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If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: O retrato de Venus e estudos de historia litterária - -Author: Almeida Garrett - -Release Date: November 25, 2022 [eBook #69423] - -Language: Portuguese - -Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team - at https://www.pgdp.net (This file was produced from images - generously made available by National Library of Portugal - (Biblioteca Nacional de Portugal).) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O RETRATO DE VENUS E ESTUDOS -DE HISTORIA LITTERÁRIA *** - - - - - - OBRAS - - DO - - V. DE ALMEIDA-GARRETT - - - XXI - - - O RETRATO DE VENUS - - E - - ESTUDOS DE HISTORIA LITTERARIA - - - - - OBRAS LITTERARIAS - - DO - - VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT - - -THEATRO: - - TOMO I--Catão. - » II--Merope, Gil Vicente. - » III--Frei Luiz de Sousa. - » IV--D. Philippa de Vilhena. - » V--A Sobrinha do Marquez, As prophecias do - Bandarra, Um noivado no Dáfundo. - » VI--O Alfageme de Santarem. - -VERSOS: - - Camões. - D. Branca. - Lyrica. - Fabula, Folhas cahidas. - Flores sem fructo. - Romanceiro, 3 vol. - O Retrato de Venus. - -PROSA: - - Viagens na minha terra, 2 vol. - O Arco de Sanct’Anna, 2 vol. - Portugal na Balança da Europa. - Da Educação. - Helena (romance). - Discursos parlamentares e Memorias biographicas. - Escriptos diversos. - - - - - O RETRATO DE VENUS - - E - - ESTUDOS DE HISTORIA LITTERARIA - - PELO - - VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT - - - _Terceira edição_ - - - PORTO - - Ernesto Chardron, Editor - - 1884 - - - - - PORTO: 1884--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA - - 62, Rua da Cancella Velha, 62 - - - - - O RETRATO DE VENUS - - - - - ADVERTENCIA - - -_Fui sempre muito pouco amigo de dar satisfações. Porém ésta minha -repugnancia não é filha de presumpção, nem de orgulho. De todo o -meu coração o digo, e todos os que me conhecem, o sabem. Nascem da -persuasão, em que estou, de que a justificação d’uma cousa está na -maneira por que essa cousa se faz. E applicando ésta generalidade ás -composições litterarias, cada vez me convenço mais que os prologos, -prefacios, avisos a leitores, etc. nada fazem, nem fizeram, nem farão -nunca ao conceito que da obra se fórma. - -E principio foi este, por que na faxada do meu poema não puz tal -ceremonia. Revendo-o porem agora, examinando este_ ENSAIO, _e -conhecendo-lhe infindos defeitos, que me tinham escapado; sendo-me -impossivel emenda-los; resolvo-me a dar =satisfação=; não para -pretender justifica-los, e salvar-me da crítica com subtilezas, e -argucias; mas para fazer confissão pública d’elles. - -Se me é licito porem dizer duas palavras em meu abono, direi que tanto -o poema, como as notas, e ensaio são da minha infancia poetica; são -compostos na idade de dezasette annos. Isto não é impostura: sobejas -pessoas ha hi, que m’o viram começar, e acabar então. É certo que desde -esse tempo ategora, em que conto quasi vinte e dous, por tres vezes o -tenho corrigido; e até submettido á censura de pessoas doutas, e de -conhecida philologia, como foi o Excellentissimo Senhor =S. Luiz=, que -me honrou a mim, e a este opusculo com suas correcções. Mas todos estes -cuidados não puderam (emquanto a mim) tirar-lhe o vicio do nascimento. - -Eis aqui a minha confissão geral. Os que me absolverem ficar-lhes-hei -muito obrigado; os que não quizerem, paciencia; não me mato por -isso. Comecei esta obrinha por desenfado: acabei-a por divertimento: -publico-a por amor das artes: se me criticarem, rio-me, e não fico mal -com ninguem._ - - - - - O RETRATO DE VENUS - - POEMA - - - _.... while it pursues - Things unnattempted yet in prose, or rhyme._ - - MILT. _Parad. loste_: book I. V. 15. - - - CANTO PRIMEIRO - - Doce mãe do universo, ó Natureza, - Alma origem do ser, germe da vida, - Tu, que matizas de verdor mimoso - Na estação do prazer o monte, o prado, - E á voz fagueira de celeste gôso - De multimodos entes reproduzes - A variada existencia, e lh’a prolongas; - Que, no fluido immenso legislando, - Libras sem conto ponderosos mundos, - Que na ellipse invariavel rotam fixos, - Ó alma do universo, ó Natureza, - Teus sacros penetraes em vôo ardido - Busco, rasgo-lhe o véo, prescruto, e vejo - Insondaveis mysterios: puro, e simples - Nunca ouvidas canções na lyra entôo. - Nua d’enfeites vãos a face amena - Tu volve ao mundo, que te ignora errado. - Qual és, qual foste, qual te apura os mimos - A arte engenhosa, tu lhe amostra e ensina. - - Como é dado aos mortaes bellezas tuas - C’o divino pincel, co’as magas tintas - Estremar com primor, colher-lhe o bejo, - Sem donosas ficções meu canto ensine. - - Ficções!... E aureas ficções desdenha o sabio? - A douta, a mestra antiguidade o diga. - Não; fabula gentil, volve a meus versos; - Orna-me a lyra c’os festões de rosas, - Que ás margens colhes da Castalia pura: - Flores, que outr’ora de Epicuro ao vate - C’o austero assumpto lhe entrançaste amenas, - Essas no canto me desparze agora. - - Venus, Venus gentil! Mais doce, e meigo - Soa este nome, ó Natureza augusta. - Amores, graças, revoae-lhe emtorno, - Cingi-lhe a zona, que enfeitiça os olhos; - Que inflamma os corações, que as almas rende. - Vem, ó Cypria formosa, oh! vem do Olympo, - Vem c’um mago surrir, c’um terno bejo - Fazer-me vate, endeusar-me a lyra. - - E quanto pódes c’um surriso, ó Venus! - Jove, que empunhe o temeroso raio; - Neptuno as ondas tempestuoso agite; - Torvo Sumano desenfreie as furias... - Se dos olhos gentis, dos labios meigos - Desprender um surriso a Idalia deusa, - Rendido é Jove, o mar, o Averno, o Olympo. - - Mas quanto é bello, é grato o vencimento, - Se á dor suave do pungir fagueiro, - Da ferida se encontra amigo balsamo, - E nos olhos da linda vencedora - Do ardimento o perdão brando se accolhe! - Tu, Marte, o dize, o Cyprio moço, o Teucro; - E vós, que ousais na terra imitar numes, - Que do summo prazer rompendo arcanos, - N’um momento gosais da eternidade. - - Emquanto nas lidadas officinas, - Forjando o raio vingador dos numes, - Vive o coxo marido sem receios, - Ja deslembrado da traidora rede; - Do Cynireo mancebo entre os abraços, - Jaz a espôsa gentil ennamorada. - Nas languidas pupillas lhe transluze - O prazer divinal, que a opprime, e anceia; - Nos inflammados bejos, nas caricias, - No palpitar do seio voluptuoso, - No lascivo apertar dos braços niveos, - Nos olhos, em que a luz quasi se extingue, - Na interrompida voz, que balbucia, - Nos derradeiros ais, que desfalecem... - Quem do prazer não reconhece a deusa - No excesso do prazer quasi espirando? - Surri-lhe ao lado o filho de travesso, - E d’entre o myrtho as candidas pombinhas - C’o estremecido arrulho a dona imitam. - - Ah! se o gôsto supremo a um deus não peja, - Porquê mesquinhas leis nos vedam barbaras - Tam suave pecar, doce delicto, - Antes virtude, que natura ensina! - Dest’arte as breves horas decorriam - Aos alheados, férvidos amantes; - E vezes tres rotára o disco argenteo - Trivia gentil, semque no Olympo, ou Lemnos - A espôsa de Vulcano apparecesse. - Ja na etherea mansão vagos juizos - Maliciosos forma a inveja, a intriga; - E surriso maligno ás deusas todas, - Do marido infeliz excita o fado. - - Em zelosa vingança affana e freme - O despeitoso Marte; corre, voa, - E em busca da infiel vagueia o mundo. - Coxeando o segue o malfadado espôso, - Dos antigos errores esquecido: - Tal é, paixão zelosa, o teu imperio! - - Eis do somno d’amor espavoridos, - Os dous amantes c’o ruido accordam. - De pavor esmorece o joven timido; - Por elle anceia a carinhosa amante, - Descuidosa de si; geme, soluça. - E do amado na dor, sua dor recresce. - Que fará?... vacillante... Adonis... Marte... - O espôso... Ideias, que alma lhe confundem! - Com o amante ficar, morrer com elle? - Defender com seu peito o peito amado? - E salval-o é possivel d’esta sorte? - Deixa-lo?... Fera ideia!... Ir as suspeitas - Dos numes dissipar com sua presença? - Que! deixa-lo! o seu bem! Venus a Adonis! - Tanto não póde a mesma divindade. - - Mas este só lhe resta unico meio: - É forçoso: comsigo ao carro o sobe; - Voa a Paphos, e ás Graças lisongeiras - O precioso pinhor saudosa entrega, - Que n’um basto rosal mimoso o guardem, - Velem sempre por elle, té que aos deuses - Se esvaeça o furor. Subito ao Olympo, - Composto o vulto, serenando os olhos, - N’um momento chegou: mago atractivo - Que lhe spira dos labios, das pupillas, - Do todo encantador, odios, suspeitas - Desfaz, esquece em animos divinos: - Tam pouco, ó bellas, persuadir-nos, custa! - - Arde voltar ao suspirado asylo; - Mas teme a vejam desconfiados olhos; - E em tanto Adonis geme, e o seu tormento - Mais que o proprio penar lhe punge n’alma. - Disenhos volve... Alfim um lhe suscita - Novo a mente engenhosa: ei-lo abraçado. - - Jaz muito alem do tormentorio cabo, - (Sempiterno brasão da Lusa gloria) - Em não sabido mar, jamais sulcado, - Ilha aprazivel, deliciosa, e breve. - A mão dos homens destruidora, e barbara, - Mimos da creação não lhe estragára. - A seu grado crescia o bosque, a selva; - Vecejava sem leis o prado ameno; - D’alvas pedrinhas pelo leito amigo - Se espreguiçava o crystalino arroio, - Sem temer que impia dextra ouse perversa, - No brando curso interromper-lhe as aguas. - Prêsas não gemem fugitivas Nayas, - Nem Dryades gentis feridas choram: - Sem arte a natureza era inda a mesma. - No mais escuro do copado bosque - Ternas suspiram maviosas rôlas; - E em mais alegres sons, prazer mais ledo, - A meiga ave d’amor no arrulho exprime. - Outro vivente algum a aura fagueira - Não ousa respirar. Silencio eterno - Impera na soidão, dobra-lhe encantos. - - Tam suave mansão nem mesmo os numes - No ceo conhecem. Da ternura a deusa, - Só Venus sabe do recanto ameno. - Tu, do universo creador principio, - Venus! oh mãe d’amor, oh mãe de tudo! - Que amor é tudo, que só tu com elle, - Ambos creastes e regeis o mundo, - Que a natureza sois, ou ella é vossa: - Cypria, Cypria gentil, pódes acaso - Ignorar uma só das obras tuas? - - «Mãe, (lhe diz, entre alegre e malicioso, - Mas compassivo, o filho), «nessa ignota - «Ilha do Indico mar...»--Um doce bejo - O concelho pagou.--Subito parte. - Lá chega; e nova se difunde a vida - Na solitaria estancia; em novos germes - O deleite, o prazer renascem, pulam. - - Quam doces d’antemão gosou delicias - A mui fagueira deusa! O sitio ameno - Extasiada contempla. «Oh! quam ditosos - (Clamou) «seremos! Ignorado, occulto, - Ó doce amante, viverás sem medo. - Aqui, no seio da ventura e gôso, - Nos meus braços...» Parou suspensa, e geme: - Cruel lembrança lhe assomou na mente; - Agros deveres, perfidas suspeitas, - Quantas vezes do amante hão de aparta-la! - Suspira: as rosas do prazer se esvaem - Das lindas faces niveas. Pensativa, - Melancolica, e triste... (Eis fausto agouro!) - Estremecido arrulho alvas pombinhas - Deram á sestra mão. Ah! sim: é elle: - Amor, apoz a mãe, veio ajuda-la. - - «Filho (co’a voz lhe diz, que impera em Jove, - Que tam suave rege a natureza), - «Tu me feriste; não accuso o golpe: - Amo, adoro esse ferro, que me punge, - Que na chaga, que abriu, doçura entorna; - Só quero, só te peço (que não peja - De implorar-te soccorro a mãe ferida) - Derradeira mercê: oh! deixa um pouco - D’humanos corações facil conquista: - Cesse qualquer amor quando ama Venus. - A culta Europa rapido discorre, - E a progenie d’Apollo, almos, divinos, - Os pintores me traze aqui n’um ponto. - - Pasmou c’o rôgo inesperado o numen: - A causa inquire. «Ah! não: (lhe torna a deusa) - Não cumpre ainda revelar-t’a, ó filho; - Cubra o véo do mysterio o doce intento.» - - Mal disse: e o raio mais veloz não rue - Da rubra dextra do Tonante irado, - Do que a tuba dos candidos amores - Á voz da deusa fende os ares liquidos. - Quaes voam de Minerva ao sabio clima, - Hoje torpe, e servil c’o bruto imperio: - Quaes á augusta senhora do universo; - Senhora, emquanto Roma era inda Roma: - Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco: - Á formosa Bolonha, á gran Veneza; - Grande emquanto reinou sobre o Oceano: - Quaes á suberba Gallia, á Iberia, a Lysia; - Que de Lysia tambem, tam cara ás musas, - Da poesia a rival, a irman tem filhos. - - De toda a parte a obedecer contentes - Correm ao mando de Cyprina bella, - Da natura em despeito, homens creadores, - Prometheus, que á materia informe e bruta - C’o divino pincel dão fórma, e vida; - Erguem da campa gerações extinctas; - Plantam copados, que enfloream, bosques; - Co’a viva historia os homens eternisam; - E, fitando no ceo audazes vistas, - Aos pasmados sentidos apresentam - Visivel, sem rebuço a divindade. - - Da fertil em prodigios, d’alta Grecia - O pae d’arte divina, Apelles marcha, - Thimante, Zeuxis, e Parrhasio, e quantos - A culta Grecia, a deliciosa Roma - Famosos produziu em sec’los d’ouro. - Cimabúe famoso apoz caminha, - Que as esfriadas cinzas animando - Do engenho, do talento, o faxo vívido - Fez na Europa brilhar, e abriu de novo - O caminho gentil da natureza - Do barbaro furor fechado, ha muito. - - Aos golpes crebros, incessantes, duros - Da ferrea mão do avaro despotismo, - Sem fôrças, sem vigor jazia, ha muito, - A misera Bysancio. Em surda guerra - Fallaz superstição d’infames bonzos, - Fanatismo cruel, bifronte, e iniquo, - Hypocrisia vil, perfida e dobre, - Ruina infausta lhe apressava, e morte. - Ávidos sorvos de Roman cubiça, - Da Latina ambição, riquezas, pompa - Roubado haviam insaciaveis, féros - De Constantino á côrte. Espessa nuvem - De negros vicios, de perversos crimes - Pousou medonha sobre os tristes netos - Degenerados, vis d’um povo illustre. - Crestadas, sêcas pelo sôpro ardente - Da tyrannia atroz definham, morrem - Apesinhadas as virtudes candidas; - Ao cûmulo chegou desdita, opprobrio - Dos fados teus, ó Grecia. Eis ante as portas - Da famosa cidade, audaz, suberbo - Musulmano feroz, Mahomet se ostenta. - Monstros, que o sangue do mesquinho povo - Impios bebestes, ah! tremei, que é elle: - Austero açoite das celestes iras - Sobre vós descarrega a mão divina. - Bonzos, no centro aos claustros profanados - Embalde a frente d’horridas maldades - Carregada escondeis: lá vai, lá chega; - Sobre as aras d’um deus, a um deus, que ousastes, - Incençando-o, offender, lá vos immola. - - Artes, sciencias, a guarida extrema, - Perdeste’-a em fim: voltai, fugí; que Hesperia - Os carinhosos braços vos estende. - Ei-las: oh! folga, venturosa Europa. - Lá cai a pouco e pouco em terra o throno - Da barbara ignorancia: as trevas do êrro - Vai accossando da verdade o faxo. - - Arte divina, magica pintura, - Foragida tambem, thesouros, mimos - Vens espalhar na mui ditosa Italia. - Italia! oh! folga: Raphaeis ja pulam. - - - - - FIM DO CANTO PRIMEIRO - - - - - CANTO SEGUNDO - - - Mas eis, distinctos esquadrões formando, - As escholas assomam; reina entre ellas - Vivaz emulação, que gera os sabios: - Vão-lhe na frente os affamados chefes, - Que a patria honraram c’o pincel divino. - - No bello antigo modelando as graças, - Que em mais sabio pincel, mais bellas surgem, - A frente airosa sobre erguendo ás outras, - Vem tribu excelsa dos Romãos pintores. - Deram-lhe o grau supremo ardua sciencia - Das attitudes, d’expressão, verdade, - De audaz composição, nobre elegancia, - O correcto desenho, e puro, e grave, - E quanto inspira Apollo ás almas grandes, - Em extasi sublime altas ideias. - É filho seu (que mais sobeja glória!) - Raphael, o divino, o mestre, o numen - Da moderna pintura, eterno brilho, - Que os Apelles offusca, e Roma, e Grecia; - Que, as barreiras transpondo á natureza, - Olhou de face a face a divindade, - E as glórias do Thabôr fez ver ao Tybre, - E aos d’arte amantes desejar com Pedro - Junto ao prodigio habitação ditosa.[1] - - Julio o mestre imitou, foi digno d’elle: - Forte, ardida expressão lhe anima os traços, - Que ás proficuas lições dão glória e lustre. - - Em cêrca aos muros da gentil Parthénope, - Onde aprimora a natureza os mimos, - E a voz do creador soou mais bella, - Onde, entre montes de sulphureas cinzas, - Umas sobre outras, as cidades jazem, - E a rôdo os d’atro fogo horridos rios - A poeticas ficções dão ser terrivel; - Alli, silencio eterno ergueu severo - Religiosa mansão; firmou-lhe as bases - Austera, descarnada penitencia. - Sobre as azas do ingenho, á voz d’um numen, - Vigoroso, expressivo Spanholeto, - Lá foste, e a assomos do pincel terrivel - Em longas vestes surgem, pulam, vivem - Fatidicos anciãos; ás portas velam - Da estancia outr’ora silenciosa, e sancta. - E quando atroz, hypocrita veneno, - Lavrando a furto sob o sacco, e cinza, - Os muros profanou, que ergueu virtude, - Inda no mesto panno afflictos suam; - E a gloria do pintor fulge entre o crime.[2] - - Fostes, como elle, heroes da arte divina, - Polidoro gentil, vivaz Fattore, - Saliente Caravaggio, que exprimiste, - Senão bella, fiel a natureza. - - Nobre, altivo Cortona, quanto vivem - Scenas famosas da nascente Roma! - Nas mães trementes, pallidas filhinhas, - Ve como a mesma dôr redobra encantos! - E o fero aspeito dos Quirinos Martes, - Onde a furto da glória amor scintilla! - Ah! proximo o prazer vai dar ao mundo - Prodigios de valor, extremos d’honra, - Prole Romana... Eis o universo em ferros.[3] - - Amavel, terno Sacchi, a ti surriram - Do mago cinto de Erycina as graças; - Meigos, suaves dons te esparzem n’alma, - Que nos quadros gentis reflectem doces. - Belligero Cerquozzi avulta aos olhos - Brandir no panno, lampejar mil ferros, - E aos roucos sons da sanguinosa guerra, - Entre as phalanges baralhadas rôtas, - Entre abysmos d’horror alçar-se a morte.[4] - - Quam magos fulgem divinaes, sublimes, - Maratti encantador, facil Giordano, - Mimoso Dolce, e vós, que á nova Roma - Ingenhos tantos, insondaveis, grandes, - Por guerreiros tropheos, suberbos róstros, - Triumphos cem do ovante Capitolio, - Dais, se menos viril, menos heroico, - Ornamento gentil, belleza, encantos. - - Ja de acurvados reis não brilha o fasto - Da escravidão contentes; não se antolha - Em cada senador um nume, um Jove. - Ja nas praças, nos templos não campeiam - Os despojos do mundo; o Circo, o Fóro, - Prodigios d’arte, da opulencia, e luxo, - Da barbara ignorancia ás mãos cederam. - Cheio de Livio o viajante absorto - Não ve do Capitolio a frente erguida - Torreada avultar com ferros cento, - Não ve povo d’heroes girar-lhe entôrno; - Da inesp’rada mudança pasma, e geme, - E no centro de Roma a Roma busca. - Porem, se amiga mão lhe guia os passos, - Se o Vaticano e mil prodigios nota, - Que do antigo explendor moderam fama; - Então Roma conhece, então venera - Nobres resquicios de gloriosos évos. - - Taes da moderna Roma os filhos iam - Por travesso menino conduzidos; - E d’altiva belleza ornada a frente, - A magestosa, Florentina eschola - De perto os segue: no atrevido ensejo - Parece disputar-lhe o grau supremo. - Co’a sublime expressão, desenho ardido, - Gigantesca maneira, audaz, mas bella, - Se antolha ennobrecer a natureza. - Brandas graças d’amor, ternura, encantos - Feroz desdenha; só lhe avulta á mente - O nobre, a pompa da ideal grandeza. - - Não foi sobre o Synai mais formidavel, - Que d’Angelo entre as mãos, Moysés terrivel; - Nem lá no extremo, derradeiro dia - Julgamento final será mais horrido. - C’o deus, que o peito vos perturba, anceia, - Mais pavorosas não rugís, Sibylas. - Da mão nervosa cada traço é raio, - Que espanta os olhos, que deslumbra a mente; - Que enxofrado clarão, medonhas larvas - Em todo o horror do Averno ostenta horrivel; - Que, se um deus pinta, é do castigo o numen, - Que em longa geração pune um só crime, - O deus, que no deserto, entre os relampagos, - Entre o rouco estampido das trombetas, - Pela voz do trovão legisla ao mundo. - Eis, desdobrando hydraulicos segredos, - E as mechanicas leis com sabia dextra - Movendo a seu sabor, á glória sua, - Vinci tam caro aos reis, de o ser tam digno, - Seu correcto, purissimo desenho, - Engenhoso compor o eleva aos astros, - Aos astros, onde fôra em vôo ardido - Os pinceis escolher, buscar as tintas, - Com que d’ultima ceia debuxára - Amor, transportes, mysteriosas scenas. - Ah! gire o teu prodigio o mundo inteiro; - E de grado a razão cede ao mysterio. - - Côres roubando á natureza, e mimos, - Bello como ella, o inimitavel Porta - Ao gelado silencio de ermo claustro - Chamou das nove irmans o chôro arguto. - Urbino o conheceu; e o sceptro augusto - Curvou ante elle; e, confundindo os raios, - Os dous d’alma pintura astros brilhantes, - Sem negro eclypse, scintillaram juntos. - - Vens, ó Sarto, apoz elle, ameno, e brando; - Vens, Peruzzi gentil, fertil Pantorma, - Que ao nobre assômo do pincel nervoso, - C’o doce encanto das mimosas tintas - Fizeste a Raphael, a Buonarrotti - D’arte a coroa estremecer na frente. - Sec’los famosos d’Alexandre, e Augusto - Na Italia renovou macio Allori; - E as meigas cores do pincel Lombardo - Quasi Ciogli usurpára ao grão Corregio. - - Ah! veda a musa, e pequenez do ingenho - Seguir-vos todos, divinaes pintores: - Segura a fama vossa alteia a frente, - E o vate ao longe vos contempla os vôos. - - Gentil Bolonha, que na Europa barbara - O faxo das sciencias accendeste, - Que o Gothico stupor tiraste ás artes, - E as cinzas da virtude apesinhadas - Por sanctos crimes de sagrados monstros - C’um Benedicto consolaste em Roma, - Eis vem dignos de ti, teus sabios filhos, - Numerosa familia, antiga e nobre, - Que o mel das graças delibando férvida - Em quantas flores produzíra Apollo, - Nobre desenho modelou no antigo, - Á natura usurpou vivaz belleza, - E o mago, o puro dos gentis contornos, - A verdade, a expressão, o rico d’ordem, - E o colorido inimitavel, bello, - Que emparelha com a arte a natureza. - - Assim brilhou divino o gran Corregio, - Assim Francia gentil, assim Mantegna, - E Bolognese vigoroso, e forte; - E tu, que o terno amor, e seus encantos, - Simplices graças da natura virgem, - Da innocencia infantil o mimo, os jogos, - As singelas beldades exprimiste - No mavioso pincel, mavioso Albano. - Nem deslembre de Guido a fertil mente, - Talento universal, vago, mas bello... - - C’a expressão de Zampieri ordem, nobreza, - Ve d’Agnese gentil a ardua constancia - Como os p’rigos desdenha, e ve risonha - Ja do ferro do algoz pender-lhe a morte. - Ferino aspeito dos ministros barbaros, - Da augusta religião viril triumpho - Aos engolfados olhos se apresenta, - E, arrebatando o esp’rito a deus, ao vate, - Um prodigio a prodigios amontoa. - Ve Guerccino tambem, que ora nervoso, - Ora sombrio, e fero, e terno outr’ora, - Mas sempre encantador, em cada rasgo - C’um portento de mais a arte enriquece. - Qual vira a Palestina o pae dos crentes[5] - De fe, de submissão dar nobre exemplo; - Tal vive no pincel, tal inda avulta - Co’as veneraveis cans, e honrado aspeito. - Misero velho! desgraçado infante! - Que! tu mesmo, infeliz! co’a mão paterna - Hasde cortar-lhe o fio á tenra vida, - Unica esp’rança de cançados annos, - De mui doces promessas? Como... ai triste! - Oh! como voltará sem elle á tenda? - Com que olhos fitará maternos olhos? - Com que voz lhe dirá?... Mas parte: e a dextra - Ja, ja quasi... Suspende: um deus o ordena; - Um deus é pae tambem: suspende o crime: - São leis da natureza as leis divinas; - Em premio da tua fe recebe o filho. - - Ah! se ao nome Lombardo é pouco tanto; - Eis triplice ornamento á patria, ao mundo, - Doutos Caraccis, que o divino ingenho, - Ou co’a dextra gentil ornando a Italia, - Ou dando á juventude almos preceitos - Da arte formosa, perpetuando-a aos évos, - Nova, estremada lhe augmentáram glória. - - - NOTAS DE RODAPÉ: - -[1] A transfiguração de Raphael. - -[2] Quadros dos prophetas por Spanholeto, na Cartucha de Napoles. - -[3] O roubo das Sabinas por Cortona. - -[4] Pintor de batalhas. - -[5] O sacrificio de Isach, quadro famoso de Guerccino. - - - - - FIM DO CANTO SEGUNDO - - - - - CANTO TERCEIRO - - - Musa, deixemos a mansão terrestre, - Sobre o infido elemento estende os vôos. - Eis sobre as ondas c’o pincel divino - Maga pintura, legislando ás vagas, - Enfreia as iras de Neptuno indomito. - Ve d’Adria o gôlpho tempestuoso, e fero - Á voz da liberdade agrilhoado. - Surge do seio das domadas aguas - A cidade gentil: pasmou de ve-la, - E corou de vergonha a natureza. - E a mão do creador, ao ver confusos, - Baralhados antigos elementos, - Se ao homem, que os trocou, não dera a vida, - Quasi, quasi um rival temêra nelle. - Alli, fugindo aos clamorosos brados, - Ao jugo, á servidão da tyrannia, - Homens, poucos, mas homens, começaram - Com ância a defender sacros direitos. - Emporio foi depois do rico Oriente, - E do alado leão tremeu gran tempo - O atrevido colosso Mussulmano. - Hoje (ideias de dor, lembrança amarga!) - Da poppa olhando o navegante ao longe: - «Veneza aquella foi»--exclama, e geme; - E segue a esteira das cortadas ondas. - - Veneza foi: compridas, longas eras - Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios; - E as dadivosas musas lhe outorgaram - Egregios filhos, que o talento, as vidas - Á formosa sciencia consagraram; - Que imitando fieis a natureza, - Olhos seduzem, e deleitam alma, - Que nos toques graciosos, na belleza - Da gentil invenção, doce magia - Do claro-escuro, rico invento d’arte, - Aos mais sabios pinceis não cedem nada. - - Deusa, acode á avidez, que o vate enleia, - Fere nas cordas da estremada lyra - Dos famosos varões o nome e os dotes: - Dize a Ticiano, dize quaes natura - Lhe entornou dadivosa encantos simples, - Que, ou arte ignoram, ou subtis a escondem; - Ja d’humanas feições transsumpto exacto, - Ja co’as nativas côres exprimindo - No ingenhoso pincel tudo o que existe. - - Adriades gentís, oh! vinde, as frentes - Coroadas de dor, na campa avara - Humido pranto derramar saudoso! - Ai do triste mancebo! o fado iniquo, - Só por chora-lo, o concedêra ao mundo! - Oh! com quanta expressão, nobre altiveza - Castel-franco brilhou, fulgiu mais que homem! - E tam breve lhe deu a sorte a vida! - E no fuso cruel a Parca dura - Um fio tam gentil fiou tam curto! - - Oh! suspendei as lagrimas formosas: - Longa carreira os ceos marcaram próvidos - Aos dous Bellinis, venerandos chefes - Da nomeada eschola; á glória vossa - Vivem padrões eternos; Piombo illustre, - Que a fama ousou balancear d’Urbino; - Pordenone inventor, de quem Ticiano - Temeu roubadas as divinas côres; - Completo Palma, a quem mostrou natura - Sempre formoso o variado aspeito; - Animado Bassano verdadeiro; - Fertil, e vivo Tintoreto rapido; - E tu, Paulo gentil, delicias, mimo - Dos voluptuosos olhos da donzella; - (Mui grato enlêvo do insoffrido amante) - Qual Verona folgou com seu Catullo, - Tal comtigo: mil graças, mil encantos - Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera - Nua de pompas vans, a natureza: - Seu renome inda vive; e o teu com elle, - Emque lhe péze á inveja, e seus furores, - Hade eterno brilhar. Assim raivosas, - Frustradas gralhas invejosas grasnam - Á ave olympia de Jove; e entanto os vôos - Ella ao sol remontando, as mofa, e burla. - - Porem mais longe da rinhosa Hesperia - Voltemos a attenção: ve como em Flandres, - Scena outr’ora infeliz da glória Franca, - Da Cypria deusa demandando a estancia - Vai turba immensa dos rivaes d’Italia. - As graças naturaes, singellas, puras - Á porfia a accompanham: não se enfeita - Por suas mãos a simples natureza: - Em loução desalinho bella, e nua - Mimos lhe outorga, que ella só conhece, - Que a vós é dado só, magos pintores, - Com arte ignota do universo ao resto - No pincel exprimir fiel, divino. - Prodigios fallem de Van-Eick famoso, - Do correcto, vivaz, firme Duréro; - Dize-o por todos; se inda alguem no mundo - Ignora tanto, que te ignore os dotes; - Fertil, brilhante, verdadeiro Rubens. - Rubens! Oh nome! Ó filhas de Memoria, - Vós, que no Pindo entre o verdor mimoso - Lhe bafejastes divinal espirito, - Quando, librado sobre as azas d’ouro - De sublime, elevada allegoria, - Viu, pintou... Ah! fez mais: creou, deu vida - A chymericos entes, vãos, mas bellos, - Que o vivo imaginar lhe debuxara. - Quam doce, e meiga a enternecida Venus - Com suspiros, com ais, com ternos bejos - Tenta a furia applacar, retter nos braços - Gradivo impaciente! Olha do monstro - O torvo gesto, o faxo sanguinoso... - Ella!... a guerra cruel! a horrivel frente - Co’a máscara da glória esconde ao numen, - E o veneno lethal lhe infunde n’alma. - Lá baqueia de Jano o templo augusto; - As artes, as sciencias calca o monstro; - E a d’auradas espigas, rubros pomos - Gentil coroa á agricultura arranca. - Ternura, horror, assolação, belleza - Com portentosa mão juntaste, ó Rubens.[6] - - Quam bello é na expressão Vaén correcto! - Hólbein sublime, vigoroso, nobre! - Van-Rin saliente, harmonioso, e doce! - Quam firme é Wanderwérff singello, e puro! - E tu, mimoso Van-Dernér, que em Gnido - Bebeste as graças, possuiste os risos. - - Ah! ja cançada se me affrouxa a lyra: - Rouca, e sem voz mal associa ás cordas - Difficeis nomes de estremados mestres. - Um por tantos direi; e o nome illustre - Te baste, ó Flandria, a coroar-te a gloria: - O bello, o simples, verdadeiro, e grande, - Do mestre a obra maior, Vandick insigne. - - Mas, qual ruido, que tumulto, ó musas, - Do Pindo a sacra paz impio disturba? - Quanto vivem!... Que heroes da patria raios! - Armas! guerra! o furor! o sangue! a morte! - Destrôço! horror! assolações! ruinas! - Eis dos Alpes franqueado o gêlo eterno; - Nada resiste: c’o rugido extremo - Baqueia exangue de Pyrene a fera. - Co’a Europeia ruina Africa nuta, - Asia treme; e nas praias de Colombo - A fugitiva liberdade apporta. - A longes terras se accolheu Minerva, - Sem rumo as artes desgrenhadas fogem, - A Roma de Catão, d’Augusto a Roma - Não é de Pio a effeminada côrte; - E em vez d’um Fabio tardador, d’um Quincio, - D’um Bruto, um Manlio; prostituta prole - No deshonrado Capitolio avulta. - - Quem, bellezas d’Italia, hade amparar-vos? - Quem!... Animos cobrai; volvei sem medo - Artes, sciencias: já no Sena ovante - O proprio vencedor no seio amigo - Vos accolhe, e accarinha, e no alto alcaçar - Augusto solio perenal vos ergue. - No Sena ovante (oh do porvir assombro!) - Em quanto os filhos seus, terror do mundo, - Raios desferem, que o universo atterram; - Renasce mais gentil, vive mais fúlgido - O sec’lo de Luiz; succede á velha, - Á pedante Sorbona, almo Instituto. - Eis novos Raphaeis, arte divina! - - Não lamentes Poussin, Gallia ditosa, - De Mignard, e Blanchard divinas côres, - De Lebrun a expressão, fieis costumes, - Paizagens de Lorrain, maga ternura - Do voluptuoso, encantador Santerre, - Grandioso stylo do vivaz Subleyras: - Teus modernos heroes excedem tudo; - E ao seio da opulencia amamentados, - Á voz da glória redobrando exforços, - Talvez irão com denodado arrôjo - Do solio d’arte derribar a Italia. - - Se, entre barbaras mãos gemendo outr’ora, - Devêste a Belisario a vida, ó Roma; - Se das furias crueis d’horrida guerra - O juramento te isentou d’Horacios; - Se quanto foste em gloriosas quadras - A um necessario roubo, á paz, que o segue, - Ao ferro audaz de Romulo devêste;[7] - Treme d’elles agora, treme, ó Roma; - Que no heroico pincel David illustre - As cinzas lhe animou; marcham por elle - Tua fama a conquistar, roubar teus louros: - De Urbino, e Buonarrotti o throno prostram; - Eis campeia David!--Não longe d’elle - O terno Girodet, suave, e brando, - Que, do Meschacebeu vingando as margens, - C’o vate insigne emparelhou nos vôos, - E na pasmada Europa ergueu d’Americo - As pomposas florestas, e a nobreza, - Ornamento feroz d’um mundo virgem: - Que os encantos d’amor, e os seus furores, - O podêr da virtude, e os seus exforços - Dignos d’elle exprimiu, e fez de novo - Olhos sensiveis afogar em pranto. - - Eis á voz de Gérard das campas rompem - Extinctas gerações: Saturno as azas - Indignado encolheu, e a prêsa antiga - Viu roubar-lh’a o pincel, quebrar-lhe os éllos - Da impreterivel, perenal cadeia. - - * * * * * - - Ruge fremente o mar, bramindo, e ronca - Nas oucas rocas, nas quebradas fragas - Do tormentorio mar... Lá se ergue ingente, - E immenso troa o colossal gigante. - Treme d’entôrno o mar, e a terra, e o mundo; - E a voz, que os polos com fragor desloca, - Pela primeira vez á gente Lusa - Pallida imprime a sensação do medo. - Só impavido, um só, Vasco lhe arrosta: - Pasma a ousadia d’um mortal a um nume. - - * * * * * - - Oh lagrimas d’Ignez, sangue innocente, - Correi, correi do milagroso panno; - E em lagrimas de sangue o applauso eterno - Aos vates recebei, aos vates ambos. - Oh Gérard! oh Camões! qual mão divina - Vos uniu, vos juntou? Oh! folga, ó patria! - E tu, Sousa immortal, grata homenagem - Recebe eterna da mui grata Elysia.[8] - - Ve nas mãos de Guérin qual geme e anceia - Pincel, que hervou na dor, que embebe em pranto, - Que incestos, crimes (de Trezena horrores) - C’o Euripides Francez disputa ainda. - Quem de pavor, de compaixão não gela - Ao ver nas murchas, esmyrradas faces - Da bella ainda, miseranda Phedra - Surgir do panno, que as conter mal póde, - D’um criminoso amor, violencia, e fogo?[9] - - Guerreira a mente de Vernet fulmina - Os raios de Mavorte, o horror das armas; - E sobre os quadros de Le-Gros famoso - Os manes folgam de Rollin, Voltaire. - - Mas tanta glória inda não basta, ó Francos, - Para o completo, universal triumpho: - Que no Ibero pincel inda refulge - O nome de Ribera, o de Murillo, - E duvida d’Albion mosqueada fera, - Vaidosa d’West, conceder-te a palma; - Inda lhes guardam justiçosas musas - No bifido Parnaso um grau distincto. - - Assim quando no ceu, callada a noute, - Candida brilha sup’rior Diana, - Se com menos fulgor, astros com tudo, - Gentis avultam nitidas estrellas. - - - NOTAS DE RODAPÉ: - -[6] Quadro allegorico da guerra por R. - -[7] Quadros celebres de David. - -[8] Celebres pinturas de Gérard na edição dos Lusiadas pelo Sr. José -Maria de Sousa. - -[9] Pinturas de Guérin tiradas de Racine. - - - - - FIM DO CANTO TERCEIRO - - - - - CANTO QUARTO - - - Eia! colhamos as cançadas vélas, - Musa: o filhinho da amorosa Venus - Ja pelos ares liquidos se entranha, - E ledo corre co’as donosas tribus - Dos illustres rivaes da natureza. - Da Europa toda ja voaram férvidos - Da voz ennamorada ao som fagueiro, - Só Lysia falta... A minha Lysia, ó Venus! - A patria dos heroes, a mãe dos vates, - A patria de Camões, do teu Filinto! - Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes - Sempre em teu nome resoou na lyra! - Onde a teu culto, mais que em Roma, ou Grecia, - Em cada coração se eleva um templo! - Lysia, de Venus esqueceram filhos! - Ah! volve os olhos immortaes, divinos, - Aos seculos remotos; ve no Tejo - Como entre as sombras da ignorancia Gothica - Brilham nas trevas Lusitanas tintas; - Ve do gran Manoel na épocha d’ouro - Sobre as bellas irmans como se eleva - A divinal pintura; ve mais perto, - Em quanto geme c’o ferrenho jugo - A flor, a augusta das nações princeza, - Erguer das ruinas sobranceira a frente; - E alfim nas quadras que marcara o fado - Ao brio Lusitano extremo exforço; - Calcando a juba de Leões gryfanhos, - Parando ás Aguias remontados voos, - Como á porfia sobre o Tejo e Douro - Apelles mil e mil revivem, fulgem; - Brilha o Luso pincel... Ah! se aura amiga - Continúa a soprar... Não; ferrea pésa - A mão do despotismo, opprime, esmaga, - Destroe renovos das mimosas artes. - - Mas qual ouço confuso borborinho! - E sois vós! Ah! perdoa, alma Erycina: - O teu povo fiel tu bem conheces; - Nem chama-lo cumpria: é-lhe sagrada, - Inviolavel lei um teu desejo. - Ei-lo corre: que luz, que ethereo brilho - De louro e rosas lhe engrinalda as frentes! - - Olha entre a nevoa de allongados évos, - De atroz barbaridade embrutecidos, - Como Alvaro rebrilha, um Nuno, um Annes, - E do energico Vasco a fertil mente; - E Duarte, e Gomes tam famosos ambos, - Tam caros ao gran rei, Manoel ditoso. - Ve do illustre Resende a mão facunda, - Trocando a penna, que mandara aos évos - Os feitos dignos de perenne historia, - Pelo arguto pincel; o sabio Carlos, - Que ao divino Correggio usurpa as cores; - Dias, que á patria transportara ovante - O mel, e as graças dos famosos mestres; - Harmonioso Christovão, claro Sanches, - Que os monarchas d’Europa inteira vira - D’honras, de bens, accumulá-lo anciosos. - - Eis sobre as azas de elevado arrojo - Vinga altivo Campello o cume erguido - Dos montes de Judá. La surge, e avulta - No mysterioso panno um deus, um homem. - Pasmou a natureza ao ver confusos - No seio maternal o pae e o filho. - Mago pintor lhe renovou prodigios; - E aos tormentos d’um deus tremeu de novo - A longa serie dos criados mundos.[10] - Sensiveis corações, vinde espelhar-vos - Nos ternos quadros, que sagrou virtude; - Vinde á sombra do vate, ao seio augusto - Da sancta religião, da mãe caroavel - De humanas afflições verter o pranto: - Vinde; e entre a dor vos surgirão prazeres, - Prazeres do Christão, doçuras d’alma. - Quanta glória Fernando ao sabio mestre, - Quantos louros grangeou! Lopes sublime - Juntou d’Urbino aos expressivos rasgos - A ardideza gentil d’Angelo altivo. - Vasques douto, e regrado os traços mede - No exacto petipé da natureza. - E tu, Leonor, d’entre a nobreza e fasto, - Origens sempre de brutal inercia, - Soubeste ás artes levantar o espirito. - - Qual do Luso pincel nos fastos vive. - Hollanda creador! Deusas do Pindo, - Eis novo esmêro vosso, invento novo! - Vastos arcanos da pintura se abrem, - Accumulam-se a rodo almos tesouros; - Graças lhe admira o árbitro da Europa, - E na boca dos reis louvores fulgem. - Hollanda venturoso! Ah! de tuas ditas - Taes as menores são: mais déste ás musas, - Mais a ti, ao teu nome, á patria, ao mundo - No filho, o grande filho, a glória nossa, - Mimo ao patrio pincel do numen louro. - - Cedendo á voz d’um deus, que o chama a nome, - O Cicero Africano erros abjura; - Sancto prelado o omnipotente invoca, - E d’agua exulta candido Agustinho. - Portento d’expressão, viva faisca - Do lume eterno, que lhe ardeu na mente. - Vate!... Ah! não vate: um anjo, um deus te guia, - Move o arguto pincel na sabia dextra. - Do Olympo eis surge a magestade, a pompa; - Olha d’Ambrosio o venerando aspeito, - Os olhos, onde em goso alma trasborda, - D’Agustinho a humildade, e o gesto vívido, - Onde a força transluz d’activa mente, - Da eloquencia viríl, saber profundo.[11] - - Pereira natural, severo e forte - O terrivel pincel por entre ruinas, - Entre chammas e horror meneia ardido. - De novo a cinzas reduzida Troia - Por elle foi; por elle Pyrro ingente - C’o faxo assolador vagou por Illion. - Antolha ouvir-se em pavidos lamentos - O confuso ulular da mãe, que espira, - E no extremo bocejo aperta os filhos, - Do pae tremente, que a rugosa face - Entre o seio da filha esconde, e geme, - E quizera morrer no doce amplexo. - O crepitar das estridentes chammas, - O baquear dos templos, dos palacios, - E quantas vozes de terror, d’espanto, - Quantas scenas d’horror cantaram vates - Nas Gregas cordas, Mantuana lyra.[12] - - Elementos, cedei-lhe ao mago encanto - Das vozes do pincel! Stridentes rompem - Com ruidoso estampido as cataratas; - Confunde a natureza a essencia, os termos, - Na face do universo impera a morte, - Mysterioso baixel ao longe avulta; - E de novo o castigo formidavel - Os olhos da razão cega d’espanto.[13] - - Olha como apoz elle vem seguindo - Valle expressivo, delicado e grande, - Nobre Gonçalves, entendido e ornado, - Rebello audaz, o Buonarrotti Luso, - E as do patrio pincel divinas Saphos, - Ayalla, e Guadalupe, e Ritte, e Browne, - E Luiza gentil, que os sabios tempos - Ao Porto renovou da Grega Aspasia. - - Fastoso monumento d’alta Iberia, - Voragem, golphão, que absorveste os rios - Do precioso metal, que a ti correram - Do Chily, e Potozi, das Indias duas, - Soberbo Escurial, onde se aninham, - Sob apparente sacco o vicio, o crime, - Tu de Claudio por mim celebra o nome, - Do Camões da pintura, a quem deveste - De teus ornatos o maior, mais bello. - - Nem sorva o Lethes de confuso olvido - Victorino engraçado, André mimoso, - Verdadeiro Apparicio, simples Barros, - Vivaz Alexandrino, destro Senna, - Barreto original, brando Oliveira, - E tu, Rocha correcto, ameno e vívido, - Que obscuras scenas da marinha Pathmos, - E o confuso vêdor nos exprimiste. - Olhos em alvo, mysteriosos seguem - Prophetico furor, que o volve e agita. - Na dextra a penna mal segura fórma - Nunca entendidas, enredadas notas.[14] - - Terra fertil d’heroes, solo fecundo, - Salve! Eis novo clarão, eis novos louros - Sobre a frente gentil pululam, vivem! - Eis do patrio esplendor eterna gloria, - Raios de Lysia, que a remotas praias, - Do magico pincel nas azas d’Iris - Levaram em triumpho o Tejo e Douro, - Dous Vieiras! Não ousa a minha lyra - Dotes brilhantes numerar nas cordas: - Assaz por meu silencio o dizem, cantam - Lysia, Hesperia, Britania, Europa, o mundo. - - Dest’arte á voz da meiga Cytherea, - D’amor guiados, sobre as azas do éstro, - Rapidos voam num momento, e chegam: - Pasmam de vêr a face á natureza, - Tam bella e simples qual na infancia ao mundo; - Os bosques entram: no matiz do prado - Vão com delicia apascentando os olhos. - - Eis outeiro gentil se eleva á dextra; - Sobre elle... Assombro quem já viu, que iguale - Dos illustres varões subito assombro? - Amor, o mesmo amor parou de espanto, - De maravilha subita cortado. - Sobre altas se ergue Doricas columnas - De fino jaspe cupula suberba. - Brilha c’o azul do ceo linda saphira - Nos capiteis, nas bases. Das cornijas - Scintilla em fogo do carbunculo a chamma. - Mimos, riquezas de pomposo fausto, - Quantas com larga mão semeou profusas - Nas entranhas da terra a natureza, - Na vastidão dos mares; tudo aos olhos - Extasiados se ostenta. Riu do encanto, - E a causa do prodigio amor conhece: - Entra; e apoz elle os estremados chefes. - - Languidamente o braço repousado - Nos hombros niveos do formoso Adonis, - Ei-la ao encontro a deusa da ternura - Lhes sai, e assim lhes falla: «Ésta, que vêdes, - Consagrada ao prazer, mansão ditosa, - Ergueu á minha voz a natureza. - De per si se puliu, lavrou-se o marmor, - E se entalharam gemmas. N’um instante - Meu doce intento completado houvera, - Se o que vós só podeis, dar-lhe eu pudera. - Frio, e sem vida não me falla ao peito, - Não falla ao coração todo esse esmêro. - Oh! cortai-lhe a mudez, dai-lhe existencia, - E c’o mago pincel tornai-o á vida.» - - Disse: e a divina voz do ouvido aos peitos - Chammas d’estro, e de ingenho accende aos vates; - E em breve espaço divinaes assomos - D’aqui, d’alli se apinham. Clio alteia - Com portentosa mão contados feitos; - Alem da natureza o vôo erguido - Alça a maga, gentil Alegoria; - Desalinhada, rustica beldade, - Singella, e pura a Paizagem doce - Sem mysterio, sem véo candida ostenta. - - Ja vida é tudo; satisfeita a deusa - Vai alfim completar os seus intentos; - E c’um meigo surrir, c’um doce agrado, - Que vale tanto, que enamora tudo, - Assim lhes falla a carinhosa Venus: - «Vinde, ó filhos; que um nome tam suave - Vossos dotes merecem; vinde: e a empresa, - Que na mente revolvo, effeituai-me. - Não mando, peço... (Ah! d’uma bella o rogo - Quanto mais vale, que uma lei d’um nume!) - Retratai-me, ó pintores.» Nisto a deusa - O mimoso sendal, ja pouco avaro - Do thesouro, despiu. Quantas bellezas, - Que divinos encantos não descobrem, - Não pesquizam, não vem avidos olhos! - Sonhos da phantasia, ah! não sois nada! - Guindado imaginar, ideal belleza, - É frouxo o vôo, limitado o arrôjo; - Não tenteis franquear mysterios tantos. - - Cai das mãos o pincel, sem que o percebam, - Aos pintores na vista embevecidos; - No Olympo os deuses, ignorando a causa, - De insolito prazer sentem banhar-se. - A natureza inteira revolveu-se; - Sonhada Pythagorica harmonia - Nas espheras soôu mais branda e doce. - Aos entes todos pelas veias lavra - O incentivo do gosto: gemem ternas, - Que ha pouco uivaram, pelo bosque as feras; - Arrulharam d’amor meigas pombinhas; - Correu á esposa o nadador salgado; - E nos olhos da amante leu ditoso - O constante amador perdão á culpa; - Á doce culpa tam querida e bella! - - Ah! muitas vezes não descubras, Venus, - Magos encantos; ou verás que em breve - Á força de prazer se extingue o mundo. - - Ja do extasi accordada um pouco a turba - Dos vates se prepara ao doce emprego. - - Tintas fornece amor, pinceis as graças; - E eis no panno avultando a pouco e pouco - Assomos divinaes!... É ella... é Venus! - Eis a fórma gentil do corpo airoso - Salta, deslisa o fundo apavonado; - Roseos descurvam, se arredondam braços; - Ondeiam n’alva frente as tranças d’ebano; - Doce brilham d’amor os olhos meigos, - Os meigos olhos, que prazer scintillam, - Que o facho accendem dos desejos soffregos, - E contra o debil resistir do pejo - Do atrevido mancebo a audacia imploram. - Nas lindas faces purpureia a rosa, - Que insensivel esvai na côr de neve; - Surri nos labios o delirio, o encanto, - Que importuna razão tam doce affasta, - Que ávidos bejos, deliciosos, ternos, - Annuncios de prazer, mutuam fervidos. - Despontam no alvo, crystallino collo - Os arcanos d’amor, que anceiam d’elle, - Que a furto ousaste, mui ditoso Anchises, - Nas trevas do prazer palpar ardido; - Formosos pomos, que ao pastor Idalio - Pelo tam cubiçado outr’ora déste... - Déste; que bem o sei: (não te envergonhes) - Era pobre o pastor, e os seus thesouros - Juno lhe franqueou, seus mimos Pallas: - Sem troca tam gentil tu não vencêras. - - Mas quanto voa nas mui sabias dextras - O divino pincel! Que eburneas fórmas - Voluptuosas surgir das tintas vejo! - Que exactas, lindas proporções esbeltas! - Que norma tam gentil as regra, as mede! - - Ja, por milagre de Cyprina, é prompta - N’um momento a grande obra. Ei-los de novo - Á vista do retrato absortos, raptos, - E, novos Pygmaliões, por elle anceiam. - - De transportada a deusa ao doce amante - Nas mãos a entrega; e: «Esta (lhe diz) conserva - Copia fiel da tua amada Venus. - Com ella, ausente, ó caro, te consola, - Quando longe de ti me retiverem - Crueis deveres, perfidas suspeitas.» - Admira o joven a belleza, as graças - Do mimoso traslado; beja, e rega - Com lagrimas d’amor qual um, qual outra. - - Co’elle, em quanto viveu, sempre abraçado - As poucas horas, que ficava ausente, - Mitigava a saudade: e quando a morte - O mancebo infeliz roubou sem pejo, - No templo a deusa o collocou de Paphos, - E longas eras recebeu d’amantes - Ternas off’rendas, amorosos votos. - - Alli, quando natura se empenhára - Em dar-te ao mundo, carinhosa Annalia, - Um e um copiou meigos encantos, - Que, ó minha Venus, te compõe, te adornam. - Alli, olhos no quadro, os teus formosos - Estremada rasgou; alli as faces - De neve, e rosas coloriu divinas; - Alli risonha boca, onde contino - Foi aninhar-se amor, te abriu mimosa; - Alli o collo d’alabastro puro; - Os lacteos pomos, que devoram bejos - Do faminto amador; lisas columnas, - Que sustentam avaras mil segredos; - Segredos, que... Perdoa: eis-me calado. - - Volve a meus versos, compassiva amante, - Benignos olhos: para ti voando, - Da critica mordaz censuras fogem: - Se accolheres o rude offertamento, - Serão meus versos, como tu, divinos. - - FIM DO ULTIMO CANTO - - - NOTAS DE RODAPÉ: - -[10] Quadros da paixão de Ch. por Campello. - -[11] Quadro do baptismo de S. Agustinho. - -[12] Quadro da destruição de Troia. - -[13] Quadro do diluvio. - -[14] Quadro de S. João, escrevendo o Apocalypse. - - - - - NOTAS - - - - - Notas ao canto primeiro - - - «_Alma origem do ser, germe da vida._» - - ..... Per te quoniam genus omne animantum - Concipitur, visitque exortum lumina solis; - ...................................... - ....... tibi suaves dedala tellus - Summittit flores. - - LUCRET. _de rer. nat._ Lib. I. - - «_Que na ellipse invariavel rotam fixos._» - -Todos sabem, que tal é a orbita, que todos os planetas descrevem. - - «_Qual és, qual foste, qual te appura os mimos - A arte engenhosa._» - - Artes repertæ sunt, docente natura. - - CIC. _de leg._ Lib. I, 8. - - «_Como é dado aos mortaes bellezas tuas._» - -Platão, fallando da musica, diz: (_De republ._) que se não deve -conceituar pelo prazer, nem preferir a que não tem outro objecto, senão -o prazer; mas a que em si contiver a similhança da _bella natureza_. -Esta sentença é perfeitamente applicavel á pintura. E tal é d’ha -muito a opinião de todos os rhetoricos e philologos. (Vid. Aristot., -Le Batteux, Laharpe, Lemercier, etc.) Não nos enganemos porém com -esta--_natureza bella_.--Nem só aquillo que tem _bellas_ e lindas -fórmas, é _bello_; e nem tudo aquillo, que as tem, o é. Boileau o -declara manifestamente, e o prova: - - Il n’est point de serpent, ni de monstre odieux, - Qui, par l’art imité, ne puisse plaire aux yeux. - D’un pinceau délicat l’artifice agréable - Du plus affreux objet fait un objet aimable. - - BOILEAU: _Art. Poet._ Chant 3. - - «_A mestra, a sabia antiguidade o diga._» - - Quid virtus, et quid sapientia possint - Utile proposuit nobis exemplar. - - HORAT. _Ep._ II, L. I. - - ......... Fabularum cur sit inventum genus, - Brevi docebo. Servitus obnoxia... etc. - - PHOEDR. Lib. III, prolog. - - «_Não: fabula gentil, volve a meus versos._» - - ......... Et, s’il est vrai, que la fable autrefois - Sut á tes fiers accents mêler sa douce voix; - Si sa main délicate orna ta tête altière; - Si son ombre embellit les traits de ta lumière, - Avec moi sur tes pas permets-lui de marcher. - Pour orner tes attraits, et non pour les cacher. - - VOLTAIRE: _Henr._ Chant I. - - Cosia egro fanciul porgiamo aspersi - Di soave licor gl’orli del vaso, etc. - - TASSO: _Gerusalem_ Canto I, stanz. 3. - - «_....... O Cyprio moço, o Teucro._» - -Adonis, filho de Cyniras, rei do Chypre (_Cyprum_) Anchises, Troiano -etc. - - Achises conjugio Veneris dignate superbo. - - VIRG. _A En._ Lib. 2. - - «_Em quanto nas lidadas officinas.M_» - - Retumbam nas _lidadas officinas_ - Echos gostosos das nascentes almas, - Que novos corpos a habitar caminham. - - FILINT. ELYS. _Ode a Venus_ (Tom. 5). - - «_C’o estremecido arrulho a dona imitam._» - - Presentem ja no _estremecido arrulho_ - Os propinquos prazeres. - - FILINT. ELYS. ibid. - - «_Porque mesquinhas leis nos vedam barbaras - Tam suave pecar......_» - - Si il peccar è si dolce, - E’l non peccar si necessario; ò troppo - Imperfetta natura, - Che repugni ala legge! - O troppo dura legge, - Che la natura offendi! -GUARINI: _past fld._ - - Se este crime é tam doce, - Se tanto fugir delle é necessario; - Imperfeita parece a natureza, - Que fraca á lei repugna, - Ou lei muito severa, - Que a natureza offende. -_Traducç. de_ THOM. JOAQ. GONZAGA. - - «_E do amado na dor, sua dor recresce._» - - Che l’esempio del dolore - È un stimolo maggiore, - Che richiama a sospirar. - - METASTAZ: _Artass._ atto I. - - «_Dos antigos errores esquecido._» - -Errores é usado por Camões no sentido de--_longas, e desvairadas -viagens_--; Ferreira porem, e outros classicos de igual nota o tomaram -na mesma accepção, em que aqui se toma. - - «_Com o amante fugir, morrer com elle?_» - -Uma deusa não póde morrer: me diz ja algum critico, muito contente do -quinau. Assim é, Sr. critico; mas no delirio das paixões quem se lembra -da sua natureza?--Uma deusa com paixões!--Os deuses da mythologia, os -numes dos Gregos, e Romanos não são o mesmo que o deus do philosopho -(digno de tal nome) que, satisfeito de reconhecer a existencia d’um -ente supremo, pára, onde se lhe acabam as forças, nem prosegue em -investigações, onde se lhe apaga a luz da fraca razão; nem empresta -á desconhecida causa das causas os habitos, as paixões, a fórma, e -toda a natureza da fragil e apoucada humanidade. O orgulho de se -occultar a si proprio a sua fraqueza, e de abaixar até á sua mesquinhez -a idea de deus, por não poder subir até á altura d’ella, nasce da -nossa vaidade, da nossa ignorancia e da nossa miseria. Por isso os -theologos desbocadamente nos pintam, e nos querem fazer crer em um deus -vingativo, irado, e capaz em fim de todos os crimes e vicios, que elles -em sua alma alimentam e nos querem vender por virtudes. - - «_..... Comsigo ao carro o sobe._» - -Subir é um verbo neutro; mas é este um idiotismo bem notavel da nossa -lingua, usar de taes verbos com força activa, como o fazem os nossos -classicos a cada passo. - - «_Que lhe spira dos labios, das pupillas._» - - Aquelle não sei que, - Que _spira_ não sei como, - Que invisivel sahindo, a vista o vê. -CAMÕES: _Ode 6_. - - _Spirem_ suaves cheiros - De que se encha este ar todo. -FERR. _Castr._ act. - - «_Arde voltar ao suspirado asylo._» - - ... Jamdudum errumpere nubem - _Ardebant_. -VIRGIL. _AEneid._ L. I. v. 580. - - «_Disenhos volve..........._» - -Esta palavra mui portugueza e antiga (embora de origem estrangeira) -não é gallicismo; exprime bem o--_dessein_--francez, e tem por si a -auctoridade d’um escriptor bem notavel e bem antigo, qual é Damião de -Goes. (v. Chron. de D. Man. part. I, cap. 4, e _passim_). - - «_Que tam suave rege a natureza._» - - ......... Omnis natura animantium - Te sequitur cupide. -LUCRET. Lib. I. v. 15. - - «_Mal disse; e o raio mais veloz não rue._» - -Este verbo muito adoptado por Filinto Elysio, e pelo erudito traductor -da lyrica de Horacio, Antonio Ribeiro dos Santos; e cujos compostos, -e derivados ja tinhamos (_correr_, _decorrer_ etc.) tem todas as -qualidades necessarias para a sua naturalisação. - - «_Da rubra dextra do Tonante irado._» - - ........ _Et rubente_ - Dextra sacras jaculatus arces - Terruit urbem. -HORAT. _Od_. 2, Lib. I. - - «_Á voz da deusa fende os ares liquidos._» - - ......... Per liquidum aethera: - - VIRG. _AEn._ Lib. I. - - «_Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco._» - -Florença na Toscana, ou antiga Etruria, dita _mysteriosa_ em razão dos -seus áugures. - - «_Á formosa Bolonha..._» - -De Bolonha conta Ganganeli (ou antes Carracioli) nas suas cartas, -que um Portuguez, encantado de sua belleza, exclamara: «Não se devia -mostrar senão ao domingo.» - - «_E fitando no ceo audazes vistas._» - - Coelum ipsum petimus stultitia - - HORAT. Lib. II, Od. - - «_Aos golpes crebros, incessantes, duros._» - -O imperio Grego acabou em 1448 pela morte do ultimo Constantino, e -entrada de Mahomet II em Constantinopola, a cujos muros se limitava, ha -muito, o vasto imperio Grego e Romano. Os horrores desta tomada de Cp., -a immensidade de familias que fugiram para a Italia, e principalmente -para Veneza, Genova e Florença, o adiantamento, que este successo -causou ás sciencias e artes do occidente; são cousas sabidas de todo -o mundo. (Vid. Anquétil: Précis de l’hist. univers. tom. 4, pag. 249, -etc. e Chateaubriand: Génie du Christ. part. 3, liv. I). - - - - - Notas ao canto segundo - - - «_Vão-lhe na frente os affamados chefes._» - - Aquelles sam sós homens que se affamam. - - FERREIR. _Cart._ 6, Liv. I. - - «_No bello antigo modelando as graças._» - -O verbo _modelar_ está geralmente adoptado mas que não seja antigo. -Assim como de _molde_ se fez, e deduziu _moldar_; de _modelo_ se póde -derivar _modelar_. - - «_Vem tribu excelsa de Romãos pintores._» - - Gregos, _Romãos_, e toda a outra gente. - - FERREIR. _Cart. 3_, Liv. I. - - «_E quanto inspira Apollo:......_» - -O fito que neste poema levei, foi simplesmente celebrar os louvores -da pintura, e de seus principaes mestres. Sou apaixonado amador desta -sublime poesia; contento-me de admirar; mas nunca dei a menor lapizada. -A leitura, a observação curiosa, e exacta do pouco, que tenho visto, me -deram os limitados conhecimentos, que em tam comprida materia possuo. -Ideias vastas, ainda mesmo na historia só da pintura, apenas poderão -ser o fructo de longos estudos, que a minha pouca idade, e mais sérias, -mas que ennojosas occupações prohibem. Declaro pois que, se êrro -encontrarem os professores, mui grata e grande mercê me farão de me -avisar; e conhecerão pela minha docilidade na emenda a pouca presumpção -do auctor. - - «_E aos d’arte amantes desejar com Pedro - Junto ao prodigio...._» - - Faciamus hic tria tabernacula. - - MATTH. _Evang._ - - «_Em cêrca aos muros da gentil Parthénope._» - -Napoles, assim ditta antigamente de Parthénope, uma das sereias, que se -enchêram de desesperação por não poder vencer Ulysses com o seu canto. -Junto ao tumulo desta simideusa ou nympha se edificou uma cidade, -que della tomou nome. Destruida ésta, se tornou em seu mesmo logar a -edificar outra nova, dita Napoles (_Neapolis_--Νεαπὸλις--cidade nova) -nome que inda hoje conserva. - - «_Umas sobre outras as cidades jazem._» - -Pelos fins do seculo passado se descubriram nas visinhanças do Vesuvio -as antigas cidades de Herculano e Pompeia. A cidade de Portici está -quasi situada sobre a antiga Pompeia, que, assim como o Herculano, fôra -submergida em uma explosão do Vesuvio. - - «_E a rôdo os d’atro fogo horridos rios._» - -Nas grandes irrupções do Vesuvio corre do alto da montanha um, como -rio, de fogo, que dá uma imagem das fingidas torrentes do sonhado -Averno.--Virgilio, que de certo dos volcões de Napoles houve a idea -do seu _Phlegetonte_, situou por aquelles logares os seus--_Plutonia -regna_.--(Vid. Stael na _Corin_.) - - «_Inda no mesto panno afflictos súam._» - - ....... Sudant in marmore mœsto. - - SILI. _Ial._ Lib. I. - - «_Saliente Caravaggio, que exprimiste._» - -_Saliente_; porque as figuras de seus quadros tem um ar de relêvo, -que engana. É necessaria metonymia, de que uso muitas vezes para -caracterizar os pintores, segundo suas mais distinctas qualidades. - - «_Ja de accurvados reis não brilha o fasto._» - -O simples nome de Roma basta para fazer nascer uma infinidade de ideias -grandes e de magestade. Todos os pensamentos sublimes, que a imaginação -póde crear, todas as sérias reflexões, que póde suscitar a razão, -todas as memorias augustas, que a virtude e a humanidade podem fazer -nascer, occorrem e borbulham associadamente na alma do homem pensador -com a simples ideia de Roma. O exfôrço dos Horacios, a castidade das -Lucrecias, a integridade dos Brutos e Catões, o patriotismo dos Fabios -e Scevolas, a magnanimidade e valor dos Scipiões, a eloquencia dos -Ciceros, o saber dos Plinios, a liberalidade dos Augustos, a grandeza -dos Trajannos, a humanidade dos Titos, tudo se recorda com a memoria -illustre da cidade por excellencia. - -Imagine-se um homem cheio de toda a magnificencia destas ideias, -possuido de respeito e veneração, ao entrar em Roma.--Ruinas, -sepulcros, templos derrocados, estradas solitarias, ruas desertas... -são os miseraveis objectos, que lhe ferem os olhos, mui de longe -preparados para admirar a senhora do universo. De espaço a espaço -descobre (é verdade) um templo magnifico, um grande palacio; mas breve -se desvanece este vislumbre de grandeza, e subito se esvai a nascente -esperança de encontrar a Roma de Augusto. Estes palacios, estes -templos, que se elevam do meio das choupanas (habitação da indigencia -e da fome) carregados d’ornatos, de sobejo embellezados, serão acaso -aquelles esmeros de architetura grande e magestosa, suberba e varonil -dos edificios Latinos? Poderá algum d’elles similhar-se ao _Fóro_, ao -_Palacio_, ao _Amphitheatro_? Descubrir-se-ha n’alguma d’estas modernas -praças o menor vestigio dos _Rostros_? O Capitolio, o terrivel, o -venerando Capitolio, onde se julgava dos destinos das nações, onde os -reis curvavam os sceptros, e depunham os diademas; d’onde sahiam os -irrevogaveis e tremendos decretos, que dispunham da sorte dos povos, e -legislavam ao universo, que é feito d’elle?