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-The Project Gutenberg eBook of O retrato de Venus e estudos de
-historia litterária, by Almeida Garrett
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: O retrato de Venus e estudos de historia litterária
-
-Author: Almeida Garrett
-
-Release Date: November 25, 2022 [eBook #69423]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
- at https://www.pgdp.net (This file was produced from images
- generously made available by National Library of Portugal
- (Biblioteca Nacional de Portugal).)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O RETRATO DE VENUS E ESTUDOS
-DE HISTORIA LITTERÁRIA ***
-
-
-
-
-
- OBRAS
-
- DO
-
- V. DE ALMEIDA-GARRETT
-
-
- XXI
-
-
- O RETRATO DE VENUS
-
- E
-
- ESTUDOS DE HISTORIA LITTERARIA
-
-
-
-
- OBRAS LITTERARIAS
-
- DO
-
- VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT
-
-
-THEATRO:
-
- TOMO I--Catão.
- » II--Merope, Gil Vicente.
- » III--Frei Luiz de Sousa.
- » IV--D. Philippa de Vilhena.
- » V--A Sobrinha do Marquez, As prophecias do
- Bandarra, Um noivado no Dáfundo.
- » VI--O Alfageme de Santarem.
-
-VERSOS:
-
- Camões.
- D. Branca.
- Lyrica.
- Fabula, Folhas cahidas.
- Flores sem fructo.
- Romanceiro, 3 vol.
- O Retrato de Venus.
-
-PROSA:
-
- Viagens na minha terra, 2 vol.
- O Arco de Sanct’Anna, 2 vol.
- Portugal na Balança da Europa.
- Da Educação.
- Helena (romance).
- Discursos parlamentares e Memorias biographicas.
- Escriptos diversos.
-
-
-
-
- O RETRATO DE VENUS
-
- E
-
- ESTUDOS DE HISTORIA LITTERARIA
-
- PELO
-
- VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT
-
-
- _Terceira edição_
-
-
- PORTO
-
- Ernesto Chardron, Editor
-
- 1884
-
-
-
-
- PORTO: 1884--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
-
- 62, Rua da Cancella Velha, 62
-
-
-
-
- O RETRATO DE VENUS
-
-
-
-
- ADVERTENCIA
-
-
-_Fui sempre muito pouco amigo de dar satisfações. Porém ésta minha
-repugnancia não é filha de presumpção, nem de orgulho. De todo o
-meu coração o digo, e todos os que me conhecem, o sabem. Nascem da
-persuasão, em que estou, de que a justificação d’uma cousa está na
-maneira por que essa cousa se faz. E applicando ésta generalidade ás
-composições litterarias, cada vez me convenço mais que os prologos,
-prefacios, avisos a leitores, etc. nada fazem, nem fizeram, nem farão
-nunca ao conceito que da obra se fórma.
-
-E principio foi este, por que na faxada do meu poema não puz tal
-ceremonia. Revendo-o porem agora, examinando este_ ENSAIO, _e
-conhecendo-lhe infindos defeitos, que me tinham escapado; sendo-me
-impossivel emenda-los; resolvo-me a dar =satisfação=; não para
-pretender justifica-los, e salvar-me da crítica com subtilezas, e
-argucias; mas para fazer confissão pública d’elles.
-
-Se me é licito porem dizer duas palavras em meu abono, direi que tanto
-o poema, como as notas, e ensaio são da minha infancia poetica; são
-compostos na idade de dezasette annos. Isto não é impostura: sobejas
-pessoas ha hi, que m’o viram começar, e acabar então. É certo que desde
-esse tempo ategora, em que conto quasi vinte e dous, por tres vezes o
-tenho corrigido; e até submettido á censura de pessoas doutas, e de
-conhecida philologia, como foi o Excellentissimo Senhor =S. Luiz=, que
-me honrou a mim, e a este opusculo com suas correcções. Mas todos estes
-cuidados não puderam (emquanto a mim) tirar-lhe o vicio do nascimento.
-
-Eis aqui a minha confissão geral. Os que me absolverem ficar-lhes-hei
-muito obrigado; os que não quizerem, paciencia; não me mato por
-isso. Comecei esta obrinha por desenfado: acabei-a por divertimento:
-publico-a por amor das artes: se me criticarem, rio-me, e não fico mal
-com ninguem._
-
-
-
-
- O RETRATO DE VENUS
-
- POEMA
-
-
- _.... while it pursues
- Things unnattempted yet in prose, or rhyme._
-
- MILT. _Parad. loste_: book I. V. 15.
-
-
- CANTO PRIMEIRO
-
- Doce mãe do universo, ó Natureza,
- Alma origem do ser, germe da vida,
- Tu, que matizas de verdor mimoso
- Na estação do prazer o monte, o prado,
- E á voz fagueira de celeste gôso
- De multimodos entes reproduzes
- A variada existencia, e lh’a prolongas;
- Que, no fluido immenso legislando,
- Libras sem conto ponderosos mundos,
- Que na ellipse invariavel rotam fixos,
- Ó alma do universo, ó Natureza,
- Teus sacros penetraes em vôo ardido
- Busco, rasgo-lhe o véo, prescruto, e vejo
- Insondaveis mysterios: puro, e simples
- Nunca ouvidas canções na lyra entôo.
- Nua d’enfeites vãos a face amena
- Tu volve ao mundo, que te ignora errado.
- Qual és, qual foste, qual te apura os mimos
- A arte engenhosa, tu lhe amostra e ensina.
-
- Como é dado aos mortaes bellezas tuas
- C’o divino pincel, co’as magas tintas
- Estremar com primor, colher-lhe o bejo,
- Sem donosas ficções meu canto ensine.
-
- Ficções!... E aureas ficções desdenha o sabio?
- A douta, a mestra antiguidade o diga.
- Não; fabula gentil, volve a meus versos;
- Orna-me a lyra c’os festões de rosas,
- Que ás margens colhes da Castalia pura:
- Flores, que outr’ora de Epicuro ao vate
- C’o austero assumpto lhe entrançaste amenas,
- Essas no canto me desparze agora.
-
- Venus, Venus gentil! Mais doce, e meigo
- Soa este nome, ó Natureza augusta.
- Amores, graças, revoae-lhe emtorno,
- Cingi-lhe a zona, que enfeitiça os olhos;
- Que inflamma os corações, que as almas rende.
- Vem, ó Cypria formosa, oh! vem do Olympo,
- Vem c’um mago surrir, c’um terno bejo
- Fazer-me vate, endeusar-me a lyra.
-
- E quanto pódes c’um surriso, ó Venus!
- Jove, que empunhe o temeroso raio;
- Neptuno as ondas tempestuoso agite;
- Torvo Sumano desenfreie as furias...
- Se dos olhos gentis, dos labios meigos
- Desprender um surriso a Idalia deusa,
- Rendido é Jove, o mar, o Averno, o Olympo.
-
- Mas quanto é bello, é grato o vencimento,
- Se á dor suave do pungir fagueiro,
- Da ferida se encontra amigo balsamo,
- E nos olhos da linda vencedora
- Do ardimento o perdão brando se accolhe!
- Tu, Marte, o dize, o Cyprio moço, o Teucro;
- E vós, que ousais na terra imitar numes,
- Que do summo prazer rompendo arcanos,
- N’um momento gosais da eternidade.
-
- Emquanto nas lidadas officinas,
- Forjando o raio vingador dos numes,
- Vive o coxo marido sem receios,
- Ja deslembrado da traidora rede;
- Do Cynireo mancebo entre os abraços,
- Jaz a espôsa gentil ennamorada.
- Nas languidas pupillas lhe transluze
- O prazer divinal, que a opprime, e anceia;
- Nos inflammados bejos, nas caricias,
- No palpitar do seio voluptuoso,
- No lascivo apertar dos braços niveos,
- Nos olhos, em que a luz quasi se extingue,
- Na interrompida voz, que balbucia,
- Nos derradeiros ais, que desfalecem...
- Quem do prazer não reconhece a deusa
- No excesso do prazer quasi espirando?
- Surri-lhe ao lado o filho de travesso,
- E d’entre o myrtho as candidas pombinhas
- C’o estremecido arrulho a dona imitam.
-
- Ah! se o gôsto supremo a um deus não peja,
- Porquê mesquinhas leis nos vedam barbaras
- Tam suave pecar, doce delicto,
- Antes virtude, que natura ensina!
- Dest’arte as breves horas decorriam
- Aos alheados, férvidos amantes;
- E vezes tres rotára o disco argenteo
- Trivia gentil, semque no Olympo, ou Lemnos
- A espôsa de Vulcano apparecesse.
- Ja na etherea mansão vagos juizos
- Maliciosos forma a inveja, a intriga;
- E surriso maligno ás deusas todas,
- Do marido infeliz excita o fado.
-
- Em zelosa vingança affana e freme
- O despeitoso Marte; corre, voa,
- E em busca da infiel vagueia o mundo.
- Coxeando o segue o malfadado espôso,
- Dos antigos errores esquecido:
- Tal é, paixão zelosa, o teu imperio!
-
- Eis do somno d’amor espavoridos,
- Os dous amantes c’o ruido accordam.
- De pavor esmorece o joven timido;
- Por elle anceia a carinhosa amante,
- Descuidosa de si; geme, soluça.
- E do amado na dor, sua dor recresce.
- Que fará?... vacillante... Adonis... Marte...
- O espôso... Ideias, que alma lhe confundem!
- Com o amante ficar, morrer com elle?
- Defender com seu peito o peito amado?
- E salval-o é possivel d’esta sorte?
- Deixa-lo?... Fera ideia!... Ir as suspeitas
- Dos numes dissipar com sua presença?
- Que! deixa-lo! o seu bem! Venus a Adonis!
- Tanto não póde a mesma divindade.
-
- Mas este só lhe resta unico meio:
- É forçoso: comsigo ao carro o sobe;
- Voa a Paphos, e ás Graças lisongeiras
- O precioso pinhor saudosa entrega,
- Que n’um basto rosal mimoso o guardem,
- Velem sempre por elle, té que aos deuses
- Se esvaeça o furor. Subito ao Olympo,
- Composto o vulto, serenando os olhos,
- N’um momento chegou: mago atractivo
- Que lhe spira dos labios, das pupillas,
- Do todo encantador, odios, suspeitas
- Desfaz, esquece em animos divinos:
- Tam pouco, ó bellas, persuadir-nos, custa!
-
- Arde voltar ao suspirado asylo;
- Mas teme a vejam desconfiados olhos;
- E em tanto Adonis geme, e o seu tormento
- Mais que o proprio penar lhe punge n’alma.
- Disenhos volve... Alfim um lhe suscita
- Novo a mente engenhosa: ei-lo abraçado.
-
- Jaz muito alem do tormentorio cabo,
- (Sempiterno brasão da Lusa gloria)
- Em não sabido mar, jamais sulcado,
- Ilha aprazivel, deliciosa, e breve.
- A mão dos homens destruidora, e barbara,
- Mimos da creação não lhe estragára.
- A seu grado crescia o bosque, a selva;
- Vecejava sem leis o prado ameno;
- D’alvas pedrinhas pelo leito amigo
- Se espreguiçava o crystalino arroio,
- Sem temer que impia dextra ouse perversa,
- No brando curso interromper-lhe as aguas.
- Prêsas não gemem fugitivas Nayas,
- Nem Dryades gentis feridas choram:
- Sem arte a natureza era inda a mesma.
- No mais escuro do copado bosque
- Ternas suspiram maviosas rôlas;
- E em mais alegres sons, prazer mais ledo,
- A meiga ave d’amor no arrulho exprime.
- Outro vivente algum a aura fagueira
- Não ousa respirar. Silencio eterno
- Impera na soidão, dobra-lhe encantos.
-
- Tam suave mansão nem mesmo os numes
- No ceo conhecem. Da ternura a deusa,
- Só Venus sabe do recanto ameno.
- Tu, do universo creador principio,
- Venus! oh mãe d’amor, oh mãe de tudo!
- Que amor é tudo, que só tu com elle,
- Ambos creastes e regeis o mundo,
- Que a natureza sois, ou ella é vossa:
- Cypria, Cypria gentil, pódes acaso
- Ignorar uma só das obras tuas?
-
- «Mãe, (lhe diz, entre alegre e malicioso,
- Mas compassivo, o filho), «nessa ignota
- «Ilha do Indico mar...»--Um doce bejo
- O concelho pagou.--Subito parte.
- Lá chega; e nova se difunde a vida
- Na solitaria estancia; em novos germes
- O deleite, o prazer renascem, pulam.
-
- Quam doces d’antemão gosou delicias
- A mui fagueira deusa! O sitio ameno
- Extasiada contempla. «Oh! quam ditosos
- (Clamou) «seremos! Ignorado, occulto,
- Ó doce amante, viverás sem medo.
- Aqui, no seio da ventura e gôso,
- Nos meus braços...» Parou suspensa, e geme:
- Cruel lembrança lhe assomou na mente;
- Agros deveres, perfidas suspeitas,
- Quantas vezes do amante hão de aparta-la!
- Suspira: as rosas do prazer se esvaem
- Das lindas faces niveas. Pensativa,
- Melancolica, e triste... (Eis fausto agouro!)
- Estremecido arrulho alvas pombinhas
- Deram á sestra mão. Ah! sim: é elle:
- Amor, apoz a mãe, veio ajuda-la.
-
- «Filho (co’a voz lhe diz, que impera em Jove,
- Que tam suave rege a natureza),
- «Tu me feriste; não accuso o golpe:
- Amo, adoro esse ferro, que me punge,
- Que na chaga, que abriu, doçura entorna;
- Só quero, só te peço (que não peja
- De implorar-te soccorro a mãe ferida)
- Derradeira mercê: oh! deixa um pouco
- D’humanos corações facil conquista:
- Cesse qualquer amor quando ama Venus.
- A culta Europa rapido discorre,
- E a progenie d’Apollo, almos, divinos,
- Os pintores me traze aqui n’um ponto.
-
- Pasmou c’o rôgo inesperado o numen:
- A causa inquire. «Ah! não: (lhe torna a deusa)
- Não cumpre ainda revelar-t’a, ó filho;
- Cubra o véo do mysterio o doce intento.»
-
- Mal disse: e o raio mais veloz não rue
- Da rubra dextra do Tonante irado,
- Do que a tuba dos candidos amores
- Á voz da deusa fende os ares liquidos.
- Quaes voam de Minerva ao sabio clima,
- Hoje torpe, e servil c’o bruto imperio:
- Quaes á augusta senhora do universo;
- Senhora, emquanto Roma era inda Roma:
- Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco:
- Á formosa Bolonha, á gran Veneza;
- Grande emquanto reinou sobre o Oceano:
- Quaes á suberba Gallia, á Iberia, a Lysia;
- Que de Lysia tambem, tam cara ás musas,
- Da poesia a rival, a irman tem filhos.
-
- De toda a parte a obedecer contentes
- Correm ao mando de Cyprina bella,
- Da natura em despeito, homens creadores,
- Prometheus, que á materia informe e bruta
- C’o divino pincel dão fórma, e vida;
- Erguem da campa gerações extinctas;
- Plantam copados, que enfloream, bosques;
- Co’a viva historia os homens eternisam;
- E, fitando no ceo audazes vistas,
- Aos pasmados sentidos apresentam
- Visivel, sem rebuço a divindade.
-
- Da fertil em prodigios, d’alta Grecia
- O pae d’arte divina, Apelles marcha,
- Thimante, Zeuxis, e Parrhasio, e quantos
- A culta Grecia, a deliciosa Roma
- Famosos produziu em sec’los d’ouro.
- Cimabúe famoso apoz caminha,
- Que as esfriadas cinzas animando
- Do engenho, do talento, o faxo vívido
- Fez na Europa brilhar, e abriu de novo
- O caminho gentil da natureza
- Do barbaro furor fechado, ha muito.
-
- Aos golpes crebros, incessantes, duros
- Da ferrea mão do avaro despotismo,
- Sem fôrças, sem vigor jazia, ha muito,
- A misera Bysancio. Em surda guerra
- Fallaz superstição d’infames bonzos,
- Fanatismo cruel, bifronte, e iniquo,
- Hypocrisia vil, perfida e dobre,
- Ruina infausta lhe apressava, e morte.
- Ávidos sorvos de Roman cubiça,
- Da Latina ambição, riquezas, pompa
- Roubado haviam insaciaveis, féros
- De Constantino á côrte. Espessa nuvem
- De negros vicios, de perversos crimes
- Pousou medonha sobre os tristes netos
- Degenerados, vis d’um povo illustre.
- Crestadas, sêcas pelo sôpro ardente
- Da tyrannia atroz definham, morrem
- Apesinhadas as virtudes candidas;
- Ao cûmulo chegou desdita, opprobrio
- Dos fados teus, ó Grecia. Eis ante as portas
- Da famosa cidade, audaz, suberbo
- Musulmano feroz, Mahomet se ostenta.
- Monstros, que o sangue do mesquinho povo
- Impios bebestes, ah! tremei, que é elle:
- Austero açoite das celestes iras
- Sobre vós descarrega a mão divina.
- Bonzos, no centro aos claustros profanados
- Embalde a frente d’horridas maldades
- Carregada escondeis: lá vai, lá chega;
- Sobre as aras d’um deus, a um deus, que ousastes,
- Incençando-o, offender, lá vos immola.
-
- Artes, sciencias, a guarida extrema,
- Perdeste’-a em fim: voltai, fugí; que Hesperia
- Os carinhosos braços vos estende.
- Ei-las: oh! folga, venturosa Europa.
- Lá cai a pouco e pouco em terra o throno
- Da barbara ignorancia: as trevas do êrro
- Vai accossando da verdade o faxo.
-
- Arte divina, magica pintura,
- Foragida tambem, thesouros, mimos
- Vens espalhar na mui ditosa Italia.
- Italia! oh! folga: Raphaeis ja pulam.
-
-
-
-
- FIM DO CANTO PRIMEIRO
-
-
-
-
- CANTO SEGUNDO
-
-
- Mas eis, distinctos esquadrões formando,
- As escholas assomam; reina entre ellas
- Vivaz emulação, que gera os sabios:
- Vão-lhe na frente os affamados chefes,
- Que a patria honraram c’o pincel divino.
-
- No bello antigo modelando as graças,
- Que em mais sabio pincel, mais bellas surgem,
- A frente airosa sobre erguendo ás outras,
- Vem tribu excelsa dos Romãos pintores.
- Deram-lhe o grau supremo ardua sciencia
- Das attitudes, d’expressão, verdade,
- De audaz composição, nobre elegancia,
- O correcto desenho, e puro, e grave,
- E quanto inspira Apollo ás almas grandes,
- Em extasi sublime altas ideias.
- É filho seu (que mais sobeja glória!)
- Raphael, o divino, o mestre, o numen
- Da moderna pintura, eterno brilho,
- Que os Apelles offusca, e Roma, e Grecia;
- Que, as barreiras transpondo á natureza,
- Olhou de face a face a divindade,
- E as glórias do Thabôr fez ver ao Tybre,
- E aos d’arte amantes desejar com Pedro
- Junto ao prodigio habitação ditosa.[1]
-
- Julio o mestre imitou, foi digno d’elle:
- Forte, ardida expressão lhe anima os traços,
- Que ás proficuas lições dão glória e lustre.
-
- Em cêrca aos muros da gentil Parthénope,
- Onde aprimora a natureza os mimos,
- E a voz do creador soou mais bella,
- Onde, entre montes de sulphureas cinzas,
- Umas sobre outras, as cidades jazem,
- E a rôdo os d’atro fogo horridos rios
- A poeticas ficções dão ser terrivel;
- Alli, silencio eterno ergueu severo
- Religiosa mansão; firmou-lhe as bases
- Austera, descarnada penitencia.
- Sobre as azas do ingenho, á voz d’um numen,
- Vigoroso, expressivo Spanholeto,
- Lá foste, e a assomos do pincel terrivel
- Em longas vestes surgem, pulam, vivem
- Fatidicos anciãos; ás portas velam
- Da estancia outr’ora silenciosa, e sancta.
- E quando atroz, hypocrita veneno,
- Lavrando a furto sob o sacco, e cinza,
- Os muros profanou, que ergueu virtude,
- Inda no mesto panno afflictos suam;
- E a gloria do pintor fulge entre o crime.[2]
-
- Fostes, como elle, heroes da arte divina,
- Polidoro gentil, vivaz Fattore,
- Saliente Caravaggio, que exprimiste,
- Senão bella, fiel a natureza.
-
- Nobre, altivo Cortona, quanto vivem
- Scenas famosas da nascente Roma!
- Nas mães trementes, pallidas filhinhas,
- Ve como a mesma dôr redobra encantos!
- E o fero aspeito dos Quirinos Martes,
- Onde a furto da glória amor scintilla!
- Ah! proximo o prazer vai dar ao mundo
- Prodigios de valor, extremos d’honra,
- Prole Romana... Eis o universo em ferros.[3]
-
- Amavel, terno Sacchi, a ti surriram
- Do mago cinto de Erycina as graças;
- Meigos, suaves dons te esparzem n’alma,
- Que nos quadros gentis reflectem doces.
- Belligero Cerquozzi avulta aos olhos
- Brandir no panno, lampejar mil ferros,
- E aos roucos sons da sanguinosa guerra,
- Entre as phalanges baralhadas rôtas,
- Entre abysmos d’horror alçar-se a morte.[4]
-
- Quam magos fulgem divinaes, sublimes,
- Maratti encantador, facil Giordano,
- Mimoso Dolce, e vós, que á nova Roma
- Ingenhos tantos, insondaveis, grandes,
- Por guerreiros tropheos, suberbos róstros,
- Triumphos cem do ovante Capitolio,
- Dais, se menos viril, menos heroico,
- Ornamento gentil, belleza, encantos.
-
- Ja de acurvados reis não brilha o fasto
- Da escravidão contentes; não se antolha
- Em cada senador um nume, um Jove.
- Ja nas praças, nos templos não campeiam
- Os despojos do mundo; o Circo, o Fóro,
- Prodigios d’arte, da opulencia, e luxo,
- Da barbara ignorancia ás mãos cederam.
- Cheio de Livio o viajante absorto
- Não ve do Capitolio a frente erguida
- Torreada avultar com ferros cento,
- Não ve povo d’heroes girar-lhe entôrno;
- Da inesp’rada mudança pasma, e geme,
- E no centro de Roma a Roma busca.
- Porem, se amiga mão lhe guia os passos,
- Se o Vaticano e mil prodigios nota,
- Que do antigo explendor moderam fama;
- Então Roma conhece, então venera
- Nobres resquicios de gloriosos évos.
-
- Taes da moderna Roma os filhos iam
- Por travesso menino conduzidos;
- E d’altiva belleza ornada a frente,
- A magestosa, Florentina eschola
- De perto os segue: no atrevido ensejo
- Parece disputar-lhe o grau supremo.
- Co’a sublime expressão, desenho ardido,
- Gigantesca maneira, audaz, mas bella,
- Se antolha ennobrecer a natureza.
- Brandas graças d’amor, ternura, encantos
- Feroz desdenha; só lhe avulta á mente
- O nobre, a pompa da ideal grandeza.
-
- Não foi sobre o Synai mais formidavel,
- Que d’Angelo entre as mãos, Moysés terrivel;
- Nem lá no extremo, derradeiro dia
- Julgamento final será mais horrido.
- C’o deus, que o peito vos perturba, anceia,
- Mais pavorosas não rugís, Sibylas.
- Da mão nervosa cada traço é raio,
- Que espanta os olhos, que deslumbra a mente;
- Que enxofrado clarão, medonhas larvas
- Em todo o horror do Averno ostenta horrivel;
- Que, se um deus pinta, é do castigo o numen,
- Que em longa geração pune um só crime,
- O deus, que no deserto, entre os relampagos,
- Entre o rouco estampido das trombetas,
- Pela voz do trovão legisla ao mundo.
- Eis, desdobrando hydraulicos segredos,
- E as mechanicas leis com sabia dextra
- Movendo a seu sabor, á glória sua,
- Vinci tam caro aos reis, de o ser tam digno,
- Seu correcto, purissimo desenho,
- Engenhoso compor o eleva aos astros,
- Aos astros, onde fôra em vôo ardido
- Os pinceis escolher, buscar as tintas,
- Com que d’ultima ceia debuxára
- Amor, transportes, mysteriosas scenas.
- Ah! gire o teu prodigio o mundo inteiro;
- E de grado a razão cede ao mysterio.
-
- Côres roubando á natureza, e mimos,
- Bello como ella, o inimitavel Porta
- Ao gelado silencio de ermo claustro
- Chamou das nove irmans o chôro arguto.
- Urbino o conheceu; e o sceptro augusto
- Curvou ante elle; e, confundindo os raios,
- Os dous d’alma pintura astros brilhantes,
- Sem negro eclypse, scintillaram juntos.
-
- Vens, ó Sarto, apoz elle, ameno, e brando;
- Vens, Peruzzi gentil, fertil Pantorma,
- Que ao nobre assômo do pincel nervoso,
- C’o doce encanto das mimosas tintas
- Fizeste a Raphael, a Buonarrotti
- D’arte a coroa estremecer na frente.
- Sec’los famosos d’Alexandre, e Augusto
- Na Italia renovou macio Allori;
- E as meigas cores do pincel Lombardo
- Quasi Ciogli usurpára ao grão Corregio.
-
- Ah! veda a musa, e pequenez do ingenho
- Seguir-vos todos, divinaes pintores:
- Segura a fama vossa alteia a frente,
- E o vate ao longe vos contempla os vôos.
-
- Gentil Bolonha, que na Europa barbara
- O faxo das sciencias accendeste,
- Que o Gothico stupor tiraste ás artes,
- E as cinzas da virtude apesinhadas
- Por sanctos crimes de sagrados monstros
- C’um Benedicto consolaste em Roma,
- Eis vem dignos de ti, teus sabios filhos,
- Numerosa familia, antiga e nobre,
- Que o mel das graças delibando férvida
- Em quantas flores produzíra Apollo,
- Nobre desenho modelou no antigo,
- Á natura usurpou vivaz belleza,
- E o mago, o puro dos gentis contornos,
- A verdade, a expressão, o rico d’ordem,
- E o colorido inimitavel, bello,
- Que emparelha com a arte a natureza.
-
- Assim brilhou divino o gran Corregio,
- Assim Francia gentil, assim Mantegna,
- E Bolognese vigoroso, e forte;
- E tu, que o terno amor, e seus encantos,
- Simplices graças da natura virgem,
- Da innocencia infantil o mimo, os jogos,
- As singelas beldades exprimiste
- No mavioso pincel, mavioso Albano.
- Nem deslembre de Guido a fertil mente,
- Talento universal, vago, mas bello...
-
- C’a expressão de Zampieri ordem, nobreza,
- Ve d’Agnese gentil a ardua constancia
- Como os p’rigos desdenha, e ve risonha
- Ja do ferro do algoz pender-lhe a morte.
- Ferino aspeito dos ministros barbaros,
- Da augusta religião viril triumpho
- Aos engolfados olhos se apresenta,
- E, arrebatando o esp’rito a deus, ao vate,
- Um prodigio a prodigios amontoa.
- Ve Guerccino tambem, que ora nervoso,
- Ora sombrio, e fero, e terno outr’ora,
- Mas sempre encantador, em cada rasgo
- C’um portento de mais a arte enriquece.
- Qual vira a Palestina o pae dos crentes[5]
- De fe, de submissão dar nobre exemplo;
- Tal vive no pincel, tal inda avulta
- Co’as veneraveis cans, e honrado aspeito.
- Misero velho! desgraçado infante!
- Que! tu mesmo, infeliz! co’a mão paterna
- Hasde cortar-lhe o fio á tenra vida,
- Unica esp’rança de cançados annos,
- De mui doces promessas? Como... ai triste!
- Oh! como voltará sem elle á tenda?
- Com que olhos fitará maternos olhos?
- Com que voz lhe dirá?... Mas parte: e a dextra
- Ja, ja quasi... Suspende: um deus o ordena;
- Um deus é pae tambem: suspende o crime:
- São leis da natureza as leis divinas;
- Em premio da tua fe recebe o filho.
-
- Ah! se ao nome Lombardo é pouco tanto;
- Eis triplice ornamento á patria, ao mundo,
- Doutos Caraccis, que o divino ingenho,
- Ou co’a dextra gentil ornando a Italia,
- Ou dando á juventude almos preceitos
- Da arte formosa, perpetuando-a aos évos,
- Nova, estremada lhe augmentáram glória.
-
-
- NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[1] A transfiguração de Raphael.
-
-[2] Quadros dos prophetas por Spanholeto, na Cartucha de Napoles.
-
-[3] O roubo das Sabinas por Cortona.
-
-[4] Pintor de batalhas.
-
-[5] O sacrificio de Isach, quadro famoso de Guerccino.
-
-
-
-
- FIM DO CANTO SEGUNDO
-
-
-
-
- CANTO TERCEIRO
-
-
- Musa, deixemos a mansão terrestre,
- Sobre o infido elemento estende os vôos.
- Eis sobre as ondas c’o pincel divino
- Maga pintura, legislando ás vagas,
- Enfreia as iras de Neptuno indomito.
- Ve d’Adria o gôlpho tempestuoso, e fero
- Á voz da liberdade agrilhoado.
- Surge do seio das domadas aguas
- A cidade gentil: pasmou de ve-la,
- E corou de vergonha a natureza.
- E a mão do creador, ao ver confusos,
- Baralhados antigos elementos,
- Se ao homem, que os trocou, não dera a vida,
- Quasi, quasi um rival temêra nelle.
- Alli, fugindo aos clamorosos brados,
- Ao jugo, á servidão da tyrannia,
- Homens, poucos, mas homens, começaram
- Com ância a defender sacros direitos.
- Emporio foi depois do rico Oriente,
- E do alado leão tremeu gran tempo
- O atrevido colosso Mussulmano.
- Hoje (ideias de dor, lembrança amarga!)
- Da poppa olhando o navegante ao longe:
- «Veneza aquella foi»--exclama, e geme;
- E segue a esteira das cortadas ondas.
-
- Veneza foi: compridas, longas eras
- Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios;
- E as dadivosas musas lhe outorgaram
- Egregios filhos, que o talento, as vidas
- Á formosa sciencia consagraram;
- Que imitando fieis a natureza,
- Olhos seduzem, e deleitam alma,
- Que nos toques graciosos, na belleza
- Da gentil invenção, doce magia
- Do claro-escuro, rico invento d’arte,
- Aos mais sabios pinceis não cedem nada.
-
- Deusa, acode á avidez, que o vate enleia,
- Fere nas cordas da estremada lyra
- Dos famosos varões o nome e os dotes:
- Dize a Ticiano, dize quaes natura
- Lhe entornou dadivosa encantos simples,
- Que, ou arte ignoram, ou subtis a escondem;
- Ja d’humanas feições transsumpto exacto,
- Ja co’as nativas côres exprimindo
- No ingenhoso pincel tudo o que existe.
-
- Adriades gentís, oh! vinde, as frentes
- Coroadas de dor, na campa avara
- Humido pranto derramar saudoso!
- Ai do triste mancebo! o fado iniquo,
- Só por chora-lo, o concedêra ao mundo!
- Oh! com quanta expressão, nobre altiveza
- Castel-franco brilhou, fulgiu mais que homem!
- E tam breve lhe deu a sorte a vida!
- E no fuso cruel a Parca dura
- Um fio tam gentil fiou tam curto!
-
- Oh! suspendei as lagrimas formosas:
- Longa carreira os ceos marcaram próvidos
- Aos dous Bellinis, venerandos chefes
- Da nomeada eschola; á glória vossa
- Vivem padrões eternos; Piombo illustre,
- Que a fama ousou balancear d’Urbino;
- Pordenone inventor, de quem Ticiano
- Temeu roubadas as divinas côres;
- Completo Palma, a quem mostrou natura
- Sempre formoso o variado aspeito;
- Animado Bassano verdadeiro;
- Fertil, e vivo Tintoreto rapido;
- E tu, Paulo gentil, delicias, mimo
- Dos voluptuosos olhos da donzella;
- (Mui grato enlêvo do insoffrido amante)
- Qual Verona folgou com seu Catullo,
- Tal comtigo: mil graças, mil encantos
- Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera
- Nua de pompas vans, a natureza:
- Seu renome inda vive; e o teu com elle,
- Emque lhe péze á inveja, e seus furores,
- Hade eterno brilhar. Assim raivosas,
- Frustradas gralhas invejosas grasnam
- Á ave olympia de Jove; e entanto os vôos
- Ella ao sol remontando, as mofa, e burla.
-
- Porem mais longe da rinhosa Hesperia
- Voltemos a attenção: ve como em Flandres,
- Scena outr’ora infeliz da glória Franca,
- Da Cypria deusa demandando a estancia
- Vai turba immensa dos rivaes d’Italia.
- As graças naturaes, singellas, puras
- Á porfia a accompanham: não se enfeita
- Por suas mãos a simples natureza:
- Em loução desalinho bella, e nua
- Mimos lhe outorga, que ella só conhece,
- Que a vós é dado só, magos pintores,
- Com arte ignota do universo ao resto
- No pincel exprimir fiel, divino.
- Prodigios fallem de Van-Eick famoso,
- Do correcto, vivaz, firme Duréro;
- Dize-o por todos; se inda alguem no mundo
- Ignora tanto, que te ignore os dotes;
- Fertil, brilhante, verdadeiro Rubens.
- Rubens! Oh nome! Ó filhas de Memoria,
- Vós, que no Pindo entre o verdor mimoso
- Lhe bafejastes divinal espirito,
- Quando, librado sobre as azas d’ouro
- De sublime, elevada allegoria,
- Viu, pintou... Ah! fez mais: creou, deu vida
- A chymericos entes, vãos, mas bellos,
- Que o vivo imaginar lhe debuxara.
- Quam doce, e meiga a enternecida Venus
- Com suspiros, com ais, com ternos bejos
- Tenta a furia applacar, retter nos braços
- Gradivo impaciente! Olha do monstro
- O torvo gesto, o faxo sanguinoso...
- Ella!... a guerra cruel! a horrivel frente
- Co’a máscara da glória esconde ao numen,
- E o veneno lethal lhe infunde n’alma.
- Lá baqueia de Jano o templo augusto;
- As artes, as sciencias calca o monstro;
- E a d’auradas espigas, rubros pomos
- Gentil coroa á agricultura arranca.
- Ternura, horror, assolação, belleza
- Com portentosa mão juntaste, ó Rubens.[6]
-
- Quam bello é na expressão Vaén correcto!
- Hólbein sublime, vigoroso, nobre!
- Van-Rin saliente, harmonioso, e doce!
- Quam firme é Wanderwérff singello, e puro!
- E tu, mimoso Van-Dernér, que em Gnido
- Bebeste as graças, possuiste os risos.
-
- Ah! ja cançada se me affrouxa a lyra:
- Rouca, e sem voz mal associa ás cordas
- Difficeis nomes de estremados mestres.
- Um por tantos direi; e o nome illustre
- Te baste, ó Flandria, a coroar-te a gloria:
- O bello, o simples, verdadeiro, e grande,
- Do mestre a obra maior, Vandick insigne.
-
- Mas, qual ruido, que tumulto, ó musas,
- Do Pindo a sacra paz impio disturba?
- Quanto vivem!... Que heroes da patria raios!
- Armas! guerra! o furor! o sangue! a morte!
- Destrôço! horror! assolações! ruinas!
- Eis dos Alpes franqueado o gêlo eterno;
- Nada resiste: c’o rugido extremo
- Baqueia exangue de Pyrene a fera.
- Co’a Europeia ruina Africa nuta,
- Asia treme; e nas praias de Colombo
- A fugitiva liberdade apporta.
- A longes terras se accolheu Minerva,
- Sem rumo as artes desgrenhadas fogem,
- A Roma de Catão, d’Augusto a Roma
- Não é de Pio a effeminada côrte;
- E em vez d’um Fabio tardador, d’um Quincio,
- D’um Bruto, um Manlio; prostituta prole
- No deshonrado Capitolio avulta.
-
- Quem, bellezas d’Italia, hade amparar-vos?
- Quem!... Animos cobrai; volvei sem medo
- Artes, sciencias: já no Sena ovante
- O proprio vencedor no seio amigo
- Vos accolhe, e accarinha, e no alto alcaçar
- Augusto solio perenal vos ergue.
- No Sena ovante (oh do porvir assombro!)
- Em quanto os filhos seus, terror do mundo,
- Raios desferem, que o universo atterram;
- Renasce mais gentil, vive mais fúlgido
- O sec’lo de Luiz; succede á velha,
- Á pedante Sorbona, almo Instituto.
- Eis novos Raphaeis, arte divina!
-
- Não lamentes Poussin, Gallia ditosa,
- De Mignard, e Blanchard divinas côres,
- De Lebrun a expressão, fieis costumes,
- Paizagens de Lorrain, maga ternura
- Do voluptuoso, encantador Santerre,
- Grandioso stylo do vivaz Subleyras:
- Teus modernos heroes excedem tudo;
- E ao seio da opulencia amamentados,
- Á voz da glória redobrando exforços,
- Talvez irão com denodado arrôjo
- Do solio d’arte derribar a Italia.
-
- Se, entre barbaras mãos gemendo outr’ora,
- Devêste a Belisario a vida, ó Roma;
- Se das furias crueis d’horrida guerra
- O juramento te isentou d’Horacios;
- Se quanto foste em gloriosas quadras
- A um necessario roubo, á paz, que o segue,
- Ao ferro audaz de Romulo devêste;[7]
- Treme d’elles agora, treme, ó Roma;
- Que no heroico pincel David illustre
- As cinzas lhe animou; marcham por elle
- Tua fama a conquistar, roubar teus louros:
- De Urbino, e Buonarrotti o throno prostram;
- Eis campeia David!--Não longe d’elle
- O terno Girodet, suave, e brando,
- Que, do Meschacebeu vingando as margens,
- C’o vate insigne emparelhou nos vôos,
- E na pasmada Europa ergueu d’Americo
- As pomposas florestas, e a nobreza,
- Ornamento feroz d’um mundo virgem:
- Que os encantos d’amor, e os seus furores,
- O podêr da virtude, e os seus exforços
- Dignos d’elle exprimiu, e fez de novo
- Olhos sensiveis afogar em pranto.
-
- Eis á voz de Gérard das campas rompem
- Extinctas gerações: Saturno as azas
- Indignado encolheu, e a prêsa antiga
- Viu roubar-lh’a o pincel, quebrar-lhe os éllos
- Da impreterivel, perenal cadeia.
-
- * * * * *
-
- Ruge fremente o mar, bramindo, e ronca
- Nas oucas rocas, nas quebradas fragas
- Do tormentorio mar... Lá se ergue ingente,
- E immenso troa o colossal gigante.
- Treme d’entôrno o mar, e a terra, e o mundo;
- E a voz, que os polos com fragor desloca,
- Pela primeira vez á gente Lusa
- Pallida imprime a sensação do medo.
- Só impavido, um só, Vasco lhe arrosta:
- Pasma a ousadia d’um mortal a um nume.
-
- * * * * *
-
- Oh lagrimas d’Ignez, sangue innocente,
- Correi, correi do milagroso panno;
- E em lagrimas de sangue o applauso eterno
- Aos vates recebei, aos vates ambos.
- Oh Gérard! oh Camões! qual mão divina
- Vos uniu, vos juntou? Oh! folga, ó patria!
- E tu, Sousa immortal, grata homenagem
- Recebe eterna da mui grata Elysia.[8]
-
- Ve nas mãos de Guérin qual geme e anceia
- Pincel, que hervou na dor, que embebe em pranto,
- Que incestos, crimes (de Trezena horrores)
- C’o Euripides Francez disputa ainda.
- Quem de pavor, de compaixão não gela
- Ao ver nas murchas, esmyrradas faces
- Da bella ainda, miseranda Phedra
- Surgir do panno, que as conter mal póde,
- D’um criminoso amor, violencia, e fogo?[9]
-
- Guerreira a mente de Vernet fulmina
- Os raios de Mavorte, o horror das armas;
- E sobre os quadros de Le-Gros famoso
- Os manes folgam de Rollin, Voltaire.
-
- Mas tanta glória inda não basta, ó Francos,
- Para o completo, universal triumpho:
- Que no Ibero pincel inda refulge
- O nome de Ribera, o de Murillo,
- E duvida d’Albion mosqueada fera,
- Vaidosa d’West, conceder-te a palma;
- Inda lhes guardam justiçosas musas
- No bifido Parnaso um grau distincto.
-
- Assim quando no ceu, callada a noute,
- Candida brilha sup’rior Diana,
- Se com menos fulgor, astros com tudo,
- Gentis avultam nitidas estrellas.
-
-
- NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[6] Quadro allegorico da guerra por R.
-
-[7] Quadros celebres de David.
-
-[8] Celebres pinturas de Gérard na edição dos Lusiadas pelo Sr. José
-Maria de Sousa.
-
-[9] Pinturas de Guérin tiradas de Racine.
-
-
-
-
- FIM DO CANTO TERCEIRO
-
-
-
-
- CANTO QUARTO
-
-
- Eia! colhamos as cançadas vélas,
- Musa: o filhinho da amorosa Venus
- Ja pelos ares liquidos se entranha,
- E ledo corre co’as donosas tribus
- Dos illustres rivaes da natureza.
- Da Europa toda ja voaram férvidos
- Da voz ennamorada ao som fagueiro,
- Só Lysia falta... A minha Lysia, ó Venus!
- A patria dos heroes, a mãe dos vates,
- A patria de Camões, do teu Filinto!
- Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes
- Sempre em teu nome resoou na lyra!
- Onde a teu culto, mais que em Roma, ou Grecia,
- Em cada coração se eleva um templo!
- Lysia, de Venus esqueceram filhos!
- Ah! volve os olhos immortaes, divinos,
- Aos seculos remotos; ve no Tejo
- Como entre as sombras da ignorancia Gothica
- Brilham nas trevas Lusitanas tintas;
- Ve do gran Manoel na épocha d’ouro
- Sobre as bellas irmans como se eleva
- A divinal pintura; ve mais perto,
- Em quanto geme c’o ferrenho jugo
- A flor, a augusta das nações princeza,
- Erguer das ruinas sobranceira a frente;
- E alfim nas quadras que marcara o fado
- Ao brio Lusitano extremo exforço;
- Calcando a juba de Leões gryfanhos,
- Parando ás Aguias remontados voos,
- Como á porfia sobre o Tejo e Douro
- Apelles mil e mil revivem, fulgem;
- Brilha o Luso pincel... Ah! se aura amiga
- Continúa a soprar... Não; ferrea pésa
- A mão do despotismo, opprime, esmaga,
- Destroe renovos das mimosas artes.
-
- Mas qual ouço confuso borborinho!
- E sois vós! Ah! perdoa, alma Erycina:
- O teu povo fiel tu bem conheces;
- Nem chama-lo cumpria: é-lhe sagrada,
- Inviolavel lei um teu desejo.
- Ei-lo corre: que luz, que ethereo brilho
- De louro e rosas lhe engrinalda as frentes!
-
- Olha entre a nevoa de allongados évos,
- De atroz barbaridade embrutecidos,
- Como Alvaro rebrilha, um Nuno, um Annes,
- E do energico Vasco a fertil mente;
- E Duarte, e Gomes tam famosos ambos,
- Tam caros ao gran rei, Manoel ditoso.
- Ve do illustre Resende a mão facunda,
- Trocando a penna, que mandara aos évos
- Os feitos dignos de perenne historia,
- Pelo arguto pincel; o sabio Carlos,
- Que ao divino Correggio usurpa as cores;
- Dias, que á patria transportara ovante
- O mel, e as graças dos famosos mestres;
- Harmonioso Christovão, claro Sanches,
- Que os monarchas d’Europa inteira vira
- D’honras, de bens, accumulá-lo anciosos.
-
- Eis sobre as azas de elevado arrojo
- Vinga altivo Campello o cume erguido
- Dos montes de Judá. La surge, e avulta
- No mysterioso panno um deus, um homem.
- Pasmou a natureza ao ver confusos
- No seio maternal o pae e o filho.
- Mago pintor lhe renovou prodigios;
- E aos tormentos d’um deus tremeu de novo
- A longa serie dos criados mundos.[10]
- Sensiveis corações, vinde espelhar-vos
- Nos ternos quadros, que sagrou virtude;
- Vinde á sombra do vate, ao seio augusto
- Da sancta religião, da mãe caroavel
- De humanas afflições verter o pranto:
- Vinde; e entre a dor vos surgirão prazeres,
- Prazeres do Christão, doçuras d’alma.
- Quanta glória Fernando ao sabio mestre,
- Quantos louros grangeou! Lopes sublime
- Juntou d’Urbino aos expressivos rasgos
- A ardideza gentil d’Angelo altivo.
- Vasques douto, e regrado os traços mede
- No exacto petipé da natureza.
- E tu, Leonor, d’entre a nobreza e fasto,
- Origens sempre de brutal inercia,
- Soubeste ás artes levantar o espirito.
-
- Qual do Luso pincel nos fastos vive.
- Hollanda creador! Deusas do Pindo,
- Eis novo esmêro vosso, invento novo!
- Vastos arcanos da pintura se abrem,
- Accumulam-se a rodo almos tesouros;
- Graças lhe admira o árbitro da Europa,
- E na boca dos reis louvores fulgem.
- Hollanda venturoso! Ah! de tuas ditas
- Taes as menores são: mais déste ás musas,
- Mais a ti, ao teu nome, á patria, ao mundo
- No filho, o grande filho, a glória nossa,
- Mimo ao patrio pincel do numen louro.
-
- Cedendo á voz d’um deus, que o chama a nome,
- O Cicero Africano erros abjura;
- Sancto prelado o omnipotente invoca,
- E d’agua exulta candido Agustinho.
- Portento d’expressão, viva faisca
- Do lume eterno, que lhe ardeu na mente.
- Vate!... Ah! não vate: um anjo, um deus te guia,
- Move o arguto pincel na sabia dextra.
- Do Olympo eis surge a magestade, a pompa;
- Olha d’Ambrosio o venerando aspeito,
- Os olhos, onde em goso alma trasborda,
- D’Agustinho a humildade, e o gesto vívido,
- Onde a força transluz d’activa mente,
- Da eloquencia viríl, saber profundo.[11]
-
- Pereira natural, severo e forte
- O terrivel pincel por entre ruinas,
- Entre chammas e horror meneia ardido.
- De novo a cinzas reduzida Troia
- Por elle foi; por elle Pyrro ingente
- C’o faxo assolador vagou por Illion.
- Antolha ouvir-se em pavidos lamentos
- O confuso ulular da mãe, que espira,
- E no extremo bocejo aperta os filhos,
- Do pae tremente, que a rugosa face
- Entre o seio da filha esconde, e geme,
- E quizera morrer no doce amplexo.
- O crepitar das estridentes chammas,
- O baquear dos templos, dos palacios,
- E quantas vozes de terror, d’espanto,
- Quantas scenas d’horror cantaram vates
- Nas Gregas cordas, Mantuana lyra.[12]
-
- Elementos, cedei-lhe ao mago encanto
- Das vozes do pincel! Stridentes rompem
- Com ruidoso estampido as cataratas;
- Confunde a natureza a essencia, os termos,
- Na face do universo impera a morte,
- Mysterioso baixel ao longe avulta;
- E de novo o castigo formidavel
- Os olhos da razão cega d’espanto.[13]
-
- Olha como apoz elle vem seguindo
- Valle expressivo, delicado e grande,
- Nobre Gonçalves, entendido e ornado,
- Rebello audaz, o Buonarrotti Luso,
- E as do patrio pincel divinas Saphos,
- Ayalla, e Guadalupe, e Ritte, e Browne,
- E Luiza gentil, que os sabios tempos
- Ao Porto renovou da Grega Aspasia.
-
- Fastoso monumento d’alta Iberia,
- Voragem, golphão, que absorveste os rios
- Do precioso metal, que a ti correram
- Do Chily, e Potozi, das Indias duas,
- Soberbo Escurial, onde se aninham,
- Sob apparente sacco o vicio, o crime,
- Tu de Claudio por mim celebra o nome,
- Do Camões da pintura, a quem deveste
- De teus ornatos o maior, mais bello.
-
- Nem sorva o Lethes de confuso olvido
- Victorino engraçado, André mimoso,
- Verdadeiro Apparicio, simples Barros,
- Vivaz Alexandrino, destro Senna,
- Barreto original, brando Oliveira,
- E tu, Rocha correcto, ameno e vívido,
- Que obscuras scenas da marinha Pathmos,
- E o confuso vêdor nos exprimiste.
- Olhos em alvo, mysteriosos seguem
- Prophetico furor, que o volve e agita.
- Na dextra a penna mal segura fórma
- Nunca entendidas, enredadas notas.[14]
-
- Terra fertil d’heroes, solo fecundo,
- Salve! Eis novo clarão, eis novos louros
- Sobre a frente gentil pululam, vivem!
- Eis do patrio esplendor eterna gloria,
- Raios de Lysia, que a remotas praias,
- Do magico pincel nas azas d’Iris
- Levaram em triumpho o Tejo e Douro,
- Dous Vieiras! Não ousa a minha lyra
- Dotes brilhantes numerar nas cordas:
- Assaz por meu silencio o dizem, cantam
- Lysia, Hesperia, Britania, Europa, o mundo.
-
- Dest’arte á voz da meiga Cytherea,
- D’amor guiados, sobre as azas do éstro,
- Rapidos voam num momento, e chegam:
- Pasmam de vêr a face á natureza,
- Tam bella e simples qual na infancia ao mundo;
- Os bosques entram: no matiz do prado
- Vão com delicia apascentando os olhos.
-
- Eis outeiro gentil se eleva á dextra;
- Sobre elle... Assombro quem já viu, que iguale
- Dos illustres varões subito assombro?
- Amor, o mesmo amor parou de espanto,
- De maravilha subita cortado.
- Sobre altas se ergue Doricas columnas
- De fino jaspe cupula suberba.
- Brilha c’o azul do ceo linda saphira
- Nos capiteis, nas bases. Das cornijas
- Scintilla em fogo do carbunculo a chamma.
- Mimos, riquezas de pomposo fausto,
- Quantas com larga mão semeou profusas
- Nas entranhas da terra a natureza,
- Na vastidão dos mares; tudo aos olhos
- Extasiados se ostenta. Riu do encanto,
- E a causa do prodigio amor conhece:
- Entra; e apoz elle os estremados chefes.
-
- Languidamente o braço repousado
- Nos hombros niveos do formoso Adonis,
- Ei-la ao encontro a deusa da ternura
- Lhes sai, e assim lhes falla: «Ésta, que vêdes,
- Consagrada ao prazer, mansão ditosa,
- Ergueu á minha voz a natureza.
- De per si se puliu, lavrou-se o marmor,
- E se entalharam gemmas. N’um instante
- Meu doce intento completado houvera,
- Se o que vós só podeis, dar-lhe eu pudera.
- Frio, e sem vida não me falla ao peito,
- Não falla ao coração todo esse esmêro.
- Oh! cortai-lhe a mudez, dai-lhe existencia,
- E c’o mago pincel tornai-o á vida.»
-
- Disse: e a divina voz do ouvido aos peitos
- Chammas d’estro, e de ingenho accende aos vates;
- E em breve espaço divinaes assomos
- D’aqui, d’alli se apinham. Clio alteia
- Com portentosa mão contados feitos;
- Alem da natureza o vôo erguido
- Alça a maga, gentil Alegoria;
- Desalinhada, rustica beldade,
- Singella, e pura a Paizagem doce
- Sem mysterio, sem véo candida ostenta.
-
- Ja vida é tudo; satisfeita a deusa
- Vai alfim completar os seus intentos;
- E c’um meigo surrir, c’um doce agrado,
- Que vale tanto, que enamora tudo,
- Assim lhes falla a carinhosa Venus:
- «Vinde, ó filhos; que um nome tam suave
- Vossos dotes merecem; vinde: e a empresa,
- Que na mente revolvo, effeituai-me.
- Não mando, peço... (Ah! d’uma bella o rogo
- Quanto mais vale, que uma lei d’um nume!)
- Retratai-me, ó pintores.» Nisto a deusa
- O mimoso sendal, ja pouco avaro
- Do thesouro, despiu. Quantas bellezas,
- Que divinos encantos não descobrem,
- Não pesquizam, não vem avidos olhos!
- Sonhos da phantasia, ah! não sois nada!
- Guindado imaginar, ideal belleza,
- É frouxo o vôo, limitado o arrôjo;
- Não tenteis franquear mysterios tantos.
-
- Cai das mãos o pincel, sem que o percebam,
- Aos pintores na vista embevecidos;
- No Olympo os deuses, ignorando a causa,
- De insolito prazer sentem banhar-se.
- A natureza inteira revolveu-se;
- Sonhada Pythagorica harmonia
- Nas espheras soôu mais branda e doce.
- Aos entes todos pelas veias lavra
- O incentivo do gosto: gemem ternas,
- Que ha pouco uivaram, pelo bosque as feras;
- Arrulharam d’amor meigas pombinhas;
- Correu á esposa o nadador salgado;
- E nos olhos da amante leu ditoso
- O constante amador perdão á culpa;
- Á doce culpa tam querida e bella!
-
- Ah! muitas vezes não descubras, Venus,
- Magos encantos; ou verás que em breve
- Á força de prazer se extingue o mundo.
-
- Ja do extasi accordada um pouco a turba
- Dos vates se prepara ao doce emprego.
-
- Tintas fornece amor, pinceis as graças;
- E eis no panno avultando a pouco e pouco
- Assomos divinaes!... É ella... é Venus!
- Eis a fórma gentil do corpo airoso
- Salta, deslisa o fundo apavonado;
- Roseos descurvam, se arredondam braços;
- Ondeiam n’alva frente as tranças d’ebano;
- Doce brilham d’amor os olhos meigos,
- Os meigos olhos, que prazer scintillam,
- Que o facho accendem dos desejos soffregos,
- E contra o debil resistir do pejo
- Do atrevido mancebo a audacia imploram.
- Nas lindas faces purpureia a rosa,
- Que insensivel esvai na côr de neve;
- Surri nos labios o delirio, o encanto,
- Que importuna razão tam doce affasta,
- Que ávidos bejos, deliciosos, ternos,
- Annuncios de prazer, mutuam fervidos.
- Despontam no alvo, crystallino collo
- Os arcanos d’amor, que anceiam d’elle,
- Que a furto ousaste, mui ditoso Anchises,
- Nas trevas do prazer palpar ardido;
- Formosos pomos, que ao pastor Idalio
- Pelo tam cubiçado outr’ora déste...
- Déste; que bem o sei: (não te envergonhes)
- Era pobre o pastor, e os seus thesouros
- Juno lhe franqueou, seus mimos Pallas:
- Sem troca tam gentil tu não vencêras.
-
- Mas quanto voa nas mui sabias dextras
- O divino pincel! Que eburneas fórmas
- Voluptuosas surgir das tintas vejo!
- Que exactas, lindas proporções esbeltas!
- Que norma tam gentil as regra, as mede!
-
- Ja, por milagre de Cyprina, é prompta
- N’um momento a grande obra. Ei-los de novo
- Á vista do retrato absortos, raptos,
- E, novos Pygmaliões, por elle anceiam.
-
- De transportada a deusa ao doce amante
- Nas mãos a entrega; e: «Esta (lhe diz) conserva
- Copia fiel da tua amada Venus.
- Com ella, ausente, ó caro, te consola,
- Quando longe de ti me retiverem
- Crueis deveres, perfidas suspeitas.»
- Admira o joven a belleza, as graças
- Do mimoso traslado; beja, e rega
- Com lagrimas d’amor qual um, qual outra.
-
- Co’elle, em quanto viveu, sempre abraçado
- As poucas horas, que ficava ausente,
- Mitigava a saudade: e quando a morte
- O mancebo infeliz roubou sem pejo,
- No templo a deusa o collocou de Paphos,
- E longas eras recebeu d’amantes
- Ternas off’rendas, amorosos votos.
-
- Alli, quando natura se empenhára
- Em dar-te ao mundo, carinhosa Annalia,
- Um e um copiou meigos encantos,
- Que, ó minha Venus, te compõe, te adornam.
- Alli, olhos no quadro, os teus formosos
- Estremada rasgou; alli as faces
- De neve, e rosas coloriu divinas;
- Alli risonha boca, onde contino
- Foi aninhar-se amor, te abriu mimosa;
- Alli o collo d’alabastro puro;
- Os lacteos pomos, que devoram bejos
- Do faminto amador; lisas columnas,
- Que sustentam avaras mil segredos;
- Segredos, que... Perdoa: eis-me calado.
-
- Volve a meus versos, compassiva amante,
- Benignos olhos: para ti voando,
- Da critica mordaz censuras fogem:
- Se accolheres o rude offertamento,
- Serão meus versos, como tu, divinos.
-
- FIM DO ULTIMO CANTO
-
-
- NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[10] Quadros da paixão de Ch. por Campello.
-
-[11] Quadro do baptismo de S. Agustinho.
-
-[12] Quadro da destruição de Troia.
-
-[13] Quadro do diluvio.
-
-[14] Quadro de S. João, escrevendo o Apocalypse.
-
-
-
-
- NOTAS
-
-
-
-
- Notas ao canto primeiro
-
-
- «_Alma origem do ser, germe da vida._»
-
- ..... Per te quoniam genus omne animantum
- Concipitur, visitque exortum lumina solis;
- ......................................
- ....... tibi suaves dedala tellus
- Summittit flores.
-
- LUCRET. _de rer. nat._ Lib. I.
-
- «_Que na ellipse invariavel rotam fixos._»
-
-Todos sabem, que tal é a orbita, que todos os planetas descrevem.
-
- «_Qual és, qual foste, qual te appura os mimos
- A arte engenhosa._»
-
- Artes repertæ sunt, docente natura.
-
- CIC. _de leg._ Lib. I, 8.
-
- «_Como é dado aos mortaes bellezas tuas._»
-
-Platão, fallando da musica, diz: (_De republ._) que se não deve
-conceituar pelo prazer, nem preferir a que não tem outro objecto, senão
-o prazer; mas a que em si contiver a similhança da _bella natureza_.
-Esta sentença é perfeitamente applicavel á pintura. E tal é d’ha
-muito a opinião de todos os rhetoricos e philologos. (Vid. Aristot.,
-Le Batteux, Laharpe, Lemercier, etc.) Não nos enganemos porém com
-esta--_natureza bella_.--Nem só aquillo que tem _bellas_ e lindas
-fórmas, é _bello_; e nem tudo aquillo, que as tem, o é. Boileau o
-declara manifestamente, e o prova:
-
- Il n’est point de serpent, ni de monstre odieux,
- Qui, par l’art imité, ne puisse plaire aux yeux.
- D’un pinceau délicat l’artifice agréable
- Du plus affreux objet fait un objet aimable.
-
- BOILEAU: _Art. Poet._ Chant 3.
-
- «_A mestra, a sabia antiguidade o diga._»
-
- Quid virtus, et quid sapientia possint
- Utile proposuit nobis exemplar.
-
- HORAT. _Ep._ II, L. I.
-
- ......... Fabularum cur sit inventum genus,
- Brevi docebo. Servitus obnoxia... etc.
-
- PHOEDR. Lib. III, prolog.
-
- «_Não: fabula gentil, volve a meus versos._»
-
- ......... Et, s’il est vrai, que la fable autrefois
- Sut á tes fiers accents mêler sa douce voix;
- Si sa main délicate orna ta tête altière;
- Si son ombre embellit les traits de ta lumière,
- Avec moi sur tes pas permets-lui de marcher.
- Pour orner tes attraits, et non pour les cacher.
-
- VOLTAIRE: _Henr._ Chant I.
-
- Cosia egro fanciul porgiamo aspersi
- Di soave licor gl’orli del vaso, etc.
-
- TASSO: _Gerusalem_ Canto I, stanz. 3.
-
- «_....... O Cyprio moço, o Teucro._»
-
-Adonis, filho de Cyniras, rei do Chypre (_Cyprum_) Anchises, Troiano
-etc.
-
- Achises conjugio Veneris dignate superbo.
-
- VIRG. _A En._ Lib. 2.
-
- «_Em quanto nas lidadas officinas.M_»
-
- Retumbam nas _lidadas officinas_
- Echos gostosos das nascentes almas,
- Que novos corpos a habitar caminham.
-
- FILINT. ELYS. _Ode a Venus_ (Tom. 5).
-
- «_C’o estremecido arrulho a dona imitam._»
-
- Presentem ja no _estremecido arrulho_
- Os propinquos prazeres.
-
- FILINT. ELYS. ibid.
-
- «_Porque mesquinhas leis nos vedam barbaras
- Tam suave pecar......_»
-
- Si il peccar è si dolce,
- E’l non peccar si necessario; ò troppo
- Imperfetta natura,
- Che repugni ala legge!
- O troppo dura legge,
- Che la natura offendi!
-GUARINI: _past fld._
-
- Se este crime é tam doce,
- Se tanto fugir delle é necessario;
- Imperfeita parece a natureza,
- Que fraca á lei repugna,
- Ou lei muito severa,
- Que a natureza offende.
-_Traducç. de_ THOM. JOAQ. GONZAGA.
-
- «_E do amado na dor, sua dor recresce._»
-
- Che l’esempio del dolore
- È un stimolo maggiore,
- Che richiama a sospirar.
-
- METASTAZ: _Artass._ atto I.
-
- «_Dos antigos errores esquecido._»
-
-Errores é usado por Camões no sentido de--_longas, e desvairadas
-viagens_--; Ferreira porem, e outros classicos de igual nota o tomaram
-na mesma accepção, em que aqui se toma.
-
- «_Com o amante fugir, morrer com elle?_»
-
-Uma deusa não póde morrer: me diz ja algum critico, muito contente do
-quinau. Assim é, Sr. critico; mas no delirio das paixões quem se lembra
-da sua natureza?--Uma deusa com paixões!--Os deuses da mythologia, os
-numes dos Gregos, e Romanos não são o mesmo que o deus do philosopho
-(digno de tal nome) que, satisfeito de reconhecer a existencia d’um
-ente supremo, pára, onde se lhe acabam as forças, nem prosegue em
-investigações, onde se lhe apaga a luz da fraca razão; nem empresta
-á desconhecida causa das causas os habitos, as paixões, a fórma, e
-toda a natureza da fragil e apoucada humanidade. O orgulho de se
-occultar a si proprio a sua fraqueza, e de abaixar até á sua mesquinhez
-a idea de deus, por não poder subir até á altura d’ella, nasce da
-nossa vaidade, da nossa ignorancia e da nossa miseria. Por isso os
-theologos desbocadamente nos pintam, e nos querem fazer crer em um deus
-vingativo, irado, e capaz em fim de todos os crimes e vicios, que elles
-em sua alma alimentam e nos querem vender por virtudes.
-
- «_..... Comsigo ao carro o sobe._»
-
-Subir é um verbo neutro; mas é este um idiotismo bem notavel da nossa
-lingua, usar de taes verbos com força activa, como o fazem os nossos
-classicos a cada passo.
-
- «_Que lhe spira dos labios, das pupillas._»
-
- Aquelle não sei que,
- Que _spira_ não sei como,
- Que invisivel sahindo, a vista o vê.
-CAMÕES: _Ode 6_.
-
- _Spirem_ suaves cheiros
- De que se encha este ar todo.
-FERR. _Castr._ act.
-
- «_Arde voltar ao suspirado asylo._»
-
- ... Jamdudum errumpere nubem
- _Ardebant_.
-VIRGIL. _AEneid._ L. I. v. 580.
-
- «_Disenhos volve..........._»
-
-Esta palavra mui portugueza e antiga (embora de origem estrangeira)
-não é gallicismo; exprime bem o--_dessein_--francez, e tem por si a
-auctoridade d’um escriptor bem notavel e bem antigo, qual é Damião de
-Goes. (v. Chron. de D. Man. part. I, cap. 4, e _passim_).
-
- «_Que tam suave rege a natureza._»
-
- ......... Omnis natura animantium
- Te sequitur cupide.
-LUCRET. Lib. I. v. 15.
-
- «_Mal disse; e o raio mais veloz não rue._»
-
-Este verbo muito adoptado por Filinto Elysio, e pelo erudito traductor
-da lyrica de Horacio, Antonio Ribeiro dos Santos; e cujos compostos,
-e derivados ja tinhamos (_correr_, _decorrer_ etc.) tem todas as
-qualidades necessarias para a sua naturalisação.
-
- «_Da rubra dextra do Tonante irado._»
-
- ........ _Et rubente_
- Dextra sacras jaculatus arces
- Terruit urbem.
-HORAT. _Od_. 2, Lib. I.
-
- «_Á voz da deusa fende os ares liquidos._»
-
- ......... Per liquidum aethera:
-
- VIRG. _AEn._ Lib. I.
-
- «_Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco._»
-
-Florença na Toscana, ou antiga Etruria, dita _mysteriosa_ em razão dos
-seus áugures.
-
- «_Á formosa Bolonha..._»
-
-De Bolonha conta Ganganeli (ou antes Carracioli) nas suas cartas,
-que um Portuguez, encantado de sua belleza, exclamara: «Não se devia
-mostrar senão ao domingo.»
-
- «_E fitando no ceo audazes vistas._»
-
- Coelum ipsum petimus stultitia
-
- HORAT. Lib. II, Od.
-
- «_Aos golpes crebros, incessantes, duros._»
-
-O imperio Grego acabou em 1448 pela morte do ultimo Constantino, e
-entrada de Mahomet II em Constantinopola, a cujos muros se limitava, ha
-muito, o vasto imperio Grego e Romano. Os horrores desta tomada de Cp.,
-a immensidade de familias que fugiram para a Italia, e principalmente
-para Veneza, Genova e Florença, o adiantamento, que este successo
-causou ás sciencias e artes do occidente; são cousas sabidas de todo
-o mundo. (Vid. Anquétil: Précis de l’hist. univers. tom. 4, pag. 249,
-etc. e Chateaubriand: Génie du Christ. part. 3, liv. I).
-
-
-
-
- Notas ao canto segundo
-
-
- «_Vão-lhe na frente os affamados chefes._»
-
- Aquelles sam sós homens que se affamam.
-
- FERREIR. _Cart._ 6, Liv. I.
-
- «_No bello antigo modelando as graças._»
-
-O verbo _modelar_ está geralmente adoptado mas que não seja antigo.
-Assim como de _molde_ se fez, e deduziu _moldar_; de _modelo_ se póde
-derivar _modelar_.
-
- «_Vem tribu excelsa de Romãos pintores._»
-
- Gregos, _Romãos_, e toda a outra gente.
-
- FERREIR. _Cart. 3_, Liv. I.
-
- «_E quanto inspira Apollo:......_»
-
-O fito que neste poema levei, foi simplesmente celebrar os louvores
-da pintura, e de seus principaes mestres. Sou apaixonado amador desta
-sublime poesia; contento-me de admirar; mas nunca dei a menor lapizada.
