com ella uma larga conferencia. - -Depois appareceu ainda mais agitado, passeou algum tempo, pegou no -chapéo e saiu. - -D’ahi a pouco, voltou, sempre agitado, e fechou-se no seu quarto. - -Á noite appareceram as visitas do costume, coisa que me espantou -sobremaneira, porque julgava que não voltariam tão breve. - -Comtudo a condessa deu bem a entender que vinha a nossa casa em -attenção a Claudio, e só em attenção a elle. - -Pouco me importava; o jubilo da minha consciencia dava-me novas forças -para luctar com intrepidez. - -Alberto appareceu pouco depois. A sua entrada produziu sensação. -Claudio recebeu-o com uns modos meio frios, meio cordiaes. A condessa -mostrou-se distraida, D. Antonia ligeiramente motejadora, Carolina -extremamente amavel. - -Alberto esteve perfeitamente senhor de si. Não o traiu o seu espirito -brilhante e jovial. Esteve desembaraçado no meio de todos aquelles -constrangimentos. Eu, que tambem não tinha motivo algum para estar -constrangida, auxiliei-o; a conversação animou-se. A condessa não tomou -parte n’ella; Claudio muito pouca; D. Antonia aventurou umas poucas -de insinuações, em que não reparamos; Carolina entrou na palestra -com finas observações, que se resentiam da sua indole essencialmente -sarcastica. Assim se passou uma noite muito agradavel. - -Claudio que ao principio se mostrara nimiamente reservado, foi-se pouco -a pouco tornando mais expansivo. - -Mas, no dia seguinte uma influencia severa agglomerava-lhe de novo na -fronte as nuvens, que se haviam por instantes dissipado. - -Comtudo comecei a notar uma grande differença no procedimento de D. -Antonia, a meu respeito. Tantos tinham sido os cuidados, que tivera até -ahi para que eu não estivesse um instante só com Alberto, quanto era o -desejo que parecia ter agora de nos proporcionar os mais prolongados -_tête-à-tête_. - -Pedia-lhe a elle muitas vezes que nos acompanhasse n’algumas excursões -que faziamos pelos arredores. Depois aproveitava um pretexto qualquer -e eclipsava-se. Ao cabo de uma longa hora de passeio, apparecia-nos -de subito meu marido, pallido, com o olhar sombrio, com a fronte -annuviada. A cordialidade serena, o jubilo até com que o acolhiamos -dissipavam logo todas as nuvens, e voltavamos todos tres para casa, -rindo e conversando como bons amigos. - -Alberto era realmente admiravel. No meio d’aquella rede de intrigas, -que eu sentia confusamente, caminhava tão desassombrado como se não -estivesse pisando um terreno perfido, onde o mais leve descuido podia -perder a sua lealdade, e a minha reputação. - -Não se ausentava porque via perfeitamente que a sua retirada daria á -calumnia o pretexto que ella anciosamente procurava: mas acceitava tão -desconstrangidamente o papel falsissimo que esta situação lhe impunha, -que parecia não ter o minimo conhecimento do trabalho subterraneo, -emprehendido pela devota sociedade de D. Antonia e companhia. - -Eu mesma me espantava d’essa tranquilidade inalteravel, e suppunha que -fôra um sonho a scena que se passara n’essa noite, que tão profunda -impressão me causara. Precisava de admirar a rosa murcha, que trazia no -seio, para de novo me convencer da realidade de tudo isso. - -Alberto nem parecia reparar na posição em que o tinham collocado, e -que devia dar em resultado maior intimidade. Era o que fôra sempre: -um conversador amavel, elegantemente frivolo, que tomava comigo o tom -d’uma respeitosa familiaridade. - -Um dia, obedecendo a essa irresistivel attracção, que nos obriga -a chegarmo-nos á beira do precipicio, e debruçarmo-nos para elle, -ainda que saibamos que um momento de vertigem nos póde arrojar ao -despenhadeiro, ousei alludir á historia do seu passado. - -É inconcebivel, mas é certo. Luctei tres dias com a tentação, afinal -não pude resistir, e aventurei a pergunta. - ---Acredita na transmigração das almas? disse Alberto, em vez de -responder. - ---Porque? tornei eu espantada. - ---Porque, se acredita, ha de perceber perfeitamente a minha historia. -Isso em que me falla succedeu, se me não engano, a um Alberto, que -vivia no tempo de Noé. Depois, como sabe, veiu o diluvio. Affogou-se -nas grandes aguas o corpo e a memoria. A alma, desprovida d’essa -faculdade, transmigrou para este corpo, nado e creado em pleno -seculo XIX. Mas como ha de lembrar-se a coitada dos acontecimentos -ante-diluvianos? - -Eu desatei a rir, mas devo confessar que senti um certo despeito. É -inexplicavel, não é? É inverosimil? Bem sei. Propuz o enigma, não -intentei resolvel-o. - -Um dia Theodoro Leite mandou-me dizer que me desejava fallar, e com -muita urgencia. - -Fui a casa d’elle. Theodoro e a entrevadinha receberam-me com o jubilo -habitual. Depois Theodoro acompanhou-me á volta, e pelo caminho foi-me -contando o que o obrigara a mandar-me chamar. - ---A Quiteria, disse-me elle, que lhe ficou muito affeiçoada desde -a primeira noite em que a viu, e em que a minha querida filha -(permitta-me que lhe dê esse nome) se mostrou tão boa, tão amavel com -ella e com os outros creados, sentando-se junto d’elles na cosinha, -conversando com elles, ouvindo-lhes as historias, procedimento esse que -d’um modo tão notavel contrastava com o orgulho da tia de seu marido, a -Quiteria, pois, veiu ter comigo, e pediu-me que a avisasse, coisa que -ella não podia fazer, porque a minha filha está sendo a toda a hora -espionada pela Maria do Rosario. Disse-me ella que se anda tramando -lá por casa uma intriga terrivel, que tem unicamente por fim promover -uma separação entre Claudio e a minha querida menina, separação que hão -de fazer escandalosa, e cuja vergonha ha de recair toda sobre a sua -innocente cabeça. - -Eu ouvia espantada esta revelação incomprehensivel para mim, porque -não podia adivinhar que mal teria eu feito áquella gente, para que me -tivessem declarado uma guerra tão encarniçada. Foi isso mesmo o que eu -disse a Theodoro, que me respondeu, sorrindo-se: - ---Que mal lhes fez? Pobre innocente! Um crime imperdoavel, o de ter -vinte annos, uma formosura esplendida, uma indole boa e sympathica, uma -alma enthusiastica, e de juntar a tudo isto uma virtude immaculada. -Que mal fez a rosa ao caracol, para que este lhe entorne nas petalas -a repugnante baba? A luz, minha filha, não attrae unicamente as -borboletas, tambem attrae os morcegos, estes para de despeito a -apagarem, aquellas para se queimarem na chamma, que as enleva. -Satanaz, ao sair das trevas, vae insultar o sol. Quer viver socegada? -Não brilhe. Não quer que a mordam no calcanhar? Arraste-se como as -serpentes. Mas não; soffra antes, e levante a fronte acima d’essa turba -vil. Tenha sobretudo confiança em seu marido. É um espirito fraco, mas -um nobre coração. D. Antonia domina-o, porque a minha querida menina -ainda não tentou rebater-lhe a influencia. Tente-o, combata, seja -forte. Não permaneça na inacção, desça á liça para onde a chamam, e -calque aos pés a sua mesquinha adversaria. A sua indifferença anima-a, -a sua energia dissipar-lhe-ha os brios. - ---Mas combatel-a, como, de que maneira? perguntei eu. - ---Olhe, tornou Theodoro meigamente, eu lhe explico o mysterio da sua -vida. Claudio é um homem timido, acanhado, que precisa que lhe estendam -a mão para sair da sua habitual reserva; consagrou-lhe um profundo -amor, e viu coroados os seus votos d’um modo completamente inesperado. -A minha querida menina, creança que nada comprehende da vida, acceitou -das mãos de seus paes um marido, como acceitaria um vestido novo. -Nenhum dos dois deu o primeiro passo para essa intimidade conjugal, -que funde n’uma só duas almas, duas vontades, dois pensamentos: elle -porque não ousava, a minha querida menina porque não sabia. D. Antonia -apossou-se com habilidade d’esse espirito fluctuante, que julgara -por um momento que lhe escaparia indo-se prender n’outros laços. -Animada por essa primeira victoria, quiz levar a cabo o seu triumpho. -N’aquelle coração angustiado e hesitante semeou a duvida; transformou -em calculo o que era ignorancia da vida. Disse-lhe que a facilidade -com que a minha filha acceitara o casamento com um homem a quem não -amava era resultado da corrupção prematura, que despresava os deveres -do matrimonio. Aproveitou as mais leves circumstancias, desenvolveu -com uma sagacidade infernal os mais subtis indicios. A entrada em -scena de Alberto veiu dar-lhe um optimo pretexto. Seu marido resiste -ás suggestões continuas de D. Antonia, mas ha de chegar um instante -em que succumba. D. Antonia, combinada tacitamente com as suas boas -amigas, quer apressar o desenlace, espera que um momento de fraquesa -leve a minha querida menina a dar um passo errado, que se ha de logo -aproveitar. Espiam-na constantemente; em casa não faz um movimento só, -que a Maria do Rosario lh’o não espreite; no campo, nos seus passeios -com Alberto Mascarenhas, póde estar certa de que por traz de cada sebe -ha um ouvido á escuta. Seu marido está n’uma posição intoleravel; o -coração reage-lhe contra a evidencia apparente, que D. Antonia lhe -mostra; mas, atormentado por uma duvida incessante, vagueia como o -espectro do ciume procurando uma certesa material, que, ainda que o -fulmine, o livre d’aquelle estado. Tudo isto eu deduzo facilmente do -que a boa Quiteria me disse; porque a pobre velha tem praticado por -sua conta um systema de contra-mina, e, emquanto a Maria do Rosario -está com o ouvido collado á porta do seu quarto, vae ella escutar as -palestras de Claudio e de D. Antonia. Desculpe-a, coitada. O que a -impelle a proceder assim, é a amisade que lhe tem. - ---E o que me aconselha então? acudi eu baixando a cabeça, que me -vergava ao peso d’aquellas revelações. - ---O que lhe aconselho, minha filha? A lealdade e a franquesa. Deixe -essa gentalha extraviar-se pelos atalhos, e caminhe desassombradamente -pela estrada real, inunde de luz as suas intrigas tenebrosas, e -vêl-as-ha fugirem como demonios nocturnos, surprehendidos pela -alvorada. Entre na intimidade de seu marido, não se envergonhe de -tomar a iniciativa, conte-lhe com franqueza a historia de todas essas -intrigas, que a perseguem, faça-o ler na sua purissima consciencia, -porque assim a tem, não é verdade? - ---Oh! sim! tornei eu com exaltação. - -Mas depois não sei que pensamento importuno me acudiu ao espirito, e me -incendeu as faces em vivo rubor. - ---Vamos; seja forte! acudiu Theodoro beijando-me com ternura na fronte. -Não vacille nem um instante, não vergue ao peso da cruz. - ---Descance, meu amigo, tornei eu melancholicamente. Não me assusta o -soffrimento. - -E despedi-me d’elle, mais animada do que nunca até ahi estivera. Havia -alguns dias que uns devaneios indefiniveis me atormentavam. Sentia um -vago e doloroso prazer em aspirar a brisa embalsamada das noites de -maio. Os effluvios do jardim coavam-me nas veias não sei que ardor -incomprehensivel. O meu coração pulsava com violencia quando os raios -da lua, infiltrando-se voluptuosamente na minha alcova, me vinham -fallar de ignotos mysterios. Ao cair da noite sentava-me ao piano, e, -deixando correr os dedos pelas teclas, escutava em extasi a suave e -mansissima harmonia, que despertava então. Surprehendia-me a mim mesma -contemplando a flôr secca, a rosa murcha, que me abrazava o seio. Que -symptomas funestos eram estes? Receava adivinhal-o. - -Mas o passo aconselhado por Theodoro ia livrar-me de tão importunos -pensamentos. Tudo quanto elle me dissera ácerca do caracter de Claudio -achava-o eu extremamente verdadeiro, agora que reflectia em muitas -circumstancias, que primeiro me tinham passado despercebidas. Não -duvidava do bom exito do plano do meu velho amigo. Assim tudo se -conciliava, e o futuro afinal apparecia-me desassombrado. Ia entrar -finalmente no porto, depois de tantas tempestades. Ia encontrar no -amor de meu marido um escudo contra as perseguições mesquinhas de D. -Antonia, e um asylo contra os estranhos pensamentos, que me perseguiam. -Ia ser feliz emfim! - -Pareceu-me que me tiravam de cima do peito um peso enorme, e respirei -com desaffogo. Estava ao pé de casa. Subi a escada com pé ligeiro, -cheguei á porta da sala, e abri-a alegremente. - -Mas, assim que entrei, estaquei de subito e senti no peito uma dor -aguda, como se um ferro m’o atravessasse. No vão d’uma janella um homem -e uma senhora conversavam intimamente, e com tanta animação que nem -deram pela minha chegada, nem ouviram a bulha, que eu fizera abrindo a -porta. Pallida como uma defuncta, fui-me aproximando a pouco e pouco, -e só quando cheguei a dois passos da janella é que elles repararam em -mim. A senhora soltou um grito, o homem fez-se levemente corado. - -Eram Alberto e Carolina. - - - - - XVII - - -Ficámos todos tres por um instante enleados; Alberto foi quem primeiro -tomou a palavra, com o seu desembaraço habitual; não tardou Carolina a -imital-o; mas, por maiores que fossem os meus esforços, negaram-se-me -os labios a articular um som. Percebia que, se tentasse fallar, os -soluços brotariam d’envolta com as palavras. - -Afinal consegui pretextar um ligeiro incommodo, e fugi para o meu -quarto. Alli chorei á vontade, desabafei. Quando esta dôr inexplicavel -se acalmou um pouco, perguntei á minha consciencia o motivo d’esses -prantos. - -«Assim, murmurava eu comigo mesma, é Alberto um homem como todos; o -amor profundo que disse consagrar-me não deixou o mais leve rasto -na sua memoria. Aquella alma que eu julgava um sanctuario, é um -prostibulo, aquelle coração tem a porta franca para quaesquer imagens. - -«Mas, tornava