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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:13:03 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Viagens na Minha Terra (Volume II) + +Author: Almeida Garrett + +Release Date: January 15, 2008 [EBook #24319] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA (VOLUME II) *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + + +<br /> + + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Jan. 2008) +</div> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2>OBRAS<br /> + + +<br /> + + +DE<br /> + + +<br /> + + +J. B. DE A. GARRETT.<br /> + + +<br /> + + +IX.<br /> + + +<br /> + + +<span class="smallcaps">(<em>segundo das viagens.</em>)</span></h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="bbox"> +<h1>VIAGENS<br /> + + +</h1> + + +<h4>NA MINHA TERRA +</h4> + + +<h2>POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.</h2> + + +<h2><br /> + + +II. +</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h4>LISBOA<br /> + + +NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.<br /> + + +1846.<br /> + + +</h4> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2>VIAGENS NA MINHA TERRA. +</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c1"></a>CAPITULO XXVI. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro">Modo de ler os auctores antigos, e os +modernos tambem.―Horacio +na sacra-via.―Duarte Nunes iconoclasta da nossa +historia.―A policia e os barcos de vapor.―Os vandalos +do feliz systema que nos rege.―Shakspeare lido em Inglaterra +a um bom fogo, com um copo de +<em>old-sack</em> sôbre +a banca.―Sir John Falstaff se foi maior homem que +Sancho-Pansa?―Grande +e importante descuberta archeologica +sôbre San'Thiago, San'Jorge e Sir John +Falstaff.―Próva-se +a vinda d'este último a Portugal.―O enthusiasta +britannico no tumulo de Heloisa e Abeillard no Pere-la-Chaise.―Bentham +e Camões.―Chega o <em>auctor</em> +á sua janella, e pasmosa +miragem poetica produzida por umas oitavas dos Lusiadas.―De +como emfim proseguem éstas viagens para Santarem, +e que feito será de Joanninha. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Se eu for algum dia a Roma, heide entrar +na cidade eterna com o meu Tito-Livio e o +meu Tacito nas algibeiras do meu paletó de +viagem. Alli, sentado n'aquellas ruinas immortaes, +<span class="pagenum"><a name="p2">[2]</a></span> +sei que heide intender melhor a sua história, +que o texto dos grandes escriptores se me +hade illustrar com os monumentos d'arte que os +viram escrever, e que uns recordam, outros presenciaram +os feitos memoraveis, o progresso e a +decadencia d'aquella civilização pasmosa. +<br /> + + +<br /> + + +E Juvenal e Horacio? o meu Horacio, o meu +velho e fiel amigo Horacio!.. Deve ser um prazer +regio ir lendo pela sacra-via fóra aquella deliciosa +satyra, creio que a nona do L. I. +<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Ibam forte sacra via, sicut meus <a href="#e1">est mos</a>,<br /> + + +Nescio quid meditans nugarum... +</div> + + +<br /> + + +Deve ser maior prazer ainda, muito maior do +que beijar o pé ao papa. Parece-me a mim; +mas como eu nunca fui a Roma... +<br /> + + +<br /> + + +E não é preciso. Pegue qualquer na bella +chronica d'elrei D. Fernando, a que Duarte +Nunes menos estragou... +<br /> + + +<br /> + + +O Duarte Nunes foi um reformador iconoclasta +das nossas chronicas antigas, truncou todas as +imagens, raspou toda a poesia d'aquellas venerandas +<span class="pagenum">[3]</span> +e deliciosas <em>sagas</em> +portuguezas... Em ponto +historico pouco mais eram do que +<em>sagas</em>, verdade +seja, mas como taes, lindas. E o Duarte Nunes, +que era um pobre grammaticão sem gôsto +nem graça, foi-se ás filagranas e arrendados de +finissimo lavor gothico d'aquelles monumentos, +quebrou-lh'os; ficaram so os traços historicos que +eram muito pouca e muito incerta coisa; e cuidou +que tinha arranjado uma história, tendo apenas +destruido um poema. <a name="n1"></a>Ficámos +sem Nibelungen, +podendo-o ter, e não obtivemos história +porque se não podia obter assim. +<br /> + + +<br /> + + +Pois digo: pegue qualquer na bella chronica +d'elrei D. Fernando, obedeça á lei concorrendo +com o seu cruzado-novo para o augmento e glória +da benemerita companhia que tem o exclusivo +d'esses caranguejos de vapor que andam e desandam +no rio, entre n'um dos referidos caranguejos, +em que, além da porcaria e mau-cheiro, +não ha perigo nenhum senão o de rebentar +toda aquella camara-optica que anda por arames, +e que em qualquer paiz civilizado onde a policia +fizesse alguma coisa mais do que imaginar +conspirações, +ha muito estaria condemnada a ir alli <a name="n2"></a>caranguejar +para as Lamas +á sua vontade. Mas +<span class="pagenum">[4]</span> +emfim ca não ha d'outros nem haverá tam cedo, +graças ao muito que agora, diz que, se cuida +nos interêsses materiaes do paiz: e portanto tome +o seu logar, passe o mesmo que eu passei; chegue-me +a Santarem, descanse e ponha-se-me a +ler a chronica: verá se não é outra +coisa, vera +se deante d'aquellas preciosas reliquias, ainda +mutiladas, deformadas como ellas estão por tantos +e tam successivos barbaros, estragadas emfim +pelos peiores e mais vandalos de todos os +vandalos, as auctoridades administrativas e municipaes +do feliz systema que nos rege, ainda assim +mesmo não ve erguer-se deante de seus olhos +os homens, as scenas dos tempos que foram; se +não ouve fallar as pedras, bradar as +inscripções, +levantar-se as estátuas dos tumulos; e reviver-lhe +a pintura toda, reverdecer-lhe toda a poesia +d'aquellas edades maravilhosas! +<br /> + + +<br /> + + +Tenho-o experimentado muitas vezes: é infallivel. +Nunca tinha intendido Shakspeare em quanto +o não li em Warwick, aope do Avon, +debaixo +de um carvalho secular, á luz d'aquelle sol +baço e branco do nublado ceo d'Albion... ou á +noite com <a name="n3"></a>os pés no +<em>fender</em>, a chaleira a ferver +no fogão, e sôbre a banca o crystal antigo de +<span class="pagenum"><a name="p5">[5]</a></span> +um bom copo lapidado a luzir-me alambreado com +os doces e <a name="n4"></a>perfumados resplendores +do <em>old +sack</em>; +em quanto o fogão e os ponderosos castiçaes de +cobre brunido projectam no antigo tecto almofadado, +nos pardos compartimentos de carvalho que +forram o apposento, aquellas fortes sombras vacillantes +de que as velhas fazem visões e almas-do-outro-mundo, +de que os poetas―poetas como +Shakspeare―fazem sombras de <em>Banco</em>, +bruxas +de <em>Mackbeth</em>, e +até a rotunda pansa e o arrastante +espadagão do meu particular amigo Sir +John Falstaff, o inventor das legítimas consequencias, +o fundador da grande eschola dos restauradores +caturras, dos poltrões pugnazes que +salvam a patria de parolla e que ninguem os +atura em tendo as costas quentes. +<br /> + + +<br /> + + +Oh Falstaff, Falstaff! eu não sei se tu es +maior homem que Sancho Pança. Creio que não. +Mas maior pansa tens, mais capacidade na pansa +tens. Quando nossos avós <a name="n5"></a>renegaram +de San' +Thiago por castelhano perro, e invocaram a San' +Jorge, tu vieste, ó Falstaff, em sua comitiva de +Inglaterra e aqui tomaste assento, aqui ficaste, +e foste o patriarcha d'essa immensa progenie de +<a href="#e2">Falstaffs</a> que +por ahi anda. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[6]</span> +Este importante ponto da nossa história, da +demissão de San'Thiago e da vinda de San'Jorge +de Inglaterra com Sir John Falstaff por seu +<em>homem-de-ferro</em>―ésta +grande descoberta archeologica +que tanta coisa moderna explica, como a +fiz eu? Indo aos sitios mesmos, estudando alli os +antigos exemplares: que é a minha doutrina. +<br /> + + +<br /> + + +Em tudo, para tudo é assim. Chegou um dia +um inglez a Paris: um inglez legítimo e +<em>cru</em>, +virgem de toda a corrupção continental; +calça de +ganga, sapato grosso, cabello de cenoira, chapeo +fillado na cova-do-ladrão. Era enthusiasta de +Heloisa e Abeillard, foi-se ao Pére-la-Chaise, +chegou ao tumulo dos dois amantes, tirou um +livrinho da algibeira, pôs-se a ler aquellas cartas +do Paracleto que tem indoidecido muito menos +excentricas cabeças que a do meu inglez puro-sangue. +Não é nada; excitou-se a tal ponto +que entrou a correr como um perdido, bradando +por um conego da sé que lhe acudisse, que se queria +identificar com o seu modêlo, purificar a sua +paixão, +ser emfim um completo―ou um incompleto +Abeillard. +<br /> + + +<br /> + + +Eu não sou susceptivel de tammanho enthusiasmo, +<span class="pagenum">[7]</span> +sôbretudo desde que dei a minha demissão +de poeta e cahi na prosa. Mas aqui tem +o que me succedeu o outro dia. Tinha estado ás +voltas com o meu Bentham, que é um grande +homem por fim de contas o tal quaker, e são +grandes livros os que elle escreveu: cançou-me +a cabeça, peguei no Camões e fui para a janella. +As minhas janellas agora são as primeiras +janellas de Lisboa, dão em cheio por todo esse +Tejo. Era uma d'estas brilhantes manhans d'hynverno, +como as não ha senão em Lisboa. Abri +os Lusiadas á ventura, deparei com o canto IV +e puz-me a ler aquellas bellissimas estancias +<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry"> +E ja no porto da inclita Ulyssea... +</div> + + +<br /> + + +Pouco a pouco amotinou-se-me o sangue, senti +baterem-me as arterias da fronte... as lettras fugiam-me +do livro, levantei os olhos, dei com +elles na pobre nau Vasco-da-Gama que ahi está +em monumento-caricatura da nossa glória naval... +E eu não vi nada d'isso, vi o Tejo, vi a bandeira +portugueza fluctuando com a brisa da manhan, +a tôrre de Belem ao longe... e sonhei, sonhei +que era portuguez, que Portugal era outra vez +Portugal. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[8]</span> +Tal fôrça deu o prestigio da scena ás +imagens +que aquelles versos evocavam! +<br /> + + +<br /> + + +Senão quando, a nau que salva a uns escaleres +que chegam... Era o ministro da marinha que ia +a bórdo. +<br /> + + +<br /> + + +Fechei o livro, accendi o meu charuto, e fui +tractar das minhas camelias. +<br /> + + +<br /> + + +Andei tres dias com odio á lettra-redonda. +<br /> + + +<br /> + + +Mas de tudo isto o que se tira, a que vem tudo +isto para as minhas viagens ou para o episodio +do valle de Santarem em que ha tantos capitulos +nos temos demorado? +<br /> + + +<br /> + + +Vem e vem muito: vem para mostrar que a +história, lida ou contada nos proprios sitios em que +se passou, tem outra graça e outra +fôrça; vem +para te eu dar o motivo porque n'estas minhas viagens, +leitor amigo, me fiquei parado n'aquelle +valle a ouvir do meu companheiro de jornada, e +a escrever para teu aproveitamento, a interessante +história da menina dos rouxinoes, da menina +dos olhos verdes, da nossa boa Joanninha. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[9]</span> +Sim, aqui tenho estado extendido no chão, as +mulinhas pastando na relva, os arrieiros fummando +tranquillamente sentados, e as últimas horas +de uma longa e calmosa tarde de julho a cahir +e a refrescar com a aragem percursora da +noite. +<br /> + + +<br /> + + +Mas basta de valle, que é tarde. Oh lá! venham +as mulinhas e montemos. Picar para Santarem, +que no inclyto alcaçar d'elrei D. Affonso-Henriques +nos espera um bom jantar d'amigo―e +não é so a <a name="n6"></a><em>vacca +e +riso</em> de Fr. Bartholomeu +dos Martyres, mas um verdadeiro jantar d'amigo, +muito menos austero e muito mais risonho. +<br /> + + +<br /> + + +―'Porquê? ja se acabou a historia de Carlos +e de Joanninha?' diz talvez a amavel leitora. +<br /> + + +<br /> + + +―'Não, minha senhora,' responde o auctor +mui lisongeado da pergunta: 'não, minha senhora, +a historia não acabou, quasi se póde dizer +que ainda ella agora começa; mas houve +mutação +de scena. Vamos a Santarem, que lá se passa +o segundo acto.' +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c2"></a>CAPITULO XXVII. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro">Chegada a Santarem.―Olivaes de +Santarem.―Fóra-de-Villa.―Symetria +que não é para os olhos.―Modo de medir +os versos da biblia.―Architectura pedante do seculo XVII.―Entrada +na Alcáçova.</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Eram as últimas horas do dia quando chegámos +ao princípio da calçada que leva ao alto +de Santarem. A pouca frequencia de povo, as +hortas e pomares mal cultivados, as casas de +<span class="pagenum">[12]</span> +campo arruinadas, tudo indicava as vizinhanças +de uma grande povoação descahida e desamparada. +O mais bello comtudo de seus ornatos e glórias +suburbanas, ainda o possue a nobre villa, +não lh'o destruiram de todo; são os seus olivaes. +Os olivaes de Santarem cuja riqueza e formosura +proverbial é uma das nossas crenças populares +mais geraes e mais queridas!.. os olivaes de +Santarem lá estão ainda. Reconheceu-os o meu +coração e alegrou-se de os ver; saudei n'elles o +symbolo patriarchal de nossa antiga existencia. +N'aquelles troncos velhos e coroados de verdura, +figurou-se-me ver, como nas selvas incantadas do +Tasso, as venerandas imagens de nossos passados; +e no murmurio das folhas que o vento agitava a +espaços, ouvir o triste suspirar de seus lamentos +pela vergonhosa degeneração dos netos... +<br /> + + +<br /> + + +Estragado como os outros, profanado como +todos, o olival de Santarem é ainda um monumento. +<br /> + + +<br /> + + +Os povos do meio-dia, infelizmente, não professam +com o mesmo respeito e austeridade aquella +religião dos bosques, tam sagrada para as +nações +do norte. Os olivaes de Santarem são +excepção: +<span class="pagenum">[13]</span> +ha muito pouco entre nós o +culto das +árvores. +<br /> + + +<br /> + + +Subimos, a bom trotar das mulinhas, a impinada +ladeira―eu alvoraçado e impaciente por +me achar face a face com aquella profusão de monumentos +e de ruinas que a imaginação me tinha +figurado e que ora temia, ora desejava comparar +com a realidade. +<br /> + + +<br /> + + +Chegámos emfim ao alto; a majestosa entrada +da grande villa está deante de mim. Não me +inganou a imaginação... grandiosa e +magnífica +scena! +<br /> + + +<br /> + + +<em>Fóra-de-villa</em> +é um vasto largo, irregular e +caprichoso como um poema romantico; ao primeiro +aspecto, áquella hora tardía e de pouca +luz, é de um effeito admiravel e sublime. Palacios, +conventos, egrejas occupam gravemente e tristemente +os seus antigos logares, infileirados sem +ordem aos lados d'aquella immensa praça, em +que a vista dos olhos não acha symetria alguma; +mas sente-se n'alma. É como o rhytmo e +medição +dos grandes versos biblicos que se não cadenceiam +por pés nem por sylabas, mas cahem certos +<span class="pagenum">[14]</span> +no espirito e na <em>audição +interior</em> com uma +regularidade admiravel. +<br /> + + +<br /> + + +E tudo deserto, tudo silencioso, mudo, morto! +Cuida-se entrar na grande metropole de um +povo extincto, de uma nação que foi poderosa e +celebrada mas que desappareceu da face da terra +e so deixou o monumento de suas construcções +gigantescas. +<br /> + + +<br /> + + +Á esquerda o immenso convento do Sítio ou de +Jesus, logo o das Donas, depois o de San'Domingos, +célebre pelo jazigo do nosso Fausto portuguez―seja +ditto sem irreverencia á memoria +de San'Frei Gil que, é verdade, veio a ser grande +sancto, mas que primeiro foi grande bruxo.―Defronte +o antiquissimo mosteiro das Claras, +e aopé as baixas arcadas gothicas de San'Francisco... +de cujo último guardião, o austero Frei +Diniz, tanta coisa te contei, amigo leitor, e tantas +mais tenho ainda para te contar! Á direita +o grandioso edificio philippino, perfeito exemplar +da massissa e pedante architectura reaccionaria do +seculo dezesette, o Collegio, typo largo e bello +no seu genero, e quanto o seu genero póde +ser, das construcções jesuiticas... +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[15]</span> +Não ha alma, não ha genio, não ha +espirito +n'aquellas massas pesadas, sem elegancia nem +simplicidade; mas ha uma certa grandeza que +impõe, uma solidez travada, uma symetria de +calculo, umas proporções frias, mas bem +assentadas +e esquadriadas com methodo, que revelam +o pensamento do seculo e do instituto que tanto +o characterizou. +<br /> + + +<br /> + + +Não são as fortes crenças da +meia-edade que +se elevam no arco agudo da ogiva; não é a +relaxação +florída do seculo quinze e desesseis que +ja vacilla entre o byzantino e o classico, entre +o mystico ideal do christianismo que arrefece e os +symbolos materiaes do paganismo que acorda; +não, aqui a +<em>renascença</em> triumphou, e +depois de +triumphar, degenerou. É a inquisição, +são os +Jesuitas, são os Philippes, é a +reacção catholica +edificando templos <em>para que</em> se creia +e se ore, +não <em>porque</em> se +crê e se ora. +<br /> + + +<br /> + + +Até aqui o mosteiro e a cathedral, a ermida +e o convento eram a expressão da idea popular, +agora são a fórmula do pensamento governativo. +<br /> + + +<br /> + + +Alli estão―olhae para elles―defronte uns +<span class="pagenum">[16]</span> +dos outros, os monumentos das duas religiões, +a qual mais expressivo e loquaz, dizendo mais +claro que os livros, que os escriptos, que as +tradições, o pensamento das edades que os +ergueram, +e que alli os deixaram gravados sem +saber que o faziam. +<br /> + + +<br /> + + +Mais embaixo, e no fundo d'esse declive, +aquella massa negra é o resto ainda suberbo +do ja immenso palacio dos condes de Unhão. +<br /> + + +<br /> + + +Rodeámos o largo e fomos entrar em Marvilla +pelo lado do norte. Estamos dentro dos muros +da antiga Santarem. Tam magnífica é a entrada, +tam mesquinho é agora tudo ca dentro, a maior parte +d'estas casas velhas sem serem antigas, d'estas +ruas moirescas sem nada de arabe, sem o menor +vestigio de sua origem mais que a estreiteza +e pouco aceio. +<br /> + + +<br /> + + +As egrejas quasi todas porêm, as muralhas e +os bastiões, algumas das portas, e poucas +habitações +particulares, conservam bastante da physionomia +antiga e fazem esquecer a vulgaridade do +resto. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p17">[17]</a></span> +Seguimos a triste e pobre rua Direita, centro +do debil commercio que ainda aqui ha: poucas e +mal providas logeas, quasi nenhum movimento. +Ca está a curiosa tôrre das Cabaças, a +velha +egreja de <a href="#e3">San'João do<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>Alporão</a>. +Ámanhan iremos +ver tudo isso de nosso vagar. Agora vamos á +Alcaçova! +<br /> + + +<br /> + + +Entrámos a porta da antiga cidadella.―Que +espantosa e desgraciosa confusão de intulhos, de +pedras, de montes de terra e calissa! Não ha +ruas, não ha caminhos, é um labyrinto de ruinas +feias e torpes. O nosso destino, a casa do nosso +amigo é aopé mesmo da famosa e historica +<a href="#e4">egreja</a> +de Sancta Maria da Alcaçova.―Hade custar +a achar em tanta confusão.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c3"></a>CAPITULO XXVIII. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro">Depois de muito procurar acha emfim o +auctor a egreja de Sancta-Maria d'Alcaçova.―Stylo da +architectura nacional +perdido.―O +terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz +do Passeio-publico de Lisboa.―O chefe do partido +progressista portuguez no alcassar de D. Affonso Henriques.―Deliciosa +vista dos arredores de Santarem observada de +uma janella da Alcaçova, de manhan.―É tomado o +auctor +de ideas vagas, poeticas, phantasticas como um +sonho.―Introducção +do Fausto.―Difficuldade de traduzir os versos +germanicos nos nossos dialectos romanos. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Depois de muito procurar entre pardeiros e +intulhos, achámo-la emfim a egreja de Sancta +Maria d'Alcaçova. Achámos, não +é exacto: +ao menos eu, por mim, nunca a achava, nem +<span class="pagenum">[20]</span> +queria accreditar que fôsse ella quando m'a mostraram. +A real collegiada de Affonso Henriques, +a quasi-cathedral da primeira villa do reino, um +dos principaes, dos mais antigos, dos mais historicos +templos de Portugal, isto?.. esse egrejorio insignificante +de capuchos? mesquinha e ridicula +massa d'alvenaria, sem nenhuma architectura, +sem nenhum gôsto! risco, execução e +trabalho +de um mestre pedreiro d'aldeia e do seu apprendiz! +É impossivel. +<br /> + + +<br /> + + +Mas era, era essa. A antiga capella-real, a veneranda +egreja da Alcaçova foi passando por successivos +reparos e transformações, até que +chegou +a ésta miseria. +<br /> + + +<br /> + + +Perverteu-se por tal arte o gôsto entre nós desde +o meio do seculo passado especialmente, os estragos +do terremoto grande quebraram por tal modo +o fio de todas as tradições da architectura +nacional, +que na Europa, no mundo todo talvez se +não ache um paiz onde, a par de tam bellos monumentos +antigos como os nossos, se incontrem tam +villans, tam ridiculas e absurdas construcções +públicas +como essas quasi todas que ha um seculo +se fazem em Portugal. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[21]</span> +Nos reparos e reconstrucções dos templos antigos +é que este pessimo stylo, ésta ausencia de +todo stylo, de toda a arte mais offende e escandaliza. +<br /> + + +<br /> + + +Olhem aquella impena classica posta de remate +ao frontispicio todo renascença da +Conceição-velha +em Lisboa. Vejam a implastagem de geço +com que estão mascarados os elegantes feixes de +columnas gothicas da nossa sé. +<br /> + + +<br /> + + +Não se póde cahir mais baixo em architectura +do que nós cahimos quando, depois que o marquez +de Pombal nos <em>traduziu</em>, em vulgar e +arrastada +prosa, os <em>rococós</em> de Luiz +XV, que no original, +pelo menos, eram florídos, recortados, caprichosos +e galantes como um madrigal, esse stylo +bastardo, hybrido, degenerando progressivamente +e tomando presumpções de classico, chegou +nos nossos dias até ao chafariz do +passeio-público! +<br /> + + +<br /> + + +Mas deixar tudo isso, e deixar a egreja da +Alcaçova tambem; entremos nos palacios de D. +Affonso Henriques. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[22]</span> +Aqui, pegado com o pardeiro rebocado da capella +hãode ser. Por onde se entra? +<br /> + + +<br /> + + +Por ésta portinha estreita e baixa, rasgada, +bem se ve que ha poucos annos, no que parece +muro de um quintal ou de um páteo. +<br /> + + +<br /> + + +É comeffeito aqui; apeemo'-nos. +<br /> + + +<br /> + + +Recebeu-nos com os braços abertos o nosso +bom e sincero amigo, actual possuidor e habitante +do regio alcassar, o Sr. M. P. +<br /> + + +<br /> + + +Notavel combinação do acaso! Que o illustre +e venerado chefe do partido progressista em Portugal, +que o homem de mais sinceras convicções +democraticas, e que mais sinceramente as combina +com o respeito e adhesão ás fórmas +monarchicas, +esse homem, vindo do Minho, do berço +da dynastia e da nação, viesse fixar aqui a sua +residencia no alcassar do nosso primeiro rei, conquistado +pela sua espada n'um dos feitos mais +insignes d'aquella era de prodigios! +<br /> + + +<br /> + + +Entrámos na pequena horta em fórma de claustro +que une a antiga casa dos reis com a +<span class="pagenum">[23]</span> +sua capella. Assim foi sem dùvida n'outro tempo: +a parede oriental da egreja é o muro do +quintal de um lado, mas as communicações foram +vedadas provavelmente quando a coroa alienou +o palacio e o separou assim perpetuamente +do templo. +<br /> + + +<br /> + + +Plantado de larangeiras antigas, os muros forrados +de limoeiros e parreiras, aquella pequena +cêrca, apezar dos muitos canteiros e alegretes +de alvenaria com que está moirescamente intulhada, +é amena e graciosa á vista. +<br /> + + +<br /> + + +Appresentou-nos o nosso amigo a sua mulher, +senhora de porte gentil e grave; beijámos seus +lindos filhos, e fomos fazer as abluções +indispensaveis +depois de tal jornada para nos podermos +sentar á mesa. +<br /> + + +<br /> + + +O palacio de Affonso Henriques está como a +sua capella: nem o mais leve, nem o mais apagado +vestigio da antiga origem. Sabe-se que é alli +pela bem confrontada e inquestionavel topographia +dos logares, por mais nada... +<br /> + + +<br /> + + +E que me importam a mim agora as antiguidades, +<span class="pagenum">[24]</span> +as ruinas e as demolições, quando eu sinto +demolir-me +ca por dentro por uma fome exasperada +e destruidora, uma fome vandalica insaciavel! +<br /> + + +<br /> + + +Vamos a jantar. +<br /> + + +<br /> + + +Comêmos, conversámos, tomámos +chá, tornámos +a conversar e tornámos a comer. Vieram +visitas, fallou-se politica, fallou-se litteratura, +fallou-se de Santarem sôbretudo, das suas ruinas, +da sua grandeza antiga, da sua desgraça +presente. Emfim, fomo'-nos deitar. +<br /> + + +<br /> + + +Nunca dormi tam regalado somno em minha +vida. Acordei no outro dia ao repicar incessante +e appresurado dos sinos da Alcaçova. Saltei +da cama, fui á janella, e dei com o mais bello, +o mais grandioso, e ao mesmo tempo, mais +ameno quadro em que ainda puz os meus olhos. +<br /> + + +<br /> + + +No fundo de um largo valle aprazivel e sereno, +está o socegado leito do Tejo, cuja areia +ruiva e resplandecente apenas se cobre d'agua +juncto ás margens, d'onde se debruçam verdes +e frescos ainda os salgueiros que as ornam e +defendem. D'alêm do rio, com os pés no pingue +<span class="pagenum">[25]</span> +nateiro d'aquellas terras alluviaes, os riccos +olivedos d'Alpiarça e Almeirim; depois a villa +de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas. +D'aquem a immensa planicie ditta do Rocio, +semeada de casas, de aldeias, de hortas, de +grupos de árvores sylvestres, de pomares. Mais +para a raiz do monte em cujo cimo estou, o +picturesco bairro da Ribeira com as suas casas e +as suas egrejas, tam graciosas vistas d'aqui, a +sua cruz de Sancta Iria e as memorias romanescas +do seu alfageme. +<br /> + + +<br /> + + +Com os olhos vagando por este quadro immenso +e formosissimo, a imaginação tomava-me +azas e fugia pelo vago infinito das regiões ideaes. +Recordações de todos os tempos, pensamentos +de todo o genero me affluiam ao espirito, e me +tinham como n'um sonho em que as imagens +mais discordantes e disparatadas se succedem umas +ás outras. +<br /> + + +<br /> + + +Mas eram todas melancholicas, todas de saudade, +nenhuma de esperança!.. +<br /> + + +<br /> + + +Lembraram-me aquelles versos de Goethe, +<span class="pagenum">[26]</span> +aquelles sublimes e inimitaveis versos da +introducção +do Fausto: +<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Resurgis outra vez, vagas figuras,<br /> + + +Vacillantes imagens que á turbada<br /> + + +Vista accudieis d'antes. E heide agora<br /> + + +Retter-vos firme? Sinto eu ainda<br /> + + +O coração propenso a illusões d'essas?<br /> + + +E appertais tanto!... Pois embora! seja:<br /> + + +Dominae, ja que em nevoa e vapor leve<br /> + + +Emtôrno a mim surgis. Sinto o meu seio<br /> + + +Juvenilmente trépido agitar-se<br /> + + +Co'a maga exhalação que vos circunda.<br /> + + +Trazeis-me a imagem de ditosos dias,<br /> + + +E d'ahi se ergue muita sombra amada:<br /> + + +Como um velho cantar meio-esquecido,<br /> + + +Véem os primeiros simplices amores<br /> + + +E a amizade com elles. Reverdece<br /> + + +A mágoa, lamentando o errado curso<br /> + + +Dos labyrintos da perdida vida;<br /> + + +E me está nomeando os que trahidos<br /> + + +Em horas bellas por fallaz ventura<br /> + + +Antes de mim na estrada se sumiram.<br /> + + +....................................................<br /> + + +....................................................<br /> + + +</div> + + +<br /> + + +Não me atrevo a pôr aqui o resto da minha +infeliz traducção: fiel é ella, mas +não tem outro +merito. Quem póde traduzir taes versos, +quem de uma lingua tam vasta e livre hade passá-los +<span class="pagenum">[27]</span> +para os nossos appertados e severos dialectos +romano +para os nossos appertados e severos dialectos +romanos?<sup><a href="#1">[1]</a></sup> +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c4"></a>CAPITULO XXIX. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro">Doçuras da +vida.―Imaginação e +sentimento.―Poetas que +morreram moços e poetas que morreram velhos.―Como +são +escriptas éstas viagens.―Livro de pedra. Criança +que brinca +com elle.―Ruinas e reparações.―Idea fixa do A. +em +coisas d'arte e litterarias.―Sancta Iria ou Irene, e +Santarem.―Romance +de Sancta Iria.