--O solicito viajante ainda -o descobre; o seu _cicerone_ (guia) ainda lhe mostra o logar d’elle.--E -será este?--Differente estrada conduz ao cimo do monte; o palacio do -_senador_, alguns restos de quebradas estatuas, de desfigurados relevos -são todas as riquezas, todos os tropheos, todos os despojos, que ornam -o antigo alcaçar do mundo. - -Confuso, humilhado, o viajante não se atreve ja a encarar nenhum -edificio.--«Os habitantes ao menos (diz elle) talvez conservem -alguma cousa ainda de Romanos. Tantas virtudes, tanta grandeza não -podiam extinguir-se de todo.»--Um bando de miseraveis, uma plebe -indigente, vil e sem costumes, são os successores do povo rei; uma -côrte effeminada, e entregue aos deleites do ocio occupa o logar dos -Brutos e Catões; declamadores sem gôsto, com affectadas e guindadas -phrases (que ou não entendem ou não crem) fazem retenir aquelle -mesmo ar, que ouviu os eloquentes e numerosos sons de Cicero e Marco -Antonio; assucarados trovadores infectam com os seus--_concetti_--a -degradada lyra de Virgilio e Horacio; os Scipiões, os Emilios, os -grandes generaes, as invenciveis tropas da triumphante republica são -substituidas por um bando de assoldados Suissos, cujas grandes proesas -e valor, cujos guerreiros exforços são o fazer a guarda do papa. Em -vez do augusto e venerando senado, um ajuntamento d’homens ambiciosos, -insaciaveis d’ouro, regem despoticamente; não os direitos das nações, -e deveres dos reis e povos pelas invariaveis leis da justiça, como -os antigos _conscriptos_; mas o corpo invalido da igreja por elles -arruinada e depravada, levando simplesmente o fito em pescar para a -barca do humilde S. Pedro as riquezas das nações com o sagrado anzol -das indulgencias, reliquias e breves.--«Roma! oh Roma! (exclamará o -contristado viajante) tu ja não existes; a tua liberdade expirou em -Catão, e tu com ella! A liberdade te conservava as virtudes, que, mais -que tuas façanhas, te constituiram no imperio do orbe. Perdeste-a; -e desde então caminhaste sempre com gigantescos passos ao abysmo -de miseria e vileza, em que jazes sepultada para eterno exemplo do -universo. - -E com effeito, tal é a sorte de quasi todas as nações! Florecem, reinam -em quanto a liberdade, ou a larva della subsiste; apenas se eleva a -tyrannia, cai de rôjo com a liberdade o amor das virtudes; a servidão -embrutece o homem; a sociedade se muda em um rebanho de escravos; e -a miseria succede á opulencia. Assim cahiu Roma, assim Sparta, assim -Hollanda, assim tantas outras. Que exemplos para os tyrannos, e que -terrivel escarmento para os povos! Miseraveis despotas, embreve -estendereis o sceptro de ferro sobre montões de ruinas. Os Vandalos, -os Godos, os Arabes não se acabaram ainda; e vós os chamais com tanta -ancia![15] - - - NOTAS DE RODAPÉ: - -[15] É facil de vêr que esta nota foi escripta antes do dia 24 -d’Agosto. Felizmente ja se podem tratar estes assumptos com menos -atrabilis. - - - - - Notas ao canto terceiro - - - «_Enfrea as iras de Neptuno indomito._» - - Imperio premit, et vinclis, et carcere frœnat. - - VIRG. _AEn._ Lib. I, v. 54. - - «_Ve d’Adria o golpho tempestuoso e fero._» - -É o golpho de Veneza, antigamente chamado de Adria, ou Adriatico, d’uma -cidade d’este nome. - - «_Alli, fugindo aos clamorosos brados._» - -No meio do seculo V, foram destruidas por Attila, rei dos Hunos, as -cidades de Aquilea, Altino, Concordia, Opitergo e Padua, todas visinhas -ao golpho, então chamado Adriatico. Os habitantes destas cidades, -fugindo ao furor irresistivel, e cruel ferocidade dos barbaros, se -foram refugiar nas pequenas e desertas ilhotas do mar Adriatico, e -fundaram assim o começo de Veneza. (Vid. _Anquétil, Millot, e la -Istoria de Vinegia per ***_) - - - «_Emporio foi depois do rico oriente._» - - _Antes que ha India fosse descuberta pelos Portuguezes, ha mayor parte - da especiaria, droga, e pedraria se vazava pelo mar roxo, donde ya - ter á cidade Dalexandria, e dalli ha compravão hos Venezianos, que a - espalhaavão pela Europa._ - - CASTANHEDA Lib. I, cap. 1. - - - «_E do alado Leão tremeu gran tempo._» - -Um leão com azas era o timbre, ou armas da republica, ou senhoria de -Veneza. - - «_E segue a esteira das cortadas ondas._» - -_Esteira_, ou _esteiro_, que assim, e indifferentemente escrevem e -usam os nossos classicos, é aquelle sulco, que os navios vão fazendo e -deixando depoz si nas aguas, e que bom espaço se conserva depois. Maior -é talvez o numero das pessoas que sabem a simplicissima razão physica -deste natural phenomeno, do que o das que o nome portuguez lhe conhecem. - - «_Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios._» - - - .......... All’ Adria in seno Un popolo d’eroi s’aduna...... - - MATEST. _Ezio_: atto I. - - «_Adriades gentis, oh! vinde as frentes._» - -Assim como de _Tagus_ Latino fez Camões _Tagides_; e outros do -Douro--_Durius_--_Duriades_ etc.; quem me impede a mim, que de _Adria_, -faça _Adriades_? - - «_Qual Verona folgou com seu Catullo._» - - .......... Gaudet Verona Catullo, Pelignae dicar gloria gentis ego. - - OVID. _Trist._ - - «......... _Mil graças, mil encantos - Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera._» - -Assim como Catullo, Paulo Veronese é notado de pouco honesto. Todos -sabem a lascivia e voluptuosidade dos versos do primeiro: os quadros do -segundo tem uma poesia d’este genero bem mais expressiva. - - - «_Em que lhe peze á inveja, e seus furores._» - - Eu, que apezar da inveja, e seus furores - Aos astros levo o nome Lusitano. - - ELPIN. _Nonaer._ Od. a Vasc. da Gam. - -_Em que lhe peze_, e _em que lhe pez_ são phrases dos melhores -classicos: mil exemplos, por um, pudera appresentar; mas citarei o que -tenho aqui mais á mão, que é o P. Vieira (_Vozes saudosas: voz histor._) - - «_Scena outr’ora infeliz da gloria Franca._» - -As provincias Flamengas foram um dos principaes theatros das ambiciosas -guerras de Luiz XIV com a Hollanda. (Vid. VOLTAIRE _Siécl. de Louis -XIV_). - - «_Lhe bafejastes divinal espirito._» - - Quasi divino quodam spiritu inflari. - - CICER. _pro Arch._ §. 8. - - «_E o veneno lethal lhe infunde n’alma._» - - Sic effata, facem juveni conjecit, et atro - Lumine fumantis fixit sub pectore tædas. - - VIRG. _AEn._ Liv. VIII, v. 56, e seg. - - «_Quam bello é na expressão Vaén correcto._» - -Porventura não serão os verdadeiros accentos da pronúncia nacional, os -que ponho aqui neste e nos outros nomes dos pintores flamengos: puz-lhe -os necessarios para o rythmo, que é a minha obrigação; dos outros não -sei, pois que ignoro a tal lingua; no que, segundo creio, não perderei -nada. - - «_Difficeis nomes d’estremados mestres._» - -E bem difficeis, com effeito, para accomodar ao verso com os -seus--_kk_--_rr_--etc.: não são daquelles, de que Horacio diz: - - Verba loquor socianda chordis. - - HORAT. Lib. II, Od. - - «_Do mestre a obra maior, Wandik insigne._» - -Voltaire diz algures, fallando de Tasso, que, se é verdade o que -vulgarmente se diz, que os Lusiadas, e seu auctor formaram a -Gerusalem do primeiro, fôra esta a melhor obra de Camões. Não estou -_absolutamente_ por este _espirituoso_ dito de Voltaire; mas com -justiça o appliquei a Rubens, e Wandick. - - «_E em vez d’um Fabio tardador_......» - -Assim traduziu Filinto Elys. o _Fabius cuntactor_ dos Latinos. (Vid. -FILINT. _Ode á Liberdade_). - - «......... _Ja no Sena ovante_.» - - Sobre a margem feliz do rio _ovante_, - Donde arrancando omnipotencia aos fados - Impoz tropel d’heroes silencio ao globo. - - BOCAG. _Od. a Filint._ - - «_Que do Meschacebeu vingando as margens._» - -Este é o verdadeiro nome do célebre rio da Luisiana, na America -Septentrional, chamado vulgarmente _Mississipi._ (Vid. CHATEAUBRIAND: -_Génie du Christ._ Part. III, Liv. 5). - - «_C’o Euripides Francez disputa ainda._» - -Racine bem se póde assim chamar, não somente por suas absolutas e -eminentes qualidades; mas pela relativa, e mui particular da similhança -dos ingenhos, e feliz imitação de Racine. (Vid. LAHARPE: _Cours de -Littér._; LEMERCIER: _ibid._; e o P. BRUMOY no _Theatr. dos Gregos_). - - «_Ao ver nas murchas, esmyrradas faces._» - - J’ai langui, j’ai séché dans les feux, dans les larmes. - - RACIN. _Phoedr._ Act. II. - - Desfalleci, murchei no ardor, no pranto. - - _Trad. ms. do Sr. H. E._ - - «_D’um criminoso amor violencia e fogo._» - - Quand je suis toute en feu, vous n’êtes que de glace. - - PHOEDR. Act. II. - - «_Os manes folgam de Rollin, Voltaire._» - -Le-Gros é pintor historico; e Rollin e Voltaire foram historiógraphos -francezes. - - - - - Notas ao canto quarto - - - «_Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes._» - -Outros quaesquer poetas, e de mais nomeada porventura, pudéra eu -citar; mas quiz, quanto em mim era, e o permittia o assumpto e a obra, -prestar homenagem a dous ingenhos, que honraram a patria e a lingua; -e dos quaes o primeiro depois d’uma fama gigantesca, e maior que seu -merecimento, passou a ser enxovalhado por quanto Mevio e Bavio sabe -dizer--_Traduziu, traduziu, traduziu tudo_--como se um traductor como -Bocage não fosse um poeta de muito merecimento, e de muito maior, que -tantos originalistas de nome (de nome sim; que realmente deus sabe o -que é); como se Pope, Dryden, Annibal Caro, João Franco Barreto, e -tantos outros illustres traductores não figurassem mais na republica -litteraria que tantos _epicos modernos_... Eu não sou dos apaixonados -do privilegio exclusivo, que ha certo tempo obtiveram entre nós as -traducções. Uma nação que assim obra por espirito de priguiça, ou -menos-preço de si propria, em vez de enriquecer sua litteratura, -empobrece-a e perde-a. De J. B. Gomes e da sua Castro tanto mal como -bem se tem dito. Não a dou por uma tragedia perfeitamente regular, não -a comparo ás grandes peças de Racine e Alfieri; mas sei que tem muitas -bellezas, e que n’um theatro tam pobre, como o nosso, é digna de muita -e muita estimação. Para criticar a Castro de Gomes é preciso enchugar -muitas vezes as lagrimas, que ella excita continuamente. - - «_Calcando a juba dos Leões gryphanhos, - Parando ás Aguias etc._» - -Revoluções de 1640 e 1808. - - «........_Ah! se aura amiga - Continúa a soprar_......» - -Em Roma, assim como na Grecia, se formariam Zeuxis e Apelles, se os -Romanos dessem a Fabio as honras, que seus talentos mereciam. Diz -Cicero algures nas Questões Tusculanas. - - «_Inviolavel lei um teu desejo._» - -Nação nenhuma (diz Florian no _avant propos de Sancho_) possue a arte -d’amar, como a portugueza. - - - «_Os feitos dignos de perenne historia._» - - ........as cousas........... - Que merecerem ter eterna historia. - - CAMÕES. _Lus._ Cant. 7. - - - «_Sensiveis corações, vinde espelhar-vos_» etc. - - Vidi sæpius inscriptionis imaginem, et sine lacrymis transire non - potui. - - S. GREGOR. II. _Concil. Nicen._ act. 40. - - - «_Prazeres do christão, doçuras d’Alma._» - - Le nouveau testament change le génie de la peinture. Sans lui rien - ôter de sa sublimité, il lui a donné plus de tendresse. - - CHATEAUBRIAND. _Gen. du Chr._ part. III, Liv. I, cap. 4. - - - «_Portento d’expressão, viva faisca - Do lume eterno..._» - - Les peintres... famille sublime que le souffle de l’esprit ravit au - dessus de l’homme. - - CHATEAUBRIAND, ibid. - - - «_Fastoso monumento d’alta Iberia._» - -Resta ainda resolver o grande problema: _Se a descuberta da America -foi util ou prejudicial á Europa_; o qual, emquanto a mim, depende -d’outro mais generico: _Se as conquistas, principalmente longinquas, -podem ser uteis a uma nação_. Não me atrevo a resolver nem um nem -outro. As theorias falham quasi sempre em politica, bem como em moral. -So noto imparcialmente, que a Hespanha foi poderosissima nação antes -do XVI seculo; que Portugal, se nos tempos de D. Manoel e João III -floreceu, e deu brado na Europa e no mundo; depois não fez mais que -luctar contra innumeraveis desgraças: que não tivemos mais um João -II; e que as conquistas d’Asia e Egypto deram por terra com o imperio -Romano.--Provêm isto das descubertas em si?--Provêm do uso que d’ellas -se fez?--Continúa a minha ignorancia.--Os monarchas hespanhoes fundiram -no Escurial, e n’outras cousas d’esta ordem, as immensas riquezas das -Indias occidentaes, ganhas á custa de tantos crimes, barbaridades, -irreligião, fanatismo e sacrilegios de Cortêz e de mil outros. Diminuiu -no continente hespanhol a população; não se fez o menor caso da -agricultura; o commercio não foi senão passivo; e, depois d’um breve -esplendor, a suberba Hespanha cahiu na miseria d’uma nação pobre e -falta de tudo, a pezar de toda a sua prata.--E que diremos de nós?--O -mesmo, com alguma differença para peior. Todo o homem, que pensa, -sabe o que eu poderia dizer neste artigo; como para estes só escrevo, -elles me entendem; e eu, com o meu silencio, me poupo ás criticas da -ignorancia e da sordida adulação. (_É bem facil de ver que ésta nota -foi igualmente escripta antes do dia 24 d’Agosto_). - - «_Terra fertil d’heroes, solo fecundo, - Salve!........_» - - Salve magna parens frugum... tellus, Magna virum. - - VIRG. _Georg._ - - - «_O mimoso sendal, ja pouco avaro._» - - O véo dos roxos lirios pouco _avaro_. - - CAMÕES _Lus._ Cant. 9. - - Diripui tunicam, nec multum rara nocebat. - - OVID. _Eleg._ Lib. I, Eleg. 5. - - - «_Que divinos encantos não descobrem_» etc. - - E tuto ciò, che piú la vista alletti. - - TASSO _Gerusal._ Canto XV, st. 59. - - - «_Sonhada, pythagorica harmonia._» - -A harmonia das spheras é um dos sonhos de Pythagoras. Póde-se ver a -satyra galantissima destas e outras philosophicas extravagancias no -celebre poema allemão--_Musarion_--de Wielland: Canto II. - - - «_Arrulharam d’amor meigas pombinhas._» - - Presentem ja no estremecido _arrulho_ - Os propinquos prazeres. - - FILINT. _Elys._ Ode a Venus. (Tom. 5). - - «_Roseos descurvam, se aredondam braços._» - - Ν’μος δ’ ὴῥιγυἑια φάυη ροδ οδ άϰλυλος ὴὠτ. - - HOMER, _Odyssea_ B. (Lib. II.) - - - «_Ondeiam n’alva frente as tranças d’evano._» - -Os cabellos e olhos pretos eram os mais estimados dos Romanos--_Nigra -oculis, nigraque capillis_: Horat.--Se é mau gôsto, confesso que o -tenho. Quem amar mais os louros, não tem senão dizer: - - «Ondeiam n’alva frente as tranças d’ouro.» - -Assim, eu, e o leitor ficamos ambos satisfeitos. De mais, até lhe -posso ensinar um texto, com que provar o seu gôsto. É a auctoridade de -Petrarca, que não é pêca neste ponto: - - L’auro, e i topazj al sol sopra la neve - Vincon le bionde chiome presso agli occhi. - - PETRARCA, _rim._ Part. I. cans. 9. - - - «_Déste; que bem o sei........_» - -Assim é de crer piamente; e, comquanto o não digam os DD., eu o penso. -O leitor póde ficar pelo que quizer--_salva fide_--pois estas materias -são de mythologia, e não de theologia. - - «_Ja por milagre de Cyprina é prompta._» - - Manca il parlar; di vivo altro non chiedi. - Ne manca questo ancor, se agli occhi credi. - - TASS. _Gerus._ Cant. XVI. - - - «_E novos Pygmaliões por elle anceiam._» - - Pigmalion, quanto lo dar ti dei - Dell’ imagine tua, se mille volte - N’avesti quel, ch’io sol’ una vorrei. - - PETRARCA, _rim._ Part I, sonett. 58. - - - _«Admira o joven a belleza_........» - -Faria, pouco mais ou menos, as mesmas extravagancias com o retrato, que -o amante de Julia com o da sua bella. - -(Vid. _Nouvell. Héloï._ Part. II, Lett, 22). - - - «_Os lacteos pomos........._» - - Le _pome_ accerbe, e crude... - - TASS. _Gerus._ Cant. XVI. - - - «_Serão meus versos, como tu, divinos._» - - Me juvat in grœmio doctæ legisse puellæ, - Auribus et puris dicta probasse mea: - Hæc si contingant......... - .......... Domina judice, tutus ero. - - PROPERT. _Eleg._ - - - - - ENSAIO - - SOBRE - - A HISTORIA DA PINTURA - - -O objecto principal deste ensaio é a historia da pintura. A maior -parte do meu poema será inintelligivel sem elle a todo o leitor, que -não tiver feito um comprido estudo nesta materia. Menos porem bastaria -talvez para a intelligencia do opusculo: fui mais longo e extenso, -principalmente na historia da pintura portugueza, porque julguei util -dar á minha nação uma coisa que ella não tinha, a biographia critica -dos seus pintores. Sobejo e enfadonho trabalho me deu: oxalá que -aproveite! Bem pago fico, se, entre todos os leitores, deparar com -dous, em quem faça impressão o amor de boas-artes, e da patria, que -toda a obra respira. - - - - - CAPITULO I - - Dos Pintores Gregos e Romanos - - -O numero dos pintores Gregos e ainda Romanos, cujos nomes chegaram até -nós, é grande, mas o d’aquelles, cujas obras ou maneiras conhecemos, -é bem diminuto. O respeito da antiguidade com tudo no-los faz -admirar, por ventura mais, do que o seu merecimento exige. Os quadros -modernamente descobertos nas cinzas do Herculano e Pompeia, alguns -_frescos_ conservados nas ruinas de Roma e outras cidades de Italia tem -subejamente mostrado aos entendedores imparciaes, que a pintura dos -antigos, ainda mesmo no seu maior auge, não póde soffrer comparação -com o menor quadro dos _Rafaelos_, dos _Corregios_, dos _Caraccis_, -nem mesmo d’outros pintores de segunda ordem das modernas escholas. -Duas coisas principalmente faltavam aos antigos pintores. Uma, as -tintas, cujas bellas composições, descobertas em mui posteriores -seculos, absolutamente ignoravam; não conhecendo, senão as terras -de côr, e os metaes calcinados; faltando-lhes aquellas côres, que -dão o tom medio, entre a luz e a sombra, que formam o matizado e -assombrado, e exprimem a natureza tal qual ella é, e com toda a sua -formosura: outra, o conhecimento das leis da perspectiva, como bem -mostram todas as suas obras, que nos restam: defeito este, que salta -aos olhos, e de impossivel disfarce. Só aquelle cego fanatismo, que faz -cançar os pedantes no estudo do Hebraico e Syriaco e d’outras inuteis -antigualhas, póde achar nos quadros Gregos e Romanos bellezas, não digo -superiores, mas iguaes ás das magnificas pinturas do bom tempo das -modernas escholas, e ainda mesmo das de hoje; com quanto a pintura, á -excepção da franceza, bastante se approxima da decadencia pelo espirito -servil, mania das copias e mal entendida imitação. - - - - - CAPITULO II - - Restauração da pintura na Italia - - -Cimabúe, nascido em 1230,[16] e morto em 1300, é conhecido em toda -a Europa pelo honroso titulo de restaurador da pintura. Ouviu os -principios de sua arte d’alguns pintores Gregos vindos a Florença, -que ainda conservavam restos do bom stylo da nação: aperfeiçoou-se -depois com o estudo, e imitação dos poucos modelos antigos, que então -appareciam na Italia. Preciosas descobertas, que se foram pelo andar -dos tempos fazendo, pouco a pouco desterraram a barbaridade, que, -entre as outras boas-artes, tinha tambem sepultado a pintura. As -estatuas, os quadros, os relevos arrancados das cinzas e ruinas dos -famosos monumentos romanos, quantos mestres, quantos primores d’arte, -d’architectura, scultura e pintura não deram á Europa! Miguel Angelo -confessava dever toda a sua sciencia ao assiduo estudo, que por toda a -vida fizera no _tronco_[17] de Hercules, no _grupo_[18] de Laocoon, no -Apollo[19] do Belveder, e n’outros modelos da bella antiguidade. - -Com quanto porem a pintura e mais boas-artes não possam propriamente -dizer-se restauradas antes do seculo de Leão X, que foi o de Raphael, -de Miguel Angelo, de Leonardo da Vinci, etc.; Cimabúe comtudo foi o -pae da pintura moderna; suas obras espalhadas pela Italia renovaram o -bom gôsto, e abriram os alicerces, sobre que se havia depois formar o -grande edificio das escholas Florentina, Romana, etc. - -Todavia, em abono da verdade devemos confessar, que, posto que -Cimabúe possua com razão o titulo de restaurador da pintura; outros -antes d’elle houve, que se o não excedêram, lhe não foram ao menos -inferiores. De Guido de Senna, pintor do XIII seculo existe em uma -igreja de sua patria um quadro da Virgem, tão bom como os melhores de -Cimabúe: o seu desenho é de bom stylo, e ainda fresco de côres, apezar -de ser feito no principio do mesmo seculo, como indica a inscripção, -que se le por baixo. - - Me Guido de Sennis - Diebus depinxit amenis; - Quem Christus lenis - Nullis nolit agere penis. - - A. D. MCCXXI. - -Ora, a data deste quadro é anterior ao nascimento de Cimabúe, affirmado -por uns em 1230, e por outros (como Pruneti) em 1240; e por isso os -Sennenses querem disputar a Cimabúe o titulo, que a elle e sua patria, -Florença, tanto ennobrece. Mas debalde; porque de Guido não se conhece -outra obra; e de Cimabúe existem ainda muitas, cuja nomeada o faz hoje -mesmo celebre e conhecido, e que n’aquelle tempo serviam de modelo aos -seus discipulos. - -Do principio tambem deste seculo XIII se conservava em Luca um -antiquissimo quadro de certo pintor d’aquella cidade: representava S. -Francisco d’Assis. Seu desenho é correcto, posto que um pouco rude; o -ar-de-cabeça tem muita expressão, e as mãos são bem tratadas.[20] - -Deste, e d’outros alguns monumentos desta épocha, devemos concluir: que -Cimabúe não foi o primeiro que na Itália começou a pintar com menos -defeitos: mas nunca se poderá asseverar, que elle, e sua eschola (a -Florentina) não foram os restauradores e pães da moderna pintura. - -O que Pruneti diz a este respeito não destroi os meus principios. - -Jamais as sciencias, e artes foram de repente á perfeição. Antes de -Socrates e Platão existiu Pythagoras e outros philosophos, que lhe -abriram o caminho; antes de Hippocrates, Avicena e Averroes[21] houve -Esculapio, e outros mezinheiros; antes de Homero, Hesiodo e Virgilio, -havia Orpheus e Linos; Eschylo, Sóphocles, Euripides e Aristophanes -foram precedidos por Thespis; os erros de Descartes allumiaram Newton; -Mairet, Routrou e Corneille formaram Racine e Voltaire; e entre nós -finalmente, antes de Camões, Ferreira e Bernardes houve Gil Vicente, -Bernardim e outros muitos, que lhes franquearam a carreira poetica. -Agora quasi em nossos dias, na brilhante restauração das lettras, os -Elpinos, os Filintos, os Gomes e os Bocages não appareceram de repente. - -Assim gradualmente foram crescendo os pintores na Italia, e -adiantando-se a perfeição de suas obras. Nos ultimos parocismos do -imperio Grego uma infinidade de professores vinham procurar entre -os Italianos um asylo mais seguro, e uma patria menos despotica: e -quando finalmente em 1448, tomada Constantinopola por Mahometh II, se -extinguiu de todo aquelle phantasma colossal, maior numero ainda se -espalhou por todo o meio-dia da Europa, e concorreu para a perfeição da -pintura moderna; assim como a alluvião de theologos Gregos concorreu, -e muito, para a perpetuação das barbaridades scholasticas, e atrazo -das sciencias. São deste tempo--Gioto, cujas obras se acham ainda -em Florença, Piza e Roma, nascido em 1276, e morto em 1336: foi -discipulo de Cimabúe, e contribuiu muito para a perfeição da arte pelo -bem-ordenado da sua pintura, e boa disposição de figuras. - -Masaccio, nasc. em 1417, e mort. em 1521, seria o verdadeiro e -completo restaurador da pintura, se vivesse mais tempo: o pouco que -d’elle resta, acha-se em Florença. - -Luca Signorelli di Cortona n. em 1449, e m. em 1521; foi celebre -pela precisão de desenho, e belleza de composição, todavia fraco -no colorido. Notam-se bem estas propriedades nos seus quadros, que -ainda se encontram no Loreto e Roma. E este é o ultimo pintor de fama -anterior a Leonardo da Vinci, que depois, com Miguel Angelo, foi -julgado fundador da eschola Florentina. - - - NOTAS DE RODAPÉ: - -[16] Pruneti o faz nascido em 1240--10 annos depois. - -[17] Famosos restos da estatua de Apolonio Atheniense. - -[18] Obra de tres escultores Rhodios Athenedoro, Agesandro e Polidoro. - -[19] Estatua bem conhecida. - -[20] Advirto, e fique advertido por todo o decurso deste ensaio, que -quando digo, que este, ou aquelle quadro, ou estatua se acham em Roma, -Florença, ou outra qualquer cidade: deve sempre entender-se antes das -ultimas revoluções da Europa. - -[21] Não confundo Avicena, e Averroes com Hippocrates: bem sei a -distancia de tempos e merecimentos. Faço porém esta advertencia, porque -não leia isto algum Esculapio enthusiasta, que grite: _au scandale_! - - - - - CAPITULO III - - Da Eschola Romana - - -Apezar de que a eschola Florentina com razão se possa chamar a mais -antiga, pois que seus alumnos se começam a contar desde Cimabúe; com -tudo a Romana foi, e sempre será como a primeira olhada, não só em -favor e respeito de seu illustre chefe Raphael Sanzio de Urbino; mas -pela bellesa de desenho, elegancia de composição, verdade de expressão, -e sobre tudo intelligencia de attitudes, que a caracterizam e -sobreelevam a todas as outras. - -As descobertas dos grandes monumentos de pintura e scultura, que os -zelosos cuidados de alguns papas, e outras principaes pessoas de -Italia desenterravam todos os dias das ruinas da antiga Roma, formaram -o gôsto dos mestres desta eschola, moldando-o no antigo. E tal é a -caracteristica das suas producções. Os rasgos mestres d’aquelles -preciosos _antigos_ lhes inspiraram uma magestosa solemnidade de -expressão nas grandes ideias que concebiam; e esta mira, que levaram -sempre os pintores Romanos, lhes fez desprezar alguma coisa o colorido: -defeito, que bem se esquece por outras, e tão brilhantes qualidades. - -Para tecer o elogio da eschola Romana basta nomear Raphael. Que nome -nos fastos das boas-artes! Se Virgilio e Homero não são mais celebres, -que Zeuxis e Apelles; a glória de Raphael quanto é superior á de Tasso -e Ariosto! Não me agrada aquella sentença dos antigos: - - --Ut pictura poesis-- _A poesia será como a pintura_ - - (BOCAGE). - -A poesia (attrevi-me a pensá-lo assim, e se a novidade não agradar nem -por isso me desdigo) é uma só: aos poetas pintores, seus primeiros -filhos é dado tratta-la viva: os poetas-versejadores só com o véo do -mysterio coberta a podem ver e seguir. A poesia animada da pintura -exprime a natureza toda; a dos versos porem, menos viva e exacta, falha -em muita parte na expressão de suas bellezas. Que poeta nos poderia -dar uma ideia de Romulo como David no seu quadro das Sabinas? Que -versos nos poderiam fazer imaginar a Divindade como a transfiguração de -Raphael? Que poema nos faria conceber a magestade d’um _Deus Creador_ -dando fórma ao cáhos, e ser ao universo, como a pintura de Miguel -Angelo? - -Estas reflexões sobre o parallelo das duas especies de poesia são -minhas; por taes as dou, e me encarrego do mal, ou bem, que d’ellas se -pensar. Por ventura não foi este o conceito dos antigos; mas a arte -mui atrazada entre elles não estava em proporção da nossa; os gregos -não tinham, como nós, Homeros em pintura. Immensas vantagens, como -já notamos, lhes levam os modernos pintores; a que de mais accresce -o nobre invento da gravura, que, (bem como a imprensa nos facilita o -trato dos mais antigos poetas do mundo) transmitte á posteridade e -nações remotas os esmeros da pintura, e ainda da scultura. Os nossos -Appelles não podem temer o ser conhecidos pelos vindouros só de nome -e fama, como o é por nós o dos antigos; a estampa lhes assegura o -conhecimento de _facto_ no mais remoto porvir, e mais longes climas. - -Mui fertil foi a eschola Romana; grande é o numero dos seus pintores: -daremos de cada um d’elles uma brevissima, porem exacta noticia: desta -maneira terá a mocidade applicada, como em synopse, e sem o trabalho -enfadonho de revolver muitos e antigos cartapacios, a historia completa -desta e das outras escholas, em que seguiremos o mesmo methodo. - - - SECULO XVI - -Rafaelo Sanzio d’Urbino, nascido em 1483, morto em 1520, facilmente -julgado o principe dos pintores: nenhum (se não for o moderno francez, -Mr. David) poderá rivaliza-lo. O brilhante colorido de Ticiano, -a belleza das tintas de Corregio, a gigantesca altivez de Miguel -Angelo não fazem a menor sombra á gloria do grande Romano. Raphael -levou a sua arte ao grau de perfeição, de que é capaz a humanidade. -Pertender dar uma ideia d’elle é tentar o impossivel: o estudo das suas -producções é o unico meio de o conhecer. Elle ainda vive repartido -por seus quadros, um dos mais bellos e ricos ornamentos das cidades -que os possuem. Digam-o os templos de Roma, as casas dos principes, o -Vaticano (onde existe a sua famosa _Biblia_), e sobre tudo a egreja de -_S. Pietro in monte_ situada no Janiculo; onde se conserva o primeiro -quadro do universo, a unica producção da arte, que excede a natureza, -a maior honra do ingenho humano, a melhor obra de Raphael, a sua -_Transfiguração_. Tal foi um dos primeiros homens do mundo, de quem -(e com mais razão por ventura, do que Horacio dizia de si) podêmos -asseverar, que não morreu todo: _Non omnis moriar_; ou como ja se disse -em portuguez; _O sabio não vai todo á sepultura_. A belleza principal -das suas obras é o desenho e attitudes. - -Julio Romano (Giulio Pippi) n. 1492, m. 1546: foi discipulo de -Raphael. Em suas obras, que principalmente se acham em Roma, se ve que -o caracter d’este pintor era a fôrça e ardimento: o seu colorido é -obscuro, mas o desenho admiravel. - -João Francisco Penni (il Fattore) n. em 1488, m. em 1528; trabalhou -quasi sempre debaixo das vistas, e pelos desenhos de Raphael, seu -mestre. Suas obras principaes são as galerias do Vaticano. - -Polidoro de Caravaggio n. 1495, m. 1543; foi bom colorista, correcto no -desenho, nobre e fero nos ares de cabeça. - -José Ribera, hespanhol, e por isso dito _il Spagnoleto_, nasc. em -Valença em 1589, e m. em 1656. O seu caracter é o vigor e expressão: -todas as figuras austeras e carregadas, prophetas, philosophos, tudo -quanto exige um pincel forte e vigoroso, sahia de suas mãos, como das -da natureza. Suas obras principaes existiam na cartuxa de Napoles; e -entre ellas, a mais conhecida é a collecção dos prophetas. - -Perrino del Vague Buonacorsi n. em 1500, m. em 1547; foi tão feliz -imitador do stylo de Raphael, seu mestre, que muitos de seus quadros -passam por d’elle. - -Innocenzio d’Imola n..., m...; desenhou segundo a maneira de Raphael, -mas coloriu muito bem. Seus quadros são preciosos e raros. - -Giulio Clovio n. 1498, m. 1578. Trabalhou sempre em miniatura, e -apprendeu o desenho com seu mestre, Julio Romano. - -Federico Barrocci n. 1528, m. 1612. Suas excellentes obras, que se -acham em Milão, Bolonha, Pesaro, Loreto e Roma, se distinguem pela -belleza do colorido (pouco vulgar na sua eschola) e que assemelha ao -de Corregio, grande exactidão de desenho, muita sciencia de luz, e -graciosos ares de cabeça. - -Thadeo, e Federico Zucaro, irmãos: morto o primeiro em 1566; o segundo -em 1609. Thadeo tinha grande ingenho e bom colorido; Federico, menos -habil, acabou quasi todas as obras, que seu irmão começara. Acham-se em -Veneza, Tivoli e Roma. - -Antonio Tempesta n. 1555, m. 1630. Foi eminente em batalhas, caçadas, -mercados, animaes etc.--Roma.-- - -José Cesar d’Arpin (Il cavalier Giuseppino) n. 1560, m. 1640. Seus -quadros grandes, que se vem no Capitolio, são historicos e bons; e -notaveis, sobre tudo, pela belleza dos cavallos. - -Michel Angelo Ameriggi de Caravaggio, n. 1569, m. 1609. Suas obras são -mui faceis de conhecer pelo ar de relêvo, que dava a todas as figuras -por via do assombrado. Esta originalidade imita bem a natureza. O seu -desenho é preciso e fero.--Roma e Napoles.-- - -Domenico Feti n. 1589, m. 1624. Imitou o _antigo_, e Julio Romano; -donde houve um caracter de desenho fero e vigoroso, com quanto -incorrecto. Seus quadros, mui procurados, se distinguem por uma graça -particular, e picante.--Roma.-- - -Giovani Lanfranco n. 1581, m. 1647. Foi eminente nas grandes obras, -como platafundos, cupulas, etc.--Napoles.-- - - - SECULO XVII - -Pietro Beritini di Cortona n. 1596, m. 1669. Todas as suas ingenhosas -producções tem um ar de nobreza, que encanta. Mas a obra prima d’este -grande mestre é o _roubo das Sabinas_, que Lebrun servilmente -copiou.--Roma e Florença.-- - -Mario Nuzzi di Fiore n. 1599, m. 1673; alcançou um grande nome pela -maneira excellente de pintar flores. - -Miguel Angelo Cerquozzi dito o _das batalhas e bambochatas_: nasc. -1602, m. 1666; teve um colorido vigoroso e um pincel ligeiro. Era tam -habil no seu genero, que pela simples narração d’uma peleja, traçava -logo a ordem do quadro no mesmo panno, em que havia de pintar.--Roma.-- - -Claudio Geleo (Lorrain) n. 1600, m. 1682. Todos conhecem este nome; -todos sabem que foi o principe dos paizagistas. Ninguem conheceu como -Lorrain a perspectiva aeria, e o effeito dos pontos de vista.--França.-- - -Andrea Sacchi n. 1599, m. 1661. Suas pinturas ternas e graciosos são -admiraveis pelo desenho, colorido e verdade de expressão. - -Domenico Passignani pelos annos de 1630, pintou com gosto e nobreza, -muita expressão, porem mau colorido.--Florença.-- - -Pietro Testa n. 1611, m. 1648; moldou o seu stylo nos antigos de Roma, -donde houve um bom e correcto desenho, com quanto rude.--Roma.-- - -Salvator Rosa n. 1614, m. 1673. Trabalhou muito; e suas obras se acham -por toda a Italia: todas ellas tem um ar de originalidade, que as -distingue, muita verdade e bom colorido; porem o desenho não é perfeito. - -Carlin Dolce n. 1616, m...; célebre pela graça da composição e frescura -do colorido.--Roma.-- - -Hiancito Brandi n. 1623, m. 1719 (outros querem que em 1691). Seus -quadros são muito vulgares: apezar das incorrecções do desenho, e -fraqueza de côres, teve com tudo uma belleza d’ornato, e fecundidade de -imaginação, que admira. - -Carlo Maratti n. 1624, m. 1713; foi eminente nos ares de cabeça: seu -desenho é mui assisado, e seu colorido brilhante. Todas as composições -d’este mestre encantam, e são bem acabadas. - -Luca Giordano n. 1632, m. 1705. Seu merecimento principal é a -facilidade e presteza, com que trabalhava: muitas obras delle são d’uma -bella expressão. - -João Baptista Bacici n. 1639, m. 1709; retratava bem; e os seus quadros -mostram muito talento, e bello colorido. - -Mattia Preti (Il Calabrese) teve o ingenho mais feliz na invenção; -bella e rica ordem, e muita originalidade. Nasc. 1643, m. 1699. - -José Passari n. 1654, m. 1714; discipulo e imitador absoluto de Carlo -Maratti. - - - SECULO XVIII - -Francesco Solimeni n. 1655, m. 1747. Bella imaginação, muito talento, -um desenho fero e correcto o constituem n’um dos primeiros lugares da -pintura; com quanto o seu colorido seja sombrio e pouco doce. A grande -qualidade porem d’este mestre, e em que elle sobre-excedeu a todos, é o -ar de vida, animação e movimento das suas figuras.--Napoles.-- - -Sebastião Concha morto pelos annos de 1740. Imitou Solemeni; mas o seu -genio frio o não ajudava. Comtudo no hospital de Sienna ha delle uma -boa pintura a fresco. - -Paolo Panini, vivo em Roma ainda no anno de 1767. Tem bom colorido, e -muito espirito. - -Paolo Monaldi do mesmo tempo foi pintor de _bambochatas_ muito -estimadas. - -Pompeio Battoni, retratista e pintor historico: o seu colorido é bem -imitado de Corregio. - -Muitos outros pintores, posto que não de grande fama, tem produzido -mais modernamente a eschola Romana; mas não temos delles sufficiente -conhecimento para poder formar um exacto conceito. - - - - - CAPITULO IV - - Da Eschola Florentina - - -A eschola Florentina é, por sua antiguidade, a mais respeitavel: -seu primeiro mestre foi Cimabúe; com quanto, fallando em rigor, só -Leonardo da Vinci e Miguel Angelo mereçam (como ja notamos) o nome de -fundadores. As obras dos seus alumnos occupam um logar mui distincto -nas collecções mais ricas; e a Italia, e toda a Europa se julga -com elles ennobrecida. Seu gosto de desenho é fero e decidido; sua -expressão sublime, algumas vezes attrevida, e gigantesca, e mesmo -contra-natural, mas sempre magnifica: o colorido nos seus principios -era rude; apperfeiçoou-se depois, sem perder nada da sua viveza, -magnificencia e outras brilhantes qualidades. Esta eschola é a menos -numerosa, mas não a menos célebre. - - SECULO XVI - -Leonardi da Vinci n. 1445, m. 1520, um dos grandes ingenhos do seu -seculo, foi sculptor, architecto e pintor. Seu desenho é correcto e -puro, e suas obras todas d’uma composição ingenhosissima; das quaes -a melhor é sem questão o grande quadro da ceia em Milão. Foi muito -estimado de Francisco I de França, em cujos braços morreu. O canal de -Milão foi dirigido por elle. - -Pietro Perugino n. em 1446, m. em 1524. Coloriu graciosamente; mas, -apezar de ser discipulo de Cimabúe, todos sabem quanto é rude o seu -ingenho. - -Fra Bartholomeo della Porta n. 1465, m. 1517, formou seu delicado -gosto no de Vinci, donde houve muita correção e pureza. Seu colorido -é bello e natural. Rafaelo não se dedignou de apprender delle a -arte de colorir, ensinando-lhe em troco as necessarias regras da -_prespectiva_.--Roma e Florença.-- - -Miguel Angelo Buonarroti n. 1475, m. 1504; esculptor incomparavel, -magnifico architecto, pintor sublime; não póde decidir-se a qual das -boas-artes pertenceu mais: suas estatuas, seus edificios, seus quadros, -tudo mostra o maior homem do seu seculo. Teve uma maneira de pincel -altiva e fera, e em geral similhante á da sua eschola; vastissima -concepção, ideias sublimes e arrojadas, e muita expressão e vigor. -Seus quadros principaes se acham na capella Sixtina do Vaticano. A -antiguidade toda e talvez os seculos posteriores não tem nada que oppor -a tão grande ingenho: seus quadros são inferiores aos de Raphael, e por -ventura aos de alguns outros ainda; porém Miguel Angelo é mui superior -a todos elles. - -Andrea del Sarto n. 1478, m. 1580; foi o maior colorista da eschola -de Florença; suas obras, em que se distingue uma maneira larga, e um -pincel fresco e brando, conservam ainda hoje um brilho singular. - -Baltazar Peruzzi n. 1481, m. 1536, alem dos grandes mestres, estudou -sobre tudo a natureza, foi grande na prespectiva, porem fraco no -colorido. Ninguem antes de Peruzzi executou com gosto uma decoração de -theatro. - -Giacomo Pontorma n. 1494, m. 1559; desenhou como Leonardo da Vinci, e -coloriu como Sarto. Seu pincel vigoroso, seu colorido brilhante, sua -imaginação bella e fecunda o fizeram olhar por Mig. Ang., e Raphael -como seu mais temido rival; e se a louca mania de imitar as maneiras -alemans o não fizesse mudar de estylo, por ventura os dois grandes -mestres não gosariam sós da gloria do primado. - -Macherino de Sienna (chamado Domenico Beccafumi) n. 1484, m. 1549; -desenhou com gosto e correcção, mas coloriu mal. - -Mestre Rosso, ou Roux (como lhe chamam os francezes) n. 1496, m. 1541; -pintou com muita expressão e viveza, porem ás vezes um pouco rude. -Trabalhou quasi sempre em França, onde teve muitos discipulos, e de -cuja eschola é julgado fundador.--Fontainebleau.-- - -Alexandre Allori n. 1535, m. 1607; foi gracioso e macio, e desenhou com -toda a pureza do _antigo_. - -Francisco Rossi (il Salviati) n. 1510, m. 1563; é muito estimado pela -grande intelligencia de luz; desenhou e coloriu bem; seus quadros -se distinguem pelas singulares attitudes das figuras.--Florença e -Bolonha.-- - -Jorge Vasari n. 1511, m. 1574; muito célebre pelas vidas dos pintores, -que escreveu: seu desenho é bom, mas sem energia, e seu colorido -fraco.--Roma.-- - -Jacoppino del Ponte n. 1511, m. 1570; as suas maneiras são as de Andrea -del Sarto, seu mestre. Foi o melhor retratista da sua eschola. - - - SECULO XVII - -Daniel Bacciarelli de Volterra n. 1579, m. 1625; desenhou bem, e o -que lhe deu grande nomeada sobre tudo, foi a sua _descida da cruz_ na -igreja _della Trinità del monte_ em Roma. - -Ludovico Cigoli n. 1559, m. 1613, pintou d’uma maneira firme e -vigorosa; mas coloriu principalmente com o pincel de Corregio. - -Francisco Vanni n. 1563, m. 1615. Coloriu muito bem, e desenhou -soffrivelmente. - -João Manozzi (Giovani di S. Giovani) n. 1590, m. 1636; foi um dos -melhores pintores de sua eschola; seus quadros, que mostram muita -intelligencia de perspectiva e architectura, se acham em Roma, -principalmente no palacio Pitti. - - - - - CAPITULO V - - Da Eschola de Bolonha - - -A eschola de Bolonha, ou Lombarda juntou em si quanto póde produzir -a perfeição da arte. Talvez (geralmente fallando) nenhuma das outras -o conseguiu tanto. O _antigo_ foi o seu modelo; mas sem uma servil e -exclusiva imitação; não tratou de formar systema ou, se o formou, foi -extrahindo de todos o que achou melhor. As bellezas vivas e sensiveis -da natureza, a verdade de expressão, a riqueza da ordem, a pureza dos -contornos, a facilidade admiravel de pincel, e sobre tudo o colorido da -mesma natureza, verdadeiro e encantador; tudo emfim, quanto offerece a -pintura, bello e terno, tudo reuniram os com-alumnos de Corregio. - -Auctores ha hi (como Pruneti) que dividem estas duas escholas de -Bolonha e Lombardia; porém a geral opinião é a que sigo. Sobre o chefe, -ou fundador desta eschola, diversos são tambem os conceitos, querendo -uns que seja Francia, outros Mantegna; a questão é de pouca utilidade. - - - SECULO XVI - -Francisco Francia n. 1450, m. 1518. Suas obras são d’um desenho muito -assisado, e mui boa côr para o seu tempo. Raphael lhe enviou o seu -quadro de _Santa Cecilia_ para que o corrigisse. Diz-se que a inveja -e dor de ver tam perfeita obra em um mancebo de tão pouca idade, lhe -causara a morte. - -Andrea Mantegna n. 1451, m. 1517; seus quadros rarissimos conservam -ainda muito brilho, e são de melhor desenho que os de Francia. - -Francesco Primaticcio Bolognesse n. 1490, m. 1570: coloriu -graciosamente, e desenhou no estylo de Julio Romano. Alguns, como -Pruneti, o querem fazer chefe da eschola de França, onde quasi sempre -viveu e pintou. - -Antonio Allegri (Corregio) n. 1494, m. 1554. Tinha chegado á perfeição -da arte, e ignorava o seu merecimento. O _antigo_, Raphael, Vinci, -etc., tudo lhe era desconhecido; não sabia senão a natureza. Ouviu -gabar muito um quadro de Raphael, observou-o, e conheceu o seu proprio -merecimento; soube o que valia, e nem porisso foi mais vaidoso; antes -continuou a dar por mui rasteiro preço seus inestimaveis quadros, cujo -colorido e frescura de pincel ainda não pôde ser imitado. - -Francesco Massuoli (o Parmezão, ou Parmegianino) n. 1504, m. 1540. -Maneiras graciosas, colorido fresco e natural, muita facilidade e -correcção no desenho o constituiram um dos primeiros pintores da sua -rica e fecunda eschola. Os quadros deste mestre são raros e carissimos. - -Lucas Cangiagio, ou Cambiagi n. 1527, m. 1583 ou 85. Pintou com muita -facilidade, e o que é de admirar, com ambas as mãos ao mesmo tempo. -Teve muita verdade e viveza, e tal expressão nas figuras, que parece -que fallam: - - _Manca il parlar: di vivo altro non chiedi; - Ne manca questo ancor, se agli occhi credi._ - - (TASSO Gerus.) - -Os Caraches, Carachas, ou Caraccis, (segundo a nacional e verdadeira -orthographia) mais celebres e conhecidos são tres. Luiz Caracci -n. 1555, m. 1618; estudou muito os grandes mestres e adquiriu uma -maneira nobre e verdadeira, expressão e belleza de colorido. Instituiu -uma academia ajudado de Agustinho e Annibal Caracci, seus primos, -na qual se formaram Albano, Gruido, Guercino e outros illustres -artistas.--Agustinho Caracci desenhou perfeitamente e coloriu bem: dos -tres é o menos celebre; n. 1558, m. 1603.--Annibal Caracci n. 1560, m. -1609; foi superior a seu irmão e primo; teve um estylo nobre e sublime, -desenho preciso e fero, e colorido muitas vezes admiravel. A galeria -_Farnesi_ é de todas as suas obras a mais famosa. - -Bernardo Castelli n. 1559, m. 1629; grande amigo de Tasso, a quem -retratou, bem como a quasi todos os bons poetas do seu tempo. Foi -insigne neste genero: desenhou bem e coloriu melhor. - -Guido Renni (o Guido) n. 1575, m. 1624. Costumam distinguir-se tres -maneiras differentes neste pintor famoso: a 1.ª forte e assombrada; a -2.ª natural e bella; a 3.ª terna e doce, porem mais fraca. Pintava -com a maior facilidade. - - - SECULO XVII - -Francesco Albani (o Albano) n. 1578, m. 1660; deu-se absolutamente aos -assumptos galantes e graciosos: seu genio doce e terno o determinou na -escolha. O nosso Vieira Portuense o estudou muito e imitou bem. - -Domenico Zampierri (Domenichino) n. 1581, m. 1641; observou sempre uma -ordem magnifica nos seus quadros, muita nobreza, correcto desenho e -verdade de expressão. - -Francesco Barbieri da Cento (o Guerchino) n. 1590, m. 1666. Trabalhou -com uma facilidade incrivel; e os seus quadros se encontram por -toda a parte: teve um desenho fero e expressão nobre; mas o colorido -não é igual. Sua 1.ª maneira é escura e fraca; a 2.ª é mais dura e -fortemente assombrada; a 3.ª é bella e encantadora, e participa do -gôsto de Ticiano e Corregio. Nos fins de sua vida, porem, obrigado da -miseria, trabalhou mal e sem gôsto. - -Luciano Borzoni n. 1590, m. 1645. Verdade e intelligencia de expressão, -e delicioso colorido o fizeram um excellente pintor. Teve dois filhos, -que o imitaram, e se distinguiram; sobre tudo Francisco Borzoni nas -paizagens e marinhas. - -João Francisco Frimaldi n. 1606, m. 1688. Coloriu suavemente e com -harmonia; suas paizagens são excellentes. - -Benvenuto da Ferrara (o Garofalo) n. 1615, m. 1695; foi muito bom -colorista e desenhou bem. As suas cópias de Raphael são muito estimadas. - -Beneditto Castiglioni. Sua pureza de desenho frescura de colorido, -delicadeza de toque e grande intelligencia de _claro-escuro_ fizeram os -seus admiraveis quadros preciosissimos e caros. Nasceu 1616 m. 1670. - -Cario Cignani n. 1629, m. 1673. Teve muito boa composição e -desenho; mas pouca expressão por causa do _muito-acabado_ dos seus -quadros.--Bolonha.-- - - - SECULO XVIII - -Thiarini, chamado o _expressivo_, morto pelos annos de 1750: teve muita -expressão e um colorido vigoroso: exprimiu bem as paixões. - -Izabel Cirani, do mesmo tempo. Estudou com proveito os grandes mestres: -adquiriu um gracioso colorido; e, com quanto preferia os assumptos -terriveis, executou muito melhor os doces e ternos. - -Marcantonio Franceschini (o Francesquino) morto em 1729. Seu colorido -é muito engraçado, seu desenho preciso, e sua maneira tem uma bella -simplicidade. Os quadros de Francesquino tem muita estimação e -valor.--Bolonha.-- - -Marcos Benefiale n. 1684, m. 1764; foi um dos bons mestres de sua -eschola por seu correctissimo desenho, grande energia e expressão, e -fecundidade de pincel.--Roma.-- - - - - - CAPITULO VI - - Da Eschola Veneziana - - -A eschola Veneziana, que reconhece por fundadores os Bellinis, -Giorgione e Ticiano, produziu excellentes pintores, que imitaram a -natureza com uma fidelidade, que seduz os olhos. Seu colorido é sabio -e encantador, seu _claro-escuro_ de muita intelligencia, a imaginação -bella, a ordem rica, e os mais galantes e spirituosos toques; em fim, -sua maneira é originalmente encantadora, sobre tudo nas formosas e -sabias composições de Ticiano e Paulo Veronese. Os grandes mestres -desta eschola desprezaram todavia alguma cousa o desenho; tam essencial -á boa pintura. Ticiano, e Giorgione elevaram o modo Veneziano a um -ponto, que será difficil iguala-los. Nota-se em geral a esta eschola -pouco conhecimento do _antigo_, e attitudes. - - - SECULO XV - -Gentil e João Bellini mortos, o primeiro em 1501, o segundo em 1512, -e mui velhos. Seus quadros rarissimos mostram ainda um desenho -verdadeiro, mas sem ordem: seu maior merecimento é terem sido mestres -de Giorgione e Ticiano. - -Giorgione de Castel-franco n. 1477, m. 1511. Sciencia de claro-escuro, -ordem, colorido e desenho o elevaram em brevissimo tempo (pois viveu só -34 annos) á perfeição. - - - SECULO XVI - -Ticiano Vecelli da Cadore n. 1477, m. 1576. Suas obras espalhadas por -toda a Europa fizeram conhecer este mestre, que discorreu uma longa e -feliz carreira, vivendo 99 annos; um quasi inteiro e glorioso seculo -empregado na mais nobre das artes. Ignorou o _antigo_, e falhou no -desenho; mas o colorido de Ticiano, e sua expressão, assim como não -tiveram modelo, não terão imitadores. - -Gio Antonio Regillo (il Podernone) n. 1484, m. 1540. A belleza de seu -colorido, facilidade de desenho e apurado gôsto de invenção o fizeram -temer muito de Ticiano. Nada mais é necessario para seu elogio. - -Sebastião Piombo n. 1485, m. 1547. O quadro da _resurreição_ de Lasaro, -feito para oppor ao da _transfiguração_ de Raphael lhe adquiriu muita -fama; e Miguel Angelo, cujo é o desenho do dito quadro, quiz por via -d’elle disputar a Raphael o primeiro logar; mas a expressão, e colorido -de Piombo não poderam triumphar do incontrastavel merecimento de seu -illustre rival. - -Giacomo Ponte Bassano n. 1510, m. 1592. Amou os assumptos communs, em -que foi grande: seu stylo é verdadeiro, e as suas côres excellentes. - -André Sciavone n. 1522, m. 1582: desenhou incorrectamente; porem -coloriu tam bem, teve um modo tam facil e engraçado, tam bom gôsto nas -roupagens, e tam bellas attitudes, que se lhe não pode negar o titulo -de grande pintor. - -Giacomo Robusti (il Tintoreto) n. 1524, m. 1594. Uma imaginação -vivissima, uma rapidez incomprehensivel e um finissimo gôsto o elevaram -á primeira ordem dos mestres. É prodigioso o numero de suas obras. - -Paolo Calliari Veronese (Paulo Veronese) n. 1532, m. 1588. Seus -quadros farão sempre as delicias dos amadores da arte pela riqueza -d’ordem, belleza de caracteres, bom gôsto de roupagens, frescura de -colorido e nobre elegancia de figuras. - -Giacomo Palma (Palma il Vechio) n. 1540, m. 1588; imitou a natureza -sempre bella, e com um _bem-acabado_ sem affectação. - - - SECULO XVII - -Tiago Palma (Giacomo Palma il Giovane) n. 1544, m. 1628. Foi discipulo -de Tintoreto, que imitou optimamente. - -Carlos Veneziano n. 1585, m. 1625. Seu colorido imita bem Corregio, e -suas physionomias engraçadas as de Guido. - -Alessandro Veronese dito o _Turchi_, ou _Orberto_ n. 1600, m. 1670; -desenhou bem, e coloriu como um Veneziano. - - - SECULO XVIII - -Giam Battista Piazzeta morto no fim do XVIII seculo. Seu colorido é -mau, mas o desenho imita muitas vezes, e com verdade, a nobre altivez -de Miguel Angelo. - -Rosa Alba Carriera n..., m. 1761. Seus retratos e pasteis são -conhecidos em toda a Europa; seu principal merecimento é o novo gôsto, -e maneira singular, com que trabalhou em miniatura. - - - - - CAPITULO VII - - Da Eschola Flamenga - - -A eschola Flamenga é a de Rubens e Wandick; tanto basta para o seu -elogio.--Van-Eick, tam conhecido pelo invento da pintura a oleo, foi -o seu chefe. Quem amar a nobreza do pincel Romano, a bella arrogancia -do Florentino, as graças do _antigo_, as gentilezas Gregas; não -será decerto muito apaixonado das producções Flamengas. Os gelos do -paiz, o temperamento frio dos habitantes são as causas necessarias e -naturaes do pouco fogo que se lhes nota. Mas, em trôco desta falta, que -bellezas lhes não achará o amador imparcial e singelo! Ninguem, senão -os pintores Flamengos, appresenta em seus quadros um _bem-acabado_, -um _completo_, que parece superior á paciencia humana; uma fidelidade -original na imitação da natureza, que encanta e admira. O seu defeito -todavia é o menos-preço d’aquella generica e fundamental regra das -boas-artes: _Imitar a bella natureza_; isto he, _saber extremar n’ella -o bello do mediocre_. Nisto falharam de certo, exprimindo-a muitas -vezes com a cega punctualidade, e o _verbo ad verbum_ d’um _fidus -interpres_; mas este mesmo defeito (permitta-se-me julga-lo assim, -com quanto vou contra o commum parecer) dá muitas vezes ás pinturas -Flamengas encantos simplices, e singelos, que em nenhumas outras se -encontram. - -Nesta numerosa eschola se classificam todos os pintores das nações -do norte; e se os caracteres, mais que as patrias, devem ser neste -ponto os verdadeiros dados, não duvidarei tambem ennumerar n’ella os -poucos bons inglezes. Nunca pude gostar da pintura Britannica: um -contra-natural, um monotono, um forçado no colorido, um sempiterno gêlo -na expressão, que sempre lhe notei, me fizeram olha-la com desprezo, -e a não ser o moderno West, (de quem adiante fallarei) de certo os -inglezes avultariam bem pouco neste ramo das boas-artes. - - - SECULO XV - -João Van-Eick n. 1370, m. 1441; fundou a sua eschola, e inventou a -pintura a oleo. Nada mais se sabe. - -Alberto Durero n. 1471, m. 1528. Seu desenho é correcto, sua imaginação -viva, sua maneira firme; mas falhou muito nos costumes. - - - SECULO XVI - -João Holbein n. 1498, m. 1554. Sua imaginação é sublime, o colorido -vigoroso, e suas figuras tem um ar de relêvo, que engana. Em geral o -pintar deste mestre parece mais Lombardo, que Flamengo. - -Otam Vaen ou Vaenio n. 1556, m. 1634; formou-se no gôsto Romano, que -lhe deu muita correcção de desenho, e belleza de expressão; qualidades, -a que ajunctou grande intelligencia de claro-escuro. - -Bloemart n. 1567, m. 1647. Um toque expedito e livre, bellas roupagens, -muita sciencia de claro-escuro são os caracteres d’este pintor. - -Pedro Paulo Rubens n. 1567, m. 1640. Nada será bastante para fazer -descer este grande homem do grau illustre de primeiro pintor historico. -Não quero, nem devo occupar-me de seus defeitos; releva-me só dizer: -que o seu colorido é verdadeiro e brilhante, sua imaginação fertil, seu -claro-escuro sabio, todo elle é encantador.--A galleria do Luxembourg -é a sua melhor obra: mas um quadro allegorico da guerra (no palacio -ducal de Florença) no meu parecer, e no de muitos, não é inferior. -Fogo brilhante, nobreza poetica, côr excellente;[22] caracteres -interessantes, composição precisa, intelligente distribuição de luz; -tudo se juntou neste quadro; e n’um grau de formusura, a que só a -allegoria póde remontar. A simples ideia deste painel vale bem uma -Iliada, e todos os Klopstocks juntos talvez a não produzissem: «É a -_transfiguração_ de Rubens» dizia um philologo meu conhecido, alludindo -ao célebre quadro de Raphael. «A vida dos homens sabios é o cathalogo -de suas obras» diz um grande litterato[23]. Esta sentença desculpa a -minha diffusão. - - - SECULO XVII - -Antonio Wandick n. 1599, m. 1641. Foi discipulo de Rubens, e a maior -honra do mestre; verdadeiro e simples na imitação da natureza. O seu -genero foi o retrato, em que ninguem o excedeu. - -Rembran-Van-Ryn n. 1606, m. 1674; foi grande no _claro-escuro_, na -harmonia das côres: na imitação do relêvo. Seus quadros são conhecidos -pelo fundo negro. - -Vander-Kabel n. 1631, m. 1695; distinguiu-se absolutamente da sua -eschola pela imitação dos Caraccis e Salvator Rosa. - -Eglone-Vandernér, ou Vandernêér n. 1643, m. 1697. Um colorido vivo, um -pincel mimoso lhe fizeram naturalmente procurar os assumptos amorosos, -em que foi excellente. - -Wanderwerff n. 1659, m. 1722. Seus toques são firmissimos, e seu -desenho correcto. - - - SECULO XVIII - -Antonio Raphael Mengs n. 1728, m. 1779. Tem uma verdade de colorido, -e uma facilidade de pincel, que distingue as suas obras de quaesquer -outras. - -Gerardow n..., bem conhecido pelo seu _Hydropico_ que existia no -palacio real em Turin, e que Mr. Cochin na sua viagem de Italia não -duvída chamar o melhor quadro Flamengo, e assegura ter sido um dos mais -estimados do principe Eugenio.[24] - - - NOTAS DE RODAPÉ: - -[22] A muito me affoito, conceituando da belleza de côr d’um quadro, -que nunca vi, senão em estampa, e má estampa; mas fio-me na auctoridade -de eruditos viajantes. Haverá dous annos que me communicou esta estampa -em Lisboa o sabio philologo J. B. S. Dos apontamentos, que então fiz, -extrahi esta e outras discripções, que por ahi vão. - -[23] Voltaire: _Siècle de Louis XIV_. - -[24] Muito há que li estas viagens, assim como as memorias de Mr. -l’Abbé Richard; de maneira que agora não poderei asseverar em qual dos -dous encontrei Gerardow, e o seu hidropico. Á leitura d’ambos remeto os -curiosos. - - - - - CAPITULO VIII - - Da Eschola Franceza - - -A eschola Franceza, filha da Romana (segundo Pruneti) honra muito a sua -progenitora. Desde o seculo XVII as Italianas (seu modelo) declinavam -muito; ja se não viam Rafaelos, Corregios, nem Ticianos: parece que -a natureza, esgotada por tam grandes talentos, queria descançar. -E nesta mesma epocha (principios do seculo XVIII, e fins do XVII) -brilhavam em França Le Brun, Lesueur, Subleiras etc. Veio o seculo XIX -tam memorando pelas extraordinarias mudanças, que viu a Europa; e em -quanto a revolução Franceza, e suas consequencias aniquilavam em toda a -parte[25] as boas-artes; a França apresentava ao mundo o mais brilhante -espectaculo. Por entre o ruido das armas e o estrepito dos combates, -as margens do Sena, - - _D’onde, arrancando omnipotencia aos fados, Impoz tropel d’heroes - silencio ao globo_ - - (BOCAGE) - -se ornavam com todo o esplendor das sciencias e artes. A mesma -Theologia tam sêca, e enfadonha nas mãos de Santo Thomaz, tam immoral -nas de Mollina, e Sanches, muda de fórma, toma nova essencia, e na -milagrosa penna de Chateaubriand surge com uma belleza e magestade, -que jamais puderam dar-lhe o douto Agustinho, o eloquente Origenes. -Com bem justiça, em quanto a mim, se podem a si proprios applicar os -Francezes, a respeito das outras nações, aquella sentença de Seneca: -_Multum egerunt qui ante nos fuerunt, sed non peragerunt_.