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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:13:03 -0700
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+ <title>Viagens na minha terra (Volume II)</title>
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+<pre>
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+Project Gutenberg's Viagens na Minha Terra (Volume II), by Almeida Garrett
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Viagens na Minha Terra (Volume II)
+
+Author: Almeida Garrett
+
+Release Date: January 15, 2008 [EBook #24319]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA (VOLUME II) ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
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+
+
+</pre>
+
+
+
+<div>
+<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+quantidade de erros tipogr&aacute;ficos existentes neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Jan. 2008)
+</div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2>OBRAS<br />
+
+
+<br />
+
+
+DE<br />
+
+
+<br />
+
+
+J. B. DE A. GARRETT.<br />
+
+
+<br />
+
+
+IX.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="smallcaps">(<em>segundo das viagens.</em>)</span></h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="bbox">
+<h1>VIAGENS<br />
+
+
+</h1>
+
+
+<h4>NA MINHA TERRA
+</h4>
+
+
+<h2>POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.</h2>
+
+
+<h2><br />
+
+
+II.
+</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4>LISBOA<br />
+
+
+NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.<br />
+
+
+1846.<br />
+
+
+</h4>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2>VIAGENS NA MINHA TERRA.
+</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c1"></a>CAPITULO XXVI.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Modo de ler os auctores antigos, e os
+modernos tambem.&#8213;Horacio
+na sacra-via.&#8213;Duarte Nunes iconoclasta da nossa
+historia.&#8213;A policia e os barcos de vapor.&#8213;Os vandalos
+do feliz systema que nos rege.&#8213;Shakspeare lido em Inglaterra
+a um bom fogo, com um copo de
+<em>old-sack</em> s&ocirc;bre
+a banca.&#8213;Sir John Falstaff se foi maior homem que
+Sancho-Pansa?&#8213;Grande
+e importante descuberta archeologica
+s&ocirc;bre San'Thiago, San'Jorge e Sir John
+Falstaff.&#8213;Pr&oacute;va-se
+a vinda d'este &uacute;ltimo a Portugal.&#8213;O enthusiasta
+britannico no tumulo de Heloisa e Abeillard no Pere-la-Chaise.&#8213;Bentham
+e Cam&otilde;es.&#8213;Chega o <em>auctor</em>
+&aacute; sua janella, e pasmosa
+miragem poetica produzida por umas oitavas dos Lusiadas.&#8213;De
+como emfim proseguem &eacute;stas viagens para Santarem,
+e que feito ser&aacute; de Joanninha.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Se eu for algum dia a Roma, heide entrar
+na cidade eterna com o meu Tito-Livio e o
+meu Tacito nas algibeiras do meu palet&oacute; de
+viagem. Alli, sentado n'aquellas ruinas immortaes,
+<span class="pagenum"><a name="p2">[2]</a></span>
+sei que heide intender melhor a sua hist&oacute;ria,
+que o texto dos grandes escriptores se me
+hade illustrar com os monumentos d'arte que os
+viram escrever, e que uns recordam, outros presenciaram
+os feitos memoraveis, o progresso e a
+decadencia d'aquella civiliza&ccedil;&atilde;o pasmosa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E Juvenal e Horacio? o meu Horacio, o meu
+velho e fiel amigo Horacio!.. Deve ser um prazer
+regio ir lendo pela sacra-via f&oacute;ra aquella deliciosa
+satyra, creio que a nona do L. I.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Ibam forte sacra via, sicut meus <a href="#e1">est mos</a>,<br />
+
+
+Nescio quid meditans nugarum...
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+Deve ser maior prazer ainda, muito maior do
+que beijar o p&eacute; ao papa. Parece-me a mim;
+mas como eu nunca fui a Roma...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E n&atilde;o &eacute; preciso. Pegue qualquer na bella
+chronica d'elrei D. Fernando, a que Duarte
+Nunes menos estragou...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O Duarte Nunes foi um reformador iconoclasta
+das nossas chronicas antigas, truncou todas as
+imagens, raspou toda a poesia d'aquellas venerandas
+<span class="pagenum">[3]</span>
+e deliciosas <em>sagas</em>
+portuguezas... Em ponto
+historico pouco mais eram do que
+<em>sagas</em>, verdade
+seja, mas como taes, lindas. E o Duarte Nunes,
+que era um pobre grammatic&atilde;o sem g&ocirc;sto
+nem gra&ccedil;a, foi-se &aacute;s filagranas e arrendados de
+finissimo lavor gothico d'aquelles monumentos,
+quebrou-lh'os; ficaram so os tra&ccedil;os historicos que
+eram muito pouca e muito incerta coisa; e cuidou
+que tinha arranjado uma hist&oacute;ria, tendo apenas
+destruido um poema. <a name="n1"></a>Fic&aacute;mos
+sem Nibelungen,
+podendo-o ter, e n&atilde;o obtivemos hist&oacute;ria
+porque se n&atilde;o podia obter assim.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pois digo: pegue qualquer na bella chronica
+d'elrei D. Fernando, obede&ccedil;a &aacute; lei concorrendo
+com o seu cruzado-novo para o augmento e gl&oacute;ria
+da benemerita companhia que tem o exclusivo
+d'esses caranguejos de vapor que andam e desandam
+no rio, entre n'um dos referidos caranguejos,
+em que, al&eacute;m da porcaria e mau-cheiro,
+n&atilde;o ha perigo nenhum sen&atilde;o o de rebentar
+toda aquella camara-optica que anda por arames,
+e que em qualquer paiz civilizado onde a policia
+fizesse alguma coisa mais do que imaginar
+conspira&ccedil;&otilde;es,
+ha muito estaria condemnada a ir alli <a name="n2"></a>caranguejar
+para as Lamas
+&aacute; sua vontade. Mas
+<span class="pagenum">[4]</span>
+emfim ca n&atilde;o ha d'outros nem haver&aacute; tam cedo,
+gra&ccedil;as ao muito que agora, diz que, se cuida
+nos inter&ecirc;sses materiaes do paiz: e portanto tome
+o seu logar, passe o mesmo que eu passei; chegue-me
+a Santarem, descanse e ponha-se-me a
+ler a chronica: ver&aacute; se n&atilde;o &eacute; outra
+coisa, vera
+se deante d'aquellas preciosas reliquias, ainda
+mutiladas, deformadas como ellas est&atilde;o por tantos
+e tam successivos barbaros, estragadas emfim
+pelos peiores e mais vandalos de todos os
+vandalos, as auctoridades administrativas e municipaes
+do feliz systema que nos rege, ainda assim
+mesmo n&atilde;o ve erguer-se deante de seus olhos
+os homens, as scenas dos tempos que foram; se
+n&atilde;o ouve fallar as pedras, bradar as
+inscrip&ccedil;&otilde;es,
+levantar-se as est&aacute;tuas dos tumulos; e reviver-lhe
+a pintura toda, reverdecer-lhe toda a poesia
+d'aquellas edades maravilhosas!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tenho-o experimentado muitas vezes: &eacute; infallivel.
+Nunca tinha intendido Shakspeare em quanto
+o n&atilde;o li em Warwick, aope do Avon,
+debaixo
+de um carvalho secular, &aacute; luz d'aquelle sol
+ba&ccedil;o e branco do nublado ceo d'Albion... ou &aacute;
+noite com <a name="n3"></a>os p&eacute;s no
+<em>fender</em>, a chaleira a ferver
+no fog&atilde;o, e s&ocirc;bre a banca o crystal antigo de
+<span class="pagenum"><a name="p5">[5]</a></span>
+um bom copo lapidado a luzir-me alambreado com
+os doces e <a name="n4"></a>perfumados resplendores
+do <em>old
+sack</em>;
+em quanto o fog&atilde;o e os ponderosos casti&ccedil;aes de
+cobre brunido projectam no antigo tecto almofadado,
+nos pardos compartimentos de carvalho que
+forram o apposento, aquellas fortes sombras vacillantes
+de que as velhas fazem vis&otilde;es e almas-do-outro-mundo,
+de que os poetas&#8213;poetas como
+Shakspeare&#8213;fazem sombras de <em>Banco</em>,
+bruxas
+de <em>Mackbeth</em>, e
+at&eacute; a rotunda pansa e o arrastante
+espadag&atilde;o do meu particular amigo Sir
+John Falstaff, o inventor das leg&iacute;timas consequencias,
+o fundador da grande eschola dos restauradores
+caturras, dos poltr&otilde;es pugnazes que
+salvam a patria de parolla e que ninguem os
+atura em tendo as costas quentes.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh Falstaff, Falstaff! eu n&atilde;o sei se tu es
+maior homem que Sancho Pan&ccedil;a. Creio que n&atilde;o.
+Mas maior pansa tens, mais capacidade na pansa
+tens. Quando nossos av&oacute;s <a name="n5"></a>renegaram
+de San'
+Thiago por castelhano perro, e invocaram a San'
+Jorge, tu vieste, &oacute; Falstaff, em sua comitiva de
+Inglaterra e aqui tomaste assento, aqui ficaste,
+e foste o patriarcha d'essa immensa progenie de
+<a href="#e2">Falstaffs</a>&nbsp;que
+por ahi anda.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[6]</span>
+Este importante ponto da nossa hist&oacute;ria, da
+demiss&atilde;o de San'Thiago e da vinda de San'Jorge
+de Inglaterra com Sir John Falstaff por seu
+<em>homem-de-ferro</em>&#8213;&eacute;sta
+grande descoberta archeologica
+que tanta coisa moderna explica, como a
+fiz eu? Indo aos sitios mesmos, estudando alli os
+antigos exemplares: que &eacute; a minha doutrina.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em tudo, para tudo &eacute; assim. Chegou um dia
+um inglez a Paris: um inglez leg&iacute;timo e
+<em>cru</em>,
+virgem de toda a corrup&ccedil;&atilde;o continental;
+cal&ccedil;a de
+ganga, sapato grosso, cabello de cenoira, chapeo
+fillado na cova-do-ladr&atilde;o. Era enthusiasta de
+Heloisa e Abeillard, foi-se ao P&eacute;re-la-Chaise,
+chegou ao tumulo dos dois amantes, tirou um
+livrinho da algibeira, p&ocirc;s-se a ler aquellas cartas
+do Paracleto que tem indoidecido muito menos
+excentricas cabe&ccedil;as que a do meu inglez puro-sangue.
+N&atilde;o &eacute; nada; excitou-se a tal ponto
+que entrou a correr como um perdido, bradando
+por um conego da s&eacute; que lhe acudisse, que se queria
+identificar com o seu mod&ecirc;lo, purificar a sua
+paix&atilde;o,
+ser emfim um completo&#8213;ou um incompleto
+Abeillard.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu n&atilde;o sou susceptivel de tammanho enthusiasmo,
+<span class="pagenum">[7]</span>
+s&ocirc;bretudo desde que dei a minha demiss&atilde;o
+de poeta e cahi na prosa. Mas aqui tem
+o que me succedeu o outro dia. Tinha estado &aacute;s
+voltas com o meu Bentham, que &eacute; um grande
+homem por fim de contas o tal quaker, e s&atilde;o
+grandes livros os que elle escreveu: can&ccedil;ou-me
+a cabe&ccedil;a, peguei no Cam&otilde;es e fui para a janella.
+As minhas janellas agora s&atilde;o as primeiras
+janellas de Lisboa, d&atilde;o em cheio por todo esse
+Tejo. Era uma d'estas brilhantes manhans d'hynverno,
+como as n&atilde;o ha sen&atilde;o em Lisboa. Abri
+os Lusiadas &aacute; ventura, deparei com o canto IV
+e puz-me a ler aquellas bellissimas estancias
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">
+E ja no porto da inclita Ulyssea...
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+Pouco a pouco amotinou-se-me o sangue, senti
+baterem-me as arterias da fronte... as lettras fugiam-me
+do livro, levantei os olhos, dei com
+elles na pobre nau Vasco-da-Gama que ahi est&aacute;
+em monumento-caricatura da nossa gl&oacute;ria naval...
+E eu n&atilde;o vi nada d'isso, vi o Tejo, vi a bandeira
+portugueza fluctuando com a brisa da manhan,
+a t&ocirc;rre de Belem ao longe... e sonhei, sonhei
+que era portuguez, que Portugal era outra vez
+Portugal.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[8]</span>
+Tal f&ocirc;r&ccedil;a deu o prestigio da scena &aacute;s
+imagens
+que aquelles versos evocavam!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sen&atilde;o quando, a nau que salva a uns escaleres
+que chegam... Era o ministro da marinha que ia
+a b&oacute;rdo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fechei o livro, accendi o meu charuto, e fui
+tractar das minhas camelias.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Andei tres dias com odio &aacute; lettra-redonda.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas de tudo isto o que se tira, a que vem tudo
+isto para as minhas viagens ou para o episodio
+do valle de Santarem em que ha tantos capitulos
+nos temos demorado?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vem e vem muito: vem para mostrar que a
+hist&oacute;ria, lida ou contada nos proprios sitios em que
+se passou, tem outra gra&ccedil;a e outra
+f&ocirc;r&ccedil;a; vem
+para te eu dar o motivo porque n'estas minhas viagens,
+leitor amigo, me fiquei parado n'aquelle
+valle a ouvir do meu companheiro de jornada, e
+a escrever para teu aproveitamento, a interessante
+hist&oacute;ria da menina dos rouxinoes, da menina
+dos olhos verdes, da nossa boa Joanninha.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[9]</span>
+Sim, aqui tenho estado extendido no ch&atilde;o, as
+mulinhas pastando na relva, os arrieiros fummando
+tranquillamente sentados, e as &uacute;ltimas horas
+de uma longa e calmosa tarde de julho a cahir
+e a refrescar com a aragem percursora da
+noite.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas basta de valle, que &eacute; tarde. Oh l&aacute;! venham
+as mulinhas e montemos. Picar para Santarem,
+que no inclyto alca&ccedil;ar d'elrei D. Affonso-Henriques
+nos espera um bom jantar d'amigo&#8213;e
+n&atilde;o &eacute; so a <a name="n6"></a><em>vacca
+e
+riso</em> de Fr. Bartholomeu
+dos Martyres, mas um verdadeiro jantar d'amigo,
+muito menos austero e muito mais risonho.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Porqu&ecirc;? ja se acabou a historia de Carlos
+e de Joanninha?' diz talvez a amavel leitora.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o, minha senhora,' responde o auctor
+mui lisongeado da pergunta: 'n&atilde;o, minha senhora,
+a historia n&atilde;o acabou, quasi se p&oacute;de dizer
+que ainda ella agora come&ccedil;a; mas houve
+muta&ccedil;&atilde;o
+de scena. Vamos a Santarem, que l&aacute; se passa
+o segundo acto.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c2"></a>CAPITULO XXVII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Chegada a Santarem.&#8213;Olivaes de
+Santarem.&#8213;F&oacute;ra-de-Villa.&#8213;Symetria
+que n&atilde;o &eacute; para os olhos.&#8213;Modo de medir
+os versos da biblia.&#8213;Architectura pedante do seculo XVII.&#8213;Entrada
+na Alc&aacute;&ccedil;ova.</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram as &uacute;ltimas horas do dia quando cheg&aacute;mos
+ao princ&iacute;pio da cal&ccedil;ada que leva ao alto
+de Santarem. A pouca frequencia de povo, as
+hortas e pomares mal cultivados, as casas de
+<span class="pagenum">[12]</span>
+campo arruinadas, tudo indicava as vizinhan&ccedil;as
+de uma grande povoa&ccedil;&atilde;o descahida e desamparada.
+O mais bello comtudo de seus ornatos e gl&oacute;rias
+suburbanas, ainda o possue a nobre villa,
+n&atilde;o lh'o destruiram de todo; s&atilde;o os seus olivaes.
+Os olivaes de Santarem cuja riqueza e formosura
+proverbial &eacute; uma das nossas cren&ccedil;as populares
+mais geraes e mais queridas!.. os olivaes de
+Santarem l&aacute; est&atilde;o ainda. Reconheceu-os o meu
+cora&ccedil;&atilde;o e alegrou-se de os ver; saudei n'elles o
+symbolo patriarchal de nossa antiga existencia.
+N'aquelles troncos velhos e coroados de verdura,
+figurou-se-me ver, como nas selvas incantadas do
+Tasso, as venerandas imagens de nossos passados;
+e no murmurio das folhas que o vento agitava a
+espa&ccedil;os, ouvir o triste suspirar de seus lamentos
+pela vergonhosa degenera&ccedil;&atilde;o dos netos...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estragado como os outros, profanado como
+todos, o olival de Santarem &eacute; ainda um monumento.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os povos do meio-dia, infelizmente, n&atilde;o professam
+com o mesmo respeito e austeridade aquella
+religi&atilde;o dos bosques, tam sagrada para as
+na&ccedil;&otilde;es
+do norte. Os olivaes de Santarem s&atilde;o
+excep&ccedil;&atilde;o:
+<span class="pagenum">[13]</span>
+ha muito pouco entre n&oacute;s o
+culto das
+&aacute;rvores.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Subimos, a bom trotar das mulinhas, a impinada
+ladeira&#8213;eu alvora&ccedil;ado e impaciente por
+me achar face a face com aquella profus&atilde;o de monumentos
+e de ruinas que a imagina&ccedil;&atilde;o me tinha
+figurado e que ora temia, ora desejava comparar
+com a realidade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cheg&aacute;mos emfim ao alto; a majestosa entrada
+da grande villa est&aacute; deante de mim. N&atilde;o me
+inganou a imagina&ccedil;&atilde;o... grandiosa e
+magn&iacute;fica
+scena!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<em>F&oacute;ra-de-villa</em>
+&eacute; um vasto largo, irregular e
+caprichoso como um poema romantico; ao primeiro
+aspecto, &aacute;quella hora tard&iacute;a e de pouca
+luz, &eacute; de um effeito admiravel e sublime. Palacios,
+conventos, egrejas occupam gravemente e tristemente
+os seus antigos logares, infileirados sem
+ordem aos lados d'aquella immensa pra&ccedil;a, em
+que a vista dos olhos n&atilde;o acha symetria alguma;
+mas sente-se n'alma. &Eacute; como o rhytmo e
+medi&ccedil;&atilde;o
+dos grandes versos biblicos que se n&atilde;o cadenceiam
+por p&eacute;s nem por sylabas, mas cahem certos
+<span class="pagenum">[14]</span>
+no espirito e na <em>audi&ccedil;&atilde;o
+interior</em> com uma
+regularidade admiravel.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E tudo deserto, tudo silencioso, mudo, morto!
+Cuida-se entrar na grande metropole de um
+povo extincto, de uma na&ccedil;&atilde;o que foi poderosa e
+celebrada mas que desappareceu da face da terra
+e so deixou o monumento de suas construc&ccedil;&otilde;es
+gigantescas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Aacute; esquerda o immenso convento do S&iacute;tio ou de
+Jesus, logo o das Donas, depois o de San'Domingos,
+c&eacute;lebre pelo jazigo do nosso Fausto portuguez&#8213;seja
+ditto sem irreverencia &aacute; memoria
+de San'Frei Gil que, &eacute; verdade, veio a ser grande
+sancto, mas que primeiro foi grande bruxo.&#8213;Defronte
+o antiquissimo mosteiro das Claras,
+e aop&eacute; as baixas arcadas gothicas de San'Francisco...
+de cujo &uacute;ltimo guardi&atilde;o, o austero Frei
+Diniz, tanta coisa te contei, amigo leitor, e tantas
+mais tenho ainda para te contar! &Aacute; direita
+o grandioso edificio philippino, perfeito exemplar
+da massissa e pedante architectura reaccionaria do
+seculo dezesette, o Collegio, typo largo e bello
+no seu genero, e quanto o seu genero p&oacute;de
+ser, das construc&ccedil;&otilde;es jesuiticas...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[15]</span>
+N&atilde;o ha alma, n&atilde;o ha genio, n&atilde;o ha
+espirito
+n'aquellas massas pesadas, sem elegancia nem
+simplicidade; mas ha uma certa grandeza que
+imp&otilde;e, uma solidez travada, uma symetria de
+calculo, umas propor&ccedil;&otilde;es frias, mas bem
+assentadas
+e esquadriadas com methodo, que revelam
+o pensamento do seculo e do instituto que tanto
+o characterizou.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o s&atilde;o as fortes cren&ccedil;as da
+meia-edade que
+se elevam no arco agudo da ogiva; n&atilde;o &eacute; a
+relaxa&ccedil;&atilde;o
+flor&iacute;da do seculo quinze e desesseis que
+ja vacilla entre o byzantino e o classico, entre
+o mystico ideal do christianismo que arrefece e os
+symbolos materiaes do paganismo que acorda;
+n&atilde;o, aqui a
+<em>renascen&ccedil;a</em> triumphou, e
+depois de
+triumphar, degenerou. &Eacute; a inquisi&ccedil;&atilde;o,
+s&atilde;o os
+Jesuitas, s&atilde;o os Philippes, &eacute; a
+reac&ccedil;&atilde;o catholica
+edificando templos <em>para que</em> se creia
+e se ore,
+n&atilde;o <em>porque</em> se
+cr&ecirc; e se ora.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+At&eacute; aqui o mosteiro e a cathedral, a ermida
+e o convento eram a express&atilde;o da idea popular,
+agora s&atilde;o a f&oacute;rmula do pensamento governativo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Alli est&atilde;o&#8213;olhae para elles&#8213;defronte uns
+<span class="pagenum">[16]</span>
+dos outros, os monumentos das duas religi&otilde;es,
+a qual mais expressivo e loquaz, dizendo mais
+claro que os livros, que os escriptos, que as
+tradi&ccedil;&otilde;es, o pensamento das edades que os
+ergueram,
+e que alli os deixaram gravados sem
+saber que o faziam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mais embaixo, e no fundo d'esse declive,
+aquella massa negra &eacute; o resto ainda suberbo
+do ja immenso palacio dos condes de Unh&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Rode&aacute;mos o largo e fomos entrar em Marvilla
+pelo lado do norte. Estamos dentro dos muros
+da antiga Santarem. Tam magn&iacute;fica &eacute; a entrada,
+tam mesquinho &eacute; agora tudo ca dentro, a maior parte
+d'estas casas velhas sem serem antigas, d'estas
+ruas moirescas sem nada de arabe, sem o menor
+vestigio de sua origem mais que a estreiteza
+e pouco aceio.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+As egrejas quasi todas por&ecirc;m, as muralhas e
+os basti&otilde;es, algumas das portas, e poucas
+habita&ccedil;&otilde;es
+particulares, conservam bastante da physionomia
+antiga e fazem esquecer a vulgaridade do
+resto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p17">[17]</a></span>
+Seguimos a triste e pobre rua Direita, centro
+do debil commercio que ainda aqui ha: poucas e
+mal providas logeas, quasi nenhum movimento.
+Ca est&aacute; a curiosa t&ocirc;rre das Caba&ccedil;as, a
+velha
+egreja de <a href="#e3">San'Jo&atilde;o do<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>Alpor&atilde;o</a>.
+&Aacute;manhan iremos
+ver tudo isso de nosso vagar. Agora vamos &aacute;
+Alca&ccedil;ova!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entr&aacute;mos a porta da antiga cidadella.&#8213;Que
+espantosa e desgraciosa confus&atilde;o de intulhos, de
+pedras, de montes de terra e calissa! N&atilde;o ha
+ruas, n&atilde;o ha caminhos, &eacute; um labyrinto de ruinas
+feias e torpes. O nosso destino, a casa do nosso
+amigo &eacute; aop&eacute; mesmo da famosa e historica
+<a href="#e4">egreja</a>
+de Sancta Maria da Alca&ccedil;ova.&#8213;Hade custar
+a achar em tanta confus&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c3"></a>CAPITULO XXVIII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Depois de muito procurar acha emfim o
+auctor a egreja de Sancta-Maria d'Alca&ccedil;ova.&#8213;Stylo da
+architectura nacional
+perdido.&#8213;O
+terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz
+do Passeio-publico de Lisboa.&#8213;O chefe do partido
+progressista portuguez no alcassar de D. Affonso Henriques.&#8213;Deliciosa
+vista dos arredores de Santarem observada de
+uma janella da Alca&ccedil;ova, de manhan.&#8213;&Eacute; tomado o
+auctor
+de ideas vagas, poeticas, phantasticas como um
+sonho.&#8213;Introduc&ccedil;&atilde;o
+do Fausto.&#8213;Difficuldade de traduzir os versos
+germanicos nos nossos dialectos romanos.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois de muito procurar entre pardeiros e
+intulhos, ach&aacute;mo-la emfim a egreja de Sancta
+Maria d'Alca&ccedil;ova. Ach&aacute;mos, n&atilde;o
+&eacute; exacto:
+ao menos eu, por mim, nunca a achava, nem
+<span class="pagenum">[20]</span>
+queria accreditar que f&ocirc;sse ella quando m'a mostraram.
+A real collegiada de Affonso Henriques,
+a quasi-cathedral da primeira villa do reino, um
+dos principaes, dos mais antigos, dos mais historicos
+templos de Portugal, isto?.. esse egrejorio insignificante
+de capuchos? mesquinha e ridicula
+massa d'alvenaria, sem nenhuma architectura,
+sem nenhum g&ocirc;sto! risco, execu&ccedil;&atilde;o e
+trabalho
+de um mestre pedreiro d'aldeia e do seu apprendiz!
+&Eacute; impossivel.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas era, era essa. A antiga capella-real, a veneranda
+egreja da Alca&ccedil;ova foi passando por successivos
+reparos e transforma&ccedil;&otilde;es, at&eacute; que
+chegou
+a &eacute;sta miseria.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Perverteu-se por tal arte o g&ocirc;sto entre n&oacute;s desde
+o meio do seculo passado especialmente, os estragos
+do terremoto grande quebraram por tal modo
+o fio de todas as tradi&ccedil;&otilde;es da architectura
+nacional,
+que na Europa, no mundo todo talvez se
+n&atilde;o ache um paiz onde, a par de tam bellos monumentos
+antigos como os nossos, se incontrem tam
+villans, tam ridiculas e absurdas construc&ccedil;&otilde;es
+p&uacute;blicas
+como essas quasi todas que ha um seculo
+se fazem em Portugal.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[21]</span>
+Nos reparos e reconstruc&ccedil;&otilde;es dos templos antigos
+&eacute; que este pessimo stylo, &eacute;sta ausencia de
+todo stylo, de toda a arte mais offende e escandaliza.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Olhem aquella impena classica posta de remate
+ao frontispicio todo renascen&ccedil;a da
+Concei&ccedil;&atilde;o-velha
+em Lisboa. Vejam a implastagem de ge&ccedil;o
+com que est&atilde;o mascarados os elegantes feixes de
+columnas gothicas da nossa s&eacute;.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o se p&oacute;de cahir mais baixo em architectura
+do que n&oacute;s cahimos quando, depois que o marquez
+de Pombal nos <em>traduziu</em>, em vulgar e
+arrastada
+prosa, os <em>rococ&oacute;s</em> de Luiz
+XV, que no original,
+pelo menos, eram flor&iacute;dos, recortados, caprichosos
+e galantes como um madrigal, esse stylo
+bastardo, hybrido, degenerando progressivamente
+e tomando presump&ccedil;&otilde;es de classico, chegou
+nos nossos dias at&eacute; ao chafariz do
+passeio-p&uacute;blico!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas deixar tudo isso, e deixar a egreja da
+Alca&ccedil;ova tambem; entremos nos palacios de D.
+Affonso Henriques.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[22]</span>
+Aqui, pegado com o pardeiro rebocado da capella
+h&atilde;ode ser. Por onde se entra?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por &eacute;sta portinha estreita e baixa, rasgada,
+bem se ve que ha poucos annos, no que parece
+muro de um quintal ou de um p&aacute;teo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; comeffeito aqui; apeemo'-nos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Recebeu-nos com os bra&ccedil;os abertos o nosso
+bom e sincero amigo, actual possuidor e habitante
+do regio alcassar, o Sr. M. P.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Notavel combina&ccedil;&atilde;o do acaso! Que o illustre
+e venerado chefe do partido progressista em Portugal,
+que o homem de mais sinceras convic&ccedil;&otilde;es
+democraticas, e que mais sinceramente as combina
+com o respeito e adhes&atilde;o &aacute;s f&oacute;rmas
+monarchicas,
+esse homem, vindo do Minho, do ber&ccedil;o
+da dynastia e da na&ccedil;&atilde;o, viesse fixar aqui a sua
+residencia no alcassar do nosso primeiro rei, conquistado
+pela sua espada n'um dos feitos mais
+insignes d'aquella era de prodigios!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entr&aacute;mos na pequena horta em f&oacute;rma de claustro
+que une a antiga casa dos reis com a
+<span class="pagenum">[23]</span>
+sua capella. Assim foi sem d&ugrave;vida n'outro tempo:
+a parede oriental da egreja &eacute; o muro do
+quintal de um lado, mas as communica&ccedil;&otilde;es foram
+vedadas provavelmente quando a coroa alienou
+o palacio e o separou assim perpetuamente
+do templo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Plantado de larangeiras antigas, os muros forrados
+de limoeiros e parreiras, aquella pequena
+c&ecirc;rca, apezar dos muitos canteiros e alegretes
+de alvenaria com que est&aacute; moirescamente intulhada,
+&eacute; amena e graciosa &aacute; vista.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Appresentou-nos o nosso amigo a sua mulher,
+senhora de porte gentil e grave; beij&aacute;mos seus
+lindos filhos, e fomos fazer as ablu&ccedil;&otilde;es
+indispensaveis
+depois de tal jornada para nos podermos
+sentar &aacute; mesa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O palacio de Affonso Henriques est&aacute; como a
+sua capella: nem o mais leve, nem o mais apagado
+vestigio da antiga origem. Sabe-se que &eacute; alli
+pela bem confrontada e inquestionavel topographia
+dos logares, por mais nada...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E que me importam a mim agora as antiguidades,
+<span class="pagenum">[24]</span>
+as ruinas e as demoli&ccedil;&otilde;es, quando eu sinto
+demolir-me
+ca por dentro por uma fome exasperada
+e destruidora, uma fome vandalica insaciavel!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vamos a jantar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Com&ecirc;mos, convers&aacute;mos, tom&aacute;mos
+ch&aacute;, torn&aacute;mos
+a conversar e torn&aacute;mos a comer. Vieram
+visitas, fallou-se politica, fallou-se litteratura,
+fallou-se de Santarem s&ocirc;bretudo, das suas ruinas,
+da sua grandeza antiga, da sua desgra&ccedil;a
+presente. Emfim, fomo'-nos deitar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nunca dormi tam regalado somno em minha
+vida. Acordei no outro dia ao repicar incessante
+e appresurado dos sinos da Alca&ccedil;ova. Saltei
+da cama, fui &aacute; janella, e dei com o mais bello,
+o mais grandioso, e ao mesmo tempo, mais
+ameno quadro em que ainda puz os meus olhos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+No fundo de um largo valle aprazivel e sereno,
+est&aacute; o socegado leito do Tejo, cuja areia
+ruiva e resplandecente apenas se cobre d'agua
+juncto &aacute;s margens, d'onde se debru&ccedil;am verdes
+e frescos ainda os salgueiros que as ornam e
+defendem. D'al&ecirc;m do rio, com os p&eacute;s no pingue
+<span class="pagenum">[25]</span>
+nateiro d'aquellas terras alluviaes, os riccos
+olivedos d'Alpiar&ccedil;a e Almeirim; depois a villa
+de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas.
+D'aquem a immensa planicie ditta do Rocio,
+semeada de casas, de aldeias, de hortas, de
+grupos de &aacute;rvores sylvestres, de pomares. Mais
+para a raiz do monte em cujo cimo estou, o
+picturesco bairro da Ribeira com as suas casas e
+as suas egrejas, tam graciosas vistas d'aqui, a
+sua cruz de Sancta Iria e as memorias romanescas
+do seu alfageme.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Com os olhos vagando por este quadro immenso
+e formosissimo, a imagina&ccedil;&atilde;o tomava-me
+azas e fugia pelo vago infinito das regi&otilde;es ideaes.
+Recorda&ccedil;&otilde;es de todos os tempos, pensamentos
+de todo o genero me affluiam ao espirito, e me
+tinham como n'um sonho em que as imagens
+mais discordantes e disparatadas se succedem umas
+&aacute;s outras.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas eram todas melancholicas, todas de saudade,
+nenhuma de esperan&ccedil;a!..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Lembraram-me aquelles versos de Goethe,
+<span class="pagenum">[26]</span>
+aquelles sublimes e inimitaveis versos da
+introduc&ccedil;&atilde;o
+do Fausto:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Resurgis outra vez, vagas figuras,<br />
+
+
+Vacillantes imagens que &aacute; turbada<br />
+
+
+Vista accudieis d'antes. E heide agora<br />
+
+
+Retter-vos firme? Sinto eu ainda<br />
+
+
+O cora&ccedil;&atilde;o propenso a illus&otilde;es d'essas?<br />
+
+
+E appertais tanto!... Pois embora! seja:<br />
+
+
+Dominae, ja que em nevoa e vapor leve<br />
+
+
+Emt&ocirc;rno a mim surgis. Sinto o meu seio<br />
+
+
+Juvenilmente tr&eacute;pido agitar-se<br />
+
+
+Co'a maga exhala&ccedil;&atilde;o que vos circunda.<br />
+
+
+Trazeis-me a imagem de ditosos dias,<br />
+
+
+E d'ahi se ergue muita sombra amada:<br />
+
+
+Como um velho cantar meio-esquecido,<br />
+
+
+V&eacute;em os primeiros simplices amores<br />
+
+
+E a amizade com elles. Reverdece<br />
+
+
+A m&aacute;goa, lamentando o errado curso<br />
+
+
+Dos labyrintos da perdida vida;<br />
+
+
+E me est&aacute; nomeando os que trahidos<br />
+
+
+Em horas bellas por fallaz ventura<br />
+
+
+Antes de mim na estrada se sumiram.<br />
+
+
+....................................................<br />
+
+
+....................................................<br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o me atrevo a p&ocirc;r aqui o resto da minha
+infeliz traduc&ccedil;&atilde;o: fiel &eacute; ella, mas
+n&atilde;o tem outro
+merito. Quem p&oacute;de traduzir taes versos,
+quem de uma lingua tam vasta e livre hade pass&aacute;-los
+<span class="pagenum">[27]</span>
+para os nossos appertados e severos dialectos
+romano
+para os nossos appertados e severos dialectos
+romanos?<sup><a href="#1">[1]</a></sup>
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c4"></a>CAPITULO XXIX.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Do&ccedil;uras da
+vida.&#8213;Imagina&ccedil;&atilde;o e
+sentimento.&#8213;Poetas que
+morreram mo&ccedil;os e poetas que morreram velhos.&#8213;Como
+s&atilde;o
+escriptas &eacute;stas viagens.&#8213;Livro de pedra. Crian&ccedil;a
+que brinca
+com elle.&#8213;Ruinas e repara&ccedil;&otilde;es.&#8213;Idea fixa do A.
+em
+coisas d'arte e litterarias.&#8213;Sancta Iria ou Irene, e
+Santarem.&#8213;Romance
+de Sancta Iria.&#8213;Quantas sanctas ha
+em Portugal d'este nome?