-A leitura, a observação curiosa, e exacta do pouco, que tenho visto, me
-deram os limitados conhecimentos, que em tam comprida materia possuo.
-Ideias vastas, ainda mesmo na historia só da pintura, apenas poderão
-ser o fructo de longos estudos, que a minha pouca idade, e mais sérias,
-mas que ennojosas occupações prohibem. Declaro pois que, se êrro
-encontrarem os professores, mui grata e grande mercê me farão de me
-avisar; e conhecerão pela minha docilidade na emenda a pouca presumpção
-do auctor.
-
- «_E aos d’arte amantes desejar com Pedro
- Junto ao prodigio...._»
-
- Faciamus hic tria tabernacula.
-
- MATTH. _Evang._
-
- «_Em cêrca aos muros da gentil Parthénope._»
-
-Napoles, assim ditta antigamente de Parthénope, uma das sereias, que se
-enchêram de desesperação por não poder vencer Ulysses com o seu canto.
-Junto ao tumulo desta simideusa ou nympha se edificou uma cidade,
-que della tomou nome. Destruida ésta, se tornou em seu mesmo logar a
-edificar outra nova, dita Napoles (_Neapolis_--Νεαπὸλις--cidade nova)
-nome que inda hoje conserva.
-
- «_Umas sobre outras as cidades jazem._»
-
-Pelos fins do seculo passado se descubriram nas visinhanças do Vesuvio
-as antigas cidades de Herculano e Pompeia. A cidade de Portici está
-quasi situada sobre a antiga Pompeia, que, assim como o Herculano, fôra
-submergida em uma explosão do Vesuvio.
-
- «_E a rôdo os d’atro fogo horridos rios._»
-
-Nas grandes irrupções do Vesuvio corre do alto da montanha um, como
-rio, de fogo, que dá uma imagem das fingidas torrentes do sonhado
-Averno.--Virgilio, que de certo dos volcões de Napoles houve a idea
-do seu _Phlegetonte_, situou por aquelles logares os seus--_Plutonia
-regna_.--(Vid. Stael na _Corin_.)
-
- «_Inda no mesto panno afflictos súam._»
-
- ....... Sudant in marmore mœsto.
-
- SILI. _Ial._ Lib. I.
-
- «_Saliente Caravaggio, que exprimiste._»
-
-_Saliente_; porque as figuras de seus quadros tem um ar de relêvo,
-que engana. É necessaria metonymia, de que uso muitas vezes para
-caracterizar os pintores, segundo suas mais distinctas qualidades.
-
- «_Ja de accurvados reis não brilha o fasto._»
-
-O simples nome de Roma basta para fazer nascer uma infinidade de ideias
-grandes e de magestade. Todos os pensamentos sublimes, que a imaginação
-póde crear, todas as sérias reflexões, que póde suscitar a razão,
-todas as memorias augustas, que a virtude e a humanidade podem fazer
-nascer, occorrem e borbulham associadamente na alma do homem pensador
-com a simples ideia de Roma. O exfôrço dos Horacios, a castidade das
-Lucrecias, a integridade dos Brutos e Catões, o patriotismo dos Fabios
-e Scevolas, a magnanimidade e valor dos Scipiões, a eloquencia dos
-Ciceros, o saber dos Plinios, a liberalidade dos Augustos, a grandeza
-dos Trajannos, a humanidade dos Titos, tudo se recorda com a memoria
-illustre da cidade por excellencia.
-
-Imagine-se um homem cheio de toda a magnificencia destas ideias,
-possuido de respeito e veneração, ao entrar em Roma.--Ruinas,
-sepulcros, templos derrocados, estradas solitarias, ruas desertas...
-são os miseraveis objectos, que lhe ferem os olhos, mui de longe
-preparados para admirar a senhora do universo. De espaço a espaço
-descobre (é verdade) um templo magnifico, um grande palacio; mas breve
-se desvanece este vislumbre de grandeza, e subito se esvai a nascente
-esperança de encontrar a Roma de Augusto. Estes palacios, estes
-templos, que se elevam do meio das choupanas (habitação da indigencia
-e da fome) carregados d’ornatos, de sobejo embellezados, serão acaso
-aquelles esmeros de architetura grande e magestosa, suberba e varonil
-dos edificios Latinos? Poderá algum d’elles similhar-se ao _Fóro_, ao
-_Palacio_, ao _Amphitheatro_? Descubrir-se-ha n’alguma d’estas modernas
-praças o menor vestigio dos _Rostros_? O Capitolio, o terrivel, o
-venerando Capitolio, onde se julgava dos destinos das nações, onde os
-reis curvavam os sceptros, e depunham os diademas; d’onde sahiam os
-irrevogaveis e tremendos decretos, que dispunham da sorte dos povos, e
-legislavam ao universo, que é feito d’elle?--O solicito viajante ainda
-o descobre; o seu _cicerone_ (guia) ainda lhe mostra o logar d’elle.--E
-será este?--Differente estrada conduz ao cimo do monte; o palacio do
-_senador_, alguns restos de quebradas estatuas, de desfigurados relevos
-são todas as riquezas, todos os tropheos, todos os despojos, que ornam
-o antigo alcaçar do mundo.
-
-Confuso, humilhado, o viajante não se atreve ja a encarar nenhum
-edificio.--«Os habitantes ao menos (diz elle) talvez conservem
-alguma cousa ainda de Romanos. Tantas virtudes, tanta grandeza não
-podiam extinguir-se de todo.»--Um bando de miseraveis, uma plebe
-indigente, vil e sem costumes, são os successores do povo rei; uma
-côrte effeminada, e entregue aos deleites do ocio occupa o logar dos
-Brutos e Catões; declamadores sem gôsto, com affectadas e guindadas
-phrases (que ou não entendem ou não crem) fazem retenir aquelle
-mesmo ar, que ouviu os eloquentes e numerosos sons de Cicero e Marco
-Antonio; assucarados trovadores infectam com os seus--_concetti_--a
-degradada lyra de Virgilio e Horacio; os Scipiões, os Emilios, os
-grandes generaes, as invenciveis tropas da triumphante republica são
-substituidas por um bando de assoldados Suissos, cujas grandes proesas
-e valor, cujos guerreiros exforços são o fazer a guarda do papa. Em
-vez do augusto e venerando senado, um ajuntamento d’homens ambiciosos,
-insaciaveis d’ouro, regem despoticamente; não os direitos das nações,
-e deveres dos reis e povos pelas invariaveis leis da justiça, como
-os antigos _conscriptos_; mas o corpo invalido da igreja por elles
-arruinada e depravada, levando simplesmente o fito em pescar para a
-barca do humilde S. Pedro as riquezas das nações com o sagrado anzol
-das indulgencias, reliquias e breves.--«Roma! oh Roma! (exclamará o
-contristado viajante) tu ja não existes; a tua liberdade expirou em
-Catão, e tu com ella! A liberdade te conservava as virtudes, que, mais
-que tuas façanhas, te constituiram no imperio do orbe. Perdeste-a;
-e desde então caminhaste sempre com gigantescos passos ao abysmo
-de miseria e vileza, em que jazes sepultada para eterno exemplo do
-universo.
-
-E com effeito, tal é a sorte de quasi todas as nações! Florecem, reinam
-em quanto a liberdade, ou a larva della subsiste; apenas se eleva a
-tyrannia, cai de rôjo com a liberdade o amor das virtudes; a servidão
-embrutece o homem; a sociedade se muda em um rebanho de escravos; e
-a miseria succede á opulencia. Assim cahiu Roma, assim Sparta, assim
-Hollanda, assim tantas outras. Que exemplos para os tyrannos, e que
-terrivel escarmento para os povos! Miseraveis despotas, embreve
-estendereis o sceptro de ferro sobre montões de ruinas. Os Vandalos,
-os Godos, os Arabes não se acabaram ainda; e vós os chamais com tanta
-ancia![15]
-
-
- NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[15] É facil de vêr que esta nota foi escripta antes do dia 24
-d’Agosto. Felizmente ja se podem tratar estes assumptos com menos
-atrabilis.
-
-
-
-
- Notas ao canto terceiro
-
-
- «_Enfrea as iras de Neptuno indomito._»
-
- Imperio premit, et vinclis, et carcere frœnat.
-
- VIRG. _AEn._ Lib. I, v. 54.
-
- «_Ve d’Adria o golpho tempestuoso e fero._»
-
-É o golpho de Veneza, antigamente chamado de Adria, ou Adriatico, d’uma
-cidade d’este nome.
-
- «_Alli, fugindo aos clamorosos brados._»
-
-No meio do seculo V, foram destruidas por Attila, rei dos Hunos, as
-cidades de Aquilea, Altino, Concordia, Opitergo e Padua, todas visinhas
-ao golpho, então chamado Adriatico. Os habitantes destas cidades,
-fugindo ao furor irresistivel, e cruel ferocidade dos barbaros, se
-foram refugiar nas pequenas e desertas ilhotas do mar Adriatico, e
-fundaram assim o começo de Veneza. (Vid. _Anquétil, Millot, e la
-Istoria de Vinegia per ***_)
-
-
- «_Emporio foi depois do rico oriente._»
-
- _Antes que ha India fosse descuberta pelos Portuguezes, ha mayor parte
- da especiaria, droga, e pedraria se vazava pelo mar roxo, donde ya
- ter á cidade Dalexandria, e dalli ha compravão hos Venezianos, que a
- espalhaavão pela Europa._
-
- CASTANHEDA Lib. I, cap. 1.
-
-
- «_E do alado Leão tremeu gran tempo._»
-
-Um leão com azas era o timbre, ou armas da republica, ou senhoria de
-Veneza.
-
- «_E segue a esteira das cortadas ondas._»
-
-_Esteira_, ou _esteiro_, que assim, e indifferentemente escrevem e
-usam os nossos classicos, é aquelle sulco, que os navios vão fazendo e
-deixando depoz si nas aguas, e que bom espaço se conserva depois. Maior
-é talvez o numero das pessoas que sabem a simplicissima razão physica
-deste natural phenomeno, do que o das que o nome portuguez lhe conhecem.
-
- «_Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios._»
-
-
- .......... All’ Adria in seno Un popolo d’eroi s’aduna......
-
- MATEST. _Ezio_: atto I.
-
- «_Adriades gentis, oh! vinde as frentes._»
-
-Assim como de _Tagus_ Latino fez Camões _Tagides_; e outros do
-Douro--_Durius_--_Duriades_ etc.; quem me impede a mim, que de _Adria_,
-faça _Adriades_?
-
- «_Qual Verona folgou com seu Catullo._»
-
- .......... Gaudet Verona Catullo, Pelignae dicar gloria gentis ego.
-
- OVID. _Trist._
-
- «......... _Mil graças, mil encantos
- Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera._»
-
-Assim como Catullo, Paulo Veronese é notado de pouco honesto. Todos
-sabem a lascivia e voluptuosidade dos versos do primeiro: os quadros do
-segundo tem uma poesia d’este genero bem mais expressiva.
-
-
- «_Em que lhe peze á inveja, e seus furores._»
-
- Eu, que apezar da inveja, e seus furores
- Aos astros levo o nome Lusitano.
-
- ELPIN. _Nonaer._ Od. a Vasc. da Gam.
-
-_Em que lhe peze_, e _em que lhe pez_ são phrases dos melhores
-classicos: mil exemplos, por um, pudera appresentar; mas citarei o que
-tenho aqui mais á mão, que é o P. Vieira (_Vozes saudosas: voz histor._)
-
- «_Scena outr’ora infeliz da gloria Franca._»
-
-As provincias Flamengas foram um dos principaes theatros das ambiciosas
-guerras de Luiz XIV com a Hollanda. (Vid. VOLTAIRE _Siécl. de Louis
-XIV_).
-
- «_Lhe bafejastes divinal espirito._»
-
- Quasi divino quodam spiritu inflari.
-
- CICER. _pro Arch._ §. 8.
-
- «_E o veneno lethal lhe infunde n’alma._»
-
- Sic effata, facem juveni conjecit, et atro
- Lumine fumantis fixit sub pectore tædas.
-
- VIRG. _AEn._ Liv. VIII, v. 56, e seg.
-
- «_Quam bello é na expressão Vaén correcto._»
-
-Porventura não serão os verdadeiros accentos da pronúncia nacional, os
-que ponho aqui neste e nos outros nomes dos pintores flamengos: puz-lhe
-os necessarios para o rythmo, que é a minha obrigação; dos outros não
-sei, pois que ignoro a tal lingua; no que, segundo creio, não perderei
-nada.
-
- «_Difficeis nomes d’estremados mestres._»
-
-E bem difficeis, com effeito, para accomodar ao verso com os
-seus--_kk_--_rr_--etc.: não são daquelles, de que Horacio diz:
-
- Verba loquor socianda chordis.
-
- HORAT. Lib. II, Od.
-
- «_Do mestre a obra maior, Wandik insigne._»
-
-Voltaire diz algures, fallando de Tasso, que, se é verdade o que
-vulgarmente se diz, que os Lusiadas, e seu auctor formaram a
-Gerusalem do primeiro, fôra esta a melhor obra de Camões. Não estou
-_absolutamente_ por este _espirituoso_ dito de Voltaire; mas com
-justiça o appliquei a Rubens, e Wandick.
-
- «_E em vez d’um Fabio tardador_......»
-
-Assim traduziu Filinto Elys. o _Fabius cuntactor_ dos Latinos. (Vid.
-FILINT. _Ode á Liberdade_).
-
- «......... _Ja no Sena ovante_.»
-
- Sobre a margem feliz do rio _ovante_,
- Donde arrancando omnipotencia aos fados
- Impoz tropel d’heroes silencio ao globo.
-
- BOCAG. _Od. a Filint._
-
- «_Que do Meschacebeu vingando as margens._»
-
-Este é o verdadeiro nome do célebre rio da Luisiana, na America
-Septentrional, chamado vulgarmente _Mississipi._ (Vid. CHATEAUBRIAND:
-_Génie du Christ._ Part. III, Liv. 5).
-
- «_C’o Euripides Francez disputa ainda._»
-
-Racine bem se póde assim chamar, não somente por suas absolutas e
-eminentes qualidades; mas pela relativa, e mui particular da similhança
-dos ingenhos, e feliz imitação de Racine. (Vid. LAHARPE: _Cours de
-Littér._; LEMERCIER: _ibid._; e o P. BRUMOY no _Theatr. dos Gregos_).
-
- «_Ao ver nas murchas, esmyrradas faces._»
-
- J’ai langui, j’ai séché dans les feux, dans les larmes.
-
- RACIN. _Phoedr._ Act. II.
-
- Desfalleci, murchei no ardor, no pranto.
-
- _Trad. ms. do Sr. H. E._
-
- «_D’um criminoso amor violencia e fogo._»
-
- Quand je suis toute en feu, vous n’êtes que de glace.
-
- PHOEDR. Act. II.
-
- «_Os manes folgam de Rollin, Voltaire._»
-
-Le-Gros é pintor historico; e Rollin e Voltaire foram historiógraphos
-francezes.
-
-
-
-
- Notas ao canto quarto
-
-
- «_Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes._»
-
-Outros quaesquer poetas, e de mais nomeada porventura, pudéra eu
-citar; mas quiz, quanto em mim era, e o permittia o assumpto e a obra,
-prestar homenagem a dous ingenhos, que honraram a patria e a lingua;
-e dos quaes o primeiro depois d’uma fama gigantesca, e maior que seu
-merecimento, passou a ser enxovalhado por quanto Mevio e Bavio sabe
-dizer--_Traduziu, traduziu, traduziu tudo_--como se um traductor como
-Bocage não fosse um poeta de muito merecimento, e de muito maior, que
-tantos originalistas de nome (de nome sim; que realmente deus sabe o
-que é); como se Pope, Dryden, Annibal Caro, João Franco Barreto, e
-tantos outros illustres traductores não figurassem mais na republica
-litteraria que tantos _epicos modernos_... Eu não sou dos apaixonados
-do privilegio exclusivo, que ha certo tempo obtiveram entre nós as
-traducções. Uma nação que assim obra por espirito de priguiça, ou
-menos-preço de si propria, em vez de enriquecer sua litteratura,
-empobrece-a e perde-a. De J. B. Gomes e da sua Castro tanto mal como
-bem se tem dito. Não a dou por uma tragedia perfeitamente regular, não
-a comparo ás grandes peças de Racine e Alfieri; mas sei que tem muitas
-bellezas, e que n’um theatro tam pobre, como o nosso, é digna de muita
-e muita estimação. Para criticar a Castro de Gomes é preciso enchugar
-muitas vezes as lagrimas, que ella excita continuamente.
-
- «_Calcando a juba dos Leões gryphanhos,
- Parando ás Aguias etc._»
-
-Revoluções de 1640 e 1808.
-
- «........_Ah! se aura amiga
- Continúa a soprar_......»
-
-Em Roma, assim como na Grecia, se formariam Zeuxis e Apelles, se os
-Romanos dessem a Fabio as honras, que seus talentos mereciam. Diz
-Cicero algures nas Questões Tusculanas.
-
- «_Inviolavel lei um teu desejo._»
-
-Nação nenhuma (diz Florian no _avant propos de Sancho_) possue a arte
-d’amar, como a portugueza.
-
-
- «_Os feitos dignos de perenne historia._»
-
- ........as cousas...........
- Que merecerem ter eterna historia.
-
- CAMÕES. _Lus._ Cant. 7.
-
-
- «_Sensiveis corações, vinde espelhar-vos_» etc.
-
- Vidi sæpius inscriptionis imaginem, et sine lacrymis transire non
- potui.
-
- S. GREGOR. II. _Concil. Nicen._ act. 40.
-
-
- «_Prazeres do christão, doçuras d’Alma._»
-
- Le nouveau testament change le génie de la peinture. Sans lui rien
- ôter de sa sublimité, il lui a donné plus de tendresse.
-
- CHATEAUBRIAND. _Gen. du Chr._ part. III, Liv. I, cap. 4.
-
-
- «_Portento d’expressão, viva faisca
- Do lume eterno..._»
-
- Les peintres... famille sublime que le souffle de l’esprit ravit au
- dessus de l’homme.
-
- CHATEAUBRIAND, ibid.
-
-
- «_Fastoso monumento d’alta Iberia._»
-
-Resta ainda resolver o grande problema: _Se a descuberta da America
-foi util ou prejudicial á Europa_; o qual, emquanto a mim, depende
-d’outro mais generico: _Se as conquistas, principalmente longinquas,
-podem ser uteis a uma nação_. Não me atrevo a resolver nem um nem
-outro. As theorias falham quasi sempre em politica, bem como em moral.
-So noto imparcialmente, que a Hespanha foi poderosissima nação antes
-do XVI seculo; que Portugal, se nos tempos de D. Manoel e João III
-floreceu, e deu brado na Europa e no mundo; depois não fez mais que
-luctar contra innumeraveis desgraças: que não tivemos mais um João
-II; e que as conquistas d’Asia e Egypto deram por terra com o imperio
-Romano.--Provêm isto das descubertas em si?--Provêm do uso que d’ellas
-se fez?--Continúa a minha ignorancia.--Os monarchas hespanhoes fundiram
-no Escurial, e n’outras cousas d’esta ordem, as immensas riquezas das
-Indias occidentaes, ganhas á custa de tantos crimes, barbaridades,
-irreligião, fanatismo e sacrilegios de Cortêz e de mil outros. Diminuiu
-no continente hespanhol a população; não se fez o menor caso da
-agricultura; o commercio não foi senão passivo; e, depois d’um breve
-esplendor, a suberba Hespanha cahiu na miseria d’uma nação pobre e
-falta de tudo, a pezar de toda a sua prata.--E que diremos de nós?--O
-mesmo, com alguma differença para peior. Todo o homem, que pensa,
-sabe o que eu poderia dizer neste artigo; como para estes só escrevo,
-elles me entendem; e eu, com o meu silencio, me poupo ás criticas da
-ignorancia e da sordida adulação. (_É bem facil de ver que ésta nota
-foi igualmente escripta antes do dia 24 d’Agosto_).
-
- «_Terra fertil d’heroes, solo fecundo,
- Salve!........_»
-
- Salve magna parens frugum... tellus, Magna virum.
-
- VIRG. _Georg._
-
-
- «_O mimoso sendal, ja pouco avaro._»
-
- O véo dos roxos lirios pouco _avaro_.
-
- CAMÕES _Lus._ Cant. 9.
-
- Diripui tunicam, nec multum rara nocebat.
-
- OVID. _Eleg._ Lib. I, Eleg. 5.
-
-
- «_Que divinos encantos não descobrem_» etc.
-
- E tuto ciò, che piú la vista alletti.
-
- TASSO _Gerusal._ Canto XV, st. 59.
-
-
- «_Sonhada, pythagorica harmonia._»
-
-A harmonia das spheras é um dos sonhos de Pythagoras. Póde-se ver a
-satyra galantissima destas e outras philosophicas extravagancias no
-celebre poema allemão--_Musarion_--de Wielland: Canto II.
-
-
- «_Arrulharam d’amor meigas pombinhas._»
-
- Presentem ja no estremecido _arrulho_
- Os propinquos prazeres.
-
- FILINT. _Elys._ Ode a Venus. (Tom. 5).
-
- «_Roseos descurvam, se aredondam braços._»
-
- Ν’μος δ’ ὴῥιγυἑια φάυη ροδ οδ άϰλυλος ὴὠτ.
-
- HOMER, _Odyssea_ B. (Lib. II.)
-
-
- «_Ondeiam n’alva frente as tranças d’evano._»
-
-Os cabellos e olhos pretos eram os mais estimados dos Romanos--_Nigra
-oculis, nigraque capillis_: Horat.--Se é mau gôsto, confesso que o
-tenho. Quem amar mais os louros, não tem senão dizer:
-
- «Ondeiam n’alva frente as tranças d’ouro.»
-
-Assim, eu, e o leitor ficamos ambos satisfeitos. De mais, até lhe
-posso ensinar um texto, com que provar o seu gôsto. É a auctoridade de
-Petrarca, que não é pêca neste ponto:
-
- L’auro, e i topazj al sol sopra la neve
- Vincon le bionde chiome presso agli occhi.
-
- PETRARCA, _rim._ Part. I. cans. 9.
-
-
- «_Déste; que bem o sei........_»
-
-Assim é de crer piamente; e, comquanto o não digam os DD., eu o penso.
-O leitor póde ficar pelo que quizer--_salva fide_--pois estas materias
-são de mythologia, e não de theologia.
-
- «_Ja por milagre de Cyprina é prompta._»
-
- Manca il parlar; di vivo altro non chiedi.
- Ne manca questo ancor, se agli occhi credi.
-
- TASS. _Gerus._ Cant. XVI.
-
-
- «_E novos Pygmaliões por elle anceiam._»
-
- Pigmalion, quanto lo dar ti dei
- Dell’ imagine tua, se mille volte
- N’avesti quel, ch’io sol’ una vorrei.
-
- PETRARCA, _rim._ Part I, sonett. 58.
-
-
- _«Admira o joven a belleza_........»
-
-Faria, pouco mais ou menos, as mesmas extravagancias com o retrato, que
-o amante de Julia com o da sua bella.
-
-(Vid. _Nouvell. Héloï._ Part. II, Lett, 22).
-
-
- «_Os lacteos pomos........._»
-
- Le _pome_ accerbe, e crude...
-
- TASS. _Gerus._ Cant. XVI.
-
-
- «_Serão meus versos, como tu, divinos._»
-
- Me juvat in grœmio doctæ legisse puellæ,
- Auribus et puris dicta probasse mea:
- Hæc si contingant.........
- .......... Domina judice, tutus ero.
-
- PROPERT. _Eleg._
-
-
-
-
- ENSAIO
-
- SOBRE
-
- A HISTORIA DA PINTURA
-
-
-O objecto principal deste ensaio é a historia da pintura. A maior
-parte do meu poema será inintelligivel sem elle a todo o leitor, que
-não tiver feito um comprido estudo nesta materia. Menos porem bastaria
-talvez para a intelligencia do opusculo: fui mais longo e extenso,
-principalmente na historia da pintura portugueza, porque julguei util
-dar á minha nação uma coisa que ella não tinha, a biographia critica
-dos seus pintores. Sobejo e enfadonho trabalho me deu: oxalá que
-aproveite! Bem pago fico, se, entre todos os leitores, deparar com
-dous, em quem faça impressão o amor de boas-artes, e da patria, que
-toda a obra respira.
-
-
-
-
- CAPITULO I
-
- Dos Pintores Gregos e Romanos
-
-
-O numero dos pintores Gregos e ainda Romanos, cujos nomes chegaram até
-nós, é grande, mas o d’aquelles, cujas obras ou maneiras conhecemos,
-é bem diminuto. O respeito da antiguidade com tudo no-los faz
-admirar, por ventura mais, do que o seu merecimento exige. Os quadros
-modernamente descobertos nas cinzas do Herculano e Pompeia, alguns
-_frescos_ conservados nas ruinas de Roma e outras cidades de Italia tem
-subejamente mostrado aos entendedores imparciaes, que a pintura dos
-antigos, ainda mesmo no seu maior auge, não póde soffrer comparação
-com o menor quadro dos _Rafaelos_, dos _Corregios_, dos _Caraccis_,
-nem mesmo d’outros pintores de segunda ordem das modernas escholas.
-Duas coisas principalmente faltavam aos antigos pintores. Uma, as
-tintas, cujas bellas composições, descobertas em mui posteriores
-seculos, absolutamente ignoravam; não conhecendo, senão as terras
-de côr, e os metaes calcinados; faltando-lhes aquellas côres, que
-dão o tom medio, entre a luz e a sombra, que formam o matizado e
-assombrado, e exprimem a natureza tal qual ella é, e com toda a sua
-formosura: outra, o conhecimento das leis da perspectiva, como bem
-mostram todas as suas obras, que nos restam: defeito este, que salta
-aos olhos, e de impossivel disfarce. Só aquelle cego fanatismo, que faz
-cançar os pedantes no estudo do Hebraico e Syriaco e d’outras inuteis
-antigualhas, póde achar nos quadros Gregos e Romanos bellezas, não digo
-superiores, mas iguaes ás das magnificas pinturas do bom tempo das
-modernas escholas, e ainda mesmo das de hoje; com quanto a pintura, á
-excepção da franceza, bastante se approxima da decadencia pelo espirito
-servil, mania das copias e mal entendida imitação.
-
-
-
-
- CAPITULO II
-
- Restauração da pintura na Italia
-
-
-Cimabúe, nascido em 1230,[16] e morto em 1300, é conhecido em toda
-a Europa pelo honroso titulo de restaurador da pintura. Ouviu os
-principios de sua arte d’alguns pintores Gregos vindos a Florença,
-que ainda conservavam restos do bom stylo da nação: aperfeiçoou-se
-depois com o estudo, e imitação dos poucos modelos antigos, que então
-appareciam na Italia. Preciosas descobertas, que se foram pelo andar
-dos tempos fazendo, pouco a pouco desterraram a barbaridade, que,
-entre as outras boas-artes, tinha tambem sepultado a pintura. As
-estatuas, os quadros, os relevos arrancados das cinzas e ruinas dos
-famosos monumentos romanos, quantos mestres, quantos primores d’arte,
-d’architectura, scultura e pintura não deram á Europa! Miguel Angelo
-confessava dever toda a sua sciencia ao assiduo estudo, que por toda a
-vida fizera no _tronco_[17] de Hercules, no _grupo_[18] de Laocoon, no
-Apollo[19] do Belveder, e n’outros modelos da bella antiguidade.
-
-Com quanto porem a pintura e mais boas-artes não possam propriamente
-dizer-se restauradas antes do seculo de Leão X, que foi o de Raphael,
-de Miguel Angelo, de Leonardo da Vinci, etc.; Cimabúe comtudo foi o
-pae da pintura moderna; suas obras espalhadas pela Italia renovaram o
-bom gôsto, e abriram os alicerces, sobre que se havia depois formar o
-grande edificio das escholas Florentina, Romana, etc.
-
-Todavia, em abono da verdade devemos confessar, que, posto que
-Cimabúe possua com razão o titulo de restaurador da pintura; outros
-antes d’elle houve, que se o não excedêram, lhe não foram ao menos
-inferiores. De Guido de Senna, pintor do XIII seculo existe em uma
-igreja de sua patria um quadro da Virgem, tão bom como os melhores de
-Cimabúe: o seu desenho é de bom stylo, e ainda fresco de côres, apezar
-de ser feito no principio do mesmo seculo, como indica a inscripção,
-que se le por baixo.
-
- Me Guido de Sennis
- Diebus depinxit amenis;
- Quem Christus lenis
- Nullis nolit agere penis.
-
- A. D. MCCXXI.
-
-Ora, a data deste quadro é anterior ao nascimento de Cimabúe, affirmado
-por uns em 1230, e por outros (como Pruneti) em 1240; e por isso os
-Sennenses querem disputar a Cimabúe o titulo, que a elle e sua patria,
-Florença, tanto ennobrece. Mas debalde; porque de Guido não se conhece
-outra obra; e de Cimabúe existem ainda muitas, cuja nomeada o faz hoje
-mesmo celebre e conhecido, e que n’aquelle tempo serviam de modelo aos
-seus discipulos.
-
-Do principio tambem deste seculo XIII se conservava em Luca um
-antiquissimo quadro de certo pintor d’aquella cidade: representava S.
-Francisco d’Assis. Seu desenho é correcto, posto que um pouco rude; o
-ar-de-cabeça tem muita expressão, e as mãos são bem tratadas.[20]
-
-Deste, e d’outros alguns monumentos desta épocha, devemos concluir: que
-Cimabúe não foi o primeiro que na Itália começou a pintar com menos
-defeitos: mas nunca se poderá asseverar, que elle, e sua eschola (a
-Florentina) não foram os restauradores e pães da moderna pintura.
-
-O que Pruneti diz a este respeito não destroi os meus principios.
-
-Jamais as sciencias, e artes foram de repente á perfeição. Antes de
-Socrates e Platão existiu Pythagoras e outros philosophos, que lhe
-abriram o caminho; antes de Hippocrates, Avicena e Averroes[21] houve
-Esculapio, e outros mezinheiros; antes de Homero, Hesiodo e Virgilio,
-havia Orpheus e Linos; Eschylo, Sóphocles, Euripides e Aristophanes
-foram precedidos por Thespis; os erros de Descartes allumiaram Newton;
-Mairet, Routrou e Corneille formaram Racine e Voltaire; e entre nós
-finalmente, antes de Camões, Ferreira e Bernardes houve Gil Vicente,
-Bernardim e outros muitos, que lhes franquearam a carreira poetica.
-Agora quasi em nossos dias, na brilhante restauração das lettras, os
-Elpinos, os Filintos, os Gomes e os Bocages não appareceram de repente.
-
-Assim gradualmente foram crescendo os pintores na Italia, e
-adiantando-se a perfeição de suas obras. Nos ultimos parocismos do
-imperio Grego uma infinidade de professores vinham procurar entre
-os Italianos um asylo mais seguro, e uma patria menos despotica: e
-quando finalmente em 1448, tomada Constantinopola por Mahometh II, se
-extinguiu de todo aquelle phantasma colossal, maior numero ainda se
-espalhou por todo o meio-dia da Europa, e concorreu para a perfeição da
-pintura moderna; assim como a alluvião de theologos Gregos concorreu,
-e muito, para a perpetuação das barbaridades scholasticas, e atrazo
-das sciencias. São deste tempo--Gioto, cujas obras se acham ainda
-em Florença, Piza e Roma, nascido em 1276, e morto em 1336: foi
-discipulo de Cimabúe, e contribuiu muito para a perfeição da arte pelo
-bem-ordenado da sua pintura, e boa disposição de figuras.
-
-Masaccio, nasc. em 1417, e mort. em 1521, seria o verdadeiro e
-completo restaurador da pintura, se vivesse mais tempo: o pouco que
-d’elle resta, acha-se em Florença.
-
-Luca Signorelli di Cortona n. em 1449, e m. em 1521; foi celebre
-pela precisão de desenho, e belleza de composição, todavia fraco
-no colorido. Notam-se bem estas propriedades nos seus quadros, que
-ainda se encontram no Loreto e Roma. E este é o ultimo pintor de fama
-anterior a Leonardo da Vinci, que depois, com Miguel Angelo, foi
-julgado fundador da eschola Florentina.
-
-
- NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[16] Pruneti o faz nascido em 1240--10 annos depois.
-
-[17] Famosos restos da estatua de Apolonio Atheniense.
-
-[18] Obra de tres escultores Rhodios Athenedoro, Agesandro e Polidoro.
-
-[19] Estatua bem conhecida.
-
-[20] Advirto, e fique advertido por todo o decurso deste ensaio, que
-quando digo, que este, ou aquelle quadro, ou estatua se acham em Roma,
-Florença, ou outra qualquer cidade: deve sempre entender-se antes das
-ultimas revoluções da Europa.
-
-[21] Não confundo Avicena, e Averroes com Hippocrates: bem sei a
-distancia de tempos e merecimentos. Faço porém esta advertencia, porque
-não leia isto algum Esculapio enthusiasta, que grite: _au scandale_!
-
-
-
-
- CAPITULO III
-
- Da Eschola Romana
-
-
-Apezar de que a eschola Florentina com razão se possa chamar a mais
-antiga, pois que seus alumnos se começam a contar desde Cimabúe; com
-tudo a Romana foi, e sempre será como a primeira olhada, não só em
-favor e respeito de seu illustre chefe Raphael Sanzio de Urbino; mas
-pela bellesa de desenho, elegancia de composição, verdade de expressão,
-e sobre tudo intelligencia de attitudes, que a caracterizam e
-sobreelevam a todas as outras.
-
-As descobertas dos grandes monumentos de pintura e scultura, que os
-zelosos cuidados de alguns papas, e outras principaes pessoas de
-Italia desenterravam todos os dias das ruinas da antiga Roma, formaram
-o gôsto dos mestres desta eschola, moldando-o no antigo. E tal é a
-caracteristica das suas producções. Os rasgos mestres d’aquelles
-preciosos _antigos_ lhes inspiraram uma magestosa solemnidade de
-expressão nas grandes ideias que concebiam; e esta mira, que levaram
-sempre os pintores Romanos, lhes fez desprezar alguma coisa o colorido:
-defeito, que bem se esquece por outras, e tão brilhantes qualidades.
-
-Para tecer o elogio da eschola Romana basta nomear Raphael. Que nome
-nos fastos das boas-artes! Se Virgilio e Homero não são mais celebres,
-que Zeuxis e Apelles; a glória de Raphael quanto é superior á de Tasso
-e Ariosto! Não me agrada aquella sentença dos antigos:
-
- --Ut pictura poesis-- _A poesia será como a pintura_
-
- (BOCAGE).
-
-A poesia (attrevi-me a pensá-lo assim, e se a novidade não agradar nem
-por isso me desdigo) é uma só: aos poetas pintores, seus primeiros
-filhos é dado tratta-la viva: os poetas-versejadores só com o véo do
-mysterio coberta a podem ver e seguir. A poesia animada da pintura
-exprime a natureza toda; a dos versos porem, menos viva e exacta, falha
-em muita parte na expressão de suas bellezas. Que poeta nos poderia
-dar uma ideia de Romulo como David no seu quadro das Sabinas? Que
-versos nos poderiam fazer imaginar a Divindade como a transfiguração de
-Raphael? Que poema nos faria conceber a magestade d’um _Deus Creador_
-dando fórma ao cáhos, e ser ao universo, como a pintura de Miguel
-Angelo?
-
-Estas reflexões sobre o parallelo das duas especies de poesia são
-minhas; por taes as dou, e me encarrego do mal, ou bem, que d’ellas se
-pensar. Por ventura não foi este o conceito dos antigos; mas a arte
-mui atrazada entre elles não estava em proporção da nossa; os gregos
-não tinham, como nós, Homeros em pintura. Immensas vantagens, como
-já notamos, lhes levam os modernos pintores; a que de mais accresce
-o nobre invento da gravura, que, (bem como a imprensa nos facilita o
-trato dos mais antigos poetas do mundo) transmitte á posteridade e
-nações remotas os esmeros da pintura, e ainda da scultura. Os nossos
-Appelles não podem temer o ser conhecidos pelos vindouros só de nome
-e fama, como o é por nós o dos antigos; a estampa lhes assegura o
-conhecimento de _facto_ no mais remoto porvir, e mais longes climas.
-
-Mui fertil foi a eschola Romana; grande é o numero dos seus pintores:
-daremos de cada um d’elles uma brevissima, porem exacta noticia: desta
-maneira terá a mocidade applicada, como em synopse, e sem o trabalho
-enfadonho de revolver muitos e antigos cartapacios, a historia completa
-desta e das outras escholas, em que seguiremos o mesmo methodo.
-
-
- SECULO XVI
-
-Rafaelo Sanzio d’Urbino, nascido em 1483, morto em 1520, facilmente
-julgado o principe dos pintores: nenhum (se não for o moderno francez,
-Mr. David) poderá rivaliza-lo. O brilhante colorido de Ticiano,
-a belleza das tintas de Corregio, a gigantesca altivez de Miguel
-Angelo não fazem a menor sombra á gloria do grande Romano. Raphael
-levou a sua arte ao grau de perfeição, de que é capaz a humanidade.
-Pertender dar uma ideia d’elle é tentar o impossivel: o estudo das suas
-producções é o unico meio de o conhecer. Elle ainda vive repartido
-por seus quadros, um dos mais bellos e ricos ornamentos das cidades
-que os possuem. Digam-o os templos de Roma, as casas dos principes, o
-Vaticano (onde existe a sua famosa _Biblia_), e sobre tudo a egreja de
-_S. Pietro in monte_ situada no Janiculo; onde se conserva o primeiro
-quadro do universo, a unica producção da arte, que excede a natureza,
-a maior honra do ingenho humano, a melhor obra de Raphael, a sua
-_Transfiguração_. Tal foi um dos primeiros homens do mundo, de quem
-(e com mais razão por ventura, do que Horacio dizia de si) podêmos
-asseverar, que não morreu todo: _Non omnis moriar_; ou como ja se disse
-em portuguez; _O sabio não vai todo á sepultura_. A belleza principal
-das suas obras é o desenho e attitudes.
-
-Julio Romano (Giulio Pippi) n. 1492, m. 1546: foi discipulo de
-Raphael. Em suas obras, que principalmente se acham em Roma, se ve que
-o caracter d’este pintor era a fôrça e ardimento: o seu colorido é
-obscuro, mas o desenho admiravel.
-
-João Francisco Penni (il Fattore) n. em 1488, m. em 1528; trabalhou
-quasi sempre debaixo das vistas, e pelos desenhos de Raphael, seu
-mestre. Suas obras principaes são as galerias do Vaticano.
-
-Polidoro de Caravaggio n. 1495, m. 1543; foi bom colorista, correcto no
-desenho, nobre e fero nos ares de cabeça.
-
-José Ribera, hespanhol, e por isso dito _il Spagnoleto_, nasc. em
-Valença em 1589, e m. em 1656. O seu caracter é o vigor e expressão:
-todas as figuras austeras e carregadas, prophetas, philosophos, tudo
-quanto exige um pincel forte e vigoroso, sahia de suas mãos, como das
-da natureza. Suas obras principaes existiam na cartuxa de Napoles; e
-entre ellas, a mais conhecida é a collecção dos prophetas.
-
-Perrino del Vague Buonacorsi n. em 1500, m. em 1547; foi tão feliz
-imitador do stylo de Raphael, seu mestre, que muitos de seus quadros
-passam por d’elle.
-
-Innocenzio d’Imola n..., m...; desenhou segundo a maneira de Raphael,
-mas coloriu muito bem. Seus quadros são preciosos e raros.
-
-Giulio Clovio n. 1498, m. 1578. Trabalhou sempre em miniatura, e
-apprendeu o desenho com seu mestre, Julio Romano.
-
-Federico Barrocci n. 1528, m. 1612. Suas excellentes obras, que se
-acham em Milão, Bolonha, Pesaro, Loreto e Roma, se distinguem pela
-belleza do colorido (pouco vulgar na sua eschola) e que assemelha ao
-de Corregio, grande exactidão de desenho, muita sciencia de luz, e
-graciosos ares de cabeça.
-
-Thadeo, e Federico Zucaro, irmãos: morto o primeiro em 1566; o segundo
-em 1609. Thadeo tinha grande ingenho e bom colorido; Federico, menos
-habil, acabou quasi todas as obras, que seu irmão começara. Acham-se em
-Veneza, Tivoli e Roma.
-
-Antonio Tempesta n. 1555, m. 1630. Foi eminente em batalhas, caçadas,
-mercados, animaes etc.--Roma.--
-
-José Cesar d’Arpin (Il cavalier Giuseppino) n. 1560, m. 1640. Seus
-quadros grandes, que se vem no Capitolio, são historicos e bons; e
-notaveis, sobre tudo, pela belleza dos cavallos.
-
-Michel Angelo Ameriggi de Caravaggio, n. 1569, m. 1609. Suas obras são
-mui faceis de conhecer pelo ar de relêvo, que dava a todas as figuras
-por via do assombrado. Esta originalidade imita bem a natureza. O seu
-desenho é preciso e fero.--Roma e Napoles.--
-
-Domenico Feti n. 1589, m. 1624. Imitou o _antigo_, e Julio Romano;
-donde houve um caracter de desenho fero e vigoroso, com quanto
-incorrecto. Seus quadros, mui procurados, se distinguem por uma graça
-particular, e picante.--Roma.--
-
-Giovani Lanfranco n. 1581, m. 1647. Foi eminente nas grandes obras,
-como platafundos, cupulas, etc.--Napoles.--
-
-
- SECULO XVII
-
-Pietro Beritini di Cortona n. 1596, m. 1669. Todas as suas ingenhosas
-producções tem um ar de nobreza, que encanta. Mas a obra prima d’este
-grande mestre é o _roubo das Sabinas_, que Lebrun servilmente
-copiou.--Roma e Florença.--
-
-Mario Nuzzi di Fiore n. 1599, m. 1673; alcançou um grande nome pela
-maneira excellente de pintar flores.
-
-Miguel Angelo Cerquozzi dito o _das batalhas e bambochatas_: nasc.
-1602, m. 1666; teve um colorido vigoroso e um pincel ligeiro. Era tam
-habil no seu genero, que pela simples narração d’uma peleja, traçava
-logo a ordem do quadro no mesmo panno, em que havia de pintar.--Roma.--
-
-Claudio Geleo (Lorrain) n. 1600, m. 1682. Todos conhecem este nome;
-todos sabem que foi o principe dos paizagistas. Ninguem conheceu como
-Lorrain a perspectiva aeria, e o effeito dos pontos de vista.--França.--
-
-Andrea Sacchi n. 1599, m. 1661. Suas pinturas ternas e graciosos são
-admiraveis pelo desenho, colorido e verdade de expressão.
-
-Domenico Passignani pelos annos de 1630, pintou com gosto e nobreza,
-muita expressão, porem mau colorido.--Florença.--
-
-Pietro Testa n. 1611, m. 1648; moldou o seu stylo nos antigos de Roma,
-donde houve um bom e correcto desenho, com quanto rude.--Roma.--
-
-Salvator Rosa n. 1614, m. 1673. Trabalhou muito; e suas obras se acham
-por toda a Italia: todas ellas tem um ar de originalidade, que as
-distingue, muita verdade e bom colorido; porem o desenho não é perfeito.
-
-Carlin Dolce n. 1616, m...; célebre pela graça da composição e frescura
-do colorido.--Roma.--
-
-Hiancito Brandi n. 1623, m. 1719 (outros querem que em 1691). Seus
-quadros são muito vulgares: apezar das incorrecções do desenho, e
-fraqueza de côres, teve com tudo uma belleza d’ornato, e fecundidade de
-imaginação, que admira.
-
-Carlo Maratti n. 1624, m. 1713; foi eminente nos ares de cabeça: seu
-desenho é mui assisado, e seu colorido brilhante. Todas as composições
-d’este mestre encantam, e são bem acabadas.
-
-Luca Giordano n. 1632, m. 1705. Seu merecimento principal é a
-facilidade e presteza, com que trabalhava: muitas obras delle são d’uma
-bella expressão.
-
-João Baptista Bacici n. 1639, m. 1709; retratava bem; e os seus quadros
-mostram muito talento, e bello colorido.
-
-Mattia Preti (Il Calabrese) teve o ingenho mais feliz na invenção;
-bella e rica ordem, e muita originalidade. Nasc. 1643, m. 1699.
-
-José Passari n. 1654, m. 1714; discipulo e imitador absoluto de Carlo
-Maratti.
-
-
- SECULO XVIII
-
-Francesco Solimeni n. 1655, m. 1747. Bella imaginação, muito talento,
-um desenho fero e correcto o constituem n’um dos primeiros lugares da
-pintura; com quanto o seu colorido seja sombrio e pouco doce. A grande
-qualidade porem d’este mestre, e em que elle sobre-excedeu a todos, é o
-ar de vida, animação e movimento das suas figuras.--Napoles.--
-
-Sebastião Concha morto pelos annos de 1740. Imitou Solemeni; mas o seu
-genio frio o não ajudava. Comtudo no hospital de Sienna ha delle uma
-boa pintura a fresco.
-
-Paolo Panini, vivo em Roma ainda no anno de 1767. Tem bom colorido, e
-muito espirito.
-
-Paolo Monaldi do mesmo tempo foi pintor de _bambochatas_ muito
-estimadas.
-
-Pompeio Battoni, retratista e pintor historico: o seu colorido é bem
-imitado de Corregio.
-
-Muitos outros pintores, posto que não de grande fama, tem produzido
-mais modernamente a eschola Romana; mas não temos delles sufficiente
-conhecimento para poder formar um exacto conceito.
-
-
-
-
- CAPITULO IV
-
- Da Eschola Florentina
-
-
-A eschola Florentina é, por sua antiguidade, a mais respeitavel:
-seu primeiro mestre foi Cimabúe; com quanto, fallando em rigor, só
-Leonardo da Vinci e Miguel Angelo mereçam (como ja notamos) o nome de
-fundadores. As obras dos seus alumnos occupam um logar mui distincto
-nas collecções mais ricas; e a Italia, e toda a Europa se julga
-com elles ennobrecida. Seu gosto de desenho é fero e decidido; sua
-expressão sublime, algumas vezes attrevida, e gigantesca, e mesmo
-contra-natural, mas sempre magnifica: o colorido nos seus principios
-era rude; apperfeiçoou-se depois, sem perder nada da sua viveza,
-magnificencia e outras brilhantes qualidades. Esta eschola é a menos
-numerosa, mas não a menos célebre.
-
- SECULO XVI
-
-Leonardi da Vinci n. 1445, m. 1520, um dos grandes ingenhos do seu
-seculo, foi sculptor, architecto e pintor. Seu desenho é correcto e
-puro, e suas obras todas d’uma composição ingenhosissima; das quaes
-a melhor é sem questão o grande quadro da ceia em Milão. Foi muito
-estimado de Francisco I de França, em cujos braços morreu. O canal de
-Milão foi dirigido por elle.
-
-Pietro Perugino n. em 1446, m. em 1524. Coloriu graciosamente; mas,
-apezar de ser discipulo de Cimabúe, todos sabem quanto é rude o seu
-ingenho.
-
-Fra Bartholomeo della Porta n. 1465, m. 1517, formou seu delicado
-gosto no de Vinci, donde houve muita correção e pureza. Seu colorido
-é bello e natural. Rafaelo não se dedignou de apprender delle a
-arte de colorir, ensinando-lhe em troco as necessarias regras da
-_prespectiva_.--Roma e Florença.--
-
-Miguel Angelo Buonarroti n. 1475, m. 1504; esculptor incomparavel,
-magnifico architecto, pintor sublime; não póde decidir-se a qual das
-boas-artes pertenceu mais: suas estatuas, seus edificios, seus quadros,
-tudo mostra o maior homem do seu seculo. Teve uma maneira de pincel
-altiva e fera, e em geral similhante á da sua eschola; vastissima
-concepção, ideias sublimes e arrojadas, e muita expressão e vigor.
-Seus quadros principaes se acham na capella Sixtina do Vaticano. A
-antiguidade toda e talvez os seculos posteriores não tem nada que oppor
-a tão grande ingenho: seus quadros são inferiores aos de Raphael, e por
-ventura aos de alguns outros ainda; porém Miguel Angelo é mui superior
-a todos elles.
-
-Andrea del Sarto n. 1478, m. 1580; foi o maior colorista da eschola
-de Florença; suas obras, em que se distingue uma maneira larga, e um
-pincel fresco e brando, conservam ainda hoje um brilho singular.
-
-Baltazar Peruzzi n. 1481, m. 1536, alem dos grandes mestres, estudou
-sobre tudo a natureza, foi grande na prespectiva, porem fraco no
-colorido. Ninguem antes de Peruzzi executou com gosto uma decoração de
-theatro.
-
-Giacomo Pontorma n. 1494, m. 1559; desenhou como Leonardo da Vinci, e
-coloriu como Sarto. Seu pincel vigoroso, seu colorido brilhante, sua
-imaginação bella e fecunda o fizeram olhar por Mig. Ang., e Raphael
-como seu mais temido rival; e se a louca mania de imitar as maneiras
-alemans o não fizesse mudar de estylo, por ventura os dois grandes
-mestres não gosariam sós da gloria do primado.
-
-Macherino de Sienna (chamado Domenico Beccafumi) n. 1484, m. 1549;
-desenhou com gosto e correcção, mas coloriu mal.
-
-Mestre Rosso, ou Roux (como lhe chamam os francezes) n. 1496, m. 1541;
-pintou com muita expressão e viveza, porem ás vezes um pouco rude.
-Trabalhou quasi sempre em França, onde teve muitos discipulos, e de
-cuja eschola é julgado fundador.--Fontainebleau.--
-
-Alexandre Allori n. 1535, m. 1607; foi gracioso e macio, e desenhou com
-toda a pureza do _antigo_.
-
-Francisco Rossi (il Salviati) n. 1510, m. 1563; é muito estimado pela
-grande intelligencia de luz; desenhou e coloriu bem; seus quadros
-se distinguem pelas singulares attitudes das figuras.--Florença e
-Bolonha.--
-
-Jorge Vasari n. 1511, m. 1574; muito célebre pelas vidas dos pintores,
-que escreveu: seu desenho é bom, mas sem energia, e seu colorido
-fraco.--Roma.--
-
-Jacoppino del Ponte n. 1511, m. 1570; as suas maneiras são as de Andrea
-del Sarto, seu mestre. Foi o melhor retratista da sua eschola.
-
-
- SECULO XVII
-
-Daniel Bacciarelli de Volterra n. 1579, m. 1625; desenhou bem, e o
-que lhe deu grande nomeada sobre tudo, foi a sua _descida da cruz_ na
-igreja _della Trinità del monte_ em Roma.
-
-Ludovico Cigoli n. 1559, m. 1613, pintou d’uma maneira firme e
-vigorosa; mas coloriu principalmente com o pincel de Corregio.
-
-Francisco Vanni n. 1563, m. 1615. Coloriu muito bem, e desenhou
-soffrivelmente.
-
-João Manozzi (Giovani di S. Giovani) n. 1590, m. 1636; foi um dos
-melhores pintores de sua eschola; seus quadros, que mostram muita
-intelligencia de perspectiva e architectura, se acham em Roma,
-principalmente no palacio Pitti.
-
-
-
-
- CAPITULO V
-
- Da Eschola de Bolonha
-
-
-A eschola de Bolonha, ou Lombarda juntou em si quanto póde produzir
-a perfeição da arte. Talvez (geralmente fallando) nenhuma das outras
-o conseguiu tanto. O _antigo_ foi o seu modelo; mas sem uma servil e
-exclusiva imitação; não tratou de formar systema ou, se o formou, foi
-extrahindo de todos o que achou melhor. As bellezas vivas e sensiveis
-da natureza, a verdade de expressão, a riqueza da ordem, a pureza dos
-contornos, a facilidade admiravel de pincel, e sobre tudo o colorido da
-mesma natureza, verdadeiro e encantador; tudo emfim, quanto offerece a
-pintura, bello e terno, tudo reuniram os com-alumnos de Corregio.
-
-Auctores ha hi (como Pruneti) que dividem estas duas escholas de
-Bolonha e Lombardia; porém a geral opinião é a que sigo. Sobre o chefe,
-ou fundador desta eschola, diversos são tambem os conceitos, querendo
-uns que seja Francia, outros Mantegna; a questão é de pouca utilidade.
-
-
- SECULO XVI
-
-Francisco Francia n. 1450, m. 1518. Suas obras são d’um desenho muito
-assisado, e mui boa côr para o seu tempo. Raphael lhe enviou o seu
-quadro de _Santa Cecilia_ para que o corrigisse. Diz-se que a inveja
-e dor de ver tam perfeita obra em um mancebo de tão pouca idade, lhe
-causara a morte.
-
-Andrea Mantegna n. 1451, m. 1517; seus quadros rarissimos conservam
-ainda muito brilho, e são de melhor desenho que os de Francia.
-
-Francesco Primaticcio Bolognesse n. 1490, m. 1570: coloriu
-graciosamente, e desenhou no estylo de Julio Romano. Alguns, como
-Pruneti, o querem fazer chefe da eschola de França, onde quasi sempre
-viveu e pintou.
-
-Antonio Allegri (Corregio) n. 1494, m. 1554. Tinha chegado á perfeição
-da arte, e ignorava o seu merecimento. O _antigo_, Raphael, Vinci,
-etc., tudo lhe era desconhecido; não sabia senão a natureza. Ouviu
-gabar muito um quadro de Raphael, observou-o, e conheceu o seu proprio
-merecimento; soube o que valia, e nem porisso foi mais vaidoso; antes
-continuou a dar por mui rasteiro preço seus inestimaveis quadros, cujo
-colorido e frescura de pincel ainda não pôde ser imitado.
-
-Francesco Massuoli (o Parmezão, ou Parmegianino) n. 1504, m. 1540.
-Maneiras graciosas, colorido fresco e natural, muita facilidade e
-correcção no desenho o constituiram um dos primeiros pintores da sua
-rica e fecunda eschola. Os quadros deste mestre são raros e carissimos.
-
-Lucas Cangiagio, ou Cambiagi n. 1527, m. 1583 ou 85. Pintou com muita
-facilidade, e o que é de admirar, com ambas as mãos ao mesmo tempo.
-Teve muita verdade e viveza, e tal expressão nas figuras, que parece
-que fallam:
-
- _Manca il parlar: di vivo altro non chiedi;
- Ne manca questo ancor, se agli occhi credi._
-
- (TASSO Gerus.)
-
-Os Caraches, Carachas, ou Caraccis, (segundo a nacional e verdadeira
-orthographia) mais celebres e conhecidos são tres. Luiz Caracci
-n. 1555, m. 1618; estudou muito os grandes mestres e adquiriu uma
-maneira nobre e verdadeira, expressão e belleza de colorido. Instituiu
-uma academia ajudado de Agustinho e Annibal Caracci, seus primos,
-na qual se formaram Albano, Gruido, Guercino e outros illustres
-artistas.--Agustinho Caracci desenhou perfeitamente e coloriu bem: dos
-tres é o menos celebre; n. 1558, m. 1603.--Annibal Caracci n. 1560, m.
-1609; foi superior a seu irmão e primo; teve um estylo nobre e sublime,
-desenho preciso e fero, e colorido muitas vezes admiravel. A galeria
-_Farnesi_ é de todas as suas obras a mais famosa.
-
-Bernardo Castelli n. 1559, m. 1629; grande amigo de Tasso, a quem
-retratou, bem como a quasi todos os bons poetas do seu tempo. Foi
-insigne neste genero: desenhou bem e coloriu melhor.
-
-Guido Renni (o Guido) n. 1575, m. 1624. Costumam distinguir-se tres
-maneiras differentes neste pintor famoso: a 1.ª forte e assombrada; a
-2.ª natural e bella; a 3.ª terna e doce, porem mais fraca. Pintava
-com a maior facilidade.
-
-
- SECULO XVII
-
-Francesco Albani (o Albano) n. 1578, m. 1660; deu-se absolutamente aos
-assumptos galantes e graciosos: seu genio doce e terno o determinou na
-escolha. O nosso Vieira Portuense o estudou muito e imitou bem.
-
-Domenico Zampierri (Domenichino) n. 1581, m. 1641; observou sempre uma
-ordem magnifica nos seus quadros, muita nobreza, correcto desenho e
-verdade de expressão.
-
-Francesco Barbieri da Cento (o Guerchino) n. 1590, m. 1666. Trabalhou
-com uma facilidade incrivel; e os seus quadros se encontram por
-toda a parte: teve um desenho fero e expressão nobre; mas o colorido
-não é igual. Sua 1.ª maneira é escura e fraca; a 2.ª é mais dura e
-fortemente assombrada; a 3.ª é bella e encantadora, e participa do
-gôsto de Ticiano e Corregio. Nos fins de sua vida, porem, obrigado da
-miseria, trabalhou mal e sem gôsto.
-
-Luciano Borzoni n. 1590, m. 1645. Verdade e intelligencia de expressão,
-e delicioso colorido o fizeram um excellente pintor. Teve dois filhos,
-que o imitaram, e se distinguiram; sobre tudo Francisco Borzoni nas
-paizagens e marinhas.
-
-João Francisco Frimaldi n. 1606, m. 1688. Coloriu suavemente e com
-harmonia; suas paizagens são excellentes.
-
-Benvenuto da Ferrara (o Garofalo) n. 1615, m. 1695; foi muito bom
-colorista e desenhou bem. As suas cópias de Raphael são muito estimadas.
-
-Beneditto Castiglioni. Sua pureza de desenho frescura de colorido,
-delicadeza de toque e grande intelligencia de _claro-escuro_ fizeram os
-seus admiraveis quadros preciosissimos e caros. Nasceu 1616 m. 1670.
-
-Cario Cignani n. 1629, m. 1673. Teve muito boa composição e
-desenho; mas pouca expressão por causa do _muito-acabado_ dos seus
-quadros.--Bolonha.--
-
-
- SECULO XVIII
-
-Thiarini, chamado o _expressivo_, morto pelos annos de 1750: teve muita
-expressão e um colorido vigoroso: exprimiu bem as paixões.
-
-Izabel Cirani, do mesmo tempo. Estudou com proveito os grandes mestres:
-adquiriu um gracioso colorido; e, com quanto preferia os assumptos
-terriveis, executou muito melhor os doces e ternos.
-
-Marcantonio Franceschini (o Francesquino) morto em 1729. Seu colorido
-é muito engraçado, seu desenho preciso, e sua maneira tem uma bella
-simplicidade. Os quadros de Francesquino tem muita estimação e
-valor.--Bolonha.--
-
-Marcos Benefiale n. 1684, m. 1764; foi um dos bons mestres de sua
-eschola por seu correctissimo desenho, grande energia e expressão, e
-fecundidade de pincel.--Roma.--
-
-
-
-
- CAPITULO VI
-
- Da Eschola Veneziana
-
-
-A eschola Veneziana, que reconhece por fundadores os Bellinis,
-Giorgione e Ticiano, produziu excellentes pintores, que imitaram a
-natureza com uma fidelidade, que seduz os olhos. Seu colorido é sabio
-e encantador, seu _claro-escuro_ de muita intelligencia, a imaginação
-bella, a ordem rica, e os mais galantes e spirituosos toques; em fim,
-sua maneira é originalmente encantadora, sobre tudo nas formosas e
-sabias composições de Ticiano e Paulo Veronese. Os grandes mestres
-desta eschola desprezaram todavia alguma cousa o desenho; tam essencial
-á boa pintura. Ticiano, e Giorgione elevaram o modo Veneziano a um
-ponto, que será difficil iguala-los. Nota-se em geral a esta eschola
-pouco conhecimento do _antigo_, e attitudes.
-
-
- SECULO XV
-
-Gentil e João Bellini mortos, o primeiro em 1501, o segundo em 1512,
-e mui velhos. Seus quadros rarissimos mostram ainda um desenho
-verdadeiro, mas sem ordem: seu maior merecimento é terem sido mestres
-de Giorgione e Ticiano.
-
-Giorgione de Castel-franco n. 1477, m. 1511. Sciencia de claro-escuro,
-ordem, colorido e desenho o elevaram em brevissimo tempo (pois viveu só
-34 annos) á perfeição.
-
-
- SECULO XVI
-
-Ticiano Vecelli da Cadore n. 1477, m. 1576. Suas obras espalhadas por
-toda a Europa fizeram conhecer este mestre, que discorreu uma longa e
-feliz carreira, vivendo 99 annos; um quasi inteiro e glorioso seculo
-empregado na mais nobre das artes. Ignorou o _antigo_, e falhou no
-desenho; mas o colorido de Ticiano, e sua expressão, assim como não
-tiveram modelo, não terão imitadores.
-
-Gio Antonio Regillo (il Podernone) n. 1484, m. 1540. A belleza de seu
-colorido, facilidade de desenho e apurado gôsto de invenção o fizeram
-temer muito de Ticiano. Nada mais é necessario para seu elogio.
-
-Sebastião Piombo n. 1485, m. 1547. O quadro da _resurreição_ de Lasaro,
-feito para oppor ao da _transfiguração_ de Raphael lhe adquiriu muita
-fama; e Miguel Angelo, cujo é o desenho do dito quadro, quiz por via
-d’elle disputar a Raphael o primeiro logar; mas a expressão, e colorido
-de Piombo não poderam triumphar do incontrastavel merecimento de seu
-illustre rival.
-
-Giacomo Ponte Bassano n. 1510, m. 1592. Amou os assumptos communs, em
-que foi grande: seu stylo é verdadeiro, e as suas côres excellentes.
-
-André Sciavone n. 1522, m. 1582: desenhou incorrectamente; porem
-coloriu tam bem, teve um modo tam facil e engraçado, tam bom gôsto nas
-roupagens, e tam bellas attitudes, que se lhe não pode negar o titulo
-de grande pintor.
-
-Giacomo Robusti (il Tintoreto) n. 1524, m. 1594. Uma imaginação
-vivissima, uma rapidez incomprehensivel e um finissimo gôsto o elevaram
-á primeira ordem dos mestres. É prodigioso o numero de suas obras.
-
-Paolo Calliari Veronese (Paulo Veronese) n. 1532, m. 1588. Seus
-quadros farão sempre as delicias dos amadores da arte pela riqueza
-d’ordem, belleza de caracteres, bom gôsto de roupagens, frescura de
-colorido e nobre elegancia de figuras.
-
-Giacomo Palma (Palma il Vechio) n. 1540, m. 1588; imitou a natureza
-sempre bella, e com um _bem-acabado_ sem affectação.
-
-
- SECULO XVII
-
-Tiago Palma (Giacomo Palma il Giovane) n. 1544, m. 1628. Foi discipulo
-de Tintoreto, que imitou optimamente.
-
-Carlos Veneziano n. 1585, m. 1625. Seu colorido imita bem Corregio, e
-suas physionomias engraçadas as de Guido.
-
-Alessandro Veronese dito o _Turchi_, ou _Orberto_ n. 1600, m. 1670;
-desenhou bem, e coloriu como um Veneziano.
-
-
- SECULO XVIII
-
-Giam Battista Piazzeta morto no fim do XVIII seculo. Seu colorido é
-mau, mas o desenho imita muitas vezes, e com verdade, a nobre altivez
-de Miguel Angelo.
-
-Rosa Alba Carriera n..., m. 1761. Seus retratos e pasteis são
-conhecidos em toda a Europa; seu principal merecimento é o novo gôsto,
-e maneira singular, com que trabalhou em miniatura.
-
-
-
-
- CAPITULO VII
-
- Da Eschola Flamenga
-
-
-A eschola Flamenga é a de Rubens e Wandick; tanto basta para o seu
-elogio.--Van-Eick, tam conhecido pelo invento da pintura a oleo, foi
-o seu chefe. Quem amar a nobreza do pincel Romano, a bella arrogancia
-do Florentino, as graças do _antigo_, as gentilezas Gregas; não
-será decerto muito apaixonado das producções Flamengas. Os gelos do
-paiz, o temperamento frio dos habitantes são as causas necessarias e
-naturaes do pouco fogo que se lhes nota. Mas, em trôco desta falta, que
-bellezas lhes não achará o amador imparcial e singelo! Ninguem, senão
-os pintores Flamengos, appresenta em seus quadros um _bem-acabado_,
-um _completo_, que parece superior á paciencia humana; uma fidelidade
-original na imitação da natureza, que encanta e admira. O seu defeito
-todavia é o menos-preço d’aquella generica e fundamental regra das
-boas-artes: _Imitar a bella natureza_; isto he, _saber extremar n’ella
-o bello do mediocre_. Nisto falharam de certo, exprimindo-a muitas
-vezes com a cega punctualidade, e o _verbo ad verbum_ d’um _fidus
-interpres_; mas este mesmo defeito (permitta-se-me julga-lo assim,
-com quanto vou contra o commum parecer) dá muitas vezes ás pinturas
-Flamengas encantos simplices, e singelos, que em nenhumas outras se
-encontram.
-
-Nesta numerosa eschola se classificam todos os pintores das nações
-do norte; e se os caracteres, mais que as patrias, devem ser neste
-ponto os verdadeiros dados, não duvidarei tambem ennumerar n’ella os
-poucos bons inglezes. Nunca pude gostar da pintura Britannica: um
-contra-natural, um monotono, um forçado no colorido, um sempiterno gêlo
-na expressão, que sempre lhe notei, me fizeram olha-la com desprezo,
-e a não ser o moderno West, (de quem adiante fallarei) de certo os
-inglezes avultariam bem pouco neste ramo das boas-artes.
-
-
- SECULO XV
-
-João Van-Eick n. 1370, m. 1441; fundou a sua eschola, e inventou a
-pintura a oleo. Nada mais se sabe.
-
-Alberto Durero n. 1471, m. 1528. Seu desenho é correcto, sua imaginação
-viva, sua maneira firme; mas falhou muito nos costumes.
-
-
- SECULO XVI
-
-João Holbein n. 1498, m. 1554. Sua imaginação é sublime, o colorido
-vigoroso, e suas figuras tem um ar de relêvo, que engana. Em geral o
-pintar deste mestre parece mais Lombardo, que Flamengo.
-
-Otam Vaen ou Vaenio n. 1556, m. 1634; formou-se no gôsto Romano, que
-lhe deu muita correcção de desenho, e belleza de expressão; qualidades,
-a que ajunctou grande intelligencia de claro-escuro.
-
-Bloemart n. 1567, m. 1647. Um toque expedito e livre, bellas roupagens,
-muita sciencia de claro-escuro são os caracteres d’este pintor.
-
-Pedro Paulo Rubens n. 1567, m. 1640. Nada será bastante para fazer
-descer este grande homem do grau illustre de primeiro pintor historico.