―Quantas sanctas ha +em Portugal d'este nome? +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Este sonhar acordado, este scismar poetico +deante dos sublimes spectaculos da natureza, +é dos prazeres grandes que Deus concedeu ás almas +de certa têmpera. Doce é gosar assim... mas +<span class="pagenum">[30]</span> +em que doçuras da vida não predomina sempre +o acido poderoso que stimula! Tirae-lh'o, fica +a insipidez; deixae-lh'o, ulcéra porfim os orgams: +o gôso é mais vivo +porque a acção do +stímulo é mais sentida... mas a +ulceração cresce, +o coração está em carne-viva... agora +o prazer +é martyrio. +<br /> + + +<br /> + + +Infeliz do que chegou a esse estado! +<br /> + + +<br /> + + +Bemaventurado o que póde graduar, como +Goethe, a dóze d'amphião que quer tomar, que +poupa as sensações e a vida, e economiza as +potencias +de sua alma! N'esses porêm é a +imaginação +que domina, não o sentimento. Byron, Schiller, +Camões, o Tasso morreram moços; matou-os +o coração. Homero e Goethe, Sophocles e Voltaire +acabaram de velhos: sustinha-os a imaginação, +que não despende vida porque não gasta +sensibilidade. +<br /> + + +<br /> + + +Imaginar é sonhar, dorme e repousa a vida +no entretanto; sentir é viver activamente, cansa-a +e consomme-a. +<br /> + + +<br /> + + +Isto é o que eu pensava―porque não pensava +<span class="pagenum">[31]</span> +em nada, divagava―em quanto aquelles versos +do Fausto me estavam na memoria, e aquella +saudosa vista do Tejo e das suas margens deante +dos olhos. +<br /> + + +<br /> + + +Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma, +isto vai no papel: que d'outro modo não sei escrever. +<br /> + + +<br /> + + +Muito me pêza, leitor amigo, se +outra coisa +esperavas das minhas <span class="smallcaps">Viagens</span>, +se +te falto, +sem o querer, a promessas que julgaste ver n'esse +titulo, mas que eu não fiz decerto. Querias +talvez que te contasse, marco a marco, as leguas +da estrada? palmo a palmo, as alturas e +larguras dos edificios? algarismo por algarismo, +as datas de sua fundação? que te resummisse a +historia de cada pedra, de cada ruina?.. +<br /> + + +<br /> + + +Vai-te ao padre Vasconcellos; e quanto ha de +Santarem, peta e verdade, ahi o acharás em +amplo folio e gorda lettra: eu não sei compor +d'esses livros, e quando soubesse, tenho mais +que fazer. +<br /> + + +<br /> + + +So tenho pena de uma coisa, é de ser tam +<span class="pagenum">[32]</span> +desestrado com o lapis na mão; porque em dois +traços d'elle te dizia muito mais e melhor do que +em tanta palavra que porfim tam pouco diz e +tam mal pinta. +<br /> + + +<br /> + + +Santarem é um livro de pedra em que a mais +interessante e mais poetica parte das nossas chronicas +está escripta. Ricco de illuminuras, de recortados, +de florões, de imagens, de arabescos e +arrendados primorosos, o livro era o mais bello e +o mais precioso de Portugal. Inquadernado em +esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras, +fechado a broches de bronze por suas fortes +muralhas gothicas, o magnífico livro devia durar +sempre em quanto a mão do Creador se não +extendesse para apagar as memorias da creatura. +<br /> + + +<br /> + + +Mas ésta Ninive não foi destruida, +ésta Pompeia +não foi submergida por nenhuma catastrophe +grandiosa. O povo de cuja história ella é o +livro, ainda existe; mas esse povo cahiu em infancia, +deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o, +mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez papagaios +e bonecas, fez carapuços com ellas. +<br /> + + +<br /> + + +Não se descreve por outro modo o que ésta +<span class="pagenum">[33]</span> +gente chamada govêrno, chamada +administração, +está fazendo e deixando fazer ha mais de seculo +em Santarem. +<br /> + + +<br /> + + +As ruínas do tempo são tristes mas bellas, as +que as revoluções trazem, ficam marcadas com o +cunho solemne da historia. Mas as brutas +degradações +e as mais brutas reparações da ignorancia, +os mesquinhos concertos da arte parasyta, esses +profanam, tiram todo o prestigio. +<br /> + + +<br /> + + +Tal é a geral impressão que me faz +ésta terra. +Almocemos, que ja oiço chamar para isso, e iremos +ver depois se me inganei. +<br /> + + +<br /> + + +Ao almôço a conversação veio +naturalmente a +cahir no seu objecto mais óbvio, Santarem. D. +Affonso Henriques e os seus bravos, San'Frei Gil e +o Sancto-milagre, o Alfageme e o Condestavel, el-rei +D. Fernando e a rainha D. Leonor, Camões +desterrado aqui, Frei Luiz de Sousa aqui nascido, +Pedralvares Cabral, os Docems, quasi todas as +grandes figuras da nossa historia passaram em revista. +Porfim veio Sancta Iria tambem, a madrinha +e padroeira d'esta terra, cujo nome aqui +fez esquecer o de romanos e celtas. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[34]</span> +Quem tem uma idea fixa, em tudo a mette. +A minha idea fixa em coisas de arte e litterarias +da nossa peninsula são as xacaras e romances +populares. Ha um de Sancta Iria. +<br /> + + +<br /> + + +Porque é a Sancta Iria da trova popular tam +differente da Sancta Iria das legendas monasticas? +<br /> + + +<br /> + + +A trova é ésta, segundo agora a rectifiquei e +appurei pela collação de muitas e +várias versões +provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, que +em geral é a que mais se deve seguir.<sup><a href="#2">[2]</a></sup><br /> + + +<br /> + + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Stando eu á janella co'a +minha almofada,<br /> + + +Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata; +<br /> + + +<br /> + + +Passa um cavalleiro, pedia pousada;<br /> + + +Meu pae lh'a negou: quanto me custava! +<br /> + + +<br /> + + +―'Ja vem vindo a noite, é tam so a estrada...<br /> + + +Senhor pae, não digam tal da nossa casa, +<br /> + + +<br /> + + +Que a um cavalleiro que pede pousada<br /> + + +Se fecha ésta porta á noite cerrada.' +</div> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[35]</span> +<div class="poetry">Roguei e pedi―muito lhe pezava!<br /> + + +Mas eu tanto fiz que porfim deixava. +<br /> + + +<br /> + + +Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;<br /> + + +Ao lar o levei, logo se assentava. +<br /> + + +<br /> + + +Ás mãos lhe dei agua, elle se lavava;<br /> + + +Puz-lhe uma toalha, n'ella me +limpava. +<br /> + + +<br /> + + +Poucas as pallavras, que mal me fallava,<br /> + + +Mas eu bem sentia que elle me mirava. +<br /> + + +<br /> + + +Fui a erguer os olhos, mal os levantava,<br /> + + +Os seus lindos olhos na terra os pregava. +<br /> + + +<br /> + + +Fui-lhe pôr a cea, muito bem ceava;<br /> + + +A cama lhe fiz, n'ella se deitava. +<br /> + + +<br /> + + +Dei-lhe as boas noites, não me replicava:<br /> + + +Tam má cortezia nunca a vi usada! +<br /> + + +<br /> + + +Lá por meia noite que me eu suffocava,<br /> + + +Sinto que me levam co'a bôcca tapada... +<br /> + + +<br /> + + +Levam-me a cavallo, levam-me abraçada,<br /> + + +Correndo, correndo sempre á desfilada. +<br /> + + +<br /> + + +Sem abrir os olhos, vi quem me roubava;<br /> + + +Callei-me e chorei―elle não fallava.</div> + + +<span class="pagenum">[36]</span> +<br /> + + +<div class="poetry">D'alli muito longe que me perguntava<br /> + + +Eu na minha terra como me chamava. +<br /> + + +<br /> + + +―'Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;<br /> + + +Por aqui agora Iria, a cansada.'<sup><a href="#3">[3]</a></sup> +<br /> + + +<br /> + + +Andando, andando, toda a noite andava;<br /> + + +Lá por madrugada que me attentava... +<br /> + + +<br /> + + +Horas esquecidas commigo luctava;<br /> + + +Nem fôrça nem rogos, tudo lhe mancava. +<br /> + + +<br /> + + +Tirou do alfange... alli me matava,<br /> + + +Abriu uma cova onde me interrava. +</div> + + +<br /> + + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<div class="poetry">No fim de sette annos passa o +cavalleiro,<br /> + + +Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro. +<br /> + + +<br /> + + +―'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro,<br /> + + +Se me perdoares, serei teu romeiro.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Perdoar não te heide, ladrão carniceiro,<br /> + + +Que me degollaste que nem um cordeiro.' +</div> + + +<br /> + + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +Ou houve duas sanctas d'este nome, ambas de +aventurosa vida e que ambas deixassem longa e profunda +memoria de sua belleza e martyrio―o de +<span class="pagenum">[37]</span> +que não tenho a menor idea―ou nos +escriptos +dos frades ha muita fábula de sua unica +invenção +d'elles que o povo não quiz acreditar: alias +é inexplicavel a singeleza d'esta +tradição oral. +<br /> + + +<br /> + + +Tam simples, tam natural é a narração +poetica +do romance popular, quanto é complicada e +cheia de maravilhas a que se auctoriza nas +recordações +ecclesiasticas. +<br /> + + +<br /> + + +O caso é grave, fique para novo capitulo.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c5"></a>CAPITULO XXX. +</h3> + + +<br /> + + +<div style="text-align: center;" class="intro"> +Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e +segundo o +romance popular. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +A milagrosa Sancta Iria―Sancta Irene―que +deu o seu nome a Santarem, donzella nobre, +natural da antiga Nabancia<sup><a href="#4">[4]</a></sup>, +e freira +<span class="pagenum">[40]</span> +no convento dupplex<sup><a href="#5">[5]</a></sup> +benedictino que pastoreava +o sancto abbade Celio, floreceu pelos meados +do septimo seculo. Namorou-se d'ella extremosamente +o joven Britaldo, filho do conde ou consul +Castinaldo que governava aquellas terras, e +não podendo conseguir nada de sua virtude, cahiu +infêrmo de molestia que nenhum physico acertava +a conhecer, quanto mais a curar. +<br /> + + +<br /> + + +É sabido que a mais sancta lhe não pêza +de +que estejam a morrer por ella; e, mais ou menos, +sempre sympathisa com as victimas que faz. +<br /> + + +<br /> + + +Sancta Iria resolveu consolar o pobre Britaldo; +e ja que mais não podia por sua muita virtude, quiz +ver se lhe tirava aquella louca paixão e o convertia. +Sahiu, uma bonita manhan, do seu convento―que +não guardavam ainda as freiras tam absoluta +e estreita clausura―e foi-se a casa do namorado +Britaldo. +<br /> + + +<br /> + + +Consolou como mulher e ralhou como sancta, +e porfim, impondo-lhe na cabeça as lindas e +bemdittas mãos, n'um instante o sarou de todo +<span class="pagenum">[41]</span> +achaque do corpo; e se lhe não curou o d'alma +tambem, pelo menos lh'o adormentou, que parecia +acabado. +<br /> + + +<br /> + + +Mas como o demo, em chegando a entrar n'um +corpo humano, parece que não sai d'elle senão +para +se ir metter n'outro; tam depressa o inimigo deixou +ao pobre Britaldo, como logo se foi incaixar +em não menor personagem do que o monge Remigio, +que era o mestre e director da bella +Iria. +<br /> + + +<br /> + + +Arde o frade em concupiscencia, e não obtendo +nada com rogos e lamentos, jurou vingar-se. +Disfarçou porêm, fingiu-se emendado, e deu-lhe, +quando ella menos cuidava, uma bebida de +sua diabolica preparação, que apenas a sancta a +havia tomado, lhe appareceram logo e continuaram +a crescer todos os signaes da mais apparente +maternidade. +<br /> + + +<br /> + + +Corre a fama do supposto estado da donzella, +chovem as injúrias e os insultos dos que mais a +tinham respeitado até então. E Britaldo, que se +julga escarnecido pela hypocrisia d'aquella mulher +artificiosa, em vez de a esquecer com desprêzo―sente +<span class="pagenum">[42]</span> +reviver-lhe, senão tam pura, muito +mais ardente, toda a antiga paixão. +<br /> + + +<br /> + + +Tam mysterioso é o coração do +homem!―tam +vil! dirão os asceticos―tam inexplicavel! +direi eu com os mais tolerantes. +<br /> + + +<br /> + + +Novas tentativas, promessas, ameaças do furioso +amante... A sancta resiste a tudo, forte na +sua virtude. +<br /> + + +<br /> + + +Costumava a devota donzella ir todas as noites +a uma occulta lapa que jazia no fim da cêrca e +juncto ao rio Nabão, para alli estar mais so com +Deus, e desabafar com Elle á sua vontade. Soube-o +Britaldo, espreitou a occasião e alli a fez +apunhalar por um seu criado cujo nome a legenda +nos conservou para maior testimunho de verdade: +chamava-se Banam. +<br /> + + +<br /> + + +Banam! é um verdadeiro nome de mellodrama. +<br /> + + +<br /> + + +Morta a innocente, Banam despiu-lhe o hábito +e lançou o corpo ao rio, que depressa a levou +ás arrebatadas correntes do Zezere em que +desagua; e logo este ao Tejo―que defronte da +<span class="pagenum"><a name="p43">[43]</a></span> +antiga Scalabicastro lhe deu sepultura em suas +louras areas, para maior glória da sancta e +perpétua +honra da nobillissima villa que hoje tem o +seu nome. +<br /> + + +<br /> + + +Mas emquanto ia navegando o corpo da sancta, +teve Celio, o abbade do convento, uma revelação +que lhe descobriu a verdade e os milagres +do caso; e communicando-a logo aos +monges e ao povo de Nabancia, sahiu com todos +de cruz alçada, e foi por esses campos da +Golegan fóra, até chegar á Ribeira de +Santarem. +Ahi benzendo as aguas do rio, éstas se <a href="#e5">retiraram</a> +cortezes e deixaram ver o sepulchro que era +de fino alabastro, obrado á maravilha pelas mãos +dos anjos. +<br /> + + +<br /> + + +Chegaram aopé do tumulo, abriram-n'o, viram +e tocaram o corpo da sancta, mas não o poderam +tirar, por mais diligencias que fizeram. +Conheceu-se que era milagre; e contentando-se +de levar reliquias dos cabellos e da tunica, voltaram +todos para a sua terra. +<br /> + + +<br /> + + +As aguas tornaram a junctar-se e a correr +como d'antes, e nunca mais se abriram senão +<span class="pagenum">[44]</span> +d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rainha +sancta Isabel, mulher d'el-rei D. Diniz, tam fervorosas +orações fez aopé do rio pedindo +á sancta +que lhe apparecesse, que o rio tornou a +abrir-se como o mar Vermelho á voz de Moises, +dizem os devotos chronistas, e patenteou o benditto +sepulchro. +<br /> + + +<br /> + + +Entrou a rainha a pé inchuto pelo rio dentro, +seguida de seu real espôso e de toda a +sua côrte; mas por mais que rezasse ella, e que +trabalhassem os outros com todas as fôrças +humanas, +não poderam abrir o tumulo; quebraram +todas as ferramentas, era impossivel. Desinganado +el-rei de que um podêr sobrehumano não permittia +que elle se abrisse, mandou a toda a pressa levantar +um padrão muito alto sôbre o mesmo tumulo, +e tam alto que o rio na maior inchente o +não podesse cubrir. +<br /> + + +<br /> + + +O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros +acabassem, e quando viu que podia continuar +a correr, deu aviso, retiraram-se todos, +tornaram a junctar-se as a +O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros +acabassem, e quando viu que podia continuar +a correr, deu aviso, retiraram-se todos, +tornaram a junctar-se as aguas e o padrão ficou +sobresahindo por cima d'ellas. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[45]</span> +Passaram mais tres seculos e meio; e no anno +de 1644 a camara de Santarem mandou refazer +de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal +que não era senão de alvenaria, e +pôr-lhe +em cima a imagem da sancta. +<br /> + + +<br /> + + +Ainda lá está, assás mal cuidado com +tudo; +lá o vi com estes olhos peccadores no corrente +mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem +orações, o rio tinha-se retirado, havia muito, +para um cantinho do seu leito, e o padrão estava +perfeitamente em sêcco, e em sêcco está +todo o anno até começarem as cheias. +<br /> + + +<br /> + + +Tal é, em fidelissimo resummo, a historia da +Sancta Iria dos livros. +<br /> + + +<br /> + + +A das cantigas é, como ja disse, muito outra +e muito mais simples, conta-se em duas palavras. +A sancta está em casa de seus paes; um +cavalleiro desconhecido, a quem dão pousada uma +noite, levanta-se por horas mortas, rouba a descuidada +e innocente donzella, foge a todo o correr +de seu cavallo, e chegado a um descampado +d'alli muito longe, pretende fazer-lhe violencia... +A sancta resiste, elle mata-a. D'alli a annos +<span class="pagenum">[46]</span> +passa por ahi o indigno cavalleiro, ve uma +linda ermida levantada no proprio sítio onde +commetteu o crime, pergunta de que sancta é, +dizem-lhe que é de Sancta Iria. Elle cai de joelhos +a pedir perdão á sancta, que lhe lança +em +rosto o seu peccado e o amaldiçoa. +<br /> + + +<br /> + + +E acabou a historia. +<br /> + + +<br /> + + +Sería o povo que se esqueceu nas suas +tradições, +ou os frades que augmentaram nas suas escripturas? +Pois a legenda monastica é realmente +bella e cheia de poesia e romance, coisas que +o povo não costuma desprezar. +<br /> + + +<br /> + + +É difficil de explicar-se este phenomeno, interessantissimo +para qualquer observador não vulgar, +que n'estas crenças do commum, n'estas +antigualhas, desprezadas pela suberba philosophia +dos nescios, quer estudar os homens e as +nações e as edades onde elles mais sinceramente +se mostram e se deixam conhecer. +<br /> + + +<br /> + + +A extrema simplicidade do romance ou xacara +de Sancta Iria, o ser elle, d'entre todos os +que andam na memoria do nosso povo, o +<span class="pagenum">[47]</span> +mais geralmente sabido e mais uniformente +repettido +em todos os districtos do reino, e com +poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto, +me faz crer que ésta seja das mais antigas +composições não so da nossa lingua, +mas de toda +a peninsula. A phrase tem pouco sabor antigo: +este é um d'aquelles poemas quasi aborigines +que a tradição tem vindo intregando, e ao +mesmo tempo traduzindo, de paes a filhos insensivelmente; +e tambem não é porcerto dos +que desceram do palacio ás choupanas e fugiram +da cidade para as aldeas, como em muitos outros +se conhece: este visivelmente nasceu nos +arraiaes, nos oragos dos campos, e por lá tem +vivido até agora. +<br /> + + +<br /> + + +A fórma metrica da composição +é a que a +phrase didatica das Hispanhas chamou <em>romance em +endechas</em>. Eu, adoptando para elle, mais que para a +fórma ordinaria do metro octosyllabo, a theoria do +ingenhoso philologo allemão, Deeping, tam benemerito +da nossa litteratura peninsular, creio que +estes são verdadeiros versos de dôze syllabas, e +que as coplas não constam senão de dous versos +cada uma, segundo a óbvia significação +da palavra. +O povo cantando não separa os hemistychios +<span class="pagenum">[48]</span> +d'estes versos como fazem os que os escrevem: +e ao contrário nos romances da medida +mais commum, o canto popular reparte distinctamente +cada membro de oito syllabas sôbre si. +<br /> + + +<br /> + + +Não sei se me ingano, mas desconfio que as +quatro coplas últimas, em que muda completamente +a rhyma, sejam additamento posterior +feito á cantiga original. Todavia estes oito versos +apparecem, com ligeiras variantes, em toda +a parte. +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c6"></a>CAPITULO XXXI. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro">Quommodo sedet sola +civitas.―Santarem.―Portugal em +verso e Portugal em prosa.―Exquisito lavor de umas portas +e janellas de architectura mosarabe.―Busto de D. Affonso +Henriques.―As salgadeiras de Affrica.―Porta do Sol.―Muralhas +de Santarem.―Voltemos á historia de Fr. +Diniz +e da menina dos olhos verdes. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Eram mais de dez horas da manhan quando sahimos +a começar a longa viasacra de reliquias, +templos e monumentos que são hoje toda Santarem. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p50">[50]</a></span> +A vida palpitante e actual acabou aqui inteiramente: +hoje é um livro que so recorda o que foi. Entre +a historia maravilhosa do passado que todas éstas +pedras <a href="#e6">memoram</a>, e as +prophecias tremendas +do futuro que parecem gravadas n'ellas em characteres +mysteriosos, não ha mais nada: o presente +não é, ou é como se não +fosse: tam pequeno, +tam mesquinho, tam insignificante, tam +desproporcionado parece a tudo isto. +<br /> + + +<br /> + + +Dá vontade de intoar com o poeta inspirado +de Jerusalem: 'Quommodo sedet sola civitas!' +Portugal é, foi sempre uma nação de +milagre, +de poesia. Desfizeram o prestigio; veremos como +elle vive em <em>prosa</em>. Morrer, +não morre a terra, +nem a familia, nem as raças: mas as +nações +deixam de existir.―Pois embora, ja que assim +o querem. A mim não me fica escrupulo. +<br /> + + +<br /> + + +Passámos a egreja da Alcaçova, que +achámos +ja fechada; e tomando sempre sôbre a esquerda, +fomos pelo que hoje parece uma azinhaga de entre +quintas, mas que visivelmente foi n'outras eras +a rua mais <em>fashionavel</em> d'esta villa +cortezan. Aqui +estão quasi aopé da egreja umas portas e janellas +<span class="pagenum">[51]</span> +do mais fino lavor e gôsto mosarabe que me +lembra de ter visto. +<br /> + + +<br /> + + +E a proposito, porque se não hade adoptar na +nossa peninsula ésta designação de +<em>mosarabe</em> para +characterizar e classificar o genero architectonico +especial nosso, em que o severo pensamento christão +da architectura da meia +edade se sente relaxar +pelo contacto e exemplo dos habitos sensuaes +moirescos, e de sua luxuosa e redundante elegancia? +<br /> + + +<br /> + + +De que palacio incantado foram éstas portas +tam primorosamente lavradas? Que bellezas se +debruçaram d'essas arrendadas janellas para ver +passar o cavalleiro escolhido do seu coração? +São +tam lindas, tam elegantes ainda éstas pedras +desconjunctadas, +e mal sustidas de um muro insosso +e grosseiro que as facea, que naturalmente despertam +a mais adormecida imaginação a quanto sonho +de fadas e trovadores a poesia fez nascer dos +mysterios da edade-média. +<br /> + + +<br /> + + +Pouco mais adeante está, em um mau nicho +escalavrado e feio, um pretendido busto de D. +Affonso Henriques, a que attribuem grande antiguidade. +<span class="pagenum">[52]</span> +Não me fez esse effeito a mim. +<br /> + + +<br /> + + +Chegámos á porta do +<em>Sol</em>; sentamo'-nos alli a +gosar da majestosa vista. É majestosa mas triste. +A ribanceira que d'alli corta abaixo, até ao rio, +é arida e quasi calva: cobrem-n'a apenas, como +a mal povoada nuca de um velho, alguns tufos +de verdura cinzenta e grisalha de um arbusto +rasteiro, meio <em>frutex</em> meio herbaceo +que aqui +chamam 'Salgadeira' e que a tradicção diz ter +vindo de Affrica para segurar a terra n'estes taludes +e precipicios. O aspecto e hábito da planta +é realmente affricano e oriental, não tem nada +de europeu. Mas ésta derradeira e occidental +parte da nossa Hespanha é, geologicamente fallando, +ja tam affrica, tam pouco europa, que +não sería necessaria a +transplantação talvez; e +porventura ficou ésta memoria entre o povo do +uso que os moiros faziam da planta para esse +fim. +<br /> + + +<br /> + + +Ésta porta do sol dizem que é onde se faziam +as execuções em tempos antigos. Foi bem +escolhido o sítio; não o ha mais triste e +melancholico. +Aopé está um torreão quadrado da +muralha +que ahi fórma canto para seguir depois na +<span class="pagenum">[53]</span> +direcção de sul a norte. D'este lado as +fortificações +e lanços de muro estão todas pouco estragadas; +e do mirante a que subimos, póde-se formar +perfeita idea do que era uma antiga cidade +murada. +<br /> + + +<br /> + + +Sería aqui, dizia eu commigo, que o nosso +Fr. Diniz de quem ja tenho saudades―o velho +guardião de San'Francisco veio chorar o seu ultimo +threno sôbre as ruinas da antiga monarchia? +Sería aqui n'este logar de desolação e +melancholia +que correram as suas derradeiras lagrymas! +Elle que ja não chorava, acharia aqui quem desse +aos seus olhos as fontes de agua que o coração +lhe pedia para se desaffogar dos pezares que o +rallavam na aridez e seccura de sua desconsolada +velhice? +<br /> + + +<br /> + + +Passavam-me éstas ideas pelo pensamento quando +o historiador que tantos capitulos nos retteve +no vale, contando-nos os successos de Joanninha +e da sua familia, nos disse: +<br /> + + +<br /> + + +'Sentemo-nos aqui na sombra que faz ésta muralha +e acabemos a historia da menina dos rouxinoes. +De tarde vamos á Ribeira saudar a memoria +<span class="pagenum">[54]</span> +do Alfageme. Ámanhan de manhan está +detalhado que iremos ver a Graça, o Sancto +milagre, San' Domingos e San' Francisco. Concluamos +hoje ésta historia.' +<br /> + + +<br /> + + +'Seja' respondemos nós. +<br /> + + +<br /> + + +Entraremos portanto em novo capitulo, leitor +amigo; e agora não tenhas medo das minhas +digressões +fataes, nem das interrupções a que sou +sujeito. Irá direita e corrente a historia da +nossa +Joanninha até que a terminemos... em bem +ou em mal? D'antes um romance, um drama em +que não morria ninguem era havido por semsabor; +hoje ha um certo horror ao tragico, ao +funesto que perfeitamente quadra ao seculo das +commodidades materiaes em que vivemos. +<br /> + + +<br /> + + +Pois, amigo e benevolo leitor, eu nem em +principios nem em fins tenho eschola a que esteja +sujeito, e heide contar o caso como elle +foi. +<br /> + + +<br /> + + +Escuta. +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c7"></a>CAPITULO XXXII. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro"> +Tornámos á historia de Joanninha.―Preparativos +de guerra.―A +morte.―Carlos ferido e prisioneiro.―O hospital.―O +infermeiro.―Georgina. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +'Escuta!' disse eu ao leitor benevolo no fim do +último capítulo. Mas não basta que +escute, é +preciso que tenha a bondade de se recordar do +que ouviu no capitulo XXV e da situação em +<span class="pagenum">[56]</span> +que ahi deixámos os dous primos, Carlos e Joanninha. +<br /> + + +<br /> + + +N'este despropositado e inclassificavel livro das +minhas <span class="smallcaps">Viagens</span>, +não +é que se quebre, mas inreda-se +o fio das historias e das observações por +tal modo, que, bem o vejo e o sinto, so com +muita paciencia se póde deslindar e seguir em +tam imbaraçada meada. +<br /> + + +<br /> + + +Vamos pois com paciencia, caro leitor; farei +por ser breve e ir direito quanto eu podér. +<br /> + + +<br /> + + +Lembra-te como n'uma noite pura, serena e +estrellada, aquelles dous se despediram um do +outro no meio do valle, como se despediram tristes, +duvidosos, infelizes, e ja outros, tam outros +do que d'antes foram. +<br /> + + +<br /> + + +N'essa mesma noite, a ordenada confusão de +um grande movimento de guerra reinava nos postos +dos constitucionaes. Á longa apathia de tantos +mezes succedia uma inesperada actividade. +Preparavam-se os sanguinolentos combates de Pernes +e de Almoster, que não foram decisivos logo, +mas que tanto appressaram o termo da contenda. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[57]</span> +Carlos achou ordem de se appresentar no quartel-general, +partiu immediatamente. O pensamento +absorvido por ideas tam differentes, tam +confuso, tam alheado de si mesmo, seguiu machinalmente +o corpo. Foi, chegou, recebeu as +instrucções que lhe deram, e voltou mais +satisfeito, +mais tranquillo. +<br /> + + +<br /> + + +Tractava-se de morrer. Não sabe o que é +verdadeira +angústia d'alma o que ainda não +abençoou +a morte que viu deante de si, o que a não +invocou ainda como unico remedio de seu mal, +ou, o que é mais desesperado, como unica sahida +de suas fataes perplexidades. +<br /> + + +<br /> + + +Estes momentos são raros na vida, é certo; +mas quando occorrem, não ha +exaggeração nenhuma +em dizer que antes, muito antes a morte +do que elles. +<br /> + + +<br /> + + +Oh! e se a morte que se contempla é de honra +e glória, se o enthusiasmo, tirando fortemente +a corda dos nervos, os faz vibrar n'aquelles +tons secretos e mysteriosos que arrebatam, e elevam +o coração do homem á sublime +abnegação +de si, e de tudo o que é piqueno, baixo e vil +<span class="pagenum">[58]</span> +na sua natureza―oh então a morte parece um +triumpho, uma bemaventurança porcerto! +<br /> + + +<br /> + + +Carlos esqueceu-se de tudo, menos da sua espada +que affiou com escrupuloso cuidado, e das +suas boas e seguras pistolas inglezas que limpou +minuciosamente, carregou e escorvou com um +verdadeiro amor de artista que se compraz no +último acabamento de um trabalho predilecto. +<br /> + + +<br /> + + +O pouco da noite que lhe restava passou-se +n'isto, a marcha começou antes do dia. E os primeiros +raios do sol foram saudados pelo fuzilar +das espingardas, e pelo trovejar dos canhões. +<br /> + + +<br /> + + +Combateu-se larga e incarniçadamente―como +entre irmãos que se odeiam de todo o odio +que ja foi amor―o mais cruel odio que tem a +natureza! +<br /> + + +<br /> + + +O dia declinava ja quando n'um hospital em +Santarem entravam muitas maccas de feridos, e +entre elles, um todo crivado de ballas e cuberto +de sangue que, assim pelos restos do un +O dia declinava ja quando n'um hospital em +Santarem entravam muitas maccas de feridos, e +entre elles, um todo crivado de ballas e cuberto +de sangue que, assim pelos restos do uniforme +como por certo ar bem conhecido―e charecteristica +<span class="pagenum">[59]</span> +então, se via claramente ser do +exército +constitucional. +<br /> + + +<br /> + + +Eram muitas e perigosas as feridas d'esse homem; +estenderam-n'o n'uma especie de tarimba +sôbre que havia alguma palha, e quando lhe chegou +a sua vez foi examinado e pençado como os +outros. Não dava signal de padecer, tinha os olhos +fechados, o pulso forte mas não agitado de febre; +não proferia uma syllaba, não soltava um +ai, e prestava-se a tudo o que lhe diziam e faziam, +menos a soltar da mão esquerda que apertava +contra o peito o que quer que fosse que alli +tinha seguro e que lhe pendia ao pescosso de uma +estreita fitta preta. +<br /> + + +<br /> + + +Assim o deixaram largo tempo: elle adormeceu. +Não sería largo, mas foi profundo o seu +dormir. Quando acordou ja se não viu no vasto caravanseray +d'aquelle confuso hospital, +mas n'um +pequeno quarto arejado, limpo, e quasi confortavel +que em tudo parecia cella de convento, menos +na boa cama em que jazia o doente, e na +extremada elegancia do infermeiro que o velava. +<br /> + + +<br /> + + +O quarto era comeffeito uma cella do convento +<span class="pagenum">[60]</span> +de San'Francisco em Santarem, o doente o +nosso Carlos; e o infermeiro que o velava, uma +bella mulher de estatura não acima de ordinaria +mas nem uma linha menos, involvida nas amplissimas +pregas de um longo roupão de seda d'aquella +acertada côr que, em dialecto da rua Vivienne, +se diz <em>scabieuse</em>; a +cabeça toucada de finissima +Bruxellas, com uns laços de preto e côr de +granada que realçavam a transparencia das rendas, +a infinita graça dos longos e ondados aneis +louros do cabello, e a pureza symetrica de um +rosto oval, classico, perfeito, sem grande mobilidade +de expressão mas bello, bello, quanto póde +ser bello um rosto em que pouco d'alma se +reflecte, e em que a serena languidez de uns +olhos azues entibía e modera a energia do sentimento +que não é menos profundo talvez, mas +certamente se expande menos. +<br /> + + +<br /> + + +De joelhos juncto ao leito de Carlos, com a +mão direita d'elle nas suas, os olhos seccos mas +fixos nas descahidas palpebras do soldado, aquella +mulher estava alli como a estátua da dor e da +anxiedade. A uma porta interior e que abria para +De joelhos juncto ao leito de Carlos, com a +mão direita d'elle nas suas, os olhos seccos mas +fixos nas descahidas palpebras do soldado, aquella +mulher estava alli como a estátua da dor e da +anxiedade. A uma porta interior e que abria para +uma especie de alcova obscura, em pé, os +braços cruzados e mettidos nas mangas, o capuz +<span class="pagenum">[61]</span> +na cabeça, estava um frade velho, alto mas curvado +do pêso dos annos ou dos soffrimentos. +<br /> + + +<br /> + + +O frade contemplava o infêrmo e a infermeira, +mas visivelmente não queria ser visto n'essa +occupação, +porque ao menor estremecimento do +doente recuava apressado e como assustado para +o interior da sua alcova. +<br /> + + +<br /> + + +Uma so vela de cera allumiava este quadro, +accidentando-o de fortes sombras, e dando-lhe +um tom de solemnidade verdadeiramente magico +e sublime. +<br /> + + +<br /> + + +Carlos segurava ainda na esquerda com o mesmo +affêrro o relicario ou talisman, o que quer +que era que não queria desprender de seu +coração. +A bella infermeira beijava de vez em quando +aquella mão tenaz que estremecia a cada beijo, +por mais suave e mimoso que fosse o leve +contacto d'esses labios delicados. +<br /> + + +<br /> + + +A outra mão estava nas mãos d'ella, mas era +insensivel a tudo, essa. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p62">[62]</a></span> +O silencio era o do sepulchro: so se ouvia o +respirar incerto e descompassado do infêrmo. +<br /> + + +<br /> + + +Derepente Carlos entreabriu as palpebras e +exclamou em inglez: '<em>Oh Georgina, Georgina, +I love you <a href="#e7">still</a>.</em>'―(Georgina, +Georgina, eu ainda +te amo). +<br /> + + +<br /> + + +Duas lagrymas―duas perolas, d'estas que se +criam com tanta dor no coração e que +ás vezes +sahem com tanto prazer dos olhos―romperam +do celeste azul dos olhos da dama e suavemente +correram por aquellas faces de uma alvura pallida +e mortal. +<br /> + + +<br /> + + +Carlos accordou de todo, abriu os olhos e cravou-os +fixamente no rosto angelico d'essa mulher. +<br /> + + +<br /> + + +Esteve assim minutos: ella não dizia nada nem +de voz nem de gesto: fallavam-lhe so as lagrymas +que corriam quietas, quietas, como corre +uma fonte perenne e nativa d'agua que mana sem +esfôrço nem impeto, por um declive natural e +facil. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[63]</span> ―'Onde estou eu, Georgina?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Nos meus braços.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Que me succedeu?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Que não podes ser feliz senão n'elles: +bem sabes.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Sei... devia saber.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Hasde sabe-lo agora. O passado...' +<br /> + + +<br /> + + +―'O passado! qual?' +<br /> + + +<br /> + + +―'O passado deixou de existir.' +<br /> + + +<br /> + + +―'E o futuro?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Eu não creio no futuro.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Porquê?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Porque tu me disseste que não cresse.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Eu!.. Eu sou um...' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[64]</span> ―'Um homem.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Oh!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Basta e descança. Amanhan fallaremos.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Estou ferido, muito; e doe-me agora... +não me doía.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Estás, mas sem perigo: e estou eu aqui. +Dorme.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Não posso. Que casa é ésta?' +<br /> + + +<br /> + + +―'San'Francisco de Santarem.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Deus de misericordia!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Es prisioneiro: sára, e eu te livrarei.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Tu!―E tu aqui, como?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Vim buscar-te, e achei-te assim.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Georgina!' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[65]</span> ―'Que tens tu ahi tam seguro na mão esquerda?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Vê: a medalha com o teu cabello.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Então amas-me tu ainda?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Se te amo! Como no primeiro...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Não mintas, Carlos... E dorme.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Oh meu Deus, meu Deus! Georgina +aqui, eu n'este estado e... E a minha gente?' +<br /> + + +<br /> + + +―'A tua gente está salva.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Aonde?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Aqui mesmo, em Santarem.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Quero... não quero... Oh sim, quero mas é +morrer. Tende misericordia de mim, meu Deus!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Socega, Carlos.' +<br /> + + +<br /> + + +Mas Carlos não socegava: immudeceu porque +<span class="pagenum">[66]</span> +a torrente de seus pensamentos, o incontrado +d'elles, e o inesperado d'aquella situação lhe +imbargavam +a voz, e o quebramento das fôrças lhe +tolhia os movimentos do corpo; mas o espirito +inquieto e alvoraçado revolvia-se dentro com um +phrenesi louco. Era pasmar o que elle soffria. +<br /> + + +<br /> + + +Á fôrça de bebidas calmantes o accesso +diminuiu, +a noite passou mais tranquilla; e pela manhan +o doente não dava cuidado ao facultativo que +o veio ver. +<br /> + + +<br /> + + +Prohibiram-lhe fallar; e Georgina tinha a coragem +de lhe resistir, de lhe não responder todas +as vezes que elle tentava quebrar o preceito +de que dependia a sua vida... e a d'ella, porque +a infeliz amava-o... oh! amava-o como se não ama +senão uma vez n'este mundo. +<br /> + + +<br /> + + +Passaram dias, semanas, Carlos estava melhor, +estava salvo; Georgina pôde dizer-lhe um dia: +<br /> + + +<br /> + + +―'Carlos, meu Carlos, tu estás livre de perigo, +vou restituir-te aos teus.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Os meus!' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[67]</span> ―'Os teus. Tua avó, tua prima...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Joaninha! oh! Joanninha...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Tua avó que tambem tem estado a morrer +mas que emfim está escapa, ignora que tu +estejas aqui. Occultámo-lo egualmente a tua prima.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Ah!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Sim, assentámos de lh'o não dizer a uma +nem a outra até que tivessemos certeza da tua +melhora. Hoje porêm vais ve-las. E eu...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Tu!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Eu não tenho aqui mais nada que fazer.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Georgina!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Carlos!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Tu ja me não amas?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Não.' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[68]</span> +Seguiu-se um silencio torvo e abafado como o +da calma que precede as grandes tempestades. O +rosto de Georgina estava impassivel, Carlos estorcia-se +debaixo de uma compressão horrivel e +incapaz de se descrever. +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c8"></a>CAPITULO XXXIII. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro">Carlos e Georgina. +Explicação.―Ja te +não amo! palavra terrivel.―Que +o amor verdadeiro não é cego.―Frade no caso +outra vez. <em>Ecce iterum Crispinus</em>; ca +está o nosso Fr. +Diniz comnosco. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +―'Tu ja me não amas, Georgina, tu!' +exclamou Carlos depois de uma longa e penosa +lucta comsigo mesmo: 'Ja me não amas +tu, Georgina? Ja não sou nada para ti n'este +<span class="pagenum">[70]</span> +mundo? Aquelle amor cego, louco, infinito, que +derramavas em torrentes sôbre a minha alma, +em que trasbordava o teu coração; aquelle amor +que eu cheguei a persuadir-me que era o maior, +o mais sincero, talvez o unico verdadeiro amor +de mulher que ainda houve no mundo, esse amor +acabou, Georgina? Seccou-se no teu peito a +fonte celeste d'onde manava? Nem as recordações +de nossa passada felicidade, nem as memorias +dos crueis lances que nos custou, dos +sacrificios tremendos que por mim fizeste, nada, +nada póde acordar na tua alma um echo, um +echo sumido que fosse, da antiga harmonia de +nossas vidas―da nossa vida, Georgina, porque +nós chegámos a confundir n'um só os +dois seres +da nossa existencia―Oh! porque vivi eu até +este dia? E tu, tu que refinada crueldade te +inspirou o salvar uma vida que tinhas condemnado, +que tinhas sacrificado quando a separaste +da tua?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Carlos,' respondeu Georgina com a fria +mas compassiva piedade que mais o desesperava:―'Carlos, +não abuses da pouca saude que +ainda tens. O esfôrço d'alma que estás +fazendo +póde-te ser prejudicial. Socega. Tu illudes-te, e +<span class="pagenum">[71]</span> +sem querer, procuras illudir-me tambem a mim. +Entra em ti, Carlos, e discorramos pausadamente +sôbre a nossa situação, que +não é agradavel +porcerto nem para um nem para outro, +mas que póde supportar-se se tivermos juizo para +a incarar toda e sem medo, e para nos convencermos +com lealdade e franqueza do que ella +realmente é. Ouve-me, Carlos: tu amaste-me +muito...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Oh como, oh quanto! Nenhum homem...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Poucos homens, é certo, amaram ainda +como tu... quem sabe! talvez nenhum.―Não +quero perder ésta última illusão... ja +não tenho outra... Talvez nenhum amou como tu me +amaste ou... ou cuidaste amar-me. Eu... oh! eu +quiz-te... pelo eterno Deus que me ouve! eu +quiz-te com uma cegueira d'alma, n'uma singeleza +de coração, com um abandôno tam +completo, +uma abnegação tam inteira de mim mesma, +que realmente creio, este é o amor que so a +Deus se deve, que so ao Creador a creatura póde +consagrar licitamente. +<br /> + + +<br /> + + +Bem castigada estou: mereci-o.' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[72]</span> ―'Georgina, Georgina!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Deixa-me, quero desabafar eu tambem +agora. Ouve-me, tens obrigação de me ouvir.―Se +te dei provas d'este amor, tu o sabes; se +desde que te amei, uma palavra, um gesto, um +pensamento unico, um so e o mais leve relampejar +da imaginação desmentiu em mim d'esta +absoluta e exclusiva dedicação de todo o meu +ser... dize-o tu.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Não, minha alma, não, minha vida, +não; +tu és um anjo, tu es...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Sou uma mulher que te amava como creio +que ordinariamente se não ama.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Não, certo, não.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Fomos felizes, é verdade; e creio que +poucos amantes ainda foram tam felizes como +nós nos breves dias que isto durou.―Tu partiste +para a tua ilha; era forçoso partir, conheci-o +e resignei-me. Consolavam-me as tuas cartas, +as tuas cartas de fogo, escriptas, oh se o eram +escriptas com o mais puro sangue do teu coração. +<span class="pagenum">[73]</span> +Nunca duvidei do que me ellas diziam: +não +se mente assim, tu não mentias então. +É falso +que o amor seja cego: o amor vulgar póde sê-lo, +amor como o meu, o amor verdadeiro tem +olhos de lynce: eu bem via que era amada. +Nunca me escreveste a protestar fidelidade, e +eu sabía, eu via que tu me eras fiel.―Assim +passaram meses, annos. Na ilha e no Porto foste +o mesmo. Eu padecia muito, mas confortava-me, +vivia de esperanças... triste viver mas doce! +Emfim vieste para Lisboa, para aqui... e as +tuas cartas que não eram menos ternas nem menos +apaixonadas...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Se eu nunca deixei, nem um momento...' +<br /> + + +<br /> + + +Com um gesto expressivo, e de suave mas +resoluta denegação, Georgina pôs a +mão na bôcca +do pobre Carlos, como para o impedir de dizer +uma blasphemia. Elle segurou-a com as suas +ambas e lh'a beijou mil vezes com um arrebatamento, +uma <em>furia</em>, n'um paroxismo de +lagrymas +e de soluços, que partiriam o coração +ao mais +indifferente. Commoveu-se, vacillou a inalteravel +rigidez do bello rosto da dama, abaixaram-se +<span class="pagenum">[74]</span> +as longas palpebras de seus olhos; mas se chegou +até elles alguma lagryma mais rebelde, prompta +refluiu para o coração, porque ao +levantá-los +outra vez e ao fixá-los tranquillamente nos do +seu amante, aquelles olhos puros, celestes e austeros +como os de um anjo offendido, estavam +seccos. +<br /> + + +<br /> + + +Ella continuou: +<br /> + + +<br /> + + +―'As tuas cartas, que não eram menos ternas +nem menos apaixonadas, começaram todavia +a ser menos naturaes, mais incarecidas... eram +menos verdadeiras por fôrça. Senti-o, vi-o, e +cuidei morrer. Uma familia da minha amizade +vinha então para Portugal, accompanhei-a. Apenas +cheguei, procurei e obtive os meios seguros +de tranzitar pelos dous campos contendores: presagiava-me +o coração que me havia de ser preciso. +E foi; cheguei ao valle no dia em que tu +o deixavas para aquella fatal acção que te ia +custando +a vida. Vim-te incontrar prisioneiro e meio +morto no hospital dos feridos. Aopé de ti estava +um frade...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Um frade! Meu Deus, se seria elle?' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[75]</span> ―'Era elle.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Pois tu sabes?..' +<br /> + + +<br /> + + +―'Sei: eu disse-lhe quem era e o que tu me +eras...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Tu a elle... disseste?..' +<br /> + + +<br /> + + +―'Disse. Não sei se fiz mal ou bem, sei +que me não importava o que fazia. Vi depois que +me não inganára na confiança que +posera n'elle. +Trouxemos-te para este convento, trattámos de +ti, conseguimos salvar-te a vida... E em quanto +esse cuidado me livrava de outros, fui... fui feliz. +A tua gente... a tua familia do valle tambem +veio para Santarem... tua avó e tua prima, Carlos...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Joanninha! Joanninha está aqui?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Está; socega; ja t'o disse, logo a verás.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Eu! Eu para quê? Eu não quero...' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[76]</span> ―'Quero eu: hasde ve-la. Ja sabes que sei +tudo.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Tudo o quê, Georgina?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Queres que t'o repitta? Repettirei. Que +tu amas tua prima, que ella que te adora. E +por Deus, Carlos eu ja lhe quero como se fôra +minha irman. Intendes bem agora que te não amo? +Comprehendes agora que tudo acabou entre nós, +e que não vejo, não posso ver em ti ja +senão o +espôso, o marido da innocente criança que tomei +debaixo da minha protecção, e a quem juro +que hasde pertencer tu?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Juras falso.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Como assim! Pois queres mais victimas? +Não estás satisfeito com a minha ruina? Eu +aomenos +não sou do teu sangue. E essa velha decrepita +que é tua avó, que duas vezes foi em +verdade tua mãe porque te criou,―essa innocente +que te ama na singelleza do seu coração... +e esse pobre frade velho...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Oh! aqui anda elle, bem o vejo, aqui +<span class="pagenum">[77]</span> +anda o genio mau da minha familia. Malditto sejas +tu, frade!'<br /> + + +<br /> + + +O desgraçado não acabára bem de +pronunciar +éstas palavras, quando a porta da alcova se abriu +de par em par, e a rigida, ascetica figura de +Fr. Diniz estava deante d'elle. +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c9"></a>CAPITULO XXXIV. +</h3> + + +<br /> + + +<div style="text-align: center;" class="intro">Carlos, +Georgina e Fr. Diniz.―A +peripecia do drama.― +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Carlos estava meio sentado meio deitado n'uma +longa cadeira de recôsto; Georgina em +pé, com os braços cruzados e na attitude de +reflexiva +tranquillidade. Um sol brilhante e ardente, +<span class="pagenum">[80]</span> +um sol de maio, feria os estreitos vidros da +pequena janella que so dava luz áquelle quarto: +a excessiva claridade era velada por uma longa e +ampla cortina. +<br /> + + +<br /> + + +Carlos lançou derepente a mão a essa cortina +e a affastou para avivar a luz do aposento. Um +raio agudissimo de sol foi bater direito no macerado +rosto do frade, e reflectiu de seus olhos +incovados, um como relampago de íra celeste que +fez estremecer os dous amantes. +<br /> + + +<br /> + + +Não foi porêm senão relampago; +sumiu-se, +apagou-se logo. Aquelles olhos ficaram mortaes, +mudos, fixos, invidraçados como os de um homem +que acabou de expirar e a quem não cerraram +ainda as palpebras. +<br /> + + +<br /> + + +E assim mesmo aquelles olhos tinham o podêr +magnetico de fixar os outros, de os não deixar +nem pestanejar. +<br /> + + +<br /> + + +Curvo, incostado a um bordão grosseiro, o seu +chapeo alvadio debaixo do braço, o frade deu +alguns passos tremulos para onde estavam os dous, +arrastando a custo as sôltas alpercatas que davam +<span class="pagenum"><a name="p81">[81]</a></span> +um som baço e batido, e faziam―não sei por +quê nem como―estremecer a quem as sentia. +<br /> + + +<br /> + + +Parou a pouca distancia, e tirando a voz fraca e +tenue, mas vibrante e solemne, do íntimo do +peito, disse para Carlos: +<br /> + + +<br /> + + +―'Tu mal disseste-me, filho, e eu venho perdoar-te. +Tu detestas-me, Carlos, de todos os podêres +da tua alma, com toda a energia de teu +coração; e eu venho-te dizer que te amo, que +tomára dar a minha vida por ti, que do fundo +<a href="#e8">das intranhas</a> se ergue este +immenso amor que +não tem outro egual, a pedir-te misericordia, a +clamar-te em nome de Deus e da natureza, a pedir-te, +por quanto ha sancto no ceo e de respeito +na terra, que levantes essa maldicção, filho, +de cima da cabeça de um moribundo.' +<br /> + + +<br /> + + +Eram dittas em tal som estas vozes, vinham +pronunciadas lá de dentro d'alma com tal vehemencia, +que lh'as não articulavam os labios, rompiam-n'os +ellas e sahiam. +<br /> + + +<br /> + + +O soldado parecia desaccordado, confuso e +sem intelligencia do que ouvia. Georgina impassivel +<span class="pagenum">[82]</span> +até alli, rigida e inabalavel com o seu +amante, sentia commover-se agora d'aquella angústia +do velho. É que partia pedras a dor que +vinha n'aquellas fallas sepulchraes, que trassudava +d'aquelle rosto cadaverico. +<br /> + + +<br /> + + +Ao mesmo tempo, um som confuso, um tumulto +vago e abafado de mil sons que pareciam +arredar-se, incontrando-se, tornando, indo e +vindo, e dispersando-se para se tornar a unir, +e tornando a dispersar-se emfim, reboava ao +longe pela villa, extendia-se nas praças, concentrava-se +nas ruas, e mandava áquella solitaria e +remota cella do convento uns echos surdos, como +os do mar ao longe quando se retira da praia no +murmurar melancholico que precede um temporal +d'equinoxio. +<br /> + + +<br /> + + +―'Ouves esse borburinho confuso, Carlos? +É a tua causa que triumpha, é a d'estes loucos +que succumbe, é a de Deus que a si mesmo se +desamparou. A hora está chegada, escreveram-se +as lettras de Balthasar; a confusão e a morte +reinam sos e senhoras na face da terra. Eu quero +ir morrer onde haja Deus... Perdoae-me, Senhor, +<span class="pagenum">[83]</span> +a blasphemia!.. onde o seu nome não seja +profanado e malditto... +<br /> + + +<br /> + + +Ao canto de uma pedra, debaixo de uma árvore +hade ser, n'algum logar escuso d'essas +charnecas, onde me não rasguem aomenos ésta +mortalha, e m'a não insultem nos ultimos instantes, +porque eu sou frade, frade, frade... o +malditto frade! Mas frade quero morrer, e heide +morrer. Oh! assim tivera eu vivido!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Mas que foi; que succedeu?'<br /> + + +<br /> + + +―'O resto do exército realista evacua n'este +momento Santarem; vão em fuga para o Alemtejo. +Os constitucionaes venceram na Asseiceira, +e tudo está ditto para nós. Para mim, Carlos, +falta uma palavra so: quererás tu dizê-la?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Eu?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Sim tu, Carlos. Revoca as palavras terriveis +que proferiste, e em nome de Deus, filho, +perdoa a teu...' +<br /> + + +<br /> + + +A Carlos revolvia-se-lhe no peito uma grande +<span class="pagenum">[84]</span> +lucta. O horror, a compaixão, o odio, a piedade +iam e vinham-lhe alternadamente do coração +ás faces, e tornavam do rosto para o peito. +Uma exclamação involuntaria lhe rebentou +dos labios em meio d'este combate: +<br /> + + +<br /> + + +―'Padre, padre! e quem assacinou meu pae, +quem cegou minha avó, e quem cubriu de infamia +a minha... a toda a minha familia?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Tens razão, Carlos, fui eu; eu fiz tudo +isso: mata-me. Mas oh! mata-me, mata-me por +tuas mãos, e não me maldigas. Mata-me, mata-me. +É decreto da divina justiça que seja assim. +Oh! assim meu Deus! ás mãos d'elle, Senhor! +Seja, e a vossa vontade se faça...' +<br /> + + +<br /> + + +O frade cahiu de bruços no chão, e com as +mãos postas e extendidas para o mancebo, clamava: +<br /> + + +<br /> + + +―'Mata-me, mata-me! aqui ha pouca vida +ja: basta que me ponhas o pé sobre o pescoço; +esmaga assim o reptil venenoso que mordeu na tua +familia e que fez a sua desgraça e a de quantos +o amaram. Sim, Carlos, sê tu o executor das +<span class="pagenum">[85]</span> +íras divinas. Mata-me. Tantos annos de penitencia +e de remorsos nada fizeram; mata-me, livra-me +de mim e da íra de Deus que me persegue.'<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c10"></a>CAPITULO XXXV. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro"> +Reunião de toda a familia.―Explicação +dos mysterios.―O +coração da mulher.―Parricidio.―Carlos beija +emfim a +mão a Fr. Diniz e abraça a pobre da +avó. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Georgina disse para Carlos: +<br /> + + +<br /> + + +―'Dá a mão a esse homem, levanta-o e dize-lhe +as palavras de perdão que te pede.' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[88]</span> +Carlos fez um gesto expressivo de horror e de +repugnancia. Georgina ajoelhou aopé do frade, +tomou as mãos d'elle nas suas, e lh'as affagou com +piedade; depois levantou-lhe o rosto, incostou-o +a si e gradualmente o foi accalmando. O velho +parecia uma criança mimada e sentida que se vai +accalantando nos braços da mãe: agora so +murmurava +de vez em quando alguns soluços, a mais +e a mais raros. +<br /> + + +<br /> + + +Estavam de joelhos ambos, o frade e a dama; +elle mal se tinha, ella amparava em seus braços +e contra seu peito o amortecido corpo do velho. +E Georgina disse com aquelle som de voz irresistivel +que as filhas de Eva herdaram de sua +primeira mãe, e que a ella ou lh'o tinham antes +insinado os anjos, ou o apprendeu depois da serpente,―um +som de voz que é a última e a mais +decisiva da seducções femininas―disse: +<br /> + + +<br /> + + +―'Este homem vai morrer, Carlos: e tu +hasde-o deixar morrer assim, <em>meu +Carlos</em>?' +<br /> + + +<br /> + + +Todo o odio, todas as offensas se callaram, desappareceram +deante d'aquellas palavras do anjo +supplicante. <em>Meu Carlos</em> ditto assim, +não o ouvíra +<span class="pagenum">[89]</span> +elle ha muito tempo, não lhe pôde resistir: +extendeu +os braços para o frade, cahiu de joelhos aopé +d'elle, e um so abraço uniu a todos tres. +<br /> + + +<br /> + + +Como no eterno grupo de Lacoonte, o velho e +os dous mancebos sentiam estreitar-se das cobras +da mesma dor, e affogavam junctos da mesma +angústia. +<br /> + + +<br /> + + +Assim estiveram longamente; e não se ouvía +entre elles senão algum gemido sôlto, e aquelle +sussurrar sumido das lagrymas que mais se ouve +com o coração do que com os ouvidos. +<br /> + + +<br /> + + +O frade disse emfim com uma voz apenas perceptivel +de timida e de fraca: +<br /> + + +<br /> + + +―'Carlos, meu Carlos, perdoa tambem... oh +perdoa á memoria de tua desgraçada +mãe!' +<br /> + + +<br /> + + +O mancebo saltou convulsamente como o cadaver +na pilha galvanica. Em pé, hirto, horrivel, +tremendo, exclamou com um brado de trovão: +<br /> + + +<br /> + + +―'Demonio! demonio incarnado em figura +de homem, que vieste recordar-me? Dizias bem +<span class="pagenum">[90]</span> +indagora, monstro: so ás minhas mãos deves +morrer. +E hasde.' +<br /> + + +<br /> + + +Lançou-se a um enorme velador de pau-sancto +que lhe jazia aopé, massa terrivel d'Hercules, +e bastante a fender craneos de ferro, quanto +mais a descarnada caveira do frade! D'ambas +as mãos a levava no ar; e o velho extendeu para +elle a cabeça como na ancia de morrer... Georgina +fechou involuntariamente os olhos, e um grande +e medonho crime ia consummar-se... +<br /> + + +<br /> + + +Dous gritos agudissimos, dous gritos de desespêro +e de terror, d'aquelles que so sahem da bôcca +do homem quando suspenso entre a morte e +a vida―soaram repentinamente no apposento; +uma velha decrepita e meia morta, arrastada por +uma criança de pouco mais de dezeseis annos, +estava deante de Carlos, e ambas cubriam com +seus debeis corpos a fragil e extenuada figura +da sua victima. +<br /> + + +<br /> + + +―'Filho, meu filho!' arrancou a velha com +stertor do peito: 'é teu pae meu filho. Este homem +é teu pae, Carlos.' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[91]</span> +O ponderoso velador cahiu inerte das mãos do +mancebo, e rolou pesado e baço pelo pavimento. +Carlos cahiu por terra sem sentidos. De um pulo +Georgina estava aopé d'elle, e o fez incostar +na longa cadeira de braços. Estava lavado em sangue; +era uma ferida do pescôço que o excesso +da commoção lhe fizera rebentar. Os dous velhos +vieram ajoelhar-se aopé d'elle. As duas mulheres +moças lidavam pelo restaurar e lhe estancar o +sangue. A cambraia dos lenços, as rendas do collo +e das cabeças, tudo se fez em ataduras e compressas: +o sangue parou emfim. +<br /> + + +<br /> + + +Admiravel belleza do coração feminino, generosa +qualidade que todos seus infinitos defeitos +faz esquecer e perdoar! Essas duas mulheres amavam +esse homem. Esse homem não merecia tal +amor: não, por Deus! o monstro amava-as a ambas: +está tudo ditto. E ellas que o sabiam, ellas +que o sentiam, e que o julgavam digno de mil mortes, +ellas rivalizavam de cuidados e de ancia para +o salvarem. +<br /> + + +<br /> + + +De tanto não somos capazes nós. +<br /> + + +<br /> + + +E por isso admirâmos tanto. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[92]</span> +E perdoâmos tanto. +<br /> + + +<br /> + + +E esquecêmos tanto. +<br /> + + +<br /> + + +Mas amar tanto, não sabemos: verdade, verdade... +<br /> + + +<br /> + + +Amâmos <em>melhor</em>; sim, isso +sim: <em>tanto</em> não. +<br /> + + +<br /> + + +O mancebo permanecia em deliquio. Fr. Diniz +e a velha rezavam. Georgina e Joanninha―ja +vereis que era Joanninha―olharam uma para a +outra, coraram e ficaram suspensas. A ingleza +extendeu a mão á amavel criança, +estremeceu +involuntariamente, mas disse-lhe com firmeza: +<br /> + + +<br /> + + +―'O ditto ditto, Joanninha! Eu ja o não amo; +prometto.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Eu amo-o cada vez mais, Georgina: elle +é tam infeliz!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Juras-me tu de o não deixar, de velar +por elle sempre, de o defender de si mesmo que +é o peior inimigo que tem?' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[93]</span> ―'Se juro!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Então adeus, Joanninha! Eu estou de mais +aqui. Ja tenho ouvido o que não devia ouvir. Os +segredos da tua familia não me pertencem. O +coração d'esse homem não é +meu, nem o quero. +É um nobre e grande coração, +Joanninha; mas... +Não te deixes dominar por elle se o queres segurar. +Adeus!―Santarem está desamparada pelos +realistas; eu vou para Lisboa. Consola tua +boa avó, e esse pobre velho. Elle não +é tam +criminoso, estou certa...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Oh não! Carlos cuida-o assassino de seu +pae; e é falso. Minha avó ja me disse tudo.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Falso!' murmurou Carlos sem abrir os +olhos: 'é falso? Pois não foi elle que matou meu +pae?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Não, filho, clamou a velha: 'não, meu +filho; teu pae é este infeliz.' +<br /> + + +<br /> + + +―'E minha mãe?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Tua mãe... e eu somos duas desgraçadas. +<span class="pagenum">[94]</span> +Que mais queres saber? Tua mãe amou esse homem...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Ah!' disse Carlos: 'ah!' e abriu os +olhos pasmados para a avó e para o frade que +cravaram os seus no chão, e ficaram como dous +réos na presença do seu inflexivel juiz. +<br /> + + +<br /> + + +―'Mas esse homem que é... que por +fôrça +querem que seja meu... meu pae... Sancto Deus! +elle matou o outro.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Defendi-me, foi defendendo ésta vida miseravel... +Oh nunca eu o fizera! E paraquê? +Paraque quiz eu viver? Para isto!' +<br /> + + +<br /> + + +―'E meu tio, o pae de Joanninha? Tambem +esse era preciso que morresse?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Ambos se junctaram para me assassinar, e +me accommetteram atraiçoadamente na charneca. +Não os conheci; foi de noite escura e cerrada. +Defendi-me sem saber de quem, e tive a desgraça +de salvar a minha vida á custa da d'elles. +Filho, filho, não queiras nunca sentir o que eu +senti, quando pegando, um a um, n'esses cadaveres +<span class="pagenum">[95]</span> +para os lançar no rio, conheci as minhas +victimas... Era hynverno, a cheia ia de valle a +monte: quando abateu e se acharam os corpos ja +meios desfeitos, ninguem conheceu a morte de +que morreram; passaram por se ter affogado. +Ninguem mais soube a verdade senão eu―e tua +infeliz mãe a quem o disse para meu castigo, a +quem vi morrer de pezar e de remorsos, que +expirou nos meus braços chorando por elle, e +maldizendo-me a mim. Não sería bastante castigo, +meu filho?―Não foi, não. Este burel que +ha tantos annos me roça no corpo, estes cilicios +que m'o desfazem, os jejuns, as vigilias, as +orações +nada obtiveram ainda de Deus. A sua íra +não me deixa, a sua cholera vai até a sepultura +sôbre mim... Se me perseguirá além +d'ella!..' +<br /> + + +<br /> + + +Fez-se aqui um silencio horroroso: ninguem +respirava; o frade proseguiu: +<br /> + + +<br /> + + +―'Não me dei por bastante castigado com +a agonia de tua mãe, a mais horrorosa e desesperada +agonia que ainda presenciei, oh meu +Deus!.. Tive o cruel ânimo de explicar a tua +avó as negras circumstancias d'aquella morte, e +de lhe patentear toda a fealdade e hediondez do +<span class="pagenum">[96]</span> +meu crime. Rasguei-lhe o coração, e vi-lhe sahir +sangue e agua pelos olhos, até que lhe cegaram. +Que mais queres? Cuidei que podia morrer +sem passar por ésta derradeira +expiação. Deus +não o quiz. Aqui estou penitente a teus pés, +filho. +Aqui está o assassino de tua mãe, de seu marido, +de teu tio... o algoz e a deshonra de tua familia +toda.