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Este sonhar acordado, este scismar poetico
+deante dos sublimes spectaculos da natureza,
+&eacute; dos prazeres grandes que Deus concedeu &aacute;s almas
+de certa t&ecirc;mpera. Doce &eacute; gosar assim... mas
+<span class="pagenum">[30]</span>
+em que do&ccedil;uras da vida n&atilde;o predomina sempre
+o acido poderoso que stimula! Tirae-lh'o, fica
+a insipidez; deixae-lh'o, ulc&eacute;ra porfim os orgams:
+o&nbsp;g&ocirc;so &eacute; mais vivo
+porque a ac&ccedil;&atilde;o do
+st&iacute;mulo &eacute; mais sentida... mas a
+ulcera&ccedil;&atilde;o cresce,
+o cora&ccedil;&atilde;o est&aacute; em carne-viva... agora
+o prazer
+&eacute; martyrio.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Infeliz do que chegou a esse estado!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Bemaventurado o que p&oacute;de graduar, como
+Goethe, a d&oacute;ze d'amphi&atilde;o que quer tomar, que
+poupa as sensa&ccedil;&otilde;es e a vida, e economiza as
+potencias
+de sua alma! N'esses por&ecirc;m &eacute; a
+imagina&ccedil;&atilde;o
+que domina, n&atilde;o o sentimento. Byron, Schiller,
+Cam&otilde;es, o Tasso morreram mo&ccedil;os; matou-os
+o cora&ccedil;&atilde;o. Homero e Goethe, Sophocles e Voltaire
+acabaram de velhos: sustinha-os a imagina&ccedil;&atilde;o,
+que n&atilde;o despende vida porque n&atilde;o gasta
+sensibilidade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Imaginar &eacute; sonhar, dorme e repousa a vida
+no entretanto; sentir &eacute; viver activamente, cansa-a
+e consomme-a.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Isto &eacute; o que eu pensava&#8213;porque n&atilde;o pensava
+<span class="pagenum">[31]</span>
+em nada, divagava&#8213;em quanto aquelles versos
+do Fausto me estavam na memoria, e aquella
+saudosa vista do Tejo e das suas margens deante
+dos olhos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma,
+isto vai no papel: que d'outro modo n&atilde;o sei escrever.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Muito me p&ecirc;za, leitor amigo, se
+outra coisa
+esperavas das minhas <span class="smallcaps">Viagens</span>,
+se
+te falto,
+sem o querer, a promessas que julgaste ver n'esse
+titulo, mas que eu n&atilde;o fiz decerto. Querias
+talvez que te contasse, marco a marco, as leguas
+da estrada? palmo a palmo, as alturas e
+larguras dos edificios? algarismo por algarismo,
+as datas de sua funda&ccedil;&atilde;o? que te resummisse a
+historia de cada pedra, de cada ruina?..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vai-te ao padre Vasconcellos; e quanto ha de
+Santarem, peta e verdade, ahi o achar&aacute;s em
+amplo folio e gorda lettra: eu n&atilde;o sei compor
+d'esses livros, e quando soubesse, tenho mais
+que fazer.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+So tenho pena de uma coisa, &eacute; de ser tam
+<span class="pagenum">[32]</span>
+desestrado com o lapis na m&atilde;o; porque em dois
+tra&ccedil;os d'elle te dizia muito mais e melhor do que
+em tanta palavra que porfim tam pouco diz e
+tam mal pinta.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Santarem &eacute; um livro de pedra em que a mais
+interessante e mais poetica parte das nossas chronicas
+est&aacute; escripta. Ricco de illuminuras, de recortados,
+de flor&otilde;es, de imagens, de arabescos e
+arrendados primorosos, o livro era o mais bello e
+o mais precioso de Portugal. Inquadernado em
+esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras,
+fechado a broches de bronze por suas fortes
+muralhas gothicas, o magn&iacute;fico livro devia durar
+sempre em quanto a m&atilde;o do Creador se n&atilde;o
+extendesse para apagar as memorias da creatura.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas &eacute;sta Ninive n&atilde;o foi destruida,
+&eacute;sta Pompeia
+n&atilde;o foi submergida por nenhuma catastrophe
+grandiosa. O povo de cuja hist&oacute;ria ella &eacute; o
+livro, ainda existe; mas esse povo cahiu em infancia,
+deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o,
+mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez papagaios
+e bonecas, fez carapu&ccedil;os com ellas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o se descreve por outro modo o que &eacute;sta
+<span class="pagenum">[33]</span>
+gente chamada gov&ecirc;rno, chamada
+administra&ccedil;&atilde;o,
+est&aacute; fazendo e deixando fazer ha mais de seculo
+em Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+As ru&iacute;nas do tempo s&atilde;o tristes mas bellas, as
+que as revolu&ccedil;&otilde;es trazem, ficam marcadas com o
+cunho solemne da historia. Mas as brutas
+degrada&ccedil;&otilde;es
+e as mais brutas repara&ccedil;&otilde;es da ignorancia,
+os mesquinhos concertos da arte parasyta, esses
+profanam, tiram todo o prestigio.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tal &eacute; a geral impress&atilde;o que me faz
+&eacute;sta terra.
+Almocemos, que ja oi&ccedil;o chamar para isso, e iremos
+ver depois se me inganei.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao alm&ocirc;&ccedil;o a conversa&ccedil;&atilde;o veio
+naturalmente a
+cahir no seu objecto mais &oacute;bvio, Santarem. D.
+Affonso Henriques e os seus bravos, San'Frei Gil e
+o Sancto-milagre, o Alfageme e o Condestavel, el-rei
+D. Fernando e a rainha D. Leonor, Cam&otilde;es
+desterrado aqui, Frei Luiz de Sousa aqui nascido,
+Pedralvares Cabral, os Docems, quasi todas as
+grandes figuras da nossa historia passaram em revista.
+Porfim veio Sancta Iria tambem, a madrinha
+e padroeira d'esta terra, cujo nome aqui
+fez esquecer o de romanos e celtas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[34]</span>
+Quem tem uma idea fixa, em tudo a mette.
+A minha idea fixa em coisas de arte e litterarias
+da nossa peninsula s&atilde;o as xacaras e romances
+populares. Ha um de Sancta Iria.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Porque &eacute; a Sancta Iria da trova popular tam
+differente da Sancta Iria das legendas monasticas?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A trova &eacute; &eacute;sta, segundo agora a rectifiquei e
+appurei pela colla&ccedil;&atilde;o de muitas e
+v&aacute;rias vers&otilde;es
+provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, que
+em geral &eacute; a que mais se deve seguir.<sup><a href="#2">[2]</a></sup><br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Stando eu &aacute; janella co'a
+minha almofada,<br />
+
+
+Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata;
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passa um cavalleiro, pedia pousada;<br />
+
+
+Meu pae lh'a negou: quanto me custava!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ja vem vindo a noite, &eacute; tam so a estrada...<br />
+
+
+Senhor pae, n&atilde;o digam tal da nossa casa,
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que a um cavalleiro que pede pousada<br />
+
+
+Se fecha &eacute;sta porta &aacute; noite cerrada.'
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[35]</span>
+<div class="poetry">Roguei e pedi&#8213;muito lhe pezava!<br />
+
+
+Mas eu tanto fiz que porfim deixava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;<br />
+
+
+Ao lar o levei, logo se assentava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Aacute;s m&atilde;os lhe dei agua, elle se lavava;<br />
+
+
+Puz-lhe uma toalha, n'ella me
+limpava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Poucas as pallavras, que mal me fallava,<br />
+
+
+Mas eu bem sentia que elle me mirava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fui a erguer os olhos, mal os levantava,<br />
+
+
+Os seus lindos olhos na terra os pregava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fui-lhe p&ocirc;r a cea, muito bem ceava;<br />
+
+
+A cama lhe fiz, n'ella se deitava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dei-lhe as boas noites, n&atilde;o me replicava:<br />
+
+
+Tam m&aacute; cortezia nunca a vi usada!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+L&aacute; por meia noite que me eu suffocava,<br />
+
+
+Sinto que me levam co'a b&ocirc;cca tapada...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Levam-me a cavallo, levam-me abra&ccedil;ada,<br />
+
+
+Correndo, correndo sempre &aacute; desfilada.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sem abrir os olhos, vi quem me roubava;<br />
+
+
+Callei-me e chorei&#8213;elle n&atilde;o fallava.</div>
+
+
+<span class="pagenum">[36]</span>
+<br />
+
+
+<div class="poetry">D'alli muito longe que me perguntava<br />
+
+
+Eu na minha terra como me chamava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;<br />
+
+
+Por aqui agora Iria, a cansada.'<sup><a href="#3">[3]</a></sup>
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Andando, andando, toda a noite andava;<br />
+
+
+L&aacute; por madrugada que me attentava...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Horas esquecidas commigo luctava;<br />
+
+
+Nem f&ocirc;r&ccedil;a nem rogos, tudo lhe mancava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tirou do alfange... alli me matava,<br />
+
+
+Abriu uma cova onde me interrava.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">No fim de&nbsp;sette annos passa o
+cavalleiro,<br />
+
+
+Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro,<br />
+
+
+Se me perdoares, serei teu romeiro.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Perdoar n&atilde;o te heide, ladr&atilde;o carniceiro,<br />
+
+
+Que me degollaste que nem um cordeiro.'
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+
+<br />
+
+
+Ou houve duas sanctas d'este nome, ambas de
+aventurosa vida e que ambas deixassem longa e profunda
+memoria de sua belleza e martyrio&#8213;o de
+<span class="pagenum">[37]</span>
+que n&atilde;o tenho a menor idea&#8213;ou nos
+escriptos
+dos frades ha muita f&aacute;bula de sua unica
+inven&ccedil;&atilde;o
+d'elles que o povo n&atilde;o quiz acreditar: alias
+&eacute; inexplicavel a singeleza d'esta
+tradi&ccedil;&atilde;o oral.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tam simples, tam natural &eacute; a narra&ccedil;&atilde;o
+poetica
+do romance popular, quanto &eacute; complicada e
+cheia de maravilhas a que se auctoriza nas
+recorda&ccedil;&otilde;es
+ecclesiasticas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O caso &eacute; grave, fique para novo capitulo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c5"></a>CAPITULO XXX.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;" class="intro">
+Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e
+segundo o
+romance popular.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A milagrosa Sancta Iria&#8213;Sancta Irene&#8213;que
+deu o seu nome a Santarem, donzella nobre,
+natural da antiga Nabancia<sup><a href="#4">[4]</a></sup>,
+e freira
+<span class="pagenum">[40]</span>
+no convento dupplex<sup><a href="#5">[5]</a></sup>
+benedictino que pastoreava
+o sancto abbade Celio, floreceu pelos meados
+do septimo seculo. Namorou-se d'ella extremosamente
+o joven Britaldo, filho do conde ou consul
+Castinaldo que governava aquellas terras, e
+n&atilde;o podendo conseguir nada de sua virtude, cahiu
+inf&ecirc;rmo de molestia que nenhum physico acertava
+a conhecer, quanto mais a curar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; sabido que a mais sancta lhe n&atilde;o p&ecirc;za
+de
+que estejam a morrer por ella; e, mais ou menos,
+sempre sympathisa com as victimas que faz.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sancta Iria resolveu consolar o pobre Britaldo;
+e ja que mais n&atilde;o podia por sua muita virtude, quiz
+ver se lhe tirava aquella louca paix&atilde;o e o convertia.
+Sahiu, uma bonita manhan, do seu convento&#8213;que
+n&atilde;o guardavam ainda as freiras tam absoluta
+e estreita clausura&#8213;e foi-se a casa do namorado
+Britaldo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Consolou como mulher e ralhou como sancta,
+e porfim, impondo-lhe na cabe&ccedil;a as lindas e
+bemdittas m&atilde;os, n'um instante o sarou de todo
+<span class="pagenum">[41]</span>
+achaque do corpo; e se lhe n&atilde;o curou o d'alma
+tambem, pelo menos lh'o adormentou, que parecia
+acabado.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas como o demo, em chegando a entrar n'um
+corpo humano, parece que n&atilde;o sai d'elle sen&atilde;o
+para
+se ir metter n'outro; tam depressa o inimigo deixou
+ao pobre Britaldo, como logo se foi incaixar
+em n&atilde;o menor personagem do que o monge Remigio,
+que era o mestre e director da bella
+Iria.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Arde o frade em concupiscencia, e n&atilde;o obtendo
+nada com rogos e lamentos, jurou vingar-se.
+Disfar&ccedil;ou por&ecirc;m, fingiu-se emendado, e deu-lhe,
+quando ella menos cuidava, uma bebida de
+sua diabolica prepara&ccedil;&atilde;o, que apenas a sancta a
+havia tomado, lhe appareceram logo e continuaram
+a crescer todos os signaes da mais apparente
+maternidade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Corre a fama do supposto estado da donzella,
+chovem as inj&uacute;rias e os insultos dos que mais a
+tinham respeitado at&eacute; ent&atilde;o. E Britaldo, que se
+julga escarnecido pela hypocrisia d'aquella mulher
+artificiosa, em vez de a esquecer com despr&ecirc;zo&#8213;sente
+<span class="pagenum">[42]</span>
+reviver-lhe, sen&atilde;o tam pura, muito
+mais ardente, toda a antiga paix&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tam mysterioso &eacute; o cora&ccedil;&atilde;o do
+homem!&#8213;tam
+vil! dir&atilde;o os asceticos&#8213;tam inexplicavel!
+direi eu com os mais tolerantes.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Novas tentativas, promessas, amea&ccedil;as do furioso
+amante... A sancta resiste a tudo, forte na
+sua virtude.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Costumava a devota donzella ir todas as noites
+a uma occulta lapa que jazia no fim da c&ecirc;rca e
+juncto ao rio Nab&atilde;o, para alli estar mais so com
+Deus, e desabafar com Elle &aacute; sua vontade. Soube-o
+Britaldo, espreitou a occasi&atilde;o e alli a fez
+apunhalar por um seu criado cujo nome a legenda
+nos conservou para maior testimunho de verdade:
+chamava-se Banam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Banam! &eacute; um verdadeiro nome de mellodrama.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Morta a innocente, Banam despiu-lhe o h&aacute;bito
+e lan&ccedil;ou o corpo ao rio, que depressa a levou
+&aacute;s arrebatadas correntes do Zezere em que
+desagua; e logo este ao Tejo&#8213;que defronte da
+<span class="pagenum"><a name="p43">[43]</a></span>
+antiga Scalabicastro lhe deu sepultura em suas
+louras areas, para maior gl&oacute;ria da sancta e
+perp&eacute;tua
+honra da nobillissima villa que hoje tem o
+seu nome.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas emquanto ia navegando o corpo da sancta,
+teve Celio, o abbade do convento, uma revela&ccedil;&atilde;o
+que lhe descobriu a verdade e os milagres
+do caso; e communicando-a logo aos
+monges e ao povo de Nabancia, sahiu com todos
+de cruz al&ccedil;ada, e foi por esses campos da
+Golegan f&oacute;ra, at&eacute; chegar &aacute; Ribeira de
+Santarem.
+Ahi benzendo as aguas do rio, &eacute;stas se <a href="#e5">retiraram</a>
+cortezes e deixaram ver o sepulchro que era
+de fino alabastro, obrado &aacute; maravilha pelas m&atilde;os
+dos anjos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chegaram aop&eacute; do tumulo, abriram-n'o, viram
+e tocaram o corpo da sancta, mas n&atilde;o o poderam
+tirar, por mais diligencias que fizeram.
+Conheceu-se que era milagre; e contentando-se
+de levar reliquias dos cabellos e da tunica, voltaram
+todos para a sua terra.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+As aguas tornaram a junctar-se e a correr
+como d'antes, e nunca mais se abriram sen&atilde;o
+<span class="pagenum">[44]</span>
+d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rainha
+sancta Isabel, mulher d'el-rei D. Diniz, tam fervorosas
+ora&ccedil;&otilde;es fez aop&eacute; do rio pedindo
+&aacute; sancta
+que lhe apparecesse, que o rio tornou a
+abrir-se como o mar Vermelho &aacute; voz de Moises,
+dizem os devotos chronistas, e patenteou o benditto
+sepulchro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entrou a rainha a p&eacute; inchuto pelo rio dentro,
+seguida de seu real esp&ocirc;so e de toda a
+sua c&ocirc;rte; mas por mais que rezasse ella, e que
+trabalhassem os outros com todas as f&ocirc;r&ccedil;as
+humanas,
+n&atilde;o poderam abrir o tumulo; quebraram
+todas as ferramentas, era impossivel. Desinganado
+el-rei de que um pod&ecirc;r sobrehumano n&atilde;o permittia
+que elle se abrisse, mandou a toda a pressa levantar
+um padr&atilde;o muito alto s&ocirc;bre o mesmo tumulo,
+e tam alto que o rio na maior inchente o
+n&atilde;o podesse cubrir.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros
+acabassem, e quando viu que podia continuar
+a correr, deu aviso, retiraram-se todos,
+tornaram a junctar-se as a
+O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros
+acabassem, e quando viu que podia continuar
+a correr, deu aviso, retiraram-se todos,
+tornaram a junctar-se as aguas e o padr&atilde;o ficou
+sobresahindo por cima d'ellas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[45]</span>
+Passaram mais tres seculos e meio; e no anno
+de 1644 a camara de Santarem mandou refazer
+de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal
+que n&atilde;o era sen&atilde;o de alvenaria, e
+p&ocirc;r-lhe
+em cima a imagem da sancta.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ainda l&aacute; est&aacute;, ass&aacute;s mal cuidado com
+tudo;
+l&aacute; o vi com estes olhos peccadores no corrente
+mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem
+ora&ccedil;&otilde;es, o rio tinha-se retirado, havia muito,
+para um cantinho do seu leito, e o padr&atilde;o estava
+perfeitamente em s&ecirc;cco, e em s&ecirc;cco est&aacute;
+todo o anno at&eacute; come&ccedil;arem as cheias.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tal &eacute;, em fidelissimo resummo, a historia da
+Sancta Iria dos livros.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A das cantigas &eacute;, como ja disse, muito outra
+e muito mais simples, conta-se em duas palavras.
+A sancta est&aacute; em casa de seus paes; um
+cavalleiro desconhecido, a quem d&atilde;o pousada uma
+noite, levanta-se por horas mortas, rouba a descuidada
+e innocente donzella, foge a todo o correr
+de seu cavallo, e chegado a um descampado
+d'alli muito longe, pretende fazer-lhe violencia...
+A sancta resiste, elle mata-a. D'alli a annos
+<span class="pagenum">[46]</span>
+passa por ahi o indigno cavalleiro, ve uma
+linda ermida levantada no proprio s&iacute;tio onde
+commetteu o crime, pergunta de que sancta &eacute;,
+dizem-lhe que &eacute; de Sancta Iria. Elle cai de joelhos
+a pedir perd&atilde;o &aacute; sancta, que lhe lan&ccedil;a
+em
+rosto o seu peccado e o amaldi&ccedil;oa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E acabou a historia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ser&iacute;a o povo que se esqueceu nas suas
+tradi&ccedil;&otilde;es,
+ou os frades que augmentaram nas suas escripturas?
+Pois a legenda monastica &eacute; realmente
+bella e cheia de poesia e romance, coisas que
+o povo n&atilde;o costuma desprezar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; difficil de explicar-se este phenomeno, interessantissimo
+para qualquer observador n&atilde;o vulgar,
+que n'estas cren&ccedil;as do commum, n'estas
+antigualhas, desprezadas pela suberba philosophia
+dos nescios, quer estudar os homens e as
+na&ccedil;&otilde;es e as edades onde elles mais sinceramente
+se mostram e se deixam conhecer.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A extrema simplicidade do romance ou xacara
+de Sancta Iria, o ser elle, d'entre todos os
+que andam na memoria do nosso povo, o
+<span class="pagenum">[47]</span>
+mais geralmente sabido e mais uniformente
+repettido
+em todos os districtos do reino, e com
+poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto,
+me faz crer que &eacute;sta seja das mais antigas
+composi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o so da nossa lingua,
+mas de toda
+a peninsula. A phrase tem pouco sabor antigo:
+este &eacute; um d'aquelles poemas quasi aborigines
+que a tradi&ccedil;&atilde;o tem vindo intregando, e ao
+mesmo tempo traduzindo, de paes a filhos insensivelmente;
+e tambem n&atilde;o &eacute; porcerto dos
+que desceram do palacio &aacute;s choupanas e fugiram
+da cidade para as aldeas, como em muitos outros
+se conhece: este visivelmente nasceu nos
+arraiaes, nos oragos dos campos, e por l&aacute; tem
+vivido at&eacute; agora.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A f&oacute;rma metrica da composi&ccedil;&atilde;o
+&eacute; a que a
+phrase didatica das Hispanhas chamou <em>romance em
+endechas</em>. Eu, adoptando para elle, mais que para a
+f&oacute;rma ordinaria do metro octosyllabo, a theoria do
+ingenhoso philologo allem&atilde;o, Deeping, tam benemerito
+da nossa litteratura peninsular, creio que
+estes s&atilde;o verdadeiros versos de d&ocirc;ze syllabas, e
+que as coplas n&atilde;o constam sen&atilde;o de dous versos
+cada uma, segundo a &oacute;bvia significa&ccedil;&atilde;o
+da palavra.
+O povo cantando n&atilde;o separa os hemistychios
+<span class="pagenum">[48]</span>
+d'estes versos como fazem os que os escrevem:
+e ao contr&aacute;rio nos romances da medida
+mais commum, o canto popular reparte distinctamente
+cada membro de oito syllabas s&ocirc;bre si.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o sei se me ingano, mas desconfio que as
+quatro coplas &uacute;ltimas, em que muda completamente
+a rhyma, sejam additamento posterior
+feito &aacute; cantiga original. Todavia estes oito versos
+apparecem, com ligeiras variantes, em toda
+a parte.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c6"></a>CAPITULO XXXI.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Quommodo sedet sola
+civitas.&#8213;Santarem.&#8213;Portugal em
+verso e Portugal em prosa.&#8213;Exquisito lavor de umas portas
+e janellas de architectura mosarabe.&#8213;Busto de D. Affonso
+Henriques.&#8213;As salgadeiras de Affrica.&#8213;Porta do Sol.&#8213;Muralhas
+de Santarem.&#8213;Voltemos &aacute; historia de Fr.
+Diniz
+e da menina dos olhos verdes.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram mais de dez horas da manhan quando sahimos
+a come&ccedil;ar a longa viasacra de reliquias,
+templos e monumentos que s&atilde;o hoje toda Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p50">[50]</a></span>
+A vida palpitante e actual acabou aqui inteiramente:
+hoje &eacute; um livro que so recorda o que foi. Entre
+a historia maravilhosa do passado que todas &eacute;stas
+pedras <a href="#e6">memoram</a>, e as
+prophecias tremendas
+do futuro que parecem gravadas n'ellas em characteres
+mysteriosos, n&atilde;o ha mais nada: o presente
+n&atilde;o &eacute;, ou &eacute; como se n&atilde;o
+fosse: tam pequeno,
+tam mesquinho, tam insignificante, tam
+desproporcionado parece a tudo isto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+D&aacute; vontade de intoar com o poeta inspirado
+de Jerusalem: 'Quommodo sedet sola civitas!'
+Portugal &eacute;, foi sempre uma na&ccedil;&atilde;o de
+milagre,
+de poesia. Desfizeram o prestigio; veremos como
+elle vive em <em>prosa</em>. Morrer,
+n&atilde;o morre a terra,
+nem a familia, nem as ra&ccedil;as: mas as
+na&ccedil;&otilde;es
+deixam de existir.&#8213;Pois embora, ja que assim
+o querem. A mim n&atilde;o me fica escrupulo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pass&aacute;mos a egreja da Alca&ccedil;ova, que
+ach&aacute;mos
+ja fechada; e tomando sempre s&ocirc;bre a esquerda,
+fomos pelo que hoje parece uma azinhaga de entre
+quintas, mas que visivelmente foi n'outras eras
+a rua mais <em>fashionavel</em> d'esta villa
+cortezan. Aqui
+est&atilde;o quasi aop&eacute; da egreja umas portas e janellas
+<span class="pagenum">[51]</span>
+do mais fino lavor e g&ocirc;sto mosarabe que me
+lembra de ter visto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E a proposito, porque se n&atilde;o hade adoptar na
+nossa peninsula &eacute;sta designa&ccedil;&atilde;o de
+<em>mosarabe</em> para
+characterizar e classificar o genero architectonico
+especial nosso, em que o severo pensamento christ&atilde;o
+da architectura da meia
+edade se sente relaxar
+pelo contacto e exemplo dos habitos sensuaes
+moirescos, e de sua luxuosa e redundante elegancia?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+De que palacio incantado foram &eacute;stas portas
+tam primorosamente lavradas? Que bellezas se
+debru&ccedil;aram d'essas arrendadas janellas para ver
+passar o cavalleiro escolhido do seu cora&ccedil;&atilde;o?
+S&atilde;o
+tam lindas, tam elegantes ainda &eacute;stas pedras
+desconjunctadas,
+e mal sustidas de um muro insosso
+e grosseiro que as facea, que naturalmente despertam
+a mais adormecida imagina&ccedil;&atilde;o a quanto sonho
+de fadas e trovadores a poesia fez nascer dos
+mysterios da edade-m&eacute;dia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pouco mais adeante est&aacute;, em um mau nicho
+escalavrado e feio, um pretendido busto de D.
+Affonso Henriques, a que attribuem grande antiguidade.
+<span class="pagenum">[52]</span>
+N&atilde;o me fez esse effeito a mim.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cheg&aacute;mos &aacute; porta do
+<em>Sol</em>; sentamo'-nos alli a
+gosar da majestosa vista. &Eacute; majestosa mas triste.
+A ribanceira que d'alli corta abaixo, at&eacute; ao rio,
+&eacute; arida e quasi calva: cobrem-n'a apenas, como
+a mal povoada nuca de um velho, alguns tufos
+de verdura cinzenta e grisalha de um arbusto
+rasteiro, meio <em>frutex</em> meio herbaceo
+que aqui
+chamam 'Salgadeira' e que a tradic&ccedil;&atilde;o diz ter
+vindo de Affrica para segurar a terra n'estes taludes
+e precipicios. O aspecto e h&aacute;bito da planta
+&eacute; realmente affricano e oriental, n&atilde;o tem nada
+de europeu. Mas &eacute;sta derradeira e occidental
+parte da nossa Hespanha &eacute;, geologicamente fallando,
+ja tam affrica, tam pouco europa, que
+n&atilde;o ser&iacute;a necessaria a
+transplanta&ccedil;&atilde;o talvez; e
+porventura ficou &eacute;sta memoria entre o povo do
+uso que os moiros faziam da planta para esse
+fim.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute;sta porta do sol dizem que &eacute; onde se faziam
+as execu&ccedil;&otilde;es em tempos antigos. Foi bem
+escolhido o s&iacute;tio; n&atilde;o o ha mais triste e
+melancholico.
+Aop&eacute; est&aacute; um torre&atilde;o quadrado da
+muralha
+que ahi f&oacute;rma canto para seguir depois na
+<span class="pagenum">[53]</span>
+direc&ccedil;&atilde;o de sul a norte. D'este lado as
+fortifica&ccedil;&otilde;es
+e lan&ccedil;os de muro est&atilde;o todas pouco estragadas;
+e do mirante a que subimos, p&oacute;de-se formar
+perfeita idea do que era uma antiga cidade
+murada.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ser&iacute;a aqui, dizia eu commigo, que o nosso
+Fr. Diniz de quem ja tenho saudades&#8213;o velho
+guardi&atilde;o de San'Francisco veio chorar o seu ultimo
+threno s&ocirc;bre as ruinas da antiga monarchia?
+Ser&iacute;a aqui n'este logar de desola&ccedil;&atilde;o e
+melancholia
+que correram as suas derradeiras lagrymas!
+Elle que ja n&atilde;o chorava, acharia aqui quem desse
+aos seus olhos as fontes de agua que o cora&ccedil;&atilde;o
+lhe pedia para se desaffogar dos pezares que o
+rallavam na aridez e seccura de sua desconsolada
+velhice?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passavam-me &eacute;stas ideas pelo pensamento quando
+o historiador que tantos capitulos nos retteve
+no vale, contando-nos os successos de Joanninha
+e da sua familia, nos disse:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Sentemo-nos aqui na sombra que faz &eacute;sta muralha
+e acabemos a historia da menina dos rouxinoes.
+De tarde vamos &aacute; Ribeira saudar a memoria
+<span class="pagenum">[54]</span>
+do Alfageme. &Aacute;manhan de manhan est&aacute;
+detalhado que iremos ver a Gra&ccedil;a, o Sancto
+milagre, San' Domingos e San' Francisco. Concluamos
+hoje &eacute;sta historia.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Seja' respondemos n&oacute;s.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entraremos portanto em novo capitulo, leitor
+amigo; e agora n&atilde;o tenhas medo das minhas
+digress&otilde;es
+fataes, nem das interrup&ccedil;&otilde;es a que sou
+sujeito. Ir&aacute; direita e corrente a historia da
+nossa
+Joanninha at&eacute; que a terminemos... em bem
+ou em mal? D'antes um romance, um drama em
+que n&atilde;o morria ninguem era havido por semsabor;
+hoje ha um certo horror ao tragico, ao
+funesto que perfeitamente quadra ao seculo das
+commodidades materiaes em que vivemos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pois, amigo e benevolo leitor, eu nem em
+principios nem em fins tenho eschola a que esteja
+sujeito, e heide contar o caso como elle
+foi.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Escuta.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c7"></a>CAPITULO XXXII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">
+Torn&aacute;mos &aacute; historia de Joanninha.&#8213;Preparativos
+de guerra.&#8213;A
+morte.&#8213;Carlos ferido e prisioneiro.&#8213;O hospital.&#8213;O
+infermeiro.&#8213;Georgina.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Escuta!' disse eu ao leitor benevolo no fim do
+&uacute;ltimo cap&iacute;tulo. Mas n&atilde;o basta que
+escute, &eacute;
+preciso que tenha a bondade de se recordar do
+que ouviu no capitulo XXV e da situa&ccedil;&atilde;o em
+<span class="pagenum">[56]</span>
+que ahi deix&aacute;mos os dous primos, Carlos e Joanninha.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N'este despropositado e inclassificavel livro das
+minhas <span class="smallcaps">Viagens</span>,
+n&atilde;o
+&eacute; que se quebre, mas inreda-se
+o fio das historias e das observa&ccedil;&otilde;es por
+tal modo, que, bem o vejo e o sinto, so com
+muita paciencia se p&oacute;de deslindar e seguir em
+tam imbara&ccedil;ada meada.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vamos pois com paciencia, caro leitor; farei
+por ser breve e ir direito quanto eu pod&eacute;r.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Lembra-te como n'uma noite pura, serena e
+estrellada, aquelles dous se despediram um do
+outro no meio do valle, como se despediram tristes,
+duvidosos, infelizes, e ja outros, tam outros
+do que d'antes foram.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N'essa mesma noite, a ordenada confus&atilde;o de
+um grande movimento de guerra reinava nos postos
+dos constitucionaes. &Aacute; longa apathia de tantos
+mezes succedia uma inesperada actividade.
+Preparavam-se os sanguinolentos combates de Pernes
+e de Almoster, que n&atilde;o foram decisivos logo,
+mas que tanto appressaram o termo da contenda.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[57]</span>
+Carlos achou ordem de se appresentar no quartel-general,
+partiu immediatamente. O pensamento
+absorvido por ideas tam differentes, tam
+confuso, tam alheado de si mesmo, seguiu machinalmente
+o corpo. Foi, chegou, recebeu as
+instruc&ccedil;&otilde;es que lhe deram, e voltou mais
+satisfeito,
+mais tranquillo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tractava-se de morrer. N&atilde;o sabe o que &eacute;
+verdadeira
+ang&uacute;stia d'alma o que ainda n&atilde;o
+aben&ccedil;oou
+a morte que viu deante de si, o que a n&atilde;o
+invocou ainda como unico remedio de seu mal,
+ou, o que &eacute; mais desesperado, como unica sahida
+de suas fataes perplexidades.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estes momentos s&atilde;o raros na vida, &eacute; certo;
+mas quando occorrem, n&atilde;o ha
+exaggera&ccedil;&atilde;o nenhuma
+em dizer que antes, muito antes a morte
+do que elles.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! e se a morte que se contempla &eacute; de honra
+e gl&oacute;ria, se o enthusiasmo, tirando fortemente
+a corda dos nervos, os faz vibrar n'aquelles
+tons secretos e mysteriosos que arrebatam, e elevam
+o cora&ccedil;&atilde;o do homem &aacute; sublime
+abnega&ccedil;&atilde;o
+de si, e de tudo o que &eacute; piqueno, baixo e vil
+<span class="pagenum">[58]</span>
+na sua natureza&#8213;oh ent&atilde;o a morte parece um
+triumpho, uma bemaventuran&ccedil;a porcerto!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos esqueceu-se de tudo, menos da sua espada
+que affiou com escrupuloso cuidado, e das
+suas boas e seguras pistolas inglezas que limpou
+minuciosamente, carregou e escorvou com um
+verdadeiro amor de artista que se compraz no
+&uacute;ltimo acabamento de um trabalho predilecto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O pouco da noite que lhe restava passou-se
+n'isto, a marcha come&ccedil;ou antes do dia. E os primeiros
+raios do sol foram saudados pelo fuzilar
+das espingardas, e pelo trovejar dos canh&otilde;es.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Combateu-se larga e incarni&ccedil;adamente&#8213;como
+entre irm&atilde;os que se odeiam de todo o odio
+que ja foi amor&#8213;o mais cruel odio que tem a
+natureza!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O dia declinava ja quando n'um hospital em
+Santarem entravam muitas maccas de feridos, e
+entre elles, um todo crivado de ballas e cuberto
+de sangue que, assim pelos restos do un
+O dia declinava ja quando n'um hospital em
+Santarem entravam muitas maccas de feridos, e
+entre elles, um todo crivado de ballas e cuberto
+de sangue que, assim pelos restos do uniforme
+como por certo ar bem conhecido&#8213;e charecteristica
+<span class="pagenum">[59]</span>
+ent&atilde;o, se via claramente ser do
+ex&eacute;rcito
+constitucional.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram muitas e perigosas as feridas d'esse homem;
+estenderam-n'o n'uma especie de tarimba
+s&ocirc;bre que havia alguma palha, e quando lhe chegou
+a sua vez foi examinado e pen&ccedil;ado como os
+outros. N&atilde;o dava signal de padecer, tinha os olhos
+fechados, o pulso forte mas n&atilde;o agitado de febre;
+n&atilde;o proferia uma syllaba, n&atilde;o soltava um
+ai, e prestava-se a tudo o que lhe diziam e faziam,
+menos a soltar da m&atilde;o esquerda que apertava
+contra o peito o que quer que fosse que alli
+tinha seguro e que lhe pendia ao pescosso de uma
+estreita fitta preta.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim o deixaram largo tempo: elle adormeceu.