[26] Nesta -epocha brilhante e memoranda nos fastos da humanidade, das sciencias -e das artes, a pintura renova em París os seculos de Augusto, de Leão -X e de Luiz XIV. Os generaes victoriosos traziam de toda a parte os -monumentos mais preciosos das boas-artes. O Vaticano, o Belveder, -o Capitolio, Roma, toda a Italia foi exhaurida, e suas riquezas de -sculptura e pintura transportadas á nova capital do mundo. Então -appareceram em França David, Girodet, e muitos outros, que vão parelhas -com os mais famosos Italianos, se em parte os não excederam. Lavater -no seu ingenhoso livro das physionomias não se attreveu a caracterisar -os Francezes. Seus genios e maneiras tam incertos e incapazes de -classificação, como sua variada phisionomia, impedem affixar-lhes -com exactidão a caracteristica; e philologos por isso houve, que não -quizeram considerar na Franceza uma eschola; porem esta assersão é sem -critica, e pouco seguida. Pruneti no seu _Ensaio Pictorico_ accusa a -eschola Franceza de mau colorido, e ignorancia do _antigo_. Eu, sem me -attrever a contrastar este parecer, julgo que tal imputação não pode -ter lugar na moderna eschola franceza; mas somente se deve referir á -antiga. Pruneti todavia não conheceu a eschola de David; mas devia -conhece-la seu traductor Taborda; devêra estuda-la para emendar o -seu original, e exceder assim a mediocridade d’um traductor servil, -accrescentando-lhe novas ideias. O grande genero francez é geralmente o -historico. O chefe desta eschola, querem uns que seja Roux, ou Rosso, -outros que Leonardo da Vinci: Pruneti assevera que fôra Primaticio -Bolognese e o faz alumno da eschola Romana. Eu o classifiquei na -Lombarda; mas confesso que me enganei; porque o seu pintar, verdadeira -norma, é mais Romano, que Lombardo. - - - SECULO XVI - -Vovet n. 1590, m. 1649. Teve um desenho altivo, e um pincel vigoroso; -mas imitou depois todas as boas e más qualidades de Mig. Ang. de -Caravaggio. - -Nicolau Poussin: Pruneti o faz nascido em 1594; mas Voltaire (_Siècle -de Louis XIV_) assevera esta data em 1599. A boa critica decide por -este, como nacional, e tam instruido nos successos d’um tempo, cuja -historia nos deu. O mesmo Voltaire diz que Poussin era chamado o pintor -das pessoas de spirito, e acresenta que tambem das de gôsto se podia -dizer. Soube bem o _antigo_ e o desenho; mas o gôsto Romano lhe deu -um colorido sombrio. Sua philosophia (diz o grande escriptor) o fez -superior ás intrigas de Le Brun, e morreu pobre mas contente em 1665. - -Pedro Valentin de Colonier n. 1600, m. 1632; imitou Poussin; teve um -colorido harmonioso, boa ordem nas figuras, mas pouca correcção no -desenho. - -Jacques Blanchard foi imitador feliz das bellezas de Ticiano. Nasc. -1600, m. 1638. - -Lesueur n. 1617, m. 1655. Seu ingenho é sublime e elevado, seu gôsto -de roupagens magnifico. É um dos primeiros pintores da antiga eschola -Franceza. - -Pedro Mignard n. 1610, m. 1638. O estudo, e imitação de Raphael e -Ticiano o fizeram algum tempo rival de Le Brun; mas a posteridade -imparcial o extremou bem. - -Carlos Le Brun n. 1619, m. 1690. Sua composição, dignidade de exprimir, -e fidelidade de costumes se conhece principalmente pelas batalhas de -Alexandre, que Voltaire julga superiores ás de Paulo Veronese; mas -apezar do meu respeito a um tal historiador, e philologo, creio que -nisto se engana, bem como no elogio do seu colorido, que todos taxam de -menos correcto. - - - SECULO XVIII - -José Vivien n. 1651, m. 1735. Retratou bem a pastel, teve muita belleza -e fecundidade de ideias, e executou bem. - -Pedro Subleiras n. 1699, m. 1749. Fertilidade de ingenho, grandeza de -estylo, viveza de colorido, magnifica prespectiva, boas roupagens são -os seus caracteres, e os d’um grande pintor. - -João Baptista Santerre n..., m.... Seu merecimento principal é um -colorido verdadeiro e terno. O quadro de _Santa Thereza_ na capella de -Versailles é um dos esmeros d’arte mais preciosos e bellos; com quanto -um pouco voluptuoso de mais, de que ao assumpto e logar cumpria. - - - SECULO XIX - -David[27] é não só o primeiro pintor da moderna eschola Franceza, mas -por ventura o primeiro do mundo, depois de Raphael. Que vastidão e -sublimidade de ideias! Que força e verdade no colorido! Finalmente as -suas composições reunem todas as boas qualidades, que apenas se acham -dispersas pelos quadros mais famosos das antigas escholas, e que só -a elle foi dado juntar. Fallem os prodigiosos quadros de Belisario, -do juramento dos Horacios, da morte de Sócrates, e sobre tudo o -incomparável quadro das Sabinas, o _non plus ultra_ da concepção e -execução, e a eterna inveja de todos os pintores existentes e futuros. - -Girodet igualmente se tem distinguido muito pela elegancia de suas -composições, e suavidade de seu colorido, que nos seus quadros, quer de -perto, quer de longe, presenta quasi o mesmo effeito. Não tem as graças -virís de David; mas um acabado, uma doçura, uma maneira de exprimir, -que o caracterisam, e tornam por extremo encantadoras suas bellas -producções. Vejam-se os quadros do _enterro d’Atala_, e da Virgem. - -Gérard por seus excellentes retratos, chamado o Wandick de França, -é tambem pintor historico e famoso pelo bom arranjo e ordem de seus -grupos, pannejado, ou trapejado de suas figuras, e bella correcção de -desenho. Seus grandes quadros são o Belisario, a Batalha d’Austerlitz, -e ultimamente a entrada de Henrique IV em Paris, que lhe grangeou o -logar de primeiro pintor da Camera de Luiz XVIII; não porque Girodet -seja superior a David, nem mesmo igual, mas porque soube lisongear a -tempo. - -Régnault é muito conhecido pela correcção do desenho; porém o seu -colorido, em demasia brilhante, é mais contrafeito, que natural: -todavia deu muitos e bons discipulos, e entre elles o mais famoso é: - -Guérin tão celebre pelos seus quadros de Phedra, e Hyppolito, de -M. Sexto, e da narração de Eneas a Dido. Seus caracteres são fogo -pictoresco e muita sciencia de _claro-escuro_. - -Le Gros bem conhecido pintor de historia segue a David. É mui celebre o -seu quadro de Francisco I, e Carlos V em S. Diniz. - -Vernet, filho do paizagista do mesmo nome, e que no genero de batalhas -é sem par. Só elle conseguiu exprimir com todo o fogo, e energia os -brutos, que puxam o carro de Neptuno. - - - NOTAS DE RODAPÉ: - -[25] Á excepção da Inglaterra e Russia, e tambem de Portugal, que então -colhia os fructos de todas as fadigas de Pombal e Manique. - -[26] Seneca _Epist._ 65 - -[27] Tinha-me feito a mim proprio uma lei de não nomear nenhum pintor -vivo; mas o reconhecido merecimento destes, o serem estrangeiros, a -necessidade de fallar da moderna eschola Franceza, e não podêr faze-lo -de outra maneira, me obrigou a infracção da lei, e quebra do protesto. - - - - - CAPITULO IX - - Dos Pintores Inglezes, e principalmente de West - - -West é o unico inglez, cujas obras mereçam collocar-se a par das -boas das outras nações. Os Inglezes não tem o genio da pintura. A -natureza do paiz não é bella, o sexo frio e desleixado; as proporções -do corpo em geral irregulares, mal feitas; o caracter da nação duro e -rispido; os costumes ferozes; tudo em fim concorre a impossibilitar a -Gran-Bretanha de produzir bons pintores. Um inglez bem conhecido, o -barão de Chesterfield o confessava, quando n’uma de suas cartas a certa -dama franceza diz: Every country has talents peculiar to it, as well as -fruits, or other natural productions. We here think deeply, and fathom -to the very bottom. Italian thoughts are sublime to a degree beyond all -comprehension. You keep the middle path, and consequently are seen -followed, and beloved (CHESTERFIELD _Letters_: Lett. 444.) Comtudo West -soube distinguir-se de seus compatriotas por um genio vasto, e desenho -correcto; mas seu caracter de pintura não é sublime; e o seu colorido -(como o geral da nação) contrafeito e improprio. - - - - - CAPITULO X - - Dos Pintores Portuguezes - - -Tem-se escripto muito, e muito controvertido sobre a Pintura -portugueza, e sua historia; mas tanto nacionaes, como estrangeiros -(affoitamente o digo) sem critica. O exame de seus escriptos, das -obras dos nossos artistas me suscitou a ideia de entrar com o faxo -da philosophia neste cahos informe e desembaraçar, quanto em mim -fosse, com o fio da critica este inextricavel labyrinto. Não pretendo -adiantar ideias novas: pois donde as haveria? Menos ainda refutar as -poucas historicas que temos: pois que documentos poderia allegar? Mas -simplesmente examinar o que ha, e dar-lhe ordem e methodo. Eis aqui o -que é meu, o resto é dos escriptores, de quem o houve. Com estes dados -considerei em Portugal quatro epochas de pintura, umas mais, outras -menos brilhantes: por via destas divisões será por ventura mais facil o -formar um systema historico desta boa-arte entre nós. - - - EPOCHA I - - (Seculos XI até XIV) - -O erudito arcebispo Cenaculo, Barbosa e outros modernos, na -investigação das antiguidades da pintura portugueza, conjecturaram -muito e com muita fadiga, mas pouco fructo. O desleixamento daquelles -seculos meio-barbaros em se lembrar da posteridade com a historia -de seu tempo, não deixa aos animos estudiosos, e amigos da gloria -patria, senão o desejo e infructuoso trabalho de vagar sem rumo por -um pelago de conjecturas, a qual mais vaga. Que Italia e Portugal -eram, nestas epochas remotas dos seculos XI, XII e XIII, as provincias -menos barbaras da Europa; seus monumentos publicos, templos, estatuas -e ainda livros o mestram. Alcobaça e Santa Cruz de Coimbra são, alem -d’outras, incontrastaveis provas da minha asserção. Vivia entre nós a -pintura; e vivia o melhor, que do gosto do tempo se podia esperar. Quem -exigir mais diffusão, póde ver os citados Barbosa, e Cenaculo, e todos -os allegados pelo moderno Taborda. O resultado philosophico de quanto -disseram é em poucas phrases:--Que esta arte antiquissima entre nós -remonta ao principio da monarchia.--Que barbara e gothica ao principio, -se foi pouco e pouco melhorando, já pelas viagens dos nossos mestres -á Italia, já pelas obras e pintores, que de lá vinham chamados pelo -bom acolhimento, que lhes nossos monarchas faziam.--Que existem ainda -deste tempo algumas pinturas, cujo auctor se ignora.--Que nos reinados -d’Affonso V, e João II ja tinhamos pintores de nome, como Gonsalo Nuno, -João Annes, e Alvaro de Pedro. Que o estylo da nossa pintura deste -tempo, era um mesclado de gothico e grego-moderno, similhante ao de -Cimabúe, Guido de Sienna, e Pedro Perugino.--O gôsto do _antigo_, que -então começava a prevalecer na Italia, e que de lá se communicou a -Portugal pela protecção, com que o amador das boas-artes, D. Manoel -especializou a pintura, assignala a segunda epocha, que se deve contar -do XV seculo. - - - EPOCHA II - - (Seculos XV e XVI) - -«Em quanto a França se occupava em justas e torneios, em discordias e -guerras civís, Portugal descobria novos mundos, fazia o commercio da -Europa, e produzia um sem numero de Camões, antes que em París houvesse -um só Malherbe» diz Mr. Voltaire (_Siècle de Louis XIV_), e devêra -accresentar que, antes que nascessem Le Brun e Poussin, ja Portugal -contava, na longa serie de seus pintores, Gran Vasco, Francisco de -Hollanda, Claudio Coelho, e mil outros. D. Manoel chamado o feliz, -foi o pae das sciencias e artes: e se João III contou no seu tempo -mais sabios, que seu illustre antecessor, fructos foram, que em seu -tempo amaduraram; mas devidos ás fadigas do semeador e cultor o grande -Manoel. Gran Vasco, Gonsalo Gomes, Fr. Carlos todos são deste tempo. - -O commercio e conquistas da India tinham elevado o reino a um gráo -de opulencia, desconhecido então das outras nações. D. Manoel quiz -eternizar-se com a fabrica do mosteiro de Belem; conhecendo: - - _Que d’acções immortaes se murcha a gloria, - Se a não regam as filhas da memoria._ - - (DINIZ od.) - -Os mancebos de mais esperanças foram mandados á Italia a aperfeiçoar-se -na pintura. Affonso Sanches, Fernão Gomes, Manoel Campello, Christovão -Lopes e outros, voltaram approveitados, e enriqueceram não só Belem e -Lisboa, mas o reino e toda a Europa com suas primorosas obras. Veio -depois Francisco de Hollanda, Diogo Pereira e Claudio Coelho, que não -deixaram ao seculo de Manoel e João III[28] que invejar ao de Luiz -XIV. O estylo pomposo de Miguel Angelo, que tanto agradava ao genio -altivo d’uma nação conquistadora, prevalecia muito entre os pintores -portuguezes, que nem por isso menos presaram o desenho de Raphael, -e o colorido de Ticiano, que ainda hoje se admira, em suas bellas -composições. - - - EPOCHA III - - (Seculo XVII) - -Espiraram com D. Sebastião nas areias de Africa o valor e espirito -portuguez; cairam as sciencias, esmoreceram as artes; e, com quanto -os intrusos Philippes favoreciam alguma cousa o talento; a abundancia -e riquezas, em cujo seio se crearam sempre os grandes ingenhos tinham -desamparado o reino, e sepultado a nação no lethargo politico, na -miseria e na ignorancia. As cinzas das sciencias fumegavam com tudo; -e os ultimos vislumbres d’um clarão moribundo, mas ainda grande, -allumiaram ainda a Amaro do Valle, Estevão Gonsalves, José d’Avellar e -Bento Coelho.--Surgiu finalmente a independencia portugueza depois de -60 annos de escravidão; mas o genio da nação estava muito abatido; era -necessario ainda o decurso de muitos seculos para o levantar. Vem-se -com tudo desta quadra muitas pinturas, supposto não mereçam comparar-se -com as do bom tempo de Campello e Claudio. Bem como nos animos, reinava -na pintura por estes desgraçados tempos a servidão e mau gosto, que se -limitava a copiar e imitar com baixeza; e por ventura pela mesma razão, -que nos fez desprezar a materna lingua, para escrevermos na hespanhola: -lisonja vil e indigna do nome portuguez, eterno opprobrio e mancha de -escriptores, aliás benemeritos, como Faria e Sousa, que enxovalhou sua -fama com tal baixeza e vituperio,[29] e a marcou indelevelmente com o -ferrête da sordida adulação; perniciosa mania, que tanto estragou o -idioma de Camões e Barros, e a tal ponto, que os esforços e fadigas de -tantos sabios e philologos tem sido pouco para a restaurar. - - - EPOCHA IV - - (Seculos XVIII e XIX) - -A longa paz do reinado de D. João V, o commercio das colonias -Americanas, as riquezas e abundancia consecutivas fizeram reviver as -artes e sobretudo a pintura e architectura. Começou-se Mafra pela -mesma razão, que se começara Belem: a Italia recebeu de novo muitos -alumnos portuguezes; e como Luiz XIV fizera em Roma, fez João V, -instituindo n’aquella cidade uma academia de pintura. Francisco Vieira -Lusitano, Ignacio d’Oliveira, e muitos outros foram o digno fructo dos -cuidados do monarcha, merecedor por seus bons desejos d’um seculo mais -philosopho, e d’uma côrte menos hypocrita. N’este estado de cousas -começou a reinar D. José, e com elle o marquez de Pombal: tudo mudou de -face; cahiu o colosso jesuitico, o reino d’Aristoteles e a barbaridade -Thomistica[30]; brilhou a pintura como a poesia, e as outras artes e -sciencias. O governo doce e moderado de Maria I acabou de aperfeiçoar -o que principiara e adiantara D. José, e o marquez de Pombal, que na -universidade de Coimbra,[31] em Mafra, no collegio dos nobres, e outras -partes tinham instituido aulas de desenho e pintura. D. Maria fundou -a academia do _nu_; em seu tempo[32] se instituiu a de desenho do -Porto. A nenhum bom portuguez devem esquecer os vigilantes cuidados do -intendente Manique, a quem a pintura, a esculptura e mais artes devem -tanto em Portugal. Esta fertil epocha produziu um Pedro Alexandrino, -Vieira Lusitano, Teixeira Barreto, Vieira Portuense, Sequeira, e -muitos outros, cujos nomes callo, mas bem conhecidos pelas suas bellas -producções. A verdade, a expressão, o bello natural são os caracteres -dominantes nestes tempos. - - - PINTORES PORTUGUEZES DA I EPOCHA - - (Seculo XI até XIV) - -Alvaro de Pedro viveu e pintou na Italia pelos annos de 1450. Nada mais -se sabe; mercês á incuria de nossos avoengos. Oxalá que este miseravel -e vergonhoso exemplo sirva de estimulo a netos, que possam melhor que -eu, transmittir á posteridade a memoria illustre de nossos coévos. -Noto de passagem que o traductor da oração de Belori assevera, com uma -intrepidez que me espanta, serem de Gonsalo Nuno, ou Nuno Gonsalves -as pinturas da capella de S. Vicente na sé de Lisboa. O mesmo dizem -Francisco de Hollanda e Bermudes. - -João Annes. Deixadas conjecturas, nada mais sabemos deste pintor, senão -que vivia pelos annos de 1459 por uma carta de privilegio dada por D. -Affonso V. (_Vide_ Taborda, Cenaculo, etc.) - -Vasco dito o grande (Gran Vasco). Sabemos por documentos d’aquelle -tempo, que vivia ainda nos fins do XV seculo. Seu stylo do antigo -modo Florentino faz julgar aos sabedores, que estudára com Pedro -Perugino. Desenho, ainda que rude, exacto, attitudes energicas, grande -conhecimento de architectura, bellas paizagens são os caracteres deste -insigne mestre, que fertil, e assiduo no trabalho enriqueceu todo -o reino com seus primores. Muitos templos de Lisboa, o da Ordem de -Christo em Thomar, e outros o attestam. Foi pintor de D. Affonso V, -e segundo o traductor portuguez de Belori, tambem de D. Manoel. Um -periodico de Lisboa (que infelizmente se intitula Mnemosine Lusitana) -quer que o melhor quadro de Vasco seja o da paixão de Christo no horto -(em Thomar): pintura (diz elle) porque um Inglez philologo, dava 6:000 -cruzados, e uma boa copia. Desejava de todo o meu coração, que o -redactor, ou redactores tivessem, ao menos nisto, razão: em quanto a -mim o amor da patria m’o faz crer facilmente. - - - PINTORES PORTUGUEZES DA II EPOCHA - - (Seculo XV e XVI) - -Gonsalo Gomes, de quem nada mais se sabe senão que vivia nos fins do -seculo XV, foi pintor de D. Manoel: e a estimação, que este sabio rei -d’elle fez, é o unico, mas relevante testemunho do seu merecimento. - -Na chronica de D. Manoel é chamado Duarte Darmas _grande pintor_, e -como tal enviado por el-rei a debuxar as entradas de Azamor, Salé, etc. -(_Vide_ Damião de Goes, _Chron. de D. Man._, part. II, cap. 27, pag. -208, ediç. de 1819). - -Firmado no proprio testemunho do auctor assevera (e não sei se com -razão) Vicente Carducho, e com elle Taborda, que o nosso historiador -Resende fôra tambem grande pintor. Não sei se a singeleza d’aquelles -tempos é bastante para crermos um homem no artigo dos seus louvores. - -Fr. Carlos, monge de S. Jeronymo, vivia no principio do seculo XVI. -Pintou no stylo de Bolonha, e sobre tudo no de Corregio. Ainda que -flamengo de origem, suas obras tem mais nobreza, que o commum d’aquella -nação, sem deixar de ter sua bella simplicidade. - -Gaspar Dias viveu pelos principios do XVI seculo. Mandado a Italia por -D. Manoel a estudar os grandes modelos, e formar o stylo, sua alma -elevada não se contentou d’outros mestres, que não fossem Raphael e -Miguel Angelo. Estudou-os, e mereceu imitá-los com dignidade. - -Christovão d’Utrecht n. 1478, m. 1557. Ainda que nascido em -Hollanda, nossos escriptores o fazem portuguez. Soube perfeitamente -a perspectiva, e juntou ao gôsto de Perugino e João Bellini a maior -delicadeza e harmonia de pincel. - -Affonso Sanches Coelho n. 1515, m. 1590. Dotado pela natureza de -quanto constitue um grande pintor concebeu fortes desejos de passar á -Italia, onde ouviu as lições de Raphael; honra, que bem mereceu por seu -aproveitamento. Chamado por Philippe II á Hespanha ennobreceu Madrid; -e sobre tudo o Escurial com suas pinturas. Um dos poucos exemplos do -merecimento premiado foi este illustre portuguez. João III de Portugal, -Philippe II, Gregorio XIII, o grão duque de Toscana, o da Saboia, -o cardeal Alexandre Farnese o estimaram, enriqueceram e honraram á -porfia. Sua alma bemformada escutou sempre a voz da natureza; e o -philologo não excedeu n’elle o homem. (_Vide_ Palomino, Bermudes, etc.) - -Fernão, ou Fernando Gomes, mandado á Italia por D. Manoel, e em -consequencia vivendo no principio do seculo XVI, foi aproveitado -discipulo de Miguel Angelo; e suas obras o provam bem. - -Manoel Campelo tambem enviado á Italia, e tambem do mesmo tempo. Ainda -hoje se admira em Belem nos seus quadros aquella correcção de desenho -da eschola Romana, aquella grandeza de stylo, que faz a glória de -Miguel Angelo, seu mestre, e que a não faz menos do illustre discipulo. -Estas brilhantes qualidades lhe grangearam os elogios de todos os -sabios nacionaes e estrangeiros. (_Vid._ D. Francisco Manoel de Mello: -_Hospital das lettras_; Guarenti, etc.) - -Vasques... viveu pelos annos de 1562. Poucos pintores souberam, como -elle, anatomia tão necessaria para o bom desenho, e proporções, em que -se avantajou, e que lhe déram um mui distincto logar na historia da -arte, apezar de seu stylo um pouco rude. - -Christovão Lopes n. 1516, m.... O stylo pomposo de Miguel Angelo, que -tanto agradava ao genio sublime e elevado dos portuguezes, foi o seu -modelo; e juntando a tam brilhante qualidade a expressão de Raphael, -enriqueceu a Patria com as magnificas producções, que ainda hoje são -admiradas depois de tantos seculos pelos sabedores, e amantes das -boas-artes. - -D. Leonor de Noronha da casa de Linhares, n. 1550, m. 1636. De Duarte -Nunes de Leão na _Descripção de Portugal_, e de Barbosa na _Biblioth. -Lus._ sabemos só que pintou _excellentemente a oleo e illuminação_. - -Antonio de Hollanda, inventor da illuminação a pontos brancos e pretos -em Portugal; e com tanto mais merecimento, que absolutamente ignorava -a mesma descoberta, que então se começava na Italia. Delle disse o -Imperador Carlos V, que _mejor le habia sacado al natural Antonio de -Hollanda en Toledo de iluminacion, que Ticiano en Boloña_. Bem pouco -vale este elogio, porque homens desta classe nada entendem de ordinario -de tudo o que póde ter algum valor ou merecimento, tendo de mais a -mais a presumpção do voto decisivo. Não consta porém, que Deus creasse -mais que um Salomão, e como este _um_ morreu ha muito tempo, e estes -senhores se não dão o incommodo de fazer aquillo, que fazem os que -não são Salomões, ou não tem a tal _infusa_, é bem claro o valor de -similhantes elogios. Carlos V porém (façamos justiça) posto que o mais -odioso monarcha por seu cruel despotismo, não era com tudo o mais tolo, -e algumas luzes lhe tinham ficado de senso commum, que se costumam -apagar com a... - -Francisco de Hollanda floreceu pelo meio do seculo XVI.--Pintor, -architecto, poeta e philosopho.--Na Italia Paulo III, e todos os -grandes e sabios; toda a Hespanha; em Portugal João III, e toda a côrte -o estimaram como merecia. (Pois n’aquelle tempo tambem em Portugal -se dava preço ao merecimento!) O muito que se tem escripto sobre -este memoravel portuguez, me desobriga de mais extensa apologia. De -sobejo lh’a fazem seus preciosos escriptos, suas pinturas, e toda a -Europa.--De suas producções é sem questão a obra-prima, o baptismo de -S. Agustinho (que ainda se conserva em cabeça de morgado na casa dos -Castros) em que se admiram reunidos a sabia composição de Raphael, -o desenho nobre e altivo de Mig. Angel., e o bello colorido de -Ticiano.--Julga-se que morreu em 1574. - - - PINTORES PORTUGUEZES DA III EPOCHA - - (Seculo XVII) - -Diogo Pereira n. 1570, m. 1640. Trabalhou muito; e o desvalimento, em -que sempre viveu, não lhe affrouxou as graças naturaes e puras, que -fazem a belleza de suas composições. Mas sobre tudo as scenas de horror -foram o mimo do seu pincel. Tive o prazer de admira-lo muitas vezes em -suas obras, que por decisiva prova de merecimento, são procuradas por -altissimos preços para Italia, França e Inglaterra. - -Estevão Gonsalves Neto n..., m. 1627. É delle o missal do convento de -Jesus tam gabado pelas excellentes miniaturas que o ornam. Soube bem o -ornato e perspectiva. - -Amaro do Valle n..., m. em 1619. Seu gosto é delicado; seu stylo grande -e expressivo; o desenho correcto, e assizada a perspectiva. Foi pintor -de Philippe II. - -José de Avelar Rebello viveu no tempo de D. João IV, que o condecorou -com o habito de Aviz. Caracterizam suas obras (das quaes a melhor é o -_S. Jeronymo_ da livraria de Belem) um stylo da grandeza de Mig. Ang., -e um colorido de summa verdade. - -D. Josepha de Ayala n..., m. 1684. Um ingenho fertil, muita verdade, -expressão vivissima são a caracteristica de seus quadros, pela maior -parte, de flores e fructos; mas o seu grande genero foi o retrato. - -Claudio Coelho n..., m. 1693. Este homem tam grande e tam conhecido -tem sido abocanhado por muitos, e exagerado por alguns; mas a opinião -geral o constitue n’um dos mais superiores graus entre os mais -illustres pintores. Desenhou correctamente; coloriu como Ticiano; e -conheceu, como poucos, o effeito da perspectiva. Tudo isto se observa -principalmente no seu primoroso quadro da sacristia do Escurial bem -divulgado pela moderna estampa de Bartholozzi. (_Vid._ Palomin. _Mus. -Hist._ pag. 440 até 444; o abbade Ponzz. _Viag. d’Esp._ Tom. V. pag. -65 até 126; Bermudez _Diccion. histor._ Tom. I. pag. 337 até 347; -Bourgeoin _Tableau de l’Espagne moderne_ Tom. I. pag. 227). - -Bento Coelho viveu no XVII sec. Grande facilidade, bom colorido, como o -de Rubens, que imitou; pouca correcção no desenho. Conservam-se ainda -muitas de suas obras. - - - PINTORES PORTUGUEZES DA IV EPOCHA - - (Seculo XVIII) - -Victorino Manoel da Serra n. 1692, m. 1747. Foi o primeiro, que em -Portugal introduziu o gôsto e ornato francez. - -André Gonsalves, n..., m.... Foi correcto no desenho, e bom no -colorido; mas seu merecimento principal é o de copista. - -Ignacio d’Oliveira, n..., m. 1781. Distinguiu-se sobre tudo pelos -encantos do colorido: estudou em Roma, e trabalhou muito em Mafra. - -Francisco Vieira Lusitano n...., m. 1783. Estudou muito em Roma, aonde, -por concurso, levou o premio da academia de S. Lucas. Foi grande na -alegoria; desenhou bem, coloriu divinamente, e teve muita expressão. -Apezar de tudo o que a inveja e a ignorancia tem suscitado contra -este grande mestre, elle será sempre um d’aquelles, com que a pintura -nacional mais se honra e ennobrece. Vieira Lusitano é muito conhecido, -para me obrigar a maior elogio. - -Joaquim Manoel da Rocha n. 1730, m. 1786. Distinguiu-se pela correcção -do desenho, e muita expressão. Foi director da academia do _nu_, e -professor na aula do desenho de Lisboa. - -Francisco Apparicio n...., m. 1787. Distinguiu-se muito no retrato e -sobre tudo, por uma grande verdade de colorido. Estudou em França. - -Luiz Gonsalves de Senna, n. 1713, m. 1790. Foi mui destro no pintar; e -em Lisboa se vêm muitas obras suas de grande merecimento. - -Jeronymo de Barros Teixeira n. em 1750, m. em 1803. O stylo simples -e natural, bom colorido, muita sciencia de claro-escuro, e de -architectura, grande talento para o retrato o constituem em mui -distincto logar na ordem dos bons artistas. - -Pedro Alexandrino de Carvalho n. 1730, m. 1810. Teve um pincel livre, -viveza de côres, e maneiras engraçadas, e foi um dos directores da -academia do _nu_. - -José Teixeira Barreto nasc. no Porto 1763, m. 1810. Estudou muito em -Roma, e com grandes mestres. Seu stylo é caprichoso, mas bello. Foi -lente de desenho na academia do Porto. - -Francisco Vieira Portuense n. 1765, m. 1805. Foi primeiro-pintor da -camera e côrte, director do instituto de desenho do Porto, e estimado e -honrado de toda a nação, e das estrangeiras, principalmente da Ingleza. -Foi premiado pela academia de Londres. Pintou no stylo do Guido e -Albano; e, no seu genero, não deixou aos portuguezes nada que invejar -ás outras nações. - - FIM - - - NOTAS DE RODAPÉ: - -[28] Nunca pude affeiçoar-me a D. João III apesar da sua piedade e -bondade, apezar do seu amor das sciencias, protecção que lhes deu, -etc., etc. Donde virá isto? Será do seu ainda maior amor, e do generoso -accolhimento, que fez á Sancta Inquisição. - -[29] E com effeito qual será o bom portuguez, que possa perdoar a Faria -e Sousa o ter escripto as suas historias em castelhano? Os seus taes -e quaes commentarios a Camões, ao melhor dos escriptores portuguezes, -ao mais célebre da sua nação, na lingua dos oppressores da patria, dos -tyrannos de Portugal? - -[30] Todos sabem que a philosophia -Aristotelico-Thomistico-escholastica, tam querida de nossos avós, era o -opposto diametral d’aquella deffinição de Seneca: _Non est philosophia -populare arteficium, nec ostentatione paratum. Non in verbis, sed in -rebus est._ SENEC. Epist. XVII ad Lucil. - -[31] Em Coimbra não teve effeito: dizem as más linguas, que por ser -cousa d’utilidade e especie ommissa nos _ff._ e _Inst._ - -[32] Na regencia do actual reinante, e demencia da rainha. - - - - - BOSQUEJO - - DA - - HISTORIA DA POESIA E LINGUA PORTUGUEZA - - - - - A QUEM LER - - -A minha primeira ideia quando intentei esta collecção, foi dar ao -publico um extracto das melhores poesias de nossos classicos. Reflecti -depois que não seria ella completa, porque alguns generos ha que não -tractaram aquelles illustres escriptores: e em tam rica litteratura -como é a portugueza, pena fôra mostrar pouquidade e pobreza. Resolvi-me -por esse motivo a sahir dos limites classicos. Mas ainda apparecia -outra difficuldade: especies ha de poesia em que não escreveram senão -auctores vivos; atterrava-me a lembrança de haver de julgar e escolher -obras que aguardam ainda o conceito da posteridade, quasi sempre -unico tribunal recto das cousas dos homens, especialmente de materia -de gôsto. Todavia o mesmo motivo de querer fazer esta escolha o mais -completa que é possivel, me determinou a arrostar ess’outro escolho. -Procurei nos escriptores vivos cingir-me quanto racionavelmente pude -á mais geral opinião, escolhendo aquelles trechos que mais approvados -teem sido; observando pela minha parte a mais rigorosa imparcialidade -que humanamente se póde. E sendo, como sou, alheio a toda disputa e -rivalidade litteraria e poetica, se alguma hora no decurso d’esta obra -julgarem deslisei d’essa proposta impassibilidade, peço que o attribuam -a erro de meu juizo, não a proposito deliberado.[33] - -Queria eu tambem ao principio conservar a cada escriptor sua -particular orthographia; mas a isso obstaram dous insuperaveis -obstaculos. Primeiro--não haver, sôbre tudo nos classicos, uma base -boa ou má em que cada um d’elles fundasse a sua orthographia para se -poderem regularizar as incalculaveis anomalias que se encontram em uma -mesma obra, na mesma pagina ás vezes. Segundo--que havendo sido muitas -das obras de nossos poetas antigos e modernos publicadas posthumas, é -impossivel acertar com o verdadeiro systhema orthographico d’elles. -Esta impossibilidade augmentou ainda e se estendeu áquelles que apezar -de publicarem suas obras em vida, cahiram em mãos de novos editores -todos ignorantes ou descuidados (nenhum conheço, a quem fique mal o -epitheto) que em vez de as melhorarem, estragaram e confundiram tudo. -Ora d’alguns d’esses não foi possivel, por mais diligencias que se -fizeram, descubrir as primeiras edições, as quaes, segundo observei, -ainda assim, não serviriam de muito. - -Accresciam a estes dous motivos a feia apparencia que teria a obra que -mais houvera ficado recosida manta de retalhos furtacôres, do que uma -collecção de poetas da mesma lingua. - -Determinei pois imprimir tudo com regular e geral orthographia; cujos -principios extrahi do uso dos melhores classicos, uso que nem sempre -seguiram, mas que manifestamente se vê quizeram seguir; e são estes: - -I. Conservar fielmente a ethymologia quando se lhe não oppõe a -pronúncia. - -II. Combiná-la com a pronúncia quando ésta se oppõe á inteira -conservação d’aquella. - -III. Nas palavras de raiz incognita seguir o uso geral. - -IV. Nas diversas modificações dos verbos conservar sempre a figurativa -quando a pronúncia não obsta. - -V. Não pôr accentos (agudo e circumflexo que são os unicos -portuguezes) senão onde a palavra sem elles se confundiria com outra. -(Tambem me servi do agudo para marcar a dieresis por não estar aínda -adoptado entre nós o signal (..) que é bem necessario). - -Julgo haver prestado algum serviço á litteratura nacional em offerecer -aos estudiosos de sua lingua e poesia um rapido bosquejo da historia -de ambas. Quem sabe que tive de encetar materia nova, que portuguez -nenhum d’ella escreveu, e os dous estrangeiros Bouterweck e Sismondi -incorrectissimamente e de tal modo que mais confundem do que ajudam a -conceber e ajuizar da historia litteraria de Portugal; avaliará decerto -o grande e quasi indizivel trabalho que me custou esse ensaio. Não -quero dá-lo por cabal e perfeito; mas é o primeiro, não podia se-lo. -Além de que, a maior parte das ideias vão apenas tocadas, porque -não havia espaço em obra de taes limites para lhe dar o necessario -desenvolvimento. - - - NOTAS DE RODAPÉ: - -[33] Muito tempo hesitei se daria logar n’esta collecção a um poeta -(hoje morto) em quem de certo houve algum ingenho, mas que ignorou -e desprezou a tal ponto a lingua, tam cynicamente violou o decoro -do stylo, as mais indispensaveis regras do gôsto e da boa razão, -que seus poemas são uma _sentina_ de gallicismos, e um apontoado de -termos baixos, de expressões que não usa gente de bem, de construcções -barbaras, de versos prosaicos, semeados áquem além de uma ideia feliz, -de um bom verso, de uma imagem poetica. Já se vê que esta descripção -a ninguem quadra senão ao Santos e Silva. Cedi tambem n’este ponto -á opinião que o considera mais do que elle vale, e escolhi o que me -pareceu menos barbaro da tal excentrica Braziliada: e provavel é que -escolhesse mal, porque difficil é julgar um homem bem quando está -_cahindo com somno_. - -Fui obrigado a pôr um grande pedaço, porque em maior espaço appareceria -um maior numero d’esses poucos _descuidos_ felizes do auctor. - - - - - BOSQUEJO - - DA - - HISTORIA DA POESIA E LINGUA PORTUGUEZA - - - - - I - -Origem de nossa lingua e poesia - - -A lingua e a poesia portugueza (bem como as outras todas) nasceram -gemeas, e se criaram ao mesmo tempo. Erro é commum, e geral mesmo entre -nacionaes, pela maior parte pouco versados em nossas cousas, o pensar -que a lingua portugueza é um dialecto da castelhana, ou hespanhola -segundo hoje inexactamente se diz. - -Das variadas combinações das primitivas linguagens das Hespanhas com o -Grego, o Latim, com os barbaros idiomas dos invasores do norte, e alfim -com o Arabigo, nasceram em diversas partes da Peninsula diversissimas -linguas que nem dialectos se podem chamar geralmente, porque, além de -não haver uma commum, de muitos d’elles é tam distincta a indole e tam -opposta que se lhes não colhe similhança. - -Ninguem ignora hoje que o Proençal foi a primeira que entre as linguas -modernas se cultivou, mas que por sua breve dura não chegou nunca á -perfeição. Das nações da Hespanha, as mais vizinhas áquelle crepusculo -de civilização primeiro melhoraram sua linguagem: mas tambem lhes -coube igual sorte; nunca de todo se puliram. O Castelhano e Portuguez, -que mais tarde se cultivaram, permaneceram pelo sabido motivo da -conservação da independencia nacional, e vieram a completo estado -de perfeição e caracter cabal de linguas cultas e civilizadas. O -Biscaínho, Catalão, Gallego, Aragonez, Castelhano, Portuguez e outras -mais foram e são ainda alguns distinctos idiomas: porém so os dous -ultimos tiveram litteratura propria e perfeita, linguagem commum e -scientifica, tudo emfim quanto constitue e caracteriza (se é licita a -expressão) a _independencia_ de uma lingua. - -Grande similhança ha entre o Portuguez e Castelhano; nem podia ser -menos quando suas capitaes origens são as mesmas e communs: porém tam -parecidas como são pelas raizes de derivação; no modo, no systhema -d’essas mesmas derivações, na combinação e amalgama de identicas -substancias e principios se vê todavia que diversos agentes entraram, -e que mui variado foi o resultado que a cada uma proveio. Filhas dos -mesmos paes, diversamente educadas, distinctas feições, vario genio, -porte e ademan tiveram: ha comtudo nas feições de ambas aquelle _ar de -familia_ que á prima vista se colhe. - -Este ar de familia enganou os estrangeiros, que sem mais profundar, -decidiram logo, que o Portuguez não era lingua propria. Esse achaque -de decidir afoitamente de tudo é velho, sobre tudo entre francezes, -que são o povo do mundo entre o qual (por philaucia de certo) menos -conhecimento ha das alheias cousas. - -Sem dúvida é que a lingua portugueza começou com seus trovadores, -unicos no meio do estrepido das armas que algum tal qual cultivo lhe -podiam dar; e provavel é que assim fosse com pouco melhoramento até os -tempos d’el-rei D. Diniz, que no remanso da paz de seu reinado protegeu -e animou as lettras, que elle proprio cultivou tambem. - - - - - II - -Primeira epocha litteraria; fins do XIII até os principios do XVI sec. - - -D. João I o eleito do povo, e o mais nacional de todos os nossos reis, -deu ao idioma patrio valente impulso, mandando usar d’elle em todos os -actos e instrumentos publicos, que até então se fazim em Latim. Foi -esta lei carta de alforria e de cidade para a lingua que atélli vivera -escrava da dominação latina, a qual sobrevivera não só ao imperio -romano, mas a tantas conquistas e reconquistas de tam desvairados povos. - -Aqui se deve pôr a data da verdadeira aurora das lettras em Portugal, -que por singular phenomeno pouco visto entre outros povos, raiou ao -mesmo tempo com a das sciencias; por maneira que quando o romantico -alaúde de nossas musas começava a dar mais afinados sons, e a subir -mais alto que o atélli conhecido, as sciencias e as artes cresciam a -ponto de espantar a Europa, mudar a face do mundo, e alterar o systema -do universo. - -Desde então até á morte d’el-rei D. Manuel, tudo foi crescer em -Portugal; artes, sciencias, commércio, riqueza, virtudes, espirito -nacional. - -Muitas foram as producções de nossa litteratura n’aquelle seculo -de glória em que Gil-Vicente abriu os fundamentos ao theatro das -linguas vivas, Bernardim Ribeiro puliu e adereçou com alguns mimos -da antiguidade o genero inculto dos romances[34] e seguiu (quasi o -segundo) o caminho encetado pelo nosso Vasco de Lobeira nas composições -romanescas; e ao cabo mostrou aos rusticos pastores do Tejo alguns dos -suaves modos da frauta de Sicilia que nenhuma lingua viva até então -ouvira soar. - -A natural suavidade do idioma portuguez, a melancholia saudosa de -seus numeros nos levaram á cultura d’este genero pastoril, em que -raro poeta nosso deixou de escrever, quasi todos bem, porque a lingua -os ajudava; nenhum perfeitamente, porque (inda mal) deram ás cegas -em imitar Sannazaro, depois Boscan e Garcilasso, e copiaram pouco -do _vivo_ da natureza, que tam bella, tam rica, tam variada se lhes -presentava por todas as quatro partes de que em breve constou o mundo -portuguez, e das quaes todas ou assumpto ou logar de scena tiraram -nossos bucolicos. Nem d’este geral defeito[35] (o maximo que por -ventura se lhes nota) póde fazer-se excepção, senão fôr alguma rara -em favor de Camões e de Rodrigues Lobo. O Tejo, o Mondego, os montes, -os sitios conhecidos de nosso paiz e dos que nos deu a conquista, -figuram em seus poemas; porêm raro se vê descripção que recorde alguns -d’esses sitios que já vimos, que nos lembre os costumes, as usanças, -os preconceitos mesmos populares; que d’ahi vem á poesia o aspecto e -feições nacionaes, que são sua maior belleza. - -Bernardim Ribeiro foi um tanto mais original em sua simplicidade, -o que lhe falta de sublime e culto sobeja-lhe em brandura, e n’uma -ingenua ternura que faz suspirar de saudade, d’aquella saudade cujo -poeta foi, cujos suaves tormentos tam longo padeceu, e tam bem pintou. - -Foi seu contemporaneo Gil-Vicente fundador do theatro moderno, de cujas -obras imitaram os Castelhanos; e d’ellas se espalhou pela Europa o -mau e o bom d’essa irregular e caprichosa scena, que ainda assim suas -bellezas tem. - -O proprio Gil-Vicente não deixa de ter seu comico sal, e entre -muita extravagancia muita cousa boa. Bouterweck e Sismondi parece -que escolheram o peior para citar; muito melhores cousas tem, -particularmente nos autos, superiores sem comparação ás comedias. A -soltura da phrase, e a falta de gôsto são os defeitos do seculo; o -ingenho que d’ahi transparece é do homem grande e de todas epochas[36]. - - - NOTAS DE RODAPÉ: - -[34] Não no sentido de _novellas_, mas no que então se lhe dava. - -[35] Commum tambem nos outros generos de poesia, onde quer que entra o -descriptivo. - -[36] Reservo-me para uma edição que pretendo publicar do nosso Plauto, -fructo de longo e penoso trabalho, para examinar melhor este ponto, e -demonstrar o que aqui enuncio. - - - - - III - -Segunda epoca litteraria; idade de ouro da poesia e da lingua desde os -principios do XVI até os do XVII sec. - - -Com a morte d’el-rei D. Manuel declinou visivelmente a fortuna -portugueza: certo é que as artes progrediram, que a lingua se -aperfeiçoou; porêm esse movimento era continuado ainda do impulso -anterior e já não promettia longa dura. Assim succedeu. D. João III -colheu os fructos do que D. Manuel havia semeado; mas de lavras suas, -nem elle, nem seus successores viram colheita. - -Uma cousa todavia que muita influencia teve sobre a lingua e -litteratura portugueza e que a instituições de D. João III se -deve, foi o cultivo das linguas classicas, que na reformação da -universidade de Coimbra augmentou muito. Os modelos gregos e romanos -foram então versados de todas as mãos, estudados, traduzidos, -imitados. Aperfeiçoou-se a lingua, enriqueceu-se, adquiriu aquella -solemnidade classica que a distingue de todas as outras vivas, seus -periodos se arredondaram ao modo latino, suas vozes tomaram muito da -euphonia grega; d’um e d’outro d’esses idiomas lhe vieram as muitas, -e principalmente da grega, os muitos hyperbatos; com o que vai rica, -livre e magestosa por todas as provincias da litteratura, que tem -decorrido, não havendo ahi genero de composição, para o qual, ou por -doce de mais como o Toscano, não seja propria,--ou por mui aspera e -guindada como o Castelhano, se não adapte,--por curta como o Francez, -não chegue,--por inflexivel e rispida como o Alemão e Inglez, se não -amolde. - -Claro é que a historia, a oratoria, todas as artes do discurso deviam -de florescer com tal augmento. Com ellas todas medrou e cresceu a -poesia na delicadeza, na harmonia, no gôsto; porêm desmereceu muito, -demasiado na originalidade, no caracter proprio, que perdeu quasi todo, -em a _nacionalidade_, que por mui pouco se lhe ia. Todos os deuses -gregos tomaram posse do maravilhoso poetico, todas as imagens, todas as -ideias; todas as allusões do tempo de Augusto occuparam as mais partes -da poesia; e mui pouco ficou para o que era nacional, para o que já -tinhamos, para o que podiamos adquirir ainda, para o que naturalmente -devia nascer de nossos usos, de nossas recordações, de nossa -archeologia, do aspecto de nosso paiz, de nossas crenças populares, e -emfim de nossa religião. - -Sá de Miranda, verdadeiro pae da nossa poesia, um dos maiores homens -de seu seculo, foi o poeta da razão e da virtude, philosophou com as -musas, e poetisou com a philosophia. Seu muito saber, sua experiencia, -seu tracto affavel, e até a nobreza do seu nascimento, lhe deram -indisputada superioridade a todos os escriptores d’aquelle tempo, dos -quaes era ouvido, consultado e imitado. Sá de Miranda exerceu sobre -todos os poetas d’aquella epocha a mesma especie de imperio que veio -a ter Boileau em França, e mais modernamente Francisco Manuel entre -nós. Introduziu na poesia os metros italianos, e os modos, versos -e combinações de rhymas de Dante e Petrarca: e desd’ahi quasi se -abandonaram inteiramente (excepto nas voltas e glosas) os nossos -antigos versos de redondilha, e absolutamente os de arte maior e menor, -que ainda assim mui proprios são para certos assumptos, segundo com -feliz exemplo no-lo mostraram antigos e modernos poetas. Nem o mesmo -Sá de Miranda igualou nunca em composições hendecasyllabas a pureza, a -correcção, a naturalidade e sublime simplicidade de suas redondilhas -nas epistolas, que hoje são seu maior e quasi unico titulo de glória. - -São de admirar suas comedias, e são notavel monumento para a historia -das artes pela feliz imitação dos antigos, e pelo que excedem quanto -até então se tinha escripto. Porem o theatro portuguez creado pela -musa negligente e travêssa de Gil-Vicente e João Prestes, carecia -de reforma, mas não podia supportar uma revolução. As comedias de -Sá de Miranda sem caracter nacional, mui classicas de mais não eram -para reformá-lo: o mesmo direi, e o mesmo succedeu ás de Ferreira, a -algumas poucas mais que depois vieram. O effeito d’estas composições, -aliás preciosas, foi funesto: os litteratos enjoaram-se (e com razão) -do theatro nacional, e não se deram a corrigi-lo e melhora-lo: o -publico preferia (e com razão tambem) o com que fôra creado, o que o -interessava, o que o divertia, e antes queria rir com as grosserias -dos autos populares, que bocejar e adormecer-se com as finuras d’arte -e correcções d’essas comedias, que tudo tinham, menos interesse, onde -todo o spirito havia, menos o nacional. - -Se houveram Sá de Miranda e Ferreira escolhido assumptos portuguezes, -se houveram pintado os costumes nacionaes, e presentado ao publico, em -vez de quadros italianos, um espelho em que se elle visse a si e aos -seus usos, e se risse de seus proprios defeitos; fico em que houveram -reformado o theatro em vez de lhe empecer: e acaso gosariamos ainda -hoje em uma scena rica e abastada dos resultados d’esse impulso, quando -não temos senão que chorar, e vivemos, sobre o theatro, das migalhas -que mendigamos a estrangeiros pelo triste meio de traducções, que (as -dramaticas sôbre tudo) nunca podem ser boas. - -Sá de Miranda escreveu além d’isto algumas eclogas bastante frias, -varios sonetos geralmente de pouca monta. Um d’elles á morte de -Leandro e Hero é excellente, mas castelhano, e por esse achaque o não -incluí na escolha.[37] - -Não posso deixar de querer mal a tam illustre portuguez pelo muito que -escreveu n’essa lingua estranha; com que não só privou a natural do -fructo de suas tarefas, mas fez maior damno ainda com o exemplo que -abriu; exemplo funesto que nos cerceou a litteratura, que nos defraudou -d’uma Diana de Monte-maior, de tantas boas coisas mais, e ao cabo ia -perdendo a lingua. - -Mas eis ahi Antonio Ferreira para combater esse mal em sua origem: -ei-lo ahi esse portuguez verdadeiro, ardente amador da lingua, clamando -a todos, pugnando contra todos os que não prezavam e aditavam o -patrio idioma com as producções do ingenho e das artes. O profundo -conhecimento dos classicos gregos e latinos, o finissimo gosto que em -seu estudo tinha adquirido, a felicidade com que sempre os imitou, a -pureza da phrase, as riquezas com que adornou a lingua deram aos versos -de Ferreira grande popularidade entre os litteratos e cortezãos (que, -ao aveço de hoje, as lettras viviam então quasi só na côrte) e fixaram -determinadamente o genero classico entre nós. - -Cegou-se todavia o nosso bom Ferreira na imitação dos antigos; -copiou-os, não os imitou: e d’ahi, enriquecendo a lingua, empobreceu -a litteratura, porque a avezou a esse hábito de copista; cancro que -roe o espirito creador, alma e vida da poesia nacional. Tão cega foi -esta imitação, que seus mesmos versos, aos quaes hoje ninguem defende -da nota de asperos e duros (e muitos direi--errados) os fazia assim de -proposito por querer usar das ellipses gregas e latinas, a que repugna -a indole de nossa lingua, so toleraveis em certas vozes que na prosa -mesma se pronunciam e escrevem no final com _m_ ou sem elle. Este -desagradavel defeito dos versos de Ferreira é principalmente sensivel -nas dicções que teem final no que chamámos (mal ou bem) diphtongos -nasaes de _ão_, e muito mais quando n’elle é o accento predominante da -palavra. - -Os sonetos são frios, desengraçados; nas eclogas ha bellezas muitas -e mui grandes, mas espalhadas: nenhuma d’estas composições tomada per -si póde merecer o nome de bella. Porem das odes, ha d’ellas que são -puramente horacianas, e se lhes fallece a elevação (que não era esse -o genio de Ferreira) sobeja-lhe a graça, a elegancia e a adornada -philosophia, que não agradam menos, nem de menos valor e merito são -que os extasis pindaricos, ou os requebros anacreonticos. O que é sem -duvida é que nas linguas vivas Ferreira foi o primeiro imitador feliz -de Horacio, e o primeiro dos modernos que pulsou a lyra classica. Das -epistolas, ha algumas que podem pleitear em concisão e fino dizer -com as boas do lyrico romano. Quanto á pureza da moral, ao nobre -patriotismo, áquelle generoso sentimento da honrada liberdade de -nossos avós, áquelle enthusiasmo da virtude; esse respira, mostra-se e -resplandece em todas as suas obras. - -Mas a verdadeira glória de Ferreira é a Castro, producção admiravel -per si mesma, pelo tempo em que a escreveu, por todos os lados por que -se considere. Não é ainda liquido entre os philologos se era possivel -o ter visto Ferreira a Sophonisba de Trissino, que mui poucos annos -antes da Castro appareceu: mas é sem a minima questão reconhecida a -superioridade da tragedia portugueza á italiana: pasma como sem vêr um -theatro, sem mais exemplares que os gregos e latinos, podesse Ferreira -tratar tão delicadamente um tal assumpto em um genero desconhecido da -antiguidade. É notavel a primeira scena da Castro, a scena d’el-rei -e dos conselheiros no acto II., a do acto III. em que o côro traz a -Castro as novas de sua cruel sentença, onde aquella pergunta de Ignez: -«É morto o meu senhor, o meu infante?» rasgo de sublime, porém d’um -sublime todo sensibilidade, ao qual nem o _qu’il mourût_ de Corneille -póde comparar-se; e finalmente os coros, que sem paixão são superiores -a todos os exemplares da antiguidade, e não teem que invejar aos tão -gabados da Athalia. Não dou a Castro por uma tragedia perfeita: ainda -em relação ao seu tempo e aos conhecimentos da scena d’então tem ella -defeitos: não haver uma scena em que se encontrem Pedro e Ignez, não -haver algum esfôrço do infante para lhe valer, deixam a peça muito -nua de acção, e lhe entibiam o interesse. A versificação (que todavia -é de preferir aos versos sesquipedaes e himpados com que hoje está -pervertida a scena portugueza) pécca geralmente por dura; mas essa -mesma é por vezes bella; e para bons entendedores muito ha hi que -estudar; e oxalá que os nossos dramaticos lessem e relessem bem a -Castro, e apprendessem alli, pelo menos, naturalidade e verdade de -expressão, que tanto lhes fallecem. - -Não estava ainda n’este auge a poesia portugueza quando um homem pouco -conhecido dos lettrados, mas já célebre per suas aventuras e valor, -foi para tão longe da ingratissima patria despicar-se de seu desamor -com a mais nobre vingança; a de levantar-lhe um padrão, com que não -entram as idades, e que conservará ainda o nome portuguez quando já -elle houver desapparecido da terra. Muita erudição (pois sabia quanto -se soube em seu tempo), ingenho dos que véem ao mundo de seculos a -seculos se reúniram em Camões. Esse homem levantou a cabeça la das -extremidades d’Asia, e viu tudo pequeno á roda de si, todos os poetas -pigmeus, todos acanhados com as linguas modernas ainda mal perfeitas, -escravos da imitação classica, incertos e entalados todos entre o cego -respeito da antiguidade e as novas precisões que as novas ideias, que -o novo estado do mundo requeria. Teve animo para conceber e força para -executar um rasgado e necessario atrevimento de se abrir caminho novo, -de crear emfim a poesia moderna, dar não só a Portugal, mas á Europa -toda um grande exemplo, e constituir-se o Homero das linguas vivas. - -Não me dá espaço o acanho de meus limites para dizer de Camões o que -era indispensavel; antes a celebridade de seu nome me deixará parar -aqui para dar logar a tractar de menos conhecidos nomes. Só direi -que a influencia de Camões na nossa poesia, e em toda a litteratura -portugueza foi tal que desde então té hoje ainda se não deixou de -sentir, mesmo nas epochas em que mais desvairados teem andado nossos -poetas com as empolas do _gongorismo_, ou mais lunaticos com os -esfusiotes do _elmanismo_. Quasi que não houve genero de poesia que não -tractasse: tem sonetos admiraveis; eclogas (sôbre tudo as primeiras) -excellentes; mas principalmente de todas as poesias menores são o mais -sublime e perfeito as canções, genero a que deu uma nobreza e elevação -desconhecida mesmo em Petrarca: sirva de próva e exemplo aquella que -começa--«Junto d’um sêcco duro e esteril monte.» Dos Lusiadas, de suas -bellezas e defeitos, das controversias sobre umas e outros, está cheio -o mundo litterario. - -Contemporaneo de Camões e ousado tambem como elle a encetar a carreira -epica foi Jeronimo Cortereal. O Cêrco de Diu, que é notavel monumento -litterario, e que de certo se teve algum exemplar foi a _Italia_ do -Trissino, é uma fria narração, em que ha bellas ideias áquem além, -muita riqueza de linguagem, pouca de poesia, e pelo geral maus versos. -E comtudo é talvez Cortereal o primeiro (em data) poeta descriptivo; -e creou elle acaso esse genero de que tanto blasonam hoje inglezes, -allemães, e até francezes, e que todavia nós tinhamos seculos antes -d’elles. Ja no Cêrco de Diu ha muitas boas descripções: mas no -naufragio de Sepulveda ha d’ellas sublimes. - -Entre muito devaneio de imaginação e de mau gôsto, entre aquelles -insipidos requebros de Pan e de Protheu apparece todavia a morte de D. -Leonor que é um trecho da mais bella poesia, da mais fina sensibilidade -que se tem composto. - -De todos esses poetas que então floreceram é na minha opinião o menos -poeta esse Pero d’Andrade Caminha, a quem da amisade e celebridade de -Ferreira e Bernardes vem talvez o maior renome. Ainda assim tem algumas -odes boas, simplicidade com elegancia por partes de suas composições: -epigrammas, são alguns excellentes. - -Sôbreviveu a todos estes e á patria, que não tardou em perecer, o -suave cantor do Lima que levado per D. Sebastião para testimunhar -seus altos feitos, de que devia fazer um poema, perdeu-se com seu -rei, e jazeu captivo em Africa. Pondo de parte a questão das eclogas -(na qual de certo não andou de boa fé Faria e Sousa) a qual, ainda -que propria do logar, é mui longa para os meus limites; Bernardes foi -excellente poeta; e com quanto sua linguagem é pobre, e em geral pouco -variadas suas composições; a suavidade de seu stylo, certa melancholia -d’expressão que lh’o requebra e embrandece darão sempre a Bernardes um -logar mui distincto na poesia portugueza. - -Mas ja a nação se perdêra nos areaes de Africa, já a glória portugueza -estava offuscada; com ella foram (como sempre vão) as boas artes. Ainda -brilham a espaços faíscas do grande luzeiro que se apagára; mas já não -eram senão faíscas. - -Ainda Luis Pereira deplora na _Elegiada_ a ruina da patria, mas -esse canto funebre é quasi o canto de cysne da poesia nacional, que -parece querer fenecer com elle, e já n’elle moribunda se mostra. Ha -excellentes oitavas derramadas per esse poema, algumas descripções -felizes, grandissima riqueza de linguagem; mas pouco mais. - -Ja Fernão Alves do Oriente diffuso, intrincado nos primeiros -labyrinthos dos _conceitos_ italianos mostra a visivel decadencia da -poesia: já as musas que tão louçans, e ingenuamente bellas tinham -folgado pelas varzeas do Tejo e do Mondego com Ferreira e Camões, -apparecem affeitadas com arrebiques e côres falsas, como essas damas -para quem se desbota a flor da idade e lhe querem ainda supprir o -viço com emprestados ornamentos, gentilezas compradas, e postiças. -E todavia ha na Lusitania transformada pedaços lyricos excellentes, -e alguns bucolicos soffriveis. Assim elle nos dissesse mais do seu -Oriente do que nos disse: assim houvesse enriquecido a litteratura com -mais imagens de tantas que sua Asia lhe offerecia, e com que houvera -additado a mãe patria. Onde o fez, n’aquella ecloga em que conta a -historia de Saladino, é elle verdadeiramente poeta; e se d’ahi tirarem -alguns trocadilhos que tinha apprendido em Italia, excellente e digno -de imitar-se é o resto. - - - NOTAS DE RODAPÉ: - -[37] A. Rib. dos Santos traduziu este soneto em portuguez e (cousa -inexplicavel em tal homem!) o deu por seu. - - - - - IV - -Terceira epocha litteraria; principia a corromper-se o gosto e a -declinar a lingua.--Começo, até o fim do XVII sec. - - -Porem os symptomas do _Gongorismo_ e _Marinismo_ se manifestavam já em -Italia e Castella; não perfeitos ainda, não no auge a que os levaram -os dous poetas, aliás ingenhosos, cujo nome vieram a tomar; mas já -assim mesmo a poesia moderna estava toda gafa d’essa lepra de suberba -requintada. - -Vasco Mousinho de Quevedo, que sem disputar é depois de Camões, nosso -primeiro epico, ahi tem já em toda a nobreza de seus versos a quebra -de bastardia d’esse defeito, que todavia é n’elle ainda raro. Mas que -bellezas tem esse tão mal avaliado Affonso Africano, a que a cegueira e -o mau gosto tem querido preferir a _quixotica_ e sesquipedal Ulyssea, -a hyperborea e campanuda Malaca! Não é regular o poema, não é um todo -perfeito; o maravilhoso é frio, e a acção toda não mui bem deduzida; -mas que riquissimos episodios a enfeitam! A descripção de Zara, o -jardim incantado onde aporta o principe D. João, e alguns outros -trechos são cunhados com o sêllo da verdadeira poesia, e animados da -luz que só dá o ingenho. Quanto ao stylo, é com poucas excepções fluido -e elegante; custa a achar em tão longo poema uma rhyma forçada ou má: -e a mesma linguagem, supposto decline um tanto da primeira pureza, é -ainda de boa lei e valiosos quilates. - -D’ésta epocha é tambem Rodrigues Lobo, cujo grande logar como prosista -não é aqui proprio de examinar: de seu merecimento poetico a commum -opinião tem com justiça decidido dando-lhe um dos primeiros (eu quizera -o primeiro) logar entre os bucolicos antigos; e outro mui differente e -inferior entre os epicos. E certo, o Condestabre, apezar de muitos e -bons pedaços descriptivos, é frouxa e morna composição. Que differente -era a frauta que ia soando pelas margens do Lis, a dulcissima frauta -de Lobo, quando comparada com a tuba heroica, para cuja altivez lhe -fallecem natureza e arte! seus pastores são verdadeiros pastores, sua -linguagem é verdadeira do campo, não lhes sahem pelos golpes do pellico -as alfaias da cidade, tão mal encubertas pelos outros bucolicos, os -quaes, sem excepção do proprio Camões, todos peccam por mui sabidos -e lettrados, por discretos e galantes mais que sóem ser aldeãos e -pastores. - -Alem d’isso ha derramados pela Primavera, Pastor peregrino, -etc., pedaços lyricos de summa belleza, romances excellentes e -verdadeiramente dignos de admiração e estudo. - -Tinhamos perdido a independencia; perdemos logo o espirito nacional, -o tymbre, o amor patrio (que amor da patria poderá haver em quem -patria já não tem!); a lisonja servil, a adulação infame levou nossos -deshonrados avós a desprezar seu proprio riquissimo e tão suave idioma, -para escrever no guttural Castelhano, preferindo os sonoros helenismos -do portuguez ás aspiradas _aravias_ da lingua dos tyrannos. Vergonha -que só tem par nas derradeiras vergonhas com que nos enxovalharam -a lingua e a fama os tarellos, francelhos, gallici-parlas e toda a -caterva dos gallo-manos! - -Em Castelhano escreviam já esses degenerados portuguezes: mas pouco -importava que o fizessem, que n’isso fraca perda tivemos nós: de toda -essa çafra de versos castelhano-portuguezes pouco ou nada ha que -espremer. - -D’ésta commum baixeza se alevantou o honrado e douto magistrado -Gabriel Pereira de Castro, que depois de ter aberto na jurisprudencia -um caminho novo e n’aquelle tempo tão difficil por grandes verdades -então perigosas, tomou ousado a trombeta de Homero, e não se arrojou -a menos que a competir ao mesmo tempo com a Iliada e Odyssea; que -tanto abraça o assumpto de seu poema. Grande é a concepção, bem -distribuidas as partes, regularissimo o todo, regular e bella a acção, -bem intendidos os episodios; mas o stylo... o stylo é, prototypo da -_Phenix-renascida_, o requinte do gongorismo, cujo patriarcha foi entre -nós, pervertendo-nos, á sombra de sua grande fama e brilhante ingenho, -todo o resto escasso que de gôsto tinhamos ainda, intrincando a poesia -(senão que tambem a prosa por mau exemplo) n’um dedalo inextricavel -de conceitos, de argucias, de exagerações, de affectada sublimidade, -falsa e van grandeza; com que de todo veio a terra a poesia nacional, -e acabou a grande eschola de Camões e Ferreira, que tantos e tamanhos -alumnos havia produzido. E suppunha esse homem vaidoso ter sobrepujado -com as queixotadas da sua Ulyssea as naturaes bellezas dos divinos -Lusiadas! - -Quasi o mesmo errado trilho, mas que menos brilhante e com inferior -ingenho, seguiu Sá de Menezes na Malaca. Esse poema, que tanto tem -engrandecido o mau gôsto, é na minha opinião um dos derradeiros titulos -de glória da litteratura portugueza. E todavia é bem regular, bem -concebido, e a espaços se lhe encontram grandes rasgos de gentileza -poetica. A falla de Asmodeu no conselho infernal faz lembrar muito -a de Lucifer em Milton. Porem quando agitado o poeta do genio mau -que avexava e endemoninhava os poetas d’então, começa a guindar-se, -a transpor os derradeiros limites da naturalidade; esquece todo o -deleite que algumas estancias mais descuidadas nos haviam causado, e -é forçoso desemparar a dura tarefa de tão incommoda leitura, porque -verdadeiramente incommoda e cança tal stylo, tal phrase, tanto -hyperbolico luxo e destemperado alambicar. - - - - - V - -Quarta epocha: idade de ferro; aniquila-se a litteratura, corrompe-se -inteiramente a lingua.