eu, que me importa isso tudo? Que direito me deu elle -para fiscalisar as suas acções? Não me disse, não me affirmou, não -me jurou até que esse amor antigo se dissipara como um devaneio de -juventude, como um relampago de estio, que brilha e morre no firmamento -azul? E não me devo eu até rejubilar com este acontecimento que me -prova a verdade do que elle me dizia? Não contribue isto mesmo para -dar nova paz á minha consciencia, nova tranquilidade á minha alma? Não -posso eu agora erguer a fronte bem altiva acima das calumnias de D. -Antonia e da condessa? - -«Não, acudia eu de novo; o motivo da minha afflicção é a amisade -fraternal, que a Alberto consagrei, é a estima que votei a esse -espirito nobre! Custa-me o desengano, custa-me o ver descida do seu -pedestal a alma que eu julgara quasi superior á humanidade. O amor de -Carolina macula um homem. E demais aquillo não é amor, é um capricho -dos sentidos, é uma ligação banal e repugnante. O amor não brota assim -d’um instante para o outro, não viça com tanta facilidade nas cinzas -d’um affecto extincto. - -«Oh! cala-te, cala-te, murmurava a minha consciencia, não queiras -disfarçar com o vão nome de amisade o sentimento culpado, que se -te apoderou do coração. Amal-o, infeliz! Amal-o, e para cumulo de -vergonha, elle nem pensa em ti, para maior opprobrio teu, és tu -só a culpada; não podes allegar a influencia magnetica de um amor -constante e vehemente, que actuasse a teu pesar no teu espirito e no -teu coração. Elle affasta-se de ti, respeita-te, e não mereces ser -respeitada, porque moralmente já trahiste os teus deveres de esposa, já -falseaste a fé conjugal.» - -E nova torrente de prantos me brotou dos olhos, e me inundou as faces. - -Quando desci do meu quarto para a sala notaram todos a minha agitação. -Alberto mirou-me inquieto, Carolina com um modo de ironia tal, que -me deu forças para reagir contra o meu vergonhoso tormento. Queria -soffrer, sim, mas soffrer com dignidade, e sem dar ás minhas inimigas -motivo para folgarem e triumpharem. - -Esta serenidade ficticia tranquilisou Alberto, que tornou a mostrar-se -todo attencioso e galanteador com a afilhada da condessa. - -«Oh! meu Deus, dizia eu, entre mim, tão irresistivel é essa paixão, que -nem elle tem forças para m’a occultar, e para a occultar aos outros. -Não se lembra que D. Carolina de Freitas não é uma senhora solteira, a -quem se possa affoitamente render homenagens? - -«Jeronymo, e a condessa e D. Antonia, tão escrupulosos, tão -inquisidores comigo, estão cegos, ou fingem-se cegos, que não vêem ou -não querem ver o escandalo, que se está praticando n’esta sala? Que é -feito da austera moralidade d’esta gente? Onde se aninharam as suas -severidades?...» - -Ai! e não via eu, pobre louquinha, que estava sendo involuntariamente -mais culpada do que elles? Não via eu que estes assomos de austeridade -tinham a sua origem n’um sentimento, que devia reprimir com todas as -forças da minha alma? Era a fatalilade que me impellia. Tranquilla -vira entrar Alberto em minha casa, sem pensar em o distinguir dos -outros homens. Accusando-me de um crime, de que nem sequer tivera o -pensamento, obrigam-me a occupar-me d’elle, collocam sempre a sua -imagem deante dos meus olhos, fazem com que eu involuntariamente o -compare ás outras pessoas, que me rodeiam, comparação que não póde -deixar de lhe ser favoravel, e firmando-me na minha innocencia, caminho -com desassombro n’essa estrada semeada de perfidias, não vejo o abysmo -que a pouco e pouco se me vae rasgando aos pés, que cada um dos meus -passos alarga insensivelmente, abysmo por onde vou resvalando, e em que -afinal baqueio. - -Fui castigada no meu orgulho; desci a uma esphera mil vezes mais -baixa do que essa onde vivem as minhas accusadoras. A calumnia tinha -rasão, os calumniadores prophetisavam. Triumphae, hypocritas, folgae, -Messalinas de sachristia! conseguistes o vosso fim. Enxovalhei-me na -lama, que tão obstinadamente me arrojastes ás faces! Polluí a corôa -da innocencia, de que tanto me ufanava; sou adultera no pensamento, e -isso basta para me julgar mais vil aos meus proprios olhos do que essa -que alardeava a sua deshonra como um acto de habilidade, e que está -agora impudentemente demonstrando á minha vista a veracidade das suas -doutrinas. - -«Oh! continuava eu fallando comigo mesma, ao menos não hei de transpor -os limites que ainda me separam d’uma vergonha completa. Esse amor -fatal, que me devora, hei de abrigal-o no meu seio, como a áspide que -me ha de matar, sem que o meu rosto revele os meus tormentos. Deixando -de parte o mundo da realidade, cujo contacto me foi tão doloroso, -voarei para as regiões da phantasia, e ahi viverei enlaçada n’um casto -amor com a sombra pura de Alberto, tal como elle se me afigurou, e -não tal como eu o vejo agora. Possuil-o-hei a elle mais do que elle -a si proprio se possue, porque é minha essa flôr secca, symbolo da -sua poetica existencia, ao passo que elle, afastando-se cada vez mais -d’esse puro sanctuario, se vae embrenhando nos jardins da torpe Armida, -que soube, com um olhar provocador, transformar uma alma tão nobre n’um -espirito vulgar.» - -E soffria, soffria como nem eu o posso dizer, soffria e tinha vergonha -do meu soffrimento, e não ousava erguer os olhos para Claudio, cujo -rosto sombrio se ia desannuviando e alegrando ao ver Alberto enlevado -nos seus novos amores. - -Os homens são estupidos! - -Desde então, a nossa vida tomou um outro aspecto, que inspirava grande -espanto a D. Antonia. Por mais que ella tentasse renovar as suas -manobras com o fim de nos deixar sós, rarissimas vezes o conseguia. -Alberto sempre se lhe esquivava, e Carolina auxiliava-o n’isso, -reclamando-o a cada instante, ora para a acompanhar n’um passeio a -cavallo, ora para a ajudar a ler uma nova e difficil musica, que lhe -chegara de Lisboa; e eu, afflicta, mas valorosa, desviava-me tambem -de prompto, e entregava-me a longos passeios solitarios, onde me -comprazia, vagueando pelas aridas planicies d’aquelles sitios, a avivar -a memoria dos meus passeios e das minhas conversações com Alberto, que -se me debuxavam na phantasia, sem me esquecer uma só particularidade, -uma palavra só. - -Triste voluptuosidade de quem alarga a ferida com as proprias mãos, de -quem está saboreando a triaga fatal! - -Os meus passeios dirigiam-se quasi sempre para o lado da casa de -Theodoro Leite. N’aquelle doce asylo, aonde não chegava nem um ecco das -paixões mundanas, que haviamos transportado comnosco da cidade para -o campo, n’aquelle sanctuario do infortunio alegremente supportado, -n’aquelle templo da familia, recuperava eu novas forças para o combate, -que travara. N’esse ambiente são e perfumado de virtudes hauria as -emanações do balsamo celeste, que guarece as feridas envenenadas. Um -beijo da entrevadinha na minha fronte como que a cingia de novo da -auréola da innocencia; um meigo olhar de Theodoro, calando-me no intimo -da alma, expulsava a imagem que se obstinava a povoar-m’a. Voltava -sempre d’essa pobre casa mais em paz com a minha consciencia; mas o -encontro de Carolina com Alberto, encontro que era inevitavel, outra -vez m’a turvava, e soltava as tempestades por um instante enfreadas. - -Claudio quizera aproveitar esse estado da minha alma, que elle não -saberia definir, mas que instinctivamente adivinhava, para se -aproximar de mim, e subtrahir-se ao mesmo tempo ao jugo de D. Antonia. -Mas as suas timidas tentativas não me encontravam n’essa occasião -disposta a animal-as. A minha consciencia dizia-me que não podia -receber essa especie de homenagem, que já me não era devida, acceitar -uma penitencia, que eu me devia impôr a mim mesma. E, por mais que -tentasse levantar-me, uma força fatal me impellia cada vez mais -rapidamente para o abysmo! - -Mas emfim, as forças não me trahiam, e quando, saindo do meu quarto, -onde me ficava muitas vezes depois de jantar, contemplando o horisonte -purpureado, os effeitos da luz moribunda e das sombras recrescentes nas -ruas e nas moitas do jardim, as estatuas banhadas pelos ultimos raios -do sol, que lhes doiravam o manto verde com que o musgo as revestia, -e que, ao vir do crepusculo, pareciam tremer de frio, e aconchegar -bem as pregas d’essa tunica ao seu pobre marmore nú; ouvindo os vagos -murmurios do campo, o melancolico suspirar das fontes, e deixando -os meus sonhos esvoaçarem livremente n’essa atmosphera de poesia e -de saudade; quando, saindo pois do meu quarto, e baixando d’essas -regiões phantasiosas ao mundo real, me via cara a cara com uma atroz -desillusão, conservava-se-me o rosto impassivel, e nem o mais leve -franzir dos labios, nem uma só ruga da face denunciavam os tormentos, -que vinham saltear-me. - -Alberto não mostrava perante mim o minimo embaraço. Espantava-me -esta quasi indelicadesa n’um homem tão delicado. Bem sei que elle -não tinha nem sequer obrigação moral de submetter á minha opinião -o seu procedimento. Bem sei que, não tendo commettido culpa alguma -para comigo, não tinha que se embaraçar em minha presença... mas -emfim... ha certos escrupulos... exagerados talvez... pontos d’honra -nimiamente requintados... não digo o contrario... o vulgo, ainda o mais -escrupuloso rir-se-hia d’esta minha pretenção... mas eu julgava Alberto -por tal fórma differente do vulgo... achava-o tão capaz de comprehender -estas coisas...! - -Como viram, não era a primeira vez que me illudia nos juizos formados a -respeito de Alberto. - -Uma tarde, mal acabamos de jantar, fomos dar um passeio a cavallo, eu, -D. Antonia, Carolina, e Jeronymo. Alberto não apparecera; por isso, com -visivel contrariedade da afilhada da condessa, fomos sem elle. - -Comtudo Carolina teve a habilidade de dirigir o passeio de fórma, -que pudessemos encontrar Alberto no caminho. Propoz que fossemos até -Bellas, para aproveitarmos o resto da tarde, passeando na quinta -do conde de Pombeiro. D. Antonia concordou. Jeronymo disse que lhe -era indifferente ir para um ou para outro lado, e eu, que formava a -minoria, não tive remedio senão acceder. - -Partimos. - -Sairam errados os calculos de Carolina. Não encontramos Alberto. - -O calor do dia (um dos primeiros de junho) dissipara-se um pouco, sem -desapparecer de todo. As frescas sombras da quinta do Senhor da Serra -estavam-nos convidando a irmos deliciar-nos com ellas. Apeamo-nos, -entregamos os cavallos ao creado, e entramos na quinta. - -Carolina estava visivelmente preoccupada, e afastava-se a cada instante -de nós, para ir espreitar as lamedas transversaes, como se esperasse -que o acaso a favorecesse mais do que o seu calculo. D. Antonia dera -o braço a Jeronymo, e conversava com elle. Eu ficara isolada, e, -procurando completa solidão, fui affrouxando a pouco e pouco o passo, -até que perdi de vista os meus companheiros. Estava só. - -Sempre gostei immenso d’essas lamedas sombrias d’arvores seculares, que -se encontram n’alguns dos nossos velhos parques. Em Cintra abandonava -as garridas quintas modernas para passear nas melancholicas devesas -da Penha Verde, ou nas ruas graves e aristocraticas do Ramalhão. No -outono principalmente, quando as folhas seccas rangem debaixo dos -pés dos passeantes, quando os ramos, despojados do seu verde ornato, -cruzando-se-nos por cima da cabeça, deixam ver o céo pesado e triste, -não conheço goso comparavel ao de passear e scismar por entre esses -longos renques d’arvores centenarias, que meneiam, ao sopro da brisa, -as suas frontes calvas. - -Mas não estavamos então no outono, e a ramaria, toda folhuda e -verdejante, formava sobre mim uma copada abobada, cujo verde se -esmaltava com o oiro dos raios do sol, que a muito custo se lhe coavam -pelos intersticios. N’esses estrados de folhagem poisavam-se bandos -e bandos de passarinhos, cujo alegre chilrear povoava a espessura de -harmonias, docemente acompanhadas pelo melodioso murmurio da agua das -fontes. - -Expirava aquella solidão não sei que vagos effluvios de tranquilidade -e remanso. Cedi ao inexprimivel encanto, e fui-me embebendo n’uma -suave melancholia, que me enliava os sentidos e m’os absorvia todos no -goso de devaneios, que purificava. Caminhando vagarosamente na extensa -rua, haurindo os perfumes fortes que o arvoredo exhalava, enlevando-me -no canto das aves, tirei a flôr secca do peito, e contemplei-a com -ternura. Creio até que a estava beijando, quando subito, n’um dos -meandros da lameda, dei de cara com Carolina. - -Escondi a flôr com precipitação, e fiz-me toda vermelha. - ---Oh! temos segredinhos, disse ella desatando a rir, que flôr era essa -que beijava tão devotamente? Se estivesse fallando com um cavalheiro, -adivinharia logo que essa rosa caira das tranças da dama dos seus -pensamentos; mas, fallando com uma senhora, torna-se o caso mais -difficil de averiguar. Não me ajuda? - ---Permitta-me que não escolha confidente, respondi eu com frieza. -Costumo guardar os meus segredos, mesmo quando, como este, nada têem de -melindroso. - ---Quem suspeita o contrario? Mas já vê, continuou Carolina, que se me -não faz confidencias, não é porque não tenha assumpto para ellas; -apanhei-a em flagrante delicto de diplomacia. Oh! não me zango com -isso; sempre tive muita consideração pelas pessoas que sabem esconder -bem o seu jogo. Mas ao mesmo tempo que presto justiça á sua habilidade -diplomatica, deixe-me tambem prestar justiça á sua veracidade. Eram -erroneas as minhas supposições ácerca de Alberto Mascarenhas, e -verdadeiras as suas negativas. - ---Já