+N&atilde;o ser&iacute;a largo, mas foi profundo o seu
+dormir. Quando acordou ja se n&atilde;o viu no vasto caravanseray
+d'aquelle confuso hospital,
+mas n'um
+pequeno quarto arejado, limpo, e quasi confortavel
+que em tudo parecia cella de convento, menos
+na boa cama em que jazia o doente, e na
+extremada elegancia do infermeiro que o velava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O quarto era comeffeito uma cella do convento
+<span class="pagenum">[60]</span>
+de San'Francisco em Santarem, o doente o
+nosso Carlos; e o infermeiro que o velava, uma
+bella mulher de estatura n&atilde;o acima de ordinaria
+mas nem uma linha menos, involvida nas amplissimas
+pregas de um longo roup&atilde;o de seda d'aquella
+acertada c&ocirc;r que, em dialecto da rua Vivienne,
+se diz <em>scabieuse</em>; a
+cabe&ccedil;a toucada de finissima
+Bruxellas, com uns la&ccedil;os de preto e c&ocirc;r de
+granada que real&ccedil;avam a transparencia das rendas,
+a infinita gra&ccedil;a dos longos e ondados aneis
+louros do cabello, e a pureza symetrica de um
+rosto oval, classico, perfeito, sem grande mobilidade
+de express&atilde;o mas bello, bello, quanto p&oacute;de
+ser bello um rosto em que pouco d'alma se
+reflecte, e em que a serena languidez de uns
+olhos azues entib&iacute;a e modera a energia do sentimento
+que n&atilde;o &eacute; menos profundo talvez, mas
+certamente se expande menos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+De joelhos juncto ao leito de Carlos, com a
+m&atilde;o direita d'elle nas suas, os olhos seccos mas
+fixos nas descahidas palpebras do soldado, aquella
+mulher estava alli como a est&aacute;tua da dor e da
+anxiedade. A uma porta interior e que abria para
+De joelhos juncto ao leito de Carlos, com a
+m&atilde;o direita d'elle nas suas, os olhos seccos mas
+fixos nas descahidas palpebras do soldado, aquella
+mulher estava alli como a est&aacute;tua da dor e da
+anxiedade. A uma porta interior e que abria para
+uma especie de alcova obscura, em p&eacute;, os
+bra&ccedil;os cruzados e mettidos nas mangas, o capuz
+<span class="pagenum">[61]</span>
+na cabe&ccedil;a, estava um frade velho, alto mas curvado
+do p&ecirc;so dos annos ou dos soffrimentos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O frade contemplava o inf&ecirc;rmo e a infermeira,
+mas visivelmente n&atilde;o queria ser visto n'essa
+occupa&ccedil;&atilde;o,
+porque ao menor estremecimento do
+doente recuava apressado e como assustado para
+o interior da sua alcova.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma so vela de cera allumiava este quadro,
+accidentando-o de fortes sombras, e dando-lhe
+um tom de solemnidade verdadeiramente magico
+e sublime.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos segurava ainda na esquerda com o mesmo
+aff&ecirc;rro o relicario ou talisman, o que quer
+que era que n&atilde;o queria desprender de seu
+cora&ccedil;&atilde;o.
+A bella infermeira beijava de vez em quando
+aquella m&atilde;o tenaz que estremecia a cada beijo,
+por mais suave e mimoso que fosse o leve
+contacto d'esses labios delicados.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A outra m&atilde;o estava nas m&atilde;os d'ella, mas era
+insensivel a tudo, essa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p62">[62]</a></span>
+O silencio era o do sepulchro: so se ouvia o
+respirar incerto e descompassado do inf&ecirc;rmo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Derepente Carlos entreabriu as palpebras e
+exclamou em inglez: '<em>Oh Georgina, Georgina,
+I love you <a href="#e7">still</a>.</em>'&#8213;(Georgina,
+Georgina, eu ainda
+te amo).
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Duas lagrymas&#8213;duas perolas, d'estas que se
+criam com tanta dor no cora&ccedil;&atilde;o e que
+&aacute;s vezes
+sahem com tanto prazer dos olhos&#8213;romperam
+do celeste azul dos olhos da dama e suavemente
+correram por aquellas faces de uma alvura pallida
+e mortal.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos accordou de todo, abriu os olhos e cravou-os
+fixamente no rosto angelico d'essa mulher.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esteve assim minutos: ella n&atilde;o dizia nada nem
+de voz nem de gesto: fallavam-lhe so as lagrymas
+que corriam quietas, quietas, como corre
+uma fonte perenne e nativa d'agua que mana sem
+esf&ocirc;r&ccedil;o nem impeto, por um declive natural e
+facil.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[63]</span> &#8213;'Onde estou eu, Georgina?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Nos meus bra&ccedil;os.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Que me succedeu?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Que n&atilde;o podes ser feliz sen&atilde;o n'elles:
+bem sabes.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sei... devia saber.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Hasde sabe-lo agora. O passado...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'O passado! qual?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'O passado deixou de existir.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E o futuro?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Eu n&atilde;o creio no futuro.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Porqu&ecirc;?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Porque tu me disseste que n&atilde;o cresse.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Eu!.. Eu sou um...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[64]</span> &#8213;'Um homem.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Oh!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Basta e descan&ccedil;a. Amanhan fallaremos.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Estou ferido, muito; e doe-me agora...
+n&atilde;o me do&iacute;a.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Est&aacute;s, mas sem perigo: e estou eu aqui.
+Dorme.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o posso. Que casa &eacute; &eacute;sta?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'San'Francisco de Santarem.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Deus de misericordia!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Es prisioneiro:&nbsp;s&aacute;ra, e eu te livrarei.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tu!&#8213;E tu aqui, como?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Vim buscar-te, e achei-te assim.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Georgina!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[65]</span> &#8213;'Que tens tu ahi tam seguro na m&atilde;o esquerda?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'V&ecirc;: a medalha com o teu cabello.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ent&atilde;o amas-me tu ainda?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Se te amo! Como no primeiro...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o mintas, Carlos... E dorme.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Oh meu Deus, meu Deus! Georgina
+aqui, eu n'este estado e... E a minha gente?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'A tua gente est&aacute; salva.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Aonde?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Aqui mesmo, em Santarem.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Quero... n&atilde;o quero... Oh sim, quero mas &eacute;
+morrer. Tende misericordia de mim, meu Deus!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Socega, Carlos.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas Carlos n&atilde;o socegava: immudeceu porque
+<span class="pagenum">[66]</span>
+a torrente de seus pensamentos, o incontrado
+d'elles, e o inesperado d'aquella situa&ccedil;&atilde;o lhe
+imbargavam
+a voz, e o quebramento das f&ocirc;r&ccedil;as lhe
+tolhia os movimentos do corpo; mas o espirito
+inquieto e alvora&ccedil;ado revolvia-se dentro com um
+phrenesi louco. Era pasmar o que elle soffria.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de bebidas calmantes o accesso
+diminuiu,
+a noite passou mais tranquilla; e pela manhan
+o doente n&atilde;o dava cuidado ao facultativo que
+o veio ver.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Prohibiram-lhe fallar; e Georgina tinha a coragem
+de lhe resistir, de lhe n&atilde;o responder todas
+as vezes que elle tentava quebrar o preceito
+de que dependia a sua vida... e a d'ella, porque
+a infeliz amava-o... oh! amava-o como se n&atilde;o ama
+sen&atilde;o uma vez n'este mundo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Passaram dias, semanas, Carlos estava melhor,
+estava salvo; Georgina p&ocirc;de dizer-lhe um dia:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Carlos, meu Carlos, tu est&aacute;s livre de perigo,
+vou restituir-te aos teus.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Os meus!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[67]</span> &#8213;'Os teus. Tua av&oacute;, tua prima...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Joaninha! oh! Joanninha...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tua av&oacute; que tambem tem estado a morrer
+mas que emfim est&aacute; escapa, ignora que tu
+estejas aqui. Occult&aacute;mo-lo egualmente a tua prima.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ah!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sim, assent&aacute;mos de lh'o n&atilde;o dizer a uma
+nem a outra at&eacute; que tivessemos certeza da tua
+melhora. Hoje por&ecirc;m vais ve-las. E eu...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tu!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Eu n&atilde;o tenho aqui mais nada que fazer.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Georgina!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Carlos!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tu ja me n&atilde;o amas?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[68]</span>
+Seguiu-se um silencio torvo e abafado como o
+da calma que precede as grandes tempestades. O
+rosto de Georgina estava impassivel, Carlos estorcia-se
+debaixo de uma compress&atilde;o horrivel e
+incapaz de se descrever.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c8"></a>CAPITULO XXXIII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Carlos e Georgina.
+Explica&ccedil;&atilde;o.&#8213;Ja te
+n&atilde;o amo! palavra terrivel.&#8213;Que
+o amor verdadeiro n&atilde;o &eacute; cego.&#8213;Frade no caso
+outra vez. <em>Ecce iterum Crispinus</em>; ca
+est&aacute; o nosso Fr.
+Diniz comnosco.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tu ja me n&atilde;o amas, Georgina, tu!'
+exclamou Carlos depois de uma longa e penosa
+lucta comsigo mesmo: 'Ja me n&atilde;o amas
+tu, Georgina? Ja n&atilde;o sou nada para ti n'este
+<span class="pagenum">[70]</span>
+mundo? Aquelle amor cego, louco, infinito, que
+derramavas em torrentes s&ocirc;bre a minha alma,
+em que trasbordava o teu cora&ccedil;&atilde;o; aquelle amor
+que eu cheguei a persuadir-me que era o maior,
+o mais sincero, talvez o unico verdadeiro amor
+de mulher que ainda houve no mundo, esse amor
+acabou, Georgina? Seccou-se no teu peito a
+fonte celeste d'onde manava? Nem as recorda&ccedil;&otilde;es
+de nossa passada felicidade, nem as memorias
+dos crueis lances que nos custou, dos
+sacrificios tremendos que por mim fizeste, nada,
+nada p&oacute;de acordar na tua alma um echo, um
+echo sumido que fosse, da antiga harmonia de
+nossas vidas&#8213;da nossa vida, Georgina, porque
+n&oacute;s cheg&aacute;mos a confundir n'um s&oacute; os
+dois seres
+da nossa existencia&#8213;Oh! porque vivi eu at&eacute;
+este dia? E tu, tu que refinada crueldade te
+inspirou o salvar uma vida que tinhas condemnado,
+que tinhas sacrificado quando a separaste
+da tua?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Carlos,' respondeu Georgina com a fria
+mas compassiva piedade que mais o desesperava:&#8213;'Carlos,
+n&atilde;o abuses da pouca saude que
+ainda tens. O esf&ocirc;r&ccedil;o d'alma que est&aacute;s
+fazendo
+p&oacute;de-te ser prejudicial. Socega. Tu illudes-te, e
+<span class="pagenum">[71]</span>
+sem querer, procuras illudir-me tambem a mim.
+Entra em ti, Carlos, e discorramos pausadamente
+s&ocirc;bre a nossa situa&ccedil;&atilde;o, que
+n&atilde;o &eacute; agradavel
+porcerto nem para um nem para outro,
+mas que p&oacute;de supportar-se se tivermos juizo para
+a incarar toda e sem medo, e para nos convencermos
+com lealdade e franqueza do que ella
+realmente &eacute;. Ouve-me, Carlos: tu amaste-me
+muito...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Oh como, oh quanto! Nenhum homem...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Poucos homens, &eacute; certo, amaram ainda
+como tu... quem sabe! talvez nenhum.&#8213;N&atilde;o
+quero perder &eacute;sta &uacute;ltima illus&atilde;o... ja
+n&atilde;o tenho outra... Talvez nenhum amou como tu me
+amaste ou... ou cuidaste amar-me. Eu... oh! eu
+quiz-te... pelo eterno Deus que me ouve! eu
+quiz-te com uma cegueira d'alma, n'uma singeleza
+de cora&ccedil;&atilde;o, com um aband&ocirc;no tam
+completo,
+uma abnega&ccedil;&atilde;o tam inteira de mim mesma,
+que realmente creio, este &eacute; o amor que so a
+Deus se deve, que so ao Creador a creatura p&oacute;de
+consagrar licitamente.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Bem castigada estou: mereci-o.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[72]</span> &#8213;'Georgina, Georgina!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Deixa-me, quero desabafar eu tambem
+agora. Ouve-me, tens obriga&ccedil;&atilde;o de me ouvir.&#8213;Se
+te dei provas d'este amor, tu o sabes; se
+desde que te amei, uma palavra, um gesto, um
+pensamento unico, um so e o mais leve relampejar
+da imagina&ccedil;&atilde;o desmentiu em mim d'esta
+absoluta e exclusiva dedica&ccedil;&atilde;o de todo o meu
+ser... dize-o tu.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o, minha alma, n&atilde;o, minha vida,
+n&atilde;o;
+tu &eacute;s um anjo, tu es...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sou uma mulher que te amava como creio
+que ordinariamente se n&atilde;o ama.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o, certo, n&atilde;o.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Fomos felizes, &eacute; verdade; e creio que
+poucos amantes ainda foram tam felizes como
+n&oacute;s nos breves dias que isto durou.&#8213;Tu partiste
+para a tua ilha; era for&ccedil;oso partir, conheci-o
+e resignei-me. Consolavam-me as tuas cartas,
+as tuas cartas de fogo, escriptas, oh se o eram
+escriptas com o mais puro sangue do teu cora&ccedil;&atilde;o.
+<span class="pagenum">[73]</span>
+Nunca duvidei do que me ellas diziam:
+n&atilde;o
+se mente assim, tu n&atilde;o mentias ent&atilde;o.
+&Eacute; falso
+que o amor seja cego: o amor vulgar p&oacute;de s&ecirc;-lo,
+amor como o meu, o amor verdadeiro tem
+olhos de lynce: eu bem via que era amada.
+Nunca me escreveste a protestar fidelidade, e
+eu sab&iacute;a, eu via que tu me eras fiel.&#8213;Assim
+passaram meses, annos. Na ilha e no Porto foste
+o mesmo. Eu padecia muito, mas confortava-me,
+vivia de esperan&ccedil;as... triste viver mas doce!
+Emfim vieste para Lisboa, para aqui... e as
+tuas cartas que n&atilde;o eram menos ternas nem menos
+apaixonadas...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Se eu nunca deixei, nem um momento...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Com um gesto expressivo, e de suave mas
+resoluta denega&ccedil;&atilde;o, Georgina p&ocirc;s a
+m&atilde;o na b&ocirc;cca
+do pobre Carlos, como para o impedir de dizer
+uma blasphemia. Elle segurou-a com as suas
+ambas e lh'a beijou mil vezes com um arrebatamento,
+uma <em>furia</em>, n'um paroxismo de
+lagrymas
+e de solu&ccedil;os, que partiriam o cora&ccedil;&atilde;o
+ao mais
+indifferente. Commoveu-se, vacillou a inalteravel
+rigidez do bello rosto da dama, abaixaram-se
+<span class="pagenum">[74]</span>
+as longas palpebras de seus olhos; mas se chegou
+at&eacute; elles alguma lagryma mais rebelde, prompta
+refluiu para o cora&ccedil;&atilde;o, porque ao
+levant&aacute;-los
+outra vez e ao fix&aacute;-los tranquillamente nos do
+seu amante, aquelles olhos puros, celestes e austeros
+como os de um anjo offendido, estavam
+seccos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ella continuou:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'As tuas cartas, que n&atilde;o eram menos ternas
+nem menos apaixonadas, come&ccedil;aram todavia
+a ser menos naturaes, mais incarecidas... eram
+menos verdadeiras por f&ocirc;r&ccedil;a. Senti-o, vi-o, e
+cuidei morrer. Uma familia da minha amizade
+vinha ent&atilde;o para Portugal, accompanhei-a. Apenas
+cheguei, procurei e obtive os meios seguros
+de tranzitar pelos dous campos contendores: presagiava-me
+o cora&ccedil;&atilde;o que me havia de ser preciso.
+E foi; cheguei ao valle no dia em que tu
+o deixavas para aquella fatal ac&ccedil;&atilde;o que te ia
+custando
+a vida. Vim-te incontrar prisioneiro e meio
+morto no hospital dos feridos. Aop&eacute; de ti estava
+um frade...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Um frade! Meu Deus, se seria elle?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[75]</span> &#8213;'Era elle.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Pois tu sabes?..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sei: eu disse-lhe quem era e o que tu me
+eras...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tu a elle... disseste?..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Disse. N&atilde;o sei se fiz mal ou bem, sei
+que me n&atilde;o importava o que fazia. Vi depois que
+me n&atilde;o ingan&aacute;ra na confian&ccedil;a que
+posera n'elle.
+Trouxemos-te para este convento, tratt&aacute;mos de
+ti, conseguimos salvar-te a vida... E em quanto
+esse cuidado me livrava de outros, fui... fui feliz.
+A tua gente... a tua familia do valle tambem
+veio para Santarem... tua av&oacute; e tua prima, Carlos...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Joanninha! Joanninha est&aacute; aqui?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Est&aacute;; socega; ja t'o disse, logo a ver&aacute;s.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Eu! Eu para qu&ecirc;? Eu n&atilde;o quero...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[76]</span> &#8213;'Quero eu: hasde ve-la. Ja sabes que sei
+tudo.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tudo o qu&ecirc;, Georgina?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Queres que t'o repitta? Repettirei. Que
+tu amas tua prima, que ella que te adora. E
+por Deus, Carlos eu ja lhe quero como se f&ocirc;ra
+minha irman. Intendes bem agora que te n&atilde;o amo?
+Comprehendes agora que tudo acabou entre n&oacute;s,
+e que n&atilde;o vejo, n&atilde;o posso ver em ti ja
+sen&atilde;o o
+esp&ocirc;so, o marido da innocente crian&ccedil;a que tomei
+debaixo da minha protec&ccedil;&atilde;o, e a quem juro
+que hasde pertencer tu?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Juras falso.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Como assim! Pois queres mais victimas?
+N&atilde;o est&aacute;s satisfeito com a minha ruina? Eu
+aomenos
+n&atilde;o sou do teu sangue. E essa velha decrepita
+que &eacute; tua av&oacute;, que duas vezes foi em
+verdade tua m&atilde;e porque te criou,&#8213;essa innocente
+que te ama na singelleza do seu cora&ccedil;&atilde;o...
+e esse pobre frade velho...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Oh! aqui anda elle, bem o vejo, aqui
+<span class="pagenum">[77]</span>
+anda o genio mau da minha familia. Malditto sejas
+tu, frade!'<br />
+
+
+<br />
+
+
+O desgra&ccedil;ado n&atilde;o acab&aacute;ra bem de
+pronunciar
+&eacute;stas palavras, quando a porta da alcova se abriu
+de par em par, e a rigida, ascetica figura de
+Fr. Diniz estava deante d'elle.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c9"></a>CAPITULO XXXIV.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;" class="intro">Carlos,
+Georgina e Fr. Diniz.&#8213;A
+peripecia do drama.&#8213;
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos estava meio sentado meio deitado n'uma
+longa cadeira de rec&ocirc;sto; Georgina em
+p&eacute;, com os bra&ccedil;os cruzados e na attitude de
+reflexiva
+tranquillidade. Um sol brilhante e ardente,
+<span class="pagenum">[80]</span>
+um sol de maio, feria os estreitos vidros da
+pequena janella que so dava luz &aacute;quelle quarto:
+a excessiva claridade era velada por uma longa e
+ampla cortina.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos lan&ccedil;ou derepente a m&atilde;o a essa cortina
+e a affastou para avivar a luz do aposento. Um
+raio agudissimo de sol foi bater direito no macerado
+rosto do frade, e reflectiu de seus olhos
+incovados, um como relampago de &iacute;ra celeste que
+fez estremecer os dous amantes.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o foi por&ecirc;m sen&atilde;o relampago;
+sumiu-se,
+apagou-se logo. Aquelles olhos ficaram mortaes,
+mudos, fixos, invidra&ccedil;ados como os de um homem
+que acabou de expirar e a quem n&atilde;o cerraram
+ainda as palpebras.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E assim mesmo aquelles olhos tinham o pod&ecirc;r
+magnetico de fixar os outros, de os n&atilde;o deixar
+nem pestanejar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Curvo, incostado a um bord&atilde;o grosseiro, o seu
+chapeo alvadio debaixo do bra&ccedil;o, o frade deu
+alguns passos tremulos para onde estavam os dous,
+arrastando a custo as s&ocirc;ltas alpercatas que davam
+<span class="pagenum"><a name="p81">[81]</a></span>
+um som ba&ccedil;o e batido, e faziam&#8213;n&atilde;o sei por
+qu&ecirc; nem como&#8213;estremecer a quem as sentia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Parou a pouca distancia, e tirando a voz fraca e
+tenue, mas vibrante e solemne, do &iacute;ntimo do
+peito, disse para Carlos:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tu mal disseste-me, filho, e eu venho perdoar-te.
+Tu detestas-me, Carlos, de todos os pod&ecirc;res
+da tua alma, com toda a energia de teu
+cora&ccedil;&atilde;o; e eu venho-te dizer que te amo, que
+tom&aacute;ra dar a minha vida por ti, que do fundo
+<a href="#e8">das intranhas</a> se ergue este
+immenso amor que
+n&atilde;o tem outro egual, a pedir-te misericordia, a
+clamar-te em nome de Deus e da natureza, a pedir-te,
+por quanto ha sancto no ceo e de respeito
+na terra, que levantes essa maldic&ccedil;&atilde;o, filho,
+de cima da cabe&ccedil;a de um moribundo.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram dittas em tal som estas vozes, vinham
+pronunciadas l&aacute; de dentro d'alma com tal vehemencia,
+que lh'as n&atilde;o articulavam os labios, rompiam-n'os
+ellas e sahiam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O soldado parecia desaccordado, confuso e
+sem intelligencia do que ouvia. Georgina impassivel
+<span class="pagenum">[82]</span>
+at&eacute; alli, rigida e inabalavel com o seu
+amante, sentia commover-se agora d'aquella ang&uacute;stia
+do velho. &Eacute; que partia pedras a dor que
+vinha n'aquellas fallas sepulchraes, que trassudava
+d'aquelle rosto cadaverico.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao mesmo tempo, um som confuso, um tumulto
+vago e abafado de mil sons que pareciam
+arredar-se, incontrando-se, tornando, indo e
+vindo, e dispersando-se para se tornar a unir,
+e tornando a dispersar-se emfim, reboava ao
+longe pela villa, extendia-se nas pra&ccedil;as, concentrava-se
+nas ruas, e mandava &aacute;quella solitaria e
+remota cella do convento uns echos surdos, como
+os do mar ao longe quando se retira da praia no
+murmurar melancholico que precede um temporal
+d'equinoxio.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ouves esse borburinho confuso, Carlos?
+&Eacute; a tua causa que triumpha, &eacute; a d'estes loucos
+que succumbe, &eacute; a de Deus que a si mesmo se
+desamparou. A hora est&aacute; chegada, escreveram-se
+as lettras de Balthasar; a confus&atilde;o e a morte
+reinam sos e senhoras na face da terra. Eu quero
+ir morrer onde haja Deus... Perdoae-me, Senhor,
+<span class="pagenum">[83]</span>
+a blasphemia!.. onde o seu nome n&atilde;o seja
+profanado e malditto...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ao canto de uma pedra, debaixo de uma &aacute;rvore
+hade ser, n'algum logar escuso d'essas
+charnecas, onde me n&atilde;o rasguem aomenos &eacute;sta
+mortalha, e m'a n&atilde;o insultem nos ultimos instantes,
+porque eu sou frade, frade, frade... o
+malditto frade! Mas frade quero morrer, e heide
+morrer. Oh! assim tivera eu vivido!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Mas que foi; que succedeu?'<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'O resto do ex&eacute;rcito realista evacua n'este
+momento Santarem; v&atilde;o em fuga para o Alemtejo.
+Os constitucionaes venceram na Asseiceira,
+e tudo est&aacute; ditto para n&oacute;s. Para mim, Carlos,
+falta uma palavra so: querer&aacute;s tu diz&ecirc;-la?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Eu?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sim tu, Carlos. Revoca as palavras terriveis
+que proferiste, e em nome de Deus, filho,
+perdoa a teu...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A Carlos revolvia-se-lhe no peito uma grande
+<span class="pagenum">[84]</span>
+lucta. O horror, a compaix&atilde;o, o odio, a piedade
+iam e vinham-lhe alternadamente do cora&ccedil;&atilde;o
+&aacute;s faces, e tornavam do rosto para o peito.
+Uma exclama&ccedil;&atilde;o involuntaria lhe rebentou
+dos labios em meio d'este combate:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Padre, padre! e quem assacinou meu pae,
+quem cegou minha av&oacute;, e quem cubriu de infamia
+a minha... a toda a minha familia?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tens raz&atilde;o, Carlos, fui eu; eu fiz tudo
+isso: mata-me. Mas oh! mata-me, mata-me por
+tuas m&atilde;os, e n&atilde;o me maldigas. Mata-me, mata-me.
+&Eacute; decreto da divina justi&ccedil;a que seja assim.
+Oh! assim meu Deus! &aacute;s m&atilde;os d'elle, Senhor!
+Seja, e a vossa vontade se fa&ccedil;a...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O frade cahiu de bru&ccedil;os no ch&atilde;o, e com as
+m&atilde;os postas e extendidas para o mancebo, clamava:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Mata-me, mata-me! aqui ha pouca vida
+ja: basta que me ponhas o p&eacute; sobre o pesco&ccedil;o;
+esmaga assim o reptil venenoso que mordeu na tua
+familia e que fez a sua desgra&ccedil;a e a de quantos
+o amaram. Sim, Carlos, s&ecirc; tu o executor das
+<span class="pagenum">[85]</span>
+&iacute;ras divinas. Mata-me. Tantos annos de penitencia
+e de remorsos nada fizeram; mata-me, livra-me
+de mim e da &iacute;ra de Deus que me persegue.'<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c10"></a>CAPITULO XXXV.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">
+Reuni&atilde;o de toda a familia.&#8213;Explica&ccedil;&atilde;o
+dos mysterios.&#8213;O
+cora&ccedil;&atilde;o da mulher.&#8213;Parricidio.&#8213;Carlos beija
+emfim a
+m&atilde;o a Fr. Diniz e abra&ccedil;a a pobre da
+av&oacute;.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Georgina disse para Carlos:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'D&aacute; a m&atilde;o a esse homem, levanta-o e dize-lhe
+as palavras de perd&atilde;o que te pede.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[88]</span>
+Carlos fez um gesto expressivo de horror e de
+repugnancia. Georgina ajoelhou aop&eacute; do frade,
+tomou as m&atilde;os d'elle nas suas, e lh'as affagou com
+piedade; depois levantou-lhe o rosto, incostou-o
+a si e gradualmente o foi accalmando. O velho
+parecia uma crian&ccedil;a mimada e sentida que se vai
+accalantando nos bra&ccedil;os da m&atilde;e: agora so
+murmurava
+de vez em quando alguns solu&ccedil;os, a mais
+e a mais raros.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estavam de joelhos ambos, o frade e a dama;
+elle mal se tinha, ella amparava em seus bra&ccedil;os
+e contra seu peito o amortecido corpo do velho.
+E Georgina disse com aquelle som de voz irresistivel
+que as filhas de Eva herdaram de sua
+primeira m&atilde;e, e que a ella ou lh'o tinham antes
+insinado os anjos, ou o apprendeu depois da serpente,&#8213;um
+som de voz que &eacute; a &uacute;ltima e a mais
+decisiva da seduc&ccedil;&otilde;es femininas&#8213;disse:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Este homem vai morrer, Carlos: e tu
+hasde-o deixar morrer assim, <em>meu
+Carlos</em>?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Todo o odio, todas as offensas se callaram, desappareceram
+deante d'aquellas palavras do anjo
+supplicante. <em>Meu Carlos</em> ditto assim,
+n&atilde;o o ouv&iacute;ra
+<span class="pagenum">[89]</span>
+elle ha muito tempo, n&atilde;o lhe p&ocirc;de resistir:
+extendeu
+os bra&ccedil;os para o frade, cahiu de joelhos aop&eacute;
+d'elle, e um so abra&ccedil;o uniu a todos tres.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Como no eterno grupo de Lacoonte, o velho e
+os dous mancebos sentiam estreitar-se das cobras
+da mesma dor, e affogavam junctos da mesma
+ang&uacute;stia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim estiveram longamente; e n&atilde;o se ouv&iacute;a
+entre elles sen&atilde;o algum gemido s&ocirc;lto, e aquelle
+sussurrar sumido das lagrymas que mais se ouve
+com o cora&ccedil;&atilde;o do que com os ouvidos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O frade disse emfim com uma voz apenas perceptivel
+de timida e de fraca:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Carlos, meu Carlos, perdoa tambem... oh
+perdoa &aacute; memoria de tua desgra&ccedil;ada
+m&atilde;e!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O mancebo saltou convulsamente como o cadaver
+na pilha galvanica. Em p&eacute;, hirto, horrivel,
+tremendo, exclamou com um brado de trov&atilde;o:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Demonio! demonio incarnado em figura
+de homem, que vieste recordar-me? Dizias bem
+<span class="pagenum">[90]</span>
+indagora, monstro: so &aacute;s minhas m&atilde;os deves
+morrer.
+E hasde.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Lan&ccedil;ou-se a um enorme velador de pau-sancto
+que lhe jazia aop&eacute;, massa terrivel d'Hercules,
+e bastante a fender craneos de ferro, quanto
+mais a descarnada caveira do frade! D'ambas
+as m&atilde;os a levava no ar; e o velho extendeu para
+elle a cabe&ccedil;a como na ancia de morrer... Georgina
+fechou involuntariamente os olhos, e um grande
+e medonho crime ia consummar-se...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dous gritos agudissimos, dous gritos de desesp&ecirc;ro
+e de terror, d'aquelles que so sahem da b&ocirc;cca
+do homem quando suspenso entre a morte e
+a vida&#8213;soaram repentinamente no apposento;
+uma velha decrepita e meia morta, arrastada por
+uma crian&ccedil;a de pouco mais de dezeseis annos,
+estava deante de Carlos, e ambas cubriam com
+seus debeis corpos a fragil e extenuada figura
+da sua victima.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Filho, meu filho!' arrancou a velha com
+stertor do peito: '&eacute; teu pae meu filho. Este homem
+&eacute; teu pae, Carlos.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[91]</span>
+O ponderoso velador cahiu inerte das m&atilde;os do
+mancebo, e rolou pesado e ba&ccedil;o pelo pavimento.
+Carlos cahiu por terra sem sentidos. De um pulo
+Georgina estava aop&eacute; d'elle, e o fez incostar
+na longa cadeira de bra&ccedil;os. Estava lavado em sangue;
+era uma ferida do pesc&ocirc;&ccedil;o que o excesso
+da commo&ccedil;&atilde;o lhe fizera rebentar. Os dous velhos
+vieram ajoelhar-se aop&eacute; d'elle. As duas mulheres
+mo&ccedil;as lidavam pelo restaurar e lhe estancar o
+sangue. A cambraia dos len&ccedil;os, as rendas do collo
+e das cabe&ccedil;as, tudo se fez em ataduras e compressas:
+o sangue parou emfim.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Admiravel belleza do cora&ccedil;&atilde;o feminino, generosa
+qualidade que todos seus infinitos defeitos
+faz esquecer e perdoar! Essas duas mulheres amavam
+esse homem. Esse homem n&atilde;o merecia tal
+amor: n&atilde;o, por Deus! o monstro amava-as a ambas:
+est&aacute; tudo ditto. E ellas que o sabiam, ellas
+que o sentiam, e que o julgavam digno de mil mortes,
+ellas rivalizavam de cuidados e de ancia para
+o salvarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+De tanto n&atilde;o somos capazes n&oacute;s.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E por isso admir&acirc;mos tanto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[92]</span>
+E perdo&acirc;mos tanto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E esquec&ecirc;mos tanto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas amar tanto, n&atilde;o sabemos: verdade, verdade...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Am&acirc;mos <em>melhor</em>; sim, isso
+sim: <em>tanto</em> n&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O mancebo permanecia em deliquio. Fr. Diniz
+e a velha rezavam. Georgina e Joanninha&#8213;ja
+vereis que era Joanninha&#8213;olharam uma para a
+outra, coraram e ficaram suspensas. A ingleza
+extendeu a m&atilde;o &aacute; amavel crian&ccedil;a,
+estremeceu
+involuntariamente, mas disse-lhe com firmeza:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'O ditto ditto, Joanninha! Eu ja o n&atilde;o amo;
+prometto.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Eu amo-o cada vez mais, Georgina: elle
+&eacute; tam infeliz!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Juras-me tu de o n&atilde;o deixar, de velar
+por elle sempre, de o defender de si mesmo que
+&eacute; o peior inimigo que tem?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[93]</span> &#8213;'Se juro!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ent&atilde;o adeus, Joanninha! Eu estou de mais
+aqui. Ja tenho ouvido o que n&atilde;o devia ouvir. Os
+segredos da tua familia n&atilde;o me pertencem. O
+cora&ccedil;&atilde;o d'esse homem n&atilde;o &eacute;
+meu, nem o quero.
+&Eacute; um nobre e grande cora&ccedil;&atilde;o,
+Joanninha; mas...
+N&atilde;o te deixes dominar por elle se o queres segurar.
+Adeus!&#8213;Santarem est&aacute; desamparada pelos
+realistas; eu vou para Lisboa. Consola tua
+boa av&oacute;, e esse pobre velho. Elle n&atilde;o
+&eacute; tam
+criminoso, estou certa...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Oh n&atilde;o! Carlos cuida-o assassino de seu
+pae; e &eacute; falso. Minha av&oacute; ja me disse tudo.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Falso!' murmurou Carlos sem abrir os
+olhos: '&eacute; falso? Pois n&atilde;o foi elle que matou meu
+pae?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o, filho, clamou a velha: 'n&atilde;o, meu
+filho; teu pae &eacute; este infeliz.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E minha m&atilde;e?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Tua m&atilde;e... e eu somos duas desgra&ccedil;adas.
+<span class="pagenum">[94]</span>
+Que mais queres saber? Tua m&atilde;e amou esse homem...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ah!' disse Carlos: 'ah!' e abriu os
+olhos pasmados para a av&oacute; e para o frade que
+cravaram os seus no ch&atilde;o, e ficaram como dous
+r&eacute;os na presen&ccedil;a do seu inflexivel juiz.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Mas esse homem que &eacute;... que por
+f&ocirc;r&ccedil;a
+querem que seja meu... meu pae... Sancto Deus!
+elle matou o outro.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Defendi-me, foi defendendo &eacute;sta vida miseravel...
+Oh nunca eu o fizera! E paraqu&ecirc;?
+Paraque quiz eu viver? Para isto!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E meu tio, o pae de Joanninha? Tambem
+esse era preciso que morresse?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ambos se junctaram para me assassinar, e
+me accommetteram atrai&ccedil;oadamente na charneca.
+N&atilde;o os conheci; foi de noite escura e cerrada.
+Defendi-me sem saber de quem, e tive a desgra&ccedil;a
+de salvar a minha vida &aacute; custa da d'elles.
+Filho, filho, n&atilde;o queiras nunca sentir o que eu
+senti, quando pegando, um a um, n'esses cadaveres
+<span class="pagenum">[95]</span>
+para os lan&ccedil;ar no rio, conheci as minhas
+victimas... Era hynverno, a cheia ia de valle a
+monte: quando abateu e se acharam os corpos ja
+meios desfeitos, ninguem conheceu a morte de
+que morreram; passaram por se ter affogado.