-Não quero, nem devo occupar-me de seus defeitos; releva-me só dizer:
-que o seu colorido é verdadeiro e brilhante, sua imaginação fertil, seu
-claro-escuro sabio, todo elle é encantador.--A galleria do Luxembourg
-é a sua melhor obra: mas um quadro allegorico da guerra (no palacio
-ducal de Florença) no meu parecer, e no de muitos, não é inferior.
-Fogo brilhante, nobreza poetica, côr excellente;[22] caracteres
-interessantes, composição precisa, intelligente distribuição de luz;
-tudo se juntou neste quadro; e n’um grau de formusura, a que só a
-allegoria póde remontar. A simples ideia deste painel vale bem uma
-Iliada, e todos os Klopstocks juntos talvez a não produzissem: «É a
-_transfiguração_ de Rubens» dizia um philologo meu conhecido, alludindo
-ao célebre quadro de Raphael. «A vida dos homens sabios é o cathalogo
-de suas obras» diz um grande litterato[23]. Esta sentença desculpa a
-minha diffusão.
-
-
- SECULO XVII
-
-Antonio Wandick n. 1599, m. 1641. Foi discipulo de Rubens, e a maior
-honra do mestre; verdadeiro e simples na imitação da natureza. O seu
-genero foi o retrato, em que ninguem o excedeu.
-
-Rembran-Van-Ryn n. 1606, m. 1674; foi grande no _claro-escuro_, na
-harmonia das côres: na imitação do relêvo. Seus quadros são conhecidos
-pelo fundo negro.
-
-Vander-Kabel n. 1631, m. 1695; distinguiu-se absolutamente da sua
-eschola pela imitação dos Caraccis e Salvator Rosa.
-
-Eglone-Vandernér, ou Vandernêér n. 1643, m. 1697. Um colorido vivo, um
-pincel mimoso lhe fizeram naturalmente procurar os assumptos amorosos,
-em que foi excellente.
-
-Wanderwerff n. 1659, m. 1722. Seus toques são firmissimos, e seu
-desenho correcto.
-
-
- SECULO XVIII
-
-Antonio Raphael Mengs n. 1728, m. 1779. Tem uma verdade de colorido,
-e uma facilidade de pincel, que distingue as suas obras de quaesquer
-outras.
-
-Gerardow n..., bem conhecido pelo seu _Hydropico_ que existia no
-palacio real em Turin, e que Mr. Cochin na sua viagem de Italia não
-duvída chamar o melhor quadro Flamengo, e assegura ter sido um dos mais
-estimados do principe Eugenio.[24]
-
-
- NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[22] A muito me affoito, conceituando da belleza de côr d’um quadro,
-que nunca vi, senão em estampa, e má estampa; mas fio-me na auctoridade
-de eruditos viajantes. Haverá dous annos que me communicou esta estampa
-em Lisboa o sabio philologo J. B. S. Dos apontamentos, que então fiz,
-extrahi esta e outras discripções, que por ahi vão.
-
-[23] Voltaire: _Siècle de Louis XIV_.
-
-[24] Muito há que li estas viagens, assim como as memorias de Mr.
-l’Abbé Richard; de maneira que agora não poderei asseverar em qual dos
-dous encontrei Gerardow, e o seu hidropico. Á leitura d’ambos remeto os
-curiosos.
-
-
-
-
- CAPITULO VIII
-
- Da Eschola Franceza
-
-
-A eschola Franceza, filha da Romana (segundo Pruneti) honra muito a sua
-progenitora. Desde o seculo XVII as Italianas (seu modelo) declinavam
-muito; ja se não viam Rafaelos, Corregios, nem Ticianos: parece que
-a natureza, esgotada por tam grandes talentos, queria descançar.
-E nesta mesma epocha (principios do seculo XVIII, e fins do XVII)
-brilhavam em França Le Brun, Lesueur, Subleiras etc. Veio o seculo XIX
-tam memorando pelas extraordinarias mudanças, que viu a Europa; e em
-quanto a revolução Franceza, e suas consequencias aniquilavam em toda a
-parte[25] as boas-artes; a França apresentava ao mundo o mais brilhante
-espectaculo. Por entre o ruido das armas e o estrepito dos combates,
-as margens do Sena,
-
- _D’onde, arrancando omnipotencia aos fados, Impoz tropel d’heroes
- silencio ao globo_
-
- (BOCAGE)
-
-se ornavam com todo o esplendor das sciencias e artes. A mesma
-Theologia tam sêca, e enfadonha nas mãos de Santo Thomaz, tam immoral
-nas de Mollina, e Sanches, muda de fórma, toma nova essencia, e na
-milagrosa penna de Chateaubriand surge com uma belleza e magestade,
-que jamais puderam dar-lhe o douto Agustinho, o eloquente Origenes.
-Com bem justiça, em quanto a mim, se podem a si proprios applicar os
-Francezes, a respeito das outras nações, aquella sentença de Seneca:
-_Multum egerunt qui ante nos fuerunt, sed non peragerunt_.[26] Nesta
-epocha brilhante e memoranda nos fastos da humanidade, das sciencias
-e das artes, a pintura renova em París os seculos de Augusto, de Leão
-X e de Luiz XIV. Os generaes victoriosos traziam de toda a parte os
-monumentos mais preciosos das boas-artes. O Vaticano, o Belveder,
-o Capitolio, Roma, toda a Italia foi exhaurida, e suas riquezas de
-sculptura e pintura transportadas á nova capital do mundo. Então
-appareceram em França David, Girodet, e muitos outros, que vão parelhas
-com os mais famosos Italianos, se em parte os não excederam. Lavater
-no seu ingenhoso livro das physionomias não se attreveu a caracterisar
-os Francezes. Seus genios e maneiras tam incertos e incapazes de
-classificação, como sua variada phisionomia, impedem affixar-lhes
-com exactidão a caracteristica; e philologos por isso houve, que não
-quizeram considerar na Franceza uma eschola; porem esta assersão é sem
-critica, e pouco seguida. Pruneti no seu _Ensaio Pictorico_ accusa a
-eschola Franceza de mau colorido, e ignorancia do _antigo_. Eu, sem me
-attrever a contrastar este parecer, julgo que tal imputação não pode
-ter lugar na moderna eschola franceza; mas somente se deve referir á
-antiga. Pruneti todavia não conheceu a eschola de David; mas devia
-conhece-la seu traductor Taborda; devêra estuda-la para emendar o
-seu original, e exceder assim a mediocridade d’um traductor servil,
-accrescentando-lhe novas ideias. O grande genero francez é geralmente o
-historico. O chefe desta eschola, querem uns que seja Roux, ou Rosso,
-outros que Leonardo da Vinci: Pruneti assevera que fôra Primaticio
-Bolognese e o faz alumno da eschola Romana. Eu o classifiquei na
-Lombarda; mas confesso que me enganei; porque o seu pintar, verdadeira
-norma, é mais Romano, que Lombardo.
-
-
- SECULO XVI
-
-Vovet n. 1590, m. 1649. Teve um desenho altivo, e um pincel vigoroso;
-mas imitou depois todas as boas e más qualidades de Mig. Ang. de
-Caravaggio.
-
-Nicolau Poussin: Pruneti o faz nascido em 1594; mas Voltaire (_Siècle
-de Louis XIV_) assevera esta data em 1599. A boa critica decide por
-este, como nacional, e tam instruido nos successos d’um tempo, cuja
-historia nos deu. O mesmo Voltaire diz que Poussin era chamado o pintor
-das pessoas de spirito, e acresenta que tambem das de gôsto se podia
-dizer. Soube bem o _antigo_ e o desenho; mas o gôsto Romano lhe deu
-um colorido sombrio. Sua philosophia (diz o grande escriptor) o fez
-superior ás intrigas de Le Brun, e morreu pobre mas contente em 1665.
-
-Pedro Valentin de Colonier n. 1600, m. 1632; imitou Poussin; teve um
-colorido harmonioso, boa ordem nas figuras, mas pouca correcção no
-desenho.
-
-Jacques Blanchard foi imitador feliz das bellezas de Ticiano. Nasc.
-1600, m. 1638.
-
-Lesueur n. 1617, m. 1655. Seu ingenho é sublime e elevado, seu gôsto
-de roupagens magnifico. É um dos primeiros pintores da antiga eschola
-Franceza.
-
-Pedro Mignard n. 1610, m. 1638. O estudo, e imitação de Raphael e
-Ticiano o fizeram algum tempo rival de Le Brun; mas a posteridade
-imparcial o extremou bem.
-
-Carlos Le Brun n. 1619, m. 1690. Sua composição, dignidade de exprimir,
-e fidelidade de costumes se conhece principalmente pelas batalhas de
-Alexandre, que Voltaire julga superiores ás de Paulo Veronese; mas
-apezar do meu respeito a um tal historiador, e philologo, creio que
-nisto se engana, bem como no elogio do seu colorido, que todos taxam de
-menos correcto.
-
-
- SECULO XVIII
-
-José Vivien n. 1651, m. 1735. Retratou bem a pastel, teve muita belleza
-e fecundidade de ideias, e executou bem.
-
-Pedro Subleiras n. 1699, m. 1749. Fertilidade de ingenho, grandeza de
-estylo, viveza de colorido, magnifica prespectiva, boas roupagens são
-os seus caracteres, e os d’um grande pintor.
-
-João Baptista Santerre n..., m.... Seu merecimento principal é um
-colorido verdadeiro e terno. O quadro de _Santa Thereza_ na capella de
-Versailles é um dos esmeros d’arte mais preciosos e bellos; com quanto
-um pouco voluptuoso de mais, de que ao assumpto e logar cumpria.
-
-
- SECULO XIX
-
-David[27] é não só o primeiro pintor da moderna eschola Franceza, mas
-por ventura o primeiro do mundo, depois de Raphael. Que vastidão e
-sublimidade de ideias! Que força e verdade no colorido! Finalmente as
-suas composições reunem todas as boas qualidades, que apenas se acham
-dispersas pelos quadros mais famosos das antigas escholas, e que só
-a elle foi dado juntar. Fallem os prodigiosos quadros de Belisario,
-do juramento dos Horacios, da morte de Sócrates, e sobre tudo o
-incomparável quadro das Sabinas, o _non plus ultra_ da concepção e
-execução, e a eterna inveja de todos os pintores existentes e futuros.
-
-Girodet igualmente se tem distinguido muito pela elegancia de suas
-composições, e suavidade de seu colorido, que nos seus quadros, quer de
-perto, quer de longe, presenta quasi o mesmo effeito. Não tem as graças
-virís de David; mas um acabado, uma doçura, uma maneira de exprimir,
-que o caracterisam, e tornam por extremo encantadoras suas bellas
-producções. Vejam-se os quadros do _enterro d’Atala_, e da Virgem.
-
-Gérard por seus excellentes retratos, chamado o Wandick de França,
-é tambem pintor historico e famoso pelo bom arranjo e ordem de seus
-grupos, pannejado, ou trapejado de suas figuras, e bella correcção de
-desenho. Seus grandes quadros são o Belisario, a Batalha d’Austerlitz,
-e ultimamente a entrada de Henrique IV em Paris, que lhe grangeou o
-logar de primeiro pintor da Camera de Luiz XVIII; não porque Girodet
-seja superior a David, nem mesmo igual, mas porque soube lisongear a
-tempo.
-
-Régnault é muito conhecido pela correcção do desenho; porém o seu
-colorido, em demasia brilhante, é mais contrafeito, que natural:
-todavia deu muitos e bons discipulos, e entre elles o mais famoso é:
-
-Guérin tão celebre pelos seus quadros de Phedra, e Hyppolito, de
-M. Sexto, e da narração de Eneas a Dido. Seus caracteres são fogo
-pictoresco e muita sciencia de _claro-escuro_.
-
-Le Gros bem conhecido pintor de historia segue a David. É mui celebre o
-seu quadro de Francisco I, e Carlos V em S. Diniz.
-
-Vernet, filho do paizagista do mesmo nome, e que no genero de batalhas
-é sem par. Só elle conseguiu exprimir com todo o fogo, e energia os
-brutos, que puxam o carro de Neptuno.
-
-
- NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[25] Á excepção da Inglaterra e Russia, e tambem de Portugal, que então
-colhia os fructos de todas as fadigas de Pombal e Manique.
-
-[26] Seneca _Epist._ 65
-
-[27] Tinha-me feito a mim proprio uma lei de não nomear nenhum pintor
-vivo; mas o reconhecido merecimento destes, o serem estrangeiros, a
-necessidade de fallar da moderna eschola Franceza, e não podêr faze-lo
-de outra maneira, me obrigou a infracção da lei, e quebra do protesto.
-
-
-
-
- CAPITULO IX
-
- Dos Pintores Inglezes, e principalmente de West
-
-
-West é o unico inglez, cujas obras mereçam collocar-se a par das
-boas das outras nações. Os Inglezes não tem o genio da pintura. A
-natureza do paiz não é bella, o sexo frio e desleixado; as proporções
-do corpo em geral irregulares, mal feitas; o caracter da nação duro e
-rispido; os costumes ferozes; tudo em fim concorre a impossibilitar a
-Gran-Bretanha de produzir bons pintores. Um inglez bem conhecido, o
-barão de Chesterfield o confessava, quando n’uma de suas cartas a certa
-dama franceza diz: Every country has talents peculiar to it, as well as
-fruits, or other natural productions. We here think deeply, and fathom
-to the very bottom. Italian thoughts are sublime to a degree beyond all
-comprehension. You keep the middle path, and consequently are seen
-followed, and beloved (CHESTERFIELD _Letters_: Lett. 444.) Comtudo West
-soube distinguir-se de seus compatriotas por um genio vasto, e desenho
-correcto; mas seu caracter de pintura não é sublime; e o seu colorido
-(como o geral da nação) contrafeito e improprio.
-
-
-
-
- CAPITULO X
-
- Dos Pintores Portuguezes
-
-
-Tem-se escripto muito, e muito controvertido sobre a Pintura
-portugueza, e sua historia; mas tanto nacionaes, como estrangeiros
-(affoitamente o digo) sem critica. O exame de seus escriptos, das
-obras dos nossos artistas me suscitou a ideia de entrar com o faxo
-da philosophia neste cahos informe e desembaraçar, quanto em mim
-fosse, com o fio da critica este inextricavel labyrinto. Não pretendo
-adiantar ideias novas: pois donde as haveria? Menos ainda refutar as
-poucas historicas que temos: pois que documentos poderia allegar? Mas
-simplesmente examinar o que ha, e dar-lhe ordem e methodo. Eis aqui o
-que é meu, o resto é dos escriptores, de quem o houve. Com estes dados
-considerei em Portugal quatro epochas de pintura, umas mais, outras
-menos brilhantes: por via destas divisões será por ventura mais facil o
-formar um systema historico desta boa-arte entre nós.
-
-
- EPOCHA I
-
- (Seculos XI até XIV)
-
-O erudito arcebispo Cenaculo, Barbosa e outros modernos, na
-investigação das antiguidades da pintura portugueza, conjecturaram
-muito e com muita fadiga, mas pouco fructo. O desleixamento daquelles
-seculos meio-barbaros em se lembrar da posteridade com a historia
-de seu tempo, não deixa aos animos estudiosos, e amigos da gloria
-patria, senão o desejo e infructuoso trabalho de vagar sem rumo por
-um pelago de conjecturas, a qual mais vaga. Que Italia e Portugal
-eram, nestas epochas remotas dos seculos XI, XII e XIII, as provincias
-menos barbaras da Europa; seus monumentos publicos, templos, estatuas
-e ainda livros o mestram. Alcobaça e Santa Cruz de Coimbra são, alem
-d’outras, incontrastaveis provas da minha asserção. Vivia entre nós a
-pintura; e vivia o melhor, que do gosto do tempo se podia esperar. Quem
-exigir mais diffusão, póde ver os citados Barbosa, e Cenaculo, e todos
-os allegados pelo moderno Taborda. O resultado philosophico de quanto
-disseram é em poucas phrases:--Que esta arte antiquissima entre nós
-remonta ao principio da monarchia.--Que barbara e gothica ao principio,
-se foi pouco e pouco melhorando, já pelas viagens dos nossos mestres
-á Italia, já pelas obras e pintores, que de lá vinham chamados pelo
-bom acolhimento, que lhes nossos monarchas faziam.--Que existem ainda
-deste tempo algumas pinturas, cujo auctor se ignora.--Que nos reinados
-d’Affonso V, e João II ja tinhamos pintores de nome, como Gonsalo Nuno,
-João Annes, e Alvaro de Pedro. Que o estylo da nossa pintura deste
-tempo, era um mesclado de gothico e grego-moderno, similhante ao de
-Cimabúe, Guido de Sienna, e Pedro Perugino.--O gôsto do _antigo_, que
-então começava a prevalecer na Italia, e que de lá se communicou a
-Portugal pela protecção, com que o amador das boas-artes, D. Manoel
-especializou a pintura, assignala a segunda epocha, que se deve contar
-do XV seculo.
-
-
- EPOCHA II
-
- (Seculos XV e XVI)
-
-«Em quanto a França se occupava em justas e torneios, em discordias e
-guerras civís, Portugal descobria novos mundos, fazia o commercio da
-Europa, e produzia um sem numero de Camões, antes que em París houvesse
-um só Malherbe» diz Mr. Voltaire (_Siècle de Louis XIV_), e devêra
-accresentar que, antes que nascessem Le Brun e Poussin, ja Portugal
-contava, na longa serie de seus pintores, Gran Vasco, Francisco de
-Hollanda, Claudio Coelho, e mil outros. D. Manoel chamado o feliz,
-foi o pae das sciencias e artes: e se João III contou no seu tempo
-mais sabios, que seu illustre antecessor, fructos foram, que em seu
-tempo amaduraram; mas devidos ás fadigas do semeador e cultor o grande
-Manoel. Gran Vasco, Gonsalo Gomes, Fr. Carlos todos são deste tempo.
-
-O commercio e conquistas da India tinham elevado o reino a um gráo
-de opulencia, desconhecido então das outras nações. D. Manoel quiz
-eternizar-se com a fabrica do mosteiro de Belem; conhecendo:
-
- _Que d’acções immortaes se murcha a gloria,
- Se a não regam as filhas da memoria._
-
- (DINIZ od.)
-
-Os mancebos de mais esperanças foram mandados á Italia a aperfeiçoar-se
-na pintura. Affonso Sanches, Fernão Gomes, Manoel Campello, Christovão
-Lopes e outros, voltaram approveitados, e enriqueceram não só Belem e
-Lisboa, mas o reino e toda a Europa com suas primorosas obras. Veio
-depois Francisco de Hollanda, Diogo Pereira e Claudio Coelho, que não
-deixaram ao seculo de Manoel e João III[28] que invejar ao de Luiz
-XIV. O estylo pomposo de Miguel Angelo, que tanto agradava ao genio
-altivo d’uma nação conquistadora, prevalecia muito entre os pintores
-portuguezes, que nem por isso menos presaram o desenho de Raphael,
-e o colorido de Ticiano, que ainda hoje se admira, em suas bellas
-composições.
-
-
- EPOCHA III
-
- (Seculo XVII)
-
-Espiraram com D. Sebastião nas areias de Africa o valor e espirito
-portuguez; cairam as sciencias, esmoreceram as artes; e, com quanto
-os intrusos Philippes favoreciam alguma cousa o talento; a abundancia
-e riquezas, em cujo seio se crearam sempre os grandes ingenhos tinham
-desamparado o reino, e sepultado a nação no lethargo politico, na
-miseria e na ignorancia. As cinzas das sciencias fumegavam com tudo;
-e os ultimos vislumbres d’um clarão moribundo, mas ainda grande,
-allumiaram ainda a Amaro do Valle, Estevão Gonsalves, José d’Avellar e
-Bento Coelho.--Surgiu finalmente a independencia portugueza depois de
-60 annos de escravidão; mas o genio da nação estava muito abatido; era
-necessario ainda o decurso de muitos seculos para o levantar. Vem-se
-com tudo desta quadra muitas pinturas, supposto não mereçam comparar-se
-com as do bom tempo de Campello e Claudio. Bem como nos animos, reinava
-na pintura por estes desgraçados tempos a servidão e mau gosto, que se
-limitava a copiar e imitar com baixeza; e por ventura pela mesma razão,
-que nos fez desprezar a materna lingua, para escrevermos na hespanhola:
-lisonja vil e indigna do nome portuguez, eterno opprobrio e mancha de
-escriptores, aliás benemeritos, como Faria e Sousa, que enxovalhou sua
-fama com tal baixeza e vituperio,[29] e a marcou indelevelmente com o
-ferrête da sordida adulação; perniciosa mania, que tanto estragou o
-idioma de Camões e Barros, e a tal ponto, que os esforços e fadigas de
-tantos sabios e philologos tem sido pouco para a restaurar.
-
-
- EPOCHA IV
-
- (Seculos XVIII e XIX)
-
-A longa paz do reinado de D. João V, o commercio das colonias
-Americanas, as riquezas e abundancia consecutivas fizeram reviver as
-artes e sobretudo a pintura e architectura. Começou-se Mafra pela
-mesma razão, que se começara Belem: a Italia recebeu de novo muitos
-alumnos portuguezes; e como Luiz XIV fizera em Roma, fez João V,
-instituindo n’aquella cidade uma academia de pintura. Francisco Vieira
-Lusitano, Ignacio d’Oliveira, e muitos outros foram o digno fructo dos
-cuidados do monarcha, merecedor por seus bons desejos d’um seculo mais
-philosopho, e d’uma côrte menos hypocrita. N’este estado de cousas
-começou a reinar D. José, e com elle o marquez de Pombal: tudo mudou de
-face; cahiu o colosso jesuitico, o reino d’Aristoteles e a barbaridade
-Thomistica[30]; brilhou a pintura como a poesia, e as outras artes e
-sciencias. O governo doce e moderado de Maria I acabou de aperfeiçoar
-o que principiara e adiantara D. José, e o marquez de Pombal, que na
-universidade de Coimbra,[31] em Mafra, no collegio dos nobres, e outras
-partes tinham instituido aulas de desenho e pintura. D. Maria fundou
-a academia do _nu_; em seu tempo[32] se instituiu a de desenho do
-Porto. A nenhum bom portuguez devem esquecer os vigilantes cuidados do
-intendente Manique, a quem a pintura, a esculptura e mais artes devem
-tanto em Portugal. Esta fertil epocha produziu um Pedro Alexandrino,
-Vieira Lusitano, Teixeira Barreto, Vieira Portuense, Sequeira, e
-muitos outros, cujos nomes callo, mas bem conhecidos pelas suas bellas
-producções. A verdade, a expressão, o bello natural são os caracteres
-dominantes nestes tempos.
-
-
- PINTORES PORTUGUEZES DA I EPOCHA
-
- (Seculo XI até XIV)
-
-Alvaro de Pedro viveu e pintou na Italia pelos annos de 1450. Nada mais
-se sabe; mercês á incuria de nossos avoengos. Oxalá que este miseravel
-e vergonhoso exemplo sirva de estimulo a netos, que possam melhor que
-eu, transmittir á posteridade a memoria illustre de nossos coévos.
-Noto de passagem que o traductor da oração de Belori assevera, com uma
-intrepidez que me espanta, serem de Gonsalo Nuno, ou Nuno Gonsalves
-as pinturas da capella de S. Vicente na sé de Lisboa. O mesmo dizem
-Francisco de Hollanda e Bermudes.
-
-João Annes. Deixadas conjecturas, nada mais sabemos deste pintor, senão
-que vivia pelos annos de 1459 por uma carta de privilegio dada por D.
-Affonso V. (_Vide_ Taborda, Cenaculo, etc.)
-
-Vasco dito o grande (Gran Vasco). Sabemos por documentos d’aquelle
-tempo, que vivia ainda nos fins do XV seculo. Seu stylo do antigo
-modo Florentino faz julgar aos sabedores, que estudára com Pedro
-Perugino. Desenho, ainda que rude, exacto, attitudes energicas, grande
-conhecimento de architectura, bellas paizagens são os caracteres deste
-insigne mestre, que fertil, e assiduo no trabalho enriqueceu todo
-o reino com seus primores. Muitos templos de Lisboa, o da Ordem de
-Christo em Thomar, e outros o attestam. Foi pintor de D. Affonso V,
-e segundo o traductor portuguez de Belori, tambem de D. Manoel. Um
-periodico de Lisboa (que infelizmente se intitula Mnemosine Lusitana)
-quer que o melhor quadro de Vasco seja o da paixão de Christo no horto
-(em Thomar): pintura (diz elle) porque um Inglez philologo, dava 6:000
-cruzados, e uma boa copia. Desejava de todo o meu coração, que o
-redactor, ou redactores tivessem, ao menos nisto, razão: em quanto a
-mim o amor da patria m’o faz crer facilmente.
-
-
- PINTORES PORTUGUEZES DA II EPOCHA
-
- (Seculo XV e XVI)
-
-Gonsalo Gomes, de quem nada mais se sabe senão que vivia nos fins do
-seculo XV, foi pintor de D. Manoel: e a estimação, que este sabio rei
-d’elle fez, é o unico, mas relevante testemunho do seu merecimento.
-
-Na chronica de D. Manoel é chamado Duarte Darmas _grande pintor_, e
-como tal enviado por el-rei a debuxar as entradas de Azamor, Salé, etc.
-(_Vide_ Damião de Goes, _Chron. de D. Man._, part. II, cap. 27, pag.
-208, ediç. de 1819).
-
-Firmado no proprio testemunho do auctor assevera (e não sei se com
-razão) Vicente Carducho, e com elle Taborda, que o nosso historiador
-Resende fôra tambem grande pintor. Não sei se a singeleza d’aquelles
-tempos é bastante para crermos um homem no artigo dos seus louvores.
-
-Fr. Carlos, monge de S. Jeronymo, vivia no principio do seculo XVI.
-Pintou no stylo de Bolonha, e sobre tudo no de Corregio. Ainda que
-flamengo de origem, suas obras tem mais nobreza, que o commum d’aquella
-nação, sem deixar de ter sua bella simplicidade.
-
-Gaspar Dias viveu pelos principios do XVI seculo. Mandado a Italia por
-D. Manoel a estudar os grandes modelos, e formar o stylo, sua alma
-elevada não se contentou d’outros mestres, que não fossem Raphael e
-Miguel Angelo. Estudou-os, e mereceu imitá-los com dignidade.
-
-Christovão d’Utrecht n. 1478, m. 1557. Ainda que nascido em
-Hollanda, nossos escriptores o fazem portuguez. Soube perfeitamente
-a perspectiva, e juntou ao gôsto de Perugino e João Bellini a maior
-delicadeza e harmonia de pincel.
-
-Affonso Sanches Coelho n. 1515, m. 1590. Dotado pela natureza de
-quanto constitue um grande pintor concebeu fortes desejos de passar á
-Italia, onde ouviu as lições de Raphael; honra, que bem mereceu por seu
-aproveitamento. Chamado por Philippe II á Hespanha ennobreceu Madrid;
-e sobre tudo o Escurial com suas pinturas. Um dos poucos exemplos do
-merecimento premiado foi este illustre portuguez. João III de Portugal,
-Philippe II, Gregorio XIII, o grão duque de Toscana, o da Saboia,
-o cardeal Alexandre Farnese o estimaram, enriqueceram e honraram á
-porfia. Sua alma bemformada escutou sempre a voz da natureza; e o
-philologo não excedeu n’elle o homem. (_Vide_ Palomino, Bermudes, etc.)
-
-Fernão, ou Fernando Gomes, mandado á Italia por D. Manoel, e em
-consequencia vivendo no principio do seculo XVI, foi aproveitado
-discipulo de Miguel Angelo; e suas obras o provam bem.
-
-Manoel Campelo tambem enviado á Italia, e tambem do mesmo tempo. Ainda
-hoje se admira em Belem nos seus quadros aquella correcção de desenho
-da eschola Romana, aquella grandeza de stylo, que faz a glória de
-Miguel Angelo, seu mestre, e que a não faz menos do illustre discipulo.
-Estas brilhantes qualidades lhe grangearam os elogios de todos os
-sabios nacionaes e estrangeiros. (_Vid._ D. Francisco Manoel de Mello:
-_Hospital das lettras_; Guarenti, etc.)
-
-Vasques... viveu pelos annos de 1562. Poucos pintores souberam, como
-elle, anatomia tão necessaria para o bom desenho, e proporções, em que
-se avantajou, e que lhe déram um mui distincto logar na historia da
-arte, apezar de seu stylo um pouco rude.
-
-Christovão Lopes n. 1516, m.... O stylo pomposo de Miguel Angelo, que
-tanto agradava ao genio sublime e elevado dos portuguezes, foi o seu
-modelo; e juntando a tam brilhante qualidade a expressão de Raphael,
-enriqueceu a Patria com as magnificas producções, que ainda hoje são
-admiradas depois de tantos seculos pelos sabedores, e amantes das
-boas-artes.
-
-D. Leonor de Noronha da casa de Linhares, n. 1550, m. 1636. De Duarte
-Nunes de Leão na _Descripção de Portugal_, e de Barbosa na _Biblioth.
-Lus._ sabemos só que pintou _excellentemente a oleo e illuminação_.
-
-Antonio de Hollanda, inventor da illuminação a pontos brancos e pretos
-em Portugal; e com tanto mais merecimento, que absolutamente ignorava
-a mesma descoberta, que então se começava na Italia. Delle disse o
-Imperador Carlos V, que _mejor le habia sacado al natural Antonio de
-Hollanda en Toledo de iluminacion, que Ticiano en Boloña_. Bem pouco
-vale este elogio, porque homens desta classe nada entendem de ordinario
-de tudo o que póde ter algum valor ou merecimento, tendo de mais a
-mais a presumpção do voto decisivo. Não consta porém, que Deus creasse
-mais que um Salomão, e como este _um_ morreu ha muito tempo, e estes
-senhores se não dão o incommodo de fazer aquillo, que fazem os que
-não são Salomões, ou não tem a tal _infusa_, é bem claro o valor de
-similhantes elogios. Carlos V porém (façamos justiça) posto que o mais
-odioso monarcha por seu cruel despotismo, não era com tudo o mais tolo,
-e algumas luzes lhe tinham ficado de senso commum, que se costumam
-apagar com a...
-
-Francisco de Hollanda floreceu pelo meio do seculo XVI.--Pintor,
-architecto, poeta e philosopho.--Na Italia Paulo III, e todos os
-grandes e sabios; toda a Hespanha; em Portugal João III, e toda a côrte
-o estimaram como merecia. (Pois n’aquelle tempo tambem em Portugal
-se dava preço ao merecimento!) O muito que se tem escripto sobre
-este memoravel portuguez, me desobriga de mais extensa apologia. De
-sobejo lh’a fazem seus preciosos escriptos, suas pinturas, e toda a
-Europa.--De suas producções é sem questão a obra-prima, o baptismo de
-S. Agustinho (que ainda se conserva em cabeça de morgado na casa dos
-Castros) em que se admiram reunidos a sabia composição de Raphael,
-o desenho nobre e altivo de Mig. Angel., e o bello colorido de
-Ticiano.--Julga-se que morreu em 1574.
-
-
- PINTORES PORTUGUEZES DA III EPOCHA
-
- (Seculo XVII)
-
-Diogo Pereira n. 1570, m. 1640. Trabalhou muito; e o desvalimento, em
-que sempre viveu, não lhe affrouxou as graças naturaes e puras, que
-fazem a belleza de suas composições. Mas sobre tudo as scenas de horror
-foram o mimo do seu pincel. Tive o prazer de admira-lo muitas vezes em
-suas obras, que por decisiva prova de merecimento, são procuradas por
-altissimos preços para Italia, França e Inglaterra.
-
-Estevão Gonsalves Neto n..., m. 1627. É delle o missal do convento de
-Jesus tam gabado pelas excellentes miniaturas que o ornam. Soube bem o
-ornato e perspectiva.
-
-Amaro do Valle n..., m. em 1619. Seu gosto é delicado; seu stylo grande
-e expressivo; o desenho correcto, e assizada a perspectiva. Foi pintor
-de Philippe II.
-
-José de Avelar Rebello viveu no tempo de D. João IV, que o condecorou
-com o habito de Aviz. Caracterizam suas obras (das quaes a melhor é o
-_S. Jeronymo_ da livraria de Belem) um stylo da grandeza de Mig. Ang.,
-e um colorido de summa verdade.
-
-D. Josepha de Ayala n..., m. 1684. Um ingenho fertil, muita verdade,
-expressão vivissima são a caracteristica de seus quadros, pela maior
-parte, de flores e fructos; mas o seu grande genero foi o retrato.
-
-Claudio Coelho n..., m. 1693. Este homem tam grande e tam conhecido
-tem sido abocanhado por muitos, e exagerado por alguns; mas a opinião
-geral o constitue n’um dos mais superiores graus entre os mais
-illustres pintores. Desenhou correctamente; coloriu como Ticiano; e
-conheceu, como poucos, o effeito da perspectiva. Tudo isto se observa
-principalmente no seu primoroso quadro da sacristia do Escurial bem
-divulgado pela moderna estampa de Bartholozzi. (_Vid._ Palomin. _Mus.
-Hist._ pag. 440 até 444; o abbade Ponzz. _Viag. d’Esp._ Tom. V. pag.
-65 até 126; Bermudez _Diccion. histor._ Tom. I. pag. 337 até 347;
-Bourgeoin _Tableau de l’Espagne moderne_ Tom. I. pag. 227).
-
-Bento Coelho viveu no XVII sec. Grande facilidade, bom colorido, como o
-de Rubens, que imitou; pouca correcção no desenho. Conservam-se ainda
-muitas de suas obras.
-
-
- PINTORES PORTUGUEZES DA IV EPOCHA
-
- (Seculo XVIII)
-
-Victorino Manoel da Serra n. 1692, m. 1747. Foi o primeiro, que em
-Portugal introduziu o gôsto e ornato francez.
-
-André Gonsalves, n..., m.... Foi correcto no desenho, e bom no
-colorido; mas seu merecimento principal é o de copista.
-
-Ignacio d’Oliveira, n..., m. 1781. Distinguiu-se sobre tudo pelos
-encantos do colorido: estudou em Roma, e trabalhou muito em Mafra.
-
-Francisco Vieira Lusitano n...., m. 1783. Estudou muito em Roma, aonde,
-por concurso, levou o premio da academia de S. Lucas. Foi grande na
-alegoria; desenhou bem, coloriu divinamente, e teve muita expressão.
-Apezar de tudo o que a inveja e a ignorancia tem suscitado contra
-este grande mestre, elle será sempre um d’aquelles, com que a pintura
-nacional mais se honra e ennobrece. Vieira Lusitano é muito conhecido,
-para me obrigar a maior elogio.
-
-Joaquim Manoel da Rocha n. 1730, m. 1786. Distinguiu-se pela correcção
-do desenho, e muita expressão. Foi director da academia do _nu_, e
-professor na aula do desenho de Lisboa.
-
-Francisco Apparicio n...., m. 1787. Distinguiu-se muito no retrato e
-sobre tudo, por uma grande verdade de colorido. Estudou em França.
-
-Luiz Gonsalves de Senna, n. 1713, m. 1790. Foi mui destro no pintar; e
-em Lisboa se vêm muitas obras suas de grande merecimento.
-
-Jeronymo de Barros Teixeira n. em 1750, m. em 1803. O stylo simples
-e natural, bom colorido, muita sciencia de claro-escuro, e de
-architectura, grande talento para o retrato o constituem em mui
-distincto logar na ordem dos bons artistas.
-
-Pedro Alexandrino de Carvalho n. 1730, m. 1810. Teve um pincel livre,
-viveza de côres, e maneiras engraçadas, e foi um dos directores da
-academia do _nu_.
-
-José Teixeira Barreto nasc. no Porto 1763, m. 1810. Estudou muito em
-Roma, e com grandes mestres. Seu stylo é caprichoso, mas bello. Foi
-lente de desenho na academia do Porto.
-
-Francisco Vieira Portuense n. 1765, m. 1805. Foi primeiro-pintor da
-camera e côrte, director do instituto de desenho do Porto, e estimado e
-honrado de toda a nação, e das estrangeiras, principalmente da Ingleza.
-Foi premiado pela academia de Londres. Pintou no stylo do Guido e
-Albano; e, no seu genero, não deixou aos portuguezes nada que invejar
-ás outras nações.
-
- FIM
-
-
- NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[28] Nunca pude affeiçoar-me a D. João III apesar da sua piedade e
-bondade, apezar do seu amor das sciencias, protecção que lhes deu,
-etc., etc. Donde virá isto? Será do seu ainda maior amor, e do generoso
-accolhimento, que fez á Sancta Inquisição.
-
-[29] E com effeito qual será o bom portuguez, que possa perdoar a Faria
-e Sousa o ter escripto as suas historias em castelhano? Os seus taes
-e quaes commentarios a Camões, ao melhor dos escriptores portuguezes,
-ao mais célebre da sua nação, na lingua dos oppressores da patria, dos
-tyrannos de Portugal?
-
-[30] Todos sabem que a philosophia
-Aristotelico-Thomistico-escholastica, tam querida de nossos avós, era o
-opposto diametral d’aquella deffinição de Seneca: _Non est philosophia
-populare arteficium, nec ostentatione paratum. Non in verbis, sed in
-rebus est._ SENEC. Epist. XVII ad Lucil.
-
-[31] Em Coimbra não teve effeito: dizem as más linguas, que por ser
-cousa d’utilidade e especie ommissa nos _ff._ e _Inst._
-
-[32] Na regencia do actual reinante, e demencia da rainha.
-
-
-
-
- BOSQUEJO
-
- DA
-
- HISTORIA DA POESIA E LINGUA PORTUGUEZA
-
-
-
-
- A QUEM LER
-
-
-A minha primeira ideia quando intentei esta collecção, foi dar ao
-publico um extracto das melhores poesias de nossos classicos. Reflecti
-depois que não seria ella completa, porque alguns generos ha que não
-tractaram aquelles illustres escriptores: e em tam rica litteratura
-como é a portugueza, pena fôra mostrar pouquidade e pobreza. Resolvi-me
-por esse motivo a sahir dos limites classicos. Mas ainda apparecia
-outra difficuldade: especies ha de poesia em que não escreveram senão
-auctores vivos; atterrava-me a lembrança de haver de julgar e escolher
-obras que aguardam ainda o conceito da posteridade, quasi sempre
-unico tribunal recto das cousas dos homens, especialmente de materia
-de gôsto. Todavia o mesmo motivo de querer fazer esta escolha o mais
-completa que é possivel, me determinou a arrostar ess’outro escolho.
-Procurei nos escriptores vivos cingir-me quanto racionavelmente pude
-á mais geral opinião, escolhendo aquelles trechos que mais approvados
-teem sido; observando pela minha parte a mais rigorosa imparcialidade
-que humanamente se póde. E sendo, como sou, alheio a toda disputa e
-rivalidade litteraria e poetica, se alguma hora no decurso d’esta obra
-julgarem deslisei d’essa proposta impassibilidade, peço que o attribuam
-a erro de meu juizo, não a proposito deliberado.[33]
-
-Queria eu tambem ao principio conservar a cada escriptor sua
-particular orthographia; mas a isso obstaram dous insuperaveis
-obstaculos. Primeiro--não haver, sôbre tudo nos classicos, uma base
-boa ou má em que cada um d’elles fundasse a sua orthographia para se
-poderem regularizar as incalculaveis anomalias que se encontram em uma
-mesma obra, na mesma pagina ás vezes. Segundo--que havendo sido muitas
-das obras de nossos poetas antigos e modernos publicadas posthumas, é
-impossivel acertar com o verdadeiro systhema orthographico d’elles.
-Esta impossibilidade augmentou ainda e se estendeu áquelles que apezar
-de publicarem suas obras em vida, cahiram em mãos de novos editores
-todos ignorantes ou descuidados (nenhum conheço, a quem fique mal o
-epitheto) que em vez de as melhorarem, estragaram e confundiram tudo.
-Ora d’alguns d’esses não foi possivel, por mais diligencias que se
-fizeram, descubrir as primeiras edições, as quaes, segundo observei,
-ainda assim, não serviriam de muito.
-
-Accresciam a estes dous motivos a feia apparencia que teria a obra que
-mais houvera ficado recosida manta de retalhos furtacôres, do que uma
-collecção de poetas da mesma lingua.
-
-Determinei pois imprimir tudo com regular e geral orthographia; cujos
-principios extrahi do uso dos melhores classicos, uso que nem sempre
-seguiram, mas que manifestamente se vê quizeram seguir; e são estes:
-
-I. Conservar fielmente a ethymologia quando se lhe não oppõe a
-pronúncia.
-
-II. Combiná-la com a pronúncia quando ésta se oppõe á inteira
-conservação d’aquella.
-
-III. Nas palavras de raiz incognita seguir o uso geral.
-
-IV. Nas diversas modificações dos verbos conservar sempre a figurativa
-quando a pronúncia não obsta.
-
-V. Não pôr accentos (agudo e circumflexo que são os unicos
-portuguezes) senão onde a palavra sem elles se confundiria com outra.
-(Tambem me servi do agudo para marcar a dieresis por não estar aínda
-adoptado entre nós o signal (..) que é bem necessario).
-
-Julgo haver prestado algum serviço á litteratura nacional em offerecer
-aos estudiosos de sua lingua e poesia um rapido bosquejo da historia
-de ambas. Quem sabe que tive de encetar materia nova, que portuguez
-nenhum d’ella escreveu, e os dous estrangeiros Bouterweck e Sismondi
-incorrectissimamente e de tal modo que mais confundem do que ajudam a
-conceber e ajuizar da historia litteraria de Portugal; avaliará decerto
-o grande e quasi indizivel trabalho que me custou esse ensaio. Não
-quero dá-lo por cabal e perfeito; mas é o primeiro, não podia se-lo.
-Além de que, a maior parte das ideias vão apenas tocadas, porque
-não havia espaço em obra de taes limites para lhe dar o necessario
-desenvolvimento.
-
-
- NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[33] Muito tempo hesitei se daria logar n’esta collecção a um poeta
-(hoje morto) em quem de certo houve algum ingenho, mas que ignorou
-e desprezou a tal ponto a lingua, tam cynicamente violou o decoro
-do stylo, as mais indispensaveis regras do gôsto e da boa razão,
-que seus poemas são uma _sentina_ de gallicismos, e um apontoado de
-termos baixos, de expressões que não usa gente de bem, de construcções
-barbaras, de versos prosaicos, semeados áquem além de uma ideia feliz,
-de um bom verso, de uma imagem poetica. Já se vê que esta descripção
-a ninguem quadra senão ao Santos e Silva. Cedi tambem n’este ponto
-á opinião que o considera mais do que elle vale, e escolhi o que me
-pareceu menos barbaro da tal excentrica Braziliada: e provavel é que
-escolhesse mal, porque difficil é julgar um homem bem quando está
-_cahindo com somno_.
-
-Fui obrigado a pôr um grande pedaço, porque em maior espaço appareceria
-um maior numero d’esses poucos _descuidos_ felizes do auctor.
-
-
-
-
- BOSQUEJO
-
- DA
-
- HISTORIA DA POESIA E LINGUA PORTUGUEZA
-
-
-
-
- I
-
-Origem de nossa lingua e poesia
-
-
-A lingua e a poesia portugueza (bem como as outras todas) nasceram
-gemeas, e se criaram ao mesmo tempo. Erro é commum, e geral mesmo entre
-nacionaes, pela maior parte pouco versados em nossas cousas, o pensar
-que a lingua portugueza é um dialecto da castelhana, ou hespanhola
-segundo hoje inexactamente se diz.
-
-Das variadas combinações das primitivas linguagens das Hespanhas com o
-Grego, o Latim, com os barbaros idiomas dos invasores do norte, e alfim
-com o Arabigo, nasceram em diversas partes da Peninsula diversissimas
-linguas que nem dialectos se podem chamar geralmente, porque, além de
-não haver uma commum, de muitos d’elles é tam distincta a indole e tam
-opposta que se lhes não colhe similhança.
-
-Ninguem ignora hoje que o Proençal foi a primeira que entre as linguas
-modernas se cultivou, mas que por sua breve dura não chegou nunca á
-perfeição. Das nações da Hespanha, as mais vizinhas áquelle crepusculo
-de civilização primeiro melhoraram sua linguagem: mas tambem lhes
-coube igual sorte; nunca de todo se puliram. O Castelhano e Portuguez,
-que mais tarde se cultivaram, permaneceram pelo sabido motivo da
-conservação da independencia nacional, e vieram a completo estado
-de perfeição e caracter cabal de linguas cultas e civilizadas. O
-Biscaínho, Catalão, Gallego, Aragonez, Castelhano, Portuguez e outras
-mais foram e são ainda alguns distinctos idiomas: porém so os dous
-ultimos tiveram litteratura propria e perfeita, linguagem commum e
-scientifica, tudo emfim quanto constitue e caracteriza (se é licita a
-expressão) a _independencia_ de uma lingua.
-
-Grande similhança ha entre o Portuguez e Castelhano; nem podia ser
-menos quando suas capitaes origens são as mesmas e communs: porém tam
-parecidas como são pelas raizes de derivação; no modo, no systhema
-d’essas mesmas derivações, na combinação e amalgama de identicas
-substancias e principios se vê todavia que diversos agentes entraram,
-e que mui variado foi o resultado que a cada uma proveio. Filhas dos
-mesmos paes, diversamente educadas, distinctas feições, vario genio,
-porte e ademan tiveram: ha comtudo nas feições de ambas aquelle _ar de
-familia_ que á prima vista se colhe.
-
-Este ar de familia enganou os estrangeiros, que sem mais profundar,
-decidiram logo, que o Portuguez não era lingua propria. Esse achaque
-de decidir afoitamente de tudo é velho, sobre tudo entre francezes,
-que são o povo do mundo entre o qual (por philaucia de certo) menos
-conhecimento ha das alheias cousas.
-
-Sem dúvida é que a lingua portugueza começou com seus trovadores,
-unicos no meio do estrepido das armas que algum tal qual cultivo lhe
-podiam dar; e provavel é que assim fosse com pouco melhoramento até os
-tempos d’el-rei D. Diniz, que no remanso da paz de seu reinado protegeu
-e animou as lettras, que elle proprio cultivou tambem.
-
-
-
-
- II
-
-Primeira epocha litteraria; fins do XIII até os principios do XVI sec.
-
-
-D. João I o eleito do povo, e o mais nacional de todos os nossos reis,
-deu ao idioma patrio valente impulso, mandando usar d’elle em todos os
-actos e instrumentos publicos, que até então se fazim em Latim. Foi
-esta lei carta de alforria e de cidade para a lingua que atélli vivera
-escrava da dominação latina, a qual sobrevivera não só ao imperio
-romano, mas a tantas conquistas e reconquistas de tam desvairados povos.
-
-Aqui se deve pôr a data da verdadeira aurora das lettras em Portugal,
-que por singular phenomeno pouco visto entre outros povos, raiou ao
-mesmo tempo com a das sciencias; por maneira que quando o romantico
-alaúde de nossas musas começava a dar mais afinados sons, e a subir
-mais alto que o atélli conhecido, as sciencias e as artes cresciam a
-ponto de espantar a Europa, mudar a face do mundo, e alterar o systema
-do universo.
-
-Desde então até á morte d’el-rei D. Manuel, tudo foi crescer em
-Portugal; artes, sciencias, commércio, riqueza, virtudes, espirito
-nacional.
-
-Muitas foram as producções de nossa litteratura n’aquelle seculo
-de glória em que Gil-Vicente abriu os fundamentos ao theatro das
-linguas vivas, Bernardim Ribeiro puliu e adereçou com alguns mimos
-da antiguidade o genero inculto dos romances[34] e seguiu (quasi o
-segundo) o caminho encetado pelo nosso Vasco de Lobeira nas composições
-romanescas; e ao cabo mostrou aos rusticos pastores do Tejo alguns dos
-suaves modos da frauta de Sicilia que nenhuma lingua viva até então
-ouvira soar.
-
-A natural suavidade do idioma portuguez, a melancholia saudosa de
-seus numeros nos levaram á cultura d’este genero pastoril, em que
-raro poeta nosso deixou de escrever, quasi todos bem, porque a lingua
-os ajudava; nenhum perfeitamente, porque (inda mal) deram ás cegas
-em imitar Sannazaro, depois Boscan e Garcilasso, e copiaram pouco
-do _vivo_ da natureza, que tam bella, tam rica, tam variada se lhes
-presentava por todas as quatro partes de que em breve constou o mundo
-portuguez, e das quaes todas ou assumpto ou logar de scena tiraram
-nossos bucolicos. Nem d’este geral defeito[35] (o maximo que por
-ventura se lhes nota) póde fazer-se excepção, senão fôr alguma rara
-em favor de Camões e de Rodrigues Lobo. O Tejo, o Mondego, os montes,
-os sitios conhecidos de nosso paiz e dos que nos deu a conquista,
-figuram em seus poemas; porêm raro se vê descripção que recorde alguns
-d’esses sitios que já vimos, que nos lembre os costumes, as usanças,
-os preconceitos mesmos populares; que d’ahi vem á poesia o aspecto e
-feições nacionaes, que são sua maior belleza.
-
-Bernardim Ribeiro foi um tanto mais original em sua simplicidade,
-o que lhe falta de sublime e culto sobeja-lhe em brandura, e n’uma
-ingenua ternura que faz suspirar de saudade, d’aquella saudade cujo
-poeta foi, cujos suaves tormentos tam longo padeceu, e tam bem pintou.
-
-Foi seu contemporaneo Gil-Vicente fundador do theatro moderno, de cujas
-obras imitaram os Castelhanos; e d’ellas se espalhou pela Europa o
-mau e o bom d’essa irregular e caprichosa scena, que ainda assim suas
-bellezas tem.
-
-O proprio Gil-Vicente não deixa de ter seu comico sal, e entre
-muita extravagancia muita cousa boa. Bouterweck e Sismondi parece
-que escolheram o peior para citar; muito melhores cousas tem,
-particularmente nos autos, superiores sem comparação ás comedias. A
-soltura da phrase, e a falta de gôsto são os defeitos do seculo; o
-ingenho que d’ahi transparece é do homem grande e de todas epochas[36].
-
-
- NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[34] Não no sentido de _novellas_, mas no que então se lhe dava.
-
-[35] Commum tambem nos outros generos de poesia, onde quer que entra o
-descriptivo.
-
-[36] Reservo-me para uma edição que pretendo publicar do nosso Plauto,
-fructo de longo e penoso trabalho, para examinar melhor este ponto, e
-demonstrar o que aqui enuncio.
-
-
-
-
- III
-
-Segunda epoca litteraria; idade de ouro da poesia e da lingua desde os
-principios do XVI até os do XVII sec.
-
-
-Com a morte d’el-rei D. Manuel declinou visivelmente a fortuna
-portugueza: certo é que as artes progrediram, que a lingua se
-aperfeiçoou; porêm esse movimento era continuado ainda do impulso
-anterior e já não promettia longa dura. Assim succedeu. D. João III
-colheu os fructos do que D. Manuel havia semeado; mas de lavras suas,
-nem elle, nem seus successores viram colheita.
-
-Uma cousa todavia que muita influencia teve sobre a lingua e
-litteratura portugueza e que a instituições de D. João III se
-deve, foi o cultivo das linguas classicas, que na reformação da
-universidade de Coimbra augmentou muito. Os modelos gregos e romanos
-foram então versados de todas as mãos, estudados, traduzidos,
-imitados. Aperfeiçoou-se a lingua, enriqueceu-se, adquiriu aquella
-solemnidade classica que a distingue de todas as outras vivas, seus
-periodos se arredondaram ao modo latino, suas vozes tomaram muito da
-euphonia grega; d’um e d’outro d’esses idiomas lhe vieram as muitas,
-e principalmente da grega, os muitos hyperbatos; com o que vai rica,
-livre e magestosa por todas as provincias da litteratura, que tem
-decorrido, não havendo ahi genero de composição, para o qual, ou por
-doce de mais como o Toscano, não seja propria,--ou por mui aspera e
-guindada como o Castelhano, se não adapte,--por curta como o Francez,
-não chegue,--por inflexivel e rispida como o Alemão e Inglez, se não
-amolde.
-
-Claro é que a historia, a oratoria, todas as artes do discurso deviam
-de florescer com tal augmento. Com ellas todas medrou e cresceu a
-poesia na delicadeza, na harmonia, no gôsto; porêm desmereceu muito,
-demasiado na originalidade, no caracter proprio, que perdeu quasi todo,
-em a _nacionalidade_, que por mui pouco se lhe ia. Todos os deuses
-gregos tomaram posse do maravilhoso poetico, todas as imagens, todas as
-ideias; todas as allusões do tempo de Augusto occuparam as mais partes
-da poesia; e mui pouco ficou para o que era nacional, para o que já
-tinhamos, para o que podiamos adquirir ainda, para o que naturalmente
-devia nascer de nossos usos, de nossas recordações, de nossa
-archeologia, do aspecto de nosso paiz, de nossas crenças populares, e
-emfim de nossa religião.
-
-Sá de Miranda, verdadeiro pae da nossa poesia, um dos maiores homens
-de seu seculo, foi o poeta da razão e da virtude, philosophou com as
-musas, e poetisou com a philosophia. Seu muito saber, sua experiencia,
-seu tracto affavel, e até a nobreza do seu nascimento, lhe deram
-indisputada superioridade a todos os escriptores d’aquelle tempo, dos
-quaes era ouvido, consultado e imitado. Sá de Miranda exerceu sobre
-todos os poetas d’aquella epocha a mesma especie de imperio que veio
-a ter Boileau em França, e mais modernamente Francisco Manuel entre
-nós. Introduziu na poesia os metros italianos, e os modos, versos
-e combinações de rhymas de Dante e Petrarca: e desd’ahi quasi se
-abandonaram inteiramente (excepto nas voltas e glosas) os nossos
-antigos versos de redondilha, e absolutamente os de arte maior e menor,
-que ainda assim mui proprios são para certos assumptos, segundo com
-feliz exemplo no-lo mostraram antigos e modernos poetas. Nem o mesmo
-Sá de Miranda igualou nunca em composições hendecasyllabas a pureza, a
-correcção, a naturalidade e sublime simplicidade de suas redondilhas
-nas epistolas, que hoje são seu maior e quasi unico titulo de glória.
-
-São de admirar suas comedias, e são notavel monumento para a historia
-das artes pela feliz imitação dos antigos, e pelo que excedem quanto
-até então se tinha escripto. Porem o theatro portuguez creado pela
-musa negligente e travêssa de Gil-Vicente e João Prestes, carecia
-de reforma, mas não podia supportar uma revolução. As comedias de
-Sá de Miranda sem caracter nacional, mui classicas de mais não eram
-para reformá-lo: o mesmo direi, e o mesmo succedeu ás de Ferreira, a
-algumas poucas mais que depois vieram. O effeito d’estas composições,
-aliás preciosas, foi funesto: os litteratos enjoaram-se (e com razão)
-do theatro nacional, e não se deram a corrigi-lo e melhora-lo: o
-publico preferia (e com razão tambem) o com que fôra creado, o que o
-interessava, o que o divertia, e antes queria rir com as grosserias
-dos autos populares, que bocejar e adormecer-se com as finuras d’arte
-e correcções d’essas comedias, que tudo tinham, menos interesse, onde
-todo o spirito havia, menos o nacional.
-
-Se houveram Sá de Miranda e Ferreira escolhido assumptos portuguezes,
-se houveram pintado os costumes nacionaes, e presentado ao publico, em
-vez de quadros italianos, um espelho em que se elle visse a si e aos
-seus usos, e se risse de seus proprios defeitos; fico em que houveram
-reformado o theatro em vez de lhe empecer: e acaso gosariamos ainda
-hoje em uma scena rica e abastada dos resultados d’esse impulso, quando
-não temos senão que chorar, e vivemos, sobre o theatro, das migalhas
-que mendigamos a estrangeiros pelo triste meio de traducções, que (as
-dramaticas sôbre tudo) nunca podem ser boas.
-
-Sá de Miranda escreveu além d’isto algumas eclogas bastante frias,
-varios sonetos geralmente de pouca monta. Um d’elles á morte de
-Leandro e Hero é excellente, mas castelhano, e por esse achaque o não
-incluí na escolha.[37]
-
-Não posso deixar de querer mal a tam illustre portuguez pelo muito que
-escreveu n’essa lingua estranha; com que não só privou a natural do
-fructo de suas tarefas, mas fez maior damno ainda com o exemplo que
-abriu; exemplo funesto que nos cerceou a litteratura, que nos defraudou
-d’uma Diana de Monte-maior, de tantas boas coisas mais, e ao cabo ia
-perdendo a lingua.
-
-Mas eis ahi Antonio Ferreira para combater esse mal em sua origem:
-ei-lo ahi esse portuguez verdadeiro, ardente amador da lingua, clamando
-a todos, pugnando contra todos os que não prezavam e aditavam o
-patrio idioma com as producções do ingenho e das artes. O profundo
-conhecimento dos classicos gregos e latinos, o finissimo gosto que em
-seu estudo tinha adquirido, a felicidade com que sempre os imitou, a
-pureza da phrase, as riquezas com que adornou a lingua deram aos versos
-de Ferreira grande popularidade entre os litteratos e cortezãos (que,
-ao aveço de hoje, as lettras viviam então quasi só na côrte) e fixaram
-determinadamente o genero classico entre nós.
-
-Cegou-se todavia o nosso bom Ferreira na imitação dos antigos;
-copiou-os, não os imitou: e d’ahi, enriquecendo a lingua, empobreceu
-a litteratura, porque a avezou a esse hábito de copista; cancro que
-roe o espirito creador, alma e vida da poesia nacional. Tão cega foi
-esta imitação, que seus mesmos versos, aos quaes hoje ninguem defende
-da nota de asperos e duros (e muitos direi--errados) os fazia assim de
-proposito por querer usar das ellipses gregas e latinas, a que repugna
-a indole de nossa lingua, so toleraveis em certas vozes que na prosa
-mesma se pronunciam e escrevem no final com _m_ ou sem elle. Este
-desagradavel defeito dos versos de Ferreira é principalmente sensivel
-nas dicções que teem final no que chamámos (mal ou bem) diphtongos
-nasaes de _ão_, e muito mais quando n’elle é o accento predominante da
-palavra.
-
-Os sonetos são frios, desengraçados; nas eclogas ha bellezas muitas
-e mui grandes, mas espalhadas: nenhuma d’estas composições tomada per
-si póde merecer o nome de bella. Porem das odes, ha d’ellas que são
-puramente horacianas, e se lhes fallece a elevação (que não era esse
-o genio de Ferreira) sobeja-lhe a graça, a elegancia e a adornada
-philosophia, que não agradam menos, nem de menos valor e merito são
-que os extasis pindaricos, ou os requebros anacreonticos. O que é sem
-duvida é que nas linguas vivas Ferreira foi o primeiro imitador feliz
-de Horacio, e o primeiro dos modernos que pulsou a lyra classica. Das
-epistolas, ha algumas que podem pleitear em concisão e fino dizer
-com as boas do lyrico romano. Quanto á pureza da moral, ao nobre
-patriotismo, áquelle generoso sentimento da honrada liberdade de
-nossos avós, áquelle enthusiasmo da virtude; esse respira, mostra-se e
-resplandece em todas as suas obras.
-
-Mas a verdadeira glória de Ferreira é a Castro, producção admiravel
-per si mesma, pelo tempo em que a escreveu, por todos os lados por que
-se considere. Não é ainda liquido entre os philologos se era possivel
-o ter visto Ferreira a Sophonisba de Trissino, que mui poucos annos
-antes da Castro appareceu: mas é sem a minima questão reconhecida a
-superioridade da tragedia portugueza á italiana: pasma como sem vêr um
-theatro, sem mais exemplares que os gregos e latinos, podesse Ferreira
-tratar tão delicadamente um tal assumpto em um genero desconhecido da
-antiguidade. É notavel a primeira scena da Castro, a scena d’el-rei
-e dos conselheiros no acto II., a do acto III. em que o côro traz a
-Castro as novas de sua cruel sentença, onde aquella pergunta de Ignez:
-«É morto o meu senhor, o meu infante?» rasgo de sublime, porém d’um
-sublime todo sensibilidade, ao qual nem o _qu’il mourût_ de Corneille
-póde comparar-se; e finalmente os coros, que sem paixão são superiores
-a todos os exemplares da antiguidade, e não teem que invejar aos tão
-gabados da Athalia. Não dou a Castro por uma tragedia perfeita: ainda
-em relação ao seu tempo e aos conhecimentos da scena d’então tem ella
-defeitos: não haver uma scena em que se encontrem Pedro e Ignez, não
-haver algum esfôrço do infante para lhe valer, deixam a peça muito
-nua de acção, e lhe entibiam o interesse. A versificação (que todavia
-é de preferir aos versos sesquipedaes e himpados com que hoje está
-pervertida a scena portugueza) pécca geralmente por dura; mas essa
-mesma é por vezes bella; e para bons entendedores muito ha hi que
-estudar; e oxalá que os nossos dramaticos lessem e relessem bem a
-Castro, e apprendessem alli, pelo menos, naturalidade e verdade de
-expressão, que tanto lhes fallecem.
-
-Não estava ainda n’este auge a poesia portugueza quando um homem pouco
-conhecido dos lettrados, mas já célebre per suas aventuras e valor,
-foi para tão longe da ingratissima patria despicar-se de seu desamor
-com a mais nobre vingança; a de levantar-lhe um padrão, com que não
-entram as idades, e que conservará ainda o nome portuguez quando já
-elle houver desapparecido da terra. Muita erudição (pois sabia quanto
-se soube em seu tempo), ingenho dos que véem ao mundo de seculos a
-seculos se reúniram em Camões. Esse homem levantou a cabeça la das
-extremidades d’Asia, e viu tudo pequeno á roda de si, todos os poetas
-pigmeus, todos acanhados com as linguas modernas ainda mal perfeitas,
-escravos da imitação classica, incertos e entalados todos entre o cego
-respeito da antiguidade e as novas precisões que as novas ideias, que
-o novo estado do mundo requeria. Teve animo para conceber e força para
-executar um rasgado e necessario atrevimento de se abrir caminho novo,
-de crear emfim a poesia moderna, dar não só a Portugal, mas á Europa
-toda um grande exemplo, e constituir-se o Homero das linguas vivas.
-
-Não me dá espaço o acanho de meus limites para dizer de Camões o que
-era indispensavel; antes a celebridade de seu nome me deixará parar
-aqui para dar logar a tractar de menos conhecidos nomes. Só direi
-que a influencia de Camões na nossa poesia, e em toda a litteratura
-portugueza foi tal que desde então té hoje ainda se não deixou de
-sentir, mesmo nas epochas em que mais desvairados teem andado nossos
-poetas com as empolas do _gongorismo_, ou mais lunaticos com os
-esfusiotes do _elmanismo_. Quasi que não houve genero de poesia que não
-tractasse: tem sonetos admiraveis; eclogas (sôbre tudo as primeiras)
-excellentes; mas principalmente de todas as poesias menores são o mais
-sublime e perfeito as canções, genero a que deu uma nobreza e elevação
-desconhecida mesmo em Petrarca: sirva de próva e exemplo aquella que
-começa--«Junto d’um sêcco duro e esteril monte.» Dos Lusiadas, de suas
-bellezas e defeitos, das controversias sobre umas e outros, está cheio
-o mundo litterario.
-
-Contemporaneo de Camões e ousado tambem como elle a encetar a carreira
-epica foi Jeronimo Cortereal. O Cêrco de Diu, que é notavel monumento
-litterario, e que de certo se teve algum exemplar foi a _Italia_ do
-Trissino, é uma fria narração, em que ha bellas ideias áquem além,
-muita riqueza de linguagem, pouca de poesia, e pelo geral maus versos.
-E comtudo é talvez Cortereal o primeiro (em data) poeta descriptivo;
-e creou elle acaso esse genero de que tanto blasonam hoje inglezes,
-allemães, e até francezes, e que todavia nós tinhamos seculos antes
-d’elles. Ja no Cêrco de Diu ha muitas boas descripções: mas no
-naufragio de Sepulveda ha d’ellas sublimes.
-
-Entre muito devaneio de imaginação e de mau gôsto, entre aquelles
-insipidos requebros de Pan e de Protheu apparece todavia a morte de D.
-Leonor que é um trecho da mais bella poesia, da mais fina sensibilidade
-que se tem composto.
-
-De todos esses poetas que então floreceram é na minha opinião o menos
-poeta esse Pero d’Andrade Caminha, a quem da amisade e celebridade de
-Ferreira e Bernardes vem talvez o maior renome. Ainda assim tem algumas
-odes boas, simplicidade com elegancia por partes de suas composições:
-epigrammas, são alguns excellentes.
-
-Sôbreviveu a todos estes e á patria, que não tardou em perecer, o
-suave cantor do Lima que levado per D. Sebastião para testimunhar
-seus altos feitos, de que devia fazer um poema, perdeu-se com seu
-rei, e jazeu captivo em Africa. Pondo de parte a questão das eclogas
-(na qual de certo não andou de boa fé Faria e Sousa) a qual, ainda
-que propria do logar, é mui longa para os meus limites; Bernardes foi
-excellente poeta; e com quanto sua linguagem é pobre, e em geral pouco
-variadas suas composições; a suavidade de seu stylo, certa melancholia
-d’expressão que lh’o requebra e embrandece darão sempre a Bernardes um
-logar mui distincto na poesia portugueza.
-
-Mas ja a nação se perdêra nos areaes de Africa, já a glória portugueza
-estava offuscada; com ella foram (como sempre vão) as boas artes. Ainda
-brilham a espaços faíscas do grande luzeiro que se apagára; mas já não
-eram senão faíscas.
-
-Ainda Luis Pereira deplora na _Elegiada_ a ruina da patria, mas
-esse canto funebre é quasi o canto de cysne da poesia nacional, que
-parece querer fenecer com elle, e já n’elle moribunda se mostra. Ha
-excellentes oitavas derramadas per esse poema, algumas descripções
-felizes, grandissima riqueza de linguagem; mas pouco mais.
-
-Ja Fernão Alves do Oriente diffuso, intrincado nos primeiros
-labyrinthos dos _conceitos_ italianos mostra a visivel decadencia da
-poesia: já as musas que tão louçans, e ingenuamente bellas tinham
-folgado pelas varzeas do Tejo e do Mondego com Ferreira e Camões,
-apparecem affeitadas com arrebiques e côres falsas, como essas damas
-para quem se desbota a flor da idade e lhe querem ainda supprir o
-viço com emprestados ornamentos, gentilezas compradas, e postiças.
-E todavia ha na Lusitania transformada pedaços lyricos excellentes,
-e alguns bucolicos soffriveis. Assim elle nos dissesse mais do seu
-Oriente do que nos disse: assim houvesse enriquecido a litteratura com
-mais imagens de tantas que sua Asia lhe offerecia, e com que houvera
-additado a mãe patria. Onde o fez, n’aquella ecloga em que conta a
-historia de Saladino, é elle verdadeiramente poeta; e se d’ahi tirarem
-alguns trocadilhos que tinha apprendido em Italia, excellente e digno
-de imitar-se é o resto.