o sabe? tornei eu com ironia. - ---Oh! tenho optimas rasões para o saber, respondeu ella impudentemente. - -Appareciam n’este momento D. Antonia, e Jeronymo Freitas. - ---Já vae caindo o crepusculo, disse a tia de meu marido, e bom será que -voltemos para casa. Não desejo apanhar n’esta quinta o frio da tarde. - -Saimos; o creado estava á nossa espera ao portão. Montamos a cavallo, e -seguimos pelo caminho da nossa aldeia. - -Eu tomara a deanteira, mettendo o cavallo a trote. A agitação, que por -instantes se acalmara, refervia-me de novo na mente, excitada pelas -palavras de Carolina. - -Esta veio collocar-se-me ao lado, e, obrigando-me a moderar o passo do -cavallo, continuou a conversação principiada na quinta. - ---Ora, mas diga-me com sinceridade, tem ciumes? - ---Ciumes de que? redargui eu, franzindo ligeiramente o sobr’olho. - ---Da intimidade que existe agora entre mim e Alberto. - ---Isso assemelha-se a um insulto, minha senhora, respondi, insulto que -demais a mais não comprehendo, depois do que me disse ainda ha pouco. - ---Oh! meu Deus, não se zangue; quem lhe falla em amor? A amisade não -inspira tambem zelos? - ---A mim não, decerto; estimo até que os meus amigos se liguem com -pessoas _dignas do seu affecto_. - -E involuntariamente accentuei estas ultimas palavras. - ---O que quer dizer, tornou Carolina serenamente, que me acha -completamente indigna d’essas affeições. Oh! minha querida, sou -perfeitamente da sua opinião. Infelizmente Alberto não está de accordo -comnosco sobre esse ponto importante. Que quer que eu lhe faça? - -Não lhe respondi. Caminhamos alguns instantes em silencio. - ---Alberto, tornou Carolina no tom mais placido d’este mundo, é -realmente um dos rapazes mais amaveis que tenho encontrado. Associa -ao caracter nobre espirito a um tempo reflexivo e prompto, e coração -ardente; raro conjuncto de predicados. A sua voz insinuante exerce -sobre quem o escuta um dominio incomprehensivel, o seu olhar meigo e -ardente captiva e abrasa. É um poeta na linguagem, um principe nas -maneiras, um anjo no sentir. É a realisação d’esse marido ideal, que -todas nós devaneamos aos quinze annos, antes de descermos á prosa do -mundo para casarmos com os Jeronymos Freitas, e com os Claudios da -Cunha. - ---Tudo isso é amisade? - ---Não; é amor, bem sei, continuou Carolina no mesmo tom sereno. Olhe, -eu não sou diplomata senão com a tola da condessa, e com a sua beata -roda. Mas fico sempre tão fatigada do papel que me vejo obrigada a -desempenhar todos os dias, que, mal entro nos bastidores, não tenho -forças para pôr outra vez a mascara, e voltar de novo á scena. Por isso -lhe fallo tão francamente. Sim; liga-me a Alberto um amor profundo. -É abominavel? Ora se é! Immoral? d’um modo aterrador. Mas, filha, -tenciono consagrar a minha velhice a um longo arrependimento. Hei de -ir a Roma, hei de fundar um convento, dois asylos, tres hospitaes, -proteger orphãs e fazer meias de lã para as creanças indigentes, -obras pias de que seria dispensada, se não passasse a minha mocidade -a commetter alguns peccaditos, que exijam penitencia. Já vê que lucra -com isto a beneficencia publica. Tive a fraqueza de amar Alberto. Não -a teria, se suspeitasse que o ia tirar do lanço á minha boa amiga. Mas -não; soube que era falso tudo quanto a D. Antonia dissera, soube que se -não amavam, e ficou-me a consciencia tranquilla. Disse-m’o elle mesmo. -A minha querida Margaridinha, que sabe quanto é poderosa a influencia -da poesia, pode comprehender o modo como eu cedi aos protestos d’amor -d’esse gentil moço. Era por uma tarde tão linda como esta; estavamos -ambos sós na sala, contemplando o horisonte dos campos. Alberto -murmurava-me ao ouvido essas palavras deliciosas, que sempre eccoam -n’um coração feminino. A belleza do céu, as harmonias campestres, o -doce murmurio da sua voz, a poetica auréola com que o sol moribundo lhe -cingia a fronte, a solidão da sala, tudo conspirava contra mim. Senti-o -aproximar-se... - ---Oh! basta! basta! exclamei eu, completamente louca e desvairada, n’um -paroxismo de dor, sem saber o que dizia, nem o que fazia, não quero -ouvir mais as suas infames e mentirosas confidencias. - -E, fustigando o cavallo com o chicote, parti n’um galope desenfreado, -soluçando a um tempo de dor, de raiva e de vergonha. A viração da tarde -trouxe-me ainda ao ouvido uma gargalhada de Carolina, e estas palavras, -que proferia ironicamente: - ---E não o amava? - - - - - XVIII - - -N’um momento cheguei a casa. Apeei-me, atirei as redeas para cima -do pescoço do cavallo, e subi a escada impetuosamente. Ia lavada em -lagrimas; que me importava que me vissem? Estava consummada a minha -vergonha. - -Abri a porta da sala e entrei. Não estava ermo o aposento. Ouvindo -a bulha dos meus passos, alguem, que se encostava ao peitoril d’uma -janella, voltou-se para a porta. Era Alberto. - -Eu perdera completamente o imperio sobre mim mesma. Corri para elle, -travei-lhe das mãos, e disse-lhe com a voz entre-cortada pelos soluços: - ---Não é verdade? Não é verdade que a não ama? Aquella mulher mentiu? - ---O que é isto, minha senhora? tornou Alberto, no auge da inquietação, -o que quer isto dizer? Que inexplicavel infortunio...? - ---Oh! mas diga-me, diga-me que a não ama, tornava eu chorosa e -supplicante, diga-me que não ama Carolina. - ---Oh! respondeu elle n’um impeto, e fazendo um gesto de energica -repugnancia, oh! juro-lh’o. - ---Obrigada! obrigada! murmurei eu; bem sei que sou uma doida, que me -estou perdendo, que sou uma mulher vil, indigna da sua estima; porém -não pude, soffri muito, quando ella me disse que se amavam:--a dôr -foi... incomportavel. - ---Soffreu! respondia Alberto com voz tremula, e apertando-me as mãos -com impeto febril, soffreu, mas então... mas n’esse caso... - ---Amo-o; não é isso que quer dizer? tornava eu como louca; sim, é a -verdade, a verdade terrivel, fatal, ignominiosa. - ---Ama-me! exclamou Alberto. - -E, soltando as mãos, levou-as á fronte, como se temesse que lhe -rebentasse ao impulso da lava, que lhe refervia lá dentro. E, voltando -a travar-me das mãos, com os olhos incendidos n’um fulgor estranho, -como se os houvesse abrazado a chamma de loucura que ardia nos meus: - ---Ama-me! Oh! não me falle! não me falle! deixe-me ouvir os eccos -innumeraveis que essa palavra magica me desperta no coração! Oh! não -me acorde d’este sonho! peço-lh’o, deixe-me aqui morrer com os olhos -enlevados n’esta visão beatifica... - ---Sonhemos, dizia-lhe eu debulhada em lagrimas, oh! sonhemos depressa, -porque o despertar vem cedo, e o despertar é o opprobrio. - -E caí prostrada n’uma cadeira; elle ajoelhou aos meus pés, beijando-me -convulso as mãos. - ---Que importa? E cuidas que este momento de felicidade não paga de -sobejo todas as amarguras d’uma longa vida? Julgas que esta auréola -d’amor que nos circunda a fronte, não tenha luz bastante para derrotar -a sombra do estygma que o mundo nos inflige? - ---E a consciencia... tornava eu. - ---Depois, depois, dizia-me elle, não pensemos n’isso agora. Apaguemos -da nossa vida por um instante só esses longos annos que separaram o meu -sonho d’adolescente d’esta ineffavel realidade. Por um instante só, -Margarida... Margarida, Margarida, deixa-me saborear o prazer louco -de te repetir mil vezes syllaba a syllaba, lettra a lettra, esse nome -querido, que tantas vezes balbuciei sósinho no segredo do meu quarto. -Deixa-me impregnar cada uma das suas melodias no amor immenso, que -represei no coração, e que trasborda afinal. Filha, bem vês, peço-te um -só instante para me pagar de tantos annos de angustias, de seculos de -tormentos. Não é muito, não; concedes-m’o? Oh! meu Deus! mas eu tenho -tanto que te dizer! não posso, não sei, adivinha, sim? Fita os teus -olhos nos meus, lê n’elles, estrophe a estrophe, o louco poema, que -uma voz ignota me canta no coração. E lembrar-me eu que pude suspeitar -um instante que deixara de te amar, e uma palavra tua perturbava-me, -e um sorriso teu enlouquecia-me, e uma attracção indizivel chamava-me -para aqui. E pude fingir que fazia a côrte a Carolina, só para ter um -pretexto de ficar junto de ti, o pretexto de te livrar das suspeitas -calumniosas! E fingi corresponder ás suas impudentes provocações, para -te ver sempre, sempre; porque és tu a minha vida, a minha mocidade, a -estrella da minha noite, a flor do meu deserto, perola do meu sombrio -occeano, a lampada do meu ermo sanctuario. - ---Oh! tenha dó de mim, Alberto, salve-me d’esta vergonha, livre-me -d’esta vertigem; não vê que as suas palavras augmentam cada vez mais -a incrivel fascinação que me arrasta para o abysmo? E eu não quero -aviltar-me; ame-me, já que a fatalidade assim o quer, mas com um amor -de irmão. - ---Sim, Margarida, sim, de irmão. Não vês como te adoro! Ordena o -impossivel, e pratical-o-hei. Oh! mas estas louras tranças, que ondeiam -por deante dos meus labios, deixa-me beijal-as, são estas mesmas as que -o sol doirava, quando te vi, aéria fada, como que fluctuar entre as -primeiras sombras do crepusculo. Beijo as minhas recordações. - -E beijava-me os cabellos espargidos no collo; mas eu, repellindo-o, -disse-lhe brandamente: - ---Alberto! - -Elle parou e fitou em mim um olhar submisso. - ---Deixe-me, continuei eu; saia, que já ouço o tropear dos cavallos. - -Alberto travou-me das mãos, contemplou-me um instante, beijou-as com -fervor, e saiu, dizendo: - ---Amo-te! - - - - - XIX - - -Fiquei longo espaço com o rosto escondido nas mãos; quando ergui a -cabeça, estava D. Antonia deante de mim. - -Fluctuava-lhe nos labios um sorriso de triumpho; lampejava-lhe nos -olhos um fulgor infernal. Vencera, conseguira o seu fim, colhera o -fructo dos seus longos esforços; e eu despenhara-me dos pincaros do meu -orgulho no abysmo para onde me tinham impellido. - -Sempre aquelle vulto me apparecia nas horas em que me sentia resvalar -para a vergonha. Dir-se-hia a imagem de Satanaz, procurando occasião -propria para me roubar a alma, e levar-m’a para o Barathro. E não era -um sorriso diabolico o seu? - -Senti correr-me um calafrio pelas veias. Mas depois reagi contra esta -primeira fraqueza, e, colhendo na minha propria exaltação energia -bastante para affrontar aquella mulher infernal, ergui-me e fitei -n’ella os olhos scintillantes. - ---Está tão agitada! exclamou D. Antonia com ironia. Já principia o -remorso? - ---Já! disse-lhe eu com intimativa. Está satisfeita? Reveja-se na sua -obra. - ---Na minha obra! tornou ella, pondo as mãos, e erguendo-as ao céu! Só -isto me faltava! Diga antes que se realisa o que eu prophetisei sempre! -Não querem ouvir as verdades, e aqui está o que succede! Não attendeu -aos meus conselhos, deixou-se antes levar pelas suggestões do demonio, -e o resultado foi perder-se sem remissão. Lavo d’ahi as minhas mãos; eu -avisei-os a todos. - -Injuriaram-me, criminaram-me, e a final voltam-se contra mim. Já estou -costumada a isto. Deus m’o levará em conta. - ---Mas o que succede? tornei eu indignada. Que supposição está formando? - ---Oh! tornou ella rindo; não é difficil adivinhal-o. Se já o não -tivesse sabido por outro lado, a sua agitação tudo me diria. Compete-me -agora avisar meu sobrinho do perigo em que a sua honra está. - ---Avise-o, tornei eu; mas diga-lhe tambem que está mais em segurança -confiada a mim do que se estivesse nas mãos d’uma d’essas hypocritas -beatas, que tão impudentemente infringem a moral que professam. - ---Como quer que eu lhe diga semelhante coisa? respondeu ella; quer que -o illuda ainda, quer que lhe aperte bem a venda que a minha sobrinha -com tanta habilidade lhe poz nos olhos? Engana-se; não sou para esse -papel. Julgar-me-hia sua cumplice se assim procedesse. A desculpa do -vicio é um ultrage á virtude. Quem não quer ser lobo não lhe veste -a pelle. Deseja ver-me protectora d’essa vergonhosa ligação, que me -confessou tão descaradamente? Engana-se, minha Philis. Procure outras -para esse cargo. Ora não ha, hei-de-lhe arrancar a mascara. - ---Não a tenho, bem vê; mas fite bem os seus olhos no meu rosto, e verá -que não córo. - ---Porque não tem vergonha. - ---Porque não tenho de que me envergonhar, logo que as accusações que -me são dirigidas tomam esse caracter offensivo. Se uma fatalidade -inexoravel despertou no meu peito um sentimento que não pude dominar, -póde estar certa que nunca lhe sacrificarei o meu dever. Combatel-o-hei -com energia, e hei de arrancar do meu coração essa planta funesta, que -tanto a meu pesar viçou e cresceu n’este jardim, que se obstinavam em -conservar deserto. O calice de amargura bebel-o-hei até ás fezes, sem -que os outros o cheguem sequer aos labios. Soffrerei em silencio, e com -dignidade. Que mais podem exigir de mim? - ---Isso é muito poetico effectivamente, respondeu D. Antonia com ironia, -estou que outros mais justos a adorariam como uma santa, mas duvido que -o meu sobrinho esteja disposto a admirar e a apreciar estas subtilesas -com que se disfarça um adulterio parecido com todos os adulterios. -Eu de mim confesso que não percebo essas bonitas phrases. Uma mulher -casada não deve pensar senão em seu marido, e tratar da sua casa. Foi -isto o que toda a vida me ensinaram. Essas frandulagens de romance -são boas para enganar os parvos. Era melhor que tratasse de cumprir -fielmente as suas obrigações de esposa e de christã. - ---Oh! isso é de mais, respondi eu altiva. Exigem de mim o cumprimento -de um dever, esse dever tenho-o eu cumprido, e hei de cumpril-o sempre -com inabalavel intrepidez. Sacrificar-lhe-hei a minha vida inteira, -deixarei fenecer n’essa atmosphera gelada a flor da minha juventude. -Mas o sanctuario recondito da minha alma não consentirei que m’o -invadam. N’esse domino eu só, n’esse abrigo os affectos intimos, a que -presto culto no segredo da minha consciencia. D’essa região sagrada -defenderei até a morte a inviolabilidade. É o ninho dos meus sonhos, a -urna do balsamo, que me allivia um pouco as dores lancinantes do meu -viver atroz. Não lhe toquem, não a profanem. Tudo o mais lhes cedo, -tudo o mais sujeito á sua despiedosa fiscalisação. - -Persigam-me, atormentem-me, analysem cada um dos meus actos, -interpretem-n’os favoravel ou desfavoravelmente; estou a isso -resignada. Mas quando a final, depois de haverem saciado o seu odio -implacavel, me deixarem tranquilla por um instante, não queiram violar -o meu asylo, não queiram perturbar a paz do meu espirito, não queiram -envenenar com o seu halito impuro essa atmosphera serena, onde fluctua, -não queiram macular com a sua baba asquerosa as rosas, em cujo calice -se baloiçam as minhas brancas borboletas. Esse direito sagrado, essa -liberdade inalienavel do pensamento serão defendidas por mim ate á -morte. Só o amor conhece as palavras mysteriosas que descerram as -portas d’esse tabernaculo; o dever, gélido, frio, insensivel, não -póde ultrapassar os limites da vida exterior, que está unicamente -debaixo da sua alçada. Diga isto mesmo a Claudio, já que meu marido -prefere relacionar-se comigo por via de emissarios a appellar para a -minha franqueza. A minha vida, as minhas acções pertencem-lhe; não lhe -pertencem nem o meu coração nem os meus pensamentos. Estampe na minha -fronte o ferrete da infamia, se alguma vez eu lhe der direito a que -suspeite que trahi a fé conjugal, e puz em perigo a honra do seu nome. -Mas se ainda assim tentar arrogar-se sobre mim um direito, que nem os -mais despoticos tyrannos têem podido reivindicar; se intentar algum -acto escandaloso, que me deshonre aos olhos do mundo, lembre-se que -toda a vergonha e toda a responsabilidade cairão sobre a sua cabeça, e -que os mais severos moralistas não ousarão justificar o procedimento -de um homem, que, deixando sua esposa entregue a todas as tentações da -mocidade e a todos os vituperios da calumnia, se acha com direito de -exigir mais do que o escrupuloso respeito dos deveres do matrimonio, -e persegue no mais intimo arcano de um coração feminil os timidos -devaneios de um amor que elle nunca se deu ao trabalho de requestar. - -E, deixando ficar D. Antonia estupefacta com a vehemencia do meu -discurso, saí da sala precipitadamente, e fui-me refugiar no meu -quarto. - - - - - XX - - -Comtudo era impossivel que esta situação falsissima se prolongasse por -muito tempo. Estavamos todos embaraçados e constrangidos. Alberto, -passado o primeiro momento de extasi, caira n’um abatimento visivel. -Acudia-lhe o rubor ás faces sempre que apertava a mão a Claudio; -e este, inquieto e sombrio, estendia-lhe a mão com repugnancia, e -mostrava-lhe uma frieza quasi insultante. A partida de Alberto era a -unica solução possivel; sentia-o elle e não tinha animo para se apartar -de mim; sentia-o eu tambem e não tinha forças para lhe pedir que o -fizesse. - -Certa da victoria, D. Antonia excitava Claudio a dar um golpe decisivo; -Carolina, furiosa por se ver burlada quando imaginara burlar-me, -juntara-se francamente aos meus inimigos, e, fazendo côro com sua -madrinha e seu marido, bradava que um tal escandalo, se continuasse, -era capaz de corromper a atmosphera de Bellas por tal fórma, que -nenhuma senhora honesta se resignaria a habitar n’aquelles arredores, -com medo de aspirar, nos haustos de um ar até ahi tão puro, pensamentos -adulteros e criminosas tentações. - -O padre prior, que não percebia nada do que lhe diziam, apoiava tudo, -confirmando os appoiados com estrepitosas pitadas, disfarçando tambem -d’essa fórma os remorsos que sentia por abandonar assim a causa de -Alberto, com quem sympathisava desde que este, com generosa abnegação, -se prestara a substituir uma ou outra vez o proscripto Theodoro Leite -na mesa do voltarete. - -Comtudo, eu e Alberto andavamos sempre arredios um do outro, e não -davamos o minimo pretexto para que este mysterioso drama tivesse o -desenlace que os nossos inimigos desejavam. Esta obstinação em não -favorecermos os seus planos irritava D. Antonia, e fazia-a commetter -erros de toda a especie. Mostrava-se umas vezes indignada com a -hypocrisia das pessoas, que sabem disfarçar aos olhos do mundo o -crime que descaradamente confessam em particular; outras vezes, pelo -contrario, mostrava-se amabilissima comigo e com Alberto, e por tal -fórma nos incitava a que passeassemos juntos, que esta insistencia -chegava a dar-lhe ares de desempenhar um papel pouco em harmonia -com a dignidade _meticulosa_ de que tanto blasonava. Só emmudecia -quando o sobr’olho fransido de Claudio, o meio sorriso de Alberto, e -os multiplicados signaes de Carolina lhe faziam perceber que a sua -impaciencia a fizera entrar n’um mau caminho. - -Principiou então a adoptar um melhor systema; fingiu que se havia -esquecido de todo das suas suspeitas, e das minhas revelações; fingiu -confiar plenamente no que lhe eu dissera, e não querer por forma -alguma intervir no desenlace de tão penosa situação. Cuidou talvez -que, desassombrada da sua continua vigilancia, e do constante «álerta» -com que as suas provocações espertavam as minhas suspeitas e me tinham -sempre preparada para o combate, cederia á fascinação e me deixaria -indolentemente resvalar para o abysmo. - -Enganava-se julgando que a lucta em mim era apenas filha do capricho -e da necessidade de disfarçar aos olhos de meu marido as minhas -criminosas relações. Não podia ella comprehender que o amor e a honra -se combatessem lealmente no meu peito, e que o meu espirito encontrasse -sempre novas forças no sentimento da propria dignidade para reter as -perfidas suggestões do coração. - -Mas esse pelejar incessante prostrava-me e desfallecia-me. Minguava-me -não o valor, mas o alento physico para supportar as consequencias -da victoria. Eram terriveis para mim essas formosas e breves noites -de estio, passadas a velar na minha alcova solitaria, a ver a lua -espraiar-se no chão do jardim, e a voluptuosa penumbra a aninhar-se -nos recantos. Surprehendia-me a alvorada immovel na minha janella, -assistindo ao esvair da minha mocidade, fada cada vez mais pallida, -entre os primeiros clarões do horisonte matinal. E esses fugitivos -poemas, que me tinham consumido as horas nocturnas, murchavam-me a -flôr da juventude, que toda se desfazia em fragrancias, com que se -perfumavam essas vagas estrophes, que me voavam nem eu sei para onde, -nas azas da viração. - -Assim passou uma semana. - -Jantaram um dia em nossa casa Carolina e Jeronymo. Quando acabamos de -jantar, fomos tomar café para a sala. Começava a cair o crepusculo, -um d’esses crepusculos de estio, serenos e harmoniosos. As janellas -abertas deixavam entrar os longiquos murmurios do campo, o melancholico -mugido do boi, que volta para o curral, o grito prolongado do pastor, -o som grave e religioso do sino das Ave-Marias, e d’envolta com estas -campestres melodias vinham tambem os vagos aromas que as flores das -noites rescendem n’essa hora mysteriosa. - -Entrou Alberto, quando eu me fôra sentar ao piano, a pedido de -Carolina, que instava comigo para que tocasse um trecho da _Luiza -Miller_, muito da sua predilecção. Era uma das mais suaves e mais -melancholicas romanzas de tenor, uma das mais mimosas perolas d’esse -collar de melodias, que, n’uma hora de inspiração, Verdi desfiou sobre -o publico dilettante. O crepusculo já déra logar ás sombras da noite; -não havia ainda luar, mas estava tão estrellado o céu, e era tão suave -aquella penumbra que ninguem se lembrou de pedir luz. Agruparam-se -todos em torno do piano, e estava eu preludiando, quando entrou -Alberto, como já disse. - -Interrompi-me á sua chegada, mas elle, apenas fallou ás pessoas -presentes, disse logo: - ---Oh! minha senhora, teria eu remorso eterno, se por minha causa -ficassem os rouxinoes do seu jardim privados d’uma nota só d’esse -cantico delicioso, que lhes ha de ensinar a celebrarem ainda melhor -do que celebram os encantos d’uma noite estrellada. Continue vossa -excellencia. - ---Chegou muito a proposito, senhor Alberto Mascarenhas, acudiu -Carolina; ia-se tocar a romanza do tenor; commettiamos um sacrilegio -confiando a um piano, ainda que tocado admiravelmente, o cantico -sublime, digno só de ser entoado pela voz humana. Valha-nos pois, -cante-nos a romanza. - ---Por Deus, senhora D. Carolina, o que diriam os rouxinoes? -Excommungavam-me de certo, e encarregavam os mochos e as corujas de -executarem a sentença, poisando todas as noites no tecto da minha -hospedaria. Posso affiançar a vossa excellencia, que nas pontas dos -dedos da senhora D. Margarida está escondido um Mongini, que lhe vae -cantar admiravelmente a aria que me pede. - ---Não, não, respondi eu rindo, engana-se. Mongini rasgou a escriptura, -de fórma que os meus dedos declaram positivamente que só estão -disponiveis para acompanhamentos. - ---Bem, por minha causa não quero que se feche o theatro. Estou prompto -a obedecer ás ordens de vossas excellencias. - -Alberto possuia uma bonita voz de tenor, pequena sim, mas dramatica, -se me permittem o termo. Reproduzia admiravelmente cada inflexão da -melodia, cada intenção do maestro. Identificava-se com a musica, e -perfumava-se de suave tristeza, ou irrompia em gritos de paixão, ou -tomava o tom elegante do galanteio frivolo, conforme cantava, ou o _Ah! -perché non posso odiar-ti_ da _Somnambula_, ou o _Mentré contemplo_ das -_Vesperas Sicilianas_, ou o _Questa o quella_ do _Rigoletto_. - -Corri os dedos pelo teclado, e preludiei depois, fazendo brotar das -teclas as notas graves da introducção. - -A extrema luz crepuscular illuminava escassamente o pallido azul do -céo, onde palpitavam as estrellas. A placidez da noite proxima, a -serenidade da atmosphera, o profundo silencio que reinava no aposento, -silencio quebrado apenas pelos frouxos e derradeiros murmurios do -dia, predispunham a alma para esse embevecimento mudo e extatico, -melancholico e religioso, que esse canto grave, simples, e vago como -uma melodia exhalada espontaneamente da harpa gigante da natureza, é -tão proprio para inspirar. A voz de Alberto ergueu-se pura, limpida, -mas levemente commovida. Creio que todos sentimos um inexprimivel -encanto ao ouvirmos as primeiras notas suaves e serenas, que tão bem se -casavam pelo tom e pela letra com o espectaculo que nos rodeava: - - _Quando le sere, al placido - Chiarore d’un ciel stellato_ - -O canto espraiava-se pela planicie, ia expirar ao longe em languido -murmurio, e acordava milhares de eccos mysteriosos. Os campos, -adormecidos no voluptuoso regaço d’essa hora magica, despertavam ao -ouvirem essa harmonia, synthese admiravel das suas vozes confusas. Eu -estava profundamente commovida, sentia que Alberto cantava para mim -só, que era para mim que elle deixava expandir-se a sua alma em cada -uma das notas d’esse cantico. A sua voz era apenas um frémito, quando, -n’essa doce lingua italiana, recordava as meigas horas em que, de mãos -enlaçadas, fitavamos o céu onde esmoreciam os ultimos raios do sol. -Porque eu chegara a convencer-me que tudo aquillo era verdade e não -ficção, que era eu a heroina da opera, elle o meu apaixonado, e quando, -todo embevecido n’essas recordações, Alberto, como que esquecendo-se do -presente, concentrou toda a sua alma, toda a sua paixão n’aquelle grito -immenso de amor e de jubilo: - - _Allor parea l’Empireo - Aprir-se all’alma mia_ - -não pude conter mais os sentimentos, que me trasbordavam do peito, e -deixando cair os braços e interrompendo o acompanhamento, contive a -custo os soluços e deixei as lagrimas silenciosas golpharem-me dos -olhos e inundarem-me as faces. - -Alberto calou-se de subito, os ouvintes levantaram-se dizendo: «O que é -isto?» Meu marido approximou-se logo de mim, relanceando para Alberto -um olhar cheio de odio, e perguntando-me rudemente: «O que tem?» - ---Nada, nada, respondi eu com voz bastante firme; uma dor violenta que -me surprehendeu, mas que já me passou. - ---No coração? perguntou D. Antonia com fingida ingenuidade. - ---Sim, no coração, respondi eu com altivez; mas comprimi-a já. - ---Essas dores são muito más, tornou ella, vem quando menos se esperam. - ---Mas não vencem apesar d’isso, continuei eu. - -Claudio ouvia este dialogo com modo sombrio. - ---A senhora D. Margarida, acudiu Carolina, é muito nervosa, e as -pessoas nervosas facilmente se deixam impressionar pela musica. Demais -a mais o senhor Alberto Mascarenhas cantou com tanto ardor, tanto de -coração, que não admira que produzisse este effeito. - ---Engana-se, minha senhora, respondi eu; nada tem com este incommodo -passageiro o canto e a musica; vou-me deitar em cima da minha cama um -instante, e voltarei restabelecida. - ---Vá, vá, tornou D. Carolina cariciosamente. Desabafe que lhe ha de -fazer bem. - -Não lhe repliquei, e saí. Quando cheguei ao meu quarto, foram-me -allivio as lagrimas. Entre a minha afflicção, comtudo, avultava uma -idéa fixa. «Não, dizia eu comigo mesma, isto não póde durar. Vejo -dois caminhos abertos deante de mim, o do amor e da perdição, e o da -salvação e do martyrio. Ou entregar-me á paixão fatal, que