+Ninguem mais soube a verdade sen&atilde;o eu&#8213;e tua
+infeliz m&atilde;e a quem o disse para meu castigo, a
+quem vi morrer de pezar e de remorsos, que
+expirou nos meus bra&ccedil;os chorando por elle, e
+maldizendo-me a mim. N&atilde;o ser&iacute;a bastante castigo,
+meu filho?&#8213;N&atilde;o foi, n&atilde;o. Este burel que
+ha tantos annos me ro&ccedil;a no corpo, estes cilicios
+que m'o desfazem, os jejuns, as vigilias, as
+ora&ccedil;&otilde;es
+nada obtiveram ainda de Deus. A sua &iacute;ra
+n&atilde;o me deixa, a sua cholera vai at&eacute; a sepultura
+s&ocirc;bre mim... Se me perseguir&aacute; al&eacute;m
+d'ella!..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fez-se aqui um silencio horroroso: ninguem
+respirava; o frade proseguiu:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o me dei por bastante castigado com
+a agonia de tua m&atilde;e, a mais horrorosa e desesperada
+agonia que ainda presenciei, oh meu
+Deus!.. Tive o cruel &acirc;nimo de explicar a tua
+av&oacute; as negras circumstancias d'aquella morte, e
+de lhe patentear toda a fealdade e hediondez do
+<span class="pagenum">[96]</span>
+meu crime. Rasguei-lhe o cora&ccedil;&atilde;o, e vi-lhe sahir
+sangue e agua pelos olhos, at&eacute; que lhe cegaram.
+Que mais queres? Cuidei que podia morrer
+sem passar por &eacute;sta derradeira
+expia&ccedil;&atilde;o. Deus
+n&atilde;o o quiz. Aqui estou penitente a teus p&eacute;s,
+filho.
+Aqui est&aacute; o assassino de tua m&atilde;e, de seu marido,
+de teu tio... o algoz e a deshonra de tua familia
+toda.&#8213;Faze de mim como f&ocirc;r tua vontade.
+Sou teu pae...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Meu pae!.. Misericordia meu Deus!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Misericordia, filho, e perd&atilde;o para teu pae!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Carlos levantou-se deliberadamente, veio ao velho,
+tomou-o a p&ecirc;so nos bra&ccedil;os, foi sent&aacute;-lo
+na cadeira que acabava de deixar, e pondo-se
+de joelhos, beijou-lhe a m&atilde;o em silencio. Depois
+foi abra&ccedil;ar-se com a av&oacute;, que o apalpava
+soffregamente
+com as m&atilde;os tr&eacute;mulas, e murmurava
+baixo:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Agora sim, ja posso morrer, ja posso
+morrer porque o abracei, porque o senti juncto
+a mim, o meu filho, o filho da minha filha querida...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[97]</span>
+Carlos &eacute; que n&atilde;o proferiu mais palavra;
+tinha-se-lhe
+rompido corda no cora&ccedil;&atilde;o, que ou
+lhe quebr&aacute;ra o sentimento ou lh'o n&atilde;o deixava
+expressar. Sahiu da cella fazendo signal que vinha
+logo: mas esperaram-n'o em v&atilde;o... n&atilde;o tornou.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+D'ahi a tres dias, veio uma carta d'elle, de
+juncto d'Evora onde estava com o ex&eacute;rcito constitucional.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c11"></a>CAPITULO XXXVI.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Que n&atilde;o se acabou a historia
+de Joanninha.&#8213;Processo ao
+cora&ccedil;&atilde;o de Carlos.&#8213;Immoralidade.&#8213;Defeito de
+organiza&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o &eacute; immoralidade.&#8213;<a href="#e9">Horror</a>,
+horror, maldic&ccedil;&atilde;o!&#8213;Um
+bar&atilde;o que n&atilde;o pertence &aacute; familia
+lineana dos bar&otilde;es
+propriamente dittos&#8213;Porta de Atamarma.&#8213;Senatus
+consulto
+santareno.&#8213;Nossa Senhora da Victoria
+<em>afforada</em>.&#8213;Threnos
+s&ocirc;bre Santarem.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pois ja se acabou a historia de Joanninha?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o, de todo ainda n&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[100]</span> &#8213;Falta muito?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Tambem n&atilde;o &eacute; muito.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Seja o que for, acabemos, que est&aacute; a
+gente impaciente por saber como se concluiu tudo
+isso, o que fez o frade, o que foi feito da
+ingleza, Joanninha e a av&oacute; que caminho levaram,
+e o pobre Carlos se...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Pois interessam-se por Carlos, um homem
+immoral, sem principios, sem cora&ccedil;&atilde;o, que fazia
+a c&ocirc;rte&#8213;fazer a c&ocirc;rte ainda n&atilde;o
+&eacute; nada&#8213;que
+amava duas mulheres ao mesmo tempo?
+Horror, horror! como dizem os dramaticos romanticos:
+horror e maldic&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Horror seja, horror ser&aacute;... e horror &eacute;,
+sem d&uacute;vida. E maldic&ccedil;&atilde;o que deitaram
+ao pobre
+homem. Mas immoralidade! Immoralidade
+&eacute; inganar, &eacute; mentir, &eacute;
+atrai&ccedil;oar: e elle n&atilde;o o
+fez. Desgra&ccedil;a grande ter um cora&ccedil;&atilde;o
+assim; mas
+n&atilde;o me digam que &eacute; pr&oacute;va de o
+n&atilde;o ter. Eu
+digo que elle tinha cora&ccedil;&atilde;o de mais: o que
+&eacute;
+um defeito e grande, &eacute; um estado pathologico
+e anormal. Physicamente produz a morte; e moralmente
+<span class="pagenum">[101]</span>
+p&oacute;de matar tambem o sentimento. Bem
+o creio: mas &eacute; molestia commum, e com que
+vai vivendo muita gente, at&eacute; que um dia...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Um dia, o orgam, que progressivamente
+se foi dilatando, n&atilde;o p&oacute;de funccionar mais, cessa
+a circula&ccedil;&atilde;o e a vida. Deve ser horrivel morte!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Fallam physicamente?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Physicamente. Mas no moral anda pelo
+mesmo. E se esse &eacute; o defeito de Carlos...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Sentir muito?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;N&atilde;o; ter sentido muito: que o
+cora&ccedil;&atilde;o,
+como orgam moral, n&atilde;o se dilata a esse ponto
+sen&atilde;o pelo demaziado excesso e violencia de
+sensa&ccedil;&otilde;es
+que o gastaram e relaxaram. Se esse &eacute; o
+defeito, a molestia de Carlos, digo que ja sei o
+fim da sua historia sem a ouvir.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Ent&atilde;o qual foi?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Que um bello dia cahiu no indifferentismo
+absoluto, que se fez o que chamam sceptico,
+<span class="pagenum">[102]</span>
+que lhe morreu o cora&ccedil;&atilde;o para todo o affecto
+generoso,
+e que deu em homem politico ou em
+agiota.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;P&oacute;de ser.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Mas qual das duas foi, deputado ou bar&atilde;o?
+queremos saber.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Saber&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Queremos ja.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;E se fossem ambas?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Oh horror, horror, maldic&ccedil;&atilde;o, inferno!
+Ferros em braza, demonios pretos, vermelhos,
+azues, de todas as c&ocirc;res! Aqui sim que toda a
+artelharia grossa do romantismo deve cahir em
+massa s&ocirc;bre esse monstro, esse...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Esse qu&ecirc;? Pois em se acabando o
+cora&ccedil;&atilde;o
+&aacute; gente...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;Eu n&atilde;o creio n'isso. Acaba-se l&aacute; o
+cora&ccedil;&atilde;o
+a ninguem!..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[103]</span>
+Houve gargalhada geral &aacute; custa do pobre incredulo,
+e levantamo'-nos para ir ver o Sancto-milagre,
+que era a hora apprazada, e estava o
+prior &aacute; nossa espera.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Aacute;manhan o fim da historia da menina dos olhos
+verdes.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+No caminho incontr&aacute;mos o nosso antigo amigo,
+o bar&atilde;o de P.&#8213;bar&atilde;o de outro genero, e
+que n&atilde;o pertence &aacute; familia lineana que n'esta
+obra
+procur&aacute;mos classificar para
+illustra&ccedil;&atilde;o do seculo&#8213;cavalheiro
+generoso, e typo bem raro ja hoje
+da antiga nobreza das nossas provincias, com todos
+os seus brios e com toda a sua cortezia
+d'outro tempo, que em tanto rel&ecirc;vo destaca da
+grosseria villan d'essas notabilidades improvisadas...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vinha em nossa procura para nos guiar. Seguimo-lo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fomos de passagem observando algumas das
+mais interessantes coisas d'aquella interessantissima
+terra em que se n&atilde;o p&oacute;de dar um passo sem
+que a reflex&atilde;o ou a imagina&ccedil;&atilde;o
+incontre objecto
+<span class="pagenum">[104]</span>
+para se entreter. Inclinando um pouco &aacute; direita,
+d&eacute;mos na celebrada porta de Atamarma.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por aqui entrou D. Affonso Henriques, por
+aqui foi aquella destemida surpreza que lhe intregou
+Santarem, e acabou para sempre com o
+dominio arabe n'esta terra.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os illustrados municipaes Santarenos t&ecirc;em tido
+por vezes o nobre e generoso pensamento de
+demolir &eacute;sta porta! o arco de triumpho de Affonso
+Henriques, o mais nobre monumento de
+Portugal!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A idea &eacute; digna da epocha.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Felizmente parece que tem faltado o dinheiro
+para a demoli&ccedil;&atilde;o; e o senatus consulto dos
+dignos
+padres conscriptos n&atilde;o p&ocirc;de ainda executar-se.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o que eu creia este arco o genuino arco
+moiresco por onde entraram os bravos de D. Affonso;
+mas creio que essa porta da antiga villa
+se foi reparando, concertando e conservando em suas
+successivas altera&ccedil;&otilde;es, at&eacute; chegar ao
+que hoje est&aacute;:
+<span class="pagenum">[105]</span>
+e ainda assim como est&aacute;, &eacute; um
+monumento
+de respeito que so barbaros pensariam desacatar
+e destruir.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Porcima d'ella est&aacute; uma capellinha de N. S.
+da Victoria: quer a tradic&ccedil;&atilde;o que primeiro
+erguida
+e consagrada &aacute; Virgem pelo heroico fundador
+da monarchia e da independencia portugueza.
+Este &eacute; um dos muitos pontos em que a religi&atilde;o
+das tradi&ccedil;&otilde;es deve ser respeitada e crida
+sem grandes exames, porque nada ganha a cr&iacute;tica
+em p&ocirc;r d&uacute;vidas, e o espirito nacional perde
+muito em as acceitar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deix&aacute;-la estar a Virgem da Victoria s&ocirc;bre o
+arco de Affonso Henriques. Prostremo'-nos e adoremos,
+como bons portuguezes, o symbolo da f&eacute;
+christan e da f&eacute; patriotica levantado pelas m&atilde;os
+insanguentadas do triumphador!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas ser&iacute;a elle ou n&atilde;o que levantou essa
+capellinha?
+os documentos faltam, os escriptores
+contemporaneos guardam silencio; a historia deve
+ser rigorosa e verdadeira...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deve: e os grandes factos importantes que fazem
+<span class="pagenum">[106]</span>
+epocha e s&atilde;o balizas da historia de uma
+na&ccedil;&atilde;o,
+tambem eu os regeitarei sem d&oacute; quando lhes
+faltarem essas auth&ecirc;nticas indispensaveis. Agora
+as circumstancias, para assim dizer, episodicas
+de um grande feito sabido e provado, quem as
+conservar&aacute; sen&atilde;o forem os poetas, as
+tradi&ccedil;&otilde;es,
+e o grande poeta de todos, o grande guardador
+de tradi&ccedil;&otilde;es, o povo?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu creio na Senhora da Victoria de Santarem,
+e em muitos outros sanctos e sanctas, que a religi&atilde;o
+do povo tem por esses nichos e por essas
+capellas e por esses cruzeiros de Portugal, a recordar
+memorias de que se n&atilde;o lavrou outro
+auto, n&atilde;o se escreveu outra escriptura, de que
+n&atilde;o ha outro documento, e que os frades chroniqueiros
+n&atilde;o julgaram dever escrever no livro
+de ter&ccedil;a ou de noa, em nenhum livro preto nem
+incarnado, porque o tinham por melhor escripto
+e mais bem guardado nos livros de pedra em
+que estava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Coitados! n&atilde;o contaram com os apperfei&ccedil;oadores,
+reparadores e demolidores das futuras
+civiliza&ccedil;&otilde;es
+que, para p&ocirc;r as coisas em ordem, tiram
+primeiro tudo do seu logar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[107]</span>
+A camara de Santarem, n&atilde;o podendo demolir
+o arco, tomou um meio termo que app&oacute;sto
+que ninguem &eacute; capaz de adivinhar. Afforou a capella
+por cima d'elle, com altar, com sanctos e
+tudo: e assim esteve afforada alguns annos, n&atilde;o
+sei paraqu&ecirc; nem porqu&ecirc;; o caso &eacute; que
+esteve.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O anno passado por&ecirc;m (1842) come&ccedil;ou a
+manifestar-se
+&eacute;sta reac&ccedil;&atilde;o religiosa que os
+especuladores
+quizeram logo converter em ganancia pessoal,
+descontando-a no mercado das agiotagens
+facciosas; mas perdem o seu tempo, inda bem!
+Veio, digo, &eacute;sta reac&ccedil;&atilde;o nas ideas das
+gentes;
+e a capella da Senhora da Victoria s&ocirc;bre o arco,
+n&atilde;o sei tambem como nem porqu&ecirc;, foi
+<em>desafforada</em>,
+e restituida ao culto popular.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Subimos a ver a capella por dentro: &eacute; um
+rifacimento ridiculo e miseravel, sem nenhuma
+da solemnidade do antigo, nem elegancia moderna
+alguma.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Desappontou-me tristemente. Vamos ao Sancto-milagre
+depressa, que me quero reconciliar
+com Santarem: e ja come&ccedil;a a ser difficil.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[108]</span>
+Mas &eacute; injusti&ccedil;a minha. Que culpa tem ella,
+coitada?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ai Santarem, Santarem, abandonaram-te, mataram-te,
+e agora cospem-te no cadaver.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Santarem, Santarem, levanta a tua cabe&ccedil;a coroada
+de t&ocirc;rres e de mosteiros, de palacios e de
+templos!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mira-te no Tejo, princeza das nossas villas: e
+ver&aacute;s como eras bella e grande, ricca e poderosa
+entre todas as terras portuguezas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ergue-te, esqueleto colossal da nossa grandeza,
+e mira-te no Tejo: ver&aacute;s como ainda s&atilde;o
+grandes e fortes esses ossos desconjuntados que te
+restam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ergue-te, esqueleto de morte, levanta a tua
+foice, sacode os vermes que te poluem, esmaga
+os reptis que te corroem, as osgas torpes que
+te babam, as lagartixas pe&ccedil;onhentas que se passeiam
+atrevidas por teu sepulchro deshonrado.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ergue-te Santarem, e dize ao ingrato Portugal
+<span class="pagenum">[109]</span>
+que te deixe em paz ao menos nas tuas ruinas,
+myrrhar tranquillamente os teus ossos gloriosos;
+que te deixe em seus cofres de marmore,
+sagrados pelos annos e pela venera&ccedil;&atilde;o antiga,
+as cinzas dos teus capit&atilde;es, dos teus lettrados
+e grandes homens.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dize-lhe que te n&atilde;o vendam as pedras de teus
+templos, que n&atilde;o fa&ccedil;am palheiros e estrebarias de
+tuas egrejas; que n&atilde;o mandem os soldados jogar
+a pella com as caveiras dos teus reis, e a bilharda
+com as cannellas dos teus sanctos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tiraram-te os teus magistrados, os teus mestres,
+os teus seminarios... tudo, menos o intulho
+e a cali&ccedil;a, as immundices e os monturos que
+deixaram accumular em tuas ruas, que espalharam
+por tuas pra&ccedil;as.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Santarem, nobre Santarem, a Liberdade n&atilde;o &eacute;
+inimiga da religi&atilde;o do ceo nem da religi&atilde;o da
+terra. Sem ambas n&atilde;o vive, degenera, corrompe-se,
+e em seus proprios desvarios se suicida.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A religi&atilde;o do Christo &eacute; a m&atilde;e da
+Liberdade,
+a religi&atilde;o do Patriotismo a sua companheira. O
+<span class="pagenum">[110]</span>
+que n&atilde;o respeita os templos, os monumentos de
+uma e outra, &eacute; mau amigo da Liberdade, deshonra-a,
+deixa-a em desamparo, intrega-a &aacute; irris&atilde;o
+e ao odio do povo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="dots"></div>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="dots"></div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vamos ao Sancto-milagre.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c12"></a>CAPITULO XXXVII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">
+A Gra&ccedil;a e sua bella fachada gothica.&#8213;Sepultura de
+Pedr'alvares
+Cabral.&#8213;Outro bar&atilde;o que n&atilde;o &eacute; dos
+assignalados.&#8213;Egreja
+do Sancto-milagre.&#8213;Bellos medalh&otilde;es mosarabes.&#8213;De
+como, chegando o prior e o juiz, houve o
+A. vista do Sancto-milagre, e com que solemnidades.&#8213;Monumento
+da muito alta e poderosa princeza a infanta D.
+Maria da Assump&ccedil;&atilde;o.&#8213;Casa onde succedeu o
+milagre,
+convertida em capella de stylo philipino.&#8213;O homem das
+botas, e o que tem elle que haver com o Sancto-milagre
+de Santarem.&#8213;Admiravel e graciosa esperteza da regencia
+do Rocio.&#8213;Aaroun-el-Arraschid: e theoria dos governos
+folgas&otilde;es; os melhores governos
+possiveis.&#8213;Volta o paladio
+scalabitano de Lisboa para Santarem.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Inclin&aacute;mos o nosso caminho para a esquerda,
+e fomos passar deante do arrendado e elegante
+frontispicio gothico da Gra&ccedil;a. A ausencia
+de n&atilde;o sei que regedor, ou insignificante personagem
+<span class="pagenum">[112]</span>
+que n&atilde;o respeita os templos, os monumentos de
+de egual importancia que tem as chaves
+da egreja e convento, nos fez perder toda a
+esperan&ccedil;a de visitar a sepultura de Pedr'alvares
+Cabral que alli jaz, assim como outras bellas e
+interessantes antiguidades de n&atilde;o menor pre&ccedil;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fomos seguindo at&eacute; casa do bar&atilde;o d'A., outro
+illegitimo, porque n&atilde;o pertence aos bar&otilde;es
+assignalados
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Que, sem passar al&eacute;m da
+Taprobana,<br />
+
+
+No velho Portugal edificaram<br />
+
+
+Novo reino que tanto sublimaram.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+Incontr&aacute;mo-lo prompto a accompanhar-nos, e a
+presidir, como juiz da irmandade que &eacute;, &aacute; grande
+cerimonia da exposi&ccedil;&atilde;o e ostens&atilde;o do
+Sancto-milagre.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Junctos desc&eacute;mos &aacute; egreja; que &eacute;
+perto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A egreja pequena e do peior g&ocirc;sto moderno por
+dentro e por f&oacute;ra. Notavel n&atilde;o tem nada se
+n&atilde;o uns
+quatro medalh&otilde;es de pedra lavrada com bustos de
+homens e mulheres em rel&ecirc;vo q
+A egreja pequena e do peior g&ocirc;sto moderno por
+dentro e por f&oacute;ra. Notavel n&atilde;o tem nada se
+n&atilde;o uns
+quatro medalh&otilde;es de pedra lavrada com bustos de
+homens e mulheres em rel&ecirc;vo que visivelmente
+pertenceram a edifica&ccedil;&atilde;o antiga, e que
+actualmente
+<span class="pagenum">[113]</span>
+est&atilde;o incrustados na tosca alvenaria do cruzeiro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os bustos s&atilde;o de puro e finissimo lavor gothico,
+altos de rel&ecirc;vo e desenhados com uma
+franqueza que se n&atilde;o incontra em esculpturas
+muito posteriores.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+S&atilde;o talvez reliquias da primitiva egreja do
+Sancto-milagre que nas successivas reedifica&ccedil;&otilde;es
+se teem ido conservando. Aben&ccedil;oado seja o escrupuloso
+que as salvou d'este &uacute;ltimo
+<em>melhoramento</em>
+que houve no desgra&ccedil;ado e desgra&ccedil;ioso templo:
+o que n&atilde;o foi ha muitos annos por certo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chamo gothico ao lavor d'aquellas cabe&ccedil;as por
+que &eacute; a phrase vulgar e impropria usada de toda
+a gente: segundo ja observei n'outra parte, com
+mais exac&ccedil;&atilde;o se dev&ecirc;ra dizer mosarabe.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chegou o prior, o Sr. juiz deu as suas ordens,
+vieram uns poucos de irm&atilde;os com tochas, distribuiram-nos
+a cada um de n&oacute;s a sua, e processionalmente
+nos dirigimos &aacute; porta lateral do
+altar-mor, da qual se sobe, por uma escada ass&aacute;s
+larga e commoda, &aacute; especie de camarim
+<span class="pagenum">[114]</span>
+que est&aacute; parallelo com o mais alto do throno
+em que perpetuamente se conserva o grande
+paladio santareno.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Subimos, accompanhados do prior em sobrepeliz
+e estola; chegados ao alto, ajoelh&aacute;mos em roda d'elle
+que subiu a uns degrausinhos, abriu, com a chave
+dourada que trazia pendente ao pescosso, uma
+como porta de sacrario, depois ajoelhou, incensou,
+tornou a ajoelhar, disse alguns versetos a
+que respondeu o sacrist&atilde;o, e finalmente tirou de
+seu repositorio uma especie de ambula de ouro
+de f&aacute;brica antiga, mas n&atilde;o mais antiga que o
+decimo sexto, ou decimo quinto seculo, quando
+muito.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Depois de nos inclinarmos e receber a ben&ccedil;am
+que o padre nos deitou com a reliquia, foi-nos
+permittido erguer-nos, e chegar perto para ver
+e observar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados
+se descobre comeffeito o pequeno vulto
+amarellado-escuro que piedosamente se cr&ecirc; ser
+o resto da particula consagrada qu
+Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados
+se descobre comeffeito o pequeno vulto
+amarellado-escuro que piedosamente se cr&ecirc; ser
+o resto da particula consagrada que a judia roub&aacute;ra
+para seus feiti&ccedil;os.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[115]</span>
+Escuso contar a historia do Sancto-milagre de
+Santarem que toda a gente sabe. O bom do
+prior, ex-frade trino gordo e bem conservado,
+n&atilde;o nos perdoou o menor ponto d'ella, que tivemos
+de ouvir com a maior compunc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Incerrada outra vez a ambula com as mesmas
+solemnidades, entr&aacute;mos em conversa&ccedil;&atilde;o
+com o
+prior.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N'aquelle mesmo camarim juncto &aacute; devota
+reliquia se conservaram, por espa&ccedil;o de cinco ou
+seis annos, se bem me recordo do que o bom
+do parocho nos contou, os restos mortaes da
+senhora infanta D. Maria da Assump&ccedil;&atilde;o, que
+fallec&ecirc;ra em Santarem nos ultimos mezes da
+occupa&ccedil;&atilde;o d'aquella villa pelas
+f&ocirc;r&ccedil;as realistas.
+O cadaver, mal imbalsemado e com m&aacute;s drogas,
+foi mettido n'um caix&atilde;o de folha de Flandres.
+Em pouco tempo a corrup&ccedil;&atilde;o estragou e rompeu
+a folha, e uma infec&ccedil;&atilde;o terrivel apestava a
+egreja. Soffreu-se isto annos, representou-se ao
+gov&ecirc;rno por vezes, mas nenhuma
+resolu&ccedil;&atilde;o se
+p&ocirc;de obter. At&eacute; que afinal, declarando o prior
+que, se n&atilde;o mandavam tomar conta d'aquelles
+tristes restos da pobre princeza, elle se via obrigado
+<span class="pagenum">[116]</span>
+a mett&ecirc;-los na terra, foi-lhe respondido
+que fizesse como intendesse; e elle intendeu
+que os devia sepultar no cruzeiro da
+egreja, como fez, do lado da epistola, isto &eacute;,
+&aacute; direita.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E ahi jaz em sepultura raza, sem mais distinc&ccedil;&atilde;o
+nem epitaphio, a muito alta e poderosa
+princeza D. Maria, filha do muito alto e poderoso
+principe D. Jo&atilde;o o VI, rei de Portugal,
+imperador do Brazil, e da conquista e navega&ccedil;&atilde;o
+etc.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim &eacute; o mundo, as suas grandezas e as
+suas gl&oacute;rias!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A visita ao Sancto-milagre n&atilde;o &eacute; completa
+sem se ir ver a casa onde elle se operou. Conservou-se
+ella por alguns seculos em grande venera&ccedil;&atilde;o,
+e em mil seiscentos e tantos se converteu
+porfim em capella. Hoje est&aacute; abandonada,
+chove em toda ella, e apenas tem uma m&aacute; porta
+que a defende das incurs&otilde;es dos animaes. Pena
+e desleixo grande, porque &eacute; elegante e graciosa
+a capellinha, lavrada de bons marmores,
+no melhor g&ocirc;sto do decimo-sexto seculo, de
+renascen&ccedil;a ja muito adiantada no classico: &eacute;
+<span class="pagenum">[117]</span>
+um verdadeiro typo do stylo philippino, que
+tanto predomina n'essa epocha em toda a peninsula.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A historia do Sancto-milagre de Santarem muitas
+vezes tem andado ligada com a historia do
+reino; e ja n'este seculo, no tempo da guerra da
+independencia, veio prender com um dos factos
+mais importantes, e tambem com a mais curiosa
+e comica aventura de que em Lisboa ha memoria.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Alludo nada menos que ao 'homem das botas.'
+E perdoem-me as senhoras beatas a irreverencia
+apparente, que bem sabem n&atilde;o ser eu de motejar
+com as coisas s&eacute;rias e sanctas. Mas o facto
+&eacute; que a historia do Sancto-milagre est&aacute; ligada
+com a c&eacute;lebre historia do 'homem das botas.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Saiba pois o leitor contemporaneo, e saiba a
+posteridade, para cuja instruc&ccedil;&atilde;o principalmente
+escrevo este douto livro, que pela invas&atilde;o de
+Massena, o grande paladio scalabitano foi mandado
+recolher a Lisboa, e ahi se conservou alguns
+annos at&eacute; muito depois da completa retirada dos
+francezes.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p118">[118]</a></span>
+Passado todo o perigo de que o ex&eacute;rcito invasor
+roubasse&#8213;ou profanasse&#8213;que era o mais
+provavel&#8213;a sancta reliquia, come&ccedil;ou a reclam&aacute;-la
+o senado e povo santareno, e a mostrar
+muito pouca vontade de lh'a restituir o senado e
+povo ulyssiponense. Era uma quest&atilde;o d'entre Alba
+e Roma que dava serio cuidado aos reflectidos
+Numas da regencia do Rocio.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em poucas preplexidades tam graves se viu
+<a href="#e10">aquelle</a> pobre
+gov&ecirc;rno que tantas teve, e de
+quasi
+todas se sahiu tam mal.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o assim d'esta, que a evitou com o mais
+inesperado e admiravel stratagema, <a href="#e11">digno
+de
+ornar</a> os maravilhosos fastos do grande Aaroun
+el-Raschid, ou de qualquer outro principe de
+bom humor, d'esses poucos felizes que em felizes
+tempos reinaram a brincar, e zombaram com
+o seu povo, mas fazendo-o rir.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pois, senhores, apertada se via a regencia
+d'estes reinos com a restitui&ccedil;&atilde;o do
+Sancto-milagre
+que era de justi&ccedil;a fazer-se a Santarem, mas
+que Lisboa recusava, e amea&ccedil;ava impedir. Temia-se
+albor&ocirc;to no povo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p119">[119]</a></span>
+N&atilde;o sei de quem foi o alvitre, mas foi de magan&atilde;o
+de bom g&ocirc;sto; e bom g&ocirc;sto teve tambem o
+gov&ecirc;rno em o acceitar e approveitar. Para o dia em
+que o Sancto-milagre devia sahir de <a href="#e12">Lisboa
+Tejo</a>
+acima, e que se esperava fosse com grande solemnidade
+e pompa ecclesiastica,&#8213;fez-se annunciar
+por cartazes que um fulano de tal passaria
+o rio, de Lisboa a Almada, em umas botas
+de corti&ccedil;a nas quaes se teria direito e inchuto,
+navegando a p&eacute; sem mais embarca&ccedil;&atilde;o,
+vela nem
+remo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A logra&ccedil;&atilde;o era gorda e grande; melhor e mais
+depressa foi ingullida. No dia apprazado despovoou-se
+a capital, e uns em barcos outros por navios,
+outros por essas praias abaixo, tudo se encheu
+de gente de todas as classes, e todos passaram
+o melhor do dia &aacute; espera do homem das botas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+No emtanto, muito surrateiramente imbarcava
+o Sancto-milagre no seu barco de agua-arriba,
+e navegava com vento e mar&eacute; para as ditosas
+ribeiras de Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ninguem o viu sahir, nem soube novas d'elle
+em Lisboa sen&atilde;o quando constou da sua chegada
+<span class="pagenum">[120]</span>
+a Santarem, e das grandes festas que lhe fizeram
+aquelles saudosos e devotos povos ribatejanos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os Aarouns-el-Raschids do Rocio riram de
+soccapa: e nunca tam innocentemente se riu gov&ecirc;rno
+algum de ter inganado o povo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&oacute;s celebr&aacute;mos a historia como ella merecia,
+e fomos jantar &aacute; Alca&ccedil;ova, para irmos de tarde
+ver a Ribeira, e procurar os vestigios do seu inclyto
+alfageme.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c13"></a>CAPITULO XXXVIII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Jantar nos reaes pa&ccedil;os de
+Affonso
+Henriques.&#8213;Saut&eacute;s e salmis.&#8213;Desce
+o A. &aacute; Ribeira de Santarem em busca da tenda
+do Alfageme.&#8213;A espada do Condestavel.&#8213;Desappontamento.&#8213;O
+sal&atilde;o elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas.
+Os fosseis.&#8213;Tudo melhor quando visto de longe.&#8213;O
+baile p&uacute;blico.&#8213;Soir&eacute;e de piano
+obrigado.&#8213;Theatro.
+Desafina&ccedil;&otilde;es da prima-dona. Syphlis incuravel das
+traduc&ccedil;&otilde;es.
+Destemp&ecirc;ro dos originaes.&#8213;A x&aacute;cara de rigor, o
+subterraneo e o cemiterio.&#8213;Sublime gallimathias do ridiculo.&#8213;A
+bella e necessaria palavra 'gallimathias.'&#8213;Se as
+saudades matam.&#8213;Perigo de applicar o scalpello ou a lente
+ao mais perfeito das coisas humanas.&#8213;De como a logica
+&eacute; a mais perniciosa de todas as incoherencias.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esperava-nos comeffeito em casa do nosso bom
+h&oacute;spede, nos regios pa&ccedil;os de Affonso Henriques,
+um esplendido jantar a que assistiram
+quasi todos os cavalheiros da terra.&#8213;N&atilde;o quero
+<span class="pagenum">[122]</span>
+dizer as notabilidades, por ser palavra peralvilha
+a que tenho invencivel zanga.&#8213;As iguarias
+de leg&iacute;tima eschola portugueza, n&atilde;o menos
+saborosas e delicadas por apparecerem estremes
+de <em>saut&eacute;s e salmis</em>
+extrangeirados. Brilharam s&ocirc;bre
+tudo os productos das duas grandes vendimas
+rivaes, do Ribatejo e Ribadouro. Foi largo
+e alegre o jantar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acab&aacute;mos tarde, mont&aacute;mos logo a cavallo,
+e pela porta de Atamarma
+desc&eacute;mos &aacute; Ribeira;
+era quasi sol p&ocirc;sto quando la cheg&aacute;mos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; o suburbio democratico da nobre villa, hoje
+o ricco e o forte d'ella. Faz lembrar aquellas aldeas
+que se criaram &aacute; sombra dos castellos feudaes
+e que, libertas, depois, da oppressora protec&ccedil;&atilde;o,
+cresceram e ingrossaram em substancia
+e f&ocirc;r&ccedil;a: o castello, esse est&aacute; vazio e
+em ruinas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por aqui se faz quasi todo o commercio da Extremadura
+e Beira com o Alemtejo. Os habitantes
+laboriosos e activos conservam os antigos brios e
+independencia do character primitivo: &eacute; a unica
+parte viva de Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p123">[123]</a></span>
+Cruz&aacute;mos a povoa&ccedil;&atilde;o em todos os
+sentidos,
+procurando rastrear algum vestigio, <a href="#e13">confrontar
+algum</a> s&iacute;tio onde podessemos collocar, pela mais
+atrevida supposi&ccedil;&atilde;o que fosse, a tenda do nosso
+alfageme
+com as suas espadas bem 'corregidas', as suas
+armaduras luzentes e bem postas&#8213;e o joven
+Nun'alvares passeando alli por p&eacute;, ao longo do
+rio&#8213;como diz a chronica&#8213;namorado d'aquella
+perfei&ccedil;&atilde;o de trabalho, e dando a 'correger'
+a bella espada velha de seu pae ao rustico propheta
+que tantos vaticinios de grandeza lhe fez,
+que o saudou condestavel, conde d'Ourem e salvador
+da sua patria.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nada pod&eacute;mos descubrir com que a
+imagina&ccedil;&atilde;o
+se illudisse siquer, que nos d&eacute;sse, com
+mais ou menos anachronismo, uma leve base tamsomente
+para reconstruirmos a gothica morada do
+c&eacute;lebre cutileiro-propheta que a historia herdou
+das chronicas romanescas, e hoje o romance outra
+vez reclama da historia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em Santarem ha poucas casas particulares que
+se possam dizer verdadeiramente antigas; na Ribeira,
+nenhuma. As implastagens e replastagens
+successivas teem anachronizado tudo. &Eacute; uma <a name="n7"></a>feliz
+<span class="pagenum">[124]</span>
+express&atilde;o do Sr. Conde de Raczinski bem applicada
+por elle ao estado de quasi todos os nossos
+monumentos, &eacute;sta de anachronismo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas alli, na villa alta ou Marvilla, no Santarem
+propriamente ditto, ha os templos, os conventos,
+a c&ecirc;rca das muralhas que todavia conservam
+a physionomia historica da terra; aqui
+nem isso ha.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Voltei completamente desappontado da Ribeira,
+isto &eacute;, da sua pedra e cal: g&oacute;sto immenso
+da sua gente.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Outra surpreza de mui differente genero nos
+esperava &aacute; noite em Marvilla, no elegante sal&atilde;o
+da B. d'A. com quem fomos tomar cha.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em meio das ruinas e desconf&ocirc;rto d'aquelles
+desertos e mortos pardeiros circumstantes, ir incontrar
+uma casa em plena florescencia de civiliza&ccedil;&atilde;o
+e de vida; ver a amabilidade e a elegancia
+fazendo graciosamente as honras d'ella&#8213;por
+mais que se devesse esperar&#8213;sempre espanta &aacute;
+primeira vista: parecia golpe de varinha de cond&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[125]</span>
+Em tam agradavel e joven companhia todas as
+ideas archeologicas se desvaneceram, apezar de
+dous ou tres fosseis que alli appareciam para se
+n&atilde;o perder detodo a c&ocirc;r local talvez.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Largamente se conversou, de Lisboa principalmente,
+dos nossos mutuos amigos, das festas do
+&uacute;ltimo hynverno, das probabilidades que se deviam
+esperar do futuro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ralh&aacute;mos muito da sociedade portugueza; exalt&aacute;mos
+Par&iacute;s e Londres e n&atilde;o sei se Pekim e Nankim
+tambem, e concluimos que antes Timbokotuo
+do que a seccante capital do nosso pobre reino.