-
-
- NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[37] A. Rib. dos Santos traduziu este soneto em portuguez e (cousa
-inexplicavel em tal homem!) o deu por seu.
-
-
-
-
- IV
-
-Terceira epocha litteraria; principia a corromper-se o gosto e a
-declinar a lingua.--Começo, até o fim do XVII sec.
-
-
-Porem os symptomas do _Gongorismo_ e _Marinismo_ se manifestavam já em
-Italia e Castella; não perfeitos ainda, não no auge a que os levaram
-os dous poetas, aliás ingenhosos, cujo nome vieram a tomar; mas já
-assim mesmo a poesia moderna estava toda gafa d’essa lepra de suberba
-requintada.
-
-Vasco Mousinho de Quevedo, que sem disputar é depois de Camões, nosso
-primeiro epico, ahi tem já em toda a nobreza de seus versos a quebra
-de bastardia d’esse defeito, que todavia é n’elle ainda raro. Mas que
-bellezas tem esse tão mal avaliado Affonso Africano, a que a cegueira e
-o mau gosto tem querido preferir a _quixotica_ e sesquipedal Ulyssea,
-a hyperborea e campanuda Malaca! Não é regular o poema, não é um todo
-perfeito; o maravilhoso é frio, e a acção toda não mui bem deduzida;
-mas que riquissimos episodios a enfeitam! A descripção de Zara, o
-jardim incantado onde aporta o principe D. João, e alguns outros
-trechos são cunhados com o sêllo da verdadeira poesia, e animados da
-luz que só dá o ingenho. Quanto ao stylo, é com poucas excepções fluido
-e elegante; custa a achar em tão longo poema uma rhyma forçada ou má:
-e a mesma linguagem, supposto decline um tanto da primeira pureza, é
-ainda de boa lei e valiosos quilates.
-
-D’ésta epocha é tambem Rodrigues Lobo, cujo grande logar como prosista
-não é aqui proprio de examinar: de seu merecimento poetico a commum
-opinião tem com justiça decidido dando-lhe um dos primeiros (eu quizera
-o primeiro) logar entre os bucolicos antigos; e outro mui differente e
-inferior entre os epicos. E certo, o Condestabre, apezar de muitos e
-bons pedaços descriptivos, é frouxa e morna composição. Que differente
-era a frauta que ia soando pelas margens do Lis, a dulcissima frauta
-de Lobo, quando comparada com a tuba heroica, para cuja altivez lhe
-fallecem natureza e arte! seus pastores são verdadeiros pastores, sua
-linguagem é verdadeira do campo, não lhes sahem pelos golpes do pellico
-as alfaias da cidade, tão mal encubertas pelos outros bucolicos, os
-quaes, sem excepção do proprio Camões, todos peccam por mui sabidos
-e lettrados, por discretos e galantes mais que sóem ser aldeãos e
-pastores.
-
-Alem d’isso ha derramados pela Primavera, Pastor peregrino,
-etc., pedaços lyricos de summa belleza, romances excellentes e
-verdadeiramente dignos de admiração e estudo.
-
-Tinhamos perdido a independencia; perdemos logo o espirito nacional,
-o tymbre, o amor patrio (que amor da patria poderá haver em quem
-patria já não tem!); a lisonja servil, a adulação infame levou nossos
-deshonrados avós a desprezar seu proprio riquissimo e tão suave idioma,
-para escrever no guttural Castelhano, preferindo os sonoros helenismos
-do portuguez ás aspiradas _aravias_ da lingua dos tyrannos. Vergonha
-que só tem par nas derradeiras vergonhas com que nos enxovalharam
-a lingua e a fama os tarellos, francelhos, gallici-parlas e toda a
-caterva dos gallo-manos!
-
-Em Castelhano escreviam já esses degenerados portuguezes: mas pouco
-importava que o fizessem, que n’isso fraca perda tivemos nós: de toda
-essa çafra de versos castelhano-portuguezes pouco ou nada ha que
-espremer.
-
-D’ésta commum baixeza se alevantou o honrado e douto magistrado
-Gabriel Pereira de Castro, que depois de ter aberto na jurisprudencia
-um caminho novo e n’aquelle tempo tão difficil por grandes verdades
-então perigosas, tomou ousado a trombeta de Homero, e não se arrojou
-a menos que a competir ao mesmo tempo com a Iliada e Odyssea; que
-tanto abraça o assumpto de seu poema. Grande é a concepção, bem
-distribuidas as partes, regularissimo o todo, regular e bella a acção,
-bem intendidos os episodios; mas o stylo... o stylo é, prototypo da
-_Phenix-renascida_, o requinte do gongorismo, cujo patriarcha foi entre
-nós, pervertendo-nos, á sombra de sua grande fama e brilhante ingenho,
-todo o resto escasso que de gôsto tinhamos ainda, intrincando a poesia
-(senão que tambem a prosa por mau exemplo) n’um dedalo inextricavel
-de conceitos, de argucias, de exagerações, de affectada sublimidade,
-falsa e van grandeza; com que de todo veio a terra a poesia nacional,
-e acabou a grande eschola de Camões e Ferreira, que tantos e tamanhos
-alumnos havia produzido. E suppunha esse homem vaidoso ter sobrepujado
-com as queixotadas da sua Ulyssea as naturaes bellezas dos divinos
-Lusiadas!
-
-Quasi o mesmo errado trilho, mas que menos brilhante e com inferior
-ingenho, seguiu Sá de Menezes na Malaca. Esse poema, que tanto tem
-engrandecido o mau gôsto, é na minha opinião um dos derradeiros titulos
-de glória da litteratura portugueza. E todavia é bem regular, bem
-concebido, e a espaços se lhe encontram grandes rasgos de gentileza
-poetica. A falla de Asmodeu no conselho infernal faz lembrar muito
-a de Lucifer em Milton. Porem quando agitado o poeta do genio mau
-que avexava e endemoninhava os poetas d’então, começa a guindar-se,
-a transpor os derradeiros limites da naturalidade; esquece todo o
-deleite que algumas estancias mais descuidadas nos haviam causado, e
-é forçoso desemparar a dura tarefa de tão incommoda leitura, porque
-verdadeiramente incommoda e cança tal stylo, tal phrase, tanto
-hyperbolico luxo e destemperado alambicar.
-
-
-
-
- V
-
-Quarta epocha: idade de ferro; aniquila-se a litteratura, corrompe-se
-inteiramente a lingua.--Fins do XVII, até meados do XVIII sec.
-
-
-Mas ainda estes tinham sua nobreza, havia não sei que grande entre
-todas essas _nuvens de talco_; talvez lhes viesse dos assumptos: porém
-seus discipulos que ainda quizeram ir ávante, deram em fazer _silvas_,
-_acrosticos_, e engendraram todos os outros monstros (originarios,
-segundo Diniz, do _paiz das bagatellas_) e distillando mais e mais
-as quintas essencias dos conceitos, tanto torceram e retorceram o
-ja delgado fio poetico, que de todo o quebraram. So Manoel da Veiga
-o atou momentaneamente em uma ou duas lyras da Laura de Amphriso.
-Logo tornou a estalar: e per ahi andaram as pobres musas portuguezas
-jogando as cabras-cegas pelas eclogas de Poliphemo e Galatea, pelos
-romances hendecasyllabos, e per todos os outros escondrijos do gosto
-depravado, de que boas amostas se conservam no precioso tombo da
-_Phenix-renascida_ e alguns outros hoje ignorados livros d’essa triste
-data.
-
-E todavia ja nós tinhamos recobrado tão gloriosamente nossa
-independencia, ja o nome portuguez tornára a ser honra e nobreza, e
-ainda essa lepra castelhana lavrava.
-
-Dous grandes escriptores, ambos prosistas e ambos dignos de muito
-louvor, concorreram para a continuação d’este mal. Quem podia deixar de
-admirar Vieira? Quem não iria levado pela torrente de sua eloquencia?
-Quem resistiria aos impetos de arrebatamento de Jacinto Freire? O
-grande talento de ambos, a vasta erudição e desmedido ingenho de Vieira
-sobre tudo, fizeram grande damno á litteratura: sabiam, escreviam
-perfeitamente a lingua, tinham grande crédito na côrte, tractavam
-grandes assumptos, animava-os o nobre e sincero enthusiasmo da glória
-e liberdade nacional: tudo foi após elles; imitaram-lhes vicios e
-virtudes; como não distinguiam em Vieira o grande orador, o grande
-philosopho do gongorista affectado (quando o era) não estremavam
-em Jacintho Freire o historiador, o panegyrista do declamador, do
-academico vão; ruim e bom seguiam. E como é mais facil imitar a
-affectação, que a naturalidade, as argucias de má arte, que as graças
-de boa natureza; os imitadores foram alem de seus typos no affectado,
-no mau d’elles, ficaram immenso aquém do que n’esses era bello e para
-imitar.
-
-Nem o conde da Ericeira que traduziu a Arte poetica de Boileau e d’elle
-levou tão immerecidos e banaes elogios, tomou d’ella triaga bastante
-para se curar do veneno commum: e ainda assim melhor é sua frigida
-Henriqueida que os outros versos que por então se faziam em Portugal:
-porem o unico ôlho que o fez rei em terra de cegos, não lhe era
-bastante para ver e acertar com a vereda da posteridade. Ahi morreu no
-seu seculo e ahi jaz pela poeira de alguma livraria de bibliomanico.
-
-As academias de historia, de litteratura do tempo de D. João V, as
-associações ridiculas de todos os nomes e descripções que então se
-formaram, a mais e mais empeioraram o mal, que progressivamente cresceu
-até o ministerio do marquez de Pombal.
-
-
-
-
- VI
-
-Quinta epocha: restauração das lettras em Portugal.--Meio do seculo
-XVIII até o fim
-
-
-A civilisação e as luzes que a geram, tinham-se estendido do sul para o
-norte. A corrupção que após ellas vem em seu marcado periodo, as fôra
-apagando, ou ennevoando ao menos, na mesma direcção. De sorte que pelos
-fins do XVII seculo o meio-dia, que havia sido berço da illustração da
-Europa, quasi se ennoitava das trevas da ignorancia, as quaes pareciam
-voltar como em _reacção_ para o ponto d’onde partíra a primeira _acção_
-da luz que as dissipára.
-
-O norte, que mais tarde se havia allumiado, progredia no emtanto: as
-boas letras, as artes, as sciencias floreciam na Inglaterra e por quasi
-toda a Allemanha. Milton, Descartes, Newton e Linneu brilharam ao
-septentrião da Europa; e nós meridionaes estudavamos as _cathegorias_
-e as _summas_, aguçavamos distincções, alambicavamos conceitos,
-retorciamos a phrase no discurso, torciamos a razão no pensamento.
-
-Porem a face do mundo estava começada a mudar: as antigas barreiras
-que a politica e os preconceitos erguiam entre povo e povo quasi
-desappareciam; as mutuas necessidades, e até o mesmo luxo, faziam quasi
-indispensavel precisão as permutações do commércio; e o commércio
-fraternizou as nações.
-
-Reciprocamente se estudaram as linguas, generalizou-se esse estudo:
-então é que exactamente os sabios começaram a ser de todos os paizes:
-os bons livros pertenceram a todas as linguas; e verdadeiramente se
-formou dentro de todos os estados um estado que (sem os inconvenientes
-do _status in statu_ dos ultramontanos) com justiça e exacção obteve e
-mereceu o nome de republica das lettras, a qual é uma, universal, e sem
-perigo de schisma.
-
-Os effeitos d’esta alteração no modo de existir do universo foram
-sensiveis: as luzes não so reverteram (sem retrogradar) do norte para
-o sul, mas se diffundiram geraes. A França viu então o seculo de Luiz
-XIV; Italia deixou sancto Thomaz e os _concetti_ por melhor philosophia
-e melhor gosto; Hespanha teve o seu Carlos III; e Portugal no reinado
-d’el-rei D. José subiu á altura dos outros povos, senão é que em muitas
-cousas acima.
-
-E ainda na reforma da universidade não tinham apparecido
-Monteiros-da-Rocha e os outros portuguezes que d’alli expulsaram a
-barbaridade entrincheirada em Coimbra como em sua ultima cidadella da
-Europa, e ja a razão e o gosto recobravam seu imperio na litteratura;
-ja as odes do Garção, as obras do padre Freire e de outros illustres
-philologos haviam afugentado as _silvas_, os _acrosticos_, e os
-campanudos periodos do conde da Ericeira, regenerado a poesia e
-restituído a lingua.
-
-Outravez ainda o limitado d’este bosquejo me impede de mencionar outros
-ingenhos que tanto mereceram da patria e da litteratura e remoçaram a
-perdida lingua de Camões. Exige o meu assumpto e o meu espaço que me
-estreite no círculo poetico.
-
-Garção foi o poeta de mais gosto e (por aventurar uma expressão que não
-é legitima, mas póde ser legitimada portugueza) de mais _fino tacto_
-que entre nós appareceu até agora. Haverá n’outros mais fogo, outros
-ferverão em mais enthusiasmo, crearão acaso mais; porem a delicadeza
-de Garção so tem rival na antiguidade. A musa pura, casta, ingenua,
-nunca lhe desvairou: em suas composições ha d’ellas onde a mais aguçada
-crítica não esmiunçará um defeito. Tal é a cantata de Dido, uma das
-mais sublimes concepções do ingenho humano, uma das mais perfeitas
-obras executadas da mão do homem. Todo se deu ao genero lyrico,
-especialmente ao Horaciano; e n’esse ninguem o excedeu, antes ninguem
-o igualou. A ode á virtude, a que se intitula o Suicidio (que pela
-primeira vez sai a lume n’esta collecção) outras muitas que longo fôra
-enumerar, são de uma belleza, d’uma correcção, d’um _acabado_ (como
-dizem os pintores) que difficilmente se imitará, tarde se chegará a
-igualar.
-
-Não da mesma sorte Antonio Diniz, que mais arrojado, mais pomposo,
-menos correcto e elegante, assim correu mais caudalosa, porém menos
-pura torrente. Em quanto lyrico, tem rasgos pindaricos verdadeiramente
-sublimes; mas o todo de suas odes é em demasia ornamentado; e ellas
-entre si peccam amiudo de monotonias e repetições. Talvez o jugo dos
-consoantes, que tão desnecessariamente se impôz, o acanhou a isso. Mas
-nas anacreonticas é elle sem disputa o primeiro poeta portuguez, e
-digno rival do ancião de Teios. No genero bucolico tambem nos deixou
-mui bonitas cousas, nenhuma perfeita. Porém a verdadeira corôa poetica
-do Diniz Thalia lh’a teceu, que não outra musa. O Hyssope é o mais
-perfeito poema heroicomico de seu genero[38] que ainda se compoz
-em lingua nenhuma: se no castigado da dicção o excede o Lutrin; no
-desenho da obra, na regularidade do edificio, na imaginação, foi
-o discipulo de Boileau muito além de seu grande mestre: e com mais
-exacção se diria de um e outro o que de Camões e Tasso presumpçosamente
-disse Voltaire: que se a imitação d’aquelle fizera este, a sua melhor
-obra era essa. O palacio do genio das Bagatellas, a conversa do deão
-na cerca dos capuchos, a ressurreição e vaticinio _do gallo assado_,
-a caverna d’Abracadabro serão, em quanto houver gosto, estudados como
-exemplar pelos litteratos, lidos e relidos sempre com prazer per todos
-os amigos das artes.
-
-Após estes vem o virtuoso e honrado Quita, a quem pagou a patria com
-miseria e fome as immensas riquezas que para a lingua e litteratura de
-seus versos herdou. Um pobre cabelleireiro, a quem as musas que serviu,
-os grandes que com ellas honrou nunca tiraram do triste officio, pôde
-de sua baixa condição social alevantar-se do primeiro grau litterario,
-que acaso lhe disputam ignorantes ou presumpçosos, nenhum homem de
-gosto deixará de lh’o dar.
-
-Este é em meu humilde conceito o nosso melhor bucolico: tómo a
-liberdade de contrastar a opinião commum, porque o meu dever de
-crítico me obriga a ennunciar lealmente o meu pensamento. Tenho para
-mim (e fico que acharei quem me siga se de boa fé quizerem entrar no
-exame) que a immensa cópia de composições pastoris, as quaes não são
-riqueza, mas desperdicio de nossas musas, ou peccam por empoladas, por
-inverosimeis, por baixas, por demasiado naturaes, por sobejo elevadas.
-Um meio termo difficilimo de tocar, de n’elle permanecer, um stylo
-singelo como o campo, mas não rustico como as brenhas, são dos mais
-difficeis requisitos que d’um poeta se podem exigir. Se tem ingenho,
-custa-lhe a moldar-se e a rete-lo que não suba mais alto que a difficil
-medida, e raro deixa de a exceder, de perder-se do bosque e acabar em
-jardins cidadãos e conversas de damas e cavalheiros o que começára no
-monte ou na varzea entre pastores e serranas.
-
-Nem Virgilio d’ahi escapou, nem Sannazaro, nem Camões; Gessner sim,
-e depois de Gessner, o nosso Quita. Não digo que não tenha defeitos,
-ainda em seu genero pastoril; mas a boa e honrada crítica falla em
-geral, louva o bom, nota o mau, porém não faz timbre em achar defeitos
-e erros na menor falta para se regosijar da censura. Grandes homens,
-grandes erros: a natureza da mediocridade é cingir-se a tristes
-preceitos para esconder sua mesquinhez: porém de taes nunca fallou
-posteridade. Horacio e Boileau foram atrevidos quando lhes cumpriu, e
-desprezaram regras e arte quando os chamou a natureza, e lhes mostrou
-o sublime. Philinto, que os sabia de cór, tambem se levantou acima das
-regras, e nunca foi tamanho. E todavia foi elle o maior poeta de seu
-seculo: mas os grandes ingenhos não contraveem a lei, são superiores a
-ella, e são elles viva lei.
-
-Mui distincto logar obteve entre os poetas portuguezes d’esta epocha
-Claudio Manoel da Costa: o Brazil o deve contar seu primeiro poeta,[39]
-e Portugal entre um dos melhores.
-
-Deixou-nos alguns sonetos excellentes, e rivalizou no genero de
-Metastasio, com as melhores cançonetas do delicado poeta italiano. A
-que dirige á lyra com sua palidonia imitando a tão conhecida do mesmo
-Metastasio a Nice, _Grazie all’ ingani tuoi_, póde-se apontar como
-excellente modêlo. Nota-se em muitas partes dos outros versos d’elle
-varios resquicios de _gongorismo_ e affectação _seiscentista_.
-
-E agora começa a litteratura portugueza a avultar e enriquecer-se com
-as producções dos ingenhos brazileiros. Certo é que as magestosas e
-novas scenas da natureza n’aquella vasta região deviam ter dado a
-seus poetas mais originalidade, mais differentes imagens, expressões
-e stylo, do que n’elles apparece: a educação europeia apagou-lhes o
-espirito nacional: parece que receiam de se mostrar americanos; e d’ahi
-lhes vem uma affectação e impropriedade que dá quebra em suas melhores
-qualidades.
-
-Muito havia que a tuba epica estava entre nós silenciosa, quando
-Fr. José Durão a embocou para cantar as romanescas aventuras de
-Caramurú. O assumpto não era verdadeiramente heroico, mas abundava
-em riquissimos e variados quadros, era vastissimo campo sôbre tudo
-para a poesia descriptiva. O auctor atinou com muitos dos tons que
-deviam naturalmente combinar-se para formar a harmonia de seu canto;
-mas de leve o fez: só se estendeu em os menos poeticos objectos; e
-d’ahi esfriou muito do grande interesse que a novidade do assumpto e
-a variedade das scenas promettia. Notarei por exemplo o episodio de
-Moêma, que é um dos mais gabados, para demonstração do que assevero.
-Que bellissimas cousas da situação da amante brazileira, da do heroe,
-do logar, do tempo não podéra tirar o auctor, se tam de leve não
-houvera desenhado este, assim como outros paineis?
-
-O stylo é ainda por vezes affectado: la surdem aqui alli seus
-_gongorismos_; mas onde o poeta se contentou com a natureza e com a
-simples expressão da verdade, ha oitavas bellissimas, ainda sublimes.
-
-Depois de Diniz o logar immediato nos anacreonticos pertence a outro
-Brazileiro.
-
-Gonzaga mais conhecido pelo nome pastoril de Dirceu, e pela sua
-Marilia, cuja belleza e amores tam célebres fez n’aquellas nomeadas
-lyras. Tenho para mim que ha d’essas lyras algumas de perfeita e
-incomparavel belleza: em geral a Marilia de Dirceu é um dos livros a
-quem o publico fez immediata e boa justiça. Se houvesse por minha parte
-de lhe fazer alguma censura, só me queixaria, não do que fez, mas do
-que deixou de fazer. Explico-me: quizera eu que em vez de nos debuxar
-no Brazil scenas da arcadia, quadros inteiramente europeus, pintasse
-os seus paineis com as côres do paiz onde os situou. Oh! e quanto não
-perdeu a poesia n’esse fatal êrro! se essa amavel, se essa ingenua
-Marilia fosse, como a Virgínia de Saint-Pierre, sentar-se á sombra das
-palmeiras, e em quanto lhe revoavam em tôrno o cardeal suberbo com a
-purpura dos reis, o sabiá terno e melodioso,--que saltasse pelos montes
-espessos a cotia fugaz como a lebre da Europa, ou grave passeasse pela
-orla da ribeira o tatu esquamoso,--ella se entretivesse em tecer para o
-seu amigo e seu cantor uma grinalda não de rosas, não de jasmins, porém
-dos roixos martyrios, das alvas flores dos vermelhos bagos do lustroso
-cafezeiro; que pintura, se a desenhára com sua natural graça o ingenuo
-pincel de Gonzaga!
-
-Justo elogio merece o sensivel cantor da infeliz Lindoya que mais
-nacional foi que nenhum de seus compatriotas brazileiros. O Uraguay
-de José Bazilio da Gama é o moderno poema que mais merito tem na
-minha opinião. Scenas naturaes mui bem pintadas, de grande e bella
-execução descriptiva; phrase pura e sem affectação, versos naturaes
-sem ser prosaicos, e quando cumpre sublimes sem ser guindados; não são
-qualidades communs. Os Brazileiros principalmente lhe devem a melhor
-corôa de sua poesia, que n’elle é verdadeiramente nacional, e legítima
-americana. Mágoa é que tam distincto poeta não limasse mais o seu
-poema, lhe não désse mais amplidão, e quadro tão magnifico o acanhasse
-tanto. Se houvera tomado esse trabalho, desappareceriam algumas
-incorrecções de stylo, algumas repetições, e um certo desalinho geral,
-que muitas vezes é belleza, mas continuado e constante em um poema
-longo, é defeito.
-
-Muito ha que os nossos auctores desempararam o theatro: eis ahi
-o faceto Antonio José, a quem muitos quizeram appellidar Plauto
-portuguez e que sem duvida alguns serviços tem a esse titulo, porém
-não tantos como apaixonadamente lhe decretaram. Em seus informes
-dramas algumas scenas ha verdadeiramente comicas, alguns dictos de
-summa graça; porém essa degenera amiudo em baixa e vulgar. Talvez que
-o _Alecrim e Mangerona_ seja a melhor de todas; e de certo o assumpto
-é eminentemente comico e portuguez: hoje teria todo o merito de uma
-comedia historica: e se fôra tractada no genero de Beaumarchais,
-produziria uma excellente peça.
-
-
- NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[38] Digo de seu genero, porque o Orlando furioso tambem é heroicomico,
-mas d’outro genero.
-
-[39] Em antiguidade.
-
-
-
-
- VII
-
-Epocha, segunda decadencia da lingua e litteratura; gallicismo e
-traducções
-
-
-Á volta este tempo se formou a academia das sciencias de Lisboa pelos
-generosos esforços do duque de Lafões. Esse corpo scientifico, de
-quem tanto bem se augurou para a lingua e litteratura nacional, nem
-fez tudo o que d’elle se esperava, nem uma parte mui pequena do que
-podia e lhe cumpria fazer: mas nem foi inutil, nem, como alguns teem
-querido, prejudicial. E todavia sua força moral não foi bastante para
-vencer um mal terrivel que já no tempo de sua creação se manifestava,
-mas que depois, cresceu e avultou a ponto, que veio a tornar-se quasi
-indestructivel.
-
-Este mal foi o _gallo-mania_, que sôbre perverter o caracter da nação,
-de todo perdeu e acabou com a já combalida linguagem: phrases barbaras
-repugnantes á indole do idioma, termos hybridos, locuções arrastadas,
-sem elegancia, formaram a algaravia da moda, e prestes invadiram todas
-as provincias das lettras. Estudar a lingua materna, como aquella em
-que fallamos e escrevemos, é dos mais difficeis estudos, ha mister
-longa e porfiada applicação. Que bella invenção para a ignorancia e
-para a preguiça não foi esta nova linguagem mascavada e de furtacôres,
-que todos podiam saber sem fadiga, cujas leis cada-um moderava e
-arbitrava a seu modo, alterava a seu sabor com tam plena liberdade de
-consciencia! Foi a religião de Mafoma: propagou-a a incontinencia,
-a soltura, o desenfreio do appetite. Desprezaram-se os classicos,
-apodaram-se de ignorantes, de rançosos; e os que não ousavam, por
-algum resto de vergonha, desacatar assim as honradas cans dos nossos
-mestres, sahiram então com o banal e ridiculo pretexto de que ninguem
-podia lê-los pelas materias que tractaram; que tudo eram sermões, vidas
-de sanctos, historias de conventos, de frades. Vergonhosa desculpa!
-Comquê as decadas de Barros, que foi talvez o primeiro que introduziu
-com feliz execução o stylo classico na historia moderna, são chronicas
-de conventos? Fernão Mendes Pinto, o primeiro europeu que escreveu uma
-viagem regular da China e dos extremos d’Asia, são vidas de sanctos?
-E d’essas mesmas vidas de sanctos, quantas d’ellas são de summo
-interesse, divertida e proficua leitura! A vida de D. Fr. Bartholomeu
-dos Martyres tem toda a valia das mais gabadas memorias historicas,
-de que hoje anda cheia a Europa, e que ninguem taxou ainda de pouco
-interessantes. Quando outra cousa não contivesse aquelle excellente
-livro senão a narração do concilio de Trento, a viagem e estada do
-arcebispo em Roma, ja seria elle uma das mais curiosas e importantes
-obras do seculo XVI. E D. Francisco Manoel de Mello, e Rodrigues Lobo,
-e Camões, e grande cópia de poetas de todos os generos,--tudo isso são
-sermonarios, vidas de sanctos?
-
-Miseria é que o geral dos portuguezes jurou nas palavras de quatro
-peralvilhos que essas calumnias apregoavam: passou em julgado que os
-classicos se não podiam ler, e ninguem mais quiz tomar o trabalho nem
-sequer de examinar se sim ou não assim era.
-
-N’este estado de cousas appareceram em Portugal dous homens
-extraordinarios, ambos dotados pela natureza de prodigioso ingenho
-poetico, Francisco Manoel e Bocage. Aquelle, filho da eschola de Garção
-e Diniz, cultivou muito tempo as musas classicas, e já imbuido no gosto
-da antiguidade, já imitador e rival de Horacio e Pindaro, começou a ser
-conhecido em idade madura. Este, quasi desd’a infancia poeta, appareceu
-no mundo em toda a effervescencia dos primeiros annos, ardente cantor
-das paixões, enthusiasta, agitado do seu proprio natural violento,
-rapido, insoffrido, sem cabal instrucção para poeta, com todo o talento
-(raro, espantoso talento!) para improvisador.
-
-Ambos começaram imitando os grandes mestres de seu tempo, seguindo
-cada-um em seu genero o stylo e gosto adoptado e geral desde a
-restauração das letras no meado do seculo. Mas não são ingenhos
-grandes para seguir, senão para fundar escholas: nem tardou muito que
-cada-um, per seu lado, não sacudisse todo jugo da imitação, e seguisse
-livre e rasgadamente um trilho novo. Bocage a quem seu fado, por mais
-aventureira lhe fazer a vida, levou ao antigo theatro das glórias
-portuguezas, voltando d’Asia foi recebido em Lisboa entre os applausos
-dos muitos admiradores que já tinha deixado na viril infancia de seu
-talento poetico. Augmentou-se esta admiração com os novos improvisos
-do joven poeta, com a extrema facilidade, com o mui sonoro de seus
-versos. O fogo de suas ideias ateou o enthusiasmo geral; a mocidade
-inflammou-se com o nome de Bocage: de enthusiasmo degenerou em
-cegueira, em mania; não lhe viam já defeitos; menos elle em si mesmo.
-Ninguem duvidava que os improvisos dos cafés do Rocio eram superiores
-a todas as obras da antiguidade, e que um soneto de Bocage valia mais
-que todos esses volumes de versos do seculo de João III. e do de José
-I. Ésta era a opinião commum da mocidade; e tam geral se fez, tantas
-vezes a ouviu repetir o objecto de tal idolatria, que força era que a
-acreditasse, que com ella se desvanecesse e desvairasse.
-
-Isso lhe aconteceu. O temperamento irritavel e ardentissimo de Bocage
-o levava naturalmente ás hyperboles e exagerações: essas eram as
-mais admiradas de seus ouvintes; requintou n’ellas, subiu a ponto
-que se perdeu pelos espaços imaginarios de sua creação phantastica,
-abandonou a natureza, e a suppôz acanhado elemento para o _genio_. Mais
-elle repetia _eternidades_, _mundos_, _ceos_, _espheras_, _orbes_,
-_furias_, _gorgonas_; mais dobrava o applauso; mais delirava elle,
-mais o admiravam. Ao cabo, nem elle a si, nem os outros a elle o
-intendiam.[40] A par e passo que as ideias desvairavam, desvairava
-tambem o stylo, e emfim se reduziu a uma continuada antithese,
-perpetuos trocadilhos, _tours-de-force_, pulos, saltos, rumpantes,
-castelhanadas, com que se tornou monotono e (usarei d’uma expressão de
-pintor) _amaneirado_.
-
-A metrificação de Bocage, julgam-na sua melhor qualidade; eu a peior;
-ao menos, a que peiores effeitos causou. Não fez elle um verso duro,
-mal soante, frouxo; porém não são esses os unicos defeitos dos versos.
-As varias ideias, as diversas paixões e affectos, as distinctas
-posições e circumstancias do assumpto, do objecto, de mil outras
-cousas,--variada medida exigem; como exige a musica varios tons e
-cadencias. A mesma medida sempre, embora cheia e boa,--o mesmo tom,
-embora afinado,--a mesma harmonia, embora perfeita,--o mesmo compasso,
-embora exacto, fazem monotona e insuportavel a mais bella peça de
-musica ou de poesia. E taes são os versos de Bocage, que nos pretendem
-dar para typo seus apaixonados cegos: digo _cegos_, porque muitos tem
-elle (e n’esse numero que conto!) que o são, mas não cegos. Imitar
-com o som mechanico das vozes a harmonia intima da ideia, supprir
-com as vibrações que só pódem ferir a alma pelo orgão dos ouvidos,
-a vida, o movimento, as côres, as fórmas dos quadros naturaes, eis
-ahi a superioridade da poesia, a vantagem que tem sobre todas as
-outras bellas artes: mas quam difficil é perceber e executar esse
-delicadissimo ponto! Poucos o conseguiram: Francisco Manoel foi entre
-nós o que mais finamente o intendeu e executou, mas nem sempre, nem
-cabalmente.
-
-Porém nos intervallos lucidos que a Bocage deixava o fatal desejo de
-brilhar, n’alguns instantes que, despossesso do demonio das hyperboles
-e antitheses, ficava seu grande ingenho a sos com a natureza e em paz
-com a verdade, então se via a immensidade d’essa grande alma, a fina
-tempera d’esse raro ingenho que a aura popular estragou, perdeu o pouco
-estudo, os costumes desregrados, a miseria, a dependencia, a soltura,
-a fome. Muitas epistolas, varios idilios maritimos, algumas fabulas,
-e epigrammas, as cantatas, não são mediocres titulos de glória. Dos
-sonetos ha grande cópia que não tem igual nem em portuguez, nem em
-lingua nenhuma, d’uma força, d’uma valentia, d’uma perfeição admiravel.
-O resto é pequeno e pouco. A linguagem é pobre; ás vezes facil, mas
-em geral escaça. Sabía pouco a lingua; a força do grande instincto
-lhe arredava os erros; mas as bellezas do idioma, só as dá e ensina o
-estudo. As traducções de Ovidio, Delille e Castel são primorosas.
-
-Mas de traducções estamos nós gafos: e com traducções levou o ultimo
-golpe a litteratura portugueza; foi a estocada de morte que nos
-jogaram os estrangeiros. Traduzir livros d’artes, de sciencias é
-necessario, é indispensavel; obras de gosto, de ingenho, raras vezes
-convem; é quasi impossivel fazê-lo bem, é míngua e não riqueza para a
-litteratura nacional. Essa casta de obras estuda-se, imita-se, não se
-traduz. Quem assim faz accomoda-as ao character nacional, dá-lhes côr
-de proprias, e não só veste um corpo estrangeiro de alfaias nacionaes
-(como o traductor), mas a esse corpo dá feições, gestos, modo, e
-indole nacional: assim fizeram os Latinos, que sempre imitaram os
-Gregos e nunca os traduziram; assim fizeram os nossos poetas da boa
-idade. Se Virgilio houvera traduzido a Iliada, Camões a Eneada, Tasso
-os Lusiadas, Milton a Jerusalem, Klopstock o Paraiso perdido; nenhum
-d’elles fora tamanho poeta, nenhuma d’essas linguas se enriquecera com
-tam preciosos monumentos: e todavia imitaram uns dos outros, e d’essa
-imitação lhes veio grande proveito.
-
-Esta mania de traduzir subiu a ponto em Portugal, e de tal modo
-estragou o gosto do público, que não só lhe não agradavam, mas quasi
-não intendia os bons originaes portuguezes: a poesia, a litteratura
-nacional reduziu-se a monotonos sonetos, a trovinhas d’amores, a
-insipidas enfiadas
-
- _De versinhos anões a anans Nerinas._
-
-Tam baixos nos pozeram os admiradores e imitadores de Bocage, a quem
-justamente a critica stigmatizou com o nome de _elmanistas_,--e de
-_elmanismo_ sua affectada eschola. N’elles se mostraram exagerados os
-defeitos todos do enthusiasta Elmano, sem nenhum dos grandes dotes, das
-brilhantes qualidades do poeta Bocage.
-
-Alguns ha comtudo de quem esta asserção não deve intender-se em todo
-o rigor da phrase. João Baptista Gomes, auctor da Castro, mostrou
-n’ella muito talento poetico e dramatico. D’entre os bastos defeitos
-d’essa tragedia sobresahem muitas bellezas. Desvaira-o o _elmanismo_;
-derrama-se per madrigaes quando a austeridade de Melpomene pedia
-concisão, força e naturalidade; perde-se em declamações, extravaga
-em logares communs, inverte a dicção com antitheses, destroi toda a
-illusão com versos amiudo sesquipedaes e entumecidos; mas per meio de
-todas essas nevoas brilha muita luz de ingenho, muita sensibilidade,
-muita energia de coração; predicados que com o estudo da lingua que não
-tinha, com a experiencia que lhe fallecia, triumphariam ao cabo do mau
-gosto do tempo, e viriam provavelmente a fazer de João Baptista Gomes
-o nosso melhor tragico. Atalhou-o a morte em tam illustre carreira,
-e deixou orphão o theatro portuguez que de tamanho talento esperava
-reforma e abastança.
-
-Mas em quanto Bocage e seus discipulos tyrannizavam a poesia e
-estragavam o gosto, Francisco Manuel, unico _representante_ da grande
-eschola de Garção, gemia no exilio, e de la com os olhos fitos na
-patria se preparava para luctar contra a enorme hydra cujas innumeras
-cabeças eram o gallicismo, a ignorancia, a vaidade, todos os outros
-vicios que iam devorando a litteratura nacional.
-
-A sua epistola sobre a arte poetica e lingua portugueza, póde rivalizar
-com a de Horacio aos Pisões: força d’argumentos, eloquencia da poesia,
-nobre patriotismo, finissimo sal da satyra, tudo ahi peleja contra o
-monstro multiforme.
-
-Que direi das odes? Minha intima persuasão é que nunca lingua nenhuma
-subiu tam alto como a portugueza na lyra de Francisco Manuel. Que ha
-em Pindaro comparavel á ode a Afonso d’Albuquerque? onde ha poesia
-sublime, elegante, immensa como seu assumpto, na dos novos Gamas? se
-o patriotismo fallasse alguma hora aos degenerados netos de Pacheco
-e Albuquerque, que poderia elle dizer-lhes igual áquella inestimavel
-ode que se intitula _Neptuno aos portuguezes_? E quando a liberdade
-troa na espada de Washington, submette os raios de Jupiter ao sceptro
-dos tyrannos aos pés de Franklin, ou tece pelas mãos de Penn os
-laços de fraterna união! Que immenso, que grandioso é o cantor de
-tamanhos objectos! Quando nas odes a Venus, a Marfisa, a Marcia
-_voltando inopinada_, no hymno á noite se requebra em amoroso jubilo,
-ou se enternece de saudade, todo é graças e primores de linguagem, de
-imaginação, de stylo, de delicadeza, de inimitavel poesia. No genero
-Horaciano não é elle tam puro e perfeito como Garção, mas nem intendeu
-menos nem imitou peior o seu modêlo.
-
-Entre as epistolas ha muitas admiraveis: dos contos e fabulas, alguns
-com elegante sal e chiste. As traducções do Oberon de Wielland, da
-Guerra punica de Silio Italico, mas sobre todas, a dos Martyres de
-Chateaubriand, são thesouros de linguagem e de poesia.
-
-Nenhum poeta desde Camões havia feito tantos serviços á lingua
-portugueza: so per si Francisco Manuel valeu uma academia, e fez mais
-que ella; muita gente abriu os olhos, e adquiriu amor a seu tam rico e
-bello, quanto desprezado idioma: e se ainda hoje em Portugal ha quem
-estude os classicos, quem se não envergonhe de lêr Barros e Lucena,
-deve-se ao exemplo, aos brados, ás invectivas do grande propugnador de
-seus foros e liberdades.
-
-Nos ultimos periodos de sua longa vida afrouxaram as energicas
-faculdades d’este grande poeta, e excepto a traducção dos Martyres
-(que assim mesmo tem seus altos e baixos) quasi tudo o mais que fez é
-tibio e morno como de um octogenario se podia esperar. O nimio temor de
-commeter gallicismos, a que tinha justo e sancto horror, o fez cahir em
-archaismos e affectação demasiada de palavras antiquadas e excessivos
-hyperbatos. Não são porém estas faltas, nem tantas nem tamanhas como o
-pregoou a inveja e a ignorancia.
-
-Muito honrosa menção deve a historia da lingua e poesia portugueza a
-Domingos Maximiano Torres, cujas eclogas rivalizam com as de Quita e
-Gessner, cujas cançonetas são, depois das de Claudio Manuel da Costa,
-as melhores que temos. Foi este muito intimo de Francisco Manuel, mas
-tenho por mui exagerados os elogios que d’elle recebeu.
-
-Antonio Ribeiro dos Santos, honra da magistratura portugueza, foi
-imitador e émulo de Ferreira: poucos ingenhos, poucos characteres,
-poucos stylos ha tam parecidos; se não que o auctor dos coros da Castro
-era muito maior poeta, e o cantor do grande D. Henrique muito melhor
-metrificador. Ésta ode ao infante sabio, algumas outras a varios heroes
-portuguezes, algumas das epistolas, e especialmente os versos que lhe
-dictava a amizade para o seu Almeno, são d’uma elegancia e pureza de
-linguagem rarissima em nossos dias.
-
-Este Almeno é Fr. José do Coração de Jesus, missionario de Brancannes,
-que traduziu os primeiros livros das methamorphoses de Ovidio em
-excellente, riquissimo, purissimo portuguez, mas em maus versos: e
-ainda assim, alguns d’elles são felizes: é de estudar, de versar com
-mão _diurna_ e _nocturna_ esse comêço de traducção para quem quizer
-conhecer as riquezas de uma lingua que compete, emparelha, vence ás
-vezes, a sua propria mãe latina.
-
-Duas ou tres odes d’este virtuoso e erudito padre são mui bonitas.
-
-Nicolau Tolentino é o poeta eminentemente nacional no seu genero:
-Boileau teve mais força, mas não tanta graça como o nosso bom mestre
-de rhetorica. E de suas satyras ninguem se pode escandalizar; começa
-sempre per casa, e primeiro se ri de si antes que zombeteie com os
-outros. As pinturas dos costumes, da sociedade, tudo é tam natural,
-tam verdadeiro! Confesso que de todos os poetas que meu triste mister
-de critico me tem obrigado a analysar, unico é este em cuja causa
-me dou por suspeito: tanta é a paixão, a cegueira que tenho polo
-mais verdadeiro, mais engraçado, mais _bom homem_ de todos os nossos
-escriptores. Aquelle _bilhar_, aquella _funcção de burrinhos_, aquelle
-_cha_, aquellas despedidas _ao cavallo deitado á margem_; o memorial
-ao principe, o presente do _perum_, são bellezas que so não admirarão
-atrabilarios zangãos em perpetuo estado de guerra com a franca alegria,
-com o ingenuo gôsto da natureza.
-
-De José Anastacio da Cunha, que das mathematicas puras nos deu o melhor
-curso que ha em toda Europa, d’esse infeliz ingenho (que talento houve
-já feliz em Portugal?) a quem não impediam as rectas de Euclides, nem
-as curvas de Archimedes de cultivar tambem as musas; de tam illustre
-e conhecido nome que direi eu senão o muito que me peza da raridade
-de suas poesias? Todas são philosophicas, ternas e repassadas d’uma
-tam meiga sensibilidade algumas, que deixam n’alma um como echo
-de harmonia interior que não vem do metro de seus versos, mas das
-ideias, dos pensamentos. Todavia ha mister lê-lo com prevenção, porque
-(provavelmente estropiada de copistas) a phrase nem sempre é portugueza
-de lei.
-
-O padre A. P. de Sousa Caldas, brazileiro, é dos melhores lyricos
-modernos. A poesia biblica, apenas encetada de Camões na paraphrase
-do psalmo _super flumina Babylonis_, foi per elle maravilhosamente
-tractada; e desde Milton e Klopstock ninguem chegou tanto acima n’este
-genero.
-
-A cantata de Pygmalião, a ode O homem selvagem são excellentes tambem.
-
-Aqui me cai a penna das mãos: o estadio livre para a critica imparcial
-acabou. Nem posso continuar a exercê-la sem temor, nem o faria ainda
-assim, pois não quizera vêr revogadas minhas presumidas sentenças pela
-severa posteridade, quasi sempre annulladora de juizos contemporãos.
-
-Não posso todavia fechar este breve quadro sem patentear a admiração,
-e o indizivel prazer que me deu o poema do Passeio do snr. J. M. da
-Costa e Silva, cuja existencia tinha a infelicidade de ignorar (tam
-pouco sabemos nós portuguezes das riquezas que temos em casa!) e que
-não sei que tenha que invejar a Thompson e Delille, se não fôr na pouca
-extensão e, acaso dirá mais severo juiz, em algum verso de demasiado
-_elmanismo_. Quanto a mim, folgo de me lisongear com a esperança que
-seu auctor lhe dará a amplidão e mais (poucos mais) retoques com que
-ficará por ventura o melhor poema d’esse genero.
-
-Apezar dos motivos referidos, pedirei uma venia mais para mencionar
-como um poema que faz summa honra ao nome portuguez, a Meditação do
-snr. J. A. de Macedo, que tem sido censurada por quem não é capaz
-de intendê-la. Não sei eu se ella tem defeitos; é obra humana, e de
-certo lhes não escapou; mas sublimidade, cópia de doctrina, phrase
-portugueza, e grandes ideias, só lh’o negará a cegueira ou a paixão.
-
-Cita-se com elogio o nome do snr. J. F. de Castilho, joven poeta que
-se despica da injuria da sorte que o privou da vista, com muita luz de
-ingenho poetico.
-
-Os _dythirambos_ do snr. Curvo Semedo, as odes do snr. J. Evangelista
-de Moraes merecem grande favor do publico: os apologos do snr. J. V.
-Pimentel Maldonado são por certo dignos da maior estimação.
-
-As Georgicas do snr. Mozinho d’Albuquerque fizeram a reputação poetica
-de seu benemerito auctor. Alguns lhe acharam demaziada erudição, e
-queriam mais poesia e menos sciencia. Eu por mim tomarei a confiança
-de pedir ao illustre poeta, em nome da litteratura portugueza, que
-na segunda edição de sua tam util obra não desdenhe de aproveitar os
-muitos e riquissimos ornatos que habilmente póde tirar de nossas festas
-ruraes, de nossas usanças (como feiras, serões, desfolhas, etc.), das
-descripções de nosso formoso paiz; com que decerto fará mais nacional e
-interessante seu estimavel poema. Não sei tambem se alguma incorrecção
-typographica ou de cópia, seria origem de varias imperfeições e
-impurezas de linguagem, que os escrupulosos (e em tal materia é forçoso
-sê-lo) lhe notam.
-
-Tudo isso esperamos os portuguezes que nos vangloriamos de sua
-excellente obra, vê-lo melhorado na proxima edição que já reclama o
-publico impaciente.
-
-A litteratura portugueza não mostra presentemente grandes symptomas de
-vigor: mas ha muita força latente sob essa apparencia; o menor sôpro
-animador que da administração lhe venha, ateará muitos luzeiros com que
-de novo brilhe e se engrandeça.
-
- FIM
-
-
- NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[40] Assim lhe succedeu, principalmente em muitos dos, por natureza
-e essencia, hyperbolicos elogios dramaticos; genero de composição
-extravagante e quasi sempre ridiculo.
-
-
-
-
- INDICE
-
- DAS
-
- OBRAS CONTIDAS N’ESTE VOLUME
-
-
- _Pag._
-
-Retrato de Venus 5
-
-Notas 57
-
-Ensaio sobre a historia da pintura 89
-
-Bosquejo da historia da poesia e lingua portugueza 163
-
-
-
-
- RECTIFICAÇÃO
-
-
-A ADVERTENCIA de pag. 165-166 pertence ao _Retrato de Venus_ e
-não ao _Bosquejo da historia da poesia e lingua portuguesa_, onde
-inadvertidamente foi collocada.
-
-Nota do transcritor: Isso foi collacada na posição certa.
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O RETRATO DE VENUS E ESTUDOS DE
-HISTORIA LITTERÁRIA ***
-
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- O retrato de Venus e estudos de historia litteraria, por Almeida Garrett—A Project Gutenberg eBook
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- /* ]]> */ </style>
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-<body>
-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>O retrato de Venus e estudos de historia litterária</span>, by Almeida Garrett</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
-at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you
-are not located in the United States, you will have to check the laws of the
-country where you are located before using this eBook.
-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>O retrato de Venus e estudos de historia litterária</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Almeida Garrett</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: November 25, 2022 [eBook #69423]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O RETRATO DE VENUS E ESTUDOS DE HISTORIA LITTERÁRIA</span> ***</div>
-
-
-
-
-<h2>OBRAS<br><span class="small">DO</span><br><span class="big">V. DE ALMEIDA-GARRETT</span></h2>
-
-
-<p class="center big">XXI</p>
-
-
-<p class="center big">O RETRATO DE VENUS</p>
-
-<p class="center small">E</p>
-
-<p class="center small">ESTUDOS DE HISTORIA LITTERARIA</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="OBRAS_LITTERARIAS">OBRAS LITTERARIAS<br><span class="small">DO<br>VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT</span></h2>
-</div>
-<hr class="r5">
-
-
-<h3>THEATRO:</h3>
-
-<p class="poetry">
-TOMO I—Catão.<br>
-<span style="margin-left: 0.5em;">»&#160; &#160; II—Merope, Gil Vicente.</span><br>
-<span style="margin-left: 0.5em;">»&#160; &#160; III—Frei Luiz de Sousa.</span><br>
-<span style="margin-left: 0.5em;">»&#160; &#160; IV—D. Philippa de Vilhena.</span><br>
-<span style="margin-left: 0.5em;">»&#160; &#160; V—A Sobrinha do Marquez, As prophecias do Bandarra, Um noivado no Dáfundo.</span><br>
-<span style="margin-left: 0.5em;">»&#160; &#160; VI—O Alfageme de Santarem.</span><br>
-</p>
-
-<h3>VERSOS:</h3>
-
-<p class="poetry">
-Camões.<br>
-D. Branca.<br>
-Lyrica.<br>
-Fabula, Folhas cahidas.<br>
-Flores sem fructo.<br>
-Romanceiro, 3 vol.<br>
-O Retrato de Venus.<br>
-</p>
-
-<h3>PROSA:</h3>
-
-<p class="poetry">
-Viagens na minha terra, 2 vol.<br>
-O Arco de Sanct’Anna, 2 vol.<br>
-Portugal na Balança da Europa.<br>
-Da Educação.<br>
-Helena (romance).<br>
-Discursos parlamentares e Memorias biographicas.<br>
-Escriptos diversos.<br>
-</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h1 class="nobreak" id="O_RETRATO_DE_VENUS">O RETRATO DE VENUS<br><span class="small">E<br>ESTUDOS DE HISTORIA LITTERARIA</span></h1>
-</div>
-
-<p class="center small">PELO</p>
-
-<p class="center">VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT</p>
-
-<hr class="r5">
-<p class="center"><i>Terceira edição</i></p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img001">
-<img src="images/001.jpg" class="w10" alt="Imagem do editor">
-</span></p>
-
-<p class="center p2 big">PORTO</p>
-
-<p class="center">Ernesto Chardron, Editor</p>
-
-<p class="center small">1884</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p class="center p4"><span class="smcap">Porto</span>: 1884—<span class="smcap">Typ. de A. J. da Silva Teixeira</span></p>
-
-
-<p class="center">62, Rua da Cancella Velha, 62</p>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_3">[Pg 3]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="O_RETRATO_DE_VENUS2">O RETRATO DE VENUS</h2>
-</div>
-
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_164">[Pg 164]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_165">[Pg 165]</span></p>
-<h3 class="nobreak" id="ADVERTENCIA">ADVERTENCIA</h3>
-</div>
-
-
-<p><i>Fui sempre muito pouco amigo de dar satisfações.
-Porém ésta minha repugnancia não é
-filha de presumpção, nem de orgulho. De todo
-o meu coração o digo, e todos os que me conhecem,
-o sabem. Nascem da persuasão, em que
-estou, de que a justificação d’uma cousa está
-na maneira por que essa cousa se faz. E applicando
-ésta generalidade ás composições litterarias,
-cada vez me convenço mais que os prologos,
-prefacios, avisos a leitores, etc. nada fazem,
-nem fizeram, nem farão nunca ao conceito
-que da obra se fórma.</i></p>
-
-<p><i>E principio foi este, por que na faxada do
-meu poema não puz tal ceremonia. Revendo-o
-porem agora, examinando este</i> <span class="smcap">Ensaio</span>, <i>e conhecendo-lhe
-infindos defeitos, que me tinham escapado;
-sendo-me impossivel emenda-los; resolvo-me<span class="pagenum" id="Page_166">[Pg 166]</span>
-a dar</i> satisfação; <i>não para pretender justifica-los,
-e salvar-me da crítica com subtilezas,
-e argucias; mas para fazer confissão pública
-d’elles.</i></p>
-
-<p><i>Se me é licito porem dizer duas palavras em
-meu abono, direi que tanto o poema, como as
-notas, e ensaio são da minha infancia poetica;
-são compostos na idade de dezasette annos. Isto
-não é impostura: sobejas pessoas ha hi, que
-m’o viram começar, e acabar então. É certo
-que desde esse tempo ategora, em que conto quasi
-vinte e dous, por tres vezes o tenho corrigido; e
-até submettido á censura de pessoas doutas, e de
-conhecida philologia, como foi o Excellentissimo
-Senhor</i> S. Luiz, <i>que me honrou a mim, e a
-este opusculo com suas correcções. Mas todos
-estes cuidados não puderam (emquanto a mim)
-tirar-lhe o vicio do nascimento.</i></p>
-
-<p><i>Eis aqui a minha confissão geral. Os que me
-absolverem ficar-lhes-hei muito obrigado; os que
-não quizerem, paciencia; não me mato por isso.