me domina, -fazer a vontade a esta gente e procurar no amor de Alberto consolações, -que me abafem os remorsos, ou fazer cessar esta lucta perigosa, dizendo -a Alberto que parta, encerrando as lagrimas no peito, e engolphando-me -brutalmente n’esta existencia mesquinha, que me ha de assegurar a -consideração da condessa, a estima de D. Antonia e a tranquillidade -talvez. A tranquillidade? Palavra d’ora em deante sem sentido para -mim! Se conquisto a paz exterior, as tempestades nem por isso deixarão -de me bramir no coração. Mas que importa? O cumprimento de um dever -nunca deixa de ser acompanhado por intima satisfação, e será esse o -magico talisman que abrandará o soffrimento, a que a minha vida vae -ser condemnada. É preciso, é indispensavel que Alberto se ausente. -Ausentae-vos com elle, sonhos tentadores, perigosos devaneios, frémitos -da juventude, que se revolta contra o cilicio, aspirações do meu -espirito para o mundo luminoso, d’onde o dever o repelle.» - -Armando-me de coragem, desci á sala, decidida a pedir a Alberto uma -entrevista, para lhe explicar francamente a minha situação, e rogar-lhe -que me facilitasse o sair d’ella. - -Já lá estavam a condessa, o padre prior e a baroneza. - -Como a tactica de D. Antonia consistia em me deixar a maior liberdade, -julguei que poderia facilmente fallar de relance a Alberto. Mas o ciume -de Carolina parece que fôra excitado pela scena do piano, de forma que -não fez senão interpor-se constantemente a nós ambos, e não nos deixou -sós nem um instante. - -Já perdera as esperanças de lhe fallar, e até já me despedira d’elle -e das outras visitas que se retiravam, quando, ao atravessar a saleta -para subir para o meu quarto, encontrei Alberto, que subia de novo para -buscar alguma coisa, que lhe esquecera. - -Travei-lhe da mão, e disse-lhe apressadamente: - ---Preciso muito de lhe fallar: ámanhã, ás duas horas da noite, venha -ter comigo ao jardim. Enviar-lhe-hei a chave. - -Alberto ficou mudo d’assombro. Eu nem lhe dei tempo a responder-me. Saí -precipitadamente, e, ao abrir a porta, esbarrei n’um vulto. - -Era a Maria do Rosario. - ---Que estava aqui a fazer? perguntei eu com indignação. - ---Nada, minha senhora, respondeu ella com toda a naturalidade; vinha -apagar as luzes. - -E entrou effectivamente para a sala. - -Era possivel que fosse essa a verdade, e, se o não fosse, que me -importava? Denunciasse-me embora; eu ia jogar a ultima carta, e estava -disposta a confiar-me cegamente ao destino. - -Comtudo, até para dar esse passo, que me devia salvar da vergonha, -precisava de humilhar o meu orgulho aos pés de uma creada; é verdade -que essa creada, antes amiga, era a boa Quiteria, a pobre velha, -que tão desinteressadamente se dedicara a mim. Só d’ella me podia -valer para conseguir que fosse entregue a Alberto a chave, que era -indispensavel para a nossa ultima entrevista. - -Portanto, no dia seguinte chamei-a ao meu quarto, e como ligava muito -mais apreço á opinião da boa e pobre Quiteria do que á da altiva D. -Antonia, e da virtuosa condessa, contei-lhe pela rama a historia das -minhas relações com Alberto, não lhe fallei em subtilesas de coração, -mas disse-lhe que, vendo-me calumniada por causa d’aquelle homem, -queria ter uma conferencia com elle para lhe pedir que se retirasse -e não me expuzesse mais, ainda que involuntariamente, aos juizos -desfavoraveis das pessoas com quem estava condemnada a viver. Terminei -rogando-lhe que se encarregasse da missão que eu desejava confiar-lhe. - ---Minha boa menina, respondeu-me a Quiteria, tenho dado fé das -intrigas, que a cercam, e sei perfeitamente que a senhora D. Margarida -está innocentinha como um anjo do céu. Dá-me vontade ás vezes de -esganar os seus perseguidores! Já não fallo no senhor Claudio, que -esse no fundo é muito boa pessoa, assim elle soubesse ser dono da sua -casa. Mas a senhora D. Antonia, Deus me perdôe, parece mesmo que tem -o demonio ao lado que lhe está aconselhando a maldade. E a Maria do -Rosario? Ai! que boa peça! Anda sempre, como o outro que diz, com o -santo nome de Deus na boca, e o diabo no coração. Aquillo até chega a -ser heresia. Por isso todos lhe teem raiva, e se não fosse por minha -causa, o meu Simão já lhe tinha quebrado os ossos, quando a pilhava a -espreital-a, e a ir metter no bico da senhora D. Antonia tudo quanto a -menina faz! Mas eu que sou muito sua amiga, porque vejo que é boa com -a gente pobre, e que não se contenta em lhes dar uma fatia de pão, com -modos de quem dá uma facada, como fazem essas beatas fingidas; mas que -é meiga, affavel com elles, que os trata bem, e não lhes faz sentir a -sua humildade e a sua dependencia, que não ha coisa mais triste, santo -nome de Jesus. Andar uma pessoa a comer as sopas d’outrem... - ---Mas o que é que ia a dizer, tia Quiteria? interrompi eu, porque a via -disposta a amontuar incidentes sobre incidentes, e a perder o fio da -oração principal. - ---Ah! é verdade, já me esquecia... Tenha paciencia, minha boa senhora, -que isto de velhas gostam muito de dar á lingua, e, em ellas começando, -não ha fazel-as parar. Misturam alhos com bugalhos, e nunca chegam ao -fim, como succedeu na noite em que a menina chegou, que me enredei por -tal fórma, que não acabei de contar a historia do fr. João. Que elle -sempre viu a alma do pae... - ---Mas vossemecê estava a dizer outra coisa, tornei eu, já impaciente. - ---Ah! é verdade. Isso é o que importa agora, e não o saber-se que o -pae de João lhe confessou que fôra a pouco e pouco mudando os marcos -das terras dos visinhos, e que não teria a sua alma descanço e andaria -penando por este mundo em quanto essa justiça não fosse reparada. - ---Sim, sim, tia Quiteria, mas vossemecê dizia... - ---Ah! é verdade, voltando cá á boa alma de Maria do Rosario, que me -parece que já está a arder no inferno pelas mexeriquices que tem feito, -e as desgraças que póde crusar, sempre lhe direi, minha menina, que -o demonio da mulher ouviu-a hontem dizer ao senhor Alberto que fosse -ao jardim, e, segundo o seu costume, foi logo dizer tudo á senhora D. -Antonia. Ouvi-a eu com estes ouvidos, que eu não sou surda, graças a -Deus, a vista é que se me vae debilitando alguma coisa, e os dentes -esses viste’-los? Nem eu. Pois ouvi-a estar a contar tudo isso, e ouvi -tambem a senhora D. Antonia dizer assim: «Ora graças a Deus! vejâmos -agora se meu sobrinho ainda acha algum pretexto para se esquivar a -fazer o que deve, e se, depois de ter visto com os seus proprios olhos, -ainda estiver pouco disposto para isso, nós arranjaremos as coisas de -maneira que elle não tenha outra saída. O caso é não se ter vossemecê -enganado nas horas.»--«Não enganei, não, minha senhora, respondia a voz -de falsete da Maria do Rosario, ás duas horas no jardim.» Mais nada -ouvi porque senti passos aproximarem-se da porta, e não tive tempo -senão de me safar. Ora agora veja a menina se não será melhor adiar -a entrevista para outra occasião. Olhe que ellas estão prevenidas, e -fazem-lhe alguma. - -Reflecti alguns momentos antes de dar uma resposta. Os sentimentos -do meu coração, vencidos pela idéa do dever, não tinham ficado -completamente domados, e protestavam ainda contra a oppressão, a -que os votara. Fugia d’esse vedado paraiso do amor, mas, fugindo, -relanceava para elle os olhos, como a chorosa Eva ao sair do Eden, se -voltava a contemplal-o, com o peito a arquejar de saudades. Sorria-me -tentadora a idéa fatal de esquecer nos braços de Alberto a vida e -as suas obrigações, o mundo e as suas amarguras, de fugir com elle -para algum eremiterio arredado do bulicio social, ufanando-me do -estygma, aceitando o escandalo para conquistar o amor, como se aceita -o martyrio para se conquistar a palma. Bem sei que seria de pouca -dura essa felicidade criminosa, que o remorso seria o meu algoz, e o -enfado, que algumas vezes me entreluzisse nos olhos do meu amante, -pugentissimo castigo; mas o que era tudo isso em comparação da longa -vida de estiolamento que eu ia passar n’esse carcere domestico? -Lembrei-me dos amores de D. Branca e de Aben-Afan. Horas breves de -felicidade compradas por uma vida inteira de horrido desgosto; e o que -destruira esses amores tão violentos? Um gesto de fastio do moiro wali, -saudoso das suas pelejas e do seu poder. Teria eu maior condão que D. -Branca, Alberto mais desprendimento do mundo, do que Aben-Afan? Não -lhe leria nunca nos olhos o desgosto de se ter prendido em laços, não -authorisados pela sociedade, e de se ver privado dos gosos mundanos? - -Mas isso que importava? Se a gentil abbadessa, depois de ter visto e -amado o arabe formoso, se houvesse sepultado logo no gélido mosteiro, -não seria ainda maior a sua tristeza? Não seria a sua vida uma longa -noite, em que nem sequer luziria um raio do sol extincto sim, mas que -por instantes brilhara no horisonte? Longa noite sem o luar d’uma -recordação? Não seria então que o poeta podia deveras exclamar: - - .... Mas é vida - Esse viver que se alimenta em lagrimas? - -Agitada por estes encontrados pensamentos, persisti na idéa de deixar -ir o batel do nosso destino ao som da agua, para onde o impellisse -a corrente do acaso, ou antes, o que era mais christão na forma, -senão no fundo, entreguei á Providencia o cuidado de reger o leme, -e confiei-me cegamente ás ordens do Divino Piloto. Cumpriria o que -resolvera, iria pedir a Alberto que se affastasse de mim, porém, se a -fatalidade interviesse de novo, se a mão implacavel dos que me tinham -collocado á beira do abysmo me despenhasse n’elle, não opporia a minima -resistencia, e deixar-me-hia cair nos braços que me recebessem. - -Era esta a ultima prova e a mais fatal das indecisões do meu caracter, -tão pouco proprio para as luctas da existencia. - -Por isso respondi á boa mulher: - ---Embora, tia Quiteria; cumpra-se o meu destino: o que resolvi está -resolvido. São puras as minhas intenções, mas já não tenho forças para -luctar com as minhas perseguidoras. Quanto mais depressa isto acabar, -melhor. Estou anciosa pelo descanço, ainda que seja o repouso do -tumulo, ou o do opprobrio. - ---Ah! a minha menina que se deita a perder! tornou a Quiteria com modos -supplicantes. Pois quer dar essa gloria ás suas inimigas? Não faça tal. -E demais, continuou ella, desatando a chorar, isso é tentar a Deus, é, -como quem diz, dar cabo de si com as proprias mãos. - -Travei, commovida, das mãos de Quiteria, e disse-lhe: - ---Obrigada, minha boa amiga, obrigada por essas lagrimas. Ah! se -as pessoas que a desprezam do alto da sua soberba, tivessem o seu -coração!... Mas, tia Quiteria, bem vê que uma vida assim não pode -continuar. Estou cançada, estou prostrada por esta lucta sem treguas -nem fim. Acarinhada, mimosa em casa de meus paes, vim para esta casa, -nunca mais tive nem socego nem alegria. As pessoas do meu trato -quotidiano só tinham para mim rostos severos ou frios. Não tive -affeições, não tive familia. E, não contentes com isso, isolaram-me -do mundo, e cercaram-me com uma gélida barreira de desconfianças, de -suspeitas, e de calumnias. Esforcei-me, luctei por sair d’este circulo -de ferro; não pude. Já me sinto sem forças nem alento. No tumulo talvez -me deixem tranquilla, ou, se me expulsarem d’esta casa, talvez encontre -descanço ahi no fundo de alguma choça abandonada. Não é melhor assim? - -E as minhas lagrimas confundiram-se com o pranto da minha humilde amiga. - ---Pobre senhora! pobre senhora! dizia ella, soluçando; pobre pombinha -sem ninho! antes Deus a tivesse feito nascer n’uma choupana! viveria -socegada, e todos a haviam de estimar, como merece. - ---Antes, antes, Quiteria, respondi eu melancholica, bastantes vezes, -no silencio da noite, lancei a Deus esse grito de revolta contra o -martyrio sem causa. - ---Mas, minha menina, continuou a velhinha limpando as lagrimas, que -ainda lhe banhavam as faces, se por força quer fallar esta noite ao -senhor Alberto, ao menos faça-me uma coisa. - ---Qual é? - ---Mude a hora da entrevista; mande dizer ao senhor Alberto que venha á -meia noite. - ---Á meia-noite, tia Quiteria! Quasi a essa hora se vão as visitas. - ---Então o que tem? O senhor Alberto que espere. Olhe, a senhora D. -Antonia, o que deseja é ver se a apanha lá, e por conseguinte esteja a -minha menina certa que lhe não ha de pôr obstaculos. - ---Oh! isso sei eu. - ---Então está combinado? - ---Pois sim! tornei eu com a indifferença do fatalismo. - ---Ora bem! disse a Quiteria muito satisfeita. Assim talvez ainda as -possamos lograr! Deus está por nós. Elle nos ajudará. Fique a menina -descançada que d’aqui a duas horas está o senhor Alberto avisado. - -E, despedindo-se de mim, dirigiu-se para a porta; mas, quando ia a -levantar o fecho, parou, como se lhe houvesse esquecido alguma coisa, -e disse: - ---Ah! já me não lembrava!... - ---O que é, tia Quiteria? perguntei eu com interesse. - ---O João... - ---Qual João? tornei a perguntar, porque já nem pensava na historia do -frade. - ---Ora, qual João! o que viu a alma do pae... - ---Ah! é verdade, interrompi eu rindo, então o que lhe succedeu? - ---No dia seguinte restituiu as terras furtadas aos seus donos, as -outras vendeu-as, e foi-se metter n’um convento. E aqui está como fr. -João vestiu o habito de frade, e foi sempre um homem exemplar. - -E muito satisfeita por ter afinal contado a sua historia toda, a tia -Quiteria abriu a porta e saíu. - - - - - XXI - - -Pareceram-me seculos as horas, que decorreram até o cair da noite, -e comtudo, quando as