--Fins do XVII, até meados do XVIII sec. - - -Mas ainda estes tinham sua nobreza, havia não sei que grande entre -todas essas _nuvens de talco_; talvez lhes viesse dos assumptos: porém -seus discipulos que ainda quizeram ir ávante, deram em fazer _silvas_, -_acrosticos_, e engendraram todos os outros monstros (originarios, -segundo Diniz, do _paiz das bagatellas_) e distillando mais e mais -as quintas essencias dos conceitos, tanto torceram e retorceram o -ja delgado fio poetico, que de todo o quebraram. So Manoel da Veiga -o atou momentaneamente em uma ou duas lyras da Laura de Amphriso. -Logo tornou a estalar: e per ahi andaram as pobres musas portuguezas -jogando as cabras-cegas pelas eclogas de Poliphemo e Galatea, pelos -romances hendecasyllabos, e per todos os outros escondrijos do gosto -depravado, de que boas amostas se conservam no precioso tombo da -_Phenix-renascida_ e alguns outros hoje ignorados livros d’essa triste -data. - -E todavia ja nós tinhamos recobrado tão gloriosamente nossa -independencia, ja o nome portuguez tornára a ser honra e nobreza, e -ainda essa lepra castelhana lavrava. - -Dous grandes escriptores, ambos prosistas e ambos dignos de muito -louvor, concorreram para a continuação d’este mal. Quem podia deixar de -admirar Vieira? Quem não iria levado pela torrente de sua eloquencia? -Quem resistiria aos impetos de arrebatamento de Jacinto Freire? O -grande talento de ambos, a vasta erudição e desmedido ingenho de Vieira -sobre tudo, fizeram grande damno á litteratura: sabiam, escreviam -perfeitamente a lingua, tinham grande crédito na côrte, tractavam -grandes assumptos, animava-os o nobre e sincero enthusiasmo da glória -e liberdade nacional: tudo foi após elles; imitaram-lhes vicios e -virtudes; como não distinguiam em Vieira o grande orador, o grande -philosopho do gongorista affectado (quando o era) não estremavam -em Jacintho Freire o historiador, o panegyrista do declamador, do -academico vão; ruim e bom seguiam. E como é mais facil imitar a -affectação, que a naturalidade, as argucias de má arte, que as graças -de boa natureza; os imitadores foram alem de seus typos no affectado, -no mau d’elles, ficaram immenso aquém do que n’esses era bello e para -imitar. - -Nem o conde da Ericeira que traduziu a Arte poetica de Boileau e d’elle -levou tão immerecidos e banaes elogios, tomou d’ella triaga bastante -para se curar do veneno commum: e ainda assim melhor é sua frigida -Henriqueida que os outros versos que por então se faziam em Portugal: -porem o unico ôlho que o fez rei em terra de cegos, não lhe era -bastante para ver e acertar com a vereda da posteridade. Ahi morreu no -seu seculo e ahi jaz pela poeira de alguma livraria de bibliomanico. - -As academias de historia, de litteratura do tempo de D. João V, as -associações ridiculas de todos os nomes e descripções que então se -formaram, a mais e mais empeioraram o mal, que progressivamente cresceu -até o ministerio do marquez de Pombal. - - - - - VI - -Quinta epocha: restauração das lettras em Portugal.--Meio do seculo -XVIII até o fim - - -A civilisação e as luzes que a geram, tinham-se estendido do sul para o -norte. A corrupção que após ellas vem em seu marcado periodo, as fôra -apagando, ou ennevoando ao menos, na mesma direcção. De sorte que pelos -fins do XVII seculo o meio-dia, que havia sido berço da illustração da -Europa, quasi se ennoitava das trevas da ignorancia, as quaes pareciam -voltar como em _reacção_ para o ponto d’onde partíra a primeira _acção_ -da luz que as dissipára. - -O norte, que mais tarde se havia allumiado, progredia no emtanto: as -boas letras, as artes, as sciencias floreciam na Inglaterra e por quasi -toda a Allemanha. Milton, Descartes, Newton e Linneu brilharam ao -septentrião da Europa; e nós meridionaes estudavamos as _cathegorias_ -e as _summas_, aguçavamos distincções, alambicavamos conceitos, -retorciamos a phrase no discurso, torciamos a razão no pensamento. - -Porem a face do mundo estava começada a mudar: as antigas barreiras -que a politica e os preconceitos erguiam entre povo e povo quasi -desappareciam; as mutuas necessidades, e até o mesmo luxo, faziam quasi -indispensavel precisão as permutações do commércio; e o commércio -fraternizou as nações. - -Reciprocamente se estudaram as linguas, generalizou-se esse estudo: -então é que exactamente os sabios começaram a ser de todos os paizes: -os bons livros pertenceram a todas as linguas; e verdadeiramente se -formou dentro de todos os estados um estado que (sem os inconvenientes -do _status in statu_ dos ultramontanos) com justiça e exacção obteve e -mereceu o nome de republica das lettras, a qual é uma, universal, e sem -perigo de schisma. - -Os effeitos d’esta alteração no modo de existir do universo foram -sensiveis: as luzes não so reverteram (sem retrogradar) do norte para -o sul, mas se diffundiram geraes. A França viu então o seculo de Luiz -XIV; Italia deixou sancto Thomaz e os _concetti_ por melhor philosophia -e melhor gosto; Hespanha teve o seu Carlos III; e Portugal no reinado -d’el-rei D. José subiu á altura dos outros povos, senão é que em muitas -cousas acima. - -E ainda na reforma da universidade não tinham apparecido -Monteiros-da-Rocha e os outros portuguezes que d’alli expulsaram a -barbaridade entrincheirada em Coimbra como em sua ultima cidadella da -Europa, e ja a razão e o gosto recobravam seu imperio na litteratura; -ja as odes do Garção, as obras do padre Freire e de outros illustres -philologos haviam afugentado as _silvas_, os _acrosticos_, e os -campanudos periodos do conde da Ericeira, regenerado a poesia e -restituído a lingua. - -Outravez ainda o limitado d’este bosquejo me impede de mencionar outros -ingenhos que tanto mereceram da patria e da litteratura e remoçaram a -perdida lingua de Camões. Exige o meu assumpto e o meu espaço que me -estreite no círculo poetico. - -Garção foi o poeta de mais gosto e (por aventurar uma expressão que não -é legitima, mas póde ser legitimada portugueza) de mais _fino tacto_ -que entre nós appareceu até agora. Haverá n’outros mais fogo, outros -ferverão em mais enthusiasmo, crearão acaso mais; porem a delicadeza -de Garção so tem rival na antiguidade. A musa pura, casta, ingenua, -nunca lhe desvairou: em suas composições ha d’ellas onde a mais aguçada -crítica não esmiunçará um defeito. Tal é a cantata de Dido, uma das -mais sublimes concepções do ingenho humano, uma das mais perfeitas -obras executadas da mão do homem. Todo se deu ao genero lyrico, -especialmente ao Horaciano; e n’esse ninguem o excedeu, antes ninguem -o igualou. A ode á virtude, a que se intitula o Suicidio (que pela -primeira vez sai a lume n’esta collecção) outras muitas que longo fôra -enumerar, são de uma belleza, d’uma correcção, d’um _acabado_ (como -dizem os pintores) que difficilmente se imitará, tarde se chegará a -igualar. - -Não da mesma sorte Antonio Diniz, que mais arrojado, mais pomposo, -menos correcto e elegante, assim correu mais caudalosa, porém menos -pura torrente. Em quanto lyrico, tem rasgos pindaricos verdadeiramente -sublimes; mas o todo de suas odes é em demasia ornamentado; e ellas -entre si peccam amiudo de monotonias e repetições. Talvez o jugo dos -consoantes, que tão desnecessariamente se impôz, o acanhou a isso. Mas -nas anacreonticas é elle sem disputa o primeiro poeta portuguez, e -digno rival do ancião de Teios. No genero bucolico tambem nos deixou -mui bonitas cousas, nenhuma perfeita. Porém a verdadeira corôa poetica -do Diniz Thalia lh’a teceu, que não outra musa. O Hyssope é o mais -perfeito poema heroicomico de seu genero[38] que ainda se compoz -em lingua nenhuma: se no castigado da dicção o excede o Lutrin; no -desenho da obra, na regularidade do edificio, na imaginação, foi -o discipulo de Boileau muito além de seu grande mestre: e com mais -exacção se diria de um e outro o que de Camões e Tasso presumpçosamente -disse Voltaire: que se a imitação d’aquelle fizera este, a sua melhor -obra era essa. O palacio do genio das Bagatellas, a conversa do deão -na cerca dos capuchos, a ressurreição e vaticinio _do gallo assado_, -a caverna d’Abracadabro serão, em quanto houver gosto, estudados como -exemplar pelos litteratos, lidos e relidos sempre com prazer per todos -os amigos das artes. - -Após estes vem o virtuoso e honrado Quita, a quem pagou a patria com -miseria e fome as immensas riquezas que para a lingua e litteratura de -seus versos herdou. Um pobre cabelleireiro, a quem as musas que serviu, -os grandes que com ellas honrou nunca tiraram do triste officio, pôde -de sua baixa condição social alevantar-se do primeiro grau litterario, -que acaso lhe disputam ignorantes ou presumpçosos, nenhum homem de -gosto deixará de lh’o dar. - -Este é em meu humilde conceito o nosso melhor bucolico: tómo a -liberdade de contrastar a opinião commum, porque o meu dever de -crítico me obriga a ennunciar lealmente o meu pensamento. Tenho para -mim (e fico que acharei quem me siga se de boa fé quizerem entrar no -exame) que a immensa cópia de composições pastoris, as quaes não são -riqueza, mas desperdicio de nossas musas, ou peccam por empoladas, por -inverosimeis, por baixas, por demasiado naturaes, por sobejo elevadas. -Um meio termo difficilimo de tocar, de n’elle permanecer, um stylo -singelo como o campo, mas não rustico como as brenhas, são dos mais -difficeis requisitos que d’um poeta se podem exigir. Se tem ingenho, -custa-lhe a moldar-se e a rete-lo que não suba mais alto que a difficil -medida, e raro deixa de a exceder, de perder-se do bosque e acabar em -jardins cidadãos e conversas de damas e cavalheiros o que começára no -monte ou na varzea entre pastores e serranas. - -Nem Virgilio d’ahi escapou, nem Sannazaro, nem Camões; Gessner sim, -e depois de Gessner, o nosso Quita. Não digo que não tenha defeitos, -ainda em seu genero pastoril; mas a boa e honrada crítica falla em -geral, louva o bom, nota o mau, porém não faz timbre em achar defeitos -e erros na menor falta para se regosijar da censura. Grandes homens, -grandes erros: a natureza da mediocridade é cingir-se a tristes -preceitos para esconder sua mesquinhez: porém de taes nunca fallou -posteridade. Horacio e Boileau foram atrevidos quando lhes cumpriu, e -desprezaram regras e arte quando os chamou a natureza, e lhes mostrou -o sublime. Philinto, que os sabia de cór, tambem se levantou acima das -regras, e nunca foi tamanho. E todavia foi elle o maior poeta de seu -seculo: mas os grandes ingenhos não contraveem a lei, são superiores a -ella, e são elles viva lei. - -Mui distincto logar obteve entre os poetas portuguezes d’esta epocha -Claudio Manoel da Costa: o Brazil o deve contar seu primeiro poeta,[39] -e Portugal entre um dos melhores. - -Deixou-nos alguns sonetos excellentes, e rivalizou no genero de -Metastasio, com as melhores cançonetas do delicado poeta italiano. A -que dirige á lyra com sua palidonia imitando a tão conhecida do mesmo -Metastasio a Nice, _Grazie all’ ingani tuoi_, póde-se apontar como -excellente modêlo. Nota-se em muitas partes dos outros versos d’elle -varios resquicios de _gongorismo_ e affectação _seiscentista_. - -E agora começa a litteratura portugueza a avultar e enriquecer-se com -as producções dos ingenhos brazileiros. Certo é que as magestosas e -novas scenas da natureza n’aquella vasta região deviam ter dado a -seus poetas mais originalidade, mais differentes imagens, expressões -e stylo, do que n’elles apparece: a educação europeia apagou-lhes o -espirito nacional: parece que receiam de se mostrar americanos; e d’ahi -lhes vem uma affectação e impropriedade que dá quebra em suas melhores -qualidades. - -Muito havia que a tuba epica estava entre nós silenciosa, quando -Fr. José Durão a embocou para cantar as romanescas aventuras de -Caramurú. O assumpto não era verdadeiramente heroico, mas abundava -em riquissimos e variados quadros, era vastissimo campo sôbre tudo -para a poesia descriptiva. O auctor atinou com muitos dos tons que -deviam naturalmente combinar-se para formar a harmonia de seu canto; -mas de leve o fez: só se estendeu em os menos poeticos objectos; e -d’ahi esfriou muito do grande interesse que a novidade do assumpto e -a variedade das scenas promettia. Notarei por exemplo o episodio de -Moêma, que é um dos mais gabados, para demonstração do que assevero. -Que bellissimas cousas da situação da amante brazileira, da do heroe, -do logar, do tempo não podéra tirar o auctor, se tam de leve não -houvera desenhado este, assim como outros paineis? - -O stylo é ainda por vezes affectado: la surdem aqui alli seus -_gongorismos_; mas onde o poeta se contentou com a natureza e com a -simples expressão da verdade, ha oitavas bellissimas, ainda sublimes. - -Depois de Diniz o logar immediato nos anacreonticos pertence a outro -Brazileiro. - -Gonzaga mais conhecido pelo nome pastoril de Dirceu, e pela sua -Marilia, cuja belleza e amores tam célebres fez n’aquellas nomeadas -lyras. Tenho para mim que ha d’essas lyras algumas de perfeita e -incomparavel belleza: em geral a Marilia de Dirceu é um dos livros a -quem o publico fez immediata e boa justiça. Se houvesse por minha parte -de lhe fazer alguma censura, só me queixaria, não do que fez, mas do -que deixou de fazer. Explico-me: quizera eu que em vez de nos debuxar -no Brazil scenas da arcadia, quadros inteiramente europeus, pintasse -os seus paineis com as côres do paiz onde os situou. Oh! e quanto não -perdeu a poesia n’esse fatal êrro! se essa amavel, se essa ingenua -Marilia fosse, como a Virgínia de Saint-Pierre, sentar-se á sombra das -palmeiras, e em quanto lhe revoavam em tôrno o cardeal suberbo com a -purpura dos reis, o sabiá terno e melodioso,--que saltasse pelos montes -espessos a cotia fugaz como a lebre da Europa, ou grave passeasse pela -orla da ribeira o tatu esquamoso,--ella se entretivesse em tecer para o -seu amigo e seu cantor uma grinalda não de rosas, não de jasmins, porém -dos roixos martyrios, das alvas flores dos vermelhos bagos do lustroso -cafezeiro; que pintura, se a desenhára com sua natural graça o ingenuo -pincel de Gonzaga! - -Justo elogio merece o sensivel cantor da infeliz Lindoya que mais -nacional foi que nenhum de seus compatriotas brazileiros. O Uraguay -de José Bazilio da Gama é o moderno poema que mais merito tem na -minha opinião. Scenas naturaes mui bem pintadas, de grande e bella -execução descriptiva; phrase pura e sem affectação, versos naturaes -sem ser prosaicos, e quando cumpre sublimes sem ser guindados; não são -qualidades communs. Os Brazileiros principalmente lhe devem a melhor -corôa de sua poesia, que n’elle é verdadeiramente nacional, e legítima -americana. Mágoa é que tam distincto poeta não limasse mais o seu -poema, lhe não désse mais amplidão, e quadro tão magnifico o acanhasse -tanto. Se houvera tomado esse trabalho, desappareceriam algumas -incorrecções de stylo, algumas repetições, e um certo desalinho geral, -que muitas vezes é belleza, mas continuado e constante em um poema -longo, é defeito. - -Muito ha que os nossos auctores desempararam o theatro: eis ahi -o faceto Antonio José, a quem muitos quizeram appellidar Plauto -portuguez e que sem duvida alguns serviços tem a esse titulo, porém -não tantos como apaixonadamente lhe decretaram. Em seus informes -dramas algumas scenas ha verdadeiramente comicas, alguns dictos de -summa graça; porém essa degenera amiudo em baixa e vulgar. Talvez que -o _Alecrim e Mangerona_ seja a melhor de todas; e de certo o assumpto -é eminentemente comico e portuguez: hoje teria todo o merito de uma -comedia historica: e se fôra tractada no genero de Beaumarchais, -produziria uma excellente peça. - - - NOTAS DE RODAPÉ: - -[38] Digo de seu genero, porque o Orlando furioso tambem é heroicomico, -mas d’outro genero. - -[39] Em antiguidade. - - - - - VII - -Epocha, segunda decadencia da lingua e litteratura; gallicismo e -traducções - - -Á volta este tempo se formou a academia das sciencias de Lisboa pelos -generosos esforços do duque de Lafões. Esse corpo scientifico, de -quem tanto bem se augurou para a lingua e litteratura nacional, nem -fez tudo o que d’elle se esperava, nem uma parte mui pequena do que -podia e lhe cumpria fazer: mas nem foi inutil, nem, como alguns teem -querido, prejudicial. E todavia sua força moral não foi bastante para -vencer um mal terrivel que já no tempo de sua creação se manifestava, -mas que depois, cresceu e avultou a ponto, que veio a tornar-se quasi -indestructivel. - -Este mal foi o _gallo-mania_, que sôbre perverter o caracter da nação, -de todo perdeu e acabou com a já combalida linguagem: phrases barbaras -repugnantes á indole do idioma, termos hybridos, locuções arrastadas, -sem elegancia, formaram a algaravia da moda, e prestes invadiram todas -as provincias das lettras. Estudar a lingua materna, como aquella em -que fallamos e escrevemos, é dos mais difficeis estudos, ha mister -longa e porfiada applicação. Que bella invenção para a ignorancia e -para a preguiça não foi esta nova linguagem mascavada e de furtacôres, -que todos podiam saber sem fadiga, cujas leis cada-um moderava e -arbitrava a seu modo, alterava a seu sabor com tam plena liberdade de -consciencia! Foi a religião de Mafoma: propagou-a a incontinencia, -a soltura, o desenfreio do appetite. Desprezaram-se os classicos, -apodaram-se de ignorantes, de rançosos; e os que não ousavam, por -algum resto de vergonha, desacatar assim as honradas cans dos nossos -mestres, sahiram então com o banal e ridiculo pretexto de que ninguem -podia lê-los pelas materias que tractaram; que tudo eram sermões, vidas -de sanctos, historias de conventos, de frades. Vergonhosa desculpa! -Comquê as decadas de Barros, que foi talvez o primeiro que introduziu -com feliz execução o stylo classico na historia moderna, são chronicas -de conventos? Fernão Mendes Pinto, o primeiro europeu que escreveu uma -viagem regular da China e dos extremos d’Asia, são vidas de sanctos? -E d’essas mesmas vidas de sanctos, quantas d’ellas são de summo -interesse, divertida e proficua leitura! A vida de D. Fr. Bartholomeu -dos Martyres tem toda a valia das mais gabadas memorias historicas, -de que hoje anda cheia a Europa, e que ninguem taxou ainda de pouco -interessantes. Quando outra cousa não contivesse aquelle excellente -livro senão a narração do concilio de Trento, a viagem e estada do -arcebispo em Roma, ja seria elle uma das mais curiosas e importantes -obras do seculo XVI. E D. Francisco Manoel de Mello, e Rodrigues Lobo, -e Camões, e grande cópia de poetas de todos os generos,--tudo isso são -sermonarios, vidas de sanctos? - -Miseria é que o geral dos portuguezes jurou nas palavras de quatro -peralvilhos que essas calumnias apregoavam: passou em julgado que os -classicos se não podiam ler, e ninguem mais quiz tomar o trabalho nem -sequer de examinar se sim ou não assim era. - -N’este estado de cousas appareceram em Portugal dous homens -extraordinarios, ambos dotados pela natureza de prodigioso ingenho -poetico, Francisco Manoel e Bocage. Aquelle, filho da eschola de Garção -e Diniz, cultivou muito tempo as musas classicas, e já imbuido no gosto -da antiguidade, já imitador e rival de Horacio e Pindaro, começou a ser -conhecido em idade madura. Este, quasi desd’a infancia poeta, appareceu -no mundo em toda a effervescencia dos primeiros annos, ardente cantor -das paixões, enthusiasta, agitado do seu proprio natural violento, -rapido, insoffrido, sem cabal instrucção para poeta, com todo o talento -(raro, espantoso talento!) para improvisador. - -Ambos começaram imitando os grandes mestres de seu tempo, seguindo -cada-um em seu genero o stylo e gosto adoptado e geral desde a -restauração das letras no meado do seculo. Mas não são ingenhos -grandes para seguir, senão para fundar escholas: nem tardou muito que -cada-um, per seu lado, não sacudisse todo jugo da imitação, e seguisse -livre e rasgadamente um trilho novo. Bocage a quem seu fado, por mais -aventureira lhe fazer a vida, levou ao antigo theatro das glórias -portuguezas, voltando d’Asia foi recebido em Lisboa entre os applausos -dos muitos admiradores que já tinha deixado na viril infancia de seu -talento poetico. Augmentou-se esta admiração com os novos improvisos -do joven poeta, com a extrema facilidade, com o mui sonoro de seus -versos. O fogo de suas ideias ateou o enthusiasmo geral; a mocidade -inflammou-se com o nome de Bocage: de enthusiasmo degenerou em -cegueira, em mania; não lhe viam já defeitos; menos elle em si mesmo. -Ninguem duvidava que os improvisos dos cafés do Rocio eram superiores -a todas as obras da antiguidade, e que um soneto de Bocage valia mais -que todos esses volumes de versos do seculo de João III. e do de José -I. Ésta era a opinião commum da mocidade; e tam geral se fez, tantas -vezes a ouviu repetir o objecto de tal idolatria, que força era que a -acreditasse, que com ella se desvanecesse e desvairasse. - -Isso lhe aconteceu. O temperamento irritavel e ardentissimo de Bocage -o levava naturalmente ás hyperboles e exagerações: essas eram as -mais admiradas de seus ouvintes; requintou n’ellas, subiu a ponto -que se perdeu pelos espaços imaginarios de sua creação phantastica, -abandonou a natureza, e a suppôz acanhado elemento para o _genio_. Mais -elle repetia _eternidades_, _mundos_, _ceos_, _espheras_, _orbes_, -_furias_, _gorgonas_; mais dobrava o applauso; mais delirava elle, -mais o admiravam. Ao cabo, nem elle a si, nem os outros a elle o -intendiam.[40] A par e passo que as ideias desvairavam, desvairava -tambem o stylo, e emfim se reduziu a uma continuada antithese, -perpetuos trocadilhos, _tours-de-force_, pulos, saltos, rumpantes, -castelhanadas, com que se tornou monotono e (usarei d’uma expressão de -pintor) _amaneirado_. - -A metrificação de Bocage, julgam-na sua melhor qualidade; eu a peior; -ao menos, a que peiores effeitos causou. Não fez elle um verso duro, -mal soante, frouxo; porém não são esses os unicos defeitos dos versos. -As varias ideias, as diversas paixões e affectos, as distinctas -posições e circumstancias do assumpto, do objecto, de mil outras -cousas,--variada medida exigem; como exige a musica varios tons e -cadencias. A mesma medida sempre, embora cheia e boa,--o mesmo tom, -embora afinado,--a mesma harmonia, embora perfeita,--o mesmo compasso, -embora exacto, fazem monotona e insuportavel a mais bella peça de -musica ou de poesia. E taes são os versos de Bocage, que nos pretendem -dar para typo seus apaixonados cegos: digo _cegos_, porque muitos tem -elle (e n’esse numero que conto!) que o são, mas não cegos. Imitar -com o som mechanico das vozes a harmonia intima da ideia, supprir -com as vibrações que só pódem ferir a alma pelo orgão dos ouvidos, -a vida, o movimento, as côres, as fórmas dos quadros naturaes, eis -ahi a superioridade da poesia, a vantagem que tem sobre todas as -outras bellas artes: mas quam difficil é perceber e executar esse -delicadissimo ponto! Poucos o conseguiram: Francisco Manoel foi entre -nós o que mais finamente o intendeu e executou, mas nem sempre, nem -cabalmente. - -Porém nos intervallos lucidos que a Bocage deixava o fatal desejo de -brilhar, n’alguns instantes que, despossesso do demonio das hyperboles -e antitheses, ficava seu grande ingenho a sos com a natureza e em paz -com a verdade, então se via a immensidade d’essa grande alma, a fina -tempera d’esse raro ingenho que a aura popular estragou, perdeu o pouco -estudo, os costumes desregrados, a miseria, a dependencia, a soltura, -a fome. Muitas epistolas, varios idilios maritimos, algumas fabulas, -e epigrammas, as cantatas, não são mediocres titulos de glória. Dos -sonetos ha grande cópia que não tem igual nem em portuguez, nem em -lingua nenhuma, d’uma força, d’uma valentia, d’uma perfeição admiravel. -O resto é pequeno e pouco. A linguagem é pobre; ás vezes facil, mas -em geral escaça. Sabía pouco a lingua; a força do grande instincto -lhe arredava os erros; mas as bellezas do idioma, só as dá e ensina o -estudo. As traducções de Ovidio, Delille e Castel são primorosas. - -Mas de traducções estamos nós gafos: e com traducções levou o ultimo -golpe a litteratura portugueza; foi a estocada de morte que nos -jogaram os estrangeiros. Traduzir livros d’artes, de sciencias é -necessario, é indispensavel; obras de gosto, de ingenho, raras vezes -convem; é quasi impossivel fazê-lo bem, é míngua e não riqueza para a -litteratura nacional. Essa casta de obras estuda-se, imita-se, não se -traduz. Quem assim faz accomoda-as ao character nacional, dá-lhes côr -de proprias, e não só veste um corpo estrangeiro de alfaias nacionaes -(como o traductor), mas a esse corpo dá feições, gestos, modo, e -indole nacional: assim fizeram os Latinos, que sempre imitaram os -Gregos e nunca os traduziram; assim fizeram os nossos poetas da boa -idade. Se Virgilio houvera traduzido a Iliada, Camões a Eneada, Tasso -os Lusiadas, Milton a Jerusalem, Klopstock o Paraiso perdido; nenhum -d’elles fora tamanho poeta, nenhuma d’essas linguas se enriquecera com -tam preciosos monumentos: e todavia imitaram uns dos outros, e d’essa -imitação lhes veio grande proveito. - -Esta mania de traduzir subiu a ponto em Portugal, e de tal modo -estragou o gosto do público, que não só lhe não agradavam, mas quasi -não intendia os bons originaes portuguezes: a poesia, a litteratura -nacional reduziu-se a monotonos sonetos, a trovinhas d’amores, a -insipidas enfiadas - - _De versinhos anões a anans Nerinas._ - -Tam baixos nos pozeram os admiradores e imitadores de Bocage, a quem -justamente a critica stigmatizou com o nome de _elmanistas_,--e de -_elmanismo_ sua affectada eschola. N’elles se mostraram exagerados os -defeitos todos do enthusiasta Elmano, sem nenhum dos grandes dotes, das -brilhantes qualidades do poeta Bocage. - -Alguns ha comtudo de quem esta asserção não deve intender-se em todo -o rigor da phrase. João Baptista Gomes, auctor da Castro, mostrou -n’ella muito talento poetico e dramatico. D’entre os bastos defeitos -d’essa tragedia sobresahem muitas bellezas. Desvaira-o o _elmanismo_; -derrama-se per madrigaes quando a austeridade de Melpomene pedia -concisão, força e naturalidade; perde-se em declamações, extravaga -em logares communs, inverte a dicção com antitheses, destroi toda a -illusão com versos amiudo sesquipedaes e entumecidos; mas per meio de -todas essas nevoas brilha muita luz de ingenho, muita sensibilidade, -muita energia de coração; predicados que com o estudo da lingua que não -tinha, com a experiencia que lhe fallecia, triumphariam ao cabo do mau -gosto do tempo, e viriam provavelmente a fazer de João Baptista Gomes -o nosso melhor tragico. Atalhou-o a morte em tam illustre carreira, -e deixou orphão o theatro portuguez que de tamanho talento esperava -reforma e abastança. - -Mas em quanto Bocage e seus discipulos tyrannizavam a poesia e -estragavam o gosto, Francisco Manuel, unico _representante_ da grande -eschola de Garção, gemia no exilio, e de la com os olhos fitos na -patria se preparava para luctar contra a enorme hydra cujas innumeras -cabeças eram o gallicismo, a ignorancia, a vaidade, todos os outros -vicios que iam devorando a litteratura nacional. - -A sua epistola sobre a arte poetica e lingua portugueza, póde rivalizar -com a de Horacio aos Pisões: força d’argumentos, eloquencia da poesia, -nobre patriotismo, finissimo sal da satyra, tudo ahi peleja contra o -monstro multiforme. - -Que direi das odes? Minha intima persuasão é que nunca lingua nenhuma -subiu tam alto como a portugueza na lyra de Francisco Manuel. Que ha -em Pindaro comparavel á ode a Afonso d’Albuquerque? onde ha poesia -sublime, elegante, immensa como seu assumpto, na dos novos Gamas? se -o patriotismo fallasse alguma hora aos degenerados netos de Pacheco -e Albuquerque, que poderia elle dizer-lhes igual áquella inestimavel -ode que se intitula _Neptuno aos portuguezes_? E quando a liberdade -troa na espada de Washington, submette os raios de Jupiter ao sceptro -dos tyrannos aos pés de Franklin, ou tece pelas mãos de Penn os -laços de fraterna união! Que immenso, que grandioso é o cantor de -tamanhos objectos! Quando nas odes a Venus, a Marfisa, a Marcia -_voltando inopinada_, no hymno á noite se requebra em amoroso jubilo, -ou se enternece de saudade, todo é graças e primores de linguagem, de -imaginação, de stylo, de delicadeza, de inimitavel poesia. No genero -Horaciano não é elle tam puro e perfeito como Garção, mas nem intendeu -menos nem imitou peior o seu modêlo. - -Entre as epistolas ha muitas admiraveis: dos contos e fabulas, alguns -com elegante sal e chiste. As traducções do Oberon de Wielland, da -Guerra punica de Silio Italico, mas sobre todas, a dos Martyres de -Chateaubriand, são thesouros de linguagem e de poesia. - -Nenhum poeta desde Camões havia feito tantos serviços á lingua -portugueza: so per si Francisco Manuel valeu uma academia, e fez mais -que ella; muita gente abriu os olhos, e adquiriu amor a seu tam rico e -bello, quanto desprezado idioma: e se ainda hoje em Portugal ha quem -estude os classicos, quem se não envergonhe de lêr Barros e Lucena, -deve-se ao exemplo, aos brados, ás invectivas do grande propugnador de -seus foros e liberdades. - -Nos ultimos periodos de sua longa vida afrouxaram as energicas -faculdades d’este grande poeta, e excepto a traducção dos Martyres -(que assim mesmo tem seus altos e baixos) quasi tudo o mais que fez é -tibio e morno como de um octogenario se podia esperar. O nimio temor de -commeter gallicismos, a que tinha justo e sancto horror, o fez cahir em -archaismos e affectação demasiada de palavras antiquadas e excessivos -hyperbatos. Não são porém estas faltas, nem tantas nem tamanhas como o -pregoou a inveja e a ignorancia. - -Muito honrosa menção deve a historia da lingua e poesia portugueza a -Domingos Maximiano Torres, cujas eclogas rivalizam com as de Quita e -Gessner, cujas cançonetas são, depois das de Claudio Manuel da Costa, -as melhores que temos. Foi este muito intimo de Francisco Manuel, mas -tenho por mui exagerados os elogios que d’elle recebeu. - -Antonio Ribeiro dos Santos, honra da magistratura portugueza, foi -imitador e émulo de Ferreira: poucos ingenhos, poucos characteres, -poucos stylos ha tam parecidos; se não que o auctor dos coros da Castro -era muito maior poeta, e o cantor do grande D. Henrique muito melhor -metrificador. Ésta ode ao infante sabio, algumas outras a varios heroes -portuguezes, algumas das epistolas, e especialmente os versos que lhe -dictava a amizade para o seu Almeno, são d’uma elegancia e pureza de -linguagem rarissima em nossos dias. - -Este Almeno é Fr. José do Coração de Jesus, missionario de Brancannes, -que traduziu os primeiros livros das methamorphoses de Ovidio em -excellente, riquissimo, purissimo portuguez, mas em maus versos: e -ainda assim, alguns d’elles são felizes: é de estudar, de versar com -mão _diurna_ e _nocturna_ esse comêço de traducção para quem quizer -conhecer as riquezas de uma lingua que compete, emparelha, vence ás -vezes, a sua propria mãe latina. - -Duas ou tres odes d’este virtuoso e erudito padre são mui bonitas. - -Nicolau Tolentino é o poeta eminentemente nacional no seu genero: -Boileau teve mais força, mas não tanta graça como o nosso bom mestre -de rhetorica. E de suas satyras ninguem se pode escandalizar; começa -sempre per casa, e primeiro se ri de si antes que zombeteie com os -outros. As pinturas dos costumes, da sociedade, tudo é tam natural, -tam verdadeiro! Confesso que de todos os poetas que meu triste mister -de critico me tem obrigado a analysar, unico é este em cuja causa -me dou por suspeito: tanta é a paixão, a cegueira que tenho polo -mais verdadeiro, mais engraçado, mais _bom homem_ de todos os nossos -escriptores. Aquelle _bilhar_, aquella _funcção de burrinhos_, aquelle -_cha_, aquellas despedidas _ao cavallo deitado á margem_; o memorial -ao principe, o presente do _perum_, são bellezas que so não admirarão -atrabilarios zangãos em perpetuo estado de guerra com a franca alegria, -com o ingenuo gôsto da natureza. - -De José Anastacio da Cunha, que das mathematicas puras nos deu o melhor -curso que ha em toda Europa, d’esse infeliz ingenho (que talento houve -já feliz em Portugal?) a quem não impediam as rectas de Euclides, nem -as curvas de Archimedes de cultivar tambem as musas; de tam illustre -e conhecido nome que direi eu senão o muito que me peza da raridade -de suas poesias? Todas são philosophicas, ternas e repassadas d’uma -tam meiga sensibilidade algumas, que deixam n’alma um como echo -de harmonia interior que não vem do metro de seus versos, mas das -ideias, dos pensamentos. Todavia ha mister lê-lo com prevenção, porque -(provavelmente estropiada de copistas) a phrase nem sempre é portugueza -de lei. - -O padre A. P. de Sousa Caldas, brazileiro, é dos melhores lyricos -modernos. A poesia biblica, apenas encetada de Camões na paraphrase -do psalmo _super flumina Babylonis_, foi per elle maravilhosamente -tractada; e desde Milton e Klopstock ninguem chegou tanto acima n’este -genero. - -A cantata de Pygmalião, a ode O homem selvagem são excellentes tambem. - -Aqui me cai a penna das mãos: o estadio livre para a critica imparcial -acabou. Nem posso continuar a exercê-la sem temor, nem o faria ainda -assim, pois não quizera vêr revogadas minhas presumidas sentenças pela -severa posteridade, quasi sempre annulladora de juizos contemporãos. - -Não posso todavia fechar este breve quadro sem patentear a admiração, -e o indizivel prazer que me deu o poema do Passeio do snr. J. M. da -Costa e Silva, cuja existencia tinha a infelicidade de ignorar (tam -pouco sabemos nós portuguezes das riquezas que temos em casa!) e que -não sei que tenha que invejar a Thompson e Delille, se não fôr na pouca -extensão e, acaso dirá mais severo juiz, em algum verso de demasiado -_elmanismo_. Quanto a mim, folgo de me lisongear com a esperança que -seu auctor lhe dará a amplidão e mais (poucos mais) retoques com que -ficará por ventura o melhor poema d’esse genero. - -Apezar dos motivos referidos, pedirei uma venia mais para mencionar -como um poema que faz summa honra ao nome portuguez, a Meditação do -snr. J. A. de Macedo, que tem sido censurada por quem não é capaz -de intendê-la. Não sei eu se ella tem defeitos; é obra humana, e de -certo lhes não escapou; mas sublimidade, cópia de doctrina, phrase -portugueza, e grandes ideias, só lh’o negará a cegueira ou a paixão. - -Cita-se com elogio o nome do snr. J. F. de Castilho, joven poeta que -se despica da injuria da sorte que o privou da vista, com muita luz de -ingenho poetico. - -Os _dythirambos_ do snr. Curvo Semedo, as odes do snr. J. Evangelista -de Moraes merecem grande favor do publico: os apologos do snr. J. V. -Pimentel Maldonado são por certo dignos da maior estimação. - -As Georgicas do snr. Mozinho d’Albuquerque fizeram a reputação poetica -de seu benemerito auctor. Alguns lhe acharam demaziada erudição, e -queriam mais poesia e menos sciencia. Eu por mim tomarei a confiança -de pedir ao illustre poeta, em nome da litteratura portugueza, que -na segunda edição de sua tam util obra não desdenhe de aproveitar os -muitos e riquissimos ornatos que habilmente póde tirar de nossas festas -ruraes, de nossas usanças (como feiras, serões, desfolhas, etc.), das -descripções de nosso formoso paiz; com que decerto fará mais nacional e -interessante seu estimavel poema. Não sei tambem se alguma incorrecção -typographica ou de cópia, seria origem de varias imperfeições e -impurezas de linguagem, que os escrupulosos (e em tal materia é forçoso -sê-lo) lhe notam. - -Tudo isso esperamos os portuguezes que nos vangloriamos de sua -excellente obra, vê-lo melhorado na proxima edição que já reclama o -publico impaciente. - -A litteratura portugueza não mostra presentemente grandes symptomas de -vigor: mas ha muita força latente sob essa apparencia; o menor sôpro -animador que da administração lhe venha, ateará muitos luzeiros com que -de novo brilhe e se engrandeça. - - FIM - - - NOTAS DE RODAPÉ: - -[40] Assim lhe succedeu, principalmente em muitos dos, por natureza -e essencia, hyperbolicos elogios dramaticos; genero de composição -extravagante e quasi sempre ridiculo. - - - - - INDICE - - DAS - - OBRAS CONTIDAS N’ESTE VOLUME - - - _Pag._ - -Retrato de Venus 5 - -Notas 57 - -Ensaio sobre a historia da pintura 89 - -Bosquejo da historia da poesia e lingua portugueza 163 - - - - - RECTIFICAÇÃO - - -A ADVERTENCIA de pag. 165-166 pertence ao _Retrato de Venus_ e -não ao _Bosquejo da historia da poesia e lingua portuguesa_, onde -inadvertidamente foi collocada. - -Nota do transcritor: Isso foi collacada na posição certa. - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O RETRATO DE VENUS E ESTUDOS DE -HISTORIA LITTERÁRIA *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online -at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. 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DE ALMEIDA-GARRETT</span></h2> - - -<p class="center big">XXI</p> - - -<p class="center big">O RETRATO DE VENUS</p> - -<p class="center small">E</p> - -<p class="center small">ESTUDOS DE HISTORIA LITTERARIA</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="OBRAS_LITTERARIAS">OBRAS LITTERARIAS<br><span class="small">DO<br>VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT</span></h2> -</div> -<hr class="r5"> - - -<h3>THEATRO:</h3> - -<p class="poetry"> -TOMO I—Catão.<br> -<span style="margin-left: 0.5em;">»    II—Merope, Gil Vicente.</span><br> -<span style="margin-left: 0.5em;">»    III—Frei Luiz de Sousa.</span><br> -<span style="margin-left: 0.5em;">»    IV—D. Philippa de Vilhena.</span><br> -<span style="margin-left: 0.5em;">»    V—A Sobrinha do Marquez, As prophecias do Bandarra, Um noivado no Dáfundo.</span><br> -<span style="margin-left: 0.5em;">»    VI—O Alfageme de Santarem.</span><br> -</p> - -<h3>VERSOS:</h3> - -<p class="poetry"> -Camões.<br> -D. Branca.<br> -Lyrica.<br> -Fabula, Folhas cahidas.<br> -Flores sem fructo.<br> -Romanceiro, 3 vol.<br> -O Retrato de Venus.<br> -</p> - -<h3>PROSA:</h3> - -<p class="poetry"> -Viagens na minha terra, 2 vol.<br> -O Arco de Sanct’Anna, 2 vol.<br> -Portugal na Balança da Europa.<br> -Da Educação.<br> -Helena (romance).<br> -Discursos parlamentares e Memorias biographicas.<br> -Escriptos diversos.<br> -</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h1 class="nobreak" id="O_RETRATO_DE_VENUS">O RETRATO DE VENUS<br><span class="small">E<br>ESTUDOS DE HISTORIA LITTERARIA</span></h1> -</div> - -<p class="center small">PELO</p> - -<p class="center">VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT</p> - -<hr class="r5"> -<p class="center"><i>Terceira edição</i></p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img001"> -<img src="images/001.jpg" class="w10" alt="Imagem do editor"> -</span></p> - -<p class="center p2 big">PORTO</p> - -<p class="center">Ernesto Chardron, Editor</p> - -<p class="center small">1884</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p class="center p4"><span class="smcap">Porto</span>: 1884—<span class="smcap">Typ. de A. J. da Silva Teixeira</span></p> - - -<p class="center">62, Rua da Cancella Velha, 62</p> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_3">[Pg 3]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="O_RETRATO_DE_VENUS2">O RETRATO DE VENUS</h2> -</div> - - -<p><span class="pagenum" id="Page_164">[Pg 164]</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_165">[Pg 165]</span></p> -<h3 class="nobreak" id="ADVERTENCIA">ADVERTENCIA</h3> -</div> - - -<p><i>Fui sempre muito pouco amigo de dar satisfações. -Porém ésta minha repugnancia não é -filha de presumpção, nem de orgulho. De todo -o meu coração o digo, e todos os que me conhecem, -o sabem. Nascem da persuasão, em que -estou, de que a justificação d’uma cousa está -na maneira por que essa cousa se faz. E applicando -ésta generalidade ás composições litterarias, -cada vez me convenço mais que os prologos, -prefacios, avisos a leitores, etc. nada fazem, -nem fizeram, nem farão nunca ao conceito -que da obra se fórma.</i></p> - -<p><i>E principio foi este, por que na faxada do -meu poema não puz tal ceremonia. Revendo-o -porem agora, examinando este</i> <span class="smcap">Ensaio</span>, <i>e conhecendo-lhe -infindos defeitos, que me tinham escapado; -sendo-me impossivel emenda-los; resolvo-me<span class="pagenum" id="Page_166">[Pg 166]</span> -a dar</i> satisfação; <i>não para pretender justifica-los, -e salvar-me da crítica com subtilezas, -e argucias; mas para fazer confissão pública -d’elles.</i></p> - -<p><i>Se me é licito porem dizer duas palavras em -meu abono, direi que tanto o poema, como as -notas, e ensaio são da minha infancia poetica; -são compostos na idade de dezasette annos. Isto -não é impostura: sobejas pessoas ha hi, que -m’o viram começar, e acabar então. É certo -que desde esse tempo ategora, em que conto quasi -vinte e dous, por tres vezes o tenho corrigido; e -até submettido á censura de pessoas doutas, e de -conhecida philologia, como foi o Excellentissimo -Senhor</i> S. Luiz, <i>que me honrou a mim, e a -este opusculo com suas correcções. Mas todos -estes cuidados não puderam (emquanto a mim) -tirar-lhe o vicio do nascimento.</i></p> - -<p><i>Eis aqui a minha confissão geral. Os que me -absolverem ficar-lhes-hei muito obrigado; os que -não quizerem, paciencia; não me mato por isso. -Comecei esta obrinha por desenfado: acabei-a -por divertimento: publico-a por amor das artes: -se me criticarem, rio-me, e não fico mal com -ninguem.</i></p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="O_RETRATO_DE_VENUS3">O RETRATO DE VENUS<br><span class="small">POEMA</span></h2> -</div> - - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 7.5em;"><i>.... while it pursues</i></span><br> -<i>Things unnattempted yet in prose, or rhyme.</i><br> -<br> -<span class="smcap">Milt</span>. <i>Parad. loste</i>: book I. V. 15.<br> -</p> -<hr class="r5"> - -<h3>CANTO PRIMEIRO</h3> - -<p class="poetry"> -Doce mãe do universo, ó Natureza,<br> -Alma origem do ser, germe da vida,<br> -Tu, que matizas de verdor mimoso<br> -Na estação do prazer o monte, o prado,<br> -E á voz fagueira de celeste gôso<br> -De multimodos entes reproduzes<br> -A variada existencia, e lh’a prolongas;<br> -Que, no fluido immenso legislando,<br> -Libras sem conto ponderosos mundos,<span class="pagenum" id="Page_4">[Pg 4]</span><br> -Que na ellipse invariavel rotam fixos,<br> -Ó alma do universo, ó Natureza,<br> -Teus sacros penetraes em vôo ardido<br> -Busco, rasgo-lhe o véo, prescruto, e vejo<br> -Insondaveis mysterios: puro, e simples<br> -Nunca ouvidas canções na lyra entôo.<br> -Nua d’enfeites vãos a face amena<br> -Tu volve ao mundo, que te ignora errado.<br> -Qual és, qual foste, qual te apura os mimos<br> -A arte engenhosa, tu lhe amostra e ensina.<br> -<br> -Como é dado aos mortaes bellezas tuas<br> -C’o divino pincel, co’as magas tintas<br> -Estremar com primor, colher-lhe o bejo,<br> -Sem donosas ficções meu canto ensine.<br> -<br> -Ficções!... E aureas ficções desdenha o sabio?<br> -A douta, a mestra antiguidade o diga.<br> -Não; fabula gentil, volve a meus versos;<br> -Orna-me a lyra c’os festões de rosas,<br> -Que ás margens colhes da Castalia pura:<br> -Flores, que outr’ora de Epicuro ao vate<br> -C’o austero assumpto lhe entrançaste amenas,<br> -Essas no canto me desparze agora.<span class="pagenum" id="Page_5">[Pg 5]</span><br> -<br> -Venus, Venus gentil! Mais doce, e meigo<br> -Soa este nome, ó Natureza augusta.<br> -Amores, graças, revoae-lhe emtorno,<br> -Cingi-lhe a zona, que enfeitiça os olhos;<br> -Que inflamma os corações, que as almas rende.<br> -Vem, ó Cypria formosa, oh! vem do Olympo,<br> -Vem c’um mago surrir, c’um terno bejo<br> -Fazer-me vate, endeusar-me a lyra.<br> -<br> -E quanto pódes c’um surriso, ó Venus!<br> -Jove, que empunhe o temeroso raio;<br> -Neptuno as ondas tempestuoso agite;<br> -Torvo Sumano desenfreie as furias...<br> -Se dos olhos gentis, dos labios meigos<br> -Desprender um surriso a Idalia deusa,<br> -Rendido é Jove, o mar, o Averno, o Olympo.<br> -<br> -Mas quanto é bello, é grato o vencimento,<br> -Se á dor suave do pungir fagueiro,<br> -Da ferida se encontra amigo balsamo,<br> -E nos olhos da linda vencedora<br> -Do ardimento o perdão brando se accolhe!<br> -Tu, Marte, o dize, o Cyprio moço, o Teucro;<br> -E vós, que ousais na terra imitar numes,<br> -Que do summo prazer rompendo arcanos,<span class="pagenum" id="Page_6">[Pg 6]</span><br> -N’um momento gosais da eternidade.<br> -<br> -Emquanto nas lidadas officinas,<br> -Forjando o raio vingador dos numes,<br> -Vive o coxo marido sem receios,<br> -Ja deslembrado da traidora rede;<br> -Do Cynireo mancebo entre os abraços,<br> -Jaz a espôsa gentil ennamorada.<br> -Nas languidas pupillas lhe transluze<br> -O prazer divinal, que a opprime, e anceia;<br> -Nos inflammados bejos, nas caricias,<br> -No palpitar do seio voluptuoso,<br> -No lascivo apertar dos braços niveos,<br> -Nos olhos, em que a luz quasi se extingue,<br> -Na interrompida voz, que balbucia,<br> -Nos derradeiros ais, que desfalecem...<br> -Quem do prazer não reconhece a deusa<br> -No excesso do prazer quasi espirando?<br> -Surri-lhe ao lado o filho de travesso,<br> -E d’entre o myrtho as candidas pombinhas<br> -C’o estremecido arrulho a dona imitam.<br> -<br> -Ah! se o gôsto supremo a um deus não peja,<br> -Porquê mesquinhas leis nos vedam barbaras<br> -Tam suave pecar, doce delicto,<span class="pagenum" id="Page_7">[Pg 7]</span><br> -Antes virtude, que natura ensina!<br> -Dest’arte as breves horas decorriam<br> -Aos alheados, férvidos amantes;<br> -E vezes tres rotára o disco argenteo<br> -Trivia gentil, semque no Olympo, ou Lemnos<br> -A espôsa de Vulcano apparecesse.<br> -Ja na etherea mansão vagos juizos<br> -Maliciosos forma a inveja, a intriga;<br> -E surriso maligno ás deusas todas,<br> -Do marido infeliz excita o fado.<br> -<br> -Em zelosa vingança affana e freme<br> -O despeitoso Marte; corre, voa,<br> -E em busca da infiel vagueia o mundo.<br> -Coxeando o segue o malfadado espôso,<br> -Dos antigos errores esquecido:<br> -Tal é, paixão zelosa, o teu imperio!<br> -<br> -Eis do somno d’amor espavoridos,<br> -Os dous amantes c’o ruido accordam.<br> -De pavor esmorece o joven timido;<br> -Por elle anceia a carinhosa amante,<br> -Descuidosa de si; geme, soluça.<br> -E do amado na dor, sua dor recresce.<br> -Que fará?... vacillante... Adonis... Marte...<span class="pagenum" id="Page_8">[Pg 8]</span><br> -O espôso... Ideias, que alma lhe confundem!<br> -Com o amante ficar, morrer com elle?<br> -Defender com seu peito o peito amado?<br> -E salval-o é possivel d’esta sorte?<br> -Deixa-lo?... Fera ideia!... Ir as suspeitas<br> -Dos numes dissipar com sua presença?<br> -Que! deixa-lo! o seu bem! Venus a Adonis!<br> -Tanto não póde a mesma divindade.<br> -<br> -Mas este só lhe resta unico meio:<br> -É forçoso: comsigo ao carro o sobe;<br> -Voa a Paphos, e ás Graças lisongeiras<br> -O precioso pinhor saudosa entrega,<br> -Que n’um basto rosal mimoso o guardem,<br> -Velem sempre por elle, té que aos deuses<br> -Se esvaeça o furor. Subito ao Olympo,<br> -Composto o vulto, serenando os olhos,<br> -N’um momento chegou: mago atractivo<br> -Que lhe spira dos labios, das pupillas,<br> -Do todo encantador, odios, suspeitas<br> -Desfaz, esquece em animos divinos:<br> -Tam pouco, ó bellas, persuadir-nos, custa!<br> -<br> -Arde voltar ao suspirado asylo;<br> -Mas teme a vejam desconfiados olhos;<span class="pagenum" id="Page_9">[Pg 9]</span><br> -E em tanto Adonis geme, e o seu tormento<br> -Mais que o proprio penar lhe punge n’alma.<br> -Disenhos volve... Alfim um lhe suscita<br> -Novo a mente engenhosa: ei-lo abraçado.<br> -<br> -Jaz muito alem do tormentorio cabo,<br> -(Sempiterno brasão da Lusa gloria)<br> -Em não sabido mar, jamais sulcado,<br> -Ilha aprazivel, deliciosa, e breve.<br> -A mão dos homens destruidora, e barbara,<br> -Mimos da creação não lhe estragára.<br> -A seu grado crescia o bosque, a selva;<br> -Vecejava sem leis o prado ameno;<br> -D’alvas pedrinhas pelo leito amigo<br> -Se espreguiçava o crystalino arroio,<br> -Sem temer que impia dextra ouse perversa,<br> -No brando curso interromper-lhe as aguas.<br> -Prêsas não gemem fugitivas Nayas,<br> -Nem Dryades gentis feridas choram:<br> -Sem arte a natureza era inda a mesma.<br> -No mais escuro do copado bosque<br> -Ternas suspiram maviosas rôlas;<br> -E em mais alegres sons, prazer mais ledo,<br> -A meiga ave d’amor no arrulho exprime.<br> -Outro vivente algum a aura fagueira<span class="pagenum" id="Page_10">[Pg 10]</span><br> -Não ousa respirar. Silencio eterno<br> -Impera na soidão, dobra-lhe encantos.<br> -<br> -Tam suave mansão nem mesmo os numes<br> -No ceo conhecem. Da ternura a deusa,<br> -Só Venus sabe do recanto ameno.<br> -Tu, do universo creador principio,<br> -Venus! oh mãe d’amor, oh mãe de tudo!<br> -Que amor é tudo, que só tu com elle,<br> -Ambos creastes e regeis o mundo,<br> -Que a natureza sois, ou ella é vossa:<br> -Cypria, Cypria gentil, pódes acaso<br> -Ignorar uma só das obras tuas?<br> -<br> -«Mãe, (lhe diz, entre alegre e malicioso,<br> -Mas compassivo, o filho), «nessa ignota<br> -«Ilha do Indico mar...»—Um doce bejo<br> -O concelho pagou.—Subito parte.<br> -Lá chega; e nova se difunde a vida<br> -Na solitaria estancia; em novos germes<br> -O deleite, o prazer renascem, pulam.<br> -<br> -Quam doces d’antemão gosou delicias<br> -A mui fagueira deusa! O sitio ameno<br> -Extasiada contempla. «Oh! quam ditosos<span class="pagenum" id="Page_11">[Pg 11]</span><br> -(Clamou) «seremos! Ignorado, occulto,<br> -Ó doce amante, viverás sem medo.<br> -Aqui, no seio da ventura e gôso,<br> -Nos meus braços...» Parou suspensa, e geme:<br> -Cruel lembrança lhe assomou na mente;<br> -Agros deveres, perfidas suspeitas,<br> -Quantas vezes do amante hão de aparta-la!<br> -Suspira: as rosas do prazer se esvaem<br> -Das lindas faces niveas. Pensativa,<br> -Melancolica, e triste... (Eis fausto agouro!)<br> -Estremecido arrulho alvas pombinhas<br> -Deram á sestra mão. Ah! sim: é elle:<br> -Amor, apoz a mãe, veio ajuda-la.<br> -<br> -«Filho (co’a voz lhe diz, que impera em Jove,<br> -Que tam suave rege a natureza),<br> -«Tu me feriste; não accuso o golpe:<br> -Amo, adoro esse ferro, que me punge,<br> -Que na chaga, que abriu, doçura entorna;<br> -Só quero, só te peço (que não peja<br> -De implorar-te soccorro a mãe ferida)<br> -Derradeira mercê: oh! deixa um pouco<br> -D’humanos corações facil conquista:<br> -Cesse qualquer amor quando ama Venus.<br> -A culta Europa rapido discorre,<span class="pagenum" id="Page_12">[Pg 12]</span><br> -E a progenie d’Apollo, almos, divinos,<br> -Os pintores me traze aqui n’um ponto.<br> -<br> -Pasmou c’o rôgo inesperado o numen:<br> -A causa inquire. «Ah! não: (lhe torna a deusa)<br> -Não cumpre ainda revelar-t’a, ó filho;<br> -Cubra o véo do mysterio o doce intento.»<br> -<br> -Mal disse: e o raio mais veloz não rue<br> -Da rubra dextra do Tonante irado,<br> -Do que a tuba dos candidos amores<br> -Á voz da deusa fende os ares liquidos.<br> -Quaes voam de Minerva ao sabio clima,<br> -Hoje torpe, e servil c’o bruto imperio:<br> -Quaes á augusta senhora do universo;<br> -Senhora, emquanto Roma era inda Roma:<br> -Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco:<br> -Á formosa Bolonha, á gran Veneza;<br> -Grande emquanto reinou sobre o Oceano:<br> -Quaes á suberba Gallia, á Iberia, a Lysia;<br> -Que de Lysia tambem, tam cara ás musas,<br> -Da poesia a rival, a irman tem filhos.<br> -<br> -De toda a parte a obedecer contentes<br> -Correm ao mando de Cyprina bella,<span class="pagenum" id="Page_13">[Pg 13]</span><br> -Da natura em despeito, homens creadores,<br> -Prometheus, que á materia informe e bruta<br> -C’o divino pincel dão fórma, e vida;<br> -Erguem da campa gerações extinctas;<br> -Plantam copados, que enfloream, bosques;<br> -Co’a viva historia os homens eternisam;<br> -E, fitando no ceo audazes vistas,<br> -Aos pasmados sentidos apresentam<br> -Visivel, sem rebuço a divindade.<br> -<br> -Da fertil em prodigios, d’alta Grecia<br> -O pae d’arte divina, Apelles marcha,<br> -Thimante, Zeuxis, e Parrhasio, e quantos<br> -A culta Grecia, a deliciosa Roma<br> -Famosos produziu em sec’los d’ouro.<br> -Cimabúe famoso apoz caminha,<br> -Que as esfriadas cinzas animando<br> -Do engenho, do talento, o faxo vívido<br> -Fez na Europa brilhar, e abriu de novo<br> -O caminho gentil da natureza<br> -Do barbaro furor fechado, ha muito.<br> -<br> -Aos golpes crebros, incessantes, duros<br> -Da ferrea mão do avaro despotismo,<br> -Sem fôrças, sem vigor jazia, ha muito,<span class="pagenum" id="Page_14">[Pg 14]</span><br> -A misera Bysancio. Em surda guerra<br> -Fallaz superstição d’infames bonzos,<br> -Fanatismo cruel, bifronte, e iniquo,<br> -Hypocrisia vil, perfida e dobre,<br> -Ruina infausta lhe apressava, e morte.<br> -Ávidos sorvos de Roman cubiça,<br> -Da Latina ambição, riquezas, pompa<br> -Roubado haviam insaciaveis, féros<br> -De Constantino á côrte. Espessa nuvem<br> -De negros vicios, de perversos crimes<br> -Pousou medonha sobre os tristes netos<br> -Degenerados, vis d’um povo illustre.<br> -Crestadas, sêcas pelo sôpro ardente<br> -Da tyrannia atroz definham, morrem<br> -Apesinhadas as virtudes candidas;<br> -Ao cûmulo chegou desdita, opprobrio<br> -Dos fados teus, ó Grecia. Eis ante as portas<br> -Da famosa cidade, audaz, suberbo<br> -Musulmano feroz, Mahomet se ostenta.<br> -Monstros, que o sangue do mesquinho povo<br> -Impios bebestes, ah! tremei, que é elle:<br> -Austero açoite das celestes iras<br> -Sobre vós descarrega a mão divina.<br> -Bonzos, no centro aos claustros profanados<br> -Embalde a frente d’horridas maldades<span class="pagenum" id="Page_15">[Pg 15]</span><br> -Carregada escondeis: lá vai, lá chega;<br> -Sobre as aras d’um deus, a um deus, que ousastes,<br> -Incençando-o, offender, lá vos immola.<br> -<br> -Artes, sciencias, a guarida extrema,<br> -Perdeste’-a em fim: voltai, fugí; que Hesperia<br> -Os carinhosos braços vos estende.<br> -Ei-las: oh! folga, venturosa Europa.<br> -Lá cai a pouco e pouco em terra o throno<br> -Da barbara ignorancia: as trevas do êrro<br> -Vai accossando da verdade o faxo.<br> -<br> -Arte divina, magica pintura,<br> -Foragida tambem, thesouros, mimos<br> -Vens espalhar na mui ditosa Italia.<br> -Italia! oh! folga: Raphaeis ja pulam.<br> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_16">[Pg 16]</span></p> -<p class="center p2">FIM DO CANTO PRIMEIRO</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_17">[Pg 17]</span></p> -<h3 class="nobreak" id="CANTO_SEGUNDO">CANTO SEGUNDO</h3> -</div> - - -<p class="poetry"> -Mas eis, distinctos esquadrões formando,<br> -As escholas assomam; reina entre ellas<br> -Vivaz emulação, que gera os sabios:<br> -Vão-lhe na frente os affamados chefes,<br> -Que a patria honraram c’o pincel divino.<br> -<br> -No bello antigo modelando as graças,<br> -Que em mais sabio pincel, mais bellas surgem,<br> -A frente airosa sobre erguendo ás outras,<br> -Vem tribu excelsa dos Romãos pintores.<br> -Deram-lhe o grau supremo ardua sciencia<br> -Das attitudes, d’expressão, verdade,<br> -De audaz composição, nobre elegancia,<br> -O correcto desenho, e puro, e grave,<br> -E quanto inspira Apollo ás almas grandes,<br> -Em extasi sublime altas ideias.<span class="pagenum" id="Page_18">[Pg 18]</span><br> -É filho seu (que mais sobeja glória!)<br> -Raphael, o divino, o mestre, o numen<br> -Da moderna pintura, eterno brilho,<br> -Que os Apelles offusca, e Roma, e Grecia;<br> -Que, as barreiras transpondo á natureza,<br> -Olhou de face a face a divindade,<br> -E as glórias do Thabôr fez ver ao Tybre,<br> -E aos d’arte amantes desejar com Pedro<br> -Junto ao prodigio habitação ditosa.<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a><br> -<br> -Julio o mestre imitou, foi digno d’elle:<br> -Forte, ardida expressão lhe anima os traços,<br> -Que ás proficuas lições dão glória e lustre.<br> -<br> -Em cêrca aos muros da gentil Parthénope,<br> -Onde aprimora a natureza os mimos,<br> -E a voz do creador soou mais bella,<br> -Onde, entre montes de sulphureas cinzas,<br> -Umas sobre outras, as cidades jazem,<br> -E a rôdo os d’atro fogo horridos rios<br> -A poeticas ficções dão ser terrivel;<br> -Alli, silencio eterno ergueu severo<br> -Religiosa mansão; firmou-lhe as bases<span class="pagenum" id="Page_19">[Pg 19]</span><br> -Austera, descarnada penitencia.<br> -Sobre as azas do ingenho, á voz d’um numen,<br> -Vigoroso, expressivo Spanholeto,<br> -Lá foste, e a assomos do pincel terrivel<br> -Em longas vestes surgem, pulam, vivem<br> -Fatidicos anciãos; ás portas velam<br> -Da estancia outr’ora silenciosa, e sancta.<br> -E quando atroz, hypocrita veneno,<br> -Lavrando a furto sob o sacco, e cinza,<br> -Os muros profanou, que ergueu virtude,<br> -Inda no mesto panno afflictos suam;<br> -E a gloria do pintor fulge entre o crime.<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a><br> -<br> -Fostes, como elle, heroes da arte divina,<br> -Polidoro gentil, vivaz Fattore,<br> -Saliente Caravaggio, que exprimiste,<br> -Senão bella, fiel a natureza.<br> -<br> -Nobre, altivo Cortona, quanto vivem<br> -Scenas famosas da nascente Roma!<br> -Nas mães trementes, pallidas filhinhas,<br> -Ve como a mesma dôr redobra encantos!<span class="pagenum" id="Page_20">[Pg 20]</span><br> -E o fero aspeito dos Quirinos Martes,<br> -Onde a furto da glória amor scintilla!<br> -Ah! proximo o prazer vai dar ao mundo<br> -Prodigios de valor, extremos d’honra,<br> -Prole Romana... Eis o universo em ferros.<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a><br> -<br> -Amavel, terno Sacchi, a ti surriram<br> -Do mago cinto de Erycina as graças;<br> -Meigos, suaves dons te esparzem n’alma,<br> -Que nos quadros gentis reflectem doces.<br> -Belligero Cerquozzi avulta aos olhos<br> -Brandir no panno, lampejar mil ferros,<br> -E aos roucos sons da sanguinosa guerra,<br> -Entre as phalanges baralhadas rôtas,<br> -Entre abysmos d’horror alçar-se a morte.