-Comecei esta obrinha por desenfado: acabei-a
-por divertimento: publico-a por amor das artes:
-se me criticarem, rio-me, e não fico mal com
-ninguem.</i></p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="O_RETRATO_DE_VENUS3">O RETRATO DE VENUS<br><span class="small">POEMA</span></h2>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 7.5em;"><i>.... while it pursues</i></span><br>
-<i>Things unnattempted yet in prose, or rhyme.</i><br>
-<br>
-<span class="smcap">Milt</span>. <i>Parad. loste</i>: book I. V. 15.<br>
-</p>
-<hr class="r5">
-
-<h3>CANTO PRIMEIRO</h3>
-
-<p class="poetry">
-Doce mãe do universo, ó Natureza,<br>
-Alma origem do ser, germe da vida,<br>
-Tu, que matizas de verdor mimoso<br>
-Na estação do prazer o monte, o prado,<br>
-E á voz fagueira de celeste gôso<br>
-De multimodos entes reproduzes<br>
-A variada existencia, e lh’a prolongas;<br>
-Que, no fluido immenso legislando,<br>
-Libras sem conto ponderosos mundos,<span class="pagenum" id="Page_4">[Pg 4]</span><br>
-Que na ellipse invariavel rotam fixos,<br>
-Ó alma do universo, ó Natureza,<br>
-Teus sacros penetraes em vôo ardido<br>
-Busco, rasgo-lhe o véo, prescruto, e vejo<br>
-Insondaveis mysterios: puro, e simples<br>
-Nunca ouvidas canções na lyra entôo.<br>
-Nua d’enfeites vãos a face amena<br>
-Tu volve ao mundo, que te ignora errado.<br>
-Qual és, qual foste, qual te apura os mimos<br>
-A arte engenhosa, tu lhe amostra e ensina.<br>
-<br>
-Como é dado aos mortaes bellezas tuas<br>
-C’o divino pincel, co’as magas tintas<br>
-Estremar com primor, colher-lhe o bejo,<br>
-Sem donosas ficções meu canto ensine.<br>
-<br>
-Ficções!... E aureas ficções desdenha o sabio?<br>
-A douta, a mestra antiguidade o diga.<br>
-Não; fabula gentil, volve a meus versos;<br>
-Orna-me a lyra c’os festões de rosas,<br>
-Que ás margens colhes da Castalia pura:<br>
-Flores, que outr’ora de Epicuro ao vate<br>
-C’o austero assumpto lhe entrançaste amenas,<br>
-Essas no canto me desparze agora.<span class="pagenum" id="Page_5">[Pg 5]</span><br>
-<br>
-Venus, Venus gentil! Mais doce, e meigo<br>
-Soa este nome, ó Natureza augusta.<br>
-Amores, graças, revoae-lhe emtorno,<br>
-Cingi-lhe a zona, que enfeitiça os olhos;<br>
-Que inflamma os corações, que as almas rende.<br>
-Vem, ó Cypria formosa, oh! vem do Olympo,<br>
-Vem c’um mago surrir, c’um terno bejo<br>
-Fazer-me vate, endeusar-me a lyra.<br>
-<br>
-E quanto pódes c’um surriso, ó Venus!<br>
-Jove, que empunhe o temeroso raio;<br>
-Neptuno as ondas tempestuoso agite;<br>
-Torvo Sumano desenfreie as furias...<br>
-Se dos olhos gentis, dos labios meigos<br>
-Desprender um surriso a Idalia deusa,<br>
-Rendido é Jove, o mar, o Averno, o Olympo.<br>
-<br>
-Mas quanto é bello, é grato o vencimento,<br>
-Se á dor suave do pungir fagueiro,<br>
-Da ferida se encontra amigo balsamo,<br>
-E nos olhos da linda vencedora<br>
-Do ardimento o perdão brando se accolhe!<br>
-Tu, Marte, o dize, o Cyprio moço, o Teucro;<br>
-E vós, que ousais na terra imitar numes,<br>
-Que do summo prazer rompendo arcanos,<span class="pagenum" id="Page_6">[Pg 6]</span><br>
-N’um momento gosais da eternidade.<br>
-<br>
-Emquanto nas lidadas officinas,<br>
-Forjando o raio vingador dos numes,<br>
-Vive o coxo marido sem receios,<br>
-Ja deslembrado da traidora rede;<br>
-Do Cynireo mancebo entre os abraços,<br>
-Jaz a espôsa gentil ennamorada.<br>
-Nas languidas pupillas lhe transluze<br>
-O prazer divinal, que a opprime, e anceia;<br>
-Nos inflammados bejos, nas caricias,<br>
-No palpitar do seio voluptuoso,<br>
-No lascivo apertar dos braços niveos,<br>
-Nos olhos, em que a luz quasi se extingue,<br>
-Na interrompida voz, que balbucia,<br>
-Nos derradeiros ais, que desfalecem...<br>
-Quem do prazer não reconhece a deusa<br>
-No excesso do prazer quasi espirando?<br>
-Surri-lhe ao lado o filho de travesso,<br>
-E d’entre o myrtho as candidas pombinhas<br>
-C’o estremecido arrulho a dona imitam.<br>
-<br>
-Ah! se o gôsto supremo a um deus não peja,<br>
-Porquê mesquinhas leis nos vedam barbaras<br>
-Tam suave pecar, doce delicto,<span class="pagenum" id="Page_7">[Pg 7]</span><br>
-Antes virtude, que natura ensina!<br>
-Dest’arte as breves horas decorriam<br>
-Aos alheados, férvidos amantes;<br>
-E vezes tres rotára o disco argenteo<br>
-Trivia gentil, semque no Olympo, ou Lemnos<br>
-A espôsa de Vulcano apparecesse.<br>
-Ja na etherea mansão vagos juizos<br>
-Maliciosos forma a inveja, a intriga;<br>
-E surriso maligno ás deusas todas,<br>
-Do marido infeliz excita o fado.<br>
-<br>
-Em zelosa vingança affana e freme<br>
-O despeitoso Marte; corre, voa,<br>
-E em busca da infiel vagueia o mundo.<br>
-Coxeando o segue o malfadado espôso,<br>
-Dos antigos errores esquecido:<br>
-Tal é, paixão zelosa, o teu imperio!<br>
-<br>
-Eis do somno d’amor espavoridos,<br>
-Os dous amantes c’o ruido accordam.<br>
-De pavor esmorece o joven timido;<br>
-Por elle anceia a carinhosa amante,<br>
-Descuidosa de si; geme, soluça.<br>
-E do amado na dor, sua dor recresce.<br>
-Que fará?... vacillante... Adonis... Marte...<span class="pagenum" id="Page_8">[Pg 8]</span><br>
-O espôso... Ideias, que alma lhe confundem!<br>
-Com o amante ficar, morrer com elle?<br>
-Defender com seu peito o peito amado?<br>
-E salval-o é possivel d’esta sorte?<br>
-Deixa-lo?... Fera ideia!... Ir as suspeitas<br>
-Dos numes dissipar com sua presença?<br>
-Que! deixa-lo! o seu bem! Venus a Adonis!<br>
-Tanto não póde a mesma divindade.<br>
-<br>
-Mas este só lhe resta unico meio:<br>
-É forçoso: comsigo ao carro o sobe;<br>
-Voa a Paphos, e ás Graças lisongeiras<br>
-O precioso pinhor saudosa entrega,<br>
-Que n’um basto rosal mimoso o guardem,<br>
-Velem sempre por elle, té que aos deuses<br>
-Se esvaeça o furor. Subito ao Olympo,<br>
-Composto o vulto, serenando os olhos,<br>
-N’um momento chegou: mago atractivo<br>
-Que lhe spira dos labios, das pupillas,<br>
-Do todo encantador, odios, suspeitas<br>
-Desfaz, esquece em animos divinos:<br>
-Tam pouco, ó bellas, persuadir-nos, custa!<br>
-<br>
-Arde voltar ao suspirado asylo;<br>
-Mas teme a vejam desconfiados olhos;<span class="pagenum" id="Page_9">[Pg 9]</span><br>
-E em tanto Adonis geme, e o seu tormento<br>
-Mais que o proprio penar lhe punge n’alma.<br>
-Disenhos volve... Alfim um lhe suscita<br>
-Novo a mente engenhosa: ei-lo abraçado.<br>
-<br>
-Jaz muito alem do tormentorio cabo,<br>
-(Sempiterno brasão da Lusa gloria)<br>
-Em não sabido mar, jamais sulcado,<br>
-Ilha aprazivel, deliciosa, e breve.<br>
-A mão dos homens destruidora, e barbara,<br>
-Mimos da creação não lhe estragára.<br>
-A seu grado crescia o bosque, a selva;<br>
-Vecejava sem leis o prado ameno;<br>
-D’alvas pedrinhas pelo leito amigo<br>
-Se espreguiçava o crystalino arroio,<br>
-Sem temer que impia dextra ouse perversa,<br>
-No brando curso interromper-lhe as aguas.<br>
-Prêsas não gemem fugitivas Nayas,<br>
-Nem Dryades gentis feridas choram:<br>
-Sem arte a natureza era inda a mesma.<br>
-No mais escuro do copado bosque<br>
-Ternas suspiram maviosas rôlas;<br>
-E em mais alegres sons, prazer mais ledo,<br>
-A meiga ave d’amor no arrulho exprime.<br>
-Outro vivente algum a aura fagueira<span class="pagenum" id="Page_10">[Pg 10]</span><br>
-Não ousa respirar. Silencio eterno<br>
-Impera na soidão, dobra-lhe encantos.<br>
-<br>
-Tam suave mansão nem mesmo os numes<br>
-No ceo conhecem. Da ternura a deusa,<br>
-Só Venus sabe do recanto ameno.<br>
-Tu, do universo creador principio,<br>
-Venus! oh mãe d’amor, oh mãe de tudo!<br>
-Que amor é tudo, que só tu com elle,<br>
-Ambos creastes e regeis o mundo,<br>
-Que a natureza sois, ou ella é vossa:<br>
-Cypria, Cypria gentil, pódes acaso<br>
-Ignorar uma só das obras tuas?<br>
-<br>
-«Mãe, (lhe diz, entre alegre e malicioso,<br>
-Mas compassivo, o filho), «nessa ignota<br>
-«Ilha do Indico mar...»—Um doce bejo<br>
-O concelho pagou.—Subito parte.<br>
-Lá chega; e nova se difunde a vida<br>
-Na solitaria estancia; em novos germes<br>
-O deleite, o prazer renascem, pulam.<br>
-<br>
-Quam doces d’antemão gosou delicias<br>
-A mui fagueira deusa! O sitio ameno<br>
-Extasiada contempla. «Oh! quam ditosos<span class="pagenum" id="Page_11">[Pg 11]</span><br>
-(Clamou) «seremos! Ignorado, occulto,<br>
-Ó doce amante, viverás sem medo.<br>
-Aqui, no seio da ventura e gôso,<br>
-Nos meus braços...» Parou suspensa, e geme:<br>
-Cruel lembrança lhe assomou na mente;<br>
-Agros deveres, perfidas suspeitas,<br>
-Quantas vezes do amante hão de aparta-la!<br>
-Suspira: as rosas do prazer se esvaem<br>
-Das lindas faces niveas. Pensativa,<br>
-Melancolica, e triste... (Eis fausto agouro!)<br>
-Estremecido arrulho alvas pombinhas<br>
-Deram á sestra mão. Ah! sim: é elle:<br>
-Amor, apoz a mãe, veio ajuda-la.<br>
-<br>
-«Filho (co’a voz lhe diz, que impera em Jove,<br>
-Que tam suave rege a natureza),<br>
-«Tu me feriste; não accuso o golpe:<br>
-Amo, adoro esse ferro, que me punge,<br>
-Que na chaga, que abriu, doçura entorna;<br>
-Só quero, só te peço (que não peja<br>
-De implorar-te soccorro a mãe ferida)<br>
-Derradeira mercê: oh! deixa um pouco<br>
-D’humanos corações facil conquista:<br>
-Cesse qualquer amor quando ama Venus.<br>
-A culta Europa rapido discorre,<span class="pagenum" id="Page_12">[Pg 12]</span><br>
-E a progenie d’Apollo, almos, divinos,<br>
-Os pintores me traze aqui n’um ponto.<br>
-<br>
-Pasmou c’o rôgo inesperado o numen:<br>
-A causa inquire. «Ah! não: (lhe torna a deusa)<br>
-Não cumpre ainda revelar-t’a, ó filho;<br>
-Cubra o véo do mysterio o doce intento.»<br>
-<br>
-Mal disse: e o raio mais veloz não rue<br>
-Da rubra dextra do Tonante irado,<br>
-Do que a tuba dos candidos amores<br>
-Á voz da deusa fende os ares liquidos.<br>
-Quaes voam de Minerva ao sabio clima,<br>
-Hoje torpe, e servil c’o bruto imperio:<br>
-Quaes á augusta senhora do universo;<br>
-Senhora, emquanto Roma era inda Roma:<br>
-Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco:<br>
-Á formosa Bolonha, á gran Veneza;<br>
-Grande emquanto reinou sobre o Oceano:<br>
-Quaes á suberba Gallia, á Iberia, a Lysia;<br>
-Que de Lysia tambem, tam cara ás musas,<br>
-Da poesia a rival, a irman tem filhos.<br>
-<br>
-De toda a parte a obedecer contentes<br>
-Correm ao mando de Cyprina bella,<span class="pagenum" id="Page_13">[Pg 13]</span><br>
-Da natura em despeito, homens creadores,<br>
-Prometheus, que á materia informe e bruta<br>
-C’o divino pincel dão fórma, e vida;<br>
-Erguem da campa gerações extinctas;<br>
-Plantam copados, que enfloream, bosques;<br>
-Co’a viva historia os homens eternisam;<br>
-E, fitando no ceo audazes vistas,<br>
-Aos pasmados sentidos apresentam<br>
-Visivel, sem rebuço a divindade.<br>
-<br>
-Da fertil em prodigios, d’alta Grecia<br>
-O pae d’arte divina, Apelles marcha,<br>
-Thimante, Zeuxis, e Parrhasio, e quantos<br>
-A culta Grecia, a deliciosa Roma<br>
-Famosos produziu em sec’los d’ouro.<br>
-Cimabúe famoso apoz caminha,<br>
-Que as esfriadas cinzas animando<br>
-Do engenho, do talento, o faxo vívido<br>
-Fez na Europa brilhar, e abriu de novo<br>
-O caminho gentil da natureza<br>
-Do barbaro furor fechado, ha muito.<br>
-<br>
-Aos golpes crebros, incessantes, duros<br>
-Da ferrea mão do avaro despotismo,<br>
-Sem fôrças, sem vigor jazia, ha muito,<span class="pagenum" id="Page_14">[Pg 14]</span><br>
-A misera Bysancio. Em surda guerra<br>
-Fallaz superstição d’infames bonzos,<br>
-Fanatismo cruel, bifronte, e iniquo,<br>
-Hypocrisia vil, perfida e dobre,<br>
-Ruina infausta lhe apressava, e morte.<br>
-Ávidos sorvos de Roman cubiça,<br>
-Da Latina ambição, riquezas, pompa<br>
-Roubado haviam insaciaveis, féros<br>
-De Constantino á côrte. Espessa nuvem<br>
-De negros vicios, de perversos crimes<br>
-Pousou medonha sobre os tristes netos<br>
-Degenerados, vis d’um povo illustre.<br>
-Crestadas, sêcas pelo sôpro ardente<br>
-Da tyrannia atroz definham, morrem<br>
-Apesinhadas as virtudes candidas;<br>
-Ao cûmulo chegou desdita, opprobrio<br>
-Dos fados teus, ó Grecia. Eis ante as portas<br>
-Da famosa cidade, audaz, suberbo<br>
-Musulmano feroz, Mahomet se ostenta.<br>
-Monstros, que o sangue do mesquinho povo<br>
-Impios bebestes, ah! tremei, que é elle:<br>
-Austero açoite das celestes iras<br>
-Sobre vós descarrega a mão divina.<br>
-Bonzos, no centro aos claustros profanados<br>
-Embalde a frente d’horridas maldades<span class="pagenum" id="Page_15">[Pg 15]</span><br>
-Carregada escondeis: lá vai, lá chega;<br>
-Sobre as aras d’um deus, a um deus, que ousastes,<br>
-Incençando-o, offender, lá vos immola.<br>
-<br>
-Artes, sciencias, a guarida extrema,<br>
-Perdeste’-a em fim: voltai, fugí; que Hesperia<br>
-Os carinhosos braços vos estende.<br>
-Ei-las: oh! folga, venturosa Europa.<br>
-Lá cai a pouco e pouco em terra o throno<br>
-Da barbara ignorancia: as trevas do êrro<br>
-Vai accossando da verdade o faxo.<br>
-<br>
-Arte divina, magica pintura,<br>
-Foragida tambem, thesouros, mimos<br>
-Vens espalhar na mui ditosa Italia.<br>
-Italia! oh! folga: Raphaeis ja pulam.<br>
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_16">[Pg 16]</span></p>
-<p class="center p2">FIM DO CANTO PRIMEIRO</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_17">[Pg 17]</span></p>
-<h3 class="nobreak" id="CANTO_SEGUNDO">CANTO SEGUNDO</h3>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-Mas eis, distinctos esquadrões formando,<br>
-As escholas assomam; reina entre ellas<br>
-Vivaz emulação, que gera os sabios:<br>
-Vão-lhe na frente os affamados chefes,<br>
-Que a patria honraram c’o pincel divino.<br>
-<br>
-No bello antigo modelando as graças,<br>
-Que em mais sabio pincel, mais bellas surgem,<br>
-A frente airosa sobre erguendo ás outras,<br>
-Vem tribu excelsa dos Romãos pintores.<br>
-Deram-lhe o grau supremo ardua sciencia<br>
-Das attitudes, d’expressão, verdade,<br>
-De audaz composição, nobre elegancia,<br>
-O correcto desenho, e puro, e grave,<br>
-E quanto inspira Apollo ás almas grandes,<br>
-Em extasi sublime altas ideias.<span class="pagenum" id="Page_18">[Pg 18]</span><br>
-É filho seu (que mais sobeja glória!)<br>
-Raphael, o divino, o mestre, o numen<br>
-Da moderna pintura, eterno brilho,<br>
-Que os Apelles offusca, e Roma, e Grecia;<br>
-Que, as barreiras transpondo á natureza,<br>
-Olhou de face a face a divindade,<br>
-E as glórias do Thabôr fez ver ao Tybre,<br>
-E aos d’arte amantes desejar com Pedro<br>
-Junto ao prodigio habitação ditosa.<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a><br>
-<br>
-Julio o mestre imitou, foi digno d’elle:<br>
-Forte, ardida expressão lhe anima os traços,<br>
-Que ás proficuas lições dão glória e lustre.<br>
-<br>
-Em cêrca aos muros da gentil Parthénope,<br>
-Onde aprimora a natureza os mimos,<br>
-E a voz do creador soou mais bella,<br>
-Onde, entre montes de sulphureas cinzas,<br>
-Umas sobre outras, as cidades jazem,<br>
-E a rôdo os d’atro fogo horridos rios<br>
-A poeticas ficções dão ser terrivel;<br>
-Alli, silencio eterno ergueu severo<br>
-Religiosa mansão; firmou-lhe as bases<span class="pagenum" id="Page_19">[Pg 19]</span><br>
-Austera, descarnada penitencia.<br>
-Sobre as azas do ingenho, á voz d’um numen,<br>
-Vigoroso, expressivo Spanholeto,<br>
-Lá foste, e a assomos do pincel terrivel<br>
-Em longas vestes surgem, pulam, vivem<br>
-Fatidicos anciãos; ás portas velam<br>
-Da estancia outr’ora silenciosa, e sancta.<br>
-E quando atroz, hypocrita veneno,<br>
-Lavrando a furto sob o sacco, e cinza,<br>
-Os muros profanou, que ergueu virtude,<br>
-Inda no mesto panno afflictos suam;<br>
-E a gloria do pintor fulge entre o crime.<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a><br>
-<br>
-Fostes, como elle, heroes da arte divina,<br>
-Polidoro gentil, vivaz Fattore,<br>
-Saliente Caravaggio, que exprimiste,<br>
-Senão bella, fiel a natureza.<br>
-<br>
-Nobre, altivo Cortona, quanto vivem<br>
-Scenas famosas da nascente Roma!<br>
-Nas mães trementes, pallidas filhinhas,<br>
-Ve como a mesma dôr redobra encantos!<span class="pagenum" id="Page_20">[Pg 20]</span><br>
-E o fero aspeito dos Quirinos Martes,<br>
-Onde a furto da glória amor scintilla!<br>
-Ah! proximo o prazer vai dar ao mundo<br>
-Prodigios de valor, extremos d’honra,<br>
-Prole Romana... Eis o universo em ferros.<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a><br>
-<br>
-Amavel, terno Sacchi, a ti surriram<br>
-Do mago cinto de Erycina as graças;<br>
-Meigos, suaves dons te esparzem n’alma,<br>
-Que nos quadros gentis reflectem doces.<br>
-Belligero Cerquozzi avulta aos olhos<br>
-Brandir no panno, lampejar mil ferros,<br>
-E aos roucos sons da sanguinosa guerra,<br>
-Entre as phalanges baralhadas rôtas,<br>
-Entre abysmos d’horror alçar-se a morte.<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a><br>
-<br>
-Quam magos fulgem divinaes, sublimes,<br>
-Maratti encantador, facil Giordano,<br>
-Mimoso Dolce, e vós, que á nova Roma<br>
-Ingenhos tantos, insondaveis, grandes,<br>
-Por guerreiros tropheos, suberbos róstros,<br>
-Triumphos cem do ovante Capitolio,<span class="pagenum" id="Page_21">[Pg 21]</span><br>
-Dais, se menos viril, menos heroico,<br>
-Ornamento gentil, belleza, encantos.<br>
-<br>
-Ja de acurvados reis não brilha o fasto<br>
-Da escravidão contentes; não se antolha<br>
-Em cada senador um nume, um Jove.<br>
-Ja nas praças, nos templos não campeiam<br>
-Os despojos do mundo; o Circo, o Fóro,<br>
-Prodigios d’arte, da opulencia, e luxo,<br>
-Da barbara ignorancia ás mãos cederam.<br>
-Cheio de Livio o viajante absorto<br>
-Não ve do Capitolio a frente erguida<br>
-Torreada avultar com ferros cento,<br>
-Não ve povo d’heroes girar-lhe entôrno;<br>
-Da inesp’rada mudança pasma, e geme,<br>
-E no centro de Roma a Roma busca.<br>
-Porem, se amiga mão lhe guia os passos,<br>
-Se o Vaticano e mil prodigios nota,<br>
-Que do antigo explendor moderam fama;<br>
-Então Roma conhece, então venera<br>
-Nobres resquicios de gloriosos évos.<br>
-<br>
-Taes da moderna Roma os filhos iam<br>
-Por travesso menino conduzidos;<br>
-E d’altiva belleza ornada a frente,<span class="pagenum" id="Page_22">[Pg 22]</span><br>
-A magestosa, Florentina eschola<br>
-De perto os segue: no atrevido ensejo<br>
-Parece disputar-lhe o grau supremo.<br>
-Co’a sublime expressão, desenho ardido,<br>
-Gigantesca maneira, audaz, mas bella,<br>
-Se antolha ennobrecer a natureza.<br>
-Brandas graças d’amor, ternura, encantos<br>
-Feroz desdenha; só lhe avulta á mente<br>
-O nobre, a pompa da ideal grandeza.<br>
-<br>
-Não foi sobre o Synai mais formidavel,<br>
-Que d’Angelo entre as mãos, Moysés terrivel;<br>
-Nem lá no extremo, derradeiro dia<br>
-Julgamento final será mais horrido.<br>
-C’o deus, que o peito vos perturba, anceia,<br>
-Mais pavorosas não rugís, Sibylas.<br>
-Da mão nervosa cada traço é raio,<br>
-Que espanta os olhos, que deslumbra a mente;<br>
-Que enxofrado clarão, medonhas larvas<br>
-Em todo o horror do Averno ostenta horrivel;<br>
-Que, se um deus pinta, é do castigo o numen,<br>
-Que em longa geração pune um só crime,<br>
-O deus, que no deserto, entre os relampagos,<br>
-Entre o rouco estampido das trombetas,<br>
-Pela voz do trovão legisla ao mundo.<span class="pagenum" id="Page_23">[Pg 23]</span><br>
-Eis, desdobrando hydraulicos segredos,<br>
-E as mechanicas leis com sabia dextra<br>
-Movendo a seu sabor, á glória sua,<br>
-Vinci tam caro aos reis, de o ser tam digno,<br>
-Seu correcto, purissimo desenho,<br>
-Engenhoso compor o eleva aos astros,<br>
-Aos astros, onde fôra em vôo ardido<br>
-Os pinceis escolher, buscar as tintas,<br>
-Com que d’ultima ceia debuxára<br>
-Amor, transportes, mysteriosas scenas.<br>
-Ah! gire o teu prodigio o mundo inteiro;<br>
-E de grado a razão cede ao mysterio.<br>
-<br>
-Côres roubando á natureza, e mimos,<br>
-Bello como ella, o inimitavel Porta<br>
-Ao gelado silencio de ermo claustro<br>
-Chamou das nove irmans o chôro arguto.<br>
-Urbino o conheceu; e o sceptro augusto<br>
-Curvou ante elle; e, confundindo os raios,<br>
-Os dous d’alma pintura astros brilhantes,<br>
-Sem negro eclypse, scintillaram juntos.<br>
-<br>
-Vens, ó Sarto, apoz elle, ameno, e brando;<br>
-Vens, Peruzzi gentil, fertil Pantorma,<br>
-Que ao nobre assômo do pincel nervoso,<span class="pagenum" id="Page_24">[Pg 24]</span><br>
-C’o doce encanto das mimosas tintas<br>
-Fizeste a Raphael, a Buonarrotti<br>
-D’arte a coroa estremecer na frente.<br>
-Sec’los famosos d’Alexandre, e Augusto<br>
-Na Italia renovou macio Allori;<br>
-E as meigas cores do pincel Lombardo<br>
-Quasi Ciogli usurpára ao grão Corregio.<br>
-<br>
-Ah! veda a musa, e pequenez do ingenho<br>
-Seguir-vos todos, divinaes pintores:<br>
-Segura a fama vossa alteia a frente,<br>
-E o vate ao longe vos contempla os vôos.<br>
-<br>
-Gentil Bolonha, que na Europa barbara<br>
-O faxo das sciencias accendeste,<br>
-Que o Gothico stupor tiraste ás artes,<br>
-E as cinzas da virtude apesinhadas<br>
-Por sanctos crimes de sagrados monstros<br>
-C’um Benedicto consolaste em Roma,<br>
-Eis vem dignos de ti, teus sabios filhos,<br>
-Numerosa familia, antiga e nobre,<br>
-Que o mel das graças delibando férvida<br>
-Em quantas flores produzíra Apollo,<br>
-Nobre desenho modelou no antigo,<br>
-Á natura usurpou vivaz belleza,<span class="pagenum" id="Page_25">[Pg 25]</span><br>
-E o mago, o puro dos gentis contornos,<br>
-A verdade, a expressão, o rico d’ordem,<br>
-E o colorido inimitavel, bello,<br>
-Que emparelha com a arte a natureza.<br>
-<br>
-Assim brilhou divino o gran Corregio,<br>
-Assim Francia gentil, assim Mantegna,<br>
-E Bolognese vigoroso, e forte;<br>
-E tu, que o terno amor, e seus encantos,<br>
-Simplices graças da natura virgem,<br>
-Da innocencia infantil o mimo, os jogos,<br>
-As singelas beldades exprimiste<br>
-No mavioso pincel, mavioso Albano.<br>
-Nem deslembre de Guido a fertil mente,<br>
-Talento universal, vago, mas bello...<br>
-<br>
-C’a expressão de Zampieri ordem, nobreza,<br>
-Ve d’Agnese gentil a ardua constancia<br>
-Como os p’rigos desdenha, e ve risonha<br>
-Ja do ferro do algoz pender-lhe a morte.<br>
-Ferino aspeito dos ministros barbaros,<br>
-Da augusta religião viril triumpho<br>
-Aos engolfados olhos se apresenta,<br>
-E, arrebatando o esp’rito a deus, ao vate,<br>
-Um prodigio a prodigios amontoa.<span class="pagenum" id="Page_26">[Pg 26]</span><br>
-Ve Guerccino tambem, que ora nervoso,<br>
-Ora sombrio, e fero, e terno outr’ora,<br>
-Mas sempre encantador, em cada rasgo<br>
-C’um portento de mais a arte enriquece.<br>
-Qual vira a Palestina o pae dos crentes<a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a><br>
-De fe, de submissão dar nobre exemplo;<br>
-Tal vive no pincel, tal inda avulta<br>
-Co’as veneraveis cans, e honrado aspeito.<br>
-Misero velho! desgraçado infante!<br>
-Que! tu mesmo, infeliz! co’a mão paterna<br>
-Hasde cortar-lhe o fio á tenra vida,<br>
-Unica esp’rança de cançados annos,<br>
-De mui doces promessas? Como... ai triste!<br>
-Oh! como voltará sem elle á tenda?<br>
-Com que olhos fitará maternos olhos?<br>
-Com que voz lhe dirá?... Mas parte: e a dextra<br>
-Ja, ja quasi... Suspende: um deus o ordena;<br>
-Um deus é pae tambem: suspende o crime:<br>
-São leis da natureza as leis divinas;<br>
-Em premio da tua fe recebe o filho.<br>
-<br>
-Ah! se ao nome Lombardo é pouco tanto;<br>
-Eis triplice ornamento á patria, ao mundo,<span class="pagenum" id="Page_27">[Pg 27]</span><br>
-Doutos Caraccis, que o divino ingenho,<br>
-Ou co’a dextra gentil ornando a Italia,<br>
-Ou dando á juventude almos preceitos<br>
-Da arte formosa, perpetuando-a aos évos,<br>
-Nova, estremada lhe augmentáram glória.<br>
-</p>
-
-<div class="footnotes">
-<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> A transfiguração de Raphael.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> Quadros dos prophetas por Spanholeto, na Cartucha
-de Napoles.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> O roubo das Sabinas por Cortona.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[4]</a> Pintor de batalhas.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[5]</a> O sacrificio de Isach, quadro famoso de Guerccino.</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<p class="center p2">FIM DO CANTO SEGUNDO</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_28">[Pg 28]</span></p>
-<h3 class="nobreak" id="CANTO_TERCEIRO">CANTO TERCEIRO</h3>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-Musa, deixemos a mansão terrestre,<br>
-Sobre o infido elemento estende os vôos.<br>
-Eis sobre as ondas c’o pincel divino<br>
-Maga pintura, legislando ás vagas,<br>
-Enfreia as iras de Neptuno indomito.<br>
-Ve d’Adria o gôlpho tempestuoso, e fero<br>
-Á voz da liberdade agrilhoado.<br>
-Surge do seio das domadas aguas<br>
-A cidade gentil: pasmou de ve-la,<br>
-E corou de vergonha a natureza.<br>
-E a mão do creador, ao ver confusos,<br>
-Baralhados antigos elementos,<br>
-Se ao homem, que os trocou, não dera a vida,<br>
-Quasi, quasi um rival temêra nelle.<br>
-Alli, fugindo aos clamorosos brados,<span class="pagenum" id="Page_30">[Pg 30]</span><br>
-Ao jugo, á servidão da tyrannia,<br>
-Homens, poucos, mas homens, começaram<br>
-Com ância a defender sacros direitos.<br>
-Emporio foi depois do rico Oriente,<br>
-E do alado leão tremeu gran tempo<br>
-O atrevido colosso Mussulmano.<br>
-Hoje (ideias de dor, lembrança amarga!)<br>
-Da poppa olhando o navegante ao longe:<br>
-«Veneza aquella foi»—exclama, e geme;<br>
-E segue a esteira das cortadas ondas.<br>
-<br>
-Veneza foi: compridas, longas eras<br>
-Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios;<br>
-E as dadivosas musas lhe outorgaram<br>
-Egregios filhos, que o talento, as vidas<br>
-Á formosa sciencia consagraram;<br>
-Que imitando fieis a natureza,<br>
-Olhos seduzem, e deleitam alma,<br>
-Que nos toques graciosos, na belleza<br>
-Da gentil invenção, doce magia<br>
-Do claro-escuro, rico invento d’arte,<br>
-Aos mais sabios pinceis não cedem nada.<br>
-<br>
-Deusa, acode á avidez, que o vate enleia,<br>
-Fere nas cordas da estremada lyra<span class="pagenum" id="Page_31">[Pg 31]</span><br>
-Dos famosos varões o nome e os dotes:<br>
-Dize a Ticiano, dize quaes natura<br>
-Lhe entornou dadivosa encantos simples,<br>
-Que, ou arte ignoram, ou subtis a escondem;<br>
-Ja d’humanas feições transsumpto exacto,<br>
-Ja co’as nativas côres exprimindo<br>
-No ingenhoso pincel tudo o que existe.<br>
-<br>
-Adriades gentís, oh! vinde, as frentes<br>
-Coroadas de dor, na campa avara<br>
-Humido pranto derramar saudoso!<br>
-Ai do triste mancebo! o fado iniquo,<br>
-Só por chora-lo, o concedêra ao mundo!<br>
-Oh! com quanta expressão, nobre altiveza<br>
-Castel-franco brilhou, fulgiu mais que homem!<br>
-E tam breve lhe deu a sorte a vida!<br>
-E no fuso cruel a Parca dura<br>
-Um fio tam gentil fiou tam curto!<br>
-<br>
-Oh! suspendei as lagrimas formosas:<br>
-Longa carreira os ceos marcaram próvidos<br>
-Aos dous Bellinis, venerandos chefes<br>
-Da nomeada eschola; á glória vossa<br>
-Vivem padrões eternos; Piombo illustre,<br>
-Que a fama ousou balancear d’Urbino;<span class="pagenum" id="Page_32">[Pg 32]</span><br>
-Pordenone inventor, de quem Ticiano<br>
-Temeu roubadas as divinas côres;<br>
-Completo Palma, a quem mostrou natura<br>
-Sempre formoso o variado aspeito;<br>
-Animado Bassano verdadeiro;<br>
-Fertil, e vivo Tintoreto rapido;<br>
-E tu, Paulo gentil, delicias, mimo<br>
-Dos voluptuosos olhos da donzella;<br>
-(Mui grato enlêvo do insoffrido amante)<br>
-Qual Verona folgou com seu Catullo,<br>
-Tal comtigo: mil graças, mil encantos<br>
-Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera<br>
-Nua de pompas vans, a natureza:<br>
-Seu renome inda vive; e o teu com elle,<br>
-Emque lhe péze á inveja, e seus furores,<br>
-Hade eterno brilhar. Assim raivosas,<br>
-Frustradas gralhas invejosas grasnam<br>
-Á ave olympia de Jove; e entanto os vôos<br>
-Ella ao sol remontando, as mofa, e burla.<br>
-<br>
-Porem mais longe da rinhosa Hesperia<br>
-Voltemos a attenção: ve como em Flandres,<br>
-Scena outr’ora infeliz da glória Franca,<br>
-Da Cypria deusa demandando a estancia<br>
-Vai turba immensa dos rivaes d’Italia.<span class="pagenum" id="Page_33">[Pg 33]</span><br>
-As graças naturaes, singellas, puras<br>
-Á porfia a accompanham: não se enfeita<br>
-Por suas mãos a simples natureza:<br>
-Em loução desalinho bella, e nua<br>
-Mimos lhe outorga, que ella só conhece,<br>
-Que a vós é dado só, magos pintores,<br>
-Com arte ignota do universo ao resto<br>
-No pincel exprimir fiel, divino.<br>
-Prodigios fallem de Van-Eick famoso,<br>
-Do correcto, vivaz, firme Duréro;<br>
-Dize-o por todos; se inda alguem no mundo<br>
-Ignora tanto, que te ignore os dotes;<br>
-Fertil, brilhante, verdadeiro Rubens.<br>
-Rubens! Oh nome! Ó filhas de Memoria,<br>
-Vós, que no Pindo entre o verdor mimoso<br>
-Lhe bafejastes divinal espirito,<br>
-Quando, librado sobre as azas d’ouro<br>
-De sublime, elevada allegoria,<br>
-Viu, pintou... Ah! fez mais: creou, deu vida<br>
-A chymericos entes, vãos, mas bellos,<br>
-Que o vivo imaginar lhe debuxara.<br>
-Quam doce, e meiga a enternecida Venus<br>
-Com suspiros, com ais, com ternos bejos<br>
-Tenta a furia applacar, retter nos braços<br>
-Gradivo impaciente! Olha do monstro<span class="pagenum" id="Page_34">[Pg 34]</span><br>
-O torvo gesto, o faxo sanguinoso...<br>
-Ella!... a guerra cruel! a horrivel frente<br>
-Co’a máscara da glória esconde ao numen,<br>
-E o veneno lethal lhe infunde n’alma.<br>
-Lá baqueia de Jano o templo augusto;<br>
-As artes, as sciencias calca o monstro;<br>
-E a d’auradas espigas, rubros pomos<br>
-Gentil coroa á agricultura arranca.<br>
-Ternura, horror, assolação, belleza<br>
-Com portentosa mão juntaste, ó Rubens.<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a><br>
-<br>
-Quam bello é na expressão Vaén correcto!<br>
-Hólbein sublime, vigoroso, nobre!<br>
-Van-Rin saliente, harmonioso, e doce!<br>
-Quam firme é Wanderwérff singello, e puro!<br>
-E tu, mimoso Van-Dernér, que em Gnido<br>
-Bebeste as graças, possuiste os risos.<br>
-<br>
-Ah! ja cançada se me affrouxa a lyra:<br>
-Rouca, e sem voz mal associa ás cordas<br>
-Difficeis nomes de estremados mestres.<br>
-Um por tantos direi; e o nome illustre<br>
-Te baste, ó Flandria, a coroar-te a gloria:<span class="pagenum" id="Page_35">[Pg 35]</span><br>
-O bello, o simples, verdadeiro, e grande,<br>
-Do mestre a obra maior, Vandick insigne.<br>
-<br>
-Mas, qual ruido, que tumulto, ó musas,<br>
-Do Pindo a sacra paz impio disturba?<br>
-Quanto vivem!... Que heroes da patria raios!<br>
-Armas! guerra! o furor! o sangue! a morte!<br>
-Destrôço! horror! assolações! ruinas!<br>
-Eis dos Alpes franqueado o gêlo eterno;<br>
-Nada resiste: c’o rugido extremo<br>
-Baqueia exangue de Pyrene a fera.<br>
-Co’a Europeia ruina Africa nuta,<br>
-Asia treme; e nas praias de Colombo<br>
-A fugitiva liberdade apporta.<br>
-A longes terras se accolheu Minerva,<br>
-Sem rumo as artes desgrenhadas fogem,<br>
-A Roma de Catão, d’Augusto a Roma<br>
-Não é de Pio a effeminada côrte;<br>
-E em vez d’um Fabio tardador, d’um Quincio,<br>
-D’um Bruto, um Manlio; prostituta prole<br>
-No deshonrado Capitolio avulta.<br>
-<br>
-Quem, bellezas d’Italia, hade amparar-vos?<br>
-Quem!... Animos cobrai; volvei sem medo<br>
-Artes, sciencias: já no Sena ovante<span class="pagenum" id="Page_36">[Pg 36]</span><br>
-O proprio vencedor no seio amigo<br>
-Vos accolhe, e accarinha, e no alto alcaçar<br>
-Augusto solio perenal vos ergue.<br>
-No Sena ovante (oh do porvir assombro!)<br>
-Em quanto os filhos seus, terror do mundo,<br>
-Raios desferem, que o universo atterram;<br>
-Renasce mais gentil, vive mais fúlgido<br>
-O sec’lo de Luiz; succede á velha,<br>
-Á pedante Sorbona, almo Instituto.<br>
-Eis novos Raphaeis, arte divina!<br>
-<br>
-Não lamentes Poussin, Gallia ditosa,<br>
-De Mignard, e Blanchard divinas côres,<br>
-De Lebrun a expressão, fieis costumes,<br>
-Paizagens de Lorrain, maga ternura<br>
-Do voluptuoso, encantador Santerre,<br>
-Grandioso stylo do vivaz Subleyras:<br>
-Teus modernos heroes excedem tudo;<br>
-E ao seio da opulencia amamentados,<br>
-Á voz da glória redobrando exforços,<br>
-Talvez irão com denodado arrôjo<br>
-Do solio d’arte derribar a Italia.<br>
-<br>
-Se, entre barbaras mãos gemendo outr’ora,<br>
-Devêste a Belisario a vida, ó Roma;<span class="pagenum" id="Page_37">[Pg 37]</span><br>
-Se das furias crueis d’horrida guerra<br>
-O juramento te isentou d’Horacios;<br>
-Se quanto foste em gloriosas quadras<br>
-A um necessario roubo, á paz, que o segue,<br>
-Ao ferro audaz de Romulo devêste;<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a><br>
-Treme d’elles agora, treme, ó Roma;<br>
-Que no heroico pincel David illustre<br>
-As cinzas lhe animou; marcham por elle<br>
-Tua fama a conquistar, roubar teus louros:<br>
-De Urbino, e Buonarrotti o throno prostram;<br>
-Eis campeia David!—Não longe d’elle<br>
-O terno Girodet, suave, e brando,<br>
-Que, do Meschacebeu vingando as margens,<br>
-C’o vate insigne emparelhou nos vôos,<br>
-E na pasmada Europa ergueu d’Americo<br>
-As pomposas florestas, e a nobreza,<br>
-Ornamento feroz d’um mundo virgem:<br>
-Que os encantos d’amor, e os seus furores,<br>
-O podêr da virtude, e os seus exforços<br>
-Dignos d’elle exprimiu, e fez de novo<br>
-Olhos sensiveis afogar em pranto.<br>
-<br>
-Eis á voz de Gérard das campas rompem<span class="pagenum" id="Page_38">[Pg 38]</span><br>
-Extinctas gerações: Saturno as azas<br>
-Indignado encolheu, e a prêsa antiga<br>
-Viu roubar-lh’a o pincel, quebrar-lhe os éllos<br>
-Da impreterivel, perenal cadeia.<br>
-</p>
-<hr class="tb"><p class="poetry">
-Ruge fremente o mar, bramindo, e ronca<br>
-Nas oucas rocas, nas quebradas fragas<br>
-Do tormentorio mar... Lá se ergue ingente,<br>
-E immenso troa o colossal gigante.<br>
-Treme d’entôrno o mar, e a terra, e o mundo;<br>
-E a voz, que os polos com fragor desloca,<br>
-Pela primeira vez á gente Lusa<br>
-Pallida imprime a sensação do medo.<br>
-Só impavido, um só, Vasco lhe arrosta:<br>
-Pasma a ousadia d’um mortal a um nume.<br>
-</p>
-<hr class="tb"><p class="poetry">
-Oh lagrimas d’Ignez, sangue innocente,<br>
-Correi, correi do milagroso panno;<br>
-E em lagrimas de sangue o applauso eterno<br>
-Aos vates recebei, aos vates ambos.<br>
-Oh Gérard! oh Camões! qual mão divina<br>
-Vos uniu, vos juntou? Oh! folga, ó patria!<span class="pagenum" id="Page_39">[Pg 39]</span><br>
-E tu, Sousa immortal, grata homenagem<br>
-Recebe eterna da mui grata Elysia.<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a><br>
-<br>
-Ve nas mãos de Guérin qual geme e anceia<br>
-Pincel, que hervou na dor, que embebe em pranto,<br>
-Que incestos, crimes (de Trezena horrores)<br>
-C’o Euripides Francez disputa ainda.<br>
-Quem de pavor, de compaixão não gela<br>
-Ao ver nas murchas, esmyrradas faces<br>
-Da bella ainda, miseranda Phedra<br>
-Surgir do panno, que as conter mal póde,<br>
-D’um criminoso amor, violencia, e fogo?<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a><br>
-<br>
-Guerreira a mente de Vernet fulmina<br>
-Os raios de Mavorte, o horror das armas;<br>
-E sobre os quadros de Le-Gros famoso<br>
-Os manes folgam de Rollin, Voltaire.<br>
-<br>
-Mas tanta glória inda não basta, ó Francos,<br>
-Para o completo, universal triumpho:<br>
-Que no Ibero pincel inda refulge<br>
-O nome de Ribera, o de Murillo,<span class="pagenum" id="Page_40">[Pg 40]</span><br>
-E duvida d’Albion mosqueada fera,<br>
-Vaidosa d’West, conceder-te a palma;<br>
-Inda lhes guardam justiçosas musas<br>
-No bifido Parnaso um grau distincto.<br>
-<br>
-Assim quando no ceu, callada a noute,<br>
-Candida brilha sup’rior Diana,<br>
-Se com menos fulgor, astros com tudo,<br>
-Gentis avultam nitidas estrellas.<br>
-</p>
-
-<div class="footnotes">
-<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[6]</a> Quadro allegorico da guerra por R.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[7]</a> Quadros celebres de David.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[8]</a> Celebres pinturas de Gérard na edição dos Lusiadas
-pelo Sr. José Maria de Sousa.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[9]</a> Pinturas de Guérin tiradas de Racine.</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<p class="center p2">FIM DO CANTO TERCEIRO</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_41">[Pg 41]</span></p>
-<h3 class="nobreak" id="CANTO_QUARTO">CANTO QUARTO</h3>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-Eia! colhamos as cançadas vélas,<br>
-Musa: o filhinho da amorosa Venus<br>
-Ja pelos ares liquidos se entranha,<br>
-E ledo corre co’as donosas tribus<br>
-Dos illustres rivaes da natureza.<br>
-Da Europa toda ja voaram férvidos<br>
-Da voz ennamorada ao som fagueiro,<br>
-Só Lysia falta... A minha Lysia, ó Venus!<br>
-A patria dos heroes, a mãe dos vates,<br>
-A patria de Camões, do teu Filinto!<br>
-Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes<br>
-Sempre em teu nome resoou na lyra!<br>
-Onde a teu culto, mais que em Roma, ou Grecia,<br>
-Em cada coração se eleva um templo!<br>
-Lysia, de Venus esqueceram filhos!<span class="pagenum" id="Page_42">[Pg 42]</span><br>
-Ah! volve os olhos immortaes, divinos,<br>
-Aos seculos remotos; ve no Tejo<br>
-Como entre as sombras da ignorancia Gothica<br>
-Brilham nas trevas Lusitanas tintas;<br>
-Ve do gran Manoel na épocha d’ouro<br>
-Sobre as bellas irmans como se eleva<br>
-A divinal pintura; ve mais perto,<br>
-Em quanto geme c’o ferrenho jugo<br>
-A flor, a augusta das nações princeza,<br>
-Erguer das ruinas sobranceira a frente;<br>
-E alfim nas quadras que marcara o fado<br>
-Ao brio Lusitano extremo exforço;<br>
-Calcando a juba de Leões gryfanhos,<br>
-Parando ás Aguias remontados voos,<br>
-Como á porfia sobre o Tejo e Douro<br>
-Apelles mil e mil revivem, fulgem;<br>
-Brilha o Luso pincel... Ah! se aura amiga<br>
-Continúa a soprar... Não; ferrea pésa<br>
-A mão do despotismo, opprime, esmaga,<br>
-Destroe renovos das mimosas artes.<br>
-<br>
-Mas qual ouço confuso borborinho!<br>
-E sois vós! Ah! perdoa, alma Erycina:<br>
-O teu povo fiel tu bem conheces;<br>
-Nem chama-lo cumpria: é-lhe sagrada,<span class="pagenum" id="Page_43">[Pg 43]</span><br>
-Inviolavel lei um teu desejo.<br>
-Ei-lo corre: que luz, que ethereo brilho<br>
-De louro e rosas lhe engrinalda as frentes!<br>
-<br>
-Olha entre a nevoa de allongados évos,<br>
-De atroz barbaridade embrutecidos,<br>
-Como Alvaro rebrilha, um Nuno, um Annes,<br>
-E do energico Vasco a fertil mente;<br>
-E Duarte, e Gomes tam famosos ambos,<br>
-Tam caros ao gran rei, Manoel ditoso.<br>
-Ve do illustre Resende a mão facunda,<br>
-Trocando a penna, que mandara aos évos<br>
-Os feitos dignos de perenne historia,<br>
-Pelo arguto pincel; o sabio Carlos,<br>
-Que ao divino Correggio usurpa as cores;<br>
-Dias, que á patria transportara ovante<br>
-O mel, e as graças dos famosos mestres;<br>
-Harmonioso Christovão, claro Sanches,<br>
-Que os monarchas d’Europa inteira vira<br>
-D’honras, de bens, accumulá-lo anciosos.<br>
-<br>
-Eis sobre as azas de elevado arrojo<br>
-Vinga altivo Campello o cume erguido<br>
-Dos montes de Judá. La surge, e avulta<br>
-No mysterioso panno um deus, um homem.<span class="pagenum" id="Page_44">[Pg 44]</span><br>
-Pasmou a natureza ao ver confusos<br>
-No seio maternal o pae e o filho.<br>
-Mago pintor lhe renovou prodigios;<br>
-E aos tormentos d’um deus tremeu de novo<br>
-A longa serie dos criados mundos.<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a><br>
-Sensiveis corações, vinde espelhar-vos<br>
-Nos ternos quadros, que sagrou virtude;<br>
-Vinde á sombra do vate, ao seio augusto<br>
-Da sancta religião, da mãe caroavel<br>
-De humanas afflições verter o pranto:<br>
-Vinde; e entre a dor vos surgirão prazeres,<br>
-Prazeres do Christão, doçuras d’alma.<br>
-Quanta glória Fernando ao sabio mestre,<br>
-Quantos louros grangeou! Lopes sublime<br>
-Juntou d’Urbino aos expressivos rasgos<br>
-A ardideza gentil d’Angelo altivo.<br>
-Vasques douto, e regrado os traços mede<br>
-No exacto petipé da natureza.<br>
-E tu, Leonor, d’entre a nobreza e fasto,<br>
-Origens sempre de brutal inercia,<br>
-Soubeste ás artes levantar o espirito.<br>
-<br>
-Qual do Luso pincel nos fastos vive.<span class="pagenum" id="Page_45">[Pg 45]</span><br>
-Hollanda creador! Deusas do Pindo,<br>
-Eis novo esmêro vosso, invento novo!<br>
-Vastos arcanos da pintura se abrem,<br>
-Accumulam-se a rodo almos tesouros;<br>
-Graças lhe admira o árbitro da Europa,<br>
-E na boca dos reis louvores fulgem.<br>
-Hollanda venturoso! Ah! de tuas ditas<br>
-Taes as menores são: mais déste ás musas,<br>
-Mais a ti, ao teu nome, á patria, ao mundo<br>
-No filho, o grande filho, a glória nossa,<br>
-Mimo ao patrio pincel do numen louro.<br>
-<br>
-Cedendo á voz d’um deus, que o chama a nome,<br>
-O Cicero Africano erros abjura;<br>
-Sancto prelado o omnipotente invoca,<br>
-E d’agua exulta candido Agustinho.<br>
-Portento d’expressão, viva faisca<br>
-Do lume eterno, que lhe ardeu na mente.<br>
-Vate!... Ah! não vate: um anjo, um deus te guia,<br>
-Move o arguto pincel na sabia dextra.<br>
-Do Olympo eis surge a magestade, a pompa;<br>
-Olha d’Ambrosio o venerando aspeito,<br>
-Os olhos, onde em goso alma trasborda,<br>
-D’Agustinho a humildade, e o gesto vívido,<br>
-Onde a força transluz d’activa mente,<span class="pagenum" id="Page_46">[Pg 46]</span><br>
-Da eloquencia viríl, saber profundo.<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a><br>
-<br>
-Pereira natural, severo e forte<br>
-O terrivel pincel por entre ruinas,<br>
-Entre chammas e horror meneia ardido.<br>
-De novo a cinzas reduzida Troia<br>
-Por elle foi; por elle Pyrro ingente<br>
-C’o faxo assolador vagou por Illion.<br>
-Antolha ouvir-se em pavidos lamentos<br>
-O confuso ulular da mãe, que espira,<br>
-E no extremo bocejo aperta os filhos,<br>
-Do pae tremente, que a rugosa face<br>
-Entre o seio da filha esconde, e geme,<br>
-E quizera morrer no doce amplexo.<br>
-O crepitar das estridentes chammas,<br>
-O baquear dos templos, dos palacios,<br>
-E quantas vozes de terror, d’espanto,<br>
-Quantas scenas d’horror cantaram vates<br>
-Nas Gregas cordas, Mantuana lyra.<a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a><br>
-<br>
-Elementos, cedei-lhe ao mago encanto<br>
-Das vozes do pincel! Stridentes rompem<span class="pagenum" id="Page_47">[Pg 47]</span><br>
-Com ruidoso estampido as cataratas;<br>
-Confunde a natureza a essencia, os termos,<br>
-Na face do universo impera a morte,<br>
-Mysterioso baixel ao longe avulta;<br>
-E de novo o castigo formidavel<br>
-Os olhos da razão cega d’espanto.<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a><br>
-<br>
-Olha como apoz elle vem seguindo<br>
-Valle expressivo, delicado e grande,<br>
-Nobre Gonçalves, entendido e ornado,<br>
-Rebello audaz, o Buonarrotti Luso,<br>
-E as do patrio pincel divinas Saphos,<br>
-Ayalla, e Guadalupe, e Ritte, e Browne,<br>
-E Luiza gentil, que os sabios tempos<br>
-Ao Porto renovou da Grega Aspasia.<br>
-<br>
-Fastoso monumento d’alta Iberia,<br>
-Voragem, golphão, que absorveste os rios<br>
-Do precioso metal, que a ti correram<br>
-Do Chily, e Potozi, das Indias duas,<br>
-Soberbo Escurial, onde se aninham,<br>
-Sob apparente sacco o vicio, o crime,<br>
-Tu de Claudio por mim celebra o nome,<span class="pagenum" id="Page_48">[Pg 48]</span><br>
-Do Camões da pintura, a quem deveste<br>
-De teus ornatos o maior, mais bello.<br>
-<br>
-Nem sorva o Lethes de confuso olvido<br>
-Victorino engraçado, André mimoso,<br>
-Verdadeiro Apparicio, simples Barros,<br>
-Vivaz Alexandrino, destro Senna,<br>
-Barreto original, brando Oliveira,<br>
-E tu, Rocha correcto, ameno e vívido,<br>
-Que obscuras scenas da marinha Pathmos,<br>
-E o confuso vêdor nos exprimiste.<br>
-Olhos em alvo, mysteriosos seguem<br>
-Prophetico furor, que o volve e agita.<br>
-Na dextra a penna mal segura fórma<br>
-Nunca entendidas, enredadas notas.<a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a><br>
-<br>
-Terra fertil d’heroes, solo fecundo,<br>
-Salve! Eis novo clarão, eis novos louros<br>
-Sobre a frente gentil pululam, vivem!<br>
-Eis do patrio esplendor eterna gloria,<br>
-Raios de Lysia, que a remotas praias,<br>
-Do magico pincel nas azas d’Iris<br>
-Levaram em triumpho o Tejo e Douro,<span class="pagenum" id="Page_49">[Pg 49]</span><br>
-Dous Vieiras! Não ousa a minha lyra<br>
-Dotes brilhantes numerar nas cordas:<br>
-Assaz por meu silencio o dizem, cantam<br>
-Lysia, Hesperia, Britania, Europa, o mundo.<br>
-<br>
-Dest’arte á voz da meiga Cytherea,<br>
-D’amor guiados, sobre as azas do éstro,<br>
-Rapidos voam num momento, e chegam:<br>
-Pasmam de vêr a face á natureza,<br>
-Tam bella e simples qual na infancia ao mundo;<br>
-Os bosques entram: no matiz do prado<br>
-Vão com delicia apascentando os olhos.<br>
-<br>
-Eis outeiro gentil se eleva á dextra;<br>
-Sobre elle... Assombro quem já viu, que iguale<br>
-Dos illustres varões subito assombro?<br>
-Amor, o mesmo amor parou de espanto,<br>
-De maravilha subita cortado.<br>
-Sobre altas se ergue Doricas columnas<br>
-De fino jaspe cupula suberba.<br>
-Brilha c’o azul do ceo linda saphira<br>
-Nos capiteis, nas bases. Das cornijas<br>
-Scintilla em fogo do carbunculo a chamma.<br>
-Mimos, riquezas de pomposo fausto,<span class="pagenum" id="Page_50">[Pg 50]</span><br>
-Quantas com larga mão semeou profusas<br>
-Nas entranhas da terra a natureza,<br>
-Na vastidão dos mares; tudo aos olhos<br>
-Extasiados se ostenta. Riu do encanto,<br>
-E a causa do prodigio amor conhece:<br>
-Entra; e apoz elle os estremados chefes.<br>
-<br>
-Languidamente o braço repousado<br>
-Nos hombros niveos do formoso Adonis,<br>
-Ei-la ao encontro a deusa da ternura<br>
-Lhes sai, e assim lhes falla: «Ésta, que vêdes,<br>
-Consagrada ao prazer, mansão ditosa,<br>
-Ergueu á minha voz a natureza.<br>
-De per si se puliu, lavrou-se o marmor,<br>
-E se entalharam gemmas. N’um instante<br>
-Meu doce intento completado houvera,<br>
-Se o que vós só podeis, dar-lhe eu pudera.<br>
-Frio, e sem vida não me falla ao peito,<br>
-Não falla ao coração todo esse esmêro.<br>
-Oh! cortai-lhe a mudez, dai-lhe existencia,<br>
-E c’o mago pincel tornai-o á vida.»<br>
-<br>
-Disse: e a divina voz do ouvido aos peitos<br>
-Chammas d’estro, e de ingenho accende aos vates;<br>
-E em breve espaço divinaes assomos<span class="pagenum" id="Page_51">[Pg 51]</span><br>
-D’aqui, d’alli se apinham. Clio alteia<br>
-Com portentosa mão contados feitos;<br>
-Alem da natureza o vôo erguido<br>
-Alça a maga, gentil Alegoria;<br>
-Desalinhada, rustica beldade,<br>
-Singella, e pura a Paizagem doce<br>
-Sem mysterio, sem véo candida ostenta.<br>
-<br>
-Ja vida é tudo; satisfeita a deusa<br>
-Vai alfim completar os seus intentos;<br>
-E c’um meigo surrir, c’um doce agrado,<br>
-Que vale tanto, que enamora tudo,<br>
-Assim lhes falla a carinhosa Venus:<br>
-«Vinde, ó filhos; que um nome tam suave<br>
-Vossos dotes merecem; vinde: e a empresa,<br>
-Que na mente revolvo, effeituai-me.<br>
-Não mando, peço... (Ah! d’uma bella o rogo<br>
-Quanto mais vale, que uma lei d’um nume!)<br>
-Retratai-me, ó pintores.» Nisto a deusa<br>
-O mimoso sendal, ja pouco avaro<br>
-Do thesouro, despiu. Quantas bellezas,<br>
-Que divinos encantos não descobrem,<br>
-Não pesquizam, não vem avidos olhos!<br>
-Sonhos da phantasia, ah! não sois nada!<br>
-Guindado imaginar, ideal belleza,<span class="pagenum" id="Page_52">[Pg 52]</span><br>
-É frouxo o vôo, limitado o arrôjo;<br>
-Não tenteis franquear mysterios tantos.<br>
-<br>
-Cai das mãos o pincel, sem que o percebam,<br>
-Aos pintores na vista embevecidos;<br>
-No Olympo os deuses, ignorando a causa,<br>
-De insolito prazer sentem banhar-se.<br>
-A natureza inteira revolveu-se;<br>
-Sonhada Pythagorica harmonia<br>
-Nas espheras soôu mais branda e doce.<br>
-Aos entes todos pelas veias lavra<br>
-O incentivo do gosto: gemem ternas,<br>
-Que ha pouco uivaram, pelo bosque as feras;<br>
-Arrulharam d’amor meigas pombinhas;<br>
-Correu á esposa o nadador salgado;<br>
-E nos olhos da amante leu ditoso<br>
-O constante amador perdão á culpa;<br>
-Á doce culpa tam querida e bella!<br>
-<br>
-Ah! muitas vezes não descubras, Venus,<br>
-Magos encantos; ou verás que em breve<br>
-Á força de prazer se extingue o mundo.<br>
-<br>
-Ja do extasi accordada um pouco a turba<br>
-Dos vates se prepara ao doce emprego.<span class="pagenum" id="Page_53">[Pg 53]</span><br>
-<br>
-Tintas fornece amor, pinceis as graças;<br>
-E eis no panno avultando a pouco e pouco<br>
-Assomos divinaes!... É ella... é Venus!<br>
-Eis a fórma gentil do corpo airoso<br>
-Salta, deslisa o fundo apavonado;<br>
-Roseos descurvam, se arredondam braços;<br>
-Ondeiam n’alva frente as tranças d’ebano;<br>
-Doce brilham d’amor os olhos meigos,<br>
-Os meigos olhos, que prazer scintillam,<br>
-Que o facho accendem dos desejos soffregos,<br>
-E contra o debil resistir do pejo<br>
-Do atrevido mancebo a audacia imploram.<br>
-Nas lindas faces purpureia a rosa,<br>
-Que insensivel esvai na côr de neve;<br>
-Surri nos labios o delirio, o encanto,<br>
-Que importuna razão tam doce affasta,<br>
-Que ávidos bejos, deliciosos, ternos,<br>
-Annuncios de prazer, mutuam fervidos.<br>
-Despontam no alvo, crystallino collo<br>
-Os arcanos d’amor, que anceiam d’elle,<br>
-Que a furto ousaste, mui ditoso Anchises,<br>
-Nas trevas do prazer palpar ardido;<br>
-Formosos pomos, que ao pastor Idalio<br>
-Pelo tam cubiçado outr’ora déste...<br>
-Déste; que bem o sei: (não te envergonhes)<span class="pagenum" id="Page_54">[Pg 54]</span><br>
-Era pobre o pastor, e os seus thesouros<br>
-Juno lhe franqueou, seus mimos Pallas:<br>
-Sem troca tam gentil tu não vencêras.<br>
-<br>
-Mas quanto voa nas mui sabias dextras<br>
-O divino pincel! Que eburneas fórmas<br>
-Voluptuosas surgir das tintas vejo!<br>
-Que exactas, lindas proporções esbeltas!<br>
-Que norma tam gentil as regra, as mede!<br>
-<br>
-Ja, por milagre de Cyprina, é prompta<br>
-N’um momento a grande obra. Ei-los de novo<br>
-Á vista do retrato absortos, raptos,<br>
-E, novos Pygmaliões, por elle anceiam.<br>
-<br>
-De transportada a deusa ao doce amante<br>
-Nas mãos a entrega; e: «Esta (lhe diz) conserva<br>
-Copia fiel da tua amada Venus.<br>
-Com ella, ausente, ó caro, te consola,<br>
-Quando longe de ti me retiverem<br>
-Crueis deveres, perfidas suspeitas.»<span class="pagenum" id="Page_55">[Pg 55]</span><br>
-Admira o joven a belleza, as graças<br>
-Do mimoso traslado; beja, e rega<br>
-Com lagrimas d’amor qual um, qual outra.<br>
-<br>
-Co’elle, em quanto viveu, sempre abraçado<br>
-As poucas horas, que ficava ausente,<br>
-Mitigava a saudade: e quando a morte<br>
-O mancebo infeliz roubou sem pejo,<br>
-No templo a deusa o collocou de Paphos,<br>
-E longas eras recebeu d’amantes<br>
-Ternas off’rendas, amorosos votos.<br>
-<br>
-Alli, quando natura se empenhára<br>
-Em dar-te ao mundo, carinhosa Annalia,<br>
-Um e um copiou meigos encantos,<br>
-Que, ó minha Venus, te compõe, te adornam.<br>
-Alli, olhos no quadro, os teus formosos<br>
-Estremada rasgou; alli as faces<br>
-De neve, e rosas coloriu divinas;<br>
-Alli risonha boca, onde contino<br>
-Foi aninhar-se amor, te abriu mimosa;<br>
-Alli o collo d’alabastro puro;<br>
-Os lacteos pomos, que devoram bejos<span class="pagenum" id="Page_56">[Pg 56]</span><br>
-Do faminto amador; lisas columnas,<br>
-Que sustentam avaras mil segredos;<br>
-Segredos, que... Perdoa: eis-me calado.<br>
-<br>
-Volve a meus versos, compassiva amante,<br>
-Benignos olhos: para ti voando,<br>
-Da critica mordaz censuras fogem:<br>
-Se accolheres o rude offertamento,<br>
-Serão meus versos, como tu, divinos.<br>
-</p>
-
-<p class="center p2">FIM DO ULTIMO CANTO</p>
-
-<div class="footnotes">
-<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[10]</a> Quadros da paixão de Ch. por Campello.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[11]</a> Quadro do baptismo de S. Agustinho.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[12]</a> Quadro da destruição de Troia.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[13]</a> Quadro do diluvio.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[14]</a> Quadro de S. João, escrevendo o Apocalypse.</p>
-
-</div></div>
-<p><span class="pagenum" id="Page_57">[Pg 57]</span></p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_58">[Pg 58]</span></p>
-<h3 class="nobreak" id="NOTAS">NOTAS</h3>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_59">[Pg 59]</span></p>
-<h4 class="nobreak" id="Notas_ao_canto_primeiro">Notas ao canto primeiro</h4>
-</div>
-
-<hr class="r5">
-<p class="poetry">
-«<i>Alma origem do ser, germe da vida.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-..... Per te quoniam genus omne animantum<br>
-Concipitur, visitque exortum lumina solis;<br>
-......................................<br>
-....... tibi suaves dedala tellus<br>
-Summittit flores.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Lucret.</span> <i>de rer. nat.</i> Lib. I.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Que na ellipse invariavel rotam fixos.</i>»<br>
-</p>
-
-<p class="poetry">Todos sabem, que tal é a orbita, que todos os planetas
-descrevem.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Qual és, qual foste, qual te appura os mimos<br>
-A arte engenhosa.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Artes repertæ sunt, docente natura.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Cic.</span> <i>de leg.</i> Lib. I, 8.</p>
-</div>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_60">[Pg 60]</span></p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Como é dado aos mortaes bellezas tuas.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Platão, fallando da musica, diz: (<i>De republ.</i>) que
-se não deve conceituar pelo prazer, nem preferir
-a que não tem outro objecto, senão o prazer; mas
-a que em si contiver a similhança da <i>bella natureza</i>.
-Esta sentença é perfeitamente applicavel á
-pintura. E tal é d’ha muito a opinião de todos os
-rhetoricos e philologos. (Vid. Aristot., Le Batteux,
-Laharpe, Lemercier, etc.) Não nos enganemos porém
-com esta—<i>natureza bella</i>.—Nem só aquillo
-que tem <i>bellas</i> e lindas fórmas, é <i>bello</i>; e nem
-tudo aquillo, que as tem, o é. Boileau o declara
-manifestamente, e o prova:</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-Il n’est point de serpent, ni de monstre odieux,<br>
-Qui, par l’art imité, ne puisse plaire aux yeux.<br>
-D’un pinceau délicat l’artifice agréable<br>
-Du plus affreux objet fait un objet aimable.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Boileau</span>: <i>Art. Poet.</i> Chant 3.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>A mestra, a sabia antiguidade o diga.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-Quid virtus, et quid sapientia possint<br>
-Utile proposuit nobis exemplar.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Horat</span>. <i>Ep.</i> II, L. I.</p>
-</div>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-......... Fabularum cur sit inventum genus,<br>
-Brevi docebo. Servitus obnoxia... etc.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Phoedr</span>. Lib. III, prolog.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Não: fabula gentil, volve a meus versos.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-......... Et, s’il est vrai, que la fable autrefois<br>
-Sut á tes fiers accents mêler sa douce voix;<span class="pagenum" id="Page_61">[Pg 61]</span><br>
-Si sa main délicate orna ta tête altière;<br>
-Si son ombre embellit les traits de ta lumière,<br>
-Avec moi sur tes pas permets-lui de marcher.<br>
-Pour orner tes attraits, et non pour les cacher.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Voltaire</span>: <i>Henr.</i> Chant I.</p>
-</div>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-Cosia egro fanciul porgiamo aspersi<br>
-Di soave licor gl’orli del vaso, etc.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Tasso</span>: <i>Gerusalem</i> Canto I, stanz. 3.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>....... O Cyprio moço, o Teucro.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Adonis, filho de Cyniras, rei do Chypre (<i>Cyprum</i>)
-Anchises, Troiano etc.</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Achises conjugio Veneris dignate superbo.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Virg.</span> <i>A En.</i> Lib. 2.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Em quanto nas lidadas officinas.M</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-Retumbam nas <i>lidadas officinas</i><br>
-Echos gostosos das nascentes almas,<br>
-Que novos corpos a habitar caminham.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Filint. Elys.</span> <i>Ode a Venus</i> (Tom. 5).</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>C’o estremecido arrulho a dona imitam.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-Presentem ja no <i>estremecido arrulho</i><br>
-Os propinquos prazeres.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Filint. Elys</span>. ibid.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Porque mesquinhas leis nos vedam barbaras<br>
-Tam suave pecar......</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-Si il peccar è si dolce,<br>
-E’l non peccar si necessario; ò troppo<br>
-Imperfetta natura,<br>
-Che repugni ala legge!<span class="pagenum" id="Page_62">[Pg 62]</span><br>
-O troppo dura legge,<br>
-Che la natura offendi!<br>
-</p><p class="center">
-<span class="smcap">Guarini</span>: <i>past fld.</i></p></div>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-Se este crime é tam doce,<br>
-Se tanto fugir delle é necessario;<br>
-Imperfeita parece a natureza,<br>
-Que fraca á lei repugna,<br>
-Ou lei muito severa,<br>
-Que a natureza offende.<br>
-</p><p class="center">
-<i>Traducç. de</i> <span class="smcap">Thom. Joaq. Gonzaga.</span></p></div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>E do amado na dor, sua dor recresce.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-Che l’esempio del dolore<br>
-È un stimolo maggiore,<br>
-Che richiama a sospirar.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Metastaz</span>: <i>Artass.</i> atto I.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Dos antigos errores esquecido.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Errores é usado por Camões no sentido de—<i>longas,
-e desvairadas viagens</i>—; Ferreira porem, e
-outros classicos de igual nota o tomaram na mesma
-accepção, em que aqui se toma.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Com o amante fugir, morrer com elle?</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Uma deusa não póde morrer: me diz ja algum
-critico, muito contente do quinau. Assim é, Sr.
-critico; mas no delirio das paixões quem se lembra
-da sua natureza?—Uma deusa com paixões!—Os
-deuses da mythologia, os numes dos Gregos,
-e Romanos não são o mesmo que o deus do
-philosopho (digno de tal nome) que, satisfeito de<span class="pagenum" id="Page_63">[Pg 63]</span>
-reconhecer a existencia d’um ente supremo, pára,
-onde se lhe acabam as forças, nem prosegue em
-investigações, onde se lhe apaga a luz da fraca
-razão; nem empresta á desconhecida causa das
-causas os habitos, as paixões, a fórma, e toda a
-natureza da fragil e apoucada humanidade. O orgulho
-de se occultar a si proprio a sua fraqueza,
-e de abaixar até á sua mesquinhez a idea de deus,
-por não poder subir até á altura d’ella, nasce da
-nossa vaidade, da nossa ignorancia e da nossa
-miseria. Por isso os theologos desbocadamente
-nos pintam, e nos querem fazer crer em um deus
-vingativo, irado, e capaz em fim de todos os crimes
-e vicios, que elles em sua alma alimentam e
-nos querem vender por virtudes.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>..... Comsigo ao carro o sobe.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Subir é um verbo neutro; mas é este um idiotismo
-bem notavel da nossa lingua, usar de taes verbos
-com força activa, como o fazem os nossos
-classicos a cada passo.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Que lhe spira dos labios, das pupillas.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-Aquelle não sei que,<br>
-Que <i>spira</i> não sei como,<br>
-Que invisivel sahindo, a vista o vê.<br>
-</p><p class="center">
-<span class="smcap">Camões</span>: <i>Ode 6</i>.</p></div>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-<i>Spirem</i> suaves cheiros<br>
-De que se encha este ar todo.<br>
-</p><p class="center">
-<span class="smcap">Ferr.</span> <i>Castr.</i> act.</p></div>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_64">[Pg 64]</span></p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Arde voltar ao suspirado asylo.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-... Jamdudum errumpere nubem<br>
-<i>Ardebant</i>.<br>
-</p><p class="center">
-<span class="smcap">Virgil</span>. <i>AEneid.</i> L. I. v. 580.</p></div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Disenhos volve...........</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Esta palavra mui portugueza e antiga (embora de
-origem estrangeira) não é gallicismo; exprime
-bem o—<i>dessein</i>—francez, e tem por si a auctoridade
-d’um escriptor bem notavel e bem antigo,
-qual é Damião de Goes. (v. Chron. de D. Man.
-part. I, cap. 4, e <i>passim</i>).</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Que tam suave rege a natureza.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-......... Omnis natura animantium<br>
-Te sequitur cupide.<br>
-</p><p class="center">
-<span class="smcap">Lucret</span>. Lib. I. v. 15.</p></div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Mal disse; e o raio mais veloz não rue.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Este verbo muito adoptado por Filinto Elysio, e
-pelo erudito traductor da lyrica de Horacio, Antonio
-Ribeiro dos Santos; e cujos compostos, e
-derivados ja tinhamos (<i>correr</i>, <i>decorrer</i> etc.) tem
-todas as qualidades necessarias para a sua naturalisação.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Da rubra dextra do Tonante irado.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-........ <i>Et rubente</i><br>
-Dextra sacras jaculatus arces<br>
-Terruit urbem.<br>
-</p><p class="center">
-<span class="smcap">Horat</span>. <i>Od</i>. 2, Lib. I.</p></div>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_65">[Pg 65]</span></p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Á voz da deusa fende os ares liquidos.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">......... Per liquidum aethera:</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Virg.</span> <i>AEn.</i> Lib. I.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Florença na Toscana, ou antiga Etruria, dita <i>mysteriosa</i>
-em razão dos seus áugures.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Á formosa Bolonha...</i>»<br>
-</p>
-
-<p>De Bolonha conta Ganganeli (ou antes Carracioli)
-nas suas cartas, que um Portuguez, encantado de
-sua belleza, exclamara: «Não se devia mostrar
-senão ao domingo.»</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>E fitando no ceo audazes vistas.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Coelum ipsum petimus stultitia</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Horat.</span> Lib. II, Od.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Aos golpes crebros, incessantes, duros.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>O imperio Grego acabou em 1448 pela morte do
-ultimo Constantino, e entrada de Mahomet II em
-Constantinopola, a cujos muros se limitava, ha
-muito, o vasto imperio Grego e Romano. Os horrores
-desta tomada de Cp., a immensidade de familias
-que fugiram para a Italia, e principalmente
-para Veneza, Genova e Florença, o adiantamento,<span class="pagenum" id="Page_66">[Pg 66]</span>
-que este successo causou ás sciencias e artes do
-occidente; são cousas sabidas de todo o mundo.
-(Vid. Anquétil: Précis de l’hist. univers. tom. 4,
-pag. 249, etc. e Chateaubriand: Génie du Christ.
-part. 3, liv. I).</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_67">[Pg 67]</span></p>
-<h4 class="nobreak" id="Notas_ao_canto_segundo">Notas ao canto segundo</h4>
-</div>
-
-<hr class="r5">
-<p class="poetry">
-«<i>Vão-lhe na frente os affamados chefes.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Aquelles sam sós homens que se affamam.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Ferreir.</span> <i>Cart.</i> 6, Liv. I.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>No bello antigo modelando as graças.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>O verbo <i>modelar</i> está geralmente adoptado mas
-que não seja antigo. Assim como de <i>molde</i> se fez,
-e deduziu <i>moldar</i>; de <i>modelo</i> se póde derivar <i>modelar</i>.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Vem tribu excelsa de Romãos pintores.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Gregos, <i>Romãos</i>, e toda a outra gente.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Ferreir.</span> <i>Cart. 3</i>, Liv. I.</p>
-</div>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_68">[Pg 68]</span></p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>E quanto inspira Apollo:......</i>»<br>
-</p>
-
-<p>O fito que neste poema levei, foi simplesmente
-celebrar os louvores da pintura, e de seus principaes
-mestres. Sou apaixonado amador desta sublime
-poesia; contento-me de admirar; mas nunca
-dei a menor lapizada. A leitura, a observação
-curiosa, e exacta do pouco, que tenho visto, me
-deram os limitados conhecimentos, que em tam
-comprida materia possuo. Ideias vastas, ainda
-mesmo na historia só da pintura, apenas poderão
-ser o fructo de longos estudos, que a minha
-pouca idade, e mais sérias, mas que ennojosas
-occupações prohibem. Declaro pois que, se êrro
-encontrarem os professores, mui grata e grande
-mercê me farão de me avisar; e conhecerão pela
-minha docilidade na emenda a pouca presumpção
-do auctor.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>E aos d’arte amantes desejar com Pedro<br>
-Junto ao prodigio....</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Faciamus hic tria tabernacula.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Matth.</span> <i>Evang.</i></p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Em cêrca aos muros da gentil Parthénope.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Napoles, assim ditta antigamente de Parthénope,
-uma das sereias, que se enchêram de desesperação
-por não poder vencer Ulysses com o seu canto.
-Junto ao tumulo desta simideusa ou nympha se<span class="pagenum" id="Page_69">[Pg 69]</span>
-edificou uma cidade, que della tomou nome. Destruida
-ésta, se tornou em seu mesmo logar a edificar
-outra nova, dita Napoles (<i>Neapolis</i>—Νεαπὸλις—cidade
-nova) nome que inda hoje conserva.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Umas sobre outras as cidades jazem.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Pelos fins do seculo passado se descubriram nas
-visinhanças do Vesuvio as antigas cidades de Herculano
-e Pompeia. A cidade de Portici está quasi
-situada sobre a antiga Pompeia, que, assim como
-o Herculano, fôra submergida em uma explosão
-do Vesuvio.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>E a rôdo os d’atro fogo horridos rios.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Nas grandes irrupções do Vesuvio corre do alto
-da montanha um, como rio, de fogo, que dá uma
-imagem das fingidas torrentes do sonhado Averno.—Virgilio,
-que de certo dos volcões de Napoles
-houve a idea do seu <i>Phlegetonte</i>, situou por
-aquelles logares os seus—<i>Plutonia regna</i>.—(Vid.
-Stael na <i>Corin</i>.)</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Inda no mesto panno afflictos súam.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">....... Sudant in marmore mœsto.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Sili</span>. <i>Ial.</i> Lib. I.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Saliente Caravaggio, que exprimiste.</i>»<br>
-</p>
-
-<p><i>Saliente</i>; porque as figuras de seus quadros tem
-um ar de relêvo, que engana. É necessaria metonymia,<span class="pagenum" id="Page_70">[Pg 70]</span>
-de que uso muitas vezes para caracterizar
-os pintores, segundo suas mais distinctas qualidades.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Ja de accurvados reis não brilha o fasto.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>O simples nome de Roma basta para fazer nascer
-uma infinidade de ideias grandes e de magestade.
-Todos os pensamentos sublimes, que a imaginação
-póde crear, todas as sérias reflexões, que póde
-suscitar a razão, todas as memorias augustas,
-que a virtude e a humanidade podem fazer nascer,
-occorrem e borbulham associadamente na
-alma do homem pensador com a simples ideia de
-Roma. O exfôrço dos Horacios, a castidade das
-Lucrecias, a integridade dos Brutos e Catões, o
-patriotismo dos Fabios e Scevolas, a magnanimidade
-e valor dos Scipiões, a eloquencia dos Ciceros,
-o saber dos Plinios, a liberalidade dos Augustos,
-a grandeza dos Trajannos, a humanidade
-dos Titos, tudo se recorda com a memoria illustre
-da cidade por excellencia.</p>
-
-<p>Imagine-se um homem cheio de toda a magnificencia
-destas ideias, possuido de respeito e veneração,
-ao entrar em Roma.—Ruinas, sepulcros,
-templos derrocados, estradas solitarias, ruas desertas...