primeiras sombras do crepusculo principiaram a -invadir o céu, desejei que retrocedesse o tempo, e tremi de ver tão -proximo o instante em que se ia decidir a minha sorte. - -Chegaram, segundo o costume, as visitas; D. Antonia mostrara-se todo o -dia affabilissima comigo, tambem a condessa houve por bem mimosear-me -com alguns dos seus mais amaveis sorrisos, e Carolina abraçou-me e -beijou-me com extraordinaria affeição. - -A tudo correspondi com sereno e melancholico aspecto: causava-me asco -esse corrilho de Judas. - -Ás dez e meia retiraram-se todos; D. Antonia disse estar incommodada, e -foi-se metter no seu quarto; Claudio apparecera na sala e demorara-se -instantes apenas, mostrando-se visivelmente inquieto; depois saira. - -Á meia noite em ponto, desci do quarto; pulsava-me o coração com -extraordinaria vehemencia; ia dando um grito, e deixando cair o -castiçal, que levava na mão, ao deparar-se-me um vulto immovel no fundo -da escada. - -Felizmente logo o conheci: era Quiteria. - ---Começa o enredo, disse-me ella em voz baixa; a condessa e a D. -Carolina entraram agora mesmo. - ---Estão cá? perguntei eu. - ---Estão; fingiram que se iam embora; mas foram passear, voltaram, e -metteram-se no quarto de D. Antonia. Lá está tambem a Maria do Rosario. - ---O que farão ellas? - ---Não sei, mas não tema. Aproveite este momento, que é favoravel. Deus -a proteja, filha. - -Abri a porta do jardim, e saí. Ainda não campeava no horisonte a lua, -mas aproximava-se a hora em que havia de surgir o meigo astro. A -folhagem das arvores meneava-se brandamente ao sopro suave da brisa, e -por entre a ramaria scintillavam as estrellas. - -Atravessei ligeiramente a rua principal do jardim, dirigindo-me á -porta que deitava para a estrada. Quando cheguei a uma espessa moita -de buxo não tosquiado, que se erguia a grande altura, ouvi uma voz que -murmurava muito de manso: - ---Margarida! - -Voltei-me, e vi Alberto. - -Parei, e comprimi com a mão o violento arfar do peito. Alberto pegou-me -na outra mão, e levou-a respeitosamente aos labios. - ---O que pensou de mim, senhor Mascarenhas, disse-lhe eu, ao receber o -estranho recado que lhe enviei? - ---Pensei que vossa excellencia tinha que me dar uma ordem, que eu tinha -a ventura de poder executar um mandado seu, e vim. - ---Disposto a obedecer-me? - ---Em tudo. - -Calei-me embaraçada; não sabia como havia de dar o primeiro passo -n’esse terreno escorregadio. Tinha os olhos baixos, mas como que sentia -o olhar de Alberto fito no meu rosto com inexprimivel anciedade. As -nossas respirações oppressas confundiam-se n’um murmurio, que se casava -com o sussurrar da brisa languida nas folhas do arvoredo. - -Formava o buxo uma espessa parede, que nos abrigava do lado de -casa; corria-lhe fronteiro o muro do jardim, mas a porta ficava-nos -distante. Um pecegueiro, ainda em flor, estendia por cima de nós a copa -como um docel perfumado. Uma estatua pagã, meio escondida no buxo, -espreitava-nos maliciosamente da sua verde alcova. - ---Senhor Alberto Mascarenhas, disse-lhe eu com voz profundamente -commovida, poz-nos o acaso n’uma situação falsissima. N’um momento de -exaltação passageira trocámos palavras fataes, que ainda hoje me soam -aos ouvidos como um remorso. Justificámos a calumnia, demos rasão aos -calumniadores. Esse crime só se resgata com a separação. É o allivio -para os nossos espiritos, a tranquilidade para as nossas consciencias. -Não podemos viver assim com a recordação d’essa tarde a interpor-se -constantemente a nós ambos, a pungir-nos sempre como espinho de rosa, -que nasceu amaldiçoada. Chamei-o aqui para implorar da sua honra, -do seu cavalheirismo, da sua amisade, do seu amor emfim, se me é -permittido proferir tal palavra, a esmola de um pouco de socego. Parta, -rogo-lh’o, ausente-se d’esta casa, d’este sitio, rompa completamente -as suas relações com a minha familia; só assim poderei recuperar a -paz, por que almejo tanto, que a acceito, ainda que seja o repouso do -tumulo, ou a atonia do desespero. - ---Minha senhora, respondeu Alberto com mal fingida firmesa, obedeço -a esta ordem de vossa excellencia, como a todas obedeceria. E demais -vejo, percebo tambem, que é intoleravel a nossa situação. Amigo de seu -marido, estou representando um papel em que a minha lealdade soffre. -Não sei se esta consideração bastaria para me arrancar d’aqui; as leis -da honra ás vezes são frageis diques contra as torrentes de alguns -affectos. Mas não devo pensar em mim, devo pensar no anjo puro, cuja -etherea serenidade perturbei, no anjo, em cujo céu immaculado tive a -audacia de fazer reboar um echo das paixões vis da terra. Possa o meu -sacrificio restituir-lhe o repouso. - -Calou-se um instante, e depois, emquanto eu, sem forças para lhe -responder, e mal podendo suster-me em pé, me encostava ao pedestal da -estatua, continuou com voz triste, ainda que serena: - ---Adeus, Margarida. - -E estendeu-me a mão, que eu apertei. - ---Adeus, Alberto, disse com egual simplicidade e tristeza. - -E ficamos assim, com as mãos enlaçadas, e os olhos de um cravados nos -olhos do outro. A brisa sussurrava no arvoredo, e o primeiro raio da -lua nascente coava-se a furto por entre os ramos do pecegueiro. - ---Que sonho tão breve, Margarida! murmurou elle. - ---Como todos os sonhos, Alberto! respondi eu. - ---Sim, como todos os sonhos, que descem das regiões da phantasia para -o mundo da realidade. Dizem as lendas allemãs que os espiritos do -ar e das aguas podem, pela magia do amor, tomar humana forma e alma -tambem humana, mas qualquer desgosto os fina, e perdem então de todo a -immortalidade. Quer-me parecer que os sonhos são como os sylphos e as -ondinas. - ---Louco de quem lhes magôa as azas candidas com os attritos da vida! - ---Bem louco!... Que irresistivel tentação, que absurdo escrupulo me -impelliu a revelar-lhe n’aquella noite fatal a historia dos meus -amores! Soltei as avesinhas captivas, julgando que as poderia fazer -voltar ao ninho... - ---E ellas foram despertar com os seus cantos as irmãs adormecidas na -minha alma. Era natural, bem vê. - ---Como virem os gelos, e matarem-nas. Embora, continuou Alberto um -tanto exaltado, gosei um instante de suprema ventura. Oh! antes de nos -separarmos para sempre, diga, Margarida, diga-me que esse momento, em -que se vae absorver e resumir todo o meu passado, ha de brilhar tambem -como um ponto luminoso na sua vida. - ---Sim, digo, tornei eu palpitante de commoção, e não me pejo de o -dizer, porque vou expiar longamente esse prazer tão rapido. Entrevi de -relance as doçuras de um vedado paraiso. Bebi com delicia criminosa o -feiticeiro philtro das suas palavras. Não tardaram as amarguras. Estado -tão inebriante era como esse mundo de crystal, que a phantasia de não -sei que romancista povoou de ignotos encantamentos, de esplendidos -prodigios; mas um bafo annuviava o ridente quadro, qualquer attrito -o partia. Vivemos instantes no crystal, Alberto; o nosso mundo -despedaçou-se, e os fragmentos ahi jazem dispersos. Mas crêa: sempre -que os espinhos da realidade me ferirem em demasia, hei de volver os -olhos enlevados para a região das fadas, onde enlaçados poisámos. - ---Oh! não murmure ao meu ouvido, tornou Alberto, essas magicas -palavras! Quer que nos separemos, e está entrançando de ouro e seda -o laço, que me ha de reter captivo? A melodia da sua voz é canto -de sereia, que me arrasta para o abysmo. Sinto que a minha alma se -prende n’essa ineffavel seducção. Separarmo-nos! separarmo-nos agora, -repetia elle exaltado, bem vê que é impossivel! Essa palavra destôa -dos murmurios amorosos d’este jardim, das meigas notas da sua voz. Não -a profira, não me quebre o encanto, deixe-me viver no crystal, como -dizia, no crystal onde sinto repercutir-se em eccos deliciosos cada uma -das estrophes do meu encantador poema. Não, não, não posso. - ---Alberto, exclamei eu, o que intenta fazer? Lembre-se do que me -prometteu, lembre-se das desgraças, de que póde ser causa este infausto -amor. - ---Sim, Margarida, respondeu elle apertando-me convulso as mãos, -lembro-me de tudo, e tudo cumprirei. Mas hoje é a ultima noite que me -resta para te ver. Lembra-te que vou, navegador infeliz, vaguear de -novo pelo oceano sombrio da existencia, sósinho, sem uma esperança, sem -uma estrella no céu tenebroso, ludibrio das vagas e das tempestades. -E quando o vendaval agudo me açoitar alta noite, quando não bruxulear -para mim no horisonte outro fanal que não seja a triste lampada do -tumulo, não queres que eu conserve ao menos uma lembrança do radiante -porto, da afortunada ilha onde pude repoisar por instantes a fronte -queimada pelo sopro das procellas? Não queres que se me aclarem um -momento as sombras, e que entre os fulgores da aurora me surja o teu -vulto angelico, meigo e saudoso como na hora em que para sempre nos -apartámos? - -E a lua, alta no céu, illuminava-lhe o rosto pallido, e incendia-lhe -vivissimos lampejos nos olhos marejados de lagrimas. A aragem meneava -a copa do pecegueiro, e desprendia-lhe as flores, que caíam em torno -de nós em chuva de perfumes. Esse murmurio vago das noites de estio -expirava ao nosso ouvido em voluptuosa melodia. - -Lancei a cabeça para traz, para fugir á magnetica seducção do olhar -de Alberto. Soltou-se-me então uma trança, que a brisa trouxe logo a -beijar-me o collo, como essas _boucles folles_ em que os francezes -fallam. - ---Mas o que quer? o que exige de mim? disse eu com voz tremula. Oh! -Alberto, porque se não ausentou já? - ---Nada quero nada, senão que se deixe estar assim, formosa incarnação -do meu sonho mais bello! Oh! se um esculptor grego a visse, tomal-a-hia -pela deusa da caça, nas horas em que desce ao seio dos bosques a -procurar Endymião. Ha na sua attitude um mixto indizivel de languidez -e de pudor, um não sei que de casta voluptuosidade, que lhe namoraria -os olhos, como a mim m’os namora, captivando-me o espirito. És linda, -Margarida! - ---Alberto! interrompi eu, escondendo a fronte ruborisada nas mãos -trementes. - -Elle cingiu-me com um braço, e puxando-me para si, e obrigando-me ao -mesmo tempo com dôce violencia a reclinar o rosto, de fórma que a lua -m’o illuminava em cheio, continuou: - ---És linda! és linda! quero gravar bem no coração a tua imagem, as -linhas do teu semblante, a luz do teu olhar! Quereria até poder -captivar e reter na urna do meu peito esse perfume inebriante e -impalpavel, que se exhala dos teus cabellos! E vou perder-te para -sempre... para sempre... não ver-te mais, senão em sonhos. E hei de -assim abandonar a ventura, quando a tenho nos meus braços, hei de eu -mesmo precipitar-me das alturas do céu nas profundesas do inferno? Que -tortura, não é? - ---E a minha, Alberto? - ---A tua ha de ser o desgosto que sentimos ao ver desfazer-se o devaneio -de um instante, o desgosto da creança, quando desapparece o globo -de agua de sabão, todo iriado e matisado de brilhantes côres pelos -raios de sol, globo que um sopro creou e um sopro mata. Mas eu!... -Este sonho formava parte integrante da minha existencia. Ainda que o -julgasse irrealisavel, sempre uma vaga esperança me vinha segredar ao -ouvido ineffaveis consolações. Mas agora, filha, agora nem isso me é -permittido! morreu para sempre, morreu o pobre sonho, o meu constante -companheiro, o meigo irmão da minha alma! - -E apertava-me convulso ao peito, e embebia nos meus os seus olhos -desvairados. Afastava-me os cabellos da fronte com os dedos tremulos, -e o seu bafo acariciava-me os labios, dôce e casto como o beijo de um -anjo. - ---E podia comtudo ser feliz, Margarida! Se calcasse aos pés as leis -do mundo e as da honra, se te pedisse que fugissemos d’aqui para um -recanto ignorado do mundo, onde houvesse luar, canticos e aromas! -Para a Italia, para Napoles, á beira d’esse formoso golpho, por baixo -d’esse céu azul, n’esse solo ardente, requeimado pela lava do Vesuvio, -como o meu peito pela fervente lava d’este amor. Alli de todos nos -esqueceriamos; alli podiamos prolongar infinitamente estes rapidos -instantes. Margarida! tu não podes viver n’esta atmosphera de gelo, -n’esta casa maldita; o teu destino é o meu, são eguaes os nossos fados. -Vem, vem comigo, arrojemo-nos cégamente para este pelago de paixões, -unico elemento onde póde viver o nosso espirito férvido. Vem, devoremos -em Napoles em alguns annos uma existencia de seculos, até que morrâmos -juntos sobre o tumulo do poeta de Dido, ou na praia sonora, onde nasceu -o vate de Armida. - -E arrastava-me com impeto febril. E eu dizia-lhe: - ---Alberto, não queiras macular o nosso tão casto sonho. Estes -devaneios, que fórmas, bastantes vezes me acariciaram, mas repelli-os -sempre, mas quero ainda hoje repelli-os. Amo-te, amo-te loucamente, -hei de amar-te sempre: leva esta confissão minha para consolo dos teus -dias attribulados. Mas a flor secca, Alberto, a flor que guardo no meu -seio é o symbolo do nosso amor. Não tentemos dar-lhe novo perfume, -e viço novo, á custa de um sacrilegio. O tufão da desgraça merecida -dispersar-lhe-hia as folhas, e que dôr, que immensa dôr não seria-a -nossa! Amo-te, Alberto, mas deixa-me fugir-te. - ---Não! não! tornava elle, basta de vãs loucuras, de sacrificios vãos! -És minha, só minha. Dá-me o amor sobre ti direitos inalienaveis. Se o -remorso nos saltear, morreremos, mas morreremos juntos. Que importa? -Morreremos enlaçados, na flôr dos annos. É esse o destino d’aquelles a -quem ama a céu. - ---Alberto! Alberto, o teu amor é o louco amor inspirado