<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a><br> -<br> -Quam magos fulgem divinaes, sublimes,<br> -Maratti encantador, facil Giordano,<br> -Mimoso Dolce, e vós, que á nova Roma<br> -Ingenhos tantos, insondaveis, grandes,<br> -Por guerreiros tropheos, suberbos róstros,<br> -Triumphos cem do ovante Capitolio,<span class="pagenum" id="Page_21">[Pg 21]</span><br> -Dais, se menos viril, menos heroico,<br> -Ornamento gentil, belleza, encantos.<br> -<br> -Ja de acurvados reis não brilha o fasto<br> -Da escravidão contentes; não se antolha<br> -Em cada senador um nume, um Jove.<br> -Ja nas praças, nos templos não campeiam<br> -Os despojos do mundo; o Circo, o Fóro,<br> -Prodigios d’arte, da opulencia, e luxo,<br> -Da barbara ignorancia ás mãos cederam.<br> -Cheio de Livio o viajante absorto<br> -Não ve do Capitolio a frente erguida<br> -Torreada avultar com ferros cento,<br> -Não ve povo d’heroes girar-lhe entôrno;<br> -Da inesp’rada mudança pasma, e geme,<br> -E no centro de Roma a Roma busca.<br> -Porem, se amiga mão lhe guia os passos,<br> -Se o Vaticano e mil prodigios nota,<br> -Que do antigo explendor moderam fama;<br> -Então Roma conhece, então venera<br> -Nobres resquicios de gloriosos évos.<br> -<br> -Taes da moderna Roma os filhos iam<br> -Por travesso menino conduzidos;<br> -E d’altiva belleza ornada a frente,<span class="pagenum" id="Page_22">[Pg 22]</span><br> -A magestosa, Florentina eschola<br> -De perto os segue: no atrevido ensejo<br> -Parece disputar-lhe o grau supremo.<br> -Co’a sublime expressão, desenho ardido,<br> -Gigantesca maneira, audaz, mas bella,<br> -Se antolha ennobrecer a natureza.<br> -Brandas graças d’amor, ternura, encantos<br> -Feroz desdenha; só lhe avulta á mente<br> -O nobre, a pompa da ideal grandeza.<br> -<br> -Não foi sobre o Synai mais formidavel,<br> -Que d’Angelo entre as mãos, Moysés terrivel;<br> -Nem lá no extremo, derradeiro dia<br> -Julgamento final será mais horrido.<br> -C’o deus, que o peito vos perturba, anceia,<br> -Mais pavorosas não rugís, Sibylas.<br> -Da mão nervosa cada traço é raio,<br> -Que espanta os olhos, que deslumbra a mente;<br> -Que enxofrado clarão, medonhas larvas<br> -Em todo o horror do Averno ostenta horrivel;<br> -Que, se um deus pinta, é do castigo o numen,<br> -Que em longa geração pune um só crime,<br> -O deus, que no deserto, entre os relampagos,<br> -Entre o rouco estampido das trombetas,<br> -Pela voz do trovão legisla ao mundo.<span class="pagenum" id="Page_23">[Pg 23]</span><br> -Eis, desdobrando hydraulicos segredos,<br> -E as mechanicas leis com sabia dextra<br> -Movendo a seu sabor, á glória sua,<br> -Vinci tam caro aos reis, de o ser tam digno,<br> -Seu correcto, purissimo desenho,<br> -Engenhoso compor o eleva aos astros,<br> -Aos astros, onde fôra em vôo ardido<br> -Os pinceis escolher, buscar as tintas,<br> -Com que d’ultima ceia debuxára<br> -Amor, transportes, mysteriosas scenas.<br> -Ah! gire o teu prodigio o mundo inteiro;<br> -E de grado a razão cede ao mysterio.<br> -<br> -Côres roubando á natureza, e mimos,<br> -Bello como ella, o inimitavel Porta<br> -Ao gelado silencio de ermo claustro<br> -Chamou das nove irmans o chôro arguto.<br> -Urbino o conheceu; e o sceptro augusto<br> -Curvou ante elle; e, confundindo os raios,<br> -Os dous d’alma pintura astros brilhantes,<br> -Sem negro eclypse, scintillaram juntos.<br> -<br> -Vens, ó Sarto, apoz elle, ameno, e brando;<br> -Vens, Peruzzi gentil, fertil Pantorma,<br> -Que ao nobre assômo do pincel nervoso,<span class="pagenum" id="Page_24">[Pg 24]</span><br> -C’o doce encanto das mimosas tintas<br> -Fizeste a Raphael, a Buonarrotti<br> -D’arte a coroa estremecer na frente.<br> -Sec’los famosos d’Alexandre, e Augusto<br> -Na Italia renovou macio Allori;<br> -E as meigas cores do pincel Lombardo<br> -Quasi Ciogli usurpára ao grão Corregio.<br> -<br> -Ah! veda a musa, e pequenez do ingenho<br> -Seguir-vos todos, divinaes pintores:<br> -Segura a fama vossa alteia a frente,<br> -E o vate ao longe vos contempla os vôos.<br> -<br> -Gentil Bolonha, que na Europa barbara<br> -O faxo das sciencias accendeste,<br> -Que o Gothico stupor tiraste ás artes,<br> -E as cinzas da virtude apesinhadas<br> -Por sanctos crimes de sagrados monstros<br> -C’um Benedicto consolaste em Roma,<br> -Eis vem dignos de ti, teus sabios filhos,<br> -Numerosa familia, antiga e nobre,<br> -Que o mel das graças delibando férvida<br> -Em quantas flores produzíra Apollo,<br> -Nobre desenho modelou no antigo,<br> -Á natura usurpou vivaz belleza,<span class="pagenum" id="Page_25">[Pg 25]</span><br> -E o mago, o puro dos gentis contornos,<br> -A verdade, a expressão, o rico d’ordem,<br> -E o colorido inimitavel, bello,<br> -Que emparelha com a arte a natureza.<br> -<br> -Assim brilhou divino o gran Corregio,<br> -Assim Francia gentil, assim Mantegna,<br> -E Bolognese vigoroso, e forte;<br> -E tu, que o terno amor, e seus encantos,<br> -Simplices graças da natura virgem,<br> -Da innocencia infantil o mimo, os jogos,<br> -As singelas beldades exprimiste<br> -No mavioso pincel, mavioso Albano.<br> -Nem deslembre de Guido a fertil mente,<br> -Talento universal, vago, mas bello...<br> -<br> -C’a expressão de Zampieri ordem, nobreza,<br> -Ve d’Agnese gentil a ardua constancia<br> -Como os p’rigos desdenha, e ve risonha<br> -Ja do ferro do algoz pender-lhe a morte.<br> -Ferino aspeito dos ministros barbaros,<br> -Da augusta religião viril triumpho<br> -Aos engolfados olhos se apresenta,<br> -E, arrebatando o esp’rito a deus, ao vate,<br> -Um prodigio a prodigios amontoa.<span class="pagenum" id="Page_26">[Pg 26]</span><br> -Ve Guerccino tambem, que ora nervoso,<br> -Ora sombrio, e fero, e terno outr’ora,<br> -Mas sempre encantador, em cada rasgo<br> -C’um portento de mais a arte enriquece.<br> -Qual vira a Palestina o pae dos crentes<a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a><br> -De fe, de submissão dar nobre exemplo;<br> -Tal vive no pincel, tal inda avulta<br> -Co’as veneraveis cans, e honrado aspeito.<br> -Misero velho! desgraçado infante!<br> -Que! tu mesmo, infeliz! co’a mão paterna<br> -Hasde cortar-lhe o fio á tenra vida,<br> -Unica esp’rança de cançados annos,<br> -De mui doces promessas? Como... ai triste!<br> -Oh! como voltará sem elle á tenda?<br> -Com que olhos fitará maternos olhos?<br> -Com que voz lhe dirá?... Mas parte: e a dextra<br> -Ja, ja quasi... Suspende: um deus o ordena;<br> -Um deus é pae tambem: suspende o crime:<br> -São leis da natureza as leis divinas;<br> -Em premio da tua fe recebe o filho.<br> -<br> -Ah! se ao nome Lombardo é pouco tanto;<br> -Eis triplice ornamento á patria, ao mundo,<span class="pagenum" id="Page_27">[Pg 27]</span><br> -Doutos Caraccis, que o divino ingenho,<br> -Ou co’a dextra gentil ornando a Italia,<br> -Ou dando á juventude almos preceitos<br> -Da arte formosa, perpetuando-a aos évos,<br> -Nova, estremada lhe augmentáram glória.<br> -</p> - -<div class="footnotes"> -<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> A transfiguração de Raphael.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> Quadros dos prophetas por Spanholeto, na Cartucha -de Napoles.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> O roubo das Sabinas por Cortona.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[4]</a> Pintor de batalhas.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[5]</a> O sacrificio de Isach, quadro famoso de Guerccino.</p> - -</div> -</div> - -<p class="center p2">FIM DO CANTO SEGUNDO</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_28">[Pg 28]</span></p> -<h3 class="nobreak" id="CANTO_TERCEIRO">CANTO TERCEIRO</h3> -</div> - - -<p class="poetry"> -Musa, deixemos a mansão terrestre,<br> -Sobre o infido elemento estende os vôos.<br> -Eis sobre as ondas c’o pincel divino<br> -Maga pintura, legislando ás vagas,<br> -Enfreia as iras de Neptuno indomito.<br> -Ve d’Adria o gôlpho tempestuoso, e fero<br> -Á voz da liberdade agrilhoado.<br> -Surge do seio das domadas aguas<br> -A cidade gentil: pasmou de ve-la,<br> -E corou de vergonha a natureza.<br> -E a mão do creador, ao ver confusos,<br> -Baralhados antigos elementos,<br> -Se ao homem, que os trocou, não dera a vida,<br> -Quasi, quasi um rival temêra nelle.<br> -Alli, fugindo aos clamorosos brados,<span class="pagenum" id="Page_30">[Pg 30]</span><br> -Ao jugo, á servidão da tyrannia,<br> -Homens, poucos, mas homens, começaram<br> -Com ância a defender sacros direitos.<br> -Emporio foi depois do rico Oriente,<br> -E do alado leão tremeu gran tempo<br> -O atrevido colosso Mussulmano.<br> -Hoje (ideias de dor, lembrança amarga!)<br> -Da poppa olhando o navegante ao longe:<br> -«Veneza aquella foi»—exclama, e geme;<br> -E segue a esteira das cortadas ondas.<br> -<br> -Veneza foi: compridas, longas eras<br> -Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios;<br> -E as dadivosas musas lhe outorgaram<br> -Egregios filhos, que o talento, as vidas<br> -Á formosa sciencia consagraram;<br> -Que imitando fieis a natureza,<br> -Olhos seduzem, e deleitam alma,<br> -Que nos toques graciosos, na belleza<br> -Da gentil invenção, doce magia<br> -Do claro-escuro, rico invento d’arte,<br> -Aos mais sabios pinceis não cedem nada.<br> -<br> -Deusa, acode á avidez, que o vate enleia,<br> -Fere nas cordas da estremada lyra<span class="pagenum" id="Page_31">[Pg 31]</span><br> -Dos famosos varões o nome e os dotes:<br> -Dize a Ticiano, dize quaes natura<br> -Lhe entornou dadivosa encantos simples,<br> -Que, ou arte ignoram, ou subtis a escondem;<br> -Ja d’humanas feições transsumpto exacto,<br> -Ja co’as nativas côres exprimindo<br> -No ingenhoso pincel tudo o que existe.<br> -<br> -Adriades gentís, oh! vinde, as frentes<br> -Coroadas de dor, na campa avara<br> -Humido pranto derramar saudoso!<br> -Ai do triste mancebo! o fado iniquo,<br> -Só por chora-lo, o concedêra ao mundo!<br> -Oh! com quanta expressão, nobre altiveza<br> -Castel-franco brilhou, fulgiu mais que homem!<br> -E tam breve lhe deu a sorte a vida!<br> -E no fuso cruel a Parca dura<br> -Um fio tam gentil fiou tam curto!<br> -<br> -Oh! suspendei as lagrimas formosas:<br> -Longa carreira os ceos marcaram próvidos<br> -Aos dous Bellinis, venerandos chefes<br> -Da nomeada eschola; á glória vossa<br> -Vivem padrões eternos; Piombo illustre,<br> -Que a fama ousou balancear d’Urbino;<span class="pagenum" id="Page_32">[Pg 32]</span><br> -Pordenone inventor, de quem Ticiano<br> -Temeu roubadas as divinas côres;<br> -Completo Palma, a quem mostrou natura<br> -Sempre formoso o variado aspeito;<br> -Animado Bassano verdadeiro;<br> -Fertil, e vivo Tintoreto rapido;<br> -E tu, Paulo gentil, delicias, mimo<br> -Dos voluptuosos olhos da donzella;<br> -(Mui grato enlêvo do insoffrido amante)<br> -Qual Verona folgou com seu Catullo,<br> -Tal comtigo: mil graças, mil encantos<br> -Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera<br> -Nua de pompas vans, a natureza:<br> -Seu renome inda vive; e o teu com elle,<br> -Emque lhe péze á inveja, e seus furores,<br> -Hade eterno brilhar. Assim raivosas,<br> -Frustradas gralhas invejosas grasnam<br> -Á ave olympia de Jove; e entanto os vôos<br> -Ella ao sol remontando, as mofa, e burla.<br> -<br> -Porem mais longe da rinhosa Hesperia<br> -Voltemos a attenção: ve como em Flandres,<br> -Scena outr’ora infeliz da glória Franca,<br> -Da Cypria deusa demandando a estancia<br> -Vai turba immensa dos rivaes d’Italia.<span class="pagenum" id="Page_33">[Pg 33]</span><br> -As graças naturaes, singellas, puras<br> -Á porfia a accompanham: não se enfeita<br> -Por suas mãos a simples natureza:<br> -Em loução desalinho bella, e nua<br> -Mimos lhe outorga, que ella só conhece,<br> -Que a vós é dado só, magos pintores,<br> -Com arte ignota do universo ao resto<br> -No pincel exprimir fiel, divino.<br> -Prodigios fallem de Van-Eick famoso,<br> -Do correcto, vivaz, firme Duréro;<br> -Dize-o por todos; se inda alguem no mundo<br> -Ignora tanto, que te ignore os dotes;<br> -Fertil, brilhante, verdadeiro Rubens.<br> -Rubens! Oh nome! Ó filhas de Memoria,<br> -Vós, que no Pindo entre o verdor mimoso<br> -Lhe bafejastes divinal espirito,<br> -Quando, librado sobre as azas d’ouro<br> -De sublime, elevada allegoria,<br> -Viu, pintou... Ah! fez mais: creou, deu vida<br> -A chymericos entes, vãos, mas bellos,<br> -Que o vivo imaginar lhe debuxara.<br> -Quam doce, e meiga a enternecida Venus<br> -Com suspiros, com ais, com ternos bejos<br> -Tenta a furia applacar, retter nos braços<br> -Gradivo impaciente! Olha do monstro<span class="pagenum" id="Page_34">[Pg 34]</span><br> -O torvo gesto, o faxo sanguinoso...<br> -Ella!... a guerra cruel! a horrivel frente<br> -Co’a máscara da glória esconde ao numen,<br> -E o veneno lethal lhe infunde n’alma.<br> -Lá baqueia de Jano o templo augusto;<br> -As artes, as sciencias calca o monstro;<br> -E a d’auradas espigas, rubros pomos<br> -Gentil coroa á agricultura arranca.<br> -Ternura, horror, assolação, belleza<br> -Com portentosa mão juntaste, ó Rubens.<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a><br> -<br> -Quam bello é na expressão Vaén correcto!<br> -Hólbein sublime, vigoroso, nobre!<br> -Van-Rin saliente, harmonioso, e doce!<br> -Quam firme é Wanderwérff singello, e puro!<br> -E tu, mimoso Van-Dernér, que em Gnido<br> -Bebeste as graças, possuiste os risos.<br> -<br> -Ah! ja cançada se me affrouxa a lyra:<br> -Rouca, e sem voz mal associa ás cordas<br> -Difficeis nomes de estremados mestres.<br> -Um por tantos direi; e o nome illustre<br> -Te baste, ó Flandria, a coroar-te a gloria:<span class="pagenum" id="Page_35">[Pg 35]</span><br> -O bello, o simples, verdadeiro, e grande,<br> -Do mestre a obra maior, Vandick insigne.<br> -<br> -Mas, qual ruido, que tumulto, ó musas,<br> -Do Pindo a sacra paz impio disturba?<br> -Quanto vivem!... Que heroes da patria raios!<br> -Armas! guerra! o furor! o sangue! a morte!<br> -Destrôço! horror! assolações! ruinas!<br> -Eis dos Alpes franqueado o gêlo eterno;<br> -Nada resiste: c’o rugido extremo<br> -Baqueia exangue de Pyrene a fera.<br> -Co’a Europeia ruina Africa nuta,<br> -Asia treme; e nas praias de Colombo<br> -A fugitiva liberdade apporta.<br> -A longes terras se accolheu Minerva,<br> -Sem rumo as artes desgrenhadas fogem,<br> -A Roma de Catão, d’Augusto a Roma<br> -Não é de Pio a effeminada côrte;<br> -E em vez d’um Fabio tardador, d’um Quincio,<br> -D’um Bruto, um Manlio; prostituta prole<br> -No deshonrado Capitolio avulta.<br> -<br> -Quem, bellezas d’Italia, hade amparar-vos?<br> -Quem!... Animos cobrai; volvei sem medo<br> -Artes, sciencias: já no Sena ovante<span class="pagenum" id="Page_36">[Pg 36]</span><br> -O proprio vencedor no seio amigo<br> -Vos accolhe, e accarinha, e no alto alcaçar<br> -Augusto solio perenal vos ergue.<br> -No Sena ovante (oh do porvir assombro!)<br> -Em quanto os filhos seus, terror do mundo,<br> -Raios desferem, que o universo atterram;<br> -Renasce mais gentil, vive mais fúlgido<br> -O sec’lo de Luiz; succede á velha,<br> -Á pedante Sorbona, almo Instituto.<br> -Eis novos Raphaeis, arte divina!<br> -<br> -Não lamentes Poussin, Gallia ditosa,<br> -De Mignard, e Blanchard divinas côres,<br> -De Lebrun a expressão, fieis costumes,<br> -Paizagens de Lorrain, maga ternura<br> -Do voluptuoso, encantador Santerre,<br> -Grandioso stylo do vivaz Subleyras:<br> -Teus modernos heroes excedem tudo;<br> -E ao seio da opulencia amamentados,<br> -Á voz da glória redobrando exforços,<br> -Talvez irão com denodado arrôjo<br> -Do solio d’arte derribar a Italia.<br> -<br> -Se, entre barbaras mãos gemendo outr’ora,<br> -Devêste a Belisario a vida, ó Roma;<span class="pagenum" id="Page_37">[Pg 37]</span><br> -Se das furias crueis d’horrida guerra<br> -O juramento te isentou d’Horacios;<br> -Se quanto foste em gloriosas quadras<br> -A um necessario roubo, á paz, que o segue,<br> -Ao ferro audaz de Romulo devêste;<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a><br> -Treme d’elles agora, treme, ó Roma;<br> -Que no heroico pincel David illustre<br> -As cinzas lhe animou; marcham por elle<br> -Tua fama a conquistar, roubar teus louros:<br> -De Urbino, e Buonarrotti o throno prostram;<br> -Eis campeia David!—Não longe d’elle<br> -O terno Girodet, suave, e brando,<br> -Que, do Meschacebeu vingando as margens,<br> -C’o vate insigne emparelhou nos vôos,<br> -E na pasmada Europa ergueu d’Americo<br> -As pomposas florestas, e a nobreza,<br> -Ornamento feroz d’um mundo virgem:<br> -Que os encantos d’amor, e os seus furores,<br> -O podêr da virtude, e os seus exforços<br> -Dignos d’elle exprimiu, e fez de novo<br> -Olhos sensiveis afogar em pranto.<br> -<br> -Eis á voz de Gérard das campas rompem<span class="pagenum" id="Page_38">[Pg 38]</span><br> -Extinctas gerações: Saturno as azas<br> -Indignado encolheu, e a prêsa antiga<br> -Viu roubar-lh’a o pincel, quebrar-lhe os éllos<br> -Da impreterivel, perenal cadeia.<br> -</p> -<hr class="tb"><p class="poetry"> -Ruge fremente o mar, bramindo, e ronca<br> -Nas oucas rocas, nas quebradas fragas<br> -Do tormentorio mar... Lá se ergue ingente,<br> -E immenso troa o colossal gigante.<br> -Treme d’entôrno o mar, e a terra, e o mundo;<br> -E a voz, que os polos com fragor desloca,<br> -Pela primeira vez á gente Lusa<br> -Pallida imprime a sensação do medo.<br> -Só impavido, um só, Vasco lhe arrosta:<br> -Pasma a ousadia d’um mortal a um nume.<br> -</p> -<hr class="tb"><p class="poetry"> -Oh lagrimas d’Ignez, sangue innocente,<br> -Correi, correi do milagroso panno;<br> -E em lagrimas de sangue o applauso eterno<br> -Aos vates recebei, aos vates ambos.<br> -Oh Gérard! oh Camões! qual mão divina<br> -Vos uniu, vos juntou? Oh! folga, ó patria!<span class="pagenum" id="Page_39">[Pg 39]</span><br> -E tu, Sousa immortal, grata homenagem<br> -Recebe eterna da mui grata Elysia.<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a><br> -<br> -Ve nas mãos de Guérin qual geme e anceia<br> -Pincel, que hervou na dor, que embebe em pranto,<br> -Que incestos, crimes (de Trezena horrores)<br> -C’o Euripides Francez disputa ainda.<br> -Quem de pavor, de compaixão não gela<br> -Ao ver nas murchas, esmyrradas faces<br> -Da bella ainda, miseranda Phedra<br> -Surgir do panno, que as conter mal póde,<br> -D’um criminoso amor, violencia, e fogo?<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a><br> -<br> -Guerreira a mente de Vernet fulmina<br> -Os raios de Mavorte, o horror das armas;<br> -E sobre os quadros de Le-Gros famoso<br> -Os manes folgam de Rollin, Voltaire.<br> -<br> -Mas tanta glória inda não basta, ó Francos,<br> -Para o completo, universal triumpho:<br> -Que no Ibero pincel inda refulge<br> -O nome de Ribera, o de Murillo,<span class="pagenum" id="Page_40">[Pg 40]</span><br> -E duvida d’Albion mosqueada fera,<br> -Vaidosa d’West, conceder-te a palma;<br> -Inda lhes guardam justiçosas musas<br> -No bifido Parnaso um grau distincto.<br> -<br> -Assim quando no ceu, callada a noute,<br> -Candida brilha sup’rior Diana,<br> -Se com menos fulgor, astros com tudo,<br> -Gentis avultam nitidas estrellas.<br> -</p> - -<div class="footnotes"> -<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[6]</a> Quadro allegorico da guerra por R.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[7]</a> Quadros celebres de David.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[8]</a> Celebres pinturas de Gérard na edição dos Lusiadas -pelo Sr. José Maria de Sousa.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[9]</a> Pinturas de Guérin tiradas de Racine.</p> - -</div> -</div> - -<p class="center p2">FIM DO CANTO TERCEIRO</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_41">[Pg 41]</span></p> -<h3 class="nobreak" id="CANTO_QUARTO">CANTO QUARTO</h3> -</div> - - -<p class="poetry"> -Eia! colhamos as cançadas vélas,<br> -Musa: o filhinho da amorosa Venus<br> -Ja pelos ares liquidos se entranha,<br> -E ledo corre co’as donosas tribus<br> -Dos illustres rivaes da natureza.<br> -Da Europa toda ja voaram férvidos<br> -Da voz ennamorada ao som fagueiro,<br> -Só Lysia falta... A minha Lysia, ó Venus!<br> -A patria dos heroes, a mãe dos vates,<br> -A patria de Camões, do teu Filinto!<br> -Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes<br> -Sempre em teu nome resoou na lyra!<br> -Onde a teu culto, mais que em Roma, ou Grecia,<br> -Em cada coração se eleva um templo!<br> -Lysia, de Venus esqueceram filhos!<span class="pagenum" id="Page_42">[Pg 42]</span><br> -Ah! volve os olhos immortaes, divinos,<br> -Aos seculos remotos; ve no Tejo<br> -Como entre as sombras da ignorancia Gothica<br> -Brilham nas trevas Lusitanas tintas;<br> -Ve do gran Manoel na épocha d’ouro<br> -Sobre as bellas irmans como se eleva<br> -A divinal pintura; ve mais perto,<br> -Em quanto geme c’o ferrenho jugo<br> -A flor, a augusta das nações princeza,<br> -Erguer das ruinas sobranceira a frente;<br> -E alfim nas quadras que marcara o fado<br> -Ao brio Lusitano extremo exforço;<br> -Calcando a juba de Leões gryfanhos,<br> -Parando ás Aguias remontados voos,<br> -Como á porfia sobre o Tejo e Douro<br> -Apelles mil e mil revivem, fulgem;<br> -Brilha o Luso pincel... Ah! se aura amiga<br> -Continúa a soprar... Não; ferrea pésa<br> -A mão do despotismo, opprime, esmaga,<br> -Destroe renovos das mimosas artes.<br> -<br> -Mas qual ouço confuso borborinho!<br> -E sois vós! Ah! perdoa, alma Erycina:<br> -O teu povo fiel tu bem conheces;<br> -Nem chama-lo cumpria: é-lhe sagrada,<span class="pagenum" id="Page_43">[Pg 43]</span><br> -Inviolavel lei um teu desejo.<br> -Ei-lo corre: que luz, que ethereo brilho<br> -De louro e rosas lhe engrinalda as frentes!<br> -<br> -Olha entre a nevoa de allongados évos,<br> -De atroz barbaridade embrutecidos,<br> -Como Alvaro rebrilha, um Nuno, um Annes,<br> -E do energico Vasco a fertil mente;<br> -E Duarte, e Gomes tam famosos ambos,<br> -Tam caros ao gran rei, Manoel ditoso.<br> -Ve do illustre Resende a mão facunda,<br> -Trocando a penna, que mandara aos évos<br> -Os feitos dignos de perenne historia,<br> -Pelo arguto pincel; o sabio Carlos,<br> -Que ao divino Correggio usurpa as cores;<br> -Dias, que á patria transportara ovante<br> -O mel, e as graças dos famosos mestres;<br> -Harmonioso Christovão, claro Sanches,<br> -Que os monarchas d’Europa inteira vira<br> -D’honras, de bens, accumulá-lo anciosos.<br> -<br> -Eis sobre as azas de elevado arrojo<br> -Vinga altivo Campello o cume erguido<br> -Dos montes de Judá. La surge, e avulta<br> -No mysterioso panno um deus, um homem.<span class="pagenum" id="Page_44">[Pg 44]</span><br> -Pasmou a natureza ao ver confusos<br> -No seio maternal o pae e o filho.<br> -Mago pintor lhe renovou prodigios;<br> -E aos tormentos d’um deus tremeu de novo<br> -A longa serie dos criados mundos.<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a><br> -Sensiveis corações, vinde espelhar-vos<br> -Nos ternos quadros, que sagrou virtude;<br> -Vinde á sombra do vate, ao seio augusto<br> -Da sancta religião, da mãe caroavel<br> -De humanas afflições verter o pranto:<br> -Vinde; e entre a dor vos surgirão prazeres,<br> -Prazeres do Christão, doçuras d’alma.<br> -Quanta glória Fernando ao sabio mestre,<br> -Quantos louros grangeou! Lopes sublime<br> -Juntou d’Urbino aos expressivos rasgos<br> -A ardideza gentil d’Angelo altivo.<br> -Vasques douto, e regrado os traços mede<br> -No exacto petipé da natureza.<br> -E tu, Leonor, d’entre a nobreza e fasto,<br> -Origens sempre de brutal inercia,<br> -Soubeste ás artes levantar o espirito.<br> -<br> -Qual do Luso pincel nos fastos vive.<span class="pagenum" id="Page_45">[Pg 45]</span><br> -Hollanda creador! Deusas do Pindo,<br> -Eis novo esmêro vosso, invento novo!<br> -Vastos arcanos da pintura se abrem,<br> -Accumulam-se a rodo almos tesouros;<br> -Graças lhe admira o árbitro da Europa,<br> -E na boca dos reis louvores fulgem.<br> -Hollanda venturoso! Ah! de tuas ditas<br> -Taes as menores são: mais déste ás musas,<br> -Mais a ti, ao teu nome, á patria, ao mundo<br> -No filho, o grande filho, a glória nossa,<br> -Mimo ao patrio pincel do numen louro.<br> -<br> -Cedendo á voz d’um deus, que o chama a nome,<br> -O Cicero Africano erros abjura;<br> -Sancto prelado o omnipotente invoca,<br> -E d’agua exulta candido Agustinho.<br> -Portento d’expressão, viva faisca<br> -Do lume eterno, que lhe ardeu na mente.<br> -Vate!... Ah! não vate: um anjo, um deus te guia,<br> -Move o arguto pincel na sabia dextra.<br> -Do Olympo eis surge a magestade, a pompa;<br> -Olha d’Ambrosio o venerando aspeito,<br> -Os olhos, onde em goso alma trasborda,<br> -D’Agustinho a humildade, e o gesto vívido,<br> -Onde a força transluz d’activa mente,<span class="pagenum" id="Page_46">[Pg 46]</span><br> -Da eloquencia viríl, saber profundo.<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a><br> -<br> -Pereira natural, severo e forte<br> -O terrivel pincel por entre ruinas,<br> -Entre chammas e horror meneia ardido.<br> -De novo a cinzas reduzida Troia<br> -Por elle foi; por elle Pyrro ingente<br> -C’o faxo assolador vagou por Illion.<br> -Antolha ouvir-se em pavidos lamentos<br> -O confuso ulular da mãe, que espira,<br> -E no extremo bocejo aperta os filhos,<br> -Do pae tremente, que a rugosa face<br> -Entre o seio da filha esconde, e geme,<br> -E quizera morrer no doce amplexo.<br> -O crepitar das estridentes chammas,<br> -O baquear dos templos, dos palacios,<br> -E quantas vozes de terror, d’espanto,<br> -Quantas scenas d’horror cantaram vates<br> -Nas Gregas cordas, Mantuana lyra.<a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a><br> -<br> -Elementos, cedei-lhe ao mago encanto<br> -Das vozes do pincel! Stridentes rompem<span class="pagenum" id="Page_47">[Pg 47]</span><br> -Com ruidoso estampido as cataratas;<br> -Confunde a natureza a essencia, os termos,<br> -Na face do universo impera a morte,<br> -Mysterioso baixel ao longe avulta;<br> -E de novo o castigo formidavel<br> -Os olhos da razão cega d’espanto.<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a><br> -<br> -Olha como apoz elle vem seguindo<br> -Valle expressivo, delicado e grande,<br> -Nobre Gonçalves, entendido e ornado,<br> -Rebello audaz, o Buonarrotti Luso,<br> -E as do patrio pincel divinas Saphos,<br> -Ayalla, e Guadalupe, e Ritte, e Browne,<br> -E Luiza gentil, que os sabios tempos<br> -Ao Porto renovou da Grega Aspasia.<br> -<br> -Fastoso monumento d’alta Iberia,<br> -Voragem, golphão, que absorveste os rios<br> -Do precioso metal, que a ti correram<br> -Do Chily, e Potozi, das Indias duas,<br> -Soberbo Escurial, onde se aninham,<br> -Sob apparente sacco o vicio, o crime,<br> -Tu de Claudio por mim celebra o nome,<span class="pagenum" id="Page_48">[Pg 48]</span><br> -Do Camões da pintura, a quem deveste<br> -De teus ornatos o maior, mais bello.<br> -<br> -Nem sorva o Lethes de confuso olvido<br> -Victorino engraçado, André mimoso,<br> -Verdadeiro Apparicio, simples Barros,<br> -Vivaz Alexandrino, destro Senna,<br> -Barreto original, brando Oliveira,<br> -E tu, Rocha correcto, ameno e vívido,<br> -Que obscuras scenas da marinha Pathmos,<br> -E o confuso vêdor nos exprimiste.<br> -Olhos em alvo, mysteriosos seguem<br> -Prophetico furor, que o volve e agita.<br> -Na dextra a penna mal segura fórma<br> -Nunca entendidas, enredadas notas.<a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a><br> -<br> -Terra fertil d’heroes, solo fecundo,<br> -Salve! Eis novo clarão, eis novos louros<br> -Sobre a frente gentil pululam, vivem!<br> -Eis do patrio esplendor eterna gloria,<br> -Raios de Lysia, que a remotas praias,<br> -Do magico pincel nas azas d’Iris<br> -Levaram em triumpho o Tejo e Douro,<span class="pagenum" id="Page_49">[Pg 49]</span><br> -Dous Vieiras! Não ousa a minha lyra<br> -Dotes brilhantes numerar nas cordas:<br> -Assaz por meu silencio o dizem, cantam<br> -Lysia, Hesperia, Britania, Europa, o mundo.<br> -<br> -Dest’arte á voz da meiga Cytherea,<br> -D’amor guiados, sobre as azas do éstro,<br> -Rapidos voam num momento, e chegam:<br> -Pasmam de vêr a face á natureza,<br> -Tam bella e simples qual na infancia ao mundo;<br> -Os bosques entram: no matiz do prado<br> -Vão com delicia apascentando os olhos.<br> -<br> -Eis outeiro gentil se eleva á dextra;<br> -Sobre elle... Assombro quem já viu, que iguale<br> -Dos illustres varões subito assombro?<br> -Amor, o mesmo amor parou de espanto,<br> -De maravilha subita cortado.<br> -Sobre altas se ergue Doricas columnas<br> -De fino jaspe cupula suberba.<br> -Brilha c’o azul do ceo linda saphira<br> -Nos capiteis, nas bases. Das cornijas<br> -Scintilla em fogo do carbunculo a chamma.<br> -Mimos, riquezas de pomposo fausto,<span class="pagenum" id="Page_50">[Pg 50]</span><br> -Quantas com larga mão semeou profusas<br> -Nas entranhas da terra a natureza,<br> -Na vastidão dos mares; tudo aos olhos<br> -Extasiados se ostenta. Riu do encanto,<br> -E a causa do prodigio amor conhece:<br> -Entra; e apoz elle os estremados chefes.<br> -<br> -Languidamente o braço repousado<br> -Nos hombros niveos do formoso Adonis,<br> -Ei-la ao encontro a deusa da ternura<br> -Lhes sai, e assim lhes falla: «Ésta, que vêdes,<br> -Consagrada ao prazer, mansão ditosa,<br> -Ergueu á minha voz a natureza.<br> -De per si se puliu, lavrou-se o marmor,<br> -E se entalharam gemmas. N’um instante<br> -Meu doce intento completado houvera,<br> -Se o que vós só podeis, dar-lhe eu pudera.<br> -Frio, e sem vida não me falla ao peito,<br> -Não falla ao coração todo esse esmêro.<br> -Oh! cortai-lhe a mudez, dai-lhe existencia,<br> -E c’o mago pincel tornai-o á vida.»<br> -<br> -Disse: e a divina voz do ouvido aos peitos<br> -Chammas d’estro, e de ingenho accende aos vates;<br> -E em breve espaço divinaes assomos<span class="pagenum" id="Page_51">[Pg 51]</span><br> -D’aqui, d’alli se apinham. Clio alteia<br> -Com portentosa mão contados feitos;<br> -Alem da natureza o vôo erguido<br> -Alça a maga, gentil Alegoria;<br> -Desalinhada, rustica beldade,<br> -Singella, e pura a Paizagem doce<br> -Sem mysterio, sem véo candida ostenta.<br> -<br> -Ja vida é tudo; satisfeita a deusa<br> -Vai alfim completar os seus intentos;<br> -E c’um meigo surrir, c’um doce agrado,<br> -Que vale tanto, que enamora tudo,<br> -Assim lhes falla a carinhosa Venus:<br> -«Vinde, ó filhos; que um nome tam suave<br> -Vossos dotes merecem; vinde: e a empresa,<br> -Que na mente revolvo, effeituai-me.<br> -Não mando, peço... (Ah! d’uma bella o rogo<br> -Quanto mais vale, que uma lei d’um nume!)<br> -Retratai-me, ó pintores.» Nisto a deusa<br> -O mimoso sendal, ja pouco avaro<br> -Do thesouro, despiu. Quantas bellezas,<br> -Que divinos encantos não descobrem,<br> -Não pesquizam, não vem avidos olhos!<br> -Sonhos da phantasia, ah! não sois nada!<br> -Guindado imaginar, ideal belleza,<span class="pagenum" id="Page_52">[Pg 52]</span><br> -É frouxo o vôo, limitado o arrôjo;<br> -Não tenteis franquear mysterios tantos.<br> -<br> -Cai das mãos o pincel, sem que o percebam,<br> -Aos pintores na vista embevecidos;<br> -No Olympo os deuses, ignorando a causa,<br> -De insolito prazer sentem banhar-se.<br> -A natureza inteira revolveu-se;<br> -Sonhada Pythagorica harmonia<br> -Nas espheras soôu mais branda e doce.<br> -Aos entes todos pelas veias lavra<br> -O incentivo do gosto: gemem ternas,<br> -Que ha pouco uivaram, pelo bosque as feras;<br> -Arrulharam d’amor meigas pombinhas;<br> -Correu á esposa o nadador salgado;<br> -E nos olhos da amante leu ditoso<br> -O constante amador perdão á culpa;<br> -Á doce culpa tam querida e bella!<br> -<br> -Ah! muitas vezes não descubras, Venus,<br> -Magos encantos; ou verás que em breve<br> -Á força de prazer se extingue o mundo.<br> -<br> -Ja do extasi accordada um pouco a turba<br> -Dos vates se prepara ao doce emprego.<span class="pagenum" id="Page_53">[Pg 53]</span><br> -<br> -Tintas fornece amor, pinceis as graças;<br> -E eis no panno avultando a pouco e pouco<br> -Assomos divinaes!... É ella... é Venus!<br> -Eis a fórma gentil do corpo airoso<br> -Salta, deslisa o fundo apavonado;<br> -Roseos descurvam, se arredondam braços;<br> -Ondeiam n’alva frente as tranças d’ebano;<br> -Doce brilham d’amor os olhos meigos,<br> -Os meigos olhos, que prazer scintillam,<br> -Que o facho accendem dos desejos soffregos,<br> -E contra o debil resistir do pejo<br> -Do atrevido mancebo a audacia imploram.<br> -Nas lindas faces purpureia a rosa,<br> -Que insensivel esvai na côr de neve;<br> -Surri nos labios o delirio, o encanto,<br> -Que importuna razão tam doce affasta,<br> -Que ávidos bejos, deliciosos, ternos,<br> -Annuncios de prazer, mutuam fervidos.<br> -Despontam no alvo, crystallino collo<br> -Os arcanos d’amor, que anceiam d’elle,<br> -Que a furto ousaste, mui ditoso Anchises,<br> -Nas trevas do prazer palpar ardido;<br> -Formosos pomos, que ao pastor Idalio<br> -Pelo tam cubiçado outr’ora déste...<br> -Déste; que bem o sei: (não te envergonhes)<span class="pagenum" id="Page_54">[Pg 54]</span><br> -Era pobre o pastor, e os seus thesouros<br> -Juno lhe franqueou, seus mimos Pallas:<br> -Sem troca tam gentil tu não vencêras.<br> -<br> -Mas quanto voa nas mui sabias dextras<br> -O divino pincel! Que eburneas fórmas<br> -Voluptuosas surgir das tintas vejo!<br> -Que exactas, lindas proporções esbeltas!<br> -Que norma tam gentil as regra, as mede!<br> -<br> -Ja, por milagre de Cyprina, é prompta<br> -N’um momento a grande obra. Ei-los de novo<br> -Á vista do retrato absortos, raptos,<br> -E, novos Pygmaliões, por elle anceiam.<br> -<br> -De transportada a deusa ao doce amante<br> -Nas mãos a entrega; e: «Esta (lhe diz) conserva<br> -Copia fiel da tua amada Venus.<br> -Com ella, ausente, ó caro, te consola,<br> -Quando longe de ti me retiverem<br> -Crueis deveres, perfidas suspeitas.»<span class="pagenum" id="Page_55">[Pg 55]</span><br> -Admira o joven a belleza, as graças<br> -Do mimoso traslado; beja, e rega<br> -Com lagrimas d’amor qual um, qual outra.<br> -<br> -Co’elle, em quanto viveu, sempre abraçado<br> -As poucas horas, que ficava ausente,<br> -Mitigava a saudade: e quando a morte<br> -O mancebo infeliz roubou sem pejo,<br> -No templo a deusa o collocou de Paphos,<br> -E longas eras recebeu d’amantes<br> -Ternas off’rendas, amorosos votos.<br> -<br> -Alli, quando natura se empenhára<br> -Em dar-te ao mundo, carinhosa Annalia,<br> -Um e um copiou meigos encantos,<br> -Que, ó minha Venus, te compõe, te adornam.<br> -Alli, olhos no quadro, os teus formosos<br> -Estremada rasgou; alli as faces<br> -De neve, e rosas coloriu divinas;<br> -Alli risonha boca, onde contino<br> -Foi aninhar-se amor, te abriu mimosa;<br> -Alli o collo d’alabastro puro;<br> -Os lacteos pomos, que devoram bejos<span class="pagenum" id="Page_56">[Pg 56]</span><br> -Do faminto amador; lisas columnas,<br> -Que sustentam avaras mil segredos;<br> -Segredos, que... Perdoa: eis-me calado.<br> -<br> -Volve a meus versos, compassiva amante,<br> -Benignos olhos: para ti voando,<br> -Da critica mordaz censuras fogem:<br> -Se accolheres o rude offertamento,<br> -Serão meus versos, como tu, divinos.<br> -</p> - -<p class="center p2">FIM DO ULTIMO CANTO</p> - -<div class="footnotes"> -<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[10]</a> Quadros da paixão de Ch. por Campello.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[11]</a> Quadro do baptismo de S. Agustinho.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[12]</a> Quadro da destruição de Troia.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[13]</a> Quadro do diluvio.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[14]</a> Quadro de S. João, escrevendo o Apocalypse.</p> - -</div></div> -<p><span class="pagenum" id="Page_57">[Pg 57]</span></p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_58">[Pg 58]</span></p> -<h3 class="nobreak" id="NOTAS">NOTAS</h3> - -<p><span class="pagenum" id="Page_59">[Pg 59]</span></p> -<h4 class="nobreak" id="Notas_ao_canto_primeiro">Notas ao canto primeiro</h4> -</div> - -<hr class="r5"> -<p class="poetry"> -«<i>Alma origem do ser, germe da vida.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -..... Per te quoniam genus omne animantum<br> -Concipitur, visitque exortum lumina solis;<br> -......................................<br> -....... tibi suaves dedala tellus<br> -Summittit flores.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Lucret.</span> <i>de rer. nat.</i> Lib. I.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Que na ellipse invariavel rotam fixos.</i>»<br> -</p> - -<p class="poetry">Todos sabem, que tal é a orbita, que todos os planetas -descrevem.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Qual és, qual foste, qual te appura os mimos<br> -A arte engenhosa.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Artes repertæ sunt, docente natura.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Cic.</span> <i>de leg.</i> Lib. I, 8.</p> -</div> - -<p><span class="pagenum" id="Page_60">[Pg 60]</span></p> - -<p class="poetry"> -«<i>Como é dado aos mortaes bellezas tuas.</i>»<br> -</p> - -<p>Platão, fallando da musica, diz: (<i>De republ.</i>) que -se não deve conceituar pelo prazer, nem preferir -a que não tem outro objecto, senão o prazer; mas -a que em si contiver a similhança da <i>bella natureza</i>. -Esta sentença é perfeitamente applicavel á -pintura. E tal é d’ha muito a opinião de todos os -rhetoricos e philologos. (Vid. Aristot., Le Batteux, -Laharpe, Lemercier, etc.) Não nos enganemos porém -com esta—<i>natureza bella</i>.—Nem só aquillo -que tem <i>bellas</i> e lindas fórmas, é <i>bello</i>; e nem -tudo aquillo, que as tem, o é. Boileau o declara -manifestamente, e o prova:</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -Il n’est point de serpent, ni de monstre odieux,<br> -Qui, par l’art imité, ne puisse plaire aux yeux.<br> -D’un pinceau délicat l’artifice agréable<br> -Du plus affreux objet fait un objet aimable.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Boileau</span>: <i>Art. Poet.</i> Chant 3.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>A mestra, a sabia antiguidade o diga.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -Quid virtus, et quid sapientia possint<br> -Utile proposuit nobis exemplar.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Horat</span>. <i>Ep.</i> II, L. I.</p> -</div> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -......... Fabularum cur sit inventum genus,<br> -Brevi docebo. Servitus obnoxia... etc.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Phoedr</span>. Lib. III, prolog.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Não: fabula gentil, volve a meus versos.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -......... Et, s’il est vrai, que la fable autrefois<br> -Sut á tes fiers accents mêler sa douce voix;<span class="pagenum" id="Page_61">[Pg 61]</span><br> -Si sa main délicate orna ta tête altière;<br> -Si son ombre embellit les traits de ta lumière,<br> -Avec moi sur tes pas permets-lui de marcher.<br> -Pour orner tes attraits, et non pour les cacher.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Voltaire</span>: <i>Henr.</i> Chant I.</p> -</div> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -Cosia egro fanciul porgiamo aspersi<br> -Di soave licor gl’orli del vaso, etc.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Tasso</span>: <i>Gerusalem</i> Canto I, stanz. 3.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>....... O Cyprio moço, o Teucro.</i>»<br> -</p> - -<p>Adonis, filho de Cyniras, rei do Chypre (<i>Cyprum</i>) -Anchises, Troiano etc.</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Achises conjugio Veneris dignate superbo.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Virg.</span> <i>A En.</i> Lib. 2.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Em quanto nas lidadas officinas.M</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -Retumbam nas <i>lidadas officinas</i><br> -Echos gostosos das nascentes almas,<br> -Que novos corpos a habitar caminham.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Filint. Elys.</span> <i>Ode a Venus</i> (Tom. 5).</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>C’o estremecido arrulho a dona imitam.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -Presentem ja no <i>estremecido arrulho</i><br> -Os propinquos prazeres.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Filint. Elys</span>. ibid.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Porque mesquinhas leis nos vedam barbaras<br> -Tam suave pecar......</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -Si il peccar è si dolce,<br> -E’l non peccar si necessario; ò troppo<br> -Imperfetta natura,<br> -Che repugni ala legge!<span class="pagenum" id="Page_62">[Pg 62]</span><br> -O troppo dura legge,<br> -Che la natura offendi!<br> -</p><p class="center"> -<span class="smcap">Guarini</span>: <i>past fld.</i></p></div> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -Se este crime é tam doce,<br> -Se tanto fugir delle é necessario;<br> -Imperfeita parece a natureza,<br> -Que fraca á lei repugna,<br> -Ou lei muito severa,<br> -Que a natureza offende.<br> -</p><p class="center"> -<i>Traducç. de</i> <span class="smcap">Thom. Joaq. Gonzaga.</span></p></div> - -<p class="poetry"> -«<i>E do amado na dor, sua dor recresce.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -Che l’esempio del dolore<br> -È un stimolo maggiore,<br> -Che richiama a sospirar.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Metastaz</span>: <i>Artass.</i> atto I.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Dos antigos errores esquecido.</i>»<br> -</p> - -<p>Errores é usado por Camões no sentido de—<i>longas, -e desvairadas viagens</i>—; Ferreira porem, e -outros classicos de igual nota o tomaram na mesma -accepção, em que aqui se toma.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Com o amante fugir, morrer com elle?</i>»<br> -</p> - -<p>Uma deusa não póde morrer: me diz ja algum -critico, muito contente do quinau. Assim é, Sr. -critico; mas no delirio das paixões quem se lembra -da sua natureza?—Uma deusa com paixões!—Os -deuses da mythologia, os numes dos Gregos, -e Romanos não são o mesmo que o deus do -philosopho (digno de tal nome) que, satisfeito de<span class="pagenum" id="Page_63">[Pg 63]</span> -reconhecer a existencia d’um ente supremo, pára, -onde se lhe acabam as forças, nem prosegue em -investigações, onde se lhe apaga a luz da fraca -razão; nem empresta á desconhecida causa das -causas os habitos, as paixões, a fórma, e toda a -natureza da fragil e apoucada humanidade. O orgulho -de se occultar a si proprio a sua fraqueza, -e de abaixar até á sua mesquinhez a idea de deus, -por não poder subir até á altura d’ella, nasce da -nossa vaidade, da nossa ignorancia e da nossa -miseria. Por isso os theologos desbocadamente -nos pintam, e nos querem fazer crer em um deus -vingativo, irado, e capaz em fim de todos os crimes -e vicios, que elles em sua alma alimentam e -nos querem vender por virtudes.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>..... Comsigo ao carro o sobe.</i>»<br> -</p> - -<p>Subir é um verbo neutro; mas é este um idiotismo -bem notavel da nossa lingua, usar de taes verbos -com força activa, como o fazem os nossos -classicos a cada passo.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Que lhe spira dos labios, das pupillas.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -Aquelle não sei que,<br> -Que <i>spira</i> não sei como,<br> -Que invisivel sahindo, a vista o vê.<br> -</p><p class="center"> -<span class="smcap">Camões</span>: <i>Ode 6</i>.</p></div> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -<i>Spirem</i> suaves cheiros<br> -De que se encha este ar todo.<br> -</p><p class="center"> -<span class="smcap">Ferr.</span> <i>Castr.</i> act.</p></div> - -<p><span class="pagenum" id="Page_64">[Pg 64]</span></p> - -<p class="poetry"> -«<i>Arde voltar ao suspirado asylo.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -... Jamdudum errumpere nubem<br> -<i>Ardebant</i>.<br> -</p><p class="center"> -<span class="smcap">Virgil</span>. <i>AEneid.</i> L. I. v. 580.</p></div> - -<p class="poetry"> -«<i>Disenhos volve...........</i>»<br> -</p> - -<p>Esta palavra mui portugueza e antiga (embora de -origem estrangeira) não é gallicismo; exprime -bem o—<i>dessein</i>—francez, e tem por si a auctoridade -d’um escriptor bem notavel e bem antigo, -qual é Damião de Goes. (v. Chron. de D. Man. -part. I, cap. 4, e <i>passim</i>).</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Que tam suave rege a natureza.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -......... Omnis natura animantium<br> -Te sequitur cupide.<br> -</p><p class="center"> -<span class="smcap">Lucret</span>. Lib. I. v. 15.</p></div> - -<p class="poetry"> -«<i>Mal disse; e o raio mais veloz não rue.</i>»<br> -</p> - -<p>Este verbo muito adoptado por Filinto Elysio, e -pelo erudito traductor da lyrica de Horacio, Antonio -Ribeiro dos Santos; e cujos compostos, e -derivados ja tinhamos (<i>correr</i>, <i>decorrer</i> etc.) tem -todas as qualidades necessarias para a sua naturalisação.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Da rubra dextra do Tonante irado.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -........ <i>Et rubente</i><br> -Dextra sacras jaculatus arces<br> -Terruit urbem.<br> -</p><p class="center"> -<span class="smcap">Horat</span>. <i>Od</i>. 2, Lib. I.</p></div> - -<p><span class="pagenum" id="Page_65">[Pg 65]</span></p> - -<p class="poetry"> -«<i>Á voz da deusa fende os ares liquidos.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">......... Per liquidum aethera:</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Virg.</span> <i>AEn.</i> Lib. I.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco.</i>»<br> -</p> - -<p>Florença na Toscana, ou antiga Etruria, dita <i>mysteriosa</i> -em razão dos seus áugures.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Á formosa Bolonha...</i>»<br> -</p> - -<p>De Bolonha conta Ganganeli (ou antes Carracioli) -nas suas cartas, que um Portuguez, encantado de -sua belleza, exclamara: «Não se devia mostrar -senão ao domingo.»</p> - -<p class="poetry"> -«<i>E fitando no ceo audazes vistas.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Coelum ipsum petimus stultitia</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Horat.</span> Lib. II, Od.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Aos golpes crebros, incessantes, duros.</i>»<br> -</p> - -<p>O imperio Grego acabou em 1448 pela morte do -ultimo Constantino, e entrada de Mahomet II em -Constantinopola, a cujos muros se limitava, ha -muito, o vasto imperio Grego e Romano. Os horrores -desta tomada de Cp., a immensidade de familias -que fugiram para a Italia, e principalmente -para Veneza, Genova e Florença, o adiantamento,<span class="pagenum" id="Page_66">[Pg 66]</span> -que este successo causou ás sciencias e artes do -occidente; são cousas sabidas de todo o mundo. -(Vid. Anquétil: Précis de l’hist. univers. tom. 4, -pag. 249, etc. e Chateaubriand: Génie du Christ. -part. 3, liv. I).</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_67">[Pg 67]</span></p> -<h4 class="nobreak" id="Notas_ao_canto_segundo">Notas ao canto segundo</h4> -</div> - -<hr class="r5"> -<p class="poetry"> -«<i>Vão-lhe na frente os affamados chefes.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Aquelles sam sós homens que se affamam.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Ferreir.</span> <i>Cart.</i> 6, Liv. I.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>No bello antigo modelando as graças.</i>»<br> -</p> - -<p>O verbo <i>modelar</i> está geralmente adoptado mas -que não seja antigo. Assim como de <i>molde</i> se fez, -e deduziu <i>moldar</i>; de <i>modelo</i> se póde derivar <i>modelar</i>.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Vem tribu excelsa de Romãos pintores.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Gregos, <i>Romãos</i>, e toda a outra gente.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Ferreir.</span> <i>Cart. 3</i>, Liv. I.</p> -</div> - -<p><span class="pagenum" id="Page_68">[Pg 68]</span></p> - -<p class="poetry"> -«<i>E quanto inspira Apollo:......</i>»<br> -</p> - -<p>O fito que neste poema levei, foi simplesmente -celebrar os louvores da pintura, e de seus principaes -mestres. Sou apaixonado amador desta sublime -poesia; contento-me de admirar; mas nunca -dei a menor lapizada. A leitura, a observação -curiosa, e exacta do pouco, que tenho visto, me -deram os limitados conhecimentos, que em tam -comprida materia possuo. Ideias vastas, ainda -mesmo na historia só da pintura, apenas poderão -ser o fructo de longos estudos, que a minha -pouca idade, e mais sérias, mas que ennojosas -occupações prohibem. Declaro pois que, se êrro -encontrarem os professores, mui grata e grande -mercê me farão de me avisar; e conhecerão pela -minha docilidade na emenda a pouca presumpção -do auctor.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>E aos d’arte amantes desejar com Pedro<br> -Junto ao prodigio....</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Faciamus hic tria tabernacula.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Matth.</span> <i>Evang.</i></p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Em cêrca aos muros da gentil Parthénope.</i>»<br> -</p> - -<p>Napoles, assim ditta antigamente de Parthénope, -uma das sereias, que se enchêram de desesperação -por não poder vencer Ulysses com o seu canto. -Junto ao tumulo desta simideusa ou nympha se<span class="pagenum" id="Page_69">[Pg 69]</span> -edificou uma cidade, que della tomou nome. Destruida -ésta, se tornou em seu mesmo logar a edificar -outra nova, dita Napoles (<i>Neapolis</i>—Νεαπὸλις—cidade -nova) nome que inda hoje conserva.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Umas sobre outras as cidades jazem.</i>»<br> -</p> - -<p>Pelos fins do seculo passado se descubriram nas -visinhanças do Vesuvio as antigas cidades de Herculano -e Pompeia. A cidade de Portici está quasi -situada sobre a antiga Pompeia, que, assim como -o Herculano, fôra submergida em uma explosão -do Vesuvio.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>E a rôdo os d’atro fogo horridos rios.</i>»<br> -</p> - -<p>Nas grandes irrupções do Vesuvio corre do alto -da montanha um, como rio, de fogo, que dá uma -imagem das fingidas torrentes do sonhado Averno.—Virgilio, -que de certo dos volcões de Napoles -houve a idea do seu <i>Phlegetonte</i>, situou por -aquelles logares os seus—<i>Plutonia regna</i>.—(Vid. -Stael na <i>Corin</i>.)</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Inda no mesto panno afflictos súam.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">....... Sudant in marmore mœsto.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Sili</span>. <i>Ial.</i> Lib. I.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Saliente Caravaggio, que exprimiste.</i>»<br> -</p> - -<p><i>Saliente</i>; porque as figuras de seus quadros tem -um ar de relêvo, que engana. É necessaria metonymia,<span class="pagenum" id="Page_70">[Pg 70]</span> -de que uso muitas vezes para caracterizar -os pintores, segundo suas mais distinctas qualidades.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Ja de accurvados reis não brilha o fasto.</i>»<br> -</p> - -<p>O simples nome de Roma basta para fazer nascer -uma infinidade de ideias grandes e de magestade. -Todos os pensamentos sublimes, que a imaginação -póde crear, todas as sérias reflexões, que póde -suscitar a razão, todas as memorias augustas, -que a virtude e a humanidade podem fazer nascer, -occorrem e borbulham associadamente na -alma do homem pensador com a simples ideia de -Roma. O exfôrço dos Horacios, a castidade das -Lucrecias, a integridade dos Brutos e Catões, o -patriotismo dos Fabios e Scevolas, a magnanimidade -e valor dos Scipiões, a eloquencia dos Ciceros, -o saber dos Plinios, a liberalidade dos Augustos, -a grandeza dos Trajannos, a humanidade -dos Titos, tudo se recorda com a memoria illustre -da cidade por excellencia.</p> - -<p>Imagine-se um homem cheio de toda a magnificencia -destas ideias, possuido de respeito e veneração, -ao entrar em Roma.—Ruinas, sepulcros, -templos derrocados, estradas solitarias, ruas desertas... -são os miseraveis objectos, que lhe ferem -os olhos, mui de longe preparados para admirar -a senhora do universo. De espaço a espaço<span class="pagenum" id="Page_71">[Pg 71]</span> -descobre (é verdade) um templo magnifico, um -grande palacio; mas breve se desvanece este vislumbre -de grandeza, e subito se esvai a nascente -esperança de encontrar a Roma de Augusto. Estes -palacios, estes templos, que se elevam do -meio das choupanas (habitação da indigencia e -da fome) carregados d’ornatos, de sobejo embellezados, -serão acaso aquelles esmeros de architetura -grande e magestosa, suberba e varonil dos -edificios Latinos? Poderá algum d’elles similhar-se -ao <i>Fóro</i>, ao <i>Palacio</i>, ao <i>Amphitheatro</i>? Descubrir-se-ha -n’alguma d’estas modernas praças o menor -vestigio dos <i>Rostros</i>? O Capitolio, o terrivel, -o venerando Capitolio, onde se julgava dos destinos -das nações, onde os reis curvavam os sceptros, -e depunham os diademas; d’onde sahiam os -irrevogaveis e tremendos decretos, que dispunham -da sorte dos povos, e legislavam ao universo, -que é feito d’elle?—O solicito viajante ainda -o descobre; o seu <i>cicerone</i> (guia) ainda lhe -mostra o logar d’elle.—E será este?—Differente -estrada conduz ao cimo do monte; o palacio -do <i>senador</i>, alguns restos de quebradas estatuas, -de desfigurados relevos são todas as riquezas, todos -os tropheos, todos os despojos, que ornam o -antigo alcaçar do mundo.</p> - -<p>Confuso, humilhado, o viajante não se atreve ja -a encarar nenhum edificio.—«Os habitantes ao -menos (diz elle) talvez conservem alguma cousa -ainda de Romanos. Tantas virtudes, tanta grandeza<span class="pagenum" id="Page_72">[Pg 72]</span> -não podiam extinguir-se de todo.»—Um -bando de miseraveis, uma plebe indigente, vil e -sem costumes, são os successores do povo rei; -uma côrte effeminada, e entregue aos deleites do -ocio occupa o logar dos Brutos e Catões; declamadores -sem gôsto, com affectadas e guindadas -phrases (que ou não entendem ou não crem) fazem -retenir aquelle mesmo ar, que ouviu os eloquentes -e numerosos sons de Cicero e Marco Antonio; -assucarados trovadores infectam com os -seus—<i>concetti</i>—a degradada lyra de Virgilio e -Horacio; os Scipiões, os Emilios, os grandes generaes, -as invenciveis tropas da triumphante republica -são substituidas por um bando de assoldados -Suissos, cujas grandes proesas e valor, cujos -guerreiros exforços são o fazer a guarda do -papa. Em vez do augusto e venerando senado, -um ajuntamento d’homens ambiciosos, insaciaveis -d’ouro, regem despoticamente; não os direitos das -nações, e deveres dos reis e povos pelas invariaveis -leis da justiça, como os antigos <i>conscriptos</i>; -mas o corpo invalido da igreja por elles arruinada -e depravada, levando simplesmente o fito em pescar -para a barca do humilde S. Pedro as riquezas -das nações com o sagrado anzol das indulgencias, -reliquias e breves.—«Roma! oh Roma! (exclamará -o contristado viajante) tu ja não existes; a -tua liberdade expirou em Catão, e tu com ella! A -liberdade te conservava as virtudes, que, mais -que tuas façanhas, te constituiram no imperio do<span class="pagenum" id="Page_73">[Pg 73]</span> -orbe. Perdeste-a; e desde então caminhaste sempre -com gigantescos passos ao abysmo de miseria -e vileza, em que jazes sepultada para eterno -exemplo do universo.</p> - -<p>E com effeito, tal é a sorte de quasi todas as -nações! Florecem, reinam em quanto a liberdade, -ou a larva della subsiste; apenas se eleva a -tyrannia, cai de rôjo com a liberdade o amor das -virtudes; a servidão embrutece o homem; a sociedade -se muda em um rebanho de escravos; e -a miseria succede á opulencia. Assim cahiu Roma, -assim Sparta, assim Hollanda, assim tantas -outras. Que exemplos para os tyrannos, e que terrivel -escarmento para os povos! Miseraveis despotas, -embreve estendereis o sceptro de ferro sobre -montões de ruinas. Os Vandalos, os Godos, -os Arabes não se acabaram ainda; e vós os chamais -com tanta ancia!<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a></p> -<p><span class="pagenum" id="Page_75">[Pg 75]</span></p> -<div class="footnotes"> -<h5>NOTAS DE RODAPÉ:</h5> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[15]</a> É facil de vêr que esta nota foi escripta antes do dia 24 -d’Agosto. Felizmente ja se podem tratar estes assumptos com -menos atrabilis.</p> -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_74">[Pg 74]</span></p> -<h4 class="nobreak" id="Notas_ao_canto_terceiro">Notas ao canto terceiro</h4> -</div> - -<hr class="r5"> -<p class="poetry"> -«<i>Enfrea as iras de Neptuno indomito.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Imperio premit, et vinclis, et carcere frœnat.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Virg.</span> <i>AEn.</i> Lib. I, v. 54.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Ve d’Adria o golpho tempestuoso e fero.</i>»<br> -</p> - -<p>É o golpho de Veneza, antigamente chamado de -Adria, ou Adriatico, d’uma cidade d’este nome.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Alli, fugindo aos clamorosos brados.</i>»<br> -</p> - -<p>No meio do seculo V, foram destruidas por Attila, -rei dos Hunos, as cidades de Aquilea, Altino, Concordia, -Opitergo e Padua, todas visinhas ao golpho, -então chamado Adriatico. Os habitantes destas -cidades, fugindo ao furor irresistivel, e cruel<span class="pagenum" id="Page_76">[Pg 76]</span> -ferocidade dos barbaros, se foram refugiar nas pequenas -e desertas ilhotas do mar Adriatico, e fundaram -assim o começo de Veneza. (Vid. <i>Anquétil, -Millot, e la Istoria de Vinegia per ***</i>)</p> - - -<p class="poetry"> -«<i>Emporio foi depois do rico oriente.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry"><i>Antes que ha India fosse descuberta pelos Portuguezes, -ha mayor parte da especiaria, droga, e pedraria -se vazava pelo mar roxo, donde ya ter á cidade -Dalexandria, e dalli ha compravão hos Venezianos, -que a espalhaavão pela Europa.</i></p> - -<p class="center"><span class="smcap">Castanheda</span> Lib. I, cap. 1.</p> -</div> - - -<p class="poetry"> -«<i>E do alado Leão tremeu gran tempo.</i>»<br> -</p> - -<p>Um leão com azas era o timbre, ou armas da republica, -ou senhoria de Veneza.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>E segue a esteira das cortadas ondas.</i>»<br> -</p> - -<p><i>Esteira</i>, ou <i>esteiro</i>, que assim, e indifferentemente -escrevem e usam os nossos classicos, é aquelle -sulco, que os navios vão fazendo e deixando depoz -si nas aguas, e que bom espaço se conserva -depois. Maior é talvez o numero das pessoas que -sabem a simplicissima razão physica deste natural -phenomeno, do que o das que o nome portuguez -lhe conhecem.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios.</i>»<br> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_77">[Pg 77]</span></p> - - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">.......... All’ Adria in seno -Un popolo d’eroi s’aduna......