-são os miseraveis objectos, que lhe ferem
-os olhos, mui de longe preparados para admirar
-a senhora do universo. De espaço a espaço<span class="pagenum" id="Page_71">[Pg 71]</span>
-descobre (é verdade) um templo magnifico, um
-grande palacio; mas breve se desvanece este vislumbre
-de grandeza, e subito se esvai a nascente
-esperança de encontrar a Roma de Augusto. Estes
-palacios, estes templos, que se elevam do
-meio das choupanas (habitação da indigencia e
-da fome) carregados d’ornatos, de sobejo embellezados,
-serão acaso aquelles esmeros de architetura
-grande e magestosa, suberba e varonil dos
-edificios Latinos? Poderá algum d’elles similhar-se
-ao <i>Fóro</i>, ao <i>Palacio</i>, ao <i>Amphitheatro</i>? Descubrir-se-ha
-n’alguma d’estas modernas praças o menor
-vestigio dos <i>Rostros</i>? O Capitolio, o terrivel,
-o venerando Capitolio, onde se julgava dos destinos
-das nações, onde os reis curvavam os sceptros,
-e depunham os diademas; d’onde sahiam os
-irrevogaveis e tremendos decretos, que dispunham
-da sorte dos povos, e legislavam ao universo,
-que é feito d’elle?—O solicito viajante ainda
-o descobre; o seu <i>cicerone</i> (guia) ainda lhe
-mostra o logar d’elle.—E será este?—Differente
-estrada conduz ao cimo do monte; o palacio
-do <i>senador</i>, alguns restos de quebradas estatuas,
-de desfigurados relevos são todas as riquezas, todos
-os tropheos, todos os despojos, que ornam o
-antigo alcaçar do mundo.</p>
-
-<p>Confuso, humilhado, o viajante não se atreve ja
-a encarar nenhum edificio.—«Os habitantes ao
-menos (diz elle) talvez conservem alguma cousa
-ainda de Romanos. Tantas virtudes, tanta grandeza<span class="pagenum" id="Page_72">[Pg 72]</span>
-não podiam extinguir-se de todo.»—Um
-bando de miseraveis, uma plebe indigente, vil e
-sem costumes, são os successores do povo rei;
-uma côrte effeminada, e entregue aos deleites do
-ocio occupa o logar dos Brutos e Catões; declamadores
-sem gôsto, com affectadas e guindadas
-phrases (que ou não entendem ou não crem) fazem
-retenir aquelle mesmo ar, que ouviu os eloquentes
-e numerosos sons de Cicero e Marco Antonio;
-assucarados trovadores infectam com os
-seus—<i>concetti</i>—a degradada lyra de Virgilio e
-Horacio; os Scipiões, os Emilios, os grandes generaes,
-as invenciveis tropas da triumphante republica
-são substituidas por um bando de assoldados
-Suissos, cujas grandes proesas e valor, cujos
-guerreiros exforços são o fazer a guarda do
-papa. Em vez do augusto e venerando senado,
-um ajuntamento d’homens ambiciosos, insaciaveis
-d’ouro, regem despoticamente; não os direitos das
-nações, e deveres dos reis e povos pelas invariaveis
-leis da justiça, como os antigos <i>conscriptos</i>;
-mas o corpo invalido da igreja por elles arruinada
-e depravada, levando simplesmente o fito em pescar
-para a barca do humilde S. Pedro as riquezas
-das nações com o sagrado anzol das indulgencias,
-reliquias e breves.—«Roma! oh Roma! (exclamará
-o contristado viajante) tu ja não existes; a
-tua liberdade expirou em Catão, e tu com ella! A
-liberdade te conservava as virtudes, que, mais
-que tuas façanhas, te constituiram no imperio do<span class="pagenum" id="Page_73">[Pg 73]</span>
-orbe. Perdeste-a; e desde então caminhaste sempre
-com gigantescos passos ao abysmo de miseria
-e vileza, em que jazes sepultada para eterno
-exemplo do universo.</p>
-
-<p>E com effeito, tal é a sorte de quasi todas as
-nações! Florecem, reinam em quanto a liberdade,
-ou a larva della subsiste; apenas se eleva a
-tyrannia, cai de rôjo com a liberdade o amor das
-virtudes; a servidão embrutece o homem; a sociedade
-se muda em um rebanho de escravos; e
-a miseria succede á opulencia. Assim cahiu Roma,
-assim Sparta, assim Hollanda, assim tantas
-outras. Que exemplos para os tyrannos, e que terrivel
-escarmento para os povos! Miseraveis despotas,
-embreve estendereis o sceptro de ferro sobre
-montões de ruinas. Os Vandalos, os Godos,
-os Arabes não se acabaram ainda; e vós os chamais
-com tanta ancia!<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a></p>
-<p><span class="pagenum" id="Page_75">[Pg 75]</span></p>
-<div class="footnotes">
-<h5>NOTAS DE RODAPÉ:</h5>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[15]</a> É facil de vêr que esta nota foi escripta antes do dia 24
-d’Agosto. Felizmente ja se podem tratar estes assumptos com
-menos atrabilis.</p>
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_74">[Pg 74]</span></p>
-<h4 class="nobreak" id="Notas_ao_canto_terceiro">Notas ao canto terceiro</h4>
-</div>
-
-<hr class="r5">
-<p class="poetry">
-«<i>Enfrea as iras de Neptuno indomito.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Imperio premit, et vinclis, et carcere frœnat.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Virg.</span> <i>AEn.</i> Lib. I, v. 54.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Ve d’Adria o golpho tempestuoso e fero.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>É o golpho de Veneza, antigamente chamado de
-Adria, ou Adriatico, d’uma cidade d’este nome.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Alli, fugindo aos clamorosos brados.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>No meio do seculo V, foram destruidas por Attila,
-rei dos Hunos, as cidades de Aquilea, Altino, Concordia,
-Opitergo e Padua, todas visinhas ao golpho,
-então chamado Adriatico. Os habitantes destas
-cidades, fugindo ao furor irresistivel, e cruel<span class="pagenum" id="Page_76">[Pg 76]</span>
-ferocidade dos barbaros, se foram refugiar nas pequenas
-e desertas ilhotas do mar Adriatico, e fundaram
-assim o começo de Veneza. (Vid. <i>Anquétil,
-Millot, e la Istoria de Vinegia per ***</i>)</p>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>Emporio foi depois do rico oriente.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry"><i>Antes que ha India fosse descuberta pelos Portuguezes,
-ha mayor parte da especiaria, droga, e pedraria
-se vazava pelo mar roxo, donde ya ter á cidade
-Dalexandria, e dalli ha compravão hos Venezianos,
-que a espalhaavão pela Europa.</i></p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Castanheda</span> Lib. I, cap. 1.</p>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>E do alado Leão tremeu gran tempo.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Um leão com azas era o timbre, ou armas da republica,
-ou senhoria de Veneza.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>E segue a esteira das cortadas ondas.</i>»<br>
-</p>
-
-<p><i>Esteira</i>, ou <i>esteiro</i>, que assim, e indifferentemente
-escrevem e usam os nossos classicos, é aquelle
-sulco, que os navios vão fazendo e deixando depoz
-si nas aguas, e que bom espaço se conserva
-depois. Maior é talvez o numero das pessoas que
-sabem a simplicissima razão physica deste natural
-phenomeno, do que o das que o nome portuguez
-lhe conhecem.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios.</i>»<br>
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_77">[Pg 77]</span></p>
-
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">.......... All’ Adria in seno
-Un popolo d’eroi s’aduna......</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Matest</span>. <i>Ezio</i>: atto I.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Adriades gentis, oh! vinde as frentes.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Assim como de <i>Tagus</i> Latino fez Camões <i>Tagides</i>;
-e outros do Douro—<i>Durius</i>—<i>Duriades</i> etc.;
-quem me impede a mim, que de <i>Adria</i>, faça <i>Adriades</i>?</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Qual Verona folgou com seu Catullo.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">.......... Gaudet Verona Catullo,
-Pelignae dicar gloria gentis ego.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Ovid.</span> <i>Trist.</i></p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«......... <i>Mil graças, mil encantos<br>
-Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Assim como Catullo, Paulo Veronese é notado de
-pouco honesto. Todos sabem a lascivia e voluptuosidade
-dos versos do primeiro: os quadros do segundo
-tem uma poesia d’este genero bem mais
-expressiva.</p>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>Em que lhe peze á inveja, e seus furores.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-Eu, que apezar da inveja, e seus furores<br>
-Aos astros levo o nome Lusitano.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Elpin.</span> <i>Nonaer.</i> Od. a Vasc. da Gam.</p>
-</div>
-
-<p><i>Em que lhe peze</i>, e <i>em que lhe pez</i> são phrases dos
-melhores classicos: mil exemplos, por um, pudera<span class="pagenum" id="Page_78">[Pg 78]</span>
-appresentar; mas citarei o que tenho aqui mais
-á mão, que é o P. Vieira (<i>Vozes saudosas: voz histor.</i>)</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Scena outr’ora infeliz da gloria Franca.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>As provincias Flamengas foram um dos principaes
-theatros das ambiciosas guerras de Luiz XIV com
-a Hollanda. (Vid. <span class="smcap">Voltaire</span> <i>Siécl. de Louis XIV</i>).</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Lhe bafejastes divinal espirito.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Quasi divino quodam spiritu inflari.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Cicer.</span> <i>pro Arch.</i> §. 8.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>E o veneno lethal lhe infunde n’alma.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-Sic effata, facem juveni conjecit, et atro<br>
-Lumine fumantis fixit sub pectore tædas.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Virg.</span> <i>AEn.</i> Liv. VIII, v. 56, e seg.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Quam bello é na expressão Vaén correcto.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Porventura não serão os verdadeiros accentos da
-pronúncia nacional, os que ponho aqui neste e nos
-outros nomes dos pintores flamengos: puz-lhe os
-necessarios para o rythmo, que é a minha obrigação;
-dos outros não sei, pois que ignoro a tal lingua;
-no que, segundo creio, não perderei nada.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Difficeis nomes d’estremados mestres.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>E bem difficeis, com effeito, para accomodar ao<span class="pagenum" id="Page_79">[Pg 79]</span>
-verso com os seus—<i>kk</i>—<i>rr</i>—etc.: não são daquelles,
-de que Horacio diz:</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Verba loquor socianda chordis.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Horat.</span> Lib. II, Od.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Do mestre a obra maior, Wandik insigne.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Voltaire diz algures, fallando de Tasso, que, se é
-verdade o que vulgarmente se diz, que os Lusiadas,
-e seu auctor formaram a Gerusalem do primeiro,
-fôra esta a melhor obra de Camões. Não
-estou <i>absolutamente</i> por este <i>espirituoso</i> dito de
-Voltaire; mas com justiça o appliquei a Rubens,
-e Wandick.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>E em vez d’um Fabio tardador</i>......»<br>
-</p>
-
-<p>Assim traduziu Filinto Elys. o <i>Fabius cuntactor</i>
-dos Latinos. (Vid. <span class="smcap">Filint.</span> <i>Ode á Liberdade</i>).</p>
-
-<p class="poetry">
-«......... <i>Ja no Sena ovante</i>.»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-Sobre a margem feliz do rio <i>ovante</i>,<br>
-Donde arrancando omnipotencia aos fados<br>
-Impoz tropel d’heroes silencio ao globo.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Bocag.</span> <i>Od. a Filint.</i></p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Que do Meschacebeu vingando as margens.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Este é o verdadeiro nome do célebre rio da Luisiana,
-na America Septentrional, chamado vulgarmente<span class="pagenum" id="Page_80">[Pg 80]</span>
-<i>Mississipi.</i> (Vid. <span class="smcap">Chateaubriand</span>: <i>Génie du
-Christ.</i> Part. III, Liv. 5).</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>C’o Euripides Francez disputa ainda.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Racine bem se póde assim chamar, não somente
-por suas absolutas e eminentes qualidades; mas
-pela relativa, e mui particular da similhança dos
-ingenhos, e feliz imitação de Racine. (Vid. <span class="smcap">Laharpe</span>:
-<i>Cours de Littér.</i>; <span class="smcap">Lemercier</span>: <i>ibid.</i>; e o <span class="smcap">P.
-Brumoy</span> no <i>Theatr. dos Gregos</i>).</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Ao ver nas murchas, esmyrradas faces.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">J’ai langui, j’ai séché dans les feux, dans les larmes.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Racin.</span> <i>Phoedr.</i> Act. II.</p>
-
-<p class="poetry">Desfalleci, murchei no ardor, no pranto.</p>
-
-<p class="center"><i>Trad. ms. do Sr. H. E.</i></p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>D’um criminoso amor violencia e fogo.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Quand je suis toute en feu, vous n’êtes que de glace.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Phoedr.</span> Act. II.</p>
-</div>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Os manes folgam de Rollin, Voltaire.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Le-Gros é pintor historico; e Rollin e Voltaire foram
-historiógraphos francezes.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_81">[Pg 81]</span></p>
-<h4 class="nobreak" id="Notas_ao_canto_quarto">Notas ao canto quarto</h4>
-</div>
-<hr class="r5">
-
-<p class="poetry">
-«<i>Onde a voz de Bocage, a voz de Gomes.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Outros quaesquer poetas, e de mais nomeada porventura,
-pudéra eu citar; mas quiz, quanto em
-mim era, e o permittia o assumpto e a obra, prestar
-homenagem a dous ingenhos, que honraram a
-patria e a lingua; e dos quaes o primeiro depois
-d’uma fama gigantesca, e maior que seu merecimento,
-passou a ser enxovalhado por quanto Mevio
-e Bavio sabe dizer—<i>Traduziu, traduziu, traduziu
-tudo</i>—como se um traductor como Bocage
-não fosse um poeta de muito merecimento, e de
-muito maior, que tantos originalistas de nome (de
-nome sim; que realmente deus sabe o que é); como
-se Pope, Dryden, Annibal Caro, João Franco
-Barreto, e tantos outros illustres traductores não
-figurassem mais na republica litteraria que tantos<span class="pagenum" id="Page_82">[Pg 82]</span>
-<i>epicos modernos</i>... Eu não sou dos apaixonados
-do privilegio exclusivo, que ha certo tempo obtiveram
-entre nós as traducções. Uma nação que
-assim obra por espirito de priguiça, ou menos-preço
-de si propria, em vez de enriquecer sua litteratura,
-empobrece-a e perde-a. De J. B. Gomes e
-da sua Castro tanto mal como bem se tem dito.
-Não a dou por uma tragedia perfeitamente regular,
-não a comparo ás grandes peças de Racine e
-Alfieri; mas sei que tem muitas bellezas, e que
-n’um theatro tam pobre, como o nosso, é digna
-de muita e muita estimação. Para criticar a Castro
-de Gomes é preciso enchugar muitas vezes as
-lagrimas, que ella excita continuamente.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Calcando a juba dos Leões gryphanhos,<br>
-Parando ás Aguias etc.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Revoluções de 1640 e 1808.</p>
-
-<p class="poetry">
-«........<i>Ah! se aura amiga<br>
-Continúa a soprar</i>......»<br>
-</p>
-
-<p>Em Roma, assim como na Grecia, se formariam
-Zeuxis e Apelles, se os Romanos dessem a Fabio
-as honras, que seus talentos mereciam. Diz Cicero
-algures nas Questões Tusculanas.</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Inviolavel lei um teu desejo.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Nação nenhuma (diz Florian no <i>avant propos de
-Sancho</i>) possue a arte d’amar, como a portugueza.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_83">[Pg 83]</span></p>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>Os feitos dignos de perenne historia.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-........as cousas...........<br>
-Que merecerem ter eterna historia.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Camões</span>. <i>Lus.</i> Cant. 7.</p>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>Sensiveis corações, vinde espelhar-vos</i>» etc.<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Vidi sæpius inscriptionis imaginem, et sine lacrymis transire
-non potui.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">S. Gregor.</span> II. <i>Concil. Nicen.</i> act. 40.</p>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>Prazeres do christão, doçuras d’Alma.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Le nouveau testament change le génie de la peinture. Sans
-lui rien ôter de sa sublimité, il lui a donné plus de tendresse.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Chateaubriand</span>. <i>Gen. du Chr.</i> part. III, Liv. I, cap. 4.</p>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>Portento d’expressão, viva faisca<br>
-Do lume eterno...</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Les peintres... famille sublime que le souffle de l’esprit ravit
-au dessus de l’homme.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Chateaubriand</span>, ibid.</p>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>Fastoso monumento d’alta Iberia.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Resta ainda resolver o grande problema: <i>Se a descuberta
-da America foi util ou prejudicial á Europa</i>;
-o qual, emquanto a mim, depende d’outro
-mais generico: <i>Se as conquistas, principalmente
-longinquas, podem ser uteis a uma nação</i>. Não me<span class="pagenum" id="Page_84">[Pg 84]</span>
-atrevo a resolver nem um nem outro. As theorias
-falham quasi sempre em politica, bem como em
-moral. So noto imparcialmente, que a Hespanha
-foi poderosissima nação antes do XVI seculo; que
-Portugal, se nos tempos de D. Manoel e João III
-floreceu, e deu brado na Europa e no mundo; depois
-não fez mais que luctar contra innumeraveis
-desgraças: que não tivemos mais um João II; e
-que as conquistas d’Asia e Egypto deram por terra
-com o imperio Romano.—Provêm isto das descubertas
-em si?—Provêm do uso que d’ellas se
-fez?—Continúa a minha ignorancia.—Os monarchas
-hespanhoes fundiram no Escurial, e n’outras
-cousas d’esta ordem, as immensas riquezas das
-Indias occidentaes, ganhas á custa de tantos crimes,
-barbaridades, irreligião, fanatismo e sacrilegios
-de Cortêz e de mil outros. Diminuiu no continente
-hespanhol a população; não se fez o menor
-caso da agricultura; o commercio não foi senão
-passivo; e, depois d’um breve esplendor, a
-suberba Hespanha cahiu na miseria d’uma nação
-pobre e falta de tudo, a pezar de toda a sua prata.—E
-que diremos de nós?—O mesmo, com
-alguma differença para peior. Todo o homem, que
-pensa, sabe o que eu poderia dizer neste artigo;
-como para estes só escrevo, elles me entendem;
-e eu, com o meu silencio, me poupo ás criticas da
-ignorancia e da sordida adulação. (<i>É bem facil de
-ver que ésta nota foi igualmente escripta antes do
-dia 24 d’Agosto</i>).</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_85">[Pg 85]</span></p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Terra fertil d’heroes, solo fecundo,<br>
-Salve!........</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Salve magna parens frugum... tellus,
-Magna virum.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Virg.</span> <i>Georg.</i></p>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>O mimoso sendal, ja pouco avaro.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">O véo dos roxos lirios pouco <i>avaro</i>.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Camões</span> <i>Lus.</i> Cant. 9.</p>
-
-<p class="poetry">Diripui tunicam, nec multum rara nocebat.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Ovid.</span> <i>Eleg.</i> Lib. I, Eleg. 5.</p>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>Que divinos encantos não descobrem</i>» etc.<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">E tuto ciò, che piú la vista alletti.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Tasso</span> <i>Gerusal.</i> Canto XV, st. 59.</p>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>Sonhada, pythagorica harmonia.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>A harmonia das spheras é um dos sonhos de Pythagoras.
-Póde-se ver a satyra galantissima destas
-e outras philosophicas extravagancias no celebre
-poema allemão—<i>Musarion</i>—de Wielland:
-Canto II.</p>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>Arrulharam d’amor meigas pombinhas.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-Presentem ja no estremecido <i>arrulho</i><br>
-Os propinquos prazeres.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Filint.</span> <i>Elys.</i> Ode a Venus. (Tom. 5).</p>
-</div>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_86">[Pg 86]</span></p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Roseos descurvam, se aredondam braços.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry" xml:lang="grc" lang="grc">Ν’μος δ’ ὴῥιγυἑια φάυη ροδ οδ άϰλυλος ὴὠτ.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Homer</span>, <i>Odyssea</i> B. (Lib. II.)</p>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>Ondeiam n’alva frente as tranças d’evano.</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Os cabellos e olhos pretos eram os mais estimados
-dos Romanos—<i>Nigra oculis, nigraque capillis</i>:
-Horat.—Se é mau gôsto, confesso que o tenho.
-Quem amar mais os louros, não tem senão
-dizer:</p>
-
-<p class="poetry">
-«Ondeiam n’alva frente as tranças d’ouro.»<br>
-</p>
-
-<p>Assim, eu, e o leitor ficamos ambos satisfeitos.
-De mais, até lhe posso ensinar um texto, com que
-provar o seu gôsto. É a auctoridade de Petrarca,
-que não é pêca neste ponto:</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry" xml:lang="it" lang="it">
-L’auro, e i topazj al sol sopra la neve<br>
-Vincon le bionde chiome presso agli occhi.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Petrarca</span>, <i>rim.</i> Part. I. cans. 9.</p>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>Déste; que bem o sei........</i>»<br>
-</p>
-
-<p>Assim é de crer piamente; e, comquanto o não
-digam os DD., eu o penso. O leitor póde ficar pelo
-que quizer—<i>salva fide</i>—pois estas materias são
-de mythologia, e não de theologia.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_87">[Pg 87]</span></p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Ja por milagre de Cyprina é prompta.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry" xml:lang="it" lang="it">
-Manca il parlar; di vivo altro non chiedi.<br>
-Ne manca questo ancor, se agli occhi credi.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Tass.</span> <i>Gerus.</i> Cant. XVI.</p>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>E novos Pygmaliões por elle anceiam.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry" xml:lang="it" lang="it">
-Pigmalion, quanto lo dar ti dei<br>
-Dell’ imagine tua, se mille volte<br>
-N’avesti quel, ch’io sol’ una vorrei.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Petrarca</span>, <i>rim.</i> Part I, sonett. 58.</p>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-<i>«Admira o joven a belleza</i>........»<br>
-</p>
-
-<p>Faria, pouco mais ou menos, as mesmas extravagancias
-com o retrato, que o amante de Julia com
-o da sua bella.</p>
-
-<p class="center">(Vid. <i>Nouvell. Héloï.</i> Part. II, Lett, 22).</p>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>Os lacteos pomos.........</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">Le <i>pome</i> accerbe, e crude...</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Tass.</span> <i>Gerus.</i> Cant. XVI.</p>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-«<i>Serão meus versos, como tu, divinos.</i>»<br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry" xml:lang="la" lang="la">
-Me juvat in grœmio doctæ legisse puellæ,<br>
-Auribus et puris dicta probasse mea:<br>
-Hæc si contingant.........<br>
-.......... Domina judice, tutus ero.<br>
-</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Propert.</span> <i>Eleg.</i></p>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_89">[Pg 89]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="ENSAIO">ENSAIO<br><span class="small">SOBRE</span><br><span class="big">A HISTORIA DA PINTURA</span></h2>
-</div>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_90">[Pg 90]</span></p>
-
-
-
-
-
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_91">[Pg 91]</span></p>
-<p>O objecto principal deste ensaio é a historia
-da pintura. A maior parte do meu poema
-será inintelligivel sem elle a todo o leitor, que
-não tiver feito um comprido estudo nesta materia.
-Menos porem bastaria talvez para a intelligencia
-do opusculo: fui mais longo e extenso,
-principalmente na historia da pintura portugueza,
-porque julguei util dar á minha nação
-uma coisa que ella não tinha, a biographia
-critica dos seus pintores. Sobejo e enfadonho
-trabalho me deu: oxalá que aproveite! Bem
-pago fico, se, entre todos os leitores, deparar
-com dous, em quem faça impressão o amor de
-boas-artes, e da patria, que toda a obra respira.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_92">[Pg 92]</span></p>
-<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_I">CAPITULO I<br><span class="small">Dos Pintores Gregos e Romanos</span></h3>
-</div>
-
-
-
-<p>O numero dos pintores Gregos e ainda Romanos,
-cujos nomes chegaram até nós, é grande,
-mas o d’aquelles, cujas obras ou maneiras
-conhecemos, é bem diminuto. O respeito da
-antiguidade com tudo no-los faz admirar, por
-ventura mais, do que o seu merecimento exige.
-Os quadros modernamente descobertos nas cinzas
-do Herculano e Pompeia, alguns <i>frescos</i>
-conservados nas ruinas de Roma e outras cidades
-de Italia tem subejamente mostrado aos
-entendedores imparciaes, que a pintura dos antigos,
-ainda mesmo no seu maior auge, não póde
-soffrer comparação com o menor quadro dos
-<i>Rafaelos</i>, dos <i>Corregios</i>, dos <i>Caraccis</i>, nem
-mesmo d’outros pintores de segunda ordem das
-modernas escholas. Duas coisas principalmente
-faltavam aos antigos pintores. Uma, as tintas,
-cujas bellas composições, descobertas em mui
-posteriores seculos, absolutamente ignoravam;
-não conhecendo, senão as terras de côr, e os
-metaes calcinados; faltando-lhes aquellas côres,<span class="pagenum" id="Page_93">[Pg 93]</span>
-que dão o tom medio, entre a luz e a sombra,
-que formam o matizado e assombrado, e exprimem
-a natureza tal qual ella é, e com toda a
-sua formosura: outra, o conhecimento das leis
-da perspectiva, como bem mostram todas as
-suas obras, que nos restam: defeito este, que
-salta aos olhos, e de impossivel disfarce. Só
-aquelle cego fanatismo, que faz cançar os pedantes
-no estudo do Hebraico e Syriaco e d’outras
-inuteis antigualhas, póde achar nos quadros
-Gregos e Romanos bellezas, não digo superiores,
-mas iguaes ás das magnificas pinturas
-do bom tempo das modernas escholas, e ainda
-mesmo das de hoje; com quanto a pintura, á
-excepção da franceza, bastante se approxima
-da decadencia pelo espirito servil, mania das
-copias e mal entendida imitação.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_II">CAPITULO II<br><span class="small">Restauração da pintura na Italia</span></h3></div>
-
-
-<p>Cimabúe, nascido em 1230,<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a> e morto em
-1300, é conhecido em toda a Europa pelo honroso<span class="pagenum" id="Page_94">[Pg 94]</span>
-titulo de restaurador da pintura. Ouviu
-os principios de sua arte d’alguns pintores Gregos
-vindos a Florença, que ainda conservavam
-restos do bom stylo da nação: aperfeiçoou-se
-depois com o estudo, e imitação dos poucos modelos
-antigos, que então appareciam na Italia.
-Preciosas descobertas, que se foram pelo andar
-dos tempos fazendo, pouco a pouco desterraram
-a barbaridade, que, entre as outras boas-artes,
-tinha tambem sepultado a pintura. As
-estatuas, os quadros, os relevos arrancados das
-cinzas e ruinas dos famosos monumentos romanos,
-quantos mestres, quantos primores d’arte,
-d’architectura, scultura e pintura não deram á
-Europa! Miguel Angelo confessava dever toda
-a sua sciencia ao assiduo estudo, que por
-toda a vida fizera no <i>tronco</i><a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a> de Hercules, no
-<i>grupo</i><a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a> de Laocoon, no Apollo<a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a> do Belveder,
-e n’outros modelos da bella antiguidade.</p>
-
-<p>Com quanto porem a pintura e mais boas-artes
-não possam propriamente dizer-se restauradas<span class="pagenum" id="Page_95">[Pg 95]</span>
-antes do seculo de Leão X, que foi o de
-Raphael, de Miguel Angelo, de Leonardo da
-Vinci, etc.; Cimabúe comtudo foi o pae da
-pintura moderna; suas obras espalhadas pela
-Italia renovaram o bom gôsto, e abriram os
-alicerces, sobre que se havia depois formar o
-grande edificio das escholas Florentina, Romana,
-etc.</p>
-
-<p>Todavia, em abono da verdade devemos
-confessar, que, posto que Cimabúe possua com
-razão o titulo de restaurador da pintura; outros
-antes d’elle houve, que se o não excedêram,
-lhe não foram ao menos inferiores. De
-Guido de Senna, pintor do XIII seculo existe
-em uma igreja de sua patria um quadro da
-Virgem, tão bom como os melhores de Cimabúe:
-o seu desenho é de bom stylo, e ainda
-fresco de côres, apezar de ser feito no principio
-do mesmo seculo, como indica a inscripção,
-que se le por baixo.</p>
-
-<p class="poetry">
-Me Guido de Sennis<br>
-Diebus depinxit amenis;<br>
-Quem Christus lenis<br>
-Nullis nolit agere penis.<br>
-</p>
-
-<p class="center">
-A. D. MCCXXI.<br>
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_96">[Pg 96]</span></p>
-
-<p>Ora, a data deste quadro é anterior ao nascimento
-de Cimabúe, affirmado por uns em 1230,
-e por outros (como Pruneti) em 1240; e por
-isso os Sennenses querem disputar a Cimabúe
-o titulo, que a elle e sua patria, Florença,
-tanto ennobrece. Mas debalde; porque de Guido
-não se conhece outra obra; e de Cimabúe
-existem ainda muitas, cuja nomeada o faz hoje
-mesmo celebre e conhecido, e que n’aquelle
-tempo serviam de modelo aos seus discipulos.</p>
-
-<p>Do principio tambem deste seculo XIII se
-conservava em Luca um antiquissimo quadro
-de certo pintor d’aquella cidade: representava
-S. Francisco d’Assis. Seu desenho é correcto,
-posto que um pouco rude; o ar-de-cabeça tem
-muita expressão, e as mãos são bem tratadas.<a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a></p>
-
-<p>Deste, e d’outros alguns monumentos desta
-épocha, devemos concluir: que Cimabúe não
-foi o primeiro que na Itália começou a pintar<span class="pagenum" id="Page_97">[Pg 97]</span>
-com menos defeitos: mas nunca se poderá asseverar,
-que elle, e sua eschola (a Florentina)
-não foram os restauradores e pães da moderna
-pintura.</p>
-
-<p>O que Pruneti diz a este respeito não destroi
-os meus principios.</p>
-
-<p>Jamais as sciencias, e artes foram de repente
-á perfeição. Antes de Socrates e Platão existiu
-Pythagoras e outros philosophos, que lhe
-abriram o caminho; antes de Hippocrates, Avicena
-e Averroes<a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a> houve Esculapio, e outros
-mezinheiros; antes de Homero, Hesiodo e Virgilio,
-havia Orpheus e Linos; Eschylo, Sóphocles,
-Euripides e Aristophanes foram precedidos
-por Thespis; os erros de Descartes allumiaram
-Newton; Mairet, Routrou e Corneille
-formaram Racine e Voltaire; e entre nós finalmente,
-antes de Camões, Ferreira e Bernardes
-houve Gil Vicente, Bernardim e outros
-muitos, que lhes franquearam a carreira poetica.<span class="pagenum" id="Page_98">[Pg 98]</span>
-Agora quasi em nossos dias, na brilhante
-restauração das lettras, os Elpinos, os Filintos,
-os Gomes e os Bocages não appareceram de
-repente.</p>
-
-<p>Assim gradualmente foram crescendo os pintores
-na Italia, e adiantando-se a perfeição de
-suas obras. Nos ultimos parocismos do imperio
-Grego uma infinidade de professores vinham
-procurar entre os Italianos um asylo mais seguro,
-e uma patria menos despotica: e quando
-finalmente em 1448, tomada Constantinopola
-por Mahometh II, se extinguiu de todo
-aquelle phantasma colossal, maior numero ainda
-se espalhou por todo o meio-dia da Europa,
-e concorreu para a perfeição da pintura
-moderna; assim como a alluvião de theologos
-Gregos concorreu, e muito, para a perpetuação
-das barbaridades scholasticas, e atrazo das
-sciencias. São deste tempo—Gioto, cujas obras
-se acham ainda em Florença, Piza e Roma,
-nascido em 1276, e morto em 1336: foi discipulo
-de Cimabúe, e contribuiu muito para a
-perfeição da arte pelo bem-ordenado da sua
-pintura, e boa disposição de figuras.</p>
-
-<p>Masaccio, nasc. em 1417, e mort. em 1521,<span class="pagenum" id="Page_99">[Pg 99]</span>
-seria o verdadeiro e completo restaurador da
-pintura, se vivesse mais tempo: o pouco que
-d’elle resta, acha-se em Florença.</p>
-
-<p>Luca Signorelli di Cortona n. em 1449, e
-m. em 1521; foi celebre pela precisão de desenho,
-e belleza de composição, todavia fraco
-no colorido. Notam-se bem estas propriedades
-nos seus quadros, que ainda se encontram no
-Loreto e Roma. E este é o ultimo pintor de
-fama anterior a Leonardo da Vinci, que depois,
-com Miguel Angelo, foi julgado fundador
-da eschola Florentina.</p>
-
-<div class="footnotes">
-<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4>
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[16]</a> Pruneti o faz nascido em 1240—10 annos depois.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[17]</a> Famosos restos da estatua de Apolonio Atheniense.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[18]</a> Obra de tres escultores Rhodios Athenedoro,
-Agesandro e Polidoro.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[19]</a> Estatua bem conhecida.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[20]</a> Advirto, e fique advertido por todo o decurso
-deste ensaio, que quando digo, que este, ou aquelle
-quadro, ou estatua se acham em Roma, Florença,
-ou outra qualquer cidade: deve sempre entender-se
-antes das ultimas revoluções da Europa.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[21]</a> Não confundo Avicena, e Averroes com Hippocrates:
-bem sei a distancia de tempos e merecimentos.
-Faço porém esta advertencia, porque não leia
-isto algum Esculapio enthusiasta, que grite: <i>au scandale</i>!</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_III">CAPITULO III<br><span class="small">Da Eschola Romana</span></h3></div>
-
-
-<p>Apezar de que a eschola Florentina com razão
-se possa chamar a mais antiga, pois que
-seus alumnos se começam a contar desde Cimabúe;
-com tudo a Romana foi, e sempre será
-como a primeira olhada, não só em favor e
-respeito de seu illustre chefe Raphael Sanzio
-de Urbino; mas pela bellesa de desenho, elegancia
-de composição, verdade de expressão,
-e sobre tudo intelligencia de attitudes, que a<span class="pagenum" id="Page_100">[Pg 100]</span>
-caracterizam e sobreelevam a todas as outras.</p>
-
-<p>As descobertas dos grandes monumentos de
-pintura e scultura, que os zelosos cuidados de
-alguns papas, e outras principaes pessoas de
-Italia desenterravam todos os dias das ruinas
-da antiga Roma, formaram o gôsto dos mestres
-desta eschola, moldando-o no antigo. E
-tal é a caracteristica das suas producções. Os
-rasgos mestres d’aquelles preciosos <i>antigos</i> lhes
-inspiraram uma magestosa solemnidade de expressão
-nas grandes ideias que concebiam; e
-esta mira, que levaram sempre os pintores Romanos,
-lhes fez desprezar alguma coisa o colorido:
-defeito, que bem se esquece por outras,
-e tão brilhantes qualidades.</p>
-
-<p>Para tecer o elogio da eschola Romana basta
-nomear Raphael. Que nome nos fastos das
-boas-artes! Se Virgilio e Homero não são mais
-celebres, que Zeuxis e Apelles; a glória de Raphael
-quanto é superior á de Tasso e Ariosto!
-Não me agrada aquella sentença dos antigos:</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry">—Ut pictura poesis—
-<i>A poesia será como a pintura</i></p>
-
-<p class="center">(<span class="smcap">Bocage</span>).</p>
-</div>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_101">[Pg 101]</span></p>
-
-<p>A poesia (attrevi-me a pensá-lo assim, e se
-a novidade não agradar nem por isso me
-desdigo) é uma só: aos poetas pintores, seus
-primeiros filhos é dado tratta-la viva: os poetas-versejadores
-só com o véo do mysterio coberta
-a podem ver e seguir. A poesia animada
-da pintura exprime a natureza toda; a dos
-versos porem, menos viva e exacta, falha em
-muita parte na expressão de suas bellezas. Que
-poeta nos poderia dar uma ideia de Romulo
-como David no seu quadro das Sabinas? Que
-versos nos poderiam fazer imaginar a Divindade
-como a transfiguração de Raphael? Que
-poema nos faria conceber a magestade d’um
-<i>Deus Creador</i> dando fórma ao cáhos, e ser ao
-universo, como a pintura de Miguel Angelo?</p>
-
-<p>Estas reflexões sobre o parallelo das duas
-especies de poesia são minhas; por taes as dou,
-e me encarrego do mal, ou bem, que d’ellas
-se pensar. Por ventura não foi este o conceito
-dos antigos; mas a arte mui atrazada entre elles
-não estava em proporção da nossa; os gregos
-não tinham, como nós, Homeros em pintura.
-Immensas vantagens, como já notamos,
-lhes levam os modernos pintores; a que<span class="pagenum" id="Page_102">[Pg 102]</span>
-de mais accresce o nobre invento da gravura,
-que, (bem como a imprensa nos facilita o trato
-dos mais antigos poetas do mundo) transmitte
-á posteridade e nações remotas os esmeros
-da pintura, e ainda da scultura. Os nossos
-Appelles não podem temer o ser conhecidos
-pelos vindouros só de nome e fama, como o é
-por nós o dos antigos; a estampa lhes assegura
-o conhecimento de <i>facto</i> no mais remoto
-porvir, e mais longes climas.</p>
-
-<p>Mui fertil foi a eschola Romana; grande é
-o numero dos seus pintores: daremos de cada
-um d’elles uma brevissima, porem exacta noticia:
-desta maneira terá a mocidade applicada,
-como em synopse, e sem o trabalho enfadonho
-de revolver muitos e antigos cartapacios,
-a historia completa desta e das outras escholas,
-em que seguiremos o mesmo methodo.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVI</h4>
-
-<p>Rafaelo Sanzio d’Urbino, nascido em 1483,
-morto em 1520, facilmente julgado o principe
-dos pintores: nenhum (se não for o moderno
-francez, Mr. David) poderá rivaliza-lo. O brilhante<span class="pagenum" id="Page_103">[Pg 103]</span>
-colorido de Ticiano, a belleza das tintas
-de Corregio, a gigantesca altivez de Miguel
-Angelo não fazem a menor sombra á
-gloria do grande Romano. Raphael levou a sua
-arte ao grau de perfeição, de que é capaz a
-humanidade. Pertender dar uma ideia d’elle é
-tentar o impossivel: o estudo das suas producções
-é o unico meio de o conhecer. Elle ainda
-vive repartido por seus quadros, um dos mais
-bellos e ricos ornamentos das cidades que os
-possuem. Digam-o os templos de Roma, as casas
-dos principes, o Vaticano (onde existe a
-sua famosa <i>Biblia</i>), e sobre tudo a egreja de
-<i>S. Pietro in monte</i> situada no Janiculo; onde
-se conserva o primeiro quadro do universo, a
-unica producção da arte, que excede a natureza,
-a maior honra do ingenho humano, a melhor
-obra de Raphael, a sua <i>Transfiguração</i>.
-Tal foi um dos primeiros homens do mundo,
-de quem (e com mais razão por ventura, do
-que Horacio dizia de si) podêmos asseverar,
-que não morreu todo: <i>Non omnis moriar</i>; ou
-como ja se disse em portuguez; <i>O sabio não
-vai todo á sepultura</i>. A belleza principal das
-suas obras é o desenho e attitudes.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_104">[Pg 104]</span></p>
-
-<p>Julio Romano (Giulio Pippi) n. 1492, m.
-1546: foi discipulo de Raphael. Em suas obras,
-que principalmente se acham em Roma, se ve
-que o caracter d’este pintor era a fôrça e ardimento:
-o seu colorido é obscuro, mas o desenho
-admiravel.</p>
-
-<p>João Francisco Penni (il Fattore) n. em 1488,
-m. em 1528; trabalhou quasi sempre debaixo
-das vistas, e pelos desenhos de Raphael, seu
-mestre. Suas obras principaes são as galerias
-do Vaticano.</p>
-
-<p>Polidoro de Caravaggio n. 1495, m. 1543;
-foi bom colorista, correcto no desenho, nobre
-e fero nos ares de cabeça.</p>
-
-<p>José Ribera, hespanhol, e por isso dito <i>il
-Spagnoleto</i>, nasc. em Valença em 1589, e m.
-em 1656. O seu caracter é o vigor e expressão:
-todas as figuras austeras e carregadas,
-prophetas, philosophos, tudo quanto exige um
-pincel forte e vigoroso, sahia de suas mãos,
-como das da natureza. Suas obras principaes
-existiam na cartuxa de Napoles; e entre ellas,
-a mais conhecida é a collecção dos prophetas.</p>
-
-<p>Perrino del Vague Buonacorsi n. em 1500,
-m. em 1547; foi tão feliz imitador do stylo de<span class="pagenum" id="Page_105">[Pg 105]</span>
-Raphael, seu mestre, que muitos de seus quadros
-passam por d’elle.</p>
-
-<p>Innocenzio d’Imola n..., m...; desenhou segundo
-a maneira de Raphael, mas coloriu
-muito bem. Seus quadros são preciosos e raros.</p>
-
-<p>Giulio Clovio n. 1498, m. 1578. Trabalhou
-sempre em miniatura, e apprendeu o desenho
-com seu mestre, Julio Romano.</p>
-
-<p>Federico Barrocci n. 1528, m. 1612. Suas
-excellentes obras, que se acham em Milão, Bolonha,
-Pesaro, Loreto e Roma, se distinguem
-pela belleza do colorido (pouco vulgar na sua
-eschola) e que assemelha ao de Corregio, grande
-exactidão de desenho, muita sciencia de luz,
-e graciosos ares de cabeça.</p>
-
-<p>Thadeo, e Federico Zucaro, irmãos: morto
-o primeiro em 1566; o segundo em 1609.
-Thadeo tinha grande ingenho e bom colorido;
-Federico, menos habil, acabou quasi todas as
-obras, que seu irmão começara. Acham-se em
-Veneza, Tivoli e Roma.</p>
-
-<p>Antonio Tempesta n. 1555, m. 1630. Foi
-eminente em batalhas, caçadas, mercados, animaes
-etc.—Roma.—</p>
-
-<p>José Cesar d’Arpin (Il cavalier Giuseppino)<span class="pagenum" id="Page_106">[Pg 106]</span>
-n. 1560, m. 1640. Seus quadros grandes, que
-se vem no Capitolio, são historicos e bons; e
-notaveis, sobre tudo, pela belleza dos cavallos.</p>
-
-<p>Michel Angelo Ameriggi de Caravaggio, n.
-1569, m. 1609. Suas obras são mui faceis de
-conhecer pelo ar de relêvo, que dava a todas
-as figuras por via do assombrado. Esta originalidade
-imita bem a natureza. O seu desenho
-é preciso e fero.—Roma e Napoles.—</p>
-
-<p>Domenico Feti n. 1589, m. 1624. Imitou o
-<i>antigo</i>, e Julio Romano; donde houve um caracter
-de desenho fero e vigoroso, com quanto
-incorrecto. Seus quadros, mui procurados, se
-distinguem por uma graça particular, e picante.—Roma.—</p>
-
-<p>Giovani Lanfranco n. 1581, m. 1647. Foi
-eminente nas grandes obras, como platafundos,
-cupulas, etc.—Napoles.—</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVII</h4>
-
-<p>Pietro Beritini di Cortona n. 1596, m. 1669.
-Todas as suas ingenhosas producções tem um
-ar de nobreza, que encanta. Mas a obra prima
-d’este grande mestre é o <i>roubo das Sabinas</i>,<span class="pagenum" id="Page_107">[Pg 107]</span>
-que Lebrun servilmente copiou.—Roma
-e Florença.—</p>
-
-<p>Mario Nuzzi di Fiore n. 1599, m. 1673; alcançou
-um grande nome pela maneira excellente
-de pintar flores.</p>
-
-<p>Miguel Angelo Cerquozzi dito o <i>das batalhas
-e bambochatas</i>: nasc. 1602, m. 1666; teve
-um colorido vigoroso e um pincel ligeiro. Era
-tam habil no seu genero, que pela simples narração
-d’uma peleja, traçava logo a ordem do
-quadro no mesmo panno, em que havia de pintar.—Roma.—</p>
-
-<p>Claudio Geleo (Lorrain) n. 1600, m. 1682.
-Todos conhecem este nome; todos sabem que
-foi o principe dos paizagistas. Ninguem conheceu
-como Lorrain a perspectiva aeria, e o effeito
-dos pontos de vista.—França.—</p>
-
-<p>Andrea Sacchi n. 1599, m. 1661. Suas pinturas
-ternas e graciosos são admiraveis pelo
-desenho, colorido e verdade de expressão.</p>
-
-<p>Domenico Passignani pelos annos de 1630,
-pintou com gosto e nobreza, muita expressão,
-porem mau colorido.—Florença.—</p>
-
-<p>Pietro Testa n. 1611, m. 1648; moldou o
-seu stylo nos antigos de Roma, donde houve<span class="pagenum" id="Page_108">[Pg 108]</span>
-um bom e correcto desenho, com quanto rude.—Roma.—</p>
-
-<p>Salvator Rosa n. 1614, m. 1673. Trabalhou
-muito; e suas obras se acham por toda a Italia:
-todas ellas tem um ar de originalidade,
-que as distingue, muita verdade e bom colorido;
-porem o desenho não é perfeito.</p>
-
-<p>Carlin Dolce n. 1616, m...; célebre pela
-graça da composição e frescura do colorido.—Roma.—</p>
-
-<p>Hiancito Brandi n. 1623, m. 1719 (outros
-querem que em 1691). Seus quadros são muito
-vulgares: apezar das incorrecções do desenho,
-e fraqueza de côres, teve com tudo uma belleza
-d’ornato, e fecundidade de imaginação,
-que admira.</p>
-
-<p>Carlo Maratti n. 1624, m. 1713; foi eminente
-nos ares de cabeça: seu desenho é mui
-assisado, e seu colorido brilhante. Todas as
-composições d’este mestre encantam, e são bem
-acabadas.</p>
-
-<p>Luca Giordano n. 1632, m. 1705. Seu merecimento
-principal é a facilidade e presteza,
-com que trabalhava: muitas obras delle são
-d’uma bella expressão.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_109">[Pg 109]</span></p>
-
-<p>João Baptista Bacici n. 1639, m. 1709; retratava
-bem; e os seus quadros mostram muito
-talento, e bello colorido.</p>
-
-<p>Mattia Preti (Il Calabrese) teve o ingenho
-mais feliz na invenção; bella e rica ordem, e
-muita originalidade. Nasc. 1643, m. 1699.</p>
-
-<p>José Passari n. 1654, m. 1714; discipulo
-e imitador absoluto de Carlo Maratti.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVIII</h4>
-
-<p>Francesco Solimeni n. 1655, m. 1747. Bella
-imaginação, muito talento, um desenho fero e
-correcto o constituem n’um dos primeiros lugares
-da pintura; com quanto o seu colorido
-seja sombrio e pouco doce. A grande qualidade
-porem d’este mestre, e em que elle sobre-excedeu
-a todos, é o ar de vida, animação e
-movimento das suas figuras.—Napoles.—</p>
-
-<p>Sebastião Concha morto pelos annos de
-1740. Imitou Solemeni; mas o seu genio frio
-o não ajudava. Comtudo no hospital de Sienna
-ha delle uma boa pintura a fresco.</p>
-
-<p>Paolo Panini, vivo em Roma ainda no anno
-de 1767. Tem bom colorido, e muito espirito.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_110">[Pg 110]</span></p>
-
-<p>Paolo Monaldi do mesmo tempo foi pintor
-de <i>bambochatas</i> muito estimadas.</p>
-
-<p>Pompeio Battoni, retratista e pintor historico:
-o seu colorido é bem imitado de Corregio.</p>
-
-<p>Muitos outros pintores, posto que não de
-grande fama, tem produzido mais modernamente
-a eschola Romana; mas não temos delles
-sufficiente conhecimento para poder formar
-um exacto conceito.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_IV">CAPITULO IV<br><span class="small">Da Eschola Florentina</span></h3></div>
-
-
-<p>A eschola Florentina é, por sua antiguidade,
-a mais respeitavel: seu primeiro mestre foi
-Cimabúe; com quanto, fallando em rigor, só
-Leonardo da Vinci e Miguel Angelo mereçam
-(como ja notamos) o nome de fundadores. As
-obras dos seus alumnos occupam um logar mui
-distincto nas collecções mais ricas; e a Italia,
-e toda a Europa se julga com elles ennobrecida.
-Seu gosto de desenho é fero e decidido; sua
-expressão sublime, algumas vezes attrevida, e
-gigantesca, e mesmo contra-natural, mas sempre<span class="pagenum" id="Page_111">[Pg 111]</span>
-magnifica: o colorido nos seus principios
-era rude; apperfeiçoou-se depois, sem perder
-nada da sua viveza, magnificencia e outras
-brilhantes qualidades. Esta eschola é a menos
-numerosa, mas não a menos célebre.</p>
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVI</h4>
-
-<p>Leonardi da Vinci n. 1445, m. 1520, um
-dos grandes ingenhos do seu seculo, foi sculptor,
-architecto e pintor. Seu desenho é correcto e
-puro, e suas obras todas d’uma composição ingenhosissima;
-das quaes a melhor é sem questão
-o grande quadro da ceia em Milão. Foi
-muito estimado de Francisco I de França, em
-cujos braços morreu. O canal de Milão foi dirigido
-por elle.</p>
-
-<p>Pietro Perugino n. em 1446, m. em 1524.
-Coloriu graciosamente; mas, apezar de ser
-discipulo de Cimabúe, todos sabem quanto é
-rude o seu ingenho.</p>
-
-<p>Fra Bartholomeo della Porta n. 1465, m.
-1517, formou seu delicado gosto no de Vinci,
-donde houve muita correção e pureza. Seu colorido
-é bello e natural. Rafaelo não se dedignou<span class="pagenum" id="Page_112">[Pg 112]</span>
-de apprender delle a arte de colorir, ensinando-lhe
-em troco as necessarias regras da <i>prespectiva</i>.—Roma
-e Florença.—</p>
-
-<p>Miguel Angelo Buonarroti n. 1475, m. 1504;
-esculptor incomparavel, magnifico architecto,
-pintor sublime; não póde decidir-se a qual das
-boas-artes pertenceu mais: suas estatuas, seus
-edificios, seus quadros, tudo mostra o maior
-homem do seu seculo. Teve uma maneira de
-pincel altiva e fera, e em geral similhante á
-da sua eschola; vastissima concepção, ideias
-sublimes e arrojadas, e muita expressão e vigor.
-Seus quadros principaes se acham na capella
-Sixtina do Vaticano. A antiguidade toda e
-talvez os seculos posteriores não tem nada que
-oppor a tão grande ingenho: seus quadros são
-inferiores aos de Raphael, e por ventura aos
-de alguns outros ainda; porém Miguel Angelo
-é mui superior a todos elles.</p>
-
-<p>Andrea del Sarto n. 1478, m. 1580; foi o
-maior colorista da eschola de Florença; suas
-obras, em que se distingue uma maneira larga,
-e um pincel fresco e brando, conservam ainda
-hoje um brilho singular.</p>
-
-<p>Baltazar Peruzzi n. 1481, m. 1536, alem<span class="pagenum" id="Page_113">[Pg 113]</span>
-dos grandes mestres, estudou sobre tudo a natureza,
-foi grande na prespectiva, porem fraco
-no colorido. Ninguem antes de Peruzzi executou
-com gosto uma decoração de theatro.</p>
-
-<p>Giacomo Pontorma n. 1494, m. 1559; desenhou
-como Leonardo da Vinci, e coloriu como
-Sarto. Seu pincel vigoroso, seu colorido brilhante,
-sua imaginação bella e fecunda o fizeram
-olhar por Mig. Ang., e Raphael como seu
-mais temido rival; e se a louca mania de imitar
-as maneiras alemans o não fizesse mudar de
-estylo, por ventura os dois grandes mestres não
-gosariam sós da gloria do primado.</p>
-
-<p>Macherino de Sienna (chamado Domenico
-Beccafumi) n. 1484, m. 1549; desenhou com
-gosto e correcção, mas coloriu mal.</p>
-
-<p>Mestre Rosso, ou Roux (como lhe chamam
-os francezes) n. 1496, m. 1541; pintou com
-muita expressão e viveza, porem ás vezes um
-pouco rude. Trabalhou quasi sempre em França,
-onde teve muitos discipulos, e de cuja eschola
-é julgado fundador.—Fontainebleau.—</p>
-
-<p>Alexandre Allori n. 1535, m. 1607; foi gracioso
-e macio, e desenhou com toda a pureza
-do <i>antigo</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_114">[Pg 114]</span></p>
-
-<p>Francisco Rossi (il Salviati) n. 1510, m.
-1563; é muito estimado pela grande intelligencia
-de luz; desenhou e coloriu bem; seus
-quadros se distinguem pelas singulares attitudes
-das figuras.—Florença e Bolonha.—</p>
-
-<p>Jorge Vasari n. 1511, m. 1574; muito célebre
-pelas vidas dos pintores, que escreveu: seu
-desenho é bom, mas sem energia, e seu colorido
-fraco.—Roma.—</p>
-
-<p>Jacoppino del Ponte n. 1511, m. 1570; as
-suas maneiras são as de Andrea del Sarto, seu
-mestre. Foi o melhor retratista da sua eschola.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVII</h4>
-
-<p>Daniel Bacciarelli de Volterra n. 1579, m.
-1625; desenhou bem, e o que lhe deu grande
-nomeada sobre tudo, foi a sua <i>descida da cruz</i>
-na igreja <i>della Trinità del monte</i> em Roma.</p>
-
-<p>Ludovico Cigoli n. 1559, m. 1613, pintou
-d’uma maneira firme e vigorosa; mas coloriu
-principalmente com o pincel de Corregio.</p>
-
-<p>Francisco Vanni n. 1563, m. 1615. Coloriu
-muito bem, e desenhou soffrivelmente.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_115">[Pg 115]</span></p>
-
-<p>João Manozzi (Giovani di S. Giovani) n.
-1590, m. 1636; foi um dos melhores pintores
-de sua eschola; seus quadros, que mostram
-muita intelligencia de perspectiva e architectura,
-se acham em Roma, principalmente no
-palacio Pitti.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_V">CAPITULO V<br><span class="small">Da Eschola de Bolonha</span></h3></div>
-
-
-<p>A eschola de Bolonha, ou Lombarda juntou
-em si quanto póde produzir a perfeição da arte.
-Talvez (geralmente fallando) nenhuma das
-outras o conseguiu tanto. O <i>antigo</i> foi o seu
-modelo; mas sem uma servil e exclusiva imitação;
-não tratou de formar systema ou, se o
-formou, foi extrahindo de todos o que achou
-melhor. As bellezas vivas e sensiveis da natureza,
-a verdade de expressão, a riqueza da
-ordem, a pureza dos contornos, a facilidade
-admiravel de pincel, e sobre tudo o colorido
-da mesma natureza, verdadeiro e encantador;
-tudo emfim, quanto offerece a pintura, bello e<span class="pagenum" id="Page_116">[Pg 116]</span>
-terno, tudo reuniram os com-alumnos de Corregio.</p>
-
-<p>Auctores ha hi (como Pruneti) que dividem
-estas duas escholas de Bolonha e Lombardia;
-porém a geral opinião é a que sigo. Sobre o
-chefe, ou fundador desta eschola, diversos são
-tambem os conceitos, querendo uns que seja
-Francia, outros Mantegna; a questão é de pouca
-utilidade.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVI</h4>
-
-<p>Francisco Francia n. 1450, m. 1518. Suas
-obras são d’um desenho muito assisado, e mui
-boa côr para o seu tempo. Raphael lhe enviou
-o seu quadro de <i>Santa Cecilia</i> para que o corrigisse.
-Diz-se que a inveja e dor de ver tam
-perfeita obra em um mancebo de tão pouca
-idade, lhe causara a morte.</p>
-
-<p>Andrea Mantegna n. 1451, m. 1517; seus
-quadros rarissimos conservam ainda muito brilho,
-e são de melhor desenho que os de Francia.</p>
-
-<p>Francesco Primaticcio Bolognesse n. 1490,
-m. 1570: coloriu graciosamente, e desenhou<span class="pagenum" id="Page_117">[Pg 117]</span>
-no estylo de Julio Romano. Alguns, como Pruneti,
-o querem fazer chefe da eschola de França,
-onde quasi sempre viveu e pintou.</p>
-
-<p>Antonio Allegri (Corregio) n. 1494, m. 1554.
-Tinha chegado á perfeição da arte, e ignorava
-o seu merecimento. O <i>antigo</i>, Raphael, Vinci,
-etc., tudo lhe era desconhecido; não sabia senão
-a natureza. Ouviu gabar muito um quadro de
-Raphael, observou-o, e conheceu o seu proprio
-merecimento; soube o que valia, e nem porisso
-foi mais vaidoso; antes continuou a dar por
-mui rasteiro preço seus inestimaveis quadros,
-cujo colorido e frescura de pincel ainda não
-pôde ser imitado.</p>
-
-<p>Francesco Massuoli (o Parmezão, ou Parmegianino)
-n. 1504, m. 1540. Maneiras graciosas,
-colorido fresco e natural, muita facilidade
-e correcção no desenho o constituiram um
-dos primeiros pintores da sua rica e fecunda eschola.
-Os quadros deste mestre são raros e carissimos.</p>
-
-<p>Lucas Cangiagio, ou Cambiagi n. 1527, m.
-1583 ou 85. Pintou com muita facilidade, e
-o que é de admirar, com ambas as mãos ao
-mesmo tempo. Teve muita verdade e viveza,<span class="pagenum" id="Page_118">[Pg 118]</span>
-e tal expressão nas figuras, que parece que
-fallam:</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-<i>Manca il parlar: di vivo altro non chiedi;<br>
-Ne manca questo ancor, se agli occhi credi.</i><br>
-</p>
-
-<p class="center">(<span class="smcap">Tasso</span> Gerus.)</p>
-</div>
-
-<p>Os Caraches, Carachas, ou Caraccis, (segundo
-a nacional e verdadeira orthographia) mais
-celebres e conhecidos são tres. Luiz Caracci
-n. 1555, m. 1618; estudou muito os grandes
-mestres e adquiriu uma maneira nobre e verdadeira,
-expressão e belleza de colorido. Instituiu
-uma academia ajudado de Agustinho e
-Annibal Caracci, seus primos, na qual se formaram
-Albano, Gruido, Guercino e outros illustres
-artistas.—Agustinho Caracci desenhou
-perfeitamente e coloriu bem: dos tres é o menos
-celebre; n. 1558, m. 1603.—Annibal Caracci
-n. 1560, m. 1609; foi superior a seu
-irmão e primo; teve um estylo nobre e sublime,
-desenho preciso e fero, e colorido muitas
-vezes admiravel. A galeria <i>Farnesi</i> é de todas
-as suas obras a mais famosa.</p>
-
-<p>Bernardo Castelli n. 1559, m. 1629; grande<span class="pagenum" id="Page_119">[Pg 119]</span>
-amigo de Tasso, a quem retratou, bem como
-a quasi todos os bons poetas do seu tempo. Foi
-insigne neste genero: desenhou bem e coloriu
-melhor.</p>
-
-<p>Guido Renni (o Guido) n. 1575, m. 1624.
-Costumam distinguir-se tres maneiras differentes
-neste pintor famoso: a 1.ª forte e assombrada;
-a 2.ª natural e bella; a 3.ª terna e
-doce, porem mais fraca. Pintava com a maior
-facilidade.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVII</h4>
-
-<p>Francesco Albani (o Albano) n. 1578, m.
-1660; deu-se absolutamente aos assumptos galantes
-e graciosos: seu genio doce e terno o
-determinou na escolha. O nosso Vieira Portuense
-o estudou muito e imitou bem.</p>
-
-<p>Domenico Zampierri (Domenichino) n. 1581,
-m. 1641; observou sempre uma ordem magnifica
-nos seus quadros, muita nobreza, correcto
-desenho e verdade de expressão.</p>
-
-<p>Francesco Barbieri da Cento (o Guerchino)
-n. 1590, m. 1666. Trabalhou com uma facilidade
-incrivel; e os seus quadros se encontram<span class="pagenum" id="Page_120">[Pg 120]</span>
-por toda a parte: teve um desenho fero e expressão
-nobre; mas o colorido não é igual. Sua
-1.ª maneira é escura e fraca; a 2.ª é mais dura
-e fortemente assombrada; a 3.ª é bella e encantadora,
-e participa do gôsto de Ticiano e
-Corregio. Nos fins de sua vida, porem, obrigado
-da miseria, trabalhou mal e sem gôsto.</p>
-
-<p>Luciano Borzoni n. 1590, m. 1645. Verdade
-e intelligencia de expressão, e delicioso colorido
-o fizeram um excellente pintor. Teve dois
-filhos, que o imitaram, e se distinguiram; sobre
-tudo Francisco Borzoni nas paizagens e marinhas.</p>
-
-<p>João Francisco Frimaldi n. 1606, m. 1688.
-Coloriu suavemente e com harmonia; suas paizagens
-são excellentes.</p>
-
-<p>Benvenuto da Ferrara (o Garofalo) n. 1615,
-m. 1695; foi muito bom colorista e desenhou
-bem. As suas cópias de Raphael são muito
-estimadas.</p>
-
-<p>Beneditto Castiglioni. Sua pureza de desenho
-frescura de colorido, delicadeza de toque
-e grande intelligencia de <i>claro-escuro</i> fizeram
-os seus admiraveis quadros preciosissimos e
-caros. Nasceu 1616 m. 1670.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_121">[Pg 121]</span></p>
-
-<p>Cario Cignani n. 1629, m. 1673. Teve
-muito boa composição e desenho; mas pouca
-expressão por causa do <i>muito-acabado</i> dos seus
-quadros.—Bolonha.—</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVIII</h4>
-
-<p>Thiarini, chamado o <i>expressivo</i>, morto pelos
-annos de 1750: teve muita expressão e um
-colorido vigoroso: exprimiu bem as paixões.</p>
-
-<p>Izabel Cirani, do mesmo tempo. Estudou
-com proveito os grandes mestres: adquiriu um
-gracioso colorido; e, com quanto preferia os
-assumptos terriveis, executou muito melhor os
-doces e ternos.</p>
-
-<p>Marcantonio Franceschini (o Francesquino)
-morto em 1729. Seu colorido é muito engraçado,
-seu desenho preciso, e sua maneira tem
-uma bella simplicidade. Os quadros de Francesquino
-tem muita estimação e valor.—Bolonha.—</p>
-
-<p>Marcos Benefiale n. 1684, m. 1764; foi
-um dos bons mestres de sua eschola por seu
-correctissimo desenho, grande energia e expressão,
-e fecundidade de pincel.—Roma.—</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_122">[Pg 122]</span></p>
-<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_VI">CAPITULO VI<br><span class="small">Da Eschola Veneziana</span></h3></div>
-
-
-<p>A eschola Veneziana, que reconhece por fundadores
-os Bellinis, Giorgione e Ticiano, produziu
-excellentes pintores, que imitaram a natureza
-com uma fidelidade, que seduz os olhos.
-Seu colorido é sabio e encantador, seu <i>claro-escuro</i>
-de muita intelligencia, a imaginação bella,
-a ordem rica, e os mais galantes e spirituosos
-toques; em fim, sua maneira é originalmente
-encantadora, sobre tudo nas formosas e sabias
-composições de Ticiano e Paulo Veronese. Os
-grandes mestres desta eschola desprezaram todavia
-alguma cousa o desenho; tam essencial
-á boa pintura. Ticiano, e Giorgione elevaram
-o modo Veneziano a um ponto, que será difficil
-iguala-los. Nota-se em geral a esta eschola
-pouco conhecimento do <i>antigo</i>, e attitudes.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XV</h4>
-
-<p>Gentil e João Bellini mortos, o primeiro em
-1501, o segundo em 1512, e mui velhos. Seus<span class="pagenum" id="Page_123">[Pg 123]</span>
-quadros rarissimos mostram ainda um desenho
-verdadeiro, mas sem ordem: seu maior merecimento
-é terem sido mestres de Giorgione e Ticiano.</p>
-
-<p>Giorgione de Castel-franco n. 1477, m.
-1511. Sciencia de claro-escuro, ordem, colorido
-e desenho o elevaram em brevissimo tempo
-(pois viveu só 34 annos) á perfeição.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVI</h4>
-
-<p>Ticiano Vecelli da Cadore n. 1477, m. 1576.
-Suas obras espalhadas por toda a Europa fizeram
-conhecer este mestre, que discorreu uma
-longa e feliz carreira, vivendo 99 annos; um
-quasi inteiro e glorioso seculo empregado na
-mais nobre das artes. Ignorou o <i>antigo</i>, e falhou
-no desenho; mas o colorido de Ticiano, e
-sua expressão, assim como não tiveram modelo,
-não terão imitadores.</p>
-
-<p>Gio Antonio Regillo (il Podernone) n. 1484,
-m. 1540. A belleza de seu colorido, facilidade
-de desenho e apurado gôsto de invenção o fizeram
-temer muito de Ticiano. Nada mais é
-necessario para seu elogio.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_124">[Pg 124]</span></p>
-
-<p>Sebastião Piombo n. 1485, m. 1547. O quadro
-da <i>resurreição</i> de Lasaro, feito para oppor
-ao da <i>transfiguração</i> de Raphael lhe adquiriu
-muita fama; e Miguel Angelo, cujo é o desenho
-do dito quadro, quiz por via d’elle disputar
-a Raphael o primeiro logar; mas a expressão,
-e colorido de Piombo não poderam triumphar
-do incontrastavel merecimento de seu illustre
-rival.</p>
-
-<p>Giacomo Ponte Bassano n. 1510, m. 1592.
-Amou os assumptos communs, em que foi grande:
-seu stylo é verdadeiro, e as suas côres excellentes.</p>
-
-<p>André Sciavone n. 1522, m. 1582: desenhou
-incorrectamente; porem coloriu tam bem,
-teve um modo tam facil e engraçado, tam bom
-gôsto nas roupagens, e tam bellas attitudes,
-que se lhe não pode negar o titulo de grande
-pintor.</p>
-
-<p>Giacomo Robusti (il Tintoreto) n. 1524, m.
-1594. Uma imaginação vivissima, uma rapidez
-incomprehensivel e um finissimo gôsto o elevaram
-á primeira ordem dos mestres. É prodigioso
-o numero de suas obras.</p>
-
-<p>Paolo Calliari Veronese (Paulo Veronese) n.<span class="pagenum" id="Page_125">[Pg 125]</span>
-1532, m. 1588. Seus quadros farão sempre as
-delicias dos amadores da arte pela riqueza d’ordem,
-belleza de caracteres, bom gôsto de roupagens,
-frescura de colorido e nobre elegancia
-de figuras.</p>
-
-<p>Giacomo Palma (Palma il Vechio) n. 1540,
-m. 1588; imitou a natureza sempre bella, e
-com um <i>bem-acabado</i> sem affectação.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVII</h4>
-
-<p>Tiago Palma (Giacomo Palma il Giovane)
-n. 1544, m. 1628. Foi discipulo de Tintoreto,
-que imitou optimamente.</p>
-
-<p>Carlos Veneziano n. 1585, m. 1625. Seu
-colorido imita bem Corregio, e suas physionomias
-engraçadas as de Guido.</p>
-
-<p>Alessandro Veronese dito o <i>Turchi</i>, ou <i>Orberto</i>
-n. 1600, m. 1670; desenhou bem, e coloriu
-como um Veneziano.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVIII</h4>
-
-<p>Giam Battista Piazzeta morto no fim do
-XVIII seculo. Seu colorido é mau, mas o desenho<span class="pagenum" id="Page_126">[Pg 126]</span>
-imita muitas vezes, e com verdade, a nobre
-altivez de Miguel Angelo.</p>
-
-<p>Rosa Alba Carriera n..., m. 1761. Seus
-retratos e pasteis são conhecidos em toda a
-Europa; seu principal merecimento é o novo
-gôsto, e maneira singular, com que trabalhou
-em miniatura.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_VII">CAPITULO VII<br><span class="small">Da Eschola Flamenga</span></h3></div>
-
-
-<p>A eschola Flamenga é a de Rubens e Wandick;
-tanto basta para o seu elogio.—Van-Eick,
-tam conhecido pelo invento da pintura
-a oleo, foi o seu chefe. Quem amar a nobreza
-do pincel Romano, a bella arrogancia do Florentino,
-as graças do <i>antigo</i>, as gentilezas
-Gregas; não será decerto muito apaixonado
-das producções Flamengas. Os gelos do paiz,
-o temperamento frio dos habitantes são as causas
-necessarias e naturaes do pouco fogo que
-se lhes nota. Mas, em trôco desta falta, que
-bellezas lhes não achará o amador imparcial
-e singelo! Ninguem, senão os pintores Flamengos,<span class="pagenum" id="Page_127">[Pg 127]</span>
-appresenta em seus quadros um <i>bem-acabado</i>,
-um <i>completo</i>, que parece superior á
-paciencia humana; uma fidelidade original na
-imitação da natureza, que encanta e admira.