+E comtudo estavamos com saudades d'ella;
+e concess&atilde;o d'aqui, concess&atilde;o d'alli, viemos a
+que n&atilde;o era tam m&aacute; terra como isso.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Admiravel condic&ccedil;&atilde;o da natureza humana, que
+tudo nos parece melhor e menos feio quando visto
+de longe!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O baile p&uacute;blico mais semsabor, detestavel de
+barulho e confus&atilde;o, em que, para repousar os
+olhos n'um rosto conhecido e agradavel, foi preciso
+furar por entre centenas de cotovellos barbaros
+<span class="pagenum">[126]</span>
+que se n&atilde;o sabe d'onde vieram, levar desalmadas
+pisadellas do dan&ccedil;ante novi&ccedil;o, do deputado
+recemchegado, e das botas novas do novo
+director da Galocha&#8213;e, mais horrivel que
+tudo! ver as absurdas toiletes, os penteados fabulosos,
+as caras incriveis e as antidiluvianas figuras
+de tanta mulher feia e desastrada... pois
+esse mesmo baile, quando ja n&atilde;o &eacute;
+sen&atilde;o reminiscencia
+que acorda no meio do infado ronceiro
+de uma terra de provincia, parece outro. As luzes,
+as flores, a musica, toda aquella anima&ccedil;&atilde;o
+lembra com prazer, o mais esquece, e involuntariamente
+se descai um pobre homem a suspirar
+por elle.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A soir&eacute;e mais massante, de piano obrigado,
+com dueto das manas, polka das primas e casino
+das tias velhas&#8213;recordada em eguaes circumstancias,
+tambem ja n&atilde;o accode &aacute; memoria
+sen&atilde;o como uma reuni&atilde;o escolhida e
+&iacute;ntima, de
+facil e doce tracto... oh! o verdadeiro prazer da
+sociedade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pois o theatro... Que se lembre alguem, na
+provincia, dos martyrios que soffreu o ouvido com
+os berros da prima-dona, as desafina&ccedil;&otilde;es do
+tenor,
+<span class="pagenum">[127]</span>
+ou com o infadonho resonar
+d'aquella adormecida
+orchestra de San'Carlos!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A injoativa traduc&ccedil;&atilde;o de uma comedia da
+Rua-dos-condes,
+ro&iacute;da de incuravel syphilis, figura-se
+avelludada de todas as gra&ccedil;as do stylo de Scribe.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E o destemp&ecirc;ro original de um drama plusquam
+romantico, laureado das imarcessiveis palmas
+do Conservatorio para eterno abrimento das
+nossas b&ocirc;ccas! L&aacute; de longe applaude-o a gente
+com furor, e esquece-se que fummou todo o
+primeiro acto ca f&oacute;ra, que dormiu no segundo,
+e conversou nos outros, at&eacute; &aacute; infallivel scena
+da xacara, do subterraneo, do cemiterio, ou
+quejanda, em que a dama, soltos os cabellos e
+em penteador branco, indoudece de rigor,&#8213;o
+gallan, passando a m&atilde;o pela testa, tira do
+profundo thorax os tres <em>ahs!</em> do
+stylo, e promette
+matar seu proprio pae que lhe appare&ccedil;a&#8213;<a name="n8"></a>o
+centro perde o centro de gravidade, o barbas
+arrepella as barbas... e maldic&ccedil;&atilde;o,
+maldic&ccedil;&atilde;o,
+inferno!... 'Ah mulher indigna, tu n&atilde;o sabes
+que n'este peito ha um cora&ccedil;&atilde;o, que d'este
+cora&ccedil;&atilde;o
+sahem umas arterias, d'estas arterias
+umas veias&#8213;e que n'estas veias corre sangue...
+<span class="pagenum">[128]</span>
+sangue, sangue! Eu quero sangue, porque
+eu tenho s&ecirc;de, e &eacute; de sangue... Ah!
+pois tu cuidavas? Ajoelha, mulher, que te
+quero matar... esquartejar, chacinar!'&#8213;E a
+mulher ajoelha, e n&atilde;o ha remedio sen&atilde;o
+applaudir...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E applaude-se sempre.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E n&atilde;o &eacute; de mim que fallo, que eu g&oacute;sto
+d'isto: os outros &eacute; que se infastiam e cansam de
+tanta barafusta, sempre a mesma...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas emfim o que digo &eacute; que na provincia
+n&atilde;o ha tal fastio, que esquece a canceira, e que
+nem o sublime gallimathias do ridiculo d'alli se
+percebe.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pe&ccedil;o aos illustres puritanos que, &aacute;
+f&ocirc;r&ccedil;a de
+sublimado quinhentista, tem conseguido levar a
+lingua &aacute; decrepitude para a curar de suas infermidades
+francezas, pe&ccedil;o-lhes que me perdoem o
+<em>gallimathias</em>, porque elle
+&eacute; muito mais portuguez
+que outra coisa. A c&eacute;lebre ora&ccedil;&atilde;o
+<em>pro gallo Mathiae</em>
+deu origem a &eacute;sta bella e ex
+deu origem a &eacute;sta bella e expressiva palavra,
+que sim foi procreada em francez, mas hoje
+<span class="pagenum">[129]</span>
+precis&acirc;mos ca muito mais d'ella que em parte
+nenhuma.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Volto ja da digress&atilde;o philologica: tornemos
+&aacute; optica e &aacute; catoptrica.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Grande coisa &eacute; a distancia!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E dizem que saudades que matam! Saudades
+d&atilde;o vida; s&atilde;o a salva&ccedil;&atilde;o de
+muita coisa que,
+em seu pleno g&ocirc;so e posse pac&iacute;fica,
+pereceria
+de inani&ccedil;&atilde;o ou morreria da oppressora molestia
+da saciedade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por isso eu n&atilde;o g&oacute;sto de metter o scalpello no
+mais perfeito da construc&ccedil;&atilde;o humana, nem de
+applicar a lente ao mais fino e delicado do seu
+funccionar...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vamos usando d'estas palavras que herd&aacute;mos,
+sem metter louvados na heran&ccedil;a; n&atilde;o succeda
+descobrirmos que estamos mais pobres do que
+se cuidava... vamos repetindo &eacute;stas phrases que
+nos formularam nossos antepassados sem as analysar
+com muito rigor; n&atilde;o succeda vermos claro
+demais que temos passado a vida a mentir...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[130]</span>
+Detesto a philosophia, detesto a raz&atilde;o; e sinceramente
+creio que n'um mundo tam desconchavado
+como este, n'uma sociedade tam falsa,
+n'uma vida tam absurda como a que nos fazem
+as leis, os costumes, as institui&ccedil;&otilde;es, as
+conveniencias
+d'ella, affectar nas palavras a exactid&atilde;o,
+a logica, a rectid&atilde;o que n&atilde;o ha nas coisas,
+&eacute; a
+maior e mais perniciosa de todas as incoherencias.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o fallemos mais n'isto, que faz mal, e acabemos
+aqui este cap&iacute;tulo.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c14"></a>CAPITULO XXXIX.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Processo de scepticismo em que
+est&aacute; o auctor.&#8213;Moralistas de
+<em>requiem</em>.&#8213;O maior sonho d'esta vida,
+a logica.&#8213;Differen&ccedil;a
+do poeta ao philosopho.&#8213;O cora&ccedil;&atilde;o de Horacio.&#8213;O
+collegio de Santarem.&#8213;Jesuitas e templarios.&#8213;O alliado
+natural dos reis.&#8213;'Ficar na gazeta' phrase muito mais
+exacta hoje do que 'Ficar no tinteiro.'&#8213;San'Frei Gil e o
+Doutor Fausto.&#8213;De como o A. foi ao tumulo do sancto
+bruxo e o achou vazio.&#8213;Quem o roubaria?
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O final do cap&iacute;tulo antecedente &eacute;, bem o
+sei, um terrivel documento para este processo
+de scepticismo em que me mandaram metter certos
+moralistas de <em>requiem</em> de quem tenho
+a audacia
+<span class="pagenum">[132]</span>
+de me rir, d'elles e da sua querella e do
+seu processo, protestando n&atilde;o me aggravar nem
+appellar, nem por nenhum modo recorrer da
+mirifica senten&ccedil;a que suas excellentissimas hypocrisias
+se dignarem proferir contra mim.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Feita &eacute;sta declara&ccedil;&atilde;o solemne,
+procedamos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E quanto a ti, leitor benevolo, a quem so
+desejo dar satisfa&ccedil;&atilde;o, a ti, se ainda te cansas
+com essas chymeras, dou-te de conselho que voltes
+a pagina obnoxia, porque essas reflex&otilde;es do
+&uacute;ltimo cap&iacute;tulo s&atilde;o tam deslocadas no
+meu livro
+como tudo o mais n'este mundo. Dorme pois, e
+n&atilde;o despertes do bello-ideal da tua logica.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; uma descuberta minha de que estou vaidoso
+e presumido, &eacute;sta de ser a logica e a
+exac&ccedil;&atilde;o
+nas coisas da vida muito mais sonho e muito mais
+ideal do que o mais phantastico sonho e o mais
+requintado ideal da poesia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; que os philosophos s&atilde;o muito mais loucos
+do que os poetas; e de mais a mais, tontos: o
+que est'outros n&atilde;o s&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[133]</span>
+Voltemos, voltemos a pagina comeffeito, que
+&eacute; melhor.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Amanheceu hoje um bello dia, puro e sublime.
+Dorme nas cavernas do padre Eolo aquelle
+vento s&ecirc;cco e duro, flagello dos estios portuguezes.
+Suspira no ar uma vira&ccedil;&atilde;o branda e suave
+que regenera e d&aacute; vida. Mal impregado dia para
+o passar a ver ruinas! No seio da sempre joven
+natureza, sob a remo&ccedil;ada espessura das &aacute;rvores,
+s&ocirc;bre a alcatifa sempre renovada das grammas
+verdes e variegadas boninas, queria eu que me
+corresse este dia em ocio bemaventurado de corpo
+e d'alma, sentindo pulsar lento e compassado
+o cora&ccedil;&atilde;o livre e s&ocirc;lto de todo
+impenho, o verdadeiro
+cora&ccedil;&atilde;o de Horacio,
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">
+Solutus omni foenore!
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+Tom&aacute;ra-me eu no valle outra vez, com a irman
+Francisca a dobar &aacute; porta, a nossa Joanninha
+a deslindar-lhe a meada; e embora venha
+o terrivel spectro de Fr. Diniz projectar sua funesta
+e tragica sombra no idilio d'este quadro
+suave, que n&atilde;o p&oacute;de destruir-lhe toda a amenidade
+bucolica, por mais que fa&ccedil;a.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[134]</span>
+L&aacute; voltaremos ao nosso valle, amigo leitor,
+e l&aacute; concluiremos, como &eacute; de
+raz&atilde;o, a historia
+da menina dos rouxinoes. Por agora almocemos,
+que &eacute; tarde, e terminemos os nossos estudos
+archeologicos em Marvilla de Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+C&aacute; estamos no Collegio, ed&iacute;ficio grandioso,
+vasto, magn&iacute;fico, propria
+habita&ccedil;&atilde;o da
+companhia&#8213;rei
+que o mandou construir para educar os
+infantes seus filhos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Creio que &eacute;sta e a de Coimbra eram as duas
+principaes casas que para isto tinham os Jesuitas
+em Portugal.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Foram os templarios dos seculos modernos,
+os Jesuitas. A potencia formidavel e quasi r&eacute;gia
+que aquelles levantaram com a espada, tinham
+estes fundado com a doutrina. Riquezas, pod&ecirc;r,
+influencia, uns e outros as tiveram com applauso
+e acquiescencia geral; uns e outros as perderam
+do mesmo modo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Extinctas e perseguidas, ambas as ordens renasceram
+no mysterio, e se converteram em associa&ccedil;&otilde;es
+secretas para conspirarem; ambas tomaram
+<span class="pagenum">[135]</span>
+diversos nomes e variadas m&aacute;scaras para
+o fazerem mais seguramente.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ambas em v&atilde;o!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O predominio, crescente ha seculos, do elemento
+democratico annulla todas essas conspira&ccedil;&otilde;es.
+Sos e sem elle, os reis tinham succumbido...
+&Eacute; a alliada natural dos reis a democracia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O edificio do Collegio &eacute; todo philippino, ja
+o disse: a egreja dos mais bellos specimens d'esse
+stylo, que em geral s&ecirc;cco, duro e sem poesia,
+n&atilde;o deixa comtudo de ser grandioso.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Aqui esteve depois muitos annos o seminario patriarchal,
+cujas aulas frequentava a mocidade do
+districto. Hoje leem-se alli outras palestras da
+cathedra administrativa. &Eacute; a s&eacute;de do
+gov&ecirc;rno
+civil chamado: corrumper a moral do povo, sophismar
+o systema representativo &eacute; o thema das
+lic&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Todo outro insino se tirou de Santarem. Falla-se
+n'um liceu e n&atilde;o sei em que mais 'que ficou
+na gazetta:' phrase portugueza moderna que
+<span class="pagenum">[136]</span>
+deve supprir a antiga e antiquada de&#8213;'ficou
+no tinteiro'&#8213;por muitas raz&otilde;es, at&eacute; porque
+hoje n&atilde;o fica nada no tinteiro sen&atilde;o o senso
+commum,
+tudo o mais de l&aacute; sai, tudo. E muitas
+gra&ccedil;as a Deus quando n&atilde;o passa &aacute;s
+ballas do
+impressor para dar a volta do mundo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Santarem &eacute; das terras de Portugal a melhor situada
+e qualificada para um grande estabelecimento
+de instruc&ccedil;&atilde;o e de educa&ccedil;&atilde;o
+p&uacute;blica. Porque
+n&atilde;o hade estar aqui o Collegio-militar ou a Casa-pia,
+ou outra grande eschola, seja qual for?
+Porque hade ser &eacute;sta centraliza&ccedil;&atilde;o
+d'insino em
+Lisboa? Em que se funda um privilegio dado
+&aacute; capital em prejuizo e &aacute; custa das provincias?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sahimos do Collegio, fomos direitos a San'Domingos,
+um dos mais antigos estabelecimentos
+monasticos do reino e que eu tanto desejava
+visitar. N&atilde;o sei descrever o que senti quando a
+inferrujada chave deu a volta na porta da egreja
+e o velho templo se patenteiou aos nossos olhos.
+Acab&aacute;ra de servir, n&atilde;o imaginam de
+qu&ecirc;... de
+palheiro!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A derradeira camada de palha que apodrec&ecirc;ra,
+<span class="pagenum">[137]</span>
+adheria ainda ao lagedo humido, e exhalava
+um forte vapor mephitico que nos suffocava.
+Mal pod&eacute;mos ver os tumulos dos Docems e tantos
+outros interessantes monumentos que abundam
+na parte superior do templo. A inferior, ou corpo
+da egreja como dizem, &eacute; de um miseravel e
+moderno anachronismo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Respirando a custo aquelle ar infecto, todo o
+tempo que lhe pudesse resistir, quiz approveit&aacute;-lo
+em examinar a principal e mais interessante
+reliquia da profanada egreja&#8213;a capella e
+jazigo do grande bruxo e grande santo, San'Frei-Gil.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Algures lhe chamei ja o nosso Doutor Fausto:
+e &eacute; comeffeito. N&atilde;o lhe falta sen&atilde;o o
+seu Goethe.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Vixere fortes ante Agamemnona multi.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+Houve fortes homens antes de Agamemn&atilde;o, e
+fortes bruxos antes e depois do Doutor Fausto.
+Mas sem Homero ou Goethe &eacute; que se n&atilde;o chega
+&aacute; reputa&ccedil;&atilde;o e fama que alcansaram
+aquelles senhores.
+N&oacute;s precis&acirc;mos de quem nos cante as admiraveis
+<span class="pagenum"><a name="p138">[138]</a></span>
+luctas&#8213;ora comicas, ora tremendas&#8213;do
+nosso Frei Gil de Santarem com o diabo. O
+que eu fiz na 'Dona Branca' &eacute; pouco e mal
+esbo&ccedil;ado
+&aacute; pressa. O grande mago lusitano n&atilde;o apparece
+alli sen&atilde;o episodicamente; e &eacute; necessario
+que appare&ccedil;a como protagonista de uma grande
+ac&ccedil;&atilde;o, pintado em corpo inteiro, na primeira
+luz, em toda a luz do quadro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ent&atilde;o o seu ardente e anciado desejo de saber,
+os seus vastos estudos, os reconditos mysterios da
+natureza que descobriu at&eacute; penetrar no mundo
+invisivel&#8213;a s&ecirc;de de oiro, de prazer e de pod&ecirc;r
+que o perseguia e o fez cahir nas garras do
+espirito maligno&#8213;o fastio e saciedade que o
+desincantaram depois&#8213;o seu arrependimento emfim,
+e a regenera&ccedil;&atilde;o de sua alma pela penitencia,
+pela ora&ccedil;&atilde;o e pelo despr&ecirc;zo da van
+sciencia
+humana&#8213;ent&atilde;o essas variadas phases de uma
+<a href="#e14">existencia</a> tam extraordinaria,
+tam poetica, devem
+mostrar-se como ainda n&atilde;o foram vistas,
+porque ainda n&atilde;o olhou para ellas ninguem com
+os olhos de grande moralista e de grande poeta
+que s&atilde;o precisos para as observar e intender.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Lembra-me que sempre entrevi isto desde pequeno,
+<span class="pagenum">[139]</span>
+quando me faziam ler a historia de San'Domingos,
+tam rabujenta e semsabor &aacute;s vezes, apezar
+do incantado stylo do nosso melhor prosador;
+e que eu deixava os outros capitulos para ler e
+reler somente as aventuras do sancto feiticeiro
+que tanto me interessavam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Com todas &eacute;stas reminiscencias que me reviviam
+n'alma, com os admiraveis versos do Fausto
+a acudir-me &aacute; memoria, e com uma infinidade
+de associa&ccedil;&otilde;es que essas ideas me traziam,
+caminhei direito &aacute; capella do sancto, cheio de
+alvor&ocirc;&ccedil;o,
+e como tocado, para assim dizer, de sua
+magica vara de cond&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A capella&#8213;oh desappontamento! a cappella
+de San'Frei Gil &eacute; um mesquinho rifacimento moderno,
+do lado esquerdo da egreja, sem nenhum
+vestigio de antiguidade, nenhum ornato characteristico,
+pesada, grosseira&#8213;velha sem ser antiga&#8213;um
+verdadeiro non-descriptum de mau
+g&ocirc;sto e semsaboria. Quem tal dissera?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O tumulo do sancto est&aacute; elevado do altar
+n'uma especie de mau throno. Subi acima da
+<span class="pagenum">[140]</span>
+degradada e profanada credencia para o examinar
+deperto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; de pedra o jazigo; mas ultimamente ve-se
+que tinham pintado a pedra; n&atilde;o tem lavor algum.&#8213;E
+estava vazio, a loisa levantada e
+quebrada!..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quem me roubou o meu sancto?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quem foi o anathema que se atreveu a tal sacrilegio?..<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c15"></a>CAPITULO XL.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">As Claras.&#8213;Aventura nocturna.&#8213;Se as
+freiras mettem medo
+aos liberaes?&#8213;O Psalmo.&#8213;Tres frades.&#8213;Pr&aacute;ctica do
+franciscano.&#8213;O
+corpo de San' Fr. Gil.&#8213;Que se hade fazer
+das freiras?&#8213;Mal do gov&ecirc;rno que deixar comer mais aos
+bar&otilde;es.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Egrave;ra de noite, reinava a
+confus&atilde;o, a desordem,
+o susto e a anciedade nos muros de
+Santarem, tres homens chegavam, por horas
+mortas, ao antigo mosteiro das Claras, davam
+<span class="pagenum">[142]</span>
+&aacute; portaria um signal surdo e mysterioso; respondiam-lhe
+de dentro com outro egual; e d'ahi
+a pouco, sem rumor e com as mais escrupulosas
+precau&ccedil;&otilde;es se abria quietamente a porta da
+clausura.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os tres homens entraram, a porta fechou-se
+s&ocirc;bre elles do mesmo modo precatado.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que ser&aacute;?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os homens levavam uma especie de cofre que
+parecia conter preciosidades de grande valor: tal
+era o desvello com que o resguardavam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ha um mysterio que se figura criminoso n'esta
+aventura. Mas os tempos s&atilde;o para tudo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era no anno de 1834.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Entremos n'esse convento das pobres Claras,
+tam afflictas e desconsoladas agora que as amea&ccedil;am
+de dissolu&ccedil;&atilde;o como aos frades.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o ser&aacute; assim: aquellas
+institui&ccedil;&otilde;es n&atilde;o mettem
+medo aos verdadeiros liberaes, e os outros l&aacute;
+<span class="pagenum">[143]</span>
+teem o espolio dos frades para devorar; est&atilde;o
+entretidos: as freiras salvam-se porora.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Taes eram as esperan&ccedil;as dos tres homens que
+entravam a essas deshoras nos vedados precinctos
+do mosteiro. Sigamo-los por&ecirc;m, que &eacute; tempo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chegavam elles a uma pequena capella do
+claustro das freiras, foram depor s&ocirc;bre o altar o
+cofre que traziam, e ajoelharam devotamente
+deante d'elle. Logo se ouviu ao longe o psalmear
+baixo e sumido de vozes femininas; e d'ahi a
+pouco, toda a communidade das Claras, de tochas
+na m&atilde;o, em duas alas, e a abbadessa com
+o seu baculo atraz, entravam processionalmente
+no claustro e se dirigiam &aacute; mesma capella.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O psalmo que cantavam era este:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<sup><a href="#6">[6]</a></sup> 'Meu
+Deus, vieram os barbaros &aacute;s tuas herdades,
+polluiram o teu sancto templo, pozeram
+Jerusalem como um grannel de fructos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Pozeram os cadaveres de teus filhos de cevo
+<span class="pagenum">[144]</span>
+&aacute;s aves do ceo; as carnes dos teus sanctos &aacute;s
+alimarias da terra.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'O sangue d'elles derramaram-n'o como agua
+nos valles de Jerusalem; ja n&atilde;o havia quem sepultasse.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Estamos feitos o oppr&oacute;brio dos nossos vizinhos;
+o escarneo e a zombaria dos que vivem por nossos
+arredores.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'At&eacute; aonde, &oacute; Senhor, te hasde irar emfim;
+e se hade accender o teu z&ecirc;lo como fogo?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'V&eacute;rte a tua &iacute;ra s&ocirc;bre as
+gentes que te n&atilde;o
+conheceram, contra os reinos que n&atilde;o invocaram
+o teu nome;
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Que devoraram a Jacob; e desolaram suas
+terras.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'N&atilde;o te lembres de nossas iniquidades passadas,
+e depressa nos alcancem as tuas misericordias;
+ja que tam pobres de mais estamos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Ajuda-nos Deus, salvador nosso; e pela gloria
+<span class="pagenum">[145]</span>
+do teu nome livra-nos, Senhor, amercea-te
+de nossos peccados por causa do teu nome.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cantavam assim as pobres das freiras, cantavam
+em latim que ellas mal intendiam; mas
+dizia-lhes o instincto do cora&ccedil;&atilde;o, dizia-lhes a
+tam excitavel imagina&ccedil;&atilde;o feminina, que era
+chegada
+a hora de se cumprir a seus olhos, e s&ocirc;bre
+ellas mesmas tambem, a tremenda prophecia
+do psalmo que intoavam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Havia pois lagrymas n'aquellas vozes que
+assim cantavam, sahiam d'alma aquelles sons e
+n'alma vibravam tambem com profunda e solemne
+melancholia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Chegadas juncto &aacute; capella aonde estava o cofre,
+as freiras pararam conservando as mesmas
+duas alas da prociss&atilde;o e continuando no accentuado
+morm&uacute;rio de seu psalmo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os tres vultos de homem permaneceram de
+joelhos e curvados deante do altar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Findou o psalmo e seguiu-se breve intervallo
+de silencio. Depois, os tres homens levantaram-se,
+<span class="pagenum">[146]</span>
+e cahindo-lhes para os lados as longas
+capas
+em que vinham
+involtos, viu-se que o do meio
+era um frade velho, magro, curvado e s&ecirc;cco,
+trajando ainda, apezar da lei, o burel preto dos
+franciscanos e cingido com sua corda. Os outros
+dous eram dominicos e vestiam de preto e branco
+segundo as c&ocirc;res de seu tambem proscripto instituto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O velho franciscano subiu com passo tr&eacute;mulo
+os degraus do altar, beijou o cofre que estava
+s&ocirc;bre elle, e voltando-se para a communidade
+que o contemplava em religioso silencio, disse
+com uma voz cava que parecia vir do sepulchro
+mas accentuada e forte:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Irmans, vimos intregar-vos este dep&oacute;sito precioso.
+Deus n&atilde;o quer que os cadaveres dos seus
+sanctos fiquem expostos &aacute;s aves do ceo e &aacute;s
+alimarias
+da terra. Este &eacute; o sancto corpo de um
+dos maiores sanctos que produziu &eacute;sta terra de Portugal
+quando era aben&ccedil;oada. Hoje &eacute; malditta e
+n&atilde;o devia conservar as suas reliquias. Os filhos
+de San'Domingos foram expulsos de sua casa, assim
+como n&oacute;s fomos, n&oacute;s os filhos de Francisco,
+incontr&aacute;mo'nos sem tecto nem
+abrigo uns e outros,
+<span class="pagenum">[147]</span>
+e junct&aacute;mos as nossas miserias para as chorarmos
+como irm&atilde;os que somos, como filhos de
+paes que tanto se amaram e ajudaram. Perigrinaremos
+junctos por essas solid&otilde;es da terra, e
+junctos iremos bater por essas portas que cerrou
+a impiedade e a indifferen&ccedil;a, a pedir o p&atilde;o de
+cada dia porque temos fome.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Que importa! n&atilde;o profess&acirc;mos n&oacute;s,
+n&atilde;o nos
+honr&acirc;mos n&oacute;s de ser mendigos? De que
+viv&ecirc;mos
+n&oacute;s sempre sen&atilde;o de esmolla?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'N&atilde;o choreis irmans, n&atilde;o choreis s&ocirc;bre
+n&oacute;s.
+Deus que o permittiu bem sabe o que fez. Louvado
+seja elle sempre! N&oacute;s tinhamos peccados
+para mais! Ainda foi misericordioso comnosco
+o Senhor da justi&ccedil;a e do castigo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'A n&oacute;s tiraram-nos tudo, tudo! At&eacute;
+&eacute;stas mortalhas
+que tinhamos escolhido em vida e que nem
+a morte ousava roubar-nos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'A furto e como quem se esconde para um acto
+criminoso, n&oacute;s as vestimos &eacute;sta noite para
+commetter o que elles chamar&atilde;o um furto, e
+que era uma obriga&ccedil;&atilde;o sagrada nossa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[148]</span>
+'Fomos &aacute; antiga casa de nossos irm&atilde;os e
+roub&aacute;mos o corpo do bemaventurado San'Frei
+Gil.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Aqui vo-lo intreg&acirc;mos; guardae-o. Emquanto
+estes muros estiverem em pe, que o abriguem dos
+desacatos d'essa gente sem Deus nem lei. A v&oacute;s
+n&atilde;o ousar&atilde;o expulsar-vos d'aqui: talvez vos matem
+&aacute; fome... N&atilde;o p&oacute;de ser: Deus
+n&atilde;o hade permitti-lo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+'Mas qualquer que seja a sua vontade, resignae-vos
+a ella, minhas irmans. So elle sabe como
+nos ama e como nos castiga. Louvemo'-lo
+por tudo.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Aqui foi um chorar e um supplicar fervente
+como so se ouve na hora da ang&uacute;stia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+As afflictas monjas, estavam prostradas nas lages
+humidas do claustro, s&ocirc;bre as sepulturas de
+suas irmans, s&ocirc;bre seus proprios jazigos que haviam
+de ser. O frade com os bra&ccedil;os extendidos
+pronunciou as solemnes palavras de ben&ccedil;&atilde;o,
+descrevendo
+com a direita o augusto symbolo da redemp&ccedil;&atilde;o:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[149]</span>
+'Bemdiga-vos Deus omnipotente, Pae, Filho
+e Espirito-sancto!' 'Amen!' respondeu o c&ocirc;ro;
+e os tres proscriptos se retiraram, deixando a
+salvo o seu thesoiro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim desappareceu do tumulo o corpo de
+San'Frei Gil de Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ninguem sab&iacute;a d'elle: soube eu e guardei o
+segredo religiosamente.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os tempos s&atilde;o outros hoje: os liberaes ja conhecem
+que devem ser tolerantes, e que precisam
+de ser religiosos. N&atilde;o ha perigo em dizer-lhe onde
+elle est&aacute;.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando houver em Portugal um gov&ecirc;rno que
+saiba ser gov&ecirc;rno, hade regular e consolidar a
+existencia das freiras, hade approveit&aacute;-la para as
+piedosas institui&ccedil;&otilde;es do insino da mocidade, da
+cura dos infermos, e do amparo dos invalidos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os bar&otilde;es andam-lhe com o cheiro nos poucos
+bens que lhes restam &aacute;s pobres das freiras. Mal
+do gov&ecirc;rno que deixar comer mais aos bar&otilde;es!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c16"></a>CAPITULO XLI.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">
+O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta
+perspicacia
+do leitor benevolo.&#8213;Grande lacuna na nossa historia.&#8213;Porque
+se n&atilde;o preenche?&#8213;P&aacute;gina preta na historia
+de Tristam Shandy.&#8213;Novellas e romances, livros insignificantes.&#8213;O
+adro de San'Francisco e as suas acacias.&#8213;Que
+ser&aacute; feito de Joanninha?&#8213;O peito da mulher do norte.&#8213;Vamos
+embora: ja me infada Santarem e as suas ruinas.&#8213;A
+corneta do soldado e a trombeta do juizo final.&#8213;Eheu,
+Portugal, eheu!
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Porcerto, leitor amigo, no franciscano velho
+que vai de noite roubar os ossos do sancto
+ao seu tum
+Porcerto, leitor amigo, no franciscano velho
+que vai de noite roubar os ossos do sancto
+ao seu tumulo, e os vem esconder na clausura
+das freiras, porcerto, digo, reconheceu ja
+<span class="pagenum">[152]</span>
+a tua natural perspicacia ao nosso Frei Diniz, o
+frade por excellencia&#8213;frade por teima e acinte.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pois esse era, n&atilde;o ha d&uacute;vida.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim se passou aquella scena e assim m'a
+contaram. Do que medi&aacute;ra entre ella e o acontecido
+com o frade, Carlos, Joanninha, a av&oacute;
+e a ingleza, d'isso &eacute; que nada pude saber.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; uma grande lacuna na nossa historia; mas
+antes fique assim do que ench&ecirc;-la de
+imagina&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! eu detesto a imagina&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Onde a chronica se calla e a tradi&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o falla,
+antes quero uma pagina inteira de pontinhos,
+ou toda branca&#8213;ou toda preta, como na veneravel
+historia do nosso particular e respeitavel
+amigo Trist&atilde;o Shandy, do que uma so linha da
+inven&ccedil;&atilde;o do chroniqueiro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Isso &eacute; bom para novellas e romances, livros
+insignificantes que todos leem todavia, ainda os
+mesmos que o negam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[153]</span>
+Eu tambem me parece que os leio, mas vou
+sempre dizendo que n&atilde;o...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Emfim, tornemos ao frade, e tornemos &aacute;s minhas
+viagens.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cheio d'elle e da sua memoria, palpitando
+com a recorda&ccedil;&atilde;o das tremendas scenas que, havia
+tam poucos annos, se tinham passado em seu
+antigo mosteiro, eu me approximei emfim do
+real convento de San'Francisco de Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Dei pouca atten&ccedil;&atilde;o ao bello adro e &aacute;
+solemne
+vista que d'elle se descobre&#8213;e menos ainda &aacute;s
+doentias acacias que ahi vejetam infezadas e rachiticas,
+como plantadas de m&aacute; m&atilde;o e em m&aacute;
+hora&#8213;porque m&ocirc;&ccedil;as s&atilde;o ellas,
+&eacute; visivel: poseram-n'as
+ahi depois de extincto o convento.
+S&atilde;o triste mas verdadeiro symbolo da apagada
+e facticia vida que se quiz dar ao que era morto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vamos dentro, e vejamos pelas baixas e agu&ccedil;adas
+arcadas do claustro, pelas altas naves do
+templo se descubrimos algum vestigio do &uacute;ltimo
+guardi&atilde;o d'esta casa, e d'essa fadada familia cujo
+<span class="pagenum">[154]</span>
+destino em hora aziaga tam estreitamente se
+ligou com o d'elle.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ja me interessa isto mais, confesso, ai! muito
+mais, do que todos esses tumulos e inscrip&ccedil;&otilde;es
+que por ahi est&atilde;o, e que tanto characterizam este
+um dos mais antigos e mais historicos edificios
+do reino.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas em v&atilde;o interrogo pedra a pedra, lage a
+lage: o echo morto da solid&atilde;o responde tristemente
+&aacute;s minhas perguntas, responde que nada
+sabe, que esqueceu tudo, que aqui reina a
+desola&ccedil;&atilde;o
+e o aband&ocirc;no, e que se apagaram todas
+as lembran&ccedil;as de outro estado...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que foi feito de ti, Joanninha, e dos teus
+amores? Que ser&aacute; feito d'esse homem que ousou
+amar-te amando a outra? E essa outra onde est&aacute;?