―Faze de mim como fôr tua vontade. +Sou teu pae...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Meu pae!.. Misericordia meu Deus!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Misericordia, filho, e perdão para teu pae!' +<br /> + + +<br /> + + +Carlos levantou-se deliberadamente, veio ao velho, +tomou-o a pêso nos braços, foi sentá-lo +na cadeira que acabava de deixar, e pondo-se +de joelhos, beijou-lhe a mão em silencio. Depois +foi abraçar-se com a avó, que o apalpava +soffregamente +com as mãos trémulas, e murmurava +baixo: +<br /> + + +<br /> + + +―'Agora sim, ja posso morrer, ja posso +morrer porque o abracei, porque o senti juncto +a mim, o meu filho, o filho da minha filha querida...' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[97]</span> +Carlos é que não proferiu mais palavra; +tinha-se-lhe +rompido corda no coração, que ou +lhe quebrára o sentimento ou lh'o não deixava +expressar. Sahiu da cella fazendo signal que vinha +logo: mas esperaram-n'o em vão... não tornou. +<br /> + + +<br /> + + +D'ahi a tres dias, veio uma carta d'elle, de +juncto d'Evora onde estava com o exército constitucional. +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c11"></a>CAPITULO XXXVI. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro">Que não se acabou a historia +de Joanninha.―Processo ao +coração de Carlos.―Immoralidade.―Defeito de +organização +não é immoralidade.―<a href="#e9">Horror</a>, +horror, maldicção!―Um +barão que não pertence á familia +lineana dos barões +propriamente dittos―Porta de Atamarma.―Senatus +consulto +santareno.―Nossa Senhora da Victoria +<em>afforada</em>.―Threnos +sôbre Santarem. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +―Pois ja se acabou a historia de Joanninha? +<br /> + + +<br /> + + +―Não, de todo ainda não. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[100]</span> ―Falta muito? +<br /> + + +<br /> + + +―Tambem não é muito. +<br /> + + +<br /> + + +―Seja o que for, acabemos, que está a +gente impaciente por saber como se concluiu tudo +isso, o que fez o frade, o que foi feito da +ingleza, Joanninha e a avó que caminho levaram, +e o pobre Carlos se... +<br /> + + +<br /> + + +―Pois interessam-se por Carlos, um homem +immoral, sem principios, sem coração, que fazia +a côrte―fazer a côrte ainda não +é nada―que +amava duas mulheres ao mesmo tempo? +Horror, horror! como dizem os dramaticos romanticos: +horror e maldicção! +<br /> + + +<br /> + + +―Horror seja, horror será... e horror é, +sem dúvida. E maldicção que deitaram +ao pobre +homem. Mas immoralidade! Immoralidade +é inganar, é mentir, é +atraiçoar: e elle não o +fez. Desgraça grande ter um coração +assim; mas +não me digam que é próva de o +não ter. Eu +digo que elle tinha coração de mais: o que +é +um defeito e grande, é um estado pathologico +e anormal. Physicamente produz a morte; e moralmente +<span class="pagenum">[101]</span> +póde matar tambem o sentimento. Bem +o creio: mas é molestia commum, e com que +vai vivendo muita gente, até que um dia... +<br /> + + +<br /> + + +―Um dia, o orgam, que progressivamente +se foi dilatando, não póde funccionar mais, cessa +a circulação e a vida. Deve ser horrivel morte! +<br /> + + +<br /> + + +―Fallam physicamente? +<br /> + + +<br /> + + +―Physicamente. Mas no moral anda pelo +mesmo. E se esse é o defeito de Carlos... +<br /> + + +<br /> + + +―Sentir muito? +<br /> + + +<br /> + + +―Não; ter sentido muito: que o +coração, +como orgam moral, não se dilata a esse ponto +senão pelo demaziado excesso e violencia de +sensações +que o gastaram e relaxaram. Se esse é o +defeito, a molestia de Carlos, digo que ja sei o +fim da sua historia sem a ouvir. +<br /> + + +<br /> + + +―Então qual foi? +<br /> + + +<br /> + + +―Que um bello dia cahiu no indifferentismo +absoluto, que se fez o que chamam sceptico, +<span class="pagenum">[102]</span> +que lhe morreu o coração para todo o affecto +generoso, +e que deu em homem politico ou em +agiota. +<br /> + + +<br /> + + +―Póde ser. +<br /> + + +<br /> + + +―Mas qual das duas foi, deputado ou barão? +queremos saber. +<br /> + + +<br /> + + +―Saberão. +<br /> + + +<br /> + + +―Queremos ja. +<br /> + + +<br /> + + +―E se fossem ambas? +<br /> + + +<br /> + + +―Oh horror, horror, maldicção, inferno! +Ferros em braza, demonios pretos, vermelhos, +azues, de todas as côres! Aqui sim que toda a +artelharia grossa do romantismo deve cahir em +massa sôbre esse monstro, esse... +<br /> + + +<br /> + + +―Esse quê? Pois em se acabando o +coração +á gente... +<br /> + + +<br /> + + +―Eu não creio n'isso. Acaba-se lá o +coração +a ninguem!.. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[103]</span> +Houve gargalhada geral á custa do pobre incredulo, +e levantamo'-nos para ir ver o Sancto-milagre, +que era a hora apprazada, e estava o +prior á nossa espera. +<br /> + + +<br /> + + +Ámanhan o fim da historia da menina dos olhos +verdes. +<br /> + + +<br /> + + +No caminho incontrámos o nosso antigo amigo, +o barão de P.―barão de outro genero, e +que não pertence á familia lineana que n'esta +obra +procurámos classificar para +illustração do seculo―cavalheiro +generoso, e typo bem raro ja hoje +da antiga nobreza das nossas provincias, com todos +os seus brios e com toda a sua cortezia +d'outro tempo, que em tanto relêvo destaca da +grosseria villan d'essas notabilidades improvisadas... +<br /> + + +<br /> + + +Vinha em nossa procura para nos guiar. Seguimo-lo. +<br /> + + +<br /> + + +Fomos de passagem observando algumas das +mais interessantes coisas d'aquella interessantissima +terra em que se não póde dar um passo sem +que a reflexão ou a imaginação +incontre objecto +<span class="pagenum">[104]</span> +para se entreter. Inclinando um pouco á direita, +démos na celebrada porta de Atamarma. +<br /> + + +<br /> + + +Por aqui entrou D. Affonso Henriques, por +aqui foi aquella destemida surpreza que lhe intregou +Santarem, e acabou para sempre com o +dominio arabe n'esta terra. +<br /> + + +<br /> + + +Os illustrados municipaes Santarenos têem tido +por vezes o nobre e generoso pensamento de +demolir ésta porta! o arco de triumpho de Affonso +Henriques, o mais nobre monumento de +Portugal! +<br /> + + +<br /> + + +A idea é digna da epocha. +<br /> + + +<br /> + + +Felizmente parece que tem faltado o dinheiro +para a demolição; e o senatus consulto dos +dignos +padres conscriptos não pôde ainda executar-se. +<br /> + + +<br /> + + +Não que eu creia este arco o genuino arco +moiresco por onde entraram os bravos de D. Affonso; +mas creio que essa porta da antiga villa +se foi reparando, concertando e conservando em suas +successivas alterações, até chegar ao +que hoje está: +<span class="pagenum">[105]</span> +e ainda assim como está, é um +monumento +de respeito que so barbaros pensariam desacatar +e destruir. +<br /> + + +<br /> + + +Porcima d'ella está uma capellinha de N. S. +da Victoria: quer a tradicção que primeiro +erguida +e consagrada á Virgem pelo heroico fundador +da monarchia e da independencia portugueza. +Este é um dos muitos pontos em que a religião +das tradições deve ser respeitada e crida +sem grandes exames, porque nada ganha a crítica +em pôr dúvidas, e o espirito nacional perde +muito em as acceitar. +<br /> + + +<br /> + + +Deixá-la estar a Virgem da Victoria sôbre o +arco de Affonso Henriques. Prostremo'-nos e adoremos, +como bons portuguezes, o symbolo da fé +christan e da fé patriotica levantado pelas mãos +insanguentadas do triumphador! +<br /> + + +<br /> + + +Mas sería elle ou não que levantou essa +capellinha? +os documentos faltam, os escriptores +contemporaneos guardam silencio; a historia deve +ser rigorosa e verdadeira... +<br /> + + +<br /> + + +Deve: e os grandes factos importantes que fazem +<span class="pagenum">[106]</span> +epocha e são balizas da historia de uma +nação, +tambem eu os regeitarei sem dó quando lhes +faltarem essas authênticas indispensaveis. Agora +as circumstancias, para assim dizer, episodicas +de um grande feito sabido e provado, quem as +conservará senão forem os poetas, as +tradições, +e o grande poeta de todos, o grande guardador +de tradições, o povo? +<br /> + + +<br /> + + +Eu creio na Senhora da Victoria de Santarem, +e em muitos outros sanctos e sanctas, que a religião +do povo tem por esses nichos e por essas +capellas e por esses cruzeiros de Portugal, a recordar +memorias de que se não lavrou outro +auto, não se escreveu outra escriptura, de que +não ha outro documento, e que os frades chroniqueiros +não julgaram dever escrever no livro +de terça ou de noa, em nenhum livro preto nem +incarnado, porque o tinham por melhor escripto +e mais bem guardado nos livros de pedra em +que estava. +<br /> + + +<br /> + + +Coitados! não contaram com os apperfeiçoadores, +reparadores e demolidores das futuras +civilizações +que, para pôr as coisas em ordem, tiram +primeiro tudo do seu logar. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[107]</span> +A camara de Santarem, não podendo demolir +o arco, tomou um meio termo que appósto +que ninguem é capaz de adivinhar. Afforou a capella +por cima d'elle, com altar, com sanctos e +tudo: e assim esteve afforada alguns annos, não +sei paraquê nem porquê; o caso é que +esteve. +<br /> + + +<br /> + + +O anno passado porêm (1842) começou a +manifestar-se +ésta reacção religiosa que os +especuladores +quizeram logo converter em ganancia pessoal, +descontando-a no mercado das agiotagens +facciosas; mas perdem o seu tempo, inda bem! +Veio, digo, ésta reacção nas ideas das +gentes; +e a capella da Senhora da Victoria sôbre o arco, +não sei tambem como nem porquê, foi +<em>desafforada</em>, +e restituida ao culto popular. +<br /> + + +<br /> + + +Subimos a ver a capella por dentro: é um +rifacimento ridiculo e miseravel, sem nenhuma +da solemnidade do antigo, nem elegancia moderna +alguma. +<br /> + + +<br /> + + +Desappontou-me tristemente. Vamos ao Sancto-milagre +depressa, que me quero reconciliar +com Santarem: e ja começa a ser difficil. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[108]</span> +Mas é injustiça minha. Que culpa tem ella, +coitada? +<br /> + + +<br /> + + +Ai Santarem, Santarem, abandonaram-te, mataram-te, +e agora cospem-te no cadaver. +<br /> + + +<br /> + + +Santarem, Santarem, levanta a tua cabeça coroada +de tôrres e de mosteiros, de palacios e de +templos! +<br /> + + +<br /> + + +Mira-te no Tejo, princeza das nossas villas: e +verás como eras bella e grande, ricca e poderosa +entre todas as terras portuguezas. +<br /> + + +<br /> + + +Ergue-te, esqueleto colossal da nossa grandeza, +e mira-te no Tejo: verás como ainda são +grandes e fortes esses ossos desconjuntados que te +restam. +<br /> + + +<br /> + + +Ergue-te, esqueleto de morte, levanta a tua +foice, sacode os vermes que te poluem, esmaga +os reptis que te corroem, as osgas torpes que +te babam, as lagartixas peçonhentas que se passeiam +atrevidas por teu sepulchro deshonrado. +<br /> + + +<br /> + + +Ergue-te Santarem, e dize ao ingrato Portugal +<span class="pagenum">[109]</span> +que te deixe em paz ao menos nas tuas ruinas, +myrrhar tranquillamente os teus ossos gloriosos; +que te deixe em seus cofres de marmore, +sagrados pelos annos e pela veneração antiga, +as cinzas dos teus capitães, dos teus lettrados +e grandes homens. +<br /> + + +<br /> + + +Dize-lhe que te não vendam as pedras de teus +templos, que não façam palheiros e estrebarias de +tuas egrejas; que não mandem os soldados jogar +a pella com as caveiras dos teus reis, e a bilharda +com as cannellas dos teus sanctos. +<br /> + + +<br /> + + +Tiraram-te os teus magistrados, os teus mestres, +os teus seminarios... tudo, menos o intulho +e a caliça, as immundices e os monturos que +deixaram accumular em tuas ruas, que espalharam +por tuas praças. +<br /> + + +<br /> + + +Santarem, nobre Santarem, a Liberdade não é +inimiga da religião do ceo nem da religião da +terra. Sem ambas não vive, degenera, corrompe-se, +e em seus proprios desvarios se suicida. +<br /> + + +<br /> + + +A religião do Christo é a mãe da +Liberdade, +a religião do Patriotismo a sua companheira. O +<span class="pagenum">[110]</span> +que não respeita os templos, os monumentos de +uma e outra, é mau amigo da Liberdade, deshonra-a, +deixa-a em desamparo, intrega-a á irrisão +e ao odio do povo.<br /> + + +<br /> + + +<div class="dots"></div> + + +<br /> + + +<div class="dots"></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Vamos ao Sancto-milagre. +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c12"></a>CAPITULO XXXVII. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro"> +A Graça e sua bella fachada gothica.―Sepultura de +Pedr'alvares +Cabral.―Outro barão que não é dos +assignalados.―Egreja +do Sancto-milagre.―Bellos medalhões mosarabes.―De +como, chegando o prior e o juiz, houve o +A. vista do Sancto-milagre, e com que solemnidades.―Monumento +da muito alta e poderosa princeza a infanta D. +Maria da Assumpção.―Casa onde succedeu o +milagre, +convertida em capella de stylo philipino.―O homem das +botas, e o que tem elle que haver com o Sancto-milagre +de Santarem.―Admiravel e graciosa esperteza da regencia +do Rocio.―Aaroun-el-Arraschid: e theoria dos governos +folgasões; os melhores governos +possiveis.―Volta o paladio +scalabitano de Lisboa para Santarem. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Inclinámos o nosso caminho para a esquerda, +e fomos passar deante do arrendado e elegante +frontispicio gothico da Graça. A ausencia +de não sei que regedor, ou insignificante personagem +<span class="pagenum">[112]</span> +que não respeita os templos, os monumentos de +de egual importancia que tem as chaves +da egreja e convento, nos fez perder toda a +esperança de visitar a sepultura de Pedr'alvares +Cabral que alli jaz, assim como outras bellas e +interessantes antiguidades de não menor preço. +<br /> + + +<br /> + + +Fomos seguindo até casa do barão d'A., outro +illegitimo, porque não pertence aos barões +assignalados +<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Que, sem passar além da +Taprobana,<br /> + + +No velho Portugal edificaram<br /> + + +Novo reino que tanto sublimaram. +</div> + + +<br /> + + +Incontrámo-lo prompto a accompanhar-nos, e a +presidir, como juiz da irmandade que é, á grande +cerimonia da exposição e ostensão do +Sancto-milagre. +<br /> + + +<br /> + + +Junctos descémos á egreja; que é +perto. +<br /> + + +<br /> + + +A egreja pequena e do peior gôsto moderno por +dentro e por fóra. Notavel não tem nada se +não uns +quatro medalhões de pedra lavrada com bustos de +homens e mulheres em relêvo q +A egreja pequena e do peior gôsto moderno por +dentro e por fóra. Notavel não tem nada se +não uns +quatro medalhões de pedra lavrada com bustos de +homens e mulheres em relêvo que visivelmente +pertenceram a edificação antiga, e que +actualmente +<span class="pagenum">[113]</span> +estão incrustados na tosca alvenaria do cruzeiro. +<br /> + + +<br /> + + +Os bustos são de puro e finissimo lavor gothico, +altos de relêvo e desenhados com uma +franqueza que se não incontra em esculpturas +muito posteriores. +<br /> + + +<br /> + + +São talvez reliquias da primitiva egreja do +Sancto-milagre que nas successivas reedificações +se teem ido conservando. Abençoado seja o escrupuloso +que as salvou d'este último +<em>melhoramento</em> +que houve no desgraçado e desgraçioso templo: +o que não foi ha muitos annos por certo. +<br /> + + +<br /> + + +Chamo gothico ao lavor d'aquellas cabeças por +que é a phrase vulgar e impropria usada de toda +a gente: segundo ja observei n'outra parte, com +mais exacção se devêra dizer mosarabe. +<br /> + + +<br /> + + +Chegou o prior, o Sr. juiz deu as suas ordens, +vieram uns poucos de irmãos com tochas, distribuiram-nos +a cada um de nós a sua, e processionalmente +nos dirigimos á porta lateral do +altar-mor, da qual se sobe, por uma escada assás +larga e commoda, á especie de camarim +<span class="pagenum">[114]</span> +que está parallelo com o mais alto do throno +em que perpetuamente se conserva o grande +paladio santareno. +<br /> + + +<br /> + + +Subimos, accompanhados do prior em sobrepeliz +e estola; chegados ao alto, ajoelhámos em roda d'elle +que subiu a uns degrausinhos, abriu, com a chave +dourada que trazia pendente ao pescosso, uma +como porta de sacrario, depois ajoelhou, incensou, +tornou a ajoelhar, disse alguns versetos a +que respondeu o sacristão, e finalmente tirou de +seu repositorio uma especie de ambula de ouro +de fábrica antiga, mas não mais antiga que o +decimo sexto, ou decimo quinto seculo, quando +muito. +<br /> + + +<br /> + + +Depois de nos inclinarmos e receber a bençam +que o padre nos deitou com a reliquia, foi-nos +permittido erguer-nos, e chegar perto para ver +e observar. +<br /> + + +<br /> + + +Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados +se descobre comeffeito o pequeno vulto +amarellado-escuro que piedosamente se crê ser +o resto da particula consagrada qu +Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados +se descobre comeffeito o pequeno vulto +amarellado-escuro que piedosamente se crê ser +o resto da particula consagrada que a judia roubára +para seus feitiços. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[115]</span> +Escuso contar a historia do Sancto-milagre de +Santarem que toda a gente sabe. O bom do +prior, ex-frade trino gordo e bem conservado, +não nos perdoou o menor ponto d'ella, que tivemos +de ouvir com a maior compuncção. +<br /> + + +<br /> + + +Incerrada outra vez a ambula com as mesmas +solemnidades, entrámos em conversação +com o +prior. +<br /> + + +<br /> + + +N'aquelle mesmo camarim juncto á devota +reliquia se conservaram, por espaço de cinco ou +seis annos, se bem me recordo do que o bom +do parocho nos contou, os restos mortaes da +senhora infanta D. Maria da Assumpção, que +fallecêra em Santarem nos ultimos mezes da +occupação d'aquella villa pelas +fôrças realistas. +O cadaver, mal imbalsemado e com más drogas, +foi mettido n'um caixão de folha de Flandres. +Em pouco tempo a corrupção estragou e rompeu +a folha, e uma infecção terrivel apestava a +egreja. Soffreu-se isto annos, representou-se ao +govêrno por vezes, mas nenhuma +resolução se +pôde obter. Até que afinal, declarando o prior +que, se não mandavam tomar conta d'aquelles +tristes restos da pobre princeza, elle se via obrigado +<span class="pagenum">[116]</span> +a mettê-los na terra, foi-lhe respondido +que fizesse como intendesse; e elle intendeu +que os devia sepultar no cruzeiro da +egreja, como fez, do lado da epistola, isto é, +á direita. +<br /> + + +<br /> + + +E ahi jaz em sepultura raza, sem mais distincção +nem epitaphio, a muito alta e poderosa +princeza D. Maria, filha do muito alto e poderoso +principe D. João o VI, rei de Portugal, +imperador do Brazil, e da conquista e navegação +etc. +<br /> + + +<br /> + + +Assim é o mundo, as suas grandezas e as +suas glórias! +<br /> + + +<br /> + + +A visita ao Sancto-milagre não é completa +sem se ir ver a casa onde elle se operou. Conservou-se +ella por alguns seculos em grande veneração, +e em mil seiscentos e tantos se converteu +porfim em capella. Hoje está abandonada, +chove em toda ella, e apenas tem uma má porta +que a defende das incursões dos animaes. Pena +e desleixo grande, porque é elegante e graciosa +a capellinha, lavrada de bons marmores, +no melhor gôsto do decimo-sexto seculo, de +renascença ja muito adiantada no classico: é +<span class="pagenum">[117]</span> +um verdadeiro typo do stylo philippino, que +tanto predomina n'essa epocha em toda a peninsula. +<br /> + + +<br /> + + +A historia do Sancto-milagre de Santarem muitas +vezes tem andado ligada com a historia do +reino; e ja n'este seculo, no tempo da guerra da +independencia, veio prender com um dos factos +mais importantes, e tambem com a mais curiosa +e comica aventura de que em Lisboa ha memoria. +<br /> + + +<br /> + + +Alludo nada menos que ao 'homem das botas.' +E perdoem-me as senhoras beatas a irreverencia +apparente, que bem sabem não ser eu de motejar +com as coisas sérias e sanctas. Mas o facto +é que a historia do Sancto-milagre está ligada +com a célebre historia do 'homem das botas.' +<br /> + + +<br /> + + +Saiba pois o leitor contemporaneo, e saiba a +posteridade, para cuja instrucção principalmente +escrevo este douto livro, que pela invasão de +Massena, o grande paladio scalabitano foi mandado +recolher a Lisboa, e ahi se conservou alguns +annos até muito depois da completa retirada dos +francezes. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p118">[118]</a></span> +Passado todo o perigo de que o exército invasor +roubasse―ou profanasse―que era o mais +provavel―a sancta reliquia, começou a reclamá-la +o senado e povo santareno, e a mostrar +muito pouca vontade de lh'a restituir o senado e +povo ulyssiponense. Era uma questão d'entre Alba +e Roma que dava serio cuidado aos reflectidos +Numas da regencia do Rocio. +<br /> + + +<br /> + + +Em poucas preplexidades tam graves se viu +<a href="#e10">aquelle</a> pobre +govêrno que tantas teve, e de +quasi +todas se sahiu tam mal. +<br /> + + +<br /> + + +Não assim d'esta, que a evitou com o mais +inesperado e admiravel stratagema, <a href="#e11">digno +de +ornar</a> os maravilhosos fastos do grande Aaroun +el-Raschid, ou de qualquer outro principe de +bom humor, d'esses poucos felizes que em felizes +tempos reinaram a brincar, e zombaram com +o seu povo, mas fazendo-o rir. +<br /> + + +<br /> + + +Pois, senhores, apertada se via a regencia +d'estes reinos com a restituição do +Sancto-milagre +que era de justiça fazer-se a Santarem, mas +que Lisboa recusava, e ameaçava impedir. Temia-se +alborôto no povo. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p119">[119]</a></span> +Não sei de quem foi o alvitre, mas foi de maganão +de bom gôsto; e bom gôsto teve tambem o +govêrno em o acceitar e approveitar. Para o dia em +que o Sancto-milagre devia sahir de <a href="#e12">Lisboa +Tejo</a> +acima, e que se esperava fosse com grande solemnidade +e pompa ecclesiastica,―fez-se annunciar +por cartazes que um fulano de tal passaria +o rio, de Lisboa a Almada, em umas botas +de cortiça nas quaes se teria direito e inchuto, +navegando a pé sem mais embarcação, +vela nem +remo. +<br /> + + +<br /> + + +A logração era gorda e grande; melhor e mais +depressa foi ingullida. No dia apprazado despovoou-se +a capital, e uns em barcos outros por navios, +outros por essas praias abaixo, tudo se encheu +de gente de todas as classes, e todos passaram +o melhor do dia á espera do homem das botas. +<br /> + + +<br /> + + +No emtanto, muito surrateiramente imbarcava +o Sancto-milagre no seu barco de agua-arriba, +e navegava com vento e maré para as ditosas +ribeiras de Santarem. +<br /> + + +<br /> + + +Ninguem o viu sahir, nem soube novas d'elle +em Lisboa senão quando constou da sua chegada +<span class="pagenum">[120]</span> +a Santarem, e das grandes festas que lhe fizeram +aquelles saudosos e devotos povos ribatejanos. +<br /> + + +<br /> + + +Os Aarouns-el-Raschids do Rocio riram de +soccapa: e nunca tam innocentemente se riu govêrno +algum de ter inganado o povo. +<br /> + + +<br /> + + +Nós celebrámos a historia como ella merecia, +e fomos jantar á Alcaçova, para irmos de tarde +ver a Ribeira, e procurar os vestigios do seu inclyto +alfageme.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c13"></a>CAPITULO XXXVIII. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro">Jantar nos reaes paços de +Affonso +Henriques.―Sautés e salmis.―Desce +o A. á Ribeira de Santarem em busca da tenda +do Alfageme.―A espada do Condestavel.―Desappontamento.―O +salão elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. +Os fosseis.―Tudo melhor quando visto de longe.―O +baile público.―Soirée de piano +obrigado.―Theatro. +Desafinações da prima-dona. Syphlis incuravel das +traducções. +Destempêro dos originaes.―A xácara de rigor, o +subterraneo e o cemiterio.―Sublime gallimathias do ridiculo.―A +bella e necessaria palavra 'gallimathias.'―Se as +saudades matam.―Perigo de applicar o scalpello ou a lente +ao mais perfeito das coisas humanas.―De como a logica +é a mais perniciosa de todas as incoherencias. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Esperava-nos comeffeito em casa do nosso bom +hóspede, nos regios paços de Affonso Henriques, +um esplendido jantar a que assistiram +quasi todos os cavalheiros da terra.―Não quero +<span class="pagenum">[122]</span> +dizer as notabilidades, por ser palavra peralvilha +a que tenho invencivel zanga.―As iguarias +de legítima eschola portugueza, não menos +saborosas e delicadas por apparecerem estremes +de <em>sautés e salmis</em> +extrangeirados. Brilharam sôbre +tudo os productos das duas grandes vendimas +rivaes, do Ribatejo e Ribadouro. Foi largo +e alegre o jantar. +<br /> + + +<br /> + + +Acabámos tarde, montámos logo a cavallo, +e pela porta de Atamarma +descémos á Ribeira; +era quasi sol pôsto quando la chegámos. +<br /> + + +<br /> + + +É o suburbio democratico da nobre villa, hoje +o ricco e o forte d'ella. Faz lembrar aquellas aldeas +que se criaram á sombra dos castellos feudaes +e que, libertas, depois, da oppressora protecção, +cresceram e ingrossaram em substancia +e fôrça: o castello, esse está vazio e +em ruinas. +<br /> + + +<br /> + + +Por aqui se faz quasi todo o commercio da Extremadura +e Beira com o Alemtejo. Os habitantes +laboriosos e activos conservam os antigos brios e +independencia do character primitivo: é a unica +parte viva de Santarem. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p123">[123]</a></span> +Cruzámos a povoação em todos os +sentidos, +procurando rastrear algum vestigio, <a href="#e13">confrontar +algum</a> sítio onde podessemos collocar, pela mais +atrevida supposição que fosse, a tenda do nosso +alfageme +com as suas espadas bem 'corregidas', as suas +armaduras luzentes e bem postas―e o joven +Nun'alvares passeando alli por pé, ao longo do +rio―como diz a chronica―namorado d'aquella +perfeição de trabalho, e dando a 'correger' +a bella espada velha de seu pae ao rustico propheta +que tantos vaticinios de grandeza lhe fez, +que o saudou condestavel, conde d'Ourem e salvador +da sua patria. +<br /> + + +<br /> + + +Nada podémos descubrir com que a +imaginação +se illudisse siquer, que nos désse, com +mais ou menos anachronismo, uma leve base tamsomente +para reconstruirmos a gothica morada do +célebre cutileiro-propheta que a historia herdou +das chronicas romanescas, e hoje o romance outra +vez reclama da historia. +<br /> + + +<br /> + + +Em Santarem ha poucas casas particulares que +se possam dizer verdadeiramente antigas; na Ribeira, +nenhuma. As implastagens e replastagens +successivas teem anachronizado tudo. É uma <a name="n7"></a>feliz +<span class="pagenum">[124]</span> +expressão do Sr. Conde de Raczinski bem applicada +por elle ao estado de quasi todos os nossos +monumentos, ésta de anachronismo. +<br /> + + +<br /> + + +Mas alli, na villa alta ou Marvilla, no Santarem +propriamente ditto, ha os templos, os conventos, +a cêrca das muralhas que todavia conservam +a physionomia historica da terra; aqui +nem isso ha. +<br /> + + +<br /> + + +Voltei completamente desappontado da Ribeira, +isto é, da sua pedra e cal: gósto immenso +da sua gente. +<br /> + + +<br /> + + +Outra surpreza de mui differente genero nos +esperava á noite em Marvilla, no elegante salão +da B. d'A. com quem fomos tomar cha. +<br /> + + +<br /> + + +Em meio das ruinas e desconfôrto d'aquelles +desertos e mortos pardeiros circumstantes, ir incontrar +uma casa em plena florescencia de civilização +e de vida; ver a amabilidade e a elegancia +fazendo graciosamente as honras d'ella―por +mais que se devesse esperar―sempre espanta á +primeira vista: parecia golpe de varinha de condão. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[125]</span> +Em tam agradavel e joven companhia todas as +ideas archeologicas se desvaneceram, apezar de +dous ou tres fosseis que alli appareciam para se +não perder detodo a côr local talvez. +<br /> + + +<br /> + + +Largamente se conversou, de Lisboa principalmente, +dos nossos mutuos amigos, das festas do +último hynverno, das probabilidades que se deviam +esperar do futuro. +<br /> + + +<br /> + + +Ralhámos muito da sociedade portugueza; exaltámos +París e Londres e não sei se Pekim e Nankim +tambem, e concluimos que antes Timbokotuo +do que a seccante capital do nosso pobre reino. +E comtudo estavamos com saudades d'ella; +e concessão d'aqui, concessão d'alli, viemos a +que não era tam má terra como isso. +<br /> + + +<br /> + + +Admiravel condicção da natureza humana, que +tudo nos parece melhor e menos feio quando visto +de longe! +<br /> + + +<br /> + + +O baile público mais semsabor, detestavel de +barulho e confusão, em que, para repousar os +olhos n'um rosto conhecido e agradavel, foi preciso +furar por entre centenas de cotovellos barbaros +<span class="pagenum">[126]</span> +que se não sabe d'onde vieram, levar desalmadas +pisadellas do dançante noviço, do deputado +recemchegado, e das botas novas do novo +director da Galocha―e, mais horrivel que +tudo! ver as absurdas toiletes, os penteados fabulosos, +as caras incriveis e as antidiluvianas figuras +de tanta mulher feia e desastrada... pois +esse mesmo baile, quando ja não é +senão reminiscencia +que acorda no meio do infado ronceiro +de uma terra de provincia, parece outro. As luzes, +as flores, a musica, toda aquella animação +lembra com prazer, o mais esquece, e involuntariamente +se descai um pobre homem a suspirar +por elle. +<br /> + + +<br /> + + +A soirée mais massante, de piano obrigado, +com dueto das manas, polka das primas e casino +das tias velhas―recordada em eguaes circumstancias, +tambem ja não accode á memoria +senão como uma reunião escolhida e +íntima, de +facil e doce tracto... oh! o verdadeiro prazer da +sociedade. +<br /> + + +<br /> + + +Pois o theatro... Que se lembre alguem, na +provincia, dos martyrios que soffreu o ouvido com +os berros da prima-dona, as desafinações do +tenor, +<span class="pagenum">[127]</span> +ou com o infadonho resonar +d'aquella adormecida +orchestra de San'Carlos! +<br /> + + +<br /> + + +A injoativa traducção de uma comedia da +Rua-dos-condes, +roída de incuravel syphilis, figura-se +avelludada de todas as graças do stylo de Scribe. +<br /> + + +<br /> + + +E o destempêro original de um drama plusquam +romantico, laureado das imarcessiveis palmas +do Conservatorio para eterno abrimento das +nossas bôccas! Lá de longe applaude-o a gente +com furor, e esquece-se que fummou todo o +primeiro acto ca fóra, que dormiu no segundo, +e conversou nos outros, até á infallivel scena +da xacara, do subterraneo, do cemiterio, ou +quejanda, em que a dama, soltos os cabellos e +em penteador branco, indoudece de rigor,―o +gallan, passando a mão pela testa, tira do +profundo thorax os tres <em>ahs!