</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Matest</span>. <i>Ezio</i>: atto I.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Adriades gentis, oh! vinde as frentes.</i>»<br> -</p> - -<p>Assim como de <i>Tagus</i> Latino fez Camões <i>Tagides</i>; -e outros do Douro—<i>Durius</i>—<i>Duriades</i> etc.; -quem me impede a mim, que de <i>Adria</i>, faça <i>Adriades</i>?</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Qual Verona folgou com seu Catullo.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">.......... Gaudet Verona Catullo, -Pelignae dicar gloria gentis ego.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Ovid.</span> <i>Trist.</i></p> -</div> - -<p class="poetry"> -«......... <i>Mil graças, mil encantos<br> -Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera.</i>»<br> -</p> - -<p>Assim como Catullo, Paulo Veronese é notado de -pouco honesto. Todos sabem a lascivia e voluptuosidade -dos versos do primeiro: os quadros do segundo -tem uma poesia d’este genero bem mais -expressiva.</p> - - -<p class="poetry"> -«<i>Em que lhe peze á inveja, e seus furores.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -Eu, que apezar da inveja, e seus furores<br> -Aos astros levo o nome Lusitano.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Elpin.</span> <i>Nonaer.</i> Od. a Vasc. da Gam.</p> -</div> - -<p><i>Em que lhe peze</i>, e <i>em que lhe pez</i> são phrases dos -melhores classicos: mil exemplos, por um, pudera<span class="pagenum" id="Page_78">[Pg 78]</span> -appresentar; mas citarei o que tenho aqui mais -á mão, que é o P. Vieira (<i>Vozes saudosas: voz histor.</i>)</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Scena outr’ora infeliz da gloria Franca.</i>»<br> -</p> - -<p>As provincias Flamengas foram um dos principaes -theatros das ambiciosas guerras de Luiz XIV com -a Hollanda. (Vid. <span class="smcap">Voltaire</span> <i>Siécl. de Louis XIV</i>).</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Lhe bafejastes divinal espirito.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Quasi divino quodam spiritu inflari.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Cicer.</span> <i>pro Arch.</i> §. 8.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>E o veneno lethal lhe infunde n’alma.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -Sic effata, facem juveni conjecit, et atro<br> -Lumine fumantis fixit sub pectore tædas.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Virg.</span> <i>AEn.</i> Liv. VIII, v. 56, e seg.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Quam bello é na expressão Vaén correcto.</i>»<br> -</p> - -<p>Porventura não serão os verdadeiros accentos da -pronúncia nacional, os que ponho aqui neste e nos -outros nomes dos pintores flamengos: puz-lhe os -necessarios para o rythmo, que é a minha obrigação; -dos outros não sei, pois que ignoro a tal lingua; -no que, segundo creio, não perderei nada.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Difficeis nomes d’estremados mestres.</i>»<br> -</p> - -<p>E bem difficeis, com effeito, para accomodar ao<span class="pagenum" id="Page_79">[Pg 79]</span> -verso com os seus—<i>kk</i>—<i>rr</i>—etc.: não são daquelles, -de que Horacio diz:</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Verba loquor socianda chordis.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Horat.</span> Lib. II, Od.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Do mestre a obra maior, Wandik insigne.</i>»<br> -</p> - -<p>Voltaire diz algures, fallando de Tasso, que, se é -verdade o que vulgarmente se diz, que os Lusiadas, -e seu auctor formaram a Gerusalem do primeiro, -fôra esta a melhor obra de Camões. Não -estou <i>absolutamente</i> por este <i>espirituoso</i> dito de -Voltaire; mas com justiça o appliquei a Rubens, -e Wandick.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>E em vez d’um Fabio tardador</i>......»<br> -</p> - -<p>Assim traduziu Filinto Elys. o <i>Fabius cuntactor</i> -dos Latinos. (Vid. <span class="smcap">Filint.</span> <i>Ode á Liberdade</i>).</p> - -<p class="poetry"> -«......... <i>Ja no Sena ovante</i>.»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -Sobre a margem feliz do rio <i>ovante</i>,<br> -Donde arrancando omnipotencia aos fados<br> -Impoz tropel d’heroes silencio ao globo.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Bocag.</span> <i>Od. a Filint.</i></p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Que do Meschacebeu vingando as margens.</i>»<br> -</p> - -<p>Este é o verdadeiro nome do célebre rio da Luisiana, -na America Septentrional, chamado vulgarmente<span class="pagenum" id="Page_80">[Pg 80]</span> -<i>Mississipi.</i> (Vid. <span class="smcap">Chateaubriand</span>: <i>Génie du -Christ.</i> Part. III, Liv. 5).</p> - -<p class="poetry"> -«<i>C’o Euripides Francez disputa ainda.</i>»<br> -</p> - -<p>Racine bem se póde assim chamar, não somente -por suas absolutas e eminentes qualidades; mas -pela relativa, e mui particular da similhança dos -ingenhos, e feliz imitação de Racine. (Vid. <span class="smcap">Laharpe</span>: -<i>Cours de Littér.</i>; <span class="smcap">Lemercier</span>: <i>ibid.</i>; e o <span class="smcap">P. -Brumoy</span> no <i>Theatr. dos Gregos</i>).</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Ao ver nas murchas, esmyrradas faces.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">J’ai langui, j’ai séché dans les feux, dans les larmes.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Racin.</span> <i>Phoedr.</i> Act. II.</p> - -<p class="poetry">Desfalleci, murchei no ardor, no pranto.</p> - -<p class="center"><i>Trad. ms. do Sr. H. E.</i></p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>D’um criminoso amor violencia e fogo.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Quand je suis toute en feu, vous n’êtes que de glace.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Phoedr.</span> Act. II.</p> -</div> - -<p class="poetry"> -«<i>Os manes folgam de Rollin, Voltaire.</i>»<br> -</p> - -<p>Le-Gros é pintor historico; e Rollin e Voltaire foram -historiógraphos francezes.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_81">[Pg 81]</span></p> -<h4 class="nobreak" id="Notas_ao_canto_quarto">Notas ao canto quarto</h4> -</div> -<hr class="r5"> - -<p class="poetry"> -«<i>Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes.</i>»<br> -</p> - -<p>Outros quaesquer poetas, e de mais nomeada porventura, -pudéra eu citar; mas quiz, quanto em -mim era, e o permittia o assumpto e a obra, prestar -homenagem a dous ingenhos, que honraram a -patria e a lingua; e dos quaes o primeiro depois -d’uma fama gigantesca, e maior que seu merecimento, -passou a ser enxovalhado por quanto Mevio -e Bavio sabe dizer—<i>Traduziu, traduziu, traduziu -tudo</i>—como se um traductor como Bocage -não fosse um poeta de muito merecimento, e de -muito maior, que tantos originalistas de nome (de -nome sim; que realmente deus sabe o que é); como -se Pope, Dryden, Annibal Caro, João Franco -Barreto, e tantos outros illustres traductores não -figurassem mais na republica litteraria que tantos<span class="pagenum" id="Page_82">[Pg 82]</span> -<i>epicos modernos</i>... Eu não sou dos apaixonados -do privilegio exclusivo, que ha certo tempo obtiveram -entre nós as traducções. Uma nação que -assim obra por espirito de priguiça, ou menos-preço -de si propria, em vez de enriquecer sua litteratura, -empobrece-a e perde-a. De J. B. Gomes e -da sua Castro tanto mal como bem se tem dito. -Não a dou por uma tragedia perfeitamente regular, -não a comparo ás grandes peças de Racine e -Alfieri; mas sei que tem muitas bellezas, e que -n’um theatro tam pobre, como o nosso, é digna -de muita e muita estimação. Para criticar a Castro -de Gomes é preciso enchugar muitas vezes as -lagrimas, que ella excita continuamente.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Calcando a juba dos Leões gryphanhos,<br> -Parando ás Aguias etc.</i>»<br> -</p> - -<p>Revoluções de 1640 e 1808.</p> - -<p class="poetry"> -«........<i>Ah! se aura amiga<br> -Continúa a soprar</i>......»<br> -</p> - -<p>Em Roma, assim como na Grecia, se formariam -Zeuxis e Apelles, se os Romanos dessem a Fabio -as honras, que seus talentos mereciam. Diz Cicero -algures nas Questões Tusculanas.</p> - -<p class="poetry"> -«<i>Inviolavel lei um teu desejo.</i>»<br> -</p> - -<p>Nação nenhuma (diz Florian no <i>avant propos de -Sancho</i>) possue a arte d’amar, como a portugueza.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_83">[Pg 83]</span></p> - - -<p class="poetry"> -«<i>Os feitos dignos de perenne historia.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -........as cousas...........<br> -Que merecerem ter eterna historia.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Camões</span>. <i>Lus.</i> Cant. 7.</p> -</div> - - -<p class="poetry"> -«<i>Sensiveis corações, vinde espelhar-vos</i>» etc.<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Vidi sæpius inscriptionis imaginem, et sine lacrymis transire -non potui.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">S. Gregor.</span> II. <i>Concil. Nicen.</i> act. 40.</p> -</div> - - -<p class="poetry"> -«<i>Prazeres do christão, doçuras d’Alma.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Le nouveau testament change le génie de la peinture. Sans -lui rien ôter de sa sublimité, il lui a donné plus de tendresse.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Chateaubriand</span>. <i>Gen. du Chr.</i> part. III, Liv. I, cap. 4.</p> -</div> - - -<p class="poetry"> -«<i>Portento d’expressão, viva faisca<br> -Do lume eterno...</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Les peintres... famille sublime que le souffle de l’esprit ravit -au dessus de l’homme.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Chateaubriand</span>, ibid.</p> -</div> - - -<p class="poetry"> -«<i>Fastoso monumento d’alta Iberia.</i>»<br> -</p> - -<p>Resta ainda resolver o grande problema: <i>Se a descuberta -da America foi util ou prejudicial á Europa</i>; -o qual, emquanto a mim, depende d’outro -mais generico: <i>Se as conquistas, principalmente -longinquas, podem ser uteis a uma nação</i>. Não me<span class="pagenum" id="Page_84">[Pg 84]</span> -atrevo a resolver nem um nem outro. As theorias -falham quasi sempre em politica, bem como em -moral. So noto imparcialmente, que a Hespanha -foi poderosissima nação antes do XVI seculo; que -Portugal, se nos tempos de D. Manoel e João III -floreceu, e deu brado na Europa e no mundo; depois -não fez mais que luctar contra innumeraveis -desgraças: que não tivemos mais um João II; e -que as conquistas d’Asia e Egypto deram por terra -com o imperio Romano.—Provêm isto das descubertas -em si?—Provêm do uso que d’ellas se -fez?—Continúa a minha ignorancia.—Os monarchas -hespanhoes fundiram no Escurial, e n’outras -cousas d’esta ordem, as immensas riquezas das -Indias occidentaes, ganhas á custa de tantos crimes, -barbaridades, irreligião, fanatismo e sacrilegios -de Cortêz e de mil outros. Diminuiu no continente -hespanhol a população; não se fez o menor -caso da agricultura; o commercio não foi senão -passivo; e, depois d’um breve esplendor, a -suberba Hespanha cahiu na miseria d’uma nação -pobre e falta de tudo, a pezar de toda a sua prata.—E -que diremos de nós?—O mesmo, com -alguma differença para peior. Todo o homem, que -pensa, sabe o que eu poderia dizer neste artigo; -como para estes só escrevo, elles me entendem; -e eu, com o meu silencio, me poupo ás criticas da -ignorancia e da sordida adulação. (<i>É bem facil de -ver que ésta nota foi igualmente escripta antes do -dia 24 d’Agosto</i>).</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_85">[Pg 85]</span></p> - -<p class="poetry"> -«<i>Terra fertil d’heroes, solo fecundo,<br> -Salve!........</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Salve magna parens frugum... tellus, -Magna virum.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Virg.</span> <i>Georg.</i></p> -</div> - - -<p class="poetry"> -«<i>O mimoso sendal, ja pouco avaro.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">O véo dos roxos lirios pouco <i>avaro</i>.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Camões</span> <i>Lus.</i> Cant. 9.</p> - -<p class="poetry">Diripui tunicam, nec multum rara nocebat.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Ovid.</span> <i>Eleg.</i> Lib. I, Eleg. 5.</p> -</div> - - -<p class="poetry"> -«<i>Que divinos encantos não descobrem</i>» etc.<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">E tuto ciò, che piú la vista alletti.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Tasso</span> <i>Gerusal.</i> Canto XV, st. 59.</p> -</div> - - -<p class="poetry"> -«<i>Sonhada, pythagorica harmonia.</i>»<br> -</p> - -<p>A harmonia das spheras é um dos sonhos de Pythagoras. -Póde-se ver a satyra galantissima destas -e outras philosophicas extravagancias no celebre -poema allemão—<i>Musarion</i>—de Wielland: -Canto II.</p> - - -<p class="poetry"> -«<i>Arrulharam d’amor meigas pombinhas.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -Presentem ja no estremecido <i>arrulho</i><br> -Os propinquos prazeres.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Filint.</span> <i>Elys.</i> Ode a Venus. (Tom. 5).</p> -</div> - -<p><span class="pagenum" id="Page_86">[Pg 86]</span></p> - -<p class="poetry"> -«<i>Roseos descurvam, se aredondam braços.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry" xml:lang="grc" lang="grc">Ν’μος δ’ ὴῥιγυἑια φάυη ροδ οδ άϰλυλος ὴὠτ.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Homer</span>, <i>Odyssea</i> B. (Lib. II.)</p> -</div> - - -<p class="poetry"> -«<i>Ondeiam n’alva frente as tranças d’evano.</i>»<br> -</p> - -<p>Os cabellos e olhos pretos eram os mais estimados -dos Romanos—<i>Nigra oculis, nigraque capillis</i>: -Horat.—Se é mau gôsto, confesso que o tenho. -Quem amar mais os louros, não tem senão -dizer:</p> - -<p class="poetry"> -«Ondeiam n’alva frente as tranças d’ouro.»<br> -</p> - -<p>Assim, eu, e o leitor ficamos ambos satisfeitos. -De mais, até lhe posso ensinar um texto, com que -provar o seu gôsto. É a auctoridade de Petrarca, -que não é pêca neste ponto:</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry" xml:lang="it" lang="it"> -L’auro, e i topazj al sol sopra la neve<br> -Vincon le bionde chiome presso agli occhi.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Petrarca</span>, <i>rim.</i> Part. I. cans. 9.</p> -</div> - - -<p class="poetry"> -«<i>Déste; que bem o sei........</i>»<br> -</p> - -<p>Assim é de crer piamente; e, comquanto o não -digam os DD., eu o penso. O leitor póde ficar pelo -que quizer—<i>salva fide</i>—pois estas materias são -de mythologia, e não de theologia.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_87">[Pg 87]</span></p> - -<p class="poetry"> -«<i>Ja por milagre de Cyprina é prompta.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry" xml:lang="it" lang="it"> -Manca il parlar; di vivo altro non chiedi.<br> -Ne manca questo ancor, se agli occhi credi.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Tass.</span> <i>Gerus.</i> Cant. XVI.</p> -</div> - - -<p class="poetry"> -«<i>E novos Pygmaliões por elle anceiam.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry" xml:lang="it" lang="it"> -Pigmalion, quanto lo dar ti dei<br> -Dell’ imagine tua, se mille volte<br> -N’avesti quel, ch’io sol’ una vorrei.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Petrarca</span>, <i>rim.</i> Part I, sonett. 58.</p> -</div> - - -<p class="poetry"> -<i>«Admira o joven a belleza</i>........»<br> -</p> - -<p>Faria, pouco mais ou menos, as mesmas extravagancias -com o retrato, que o amante de Julia com -o da sua bella.</p> - -<p class="center">(Vid. <i>Nouvell. Héloï.</i> Part. II, Lett, 22).</p> - - -<p class="poetry"> -«<i>Os lacteos pomos.........</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">Le <i>pome</i> accerbe, e crude...</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Tass.</span> <i>Gerus.</i> Cant. XVI.</p> -</div> - - -<p class="poetry"> -«<i>Serão meus versos, como tu, divinos.</i>»<br> -</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry" xml:lang="la" lang="la"> -Me juvat in grœmio doctæ legisse puellæ,<br> -Auribus et puris dicta probasse mea:<br> -Hæc si contingant.........<br> -.......... Domina judice, tutus ero.<br> -</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Propert.</span> <i>Eleg.</i></p> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_89">[Pg 89]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="ENSAIO">ENSAIO<br><span class="small">SOBRE</span><br><span class="big">A HISTORIA DA PINTURA</span></h2> -</div> - -<p><span class="pagenum" id="Page_90">[Pg 90]</span></p> - - - - - - -<p><span class="pagenum" id="Page_91">[Pg 91]</span></p> -<p>O objecto principal deste ensaio é a historia -da pintura. A maior parte do meu poema -será inintelligivel sem elle a todo o leitor, que -não tiver feito um comprido estudo nesta materia. -Menos porem bastaria talvez para a intelligencia -do opusculo: fui mais longo e extenso, -principalmente na historia da pintura portugueza, -porque julguei util dar á minha nação -uma coisa que ella não tinha, a biographia -critica dos seus pintores. Sobejo e enfadonho -trabalho me deu: oxalá que aproveite! Bem -pago fico, se, entre todos os leitores, deparar -com dous, em quem faça impressão o amor de -boas-artes, e da patria, que toda a obra respira.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_92">[Pg 92]</span></p> -<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_I">CAPITULO I<br><span class="small">Dos Pintores Gregos e Romanos</span></h3> -</div> - - - -<p>O numero dos pintores Gregos e ainda Romanos, -cujos nomes chegaram até nós, é grande, -mas o d’aquelles, cujas obras ou maneiras -conhecemos, é bem diminuto. O respeito da -antiguidade com tudo no-los faz admirar, por -ventura mais, do que o seu merecimento exige. -Os quadros modernamente descobertos nas cinzas -do Herculano e Pompeia, alguns <i>frescos</i> -conservados nas ruinas de Roma e outras cidades -de Italia tem subejamente mostrado aos -entendedores imparciaes, que a pintura dos antigos, -ainda mesmo no seu maior auge, não póde -soffrer comparação com o menor quadro dos -<i>Rafaelos</i>, dos <i>Corregios</i>, dos <i>Caraccis</i>, nem -mesmo d’outros pintores de segunda ordem das -modernas escholas. Duas coisas principalmente -faltavam aos antigos pintores. Uma, as tintas, -cujas bellas composições, descobertas em mui -posteriores seculos, absolutamente ignoravam; -não conhecendo, senão as terras de côr, e os -metaes calcinados; faltando-lhes aquellas côres,<span class="pagenum" id="Page_93">[Pg 93]</span> -que dão o tom medio, entre a luz e a sombra, -que formam o matizado e assombrado, e exprimem -a natureza tal qual ella é, e com toda a -sua formosura: outra, o conhecimento das leis -da perspectiva, como bem mostram todas as -suas obras, que nos restam: defeito este, que -salta aos olhos, e de impossivel disfarce. Só -aquelle cego fanatismo, que faz cançar os pedantes -no estudo do Hebraico e Syriaco e d’outras -inuteis antigualhas, póde achar nos quadros -Gregos e Romanos bellezas, não digo superiores, -mas iguaes ás das magnificas pinturas -do bom tempo das modernas escholas, e ainda -mesmo das de hoje; com quanto a pintura, á -excepção da franceza, bastante se approxima -da decadencia pelo espirito servil, mania das -copias e mal entendida imitação.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_II">CAPITULO II<br><span class="small">Restauração da pintura na Italia</span></h3></div> - - -<p>Cimabúe, nascido em 1230,<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a> e morto em -1300, é conhecido em toda a Europa pelo honroso<span class="pagenum" id="Page_94">[Pg 94]</span> -titulo de restaurador da pintura. Ouviu -os principios de sua arte d’alguns pintores Gregos -vindos a Florença, que ainda conservavam -restos do bom stylo da nação: aperfeiçoou-se -depois com o estudo, e imitação dos poucos modelos -antigos, que então appareciam na Italia. -Preciosas descobertas, que se foram pelo andar -dos tempos fazendo, pouco a pouco desterraram -a barbaridade, que, entre as outras boas-artes, -tinha tambem sepultado a pintura. As -estatuas, os quadros, os relevos arrancados das -cinzas e ruinas dos famosos monumentos romanos, -quantos mestres, quantos primores d’arte, -d’architectura, scultura e pintura não deram á -Europa! Miguel Angelo confessava dever toda -a sua sciencia ao assiduo estudo, que por -toda a vida fizera no <i>tronco</i><a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a> de Hercules, no -<i>grupo</i><a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a> de Laocoon, no Apollo<a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a> do Belveder, -e n’outros modelos da bella antiguidade.</p> - -<p>Com quanto porem a pintura e mais boas-artes -não possam propriamente dizer-se restauradas<span class="pagenum" id="Page_95">[Pg 95]</span> -antes do seculo de Leão X, que foi o de -Raphael, de Miguel Angelo, de Leonardo da -Vinci, etc.; Cimabúe comtudo foi o pae da -pintura moderna; suas obras espalhadas pela -Italia renovaram o bom gôsto, e abriram os -alicerces, sobre que se havia depois formar o -grande edificio das escholas Florentina, Romana, -etc.</p> - -<p>Todavia, em abono da verdade devemos -confessar, que, posto que Cimabúe possua com -razão o titulo de restaurador da pintura; outros -antes d’elle houve, que se o não excedêram, -lhe não foram ao menos inferiores. De -Guido de Senna, pintor do XIII seculo existe -em uma igreja de sua patria um quadro da -Virgem, tão bom como os melhores de Cimabúe: -o seu desenho é de bom stylo, e ainda -fresco de côres, apezar de ser feito no principio -do mesmo seculo, como indica a inscripção, -que se le por baixo.</p> - -<p class="poetry"> -Me Guido de Sennis<br> -Diebus depinxit amenis;<br> -Quem Christus lenis<br> -Nullis nolit agere penis.<br> -</p> - -<p class="center"> -A. D. MCCXXI.<br> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_96">[Pg 96]</span></p> - -<p>Ora, a data deste quadro é anterior ao nascimento -de Cimabúe, affirmado por uns em 1230, -e por outros (como Pruneti) em 1240; e por -isso os Sennenses querem disputar a Cimabúe -o titulo, que a elle e sua patria, Florença, -tanto ennobrece. Mas debalde; porque de Guido -não se conhece outra obra; e de Cimabúe -existem ainda muitas, cuja nomeada o faz hoje -mesmo celebre e conhecido, e que n’aquelle -tempo serviam de modelo aos seus discipulos.</p> - -<p>Do principio tambem deste seculo XIII se -conservava em Luca um antiquissimo quadro -de certo pintor d’aquella cidade: representava -S. Francisco d’Assis. Seu desenho é correcto, -posto que um pouco rude; o ar-de-cabeça tem -muita expressão, e as mãos são bem tratadas.<a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a></p> - -<p>Deste, e d’outros alguns monumentos desta -épocha, devemos concluir: que Cimabúe não -foi o primeiro que na Itália começou a pintar<span class="pagenum" id="Page_97">[Pg 97]</span> -com menos defeitos: mas nunca se poderá asseverar, -que elle, e sua eschola (a Florentina) -não foram os restauradores e pães da moderna -pintura.</p> - -<p>O que Pruneti diz a este respeito não destroi -os meus principios.</p> - -<p>Jamais as sciencias, e artes foram de repente -á perfeição. Antes de Socrates e Platão existiu -Pythagoras e outros philosophos, que lhe -abriram o caminho; antes de Hippocrates, Avicena -e Averroes<a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a> houve Esculapio, e outros -mezinheiros; antes de Homero, Hesiodo e Virgilio, -havia Orpheus e Linos; Eschylo, Sóphocles, -Euripides e Aristophanes foram precedidos -por Thespis; os erros de Descartes allumiaram -Newton; Mairet, Routrou e Corneille -formaram Racine e Voltaire; e entre nós finalmente, -antes de Camões, Ferreira e Bernardes -houve Gil Vicente, Bernardim e outros -muitos, que lhes franquearam a carreira poetica.<span class="pagenum" id="Page_98">[Pg 98]</span> -Agora quasi em nossos dias, na brilhante -restauração das lettras, os Elpinos, os Filintos, -os Gomes e os Bocages não appareceram de -repente.</p> - -<p>Assim gradualmente foram crescendo os pintores -na Italia, e adiantando-se a perfeição de -suas obras. Nos ultimos parocismos do imperio -Grego uma infinidade de professores vinham -procurar entre os Italianos um asylo mais seguro, -e uma patria menos despotica: e quando -finalmente em 1448, tomada Constantinopola -por Mahometh II, se extinguiu de todo -aquelle phantasma colossal, maior numero ainda -se espalhou por todo o meio-dia da Europa, -e concorreu para a perfeição da pintura -moderna; assim como a alluvião de theologos -Gregos concorreu, e muito, para a perpetuação -das barbaridades scholasticas, e atrazo das -sciencias. São deste tempo—Gioto, cujas obras -se acham ainda em Florença, Piza e Roma, -nascido em 1276, e morto em 1336: foi discipulo -de Cimabúe, e contribuiu muito para a -perfeição da arte pelo bem-ordenado da sua -pintura, e boa disposição de figuras.</p> - -<p>Masaccio, nasc. em 1417, e mort. em 1521,<span class="pagenum" id="Page_99">[Pg 99]</span> -seria o verdadeiro e completo restaurador da -pintura, se vivesse mais tempo: o pouco que -d’elle resta, acha-se em Florença.</p> - -<p>Luca Signorelli di Cortona n. em 1449, e -m. em 1521; foi celebre pela precisão de desenho, -e belleza de composição, todavia fraco -no colorido. Notam-se bem estas propriedades -nos seus quadros, que ainda se encontram no -Loreto e Roma. E este é o ultimo pintor de -fama anterior a Leonardo da Vinci, que depois, -com Miguel Angelo, foi julgado fundador -da eschola Florentina.</p> - -<div class="footnotes"> -<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4> -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[16]</a> Pruneti o faz nascido em 1240—10 annos depois.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[17]</a> Famosos restos da estatua de Apolonio Atheniense.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[18]</a> Obra de tres escultores Rhodios Athenedoro, -Agesandro e Polidoro.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[19]</a> Estatua bem conhecida.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[20]</a> Advirto, e fique advertido por todo o decurso -deste ensaio, que quando digo, que este, ou aquelle -quadro, ou estatua se acham em Roma, Florença, -ou outra qualquer cidade: deve sempre entender-se -antes das ultimas revoluções da Europa.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[21]</a> Não confundo Avicena, e Averroes com Hippocrates: -bem sei a distancia de tempos e merecimentos. -Faço porém esta advertencia, porque não leia -isto algum Esculapio enthusiasta, que grite: <i>au scandale</i>!</p> - -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_III">CAPITULO III<br><span class="small">Da Eschola Romana</span></h3></div> - - -<p>Apezar de que a eschola Florentina com razão -se possa chamar a mais antiga, pois que -seus alumnos se começam a contar desde Cimabúe; -com tudo a Romana foi, e sempre será -como a primeira olhada, não só em favor e -respeito de seu illustre chefe Raphael Sanzio -de Urbino; mas pela bellesa de desenho, elegancia -de composição, verdade de expressão, -e sobre tudo intelligencia de attitudes, que a<span class="pagenum" id="Page_100">[Pg 100]</span> -caracterizam e sobreelevam a todas as outras.</p> - -<p>As descobertas dos grandes monumentos de -pintura e scultura, que os zelosos cuidados de -alguns papas, e outras principaes pessoas de -Italia desenterravam todos os dias das ruinas -da antiga Roma, formaram o gôsto dos mestres -desta eschola, moldando-o no antigo. E -tal é a caracteristica das suas producções. Os -rasgos mestres d’aquelles preciosos <i>antigos</i> lhes -inspiraram uma magestosa solemnidade de expressão -nas grandes ideias que concebiam; e -esta mira, que levaram sempre os pintores Romanos, -lhes fez desprezar alguma coisa o colorido: -defeito, que bem se esquece por outras, -e tão brilhantes qualidades.</p> - -<p>Para tecer o elogio da eschola Romana basta -nomear Raphael. Que nome nos fastos das -boas-artes! Se Virgilio e Homero não são mais -celebres, que Zeuxis e Apelles; a glória de Raphael -quanto é superior á de Tasso e Ariosto! -Não me agrada aquella sentença dos antigos:</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry">—Ut pictura poesis— -<i>A poesia será como a pintura</i></p> - -<p class="center">(<span class="smcap">Bocage</span>).</p> -</div> - -<p><span class="pagenum" id="Page_101">[Pg 101]</span></p> - -<p>A poesia (attrevi-me a pensá-lo assim, e se -a novidade não agradar nem por isso me -desdigo) é uma só: aos poetas pintores, seus -primeiros filhos é dado tratta-la viva: os poetas-versejadores -só com o véo do mysterio coberta -a podem ver e seguir. A poesia animada -da pintura exprime a natureza toda; a dos -versos porem, menos viva e exacta, falha em -muita parte na expressão de suas bellezas. Que -poeta nos poderia dar uma ideia de Romulo -como David no seu quadro das Sabinas? Que -versos nos poderiam fazer imaginar a Divindade -como a transfiguração de Raphael? Que -poema nos faria conceber a magestade d’um -<i>Deus Creador</i> dando fórma ao cáhos, e ser ao -universo, como a pintura de Miguel Angelo?</p> - -<p>Estas reflexões sobre o parallelo das duas -especies de poesia são minhas; por taes as dou, -e me encarrego do mal, ou bem, que d’ellas -se pensar. Por ventura não foi este o conceito -dos antigos; mas a arte mui atrazada entre elles -não estava em proporção da nossa; os gregos -não tinham, como nós, Homeros em pintura. -Immensas vantagens, como já notamos, -lhes levam os modernos pintores; a que<span class="pagenum" id="Page_102">[Pg 102]</span> -de mais accresce o nobre invento da gravura, -que, (bem como a imprensa nos facilita o trato -dos mais antigos poetas do mundo) transmitte -á posteridade e nações remotas os esmeros -da pintura, e ainda da scultura. Os nossos -Appelles não podem temer o ser conhecidos -pelos vindouros só de nome e fama, como o é -por nós o dos antigos; a estampa lhes assegura -o conhecimento de <i>facto</i> no mais remoto -porvir, e mais longes climas.</p> - -<p>Mui fertil foi a eschola Romana; grande é -o numero dos seus pintores: daremos de cada -um d’elles uma brevissima, porem exacta noticia: -desta maneira terá a mocidade applicada, -como em synopse, e sem o trabalho enfadonho -de revolver muitos e antigos cartapacios, -a historia completa desta e das outras escholas, -em que seguiremos o mesmo methodo.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVI</h4> - -<p>Rafaelo Sanzio d’Urbino, nascido em 1483, -morto em 1520, facilmente julgado o principe -dos pintores: nenhum (se não for o moderno -francez, Mr. David) poderá rivaliza-lo. O brilhante<span class="pagenum" id="Page_103">[Pg 103]</span> -colorido de Ticiano, a belleza das tintas -de Corregio, a gigantesca altivez de Miguel -Angelo não fazem a menor sombra á -gloria do grande Romano. Raphael levou a sua -arte ao grau de perfeição, de que é capaz a -humanidade. Pertender dar uma ideia d’elle é -tentar o impossivel: o estudo das suas producções -é o unico meio de o conhecer. Elle ainda -vive repartido por seus quadros, um dos mais -bellos e ricos ornamentos das cidades que os -possuem. Digam-o os templos de Roma, as casas -dos principes, o Vaticano (onde existe a -sua famosa <i>Biblia</i>), e sobre tudo a egreja de -<i>S. Pietro in monte</i> situada no Janiculo; onde -se conserva o primeiro quadro do universo, a -unica producção da arte, que excede a natureza, -a maior honra do ingenho humano, a melhor -obra de Raphael, a sua <i>Transfiguração</i>. -Tal foi um dos primeiros homens do mundo, -de quem (e com mais razão por ventura, do -que Horacio dizia de si) podêmos asseverar, -que não morreu todo: <i>Non omnis moriar</i>; ou -como ja se disse em portuguez; <i>O sabio não -vai todo á sepultura</i>. A belleza principal das -suas obras é o desenho e attitudes.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_104">[Pg 104]</span></p> - -<p>Julio Romano (Giulio Pippi) n. 1492, m. -1546: foi discipulo de Raphael. Em suas obras, -que principalmente se acham em Roma, se ve -que o caracter d’este pintor era a fôrça e ardimento: -o seu colorido é obscuro, mas o desenho -admiravel.</p> - -<p>João Francisco Penni (il Fattore) n. em 1488, -m. em 1528; trabalhou quasi sempre debaixo -das vistas, e pelos desenhos de Raphael, seu -mestre. Suas obras principaes são as galerias -do Vaticano.</p> - -<p>Polidoro de Caravaggio n. 1495, m. 1543; -foi bom colorista, correcto no desenho, nobre -e fero nos ares de cabeça.</p> - -<p>José Ribera, hespanhol, e por isso dito <i>il -Spagnoleto</i>, nasc. em Valença em 1589, e m. -em 1656. O seu caracter é o vigor e expressão: -todas as figuras austeras e carregadas, -prophetas, philosophos, tudo quanto exige um -pincel forte e vigoroso, sahia de suas mãos, -como das da natureza. Suas obras principaes -existiam na cartuxa de Napoles; e entre ellas, -a mais conhecida é a collecção dos prophetas.</p> - -<p>Perrino del Vague Buonacorsi n. em 1500, -m. em 1547; foi tão feliz imitador do stylo de<span class="pagenum" id="Page_105">[Pg 105]</span> -Raphael, seu mestre, que muitos de seus quadros -passam por d’elle.</p> - -<p>Innocenzio d’Imola n..., m...; desenhou segundo -a maneira de Raphael, mas coloriu -muito bem. Seus quadros são preciosos e raros.</p> - -<p>Giulio Clovio n. 1498, m. 1578. Trabalhou -sempre em miniatura, e apprendeu o desenho -com seu mestre, Julio Romano.</p> - -<p>Federico Barrocci n. 1528, m. 1612. Suas -excellentes obras, que se acham em Milão, Bolonha, -Pesaro, Loreto e Roma, se distinguem -pela belleza do colorido (pouco vulgar na sua -eschola) e que assemelha ao de Corregio, grande -exactidão de desenho, muita sciencia de luz, -e graciosos ares de cabeça.</p> - -<p>Thadeo, e Federico Zucaro, irmãos: morto -o primeiro em 1566; o segundo em 1609. -Thadeo tinha grande ingenho e bom colorido; -Federico, menos habil, acabou quasi todas as -obras, que seu irmão começara. Acham-se em -Veneza, Tivoli e Roma.</p> - -<p>Antonio Tempesta n. 1555, m. 1630. Foi -eminente em batalhas, caçadas, mercados, animaes -etc.—Roma.—</p> - -<p>José Cesar d’Arpin (Il cavalier Giuseppino)<span class="pagenum" id="Page_106">[Pg 106]</span> -n. 1560, m. 1640. Seus quadros grandes, que -se vem no Capitolio, são historicos e bons; e -notaveis, sobre tudo, pela belleza dos cavallos.</p> - -<p>Michel Angelo Ameriggi de Caravaggio, n. -1569, m. 1609. Suas obras são mui faceis de -conhecer pelo ar de relêvo, que dava a todas -as figuras por via do assombrado. Esta originalidade -imita bem a natureza. O seu desenho -é preciso e fero.—Roma e Napoles.—</p> - -<p>Domenico Feti n. 1589, m. 1624. Imitou o -<i>antigo</i>, e Julio Romano; donde houve um caracter -de desenho fero e vigoroso, com quanto -incorrecto. Seus quadros, mui procurados, se -distinguem por uma graça particular, e picante.—Roma.—</p> - -<p>Giovani Lanfranco n. 1581, m. 1647. Foi -eminente nas grandes obras, como platafundos, -cupulas, etc.—Napoles.—</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVII</h4> - -<p>Pietro Beritini di Cortona n. 1596, m. 1669. -Todas as suas ingenhosas producções tem um -ar de nobreza, que encanta. Mas a obra prima -d’este grande mestre é o <i>roubo das Sabinas</i>,<span class="pagenum" id="Page_107">[Pg 107]</span> -que Lebrun servilmente copiou.—Roma -e Florença.—</p> - -<p>Mario Nuzzi di Fiore n. 1599, m. 1673; alcançou -um grande nome pela maneira excellente -de pintar flores.</p> - -<p>Miguel Angelo Cerquozzi dito o <i>das batalhas -e bambochatas</i>: nasc. 1602, m. 1666; teve -um colorido vigoroso e um pincel ligeiro. Era -tam habil no seu genero, que pela simples narração -d’uma peleja, traçava logo a ordem do -quadro no mesmo panno, em que havia de pintar.—Roma.—</p> - -<p>Claudio Geleo (Lorrain) n. 1600, m. 1682. -Todos conhecem este nome; todos sabem que -foi o principe dos paizagistas. Ninguem conheceu -como Lorrain a perspectiva aeria, e o effeito -dos pontos de vista.—França.—</p> - -<p>Andrea Sacchi n. 1599, m. 1661. Suas pinturas -ternas e graciosos são admiraveis pelo -desenho, colorido e verdade de expressão.</p> - -<p>Domenico Passignani pelos annos de 1630, -pintou com gosto e nobreza, muita expressão, -porem mau colorido.—Florença.—</p> - -<p>Pietro Testa n. 1611, m. 1648; moldou o -seu stylo nos antigos de Roma, donde houve<span class="pagenum" id="Page_108">[Pg 108]</span> -um bom e correcto desenho, com quanto rude.—Roma.—</p> - -<p>Salvator Rosa n. 1614, m. 1673. Trabalhou -muito; e suas obras se acham por toda a Italia: -todas ellas tem um ar de originalidade, -que as distingue, muita verdade e bom colorido; -porem o desenho não é perfeito.</p> - -<p>Carlin Dolce n. 1616, m...; célebre pela -graça da composição e frescura do colorido.—Roma.—</p> - -<p>Hiancito Brandi n. 1623, m. 1719 (outros -querem que em 1691). Seus quadros são muito -vulgares: apezar das incorrecções do desenho, -e fraqueza de côres, teve com tudo uma belleza -d’ornato, e fecundidade de imaginação, -que admira.</p> - -<p>Carlo Maratti n. 1624, m. 1713; foi eminente -nos ares de cabeça: seu desenho é mui -assisado, e seu colorido brilhante. Todas as -composições d’este mestre encantam, e são bem -acabadas.</p> - -<p>Luca Giordano n. 1632, m. 1705. Seu merecimento -principal é a facilidade e presteza, -com que trabalhava: muitas obras delle são -d’uma bella expressão.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_109">[Pg 109]</span></p> - -<p>João Baptista Bacici n. 1639, m. 1709; retratava -bem; e os seus quadros mostram muito -talento, e bello colorido.</p> - -<p>Mattia Preti (Il Calabrese) teve o ingenho -mais feliz na invenção; bella e rica ordem, e -muita originalidade. Nasc. 1643, m. 1699.</p> - -<p>José Passari n. 1654, m. 1714; discipulo -e imitador absoluto de Carlo Maratti.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVIII</h4> - -<p>Francesco Solimeni n. 1655, m. 1747. Bella -imaginação, muito talento, um desenho fero e -correcto o constituem n’um dos primeiros lugares -da pintura; com quanto o seu colorido -seja sombrio e pouco doce. A grande qualidade -porem d’este mestre, e em que elle sobre-excedeu -a todos, é o ar de vida, animação e -movimento das suas figuras.—Napoles.—</p> - -<p>Sebastião Concha morto pelos annos de -1740. Imitou Solemeni; mas o seu genio frio -o não ajudava. Comtudo no hospital de Sienna -ha delle uma boa pintura a fresco.</p> - -<p>Paolo Panini, vivo em Roma ainda no anno -de 1767. Tem bom colorido, e muito espirito.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_110">[Pg 110]</span></p> - -<p>Paolo Monaldi do mesmo tempo foi pintor -de <i>bambochatas</i> muito estimadas.</p> - -<p>Pompeio Battoni, retratista e pintor historico: -o seu colorido é bem imitado de Corregio.</p> - -<p>Muitos outros pintores, posto que não de -grande fama, tem produzido mais modernamente -a eschola Romana; mas não temos delles -sufficiente conhecimento para poder formar -um exacto conceito.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_IV">CAPITULO IV<br><span class="small">Da Eschola Florentina</span></h3></div> - - -<p>A eschola Florentina é, por sua antiguidade, -a mais respeitavel: seu primeiro mestre foi -Cimabúe; com quanto, fallando em rigor, só -Leonardo da Vinci e Miguel Angelo mereçam -(como ja notamos) o nome de fundadores. As -obras dos seus alumnos occupam um logar mui -distincto nas collecções mais ricas; e a Italia, -e toda a Europa se julga com elles ennobrecida. -Seu gosto de desenho é fero e decidido; sua -expressão sublime, algumas vezes attrevida, e -gigantesca, e mesmo contra-natural, mas sempre<span class="pagenum" id="Page_111">[Pg 111]</span> -magnifica: o colorido nos seus principios -era rude; apperfeiçoou-se depois, sem perder -nada da sua viveza, magnificencia e outras -brilhantes qualidades. Esta eschola é a menos -numerosa, mas não a menos célebre.</p> - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVI</h4> - -<p>Leonardi da Vinci n. 1445, m. 1520, um -dos grandes ingenhos do seu seculo, foi sculptor, -architecto e pintor. Seu desenho é correcto e -puro, e suas obras todas d’uma composição ingenhosissima; -das quaes a melhor é sem questão -o grande quadro da ceia em Milão. Foi -muito estimado de Francisco I de França, em -cujos braços morreu. O canal de Milão foi dirigido -por elle.</p> - -<p>Pietro Perugino n. em 1446, m. em 1524. -Coloriu graciosamente; mas, apezar de ser -discipulo de Cimabúe, todos sabem quanto é -rude o seu ingenho.</p> - -<p>Fra Bartholomeo della Porta n. 1465, m. -1517, formou seu delicado gosto no de Vinci, -donde houve muita correção e pureza. Seu colorido -é bello e natural. Rafaelo não se dedignou<span class="pagenum" id="Page_112">[Pg 112]</span> -de apprender delle a arte de colorir, ensinando-lhe -em troco as necessarias regras da <i>prespectiva</i>.—Roma -e Florença.—</p> - -<p>Miguel Angelo Buonarroti n. 1475, m. 1504; -esculptor incomparavel, magnifico architecto, -pintor sublime; não póde decidir-se a qual das -boas-artes pertenceu mais: suas estatuas, seus -edificios, seus quadros, tudo mostra o maior -homem do seu seculo. Teve uma maneira de -pincel altiva e fera, e em geral similhante á -da sua eschola; vastissima concepção, ideias -sublimes e arrojadas, e muita expressão e vigor. -Seus quadros principaes se acham na capella -Sixtina do Vaticano. A antiguidade toda e -talvez os seculos posteriores não tem nada que -oppor a tão grande ingenho: seus quadros são -inferiores aos de Raphael, e por ventura aos -de alguns outros ainda; porém Miguel Angelo -é mui superior a todos elles.</p> - -<p>Andrea del Sarto n. 1478, m. 1580; foi o -maior colorista da eschola de Florença; suas -obras, em que se distingue uma maneira larga, -e um pincel fresco e brando, conservam ainda -hoje um brilho singular.</p> - -<p>Baltazar Peruzzi n. 1481, m. 1536, alem<span class="pagenum" id="Page_113">[Pg 113]</span> -dos grandes mestres, estudou sobre tudo a natureza, -foi grande na prespectiva, porem fraco -no colorido. Ninguem antes de Peruzzi executou -com gosto uma decoração de theatro.</p> - -<p>Giacomo Pontorma n. 1494, m. 1559; desenhou -como Leonardo da Vinci, e coloriu como -Sarto. Seu pincel vigoroso, seu colorido brilhante, -sua imaginação bella e fecunda o fizeram -olhar por Mig. Ang., e Raphael como seu -mais temido rival; e se a louca mania de imitar -as maneiras alemans o não fizesse mudar de -estylo, por ventura os dois grandes mestres não -gosariam sós da gloria do primado.</p> - -<p>Macherino de Sienna (chamado Domenico -Beccafumi) n. 1484, m. 1549; desenhou com -gosto e correcção, mas coloriu mal.</p> - -<p>Mestre Rosso, ou Roux (como lhe chamam -os francezes) n. 1496, m. 1541; pintou com -muita expressão e viveza, porem ás vezes um -pouco rude. Trabalhou quasi sempre em França, -onde teve muitos discipulos, e de cuja eschola -é julgado fundador.—Fontainebleau.—</p> - -<p>Alexandre Allori n. 1535, m. 1607; foi gracioso -e macio, e desenhou com toda a pureza -do <i>antigo</i>.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_114">[Pg 114]</span></p> - -<p>Francisco Rossi (il Salviati) n. 1510, m. -1563; é muito estimado pela grande intelligencia -de luz; desenhou e coloriu bem; seus -quadros se distinguem pelas singulares attitudes -das figuras.—Florença e Bolonha.—</p> - -<p>Jorge Vasari n. 1511, m. 1574; muito célebre -pelas vidas dos pintores, que escreveu: seu -desenho é bom, mas sem energia, e seu colorido -fraco.—Roma.—</p> - -<p>Jacoppino del Ponte n. 1511, m. 1570; as -suas maneiras são as de Andrea del Sarto, seu -mestre. Foi o melhor retratista da sua eschola.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVII</h4> - -<p>Daniel Bacciarelli de Volterra n. 1579, m. -1625; desenhou bem, e o que lhe deu grande -nomeada sobre tudo, foi a sua <i>descida da cruz</i> -na igreja <i>della Trinità del monte</i> em Roma.</p> - -<p>Ludovico Cigoli n. 1559, m. 1613, pintou -d’uma maneira firme e vigorosa; mas coloriu -principalmente com o pincel de Corregio.</p> - -<p>Francisco Vanni n. 1563, m. 1615. Coloriu -muito bem, e desenhou soffrivelmente.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_115">[Pg 115]</span></p> - -<p>João Manozzi (Giovani di S. Giovani) n. -1590, m. 1636; foi um dos melhores pintores -de sua eschola; seus quadros, que mostram -muita intelligencia de perspectiva e architectura, -se acham em Roma, principalmente no -palacio Pitti.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_V">CAPITULO V<br><span class="small">Da Eschola de Bolonha</span></h3></div> - - -<p>A eschola de Bolonha, ou Lombarda juntou -em si quanto póde produzir a perfeição da arte. -Talvez (geralmente fallando) nenhuma das -outras o conseguiu tanto. O <i>antigo</i> foi o seu -modelo; mas sem uma servil e exclusiva imitação; -não tratou de formar systema ou, se o -formou, foi extrahindo de todos o que achou -melhor. As bellezas vivas e sensiveis da natureza, -a verdade de expressão, a riqueza da -ordem, a pureza dos contornos, a facilidade -admiravel de pincel, e sobre tudo o colorido -da mesma natureza, verdadeiro e encantador; -tudo emfim, quanto offerece a pintura, bello e<span class="pagenum" id="Page_116">[Pg 116]</span> -terno, tudo reuniram os com-alumnos de Corregio.</p> - -<p>Auctores ha hi (como Pruneti) que dividem -estas duas escholas de Bolonha e Lombardia; -porém a geral opinião é a que sigo. Sobre o -chefe, ou fundador desta eschola, diversos são -tambem os conceitos, querendo uns que seja -Francia, outros Mantegna; a questão é de pouca -utilidade.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVI</h4> - -<p>Francisco Francia n. 1450, m. 1518. Suas -obras são d’um desenho muito assisado, e mui -boa côr para o seu tempo. Raphael lhe enviou -o seu quadro de <i>Santa Cecilia</i> para que o corrigisse. -Diz-se que a inveja e dor de ver tam -perfeita obra em um mancebo de tão pouca -idade, lhe causara a morte.</p> - -<p>Andrea Mantegna n. 1451, m. 1517; seus -quadros rarissimos conservam ainda muito brilho, -e são de melhor desenho que os de Francia.</p> - -<p>Francesco Primaticcio Bolognesse n. 1490, -m. 1570: coloriu graciosamente, e desenhou<span class="pagenum" id="Page_117">[Pg 117]</span> -no estylo de Julio Romano. Alguns, como Pruneti, -o querem fazer chefe da eschola de França, -onde quasi sempre viveu e pintou.</p> - -<p>Antonio Allegri (Corregio) n. 1494, m. 1554. -Tinha chegado á perfeição da arte, e ignorava -o seu merecimento. O <i>antigo</i>, Raphael, Vinci, -etc., tudo lhe era desconhecido; não sabia senão -a natureza. Ouviu gabar muito um quadro de -Raphael, observou-o, e conheceu o seu proprio -merecimento; soube o que valia, e nem porisso -foi mais vaidoso; antes continuou a dar por -mui rasteiro preço seus inestimaveis quadros, -cujo colorido e frescura de pincel ainda não -pôde ser imitado.</p> - -<p>Francesco Massuoli (o Parmezão, ou Parmegianino) -n. 1504, m. 1540. Maneiras graciosas, -colorido fresco e natural, muita facilidade -e correcção no desenho o constituiram um -dos primeiros pintores da sua rica e fecunda eschola. -Os quadros deste mestre são raros e carissimos.</p> - -<p>Lucas Cangiagio, ou Cambiagi n. 1527, m. -1583 ou 85. Pintou com muita facilidade, e -o que é de admirar, com ambas as mãos ao -mesmo tempo. Teve muita verdade e viveza,<span class="pagenum" id="Page_118">[Pg 118]</span> -e tal expressão nas figuras, que parece que -fallam:</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -<i>Manca il parlar: di vivo altro non chiedi;<br> -Ne manca questo ancor, se agli occhi credi.</i><br> -</p> - -<p class="center">(<span class="smcap">Tasso</span> Gerus.)</p> -</div> - -<p>Os Caraches, Carachas, ou Caraccis, (segundo -a nacional e verdadeira orthographia) mais -celebres e conhecidos são tres. Luiz Caracci -n. 1555, m. 1618; estudou muito os grandes -mestres e adquiriu uma maneira nobre e verdadeira, -expressão e belleza de colorido. Instituiu -uma academia ajudado de Agustinho e -Annibal Caracci, seus primos, na qual se formaram -Albano, Gruido, Guercino e outros illustres -artistas.—Agustinho Caracci desenhou -perfeitamente e coloriu bem: dos tres é o menos -celebre; n. 1558, m. 1603.—Annibal Caracci -n. 1560, m. 1609; foi superior a seu -irmão e primo; teve um estylo nobre e sublime, -desenho preciso e fero, e colorido muitas -vezes admiravel. A galeria <i>Farnesi</i> é de todas -as suas obras a mais famosa.</p> - -<p>Bernardo Castelli n. 1559, m. 1629; grande<span class="pagenum" id="Page_119">[Pg 119]</span> -amigo de Tasso, a quem retratou, bem como -a quasi todos os bons poetas do seu tempo. Foi -insigne neste genero: desenhou bem e coloriu -melhor.</p> - -<p>Guido Renni (o Guido) n. 1575, m. 1624. -Costumam distinguir-se tres maneiras differentes -neste pintor famoso: a 1.ª forte e assombrada; -a 2.ª natural e bella; a 3.ª terna e -doce, porem mais fraca. Pintava com a maior -facilidade.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVII</h4> - -<p>Francesco Albani (o Albano) n. 1578, m. -1660; deu-se absolutamente aos assumptos galantes -e graciosos: seu genio doce e terno o -determinou na escolha. O nosso Vieira Portuense -o estudou muito e imitou bem.</p> - -<p>Domenico Zampierri (Domenichino) n. 1581, -m. 1641; observou sempre uma ordem magnifica -nos seus quadros, muita nobreza, correcto -desenho e verdade de expressão.</p> - -<p>Francesco Barbieri da Cento (o Guerchino) -n. 1590, m. 1666. Trabalhou com uma facilidade -incrivel; e os seus quadros se encontram<span class="pagenum" id="Page_120">[Pg 120]</span> -por toda a parte: teve um desenho fero e expressão -nobre; mas o colorido não é igual. Sua -1.ª maneira é escura e fraca; a 2.ª é mais dura -e fortemente assombrada; a 3.ª é bella e encantadora, -e participa do gôsto de Ticiano e -Corregio. Nos fins de sua vida, porem, obrigado -da miseria, trabalhou mal e sem gôsto.</p> - -<p>Luciano Borzoni n. 1590, m. 1645. Verdade -e intelligencia de expressão, e delicioso colorido -o fizeram um excellente pintor. Teve dois -filhos, que o imitaram, e se distinguiram; sobre -tudo Francisco Borzoni nas paizagens e marinhas.</p> - -<p>João Francisco Frimaldi n. 1606, m. 1688. -Coloriu suavemente e com harmonia; suas paizagens -são excellentes.</p> - -<p>Benvenuto da Ferrara (o Garofalo) n. 1615, -m. 1695; foi muito bom colorista e desenhou -bem. As suas cópias de Raphael são muito -estimadas.</p> - -<p>Beneditto Castiglioni. Sua pureza de desenho -frescura de colorido, delicadeza de toque -e grande intelligencia de <i>claro-escuro</i> fizeram -os seus admiraveis quadros preciosissimos e -caros. Nasceu 1616 m. 1670.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_121">[Pg 121]</span></p> - -<p>Cario Cignani n. 1629, m. 1673. Teve -muito boa composição e desenho; mas pouca -expressão por causa do <i>muito-acabado</i> dos seus -quadros.—Bolonha.—</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVIII</h4> - -<p>Thiarini, chamado o <i>expressivo</i>, morto pelos -annos de 1750: teve muita expressão e um -colorido vigoroso: exprimiu bem as paixões.</p> - -<p>Izabel Cirani, do mesmo tempo. Estudou -com proveito os grandes mestres: adquiriu um -gracioso colorido; e, com quanto preferia os -assumptos terriveis, executou muito melhor os -doces e ternos.</p> - -<p>Marcantonio Franceschini (o Francesquino) -morto em 1729. Seu colorido é muito engraçado, -seu desenho preciso, e sua maneira tem -uma bella simplicidade. Os quadros de Francesquino -tem muita estimação e valor.—Bolonha.—</p> - -<p>Marcos Benefiale n. 1684, m. 1764; foi -um dos bons mestres de sua eschola por seu -correctissimo desenho, grande energia e expressão, -e fecundidade de pincel.—Roma.—</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_122">[Pg 122]</span></p> -<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_VI">CAPITULO VI<br><span class="small">Da Eschola Veneziana</span></h3></div> - - -<p>A eschola Veneziana, que reconhece por fundadores -os Bellinis, Giorgione e Ticiano, produziu -excellentes pintores, que imitaram a natureza -com uma fidelidade, que seduz os olhos. -Seu colorido é sabio e encantador, seu <i>claro-escuro</i> -de muita intelligencia, a imaginação bella, -a ordem rica, e os mais galantes e spirituosos -toques; em fim, sua maneira é originalmente -encantadora, sobre tudo nas formosas e sabias -composições de Ticiano e Paulo Veronese. Os -grandes mestres desta eschola desprezaram todavia -alguma cousa o desenho; tam essencial -á boa pintura. Ticiano, e Giorgione elevaram -o modo Veneziano a um ponto, que será difficil -iguala-los. Nota-se em geral a esta eschola -pouco conhecimento do <i>antigo</i>, e attitudes.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XV</h4> - -<p>Gentil e João Bellini mortos, o primeiro em -1501, o segundo em 1512, e mui velhos. Seus<span class="pagenum" id="Page_123">[Pg 123]</span> -quadros rarissimos mostram ainda um desenho -verdadeiro, mas sem ordem: seu maior merecimento -é terem sido mestres de Giorgione e Ticiano.</p> - -<p>Giorgione de Castel-franco n. 1477, m. -1511. Sciencia de claro-escuro, ordem, colorido -e desenho o elevaram em brevissimo tempo -(pois viveu só 34 annos) á perfeição.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVI</h4> - -<p>Ticiano Vecelli da Cadore n. 1477, m. 1576. -Suas obras espalhadas por toda a Europa fizeram -conhecer este mestre, que discorreu uma -longa e feliz carreira, vivendo 99 annos; um -quasi inteiro e glorioso seculo empregado na -mais nobre das artes. Ignorou o <i>antigo</i>, e falhou -no desenho; mas o colorido de Ticiano, e -sua expressão, assim como não tiveram modelo, -não terão imitadores.</p> - -<p>Gio Antonio Regillo (il Podernone) n. 1484, -m. 1540. A belleza de seu colorido, facilidade -de desenho e apurado gôsto de invenção o fizeram -temer muito de Ticiano. Nada mais é -necessario para seu elogio.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_124">[Pg 124]</span></p> - -<p>Sebastião Piombo n. 1485, m. 1547. O quadro -da <i>resurreição</i> de Lasaro, feito para oppor -ao da <i>transfiguração</i> de Raphael lhe adquiriu -muita fama; e Miguel Angelo, cujo é o desenho -do dito quadro, quiz por via d’elle disputar -a Raphael o primeiro logar; mas a expressão, -e colorido de Piombo não poderam triumphar -do incontrastavel merecimento de seu illustre -rival.</p> - -<p>Giacomo Ponte Bassano n. 1510, m. 1592. -Amou os assumptos communs, em que foi grande: -seu stylo é verdadeiro, e as suas côres excellentes.</p> - -<p>André Sciavone n. 1522, m. 1582: desenhou -incorrectamente; porem coloriu tam bem, -teve um modo tam facil e engraçado, tam bom -gôsto nas roupagens, e tam bellas attitudes, -que se lhe não pode negar o titulo de grande -pintor.</p> - -<p>Giacomo Robusti (il Tintoreto) n. 1524, m. -1594. Uma imaginação vivissima, uma rapidez -incomprehensivel e um finissimo gôsto o elevaram -á primeira ordem dos mestres. É prodigioso -o numero de suas obras.</p> - -<p>Paolo Calliari Veronese (Paulo Veronese) n.<span class="pagenum" id="Page_125">[Pg 125]</span> -1532, m. 1588. Seus quadros farão sempre as -delicias dos amadores da arte pela riqueza d’ordem, -belleza de caracteres, bom gôsto de roupagens, -frescura de colorido e nobre elegancia -de figuras.</p> - -<p>Giacomo Palma (Palma il Vechio) n. 1540, -m. 1588; imitou a natureza sempre bella, e -com um <i>bem-acabado</i> sem affectação.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVII</h4> - -<p>Tiago Palma (Giacomo Palma il Giovane) -n. 1544, m. 1628. Foi discipulo de Tintoreto, -que imitou optimamente.</p> - -<p>Carlos Veneziano n. 1585, m. 1625. Seu -colorido imita bem Corregio, e suas physionomias -engraçadas as de Guido.</p> - -<p>Alessandro Veronese dito o <i>Turchi</i>, ou <i>Orberto</i> -n. 1600, m. 1670; desenhou bem, e coloriu -como um Veneziano.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVIII</h4> - -<p>Giam Battista Piazzeta morto no fim do -XVIII seculo. Seu colorido é mau, mas o desenho<span class="pagenum" id="Page_126">[Pg 126]</span> -imita muitas vezes, e com verdade, a nobre -altivez de Miguel Angelo.</p> - -<p>Rosa Alba Carriera n..., m. 1761. Seus -retratos e pasteis são conhecidos em toda a -Europa; seu principal merecimento é o novo -gôsto, e maneira singular, com que trabalhou -em miniatura.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_VII">CAPITULO VII<br><span class="small">Da Eschola Flamenga</span></h3></div> - - -<p>A eschola Flamenga é a de Rubens e Wandick; -tanto basta para o seu elogio.—Van-Eick, -tam conhecido pelo invento da pintura -a oleo, foi o seu chefe. Quem amar a nobreza -do pincel Romano, a bella arrogancia do Florentino, -as graças do <i>antigo</i>, as gentilezas -Gregas; não será decerto muito apaixonado -das producções Flamengas. Os gelos do paiz, -o temperamento frio dos habitantes são as causas -necessarias e naturaes do pouco fogo que -se lhes nota. Mas, em trôco desta falta, que -bellezas lhes não achará o amador imparcial -e singelo! Ninguem, senão os pintores Flamengos,<span class="pagenum" id="Page_127">[Pg 127]</span> -appresenta em seus quadros um <i>bem-acabado</i>, -um <i>completo</i>, que parece superior á -paciencia humana; uma fidelidade original na -imitação da natureza, que encanta e admira. -O seu defeito todavia é o menos-preço d’aquella -generica e fundamental regra das boas-artes: -<i>Imitar a bella natureza</i>; isto he, <i>saber -extremar n’ella o bello do mediocre</i>. Nisto falharam -de certo, exprimindo-a muitas vezes -com a cega punctualidade, e o <i>verbo ad verbum</i> -d’um <i>fidus interpres</i>; mas este mesmo defeito -(permitta-se-me julga-lo assim, com quanto -vou contra o commum parecer) dá muitas -vezes ás pinturas Flamengas encantos simplices, -e singelos, que em nenhumas outras se -encontram.</p> - -<p>Nesta numerosa eschola se classificam todos -os pintores das nações do norte; e se os caracteres, -mais que as patrias, devem ser neste -ponto os verdadeiros dados, não duvidarei -tambem ennumerar n’ella os poucos bons inglezes. -Nunca pude gostar da pintura Britannica: -um contra-natural, um monotono, um -forçado no colorido, um sempiterno gêlo na expressão, -que sempre lhe notei, me fizeram olha-la<span class="pagenum" id="Page_128">[Pg 128]</span> -com desprezo, e a não ser o moderno West, -(de quem adiante fallarei) de certo os inglezes -avultariam bem pouco neste ramo das boas-artes.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XV</h4> - -<p>João Van-Eick n. 1370, m. 1441; fundou a -sua eschola, e inventou a pintura a oleo. Nada -mais se sabe.</p> - -<p>Alberto Durero n. 1471, m. 1528. Seu desenho -é correcto, sua imaginação viva, sua -maneira firme; mas falhou muito nos costumes.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVI</h4> - -<p>João Holbein n. 1498, m. 1554. Sua imaginação -é sublime, o colorido vigoroso, e suas -figuras tem um ar de relêvo, que engana. Em -geral o pintar deste mestre parece mais Lombardo, -que Flamengo.