+Resignou-se ella dev&eacute;ras? Sepultou comeffeito,
+sob o g&ecirc;lo apparente que veste de triplice
+mas falsa armadura o peito da mulher do norte,
+todo aquelle fogo intenso e &iacute;ntimo que solapadamente
+lhe devora o cora&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o tenho esperan&ccedil;as de saber nada d'isso aqui.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[155]</span>
+So pude descubrir que, no dia immediato &aacute;
+scena nocturna das Claras, Fr. Diniz sahiu de
+Santarem, n&atilde;o se sabe em que
+direc&ccedil;&atilde;o&#8213;que
+n'esse mesmo dia Georgina sah&iacute;ra tambem pela
+estrada de Lisboa, levando em sua carruagem a
+av&oacute; e a neta, ambas meias mortas e ambas meias
+loucas&#8213;que n&atilde;o houvera mais novas de Carlos&#8213;e
+que a sua &uacute;ltima carta, aquella que escrev&ecirc;ra
+de juncto d'Evora, Joanninha a levava apertada
+nas m&atilde;os convulsas quando part&iacute;ra.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pois tambem eu me quero partir, me quero
+ir embora. Ja me infada Santarem, ja me cansam
+&eacute;stas perp&eacute;tuas ruinas, estes pardeiros
+interminaveis,
+o aspecto desgracioso d'estes intulhos,
+a tristeza d'estas ruas desertas. Vou-me embora.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E comtudo San'Francisco &eacute; uma bella&nbsp;ruina,
+que merecia examinada de vagar, com outra
+paciencia que eu ja n&atilde;o tenho.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Se tudo me impacienta aqui!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Da bella egreja gothica, fizeram uma arrecada&ccedil;&atilde;o
+mil&iacute;tar; andou a m&atilde;o destruidora do soldado
+quebrando e abolando esses monumentos preciosos,
+<span class="pagenum">[156]</span>
+riscando com a baioneta pelo verniz mais
+pulido e mais respeitado d'esses jazigos antiquissimos:
+os lavores mais delicados esmoucou-os,
+degradou-os. Levantaram as lages dos sepulchros;
+e ao som da corneta militar acordaram os
+mortos de seculos, cuidando ouvir a trombeta final...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Decididamente vou-me embora, n&atilde;o posso estar
+aqui, n&atilde;o quero ver isto. N&atilde;o &eacute; horror
+que
+me faz, &eacute; n&aacute;usea, &eacute; asco, &eacute;
+zanga.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Maldittas sejam as m&atilde;os que te profanaram,
+Santarem... que te deshonraram, Portugal... que
+te invilleceram e degradaram, na&ccedil;&atilde;o que tudo
+perdeste, at&eacute; os padr&otilde;es da tua historia!..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eheu, eheu, Portugal!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c17"></a>CAPITULO XLII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">Protesto do
+auctor.&#8213;Desaffina&ccedil;&atilde;o dos nervos.&#8213;O
+que &eacute; preciso
+para que as ruinas sejam solemnes e sublimes.&#8213;Que Deus
+est&aacute; no Colliseu ass&iacute;m como em
+San'Pedro.&#8213;Quer-se o auctor
+ir embora de Santarem.&#8213;Como, sem ver o tumulo d'elrei
+D. Fernando?&#8213;Em que estado se acha este.&#8213;Exemplar
+de stylo byzantino.&#8213;Coroa real s&ocirc;bre a caveira.&#8213;O rei
+d'espadas e o symbolo do imperio.&#8213;Quem nunca viu o rei
+cuida que &eacute; de oiro.&#8213;Brutalidades da soldadesca n'um tumulo
+real.&#8213;O que se acha nas sepulturas dos reis.&#8213;A
+phrenologia.&#8213;Vindicta publica, tardia mas
+ultrajante.&#8213;Cam&otilde;es
+e Duarte Pacheco.&#8213;A sombra falsa da religi&atilde;o.&#8213;Regimen
+dos bar&otilde;es e da materia.&#8213;A prosa e a poesia
+do povo.&#8213;Synthese e analyse.&#8213;O senso &iacute;ntimo.&#8213;Se o
+auctor &eacute; demagogo ou Jesuita?&#8213;Jesu Christo e os
+bar&otilde;es.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o chamem exaggerado ao que vai escripto
+no fim do &uacute;ltimo capitulo; senti o que escrevi,
+senti muito mais do que escrevi. O que
+poder&aacute; haver &eacute; desac&ecirc;rto nas palavras,
+porque
+<span class="pagenum">[158]</span>
+em verdade n&atilde;o sei explicar a impress&atilde;o que me
+faz uma ruina n'este estado. Desaffinam-me os
+nervos, vibram-me n'uma discordancia e dissonancia
+insupportavel. Queria ver antes estes altares
+expostos &aacute;s chuvas e aos ventos do ceo,&#8213;que
+o sol os queimasse de dia,&#8213;que &aacute; noite, &aacute;
+luz branca da lua, ou ao tibio reflexo das estrellas,
+piasse o mocho e sussurrasse a coruja s&ocirc;bre
+seus arcos meio-cahidos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o me parecia profanado o templo assim,
+nem descahido de majestade o monumento. Podia
+ajoelhar-me no meio das pedras s&ocirc;ltas, entre
+as hervas humidas, e levantar o meu pensamento
+a Deus, o meu cora&ccedil;&atilde;o &aacute;
+gl&oacute;ria, &aacute; grandeza,
+o meu espirito &aacute;s sublimes aspira&ccedil;&otilde;es
+da
+idealidade. O material, o grosseiro, o pesado da
+vida n&atilde;o me vinham affligir ahi.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deus, a idea grande do mundo&#8213;Deus, a Raz&atilde;o
+Eterna&#8213;Deus, o amor&#8213;Deus, a gl&oacute;ria&#8213;Deus,
+a f&ocirc;r&ccedil;a, a poesia e a nobreza d'alma&#8213;Deus
+est&aacute; nas ruinas escalavradas do Colliseu,
+como nos zimborios de bronze e marmore
+de San'Pedro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[159]</span>
+Mas aqui!.. nos pardeiros de um convento velho,
+concertado pelas Obras-p&uacute;blicas para servir
+de quartel de soldados&#8213;aqui n&atilde;o habita espirito
+nenhum.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quero-me ir embora d'aqui!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E como? sem ver o tumulo d'elrei Fernando?
+N&atilde;o p&oacute;de ser, &eacute; verdade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Onde est&aacute; elle?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+No c&ocirc;ro alto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Subamos ao c&ocirc;ro alto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Oh! que n&atilde;o sei de
+n&ocirc;jo como o conte!
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+O bello jasigo do rei formoso e frivolo, tam
+dado &aacute;s delicias do prazer como foi seu pae &aacute;s
+austeridades da justi&ccedil;a, em que estado elle est&aacute;!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh na&ccedil;&atilde;o de barbaros! Oh malditto povo de
+iconoclastas que &eacute; este!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O tumulo do segundo marido de D. Leonor
+<span class="pagenum">[160]</span>
+Telles &eacute; um sarcophago de pedra branca, fina e
+friavel, elegante e simplesmente cortada, com
+mais sobriedade de ornatos do que tem de ordinario
+os monumentos do seculo XIV, mas de
+uma acabada sculptura, casta e continente, como
+o n&atilde;o foi a vida do rei que ahi incerraram
+depois de morto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Percebem-se ainda vestigios das vivas c&ocirc;res
+em que foram induzidos os relevos da pedra branca:&#8213;stylo
+byzantino de que n&atilde;o sei outro exemplar
+em Portugal. Este &eacute;&#8213;ou antes, era&#8213;precioso.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era; porque a brutalidade da soldadesca o
+deturpou a um ponto incrivel. Imaginou a estupida
+cubi&ccedil;a d'estes Allanos modernos que devia
+de estar alli dentro algum grande haver de riquezas
+incantadas,&#8213;talvez cuidaram achar s&ocirc;bre
+a caveira do rei a coroa real marchetada de
+perolas e rubis com que fosse interrado,&#8213;talvez
+pensaram incontrar appertado ainda entre as
+s&ecirc;ccas phalanges dos dedos myrhados, aquelle globo
+de oiro macisso que lhes figura o rei d'espadas
+do sujo baralho de sua tarimba, e que elles
+teem pela indisputavel e infallivel insignia do
+<span class="pagenum">[161]</span>
+supremo imperio;&#8213;talvez supposeram que mesmo
+depois de morto, um rei devia de ser de
+oiro... Emfim quem sabe o que elles cuidaram e
+pensaram? O que se sabe, porque se ve, &eacute; que
+quizeram abrir e arrombar o tumulo. Tentaram,
+primeiro, levantar a campa; n&atilde;o poderam: tam
+solidamente est&aacute; soldada a pedra dec&iacute;ma ao corpo
+ou caix&atilde;o do jazigo, que o todo parece macisso
+e inconsutil. Mas n'este impenho quebraram
+e estallaram os lavores finos dos cantos, os
+caireis delicados das orlas; e a campa n&atilde;o cedeu:
+parece chumbada pelo anjo dos &uacute;ltimos julgamentos
+com o s&ecirc;llo tremendo que so se hade
+quebrar no dia derradeiro do mundo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A cubi&ccedil;a estolida dos soldados n&atilde;o se aterrou
+com a religi&atilde;o do sepulchro, nem lhe causou
+attri&ccedil;&atilde;o,
+ao menos, &eacute;sta resistencia quasi sobrenatural
+das pedras do moimento. Ve-se que trabalhou
+alli, de alavanca e de ariete, algum possante
+e ponderoso p&eacute;-de-cabra; mas que trabalhou
+em v&atilde;o muito tempo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Desinganaram-se emfim com a tampa; e resolveram
+atacar, mais brutalmente mas com mais
+vantagem, as paredes do sarcophago, que justamente
+<span class="pagenum">[162]</span>
+suspeitaram de menos espessos. Assim era;
+e conseguiram na parede da frente abrir um rombo
+grosseiro por onde entra facil um bra&ccedil;o todo
+e p&oacute;de explorar o interior do tumulo &aacute; vontade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim o fiz eu, que metti o meu bra&ccedil;o por
+essa abertura barbara, e achei terra, p&oacute;, alguns
+ossos de vertebras, e duas caveiras, uma de homem,
+outra de crian&ccedil;a.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o me lembra que haja memoria alguma de
+infante que ahi fosse sepultado tambem, segundo
+faziam os antigos muitas vezes que punham os
+cadaveres das crian&ccedil;as nos jazigos dos paes, dos
+parentes, at&eacute; de meros amigos de suas familias.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tive, conf&eacute;sso, uma especie de prazer maligno
+em imaginar a estupida compridez de cara
+com que deviam de ficar os brutaes profanadores,
+quando achassem no tumulo do rei o que so
+teem os tumulos&#8213;de reis ou de mendigos&#8213;ossos,
+terra, cinza, nada!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por mim, estive tentado a furtar a caveira
+d'elrei D. Fernando. Se acreditasse na phrenologia,
+parece-me que n&atilde;o tinha resistido. N&atilde;o
+<span class="pagenum">[163]</span>
+creio na sciencia, felizmente&#8213;n'este caso&#8213;para
+a minha consciencia. Tambem n&atilde;o sei o que faria
+se a caveira fosse de outro homem. Mas o
+'fraco rei' que fez 'fraca a forte gente' n&atilde;o s&atilde;o
+reliquias as suas que se guardem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! e quem sabe? &Eacute;sta profana&ccedil;&atilde;o, este
+aband&ocirc;no,
+este desacato do tumulo de um rei, alli
+na sua terra predilecta&#8213;D. Fernando era santareno
+de affei&ccedil;&atilde;o&#8213;n&atilde;o ser&aacute; elle
+o juizo severo
+da posteridade, a vindicta p&uacute;blica dos seculos,
+que tardia mas ultrajante, cai emfim s&ocirc;bre a
+memoria reprovada do mau principe, e lhe deshonra
+as cinzas como ja lhe deshonr&aacute;ra o nome?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quero acreditar que tal n&atilde;o podia succceder
+aos tumulos de D. Diniz, de D. Pedro I, dos
+dois Joannes I e II, de...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sim: e aonde est&aacute; o de Cam&otilde;es? O de Duarte
+Pacheco aonde <em>esteve</em>? que ainda
+&eacute; mais vergonhosa
+pergunta &eacute;sta &uacute;ltima.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em Portugal n&atilde;o ha religi&atilde;o de nenhuma especie.
+At&eacute; a sua falsa sombra, que &eacute; a hypocrisia,
+desappareceu. Ficou o materialismo estupido,
+<span class="pagenum">[164]</span>
+alvar, ignorante, devasso e desfa&ccedil;ado,
+a fazer gala de sua hedionda nudez cynica no meio
+das ruinas profanadas de tudo o que elevava o
+espirito...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Uma na&ccedil;&atilde;o grande ainda poder&aacute; ir
+vivendo e
+esperar por melhor tempo, apezar d'esta paralysia
+que lhe pasma a vida d'alma na mais nobre
+parte de seu corpo. Mas uma na&ccedil;&atilde;o piquena,
+&eacute;
+impossivel; hade morrer.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mais dez annos de bar&otilde;es e de regimen da
+materia, e infallivelmente nos foge d'este corpo
+agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do
+espirito.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Creio isto firmemente.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas ainda espero melhor todavia, porque o
+povo, o povo povo, est&aacute; s&atilde;o: os corruptos somos
+n&oacute;s os que cuid&acirc;mos saber e ignor&acirc;mos
+tudo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&oacute;s, que somos a prosa vil da na&ccedil;&atilde;o,
+n&oacute;s
+n&atilde;o intendemos a poesia do povo; n&oacute;s, que so
+comprehendemos o tangivel dos sentidos, n&oacute;s somos
+extranhos &aacute;s aspira&ccedil;&otilde;es sublimes do
+senso-&iacute;ntimo
+<span class="pagenum">[165]</span>
+que despreza as nossas theorias
+presump&ccedil;osas,
+porque todas veem de uma acanhada an&aacute;lyse
+que procede curta e mesquinha dos dados
+materiaes, insignificantes e imperfeitos;&#8213;em
+quanto elle, aquelle senso-&iacute;ntimo do povo, vem
+da Raz&atilde;o divina, e procede da synthese transcendente,
+superior, e inspirada pelas grandes e
+eternas verdades que se n&atilde;o demonstram porque se
+sentem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E eu que escrevo isto serei eu demagogo? N&atilde;o
+sou.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Serei fanatico, jesuita, hypocrita? N&atilde;o sou.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que sou eu ent&atilde;o?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quem n&atilde;o intender o que eu sou, n&atilde;o vale a
+pena que lh'o diga...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Perdoa-me, leitor amigo, uma reflex&atilde;o &uacute;ltima
+no fim d'este cap&iacute;tulo ja tam seccante, e
+prometto n&atilde;o reflectir nunca mais.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Jesu Christo, que foi o mod&ecirc;lo da paciencia,
+da tolerancia, o verdadeiro e unico fundador da
+<span class="pagenum">[166]</span>
+liberdade e da egualdade entre os homens, Jesu
+Christo soffreu com resigna&ccedil;&atilde;o e humildade
+quantas
+injusti&ccedil;as, quantos insultos lhe fizeram a elle
+e &aacute; sua miss&atilde;o divina; perdoou ao matador,
+&aacute;
+ad&uacute;ltera, ao blasph&ecirc;mo, ao impio. Mas quando
+viu os bar&otilde;es a agiotar dentro do templo, n&atilde;o
+se p&ocirc;de conter, pegou n'um azorrague e zurziu-os
+sem dor.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c18"></a>CAPITULO XLIII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">
+Partida de Santarem.&#8213;Pinacotheca.&#8213;Impaciencia e
+saudades.&#8213;Sexta-feira.&#8213;Martyrio
+obscuro.&#8213;A figura do peccado.&#8213;Estamos
+no valle outra vez.&#8213;Evoca&ccedil;&atilde;o de incanto.&#8213;A
+irman Francisca e Fr. Diniz.&#8213;A teia de Penelope.&#8213;E
+Joanninha?&#8213;Joanninha est&aacute; no ceo.&#8213;A mulher
+morta a dobar esperando que a interrem.&#8213;A esperan&ccedil;a,
+virtude do christianismo.&#8213;Uma carta.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estou dev&eacute;ras fatigado de Santarem; vou-me
+embora.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Despedimo'-nos saudosos d'aquella boa e leal
+<span class="pagenum">[168]</span>
+familia que nos hosped&aacute;ra com tanto carinho,
+com toda a velha cordialidade portugueza; partimos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Apenas comecei a respirar o ar fresco da manhan
+nos olivaes, senti desaffogar-se-me alma
+d'aquella constric&ccedil;&atilde;o cansada que se experimenta
+na longa visita a um museu de antiguidades, a
+uma galeria de pinturas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Perdoem-me que n&atilde;o diga 'pinacotheca': bem
+sei que &eacute; moda, e que a palavra &eacute; adoptavel
+segundo
+as mais strictas regras de Horacio, pois
+'cai da fonte grega' direitamente e sem mistura:
+mas soa-me tam mal em portuguez que n&atilde;o posso
+com ella.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Santarem fatigou-me o espirito, como todas as
+coisas que fazem pensar muito. Deixo-a por&ecirc;m
+com saudade, e n&atilde;o me heide esquecer nunca
+dos dias que aqui passei.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+De qu&ecirc; e como sou eu feito, que n&atilde;o posso
+estar muito tempo n'um logar, e n&atilde;o posso sahir
+d'elle sem pena?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[169]</span>
+Ja me est&aacute; custando ter deixado Santarem.
+Porque n&atilde;o haviamos de partir &aacute;manhan, e ter
+ficado
+ainda hoje alli?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E hoje que &eacute; sexta-feira?... Mau dia para come&ccedil;ar
+viagem!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sexta-feira! Era o dia aziago do nosso valle,
+da pobre velha cega que ahi vivia sua triste vida
+de dores, de remorsos e desconf&ocirc;rto, esperando
+por&ecirc;m em Deus, conformada com seu martyrio:
+martyrio obscuro, mas tam insanguentado
+d'aquelle sangue que mana gotta a gotta e dolorosamente
+do cora&ccedil;&atilde;o rasgado, devorado em silencio
+pelo abutre invisivel de uma dor que se
+n&atilde;o revela, que n&atilde;o tem prantos nem ais.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era na sexta-feira que o terrivel frade, o
+demonio vivo d'aquella mulher de ang&uacute;stias, lhe
+apparecia tremendo e espantoso deante de seus
+olhos cegos, elevado pela imagina&ccedil;&atilde;o
+&aacute;s propor&ccedil;&otilde;es
+descommunaes e gigantescas de um vingador
+sobrenatural.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era a figura tangivel, e visivel &aacute; vista de sua
+<span class="pagenum">[170]</span>
+alma, do enorme peccado que contra ella estava
+sempre.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Creio que escuso dizer que n&atilde;o tenho eu &eacute;sta
+supersti&ccedil;&atilde;o dos dias aziagos que tinha a
+desgra&ccedil;ada
+velha, que a sua Joanninha partilhava. Mas
+confesso que, recordando as fatalidades d'aquella
+familia e d'aquelle dia, n&atilde;o gostei de voltar n'elle
+ao valle de Santarem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estavamos por&ecirc;m no valle; e ja eu via de longe
+aquellas &aacute;rvores e aquella janella que tanto
+me impressionaram, quando &eacute;stas reflex&otilde;es me
+acudiam ao espirito e m'o contristavam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Affrouxei insensivelmente o passo, deixei tomar
+larga dianteira aos meus companheiros de
+viagem; e quando chegava perto da casa, tinha-os
+perdido de vista.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Involuntariamente parei defronte da janella;
+mordia-me um inter&ecirc;sse, uma curiosidade irresistivel...
+Nem viva alma por aquelles arredores;
+apeei-me e fui direito para a casa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Apenas passei as &aacute;rvores, um spectaculo inesperado,
+<span class="pagenum">[171]</span>
+uma evoca&ccedil;&atilde;o como de incanto me veio
+ferir os olhos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+No mesmo s&iacute;tio, do mesmo modo, com os
+mesmos trajos e na mesma attitude em que a
+descrevi nos primeiros capitulos d'esta historia,
+estava a nossa velha irman Francisca...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ella era, e n&atilde;o podia ser outra; sentada na
+sua antiga cadeira, dobando, como Penelope tecia,
+a sua interminavel meada. N&atilde;o havia outra
+differen&ccedil;a agora sen&atilde;o que a dobadoira
+n&atilde;o parava,
+e que o fio seguia, seguia, inrollando-se,
+inrollando-se cont&iacute;nuo e compassado no nov&ecirc;llo;
+e que os bra&ccedil;os da velha lidavam lentamente mas
+sem cessar no seu movimento de authomato que
+fazia mal ver.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Defronte d'ella, sentado n'uma pedra, a cabe&ccedil;a
+baixa, e os olhos fixos n'um grosso livro
+velho, que sustinha nos joelhos, estava um homem
+s&ecirc;cco e magro, descarnado como um esqueleto,
+livido como um cadaver, immovel como
+uma est&aacute;tua. Trajava um non-descriptum negro,
+que podia ser sotana de clerigo ou tunica
+de frade, mas descingida, s&ocirc;lta, e pendente em
+<span class="pagenum">[172]</span>
+grossas e largas pregas do extenuado pescosso do
+homem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tambem n&atilde;o podia ser sen&atilde;o Frei Diniz.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cheguei juncto d'elles; n&atilde;o me sentiu nenhum
+dos dois; nem me viu elle, o que so via dos dois.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sem mais reflex&atilde;o, e continuando alto na serie
+de pensamentos que me vinha correndo pelo espirito,
+exclamei:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E Joanninha?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Joanninha est&aacute; no ceo':&#8213;respondeu sem
+sobresalto, sem erguer os olhos do seu livro, a
+sombra do frade&#8213;que outra coisa n&atilde;o parecia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Joanninha, pobre Joanninha! Pois como
+foi, como acabou a infeliz?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Joanninha n&atilde;o &eacute; infeliz: foi ser anjo na
+presen&ccedil;a de Deus.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E... e Carlos?'&nbsp;balbuciei eu hesitando,
+porque temia a susceptibilidade do frade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[173]</span> &#8213;'Carlos!' respondeu elle erguendo emfim
+os olhos e cravando-os em mim...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E oh! que nunca vi olhos como aquelles, nem
+os heide ver!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Carlos!... E quem &eacute; que m'o pergunta?
+quem &eacute; que tanto sabe de mim e dos meus?..
+Dos meus! Eu n&atilde;o tenho meus: sou so.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'So! N&atilde;o est&aacute; aqui, que eu vejo?..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ve essa mulher morta que ahi ficou, que
+a matei eu, e que aqui est&aacute; &aacute; espera que
+d&ecirc; a
+hora de a eu interrar, mais nada. Eu estou
+so e quero estar so. Morreu tudo. Que mais quer
+saber?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Venho de Santarem...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Santarem tambem morreu; e morreu Portugal.
+Aqui n&atilde;o, vive sen&atilde;o o meu
+peccado, que
+Deus n&atilde;o perdoou ainda, nem espero...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'A nossa religi&atilde;o fez uma virtude da
+esperan&ccedil;a.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[174]</span> &#8213;'Fez.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E n'isso se distingue das outras
+todas.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Pois ainda ha quem o saiba n'esta terra?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ha mais do que n&atilde;o houve nunca&#8213;pelo
+menos ha mais quem o saiba melhor.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'P&oacute;de ser: os juizos de Deus s&atilde;o
+incomprehensiveis.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E infinita a sua misericordia.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Mas a sua cholera implacavel, a sua justi&ccedil;a
+tremenda.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'A misericordia &eacute; maior.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Quem lhe insinou tudo isso?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'O evangelho, o cora&ccedil;&atilde;o, e minha m&atilde;e
+que m'os explicou ambos.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sente-se aqui... aop&eacute; de mim.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[175]</span>
+Sentei-me. O frade pegou-me na m&atilde;o com as
+suas ambas, e p&ocirc;s-me os olhos com uma express&atilde;o
+que nenhuma lingua p&oacute;de dizer, nem
+nenhum pincel pintar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esteve assim algum tempo, como quem me
+observava. Vi-lhe apontar claramente uma lagryma,
+vi-lh'a retroceder, e ficarem-lhe inchutos
+os olhos. Senti-lhe estrangular um suspiro
+que lhe vinha &aacute; garganta; percebi distinctamente
+o estreme&ccedil;&atilde;o que lhe correu o corpo; mas observei
+que todo se serenou depois.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Disse-me ent&atilde;o com voz magoada mas placida
+e sem aspereza ja nenhuma:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sabe a historia do valle?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sei tudo at&eacute; &aacute; partida de Carlos para
+Evora.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Aqui tem a carta que elle escreveu.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tirou do breviario um papel dobrado, amarello
+do tempo, e manchado, bem se via, de
+muitas lagrymas, algumas recentes ainda.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[176]</span> &#8213;'Leia.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Li.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute;sta era a carta de Carlos.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c19"></a>CAPITULO XLIV.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;" class="intro">Carta
+de Carlos a Joanninha.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature">Evora-monte...<br />
+
+
+de maio de 1834.</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; a ti que escrevo, Joanna, minha irman, minha
+prima, a ti so.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Com nenhum outro dos meus n&atilde;o posso nem
+ouso fallar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[178]</span>
+Nem eu ja sei quem s&atilde;o os meus: confunde-se,
+perde-se-me &eacute;sta cabe&ccedil;a nos desvarios do
+cora&ccedil;&atilde;o. Errei com elle, perdeu-me elle... Oh!
+bem sei que estou perdido.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Perdido para todos, e para ti tambem. N&atilde;o
+me digas que n&atilde;o; tens generosidade para o dizer,
+mas n&atilde;o o digas. Tens generosidade para
+o pensar, mas n&atilde;o p&oacute;des evitar de o sentir.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu estou perdido.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E sem remedio, Joanna, porque a minha natureza
+&eacute; incorrigivel. Tenho energia de mais,
+tenho pod&ecirc;res de mais no cora&ccedil;&atilde;o. Estes
+excessos
+d'elle me mataram... e me matam!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tu n&atilde;o comprehendes isto, Joanninha, n&atilde;o
+me intendes decerto; e &eacute; difficil.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Es mulher, e as mulheres n&atilde;o intendem os
+homens. Sempre o entrevi, hoje sei-o perfeitamente.
+A mulher n&atilde;o p&oacute;de nem deve comprehender
+o homem. Triste da que chega a sab&ecirc;-lo!..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E d'ahi... quando se tem de morrer, antes
+<span class="pagenum">[179]</span>
+saber a morte de que se morre, do que expirar
+na ignorancia do mal que nos matou.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tu es joven e inexperiente, a tua alma est&aacute;
+cheia de illus&otilde;es doces; vou dissipar-t'as em
+quanto se n&atilde;o condensam, que te offusquem a raz&atilde;o
+e te deixem para sempre escrava cega do
+maior inimigo que temos, o cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quero contar-te a minha historia: ver&aacute;s n'ella
+o que vale um homem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sabe que os n&atilde;o ha melhores que eu; e tam
+bons, poucos. Olha o que ser&aacute; o resto!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tu n&atilde;o ignoras ja hoje o porque fugi da casa
+materna: sab&iacute;a-a manchada de um grande peccado,
+e imaginei-a polluida de um enorme crime.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Esse homem que &eacute; meu pae, n&atilde;o o podia
+ver; hoje que sei o que me elle &eacute;... Deus me
+perdoe, que ainda o posso ver menos!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Minha av&oacute;, julguei-a cumplice no crime; ella
+so o era no peccado. Perdoe-lhe Deus; e bem
+<span class="pagenum">[180]</span>
+p&oacute;de e bem deve, ja que a fez tam fraca. Minha
+pobre m&atilde;e succumbiu por sua culpa, por
+sua irremissivel complacencia...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deus p&oacute;de e deve, repitto... mas eu, como
+lhe heide perdoar eu este rubor que sinto nas
+faces ao nomear minha m&atilde;e?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tem padecido e soffrido muito... coitada! A
+sua penitencia &eacute; um martyrio, a sua velhice uma
+longa paix&atilde;o, e esse homem que a perdeu um
+verdugo sem piedade. Mas tudo isso &eacute; com Deus,
+n&atilde;o &eacute; commigo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu sou filho; minha m&atilde;e morreu sem perdoar&#8213;n&atilde;o
+posso perdoar eu.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E quem me hade perdoar a mim? Ninguem,
+nem quero.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o ser&aacute;s tu, minha irman; n&atilde;o, que
+n&atilde;o
+deves. Porque eu amei-te com um cora&ccedil;&atilde;o que
+ja n&atilde;o era meu; acceitei o teu amor sem o merecer,
+sem o pod&ecirc;r possuir, trahi quando te
+amava, menti quando t'o disse, menti-te a ti,
+<span class="pagenum">[181]</span>
+menti-me a mim, e n&atilde;o guardei verdade a ninguem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas espera, ouve; deixa-me ver se posso atar
+o fio d'esta minha incrivel historia&#8213;incrivel
+para ti, bem simples para quem conhe&ccedil;a o
+cora&ccedil;&atilde;o
+do homem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sahi de Portugal, e posso dizer que n&atilde;o tinha
+amado ainda. Inclina&ccedil;&otilde;es de crian&ccedil;a,
+galanteios
+de sociedade, liga&ccedil;&otilde;es que nasceram da vaidade,
+ou que so os sentidos alimentam, n&atilde;o merecem
+o nome de amor.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu n&atilde;o tinha amado.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ha tres especies de mulheres n'este mundo:
+a mulher que se admira, a mulher que se deseja,
+e a mulher que se ama.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A belleza, o espirito, a gra&ccedil;a, os dotes d'alma
+e do corpo geram a admira&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Certas f&oacute;rmas, certo ar voluptuoso criam o
+desejo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[182]</span>
+O que produz o amor n&atilde;o se sabe; &eacute; tudo
+isto &aacute;s vezes, &eacute; mais do que isto, n&atilde;o
+&eacute; nada
+d'isto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o sei o que &eacute;; mas sei que se
+p&oacute;de admirar
+uma mulher sem a desejar, que se p&oacute;de desejar
+sem a amar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O amor n&atilde;o est&aacute; definido, nem o p&oacute;de
+ser
+nunca. O amor verdadeiro; que as outras coisas
+n&atilde;o s&atilde;o isso.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu vivi poucos mezes em Inglaterra; mas foram
+os primeiros que posso dizer que vivi. Levou-me
+o acaso, o destino&#8213;a minha estrella, porque
+eu ainda creio nas estrellas, e em pouco mais d'este
+mundo creio ja&#8213;levou-me ao interior de uma
+familia elegante, ricca de tudo o que p&oacute;de dar
+distinc&ccedil;&atilde;o n'este mundo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Extranhei aquelles habitos de alta civiliza&ccedil;&atilde;o,
+que me agradavam comtudo; moldei-me facilmente
+por elles, affiz-me a vejetar docemente
+na branda atmosphera artificial d'aquella estufa
+sem perder a minha natureza de planta extrangeira.
+Agradei: e n&atilde;o o merecia. No fundo d'alma
+<span class="pagenum">[183]</span>
+e de character eu n&atilde;o era aquillo por que me
+tomavam. Menti: o homem n&atilde;o faz outra coisa.
+Eu detesto a mentira, voluntariamente nunca o
+fiz, e todavia tenho levado a vida a mentir.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Menti pois, e agradei porque mentia. Sancto
+Deus! para que sahiria a verdade da tua b&ocirc;cca,
+e para que a mandaste ao mundo, Senhor?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Havia tres meninas n'aquella familia. Dizer
+que eram as tres gra&ccedil;as &eacute; uma vulgaridade
+cansada,
+e tam bannal que n&atilde;o d&aacute; idea de coisa alguma.
+Tres anjos seriam; tres anjos posso dizer
+com mais propriedade. E quando em nossos
+longos passeios solitarios, por aquelles campos
+sempre verdes, por aquellas collinas coroadas
+de arvoredo, tapessadas de relva macia, os
+seus vestidos brancos, singelos, simples, trajados
+sem arte, fluctuavam com a brisa da tarde...
+e os longos anneis de seus cabellos&#8213;os de uma
+eram loiros, os de outra castanhos, n&atilde;o ha nome
+para a indefinida c&ocirc;r dos da terceira&#8213;quando
+esses longos anneis descahiam de sua ondada
+spiral com o orvalho humido do crepusculo&#8213;e
+que a essa luz vaga e mysteriosa eu as contemplava
+todas tres com adora&ccedil;&atilde;o e recolhimento
+<span class="pagenum">[184]</span>
+devoto d'alma&#8213;sinceramente exclamava: 'S&atilde;o
+tres anjos celestes que &eacute; for&ccedil;oso adorar!..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E assim &eacute; que os adorava os tres anjos, todos
+tres, e n&atilde;o podia adorar um sem os outros.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que me queriam ellas, &eacute; certo; que insensivelmente
+se habituaram &aacute; minha companhia e
+ja n&atilde;o podiam viver sem ella... ai! era preciso
+ser um monstro para o n&atilde;o confessar com lagrymas
+de gratid&atilde;o e de remorso.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Os mais difficeis e delicados apices da perfei&ccedil;&atilde;o
+de sua tam caprichosa e tam expressiva
+lingua, as bellezas mais sentidas de seus
+auctores queridos, o espirito e tom difficil de
+sua sociedade tam desdenhosa e fastienta, mas
+tam completa e tam calculada para sublimar a
+vida e a desmaterializar&#8213;isso tudo, e um indefinivel
+sentimento do <em>gentil</em>, que so com
+natural
+tacto se adquire, &eacute; verdade, mas que se n&atilde;o
+alcansa com elle so&#8213;isso tudo o apprendi alli
+das suaves lic&ccedil;&otilde;es que insensivelmente recebia a
+cada instante.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Se valho alguma coisa, tudo valho por ellas;
+<span class="pagenum">[185]</span>
+se tenho merecido alguma considera&ccedil;&atilde;o no mundo,
+toda lh'a devo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ves que confesso a d&iacute;vida, ver&aacute;s como a paguei.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O tom perfeito da sociedade ingleza inventou
+uma palavra que n&atilde;o ha nem p&oacute;de haver n'outras
+linguas emquanto a civiliza&ccedil;&atilde;o as n&atilde;o
+aparar.