</em> do +stylo, e promette +matar seu proprio pae que lhe appareça―<a name="n8"></a>o +centro perde o centro de gravidade, o barbas +arrepella as barbas... e maldicção, +maldicção, +inferno!... 'Ah mulher indigna, tu não sabes +que n'este peito ha um coração, que d'este +coração +sahem umas arterias, d'estas arterias +umas veias―e que n'estas veias corre sangue... +<span class="pagenum">[128]</span> +sangue, sangue! Eu quero sangue, porque +eu tenho sêde, e é de sangue... Ah! +pois tu cuidavas? Ajoelha, mulher, que te +quero matar... esquartejar, chacinar!'―E a +mulher ajoelha, e não ha remedio senão +applaudir... +<br /> + + +<br /> + + +E applaude-se sempre. +<br /> + + +<br /> + + +E não é de mim que fallo, que eu gósto +d'isto: os outros é que se infastiam e cansam de +tanta barafusta, sempre a mesma... +<br /> + + +<br /> + + +Mas emfim o que digo é que na provincia +não ha tal fastio, que esquece a canceira, e que +nem o sublime gallimathias do ridiculo d'alli se +percebe. +<br /> + + +<br /> + + +Peço aos illustres puritanos que, á +fôrça de +sublimado quinhentista, tem conseguido levar a +lingua á decrepitude para a curar de suas infermidades +francezas, peço-lhes que me perdoem o +<em>gallimathias</em>, porque elle +é muito mais portuguez +que outra coisa. A célebre oração +<em>pro gallo Mathiae</em> +deu origem a ésta bella e ex +deu origem a ésta bella e expressiva palavra, +que sim foi procreada em francez, mas hoje +<span class="pagenum">[129]</span> +precisâmos ca muito mais d'ella que em parte +nenhuma. +<br /> + + +<br /> + + +Volto ja da digressão philologica: tornemos +á optica e á catoptrica. +<br /> + + +<br /> + + +Grande coisa é a distancia! +<br /> + + +<br /> + + +E dizem que saudades que matam! Saudades +dão vida; são a salvação de +muita coisa que, +em seu pleno gôso e posse pacífica, +pereceria +de inanição ou morreria da oppressora molestia +da saciedade. +<br /> + + +<br /> + + +Por isso eu não gósto de metter o scalpello no +mais perfeito da construcção humana, nem de +applicar a lente ao mais fino e delicado do seu +funccionar... +<br /> + + +<br /> + + +Vamos usando d'estas palavras que herdámos, +sem metter louvados na herança; não succeda +descobrirmos que estamos mais pobres do que +se cuidava... vamos repetindo éstas phrases que +nos formularam nossos antepassados sem as analysar +com muito rigor; não succeda vermos claro +demais que temos passado a vida a mentir... +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[130]</span> +Detesto a philosophia, detesto a razão; e sinceramente +creio que n'um mundo tam desconchavado +como este, n'uma sociedade tam falsa, +n'uma vida tam absurda como a que nos fazem +as leis, os costumes, as instituições, as +conveniencias +d'ella, affectar nas palavras a exactidão, +a logica, a rectidão que não ha nas coisas, +é a +maior e mais perniciosa de todas as incoherencias. +<br /> + + +<br /> + + +Não fallemos mais n'isto, que faz mal, e acabemos +aqui este capítulo.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c14"></a>CAPITULO XXXIX. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro">Processo de scepticismo em que +está o auctor.―Moralistas de +<em>requiem</em>.―O maior sonho d'esta vida, +a logica.―Differença +do poeta ao philosopho.―O coração de Horacio.―O +collegio de Santarem.―Jesuitas e templarios.―O alliado +natural dos reis.―'Ficar na gazeta' phrase muito mais +exacta hoje do que 'Ficar no tinteiro.'―San'Frei Gil e o +Doutor Fausto.―De como o A. foi ao tumulo do sancto +bruxo e o achou vazio.―Quem o roubaria? +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +O final do capítulo antecedente é, bem o +sei, um terrivel documento para este processo +de scepticismo em que me mandaram metter certos +moralistas de <em>requiem</em> de quem tenho +a audacia +<span class="pagenum">[132]</span> +de me rir, d'elles e da sua querella e do +seu processo, protestando não me aggravar nem +appellar, nem por nenhum modo recorrer da +mirifica sentença que suas excellentissimas hypocrisias +se dignarem proferir contra mim. +<br /> + + +<br /> + + +Feita ésta declaração solemne, +procedamos. +<br /> + + +<br /> + + +E quanto a ti, leitor benevolo, a quem so +desejo dar satisfação, a ti, se ainda te cansas +com essas chymeras, dou-te de conselho que voltes +a pagina obnoxia, porque essas reflexões do +último capítulo são tam deslocadas no +meu livro +como tudo o mais n'este mundo. Dorme pois, e +não despertes do bello-ideal da tua logica. +<br /> + + +<br /> + + +É uma descuberta minha de que estou vaidoso +e presumido, ésta de ser a logica e a +exacção +nas coisas da vida muito mais sonho e muito mais +ideal do que o mais phantastico sonho e o mais +requintado ideal da poesia. +<br /> + + +<br /> + + +É que os philosophos são muito mais loucos +do que os poetas; e de mais a mais, tontos: o +que est'outros não são. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[133]</span> +Voltemos, voltemos a pagina comeffeito, que +é melhor. +<br /> + + +<br /> + + +Amanheceu hoje um bello dia, puro e sublime. +Dorme nas cavernas do padre Eolo aquelle +vento sêcco e duro, flagello dos estios portuguezes. +Suspira no ar uma viração branda e suave +que regenera e dá vida. Mal impregado dia para +o passar a ver ruinas! No seio da sempre joven +natureza, sob a remoçada espessura das árvores, +sôbre a alcatifa sempre renovada das grammas +verdes e variegadas boninas, queria eu que me +corresse este dia em ocio bemaventurado de corpo +e d'alma, sentindo pulsar lento e compassado +o coração livre e sôlto de todo +impenho, o verdadeiro +coração de Horacio, +<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry"> +Solutus omni foenore! +</div> + + +<br /> + + +Tomára-me eu no valle outra vez, com a irman +Francisca a dobar á porta, a nossa Joanninha +a deslindar-lhe a meada; e embora venha +o terrivel spectro de Fr. Diniz projectar sua funesta +e tragica sombra no idilio d'este quadro +suave, que não póde destruir-lhe toda a amenidade +bucolica, por mais que faça. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[134]</span> +Lá voltaremos ao nosso valle, amigo leitor, +e lá concluiremos, como é de +razão, a historia +da menina dos rouxinoes. Por agora almocemos, +que é tarde, e terminemos os nossos estudos +archeologicos em Marvilla de Santarem. +<br /> + + +<br /> + + +Cá estamos no Collegio, edíficio grandioso, +vasto, magnífico, propria +habitação da +companhia―rei +que o mandou construir para educar os +infantes seus filhos. +<br /> + + +<br /> + + +Creio que ésta e a de Coimbra eram as duas +principaes casas que para isto tinham os Jesuitas +em Portugal. +<br /> + + +<br /> + + +Foram os templarios dos seculos modernos, +os Jesuitas. A potencia formidavel e quasi régia +que aquelles levantaram com a espada, tinham +estes fundado com a doutrina. Riquezas, podêr, +influencia, uns e outros as tiveram com applauso +e acquiescencia geral; uns e outros as perderam +do mesmo modo. +<br /> + + +<br /> + + +Extinctas e perseguidas, ambas as ordens renasceram +no mysterio, e se converteram em associações +secretas para conspirarem; ambas tomaram +<span class="pagenum">[135]</span> +diversos nomes e variadas máscaras para +o fazerem mais seguramente. +<br /> + + +<br /> + + +Ambas em vão! +<br /> + + +<br /> + + +O predominio, crescente ha seculos, do elemento +democratico annulla todas essas conspirações. +Sos e sem elle, os reis tinham succumbido... +É a alliada natural dos reis a democracia. +<br /> + + +<br /> + + +O edificio do Collegio é todo philippino, ja +o disse: a egreja dos mais bellos specimens d'esse +stylo, que em geral sêcco, duro e sem poesia, +não deixa comtudo de ser grandioso. +<br /> + + +<br /> + + +Aqui esteve depois muitos annos o seminario patriarchal, +cujas aulas frequentava a mocidade do +districto. Hoje leem-se alli outras palestras da +cathedra administrativa. É a séde do +govêrno +civil chamado: corrumper a moral do povo, sophismar +o systema representativo é o thema das +licções. +<br /> + + +<br /> + + +Todo outro insino se tirou de Santarem. Falla-se +n'um liceu e não sei em que mais 'que ficou +na gazetta:' phrase portugueza moderna que +<span class="pagenum">[136]</span> +deve supprir a antiga e antiquada de―'ficou +no tinteiro'―por muitas razões, até porque +hoje não fica nada no tinteiro senão o senso +commum, +tudo o mais de lá sai, tudo. E muitas +graças a Deus quando não passa ás +ballas do +impressor para dar a volta do mundo. +<br /> + + +<br /> + + +Santarem é das terras de Portugal a melhor situada +e qualificada para um grande estabelecimento +de instrucção e de educação +pública. Porque +não hade estar aqui o Collegio-militar ou a Casa-pia, +ou outra grande eschola, seja qual for? +Porque hade ser ésta centralização +d'insino em +Lisboa? Em que se funda um privilegio dado +á capital em prejuizo e á custa das provincias? +<br /> + + +<br /> + + +Sahimos do Collegio, fomos direitos a San'Domingos, +um dos mais antigos estabelecimentos +monasticos do reino e que eu tanto desejava +visitar. Não sei descrever o que senti quando a +inferrujada chave deu a volta na porta da egreja +e o velho templo se patenteiou aos nossos olhos. +Acabára de servir, não imaginam de +quê... de +palheiro! +<br /> + + +<br /> + + +A derradeira camada de palha que apodrecêra, +<span class="pagenum">[137]</span> +adheria ainda ao lagedo humido, e exhalava +um forte vapor mephitico que nos suffocava. +Mal podémos ver os tumulos dos Docems e tantos +outros interessantes monumentos que abundam +na parte superior do templo. A inferior, ou corpo +da egreja como dizem, é de um miseravel e +moderno anachronismo. +<br /> + + +<br /> + + +Respirando a custo aquelle ar infecto, todo o +tempo que lhe pudesse resistir, quiz approveitá-lo +em examinar a principal e mais interessante +reliquia da profanada egreja―a capella e +jazigo do grande bruxo e grande santo, San'Frei-Gil.<br /> + + +<br /> + + +Algures lhe chamei ja o nosso Doutor Fausto: +e é comeffeito. Não lhe falta senão o +seu Goethe. +<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Vixere fortes ante Agamemnona multi. +</div> + + +<br /> + + +Houve fortes homens antes de Agamemnão, e +fortes bruxos antes e depois do Doutor Fausto. +Mas sem Homero ou Goethe é que se não chega +á reputação e fama que alcansaram +aquelles senhores. +Nós precisâmos de quem nos cante as admiraveis +<span class="pagenum"><a name="p138">[138]</a></span> +luctas―ora comicas, ora tremendas―do +nosso Frei Gil de Santarem com o diabo. O +que eu fiz na 'Dona Branca' é pouco e mal +esboçado +á pressa. O grande mago lusitano não apparece +alli senão episodicamente; e é necessario +que appareça como protagonista de uma grande +acção, pintado em corpo inteiro, na primeira +luz, em toda a luz do quadro. +<br /> + + +<br /> + + +Então o seu ardente e anciado desejo de saber, +os seus vastos estudos, os reconditos mysterios da +natureza que descobriu até penetrar no mundo +invisivel―a sêde de oiro, de prazer e de podêr +que o perseguia e o fez cahir nas garras do +espirito maligno―o fastio e saciedade que o +desincantaram depois―o seu arrependimento emfim, +e a regeneração de sua alma pela penitencia, +pela oração e pelo desprêzo da van +sciencia +humana―então essas variadas phases de uma +<a href="#e14">existencia</a> tam extraordinaria, +tam poetica, devem +mostrar-se como ainda não foram vistas, +porque ainda não olhou para ellas ninguem com +os olhos de grande moralista e de grande poeta +que são precisos para as observar e intender. +<br /> + + +<br /> + + +Lembra-me que sempre entrevi isto desde pequeno, +<span class="pagenum">[139]</span> +quando me faziam ler a historia de San'Domingos, +tam rabujenta e semsabor ás vezes, apezar +do incantado stylo do nosso melhor prosador; +e que eu deixava os outros capitulos para ler e +reler somente as aventuras do sancto feiticeiro +que tanto me interessavam. +<br /> + + +<br /> + + +Com todas éstas reminiscencias que me reviviam +n'alma, com os admiraveis versos do Fausto +a acudir-me á memoria, e com uma infinidade +de associações que essas ideas me traziam, +caminhei direito á capella do sancto, cheio de +alvorôço, +e como tocado, para assim dizer, de sua +magica vara de condão. +<br /> + + +<br /> + + +A capella―oh desappontamento! a cappella +de San'Frei Gil é um mesquinho rifacimento moderno, +do lado esquerdo da egreja, sem nenhum +vestigio de antiguidade, nenhum ornato characteristico, +pesada, grosseira―velha sem ser antiga―um +verdadeiro non-descriptum de mau +gôsto e semsaboria. Quem tal dissera? +<br /> + + +<br /> + + +O tumulo do sancto está elevado do altar +n'uma especie de mau throno. Subi acima da +<span class="pagenum">[140]</span> +degradada e profanada credencia para o examinar +deperto. +<br /> + + +<br /> + + +É de pedra o jazigo; mas ultimamente ve-se +que tinham pintado a pedra; não tem lavor algum.―E +estava vazio, a loisa levantada e +quebrada!.. +<br /> + + +<br /> + + +Quem me roubou o meu sancto? +<br /> + + +<br /> + + +Quem foi o anathema que se atreveu a tal sacrilegio?..<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c15"></a>CAPITULO XL. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro">As Claras.―Aventura nocturna.―Se as +freiras mettem medo +aos liberaes?―O Psalmo.―Tres frades.―Práctica do +franciscano.―O +corpo de San' Fr. Gil.―Que se hade fazer +das freiras?―Mal do govêrno que deixar comer mais aos +barões. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Èra de noite, reinava a +confusão, a desordem, +o susto e a anciedade nos muros de +Santarem, tres homens chegavam, por horas +mortas, ao antigo mosteiro das Claras, davam +<span class="pagenum">[142]</span> +á portaria um signal surdo e mysterioso; respondiam-lhe +de dentro com outro egual; e d'ahi +a pouco, sem rumor e com as mais escrupulosas +precauções se abria quietamente a porta da +clausura. +<br /> + + +<br /> + + +Os tres homens entraram, a porta fechou-se +sôbre elles do mesmo modo precatado. +<br /> + + +<br /> + + +Que será? +<br /> + + +<br /> + + +Os homens levavam uma especie de cofre que +parecia conter preciosidades de grande valor: tal +era o desvello com que o resguardavam. +<br /> + + +<br /> + + +Ha um mysterio que se figura criminoso n'esta +aventura. Mas os tempos são para tudo. +<br /> + + +<br /> + + +Era no anno de 1834. +<br /> + + +<br /> + + +Entremos n'esse convento das pobres Claras, +tam afflictas e desconsoladas agora que as ameaçam +de dissolução como aos frades. +<br /> + + +<br /> + + +Não será assim: aquellas +instituições não mettem +medo aos verdadeiros liberaes, e os outros lá +<span class="pagenum">[143]</span> +teem o espolio dos frades para devorar; estão +entretidos: as freiras salvam-se porora. +<br /> + + +<br /> + + +Taes eram as esperanças dos tres homens que +entravam a essas deshoras nos vedados precinctos +do mosteiro. Sigamo-los porêm, que é tempo. +<br /> + + +<br /> + + +Chegavam elles a uma pequena capella do +claustro das freiras, foram depor sôbre o altar o +cofre que traziam, e ajoelharam devotamente +deante d'elle. Logo se ouviu ao longe o psalmear +baixo e sumido de vozes femininas; e d'ahi a +pouco, toda a communidade das Claras, de tochas +na mão, em duas alas, e a abbadessa com +o seu baculo atraz, entravam processionalmente +no claustro e se dirigiam á mesma capella. +<br /> + + +<br /> + + +O psalmo que cantavam era este: +<br /> + + +<br /> + + +<sup><a href="#6">[6]</a></sup> 'Meu +Deus, vieram os barbaros ás tuas herdades, +polluiram o teu sancto templo, pozeram +Jerusalem como um grannel de fructos. +<br /> + + +<br /> + + +'Pozeram os cadaveres de teus filhos de cevo +<span class="pagenum">[144]</span> +ás aves do ceo; as carnes dos teus sanctos ás +alimarias da terra. +<br /> + + +<br /> + + +'O sangue d'elles derramaram-n'o como agua +nos valles de Jerusalem; ja não havia quem sepultasse. +<br /> + + +<br /> + + +'Estamos feitos o oppróbrio dos nossos vizinhos; +o escarneo e a zombaria dos que vivem por nossos +arredores. +<br /> + + +<br /> + + +'Até aonde, ó Senhor, te hasde irar emfim; +e se hade accender o teu zêlo como fogo? +<br /> + + +<br /> + + +'Vérte a tua íra sôbre as +gentes que te não +conheceram, contra os reinos que não invocaram +o teu nome; +<br /> + + +<br /> + + +'Que devoraram a Jacob; e desolaram suas +terras. +<br /> + + +<br /> + + +'Não te lembres de nossas iniquidades passadas, +e depressa nos alcancem as tuas misericordias; +ja que tam pobres de mais estamos. +<br /> + + +<br /> + + +'Ajuda-nos Deus, salvador nosso; e pela gloria +<span class="pagenum">[145]</span> +do teu nome livra-nos, Senhor, amercea-te +de nossos peccados por causa do teu nome.' +<br /> + + +<br /> + + +Cantavam assim as pobres das freiras, cantavam +em latim que ellas mal intendiam; mas +dizia-lhes o instincto do coração, dizia-lhes a +tam excitavel imaginação feminina, que era +chegada +a hora de se cumprir a seus olhos, e sôbre +ellas mesmas tambem, a tremenda prophecia +do psalmo que intoavam. +<br /> + + +<br /> + + +Havia pois lagrymas n'aquellas vozes que +assim cantavam, sahiam d'alma aquelles sons e +n'alma vibravam tambem com profunda e solemne +melancholia. +<br /> + + +<br /> + + +Chegadas juncto á capella aonde estava o cofre, +as freiras pararam conservando as mesmas +duas alas da procissão e continuando no accentuado +mormúrio de seu psalmo. +<br /> + + +<br /> + + +Os tres vultos de homem permaneceram de +joelhos e curvados deante do altar. +<br /> + + +<br /> + + +Findou o psalmo e seguiu-se breve intervallo +de silencio. Depois, os tres homens levantaram-se, +<span class="pagenum">[146]</span> +e cahindo-lhes para os lados as longas +capas +em que vinham +involtos, viu-se que o do meio +era um frade velho, magro, curvado e sêcco, +trajando ainda, apezar da lei, o burel preto dos +franciscanos e cingido com sua corda. Os outros +dous eram dominicos e vestiam de preto e branco +segundo as côres de seu tambem proscripto instituto. +<br /> + + +<br /> + + +O velho franciscano subiu com passo trémulo +os degraus do altar, beijou o cofre que estava +sôbre elle, e voltando-se para a communidade +que o contemplava em religioso silencio, disse +com uma voz cava que parecia vir do sepulchro +mas accentuada e forte: +<br /> + + +<br /> + + +'Irmans, vimos intregar-vos este depósito precioso. +Deus não quer que os cadaveres dos seus +sanctos fiquem expostos ás aves do ceo e ás +alimarias +da terra. Este é o sancto corpo de um +dos maiores sanctos que produziu ésta terra de Portugal +quando era abençoada. Hoje é malditta e +não devia conservar as suas reliquias. Os filhos +de San'Domingos foram expulsos de sua casa, assim +como nós fomos, nós os filhos de Francisco, +incontrámo'nos sem tecto nem +abrigo uns e outros, +<span class="pagenum">[147]</span> +e junctámos as nossas miserias para as chorarmos +como irmãos que somos, como filhos de +paes que tanto se amaram e ajudaram. Perigrinaremos +junctos por essas solidões da terra, e +junctos iremos bater por essas portas que cerrou +a impiedade e a indifferença, a pedir o pão de +cada dia porque temos fome. +<br /> + + +<br /> + + +'Que importa! não professâmos nós, +não nos +honrâmos nós de ser mendigos? De que +vivêmos +nós sempre senão de esmolla? +<br /> + + +<br /> + + +'Não choreis irmans, não choreis sôbre +nós. +Deus que o permittiu bem sabe o que fez. Louvado +seja elle sempre! Nós tinhamos peccados +para mais! Ainda foi misericordioso comnosco +o Senhor da justiça e do castigo. +<br /> + + +<br /> + + +'A nós tiraram-nos tudo, tudo! Até +éstas mortalhas +que tinhamos escolhido em vida e que nem +a morte ousava roubar-nos. +<br /> + + +<br /> + + +'A furto e como quem se esconde para um acto +criminoso, nós as vestimos ésta noite para +commetter o que elles chamarão um furto, e +que era uma obrigação sagrada nossa. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[148]</span> +'Fomos á antiga casa de nossos irmãos e +roubámos o corpo do bemaventurado San'Frei +Gil. +<br /> + + +<br /> + + +'Aqui vo-lo intregâmos; guardae-o. Emquanto +estes muros estiverem em pe, que o abriguem dos +desacatos d'essa gente sem Deus nem lei. A vós +não ousarão expulsar-vos d'aqui: talvez vos matem +á fome... Não póde ser: Deus +não hade permitti-lo. +<br /> + + +<br /> + + +'Mas qualquer que seja a sua vontade, resignae-vos +a ella, minhas irmans. So elle sabe como +nos ama e como nos castiga. Louvemo'-lo +por tudo.' +<br /> + + +<br /> + + +Aqui foi um chorar e um supplicar fervente +como so se ouve na hora da angústia. +<br /> + + +<br /> + + +As afflictas monjas, estavam prostradas nas lages +humidas do claustro, sôbre as sepulturas de +suas irmans, sôbre seus proprios jazigos que haviam +de ser. O frade com os braços extendidos +pronunciou as solemnes palavras de benção, +descrevendo +com a direita o augusto symbolo da redempção: +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[149]</span> +'Bemdiga-vos Deus omnipotente, Pae, Filho +e Espirito-sancto!' 'Amen!' respondeu o côro; +e os tres proscriptos se retiraram, deixando a +salvo o seu thesoiro. +<br /> + + +<br /> + + +Assim desappareceu do tumulo o corpo de +San'Frei Gil de Santarem. +<br /> + + +<br /> + + +Ninguem sabía d'elle: soube eu e guardei o +segredo religiosamente. +<br /> + + +<br /> + + +Os tempos são outros hoje: os liberaes ja conhecem +que devem ser tolerantes, e que precisam +de ser religiosos. Não ha perigo em dizer-lhe onde +elle está. +<br /> + + +<br /> + + +Quando houver em Portugal um govêrno que +saiba ser govêrno, hade regular e consolidar a +existencia das freiras, hade approveitá-la para as +piedosas instituições do insino da mocidade, da +cura dos infermos, e do amparo dos invalidos. +<br /> + + +<br /> + + +Os barões andam-lhe com o cheiro nos poucos +bens que lhes restam ás pobres das freiras. Mal +do govêrno que deixar comer mais aos barões!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c16"></a>CAPITULO XLI. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro"> +O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta +perspicacia +do leitor benevolo.―Grande lacuna na nossa historia.―Porque +se não preenche?―Página preta na historia +de Tristam Shandy.―Novellas e romances, livros insignificantes.―O +adro de San'Francisco e as suas acacias.―Que +será feito de Joanninha?―O peito da mulher do norte.―Vamos +embora: ja me infada Santarem e as suas ruinas.―A +corneta do soldado e a trombeta do juizo final.―Eheu, +Portugal, eheu! +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Porcerto, leitor amigo, no franciscano velho +que vai de noite roubar os ossos do sancto +ao seu tum +Porcerto, leitor amigo, no franciscano velho +que vai de noite roubar os ossos do sancto +ao seu tumulo, e os vem esconder na clausura +das freiras, porcerto, digo, reconheceu ja +<span class="pagenum">[152]</span> +a tua natural perspicacia ao nosso Frei Diniz, o +frade por excellencia―frade por teima e acinte. +<br /> + + +<br /> + + +Pois esse era, não ha dúvida. +<br /> + + +<br /> + + +Assim se passou aquella scena e assim m'a +contaram. Do que mediára entre ella e o acontecido +com o frade, Carlos, Joanninha, a avó +e a ingleza, d'isso é que nada pude saber. +<br /> + + +<br /> + + +É uma grande lacuna na nossa historia; mas +antes fique assim do que enchê-la de +imaginação. +<br /> + + +<br /> + + +Oh! eu detesto a imaginação. +<br /> + + +<br /> + + +Onde a chronica se calla e a tradição +não falla, +antes quero uma pagina inteira de pontinhos, +ou toda branca―ou toda preta, como na veneravel +historia do nosso particular e respeitavel +amigo Tristão Shandy, do que uma so linha da +invenção do chroniqueiro. +<br /> + + +<br /> + + +Isso é bom para novellas e romances, livros +insignificantes que todos leem todavia, ainda os +mesmos que o negam. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[153]</span> +Eu tambem me parece que os leio, mas vou +sempre dizendo que não... +<br /> + + +<br /> + + +Emfim, tornemos ao frade, e tornemos ás minhas +viagens. +<br /> + + +<br /> + + +Cheio d'elle e da sua memoria, palpitando +com a recordação das tremendas scenas que, havia +tam poucos annos, se tinham passado em seu +antigo mosteiro, eu me approximei emfim do +real convento de San'Francisco de Santarem. +<br /> + + +<br /> + + +Dei pouca attenção ao bello adro e á +solemne +vista que d'elle se descobre―e menos ainda ás +doentias acacias que ahi vejetam infezadas e rachiticas, +como plantadas de má mão e em má +hora―porque môças são ellas, +é visivel: poseram-n'as +ahi depois de extincto o convento. +São triste mas verdadeiro symbolo da apagada +e facticia vida que se quiz dar ao que era morto. +<br /> + + +<br /> + + +Vamos dentro, e vejamos pelas baixas e aguçadas +arcadas do claustro, pelas altas naves do +templo se descubrimos algum vestigio do último +guardião d'esta casa, e d'essa fadada familia cujo +<span class="pagenum">[154]</span> +destino em hora aziaga tam estreitamente se +ligou com o d'elle. +<br /> + + +<br /> + + +Ja me interessa isto mais, confesso, ai! muito +mais, do que todos esses tumulos e inscripções +que por ahi estão, e que tanto characterizam este +um dos mais antigos e mais historicos edificios +do reino. +<br /> + + +<br /> + + +Mas em vão interrogo pedra a pedra, lage a +lage: o echo morto da solidão responde tristemente +ás minhas perguntas, responde que nada +sabe, que esqueceu tudo, que aqui reina a +desolação +e o abandôno, e que se apagaram todas +as lembranças de outro estado... +<br /> + + +<br /> + + +Que foi feito de ti, Joanninha, e dos teus +amores? Que será feito d'esse homem que ousou +amar-te amando a outra? E essa outra onde está? +Resignou-se ella devéras? Sepultou comeffeito, +sob o gêlo apparente que veste de triplice +mas falsa armadura o peito da mulher do norte, +todo aquelle fogo intenso e íntimo que solapadamente +lhe devora o coração? +<br /> + + +<br /> + + +Não tenho esperanças de saber nada d'isso aqui. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[155]</span> +So pude descubrir que, no dia immediato á +scena nocturna das Claras, Fr. Diniz sahiu de +Santarem, não se sabe em que +direcção―que +n'esse mesmo dia Georgina sahíra tambem pela +estrada de Lisboa, levando em sua carruagem a +avó e a neta, ambas meias mortas e ambas meias +loucas―que não houvera mais novas de Carlos―e +que a sua última carta, aquella que escrevêra +de juncto d'Evora, Joanninha a levava apertada +nas mãos convulsas quando partíra. +<br /> + + +<br /> + + +Pois tambem eu me quero partir, me quero +ir embora. Ja me infada Santarem, ja me cansam +éstas perpétuas ruinas, estes pardeiros +interminaveis, +o aspecto desgracioso d'estes intulhos, +a tristeza d'estas ruas desertas. Vou-me embora. +<br /> + + +<br /> + + +E comtudo San'Francisco é uma bella ruina, +que merecia examinada de vagar, com outra +paciencia que eu ja não tenho. +<br /> + + +<br /> + + +Se tudo me impacienta aqui! +<br /> + + +<br /> + + +Da bella egreja gothica, fizeram uma arrecadação +milítar; andou a mão destruidora do soldado +quebrando e abolando esses monumentos preciosos, +<span class="pagenum">[156]</span> +riscando com a baioneta pelo verniz mais +pulido e mais respeitado d'esses jazigos antiquissimos: +os lavores mais delicados esmoucou-os, +degradou-os. Levantaram as lages dos sepulchros; +e ao som da corneta militar acordaram os +mortos de seculos, cuidando ouvir a trombeta final... +<br /> + + +<br /> + + +Decididamente vou-me embora, não posso estar +aqui, não quero ver isto. Não é horror +que +me faz, é náusea, é asco, é +zanga. +<br /> + + +<br /> + + +Maldittas sejam as mãos que te profanaram, +Santarem... que te deshonraram, Portugal... que +te invilleceram e degradaram, nação que tudo +perdeste, até os padrões da tua historia!.. +<br /> + + +<br /> + + +Eheu, eheu, Portugal!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c17"></a>CAPITULO XLII. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro">Protesto do +auctor.―Desaffinação dos nervos.―O +que é preciso +para que as ruinas sejam solemnes e sublimes.―Que Deus +está no Colliseu assím como em +San'Pedro.―Quer-se o auctor +ir embora de Santarem.―Como, sem ver o tumulo d'elrei +D. Fernando?―Em que estado se acha este.―Exemplar +de stylo byzantino.―Coroa real sôbre a caveira.―O rei +d'espadas e o symbolo do imperio.―Quem nunca viu o rei +cuida que é de oiro.―Brutalidades da soldadesca n'um tumulo +real.―O que se acha nas sepulturas dos reis.―A +phrenologia.―Vindicta publica, tardia mas +ultrajante.―Camões +e Duarte Pacheco.―A sombra falsa da religião.―Regimen +dos barões e da materia.―A prosa e a poesia +do povo.―Synthese e analyse.―O senso íntimo.―Se o +auctor é demagogo ou Jesuita?―Jesu Christo e os +barões. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Não chamem exaggerado ao que vai escripto +no fim do último capitulo; senti o que escrevi, +senti muito mais do que escrevi. O que +poderá haver é desacêrto nas palavras, +porque +<span class="pagenum">[158]</span> +em verdade não sei explicar a impressão que me +faz uma ruina n'este estado. Desaffinam-me os +nervos, vibram-me n'uma discordancia e dissonancia +insupportavel. Queria ver antes estes altares +expostos ás chuvas e aos ventos do ceo,―que +o sol os queimasse de dia,―que á noite, á +luz branca da lua, ou ao tibio reflexo das estrellas, +piasse o mocho e sussurrasse a coruja sôbre +seus arcos meio-cahidos. +<br /> + + +<br /> + + +Não me parecia profanado o templo assim, +nem descahido de majestade o monumento. Podia +ajoelhar-me no meio das pedras sôltas, entre +as hervas humidas, e levantar o meu pensamento +a Deus, o meu coração á +glória, á grandeza, +o meu espirito ás sublimes aspirações +da +idealidade. O material, o grosseiro, o pesado da +vida não me vinham affligir ahi. +<br /> + + +<br /> + + +Deus, a idea grande do mundo―Deus, a Razão +Eterna―Deus, o amor―Deus, a glória―Deus, +a fôrça, a poesia e a nobreza d'alma―Deus +está nas ruinas escalavradas do Colliseu, +como nos zimborios de bronze e marmore +de San'Pedro. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[159]</span> +Mas aqui!.. nos pardeiros de um convento velho, +concertado pelas Obras-públicas para servir +de quartel de soldados―aqui não habita espirito +nenhum. +<br /> + + +<br /> + + +Quero-me ir embora d'aqui! +<br /> + + +<br /> + + +E como? sem ver o tumulo d'elrei Fernando? +Não póde ser, é verdade. +<br /> + + +<br /> + + +Onde está elle? +<br /> + + +<br /> + + +No côro alto. +<br /> + + +<br /> + + +Subamos ao côro alto. +<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Oh! que não sei de +nôjo como o conte! +</div> + + +<br /> + + +O bello jasigo do rei formoso e frivolo, tam +dado ás delicias do prazer como foi seu pae ás +austeridades da justiça, em que estado elle está! +<br /> + + +<br /> + + +Oh nação de barbaros! Oh malditto povo de +iconoclastas que é este! +<br /> + + +<br /> + + +O tumulo do segundo marido de D. Leonor +<span class="pagenum">[160]</span> +Telles é um sarcophago de pedra branca, fina e +friavel, elegante e simplesmente cortada, com +mais sobriedade de ornatos do que tem de ordinario +os monumentos do seculo XIV, mas de +uma acabada sculptura, casta e continente, como +o não foi a vida do rei que ahi incerraram +depois de morto. +<br /> + + +<br /> + + +Percebem-se ainda vestigios das vivas côres +em que foram induzidos os relevos da pedra branca:―stylo +byzantino de que não sei outro exemplar +em Portugal. Este é―ou antes, era―precioso. +<br /> + + +<br /> + + +Era; porque a brutalidade da soldadesca o +deturpou a um ponto incrivel. Imaginou a estupida +cubiça d'estes Allanos modernos que devia +de estar alli dentro algum grande haver de riquezas +incantadas,―talvez cuidaram achar sôbre +a caveira do rei a coroa real marchetada de +perolas e rubis com que fosse interrado,―talvez +pensaram incontrar appertado ainda entre as +sêccas phalanges dos dedos myrhados, aquelle globo +de oiro macisso que lhes figura o rei d'espadas +do sujo baralho de sua tarimba, e que elles +teem pela indisputavel e infallivel insignia do +<span class="pagenum">[161]</span> +supremo imperio;―talvez supposeram que mesmo +depois de morto, um rei devia de ser de +oiro... Emfim quem sabe o que elles cuidaram e +pensaram? O que se sabe, porque se ve, é que +quizeram abrir e arrombar o tumulo. Tentaram, +primeiro, levantar a campa; não poderam: tam +solidamente está soldada a pedra decíma ao corpo +ou caixão do jazigo, que o todo parece macisso +e inconsutil. Mas n'este impenho quebraram +e estallaram os lavores finos dos cantos, os +caireis delicados das orlas; e a campa não cedeu: +parece chumbada pelo anjo dos últimos julgamentos +com o sêllo tremendo que so se hade +quebrar no dia derradeiro do mundo. +<br /> + + +<br /> + + +A cubiça estolida dos soldados não se aterrou +com a religião do sepulchro, nem lhe causou +attrição, +ao menos, ésta resistencia quasi sobrenatural +das pedras do moimento. Ve-se que trabalhou +alli, de alavanca e de ariete, algum possante +e ponderoso pé-de-cabra; mas que trabalhou +em vão muito tempo. +<br /> + + +<br /> + + +Desinganaram-se emfim com a tampa; e resolveram +atacar, mais brutalmente mas com mais +vantagem, as paredes do sarcophago, que justamente +<span class="pagenum">[162]</span> +suspeitaram de menos espessos. Assim era; +e conseguiram na parede da frente abrir um rombo +grosseiro por onde entra facil um braço todo +e póde explorar o interior do tumulo á vontade. +<br /> + + +<br /> + + +Assim o fiz eu, que metti o meu braço por +essa abertura barbara, e achei terra, pó, alguns +ossos de vertebras, e duas caveiras, uma de homem, +outra de criança. +<br /> + + +<br /> + + +Não me lembra que haja memoria alguma de +infante que ahi fosse sepultado tambem, segundo +faziam os antigos muitas vezes que punham os +cadaveres das crianças nos jazigos dos paes, dos +parentes, até de meros amigos de suas familias. +<br /> + + +<br /> + + +Tive, confésso, uma especie de prazer maligno +em imaginar a estupida compridez de cara +com que deviam de ficar os brutaes profanadores, +quando achassem no tumulo do rei o que so +teem os tumulos―de reis ou de mendigos―ossos, +terra, cinza, nada! +<br /> + + +<br /> + + +Por mim, estive tentado a furtar a caveira +d'elrei D. Fernando. Se acreditasse na phrenologia, +parece-me que não tinha resistido. Não +<span class="pagenum">[163]</span> +creio na sciencia, felizmente―n'este caso―para +a minha consciencia. Tambem não sei o que faria +se a caveira fosse de outro homem. Mas o +'fraco rei' que fez 'fraca a forte gente' não são +reliquias as suas que se guardem. +<br /> + + +<br /> + + +Oh! e quem sabe? Ésta profanação, este +abandôno, +este desacato do tumulo de um rei, alli +na sua terra predilecta―D. Fernando era santareno +de affeição―não será elle +o juizo severo +da posteridade, a vindicta pública dos seculos, +que tardia mas ultrajante, cai emfim sôbre a +memoria reprovada do mau principe, e lhe deshonra +as cinzas como ja lhe deshonrára o nome? +<br /> + + +<br /> + + +Quero acreditar que tal não podia succceder +aos tumulos de D. Diniz, de D. Pedro I, dos +dois Joannes I e II, de... +<br /> + + +<br /> + + +Sim: e aonde está o de Camões? O de Duarte +Pacheco aonde <em>esteve</em>? que ainda +é mais vergonhosa +pergunta ésta última. +<br /> + + +<br /> + + +Em Portugal não ha religião de nenhuma especie. +Até a sua falsa sombra, que é a hypocrisia, +desappareceu. Ficou o materialismo estupido, +<span class="pagenum">[164]</span> +alvar, ignorante, devasso e desfaçado, +a fazer gala de sua hedionda nudez cynica no meio +das ruinas profanadas de tudo o que elevava o +espirito... +<br /> + + +<br /> + + +Uma nação grande ainda poderá ir +vivendo e +esperar por melhor tempo, apezar d'esta paralysia +que lhe pasma a vida d'alma na mais nobre +parte de seu corpo. Mas uma nação piquena, +é +impossivel; hade morrer. +<br /> + + +<br /> + + +Mais dez annos de barões e de regimen da +materia, e infallivelmente nos foge d'este corpo +agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do +espirito. +<br /> + + +<br /> + + +Creio isto firmemente. +<br /> + + +<br /> + + +Mas ainda espero melhor todavia, porque o +povo, o povo povo, está são: os corruptos somos +nós os que cuidâmos saber e ignorâmos +tudo. +<br /> + + +<br /> + + +Nós, que somos a prosa vil da nação, +nós +não intendemos a poesia do povo; nós, que so +comprehendemos o tangivel dos sentidos, nós somos +extranhos ás aspirações sublimes do +senso-íntimo +<span class="pagenum">[165]</span> +que despreza as nossas theorias +presumpçosas, +porque todas veem de uma acanhada anályse +que procede curta e mesquinha dos dados +materiaes, insignificantes e imperfeitos;―em +quanto elle, aquelle senso-íntimo do povo, vem +da Razão divina, e procede da synthese transcendente, +superior, e inspirada pelas grandes e +eternas verdades que se não demonstram porque se +sentem. +<br /> + + +<br /> + + +E eu que escrevo isto serei eu demagogo? Não +sou. +<br /> + + +<br /> + + +Serei fanatico, jesuita, hypocrita? Não sou. +<br /> + + +<br /> + + +Que sou eu então? +<br /> + + +<br /> + + +Quem não intender o que eu sou, não vale a +pena que lh'o diga... +<br /> + + +<br /> + + +Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última +no fim d'este capítulo ja tam seccante, e +prometto não reflectir nunca mais. +<br /> + + +<br /> + + +Jesu Christo, que foi o modêlo da paciencia, +da tolerancia, o verdadeiro e unico fundador da +<span class="pagenum">[166]</span> +liberdade e da egualdade entre os homens, Jesu +Christo soffreu com resignação e humildade +quantas +injustiças, quantos insultos lhe fizeram a elle +e á sua missão divina; perdoou ao matador, +á +adúltera, ao blasphêmo, ao impio. Mas quando +viu os barões a agiotar dentro do templo, não +se pôde conter, pegou n'um azorrague e zurziu-os +sem dor. +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c18"></a>CAPITULO XLIII. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro"> +Partida de Santarem.―Pinacotheca.―Impaciencia e +saudades.―Sexta-feira.―Martyrio +obscuro.―A figura do peccado.―Estamos +no valle outra vez.―Evocação de incanto.―A +irman Francisca e Fr. Diniz.―A teia de Penelope.―E +Joanninha?―Joanninha está no ceo.―A mulher +morta a dobar esperando que a interrem.―A esperança, +virtude do christianismo.―Uma carta. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Estou devéras fatigado de Santarem; vou-me +embora. +<br /> + + +<br /> + + +Despedimo'-nos saudosos d'aquella boa e leal +<span class="pagenum">[168]</span> +familia que nos hospedára com tanto carinho, +com toda a velha cordialidade portugueza; partimos. +<br /> + + +<br /> + + +Apenas comecei a respirar o ar fresco da manhan +nos olivaes, senti desaffogar-se-me alma +d'aquella constricção cansada que se experimenta +na longa visita a um museu de antiguidades, a +uma galeria de pinturas. +<br /> + + +<br /> + + +Perdoem-me que não diga 'pinacotheca': bem +sei que é moda, e que a palavra é adoptavel +segundo +as mais strictas regras de Horacio, pois +'cai da fonte grega' direitamente e sem mistura: +mas soa-me tam mal em portuguez que não posso +com ella. +<br /> + + +<br /> + + +Santarem fatigou-me o espirito, como todas as +coisas que fazem pensar muito. Deixo-a porêm +com saudade, e não me heide esquecer nunca +dos dias que aqui passei. +<br /> + + +<br /> + + +De quê e como sou eu feito, que não posso +estar muito tempo n'um logar, e não posso sahir +d'elle sem pena? +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[169]</span> +Ja me está custando ter deixado Santarem. +Porque não haviamos de partir ámanhan, e ter +ficado +ainda hoje alli? +<br /> + + +<br /> + + +E hoje que é sexta-feira?... Mau dia para começar +viagem! +<br /> + + +<br /> + + +Sexta-feira! Era o dia aziago do nosso valle, +da pobre velha cega que ahi vivia sua triste vida +de dores, de remorsos e desconfôrto, esperando +porêm em Deus, conformada com seu martyrio: +martyrio obscuro, mas tam insanguentado +d'aquelle sangue que mana gotta a gotta e dolorosamente +do coração rasgado, devorado em silencio +pelo abutre invisivel de uma dor que se +não revela, que não tem prantos nem ais. +<br /> + + +<br /> + + +Era na sexta-feira que o terrivel frade, o +demonio vivo d'aquella mulher de angústias, lhe +apparecia tremendo e espantoso deante de seus +olhos cegos, elevado pela imaginação +ás proporções +descommunaes e gigantescas de um vingador +sobrenatural. +<br /> + + +<br /> + + +Era a figura tangivel, e visivel á vista de sua +<span class="pagenum">[170]</span> +alma, do enorme peccado que contra ella estava +sempre. +<br /> + + +<br /> + + +Creio que escuso dizer que não tenho eu ésta +superstição dos dias aziagos que tinha a +desgraçada +velha, que a sua Joanninha partilhava. Mas +confesso que, recordando as fatalidades d'aquella +familia e d'aquelle dia, não gostei de voltar n'elle +ao valle de Santarem. +<br /> + + +<br /> + + +Estavamos porêm no valle; e ja eu via de longe +aquellas árvores e aquella janella que tanto +me impressionaram, quando éstas reflexões me +acudiam ao espirito e m'o contristavam. +<br /> + + +<br /> + + +Affrouxei insensivelmente o passo, deixei tomar +larga dianteira aos meus companheiros de +viagem; e quando chegava perto da casa, tinha-os +perdido de vista. +<br /> + + +<br /> + + +Involuntariamente parei defronte da janella; +mordia-me um interêsse, uma curiosidade irresistivel... +Nem viva alma por aquelles arredores; +apeei-me e fui direito para a casa. +<br /> + + +<br /> + + +Apenas passei as árvores, um spectaculo inesperado, +<span class="pagenum">[171]</span> +uma evocação como de incanto me veio +ferir os olhos. +<br /> + + +<br /> + + +No mesmo sítio, do mesmo modo, com os +mesmos trajos e na mesma attitude em que a +descrevi nos primeiros capitulos d'esta historia, +estava a nossa velha irman Francisca... +<br /> + + +<br /> + + +Ella era, e não podia ser outra; sentada na +sua antiga cadeira, dobando, como Penelope tecia, +a sua interminavel meada. Não havia outra +differença agora senão que a dobadoira +não parava, +e que o fio seguia, seguia, inrollando-se, +inrollando-se contínuo e compassado no novêllo; +e que os braços da velha lidavam lentamente mas +sem cessar no seu movimento de authomato que +fazia mal ver. +<br /> + + +<br /> + + +Defronte d'ella, sentado n'uma pedra, a cabeça +baixa, e os olhos fixos n'um grosso livro +velho, que sustinha nos joelhos, estava um homem +sêcco e magro, descarnado como um esqueleto, +livido como um cadaver, immovel como +uma estátua. Trajava um non-descriptum negro, +que podia ser sotana de clerigo ou tunica +de frade, mas descingida, sôlta, e pendente em +<span class="pagenum">[172]</span> +grossas e largas pregas do extenuado pescosso do +homem. +<br /> + + +<br /> + + +Tambem não podia ser senão Frei Diniz. +<br /> + + +<br /> + + +Cheguei juncto d'elles; não me sentiu nenhum +dos dois; nem me viu elle, o que so via dos dois. +<br /> + + +<br /> + + +Sem mais reflexão, e continuando alto na serie +de pensamentos que me vinha correndo pelo espirito, +exclamei: +<br /> + + +<br /> + + +―'E Joanninha?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Joanninha está no ceo':―respondeu sem +sobresalto, sem erguer os olhos do seu livro, a +sombra do frade―que outra coisa não parecia. +<br /> + + +<br /> + + +―'Joanninha, pobre Joanninha! Pois como +foi, como acabou a infeliz?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Joanninha não é infeliz: foi ser anjo na +presença de Deus.' +<br /> + + +<br /> + + +―'E... e Carlos?' balbuciei eu hesitando, +porque temia a susceptibilidade do frade. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[173]</span> ―'Carlos!' respondeu elle erguendo emfim +os olhos e cravando-os em mim... +<br /> + + +<br /> + + +E oh! que nunca vi olhos como aquelles, nem +os heide ver! +<br /> + + +<br /> + + +―'Carlos!... E quem é que m'o pergunta? +quem é que tanto sabe de mim e dos meus?.. +Dos meus! Eu não tenho meus: sou so.' +<br /> + + +<br /> + + +―'So! Não está aqui, que eu vejo?..' +<br /> + + +<br /> + + +―'Ve essa mulher morta que ahi ficou, que +a matei eu, e que aqui está á espera que +dê a +hora de a eu interrar, mais nada. Eu estou +so e quero estar so. Morreu tudo. Que mais quer +saber?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Venho de Santarem...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Santarem tambem morreu; e morreu Portugal. +Aqui não, vive senão o meu +peccado, que +Deus não perdoou ainda, nem espero...' +<br /> + + +<br /> + + +―'A nossa religião fez uma virtude da +esperança.' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[174]</span> ―'Fez.' +<br /> + + +<br /> + + +―'E n'isso se distingue das outras +todas.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Pois ainda ha quem o saiba n'esta terra?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Ha mais do que não houve nunca―pelo +menos ha mais quem o saiba melhor.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Póde ser: os juizos de Deus são +incomprehensiveis.' +<br /> + + +<br /> + + +―'E infinita a sua misericordia.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Mas a sua cholera implacavel, a sua justiça +tremenda.' +<br /> + + +<br /> + + +―'A misericordia é maior.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Quem lhe insinou tudo isso?' +<br /> + + +<br /> + + +―'O evangelho, o coração, e minha mãe +que m'os explicou ambos.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Sente-se aqui... aopé de mim.' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[175]</span> +Sentei-me. O frade pegou-me na mão com as +suas ambas, e pôs-me os olhos com uma expressão +que nenhuma lingua póde dizer, nem +nenhum pincel pintar. +<br /> + + +<br /> + + +Esteve assim algum tempo, como quem me +observava. Vi-lhe apontar claramente uma lagryma, +vi-lh'a retroceder, e ficarem-lhe inchutos +os olhos. Senti-lhe estrangular um suspiro +que lhe vinha á garganta; percebi distinctamente +o estremeção que lhe correu o corpo; mas observei +que todo se serenou depois. +<br /> + + +<br /> + + +Disse-me então com voz magoada mas placida +e sem aspereza ja nenhuma: +<br /> + + +<br /> + + +―'Sabe a historia do valle?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Sei tudo até á partida de Carlos para +Evora.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Aqui tem a carta que elle escreveu.' +<br /> + + +<br /> + + +Tirou do breviario um papel dobrado, amarello +do tempo, e manchado, bem se via, de +muitas lagrymas, algumas recentes ainda. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[176]</span> ―'Leia.' +<br /> + + +<br /> + + +Li. +<br /> + + +<br /> + + +Ésta era a carta de Carlos.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c19"></a>CAPITULO XLIV. +</h3> + + +<br /> + + +<div style="text-align: center;" class="intro">Carta +de Carlos a Joanninha. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="signature">Evora-monte...<br /> + + +de maio de 1834.</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +É a ti que escrevo, Joanna, minha irman, minha +prima, a ti so. +<br /> + + +<br /> + + +Com nenhum outro dos meus não posso nem +ouso fallar. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[178]</span> +Nem eu ja sei quem são os meus: confunde-se, +perde-se-me ésta cabeça nos desvarios do +coração. Errei com elle, perdeu-me elle... Oh! +bem sei que estou perdido. +<br /> + + +<br /> + + +Perdido para todos, e para ti tambem. Não +me digas que não; tens generosidade para o dizer, +mas não o digas. Tens generosidade para +o pensar, mas não pódes evitar de o sentir. +<br /> + + +<br /> + + +Eu estou perdido. +<br /> + + +<br /> + + +E sem remedio, Joanna, porque a minha natureza +é incorrigivel. Tenho energia de mais, +tenho podêres de mais no coração. Estes +excessos +d'elle me mataram... e me matam! +<br /> + + +<br /> + + +Tu não comprehendes isto, Joanninha, não +me intendes decerto; e é difficil. +<br /> + + +<br /> + + +Es mulher, e as mulheres não intendem os +homens. Sempre o entrevi, hoje sei-o perfeitamente. +A mulher não póde nem deve comprehender +o homem. Triste da que chega a sabê-lo!.. +<br /> + + +<br /> + + +E d'ahi... quando se tem de morrer, antes +<span class="pagenum">[179]</span> +saber a morte de que se morre, do que expirar +na ignorancia do mal que nos matou. +<br /> + + +<br /> + + +Tu es joven e inexperiente, a tua alma está +cheia de illusões doces; vou dissipar-t'as em +quanto se não condensam, que te offusquem a razão +e te deixem para sempre escrava cega do +maior inimigo que temos, o coração. +<br /> + + +<br /> + + +Quero contar-te a minha historia: verás n'ella +o que vale um homem. +<br /> + + +<br /> + + +Sabe que os não ha melhores que eu; e tam +bons, poucos. Olha o que será o resto! +<br /> + + +<br /> + + +Tu não ignoras ja hoje o porque fugi da casa +materna: sabía-a manchada de um grande peccado, +e imaginei-a polluida de um enorme crime. +<br /> + + +<br /> + + +Esse homem que é meu pae, não o podia +ver; hoje que sei o que me elle é... Deus me +perdoe, que ainda o posso ver menos! +<br /> + + +<br /> + + +Minha avó, julguei-a cumplice no crime; ella +so o era no peccado. Perdoe-lhe Deus; e bem +<span class="pagenum">[180]</span> +póde e bem deve, ja que a fez tam fraca. Minha +pobre mãe succumbiu por sua culpa, por +sua irremissivel complacencia... +<br /> + + +<br /> + + +Deus póde e deve, repitto... mas eu, como +lhe heide perdoar eu este rubor que sinto nas +faces ao nomear minha mãe? +<br /> + + +<br /> + + +Tem padecido e soffrido muito... coitada! A +sua penitencia é um martyrio, a sua velhice uma +longa paixão, e esse homem que a perdeu um +verdugo sem piedade. Mas tudo isso é com Deus, +não é commigo. +<br /> + + +<br /> + + +Eu sou filho; minha mãe morreu sem perdoar―não +posso perdoar eu. +<br /> + + +<br /> + + +E quem me hade perdoar a mim? Ninguem, +nem quero. +<br /> + + +<br /> + + +Não serás tu, minha irman; não, que +não +deves. Porque eu amei-te com um coração que +ja não era meu; acceitei o teu amor sem o merecer, +sem o podêr possuir, trahi quando te +amava, menti quando t'o disse, menti-te a ti, +<span class="pagenum">[181]</span> +menti-me a mim, e não guardei verdade a ninguem. +<br /> + + +<br /> + + +Mas espera, ouve; deixa-me ver se posso atar +o fio d'esta minha incrivel historia―incrivel +para ti, bem simples para quem conheça o +coração +do homem. +<br /> + + +<br /> + + +Sahi de Portugal, e posso dizer que não tinha +amado ainda. Inclinações de criança, +galanteios +de sociedade, ligações que nasceram da vaidade, +ou que so os sentidos alimentam, não merecem +o nome de amor. +<br /> + + +<br /> + + +Eu não tinha amado. +<br /> + + +<br /> + + +Ha tres especies de mulheres n'este mundo: +a mulher que se admira, a mulher que se deseja, +e a mulher que se ama. +<br /> + + +<br /> + + +A belleza, o espirito, a graça, os dotes d'alma +e do corpo geram a admiração. +<br /> + + +<br /> + + +Certas fórmas, certo ar voluptuoso criam o +desejo. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[182]</span> +O que produz o amor não se sabe; é tudo +isto ás vezes, é mais do que isto, não +é nada +d'isto. +<br /> + + +<br /> + + +Não sei o que é; mas sei que se +póde admirar +uma mulher sem a desejar, que se póde desejar +sem a amar. +<br /> + + +<br /> + + +O amor não está definido, nem o póde +ser +nunca. O amor verdadeiro; que as outras coisas +não são isso. +<br /> + + +<br /> + + +Eu vivi poucos mezes em Inglaterra; mas foram +os primeiros que posso dizer que vivi. Levou-me +o acaso, o destino―a minha estrella, porque +eu ainda creio nas estrellas, e em pouco mais d'este +mundo creio ja―levou-me ao interior de uma +familia elegante, ricca de tudo o que póde dar +distincção n'este mundo. +<br /> + + +<br /> + + +Extranhei aquelles habitos de alta civilização, +que me agradavam comtudo; moldei-me facilmente +por elles, affiz-me a vejetar docemente +na branda atmosphera artificial d'aquella estufa +sem perder a minha natureza de planta extrangeira. +Agradei: e não o merecia. No fundo d'alma +<span class="pagenum">[183]</span> +e de character eu não era aquillo por que me +tomavam. Menti: o homem não faz outra coisa. +Eu detesto a mentira, voluntariamente nunca o +fiz, e todavia tenho levado a vida a mentir. +<br /> + + +<br /> + + +Menti pois, e agradei porque mentia. Sancto +Deus! para que sahiria a verdade da tua bôcca, +e para que a mandaste ao mundo, Senhor? +<br /> + + +<br /> + + +Havia tres meninas n'aquella familia. Dizer +que eram as tres graças é uma vulgaridade +cansada, +e tam bannal que não dá idea de coisa alguma. +Tres anjos seriam; tres anjos posso dizer +com mais propriedade. E quando em nossos +longos passeios solitarios, por aquelles campos +sempre verdes, por aquellas collinas coroadas +de arvoredo, tapessadas de relva macia, os +seus vestidos brancos, singelos, simples, trajados +sem arte, fluctuavam com a brisa da tarde... +e os longos anneis de seus cabellos―os de uma +eram loiros, os de outra castanhos, não ha nome +para a indefinida côr dos da terceira―quando +esses longos anneis descahiam de sua ondada +spiral com o orvalho humido do crepusculo―e +que a essa luz vaga e mysteriosa eu as contemplava +todas tres com adoração e recolhimento +<span class="pagenum">[184]</span> +devoto d'alma―sinceramente exclamava: 'São +tres anjos celestes que é forçoso adorar!..' +<br /> + + +<br /> + + +E assim é que os adorava os tres anjos, todos +tres, e não podia adorar um sem os outros. +<br /> + + +<br /> + + +Que me queriam ellas, é certo; que insensivelmente +se habituaram á minha companhia e +ja não podiam viver sem ella... ai! era preciso +ser um monstro para o não confessar com lagrymas +de gratidão e de remorso. +<br /> + + +<br /> + + +Os mais difficeis e delicados apices da perfeição +de sua tam caprichosa e tam expressiva +lingua, as bellezas mais sentidas de seus +auctores queridos, o espirito e tom difficil de +sua sociedade tam desdenhosa e fastienta, mas +tam completa e tam calculada para sublimar a +vida e a desmaterializar―isso tudo, e um indefinivel +sentimento do <em>gentil</em>, que so com +natural +tacto se adquire, é verdade, mas que se não +alcansa com elle so―isso tudo o apprendi alli +das suaves licções que insensivelmente recebia a +cada instante. +<br /> + + +<br /> + + +Se valho alguma coisa, tudo valho por ellas; +<span class="pagenum">[185]</span> +se tenho merecido alguma consideração no mundo, +toda lh'a devo. +<br /> + + +<br /> + + +Ves que confesso a dívida, verás como a paguei. +<br /> + + +<br /> + + +O tom perfeito da sociedade ingleza inventou +uma palavra que não ha nem póde haver n'outras +linguas emquanto a civilização as não +aparar. +<em>To flirt</em> é um verbo +innocente que se conjuga +alli entre os dois sexos, e não significa +<em>namorar</em>―palavra +grossa e absurda que eu detesto―não +significa 'fazer a côrte'; é mais do que estar +amavel, é menos do que galantear, não obriga +a nada, não tem consequencias, começa-se, +acaba-se, interrompe-se, addia-se, continúa-se +ou descontinúa-se á vontade e sem +compromettimento. +<br /> + + +<br /> + + +Eu <em>flartava</em>, nós +<em>flartavamos</em> ellas +<em>flartavam</em>... +<br /> + + +<br /> + + +E não ha mais doce nem mais suave intertenimento +d'espirito do que o <em>flartar</em> com uma +elegante +e graciosa menina ingleza; com duas é prazer +angelico, e com tres é divino. +<br /> + + +<br /> + + +Para quem nasceu n'aquillo, não é perigoso; +<span class="pagenum">[186]</span> +para mim degenerou, breve, aquella placida +sensação +em mais profundo sentimento. +<br /> + + +<br /> + + +Veio a admiração primeiro. +<br /> + + +<br /> + + +E como as eu admirava todas tres as minhas +gentis fascinadoras! +<br /> + + +<br /> + + +E ellas conheciam-n'o, riam, folgavam e estavam +incantadas de me incantar. +<br /> + + +<br /> + + +Fizeram nascer os desejos! +<br /> + + +<br /> + + +Julguei-me perdido, e quiz fugir. +<br /> + + +<br /> + + +Não me deixaram e zombaram de mim, da +ardencia do meu sangue hespanhol, da vehemencia +das minhas sensações... +<br /> + + +<br /> + + +Em breve eu amava perdidamente uma d'ellas―queria +muito ás outras duas; mas amar, +amar devéras, d'alma cuidava eu, de +coração ia +jurá-lo, era a segunda―Laura, a mais gentil, +mais nobre, mais elegante e radiosa figura de +mulher que creio que Deus moldasse n'uma hora +de verdadeiro amor de artista que se dignou +tomar por esse pouco de greda que tinha nas +mãos ao formá-la. +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c20"></a>CAPITULO XLV. +</h3> + + +<br /> + + +<div style="text-align: center;" class="intro">Carta +de Carlos a Joanninha: +continúa. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Laura não era alta nem baixa, era forte sem +ser gorda, e delicada sem magreza. Os olhos +de um côr-de-avelan diaphano, puro, avelludado, +grandes, vivos, cheios de tal majestade +<span class="pagenum">[188]</span> +quando se iravam, de tal doçura quando +se abrandavam, que é difficil dizer quando eram +mais bellos. O cabello quasi da mesma côr tinha, +demais, um reflexo dourado, vacillante, que +ao sol resplandecia, ou antes, relampejava,―mas +a espaços, não era sempre, nem em todas +as posições da +cabeça:―cabeça pequena, modelada +no mais classico da statuaria antiga, poisada +sôbre um collo de immensa nobreza, que harmonizava +com a perfeição das linhas dos hombros. +<br /> + + +<br /> + + +A cintura breve e estreita, mas sem exaggeração, +via-se que o era assim por natureza e +sem a menor contrafeição d'arte. O pé +não tinha +as exiguidades fabulosas da nossa peninsula, +era proporcionado como o da Venus de Medicis. +<br /> + + +<br /> + + +Tenho visto muita mulher mais bella, algumas +mais adoraveis, nenhuma tam fascinante. +<br /> + + +<br /> + + +Fascinante é a palavra para ella. +<br /> + + +<br /> + + +O rosto oval e perfeitamente symetrico, pallido; +so os beiços eram vermelhos como a rosa +de côr mais viva. +<br /> + + +<br /> + + +A expressão de toda ésta figura é que +se +<span class="pagenum">[189]</span> +não descreve. A bôcca breve e fina surria pouco; +mas quando surria, oh!.. +<br /> + + +<br /> + + +Ve-la n'um baile, vestida e calçada de branco, +cingida com um cinto de vidrilhos pretos―toilete +inalteravel para ella desde certa epocha―sem +mais ornato, sem mais flores, apenas +um farto fio de perolas derramando-se-lhe +pelo collo―era ver alguma coisa de superior, +de mais sublime que uma simples mulher. +<br /> + + +<br /> + + +Tal era Laura, Laura que eu amei quanto +podia e sabía amar. Era pouco, sei-o agora; +entao parecia-me infinito. +<br /> + + +<br /> + + +Disse-lh'o a ella, disse-lh'o um dia que passeavamos +sós, e depois de andarmos horas e +horas esquecidas, sem trocar uma phrase. Pensavamos, +eu n'ella, ella não sei em quê. +<br /> + + +<br /> + + +Sería em mim? +<br /> + + +<br /> + + +Sería mas não m'o confessou. +<br /> + + +<br /> + + +E ouviu-me sem dizer palavra, sem olhar +para mim uma so vez, sem fugir com a mão +<span class="pagenum">[190]</span> +que lhe eu appertava, que lhe beijava, e que +sentia fria e humida nas minhas que escaldavam. +<br /> + + +<br /> + + +Era tarde, dirigimo'-nos para casa. Á porta +disse-me: 'Não entre'; e vi-a banhada em lagrymas. +Quiz segui-la, fez-me um gesto imperioso +que me confundiu. Pela primeira vez, depois +de tanto tempo, fui so, triste e melancholico +para a minha pobre habitação, onde passei +a noite. +<br /> + + +<br /> + + +Quando era madrugada quiz-me deitar. Não +dormi. +<br /> + + +<br /> + + +No dia seguinte recebi uma carta de Julia: +assim se chamava a mais velha, a mais sensivel +e a mais carinhosa das tres irmans. +<br /> + + +<br /> + + +O bilhete parecia indifferente; não continha +senão palavras usuaes, pedia-me que fosse almoçar +com ella... não fallava nas irmans. +<br /> + + +<br /> + + +Senti que era chegada a minha hora, pareceu-me +que ia ser expulso d'aquelle Eden de +innocencia em que tinha vivido. A lettra de Julia, +<span class="pagenum">[191]</span> +uma lettra linda, perfeita, natural, figurava-se-me +um aggregado de signaes caballisticos terriveis +que incerravam o mysterio da minha condemnação. +<br /> + + +<br /> + + +Vesti-me, fui, achei-me so com Julia no +<em>parlour</em> elegante de seu exclusivo +uso. +<br /> + + +<br /> + + +Era um pequeno gabinete de estudo, ornado +somente de umas <em>etagères</em> +com livros e musicas, +uma harpa e um cavallete. +<br /> + + +<br /> + + +Sôbre o cavallete estava o meu retratto esboçado, +na estante da harpa uma romança franceza +a que eu tinha feito lettras portuguezas... +<br /> + + +<br /> + + +A urna asoviava sôbre a mesa, Julia fazia o +cha e não parecia attender a mais nada. +<br /> + + +<br /> + + +É preciso que eu te descreva a piquena Julia―Julietta +como nós lhe chamavamos―nós, +as duas irmans e eu que rivalizavamos a qual lhe +havia de querer mais... +<br /> + + +<br /> + + +Oh! que saudade e que remorso para toda a +<span class="pagenum">[192]</span> +minha vida n'estas recordações de fraternal +intimidade! +<br /> + + +<br /> + + +Julia era piquena, delicadissima, propriamente +infantina no rosto, na figura, na expressão e +no hábito de toda a sua incantadora e diminutiva +pessoa. +<br /> + + +<br /> + + +Nenhuma ingleza, desde o tempo da rainha +Bess, teve pé e <em>ancle</em> +mais delicado. Nenhuma, +desde o rei Alfredo, se occupou tam elegantemente +dos elegantes cuidados de um interior britannico―gentil +quadro 'de genero' como não +ha outro. +<br /> + + +<br /> + + +Lady Julia R. era a mais piquena e a mais +bonita subdita britannica que eu creio que tenha +existido. +<br /> + + +<br /> + + +Vista á lua, no meio do seu parque, volteiando +por entre os raros exoticos que no curto verão +inglez se expoem ao ar livre, facilmente se +tomava pela bella soberana das fadas realizando +aquella preciosa visão de Shakspeare, o 'Midsumer +night's dream.' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[193]</span> +Seus olhos de azul celeste, sempre humidos e +sempre doces, os cabellos de um claro e assedado +castanho todos soltos em anneis á roda da +cabeça e cahindo pelos hombros, espalhando-se +pelo rosto, que era uma lida contínua para os +tirar dos olhos, um corpo airoso, uma bôcca de +beijar, os dentes miudos, alvissimos e apertados, +a mão piquena estreita, e de cera―tudo +isto fazia de Julia um typo ideal de bondade, de +candura, de innocencia angelica. +<br /> + + +<br /> + + +E era um anjo... oh se era! +<br /> + + +<br /> + + +Contemplei-a muito tempo em silencio: ella +surria-me tristemente de vez em quando, mas +não fallava. Emfim almoçámos, levaram +o trem. +<br /> + + +<br /> + + +Ella disse á sua aia: +<br /> + + +<br /> + + +―'Phebe, eu estou so com Carlos; e quero +estar so. Em casa para ninguem.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Sim, minha +senhora.' Resposta obrigada +do criado inglez a tudo. +<br /> + + +<br /> + + +E ficámos sos completamente.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c21"></a>CAPITULO XLVI. +</h3> + + +<br /> + + +<div style="text-align: center;" class="intro"> +Carta de Carlos a Joanninha: continúa. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Julia levantou finalmente para mim os seus olhos +humidos, assombrados das mais longas e assedadas +pestanas que ainda vi em olhos de mulher, +e disse-me: +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[196]</span> ―'Carlos, eu estou triste. Devia consolar-me; +diga-me alguma coisa que me console. +Falle-me.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Que heide eu dizer?..' +<br /> + + +<br /> + + +―'É um cavalheiro, Carlos: diga-me que o +é, e desassombre-me d'este terror em que estou.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Pois duvída, Julia?..' +<br /> + + +<br /> + + +―'Não duvido. Queremos-lhe todos muito +aqui... muito demais... receio: como havemos +de duvidar?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Oh Julia, perdoe-me!' exclamei eu lançando-me +a seus pés, tomando-lhe as mãos ambas +nas minhas, e beijando-lh'as mil vezes n'um +paroxysmo de verdadeira contricção. 'Perdoe-me, +Julia: bem sei que fiz mal, e prometto...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Não prometta nada, senão que hade ser +cavalheiro. Isso sei eu e sinto que o póde cumprir.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Juro por... por ella.' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[197]</span> ―'Ella!.. Ella ama-o, Carlos. É melhor dizer +a verdade de uma vez, e incarar todas as +consequencias de uma posição difficil, do que +illudir-se +a gente sem as evitar. Laura ama-o, +mas não deve nem póde amá-lo. Se fosse +livre, +não sei o que diria―não sei o que faria eu... +Mas não se tratta de mim'―proseguiu com volubilidade +febril―'não se tratta de mim, Carlos, +tratta-se d'ella. Laura não o póde amar, +está +compromettida. Hade partir em tres mezes +para a India.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Para a India!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Sim: é verdade: velo-ha. O seu noivo é +capitão ao serviço da companhia, e parte em +casando.' +<br /> + + +<br /> + + +Eu sentia-me morrer o coração dentro do peito: +foi a primeira dor verdadeira d'alma que +soffri... Aquelle era o primeiro amor sincero da +minha vida, e aquella foi tambem a primeira +excruciante pena d'amor por que passei. +<br /> + + +<br /> + + +Eu que de taes penas zombára sempre, que +as desterrava da realidade para os romances, eu!.. +<span class="pagenum">[198]</span> +Ai! que poeta ou que novellista soube nunca pintar +um padecer como eu experimentei n'aquella +hora? +<br /> + + +<br /> + + +Não sei o que fiz nem o que disse; não me +recordo senão que senti as lagrymas de Julia cahirem-me +sôbre a face e misturarem-se com as +minhas que corriam em abundancia. Levantei os +olhos para ella, e a expressão que vi nos seus... +oh! como a heide esquecer nunca? +<br /> + + +<br /> + + +Quanto ha de piedade e compaixão no thesouro +infinito de um coração feminino se derramava +d'aquelles olhos celestes para me consolar. Lá +não ficava senão uma tristeza profunda, +desanimada +e mortal... +<br /> + + +<br /> + + +Não sei que vago pensamento, que idea louca... +ou antes, que presentimento indeterminado +e confuso me atravessou pelo espirito―ou +sería pelo coração?―n'aquelle +momento... +<br /> + + +<br /> + + +Se Julia?.. +<br /> + + +<br /> + + +Mas não póde ser. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[199]</span> ―'Julia, Julia' bradei eu 'quero vê-la: heide +vê-la uma vez ao menos. Não me negue este +último +favor. Sei que devo, que preciso, que é +forçoso fugir d'ella. Mas antes heide dizer-lhe...' +<br /> + + +<br /> + + +―'O quê?..' +<br /> + + +<br /> + + +―'Que a amo como nunca amei, como nunca +mais heide amar...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Ai Carlos!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Que para sempre, sempre...' +<br /> + + +<br /> + + +Julia levantou-se sem dizer palavra, e lançando +sôbre mim um olhar de ineffavel compaixão, +sahiu rapidamente do quarto. +<br /> + + +<br /> + + +Achei-me so, não sei o que pensei nem se +pensei. Sentia-me aturdido da cabeça, exhausto +do coração―n'uma depressão d'espirito +que tocava +na estupidez. Se me apontassem uma pistola +aos peitos, não levantava o braço para a +arredar... +Ja não sentia pena nem desejo. Parecia-me +que começava a morrer; e não achava que +morrer custasse muito. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[200]</span> +N'este estado fiquei não sei que tempo; muito +não foi. Percebi que se abria a porta, não +tive fôrça para levantar os olhos. Até +que senti +uma doce e querida mão na minha... era Julia... +e era Laura tambem... sancto Deus! que estavam +aopé de mim ambas. +<br /> + + +<br /> + + +Julia tinha a minha mão na sua; e Laura incostada +ao hombro da irman, deixava cahir sôbre +mim aquelles olhos em que a severidade +habitual se tinha relaxado n'uma indulgencia tam +doce, n'uma compaixão tam celeste que, juro +por Deus, n'aquella hora acreditei firmemente +que tinha deante de mim dous anjos seus, baixados +nas azas da piedade divina para me trazer todo +o perdão, toda a misericordia do ceo á minha +alma. +<br /> + + +<br /> + + +Como te direi eu, Joanna, querida Joanninha, +como te direi a ti que me amas, a ti que +eu amo―porque te amo, e Deus me castigue +que deve! porque te amo, cegamente te amo +com este infame e abominavel coração que Elle +me deu―como te heide eu dizer a ti, e para +quê, as palavras que alli dissemos, os protestos +<span class="pagenum">[201]</span> +que alli fiz, os juramentos que alli se deram, as +promessas que alli foram trocadas? +<br /> + + +<br /> + + +Julia foi para a janella―indulgente chaperão +que nos não via e fingia não nos ouvir. O dia +passou-se assim, um longo dia de junho que tam +curto e rapido nos pareceu. Era noite quando +fomos jantar. +<br /> + + +<br /> + + +Á mesa Laura appareceu em trajos de viagem; +partia n'aquella noite para o paiz de Galles onde +tinha uma amiga, com quem ia estar até o dia +terrivel, e preparar-se para elle, me disse, longe +de mim, no seio da amizade. +<br /> + + +<br /> + + +Imagine-se aquelle jantar. Nem comer fingiamos. +Ao sahir da mesa achámos á porta da casa +a caleche posta, o cocheiro na almofada, e +o criado á portinhola. Montámos, as tres irmans +e eu. +<br /> + + +<br /> + + +Eram duas milhas d'alli á estalagem onde +tocava a malla-posta e onde Laura devia incontrá-la. +Fizemo-las sem proferir palavra nenhum +dos quatro. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[202]</span> +A lua ia grande e bella com sua luz triste e +fria por um ceo sem nuvens. Era uma d'aquellas noites +raras, mas admiraveis do breve estio britannico. +<br /> + + +<br /> + + +A areia que rangia com o attrito das rodas +da carruagem nas lisas ruas do parque, os ramos +descahidos das árvores por que roçavamos +levemente +ao passar, os veados mansos que se levantavam +para nos ver―os phaesães que erguiam +seu rasteiro voo de moita para moita ao +sentir o estalido do chicote, com que o cocheiro +mais moderava do que excitava os seus cavallos, +tudo para mim eram impressões de nunca +sentida e inexplicavel tristeza. Ficava-me a alma +apoz tudo aquillo, sentia fugir-me a felicidade +para sempre, e que era eu que a affugentava, +e que me ia incontrar so, desamparado e proscripto +no deserto da vida. +<br /> + + +<br /> + + +Não me sentia fôrça para blasphemar, +para +maldizer de Deus, senão tinha-o feito. +<br /> + + +<br /> + + +Tinha: e outras ancias mais angustiadas e +mortaes me teem afflicto na vida; em nenhuma +<span class="pagenum">[203]</span> +me senti tam capaz de renegar de Deus e descrer +d'elle como n'esta. +<br /> + + +<br /> + + +Sería effeito de sua inexhaurivel piedade que +talvez quiz acudir á minha alma antes que se perdesse, +sería por certo―pois n'esse mesmo instante +distinctamente me appareceu deante dos +olhos d'alma a unica imagem que podia chamá-lo +do abysmo: era a tua, Joanna! Era a minha +Joanninha piquena, innocente, aquelle anginho +de criança, tam viva, tam alegre, tam graciosa +que eu tinha deixado a brincar no nosso valle: +o nosso valle rustico, tam grosseiro e tam inculto! +oh como as saudades d'elle me foram alcançar +no meio d'aquellas allinhadas e perfeitas bellezas +da cultura britannica! Os raios verdes de +teus olhos, faiscantes como esmeraldas, atravessaram +o espaço, e foram luzir no meio d'aquell'outros +lumes que me cegavam. A esteva brava, o tojo +aspero da nossa charneca mandavam-me ao longe as +exhalações de seu perfume agreste, e matavam o +suave cheiro do feno macio d'essas relvas sempre +verdes que me rodeavam. As folhas crespas, sêccas, +alvacentas das nossas oliveiras como que me +luziam por entre a espessura cerrada da luxuriante +vegetação do norte, promettendo-me paz +<span class="pagenum">[204]</span> +ao coração, annunciando-me o fim de uma peleja +em que m'o dilaceravam as paixões. +<br /> + + +<br /> + + +E tu, Joanna, tu, pobre innocente, e desvallida +criancinha, tu apparecias-me no meio de tudo +isso, extendendo para mim os teus bracinhos +amantes como no dia que me despedira de ti +n'esse fatal, n'esse querido, n'esse doce e amargo +valle das minhas lagrymas e dos meus risos, +onde so me tinham de correr os poucos minutos +de felicidade verdadeira da minha vida, onde as +verdadeiras dores da minha alma tinham de m'a +cortar e destruir para sempre... +<br /> + + +<br /> + + +Oh! de quê e como é feito o homem, para +quê e porque vive elle? Que vim eu, que vimos +nós todos fazer a este mundo? +<br /> + + +<br /> + + +Eu sentado alli nas almofadas de seda d'aquella +splendida e macia carruagem, rodeado de tres +mulheres divinas que me queriam todas, que eu +confundia n'uma adoração mysteriosa e +mystica―cego, +louco d'amores por uma d'ellas, no momento +de lhe dizer adeus para sempre... eu tinha o pensamento +fixo n'uma criança que ainda andava ao collo!―Revendo-me +nos olhos pardos de Laura que eu +<span class="pagenum">[205]</span> +adorava, eram os teus olhos verdes que eu tinha +n'alma! Os sentidos todos embriagados d'aquelle +perfume de luxo e civilização que me +cercava,―era +o nosso valle rustico e selvagem o que eu +tinha no coração... +<br /> + + +<br /> + + +Oh! eu sou um monstro, um aleijão moral +devéras, ou não sei o que sou. +<br /> + + +<br /> + + +Se todos os homens serão assim? +<br /> + + +<br /> + + +Talvez, e que o não digam. +<br /> + + +<br /> + + +Joanna, minha Joanna, minha Joanninha querida, +anjo adorado da minha alma, tem compaixão +de mim, não me maldigas. Não quero que me +perdoes, +nem tu nem ninguem, que o não mereço: +mas que tenhas dó e lástima de mim. +<br /> + + +<br /> + + +Ai! que isso mereço eu, oh sim. +<br /> + + +<br /> + + +Deixa-me parar aqui. Falta-me o ânimo para +me estar vendo a este terrivel espelho moral em +que jurei mirar-me para meu castigo, d'onde +estou copiando o horroroso retratto de minha alma +que te desenho n'este papel. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[206]</span> +Sabía que era monstro, não tinha examinado +por partes toda a hediondez das feições que me +reconheço agora. +<br /> + + +<br /> + + +Tenho espanto e horror de mim mesmo. +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c22"></a>CAPITULO XLVII. +</h3> + + +<br /> + + +<div style="text-align: center;" class="intro"> +Carta de Carlos a Joanninha: continúa. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Chegámos ao Inn (estalagem), triste casa solitaria +no meio dos campos á borda da estrada. A +malla chegava ao mesmo tempo quasi. +<br /> + + +<br /> + + +Eu dei a mão a Laura para sahir da caleche +<span class="pagenum">[208]</span> +e entrar no coche; e apenas tivemos tempo para +um convulsivo shake-hands e para nos dizer +adeus! adeus! com a affectada seccura que exige +a lei das conveniencias britannicas. +<br /> + + +<br /> + + +A malla partiu ao grande trote... E dir-te-hei +a verdade ou queres que minta? Não, heide dizer-te +a verdade. Pois senti como um alívio desesperado, +uma consolação cruel em a ver partir. +Senti o que imagino que deve sentir um infêrmo +depois da operação dolorosa em que lhe amputaram +parte do corpo com que já não podia viver, +e que era forçoso perder ou perder a vida. +<br /> + + +<br /> + + +Tambem deve de ser assim a morte: um descanço +apathico e nullo depois de inexplicavel padecer. +<br /> + + +<br /> + + +Era como morto que eu estava; não soffria +pois. +<br /> + + +<br /> + + +E ja não pensava em ti, ja te não via na minha +alma: eu não existia, estava alli. +<br /> + + +<br /> + + +Voltámos ao parque; apeei silenciosamente as +minhas duas gentis companheiras, e eu fui so, +<span class="pagenum">[209]</span> +apé, com passo firme e resoluto +para a minha habitação. +Nenhuma d'ellas me procurou retter, nem +me disse nada, nem tentou consolar-me. Paraquê? +<br /> + + +<br /> + + +L. William R. chegava, na manhan seguinte, de +uma de suas habituaes excursões a Londres. Veio +ver-me assim que chegou, e trazer-me cartas +de Portugal que eu esperava ha muito.―Disse-me +que partia no outro dia para Swansea, a +terra de Galles para onde Laura fôra; e que +me incarregava de fazer companhia ás duas filhas +que ficavam sos. +<br /> + + +<br /> + + +A mim!.. +<br /> + + +<br /> + + +Estive tres dias sem as ver: em todos tres não +fiz mais do que escrever a Laura. +<br /> + + +<br /> + + +No quarto dia fui ao parque. Julia deu um +grito de alegria quando me viu: raro exemplo +de excepção ás formuladas regras que +tyrannizam +a vida ingleza, que prescrevem até a cara com +que se hade morrer, e teem graduado o tom em +que se deve exhalar o último suspiro. +<br /> + + +<br /> + + +Mas a natureza chega a triumphar ás vezes +até da propria etiqueta britannica. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[210]</span> +Julia cuidava que eu não queria voltar áquella +casa, tinha-se resignado a não tornar a ver-me; +não pôde reprimir a alegria que lhe causou +a minha inexperada apparição. +<br /> + + +<br /> + + +Passámos todo o dia junctos e sos: quasi todo +se nos foi passeando no parque, ou sentados á +sombra de seus espessos arvoredos, ou mirando-nos +nas crystallinas aguas de uma vasta represa +povoada de aves aquaticas e rodeada d'aquelles +immensos mantos de velludo verde de que perpetuamente +se infeita a terra ingleza e que so +desapparecem quando vem o hynverno extender-lhe +porcima seus alvos lençoes de neve. +<br /> + + +<br /> + + +Quiz ver o que eu escrevia á irman; dei-lhe +a carta, leu-a, meditou-a, restituiu-m'a sem dizer +palavra. +<br /> + + +<br /> + + +Que horas passámos n'este silencio, n'esta eloquente +mudez que não vem senão do muito de +mais que a alma sente, do muito de mais que +diria se fallasse! +<br /> + + +<br /> + + +Á despedida, essa noite, deu-me uma bolsa +de rede que Laura tinha estado fazendo para mim +<span class="pagenum">[211]</span> +e que lhe deixára para me intregar. Senti que +tinha dentro o que quer que fosse a bolsa, não +quiz examinar. Achei, quando voltei a casa, +que era o <em>fadado cinto</em> de vidrilhos +pretos que +eu tanto tinha admirado em certo baile onde foramos +junctos, e que Laura não deixára de pôr +nunca mais em se vestindo de branco e que fizesse +alguma toilette. +<br /> + + +<br /> + + +Ainda o conservo aquelle cinto precioso, Joanna; +ainda a tenho, no meu thesoiro mais guardado, +aquella joia, aquella reliquia. E amo-te, +e amo-te a ti so como realmente nunca amei nem +poderei tornar a amar. Mas aquelle cinto é uma +sorte, um talisman, um amuleto em que está o +meu destino. +<br /> + + +<br /> + + +Amei... isto é, amei... pois sim, amei, +ja que não ha outra palavra n'estas estupidas +linguas que fallam os homens; pois amei +outras mulheres, e nos dias de maior enthusiasmo +por ellas, não deixei nunca de beijar devotamente +aquelle cinto, de o appertar sôbre o +meu coração, de me incommendar a elle―como +o salteador napolitano se incommenda ao escapulario +da madona que traz ao peito, com as +<span class="pagenum">[212]</span> +mãos insanguentadas de matar, ou carregado do +roubo que acaba de fazer. +<br /> + + +<br /> + + +Ai, Joanna, não te digo eu que estou perdido, +sem remedio, e que para mim não ha, não +póde haver salvação nunca? +<br /> + + +<br /> + + +Vivi assim dois mezes. Laura não me escrevia: +recebia as minhas cartas e respondia a Julia: +por este modo nos correspondiamos. Julia era parte +de nós, era uma porção do nosso amor, +viviamos +n'ella a nossa vida. E ja as confundia ambas por tal +modo no meu coração que me surpreendia a +não +saber a qual queria mais. Julia parecia feliz d'este +estado; eu era-o. Insensivelmente me habituei +a elle, ja não tinha saudades do passado. +E quando se approximou o casamento de Laura, +que ella tinha de voltar de Galles, e que eu, +fiel ao que promettêra, devia pretextar negócio +urgentissimo em Londres que me obrigasse a ausentar-me +até á sua partida para a India, eu tive +uma pena, uma difficuldade em cumprir o que +promettêra que me invergonhava. +<br /> + + +<br /> + + +Parti porêm; e alli me demorei um mez. Julia +escrevia-me todos os dias e eu a ella. Na véspera +<span class="pagenum"><a name="p213">[213]</a></span> +do dia fatal em que Laura ia ser de outro +homem, Julia escreveu-me éstas palavras sos:―'O +nosso romance acabou; começa uma historia +séria. Laura manda-lhe o seu último adeus.' +<br /> + + +<br /> + + +E nunca mais se escreveu nem se pronunciou +o nome de Laura entre nós dous. +<br /> + + +<br /> + + +O galeão que me levava para o Oriente as ruinas +de toda a minha esperança ha muito que navegava; +entrava outubro e o hynverno inglez +<a href="#e15">com</a> suas mais asperas, e n'este +anno tam +precoces, severidades. Eu sentia-me morrer de +tristeza e de isolamento no meio da populosa e +turbulenta Londres, Julia percebeu-o, e mandou-me +voltar a ――shire. Voltei. +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c23"></a>CAPITULO XLVIII. +</h3> + + +<br /> + + +<div style="text-align: center;" class="intro">Carta +de Carlos a Joanninha: continúa. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +O que eu senti quando, apezar de tam desfigurados +pelos tres-altos de neve que os cubriam, +comecei a reconhecer aquelles sitios da vizinhança +do parque, e a confrontar as árvores, os pastios, +os casaes d'aquelles arredores! +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[216]</span> +Era outra a expressão de physionomia da paizagem, +mas as queridas feições eram as mesmas, +e uma a uma lh'as ia estremando. +<br /> + + +<br /> + + +Emfim o meu <em>stage</em> parou á +entrada do parque, +e eu tomei apé pela longa avenida. +Eram +nove horas da manhan, e a manhan brumosa, fria, +mas o tempo macio, não estava +<em>cru</em>, segundo a +expressiva phrase do paiz. +<br /> + + +<br /> + + +Por entre a nevoa que me incubria a antiga +mansão e involvia as árvores circumstantes n'um +sudario cinzento e melancholico, fui caminhando, +quasi pelo tacto, até meia alameda talvez. +<br /> + + +<br /> + + +Parei a reflectir na minha posição e no que eu +ia ser n'aquella casa que de novo me abria +suas portas hospitaleiras, quando, atravez da neblina +brancacenta e onde ella era mais rara, descubri +um vulto que vinha a mim de entre as +árvores do parque. +<br /> + + +<br /> + + +O vulto era de mulher e parecia uma sombra, +uma apparição phantastica em meio d'aquella +scena mysteriosa, so, triste. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p217">[217]</a></span> +Na distancia figurava-se-me alto em demazia: +Julia não era nem podia ser; Julia a mais diminutiva +e delicada de quantas fadas bonitas e +graciosas teem trazido varinha de condão. Laura... +ai! Laura tam longe estava d'alli... Quem +sería pois? So se fosse!.. Quem? +<br /> + + +<br /> + + +Aquella elegancia, aquelle cabello sôlto e annellado, +aquelle ar gentil não podia ser senão d'ella... +<br /> + + +<br /> + + +D'ella, quem? +<br /> + + +<br /> + + +Ainda te não fallei, quasi, da última das tres +bellas irmans que me incantavam, não t'a <a href="#e16">descrevi</a>, +não t'a nomeei pelo seu nome. Repugnava-me +fazê-lo. Mas é preciso: custa-me, não +ha remedio. +<br /> + + +<br /> + + +Era Georgina... +<br /> + + +<br /> + + +Georgina que tu conheces, Georgina que... +era Georgina a que vinha a mim n'aquella―fatal +ou feliz?―manhan; Georgina que de todas +tres era a que menos me fallava, que eu +verdadeiramente menos conhecia. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p218">[218]</a></span> +Este meu coração, á +fôrça de ferido e de <a href="#e17">mal +curado</a> que tem sido, pressente e adivinha as +mudanças +de tempo com uma dor chronica que me +dá. Pressenti não sei quê ao ver +approximar-se +Georgina... +<br /> + + +<br /> + + +―'Como foi bom em vir! Estou realmente +feliz de o ver. E Julia, a pobre Julia, que alegria +que vai ter, hade curá-la de todo.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Pois quê! Julia está doente?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Não o sabía!... Ai! não, bem sei +que +não: ella não lh'o quiz dizer. Julia +está doente; +mas não é de cuidado. Eu sempre quiz advirti-lo +antes que a visse, por isso calculei as horas +do coche e vim para aqui esperá-lo.' +<br /> + + +<br /> + + +Éstas palavras eram simples, não tinham nada +que me devesse impressionar extraordinariamente, +e todavia eu sentia-me agitado como nunca +me sentira. Olhava para Georgina como se a visse +a primeira vez, e pasmava de a ver tam bella, +tam interessante. +<br /> + + +<br /> + + +É uma situação d'alma ésta +que não sei que +<span class="pagenum">[219]</span> +a descrevessem ainda poetas nem romancistas: +desprezam-n'a talvez, ou não a conhecem. Está +recebido que as subitas impressões causadas por +um primeiro incôntro sejam as mais interessantes, +as mais poeticas. +<br /> + + +<br /> + + +Eu não nego o effeito theatral d'essas primeiras +e repentinas sensações; mas sustento que +interessa mais ess'outra inesperada e extranha +impressão que nos faz um objecto ja conhecido, +que víramos com indifferença atéalli, +e que derrepente +se nos mostra tam outro do que sempre +o tinhamos considerado... +<br /> + + +<br /> + + +Mas ésta mulher é bella realmente! E eu que +nunca o vi! Mas aquelles olhos são divinos! Onde +tinha eu os meus atégora? Mas este ar, mas +ésta graça onde os tinha ella escondidos? etc. +etc. +<br /> + + +<br /> + + +Vão-se gradualmente, vão-se pouco a pouco +descobrindo perfeições, incantos; e o sentimento +que resulta é mil vezes mais profundo, mais fundado, +sôbretudo, que o das taes primeiras impressões +tam cantadas e decantadas. +<br /> + + +<br /> + + +Que mais te direi depois d'isto? Entrámos +<span class="pagenum">[220]</span> +em casa, vi Julia, fallámos de Laura muito e +muito. Mas eu ja o não fiz com o enthusiasmo, +com a admiração exclusiva com que d'antes o +fazia... +<br /> + + +<br /> + + +Julia recobrou, breve, a saude, e com ella o +equilibrio do espirito. Renovou-se toda a alegria, +todo o incanto das nossas conversações +íntimas, +dos nossos longos passeios. Laura lembrava com +saudade; mas suavizava-se, imbrandecia gradualmente +aquella saudade. +<br /> + + +<br /> + + +Georgina, que atéalli parecia +impenhar-se em +se deixar eclipsar pela irman, agora, ausente ella, +brilhava de toda a sua luz, em graça, em espirito, +por um natural singelo e franco, por uma exquisita +doçura de maneiras, de voz, de expressão, de +tudo. +<br /> + + +<br /> + + +Julia revia-se n'ella, e eu acabei pela adorar. +Vergonha eterna sôbre mim! mas é a verdade: +quiz-lhe mais do que a Laura, ou pareceu-me +querer-lhe mais... que tanto vale. +<br /> + + +<br /> + + +Eu sei?.. Não, não lhe queria tanto. Mas +amei-a. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[221]</span> +Amei, sim, e fui amado! +<br /> + + +<br /> + + +Tres mezes durou a minha felicidade. É o +mais longo periodo de ventura que posso contar +na vida. Falsa ventura, mas era. +<br /> + + +<br /> + + +A imperiosa lei da honra exigiu que nos separassemos, +que partisse para os Açores. Fui. +Ninguem sacrificou mais, ninguem deu tanto como +eu para aquella expedição. A historia +fallará +de muitos serviços, de muitas +dedicações. +Quem saberá nunca d'esta? +<br /> + + +<br /> + + +A historia é uma tola. +<br /> + + +<br /> + + +Eu não posso abrir um livro de historia que +me não ria. Sôbretudo as +ponderações e adivinhações +dos historiadores acho-as de um comico +irresistivel. O que sabem elles das causas, dos +motivos, do valor e importancia de quasi todos +os factos que recontam? +<br /> + + +<br /> + + +Ainda não sei como parti, como cheguei, como +vivi os primeiros tempos da minha estada +n'aquelle escôlho no meio do mar, chamado a ilha +<span class="pagenum">[222]</span> +Terceira, onde se tinham refugiado as pobres reliquias +do partido constitucional. +<br /> + + +<br /> + + +Habituei-me porfim. A que se não affaz o +homem? +<br /> + + +<br /> + + +Levaram-me uma tarde á grade de um convento +de freiras que ahi havia. O meu ar triste, +distrahido, indifferente excitou a piedade das +boas monjas. Uma d'ellas, joven, ardente, apaixonada, +quiz tomar a empresa de me consolar. +Não o conseguiu, coitada! O meu +coração estava +em ――shire em Inglaterra, estava na India, +estava no valle de Santarem, +<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Pelo mundo em pedaços +repartido; +</div> + + +<br /> + + +estava em toda a parte, menos alli, que nada +d'elle estava nem podia estar. +<br /> + + +<br /> + + +Era Soledade que se chamava a freirinha, e +com o seu nome ficou. Disseram o que quizeram +os falladores que nunca faltam, mas mentiram +como mentem quasi sempre, inganaram-se como +se inganam sempre. +<br /> + + +<br /> + + +Eu não amei a Soledade. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[223]</span> +E comtudo lembro-me d'ella com pena, com +sympathia... Se eu sou feito assim, meu Deus, +e assim heide morrer! +<br /> + + +<br /> + + +Viemos para Portugal; e o resto agora da +minha historia sabes tu. +<br /> + + +<br /> + + +Cheguei porfim ao nosso valle, todo o passado +me esqueceu assim que te vi. Amei-te... não, +não é verdade assim. Conheci, mal que te vi +entre aquellas árvores, á luz das estrellas, +conheci +que era a ti so que eu tinha amado sempre, +que para ti nascêra, que teu so devia ser, +se eu ainda tivera coração que te dar, se a minha +alma fosse capaz, fosse digna de junctar-se +com essa alma d'anjo que em ti habita. +<br /> + + +<br /> + + +Não é, Joanna; bem o ves, bem o sentes, +como eu o sinto e o vejo. +<br /> + + +<br /> + + +Eu sim tinha nascido para gosar as doçuras da +paz e da felicidade doméstica; fui creado, estou certo, +para a glória tranquilla, para as delicias modestas +de um bom pae de familias. +<br /> + + +<br /> + + +Mas não o quiz a minha estrella. Embriagou-se +de poesia a minha imaginação e perdeu-se: +não me recobro mais. A mulher que me amar +<span class="pagenum">[224]</span> +hade ser infeliz por fôrça, a que me intregar o +seu destino, hade vê-lo perdido. +<br /> + + +<br /> + + +Não quero, não posso, não devo amar a +ninguem +mais. +<br /> + + +<br /> + + +A desolação e o oppróbrio entraram no +seio +da nossa familia. Eu renuncio para sempre ao lar +doméstico, a tudo quanto quiz, a tudo quanto +posso querer. Deus que me castigue, se ousa fazer +uma injustiça, porque eu não me fiz o que +sou, não me talhei a minha sorte, e a fatalidade +que me persegue não é obra minha. +<br /> + + +<br /> + + +Adeus Joanna, adeus prima querida, adeus +irman da minha alma! Tu accompanha nossa avó, +tu consola esse infeliz que é o auctor da sua e das +nossas desgraças. Tu, sim, que podes; e esquece-me. +<br /> + + +<br /> + + +Eu, que nem morrer ja posso, que vejo terminar +desgraçadamente ésta guerra no unico momento +em que a podia abençoar, em que ella +podia felicitar-me com uma balla que me mandasse +aqui bem direita ao coração, eu que farei? +<br /> + + +<br /> + + +Creio que me vou fazer homem politico, fallar +<span class="pagenum">[225]</span> +muito na patria com que me não importa, +ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar +dos meus serviços que nunca fiz por vontade; +e quem sabe?.. talvez darei porfim em agiota, +que é a unica vida de emoções para +quem ja +não póde ter outras. +<br /> + + +<br /> + + +Adeus minha Joanna, minha adorada Joanna, +pela última vez, adeus!