</p> - -<p>Otam Vaen ou Vaenio n. 1556, m. 1634; -formou-se no gôsto Romano, que lhe deu muita -correcção de desenho, e belleza de expressão; -qualidades, a que ajunctou grande intelligencia -de claro-escuro.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_129">[Pg 129]</span></p> - -<p>Bloemart n. 1567, m. 1647. Um toque expedito -e livre, bellas roupagens, muita sciencia -de claro-escuro são os caracteres d’este -pintor.</p> - -<p>Pedro Paulo Rubens n. 1567, m. 1640. -Nada será bastante para fazer descer este grande -homem do grau illustre de primeiro pintor -historico. Não quero, nem devo occupar-me de -seus defeitos; releva-me só dizer: que o seu -colorido é verdadeiro e brilhante, sua imaginação -fertil, seu claro-escuro sabio, todo elle é -encantador.—A galleria do Luxembourg é a -sua melhor obra: mas um quadro allegorico da -guerra (no palacio ducal de Florença) no meu -parecer, e no de muitos, não é inferior. Fogo -brilhante, nobreza poetica, côr excellente;<a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a> -caracteres interessantes, composição precisa, -intelligente distribuição de luz; tudo se juntou -neste quadro; e n’um grau de formusura, a<span class="pagenum" id="Page_130">[Pg 130]</span> -que só a allegoria póde remontar. A simples -ideia deste painel vale bem uma Iliada, e todos -os Klopstocks juntos talvez a não produzissem: -«É a <i>transfiguração</i> de Rubens» dizia -um philologo meu conhecido, alludindo ao -célebre quadro de Raphael. «A vida dos -homens sabios é o cathalogo de suas obras» -diz um grande litterato<a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a>. Esta sentença desculpa -a minha diffusão.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVII</h4> - -<p>Antonio Wandick n. 1599, m. 1641. Foi -discipulo de Rubens, e a maior honra do mestre; -verdadeiro e simples na imitação da natureza. -O seu genero foi o retrato, em que -ninguem o excedeu.</p> - -<p>Rembran-Van-Ryn n. 1606, m. 1674; foi -grande no <i>claro-escuro</i>, na harmonia das côres: -na imitação do relêvo. Seus quadros são conhecidos -pelo fundo negro.</p> - -<p>Vander-Kabel n. 1631, m. 1695; distinguiu-se<span class="pagenum" id="Page_131">[Pg 131]</span> -absolutamente da sua eschola pela imitação -dos Caraccis e Salvator Rosa.</p> - -<p>Eglone-Vandernér, ou Vandernêér n. 1643, -m. 1697. Um colorido vivo, um pincel mimoso -lhe fizeram naturalmente procurar os assumptos -amorosos, em que foi excellente.</p> - -<p>Wanderwerff n. 1659, m. 1722. Seus toques -são firmissimos, e seu desenho correcto.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVIII</h4> - -<p>Antonio Raphael Mengs n. 1728, m. 1779. -Tem uma verdade de colorido, e uma facilidade -de pincel, que distingue as suas obras de -quaesquer outras.</p> - -<p>Gerardow n..., bem conhecido pelo seu <i>Hydropico</i> -que existia no palacio real em Turin, -e que Mr. Cochin na sua viagem de Italia não -duvída chamar o melhor quadro Flamengo, e -assegura ter sido um dos mais estimados do -principe Eugenio.<a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a></p> - -<div class="footnotes"> -<h5>NOTAS DE RODAPÉ:</h5> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[22]</a> A muito me affoito, conceituando da belleza de -côr d’um quadro, que nunca vi, senão em estampa, e -má estampa; mas fio-me na auctoridade de eruditos -viajantes. Haverá dous annos que me communicou -esta estampa em Lisboa o sabio philologo J. B. S. Dos -apontamentos, que então fiz, extrahi esta e outras discripções, -que por ahi vão.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[23]</a> Voltaire: <i>Siècle de Louis XIV</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[24]</a> Muito há que li estas viagens, assim como as memorias -de Mr. l’Abbé Richard; de maneira que agora -não poderei asseverar em qual dos dous encontrei Gerardow, -e o seu hidropico. Á leitura d’ambos remeto -os curiosos.</p> - -</div> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_132">[Pg 132]</span></p> -<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_VIII">CAPITULO VIII<br><span class="small">Da Eschola Franceza</span></h3></div> - - -<p>A eschola Franceza, filha da Romana (segundo -Pruneti) honra muito a sua progenitora. -Desde o seculo XVII as Italianas (seu modelo) -declinavam muito; ja se não viam Rafaelos, -Corregios, nem Ticianos: parece que a -natureza, esgotada por tam grandes talentos, -queria descançar. E nesta mesma epocha (principios -do seculo XVIII, e fins do XVII) brilhavam -em França Le Brun, Lesueur, Subleiras -etc. Veio o seculo XIX tam memorando -pelas extraordinarias mudanças, que viu a Europa; -e em quanto a revolução Franceza, e -suas consequencias aniquilavam em toda a parte<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a> -as boas-artes; a França apresentava ao -mundo o mais brilhante espectaculo. Por entre<span class="pagenum" id="Page_133">[Pg 133]</span> -o ruido das armas e o estrepito dos combates, -as margens do Sena,</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="poetry"><i>D’onde, arrancando omnipotencia aos fados, -Impoz tropel d’heroes silencio ao globo</i></p> - -<p class="center">(<span class="smcap">Bocage</span>)</p> -</div> - -<p>se ornavam com todo o esplendor das sciencias -e artes. A mesma Theologia tam sêca, e -enfadonha nas mãos de Santo Thomaz, tam -immoral nas de Mollina, e Sanches, muda de -fórma, toma nova essencia, e na milagrosa -penna de Chateaubriand surge com uma belleza -e magestade, que jamais puderam dar-lhe -o douto Agustinho, o eloquente Origenes. -Com bem justiça, em quanto a mim, se podem -a si proprios applicar os Francezes, a respeito -das outras nações, aquella sentença de Seneca: -<i>Multum egerunt qui ante nos fuerunt, sed -non peragerunt</i>.<a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a> Nesta epocha brilhante e memoranda -nos fastos da humanidade, das sciencias -e das artes, a pintura renova em París os -seculos de Augusto, de Leão X e de Luiz XIV. -Os generaes victoriosos traziam de toda a parte<span class="pagenum" id="Page_134">[Pg 134]</span> -os monumentos mais preciosos das boas-artes. -O Vaticano, o Belveder, o Capitolio, Roma, -toda a Italia foi exhaurida, e suas riquezas -de sculptura e pintura transportadas á nova -capital do mundo. Então appareceram em -França David, Girodet, e muitos outros, que -vão parelhas com os mais famosos Italianos, se -em parte os não excederam. Lavater no seu -ingenhoso livro das physionomias não se attreveu -a caracterisar os Francezes. Seus genios e -maneiras tam incertos e incapazes de classificação, -como sua variada phisionomia, impedem -affixar-lhes com exactidão a caracteristica; e -philologos por isso houve, que não quizeram -considerar na Franceza uma eschola; porem -esta assersão é sem critica, e pouco seguida. -Pruneti no seu <i>Ensaio Pictorico</i> accusa a eschola -Franceza de mau colorido, e ignorancia -do <i>antigo</i>. Eu, sem me attrever a contrastar -este parecer, julgo que tal imputação não pode -ter lugar na moderna eschola franceza; mas -somente se deve referir á antiga. Pruneti todavia -não conheceu a eschola de David; mas devia -conhece-la seu traductor Taborda; devêra -estuda-la para emendar o seu original, e exceder<span class="pagenum" id="Page_135">[Pg 135]</span> -assim a mediocridade d’um traductor servil, -accrescentando-lhe novas ideias. O grande -genero francez é geralmente o historico. O -chefe desta eschola, querem uns que seja Roux, -ou Rosso, outros que Leonardo da Vinci: -Pruneti assevera que fôra Primaticio Bolognese -e o faz alumno da eschola Romana. Eu o -classifiquei na Lombarda; mas confesso que -me enganei; porque o seu pintar, verdadeira -norma, é mais Romano, que Lombardo.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVI</h4> - -<p>Vovet n. 1590, m. 1649. Teve um desenho -altivo, e um pincel vigoroso; mas imitou depois -todas as boas e más qualidades de Mig. Ang. -de Caravaggio.</p> - -<p>Nicolau Poussin: Pruneti o faz nascido em -1594; mas Voltaire (<i>Siècle de Louis XIV</i>) assevera -esta data em 1599. A boa critica decide -por este, como nacional, e tam instruido nos -successos d’um tempo, cuja historia nos deu. O -mesmo Voltaire diz que Poussin era chamado o -pintor das pessoas de spirito, e acresenta que -tambem das de gôsto se podia dizer. Soube bem -o <i>antigo</i> e o desenho; mas o gôsto Romano lhe<span class="pagenum" id="Page_136">[Pg 136]</span> -deu um colorido sombrio. Sua philosophia (diz o -grande escriptor) o fez superior ás intrigas de Le -Brun, e morreu pobre mas contente em 1665.</p> - -<p>Pedro Valentin de Colonier n. 1600, m. -1632; imitou Poussin; teve um colorido harmonioso, -boa ordem nas figuras, mas pouca -correcção no desenho.</p> - -<p>Jacques Blanchard foi imitador feliz das bellezas -de Ticiano. Nasc. 1600, m. 1638.</p> - -<p>Lesueur n. 1617, m. 1655. Seu ingenho é -sublime e elevado, seu gôsto de roupagens magnifico. -É um dos primeiros pintores da antiga -eschola Franceza.</p> - -<p>Pedro Mignard n. 1610, m. 1638. O estudo, -e imitação de Raphael e Ticiano o fizeram algum -tempo rival de Le Brun; mas a posteridade -imparcial o extremou bem.</p> - -<p>Carlos Le Brun n. 1619, m. 1690. Sua composição, -dignidade de exprimir, e fidelidade de -costumes se conhece principalmente pelas batalhas -de Alexandre, que Voltaire julga superiores -ás de Paulo Veronese; mas apezar do meu -respeito a um tal historiador, e philologo, creio -que nisto se engana, bem como no elogio do seu -colorido, que todos taxam de menos correcto.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_137">[Pg 137]</span></p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVIII</h4> - -<p>José Vivien n. 1651, m. 1735. Retratou bem -a pastel, teve muita belleza e fecundidade de -ideias, e executou bem.</p> - -<p>Pedro Subleiras n. 1699, m. 1749. Fertilidade -de ingenho, grandeza de estylo, viveza -de colorido, magnifica prespectiva, boas roupagens -são os seus caracteres, e os d’um grande -pintor.</p> - -<p>João Baptista Santerre n..., m.... Seu merecimento -principal é um colorido verdadeiro e -terno. O quadro de <i>Santa Thereza</i> na capella -de Versailles é um dos esmeros d’arte mais preciosos -e bellos; com quanto um pouco voluptuoso -de mais, de que ao assumpto e logar cumpria.</p> - - -<h4><span class="smcap">Seculo</span> XIX</h4> - -<p>David<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a> é não só o primeiro pintor da moderna -eschola Franceza, mas por ventura o -primeiro do mundo, depois de Raphael. Que<span class="pagenum" id="Page_138">[Pg 138]</span> -vastidão e sublimidade de ideias! Que força -e verdade no colorido! Finalmente as suas -composições reunem todas as boas qualidades, -que apenas se acham dispersas pelos quadros -mais famosos das antigas escholas, e que só a -elle foi dado juntar. Fallem os prodigiosos -quadros de Belisario, do juramento dos Horacios, -da morte de Sócrates, e sobre tudo o incomparável -quadro das Sabinas, o <i>non plus ultra</i> -da concepção e execução, e a eterna inveja -de todos os pintores existentes e futuros.</p> - -<p>Girodet igualmente se tem distinguido muito -pela elegancia de suas composições, e suavidade -de seu colorido, que nos seus quadros, quer -de perto, quer de longe, presenta quasi o mesmo -effeito. Não tem as graças virís de David; -mas um acabado, uma doçura, uma maneira -de exprimir, que o caracterisam, e tornam por -extremo encantadoras suas bellas producções. -Vejam-se os quadros do <i>enterro d’Atala</i>, e da -Virgem.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_139">[Pg 139]</span></p> - -<p>Gérard por seus excellentes retratos, chamado -o Wandick de França, é tambem pintor -historico e famoso pelo bom arranjo e ordem -de seus grupos, pannejado, ou trapejado de -suas figuras, e bella correcção de desenho. -Seus grandes quadros são o Belisario, a Batalha -d’Austerlitz, e ultimamente a entrada de -Henrique IV em Paris, que lhe grangeou o -logar de primeiro pintor da Camera de Luiz -XVIII; não porque Girodet seja superior a -David, nem mesmo igual, mas porque soube -lisongear a tempo.</p> - -<p>Régnault é muito conhecido pela correcção -do desenho; porém o seu colorido, em demasia -brilhante, é mais contrafeito, que natural: todavia -deu muitos e bons discipulos, e entre -elles o mais famoso é:</p> - -<p>Guérin tão celebre pelos seus quadros de Phedra, -e Hyppolito, de M. Sexto, e da narração -de Eneas a Dido. Seus caracteres são fogo pictoresco -e muita sciencia de <i>claro-escuro</i>.</p> - -<p>Le Gros bem conhecido pintor de historia segue -a David. É mui celebre o seu quadro de -Francisco I, e Carlos V em S. Diniz.</p> - -<p>Vernet, filho do paizagista do mesmo nome,<span class="pagenum" id="Page_140">[Pg 140]</span> -e que no genero de batalhas é sem par. Só -elle conseguiu exprimir com todo o fogo, e energia -os brutos, que puxam o carro de Neptuno.</p> - -<div class="footnotes"> -<h5>NOTAS DE RODAPÉ:</h5> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[25]</a> Á excepção da Inglaterra e Russia, e tambem de -Portugal, que então colhia os fructos de todas as fadigas -de Pombal e Manique.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[26]</a> Seneca <i>Epist.</i> 65</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[27]</a> Tinha-me feito a mim proprio uma lei de não nomear -nenhum pintor vivo; mas o reconhecido merecimento -destes, o serem estrangeiros, a necessidade de fallar da moderna eschola Franceza, e não podêr faze-lo -de outra maneira, me obrigou a infracção da lei, -e quebra do protesto.</p> - -</div> - -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_IX">CAPITULO IX<br><span class="small">Dos Pintores Inglezes, e principalmente -de West</span></h3></div> - - -<p>West é o unico inglez, cujas obras mereçam -collocar-se a par das boas das outras nações. -Os Inglezes não tem o genio da pintura. A natureza -do paiz não é bella, o sexo frio e desleixado; -as proporções do corpo em geral irregulares, -mal feitas; o caracter da nação duro -e rispido; os costumes ferozes; tudo em fim -concorre a impossibilitar a Gran-Bretanha de -produzir bons pintores. Um inglez bem conhecido, -o barão de Chesterfield o confessava, quando -n’uma de suas cartas a certa dama franceza -diz: Every country has talents peculiar to -it, as well as fruits, or other natural productions. -We here think deeply, and fathom to -the very bottom. Italian thoughts are sublime -to a degree beyond all comprehension. You<span class="pagenum" id="Page_141">[Pg 141]</span> -keep the middle path, and consequently are seen -followed, and beloved (<span class="smcap">Chesterfield</span> <i>Letters</i>: -Lett. 444.) Comtudo West soube distinguir-se -de seus compatriotas por um genio vasto, e -desenho correcto; mas seu caracter de pintura -não é sublime; e o seu colorido (como o geral -da nação) contrafeito e improprio.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_X">CAPITULO X<br><span class="small">Dos Pintores Portuguezes</span></h3></div> - - -<p>Tem-se escripto muito, e muito controvertido -sobre a Pintura portugueza, e sua historia; -mas tanto nacionaes, como estrangeiros (affoitamente -o digo) sem critica. O exame de seus -escriptos, das obras dos nossos artistas me suscitou -a ideia de entrar com o faxo da philosophia -neste cahos informe e desembaraçar, quanto -em mim fosse, com o fio da critica este -inextricavel labyrinto. Não pretendo adiantar -ideias novas: pois donde as haveria? Menos -ainda refutar as poucas historicas que temos: -pois que documentos poderia allegar? Mas simplesmente -examinar o que ha, e dar-lhe ordem<span class="pagenum" id="Page_142">[Pg 142]</span> -e methodo. Eis aqui o que é meu, o resto é dos -escriptores, de quem o houve. Com estes dados -considerei em Portugal quatro epochas de pintura, -umas mais, outras menos brilhantes: por -via destas divisões será por ventura mais facil -o formar um systema historico desta boa-arte -entre nós.</p> - - -<h4>EPOCHA I<br>(Seculos XI até XIV)</h4> - - -<p>O erudito arcebispo Cenaculo, Barbosa e outros -modernos, na investigação das antiguidades -da pintura portugueza, conjecturaram muito -e com muita fadiga, mas pouco fructo. O -desleixamento daquelles seculos meio-barbaros -em se lembrar da posteridade com a historia de -seu tempo, não deixa aos animos estudiosos, e -amigos da gloria patria, senão o desejo e infructuoso -trabalho de vagar sem rumo por um -pelago de conjecturas, a qual mais vaga. Que -Italia e Portugal eram, nestas epochas remotas -dos seculos XI, XII e XIII, as provincias menos -barbaras da Europa; seus monumentos publicos, -templos, estatuas e ainda livros o mestram.<span class="pagenum" id="Page_143">[Pg 143]</span> -Alcobaça e Santa Cruz de Coimbra são, -alem d’outras, incontrastaveis provas da minha -asserção. Vivia entre nós a pintura; e -vivia o melhor, que do gosto do tempo se podia -esperar. Quem exigir mais diffusão, póde -ver os citados Barbosa, e Cenaculo, e todos os -allegados pelo moderno Taborda. O resultado -philosophico de quanto disseram é em poucas -phrases:—Que esta arte antiquissima entre nós -remonta ao principio da monarchia.—Que -barbara e gothica ao principio, se foi pouco e -pouco melhorando, já pelas viagens dos nossos -mestres á Italia, já pelas obras e pintores, que -de lá vinham chamados pelo bom acolhimento, -que lhes nossos monarchas faziam.—Que existem -ainda deste tempo algumas pinturas, cujo -auctor se ignora.—Que nos reinados d’Affonso -V, e João II ja tinhamos pintores de nome, -como Gonsalo Nuno, João Annes, e Alvaro de -Pedro. Que o estylo da nossa pintura deste -tempo, era um mesclado de gothico e grego-moderno, -similhante ao de Cimabúe, Guido de -Sienna, e Pedro Perugino.—O gôsto do <i>antigo</i>, -que então começava a prevalecer na Italia, -e que de lá se communicou a Portugal pela<span class="pagenum" id="Page_144">[Pg 144]</span> -protecção, com que o amador das boas-artes, -D. Manoel especializou a pintura, assignala a -segunda epocha, que se deve contar do XV seculo.</p> - - -<h4>EPOCHA II<br>(Seculos XV e XVI)</h4> - - -<p>«Em quanto a França se occupava em justas -e torneios, em discordias e guerras civís, -Portugal descobria novos mundos, fazia o commercio -da Europa, e produzia um sem numero -de Camões, antes que em París houvesse -um só Malherbe» diz Mr. Voltaire (<i>Siècle de -Louis XIV</i>), e devêra accresentar que, antes -que nascessem Le Brun e Poussin, ja Portugal -contava, na longa serie de seus pintores, Gran -Vasco, Francisco de Hollanda, Claudio Coelho, -e mil outros. D. Manoel chamado o feliz, foi o -pae das sciencias e artes: e se João III contou -no seu tempo mais sabios, que seu illustre antecessor, -fructos foram, que em seu tempo amaduraram; -mas devidos ás fadigas do semeador -e cultor o grande Manoel. Gran Vasco, Gonsalo -Gomes, Fr. Carlos todos são deste tempo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_145">[Pg 145]</span></p> - -<p>O commercio e conquistas da India tinham elevado -o reino a um gráo de opulencia, desconhecido -então das outras nações. D. Manoel quiz -eternizar-se com a fabrica do mosteiro de Belem; -conhecendo:</p> - -<div class="blockquot"> -<p class="poetry"> -<i>Que d’acções immortaes se murcha a gloria,<br> -Se a não regam as filhas da memoria.</i><br> -</p> - -<p class="center">(<span class="smcap">Diniz</span> od.)</p> -</div> - -<p>Os mancebos de mais esperanças foram mandados -á Italia a aperfeiçoar-se na pintura. Affonso -Sanches, Fernão Gomes, Manoel Campello, -Christovão Lopes e outros, voltaram approveitados, -e enriqueceram não só Belem e Lisboa, -mas o reino e toda a Europa com suas -primorosas obras. Veio depois Francisco de -Hollanda, Diogo Pereira e Claudio Coelho, que -não deixaram ao seculo de Manoel e João III<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a> -que invejar ao de Luiz XIV. O estylo pomposo -de Miguel Angelo, que tanto agradava ao<span class="pagenum" id="Page_146">[Pg 146]</span> -genio altivo d’uma nação conquistadora, prevalecia -muito entre os pintores portuguezes, que -nem por isso menos presaram o desenho de Raphael, -e o colorido de Ticiano, que ainda hoje -se admira, em suas bellas composições.</p> - - -<h4>EPOCHA III<br>(Seculo XVII)</h4> - - -<p>Espiraram com D. Sebastião nas areias de -Africa o valor e espirito portuguez; cairam as -sciencias, esmoreceram as artes; e, com quanto -os intrusos Philippes favoreciam alguma cousa -o talento; a abundancia e riquezas, em cujo -seio se crearam sempre os grandes ingenhos -tinham desamparado o reino, e sepultado a nação -no lethargo politico, na miseria e na ignorancia. -As cinzas das sciencias fumegavam com -tudo; e os ultimos vislumbres d’um clarão -moribundo, mas ainda grande, allumiaram ainda -a Amaro do Valle, Estevão Gonsalves, José -d’Avellar e Bento Coelho.—Surgiu finalmente -a independencia portugueza depois de -60 annos de escravidão; mas o genio da nação<span class="pagenum" id="Page_147">[Pg 147]</span> -estava muito abatido; era necessario ainda o -decurso de muitos seculos para o levantar. -Vem-se com tudo desta quadra muitas pinturas, -supposto não mereçam comparar-se com -as do bom tempo de Campello e Claudio. Bem -como nos animos, reinava na pintura por estes -desgraçados tempos a servidão e mau gosto, -que se limitava a copiar e imitar com baixeza; -e por ventura pela mesma razão, que nos -fez desprezar a materna lingua, para escrevermos -na hespanhola: lisonja vil e indigna do -nome portuguez, eterno opprobrio e mancha -de escriptores, aliás benemeritos, como Faria -e Sousa, que enxovalhou sua fama com tal baixeza -e vituperio,<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[29]</a> e a marcou indelevelmente -com o ferrête da sordida adulação; perniciosa -mania, que tanto estragou o idioma de Camões -e Barros, e a tal ponto, que os esforços e fadigas -de tantos sabios e philologos tem sido -pouco para a restaurar.</p> -<p><span class="pagenum" id="Page_148">[Pg 148]</span></p> - -<h4>EPOCHA IV<br>(Seculos XVIII e XIX)</h4> - - -<p>A longa paz do reinado de D. João V, o -commercio das colonias Americanas, as riquezas -e abundancia consecutivas fizeram reviver -as artes e sobretudo a pintura e architectura. -Começou-se Mafra pela mesma razão, que se -começara Belem: a Italia recebeu de novo -muitos alumnos portuguezes; e como Luiz -XIV fizera em Roma, fez João V, instituindo -n’aquella cidade uma academia de pintura. -Francisco Vieira Lusitano, Ignacio d’Oliveira, -e muitos outros foram o digno fructo dos cuidados -do monarcha, merecedor por seus bons -desejos d’um seculo mais philosopho, e d’uma -côrte menos hypocrita. N’este estado de cousas -começou a reinar D. José, e com elle o -marquez de Pombal: tudo mudou de face; cahiu -o colosso jesuitico, o reino d’Aristoteles e -a barbaridade Thomistica<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[30]</a>; brilhou a pintura<span class="pagenum" id="Page_149">[Pg 149]</span> -como a poesia, e as outras artes e sciencias. O -governo doce e moderado de Maria I acabou -de aperfeiçoar o que principiara e adiantara -D. José, e o marquez de Pombal, que na universidade -de Coimbra,<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[31]</a> em Mafra, no collegio -dos nobres, e outras partes tinham instituido -aulas de desenho e pintura. D. Maria -fundou a academia do <i>nu</i>; em seu tempo<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[32]</a> se -instituiu a de desenho do Porto. A nenhum bom -portuguez devem esquecer os vigilantes cuidados -do intendente Manique, a quem a pintura, -a esculptura e mais artes devem tanto em -Portugal. Esta fertil epocha produziu um Pedro -Alexandrino, Vieira Lusitano, Teixeira -Barreto, Vieira Portuense, Sequeira, e muitos -outros, cujos nomes callo, mas bem conhecidos -pelas suas bellas producções. A verdade, -a expressão, o bello natural são os caracteres -dominantes nestes tempos.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_150">[Pg 150]</span></p> -<h4>PINTORES PORTUGUEZES DA I EPOCHA<br>(Seculo XI até XIV)</h4> - - -<p>Alvaro de Pedro viveu e pintou na Italia -pelos annos de 1450. Nada mais se sabe; mercês -á incuria de nossos avoengos. Oxalá que -este miseravel e vergonhoso exemplo sirva de -estimulo a netos, que possam melhor que eu, -transmittir á posteridade a memoria illustre de -nossos coévos. Noto de passagem que o traductor -da oração de Belori assevera, com uma -intrepidez que me espanta, serem de Gonsalo -Nuno, ou Nuno Gonsalves as pinturas da capella -de S. Vicente na sé de Lisboa. O mesmo -dizem Francisco de Hollanda e Bermudes.</p> - -<p>João Annes. Deixadas conjecturas, nada -mais sabemos deste pintor, senão que vivia -pelos annos de 1459 por uma carta de privilegio -dada por D. Affonso V. (<i>Vide</i> Taborda, -Cenaculo, etc.)</p> - -<p>Vasco dito o grande (Gran Vasco). Sabemos -por documentos d’aquelle tempo, que vivia ainda -nos fins do XV seculo. Seu stylo do antigo -modo Florentino faz julgar aos sabedores, que<span class="pagenum" id="Page_151">[Pg 151]</span> -estudára com Pedro Perugino. Desenho, ainda -que rude, exacto, attitudes energicas, grande -conhecimento de architectura, bellas paizagens -são os caracteres deste insigne mestre, -que fertil, e assiduo no trabalho enriqueceu -todo o reino com seus primores. Muitos templos -de Lisboa, o da Ordem de Christo em -Thomar, e outros o attestam. Foi pintor de D. -Affonso V, e segundo o traductor portuguez de -Belori, tambem de D. Manoel. Um periodico -de Lisboa (que infelizmente se intitula Mnemosine -Lusitana) quer que o melhor quadro de -Vasco seja o da paixão de Christo no horto -(em Thomar): pintura (diz elle) porque um -Inglez philologo, dava 6:000 cruzados, e uma -boa copia. Desejava de todo o meu coração, -que o redactor, ou redactores tivessem, ao -menos nisto, razão: em quanto a mim o amor -da patria m’o faz crer facilmente.</p> - - -<h4>PINTORES PORTUGUEZES DA II EPOCHA<br>(Seculo XV e XVI)</h4> - - -<p>Gonsalo Gomes, de quem nada mais se sabe -senão que vivia nos fins do seculo XV, foi<span class="pagenum" id="Page_152">[Pg 152]</span> -pintor de D. Manoel: e a estimação, que este -sabio rei d’elle fez, é o unico, mas relevante -testemunho do seu merecimento.</p> - -<p>Na chronica de D. Manoel é chamado Duarte -Darmas <i>grande pintor</i>, e como tal enviado -por el-rei a debuxar as entradas de Azamor, -Salé, etc. (<i>Vide</i> Damião de Goes, <i>Chron. de -D. Man.</i>, part. II, cap. 27, pag. 208, ediç. -de 1819).</p> - -<p>Firmado no proprio testemunho do auctor -assevera (e não sei se com razão) Vicente Carducho, -e com elle Taborda, que o nosso historiador -Resende fôra tambem grande pintor. -Não sei se a singeleza d’aquelles tempos é bastante -para crermos um homem no artigo dos -seus louvores.</p> - -<p>Fr. Carlos, monge de S. Jeronymo, vivia no -principio do seculo XVI. Pintou no stylo de -Bolonha, e sobre tudo no de Corregio. Ainda -que flamengo de origem, suas obras tem mais -nobreza, que o commum d’aquella nação, sem -deixar de ter sua bella simplicidade.</p> - -<p>Gaspar Dias viveu pelos principios do XVI -seculo. Mandado a Italia por D. Manoel a -estudar os grandes modelos, e formar o stylo,<span class="pagenum" id="Page_153">[Pg 153]</span> -sua alma elevada não se contentou d’outros mestres, -que não fossem Raphael e Miguel Angelo. -Estudou-os, e mereceu imitá-los com dignidade.</p> - -<p>Christovão d’Utrecht n. 1478, m. 1557. Ainda -que nascido em Hollanda, nossos escriptores -o fazem portuguez. Soube perfeitamente a -perspectiva, e juntou ao gôsto de Perugino e -João Bellini a maior delicadeza e harmonia de -pincel.</p> - -<p>Affonso Sanches Coelho n. 1515, m. 1590. -Dotado pela natureza de quanto constitue um -grande pintor concebeu fortes desejos de passar -á Italia, onde ouviu as lições de Raphael; -honra, que bem mereceu por seu aproveitamento. -Chamado por Philippe II á Hespanha -ennobreceu Madrid; e sobre tudo o Escurial -com suas pinturas. Um dos poucos exemplos do -merecimento premiado foi este illustre portuguez. -João III de Portugal, Philippe II, Gregorio -XIII, o grão duque de Toscana, o da -Saboia, o cardeal Alexandre Farnese o estimaram, -enriqueceram e honraram á porfia. Sua -alma bemformada escutou sempre a voz da -natureza; e o philologo não excedeu n’elle o -homem. (<i>Vide</i> Palomino, Bermudes, etc.)</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_154">[Pg 154]</span></p> - -<p>Fernão, ou Fernando Gomes, mandado á -Italia por D. Manoel, e em consequencia vivendo -no principio do seculo XVI, foi aproveitado -discipulo de Miguel Angelo; e suas -obras o provam bem.</p> - -<p>Manoel Campelo tambem enviado á Italia, -e tambem do mesmo tempo. Ainda hoje se -admira em Belem nos seus quadros aquella correcção -de desenho da eschola Romana, aquella -grandeza de stylo, que faz a glória de Miguel -Angelo, seu mestre, e que a não faz menos do -illustre discipulo. Estas brilhantes qualidades -lhe grangearam os elogios de todos os sabios -nacionaes e estrangeiros. (<i>Vid.</i> D. Francisco -Manoel de Mello: <i>Hospital das lettras</i>; Guarenti, -etc.)</p> - -<p>Vasques... viveu pelos annos de 1562. Poucos -pintores souberam, como elle, anatomia tão -necessaria para o bom desenho, e proporções, -em que se avantajou, e que lhe déram um mui -distincto logar na historia da arte, apezar de -seu stylo um pouco rude.</p> - -<p>Christovão Lopes n. 1516, m.... O stylo -pomposo de Miguel Angelo, que tanto agradava -ao genio sublime e elevado dos portuguezes,<span class="pagenum" id="Page_155">[Pg 155]</span> -foi o seu modelo; e juntando a tam brilhante -qualidade a expressão de Raphael, enriqueceu -a Patria com as magnificas producções, que -ainda hoje são admiradas depois de tantos seculos -pelos sabedores, e amantes das boas-artes.</p> - -<p>D. Leonor de Noronha da casa de Linhares, -n. 1550, m. 1636. De Duarte Nunes de Leão -na <i>Descripção de Portugal</i>, e de Barbosa na -<i>Biblioth. Lus.</i> sabemos só que pintou <i>excellentemente -a oleo e illuminação</i>.</p> - -<p>Antonio de Hollanda, inventor da illuminação -a pontos brancos e pretos em Portugal; e -com tanto mais merecimento, que absolutamente -ignorava a mesma descoberta, que então se -começava na Italia. Delle disse o Imperador -Carlos V, que <i>mejor le habia sacado al natural -Antonio de Hollanda en Toledo de iluminacion, -que Ticiano en Boloña</i>. Bem pouco -vale este elogio, porque homens desta classe -nada entendem de ordinario de tudo o que -póde ter algum valor ou merecimento, tendo -de mais a mais a presumpção do voto decisivo. -Não consta porém, que Deus creasse mais que -um Salomão, e como este <i>um</i> morreu ha muito<span class="pagenum" id="Page_156">[Pg 156]</span> -tempo, e estes senhores se não dão o incommodo -de fazer aquillo, que fazem os que não -são Salomões, ou não tem a tal <i>infusa</i>, é bem -claro o valor de similhantes elogios. Carlos V -porém (façamos justiça) posto que o mais odioso -monarcha por seu cruel despotismo, não era -com tudo o mais tolo, e algumas luzes lhe tinham -ficado de senso commum, que se costumam -apagar com a...</p> - -<p>Francisco de Hollanda floreceu pelo meio -do seculo XVI.—Pintor, architecto, poeta e -philosopho.—Na Italia Paulo III, e todos os -grandes e sabios; toda a Hespanha; em Portugal -João III, e toda a côrte o estimaram como -merecia. (Pois n’aquelle tempo tambem em -Portugal se dava preço ao merecimento!) O -muito que se tem escripto sobre este memoravel -portuguez, me desobriga de mais extensa -apologia. De sobejo lh’a fazem seus preciosos -escriptos, suas pinturas, e toda a Europa.—De -suas producções é sem questão a obra-prima, -o baptismo de S. Agustinho (que ainda -se conserva em cabeça de morgado na casa -dos Castros) em que se admiram reunidos a -sabia composição de Raphael, o desenho nobre<span class="pagenum" id="Page_157">[Pg 157]</span> -e altivo de Mig. Angel., e o bello colorido de -Ticiano.—Julga-se que morreu em 1574.</p> - - -<h4>PINTORES PORTUGUEZES DA III EPOCHA<br>(Seculo XVII)</h4> - - -<p>Diogo Pereira n. 1570, m. 1640. Trabalhou -muito; e o desvalimento, em que sempre viveu, -não lhe affrouxou as graças naturaes e -puras, que fazem a belleza de suas composições. -Mas sobre tudo as scenas de horror foram -o mimo do seu pincel. Tive o prazer de admira-lo -muitas vezes em suas obras, que por decisiva -prova de merecimento, são procuradas -por altissimos preços para Italia, França e -Inglaterra.</p> - -<p>Estevão Gonsalves Neto n..., m. 1627. É -delle o missal do convento de Jesus tam gabado -pelas excellentes miniaturas que o ornam. -Soube bem o ornato e perspectiva.</p> - -<p>Amaro do Valle n..., m. em 1619. Seu gosto -é delicado; seu stylo grande e expressivo; -o desenho correcto, e assizada a perspectiva. -Foi pintor de Philippe II.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_158">[Pg 158]</span></p> - -<p>José de Avelar Rebello viveu no tempo de -D. João IV, que o condecorou com o habito -de Aviz. Caracterizam suas obras (das quaes -a melhor é o <i>S. Jeronymo</i> da livraria de Belem) -um stylo da grandeza de Mig. Ang., e -um colorido de summa verdade.</p> - -<p>D. Josepha de Ayala n..., m. 1684. Um -ingenho fertil, muita verdade, expressão vivissima -são a caracteristica de seus quadros, pela -maior parte, de flores e fructos; mas o seu -grande genero foi o retrato.</p> - -<p>Claudio Coelho n..., m. 1693. Este homem -tam grande e tam conhecido tem sido abocanhado -por muitos, e exagerado por alguns; -mas a opinião geral o constitue n’um dos mais -superiores graus entre os mais illustres pintores. -Desenhou correctamente; coloriu como Ticiano; -e conheceu, como poucos, o effeito da -perspectiva. Tudo isto se observa principalmente -no seu primoroso quadro da sacristia do -Escurial bem divulgado pela moderna estampa -de Bartholozzi. (<i>Vid.</i> Palomin. <i>Mus. Hist.</i> -pag. 440 até 444; o abbade Ponzz. <i>Viag. -d’Esp.</i> Tom. V. pag. 65 até 126; Bermudez -<i>Diccion. histor.</i> Tom. I. pag. 337 até 347;<span class="pagenum" id="Page_159">[Pg 159]</span> -Bourgeoin <i>Tableau de l’Espagne moderne</i> Tom. -I. pag. 227).</p> - -<p>Bento Coelho viveu no XVII sec. Grande -facilidade, bom colorido, como o de Rubens, -que imitou; pouca correcção no desenho. Conservam-se -ainda muitas de suas obras.</p> - - -<h4>PINTORES PORTUGUEZES DA IV EPOCHA<br>(Seculo XVIII)</h4> - - -<p>Victorino Manoel da Serra n. 1692, m. 1747. -Foi o primeiro, que em Portugal introduziu o -gôsto e ornato francez.</p> - -<p>André Gonsalves, n..., m.... Foi correcto -no desenho, e bom no colorido; mas seu merecimento -principal é o de copista.</p> - -<p>Ignacio d’Oliveira, n..., m. 1781. Distinguiu-se -sobre tudo pelos encantos do colorido: -estudou em Roma, e trabalhou muito em Mafra.</p> - -<p>Francisco Vieira Lusitano n...., m. 1783. -Estudou muito em Roma, aonde, por concurso, -levou o premio da academia de S. Lucas. -Foi grande na alegoria; desenhou bem, coloriu<span class="pagenum" id="Page_160">[Pg 160]</span> -divinamente, e teve muita expressão. Apezar -de tudo o que a inveja e a ignorancia tem suscitado -contra este grande mestre, elle será sempre -um d’aquelles, com que a pintura nacional -mais se honra e ennobrece. Vieira Lusitano é -muito conhecido, para me obrigar a maior elogio.</p> - -<p>Joaquim Manoel da Rocha n. 1730, m. 1786. -Distinguiu-se pela correcção do desenho, e muita -expressão. Foi director da academia do <i>nu</i>, -e professor na aula do desenho de Lisboa.</p> - -<p>Francisco Apparicio n...., m. 1787. Distinguiu-se -muito no retrato e sobre tudo, por uma -grande verdade de colorido. Estudou em França.</p> - -<p>Luiz Gonsalves de Senna, n. 1713, m. 1790. -Foi mui destro no pintar; e em Lisboa se vêm -muitas obras suas de grande merecimento.</p> - -<p>Jeronymo de Barros Teixeira n. em 1750, -m. em 1803. O stylo simples e natural, bom colorido, -muita sciencia de claro-escuro, e de architectura, -grande talento para o retrato o constituem -em mui distincto logar na ordem dos -bons artistas.</p> - -<p>Pedro Alexandrino de Carvalho n. 1730, m.<span class="pagenum" id="Page_161">[Pg 161]</span> -1810. Teve um pincel livre, viveza de côres, -e maneiras engraçadas, e foi um dos directores -da academia do <i>nu</i>.</p> - -<p>José Teixeira Barreto nasc. no Porto 1763, -m. 1810. Estudou muito em Roma, e com grandes -mestres. Seu stylo é caprichoso, mas bello. -Foi lente de desenho na academia do Porto.</p> - -<p>Francisco Vieira Portuense n. 1765, m. -1805. Foi primeiro-pintor da camera e côrte, -director do instituto de desenho do Porto, e -estimado e honrado de toda a nação, e das estrangeiras, -principalmente da Ingleza. Foi premiado -pela academia de Londres. Pintou no -stylo do Guido e Albano; e, no seu genero, -não deixou aos portuguezes nada que invejar -ás outras nações.</p> - -<p class="center p2"><span class="allsmcap">FIM<span class="pagenum" id="Page_162">[Pg 162]</span></span></p> - -<div class="footnotes"> -<h5>NOTAS DE RODAPÉ:</h5> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[28]</a> Nunca pude affeiçoar-me a D. João III apesar da -sua piedade e bondade, apezar do seu amor das sciencias, -protecção que lhes deu, etc., etc. Donde virá isto? -Será do seu ainda maior amor, e do generoso accolhimento, -que fez á Sancta Inquisição.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[29]</a> E com effeito qual será o bom portuguez, que possa -perdoar a Faria e Sousa o ter escripto as suas historias -em castelhano? Os seus taes e quaes commentarios -a Camões, ao melhor dos escriptores portuguezes, -ao mais célebre da sua nação, na lingua dos oppressores -da patria, dos tyrannos de Portugal?</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[30]</a> Todos sabem que a philosophia Aristotelico-Thomistico-escholastica, -tam querida de nossos avós, era -o opposto diametral d’aquella deffinição de Seneca: -<i>Non est philosophia populare arteficium, nec ostentatione paratum. Non in verbis, sed in rebus est.</i> <span class="smcap">Senec.</span> -Epist. XVII ad Lucil.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[31]</a> Em Coimbra não teve effeito: dizem as más linguas, -que por ser cousa d’utilidade e especie ommissa -nos <i>ff.</i> e <i>Inst.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[32]</a> Na regencia do actual reinante, e demencia da -rainha.</p> - -</div></div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_163">[Pg 163]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="BOSQUEJO">BOSQUEJO<br><span class="small">DA</span><br>HISTORIA DA POESIA E LINGUA PORTUGUEZA</h2></div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_167">[Pg 167]</span></p> -<h3 class="nobreak" id="A_QUEM_LER">A QUEM LER</h3> -</div> - - -<p>A minha primeira ideia quando intentei esta -collecção, foi dar ao publico um extracto das -melhores poesias de nossos classicos. Reflecti -depois que não seria ella completa, porque alguns -generos ha que não tractaram aquelles -illustres escriptores: e em tam rica litteratura -como é a portugueza, pena fôra mostrar pouquidade -e pobreza. Resolvi-me por esse motivo -a sahir dos limites classicos. Mas ainda apparecia -outra difficuldade: especies ha de poesia -em que não escreveram senão auctores vivos; -atterrava-me a lembrança de haver de julgar -e escolher obras que aguardam ainda o conceito<span class="pagenum" id="Page_168">[Pg 168]</span> -da posteridade, quasi sempre unico tribunal -recto das cousas dos homens, especialmente -de materia de gôsto. Todavia o mesmo motivo -de querer fazer esta escolha o mais completa -que é possivel, me determinou a arrostar -ess’outro escolho. Procurei nos escriptores -vivos cingir-me quanto racionavelmente pude -á mais geral opinião, escolhendo aquelles trechos -que mais approvados teem sido; observando -pela minha parte a mais rigorosa imparcialidade -que humanamente se póde. E sendo, -como sou, alheio a toda disputa e rivalidade -litteraria e poetica, se alguma hora no decurso -d’esta obra julgarem deslisei d’essa proposta -impassibilidade, peço que o attribuam a erro -de meu juizo, não a proposito deliberado.<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[33]</a></p> - -<p>Queria eu tambem ao principio conservar a<span class="pagenum" id="Page_169">[Pg 169]</span> -cada escriptor sua particular orthographia; -mas a isso obstaram dous insuperaveis obstaculos. -Primeiro—não haver, sôbre tudo nos -classicos, uma base boa ou má em que cada -um d’elles fundasse a sua orthographia para -se poderem regularizar as incalculaveis anomalias -que se encontram em uma mesma obra, -na mesma pagina ás vezes. Segundo—que -havendo sido muitas das obras de nossos poetas -antigos e modernos publicadas posthumas, é -impossivel acertar com o verdadeiro systhema -orthographico d’elles. Esta impossibilidade augmentou -ainda e se estendeu áquelles que apezar -de publicarem suas obras em vida, cahiram -em mãos de novos editores todos ignorantes -ou descuidados (nenhum conheço, a quem fique -mal o epitheto) que em vez de as melhorarem,<span class="pagenum" id="Page_170">[Pg 170]</span> -estragaram e confundiram tudo. Ora d’alguns -d’esses não foi possivel, por mais diligencias -que se fizeram, descubrir as primeiras edições, -as quaes, segundo observei, ainda assim, não -serviriam de muito.</p> - -<p>Accresciam a estes dous motivos a feia apparencia -que teria a obra que mais houvera ficado -recosida manta de retalhos furtacôres, do que -uma collecção de poetas da mesma lingua.</p> - -<p>Determinei pois imprimir tudo com regular -e geral orthographia; cujos principios extrahi -do uso dos melhores classicos, uso que nem -sempre seguiram, mas que manifestamente se -vê quizeram seguir; e são estes:</p> - -<p>I. Conservar fielmente a ethymologia quando -se lhe não oppõe a pronúncia.</p> - -<p>II. Combiná-la com a pronúncia quando -ésta se oppõe á inteira conservação d’aquella.</p> - -<p>III. Nas palavras de raiz incognita seguir -o uso geral.</p> - -<p>IV. Nas diversas modificações dos verbos -conservar sempre a figurativa quando a pronúncia -não obsta.</p> - -<p>V. Não pôr accentos (agudo e circumflexo<span class="pagenum" id="Page_171">[Pg 171]</span> -que são os unicos portuguezes) senão onde a -palavra sem elles se confundiria com outra. -(Tambem me servi do agudo para marcar a -dieresis por não estar aínda adoptado entre -nós o signal (..) que é bem necessario).</p> - -<p>Julgo haver prestado algum serviço á litteratura -nacional em offerecer aos estudiosos de -sua lingua e poesia um rapido bosquejo da -historia de ambas. Quem sabe que tive de encetar -materia nova, que portuguez nenhum -d’ella escreveu, e os dous estrangeiros Bouterweck -e Sismondi incorrectissimamente e de -tal modo que mais confundem do que ajudam -a conceber e ajuizar da historia litteraria de -Portugal; avaliará decerto o grande e quasi -indizivel trabalho que me custou esse ensaio. -Não quero dá-lo por cabal e perfeito; mas é -o primeiro, não podia se-lo. Além de que, a -maior parte das ideias vão apenas tocadas, -porque não havia espaço em obra de taes limites -para lhe dar o necessario desenvolvimento.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_173">[Pg 173]</span></p> -<div class="footnotes"> - -<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[33]</a> Muito tempo hesitei se daria logar n’esta collecção -a um poeta (hoje morto) em quem de certo houve algum -ingenho, mas que ignorou e desprezou a tal ponto -a lingua, tam cynicamente violou o decoro do stylo, -as mais indispensaveis regras do gôsto e da boa razão, -que seus poemas são uma <i>sentina</i> de gallicismos, e -um apontoado de termos baixos, de expressões que -não usa gente de bem, de construcções barbaras, de -versos prosaicos, semeados áquem além de uma ideia -feliz, de um bom verso, de uma imagem poetica. Já se vê que esta descripção a ninguem quadra senão ao -Santos e Silva. Cedi tambem n’este ponto á opinião -que o considera mais do que elle vale, e escolhi o que -me pareceu menos barbaro da tal excentrica Braziliada: -e provavel é que escolhesse mal, porque difficil -é julgar um homem bem quando está <i>cahindo com -somno</i>.</p> - -<p>Fui obrigado a pôr um grande pedaço, porque em -maior espaço appareceria um maior numero d’esses -poucos <i>descuidos</i> felizes do auctor.</p> - -</div> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_172">[Pg 172]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="BOSQUEJO2">BOSQUEJO<br><span class="small">DA</span><br>HISTORIA DA POESIA E LINGUA PORTUGUEZA</h2></div> - - -<hr class="r5"> -<h3 class="nobreak" id="I">I<br><span class="small">Origem de nossa lingua e poesia</span></h3> - - -<p>A lingua e a poesia portugueza (bem como -as outras todas) nasceram gemeas, e se criaram -ao mesmo tempo. Erro é commum, e geral -mesmo entre nacionaes, pela maior parte pouco -versados em nossas cousas, o pensar que a -lingua portugueza é um dialecto da castelhana, -ou hespanhola segundo hoje inexactamente se -diz.</p> - -<p>Das variadas combinações das primitivas -linguagens das Hespanhas com o Grego, o -Latim, com os barbaros idiomas dos invasores -do norte, e alfim com o Arabigo, nasceram -em diversas partes da Peninsula diversissimas<span class="pagenum" id="Page_174">[Pg 174]</span> -linguas que nem dialectos se podem chamar -geralmente, porque, além de não haver uma -commum, de muitos d’elles é tam distincta a -indole e tam opposta que se lhes não colhe -similhança.</p> - -<p>Ninguem ignora hoje que o Proençal foi a -primeira que entre as linguas modernas se cultivou, -mas que por sua breve dura não chegou -nunca á perfeição. Das nações da Hespanha, -as mais vizinhas áquelle crepusculo de civilização -primeiro melhoraram sua linguagem: -mas tambem lhes coube igual sorte; nunca de -todo se puliram. O Castelhano e Portuguez, -que mais tarde se cultivaram, permaneceram -pelo sabido motivo da conservação da independencia -nacional, e vieram a completo estado -de perfeição e caracter cabal de linguas cultas -e civilizadas. O Biscaínho, Catalão, Gallego, -Aragonez, Castelhano, Portuguez e outras mais -foram e são ainda alguns distinctos idiomas: -porém so os dous ultimos tiveram litteratura -propria e perfeita, linguagem commum e scientifica, -tudo emfim quanto constitue e caracteriza -(se é licita a expressão) a <i>independencia</i> -de uma lingua.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_175">[Pg 175]</span></p> - -<p>Grande similhança ha entre o Portuguez e -Castelhano; nem podia ser menos quando suas -capitaes origens são as mesmas e communs: -porém tam parecidas como são pelas raizes de -derivação; no modo, no systhema d’essas mesmas -derivações, na combinação e amalgama -de identicas substancias e principios se vê todavia -que diversos agentes entraram, e que -mui variado foi o resultado que a cada uma -proveio. Filhas dos mesmos paes, diversamente -educadas, distinctas feições, vario genio, porte -e ademan tiveram: ha comtudo nas feições de -ambas aquelle <i>ar de familia</i> que á prima vista -se colhe.</p> - -<p>Este ar de familia enganou os estrangeiros, -que sem mais profundar, decidiram logo, que -o Portuguez não era lingua propria. Esse achaque -de decidir afoitamente de tudo é velho, -sobre tudo entre francezes, que são o povo do -mundo entre o qual (por philaucia de certo) -menos conhecimento ha das alheias cousas.</p> - -<p>Sem dúvida é que a lingua portugueza começou -com seus trovadores, unicos no meio do -estrepido das armas que algum tal qual cultivo -lhe podiam dar; e provavel é que assim<span class="pagenum" id="Page_176">[Pg 176]</span> -fosse com pouco melhoramento até os tempos -d’el-rei D. Diniz, que no remanso da paz de -seu reinado protegeu e animou as lettras, que -elle proprio cultivou tambem.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="II">II<br><span class="small">Primeira epocha litteraria; fins do XIII -até os principios do XVI sec.</span></h3></div> - - -<p>D. João I o eleito do povo, e o mais nacional -de todos os nossos reis, deu ao idioma -patrio valente impulso, mandando usar d’elle -em todos os actos e instrumentos publicos, que -até então se fazim em Latim. Foi esta lei carta -de alforria e de cidade para a lingua que -atélli vivera escrava da dominação latina, a -qual sobrevivera não só ao imperio romano, -mas a tantas conquistas e reconquistas de tam -desvairados povos.</p> - -<p>Aqui se deve pôr a data da verdadeira aurora -das lettras em Portugal, que por singular -phenomeno pouco visto entre outros povos, -raiou ao mesmo tempo com a das sciencias; -por maneira que quando o romantico alaúde<span class="pagenum" id="Page_177">[Pg 177]</span> -de nossas musas começava a dar mais afinados -sons, e a subir mais alto que o atélli conhecido, -as sciencias e as artes cresciam a ponto de -espantar a Europa, mudar a face do mundo, -e alterar o systema do universo.</p> - -<p>Desde então até á morte d’el-rei D. Manuel, -tudo foi crescer em Portugal; artes, sciencias, -commércio, riqueza, virtudes, espirito nacional.</p> - -<p>Muitas foram as producções de nossa litteratura -n’aquelle seculo de glória em que Gil-Vicente -abriu os fundamentos ao theatro das -linguas vivas, Bernardim Ribeiro puliu e adereçou -com alguns mimos da antiguidade o genero -inculto dos romances<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[34]</a> e seguiu (quasi o -segundo) o caminho encetado pelo nosso Vasco -de Lobeira nas composições romanescas; e -ao cabo mostrou aos rusticos pastores do Tejo -alguns dos suaves modos da frauta de Sicilia -que nenhuma lingua viva até então ouvira -soar.</p> - -<p>A natural suavidade do idioma portuguez, -a melancholia saudosa de seus numeros nos levaram<span class="pagenum" id="Page_178">[Pg 178]</span> -á cultura d’este genero pastoril, em que -raro poeta nosso deixou de escrever, quasi todos -bem, porque a lingua os ajudava; nenhum -perfeitamente, porque (inda mal) deram ás cegas -em imitar Sannazaro, depois Boscan e Garcilasso, -e copiaram pouco do <i>vivo</i> da natureza, -que tam bella, tam rica, tam variada se -lhes presentava por todas as quatro partes de -que em breve constou o mundo portuguez, e -das quaes todas ou assumpto ou logar de scena -tiraram nossos bucolicos. Nem d’este geral defeito<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[35]</a> -(o maximo que por ventura se lhes -nota) póde fazer-se excepção, senão fôr alguma -rara em favor de Camões e de Rodrigues Lobo. -O Tejo, o Mondego, os montes, os sitios -conhecidos de nosso paiz e dos que nos deu a -conquista, figuram em seus poemas; porêm raro -se vê descripção que recorde alguns d’esses -sitios que já vimos, que nos lembre os costumes, -as usanças, os preconceitos mesmos populares; -que d’ahi vem á poesia o aspecto e feições nacionaes, -que são sua maior belleza.</p> - -<p>Bernardim Ribeiro foi um tanto mais original<span class="pagenum" id="Page_179">[Pg 179]</span> -em sua simplicidade, o que lhe falta de -sublime e culto sobeja-lhe em brandura, e -n’uma ingenua ternura que faz suspirar de -saudade, d’aquella saudade cujo poeta foi, cujos -suaves tormentos tam longo padeceu, e tam -bem pintou.</p> - -<p>Foi seu contemporaneo Gil-Vicente fundador -do theatro moderno, de cujas obras imitaram -os Castelhanos; e d’ellas se espalhou pela -Europa o mau e o bom d’essa irregular e caprichosa -scena, que ainda assim suas bellezas -tem.</p> - -<p>O proprio Gil-Vicente não deixa de ter seu -comico sal, e entre muita extravagancia muita -cousa boa. Bouterweck e Sismondi parece que -escolheram o peior para citar; muito melhores -cousas tem, particularmente nos autos, superiores -sem comparação ás comedias. A soltura -da phrase, e a falta de gôsto são os defeitos do -seculo; o ingenho que d’ahi transparece é do -homem grande e de todas epochas<a id="FNanchor_36" href="#Footnote_36" class="fnanchor">[36]</a>.</p> -<div class="footnotes"> - -<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[34]</a> Não no sentido de <i>novellas</i>, mas no que então se -lhe dava.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[35]</a> Commum tambem nos outros generos de poesia, -onde quer que entra o descriptivo.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_36" href="#FNanchor_36" class="label">[36]</a> Reservo-me para uma edição que pretendo publicar -do nosso Plauto, fructo de longo e penoso trabalho, -para examinar melhor este ponto, e demonstrar -o que aqui enuncio.</p> - -</div> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_180">[Pg 180]</span></p> -<h3 class="nobreak" id="III">III<br><span class="small">Segunda epoca litteraria; idade de ouro da poesia e da lingua -desde os principios do XVI até os do XVII sec.</span></h3></div> - - -<p>Com a morte d’el-rei D. Manuel declinou -visivelmente a fortuna portugueza: certo é -que as artes progrediram, que a lingua se -aperfeiçoou; porêm esse movimento era continuado -ainda do impulso anterior e já não -promettia longa dura. Assim succedeu. D. João -III colheu os fructos do que D. Manuel havia -semeado; mas de lavras suas, nem elle, nem -seus successores viram colheita.</p> - -<p>Uma cousa todavia que muita influencia teve -sobre a lingua e litteratura portugueza e -que a instituições de D. João III se deve, foi -o cultivo das linguas classicas, que na reformação -da universidade de Coimbra augmentou -muito. Os modelos gregos e romanos foram -então versados de todas as mãos, estudados, -traduzidos, imitados. Aperfeiçoou-se a lingua,<span class="pagenum" id="Page_181">[Pg 181]</span> -enriqueceu-se, adquiriu aquella solemnidade -classica que a distingue de todas as outras -vivas, seus periodos se arredondaram ao -modo latino, suas vozes tomaram muito da euphonia -grega; d’um e d’outro d’esses idiomas -lhe vieram as muitas, e principalmente da grega, -os muitos hyperbatos; com o que vai rica, -livre e magestosa por todas as provincias da -litteratura, que tem decorrido, não havendo -ahi genero de composição, para o qual, ou por -doce de mais como o Toscano, não seja propria,—ou -por mui aspera e guindada como o -Castelhano, se não adapte,—por curta como -o Francez, não chegue,—por inflexivel e rispida -como o Alemão e Inglez, se não amolde.</p> - -<p>Claro é que a historia, a oratoria, todas as -artes do discurso deviam de florescer com tal -augmento. Com ellas todas medrou e cresceu -a poesia na delicadeza, na harmonia, no gôsto; -porêm desmereceu muito, demasiado na -originalidade, no caracter proprio, que perdeu -quasi todo, em a <i>nacionalidade</i>, que por mui -pouco se lhe ia. Todos os deuses gregos tomaram -posse do maravilhoso poetico, todas as -imagens, todas as ideias; todas as allusões do<span class="pagenum" id="Page_182">[Pg 182]</span> -tempo de Augusto occuparam as mais partes -da poesia; e mui pouco ficou para o que era -nacional, para o que já tinhamos, para o que -podiamos adquirir ainda, para o que naturalmente -devia nascer de nossos usos, de nossas -recordações, de nossa archeologia, do aspecto -de nosso paiz, de nossas crenças populares, e -emfim de nossa religião.</p> - -<p>Sá de Miranda, verdadeiro pae da nossa -poesia, um dos maiores homens de seu seculo, -foi o poeta da razão e da virtude, philosophou -com as musas, e poetisou com a philosophia. -Seu muito saber, sua experiencia, seu tracto -affavel, e até a nobreza do seu nascimento, -lhe deram indisputada superioridade a todos -os escriptores d’aquelle tempo, dos quaes era -ouvido, consultado e imitado. Sá de Miranda -exerceu sobre todos os poetas d’aquella epocha -a mesma especie de imperio que veio a -ter Boileau em França, e mais modernamente -Francisco Manuel entre nós. Introduziu na -poesia os metros italianos, e os modos, versos -e combinações de rhymas de Dante e Petrarca: -e desd’ahi quasi se abandonaram inteiramente -(excepto nas voltas e glosas) os nossos<span class="pagenum" id="Page_183">[Pg 183]</span> -antigos versos de redondilha, e absolutamente -os de arte maior e menor, que ainda assim -mui proprios são para certos assumptos, segundo -com feliz exemplo no-lo mostraram antigos -e modernos poetas. Nem o mesmo Sá de -Miranda igualou nunca em composições hendecasyllabas -a pureza, a correcção, a naturalidade -e sublime simplicidade de suas redondilhas -nas epistolas, que hoje são seu maior e quasi -unico titulo de glória.</p> - -<p>São de admirar suas comedias, e são notavel -monumento para a historia das artes pela -feliz imitação dos antigos, e pelo que excedem -quanto até então se tinha escripto. Porem o -theatro portuguez creado pela musa negligente -e travêssa de Gil-Vicente e João Prestes, -carecia de reforma, mas não podia supportar -uma revolução. As comedias de Sá de Miranda -sem caracter nacional, mui classicas de -mais não eram para reformá-lo: o mesmo direi, -e o mesmo succedeu ás de Ferreira, a algumas -poucas mais que depois vieram. O effeito -d’estas composições, aliás preciosas, foi -funesto: os litteratos enjoaram-se (e com razão) -do theatro nacional, e não se deram a corrigi-lo<span class="pagenum" id="Page_184">[Pg 184]</span> -e melhora-lo: o publico preferia (e com -razão tambem) o com que fôra creado, o que -o interessava, o que o divertia, e antes queria -rir com as grosserias dos autos populares, que -bocejar e adormecer-se com as finuras d’arte e -correcções d’essas comedias, que tudo tinham, -menos interesse, onde todo o spirito havia, menos -o nacional.</p> - -<p>Se houveram Sá de Miranda e Ferreira escolhido -assumptos portuguezes, se houveram -pintado os costumes nacionaes, e presentado -ao publico, em vez de quadros italianos, um -espelho em que se elle visse a si e aos seus -usos, e se risse de seus proprios defeitos; fico -em que houveram reformado o theatro em vez -de lhe empecer: e acaso gosariamos ainda hoje -em uma scena rica e abastada dos resultados -d’esse impulso, quando não temos senão que -chorar, e vivemos, sobre o theatro, das migalhas -que mendigamos a estrangeiros pelo triste -meio de traducções, que (as dramaticas -sôbre tudo) nunca podem ser boas.</p> - -<p>Sá de Miranda escreveu além d’isto algumas -eclogas bastante frias, varios sonetos geralmente -de pouca monta. Um d’elles á morte de<span class="pagenum" id="Page_185">[Pg 185]</span> -Leandro e Hero é excellente, mas castelhano, -e por esse achaque o não incluí na escolha.<a id="FNanchor_37" href="#Footnote_37" class="fnanchor">[37]</a></p> - -<p>Não posso deixar de querer mal a tam illustre -portuguez pelo muito que escreveu n’essa -lingua estranha; com que não só privou a natural -do fructo de suas tarefas, mas fez maior -damno ainda com o exemplo que abriu; exemplo -funesto que nos cerceou a litteratura, que -nos defraudou d’uma Diana de Monte-maior, -de tantas boas coisas mais, e ao cabo ia perdendo -a lingua.</p> - -<p>Mas eis ahi Antonio Ferreira para combater -esse mal em sua origem: ei-lo ahi esse portuguez -verdadeiro, ardente amador da lingua, -clamando a todos, pugnando contra todos os -que não prezavam e aditavam o patrio idioma -com as producções do ingenho e das artes. O -profundo conhecimento dos classicos gregos e -latinos, o finissimo gosto que em seu estudo -tinha adquirido, a felicidade com que sempre -os imitou, a pureza da phrase, as riquezas com -que adornou a lingua deram aos versos de<span class="pagenum" id="Page_186">[Pg 186]</span> -Ferreira grande popularidade entre os litteratos -e cortezãos (que, ao aveço de hoje, as -lettras viviam então quasi só na côrte) e fixaram -determinadamente o genero classico entre -nós.