+<em>To flirt</em> &eacute; um verbo
+innocente que se conjuga
+alli entre os dois sexos, e n&atilde;o significa
+<em>namorar</em>&#8213;palavra
+grossa e absurda que eu detesto&#8213;n&atilde;o
+significa 'fazer a c&ocirc;rte'; &eacute; mais do que estar
+amavel, &eacute; menos do que galantear, n&atilde;o obriga
+a nada, n&atilde;o tem consequencias, come&ccedil;a-se,
+acaba-se, interrompe-se, addia-se, contin&uacute;a-se
+ou descontin&uacute;a-se &aacute; vontade e sem
+compromettimento.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu <em>flartava</em>, n&oacute;s
+<em>flartavamos</em> ellas
+<em>flartavam</em>...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E n&atilde;o ha mais doce nem mais suave intertenimento
+d'espirito do que o <em>flartar</em> com uma
+elegante
+e graciosa menina ingleza; com duas &eacute; prazer
+angelico, e com tres &eacute; divino.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Para quem nasceu n'aquillo, n&atilde;o &eacute; perigoso;
+<span class="pagenum">[186]</span>
+para mim degenerou, breve, aquella placida
+sensa&ccedil;&atilde;o
+em mais profundo sentimento.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Veio a admira&ccedil;&atilde;o primeiro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E como as eu admirava todas tres as minhas
+gentis fascinadoras!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E ellas conheciam-n'o, riam, folgavam e estavam
+incantadas de me incantar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fizeram nascer os desejos!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julguei-me perdido, e quiz fugir.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o me deixaram e zombaram de mim, da
+ardencia do meu sangue hespanhol, da vehemencia
+das minhas sensa&ccedil;&otilde;es...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Em breve eu amava perdidamente uma d'ellas&#8213;queria
+muito &aacute;s outras duas; mas amar,
+amar dev&eacute;ras, d'alma cuidava eu, de
+cora&ccedil;&atilde;o ia
+jur&aacute;-lo, era a segunda&#8213;Laura, a mais gentil,
+mais nobre, mais elegante e radiosa figura de
+mulher que creio que Deus moldasse n'uma hora
+de verdadeiro amor de artista que se dignou
+tomar por esse pouco de greda que tinha nas
+m&atilde;os ao form&aacute;-la.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c20"></a>CAPITULO XLV.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;" class="intro">Carta
+de Carlos a Joanninha:
+contin&uacute;a.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Laura n&atilde;o era alta nem baixa, era forte sem
+ser gorda, e delicada sem magreza. Os olhos
+de um c&ocirc;r-de-avelan diaphano, puro, avelludado,
+grandes, vivos, cheios de tal majestade
+<span class="pagenum">[188]</span>
+quando se iravam, de tal do&ccedil;ura quando
+se abrandavam, que &eacute; difficil dizer quando eram
+mais bellos. O cabello quasi da mesma c&ocirc;r tinha,
+demais, um reflexo dourado, vacillante, que
+ao sol resplandecia, ou antes, relampejava,&#8213;mas
+a espa&ccedil;os, n&atilde;o era sempre, nem em todas
+as posi&ccedil;&otilde;es da
+cabe&ccedil;a:&#8213;cabe&ccedil;a pequena, modelada
+no mais classico da statuaria antiga, poisada
+s&ocirc;bre um collo de immensa nobreza, que harmonizava
+com a perfei&ccedil;&atilde;o das linhas dos hombros.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A cintura breve e estreita, mas sem exaggera&ccedil;&atilde;o,
+via-se que o era assim por natureza e
+sem a menor contrafei&ccedil;&atilde;o d'arte. O p&eacute;
+n&atilde;o tinha
+as exiguidades fabulosas da nossa peninsula,
+era proporcionado como o da Venus de Medicis.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tenho visto muita mulher mais bella, algumas
+mais adoraveis, nenhuma tam fascinante.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fascinante &eacute; a palavra para ella.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O rosto oval e perfeitamente symetrico, pallido;
+so os bei&ccedil;os eram vermelhos como a rosa
+de c&ocirc;r mais viva.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A express&atilde;o de toda &eacute;sta figura &eacute; que
+se
+<span class="pagenum">[189]</span>
+n&atilde;o descreve. A b&ocirc;cca breve e fina surria pouco;
+mas quando surria, oh!..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ve-la n'um baile, vestida e cal&ccedil;ada de branco,
+cingida com um cinto de vidrilhos pretos&#8213;toilete
+inalteravel para ella desde certa epocha&#8213;sem
+mais ornato, sem mais flores, apenas
+um farto fio de perolas derramando-se-lhe
+pelo collo&#8213;era ver alguma coisa de superior,
+de mais sublime que uma simples mulher.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tal era Laura, Laura que eu amei quanto
+podia e sab&iacute;a amar. Era pouco, sei-o agora;
+entao parecia-me infinito.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Disse-lh'o a ella, disse-lh'o um dia que passeavamos
+s&oacute;s, e depois de andarmos horas e
+horas esquecidas, sem trocar uma phrase. Pensavamos,
+eu n'ella, ella n&atilde;o sei em qu&ecirc;.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ser&iacute;a em mim?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ser&iacute;a mas n&atilde;o m'o confessou.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E ouviu-me sem dizer palavra, sem olhar
+para mim uma so vez, sem fugir com a m&atilde;o
+<span class="pagenum">[190]</span>
+que lhe eu appertava, que lhe beijava, e que
+sentia fria e humida nas minhas que escaldavam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era tarde, dirigimo'-nos para casa. &Aacute; porta
+disse-me: 'N&atilde;o entre'; e vi-a banhada em lagrymas.
+Quiz segui-la, fez-me um gesto imperioso
+que me confundiu. Pela primeira vez, depois
+de tanto tempo, fui so, triste e melancholico
+para a minha pobre habita&ccedil;&atilde;o, onde passei
+a noite.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quando era madrugada quiz-me deitar. N&atilde;o
+dormi.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+No dia seguinte recebi uma carta de Julia:
+assim se chamava a mais velha, a mais sensivel
+e a mais carinhosa das tres irmans.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O bilhete parecia indifferente; n&atilde;o continha
+sen&atilde;o palavras usuaes, pedia-me que fosse almo&ccedil;ar
+com ella... n&atilde;o fallava nas irmans.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Senti que era chegada a minha hora, pareceu-me
+que ia ser expulso d'aquelle Eden de
+innocencia em que tinha vivido. A lettra de Julia,
+<span class="pagenum">[191]</span>
+uma lettra linda, perfeita, natural, figurava-se-me
+um aggregado de signaes caballisticos terriveis
+que incerravam o mysterio da minha condemna&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vesti-me, fui, achei-me so com Julia no
+<em>parlour</em> elegante de seu exclusivo
+uso.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era um pequeno gabinete de estudo, ornado
+somente de umas <em>etag&egrave;res</em>
+com livros e musicas,
+uma harpa e um cavallete.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+S&ocirc;bre o cavallete estava o meu retratto esbo&ccedil;ado,
+na estante da harpa uma roman&ccedil;a franceza
+a que eu tinha feito lettras portuguezas...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A urna asoviava s&ocirc;bre a mesa, Julia fazia o
+cha e n&atilde;o parecia attender a mais nada.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; preciso que eu te descreva a piquena Julia&#8213;Julietta
+como n&oacute;s lhe chamavamos&#8213;n&oacute;s,
+as duas irmans e eu que rivalizavamos a qual lhe
+havia de querer mais...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! que saudade e que remorso para toda a
+<span class="pagenum">[192]</span>
+minha vida n'estas recorda&ccedil;&otilde;es de fraternal
+intimidade!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julia era piquena, delicadissima, propriamente
+infantina no rosto, na figura, na express&atilde;o e
+no h&aacute;bito de toda a sua incantadora e diminutiva
+pessoa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nenhuma ingleza, desde o tempo da rainha
+Bess, teve p&eacute; e <em>ancle</em>
+mais delicado. Nenhuma,
+desde o rei Alfredo, se occupou tam elegantemente
+dos elegantes cuidados de um interior britannico&#8213;gentil
+quadro 'de genero' como n&atilde;o
+ha outro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Lady Julia R. era a mais piquena e a mais
+bonita subdita britannica que eu creio que tenha
+existido.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vista &aacute; lua, no meio do seu parque, volteiando
+por entre os raros exoticos que no curto ver&atilde;o
+inglez se expoem ao ar livre, facilmente se
+tomava pela bella soberana das fadas realizando
+aquella preciosa vis&atilde;o de Shakspeare, o 'Midsumer
+night's dream.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[193]</span>
+Seus olhos de azul celeste, sempre humidos e
+sempre doces, os cabellos de um claro e assedado
+castanho todos soltos em anneis &aacute; roda da
+cabe&ccedil;a e cahindo pelos hombros, espalhando-se
+pelo rosto, que era uma lida cont&iacute;nua para os
+tirar dos olhos, um corpo airoso, uma b&ocirc;cca de
+beijar, os dentes miudos, alvissimos e apertados,
+a m&atilde;o piquena estreita, e de cera&#8213;tudo
+isto fazia de Julia um typo ideal de bondade, de
+candura, de innocencia angelica.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E era um anjo... oh se era!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Contemplei-a muito tempo em silencio: ella
+surria-me tristemente de vez em quando, mas
+n&atilde;o fallava. Emfim almo&ccedil;&aacute;mos, levaram
+o trem.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ella disse &aacute; sua aia:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Phebe, eu estou so com Carlos; e quero
+estar so. Em casa para ninguem.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sim, minha
+senhora.' Resposta obrigada
+do criado inglez a tudo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E fic&aacute;mos sos completamente.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c21"></a>CAPITULO XLVI.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;" class="intro">
+Carta de Carlos a Joanninha: contin&uacute;a.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julia levantou finalmente para mim os seus olhos
+humidos, assombrados das mais longas e assedadas
+pestanas que ainda vi em olhos de mulher,
+e disse-me:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[196]</span> &#8213;'Carlos, eu estou triste. Devia consolar-me;
+diga-me alguma coisa que me console.
+Falle-me.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Que heide eu dizer?..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'&Eacute; um cavalheiro, Carlos: diga-me que o
+&eacute;, e desassombre-me d'este terror em que estou.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Pois duv&iacute;da, Julia?..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o duvido. Queremos-lhe todos muito
+aqui... muito demais... receio: como havemos
+de duvidar?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Oh Julia, perdoe-me!' exclamei eu lan&ccedil;ando-me
+a seus p&eacute;s, tomando-lhe as m&atilde;os ambas
+nas minhas, e beijando-lh'as mil vezes n'um
+paroxysmo de verdadeira contric&ccedil;&atilde;o. 'Perdoe-me,
+Julia: bem sei que fiz mal, e prometto...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o prometta nada, sen&atilde;o que hade ser
+cavalheiro. Isso sei eu e sinto que o p&oacute;de cumprir.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Juro por... por ella.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[197]</span> &#8213;'Ella!.. Ella ama-o, Carlos. &Eacute; melhor dizer
+a verdade de uma vez, e incarar todas as
+consequencias de uma posi&ccedil;&atilde;o difficil, do que
+illudir-se
+a gente sem as evitar. Laura ama-o,
+mas n&atilde;o deve nem p&oacute;de am&aacute;-lo. Se fosse
+livre,
+n&atilde;o sei o que diria&#8213;n&atilde;o sei o que faria eu...
+Mas n&atilde;o se tratta de mim'&#8213;proseguiu com volubilidade
+febril&#8213;'n&atilde;o se tratta de mim, Carlos,
+tratta-se d'ella. Laura n&atilde;o o p&oacute;de amar,
+est&aacute;
+compromettida. Hade partir em tres mezes
+para a India.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Para a India!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sim: &eacute; verdade: velo-ha. O seu noivo &eacute;
+capit&atilde;o ao servi&ccedil;o da companhia, e parte em
+casando.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu sentia-me morrer o cora&ccedil;&atilde;o dentro do peito:
+foi a primeira dor verdadeira d'alma que
+soffri... Aquelle era o primeiro amor sincero da
+minha vida, e aquella foi tambem a primeira
+excruciante pena d'amor por que passei.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu que de taes penas zomb&aacute;ra sempre, que
+as desterrava da realidade para os romances, eu!..
+<span class="pagenum">[198]</span>
+Ai! que poeta ou que novellista soube nunca pintar
+um padecer como eu experimentei n'aquella
+hora?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o sei o que fiz nem o que disse; n&atilde;o me
+recordo sen&atilde;o que senti as lagrymas de Julia cahirem-me
+s&ocirc;bre a face e misturarem-se com as
+minhas que corriam em abundancia. Levantei os
+olhos para ella, e a express&atilde;o que vi nos seus...
+oh! como a heide esquecer nunca?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quanto ha de piedade e compaix&atilde;o no thesouro
+infinito de um cora&ccedil;&atilde;o feminino se derramava
+d'aquelles olhos celestes para me consolar. L&aacute;
+n&atilde;o ficava sen&atilde;o uma tristeza profunda,
+desanimada
+e mortal...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o sei que vago pensamento, que idea louca...
+ou antes, que presentimento indeterminado
+e confuso me atravessou pelo espirito&#8213;ou
+ser&iacute;a pelo cora&ccedil;&atilde;o?&#8213;n'aquelle
+momento...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Se Julia?..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas n&atilde;o p&oacute;de ser.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[199]</span> &#8213;'Julia, Julia' bradei eu 'quero v&ecirc;-la: heide
+v&ecirc;-la uma vez ao menos. N&atilde;o me negue este
+&uacute;ltimo
+favor. Sei que devo, que preciso, que &eacute;
+for&ccedil;oso fugir d'ella. Mas antes heide dizer-lhe...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'O qu&ecirc;?..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Que a amo como nunca amei, como nunca
+mais heide amar...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ai Carlos!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Que para sempre, sempre...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julia levantou-se sem dizer palavra, e lan&ccedil;ando
+s&ocirc;bre mim um olhar de ineffavel compaix&atilde;o,
+sahiu rapidamente do quarto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Achei-me so, n&atilde;o sei o que pensei nem se
+pensei. Sentia-me aturdido da cabe&ccedil;a, exhausto
+do cora&ccedil;&atilde;o&#8213;n'uma depress&atilde;o d'espirito
+que tocava
+na estupidez. Se me apontassem uma pistola
+aos peitos, n&atilde;o levantava o bra&ccedil;o para a
+arredar...
+Ja n&atilde;o sentia pena nem desejo. Parecia-me
+que come&ccedil;ava a morrer; e n&atilde;o achava que
+morrer custasse muito.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[200]</span>
+N'este estado fiquei n&atilde;o sei que tempo; muito
+n&atilde;o foi. Percebi que se abria a porta, n&atilde;o
+tive f&ocirc;r&ccedil;a para levantar os olhos. At&eacute;
+que senti
+uma doce e querida m&atilde;o na minha... era Julia...
+e era Laura tambem... sancto Deus! que estavam
+aop&eacute; de mim ambas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julia tinha a minha m&atilde;o na sua; e Laura incostada
+ao hombro da irman, deixava cahir s&ocirc;bre
+mim aquelles olhos em que a severidade
+habitual se tinha relaxado n'uma indulgencia tam
+doce, n'uma compaix&atilde;o tam celeste que, juro
+por Deus, n'aquella hora acreditei firmemente
+que tinha deante de mim dous anjos seus, baixados
+nas azas da piedade divina para me trazer todo
+o perd&atilde;o, toda a misericordia do ceo &aacute; minha
+alma.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Como te direi eu, Joanna, querida Joanninha,
+como te direi a ti que me amas, a ti que
+eu amo&#8213;porque te amo, e Deus me castigue
+que deve! porque te amo, cegamente te amo
+com este infame e abominavel cora&ccedil;&atilde;o que Elle
+me deu&#8213;como te heide eu dizer a ti, e para
+qu&ecirc;, as palavras que alli dissemos, os protestos
+<span class="pagenum">[201]</span>
+que alli fiz, os juramentos que alli se deram, as
+promessas que alli foram trocadas?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julia foi para a janella&#8213;indulgente chaper&atilde;o
+que nos n&atilde;o via e fingia n&atilde;o nos ouvir. O dia
+passou-se assim, um longo dia de junho que tam
+curto e rapido nos pareceu. Era noite quando
+fomos jantar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Aacute; mesa Laura appareceu em trajos de viagem;
+partia n'aquella noite para o paiz de Galles onde
+tinha uma amiga, com quem ia estar at&eacute; o dia
+terrivel, e preparar-se para elle, me disse, longe
+de mim, no seio da amizade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Imagine-se aquelle jantar. Nem comer fingiamos.
+Ao sahir da mesa ach&aacute;mos &aacute; porta da casa
+a caleche posta, o cocheiro na almofada, e
+o criado &aacute; portinhola. Mont&aacute;mos, as tres irmans
+e eu.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram duas milhas d'alli &aacute; estalagem onde
+tocava a malla-posta e onde Laura devia incontr&aacute;-la.
+Fizemo-las sem proferir palavra nenhum
+dos quatro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[202]</span>
+A lua ia grande e bella com sua luz triste e
+fria por um ceo sem nuvens. Era uma d'aquellas noites
+raras, mas admiraveis do breve estio britannico.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A areia que rangia com o attrito das rodas
+da carruagem nas lisas ruas do parque, os ramos
+descahidos das &aacute;rvores por que ro&ccedil;avamos
+levemente
+ao passar, os veados mansos que se levantavam
+para nos ver&#8213;os phaes&atilde;es que erguiam
+seu rasteiro voo de moita para moita ao
+sentir o estalido do chicote, com que o cocheiro
+mais moderava do que excitava os seus cavallos,
+tudo para mim eram impress&otilde;es de nunca
+sentida e inexplicavel tristeza. Ficava-me a alma
+apoz tudo aquillo, sentia fugir-me a felicidade
+para sempre, e que era eu que a affugentava,
+e que me ia incontrar so, desamparado e proscripto
+no deserto da vida.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o me sentia f&ocirc;r&ccedil;a para blasphemar,
+para
+maldizer de Deus, sen&atilde;o tinha-o feito.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tinha: e outras ancias mais angustiadas e
+mortaes me teem afflicto na vida; em nenhuma
+<span class="pagenum">[203]</span>
+me senti tam capaz de renegar de Deus e descrer
+d'elle como n'esta.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ser&iacute;a effeito de sua inexhaurivel piedade que
+talvez quiz acudir &aacute; minha alma antes que se perdesse,
+ser&iacute;a por certo&#8213;pois n'esse mesmo instante
+distinctamente me appareceu deante dos
+olhos d'alma a unica imagem que podia cham&aacute;-lo
+do abysmo: era a tua, Joanna! Era a minha
+Joanninha piquena, innocente, aquelle anginho
+de crian&ccedil;a, tam viva, tam alegre, tam graciosa
+que eu tinha deixado a brincar no nosso valle:
+o nosso valle rustico, tam grosseiro e tam inculto!
+oh como as saudades d'elle me foram alcan&ccedil;ar
+no meio d'aquellas allinhadas e perfeitas bellezas
+da cultura britannica! Os raios verdes de
+teus olhos, faiscantes como esmeraldas, atravessaram
+o espa&ccedil;o, e foram luzir no meio d'aquell'outros
+lumes que me cegavam. A esteva brava, o tojo
+aspero da nossa charneca mandavam-me ao longe as
+exhala&ccedil;&otilde;es de seu perfume agreste, e matavam o
+suave cheiro do feno macio d'essas relvas sempre
+verdes que me rodeavam. As folhas crespas, s&ecirc;ccas,
+alvacentas das nossas oliveiras como que me
+luziam por entre a espessura cerrada da luxuriante
+vegeta&ccedil;&atilde;o do norte, promettendo-me paz
+<span class="pagenum">[204]</span>
+ao cora&ccedil;&atilde;o, annunciando-me o fim de uma peleja
+em que m'o dilaceravam as paix&otilde;es.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E tu, Joanna, tu, pobre innocente, e desvallida
+criancinha, tu apparecias-me no meio de tudo
+isso, extendendo para mim os teus bracinhos
+amantes como no dia que me despedira de ti
+n'esse fatal, n'esse querido, n'esse doce e amargo
+valle das minhas lagrymas e dos meus risos,
+onde so me tinham de correr os poucos minutos
+de felicidade verdadeira da minha vida, onde as
+verdadeiras dores da minha alma tinham de m'a
+cortar e destruir para sempre...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! de qu&ecirc; e como &eacute; feito o homem, para
+qu&ecirc; e porque vive elle? Que vim eu, que vimos
+n&oacute;s todos fazer a este mundo?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu sentado alli nas almofadas de seda d'aquella
+splendida e macia carruagem, rodeado de tres
+mulheres divinas que me queriam todas, que eu
+confundia n'uma adora&ccedil;&atilde;o mysteriosa e
+mystica&#8213;cego,
+louco d'amores por uma d'ellas, no momento
+de lhe dizer adeus para sempre... eu tinha o pensamento
+fixo n'uma crian&ccedil;a que ainda andava ao collo!&#8213;Revendo-me
+nos olhos pardos de Laura que eu
+<span class="pagenum">[205]</span>
+adorava, eram os teus olhos verdes que eu tinha
+n'alma! Os sentidos todos embriagados d'aquelle
+perfume de luxo e civiliza&ccedil;&atilde;o que me
+cercava,&#8213;era
+o nosso valle rustico e selvagem o que eu
+tinha no cora&ccedil;&atilde;o...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Oh! eu sou um monstro, um aleij&atilde;o moral
+dev&eacute;ras, ou n&atilde;o sei o que sou.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Se todos os homens ser&atilde;o assim?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Talvez, e que o n&atilde;o digam.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Joanna, minha Joanna, minha Joanninha querida,
+anjo adorado da minha alma, tem compaix&atilde;o
+de mim, n&atilde;o me maldigas. N&atilde;o quero que me
+perdoes,
+nem tu nem ninguem, que o n&atilde;o mere&ccedil;o:
+mas que tenhas d&oacute; e l&aacute;stima de mim.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ai! que isso mere&ccedil;o eu, oh sim.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Deixa-me parar aqui. Falta-me o &acirc;nimo para
+me estar vendo a este terrivel espelho moral em
+que jurei mirar-me para meu castigo, d'onde
+estou copiando o horroroso retratto de minha alma
+que te desenho n'este papel.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[206]</span>
+Sab&iacute;a que era monstro, n&atilde;o tinha examinado
+por partes toda a hediondez das fei&ccedil;&otilde;es que me
+reconhe&ccedil;o agora.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tenho espanto e horror de mim mesmo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c22"></a>CAPITULO XLVII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;" class="intro">
+Carta de Carlos a Joanninha: contin&uacute;a.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cheg&aacute;mos ao Inn (estalagem), triste casa solitaria
+no meio dos campos &aacute; borda da estrada. A
+malla chegava ao mesmo tempo quasi.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu dei a m&atilde;o a Laura para sahir da caleche
+<span class="pagenum">[208]</span>
+e entrar no coche; e apenas tivemos tempo para
+um convulsivo shake-hands e para nos dizer
+adeus! adeus! com a affectada seccura que exige
+a lei das conveniencias britannicas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A malla partiu ao grande trote... E dir-te-hei
+a verdade ou queres que minta? N&atilde;o, heide dizer-te
+a verdade. Pois senti como um al&iacute;vio desesperado,
+uma consola&ccedil;&atilde;o cruel em a ver partir.
+Senti o que imagino que deve sentir um inf&ecirc;rmo
+depois da opera&ccedil;&atilde;o dolorosa em que lhe amputaram
+parte do corpo com que j&aacute; n&atilde;o podia viver,
+e que era for&ccedil;oso perder ou perder a vida.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tambem deve de ser assim a morte: um descan&ccedil;o
+apathico e nullo depois de inexplicavel padecer.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era como morto que eu estava; n&atilde;o soffria
+pois.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E ja n&atilde;o pensava em ti, ja te n&atilde;o via na minha
+alma: eu n&atilde;o existia, estava alli.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Volt&aacute;mos ao parque; apeei silenciosamente as
+minhas duas gentis companheiras, e eu fui so,
+<span class="pagenum">[209]</span>
+ap&eacute;, com passo firme e resoluto
+para a minha habita&ccedil;&atilde;o.
+Nenhuma d'ellas me procurou retter, nem
+me disse nada, nem tentou consolar-me. Paraqu&ecirc;?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+L. William R. chegava, na manhan seguinte, de
+uma de suas habituaes excurs&otilde;es a Londres. Veio
+ver-me assim que chegou, e trazer-me cartas
+de Portugal que eu esperava ha muito.&#8213;Disse-me
+que partia no outro dia para Swansea, a
+terra de Galles para onde Laura f&ocirc;ra; e que
+me incarregava de fazer companhia &aacute;s duas filhas
+que ficavam sos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A mim!..
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Estive tres dias sem as ver: em todos tres n&atilde;o
+fiz mais do que escrever a Laura.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+No quarto dia fui ao parque. Julia deu um
+grito de alegria quando me viu: raro exemplo
+de excep&ccedil;&atilde;o &aacute;s formuladas regras que
+tyrannizam
+a vida ingleza, que prescrevem at&eacute; a cara com
+que se hade morrer, e teem graduado o tom em
+que se deve exhalar o &uacute;ltimo suspiro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas a natureza chega a triumphar &aacute;s vezes
+at&eacute; da propria etiqueta britannica.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[210]</span>
+Julia cuidava que eu n&atilde;o queria voltar &aacute;quella
+casa, tinha-se resignado a n&atilde;o tornar a ver-me;
+n&atilde;o p&ocirc;de reprimir a alegria que lhe causou
+a minha inexperada appari&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Pass&aacute;mos todo o dia junctos e sos: quasi todo
+se nos foi passeando no parque, ou sentados &aacute;
+sombra de seus espessos arvoredos, ou mirando-nos
+nas crystallinas aguas de uma vasta represa
+povoada de aves aquaticas e rodeada d'aquelles
+immensos mantos de velludo verde de que perpetuamente
+se infeita a terra ingleza e que so
+desapparecem quando vem o hynverno extender-lhe
+porcima seus alvos len&ccedil;oes de neve.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Quiz ver o que eu escrevia &aacute; irman; dei-lhe
+a carta, leu-a, meditou-a, restituiu-m'a sem dizer
+palavra.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que horas pass&aacute;mos n'este silencio, n'esta eloquente
+mudez que n&atilde;o vem sen&atilde;o do muito de
+mais que a alma sente, do muito de mais que
+diria se fallasse!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Aacute; despedida, essa noite, deu-me uma bolsa
+de rede que Laura tinha estado fazendo para mim
+<span class="pagenum">[211]</span>
+e que lhe deix&aacute;ra para me intregar. Senti que
+tinha dentro o que quer que fosse a bolsa, n&atilde;o
+quiz examinar. Achei, quando voltei a casa,
+que era o <em>fadado cinto</em> de vidrilhos
+pretos que
+eu tanto tinha admirado em certo baile onde foramos
+junctos, e que Laura n&atilde;o deix&aacute;ra de p&ocirc;r
+nunca mais em se vestindo de branco e que fizesse
+alguma toilette.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ainda o conservo aquelle cinto precioso, Joanna;
+ainda a tenho, no meu thesoiro mais guardado,
+aquella joia, aquella reliquia. E amo-te,
+e amo-te a ti so como realmente nunca amei nem
+poderei tornar a amar. Mas aquelle cinto &eacute; uma
+sorte, um talisman, um amuleto em que est&aacute; o
+meu destino.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Amei... isto &eacute;, amei... pois sim, amei,
+ja que n&atilde;o ha outra palavra n'estas estupidas
+linguas que fallam os homens; pois amei
+outras mulheres, e nos dias de maior enthusiasmo
+por ellas, n&atilde;o deixei nunca de beijar devotamente
+aquelle cinto, de o appertar s&ocirc;bre o
+meu cora&ccedil;&atilde;o, de me incommendar a elle&#8213;como
+o salteador napolitano se incommenda ao escapulario
+da madona que traz ao peito, com as
+<span class="pagenum">[212]</span>
+m&atilde;os insanguentadas de matar, ou carregado do
+roubo que acaba de fazer.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ai, Joanna, n&atilde;o te digo eu que estou perdido,
+sem remedio, e que para mim n&atilde;o ha, n&atilde;o
+p&oacute;de haver salva&ccedil;&atilde;o nunca?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Vivi assim dois mezes. Laura n&atilde;o me escrevia:
+recebia as minhas cartas e respondia a Julia:
+por este modo nos correspondiamos. Julia era parte
+de n&oacute;s, era uma por&ccedil;&atilde;o do nosso amor,
+viviamos
+n'ella a nossa vida. E ja as confundia ambas por tal
+modo no meu cora&ccedil;&atilde;o que me surpreendia a
+n&atilde;o
+saber a qual queria mais. Julia parecia feliz d'este
+estado; eu era-o. Insensivelmente me habituei
+a elle, ja n&atilde;o tinha saudades do passado.
+E quando se approximou o casamento de Laura,
+que ella tinha de voltar de Galles, e que eu,
+fiel ao que promett&ecirc;ra, devia pretextar neg&oacute;cio
+urgentissimo em Londres que me obrigasse a ausentar-me
+at&eacute; &aacute; sua partida para a India, eu tive
+uma pena, uma difficuldade em cumprir o que
+promett&ecirc;ra que me invergonhava.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Parti por&ecirc;m; e alli me demorei um mez. Julia
+escrevia-me todos os dias e eu a ella. Na v&eacute;spera
+<span class="pagenum"><a name="p213">[213]</a></span>
+do dia fatal em que Laura ia ser de outro
+homem, Julia escreveu-me &eacute;stas palavras sos:&#8213;'O
+nosso romance acabou; come&ccedil;a uma historia
+s&eacute;ria. Laura manda-lhe o seu &uacute;ltimo adeus.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+E nunca mais se escreveu nem se pronunciou
+o nome de Laura entre n&oacute;s dous.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O gale&atilde;o que me levava para o Oriente as ruinas
+de toda a minha esperan&ccedil;a ha muito que navegava;
+entrava outubro e o hynverno inglez
+<a href="#e15">com</a> suas mais asperas, e n'este
+anno tam
+precoces, severidades. Eu sentia-me morrer de
+tristeza e de isolamento no meio da populosa e
+turbulenta Londres, Julia percebeu-o, e mandou-me
+voltar a &#8213;&#8213;shire. Voltei.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c23"></a>CAPITULO XLVIII.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;" class="intro">Carta
+de Carlos a Joanninha: contin&uacute;a.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O que eu senti quando, apezar de tam desfigurados
+pelos tres-altos de neve que os cubriam,
+comecei a reconhecer aquelles sitios da vizinhan&ccedil;a
+do parque, e a confrontar as &aacute;rvores, os pastios,
+os casaes d'aquelles arredores!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[216]</span>
+Era outra a express&atilde;o de physionomia da paizagem,
+mas as queridas fei&ccedil;&otilde;es eram as mesmas,
+e uma a uma lh'as ia estremando.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Emfim o meu <em>stage</em> parou &aacute;
+entrada do parque,
+e eu tomei ap&eacute; pela longa avenida.
+Eram
+nove horas da manhan, e a manhan brumosa, fria,
+mas o tempo macio, n&atilde;o estava
+<em>cru</em>, segundo a
+expressiva phrase do paiz.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Por entre a nevoa que me incubria a antiga
+mans&atilde;o e involvia as &aacute;rvores circumstantes n'um
+sudario cinzento e melancholico, fui caminhando,
+quasi pelo tacto, at&eacute; meia alameda talvez.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Parei a reflectir na minha posi&ccedil;&atilde;o e no que eu
+ia ser n'aquella casa que de novo me abria
+suas portas hospitaleiras, quando, atravez da neblina
+brancacenta e onde ella era mais rara, descubri
+um vulto que vinha a mim de entre as
+&aacute;rvores do parque.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O vulto era de mulher e parecia uma sombra,
+uma appari&ccedil;&atilde;o phantastica em meio d'aquella
+scena mysteriosa, so, triste.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p217">[217]</a></span>
+Na distancia figurava-se-me alto em demazia:
+Julia n&atilde;o era nem podia ser; Julia a mais diminutiva
+e delicada de quantas fadas bonitas e
+graciosas teem trazido varinha de cond&atilde;o. Laura...
+ai! Laura tam longe estava d'alli... Quem
+ser&iacute;a pois? So se fosse!.. Quem?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Aquella elegancia, aquelle cabello s&ocirc;lto e annellado,
+aquelle ar gentil n&atilde;o podia ser sen&atilde;o d'ella...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+D'ella, quem?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ainda te n&atilde;o fallei, quasi, da &uacute;ltima das tres
+bellas irmans que me incantavam, n&atilde;o t'a <a href="#e16">descrevi</a>,
+n&atilde;o t'a nomeei pelo seu nome. Repugnava-me
+faz&ecirc;-lo. Mas &eacute; preciso: custa-me, n&atilde;o
+ha remedio.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era Georgina...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Georgina que tu conheces, Georgina que...
+era Georgina a que vinha a mim n'aquella&#8213;fatal
+ou feliz?&#8213;manhan; Georgina que de todas
+tres era a que menos me fallava, que eu
+verdadeiramente menos conhecia.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum"><a name="p218">[218]</a></span>
+Este meu cora&ccedil;&atilde;o, &aacute;
+f&ocirc;r&ccedil;a de ferido e de <a href="#e17">mal
+curado</a> que tem sido, pressente e adivinha as
+mudan&ccedil;as
+de tempo com uma dor chronica que me
+d&aacute;. Pressenti n&atilde;o sei qu&ecirc; ao ver
+approximar-se
+Georgina...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Como foi bom em vir! Estou realmente
+feliz de o ver. E Julia, a pobre Julia, que alegria
+que vai ter, hade cur&aacute;-la de todo.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Pois qu&ecirc;! Julia est&aacute; doente?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o o sab&iacute;a!... Ai! n&atilde;o, bem sei
+que
+n&atilde;o: ella n&atilde;o lh'o quiz dizer. Julia
+est&aacute; doente;
+mas n&atilde;o &eacute; de cuidado. Eu sempre quiz advirti-lo
+antes que a visse, por isso calculei as horas
+do coche e vim para aqui esper&aacute;-lo.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute;stas palavras eram simples, n&atilde;o tinham nada
+que me devesse impressionar extraordinariamente,
+e todavia eu sentia-me agitado como nunca
+me sentira. Olhava para Georgina como se a visse
+a primeira vez, e pasmava de a ver tam bella,
+tam interessante.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&Eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o d'alma &eacute;sta
+que n&atilde;o sei que
+<span class="pagenum">[219]</span>
+a descrevessem ainda poetas nem romancistas:
+desprezam-n'a talvez, ou n&atilde;o a conhecem. Est&aacute;
+recebido que as subitas impress&otilde;es causadas por
+um primeiro inc&ocirc;ntro sejam as mais interessantes,
+as mais poeticas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu n&atilde;o nego o effeito theatral d'essas primeiras
+e repentinas sensa&ccedil;&otilde;es; mas sustento que
+interessa mais ess'outra inesperada e extranha
+impress&atilde;o que nos faz um objecto ja conhecido,
+que v&iacute;ramos com indifferen&ccedil;a at&eacute;alli,
+e que derrepente
+se nos mostra tam outro do que sempre
+o tinhamos considerado...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas &eacute;sta mulher &eacute; bella realmente! E eu que
+nunca o vi! Mas aquelles olhos s&atilde;o divinos! Onde
+tinha eu os meus at&eacute;gora? Mas este ar, mas
+&eacute;sta gra&ccedil;a onde os tinha ella escondidos? etc.
+etc.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+V&atilde;o-se gradualmente, v&atilde;o-se pouco a pouco
+descobrindo perfei&ccedil;&otilde;es, incantos; e o sentimento
+que resulta &eacute; mil vezes mais profundo, mais fundado,
+s&ocirc;bretudo, que o das taes primeiras impress&otilde;es
+tam cantadas e decantadas.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que mais te direi depois d'isto? Entr&aacute;mos
+<span class="pagenum">[220]</span>
+em casa, vi Julia, fall&aacute;mos de Laura muito e
+muito. Mas eu ja o n&atilde;o fiz com o enthusiasmo,
+com a admira&ccedil;&atilde;o exclusiva com que d'antes o
+fazia...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julia recobrou, breve, a saude, e com ella o
+equilibrio do espirito. Renovou-se toda a alegria,
+todo o incanto das nossas conversa&ccedil;&otilde;es
+&iacute;ntimas,
+dos nossos longos passeios. Laura lembrava com
+saudade; mas suavizava-se, imbrandecia gradualmente
+aquella saudade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Georgina, que at&eacute;alli parecia
+impenhar-se em
+se deixar eclipsar pela irman, agora, ausente ella,
+brilhava de toda a sua luz, em gra&ccedil;a, em espirito,
+por um natural singelo e franco, por uma exquisita
+do&ccedil;ura de maneiras, de voz, de express&atilde;o, de
+tudo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Julia revia-se n'ella, e eu acabei pela adorar.
+Vergonha eterna s&ocirc;bre mim! mas &eacute; a verdade:
+quiz-lhe mais do que a Laura, ou pareceu-me
+querer-lhe mais... que tanto vale.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu sei?.. N&atilde;o, n&atilde;o lhe queria tanto. Mas
+amei-a.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[221]</span>
+Amei, sim, e fui amado!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tres mezes durou a minha felicidade. &Eacute; o
+mais longo periodo de ventura que posso contar
+na vida. Falsa ventura, mas era.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A imperiosa lei da honra exigiu que nos separassemos,
+que partisse para os A&ccedil;ores. Fui.