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="c24"></a>CAPITULO XLIX. +</h3> + + +<br /> + + +<div class="intro">De como Carlos se fez +barão.―Fim da historia de +Joanninha.―Georgina +abbadessa.―Juizo de Fr. Diniz sôbre a +questão dos frades e dos barões.―Que +não póde tornar a +ser o que foi, mas muito menos póde ser o que é. +O que +hade ser, Deus o sabe e proverá.―Vai o A. dormir ao +Cartaxo.―Sonho +que ahi tem.―Volta a Lisboa.―Caminhos +de ferro e de papel.―Conclusão da viagem e d'este livro. +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +Acabei de ler a carta de Carlos, intreguei-a a +Fr. Diniz em silencio. Elle tornou-me: +<br /> + + +<br /> + + +―'Leu?' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[228]</span> ―'Li.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Que mais quer saber? Sinto que lhe posso +dizer tudo: não o conheço, mas...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Mas deve conhecer-me por um homem +que se interessa vivamente...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Em quê? nas eleições, na agiotagem, +nos +bens nacionaes?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Não senhor. Fui camarada de Carlos, não +o vejo ha muitos annos e...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Nem o conhecia se o visse agora: ingordou, +inriqueceu, e é barão...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Barão!' +<br /> + + +<br /> + + +―'É barão, e vai ser deputado qualquer +dia.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Que transformação! Como se fez isso, +sancto Deus! E Joanninha e Georgina?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Joanninha inlouqueceu e morreu. Georgina +<span class="pagenum">[229]</span> +é abbadessa de um convento em Inglaterra.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Abbadessa?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Sim. Converteu-se á communhão catholica; +era ricca, fundou um convento em ――shire e lá +está servindo a Deus.' +<br /> + + +<br /> + + +―'E ésta pobre senhora, a avó de Joanninha?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Ahi está como a ve, morta de alma para tudo. +Não ve, não ouve, não falla, e +não conhece +ninguem. Joanninha veio morrer aqui n'esta +fatal casa do valle, eu estava ausente, expirou +nos braços d'ella e de Georgina. Desde esse instante +a avó cahiu n'aquelle estado. Está morta, +e não espero aqui senão a +dissolução do corpo +para o interrar, se eu não for primeiro, e +Deus queira que não! quem hade tomar conta +d'ella, ter charidade com a pobre da demente? +Mas depois... oh! depois... espero no Senhor que se +compadeça emfim de tanto soffrer e me leve +para si.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Mas Carlos?' +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[230]</span> ―'Carlos é barão: não lh'o disse ja?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Mas por ser barão?..' +<br /> + + +<br /> + + +―'Não sabe o que é ser barão?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Oh se sei! Tam poucos temos nós?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Pois barão é o succedaneo dos...' +<br /> + + +<br /> + + +―'Dos frades... Ruim substituição!' +<br /> + + +<br /> + + +―'Vi um dos taes papeis liberaes em que isso +vinha: e é a unica coisa que leio d'essas ha +muitos annos. Mas fizeram-m'o ler.' +<br /> + + +<br /> + + +―'E que lhe pareceu?' +<br /> + + +<br /> + + +―'Bem escripto e com verdade. Tivemos +culpa nós, é certo; mas os liberaes +não tiveram +menos.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Errámos ambos.' +<br /> + + +<br /> + + +―'Errámos e sem remedio. A sociedade ja +não é o que foi, não póde +tornar a ser o que +<span class="pagenum">[231]</span> +era;―mas muito menos ainda póde ser o que é. +O que hade ser, não sei. Deus proverá.' +<br /> + + +<br /> + + +Ditto isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviario +e poz-se a rezar. A velha dobava sempre, +sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos alguns +segundos. Nenhum me deu mais attenção +nem pareceu conscio da minha estada alli. +<br /> + + +<br /> + + +Sentia-me como na presença da morte e atterrei-me. +<br /> + + +<br /> + + +Fiz um esfôrço sôbre mim, fui +deliberadamente +ao meu cavallo, montei, piquei desesperado +d'esporas, e não parei senão no Cartaxo. +<br /> + + +<br /> + + +Incontrei alli os meus companheiros; era tarde, +fomos ficar fóra da villa á hospedeira casa +do Sr. L. S. +<br /> + + +<br /> + + +Rimos e folgámos até alta noite: o resto dormimos +a somno sôlto. +<br /> + + +<br /> + + +Mas eu sonhei com o frade, com a velha―e +com uma enorme constellação de barões +que +luzia n'um ceu de papel, d'onde choviam, como +<span class="pagenum">[232]</span> +farrapos de neve, n'uma noite pollar, notas azues, +verdes, brancas, amarellas, de todas as côres e +matizes possiveis. Eram milhões e milhões e +milhões... +<br /> + + +<br /> + + +Nunca vi tanto milhão, nem ouvi fallar de +tanta riqueza senão nas mil e uma noites. +<br /> + + +<br /> + + +Acordei no outro dia e não vi nada... so uns +pobres que pediam esmola á porta. +<br /> + + +<br /> + + +Metti a mão na algibeira, e não achei +senão +notas... papeis! +<br /> + + +<br /> + + +Parti para Lisboa cheio de agoiros, de inguiços +e de tristes presentimentos. +<br /> + + +<br /> + + +O vapor vinha quasi vazio, mas nem por isso +andou mais depressa. +<br /> + + +<br /> + + +Eram boas cinco horas da tarde quando desimbarcámos +no Terreiro-do-Paço. +<br /> + + +<br /> + + +Assim terminou a nossa viagem a Santarem: e +assim termina este livro. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[233]</span> +Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado +alguma coisa do que vi. De todas quantas +viagens porêm fiz, as que mais me interessaram +sempre foram as viagens na minha terra. +<br /> + + +<br /> + + +Se assim o pensares, leitor benevolo, quem +sabe? póde ser que eu tome outra vez o bordão +de romeiro, e va perigrinando por esse Portugal +fóra, em busca de historias para te contar. +<br /> + + +<br /> + + +Nos caminhos de ferro dos barões é que eu +juro não andar. +<br /> + + +<br /> + + +Escusada é a jura porêm. +<br /> + + +<br /> + + +Se as estradas fossem de papel, fa-las-iam, +não digo que não. +<br /> + + +<br /> + + +Mas de metal! +<br /> + + +<br /> + + +Que tenha o govêrno juizo, que as faça de +pedra, que póde, e viajaremos com muito prazer +e com muita utilidade e proveito na nossa +boa terra. +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2>NOTAS</h2> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2><a name="c25"></a>NOTAS +</h2> + + +<br /> + + +<h3>AO LIVRO SEGUNDO. +</h3> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h4><span class="smallcaps">Nota A.</span> +</h4> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="quote">Ficámos sem +Nibelungen +<br /> + + +<br /> + + +<div class="signature"><a href="#n1">pag. +3.</a> +</div> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Collecção de antigas rhapsodias germanicas +contendo +o maravilhoso e poetico de suas origens historicas +e que é para os povos theutonicos o que era a +Ilíada +para os hellenos. So se não sabe o nome do Homero +<span class="pagenum">[238]</span> +allemão que as redigiu e uniformizou como hoje se +acham. +<br /> + + +<br /> + + +<h4><span class="smallcaps">Nota B.</span> +</h4> + + +<br /> + + +<div class="quote"> +Caranguejar para as +Lamas<br /> + + +<br /> + + +<div class="signature"><a href="#n2"> +pag. 3. +</a></div> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Fundo baixo do Tejo, ao longo da praia de Sanctos, +que tem este nome e é onde vão apodrecer as +carcassas +dos navios velhos e ja inuteis. +<br /> + + +<br /> + + +<h4><span class="smallcaps">Nota C.</span> +</h4> + + +<br /> + + +<div class="quote"> +Os pés no +<em>fender</em><br /> + + +<br /> + + +<div class="signature"><a href="#n3"> +pag. 4. +</a></div> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Fender se chama em inglez a pequena e baixa tea +de metal que defende o fogão nas salas, paraque +não +caiam brazas nos sobrados. Descançam n'elle os +pés +naturalmente quando a gente se está confortavelmente +aquecendo em liberdade. +<br /> + + +<br /> + + +<h4><span class="smallcaps">Nota D.</span> +</h4> + + +<br /> + + +<div class="quote"> +Perfumados resplendores do <em>Old +sack</em><br /> + + +<br /> + + +<div class="signature"><a href="#n4"> +pag. 5. +</a></div> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Tem-se disputado muito sôbre qual seja a bebida +espirituosa celebrada por Shakspeare tantas vezes +com este nome. A opinião mais acceita é que fosse +boa e velha aguardente de França. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[239]</span> +<h4><span class="smallcaps">Nota E.</span> +</h4> + + +<br /> + + +<div class="quote"> +Renegaram de San'Tiago por +castelhano<br /> + + +<br /> + + +<div class="signature"><a href="#n5"> +pag. 5. +</a></div> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +O grito de guerra commum a todas as nações +christans +hespanholas era: San'Tiago! Quando na accessão +da casa de Avis nos alliámos intimamente com a +Inglaterra contra Castella, começámos a invocar +San'Jorge. +<br /> + + +<br /> + + +<h4><span class="smallcaps">Nota F.</span> +</h4> + + +<br /> + + +<div class="quote"> +Vacca e riso de Fr. Bartholomeu dos +Martyres<br /> + + +<br /> + + +<div class="signature"><a href="#n6"> +pag. 9. +</a></div> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Singela e original expressão do sancto arcebispo +n'uma carta de convite a um seu amigo. Fez-se, como +devia ser, proverbial ésta phrase. +<br /> + + +<br /> + + +<h4><span class="smallcaps">Nota G.</span> +</h4> + + +<br /> + + +<div class="quote"> +Feliz expressão do Sr. Conde de +Raczinski<br /> + + +<br /> + + +<div class="signature"><a href="#n7"> +pag. 124. +</a></div> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Na sua obra intitulada 'Les arts en Portugal', Paris +1845. +<br /> + + +<br /> + + +<h4><span class="smallcaps">Nota H.</span> +</h4> + + +<br /> + + +<div class="quote"> +O centro perde o centro de gravidade, o barbas arrepella +as barbas<br /> + + +<br /> + + +<div class="signature"><a href="#n8"> +pag. 127. +</a></div> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Centro e barbas são qualificações e +nomes de impregos +theatraes.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2><a name="p241"></a>INDICE. +</h2> + + +<br /> + + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + + <tbody> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXVI</span>―Modo +de ler os +auctores antigos, +e os <a href="#e18">modernos</a> +tambem.―Horacio na +sacra-via.―Duarte Nunes iconoclasta da nossa +historia.―A policia e os barcos de vapor.―Os +vandalos do feliz systema que nos rege.―Shakspeare +lido em Inglaterra a um bom fogo, +com um copo de <em>old-sack</em> +sôbre a banca.―Sir +John <a href="#e19">Falstaff</a> se foi maior homem +que +Sancho-Pansa?―Grande +e importante descuberta archeologica +sôbre San'Tiago, San'Jorge e Sir +John Falstaff.―Próva-se a vinda d'este último +a Portugal.―O enthusiasta britannico no +tumulo +de Heloisa e Abeillard no Père-la-Chaise.―Bentham +e Camões.―Chega o auctor á sua +janella, e pasmosa <em>miragem</em> poetica +produzida +por umas oitavas dos Lusiadas.―De como em +fim proseguem éstas viagens para Santarem, e +que feito será de +Joanninha.</td> + + + <td style="width: 1px;"></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 30px;"><a href="#c1">1</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXVII</span>―Chegada +a +Santarem.―Olivaes +de Santarem.―Fóra-de-Villa.―Symetria que não +é para os olhos.―Modo de medir os versos da +biblia.―Architectura pedante do seculo XVII.―Entrada na +Alcáçova.</td> + + + <td style="width: 1px;"></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c2">11</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXVIII</span>―Depois +de muito procurar acha em fim o auctor a egreja de Sancta-Maria +d'Alcáçova.―Stylo da architectura nacional +perdido.―O terremoto de 1755, o marquez +de Pombal e o chafariz do Passeio-público de +Lisboa.―O chefe do partido progressista portuguez +no alcassar de D. Affonso Henriques.―Deliciosa +vista dos arredores de Santarem observada +de uma janella da Alcáçova, de +manhan.―É +tomado o auctor de ideas vagas, +poeticas, phantasticas como um +sonho.―Introducção +do Fausto.―Difficuldade de traduzir +os versos germanicos nos nossos dialectos +romanos.</td> + + + <td style="width: 1px;"></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c3">19</a></td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<span class="pagenum">[242]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + + <tbody> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXIX</span>―Doçuras +da vida.―Imaginação +e sentimento.―Poetas que morreram moços +e poetas que morreram velhos.―Como são +escriptas éstas viagens.―Livro de pedra. Criança +que brinca com elle.―Ruinas e reparações.―Idea +fixa do A. em coisas d'arte e litterarias.―Sancta +Iria ou Irene, e Sanctarem.―Romance +de Sancta Iria.―Quantas sanctas ha +em Portugal d'este +nome?</td> + + + <td></td> + + + <td style="width: 30px; vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#c4">29</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXX</span>―Historia +de Sancta +Iria segundo +os chronistas e segundo o romance +popular.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c5">39</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXI</span>―Quommodo +sedet sola +civitas.―Santarem.―Portugal +em verso e Portugal +em prosa.―Exquisito lavor de umas portas e +janellas de architectura mosarabe.―Busto de +D. Affonso Henriques.―As salgadeiras de Affrica.―Porta +do Sol.―Muralhas de Santarem.―Voltemos á historia de Fr. +Diniz e da menina +dos olhos verdes.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c6">49</a></td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<span class="pagenum">[243]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + + <tbody> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXII</span>―Tornâmos +á historia do Joanninha.―Preparativos +de guerra.―A morte.―Carlos +ferido e prisioneiro.―O hospital.―O +infermeiro.―Georgina</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c7">55</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXIII</span>―Carlos +e +Georgina. Explicação.―Ja +te não amo! palavra terrivel.―Que +o amor verdadeiro não é cego.―Frade no caso +outra vez. <em>Ecce iterum Crispinus</em>; ca +está o +nosso Fr. Diniz +comnosco.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c8">69</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXIV</span>―Carlos, +Georgina e +Fr. Diniz.―A +peripecia do drama.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c9">79</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXV</span>―Reunião +de toda a familia.―Explicação +dos mysterios.―O coração da +mulher.―Parricidio.―Carlos beija emfim a mão +a Fr. Diniz e abraça a pobre da +avó.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c10">87</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXVI</span>―Que +não +se acabou a historia +de Joanninha.―Processo ao coração de +Carlos.―Immoralidade.―Defeito de organização +não é immoralidade.―Horror, horror, +maldicção!―Um barão que +não pertence á +familia lineana dos barões propriamente dittos.―Porta +de Atamarma.―Senatus consulto santareno.―Nossa +Senhora da Victoria + <em>afforada</em>.―Threnos +sôbre +Santarem.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c11">99</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXVII</span>―A +Graça e sua bella fachada gothica.―Sepultura de +Pedr'alvares Cabral.―Outro +barão que não é dos +assignalados.―Egreja +do Sancto-milagre.―Bellos medalhões +mosarabes.―De como, chegando o +prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, +e com que solemnidades.―Monumento +da muito alta e poderosa princeza a infanta +D. Maria da Assumpção.―Casa onde +succedeu o milagre convertida em capella de +stylo philippino.―O homem das botas, e o +que tem elle que haver com o Sancto-milagre +de Santarem.―Admiravel e graciosa esperteza +da regencia do Rocio.―Aaroun-el-Arraschid: +e theoria dos governos folgasões, os melhores +governos possiveis.―Volta o paladio +scalabitano de Lisboa para +Santarem.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c12">111</a></td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<span class="pagenum">[244]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + + <tbody> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXVIII</span>―Jantar +nos reaes +paços de +Affonso Henriques.―Sautés e salmis.―Desce +o A. á Ribeira de Santarem em busca da +tenda do Alfageme.―A espada do Condestavel.―Desappontamento.―O +salão elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. Os +fosseis. +Tudo melhor quando visto de longe.―O +baile público.―Soirée de piano +obrigado.―Theatro. +Desaffinações da prima-dona.―Syphlis +incuravel das traducções. Destempêro +dos originaes.―A xácara de rigor, o subterraneo +e o cemiterio.―Sublime gallimathias +do ridiculo.―A bella e necessaria palavra +'gallimathias.'―Se as saudades matam.―Perigo +de applicar o scalpello ou a lente ao +mais perfeito das coisas humanas.―De como +a logica é a mais perniciosa de todas as +incoherencias.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c13">121</a></td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<span class="pagenum">[245]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + + <tbody> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXXIX</span>―Processo +de +scepticismo em +que está o auctor.―Moralistas de + <em>requiem</em>.―O +maior sonho d'esta vida, a logica.―Differença +do poeta ao philosopho.―O coração de +Horacio.―O collegio de Santarem.―Jesuitas +e templarios.―O alliado natural dos reis:―'Ficar +na gazeta' phrase muito mais exacta +hoje do que 'Ficar no tinteiro'.―San'Frei +Gil e o Doutor Fausto.―De como o A. foi ao +tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.―Quem +o roubaria?</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c14">131</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XL</span>―As +Claras.―Aventura +nocturna.―Se +as freiras mettem medo aos liberaes? +O Psalmo.―Tres frades.―Práctica do franciscano.―O +corpo de San' Fr. Gil.―Que se +hade fazer das freiras?―Mal do govêrno que +deixar comer mais aos +barões.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c15">141</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLI</span>―O +roubador do corpo +do sancto +descuberto pela arguta prespicacia do leitor +benevolo.―Grande lacuna na nossa historia.―Porque +se não preenche?―Página preta +na historia de Tristam Shandy.―Novellas e +romances, livros insignificantes.―O adro de +San'Francisco e as suas acacias.―Que será +feito de Joanninha?―O peito da mulher do +norte.―Vamos embora: ja me infada Santarem +e as suas ruinas.―A corneta do soldado +e a trombeta do juizo final.―Eheu, Portugal, eheu!</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c16">151</a></td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<span class="pagenum">[246]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + + <tbody> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLII</span>―Protesto +do +auctor.―Desaffinação +dos nervos.―O que é preciso para que +as ruinas sejam solemnes e sublimes.―Que +Deus está no Colliseu assim como em San'Pedro.―Quer-se +o auctor ir embora de Santarem.―Como, +sem ver o tumulo d'elrei D. +Fernando?―Em que estado se acha este.―Exemplar +de stylo byzantino.―Coroa real sôbre +a caveira.―O rei d'espadas e o symbolo +do imperio.―Quem nunca viu o rei cuida que +é de oiro.―Brutalidades da soldadesca n'um +tumulo real.―O que se acha nas sepulturas +dos reis.―A phrenologia.―Vindicta pública, +tardia mas ultrajante.―Camões e Duarte Pacheco.―A +sombra falsa da religião.―Regimen +dos barões e da materia.―A prosa e a +poesia do povo.―Synthese e anályse.―O senso +íntimo.―Se o auctor é demagogo ou Jesuita?―Jesu +Christo e os +barões </td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c17">157</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLIII</span>―Partida +de +Santarem.―Pinacotheca.―Impaciencia +e saudades.―Sexta-feira.―Martyrio +obscuro.―A figura do peccado.―Estamos +no valle outra vez.―Evocação +de incanto.―A irman Francisca e Fr. Diniz.―A +teia de Penelope.―E Joanninha?―Joanninha +está no ceo.―A mulher morta a dobar +esperando que a interrem.―A esperança, +virtude do christianismo.―Uma +carta.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c18">167</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td><span class="smallcaps">Capitulo XLIV</span>―Carta +de Carlos a +Joanninha.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c19">177</a></td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<span class="pagenum">[247]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + + <tbody> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLV</span>―Carta +de Carlos a +Joanninha: +continúa.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; width: 30px; vertical-align: bottom;"><a href="#c20">187</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLVI</span>―Carta +de Carlos a +Joanninha: +continúa.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c21">195</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLVII</span>―Carta +de Carlos a +Joanninha: +continúa.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c22">207</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLVIII</span>―Carta +de Carlos a +Joanninha: +continúa.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c23">215</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XLIX</span>―De +como Carlos se +fez barão.―Fim +da historia da Joanninha.―Georgina +abbadessa.―Juiso de Fr. Diniz sôbre a questão +dos frades e dos barões.―Que não póde +tornar a ser o que foi, mas muito menos póde +ser o que é? O que hade ser, Deus o sabe e +proverá.―Vai o A. dormir ao Cartaxo.―Sonho +que ahi tem.―Volta a Lisboa.―Caminhos +de ferro e de papel.―Conclusão da viagem +e d'este livro.</td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c24">227</a></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Notas</span></td> + + + <td></td> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c25">237</a></td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<span class="smallcaps"></span><br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<b>Notas:</b><br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<sup><a name="1">[1]</a></sup> +Transcrevemos aqui o original allem&atilde;o, para +se +avaliar o que fica ditto no texto.<br /> + + +<br /> + + +<div class="poetry">Ihr naht euch wieder, schwankende +Gestalten, <br /> + + +Die früh sich einst dem trüben Blick gezeigt. <br /> + + +Versuch ich wohl euch diesmal fest zu halten? <br /> + + +Fühl' ich mein Herz noch jenem Wahn geneigt? <br /> + + +Ihr drängt euch zu! nun gut, so mögt ihr walten <br /> + + +Wie ihr aus Dunst und Nebel um mich steigt; <br /> + + +Mein Busen fühlt sich jugendlich erschüttert <br /> + + +Vom Zauberhauch, der euren Zug umwittert. <br /> + + +Ihr bringt mit euch die Bilder froher Tage, <br /> + + +Und manche liebe Schatten steigen auf; <br /> + + +Gleich einer halbverklungen Sage <br /> + + +Commt erste Lieb' und Freundschaft mit herauf; <br /> + + +Der Schmerz wird neu, es wiederholt die klage <br /> + + +Des lebens labyrintisch irren Lauf, <br /> + + +Und nennt die Guten, die, um schöne Stunden <br /> + + +Vom Glück getäuscht, vor mir hinweggeschwunden<br /> + + +</div> + + +<br /> + + +<sup><a name="2">[2]</a></sup> Nas notas +a <span class="smallcaps">Adozinda</span>, +vol. I do 'Romanceiro,' +nota N, +citei differentemente ésta copla pela +imperfeita licção +de um Ms. do Minho, unico que tinha á mão.<br /> + + +<br /> + + +<sup><a name="3">[3]</a></sup> Outra +licção, e talvez melhor diz +<em>a coitada</em>.<br /> + + +<br /> + + +<sup><a name="4">[4]</a></sup> Thomar. +<br /> + + +<br /> + + +<sup><a name="5">[5]</a></sup> De frades +e de freiras. +<br /> + + +<br /> + + +<sup><a name="6">[6]</a></sup> Deus, +venerunt gentes in hereditatem tuam. Ps. 78. +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + + <tbody> + + + <tr align="right"> + + + <td style="width: 64px;"></td> + + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 131px;">Original</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;"></td> + + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e1"></a><a href="#p2">#pág. +2</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">et mos</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">est +mos*</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e2"></a><a href="#p5">#pág. +5</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">Faltaffs</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">Falstaffs</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e3"></a><a href="#p17">#pág. +17</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">San'João-de-Alpiarça</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">San'João +do Alporão*</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e4"></a><a href="#p17">#pág. +17</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">egrea</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">egreja*</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a href="#p43" name="e5"></a><a href="#p43">#pág. +43</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">retiraam</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">retiraram</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e6"></a><a href="#p50">#pág. +50</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">recordam</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">memoram*</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e7"></a><a href="#p62">#pág. +62</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">stil</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">still*</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e8"></a><a href="#p81">#pág. +81</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">da +intranhas</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">das +intranhas</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e9"></a><a href="#c11">#pág. +99</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">Horor</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">Horror</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e10"></a><a href="#p118">#pág. +118</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">quelle</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">aquelle</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e11"></a><a href="#p118">#pág. +118</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">digno +do +ornar</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">digno +de +ornar</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e12"></a><a href="#p119">#pág. +119</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">LisboaTejo</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">Lisboa +Tejo</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e13"></a><a href="#p123">#pág. +123</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">confrontar- +algum</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">confrontar +algum</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 64px;"><a name="e14"></a><a href="#p138">#pág. +138</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">extistencia</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px; vertical-align: middle;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">existencia</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e15"></a><a href="#p213">#pág. +213</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">com com</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">com</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e16"></a><a href="#p217">#pág. +217</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">desdescrevi</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">descrevi</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e17"></a><a href="#p218">#pág. +218</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">ma +curado</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">mal +curado</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e18"></a><a href="#p241">#pág. +241</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">modernas</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">modernos</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e19"></a><a href="#p241">#pág. +241</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 131px;">Flastaff</td> + + + <td style="text-align: center; width: 4px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 135px;">Falstaff</td> + + + </tr> + + + + + + </tbody> +</table> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div style="text-align: center;">* +correcções feitas com base na errata do +próprio livro.<br /> + + +<br /> + + +Shakespeare, San' Thiago e Joanninha surgem neste livro como +Shakspeare, San'Tiago e Joaninha respectivamente.<br /> + + +Dada a repetitividade constante, decidi +manter de acordo com o original.<br /> + + +<br /> + + +</div> + + +<br /> + + +</div> + + +</div> + + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra (Volume II), by +Almeida Garrett + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA (VOLUME II) *** + +***** This file should be named 24319-h.htm or 24319-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/3/1/24319/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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