pelo paganismo, -e não o que se purifica nas aras de Jesus. O amor, que triumpha sobre -as ruinas do dever e da honra, não póde ser abençoado por Deus. - ---Deus! se existe, não póde separar os que se amam. - ---E o dever, e a amisade que te ligam a Claudio, e a consciencia? Oh! -se cedesses a esta impia tentação, o teu anjo da guarda velaria com as -mãos o rosto indignado. - ---O meu anjo da guarda, Margarida! O meu anjo da guarda és tu! - ---Não, Alberto, é o espirito de tua mãe! - -Elle parou, e soltando as mãos que me cingiam o corpo, levou-as -aos olhos, d’onde lhe irrompia o pranto; depois, voltando a mim, e -tomando-me a cabeça nas mãos, beijou-me os labios, dizendo-me: - ---E tu és o anjo do sacrificio. Adeus. Adeus para sempre! - -E fugiu. Eu caí prostrada e soluçando aos pés da estatua. Quando -levantei a fronte, vi deante de mim um vulto, cujo rosto estava mais -pallido do que o marmore, que eu regara com as minhas lagrimas. - -Era Claudio. - - - - - XXII - - -Esta apparição, que n’outro momento me impressionaria immenso, não -conseguiu tirar-me da lethargia, em que me prostrara a terrivel scena, -que houvera entre mim e Alberto. Fitei um olhar estupido no rosto de -meu marido. - -Annuviava-lhe a fronte uma profunda tristeza, mas nos seus olhos, -d’onde desapparecera a vaga desconfiança que era a sua expressão -habitual, transluzia não sei que meiga bondade, e que suavissima -ternura. - -Curvou-se brandamente para mim, e disse-me com voz cheia de lagrimas: - ---Quando me perdoará, Margarida? - -Eu olhei para elle com indizivel espanto, e murmurei: - ---Perdoar-lhe eu? - ---Oh! bem sei que sou indigno de perdão; mas quando souber quanto eu -soffri, quando souber que diversos e innumeros golpes me alancearam -por tão longo espaço! quando comprehender bem o meu caracter fraco, -incerto, impellido por cada sopro extranho, cedendo machinalmente a -qualquer influencia, talvez me desprese, mas absolva. E depois, muito -depois, é possivel que um raio de affecto venha doirar a compaixão, que -eu lhe inspire. - ---Affecto! exclamei no auge da exaltação, mas não sabe que mesmo agora, -ha um instante apenas, votei a outro homem um amor immenso e eterno? -Não sabe que a minha alma voou para bem longe d’aqui, nos labios d’esse -homem que m’a colheu n’um beijo? não sabe que sou uma mulher adultera, -indigna de perdão, porque me ufano do meu crime? - -Um soluço doloroso, afogado na garganta fez arfar com violencia o peito -de Claudio. Lagrimas como punhos saltaram-lhe dos olhos, e rolaram-lhe -pelas faces lividas. Estendeu a mão como para me pedir que não -continuasse, e esteve um instante sem poder fallar. - ---Sei; disse por fim, sei tudo. Avisado por minha tia de que se havia -de realisar esta entrevista, tive a fraqueza de os vir espiar. A -inquietação e o desasocego fizeram com que me adeantasse ás horas -marcadas. Esse caso fatal ou feliz proporcionou-me ensejo de assistir -a uma scena que me fez soffrer o duplo tormento do ciume e do remorso. -Pude apreciar, n’esta hora de grande provação para o seu espirito, a -nobreza do seu caracter, de que tão indigno me tenho mostrado. Porque, -devo confessar-lh’o, amo-a com um amor, bem que menos poetico, pelo -menos tão grande ou maior do que a paixão, que Alberto lhe consagrou. - ---Quem o havia de dizer? murmurei eu com dolorosa ironia. - ---Tem rasão, tem, tornou elle sem reprimir as lagrimas. Esmague-me -com o peso do seu odio, mas ouça-me: Educado severamente no seio -d’uma familia de idéas acanhadas, cedo me costumei a esconder no mais -recondito do peito os meus sentimentos, porque, se os manifestava, ia -excitar tempestades, que me obrigavam a retratar-me de novo. Todos me -dominavam; meus paes, e meus tios. Consideravam-me como uma creança, -cujos maus instinctos deviam ser reprimidos, e as minhas aspirações -para um mundo mais elevado eram castigadas como crime. Depois da morte -de meus paes, minha tia, ainda que mais velha do que eu em poucos -annos, continuou a exercer sobre mim um dominio indisputado. Só uma -vez me rebellei: foi quando se tratou do meu casamento. O amor que me -inspirara, foi mais poderoso do que o habito. Casei contra vontade -d’ella. Vingou-se cruelmente. Preciso de lhe contar as insinuações, -as calumnias, com que D. Antonia tentou semear a sizania entre nós -ambos? Não, porque era repetir-lhe a dolorosa historia dos seus e -dos meus tormentos. A timidez selvagem da minha indole impedia-me de -provocar uma explicação, que podia pôr termo a este penoso estado. A -desconfiança augmentava a minha reserva; a sua indifferença excitava-a -ainda mais. Foi-se envenenando a ferida com as apparencias, cada vez -mais illusorias. Suppuz que um outro amor lhe vendava os olhos, que não -viam sob a minha frieza exterior o fogo da paixão. Transformou-se em -realidade esta minha suspeita. Recresceu a minha dôr, e principalmente -o meu desalento. Sentia-me culpado, não podia criminar a pomba, a quem -estramalham o ninho, e que vôa tonta pelos ares e tonta vae poisar n’um -ramo de arvore estranha. Mas apesar d’isso, uma sombria tristeza se -apoderara de mim; torturava-me a duvida. «Serão culpados, pensava eu, -ou resistem ao sentimento, que se lhes está apossando dos corações?» -Ora pensava que o despeito e o desgosto a teriam levado a esse -estado, ora acreditava que era esse um amor antigo que habilmente me -disfarçara. Taes suspeitas alimentava-as minha tia, fazendo sobresair a -indifferença evidente, com que me aceitara por marido. - ---E não suspeitava, tornei amargamente, que essa indifferença, não -era mais do que a despreoccupação da creança, que ainda não sentiu o -amor, e cuja alma immaculada é como livro branco, prompto a receber -as primeiras estrophes, que lhe queiram traçar nas folhas! Sempre a -supposição mais injuriosa! - ---Oh! perdôe-me, Margarida. Isso que me diz entreluziu-me vagamente, -como clarão d’aurora por entre as sombras da noite. Pensei no encanto -que teria para mim esse amor, que fosse brotando a pouco e pouco entre -as doçuras da intimidade, cada vez mais estreita; mas as insinuações -de D. Antonia mataram-me o devaneio, e na constrangida ligação que -tivemos, não encontrei nunca animação para a empreza. Que funestas -consequencias teve esse engano, em que ambos laboravamos! Os nossos -dois corações, que talvez voassem um para o outro, assim se conservaram -isolados, e hoje... - -Interrompeu-se tapando com as mãos o rosto inundado de lagrimas. -Commoveu-me a dôr d’esse homem, que fôra a causa do meu infortunio, mas -cuja falta era tão nobremente resgatada pela inexcedivel generosidade -do seu procedimento. - ---Hoje é tarde, Claudio, disse-lhe eu tomando-lhe as mãos e -apertando-lh’as brandamente; a ferida do meu coração é muito profunda, -e receio que nunca cicatrise. Mas descance que o não hei de torturar -com o espectaculo dos meus tormentos. Viu que tive força bastante para -lhe salvar a honra, tel-a-hei para lhe não perturbar a tranquillidade. -Não lhe prometto amor, que seria enganal-o, mas affecto d’irmã, esse já -m’o conquistou. Bem sei que é estranho este modo de fallar d’uma mulher -a seu marido, mas á sua franqueza com igual franqueza correspondo. Se -o destino não consentiu que se formasse entre nós uma ligação mais -doce, vinguemo-nos dos seus golpes unindo-nos em fraternal alliança. -Juntos resistiremos melhor aos ataques da vibora, que nos envenenou a -existencia, e o nosso sanctuario, onde habitarão a paz e a amisade, -não será ao menos profanado pela intriga e pela calumnia. Acceita esta -alliança? - ---Se acceito, Margarida! É esse o meu ideal agora, e não sou tão -insano que faça voar mais alto a minha ambição. Está feito o mal, e se -não tem remedio, tenha pelo menos allivio. Que balsamo mais doce podia -eu desejar do que a sua amisade, e uma esperança... louca talvez, mas -que lhe imploro que me deixe! - -Sorri-me tristemente, e não lhe respondi. - ---Oh! exclamou elle, dando mostras da mais violenta afflicção, o -castigo é horrivel, mas é justo. Essa esperança bem vejo que é uma -loucura; offendi-a cruelmente, e consenti que a offendessem. Deixei -que lançasse profundas raizes essa planta, que hoje me rouba toda a -sua vida, todo o seu coração. A lucta é impossivel com um rival, cujo -prestigio a ausencia augmenta e eternisa. Essa estranha fidelidade a um -amor impossivel é digna da sua alma, e, fazendo-me soffrer, inspira-me -admiração! Agora é que eu avalio o thesouro, que perdi, e que perdi por -minha culpa. - ---Claudio, meu amigo, dizia-lhe eu embaraçada e tentando acalmar -a violencia da sua dor, não se afflija assim. É uma desgraça -irremediavel, e... quem sabe, (se o meu amor tem tanto apreço aos seus -olhos) quem sabe as mudanças, que o tempo pode produzir? Orgulhosa -seria se me julgasse isenta de todas as fraquezas da humanidade! Talvez -eu seja como tantas outras, talvez o que julgo eterno será passageiro. - -A custo proferia estas palavras que me saíam dos labios, não do -coração. Eram uma impiedade, uma blasphemia, mas tambem eu não podia -deixar soffrer um homem que já tanto soffrera por minha causa, e que -eu via alli prostrado, desalentado, matando-lhe desapiedadamente a mais -ligeira esperança, negando-lhe a mais innocente consolação. - ---Pois bem, disse-me elle erguendo a cabeça, só uma coisa lhe peço, e -espero que m’a conceda: sei que possue uma flor secca, memoria querida -d’esse amor que tão animosamente sacrificou. Bem sei que não tenho -direito de lh’a pedir, mas prometta-me que, no dia em que sentir um -affecto mais suave succeder á amisade que tão cordealmente me offerece, -me ha de entregar essa flor. Quando eu a receber saberei que estão -coroados os meus votos, realisados os meus sonhos. Promette fazer o que -lhe peço? - ---Prometto, respondi, estendendo-lhe a mão; mas, meu pobre amigo, -parece-me que a pobre flor se ha de desfolhar sobre o meu tumulo. - ---Sobre os nossos tumulos, diga antes. Depois de ter alimentado esta -esperança, o dia em que ella se desvanecer será o da minha morte. - -Emmudeci. Elle cingiu-me, para assim dizer, com um longo, terno e -doloroso olhar, e depois, sacudindo a cabeça, como para expulsar os -pensamentos que na mente lhe referviam, tirou o relogio da algibeira, e -viu ao luar as horas. - ---Duas! disse elle. Se me não engano, vamos ter novidade. Pelo que -deduzi de algumas palavras soltas, que minha tia e a condessa trocaram -esta noite, do facto de terem a condessa e D. Carolina voltado em -segredo depois de haverem saido ostensivamente, e de vagas ameaças -que minha tia me fez, quando me deu o ultimo aviso, no caso de eu -não cumprir o grande desejo d’ella, pareceu-me que essas dignissimas -pessoas conceberam o projecto de apparecerem de subito no jardim, para -produzirem um escandalo, que tornasse inevitavel a nossa separação. -E effectivamente, continuou pondo o ouvido á escuta, creio que ouço -passos abafados como de quem toma precauções para que o não sintam. - -Apurei tambem o ouvido, e percebi com effeito, vagos rumores que mal se -distinguiam do murmurio da brisa; mas, affastando levemente a cortina -de buxo, vi scintillarem nas ruas do jardim frouxos clarões, como -lanternas de furtafogo. - ---Dê-me o braço, disse-me meu marido, em voz baixa. - -Encostei-me ao braço d’elle, e ambos nos dirigimos vagarosamente para -uma das extremidades da rua, como se andassemos saboreando placidamente -a frescura da noite. - -Tinhamos dado apenas alguns passos, quando subito, e, como se fosse a -um signal convencionado, appareceram luzes por todas as bandas, e os -vultos de D. Antonia, de D. Carolina, da condessa e de Maria do Rozario -surgiram magestosamente, trazendo cada um d’esses quatro personagens um -candieiro ou um castiçal na mão. - -As luzes, que tinham resguardado por baixo das capas ou dos chales, -inundaram de fulgor a rua escassamente allumiada pelo luar, e, batendo -em cheio na estatua, cingiram-na com esplendido manto. - -Um passarinho, adormecido na espessura, despertou saudando esta -ficticia aurora. Eu e Claudio parámos tranquillamente relanceando os -olhos com espanto comico para os quatro actores, que tinham entrado em -scena, e que nos miravam estupefactos. - ---O que é isto? perguntou Claudio desfechando uma sonora gargalhada. -Temos scena final de melodrama? Abre-se a porta do fundo, e apparece o -tyranno, rodeado de soldados e de luzes? - ---Caso de grande monta deve ser, acudi eu logo, porque vejo aqui a -senhora condessa e a senhora D. Carolina, que a estas horas julgava que -dormiam muito socegadas nas suas camas! - -Ellas não diziam palavra, mas voltavam os olhos pasmados, ora umas -para outras, ora para nós. Era tão comico o seu desapontamento que eu -desatei a rir. - -A D. Antonia parece que trazia o discurso estudado, porque não o quiz -perder de todo, e ainda principiou: - ---Minha sobrinha... aqui... a estas horas... - ---A passear comigo, acudio Claudio, então que tem? A tia parece-me -somnambula! - ---E estão sós? exclamou levianamente a condessa. - ---Pois com quem haviamos de estar? continuou elle. Vossa excellencia -esperava aqui alguem, ou alguem lhe prometteu vir aqui esperal-a? Nada, -estamos sós, e devemos confessar que não contavamos ser surprehendidos. -Andavamo-nos deliciando com as frescas emanações de uma noite de -estio. N’estas noites foge-nos o somno das palpebras, e reconhece-se a -verdade do que diz um poeta francez: - - _On ne dort qu’à demi d’un sommeil transparent_ - -D’esta vez todas nós olhámos estupefactas