-O seu defeito todavia é o menos-preço d’aquella
-generica e fundamental regra das boas-artes:
-<i>Imitar a bella natureza</i>; isto he, <i>saber
-extremar n’ella o bello do mediocre</i>. Nisto falharam
-de certo, exprimindo-a muitas vezes
-com a cega punctualidade, e o <i>verbo ad verbum</i>
-d’um <i>fidus interpres</i>; mas este mesmo defeito
-(permitta-se-me julga-lo assim, com quanto
-vou contra o commum parecer) dá muitas
-vezes ás pinturas Flamengas encantos simplices,
-e singelos, que em nenhumas outras se
-encontram.</p>
-
-<p>Nesta numerosa eschola se classificam todos
-os pintores das nações do norte; e se os caracteres,
-mais que as patrias, devem ser neste
-ponto os verdadeiros dados, não duvidarei
-tambem ennumerar n’ella os poucos bons inglezes.
-Nunca pude gostar da pintura Britannica:
-um contra-natural, um monotono, um
-forçado no colorido, um sempiterno gêlo na expressão,
-que sempre lhe notei, me fizeram olha-la<span class="pagenum" id="Page_128">[Pg 128]</span>
-com desprezo, e a não ser o moderno West,
-(de quem adiante fallarei) de certo os inglezes
-avultariam bem pouco neste ramo das boas-artes.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XV</h4>
-
-<p>João Van-Eick n. 1370, m. 1441; fundou a
-sua eschola, e inventou a pintura a oleo. Nada
-mais se sabe.</p>
-
-<p>Alberto Durero n. 1471, m. 1528. Seu desenho
-é correcto, sua imaginação viva, sua
-maneira firme; mas falhou muito nos costumes.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVI</h4>
-
-<p>João Holbein n. 1498, m. 1554. Sua imaginação
-é sublime, o colorido vigoroso, e suas
-figuras tem um ar de relêvo, que engana. Em
-geral o pintar deste mestre parece mais Lombardo,
-que Flamengo.</p>
-
-<p>Otam Vaen ou Vaenio n. 1556, m. 1634;
-formou-se no gôsto Romano, que lhe deu muita
-correcção de desenho, e belleza de expressão;
-qualidades, a que ajunctou grande intelligencia
-de claro-escuro.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_129">[Pg 129]</span></p>
-
-<p>Bloemart n. 1567, m. 1647. Um toque expedito
-e livre, bellas roupagens, muita sciencia
-de claro-escuro são os caracteres d’este
-pintor.</p>
-
-<p>Pedro Paulo Rubens n. 1567, m. 1640.
-Nada será bastante para fazer descer este grande
-homem do grau illustre de primeiro pintor
-historico. Não quero, nem devo occupar-me de
-seus defeitos; releva-me só dizer: que o seu
-colorido é verdadeiro e brilhante, sua imaginação
-fertil, seu claro-escuro sabio, todo elle é
-encantador.—A galleria do Luxembourg é a
-sua melhor obra: mas um quadro allegorico da
-guerra (no palacio ducal de Florença) no meu
-parecer, e no de muitos, não é inferior. Fogo
-brilhante, nobreza poetica, côr excellente;<a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a>
-caracteres interessantes, composição precisa,
-intelligente distribuição de luz; tudo se juntou
-neste quadro; e n’um grau de formusura, a<span class="pagenum" id="Page_130">[Pg 130]</span>
-que só a allegoria póde remontar. A simples
-ideia deste painel vale bem uma Iliada, e todos
-os Klopstocks juntos talvez a não produzissem:
-«É a <i>transfiguração</i> de Rubens» dizia
-um philologo meu conhecido, alludindo ao
-célebre quadro de Raphael. «A vida dos
-homens sabios é o cathalogo de suas obras»
-diz um grande litterato<a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a>. Esta sentença desculpa
-a minha diffusão.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVII</h4>
-
-<p>Antonio Wandick n. 1599, m. 1641. Foi
-discipulo de Rubens, e a maior honra do mestre;
-verdadeiro e simples na imitação da natureza.
-O seu genero foi o retrato, em que
-ninguem o excedeu.</p>
-
-<p>Rembran-Van-Ryn n. 1606, m. 1674; foi
-grande no <i>claro-escuro</i>, na harmonia das côres:
-na imitação do relêvo. Seus quadros são conhecidos
-pelo fundo negro.</p>
-
-<p>Vander-Kabel n. 1631, m. 1695; distinguiu-se<span class="pagenum" id="Page_131">[Pg 131]</span>
-absolutamente da sua eschola pela imitação
-dos Caraccis e Salvator Rosa.</p>
-
-<p>Eglone-Vandernér, ou Vandernêér n. 1643,
-m. 1697. Um colorido vivo, um pincel mimoso
-lhe fizeram naturalmente procurar os assumptos
-amorosos, em que foi excellente.</p>
-
-<p>Wanderwerff n. 1659, m. 1722. Seus toques
-são firmissimos, e seu desenho correcto.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVIII</h4>
-
-<p>Antonio Raphael Mengs n. 1728, m. 1779.
-Tem uma verdade de colorido, e uma facilidade
-de pincel, que distingue as suas obras de
-quaesquer outras.</p>
-
-<p>Gerardow n..., bem conhecido pelo seu <i>Hydropico</i>
-que existia no palacio real em Turin,
-e que Mr. Cochin na sua viagem de Italia não
-duvída chamar o melhor quadro Flamengo, e
-assegura ter sido um dos mais estimados do
-principe Eugenio.<a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a></p>
-
-<div class="footnotes">
-<h5>NOTAS DE RODAPÉ:</h5>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[22]</a> A muito me affoito, conceituando da belleza de
-côr d’um quadro, que nunca vi, senão em estampa, e
-má estampa; mas fio-me na auctoridade de eruditos
-viajantes. Haverá dous annos que me communicou
-esta estampa em Lisboa o sabio philologo J. B. S. Dos
-apontamentos, que então fiz, extrahi esta e outras discripções,
-que por ahi vão.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[23]</a> Voltaire: <i>Siècle de Louis XIV</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[24]</a> Muito há que li estas viagens, assim como as memorias
-de Mr. l’Abbé Richard; de maneira que agora
-não poderei asseverar em qual dos dous encontrei Gerardow,
-e o seu hidropico. Á leitura d’ambos remeto
-os curiosos.</p>
-
-</div>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_132">[Pg 132]</span></p>
-<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_VIII">CAPITULO VIII<br><span class="small">Da Eschola Franceza</span></h3></div>
-
-
-<p>A eschola Franceza, filha da Romana (segundo
-Pruneti) honra muito a sua progenitora.
-Desde o seculo XVII as Italianas (seu modelo)
-declinavam muito; ja se não viam Rafaelos,
-Corregios, nem Ticianos: parece que a
-natureza, esgotada por tam grandes talentos,
-queria descançar. E nesta mesma epocha (principios
-do seculo XVIII, e fins do XVII) brilhavam
-em França Le Brun, Lesueur, Subleiras
-etc. Veio o seculo XIX tam memorando
-pelas extraordinarias mudanças, que viu a Europa;
-e em quanto a revolução Franceza, e
-suas consequencias aniquilavam em toda a parte<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a>
-as boas-artes; a França apresentava ao
-mundo o mais brilhante espectaculo. Por entre<span class="pagenum" id="Page_133">[Pg 133]</span>
-o ruido das armas e o estrepito dos combates,
-as margens do Sena,</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="poetry"><i>D’onde, arrancando omnipotencia aos fados,
-Impoz tropel d’heroes silencio ao globo</i></p>
-
-<p class="center">(<span class="smcap">Bocage</span>)</p>
-</div>
-
-<p>se ornavam com todo o esplendor das sciencias
-e artes. A mesma Theologia tam sêca, e
-enfadonha nas mãos de Santo Thomaz, tam
-immoral nas de Mollina, e Sanches, muda de
-fórma, toma nova essencia, e na milagrosa
-penna de Chateaubriand surge com uma belleza
-e magestade, que jamais puderam dar-lhe
-o douto Agustinho, o eloquente Origenes.
-Com bem justiça, em quanto a mim, se podem
-a si proprios applicar os Francezes, a respeito
-das outras nações, aquella sentença de Seneca:
-<i>Multum egerunt qui ante nos fuerunt, sed
-non peragerunt</i>.<a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a> Nesta epocha brilhante e memoranda
-nos fastos da humanidade, das sciencias
-e das artes, a pintura renova em París os
-seculos de Augusto, de Leão X e de Luiz XIV.
-Os generaes victoriosos traziam de toda a parte<span class="pagenum" id="Page_134">[Pg 134]</span>
-os monumentos mais preciosos das boas-artes.
-O Vaticano, o Belveder, o Capitolio, Roma,
-toda a Italia foi exhaurida, e suas riquezas
-de sculptura e pintura transportadas á nova
-capital do mundo. Então appareceram em
-França David, Girodet, e muitos outros, que
-vão parelhas com os mais famosos Italianos, se
-em parte os não excederam. Lavater no seu
-ingenhoso livro das physionomias não se attreveu
-a caracterisar os Francezes. Seus genios e
-maneiras tam incertos e incapazes de classificação,
-como sua variada phisionomia, impedem
-affixar-lhes com exactidão a caracteristica; e
-philologos por isso houve, que não quizeram
-considerar na Franceza uma eschola; porem
-esta assersão é sem critica, e pouco seguida.
-Pruneti no seu <i>Ensaio Pictorico</i> accusa a eschola
-Franceza de mau colorido, e ignorancia
-do <i>antigo</i>. Eu, sem me attrever a contrastar
-este parecer, julgo que tal imputação não pode
-ter lugar na moderna eschola franceza; mas
-somente se deve referir á antiga. Pruneti todavia
-não conheceu a eschola de David; mas devia
-conhece-la seu traductor Taborda; devêra
-estuda-la para emendar o seu original, e exceder<span class="pagenum" id="Page_135">[Pg 135]</span>
-assim a mediocridade d’um traductor servil,
-accrescentando-lhe novas ideias. O grande
-genero francez é geralmente o historico. O
-chefe desta eschola, querem uns que seja Roux,
-ou Rosso, outros que Leonardo da Vinci:
-Pruneti assevera que fôra Primaticio Bolognese
-e o faz alumno da eschola Romana. Eu o
-classifiquei na Lombarda; mas confesso que
-me enganei; porque o seu pintar, verdadeira
-norma, é mais Romano, que Lombardo.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVI</h4>
-
-<p>Vovet n. 1590, m. 1649. Teve um desenho
-altivo, e um pincel vigoroso; mas imitou depois
-todas as boas e más qualidades de Mig. Ang.
-de Caravaggio.</p>
-
-<p>Nicolau Poussin: Pruneti o faz nascido em
-1594; mas Voltaire (<i>Siècle de Louis XIV</i>) assevera
-esta data em 1599. A boa critica decide
-por este, como nacional, e tam instruido nos
-successos d’um tempo, cuja historia nos deu. O
-mesmo Voltaire diz que Poussin era chamado o
-pintor das pessoas de spirito, e acresenta que
-tambem das de gôsto se podia dizer. Soube bem
-o <i>antigo</i> e o desenho; mas o gôsto Romano lhe<span class="pagenum" id="Page_136">[Pg 136]</span>
-deu um colorido sombrio. Sua philosophia (diz o
-grande escriptor) o fez superior ás intrigas de Le
-Brun, e morreu pobre mas contente em 1665.</p>
-
-<p>Pedro Valentin de Colonier n. 1600, m.
-1632; imitou Poussin; teve um colorido harmonioso,
-boa ordem nas figuras, mas pouca
-correcção no desenho.</p>
-
-<p>Jacques Blanchard foi imitador feliz das bellezas
-de Ticiano. Nasc. 1600, m. 1638.</p>
-
-<p>Lesueur n. 1617, m. 1655. Seu ingenho é
-sublime e elevado, seu gôsto de roupagens magnifico.
-É um dos primeiros pintores da antiga
-eschola Franceza.</p>
-
-<p>Pedro Mignard n. 1610, m. 1638. O estudo,
-e imitação de Raphael e Ticiano o fizeram algum
-tempo rival de Le Brun; mas a posteridade
-imparcial o extremou bem.</p>
-
-<p>Carlos Le Brun n. 1619, m. 1690. Sua composição,
-dignidade de exprimir, e fidelidade de
-costumes se conhece principalmente pelas batalhas
-de Alexandre, que Voltaire julga superiores
-ás de Paulo Veronese; mas apezar do meu
-respeito a um tal historiador, e philologo, creio
-que nisto se engana, bem como no elogio do seu
-colorido, que todos taxam de menos correcto.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_137">[Pg 137]</span></p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XVIII</h4>
-
-<p>José Vivien n. 1651, m. 1735. Retratou bem
-a pastel, teve muita belleza e fecundidade de
-ideias, e executou bem.</p>
-
-<p>Pedro Subleiras n. 1699, m. 1749. Fertilidade
-de ingenho, grandeza de estylo, viveza
-de colorido, magnifica prespectiva, boas roupagens
-são os seus caracteres, e os d’um grande
-pintor.</p>
-
-<p>João Baptista Santerre n..., m.... Seu merecimento
-principal é um colorido verdadeiro e
-terno. O quadro de <i>Santa Thereza</i> na capella
-de Versailles é um dos esmeros d’arte mais preciosos
-e bellos; com quanto um pouco voluptuoso
-de mais, de que ao assumpto e logar cumpria.</p>
-
-
-<h4><span class="smcap">Seculo</span> XIX</h4>
-
-<p>David<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a> é não só o primeiro pintor da moderna
-eschola Franceza, mas por ventura o
-primeiro do mundo, depois de Raphael. Que<span class="pagenum" id="Page_138">[Pg 138]</span>
-vastidão e sublimidade de ideias! Que força
-e verdade no colorido! Finalmente as suas
-composições reunem todas as boas qualidades,
-que apenas se acham dispersas pelos quadros
-mais famosos das antigas escholas, e que só a
-elle foi dado juntar. Fallem os prodigiosos
-quadros de Belisario, do juramento dos Horacios,
-da morte de Sócrates, e sobre tudo o incomparável
-quadro das Sabinas, o <i>non plus ultra</i>
-da concepção e execução, e a eterna inveja
-de todos os pintores existentes e futuros.</p>
-
-<p>Girodet igualmente se tem distinguido muito
-pela elegancia de suas composições, e suavidade
-de seu colorido, que nos seus quadros, quer
-de perto, quer de longe, presenta quasi o mesmo
-effeito. Não tem as graças virís de David;
-mas um acabado, uma doçura, uma maneira
-de exprimir, que o caracterisam, e tornam por
-extremo encantadoras suas bellas producções.
-Vejam-se os quadros do <i>enterro d’Atala</i>, e da
-Virgem.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_139">[Pg 139]</span></p>
-
-<p>Gérard por seus excellentes retratos, chamado
-o Wandick de França, é tambem pintor
-historico e famoso pelo bom arranjo e ordem
-de seus grupos, pannejado, ou trapejado de
-suas figuras, e bella correcção de desenho.
-Seus grandes quadros são o Belisario, a Batalha
-d’Austerlitz, e ultimamente a entrada de
-Henrique IV em Paris, que lhe grangeou o
-logar de primeiro pintor da Camera de Luiz
-XVIII; não porque Girodet seja superior a
-David, nem mesmo igual, mas porque soube
-lisongear a tempo.</p>
-
-<p>Régnault é muito conhecido pela correcção
-do desenho; porém o seu colorido, em demasia
-brilhante, é mais contrafeito, que natural: todavia
-deu muitos e bons discipulos, e entre
-elles o mais famoso é:</p>
-
-<p>Guérin tão celebre pelos seus quadros de Phedra,
-e Hyppolito, de M. Sexto, e da narração
-de Eneas a Dido. Seus caracteres são fogo pictoresco
-e muita sciencia de <i>claro-escuro</i>.</p>
-
-<p>Le Gros bem conhecido pintor de historia segue
-a David. É mui celebre o seu quadro de
-Francisco I, e Carlos V em S. Diniz.</p>
-
-<p>Vernet, filho do paizagista do mesmo nome,<span class="pagenum" id="Page_140">[Pg 140]</span>
-e que no genero de batalhas é sem par. Só
-elle conseguiu exprimir com todo o fogo, e energia
-os brutos, que puxam o carro de Neptuno.</p>
-
-<div class="footnotes">
-<h5>NOTAS DE RODAPÉ:</h5>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[25]</a> Á excepção da Inglaterra e Russia, e tambem de
-Portugal, que então colhia os fructos de todas as fadigas
-de Pombal e Manique.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[26]</a> Seneca <i>Epist.</i> 65</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[27]</a> Tinha-me feito a mim proprio uma lei de não nomear
-nenhum pintor vivo; mas o reconhecido merecimento
-destes, o serem estrangeiros, a necessidade de fallar da moderna eschola Franceza, e não podêr faze-lo
-de outra maneira, me obrigou a infracção da lei,
-e quebra do protesto.</p>
-
-</div>
-
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_IX">CAPITULO IX<br><span class="small">Dos Pintores Inglezes, e principalmente
-de West</span></h3></div>
-
-
-<p>West é o unico inglez, cujas obras mereçam
-collocar-se a par das boas das outras nações.
-Os Inglezes não tem o genio da pintura. A natureza
-do paiz não é bella, o sexo frio e desleixado;
-as proporções do corpo em geral irregulares,
-mal feitas; o caracter da nação duro
-e rispido; os costumes ferozes; tudo em fim
-concorre a impossibilitar a Gran-Bretanha de
-produzir bons pintores. Um inglez bem conhecido,
-o barão de Chesterfield o confessava, quando
-n’uma de suas cartas a certa dama franceza
-diz: Every country has talents peculiar to
-it, as well as fruits, or other natural productions.
-We here think deeply, and fathom to
-the very bottom. Italian thoughts are sublime
-to a degree beyond all comprehension. You<span class="pagenum" id="Page_141">[Pg 141]</span>
-keep the middle path, and consequently are seen
-followed, and beloved (<span class="smcap">Chesterfield</span> <i>Letters</i>:
-Lett. 444.) Comtudo West soube distinguir-se
-de seus compatriotas por um genio vasto, e
-desenho correcto; mas seu caracter de pintura
-não é sublime; e o seu colorido (como o geral
-da nação) contrafeito e improprio.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="CAPITULO_X">CAPITULO X<br><span class="small">Dos Pintores Portuguezes</span></h3></div>
-
-
-<p>Tem-se escripto muito, e muito controvertido
-sobre a Pintura portugueza, e sua historia;
-mas tanto nacionaes, como estrangeiros (affoitamente
-o digo) sem critica. O exame de seus
-escriptos, das obras dos nossos artistas me suscitou
-a ideia de entrar com o faxo da philosophia
-neste cahos informe e desembaraçar, quanto
-em mim fosse, com o fio da critica este
-inextricavel labyrinto. Não pretendo adiantar
-ideias novas: pois donde as haveria? Menos
-ainda refutar as poucas historicas que temos:
-pois que documentos poderia allegar? Mas simplesmente
-examinar o que ha, e dar-lhe ordem<span class="pagenum" id="Page_142">[Pg 142]</span>
-e methodo. Eis aqui o que é meu, o resto é dos
-escriptores, de quem o houve. Com estes dados
-considerei em Portugal quatro epochas de pintura,
-umas mais, outras menos brilhantes: por
-via destas divisões será por ventura mais facil
-o formar um systema historico desta boa-arte
-entre nós.</p>
-
-
-<h4>EPOCHA I<br>(Seculos XI até XIV)</h4>
-
-
-<p>O erudito arcebispo Cenaculo, Barbosa e outros
-modernos, na investigação das antiguidades
-da pintura portugueza, conjecturaram muito
-e com muita fadiga, mas pouco fructo. O
-desleixamento daquelles seculos meio-barbaros
-em se lembrar da posteridade com a historia de
-seu tempo, não deixa aos animos estudiosos, e
-amigos da gloria patria, senão o desejo e infructuoso
-trabalho de vagar sem rumo por um
-pelago de conjecturas, a qual mais vaga. Que
-Italia e Portugal eram, nestas epochas remotas
-dos seculos XI, XII e XIII, as provincias menos
-barbaras da Europa; seus monumentos publicos,
-templos, estatuas e ainda livros o mestram.<span class="pagenum" id="Page_143">[Pg 143]</span>
-Alcobaça e Santa Cruz de Coimbra são,
-alem d’outras, incontrastaveis provas da minha
-asserção. Vivia entre nós a pintura; e
-vivia o melhor, que do gosto do tempo se podia
-esperar. Quem exigir mais diffusão, póde
-ver os citados Barbosa, e Cenaculo, e todos os
-allegados pelo moderno Taborda. O resultado
-philosophico de quanto disseram é em poucas
-phrases:—Que esta arte antiquissima entre nós
-remonta ao principio da monarchia.—Que
-barbara e gothica ao principio, se foi pouco e
-pouco melhorando, já pelas viagens dos nossos
-mestres á Italia, já pelas obras e pintores, que
-de lá vinham chamados pelo bom acolhimento,
-que lhes nossos monarchas faziam.—Que existem
-ainda deste tempo algumas pinturas, cujo
-auctor se ignora.—Que nos reinados d’Affonso
-V, e João II ja tinhamos pintores de nome,
-como Gonsalo Nuno, João Annes, e Alvaro de
-Pedro. Que o estylo da nossa pintura deste
-tempo, era um mesclado de gothico e grego-moderno,
-similhante ao de Cimabúe, Guido de
-Sienna, e Pedro Perugino.—O gôsto do <i>antigo</i>,
-que então começava a prevalecer na Italia,
-e que de lá se communicou a Portugal pela<span class="pagenum" id="Page_144">[Pg 144]</span>
-protecção, com que o amador das boas-artes,
-D. Manoel especializou a pintura, assignala a
-segunda epocha, que se deve contar do XV seculo.</p>
-
-
-<h4>EPOCHA II<br>(Seculos XV e XVI)</h4>
-
-
-<p>«Em quanto a França se occupava em justas
-e torneios, em discordias e guerras civís,
-Portugal descobria novos mundos, fazia o commercio
-da Europa, e produzia um sem numero
-de Camões, antes que em París houvesse
-um só Malherbe» diz Mr. Voltaire (<i>Siècle de
-Louis XIV</i>), e devêra accresentar que, antes
-que nascessem Le Brun e Poussin, ja Portugal
-contava, na longa serie de seus pintores, Gran
-Vasco, Francisco de Hollanda, Claudio Coelho,
-e mil outros. D. Manoel chamado o feliz, foi o
-pae das sciencias e artes: e se João III contou
-no seu tempo mais sabios, que seu illustre antecessor,
-fructos foram, que em seu tempo amaduraram;
-mas devidos ás fadigas do semeador
-e cultor o grande Manoel. Gran Vasco, Gonsalo
-Gomes, Fr. Carlos todos são deste tempo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_145">[Pg 145]</span></p>
-
-<p>O commercio e conquistas da India tinham elevado
-o reino a um gráo de opulencia, desconhecido
-então das outras nações. D. Manoel quiz
-eternizar-se com a fabrica do mosteiro de Belem;
-conhecendo:</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p class="poetry">
-<i>Que d’acções immortaes se murcha a gloria,<br>
-Se a não regam as filhas da memoria.</i><br>
-</p>
-
-<p class="center">(<span class="smcap">Diniz</span> od.)</p>
-</div>
-
-<p>Os mancebos de mais esperanças foram mandados
-á Italia a aperfeiçoar-se na pintura. Affonso
-Sanches, Fernão Gomes, Manoel Campello,
-Christovão Lopes e outros, voltaram approveitados,
-e enriqueceram não só Belem e Lisboa,
-mas o reino e toda a Europa com suas
-primorosas obras. Veio depois Francisco de
-Hollanda, Diogo Pereira e Claudio Coelho, que
-não deixaram ao seculo de Manoel e João III<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a>
-que invejar ao de Luiz XIV. O estylo pomposo
-de Miguel Angelo, que tanto agradava ao<span class="pagenum" id="Page_146">[Pg 146]</span>
-genio altivo d’uma nação conquistadora, prevalecia
-muito entre os pintores portuguezes, que
-nem por isso menos presaram o desenho de Raphael,
-e o colorido de Ticiano, que ainda hoje
-se admira, em suas bellas composições.</p>
-
-
-<h4>EPOCHA III<br>(Seculo XVII)</h4>
-
-
-<p>Espiraram com D. Sebastião nas areias de
-Africa o valor e espirito portuguez; cairam as
-sciencias, esmoreceram as artes; e, com quanto
-os intrusos Philippes favoreciam alguma cousa
-o talento; a abundancia e riquezas, em cujo
-seio se crearam sempre os grandes ingenhos
-tinham desamparado o reino, e sepultado a nação
-no lethargo politico, na miseria e na ignorancia.
-As cinzas das sciencias fumegavam com
-tudo; e os ultimos vislumbres d’um clarão
-moribundo, mas ainda grande, allumiaram ainda
-a Amaro do Valle, Estevão Gonsalves, José
-d’Avellar e Bento Coelho.—Surgiu finalmente
-a independencia portugueza depois de
-60 annos de escravidão; mas o genio da nação<span class="pagenum" id="Page_147">[Pg 147]</span>
-estava muito abatido; era necessario ainda o
-decurso de muitos seculos para o levantar.
-Vem-se com tudo desta quadra muitas pinturas,
-supposto não mereçam comparar-se com
-as do bom tempo de Campello e Claudio. Bem
-como nos animos, reinava na pintura por estes
-desgraçados tempos a servidão e mau gosto,
-que se limitava a copiar e imitar com baixeza;
-e por ventura pela mesma razão, que nos
-fez desprezar a materna lingua, para escrevermos
-na hespanhola: lisonja vil e indigna do
-nome portuguez, eterno opprobrio e mancha
-de escriptores, aliás benemeritos, como Faria
-e Sousa, que enxovalhou sua fama com tal baixeza
-e vituperio,<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[29]</a> e a marcou indelevelmente
-com o ferrête da sordida adulação; perniciosa
-mania, que tanto estragou o idioma de Camões
-e Barros, e a tal ponto, que os esforços e fadigas
-de tantos sabios e philologos tem sido
-pouco para a restaurar.</p>
-<p><span class="pagenum" id="Page_148">[Pg 148]</span></p>
-
-<h4>EPOCHA IV<br>(Seculos XVIII e XIX)</h4>
-
-
-<p>A longa paz do reinado de D. João V, o
-commercio das colonias Americanas, as riquezas
-e abundancia consecutivas fizeram reviver
-as artes e sobretudo a pintura e architectura.
-Começou-se Mafra pela mesma razão, que se
-começara Belem: a Italia recebeu de novo
-muitos alumnos portuguezes; e como Luiz
-XIV fizera em Roma, fez João V, instituindo
-n’aquella cidade uma academia de pintura.
-Francisco Vieira Lusitano, Ignacio d’Oliveira,
-e muitos outros foram o digno fructo dos cuidados
-do monarcha, merecedor por seus bons
-desejos d’um seculo mais philosopho, e d’uma
-côrte menos hypocrita. N’este estado de cousas
-começou a reinar D. José, e com elle o
-marquez de Pombal: tudo mudou de face; cahiu
-o colosso jesuitico, o reino d’Aristoteles e
-a barbaridade Thomistica<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[30]</a>; brilhou a pintura<span class="pagenum" id="Page_149">[Pg 149]</span>
-como a poesia, e as outras artes e sciencias. O
-governo doce e moderado de Maria I acabou
-de aperfeiçoar o que principiara e adiantara
-D. José, e o marquez de Pombal, que na universidade
-de Coimbra,<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[31]</a> em Mafra, no collegio
-dos nobres, e outras partes tinham instituido
-aulas de desenho e pintura. D. Maria
-fundou a academia do <i>nu</i>; em seu tempo<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[32]</a> se
-instituiu a de desenho do Porto. A nenhum bom
-portuguez devem esquecer os vigilantes cuidados
-do intendente Manique, a quem a pintura,
-a esculptura e mais artes devem tanto em
-Portugal. Esta fertil epocha produziu um Pedro
-Alexandrino, Vieira Lusitano, Teixeira
-Barreto, Vieira Portuense, Sequeira, e muitos
-outros, cujos nomes callo, mas bem conhecidos
-pelas suas bellas producções. A verdade,
-a expressão, o bello natural são os caracteres
-dominantes nestes tempos.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_150">[Pg 150]</span></p>
-<h4>PINTORES PORTUGUEZES DA I EPOCHA<br>(Seculo XI até XIV)</h4>
-
-
-<p>Alvaro de Pedro viveu e pintou na Italia
-pelos annos de 1450. Nada mais se sabe; mercês
-á incuria de nossos avoengos. Oxalá que
-este miseravel e vergonhoso exemplo sirva de
-estimulo a netos, que possam melhor que eu,
-transmittir á posteridade a memoria illustre de
-nossos coévos. Noto de passagem que o traductor
-da oração de Belori assevera, com uma
-intrepidez que me espanta, serem de Gonsalo
-Nuno, ou Nuno Gonsalves as pinturas da capella
-de S. Vicente na sé de Lisboa. O mesmo
-dizem Francisco de Hollanda e Bermudes.</p>
-
-<p>João Annes. Deixadas conjecturas, nada
-mais sabemos deste pintor, senão que vivia
-pelos annos de 1459 por uma carta de privilegio
-dada por D. Affonso V. (<i>Vide</i> Taborda,
-Cenaculo, etc.)</p>
-
-<p>Vasco dito o grande (Gran Vasco). Sabemos
-por documentos d’aquelle tempo, que vivia ainda
-nos fins do XV seculo. Seu stylo do antigo
-modo Florentino faz julgar aos sabedores, que<span class="pagenum" id="Page_151">[Pg 151]</span>
-estudára com Pedro Perugino. Desenho, ainda
-que rude, exacto, attitudes energicas, grande
-conhecimento de architectura, bellas paizagens
-são os caracteres deste insigne mestre,
-que fertil, e assiduo no trabalho enriqueceu
-todo o reino com seus primores. Muitos templos
-de Lisboa, o da Ordem de Christo em
-Thomar, e outros o attestam. Foi pintor de D.
-Affonso V, e segundo o traductor portuguez de
-Belori, tambem de D. Manoel. Um periodico
-de Lisboa (que infelizmente se intitula Mnemosine
-Lusitana) quer que o melhor quadro de
-Vasco seja o da paixão de Christo no horto
-(em Thomar): pintura (diz elle) porque um
-Inglez philologo, dava 6:000 cruzados, e uma
-boa copia. Desejava de todo o meu coração,
-que o redactor, ou redactores tivessem, ao
-menos nisto, razão: em quanto a mim o amor
-da patria m’o faz crer facilmente.</p>
-
-
-<h4>PINTORES PORTUGUEZES DA II EPOCHA<br>(Seculo XV e XVI)</h4>
-
-
-<p>Gonsalo Gomes, de quem nada mais se sabe
-senão que vivia nos fins do seculo XV, foi<span class="pagenum" id="Page_152">[Pg 152]</span>
-pintor de D. Manoel: e a estimação, que este
-sabio rei d’elle fez, é o unico, mas relevante
-testemunho do seu merecimento.</p>
-
-<p>Na chronica de D. Manoel é chamado Duarte
-Darmas <i>grande pintor</i>, e como tal enviado
-por el-rei a debuxar as entradas de Azamor,
-Salé, etc. (<i>Vide</i> Damião de Goes, <i>Chron. de
-D. Man.</i>, part. II, cap. 27, pag. 208, ediç.
-de 1819).</p>
-
-<p>Firmado no proprio testemunho do auctor
-assevera (e não sei se com razão) Vicente Carducho,
-e com elle Taborda, que o nosso historiador
-Resende fôra tambem grande pintor.
-Não sei se a singeleza d’aquelles tempos é bastante
-para crermos um homem no artigo dos
-seus louvores.</p>
-
-<p>Fr. Carlos, monge de S. Jeronymo, vivia no
-principio do seculo XVI. Pintou no stylo de
-Bolonha, e sobre tudo no de Corregio. Ainda
-que flamengo de origem, suas obras tem mais
-nobreza, que o commum d’aquella nação, sem
-deixar de ter sua bella simplicidade.</p>
-
-<p>Gaspar Dias viveu pelos principios do XVI
-seculo. Mandado a Italia por D. Manoel a
-estudar os grandes modelos, e formar o stylo,<span class="pagenum" id="Page_153">[Pg 153]</span>
-sua alma elevada não se contentou d’outros mestres,
-que não fossem Raphael e Miguel Angelo.
-Estudou-os, e mereceu imitá-los com dignidade.</p>
-
-<p>Christovão d’Utrecht n. 1478, m. 1557. Ainda
-que nascido em Hollanda, nossos escriptores
-o fazem portuguez. Soube perfeitamente a
-perspectiva, e juntou ao gôsto de Perugino e
-João Bellini a maior delicadeza e harmonia de
-pincel.</p>
-
-<p>Affonso Sanches Coelho n. 1515, m. 1590.
-Dotado pela natureza de quanto constitue um
-grande pintor concebeu fortes desejos de passar
-á Italia, onde ouviu as lições de Raphael;
-honra, que bem mereceu por seu aproveitamento.
-Chamado por Philippe II á Hespanha
-ennobreceu Madrid; e sobre tudo o Escurial
-com suas pinturas. Um dos poucos exemplos do
-merecimento premiado foi este illustre portuguez.
-João III de Portugal, Philippe II, Gregorio
-XIII, o grão duque de Toscana, o da
-Saboia, o cardeal Alexandre Farnese o estimaram,
-enriqueceram e honraram á porfia. Sua
-alma bemformada escutou sempre a voz da
-natureza; e o philologo não excedeu n’elle o
-homem. (<i>Vide</i> Palomino, Bermudes, etc.)</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_154">[Pg 154]</span></p>
-
-<p>Fernão, ou Fernando Gomes, mandado á
-Italia por D. Manoel, e em consequencia vivendo
-no principio do seculo XVI, foi aproveitado
-discipulo de Miguel Angelo; e suas
-obras o provam bem.</p>
-
-<p>Manoel Campelo tambem enviado á Italia,
-e tambem do mesmo tempo. Ainda hoje se
-admira em Belem nos seus quadros aquella correcção
-de desenho da eschola Romana, aquella
-grandeza de stylo, que faz a glória de Miguel
-Angelo, seu mestre, e que a não faz menos do
-illustre discipulo. Estas brilhantes qualidades
-lhe grangearam os elogios de todos os sabios
-nacionaes e estrangeiros. (<i>Vid.</i> D. Francisco
-Manoel de Mello: <i>Hospital das lettras</i>; Guarenti,
-etc.)</p>
-
-<p>Vasques... viveu pelos annos de 1562. Poucos
-pintores souberam, como elle, anatomia tão
-necessaria para o bom desenho, e proporções,
-em que se avantajou, e que lhe déram um mui
-distincto logar na historia da arte, apezar de
-seu stylo um pouco rude.</p>
-
-<p>Christovão Lopes n. 1516, m.... O stylo
-pomposo de Miguel Angelo, que tanto agradava
-ao genio sublime e elevado dos portuguezes,<span class="pagenum" id="Page_155">[Pg 155]</span>
-foi o seu modelo; e juntando a tam brilhante
-qualidade a expressão de Raphael, enriqueceu
-a Patria com as magnificas producções, que
-ainda hoje são admiradas depois de tantos seculos
-pelos sabedores, e amantes das boas-artes.</p>
-
-<p>D. Leonor de Noronha da casa de Linhares,
-n. 1550, m. 1636. De Duarte Nunes de Leão
-na <i>Descripção de Portugal</i>, e de Barbosa na
-<i>Biblioth. Lus.</i> sabemos só que pintou <i>excellentemente
-a oleo e illuminação</i>.</p>
-
-<p>Antonio de Hollanda, inventor da illuminação
-a pontos brancos e pretos em Portugal; e
-com tanto mais merecimento, que absolutamente
-ignorava a mesma descoberta, que então se
-começava na Italia. Delle disse o Imperador
-Carlos V, que <i>mejor le habia sacado al natural
-Antonio de Hollanda en Toledo de iluminacion,
-que Ticiano en Boloña</i>. Bem pouco
-vale este elogio, porque homens desta classe
-nada entendem de ordinario de tudo o que
-póde ter algum valor ou merecimento, tendo
-de mais a mais a presumpção do voto decisivo.
-Não consta porém, que Deus creasse mais que
-um Salomão, e como este <i>um</i> morreu ha muito<span class="pagenum" id="Page_156">[Pg 156]</span>
-tempo, e estes senhores se não dão o incommodo
-de fazer aquillo, que fazem os que não
-são Salomões, ou não tem a tal <i>infusa</i>, é bem
-claro o valor de similhantes elogios. Carlos V
-porém (façamos justiça) posto que o mais odioso
-monarcha por seu cruel despotismo, não era
-com tudo o mais tolo, e algumas luzes lhe tinham
-ficado de senso commum, que se costumam
-apagar com a...</p>
-
-<p>Francisco de Hollanda floreceu pelo meio
-do seculo XVI.—Pintor, architecto, poeta e
-philosopho.—Na Italia Paulo III, e todos os
-grandes e sabios; toda a Hespanha; em Portugal
-João III, e toda a côrte o estimaram como
-merecia. (Pois n’aquelle tempo tambem em
-Portugal se dava preço ao merecimento!) O
-muito que se tem escripto sobre este memoravel
-portuguez, me desobriga de mais extensa
-apologia. De sobejo lh’a fazem seus preciosos
-escriptos, suas pinturas, e toda a Europa.—De
-suas producções é sem questão a obra-prima,
-o baptismo de S. Agustinho (que ainda
-se conserva em cabeça de morgado na casa
-dos Castros) em que se admiram reunidos a
-sabia composição de Raphael, o desenho nobre<span class="pagenum" id="Page_157">[Pg 157]</span>
-e altivo de Mig. Angel., e o bello colorido de
-Ticiano.—Julga-se que morreu em 1574.</p>
-
-
-<h4>PINTORES PORTUGUEZES DA III EPOCHA<br>(Seculo XVII)</h4>
-
-
-<p>Diogo Pereira n. 1570, m. 1640. Trabalhou
-muito; e o desvalimento, em que sempre viveu,
-não lhe affrouxou as graças naturaes e
-puras, que fazem a belleza de suas composições.
-Mas sobre tudo as scenas de horror foram
-o mimo do seu pincel. Tive o prazer de admira-lo
-muitas vezes em suas obras, que por decisiva
-prova de merecimento, são procuradas
-por altissimos preços para Italia, França e
-Inglaterra.</p>
-
-<p>Estevão Gonsalves Neto n..., m. 1627. É
-delle o missal do convento de Jesus tam gabado
-pelas excellentes miniaturas que o ornam.
-Soube bem o ornato e perspectiva.</p>
-
-<p>Amaro do Valle n..., m. em 1619. Seu gosto
-é delicado; seu stylo grande e expressivo;
-o desenho correcto, e assizada a perspectiva.
-Foi pintor de Philippe II.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_158">[Pg 158]</span></p>
-
-<p>José de Avelar Rebello viveu no tempo de
-D. João IV, que o condecorou com o habito
-de Aviz. Caracterizam suas obras (das quaes
-a melhor é o <i>S. Jeronymo</i> da livraria de Belem)
-um stylo da grandeza de Mig. Ang., e
-um colorido de summa verdade.</p>
-
-<p>D. Josepha de Ayala n..., m. 1684. Um
-ingenho fertil, muita verdade, expressão vivissima
-são a caracteristica de seus quadros, pela
-maior parte, de flores e fructos; mas o seu
-grande genero foi o retrato.</p>
-
-<p>Claudio Coelho n..., m. 1693. Este homem
-tam grande e tam conhecido tem sido abocanhado
-por muitos, e exagerado por alguns;
-mas a opinião geral o constitue n’um dos mais
-superiores graus entre os mais illustres pintores.
-Desenhou correctamente; coloriu como Ticiano;
-e conheceu, como poucos, o effeito da
-perspectiva. Tudo isto se observa principalmente
-no seu primoroso quadro da sacristia do
-Escurial bem divulgado pela moderna estampa
-de Bartholozzi. (<i>Vid.</i> Palomin. <i>Mus. Hist.</i>
-pag. 440 até 444; o abbade Ponzz. <i>Viag.
-d’Esp.</i> Tom. V. pag. 65 até 126; Bermudez
-<i>Diccion. histor.</i> Tom. I. pag. 337 até 347;<span class="pagenum" id="Page_159">[Pg 159]</span>
-Bourgeoin <i>Tableau de l’Espagne moderne</i> Tom.
-I. pag. 227).</p>
-
-<p>Bento Coelho viveu no XVII sec. Grande
-facilidade, bom colorido, como o de Rubens,
-que imitou; pouca correcção no desenho. Conservam-se
-ainda muitas de suas obras.</p>
-
-
-<h4>PINTORES PORTUGUEZES DA IV EPOCHA<br>(Seculo XVIII)</h4>
-
-
-<p>Victorino Manoel da Serra n. 1692, m. 1747.
-Foi o primeiro, que em Portugal introduziu o
-gôsto e ornato francez.</p>
-
-<p>André Gonsalves, n..., m.... Foi correcto
-no desenho, e bom no colorido; mas seu merecimento
-principal é o de copista.</p>
-
-<p>Ignacio d’Oliveira, n..., m. 1781. Distinguiu-se
-sobre tudo pelos encantos do colorido:
-estudou em Roma, e trabalhou muito em Mafra.</p>
-
-<p>Francisco Vieira Lusitano n...., m. 1783.
-Estudou muito em Roma, aonde, por concurso,
-levou o premio da academia de S. Lucas.
-Foi grande na alegoria; desenhou bem, coloriu<span class="pagenum" id="Page_160">[Pg 160]</span>
-divinamente, e teve muita expressão. Apezar
-de tudo o que a inveja e a ignorancia tem suscitado
-contra este grande mestre, elle será sempre
-um d’aquelles, com que a pintura nacional
-mais se honra e ennobrece. Vieira Lusitano é
-muito conhecido, para me obrigar a maior elogio.</p>
-
-<p>Joaquim Manoel da Rocha n. 1730, m. 1786.
-Distinguiu-se pela correcção do desenho, e muita
-expressão. Foi director da academia do <i>nu</i>,
-e professor na aula do desenho de Lisboa.</p>
-
-<p>Francisco Apparicio n...., m. 1787. Distinguiu-se
-muito no retrato e sobre tudo, por uma
-grande verdade de colorido. Estudou em França.</p>
-
-<p>Luiz Gonsalves de Senna, n. 1713, m. 1790.
-Foi mui destro no pintar; e em Lisboa se vêm
-muitas obras suas de grande merecimento.</p>
-
-<p>Jeronymo de Barros Teixeira n. em 1750,
-m. em 1803. O stylo simples e natural, bom colorido,
-muita sciencia de claro-escuro, e de architectura,
-grande talento para o retrato o constituem
-em mui distincto logar na ordem dos
-bons artistas.</p>
-
-<p>Pedro Alexandrino de Carvalho n. 1730, m.<span class="pagenum" id="Page_161">[Pg 161]</span>
-1810. Teve um pincel livre, viveza de côres,
-e maneiras engraçadas, e foi um dos directores
-da academia do <i>nu</i>.</p>
-
-<p>José Teixeira Barreto nasc. no Porto 1763,
-m. 1810. Estudou muito em Roma, e com grandes
-mestres. Seu stylo é caprichoso, mas bello.
-Foi lente de desenho na academia do Porto.</p>
-
-<p>Francisco Vieira Portuense n. 1765, m.
-1805. Foi primeiro-pintor da camera e côrte,
-director do instituto de desenho do Porto, e
-estimado e honrado de toda a nação, e das estrangeiras,
-principalmente da Ingleza. Foi premiado
-pela academia de Londres. Pintou no
-stylo do Guido e Albano; e, no seu genero,
-não deixou aos portuguezes nada que invejar
-ás outras nações.</p>
-
-<p class="center p2"><span class="allsmcap">FIM<span class="pagenum" id="Page_162">[Pg 162]</span></span></p>
-
-<div class="footnotes">
-<h5>NOTAS DE RODAPÉ:</h5>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[28]</a> Nunca pude affeiçoar-me a D. João III apesar da
-sua piedade e bondade, apezar do seu amor das sciencias,
-protecção que lhes deu, etc., etc. Donde virá isto?
-Será do seu ainda maior amor, e do generoso accolhimento,
-que fez á Sancta Inquisição.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[29]</a> E com effeito qual será o bom portuguez, que possa
-perdoar a Faria e Sousa o ter escripto as suas historias
-em castelhano? Os seus taes e quaes commentarios
-a Camões, ao melhor dos escriptores portuguezes,
-ao mais célebre da sua nação, na lingua dos oppressores
-da patria, dos tyrannos de Portugal?</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[30]</a> Todos sabem que a philosophia Aristotelico-Thomistico-escholastica,
-tam querida de nossos avós, era
-o opposto diametral d’aquella deffinição de Seneca:
-<i>Non est philosophia populare arteficium, nec ostentatione paratum. Non in verbis, sed in rebus est.</i> <span class="smcap">Senec.</span>
-Epist. XVII ad Lucil.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[31]</a> Em Coimbra não teve effeito: dizem as más linguas,
-que por ser cousa d’utilidade e especie ommissa
-nos <i>ff.</i> e <i>Inst.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[32]</a> Na regencia do actual reinante, e demencia da
-rainha.</p>
-
-</div></div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_163">[Pg 163]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="BOSQUEJO">BOSQUEJO<br><span class="small">DA</span><br>HISTORIA DA POESIA E LINGUA PORTUGUEZA</h2></div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_167">[Pg 167]</span></p>
-<h3 class="nobreak" id="A_QUEM_LER">A QUEM LER</h3>
-</div>
-
-
-<p>A minha primeira ideia quando intentei esta
-collecção, foi dar ao publico um extracto das
-melhores poesias de nossos classicos. Reflecti
-depois que não seria ella completa, porque alguns
-generos ha que não tractaram aquelles
-illustres escriptores: e em tam rica litteratura
-como é a portugueza, pena fôra mostrar pouquidade
-e pobreza. Resolvi-me por esse motivo
-a sahir dos limites classicos. Mas ainda apparecia
-outra difficuldade: especies ha de poesia
-em que não escreveram senão auctores vivos;
-atterrava-me a lembrança de haver de julgar
-e escolher obras que aguardam ainda o conceito<span class="pagenum" id="Page_168">[Pg 168]</span>
-da posteridade, quasi sempre unico tribunal
-recto das cousas dos homens, especialmente
-de materia de gôsto. Todavia o mesmo motivo
-de querer fazer esta escolha o mais completa
-que é possivel, me determinou a arrostar
-ess’outro escolho. Procurei nos escriptores
-vivos cingir-me quanto racionavelmente pude
-á mais geral opinião, escolhendo aquelles trechos
-que mais approvados teem sido; observando
-pela minha parte a mais rigorosa imparcialidade
-que humanamente se póde. E sendo,
-como sou, alheio a toda disputa e rivalidade
-litteraria e poetica, se alguma hora no decurso
-d’esta obra julgarem deslisei d’essa proposta
-impassibilidade, peço que o attribuam a erro
-de meu juizo, não a proposito deliberado.<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[33]</a></p>
-
-<p>Queria eu tambem ao principio conservar a<span class="pagenum" id="Page_169">[Pg 169]</span>
-cada escriptor sua particular orthographia;
-mas a isso obstaram dous insuperaveis obstaculos.
-Primeiro—não haver, sôbre tudo nos
-classicos, uma base boa ou má em que cada
-um d’elles fundasse a sua orthographia para
-se poderem regularizar as incalculaveis anomalias
-que se encontram em uma mesma obra,
-na mesma pagina ás vezes. Segundo—que
-havendo sido muitas das obras de nossos poetas
-antigos e modernos publicadas posthumas, é
-impossivel acertar com o verdadeiro systhema
-orthographico d’elles. Esta impossibilidade augmentou
-ainda e se estendeu áquelles que apezar
-de publicarem suas obras em vida, cahiram
-em mãos de novos editores todos ignorantes
-ou descuidados (nenhum conheço, a quem fique
-mal o epitheto) que em vez de as melhorarem,<span class="pagenum" id="Page_170">[Pg 170]</span>
-estragaram e confundiram tudo. Ora d’alguns
-d’esses não foi possivel, por mais diligencias
-que se fizeram, descubrir as primeiras edições,
-as quaes, segundo observei, ainda assim, não
-serviriam de muito.</p>
-
-<p>Accresciam a estes dous motivos a feia apparencia
-que teria a obra que mais houvera ficado
-recosida manta de retalhos furtacôres, do que
-uma collecção de poetas da mesma lingua.</p>
-
-<p>Determinei pois imprimir tudo com regular
-e geral orthographia; cujos principios extrahi
-do uso dos melhores classicos, uso que nem
-sempre seguiram, mas que manifestamente se
-vê quizeram seguir; e são estes:</p>
-
-<p>I. Conservar fielmente a ethymologia quando
-se lhe não oppõe a pronúncia.</p>
-
-<p>II. Combiná-la com a pronúncia quando
-ésta se oppõe á inteira conservação d’aquella.</p>
-
-<p>III. Nas palavras de raiz incognita seguir
-o uso geral.</p>
-
-<p>IV. Nas diversas modificações dos verbos
-conservar sempre a figurativa quando a pronúncia
-não obsta.</p>
-
-<p>V. Não pôr accentos (agudo e circumflexo<span class="pagenum" id="Page_171">[Pg 171]</span>
-que são os unicos portuguezes) senão onde a
-palavra sem elles se confundiria com outra.
-(Tambem me servi do agudo para marcar a
-dieresis por não estar aínda adoptado entre
-nós o signal (..) que é bem necessario).</p>
-
-<p>Julgo haver prestado algum serviço á litteratura
-nacional em offerecer aos estudiosos de
-sua lingua e poesia um rapido bosquejo da
-historia de ambas. Quem sabe que tive de encetar
-materia nova, que portuguez nenhum
-d’ella escreveu, e os dous estrangeiros Bouterweck
-e Sismondi incorrectissimamente e de
-tal modo que mais confundem do que ajudam
-a conceber e ajuizar da historia litteraria de
-Portugal; avaliará decerto o grande e quasi
-indizivel trabalho que me custou esse ensaio.
-Não quero dá-lo por cabal e perfeito; mas é
-o primeiro, não podia se-lo. Além de que, a
-maior parte das ideias vão apenas tocadas,
-porque não havia espaço em obra de taes limites
-para lhe dar o necessario desenvolvimento.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_173">[Pg 173]</span></p>
-<div class="footnotes">
-
-<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[33]</a> Muito tempo hesitei se daria logar n’esta collecção
-a um poeta (hoje morto) em quem de certo houve algum
-ingenho, mas que ignorou e desprezou a tal ponto
-a lingua, tam cynicamente violou o decoro do stylo,
-as mais indispensaveis regras do gôsto e da boa razão,
-que seus poemas são uma <i>sentina</i> de gallicismos, e
-um apontoado de termos baixos, de expressões que
-não usa gente de bem, de construcções barbaras, de
-versos prosaicos, semeados áquem além de uma ideia
-feliz, de um bom verso, de uma imagem poetica. Já se vê que esta descripção a ninguem quadra senão ao
-Santos e Silva. Cedi tambem n’este ponto á opinião
-que o considera mais do que elle vale, e escolhi o que
-me pareceu menos barbaro da tal excentrica Braziliada:
-e provavel é que escolhesse mal, porque difficil
-é julgar um homem bem quando está <i>cahindo com
-somno</i>.</p>
-
-<p>Fui obrigado a pôr um grande pedaço, porque em
-maior espaço appareceria um maior numero d’esses
-poucos <i>descuidos</i> felizes do auctor.</p>
-
-</div>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_172">[Pg 172]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="BOSQUEJO2">BOSQUEJO<br><span class="small">DA</span><br>HISTORIA DA POESIA E LINGUA PORTUGUEZA</h2></div>
-
-
-<hr class="r5">
-<h3 class="nobreak" id="I">I<br><span class="small">Origem de nossa lingua e poesia</span></h3>
-
-
-<p>A lingua e a poesia portugueza (bem como
-as outras todas) nasceram gemeas, e se criaram
-ao mesmo tempo. Erro é commum, e geral
-mesmo entre nacionaes, pela maior parte pouco
-versados em nossas cousas, o pensar que a
-lingua portugueza é um dialecto da castelhana,
-ou hespanhola segundo hoje inexactamente se
-diz.</p>
-
-<p>Das variadas combinações das primitivas
-linguagens das Hespanhas com o Grego, o
-Latim, com os barbaros idiomas dos invasores
-do norte, e alfim com o Arabigo, nasceram
-em diversas partes da Peninsula diversissimas<span class="pagenum" id="Page_174">[Pg 174]</span>
-linguas que nem dialectos se podem chamar
-geralmente, porque, além de não haver uma
-commum, de muitos d’elles é tam distincta a
-indole e tam opposta que se lhes não colhe
-similhança.</p>
-
-<p>Ninguem ignora hoje que o Proençal foi a
-primeira que entre as linguas modernas se cultivou,
-mas que por sua breve dura não chegou
-nunca á perfeição. Das nações da Hespanha,
-as mais vizinhas áquelle crepusculo de civilização
-primeiro melhoraram sua linguagem:
-mas tambem lhes coube igual sorte; nunca de
-todo se puliram. O Castelhano e Portuguez,
-que mais tarde se cultivaram, permaneceram
-pelo sabido motivo da conservação da independencia
-nacional, e vieram a completo estado
-de perfeição e caracter cabal de linguas cultas
-e civilizadas. O Biscaínho, Catalão, Gallego,
-Aragonez, Castelhano, Portuguez e outras mais
-foram e são ainda alguns distinctos idiomas:
-porém so os dous ultimos tiveram litteratura
-propria e perfeita, linguagem commum e scientifica,
-tudo emfim quanto constitue e caracteriza
-(se é licita a expressão) a <i>independencia</i>
-de uma lingua.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_175">[Pg 175]</span></p>
-
-<p>Grande similhança ha entre o Portuguez e
-Castelhano; nem podia ser menos quando suas
-capitaes origens são as mesmas e communs:
-porém tam parecidas como são pelas raizes de
-derivação; no modo, no systhema d’essas mesmas
-derivações, na combinação e amalgama
-de identicas substancias e principios se vê todavia
-que diversos agentes entraram, e que
-mui variado foi o resultado que a cada uma
-proveio. Filhas dos mesmos paes, diversamente
-educadas, distinctas feições, vario genio, porte
-e ademan tiveram: ha comtudo nas feições de
-ambas aquelle <i>ar de familia</i> que á prima vista
-se colhe.</p>
-
-<p>Este ar de familia enganou os estrangeiros,
-que sem mais profundar, decidiram logo, que
-o Portuguez não era lingua propria. Esse achaque
-de decidir afoitamente de tudo é velho,
-sobre tudo entre francezes, que são o povo do
-mundo entre o qual (por philaucia de certo)
-menos conhecimento ha das alheias cousas.</p>
-
-<p>Sem dúvida é que a lingua portugueza começou
-com seus trovadores, unicos no meio do
-estrepido das armas que algum tal qual cultivo
-lhe podiam dar; e provavel é que assim<span class="pagenum" id="Page_176">[Pg 176]</span>
-fosse com pouco melhoramento até os tempos
-d’el-rei D. Diniz, que no remanso da paz de
-seu reinado protegeu e animou as lettras, que
-elle proprio cultivou tambem.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="II">II<br><span class="small">Primeira epocha litteraria; fins do XIII
-até os principios do XVI sec.</span></h3></div>
-
-
-<p>D. João I o eleito do povo, e o mais nacional
-de todos os nossos reis, deu ao idioma
-patrio valente impulso, mandando usar d’elle
-em todos os actos e instrumentos publicos, que
-até então se fazim em Latim. Foi esta lei carta
-de alforria e de cidade para a lingua que
-atélli vivera escrava da dominação latina, a
-qual sobrevivera não só ao imperio romano,
-mas a tantas conquistas e reconquistas de tam
-desvairados povos.</p>
-
-<p>Aqui se deve pôr a data da verdadeira aurora
-das lettras em Portugal, que por singular
-phenomeno pouco visto entre outros povos,
-raiou ao mesmo tempo com a das sciencias;
-por maneira que quando o romantico alaúde<span class="pagenum" id="Page_177">[Pg 177]</span>
-de nossas musas começava a dar mais afinados
-sons, e a subir mais alto que o atélli conhecido,
-as sciencias e as artes cresciam a ponto de
-espantar a Europa, mudar a face do mundo,
-e alterar o systema do universo.</p>
-
-<p>Desde então até á morte d’el-rei D. Manuel,
-tudo foi crescer em Portugal; artes, sciencias,
-commércio, riqueza, virtudes, espirito nacional.</p>
-
-<p>Muitas foram as producções de nossa litteratura
-n’aquelle seculo de glória em que Gil-Vicente
-abriu os fundamentos ao theatro das
-linguas vivas, Bernardim Ribeiro puliu e adereçou
-com alguns mimos da antiguidade o genero
-inculto dos romances<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[34]</a> e seguiu (quasi o
-segundo) o caminho encetado pelo nosso Vasco
-de Lobeira nas composições romanescas; e
-ao cabo mostrou aos rusticos pastores do Tejo
-alguns dos suaves modos da frauta de Sicilia
-que nenhuma lingua viva até então ouvira
-soar.</p>
-
-<p>A natural suavidade do idioma portuguez,
-a melancholia saudosa de seus numeros nos levaram<span class="pagenum" id="Page_178">[Pg 178]</span>
-á cultura d’este genero pastoril, em que
-raro poeta nosso deixou de escrever, quasi todos
-bem, porque a lingua os ajudava; nenhum
-perfeitamente, porque (inda mal) deram ás cegas
-em imitar Sannazaro, depois Boscan e Garcilasso,
-e copiaram pouco do <i>vivo</i> da natureza,
-que tam bella, tam rica, tam variada se
-lhes presentava por todas as quatro partes de
-que em breve constou o mundo portuguez, e
-das quaes todas ou assumpto ou logar de scena
-tiraram nossos bucolicos. Nem d’este geral defeito<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[35]</a>
-(o maximo que por ventura se lhes
-nota) póde fazer-se excepção, senão fôr alguma
-rara em favor de Camões e de Rodrigues Lobo.
-O Tejo, o Mondego, os montes, os sitios
-conhecidos de nosso paiz e dos que nos deu a
-conquista, figuram em seus poemas; porêm raro
-se vê descripção que recorde alguns d’esses
-sitios que já vimos, que nos lembre os costumes,
-as usanças, os preconceitos mesmos populares;
-que d’ahi vem á poesia o aspecto e feições nacionaes,
-que são sua maior belleza.</p>
-
-<p>Bernardim Ribeiro foi um tanto mais original<span class="pagenum" id="Page_179">[Pg 179]</span>
-em sua simplicidade, o que lhe falta de
-sublime e culto sobeja-lhe em brandura, e
-n’uma ingenua ternura que faz suspirar de
-saudade, d’aquella saudade cujo poeta foi, cujos
-suaves tormentos tam longo padeceu, e tam
-bem pintou.</p>
-
-<p>Foi seu contemporaneo Gil-Vicente fundador
-do theatro moderno, de cujas obras imitaram
-os Castelhanos; e d’ellas se espalhou pela
-Europa o mau e o bom d’essa irregular e caprichosa
-scena, que ainda assim suas bellezas
-tem.</p>
-
-<p>O proprio Gil-Vicente não deixa de ter seu
-comico sal, e entre muita extravagancia muita
-cousa boa. Bouterweck e Sismondi parece que
-escolheram o peior para citar; muito melhores
-cousas tem, particularmente nos autos, superiores
-sem comparação ás comedias. A soltura
-da phrase, e a falta de gôsto são os defeitos do
-seculo; o ingenho que d’ahi transparece é do
-homem grande e de todas epochas<a id="FNanchor_36" href="#Footnote_36" class="fnanchor">[36]</a>.</p>
-<div class="footnotes">
-
-<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[34]</a> Não no sentido de <i>novellas</i>, mas no que então se
-lhe dava.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[35]</a> Commum tambem nos outros generos de poesia,
-onde quer que entra o descriptivo.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_36" href="#FNanchor_36" class="label">[36]</a> Reservo-me para uma edição que pretendo publicar
-do nosso Plauto, fructo de longo e penoso trabalho,
-para examinar melhor este ponto, e demonstrar
-o que aqui enuncio.</p>
-
-</div>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_180">[Pg 180]</span></p>
-<h3 class="nobreak" id="III">III<br><span class="small">Segunda epoca litteraria; idade de ouro da poesia e da lingua
-desde os principios do XVI até os do XVII sec.</span></h3></div>
-
-
-<p>Com a morte d’el-rei D. Manuel declinou
-visivelmente a fortuna portugueza: certo é
-que as artes progrediram, que a lingua se
-aperfeiçoou; porêm esse movimento era continuado
-ainda do impulso anterior e já não
-promettia longa dura. Assim succedeu. D. João
-III colheu os fructos do que D. Manuel havia
-semeado; mas de lavras suas, nem elle, nem
-seus successores viram colheita.</p>
-
-<p>Uma cousa todavia que muita influencia teve
-sobre a lingua e litteratura portugueza e
-que a instituições de D. João III se deve, foi
-o cultivo das linguas classicas, que na reformação
-da universidade de Coimbra augmentou
-muito. Os modelos gregos e romanos foram
-então versados de todas as mãos, estudados,
-traduzidos, imitados. Aperfeiçoou-se a lingua,<span class="pagenum" id="Page_181">[Pg 181]</span>
-enriqueceu-se, adquiriu aquella solemnidade
-classica que a distingue de todas as outras
-vivas, seus periodos se arredondaram ao
-modo latino, suas vozes tomaram muito da euphonia
-grega; d’um e d’outro d’esses idiomas
-lhe vieram as muitas, e principalmente da grega,
-os muitos hyperbatos; com o que vai rica,
-livre e magestosa por todas as provincias da
-litteratura, que tem decorrido, não havendo
-ahi genero de composição, para o qual, ou por
-doce de mais como o Toscano, não seja propria,—ou
-por mui aspera e guindada como o
-Castelhano, se não adapte,—por curta como
-o Francez, não chegue,—por inflexivel e rispida
-como o Alemão e Inglez, se não amolde.</p>
-
-<p>Claro é que a historia, a oratoria, todas as
-artes do discurso deviam de florescer com tal
-augmento. Com ellas todas medrou e cresceu
-a poesia na delicadeza, na harmonia, no gôsto;
-porêm desmereceu muito, demasiado na
-originalidade, no caracter proprio, que perdeu
-quasi todo, em a <i>nacionalidade</i>, que por mui
-pouco se lhe ia. Todos os deuses gregos tomaram
-posse do maravilhoso poetico, todas as
-imagens, todas as ideias; todas as allusões do<span class="pagenum" id="Page_182">[Pg 182]</span>
-tempo de Augusto occuparam as mais partes
-da poesia; e mui pouco ficou para o que era
-nacional, para o que já tinhamos, para o que
-podiamos adquirir ainda, para o que naturalmente
-devia nascer de nossos usos, de nossas
-recordações, de nossa archeologia, do aspecto
-de nosso paiz, de nossas crenças populares, e
-emfim de nossa religião.</p>
-
-<p>Sá de Miranda, verdadeiro pae da nossa
-poesia, um dos maiores homens de seu seculo,
-foi o poeta da razão e da virtude, philosophou
-com as musas, e poetisou com a philosophia.