+Ninguem sacrificou mais, ninguem deu tanto como
+eu para aquella expedi&ccedil;&atilde;o. A historia
+fallar&aacute;
+de muitos servi&ccedil;os, de muitas
+dedica&ccedil;&otilde;es.
+Quem saber&aacute; nunca d'esta?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A historia &eacute; uma tola.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu n&atilde;o posso abrir um livro de historia que
+me n&atilde;o ria. S&ocirc;bretudo as
+pondera&ccedil;&otilde;es e adivinha&ccedil;&otilde;es
+dos historiadores acho-as de um comico
+irresistivel. O que sabem elles das causas, dos
+motivos, do valor e importancia de quasi todos
+os factos que recontam?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ainda n&atilde;o sei como parti, como cheguei, como
+vivi os primeiros tempos da minha estada
+n'aquelle esc&ocirc;lho no meio do mar, chamado a ilha
+<span class="pagenum">[222]</span>
+Terceira, onde se tinham refugiado as pobres reliquias
+do partido constitucional.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Habituei-me porfim. A que se n&atilde;o affaz o
+homem?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Levaram-me uma tarde &aacute; grade de um convento
+de freiras que ahi havia. O meu ar triste,
+distrahido, indifferente excitou a piedade das
+boas monjas. Uma d'ellas, joven, ardente, apaixonada,
+quiz tomar a empresa de me consolar.
+N&atilde;o o conseguiu, coitada! O meu
+cora&ccedil;&atilde;o estava
+em &#8213;&#8213;shire em Inglaterra, estava na India,
+estava no valle de Santarem,
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Pelo mundo em peda&ccedil;os
+repartido;
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+estava em toda a parte, menos alli, que nada
+d'elle estava nem podia estar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Era Soledade que se chamava a freirinha, e
+com o seu nome ficou. Disseram o que quizeram
+os falladores que nunca faltam, mas mentiram
+como mentem quasi sempre, inganaram-se como
+se inganam sempre.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu n&atilde;o amei a Soledade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[223]</span>
+E comtudo lembro-me d'ella com pena, com
+sympathia... Se eu sou feito assim, meu Deus,
+e assim heide morrer!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Viemos para Portugal; e o resto agora da
+minha historia sabes tu.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Cheguei porfim ao nosso valle, todo o passado
+me esqueceu assim que te vi. Amei-te... n&atilde;o,
+n&atilde;o &eacute; verdade assim. Conheci, mal que te vi
+entre aquellas &aacute;rvores, &aacute; luz das estrellas,
+conheci
+que era a ti so que eu tinha amado sempre,
+que para ti nasc&ecirc;ra, que teu so devia ser,
+se eu ainda tivera cora&ccedil;&atilde;o que te dar, se a minha
+alma fosse capaz, fosse digna de junctar-se
+com essa alma d'anjo que em ti habita.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o &eacute;, Joanna; bem o ves, bem o sentes,
+como eu o sinto e o vejo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu sim tinha nascido para gosar as do&ccedil;uras da
+paz e da felicidade dom&eacute;stica; fui creado, estou certo,
+para a gl&oacute;ria tranquilla, para as delicias modestas
+de um bom pae de familias.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas n&atilde;o o quiz a minha estrella. Embriagou-se
+de poesia a minha imagina&ccedil;&atilde;o e perdeu-se:
+n&atilde;o me recobro mais. A mulher que me amar
+<span class="pagenum">[224]</span>
+hade ser infeliz por f&ocirc;r&ccedil;a, a que me intregar o
+seu destino, hade v&ecirc;-lo perdido.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+N&atilde;o quero, n&atilde;o posso, n&atilde;o devo amar a
+ninguem
+mais.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+A desola&ccedil;&atilde;o e o oppr&oacute;brio entraram no
+seio
+da nossa familia. Eu renuncio para sempre ao lar
+dom&eacute;stico, a tudo quanto quiz, a tudo quanto
+posso querer. Deus que me castigue, se ousa fazer
+uma injusti&ccedil;a, porque eu n&atilde;o me fiz o que
+sou, n&atilde;o me talhei a minha sorte, e a fatalidade
+que me persegue n&atilde;o &eacute; obra minha.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Adeus Joanna, adeus prima querida, adeus
+irman da minha alma! Tu accompanha nossa av&oacute;,
+tu consola esse infeliz que &eacute; o auctor da sua e das
+nossas desgra&ccedil;as. Tu, sim, que podes; e esquece-me.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eu, que nem morrer ja posso, que vejo terminar
+desgra&ccedil;adamente &eacute;sta guerra no unico momento
+em que a podia aben&ccedil;oar, em que ella
+podia felicitar-me com uma balla que me mandasse
+aqui bem direita ao cora&ccedil;&atilde;o, eu que farei?
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Creio que me vou fazer homem politico, fallar
+<span class="pagenum">[225]</span>
+muito na patria com que me n&atilde;o importa,
+ralhar dos ministros que n&atilde;o sei quem s&atilde;o, palrar
+dos meus servi&ccedil;os que nunca fiz por vontade;
+e quem sabe?.. talvez darei porfim em agiota,
+que &eacute; a unica vida de emo&ccedil;&otilde;es para
+quem ja
+n&atilde;o p&oacute;de ter outras.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Adeus minha Joanna, minha adorada Joanna,
+pela &uacute;ltima vez, adeus!<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h3><a name="c24"></a>CAPITULO XLIX.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="intro">De como Carlos se fez
+bar&atilde;o.&#8213;Fim da historia de
+Joanninha.&#8213;Georgina
+abbadessa.&#8213;Juizo de Fr. Diniz s&ocirc;bre a
+quest&atilde;o dos frades e dos bar&otilde;es.&#8213;Que
+n&atilde;o p&oacute;de tornar a
+ser o que foi, mas muito menos p&oacute;de ser o que &eacute;.
+O que
+hade ser, Deus o sabe e prover&aacute;.&#8213;Vai o A. dormir ao
+Cartaxo.&#8213;Sonho
+que ahi tem.&#8213;Volta a Lisboa.&#8213;Caminhos
+de ferro e de papel.&#8213;Conclus&atilde;o da viagem e d'este livro.
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acabei de ler a carta de Carlos, intreguei-a a
+Fr. Diniz em silencio. Elle tornou-me:
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Leu?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[228]</span> &#8213;'Li.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Que mais quer saber? Sinto que lhe posso
+dizer tudo: n&atilde;o o conhe&ccedil;o, mas...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Mas deve conhecer-me por um homem
+que se interessa vivamente...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Em qu&ecirc;? nas elei&ccedil;&otilde;es, na agiotagem,
+nos
+bens nacionaes?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o senhor. Fui camarada de Carlos, n&atilde;o
+o vejo ha muitos annos e...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Nem o conhecia se o visse agora: ingordou,
+inriqueceu, e &eacute; bar&atilde;o...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Bar&atilde;o!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'&Eacute; bar&atilde;o, e vai ser deputado qualquer
+dia.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Que transforma&ccedil;&atilde;o! Como se fez isso,
+sancto Deus! E Joanninha e Georgina?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Joanninha inlouqueceu e morreu. Georgina
+<span class="pagenum">[229]</span>
+&eacute; abbadessa de um convento em Inglaterra.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Abbadessa?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Sim. Converteu-se &aacute; communh&atilde;o catholica;
+era ricca, fundou um convento em &#8213;&#8213;shire e l&aacute;
+est&aacute; servindo a Deus.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E &eacute;sta pobre senhora, a av&oacute; de Joanninha?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Ahi est&aacute; como a ve, morta de alma para tudo.
+N&atilde;o ve, n&atilde;o ouve, n&atilde;o falla, e
+n&atilde;o conhece
+ninguem. Joanninha veio morrer aqui n'esta
+fatal casa do valle, eu estava ausente, expirou
+nos bra&ccedil;os d'ella e de Georgina. Desde esse instante
+a av&oacute; cahiu n'aquelle estado. Est&aacute; morta,
+e n&atilde;o espero aqui sen&atilde;o a
+dissolu&ccedil;&atilde;o do corpo
+para o interrar, se eu n&atilde;o for primeiro, e
+Deus queira que n&atilde;o! quem hade tomar conta
+d'ella, ter charidade com a pobre da demente?
+Mas depois... oh! depois... espero no Senhor que se
+compade&ccedil;a emfim de tanto soffrer e me leve
+para si.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Mas Carlos?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[230]</span> &#8213;'Carlos &eacute; bar&atilde;o: n&atilde;o lh'o disse ja?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Mas por ser bar&atilde;o?..'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'N&atilde;o sabe o que &eacute; ser bar&atilde;o?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Oh se sei! Tam poucos temos n&oacute;s?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Pois bar&atilde;o &eacute; o succedaneo dos...'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Dos frades... Ruim substitui&ccedil;&atilde;o!'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Vi um dos taes papeis liberaes em que isso
+vinha: e &eacute; a unica coisa que leio d'essas ha
+muitos annos. Mas fizeram-m'o ler.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'E que lhe pareceu?'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Bem escripto e com verdade. Tivemos
+culpa n&oacute;s, &eacute; certo; mas os liberaes
+n&atilde;o tiveram
+menos.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Err&aacute;mos ambos.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+&#8213;'Err&aacute;mos e sem remedio. A sociedade ja
+n&atilde;o &eacute; o que foi, n&atilde;o p&oacute;de
+tornar a ser o que
+<span class="pagenum">[231]</span>
+era;&#8213;mas muito menos ainda p&oacute;de ser o que &eacute;.
+O que hade ser, n&atilde;o sei. Deus prover&aacute;.'
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Ditto isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviario
+e poz-se a rezar. A velha dobava sempre,
+sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos alguns
+segundos. Nenhum me deu mais atten&ccedil;&atilde;o
+nem pareceu conscio da minha estada alli.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Sentia-me como na presen&ccedil;a da morte e atterrei-me.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fiz um esf&ocirc;r&ccedil;o s&ocirc;bre mim, fui
+deliberadamente
+ao meu cavallo, montei, piquei desesperado
+d'esporas, e n&atilde;o parei sen&atilde;o no Cartaxo.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Incontrei alli os meus companheiros; era tarde,
+fomos ficar f&oacute;ra da villa &aacute; hospedeira casa
+do Sr. L. S.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Rimos e folg&aacute;mos at&eacute; alta noite: o resto dormimos
+a somno s&ocirc;lto.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas eu sonhei com o frade, com a velha&#8213;e
+com uma enorme constella&ccedil;&atilde;o de bar&otilde;es
+que
+luzia n'um ceu de papel, d'onde choviam, como
+<span class="pagenum">[232]</span>
+farrapos de neve, n'uma noite pollar, notas azues,
+verdes, brancas, amarellas, de todas as c&ocirc;res e
+matizes possiveis. Eram milh&otilde;es e milh&otilde;es e
+milh&otilde;es...
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nunca vi tanto milh&atilde;o, nem ouvi fallar de
+tanta riqueza sen&atilde;o nas mil e uma noites.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Acordei no outro dia e n&atilde;o vi nada... so uns
+pobres que pediam esmola &aacute; porta.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Metti a m&atilde;o na algibeira, e n&atilde;o achei
+sen&atilde;o
+notas... papeis!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Parti para Lisboa cheio de agoiros, de ingui&ccedil;os
+e de tristes presentimentos.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O vapor vinha quasi vazio, mas nem por isso
+andou mais depressa.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Eram boas cinco horas da tarde quando desimbarc&aacute;mos
+no Terreiro-do-Pa&ccedil;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Assim terminou a nossa viagem a Santarem: e
+assim termina este livro.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[233]</span>
+Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado
+alguma coisa do que vi. De todas quantas
+viagens por&ecirc;m fiz, as que mais me interessaram
+sempre foram as viagens na minha terra.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Se assim o pensares, leitor benevolo, quem
+sabe? p&oacute;de ser que eu tome outra vez o bord&atilde;o
+de romeiro, e va perigrinando por esse Portugal
+f&oacute;ra, em busca de historias para te contar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Nos caminhos de ferro dos bar&otilde;es &eacute; que eu
+juro n&atilde;o andar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Escusada &eacute; a jura por&ecirc;m.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Se as estradas fossem de papel, fa-las-iam,
+n&atilde;o digo que n&atilde;o.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Mas de metal!
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Que tenha o gov&ecirc;rno juizo, que as fa&ccedil;a de
+pedra, que p&oacute;de, e viajaremos com muito prazer
+e com muita utilidade e proveito na nossa
+boa terra.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2>NOTAS</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2><a name="c25"></a>NOTAS
+</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<h3>AO LIVRO SEGUNDO.
+</h3>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota A.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">Fic&aacute;mos sem
+Nibelungen
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n1">pag.
+3.</a>
+</div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Collec&ccedil;&atilde;o de antigas rhapsodias germanicas
+contendo
+o maravilhoso e poetico de suas origens historicas
+e que &eacute; para os povos theutonicos o que era a
+Il&iacute;ada
+para os hellenos. So se n&atilde;o sabe o nome do Homero
+<span class="pagenum">[238]</span>
+allem&atilde;o que as redigiu e uniformizou como hoje se
+acham.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota B.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">
+Caranguejar para as
+Lamas<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n2">
+pag. 3.
+</a></div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fundo baixo do Tejo, ao longo da praia de Sanctos,
+que tem este nome e &eacute; onde v&atilde;o apodrecer as
+carcassas
+dos navios velhos e ja inuteis.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota C.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">
+Os p&eacute;s no
+<em>fender</em><br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n3">
+pag. 4.
+</a></div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Fender se chama em inglez a pequena e baixa tea
+de metal que defende o fog&atilde;o nas salas, paraque
+n&atilde;o
+caiam brazas nos sobrados. Descan&ccedil;am n'elle os
+p&eacute;s
+naturalmente quando a gente se est&aacute; confortavelmente
+aquecendo em liberdade.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota D.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">
+Perfumados resplendores do <em>Old
+sack</em><br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n4">
+pag. 5.
+</a></div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Tem-se disputado muito s&ocirc;bre qual seja a bebida
+espirituosa celebrada por Shakspeare tantas vezes
+com este nome. A opini&atilde;o mais acceita &eacute; que fosse
+boa e velha aguardente de Fran&ccedil;a.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<span class="pagenum">[239]</span>
+<h4><span class="smallcaps">Nota E.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">
+Renegaram de San'Tiago por
+castelhano<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n5">
+pag. 5.
+</a></div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+O grito de guerra commum a todas as na&ccedil;&otilde;es
+christans
+hespanholas era: San'Tiago! Quando na access&atilde;o
+da casa de Avis nos alli&aacute;mos intimamente com a
+Inglaterra contra Castella, come&ccedil;&aacute;mos a invocar
+San'Jorge.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota F.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">
+Vacca e riso de Fr. Bartholomeu dos
+Martyres<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n6">
+pag. 9.
+</a></div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Singela e original express&atilde;o do sancto arcebispo
+n'uma carta de convite a um seu amigo. Fez-se, como
+devia ser, proverbial &eacute;sta phrase.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota G.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">
+Feliz express&atilde;o do Sr. Conde de
+Raczinski<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n7">
+pag. 124.
+</a></div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Na sua obra intitulada 'Les arts en Portugal', Paris
+1845.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota H.</span>
+</h4>
+
+
+<br />
+
+
+<div class="quote">
+O centro perde o centro de gravidade, o barbas arrepella
+as barbas<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="signature"><a href="#n8">
+pag. 127.
+</a></div>
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+Centro e barbas s&atilde;o qualifica&ccedil;&otilde;es e
+nomes de impregos
+theatraes.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<h2><a name="p241"></a>INDICE.
+</h2>
+
+
+<br />
+
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXVI</span>&#8213;Modo
+de ler os
+auctores antigos,
+e os <a href="#e18">modernos</a>
+tambem.&#8213;Horacio na
+sacra-via.&#8213;Duarte Nunes iconoclasta da nossa
+historia.&#8213;A policia e os barcos de vapor.&#8213;Os
+vandalos do feliz systema que nos rege.&#8213;Shakspeare
+lido em Inglaterra a um bom fogo,
+com um copo de <em>old-sack</em>
+s&ocirc;bre a banca.&#8213;Sir
+John <a href="#e19">Falstaff</a> se foi maior homem
+que
+Sancho-Pansa?&#8213;Grande
+e importante descuberta archeologica
+s&ocirc;bre San'Tiago, San'Jorge e Sir
+John Falstaff.&#8213;Pr&oacute;va-se a vinda d'este &uacute;ltimo
+a Portugal.&#8213;O enthusiasta britannico no
+tumulo
+de Heloisa e Abeillard no P&egrave;re-la-Chaise.&#8213;Bentham
+e Cam&otilde;es.&#8213;Chega o auctor &aacute; sua
+janella, e pasmosa <em>miragem</em> poetica
+produzida
+por umas oitavas dos Lusiadas.&#8213;De como em
+fim proseguem &eacute;stas viagens para Santarem, e
+que feito ser&aacute; de
+Joanninha.</td>
+
+
+ <td style="width: 1px;"></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 30px;"><a href="#c1">1</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXVII</span>&#8213;Chegada
+a
+Santarem.&#8213;Olivaes
+de Santarem.&#8213;F&oacute;ra-de-Villa.&#8213;Symetria que n&atilde;o
+&eacute; para os olhos.&#8213;Modo de medir os versos da
+biblia.&#8213;Architectura pedante do seculo XVII.&#8213;Entrada na
+Alc&aacute;&ccedil;ova.</td>
+
+
+ <td style="width: 1px;"></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c2">11</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXVIII</span>&#8213;Depois
+de muito procurar acha em fim o auctor a egreja de Sancta-Maria
+d'Alc&aacute;&ccedil;ova.&#8213;Stylo da architectura nacional
+perdido.&#8213;O terremoto de 1755, o marquez
+de Pombal e o chafariz do Passeio-p&uacute;blico de
+Lisboa.&#8213;O chefe do partido progressista portuguez
+no alcassar de D. Affonso Henriques.&#8213;Deliciosa
+vista dos arredores de Santarem observada
+de uma janella da Alc&aacute;&ccedil;ova, de
+manhan.&#8213;&Eacute;
+tomado o auctor de ideas vagas,
+poeticas, phantasticas como um
+sonho.&#8213;Introduc&ccedil;&atilde;o
+do Fausto.&#8213;Difficuldade de traduzir
+os versos germanicos nos nossos dialectos
+romanos.</td>
+
+
+ <td style="width: 1px;"></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c3">19</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<span class="pagenum">[242]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXIX</span>&#8213;Do&ccedil;uras
+da vida.&#8213;Imagina&ccedil;&atilde;o
+e sentimento.&#8213;Poetas que morreram mo&ccedil;os
+e poetas que morreram velhos.&#8213;Como s&atilde;o
+escriptas &eacute;stas viagens.&#8213;Livro de pedra. Crian&ccedil;a
+que brinca com elle.&#8213;Ruinas e repara&ccedil;&otilde;es.&#8213;Idea
+fixa do A. em coisas d'arte e litterarias.&#8213;Sancta
+Iria ou Irene, e Sanctarem.&#8213;Romance
+de Sancta Iria.&#8213;Quantas sanctas ha
+em Portugal d'este
+nome?</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="width: 30px; vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#c4">29</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXX</span>&#8213;Historia
+de Sancta
+Iria segundo
+os chronistas e segundo o romance
+popular.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c5">39</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXI</span>&#8213;Quommodo
+sedet sola
+civitas.&#8213;Santarem.&#8213;Portugal
+em verso e Portugal
+em prosa.&#8213;Exquisito lavor de umas portas e
+janellas de architectura mosarabe.&#8213;Busto de
+D. Affonso Henriques.&#8213;As salgadeiras de Affrica.&#8213;Porta
+do Sol.&#8213;Muralhas de Santarem.&#8213;Voltemos &aacute; historia de Fr.
+Diniz e da menina
+dos olhos verdes.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c6">49</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<span class="pagenum">[243]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXII</span>&#8213;Torn&acirc;mos
+&aacute; historia do Joanninha.&#8213;Preparativos
+de guerra.&#8213;A morte.&#8213;Carlos
+ferido e prisioneiro.&#8213;O hospital.&#8213;O
+infermeiro.&#8213;Georgina</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c7">55</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXIII</span>&#8213;Carlos
+e
+Georgina. Explica&ccedil;&atilde;o.&#8213;Ja
+te n&atilde;o amo! palavra terrivel.&#8213;Que
+o amor verdadeiro n&atilde;o &eacute; cego.&#8213;Frade no caso
+outra vez. <em>Ecce iterum Crispinus</em>; ca
+est&aacute; o
+nosso Fr. Diniz
+comnosco.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c8">69</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXIV</span>&#8213;Carlos,
+Georgina e
+Fr. Diniz.&#8213;A
+peripecia do drama.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c9">79</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXV</span>&#8213;Reuni&atilde;o
+de toda a familia.&#8213;Explica&ccedil;&atilde;o
+dos mysterios.&#8213;O cora&ccedil;&atilde;o da
+mulher.&#8213;Parricidio.&#8213;Carlos beija emfim a m&atilde;o
+a Fr. Diniz e abra&ccedil;a a pobre da
+av&oacute;.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c10">87</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXVI</span>&#8213;Que
+n&atilde;o
+se acabou a historia
+de Joanninha.&#8213;Processo ao cora&ccedil;&atilde;o de
+Carlos.&#8213;Immoralidade.&#8213;Defeito de organiza&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o &eacute; immoralidade.&#8213;Horror, horror,
+maldic&ccedil;&atilde;o!&#8213;Um bar&atilde;o que
+n&atilde;o pertence &aacute;
+familia lineana dos bar&otilde;es propriamente dittos.&#8213;Porta
+de Atamarma.&#8213;Senatus consulto santareno.&#8213;Nossa
+Senhora&nbsp; da Victoria
+ <em>afforada</em>.&#8213;Threnos
+s&ocirc;bre
+Santarem.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c11">99</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXVII</span>&#8213;A
+Gra&ccedil;a e sua bella fachada gothica.&#8213;Sepultura de
+Pedr'alvares Cabral.&#8213;Outro
+bar&atilde;o que n&atilde;o &eacute; dos
+assignalados.&#8213;Egreja
+do Sancto-milagre.&#8213;Bellos medalh&otilde;es
+mosarabes.&#8213;De como, chegando o
+prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre,
+e com que solemnidades.&#8213;Monumento
+da muito alta e poderosa princeza a infanta
+D. Maria da Assump&ccedil;&atilde;o.&#8213;Casa onde
+succedeu o milagre convertida em capella de
+stylo philippino.&#8213;O homem das botas, e o
+que tem elle que haver com o Sancto-milagre
+de Santarem.&#8213;Admiravel e graciosa esperteza
+da regencia do Rocio.&#8213;Aaroun-el-Arraschid:
+e theoria dos governos folgas&otilde;es, os melhores
+governos possiveis.&#8213;Volta o paladio
+scalabitano de Lisboa para
+Santarem.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c12">111</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<span class="pagenum">[244]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXVIII</span>&#8213;Jantar
+nos reaes
+pa&ccedil;os de
+Affonso Henriques.&#8213;Saut&eacute;s e salmis.&#8213;Desce
+o A. &aacute; Ribeira de Santarem em busca da
+tenda do Alfageme.&#8213;A espada do Condestavel.&#8213;Desappontamento.&#8213;O
+sal&atilde;o elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. Os
+fosseis.
+Tudo melhor quando visto de longe.&#8213;O
+baile p&uacute;blico.&#8213;Soir&eacute;e de piano
+obrigado.&#8213;Theatro.
+Desaffina&ccedil;&otilde;es da prima-dona.&#8213;Syphlis
+incuravel das traduc&ccedil;&otilde;es. Destemp&ecirc;ro
+dos originaes.&#8213;A x&aacute;cara de rigor, o subterraneo
+e o cemiterio.&#8213;Sublime gallimathias
+do ridiculo.&#8213;A bella e necessaria palavra
+'gallimathias.'&#8213;Se as saudades matam.&#8213;Perigo
+de applicar o scalpello ou a lente ao
+mais perfeito das coisas humanas.&#8213;De como
+a logica &eacute; a mais perniciosa de todas as
+incoherencias.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c13">121</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<span class="pagenum">[245]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXIX</span>&#8213;Processo
+de
+scepticismo em
+que est&aacute; o auctor.&#8213;Moralistas de
+ <em>requiem</em>.&#8213;O
+maior sonho d'esta vida, a logica.&#8213;Differen&ccedil;a
+do poeta ao philosopho.&#8213;O cora&ccedil;&atilde;o de
+Horacio.&#8213;O collegio de Santarem.&#8213;Jesuitas
+e templarios.&#8213;O alliado natural dos reis:&#8213;'Ficar
+na gazeta' phrase muito mais exacta
+hoje do que 'Ficar no tinteiro'.&#8213;San'Frei
+Gil e o Doutor Fausto.&#8213;De como o A. foi ao
+tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.&#8213;Quem
+o roubaria?</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c14">131</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XL</span>&#8213;As
+Claras.&#8213;Aventura
+nocturna.&#8213;Se
+as freiras mettem&nbsp;medo aos liberaes?
+O Psalmo.&#8213;Tres frades.&#8213;Pr&aacute;ctica do franciscano.&#8213;O
+corpo de San' Fr. Gil.&#8213;Que se
+hade fazer das freiras?&#8213;Mal do gov&ecirc;rno que
+deixar comer mais aos
+bar&otilde;es.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c15">141</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLI</span>&#8213;O
+roubador do corpo
+do sancto
+descuberto pela arguta prespicacia do leitor
+benevolo.&#8213;Grande lacuna na nossa historia.&#8213;Porque
+se n&atilde;o preenche?&#8213;P&aacute;gina preta
+na historia de Tristam Shandy.&#8213;Novellas e
+romances, livros insignificantes.&#8213;O adro de
+San'Francisco e as suas acacias.&#8213;Que ser&aacute;
+feito de Joanninha?&#8213;O peito da mulher do
+norte.&#8213;Vamos embora: ja me infada Santarem
+e as suas ruinas.&#8213;A corneta do soldado
+e a trombeta do juizo final.&#8213;Eheu, Portugal, eheu!</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c16">151</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<span class="pagenum">[246]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLII</span>&#8213;Protesto
+do
+auctor.&#8213;Desaffina&ccedil;&atilde;o
+dos nervos.&#8213;O que &eacute; preciso para que
+as ruinas sejam solemnes e sublimes.&#8213;Que
+Deus est&aacute; no Colliseu assim como em San'Pedro.&#8213;Quer-se
+o auctor ir embora de Santarem.&#8213;Como,
+sem ver o tumulo d'elrei D.
+Fernando?&#8213;Em que estado se acha este.&#8213;Exemplar
+de stylo byzantino.&#8213;Coroa real s&ocirc;bre
+a caveira.&#8213;O rei d'espadas e o symbolo
+do imperio.&#8213;Quem nunca viu o rei cuida que
+&eacute; de oiro.&#8213;Brutalidades da soldadesca n'um
+tumulo real.&#8213;O que se acha nas sepulturas
+dos reis.&#8213;A phrenologia.&#8213;Vindicta p&uacute;blica,
+tardia mas ultrajante.&#8213;Cam&otilde;es e Duarte Pacheco.&#8213;A
+sombra falsa da religi&atilde;o.&#8213;Regimen
+dos bar&otilde;es e da materia.&#8213;A prosa e a
+poesia do povo.&#8213;Synthese e an&aacute;lyse.&#8213;O senso
+&iacute;ntimo.&#8213;Se o auctor &eacute; demagogo ou Jesuita?&#8213;Jesu
+Christo e os
+bar&otilde;es&nbsp;</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c17">157</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLIII</span>&#8213;Partida
+de
+Santarem.&#8213;Pinacotheca.&#8213;Impaciencia
+e saudades.&#8213;Sexta-feira.&#8213;Martyrio
+obscuro.&#8213;A figura do peccado.&#8213;Estamos
+no valle outra vez.&#8213;Evoca&ccedil;&atilde;o
+de incanto.&#8213;A irman Francisca e Fr. Diniz.&#8213;A
+teia de Penelope.&#8213;E Joanninha?&#8213;Joanninha
+est&aacute; no ceo.&#8213;A mulher morta a dobar
+esperando que a interrem.&#8213;A esperan&ccedil;a,
+virtude do christianismo.&#8213;Uma
+carta.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c18">167</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td><span class="smallcaps">Capitulo XLIV</span>&#8213;Carta
+de Carlos a
+Joanninha.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c19">177</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<span class="pagenum">[247]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLV</span>&#8213;Carta
+de Carlos a
+Joanninha:
+contin&uacute;a.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c20">187</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLVI</span>&#8213;Carta
+de Carlos a
+Joanninha:
+contin&uacute;a.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c21">195</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLVII</span>&#8213;Carta
+de Carlos a
+Joanninha:
+contin&uacute;a.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c22">207</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLVIII</span>&#8213;Carta
+de Carlos a
+Joanninha:
+contin&uacute;a.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c23">215</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLIX</span>&#8213;De
+como Carlos se
+fez bar&atilde;o.&#8213;Fim
+da historia da Joanninha.&#8213;Georgina
+abbadessa.&#8213;Juiso de Fr. Diniz s&ocirc;bre a quest&atilde;o
+dos frades e dos bar&otilde;es.&#8213;Que n&atilde;o p&oacute;de
+tornar a ser o que foi, mas muito menos p&oacute;de
+ser o que &eacute;? O que hade ser, Deus o sabe e
+prover&aacute;.&#8213;Vai o A. dormir ao Cartaxo.&#8213;Sonho
+que ahi tem.&#8213;Volta a Lisboa.&#8213;Caminhos
+de ferro e de papel.&#8213;Conclus&atilde;o da viagem
+e d'este livro.</td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c24">227</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Notas</span></td>
+
+
+ <td></td>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c25">237</a></td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<span class="smallcaps"></span><br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<b>Notas:</b><br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<sup><a name="1">[1]</a></sup>
+Transcrevemos aqui o original allem&amp;atilde;o, para
+se
+avaliar o que fica ditto no texto.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="poetry">Ihr naht euch wieder, schwankende
+Gestalten, <br />
+
+
+Die fr&uuml;h sich einst dem tr&uuml;ben Blick gezeigt. <br />
+
+
+Versuch ich wohl euch diesmal fest zu halten? <br />
+
+
+F&uuml;hl' ich mein Herz noch jenem Wahn geneigt? <br />
+
+
+Ihr dr&auml;ngt euch zu! nun gut, so m&ouml;gt ihr walten <br />
+
+
+Wie ihr aus Dunst und Nebel um mich steigt; <br />
+
+
+Mein Busen f&uuml;hlt sich jugendlich ersch&uuml;ttert <br />
+
+
+Vom Zauberhauch, der euren Zug umwittert. <br />
+
+
+Ihr bringt mit euch die Bilder froher Tage, <br />
+
+
+Und manche liebe Schatten steigen auf; <br />
+
+
+Gleich einer halbverklungen Sage <br />
+
+
+Commt erste Lieb' und Freundschaft mit herauf; <br />
+
+
+Der Schmerz wird neu, es wiederholt die klage <br />
+
+
+Des lebens labyrintisch irren Lauf, <br />
+
+
+Und nennt die Guten, die, um sch&ouml;ne Stunden <br />
+
+
+Vom Gl&uuml;ck get&auml;uscht, vor mir hinweggeschwunden<br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+<sup><a name="2">[2]</a></sup> Nas notas
+a <span class="smallcaps">Adozinda</span>,
+vol. I do 'Romanceiro,'
+nota N,
+citei differentemente &eacute;sta copla pela
+imperfeita lic&ccedil;&atilde;o
+de um Ms. do Minho, unico que tinha &aacute; m&atilde;o.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<sup><a name="3">[3]</a></sup> Outra
+lic&ccedil;&atilde;o, e talvez melhor diz
+<em>a coitada</em>.<br />
+
+
+<br />
+
+
+<sup><a name="4">[4]</a></sup> Thomar.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<sup><a name="5">[5]</a></sup> De frades
+e de freiras.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<sup><a name="6">[6]</a></sup> Deus,
+venerunt gentes in hereditatem tuam. Ps. 78.
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+
+ <tbody>
+
+
+ <tr align="right">
+
+
+ <td style="width: 64px;"></td>
+
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 131px;">Original</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;"></td>
+
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e1"></a><a href="#p2">#p&aacute;g.
+2</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">et mos</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">est
+mos*</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e2"></a><a href="#p5">#p&aacute;g.
+5</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">Faltaffs</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">Falstaffs</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e3"></a><a href="#p17">#p&aacute;g.
+17</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">San'Jo&atilde;o-de-Alpiar&ccedil;a</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">San'Jo&atilde;o
+do Alpor&atilde;o*</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e4"></a><a href="#p17">#p&aacute;g.
+17</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">egrea</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">egreja*</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a href="#p43" name="e5"></a><a href="#p43">#p&aacute;g.
+43</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">retiraam</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">retiraram</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e6"></a><a href="#p50">#p&aacute;g.
+50</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">recordam</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">memoram*</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e7"></a><a href="#p62">#p&aacute;g.
+62</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">stil</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">still*</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e8"></a><a href="#p81">#p&aacute;g.
+81</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">da
+intranhas</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">das
+intranhas</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e9"></a><a href="#c11">#p&aacute;g.
+99</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">Horor</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">Horror</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e10"></a><a href="#p118">#p&aacute;g.
+118</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">quelle</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">aquelle</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e11"></a><a href="#p118">#p&aacute;g.
+118</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">digno
+do
+ornar</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">digno
+de
+ornar</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e12"></a><a href="#p119">#p&aacute;g.
+119</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">LisboaTejo</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">Lisboa
+Tejo</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e13"></a><a href="#p123">#p&aacute;g.
+123</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">confrontar-
+algum</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">confrontar
+algum</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 64px;"><a name="e14"></a><a href="#p138">#p&aacute;g.
+138</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">extistencia</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px; vertical-align: middle;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">existencia</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e15"></a><a href="#p213">#p&aacute;g.
+213</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">com com</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">com</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e16"></a><a href="#p217">#p&aacute;g.
+217</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">desdescrevi</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">descrevi</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e17"></a><a href="#p218">#p&aacute;g.
+218</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">ma
+curado</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">mal
+curado</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e18"></a><a href="#p241">#p&aacute;g.
+241</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">modernas</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">modernos</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+ <tr>
+
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e19"></a><a href="#p241">#p&aacute;g.
+241</a></td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 131px;">Flastaff</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td>
+
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">Falstaff</td>
+
+
+ </tr>
+
+
+
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+
+<br />
+
+
+<br />
+
+
+<div style="text-align: center;">*
+correc&ccedil;&otilde;es feitas com base na errata do
+pr&oacute;prio livro.<br />
+
+
+<br />
+
+
+Shakespeare, San' Thiago e Joanninha surgem neste livro como
+Shakspeare, San'Tiago e Joaninha respectivamente.<br />
+
+
+Dada a repetitividade constante, decidi
+manter de acordo com o original.<br />
+
+
+<br />
+
+
+</div>
+
+
+<br />
+
+
+</div>
+
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra (Volume II), by
+Almeida Garrett
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA (VOLUME II) ***
+
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+
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+
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+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
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+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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