para Claudio; nunca o -tinhamos visto tão expansivo. Parecia que o jubilo, innundando-lhe o -coração, lhe trasbordava em torrentes de palavras. O meu amor proprio -não podia deixar de ser affagado um pouco pela idéa de que só uma -levissima esperança pudera transformar o caracter de meu marido. - -Comtudo a posição estava sendo ridicula para os quatro conspiradores. -Era preciso sairem d’ella a todo o custo. Encarregou-se de preparar -uma retirada airosa a fertil imaginação de Carolina. Improvisou -uma historia de ladrões, que as tinham assustado ao irem para suas -casas, motivo por que tinham voltado para traz: explicou a sua visita -ao jardim pelo desejo de lhe explorarem os meandros a fim de se -certificarem que não havia homens escondidos n’algum canto. - -Ouvi esta historia com um sorriso nos labios, Claudio com ironica -attenção, interrompendo-a a cada passo com exclamações de zombeteiro -espanto. - -Quando ella acabou, não pude deixar de dizer, sorrindo: - ---São poetas os bandidos! Escolhem noites de luar, claras e -transparentes, para fazerem as suas excursões! Estou que, antes de nos -roubarem, não haviam deixar de nos dar uma serenata. - ---É possivel, respondeu ella amargamente, em todo o caso não seria eu -quem a ouvisse. - ---Com muita pena sua, não é verdade, senhora D. Carolina? - -Não me respondeu. Entretanto travara-se um dialogo em voz baixa entre -Claudio e D. Antonia. Só pude perceber as ultimas palavras: - ---Has de sempre ser um tolo, Claudio, dizia-lhe ella. - ---Favores, tia, favores seus. Mas olhe que estou sendo agora tolo... e -teimoso! - -D. Antonia ergueu ao céu os olhos lacrymosos, e preparou-se para ter um -ataque de nervos. Mas lembrou-se que estava o chão do jardim humido com -o orvalho que principiava a cair, e houve por bem adial-o para outra -occasião. - -Todas quatro se retiraram para casa, justificando um proverbio -portuguez muito conhecido, que diz respeito aos tosquiadores de lã. - -Nós seguimol-as de longe, com passos vagarosos, indo eu encostada ao -braço de meu marido. A lua brilhava serena e limpida no firmamento -azul, e a aragem, meneando a copa do pecegueiro e as corollas das -rosas, colhia perfumes, que pagava com murmurios. - - * * * * * - -Passado um mez, partiamos, eu e meu marido, para uma viagem na Europa. -Era este o unico meio de nos esquivarmos ás iras de D. Antonia, e de -fugirmos ás pungentes recordações que despertava no nosso espirito cada -sitio onde tinhamos passado uma existencia attribulada. - -A imagem pensativa de Alberto não me deixou um instante só, durante -os dois primeiros annos da nossa excursão. Visitou comigo Pompeia, -a resurgida cidade; Napoles, a voluptuosa; Palermo, a afortunada; -a historica Roma; a artistica Florença; a aristocratica Genova; a -melancholica Veneza; Milão, berço da moderna poesia italiana; Turin, -berço da liberdade. Saimos da Italia, e percorremos a Allemanha. Ahi -a imagem de Alberto interpoz-se menos vezes a mim e ás paizagens -grandiosas, aos castellos gothicos e ás floridas cathedraes do Rheno. -Muitas vezes, meu marido, quando a conversação entre nós ambos se -tornava mais expansiva, me perguntava o que era feito da flor secca. -Mas eu descorava, apertava-lhe a mão e ficava silenciosa. Salteava-o -então dolorosa melancholia, e estava longas horas sem proferir palavra. - -Comtudo haviamos percorrido juntos a Allemanha toda, e passavamos -a França, quando em Colonia nos vimos forçados a parar por minha -causa. Ahi dei uma filha a Claudio. Não posso pintar o seu jubilo! -Eu sentia-me tão feliz por ser mãe, contemplava tão enlevada os -olhos azues e as faces mimosas da minha filhinha, que, vendo Claudio -debruçado sobre o berço com o mesmo enlevo, cheguei a pensar que o amor -antigo desapparecera afinal, e que essa creança fôra o anjo, enviado -por Deus para enlaçar os nossos dois corações, lacerados por tantos -martyrios. - -Por isso uma noite, em que ambos miravamos a creança, deitada no berço, -e que olhava para nós com os seus grandes olhos pasmados e vagos, e -levantava para mim as suas mãosinhas brancas como brancos lyrios, -pareceu-me ouvir a voz de Deus, que me ordenava que completasse o -sacrificio, principiado havia tres annos. - -Tirei a flor secca do peito, e deixei-a cair no berço da nossa filha. -Claudio soltou um grito de jubilo, caiu-me aos pés banhado em lagrimas. -N’esse instante fui verdadeiramente feliz. - -Ai! devo confessal-o? passou rapido esse momento. Assomou-me de novo -na phantasia o vulto de Alberto, chamado pelos remorsos que sentia, -de ter trahido o juramento que lhe fizera. E depois, meu marido tinha -um coração excellente... mas aquelle nobre typo de Alberto possuia um -inexcedivel prestigio. - -Voltámos a Portugal. Tornámos a ver a nossa casa da Cruz das Almas, e a -nossa quinta de Bellas. Em todos esses sitios me esperavam milhares de -recordações, emboscadas nas ramarias das arvores, aninhadas no teclado -do piano! - -Indaguei por intermedio de Theodoro Leite a quem meu marido, antes de -se ausentar, assegurara uma posição independente, o que fôra feito de -Alberto. Soube que partira para as possessões de Africa occidental, com -um emprego na administração. Póde-se isto considerar um verdadeiro -suicidio. Resistirá a sua organisação tão delicada áquelle mortifero -clima? - -Redobrou com estas noticias a minha tristesa, tristesa que me vae -matando, pela necessidade que tenho de a disfarçar. A minha consolação -unica é minha filha. Vejo crescer aquella formosa flor confiada aos -meus disvellos, e peço a Deus que a preserve dos ventos frios, e das -geadas que me mataram o viço. - -Ás vezes quando vejo passar D. Antonia com os mesmos modos -pretenciosos, o mesmo olhar onde transparece a mesma ironia parva, -fuzila-me nos olhos um sentimento de odio. Não, mil vezes não: nunca -teria pensado em Alberto, se não fosse a teima de D. Antonia em me -attribuir maus pensamentos. - -Felizmente agora já me não póde fazer mal. A intimidade affectuosa que -existe entre mim e meu marido é solido broquel, onde se partem todas as -settas, que ella nos dirige. Mas que importa que se esmague a serpente -com o pé, se ella já pôde morder, e entornar a peçonha na ferida? A -victima vae definhando a pouco e pouco, até cair prostrada no regaço -consolador do anjo da morte. - - - FIM - - - - - Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA - - VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS - - DAS - - LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS - - Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc. - - Volumes in-8.º de 160 a 240 paginas, em corpo 8 ou 10, excellente - edição, em optimo papel, elegantemente encadernado em percalina. - - - Volumes publicados - - 1--Tristezas á beira-mar, por Pinheiro Chagas. - 2--Contos ao luar, por Julio Cesar Machado. - 3--Carmen, trad. de M. Level. - 4--A Feira de Paris, por Iriel. - 5--O direito dos filhos, por George Ohnet. - 6--John Bull e a sua ilha, trad. de P. Chagas. - 7--Esgotado. - 8--A lenda da meia noite, por M. Pinheiro Chagas. - 9--A joia do vice-rei, por P. Chagas. - 10--Vinte annos de vida litteraria, por A. Pimentel. - 11--Honra d’artista, trad. de P. Chagas. - 12--Esgotado. - 13 e 14--A aventura d’um polaco, trad. de Maria A. Vaz de Carvalho. - 15--Os contos do Tio Joaquim, por R. Paganino. - 16--Esgotado. - 17--Noites de Cintra, por Alberto Pimentel. - 18 e 19--Esgotado. - 20 e 21--A irmã da caridade, por Emilio Castellar, trad. de L. Q. - Chaves. - 22--Migalhas de historia portugueza, por P. Chagas. - 23--Esgotado. - 24--Contos, por Affonso Botelho. - 25--Esgotado. - 26--O mysterio da estrada de Cintra, por Eça de Queiroz e R. Ortigão. - 27--O naufragio de Vicente Sodré, por Pinheiro Chagas. - 28--Vida airada, por Alfredo Mesquita. - 29--O bacharel Ramires, por Candido de Figueiredo. - 30 e 31--Amor á antiga, por Caïel. - 32--As netas do Padre Eterno, por A. Pimentel. - 33--Contos, por Pedro Ivo. - 34--O correio de Lyão, por Pierre Zaccone. - 35--Vida de Lisboa, por Alberto Pimentel. - 36--Historias de frades, por Lino d’Assumpção. - 37--Obras primas, por Chateaubriand. - 38--O exilado, por Mauricia C. de Figueiredo. - 39--Poema da Mocidade, por Pinheiro Chagas. - 40 e 41--A vida em Lisboa, por Julio Cesar Machado. - 42 e 43--Espelho de portuguêses, por Alberto Pimentel. - 44--A fada d’Auteuil, trad. de Pinheiro Chagas. - 45--A volta do Chiado, por E. de Barros Lobo. - 46--Séca e Méca, por Lino d’Assumpção. - 47--Ninho de guincho, por Alberto Pimentel. - 48--Vasco, por A. Lobo d’Avila. - 49--Leituras ao serão, por A. X. Rodrigues Cordeiro. - 50--Luz coada por ferros, por D. Anna A. Placido. - 51--A flôr sêcca, por P. Chagas. - 52--Relampagos, por Armando Ribeiro. - 53--Historias rusticas, por Virgilio Varzea. - 54--Figuras humanas, por Alberto Pimentel. - 55--Dolorosa, por Francisco Acebal, trad. de Caïel. - 56--Memorias de um fura-vidas, por A. de Mesquita. - 57--Dramas da côrte, por Alberto de Castro. - 58--Os mosqueteiros d’Africa, por Mendes Leal. - 59--A divorciada, por José Augusto Vieira. - 60--Phototypias do Minho, por J. Augusto Vieira. - 61--Insulares, por Moniz de Bettencourt. - 62 e 63--Historia da civilisação na Europa, trad. do Marquez de Sousa - Holstein. - 64--Triplice alliança, de Raul de Azevedo. - 65--Retalhos de verdade, por Caïel. - 66--A pasta d’um jornalista, pelo Visconde de S. Boaventura. - 67--Os argonautas, por Virgilio Varzea. - 68--Fitas de animatographo, por Alberto Pimentel. - 69 e 70--Poesias do Abbade de Jazente, annotadas por Julio de - Castilho. - 71--Aspectos e sensações, de Raul d’Azevedo. - 72--Contos e narrativas, por P. W. de Brito Aranha. - 73--Quadros e letras, historias e romancêtes, por Sanches de Frias. - 74--Individualidades, por Henrique das Neves. - 75--Alfacinhas, por Alfredo de Mesquita. - 76--Patria amada, pelo Visconde de S. Boaventura. - 77--Historias e romancêtes, por Sanches de Frias. - 78--Esbocetos individuaes, por Henrique das Neves. - 79--Recordações da mocidade, por Adolpho Loureiro. - 80--Sorrisos, novellas e chronicas, por A. Campos. - 81--Lucta de sentimentos, por Maria O’Neill. - 82--Do Rocio ao Chiado, por P. de Vasconcellos. - 83--A dança do destino, por Luthgarda de Caires. - 84--Um drama de ciume, por Maria O’Neill. - 85 e 86--Resumo da origem de todos os cultos, por C. F. Dupuis. - 87--Vencido, romance por F. A. M. de Faria e Maia. - 88--Elogio da loucura, critica de costumes, por Erasmo. - - - - - OUTRAS OBRAS - - -Azevedo (Domingos de) - - Diccionario (Grande) contemporaneo francez-portuguez e v. v. No prelo - a 2.ª edição, muito correcta e extremamente augmentada, enc. 12$000 rs. - - Grammatica da lingua franceza, enc. 1$200 rs. - - Grammatica Nacional, para aprender portuguez sem mestre, enc. 2$000 rs. - - Lições praticas de conversação franceza, enc. 500 rs. - - Ollendorff aperfeiçoado para aprender francez sem mestre, (2 vol.), - enc. 3$000 rs. - - -Carvalho (D. Maria Amalia Vaz de) - - Ao correr do tempo, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Arte de viver na sociedade, br. 1$000 rs., enc. 1$800 rs. - - Aventura de um polaco, (2 vol.), br. 600 rs., enc. 1$000 rs. - - Cartas a uma noiva, br. 900 rs., enc. 1$300 rs. - - Cerebros e corações, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Chronicas de Valentina, br. 900 rs., enc. 1$300 rs. - - Coisas d’agora, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Contos e phantasias, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Em Portugal e no estrangeiro, br. 1$000 rs., enc. 1$400 rs. - - Figuras de hoje e de hontem, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Heroismo do clero, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Impressões de historia, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - No meu cantinho, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Nossas filhas, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Pelo mundo fóra, br. 650 rs., enc. 1$050 rs. - - Raphael, trad. de Lamartine, (ed. de luxo), enc. 3$600 rs. - - - Pinto (Silva) - - (COLLECÇÃO D’ALGIBEIRA) - -A 650 rs. br. e 1$000 rs. enc. - - A queimar cartuchos. - A torto e a direito. - Ao correr do pello. - Entre nós. - Frente a frente. - Moral de João Braz. - Mundo (O) furta-côres. - Na Procella. - Na travessia. - N’este valle de lagrimas. - No colyseu. - No mar morto. - Para o fim. - Philosophia de João Braz. - Por este mundo. - Riso amarello. - Rompendo o fogo. - Velha historia. - - -Queiroz (Dr. Teixeira de) - - Amores... amores..., br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Arvoredos, br. 1$000 rs., enc. 1$300 rs. - - Cantadeira (A), br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Caridade (A) em Lisboa, (2 vol.), br. 1$200 rs., enc. 2$000 rs. - - Cartas d’amor, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - D. Agostinho, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Morte de D. Agostinho, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Noivos (Os), (2 vol.), br. 1$200 rs., enc. 2$000 rs. - - Nossa (A) gente, br. 650 rs., enc. 1$050 rs. - - Sallustio Nogueira, (2 vol.), br. 1$200 rs., enc. 2$000 rs. - - Amor Divino, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Famoso Galrão, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - - Ao sol e á chuva, br. 750 rs., enc. 1$150 rs. - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A FLOR SECCA *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. 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