</p> - -<p>Cegou-se todavia o nosso bom Ferreira na -imitação dos antigos; copiou-os, não os imitou: -e d’ahi, enriquecendo a lingua, empobreceu -a litteratura, porque a avezou a esse hábito -de copista; cancro que roe o espirito -creador, alma e vida da poesia nacional. Tão -cega foi esta imitação, que seus mesmos versos, -aos quaes hoje ninguem defende da nota -de asperos e duros (e muitos direi—errados) -os fazia assim de proposito por querer usar -das ellipses gregas e latinas, a que repugna a -indole de nossa lingua, so toleraveis em certas -vozes que na prosa mesma se pronunciam e -escrevem no final com <i>m</i> ou sem elle. Este -desagradavel defeito dos versos de Ferreira é -principalmente sensivel nas dicções que teem -final no que chamámos (mal ou bem) diphtongos -nasaes de <i>ão</i>, e muito mais quando n’elle -é o accento predominante da palavra.</p> - -<p>Os sonetos são frios, desengraçados; nas eclogas<span class="pagenum" id="Page_187">[Pg 187]</span> -ha bellezas muitas e mui grandes, mas -espalhadas: nenhuma d’estas composições tomada -per si póde merecer o nome de bella. -Porem das odes, ha d’ellas que são puramente -horacianas, e se lhes fallece a elevação (que -não era esse o genio de Ferreira) sobeja-lhe a -graça, a elegancia e a adornada philosophia, -que não agradam menos, nem de menos valor -e merito são que os extasis pindaricos, ou os -requebros anacreonticos. O que é sem duvida -é que nas linguas vivas Ferreira foi o primeiro -imitador feliz de Horacio, e o primeiro dos -modernos que pulsou a lyra classica. Das -epistolas, ha algumas que podem pleitear em -concisão e fino dizer com as boas do lyrico romano. -Quanto á pureza da moral, ao nobre -patriotismo, áquelle generoso sentimento da -honrada liberdade de nossos avós, áquelle enthusiasmo -da virtude; esse respira, mostra-se -e resplandece em todas as suas obras.</p> - -<p>Mas a verdadeira glória de Ferreira é a -Castro, producção admiravel per si mesma, -pelo tempo em que a escreveu, por todos os -lados por que se considere. Não é ainda liquido -entre os philologos se era possivel o ter<span class="pagenum" id="Page_188">[Pg 188]</span> -visto Ferreira a Sophonisba de Trissino, que -mui poucos annos antes da Castro appareceu: -mas é sem a minima questão reconhecida a -superioridade da tragedia portugueza á italiana: -pasma como sem vêr um theatro, sem -mais exemplares que os gregos e latinos, podesse -Ferreira tratar tão delicadamente um -tal assumpto em um genero desconhecido da -antiguidade. É notavel a primeira scena da -Castro, a scena d’el-rei e dos conselheiros no -acto II., a do acto III. em que o côro traz a -Castro as novas de sua cruel sentença, onde -aquella pergunta de Ignez: «É morto o meu -senhor, o meu infante?» rasgo de sublime, -porém d’um sublime todo sensibilidade, ao -qual nem o <i>qu’il mourût</i> de Corneille póde -comparar-se; e finalmente os coros, que sem -paixão são superiores a todos os exemplares -da antiguidade, e não teem que invejar aos -tão gabados da Athalia. Não dou a Castro -por uma tragedia perfeita: ainda em relação -ao seu tempo e aos conhecimentos da scena -d’então tem ella defeitos: não haver uma scena -em que se encontrem Pedro e Ignez, não -haver algum esfôrço do infante para lhe valer,<span class="pagenum" id="Page_189">[Pg 189]</span> -deixam a peça muito nua de acção, e lhe -entibiam o interesse. A versificação (que -todavia é de preferir aos versos sesquipedaes e -himpados com que hoje está pervertida a scena -portugueza) pécca geralmente por dura; -mas essa mesma é por vezes bella; e para -bons entendedores muito ha hi que estudar; e -oxalá que os nossos dramaticos lessem e relessem -bem a Castro, e apprendessem alli, pelo -menos, naturalidade e verdade de expressão, -que tanto lhes fallecem.</p> - -<p>Não estava ainda n’este auge a poesia portugueza -quando um homem pouco conhecido -dos lettrados, mas já célebre per suas aventuras -e valor, foi para tão longe da ingratissima -patria despicar-se de seu desamor com a mais -nobre vingança; a de levantar-lhe um padrão, -com que não entram as idades, e que conservará -ainda o nome portuguez quando já elle -houver desapparecido da terra. Muita erudição -(pois sabia quanto se soube em seu tempo), ingenho -dos que véem ao mundo de seculos a -seculos se reúniram em Camões. Esse homem -levantou a cabeça la das extremidades d’Asia, -e viu tudo pequeno á roda de si, todos os<span class="pagenum" id="Page_190">[Pg 190]</span> -poetas pigmeus, todos acanhados com as linguas -modernas ainda mal perfeitas, escravos -da imitação classica, incertos e entalados todos -entre o cego respeito da antiguidade e as novas -precisões que as novas ideias, que o novo -estado do mundo requeria. Teve animo para -conceber e força para executar um rasgado e -necessario atrevimento de se abrir caminho -novo, de crear emfim a poesia moderna, dar -não só a Portugal, mas á Europa toda um -grande exemplo, e constituir-se o Homero das -linguas vivas.</p> - -<p>Não me dá espaço o acanho de meus limites -para dizer de Camões o que era indispensavel; -antes a celebridade de seu nome me -deixará parar aqui para dar logar a tractar -de menos conhecidos nomes. Só direi que a -influencia de Camões na nossa poesia, e em -toda a litteratura portugueza foi tal que desde -então té hoje ainda se não deixou de sentir, -mesmo nas epochas em que mais desvairados -teem andado nossos poetas com as empolas do -<i>gongorismo</i>, ou mais lunaticos com os esfusiotes -do <i>elmanismo</i>. Quasi que não houve genero -de poesia que não tractasse: tem sonetos<span class="pagenum" id="Page_191">[Pg 191]</span> -admiraveis; eclogas (sôbre tudo as primeiras) -excellentes; mas principalmente de todas as -poesias menores são o mais sublime e perfeito -as canções, genero a que deu uma nobreza e -elevação desconhecida mesmo em Petrarca: -sirva de próva e exemplo aquella que começa—«Junto -d’um sêcco duro e esteril monte.» -Dos Lusiadas, de suas bellezas e defeitos, -das controversias sobre umas e outros, está -cheio o mundo litterario.</p> - -<p>Contemporaneo de Camões e ousado tambem -como elle a encetar a carreira epica foi Jeronimo -Cortereal. O Cêrco de Diu, que é notavel -monumento litterario, e que de certo se -teve algum exemplar foi a <i>Italia</i> do Trissino, -é uma fria narração, em que ha bellas ideias -áquem além, muita riqueza de linguagem, -pouca de poesia, e pelo geral maus versos. E -comtudo é talvez Cortereal o primeiro (em -data) poeta descriptivo; e creou elle acaso esse -genero de que tanto blasonam hoje inglezes, -allemães, e até francezes, e que todavia nós -tinhamos seculos antes d’elles. Ja no Cêrco -de Diu ha muitas boas descripções: mas no -naufragio de Sepulveda ha d’ellas sublimes.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_192">[Pg 192]</span></p> - -<p>Entre muito devaneio de imaginação e de -mau gôsto, entre aquelles insipidos requebros -de Pan e de Protheu apparece todavia a morte -de D. Leonor que é um trecho da mais bella -poesia, da mais fina sensibilidade que se tem -composto.</p> - -<p>De todos esses poetas que então floreceram -é na minha opinião o menos poeta esse Pero -d’Andrade Caminha, a quem da amisade e celebridade -de Ferreira e Bernardes vem talvez -o maior renome. Ainda assim tem algumas -odes boas, simplicidade com elegancia por partes -de suas composições: epigrammas, são alguns -excellentes.</p> - -<p>Sôbreviveu a todos estes e á patria, que não -tardou em perecer, o suave cantor do Lima que -levado per D. Sebastião para testimunhar seus -altos feitos, de que devia fazer um poema, perdeu-se -com seu rei, e jazeu captivo em Africa. -Pondo de parte a questão das eclogas (na qual -de certo não andou de boa fé Faria e Sousa) a -qual, ainda que propria do logar, é mui longa -para os meus limites; Bernardes foi excellente -poeta; e com quanto sua linguagem é pobre, -e em geral pouco variadas suas composições;<span class="pagenum" id="Page_193">[Pg 193]</span> -a suavidade de seu stylo, certa melancholia -d’expressão que lh’o requebra e embrandece -darão sempre a Bernardes um logar mui distincto -na poesia portugueza.</p> - -<p>Mas ja a nação se perdêra nos areaes de Africa, -já a glória portugueza estava offuscada; -com ella foram (como sempre vão) as boas artes. -Ainda brilham a espaços faíscas do grande luzeiro -que se apagára; mas já não eram senão -faíscas.</p> - -<p>Ainda Luis Pereira deplora na <i>Elegiada</i> a -ruina da patria, mas esse canto funebre é quasi -o canto de cysne da poesia nacional, que parece -querer fenecer com elle, e já n’elle moribunda -se mostra. Ha excellentes oitavas derramadas -per esse poema, algumas descripções felizes, -grandissima riqueza de linguagem; mas pouco -mais.</p> - -<p>Ja Fernão Alves do Oriente diffuso, intrincado -nos primeiros labyrinthos dos <i>conceitos</i> -italianos mostra a visivel decadencia da poesia: -já as musas que tão louçans, e ingenuamente -bellas tinham folgado pelas varzeas do Tejo e -do Mondego com Ferreira e Camões, apparecem -affeitadas com arrebiques e côres falsas,<span class="pagenum" id="Page_194">[Pg 194]</span> -como essas damas para quem se desbota a flor -da idade e lhe querem ainda supprir o viço com -emprestados ornamentos, gentilezas compradas, -e postiças. E todavia ha na Lusitania transformada -pedaços lyricos excellentes, e alguns bucolicos -soffriveis. Assim elle nos dissesse mais -do seu Oriente do que nos disse: assim houvesse -enriquecido a litteratura com mais imagens -de tantas que sua Asia lhe offerecia, e -com que houvera additado a mãe patria. Onde -o fez, n’aquella ecloga em que conta a historia -de Saladino, é elle verdadeiramente poeta; -e se d’ahi tirarem alguns trocadilhos que -tinha apprendido em Italia, excellente e digno -de imitar-se é o resto.</p> -<div class="footnotes"> - -<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4> - - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_37" href="#FNanchor_37" class="label">[37]</a> A. Rib. dos Santos traduziu este soneto em -portuguez e (cousa inexplicavel em tal homem!) o deu -por seu.</p> - -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="IV">IV<br><span class="small">Terceira epocha litteraria; principia a corromper-se o gosto -e a declinar a lingua.—Começo, até o fim do XVII sec.</span></h3></div> - - -<p>Porem os symptomas do <i>Gongorismo</i> e <i>Marinismo</i> -se manifestavam já em Italia e Castella; -não perfeitos ainda, não no auge a que os -levaram os dous poetas, aliás ingenhosos, cujo<span class="pagenum" id="Page_195">[Pg 195]</span> -nome vieram a tomar; mas já assim mesmo a -poesia moderna estava toda gafa d’essa lepra -de suberba requintada.</p> - -<p>Vasco Mousinho de Quevedo, que sem disputar -é depois de Camões, nosso primeiro epico, -ahi tem já em toda a nobreza de seus versos a -quebra de bastardia d’esse defeito, que todavia -é n’elle ainda raro. Mas que bellezas tem esse -tão mal avaliado Affonso Africano, a que a cegueira -e o mau gosto tem querido preferir a -<i>quixotica</i> e sesquipedal Ulyssea, a hyperborea -e campanuda Malaca! Não é regular o poema, -não é um todo perfeito; o maravilhoso é frio, -e a acção toda não mui bem deduzida; mas -que riquissimos episodios a enfeitam! A descripção -de Zara, o jardim incantado onde aporta -o principe D. João, e alguns outros trechos são -cunhados com o sêllo da verdadeira poesia, e -animados da luz que só dá o ingenho. Quanto -ao stylo, é com poucas excepções fluido e elegante; -custa a achar em tão longo poema uma -rhyma forçada ou má: e a mesma linguagem, -supposto decline um tanto da primeira pureza, -é ainda de boa lei e valiosos quilates.</p> - -<p>D’ésta epocha é tambem Rodrigues Lobo,<span class="pagenum" id="Page_196">[Pg 196]</span> -cujo grande logar como prosista não é aqui -proprio de examinar: de seu merecimento -poetico a commum opinião tem com justiça -decidido dando-lhe um dos primeiros (eu quizera -o primeiro) logar entre os bucolicos antigos; -e outro mui differente e inferior entre os -epicos. E certo, o Condestabre, apezar de -muitos e bons pedaços descriptivos, é frouxa -e morna composição. Que differente era a -frauta que ia soando pelas margens do Lis, -a dulcissima frauta de Lobo, quando comparada -com a tuba heroica, para cuja altivez -lhe fallecem natureza e arte! seus pastores são -verdadeiros pastores, sua linguagem é verdadeira -do campo, não lhes sahem pelos golpes -do pellico as alfaias da cidade, tão mal encubertas -pelos outros bucolicos, os quaes, sem -excepção do proprio Camões, todos peccam -por mui sabidos e lettrados, por discretos e -galantes mais que sóem ser aldeãos e pastores.</p> - -<p>Alem d’isso ha derramados pela Primavera, -Pastor peregrino, etc., pedaços lyricos de -summa belleza, romances excellentes e verdadeiramente -dignos de admiração e estudo.</p> - -<p>Tinhamos perdido a independencia; perdemos<span class="pagenum" id="Page_197">[Pg 197]</span> -logo o espirito nacional, o tymbre, o amor -patrio (que amor da patria poderá haver em -quem patria já não tem!); a lisonja servil, a -adulação infame levou nossos deshonrados avós -a desprezar seu proprio riquissimo e tão suave -idioma, para escrever no guttural Castelhano, -preferindo os sonoros helenismos do portuguez -ás aspiradas <i>aravias</i> da lingua dos tyrannos. -Vergonha que só tem par nas derradeiras vergonhas -com que nos enxovalharam a lingua e -a fama os tarellos, francelhos, gallici-parlas e -toda a caterva dos gallo-manos!</p> - -<p>Em Castelhano escreviam já esses degenerados -portuguezes: mas pouco importava que -o fizessem, que n’isso fraca perda tivemos nós: -de toda essa çafra de versos castelhano-portuguezes -pouco ou nada ha que espremer.</p> - -<p>D’ésta commum baixeza se alevantou o honrado -e douto magistrado Gabriel Pereira de -Castro, que depois de ter aberto na jurisprudencia -um caminho novo e n’aquelle tempo tão -difficil por grandes verdades então perigosas, -tomou ousado a trombeta de Homero, e não -se arrojou a menos que a competir ao mesmo -tempo com a Iliada e Odyssea; que tanto<span class="pagenum" id="Page_198">[Pg 198]</span> -abraça o assumpto de seu poema. Grande é a -concepção, bem distribuidas as partes, regularissimo -o todo, regular e bella a acção, bem -intendidos os episodios; mas o stylo... o -stylo é, prototypo da <i>Phenix-renascida</i>, o requinte -do gongorismo, cujo patriarcha foi entre -nós, pervertendo-nos, á sombra de sua -grande fama e brilhante ingenho, todo o resto -escasso que de gôsto tinhamos ainda, intrincando -a poesia (senão que tambem a prosa -por mau exemplo) n’um dedalo inextricavel -de conceitos, de argucias, de exagerações, de -affectada sublimidade, falsa e van grandeza; -com que de todo veio a terra a poesia nacional, -e acabou a grande eschola de Camões -e Ferreira, que tantos e tamanhos alumnos -havia produzido. E suppunha esse homem vaidoso -ter sobrepujado com as queixotadas da -sua Ulyssea as naturaes bellezas dos divinos -Lusiadas!</p> - -<p>Quasi o mesmo errado trilho, mas que menos -brilhante e com inferior ingenho, seguiu -Sá de Menezes na Malaca. Esse poema, que -tanto tem engrandecido o mau gôsto, é na -minha opinião um dos derradeiros titulos de<span class="pagenum" id="Page_199">[Pg 199]</span> -glória da litteratura portugueza. E todavia é -bem regular, bem concebido, e a espaços se -lhe encontram grandes rasgos de gentileza -poetica. A falla de Asmodeu no conselho infernal -faz lembrar muito a de Lucifer em Milton. -Porem quando agitado o poeta do genio -mau que avexava e endemoninhava os poetas -d’então, começa a guindar-se, a transpor os -derradeiros limites da naturalidade; esquece -todo o deleite que algumas estancias mais descuidadas -nos haviam causado, e é forçoso desemparar -a dura tarefa de tão incommoda leitura, -porque verdadeiramente incommoda e -cança tal stylo, tal phrase, tanto hyperbolico -luxo e destemperado alambicar.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="V">V<br><span class="small">Quarta epocha: idade de ferro; aniquila-se a litteratura, corrompe-se -inteiramente a lingua.—Fins do XVII, até meados -do XVIII sec.</span></h3></div> - - -<p>Mas ainda estes tinham sua nobreza, havia -não sei que grande entre todas essas <i>nuvens de -talco</i>; talvez lhes viesse dos assumptos: porém<span class="pagenum" id="Page_200">[Pg 200]</span> -seus discipulos que ainda quizeram ir ávante, -deram em fazer <i>silvas</i>, <i>acrosticos</i>, e engendraram -todos os outros monstros (originarios, segundo -Diniz, do <i>paiz das bagatellas</i>) e distillando -mais e mais as quintas essencias dos -conceitos, tanto torceram e retorceram o ja -delgado fio poetico, que de todo o quebraram. -So Manoel da Veiga o atou momentaneamente -em uma ou duas lyras da Laura de Amphriso. -Logo tornou a estalar: e per ahi andaram as -pobres musas portuguezas jogando as cabras-cegas -pelas eclogas de Poliphemo e Galatea, -pelos romances hendecasyllabos, e per todos os -outros escondrijos do gosto depravado, de que -boas amostas se conservam no precioso tombo -da <i>Phenix-renascida</i> e alguns outros hoje ignorados -livros d’essa triste data.</p> - -<p>E todavia ja nós tinhamos recobrado tão gloriosamente -nossa independencia, ja o nome portuguez -tornára a ser honra e nobreza, e ainda -essa lepra castelhana lavrava.</p> - -<p>Dous grandes escriptores, ambos prosistas e -ambos dignos de muito louvor, concorreram -para a continuação d’este mal. Quem podia deixar -de admirar Vieira? Quem não iria levado<span class="pagenum" id="Page_201">[Pg 201]</span> -pela torrente de sua eloquencia? Quem resistiria -aos impetos de arrebatamento de Jacinto -Freire? O grande talento de ambos, a vasta -erudição e desmedido ingenho de Vieira sobre -tudo, fizeram grande damno á litteratura: sabiam, -escreviam perfeitamente a lingua, tinham -grande crédito na côrte, tractavam grandes assumptos, -animava-os o nobre e sincero enthusiasmo -da glória e liberdade nacional: tudo foi -após elles; imitaram-lhes vicios e virtudes; como -não distinguiam em Vieira o grande orador, -o grande philosopho do gongorista affectado -(quando o era) não estremavam em Jacintho -Freire o historiador, o panegyrista do -declamador, do academico vão; ruim e bom -seguiam. E como é mais facil imitar a affectação, -que a naturalidade, as argucias de má arte, -que as graças de boa natureza; os imitadores -foram alem de seus typos no affectado, -no mau d’elles, ficaram immenso aquém do que -n’esses era bello e para imitar.</p> - -<p>Nem o conde da Ericeira que traduziu a Arte -poetica de Boileau e d’elle levou tão immerecidos -e banaes elogios, tomou d’ella triaga bastante -para se curar do veneno commum: e ainda<span class="pagenum" id="Page_202">[Pg 202]</span> -assim melhor é sua frigida Henriqueida -que os outros versos que por então se faziam -em Portugal: porem o unico ôlho que o fez rei -em terra de cegos, não lhe era bastante para -ver e acertar com a vereda da posteridade. -Ahi morreu no seu seculo e ahi jaz pela poeira -de alguma livraria de bibliomanico.</p> - -<p>As academias de historia, de litteratura do -tempo de D. João V, as associações ridiculas -de todos os nomes e descripções que então se -formaram, a mais e mais empeioraram o mal, -que progressivamente cresceu até o ministerio -do marquez de Pombal.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="VI">VI<br><span class="small">Quinta epocha: restauração das lettras em Portugal.—Meio -do seculo XVIII até o fim</span></h3></div> - - -<p>A civilisação e as luzes que a geram, tinham-se -estendido do sul para o norte. A corrupção -que após ellas vem em seu marcado periodo, -as fôra apagando, ou ennevoando ao menos, na -mesma direcção. De sorte que pelos fins do -XVII seculo o meio-dia, que havia sido berço -da illustração da Europa, quasi se ennoitava<span class="pagenum" id="Page_203">[Pg 203]</span> -das trevas da ignorancia, as quaes pareciam -voltar como em <i>reacção</i> para o ponto d’onde partíra -a primeira <i>acção</i> da luz que as dissipára.</p> - -<p>O norte, que mais tarde se havia allumiado, -progredia no emtanto: as boas letras, as artes, -as sciencias floreciam na Inglaterra e por quasi -toda a Allemanha. Milton, Descartes, Newton -e Linneu brilharam ao septentrião da Europa; -e nós meridionaes estudavamos as <i>cathegorias</i> e -as <i>summas</i>, aguçavamos distincções, alambicavamos -conceitos, retorciamos a phrase no discurso, -torciamos a razão no pensamento.</p> - -<p>Porem a face do mundo estava começada a -mudar: as antigas barreiras que a politica e os -preconceitos erguiam entre povo e povo quasi -desappareciam; as mutuas necessidades, e até -o mesmo luxo, faziam quasi indispensavel precisão -as permutações do commércio; e o commércio -fraternizou as nações.</p> - -<p>Reciprocamente se estudaram as linguas, generalizou-se -esse estudo: então é que exactamente -os sabios começaram a ser de todos os -paizes: os bons livros pertenceram a todas as -linguas; e verdadeiramente se formou dentro -de todos os estados um estado que (sem os inconvenientes<span class="pagenum" id="Page_204">[Pg 204]</span> -do <i>status in statu</i> dos ultramontanos) -com justiça e exacção obteve e mereceu -o nome de republica das lettras, a qual é uma, -universal, e sem perigo de schisma.</p> - -<p>Os effeitos d’esta alteração no modo de existir -do universo foram sensiveis: as luzes não so reverteram -(sem retrogradar) do norte para o sul, -mas se diffundiram geraes. A França viu então -o seculo de Luiz XIV; Italia deixou sancto -Thomaz e os <i>concetti</i> por melhor philosophia -e melhor gosto; Hespanha teve o seu Carlos -III; e Portugal no reinado d’el-rei D. José -subiu á altura dos outros povos, senão é que -em muitas cousas acima.</p> - -<p>E ainda na reforma da universidade não tinham -apparecido Monteiros-da-Rocha e os outros -portuguezes que d’alli expulsaram a barbaridade -entrincheirada em Coimbra como em -sua ultima cidadella da Europa, e ja a razão e -o gosto recobravam seu imperio na litteratura; -ja as odes do Garção, as obras do padre Freire -e de outros illustres philologos haviam afugentado -as <i>silvas</i>, os <i>acrosticos</i>, e os campanudos -periodos do conde da Ericeira, regenerado a -poesia e restituído a lingua.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_205">[Pg 205]</span></p> - -<p>Outravez ainda o limitado d’este bosquejo -me impede de mencionar outros ingenhos que -tanto mereceram da patria e da litteratura e -remoçaram a perdida lingua de Camões. Exige -o meu assumpto e o meu espaço que me -estreite no círculo poetico.</p> - -<p>Garção foi o poeta de mais gosto e (por aventurar -uma expressão que não é legitima, mas -póde ser legitimada portugueza) de mais <i>fino -tacto</i> que entre nós appareceu até agora. Haverá -n’outros mais fogo, outros ferverão em mais -enthusiasmo, crearão acaso mais; porem a delicadeza -de Garção so tem rival na antiguidade. -A musa pura, casta, ingenua, nunca lhe -desvairou: em suas composições ha d’ellas onde -a mais aguçada crítica não esmiunçará um -defeito. Tal é a cantata de Dido, uma das mais -sublimes concepções do ingenho humano, uma -das mais perfeitas obras executadas da mão -do homem. Todo se deu ao genero lyrico, especialmente -ao Horaciano; e n’esse ninguem -o excedeu, antes ninguem o igualou. A ode á -virtude, a que se intitula o Suicidio (que pela -primeira vez sai a lume n’esta collecção) outras -muitas que longo fôra enumerar, são de uma<span class="pagenum" id="Page_206">[Pg 206]</span> -belleza, d’uma correcção, d’um <i>acabado</i> (como -dizem os pintores) que difficilmente se imitará, -tarde se chegará a igualar.</p> - -<p>Não da mesma sorte Antonio Diniz, que -mais arrojado, mais pomposo, menos correcto -e elegante, assim correu mais caudalosa, porém -menos pura torrente. Em quanto lyrico, tem -rasgos pindaricos verdadeiramente sublimes; -mas o todo de suas odes é em demasia ornamentado; -e ellas entre si peccam amiudo de -monotonias e repetições. Talvez o jugo dos -consoantes, que tão desnecessariamente se impôz, -o acanhou a isso. Mas nas anacreonticas -é elle sem disputa o primeiro poeta portuguez, -e digno rival do ancião de Teios. No genero -bucolico tambem nos deixou mui bonitas cousas, -nenhuma perfeita. Porém a verdadeira -corôa poetica do Diniz Thalia lh’a teceu, que -não outra musa. O Hyssope é o mais perfeito -poema heroicomico de seu genero<a id="FNanchor_38" href="#Footnote_38" class="fnanchor">[38]</a> que ainda -se compoz em lingua nenhuma: se no castigado -da dicção o excede o Lutrin; no desenho<span class="pagenum" id="Page_207">[Pg 207]</span> -da obra, na regularidade do edificio, na imaginação, -foi o discipulo de Boileau muito além -de seu grande mestre: e com mais exacção se -diria de um e outro o que de Camões e Tasso -presumpçosamente disse Voltaire: que se a -imitação d’aquelle fizera este, a sua melhor -obra era essa. O palacio do genio das Bagatellas, -a conversa do deão na cerca dos capuchos, -a ressurreição e vaticinio <i>do gallo assado</i>, -a caverna d’Abracadabro serão, em quanto -houver gosto, estudados como exemplar pelos -litteratos, lidos e relidos sempre com prazer -per todos os amigos das artes.</p> - -<p>Após estes vem o virtuoso e honrado Quita, -a quem pagou a patria com miseria e fome as -immensas riquezas que para a lingua e litteratura -de seus versos herdou. Um pobre cabelleireiro, -a quem as musas que serviu, os grandes -que com ellas honrou nunca tiraram do triste -officio, pôde de sua baixa condição social alevantar-se -do primeiro grau litterario, que acaso -lhe disputam ignorantes ou presumpçosos, -nenhum homem de gosto deixará de lh’o dar.</p> - -<p>Este é em meu humilde conceito o nosso -melhor bucolico: tómo a liberdade de contrastar<span class="pagenum" id="Page_208">[Pg 208]</span> -a opinião commum, porque o meu dever -de crítico me obriga a ennunciar lealmente o -meu pensamento. Tenho para mim (e fico que -acharei quem me siga se de boa fé quizerem -entrar no exame) que a immensa cópia de -composições pastoris, as quaes não são riqueza, -mas desperdicio de nossas musas, ou peccam -por empoladas, por inverosimeis, por baixas, -por demasiado naturaes, por sobejo elevadas. -Um meio termo difficilimo de tocar, de -n’elle permanecer, um stylo singelo como o -campo, mas não rustico como as brenhas, são -dos mais difficeis requisitos que d’um poeta se -podem exigir. Se tem ingenho, custa-lhe a -moldar-se e a rete-lo que não suba mais alto -que a difficil medida, e raro deixa de a exceder, -de perder-se do bosque e acabar em jardins -cidadãos e conversas de damas e cavalheiros -o que começára no monte ou na varzea -entre pastores e serranas.</p> - -<p>Nem Virgilio d’ahi escapou, nem Sannazaro, -nem Camões; Gessner sim, e depois de -Gessner, o nosso Quita. Não digo que não tenha -defeitos, ainda em seu genero pastoril; -mas a boa e honrada crítica falla em geral,<span class="pagenum" id="Page_209">[Pg 209]</span> -louva o bom, nota o mau, porém não faz timbre -em achar defeitos e erros na menor falta -para se regosijar da censura. Grandes homens, -grandes erros: a natureza da mediocridade é -cingir-se a tristes preceitos para esconder sua -mesquinhez: porém de taes nunca fallou posteridade. -Horacio e Boileau foram atrevidos -quando lhes cumpriu, e desprezaram regras e -arte quando os chamou a natureza, e lhes mostrou -o sublime. Philinto, que os sabia de cór, -tambem se levantou acima das regras, e nunca -foi tamanho. E todavia foi elle o maior poeta -de seu seculo: mas os grandes ingenhos não -contraveem a lei, são superiores a ella, e são -elles viva lei.</p> - -<p>Mui distincto logar obteve entre os poetas -portuguezes d’esta epocha Claudio Manoel da -Costa: o Brazil o deve contar seu primeiro -poeta,<a id="FNanchor_39" href="#Footnote_39" class="fnanchor">[39]</a> e Portugal entre um dos melhores.</p> - -<p>Deixou-nos alguns sonetos excellentes, e rivalizou -no genero de Metastasio, com as melhores -cançonetas do delicado poeta italiano. -A que dirige á lyra com sua palidonia imitando<span class="pagenum" id="Page_210">[Pg 210]</span> -a tão conhecida do mesmo Metastasio a -Nice, <i>Grazie all’ ingani tuoi</i>, póde-se apontar -como excellente modêlo. Nota-se em muitas -partes dos outros versos d’elle varios resquicios -de <i>gongorismo</i> e affectação <i>seiscentista</i>.</p> - -<p>E agora começa a litteratura portugueza a -avultar e enriquecer-se com as producções dos -ingenhos brazileiros. Certo é que as magestosas -e novas scenas da natureza n’aquella vasta -região deviam ter dado a seus poetas mais originalidade, -mais differentes imagens, expressões -e stylo, do que n’elles apparece: a educação -europeia apagou-lhes o espirito nacional: -parece que receiam de se mostrar americanos; -e d’ahi lhes vem uma affectação e impropriedade -que dá quebra em suas melhores qualidades.</p> - -<p>Muito havia que a tuba epica estava entre -nós silenciosa, quando Fr. José Durão a embocou -para cantar as romanescas aventuras -de Caramurú. O assumpto não era verdadeiramente -heroico, mas abundava em riquissimos -e variados quadros, era vastissimo campo -sôbre tudo para a poesia descriptiva. O auctor -atinou com muitos dos tons que deviam naturalmente<span class="pagenum" id="Page_211">[Pg 211]</span> -combinar-se para formar a harmonia -de seu canto; mas de leve o fez: só se estendeu -em os menos poeticos objectos; e d’ahi esfriou -muito do grande interesse que a novidade -do assumpto e a variedade das scenas promettia. -Notarei por exemplo o episodio de -Moêma, que é um dos mais gabados, para demonstração -do que assevero. Que bellissimas -cousas da situação da amante brazileira, da do -heroe, do logar, do tempo não podéra tirar o -auctor, se tam de leve não houvera desenhado -este, assim como outros paineis?</p> - -<p>O stylo é ainda por vezes affectado: la surdem -aqui alli seus <i>gongorismos</i>; mas onde o -poeta se contentou com a natureza e com a -simples expressão da verdade, ha oitavas bellissimas, -ainda sublimes.</p> - -<p>Depois de Diniz o logar immediato nos anacreonticos -pertence a outro Brazileiro.</p> - -<p>Gonzaga mais conhecido pelo nome pastoril -de Dirceu, e pela sua Marilia, cuja belleza e -amores tam célebres fez n’aquellas nomeadas -lyras. Tenho para mim que ha d’essas lyras -algumas de perfeita e incomparavel belleza: -em geral a Marilia de Dirceu é um dos livros<span class="pagenum" id="Page_212">[Pg 212]</span> -a quem o publico fez immediata e boa justiça. -Se houvesse por minha parte de lhe fazer alguma -censura, só me queixaria, não do que -fez, mas do que deixou de fazer. Explico-me: -quizera eu que em vez de nos debuxar no -Brazil scenas da arcadia, quadros inteiramente -europeus, pintasse os seus paineis com as -côres do paiz onde os situou. Oh! e quanto -não perdeu a poesia n’esse fatal êrro! se essa -amavel, se essa ingenua Marilia fosse, como a -Virgínia de Saint-Pierre, sentar-se á sombra -das palmeiras, e em quanto lhe revoavam em -tôrno o cardeal suberbo com a purpura dos -reis, o sabiá terno e melodioso,—que saltasse -pelos montes espessos a cotia fugaz como a lebre -da Europa, ou grave passeasse pela orla -da ribeira o tatu esquamoso,—ella se entretivesse -em tecer para o seu amigo e seu cantor -uma grinalda não de rosas, não de jasmins, -porém dos roixos martyrios, das alvas -flores dos vermelhos bagos do lustroso cafezeiro; -que pintura, se a desenhára com sua natural -graça o ingenuo pincel de Gonzaga!</p> - -<p>Justo elogio merece o sensivel cantor da infeliz -Lindoya que mais nacional foi que nenhum<span class="pagenum" id="Page_213">[Pg 213]</span> -de seus compatriotas brazileiros. O Uraguay -de José Bazilio da Gama é o moderno poema -que mais merito tem na minha opinião. Scenas -naturaes mui bem pintadas, de grande e -bella execução descriptiva; phrase pura e sem -affectação, versos naturaes sem ser prosaicos, -e quando cumpre sublimes sem ser guindados; -não são qualidades communs. Os Brazileiros -principalmente lhe devem a melhor corôa de -sua poesia, que n’elle é verdadeiramente nacional, -e legítima americana. Mágoa é que tam -distincto poeta não limasse mais o seu poema, -lhe não désse mais amplidão, e quadro tão magnifico -o acanhasse tanto. Se houvera tomado -esse trabalho, desappareceriam algumas incorrecções -de stylo, algumas repetições, e um certo -desalinho geral, que muitas vezes é belleza, -mas continuado e constante em um poema longo, -é defeito.</p> - -<p>Muito ha que os nossos auctores desempararam -o theatro: eis ahi o faceto Antonio José, -a quem muitos quizeram appellidar Plauto portuguez -e que sem duvida alguns serviços tem -a esse titulo, porém não tantos como apaixonadamente -lhe decretaram. Em seus informes<span class="pagenum" id="Page_214">[Pg 214]</span> -dramas algumas scenas ha verdadeiramente -comicas, alguns dictos de summa graça; porém -essa degenera amiudo em baixa e vulgar. Talvez -que o <i>Alecrim e Mangerona</i> seja a melhor -de todas; e de certo o assumpto é eminentemente -comico e portuguez: hoje teria todo o -merito de uma comedia historica: e se fôra -tractada no genero de Beaumarchais, produziria -uma excellente peça.</p> - -<div class="footnotes"> - -<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4> - - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_38" href="#FNanchor_38" class="label">[38]</a> Digo de seu genero, porque o Orlando furioso -tambem é heroicomico, mas d’outro genero.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_39" href="#FNanchor_39" class="label">[39]</a> Em antiguidade.</p> - -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="VII">VII<br><span class="small">Epocha, segunda decadencia da lingua e litteratura; -gallicismo e traducções</span></h3></div> - - -<p>Á volta este tempo se formou a academia -das sciencias de Lisboa pelos generosos esforços -do duque de Lafões. Esse corpo scientifico, -de quem tanto bem se augurou para a lingua -e litteratura nacional, nem fez tudo o que d’elle -se esperava, nem uma parte mui pequena -do que podia e lhe cumpria fazer: mas nem -foi inutil, nem, como alguns teem querido,<span class="pagenum" id="Page_215">[Pg 215]</span> -prejudicial. E todavia sua força moral não foi -bastante para vencer um mal terrivel que já -no tempo de sua creação se manifestava, mas -que depois, cresceu e avultou a ponto, que -veio a tornar-se quasi indestructivel.</p> - -<p>Este mal foi o <i>gallo-mania</i>, que sôbre perverter -o caracter da nação, de todo perdeu e -acabou com a já combalida linguagem: phrases -barbaras repugnantes á indole do idioma, -termos hybridos, locuções arrastadas, sem elegancia, -formaram a algaravia da moda, e prestes -invadiram todas as provincias das lettras. -Estudar a lingua materna, como aquella em -que fallamos e escrevemos, é dos mais difficeis -estudos, ha mister longa e porfiada applicação. -Que bella invenção para a ignorancia e -para a preguiça não foi esta nova linguagem -mascavada e de furtacôres, que todos podiam -saber sem fadiga, cujas leis cada-um moderava -e arbitrava a seu modo, alterava a seu sabor -com tam plena liberdade de consciencia! -Foi a religião de Mafoma: propagou-a a incontinencia, -a soltura, o desenfreio do appetite. -Desprezaram-se os classicos, apodaram-se -de ignorantes, de rançosos; e os que não ousavam,<span class="pagenum" id="Page_216">[Pg 216]</span> -por algum resto de vergonha, desacatar -assim as honradas cans dos nossos mestres, -sahiram então com o banal e ridiculo pretexto -de que ninguem podia lê-los pelas materias que -tractaram; que tudo eram sermões, vidas de -sanctos, historias de conventos, de frades. Vergonhosa -desculpa! Comquê as decadas de Barros, -que foi talvez o primeiro que introduziu -com feliz execução o stylo classico na historia -moderna, são chronicas de conventos? Fernão -Mendes Pinto, o primeiro europeu que escreveu -uma viagem regular da China e dos extremos -d’Asia, são vidas de sanctos? E d’essas -mesmas vidas de sanctos, quantas d’ellas -são de summo interesse, divertida e proficua -leitura! A vida de D. Fr. Bartholomeu dos -Martyres tem toda a valia das mais gabadas -memorias historicas, de que hoje anda cheia a -Europa, e que ninguem taxou ainda de pouco -interessantes. Quando outra cousa não contivesse -aquelle excellente livro senão a narração -do concilio de Trento, a viagem e estada -do arcebispo em Roma, ja seria elle uma das -mais curiosas e importantes obras do seculo -XVI. E D. Francisco Manoel de Mello, e Rodrigues<span class="pagenum" id="Page_217">[Pg 217]</span> -Lobo, e Camões, e grande cópia de -poetas de todos os generos,—tudo isso são -sermonarios, vidas de sanctos?</p> - -<p>Miseria é que o geral dos portuguezes jurou -nas palavras de quatro peralvilhos que essas -calumnias apregoavam: passou em julgado que -os classicos se não podiam ler, e ninguem mais -quiz tomar o trabalho nem sequer de examinar -se sim ou não assim era.</p> - -<p>N’este estado de cousas appareceram em -Portugal dous homens extraordinarios, ambos -dotados pela natureza de prodigioso ingenho -poetico, Francisco Manoel e Bocage. Aquelle, -filho da eschola de Garção e Diniz, cultivou -muito tempo as musas classicas, e já imbuido -no gosto da antiguidade, já imitador e rival -de Horacio e Pindaro, começou a ser conhecido -em idade madura. Este, quasi desd’a -infancia poeta, appareceu no mundo em toda -a effervescencia dos primeiros annos, ardente -cantor das paixões, enthusiasta, agitado do seu -proprio natural violento, rapido, insoffrido, sem -cabal instrucção para poeta, com todo o talento -(raro, espantoso talento!) para improvisador.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_218">[Pg 218]</span></p> - -<p>Ambos começaram imitando os grandes mestres -de seu tempo, seguindo cada-um em seu -genero o stylo e gosto adoptado e geral desde -a restauração das letras no meado do seculo. -Mas não são ingenhos grandes para seguir, -senão para fundar escholas: nem tardou muito -que cada-um, per seu lado, não sacudisse todo -jugo da imitação, e seguisse livre e rasgadamente -um trilho novo. Bocage a quem seu fado, -por mais aventureira lhe fazer a vida, levou -ao antigo theatro das glórias portuguezas, -voltando d’Asia foi recebido em Lisboa entre -os applausos dos muitos admiradores que já -tinha deixado na viril infancia de seu talento -poetico. Augmentou-se esta admiração com os -novos improvisos do joven poeta, com a extrema -facilidade, com o mui sonoro de seus versos. -O fogo de suas ideias ateou o enthusiasmo -geral; a mocidade inflammou-se com o nome de -Bocage: de enthusiasmo degenerou em cegueira, -em mania; não lhe viam já defeitos; -menos elle em si mesmo. Ninguem duvidava -que os improvisos dos cafés do Rocio eram superiores -a todas as obras da antiguidade, e -que um soneto de Bocage valia mais que todos<span class="pagenum" id="Page_219">[Pg 219]</span> -esses volumes de versos do seculo de João III. -e do de José I. Ésta era a opinião commum -da mocidade; e tam geral se fez, tantas vezes -a ouviu repetir o objecto de tal idolatria, que -força era que a acreditasse, que com ella se -desvanecesse e desvairasse.</p> - -<p>Isso lhe aconteceu. O temperamento irritavel -e ardentissimo de Bocage o levava naturalmente -ás hyperboles e exagerações: essas -eram as mais admiradas de seus ouvintes; requintou -n’ellas, subiu a ponto que se perdeu -pelos espaços imaginarios de sua creação phantastica, -abandonou a natureza, e a suppôz -acanhado elemento para o <i>genio</i>. Mais elle repetia -<i>eternidades</i>, <i>mundos</i>, <i>ceos</i>, <i>espheras</i>, <i>orbes</i>, -<i>furias</i>, <i>gorgonas</i>; mais dobrava o applauso; -mais delirava elle, mais o admiravam. Ao -cabo, nem elle a si, nem os outros a elle o -intendiam.<a id="FNanchor_40" href="#Footnote_40" class="fnanchor">[40]</a> A par e passo que as ideias desvairavam, -desvairava tambem o stylo, e emfim -se reduziu a uma continuada antithese, perpetuos<span class="pagenum" id="Page_220">[Pg 220]</span> -trocadilhos, <i>tours-de-force</i>, pulos, saltos, -rumpantes, castelhanadas, com que se tornou -monotono e (usarei d’uma expressão de pintor) -<i>amaneirado</i>.</p> - -<p>A metrificação de Bocage, julgam-na sua -melhor qualidade; eu a peior; ao menos, a -que peiores effeitos causou. Não fez elle um -verso duro, mal soante, frouxo; porém não são -esses os unicos defeitos dos versos. As varias -ideias, as diversas paixões e affectos, as distinctas -posições e circumstancias do assumpto, -do objecto, de mil outras cousas,—variada -medida exigem; como exige a musica varios -tons e cadencias. A mesma medida sempre, -embora cheia e boa,—o mesmo tom, embora -afinado,—a mesma harmonia, embora perfeita,—o -mesmo compasso, embora exacto, -fazem monotona e insuportavel a mais bella -peça de musica ou de poesia. E taes são os -versos de Bocage, que nos pretendem dar para -typo seus apaixonados cegos: digo <i>cegos</i>, porque -muitos tem elle (e n’esse numero que conto!) -que o são, mas não cegos. Imitar com o -som mechanico das vozes a harmonia intima -da ideia, supprir com as vibrações que só<span class="pagenum" id="Page_221">[Pg 221]</span> -pódem ferir a alma pelo orgão dos ouvidos, a -vida, o movimento, as côres, as fórmas dos -quadros naturaes, eis ahi a superioridade da -poesia, a vantagem que tem sobre todas as -outras bellas artes: mas quam difficil é perceber -e executar esse delicadissimo ponto! Poucos -o conseguiram: Francisco Manoel foi entre -nós o que mais finamente o intendeu e executou, -mas nem sempre, nem cabalmente.</p> - -<p>Porém nos intervallos lucidos que a Bocage -deixava o fatal desejo de brilhar, n’alguns instantes -que, despossesso do demonio das hyperboles -e antitheses, ficava seu grande ingenho -a sos com a natureza e em paz com a verdade, -então se via a immensidade d’essa grande -alma, a fina tempera d’esse raro ingenho que -a aura popular estragou, perdeu o pouco estudo, -os costumes desregrados, a miseria, a dependencia, -a soltura, a fome. Muitas epistolas, -varios idilios maritimos, algumas fabulas, e -epigrammas, as cantatas, não são mediocres -titulos de glória. Dos sonetos ha grande cópia -que não tem igual nem em portuguez, nem em -lingua nenhuma, d’uma força, d’uma valentia, -d’uma perfeição admiravel. O resto é pequeno<span class="pagenum" id="Page_222">[Pg 222]</span> -e pouco. A linguagem é pobre; ás vezes facil, -mas em geral escaça. Sabía pouco a lingua; -a força do grande instincto lhe arredava -os erros; mas as bellezas do idioma, só as dá -e ensina o estudo. As traducções de Ovidio, -Delille e Castel são primorosas.</p> - -<p>Mas de traducções estamos nós gafos: e -com traducções levou o ultimo golpe a litteratura -portugueza; foi a estocada de morte que -nos jogaram os estrangeiros. Traduzir livros -d’artes, de sciencias é necessario, é indispensavel; -obras de gosto, de ingenho, raras vezes -convem; é quasi impossivel fazê-lo bem, é -míngua e não riqueza para a litteratura nacional. -Essa casta de obras estuda-se, imita-se, -não se traduz. Quem assim faz accomoda-as -ao character nacional, dá-lhes côr de proprias, -e não só veste um corpo estrangeiro de alfaias -nacionaes (como o traductor), mas a esse corpo -dá feições, gestos, modo, e indole nacional: -assim fizeram os Latinos, que sempre imitaram -os Gregos e nunca os traduziram; assim -fizeram os nossos poetas da boa idade. Se Virgilio -houvera traduzido a Iliada, Camões a -Eneada, Tasso os Lusiadas, Milton a Jerusalem,<span class="pagenum" id="Page_223">[Pg 223]</span> -Klopstock o Paraiso perdido; nenhum -d’elles fora tamanho poeta, nenhuma d’essas -linguas se enriquecera com tam preciosos monumentos: -e todavia imitaram uns dos outros, -e d’essa imitação lhes veio grande proveito.</p> - -<p>Esta mania de traduzir subiu a ponto em -Portugal, e de tal modo estragou o gosto do -público, que não só lhe não agradavam, mas -quasi não intendia os bons originaes portuguezes: -a poesia, a litteratura nacional reduziu-se -a monotonos sonetos, a trovinhas d’amores, a -insipidas enfiadas</p> - -<p class="poetry"> -<i>De versinhos anões a anans Nerinas.</i><br> -</p> - -<p>Tam baixos nos pozeram os admiradores e -imitadores de Bocage, a quem justamente a -critica stigmatizou com o nome de <i>elmanistas</i>,—e -de <i>elmanismo</i> sua affectada eschola. N’elles -se mostraram exagerados os defeitos todos -do enthusiasta Elmano, sem nenhum dos grandes -dotes, das brilhantes qualidades do poeta -Bocage.</p> - -<p>Alguns ha comtudo de quem esta asserção -não deve intender-se em todo o rigor da phrase.<span class="pagenum" id="Page_224">[Pg 224]</span> -João Baptista Gomes, auctor da Castro, -mostrou n’ella muito talento poetico e dramatico. -D’entre os bastos defeitos d’essa tragedia -sobresahem muitas bellezas. Desvaira-o o <i>elmanismo</i>; -derrama-se per madrigaes quando a -austeridade de Melpomene pedia concisão, força -e naturalidade; perde-se em declamações, -extravaga em logares communs, inverte a dicção -com antitheses, destroi toda a illusão com -versos amiudo sesquipedaes e entumecidos; -mas per meio de todas essas nevoas brilha -muita luz de ingenho, muita sensibilidade, -muita energia de coração; predicados que com -o estudo da lingua que não tinha, com a experiencia -que lhe fallecia, triumphariam ao -cabo do mau gosto do tempo, e viriam provavelmente -a fazer de João Baptista Gomes o -nosso melhor tragico. Atalhou-o a morte em -tam illustre carreira, e deixou orphão o theatro -portuguez que de tamanho talento esperava -reforma e abastança.</p> - -<p>Mas em quanto Bocage e seus discipulos tyrannizavam -a poesia e estragavam o gosto, -Francisco Manuel, unico <i>representante</i> da grande -eschola de Garção, gemia no exilio, e de<span class="pagenum" id="Page_225">[Pg 225]</span> -la com os olhos fitos na patria se preparava -para luctar contra a enorme hydra cujas innumeras -cabeças eram o gallicismo, a ignorancia, -a vaidade, todos os outros vicios que iam -devorando a litteratura nacional.</p> - -<p>A sua epistola sobre a arte poetica e lingua -portugueza, póde rivalizar com a de Horacio -aos Pisões: força d’argumentos, eloquencia da -poesia, nobre patriotismo, finissimo sal da satyra, -tudo ahi peleja contra o monstro multiforme.</p> - -<p>Que direi das odes? Minha intima persuasão -é que nunca lingua nenhuma subiu tam -alto como a portugueza na lyra de Francisco -Manuel. Que ha em Pindaro comparavel á ode -a Afonso d’Albuquerque? onde ha poesia sublime, -elegante, immensa como seu assumpto, -na dos novos Gamas? se o patriotismo fallasse -alguma hora aos degenerados netos de Pacheco -e Albuquerque, que poderia elle dizer-lhes -igual áquella inestimavel ode que se intitula -<i>Neptuno aos portuguezes</i>? E quando a liberdade -troa na espada de Washington, submette -os raios de Jupiter ao sceptro dos tyrannos aos -pés de Franklin, ou tece pelas mãos de Penn<span class="pagenum" id="Page_226">[Pg 226]</span> -os laços de fraterna união! Que immenso, que -grandioso é o cantor de tamanhos objectos! -Quando nas odes a Venus, a Marfisa, a Marcia -<i>voltando inopinada</i>, no hymno á noite se -requebra em amoroso jubilo, ou se enternece -de saudade, todo é graças e primores de linguagem, -de imaginação, de stylo, de delicadeza, -de inimitavel poesia. No genero Horaciano -não é elle tam puro e perfeito como Garção, -mas nem intendeu menos nem imitou peior o -seu modêlo.</p> - -<p>Entre as epistolas ha muitas admiraveis: -dos contos e fabulas, alguns com elegante sal -e chiste. As traducções do Oberon de Wielland, -da Guerra punica de Silio Italico, mas -sobre todas, a dos Martyres de Chateaubriand, -são thesouros de linguagem e de poesia.</p> - -<p>Nenhum poeta desde Camões havia feito tantos -serviços á lingua portugueza: so per si -Francisco Manuel valeu uma academia, e fez -mais que ella; muita gente abriu os olhos, e -adquiriu amor a seu tam rico e bello, quanto -desprezado idioma: e se ainda hoje em Portugal -ha quem estude os classicos, quem se não -envergonhe de lêr Barros e Lucena, deve-se<span class="pagenum" id="Page_227">[Pg 227]</span> -ao exemplo, aos brados, ás invectivas do grande -propugnador de seus foros e liberdades.</p> - -<p>Nos ultimos periodos de sua longa vida -afrouxaram as energicas faculdades d’este -grande poeta, e excepto a traducção dos Martyres -(que assim mesmo tem seus altos e baixos) -quasi tudo o mais que fez é tibio e morno -como de um octogenario se podia esperar. -O nimio temor de commeter gallicismos, a que -tinha justo e sancto horror, o fez cahir em archaismos -e affectação demasiada de palavras -antiquadas e excessivos hyperbatos. Não são -porém estas faltas, nem tantas nem tamanhas -como o pregoou a inveja e a ignorancia.</p> - -<p>Muito honrosa menção deve a historia da -lingua e poesia portugueza a Domingos Maximiano -Torres, cujas eclogas rivalizam com -as de Quita e Gessner, cujas cançonetas são, -depois das de Claudio Manuel da Costa, as -melhores que temos. Foi este muito intimo de -Francisco Manuel, mas tenho por mui exagerados -os elogios que d’elle recebeu.</p> - -<p>Antonio Ribeiro dos Santos, honra da magistratura -portugueza, foi imitador e émulo de -Ferreira: poucos ingenhos, poucos characteres,<span class="pagenum" id="Page_228">[Pg 228]</span> -poucos stylos ha tam parecidos; se não que o -auctor dos coros da Castro era muito maior -poeta, e o cantor do grande D. Henrique muito -melhor metrificador. Ésta ode ao infante sabio, -algumas outras a varios heroes portuguezes, -algumas das epistolas, e especialmente os -versos que lhe dictava a amizade para o seu -Almeno, são d’uma elegancia e pureza de linguagem -rarissima em nossos dias.</p> - -<p>Este Almeno é Fr. José do Coração de Jesus, -missionario de Brancannes, que traduziu -os primeiros livros das methamorphoses de -Ovidio em excellente, riquissimo, purissimo -portuguez, mas em maus versos: e ainda assim, -alguns d’elles são felizes: é de estudar, -de versar com mão <i>diurna</i> e <i>nocturna</i> esse comêço -de traducção para quem quizer conhecer -as riquezas de uma lingua que compete, emparelha, -vence ás vezes, a sua propria mãe latina.</p> - -<p>Duas ou tres odes d’este virtuoso e erudito -padre são mui bonitas.</p> - -<p>Nicolau Tolentino é o poeta eminentemente -nacional no seu genero: Boileau teve mais -força, mas não tanta graça como o nosso bom<span class="pagenum" id="Page_229">[Pg 229]</span> -mestre de rhetorica. E de suas satyras ninguem -se pode escandalizar; começa sempre per casa, -e primeiro se ri de si antes que zombeteie com -os outros. As pinturas dos costumes, da sociedade, -tudo é tam natural, tam verdadeiro! -Confesso que de todos os poetas que meu triste -mister de critico me tem obrigado a analysar, -unico é este em cuja causa me dou por suspeito: -tanta é a paixão, a cegueira que tenho -polo mais verdadeiro, mais engraçado, mais -<i>bom homem</i> de todos os nossos escriptores. -Aquelle <i>bilhar</i>, aquella <i>funcção de burrinhos</i>, -aquelle <i>cha</i>, aquellas despedidas <i>ao cavallo -deitado á margem</i>; o memorial ao principe, -o presente do <i>perum</i>, são bellezas que so não -admirarão atrabilarios zangãos em perpetuo estado -de guerra com a franca alegria, com o -ingenuo gôsto da natureza.</p> - -<p>De José Anastacio da Cunha, que das mathematicas -puras nos deu o melhor curso que -ha em toda Europa, d’esse infeliz ingenho (que -talento houve já feliz em Portugal?) a quem -não impediam as rectas de Euclides, nem as -curvas de Archimedes de cultivar tambem as -musas; de tam illustre e conhecido nome<span class="pagenum" id="Page_230">[Pg 230]</span> -que direi eu senão o muito que me peza da raridade -de suas poesias? Todas são philosophicas, -ternas e repassadas d’uma tam meiga sensibilidade -algumas, que deixam n’alma um -como echo de harmonia interior que não vem -do metro de seus versos, mas das ideias, dos -pensamentos. Todavia ha mister lê-lo com prevenção, -porque (provavelmente estropiada de -copistas) a phrase nem sempre é portugueza -de lei.</p> - -<p>O padre A. P. de Sousa Caldas, brazileiro, -é dos melhores lyricos modernos. A poesia biblica, -apenas encetada de Camões na paraphrase -do psalmo <i>super flumina Babylonis</i>, foi -per elle maravilhosamente tractada; e desde -Milton e Klopstock ninguem chegou tanto acima -n’este genero.</p> - -<p>A cantata de Pygmalião, a ode O homem -selvagem são excellentes tambem.</p> - -<p>Aqui me cai a penna das mãos: o estadio -livre para a critica imparcial acabou. Nem -posso continuar a exercê-la sem temor, nem o -faria ainda assim, pois não quizera vêr revogadas -minhas presumidas sentenças pela severa<span class="pagenum" id="Page_231">[Pg 231]</span> -posteridade, quasi sempre annulladora de juizos -contemporãos.</p> - -<p>Não posso todavia fechar este breve quadro -sem patentear a admiração, e o indizivel prazer -que me deu o poema do Passeio do snr. -J. M. da Costa e Silva, cuja existencia tinha -a infelicidade de ignorar (tam pouco sabemos -nós portuguezes das riquezas que temos em -casa!) e que não sei que tenha que invejar a -Thompson e Delille, se não fôr na pouca extensão -e, acaso dirá mais severo juiz, em algum -verso de demasiado <i>elmanismo</i>. Quanto a mim, -folgo de me lisongear com a esperança que seu -auctor lhe dará a amplidão e mais (poucos -mais) retoques com que ficará por ventura o -melhor poema d’esse genero.</p> - -<p>Apezar dos motivos referidos, pedirei uma -venia mais para mencionar como um poema -que faz summa honra ao nome portuguez, a -Meditação do snr. J. A. de Macedo, que tem -sido censurada por quem não é capaz de intendê-la. -Não sei eu se ella tem defeitos; é -obra humana, e de certo lhes não escapou; -mas sublimidade, cópia de doctrina, phrase<span class="pagenum" id="Page_232">[Pg 232]</span> -portugueza, e grandes ideias, só lh’o negará a -cegueira ou a paixão.</p> - -<p>Cita-se com elogio o nome do snr. J. F. de -Castilho, joven poeta que se despica da injuria -da sorte que o privou da vista, com muita luz -de ingenho poetico.</p> - -<p>Os <i>dythirambos</i> do snr. Curvo Semedo, as -odes do snr. J. Evangelista de Moraes merecem -grande favor do publico: os apologos do -snr. J. V. Pimentel Maldonado são por certo -dignos da maior estimação.</p> - -<p>As Georgicas do snr. Mozinho d’Albuquerque -fizeram a reputação poetica de seu benemerito -auctor. Alguns lhe acharam demaziada -erudição, e queriam mais poesia e menos sciencia. -Eu por mim tomarei a confiança de pedir -ao illustre poeta, em nome da litteratura portugueza, -que na segunda edição de sua tam -util obra não desdenhe de aproveitar os muitos -e riquissimos ornatos que habilmente póde tirar -de nossas festas ruraes, de nossas usanças -(como feiras, serões, desfolhas, etc.), das descripções -de nosso formoso paiz; com que decerto -fará mais nacional e interessante seu estimavel -poema. Não sei tambem se alguma incorrecção<span class="pagenum" id="Page_233">[Pg 233]</span> -typographica ou de cópia, seria origem -de varias imperfeições e impurezas de -linguagem, que os escrupulosos (e em tal materia -é forçoso sê-lo) lhe notam.</p> - -<p>Tudo isso esperamos os portuguezes que nos -vangloriamos de sua excellente obra, vê-lo -melhorado na proxima edição que já reclama -o publico impaciente.</p> - -<p>A litteratura portugueza não mostra presentemente -grandes symptomas de vigor: mas -ha muita força latente sob essa apparencia; o -menor sôpro animador que da administração -lhe venha, ateará muitos luzeiros com que de -novo brilhe e se engrandeça.</p> - -<p class="center p2">FIM</p> - - -<div class="footnotes"> - -<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4> - - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_40" href="#FNanchor_40" class="label">[40]</a> Assim lhe succedeu, principalmente em muitos -dos, por natureza e essencia, hyperbolicos elogios -dramaticos; genero de composição extravagante e -quasi sempre ridiculo.</p> - -</div></div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="INDICE">INDICE<br>DAS<br>OBRAS CONTIDAS N’ESTE VOLUME</h2> -</div> - - -<table class="autotable"> -<tr><th></th><th class="tdr"><i>Pag.</i> -</th></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#O_RETRATO_DE_VENUS">Retrato de Venus</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_5">5</a> -</td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#NOTAS">Notas</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_57">57</a> -</td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#ENSAIO">Ensaio sobre a historia da pintura</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_89">89</a> -</td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#BOSQUEJO">Bosquejo da historia da poesia e lingua portugueza</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_163">163</a> -</td></tr> -</table> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="RECTIFICACAO">RECTIFICAÇÃO</h2> -</div> - - -<p>A <span class="smcap"><a href="#ADVERTENCIA">Advertencia</a></span> de pag. <a href="#Page_164">165-166</a> pertence ao <i>Retrato de -Venus</i> e não ao <i>Bosquejo da historia da poesia e lingua -portuguesa</i>, onde inadvertidamente foi collocada.</p> - -<div class="transnote"><p> -Nota do transcritor: Isso foi collacada na posição certa.</p> -</div> - -<div lang='en' xml:lang='en'> -<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O RETRATO DE VENUS E ESTUDOS DE HISTORIA LITTERÁRIA</span> ***</div> -<div style='text-align:left'> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Updated editions will replace the previous one—the old editions will -be renamed. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Information about the Mission of Project Gutenberg™ -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s -goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg™ and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state’s laws. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation’s website -and official page at www.gutenberg.org/contact -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread -public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state -visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Please check the Project Gutenberg web pages for current donation -methods and addresses. 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Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Most people start at our website which has the main PG search -facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This website includes information about Project Gutenberg™, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. -</div> - -</div> -</div> -</body> -</html> diff --git a/old/69423-h/images/001.jpg b/old/69423-h/images/001.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 0cee1f0..0000000 --- a/old/69423-h/images/001.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69423-h/images/cover.jpg b/old/69423-h/images/cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index fadac32..0000000 --- a/old/69423-h/images/cover.jpg +++ /dev/null |