-Seu muito saber, sua experiencia, seu tracto
-affavel, e até a nobreza do seu nascimento,
-lhe deram indisputada superioridade a todos
-os escriptores d’aquelle tempo, dos quaes era
-ouvido, consultado e imitado. Sá de Miranda
-exerceu sobre todos os poetas d’aquella epocha
-a mesma especie de imperio que veio a
-ter Boileau em França, e mais modernamente
-Francisco Manuel entre nós. Introduziu na
-poesia os metros italianos, e os modos, versos
-e combinações de rhymas de Dante e Petrarca:
-e desd’ahi quasi se abandonaram inteiramente
-(excepto nas voltas e glosas) os nossos<span class="pagenum" id="Page_183">[Pg 183]</span>
-antigos versos de redondilha, e absolutamente
-os de arte maior e menor, que ainda assim
-mui proprios são para certos assumptos, segundo
-com feliz exemplo no-lo mostraram antigos
-e modernos poetas. Nem o mesmo Sá de
-Miranda igualou nunca em composições hendecasyllabas
-a pureza, a correcção, a naturalidade
-e sublime simplicidade de suas redondilhas
-nas epistolas, que hoje são seu maior e quasi
-unico titulo de glória.</p>
-
-<p>São de admirar suas comedias, e são notavel
-monumento para a historia das artes pela
-feliz imitação dos antigos, e pelo que excedem
-quanto até então se tinha escripto. Porem o
-theatro portuguez creado pela musa negligente
-e travêssa de Gil-Vicente e João Prestes,
-carecia de reforma, mas não podia supportar
-uma revolução. As comedias de Sá de Miranda
-sem caracter nacional, mui classicas de
-mais não eram para reformá-lo: o mesmo direi,
-e o mesmo succedeu ás de Ferreira, a algumas
-poucas mais que depois vieram. O effeito
-d’estas composições, aliás preciosas, foi
-funesto: os litteratos enjoaram-se (e com razão)
-do theatro nacional, e não se deram a corrigi-lo<span class="pagenum" id="Page_184">[Pg 184]</span>
-e melhora-lo: o publico preferia (e com
-razão tambem) o com que fôra creado, o que
-o interessava, o que o divertia, e antes queria
-rir com as grosserias dos autos populares, que
-bocejar e adormecer-se com as finuras d’arte e
-correcções d’essas comedias, que tudo tinham,
-menos interesse, onde todo o spirito havia, menos
-o nacional.</p>
-
-<p>Se houveram Sá de Miranda e Ferreira escolhido
-assumptos portuguezes, se houveram
-pintado os costumes nacionaes, e presentado
-ao publico, em vez de quadros italianos, um
-espelho em que se elle visse a si e aos seus
-usos, e se risse de seus proprios defeitos; fico
-em que houveram reformado o theatro em vez
-de lhe empecer: e acaso gosariamos ainda hoje
-em uma scena rica e abastada dos resultados
-d’esse impulso, quando não temos senão que
-chorar, e vivemos, sobre o theatro, das migalhas
-que mendigamos a estrangeiros pelo triste
-meio de traducções, que (as dramaticas
-sôbre tudo) nunca podem ser boas.</p>
-
-<p>Sá de Miranda escreveu além d’isto algumas
-eclogas bastante frias, varios sonetos geralmente
-de pouca monta. Um d’elles á morte de<span class="pagenum" id="Page_185">[Pg 185]</span>
-Leandro e Hero é excellente, mas castelhano,
-e por esse achaque o não incluí na escolha.<a id="FNanchor_37" href="#Footnote_37" class="fnanchor">[37]</a></p>
-
-<p>Não posso deixar de querer mal a tam illustre
-portuguez pelo muito que escreveu n’essa
-lingua estranha; com que não só privou a natural
-do fructo de suas tarefas, mas fez maior
-damno ainda com o exemplo que abriu; exemplo
-funesto que nos cerceou a litteratura, que
-nos defraudou d’uma Diana de Monte-maior,
-de tantas boas coisas mais, e ao cabo ia perdendo
-a lingua.</p>
-
-<p>Mas eis ahi Antonio Ferreira para combater
-esse mal em sua origem: ei-lo ahi esse portuguez
-verdadeiro, ardente amador da lingua,
-clamando a todos, pugnando contra todos os
-que não prezavam e aditavam o patrio idioma
-com as producções do ingenho e das artes. O
-profundo conhecimento dos classicos gregos e
-latinos, o finissimo gosto que em seu estudo
-tinha adquirido, a felicidade com que sempre
-os imitou, a pureza da phrase, as riquezas com
-que adornou a lingua deram aos versos de<span class="pagenum" id="Page_186">[Pg 186]</span>
-Ferreira grande popularidade entre os litteratos
-e cortezãos (que, ao aveço de hoje, as
-lettras viviam então quasi só na côrte) e fixaram
-determinadamente o genero classico entre
-nós.</p>
-
-<p>Cegou-se todavia o nosso bom Ferreira na
-imitação dos antigos; copiou-os, não os imitou:
-e d’ahi, enriquecendo a lingua, empobreceu
-a litteratura, porque a avezou a esse hábito
-de copista; cancro que roe o espirito
-creador, alma e vida da poesia nacional. Tão
-cega foi esta imitação, que seus mesmos versos,
-aos quaes hoje ninguem defende da nota
-de asperos e duros (e muitos direi—errados)
-os fazia assim de proposito por querer usar
-das ellipses gregas e latinas, a que repugna a
-indole de nossa lingua, so toleraveis em certas
-vozes que na prosa mesma se pronunciam e
-escrevem no final com <i>m</i> ou sem elle. Este
-desagradavel defeito dos versos de Ferreira é
-principalmente sensivel nas dicções que teem
-final no que chamámos (mal ou bem) diphtongos
-nasaes de <i>ão</i>, e muito mais quando n’elle
-é o accento predominante da palavra.</p>
-
-<p>Os sonetos são frios, desengraçados; nas eclogas<span class="pagenum" id="Page_187">[Pg 187]</span>
-ha bellezas muitas e mui grandes, mas
-espalhadas: nenhuma d’estas composições tomada
-per si póde merecer o nome de bella.
-Porem das odes, ha d’ellas que são puramente
-horacianas, e se lhes fallece a elevação (que
-não era esse o genio de Ferreira) sobeja-lhe a
-graça, a elegancia e a adornada philosophia,
-que não agradam menos, nem de menos valor
-e merito são que os extasis pindaricos, ou os
-requebros anacreonticos. O que é sem duvida
-é que nas linguas vivas Ferreira foi o primeiro
-imitador feliz de Horacio, e o primeiro dos
-modernos que pulsou a lyra classica. Das
-epistolas, ha algumas que podem pleitear em
-concisão e fino dizer com as boas do lyrico romano.
-Quanto á pureza da moral, ao nobre
-patriotismo, áquelle generoso sentimento da
-honrada liberdade de nossos avós, áquelle enthusiasmo
-da virtude; esse respira, mostra-se
-e resplandece em todas as suas obras.</p>
-
-<p>Mas a verdadeira glória de Ferreira é a
-Castro, producção admiravel per si mesma,
-pelo tempo em que a escreveu, por todos os
-lados por que se considere. Não é ainda liquido
-entre os philologos se era possivel o ter<span class="pagenum" id="Page_188">[Pg 188]</span>
-visto Ferreira a Sophonisba de Trissino, que
-mui poucos annos antes da Castro appareceu:
-mas é sem a minima questão reconhecida a
-superioridade da tragedia portugueza á italiana:
-pasma como sem vêr um theatro, sem
-mais exemplares que os gregos e latinos, podesse
-Ferreira tratar tão delicadamente um
-tal assumpto em um genero desconhecido da
-antiguidade. É notavel a primeira scena da
-Castro, a scena d’el-rei e dos conselheiros no
-acto II., a do acto III. em que o côro traz a
-Castro as novas de sua cruel sentença, onde
-aquella pergunta de Ignez: «É morto o meu
-senhor, o meu infante?» rasgo de sublime,
-porém d’um sublime todo sensibilidade, ao
-qual nem o <i>qu’il mourût</i> de Corneille póde
-comparar-se; e finalmente os coros, que sem
-paixão são superiores a todos os exemplares
-da antiguidade, e não teem que invejar aos
-tão gabados da Athalia. Não dou a Castro
-por uma tragedia perfeita: ainda em relação
-ao seu tempo e aos conhecimentos da scena
-d’então tem ella defeitos: não haver uma scena
-em que se encontrem Pedro e Ignez, não
-haver algum esfôrço do infante para lhe valer,<span class="pagenum" id="Page_189">[Pg 189]</span>
-deixam a peça muito nua de acção, e lhe
-entibiam o interesse. A versificação (que
-todavia é de preferir aos versos sesquipedaes e
-himpados com que hoje está pervertida a scena
-portugueza) pécca geralmente por dura;
-mas essa mesma é por vezes bella; e para
-bons entendedores muito ha hi que estudar; e
-oxalá que os nossos dramaticos lessem e relessem
-bem a Castro, e apprendessem alli, pelo
-menos, naturalidade e verdade de expressão,
-que tanto lhes fallecem.</p>
-
-<p>Não estava ainda n’este auge a poesia portugueza
-quando um homem pouco conhecido
-dos lettrados, mas já célebre per suas aventuras
-e valor, foi para tão longe da ingratissima
-patria despicar-se de seu desamor com a mais
-nobre vingança; a de levantar-lhe um padrão,
-com que não entram as idades, e que conservará
-ainda o nome portuguez quando já elle
-houver desapparecido da terra. Muita erudição
-(pois sabia quanto se soube em seu tempo), ingenho
-dos que véem ao mundo de seculos a
-seculos se reúniram em Camões. Esse homem
-levantou a cabeça la das extremidades d’Asia,
-e viu tudo pequeno á roda de si, todos os<span class="pagenum" id="Page_190">[Pg 190]</span>
-poetas pigmeus, todos acanhados com as linguas
-modernas ainda mal perfeitas, escravos
-da imitação classica, incertos e entalados todos
-entre o cego respeito da antiguidade e as novas
-precisões que as novas ideias, que o novo
-estado do mundo requeria. Teve animo para
-conceber e força para executar um rasgado e
-necessario atrevimento de se abrir caminho
-novo, de crear emfim a poesia moderna, dar
-não só a Portugal, mas á Europa toda um
-grande exemplo, e constituir-se o Homero das
-linguas vivas.</p>
-
-<p>Não me dá espaço o acanho de meus limites
-para dizer de Camões o que era indispensavel;
-antes a celebridade de seu nome me
-deixará parar aqui para dar logar a tractar
-de menos conhecidos nomes. Só direi que a
-influencia de Camões na nossa poesia, e em
-toda a litteratura portugueza foi tal que desde
-então té hoje ainda se não deixou de sentir,
-mesmo nas epochas em que mais desvairados
-teem andado nossos poetas com as empolas do
-<i>gongorismo</i>, ou mais lunaticos com os esfusiotes
-do <i>elmanismo</i>. Quasi que não houve genero
-de poesia que não tractasse: tem sonetos<span class="pagenum" id="Page_191">[Pg 191]</span>
-admiraveis; eclogas (sôbre tudo as primeiras)
-excellentes; mas principalmente de todas as
-poesias menores são o mais sublime e perfeito
-as canções, genero a que deu uma nobreza e
-elevação desconhecida mesmo em Petrarca:
-sirva de próva e exemplo aquella que começa—«Junto
-d’um sêcco duro e esteril monte.»
-Dos Lusiadas, de suas bellezas e defeitos,
-das controversias sobre umas e outros, está
-cheio o mundo litterario.</p>
-
-<p>Contemporaneo de Camões e ousado tambem
-como elle a encetar a carreira epica foi Jeronimo
-Cortereal. O Cêrco de Diu, que é notavel
-monumento litterario, e que de certo se
-teve algum exemplar foi a <i>Italia</i> do Trissino,
-é uma fria narração, em que ha bellas ideias
-áquem além, muita riqueza de linguagem,
-pouca de poesia, e pelo geral maus versos. E
-comtudo é talvez Cortereal o primeiro (em
-data) poeta descriptivo; e creou elle acaso esse
-genero de que tanto blasonam hoje inglezes,
-allemães, e até francezes, e que todavia nós
-tinhamos seculos antes d’elles. Ja no Cêrco
-de Diu ha muitas boas descripções: mas no
-naufragio de Sepulveda ha d’ellas sublimes.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_192">[Pg 192]</span></p>
-
-<p>Entre muito devaneio de imaginação e de
-mau gôsto, entre aquelles insipidos requebros
-de Pan e de Protheu apparece todavia a morte
-de D. Leonor que é um trecho da mais bella
-poesia, da mais fina sensibilidade que se tem
-composto.</p>
-
-<p>De todos esses poetas que então floreceram
-é na minha opinião o menos poeta esse Pero
-d’Andrade Caminha, a quem da amisade e celebridade
-de Ferreira e Bernardes vem talvez
-o maior renome. Ainda assim tem algumas
-odes boas, simplicidade com elegancia por partes
-de suas composições: epigrammas, são alguns
-excellentes.</p>
-
-<p>Sôbreviveu a todos estes e á patria, que não
-tardou em perecer, o suave cantor do Lima que
-levado per D. Sebastião para testimunhar seus
-altos feitos, de que devia fazer um poema, perdeu-se
-com seu rei, e jazeu captivo em Africa.
-Pondo de parte a questão das eclogas (na qual
-de certo não andou de boa fé Faria e Sousa) a
-qual, ainda que propria do logar, é mui longa
-para os meus limites; Bernardes foi excellente
-poeta; e com quanto sua linguagem é pobre,
-e em geral pouco variadas suas composições;<span class="pagenum" id="Page_193">[Pg 193]</span>
-a suavidade de seu stylo, certa melancholia
-d’expressão que lh’o requebra e embrandece
-darão sempre a Bernardes um logar mui distincto
-na poesia portugueza.</p>
-
-<p>Mas ja a nação se perdêra nos areaes de Africa,
-já a glória portugueza estava offuscada;
-com ella foram (como sempre vão) as boas artes.
-Ainda brilham a espaços faíscas do grande luzeiro
-que se apagára; mas já não eram senão
-faíscas.</p>
-
-<p>Ainda Luis Pereira deplora na <i>Elegiada</i> a
-ruina da patria, mas esse canto funebre é quasi
-o canto de cysne da poesia nacional, que parece
-querer fenecer com elle, e já n’elle moribunda
-se mostra. Ha excellentes oitavas derramadas
-per esse poema, algumas descripções felizes,
-grandissima riqueza de linguagem; mas pouco
-mais.</p>
-
-<p>Ja Fernão Alves do Oriente diffuso, intrincado
-nos primeiros labyrinthos dos <i>conceitos</i>
-italianos mostra a visivel decadencia da poesia:
-já as musas que tão louçans, e ingenuamente
-bellas tinham folgado pelas varzeas do Tejo e
-do Mondego com Ferreira e Camões, apparecem
-affeitadas com arrebiques e côres falsas,<span class="pagenum" id="Page_194">[Pg 194]</span>
-como essas damas para quem se desbota a flor
-da idade e lhe querem ainda supprir o viço com
-emprestados ornamentos, gentilezas compradas,
-e postiças. E todavia ha na Lusitania transformada
-pedaços lyricos excellentes, e alguns bucolicos
-soffriveis. Assim elle nos dissesse mais
-do seu Oriente do que nos disse: assim houvesse
-enriquecido a litteratura com mais imagens
-de tantas que sua Asia lhe offerecia, e
-com que houvera additado a mãe patria. Onde
-o fez, n’aquella ecloga em que conta a historia
-de Saladino, é elle verdadeiramente poeta;
-e se d’ahi tirarem alguns trocadilhos que
-tinha apprendido em Italia, excellente e digno
-de imitar-se é o resto.</p>
-<div class="footnotes">
-
-<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4>
-
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_37" href="#FNanchor_37" class="label">[37]</a> A. Rib. dos Santos traduziu este soneto em
-portuguez e (cousa inexplicavel em tal homem!) o deu
-por seu.</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="IV">IV<br><span class="small">Terceira epocha litteraria; principia a corromper-se o gosto
-e a declinar a lingua.—Começo, até o fim do XVII sec.</span></h3></div>
-
-
-<p>Porem os symptomas do <i>Gongorismo</i> e <i>Marinismo</i>
-se manifestavam já em Italia e Castella;
-não perfeitos ainda, não no auge a que os
-levaram os dous poetas, aliás ingenhosos, cujo<span class="pagenum" id="Page_195">[Pg 195]</span>
-nome vieram a tomar; mas já assim mesmo a
-poesia moderna estava toda gafa d’essa lepra
-de suberba requintada.</p>
-
-<p>Vasco Mousinho de Quevedo, que sem disputar
-é depois de Camões, nosso primeiro epico,
-ahi tem já em toda a nobreza de seus versos a
-quebra de bastardia d’esse defeito, que todavia
-é n’elle ainda raro. Mas que bellezas tem esse
-tão mal avaliado Affonso Africano, a que a cegueira
-e o mau gosto tem querido preferir a
-<i>quixotica</i> e sesquipedal Ulyssea, a hyperborea
-e campanuda Malaca! Não é regular o poema,
-não é um todo perfeito; o maravilhoso é frio,
-e a acção toda não mui bem deduzida; mas
-que riquissimos episodios a enfeitam! A descripção
-de Zara, o jardim incantado onde aporta
-o principe D. João, e alguns outros trechos são
-cunhados com o sêllo da verdadeira poesia, e
-animados da luz que só dá o ingenho. Quanto
-ao stylo, é com poucas excepções fluido e elegante;
-custa a achar em tão longo poema uma
-rhyma forçada ou má: e a mesma linguagem,
-supposto decline um tanto da primeira pureza,
-é ainda de boa lei e valiosos quilates.</p>
-
-<p>D’ésta epocha é tambem Rodrigues Lobo,<span class="pagenum" id="Page_196">[Pg 196]</span>
-cujo grande logar como prosista não é aqui
-proprio de examinar: de seu merecimento
-poetico a commum opinião tem com justiça
-decidido dando-lhe um dos primeiros (eu quizera
-o primeiro) logar entre os bucolicos antigos;
-e outro mui differente e inferior entre os
-epicos. E certo, o Condestabre, apezar de
-muitos e bons pedaços descriptivos, é frouxa
-e morna composição. Que differente era a
-frauta que ia soando pelas margens do Lis,
-a dulcissima frauta de Lobo, quando comparada
-com a tuba heroica, para cuja altivez
-lhe fallecem natureza e arte! seus pastores são
-verdadeiros pastores, sua linguagem é verdadeira
-do campo, não lhes sahem pelos golpes
-do pellico as alfaias da cidade, tão mal encubertas
-pelos outros bucolicos, os quaes, sem
-excepção do proprio Camões, todos peccam
-por mui sabidos e lettrados, por discretos e
-galantes mais que sóem ser aldeãos e pastores.</p>
-
-<p>Alem d’isso ha derramados pela Primavera,
-Pastor peregrino, etc., pedaços lyricos de
-summa belleza, romances excellentes e verdadeiramente
-dignos de admiração e estudo.</p>
-
-<p>Tinhamos perdido a independencia; perdemos<span class="pagenum" id="Page_197">[Pg 197]</span>
-logo o espirito nacional, o tymbre, o amor
-patrio (que amor da patria poderá haver em
-quem patria já não tem!); a lisonja servil, a
-adulação infame levou nossos deshonrados avós
-a desprezar seu proprio riquissimo e tão suave
-idioma, para escrever no guttural Castelhano,
-preferindo os sonoros helenismos do portuguez
-ás aspiradas <i>aravias</i> da lingua dos tyrannos.
-Vergonha que só tem par nas derradeiras vergonhas
-com que nos enxovalharam a lingua e
-a fama os tarellos, francelhos, gallici-parlas e
-toda a caterva dos gallo-manos!</p>
-
-<p>Em Castelhano escreviam já esses degenerados
-portuguezes: mas pouco importava que
-o fizessem, que n’isso fraca perda tivemos nós:
-de toda essa çafra de versos castelhano-portuguezes
-pouco ou nada ha que espremer.</p>
-
-<p>D’ésta commum baixeza se alevantou o honrado
-e douto magistrado Gabriel Pereira de
-Castro, que depois de ter aberto na jurisprudencia
-um caminho novo e n’aquelle tempo tão
-difficil por grandes verdades então perigosas,
-tomou ousado a trombeta de Homero, e não
-se arrojou a menos que a competir ao mesmo
-tempo com a Iliada e Odyssea; que tanto<span class="pagenum" id="Page_198">[Pg 198]</span>
-abraça o assumpto de seu poema. Grande é a
-concepção, bem distribuidas as partes, regularissimo
-o todo, regular e bella a acção, bem
-intendidos os episodios; mas o stylo... o
-stylo é, prototypo da <i>Phenix-renascida</i>, o requinte
-do gongorismo, cujo patriarcha foi entre
-nós, pervertendo-nos, á sombra de sua
-grande fama e brilhante ingenho, todo o resto
-escasso que de gôsto tinhamos ainda, intrincando
-a poesia (senão que tambem a prosa
-por mau exemplo) n’um dedalo inextricavel
-de conceitos, de argucias, de exagerações, de
-affectada sublimidade, falsa e van grandeza;
-com que de todo veio a terra a poesia nacional,
-e acabou a grande eschola de Camões
-e Ferreira, que tantos e tamanhos alumnos
-havia produzido. E suppunha esse homem vaidoso
-ter sobrepujado com as queixotadas da
-sua Ulyssea as naturaes bellezas dos divinos
-Lusiadas!</p>
-
-<p>Quasi o mesmo errado trilho, mas que menos
-brilhante e com inferior ingenho, seguiu
-Sá de Menezes na Malaca. Esse poema, que
-tanto tem engrandecido o mau gôsto, é na
-minha opinião um dos derradeiros titulos de<span class="pagenum" id="Page_199">[Pg 199]</span>
-glória da litteratura portugueza. E todavia é
-bem regular, bem concebido, e a espaços se
-lhe encontram grandes rasgos de gentileza
-poetica. A falla de Asmodeu no conselho infernal
-faz lembrar muito a de Lucifer em Milton.
-Porem quando agitado o poeta do genio
-mau que avexava e endemoninhava os poetas
-d’então, começa a guindar-se, a transpor os
-derradeiros limites da naturalidade; esquece
-todo o deleite que algumas estancias mais descuidadas
-nos haviam causado, e é forçoso desemparar
-a dura tarefa de tão incommoda leitura,
-porque verdadeiramente incommoda e
-cança tal stylo, tal phrase, tanto hyperbolico
-luxo e destemperado alambicar.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="V">V<br><span class="small">Quarta epocha: idade de ferro; aniquila-se a litteratura, corrompe-se
-inteiramente a lingua.—Fins do XVII, até meados
-do XVIII sec.</span></h3></div>
-
-
-<p>Mas ainda estes tinham sua nobreza, havia
-não sei que grande entre todas essas <i>nuvens de
-talco</i>; talvez lhes viesse dos assumptos: porém<span class="pagenum" id="Page_200">[Pg 200]</span>
-seus discipulos que ainda quizeram ir ávante,
-deram em fazer <i>silvas</i>, <i>acrosticos</i>, e engendraram
-todos os outros monstros (originarios, segundo
-Diniz, do <i>paiz das bagatellas</i>) e distillando
-mais e mais as quintas essencias dos
-conceitos, tanto torceram e retorceram o ja
-delgado fio poetico, que de todo o quebraram.
-So Manoel da Veiga o atou momentaneamente
-em uma ou duas lyras da Laura de Amphriso.
-Logo tornou a estalar: e per ahi andaram as
-pobres musas portuguezas jogando as cabras-cegas
-pelas eclogas de Poliphemo e Galatea,
-pelos romances hendecasyllabos, e per todos os
-outros escondrijos do gosto depravado, de que
-boas amostas se conservam no precioso tombo
-da <i>Phenix-renascida</i> e alguns outros hoje ignorados
-livros d’essa triste data.</p>
-
-<p>E todavia ja nós tinhamos recobrado tão gloriosamente
-nossa independencia, ja o nome portuguez
-tornára a ser honra e nobreza, e ainda
-essa lepra castelhana lavrava.</p>
-
-<p>Dous grandes escriptores, ambos prosistas e
-ambos dignos de muito louvor, concorreram
-para a continuação d’este mal. Quem podia deixar
-de admirar Vieira? Quem não iria levado<span class="pagenum" id="Page_201">[Pg 201]</span>
-pela torrente de sua eloquencia? Quem resistiria
-aos impetos de arrebatamento de Jacinto
-Freire? O grande talento de ambos, a vasta
-erudição e desmedido ingenho de Vieira sobre
-tudo, fizeram grande damno á litteratura: sabiam,
-escreviam perfeitamente a lingua, tinham
-grande crédito na côrte, tractavam grandes assumptos,
-animava-os o nobre e sincero enthusiasmo
-da glória e liberdade nacional: tudo foi
-após elles; imitaram-lhes vicios e virtudes; como
-não distinguiam em Vieira o grande orador,
-o grande philosopho do gongorista affectado
-(quando o era) não estremavam em Jacintho
-Freire o historiador, o panegyrista do
-declamador, do academico vão; ruim e bom
-seguiam. E como é mais facil imitar a affectação,
-que a naturalidade, as argucias de má arte,
-que as graças de boa natureza; os imitadores
-foram alem de seus typos no affectado,
-no mau d’elles, ficaram immenso aquém do que
-n’esses era bello e para imitar.</p>
-
-<p>Nem o conde da Ericeira que traduziu a Arte
-poetica de Boileau e d’elle levou tão immerecidos
-e banaes elogios, tomou d’ella triaga bastante
-para se curar do veneno commum: e ainda<span class="pagenum" id="Page_202">[Pg 202]</span>
-assim melhor é sua frigida Henriqueida
-que os outros versos que por então se faziam
-em Portugal: porem o unico ôlho que o fez rei
-em terra de cegos, não lhe era bastante para
-ver e acertar com a vereda da posteridade.
-Ahi morreu no seu seculo e ahi jaz pela poeira
-de alguma livraria de bibliomanico.</p>
-
-<p>As academias de historia, de litteratura do
-tempo de D. João V, as associações ridiculas
-de todos os nomes e descripções que então se
-formaram, a mais e mais empeioraram o mal,
-que progressivamente cresceu até o ministerio
-do marquez de Pombal.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="VI">VI<br><span class="small">Quinta epocha: restauração das lettras em Portugal.—Meio
-do seculo XVIII até o fim</span></h3></div>
-
-
-<p>A civilisação e as luzes que a geram, tinham-se
-estendido do sul para o norte. A corrupção
-que após ellas vem em seu marcado periodo,
-as fôra apagando, ou ennevoando ao menos, na
-mesma direcção. De sorte que pelos fins do
-XVII seculo o meio-dia, que havia sido berço
-da illustração da Europa, quasi se ennoitava<span class="pagenum" id="Page_203">[Pg 203]</span>
-das trevas da ignorancia, as quaes pareciam
-voltar como em <i>reacção</i> para o ponto d’onde partíra
-a primeira <i>acção</i> da luz que as dissipára.</p>
-
-<p>O norte, que mais tarde se havia allumiado,
-progredia no emtanto: as boas letras, as artes,
-as sciencias floreciam na Inglaterra e por quasi
-toda a Allemanha. Milton, Descartes, Newton
-e Linneu brilharam ao septentrião da Europa;
-e nós meridionaes estudavamos as <i>cathegorias</i> e
-as <i>summas</i>, aguçavamos distincções, alambicavamos
-conceitos, retorciamos a phrase no discurso,
-torciamos a razão no pensamento.</p>
-
-<p>Porem a face do mundo estava começada a
-mudar: as antigas barreiras que a politica e os
-preconceitos erguiam entre povo e povo quasi
-desappareciam; as mutuas necessidades, e até
-o mesmo luxo, faziam quasi indispensavel precisão
-as permutações do commércio; e o commércio
-fraternizou as nações.</p>
-
-<p>Reciprocamente se estudaram as linguas, generalizou-se
-esse estudo: então é que exactamente
-os sabios começaram a ser de todos os
-paizes: os bons livros pertenceram a todas as
-linguas; e verdadeiramente se formou dentro
-de todos os estados um estado que (sem os inconvenientes<span class="pagenum" id="Page_204">[Pg 204]</span>
-do <i>status in statu</i> dos ultramontanos)
-com justiça e exacção obteve e mereceu
-o nome de republica das lettras, a qual é uma,
-universal, e sem perigo de schisma.</p>
-
-<p>Os effeitos d’esta alteração no modo de existir
-do universo foram sensiveis: as luzes não so reverteram
-(sem retrogradar) do norte para o sul,
-mas se diffundiram geraes. A França viu então
-o seculo de Luiz XIV; Italia deixou sancto
-Thomaz e os <i>concetti</i> por melhor philosophia
-e melhor gosto; Hespanha teve o seu Carlos
-III; e Portugal no reinado d’el-rei D. José
-subiu á altura dos outros povos, senão é que
-em muitas cousas acima.</p>
-
-<p>E ainda na reforma da universidade não tinham
-apparecido Monteiros-da-Rocha e os outros
-portuguezes que d’alli expulsaram a barbaridade
-entrincheirada em Coimbra como em
-sua ultima cidadella da Europa, e ja a razão e
-o gosto recobravam seu imperio na litteratura;
-ja as odes do Garção, as obras do padre Freire
-e de outros illustres philologos haviam afugentado
-as <i>silvas</i>, os <i>acrosticos</i>, e os campanudos
-periodos do conde da Ericeira, regenerado a
-poesia e restituído a lingua.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_205">[Pg 205]</span></p>
-
-<p>Outravez ainda o limitado d’este bosquejo
-me impede de mencionar outros ingenhos que
-tanto mereceram da patria e da litteratura e
-remoçaram a perdida lingua de Camões. Exige
-o meu assumpto e o meu espaço que me
-estreite no círculo poetico.</p>
-
-<p>Garção foi o poeta de mais gosto e (por aventurar
-uma expressão que não é legitima, mas
-póde ser legitimada portugueza) de mais <i>fino
-tacto</i> que entre nós appareceu até agora. Haverá
-n’outros mais fogo, outros ferverão em mais
-enthusiasmo, crearão acaso mais; porem a delicadeza
-de Garção so tem rival na antiguidade.
-A musa pura, casta, ingenua, nunca lhe
-desvairou: em suas composições ha d’ellas onde
-a mais aguçada crítica não esmiunçará um
-defeito. Tal é a cantata de Dido, uma das mais
-sublimes concepções do ingenho humano, uma
-das mais perfeitas obras executadas da mão
-do homem. Todo se deu ao genero lyrico, especialmente
-ao Horaciano; e n’esse ninguem
-o excedeu, antes ninguem o igualou. A ode á
-virtude, a que se intitula o Suicidio (que pela
-primeira vez sai a lume n’esta collecção) outras
-muitas que longo fôra enumerar, são de uma<span class="pagenum" id="Page_206">[Pg 206]</span>
-belleza, d’uma correcção, d’um <i>acabado</i> (como
-dizem os pintores) que difficilmente se imitará,
-tarde se chegará a igualar.</p>
-
-<p>Não da mesma sorte Antonio Diniz, que
-mais arrojado, mais pomposo, menos correcto
-e elegante, assim correu mais caudalosa, porém
-menos pura torrente. Em quanto lyrico, tem
-rasgos pindaricos verdadeiramente sublimes;
-mas o todo de suas odes é em demasia ornamentado;
-e ellas entre si peccam amiudo de
-monotonias e repetições. Talvez o jugo dos
-consoantes, que tão desnecessariamente se impôz,
-o acanhou a isso. Mas nas anacreonticas
-é elle sem disputa o primeiro poeta portuguez,
-e digno rival do ancião de Teios. No genero
-bucolico tambem nos deixou mui bonitas cousas,
-nenhuma perfeita. Porém a verdadeira
-corôa poetica do Diniz Thalia lh’a teceu, que
-não outra musa. O Hyssope é o mais perfeito
-poema heroicomico de seu genero<a id="FNanchor_38" href="#Footnote_38" class="fnanchor">[38]</a> que ainda
-se compoz em lingua nenhuma: se no castigado
-da dicção o excede o Lutrin; no desenho<span class="pagenum" id="Page_207">[Pg 207]</span>
-da obra, na regularidade do edificio, na imaginação,
-foi o discipulo de Boileau muito além
-de seu grande mestre: e com mais exacção se
-diria de um e outro o que de Camões e Tasso
-presumpçosamente disse Voltaire: que se a
-imitação d’aquelle fizera este, a sua melhor
-obra era essa. O palacio do genio das Bagatellas,
-a conversa do deão na cerca dos capuchos,
-a ressurreição e vaticinio <i>do gallo assado</i>,
-a caverna d’Abracadabro serão, em quanto
-houver gosto, estudados como exemplar pelos
-litteratos, lidos e relidos sempre com prazer
-per todos os amigos das artes.</p>
-
-<p>Após estes vem o virtuoso e honrado Quita,
-a quem pagou a patria com miseria e fome as
-immensas riquezas que para a lingua e litteratura
-de seus versos herdou. Um pobre cabelleireiro,
-a quem as musas que serviu, os grandes
-que com ellas honrou nunca tiraram do triste
-officio, pôde de sua baixa condição social alevantar-se
-do primeiro grau litterario, que acaso
-lhe disputam ignorantes ou presumpçosos,
-nenhum homem de gosto deixará de lh’o dar.</p>
-
-<p>Este é em meu humilde conceito o nosso
-melhor bucolico: tómo a liberdade de contrastar<span class="pagenum" id="Page_208">[Pg 208]</span>
-a opinião commum, porque o meu dever
-de crítico me obriga a ennunciar lealmente o
-meu pensamento. Tenho para mim (e fico que
-acharei quem me siga se de boa fé quizerem
-entrar no exame) que a immensa cópia de
-composições pastoris, as quaes não são riqueza,
-mas desperdicio de nossas musas, ou peccam
-por empoladas, por inverosimeis, por baixas,
-por demasiado naturaes, por sobejo elevadas.
-Um meio termo difficilimo de tocar, de
-n’elle permanecer, um stylo singelo como o
-campo, mas não rustico como as brenhas, são
-dos mais difficeis requisitos que d’um poeta se
-podem exigir. Se tem ingenho, custa-lhe a
-moldar-se e a rete-lo que não suba mais alto
-que a difficil medida, e raro deixa de a exceder,
-de perder-se do bosque e acabar em jardins
-cidadãos e conversas de damas e cavalheiros
-o que começára no monte ou na varzea
-entre pastores e serranas.</p>
-
-<p>Nem Virgilio d’ahi escapou, nem Sannazaro,
-nem Camões; Gessner sim, e depois de
-Gessner, o nosso Quita. Não digo que não tenha
-defeitos, ainda em seu genero pastoril;
-mas a boa e honrada crítica falla em geral,<span class="pagenum" id="Page_209">[Pg 209]</span>
-louva o bom, nota o mau, porém não faz timbre
-em achar defeitos e erros na menor falta
-para se regosijar da censura. Grandes homens,
-grandes erros: a natureza da mediocridade é
-cingir-se a tristes preceitos para esconder sua
-mesquinhez: porém de taes nunca fallou posteridade.
-Horacio e Boileau foram atrevidos
-quando lhes cumpriu, e desprezaram regras e
-arte quando os chamou a natureza, e lhes mostrou
-o sublime. Philinto, que os sabia de cór,
-tambem se levantou acima das regras, e nunca
-foi tamanho. E todavia foi elle o maior poeta
-de seu seculo: mas os grandes ingenhos não
-contraveem a lei, são superiores a ella, e são
-elles viva lei.</p>
-
-<p>Mui distincto logar obteve entre os poetas
-portuguezes d’esta epocha Claudio Manoel da
-Costa: o Brazil o deve contar seu primeiro
-poeta,<a id="FNanchor_39" href="#Footnote_39" class="fnanchor">[39]</a> e Portugal entre um dos melhores.</p>
-
-<p>Deixou-nos alguns sonetos excellentes, e rivalizou
-no genero de Metastasio, com as melhores
-cançonetas do delicado poeta italiano.
-A que dirige á lyra com sua palidonia imitando<span class="pagenum" id="Page_210">[Pg 210]</span>
-a tão conhecida do mesmo Metastasio a
-Nice, <i>Grazie all’ ingani tuoi</i>, póde-se apontar
-como excellente modêlo. Nota-se em muitas
-partes dos outros versos d’elle varios resquicios
-de <i>gongorismo</i> e affectação <i>seiscentista</i>.</p>
-
-<p>E agora começa a litteratura portugueza a
-avultar e enriquecer-se com as producções dos
-ingenhos brazileiros. Certo é que as magestosas
-e novas scenas da natureza n’aquella vasta
-região deviam ter dado a seus poetas mais originalidade,
-mais differentes imagens, expressões
-e stylo, do que n’elles apparece: a educação
-europeia apagou-lhes o espirito nacional:
-parece que receiam de se mostrar americanos;
-e d’ahi lhes vem uma affectação e impropriedade
-que dá quebra em suas melhores qualidades.</p>
-
-<p>Muito havia que a tuba epica estava entre
-nós silenciosa, quando Fr. José Durão a embocou
-para cantar as romanescas aventuras
-de Caramurú. O assumpto não era verdadeiramente
-heroico, mas abundava em riquissimos
-e variados quadros, era vastissimo campo
-sôbre tudo para a poesia descriptiva. O auctor
-atinou com muitos dos tons que deviam naturalmente<span class="pagenum" id="Page_211">[Pg 211]</span>
-combinar-se para formar a harmonia
-de seu canto; mas de leve o fez: só se estendeu
-em os menos poeticos objectos; e d’ahi esfriou
-muito do grande interesse que a novidade
-do assumpto e a variedade das scenas promettia.
-Notarei por exemplo o episodio de
-Moêma, que é um dos mais gabados, para demonstração
-do que assevero. Que bellissimas
-cousas da situação da amante brazileira, da do
-heroe, do logar, do tempo não podéra tirar o
-auctor, se tam de leve não houvera desenhado
-este, assim como outros paineis?</p>
-
-<p>O stylo é ainda por vezes affectado: la surdem
-aqui alli seus <i>gongorismos</i>; mas onde o
-poeta se contentou com a natureza e com a
-simples expressão da verdade, ha oitavas bellissimas,
-ainda sublimes.</p>
-
-<p>Depois de Diniz o logar immediato nos anacreonticos
-pertence a outro Brazileiro.</p>
-
-<p>Gonzaga mais conhecido pelo nome pastoril
-de Dirceu, e pela sua Marilia, cuja belleza e
-amores tam célebres fez n’aquellas nomeadas
-lyras. Tenho para mim que ha d’essas lyras
-algumas de perfeita e incomparavel belleza:
-em geral a Marilia de Dirceu é um dos livros<span class="pagenum" id="Page_212">[Pg 212]</span>
-a quem o publico fez immediata e boa justiça.
-Se houvesse por minha parte de lhe fazer alguma
-censura, só me queixaria, não do que
-fez, mas do que deixou de fazer. Explico-me:
-quizera eu que em vez de nos debuxar no
-Brazil scenas da arcadia, quadros inteiramente
-europeus, pintasse os seus paineis com as
-côres do paiz onde os situou. Oh! e quanto
-não perdeu a poesia n’esse fatal êrro! se essa
-amavel, se essa ingenua Marilia fosse, como a
-Virgínia de Saint-Pierre, sentar-se á sombra
-das palmeiras, e em quanto lhe revoavam em
-tôrno o cardeal suberbo com a purpura dos
-reis, o sabiá terno e melodioso,—que saltasse
-pelos montes espessos a cotia fugaz como a lebre
-da Europa, ou grave passeasse pela orla
-da ribeira o tatu esquamoso,—ella se entretivesse
-em tecer para o seu amigo e seu cantor
-uma grinalda não de rosas, não de jasmins,
-porém dos roixos martyrios, das alvas
-flores dos vermelhos bagos do lustroso cafezeiro;
-que pintura, se a desenhára com sua natural
-graça o ingenuo pincel de Gonzaga!</p>
-
-<p>Justo elogio merece o sensivel cantor da infeliz
-Lindoya que mais nacional foi que nenhum<span class="pagenum" id="Page_213">[Pg 213]</span>
-de seus compatriotas brazileiros. O Uraguay
-de José Bazilio da Gama é o moderno poema
-que mais merito tem na minha opinião. Scenas
-naturaes mui bem pintadas, de grande e
-bella execução descriptiva; phrase pura e sem
-affectação, versos naturaes sem ser prosaicos,
-e quando cumpre sublimes sem ser guindados;
-não são qualidades communs. Os Brazileiros
-principalmente lhe devem a melhor corôa de
-sua poesia, que n’elle é verdadeiramente nacional,
-e legítima americana. Mágoa é que tam
-distincto poeta não limasse mais o seu poema,
-lhe não désse mais amplidão, e quadro tão magnifico
-o acanhasse tanto. Se houvera tomado
-esse trabalho, desappareceriam algumas incorrecções
-de stylo, algumas repetições, e um certo
-desalinho geral, que muitas vezes é belleza,
-mas continuado e constante em um poema longo,
-é defeito.</p>
-
-<p>Muito ha que os nossos auctores desempararam
-o theatro: eis ahi o faceto Antonio José,
-a quem muitos quizeram appellidar Plauto portuguez
-e que sem duvida alguns serviços tem
-a esse titulo, porém não tantos como apaixonadamente
-lhe decretaram. Em seus informes<span class="pagenum" id="Page_214">[Pg 214]</span>
-dramas algumas scenas ha verdadeiramente
-comicas, alguns dictos de summa graça; porém
-essa degenera amiudo em baixa e vulgar. Talvez
-que o <i>Alecrim e Mangerona</i> seja a melhor
-de todas; e de certo o assumpto é eminentemente
-comico e portuguez: hoje teria todo o
-merito de uma comedia historica: e se fôra
-tractada no genero de Beaumarchais, produziria
-uma excellente peça.</p>
-
-<div class="footnotes">
-
-<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4>
-
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_38" href="#FNanchor_38" class="label">[38]</a> Digo de seu genero, porque o Orlando furioso
-tambem é heroicomico, mas d’outro genero.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_39" href="#FNanchor_39" class="label">[39]</a> Em antiguidade.</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="VII">VII<br><span class="small">Epocha, segunda decadencia da lingua e litteratura;
-gallicismo e traducções</span></h3></div>
-
-
-<p>Á volta este tempo se formou a academia
-das sciencias de Lisboa pelos generosos esforços
-do duque de Lafões. Esse corpo scientifico,
-de quem tanto bem se augurou para a lingua
-e litteratura nacional, nem fez tudo o que d’elle
-se esperava, nem uma parte mui pequena
-do que podia e lhe cumpria fazer: mas nem
-foi inutil, nem, como alguns teem querido,<span class="pagenum" id="Page_215">[Pg 215]</span>
-prejudicial. E todavia sua força moral não foi
-bastante para vencer um mal terrivel que já
-no tempo de sua creação se manifestava, mas
-que depois, cresceu e avultou a ponto, que
-veio a tornar-se quasi indestructivel.</p>
-
-<p>Este mal foi o <i>gallo-mania</i>, que sôbre perverter
-o caracter da nação, de todo perdeu e
-acabou com a já combalida linguagem: phrases
-barbaras repugnantes á indole do idioma,
-termos hybridos, locuções arrastadas, sem elegancia,
-formaram a algaravia da moda, e prestes
-invadiram todas as provincias das lettras.
-Estudar a lingua materna, como aquella em
-que fallamos e escrevemos, é dos mais difficeis
-estudos, ha mister longa e porfiada applicação.
-Que bella invenção para a ignorancia e
-para a preguiça não foi esta nova linguagem
-mascavada e de furtacôres, que todos podiam
-saber sem fadiga, cujas leis cada-um moderava
-e arbitrava a seu modo, alterava a seu sabor
-com tam plena liberdade de consciencia!
-Foi a religião de Mafoma: propagou-a a incontinencia,
-a soltura, o desenfreio do appetite.
-Desprezaram-se os classicos, apodaram-se
-de ignorantes, de rançosos; e os que não ousavam,<span class="pagenum" id="Page_216">[Pg 216]</span>
-por algum resto de vergonha, desacatar
-assim as honradas cans dos nossos mestres,
-sahiram então com o banal e ridiculo pretexto
-de que ninguem podia lê-los pelas materias que
-tractaram; que tudo eram sermões, vidas de
-sanctos, historias de conventos, de frades. Vergonhosa
-desculpa! Comquê as decadas de Barros,
-que foi talvez o primeiro que introduziu
-com feliz execução o stylo classico na historia
-moderna, são chronicas de conventos? Fernão
-Mendes Pinto, o primeiro europeu que escreveu
-uma viagem regular da China e dos extremos
-d’Asia, são vidas de sanctos? E d’essas
-mesmas vidas de sanctos, quantas d’ellas
-são de summo interesse, divertida e proficua
-leitura! A vida de D. Fr. Bartholomeu dos
-Martyres tem toda a valia das mais gabadas
-memorias historicas, de que hoje anda cheia a
-Europa, e que ninguem taxou ainda de pouco
-interessantes. Quando outra cousa não contivesse
-aquelle excellente livro senão a narração
-do concilio de Trento, a viagem e estada
-do arcebispo em Roma, ja seria elle uma das
-mais curiosas e importantes obras do seculo
-XVI. E D. Francisco Manoel de Mello, e Rodrigues<span class="pagenum" id="Page_217">[Pg 217]</span>
-Lobo, e Camões, e grande cópia de
-poetas de todos os generos,—tudo isso são
-sermonarios, vidas de sanctos?</p>
-
-<p>Miseria é que o geral dos portuguezes jurou
-nas palavras de quatro peralvilhos que essas
-calumnias apregoavam: passou em julgado que
-os classicos se não podiam ler, e ninguem mais
-quiz tomar o trabalho nem sequer de examinar
-se sim ou não assim era.</p>
-
-<p>N’este estado de cousas appareceram em
-Portugal dous homens extraordinarios, ambos
-dotados pela natureza de prodigioso ingenho
-poetico, Francisco Manoel e Bocage. Aquelle,
-filho da eschola de Garção e Diniz, cultivou
-muito tempo as musas classicas, e já imbuido
-no gosto da antiguidade, já imitador e rival
-de Horacio e Pindaro, começou a ser conhecido
-em idade madura. Este, quasi desd’a
-infancia poeta, appareceu no mundo em toda
-a effervescencia dos primeiros annos, ardente
-cantor das paixões, enthusiasta, agitado do seu
-proprio natural violento, rapido, insoffrido, sem
-cabal instrucção para poeta, com todo o talento
-(raro, espantoso talento!) para improvisador.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_218">[Pg 218]</span></p>
-
-<p>Ambos começaram imitando os grandes mestres
-de seu tempo, seguindo cada-um em seu
-genero o stylo e gosto adoptado e geral desde
-a restauração das letras no meado do seculo.
-Mas não são ingenhos grandes para seguir,
-senão para fundar escholas: nem tardou muito
-que cada-um, per seu lado, não sacudisse todo
-jugo da imitação, e seguisse livre e rasgadamente
-um trilho novo. Bocage a quem seu fado,
-por mais aventureira lhe fazer a vida, levou
-ao antigo theatro das glórias portuguezas,
-voltando d’Asia foi recebido em Lisboa entre
-os applausos dos muitos admiradores que já
-tinha deixado na viril infancia de seu talento
-poetico. Augmentou-se esta admiração com os
-novos improvisos do joven poeta, com a extrema
-facilidade, com o mui sonoro de seus versos.
-O fogo de suas ideias ateou o enthusiasmo
-geral; a mocidade inflammou-se com o nome de
-Bocage: de enthusiasmo degenerou em cegueira,
-em mania; não lhe viam já defeitos;
-menos elle em si mesmo. Ninguem duvidava
-que os improvisos dos cafés do Rocio eram superiores
-a todas as obras da antiguidade, e
-que um soneto de Bocage valia mais que todos<span class="pagenum" id="Page_219">[Pg 219]</span>
-esses volumes de versos do seculo de João III.
-e do de José I. Ésta era a opinião commum
-da mocidade; e tam geral se fez, tantas vezes
-a ouviu repetir o objecto de tal idolatria, que
-força era que a acreditasse, que com ella se
-desvanecesse e desvairasse.</p>
-
-<p>Isso lhe aconteceu. O temperamento irritavel
-e ardentissimo de Bocage o levava naturalmente
-ás hyperboles e exagerações: essas
-eram as mais admiradas de seus ouvintes; requintou
-n’ellas, subiu a ponto que se perdeu
-pelos espaços imaginarios de sua creação phantastica,
-abandonou a natureza, e a suppôz
-acanhado elemento para o <i>genio</i>. Mais elle repetia
-<i>eternidades</i>, <i>mundos</i>, <i>ceos</i>, <i>espheras</i>, <i>orbes</i>,
-<i>furias</i>, <i>gorgonas</i>; mais dobrava o applauso;
-mais delirava elle, mais o admiravam. Ao
-cabo, nem elle a si, nem os outros a elle o
-intendiam.<a id="FNanchor_40" href="#Footnote_40" class="fnanchor">[40]</a> A par e passo que as ideias desvairavam,
-desvairava tambem o stylo, e emfim
-se reduziu a uma continuada antithese, perpetuos<span class="pagenum" id="Page_220">[Pg 220]</span>
-trocadilhos, <i>tours-de-force</i>, pulos, saltos,
-rumpantes, castelhanadas, com que se tornou
-monotono e (usarei d’uma expressão de pintor)
-<i>amaneirado</i>.</p>
-
-<p>A metrificação de Bocage, julgam-na sua
-melhor qualidade; eu a peior; ao menos, a
-que peiores effeitos causou. Não fez elle um
-verso duro, mal soante, frouxo; porém não são
-esses os unicos defeitos dos versos. As varias
-ideias, as diversas paixões e affectos, as distinctas
-posições e circumstancias do assumpto,
-do objecto, de mil outras cousas,—variada
-medida exigem; como exige a musica varios
-tons e cadencias. A mesma medida sempre,
-embora cheia e boa,—o mesmo tom, embora
-afinado,—a mesma harmonia, embora perfeita,—o
-mesmo compasso, embora exacto,
-fazem monotona e insuportavel a mais bella
-peça de musica ou de poesia. E taes são os
-versos de Bocage, que nos pretendem dar para
-typo seus apaixonados cegos: digo <i>cegos</i>, porque
-muitos tem elle (e n’esse numero que conto!)
-que o são, mas não cegos. Imitar com o
-som mechanico das vozes a harmonia intima
-da ideia, supprir com as vibrações que só<span class="pagenum" id="Page_221">[Pg 221]</span>
-pódem ferir a alma pelo orgão dos ouvidos, a
-vida, o movimento, as côres, as fórmas dos
-quadros naturaes, eis ahi a superioridade da
-poesia, a vantagem que tem sobre todas as
-outras bellas artes: mas quam difficil é perceber
-e executar esse delicadissimo ponto! Poucos
-o conseguiram: Francisco Manoel foi entre
-nós o que mais finamente o intendeu e executou,
-mas nem sempre, nem cabalmente.</p>
-
-<p>Porém nos intervallos lucidos que a Bocage
-deixava o fatal desejo de brilhar, n’alguns instantes
-que, despossesso do demonio das hyperboles
-e antitheses, ficava seu grande ingenho
-a sos com a natureza e em paz com a verdade,
-então se via a immensidade d’essa grande
-alma, a fina tempera d’esse raro ingenho que
-a aura popular estragou, perdeu o pouco estudo,
-os costumes desregrados, a miseria, a dependencia,
-a soltura, a fome. Muitas epistolas,
-varios idilios maritimos, algumas fabulas, e
-epigrammas, as cantatas, não são mediocres
-titulos de glória. Dos sonetos ha grande cópia
-que não tem igual nem em portuguez, nem em
-lingua nenhuma, d’uma força, d’uma valentia,
-d’uma perfeição admiravel. O resto é pequeno<span class="pagenum" id="Page_222">[Pg 222]</span>
-e pouco. A linguagem é pobre; ás vezes facil,
-mas em geral escaça. Sabía pouco a lingua;
-a força do grande instincto lhe arredava
-os erros; mas as bellezas do idioma, só as dá
-e ensina o estudo. As traducções de Ovidio,
-Delille e Castel são primorosas.</p>
-
-<p>Mas de traducções estamos nós gafos: e
-com traducções levou o ultimo golpe a litteratura
-portugueza; foi a estocada de morte que
-nos jogaram os estrangeiros. Traduzir livros
-d’artes, de sciencias é necessario, é indispensavel;
-obras de gosto, de ingenho, raras vezes
-convem; é quasi impossivel fazê-lo bem, é
-míngua e não riqueza para a litteratura nacional.
-Essa casta de obras estuda-se, imita-se,
-não se traduz. Quem assim faz accomoda-as
-ao character nacional, dá-lhes côr de proprias,
-e não só veste um corpo estrangeiro de alfaias
-nacionaes (como o traductor), mas a esse corpo
-dá feições, gestos, modo, e indole nacional:
-assim fizeram os Latinos, que sempre imitaram
-os Gregos e nunca os traduziram; assim
-fizeram os nossos poetas da boa idade. Se Virgilio
-houvera traduzido a Iliada, Camões a
-Eneada, Tasso os Lusiadas, Milton a Jerusalem,<span class="pagenum" id="Page_223">[Pg 223]</span>
-Klopstock o Paraiso perdido; nenhum
-d’elles fora tamanho poeta, nenhuma d’essas
-linguas se enriquecera com tam preciosos monumentos:
-e todavia imitaram uns dos outros,
-e d’essa imitação lhes veio grande proveito.</p>
-
-<p>Esta mania de traduzir subiu a ponto em
-Portugal, e de tal modo estragou o gosto do
-público, que não só lhe não agradavam, mas
-quasi não intendia os bons originaes portuguezes:
-a poesia, a litteratura nacional reduziu-se
-a monotonos sonetos, a trovinhas d’amores, a
-insipidas enfiadas</p>
-
-<p class="poetry">
-<i>De versinhos anões a anans Nerinas.</i><br>
-</p>
-
-<p>Tam baixos nos pozeram os admiradores e
-imitadores de Bocage, a quem justamente a
-critica stigmatizou com o nome de <i>elmanistas</i>,—e
-de <i>elmanismo</i> sua affectada eschola. N’elles
-se mostraram exagerados os defeitos todos
-do enthusiasta Elmano, sem nenhum dos grandes
-dotes, das brilhantes qualidades do poeta
-Bocage.</p>
-
-<p>Alguns ha comtudo de quem esta asserção
-não deve intender-se em todo o rigor da phrase.<span class="pagenum" id="Page_224">[Pg 224]</span>
-João Baptista Gomes, auctor da Castro,
-mostrou n’ella muito talento poetico e dramatico.
-D’entre os bastos defeitos d’essa tragedia
-sobresahem muitas bellezas. Desvaira-o o <i>elmanismo</i>;
-derrama-se per madrigaes quando a
-austeridade de Melpomene pedia concisão, força
-e naturalidade; perde-se em declamações,
-extravaga em logares communs, inverte a dicção
-com antitheses, destroi toda a illusão com
-versos amiudo sesquipedaes e entumecidos;
-mas per meio de todas essas nevoas brilha
-muita luz de ingenho, muita sensibilidade,
-muita energia de coração; predicados que com
-o estudo da lingua que não tinha, com a experiencia
-que lhe fallecia, triumphariam ao
-cabo do mau gosto do tempo, e viriam provavelmente
-a fazer de João Baptista Gomes o
-nosso melhor tragico. Atalhou-o a morte em
-tam illustre carreira, e deixou orphão o theatro
-portuguez que de tamanho talento esperava
-reforma e abastança.</p>
-
-<p>Mas em quanto Bocage e seus discipulos tyrannizavam
-a poesia e estragavam o gosto,
-Francisco Manuel, unico <i>representante</i> da grande
-eschola de Garção, gemia no exilio, e de<span class="pagenum" id="Page_225">[Pg 225]</span>
-la com os olhos fitos na patria se preparava
-para luctar contra a enorme hydra cujas innumeras
-cabeças eram o gallicismo, a ignorancia,
-a vaidade, todos os outros vicios que iam
-devorando a litteratura nacional.</p>
-
-<p>A sua epistola sobre a arte poetica e lingua
-portugueza, póde rivalizar com a de Horacio
-aos Pisões: força d’argumentos, eloquencia da
-poesia, nobre patriotismo, finissimo sal da satyra,
-tudo ahi peleja contra o monstro multiforme.</p>
-
-<p>Que direi das odes? Minha intima persuasão
-é que nunca lingua nenhuma subiu tam
-alto como a portugueza na lyra de Francisco
-Manuel. Que ha em Pindaro comparavel á ode
-a Afonso d’Albuquerque? onde ha poesia sublime,
-elegante, immensa como seu assumpto,
-na dos novos Gamas? se o patriotismo fallasse
-alguma hora aos degenerados netos de Pacheco
-e Albuquerque, que poderia elle dizer-lhes
-igual áquella inestimavel ode que se intitula
-<i>Neptuno aos portuguezes</i>? E quando a liberdade
-troa na espada de Washington, submette
-os raios de Jupiter ao sceptro dos tyrannos aos
-pés de Franklin, ou tece pelas mãos de Penn<span class="pagenum" id="Page_226">[Pg 226]</span>
-os laços de fraterna união! Que immenso, que
-grandioso é o cantor de tamanhos objectos!
-Quando nas odes a Venus, a Marfisa, a Marcia
-<i>voltando inopinada</i>, no hymno á noite se
-requebra em amoroso jubilo, ou se enternece
-de saudade, todo é graças e primores de linguagem,
-de imaginação, de stylo, de delicadeza,
-de inimitavel poesia. No genero Horaciano
-não é elle tam puro e perfeito como Garção,
-mas nem intendeu menos nem imitou peior o
-seu modêlo.</p>
-
-<p>Entre as epistolas ha muitas admiraveis:
-dos contos e fabulas, alguns com elegante sal
-e chiste. As traducções do Oberon de Wielland,
-da Guerra punica de Silio Italico, mas
-sobre todas, a dos Martyres de Chateaubriand,
-são thesouros de linguagem e de poesia.</p>
-
-<p>Nenhum poeta desde Camões havia feito tantos
-serviços á lingua portugueza: so per si
-Francisco Manuel valeu uma academia, e fez
-mais que ella; muita gente abriu os olhos, e
-adquiriu amor a seu tam rico e bello, quanto
-desprezado idioma: e se ainda hoje em Portugal
-ha quem estude os classicos, quem se não
-envergonhe de lêr Barros e Lucena, deve-se<span class="pagenum" id="Page_227">[Pg 227]</span>
-ao exemplo, aos brados, ás invectivas do grande
-propugnador de seus foros e liberdades.</p>
-
-<p>Nos ultimos periodos de sua longa vida
-afrouxaram as energicas faculdades d’este
-grande poeta, e excepto a traducção dos Martyres
-(que assim mesmo tem seus altos e baixos)
-quasi tudo o mais que fez é tibio e morno
-como de um octogenario se podia esperar.
-O nimio temor de commeter gallicismos, a que
-tinha justo e sancto horror, o fez cahir em archaismos
-e affectação demasiada de palavras
-antiquadas e excessivos hyperbatos. Não são
-porém estas faltas, nem tantas nem tamanhas
-como o pregoou a inveja e a ignorancia.</p>
-
-<p>Muito honrosa menção deve a historia da
-lingua e poesia portugueza a Domingos Maximiano
-Torres, cujas eclogas rivalizam com
-as de Quita e Gessner, cujas cançonetas são,
-depois das de Claudio Manuel da Costa, as
-melhores que temos. Foi este muito intimo de
-Francisco Manuel, mas tenho por mui exagerados
-os elogios que d’elle recebeu.</p>
-
-<p>Antonio Ribeiro dos Santos, honra da magistratura
-portugueza, foi imitador e émulo de
-Ferreira: poucos ingenhos, poucos characteres,<span class="pagenum" id="Page_228">[Pg 228]</span>
-poucos stylos ha tam parecidos; se não que o
-auctor dos coros da Castro era muito maior
-poeta, e o cantor do grande D. Henrique muito
-melhor metrificador. Ésta ode ao infante sabio,
-algumas outras a varios heroes portuguezes,
-algumas das epistolas, e especialmente os
-versos que lhe dictava a amizade para o seu
-Almeno, são d’uma elegancia e pureza de linguagem
-rarissima em nossos dias.</p>
-
-<p>Este Almeno é Fr. José do Coração de Jesus,
-missionario de Brancannes, que traduziu
-os primeiros livros das methamorphoses de
-Ovidio em excellente, riquissimo, purissimo
-portuguez, mas em maus versos: e ainda assim,
-alguns d’elles são felizes: é de estudar,
-de versar com mão <i>diurna</i> e <i>nocturna</i> esse comêço
-de traducção para quem quizer conhecer
-as riquezas de uma lingua que compete, emparelha,
-vence ás vezes, a sua propria mãe latina.</p>
-
-<p>Duas ou tres odes d’este virtuoso e erudito
-padre são mui bonitas.</p>
-
-<p>Nicolau Tolentino é o poeta eminentemente
-nacional no seu genero: Boileau teve mais
-força, mas não tanta graça como o nosso bom<span class="pagenum" id="Page_229">[Pg 229]</span>
-mestre de rhetorica. E de suas satyras ninguem
-se pode escandalizar; começa sempre per casa,
-e primeiro se ri de si antes que zombeteie com
-os outros. As pinturas dos costumes, da sociedade,
-tudo é tam natural, tam verdadeiro!
-Confesso que de todos os poetas que meu triste
-mister de critico me tem obrigado a analysar,
-unico é este em cuja causa me dou por suspeito:
-tanta é a paixão, a cegueira que tenho
-polo mais verdadeiro, mais engraçado, mais
-<i>bom homem</i> de todos os nossos escriptores.
-Aquelle <i>bilhar</i>, aquella <i>funcção de burrinhos</i>,
-aquelle <i>cha</i>, aquellas despedidas <i>ao cavallo
-deitado á margem</i>; o memorial ao principe,
-o presente do <i>perum</i>, são bellezas que so não
-admirarão atrabilarios zangãos em perpetuo estado
-de guerra com a franca alegria, com o
-ingenuo gôsto da natureza.</p>
-
-<p>De José Anastacio da Cunha, que das mathematicas
-puras nos deu o melhor curso que
-ha em toda Europa, d’esse infeliz ingenho (que
-talento houve já feliz em Portugal?) a quem
-não impediam as rectas de Euclides, nem as
-curvas de Archimedes de cultivar tambem as
-musas; de tam illustre e conhecido nome<span class="pagenum" id="Page_230">[Pg 230]</span>
-que direi eu senão o muito que me peza da raridade
-de suas poesias? Todas são philosophicas,
-ternas e repassadas d’uma tam meiga sensibilidade
-algumas, que deixam n’alma um
-como echo de harmonia interior que não vem
-do metro de seus versos, mas das ideias, dos
-pensamentos. Todavia ha mister lê-lo com prevenção,
-porque (provavelmente estropiada de
-copistas) a phrase nem sempre é portugueza
-de lei.</p>
-
-<p>O padre A. P. de Sousa Caldas, brazileiro,
-é dos melhores lyricos modernos. A poesia biblica,
-apenas encetada de Camões na paraphrase
-do psalmo <i>super flumina Babylonis</i>, foi
-per elle maravilhosamente tractada; e desde
-Milton e Klopstock ninguem chegou tanto acima
-n’este genero.</p>
-
-<p>A cantata de Pygmalião, a ode O homem
-selvagem são excellentes tambem.</p>
-
-<p>Aqui me cai a penna das mãos: o estadio
-livre para a critica imparcial acabou. Nem
-posso continuar a exercê-la sem temor, nem o
-faria ainda assim, pois não quizera vêr revogadas
-minhas presumidas sentenças pela severa<span class="pagenum" id="Page_231">[Pg 231]</span>
-posteridade, quasi sempre annulladora de juizos
-contemporãos.</p>
-
-<p>Não posso todavia fechar este breve quadro
-sem patentear a admiração, e o indizivel prazer
-que me deu o poema do Passeio do snr.
-J. M. da Costa e Silva, cuja existencia tinha
-a infelicidade de ignorar (tam pouco sabemos
-nós portuguezes das riquezas que temos em
-casa!) e que não sei que tenha que invejar a
-Thompson e Delille, se não fôr na pouca extensão
-e, acaso dirá mais severo juiz, em algum
-verso de demasiado <i>elmanismo</i>. Quanto a mim,
-folgo de me lisongear com a esperança que seu
-auctor lhe dará a amplidão e mais (poucos
-mais) retoques com que ficará por ventura o
-melhor poema d’esse genero.</p>
-
-<p>Apezar dos motivos referidos, pedirei uma
-venia mais para mencionar como um poema
-que faz summa honra ao nome portuguez, a
-Meditação do snr. J. A. de Macedo, que tem
-sido censurada por quem não é capaz de intendê-la.
-Não sei eu se ella tem defeitos; é
-obra humana, e de certo lhes não escapou;
-mas sublimidade, cópia de doctrina, phrase<span class="pagenum" id="Page_232">[Pg 232]</span>
-portugueza, e grandes ideias, só lh’o negará a
-cegueira ou a paixão.</p>
-
-<p>Cita-se com elogio o nome do snr. J. F. de
-Castilho, joven poeta que se despica da injuria
-da sorte que o privou da vista, com muita luz
-de ingenho poetico.</p>
-
-<p>Os <i>dythirambos</i> do snr. Curvo Semedo, as
-odes do snr. J. Evangelista de Moraes merecem
-grande favor do publico: os apologos do
-snr. J. V. Pimentel Maldonado são por certo
-dignos da maior estimação.</p>
-
-<p>As Georgicas do snr. Mozinho d’Albuquerque
-fizeram a reputação poetica de seu benemerito
-auctor. Alguns lhe acharam demaziada
-erudição, e queriam mais poesia e menos sciencia.
-Eu por mim tomarei a confiança de pedir
-ao illustre poeta, em nome da litteratura portugueza,
-que na segunda edição de sua tam
-util obra não desdenhe de aproveitar os muitos
-e riquissimos ornatos que habilmente póde tirar
-de nossas festas ruraes, de nossas usanças
-(como feiras, serões, desfolhas, etc.), das descripções
-de nosso formoso paiz; com que decerto
-fará mais nacional e interessante seu estimavel
-poema. Não sei tambem se alguma incorrecção<span class="pagenum" id="Page_233">[Pg 233]</span>
-typographica ou de cópia, seria origem
-de varias imperfeições e impurezas de
-linguagem, que os escrupulosos (e em tal materia
-é forçoso sê-lo) lhe notam.</p>
-
-<p>Tudo isso esperamos os portuguezes que nos
-vangloriamos de sua excellente obra, vê-lo
-melhorado na proxima edição que já reclama
-o publico impaciente.</p>
-
-<p>A litteratura portugueza não mostra presentemente
-grandes symptomas de vigor: mas
-ha muita força latente sob essa apparencia; o
-menor sôpro animador que da administração
-lhe venha, ateará muitos luzeiros com que de
-novo brilhe e se engrandeça.</p>
-
-<p class="center p2">FIM</p>
-
-
-<div class="footnotes">
-
-<h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4>
-
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_40" href="#FNanchor_40" class="label">[40]</a> Assim lhe succedeu, principalmente em muitos
-dos, por natureza e essencia, hyperbolicos elogios
-dramaticos; genero de composição extravagante e
-quasi sempre ridiculo.</p>
-
-</div></div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="INDICE">INDICE<br>DAS<br>OBRAS CONTIDAS N’ESTE VOLUME</h2>
-</div>
-
-
-<table class="autotable">
-<tr><th></th><th class="tdr"><i>Pag.</i>
-</th></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#O_RETRATO_DE_VENUS">Retrato de Venus</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_5">5</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#NOTAS">Notas</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_57">57</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#ENSAIO">Ensaio sobre a historia da pintura</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_89">89</a>
-</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#BOSQUEJO">Bosquejo da historia da poesia e lingua portugueza</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_163">163</a>
-</td></tr>
-</table>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="RECTIFICACAO">RECTIFICAÇÃO</h2>
-</div>
-
-
-<p>A <span class="smcap"><a href="#ADVERTENCIA">Advertencia</a></span> de pag. <a href="#Page_164">165-166</a> pertence ao <i>Retrato de
-Venus</i> e não ao <i>Bosquejo da historia da poesia e lingua
-portuguesa</i>, onde inadvertidamente foi collocada.</p>
-
-<div class="transnote"><p>
-Nota do transcritor: Isso foi collacada na posição certa.</p>
-</div>
-
-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O RETRATO DE VENUS E ESTUDOS DE HISTORIA LITTERÁRIA</span> ***</div>
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-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg&#8482;&#8217;s
-goals and ensuring that the Project Gutenberg&#8482; collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg&#8482; and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state&#8217;s laws.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
-public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state
-visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Please check the Project Gutenberg web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
-</div>
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-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg&#8482; eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-</div>
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-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>.
-</div>
-
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-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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